Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada

http://scribd.com/transiente

Sabes, gostava poder olhar-te e sentir que não estou frente a um espelho.
Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada. Toco-te para saber se és real, e és. Olho-te para além do reflexo que és, e és nada. Escondo-me no medo de encontrar essa sobra a cores que representas. Vejo-te repetir aquilo que já fiz; adivinho naquilo que fazes as coisas que um dia farei. Prefiro não ver. Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata.

A bondade é uma artimanha da iniquidade. A bondade é o conforto do nosso desconforto, e nada mais.
A moeda que retiras do bolso tem o tamanho do incómodo que acertou nos teus olhos. Olhamos a miséria ao nosso lado e incomodamo-nos. Olhamos a miséria ao fundo da rua e incomodamo-nos menos. Olhamos a miséria no horizonte e lançamos um suspiro. Para lá do horizonte não sofre nem morre ninguém (acredita). A bondade tem a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.

A miséria é esperta.
A miséria sabe que jamais terá direito à comida que engorda o porco que se olha ao espelho enquanto palita os dentes.

A miséria sabe que o peso da moeda de oferta tem o tamanho do incómodo colocado em frente ao espelho banhado a prata falsificada. A miséria quer ser miséria. A bondade quer ser bondade. A miséria não quer morrer, desaparecer. A bondade não quer morrer, desaparecer.

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.
Preferimos não ver; e não vemos. Palitamos os dentes e gastamos o tempo olhando a imagem reflectida no espelho (vejote). Não sabemos que temos a espessura de um vidro. Não sabemos que não vemos. Não Sabemos.

A bondade e a miséria sorriem; sorriem.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful