Organizações Anárquicas

Programa e Objetivo da Organização Secreta Revolucionária Irmandade Internacional
Mickail Bakunin

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A Associação Irmandade Internacional quer a revolução universal, social, filosófica, econômica e política ao mesmo tempo, para que da ordem atual das coisas, fundada sobre a propriedade, a dominação e o princípio de autoridade quer religiosa, quer metafísica e burguesamente doutrinária, quer até mesmo jacobinamente revolucionária, não sobre em toda Europa num primeiro momento, e depois no resto do mundo, pedra sobre pedra. Ao grito de paz aos trabalhadores, liberdade a todos os oprimidos e morte aos dominadores, exploradores e tutores de qualquer espécie, queremos destruir todos os Estados e todas as igrejas, com todas as suas instituições e suas leis religiosas, políticas, jurídicas, financeira, policiais, universitárias, econômicas e sociais para que todos estes milhões de pobres seres humanos escravizados, atormentados, explorados, libertos de todos os diretores e benfeitores oficiais e oficiosos, associações e indivíduos, respirem enfim em completa liberdade. Convencidos de que o mal individual e social reside muito menos nos indivíduos do que na organização das coisas e nas posições sociais, nós seremos humanos tanto por sentimento de justiça quanto por cálculo de utilidade, e destruiremos sem piedade as posições e as coisas a fim de poder, sem nenhum perigo para a revolução, poupar os homens. Negamos o livre-arbítrio e o pretenso direito da sociedade de punir. A própria justiça tomada no seu sentido mais humano e mais amplo, é apenas uma idéia, por assim dizer, negativa e de transição; ela coloca o problemas social mas não o resolve, indicando apenas o único caminho possível para a emancipação, isto é, de humanização da sociedade pela liberdade na igualdade; a posição positiva só poderá ser dada pela organização cada vez mais racional da sociedade. Esta solução tão desejada, ideal de todos nós, é a liberdade, a moralidade, a inteligência e o bem-estar de cada um pela solidariedade de todos, a fraternidade humana. Todo o indivíduo humano é o produto involuntário de um meio natural e social no seio do qual nasceu, desenvolveu-se e do qual continua a sofrer influência. As três causas de toda a imoralidade humana são: a desigualdade tanto política quanto econômica e social; a

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ignorância que é seu resultado natural e sua conseqüência necessária: a escravidão. A organização da sociedade sendo sempre e em todos os lugares a única causa dos crimes cometidos pelos homens, há hipocrisia ou absurdo evidente da parte da sociedade em punir os criminosos, um vez que toda a punição supõe a culpa e os criminosos não são nunca culpados. A teoria da culpa e da punição surge da teologia, isto é, do casamento de absurdo com a hipocrisia religiosa. O único objetivo que se pode reconhecer à sociedade, em seu estado atual de transição, é o direito natural de assassinar os criminosos produzidos por ela mesma no interesse de sua própria defesa e não a de julgá-los e condená-los. Este não será propriamente um direito, na acepção estrita do termo, será antes um fato natural, aflitivo mas inevitável, signo e produto da impotência e da estupidez da sociedade atual: e quanto mais a sociedade souber evitar de utilizá-lo, mais ela estará próxima de sua real emancipação. Todos os revolucionários, os oprimidos, os sofredores, vítimas da atual organização da sociedade e cujos corações estão naturalmente cheios de vingança e de ódio, devem lembrar-se de que os reis, os opressores, os exploradores de toda espécie são tão culpados quanto os criminosos saídos da massa popular: eles são malfeitores mas não culpados, pois são, como os criminosos comuns, produtos involuntários da atual organização da sociedade. Não devemos nos espantar se no primeiro momento, o povo rebelado mate muito. Será talvez um infelicidade inevitável, tão fútil quanto os estragos causados por uma tempestade. Mas este fato natural não será nem moral, nem mesmo útil. A este respeito, a história está cheia de ensinamentos: a terrível guilhotina de 1793 que não pode ser acusada nem de preguiça, nem de lentidão, não chegou a destruir a classe nobre da França. A aristocracia foi se não completamente destruída ao menos profundamente abalada, não pela guilhotina, mas pelo confisco e venda de seus bens. E em geral, pode-se dizer que a carnificina política nunca matou os partidos; mostram-se sobretudo impotentes contra as classes privilegiadas, porque a força reside menos nos homens da que nas posições ocupadas

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pelos homens privilegiados na organização das coisas, isto é, a instituição do Estado e sua conseqüência assim como sua base natural, a propriedade individual. Para fazer um revolução radical é preciso, pois, atacar as posições e as coisas, destruir a propriedade e o Estado, assim não se terá a necessidade de destruir os homens, e de condenar-se à reação infalível e inevitável que o massacre dos homens nunca deixou e não deixará nunca de produzir em cada sociedade. Mas para ter o direito de ser humano para com os homens, sem perigo para a revolução, será preciso ser impiedoso para com as posições e as coisas: será preciso destruir tudo e, principalmente e antes de tudo, a propriedade e seu corolário inevitável: o Estado. Este é o segredo da revolução. Não é preciso espantar-se se os jacobinos e os blanquistas que se tornaram socialistas antes por necessidade que por convicção, e para quem o socialismo é um meio, não o objetivo da Revolução. Pois eles querem a ditadura, quer dizer, a centralização do Estado e que o Estado os leve por necessidade lógica e inevitável à reconstituição da propriedade, é natural, dizemos nós, que não querendo fazer uma revolução radical contra as coisas, sonhem com uma revolução sanguinária contra os homens. Mas esta revolução sanguinária baseada na construção de um Estado revolucionário, fortemente centralizado, teria como resultado inevitável, como provaremos mais tarde, a ditadura militar com um novo senhor. Logo, o triunfo dos jacobinos e dos blanquistas seria a morte da Revolução. Somos inimigos naturais destes revolucionários, futuros ditadores, regulamentadores e tutores da revolução, que, antes mesmo que os estados monárquicos, aristocráticos e burgueses atuais sejam destruídos, sonham com a criação de novos Estados revolucionários, tão centralizados e mais despóticos do que os Estados que existem hoje, que possuem uma vocação tão grande para ordem criada por uma autoridade qualquer e um horror tão grande pelo que lhes parece desordem e que nada mais é do que a franca e natural expressão da vida popular, que,

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antes mesmo que uma boa e saudável desordem se produza pela revolução, sonham já com o fim e o cerceamento pela ação de um autoridade qualquer que só terá o nome da revolução, mas que efetivamente nada mais será do que uma nova reação pois será uma outra condenação das massas populares, governadas por decretos, à obediência, à imobilidade, à morte, isto é, à escravidão e à exploração por uma nova aristocracia pouco revolucionária. Compreendemos a revolução no sentido do desencadeamento do que se chama hoje de más paixões e da destruição do que da mesma língua se chama "ordem pública". Não tememos, invocamos a anarquia, convencido de que esta anarquia, ou melhor, da manifestação completa da vida popular desencadeada, deve sair a liberdade, a igualdade, a justiça, a ordem nova, e a própria força da revolução contra a reação. Esta vida nova, a revolução popular, não tardará sem duvida a organizar-se, mas criará sua organização revolucionária de baixo para cima e da circunferência para o centro, conforme o princípio de liberdade, e não de cima para baixo nem do centro para a circunferência conforme a moda da autoridade, pois pouco importa se esta autoridade se chama Igreja, Monarquia, Estado Constitucional, República burguesa ou até mesmo Ditadura revolucionária. Detestamos e rejeitamos todos da mesma forma como fontes infalíveis de exploração e de despotismo. A revolução tal como a entendemos deverá, desde o primeiro dia destruir radical e completamente o Estado. As conseqüências naturais desta destruição serão: A bancarrota do Estado; A cessação do pagamento das dívidas privadas pela intervenção do Estado, deixando a cada devedor o direito de pagar as suas, se quiser; A cessação dos pagamentos de qualquer imposto e do adiantamento de todas as contribuições, sejam

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diretas ou indiretas; • • A dissolução do exército, da burocracia, da polícia e do clero; magistratura, da

A abolição da justiça oficial, a suspensão de tudo o que juridicamente se chamava direito, e o exercício desses direitos; Por conseqüência, a abolição do auto-de-fé de todos os títulos de propriedade, formais de herança, de venda, de doação, de todos os processos, de toda a papelada jurídica e civil, em uma palavra. Em todo o lugar e em todas as coisas o fato revolucionário, em vez do direito criado e garantido pelo Estado; O confisco de todos os capitais produtivos e instrumentos de trabalho em proveito da associação de trabalhadores que deverão produzi-los coletivamente; O confisco de todas as propriedades da Igreja e do Estado assim como dos metais preciosos dos indivíduos em benefício da Aliança Federativa de todas as associações operárias, Aliança que constituirá a comuna. Em troca dos bens confiscados, a Comuna dará o estritamente necessário à todos os indivíduos que foram despojados, que poderão mais tarde, com seu próprio trabalho ganhar mais se puderem e se quiserem.

Para a organização da Comuna: a federação das barricadas permanentes e a função de um conselho revolucionário da Comuna pela delegação de uma ou duas pessoas de cada barricada, uma por rua ou por bairro, delegados investidos de mandatos imperativos, sempre responsáveis e sempre revogáveis. O Conselho comunal assim organizado poderá escolher, entre os seus, comitês executivos separados por cada ramo da administração revolucionária da Comuna. Declaração da capital insurgida e organizada em Comuna que, depois de ter destruído o Estado autoritário e

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tutelar, o que ela tinha o direito de fazer porque era escrava como todas as outras localidades, renuncia a seu direito, ou melhor, a qualquer pretensão de governar, de impor-se às províncias. Chamado a todas as províncias, comunas e associações, convidando a todos a seguirem o exemplo dado pela capital, de organizar-se primeiro revolucionariamente e, após, delegar, em um local convencionado de reunião, seus delegados, todos investidos de mandatos imperativos, responsáveis e revogáveis, para constituir a federação das associações, comunas e províncias insurgidas em nome dos mesmos princípios, e para organizar uma força revolucionária capaz de triunfar sobre a reação. Envio não de comissários revolucionários oficiais com faixas distintivas, mas de propagadores revolucionários em todas as províncias e comunas, sobretudo entre os camponeses que não poderão revoltar-se nem por princípios, nem pelos decretos de uma ditadura qualquer, mas somente pelo próprio fato revolucionário, quer dizer, pelas conseqüências que produzirá infalivelmente em todas as comunas a cessação completa da vida jurídica, oficial do Estado. Abolição do Estado nacional ainda no sentido de todo o país estrangeiro, província, comuna, associação ou até indivíduos isolados, que se revoltaram em nome do mesmo princípio, sejam recebidos na federação revolucionária independente das fronteiras atuais dos Estados, embora pertencendo a sistemas políticos ou nacionais diferentes, e que as próprias províncias, comunas, associações, indivíduos que tomarem partido da reação estarão excluídos. É, pois pelo próprio fato da eclosão e da organização da revolução com vistas à defesa mútua dos países insurgidos que a universalidade da revolução, baseada na abolição das fronteiras e na ruína dos Estados, triunfará. Não pode haver revolução política triunfante, a menos que a revolução política se transforme em revolução social, que a revolução nacional precisamente por seu caráter radicalmente socialista e destrutivo do Estado se

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transforme em revolução universal. A revolução devendo fazer-se, em toda a parte, pelo povo, e a suprema direção devendo estar sempre no povo organizado em federação livre de associações agrícolas e industriais, organizando-se de baixo para cima por meio da delegação revolucionária abrangendo todos os países insurrectos em nome dos mesmos princípios independentemente das velhas fronteiras e das diferenças de nacionalidade, terá por objetivo a administração dos serviços públicos e não o governo dos povos. A aliança da revolução universal contra a aliança de todas as reações será a nova pátria. Esta organização exclui qualquer idéia de ditadura e de poder dirigente tutelar. Mas, para o próprio estabelecimento desta aliança revolucionária, e para o triunfo da revolução contra a reação, é necessário que em meio à anarquia popular que constituirá a própria vida e toda a energia da revolução, a unidade de pensamento e de ação revolucionária encontre um órgão. Este órgão deve ser a Associação Secreta e Universal Irmandade Internacional. Esta associação parte da convicção de que as revoluções nunca são feitas nem pelos indivíduos nem mesmo pelas sociedades secretas. Elas se fazem por si próprias, produzidas pela força das coisas, pelo movimento dos acontecimentos e dos fatos. Elas se preparam durante muito tempo na profundeza da consciência instintiva das massas populares, depois explodem, suscitadas aparentemente por causas fúteis. Tudo o que um sociedade organizada pode fazer é, primeiramente, ajudar o nascimento de uma revolução difundindo entre as massas idéias correspondentes aos instintos das massas de organizar, não o exército da revolução - o exército deve ser sempre o povo - mas uma espécie estado-maior revolucionário composto de indivíduos dedicados, enérgicos, inteligentes e, sobretudo, amigos sinceros, e não ambiciosos nem vaidosos, do povo, capaz de servir de intermediário entre a idéia revolucionária e os instintos populares. O números destes indivíduos não deve, portanto, ser enorme. Para a organização internacional em toda a Europa,

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cem revolucionários forte e seriamente aliados, bastam. Duas ou três centenas de revolucionários bastarão para a organização do maior país. Mickail Bakunin, outono de 18681

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Programa elaborado clandestinamente por Mickail Bakunin em outono de 1868. Tradução de Zilá Bernd.

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Plataforma Organizacional
Nestor Makno

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Introdução É muito significativo que, apesar da força e do caráter indiscutivelmente positivo das idéias libertárias, da nitidez e da integridade das posições anarquistas diante da revolução social; enfim, do heroísmo e dos inúmeros sacrifícios realizados pelos anarquistas na luta pelo comunismo libertário, o movimento anarquista continua fraco e com freqüência tem figurado, na história das luta da classe operária, como um evento menor, um episódio, e não como um fator importante. Essa contradição, entre o fundamento positivo e incontestável das idéias libertárias e o estado miserável em que vegeta o movimento anarquista, explica-se por uma série de causas, das quais a mais importante, a principal, é a ausência de princípios e práticas organizacionais no movimento anarquista. Em todos os países, o movimento anarquista é representado por algumas organizações locais, que defendem teorias e práticas contraditórias. Não têm qualquer perspectiva de futuro nem de continuidade da ação militante, habitualmente desaparecem sem deixar o menor traço de sua passagem. Tal é a situação do anarquismo revolucionário que, se a tomarmos em seu conjunto, só podemos qualificá-la como uma "desorganização geral crônica". Como a febre amarela, a doença da desorganização apossou-se do organismo do movimento anarquista e o vem minando há dezenas de anos. Sem dúvida, essa desorganização deriva de alguns defeitos da teoria: notadamente, numa falsa interpretação do princípio da individualidade no anarquismo; este princípio tem sido com muita freqüência confundido com a total ausência de responsabilidade. Os amantes da autoafirmação, que visam unicamente o prazer pessoal, agarram-se obstinadamente ao estado caótico do movimento anarquista e se referem, para defendê-lo, aos princípios imutáveis do anarquismo e seus mestres.

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Ora, os princípios imutáveis demonstram justamente o contrário. e os mestres

A dispersão e o desmembramento: eis a ruína. A união estreita é sinal de vida e de desenvolvimento. Esta lei da luta social aplica-se tanto às classes quanto aos partidos. O anarquismo não é uma bela utopia, tampouco uma abstração filosófica, é um movimento social das massas trabalhadoras. Por este motivo, deve juntar suas forças numa organização geral continuamente ativa, como é exigido pela realidade e a estratégia da luta de classes. "Estamos convencidos", disse Kropotkin, "de que a formação de uma organização anarquista na Rússia, longe de ser prejudicial para a tarefa revolucionária, é, pelo contrário, desejável e útil no mais alto grau." (prefácio ao texto "A Comuna de Paris", de Bakunin, edição de 1892.) Bakunin nunca se opôs à idéia de uma organização anarquista geral. Pelo contrário, suas aspirações quanto à organização, assim como sua atividade na primeira internacional, nos dão todo o direito de vê-lo como um partidário ativo exatamente de uma tal organização. Em geral, a maioria dos militantes ativos do anarquismo combateu toda ação dispersa, e sonhou com um movimento anarquista firmemente ligado pela unidade do objetivo e dos meios. Durante a revolução russa de 1917, a necessidade de uma organização geral se fez sentir ainda mais intensa e urgentemente. No decorrer dessa revolução, o movimento libertário manifestou o mais alto grau de desmembramento e de confusão. A ausência de uma organização geral fez com que muitos militantes anarquistas atuassem nas fileiras dos bolcheviques. Essa ausência é também a causa de muitos outros militantes, hoje em dia, manterem-se passivos, impedindo todo uso de suas forças, cuja importância é bastante considerável. É vital nossa necessidade de uma organização que, reunindo a maioria dos participantes do movimento anarquista, estabelecerá no anarquismo uma linha geral

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tática e política que servirá como guia para todo o movimento. Já é tempo de o anarquismo sair desorganização, colocar um ponto final vacilações sobre as questões teóricas importantes, de caminhar resolutamente claramente identificado e realizar coletivamente organizada. do pântano da nas infindáveis e táticas mais para o objetivo uma prática

Não basta, porém, constatar a necessidade vital dessa organização. É necessário, também, estabelecer o método de sua criação. Rejeitamos, como teoricamente e praticamente absurda, a idéia de criar uma organização conforme a receita da "Síntese", isto é: reunindo os representantes das diferentes tendências do anarquismo. Tal organização, tendo incorporado elementos práticos e teóricos heterogêneos, seria apenas um agregado mecânico de indivíduos, cada qual tendo um conceito diferente de todas as questões do movimento anarquista, um agregado que inevitavelmente se desintegraria ao entrar em contato com a realidade. O método anarco-sindicalista não resolve o problema de organização do anarquismo, porque não dá prioridade a esse problema, interessando-se unicamente em sua penetração e reforço nos meios operários. Contudo, não se pode fazer grande coisa nesses meios, mesmo tendo alguma inserção neles, quando não existe uma organização anarquista geral. O único método que soluciona o problema da organização geral, no nosso ponto de vista, é reunir militantes ativos do anarquismo numa base de posições precisas: teóricas, táticas e organizacionais, ou seja: uma base mais ou menos acabada de um programa homogêneo. A elaboração de tal programa é uma das principais tarefas que a luta social dos últimos anos impôs aos anarquistas. É para a realização desta tarefa que o grupo de anarquistas russos no exílio dedica uma parte importante de seus esforços.

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A "Plataforma Organizacional" publicada abaixo representa, em linhas gerais, o esboço de tal programa. Deve ser um primeiro passo na reunião das forças libertárias numa única coletividade revolucionária ativa capaz de lutar: a União Geral dos Anarquistas. Não nos iludimos, há lacunas na presente Plataforma. Sem dúvida, ela tem limitações como toda e qualquer prática nova de alguma importância. É possível que algumas posições essenciais tenham sido omitidas e outras insuficientemente tratadas ou, então, muito detalhadas ou repetidas. Tudo isso é possível, mas não é o mais importante. O que importa é lançar os fundamentos de uma organização geral. Este é o objetivo que alcançamos, em certa medida, através dessa Plataforma. São tarefas da coletividade, da União Geral dos Anarquistas: aumentá-la, aprofundá-la e, mais tarde, fazer dela um programa definitivo para todo o movimento anarquista. Noutro plano, também, não nos iludimos. É previsível que vários representantes do auto-intitulado individualismo e do anarquismo caótico nos atacarão, espumando de ódio e nos acusando de trair os princípios anarquistas. Mas nós sabemos que os elementos individualistas e caóticos misturam, aos "princípios anarquistas" e o "foda-se tudo", a negligência e a total falta de responsabilidade que, em nosso movimento, têm causado ferimentos quase incuráveis. É contra isso que estamos lutando, com toda nossa energia e paixão. Eis o motivo de ignoramos calmamente os ataques vindos desse campo. Baseamos nossa esperança em outros militantes: naqueles que se mantém fiéis ao anarquismo, que tendo vivido e sofrido a tragédia do movimento anarquista, procuram dolorosamente uma solução. Ademais, temos grandes esperanças na juventude libertária que, nascida no sopro da revolução russa e situada, desde o começo, no círculo das realidades concretas, exigirá certamente a realização dos princípios organizacionais e construtivos do anarquismo. Convidamos todas as organizações anarquistas

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russas, dispersas em vários países do mundo, e também os militantes isolados do anarquismo, a se unirem sobre a base de uma Plataforma comum de organização. Que esta Plataforma sirva de palavra de ordem revolucionária e ponto de união para todos os militantes do movimento anarquista russo! Que sirva para lançar os fundamentos da União Geral dos Anarquistas!

Viva a Revolução Social dos Trabalhadores do Mundo!
GRUPO DIELO TRUDA, Paris 20/06/1926. Parte Geral

Luta de classes, seu papel e significado
Não existe humanidade unida. Existe a humanidade dividida em classes: escravos e senhores. Como todas as que a precederam, a sociedade capitalista e burguesa de nossos tempos não é unida. Ela está dividida em dois campos distintos, diferenciados socialmente por suas respectivas situações e funções: o proletariado (no sentido mais extenso da palavra) e a burguesia. O destino do proletariado é, e tem sido há séculos, carregar o fardo do trabalho físico e penoso, cujos frutos são colhidos por uma outra classe, que possui a propriedade, a autoridade e os produtos da cultura (ciência, educação, arte etc.): a burguesia. A escravização social e a exploração das massas trabalhadoras formam a base sobre a qual a sociedade moderna se apóia e sem a qual não poderia existir. Este fato gera uma luta de classes secular, que assume um caráter aberto e violento ou uma aparência de progresso lento e imperceptível, mas orientada sempre,

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essencialmente, para a transformação da sociedade atual numa sociedade que satisfará as aspirações, necessidades e ao conceito de justiça dos trabalhadores. Toda a história da humanidade representa, no domínio social, uma cadeia ininterrupta de lutas que as massas trabalhadoras travam por seus direitos, sua liberdade e por uma vida melhor. Esta luta de classes tem sido sempre o principal fator que determina a forma e a estrutura das sociedades. O regime social e político de todos os países é, antes de tudo, produto da luta de classes. A estrutura de uma sociedade nos mostra a fase em que se encontra a luta de classes. A mínima alteração no curso da luta de classes, na relação de forças entre as classes em luta contínua, engendra mudanças no tecido e na estrutura da sociedade. Tal é a dimensão geral, universal e o sentido da luta de classes na vida das sociedades de classe. A necessidade de uma violenta Revolução Social O princípio de opressão e exploração das massas pela violência constitui a base da sociedade moderna. Todas as manifestações de sua existência: a economia, a política, as relações sociais... baseiam-se na violência de classe, cujos instrumentos são: a autoridade, a polícia, o exército, os tribunais. Tudo nesta sociedade, desde a empresa tomada isoladamente até o conjunto dos aparatos estatais são baluartes na defesa e manutenção do capitalismo. Além de serem pontos de observação permanente dos trabalhadores, servem para ter sempre ao alcance da mão as forças destinadas a reprimir os trabalhadores que ameaçam os fundamentos ou mesmo a tranqüilidade da sociedade atual. Ao mesmo tempo, o sistema capitalista mantém deliberadamente as massas trabalhadoras num estado de ignorância e estagnação mental, impedindo pela força a elevação de seu nível intelectual e moral, para mais facilmente ludibriá-las.

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O progresso da sociedade moderna, a evolução técnica do capital e o aperfeiçoamento de seu regime político fortalecem o poder da classe dominante e dificultam ainda mais a luta contra ela, adiando o momento decisivo da emancipação dos trabalhadores. A análise da sociedade moderna nos leva à conclusão de que a revolução social violenta é a única via para transformar a sociedade capitalista numa sociedade de trabalhadores livres. O Anarquismo e o Comunismo Libetário A luta de classes criada pela escravidão dos trabalhadores e suas aspirações de liberdade fez nascer, nos meio dos oprimidos, a idéia do anarquismo: a idéia da negação do sistema social baseado nos princípios de classes e do Estado, e sua substituição por uma sociedade livre e sem estado, autogerida pelos trabalhadores. Portanto, o anarquismo não deriva das reflexões abstratas de um intelectual ou filósofo, mas da luta direta dos trabalhadores contra o capital, das aspirações e necessidades dos trabalhadores, de seus desejos de liberdade e igualdade, os quais se tornam particularmente vivos no melhor período heróico da vida e da luta das massas trabalhadoras. Eminentes anarquistas, Bakunin, Kropotkin e outros, não inventaram a idéia de anarquismo, mas a descobriram nas massas, apoiados somente na força de seus pensamentos e conhecimentos, para especificá-la e divulgála. O anarquismo não é o resultado de obras pessoais nem objeto de pesquisas individuais. Similarmente, o anarquismo não é produto de aspirações humanitárias. A humanidade "unida" não existe. Qualquer tentativa de fazer do anarquismo um atributo da humanidade atual, de atribuir-lhe um caráter genericamente humanitário seria uma mentira histórica e social que conduziria inevitavelmente à justificação da ordem atual e

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de uma nova exploração. O anarquismo é geralmente humanitário apenas no sentido de que os ideais das massas trabalhadoras tendem a aperfeiçoar as vidas de todos os homens, e do fato de que o destino da humanidade de hoje ou de amanhã é inseparável do destino do trabalho explorado. Se as massas trabalhadoras vencerem, toda a humanidade renascerá. Se não, violência, exploração, escravização e opressão reinarão como nunca antes no mundo... O nascimento, o desenvolvimento e a realização das idéias anarquistas tem suas origens na vida e na luta das massas trabalhadoras, e estão inseparavelmente ligadas à sua sorte. O anarquismo quer transformar a sociedade capitalista numa sociedade nova em que os trabalhadores tenham garantido o produto de sua atividade, a liberdade, a independência e a igualdade social e política. Esta nova sociedade será o comunismo libertário. É no comunismo libertário que terão plena expansão a solidariedade social e a individualidade livre, e na qual essas duas idéias se desenvolverão em perfeita harmonia. O comunismo libertário avalia que o único criador do valor social é o trabalho, físico e intelectual. Consequentemente, só os trabalhadores têm o direito de administrar a vida social e econômica. É por isso que ele não justifica nem admite a existência de classes não trabalhadoras. Enquanto tiver que coexistir com tais classes, o comunismo libertário não reconhecerá qualquer obrigação em relação a elas. Isto cessará quando as classes não trabalhadoras se decidirem a produzir e quiserem viver na sociedade comunista, sob as mesmas condições de todos os outros, os membros livres da sociedade, gozando dos mesmos direitos e obrigações de todos os membros produtivos. O comunismo libertário quer suprimir toda exploração e violência, seja contra o indivíduo ou as massas trabalhadoras. Para tanto, estabelece uma base econômica

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e social que unifica, num conjunto harmonioso, toda a vida econômica e social do país, assegurando a todo indivíduo uma situação igual a dos outros e dando a cada um o máximo bem-estar. Esta base é a apropriação, sob a forma de socialização, de todos os meios e instrumentos de produção (indústria, transporte, terra, matérias-primas etc.) e a construção de organismos econômicos sob os princípios de igualdade e autogestão dos trabalhadores. Nos limites desta sociedade autogerida pelos trabalhadores, o comunismo libertário estabelece o princípio da igualdade de valor e dos direitos de cada indivíduo (não a individualidade "em geral", nem a individualidade "mística" ou o conceito de individualidade, mas o indivíduo concreto). A negação da democracia Democracia capitalista. é uma das formas da sociedade

A democracia se baseia na manutenção das duas classes antagônicas da sociedade moderna: a do trabalho e a do capital, e sua colaboração fundada sobre a propriedade privada capitalista. A expressão dessa colaboração é o parlamento e o governo nacional representativo. Formalmente, a democracia proclama a liberdade de opinião, de imprensa, de associação, enquanto não ameacem os interesses da classe dominante, ou seja, a burguesia. A democracia mantém intacto o princípio da propriedade privada capitalista. Portanto, dá a burguesia o direito de controlar toda a economia do país, toda a imprensa, educação, ciência, arte, o que de fato, torna a burguesia dona absoluta do país. Possuindo o monopólio da vida econômica, a burguesia pode estabelecer seu poder ilimitado também na esfera política. Efetivamente, o governo representativo e o parlamento nada mais são, nas democracias, do que os órgãos executivos da burguesia. Consequentemente, a democracia é apenas um dos

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aspectos da ditadura burguesa, camuflada pelas fórmulas ilusórias das liberdades políticas e garantias democráticas fictícias. A negação da autoridade Os ideólogos da burguesia definem o Estado como o órgão que regula as complexas relações políticas e sociais entre os homens na sociedade moderna, protegendo a lei e a ordem. Os anarquistas estão em perfeita acordo com esta definição, mas a completam, afirmando que as bases dessa lei e dessa ordem é a escravidão da maioria da população por uma minoria insignificante, e que para tal serve o Estado. O Estado é, simultaneamente, a violência organizada da burguesia contra os trabalhadores e o sistema de seus órgãos executivos. Os socialistas de esquerda e, em particular, os bolcheviques, também consideram a autoridade e o Estado burguês como lacaios do capital. Mas sustentam que a autoridade e o Estado podem se tornar, nas mãos dos partidos socialistas, um meio poderoso na luta pela emancipação do proletariado. Por este motivo, esses partidos são a favor de uma autoridade socialista e um Estado proletário. Alguns querem conquistar o poder pacificamente, através do parlamento (os socialdemocratas); outros, por meios revolucionários (os bolcheviques, os socialistas-revolucionários de esquerda). O anarquismo considera-os, ambos, fundamentalmente equivocados, nocivos para a tarefa de emancipação do trabalho. A autoridade está sempre ligada à exploração e à submissão das massas populares. Ela nasce da exploração ou surge no interesse da exploração. A autoridade sem violência e sem exploração perde toda a razão de ser. O Estado e a autoridade retiram das massas toda iniciativa, matam o espírito criador e a atividade livre, cultivam a psicologia da submissão: a expectativa, a

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esperança de ascender na hierarquia social, a estúpida confiança nos dirigentes, a ilusão de ser parte da autoridade... Ora, a emancipação dos trabalhadores só é possível mediante o processo de luta revolucionária direta das massas trabalhadoras e suas organizações de classe contra o sistema capitalista. A conquista do poder pelos partidos sociaisdemocratas, por meios pacíficos e sob as condições da ordem atual, não fará avançar um só passo a tarefa de emancipação do trabalho, pelo simples motivo de que o poder real, consequentemente a autoridade real, permanecerá com a burguesia que controla a economia e a política do país. O papel da autoridade socialista se reduzirá a fazer reformas, a melhorar o regime. (Exemplos: Ramsay MacDonald, os partidos sociais-democratas da Alemanha, Suécia, Bélgica, que assumiram o poder na sociedade capitalista.) Tomar o poder mediante a violência e organizar o autodenominado "Estado proletário" de nada adianta para uma autêntica emancipação do trabalho. O Estado, construído supostamente para a defesa da revolução, termina fatalmente distorcido por suas necessidades e características peculiares, torna-se o objetivo em si mesmo, produz castas específicas e privilegiadas, sobre as quais se apóia. Deste modo, submete as massas pela força e consequentemente restabelece as bases da autoridade capitalista e do Estado capitalista: a opressão e a e exploração das massas pela violência. (Exemplo: "o Estado operário e camponês" dos bolcheviques.) O papel das massa e o dos anarquista na luta e na Revolução Social As principais forças da revolução social são a classe operária urbana, as massas camponesas e um setor dos trabalhadores intelectuais.2
2 enquanto classe explorada e oprimida, da mesma forma que os proletários urbanos e rurais, os trabalhadores intelectuais são

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A concepção anarquista do papel das massas na revolução social e na construção do socialismo difere, de maneira típica, daquela dos partidos estatistas. Enquanto o bolchevismo e as tendências que lhe são afins consideram que as massas trabalhadoras possuem apenas instintos revolucionários destrutivos, sendo incapazes de uma atividade revolucionária criativa e construtiva – razão pela qual essa atividade deve se concentrar nas mãos dos homens que formam o governo do Estado e o Comitê Central do partido - os anarquistas, pelo contrário, pensam que as massas têm imensas possibilidades criativas e construtivas, e querem a supressão dos obstáculos que impedem a manifestação dessas possibilidades. Os anarquistas consideram o Estado como seu principal obstáculo, usurpando os direitos das massas e apropriando-se de todas as funções da vida econômica e social. O Estado deve perecer, não "um dia", na sociedade futura, mas agora. Ele deve ser destruído no primeiro dia da vitória dos trabalhadores, e não deve ser reconstituído de forma alguma. Ele será substituído por um sistema federalista de organizações de produção e consumo dos trabalhadores federativamente unidos e auto-administrados. Este sistema exclui tanto a organização da autoridade como a ditadura de um partido, não importa qual seja ele. A revolução Russa de 1917 revela precisamente essa orientação do processo de emancipação social, na criação de um sistema de conselhos operários e camponeses e comitês de fábrica. Seu lamentável erro foi não ter liquidado, no momento oportuno, a organização do poder estatal: no começo do governo provisório, antes, e o poder bolchevique, depois. Os bolcheviques, aproveitando-se da confiança dos operários e camponeses, reorganizaram o estado burguês de acordo com as circunstâncias do momento e, em seguida, com a ajuda do estado, mataram a atividade criativa das massas, sufocando os sovietes livres e os comitês de fábrica, que representaram o primeiro passo
relativamente mais desunidos do que os operários e camponeses, graças aos privilégios econômicos concedidos pela burguesia a alguns de seus elementos. Eis por que, no começo da revolução social, apenas a parcela mais desfavorecida dos intelectuais participou ativamente.

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na construção de uma sociedade não estatal, socialista. A ação dos anarquistas pode ser dividida em dois períodos: um antes e outro durante a revolução. Em ambos, os anarquistas só poderão cumprir seu papel como uma força organizada tendo uma concepção clara dos objetivos da luta e dos meios que levam à realização desses objetivos. A tarefa fundamental da União Geral dos Anarquistas, no período pré-revolucionário, deve ser a preparação dos operários e camponeses para a revolução social. Negando a democracia formal (burguesa), a autoridade e o Estado, proclamando a completa emancipação do trabalho, o anarquismo destaca ao máximo os princípios rigorosos da luta de classes. Isto desperta e desenvolve nas massas uma consciência de classe e a intransigência revolucionária da classe. É precisamente através da intransigência de classe, do antidemocratismo, dos ideais do comunismo anarquista que a educação libertária das massas deve ser feita. Mas a educação somente não basta. É necessária, também, uma certa organização anarquista das massas. Para realizar isso, é preciso atuar em duas direções: de um lado, selecionar e agrupar as forças revolucionárias de operários e camponeses numa base teórica comunista libertária (organizações específicas comunistas libertárias); do outro, reagrupar operários e camponeses revolucionários numa base econômica de produção e consumo (organização produtiva dos operários e camponeses revolucionários, cooperativas de operários e camponeses livres etc.). Os operários e camponeses, organizados numa base de produção e consumo, influenciados pelas posições anarquistas revolucionárias, serão o primeiro ponto de apoio da revolução social. Quanto mais se tornarem conscientes e organizados à maneira anarquista, desde já, mais os operários e camponeses manifestarão a vontade intransigente e a criatividade libertária no momento da revolução. Quanto à classe operária na Rússia: é claro que oito

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anos de ditadura bolchevique, aprisionando as necessidades naturais das massas e sua atividade livre, demonstram, melhor do que qualquer coisa, a verdadeira natureza de todo poder. Mas a classe operária russa desenvolveu enormes possibilidades para a formação de um movimento anarquista de massas. Os militantes anarquistas organizados devem ir imediatamente, com todas forças de que dispõem, ao encontro dessas necessidades e possibilidades, para que não degenerem em reformismo (menchevismo). Com a mesma urgência, os anarquistas devem aplicar todas as suas forças à organização dos camponeses pobres, esmagados pelo poder estatal, buscando uma saída e desenvolvendo seu imenso potencial revolucionário. O papel dos anarquistas, no período revolucionário, não pode se limitar à propagação de palavras de ordem e de idéias libertárias. A vida aparece como a arena não só da propagação desta ou daquela concepção, mas, também, no mesmo grau, a arena da luta, da estratégia e das aspirações dessas concepções à direção econômica e social. Mais do que qualquer outra concepção, o anarquismo deve se tornar a concepção dirigente da revolução social, porque apenas com a base teórica do anarquismo a revolução social poderá conduzir à completa emancipação do trabalho. A posição dirigente das idéias anarquistas na revolução significa uma orientação anarquista dos eventos. Contudo, não se deve confundir essa força motriz teórica com a liderança política dos partidos estatistas que levam finalmente ao Poder do Estado. O anarquismo não aspira nem à conquista do poder político, nem à ditadura. Sua principal aspiração é ajudar as massas a trilhar a autêntica via da revolução social e da construção socialista. Mas não basta que sigam a via da revolução social. Também é necessário manter esta orientação da revolução e seus objetivos: substituição da sociedade capitalista pela dos trabalhadores livres. Como a experiência da revolução Russa em 1917 nos mostrou, esta

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última tarefa está longe de ser fácil, sobretudo por causa dos inúmeros partidos que tentam orientar o movimento numa direção oposta à da revolução social. Ainda que as massas se expressem profundamente nos movimentos sociais, pelas tendências e princípios anarquistas, essas tendências e princípios permanecem dispersos, se não forem coordenados, e consequentemente não conduzem à organização da potência motriz das idéias libertárias que é necessária para manter, na revolução social, a orientação e os objetivos anarquistas. Esta força motriz teórica pode ser expressa apenas por um coletivo especialmente criado pelas massas para tal fim. Os elementos anarquistas organizados constituem exatamente esse coletivo. Os deveres teóricos e práticos, no momento da revolução, são consideráveis. Ele deve tomar iniciativas e deflagrar uma participação total em todos os domínios da revolução social: na orientação e no caráter geral da revolução; nas tarefas positivas da revolução na nova produção, na guerra civil e na defesa da revolução, no consumo, na questão agrária etc. Sobre todas essas questões e numerosas outras, as massas exigem dos anarquistas uma resposta clara e precisa. E, a partir do momento em que os anarquistas proclamam uma concepção da revolução e da estrutura da sociedade, eles são obrigados a dar respostas claras para todas essas questões, a ligar as respostas a uma concepção geral do comunismo libertário e, por fim, dedicar-se totalmente à sua efetiva realização. Desta forma, a União Geral dos Anarquistas e o movimento anarquista assumem completamente sua função teórica motriz na revolução social. O período transitório Os partidos políticos entendem, pela expressão "período transitório", uma fase determinada na vida de um povo cujas características são: ruptura com a velha ordem de coisas e instauração de um novo sistema econômico e

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social, um sistema que, contudo, ainda não representa a completa emancipação dos trabalhadores. Neste sentido, todos os programas mínimos dos partidos políticos socialistas - por exemplo, o programa democrático dos oportunistas socialistas ou o programa da "ditadura do proletariado", dos bolcheviques - são programas do período de transição. O traço essencial desses programas é que todos consideram impossível, para o momento, a completa realização dos ideais dos trabalhadores: sua independência, sua liberdade e igualdade, e consequentemente preservam toda uma série de instituições do sistema capitalista: o princípio da coerção estatista, propriedade privada dos meios e instrumentos de produção, o trabalho assalariado e diversos outros, de acordo com os objetivos do programa de cada partido. Os anarquistas sempre foram inimigos de tais programas, considerando que a construção de sistemas transitórios, que mantém os princípios de exploração e coerção das massas, leva necessariamente a um novo crescimento da escravidão. Ao invés de estabelecer programas políticos mínimos, os anarquistas sempre defenderam a idéia de uma revolução social imediata, que despoja a classe capitalista de seus privilégios econômicos e sociais, e coloca os meios e instrumentos de produção, assim como todas as funções da vida econômica e social, nas mãos dos trabalhadores. Até agora, os anarquistas têm mantido esta posição. A idéia de um período transitório, segundo a qual a revolução social deve conduzir não a uma sociedade comunista, mas a um sistema X, conservando elementos do velho sistema, é anti-social em sua essência. Essa idéia ameaça produzir o reforço e o desenvolvimento desses elementos às suas dimensões prévias, e faz retroagir os eventos. Um exemplo flagrante disso é o regime de "ditadura do proletariado", estabelecido pelos bolcheviques na Rússia.

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acordo com eles, esse regime deveria ser uma etapa transitória para o comunismo total. Na realidade, essa etapa produziu a restauração da sociedade de classes, onde estão, subjugados como antes, os operários e os camponeses pobres. O centro da gravidade na construção de uma sociedade comunista não consiste na possibilidade de assegurar a cada indivíduo, desde o primeiro dia da revolução, a liberdade ilimitada para satisfazer suas necessidades; mas se afirma na conquista da base social dessa sociedade comunista, estabelecendo os princípios de relações igualitárias entre os indivíduos. Quanto à questão da maior ou menor abundância de bens, não é formulada em nível de princípio, mas como um problema técnico. O princípio fundamental sobre o qual a nova sociedade será erguida, sobre o qual permanecerá e não deve ser limitado de forma alguma, é o da igualdade das relações, da liberdade e independência dos trabalhadores. Este princípio representa a exigência prioritária e fundamental das massas, exigência pela qual se sublevam e fazem a revolução social. De duas, uma: 1. ) A revolução social terminará com a derrota dos trabalhadores. Neste caso, devemos começar de novo a preparar a luta, uma nova ofensiva contra o sistema capitalista. 2. ) Ou, então, conduzirá à vitória dos trabalhadores. Neste caso, os trabalhadores se apossarão dos meios que lhes permitem sua auto-administração: a terra, a produção e as funções sociais, e começarão a construir uma sociedade livre. Eis o que caracteriza o início da construção de uma sociedade comunista, que, uma vez iniciada, seguirá então continuamente o curso de seu desenvolvimento, fortalecendo-se e se aperfeiçoando sem cessar. Dessa maneira, a tomada das funções produtivas e sociais pelos trabalhadores traçará uma linha demarcatória entre as épocas estatal e não-estatal.

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Se quiser se tornar o porta-voz das massas em luta, a bandeira de toda uma época de revolução social, o anarquismo não deve assimilar, em seu programa, os resíduos da velha ordem, as tendências oportunistas dos sistemas e períodos de transição, nem, tampouco, ocultar seus princípios fundamentais, mas, ao contrário, desenvolvê-los e aplicá-los ao máximo. Anarquismo e Sindicalismo Consideramos artificial, privada de todo fundamento e de todo sentido, a tendência a opor o comunismo libertário ao sindicalismo e vice-versa. As noções de anarquismo e sindicalismo pertencem a dois planos diferentes. Enquanto o comunismo, isto é, a sociedade de trabalhadores livres e iguais, é o objetivo da luta anarquista, o sindicalismo, isto é, o movimento operário revolucionário por profissão, é apenas uma das formas da luta revolucionária. Unindo os operários nos locais de produção, o sindicalismo revolucionário, como todo grupo profissional, não possui uma teoria determinada, uma concepção do mundo que responda a todas as complexas questões sociais e políticas da realidade atual. Ele reflete sempre a ideologia de diversos grupos políticos, notadamente aqueles que militam mais intensamente nos sindicatos. Nossa atitude em relação ao sindicalismo deriva do que já dissemos. Sem nos preocupar aqui em resolver com antecedência a questão do papel dos sindicatos revolucionários depois da revolução, ou seja, se eles serão os organizadores de toda a nova produção ou se eles deixarão esse papel para os conselhos de trabalhadores ou, ainda, os comitês de fábrica, nós entendemos que os anarquistas devem participar no sindicalismo revolucionário como uma das formas do movimento operário revolucionário. Porém, a questão que se coloca hoje não é se os anarquistas devem ou não participar no sindicalismo revolucionário, mas sim como e com que fim devem

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participar. Nós consideramos todo o período anterior, até o dia de hoje, quando os anarquistas entraram no movimento sindicalista na qualidade de militantes e propagandistas individuais, como um período de relações artesanais com o movimento operário profissional. O anarco-sindicalismo, tentando forçar a introdução das idéias libertárias na ala esquerda do sindicalismo revolucionário, como meio cujo fim é criar sindicatos de tipo anarquista, representa, sob este aspecto, um passo adiante. Mas não vai além do método empírico. Porque o anarcosindicalismo não liga necessariamente a tarefa de "anarquização" do movimento sindical com a tarefa de organização das forças anarquistas fora do movimento. Ora, é apenas mediante tal ligação que é possível "anarquizar" o sindicalismo revolucionário e impedi-lo de descambar para o oportunismo e o reformismo. Considerando o sindicalismo apenas como um movimento profissional de trabalhadores, sem uma teoria social e política determinada, e, portanto, incapaz de resolver por si mesmo a questão social, entendemos que a tarefa dos anarquistas no movimento consiste em desenvolver as idéias libertárias, orientando-o num sentido libertário, para transformá-lo numa força ativa da revolução social. É importante nunca esquecermos que, se o sindicalismo não encontrar apoio na teoria anarquista, ele se apoiará, então, concordemos ou não com isto, na ideologia de um partido político estatista qualquer. A título de exemplo, aliás chocante, podemos citar o sindicalismo francês. Este, no qual brilhavam as táticas e palavras de ordem anarquistas, logo sucumbiu à influência dos bolcheviques, por um lado, e, sobretudo, por outro, à influência dos socialistas oportunistas de direita. Mas a tarefa dos anarquistas nas fileiras do movimento operário revolucionário não poderá ser cumprida, a não ser que seja estreitamente ligada e conciliada com a atividade da organização anarquista fora do sindicato. Resumindo, devemos entrar nos sindicatos

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como uma força organizada, responsável pela atuação no sindicato perante a organização geral anarquista e orientados por ela. Sem nos limitar à criação de sindicatos anarquistas, devemos tentar exercer nossa influência teórica sobre o sindicalismo revolucionário como um todo e em todas as suas formas (a IWW, os sindicatos russos...). Só atingiremos este objetivo, agindo como coletivo anarquista rigorosamente organizado, jamais em pequenos grupos empíricos, que não possuem ligação organizacional nem convergência teórica. Grupos anarquistas em fábricas e empresas, preocupados em criar sindicatos anarquistas, lutando nos sindicatos revolucionários pela preponderância das idéias libertárias no movimento, grupos orientados em sua ação por uma organização geral anarquista: tais são os sentidos e as formas da atitude dos anarquistas em sua relação com o sindicalismo. Parte Construtiva Problemas da Revolução Social: o dia seguinte O objetivo fundamental dos trabalhadores em luta é a fundação, por meio da revolução, de uma sociedade comunista livre e igualitária, baseada no princípio: "De cada um segundo suas possibilidades, para cada um segundo suas necessidades." Contudo, essa sociedade não se realizará por si mesma, só pelo poder de uma sublevação social. Sua realização será um processo social-revolucionário, mais ou menos longo, conduzido num determinado caminho pelas forças organizadas do proletariado vitorioso. Nossa tarefa é, desde já, indicar esse caminho e antecipar os problemas positivos e concretos que os trabalhadores enfrentarão desde o primeiro dia da revolução social, cuja sorte dependerá de sua justa solução. É óbvio que a construção da nova sociedade será possível apenas depois da vitória dos trabalhadores sobre o

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capitalismo e seus representantes. Não é possível começar a construção de uma nova economia e de novas relações sociais enquanto o poder do estado que defende o regime de escravização não tiver sido esmagado, enquanto os operários e camponeses não tiverem tomado em suas mãos, durante a revolução, a economia industrial e agrária do país. Portanto, a primeira tarefa da revolução social é destruir o estado capitalista, expropriar a burguesia e, de modo geral, todos os elementos socialmente privilegiados, dos meios do poder, e implantar, em toda parte, a vontade do proletariado revoltado, expressa nos princípios fundamentais da revolução social. Este aspecto destrutivo e combativo da revolução nada mais fará do que desobstruir o caminho para as tarefas positivas que constituem o sentido e a essência da revolução socialAs tarefas são as seguintes: 1. A solução, no sentido comunista libertário, do problema da produção industrial do país. 2. A solução similar em relação ao problema agrário. 3. A solução do problema de consumo. Produção Levando em conta o fato de que a indústria do país é o resultado dos esforços de inúmeras gerações de trabalhadores e que os diversos ramos da indústria são estreitamente interligados, consideramos toda a função produtiva atual como uma só oficina de produtores, pertencendo totalmente ao conjunto dos trabalhadores, e a ninguém em particular. O mecanismo produtivo do país é global e pertence a toda a classe operária. Esta tese determina o caráter e a forma da nova produção. Ela será também global, comum, no sentido de que os produtos pertencerão a todos. Tais produtos, quaisquer que sejam, constituirão o fundo geral de provisões dos trabalhadores, do qual todo participante na nova produção receberá tudo que necessita, numa base igual para todos.

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O novo sistema de produção suprimirá totalmente o trabalho assalariado e a exploração, sob todas as suas formas, e estabelecerá em seu lugar o princípio da colaboração fraterna e solidária dos trabalhadores. A classe média, que na sociedade capitalista moderna, exerce funções intermediárias e improdutivas – comércio e outras - assim como a burguesia, deve participar na nova produção, nas mesmas condições de todos os outros trabalhadores. Caso contrário, essas classes se excluirão da sociedade trabalhadora. Não haverá patrões, sejam empresários, proprietários privados ou burocratas estatais (como no estado bolchevique). As funções organizadoras passarão, na nova produção, para os órgãos administrativos especialmente criados pelas massas operárias: conselhos de operários, comitês de fábrica ou gestão operária das fábricas e empresas. Esses órgãos, interligados na comuna, no distrito e, logo após, em todo o país, formarão as instituições das comunas, dos distritos, em suma, as instituições gerais e federais de gestão da produção. Designados pelas s massas e sempre sob seu controle e influência, todos esses órgãos serão constantemente renovados e realizarão assim a idéia da autogestão pelas massas. A produção unificada, cujos meios e produtos pertencem a todos, tendo substituído o trabalho assalariado pelo princípio da colaboração fraternal e tendo estabelecido a igualdade de direitos para todos os produtores; a produção dirigida pelos órgãos de gestão operária, eleitos pelas massas; tal é o primeiro passo no caminho para a realização do comunismo libertário. Consumo Esse problema surgirá na revolução sob um duplo aspecto: 1. O princípio da busca dos bens de consumo. 2. O princípio de sua distribuição. No que diz respeito à distribuição dos bens de

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consumo, as soluções dependerão, sobretudo, da quantidade de produtos disponíveis e do princípio da conformidade com o objetivo etc. A revolução social, encarregando-se da reconstrução de toda ordem social, assume a obrigação de satisfazer as necessidades vitais de todas as pessoas. A única exceção é o grupo dos não-trabalhadores - aqueles que se recusam a tomar parte na nova produção por motivos contrarevolucionários. Mas, em geral, excetuando estes, a satisfação das necessidades de toda a população do território da revolução social é assegurada pela reserva geral de consumo. Se houver escassez, os bens serão divididos de acordo com os princípios da maior urgência: isto é, em primeiro lugar as crianças, os enfermos e as famílias operárias. Um problema muito mais difícil é o da organização do próprio fundo de consumo. Sem dúvida, desde o primeiro dia da revolução, as cidades não disporão de todos os produtos necessários para a vida da população. Ao mesmo tempo, os camponeses terão em abundância os produtos que faltam às cidades. Os comunistas libertários não têm qualquer dúvida quanto ao caráter mútuo das relações entre os trabalhadores da cidade e do campo. Entendemos que a revolução social só pode ser realizada pelos esforços comuns de operários e camponeses. Em conseqüência, a solução do problema de consumo na revolução só pode ser possível mediante a estreita colaboração revolucionária entre essas duas categorias de trabalhadores. Para estabelecer essa colaboração, a classe operária urbana, tendo assumido a gestão da produção, deve imediatamente suprir as necessidades vitais do campo e se esforçar para fornecer os produtos do consumo diário, os meios e instrumentos para a agricultura coletiva. As medidas de solidariedade tomadas pelos trabalhadores, ao atender as necessidades dos camponeses, suscitará nestes a reciprocidade, enviando coletivamente seus produtos, em primeiro lugar os alimentícios, para as cidades.

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Cooperativas de operários e camponeses serão os primeiros órgãos a assegurar as necessidades de alimentação e de provisões para as cidades e os campos. Mais tarde, responsáveis por funções mais importantes e permanentes, notadamente de suprir o que for necessário para manter e desenvolver a vida econômica e social dos operários e camponeses, essas cooperativas serão transformadas em órgãos permanentes de suprimento das cidades e do campo. A solução do problema de suprimento permanente permitirá ao proletariado criar um estoque permanente, o que produzirá um efeito favorável e decisivo no resultado de toda a nova produção. A Terra Consideramos como principais forças revolucionárias e criadoras na solução da questão agrária os camponeses trabalhadores - aqueles que não exploram o trabalho de outras pessoas - e o proletariado rural. Sua tarefa é fazer a redistribuição da terra, para estabelecer o usufruto coletivo da terra sob princípios comunistas. Assim como a indústria, a terra, explorada e cultivada por sucessivas gerações de trabalhadores, é o resultado de seus esforços comuns. Ela pertence a todos os trabalhadores e a ninguém em particular. Enquanto propriedade comum e inalienável dos trabalhadores, a terra não poderá ser comprada ou vendida, nem alugada; portanto, ela não poderá servir como meio de exploração do trabalho de outros. A terra também é uma espécie de oficina popular e comunitária, onde as pessoas produzem seus meios de vida. Mas é uma espécie de oficina onde cada trabalhador (camponês) se acostumou, graças a certas condições históricas, a realizar o seu trabalho sozinho, independente dos outros produtores. Se, na indústria, o método coletivo de trabalho é essencial e o único possível, na agricultura, a maioria dos camponeses trabalha com seus próprios meios. Consequentemente, quando a terra e os meios de

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sua exploração são tomados pelos camponeses, sem possibilidade de venda nem de aluguel, a questão das formas de seu usufruto e dos métodos para sua exploração (comunal ou familiar) não encontrará uma solução completa e definitiva, como no setor industrial. No começo, provavelmente, serão utilizados os dois métodos. Os camponeses revolucionários estabelecerão a forma definitiva de exploração e de usufruto da terra. Nenhuma pressão externa é admissível nesta questão. Entretanto, considerando que: apenas a sociedade comunista, em cujo nome será feita a revolução social, isenta os trabalhadores de sua condição de escravos e explorados, dando-lhes completa liberdade e igualdade; que os camponeses são a esmagadora maioria da população (quase 85% na Rússia, no período em discussão) e que, consequentemente, o regime agrário que eles estabelecerem será um fator decisivo no destino da revolução; que, enfim, a economia privada na agricultura, assim como na indústria, leva ao comércio, à acumulação, à propriedade privada e à restauração do capital - é nosso dever, desde já, fazer tudo que for necessário para facilitar a solução da questão agrária, num sentido coletivo. Para tal fim, devemos nos empenhar numa intensa propaganda, entre os camponeses, a favor da economia agrária coletiva. A fundação de uma União Camponesa libertária específica facilitará consideravelmente esta tarefa. Em função disso, o progresso técnico terá enorme importância, acelerando a evolução da agricultura e a realização do comunismo nas cidades, sobretudo nas indústrias. Se, em suas relações com os camponeses, os operários agirem, não individualmente ou em grupos separados, mas como um imenso coletivo comunista, abrangendo todos os ramos industriais; se, além disso, atenderem as necessidades vitais do campo e se, ao mesmo tempo, abastecerem cada aldeia com os itens de uso diário, ferramentas e máquinas para a exploração coletiva das terras, certamente atrairão os camponeses para o comunismo na agricultura.

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A Defesa da Revolução A questão da defesa da revolução está ligada ao problema do "primeiro dia". Basicamente, o modo mais possante de defesa da revolução é a solução feliz para seus problemas positivos: a produção, o consumo e a terra. Se esses problemas forem justamente solucionados, nenhuma força contra-revolucionária será capaz de alterar ou desequilibrar a sociedade livre dos trabalhadores. Contudo, os trabalhadores terão que lutar duramente contra os inimigos da revolução, para defender e manter sua existência concreta. A revolução social, que ameaça os privilégios e a existência das classes não-trabalhadoras da sociedade, provocará inevitavelmente, da parte dessas classes, uma resistência desesperada que tomará a forma de uma feroz guerra civil. Como a experiência russa mostrou, tal guerra civil durará alguns anos. Por mais felizes que sejam os primeiros passos dos trabalhadores, no início da revolução, a classe dominante será capaz de resistir por um longo tempo. Durante muitos anos, ela desencadeará ofensivas contra a revolução, tentará reconquistar o poder e os privilégios que lhe foram arrebatados. Um enorme exército, estratégia e técnicas militares, capital - tudo será lançado contra os trabalhadores vitoriosos. Para preservar as conquistas da revolução, os trabalhadores devem criar órgãos de defesa da revolução, contrapondo-se à ofensiva da reação com uma força combatente à altura da tarefa. Nos primeiros dias da revolução, esta força será constituída por todos os operários e camponeses armados. Mas essa força armada espontânea será eficiente apenas durante os primeiros dias, quando a guerra civil ainda não alcançou seu clímax e os dois partidos em luta não criaram organizações militares regularmente constituídas.

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Na revolução social, o momento mais crítico não é o da supressão da autoridade, mas o seguinte, quando as forças do regime derrotado lançam uma ofensiva geral contra os trabalhadores e o importante é salvaguardar as conquistas alcançadas. O caráter dessa ofensiva, assim como a técnica e o desenvolvimento da guerra civil, obrigarão os trabalhadores a criar contingentes revolucionários militares determinados. A essência e os princípios fundamentais dessas formações devem ser decididos antecipadamente. Negando os métodos estatistas e autoritários para governar as massas, também rechaçamos o método estatista de organizar as forças militares dos trabalhadores, ou seja, o princípio de um exército estatista, fundado sobre o serviço militar obrigatório. É o princípio do voluntariado, de acordo com as posições fundamentais do comunismo libertário, que deve ser a base das formações militares dos trabalhadores. Os destacamentos de guerrilheiros insurgentes, operários e camponeses, que conduziram a ação militar na revolução russa, podem ser citados como exemplos de tais formações. Porém, o voluntariado e a ação guerrilheira não devem ser compreendidos estritamente, ou seja, como uma luta de destacamentos operários e camponeses contra o inimigo local, sem estar coordenados por um plano geral de operação e cada um agindo por sua conta e risco. A ação e as táticas dos guerrilheiros deverão ser orientadas, em seu completo desenvolvimento, por uma estratégia revolucionária comum. Como em todas as guerras, a guerra civil não pode ser realizada com sucesso pelos trabalhadores, a não ser que eles apliquem os dois princípios fundamentais de toda ação militar: unidade do plano de operações e unidade de comando. O momento mais crítico da revolução será quando a burguesia lançar contra a revolução suas forças organizadas. Então, os trabalhadores serão obrigados a adotar esses princípios de estratégia militar. Desta maneira, tendo em vista as necessidades da estratégia militar e a estratégia dos contra-revolucionários, as forças armadas da revolução deverão fundir-se num

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exército revolucionário geral, tendo um comando e um plano de operações comuns. Os princípios abaixo formam a base desse exército: 1. caráter de classe do exército; 2. voluntariado (toda coerção será completamente excluída da tarefa de defesa da revolução); 3. livre disciplina (autodisciplina) revolucionária: o voluntariado e a autodisciplina revolucionária são totalmente compatíveis, e tornarão o exército da revolução moralmente mais forte do que qualquer exército estatal; 4. total submissão do exército revolucionário às massas operárias e camponesas, representadas pelas organizações de operários e camponeses de todo o país, situados pelas massas na direção da vida econômica e social. Dito de outra maneira: o órgão de defesa da revolução encarregado de combater a contra-revolução, nas frentes militares externas assim como na guerra civil (conspirações burguesas, preparativos de ações contrarevolucionárias) será totalmente controlado pelas organizações produtivas de operários e camponeses, ás quais se submeterá e das quais receberá a orientação política. Atenção: Estando tudo construído conforme princípios comunistas libertários determinados, o exército não deve ser considerado um elemento de princípio. Ele nada mais é do que a aplicação da estratégia militar na revolução, uma medida estratégica à qual os trabalhadores são forçados pelo processo da guerra civil. Mas esta medida exige atenção, desde já, deve ser cuidadosamente estudada para evitar, na execução das tarefas de proteção e defesa da revolução, toda demora irreparável, pois tais hesitações, durante a guerra civil poderão ser desastrosos para a revolução social.

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Parte Organizacional Os Princípios da Organização Anarquista As posições gerais construtivas, acima expostas, constituem a plataforma de organização das forças revolucionárias do anarquismo. Esta plataforma, contendo uma orientação teórica e tática definitiva, aparece como o mínimo necessário e urgente para todos os militantes do movimento anarquista organizado. Sua tarefa é agrupar, em torno de si, todos os elementos saudáveis do movimento anarquista numa só organização geral, permanentemente ativa: a União Geral dos Anarquistas. As forças de todos os militantes ativos do anarquismo deverá ser orientada para a criação desta organização. Os princípios fundamentais de organização da União Geral dos Anarquistas serão os seguintes: Unidade Teórica A teoria representa a força que dirige a atividade das pessoas e das organizações por um caminho definido e para um objetivo determinado. Naturalmente, a teoria deve ser comum para todas as pessoas e organizações que aderirem à União Geral. Toda atividade da União Geral Anarquista, tanto em caráter geral como em particular, deve estar em perfeito acordo com os princípios teóricos da União. Unidade Tática ou Método Coletivo de Ação Os métodos táticos empregados por membros e grupos da União também devem ser unitários, ou seja, estar rigorosamente de acordo entre si e com a teoria e tática geral da União. Uma linha tática comum no movimento tem importância decisiva para a existência da organização e de todo o movimento, prevenindo-o contra os efeitos nefastos

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de várias táticas que se neutralizam mutuamente, e concentrando todas as suas forças, orienta-o numa direção comum que conduz a um objetivo determinado. Responsabilidade Coletiva A prática que consiste em agir em nome da responsabilidade pessoal deve ser condenada e rejeitada no movimento anarquista. Os domínios da vida revolucionária, social e política, são antes de tudo coletivos por sua natureza. A atividade social revolucionária não pode se basear na responsabilidade pessoal dos militantes isolados. O órgão executivo do movimento geral anarquista, a União Anarquista, contrapondo-se decisivamente à tática irresponsável do individualismo, introduz em suas fileiras o princípio da responsabilidade coletiva: toda a União deverá ser responsável pela atividade revolucionária e política de cada membro; da mesma forma, cada membro será responsável pela atividade revolucionária e política da União como um todo. Federalismo O Anarquismo sempre negou a organização centralizada, na vida social das massas quanto e em sua ação política. O sistema de centralização atrofia o espírito crítico, a iniciativa e a independência de cada indivíduo, e promove a cega submissão das massas ao 'centro'. As conseqüências, naturais e inevitáveis, desse sistema são a escravidão e a mecanização da vida social e da vida dos grupos. Contra o centralismo, o anarquismo sempre professou e defendeu o princípio do federalismo, que harmoniza a independência e a iniciativa dos indivíduos ou da organização com o interesse da causa comum. Conciliando a idéia de independência e a plenitude dos direitos de cada indivíduo com os interesses e necessidades sociais, o federalismo incentiva toda

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manifestação saudável das faculdades de cada indivíduo. Mas, com freqüência, o princípio federalista tem sido deformado nas fileiras anarquistas: tem sido compreendido como o direito, sobretudo, da manifestação do 'ego', sem a obrigação de cumprir seus deveres na organização. Essa interpretação falsa desorganizou nosso movimento no passado. É tempo de acabar com isso, de modo forte e irreversível. Federalismo significa livre entendimento, entre indivíduos e organizações, na ação coletiva orientada para o objetivo comum. Ora, tal entendimento e a união federativa baseada nela se tornarão realidade, em vez de ficção e ilusão, somente na indispensável condição de que todos os que participam do entendimento e na União cumpram os deveres assumidos, em conformidade com as decisões tomadas em comum. Numa construção social, por mais vasta que sejam as bases federalistas sobre as quais se funda, não poderá haver direitos sem obrigações, nem decisões sem a respectiva execução. Isto é ainda menos admissível numa organização anarquista, que assume exclusivamente obrigações quanto aos trabalhadores e a revolução social. Por conseguinte, o tipo federalista de organização anarquista, reconhecendo os direitos (quais sejam: independência, opinião livre, iniciativa e liberdade individual) de cada membro, exige que cada membro cumpra seus deveres organizacionais determinados, assim como a rigorosa execução das decisões tomadas em comum. Unicamente sob esta condição, o princípio federalista viverá, e a organização anarquista funcionará corretamente, dirigindo-se para um objetivo definido. A idéia da União Geral dos Anarquistas põe o problema da coordenação e da aprovação das atividades de todas as forças do movimento anarquista.

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Cada organização aderente à União representa uma célula vital, parte de um organismo comum. Cada célula terá seu secretariado, executando e orientando teoricamente sua própria atividade política e técnica. Tendo em vista a coordenação da atividade de todas as organizações aderentes à União, um órgão especial será criado: o Comitê Executivo da União. Este último será responsável pelas seguintes funções: execução das decisões tomadas pela União; orientação teórica e organizacional da atividade das organizações isoladas, de acordo com as opiniões teóricas e a linha tática geral da União; supervisão do estado geral do movimento; manutenção das ligações práticas e organizacionais entre todas as organizações na União, e com outras organizações. Os direitos e obrigações, as tarefas práticas do comitê executivo são fixadas pelo Congresso da União. A União Geral dos Anarquistas possui um objetivo determinado e concreto. Em nome do sucesso da revolução social, ela deve antes de tudo se apoiar sobre os elementos mais revolucionários e radicais dentre os operários e camponeses, assimilando-os. Proclamando a revolução social e, além disso, sendo uma organização antiautoritária que luta pela abolição imediata da sociedade de classes, a União Geral dos Anarquistas se apóia igualmente sobre duas classes fundamentais da sociedade atual: os operários e os camponeses. A União se empenhará de modo igual na luta pela emancipação dessas duas classes. Quanto aos sindicatos, às organizações operárias e revolucionárias nas cidades, a União Geral dos Anarquistas intensificará seus esforços para se tornar seu destacamento de vanguarda e guia teórico. Ela assumirá as mesmas tarefas na relação com as massas camponesas exploradas. Como pontos de apoio, desempenhando o papel dos sindicatos revolucionários para os operários, a União se esforçará para criar uma rede de organizações econômicas camponesas revolucionárias e, além disso, um sindicato de camponeses específico,

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fundado sobre princípios antiautoritários. Nascida do coração da massa trabalhadora, a União Geral dos Anarquistas deve participar de todas as manifestações de sua vida, contribuindo, por toda a parte e sempre, com o espírito de organização, perseverança, atividade e ofensiva. Somente assim, ela cumprirá sua tarefa, sua missão teórica e histórica na revolução social dos trabalhadores, e se tornar a iniciativa organizada de seu processo emancipador.

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Definições mínimas das organizações revolucionárias
Guy Debord

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Considerando que o único fim de uma organização revolucionária é a abolição das classes existentes por meios que não levem a uma nova divisão da sociedade, qualificamos de revolucionária qualquer organização que procure de maneira conseqüente a realização internacional do poder absoluto dos conselhos de trabalhadores tal e como tem sido esboçado pelas experiências das revoluções proletárias deste século. Tal organização apresenta uma crítica unitária do mundo ou não é nada. Por crítica unitária entendemos uma crítica dirigida globalmente contra todas as zonas geográficas onde se instalaram diversas formas de poderes sócio-econômicos separados, e que se pronuncia também globalmente contra todos os aspectos da vida. Tal organização reconhece o princípio e o fim de seu programa na descolonização total da vida quotidiana; não pretende a autogestão do mundo existente pelas massas, senão sua transformação ininterrupta. Realiza a crítica radical da economia política, a superação da mercadoria e do salário. Tal organização rechaça toda a reprodução em seu interior das condições hierárquicas do mundo dominante. O único limite de participação em sua democracia total é o reconhecimento e a auto-apropriação por todos os seus membros da coerência de sua crítica: essa coerência deve estar na teoria crítica propriamente dita e na correlação entre essa teoria e a atividade prática. Critica radicalmente toda ideologia enquanto poder separado das idéias e idéias do poder separado. Assim, ela é ao mesmo tempo a negação de toda sobrevivência da religião e do atual espetáculo social que, desde a informação até a cultura massificada, monopoliza toda comunicação dos homens entorno de uma recepção unilateral das imagens de sua atividade alienada. Dissolve toda a "ideologia revolucionária" desmascarando-a como indicação do fracasso do projeto revolucionário, como propriedade privada dos novos especialistas do poder, como impostura de uma nova representação que se erige da vida real proletarizada.

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Sendo a categoria de totalidade o juízo último da organização revolucionária moderna, tal organização é em última análise uma crítica da política. Deve ter como objetivo explícito, com sua vitória, o seu próprio fim como organização separada. Guy Debord, outubro de 1955.
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Preliminares sobre os Conselhos e a Organização Conselhista
René Riesel
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Publicado originalmente em Internationale Situationniste nº 11, outubro de 67. Trad. de Juan Fonseca publicada en DEBATE LIBERTARIO 2 - Serie Acción directa - Campo Abierto Ediciones Primera edición: maio de 1977. Traduzido do espanhol pelos editores do sítio www.geocities.com/autonomiabvr Em http://www.geocities.com/autonomiabvr/minima.html

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"O governo operário e camponês decretou que Kronstadt e os navios rebeldes devem submeterse imediatamente à autoridade da República Soviética. Portanto, ordeno a todos que levantaram a mão contra a pátria socialista que deponham as armas de imediato. Os desobedientes serão desarmados, detidos e entregues às altas autoridades soviéticas. Os comissários e outros representantes do governo que se encontram detidos, devem ser libertados já. Só quem se render incondicionalmente poderá contar com a misericórdia da República Soviética. Ao mesmo tempo, ordenamos que seja preparada a repressão e a submissão dos amotinados pelas armas. Toda responsabilidade pelos prejuízos que possa sofrer a população pacífica recairá sobre os amotinados contra-revolucionários. Esta advertência é a definitiva." Trotski, Kamenev. "Ultimatum a Kronstadt", 5 março 1921 "A única coisa que temos a dizer é: TODO O PODER AOS SOVIETS! Tirai vossas mãos deste poder, vossas mãos tingidas com o sangue dos

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mártires da liberdade que lutaram contra os guardas brancos, latifundiários e a burguesia. " lzvestia de Kronstadt nº6, 7 março 1921 Há 50 anos, os leninistas reduziram o comunismo à eletrificação, a contra-revolução bolchevique construiu o estado soviético sobre o cadáver do poder dos sovietes, a palavra Soviete deixou de traduzir-se por Conselho. Nesse período, as revoluções ocorridas sempre lançaram na cara dos senhores do Kremlin a reivindicação de Kronstadt: "Todo o poder aos sovietes, não aos partidos!" A tendência real do movimento proletário para o poder dos Conselhos Operários, no decorrer de meio século de tentativas e fracassos sucessivos, indica para a nova corrente revolucionária que os Conselhos são a única forma de ditadura anti-estatal do proletariado e o único tribunal que poderá pronunciar o juízo contra o velho mundo, ao mesmo tempo que executará a sentença. “Como nos é necessário precisar a noção de Conselho, descartaremos as grosseiras falsificações acumuladas pela social-democracia, a burocracia russa, o titismo e inclusive o benbelismo, mas sobretudo reconheceremos as insuficiências das breves experiências práticas que até agora se esboçaram do poder dos Conselhos e os erros das concepções dos revolucionários conselhistas. (...)” Aquilo para o qual o Conselho tende a ser em sua totalidade, aparece delineado negativamente pelos limites e as ilusões que marcaram suas primeiras manifestações e pela luta imediata e sem compromisso que as classes dominantes empreenderam contra ele, ambos os fatores causaram sua derrota. O Conselho pretende ser a forma de unificação prática dos proletários, que se apropriam dos meios materiais e intelectuais para transformar as condições existentes e realizam soberanamente sua história. O conselho pode e deve ser a organização em ato da consciência histórica. Porém nunca em nenhum lugar o poder dos Conselhos chegou a transpor a separação que congenitamente comportam as organizações políticas especializadas e as formas de falsa consciência ideológica que estas produzem. Além do mais,

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se os Conselhos, como sujeitos principais de um momento revolucionário, são normalmente Conselhos de Delegados que coordenam e federam as decisões dos conselhos locais, se pode constatar que as assembléias gerais de base quase sempre tem sido consideradas como meras assembléias de eleitores de maneira que o primeiro grau de "um Conselho" se situaria mais num nível superior que nas assembléias gerais locais de todos os proletários revolucionários, o próprio Conselho, de onde qualquer tipo de delegação deve obter em qualquer instante seu poder (mandato). Deixando de lado os traços pré-conselhistas que entusiasmaram Marx na Comuna de Paris ("a forma política enfim descoberta sob a qual pode se realizar a libertação econômica do trabalho") e que melhor do que na Comuna eleita se manifesta na organização do Comitê Central da Guarda Nacional, composto por delegados do proletariado parisiense, o primeiro esboço de uma organização própria do proletariado em um momento revolucionário, foi o famoso "Conselho de Deputados Operários" de São Petesburgo. Segundo as cifras dadas por Trotski em 1905, uns 200.000 operários enviaram seus delegados ao Soviet de São Petesburgo, mas sua influência se estendia muito mais além de sua zona, pois muitos outros Conselhos da Rússia se inspiraram em suas deliberações e decisões; agrupava diretamente aos trabalhadores de mais de 150 empresas e além disso acolhia os representantes de 16 sindicatos que se uniram ao Conselho. Seu primeiro núcleo se formou em 13 de outubro, mas já no dia 17 instituía por cima dele um Comitê Executivo que, disse Trotski, "lhe servia de ministério". Sobre um total de 562 delegados, o Comitê Executivo formavam 31 membros dos quais 22 eram realmente trabalhadores delegados pelo conjunto dos trabalhadores e 9 representavam os três partidos revolucionários (mencheviques, bolcheviques e socialrevolucionários); no entanto os "representantes dos partidos não tinham voto nas deliberações". Podemos admitir, pois, que as assembléias de base estavam representadas fielmente pelos seus delegados revogáveis, mas evidentemente eles haviam abdicado de grande parte de seu poder e de maneira totalmente parlamentarista a favor

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de um Comitê Executivo em que os "técnicos" dos partidos políticos tinham uma influência imensa. Qual foi a origem deste Soviet? Parece que esta forma de organização foi encontrada por alguns elementos politicamente instruídos da base operária e que pertenciam a alguma fração socialista. Parece excessiva a afirmação de Trotski ao dizer que "uma das organizações socialdemocratas de Petesburgo tomou a iniciativa da criação de um administração autônoma revolucionária operária". (Além do mais, destas "duas organizações", quem em seguida reconhecem a importância desta iniciativa foram os mencheviques). Entretanto, a greve de outubro de 1905 se erigiu de fato em Moscou em 19 de setembro, quando os tipógrafos da empresa Sytin se puseram em greve, fundamentalmente porque queriam que os sinais de pontuação estivessem entre os 1000 caracteres que constituíam a unidade de pagamento de seu trabalho. Cinqüenta empresas lhes seguiram e em 25 de setembro as gráficas de Moscou constituíram um conselho. Em 3 de outubro, "a assembléia de deputados operários das corporações de artes gráficas, de mecânica, carpintaria, de tabaco e outras, adotou a resolução de constituir um conselho (Soviet) geral de Moscou" (Trotski, op. cit.). Vemos, pois, que esta forma aparece espontaneamente no princípio do movimento de greve. E este movimento que começou a esfriar nos dias seguintes se vivificou de novo até alcançar a grande crise histórica de 7 de outubro, quando os trabalhadores ferroviários, a partir de Moscou espontaneamente começaram a interromper o tráfego de trens. O movimento de conselhos de Turim, de março-abril de 1920, foi iniciado pelos proletários da Fiat que constituíam um núcleo muito concentrado. Entre agosto e setembro de 1919, ocorreu a renovação dos eleitos em uma "comissão interna" – uma espécie de comitê de empresa colaboracionista fundado por um convênio coletivo de 1906 com o objetivo de integrar melhor os operários –, o que ocasionou uma transformação completa do papel desses "comissários" na situação de crise social que então assolava a Itália. Assim, começaram a se federarem entre eles como

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representantes diretos dos trabalhadores. Em outubro de 1019, trinta mil trabalhadores estavam representados em uma assembléia de "comitês executivos dos Conselhos de fábrica", que mais parecia uma reunião de contra-mestres que a uma organização de conselhos dita (sobre a base de um comissário eleito por cada oficina). Mas o exemplo foi seguido, se estendeu e o movimento se radicalizou, sustentado por uma fração do Partido Socialista, que era majoritária em Turim (com Gramsci) e pelos anarquistas piemonteses (Cf. o folheto de Pier Carlo Masini, Anarchici e comuniste nel movimento dei Consigli a Torino). O movimento foi combatido pela maioria do Partido Socialista e pelos sindicatos. Em 15 de março de 1920, os Conselhos iniciaram a greve com ocupação de fábricas e colocaram em marcha a produção sob seu absoluto controle. Em 14 de abril, a greve já era geral no Piemonte. Nos dias seguintes, alcançou grande parte do norte da Itália, sobretudo entre os ferroviários e os estivadores. O governo recorreu a navios de guerra para desembarcar em Gênova as tropas que marcharam sobre Turim. Se o programa dos Conselhos foi aprovado mais tarde pela União Anarquista Italiana, reunida em Bolonha, em 1 de julho, não ocorreu o mesmo por parte do Partido Socialista e sindicatos, que conseguiram sabotar a greve mantendo-a no isolamento. O diário do Partido, Avanti, não publicou a convocatória da seção socialista de Turim, enquanto que a cidade era tomada por 20.000 soldados e policiais (cf. P.C. Masini). A greve, que teria possibilitado uma vitoriosa insurreição proletária em todo o país, foi esmagada em 24 de abril. Sabemos o que ocorreu depois. Reconhecendo o caráter avançado dessa experiência pouco citada (muitos esquerdistas crêem que as ocupações de fábrica começaram na França em 1936), devemos assinalar as ambigüidades de seus defensores e teóricos. Por exemplo, Gramsci, no nº4 de Ordine Nuovo (2º ano), escrevia: “Nós concebemos o Conselho de fábrica como o princípio histórico que deve conduzir necessariamente à fundação de um Estado Operário". Por seu lado, os anarquistas conselhistas estimavam ainda o sindicalismo e pretendiam que os Conselhos lhe dessem um novo impulso.

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Contudo, o manifesto lançado pelos conselhistas de Turim, em 27 de março de 1920, "aos operários e camponeses da Itália" por um Congresso Geral dos Conselhos (que não aconteceu), formula alguns pontos essenciais do programa dos Conselhos: "A luta de conquista se faz com armas de conquista e não de defesa" (refere-se aos sindicatos, organismos de resistência... cristalizados em uma forma burocrática - Nota da I.S.). Devemos desenvolver uma organização nova como antagonista direta dos órgãos de governo dos patrões; por isso deve surgir espontaneamente no lugar de trabalho e reunir todos os trabalhadores porque todos, como produtores, estamos submetidos a uma autoridade que nos é estranha e devemos nos libertar dela (...) Eis aqui a origem da liberdade: a origem de uma formação social que, estendendo-se rápida e universalmente, nos porá em vias de eliminar do terreno econômico o explorador e o intermediário, e nos tornarmos donos de nossas máquinas, de nosso trabalho, de nossa vida... Os Conselhos de operários e de soldados na Alemanha de 1918-1919, que estavam dominados pela burocracia social-democrata e eram alvo de suas manobras, toleravam o governo "socialista" de Ebert, que se apoiava no estado maior do exército alemão e nos corpos francos (militares desmobilizados). Os "7 pontos de Hamburgo" (sobre a liquidação imediata do antigo exército), apresentados por Dorrenbach e aprovados no Congresso dos Conselhos de Soldados, iniciado em 16 de dezembro em Berlim, nunca foram aplicados pelos "comissários do povo". Os Conselhos eram um obstáculo para a revolução, assim como as eleições legislativas marcadas para 19 de janeiro. Finalmente, ocorreu o ataque contra os marinheiros de e o esmagamento da insurreição espartaquista na mesma véspera das eleições. Em 1956, o Conselho Operário Central da Grande Budapeste, formado em 14 de novembro, se declarava disposto a defender o socialismo e, ao mesmo tempo que exigia "a retirada de todos os partidos políticos das fábricas", se pronunciava pela volta de Nagy ao poder e pela fixação de eleições livres num prazo dado. A greve geral se

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mantinha, enquanto as tropas russas esmagavam a resistência armada. Mas, mesmo antes da segunda intervenção do exército russo, os Conselhos húngaros pediam eleições parlamentares; isto é, buscavam chegar a uma situação de duplo poder, quando eram o único poder real na Hungria frente aos russos. A consciência do que o poder dos Conselhos é e deve ser nasce da prática desse poder. Mas em uma fase que esse poder seja parcial, a consciência pode ser muito diferente do que pensa tal ou qual trabalhador membro de um conselho ou inclusive a totalidade de um Conselho: a ideologia se opõe à verdade em atos que encontra seu terreno no sistema dos Conselhos. Esta ideologia se manifesta não somente sob forma de ideologias hostis ou sob forma de ideologias sobre os Conselhos edificados por forças políticas que querem submetê-los, senão também sob a forma de uma ideologia favorável ao poder dos conselhos que restringe e dosifica a teoria e a praxis total. Por último, um puro conselhismo seria também por si mesmo inimigo da realidade dos Conselhos. Tal ideologia, sob formulações mais ou menos conseqüentes, comporta o risco de ser veiculada por organizações revolucionárias que, em princípio estão orientadas para o poder dos Conselhos. Este poder, que é em si mesmo a organização da sociedade revolucionária e cuja coerência está objetivamente definida pelas necessidades dessa tarefa histórica tomada como conjunto, não pode, em nenhum caso, deixar de lado o problema prático das organizações particulares, inimigas do Conselho ou mais ou menos veridicamente pré-conselhistas que de todas as formas intervirão em seu funcionamento. É necessário que as massas organizadas em Conselhos conheçam e resolvam este problema. Aqui, a teoria conselhista e a existência de autênticas organizações conselhistas, adquire singular importância porque neles aparecem já alguns elementos essenciais que estarão em jogo nos Conselhos e em sua própria interação com os Conselhos. Toda a história revolucionária mostra que a aparição de uma ideologia joga um papel não desprezível no fracasso dos Conselhos. A facilidade com a qual a organização

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espontânea do proletariado em luta assegurou suas primeiras vitórias freqüentemente anunciou uma segunda fase em que a reconquista se operou desde dentro, em que o movimento prescindiu de sua realidade pela sobra de seu fracasso. O conselhismo é, neste sentido, a nova juventude do novo mundo. Social-democratas e bolcheviques têm em comum a vontade de não querer ver nos Conselhos mais que um organismo do Partido e do Estado. Em 1902, Kautsky, inquieto pelo descrédito que alcançava aos sindicatos, no ânimo dos trabalhadores, propunha que em certos ramos da indústria, os trabalhadores elegessem "delegados que formariam uma espécie de parlamento que tivesse como missão regulamentar o trabalho e vigiar a administração burocrática" (A Revolução Social). A idéia de uma representação operária hierarquizada que culminaria em um parlamento seria aplicada com muito mais convicção por Ebert, Noske e Scheidemann. A maneira como esse gênero de conselhismo trata os Conselhos foi magistralmente demonstrada, para todos os que têm merda no lugar do cérebro, desde 9 de novembro de 1918, quando para combater em seu próprio terreno a organização dos Conselhos, os social-democratas fundaram nas oficinas do Vorwaerts um "Conselho de Operários e Soldados de Berlim" que contava, como homens de confiança das fábricas, funcionários e líderes social-democratas. O conselhismo bolchevique não tinha nem a ingenuidade de Kautsky nem o descaramento de Ebert. Saltou da base mais radical "Todo o poder aos Soviets", para cair de patas no outro lado de Kronstad. Em As tarefas Imediatas do Poder dos Sovietes (abril de 1918), Lenin adiciona enzimas ao detergente Kautsky: "Os parlamentos burgueses, inclusive os das melhores, do ponto de vista democrático, repúblicas capitalistas do mundo, não são considerados pelos pobres como algo seu e para eles (...). Precisamente, o contato dos sovietes com os trabalhadores é que cria formas particulares de controle por baixo – eleição de deputados, etc., – formas que devemos agora nos empenhamos em desenvolver com zelo particular. Por isso, os conselhos de instrução pública que são as conferências

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periódicas dos eleitores soviéticos e seus delegados, reunidos para discutir e controlar a atividade das autoridades soviéticas neste campo, merecem toda a nossa simpatia e nosso apoio. Nada seria tão estúpido como transformar os soviets em algo fixo de antemão, em um objetivo em si. Quanto mais resolutamente nos pronunciemos por um poder forte e implacável, pela ditadura pessoal em tal processo de trabalho, em tal momento do exercício de funções puramente executivas, mais variados serão os meios de controle por baixo com o objetivo de paralisar toda possibilidade de deformação do poder dos Sovietes, a fim de extirpar, agora e sempre, a embriaguês burocrática". para Lenin, pois, os Conselhos devem atuar como grupos de pressão que corrijam a inevitável burocracia do Estado em suas funções políticas e econômicas, assegurados respectivamente pelo Partido e os Sindicatos. Os Conselhos seriam, no máximo, a parte social, que, como a alma de Descartes, é preciso que resida em alguma parte. Gramsci tentou melhorar Lênin com um banho de formalidades democráticas: "Os comissários de fábricas são os únicos e verdadeiros representantes sociais (econômicos e políticos) da classe operária, porque são eleitos pelo sufrágio universal de todos os trabalhadores, no próprio lugar de trabalho. Nos diferentes graus de sua hierarquia, os comissários representam a união de todos os trabalhadores, tal como esta se realiza nos organismos de produção (equipe de trabalho, departamento de fábrica, união de fábricas de uma indústria, união de organismos da indústria mecânica e agrícola de uma província, de uma região, de uma nação, do mundo), sendo os Conselhos e o sistema dos Conselhos o poder e a direção social" (artigo de Ordine Nuovo). Se os conselhos ficam reduzidos ao estado de fragmentos econômico-sociais que preparam uma "futura república soviética", não cabe dúvida de que o Partido, esse "príncipe moderno", aparece como o indispensável aparato político, como o deus mecânico preexistente e desejoso de assegurar sua existência futura: "O partido comunista é o instrumento e a forma histórica de libertação graças ao qual os operários, de executantes se transformam em dirigentes,

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de massas se transformam em chefes e guias, de braços se transformam em cérebros e vontades" (Ordine Nuovo, 1919). O tom muda, mas a ladainha é a mesma: Conselhos, Partido, Estado. Tratar os Conselhos de maneira fragmentária (poder econômico, poder social, poder político), como fazem os cretinos conselhistas do grupo Revolution Internationale de Toulouse, é crer que se apertas o cu, te enrabam menos. O austro-marxismo, desde 1918, na linha de lenta evolução que preconiza, também constrói uma ideologia própria. Max Adler, por exemplo, em seu livro Democracia e Conselhos Operários, vê acertadamente o Conselho como instrumento de auto-educação dos trabalhadores, o possível fim da separação entre executantes e dirigentes, a constituição de um povo homogêneo que poderá realizar a democracia socialista. Mas reconhece também que o simples fato de que os trabalhadores detém um poder não é suficiente para garantir-lhes um objetivo revolucionário coerente: para isto será preciso que os trabalhadores membros dos Conselhos queiram realizar o socialismo. Como Adler é um teórico do duplo poder legalizado, isto é, de um absurdo que forçosamente será incapaz de manter-se aproximando-se gradualmente à consciência revolucionária e preparando prudentemente um revolução para mais tarde, se encontra privado do único elemento verdadeiramente fundamental de auto-educação do proletariado: a própria revolução. Para substituir o insubstituível terreno de homogeneização proletária, a única forma de seleção constituída pela formação dos Conselhos, das idéias e dos modos de atividade coerente nos conselhos, não ocorre a Adler mais que a aberração: "Para ter direito de voto na eleição dos Conselhos operários bastará pertencer a uma organização socialista" . À margem da ideologia sobre os Conselhos, de socialdemocratas e bolcheviques, que desde Berlim a Kronstadt tiveram sempre um Trotski ou um Noske de plantão, podemos afirmar que a ideologia conselhista - ou seja, a das organizações conselhistas do passado e de algumas do presente - sempre tem alguma assembléia e alguns mandatos imperativos de menos. Com exceção das

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coletividades agrárias Aragão, todos os Conselhos que existiram até hoje foram "conselhos democraticamente eleitos" somente no mundo das idéias, ainda quando os momentos máximos de sua prática desmentiam esta limitação e todas as decisões eram tomadas por Assembléias Gerais soberanas que dava, seu mandato a delegados revogáveis. Unicamente a prática histórica, na qual a classe operária encontrará e realizará todas as suas possibilidades, indicará as formas organizativas concretas do poder dos Conselhos. No entanto, corresponde aos revolucionários a tarefa de estabelecer os princípios fundamentais das organizações conselhistas que nascerão em todos os países. Formulando hipóteses e recordando as exigências fundamentais do movimento revolucionário, este artigo que deverá ser seguido por alguns mais, quer abrir um debate igualitário e real. Só excluiremos aqueles que evitem esta questão destes termos, a saber: aqueles que declaram-se hoje inimigos de toda forma de organização em nome de um espontaneísmo subanarquista não fazem mais que produzir as taras e o confusionismo do antigo movimento; místicos da não-organização, operários desanimados ao ter-se misturado durante demasiado tempo com as seitas trotskistas ou estudantes prisioneiros de sua pobre condição, que são incapazes de escapar dos sistemas organizativos bolcheviques. Os situacionistas evidentemente são partidários da organização e a existência da organização situacionista o atesta. Os que anunciam seu acordo com nossas teses pondo um vago espontaneismo em nosso fazer simplesmente não sabem ler. Precisamente por não ser tudo e por não permitir salvar ou ganhar tudo, a organização é indispensável. Ao contrário do que dizia o carniceiro Noske (em Von Kiel bis Kapp) a propósito da jornada de 6 de janeiro de 1919, as massas não foram se apossaram de Berlim nesse dia, ao meio-dia, não porque tiveram "bons oradores" no lugar de "chefes decididos", mas porque a forma de organização autônoma dos Conselhos de fábrica não alcançara um grau suficiente de autonomia para atuar sem "chefes decididos" e sem organização separada que assegurasse a união. O

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exemplo de Barcelona, em maio de 1937, é outra prova do que dizemos: o fato de que as armas surgiram imediatamente, em resposta à provocação stalinista, mas também que a ordem de rendição lançada pelos ministros anarquistas foi tão rapidamente obedecida, fala alto e claro, tanto sobre as imensas capacidades de autonomia das massas catalãs como da autonomia que ainda lhes faltava para vencer. Amanhã mesmo, será o grau de autonomia operária o que decidirá nossa sorte. As organizações conselhistas que se formarem posteriormente não deixarão de reconhecer e de retomar como ponto de partida a Definição Mínima das Organizações Revolucionárias, adotada pela Sétima Conferência da Internacional Situacionista. Sendo tarefa de tais organizações a preparação do poder dos conselhos, que é incompatível com qualquer outra forma de poder, deverão saber que um acordo abstrato dado a esta definição as condena sem remédio a não ser nada. Por isso seu acordo real se verificará praticamente nas relações nãohierárquicas no interior dos grupos ou seções que os constituem, nas relações entre esses grupos e nas relações com outros grupos e organizações autônomas; tanto no desenvolvimento da teoria revolucionária e na crítica unitária da sociedade dominante como na crítica permanente de sua própria prática. Recusando a velha bifurcação do movimento operário em organizações separadas, partidos e sindicatos, elaborarão seu programa e prática unitárias. Todas as organizações conselhistas do passado que jogaram um papel importante na luta de classes consagraram a separação entre os setores político, econômico e social. Um dos poucos partidos antigos que merecem ser analisados é o Kommunistische Arbeiter Partei Deutschlands (K.A.P.D. - Partido Comunista Operário Alemão) que, ao adotar os conselhos em seu programa, só se propunha como tarefas essenciais a propaganda e a discussão teórica, "a educação políticas das massas", deixando à Allgemeine Arbeiter Union Deutschlands (A.A.U.D., União Geral de Trabalhadores da Alemanha) o papel de federar as organizações revolucionárias das fábricas, concepção que se distanciava pouco do

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sindicalismo tradicional. O K.A.P.D. rechaçava o parlamentarismo e o sindicalismo do K.P.D. (Kommunistische Partei Deutschlands - Partido Comunista Alemão), assim como a idéia leninista do partido de massas e preferia agrupar os trabalhadores conscientes, mas ainda estava preso ao velho modelo hierárquico de partido de vanguarda, ou seja, profissionais da revolução e redatores assalariados. A recusa desse modelo, explicitada na negação de uma organização política separada das organizações revolucionárias de fábrica, levou em 1920 à cisão de uma parte dos membros da A.A.U.D., que fundaram a A.A.U.D.- E (Allgemeine Arbeiter Union Deutschlands Einheitsorganisation, União geral dos trabalhadores da Alemanha - Organização unificada). A nova organização unitária assumiria, mediante o novo jogo de sua democracia interna, a tarefa de educação até então desempenhada pelo K.A.P.D., e se incumbiria da coordenação das lutas: as organizações de fábricas que federava se converteriam ou transformariam em Conselhos no momento revolucionário e assegurariam a gestão da sociedade. Assim, a moderna consigna do Conselho Operário estava ainda mesclada às recordações messiânicas do antigo sindicalismo revolucionário: as organizações de fábrica se converteriam magicamente em Conselhos quando todos os operários estivessem integrados nelas. Tudo isso levou ao que tinha que levar. Depois do esmagamento da insurreição de 1921 e da repressão do movimento, os operários, desiludidos pelo distanciamento do horizonte revolucionário, abandonaram em grande número as organizações de fábrica que estavam em perigo no momento que deixavam de ser órgãos de um luta real. A A.A.U.D. era o mesmo que o K.A.P.D. e a A.A.U.D.-E. A revolução se distanciava na mesma velocidade que seus efetivos diminuíam. Já não eram mais que organizações portadoras de uma ideologia conselhista, cada vez mais separada da realidade. A evolução terrorista do K.A.P.D. e o apoio exclusivo da A.A.U.D. a reivindicações puramente "alimentícias" produziu em 1929 a cisão entre a organização das fábricas e seu partido. Mortas em vida, a A.A.U.D. e A.A.U.D.-E se

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fundiram grotescamente e sem preâmbulos, ante a ascensão do nazismo em 1931. Os revolucionários das ambas as organizações se reagruparam por sua vez para formar a K.A.U.D. (Kommunistische Arbeiter Uiiion Deutschlands, União de Trabalhadores Comunistas da Alemanha), que sendo uma organização minoritária com consciência de sê-lo, foi a única que não pretendeu assumir a organização econômica (econômico-política no caso da A.A.U.D.-E) futura da sociedade. A K.A.U.D. propôs aos operários a formação de grupos autônomos, o que asseguraria por si mesmo a união desses grupos. Mas na Alemanha a K.A.U.D. chegava demasiado tarde. Em 1931, o movimento revolucionário havia morrido há dez anos. Mesmo que não seja mais que para ouvir-lhes o relinchar, vamos lembrar aos que ainda se obstinam na querela marxismo-anarquismo, o que a C.N.T.-F.A.I. (deixando de lado o peso morto da ideologia anarquista, mas com muito mais prática e imaginação libertadora) se parecia em suas disposições organizativas ao marxista K.A.P.D.-A.A.U.D. Da mesma maneira que o Partido Comunista Operário Alemão, a Federação Anarquista Ibérica quer ser a organização política dos trabalhadores espanhóis conscientes, enquanto que a A.A.U.D. e a C.N.T. se encarregariam da organização da sociedade futura. Os militantes da F.A.I., elite do proletariado, difundem a idéia anarquista entre as massas; a C.N.T. organiza praticamente os trabalhadores em seus sindicatos. Mas entre as organizações alemã e espanhola há duas diferenças essenciais, uma ideológica, de onde resultará o que se podia esperar: a F.A.I. não quer tomar o poder e se contentará com influenciar a totalidade da conduta da C.N.T.; e a outra é decisiva – a C.N.T. representa realmente a classe operária espanhola. Dois meses antes da explosão revolucionária, o congresso cenetista de Saragoça, em 1 de maio 1936, adotou um dos mais belos programas revolucionários que organização nenhuma do passado propôs, programa que será parcialmente aplicado pelas massas anarcosindicalistas, enquanto seus chefes soçobram no ministerialismo e na colaboração de classes. Com os favoritos das massas, García-Oliver, Segundo Blanco, etc., e

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a subintelectual Montiseny, o movimento libertário antiestatal, que havia sobrevivido a Kropotkin, o príncipe anarquista, encontrava no fim a coroação histórica de seu absolutismo ideológico: os anarquistas de governo. Na última batalha que livrou o anarquismo viria cair sobre si todo o molho ideológico que era seu ser: Estado, Liberdade, Indivíduo e outras espécies maiúsculas com que se bajulavam. Enquanto isso, os milicianos, operários e camponeses libertários salvavam sua honra e adicionavam a maior contribuição prática ao movimento proletário de toda a história: queimavam igrejas, combatiam em todas as frentes a burguesia, o fascismo e o estalinismo; começavam a realizar a sociedade comunista. Atualmente, existem organizações que simulam não o ser. Este achado lhes permite evitar ocupar-se do mais elementar esclarecimento das bases a partir das quais podem reunir não importa quem (com a mágica etiqueta de "trabalhador"); não prestar contas a seus semimembros da direção informal que alguns exercem; dizer não importa o que e, sobretudo, condenar indiscriminadamente qualquer outra organização possível e qualquer enunciado teórico, maldito de antemão. Assim, o grupo "Informations Correspondance Ouvrières", escreveu (I.C.O. nº84, agosto de 1969): "Os conselhos são a transformação dos comitês de greve sob a influência da situação mesma e em resposta às necessidades próprias da luta, na dialética própria da luta. Qualquer outra tentativa para formular, num momento dado de uma luta, a necessidade de criar conselhos operários denota uma ideologia conselhista, tal como se pode observar sob formas diversas em alguns sindicatos, no P.S.U. ou nos situacionistas. O conceito mesmo de Conselho exclui toda a ideologia". Esses indivíduos não sabem nada do que é ideologia e a sua se distingue das outras por seu ecletismo invertebrado. Mas têm ouvido sinos (talvez em Marx, talvez apenas na I.S.) que falavam que a ideologia era uma coisa ruim e entenderam que toda atividade teórica, do qual eles fogem como da peste, é ideologia, o mesmo nos situacionistas como no P.S.U. Mas seu valente recurso à "dialética" e ao "conceito" , adornos de seu vocabulário, não lhes põe a salvo de uma ideologia imbecil suficientemente

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testemunhada por esta frase. Se contamos com o "conceito" de Conselho somente, ou o que é mais entusiástico, com a inatividade de I.C.O. "para excluir toda a ideologia", nos Conselhos reais podemos esperar o pior: aí está a experiência histórica que nega todo o otimismo desse gênero. A superação da forma primitiva dos Conselhos virá de lutas cada vez mais conscientes e de uma maior consciência. A imagem mecanicista da I.C.O., quando fala da perfeita e automática resposta do comitê de greve às "necessidades", que dá a entender que o Conselho surgirá por conta própria e na sua hora, na condição sobretudo de que não se fale do assunto, despreza totalmente as experiências das revoluções de nosso século, que mostram que "a situação por si mesma" tende mais exatamente a fazer desaparecer os Conselhos ou sua recuperação, que a fazê-los surgir. Deixemos essa ideologia contemplativa, sucedâneo degrado das ciências naturais que quer observar a aparição de uma revolução proletária como uma erupção solar. Se formarão organizações conselhistas e deverão ser o contrário de um estado maior que faria os conselhos surgirem por decreto. Apesar de que o movimento das ocupações de maio de 68 abriu um novo período de crise social, que se manifestou aqui e ali, desde a Itália até a U.R.S.S., é provável que demore bastante até se constituirem verdadeiras organizações conselhistas e se produzam movimentos revolucionários importantes diante dos quais essas organizações não estão em condições de atuar num nível importante. Não se deve brincar com a organização conselhista lançando ou sustentando paródias. Do que não resta dúvida é que os Conselhos terão mais oportunidades de se manter como único poder se neles se encontram conselhistas conscientes e em posse da teoria conselhista. Ao contrário do conselho como permanente unidade de base (constituindo e modificando constantemente a partir dele os Conselhos de delegados), assembléia na qual devem participar todos os operários de um empresa (conselhos de oficinas, conselhos de fábricas) e todos os habitantes de um setor urbano aderido à revolução

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(conselhos de ruas, conselhos de bairros), a organização conselhista, para garantir sua coerência e o exercício efetivo de sua democracia interna, deverá escolher seus membros conforme o que aqueles querem expressamente e conforme o que podem fazer efetivamente. A coerência dos conselhos está garantida pelo fato de que são o poder, eliminam qualquer outra forma de poder e decidem sobre tudo. Essa experiência prática é o terreno em que todos os homens adquirem a inteligência de sua própria ação, no qual "realizam a filosofia". Existe o risco de cometer erros passageiros e de que não se disponha do tempo e dos meios para os retificar; mas os Conselhos terão em conta que sua própria sorte é o produto verdadeiro de suas decisões e que sua existência necessariamente cessará pelo contragolpe de seus erros não dominados. Na organização conselhista, a igualdade real de todos na tomada de decisões e na execução destas não será um slogan vazio, uma reivindicação abstrata. É evidente que todos os membros de uma organização não tem o mesmo talento, e que um operário escreverá sempre melhor que um estudante. Mas dado que a organização possuirá globalmente todas as capacidades necessárias, complementariamente, nenhuma hierarquia de faculdades individuais virá sabotar a democracia. A adesão a uma organização conselhista e a proclamação de uma igualdade ideal é evidente que não fará com que seus membros sejam todos bonitos, inteligentes e que saibam viver, mas permitirá que suas atitudes reais para serem mais bonitos, mais inteligentes, etc., se desenvolvam no único jogo que vale a pena: a destruição do velho mundo. Nos movimentos sociais que se produzem, os conselhistas não deixarão que sejam eleitos comitês de greve. Sua tarefa, ao contrário, consistirá em atuar para que todos os operários se organizem pela base, em assembléias gerais que decidirão a conduta a seguir na luta. Faz falta que se comece a compreender que a absurda reivindicação de um "comitê central de greve", lançada por alguns ingênuos durante o movimento das ocupações de Maio de 68, se tivesse logrado, haveria sabotado mais rapidamente ainda o movimento para a autonomia das massas, porque

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quase todos os comitês de greve estavam controlados pelos estalinistas. Dado que não pretendemos forjar um plano que valha para qualquer situação futura, e que um passo adiante do movimento real dos Conselhos valerá mais que um dezena de programas conselhistas, é difícil emitir hipóteses precisas no que concerne a relação das organizações conselhistas com os Conselhos em um momento revolucionário. A organização conselhista – que sabe que está separada do proletariado – deverá deixar de existir como organização separada no instante em que forem abolidas as separações, inclusive se a completa liberdade de associação garantida pelo poder dos Conselhos deixa sobreviver diversas organizações e partidos inimigos deste poder. No entanto, é discutível que todas as organizações conselhistas se dissolvam como queria Pannekoek, desde o momento em que os Conselhos apareçam. Os conselhistas falarão como tais no interior dos conselhos e não deverão propor uma dissolução exemplar de suas organizações para logo reunir-se ao lado e brincar de grupos de pressão sobre a assembléia geral. Assim lhes será mais fácil e legítimo o combate e a denúncia da inevitável presença de burocratas, espiões e velhos furagreves que se infiltrarão por todas as partes. Também será preciso lutar contra os falsos Conselhos ou os fundamentalmente reacionários (Conselhos de policiais), que sem dúvida aparecerão, atuando de maneira que o poder unificado dos Conselhos não reconheça estes organismos e nem seus delegados. Ao ser exatamente contrário a seus fins, a infiltração em outros tipos de organizações e por rechaçar toda a incoerência em seu seio, as organizações conselhistas proíbem a dupla militância. Já dissemos que todos os trabalhadores de uma fábrica, ou ao menos os que o aceitam, devem formar parte do Conselho, mas no caso "daqueles que tiraremos da fábrica com a metralhadora na mão " (Barth) só poderemos achar a solução em seu momento. A organização conselhista só poderá se julgada, em ultima instância, pela coerência de sua teoria e de sua ação, na luta pela desaparição completa de todo poder exterior

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aos Conselhos ou que tente constituir-se fora deles. Para simplificar e não tomar em consideração a onda de pseudoorganizações conselhistas que estudantes e pessoas obcecadas pelo militantismo profissional simularão, digamos que não será reconhecida como conselhista a organização que não se componha pelo menos de uma terça parte de trabalhadores. E como esta proporção pode parecer como uma concessão, nos parece indispensável corrigi-la mediante esta regra: se estabeleceria que em toda delegação para conferências centrais, onde se pode tomar decisões não previstas por mandato imperativo, os trabalhadores seriam 3/4 do conjunto de participantes. Em resumo, a proporção inversa à que se deu nos primeiros congressos do "partido operário social-democrata da Rússia". Sabe-se que nós não temos nenhuma tendência ao obreirismo, qualquer que seja a forma que adote. Trata-se de que os trabalhadores "se tornem dialéticos", do mesmo modo em que o farão, mas então em massa, com o exercício do poder dos Conselhos, porque são, agora e sempre, a força central capaz de deter o funcionamento existente na sociedade e a força indispensável para reinventar todas as suas bases. Além do mais, mesmo que a organização conselhista não deva separar-se de outras categorias de assalariados, sobretudo dos intelectuais, é fundamental que esses últimos tenham limitada a importância que podem tomar, tanto considerando todos os aspectos de sua vida para verificar se são autenticamente revolucionários e conselhistas, como limitado seu número de modo que na organização sejam o mínimo possível. A organização conselhista não aceitaria falar de igual para igual com outras organizações se estas não são partidárias conseqüentes da autonomia do proletariado; do mesmo modo que os Conselhos terão que se desfazer não só dos desejos de recuperação de partidos e sindicatos senão de tudo aquilo que tenda a fazer-se um lugar sob o sol e a tratar com os Conselhos de poder para poder. Os Conselhos serão a única potência ou não serão nada. Os meios de sua vitória já são sua vitória. Com a alavanca dos Conselhos e o ponto de apoio de uma negação total da

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sociedade espetacular-mercantil, pode-se mover a terra. A vitória dos conselhos não se situa no fim, mas no princípio da revolução. René Riesel, 1969

Comunalismo e Autonomia
Jaime Martinez Luna

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Apresentação Os trabalhos aqui apresentados são reflexões elaboradas desde ângulos e perspectivas diferentes, que incidem na necessidade de ordenar o conhecimento regional. Sua importância está em poder ser utilizado como material de consulta para o desenvolvimento de projetos participativos voltados para o desenvolvimento e bem estar regional. Lidos de maneira integral, estes materiais se apresentam como resultados de uma investigação quotidiana, de uma atividade intelectual integralmente comprometida com a vida comunitária. Por estas razões apresentamos estes materiais substanciais para a reflexão em torno da proposta dos povos indígenas sobre autonomia e autodeterminação, mas sobretudo para a compreensão da vida das comunidades indígenas e seu modelo interno de organização sóciopolítica, tudo isso em um momento de muita importância e transcendência que se caracteriza pelo profundo desconhecimento que possui a sociedade e o governo sobre a problemática e forma da vida indígena. Sirvam pois estes documentos para ilustrar o processo dos povos Zapoteco, Mixe e Chinanteco em sua luta por condições de vida mais justas, mais dignas.

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O autor/compilador pode ser contatado no seguinte endereço: Jaime Martínez Luna, Fundación comunalismo, domicilio conhecido. Guelatao de Juárez, C.P. 68770, Oax. México - c.e.: comunal@itonet2.itox.mx -tel: 955-360264 Declaração dos Povos Serranos Zapotecos e Chinantecos da Sierra Norte de Oaxaca Recebemos com profunda preocupação os fatos que estão padecendo nossos irmãos indígenas no Estado de Chiapas. Embora a sociedade nacional se tenha manifestado surpreendida pela violenta presença no cenário militar e político do Exército Zapatista de Libertação Nacional; nós não. Temos considerado o fato como a grande possibilidade para que nós, povos indígenas, sejamos reconhecidos em nossas verdadeiras necessidades, para que contribuamos com os princípios e conhecimentos que temos possibilidade de oferecer para toda a sociedade. É do conhecimento de todos o permanente genocídio que se abate sobre nossos povos. Depois de quinhentos anos, não se procura compreender os nobres ideais que nós, povos indígenas, temos reproduzido e mantido, o profundo respeito pela nossa mãe terra e seus herdeiros, a permanente convicção de consensar nossa participação, e nossa possibilidade de prosseguir dando a nosso país uma identidade cultural digna e gratificante. O que sucede no Estado de Chiapas, nos convida e nos convoca a uma serena reflexão do que somos e do que queremos ser no futuro, da impostergável organização que devemos ter para tornar realidade os sonhos que estão sendo enterrados por meio da violência, do engano, da exploração e da marginalização. Tempos de decisão e de reflexão nos esperam. Por ele emitimos a seguinte declaração para contribuir o debate sobre nosso futuro, e o do México.

4Em

livre tradução para a língua portuguesa pelo Coletivo Periferia http://www.reocities.com/projetoperiferia -periferia@mail.comperiferia@mail.com -caixa postal 52550 - CEP 08010710 - São Miguel Pta. -- São Paulo -- Brasil]

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Primeiro Nosso trabalho e nossos recursos naturais tem sido entendidos unicamente como uma mercadoria, um valor e um suor que só serve para enriquecer economicamente a alguns homens nunca para enobrecê-los. O resultado desta mentalidade tem sido a aprobiosa exploração de nossos povos e a cruel e irracional exploração de nossos recursos naturais. Temos constatado isso na mineração, na silvicultura, na selvagem concentração do manejo de nossos recursos aquíferos, e inclusive na utilitária exploração de nossos alimentos em benefício de um desenvolvimento industrial urbano e alheio a nossas necessidades de bem estar. Esta situação expulsou de nossas comunidades a milhares ou milhões de nossos irmãos em busca do pão, do abrigo, de condições de vida que de maneira sistemática nos foram arrebatadas. Apesar disso seguiremos resistindo, um exemplo dessa resistência, se bem que violenta, é manifestado na atualidade pelos nossos irmãos do EZLN. Não podemos dizer que nos orgulhamos de seu método de trabalho, mas compreendemos seu desespero. Para a solução desta insustentável situação em que vivem nossos povos, fazemos a seguinte proposta: 1.- Que seja reintegrada a terra a todas aquelas comunidades que demonstrem pelo ouso e pelo direito, a posse de seu território. Que seja avaliada a capitalização de seus recursos naturais usurpados e que com seu pago, estes recursos sejam orientados pelos povos indígenas na direção que mais considerem conveniente. 2.- Que o futuro uso, aproveitamento ou exploração, tanto de seu território como dos recursos que nele existem, sejam as comunidades que decidam o que fazer com base em suas organizações tradicionais, tenham ou não um reconhecimento governamental. Para a definição deste procedimento pode-se apelar fundamentalmente à decisão de suas assembléias e de suas autoridades tradicionais. 3.- Nos casos quando estes conflitos tenham que ser dirimidos entre as comunidades, que se nomeie um

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organismo técnico civil para sua solução, mas que em nenhum caso participe uma autoridade governamental, salvo como observador. O mesmo nos casos de problemas agrários internos, estes devem ser dirimidos a partir das próprias assembléias comunitárias. QUEREMOS AUTODETERMINAÇÃO SOBRE NOSSO TERRITÓRIO. Segundo Não apenas neste período moderno trataram de nos impor uma organização social alheia a nossa cultura, há mais de quinhentos anos este fenômeno tem sido observado. À luz da realidade atual, podemos afirmar que não pode continuar essa homogeneização desta sociedade tão diversa e plural. É tempo que se reconheça que é precisamente nossa organização social e os princípios que nela se reproduzem o que tem permitido nossa sobrevivência. A eliminação de nosso território e das fontes elementares de vida seguem e seguirão ameaçando nossa existência. Nossa organização tem mostrado aspectos que não apenas são úteis para nossos povos como também para a sociedade em geral, por ela é recomendável recuperar e dar um impulso verdadeiro em todos os âmbitos. É através dela que temos resolvido nossas ancestrais necessidades sem negar tampouco o útil que possa oferecer-nos as outras sociedades contemporâneas. Quando afirmamos a riqueza de nossa organização social estamos referindo-nos a nossa vida assembleária, a nossos mecanismos de representação, a nosso trabalho coletivo e comunitário, a nossos conhecimentos, a nossas tradições e a nossas culturas particulares. A força e reprodução do EZLN se explica em razão desta organização social, por isso para sua conservação e desenvolvimento propomos o seguinte: 1.- Que a sociedade nacional aceite como legítima e legal nossa organização social e política. 2.- Que os partidos políticos não sigam dividindo a nossas comunidades e doutrinando-a com base em princípios ocidentais e racionalistas que nada tem a ver com nosso

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comunalismo. 3.- Que seja esta organização que decida o futuro e as características do desenvolvimento que desejamos para as comunidades indígenas. 4.- Que a representação emanada desta organização seja levada em conta no concerto político nacional. OU SEJA, QUEREMOS AUTONOMIA POLÍTICA. Isto não que dizer que queremos seguir a antidemocracia, pelo contrário, consideramos que o respeito à nossa organização um princípio fundamental para a democracia. 5.-Propomos também que as instituições desenvolvimentistas e indigenistas desapareçam e que em seu lugar estejam as organizações que diretamente se relacionam com os técnicos na medida do necessário. Que os meios de comunicação que operam em nossas regiões passem ao poder de organismos civis que demonstrem interesse e capacidade para sua operação. Consideramos que em nossa região como em outras do Estado de Oaxaca estas propostas são plausíveis e de fácil realização. Embora também visualizemos sua possibilidade em todas as regiões indígenas do país. Terceiro Desde sempre somos apelidados como índios frouxos porque não buscamos a acumulação de capital e menos ainda comodidades onerosas. Nos chamam de anticapitalistas e de socialistas primitivos. Sem embargo a realidade é distinta. Toda interpretação ocidental ou racional de nosso comportamento, tem como essência central a incompreensão de nossa filosofia econômica. Nossa relação com a terra é harmônica, por isso convivemos com ela, por isso não a utilizamos nem a exploramos. Não queremos dizer tampouco, que a fome e nossa situação geral em alguns casos nos tenha levado a casos extremos. A pressão sobre nós, tem provocado que estes princípios não se manifestem em toda sua intensidade e riqueza e que com o passar dos dias esta se siga deteriorando em prejuízo de nosso futuro e desenvolvimento.

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O aproveitamento de nossos recursos florestais, minerais, aquíferos, faunísticos, assim como os ritmos e tecnologia que temos para o uso de nossa terra, devem ser respeitados em todas suas dimensões e categorias. Toda inovação tecnológica deverá ser também decisão de nossas comunidades. A comercialização de nossos produtos assim como a de outros produtos que possamos gerar, deverão estar sob a responsabilidade independente dos conselhos comunitários de abastecimento e que sejam estes os que manejem a empresa Diconsa e seus armazéns. Para o reforço desta filosofia econômica propomos o seguinte: 1.- Que aquilo a ser feito em matéria de desenvolvimento, seja decidido por nossas comunidades e organizações, definindo o regional de acordo com seus mui particulares interesses e necessidades. 2.- Naqueles casos onde existem programas de governo que tenham se adaptado a nossas particularidades, estes sejam tornados independentes, ou seja, que seja materializada a transferência de suas funções. 3.- Que os recursos econômicos sejam entregues à sua administração diretamente para estas unidades ou grupos de organizações sem a presença de nenhum intermediário. No caso mui particular de nossa região a entrega destes recursos deve restringir-se diretamente a cada autoridade municipal, e não apenas às cúpulas municipais. 4.Quando as próprias autoridades municipais considerarem benéfica a presença de uma organização intercominitária ou grupo civil intermediário, isto deverá ser respeitado. 5.- Que a administração e aproveitamento dos recursos naturais renováveis e não renováveis passe para o poder das comunidades, sem a mediação da presença de autoridade governamental normativa, em outras palavras, QUEREMOS CAMINHAR COM AUTO-SUFICIÊNCIA ECONÔMICA DENTRO DE NOSSOS PRÓPRIOS PARÂMETROS.

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6.- Que tudo o que é colocado aqui seja integrado como filosofia tanto nos programas de governo, os quais devem desenhar-se desde nossas comunidades, assim como em todos os preceitos constitucionais que devam intervir. Quarto Independentemente dos esforços que se tem feito para que a educação leve em conta nossas particularidades culturais. Consideramos que a educação em vez de fortalecer-nos, tem minado ainda mais nossa organização, nossos princípios e nossos conhecimentos. No que diz respeito a nossos filhos obedece a alinhamentos institucionais tanto em conteúdos como em métodos e responsabilidades, a participação de nossas comunidades é nula. Os impactos negativos deste sistema é visto no desprezo que propicia ao nosso labor campesino, a permanente contradição que existe entre o que querem nossos professores e o que nós queremos, (se bem que haja excessões) a pouca relevância que dá à conservação de nossos recursos naturais, assim como a falta de respeito que sistematicamente se tem pelas nossas tradições. Isto se manifesta na mesma avaliação que se realiza da educação ministrada em nossas regiões. Avaliação que sempre resulta adversa e não leva em conta o outro lado da moeda. Para impedir os permanentes abusos que se expressam nesse aspecto e com a finalidade de afiançar nosso desenvolvimento educacional e cultural que responda a nossas verdadeiras aspirações, propomos o seguinte: 1.- A criação de conselhos educativos, comunitários, mircroregionais e regionais, para o desenho dos conteúdos educativos que devam ser trabalhados. Estes conselhos educativos serão os responsáveis em verificar se a educação está orientada para o trabalho, para o respeito de nossos valores, para a participação em nossas tradições e para o tratamento dos valores nacionais que também nos sejam úteis. 2.- A nomeação de professores em cada comunidade deverá ser responsabilidade destes conselhos, que deverão ser

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selecionados de acordo com linguísticas e organizacionais. nossas necessidades

3.- Os recursos dirigidos à educação deverão chegar de maneira direta e em conjunto com os recursos que sejam utilizados em outras áreas do afazer comunitário. EM SUMA, A EDUCAÇÃO DEVE ESTAR NAS MÃOS DE NOSSAS PRÓPRIAS COMUNIDADES. Quinto É evidente o divórcio entre os preceitos constitucionais, e nossas práticas tradicionais de justiça, apesar do agregado ao artigo quarto constitucional. Isto é mais dramático na aplicação das leis. O nível de corrupção nos encarregados de ministrar a justiça do Estado é tal que tem assustado nossas comunidades. O que sucede em Chiapas é uma resposta extrema ao que aqui ocorre, mas em todas as comunidades indígenas padecemos esta mesma situação. A tortura, o encarceramento injusto assim como a formação dos advogados nas Universidades vão nessa direção. Os governos estatais nem sequer dão conta da abordagem que se realizam a nível de nossas práticas tradicionais. O centros de readaptação, está mais que demonstrado, são centros de aniquilamento social, cultural e econômico. Sem embargo existe cegueira e ouvidos surdos para nossas experiências que poderia tratar estes assuntos de melhor maneira que qualquer preceito legal. Para a solução desta permanente violação a nossos mais elementares direitos humanos, propomos o seguinte: 1.- Que desapareçam os centros de readaptação social e que em seu lugar se integrem centros ou conselhos de justiça comunitária e regional. 2.- Que nas Universidades desapareçam as escolas de direito, ou que estas tenham uma nova especialidade como o Direito Comunitário ou Tradicional. 3.- Que desapareçam todas as agências do ministério público e juizados assentados nas áreas indígenas, e que dêem lugar aos conselhos comunitários e conselhos

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regionais de justiça. 4.- Que os conselhos comunitários e regionais de justiça não tenham nenhum intermediário ante o governador e que os recursos econômicos destinados a esta tarefa sejam administrados por estes conselhos. Estes determinarão se é necessário uma equipe auxiliar ou fazer as coisas de acordo com nossas tradições. QUEREMOS AUTONOMIA JURÍDICA DENTRO DE UM ESTADO DE DIREITO QUE RESPEITE NOSSO DIREITO COMUNITÁRIO. NOSSA REGIÃO TEM SE COMPORTADO ATÉ ESTE MOMENTO MUI CONSERVADORA COM A NAÇÃO, PORQUE TEMOS HERDADO O ESFORÇO E A CONVICÇÃO DE BENITO JUÁREZ. NO ENTANTO, NÃO SE DEVE ESQUECER QUE SOMOS UM VULCÃO LATENTE QUE EM QUALQUER MOMENTO PODE ENTRAR EM ERUPÇÃO, SE NÃO ATENDEREM AS VELHAS REIVINDICAÇÕES DE JUSTIÇA PELA QUAL TANTOS SERRANOS TÊM DADO SUA VIDA. Tudo o que foi acima delineado é um primeiro rascunho sujeito à análise dos intelectuais, técnicos, autoridades e cidadãos em geral, em toda a região das montanhas zapotecas e chinantecas de Oaxaca. A região agradeceria sua opinião e suas correções. Guelatao de Juárez. 13 de fevereiro de 1994 Descriminação e Democracia em Estado Multiétinico O porvir, o futuro, não é do cosmos, de meu século, de meu país. Minha existência de nenhuma maneira será dedicada à preparação do mundo que me sobreviverá. Pertenço irredutivelmente à minha época. Frantz Fanon. Ao refletir sobre a discriminação e democracia em um estado multiétnico, não nos referimos à realidade individual enfrentada pela população índia do México em 1994, mas à realidade das coletividades, comunidades, organizações, que dia a dia reformulam sua relação com um

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estado-nação que no discurso reivindica a pluralidade, mas que na prática insiste na uniformização social e econômica. Tampouco nos referiremos à explicação histórica deste fenômeno, já que os povos índios atuais são o resultado permanente das imposições culturais e econômicas do estado moderno, portanto não são fruto de reminiscências mas de relações sociais atuais sempre diferentes, permanentemente sustentadas em interesses que impedem o ou pelo menos limitam o desenvolvimento pleno da sociedade indígena, que também tem suas propostas de desenvolvimento, que também tem suas propostas inovadoras de convivência social. Nossa experiência se limita de maneira precisa a uma região do Estado de Oaxaca, sem embargo temos compartilhado estas reflexões com comunidades e organizações de varias regiões do Estado, assim como com organizações e pensadores indígenas de todas as regiões do país, de forma que se destaco as experiências diretas de minha região de origem estas se sustentam no que se reflete em vários estados do país. Todo este procedimento ou conceito de comunidade e conduta explica nosso modo de ser indígena, um conceito que por certo temos desenvolvido em outros trabalhos, mas que abarca a presente reflexão. Nosso sagrado território comunal A reorganização do estado revolucionário, teve que ceder de algum modo às pressões dos camponeses encabeçados por Emiliano Zapata, o que beneficiou em grande medida a pequena propriedade representada pelo povo de Carranza, sem embargo, neste processo as comunidades indígenas puderam sustentar a defesa de seus territórios comunais. Embora seja certo que na atualidade o território de luta Zapatista, é maioritariamente mestiço, naqueles anos, nossos irmãos nahuas foram um grande sustento para suas políticas. Embora os territórios comunais fossem uma realidade de muitos anos atrás, a luta Zapatista permitiu sua sobrevivência, tanto que na constituição foi estipulado de maneira muito precisa os três regimes de

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propriedade: a pequena propriedade, a ejidal e a comunal. Sempre se considerou que os territórios comunais eram improdutivos, mas eles eram defendidos por uma população que naqueles anos não podia ser atendida pelo estado moderno. Talvez seja por isso que a imensa maioria de territórios comunais se mantiveram intatos, os demais território foram repartidos em pequenas propriedades e outros muitos convertidos em ejidos. As propriedades comunais estão localizadas nas áreas mais batidas, em zonas de baixa produtividade agrícola, em regiões agrestes e desprovidas da comunicação. Todos os territórios susceptíveis de ser capitalizados caíram em mãos de uns quantos, o comunal acabou conferido a uma população plenamente discriminada do progresso geral da nação. A discriminação do território comunal se revela na ambiguidade manifesta da lei da reforma agrária, um processo que desemboca nos anos noventa com as modificações no Artigo 27, onde se assinala que os territórios comunais indígenas serão matéria de proteção por parte do estado, longe disso representar uma garantia o que ocorre na realidade é o contrário, as modificações no Artigo 27 tornaram essas terras susceptíveis de venda pois as assembléias comunais deixam de ser a máxima autoridade para converter-se em um simples órgão de governo. Quer dizer, se nos anos setenta a ambiguidade lhes garantia a sobrevivência, nos anos noventa elas são postas à venda; e são postas à venda porque o processo econômico nacional, marcadamente neoliberal, possibilita que os recursos até agora não descobertos e situados em zonas de território comunal, tornaram-se um alvo fácil diante dos interesses do grande capital, além disso, a extrema pobreza que padecemos, da qual mais adiante comentaremos, aumenta as possibilidades de uma alienação paulatina, e ou até mesmo, do extermínio das populações que vivem nessas regiões. Desde outra perspectiva, o território comunal tem sido para os povos indígenas não apenas um patrimônio para sua sobrevivência, mas a própria fonte de sua realização quotidiana. A terra para a comunidade não

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significa uma mercadoria mas uma relação, uma expressão profunda de sua visão do mundo. A terra não é uma coisa, é a própria mãe da comunidade. O território é sagrado, o espaço onde a diversidade se reproduz. Para a sociedade mestiça, a terra é mercadoria e um elemento mais de uniformidade, de individualidade, de seguridade econômica. Para os povos indígenas não, a terra é de todos e para as futuras gerações. A discriminação com respeito ao território se demonstra precisamente na forma como é tratado. O trato liberal tende à homogeneização e não ao respeito à pluralidade. O trato liberal vê o território comunal como um obstáculo para o desenvolvimento, não como um possível aporte de novas relações com a natureza, relações menos individualizadas e mais respeitosas de proteção e conservação do meio ambiente e da biodiversidade. As possibilidades da democracia no México, encontra de maneira concreta um paralelo no tratamento aos territórios comunais. Um estado democrático deve estar fundado na pluralidade, na livre expressão cultural de seus conjuntos sociais e no profundo respeito às particularidades. O território comunal é uma delas, por ele a democracia é e deve ser compreendida como o respeito à livre relação dos homens com a terra, com seu entorno. Não é de surpreender que a luta dos Zapatistas chiapanecos em 1994 encontra na defesa de seu território uma das essenciais motivações de sua guerra. O mesmo sentimos com o resto dos povos indígenas. Pelo território comunal buscamos a democracia, o respeito à pluralidade, à realidade do México atual. Nossa irracionalidade econômica Ser pobre em qualquer rincão equivale a ser índio. Tanto em cidades, como nos cinturões de miséria, como nas cidades provincianas, como nas mais distantes áreas rurais mestiças. Ser pobre é ser índio. Creio em verdade que vivemos dentro de uma sociedade nacional verdadeiramente cínica. Os fatores que tem promovido a pobreza nas comunidades indígenas tem vindo do exterior.

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Em primeiro lugar, a usurpação de nossas melhores terras, a exploração desmesurada de nossa mão de obra, os fatores de comercialização que elevam os custos de nossos produtos e elevam o consumo dos artigos de manufatura industrial, a educação que privilegia a formação individual frente à cooperação comunitária, os meios de comunicação que dão ênfase no triunfo individual e discriminam o êxito coletivo, as leis, etc. Tudo vem de fora. Definitivamente, não temos espírito empresarial. Mas isto não é ruim como se pretende afirmar. Vejamos por partes esta questão: Em primeiro lugar, nossa economia está dirigida para dois aspectos: o autoconsumo e os fatores de acumulação para a partilha com a comunidade. Consideremos que a terra nos dá o que necessitamos, e se nos dá mais do que necessitamos, a produção é partilhada principalmente nas festas ou nas celebrações de bairro ou familiares. Assim, a acumulação não significa capitalização; pelo contrario, significa uma oportunidade para reunir a comunidade. Alguém poderia dizer: Ah, que tontos! Então! Quando vão deixar de ser pobres? Claro! É aí que está a diferença! Não nos sentimos pobres. Na realidade fazem com que nos sintamos pobres e nos tornam efetivamente cada vez mais pobres. Além disso há a imagem do desenvolvimento. O ocidente, com toda sua heterodoxia, acha que o que devemos ter são as comodidades de um mundo urbano, de um mundo que privilegia as mercadorias e não a relação ou a convivência harmônica entre os homens. A mercadoria, a acumulação, são valores que não sentimos como necessários. Apesar disso, sem embargo, pouco a pouco tais coisas nos são introduzidas por todos os poros da vida quotidiana. A discriminação à nossa economia, é a pior discriminação de que somos vítimas. Essa discriminação é a culpada pela nossa extrema pobreza. Esta discriminação, e novamente como referencia, conduziu os Zapatistas chiapanecos a levantar-se em armas. E com razão, embora não tenhamos todos as mesmas condições para segui-los de

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maneira imediata. Enquanto não houver esse entendimento e enquanto houver o envolvimento com a promoção de programas assistenciais como Procampo e programas de solidariedade, não vamos conseguir assumir nossa verdadeira personalidade econômica. Sei em vez da assistência com milho da Conasupo, elevassem nossos preços de garantia de tal modo que o pudéssemos vender a preços respeitáveis, ou melhor, se em vez do uso da propriedade como garantia para pagamento de créditos nos permitissem desenhar nossos próprios programas de produção, a coisa mudaria. Sem embargo o modelo já está estabelecido, é mais importante o índio como mão-de-obra barata no centro, norte e no país vizinho, do que na comunidade. Isto não vai resolver os problemas para alcançar a democracia, menos ainda se as medidas econômicas implementadas continuarem adotando critérios como rentabilidade, produtividade, capitalização, e se nossos próprios intelectuais "imparciais", continuarem nos qualificando de agentes antieconômicos. De novo surge diante de nós a contradição entre pluralidade e uniformidade. A economia atual, representa o intento de globalizar, de uniformizar, de alinhar, e nossos afazeres, fortemente ligados à proteção de nossos recursos naturais, seguem reivindicando uma relação social harmônica, horizontal, de partilha, de convivência. Além do mais, seguimos considerando que esta é a proposta que nós, os povos índios, temos e devemos reivindicar, embora para o estado seja mais fácil lançar-nos toneladas de cimento, que só cobrem e asfixiam o solo e não resolvem os problemas básicos. Talvez para muitos de vocês, esta seja uma proposta vulgar e utópica fora de tempo e sustentada em um passado remoto. Não, não é certo. Anteriormente afirmamos que nossos arrazoamentos obedeciam a condições deste século e de maneira concreta as do presente ano. Se consideram que nossa proposta comunitária se fundamenta no ideal, na perfeição, estão equivocados. Nossas comunidades não são puras, precisamente porque somos

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um resultado permanente de pressões externas e energias internas que nos apresentam uma situação nova cada vez. Em muitas de nossas comunidades a economia está controlada por o comercio, por o poder político de elites o grupos, por maestros que herdando os melhores vícios de ocidente se convertem em líderes nefastos o em caciques, em última instancia. Disputamos espaço com narcotraficantes, e principalmente com políticos representantes de partidos, em alguns casos até mesmo com latifundiários, finqueiros, açambarcadores e vendedores de terras. Cada comunidade enfrenta sua própria realidade, mas em o general podemos afirmar que existem padrões de comportamento, de realização que compartimos todos. Alguns têm seus territórios comunais garantidos, outros estão em trâmite, a outros se lhes foi usurpado, enfim é mui variada nossa realidade social. Pese a isso consideramos que nossa proposta é viável, se é que a entendemos em seu justo contexto. Ponhamos alguns exemplos: No que toca aos bosques; em um bom número de comunidades, temos integrado nossas empresas comunais. Alguém diria então -- Desde quando não são empresários? não, não se trata disso, tivemos que criar tais empreendimentos diante da pressão dos burocratas, diante da pressão da S.A.R.H., e dos organismos federais. É certo, a madeira vale muito e como tal nossas empresas são verdadeiras empresas coletivas, os lucros os dirigimos para comprar maquinaria, caminhões de transporte, a construir nossos edifícios institucionais, apenas em alguns casos chegamos a repartir alguma utilidade. Tudo é dirigido para fazer obras de beneficio social. Outra coisa é que o problema da recessão que fez com que nosso resultado final diminuísse consideravelmente. No que diz respeito ao café, muitos de vocês já conhecem a historia. Cai o preço, que é fixado fora de nossas fronteiras, e nossa economia volta a balançar, se o preço do café fica muito baixo apelamos para a produção de milho para garantir alguma liquidez para a compra de produtos que não produzimos. Nos impõem técnicas, consumo de fertilizantes, etc. O caso é que estamos fodidos

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se esse modelo de produção e de comercialização do café a nível internacional não mudar. O caso das minas tende a assemelhar-se ao dos bosques, sem embargo, poucas são as comunidades que temos empreendido este caminho. O caso do milho já o temos comentado o mesmo que o do feijão e o do trigo. Só resta afirmar que com estas políticas econômicas, temos perdido as maiores possibilidades de ser auto-suficientes. Em resumo diríamos que a discriminação dessa nossa racionalidade econômica não parece abrir caminho para um desenvolvimento sadio, pelo contrario nos conduz à globalização e mais ainda neste momento com o tratado de livre comercio, que se apresenta ante nos como uma cova para enterrar nossas possíveis utopias. Só sabemos que não haverá democracia real se não houver respeito a nossos interesses econômicos, ao nosso afã de partilha. Não haverá democracia se não nos permitirem desenvolver nossa própria e livre criatividade econômica. Nossa desintegrada organização Uma das táticas para garantir o controle político sobre nossos povos tem sido a tática da desintegração da organização regional, o estabelecimento de um sistema de atomização social. No discurso, se pretende eliminar esta desintegração e atomização, na prática as políticas em todos os aspectos a consolidam. É por ela que encontramos em 1944, uma população índia totalmente desarticulada, desintegrada, desorganizada. o paternalismo oficial fez com que nos fossem inventadas cúpulas nacionais, onde se cooptam a alguns líderes e que se inventem outros. Esta história tem sido praticada por muitos de nossos companheiros, não vamos nos deter nisso. A atomização tem significado para nós a contração política. Temos o controle político de nossa comunidade, em geral, mas não nos permitem exercer esse controle a nível regional, e querer conquistá-lo fará correr muito sangue, basta ler as notícias dos nossos jornais. A contração tem permitido desenvolver uma

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organização forte e sólida. A máxima autoridade de nossas comunidades é a assembléia geral. Independentemente dos costumes de cada povo indígena, a assembléia está integrada pelos membros das famílias, pelos jovens maiores de 18 anos, pelas viuvas. É esta assembléia que nomeia seus órgãos de governo. A partir destes órgãos se executam as decisões coletivas e se tenta resolver cada um dos problemas que cada comunidade enfrenta. O significado do poder em uma comunidade indígena é muito diferente do significado do poder em um mundo mestiço rural ou urbano. Em nossas comunidades o poder é um serviço, ou seja, é a execução das decisões tomadas pela assembléia, pela coletividade. No mundo mestiço rural ou urbano, o poder significa o exercício das decisões da própria autoridade que foi eleita através de mecanismos eleitorais pouco controlados pela sociedade. O poder do povo índio é o resultado de um desempenho cidadão, enquanto que o poder no mundo mestiço rural ou urbano é o resultado de uma relação de grupos que detém ou aspira ao poder. Para ascender ao poder indígena, se tem que demostrar trabalho, uma atitude individual frente aos compromissos comunitários, uma atitude pessoal dentro da família extensa, frente ao bairro, confraria, etc. Um poder que quando se tem é unicamente para obedecer, cumprir e trabalhar. Uma autoridade na comunidade é praticamente um empregado a serviço de todos, um empregado ao qual não se remunera, ao qual não se lhe permite planejar, e quando isso ocorre, o plano pode realizar-se apenas sob consulta. Contrariamente, o poder político das sociedades rurais mestiças ou urbanas é a possibilidade de executar suas próprias idéias, satisfazer seus interesses pessoais, a consulta não existe. Se aspira a esse poder porque existe uma remuneração ilimitada, fato que explica o crescimento da corrupção como expressão do poder público. Aquilo que se afirma é permitido conferir. A comunidade expressa uma forte afeição ao consenso, à partilha, à decisão coletiva. É vedado se prevalecer do poder político da comunidade para satisfazer desejos de caráter individual por mais sadios que eles possam ser.

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Alguém poderia perguntar: Qual é o mais recomendável? O poder que vem de baixo e atende aos de baixo, ou o poder que supostamente é eleito desde baixo, mas que representa os de cima. Nos permitimos refletir sobre nossa distancia da democracia como modelo global de comportamento político e a pretendemos entender como a fórmula que respeita a diversidade de atitudes políticas. Ou seja, até agora a democracia tem sido o interesse em que toda a sociedade participe das decisões nacionais mediante mecanismos muito bem desenhados, mas pouco respeitados pelo partido no poder. Nos sustentamos que a democracia é o respeito à pluralidade política e como tal a partilha da diversidade dentro do estado-nação, permitindo o desenvolvimento de todos os modelos de convivência política que possam existir no país. Durante todos esses séculos de vida republicana, pouco se fez a esse respeito. O maior avanço foi uma pequena modificação no Artigo Quarto Constitucional, que assinala uma certa liberdade cultural aos povos indígenas. Nenhuma garantia ou respeito no aspecto econômico, político ou jurídico. Frente à solidez de nossa organização comunitária, nossa organização regional representa nosso calcanhar de Aquiles ou nosso ponto mais débil. O estado mexicano tem tomado todas as precauções para que não nos juntemos, para que não tenhamos nenhuma força política. O estado mexicano tem dedicado seus melhores esforços para separar-nos, para nos manter desintegrados. Todos os esforços realizados para construir nossa organização regional durante as últimas seis décadas, foram etiquetados como movimentos subversivos, socializantes, comunizantes, nunca foram entendidos desde outra perspectiva. Sempre, para o partido no poder, temos sido vítimas de partidos de oposição, nunca temos ideias próprias, menos ainda líderes honestos. Insistem em sinalizar que se não nos cuidarmos, mobilizarão contra nós até mesmo forças internacionais. Como exemplo, apontam para o que ocorreu no inicio do levante dos companheiros em Chiapas. Se isso se afirma em 1994, imagine o que se dizia nos anos sessenta. Pese a isso, nossos esforços por construir uma organização regional não acabaram. Em alguns casos

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nossas organizações tem ganho batalhas a curto prazo, na maioria das vezes temos sido derrotados, poucas vezes temos saído vitoriosos. Mas nossa guerra segue adiante. É por isso que a autodeterminação ou a autonomia, como se queira entender, surge diante de nossas mentes como uma nova forma de garantir a sobrevivência e como uma garantia para a defesa da pluralidade e da diversidade. Em nossos esforços, nossos obstáculos imediatos são os partidos políticos. Não estamos contra a vida republicana e de seus mecanismos partidistas. O que exigimos é o respeito a nossas próprias formas de eleição de representações regionais. Dada a desintegração a que temos estado submetidos sabemos que não é fácil reintegrar nossas organizações regionais e muito mais difícil a reestruturação de nossas etnias. Devemos deixar claro que não pretendemos voltar ao passado. Não pretendemos reconstruir as nações prehispânicas. Por isso mesmo damos mais ênfase a nossas organizações regionais que representam realidades pluriétnicas, às quais também se incorporam mestiços e crioulos. Tampouco planejamos a separação da nação, nem a criação de estados dentro do estado mexicano. A discriminação deve ser suplantada pela aceitação, pelo reconhecimento de nossa existência política diversa. Se a discriminação tem significado uniformização política, poderíamos dizer, mesmo que soe paradoxal, que desejamos discriminar a sociedade nacional para que sejamos tratados por igual e dessa maneira se mantenham claras as diferenças e que o apótema liberal entre vigor nestes tempos difíceis; -- "Paz é o respeito ao direito alheio". Educação e comunicação em aliança A discriminação que provoca mais impacto na coletividade e que fundida ao indivíduo revela suas mais grotescas expressões, surge da educação e da comunicação massiva recebida pelos povos índios. Independentemente do que houve no passado, no começo deste século, tivemos uma experiência educativa

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muito forte e positiva. Os professores eram escolhidos pela comunidade, inclusive, esta lhes pagava seu salário que saía do bolso de cada pai de família. Nesta experiência se viu que quando o professor saia da natureza e da cultura comunitária, este, podia ser mais útil, mais fortalecedor da comunidade. Aquele foi um momento em que a educação esteve sob a responsabilidade da comunidade. Mas a festa durou pouco. O estado mexicano não poderia deixar de implantar seu modelo de pensamento; e nos sobreveio um novo desastre. Os princípios de integração, de assimilação nacional daquelas diversas sociedades e sua integração a um único modelo econômico acelerou o processo uniformizador e nos impôs uma dinâmica da qual ainda não pudemos nos livrar. O conteúdo da educação lançada em nossos povos, vinha carregada de valores nacionais, das qualidades da conquista, das vitorias crioulas, dos acertos mestiços, mas nunca dos aportes de nossos povos indígenas. Ainda na atualidade, os conteúdos seguem sendo barbaramente etnocidas, discriminantes da existência índia. Se privilegia o valor do ocidente e seu conhecimento, se insiste no indivíduo e se perde a comunidade. São unicamente importantes os heróis nacionais. Os esforços dos povos são tratados a nível de caricatura, além disso, os heróis e feitos regionais resultam inexistentes. Se parte do princípio de que a competência é o melhor e não a partilha comunitária. Diante de tudo isso que resposta se pode esperar da sociedade mestiça? As vítimas imediatas foram nossos irmãos que, como Juarez, saíram para estudar nas cidades próximas à cidade do México. Não é surpreendente que antes do ano de 1968, o Instituto Politécnico Nacional tenha sido designada como escola para os que vinham das províncias e para os índios e a universidade para os setores urbanos e classes medias. Quantos de nós não passou por essas escolas para receber essas expressões de discriminação grosseira. Naco, indito, Oaxaco, são apenas alguns dos apelidos dados àqueles que vinham do setor rural e indígena. Mas vamos falar da discriminação das coletividades. Com a educação oficial, o primeiro efeito que se observou, foi a desvalorização do trabalho camponês, as

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particularidades escolares foram abandonadas assim como as oficinas criadas nos anos trinta. Vieram técnicas modernas para fortalecer o conhecimento adquirido no quadro negro, veio a proibição do uso de nossos idiomas, veio a salarização estatal e federal do trabalho do professor. Era o fim de tudo o que dizia respeito à comunidade. Este foi um processo lento mas firme, paralelo ao desenvolvimento de novas idéias de como deveria ser nosso progresso e integração educacional e cultural na nação. Com a chegada do rádio comercial e mais tarde da televisão tudo se complicou ainda mais. Na atualidade, apesar dos esforços indigenistas, e da melhor boa fé que eles possam representar, com sua educação bilingue e bicultural, suas rádios indigenistas, a desintegração comunitária resultante da educação segue sua marcha. De nossa parte, o que temos conseguido é que através do trabalho quotidiano e do sustento de nossas instituições internas, a educação comunitária de algum modo consegue se reproduzir, detendo de alguma forma os efeitos nocivos da educação formal. Não conseguimos deter todos esses efeitos nocivos, mas afiançamos alguns aspectos que estamos conscientes de não perder. O problema se agiganta na educação media e superior. Nestes níveis, os valores individualizantes aumentam seus efeitos, causam desalento e múltiplas expressões discriminatórias. Para começar, as especialidades agro-pecuárias são reproduzidas através de uma sala de aula e de um quadro negro, mesmo tendo a natureza bem ao lado. Isso resulta em que as especialidades técnicas não respondem às necessidades regionais e os jovens se convertem em mão de obra semi-preparada dirigida ao vizinho país do norte. Obviamente, com os valores absorvidos em sala de aula, os jovens emigrados mesmo fracassando em seus sonhos individualistas não retornam ao seu povo em virtude da perda de sua capacidade e energia comunitária. No que diz respeito aos níveis tecnológicos e universitários, a coisa se complica ainda mais. O profissional não encontra fonte de trabalho que contrate seus serviços.

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As únicas são as instituições governamentais que o convertem na melhor das hipóteses em uma máquina de levar recados, e na pior em um mero burocrata. A pior coisa acontece quando se tornam advogados, médicos, ou arquitetos, estes definitivamente ficam nas cidades. Diante de tudo isso, o que podemos esperar da atual educação? Isso sem falar do magistério, que é uma história aparte. A federalização da educação significou para nós a descomunalização dos professores. Os privilégios laborais no início, e a necessidade de melhores oportunidades de trabalho na atualidade, fez com que as comunidades perdessem seus melhores homens e mulheres. A imensa maioria está agora radicada em volta das cidades, por isso agora é comum ver um professor zapoteco dando aula em uma escola chatina, etc. Quanto aos movimentos de caráter laboral, a comunidade se ressente mas na verdade não sabe o que fazer a respeito, não sabe se é melhor os professores dedicar mais tempo às crianças ou deixar que elas permaneçam absorvendo conhecimentos que em longo prazo apenas individualizará seres comunitários, tornandoos competidores em vez de partilhadores. De certa maneira, podemos afirmar que o que as crianças aprendem na sala de aula, desaprendem na rua e em casa. Isso obviamente não ocorre nos níveis médio e superior. Esta dialética educativa de alguma maneira permitiu o ensino da partilha, mas, sem embargo, essa questão ficou muito complicada com a chegada dos meios massivos de comunicação. Os princípios e valores que nos introduzem o radio, a televisão e os meios impressos são difíceis e quase impossíveis de deter. Novamente a falta de respeito às culturas regionais se convertem em uma clara expressão de discriminação. Não podemos afirmar que o Instituto Nacional Indigenista não tenha feito esforços neste terreno, ao contrário, aplaudimos aquilo que ele tem feito, mas tais feitos ainda são muito pequenos e desintegrados. A nação decidiu vender a liberdade para transmitir sinais, isso reafirma sua posição homogeneizadora, globalizadora e ratifica seu pouco interesse por uma nação plural rica em expressões culturais próprias e criadora de diversidade de modelos de vida que garantisse um futuro mais

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compartilhado. Na atualidade, contamos em algumas regiões com emissoras, inclusive com centros de produção de vídeo. Mesmo com poucos recursos, a resistência nesse campo prossegue. Sem embargo, insistimos, não poderá haver democracia enquanto houver o impedimento de nossas sociedades exercitar sua própria liberdade de expressão, e tampouco poderemos derrotar nossos eternos inimigos que se fortalecem com o uso destes meios. Em última instancia os meios estão aí, mais de fora para dentro que de dentro para fora. De qualquer modo nossa cultura não pode continuar sendo tratada como tem sido até agora. Estamos de acordo que este país tem uma raiz e que essa raiz somos nós. Sem embargo, pinta-la, conta-la, dança-la, teatraliza-la, e não trata-la e enfrenta-la faz dessa cultura uma caricatura e uma verdadeira vergonha para quem a observa e a comenta. A melhor forma de escrever nossa cultura não é em espanhol, nem tampouco a maneira perfeita de escrevê-la é em zapoteco. Nossa cultura é simplesmente nossa cultura. Não estamos no mercado das melhores palavras, ou dos melhores escritos. Estamos em nossa realidade e é essa que é nossa cultura. E o que desejamos é que nossa realidade seja contada para toda sociedade mexicana. Nossos médicos aprendem diariamente, no dia-a-dia. Não em uma temporada escolar, aprendem aos gritos, porque essa é a escola que sempre tivemos, a escola das eternas expressões. Mas o conhecimento que se obteve, como sempre, é deixado de lado, depreciado, discriminado, separado, o mesmo ocorre em todos os campos da inteligência. O resultado é que "não contribuímos". Mas continuaremos fazendo assim mesmo com nossa voz sufocada pelo ruído dos motores, dos programas de televisão, e das canções da moda. Nossos direitos humanos no quinto dos infernos A selvageria da sociedade nacional parece estar concentrada no exercício da lei. O estado dialoga conosco através de uma linguagem criptográfica, indecifrável e

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incompreensível. Por isso sempre saímos perdendo. Nem mesmo nossa dignidade conseguimos salvar. Os delitos na comunidade se resolvem praticando, comentando, analisando. A lei nos faz ver que as coisas não se praticam, não se executam, não se exerce, se ditam. Não importam as razões, o que importa é o estado de direito. Ou seja, a base de onde vem o ditame. Esta situação tem nos conduzido a lutas intermináveis que desgraçadamente não nos leva a nada. A não ser que entabulamos um diálogo de surdos. Não há pior discriminação do que a exercida pelo cumprimento de leis. Neste campo há muito a ser dito. Para começar devemos afirmar que temos também nossas próprias leis. Lógicas de pensamento construídos por séculos, maneiras de entender a vida que nos conduz a resolver um sem número de problemas internos. Sem embargo, esse direito e esse conhecimento é violado pela imposição de arrazoamentos nascidos e desenvolvidos em âmbitos distintos dos nossos, em experiências que não partem de nossa realidade. Os centros de readaptação social não nos servem, pelo contrario, nos afetam. Sem embargo, lá estão os melhores exemplos do que essa sociedade desenvolveu. Sua existência nos envergonha, porque é a própria mutilação das nossas capacidades. Em nossas comunidades enfrentamos um sem número de delitos, mas mesmo assim encontramos uma quantidade de soluções. Nossas leis são exercidas por quem compete exerce-las, não são gente especializada, são pessoas incumbidas de exercê-las temporariamente. Estamos convencidos de que mandar ao cárcere o assassino de um compadre é converter as comadres em duas viuvas, exatamente por isso, os castigos são ditados com base em considerações como essas, e não apenas com base em uma lei estabelecida sem diálogo. O enfrentamento das leis "positivas" com as nossas não somente se dá no campo do ridículo, como ocorre quando não temos tradutor, mas na própria base dos princípios que se qualificam. Sempre se arrazoa em termos do direito individual, nunca se pensa no direito comunal, ou

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seja, sempre se arrazoa em termos dos interesses de um indivíduo e se entende que toda atitude acontece de um interesse individual, nunca se incorpora a possibilidade de entender que a atitude é resultado de um fato social ou mesmo comunal, o que implica em um tratamento distinto. É por isso que os cárceres estão repletos de irmãos que, de lá de dentro, não conseguem compreender os delitos como seus, nem tampouco desenvolvem uma atitude comunal. O cárcere os individualiza e como tal os separa mais ainda da comunidade. É isso que o cárcere faz. Uma nova afronta à cultura dos povos indígenas. Não queremos discutir se o cárcere funciona em uma sociedade mestiça ou urbana. Para ser mais preciso, sem embargo, cremos que na nossa sociedade o cárcere não funciona, por isso afirmamos nosso direito de imaginar que dentro desse tão propalado estado de direito, exista a possibilidade do exercício de diversas modalidades de justiça, e que este exercício seja realizado pelas distintas sociedades que compõem a sociedade mexicana. A autonomia, livre autodeterminação ou autodeterminação, seria neste caso o marco jurídico mais adequado para concretar este tipo de liberdade. O estado mexicano não deve temer seus resultados, mas deve estar bem atento a seus frutos porque pode ser um exemplo de como conduzir uma sociedade complexa sem tanta papelada, porque aparentemente nossa sociedade nacional é baseada exclusivamente em cima de folhas de papel. Nossos sonhos e a autonomia Há pouco um intelectual perguntou se nós, indígenas, aceitaríamos uma autonomia subsidiada, ou seja, uma autonomia caricatural. Identificar autonomia com autosuficiência é uma armadilha de discurso. É o clássico limite que um pai estabelece ao filho que quer decidir as coisas por si só. Nós não temos pai, a pátria foi criada para nossa desgraça. De donde saiu o recurso que formou esse intelectual? Elementar, do sangue de muitas gerações, não apenas de sua família. Das duas uma, ou ele não tem pai,

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ou tem uma sociedade que o sustenta, então essa sociedade somos todos nós. Porque não se pode subsidiar uma autonomia? Porque no final das contas todos nós seremos subsidiados. Falácias como estas reforçam a idéia de que a sociedade mestiça persiste na crença de que nós, indígenas, deveríamos desaparecer. Padecemos de uma permanente e sistemática discriminação. Uma discriminação defendida por notáveis inteligências. Não nos esquecemos o prêmio nobel que esse intelectual recebeu pela abordagem à luta de nossos irmãos chiapanecos. A autonomia para nós é uma possibilidade de crescimento saudável, sim, mesmo que não acreditem nisso, livres de intermináveis contaminações, inclusive para que dessa maneira discriminemos à sociedade restante, não como fazem conosco, mas em um sentido construtivo, tratando-as como sociedades iguais, com os mesmos direitos e as mesmas obrigações. Por que nos tratam como crianças? Aqui não se trata de uma família, trata-se da historia de sociedades que se relacionam, se enfrentam e obtém como resultado um novo estado social e econômico. Que nosso reclamo não seja compreendido como um gemido, um choramingo, porque não somos crianças que escrevem a um adulto para que resolvam as coisas para nós, estamos falando de adulto para adulto para que nossas ralações sejam mais construtivas. Não compreender o profundo sentido de nosso reclamo autônomo é não compreender nosso afã democrático, é empenhar-se na necessária exterminação de nossos povos, é crer que o futuro da humanidade é o futuro de nossos vizinhos do norte, é crer que não temos nossa própria origem e nação, é atirar no lixo o sangue de tantas gerações que nos forjaram, é não semear para o futuro, um futuro que é nosso e que querem destruir. A discriminação começa pela incompreensão do valor de nosso território, da invalidação de nossa racionalidade econômica, assim como da inconformidade sobre nossa

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organização social e da falta de respeito a nosso direito de exercer a justiça. Tudo isso é discriminação e reafirmamos nossa convicção de que não haverá democracia se a sociedade nacional não compreender a diferença, a pluralidade e o direito que nós, os povos indígenas, temos de desenhar nosso próprio futuro. Guelatao de Juárez, Oax., em 30 de maio de 1994 Comunalismo e Autoritarismo Desde sua origem, os povos da Mesoamérica tiveram que enfrentar diversas formas de autoritarismo. A harmonia ou uma democracia plena em termos exatos nunca existiu. As comunidades indígenas, por seu pensamento e ação, são as que mais perto chegaram de alcança-la, ou seja, foram elas que desenvolveram espaços, relações e instancias que puderam favorecer o exercício da harmonia e do bom governo.5 Com a chegada do ocidente nas terras indígenas do novo continente, os espaços para o exercício da harmonia foram violados e em boa parte eliminados. Não obstante, a resistência de nossos povos permitiu a conservação clandestina destas instancias que na atualidade evidenciam um perfil das possibilidades mais desenvolvidas para alcançar nosso bem estar e felicidade. Diante da conquista espanhola, nossas comunidades desenvolveram um forte sistema de resistência-adequação que lhes permitiu em cada década desenvolver uma nova imagem, sempre cambiante, onde os valores positivos de ambas as culturas forram concatenando novas realidades. Para nossa fortuna, neste processo, os valores, princípios ou instancias que favoreciam a possibilidade de harmonia foram se cristalizando apesar dos interesses econômicos imperantes na mentalidade colonizadora. A adequação
5 N.T. ou seja, autogoverno. "O significado do poder em uma comunidade indígena é muito diferente do significado do poder em um mundo mestiço rural ou urbano. Em nossas comunidades o poder é um serviço, ou seja, é a execução das decisões tomadas pela assembléia, pela coletividade", vide Parte 2.

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permanente de nossos povos, não permitiu coabitar com formas de organização social diferentes da nossa, e como tal participar de uma ampla sociedade plural e diversa, uma sociedade no geral autoritária que no nosso caso resulta na mais desfavorecida e extrema pobreza. Pelo fato de cultivarmos as relações que nos orientam para a democracia, seguimos reproduzindo-a e desenvolvendo-a mais sistematicamente e com maior claridade. O comunalismo é a ideologia que nós, povos indígenas do sul do México, atualmente adotamos, e que temos conseguido exportar para as grandes cidades, através da ação que realizam nossos irmãos que tiveram a necessidade e o interesse de emigrar. Não é estranho que em cidades tão grandes como a cidade do México e Los Angeles na Califórnia, nosso comunalismo se expresse em todo seu colorido e essência, pese a adversidade que oferecem os espaços urbanos. O interessante de como conseguimos reproduzir uma ideologia diante a um imperante ambiente de autoritarismo, se explica em razão das características que tem as relações homem-natureza assim como as características de nossa orografia e a virtude de nossa organização social. Não é atoa que o modelo de nossa organização comunitária esteja sendo defendido como modelo de ação em todo país através do Programa Nacional de Solidariedade, e tampouco foi atoa que tem sido as comunidades indígenas as que lograram o melhor modelo para a conservação da natureza. Tudo isso se conseguiu sob a bandeira do comunalismo, ideologia que na atualidade podemos oferecer como uma forte e renovada alternativa, contra o autoritarismo e em favor da real democracia. A geografia O processo de despojo que nós, comunidades indígenas, sofremos nos empurrou para as regiões mais agrestes e arrinconadas do território, agora nacional. Nestas regiões, onde ninguém imaginava que alguém pudesse sobreviver, encontramos o apoio da fraternidade da mãe terra e de seus filhos. Nestas zonas encontramos uma

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infinidade de recursos naturais que permitiram nossa plena, se bem que difícil, sobrevivência. Conhecemos os segredos desta natureza, questão que agora se reflete no fato de que são as únicas regiões melhor conservadas. Onde havia ouro, veio o ocidente, onde havia terra para ser explorada veio o homem branco, o mestiço mal formado, o malfeitor querendo enriquecer da noite para o dia. Esta geografia nos fez mais fortes e independentes, sem embargo para muitos se converteu na tumba. Os anciãos se empenharam a sistematizar o conhecimento dessa natureza, descobriram e desenvolveram com ela uma relação horizontal, uma relação harmônica de muito respeito. Foi desta maneira que este meio ambiente se converteu em um elemento a mais para nossa existência. Os Mixes nunca foram conquistados pelas armas. Encobertos neste tipo de território, os Huicholes ainda seguem protegidos. Onde chegou o regime de plantação (café, tabaco, etc.) chegou também a discórdia, a inveja, a avareza, onde não chegou a individualidade se conservou a igualdade, o diálogo, o coletivo. O processo de defesa destas terras descreve-se de maneira física como um coletivismo natural que permitiu a defesa de amplos territórios que hoje são considerados como reservas da biosfera, neles, todavia sobrevive a mais ampla variedade de seres vivos, animais e plantas que convivem com o homem em uma verdadeira unidade. Tudo isso pode soar romântico mas basta conferir as informações científicas dos recursos naturais que se encontram na América Latina para verificar facilmente o que estamos afirmando. Mas nada foi fácil, o papel do estado nos países da América segue sendo o mesmo desde a chegada dos espanhóis: guardião dos interesses cupulares, protetor dos sonhos de superioridade do homem sobre a natureza, regulador das relações entre os débeis e os poderosos sempre em aliança com estes últimos. Por isso cremos que

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esses estados estão cavando sua própria sepultura, com o etnocídio estão permitindo a morte futura de seus filhos. Com nossa morte se está acabando o pouco que ainda permanece vivo no continente. Autoritarismo e uma essencial falta de democracia é o que caracteriza a relação que mantém o estado com todos os grupos étnicos, apesar disso seguimos convencidos de ter talvez uma das únicas alternativas possíveis para a convivência social e fundamentalmente uma velha e harmônica relação com a natureza. Por tudo isso consideramos que o comunalismo, que é nossa maneira de pensar, se origina na história do despojo, na relação forçada que temos mantido com os territórios que nos restaram à conquista e à exagerada exploração da terra. Ou seja, o comunalismo é também fruto da história colonial. Não devemos esquecer que vastos territórios inicialmente indígenas que foram usurpados, agora estão convertidos em desertos. Embora todos conheçam esta barbárie, ela segue sendo a tônica natural do desenvolvimento econômico mundial. Os resultados da cúpula da terra no Rio de Janeiro a ratificaram e com isso se mostrou a lógica anti-natureza de um mundo que precisa deter imediatamente sua louca carreira e por um momento refletir nos efeitos de seu saber. Não queremos mais recordar os d dramáticos capítulos da conquista e o que segue sucedendo na Guatemala, na Bolívia. Esta geografia do horror torna ainda mais digna as alternativas que a sociedade indígena oferece ao Ocidente. Uma cultura que sempre encarou com desprezo nossa sobrevivência e nossa riqueza moral. O território comunal Um dos aspectos que nos deve fazer refletir para compreender o atual pensamento dos povos originais, é o fato de que é exatamente nestas zonas onde se tem preservado com maior força a posse comunal da terra. A posse comunal certamente é uma prática que os

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colonizadores perceberam em nossos povos, uma prática que de muitas maneiras já representava uma exposição natural do significado da terra para nossos ancestrais. Depois da conquista esse regime de posse seguiu recebendo muitas agressões. Próceres pátrios formados nas escolas crioulas independentistas daqueles anos fizeram sentir seu desacordo. Na atualidade, o estado mexicano segue encarando a posse comunal como um obstáculo ao desenvolvimento, uma barreira para tornar eficiente o uso da terra, um verdadeiro escolho para o desenvolvimento econômico que propiciará mais utilidades, gerará mais empregos e garantirá uma maior efusão econômica em benefício dos habitantes de cada nação. Apesar disso a resistência de nossos povos não cede. Recentemente os Nahuas lograram uma ampla mobilização para impedir que suas terras fossem invadidas pelas águas de uma empresa hidroelétrica. Os Zapotecos erradicaram o sistema de concessões para a exploração dos bosques. Amplos territórios mistos seguem sendo defendidos ao custo da própria vida. A resistência prossegue entendendo que a terra não é apenas um bem econômico, mas principalmente uma mãe que contribui com todos nós. Uma mãe com quem desejamos ter uma relação igualitária e de profundo respeito. Nestes territórios parece que o tempo não passou, se prossegue observando as oferendas antes de iniciar o cultivo, as festas nas colheitas, as cerimônias para garantir a queda das chuvas. Será que seguimos sendo um povo ignorante? Será que somos tão néscios e que não queremos mudar? Bem pelo contrário, sempre mudamos. Mas também sempre encontramos no respeito à terra o único princípio que nos garante o bem estar, o princípio que sana nossos corações e com o qual asseguramos o amanhã. Certamente estes princípios já não se apresentam em toda sua nitidez precisamente porque estamos mudando. Na atualidade já exploramos os bosques como nunca havíamos pensado e lhe extraímos riqueza que ainda não sabemos a ciência correta do que fazer com ela. Agora reconhecemos que o café se converteu como alguns outros cultivos em uma corda no pescoço. Chegamos a devastar amplos territórios

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semeando milho para assegurar o alimento para nossas famílias; devemos concordar que perdemos alguns valores de nossa relação com a terra, mas estamos seguros de que os resgataremos através de nossa própria organização. Um exemplo disto é a nova mineração comunal das minas que sempre foram aproveitadas pelos nossos usurpadores. Tiveram que passar séculos de aprendizagem para que agora estas minas sejam uma possibilidade de receita para nossas famílias. O mesmo está sucedendo naqueles campos onde não colhíamos o milho, pouco a pouco fomos encontrando na história as tecnologias abandonadas que agora estamos usando em nosso benefício. O comunal de nosso território abre a possibilidade de encontrar soluções, da busca de alternativas. Estamos seguros que este regime de posse não veio do ocidente e não foi nunca um discurso, é uma realidade tecida pelos séculos e pelo sacrifício de dezenas e dezenas de gerações. O comunal é a fortaleza da comunidade e o espaço que a recria, é o solo onde cresce nosso futuro, é o berço de nosso pensamento natural e, finalmente, a oportunidade para pensar um mundo futuro diferente mas próximo de nós, mas também mais perto e necessário para o mundo. Cabe ressaltar que o comunal fez de nossa organização social um tecido de uma maior possibilidade harmônica, não isenta de contradições, não isenta de estratificações, mas mais próxima do diálogo; mais próxima do consenso, da reflexão coletiva e de uma tomada de decisões horizontal. O comunal marca o ritmo da produção e abre espaços inovadores para a educação de nossos filhos. O comunal, por tudo o que foi dito, é para nós um elemento fundamental para a compreensão de nossas novas potencialidades. Nossa vida assembleária A grande maioria das comunidades da Mesoamérica seguimos sendo pequenas. A pressão sobre nossa terra, o atrativo de nossa mão de obra barata, a recente diminuição de nossas faculdades curativas, fez com que cada uma de nossas comunidades quando muito alcance o número de

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cinco mil habitantes. Estes espaços sociais tem permitido que exista a possibilidade de uma vida assembleária, que a população encontre em sua reunião a possibilidade de crescer e reproduzir-se. A assembléia é o momento de reunião de toda a cidadania, o lugar onde se tomam as decisões e a oportunidade para o exercício, para uma plena, por assim dizer, democracia. É provável que este conceito não seja representativo do que ocorre em nossas assembléias, mas o que é certo é que é uma instância que se fundamenta no consenso, na diversidade e na pluralidade. A assembléia para nós é o foro onde tanto a capacidade individual do orador como do ouvinte se conjugam e em cada momento se encontram em um novo momento de coexistência. Na assembléia participam tanto os letrados como aqueles que nunca frequentaram uma escola. Todos temos as mesmas oportunidades sejamos homens ou mulheres. As viuvas e as solteiras também tem na assembléia a possibilidade de participação. Claro que as coisas que aqui se afirma não ocorre da mesma maneira em todas as comunidades, mas sem embargo as comunidades autóctones em geral tem na assembléia a possibilidade de sua realização social. A assembléia é dirigida sempre pela autoridade executiva que ela mesma elege, representantes temporais que tem um, dois ou três anos para demonstrar suas capacidades para o exercício do poder comunal. A assembléia é não apenas uma possibilidade de participação como também uma obrigação cidadã. Uma obrigação para o exercício do poder social. Nada se decide fora dela salvo aspectos mais limitados que não dizem respeito a ela. O falar muito em uma assembléia é símbolo de prepotência em vez de adequada capacidade para dirigir o povo porque cada palavra que se emite deve ser ratificada com sua prática no trabalho coletivo, quem não o faz é diminuído em seu prestígio, é tido como um charlatão e nunca o povo porá neles seus olhos para o exercício do poder. A assembléia naquelas comunidades maiores e mais urbanizadas é utilizada pelas forças políticas formais, ou seja, os partidos políticos. É comum que nessas comunidades se observe o surgimento de grupos quase

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sempre identificados com setores do poder econômico o político. Para nós, em geral, participar de contendas políticas é um sinal de envilecimento, mesmo tendo a segurança de que apenas através delas se pode conseguir um bem para a comunidade. A existência da assembléia tem sido utilizada pelo estado mexicano de uma maneira muito inteligente. O partido oficial tem encontrado nela um excelente espaço para negociar o voto. As promessas de obras ou de lutas sustentadas pela comunidade são habilmente negociadas para lograr que sejam favorecidos pelo voto. Não é raro também que de maneira consciente e em alguns casos ingenuamente, os próprios executivos nomeados pela assembléia se encarreguem de materializar a fraude eleitoral. Há comunidades que se encarregam de encher todas as urnas de votação em benefício de um só partido. Com isso a comunidade negocia seu relativo grau de independência e garante sua autonomia interna com a nomeação democrática de seus representantes. Em outras palavras, podemos afirmar que a comunidade cede o poder político externo para garantir o interno. É preferível para nós votar por um deputado que nem sequer conhecemos do que votar em um partido político que se intromete na nomeação de nossas autoridades. Tudo isso é cozinhado mediante o registro de nossos representantes comunitários no partido que está no poder. Em alguns casos pode suceder o contrário, ou seja, mediante o registro em outros partidos. Quanto isso se dá, a comunidade se vê diante de uma imensidade de pressões, muitas das quais vocês conhecem perfeitamente. Por último cabe agregar que a vida assembleária permite contar com uma arena onde as pressões governamentais são contidas pela discussão da invalidade e da inutilidade de suas propostas de desenvolvimento. Em nossa assembléia comunal enfrentamos a permanente intenção do estado por conduzir nosso desenvolvimento, por orientar nosso caminho. A assembléia local nos propicia a defesa de nossas idéias. Nem sempre esta defesa é abertamente discursiva, em muitos casos esta defesa se manifesta por um verdadeiro silêncio. Ou seja, quase sempre as propostas do estado são respondidas com um

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forte silencio que é decidido em nossos próprios idiomas com uma coletiva e significativa entrevista, ao final se saberá se se aceita ou não a proposta. Os efeitos dessas relações tem desembocado em verdadeiros juízos que terminam de maneira trágica como também, em contraparte, em violentos assaltos da polícia ou exército; não é exagero dizer que quando as iniciativas em discussão definem interesses claramente identificados que reforçam o poder da comunidade, a resposta comum do estado é o uso da polícia e do exército, quando não a detenção e o assassinato de nossos dirigentes. Visto desde qualquer ângulo a existência de nossa assembléia é o elemento que reproduz nosso comportamento e que referenda nosso comunalismo. A eleição de nossos representantes Para que um cidadão ostente nossa representatividade é necessário que desde criança tenha mostrado um profundo respeito pela comunidade. A formação de um ser humano inicia aos seis anos, primeiro indo à igreja, tocando as campanhas, realizando labores agrícolas. Esta formação vai introduzindo aos meninos e às meninas um espírito especial. Conforme o tempo passa as comissões que se realizam se diversificam. Obviamente cada comunidade tem suas particularidades, sem embargo podemos afirmar que a educação se radica no trabalho comunitário. Educação-participação, educação-trabalho, trabalho-representatividade vão sempre juntos. O trabalho no campo, o trabalho na igreja, e o trabalho no exercício do poder são alguns aspectos de uma pedagogia que sem estar sistematizada de maneira formal recebemos de nossas comunidades, esta também resulta uma pedagogia política. Quando adolescentes os jovens começam a mostrar suas particularidades, seu interesse maior pelo trabalho físico ou sua inclinação pelo trabalho intelectual. Em ambos os casos a capacidade no exercício político tem que ser também plasmado no trabalho e na participação. Neste processo se seleciona o cidadão nas linhas mencionadas

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mas que requer ratificação. Aos dezesseis anos o jovem pode ascender a postos auxiliares de agrupamento ou mesmo à agencia municipal e como foi dito o comportamento diante da comunidade indica suas inclinações pessoais. Algo importante é que nenhum cidadão busque a representatividade por si mesmo, o mais lógico é negá-la, é dizer opor-se a obter esses cargos. O contrário significa querer ascender ou ter apetite pelo cargo político, uma questão perigosa nesse terreno. O político é melhor identificado em função de sua militancia em partidos políticos, onde ser deputado não significa precisamente ter prestígio, mas ser um extraterrestre com muitas armas que podem apontar contra a comunidade. O México conta aproximadamente com dois mil municípios e um número enorme de agencias municipais. Não haver autoridade intermediária entre o município e o governador do estado significa que possuir a municipalidade é uma brilhante oportunidade de soberania política, mas também um arriscado exercício de poder se se responde à lógica dos partidos políticos. Em todo o país a maioria das comunidades indígenas são agencias municipais, ou seja, dependem de municípios maiores, sem embargo. Um dado curioso salta à vista, enquanto estado da república: Oaxaca contem aproximadamente 25% de todos os municípios do país. É exatamente em Oaxaca, com seus 570 municípios, onde as idéias aqui apresentadas florescem com mais força. Em Oaxaca existem municípios de menos de mil habitantes. Isto significa uma enorme possibilidade para a reprodução do comunalismo. Neste estado uma junta é normalmente integrada por não mais do que sete funcionários: o prefeito que é a pessoa que detêm mais poder, o presidente que é o executivo, o representante que é o agente do ministério, e três regedores. São poucos os casos comunitários onde há mais de cinco regedores, uma equipe que é nomeada pela assembléia para exercer o poder durante um ou três anos. Tanto o prefeito como o representante, os principais e os auxiliares, conhecidos como topiles, são geralmente cidadãos operativos, destros no trabalho físico mas com efetiva participação. Os regedores. e o presidente geralmente representam a linha

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dos intelectuais mas não estão isentos dos trabalhos rudes. A representatividade comunitária deve ser compreendida como o exercício da representação. Cada integrante da junta não recebe nenhuma remuneração e de maneira geral agem como se fossem empregados a serviço do povo. Todos devem fazer de tudo, ou seja, participar de todo tipo de tarefas: gestão, administração, coordenação, execução, etc. Exigir a divisão de áreas ou de especialidades será uma atitude mal vista, digamos modernizadora, e contra os costumes. O exercício do poder se veste fortemente pelo costume, pelo modo quotidiano de tecer acordos, marcado pela sua ritualidade ou pela realização de eventos estabelecidos séculos atrás, onde toda população participa de acordo com a divisão de setores sociais: camponeses, artesãos, músicos, mestres, etc. Aquele que não respeita a somatória de tradições e costumes e que não participa horizontalmente na representação não tem prestígio na comunidade. A consulta permanente, a prática e o consenso nos demonstram a horizontalidade na tomada de decisões, a realidade da ação política que emana do comunalismo. Não queremos passar a idéia de que no interior dessa estrutura política não existam contradições, adversidades e inclusive conflitos que a comunidade carrega por décadas; recordo um caso que ocorreu com o povo zapoteco Yalalag. Por problemas econômicos e políticos, o povo se dividiu de tal forma que o conflito conduziu a comunidade a uma rinha de mais de cinquenta anos, até que as forças sociais foram recompostas e restabelecido o consenso de maioria. Na atualidade esta é uma comunidade que padece pela redução de sua população, mas está de pé e com recentes e inovadores projetos alentados por seu comunalismo que esteve enroscado durante muito tempo. As divisões internas em uma comunidade indígena, na maioria dos casos, está relacionada com a existência de caciques, personagens aliadas a grupos de poder político central ou estatal que pretendem, e em muitos casos

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logram usurpar a riqueza da comunidade (terra, produção, etc.). Este fenômeno já muito analisado do âmbito rural mexicano creio que lentamente está desaparecendo. Muitas comunidades depois de sangrentos enfrentamentos tem refeito seu consenso retornando aos costumes. Acima de tudo, a representatividade é resultado de uma assembléia. É o valor político mais importante que desejamos herdar, enquanto comunidade autóctone, iberoamericana e mundial. Conselho de anciãos A participação na estrutura política permite ao cidadão oferecer seus atributos pessoais. Os muito trabalhadores, os sistematizadores da história, os conhecedores da natureza, os rezanderos, os comerciantes, os mestres, etc. Todos e cada um aportam sua experiência e vão sendo eleitos para desempenhar uma atividade especial: a de conselheiro. Ser conselheiro não significa necessariamente ser ancião, fundamentalmente o conselheiro deve ser compreendido como um trabalhador a serviço da comunidade sem nenhum outro interesse a não ser seu desenvolvimento. Os conselhos de anciãos se integram de acordo com a decisão da maioria da população, mas de maneira específica por decisão da junta em turno. Nesta decisão a junta declara suas preferências por aqueles que tem de ser de quem vai pedir o conselho necessário para a tomada de decisões. Não são chamados para nenhuma outra coisa. São aproveitados para decidir questões complicadas, por exemplo, a definição dos limites com outra comunidade, para resolver casos de assassinatos, para superar, deixar de lado ou adotar uma tradição, para os rituais mais significativos, enfim para aqueles assuntos nos quais a junta sente que necessita auxílio. Os conselhos de anciãos tem resolvido problemas vitais não apenas em nível comunitário como também em nível regional. Um conselheiro se supõe ser dotado de uma visão não normal, um conhecimento não mediano, um

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conselheiro é enfim, depositário do comunalismo e fiel defensor dos princípios de convivência social e das determinações mais importantes. Graças a ele o consenso segue como norma, o trabalho como pedagogia, e a ritualidade como mostra de espiritualidade. Esta instancia, como todo processo, não é imune a dificuldades e erros, sem embargo é a forma ancestral de exercer o bom governo [autogoverno]. O conselho de anciãos por si só significa uma verdadeira garantia para a democracia comunitária. Um governador chamou esse conselho de "senado da comunidade", consideramos que pode haver relação com o termo, mas a experiência diz muito sobre o que significa ser senador em uma sociedade antidemocrática e autoritária em termos de trabalho e comportamento quotidiano. Enfim, poderíamos dizer que aqui a pequena escala nos apresenta a possibilidade de uma representação social mais próxima à democracia, que desgraçadamente não é frequente nas grandes sociedades urbanas. O tequio quotidiano Todo afazer comunitário tem relação com o trabalho. A preservação e a manutenção física é um trabalho específico, chamado tequio. O tequio é a tarefa que cada cidadão outorga, dependendo das facilidades uma ou duas vezes por mês, é o trabalho que permite a realização de obras de serviço geral: obras de manutenção e de serviço tais como escolas, clínicas de saúde, abastecimento de agua, etc. O tequio é programado pela junta ou autoridade municipal sob a coordenação do síndico municipal. Participam todos os pais de família, mães solteiras e viúvas. Os primeiros têm o trabalho mais duro e as mulheres são encarregadas de atividades de outra ordem; trazer agua, comida, em muitos casos participam da semeadura e também da colheita. O tequio é a instituição que evidencia uma nova forma de comportamento cidadão, aquele que não participa tem que pagar uma multa ou fazer o serviço em outro dia.

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Em alguns casos, o indivíduo que não participa é encarcerado. Cabe destacar que este hábito é proibido pela constituição geral da nação mas apesar de tudo é exercitado. Os aspectos negativos do tequio são destacadas principalmente por pessoas descomunalizadas que o considera uma prática autoritária, inclusive antidemocrática. Se sentem obrigados pelo povo a cumprir com o tequio apesar da constituição o proibir. Sem embargo nossa concepção é diferente. Deve-se afirmar que a diversidade e a pluralidade cultural dista muito de ser respeitada pelos estados nacionais. Isso ocorre não apenas no México como também na Guatemala, e na Bolívia os casos são extremos. Sem embargo resulta paradoxal e de alguma maneira alentador o fato de que no México a experiência assembleária e representativa, aliada à prática do tequio se haja convertido nestes últimos anos em um novo modelo de trabalho para as regiões denominadas de extrema pobreza. Vejamos esta questão por partes. Por um lado os estados nacionais ibero-americanos tem como característica a imposição de modelos de comportamento individual, empresarial, de eficiência, e de um alto conteúdo mercantil. Por sua parte as sociedades tradicionais reforçam seus modelos tradicionais coletivos, o respeito à diversidade, à terra e a um uso mais equilibrado de seu potencial, e relegam a obtenção de benefícios econômicos e tecnológicos ao simples e necessário. Desta perspectiva não se pode esperar mais dos estados nacionais que impõem decisões que violentam os princípios básicos em nossas comunidades. Com isso se explica o porque as constituições nem respeitam os costumes, a diversidade cultural, nem tampouco reforçam a reprodução e os valores que vão no sentido oposto a suas intenções ou àquilo que chamam de suas necessidades. Por outro lado verificamos que práticas como o tequio, que aparece ante os olhos dos ocidentais como como antidemocráticas, resultam ser os únicos fatores que tem permitido às próprias sociedades, comunidades, ou aos

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índios a solução das necessidades anexas. O tequio para estas micro sociedades representa a alternativa para o desenvolvimento e para o bem estar. Este último reconhecido pelo estado mexicano durante os últimos anos, iniciando um trabalho de reconhecimento da diversidade e da pluralidade cultural. A modificação no artigo quarto constitucional nos lega uma primícia institucional de um estado mais diverso talvez mais democrático ou mais inteligente. O estado mexicano tem ante si a meta de superar os enormes vácuos na maioria de sua sociedade principalmente naquelas regiões onde se manifesta com muita evidência a extrema pobreza e encontra em nossas micro sociedades os mecanismos próprios para um autodesenvolvimento. É quando o tequio se transforma em varinha mágica. Por isso, pelo tequio e por tudo o que ele expressa, o comunalismo começa a exportar práticas mesmo sem conhecer em profundidade maneiras próprias e originais de desenvolvê-las. Existem correntes do pensamento que consideram que usar o tequio como bandeira de desenvolvimento dos próprios povos é esterilizar sua própria efetividade e beneficiar o estado em lugar de deter sua ação em detrimento das comunidades indígenas. De uma coisa estamos seguros, nossos próprios irmãos, pressionados a emigrar levaram consigo este comunalismo e o estão reproduzindo em núcleos urbanos de muita importância. Não é estranho encontrar-se na cidade, à frente de muitos comitês de solidariedade, indígenas emigrados realizando ações mediante uma organização aprendida em suas comunidades de origem. Tampouco não foi estranho ver, ante o terremoto de 85, muitos indígenas e mestiços irmanados no resgate das vítimas, mediante comportamentos emanados deste tipo de cultura comunitária. A solidariedade comunitária Durante os últimos seis anos, a palavra solidariedade virou moda no México. Nesta ocasião tentamos deslindar o

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que significava solidariedade comunitária. e o que significava comunalismo. No início imaginávamos a solidariedade como um ato voluntário, contrário ao comunalismo que é uma ideologia emanada de ações estabelecidas em muitos casos de maneira obrigatória. Ir à assembléia da comunidade, assumir cargos, dar seus tequios, são pautas de obrigação cidadã que reproduzimos com muita consciência porque nos foram injetadas como linhas de comportamento, contrário a solidariedade que é exercida em um âmbito livre, ou seja, é feita por iniciativa própria por corresponder à solidariedade do outro. Em nossas comunidades esta solidariedade é conhecida como ajuda mútua, em zapoteco como "gozona". Em cada idioma próprio existe a palavra que corresponde à ajuda mútua. Entendemos solidariedade quando o vizinho lhe ajuda a fazer sua casa, quando para a boda de um compadre se contribui economicamente com um bem ou com trabalho. Por solidariedade ou ajuda mútua entendemos o apoio à família de um cidadão falecido oferecendo trabalho, sementes ou dinheiro, o mesmo para ajudar um acidentado. Sem embargo o comunalismo de muitas maneiras reflete institucionalmente um certo grau de autoritarismo mas exercido e decidido por todos. No comunalismo o indivíduo é coletivo do principio ao fim, enquanto que o autoritarismo em outro tipo de sociedade apenas responde a necessidades de ordem pessoal ou grupal. Outro aspecto solidário que encontramos dentro de nossas comunidades é o apoio entre comunidades distintas, isto se dá principalmente na realização de festas, ou diante de uma tragédia pouco comum. A solidariedade ou a gozona na festa significa ao mesmo tempo ajuda, oferta de serviços e satisfação em oferecer estas coisas. Desta maneira se logra que as festas transbordem de colorido e música, transbordem de solidariedade; talvez o evento comunitário concentre o significado de sua ação e a institucionalidade comunitária ou o comunalismo seja a festa. Este é o resultado do trabalho agrícola ou artesanal comercial e produtivo de um ano. A festa e os rituais que cada um desenvolve. Não podemos competir de maneira comercial, nem tampouco pensar em quem manda em quem, pelo

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contrário, encontramos em todos a necessidade de sobreviver como seres diferentes e próximos, e que de uma forma clara a todos nos afeta o impacto do pensamento ocidental, também nos afeta o intento globalizador dado ao pensamento índio. Não o aceitamos. Muito menos na forma de modelos ocidentais já tão desgastados. Não compreendemos o comunalismo como algo próprio deste ou do século passado, herdamos o comunalismo antes da chegada de Cristo porque desde tempos remotos vem preenchendo esta necessidade de harmonia tão dramaticamente rota nas sociedades modernas. Quais são os valores que nos unem e de que maneira podemos colocá-los em ação respeitando o processo histórico de cada um? É isso que nos preocupa na atualidade em vista da sociedade original. Não pretendemos criar modelos de pensamento que novamente sejam impostos a outras sociedades. "Se estamos na Guatemala não queremos entrar na guatepior". Conclusões de um possível futuro Antes de concluir esta breve intervenção quero assinalar alguns dos desafios que enfrentamos neste momento. Não cremos estar na melhor das situações para poder ensinar, temos problemas que ainda não conseguimos resolver, e vou falar sobre eles: O comunalismo certamente é a ideologia que nos tem permitido enfrentar e resolver uma infinidade de problemas com os quais temos nos deparado na história, sem embargo, o comunalismo também tem significado localismo, nacionalismo em seu sentido mais microscópico. O comunalismo nos tem levado a enfrentar possibilidades de desenvolvimento na comunidade. Por cada povo ser quase uma nação, estamos diante de um verdadeiro problema no que diz respeito ao âmbito regional. Através do comunalismo pouco a pouco vamos resolvendo os problemas locais mas os problemas que temos que enfrentar regionalmente estão ainda nas mãos dos que sempre nos sujeitaram. Um exemplo disso é precisamente a exploração dos bosques, cada comunidade tem logrado ser

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uma empresa florestal mas o problema de mercado é um problema de todos, o problema das estradas também, etc. Não é possível enfrentar inimigos maiores a partir da localidade. Temos a necessidade de uma união maior e de uma definição mais clara do futuro. Outro problema que vem de cima e que nos atinge a cada três ou seis anos é a representatividade política regional, que continua sendo decidida desde fora. Aqui, o autoritarismo governamental nos tem dividido de maneira permanente, não temos líderes regionais porque nosso costume o impede. Tampouco temos tido a avareza de representar o momento culminante de um labor que implica tudo: o trabalho familiar, o trabalho grupal, o trabalho municipal, e sobretudo o desempenho de uma soma de ritualidades que abrange tanto a religião cristã como a prehispânica; festeja-se tanto os santos como o sol, a terra ou a lua. A festa é parte da identidade comunitária, é o reflexo do espírito de todos. Todos trabalhamos para ela. No mesmo espírito que coordena as atividades, o acumulado em um ano é distribuído para o gozo de todos. Tudo aquilo que foi organizado durante o ano se revela na festa. As habilidades construídas por anos a fio se deleitam na festa. Diria que nossas festas são a marca que nos identifica, elas refletem o respeito e a solidariedade que nossa atitude semeou nas comunidades que nos circundam. A festa é o sentido do trabalho, para seu próprio gozo destacamos que o trabalho é o sentido da comunidade em todas suas dimensões, apenas na festa encontramos a solidariedade e o comunalismo em seu ponto mais elevado. As particularidades de nossas culturas A antropologização da vida indígena tem sido a culpada da extrema pulverização de nossas identidades. Geralmente, nós, os grupos étnicos, comunidades, povos autóctones, ou seja lá como nos chamem, compartilhamos valores substanciais que através deste escrito temos tratado de explicar. Os antropólogos tem a tendência de explicar a

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vida de cada povo a partir de detalhes particulares e isto torna ainda mais complexa compreensão do que somos e do que podemos propor ao resto do mundo. Um exemplo simples disso é usar a diversidade de línguas para mostrar a grande complexidade existente. Essa corrente chegou ao ponto de considerar que apenas aquele que fala sua própria lingua é indígena, os demais são mestiços, um arremedo de indígena ou de autóctone. Nós consideramos que debaixo de valores particulares como lingua, vestimenta, música, dança, etc., há valores subjacentes que são comuns, valores que são ordenados pelos próprios indígenas. Nós, os Zapotecos de Oaxaca, não estamos em nada separados dos companheiros Cree do Canada, dos Zuni do Novo México, dos Mayas da Guatemala, dos Mapuches do Chile, ou dos Kariña da Venezuela. Temos idiomas diversos e práticas rituais diferentes, como também vestimentas e festas de colorido distinto, mas todos nós temos a mesma necessidade de reivindicar nossa relação com a terra, de defender nossos territórios, de enfrentar o autoritarismo de nossos opressores, de enfrentar as imposições de uma modernidade néscia que se nega a compreender o valor de nossa filosofia. Somos todos unidos pelo consenso, pelo diálogo, pelo ânimo e pela realidade da horizontalidade. O autogoverno local é sem embargo o grande alvo para todas nossas comunidades, os dirigentes nacionais sempre serão caricatura, porque nosso povo ainda não definiu devidamente como o autóctone deve fazer política. O estado simplesmente usurpa nossa integridade com modelos nascidos de nossa realidade mas que, no final das contas, não nos propicia saída alguma. Este é um impedimento para a democracia e para a superação do autoritarismo. Outro problema é como enfrentar a voracidade da irracionalidade capitalista, ou seja, como proteger nossos recursos e ao mesmo tempo manter nossa lógica diante da natureza. Agora, quando o capital ameaça tragar-nos de maneira brutal, quando os tratados de livre comércio sinalizam com a possibilidade de extinguir-nos, as

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democracias têm mais símbolo econômico do que qualquer outra coisa. Outro dos problemas graves que não logramos resolver é a trágica educação que nos invade através dos meios de comunicação. Nesse campo temos feito algo e contamos com alguns espaços e aparatos de transmissão de rádio, mas ainda não logramos enfrentar e ganhar a preferência de nossos próprios irmãos alienados pela rádio comercial. Sabemos que estamos em um tempo de reflexão, de intercâmbio e de investigação. Cremos estar prontos para propor soluções sempre e quando se abrirem os poros do Ocidente e se restaurar a necessidade da adoção de modelos que garantam nossas possibilidades de sobrevivência. Embora precisemos trabalhar mais na sistematização destas esperanças. Quanto ao autoritarismo, o sentimos na pele aqui e ali e vice versa, mas é necessário primeiro abrir as possibilidades de intercâmbio de experiência, e se opor com maior força os instrumentos que laceram nossa imaginação e os princípios de nossos povos. Caminhos são ensaiados, e creio que devemos continuar fazendo isso, mas agora com nossas próprias possibilidades, em direção a um mundo que um dia pensamos superar e inclusive abandonar. Nós, indígenas, estamos convencidos que a defesa de nossa geografia seguirá sendo a base para o desenvolvimento de novas ilusões, como a defesa de nosso território; a possibilidade de existência real para nossas famílias. A vida assembleária abre uma enorme possibilidade de consensar nossas convicções, inclusive nossas emoções e encontrar nela novas formas relacionadas com a democracia. Que o respeito a nossos velhos não seja compreendido apenas como o respeito à simples tradição mas à acumulação do conhecimento que todos temos direito a lograr. Consideramos que o trabalho físico ao lado do trabalho intelectual abre novas perspectivas de imaginação entre os seres diferentes que somos. O não satanizar nem

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sobrevalorizar nossas diferenças superficiais, e a ordenação do que somos, pode calhar de maneira mais adequada e evitar o pântano da estigmatização, propiciando o encontro de caminhos comuns e amplos onde se permita a pluralidade e a democracia. Para finalizar, espero que o que aqui foi expresso seja de utilidade para todos os leitores. Autonomia para os Povos da Sierra Norte de Oaxaca Exposição de motivos PRIMEIRO.- O atual Estado mexicano, fruto da Revolução Mexicana e fundado na Constituição de 1917, conformou a Sierra Norte do Estado de Oaxaca, como uma região integrada de 74 municípios e cento oitenta e seis comunidades dependentes destes, e administrados através de três cabeceiras de distritos e regidas territorialmente pelo estipulado no Artigo 27 da Constituição Federal. SEGUNDO.- Ao longo de 77 anos, a Sierra Norte, tem mantido uma pacífica e respeitosa relação política com o governo do estado, cumprindo com as políticas estabelecidas e as leis que regem esta relação. Tem cumprido também com os acordos e os esforços que os diferentes governos tem desenhado na busca de seu desenvolvimento e plena satisfação. TERCEIRO.- Este período histórico, permitiu assegurar nossos bens territoriais, consolidar nossa organização social e política, integrar e clarificar os elementos que constituem nossa economia, definir as linhas que reclamam nossa educação, administrar sobre bases federais a justiça, fomentar e desenvolver nossa cultura. QUARTO.- A avaliação deste período histórico, nos leva à suprema necessidade de exercitar profundas mudanças no pacto assinado com o governo estatal e federal. O estabelecimento de um novo regime, fundado nos aportes obtidos no passado, que garantisse a correção dos desacertos e o logro de um pleno desenvolvimento diante das necessidades atuais, futuras e urgentes da sociedade regional, que reoriente as políticas de desenvolvimento econômico e social, que à luz de sete décadas demonstram

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sua caducidade. QUINTO.- Que o marco jurídico mais adequado é o estabelecimento de um REGIME AUTÔNOMO para a região pluriétnica de Sierra Norte do Estado de Oaxaca. Um Regime Autônomo que pactue com o estado novas e diferentes relações, sob princípios mui precisos de autêntica e mútua responsabilidade. SEXTO.- O Regime Autônomo, revela a segurança e a maioridade que alcançou a região para fazer-se responsável por sua livre e plena determinação econômica, territorial, jurídica, educacional, política e cultural. SÉTIMO.- A Sierra Norte do Estado de Oaxaca, como região pluriétnica, considera que a regulação de seu patrimônio territorial, já é uma faculdade que pode exercer. Que tem uma racionalidade econômica que deseja desenvolver para evitar a emigração e a extrema pobreza. Que tem princípios de justiça próprios para a plena satisfação das relações jurídicas. Que tem capacidade para ditar conteúdos educativos acordes com cultura própria e diferente das nacionais. Que conta com uma cultura que deseja consolidar de forma a poder desenvolvê-la livremente, que tem uma organização política sólida que assegura a estabilidade social e pode pactuar organicamente sua relação com o Estado. Com base nos motivos assinalados, se apresenta a presente iniciativa de lei para o estabelecimento de um Regime Autônomo da região Pluriétnica de Sierra Norte do Estado de Oaxaca. Disposições preliminares Artigo 1º.- A presente lei se funda no estipulado no Artigo 4º e, 115 em relação com o 133 da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos, 20, 92, 94, e demais relativos à Constituição Política do Estado de Oaxaca, assim como o que estabelece o convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho para os Povos Indígenas. Artigo 2º.- O executivo será responsável pela coordenação

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das ações entre instâncias que devam contribuir para a Promulgação da presente lei. Disposições gerais Artigo 3º.- A presente lei se refere aos povos que habitam em Sierra Norte do Estado de Oaxaca, atualmente integrada em 74 municipalidades, 186 localidades entre Agencias Municipais e Agencias de policia; em total 260 centros populacionais, que compartilham valores Culturais, Organizacionais e possuem bens patrimoniais que integram a região pluriétnica, para a aprovação da presente lei. Artigo 4º.- O executivo Estatal, os Governos Municipais e o Conselho de representantes, serão os responsáveis por exercer a presente lei, cuidando e fazendo respeitar o que ela estipula, para o bem dos povos que integram a região que daqui em diante ostentará o nome de REGIÃO AUTÔNOMA PLURIÉTNICA DA SIERRA Norte do Estado DE OAXACA. Artigo 5º.- Para a atenção dos problemas de toda natureza que se chegaram a suscitar entre os Povos e Comunidades Indígenas de Sierra Norte do Estado de Oaxaca; se integrará um conselho regional de representantes comunitários que será nomeado em Assembléia Geral de Autoridades Municipais dos três distritos e sua ubiquação será no Município que designe a própria Assembleia. Território Artigo 6º.- O território autônomo de Sierra Norte do Estado de Oaxaca, integra a soma de superfície de terras comunais com que conta cada Povo Integrante. Artigo 7º.- A propriedade das terras comunais dos Povos e Comunidades integrantes da Região Autônoma de Sierra Norte, será inalienável, imprescritível, intransigível e inembargável. Com isso se garante o livre e pleno desenvolvimento dos povos indígenas. Artigo 8º.- A máxima autoridade sobre o território de cada Povo ou comunidade Indígena será sua Assembléia Geral

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Comunitária. Artigo 9º.- O uso e a forma de aproveitamento das terras -propriedade dos povos indígenas -- será decidido mediante Assembléia Geral comunitária, sem que nela intervenha nenhuma autoridade estranha à comunidade. Artigo 10º.- Os problemas de limites de terras entre Povos e Comunidades, serão resolvidos por um Conselho Regional de Representantes, buscando sempre o acordo e a harmonia entre as partes. Artigo 11º.- Em cada comunidade haverá um corpo consultivo consultivo que será designado mediante Assembleia Geral Comunitária, para atender aos problemas internos de sua população. Artigo 12º.- Os problemas internos que não puderem ser resolvidos pelas autoridades Municipais quando faça parte ou tenha interesse no assunto poderão retornar ao corpo Consultivo da Comunidade para sua atenção. Artigo 13º.- O uso e o destino dos recursos naturais renováveis ou não, existentes dentro do território de um povo indígena será responsabilidade da Assembleia Geral comunitária. Artigo 14º.- A administração dos recursos Naturais de cada Núcleo Populacional recairá em uma autoridade ou comissão que previamente nomeará a Assembléia Geral Comunitária Economia Artigo 15º.- A economia dos povos indígenas será de livre determinação individual, grupal ou coletiva. Artigo 16º.- A racionalidade econômica em cada povo será de livre determinação sempre e quando não afete a terceiros e ponha em perigo a sobrevivência da comunidade. Artigo 17º.- Todo programa ou projeto econômico a realizarse em uma comunidade deverá surgir da Assembléia Geral comunitária., cuidando que estes não obedeçam a interesses pessoais.

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Artigo 18º.- Cada povo indígena, deverá ter um plano de trabalho por triênio, o que regerá tanto a atividade interna e considerará a correcta canalização de recursos provenientes do exterior. Artigo 19º.- Para seu progresso, as comunidades terão a liberdade para usar seus recursos naturais renováveis ou não sempre e quando por meio de uma decisão da assembléia e que que esta considere um manejo sustentável dos bens. Artigo 20º.- Para seu progresso harmônico, os planos de trabalho comunitário deverão estar integrados em um plano de Desenvolvimento da região autônoma. Artigo 21º.- As distintas Dependências Governamentais, desempenharão o papel único de assessor ou consultor, sempre e quando este serviço seja reclamado ou solicitado pela comunidade. Artigo 22º.- Os recursos Governamentais deverão ser integrados em uma única administração e de maneira direta a cada Comunidade. Esta por sua vez comprovará sua correta administração. Artigo 23º.- Será livre determinação dos povos ou comunidades a decisão de unificar-se, para a realização de atividades de caráter econômico que garanta seu desenvolvimento. Artigo 24º.O papel normativo dos organismos governamentais, será transferido às autoridades eleitas pela Assembléia Geral de cada comunidade. Organização social e política Artigo 25º.- A máxima Autoridade na Região Autônoma de Sierra Norte do Estado de Oaxaca, será a Assembléia Geral de Autoridades legalmente constituídas em cada comunidade. Artigo 26º.- Para seu desempenho, a Assembléia Geral de Autoridades da Região Autônoma, terá uma lei regulamentar ditada e autorizada por ela mesma.

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Artigo 27º.- Como parte do pacto sócio político entre os povos indígenas e o Estado Mexicano, os Municípios existentes serão tidos como tais, mas o trato administrativo tanto das Agencias Municipais como das Agencias de Polícia e Rancherias, responderão à lei regulamentar da Região Autônoma de Sierra Norte. Artigo 28º.- A máxima autoridade social e política dos povos ou comunidades indígenas será sua assembléia geral comunitária, a qual se integra pela somatória de cidadãos com idades entre dezoito e sessenta anos. Artigo 29º.- Será a Assembléia Geral comunitária que determina os órgãos de governo que considere necessários para isso levará em conta o valor da categoria Municipal e de essa maneira garantirá seu sano exercício social e político. Artigo 30º.- A autoridade executiva que designe a Assembléia Geral Comunitária e a represente, será quem firma o pacto com os Governos Estatal e Federal. Artigo 31º.- O regime administrativo do órgão executivo e dos demais que resultem necessários, será decidido pela assembleia geral comunitária Artigo 32º.- Para a eleição de representantes regionais populares, a Região Autônoma se constituirá em Assembléia Geral de Autoridades que, estarão devidamente acreditados. Artigo 33º.- Os representantes regionais, serão eleitos entre os cidadãos que cumpriram fielmente suas obrigações sociais e políticas em sua comunidade e sejam propostas por estas diante do plenário regional. Artigo 34º.- Os candidatos a representação regional deverão apresentar um estrito plano de trabalho, que responda às necessidades e planejamentos da Região Autônoma que contenha calendarização e sistema de avaliação social. Educação Artigo 35º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região

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Autônoma da Sierra Norte será a máxima autoridade que decidirá sobre a educação que deverá ser implementada em todo o território indígena. Artigo 36º.- A Assembléia Geral de Autoridades, terá a faculdade de nomear comissões específicas para o caso, e estas quedarão definidas em suas leis regulamentares. Seu objetivo será sempre uma maior eficiência e propriedade na educação regional. Artigo 37º.- A seleção do professorado será responsabilidade das Autoridades Comunitárias, assim como a vigilância de seu trabalho e a atenção que esta atividade requer. Artigo 38º.- Os Governos Federal e Estadual serão os responsáveis de aportar os recursos econômicos para a atividade educativa. A administração dos recursos e seu correta aplicação, será responsabilidade de cada Autoridade Comunitária Artigo 39º.- A avaliação e reorientação da educação a cada triênio será responsabilidade tanto da Assembléia Geral de Autoridades da Região autônoma como da autoridade comunitária Cultura, conhecimento e comunicação Artigo 40º.- A cultura será patrimônio e exercício de cada comunidade. Artigo 41º.- A cultura será entendida como as faculdades de criação, conhecimento e recreação de toda sociedade regional. Artigo 42º.- A cultura integrará o que neste momento a comunidade tenha como patrimônio cultural, o conhecimento assentado em seus habitantes, e a informação que provenha do exterior e sirva ao progresso da comunidade. Artigo 43º.- Cada comunidade decidirá que valores culturais difundir e converter em patrimônio geral. Artigo 44º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região autônoma compreenderá as necessidades culturais da

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região e terá a responsabilidade de satisfazê-las, respeitando as iniciativas de caráter comunitário nesse aspecto. Artigo 45º.- Toda iniciativa que involucre mais de três comunidades, no aspecto cultural, será discutido na Assembléia Geral de Autoridades da região autônoma. Artigo 46º.- Os direitos autorais da criatividade cultural da Região Autônoma, deverá ser responsabilidade das comissões que para esse fim designe a lei regulamentar da Assembléia Geral de Autoridades da Região Autônoma. Artigo 47º.- Para a exposição de resultados culturais, será responsabilidade de cada comunidade seu decisão e terá que levar em conta as recomendações manifestadas na Assembléia Geral Comunitária Artigo 48º.- O conhecimento geral será tratado de tal maneira que seja resguardado pela comissão de defesa de direitos autorais nomeada pela Assembléia Geral de Autoridades da Região Autônoma. Artigo 49º.- O conhecimento regional, será entendido como um valor e patrimônio geral, como tal resguardado por todo tipo de autoridade existente, sem que medie autoridade intermediária. Artigo 50º.- Os meios de comunicação existentes e por integrar, serão propriedade dos povos que integram a Região Autônoma. Artigo 51º.- A qualidade, conteúdo, e as formas de uso dos meios de comunicação serão responsabilidade da Assembléia Geral de Autoridades da Região autônoma. Artigo 52º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região Autônoma, será responsável pela gestão de novos meios de comunicação e de programas de trabalho que em matéria de comunicação resulte necessário. Artigo 53º.- A Assembléia Geral de Autoridades da Região Autônoma, poderá nomear comissões que lhe auxiliem tecnicamente para essa finalidade, toda vez que seja necessário.

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Regime jurídico Artigo 54º.- A administração da Justiça na região será responsabilidade de seus habitantes de acordo com os usos e costumes existentes em cada povo. Artigo 55º.- Será a Assembléia Geral de Autoridades que nomeará o corpo consultivo Indígena que estará presidido por um Prefeito. Artigo 56º.- Quem ocupa este cargo será cidadão da Região que de preferencia haja cumprido com as obrigações que marca seu comunidade. Artigo 57º.- Será responsabilidade do Prefeito Regional administrar a Justiça em todos aqueles casos que o solicitem as Autoridades Comunitárias. Artigo 58º.- Cada Povoado designará a um cidadão Bilingue que será o tradutor da variante linguística de sua comunidade, que será chamado a traduzir nos casos que se lhe requeira. Artigo 59º.- Na administração da Justiça, o Prefeito Regional escutará a opinião das autoridades da comunidade donde seja originário o infrator e juntos resolverão os conflitos que se lhe apresentem. Artigo 60º.- Nos casos de suma gravidade será consultado o corpo consultivo, para encontrar a melhor solução aos problemas individuais e comunitários. Artigo 61º.- A tarefa imediata do Prefeito Regional, será a avisar o Estado que guarda os expedientes de cada preso indígena recluso nos cárceres desta região.

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Aspectos Organizacionais
Protopia

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Não aceitamos qualquer tipo de estado e de "iniciativa privada". Mas isso não quer dizer que não sejamos um espaço coletivo (como o ESTADO se tornou sinônimo no mundo de hoje) e também não quer dizer que não exercemos atividades econômicas. Pelo contrário. Uma Z.A. deve zelar, acima de tudo, por um jogo político limpo, onde todos tenham voz, mas ninguém será responsável por esse zelo, ou seja, todos são. Uma Z.A. não deve aceitar a propriedade privada como estipulador de regras (e sequer as regras), mas isso não quer dizer que as pessoas não possam viver confortavelmente que não tenham privacidade na medida em que desejarem (isso é essencial para o grande jogo de imagens motoras contra o Sistema!). Por mais que a casa em que viva um cidadão da Z.A. seja coletiva, o espaço reservado a ele é pessoal, não no sentido de ser dele, mas no sentido desta pessoa possuir uma certa autonomia sobre espaço que ocupa. Assim, as "empresas", embora abolidas, só se tornam comunais, onde todos tiram proveito do labor de todos e onde não há mais "pessoas jurídicas", mas só pessoas físicas (redundância?) utilizando o conjunto produtivo, da forma que lhes couberem e quererem, afim de buscar seu sustento e a riqueza material da comunidade. O Estado, por sua vez, se pulveriza em todos. Não existe mais a profissionalização do estado. Não existe mais a representação alheia. Todos tem voz, DIRETAMENTE, e todos tem o direito de negarem que o coletivo tome decisões que lhe façam mal. A vida coletiva adquire um novo encantamento, onde o jogo político diário, a vida comunal e as discussões banais tomam sentido, se tornam relevantes e demonstram propósito próprio. Tamanho (Variáveis de Espaço e População a serem apresentadas, não se deve deixar de lado a historicidade)Platão falava que a pólis perfeita, para preservar a "democracia", deveria ter "fatorial de 7"

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cidadãos, o que são, na prática, 5040 cidadãos. É claro que o conceito de cidadão para Platão era o pai de família, dono de terras, etc. Para nós, cidadãos são todos que possam ser minimamente esclarecidos (o que exclui, a princípio, somente crianças). No entanto, pensar uma zona autônoma com 5040 habitantes é um pouco extravagante. Em outras palavras: é gente demais. Christiania, com menos de 1000 habitantes, já se encontra num processo de descentralização espacial das decisões, tendo que possuir vários espaços separados, como se fossem várias zonas autônomas numa só. A princípio, então, devemos pensar uma zona autônoma com possibilidades de que caibam todas pessoas num mesmo espaço, o que significa na prática que mais de 200 habitantes tornaria inviável tal idéia. Com o tempo é possível que pessoas que tendem a praticar agricultura irão tomar a frente em decisões a respeito de agricultura, assim como pessoas que praticam obras, tenderão a tomar a frente em decisões sobre obras. Sendo assim, podemos imaginar que a longo prazo esse número de 200 habitantes possa aumentar consideravelmente sem prejuízos à horizontalidade, baseando-se num respeito mútuo dos habitantes onde cada um deixará a cargo do outro aquilo que o outro saiba melhor fazer. No entanto, tal respeito poderia gerar uma espécie de tecnocracia incutida, tornando algumas decisões alheias ao processo político da comunidade. É claro que certas decisões como "que tipo de adubo utilizar" são muito mais econômicas e técnicas do que políticas e muitas vezes não precisam passar pelo crivo comunitário para se resolver, mas o importante é que mesmo tais decisões POSSAM passar pelo coletivo. Para tal, ferramentas virtuais são indispensáveis. Afinal, ninguém terá coragem de colocar em pauta numa reunião que conta com 200 pessoas e que já dura 4 horas que tipo de adubo utilizar. Mas talvez isso seja sim uma decisão política. Então, a saída é que pequenas decisões possam ser discutidas, sempre abertamente, a partir de meios virtuais (como um wiki? uma plataforma de gerenciamento de projetos?), tornando qualquer processo

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econômico, técnico, político ou social da comunidade aberto eternamente para contestação e criação de novos consensos. Assim sendo, podemos afirmar que o sonho de platão tornaria-se plausível. As reuniões pessoais poderiam ser temáticas, onde quem não quer saber de como se planta algodão simplesmente não precise ir, e utilizando o suporte virtual, onde discussões mais bem tecidas poderiam se compor. Assim, criando vários espaços reais para discussão e utilizando a internet como suporte, podemos afirmar que o limite de tamanho para uma zona autônoma é de 5040 habitantes, como Platão descreveu. Mais que isso gerará o problema básico de as pessoas começarem a não se conhecer e uma consequente perda de laços comunitários. Então, podemos afirmar que uma zona autônoma MADURA e que já está atuante há anos pode possuir até 5040 habitantes. Após isso, poderia-se admitir o crescimento vegetativo, mas não mais a imigração para dentro dessa Zona. Neste ponto, cria-se a necessidade de que a zona "patrocine" outras zonas, para que as idéias continuem, mas sem perda ao coletivo local. Mas, para além da população, é bom analisar a questão do tamanho de terras. Obviamente uma propriedade com 10 hectares não pode possuir mais do que 100 habitantes, pois é certo que os habitantes quererão alguma agricultura e certamente alguma mata preservada. Além disso, há uma necessidade de termos terras para questões como o destino do lixo. O problema inicia quando pensamos na idéia de Platão: para termos 5040 habitantes, seria necessário algo em torno de 500 hectares, caso contrário formariamos uma cidade e não uma zona autônoma (hey! lembre-se que devemos evitar o isomorfismo, sob pena de acabarmos imitando a sociedade do lado de fora no resto também). Para que se tenha uma noção mais clara do tamanho das terras, imagine que um hectare é do tamanho de uma quadra padrão da maioria das cidades (100m x 100m). Você pode argumentar que em muitas quadras das grandes

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cidades vivem muito mais de 100 habitantes, e é verdade. Para citar exemplos breves, existem quadras em Porto Alegre onde habitam cerca de 2500 pessoas. Mas são pombais, e você não quer formar uma nova comunidade para viver como num bairro suburbano de Porto Alegre, quer? Bom, então tentemos imaginar uma quadra de 100m por 100m somente com casas. Em um terreno médio de 33x20m, podemos dizer que temos 15 casas. Pois bem, 15 casas num quarteirão (hectare) urbano são cerca de 60 pessoas vivendo. Assim, podemos dizer que num hectare urbano vivem 60 pessoas horizontalmente. Aumentemos o tamanho da área, pois se pensamos numa comunidade nova, não podemos pensar nos modelos de especulação imobiliária que demarcam esse tamanho de terras privadas em cidades. Assim, podemos afirmar que teríamos, no caso de uma comunidade sem matas, rios ou plantações, cerca de 30 pessoas por hectare e precisaríamos de 3,3 hectares para alojarmos dessa forma 100 pessoas. Bom, a partir daí podemos ter uma idéia de quanto de terra precisamos para formar essa comunidade. Se para cada hectare urbano queiramos 2 rurais (ou de matas, ou para o tratamento do lixo ou para rios e lagos), então necessitaremos de 10 hectares para essas 100 pessoas viverem bem. Esse números obviamente não contam a agricultura como meio básico de sobrevivência. Normalmente as famílias sem-terra no Brasil precisam de pelo menos 15 hectares de cultivos para se sustentarem, o que supondo que sejam 6 os componentes de uma dessas famílias, nos faria crer que precisamos de PELO MENOS 2 hectares por habitante se quisermos viver com uma economia a base de agricultura. Para 100 pessoas, necessitaríamos de 250 hectares. Inviável. Então, tenha isso em mente: a agricultura não pode ser a base econômica da zona, sob pena de restrição de crescimento. Crescimento versus Especulação Uma vez operante e forte, uma comunidade intencional terá um problema à vista: na medida em que

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mais pessoas aderem à zona autônoma e que outros nascem, é inevitável que o tamanho (em terras) tenha de ser expandido. O problema então consiste no seguinte aspecto: uma vez que a zona esteja operante, se tornará certamente o pequeno mercado local e atrairá os agricultores de regiões próximas para comercializar por ali alguma coisa. Isso os tornará mais lucrativos e uma vez mais lucrativos os seus interesses nas suas próprias terras aumentarão, diminuindo a possibilidade de quererem vendê-la. Mesmo que queiram, o preço certamente será bem maior do que quando se iniciou a zona autônoma, as vezes tornando o crescimento geográfico impraticável. Assim, existem algumas possibilidades: a primeira (e que independe da vontade dos que estão na zona a.) é que os agricultores da região queiram integrar a comunidade. Isso é a solução perfeita, mas pode ser pouco provável. A segunda possibilidade é que a zona autônoma imagine seu crescimento de forma adiantada, comprando terras circundantes antes de necessitá-las. Mas isso requer muitos recursos justamente no primeiro momento da comunidade, que é o momento mais frágil. A terceira possibilidade, que é a menos provável certamente, é que os viventes da comunidade resolvam ocupar terras não ocupadas adjacentes, mas isso seria uma declaração de guerra ao estado incontornável. A quarta possibilidade, a mais catastrófica, é que nas adjacências comece a nascer uma pequena vila (não autônoma) e que com o tempo esta acabe por: a) competir com a zona autônoma pela centralização do comercio e, b) inflacione monstruosamente o preço das terras. Ainda, como quinta possibilidade, é que a comunidade simplesmente não queira crescer e, ao invés disso, resolva investir recursos em novas zonas autônomas em outros locais, pela ampliação da rede e não da própria zona. Obviamente as alternativas possíveis acima podem

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ocorrer ao mesmo tempo e é claro que a decisão do que fazer passará pelo coletivo da zona, dadas as possibilidades e alternativas. -- Por favor, as idéias acima são aleatórias e totalmente em construção. Altere, destrua e contribua. -Consenso como Meio Nosso consenso não é exatamente uma posição política, mas, esperamos, trará um nível comum de entendimento e comunicação para o projeto. As pessoas envolvidas até o momento consideram fundamentalmente necessário a emancipação com relação a posturas nacionalistas, racistas, sexistas (incluindo homofobia, etc...) anti-semitas, anti-americanistas, capitalistas (significando a exploração da força de trabalho alheia), religiosas evangelizadoras (incluindo esoterismo). Considerados estes pontos buscaremos resolver todos os assuntos referentes ao espaço através do consenso, a serem discutidos na grande roda (assembléia geral) onde o princípio do diálogo (falar e principalmente o ouvir) será cultivado. É importante perceber que pra que haja consenso, as pessoas precisam desde já aprenderem a saber que seus interesses são válidos, mas que os interesses da comunidade podem estar acima. Na nossa sociedade atual a cultura do voto majoritário (ditadura da maioria) foi instituida pois a a lógica reinante é a avareza. A lógica é "agarre tudo que puder e pegue pra si". Assim, ninguém jamais aceita que em alguns momentos pode perder migalhas para que outros ganhem muito. O consenso já parte do pressuposto que os integrantes não se determinem pela lógica avarenta e que, portanto, saibam o momento de colocar seus interesses e necessidades no segundo plano, frente a interesses e necessidades mais urgentes de outras pessoas. Diga "Tchau, Pensamento Monolítico" Não planejamos formar ou defender posições políticas uniformes. Possuímos um certo entendimento sobre o que um grupo político é, e porque (e como) nós não

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pretendemos ser. A idéia central e que o objetivo desta forma de organização e mutualidade deve ser o mínimo denominador comum, mas interessa a todos (cada um a sua maneira) que coletivamente estão dispostos a defendê-la. Toda diversidade de pensamento é bem vinda desde que não constitua nenhuma forma de exploração, postura de segregação, estrutura hierárquica ou que entenda o coletivo como um grupo de pessoas que estão prontas pra se tornar alheias ao mundo. Tu pode defender a auto-sustentabilidade da comunidade, ou defender que devamos ter uma "balança comercial" adequada para que possamos comprar nossos subsídios de fora. Tu pode querer focar a comunidade na agricultura, ou pode tentar criar serviços, ou mesmo alguma indústria. Tu pode defender o escambo ou o uso de moeda social, ou ainda de moeda de um país. Tu pode defender o uso indiscriminado de drogas ou defender uma postura de cautela perante elas. O importante é que tu saiba que para tua idéia ter validade ela precisa ser consensual e que por mais esperto, inteligente ou carismático que tu seja, tu não vai ter poder algum sobre os outros, exceto o de vencer uma discussão. Interesse Coletivo O princípio é simples: se um quer bolo, e o outro biscoitos, o objetivo é conseguir bolo E biscoitos. Isso significa: você pode (e deve) integrar todos os seus interesses neste projeto desde que eles não sejam conflitantes com o que está sendo discutido nos outros tópicos. Comunicalidade Comunicalidade significa para nós a busca pela compreensão do outro e do que o outro nos traz, antes de censurá-lo ou mesmo criticá-lo. Todas as necessidades e todas as habilidades passam pela capacidade de poder expressá-las e entendê-las como tal. O que é necessário para o grupo é manter sempre vínculos de comunicação, na resolução de desentendimentos, bem como, de planejamento e organização com a finalidade de realizar

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todos objetivos possíveis. Sinceridade é princípio básico. Se você quer biscoitos, não tente falar mal do bolo para que as pessoas tendam a gostar de biscoitos. Você é livre para fazer o que quiser e a comunidade tem como princípio defender o que tu goste. "política" aqui tem um novo significado: o de buscar juntos solucionar problemas de todos, sejam os que forem. A Arte de resolver conflitos “Se as comunidades, em vez de aspirar, como têm feito até hoje, a ocupar vastos territórios e a satisfazer sua vaidade com idéias de império, contentassem-se com um distrito pequeno, com uma cláusula de confederação em caso de necessidade, todo indivíduo viveria sob o olhar público; e a desaprovação de seus vizinhos, uma espécie de coerção não derivada dos caprichos do homem, mas do sistema do universo, inevitavelmente o obrigaria a reformar-se ou a emigrar”. William Godwin Nunca um fim em si mesmo Para os participantes a Z.A. não é um fim em si mesmo, mas sim um instrumento na busca de uma transformação socio-cultural em nível local e global. O Objetivo final não é estabelecer e manter a todo custo uma zona autônoma alheia ao mundo, mas sim, experimentar, viver na prática (no cotidiano), e também provar a viabilidade dos modos de vivência libertária. Poucas coisas podem ser mais subversivas do que servir de exemplo de que é não só possível como também muito viável viver fora desse sistema de exploração e dopping permanente. A finalidade de uma Z.A. não é construir um mundo maravilhoso a todo custo dentro dela e esquecer tudo do lado de fora. Na verdade, pode ser mais interessante que uma Z.A. dure somente um mês, desde que seja uma vivência que ressoe naqueles que viveram aquilo. Não

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devemos pensar em termos de "fim da história" como os comunistas e os liberais costumam pensar, mas sim num processo de transformação. Aquilo que hoje colocamos aqui como a ZA que queremos pode fazer absolutamente nenhum sentido daqui a alguns anos, pois o processo de transformação constitui exatamente a finalidade, tanto interna quanto externa. Se hoje acreditamos poder ter um coletivo forte, amanhã podemos entender que o individualismo deve ser mais presente, ou mesmo que o ambientalismo deve ser posto acima, tanto faz. O importante é que se entenda que o primeiro erro de qualquer sociedade é a crença que se pode estabelecer um status quo. Se queremos uma nova sociedade e temos em mente utilizar a ZA como passo pra isso, devemos ter em mente que essa nova sociedade deve se manter alheia a mentalidades como "mas sempre foi assim". Ambiente e Socialidade Uma ZA deve manter um ambiente feito para sociabilidade. Isso significa que parques e locais cobertos públicos devem ser priorizados. Afinal, o consenso e as discussões não nascem tão-somente de espaços ditos para isso, mas sim do convívio diário, do respeito mútuo, da alteridade. Tomar um chimarrão, dividir um cigarro, tomar uma cerveja ou um vinho são essenciais para uma estrutura coletiva. Caso contrário o raciocínio meramente funcional irá tomar conta da comunidade e, se está se fazendo uma ZA, é justamente para não viver sob o jugo do império da razão funcional. Além disso, devemos primar por um meioambiente em que as pessoas se sintam bem. Pouco importa que pra isso acontecer tenhamos que restringir o número de habitantes ou nos esforçar economicamente pra conseguir mais terras. O importante não é que a ZA se torne uma cidade, mas sim que se torne um ambiente em que as pessoas se sintam suficientemente bem para querer manter aquele local como sua morada. Ocultismo e Visibilidade Pensando na historicidade do projeto precisamos

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solucionar o problema do tempo de transição. O Estado e sua sociedade, aqueles que cotidianamente assinam o pacto dominação e trabalham para sua manutenção, provavelmente não verão com bons olhos um espaço libertário surgindo do outro lado da cerca. Alguns diriam "Ocultismo é a solução, não devemos deixar que saibam o que estamos fazendo, disfarcemos a coisa toda de acampamento de férias da Igreja IsNowBall (ou da Igreja Livrai-vos dos Senhores), assim não chamaremos atenção". Ok, essa pode realmente ser uma boa estratégia no contexto de estarmos num grupo pequeno, e sem muita infra. Mas... E no momento em que a coisa toda crescer? Será que essa máscara duraria tempo o suficiente? E... O que exatamente estaremos sacrificando nesse processo? Será que conseguiríamos expandir essa idéia de transformação social através do êxodo nessa situação de disfarce? E as pessoas que deixaríamos de conhecer? E as trocas que deixaríamos de fazer? E as imagens motoras que deixaríamos de gerar no sentido de fortalecer a luta pela libertação de outros espaços? Por outro lado, teríamos a opção pela notoriedade: criar algo que impressionasse, um espetáculo antiespetáculo, um tipo de Stonehenge, o obelisco de Hakim Bey, a cidade libertária de vidro de Germinal de la Sierra, um lugar que se tornasse uma referência para outros em outros lugares, como outros lugares e experiências se tornaram referências para nós. Certamente teríamos muito mais solidariedade também, sem falar da circulação de pessoas que também aumentaria. Com número grande o suficiente de pessoas provavelmente isso não seria tão cansativo, em um grupo pequeno, talvez fosse inviável. A notoriedade no entanto, certamente traz seus próprios problemas: talvez a mídia tente nos denegrir, destruir nossa imagem, talvez a vizinhança se torne mais e mais hostil. o estado certamente não ficará indiferente à idéia de um "povoado" que não deseja ser governado. Talvez as estratégias de ocultismo e notoriedade tenham que ser pensadas conforme a ocasião, mas uma coisa é certa: uma vez mapeado pelo poder, dificilmente será possível dar um passo atrás. Por esse motivo a técnica

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ocultista talvez seja a melhor opção para o momento inicial. Talvez metas tenham que ser estabelecidas no trânsito entre o ocultismo e a visibilidade, como por exemplo Quando formos em 200 ou 300 pessoas vivendo confortavelmente, ou ainda quando tivermos terminado a infra suficiente para fazer frente a possíveis ataques. Certamente caberá à assembléia discutir e decidir o momento certo de se fazer "aparecer" para o resto do mundo. É importante também que, no momento que se apareça, o seja de uma forma forte. Pode-se criar um factóide que, a imprensa ainda desavisada, irá publicar achando que se trata de um assentamento de colonos ou de algum vilarejo que seus infelizes repórteres ainda não conheciam. Claro que tal factóide precisa ressoar bem: uma bela estátua ou um projeto de construção de uma obra esquecida de Niemeyer (que por motivos bizarros a imprensa tanto admira). Talvez o boato de que a comunidade construirá uma torre eiffel três vezes maior do que a original chame a atenção de todo mundo e em especial dos brasileiros, que tem como ponto de referência todo tipo de lixo vindo da europa. Depois de criado o factóide, se pode desmentir ele, dizendo que se trata de alguma obra libertária (talvez estátuas lado a lado com o rosto de todos os grande filhos da puta vivos). A partir daí, a luta virá. Economia solidária Possivelmente, uma vez notório, se necessite manter a comunidade numa espécie de legalização, ao ponto de que não se possa utilizar argumentos na imprensa contra nós. Por exemplo: plantar maconha poderia ser o argumento triunfal da imprensa ou do poder pra desmantelar uma comunidade de "traficantes". Estamos desenvolvendo um sistema de escambo baseado na web que poderá ser utilizado em breve de forma a criar um meio de troca de bens e serviços na ZA sem depender da moeda corrente "oficial". Ele está sendo desenvolvido com tecnologia Open Source e poderá ser

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continuamente aprimorado conforme as necessidades da coletividade.

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