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Arteterapia-Um jeito de se conhecer ARTETERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA

Diego Velasquès

Terapia familiar e Arteterapia em uma abordagem sistêmica

Segundo o material didático “Atendimento Familiar”, Moura e Silva ao citar Minuchim, definem a família como um sistema onde uma parte afeta a outra, em períodos de estabilidade e mudança com uma desigual distribuição de poderes. Citando Lehnen, a família é compreendida como um sistema aberto que possui a capacidade de transformação, busca novas soluções para situações diversas, vivencia padrões recorrentes e previsíveis que refletem as tensões, filiações, hierarquias, que possuem um significado para os comportamentos e relacionamentos estabelecidos. É um sistema onde ocorrem alianças, que organizam hierarquias, define caminhos e tomadas de decisões. Ao citar Condioli, Moura e Silva coloca como função da terapia familiar, dentro do enquadramento sistêmico:

  • 1. Melhorar a comunicação

  • 2. Desenvolver autonomia

  • 3. Desenvolver individualização

  • 4. Descentralizar e flexibilizar

  • 5. Reduzir conflitos interpessoais

  • 6. Melhorar o desempenho individual.

Riley ao associar o trabalho arteterapeutico no âmbito da terapia familiar no diz:

“Nós vemos nossas teorias e a aplicação do tratamento por meio das

produções de arte externalizada dos nossos clientes.Nós escutamos a linguagem e as histórias que nossos clientes nos contam. Por intermédio dessa dualidade de conhecimento, criamos conjuntamente significados alternativos para essas histórias. Confiamos nas informações silenciosas fornecidas pelas ilustrações visuais da narrativa, que informam sobre nossas contribuições e observações.

Esta combinação resulta na criação de visões alternativas da história do

cliente.” ( 1998, p. 11 ),

Segundo a autora a arteterapia familiar contribuirá para que a família

construa uma “visão criativa e inovadora” de seus processos. “O objetivo principal da terapia e da arte, é mudar uma percepção

básica, de modo que a pessoa veja de forma diferente. Com a introdução do novo ou do inesperado, é quebrado um quadro de referência e a estrutura da realidade é harmonizada (RILEY, 1998 , p.

98)

Ainda, segundo a autora, quanto mais elementos ou dimensões- visual,auditiva,sinestésica- forem atendidas ou compuser a intervenção, mais efetivamente ela possibilitará mudanças. Dentro do método arteterapêutico, Riley elenca os seguintes aspectos a serem considerados:

  • 1. Ver a família como um sistema;

  • 2. Usar conotação positiva;

  • 3. Prescrever o sintoma

  • 4. Utilizar metáforas;

  • 5. Entender o ritual familiar;

  • 6. Entender o duplo vínculo terapêutico;

  • 7. Usar intervenções paradoxais;

  • 8. Manter propriedades homeostáticas;

  • 9. Terminar o tratamento;

Segundo Riley citando Goldenberg e Goldenberg:

“Uma família é um sistema social natural, com propriedades

totalmente próprias que desenvolveu um conjunto de regras, é repletos de papéis nomeados e designados para seus membros, tem uma

estrutura de poder organizada, tem desenvolvido formas de comunicação abertas e intrincadas e tem elaborado formas de negociar e resolver problemas que permitem que várias tarefas sejam desempenhadas efetivamente.” (1998, p.18 )

Ao considerar a família como um sistema a autora nos coloca o conceito de causalidade circular. A circularidade ocorre através do feedback constante. Na circularidade uma ação gera uma resposta, que gera a ação.

O grupo familiar não reconhece o padrão circular de seus comportamentos. O padrão funciona como regra para manter a estabilidade familiar e protegê-la da desintegração. É função do terapeuta, reconhecer e particularizar o aspecto disfuncional deste padrão. Para isso ele irá se ater aos processos que mantém a questão disfuncional, tendo uma visão geral do sistema,observando a interação entre os membros. Ao sugerir utilizar a conotação positiva, Riley coloca que o terapeuta deve exaltar no processo, o aspecto positivo da disposição da família em se expor, ao vivenciar o processo terapêutico, enfatizando o desejo de todos no grupo de construir uma realidade melhor , mais sustentável e funcional. A conotação positiva tem a função de acolhimento e suporte ao grupo ferido pelo dilema paradoxal. Segundo a autora estas mensagens podem ajudar a ressignificar o comportamento do grupo. Troca-se a imagem de um grupo inábil, para a imagem de um grupo disposto e que se apoia no processo de resolução de problemas. A prescrição do sintoma é um ponto crítico do processo da terapia, pois ela tende a desestabilizar o grupo devido a polêmica que gera. Segundo a autora a prescrição deve ser breve, concisa, e inaceitável pela família para promover o debate e a reflexão. O terapeuta precisa falhar para que o método funcione. Ao utilizar metáforas o terapeuta pode ser melhor compreendido pela família. Referente à questão da compreensão do ritual familiar, Riley nos diz, que através da observação da vivencia deste ritual, o terapeuta tem a oportunidade de compreender uma sequência de comportamentos em um conjunto estruturado de circunstâncias. O ritual pode ser observado diretamente nas propostas arteterapeuticas oferecidas ao grupo, podendo muitas vezes ser planejado também para neutralizar o padrão usual de interação, criando a possibilidade dos integrantes abandonarem os estereótipos designados uns aos outros, abrindo espaço para a família passar de um estágio para o outro.

Ao utilizar as intervenções paradoxais o terapeuta falha intencionalmente. Ao observar a conexão do sintoma com a função para qual serve dentro do grupo, o terapeuta recomenda à família que continue resolvendo a questão da forma como costumam fazer. É sugerido a ampliação do sintoma dentro da regra que o sustenta, dando oportunidade para que a família perceba por si mesma a disfuncionalidade do padrão relacional estabelecido. Este processo pode ocorrer no ato da produção artística, ou através da imaginação ativa, quando o terapeuta leva o grupo a se ver atuando dentro da amplificação do sintoma. A importância de compreender o duplo vínculo terapêutico é para que possamos diferenciá-lo do duplo vínculo patogênico e utilizá-lo como recursos interventivo de mudança. Riley, ao citar Batson, nos diz que no duplo vínculo patogênico o sujeito recebe uma mensagem dupla de seus pares sendo desaprovado se faz ou se não faz. No duplo vínculo terapêutico o sujeito se encontra na mesma situação, mas com um resultado diferente: se muda é uma escolha, porém se não promover a mudança isso também será uma escolha. Segundo a autora, ao inserir a escolha no paradoxo terapêutico, o sintoma deixa de existir, pois enquanto sintoma, ele não é uma escolha. Ao colocar como requisito manter as funções homeostáticas, a autora nos esclarece a importância do fortalecimento do grupo e da melhora no processo de comunicação, expondo ao grupo como estas melhoras tem fortalecido a autonomia na resolução de problemas, permitindo uma flexibilização de papéis. Por fim, terminar o tratamento é dar ao grupo a oportunidade de reconhecer que os padrões de interação mudaram e se tornaram mais adaptativos. Para exemplificar esta proposta defendida por Riley, onde ocorre a associação entre arteterapia e terapia familiar, citarei como exemplo uma proposta exposta pela autora: a construção de um mural familiar. A proposta arteterapeutica é de que o grupo familiar, através de colagem ou pintura, construa a rotina da família em um grande pedaço de papel, disposto em uma parede.

Segundo Riley, nesta proposta há a oportunidade para o terapeuta formular uma hipótese sobre o sistema familiar e pensar sobre a intervenção. É na observação deste ritual familiar, focado na construção de um mural onde os integrantes deverão trabalhar juntos, que o terapeuta poderá pensar na definição do problema, no exame do dilema da mudança e na formulação do tratamento. Segundo a autora, a arteterapia oferece prazer para aliviar o medo, de forma que o paradoxo possa ser substituído pelo relaxamento.

Ao citar Minuchin, Riley nos diz que a estrutura da família torna-se visível nas transações comportamentais entre os membros. Ainda segundo a autora, a arteterapia familiar prove tarefas que servem para tornar visível o invisível. No ato do ritual proposto, o terapeuta poderá observar a resistência ou a disponibilidade do grupo. Desta forma a experiência pode ajudar a testar a resistência às mudanças que favoreçam o pensamento de novas estratégias. Segundo a autora, famílias dispostas atuam bem com feedback, buscando e aceitando novas formas de ver uma questão conflituosa. Famílias resistentes necessitam de acolhimento e intervenções para olhar o dilema paradoxal em diferentes ângulos. Na criação do mural familiar é possível traduzir o funcionamento do sistema em questão observando a disposição e a dominância espacial, as mensagens verbais e não verbais expressas durante o processo. A proposta permite também a abertura de um debate sobre o processo de criação e produto materializado, considerando a atuação de cada membro, assim como a qualidade do relacionamento estabelecido, e o modo como cada integrante dentro do grupo veem seus papéis e revelam suas motivações e mensagens, primeiro no processo de criar e depois associando a metáfora ao funcionamento do sistema familiar. O produto expressivo que resulta dos esforços do grupo familiar dá ao arteterapeuta caminhos adicionais para apreciar as mensagens subjacentes e as alianças ocultas dentro do sistema. Segundo Sara Pain, em seu livro “Os fundamentos da Arteterapia”-

editora vozes,2009, p.12, na arteterapia “ (

...

)

a atividade artística

transforma-se assim em representação dramática da intenção criativa

do sujeito. É nessa duplicidade que encontramos a eficácia terapêutica

desta modalidade clínica.”

Na produção artística encontramos o drama familiar. Em seu livro “100 jogos para grupos:uma abordagem psicodramática para empresa,escolas e clinicas”. São Paulo, Editora Àgora,1996, Yozo

nos diz sobre o jogo dramático:

O jogo dramático leva o indivíduo a soltar-se, liberar sua espontaneidade e criatividade, ou seja, é um meio de desentorpecer o corpo e a mente dos condicionamentos da vida atual, não permitindo a massificação dentro das conservas culturais. Além disso, é preciso que esteja em um campo relaxado para jogar, pois crescem as possibilidades de relações que permitem ao individuo alcançar uma solução de seus conflitos, isto é, havendo ampliação do campo relaxado, diminui o ponto fixo de tensão. O indivíduo em campo tenso impede esta ampliação de resposta. (1996, p.18)

Devemos sempre ter em mente, que na maioria das vezes os terapeutas são procurados em momentos de tensão e desequilíbrio vivenciado pelos seus clientes. Quando um grupo familiar chega ao setting arteterapeutico muitas vezes se encontra no limite da desintegração onde imperam as fantasias de culpa, perda, incompreensão e desrespeito. Cabe ao terapeuta criar um campo relaxado para que os integrantes possam jogar e no jogo- seja ele através de atividades artísticas de movimento, dramatização ou mesmo de criação visual- vivenciar o drama familiar de forma mais suportável. Ao criar a disponibilidade para o jogo, para o lúdico, aos poucos é possível construir a aliança terapêutica, e sem dúvida a arte é um caminho para a construção deste campo, devido ao seu aspecto lúdico. Por outro lado este mesmo aspecto lúdico pode funcionar como algo ameaçador, principalmente quando nos deparamos com sistemas rígidos. Mais uma vez a arte pode ser um caminho interessante, ao criar um espaço de metáforas, dando a possibilidade ao grupo de se expor através da contemplação e produção artística, reconhecendo habilidades e preferências estéticas de cada integrante. E no ato da apreciação, seja dos grandes nomes da arte, ou da produção de cada integrante que pode ser inserida a intervenção que propõe ressignificar o dilema paradoxal.

Pain ( 2009, p. 19 ), sobre o setting arteterapêutico nos diz que este ,

“(

)

apresenta-se como um espaço de tolerância, recebe a todos sem

reserva”.

É principalmente por estes aspectos, de relaxamento e vivencia metafórica que acredito ser eficaz e significativa a proposta de Shirley Riley de associar o processo terapêutico familiar à arteterapia criando- se um novo ramo desta disciplina terapêutica que é a arteterapia familiar. Penso ser um recurso para tornar suportável, aquilo que muitas vezes pode ser insuportável para o grupo .. Através da arteterapia é possível ressignificar o funcionamento do sistema, através do ato criativo, oferecendo novos olhares sobres as questões conflituosas, como na construção de um mosaico ou de um caleidoscópio. Em seu livro, Riley apresenta além de outros aspectos teóricos relevantes para o trabalho da terapia familiar, estudos de caso onde o método é aplicado, de forma didática e esclarecedora, ficando a sugestão de uma ótima leitura para os interessados na área.

Raphael do Lago Júdice é Pedagogo, com formação em Psicoterapia Holística e especialização em Arteterapia ,Psicmotricidade Clínica e Relacional e Terapia Familiar.

Referências:

PAIN,Sara “Os fundamentos da Arterapia”, Rio de Janeiro,Editora

Vozes,2009

OLIVEIRA ,Juliandrey ; SILVADO,Moura Rogério de Moraes “ Atendimento Familiar”,Unileya editora RILEY, Shirley “Arteterapia para Famílias:abordagens integrativas” Summus Editorial, 1998 YOZO, Ronaldo Yudi k. “100 jogos para grupos:uma abordagem psicodramática para empresa,escolas e clinicas”. São Paulo, Editora

àgora,1996.

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O que é a arteterapia?

Arteterapia combina arte visual e psicoterapia em um processo criativo, usando a imagem criada como uma base para a auto-exploração e compreensão. A análise de pensamentos e sentimentos expressados em imagens e quem sabe depois em palavras. Através do uso da terapia da arte, sentimentos e conflitos internos podem ser projetadas em forma visual. No ato criativo, o conflito é re-experimentado, resolvido e integrado. - O BC Art Therapy Association

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