PODER JUDICIÁRIO

JUSTIÇA FEDERAL
SEÇÃO JUDICIÁRIA DO DISTRITO FEDERAL
12a VARA

QUEIXA-CRIME N° 18215-82.2016.4.01.3400
Queretante : MICHEL MIGUEL ELIAS TEMER LULIA
Advogados : RENATO OLIVEIRA RAMOS e THIAGO MACHADO DE
CARVALHO
Querelado : CIRO FERREIRA GOMES
Advogados : MIRELLA RIBEIRO PARENTE DE VASCONCELOS e
OUTROS

SENTENÇA

Vistos, etc.

MICHEL MIGUEL ELIAS TEMER
LULIA ofereceu queixa-crime contra CIRO FERREIRA GOMES, por isso
que, nos dias 03 de novembro de 2015, 04, 12 e 14 de dezembro de 2015,
em entrevistas concedidas ao site UOL Notícias, aos Jornais O Globo e
Estadão, ao periódico Carta Capital e à jornalista Mariana Godoy, o
Querelado asseriu que o Querelante fazia parte de quadrilha e
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praticado advocacia administrativa, sendo referido como "capitão do golpe" e
"conspirador". Narra, ainda, que nas mesmas oportunidades o Querelado
teria se referido ao Querelante como alguém que pratica "loucuras" no
exercício das suas funções públicas, aludindo ter subscrito uma carta
"cretina" à então Presidente da República.

Requer, a final, a condenação do
Querelado nas penas dos arts. 138, 139 e 140 do Código Penal, com a
causa especial de aumento de pena prevista no art. 141, III do Código Penal
(fts. 03/23).

A queixa crime se fez acompanhar dos
documentos de fls. 24/68.

2. Frustrada tentativa de conciliação (cf.
despacho de f l. 74 e manifestação de f l. 76), foi a gueixa crime recebida
em 28 de marco de 2016 (cf. decisão de fls. 78/79). Decisão apreciando a
resposta à acusação e designando audiência de instrução e julgamento
acostada às fls. 170/171.

3. As partes não arrolaram testemunhas e
o Querelado manifestou não ter interesse em ser interrogado (cf. ata de fl.
297).

4. Em memoriais escritos, postula o
Querelante a procedência da quetxa-crime, eis que tem por demonstrada a
ocorrência dos crimes de calúnia, injúria e difamação. Pugna pelo
reconhecimento das circunstâncias agravantes relativas ao motivo fútil ou
torpe e ao fato de ter a vítima mais de sessenta anos (CP, art. 61, II, a e h -
fls. 324/334).

O Querelado aduz, preliminarmente, a
nulidade processual por ausência do oferecimento de proposta de transação
penal e por não ter a decisão de recebimento da queixa-crime apreciado a
questão. No mérito, pede a improcedência da ação, seja pela não ocorrência

TRF10HEQIAO/IMP.1S-01-04-SJ
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dos delitos de calúnia e difamação, seja pela ausência de demonstração de
que o Querelado se portara com animus injuríandi (fIs. 335/368).

O Ministério Público Federal manifesta-
se pela rejeição das nulidãdes suscitadas pela defesa e pela improcedência
da queixa-crime, pois (i) não demonstrada a atribuição de fato específico por
parte do Querelado em relação ao Querelante, circunstância que elide a
caracterização dos delitos de calúnia e difamação, e; (ii) ausente o animus
injuríandi nas seguidas manifestações do Querelado, as quais devem ser
tidas por crítica política (fls. 371/375).

5. Autos conclusos para sentença em 04
de outubro de 2017.

Esse o relatório.

DECIDO

6. Examino, inicialmente, a preliminar de
nulidade suscitada pelo Querelado, ao fundamento de que não fora deduzida
a proposta de transação penal, eis que a queixa-crime refere ilícitos de
menor potencial ofensivo. Divisa, outrossim, nulidade na decisão'proferida
ao ensejo da rejeição da absolvição sumária, pois silente acerca do terna.

Não assiste razão ao Querelado. O rito
previsto na Lei n° 9.099/95 não se aplica à espécie, porquanto a queixa-
crime refere a prática, em concurso material, dos delitos de calúnia,
difamação e injúria. Em sendo assim, por força das regras legais que cuidam
da pena aplicada em se tratando de concurso material de crimes (CP art.
69), não há que se falar em transação penal.

É que, para fins de determinação da
competência dos juizados especiais, em havendo concurso de crimes, a

TRFIOREOlAO/IMP.lfi-OI-04-SJ
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pena considerada será o resultado da soma, no caso de concurso material,
ou da exasperação, no caso de concurso formal ou crime continuado.i

Nesse sentido consignou a decisão
vista às fls. 170/171, daí porque é força afirmar a inexistência das aventadas
nulidades.

7. Isto posto, adentro o meritum causae.

A queixa-crime atribui ao Querelado a
prática dos crimes de calúnia, difamação e injúria, vale dizer, ter ofendido a
honra subjetiva e objetiva do Querelante, atribuindo-lhe a prática de fato
definido como crime ("... faz parte da quadrilha do PMDB"), imputando-lhe
fato atentatório ao seu bom conceito pessoal e profissional ("ter agido como
'capitão do golpe', e ser um 'conspirador'") e irrogando-lhe aleivosias ("estaria
fazendo 'loucuras" no exercício de suas funções públicas" e que "produziu
uma carta 'cretina' que foi encaminhada à Presidente dá República").

8. As provas coligidas nos autos não
corroboram a imputação.

As condutas descritas na queixa-crime
como consubstanciadoras de calúnia e difamação (CP arts. 138, caput e
139, caput), como bem observou o Ministério Público Federal (cf.
manifestação, f l. 372, frente e verso), são atípicas. É que não logrou o
Querelante indicar qual foi o "fato definido como crime" e o "fato ofensivo à
sua reputação" que o Querelado teria lhe atribuído.

A afirmação do Querelado de que o
Querelante "... faz parte da quadrilha do PMDB..." e de que agira como "...
capitão do golpe...", portando-se como um "conspirador", não encerra a
indicação de fato específico. Cuida-se, antes, de crítica dirigida a adversário

l Esse o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, consoante dá conta o decidido no CC n°
51.537-DF, 3a Seção, rei. Min. Arnaldo Esteves Lima, unânime, DJU I de 09.10.2006. Na
oportunidade, proclamou-se que a absolvição em relação a um ou a alguns dos crimes, a
desclassificação ou mesmo a não-incidência de causa de aumento de pena por ocasião da sentença,
não afastam a competência da Justiça comum delineada pela pretensão, mesmo subsistindo a
condenação apenas em relação ao crime abrangido pelo conceito de menor potencial ofensivo.
TRF lnRESlAo;iMP.15-01-Q4-SJ
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político em momento de especial gravidade, a saber, atos que antecederam
ao impeachment da Presidenta Dilma Rousseff.

9. A assertiva do Querelado de que o
Querelante "... estaria fazendo 'loucuras' no exercício de suas funções
públicas..." e que "... produziu uma carta 'cretina1 que foi encaminhada à
Presidente da República...", conduta que a queixa-crime indica como
ensejadora de injúria (CP art. 140, caput), traduz legítima critica política
própria do debate que se desenvolveu (e que se desenvolve) no país ao
menos nos últimos dois anos (desde os primeiros movimentos de
contestação do Governo Dilma Rousseff, culminando com seu impeachment
e com a posse do Querelante no cargo de Presidente da República
Federativa do Brasil).

Observo que manifestação
eventualmente ofensiva feita com o propósito de informar, debater ou
criticar, desiderato particularmente amplo em matéria política, não configura
injúria.2

10. Por todo o exposto, JULGO
IMPROCEDENTE a queixa-crime para o fim de ABSOLVER CIRO
FERREIRA GOMES, eis que não constitui o fato infração penal (CPP art.
386, III).

Custas devidas pelo Querelante.

Envie-se cópia desta sentença à
Desembargadora Federal relatora do habeas corpus indicado às fls.
204/206.

2 Cf., nesse sentido, o decidido pelo Superior Tribunal de Justiça na AP n° 555-DF, Corte Especial,
rei. Min. Luiz Fux, unânime, DJe 14/05/2009 e no HC n° 244.671-AP, 5a Turma, rei. Min. Marco
Aurélio Bellizze, unânime, DJe de 07/12/2012.
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Expeçam-se as comunicações
cabíveis. Decorrido o prazo para recurso, arquivem-se os autos, dando-se
baixa na distribuição.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Brasília, 10 de outubro de 2017.

TRF10HEG1AO/1MP.15-01-04-SJ