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Mentalidade evolucionista da modernidade

TODA a política contemporânea no Ocidente baseia-se na premissa de que o processo histórico
mundial caminha inevitavelmente no sentido da maior liberdade, da eliminação de todas as
desigualdades e de toda forma de exclusão.

Só há portanto duas correntes políticas possíveis: a legítima, que vai na direção do inevitável, e a
ilegítima, que opõe a ele uma resistência obstinada e vã.

A total eliminação desta segunda corrente é tão inevitável quanto o sucesso universal da
primeira.

Essa premissa e suas conseqüências não foram inventadas em maio de 1968. Elas apenas
cristalizam numa fórmula simples uma teologia da História que veio se desenvolvendo desde o
século XVII pelo menos.

Não conheço um só liberal ou conservador que não as aceite como verdades óbvias e inegáveis,
tanto quanto as aceitam os socialistas e comunistas, contra os quais os liberais e conservadores,
tentando deter a marcha em direção a um futuro que antevêem catastrófico, não fazem senão
brandir os mesmos princípios que a puseram em movimento.

Isso quer dizer que todo o debate político contemporâneo, na medida em que se resuma a um
confronto de ideologias, já está decidido de antemão, só restando aos liberais e conservadores
tentar desacelerar uma queda que não podem deter e para a qual eles mesmos contribuem com
fervor quase religioso.

Só é possível sair desse impasse mediante o reconhecimento (para a maioria, a descoberta) de
que o curso real das coisas não depende de uma luta ideológica, mas da ampliação dos MEIOS
DE AÇÃO, determinada, por sua vez, pelo progresso tecnológico que evolui independentemente
e à margem da luta ideológica.

Quando se leva esse fator em consideração, torna-se claro que a sociedade, em vez de evoluir no
sentido pretensamente inevitável acima mencionado, corre velozmente na direção do maior
controle social e da consolidação de diferenças hierárquicas cada vez mais firmes e
indestrutíveis.