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IRBr – Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata

Manual do Candidato

Geografia
Regina Célia Araújo

2ª edição
atualizada e revisada

Brasília
2000

Presidente Álvaro da Costa Franco Filho
Diretora de Administração Geral Maria Lucy Gurgel Valente de Seixas Corrêa

Copyright  2000 Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG

A663m
Araújo, Regina Célia
Manual do candidato : geografia / Regina Célia Araújo. – 2. ed. atual. e
rev. – Brasília : FUNAG, 2000.
194p. ;

ISBN 85-87480-02-2

Inclui bibliografia.

1. Instituto Rio Branco – Concursos. 2. Serviço púplico – Brasil –
Concursos. 3. Geografia. I. Fundação Alexandre de Gusmão. II. Título.

CDD-354.81003

Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG
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Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional
conforme Decreto nº 1.825, de 20.12.1907

APRESENTAÇÃO

A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) oferece aos candidatos ao
Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, do Instituto Rio Branco (IRBr),
do Ministério das Relações Exteriores, a série Manuais do Candidato, com nove
volumes: Português, Questões Internacionais Contemporâneas, História do Brasil,
História Geral Contemporânea, Geografia, Direito, Economia, Inglês e Francês1.

Os Manuais do Candidato constituem marco de referência conceitual,
analítica e bibliográfica das matérias indicadas. O Concurso de Admissão, por
ser de âmbito nacional, pode, em alguns centros de inscrição, encontrar candidatos
com dificuldade de acesso a bibliografia credenciada ou a professores
especializados. Dada a sua condição de guias, os manuais não devem ser encarados
como apostilas que por si sós habilitem o candidato à aprovação.

A FUNAG convidou representantes do meio acadêmico com reconhecido
saber para elaborarem os Manuais do Candidato. As opiniões expressas nos
textos são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

1
O IRBr considera importante ao Concurso de Admissão que os candidatos não descuidem do
aperfeiçoamento no idioma francês, uma vez que (a) será exigida proficiência de alto nível em francês
no processo de formação de diplomatas e (b) parte da bibliografia do Programa de Formação e
Aperfeiçoamento – Primeira Fase (PROFA I) é constituída de textos em francês.

................................................................................................ Exemplos de Questões ............................................. O Espaço Geográfico ............................... 90 7.... 119 4.......... Exemplos de Questões ..... 11 3....................................... 19 2.......... O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil................................................................... Condição Periférica e Industrialização Tardia: A América Latina ................ Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza ............................................................ 149 6........................................... O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul .... 9 1.............. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação do Território Brasileiro ................ 77 6.......... 96 2............................................................................ Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Políticas em Escala Global ..... 19 1........................................ 140 5. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil ............... 56 4......... SUMÁRIO Unidade I – Sociedade e Espaço: o campo de reflexões da Geografia .......... As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônia .................................. 95 1................................................................................ Herança Colonial........................................... Bibliografia ... 150 ....................................... Bibliografia ...................................... 15 Unidade II – A Formação Territorial do Brasil .................... Bibliografia .... O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais . 9 2........ Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil ......................................................................................................... 34 3.............. 113 3....................... 66 5..................................... 91 Unidade III – O Brasil no Contexto Geopolítico Mundial ....................................................................

................................................................ 194 ............... Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação ....................................................................................................... As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas Cidades Brasileiras ................. Bibliografia ................. 180 4........................................................................ 163 3..........Unidade IV – A Questão Ambiental no Brasil e os Desafios do Desenvolvimento Sustentável ................ 193 5.... 153 2....................................................... A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo ............ 153 1..................................................................... Exemplos de Questões ................

UNIDADE I SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA .

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 8 .

que tratam da formação do território brasileiro. Sendo assim. Nessa perspectiva. o conceito de espaço ocupa lugar de destaque. Nessa primeira Unidade. O processo de humanização da natureza e de transformação desta em recurso produtivo resulta na produção social de formas espaciais diferenciadas. O geógrafo Milton Santos define espaço como acumulação desigual de tempos. ao produzirem sua vida material e sua história. pretende-se introduzir a discussão acerca desse conceito e apresentar alguns momentos cruciais da história do pensamento geográfico. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA No vasto campo de reflexões da geografia. modificam os ambientes naturais e produzem também espaço. O espaço geográfico materializa atributos das sociedades que os produziram. 9 . Essa introdução conceitual. materialização de idéias e de ações das sociedades sobre a natureza. de forma a orientar a leitura das Unidades subseqüentes. 1. ou. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA I. O Espaço Geográfico As sociedades humanas. o espaço geográfico é coagulação do trabalho social. por exemplo. que abarca desde a lógica da distribuição espacial das atividades humanas e suas transformações ao longo da história até a percepção subjetiva das realidades espaciais vivenciadas pelas diferentes sociedades e pelos grupos que as compõem. O surto industrialista vivenciado pela Europa no século XIX. mais simplesmente. na produção do espaço geográfico. e não dispensa uma revisão bibliográfica de maior fôlego acerca das grandes linhas teóricas e conceituais que vertebram o campo de reflexões da geografia: trata-se apenas de um quadro de referências fundamentais. da inserção do país no contexto internacional e dos impactos do uso predatório dos recursos naturais sobre o patrimônio ambiental do país. porém. está longe de ser conclusiva. ele está em permanente mutação.

ao mesmo tempo. a paisagem compreende dois elementos: Os objetos naturais. 10 . uma desconcentração dos ramos industriais tradicionais pelo território e uma reconcentração das indústrias de base tecnológica em alguns pólos do Centro-Sul. a integração crescente da economia chinesa com o mercado mundial está mudando a paisagem urbana das cidades litorâneas. isto é. e ser o resultado da acumulação da atividade de muitas gerações. objetos sociais. Um centro urbano de negócios e as diferentes periferias urbanas. Os objetos sociais. em ritmos e intensidade variados. testemunhas do trabalho humano. no passado como no presente. que não são obra do homem nem jamais foram tocados por ele. A abertura contemporânea da economia brasileira para os fluxos globalizados de capitais e mercadorias está mudando a geografia das atividades produtivas do país. Em realidade. que adquirem as feições das modernas aglomerações urbanas ocidentais. de imóvel. Uma paisagem urbana ou uma cidade de tipo europeu ou de tipo americano. cristaliza em suas formas o passado e o presente das sociedades que a produziram: Uma região produtora de algodão. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e a paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança. formas mais ou menos duráveis. O seu traço comum é ser a combinação de objetos naturais e de objetos fabricados. de café ou trigo. assim como o espaço. Tudo isto são paisagens. A geografia estuda uma realidade em permanente mutação. Do mesmo modo. A paisagem não tem nada de fixo. na medida em que os novos investimentos estão promovendo. e não um objeto fixo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO transformou radicalmente a geografia do continente: as precárias vias de circulação medievais e as modestas cidades – com ruelas estreitas que obedeciam a um plano radioconcêntrico – cederam lugar às ferrovias e às grandes aglomerações urbanas. as relações sociais e políticas também mudam. Ainda de acordo com Milton Santos. a paisagem.

Nas obras do geógrafo alemão Friedrich Ratzel. Como sempre acontece na história das ciências. assim como o espaço. altera-se continuamente para poder acompanhar as transformações da sociedade. o progresso consistiria na emancipação progressiva dos homens das 11 . renovada. “A história é um processo sem fim. publicadas no último quartel do século XIX. 37-38. Milton. 1986. Assim. São Paulo: Hucitec. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais. mais independentes com relação ao meio. São as testemunhas do passado. o filósofo e geógrafo. A paisagem é resultado de uma acumulação de tempos. na mesma velocidade ou na mesma direção. dos povos civilizados. Pensando o espaço do homem. para dar lugar a uma outra forma que atenda às necessidades novas da estrutura social. Considerada em um ponto determinado no tempo. cada porção do espaço. aqueles que vivem submetidos às leis da natureza. uma paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de uma sociedade. a história e o espaço geográfico. o estudo da influência do meio – ou das condições naturais – sobre a humanidade ocupa lugar de destaque. suprimida. Ratzel distinguia os povos naturais. De um lado alguns dos seus elementos não mudam – pelo menos em aparência – enquanto a sociedade evolui. [SANTOS. A paisagem. p. A forma é alterada. essas teorias são também uma expressão do contexto histórico no qual surgiram. mas os objetos mudam e dão uma geografia diferente a cada momento da história” dizia Kant. Por outro lado. Para cada lugar.] 2. muitas mudanças sociais não provocam necessariamente ou automaticamente modificações na paisagem. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza Os mais importantes pensadores da geografia criaram teorias diferentes acerca das relações entre a natureza. essa acumulação é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo.

1990. porque ele foi bastante prudente para recolher provisões.] Para Ratzel. Friedrich. De acordo com ele: Para a geografia política. Precisamente em razão da nossa civilização estamos unidos à natureza mais intimamente que todas as gerações que nos precederam. que não semeou. representa um corpo vivo que se estendeu sobre uma parte da Terra e se diferenciou de outros corpos. mas para o camponês esta dependência é menos grave. alcançado na medida em que as sociedades dominassem de maneira progressivamente mais plena os recursos naturais disponíveis em seu meio.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO determinações naturais. as suas teses foram associadas ao expansionismo latente da Alemanha do século XIX. Não nos tornamos completamente livres da natureza pelo fato de a explorarmos e estudarmos mais a fundo. localizado na sua área essencialmente delimitada.” In: MORAES. O território dos povos civilizados seria a expressão de uma ligação completa e íntima entre sociedade e natureza: Chamamos naturais certos povos não porque eles vivem nas mais íntimas relações imagináveis com a natureza. mas no sentido de uma união mais multíplice e mais ampla. Antônio Carlos Robert (Org. mas porque vivem sob a constrição da natureza. [RATZEL. Não por acaso. que 12 . enquanto qualquer vento forte que lance à água as espigas de arroz atinge o indiano de modo vital. 122. tornamo-nos cada vez mais independentes dos acidentes singulares do seu ser e agir na medida em que multiplicamos as ligações. é para ele uma leve cadeia. cada povo. A distinção entre povo natural e povo civilizado não deve ser buscada no grau mas no seu modo de dependência com a natureza. p. A civilização não é propriamente independência da natureza no sentido de uma separação completa. e o tamanho de um Estado seria indicador do grau de civilização de seu povo. a decadência ou o progresso de uma sociedade estariam ligados respectivamente à perda e à conquista de territórios. que não o prende tão facilmente.). “Povos naturais e povos civilizados. Ratzel. São Paulo: Ática. O camponês que acumula o trigo no seu celeiro é tão mais dependente do seu campo quanto o é o indiano que recolhe nos pântanos o seu arroz aquático.

publicadas entre o final do século XIX e o início do século XX. Logo. os povos estão organizados em Estados menores. Assim como a área do Estado cresce com sua cultura. 1990. O contato entre “gêneros de vida” diferentes explicaria o contínuo aumento das fronteiras ecúmenas da terra. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA igualmente se expandiram por fronteiras ou espaços vazios. uma íntima relação entre expansão política e religiosa.). Dominar politicamente essas áreas. que ainda hoje atua como um impulso poderoso em todas as direções de expansão.. In: MORAES. Tal energia só pode se desenvolver lentamente pela e através da cultura (.). Em suas obras. produto dos esforços físicos e intelectuais de inúmeras gerações. na relação histórica e cumulativa com a natureza – cujos recursos são desigualmente distribuídos –. A expansão dos horizontes geográficos. [RATZEL. levam à expansão devido às pressões espaciais (.. São Paulo: Ática. As populações estão em contínuo movimento interno. Vemos. para diante ou para trás.). menores se tornam os Estados. Ele se transforma em movimento externo. e que. que aumentam com a cultura. Fornecendo apoio a todos esses impulsos estão as pressões populacionais.. quando se ocupa um novo trecho de terra ou se abandona uma possessão anterior (.. p. Mas mesmo elas são ultrapassadas pela enorme influência do comércio. Friedrich.] O geógrafo francês Vidal de La Blache esteve na origem de uma outra importante escola da geografia. quanto mais descemos nos níveis da civilização. os diferentes grupos humanos criariam “gêneros de vida” particulares. pela difusão de técnicas e hábitos ou pela complementariedade dos recursos naturais. vemos também que. apresenta continuamente novas áreas para a expansão espacial das populações. 13 . De fato.). nos estágios inferiores de civilização. Antônio Carlos Robert (Org. 176-178. La Blache propôs que.. amalgamá-las e mantê-las unidas requer energia ainda maior. acima de tudo. tendo por sua vez promovido a cultura. o tamanho de um Estado também se torna um dos parâmetros do seu nível cultural. “As leis do crescimento espacial dos Estados”.. realizada pelo comércio. Ratzel.

os outros são dotados da faculdade de transmitir-se e de se espalhar. dentes. 1990. e que os muitos instrumentos e materiais que usamos podem ser também utilizados em meios físicos diferentes. nas regiões de alta civilização. Principes de Geographie Humaine. espinhas. Paris: Éditions Utz. esse meio foi pouco modificado.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O progresso residiria. De um lado. podemos reconhecer as características do meio litoral e equatorial. encontramos as coloridas plumas das aves da floresta. então. quando olhamos a nossa volta. armas e adereços do mundo melanésio: nas conchas.] As cidades. funcionariam como verdadeiras “oficinas de civilização”. e esses resultados de progresso acumulados de que vivem as nossas civilizações superiores. a partir delas. expressão de meios locais. Uns são tão exatamente decalcados aos lugares onde se encontram. nos pastores das savanas africanas. 14 . na ampliação da capacidade produtiva e no progressivo enfrentamento das limitações impostas pela natureza. as peles de rinocerontes e as correias de couro de hipopótamo. vemos que os nossos campos. foi possível argumentar que a difusão do “gênero de vida” europeu pavimentaria o caminho do progresso nesses continentes. Por outro lado. que não podemos transportá-los nem imaginá-los em outra parte. de outro. madeira e fibras vegetais. Pode-se recorrer a inúmeros exemplos de modos de vida inspirados diretamente no meio ambiente. que os nossos companheiros. as teses de Vidal de La Blache operaram no sentido de apresentar uma justificativa ideológica para o colonialismo francês na África e na Ásia. 209. resultante desse contato: Observe em um mostruário de museu o espólio de vestuários. p. quase nada se buscou no exterior. lugar de encontro por excelência. vegetais e animais. Paul Vidal de. Parece que há um abismo entre esses rudimentos de cultura. os nossos prados e até mesmo a nossa floresta em parte são artificiais. escamas de tartarugas. civilizações autônomas. [LA BLACHE. Para muitos estudiosos. civilizações nas quais o meio natural não se distingue senão através das complicações de elementos heterogêneos. são aqueles que escolhemos. nos ornamentos dos índios brasileiros. o mundo vegetal e animal permanece no estado de natureza. já que. Excluindo-se os incêndios e os desbravamentos temporários.

Conceitos e Temas. muitas das quais fundadas na dimensão espacial da dinâmica das contradições sociais. GREGORY. Espaço e Ciência Social. 1993. São Paulo: Hucitec/ Edusp. Sociedade. Milton. Rio de Janeiro: Zahar. Rio de Janeiro: Bertrand. Geografia. valendo-se de métodos investigativos caros aos historiadores. A Geografia Econômica. A Geografia Política desvenda as complexas relações entre os Estados e os territórios e as dimensões políticas dos fenômenos de configuração do espaço. A Geografia Histórica preocupa-se com a formação dos territórios e com a história dos espaços e dos lugares. Geografia Humana. A Geografia Cultural abrange temas como a percepção do espaço na vida cotidiana e no universo cultural. SANTOS. 1992. e fornece instrumentais indispensáveis a compreensão das Unidades subseqüentes. 3. Iná Elias et alli. 15 . a geografia viveu um processo de especialização acadêmica. Metamorfoses do Espaço Habitado. Derek et alli. Os conceitos e as teorias fundamentais da disciplina foram problematizados e novas e importantes correntes teóricas surgiram. 1995. por exemplo. Do mesmo modo que as demais ciências humanas. A bibliografia sugerida para essa Unidade oferece um panorama dos muitos caminhos que vêm sendo percorridos pelos estudos geográficos. e diferentes arcabouços conceituais sustentam cada uma das suas áreas. além de estudar a construção social de identidades baseadas em lugares. dedica-se à análise da espacialidade dos processos e estruturas produtivas e à formulação das mais diversas teorias de localização. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA O pensamento geográfico sofreu grandes alterações desde o século XIX. Bibliografia Bibliografia Básica CASTRO.

São Paulo: Hucitec. São Paulo: Hucitec/Edusp. ______. 16 . MORAES. 1992. Wanderley Messias da. 1988. São Paulo: Contexto.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Bibliografia Complementar COSTA. Fronteiras e Nações. 1992. 1989. Ideologias Geográficas. André Roberto. MARTIM. São Paulo: Hucitec/Edusp. Geografia Política e Geopolítica. Antônio Carlos R. A Gênese da Geografia Moderna.

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL UNIDADE II A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL 17 .

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 18 .

A consolidação de um pólo industrial no Sudeste e de periferias industriais nas demais regiões redesenharam a geografia do país. criou as condições necessárias à proliferação do fenômeno urbano e à industrialização. por sua vez. O crescimento industrial registrado após a década de 1930. mais tarde. As sucessivas ampliações da fronteira produtiva da América Portuguesa. alimentaram a conturbada história da ocupação do território e do traçado das atuais fronteiras brasileiras. bem como os grandes eixos temáticos de análise do território brasileiro. assim como o esforço da Coroa Portuguesa (e. Os momentos cruciais de produção e valorização do território brasileiro. do Império Brasileiro) no sentido de assegurar a posse das bacias hidrográficas e das rotas e caminhos considerados estratégicos. lançou as bases da integração econômica e geográfica do território e gerou os “desequilíbrios” regionais. 1. ainda nos tempos da República Velha. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O espaço brasileiro é resultado de uma sucessão de tempos históricos. são problematizados nos textos que compõem essa Unidade. O caráter litorâneo do povoamento e a monopolização do acesso à terra remontam ao passado colonial. Nas últimas décadas. definindo focos de produção e consumo dispersos pelo território. A Definição dos Limites Territoriais e o Processo de Ocupação do Território Brasileiro Em sua gênese. a abertura econômica e o novo caráter de inserção do Brasil nos circuitos globais de produção e consumo vêm produzindo impactos profundos na dinâmica territorial brasileira e alterando de forma substancial da divisão regional do trabalho no país. 19 . A economia cafeeira. o processo de formação territorial do Brasil está associado à empresa colonizadora. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL II.

tais como produtos manufaturados e especiarias vindas do Oriente. a lavoura canavieira seria introduzida na Zona da Mata nordestina. Cabo Verde e Açores –. O açúcar produzido nos engenhos era transportado pelos rios ou em carros de boi até os grandes portos exportadores: Recife e Salvador. Esses centros urbanos funcionavam como elos de ligação entre as regiões produtoras e os mercados consumidores de além-mar. Dois anos mais tarde. cultivados por mão-de-obra escrava e dotados de um engenho de produção de açúcar.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A implantação da empresa agrícola colonial na América Portuguesa foi uma iniciativa inovadora e arrojada: no século XVI. As transações comerciais a longa distância eram restritas às mercadorias cujo valor pudesse compensar os altos custos de transporte. e a fronteira produtiva do território colonial conheceu sucessivos alargamentos. no século XVII. na vila de São Vicente. Na segunda metade do século XVI. em 1531. Vastos latifúndios canavieiros. Por isso. Porém. novas atividades econômicas foram implantadas. São Tomé. sediavam as principais instituições administrativas e comerciais da colônia. a região nordeste da colônia – em especial as capitanias da Bahia e de Pernambuco – havia se firmado como o centro da empresa agrícola colonial. Em pouco tempo. nenhum produto agrícola era objeto de comércio em grande escala na Europa. As primeiras mudas de cana foram trazidas ao Brasil por Martim Afonso de Sousa. eram a unidade básica dessa empresa. A empresa açucareira implantada pelos colonizadores no século XVI ocupava somente uma estreita faixa costeira do imenso território luso- americano. seria construído o primeiro engenho de açúcar da colônia. As ilhas atlânticas de colonização portuguesa foram o laboratório da grande empresa agrícola que iria ter lugar na América Portuguesa. 20 . Nessas ilhas – Madeira. a monocultura canavieira era praticada desde o século XV. O clima quente e úmido da região bem como a topografia suave e a presença de solos extremamente férteis (conhecidos como solos de massapê) ofereciam condições ideais para o plantio da cana.

O fracasso da empresa agrícola exportadora produziu um verdadeiro despovoamento do litoral vicentino. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O sucesso comercial do açúcar nos mercados europeus estimulou o aumento da área canavieira da Zona da Mata nordestina: no século XVII. Os índios que se opuseram a essa marcha colonizadora sobre o sertão sofreram uma verdadeira guerra de extermínio. o Caminho do Mar. os colonos praticavam a policultura de subsistência. e a predominância de solos rasos e pantanosos desestimulavam a ampliação da agricultura canavieira na região. 21 . fundada pelos jesuítas em 1554 e elevada à categoria de vila seis anos depois. No fim do século XVII. Nos entroncamentos dos caminhos do rebanho. era a principal via de ligação entre o litoral e os campos de Piratininga. se tornou o maior núcleo de povoamento da capitania ainda no século XVI. Nelas. Nos arredores da vila. A estreiteza da fachada litorânea. embriões das cidades sertanejas do nordeste brasileiro. os sinais de decadência eram evidentes. grandes fazendas de pecuária extensiva dominavam a paisagem do sertão nordestino. O açúcar vicentino sucumbiu à concorrência do açúcar nordestino. índios e brancos pobres — eram suficientes para cuidar do rebanho e transportá-lo para as feiras de gado da Zona da Mata. Partindo da Bahia e de Pernambuco (os dois maiores núcleos da produção canavieira). a prosperidade da empresa açucareira vicentina durou muito pouco: já na segunda metade do século XVI. surgiram inúmeros povoados. As maiores distâncias em relação aos portos europeus encareciam os custos de frete. que abrigavam a vila de São Paulo. poucos homens livres — negros libertos. São Paulo de Piratininga. que passou a ser conhecido como o “rio dos currais”. e do Rio Parnaíba. O gado foi expulso das terras nobres da fachada litorânea e ganhou os sertões. comprimida pela proximidade da Serra do Mar. Um velho caminho indígena. utilizando a mão-de-obra dos índios escravizados. pontos de contato entre o sertão pastoril e o litoral agrícola. Na Capitania de São Vicente. a pecuária se expandiu na direção do Rio São Francisco. as terras de pasto dos engenhos se transformaram em canaviais. Os colonos paulistas galgaram a Serra do Mar e se estabeleceram nas vilas fundadas no planalto.

ampliou o mercado de índios escravizados nas regiões produtoras de açúcar. além de servir de moeda de troca com os aparelhos negreiros da costa africana. As reduções jesuíticas em território hispano-americano eram o principal alvo do bandeirantismo de apresamento: nelas. o apresamento dos índios permaneceu restrito aos arredores dos campos de Piratininga. Os índios. aproveitando os cursos fluviais e abrindo caminhos terrestres. ouro e pedras preciosas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O apresamento e escravização dos índios era o principal meio de enriquecimento para os colonos da capitania. Na segunda metade do século XVII. a desorganização do tráfico negreiro. 22 . As freqüentes incursões às reduções localizadas às margens do Rio Paranapanema (atual Estado do Paraná) foram responsáveis pela transferência de muitos desses aldeamentos para a província argentina de Missões. eram uma mercadoria de fácil transporte: podiam atravessar andando os difíceis caminhos do sertão e da serra. As bandeiras de apresamento ganharam o interior. além de serem necessários na policultura de subsistência. No século XVI. Produzido principalmente no Recôncavo Baiano e em Alagoas. o tabaco era exportado para mercados europeus. e impedir o contrabando de produtos nativos tais como madeira e pescado. os índios estavam concentrados e domesticados. intensificaram-se as expedições oficiais pelo vale amazônico. O empreendimento contava com o apoio da Coroa lusitana. No século XVII. Também no século XVII. Elas tiveram um sentido predominantemente geopolítico: tratava-se de expulsar holandeses e ingleses. A exportação de fumo assumiu importância nas receitas coloniais portuguesas na metade do século XVII. entre o alto curso do Rio Paraná e o alto curso do Rio Uruguai. senhores de muitas feitorias ao longo do curso dos rios. a principal finalidade das expedições bandeirantes era a localização de jazidas de prata. conseqüência das guerras holandesas. que contratou diversos sertanistas para organizar e comandar as bandeiras de pesquisa.

Os mais importantes núcleos urbanos das Minas Gerais floresceram nessa região: Vila Rica de Ouro Preto. apareceram zonas de povoamento mais disperso. tais como o urucu. Todos os esforços produtivos da região mineradora estavam concentrados na extração de metais e pedras preciosas. Os principais afloramentos auríferos e diamantinos estendiam-se da Bacia do Rio Grande até as nascentes do Rio Jequitinhonha. Mato Grosso e Goiás promoveu um afluxo populacional sem precedentes na história colonial. Sabará. Após a Restauração. Itajubá. a Coroa lusitana intensificou a ocupação militarizada da região. Desde o final do século XVII. a confirmação da existência de metais preciosos nas regiões planálticas de Minas Gerais. esse núcleo de povoamento deveria centralizar a exportação das mercadorias e sediar os órgãos do poder metropolitano sobre a região. eram as principais mercadorias de exportação. Caeté. alargando substancialmente a faixa de ocupação do território luso- brasileiro. o gergelim. foi a ponta de lança da estratégia colonizadora da Coroa Ibérica no grande norte. próximas às minas do Rio Verde. Em torno desses núcleos. O excedente alimentar das missões contribuía para o abastecimento de Belém e das pequenas cidades que surgiam na região. as bandeiras paulistas rumo aos sertões do Rio São Francisco seguiam dois caminhos principais. Vila do Príncipe. Os caminhos abertos para a exportação desses produtos e para o abastecimento das Minas Gerais transformaram a geografia do Centro-Sul colonial. o cacau selvagem. Nas últimas décadas do século XVII. fundado em 1616. Uma rede de fortificações portuguesas foi construída seguindo a calha central do Rio Amazonas. Situado na foz do Rio Amazonas. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O Forte do Presépio de Belém. Plantas nativas. Arraial do Tijuco e outras. Minas Novas e de Paracatu. Os aldeamentos indígenas controlados pelas diversas ordens religiosas representadas na região amazônica funcionavam como uma reserva de coletores dessas “drogas do sertão”. o guaraná. Mariana. a castanha-do-pará. que ficaram conhecidos respectivamente como Caminho Geral do Sertão e Caminho 23 . a salsaparrilha e o pau-cravo.

a Coroa lusitana. Pelo Caminho Novo era possível atingir a região das Minas Gerais em apenas dezessete dias. preocupada com o contrabando da produção aurífera. A criação de gado primeiro ganhou os campos de Paranaguá e Curitiba. Juiz de Fora. O porto do 24 . Na retaguarda da economia mineira.975 habitantes. Taubaté. seguia o curso do Rio Paraíba do Sul. A curva demográfica. a capitania vicentina contava com 15. Centros urbanos importantes floresceram e prosperaram nos caminhos de gado: Sorocaba (onde se realizavam as grandes feiras). Pindamonhangaba e Guaratinguetá. transformados em centros de criação de muares. Apiaí. os caminhos paulistas demandavam dois meses de viagem até a região mineira. Em 1777. a agricultura paulista se expandiu rapidamente. Laranjeiras. Itapetininga. Faxina. O primeiro partia de São Paulo. Pirapora. No início do século XVIII. e seguia na direção do Rio Grande. Transposto esse rio. O Caminho Novo tinha duas variantes: uma seguia até o porto de Pilar e galgava a Serra do Mar. Avaré e outros. Jacareí. A abertura do Caminho Novo canalizou para o Rio de Janeiro a maior parte dos lucros do comércio com o hinterland mineiro. Cabreúva. Os gêneros alimentares produzidos nos arredores das vilas paulistas atingiam preços exorbitantes na região mineradora. para logo depois atingir os distantes campos sulinos do Rio Grande do Sul e do Uruguai. acompanhou esse surto produtivo: no início do século XVIII. a outra contornava a Baixada Fluminense e subia o Rio Santana. Ainda na primeira década do século XVIII. mais utilizado. atravessava a Serra da Mantiqueira na altura da passagem de Hepacaré (atual Lorena) e buscava o sertão do Rio das Velhas. alimentada pela constante imigração lusitana. rumando para Jundiaí. Barbacena etc. Em média. tropas de mercadores ganharam os caminhos bandeirantes. buscava a Serra das Vertentes e daí ganhava o São Francisco. passando por Mogi das Cruzes. O segundo. Ambas se encontravam perto da cidade de Paraíba do Sul e daí seguiam na direção de Correias.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Velho. mandou construir um caminho que ligasse a região mineradora e a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.000 homens livres. os documentos oficiais registram uma população livre de 116. Itararé.

Além do gado. uma mercadoria muito mais valiosa nas Minas Gerais do que nas tradicionais regiões açucareiras da Zona da Mata. escoando a maior parte da produção aurífera e diamantina e centralizando as importações necessárias ao funcionamento da empresa mineira. ressalta a importância da geopolítica imperial na horogênese das fronteiras brasileiras. tributária dessa relação privilegiada com os mercados das Minas Gerais. no ano de 1750. sustentando a tese de que a fronteira nasce em uma etapa intermediária entre as definições abstratas dos tratados e a sua efetiva demarcação. A pecuária do sertão nordestino também conheceu um período de prosperidade no século XVIII: os currais do Rio São Francisco despejavam boiadas inteiras na região das Minas Gerais. No segundo. destacando as diferentes estratégias geopolíticas lusas que asseguraram o rompimento da linha de Tordesilhas e culminaram no Tratado de Madri. Textos Complementares Os textos selecionados abordam aspectos da formação territorial do Brasil e da definição dos limites territoriais do país. No primeiro. iria transformar o Rio de Janeiro em sede administrativa do Vice-Reino do Brasil no ano de 1763. o geógrafo Demétrio Magnoli. oficializou a incorporação de vastas possessões espanholas ao território colonial português. Na metade do século XVIII. A topografia da região favorecia a condução das boiadas até as zonas mineradoras. Além disso. os limites traçados no Tratado de Tordesilhas estavam definitivamente ultrapassados: a assinatura do Tratado de Madri. os geógrafos Berta Becker e Claúdio Egler traçam em grandes linhas a ocupação colonial do território. 25 . os Caminhos Baianos sediavam um intenso – apesar de rigorosamente proibido – comércio de negros. A prosperidade econômica. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Rio de Janeiro – transformado em boca das minas – se tornou o mais importante porto da colônia em volume de comércio exterior. tornou-se ponto de passagem obrigatória das levas de imigrantes portugueses atraídos pelo ouro e dos lotes de mão-de-obra negra destinados ao trabalho nas minas.

devido à pressão da Holanda. 26 . deveu-se à experiência prévia de Portugal nas ilhas de São Tomé e Madeira. bem como a organização comercial dos flamengos que controlavam um mercado expressivo na Europa Continental. Foi então necessário organizar a produção. e no início também não acharam metais. que posteriormente daria o nome à nova colônia – e peles com os índios em modestas feitorias ao longo do litoral. imenso. logo depois da perda para os holandeses da maioria dos postos comerciais que Portugal tinha na Ásia e na África. dividia todo o mundo a ser descoberto entre as coroas de Portugal e Espanha. A colonização do Brasil se apresentou aos monarcas portugueses a posteriori. portanto. O Tratado de Tordesilhas. Grã-Bretanha e França sobre o território. por exemplo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Texto 1 – O Período Colonial A ocupação e o povoamento do território que constituiria o Brasil não é senão um episódio do amplo processo de expansão marítima resultante do desenvolvimento das empresas comerciais européias. firmado entre os dois países em 1494. ainda assim. Como decorrência da busca de novas rotas para o Oriente pelos países ibéricos – a Espanha através do Ocidente e Portugal contornando a África – o território que constitui hoje o Brasil precedeu a criação da própria colônia. a colônia por um território correspondente a apenas 40% da sua área atual e. favorecida pela luta pelo poder hegemônico entre holandeses. e estabelecia que todas as terras a leste do Meridiano de 50 graus oeste pertenceriam a Portugal. Foi um processo de posse lento e complexo em que pesou a estratégia portuguesa. e as plantations de cana-de-açúcar tornaram-se a base da economia e defesa coloniais. até então inédito. franceses e ingleses. se basear no trabalho nativo. Empreendimento mercantil e defesa da costa atlântica Inicialmente os portugueses comerciaram madeiras corantes – o pau- brasil. Os portugueses não podiam. Esse empreendimento. Definia-se. e pela união com a Espanha entre 1580 e 1640. A defesa do território e sua expansão não decorreu de conquista militar. que fomentou uma indústria de equipamentos para engenhos açucareiros. a população nativa era relativamente escassa. ao contrário do que acontecia nos territórios espanhóis. a priori. assim.

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O Brasil colonial foi. e face à dificuldade de mão-de-obra recorreu-se ao tráfico de escravos africanos. o controle sobre os escravos e homens livres e sobre a terra era mais importante para definir o status social do proletário do que a acumulação de riqueza1. e os interesses dos colonos em escravizá-los. então. Pelo fato de a terra não ser toda utilizada para fins comerciais. financiado em grande parte pelos holandeses. A divisão respeitou a linha do Tratado de Tordesilhas. Assim. Colocou-se. foco de uma política ambígua face ao conflito entre a postura da Coroa. Eles tinham direitos soberanos e podiam repartir as terras a moradores capazes de explorá-las (sesmarias). 1 Ver Viotti da Costa. de cristianização dos índios para integrá-los no povoamento. como domínio da Coroa. sobretudo a da cana-de-açúcar. No início da colonização a legislação relativa à propriedade da terra estava baseada na política rural de Portugal. E. assegurando a ocupação e o controle da fachada costeira oriental. 1977. embora os limites entre as capitanias fossem desconhecidos. A Carta Régia de 1570 estabeleceu então que os índios só podiam ser aprisionados por “guerra justa”. 27 . organizado como uma empresa comercial resultante da aliança entre a burguesia mercantil (inclusive holandesa) e a nobreza. apesar de ser o lucro o motivo principal da economia. e sua aquisição decorria de uma doação pessoal. Uma estratégia de distribuição controlada da terra envolveu empreendedores privados na colonização do território sem ônus para a Coroa. os proprietários podiam manter um certo número de arrendatários e meeiros que moravam nas áreas menos férteis de suas propriedades dedicando-se à economia de subsistência e eventualmente trabalhando na plantation. A terra era vista como parte do patrimônio pessoal do rei. Da Monarquia a República: Momentos Decisivos. o problema da mão-de-obra e do índio. Através da divisão geométrica da costa atlântica em Capitanias Hereditárias (1530). assim. segundo os méritos dos pretendentes e os serviços por eles prestados à Coroa. São Paulo: Grijaldo. A terra foi doada a donatários com o objetivo de promover a agricultura. a colonização foi iniciada simultaneamente em vários pontos do território.

no século XVI e primeira metade do XVII2 (. Se essa estratégia não trouxe a prosperidade econômica almejada. Para defender a Bacia Amazônica. O rompimento da linha de Tordesilhas tornou-se. o Rio Amazonas foi estratégico. e da interiorização do povoamento. que já haviam estabelecido um verdadeiro cordão estratégico ininterrupto de missões jesuíticas no coração do continente.. Os pressupostos que guiaram essa política no século XVI sobreviveram até o século XIX. Expansão territorial para além de Tordesilhas Após a separação das duas Coroas (1640). um objetivo. Para assegurar a ocupação a longo prazo. bem como a pacificação e lealdade das tribos aborígenes contra os holandeses.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O desenvolvimento de outros setores da economia não implicou a modificação da política agrária e do trabalho. 1945. a colonização portuguesa em pouco mais de um século invadiu áreas que pertenciam à Espanha e ocupou o território que é hoje o Brasil. C. por sua extensão e ampla navegabilidade. holandeses. As plantations litorâneas eram as células fundamentais da estrutura econômica e social da colônia. as formas iniciais de ocupação foram pequenos fortes. em contrapartida ela lançou as bases da estrutura econômica. São Paulo: Brasiliense. social e política da colônia.). em Belém (1616). até 2. e não apenas uma conseqüência da defesa do território. para a metrópole. Daí partiu a expansão gradativa das fazendas de gado pelo sertão para abastecer em couro e animais de trabalho as zonas canavieiras. 28 . franceses e ingleses trataram de ocupar militarmente esta área (1580-1640).000 km no interior em meio à floresta equatorial. ingleses e franceses. os portugueses resolveram dividir a bacia entre ordens religiosas católicas. No litoral norte. 2 ed.. do Prata ao Alto Amazonas. Seguiram assim os jesuítas espanhóis. sendo o primeiro deles na foz do Amazonas. Durante a união das Coroas de Portugal e Espanha (1580-1640). 2 Ver Prado Jr. Formação do Brasil Contemporânea. da ocupação efetiva do território contra ameaças externas. típica das áreas canavieiras.

que resultou no primeiro. foi a estratégia básica na apropriação do território para além dos limites jurídicos do Tratado de Tordesilhas. O maior impulso para a expansão territorial decorreu sobretudo da descoberta do ouro (1690) no planalto do Brasil Central. embora intenso. constituindo-se nos primeiros eixos da integração interna da colônia. estratégicas pela navegação e por sua posição nos extremos da colônia. Caminhos de gado e tropas de mulas estabeleceram-se para abastecer os primeiros centros mineradores. A ocupação da terra como base do direito sobre sua posse. deslocou-se o eixo econômico para o centro-sul e com ele se transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro (1763). Entretanto. e a extensão e o controle territorial da colônia tornaram-se decisivos para a recuperação econômica e a afirmação do Estado português centralizado. isto é. Esgotou-se no último quartel do século XVIII. largamente dependente da Inglaterra que se afirmava no contexto internacional. cobrindo uma área imensa no centro e oeste do atual território brasileiro (Minas Gerais. Essa prática se fez sob várias formas. o ciclo do ouro e diamantes. Goiás e Mato Grosso). mas fracassado. foi breve. movimento pela independência: a Inconfidência de Minas Gerais em 1792. A descoberta do ouro provocou um afluxo de imigrantes da metrópole. Arruinado e desfalcado nas suas colônias no Oriente e de sua marinha. à medida que a economia açucareira decaía face à concorrência das Antilhas. sendo posteriormente reconhecida como um princípio legal. inclusive pela pressão dos impostos cobrados pela Coroa. 29 . onde permaneceram de 1630-1654. cravo. o direito de facto. No vale do Amazonas. sobretudo no interior e nas bacias do Amazonas e do Prata. Em conseqüência da mineração. O Brasil passou a ser sua última possessão ultramarina valiosa. salsaparrilha. grande mobilidade interna e um rush gigantesco em alguns decênios. Portugal tornou-se potência secundária. na medida em que os holandeses desenvolveram a lavoura nas Antilhas. a Coroa estimulou a ação das missões que se tornaram as maiores exportadoras das “drogas” (canela. O ouro se tornou a base econômica da colônia até meados do século XVIII. levou à quebra do monopólio português na produção de cana- de-açúcar. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A expulsão dos holandeses do nordeste.

] 30 . bem defronte do porto de Buenos Aires. assim. 1994. que foi causa de mais de um século de guerra. [BECKER. Em 1750. correspondente à implantação de uma guarnição militar na margem norte do Rio da Prata. assim. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 40-46. na embocadura do Rio da Prata.000 casais em torno de Porto Alegre e em Santa Catarina (1747). criando a Colônia do Sacramento. isto é. já em 1780. adotando como critério o utis possidetis. exportava charque para o Rio de Janeiro e para Havana. a terra foi distribuída em larga escala a militares e cavaleiros no atual Rio Grande do Sul como forma de consolidar a posse portuguesa dando origem a grandes latifúndios pastoris: as instâncias. Legitimou-se. couro e gado na Bacia do Prata. p. A face agressiva. um grande vácuo de poder existia entre os espanhóis sediados em Buenos Aires. instalando cerca de 4. a apropriação do território cujos limites permanecem grosseiramente os mesmos de hoje. e EGLER.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO cacau nativo). A geopolítica da metrópole mostrou-se. o Tratado de Madri estabelecendo pela primeira vez as linhas divisórias entre os domínios de Portugal e Espanha. Bertha K. Fortes e missionários penetraram profundamente no território amazônico assegurando a futura soberania de Portugal numa área imensa. No extremo sul. e a ocupação portuguesa que se estendia até o paralelo de 26ºS. a soberania portuguesa e a base econômica da região que. Claudio A. Firmou-se. acertada. O rápido movimento da mineração e a lenta expansão das fazendas e dos caminhos de gado. assim. além de produzirem alimentos para a subsistência e deterem o monopólio sobre a mão-de-obra indígena. G. simultaneamente. Após a paz (1777). em fins do século XVII. Brasil uma nova potência regional na economia mundo. A face pacífica correspondeu à colonização dirigida pela metrópole que transferiu excedentes populacionais pobres dos Açores. ainda que com fraca base econômica e esparsamente povoada. o reconhecimento do direito de posse a partir do efetivo povoamento e exploração da terra. A estratégia lusa teve dupla face. e a posse de facto ao longo das bacias consolidaram e expandiram a ocupação do território muito além dos limites de jure fixados pelo Tratado de Tordesilhas. Tratava-se de interesses sobretudo ingleses com vistas ao controle do comércio de prata. em 1689.

referentes aos séculos XVI e XVII. Esta tarefa. não importa o quão absurda pareça quando assim posta.) o discurso nacional virtualmente rejeita essa indagação. São Paulo: Ática. trata-se da passagem de uma representação “vaga” para uma representação “clara”. O mais notável é que a questão enfocava precisamente o processo de ocupação do espaço geográfico: a ideologia subjacente faz crer que as manchas de povoamento a ocidente de Tordesilhas buscavam já. 1993. que exibia dois mapas temáticos de ocupação do território do Brasil colonial. “De fato estabelecida” significa não estar mais sujeita à contestação por parte de um dos Estados que tivessem essa fronteira em comum. isentando o corpo da pátria de qualquer condicionamento histórico e fazendo-o emanar da natureza. Esses mapas apresentavam. 167. livros de divulgação histórica e geográfica e nos atlas escolares. que 1 Trata-se da questão n. A passagem de uma etapa à outra se traduz por um acréscimo de informação. mas um conflito do qual a fronteira pudesse ser o pretexto. No fundo. Por uma geografia do poder. elimina-se não um conflito geral. Ela se manifesta em obras acadêmicas. confere uma materialidade sensível à linha divisória. [RAFFESTIN. produzindo a sensação da convivência de dois limites distintos no mesmo tempo histórico. inscrita no território. Raffestin assinala a distinção entre três momentos: O mapa é o instrumento ideal para definir. além da linha do Meridiano de Tordesilhas. mas a expressão de uma prática – compareceu nos pressupostos implícitos de uma questão do prestigiado exame vestibular da Universidade de Campinas1. A linha fronteiriça só é de fato estabelecida quando a demarcação se processa. O traçado das fronteiras atuais não continha qualquer indício que pudesse distingui-lo daquele do Meridiano.. 31 . Esta noção. mas também por um custo de energia. C. p. a linha das fronteiras atuais do Brasil.º 2 da 1ª Fase da primeira prova de 1995-1996. no século XVII.] A demarcação da fronteira sobre o terreno. delimitar e demarcar a fronteira. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Texto 2 – Horogênese e Origem das Fronteiras Nacionais Qual é a origem das fronteiras brasileiras? (. alcançar o perímetro da pátria preexistente. Pela demarcação. Abordando as etapas teóricas de produção da fronteira. encontra-se profundamente enraizada no imaginário geográfico nacional.. etapa final do processo. Recentemente – e este não é um caso singular.

de Enciso (1518). Historicamente..367 km. que apenas a colocação de marcos sobre o terreno suprime a possibilidade de conflitos que tomam o traçado divisório como pretexto. e reflete um grau de controle sobre o espaço de que só dispõem os Estados contemporâneos. quando são elaborados os tratados de limites3. a mera definição abstrata de um traçado – como no caso de Tordesilhas. ou em grande parte das decisões do Tratado de Madri de 1750 – não gera uma fronteira. 3 Há um problema suplementar na formulação de Raffestin. só foi plenamente incorporada como limite da projeção oriental brasileira após a extinção do tráfico negreiro e a conseqüente supressão dos múltiplos liames entre o Império e a África ocidental. 32 . tenha constituído uma linha de fronteira dos territórios portugueses na América.). num jogo de palavras pretensamente profundo. que estão subdivididos numa secção marítima de 7. de Cantino (1502). A delimitação. a arte cartográfica conseguiria fixar com razoável precisão as longitudes e determinar o traçado aproximado da linha divisória. definida em razão da fachada oceânica do Atlântico. possibilitado pelo acúmulo de um vasto conjunto de informações e refletido nos documentos cartográficos sobre os quais é traçada a linha divisória.2 A linha de fronteira nasce na etapa intermediária. A secção marítima. já não concerne à origem das fronteiras. Ao insistir exclusivamente na temática da quantidade de informação presente em cada etapa. que consiste num ato de apreensão intelectual do espaço geográfico em questão. O invólucro fronteiriço do Brasil estende-se por 23. por razões óbvias. ao domínio dos séculos XIX e XX. A secção terrestre se decompõe em dez díades 2 O Meridiano de Tordesilhas não foi delimitado. pois freqüentemente opera pela intuição. nos termos vagos do tratado e na base dos conhecimentos da época.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO continuou a demandar o trabalho de comissões de demarcadores brasileiros por nove décadas depois do estabelecimento do último importante tratado de limites. e numa terrestre de 15. como quer Raffestin. Apenas muito mais tarde. No outro extremo. constitui processo característico de uma fase anterior. Tentativas de delimitação foram feitas pelos mapas do catalão Jaime Ferrer (1495). a da delimitação. de transição. através dos padres Diogo Soares e Domingos Capassi. com traçados bastante distantes entre si. como regra. no século XVIII. como vimos.086 km. na ignorância da localização verdadeira dos acidentes geográficos mencionados. de Diogo Ribeiro (1529) e de Oviedo (1545). o verdadeiro debate entre os Estados relativo às fronteiras se processa na etapa anterior. se invoque a transubstanciação da quantidade em qualidade. quando se forjam os Estados nacionais. acaba sendo obscurecida a diferença de qualidade entre elas (a menos que. ainda que. dos peritos de Badajós (1524).. Se é verdade. a demarcação de fronteiras pertence.719 km. e nem poderia ser.

o termo se aplica a um par de cromossomos. o exame derruba facilmente o mito da antigüidade das linhas limítrofes do país: o Império é o grande período de horogênese – para empregar outro termo cunhado por Foucher 6 . 15. que pode ser eventualmente anterior ao tratado definitivo mas que o condicionou decisivamente. Fronts et Frontères. ou pouco mais que a metade da secção terrestre do invólucro total. O período colonial.. dyade designa a reunião de dois princípios que se completam e antagonizam reciprocamente. ainda que a caracterização não seja historicamente apropriada. Fayard. Em português. ou cerca de 17% da secção terrestre. ou 32% (. O Império delimitou 7. díade remete também ao grupo de dois. até certo ponto. A “era de Rio Branco”. caracterizado pela complementaridade e antagonismo. Em Biologia. enquanto mais de metade da extensão dos limites de horogênese nacional originaram-se de arbitramento. Foucher4 para designar “uma fronteira comum a dos Estados contíguos” – de extensões muito diversas. sucessivos tratados contraditórios. 5 No seu sentido filosófico. 4 Foucher. pg. pois cada díade ou segmento condensa uma história complexa que envolve. Tomou-se por base classificatória o momento da delimitação estrutural de uma linha de fronteira. 6 Op.709 km. Michel. O termo foi cunhado a partir da raiz grega horoi – da qual se originou “horizonte” em línguas latinas –. 1991. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL – do termo dyade. Isso justifica. 33 . embora longe de predominante. 49. Quanto ao momento da sua delimitação.062 km. as percepções hispano-americanas relativas à agressividade expansionista imperial. novos litígios.948 km de fronteiras. às vezes. a classificação da horogênese implica uma dose razoável de subjetivismo. Paris. Ao mesmo tempo. um masculino e outro feminino. o papel significativo. tido e havido como momento por excelência da configuração dos limites. classificada aqui como período nacional. cunhado por M. Evidentemente. Não deixa de ser interessante sublinhar um contraste: perto de 30% da extensão dos limites de horogênese imperial originaram-se de guerras. quanto às condições de origem.).. episódios de conflito militar ou arbitragem. é responsável efetivamente por apenas 2. pg. desempenhado pelas guerras. em francês. que servia para designar os limites políticos do território da cidade. respondeu por quase o dobro: 5. Cit.5 Um exame da configuração histórica das díades fronteiriças brasileiras revela.

Assim. a existência desse circuito local dinamiza novas relações sociais. Segundo eles. nesse período “não existia. A territorialidade colonial sobreviveu à independência1.] 2. FFLCH-USP.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO fica evidenciada a “divisão do trabalho” entre o Império. a economia brasileira encontrava-se fragmentada regionalmente. As diversas regiões se ligavam diretamente a centros do capitalismo mundial. no Nordeste e na Amazônia. No Sudeste. que se desenvolveria à sombra do circuito internacionalizado: “O circuito cafeeiro local – a sua magnitude e o seu desenvolvimento – está em função das características do mercado local gerado pela crescente diferenciação interna da sociedade cafeeira e pela monetização de parte dos rendimentos dos trabalhadores rurais. Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil Nas primeiras décadas do século XX. Contudo. promovendo um desenvolvimento sem precedentes da infra-estrutura de transportes e urbanização2. por isso. 13-19. Demétrio. pg. 1990. São Paulo: Moderna/Edusp. O complexo cafeeiro gerava economias complementares na 1 A expressão “arquipélago econômico” foi utilizada por Lea Goldestein e Manuel Seabra para caraterizar o período agrário-exportador da economia brasileira. a pequena cidade cafeeira não apenas responde a necessidades objetivas do complexo capitalista (sendo. o complexo cafeeiro exportador era o núcleo do principal mercado regional do país. O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). p. Revista do Departamento de Geografia (1). São Paulo. realizando um ‘crescimento para fora’. Departamento de Geografia da USP. IN: Demétrio Magnoli. 1982. que concentrou a sua obra de limites predominantemente na área amazônica. de fato. que traçou a maior parte da extensão de fronteiras platinas. [MAGNOLI. “Divisão Territorial do Brasil e Nova Regionalização”. Tinham em comum a valorização do setor externo. e a “era de Rio Branco”. 1997. Agroindústria e Urbanização: o Caso de Guariba. 34 . 2 O geógrafo Demétrio Magnoli atribui a dinâmica urbanizadora característica do complexo cafeeiro paulista à existência de um circuito local de reprodução do capital. o café já tinha deixado a fase escravista e ingressado na fase capitalista. “Ilhas” econômicas voltadas para o mercado externo desenvolviam-se no Sudeste. um elemento constitutivo desse complexo) como responde ainda às necessidades próprias da vida urbana”. As ligações internas desse “arquipélago exportador” eram frágeis: os mercados regionais tinham importância muito maior que o embrionário mercado nacional. originadas pelo efeito multiplicador da constituição de atividades urbanas comerciais. Dissertação de Mestrado. industriais e de serviços. 239-243.” In: Lea Goldesntein e Manuel Seabra. Nas primeiras décadas do século XX. uma divisão regional interna do trabalho em dimensão nacional.

A industrialização acelerada dos anos 1930-1960 rompeu o isolamento dos mercados regionais. Nos cerrados do Centro-Oeste. Além de alimentos. As áreas não-cafeeiras de Minas Gerais. ocasionando grande depressão. baseado no controle das matas e dos seringais pelas companhias exportadoras. ao contrário. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL sua periferia. Essas áreas aumentavam as suas exportações agrícolas para São Paulo. Os manufaturados do Sudeste. impediu qualquer acumulação interna da riqueza gerada pelas exportações. tinha conhecido sua época de ouro algumas décadas antes. organizado em torno da cana e do algodão. essas áreas forneciam mão-de-obra para a economia paulista. Ao contrário do ciclo cafeeiro. uma pecuária ultra- extensiva sustentava o povoamento rarefeito e já fornecia carne bovina para o pólo cafeeiro. o surto da borracha não criou as bases para o desenvolvimento regional e sequer dinamizou um importante mercado regional. O sistema de produção. as decadentes regiões mineradoras tinham regredido para a pequena produção agrícola. As grandes exportações de borracha natural para a Europa e os Estados Unidos tinham atraído levas de migrantes nordestinos para a Amazônia Ocidental. a imigração alemã. No Sul. vivia um surto de prosperidade ligado às transformações tecnológicas que culminaram com a substituição do engenho pela usina. A produção algodoeira. A volta do algodão americano aos mercados internacionais atingira a produção nordestina. O Nordeste constituía outro pólo exportador. Em Minas Gerais. as áreas coloniais do Sul e as áreas de pecuária do Centro-Oeste ligavam-se cada vez mais ao território cafeeiro paulista. A produção canavieira. após uma prolongada decadência. criando um mercado interno nacional. em função da desorganização das exportações americanas provocadas pela Guerra de Secessão. italiana e eslava tinha promovido o aparecimento de importantes centros agrícolas no Vale do Itajaí. cuja importância se restringiu ao período 1870-1920. A Amazônia sediava o pólo exportador de borracha. produzidos com tecnologia superior e em 35 . nos arredores de Curitiba e na região serrana gaúcha.

ou seja. e o conseqüente enfraquecimento dos poderes locais e/ou regionais representados. cujo dinamismo gerou uma redivisão territorial do trabalho. Por outro lado. (. que fundamentou a ótica dos “desequilíbrios regionais”. no crescente papel do Estado na dinâmica da economia nacional. A competição desigual com as mercadorias fabricadas nas outras regiões resultou na forte concentração de capitais e infra-estrutura no Sudeste. através da “política dos governadores” ou das oligarquias nacionais. Essa integração se deu a partir do desenvolvimento de certas áreas industriais. em 1934. O processo de unificação econômica do espaço brasileiro teve como contrapartida a emergência de uma divisão territorial do trabalho. Queremos com isso dizer que a origem dessa problemática regional.. das “regiões econômico-sociais” vinculadas ao período primário exportador da economia brasileira dominante até fins do século XIX.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO escala industrial. Este contexto ilumina a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). está vinculada às novas realidades nacionais. a de decompor o território nacional em blocos regionais oficiais. e de suas subdivisões. do novo papel que o Estado assumia na vida do país. não só o fim de uma fase em que a economia nacional era constituída por várias economias regionais. a expansão do capitalismo no Brasil implicou a crescente integração da economia e do território nacionais. e o forte impacto que a “questão regional” iria ter daí em diante na vida política e na geografia do país: (.. por exemplo.. que se acentuaram com a década de 30. na elaboração de um mercado interno unificado. mas também o “desaparecimento” das regiões enquanto regiões “econômico-sociais”. consequentemente.. invadiram todo o país. com base na internalização de nossa economia e.) Foi 36 . em outras palavras. determinadas. a expansão do capitalismo no Brasil implicou o centralismo político-administrativo que se processou no nível do governo federal. e a conseqüente dissolução das “economias regionais”. Por um lado. em última instância. O “esfacelamento” da estrutura espacial em “arquipélago” significou.) Torna-se difícil desvincular a definição oficial das “grandes regiões” do Brasil de 1945. pela expansão do capitalismo industrial no Brasil.

emprestado da geografia regional francesa. não fornecem base conveniente para tal comparação no tempo. que foram sendo criadas condições para uma crescente integração econômica do espaço nacional. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL através desse crescente papel do Estado. Guimarães. As regiões humanas. principalmente clima. Departamento de Geografia – USP. Foi o caso da (. de umas partes com as outras.9... em favor do poder central. n. o governo brasileiro tornou pública uma outra proposta de regionalização. vegetação e relevo. consideradas mais estáveis e permanentes. constituem. quando mais importar a comparação no espaço.3 Em 1969. uma boa divisão para estudo do país numa dada época. Desta vez. 1992. porém. Outro exemplo do papel do Estado na integração econômica do espaço nacional: os grandes investimentos por ele feito em obras de infra-estrutura de alcance nacional. Os poderes dos estados foram ainda mais restringidos. com a perda dos direitos que eles tinham de legislar sobre o comércio exterior. fundamentaram essa primeira regionalização. As bases naturais do território. Pedro Paulo. 3 “As regiões naturais constituem a melhor base para uma divisão regional prática. “Divisão Regional do Brasil”. o que facilitou o incremento do comércio regional. particularmente as econômicas. facilitando e possibilitando a integração acima referida que se deu a partir da “região” hegemônica industrial do Sudeste. sobretudo para fins estatísticos e especialmente para uma divisão permanente que permita a comparação de dados de diferentes épocas.] O IBGE apresentou a primeira regionalização oficial do território brasileiro em 1946. Fábio M. seis grandes macrorregiões foram identificadas através do estudo das influências recíprocas entre os diferentes fatores naturais.) remoção da barreira alfandegária que existia até então entre os estados que não mais poderiam cobrar impostos estaduais sobre mercadorias provenientes de outras unidades da federação. A partir do conceito de região natural. as regiões eram definidas segundo uma combinação de características físicas. pela sua instabilidade. também saída dos quadros do IBGE. [PERIDES. “A Divisão Regional do Brasil de 1945 – Realidade e Método”. 37 . cujos interesses se confundiam muitas vezes com os da burguesia industrial. In: Revista Orientação. tais como nos transportes. No caso de uma divisão para fins didáticos deve ser sempre considerada como básica a divisão em regiões naturais”. Abril-Junho de 1941. In: Revista Brasileira de Geografia – IBGE.S.

os estados da Bahia e de Sergipe foram incluídos na Região Nordeste. a estrutura industrial. Nas últimas décadas. marcada pela pobreza e pela repulsão demográfica. a tecnoburocracia ligada ao regime militar acreditava que o estudo estatístico integrado dos fenômenos naturais e sócioeconômicos forneceria subsídios à ação planejadora do Estado. Na Divisão Regional do Brasil de 1969. antes pertencente à Região Sul. O critério de regionalização oficializado pelo governo militar em 1969 considera as atividades econômicas como fundamentais na diferenciação dos espaços: são elas que vão determinar as políticas de investimentos públicos e de valorização de áreas consideradas “deprimidas”. Essas modificações foram justificadas com base no processo de industrialização e de crescimento econômico do país. Juntos. São Paulo. a nova Região Nordeste despontava como região-problema.1% dos empregos do setor. a rede de transportes e de fluxos. Por outro lado. uma outra proposta de regionalização. O resultado desses estudos foi a divisão do Brasil em 360 microrregiões homogêneas. A Região Sudeste foi criada em substituição à antiga Região Leste.3% do valor da transformação industrial do país e 70. criado pela Constituição de 1988. As regiões homogêneas foram delimitadas a partir de estudos setoriais envolvendo os domínios ecológicos. com apenas uma modificação: o Estado do Tocantins. A concentração da indústria nos estados de São Paulo. o comportamento demográfico. os limites interestaduais foram considerados no traçado das Grandes Regiões. Rio de Janeiro e Minas Gerais serviu de base à delimitação de uma região “central” do ponto de vista da economia. passou a integrar a Região Sudeste. Influenciada pela new geography norte-americana.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO demográficas e econômicas. passou a fazer parte da Região Norte. Assim como na Divisão Regional de 1946. a agricultura. vem ganhando 38 . A Divisão Regional proposta em 1969 ainda hoje é utilizada como base estatística e para fins didáticos. os três estados detinham 80. agrupadas em cinco grandes unidades macrorregionais. O núcleo triangular São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte surgia como ímã dessa região “central”. elaborada pelo geógrafo Pedro Pinchas Geiger em 1967.

integrou as estratégias da SUDAM para o desenvolvimento da região. A criação da SUDAM definiu uma nova região de planejamento. O Nordeste se individualiza pela estagnação econômica. O Nordeste da Sudene. já que todos esses órgãos de planejamento são subordinados ao governo federal. criada em 1959. que atualmente engloba os estados do Acre. pela repulsão populacional e pela disseminação da pobreza. metade do território do Maranhão integra o Complexo Amazônico. é diferente do Nordeste do IBGE. Sua área de atuação ultrapassa os limites da Região Nordeste. além do oeste do Estado do Maranhão. foi o primeiro organismo permanente de planejamento regional brasileiro. A estratégia de planejamento regional se intensificou na segunda metade da década de 60. O Centro-Sul se destaca como o centro econômico do Brasil. Amazonas. por exemplo. incluindo a região semi-árida do norte de Minas Gerais. a outra metade pertence ao Complexo Nordestino. integra o Complexo Regional Nordestino. Essa estratégia revela a forte centralização do poder político característica desse período. Região e Políticas Públicas A Sudene. base territorial para levantamentos estatísticos. ligado aos grandes projetos agropecuários e minerais. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL espaço nas publicações geográficas e na imprensa em geral. foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e da Superintendência para o Desenvolvimento do Sul (Sudesul). O incentivo a grandes projetos agropecuários. Amapá. individualizados segundo critérios geoeconômicos. região de planejamento. O Complexo Amazônico se caracteriza pela presença da floresta equatorial. Rondônia. Pará. Essa delimitação não leva em conta as fronteiras entre os estados: o norte semi-árido de Minas Gerais. concentrando 70% da população nacional e a maior parte da produção industrial e agropecuária do país. principalmente no oeste do Mato Grosso e ao longo da calha do Rio Amazonas. a Amazônia Legal. Mato Grosso. foi a vez da Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). No ano seguinte. Tocantins e Roraima. 39 . Em 1966. expressa nos altos índices de mortalidade infantil. subnutrição e analfabetismo. Trata-se da divisão do país em três grandes complexos regionais. pelas baixas densidades populacionais e ainda pelo altamente predatório processo de ocupação recente.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

Textos Complementares

Os textos selecionados foram extraídos dos ensaios que integram a
obra Desigualdades regionais e desenvolvimento, originada das pesquisas
desenvolvidas na Fundação de Desenvolvimento Administrativo (Fundap)
sobre o Federalismo no Brasil. Eles iluminam aspectos importantes da
problemática das regiões e da divisão regional do trabalho no Brasil
contemporâneo. O primeiro deles, de autoria dos pesquisadores Sergio C.
Buarque, Antéro Duarte Lopes e Teresa Cativo Rosa apresenta uma
caracterização da Região Norte, definida enquanto uma das últimas fronteiras
de recursos do mundo. No segundo, Tânia Bacelar de Araújo assinala a
complexidade e a heterogeneidade que caracterizam o nordeste brasileiro.
Finalmente, Osmil Galindo e Valdeci Monteiro dos Santos investigam os
diferentes aspectos da expansão da fronteira agrícola na Região Centro-Oeste.

Texto 1 – Caracterização da Região Norte

A região Norte caracteriza-se por um macroespaço de 3,9 milhões
de km , predominantemente dominado pela floresta tropical úmida e pelo
2

complexo hidrológico da bacia do rio Solimões-Amazonas. Essa unidade
socioeconômica e ambiental, de uma perspectiva agregada, esconde uma
grande diversidade interna, formada por vários ecossistemas naturais com
características distintas e condições específicas para a presença humana e a
atividade econômica. Na realidade, ao contrário dos estereótipos difundidos
sobre a região, a diversidade – ambiental, socioeconômica, tecnológica e
cultural – é a principal característica desse amplo espaço regional brasileiro.

Dominada em grande parte (84%) por floresta densa de mata alta,
a região registra vastas extensões de mata de cipó, mata aberta de
bambu, matas serranas e mata seca, além de florestas de várzea, igapó e
manguezais. Possui ainda áreas de savana, campinas e cerca de 700 mil
km2 de cerrado. No geral, esses ecossistemas têm em comum, além da
diversidade e extensão territorial, a fragilidade e a delicadeza de seu
equilíbrio. “No ambiente terrestre – afirma a SUDAM/PNUD1 – o ciclo de
nutrientes é essencialmente baseado na cadeia trófica com pequena

1
SUDAM/PNUD – 1990. Avaliação da política de investimentos do FINAM, Belém, mimeo.

40

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL

participação do substrato inorgânico, fazendo com que a modificação da
cobertura vegetal possa ser, portanto, desastrosa: e o ambiente aquático,
essencialmente lótico, embora com as águas correndo em baixas velocidades,
se modificado pela implantação de barramentos artificiais, pode também
sofrer irremediáveis degradações.”

Como espaço geográfico de caráter político-administrativo, a região
Norte engloba sete estados da Federação: Pará, Amapá, Amazonas, Roraima,
Rondônia, Acre e Tocantins.2 Constitui a região de maior extensão territorial
do Brasil, equivalente a mais de 45% do total nacional.

A região Norte concentra uma das maiores reservas de recursos
naturais do planeta, representada especialmente pela grande riqueza florestal,
pela massa de ecossistemas aquáticos e pela biodiversidade. Concentra cerca
de um terço das florestas tropicais úmidas da Terra, calculado em mais de
300 milhões de hectares de floresta densa e mais de 100 milhões de hectares
de floresta aberta, o que abriga um total de madeiras comercializáveis da
ordem de 45 bilhões de m3 de madeira em pé (SUDAM/SDR3). Com uma
bacia hidrográfica de quase seis milhões km2, reúne um grande potencial
hidrelétrico e de recursos pesqueiros, além de vastas áreas de várzea, com
potencial agrícola ainda inexplorado. Além disso, tem grandes reservas de
minérios tradicionais (ferro, bauxita, ouro e cassiterita) e de minérios com
novas aplicações tecnológicas (nióbio, manganês, titânio) (SUDAM/SDR).

Entretanto, a mais importante riqueza da região Norte neste final de
século, dominado pela revolução científica e tecnológica, reside na
diversidade dos seus ecossistemas, representada pelo material biológico de
espécies vegetais, animais e microorganismos (plantas medicinais,
aromáticas, alimentícias, toxinas, tanantes, oleaginosas, fibrosas, fungos,
bactérias etc.). Essas espécies tornam a região uma grande usina de vida: o
maior banco genético do planeta, contendo provavelmente cerca de 30%

2
Essa delimitação espacial não corresponde à regionalização utilizada no processo de planejamento,
que utiliza o conceito de Amazônia Legal, à qual correspondem as instituições de planejamento e
instrumentos fiscais-financeiros regionais. A Amazônia Legal acrescenta, aos sete estados referidos,
parte do Estado do Maranhão, correspondente à Pré-Amazônia maranhense, o Estado do Mato Grosso,
em grande parte dominado pela Hiléia, e o recém-criado Estado do Tocantins (incluído, antes de
1988, como parte do Estado de Goiás).
3
SUDAM/SDR – 1992. Sustainable development of the Amazon – development strategy and
investiment alternatives, Belém.

41

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

do estoque genético mundial. É uma valiosa biblioteca viva para pesquisa
no terreno da genética e microbiologia e para o desenvolvimento da
biotecnologia4.

A grande concentração de riquezas em recursos naturais torna a
região Norte uma das últimas fronteiras de recursos do mundo e,
especialmente, do Brasil. Com o esgotamento de fontes internacionais e a
implantação de vias de penetração econômica, a região Norte ganhou
destaque nas últimas décadas e se transformou numa região de fronteira.
Essa característica vai determinar e explicar as frentes de ocupação e as
diversas iniciativas políticas orientadas para a integração da região Norte
na expansão econômica e modernização brasileira.

Por outro lado, sua amplitude, localização e acumulação de
biodiversidade tornam a região Norte uma base de interesses e disputas
geopolíticas. Constituindo um complexo ecológico transnacional integral e
articulado pela continuidade e contigüidade da floresta, juntamente com
seu amplo sistema fluvial, a região Norte une vários subsistemas ecológicos
da América Latina. A dimensão territorial da Amazônia brasileira lhe confere
um estatuto de quase-continente, com a floresta amazônica compondo um
grande maciço natural concentrado no território brasileiro (SUDAM/MIR)5.

A ampliação recente da consciência internacional dos problemas
globais de conservação ambiental realimenta o debate e os interesses sobre
as florestas tropicais úmidas, de modo que a região Norte (Amazônia, num
sentido mais amplo) volta a ser objeto de pressões e disputas geopolíticas,
que giram em torno das formas de apropriação de sua riqueza – especialmente
a biodiversidade – e da sua posição no controle das condições climáticas.
Todos esses fatores devem ter importante peso na definição de políticas e
iniciativas voltadas à região Norte, à sua ocupação econômica, à utilização
de suas riquezas e ao controle político, econômico e estratégico da fronteira
norte do Brasil.

[BUARQUE, Sergio C.; DUARTE, Antéro Lopes e ROSA, Teresa Cativo.
“Integração Fragmentada e Crescimento da Fronteira Norte”. In: AFFONSO,

4
Ver Becker, Bertha K. – 1989. Estudo geopolítico contemporanêo da Amazônia, SUDAM/BASA/
SUFRAMA/PNUD Macrocenários da Amazônia, mimeo.
5
SUDAM/MIR – 1993. Plano de desenvolvimento da Amazônia: 1994/97. Belém, mimeo.

42

p. 1995. mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina. 94-96. é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região: uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos estados nordestinos e.). São Paulo: FUNDAP/UNESP. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. Áreas de modernização intensa Nos anos recentes. Nesse sentido. perpetuadoras da miséria. Desigualdades regionais e desenvolvimento. Embora traços gerais possam ser identificados. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Rui de Britto Álvares e SILVA. de caráter assistencialista. movimentos importantes da economia brasileira tiveram repercussões fortes na região Nordeste. verdadeiro “poço sem fundo” em que as tradicionais políticas compensatórias. Nordeste sempre ávido por verbas públicas.] Texto 2 – Heterogeneidade Econômica Intra-regional Nas últimas décadas. Nordeste da seca e da miséria. a percepção da realidade econômica nordestina exige uma análise mais detalhada. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. seu diferenciado desenvolvimento urbano e até as especificidades de suas economias metropolitanas. mesmo. É o que se tentará nesta parte do trabalho. Não revelam a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo 43 . Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina. mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. só contribuem para consolidar velhas estruturas socioeconômicas e políticas. Pedro Luiz Barros (org. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. Nordeste região problema. a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas.

Pesquisa recente dos professores Policarpo Lima e Fred Katz. ora como “pólos dinâmicos”. Policarpo. merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e Recife (PE). sendo de 32. vale registrar que. O pólo petroquímico de Camaçari.6% da receita tributária do Estado da Bahia. mimeo. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu).5 bilhões e com o programa de ampliação previsto chegará a US$ 6 bilhões.8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. em 1990. Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. o complexo minero-metalúrgico de Carajás. Economia do Nordeste: tendências recentes das áreas dinâmicas. além do pólo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro (com base na agricultura irrigada do sub-médio São Francisco). ao sul dos Estados do Maranhão e Piauí). Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como “frentes de expansão”. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos. mais recentemente. o pólo petroquímico de Camaçari. do pólo de pecuária intensiva do agreste de Pernambuco. no que se refere a atividades industriais. contando com fontes de financiamento diversas. Quanto aos seus impactos. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão1. da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste. ora como “manchas ou focos” de dinamismo e até como “enclaves”. sozinho. 1993. importou num investimento total de cerca de US$ 4. contribuiu com 13. Fred.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO apresentado pelas atividades econômicas na região. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. Katz. como mostram Lima e Katz constitui-se num dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (PETROBRÁS). Dentre eles. 44 . tentou identificar melhor essas áreas. 1 Lima. Implementado ao longo dos anos 70.

O pólo de Camaçari contribuiu também para a elevação das exportações baianas. internacionalmente. por sua vez. Em 1991. devido à devastação promovida pelo bicudo na produção de algodão no Nordeste. enquanto os ligados ao vestuário passavam de 152 para 850. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. Por outro lado. desponta como um dos importantes centros do setor. aumentando o peso do setor secundário de 12% em 1960 para quase 30% do PIB estadual em 1990. dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. os empregos diretos (25 mil). o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional. Contudo. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima e Katz. 45 . mais os ligados às prestadoras de serviços (31 mil). representavam 19. Em 1989. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O pólo de Camaçari concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana.6% do emprego gerado na indústria de transformação do Estado. em virtude de sua atualização tecnológica. Embora as repercussões esperadas fossem maiores. 1993). a abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções. O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados às fiações. As perspectivas da expansão do setor evidentemente dependem da retomada do crescimento e da melhor distribuição de renda na economia brasileira. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. no caso da fiação. nos efeitos “para frente” conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. Entre 1970 e 1985. tanto em âmbito regional como nacional.

a Companhia Vale do Rio Doce – CVRD desempenhou um dos papéis principais. Em função desses investimentos. implantando a infra-estrutura para exploração/exportação de minério de ferro. onde a produção de soja se expande. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. Outro projeto em implantação. Para esse projeto. na indústria maranhense. hoje. 1993). ALCAN e BILLINGTON. em Imperatriz. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferro-gusa e de ferroliga ao longo de sua extensão.2 bilhão. vai produzir celulose. o projeto CELMAR.8%. bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima e Katz. estando atualmente sendo geradas um milhão de 46 .200 empregos indiretos (Lima e Katz. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO No que se refere ao segmento das confecções. além de cerca de 3. O projeto da ALUMAR também tem grande peso. 1993). há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do Estado). Trata-se de uma associação das empresas ALCOA. impactos importantes já se notam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. com produção estimada de 420 mil toneladas/ano. que tem a CVRD como sócia. Além disso. estão previstos investimentos de US$ 1. gerando diretamente 800 empregos.3% para 21. Para a montagem desse pólo. e mais três mil no reflorestamento. a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. Cortando regiões anteriormente isoladas. O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias- primas.

com base na implantação de grandes projetos de irrigação. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. Recife. fertilizantes e rações (Lima e Katz. enquanto o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos2. Sudene. implantada na área por agricultores do sul do País. CME/PIMES/UFPE. foram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. materiais de construção. a presença do Estado foi fundamental.200 os empregos indiretos. internacionais. mesmo. Ao mesmo tempo se deu a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. O complexo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro surgiu nos anos 70. 1993). após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados. de cal do Ceará. de soda cáustica de Alagoas. Impactos da irrigação sobre os setores urbanos nas regiões de Juazeiro e Petrolina. Constatou- se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. Nessa época. 1989. 1993). mimeo. Ao longo dos anos 80.100 empregos diretos. embalagens. bens de capital. pelo menos para os padrões locais. externo inclusive. equipamentos de irrigação. Texto para discussão n. 1990. Tiveram papel importante os subsídios governamentais3 e os investimentos públicos em infra-estrutura. estimando-se em 1. O processo de urbanização do oeste baiano. De forma semelhante ao caso da CVRD. a ALUMAR é responsável por um fluxo mensal de rendimentos significativo. 47 . 3 Ver Santos Filho. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. Recife. Milton. já que são exportados 95% do produto (Lima e Katz. os projetos elevaram a intensidade de uso de capital. As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e Piauí. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do Rio Trombetas. 2 Ver Galvo. da energia elétrica de Tucuruí. destinados tanto à venda “in natura” para os mercados de maior poder aquisitivo. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. Também nesse caso. Nesse período. uma vez que montou a maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água. O projeto criou 4. quanto ao processamento local em plantas industriais. na economia de São Luiz. Olímpio. 226. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL toneladas de alumina e 350 mil de alumínio.

1993). As potencialidades agrícolas e minerais aí se revelam com grande evidência. Quando ocorre. no Estado do Piauí. Estima-se que 230 mil toneladas de soja sejam absorvidas no próprio Nordeste. suinocultura. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna. Na safra de 1991/92. Essas áreas não conhecem crise e recessão. seletiva. a área plantada com soja expandiu 143 vezes e a produção em 848 vezes. O pólo de fruticultura do Vale Açu cresce comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). que se especializam na exportação. arroz e feijão. Permanência de velhas estruturas Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. Entre 1980/81 e 1985/86. são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Com a soja. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socioeconômico: as zonas cacaueiras. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas desse tipo. enquanto crescia também a produção de arroz. As zonas canavieiras 48 . Foram instaladas no Município de Barreiras duas plantas industriais de processamento de soja. constituindo um Nordeste que não existia há poucas décadas. A produção também se estende para o sul do Maranhão. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. como foi visto. na forma de óleo e de farelo. Nos anos mais recentes. sendo exportadas cerca de 140 mil toneladas de farelo (Lima e Katz. Aí despontam atividades como avicultura. produziu-se no Piauí e Tocantins cerca de um milhão de toneladas). frigorificação de carnes. milho. foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia (soja. Começam a desenvolver-se também atividades de produção de insumos (fertilizantes. Esses. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. sendo 460 mil toneladas de soja). a modernização é restrita.

Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. tiveram impactos negativos. a extensão da ação previdenciária. mais do que na elevação dos padrões de produtividade. a muitas famílias sertanejas. as tradicionais “frentes de emergência” (como são chamados os programas assistenciais do Governo) alistam número enorme de agricultores (2. No “arranjo” organizacional local. em geral. como o desaparecimento da cultura do algodão. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. Nesse quadro. feijão e mandioca). No caso do semi-árido. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL expandiram-se muito. nos momentos de irregularidade de chuvas. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. rendeiros e parceiros produzem. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região) contribui para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária/agricultura de sequeiro. Mas o crescimento se faz com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). mas permanente. não houve mudanças significativas. Nas áreas cacaueiras. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. cabe destacar que são áreas 49 . que traz consigo a alternativa da produção de um energético para o mercado interno (o álcool). mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. cobrindo parte da população idosa e assegurando uma renda mínima. há traços comuns importantes.1 milhões de pessoas em 1993). nos anos de chuva regular. são incapazes de dispor de meios para enfrentar um ano seco. Na ausência do produto. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda monetária dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. aprofundando a crise nessa sub-região. Primeiro. De positivo. Nessas áreas. Não é sem razão que. portanto. e as que aconteceram. impulsionadas nos anos 70 pelo PROÁLCOOL. os pequenos produtores. ocorridos nos anos recentes. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o pequeno excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho.

Os Agrestes. 6 Ver Graziano da Silva. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram essa que sempre foi a atividade principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. 1986. e apresentada ao País como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no “sucesso” da ocupação de novas terras. Na Zona da Mata. SUDENE. “o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem”. 50 . Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). A questão fundiária é mais dramática e vem- se agravando. pequenos produtores inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem”. E. Nos anos 60 e seguintes. a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. a questão fundiária permanece praticamente intocada. José (coord. n. além de provocar outros efeitos importantes.) 1989. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se ampliou. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. das secas também resulta o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: “na seca. Simultaneamente. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e Piauí. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. por exemplo. A Terra e o homem no Nordeste. Na sábia afirmação do geógrafo Melo5. 5 Melo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO de ocupação antiga. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. como bem explica Andrade4. a questão fundiária agravou-se6. após tantos anos de dinamismo econômico. Instituto de Economia.3. Campinas. Manuel Correia. 1980. São Paulo. em áreas da antiga “fronteira agrícola” da região. PRONI. Mário Lacerda de. portanto. continuavam a beneficiar-se dessa macroopção. proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. inclusive na estrutura fundiária. As oligarquias nordestinas. No semi-árido. A base técnica modernizou-se. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. apesar da miséria alarmante dominante 4 Andrade. a “modernização” foi conservadora. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. A irrigação e a problemática fundiária do Nordeste. In: Estudos Regionais. Atlas. Recife.

e se registra maior presença de grandes posseiros em comparação com o resto do Nordeste (Graziano da Silva. Estudo da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP destaca ainda. “Nordeste. Nesses espaços. que “a desigualdade da posse da terra é maior que a da produtividade. No semi-árido.). Pedro Luiz Barros (org. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. em 1985) é superior ao tamanho médio desses estabelecimentos no resto do Nordeste (1. em 1985. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste conferem-lhe uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil. Em 1970. caracterizando maior instabilidade. [ARAÚJO. 1989).002 hectares). sendo a diferença relativa maior no Nordeste. Rui de Britto Álvares e SILVA. Nordestes: Que Nordeste?” In: AFFONSO. para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão” (Graziano da Silva. tanto no Nordeste como no Brasil.4% do total) aumentaram sua participação na área total. Na zona semi-árida. 1989). Tânia Bacelar de. os estabelecimentos de mais de mil hectares (0. os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria. a situação é agravada pela presença de “latifúndios maiores”: lá a área média do 1% dos maiores estabelecimentos (1. Nesse período. A concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL nas áreas rurais do Nordeste. muitas vezes registradas como imóveis distintos. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. dois terços dos indigentes rurais do País estão no Nordeste. como foi visto. as velhas estruturas socioeconômicas e políticas têm na base fundiária um de seus principais pilares de sustentação.914 hectares. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. Nesse contexto. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. 51 . para o mesmo período. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição. essa participação caiu para 28%. Ao mesmo tempo. por exemplo).

Ed.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Desigualdades regionais e desenvolvimento. Nobel. Charles Curt.] Texto 3 – A Dinâmica Econômica Desde o fim do século XVII até as primeiras décadas deste século. o processo de ocupação do Centro-Oeste foi descontínuo. São Paulo. 1995. Donald. As conseqüências mais significativas deste novo enfoque de intervenção do Estado na região foram sentidas no sul do Mato Grosso do Sul e centro-sul de Goiás. 52 . A industrialização por substituição de importações passou a requerer da agricultura dupla atribuição: “produzir excedentes de alimentos a custos razoáveis” e “fornecer recursos para financiar o desenvolvimento urbano-industrial do centro dinâmico da economia nacional”1. 1983. 132-138. As primeiras ocupações ocorreram por iniciativa privada e de forma espontânea. “nucleado” e espacialmente desarticulado. João Paulo dos (org. Universidade Estadual Paulista. como sabemos. 1 Mueller. essencialmente. Foi a partir da década dos 40 que o Estado passou a intervir decisivamente no processo de ocupação da região. como sendo uma área potencial que oferece condições para a expansão da atividade agropecuária (funcionamento de mercados específicos. Naciones Unidas/ CIFCA-CEPAL-PNUMA. A ecologia e o novo padrão de desenvolvimento no Brasil. E. A região era considerada até recentemente. aproximando-se da definição estabelecida por Sawyer. Madrid. Ocupación y desocupación de la frontera agrícola em el Brasil: um ensayo de interpretación estructural y espacial. p. apoiado. 2 A idéia de fronteira é utilizada em sentido amplo. A mobilização populacional foi motivada basicamente pela apropriação de recursos naturais disponíveis e não pela ação governamental. São Paulo: FUNDAP. da mesma forma que o Norte. Ver: Sawyer. um dos grandes “vazios nacionais”. 1992. Essa participação não ocorreu evidentemente por acaso. O Centro-Oeste: evolução. na expansão das fronteiras agrícolas2. sistemas de transportes adequados e disponibilidade de terras a serem ocupadas).). situação atual e perspectivas de desenvolvimento sustentável. In: Velloso. a agricultura brasileira apresentou um desempenho aceitável.

O impulso verificado na expansão e modernização agropecuária do Centro-Oeste. como fornecedora de matérias-primas para a indústria. Campinas. estes dois subespaços regionais experimentaram um processo de elevado crescimento econômico e populacional. algodão e milho)”. principalmente no Paraná. um acelerado processo de colonização na área de influência das cidades de Dourados e Campo Grande. baseado em decisivos estímulos governamentais. e de outro. Modernização. se dá num novo contexto: a agricultura passa a adquirir importância central na expansão e diversificação das exportações. nos anos 50 e 60. mimeo. largamente subsidiados pelo sistema de crédito e benefícios fiscais. como a sua parte central. Kageyama3 (1986) caracteriza essa nova fase da ocupação do Centro- Oeste como: “presença maciça de grandes empreendimentos capitalistas. Verificou- se. provocando um inesperado fluxo 3 Kageyama. encontrava-se então limitado. como entreposto agrícola. Durante os anos 70. e de Anápolis (GO). 1986. a denominada modernização conservadora no campo no sul do País. café. para garantir uma oferta adequada de divisas. arroz. no Mato Grosso do Sul. e a se inserir em um processo de verticalização. acabou expulsando um bom contingente de pequenos agricultores. como importantes núcleos urbanos. 53 . Em que pese já se encontrar em funcionamento uma estrutura comercial em plena atividade nas áreas mais acessíveis do sul de Goiás e de Mato Grosso do Sul. Ângela. o avanço para os outros espaços regionais. com a presença de grandes propriedades agrícolas. de um lado. a consolidação econômica do sul e centro de Goiás. a partir da década dos 70 e nos anos 80 – inclusive com a viabilização dos cerrados e da área norte da região –. com destaque para a sub-região dos cerrados e do imenso norte do atual Estado do Mato Grosso. quanto pela consolidação das cidades de Brasília (DF) e Goiânia (GO). produtividade e emprego na agricultura – uma análise regional. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL De fato. tanto pelas possibilidades abertas pela agropecuária e agroindústria. voltados fundamentalmente para a atividade de pecuária extensiva e de algumas culturas de exportação (soja.

Brasília. verifica-se uma importante participação de grandes projetos incentivados pelo governo. como o PRODECER. Na viabilização econômica dos cerrados. investimentos em infra-estrutura e apoio técnico. com certo arrefecimento da expansão amazônica e com a resolução dos problemas de fertilidade dos solos (viabilizada pelos avanços tecnológicos da EMBRAPA). PNUD. O fator fundamental para a acentuação do processo de ocupação fundiária verificada em algumas partes do Centro-Oeste. Partes das microrregiões de Rondonópolis e Garças experimentaram um crescimento vigoroso da agricultura voltada para os grandes mercados nacionais (Aguiar. Maria de Nazaré (org. a exemplo de Jateí. No norte e noroeste de Mato Grosso deu-se forte expansão baseada em grandes projetos de colonização pública e privada e numa política de expressivos estímulos governamentais. com destaque para os incentivos fiscais e financeiros de SUDAM e BASA. Com relação à área dos cerrados.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO migrante que se estende do Mato Grosso do Sul à fronteira com Rondônia. 54 . foram decisivos os estímulos do PÓLOCENTRO. Além do PÓLOCENTRO. No caso de Goiás. Glória de Dourados. durante muito tempo inexplorado. a falta de maior conhecimento técnico que possibilitasse a sua viabilização comercial fez com que. se estimulasse o avanço da fronteira agrícola na Amazônia4. notadamente na área sob a influência da Amazônia Legal – que tem um fortíssimo componente 4 Ver Aguiar. Nova Andradina e Angélica. 1988). provocando o surgimento de várias cidades. principalmente em torno da rodovia Belém-Brasília.). Mas no fim dos anos 70. com seu sistema de crédito. do dia para a noite. 1988. A Questão da produção e do abastecimento alimentar no Brasil: um diagnóstico macro com cortes regionais. IPEA/IPLAN. Também nessa área. o PROVÁRZEA e o PROFIR. passou a ocorrer presença maciça de grandes fazendas. num primeiro momento. as atenções voltaram-se para aquelas áreas que foram gradativamente incorporadas e passaram a ter uma articulação mais estreita com os mercados do Centro-Sul. também devem ser destacados outros programas.

Tais projetos apresentaram grau muito reduzido de operacionalização. Manuel Correia de. A especulação com a terra e o financiamento estatal facilitado definiram estreita associação entre o capital fundiário e o financeiro. em alguns casos ultrapassando o exorbitante tamanho de 100 mil hectares (SUDAM/PNUD. Estudo recente5 detectou que. basta dizer que. até 1985. apenas 249 se encontravam em operação em 1985. 215 no Estado do Mato Grosso e 53 em Goiás. ao mesmo tempo. Modernização e pobreza. 5 Andrade. tiveram reduzido impacto no volume de produção e vendas. Pode-se afirmar que. que dariam origem a fornecedores importantes de produtos agropecuários para o mercado nacional. Por outro lado. foram aprovados 626 projetos. foram mais eficientes em “gerar a concentração fundiária e de renda” (Aguiar. o acirramento dos conflitos de terra. e na rentabilidade dos empreendimentos. pesava bastante a futura valorização das terras onde seria implantada a empresa. nos últimos anos. 1988). 55 . foi o conjunto de estímulos fiscais e a política de crédito. administrados pela SUDAM. tais incentivos governamentais e o caráter especulativo da apropriação de terra nessas áreas refletiram-se indiretamente nas outras regiões. provocando o “fechamento” da fronteira e. assim como foram diminutos os benefícios via geração de ICM e de criação de empregos para a região. Os instrumentos de incentivos fiscais. Além disso. Na decisão de investimento dos projetos incentivados. no prelo. notadamente em projetos de usinas de açúcar e de reflorestamento. de certa forma. 1994. Dos 626 aprovados. foram criados no fim da década dos 60 com objetivos claros de favorecer a inserção de grandes investimentos. cujo tamanho médio das propriedades era de cerca de 21 mil hectares. Recife. Para se ter uma idéia da magnitude do impacto das empresas incentivadas sobre a concentração fundiária na região. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL especulativo –. 1989). ocorreu a instalação de importantes grupos empresariais oriundos do Nordeste e do Sudeste no Mato Grosso e Goiás.

1995. polarizada pelas indústrias implantadas no Sudeste. As desigualdades no ritmo do processo de urbanização refletem as disparidades econômicas regionais e a própria inserção diferenciada de cada região na economia nacional. por sua vez. que se manifesta em todo o país. Rui de Britto Álvares e SILVA. Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil O processo de urbanização conheceu uma aceleração notável no país desde a década de 1950. 56 . A população urbana.] 3. “Centro-Oeste: Evolução recente da economia regional”. O processo de urbanização brasileiro apoiou-se essencialmente no êxodo rural. [GALINDO. As diferentes regiões e estados do país apresentam uma urbanização desigual e contrastes marcantes na distribuição da população entre o meio rural e o meio urbano. incentivado pela modernização técnica do trabalho rural e pela concentração crescente da propriedade fundiária. marcadamente capitalistas e tecnificadas. São Paulo: FUNDAP/UNESP. passando de cerca de 33 milhões em 1950 para pouco menos de 38 milhões em 1991. e na porção norte – que compreende o Mato Grosso e o norte de Goiás – como sendo um locus privilegiado das frentes especulativas. Valdeci. pode-se caracterizar a expansão da fronteira agrícola no Centro-Oeste em sua parte mais ao sul – Mato Grosso do Sul e parte sul de Goiás – como vigorosas frentes de agricultura comercial. Desigualdades regionais e desenvolvimento.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Em suma. que não chegava a 20 milhões em 1950. A população rural. Osmil e MONTEIRO DOS SANTOS. 158-161. p. A urbanização do Brasil. A constituição de uma economia de mercado de âmbito nacional. com suas grandes empresas agropecuárias. apesar de geral. Pedro Luiz Barros (org. foi o pano de fundo desse movimento urbanizador. In: AFFONSO.). ultrapassou a marca dos 110 milhões em 1991. registrou um crescimento extremamente fraco no período. não é uniforme.

que transferia populações do campo nordestino para as cidades dos estados de São Paulo. o desenvolvimento insuficiente do mercado regional limita a atração exercida pelas cidades. ancorada no parcelamento da propriedade da terra nas áreas de planaltos. Na Região Norte. A persistência de uma elevada participação da população rural decorre da estrutura minifundiária e familiar tradicional da faixa do Agreste. o movimento urbanizador foi menos intenso. a mecanização acelerada da agricultura e a concentração da propriedade da terra impulsionaram a transferência acelerada da população rural para o meio urbano. e a Amazônia. Contudo. Todos os estados da região apresentam participação da população urbana superior à média nacional. Depois. em função das particularidades do setor agrícola regional. de soja ou cereais) acentuou a tendência urbanizadora. de um lado. pois o afluxo de populações para a região nas últimas 57 . com profunda transformação da economia rural e subordinação da agropecuária à indústria. O Estado do Mato Grosso do Sul apresenta um nível de urbanização similar ao dos estados do Sudeste. pelo menos até a década de 1980. camponeses expulsos do meio rural formaram fluxos migratórios que se dirigiram para as novas frentes pioneiras do Centro-Oeste e da Amazônia. Minas Gerais e Rio de Janeiro. de outro. restringia o êxodo rural. A baixa capitalização e produtividade do setor agrícola limita a repulsão da população rural. o crescimento relativo da população urbana tem sido mais lento. que retém a força de trabalho no campo e controla o ritmo do êxodo rural. A urbanização do Centro-Oeste foi impulsionada pela fundação de Brasília e pelas rodovias de integração nacional que interligaram a nova capital com o Sudeste. Expressa também o peso decisivo da economia urbana na produção regional da riqueza. houve um intenso êxodo rural no Nordeste que não transparece nas estatísticas regionais: trata-se do movimento migratório para o Sudeste. Simultaneamente. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A elevada participação da população urbana no conjunto da população do Sudeste expressa um estágio avançado de modernização econômica. A ocupação do espaço rural por grandes propriedades (fazendas de gado. No Nordeste. A Região Sul viveu um processo de urbanização lento e limitado até a década de 70: a estrutura agrária familiar e policultora.

gerando a metropolização1. concentrando estes recursos. e outras medidas altamente atrativas. concentrador: gerou cidades grandes e metrópoles. Um número reduzido de cidades tornou-se pólos de atração populacional. Em 1940. orientou- se para áreas rurais. provisão de infra-estrutura. 58 . incentivos fiscais. 1988. assim. da força de trabalho e do mercado em determinados pontos selecionados do território. IN: Lucio Kowarick (org. Atualmente. essencialmente. A implantação de uma economia de tipo monopolista refletiu-se na concentração da produção. Paz e Terra. especialmente.” São Paulo. o Estado investiu pesado em energia. Essa associação provou ser bastante custosa em termos de gastos públicos e pressão inflacionária. Rio de Janeiro. São esses fluxos que explicam a significativa parcela de população rural em estados como Pará. transportes e insumos básicos. crescendo e diversificando a sua economia. O processo de urbanização brasileira foi. A tendência à metropolização foi um reflexo das condições em que ocorreu a modernização da economia do país. elas já eram 25. só existiam duas cidades com mais de 500 mil habitantes. De fato. A industrialização do país percorreu caminhos muito diferentes daqueles da Revolução Industrial européia.) As Lutas Sociais e a Cidade. provenientes do Estado. o peso relativo deste núcleo urbano não só enquanto espaço receptor de investimentos diretos estrangeiros.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO décadas. A região metropolitana representa um produto característico desse tipo de urbanização concentradora que o país experimentou. na região liderada pela cidade de São Paulo. ao criar condições gerais e infra-estrutura necessárias para o pleno funcionamento do capital industrial no setor transnacionalizado de consumo durável. mais de 40 milhões de pessoas vivem nas metrópoles do país. Metrópole do Subdesenvolvimento Industrializado. como conseqüência da abertura de novas frentes pioneiras. A concentração econômica determinou a aglomeração espacial. 1 Lúcio Kowarick e Milton Campanário analisam o crescimento e a importância industrial da Região Metropolitana de São Paulo a partir deste prisma: “Os investimentos diretos das empresas multinacionais feitos. mas também como espaço construído capaz de fazer circular o valor ali criado. com grande apoio no capital doméstico. na forma de financiamento direto. via de regra. A Grande São Paulo e a Grande Rio de Janeiro constituem os exemplos mais importantes do processo metropolizador brasileiro. em 1991. Baseou-se em investimentos volumosos de capital. Tocantins e Rondônia. particularmente de origem estatal. Cresce. de empresas transnacionais ou de grandes grupos privados nacionais.

e para a população de uma área externa à cidade – a sua região de influência. que continua a se desenvolver. está conduzindo ao aparecimento da primeira megalópole do país. vai se recorrer mais freqüentemente à banca de jornais do que a uma livraria. bancos. mas também à freqüência de consumo. e a Serra da Mantiqueira. Em função dessa diferença na freqüência de consumo dos diversos produtos industriais e dos serviços. Assim. Guaratinguetá. A presença de barreiras físicas muito nítidas – a Serra do Mar. Importantes centros industriais como São José dos Campos. verifica- se uma diferença na respectiva localização: aqueles produtos industriais e serviços de consumo muito freqüente são encontrados 59 . cada cidade tem. do mesmo modo que se procura com maior freqüência um médico de clínica geral do que um especialista em doenças do coração. no espaço geográfico de expansão destas duas principais aglomerações urbanas brasileiras. não só quanto à natureza. Taubaté. Barra Mansa e Volta Redonda configuram um espaço de fluxos cada vez mais intensos. estimulados pelos mercados consumidores materializados nas metrópoles. A rede de cidades no Brasil A importância das cidades na organização do espaço deriva da sua capacidade de oferecer mercadorias e serviços para um mercado consumidor amplo. maior que o do próprio núcleo urbano. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O processo de metropolização. Os produtos industriais e os serviços. Através do Vale do Paraíba. em função do qual vai adquirir um equipamento funcional – estabelecimentos comerciais e industriais. a leste. hospitais e escolas – tornando-se assim o centro de atração para esse área externa. O grau de importância de cada cidade depende da extensão do mercado atingido pelas mercadorias e serviços que ela distribui. portanto. industriais e comerciais. adensa-se o espaço urbanizado vinculado diretamente às cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Assim. de acordo com o geógrafo Roberto Lobato Corrêa: O papel mais importante de uma cidade é o de distribuir produtos industriais e serviços para as empresas agrárias. apresentam entre si diferenças. a oeste – aprofunda a tendência à formação de uma verdadeira megalópole. um mercado consumidor externo a si mesmo. no entanto.

uma metrópole interior. A trajetória histórica da ocupação do território – marcada pela concentração populacional numa faixa próxima ao litoral – determinou a localização da maior parte das metrópoles. enquanto aqueles outros de consumo menos freqüentes são encontrados em cidades médias. Belém – a metrópole que influencia quase todo o vasto espaço amazônico – é um porto marítimo situado na foz do Rio Tocantins. [In: CORRÊA. a capital política e administrativa do país. caracterizada pela dependência de cidades que distribuem produtos industriais e serviços cada vez de menor freqüência de consumo. elas estruturam o espaço nacional. só uma cidade. As metrópoles regionais são aglomerações que exercem uma influência vasta. extremamente expressivo. Curitiba. Brasília. A cidade não desenvolveu um setor de serviços voltado para o mercado regional.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO em pequenas cidades. São Paulo e Rio de Janeiro. Recife e Fortaleza). servindo a todo o mercado consumidor do país. Juntamente com São Paulo e Rio de Janeiro. Goiânia. Fortaleza e Belém são as cidades que funcionam como metrópoles regionais. funciona como metrópole regional.] O Brasil possui duas metrópoles nacionais. as metrópoles regionais (Salvador. No Nordeste. Belo Horizonte. No Sudeste e no Sul. Roberto Lobato. Ao contrário. Essas cidades estão no topo da hierarquia urbana. enquanto Manaus é um porto fluvial interligado ao oceano. de fácil acesso a uma grande população pelas vias de circulação que para lá convergem. apenas Belo Horizonte é. e os de consumo raro apenas nas grandes cidades. Essa posição ajuda a compreender seu crescimento populacional. aglomerações cuja influência se manifesta em todo o território. Recife. Salvador. e estão subordinadas economicamente apenas às metrópoles nacionais. mais ampla que o território dos seus estados. polarizando regiões de influência e redistribuindo bens e serviços para um mercado imenso e diversificado. No Norte. Abril-Junho de 1941. In: Revista Brasileira de Geografia. Porto Alegre. Assim. claramente. “Regiões de Influência Urbana”. seu 60 . não chegou a se tornar sequer uma metrópole regional completa. No Centro-Oeste. passa-se a noção de hierarquia urbana.

quatro momentos do ponto de vista do papel e da significação das metrópoles. Um não se entende sem o outro. as tendências à dispersão começam a se impor e atingem parcela cada vez mais importante dos fatores. são sinônimos. há reforços pela formação de um mercado único. expressões particulares segundo os períodos históricos. Com o fim da segunda guerra mundial. Texto 1 – A “Dissolução” da Metrópole Houve. à crise desse mercado. Texto Complementar No texto abaixo. presentes somente em poucos pontos do espaço. que comandam o território com apoio do Estado. com ausência de comunicações fáceis entre as metrópoles. sua chamada zona de influência. depois. Recentemente. ao longo da história brasileira. a capacidade de polarização externa da cidade foi. ganha. E o quarto momento é quando conhece um ajustamento: primeiro à expansão e. que é um mercado único. Pode-se dizer. Um terceiro momento é quando um mercado único nacional se constitui. mas segmentado. um mercado hierarquizado e articulado pelas firmas hegemônicas. único e diferenciado. estas apenas comandavam uma fração do território. o geógrafo Milton Santos analisa os impactos da revolução técnico-científica na problemática urbana e discute a transfiguração de São Paulo de metrópole industrial em metrópole informacional. Em conseqüência. limitada ao Sudeste e ao Sul. direcionado basicamente para o próprio mercado urbano. distribuídos em áreas mais vastas e lugares mais numerosos. desde o início. mas a integração territorial é. no caso do Brasil. O movimento de concentração-dispersão. Quando o Brasil urbano era um arquipélago. as tendências concentradoras atingiam número maior de variáveis. próprio da dinâmica territorial em todos os tempos. que. Não é demais lembrar que mercado e espaço. ou ainda melhor. todavia. a 61 . muito precária. ao longo de sua história territorial. praticamente. Num segundo momento. nacionais e estrangeiras. mercado e território. destacando as múltiplas relações que ela estabelece com o território nacional. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL aparato de distribuição de bens e serviços conheceu um crescimento endógeno.

a respectiva Região Metropolitana e seu entorno. de modo dialético. e ao mesmo tempo. Agora. a própria região concentrada. todavia. É desse modo que São Paulo se impõe como metrópole onipresente e. de que dependem a concepção e o controle da produção. uma difusão social e geográfica do consumo em suas diversas modalidades e. são. ainda que a pobreza persistente da população assegure a permanência de pequenos comércios e serviços. tanto no âmbito material quanto no intelectual. cada vez mais no período atual. também. em primeiro lugar. novas condições de polarização. ambos esses fatos garantindo- lhe preeminência em relação às demais áreas e lhe atribuindo. economicamente e geograficamente. por isso mesmo. Em outro sentido. São Paulo fica presente em todo o território brasileiro. a de um 62 . de modo complementar e contraditório. atribuindo novas funções às cidades de todos os tamanhos. As novas formas de um trabalho intelectual mais sofisticado. concentradas. Dispersão e concentração dão-se. como metrópole irrecusável para todo o território brasileiro. a desconcentração da produção moderna. A nova divisão do trabalho territorial atinge. também. há um movimento de concentração das formas de intercâmbio.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO integração do espaço brasileiro e a modernização capitalista ensejam. no nível nacional e estadual ou regional. Atividades modernas presentes em diversos pontos do País necessitam de se apoiar em São Paulo para um número crescente de tarefas. uma vez mais. tanto agrícola quanto industrial. ligadas ao processo direto da produção mas também à sua circulação. A comercialização tende a se concentrar. e no mesmo momento. parte considerável de sua operação depende de outras variáveis geograficamente concentradas. A definição do lugar é. geradores de fluxos de informação indispensáveis ao trabalho produtivo. a metrópole está presente em toda parte. cada vez mais numerosas. ainda que outras formas de trabalho intelectual. sejam objeto de dispersão geográfica. privilegiando a cidade de São Paulo. com estabelecimentos dispersos. onde a acumulação de atividades intelectuais ligadas à nova modernidade assegura a possibilidade de criação de numerosas atividades produtivas de ponta. posteriormente. Se muitas variáveis modernas se difundem amplamente sobre o território. por isso mesmo. graças a esses novos nexos.

hierarquia com nova qualidade. ao longo do tempo. O que há é uma verdadeira multiplicação do tempo. com dispersão das mensagens e ordens. Mas o tempo que está em todos os lugares é o tempo do Estado e o tempo das multinacionais e das grandes empresas. marcados por dominâncias específicas. 63 . mas o fazia com defasagens e perdas. Nenhuma dispõe da mesma quantidade e qualidade de informações que a metrópole. da rede urbana ou do espaço. o espaço se tornava mais e mais unificado e mais fluido. mesmo. através das metrópoles. por causa de uma hierarquização do tempo social. temos tempos subalternos e diferenciados. e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa entre aglomerações do mesmo nível. tempo do relógio. nodal ou não. mas do tempo social. ao contrário do que muitos foram levados a imaginar e a escrever. todas as localizações tornam-se funcionalmente centrais. Digamos que o núcleo migrava. nova hierarquia se impõe entre lugares. lugares funcionais da metrópole.. Antes. “chega” a outra cidade com a mesma celeridade. Mas. graças a uma seletividade ainda maior no uso das novas condições de realização da vida social. e. todavia faltavam as condições de instantaneidade e de simultaneidade que somente hoje se verificam. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL lugar funcional à sociedade como um todo. Está aí o novo princípio da hierarquia. Em cada outro ponto. Sua inserção no sistema mais global de informações de que depende seu próprio significado depende da metrópole. paralelamente. Se. A simultaneidade entre os lugares não é mais apenas a do tempo físico. a metrópole estava presente em diversas partes do País. pois. com base em diferenciação muitas vezes maior do que ontem. Nenhuma cidade. para o campo e para a periferia. E. Os lugares seriam. na sociedade informatizada atual nem o espaço se dissolve. nem este se apaga. pela hierarquia das informações. uma nova realidade do sistema urbano. na maior parte das vezes.. sem dúvida. abrindo lugar apenas para o tempo. Informações virtualmente de igual valor em toda a rede urbana não estão igualmente disponíveis em termos de tempo. Com isso. entre os diversos pontos do território. dos momentos da vida social. além da metrópole.

espaço onde os fluxos de matéria desenhavam o esqueleto do sistema urbano2. muito que ver com o fato de que essa mesma aglomeração paulistana era e continua sendo um centro importante de uma atividade fabril complexa. tão diferentes da produção industrial. aliás. tem. ficam.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Os momentos que. Foi a partir dessa base que a capital industrial se transformou em capital informacional acumulando em períodos consecutivos papel metropolitano crescente. ultrapassadas. capazes de manipulação da informação. Cordeiro1. são vividos por cada lugar. como a descentralização era diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente sincrônica. 1987. sobre a economia e o território. 153-196. por causa de suas atividades quaternárias de criação e controle. sofrem defasagens e se submetem a hierarquias (em relação ao emissor e controlador dos fluxos diversos). e a das regiões polarizadas. Antes. praticamente sem competidor no País. 31-34. assim. Helena K. p. Porque há defasagens. agora. Trata-se de fato novo. no mesmo momento. Temos. como precedentemente colocadas. Esta é a grande cidade cuja força essencial deriva do poder de controle. anos 16-17. do funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política. O dado organizacional é o espaço de fluxos estruturadores do território e não mais. Esse papel é. Hoje. a metrópole está presente em toda parte. Nas condições de 1 Cordeiro. no mesmo tempo do relógio. não é essa função metropolitana que atualmente assegura a São Paulo papel diretor na dinâmica espacial brasileira. No caso brasileiro. em suas diversas etapas. a metrópole não apenas não chegava ao mesmo tempo em todos os lugares. condição. de atividades hegemônicas. assim. da qual necessitam para o exercício do processo produtivo. cada qual desses lugares é hierarquicamente subordinado. O locus dessas atividades privilegiadas. completamente diferente da metrópole industrial. instantaneamente. Boletim de Geografia Teorética. Os principais pontos de controle da economia transacional no espaço brasileiro. o fenômeno da “metrópole transacional” de que fala Helena K. Porque as defasagens são diferentes para os diversos variáveis ou fatores é que os lugares são diversos. vale a pena insistir sobre essa diferença pois em ambos os momentos a metrópole é a mesma: São Paulo. Trata-se. 2 Ainda que o peso da atividade industrial seja muito expressivo na aglomeração paulistana. de verdadeira “dissolução da metrópole”. O papel de comando é devido a essas forças superiores de produção não-material. Rio Claro. pois agora são os fluxos de informação que hierarquizam o sistema urbano. se a compararmos com o resto do País. 64 . diante de nós. As questões de centro-periferia. nela sediadas. elas próprias sendo conseqüência da integração crescente do País a novas condições da vida internacional. todavia. n. como na fase anterior.

as atividades periféricas e impondo novas questões para o processo de desenvolvimento regional. Retomemos o exemplo. 1994. Comunicação ao Colóquio de Geografia Brasil-Argentina-Uruguai. uma vez que as grandes firmas que controlam a informação e a redistribuem ao seu talante têm papel entrópico em relação às demais áreas. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL passagem de uma fase a outra. uma espécie de segmentação do mercado enquanto território e uma segmentação vertical do território enquanto mercado. A metrópole informacional assenta sobre a metrópole industrial. set. Prova de que sua força não depende da indústria é que aumenta seu poder organizador ao mesmo tempo em que se nota uma desconcentração da atividade fabril. A urbanização brasileira. p. Isso representa um desafio às planificações regionais. Milton. O espaço é assim desorganizado e reorganizado a partir dos mesmos pólos dinâmicos. São Paulo hoje está presente em todos os pontos do território informatizado brasileiro3. traga como conseqüência uma segmentação vertical do território supõe que se redescubram mecanismos capazes de levar a uma nova horizontalização das relações. A informatização e o processo urbano no Brasil. ao seu talento e em seu proveito. em Manaus trinta dias depois. 65 . neste período científico- técnico. pelos seus vetores hegemônicos. São Paulo sempre esteve presente no País todo: presente no Rio um dia depois. [SANTOS. 89-93. 1986 e O Computador no território brasileiro. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo e imediatamente. Relatório de pesquisa para a FINEP. somente a metrópole industrial tem condições para instalar novas condições de comando. 2ª ed. em Belém dez dias depois. mas já não é a mesma metrópole. de modo figurativo. beneficiando-se dessas precondições para mudar qualitativamente. capaz.] 3 Ver Gertel. Universidade de São Paulo. em Salvador três dias depois. 1988 (mimeo). No passado. Sérgio. uma vez que os diversos agentes sociais e econômicos não utilizam o território de forma igual. e somente elas podem realizar a negentropia. O fato de que a força nova das grandes firmas. que esteja não apenas a serviço do econômico. entre outras coisas.. O fato é que estamos diante do fenômeno de uma metrópole onipresente. o que traz como conseqüência. de desorganizar e reorganizar. mas também do social. São Paulo: HUCITEC..

ocorrida no interior da economia cafeeira exportadora – ainda é marcante. nas últimas décadas. As regiões Sul e Nordeste aparecem muito atrás. A indústria da Região Sudeste é responsável por quase dois terços da força de trabalho e mais de dois terços do valor da produção. 66 . quando a capital foi transferida para Brasília. tinha quase 30% do valor da produção.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 4. à concentração de siderúrgicas de grande porte no Vale do Aço e à formação de importantes distritos industriais nos arredores de Belo Horizonte. Esse crescimento deve-se. Santa Catarina. a antiga Guanabara. ocorre significativo crescimento da participação de Minas Gerais no Setor Secundário nacional. enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste apresentam uma participação apenas marginal no Setor Secundário do país. observa-se uma tendência incipiente de desconcentração industrial. A isenção fiscal oferecida pelos governos estaduais assim como as diferenças regionais de custos da mão-de-obra – significativamente menores nos estados do Nordeste – ajudam a entender esta tendência recente. A participação do Rio de Janeiro na indústria brasileira apresenta uma redução mais intensa e também mais antiga. O Estado de São Paulo concentra pouco menos que a metade do valor total da produção industrial do país. Apesar dela. Bahia. Em 1920. manifesta no intenso crescimento da produção em estados como Paraná. Entretanto. O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil O processo de industrialização brasileira gerou uma profunda concentração espacial. somada ao Rio de Janeiro. a participação fluminense já tinha caído para 16%. Amazonas e Ceará. nessa região. e hoje ela não chega a 10%. Mas. em grande parte. Em 1960. A redução da participação de São Paulo e do Rio de Janeiro explica a diminuição da participação geral do Sudeste. o predomínio paulista no Setor Secundário nacional – cujas raízes encontram-se na etapa inicial da industrialização.

o centro dos negócios de exportação e importação e das atividades bancárias. no nó de ligação entre o leque de ferrovias que se abria para o oeste cafeeiro e o porto de Santos. calçados. desde logo. A economia cafeeira de exportação gerou as condições para o arranque industrial da cidade. atraindo as novas fábricas que se implantavam. encontra-se um complexo heterogêneo de atividades secundárias que envolve indústrias modernas e tradicionais. A cidade de São Paulo transformou-se no principal pólo industrial do país já nas primeiras décadas do século. O crescimento econômico do interior abria vastos mercados consumidores para os manufaturados que começavam a ser fabricados na capital. No pós-guerra. F. Nesse primeiro surto industrialista. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL O espaço industrial da Região Sudeste O triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte é o grande pólo industrial do país. A capital tornou-se. o sul de Minas Gerais. os municípios de Santo André. abrangendo o leste do Estado de São Paulo. São Caetano do 67 . Brás e Moóca. São Paulo encontrava-se em situação geográfica estratégica. ao longo dos bairros do Belenzinho. No interior dessa área. Central do Brasil). a indústria transbordou os limites do município da capital e surgiram centros industriais de grande porte nos municípios vizinhos. bebidas e alimentos). predominaram as fábricas de bens de consumo não-duráveis (têxteis. As primeiras áreas industriais situaram-se junto aos eixos ferroviários que ligavam a cidade ao Rio de Janeiro (E. o Rio de Janeiro e avançando por todo o sul do Espírito Santo. e junto aos trilhos da Sorocabana. vestuário. atraindo capitais e empresários. O fluxo imigratório orientado inicialmente para o café gerou uma classe operária numerosa. na Lapa. fabricação de bens de consumo e de bens de produção. na direção da Baixada Santista. Os eixos rodoviários substituíram as linhas de trem. até Vitória. além das pequenas metalúrgicas e químicas. constituída por trabalhadores italianos e espanhóis. São Bernardo do Campo. Ao longo do eixo da Via Anchieta.

No eixo da Via Dutra. tanto quanto à absorção da força de trabalho como quanto ao valor da produção. Mas não polarizava uma economia de exportação com o dinamismo das plantações cafeeiras paulistas. enquanto São Paulo não ultrapassava os 100 mil. Sorocaba. mais tarde. São José dos Campos. O caráter terciário da metrópole é cada vez mais evidente. na direção do Rio de Janeiro. o crescimento industrial foi impulsionado por fatores históricos diferentes. que por muito tempo se fundamentou na agricultura e na agroindústria. 68 . Entre os eixos das vias Raposo Tavares e Castelo Branco. o que determinou um crescimento industrial muito menos vigoroso. Contava com mais de 1 milhão de habitantes. Com elas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Sul e Diadema passaram a abrigar as grandes montadoras automobilísticas implantadas no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). A implantação de infra-estruturas energéticas e vias de transporte modernas criou novas localizações favoráveis para as indústrias. O interior do estado apresenta um crescimento industrial muito maior que a metrópole. também surgiu uma região fabril. as indústrias químicas. No início do século. No Rio de Janeiro. Nas últimas décadas. O chamado ABCD transformou-se na maior aglomeração industrial da América Latina e no berço do principal pólo do movimento sindical brasileiro. A desconcentração industrial no Estado de São Paulo reflete também a tendência ao deslocamento de novas empresas para fora das localizações metropolitanas. a cidade era a capital do país e abrigava o maior porto marítimo nacional. Esse processo é conseqüência da expansão econômica do interior paulista. Santos e Cubatão – gerou mercados consumidores e reuniu força de trabalho para o deslanche da industrialização. o espaço paulista vem conhecendo um processo de dispersão industrial. envolvendo particularmente os municípios de Osasco e Carapicuíba. O crescimento dos núcleos urbanos regionais – como Campinas. instalaram-se as fábricas de autopeças e as metalúrgicas e. uma significativa aglomeração industrial foi criada no município de Guarulhos. Ribeirão Preto.

O sinal pioneiro da industrialização do Vale foi a implantação da primeira siderúrgica estatal. abrigava os bairros residenciais de alta renda. inúmeras cidades polarizadas por São José dos Campos e Taubaté transformaram-se em núcleos industriais. iniciada em 1941. A formação das metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro estimulou a expansão industrial no Vale do Paraíba. é um pólo químico organizado em torno da REDUC. e contando com farto abastecimento de água. os municípios da região tornaram- se localizações privilegiadas para estabelecimentos ligados à produção de bens intermediários e bens de consumo duráveis. que conquistou parcelas expressivas do mercado nacional. Duque de Caxias. Essa região desenvolveu-se como um tradicional centro têxtil. F. Outra destacada concentração industrial fluminense localiza-se na Zona Serrana. que tinha sido em meados do século XIX o foco das plantações cafeeiras escravistas e vivera depois uma profunda decadência. Teresópolis e Nova Friburgo. As linhas férreas definiram regiões industriais na zona norte da cidade. Mais tarde. O processo de expansão espacial da indústria seguiu uma trajetória similar à de São Paulo. é a maior aglomeração industrial da periferia do Rio. transformaram-se em importantes distritos industriais. Nova Iguaçu. Em Volta Redonda e Barra Mansa. em cidades como Petrópolis. com mais de 1 milhão de habitantes. na Grande Rio – como Nova Iguaçu. 69 . a CSN. enquanto a zona sul. com cerca de 700 mil habitantes. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A industrialização do Rio de Janeiro apoiou-se na dimensão do mercado consumidor formado pela aglomeração urbana e nos atrativos oferecidos pela presença dos órgãos de governo e empresas estatais. Central do Brasil. São João do Meriti e Nilópolis –. os municípios da Baixada Fluminense. a CSN impulsionou o aparecimento de estabelecimentos metalúrgicos. situada no eixo da Via Dutra e da E. durante as décadas de 60 e 70. junto à rodovia e à ferrovia. na orla litorânea. No Vale do Paraíba paulista. Duque de Caxias. Situados no caminho que liga os principais mercados consumidores do país. na parte fluminense do Vale.

A produção industrial do Nordeste concentra-se em torno das metrópoles regionais (Salvador. Após a Revolução de 30. No Norte. Sua origem está ligada a um projeto estratégico das elites mineiras. destinado a reverter o processo de decadência econômica de Minas Gerais. é o principal desses núcleos. Recife e Fortaleza). Décadas depois. abrigando um importante parque metalúrgico e químico.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Belo Horizonte nasceu em 1897. as elites mineiras direcionaram a sua atenção para o desenvolvimento industrial do estado. A luta pela implantação da siderurgia de grande porte envolveu a valorização das vastas reservas de minérios de ferro e manganês do chamado Quadrilátero Central. As políticas de concessão de incentivos para o capital privado resultaram na vigorosa industrialização dos arredores de Belo Horizonte. Em Betim. única montadora transnacional situada fora do Estado de São Paulo. marcada pela predominância de ramos tradicionais. Siderúrgica Belgo-Mineira. A expansão industrial do Sul apoiou-se fortemente em fatores regionais. como cidade planejada. Essa nova orientação materializou-se por meio da concessão de incentivos diversos para a atração de investimentos industriais privados e também por uma pressão permanente sobre o governo central. transnacional. Outras concentrações industriais Na Região Sul. 70 . com cerca de 400 mil habitantes. instalou-se no final da década de 70 a Fiat Automóveis. a implantação da Cia. a mais expressiva concentração industrial corresponde à Zona Franca de Manaus. com a formação de núcleos fabris modernos e diversificados nos municípios da Região Metropolitana. destinada a garantir a instalação de um vasto parque siderúrgico estatal no estado. estende-se uma importante região industrial. abriu a via de industrialização das cidades do Alto Vale do Rio Doce. de Porto Alegre a Curitiba. Contagem. O fluxo imigratório que formou zonas de colonização alemãs. vultosos investimentos estatais resultaram na criação de outras usinas gigantescas e na transformação do “Vale do Aço” na maior concentração siderúrgica do país. Antes da Segunda Guerra.

Uma característica do modelo industrial do Sul é o predomínio das indústrias dependentes de matérias-primas vegetais e agropecuárias. ainda. O primeiro gira em torno da Refinaria Landulfo Alves que gera matérias-primas para empresas petroquímicas e químicas estatais. em cidades como Joinville. onde o município de Canoas se destaca como pólo metalúrgico. de louças e brinquedos. a indústria moderna é produto do planejamento governamental. É o que ocorre não só com a fabricação de vinhos. Lá. a principal concentração industrial complexa e diversificada do Sul localiza-se na Grande Porto Alegre. Na Região Nordeste. essa estratégia industrializante se manifestou com o surgimento do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de Aratu. inicialmente rudimentar. químico e de material elétrico. como Novo Hamburgo e São Leopoldo. A presença de mão-de-obra abundante e barata representa incentivo suplementar. como também com a agroindústria de óleos vegetais disseminada pelas principais cidades do interior da região e. estabelecido em Curitiba e Ponta Grossa. privadas 71 . cujos alicerces repousam sobre os incentivos fiscais fornecidos pela Sudene e na implantação de um setor hidrelétrico de porte na Bacia do São Francisco. Um empresariado regional apareceu nas áreas coloniais. implantados nas cidades de Caxias do Sul e Bento Gonçalves. O Vale do Itajaí ilustra esse modelo de industrialização. O importante ramo de madeira e mobiliário do Paraná. com os frigoríficos e indústrias de fumo do Rio Grande do Sul. O complexo têxtil dessa área. artigos de couro e calçados. Blumenau e Brusque. Nas cidades gaúchas de colonização alemã próximas a Porto Alegre. Entretanto. cresceu e conquistou o mercado nacional. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL italianas e eslavas trouxe artífices e elementos qualificados. estabeleceram-se fabricantes de artigos de couro e calçados. desenvolveram-se fábricas têxteis. é outra ilustração desse processo. Em Salvador. Outro exemplo de expansão de uma indústria local é oferecido pelos estabelecimentos vinícolas da Serra Gaúcha.

Ao contrário do que ocorreu com grande parte das indústrias de tecelagem e confecção que operam no Centro- Sul. por exemplo. Nesse caso. Verifica-se uma tendência similar no setor calçadista. O segundo caracteriza-se pelo predomínio de fábricas de bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos da Sudene. no contexto da abertura econômica. e os projetos de transformar a futura siderúrgica em fator de atração para montadoras de automóveis e indústrias de autopeças. o apoio do governo estadual. as filiais nordestinas de empresas tais como a Vicunha e a Alpargatas continuaram ampliando as suas vendas depois da abertura das importações.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO e transnacionais. estado nordestino que experimentou os maiores índices de crescimento econômico na primeira metade da década de 90. através da isenção fiscal e dos mais diversos investimentos em infra-estrutura de transportes tem sido decisivo. em menor escala. e. em Sergipe e Pernambuco. 72 . A ênfase nas indústrias de alta capitalização – de bens intermediários e de bens de consumo duráveis – resultou numa absorção de mão-de-obra relativamente baixa. Na Grande Recife. A modernização da infra-estrutura regional e mecanismos de isenção fiscal estão na base do novo ciclo industrializante que caracteriza a região. como indica a recente formação de um consórcio entre a CVRD. No Ceará. pouco contribuindo para elevar os níveis de vida e emprego da população das metrópoles regionais. O crescimento do setor têxtil no Rio Grande do Norte e no Ceará. os incentivos fiscais geraram os distritos de Jaboatão. Na última década. A estratégia de modernização industrial do Nordeste apoiou-se na idéia de transferência de capitais externos à região. em Pecém. é tributário da conjunção dos mecanismos de incentivos fiscais e do custo da mão-de-obra. as estratégias industriais não se restringem ao setor de bens de consumo. também marcados pelo predomínio das indústrias de bens de consumo duráveis e dos capitais oriundos do Centro-Sul. Cabo e Paulista. o processo de industrialização vem ganhando novos contornos. significativamente menor do que nas regiões industriais do Centro-Sul. a CSN e o Grupo Vicunha – já solidamente implantado no estado – para a implantação da Companhia Siderúrgica do Ceará.

vindo em seguida as mecânicas e as de material de transporte. deveria atrair grandes empresas transnacionais e nacionais para a fabricação de bens de consumo duráveis na região. sob a supervisão da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). destacando as estratégias locacionais das indústrias modernas e apresentando os principais pólos tecnológicos do Estado de São Paulo. praticamente não se utiliza matérias-primas regionais. sendo 549 localizadas em Manaus. aliada ao baixo custo da mão-de-obra local.3% em 1970 para 1. matérias-primas e componentes e sobre exportação de mercadorias. Os capitais dominantes são transnacionais. Em 1987. Devido à Zona Franca. a Zona Franca representava 75% do PIB de todo o estado e gerava mais de 120 mil empregos diretos e indiretos. As empresas eletroeletrônicas dominam o parque industrial da Zona Franca. Texto Complementar No texto abaixo. A política recente de abertura da economia nacional e redução das tarifas de importação coloca em risco a continuidade de seu desenvolvimento. o Estado do Amazonas saltou de 145 indústrias em 1967 para 800 em 1977.8% em 1985. A isenção total de impostos sobre importação de máquinas. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A Zona Franca de Manaus nasceu em 1967. 73 . Clélio Campolina Diniz e Fabiana Borges Teixeira dos Santos analisam o impacto da emergência de novas tecnologias produtivas na geografia industrial da Região Sudeste no Brasil. Os mercados consumidores são extra-regionais: a produção destina-se ao consumo nacional e internacional. extraído dos ensaios que integram a obra Desigualdades regionais e desenvolvimento. vinculada ao Ministério do Interior. Grande parte da produção de eletrodomésticos do país concentrava-se na capital do Amazonas. o processo de industrialização da área é nitidamente artificial. Assim. A participação do estado na produção industrial brasileira saltou de 0.

Assim. High Tech America: the what. apoiada no avanço da infra-estrutura. seguramente. Ann et alli. altamente intensivas em recursos naturais. O movimento migratório e os serviços tenderam a acompanhar o crescimento industrial e agropecuário. a partir do final da década dos 60 e durante a dos 70. especialmente com a incorporação produtiva dos cerrados. ao contrário. O crescimento agropecuário. baseou- se fundamentalmente no padrão industrial e tecnológico anterior. as mudanças tecnológicas em curso induzem à expansão os setores que estão fortemente sustentados na ciência e na técnica. As transformações estruturais em curso alterarão. reduzindo a demanda por recursos naturais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Texto 1 – Reestruturação Produtiva e Mudanças Tecnológicas O crescimento industrial ocorrido na fase conhecida como “milagre econômico”. 74 . mercado de trabalho profissional. relações interindustriais articuladas geograficamente e facilidade de acesso1. where and why of the sunrises industries. ao lado do grande crescimento da produção de grãos nos estados do Sul do Brasil. o sentido regional do desenvolvimento econômico brasileiro. Boston. Allen & Unwin. ocorreu também o movimento da fronteira em sentido ao Centro-Oeste. O processo de reestruturação industrial no contexto internacional e a abertura da economia pressionam a indústria brasileira a realizar mudanças tecnológicas e organizacionais que permitam ganhos de produtividade capazes de prepará-las para enfrentar a competição internacional. 1986. com grande ênfase em indústria de bens intermediários. propiciaram um processo de desconcentração para várias regiões e estados brasileiros. Por outro 1 Ver Markusen. como demonstra a experiência mundial. A existência de variados mecanismos de incentivos estaduais e regionais e uma ampla fronteira de recursos naturais. A localização dessas atividades. e de bens duráveis de consumo. Nesse sentido. se fez com grandes transformações estruturais e tecnológicas. é fortemente influenciada pela existência de centros de pesquisa e ensino. how.

Dessas experiências. No caso do Brasil. Boston. 75 . Allen & Unwin. com ênfase em indústrias baseadas em modernas tecnologias. alegando que o processo de desconcentração atinge a maioria das regiões brasileiras. Barjas e Pacheco.). São Carlos e São José dos Campos. M. Unicamp. especialmente no grande eixo que vai da região central de Minas Gerais até o nordeste do Rio Grande do Sul. 1993. (ed. territory: the geographical anatomy of industrial capitalism. onde estariam sendo aglomeradas indústrias modernas. recriando os distritos industriais. 1992. Jorge Ruben Biton. do Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal. mimeo. CNPq. SENAI. Pólos. [s. Ver Negri. Campinas. Brasília. Storper. porque as novas indústrias tenderiam a se localizar na área mais desenvolvida do País. 1993). Aj. criado em 1927. essas atividades tendem a reforçar os processos aglomerativos. O papel da UNICAMP como uma universidade especializada em pós-graduação foi vital para 2 Ver Scott. Mudança tecnológica e desenvolvimento regional nos anos 90. criado em 1969 – a criação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP veio reforçar e redefinir a posição da cidade como centro de ensino e pesquisa. O caso de Campinas é singular. criado em 1887. 19935 . work. 4 Medeiros. Negri e Pacheco. Os pólos tecnológicos no Estado de São Paulo: uma avaliação crítica. 5 Tapia. Carlos Américo. Além da história de pesquisa na cidade – em virtude do Instituo Agronômico de Campinas. IBICT. Levantamentos realizados por Medeiros et alii 4 indicam a existência de 15 cidades com alguma experiência em pólos tecnológicos. acredita-se que a reestruturação produtiva teria um efeito reconcentrador das atividades industriais. embora mantendo-se a desconcentração relativa da área metropolitana de São Paulo3. José Avelino et alli. Assim. vem ganhando importância a experiência dos novos distritos industriais. embora não necessariamente nas velhas e tradicionais áreas industriais2. 1993.]. especialmente em Campinas. embora mais recentemente tenham sido feitas avaliações pessimistas com relação a esses casos (Tapia. as mais bem-sucedidas são as localizadas no Estado de São Paulo. parques e incubadoras: a busca da modernização e da competitividade. do Instituto de Tecnologia de Alimentos. Campinas. Production.n. 3 Negri e Pacheco questionam esse argumento. 1986. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL lado.

Rio Claro. Outro caso que merece destaque é São José dos Campos. 1993). a exemplo da metalomecânica. no mais importante centro de ensino e pesquisa do País. além da proximidade geográfica com a área metropolitana de São Paulo. As pesquisas do CTA e de seus institutos coligados desembocaram na criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica – EMBRAER. que transformou São José dos Campos em uma das cidades mais avançadas no ensino de engenharia do País. Posteriormente. das facilidades da região. a região de Campinas vem-se transformando na mais importante nova região industrial do País. São Carlos e Araraquara. em 1987. instalada na década dos 40. parte das novas indústrias. estabeleceu-se um corredor industrial entre Campinas e Araraquara. em 1985. Além de um parque industrial diversificado e com a presença de um grande número de filiais de empresas multinacionais. Baseada nessas condições. em 1976. Piracicaba. foram criados o Centro Tecnológico para Informática – CTI. 1993. pode ser considerada de tecnologia moderna. A cidade possui ainda a sede do Centro Técnico Aeroespacial – CTA. em 1976. transformando Campinas. Apesar das críticas aos resultados dessas experiências. Americana. mais de 200 mil empregos industriais. especialmente em Campinas e São Carlos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO que a TELEBRÁS decidisse pela instalação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) naquela cidade. Caso o Brasil consiga retomar o crescimento. apontando o limite do seu crescimento (Tapia. a Companhia de Desenvolvimento Tecnológico – CODETEC. aquela região certamente se transformará na mais atraente alternativa locacional para vários segmentos das indústrias de alta tecnologia. em 1984. sede de várias grandes empresas multinacionais que ali encontraram uma alternativa locacional em razão da sua localização no eixo Rio-São Paulo. cujo conjunto já alcançava. em 1969. algumas surgidas como “spin-off” daquelas instituições. Constituída por uma rede de cidades de porte médio. e no parque industrial já existente. Negri e Pacheco. talvez. articulada com as instituições de pesquisa e ensino da região. da sua proximidade ao Porto de São Sebastião e do clima ameno das montanhas de Campos de Jordão. Limeira. além da expansão de setores já consolidados. o Laboratório Nacional de Luz Sincroton – LNLS. e a do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA. 76 . incluindo as cidades de Campinas e seus satélites. novas iniciativas deverão surgir nessas cidades.

aliado à queda da demanda de aeronaves. contra a exportação de armas pelo Brasil. A agricultura passou a funcionar 6 Diniz. como indica a maioria das análises sobre a região (Diniz e Razavi. criou também os cursos de mestrado e doutorado em áreas afins.] 5. Fabiana Borges. 212-215.l.). Rui de Britto Álvares e SILVA. Pedro Luiz Barros (org.). que. p. Tapia. [DINIZ. [s. In: AFFONSO.] mimeo. Esse fato permitiu que o emprego industrial em São José dos Campos subisse de 17 mil para 48 mil entre 1970 e 1980. colocaram a nova indústria de São José dos Campos em profunda crise conjuntural e estrutural. 1993) (. especialmente na linha de armamentos. definindo novas funções para a economia rural. Mohamadi. 19936 . acelerado após o término na Segunda Guerra Mundial. Emergence of a new industrial districts in Brazil: São José dos Campos e Campinas Cases. São Paulo: FUNDAP/UNESP. “Sudeste: Heterogeneidade Estrutural e Perspectivas”. Com base nas instituições de ensino e pesquisa locais. os efeitos do fim da Guerra Irã- Iraque e da Guerra do Golfo e as pressões políticas internacionais. Clélio Campolina e TEIXEIRA DOS SANTOS. além das pesquisas correspondentes. Clélio Campolina. 1993.. 77 . especialmente dos Estados Unidos.. O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais O processo de modernização e industrialização da economia brasileira. Desigualdades regionais e desenvolvimento. foi instalado na cidade um conjunto de atividades industriais. o fim da Guerra Fria. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Além das instituições de pesquisa ligadas ao setor militar. continuando a crescer até 1987. no início da década dos 60 foi criado o Instituto de Pesquisas Espaciais – INPE. ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. No entanto. subordinou a agropecuária às necessidades do capital urbano-industrial. Razavi. 1995.

soja (indústria de óleos vegetais) e cana (indústria de açúcar e álcool combustível). agricultura brasileira está orientada pelo binômio industrialização- exportação. A modernização da base técnica indica um processo de capitalização da agricultura que diferencia cada vez mais os produtores rurais empresariais dos produtores rurais familiares. ocorreu intensa liberação de trabalhadores. Nesse sentido. o fumo e as carnes de aves juntaram-se ao café como itens exportados de grande peso. adubos. antes de tudo. Produtos como a soja. incorporando tratores. A alta lucratividade da produção de insumos agroindustriais atraiu capitais e investimentos para culturas como as da laranja (indústria de cítricos). Em conseqüência. Além de fornecedora de insumos industriais. fertilizantes e pesticidas. especialmente no Centro-Sul do país. pois a proximidade dos mercados consumidores 78 . a agricultura modernizava a sua base técnica. colhedeiras e semeadeiras. À medida que se voltava para as necessidades da economia urbana. As culturas agrícolas que conheceram um maior desenvolvimento foram aquelas voltadas para a produção de insumos industriais. a economia rural tornou-se consumidora de mercadorias do setor industrial. a ligação entre a modernização da economia e a capitalização da agricultura se exprime através do preço da terra. em fornecedora de matérias-primas para as indústrias. A economia rural transformou-se. Desse modo. No plano espacial. a laranja (vendida na forma de suco). o preço da terra agrícola é mais elevado. a economia rural comportou-se como fonte de força de trabalho para a economia urbana. que não dispõem dos capitais necessários para o incremento da produtividade. Nas áreas mais urbanizadas e industrializadas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO como retaguarda do crescimento do setor industrial e financeiro. expelidos da agropecuária e forçados a procurar ocupação na indústria e nos serviços. Esse mesmo processo de modernização implicou a crescente mecanização das atividades agrícolas. O mercado externo absorveu uma parcela considerável do aumento da produção agrícola de insumos industriais. arados mecânicos.

A luta pela terra A terra é o meio de produção fundamental na economia rural. As terras distantes dos centros urbanos e industriais e. voltada para a produção de álcool e açúcar. sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro. O alto preço da terra. A concentração da propriedade da terra é um dos traços marcantes da economia rural brasileira. apresentam preços muito menores. O Centro-Oeste e as franjas meridionais e orientais da Amazônia são espaços de expansão da agropecuária moderna e cada vez mais integrados aos mercados do Centro-Sul. Em Pernambuco e Alagoas. baseada no uso de pastagens naturais de campos. Paraná. Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É por isso que a modernização agrícola se realiza. Esse é o domínio da pecuária tradicional. organizada em torno de grandes propriedades e culturas tropicais. Em São Paulo. cerrados ou caatingas e numa baixa densidade de animais. cujas origens remontam ao modelo de colonização aplicado ao território lusitano na América. por sua vez. O desenvolvimento agrícola dessas áreas é reflexo do transbordamento da economia rural dos estados do Sul e de São Paulo. esse sistema de produção está combinado com a agroindústria canavieira. De acordo com os dados do Censo Agropecuário de 1995. extensiva. em primeiro lugar. A faixa litorânea úmida do Nordeste constitui um espaço singular. os estabelecimentos rurais com menos de 10 hectares somam mais de metade 79 . portanto. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL aumenta a concorrência pelo uso da terra. encontra-se um complexo econômico agropecuário moderno. predomina a pequena produção camponesa de tipo familiar. no Centro-Sul do país. dos mercados consumidores. Nos vales dos rios e junto às estradas aparecem zonas de lavouras camponesas em pequenos estabelecimentos. marcado pelo predomínio da agricultura comercial tradicional. condiciona o desenvolvimento da produtividade das atividades agropecuárias: um pesado investimento na aquisição de terras exige lucros elevados para ser compensador. vinculado às necessidades industriais e altamente dependente de fluxos financeiros. Nas zonas semi-áridas do Agreste.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

do total, mas representam cerca de 2% área agrícola cadastrada no país. No
outro extremo, os estabelecimentos rurais com 1.000 hectares ou mais
representam pouco mais de 1% do total, mas controlam cerca de 45% da
área agrícola.

O sistema das sesmarias, do século XVI, gerou esse padrão
concentrador que se reproduziria ao longo da história do país. Já naquela
época, surgiam os dois personagens básicos da economia rural do país: de
um lado, o latifundiário (sesmeiro), que detinha vasta extensão de terras e
geralmente empregava um contingente numeroso de escravos para a
produção de gêneros tropicais exportáveis; de outro, o posseiro, que ocupava
as terras devolutas, mais afastadas do litoral, dedicando-se à produção de
subsistência e também a culturas alimentares consumidas nos latifúndios.

No século XIX, a introdução do trabalho livre na economia cafeeira
assinalou um momento decisivo na evolução da estrutura fundiária brasileira.
A extinção do sistema de sesmarias, em 1822, originou uma expansão
descontrolada do apossamento de terras. Em 1850, a Lei de Terras veio
frear esse processo, determinando que a única via para o acesso à terra seria
a compra.

A modernização da economia rural teve como conseqüência a
valorização monetária da terra. A valorização da terra, por sua vez, implica
o aprofundamento da concentração da propriedade. A transformação da
produção agrícola nas áreas mais prósperas do Centro-Sul, por exemplo,
realizou-se paralelamente ao englobamento dos sítios pelas fazendas, com
a expulsão dos camponeses pobres para as cidades ou para as fronteiras
agrícolas.

Os trabalhadores rurais expulsos das áreas agrícolas mais antigas
funcionam como vanguarda de expansão das fronteiras da economia rural.
Instalam-se, como posseiros ou pequenos proprietários, em regiões distantes
onde são abertas novas estradas e existem terras devolutas em abundância.
Nessas áreas novas, a estrutura fundiária costuma exibir intensa
fragmentação e a paisagem predominante é a dos sítios e roças familiares.

Depois da instalação dos camponeses pobres, as fronteiras agrícolas
assistem à chegada dos grandes proprietários. Muitas vezes eles são

80

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL

precedidos pelos grileiros que, subornando funcionários governamentais e
contratando jagunços e pistoleiros, forjam títulos de propriedade de terras e
expulsam os ocupantes. Outras vezes, grileiros e fazendeiros são um único
personagem. Os conflitos entre grileiros e posseiros são os principais
personagens da violência das regiões de fronteira.

Assim, o crescimento contínuo da área agrícola total se realiza através
de ciclos de desconcentração e reconcentração da estrutura fundiária.

Na década de 60, quando se intensificava a ocupação dos atuais
estados de Goiás e Mato Grosso do Sul, os pequenos estabelecimentos
aumentavam a sua participação na área total enquanto regredia a participação
dos estabelecimentos maiores.

Durante toda a década de 70, ocorria um movimento inverso, de
reconcentração fundiária. Naquela fase, a modernização agrícola em São
Paulo (principalmente com a expansão canavieira) e no Paraná (com a
expansão da soja) eliminava os sítios e expulsava os camponeses pobres.
Ao mesmo tempo, a ocupação das franjas amazônicas (Maranhão, Pará e
Tocantins) realizava-se através da expropriação dos posseiros e implantação
de grandes estabelecimentos pecuaristas ou madeireiros.

Nas fronteiras agrícolas amazônicas, o predomínio do pequeno
estabelecimento camponês ficou praticamente restrito a certas regiões de
Mato Grosso, Rondônia e Acre, onde se estabeleceram migrantes
provenientes da Região Sul.

O processo cíclico de expansão das fronteiras agrícolas e
concentração da estrutura fundiária gera conflitos permanentes e crescentes
pela posse da terra. Tais conflitos vêm se avolumando nas últimas décadas,
configurando um panorama de uma guerra aberta no campo brasileiro.

Texto Complementar

No texto reproduzido abaixo, publicado originalmente na revista
Ciência Hoje, o professor do Departamento de Economia da Universidade
de São Paulo analisa as especificadades do setor agrícola nas economias

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MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

contemporâneas, destacando a importância da produção familiar, traça um
diagnóstico da agricultura brasileira e defende novos rumos para a política
agrária nacional.

Texto 1 – Terra Dividida: Os Equívocos da Política Agrária

É muito comum encontrar na grande imprensa afirmações como esta:
“Claro que a distribuição de terra tem um papel a cumprir, mas sabe-se que o
caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho assalariado.” Muita
gente pensa assim. Talvez a maior parte da intelectualidade brasileira seja
vítima desse engano. No entanto, basta examinar os fatos para perceber que o
caminho seguido pelas nações mais desenvolvidas foi exatamente o inverso.

Em todas as agriculturas do Primeiro Mundo, a grande empresa e o
trabalho assalariado tornaram-se apêndices de uma massa de estabelecimentos
de médio porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar. A tal ponto
que grandes fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de
subdesenvolvimento. Na Europa, é fácil encontrar ambos em Portugal,
Espanha ou Grécia, mas é preciso paciência para achá-los na França, na
Alemanha ou na Grã-Bretanha. Na América do Norte, ainda são numerosos
nas áreas próximas ao México, mas tornam-se cada vez mais raros à medida
que se sobe em direção ao Canadá. No Japão, e em suas ex-colônias, só
com uma lupa é possível descobrir assalariados agrícolas. Assim, a crença
de que “o caminho do campo é o da grande empresa e do trabalho
assalariado” só faz sentido se esse caminho for o do subdesenvolvimento.

Os que vêem a agricultura patronal como o principal agente do
desenvolvimento rural também costumam dizer que “a reforma agrária dos
anos 90 será necessariamente anacrônica, do ponto de vista econômico-
desenvolvimentista, ainda que necessária por motivos éticos e democráticos”.
É claro que o potencial impulsionador de uma reforma agrária no Brasil,
neste final de milênio (se isso fosse possível), não seria igual ao que teria
sido no fim dos anos 50 ou na primeira metade dos anos 60. Até porque
grande parte do capital humano da agricultura foi dilapidado ou destruído
nos últimos 30 ou 40 anos. Muitos dos melhores agricultores já deixaram o
campo ou foram reduzidos a simples safristas. E aos que resistiram não é
oferecida formação profissional adequada aos desafios do século 21.

82

aumentou bastante a possibilidade de um trabalhador rural ter acesso a um lote de terra que lhe garanta a subsistência básica (casa e comida). a política agrária ganhou tanta importância desde 1985. Quantos conseguiram ninguém sabe. Na época da ditadura. Só é possível dizer que os programas oficiais de ‘colonização’ atingiram. Não por outra razão. Ações pós-democratização Com a redemocratização. Foi a reforma agrária que transferiu aos agricultores de Taiwan o equivalente a 13% do produto interno bruto de 1952 e aumentou em 33% a renda per capita dos agricultores da Coréia do Sul. a sociedade brasileira está aos poucos se dando conta de sua absurda ineficiência distributiva. o assentamento anual de algumas dezenas de milhares de ‘sem-terra’ valerá pouco se nada for feito para liberar o potencial econômico de pelo menos 2 milhões de agricultores familiares ‘com-terra’. Até o Banco Mundial reconhece hoje essa vantagem especial. nos 20 anos de ditadura. Número equivalente de famílias foi assentado só por governos estaduais nos primeiros 10 anos de redemocratização. inclusive entre os que falam e escrevem a favor da redução das desigualdades. enquanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) atendeu pouco mais. e bem mais que isso se também tiver acesso a bens públicos essenciais (como educação e assistência técnica) e a linhas adequadas de crédito. pensar que uma verdadeira reforma agrária já não teria importância econômica contraria a principal lição das reformas desse tipo bem-sucedidas: nenhuma outra política governamental é tão redistributiva. apenas 115 mil famílias (média de 5. O pior é que essa suposição é muito comum. Apesar da força do mito da superioridade da agricultura patronal. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Ainda assim. Dizer que “a reforma agrária será anacrônica do ponto de vista econômico-desenvolvimentista” só faz sentido para quem supõe que o Brasil pode se desenvolver sem uma drástica desconcentração da riqueza. a saída encontrada pelos ‘excedentes populacionais’ que teimavam em continuar no campo era migrar em direção à floresta amazônica para tentar formar uma posse.5 mil famílias por ano). No entanto. entre 1985 e 1994 quadruplicou a possibilidade de uma família 83 . Ou seja.

aumentou 0. nas três últimas décadas. antes de tudo. A população rural com 10 anos ou mais. Mas o verdadeiro impacto dessa aceleração só pode ser estimado pela comparação dos dados de assentamento com os dados disponíveis sobre a estrutura agrária.1% ao ano entre 1992 e 1995. passaram a diminuir 0. algo próximo a 300 mil famílias por ano. A estimativa do demógrafo George Martine. atual 280.000 70. que diminuía 0. Ao mesmo tempo. pois enquanto diminui o êxodo rural cresce a desocupação agrícola. Mas há fortes indicações de que o processo começa a se esgotar nos anos 90. - 1993-1994 Governo Itamar 12.000 1990-1992 Governo Collor . que cresciam 1.9% ao ano entre 1992 e 1995. pela comparação do número de famílias que está conseguindo terra com o número de famílias expulsas da atividade agrícola.1% ao ano nos anos 80.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO sem-terra ser assentada. 84 .6% ao ano na década de 1980 e passou a diminuir apenas 0. O economista José Francisco Graziano da Silva destacou a mudança na taxa de redução da população rural. que diminuía 0.000 18. É crescente a população rural não-agrícola. os ocupados em atividades agrícolas.4 milhões de pessoas deixaram a área rural entre 1960 e 1980.600 6.4% ao ano entre 1992 e 1995. de que cerca de 28. Agricultores sem-terra assentados pelo governo brasileiro Período Nº de Famílias Média Anual 1964-1984 Ditadura 115. Figura 1. E.500 1985-1989 Governo Sarney 90. desempenho que dará mais um grande salto se as metas do atual governo forem cumpridas (figura 1).300 1995-1998 Metas gov.000 5.000 A combatividade do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e sobretudo a simpatia que conquistou nas camadas médias urbanas tornaram quase certo que nos anos 90 o assentamento de famílias rurais sem-terra será fortemente acelerado.1% ao ano nos anos 80. sugere que o êxodo envolveu.

essa opção foi até anterior. 12 mil agricultores por conta própria e 24 mil não-remunerados. Mas nos demais países desenvolvidos as elites dirigentes não demoraram tanto para perceber as desvantagens econômicas e sociais da agricultura baseada no trabalho assalariado. a preços altos e pagas à vista. O saldo positivo de 20 a 30 mil lotes. foi passageira. essa situação só se consolidou com as radicais reformas agrárias do pós-guerra. as estatísticas indicam que deixaram essas atividades 280 mil empregados. sem grande margem de erro. um perfil da estrutura agrária brasileira. como ocorreu na indústria britânica desde o final do século 18. Se o atual governo conseguir assentar 70 mil famílias por ano. na segunda metade do século 19. Imensos domínios 85 . totalizando 316 mil ocupados – ou seja. Nos Estados Unidos. Mas o que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil famílias por ano em um universo de mais de 6 milhões de famílias? O que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil lotes familiares de alguns poucos hectares (ha) em uma estrutura agrária na qual os 530 mil empregadores concentram mais de 75% das terras agrícolas? Apesar da pobreza das estatísticas disponíveis. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Entre 1992 e 1995. de que a agricultura adotaria o modelo ‘fabril’ de organização produtiva. ficaram sem ocupações agrícolas assalariadas ou por conta própria cerca de 120 mil a 150 mil famílias.5 milhões de famílias que trabalham por conta própria. A ilusão. No Japão. Na primeira metade do século 19 prevaleceu a opinião conservadora: as terras públicas eram vendidas em grandes glebas. Desde o início do século 20 as políticas adotadas em tais países favoreceram a progressiva afirmação da agricultura familiar.5 ocupados em cada família). retiraria de 150 mil a 200 mil ha por ano dos 300 milhões de ha detidos por 500 mil fazendeiros e os acrescentaria aos 95 milhões de ha em posse das 3. A agricultura familiar No século 20. pode-se montar. estará mais que compensando a desocupação estimada. entre 126 mil e 158 mil famílias (supondo. É uma gota no oceano. 2 a 2. com área média em torno de 7 ha. em estimativa otimista. Esse número indica que estariam saindo da agricultura 40 a 50 mil famílias por ano. Nesse período. a agricultura familiar é predominante em todo o Primeiro Mundo.

Mas aos poucos a atribuição de terras foi liberalizada. assim como o oeste do Kansas. Os restantes 19% (US$ 30. quando a rebelião dos estados sulistas deu maioria parlamentar ao jovem Partido Republicano. O último censo agropecuário. Mas nada seguraria a multidão de sem-terra europeus que cruzou o Atlântico. onde ficaram com os piores solos. Durante a Guerra Civil (1861-1865). em algumas áreas do oeste do Texas e até na Califórnia. O caráter essencialmente familiar da agricultura norte-americana não parou de se afirmar. Ao contrário do que muitos pensam. que visava distribuir lotes de 160 acres a famílias de colonos. os assentamentos pioneiros já cobriam grande parte do oeste de Nebraska e do leste do Colorado. Na luta contra a grilagem dos barões de gado. chegando a 21% (US$ 34. Com a exceção do fluxo colonizador que ocupou o extremo Sul até o sudoeste do Paraná. pipocaram conflitos entre cowboys e sodbusters. O Brasil é um dos exemplos mais chocantes da opção inversa: de desprezo e intolerância em relação à agricultura familiar. em processo doloroso e cheio de idas e vindas. o padrão agrário adotado no país teve características semelhantes às do Leste europeu.8 bilhões). Assim. os senhores do Leste preferiram impedir o acesso de suas populações rurais à propriedade da terra. Na última década do século. surgiu a famosa Homestead Law. as ‘corporações’ são exceção. que se livrou de seus domínios na Primeira Guerra. Já a tradicional agricultura familiar foi responsável por 54% da produção comercializada (US$ 87. Ao contrário da aristocracia britânica. pois os melhores já haviam sido apropriados nos anos 1850. mundialmente popularizados pelos westerns. As vendas das sociedades de tipo familiar aumentaram.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO foram comprados em leilões por muitos especuladores.5 bilhões) vieram de formas societárias não classificadas como familiares ou patronais. mesmo a tremenda evolução organizacional da agricultura daquele país ocorrida neste século não alterou de modo significativo seu caráter essencialmente familiar. 86 .4 bilhões). Eles fixaram-se no noroeste. De 1870 a 1880 houve verdadeiro boom colonizador na linha Minnesota-Dakota–Nebraska-Kansas. revela que a participação destas nas vendas do setor é declinante – apenas 6% (US$ 9.9 bilhões). de 1992.

postos à venda por fazendeiros falidos. Mas o imenso excedente populacional formado desde então passou a exercer forte pressão para ter acesso à terra. Houve amplo pacto para impedir o acesso à terra dos negros e dos imigrantes europeus e japoneses. No início dos anos 60. A migração como opção Durante os 20 anos de ditadura militar. o último retrato da agricultura brasileira. as atividades do setor não formavam um sistema. É preciso enfatizar que esses quase 3 milhões de estabelecimentos familiares não tinham nada a ver com a idéia muito difundida de agricultura ‘de subsistência’. E a escolha da cana- de-açúcar como única cultura do Proálcool também ajudou os grandes fazendeiros a avançarem sobre as terras da jovem agricultura familiar do Sudeste. no final do ciclo britânico (século XIX). principalmente para regiões de fronteira. em meados dos anos 80. No entanto. por meio de incentivos fiscais. no início da redemocratização. a política oficial de ocupação favoreceu o surgimento de grandes fazendas de gado. naquele ano. uma parte dos colonos pôde comprar lotes. reduzindo o alcance social da corrida ao Oeste. era flagrante o contraste entre a estrutura agropecuária brasileira e a experiência dos países que se desenvolveram durante o século 20. a opção da população rural excedente foi a migração. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL A rigor. Antes. junto com os movimentos de sem-terra sulistas. Só após a crise de 1929 e a longa depressão dela decorrente. onde tentavam se fixar como posseiros. tirado em 1985. Assim. O modo como as elites dirigentes aboliram a escravidão e importaram colonos para as lavouras de café teve o mesmo sentido histórico da ‘segunda servidão’ do Leste europeu. Os níveis médios de renda bruta das camadas mais representativas da agricultura familiar (em valores para todo 87 . Isso fica bem claro quando se estima a renda monetária bruta dos estabelecimentos não-patronais (através da simples diferença entre receitas e despesas agropecuárias). eram familiares. Pode-se dizer que mais da metade dos estabelecimentos agrícolas do país. quase levaram o governo de João Goulart a optar pela agricultura familiar. Apesar de tudo. o sistema agrícola brasileiro começou com o complexo cafeeiro. revelou que a produção familiar resistiu à opção contrária das elites. as ligas camponesas nordestinas.

em especial nos segmentos mais consolidados. Nos Estados Unidos. Mais da metade (52%) do algodão. O aumento das exportações ajudará a manter postos de trabalho. Por isso. publicados na revista Exame (11/9/96). mesmo assim. Para o estado de São Paulo há dados bem mais recentes. a agricultura familiar ainda revelava a incipiência natural da dinâmica da fronteira. que criou o Programa 88 . Segundo cálculos do economista Fernando Homem de Mello. Ou seja. de 28 de junho de 1996. em 1991. o fim do imposto também elevou alguns preços pagos ao produtor.5 bilhões ao ano até o final da década.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO o Brasil) estavam longe do que se poderia considerar uma agricultura ‘não- comercial’. já que as indústrias precisam evitar que suas matérias-primas sejam vendidas no mercado externo. a extinção do ICMS sobre exportações pode ter um impacto imediato e muito efetivo na agricultura familiar. quase metade (43%) da soja e 38% do café foram produzidos por imóveis ‘não-patronais’. Pode-se supor que essa relação seja ainda mais favorável no Brasil de hoje. Já no Norte e no Centro-Oeste. embora esse tipo de imóvel ocupasse apenas 34% da área agropecuária paulista e respondesse por apenas 33% do valor total da produção estadual. O sociólogo Ricardo Abramovay mostrou que. apesar dos bons níveis de renda bruta.946. cada aumento de US$ 1 bilhão das exportações agrícolas gerava uns 30 mil novos empregos – quase a metade no próprio setor agrícola (dados de 1984). o caráter ‘comercial’ da agricultura familiar era mais evidente nas regiões Sul e Sudeste. Sinais de uma nova agenda Uma política agrícola específica para a agricultura familiar começou a emergir com o Decreto 1. foi bem alta a participação dos imóveis rurais ‘não-patronais’ no valor da produção de atividades sem dúvida comerciais. a agricultura brasileira verá sua renda aumentar em até R$ 2. Além disso. É fundamental examinar também os enormes contrastes regionais. bem abaixo dos registrados nas outras regiões. No Nordeste. situação antes impensável. apenas um quarto dos estabelecimentos não-patronais tinha níveis razoáveis de renda bruta e. Basta dizer que até exportações de milho passam a ser competitivas.

trata-se de uma estratégia de parceria entre eles. destinados também à melhoria da qualidade de vida. É preciso reforçar o caráter ‘versátil’ da atividade agrícola. É muito comum que terras ofertadas por agricultores que mudam para outra região ou deixam a atividade (caso típico 89 . Não é mais uma simples diferenciação do crédito para ‘pequenos agricultores’. No entanto. desenvolver a agricultura familiar exigirá que o Pronaf seja aprofundado e ampliado em três domínios prioritários: educacional. (b) a quase inexistente formação profissional e (c) as redes de extensão e/ou assistência técnica e suas relações com o sistema de pesquisa agropecuária. dos quais R$ 200 milhões para custeio e R$ 800 milhões para investimentos. que mal começou a ser implantado. governos (municipais. no âmbito das políticas agrícolas e agrária. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). No domínio educacional. Em 1996. está sendo substituído por outro. Mas o novo padrão não poderá. O padrão da ‘revolução verde’. Mas ele certamente pode abrir novas oportunidades de expansão e/ou reconversão produtiva para o maior número possível de imóveis familiares com chances de consolidação. o programa recebeu R$ 1 bilhão. que orientou a chamada ‘modernização conservadora’. e o ambiente educacional hoje disponível para os agricultores não é capaz de acompanhar essa mudança. à adequação e implantação de infra-estrutura e outros objetivos. Tal ambiente inclui (a) o ensino regular básico oferecido em escolas rurais. e simultaneamente permitir diversas formas de planejamento e gestão sócio- ambiental do espaço agrário. é importante favorecer a aquisição de terras por jovens agricultores familiares com boas perspectivas profissionais. como o antigo. é necessário mudar o padrão tecnológico. ser resumido a um mero ‘pacote’ acompanhado de receitas simples sobre o uso de insumos básicos. estaduais e federal) e iniciativa privada na aplicação dos recursos. É muito cedo para avaliar o Pronaf. Além de nova concepção para o financiamento da produção de agricultores familiares e suas organizações. tendo como principal insumo o conhecimento. à adoção de tecnologia. ao aprimoramento profissional. como reação à forte pressão pela preservação ambiental. No domínio fundiário. fundiário e creditício.

As decisões operacionais devem ser tomadas em nível intermunicipal. os governos federal e estaduais devem ter papel estritamente normativo. o que expressa o grande nível de concentração da atividade no território nacional. Sabe- se. com participação ativa das organizações civis locais. uma forma decisiva de apoio seria a criação de uma linha especial de crédito de investimento dirigida ao jovem agricultor familiar. principalmente aos jovens. Para que esse tipo de ordenamento agrário seja eficaz. através de organizações locais (governamentais e não-governamentais). agosto de 1998. também. que a produção de café foi a grande responsável pelo povoamento e estruturação territorial dessa unidade da Federação.” 90 . No domínio creditício. Mas para isso é imprescindível que tais iniciativas tenham legitimidade e sejam realmente capazes de intervir no mercado de terras rurais. expansão. Exemplos de Questões Concurso de 1997 9 “Há décadas. imobiliárias. [VEIGA. profissionais liberais e outros) ou grandes fazendeiros. 26-31. a evolução agrária de uma microrregião deve ser controlada pela sociedade. o Estado de São Paulo responde por cerca de 45% do valor da transformação industrial gerado no Brasil. sem qualquer oportunidade de compra pelos que mais precisam delas: os agricultores vizinhos. SBPC. reorientação ou reconversão do sistema de produção – de estabelecimentos familiares dirigidos por jovens agricultores de reconhecida capacidade profissional. p. José Eli da. A sociedade ganharia mais se fosse aumentada a chance de transferir essas terras a agricultores familiares.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO dos que se aposentam sem sucessores) sejam adquiridas por agentes não- agrícolas (comerciantes. Ou seja. “Terra dividida – os equívocos da política agrária”. Relacione os dois fatos.] 6. Isso significa financiar de forma direta o ‘desenvolvimento global integrado’ – ou seja. In: Ciência Hoje.

Geografia e Meio Ambiente no Brasil. das plantações desse produto e os sistemas de produção predominantes em cada área produtora. Uma Nova Potência Regional na Economia Mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.” 9 “A existência de frentes pioneiras tem sido uma constante no decorrer da história brasileira. 91 . Berta et alli. e comente a principal característica observável no padrão de ocupação dessa região. 1993. Bibliografia Bibliografia Básica BECKER. Berta e EGLER.” 7. Iná E. GOMES COSTA. Roberto L.” Concurso de 1999 9 “Diferencie ‘Amazônia’. Rio de Janeiro: Bertrand. porém. de. finitos. quais são as suas inovações em relação ao anteriormente vigente e quais suas repercussões sobre a localização das indústrias no Brasil. Explique o que caracteriza tal padrão. e indique seus portos de escoamento para o exterior. (orgs. da e CORREA. Comente essa relação. Cláudio. Os fundos territoriais sob soberania do país são. Brasil.). CASTRO. 1995. A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL 9 “O padrão contemporâneo de produção industrial é denominado por vários autores de ‘pós-fordismo’. Analise a trajetória de difusão. 1996. São Paulo: Hucitec. ‘Região Norte’ e ‘Amazônia Legal’.” Concurso de 1998 9 “A soja aparece como um dos principais produtos agrícolas na pauta de exportações brasileiras nas últimas décadas. BECKER. Paulo C. pelo território brasileiro. tentando fornecer prognósticos e delinear cenários sobre a matéria nas próximas décadas. Questões atuais da reorganização do território.

CASTRO. Redescobrindo o Brasil: 500 anos depois. Milton. de.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO LAVINAS. Região e Organização Espacial. A Urbanização Brasileira. A Questão do Território no Brasil. São Paulo: Contexto. MAGNOLI. 1994. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. A Agricultura Camponesa no Brasil. São Paulo: Hucitec/ANPUR. Rui de Britto Álvares e SILVA. Manuel Correa de. Desigualdades regionais e desenvolvimento. São Paulo: FUNDAP/ UNESP. Bibliografia Complementar AFFONSO. 1995. Pedro Luiz Barros (org. 1997. 1999. 1992. Iná Elias de et alii (org). CORREA. São Paulo: Hucitec. SANTOS. 1993. Demétrio. 1995. Roberto L. Reestruturação do Espaço Urbano e Regional no Brasil. São Paulo: Moderna/Edusp. 1987. 92 .). Lena et alli. São Paulo: Ipesp/Hucitec. ANDRADE. OLIVEIRA. Ariovaldo U. O Corpo da Pátria. São Paulo: Ática.

O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL UNIDADE III O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 93 .

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 94 .

A configuração de blocos econômicos transnacionais é um também um aspectos da globalização da economia mundial: a ampliação dos mercados consolidada por meio daqueles opera no sentido de ampliar a competitividade das empresas que concorrem no mercado mundial. No âmbito geopolítico. Os investimentos no exterior mundializam as cadeias produtivas sob o comando de grandes corporações transnacionais. Esses eventos possibilitaram a extensão da economia de mercado para novos espaços geográficos. a transnacionalização da economia e a globalização das relações de produção figuram. enquanto um enorme volume de capitais circula entre os principais mercados financeiros. a globalização acelera-se desde meados da década de 80. A consolidação do Mercosul. definido pelo embaixador Celso Lafer como “uma plataforma de inserção competitiva numa economia que. A circulação de informações define padrões mundiais de consumo e difunde as marcas das empresas globalizadas. conectados em escala global. como causa e conseqüência desse conjunto de transformações. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL A realidade mundial contemporânea é marcada por revolucionárias transformações de ordem científica e tecnológica e pela crescente integração das economias nacionais. simultaneamente. com a implosão das economias planificadas da União Soviética e Europa Oriental e com a abertura da China Popular aos investimentos internacionais. O processo de transnacionalização da economia alterou de forma substancial a trajetória histórica da industrialização brasileira e as relações do país com a economia mundial. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL III. No âmbito econômico. ao mesmo tempo. Segundo muitos autores. O crescimento do comércio internacional de mercadorias e serviços. o processo de globalização é resultado da intensificação dos fluxos de mercadorias. estimulado por políticas liberais de redução das barreiras alfandegárias. capitais e informações entre os mercados nacionais. dissemina por todo o planeta as tecnologias e os produtos da nova revolução industrial. se globaliza e se regionaliza em 95 .

desencadearam a reconstrução européia. tais como o Brasil. As corporações transnacionais norte-americanas lideraram os investimentos industriais no resto do mundo e impulsionaram a formação de grandes parques industriais na periferia capitalista. Os Estados Unidos exerceram uma hegemonia econômica quase absoluta durante o ciclo longo de crescimento. até o início da década de 70. foram selecionados trabalhos que conceituam e problematizam os novos paradigmas de produção e consumo em escala mundial. Os empréstimos de capital norte-americanos. 1. esse ciclo de crescimento pode ser tributado à reconstrução das estruturas produtivas da Europa Ocidental e do Japão e à abertura de filiais de empresas transnacionais em países até então de baixa industrialização. o México e a Argentina.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO blocos”. As décadas de prosperidade se apoiaram na reconstrução e ampliação estruturas produtivas baseadas em tecnologias tradicionais. Em grande parte. em especial na América Latina. A utilização intensiva de energia e matérias-primas assim como a absorção crescente de força de trabalho semi-qualificada em linhas de produção sustentaram uma oferta ampliada de mercadorias destinadas a mercados consumidores em expansão. e que abordam relações entre eles e a realidade brasileira. Para compor a presente Unidade. principalmente eletromecânicas. mantinha paridade fixa com o ouro. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Geopolíticas em Escala Global A economia mundial de mercado conheceu um ciclo longo de forte crescimento nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. gera novas dinâmicas de comércio e investimento no Cone Sul. 96 . canalizados através do Plano Marshall (1948-52). O dólar funcionava como moeda mundial e. em um contexto marcado pelas políticas de cunho liberalizante e pela inserção do Brasil nas cadeias produtivas globalizadas. O mercado consumidor norte- americano absorveu grande parte das exportações que sustentaram o reerguimento japonês.

com a adoção de uma moeda única. a seu turno. A informática. a biotecnologia. A contínua incorporação de tecnologias de ponta no processo produtivo implica investimentos de alto custo em produtos que rapidamente se tornam obsoletos. configurando. foi assinado o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). mas sinalizou mudanças estruturais no paradigma tecnológico dos países desenvolvidos. o presidente norte-americano George Bush lançou a Iniciativa para as Américas. as inovações tecnológicas se difundem com rapidez inusitada. uma proposta de unificação dos mercados do continente. utilizando mão-de-obra altamente especializada. a robótica e a química fina desenvolvem mercadorias revolucionárias. através de computadores pessoais e redes de informação conectadas por satélites e cabos de fibra óptica. Os investimentos industriais japoneses. simultaneamente. Em junho de 1990. as telecomunicações. A elevação brutal dos preços do barril de petróleo resultante dos dois “choques” protagonizados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) gerou recessão e desemprego. De acordo com o geógrafo Milton Santos: Durante milênios. unindo Canadá. novas matérias-primas e novos materiais sintetizados em laboratórios. Em agosto de 1992. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Esse ciclo de prosperidade só seria interrompido na década de 70. Ao mesmo tempo. o que exige uma ampliação da escala dos mercados. México e Estados Unidos em um poderoso mercado comum. Após longos decênios de preparação. ajudam a soldar a integração econômica dessa região do mundo. a União Européia se transformou em uma união econômica e monetária. O período técnico-científico é também a era da informação e da simultaneidade dos eventos. 97 . Nesse contexto. como uma soma de aconteceres dispersos. a integração do mercado mundial ameaça diluir os limites representados pelas barreiras nacionais. que disseminam as cadeias produtivas pelas economias do Sudeste Asiático. Os fundamentos técnicos da era industrial emergente repousam sobre a automatização e a robotização e sobre a utilização menos intensiva de matérias-primas e energia. a história do homem faz-se a partir de momentos divergentes. um processo de globalização e de regionalização.

cada momento compreende. saltando de 5% para 10% da população ativa. tais como Nova Iorque. a siderurgia e o têxtil – e da rígida regulamentação do mercado de trabalho que caracteriza a maior parte de suas economias. Londres ou Frankfurt. a explosão do desemprego na Europa é. corporações bancárias e industriais. p. A Natureza do Espaço. Revolução técnico-científica e mercado de trabalho A revolução técnico-científica gerou impactos profundos na oferta de empregos nos países desenvolvidos. São Paulo: Hucitec. companhias de comércio exterior. As “cidades globais”. resultante da redução da oferta de empregos nos setores industriais tradicionais – tais como a construção naval. funcionam como centros de tomada de decisões capazes de afetar a organização de territórios em escala continental ou mundial. graças a esse domínio do tempo e do espaço em escala planetária. Para muitos analistas. O quadro mais dramático é. empresas de serviços legais e financeiros. torna possível uma tomada de conhecimento imediata de acontecimentos simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos uma relação unitária à escala do mundo. Milton. agências públicas internacionais. em todos os lugares. onde as taxas de desemprego duplicaram entre 1976 e 1985. eventos que são independentes. O caso do setor têxtil é bastante significativo. Hoje. 1996. A instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares. em parte. incluídos em um mesmo sistema global de relações. sem dúvida. [In: SANTOS. o da União Européia. As elevadas taxas de desemprego entre os jovens (15 a 24 anos) – em torno de 25% na França. 162.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO disparatados. o acontecer de cada lugar podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro. desconexos. Já a história do homem de nossa geração é aquela em que os momentos convergiram. Trata-se 98 . e permanecem estagnadas nesse patamar. 30% na Itália e 40% na Espanha – revelam a existência de um quadro estrutural de descompasso entre o crescimento das economias e a geração de novos postos de trabalho.] O espaço global da “era da informação” é polarizado pelas cidades onde se concentram as sedes das instituições que controlam as redes mundiais: bolsas de valores.

enquanto na Alemanha o número de trabalhadores do setor caiu de 400 mil para 150 mil. as taxas de desemprego recuaram de 7. que não só aumenta para seu povo a carga acumulada de sofrimentos herdada de episódios anteriores. na produção e na capacidade exportadora do setor. Essa circunstância explica a tendência mais ou menos recente de deslocamento das indústrias têxteis e de confecções para locais onde os salários são mais baixos. Nada ilustra melhor como o aumento da interdependência tornou tudo o que é nacional e local relevante para o mundo e. Nos Estados Unidos. em grau muito maior. a Índia. e o peso dos salários no custo final das mercadorias é expressivo.7% em 1998. 99 . analisando a inserção do Brasil na economia mundial em uma perspectiva histórica e apontando as alternativas do país frente às transformações em curso na economia e na política mundial. o Brasil vive crise inédita. mas pela primeira vez é percebida de fora como ameaça à estabilidade da economia-mundo. Texto 1 – As Sereias da Globalização Ao se aproximar dos 500 anos. tendo saltado de 2. as taxas de desemprego apresentaram tendência de crescimento durante toda a década de 1990. pois emprega grandes quantidades de mão-de-obra. por exemplo. apesar da introdução de tecnologias poupadoras de mão-de-obra tanto no setor secundário quanto no setor terciário.6% da PEA entre 1990 e 1998. No Japão.1% para 3.6% em 1976 para 4. o Paquistão e Taiwan conheceram um grande incremento no número de pessoas ocupadas. Entre 1970 e 1990. onde o mercado de trabalho é muito mais flexível e comporta diversas formas de trabalho temporário. o embaixador Rubens Ricúpero problematiza o próprio conceito de globalização. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL de um setor industrial de trabalho intensivo. apesar das tradição de empregos vitalícios. tudo o que é global relevante para as comunidades nacionais e locais. Texto Complementar No artigo reproduzido abaixo. a China.

tendo tentado transferir a bomba-relógio dos nossos problemas para o mundo. o país é forçado a uma contração violenta para se ajustar às novas condições mundiais. velho conhecido nosso que. nesse sentido.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Aliás. o que haveria de novo na sombra que se projeta sobre as comemorações do V Centenário do Descobrimento? 100 . este agora nô-la tivesse devolvido no instante em que a contagem se acerca do ponto crítico e a bomba ameaça explodir em nossas mãos. mas ao custo de crescentes déficits comerciais e em contas correntes. A diferença é que então tudo se passava em Londres. Não deixa. É como se. falências em cadeia de empresas de todo o tipo. O barateamento das importações ajudou a segurar os preços internos. de ser curiosa e melancólica a coincidência de que em 1898. cobertos por outra contribuição internacional. No momento em que a crise iniciada na Ásia aumenta o temor do risco dos mercados emergentes e põe fim à conjuntura de liquidez abundante. violenta deflação interna. A fim de resolver problemas basicamente nacionais – a deriva para a hiperinflação – valorizou-se a moeda como instrumento para pôr a economia internacional a serviço da conquista de objetivo doméstico. a própria essência íntima desta crise consiste precisamente na inter-relação país-mundo. não é preciso latir no lugar dele”). e hoje os negociadores brasileiros partem para Washington a fim de tratar com o FMI. aquele fim-de-século terminava como este: a assinatura por Campos Sales do funding-loam. portanto. os investimentos e financiamentos estrangeiros. a situação atual não passa de manifestação a mais do “estrangulamento do setor externo”. com o Banco Rothschild à frente e o Tesouro britânico discretamente atrás das cortinas. tendo na retaguarda o Tesouro norte-americano em postura mais ostensiva e declarada (contrariando o provérbio inglês segundo o qual “se você trouxe o cachorro. com condições e conseqüências parecidas de aumento de impostos. 100 anos atrás. Se não faltam. precedentes para o garrote que nos sufoca. acompanha-nos desde a Independência. sob formas diversas e a intervalos quase regulares. o acordo com os credores a fim de evitar a bancarrota. Traduzida assim em seus elementos fundamentais.

que obriga a abdicar de veleidades de autonomia nacional em favor da aceitação de modelos e regras de validade universal? Ou existirão caminhos e modalidades distintas de inserção que admitem levar em conta valores e objetivos particulares sem comprometer basicamente a meta de alcançar os benefícios de escala da economia de dimensão planetária? O segundo problema possui caráter sobretudo político e cultural e é geralmente descrito como o perigo da perda de identidade cultural diante da imposição maciça. A outra diferença é que as condicionalidades a serem impostas no pacote de resgate irão certamente estreitar ainda mais a margem de manobra brasileira. em termos algo esquemáticos. o Tesouro dos EUA ou o G-7. de padrões e mentalidades características da cultura 101 . por meio das telecomunicações e da indústria audiovisual. o tamanho da economia brasileira e a simultaneidade de sua crise com a reação em cadeia que ameaça até os mercados financeiros mais avançados. reais ou supostos. É o medo do contágio geral que explica a sensibilidade maior revelada neste episódio pelo Fundo Monetário. Muito mais do que por ocasião do problema da dívida externa latino-americana a partir de 1982. é o da inserção ou marginalização em relação à economia global. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL O que mudou foi. o naufrágio do Brasil pode agora afogar muito passageiro de Primeira Classe. Há um caminho único para essa inserção. de natureza mais econômica e social. podem ser definidos da seguinte forma. já reduzida de modo substancial pelas limitações oriundas dos acordos da Rodada Uruguai e outras iniciativas de igual inspiração a pretexto dos imperativos da globalização. facilita ou dificulta a integração do próprio país? É ainda possível cogitar de projeto nacional em contexto de crescente e intrusiva interdependência? Existirá lugar hoje para afirmar a identidade nacional diante da tendência à uniformização de padrões? Globalização e autonomia nacional A questão se desdobra em dois problemas que. É esse o aspecto que nos interessa explorar aqui: até que ponto a integração do Brasil na economia globalizada condiciona. O primeiro. em primeiro lugar.

É prescritiva. que decorre na verdade mais das escolhas dos homens ou dos interesses dos poderosos. queiramos ou não. Pelo reducionismo: reduzindo-a a um só ou a alguns poucos dos seus diversos elementos constitutivos. comercial ou financeira. Pelo conformismo: pretendendo que a uniformidade cultural e a falta de alternativas nos forçam a aceitar. como a “tirania dos fatos”. como em todo fenômeno histórico. quase sempre de natureza econômica. irresistível. com gostos e preferências indiferenciados que se estenderão do fast food à música. os elementos de continuidade e os de ruptura com o passado. abstendo-se de juízos de valor. dança e literatura? Ou podemos esperar que o aumento da comunicação entre povos e culturas produza o enriquecimento da inter-fertilização de estilos. normativa. a diversidade dentro de uma unidade alargada e fecundada por aportes diferentes? É impossível avançar muito nessa investigação se não se começar por esclarecer o que temos em mente quando falamos em globalização. Esse tipo de interpretação desfigura a globalização de quatro maneiras principais. Pelo determinismo: considerando como mecânico. tenta-se apreender e descrever de modo tão objetivo quanto possível. esquecendo ou minimizando componentes políticos. culturais. A segunda abordagem pretende deduzir comportamentos e normas a partir do que julga captar da realidade.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO hegemônica. sociais. Na primeira acepção. pode-se dizer que existem duas maneiras básicas de encarar a globalização: como fenômeno histórico ou como ideologia. a recomendada pelo pensamento “único”. na prática concreta. Sem intenção de ser exaustivo ou particularmente rigoroso. tombando com freqüência na doutrinação. Torna-se então prescrição ou conselho sobre a melhor ou a única política a seguir a fim de ter êxito. Pelo anti ou 102 . isto é. a recomendação de que todos os países adotem políticas de liberalização rápidas e radicais como meio mais seguro de integração à economia internacional. uma só e invariável solução. a ocidental. avaliando. Estaremos condenados à uniformidade da cultura popular de massa. automático. significando coisas diversas para interlocutores diferentes. expressão das mais ambíguas e enganadoras. na imposição de caminhos. por extensão. o que se passa no domínio da realidade. dos fatos sob exame. a norte-americana e. a imposição obrigatória de novas relações de produção geradas pela tecnologia.

). Diversamente das modificações anteriores. abarcando muito mais que os componentes econômicos. ela tem sido produto de revolução no domínio cultural. a globalização é sobretudo processo de natureza cultural e histórica. como as demais impulsionada por transformações culturais e científicas. Vivemos hoje a terceira fase desse processo.. Mas. que se exprime em geral pela superação de novas fronteiras científicas e tecnológicas. se ainda uma vez a revolução científica e tecnológica está na raiz desta nova etapa.. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL a-historicismo: afirmando que se trata de fenômeno inteiramente novo. duas mudanças que fazem os homens e as culturas mais próximos e conscientes reciprocamente. Ao contrário dessas simplificações.). limitadas à energia e à matéria. particularmente as conquistas em matéria de eletrônica. de novo introduzida por revolução cultural no campo da ciência e da tecnologia (. de telecomunicações. de computadores. Da perspectiva que nos interessa. A afirmação e dominação ocidental.. seu efeito integrador foi acelerado por uma ruptura política decisiva. A queda do muro de Berlim. a unificação da Alemanha. acompanhada de adicional salto de intensidade.). 103 . a liquidação dos regimes comunistas na Europa Central e Oriental. a aceleração do tempo e o encolhimento do espaço. diferente em relação ao passado. a globalização se confunde em boa medida com a expansão do Ocidente e tem seu ponto de partida nas grandes viagens marítimas de descoberta dos séculos XV e XVI (. Em todas as suas etapas. são acontecimentos que põem fim à heterogeneidade ideológica introduzida pela Revolução Bolchevista de 1917 e criam clima favorável à crescente convergência em termos de legitimidade política e de formas de organização social e econômica. a desintegração da União Soviética... sem precedentes históricos. essencialmente “outro”. vai conhecer segunda fase no século XVIII. tornando possíveis formas inéditas de dominação política ou produção econômica (.. a atual é uma transformação do tempo e do espaço.

a exacerbação do espírito de especulação. arte). Nicholas Negroponte usa a expressão “bits versus atoms” para explicar que as transações internacionais consistem cada vez menos em matérias (átomos) atravessando fronteiras nacionais e cada vez mais de “bits” (de informação) que fluem de um computador a outro. Os mercados comerciais se unificam com a queda das barreiras. No livro “Being Digital”.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As inovações tecnológicas aceleram a velocidade e o barateamento dos transportes e das comunicações. O espaço econômico se unifica em escala planetária para o comércio. Essa nova economia é: 1º) de alta velocidade. projeto de arquitetura. Pode-se talvez objetar que esse conceito de globalização é abrangente demais e o dilui a ponto de confundi-lo com a evolução do capitalismo ou 104 . auditoria contábil. 4º) extremamente competitiva. acarretando crises financeiras e monetárias cada vez mais freqüentes e destrutivas.000 anos de solidão”. parecer jurídico ou de consultoria. música. É o predomínio do capitalismo financeiro e sua desvinculação parcial do mundo real da indústria e do comércio. Isso tudo possibilitou o aumento fantástico da circulação de recursos financeiros e a velocidade das operações com moedas estrangeiras. Birmânia. questões trabalhistas de um canto ao outro da Terra. de operações monetárias. 3º) predominantemente transnacional. campanha de publicidade. de engenharia. Como resultado do impacto dessas transformações. o desenho e a fabricação dos produtos perdem o caráter integrado dentro de uma economia puramente nacional para se tornarem atividades que podem ser parceladas em segmentos a serem executados geograficamente em países diferentes e depois montados segundo a lógica dos custos. de cálculo. 2º) de alta intensidade em conhecimento e já não mais em capital. A concepção. os últimos bastiões do isolamento tombam um após o outro: Vietnã. lançando as bases para o aparecimento da economia globalizada. Começa-se a utilizar a Internet não só para concluir operações comerciais mas até para entregar um produto quando seu caráter é não- material (programa de software. textos literários. Cambodja. de um a outro celular ou de um satélite a uma estação terrestre. meio ambiente. Mongólia. A Internet cria a possibilidade de organizar campanhas sobre direitos humanos. os fluxos de empréstimos. Parece que chegamos ao fim de “5. mão-de-obra e recursos naturais. os investimentos das empresas transnacionais.

de meio milênio. no auge da neoglobalização. de longa duração. utilizando-se a eqüivalência para exigir aos países que se liberalizem sem condições sob pena de ficarem à margem da globalização. entre 1870 e 1914. na era vitoriana. Hoje. das telecomunicações. Exemplo claro é o da tentativa interesseira de fazer aceitar a idéia de que globalização e liberalização são termos sinônimos e intercambiáveis. livros. mas paradoxalmente registra-se retrocesso nítido em política de imigração e tendência cada vez mais restritiva ao reforço dos monopólios de exploração de patentes e outras formas de restringir o acesso à propriedade intelectual. não só o nível de liberalização igualava ou superava o atual em comércio e investimentos. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL da expansão do Ocidente. Foi nessa época que 50 milhões de europeus imigraram para as Américas e a Oceania. em outras fases da globalização. E isso ocorre justamente quando o acesso ao conhecimento e à informação passou a ser o fator decisivo do desenvolvimento. O raciocínio cai rapidamente por terra quando se assinala que. o inédito de certos eventos contemporâneos (o impacto da eletrônica. A abordagem de largo fôlego facilita desmascarar imposturas ideológicas que se valem do falso argumento da absoluta excepcionalidade do momento atual. que somente essa visão braudeliana concilia e equilibra ruptura e continuidade. está se tornando difícil e até impossível comprar certas tecnologias sensíveis consideradas essenciais para assegurar o domínio do mercado pelas empresas que as controlam. não existe nada que se assemelhe à liberalização a toque-de-caixa promovida no tratamento do capital e do comércio. exacerbou-se a liberalização comercial. do capitalismo e do Ocidente. como era incomparavelmente mais acentuado em matéria de mobilidade de mão-de-obra e de tecnologia. ao contrário. a história gêmea. 105 . músicas. A questão não é de interesse meramente acadêmico. Em relação a esses dois fatores de produção. de investimentos. No caso da tecnologia. sem contar os milhões de coolies asiáticos. a queda do muro de Berlim) e a continuidade do fluxo majestoso das correntes profundas que caracterizam os ciclos seculares. financeira. o trabalho e a tecnologia. Penso. Esse era também o tempo em que se podia imitar ou copiar muito mais facilmente invenções.

próximo ou remoto. ele continuou como aguada e porto de abastecimento de frutos e legumes frescos para os navios do Oriente. A Independência é outro episódio do mesmo movimento de longa duração. o pau-brasil. o Japão. pode-se acrescentar. mas a qualidade do fenômeno. Todos os seus ciclos econômicos. produto da mistura das “três raças tristes”. a velha questão de ser “Cavalcanti ou cavalgado”. Ela não deixa. com seu horror ao monopólio mercantil das metrópoles e a exigência de abertura dos portos. do açúcar ao café (e. como então se dizia. a Alemanha. não teria existido sem as migrações européias e asiáticas bem como o tráfico de africanos. a quantidade. a Arábia. semente da dívida externa que desde então não cessou de aumentar. de ser característica singular como genealogia e não pode ser estendida aos velhos países do Ocidente ou do Oriente. a Pérsia cabem nesse molde. Isto é. e tampouco nele se enquadram a Rússia. pode-se afirmar que o problema do Brasil não é a falta de integração à globalização. elementos integrantes da globalização. a Itália. a França. contudo. é episódio. Nova Zelândia). a Índia. mas o caráter subalterno e dependente de uma integração existente de velha data. nasceram. a Inglaterra. cresceram e definharam à sombra do comércio global. o problema brasileiro não é pouca globalização. a Suíça é um exército. 106 . cuja identidade já se encontrava definida em suas linhas mestras antes que a primeira caravela tocasse o mar com sua quilha.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O Brasil. O Brasil partilha. Nem a China. Da mesma forma. A guerra e o reconhecimento da Independência foram financiados por empréstimos globais da praça de Londres. é verdade. a Espanha ou Portugal. Sua população. por mais de 30 anos após a descoberta. É mesmo dos raros países batizados com o nome de um dos produtos exóticos de que era guloso o mercantilismo. produto da globalização Devido à democracia semi-direta. De fato o que é o Brasil senão o fruto da expansão do capitalismo mercantil do Ocidente? Sua invenção ou achamento. como na Grécia antiga. à soja ou suco de laranja). intencional ou não. diz-se que a Suíça não tem exército. da segunda viagem da carreira das Índias e. essa certidão de nascimento e de maturidade com os demais “países novos” das Américas e alguns outros (Austrália. e à milícia formada por todos os cidadãos. só que agora na fase do capitalismo da Revolução Industrial.

pois um povo verdadeiro deveria ser formado por homens livres. e de Santa Catarina das pequenas e médias propriedades. por meio de propriedade da terra e do trabalho não-remunerado. devido à sua pobreza de produtos cobiçados pelos mercados da época. Rio Grande do Norte. O exemplo revela claramente que não é qualquer tipo de inserção no comércio e na economia globais que contribui para metas desejáveis de progresso social e econômico. na Costa Rica. que hoje se mostram mais aptos a produzir setores empresariais modernos. Sergipe. Pernambuco e Alagoas do açúcar e dos senhores de engenho e das taras políticas e sociais produzidas pelo contraste de dominação e sujeição. Pense-se. em cotejo com Estados que nunca gozaram de grande prosperidade no passado. moldou perduravelmente a realidade do que Joaquim Nabuco chamava de “país sem povo”. É até paradoxal observar como certos países latino-americanos. café. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Em nosso caso. que estiveram um tanto à margem da economia mundial do século XIX. poucas semanas antes de morrer. a inserção na economia mundial foi a condição mesma que tornou possível a preservação. da colonização européia. nação de agricultores de classe média. por outro. esse modelo só podia subsistir graças ao fornecimento de produtos tropicais de exportação (açúcar. cacau) para os mercados externos junto aos quais funcionava como apêndice e complemento perfeitamente integrado na divisão internacional de trabalho. como Ceará. que iria se estender de 1850 a 1930. Ou mesmo no Nordeste. comparada com a opulenta Cuba do açúcar e do tabaco (e dos escravos). do tipo de organização econômica e social geradora de desequilíbrios e desigualdades que. Ou o Chile remediado. Prolongamento da estrutura herdada da colônia e sustentado no latifúndio (o sistema de plantation) e na escravidão (mais tarde no assalariado rural miserável). até hoje. José Guilherme descrevia como o projeto de Brasil de José Bonifácio se vira suplantado pelo que chamava de modelo liberal- oligárquico. de um lado. O panorama não é diferente entre nós. constituem o obstáculo principal à realização do país como unidade coesa e integrada. confrontado ao Peru dos oligarcas. em fins de 1990. Em sua última conferência em Paris. por exemplo. Basta lembrar da província fluminense dos barões de Vassouras. como mostrou José Guilherme Merquior. por período quase secular. com seus milhares de escravos. do Comendador Breves. Seu efeito duplamente concentrador da riqueza e da renda. emergiram dessa experiência com perfil de desenvolvimento modesto mas menos distorcido pelas desigualdades monstruosas dos “sucessos” de então. 107 .

economia de exportação do setor primário. estavam vinculadas às praças estrangeiras de onde tudo importavam. passando por Pernambuco do açúcar e pela Bahia do cacau. dificultados adicionalmente. de um mercado nacional. pelo problema dos ventos da contra-costa do Nordeste. Se era raso o nível de interação econômica entre regiões. do Pará da borracha ao Rio do café. É interessante notar que a industrialização vai receber forte impulso durante os dois conflitos mundiais e a Grande Depressão. era justamente perpetuada (e justificada) pela necessidade de manter alimentada a lavoura de exportação. As provas de que o problema continua atual tampouco faltam. As Províncias e regiões. Outro exemplo é o dualismo ou “polarização geográfica” que caracteriza a integração do México com os 108 . com a gradual ligação das regiões por vias de transportes outras que a antiga navegação de cabotagem. com muito pouco transbordamento e efeito multiplicador para o resto. pela primeira vez.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A verdade é que o tipo de inserção de que o Brasil longamente desfrutou. pouco mais de um século após a unificação do país. mantendo entre si contatos econômicos de pouca densidade. o peso da massa dos salários urbanos cria mercado de consumo para os produtos da indústria paulista e.. ainda menos positiva foi a influência desse modo de inserção na integração da população. protegida por barreiras aduaneiras ou facilitada pela escassez de divisas e dificuldades de abastecimento devido a causas externas.. o obstáculo mais formidável a qualquer esforço de homogeneização. até os ricos oferecem seu quinhão de sacrifício. pois são obrigados a renunciar às importações de luxo e consumir mofinos produtos nacionais. períodos em que se teve de reduzir à força o tipo de inserção tradicional na economia externa. Faz sua aparição o proletariado industrial. Esse panorama só começa a mudar com a industrialização. concentrou o avanço tecnológico e a riqueza apenas nesse segmento estreito da população. na época da navegação à vela. o separatismo da Lega Nord. Na União Européia. como observa Celso Furtado. já que a escravidão. na Itália. É só então que se esboça aos poucos a formação. reflete como a segurança fornecida pelo mercado europeu ampliado reduz a solidariedade com o empobrecido sul da península. sugerindo que um movimento destinado a promover a integração de um conjunto maior pode paradoxalmente pôr em risco a unidade nacional alcançada a duras penas.

pois não mais enfrenta barreiras) (. como o Brasil?” 109 . para as quais o comércio exterior representa 150 por cento ou mais do PIB. China. O que se pode reter desses exemplos é que variam muito. Eu mesmo ouvi muitas vezes em Manaus e Belém expressões de dúvida sobre as possíveis vantagens que a Amazônia poderia retirar do Mercosul.. são apenas cinco. A rigor. para meus interlocutores realidade remota. em comparação com os ganhos mais tangíveis que derivariam do intercâmbio com vizinhos próximos como a Venezuela. em particular para os países subdesenvolvidos de grande área territorial e profundas disparidades regionais de renda. Em texto incluído no livro sugestivamente intitulado “A Construção Interrompida”. muito mais os Estados da fronteira (a média de salários de Nuevo León é 3 vezes maior que a de Chiapas. não têm outra opção. o que ele é. Cidades-Estado como Hong Kong ou Cingapura. contudo. Rússia. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL EUA no âmbito do Nafta. até agora. os Estados que somam a um território continental uma população gigante. os países caribenhos. A característica comum de todas essas economias é que elas haurem sua força basicamente de poderoso mercado interno. isto é. a expectativa de vida no norte é de 20 anos mais que no sul.. pequenos países abertos e tradicionalmente especializados na intermediação comercial como a Holanda e a Bélgica. Ninguém. Celso Furtado já indagava: “. Brasil. aos quais tenciona juntar-se a União Européia à medida que estende sua unificação a domínios essenciais como a política exterior e a de defesa. favorecendo.como desconhecer que o esvaziamento dos sistemas decisórios nacionais será de conseqüências imprevisíveis para a ordenação política de vastas áreas do mundo.. em boa parte excluídos desses benefícios. Índia. o consumo per capita na Baja Califórnia é 5 vezes superior ao de Oaxaca) do que os do sul. as Guianas. segundo os países.. pretenderia que idêntica prioridade fosse válida para os “países-monstros” da classificação de George Kennan (ver “Around the Cragged Hill”). o grau de essencialidade e as implicações da inserção na economia global. EUA. a Colômbia.). as exportações para terceiros raramente representando mais de 12 a 15 por cento do PIB (isso é válido até para União Européia se considerarmos o comércio intra-europeu como doméstico.

É certo que já não se dispõe hoje da amplíssima margem de escolha da época dos extremos ideológicos. controlado. São exemplos que refutam convincentemente o mito da irresistibilidade da globalização e comprovam. como ele mesmo admite: “Um sistema econômico nacional não é outra coisa senão a prevalência de critérios políticos que permitem superar a rigidez da lógica econômica na busca do bem-estar coletivo”. utilizando para isso o poder dos seus imensos mercados internos. mais 110 . gradual. que destingue a China e a Índia. quando se ia do totalitarismo estalinista ou maoísta.. não só não prejudica como é o melhor meio de proteger-se do contágio de crises devastadoras como a que assola a Ásia e o mundo (.a partir do momento em que o motor do crescimento deixa de ser a formação do mercado interno para ser a integração com a economia internacional. numa ponta do espectro. de liberalização. na outra. é claro. a predominância da lógica das empresas transnacionais na ordenação das atividades econômicas conduzirá quase necessariamente a tensões inter-regionais. Mas. Desde. enfraquecendo consideravelmente os vínculos de solidariedade entre elas”. de lambugem. os efeitos de sinergia gerados pela interdependência das distintas regiões do país desaparecem. sobretudo financeira. vê-se que Celso Furtado não foi um mau profeta. só nos resta a escolha de variedade infinita de gradações de cinzento. como é o Brasil. mais capazes que outros países menores de fazer prevalecer sua vontade política sobre a lógica de custos das transnacionais.). a escolha de ritmo prudente. ao mais radical liberalismo do mercado. tudo apontando para a inviabilização do país como projeto nacional”. Quando se lembra o que ocorre na guerra de subsídios aos investimentos entre Estados da Federação e o verdadeiro leilão promovido pelas transnacionais para instigar a concessão desses subsídios. que a autonomia das decisões... à exacerbação de rivalidades corporativas e à formação de bolsões de miséria. E concluía: “Em um país ainda em formação. que exista essa vontade política a serviço de um projeto de nação. inclusive com autonomia de decisões em política exterior e de defesa. É essa mesma vontade a serviço de um projeto nacional completo. verdadeiros micro-universos.. É aqui precisamente que reside a vantagem comparativa dos Estados gigantes. com mais Estado ou mais mercado.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Observava em seguida: “. Em lugar de branco ou negro.

mais ênfase na estabilidade de preços ou na expansão econômica. Hoje sabemos que uma democracia de massas pobres. não basta ter abolido a escravidão. por meio do emprego.. de tecnologia. removeria nossas mazelas. sem acesso à informação ou vítima da informação controlada por impérios privados. da contribuição da economia global. da possibilidade de se instruir e de se curar. secreto. da competição que traz eficiência. do acesso de nossas exportações aos mercados externos a fim de aumentarmos a capacidade de importar. sem educação e saúde. A fim de ser cidadão. universal. pode ser melhor que o passado mas não é satisfatória. essa busca do difícil equilíbrio entre o realismo dos fatos e o idealismo dos valores e aspirações. Mas esse deve ser aporte complementar ao esforço próprio. Para isso temos de completar reformas internas só possíveis com um mínimo de 111 . ser livre e ter o direito de voto. Longe de se contradizerem. A integração ao mercado de produção e consumo dos milhões de brasileiros que subsistem precariamente à margem dele. Foi essa a ilusão do passado. como a China. é processo capaz de liberar altíssima carga de energia e de fornecer o dinamismo para o crescimento da economia por muitas e muitas décadas. de financiamento. Essa administração dos matizes. sem emprego ou com trabalho de baixa produtividade. do salário digno. de participar plenamente da vida da comunidade. O país e a economia têm de crescer de dentro para fora e não de fora para dentro. A verdadeira cidadania só se alcança quando se resolvem os problemas básicos do emprego. graças à remuneração justa. Em outras palavras. Em conclusão. o voto livre. e como consumidores. atores do mercado. Daí o imperativo de elevar a poupança doméstica para não voltar a agravar a excessiva dependência em relação a recursos estrangeiros. de investimentos produtivos. quando se pensava que a reforma eleitoral. quando elas se transformam em agentes. não seu substituto. deixa espaço mais do que suficiente para cada sociedade construir modelo harmonizador da eficácia decorrente dos requisitos de validade universal com as especificidades particulares e as preferências próprias a povos de história e problemas diferentes (. quando as pessoas se inserem na sociedade como produtores. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL ou menos flexibilidade ou segurança de emprego. esses termos são interdependentes.). isto é. É claro que necessitamos. o Brasil pode e deve retomar a construção interrompida da cidadania e do mercado interno.. tal é o atraso a recuperar nos padrões de consumo.

In: Rumos. [RICÚPERO. a curto prazo e sem violência. mar/abr 99.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO consenso social e político. do esforço de criar condições para que se afirme finalmente a identidade brasileira. San Tiago Dantas. com Macunaíma.) imperioso de pensar o povo brasileiro. Em “Situação de Macunaíma”. uma redistribuição de renda social. sejam as únicas onde as pessoas não necessitam de acesso à educação formal para se distinguir. beira a surpresa e a indeterminação: daí ser o herói sem nenhum caráter” (grifado por mim)..” Esta é a única resposta aceitável humanamente à pergunta que abria meu artigo. Na véspera de completar meio milênio de vida. sofrido e criativo do nosso povo. eleve o padrão da vida e crie número crescente de ocupações e atividades. p.Nenhuma reforma poderá ser implantada hoje . com respeito dos direitos. da classe dirigente como das classes produtoras e trabalhadoras.. ao ponto de partida desta nossa viagem de 500 anos de crise e crescimento. retirada do artigo amarelecido de Visão. Por isso só elas apresentam ao mundo o rosto mestiço.. que só pode nascer da plena realização do potencial de nossa gente. terá de produzir..] 112 . os caminhos do Brasil em debate. expressiva apenas de uma concessão sem conciliação. que fira de frente o problema vital da segurança econômica do indivíduo na sociedade. em primeiro lugar. o da antinomia uniformização versus identidade cultural. É o que dizia em 25 de outubro de 1963. de modo que atinja a sociedade no seu todo. que se intitulava profeticamente “San Tiago Aponta Caminhos”: “. e não uma reforma outorgada pela classe dominante. Não é casual que as raras áreas em que o Brasil se projeta internacionalmente. obter de nós mesmos. percorrendo as trilhas cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem. encerro este artigo com outra citação de San Tiago. “As sereias da globalização”.. colonial e moderna. o futebol e a música popular. 75-84. Rubens. Dela decorre também a chave de outro dilema.. um nível mínimo de confiança na viabilidade de um projeto brasileiro”.. nossa gente. ao receber poucos meses antes de sua morte o título de “homem de visão” daquele ano dramático: “Terá de ser uma reforma incorporada às aspirações do povo. de tão plural que é. nº 2. que suba das próprias bases sociais. Alfredo Bosi ensina que uma das principais motivações da obra foi “o desejo (.. à procura de uma identidade que. se não conseguirmos. Voltamos.

A Primeira Guerra Mundial e a depressão internacional da década de 1930 provocaram o surto inicial de substituição de importações. a Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF). o México. voltada desde o início para a exportação. a indústria de processamento de alimentos (óleos vegetais. também contribuiu para essa etapa de decolagem industrial. a força de trabalho imigrante. A moderna Argentina industrial. As eleições de 1946 conduziram Juan Domingos Perón à presidência. um conjunto de países do subcontinente – a Argentina. o Chile e o Brasil – viveu um acelerado processo de industrialização. enquanto os demais permaneciam dependentes de estruturas econômicas primárias. porém. Sobre essas bases. com o desenvolvimento das indústrias de bens de consumo não-alimentícios. Ao longo do século. Na Argentina. desde o início do século XX. carne. desenvolveu-se. a malha ferroviária e o porto de Buenos Aires. através da criação da companhia de exploração do petróleo da região de Comodoro Rivadávia. nasceu após a Segunda Guerra Mundial. O ingresso de capitais norte-americanos. voltadas para o mercado interno. que disputavam posições com os investimentos britânicos. cargo que conservaria até o golpe militar de 1955. couro). O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 2. Esse processo – ligado tanto a fluxos internacionais de investimento quanto a esforços industrializantes internos – remodelou as formas de integração desses países à economia mundial e fez surgir estruturas econômicas complexas. Condição Periférica e Industrialização Tardia: A América Latina As estruturas econômicas herdadas do período colonial e as modalidades de integração ao mercado internacional produziram realidades econômicas bastante diversificadas nos países latino-americanos. A “década 113 . Herança Colonial. as condições iniciais para a industrialização foram estabelecidas pelo complexo rural exportador: os capitais britânicos. Ainda na década de 1930. apoiadas na cidade e na indústria. Esse processo apoiou-se essencialmente nas pequenas e médias empresas de capitais nacionais. o Estado inaugurou a sua participação como empreendedor industrial.

O subsolo mexicano é rico em recursos minerais. A PEMEX estabeleceu o monopólio estatal da exploração das imensas reservas de petróleo da região do Golfo do México e criou as bases para o desenvolvimento da indústria petroquímica. apresentam jazidas de prata. exibe forte predominância dos produtos de origem primária. a modernização industrial baseou-se em investimentos estatais e transnacionais e em uma vasta oferta de recursos minerais. no governo Lazaro Cárdenas. a mineração e a indústria de transformação mineral representam parcela significativa das exportações nacionais. O comércio exterior do país. no complexo rural. No México. O peso da influência européia no país reflete-se ainda hoje na distribuição da produção automobilística: as fábricas italianas e francesas lideram o ramo. A Nacional Financiera. paradoxalmente. mas o lastro da sua economia continua a repousar. do vasto e diferenciado ramo do processamento de alimentos. Na década de 1930. foram criadas as duas grandes empresas estatais voltadas para o projeto de industrialização: Petróleo de México (PEMEX) e a Nacional Financiera. zinco. As áreas das sierras. quando o óleo se tornou o produto principal na exportação nacional.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO de Perón” foi marcada pelo crescimento industrial do país. Dispondo do vasto mercado consumidor norte-americano. com larga vantagem sobre as montadoras norte-americanas. a fim de determinar livremente os seus níveis de produção e não subordinar suas exportações ao sistema de cotas do cartel petrolífero. Os capitais internacionais desenvolveram o setor de bens duráveis. Os capitais nacionais inseriram-se predominantemente no setor alimentício e exportador e no de bens de consumo não-duráveis. o México optou por não ingressar na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). O Estado encampou os serviços públicos e ferroviários surgidos dos antigos investimentos britânicos e desenvolveu a indústria de base. na região central do país. direcionado principalmente para Europa Ocidental e América Latina. 114 . A Argentina transformou-se em um país urbano e industrial. Até hoje. chumbo e cobre. financiou o desenvolvimento da indústria privada nos mais diversos setores. em grande medida. com destaque para as indústrias mecânicas. um banco de investimentos. A estrutura industrial depende. A exploração do petróleo ganhou impulso na década de 1970.

Porém. No pós-guerra. implementou um programa de reformas cujos principais alvos eram o combate à estrutura agrária fundada nos velhos latifúndios e o domínio 115 . eleito em 1964. empresas transnacionais. Iniciava-se um segundo surto de industrialização. a emergência de um importante setor urbano industrial não eliminou a elevada concentração fundiária e de renda. Este quadro turbulento se arrastou até a Segunda Guerra Mundial. cresciam as atividades urbanas e ampliavam-se os investimentos estatais em infra- estrutura. Santiago. O baixo custo da força de trabalho e a presença de uma base industrial erguida pelo Estado também contribuíram para o fluxo de investimentos externos. multiplicaram seus investimentos tanto na mineração como no parque industrial. O estrangulamento dos mercados internacionais lançou o país ao caos econômico. a instalação de filiais de conglomerados estrangeiros – especialmente norte-americanos – renovou a paisagem industrial mexicana. conheceu então uma valorização acentuada. Desde a Segunda Guerra. traduzido por um período de desemprego em massa. fortemente polarizada pela capital. No Chile. se transformou no centro da vida nacional após a independência. marginal durante a colonização. A crise de 1929 incidiu devastadoramente sobre a economia chilena. Na sombra da economia exportadora. essencial para a indústria bélica. a economia mineradora. Em meados do século XIX. O cobre. ao mesmo tempo que o conflito restringia as importações de manufaturas. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL O modelo econômico protecionista adotado por sucessivos governos mexicanos – baseado na multiplicação das taxas alfandegárias no estímulo à produção nacional – atraiu para dentro das fronteiras do país os investimentos de empresas transnacionais. herdada dos períodos anteriores. a implantação de poderosas companhias européias de extração de cobre e salitre criou vínculos estreitos entre o país e os mercados e capitais estrangeiros. O Chile conheceu uma urbanização rápida e precoce. O governo democrata-cristão de Eduardo Frei. Um incipiente surto de industrialização teve lugar neste período. principalmente norte-americanas. fortes convulsões sociais e instabilidade política. fortemente apoiado pelas políticas públicas.

Em muitos casos. e a distingue do conjunto dos países industrializados do subcontinente. é a maior empresa chilena em volume de comércio exterior. responsável por grande parte das minas do país. Os países que ficaram alijados da decolagem industrial seguem dependendo de exportações de produtos agrícolas e minerais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO exercido pelos capitais estrangeiros sobre o setor mineral. Durante o governo da Unidade Popular. o geógrafo Armen Mamigonian apresenta as diferentes correntes interpretativas acerca da industrialização brasileira e latino-americana. um golpe militar encabeçado pelo general Augusto Pinochet encerrou o governo da Unidade Popular. Salvador Allende. O novo governo pôs em prática um amplo programa de privatizações e de abertura da economia para o capital estrangeiro. eles se tornaram bases importantes das rotas internacionais de narcotráfico e de capitais clandestinos. que prosseguiria com a democratização. Assim. Seu sucessor. as minas norte-americanas de cobre. relativamente significativa. O programa de reforma agrária foi acelerado e aprofundado. realizou uma reforma agrária e iniciou um programa de nacionalização gradual das empresas mineradoras. comercialização e exportação do petróleo. iria muito mais longe. assenta-se na base econômica propiciada pela extração. A competitividade externa passou a ser o fundamento da economia nacional. a forte integração ao mercado mundial é a principal característica da economia chilena. 116 . eleito em 1970 por uma coligação de partidos de centro-esquerda. A Venezuela representa um caso particular: sua industrialização. O Chile é o maior exportador de cobre do mundo e a estatal Codelco. ocorrida em 1989. Atualmente. Em de setembro de 1973. o sistema bancário e muitas das grandes empresas industriais privadas foram nacionalizados. Texto Complementar No artigo parcialmente reproduzido abaixo. O cobre responde por cerca de 40% do total das vendas.

(1973) Evolução industrial do Brasil e outros estudos. A industrialização brasileira recebeu um capítulo na História Econômica do Brasil. 2 Simonsen. Buenos Aires. edição organizada por E. Brandão publicou Agrarismo e Industrialismo em 19261 e R. 38) e Ianni. ambos defensores da industrialização. Assim. O. cujas idéias foram aplicadas no G. Paim (1957) Industrialização e Economia Natural. defensoras do processo de industrialização. (1959) Formação Econômica do Brasil. a universidade não julgava a temática relevante. Fritz Mayer foi o pseudônimo de Octávio Brandão. Ianni5 . (1957) Dualidade Básica da Economia Brasileira. Furtado. F. precocemente as esquerdas brasileiras tornaram-se. 30) procuraram apontar os fatores sociais da emersão do mercado interno e dos capitais para a industrialização. Furtado4 . pois 1 Mayer. Rangel e C. C. Agrarismo e Industrialismo. Carone. H. R. publicado em 19453 e mais tarde mereceu interpretações mais aprofundadas nos escritos de dois economistas ligados aos órgãos de planejamento governamentais. Furtado. (1926). Rio de Janeiro: ISEB. o tema da industrialização só despertou o interesse dos professores universitários após a publicação de Formação Econômica do Brasil. (1960) “Condições sociais da industrialização em São Paulo” (Ver Brasiliense n. de C. Furtado. quando o Departamento de Sociologia da USP entrou no debate. Rangel e Furtado publicaram vários outros textos. (1960) “Fatores humanos da industrialização no Brasil” (Ver Brasiliense n.. pouco abordados por C. F. O. o primeiro. Rio de Janeiro: ISEB. São Paulo. junto com a burguesia industrial.. interna e externamente. 117 . Fundo Cultura. I. Paradoxalmente. sobretudo F. escrita originalmente para o Fondo de Cultura Económica (México). Simonsen foi fundador da CIESP (1928) e da FIESP e o líder imdustrial de maior prestígio no Brasil nas décadas de 30 e 40. Nacional. numa época em que se considerava o Brasil como “país essencialmente agrícola” e cuja industrialização sofria grandes resistências dos setores ligados à divisão internacional do trabalho. (1945) História do Brasil. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Texto 1 – Teorias Sobre a Industrialização Brasileira e Latino- Americana A industrialização brasileira é tema de debate da nossa intelectualidade desde as décadas de 20 e 30. Cardoso e O. I. líder industrial. H. que contribuiu desde 1922 para a implantação e crescimento do PCB e apontava a presença esmagadora de latifundiários no aparelho de Estado brasileiro na década de 1920 e a necessidade de reforma agrária para a industrialização. São Paulo: Brasiliense. Nos dois casos trataram-se de intelectuais engajados. 5 Cardoso. Prado Jr. Edusp. 4 Rangel. No fundo. Cia Ed. Simonsen divulgou em 1939 a primeira história da industrialização brasileira2 . publicados na década de 50. até então. de tradição anarquista. Rio de Janeiro: Ed. 3 Prado Jr. de C. C. dirigente comunista e o segundo.

a questão da industrialização havia chegado na época ao próprio âmbito popular. 3) a que classes sociais couberam as primeiras iniciativas industriais: aos fazendeiros. 2) a condição de periferia do sistema mundial capitalista bloqueava ou não a industrialização?. tais como: 1) as conjunturas de crise das exportações (guerras mundiais. Desde então o avanço industrial brasileiro foi considerável.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO não percebia as dimensões econômico-sociais e políticas que o processo de industrialização já alcançava. 1995. enfatizou a subordinação da industrialização aos interesses do centro do sistema capitalista. et alli (org. que teve grande aceitação no período seguinte ao golpe militar. iria demonstrar o caráter controvertido das interpretações.. Armen. com grande aceitação recente. Paralelamente. que popularizou a expressão “industrialização por substituição de importação”. Geografia e meio ambiente no Brasil.) tinham sido favoráveis ou desfavoráveis ao avanço industrial?. assim como se fez um longo percurso intelectual. 2) a teoria da dependência. “Teorias sobre a industrialização Brasileira e Latino Americana”. com a participação de numerosos pesquisadores universitários brasileiros e estrangeiros. dominou o ambiente cultural de 1955 a 1964. tiveram papel hegemônico na luta intelectual. 65-66. São Paulo: Hucitec. Nas esquerdas brasileiras três teorias referentes à economia brasileira em geral e à industrialização em particular. 3) a teoria dos ciclos econômicos. à pequena burguesia e outros setores populares? Etc. pois refletem as vinculações entre elas e as classes sociais interessadas no processo. aos comerciantes de export-import. crise de 1929 etc. mas ainda hoje as interpretações continuam contrastantes.). que provocou alguns esclarecimentos. [MARMIGONIAN. In: BECKER. O debate que se seguiu.. onde também se veiculavam opiniões divergentes: a industrialização havia começado com Volta Redonda ou com a implantação das usinas hidrelétricas da Light? A indústria brasileira era multinacional? Etc. reconhece o enorme dinamismo do processo de acumulação capitalista brasileiro (.] 118 . Berta K.). p. sucessivamente: 1) a teoria da CEPAL.

A nova organização recebeu a adesão de todos os integrantes de sua predecessora. preparado pela constituição de uma zona de livre comércio. O Tratado previa o estabelecimento gradual de um mercado comum. o México e a Argentina e os demais integrantes sabotaram as metas de integração. influenciou na emergência desse novo conceito. Ao mesmo tempo. além do México. envolvendo quase toda a América do Sul. O fracasso da ALALC foi reconhecido tacitamente pelo Tratado de Montevidéu de 1980. Mesmo conservando como objetivo de largo prazo a criação de um mercado comum. Equador. expresso pela fundação da CEE. 119 . Mais tarde. contou com sete integrantes: Argentina. Chile. a ênfase generalizada dos países latino-americanos nos mercados internos limitou o potencial de crescimento do comércio na área da ALALC. As divergências entre o Brasil. que se desenrolou entre o final dos anos quarenta e o início dos anos sessenta. México e Uruguai. Os ambiciosos objetivos da Associação. estimula a realização de acordos comerciais limitados e uniões aduaneiras entre países-membro. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 3. A ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio) foi criada pelo Tratado de Montevidéu de 1960. em 1957. Inicialmente. chocaram-se desde o início com as desigualdades econômicas internas. O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul O conceito de integração econômica latino-americana surgiu no ambiente da Guerra Fria. realçados pela vastidão dos espaços geográficos que recobria. recebeu a adesão de Colômbia. O processo da descolonização afro-asiática. Paraguai. refletindo uma reação à hegemonia geopolítica dos Estados Unidos. Brasil. O Mercosul nasceu da aproximação brasileiro-argentina e dos acordos prévios de integração bilateral firmados entre os dois países. O novo Tratado tem metas menos pretensiosas e mais flexíveis. que a substituiu pela ALADI (Associação Latino- Americana de Integração). Outra fonte de influência foi o movimento de integração européia. Peru. Venezuela e Bolívia.

que vai das áreas frias e secas das altas latitudes patagônicas ao domínio equatorial amazônico. Em julho de 1990. em julho de 1986. entrou em vigor o Acordo de Complementação Econômica (ACE-14). enquanto o Uruguai e o Paraguai são economias fortemente dependentes dos seus vizinhos. Em seguida. quando o Tratado de Assunção definiu os contornos do Mercosul. encontram-se as principais metrópoles e zonas industriais dos países-membro. no Brasil. além das grandes concentrações demográficas. Paraguai e Uruguai – abrange o Centro- Sul do Brasil. A industrialização do Brasil. Em novembro de 1988. Assunção. antecipando para 31 de dezembro de 1994 o estabelecimento do mercado comum bilateral. em especial.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A condição prévia para essa aproximação foi a redemocratização política. Montevidéu. no prazo de dez anos. prevendo a redução gradual das tarifas alfandegárias. quando a indústria já se 120 . O Mercosul estende-se por um vasto espaço geográfico. Curitiba e Porto Alegre. A Bacia do Prata – vertebrada pelos rios Paraná. fixada pelo Tratado de Integração. valorizou a Região Sudeste e. a grande metrópole argentina (Buenos Aires) e importantes cidades que organizam o espaço regional: Belo Horizonte. sob os pontos de vista demográfico e econômico: o Brasil e a Argentina são potências latino-americanas. o Pampa argentino. no Paraguai. A adesão do Uruguai e do Paraguai ao projeto comunitário ocorreu em março de 1991. No final do governo de Juscelino Kubitschek (1956-61). Rosário e Córdoba. O núcleo geoeconômico do Mercosul é a região platina. Nessa área. O passo inicial da aproximação foi a assinatura do Programa de Integração e Cooperação Econômica Brasil-Argentina. o Uruguai e a porção oriental do Paraguai. desenhou-se a meta de um mercado comum. desde as primeiras décadas do século. ocorrida em meados da década de 1980 nos dois países. os governos dos dois países decidiram acelerar o processo de integração. até a sua completa eliminação. Aí estão as duas metrópoles nacionais brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro). Cooperação e Desenvolvimento. na Argentina. no Uruguai. o Estado de São Paulo. Agrupa quatro parceiros extremamente díspares.

o Sudeste industrial estava firmemente soldado às áreas complementares de agricultura e pecuária no Sul e nas regiões meridionais do Centro-Oeste. as sedes das corporações e a maior parte da produção industrial. que se estende em arco aberto de Buenos Aires a Córdoba. a oeste. A aglomeração metropolitana de Buenos Aires. Ao redor da área portenha. em 1960. o Chaco e a Mesopotâmia. realizou-se através do livre-cambismo e sob a influência dominante da Inglaterra. Ao seu redor. ao norte. Rosário é um importante centro siderúrgico. No Pampa. O Centro-Sul surgia como expressão da integração econômica dessa parte do território nacional. a carne e a lã) e os manufaturados europeus beneficiava essencialmente a elite portenha e os grandes estancieiros exportadores. encontra-se o cinturão industrial do país. A estruturação do território da Argentina realizou-se. O Pampa concentra a maior parte da riqueza e da população do país. Córdoba destaca-se como pólo de indústrias dinâmicas: lá se encontram as principais montadoras automobilísticas de capital europeu. estendem-se as periferias regionais: a Patagônia. os Andes. A soldagem do Pampa à Europa. desde o início. ao sul. 121 . a taxa de urbanização é bastante elevada. sob a hegemonia do porto de Buenos Aires. A inauguração de Brasília. O Uruguai forma uma faixa de transição entre o Centro-Sul brasileiro e o Pampa argentino. com mais de 10 milhões de habitantes (cerca de um terço da população do país) concentra os serviços financeiros. Apesar da sua economia estar fundamentada nas atividades primárias. A troca entre os produtos agropecuários do interior estancieiro (o trigo. Esta concentração urbana da população é conseqüência da estrutura fundiária baseada no domínio da grande propriedade e das modalidades predominantes de uso do solo – a pecuária extensiva e as culturas mecanizadas – poupadoras de mão-de-obra. refletia a transformação de Goiás e do atual Mato Grosso do Sul em espaços de expansão da economia do Sudeste. A organização do espaço regional argentino segue um nítido esquema de tipo centro-periferia. desenvolveu-se a valorização do Pampa agrícola e pecuarista. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL havia tornado o núcleo dinâmico da economia nacional. na segunda metade do século XIX. passando por Rosário. atingindo cerca de 85%. seguida da abertura de rodovias de integração.

Entre o Rio Paraguai e a fronteira oriental. a paisagem monótona das grandes propriedades de pecuária ultra-extensiva – onde escasseiam homens e animais – é pontuada por regiões minifundistas. que logo alcançou dimensões internacionais. O rio. Em grande parte. As companhias de navegação. encontram-se as zonas dinâmicas e a usina de Itaipu. sob forte influência brasileira. o que representa a metade da população nacional. onde. as empresas de transportes dinamizam a vida econômica da capital. A soldagem entre o Sudeste. Essas mudanças seriam aprofundadas com a evolução rumo ao mercado comum. primeiro passo do Tratado. Ao lado das funções administrativas e comerciais. em especial soja e café. Nas áreas menos férteis. A configuração de uma zona de livre comércio. de norte a sul. no leste. O processo de integração deflagrado pelos acordos entre o Brasil e a Argentina e aprofundado pelo Tratado de Assunção tende a interferir nas dinâmicas territoriais dos países-membro. de exportação e importação. A aglomeração metropolitana de Montevidéu agrupa cerca de 1. a cidade desenvolveu um forte centro financeiro. a agricultura da fronteira é controlada por empresários rurais brasileiros. O Paraguai é atravessado. onde se pratica uma agricultura de subsistência de baixa produtividade. A função portuária continua a representar a principal atividade da capital. No caso do Brasil.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O padrão agroexportador da economia do país condicionou a hegemonia da capital portuária sobre o interior pampeano. no qual todos os fatores de produção passariam a dispor de liberdade de alocação. estendem-se as grandes regiões agropecuárias. que corresponde ao despovoado Chaco.6 milhão de habitantes. define duas áreas distintas: o oeste. Próximo à fronteira nordeste. os armazéns. amplia a escala dos mercados para as empresas envolvidas e reorganiza a divisão regional do trabalho. o Sul e a parte 122 . junto ao Brasil. o Mercosul tende a reforçar as modalidades históricas de regionalização. pelo rio de mesmo nome. aparecem áreas de agricultura comercial. passando a receber investimentos especulativos provenientes da Argentina e do Brasil. que corta Assunção.

da carência de investimentos e infra-estruturas. Situadas nas faixas de fronteira. No caso da Argentina. Nesse contexto. a hidrovia do Mercosul é o projeto de maior envergadura. Essa hidrovia tem como único obstáculo de porte o desnível de Itaipu. que não é servido por eclusas e exige o transbordo rodoviário de cargas. Paraguai e Uruguai. No campo dos transportes terrestres. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL meridional do Centro-Oeste – sob o comando dos capitais industriais e financeiros baseados em São Paulo – ganha novo impulso com a abertura do mercado argentino. o Mercosul acentua a urgência de integração das regiões setentrionais – a Mesopotâmia e o Chaco – ao núcleo portenho- pampeano. viabilizada pelas eclusas de Jupiá e Três Irmãos. no trecho brasileiro do Alto Paraná. as iniciativas no campo dos transportes ganham uma especial relevância. No plano do transporte fluvial. Esses dois ecossistemas inteiramente diferentes exibem uma semelhança socioeconômica e territorial – tanto a Amazônia equatorial como a Patagônia fria e seca são vastos espaços de baixas densidades demográficas e elevada potencialidade econômica. já conhecida com Rodovia Sul-Americana. encontram-se as duas frentes de expansão do povoamento da área do Mercosul: a Amazônia brasileira e a Patagônia argentina. interligou o Centro-Sul do Brasil aos mercados de Argentina. O advento do Mercosul e das novas estratégias comerciais e empresariais abre amplas perspectivas de integração territorial na sub-região. essas regiões se ressentem de fraco dinamismo econômico e. A entrada em operação da hidrovia Tietê-Paraná. Muito além do núcleo geográfico platino. O traçado desta estrada. A infra-estrutura disponível às empresas do Mercosul aparece como um dos elementos fundamentais na definição de sua competitividade e eficiência. um projeto de forte impacto é o da auto-estrada São Paulo-Buenos Aires. principalmente no caso do Chaco. é objeto de intensos debates envolvendo lideranças industriais e rurais dos três estados da região Sul do 123 .

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Brasil. O projeto seria complementado com a cosntrução de uma ponte de 50 km sobre o Rio da Prata. de forma a beneficiar os produtores rurais dos três estados. unindo Buenos Aires a Colônia. pela primeira vez. proposto pelas lideranças industriais. do Paraná e de Santa Catarina propõem a interiorização da estrada. situa o bloco sub-regional no contexto das tendências simultâneas de globalização e regionalização que presidem a economia mundial contemporânea. planeja-se uma ligação rodoviária entre o porto de Rio Grande e o porto de Antofagasta. O segundo. de autoria dos embaixadores Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo. Essa meta pode ser decomposta nos seguintes elementos básicos: a) eliminação das barreiras tarifárias e não-tarifárias no comércio entre os países membros. 124 . Uma ligação ferroviária entre o porto de Santos e esse mesmo porto chileno também está em projeto. 48% da catarinense e 53% da paranaense. uruguaio e brasileiro. Os empresários e políticos do interior do Rio Grande do Sul. o Atlântico ao Pacífico na América do Sul e abririam novas perspectivas de integração do Cone Sul com a Bacia do Pacífico. escrito pela geógrafa Mônica Arroyo. Segundo estudos realizados na Universidade de Passo Fundo. O primeiro deles. Estas ligações uniriam. Texto 1 – Os Objetivos do Mercosul O MERCOSUL é um processo de integração que tem como meta a construção de um Mercado Comum. destaca os objetivos e as características básicas do Mercosul. Além da auto-estrada. Textos Complementares Os textos selecionados para introduzir a discussão sobre a origem e o significado do Mercosul abordam dois aspectos cruciais no processo de integração. favoreceria o complexo industrial instalado nas capitais dos estados da região Sul do Brasil. O traçado litorâneo. integraria o leste dos territórios argentino. Assim. diminuir o êxodo rural e ampliar a oferta de empregos na região. a rodovia interior poderia servir de “corredor” para 26% da economia gaúcha. no norte do Chile.

d) livre comércio de serviços. f) livre circulação de capitais. c) coordenação de políticas macroeconômicas. um país pode importar produtos de outro integrante da Zona sem pagar tarifas. A esta vantagem chamamos Preferência Tarifária ou Margem em Preferência. entre os países envolvidos no MERCOSUL) é uma característica essencial dos processos de integração: as alíquotas aplicadas ao comércio dentro da zona são sempre diferentes (e menores) do que aquelas praticadas com países fora da zona. Ora. Examinemos um a um esses objetivos. é um dos grandes estímulos que os países têm para integrarem-se. foi atingido em 31 de dezembro de 1994. 125 . Hoje. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL b) adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC). com algumas exceções. que serão gradativamente eliminadas. o estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum. e) livre circulação de mão-de-obra.e. A desgravação tarifária maior para o comércio intrazonal (i. e das quais falaremos mais adiante. desde aquela data. foi concretizado também em 31 de dezembro de 1994 – igualmente prevendo-se algumas exceções. a importação de um produto proveniente de um mercado fora do MERCOSUL está sujeita à mesma alíquota tarifária nos quatro países. chamada de Margem de Preferência. Ou seja. como continua a haver tarifas para os países fora do grupo. a eliminação das tarifas e das restrições não-tarifárias entre os seus parceiros. a) Eliminação de barreiras tarifárias e não-tarifárias O primeiro objetivo do MERCOSUL. b) Tarifa Externa Comum O segundo objetivo do MERCOSUL. que desaparecerão com o tempo. conclui-se que os integrantes do grupo têm uma vantagem. Esta diferença..

ou promoverão eles também desvalorizações de suas moedas. c) Coordenação de políticas macroeconômicas O objetivo seguinte é a coordenação de políticas macroeconômicas. mais necessária se fará a coordenação de políticas macroeconômicas – tanto por seus efeitos comerciais já apontados acima. como por seu impacto nos fluxos de investimento (um país com juros mais elevados pode atrair 126 . Criar-se-ia. Entretanto. a qualquer momento. a livre circulação de trabalhadores e a livre circulação de capitais. política monetária (taxa de juros e quantidade de moeda a ser emitida) e política fiscal (controle dos recursos a serem arrecadados e gastos pelo Estado). causando desequilíbrio na balança comercial em desfavor dos parceiros. neste caso.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Cumpridos esses dois objetivos básicos. decretar uma maxidesvalorização de sua moeda. Estes últimos terão duas opções: ou absorverão as conseqüências da medida e as distorções decorrentes da diferença cambial. de modo a evitar desequilíbrios comerciais. A importância de coordenação macroeconômica entre países em processo de integração fica bastante clara quando se considera a questão do câmbio. e quanto mais se desenvolva a interdependência entre as economias dos países membros. o MERCOSUL já preenche os requisitos para ser considerado uma União Aduaneira. um país pode. Num ambiente onde não exista coordenação. que deverão ser trabalhados ao longo dos próximos anos para que o MERCOSUL se torne um Mercado Comum. Trata-se da coordenação de políticas macroeconômicas. Quanto mais avance o processe de integração no MERCOSUL. A coordenação de políticas cambiais implica que cada país aceita limites nas modificações que pode introduzir em sua taxa de câmbio. o que estimulará intensamente suas exportações e reduzirá suas importações. um circuito de “desvalorizações competitivas”. que poderia prejudicar a todos. o Tratado de Assunção estabelece ainda outros objetivos. A política macroeconômica de um país se divide em três esferas principais: política cambial (taxa de câmbio da moeda nacional em relação ao dólar ou a um padrão de referência externo). a liberalização do comércio de serviços.

O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL mais capitais externos) e nas condições de concorrência (um país que cobra menos impostos incentiva os seus produtores locais. Até aqui. no futuro. Benéfica porque constituirá um fator de disciplina na condução das políticas econômicas. é necessário um enorme esforço de harmonização das legislações trabalhistas e previdenciária. em detrimento dos concorrentes do outros países membros). tende a criar uma pressão crescente pelo desenvolvimento de ações 127 . no interesse dos trabalhadores de cada país pelo mercado de trabalho dos vizinhos. Mas. o trabalhador pode beneficiar-se apenas – embora já seja muito – dos empregos que o MERCOSUL cria em seu próprio país de cidadania. o trabalhador deverá ter acesso também aos empregos que o MERCOSUL cria no país vizinho. no entanto. no entanto. Somente o acesso desimpedido a esses mercados permitirá que o trabalhador aproveite os frutos da integração na sua totalidade. não importando que isso seja uma decisão absolutamente individual ou a decorrência de compromissos assumidos num processo de integração. e porque contribuirá para um ambiente de previsibilidade e de regras do jogo estáveis. A crescente interpenetração das economias resultará. ainda. que já ocorre e que provavelmente será reforçada no quadro do Foro Consultivo Econômico e Social – do qual falaremos –. Para que isso seja possível. d) Liberalização do comércio de serviços Os negociadores do MERCOSUL terão que enfrentar. como já está ocorrendo. ter uma política cambial estável. que não se pode pretender implementar em um período muito curto. Apesar de necessária. a coordenação de políticas macroeconômicas será certamente um processo lento. a questão da circulação de trabalhadores. É bom para qualquer país. que a autolimitação decorrente do processo de coordenação macroeconômica será benéfica para cada país. por exemplo. já que implicará uma limitação na autonomia de cada país para conduzir sua política econômica. mudança de grande envergadura. A participação direta de representantes dos trabalhadores no processo de discussão desses temas. É preciso compreender. com efeito. que já está sendo desenvolvido.

Não podemos nos esquecer de todas as implicações da palavra “processo” quando descrevemos o MERCOSUL como um processo de integração. Atividades nesse sentido já estão em andamento. mas ainda há boa distância a percorrer até a livre circulação de capitais. por mais complexos que sejam. quando se considera também a situação dos profissionais de nível superior – igualmente interessados no mercado dos outros países do MERCOSUL –. assim. contudo. 128 . pelo próprio desdobramento de sua lógica interna. Sempre uma nova idéia. a crise financeira mundial no início de 1995. mais cedo ou mais tarde. e a crescente demanda da sociedade civil provavelmente forçará sua aceleração no curto e médio prazo. a facilitação do reconhecimento mútuo de títulos e diplomas. A liberalização dos fluxos de capital no MERCOSUL será. Percebe-se. a União Aduaneira vigente desde 1º de janeiro representa uma massa crítica de tal ordem que por si só. a liberalização do comércio de serviços e a livre circulação de mão-de-obra e capitais. uma liberalização bastante qualificada: a tendência aponta para um maior controle dos movimentos de capitais especulativos. o MERCOSUL está sempre acontecendo. Sendo um processo. E as idéias geram idéias. que para alcançar o estágio de Mercado Comum o MERCOSUL ainda terá de concretizar objetivos de grande envergadura: a coordenação de políticas macroeconômicas. Os investidores dos países do MERCOSUL já contam com certas facilidades e garantias para suas aplicações no mercado dos parceiros. é necessária. Além disso. num sistema dotado de organicidade e dinamismo. temos o objetivo da livre circulação de capitais. e) Livre circulação de capitais Por fim. exigirá. ao lado de uma facilitação dos fluxos de capitais produtivos. um novo tema. Por outra parte. Na verdade. os avanços geram novos avanços. parece contribuir antes para critérios de maior controle sobre os fluxos de capital do que para uma facilitação desses movimentos. Essa perspectiva não deve. com seu impacto traumático. além da harmonização de legislações. provavelmente. apequenar o que já foi conseguido. a consecução desses outros objetivos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO facilitadoras da circulação de mão-de-obra. um novo projeto de acordo está fermentando em alguma parte.

até agora. Trata-se do sistema de integração mais profundo. a União Européia não é uma matriz a ser fotocopiada. muitas vezes se faz de forma superficial. os seis países signatários do Tratado de Roma. Não é o modelo arquetípico com o qual os demais processos de integração têm que se parecer ao máximo. como veremos. foi atingido pelos membros originários da União Européia. A comparação dos tempos da União Européia e do MERCOSUL. São Paulo: Ed. “Não podemos querer atingir em poucos anos o que a Europa levou quatro décadas para alcançar”. já haviam. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Examinando os diversos modelos de processos de integração e a situação que o MERCOSUL ocupa nesse quadro.] 129 . não em quarenta. A União Européia surge. naturalmente. mas em cerca de onze anos a partir da assinatura do Tratado de Roma. Ernesto Henrique Fraga. é lícito concluir que o MERCOSUL já alcançou patamares bem avançados de integração. Por outra parte. pela União Européia. e sobre as iniciativas de integração bilateral Brasil-Argentina. iniciado em 1960. 28-33. Com efeito. eliminado as barreiras ao seu comércio recíproco e adotado uma Tarifa Externa Comum – em ambos os casos com algumas exceções. Entretanto. Na verdade. em 1968. [FLORÊNCIO. mais ambicioso e economicamente mais pujante já implementado. não se pode pensar que o MERCOSUL surgiu do nada. inauguradas nos anos 80. e seu sucesso é absolutamente inegável. apesar das dúvidas dos “euro-céticos”. O estágio que o MERCOSUL alcançou em 1º de janeiro de 1995. O equívoco dessa visão de uma União Européia arquetípica fica muito evidente quando se vêem certos comentários sobre os prazos para a construção do MERCOSUL: “os prazos são irrealistas”. 1996. sempre que se fala de processos de integração. mais complexo. de 1957. como também ocorre no MERCOSUL. Alfa Omega. como um paradigma. Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO. após três anos e meio de negociações – o de União Aduaneira –. só atingidos. p. Mercosul hoje. dizem. o MERCOSUL está alicerçado sobre um longo processo de integração latino-americana.

E na organização do trabalho.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Texto 2 – Mercosul: Novo Território ou Ampliação de Velhas Tendências? O contexto internacional Duas tendências concomitantes no sistema internacional contemporâneo têm se acentuado na última década: a globalização e a regionalização da economia. A incorporação do conhecimento tecnológico aparece como a condição necessária para o aumento da produtividade e do crescimento econômico. com a diminuição relativa na estrutura ocupacional dos operários (Cacciamali. neste processo. 1991. É assim que. em equipamentos e sistemas flexíveis de produção de manufaturados. com novas técnicas gerenciais e de alocação e treinamento dos recursos humanos. das regiões e dos países2. um movimento que opera na escala mundial. projeção e desenhos de novos produtos. imprimem um salto qualitativo no processo de produção. 1 Na produção. 2 Ver Castells. As novas tecnologias. Porém. na utilização de robôs e em formas de energia. com inovações aplicadas na concepção. A concorrência mediante preços já não é tão decisiva quanto a que se traduz na qualidade e na diferenciação dos produtos. El socialismo futuro. em que a ênfase é dada à qualificação da mão-de- obra e à maior integração entre a administração e a produção. essa oposição é só aparente já que essas tendências complementam-se para dar respostas às mudanças estruturais que estão transformando paulatinamente o cenário mundial. A globalização remete à idéia de um movimento que tem como “campo de ação” todo o planeta. Elas se opõem quanto à direção do movimento que em cada uma está implícita. como a aplicação do princípio just in time (gestão por fluxos). Manuel. com métodos administrativos mais eficientes. em uma escala mais reduzida. Na gestão. 4. a qualidade da informação tem se convertido em fator estratégico para a competitividade das empresas. 130 . mostra uma tendência a atuar em uma área limitada do planeta. 1991). de gestão e de organização do trabalho1. La economia informacional. la nueva división internacional del trabajo y el proyeto socialista. A complexidade crescente no processo produtivo é um dos eixos dessas mudanças. A regionalização. Isso é possível pela conformação de um novo padrão industrial. na realidade. sobretudo no campo da microeletrônica. que baseando-se inicialmente no complexo metal-mecânico passou também – e fundamentalmente – a fazê-lo no complexo eletroeletrônico. por outro lado. Madri.

as novas tecnologias exigem escala planetária. são complementares ao 3 Neste sentido. Produtos mais complexos. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Esse salto. cuja manifestação cada vez mais acentuada é a consolidação de um espaço integrado da empresa. uniões aduaneiras ou mercados comuns. a expansão das grandes firmas oligopólicas nos setores produtivo e financeiro modifica substantivamente a geografia mundial. Dessa forma. Assim. por implicar. acentuando a tendência à globalização da economia. Ominami (1986) destaca o rápido aumento do número de países em desenvolvimento que dispõem de empresas com investimentos diretos no estrangeiro. Outra mudança estrutural a considerar nesta análise é a crescente transnacionalização da economia. assentou-se nas últimas décadas3. mais intensivos em tecnologia. esta tendência incrementou-se desde os anos 70. embora não seja novidade. O avanço nas tecnologias de informação facilita significativamente essa tendência ao permitir que as etapas de produção se localizem em países diferentes mantendo o monitoramento centralizado sobre elas. cria a necessidade de ampliar a dimensão dos mercados. com a tendência à globalização. 4 Os projetos mais avançados neste sentido são o Mercado Único Europeu e a Área de Livre Comércio entre Estados Unidos. exigem mercados mais sofisticados e segmentados na economia mundial. 131 . O interesse associativo destas iniciativas visando o fortalecimento da base regional não é contraditório ou excludente. de outro. de um lado. além das fronteiras nacionais. a qual. Pelo contrário. os espaços nacionais deixam de ser o locus privilegiado para o processo de acumulação. através da criação de zonas de livre comércio. Os governos nacionais buscam ampliar o espaço de realização das mercadorias com maior abertura da economia. se transforma assim em uma saída para enfrentar as novas condições da competitividade internacional4. já que ambas decorrem da necessidade cada vez mais presente da criação de mercados ampliados. Dessa maneira. investimentos de alto custo e. uma rápida obsolescência dos produtos e processos. Esse aprofundamento do processo de concentração e centralização do capital tem permitido aumentar o controle dos conglomerados sobre as relações econômicas internacionais. A ampliação dos mercados. tanto para as grandes empresas quanto para os próprios países. Canadá e México (NAFTA – North American Free Trade Agreement). Embora seu tamanho seja consideravelmente mais reduzido que o das empresas dos países industrializados.

É bom ressaltar. que facilitou o desenvolvimento industrial a partir da presença tutelar do Estado e com diferentes mecanismos de proteção econômica. O modelo substitutivo de importações. Nessa reordenação. com peso ainda significativo das políticas conduzidas pelos Estados5. e suprimir os obstáculos ao comércio intra-regional de manufaturas (Hirst. Algumas particularidades latino-americanas A formação de um mercado comum no Cone Sul (Mercosul) é uma das iniciativas intra-regionais de caráter minilateral que se têm registrado na América Latina no início da década de 90. observa-se uma simultaneidade de movimentos diferentes que influem um no outro: o das empresas transnacionais. a crise estrutural que tem afetado secularmente o continente se aprofunda com uma gravidade sem precedentes na década 5 Mesmo na Comunidade Européia. com a assinatura da Ata de La Paz. acordos preexistentes que receberam novo impulso a partir de renovados programas de negociações regionais6. 1991). o Pacto Andino anunciou que o prazo para a formação de uma Zona de Livre Comércio seria o dia 31 de dezembro de 1991 e antecipou para 1995 a adoção de uma tarifa externa comum. Por seu lado. Efetivamente. os dos Estados-nação e os dos novos conjuntos ou agrupamentos de Estados. começa a dar sinais de esgotamento nos anos 80. no entanto. liberalizar completamente o comércio intrazonal de produtos agropecuários a partir de 30 de junho de 1992. existem permanentes divergências para decidir se se prioriza a solução dos problemas “domésticos” ou os relativos à Comunidade. Podem-se mencionar também o Pacto Andino e o Mercado Comum Centro-Americano. Essa superposição é muitas vezes conflitiva pela tensão existente entre esses agentes. 132 . em julho de 1991 os governos dos países da América Central comprometeram-se a: reduzir até 31 de dezembro de 1992 o arancel externo.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO coincidir na busca de uma inserção em um contexto mais amplo. Esses acordos sub-regionais de comércio reativados nos anos 90 são precedidos pela adoção de políticas unilaterais de liberalização em um contexto de políticas de abertura das economias nacionais. que os agrupamentos entre países têm preferentemente caráter intergovernamental. 6 Em novembro de 1990. conforme tentam acomodar seus interesses específicos. tanto regional quanto mundial. processo de integração que tem alcançado o maior grau de aprofundamento.

vem acompanhada por um desenho mais pragmático da política externa. aconteceram processos eleitorais na Argentina. 1991. Isso se expressa claramente a partir de 1982. Nicarágua. Costa Rica. 7 Cacciamali. A posterior aplicação de políticas de ajuste permite explicar o predomínio da estagnação. como o Tratado de Montevidéu. com maior profundidade. na Colômbia. Em 1990. seu desenvolvimento. É no âmbito financeiro que se percebe. 50). com políticas econômicas nem sempre compatíveis e governos instáveis. o que acabou por provocar uma desorganização econômica”7. com diversos graus de desenvolvimento. pg. quando se trata de países heterogêneos. na Bolívia. no início da década de 80. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL passada. Tentam-se transformar os processos de integração já em curso em um instrumento para dinamizar as relações econômicas exteriores. Salienta-se que esses fatos têm seu correlato no plano político. no Panamá. no Paraguai e na Venezuela. É conveniente lembrar que tais receitas recessivas são tuteladas ou controladas pelo Fundo Monetário Internacional. Mudanças Recentes no produto e no emprego: uma comparação entre os países industrializados e aqueles em desenvolvimento. “O modelo de crescimento com endividamento. 9 Em 1989. que reúne na ALADI os 11 países da região. Diante desse contexto particular para o continente latino-americano e das mudanças estruturais do sistema econômico internacional. Peru e Uruguai. após o choque dos juros. programas de estabilização que foram administrados por meio de contenção de demanda interna sem uma definição prévia de política industrial e sem priorizar setores. indício da consolidação nos processos de transição democrática que vivem vários países da região. 8 De acordo com Quijano (1991). este tipo de acordos mais restringidos parece “reconhecer a inviabilidade dos acordos múltiplos. Maria Cristina. que a cada renovação mudam a ponderação ao projeto regional. em El Salvador. que desde 1982 monitoriza o pagamento da dívida externa. Revista Brasileira de Economia. recessão e descapitalização que caracteriza a chamada “década perdida”. ou mesmo as áreas sociais. como uma das formas de reativação econômica. Esta denominação refere-se basicamente ao fato de que a América Latina está em um período de retardamento de seu processo de industrialização. quando sucessivamente diferentes países latino-americanos declaram a moratória. 226. no Chile. 45(2). pois a renovação dos numerosos governos no começo da década9. 133 . no Brasil. Acordar entre onze. parece uma tarefa inviável” (p. implicou. associações minilaterais que dinamizem o comércio intrazonal8. procuram- se conformar. abr-jun. Rio de Janeiro. Honduras.

O mercado comum. (b) o estabelecimento de uma política comercial comum em relação a terceiros países. a análise deve remontar a seu antecedente mais recente. que deverá estar estabelecido a 31 de dezembro de 1994 e que implica as seguintes metas: (a) livre circulação de bens. De acordo com o Artigo n. o retorno à 134 . como uma área de livre comércio e uma união aduaneira. que foi assinado em 1986. que surge com a assinatura do Tratado de Assunção em março de 1991. Como afirma Almeida Mello “com o fim do autoritarismo e do Estado de Segurança Nacional nos dois países platinos. Este fato é significativo já que se situa no processo de reabertura democrática iniciado nos dois países depois de traumáticos regimes militares. por sua parte. Sem dúvida.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Neste contexto situa-se o Mercosul. e (d) o compromisso de harmonizar as legislações nacionais nas áreas pertinentes. exigem um grau menos avançado de integração.º 1 desse Tratado. (c) a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-membros. serviços e fatores produtivos entre os países. Os momentos da integração econômica no Cone Sul O processo de integração no Cone Sul começa em 1985 com um encontro entre os presidentes Raúl Alfonsin (Argentina) e José Sarney (Brasil) em Foz do Iguaçu. o qual exige um importante esforço na coordenação das políticas internas dos países envolvidos. Limitam-se ao tratamento da questão das barreiras ao comércio (dos membros da comunidade entre si e no seu relacionamento com o resto do mundo). Optou-se por uma proposta que implica um importante aprofundamento no processo de integração econômica. inclui a livre mobilidade da mão-de-obra e de capital. Outras modalidades. o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE) entre Argentina e Brasil. Agora. proposta de integração entre Argentina. Brasil. os Estados Parte decidem constituir um mercado comum. nos quais predominava uma relação de mútua desconfiança. Paraguai e Uruguai. para entender o Mercosul. trata-se de proposta ambiciosa para cumprir em quatro anos.

11 Araújo Jr. Universidade de São Paulo. em uma situação de mercado ampliado. o comércio intra-ramos promovido pelo PICE busca a criação de vantagens comparativas dinâmicas que incrementem a competitividade de alguns setores. 1991. pg. que havia predominado nas relações brasileiro-argentinas até o fim da década de setenta”10. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Economia Industrial. na qual se prioriza o intercâmbio de bens análogos com certo grau de diferenciação. Argentina e a balança de poder regional: equilíbrio. que se baseia fundamentalmente na exportação de produtos primários com pouco grau de processamento por parte da Argentina diante das exportações brasileiras de manufaturas. A opção por soberanias compartidas na América Latina: o papel da economia brasileira. 10 Mello. Departamento de Ciência Política. Daí a preferência que se outorga as indústrias de bens de capital. Facilitam uma abertura negociada por setor e por produto. 271. Pelo contrário. criar um novo padrão de relacionamento entre as duas economias. Leonel Itassu Alemeida. Texto para discussão. que. recuperar o nível de transações e corrigir desequilíbrios sistemáticos nos fluxos de comércio e. Isto implica uma divisão do trabalho por produtos mais que por ramos de produção. Assim sendo. a longo prazo. começa-se a assinar uma série de acordos e protocolos bilaterais visando aprofundar um programa de negociações. Os protocolos setoriais são os instrumentos básicos deste Programa. alimentar e automobilística. procurando atingir dois objetivos: a curto prazo. 135 . 1991. Esquema clássico de especialização intersetorial. estimulando uma diversificação das estruturas produtivas e o aproveitamento das economias de escala. que consolide seu papel de indutores do crescimento regional11. Brasil. 256. Rio de Janeiro. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL democracia e ao Estado de Direito contribuiu para que a dinâmica da cooperação-integração subordinasse a lógica da rivalidade-competição. Tese de doutoramento. São Paulo. José Tavares de. preponderância ou hegemonia? (1969-1986). Esta opção é uma tentativa de reverter o esquema predominante no comércio bilateral. pode até provocar a desaparição de algum setor em um dos parceiros comerciais. Um dos objetivos mais significativos do PICE é promover uma especialização intrasetorial.

deve-se ressaltar a preocupação por uma abertura seletiva que implica não incluir. 130. set. Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. Efetivamente. Isso é importante na medida em que existem fortes disparidades entre vários segmentos dos setores envolvidos e. e mais tarde se atualiza com o Tratado de Assunção e a incorporação do Uruguai e do Paraguai ao processo. o processo de integração. no início. Ao mesmo tempo. Para estes dois países o Tratado estende o prazo do programa de liberalização até 31 de dezembro de 1995. Araújo Jr. que produzem uma modificação radical nas políticas econômicas sustentadas basicamente em um conjunto de princípios neoliberais. Cabe destacar o caráter gradual que se pretende impor ao processo com a finalidade de. precisam-se desenhar linhas de reconversão industrial para acompanhar o processo. Universidad de Belgrano. Mônica. 136 . julio. embora se reafirme. 1991. Documentos e informes de investigación. Texto para discussão interna. Como foi indicado no item precedente. 33. Estabelece uma redução tarifária 12 Ver Halperín. “dar tempo para que os setores produtivos nos dois países se ajustem às contingências criadas pela abertura parcial e seletiva dos mercados”. José Tavares de. A renovação dos governos democráticos na Argentina e Brasil nos anos 90 promove uma reformulação ampla do PICE.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Além de estabelecer mecanismos progressivos de eliminação tarifária e de remoção de barreiras não-tarifárias. como certas produções agrícolas. o processo de integração aprofunda-se no sentido de aspirar à constituição de um mercado comum e também alcança uma nova dinâmica14. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integração do Cone Sul. deixa de corresponder com uma política de abertura gradual e seletiva dos mercados para adquirir um sentido funcional em um contexto generalizado de exposição competitiva à economia mundial13. Documento. Buenos Aires. a qual ocorre nem tanto por uma avaliação estrita de seus resultados mas como uma das respostas ao quadro de asfixia econômica e financeira em que se encontravam ambos os países12. Rio de Janeiro. Avances y desafíos en la formación del Mercosur. Buenos Aires. com os governos dos presidentes Menem e Collor. Marcelo. conforme o PICE. 1990. 1992. propõem-se medidas como a formação de empresas binacionais e a criação de um fundo de investimentos. os bens dos setores mais sensíveis. 14 O marco formal desta nova proposta instala-se com a Ata de Buenos Aires assinada em julho de 1990 entre Argentina e Brasil. portanto. La cuestión nacional y los dilemas jurídicos e institucionales en el processo de integración entre Argentina y Brasil. visando estimular a complementaridade produtiva. 13 Ver Hirst. Faculdad Latino Americana de Ciencias Sociales.

linear e automática. reduzir transitoriamente seu escopo para um Tratado de Livre Comércio. pg. posto que nenhum dos dois governos está preparado para enfrentar. A Ata de Buenos Aires e as perspectivas de integração do Cone Sul. Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. 137 . ajudaram a desgastar a idéia de integração latino-americana. A propósito. junto a uma eliminação de barreiras não-tarifárias. Este último depende principalmente dos processos 15 Araújo Jr. Em outro de seus trabalhos acrescenta que “a fim de evitar que o Mercosul se torne mais um exemplo da longa lista de fracassos latino-americanos. 33. “a decisão de encurtar os prazos do programa foi uma temeridade. que significa uma liberalização comercial de caráter universal (todos os produtos são submetidos automaticamente à redução tarifária). No entender de Araújo (1990). há décadas submetida a retóricas governamentais inconseqüentes” (p. nos próximos dois ou três anos. seria conveniente. 1990. a partir de 20% de redução tarifária anual. sem dúvida. é bom lembrar que na Europa. Define-se assim uma mudança radical nas condições de concorrência já que se suprime a possibilidade de uma adaptação gradual de cada item ou matéria negociada a suas particularidades. regida por prazos de cumprimento estrito. 10). das relações econômicas preexistentes. esse processo levou mais de quatro décadas. no passado. as dificuldades inerentes ao complicado exercício de harmonizar políticas. sem crise de inflação e dívida externa. Essa atitude representa um esforço inútil de criar fatos novos com o objetivo de manter a credibilidade do programa. Rio de Janeiro. em conseqüência. José Tavares de. Um dilema ainda não resolvido Um processo de integração econômica entre vários países responde. e é idêntica a inúmeras outras que. Dificilmente podem-se atender a essas dificuldades em um ritmo tão peremptório. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL generalizada. 18. a uma decisão de tipo político que imprime determinado conteúdo ao projeto. set. Texto para discussão interna. Esta decisão de acelerar o processo de formação de um mercado comum com o estabelecimento de calendários extremamente apertados é também uma forma de desconhecer as assimetrias entre os países envolvidos e. enquanto há tempo. e estabelecer prazos mais sensatos para a formação do mercado comum”15.

e um esforço deliberado de harmonização das políticas econômicas além do plano cambial. Tendencias e incertidumbres. precisa-se de políticas industriais e tecnológicas ativas em cada país. ao contrário. Seria suficiente. na qual a coordenação das políticas econômicas centra-se basicamente no tipo de câmbio. Daniel y Porta. La trayectoria del processo de integración argentino- brasileño. compatibilizar os regimes de promoção setorial e fixar algum mecanismo de paridade ou equivalência cambial de caráter permanente. neste caso. resultados diferenciados. Uruguay. ou uma abertura irrestrita com condições impostas pelas “forças do mercado”. da condução de seus governos e da participação dos diferentes segmentos da sociedade civil. associada a uma liberalização comercial progressiva. uma abertura rápida e uma desregulação da economia podem conduzir a uma reconversão com um alto custo social e a um aprofundamento do esquema de especialização intersetorial. Centro de Estudios e Investigación de Posgrado (CEIPOS). 1990. incluindo previsões para os diferentes setores e ramos de produção e uma política externa comum. Para isso. Esta concepção assemelha-se à “comercialista” que apontam Chudnosky e Porta. Daí que vários autores falam dos possíveis cenários ou opções que o processo de integração pode enfrentar. Ao contrário. A diferença no grau de intervenção estatal que subjaz a cada uma das opções implica. também. implica uma elevada desregulação das atividades econômicas. A segunda opção. 138 . Pode- se assimilar este caminho ao cenário “industrialista” definido por Chudnosky e Porta16 os quais supõem uma liberalização comercial dentro de um projeto global de reestruturação industrial. permitiria orientar o processo de industrialização em face de um aumento de sua competitividade a partir de economia de escala e especialização. Documento de Trabajo. Universidad de la República. Fernando. A primeira opção exige uma regulação estatal mediante unificação e harmonização das políticas econômicas. Halperín (1991) aponta duas opções para os governos do Cone Sul: uma negociação de abertura maciça para o aproveitamento planificado dos mercados. 16 Chudnovsk. Ao respeito. A partir daí a reestruturação passa a ser orientada estritamente pelos mecanismos do mercado. Uma implementação de políticas industriais e tecnológicas ativas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO políticos internos de cada país.

A partir desse suposto. na qual o Estado aparece subordinado à lógica do mercado. 139 . In: SCARLATO. a rede de provedores e subcontratistas. Segundo Kosakoff. as condições que conformam tal entorno dependem em grande medida da presença ativa do Estado. Conforme observado. que. São Paulo: Hucitec. Cada vez mais na experiência internacional torna-se central a idéia de “competitividade sistêmica” como base sólida para o desenvolvimento econômico. Seminário “Las ventajas competitivas de la nación”. “Mercosul: Novas territorialidades ou ampliação de velhas tendências”. competitividad e inserción externa. isto é. Globalização e espaço latino-americano. devem estar acompanhados. septiembre. o aparato científico- tecnológico. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL Neste sentido. as instituições.] 17 Kosacoff. necessariamente. Monica. esta noção “substitui e. deseja-se destacar que a possibilidade de atingir níveis crescentes de competitividade não depende exclusivamente dos esforços individuais dos agentes econômicos. corresponderia basicamente à via de tipo “industrialista”. pode-se concluir que o enfoque do avanço gradual por setores.)”17. por sua vez. se superpõe aos esforços individuais. Bernardo.). Industrialización. o único que pode facilitar a participação de todos os agentes econômicos no processo. 1994. Francisco Capuano e outros (org. p. Sem dúvida. por inumeráveis aspectos que conformam o entorno das firmas (desde a infra-estrutura física. 122-130. um esquema de intercâmbio no qual só se beneficiam os setores mais concentrados. Pelo contrário. pode-se inferir que em um cenário “comercialista” predominam as velhas tendências. a inflexão produzida a partir de 1990 mostra que o novo esquema parece estar mais próximo da opção “comercialista”. 1991. fundamentalmente das pequenas e médias empresas. o marco jurídico etc. embora sejam condição necessária para atingir esse objetivo. que predominou no primeiro momento do processo de integração entre Argentina e Brasil. Documento de trabajo. [ARROYO. Buenos Aires. o sistema de distribuição e comercialização até os valores culturais. Presidência de la Nación. os que já detêm um importante grau de controle da economia.

tais como a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). consiste em uma rede integrada de telecomunicações baseadas no 140 . a Cuiabá-Porto Velho. prevê a instalação de uma rede integrada de bases militares do Exército e da Marinha acompanhando as fronteiras setentrionais do Brasil com a Colômbia. A abertura de uma rota viária amazônica para o Pacífico através da complementação da BR-364. por exemplo. o Suriname e a Guiana Francesa. da Venezuela e das Guianas. a Venezuela. a Cuiabá-Santarém e a Transamazônica. Envolveram também a construção de grandes eixos viários de integração. por exemplo. constituída em sua maior parte por terras baixas florestadas equatoriais drenadas pelo sistema fluvial comandado pelo Rio Amazonas. devido ao seu imenso potencial energético e mineral e à sua incalculável riqueza biológica. tais como as rodovias Belém-Brasilía. de forma a ligar Rio Branco (no Acre) até Pucallpa (Peru). essas estratégias envolveram a criação de orgãos de planejamento. estendendo-se pelos territórios do Brasil (cerca de 69% da área total). da Bolívia. Trata-se. criada em 1966 para coordenar e supervisionar programas e planos destinados a dinamizar a economia da região e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônica A Amazônia Internacional. Mais recentemente. a Guiana. Além disso. provavelmente. em especial a partir da década de 1960. do Peru. concebido no início da década de 1990. ocupa cerca de 35% da superfície da América do Sul. a Amazônia Internacional vem sendo objeto de diferentes estratégias nacionais de desenvolvimento e integração. as estratégias nacionais parecem apontar no sentido de garantir o controle sobre as permeáveis fronteiras da região. Já o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM). nascida no ano seguinte com o objetivo de estimular o processo de industrialização da cidade de Manaus. que não chegou a se concretizar. é uma área tornada estratégica pela sua importância crescente na rota de produção e distribuição mundial de narcóticos. Submetida a diferentes soberanias. é um projeto tão antigo quanto polêmico. O Projeto Calha Norte.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 4. do Equador. No caso brasileiro. criado em 1985. da maior “fronteira de recursos” do planeta.

Em face da crise das economias e dos Estados nacionais. que processará imagens obtidas por satélites. a geógrafa Berta Becker problematiza a organização territorial da Amazônia. a Amazônia brasileira é alvo de uma imensa pressão ecológica internacional devido ao valor de seu patrimônio genético. minimizar investimentos para o desenvolvimento regional e para assegurar as fronteiras. criar importante 141 . Entre esses esforços. é em parte resultado dessa pressão. e. ocorrida no início da década de 1990. Através dele. por um lado. o governo pretende controlar o tráfego áereo e as atividades ilegais – tais como contrabando de minérios e narcotráfico – na região. emergem esforços no sentido de viabilizar o estabelecimento de políticas de desenvolvimento e de sustentabilidade ambiental para o conjunto da Amazônia Internacional. Texto 1 – Em Busca de um Projeto Pan-Amazônico O equacionamento da problemática amazônica nacional requer igualmente a compreensão e a compatibilização de interesses atuantes no conjunto dos países amazônicos. A aprovação de uma projeto de macrozoneamento econômico e ecológico para a Amazônia Legal. destaca-se o Tratado de Cooperação Amazônico (TCA). Texto Complementar No fragmento de texto abaixo. no texto complementar que encerra essa Unidade. apresenta as problemáticas comuns às localidades fronteiriças e analisa as perspectivas de cooperação entre os países da região. mormente quando a nova ordem mundial se reorganiza em grandes mercados supranacionais. por sensores instalados em aviões e por radares fixos. Ao mesmo tempo. Entretanto. A substância e a viablidade de um pacto Pan-Amazônico são discutidos pela geógrafa Berta Becker. ao lado das estratégias nacionais. a cooperação entre países com herança histórica e condições naturais similares e contigüidade física significa. por outro. assinado por todos os países da região em 1978. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL sensoriamento remoto. A formação de um pacto amazônico seria vantajosa econômica e politicamente.

bem como para a 142 . só recentemente se desencadeou a rápida ocupação das amazônias sul-americanas. Entre 1930 e 1960. Datam da década de 40 as primeiras práticas estatais para a ocupação das respectivas amazônias. manter os privilégios regionais consolidados? Como participar de um pacto supranacional sem a consolidação plena da nação. sem dúvida. Seu valor econômico e estratégico é patente na tese de sua internacionalização. essencial para a formulação do projeto nacional democrático? Uma estratégia para a Amazônia sul-americana há que considerar problemáticas comuns e diversas desses países e as possibilidades que oferecem à cooperação. Elementos comuns e diferenciados na problemática amazônica continental Todos os países amazônicos convergem para uma problemática básica: a virtualidade e a vulnerabilidade históricas da Amazônia sul- americana. Por esse valor econômico e estratégico tornou-se central sob a óptica mundial e nacional. mas condições históricas e naturais garantiram a sua permanência como patrimônio das sociedades sul-americanas. a industrialização por substituição das importações e o forte crescimento demográfico valorizaram as amazônias como fronteiras agrícolas nacionais e os Estados cooptaram o movimento relativamente espontâneo da população em nome da unidade nacional. simultaneamente.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO instrumento de barganha para negociar com os credores. A maior dificuldade para soldar um pacto supranacional reside na ausência de projetos nacionais para a Amazônia capazes de compatibilizar os projetos internacional e regional. Mas há também problemáticas específicas e conflitos a neutralizar: como abrir a economia e. problemas comuns a esses países e que exigem tratamento conjunto. Há. enfrentar as pressões internacionais e definir a forma de inserção dos países sul-americanos na ordem mundial. que surge ciclicamente com diferentes projetos. E a integração continental pode se constituir como projeto nacional para os países amazônicos. mas é geograficamente periférica do ponto de vista nacional. À semelhança do Brasil.

O fortalecimento das elites regionais. estabelecido entre Venezuela e Colômbia (intensificado com os estudos elaborados pela Missão do BID em 1964). Um problema de soberania decorrente de conflitos externos e internos. A partir da década de 60. muito aquém do discurso. os conflitos e o tráfico fronteiriço. instaladas com desconhecimento das condições locais. tanto nacionais como de cooperação intergovernamental. 2. intensificando-se as práticas bilaterais. de terra e sociais. o afluxo migratório foi muito superior ao esperado e não consegue ser absorvido pelos escassos e precários projetos estabelecidos. contudo. Uma lógica comum acompanhada de estratégias semelhantes no tocante ao chamado processo de desenvolvimento regional. as amazônias passam a se valorizar como fronteira de recursos mundial e nacional e fronteira geopolítica nacional. Alguns elementos comuns dessa problemática e das políticas podem ser identificados: 1. 4. território a ser conquistado. Empresas estrangeiras mineradoras e governos autoritários. a Amazônia foi vista como “espaço vazio”. Práticas governamentais inadequadas. inerente ao modelo de ocupação adotado e que acentua a sua 143 . Os projetos foram parte de uma estratégia para desviar o fluxo demográfico das áreas densamente povoadas para as respectivas amazônias. criando tensões com as populações indígenas e escapando ao controle governamental. na geopolítica de caráter militar. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL cooperação fronteiriça. Essa lógica comum encontra sua raiz mais profunda na visão latino-americana que alia desenvolvimento à segurança nacional – isto é. E os programas para seu desenvolvimento. no entanto. Dentre essas práticas destaca-se o Estatuto Fronteiriço de 1942. e principalmente de 1970. e que têm como efeito perverso provocar conflitos ambientais. que passam a dirigir a ocupação segundo a filosofia do desenvolvimento e segurança. que se resumem a projetos de colonização e redes viárias precárias. Em todos os discursos oficiais. se legitimaram através de ações que privilegiaram o capital externo à região com apoio militar. 3. estimulam a migração. que permaneceram. patrocinados diretamente pelos Estados.

devido. Tais diferenças parecem explicar a prática de acordos bilaterais. que. O mercado norte- americano de drogas consome por ano cerca de 150 bilhões de dólares (mais que a dívida externa brasileira). Neste contexto. problemáticas específicas tornam essa cooperação difícil. a soberania é contestada pela ocupação conflitiva e descontrolada numa área de difícil acesso. cumpre assinalar a dificuldade vinculada ao desnível entre o Brasil e os demais países em termos de maior dinamismo econômico e extensão territorial. em alguns países. pelo menos. que é variado mas superior ao brasileiro. mas também pelo narcotráfico. Se tal comunalidade aponta para a necessidade e a possibilidade de cooperação. 3. aos seguintes fatores: 1. constituem um Estado paralelo. Os países da Amazônia sul-americana são bem mais heterogêneos do que aparentam. decorrente da ineficácia da ação governamental. 4. da magnitude dos conflitos e do megapoder dos traficantes de drogas. é contestada não tanto pela imbricação crescente de empresas e organismos internacionais no processo de ocupação – fenômeno hoje de âmbito universal – nem apenas pela pressão ecológica e financeira internacional. 2. e tal poder de compra vem arrastando todos os países amazônicos para a economia de um produto cujo preço rivaliza com o do ouro. O nível cultural e organizacional das populações indígenas. que é concebido como ameaçador pelos demais países. Indicam também que. na perspectiva 144 . extensão que repercute no seu maior ou menor distanciamento em relação aos centros vitais dos respectivos países. No plano externo. de revestimento florestal e de extensão das diversas amazônias. A diversidade de condições geológicas. No plano interno. O grau de ingovernabilidade. O nível de desenvolvimento econômico e social. Essa concepção foi justificada com a política externa agressiva do regime militar brasileiro entre 1964 e 1974. referente ao dinamismo e à diversificação das economias nacionais. adotada na cooperação entre países.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO posição dicotômica central/periférica. à distribuição da renda e à pobreza.

Movimentos migratórios tendem a se aproximar e mesmo ultrapassar os limites políticos de cada país. principalmente guianeses.. a marginalidade e a vida econômica e política oficial. infra-estrutura e serviço médico e oferta de trabalho. de sua crise e de movimentos espontâneos. como decorrência da ação governamental perversa. como novos fatores da organização territorial na Amazônia. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL de uma estratégia comum. A Guiana Francesa é tida como terra prometida para muitos brasileiros que lá vivem.. constituindo embriões de novas territorialidades (. 145 . Possibilidades de cooperação no contexto local: a questão fronteiriça Nas fronteiras políticas dos países amazônicos se materializa parcela importante da teia de relações que se pretende cada vez mais densa na região. A partir da década de 70. as fronteiras vêm experimentando um processo de vivificação desordenada. Comércio legal e ilegal em torno de Boa Vista (RR) Três situações se identificam: a) Bonfim (RR)/Lethem (Guiana). Aí se torna mais transparente o papel das atividades ilegais. O movimento nessa fronteira se caracteriza como uma trilha de comerciantes. a maioria na clandestinidade.). que tende a crescer devido aos investimentos franceses em infra-estrutura e hidreletricidade. a ocupação desordenada e a emergência de economias transfronteiriças. Algumas dessas situações podem ser exemplificadas em localidades fronteiriças. Fluxo de mão-de-obra brasileira para a Guiana Francesa É o que ocorre entre Oiapoque (AP) e Saint Georges. é útil identificar os espaços onde se devem concentrar esforços de cooperação. fruto do desnível socioeconômico entre países vizinhos e do ritmo de sua recuperação. fluindo para um ou outro segundo as oportunidades econômicas que apresentem. Em outras palavras. sobretudo ouro e droga. vários processos conflitivos se superpõem: a ingerência externa e a soberania nacional. devido a um imenso desnível entre as duas cidades em termos de habitação. nas fronteiras políticas.

Esse ponto de fronteira se tornou a preocupação mais urgente do comando militar da Amazônia devido à guerra do narcotráfico na Colômbia e a conseqüente fuga de colombianos e de peruanos para Tabatinga e Vila Bittencourt. e os garimpeiros exercem poder na região. tríade que constitui a grande porta de entrada do narcotráfico no Brasil. agravada pelas restrições que Peru e Colômbia fazem à entrada de produtos brasileiros. A maior parte dos brasileiros da região vive do lado venezuelano. marco fronteiriço. c) Rio Catrimani – divisa entre Roraima (Brasil) e Estado Bolívar (Venezuela). via Manaus. gerou ainda uma queda substancial no comércio local. Essa área Yanomami é a porta de entrada clandestina dos garimpeiros brasileiros em território venezuelano. mais bem aparelhada do que Bonfim. Embora pouco permaneça no Brasil. que participa da rota sudeste. Narcotráfico na fronteira ocidental a) Tabatinga (AM)/Letícia (Colômbia). redistribuindo o produto para o exterior através das rotas norte. A repressão ao tráfico. A localidade de BV-8. o ouro responde em grande parte pelo crescimento de Boa Vista. O movimento aqui é oposto. b) BV-8 (RR)/Santa Elena do Uiaren (Venezuela). pequena vila próxima a Cáceres. via São Paulo e Rio de Janeiro. ou permaneça de forma ilegal. em Boa Vista. revendendo dólares e combustível adquiridos na Venezuela. uns organizados em torno da União dos Sindicatos e Associações de Garimpeiros da Amazônia Legal (Usagal). c) Palmarito (MT)/Bolívia. que contrasta fortemente com a mais bem desenvolvida cidade venezuelana de Santa Elena (ligada por asfalto até Caracas). onde os traficantes operam livremente. b) Brasiléia – Guajará-Mirim – Costa Marques (RO)/Peru e Bolívia. passando por vários núcleos intermediários. é hoje a pequena Vila Pacaraima. que carecem de infra- estrutura e vivem em função de Letícia.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO que compram mercadorias em Boa Vista e revendem em Lethem. muito maior e mais desenvolvida. principalmente no Brasil. sendo muito 146 . e sudeste.

mas o grande problema da área é o fluxo de seringueiros brasileiros para as matas bolivianas. como também para uma nova política de desenvolvimento integrado que reconheça as economias transfronteiriças. fortalecendo a nova tendência. Projeto Pró- Amazônia. cumpre reconhecer uma dupla realidade amazônica que tem sido negligenciada: a) a Amazônia é uma selva urbanizada1. (1992) – Desfazendo mitos: Amazônia uma selva urbanizada. que são as linhas divisórias entre soberanias. b) as novas territorialidades fronteiriças. A situação neste caso é oposta. Bertha K. que lhes imprime uma identidade própria. O lado brasileiro apresenta condições de vida bem superiores em relação ao lado boliviano. que não contemplam o outro lado da fronteira nem a dinâmica fronteiriça. mas também o lugar da sua solução. que no Brasil se estendem por 11 mil quilômetros. aponta para a necessidade não só de vigilância das atividades ilegais e de suporte ao povoamento. Extravasamento da exploração da borracha brasileira É o que caracteriza a área de Plácido de Castro (AC)/Vila Montevideo (Bolívia). centradas em núcleos urbanos. a chamada “fronteira institucional de 1 Cf. Tal permeabilidade das fronteiras amazônicas. configuram-se como os espaços privilegiados para uma ação conjunta. faixas. 147 . O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL mais bem equipados em termos de veículos motorizados e armas do que o exército. Becker. Fronteiras são áreas. é necessário ultrapassar as experiências e iniciativas internas de cada governo. na medida em que a maior parte da população e suas atividades regionais se concentram nos núcleos urbanos. Unesco (mimeo). Para tanto. Em termos de estratégia para a região. comum aos dois lados da linha divisória. com uma realidade socioeconômica e psicológica diferente da do restante de cada território nacional. que são o lugar dos problemas. Fronteiras não devem ser confundidas com limites. onde vivem isolados num regime semi-escravagista nas colônias bolivianas ou em seringais de próprios brasileiros.

mas como área composta por subáreas de cada país. corre-se o risco de que os programas sejam meras tentativas frustradas de afirmação numa conjuntura de crise das economias e dos Estados nacionais. 1996. foram iniciados pelo Brasil em 1987 com a Colômbia. ele constitui um marco genérico de princípios norteadores da cooperação. “Significado geopolítico da Amazônia: elementos para uma estratégia”. A partir dessa iniciativa. Coelho. Caso contrário. onde os limites jurisdicionais dos Estados se interpenetram através de pólos de desenvolvimento fronteiriço2. localizados em pontos nodais.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO integração”. p. através de programas mútuos de cunho social e de escala limitada. através do Plano- Modelo de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas do Eixo Tabatinga-Apaporis (PAT). P. O reconhecimento e a admissão pelas políticas nacionais desse espaço comum não é uma tarefa fácil. e Vila Bittencourt-La Pedrea. São Paulo: Memorial/Editora Unesp. envolvendo a fronteira Tabatinga-Letícia. mas também o desenvolvimento da própria fronteira. ao sul. Planos modelos de desenvolvimento integrado de comunidades vizinhas na fronteira: uma proposta. entendida não mais como linha divisória. coordenar tecnicamente a execução dos planos- modelo a serem constituídos justamente nas áreas de economia transfronteiriça assinadas (decreto publicado no D. Justamente porque seu arcabouço jurídico-institucional flexível permite construções dinâmicas e inovadoras que podem ser nesse momento ativadas. Requer mudança de doutrina geopolítica que privilegie não apenas o fortalecimento dos centros de poder dominantes do país. criou-se o Grupo Técnico Interministerial de Alto Nível para. In: PAVAN. 195-201. através de grandes projetos. Em que pesem as críticas à estrutura institucional do TCA.O.] 2 Cf. [BECKER. sob a responsabilidade do Ministério do Interior. Crodowaldo (coord.P.). praticados assistematicamente por Colômbia. A cooperação fronteiriça na Amazônia. Peru e Equador. Uma estratégia latino- americana para a Amazônia. Berta K. ao norte. 1990. Brasília: Ministério das Relações Exteriores (mimeo). de 14 de dezembro de 1987). 148 . Os Planos de Desenvolvimento Integrado de Comunidades Vizinhas na Fronteira.

Comente essa afirmação. como um problema internacional. apontando os interesses subjacentes a cada argumentação. Comente os argumentos favoráveis a esse projeto. na atualidade. uma mercadoria circule pelo mundo sem sair do lugar. Exemplos de Questões Concurso de 1997 9 “A circulação financeira é marcada por acentuada extraterritorialidade. Tal condição propicia que. O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL 5. apontando seus possíveis desdobramentos na economia brasileira. ligando São Paulo a Buenos Aires.” Concurso de 1998 9 “Analise os mecanismos dos processos de circulação que explicam por que a crise na economia dos chamados ‘Tigres Asiáticos’ tem repercussões internacionais. atualmente. Comente as causas estruturais de tal situação e compare sua manifestação nas três maiores economias do mundo na última década. Identifique as duas possibilidades e discorra sobre os previsíveis efeitos de cada alternativa na organização do espaço meridional-oriental sul-americano.” 9 “A articulação da malha viária brasileira com algum ponto no oceano Pacífico é um projeto antigo que ainda não se pode concretizar.” Concurso de 1999 9 “Existem duas propostas de traçado potencial para o eixo básico que estruturará o sistema de transportes do Mercosul.” 9 “A questão do desemprego aparece.” 149 .

Francisco C. et alli.1995. 1994. Milton et alli. 1994. SCARLATO. Economia. São Paulo: Hucitec. Território: Globalização e Fragmentação. Uma estratégia latino-americana para a Amazônia. Sérgio Abreu e Lima e ARAÚJO. São Paulo: Hucitec/ ANPUR. et alli. Fim de século e Globalização.). SOUZA. 150 . Georges. 1996. p. São Paulo: Alfa Omega. Ernesto Henrique Fraga. Bibliografia Complementar FLORÊNCIO.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 6. 1996. 195-201. Globalização e Espaço Latino-Americano. São Paulo: Hucitec/ANPUR. São Paulo: Memorial/Editora Unesp. SANTOS. PAVAN. Espaço e Globalização. Mercosul hoje. 1996. Bibliografia Bibliografia Básica BENKO. São Paulo: Hucitec/ANPUR. Crodowaldo (coord. Maria Adélia A.

O BRASIL NO CONTEXTO GEOPOLÍTICO MUNDIAL UNIDADE IV A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 151 .

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 152 .

A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL IV. com ênfase nos setores de base. A relação entre qualidade de vida e ambiente urbano é tematizada nos textos que finalizam a Unidade. Nas economias capitalistas. tanto no presente quanto no futuro. no mundo inteiro. Além da poluição atmosférica. questões ligadas ao saneamento básico e à destinação do lixo interferem no cotidiano de um número crescente de brasileiros. traçamos um síntese do quadro físico do país e das principais causas de degradação de seus grandes domínios paisagísticos. ele era sinônimo de rápida industrialização. 1. Nas economias estatizadas. Ainda que coexistam as mais diferentes opiniões sobre as causas e os modos de enfrentamento do problema. envolvendo tanto os Estados quanto parcelas expressivas da sociedade. os problemas ambientais freqüentemente se transformam em questões de saúde pública. O lucro capitalista e o produtivismo socialista excluíram o meio ambiente das preocupações econômicas e políticas. o progresso foi identificado com o lucro empresarial. Nas cidades. já é corrente a noção de que o uso intensivo e predatório dos recursos naturais pode trazer conseqüências dramáticas para a qualidade de vida das populações. com destaque para a idéia de desenvolvimento sustentável. Os textos desta Unidade discutem alguns dos conceitos norteadores do debate ambiental. Para situar a problemática ambiental no Brasil. A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo O conceito de desenvolvimento econômico da civilização industrial valorizou acima de tudo a multiplicação quantitativa da produção e do consumo. o debate ambiental tornou-se tema político prioritário. A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Nas últimas décadas. 153 .

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

Pelo menos em parte, a crescente preocupação com o meio ambiente
é uma manifestação da crise da idéia de progresso que fundou a civilização
industrial. A pressão sobre os ecossistemas frágeis do planeta assim como
o grau e a irreversibilidade das alterações antrópicas no ambiente global
ganharam um estatuto inédito nas últimas décadas e freqüentam um número
cada vez maior de fóruns internacionais de discussão. O avanço dos desertos,
o desmatamento e o conseqüente empobrecimento do patrimônio genético
do planeta, assim como os resultados da emissão dos gases de estufa na
atmosfera, figuram entre os principais temas de debate.

Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente,
realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972, a crise ambiental do planeta foi
associada, fundamentalmente, à explosão demográfica dos países pobres.
Nela, prevaleceu a idéia de que o planeta é um sistema finito de recursos,
submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da
produção econômica. As suas conclusões apontavam o horizonte do colapso
do sistema, caso não se tomassem severas medidas restritivas ao crescimento
demográfico e da produção nos países pobres.

Entretanto, grande parte da crise ambiental contemporânea é
resultante de padrões de produção e consumo adotados por parcela
relativamente pequena da população mundial. A ONU estima que 90% do
consumo individual do mundo seja realizado por apenas 20% da população
do planeta. O caso do consumo energético é particularmente ilustrativo a
esse respeito.

A Revolução Industrial, que inaugurou a era dos grandes impactos
ambientais, foi, em muitos sentidos, uma revolução energética. Nas
sociedades urbano-industriais que então despontavam, a habilidade manual
e a força muscular foram progressivamente substituídas pelos processos
mecânicos. O ferro das máquinas e ferrovias era obtido nos altos-fornos da
siderurgia, que consumiam grandes quantidades de carvão. O vapor obtido
pela queima do carvão movia navios, ferrovias e indústrias.

Em meados do século XIX, a invenção do dínamo e a do alternador
abriram o caminho para a produção de eletricidade. A primeira usina de
eletricidade do mundo surgiu em Londres, em 1881, e a segunda em Nova

154

A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Iorque, no mesmo ano. Ambas forneciam energia para a iluminação. Mais
tarde, a eletricidade iria operar profundas transformações nos processos
produtivos, com a introdução dos motores elétricos, e na vida cotidiana das
sociedades industrializadas, na qual foram incorporados dezenas de
eletrodomésticos.

A difusão dos motores a combustão interna explica a importância
crescente do petróleo na estrutura energética dos países industrializados.
Além de servir de combustível para automóveis, aviões e tratores, ele
também é utilizado como fonte de energia nas usinas termelétricas e, ainda,
é matéria-prima para muitas indústrias químicas. Desde a década de 1970,
registra-se também um aumento significativo na produção e consumo de
energia nuclear nos países desenvolvidos.

Nas sociedades pré-industriais, entretanto, os níveis de consumo
energético pouco se alteraram nos últimos séculos, e as fontes energéticas
tradicionais, com destaque para a lenha, ainda são predominantes. Estima-
se que o consumo de energia comercial per capita no mundo seja de
aproximadamente 1,7 tonelada equivalente de petróleo (TEP) por ano, mas
esse número significa muito pouco: um norte-americano consome anualmente,
em média, 8 TEPs, contra apenas 0,197 consumidas por habitante em
Banglagesh e 0,268 no Haiti. Apenas quatro países – Estados Unidos, Rússia,
Japão e Alemanha – são responsáveis por aproximadamente 40% do
consumo energético mundial, apesar de abrigarem pouco mais de 10% da
população do planeta.

Esse contraste, além de revelar o verdadeiro fosso que separa os
padrões de consumo vigentes entre os países do mundo, está no centro das
discussões acerca dos problemas ambientais do planeta.

Atualmente, os recursos energéticos mais utilizados no mundo são
o carvão, o petróleo e o gás natural, a água e os minerais radioativos: juntos,
eles correspondem a perto de 90% da oferta mundial de energia. A utilização
de qualquer um deles acarreta impactos ambientais. As fontes de energias
limpas e renováveis, tais como a energia solar, a eólica e a geotérmica,
ainda constituem parcelas desprezíveis no balanço energético mundial, em
que pese os grandes investimentos em pesquisa realizados para torná-las
mais eficientes e menos caras.

155

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

De acordo com as recomendações da Conferência de Estocolmo,
enfrentar a crise ambiental implica diminuir a utilização dos principais
recursos energéticos, ou, pelo menos, mantê-la em níveis próximos aos
atuais. Entretanto, os níveis atuais excluem grande parte da humanidade do
consumo de bens e serviços considerados essenciais, que precisam de energia
para serem produzidos e distribuídos.

O conceito de desenvolvimento sustentável, amplamente divulgado
pelo documento “Nosso Futuro Comum”, produzido pela Comissão Mundial
de Meio Ambiente e Desenvolvimento, se contrapõe em muitos sentidos às
concepções predominantes na reunião de Estocolmo. Essa comissão,
presidida pela líder do partido trabalhista norueguês Gro Harlem Brundtland,
foi criada pela ONU em 1983 com a missão de elaborar um amplo
diagnóstico acerca da problemática ambiental em âmbito planetário e de
propor estratégicas de desenvolvimento ecologicamente sustentáveis.

Publicado em 1987, o Relatório Brundtland (como ficaria conhecido)
aborda de maneira integrada as questões ambientais, demográficas e sociais.
De acordo com ele, o uso intensivo de recursos naturais e a manutenção de
padrões de consumo acima das possibilidades ecológicas em certas regiões
do planeta, assim como a disseminação da pobreza em outras, são fatores
de risco para o ambiente global, e precisam ser combatidos em nome de um
futuro mais justo e ambientalmente mais saudável. Nessa perspectiva, o
desenvolvimento sustentável só existe quando se cumprem os requisitos
ambientais para a continuidade histórica dos padrões de produção e consumo
desejados, e quando estes são passíveis de se estender ao conjunto da
humanidade. Portanto, o relatório preconiza a adoção de agendas ambientais
que, ao mesmo tempo, possam elevar os padrões de vida dos países pobres
e garantir as condições ambientais futuras do planeta:

O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às
necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as
gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. Ele
contém dois conceitos-chave:

– o conceito de “necessidades”, sobretudo as necessidades
essenciais dos pobres do mundo, que devem receber a máxima
prioridade;

156

Além dessas necessidades básicas.. Nos países em desenvolvimento.). impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras (. muitos de nós vivemos acima dos meios ecológicos do mundo. habitação. Onde já são atendidas. Padrões de vida que estejam além do mínimo básico só são sustentáveis se os padrões gerais de consumo tiverem por objetivo alcançar o desenvolvimento sustentável a longo prazo. o uso da energia. As satisfações das necessidades essenciais depende em parte de que se consiga o crescimento potencial pleno. Num mundo onde a pobreza e a injustiça são endêmicas. emprego – não estão sendo atendidas. ele é compatível com o crescimento econômico. desde que esse crescimento reflita os princípios amplos da sustentabilidade e da não-exploração dos outros. de um modo razoável. Uma grande atividade produtiva pode coexistir com a pobreza disseminada. Satisfazer as necessidades e as aspirações humanas é o principal objetivo do desenvolvimento. sempre poderão ocorrer crises ecológicas e de outros tipos. tanto aumentando 157 . roupas. Por isso o desenvolvimento sustentável exige que as sociedades atendam às necessidades humanas.. aspirar. como demonstra. por exemplo. Mas o simples crescimento não basta. as pessoas também aspiram legitimamente a uma melhor qualidade de vida. Para que haja um desenvolvimento sustentável é preciso que todos tenham atendidas as suas necessidades básicas e lhes sejam proporcionadas oportunidades de concretizar suas aspirações e uma vida melhor.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao meio ambiente. as necessidades básicas de grande número de pessoas – alimento. e o desenvolvimento sustentável requer a promoção de valores que mantenham os padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecológicas a que todos podem. Mesmo assim. As necessidades são determinadas social e culturalmente. e o desenvolvimento sustentável exige claramente que haja crescimento econômico em regiões onde tais necessidades não estão sendo atendidas. e isto constitui um risco para o meio ambiente.

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

o potencial de produção quanto assegurando a todos as mesmas
oportunidades (...).

Obviamente, o crescimento e o desenvolvimento econômicos
produzem mudanças no ecossistema físico. Nenhum ecossistema,
seja onde for, pode ficar intacto. Uma floresta pode ser desmatada
em uma parte de uma bacia fluvial e ampliada em outro lugar – e
isso pode não ser mau, se a exploração tiver sido planejada e se se
levarem em conta os níveis de erosão do solo, os regimes hídricos e
as perdas genéticas. Em geral, não é preciso esgotar os recursos
renováveis, como florestas e peixes, desde que sejam usados dentro
dos limites de regeneração e crescimento natural. Mas a maioria
dos recursos renováveis é parte de um ecossistema complexo e
interligado, e, uma vez levados em conta os efeitos da exploração
sobre todo o sistema, é preciso definir a produtividade máxima
sustentável.

No tocante a recursos não-renováveis, como minerais e
combustíveis fósseis, o uso reduz a quantidade de que disporão as
futuras gerações. Isso não quer dizer que esses recursos não devam
ser usados. Mas os níveis de uso devem levar em conta a
disponibilidade do recurso, de tecnologias que minimizem seu
esgotamento, e a probabilidade de se obterem substitutos para ele.
Portanto a terra não deve ser deteriorada além de um limite razoável
de recuperação. No caso dos minerais e dos combustíveis fósseis, é
preciso dosar o índice de esgotamento e a ênfase na reciclagem e
no uso econômico, para garantir que o recurso não se esgote antes
de haver bons substitutos para ele. O desenvolvimento sustentável
exige que o índice de destruição dos recursos não-renováveis
mantenha o máximo de opções futuras possíveis.

O desenvolvimento tende a simplificar os ecossistemas e a
reduzir a diversidade das espécies que neles vivem. E as espécies,
uma vez extintas, não se renovam. A extinção de espécies vegetais e
animais pode limitar muito as opções das gerações futuras; por
isso o desenvolvimento sustentável requer a conservação das
espécies vegetais e animais.

158

A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Os chamados bens livres, como o ar e a água, são também
recursos. As matérias-primas e a energia usadas nos processos de
produção só em parte se convertem em produtos úteis. O resto se
transforma em rejeitos. Para haver um desenvolvimento sustentável
é preciso minimizar os impactos adversos sobre a qualidade do ar,
da água e de outros elementos naturais, a fim de manter a
integridade global do ecossistema.

Em essência, o desenvolvimento sustentável, é um processo
de transformação no qual a exploração de recursos, a direção dos
investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a
mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial
presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações
humanas. [COMISSÃO Mundial de Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro: FGV, 1991,
p. 46-49.]

O conceito de desenvolvimento sustentável foi um dos fios
condutores dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, e é
um dos pilares da Agenda XXI, um vasto programa de ações de curto, médio
e longo prazos aprovado pela Conferência no sentido de garantir a
sustentabilidade ambiental dos novos investimentos produtivos e recuperar
áreas já degradadas pelo uso predatório dos recursos naturais.

Texto Complementar

No ensaio parcialmente reproduzido abaixo, o geógrafo francês Paul
Claval apresenta e problematiza o conceito de desenvolvimento sustentável,
enfatizando suas repercussões no contexto brasileiro.

Texto 1 – A Geopolítica do Desenvolvimento Sustentável

A geopolítica do desenvolvimento sustentável envolve ampla gama
de tópicos, que no caso brasileiro são fascinantes e provocantes. Neste texto,
discutem-se questões referentes a alguns destes tópicos.

159

MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO

A experiência brasileira e o desenvolvimento sustentável

A experiência brasileira é particularmente interessante, já que
mostrou como a concepção de desenvolvimento sustentável foi forjada na
Conferência do Rio de Janeiro em 1992, e como foi interpretada no Brasil
e nos demais países da América Latina. A Conferência de Estocolmo, em
1972, havia privilegiado os aspectos biológicos e ecológicos; já no Rio de
Janeiro, ainda que o interesse na ecologia tenha sido grande, para os
participantes sul-americanos foi igualmente importante a necessidade
de pensar o desenvolvimento. Ao falar em desenvolvimento sustentável,
os participantes da América do Sul deram um peso igual aos imperativos
ecológicos (“sustentabilidade”) e aos econômicos e humanos
(“desenvolvimento”).

No Brasil, o desenvolvimento sustentável geralmente vem sendo
abordado com ênfase em pequenas comunidades. Uma geração atrás, tais
grupos ainda possuíam todas as características das sociedades tradicionais.
Com um melhor sistema de comunicações, porém, descobriram as
possibilidades de uma vida melhor, e o desenvolvimento se tornou uma
aspiração fundamental; tais comunidades passaram a considerar-se com
direito à educação, serviços de saúde etc. A modernização da sociedade,
numa era da comunicação de massa, é considerada uma necessidade e um
direito, mesmo pelos mais baixos e remotos componentes da sociedade
global. Até os grupos indígenas aspiram ao desenvolvimento. A população
local deseja ser reconhecida como agente responsável e dinâmico da
sociedade global, sem mudar suas identidades.

Nesse contexto, o problema do desenvolvimento é ao mesmo tempo
sociocultural e ecológico. É importante impedir que ambientes frágeis sejam
explorados brutalmente, como geralmente o fazem grandes empresas, e
permitir às pequenas comunidades a elevação de seus padrões de vida sem
romper o equilíbrio local. Ressalta a diversidade dos grupos, associações e
organizações governamentais e não-governamentais envolvidas no processo
de desenvolvimento sustentável brasileiro.

O sistema de propriedade da terra no Brasil faz com que o
desenvolvimento seja visto como uma questão de acesso das pequenas

160

A sociedade civil se organizou e a política de brutal exploração dos recursos naturais. Alguns consideraram essa iniciativa muito positiva. sempre que estas permitam o acesso a padrões mais eficazes para o crescimento e o reforço das comunidades locais. mas. do Estado brasileiro e das Organizações Não-Governamentais (ONGs). dominante até quinze anos atrás. Uma nova logística do desenvolvimento está sendo experimentada. Atualmente esta é. 161 . hoje em dia. A política de abertura da floresta tropical aplicada durante os anos sessenta e setenta teve conseqüências catastróficas sob os aspectos social e ecológico. numa perspectiva de longo prazo. Outros permaneceram céticos a respeito. Seu propósito é respeitar a biodiversidade e aproveitar as novas tecnologias. Essa mudança foi possível. a terra aparece como uma variável estratégica. um elemento de status social. foi substituída por ações que restringiram o desgaste do solo e favoreceram as pequenas comunidades de índios e seringueiros. Semelhante evolução certamente facilitará. permitindo a proteção das áreas mais frágeis em termos de desenvolvimento e/ou vida social. A nova política para a Amazônia conta com um instrumento privilegiado. simultaneamente. a definição de zonas de proteção.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL comunidades à terra. Os riscos inerentes ao desenvolvimento são avaliados para cada área homogênea. em parte graças ao conflito/ cooperação de instituições internacionais. considerando que a eficiência das zonas de proteção será duvidosa caso seu papel continue sendo somente indicativo. A Amazônia é uma espécie de laboratório para as pessoas que desejam entender as possibilidades de desenvolvimento sustentável no futuro. o cumprimento dos objetivos conservacionistas encapsulados no desenvolvimento sustentável. expressa ao nível da política internacional. Já nos anos noventa verificou-se uma rápida mudança de enfoque. A formulação geral do problema do desenvolvimento sustentável A idéia do crescimento sustentável resultou do desenvolvimento de uma nova consciência ecológica. explica a intensa luta pela terra na fronteira e a atmosfera ardente na qual ocorre o desenvolvimento. um bem de consumo e um fator de produção. Mesmo se as condições econômicas que justificam essas atitudes pertencem ao passado.

em 1972. Esteve também ligada à compreensão do fato de que os países do Sul desejavam desenvolver- se. é possível antever novas formas de retroalimentação. transformou-se na questão prioritária. da maior importância. mas não a qualquer preço. e ao conseqüente declínio das instituições provedoras de serviços de bem-estar social ligadas a tais ideologias. A definição de Roberto Guimarães sobre desenvolvimento sustentável. Daí a necessidade de descobrir novos instrumentos capazes de promover esse nova forma de crescimento. portanto. O problema da reciclagem. mas tomou novas formas com o advento de tecnologias modernas. na Conferência de Estocolmo. Assim. nos níveis global e local. Com o fim da Guerra Fria. neste livro. As telecomunicações permitem a difusão maior e mais rápida de 162 . mas. O desenvolvimento sustentável recebeu o apoio da opinião pública no bojo da crise das filosofias da história ocidentais. o que explica a realização da Conferência em 1992 no Rio de Janeiro. Como resultado. também se tornou mais fácil graças às novas tecnologias de informação e comunicação. capazes de impulsionar processos auto-reguladores e de desenvolver sistemas de produção que usem menos matérias-primas e energia. O papel do Brasil no desenvolvimento da idéia do crescimento sustentável foi. é simples: o desenvolvimento é sustentável enquanto a produção não excede as taxas normais de produção dos recursos renováveis e de substituição dos recursos não-renováveis. baseadas no uso generalizado de formas concentradas de energia. O problema da sustentabilidade é tão velho quanto a humanidade. as relações Norte- Sul ganharam mais importância. o problema do desenvolvimento sustentável deixou de ser somente um problema de oferta de recursos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO pela primeira vez. A solução do problema do desenvolvimento sustentável ficou mais difícil do que no passado por causa do aumento do consumo de energia. para alguns. sendo difícil entender o que os países do Sul esperam do crescimento sustentável sem referência a este país. estando cada vez mais ligado à capacidade de reciclagem dos ambientes onde a população e as atividades se concentram. conseqüentemente. Essa característica gerou a diminuição dos custos de transporte e o aumento da urbanização.

A abrangência de um ecossistema é definida pelas necessidades do observador. para a definição dos quais considera-se aspectos do relevo e dos climas. Os principais agentes da morfologia do relevo. também chamados de agentes do modelado. p. costuma-se denominar ecossistemas grandes domínios paisagísticos. sobre uma base geológica muito antiga.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL informações a respeito das áreas problemáticas. Rio de Janeiro: Ed. que atuam tanto entre o meio físico e os organismos vivos como no interior da comunidade biótica. Isso explica a baixa altimetria que o caracteriza e o predomínio de um modelado de formas suaves e arredondadas. 457-461. favorecendo uma consciência mais clara da sustentabilidade. materiais e organismos – e de saída – para onde fluem materiais processados. Bertha K. e também organismos e energia. são os rios. Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação Ecossistema é um termo originário da ecologia. No caso brasileiro. “A Geopolítica e o Desenvolvimento Sustentável”. In: BECKER. e da lenta configuração das bacias sedimentares. O relevo brasileiro O relevo brasileiro é resultado da ação da erosão e do intemperismo. pois estão conectados a ambientes de entrada – fonte de energia. A geografia política do desenvolvimento sustentável. 1997.] 2. 163 . que desgasta e aplaina os escudos cristalinos. Mariana. Uma lagoa pode ser tratada como ecossistema. UFRJ. e MIRANDA. especialmente no Sul. Paul. as chuvas e as temperaturas. pois alterações pequenas nos outros elementos provocam mudanças bruscas na cobertura vegetal. As formações vegetais são o elemento-síntese dos domínios. assim como uma vasta floresta. através dos processos de acumulação. [CLAVAL. que se refere à idéia de que os sistemas naturais são comandados por fluxos de matéria e energia. Os ecossistemas são sistemas abertos.

alia-se às temperaturas médias elevadas características da maior parte do território na formação de três unidades de relevo: os planaltos. como o Pico da Neblina. Os mares de morros. Trombetas e Jari. abrigam-se importantes rios. A elevada umidade do ar. Os planaltos brasileiros situam-se tanto em áreas cristalinas do Escudo Brasileiro (por exemplo: os Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste) ou do Escudo das Guianas (os Planaltos Residuais Norte-Amazônicos) como em áreas sedimentares das bacias do Paraná e do Meio-Norte.014 metros e o Pico 31 de Março. O Brasil do Sudeste também exibe cadeias de morros como as serras do Espinhaço (que abriga as grandes jazidas minerais do Quadrilátero Ferrífero) e da Mantiqueira. 164 . como o Jequitinhonha. com 3. Trata-se da linha de serras dos Planaltos Residuais Norte- Amazônicos. constituída por cadeias de morros pontiagudos (cristas). junto às fronteiras com as Guianas e a Venezuela. o Doce e o Paraíba do Sul.992 metros. as depressões e as planícies. e o trabalho de erosão das chuvas modelaram paisagens características. dirigindo-se para o sul. encontram-se alguns dos pontos mais elevados do Brasil. são formados por elevações suavemente arredondadas que se sucedem ininterruptamente até o horizonte. Os planaltos resultam da ação destrutiva dos agentes do modelado: são áreas onde o processo de erosão predomina sobre o processo de deposição de sedimentos. como os rios Negro e Branco. Nos vales encaixados entre as linhas de serras. os planaltos apresentam superfícies irregulares. cujos cursos seguem a declividade natural do relevo. com 2. os planaltos situam-se em cotas altimétricas superiores a 300 metros. Essas áreas abrigam as nascentes de inúmeros afluentes e subafluentes da margem esquerda do Rio Amazonas. típicos da Serra da Mantiqueira. chapadas e morros. formadas por serras. Ao norte das depressões amazônicas. Ao contrário do que sugere o nome.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO No Brasil. na qual predomina o regime tropical (chuvas abundantes no verão). a presença de uma rede hidrográfica muito rica. Por definição. acentuando o intemperismo.

apenas interrompida pelas chapadas e chapadões. aparecem os morros em meia laranja. A elevação mais importante é a do Espigão Mestre. Brasília foi erguida sobre uma dessas elevações. como também no dos Parecis. onde ocorreram derrames vulcânicos datados da Era Mesozóica. As escarpas aparecem na transição entre áreas rebaixadas e planaltos. A decomposição do basalto deu origem à famosa terra roxa. Rios como o Tapajós e o Guaporé têm as suas nascentes na Chapada dos Parecis e dirigem-se para o norte. rumo à calha amazônica. as paisagens apresentam-se completamente diferentes. elevadas e aplainadas. As chapadas separam vales de rios perenes – como o próprio Parnaíba. entre a Bahia e os estados de Tocantins e Goiás. O Rio Paraguai tem suas nascentes na Chapada dos Parecis. formando o eixo fluvial do Pantanal Mato-grossense. as escarpas têm denominações tecnicamente inadequadas. o Mearim e o Pindaré – ou rios temporários. são delimitadas por taludes abruptos e funcionam como divisores de águas.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Nessa área. a quase 1200 metros de altitude. Os Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná exibem terrenos sedimentares areníticos. o solo de maior fertilidade natural do país. antes de rumar para o sul e receber as águas de dezenas de afluentes. que separa os afluentes do Rio São Francisco dos afluentes do Rio Tocantins. As altitudes médias situam-se entre 200 e 500 metros. como é o caso da Serra do Mar. Freqüentemente. No Centro-Oeste. A chapada funciona como divisor entre as águas da Bacia do Paraguai e as da Bacia do Amazonas. Tais formações. típicos do sertão do Piauí. No Nordeste ocidental. no Centro-Oeste. que atestam o longo processo de desgaste próprio dos climas tropicais úmidos. configurando uma paisagem extensivamente aplainada. funcionando como imensos “degraus” que demarcam altimetrias muito diferentes. Nesses planaltos. os planaltos e chapadas da Bacia do Parnaíba exibem terrenos sedimentares e altitudes geralmente modestas. 165 . tais planaltos comportam-se como divisores entre bacias hidrográficas. que separa a baixada litorânea dos planaltos no Sudeste e Sul do país.

Paraíba e Rio Grande do Norte. As depressões brasileiras situam-se em cotas altimétricas entre os 100 e os 500 metros. na curta estação chuvosa. O Tocantins e o Araguaia se dirigem para o norte.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO As depressões também exibem predomínio de processos erosivos. Nesse trajeto. em direção à calha do Rio Paraná. a erosão diferencial originou uma linha de cuestas. no contato com os terrenos sedimentares. as depressões desenham um imenso S que se prolonga de São Paulo ao Rio Grande do Sul. cujas nascentes situam-se no Centro-Oeste. apresentam uma vertente de declínio suave. A face leste recebe os ventos úmidos do litoral que. Na sua porção setentrional. A face oeste da Borborema. provocam chuvas freqüentes e propiciam condições ideais para o cultivo de frutas tropicais. Nessa área. esse foi um importante caminho de interiorização seguido pelos vaqueiros e criadores nordestinos. separando os terrenos cristalinos do oriente dos derrames vulcânicos da Bacia do Paraná. acompanhando o curso do Rio São Francisco através de Minas Gerais e da Bahia. na sua porção meridional. conhecidas localmente como serras. Pernambuco. No Sul e Sudeste. dominada pelo clima semi-árido. em contato com o ar mais frio da escarpa. No passado. 166 . e outra de inclinação abrupta. as cuestas formam paisagens características. A Depressão Sertaneja e do São Francisco configura. As cuestas. está sujeita a longas secas. acompanhando os degraus do relevo e originando quedas d’água. a depressão abriga inúmeros rios temporários que. um longo corredor encaixado entre áreas planálticas. assinalando a transição para o litoral úmido. o Araguaia forma a Ilha do Bananal. voltada para o interior. a maior ilha fluvial do país. percorrem o sertão de Ceará. Na zona de contato entre os terrenos vulcânicos da Bacia do Paraná e os terrenos sedimentares (menos resistentes) das depressões. No Estado de São Paulo. A longa duração desses processos gerou superfícies suavemente inclinadas e bastante aplainadas. o grande Planalto da Borborema interrompe a depressão. São depressões tipicamente caracterizadas os altos e médios vales dos rios Tocantins e Araguaia.

ao contrário dos planaltos e depressões. o Rio Paraguai e os seus afluentes – como. foi desfeita pelo levantamento aerofotogramétrico da região. encaixados entre os planaltos residuais norte e sul-amazônicos. sabe-se que a verdadeira planície restringe-se a uma estreita faixa que acompanha o vale do Rio Amazonas e o baixo curso de alguns dos seus afluentes. na denominação regional. denominada Chaco. terra firme). funcionando como bacia de captação de cursos fluviais provenientes das áreas circundantes. vastas áreas da Amazônia eram consideradas uma imensa planície. no verão. A Planície e Pantanal Mato-grossense. O eixo dessa bacia de captação é formado pelo Rio Paraguai. A acumulação de sedimentos realiza-se pela ação das águas dos rios. O Chaco abrange terras brasileiras.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL As planícies. que estão. constitui parte de uma vasta depressão relativa encaixada entre a Cordilheira dos Andes e os planaltos do Escudo Brasileiro. argentinas e bolivianas. As Planícies e Tabuleiros Litorâneos estendem-se do Maranhão ao Rio Grande do Sul. as planícies litorâneas tornam-se mais estreitas. por sua vez. são áreas onde o processo de sedimentação se sobrepõe ao processo de erosão. Essa crença. cristalinos e mais elevados. Há algumas décadas. por outro lado. Atualmente. chegando quase a desaparecer em trechos da costa Sul e Sudeste. Assentada sobre terrenos sedimentares da Era Quaternária. As planícies situam-se em cotas altimétricas inferiores a 100 metros. paraguaias. fundada na ignorância das altimetrias escondidas sob a floresta equatorial e dos processos geomorfológicos atuantes na área. Nas depressões e planaltos sedimentares circundantes (chamados. em terras brasileiras. do mar ou de lagos. predominam os processos de deposição. 167 . a sedimentação é terciária e predominam os processos erosivos. Na planície verdadeira – o vale inundável dos grandes rios – onde ocorre intenso trabalho de sedimentação quaternária. De norte para sul. Durante a época das chuvas. o Cuiabá. o Negro e o Miranda – inundam grande parte das terras deprimidas e as transformam em uma enorme área de deposição de sedimentos. Essa planície é rodeada por depressões e planaltos sedimentares. o Taquari. é a mais típica planície brasileira.

que atua principalmente no Brasil meridional. mas penetra até a Amazônia no inverno. Os grandes tipos climáticos A dinâmica das massas de ar é responsável pela sucessão habitual dos tipos de tempo que caracterizam o clima. as planícies. predominantemente. as planícies litorâneas exibem uma grande variedade de paisagens. por planaltos e depressões. No Sudeste. também quente e úmida. quente e úmida. O relevo brasileiro é constituído. sobre a qual se forma a massa Equatorial continental (mEc).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Tanto no Nordeste como no Sul. descortinam as restingas e lagunas do Rio de Janeiro e as praias e baixadas de São Paulo. como os cordões arenosos e dunas do Ceará e as lagoas e brejos de Alagoas. quente e úmida. quando constituídos por rochas cristalinas. apenas duas regiões funcionam como fontes de massa de ar: a Amazônia ocidental. ocasionando o fenômeno conhecido localmente como “friagem”. Tais declives são chamados falésias. ou barreiras. responsável pela maior parte dos fenômenos climáticos. As planícies ocupam uma porção relativamente pequena do território. que influencia diretamente o clima da costa oriental brasileira e a massa Polar atlântica (mPa). é. quente e seca. onde se alargam. a massa Tropical atlântica (mTa). fria e úmida. As outras massas de ar que atuam no continente são marítimas. Na América do Sul. e a Planície do Chaco. No trecho nordestino. que atua principalmente no Meio-Norte e no litoral amazônico. com topo bastante aplainado e acentuados declives na face voltada para o mar. quando constituídos por rochas sedimentares. as planícies são interrompidas por tabuleiros: superfícies de baixa altitude. Isto significa que os processos erosivos predominam sobre os processos de sedimentação na maior parte do território. freqüentemente interrompidas pelas majestosas escarpas da Serra do Mar. centro de origem da massa Tropical continental (mTc). Três delas são importantes para os climas brasileiros: a massa Equatorial atlântica (mEa). portanto. 168 . correspondendo aos vales de importantes rios e à maior parte da extensa faixa costeira.

Ceará e Piauí. por parte dos territórios da Bahia. Revista Ciência Hoje. 6. Essa área funciona como um centro dispersor de massas de ar. criada no início do século XX pelos técnicos da antiga Inspetoria Nacional de Obras contra as Secas. apresentando menores médias pluviométricas que as vigentes no resto do país. A pluviosidade média anual situa-se em torno dos 1. o semi-árido brasileiro. O Clima Litorâneo Úmido. maio de 1992. pg.500 milímetros. e as médias anuais de precipitação giram em torno de 2. com duração de cinco a oito meses. de forma que os índices que buscam medir médias de precipitações guardam uma alta dose de irrealidade. de Pernambuco. 1 Essa expressão. As chuvas não ultrapassam a barreira dos 750 milímetros ao ano e apresentam-se irregularmente distribuídas. e pela totalidade dos estados do Rio Grande do Norte. O Clima Equatorial Úmido. que domina boa parte do Centro-Oeste e do Meio- Norte brasileiros. De acordo com o geógrafo Aziz Ab’Saber. caracteriza-se por apresentar invernos secos e verões chuvosos. que caracteriza o litoral das regiões Sudeste e Nordeste do país. O Clima Tropical. com quatro a sete meses de precipitações pluviais. quente e chuvoso. 169 . domina a Região Norte do país e é resultado da atuação da massa Equatorial continental durante todo o ano. A pluviosidade média anual varia entre 1. de Sergipe.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Com base na dinâmica das massas de ar. de Alagoas. pode-se individualizar cinco tipos climáticos no Brasil.000 milímetros. designa uma ampla área na qual o balanço da evapotranspiração é negativo durante a maior parte do ano.500 milímetros e 2. onde se localiza o famoso Polígono das Secas1. e verão chuvoso. 2 Ver Os Sertões: a originalidade da terra. e que se estende pelo norte de Minas Gerais. também apresenta elevadas médias térmicas e pluviométricas. dominado principalmente pela atuação da massa Tropical atlântica. irregulares no tempo e no espaço. As chuvas são resultado da convecção (ascensão vertical e conseqüente condensação) da umidade. especial ECO-Brasil. se caracteriza por “Invernos secos e quase sem chuvas.000 milímetros. servindo como mera referência genérica para efeito de comparação com as regiões úmidas e subúmidas do país”2. O Clima Tropical Semi-Árido abrange a área do Sertão nordestino.

ou. os rios que drenam a região demoram a vazar. ainda. inundando grande parte da planície e trazendo um grande fluxo de nutrientes. Apresenta as maiores amplitudes térmicas entre os climas brasileiros: os verões são quentes e os invernos são frios. Ele funciona como enorme delta interno: devido à pouca declividade do terreno. mesclando características de todos os domínios macroecológicos brasileiros. principalmente no inverno. o Domínio dos Mares de Morros Florestados e o Domínio das Araucárias) abrangem áreas originariamente florestadas e os restantes (Domínios dos Cerrados. mas está sujeito à penetração da massa Polar atlântica. responsável pela grande densidade e diversidade da fauna da região.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O Clima Subtropical Úmido é dominado pela massa Tropical atlântica. são de baixa fertilidade natural. adaptando-se às condições ambientais da região. por exemplo. A média pluviométrica anual é elevada (cerca de 1. 170 . áreas onde a instabilidade das condições ecológicas deu origem a uma interação entre os elementos naturais que nada têm a ver com as características dos domínios circundantes.500 milímetros). da Caatinga e das Pradarias) correspondem a áreas com predomínio de espécies vegetais herbáceas e arbustivas. A vegetação pantaneira é extremamente heterogênea. que constituem unidades paisagísticas nas quais se mesclam características dos domínios vizinhos. Grandes propriedades de pecuária extensiva ocupam as terras baixas alagadiças do Pantanal. uma grande faixa de transição conhecida como Mata dos Cocais separa o Domínio Amazônico do Domínio da Caatinga. não existindo uma estação seca. No Meio-Norte do território brasileiro. alagadiços. existem vastas extensões territoriais não incluídas em nenhum dos domínios. São as faixas de transição. Os solos. O Pantanal Mato-grossense é um outro bom exemplo de região de transição. Entretanto. Os domínios paisagísticos Seis grandes domínios macroecológicos foram identificados no Brasil: três deles (o Domínio Amazônico.

Além disso. A vegetação de terrenos inundáveis (matas de várzea e igapós) ocupa aproximadamente 10% do ecossistema florestal. porém. a retirada da cobertura vegetal se associa a um processo crescente de assoreamento do leito fluvial. é uma floresta latifoliada marcadamente heterogênea. de baixa fertilidade. frutos e flores que caem anualmente sobre o solo se transformam em material orgânico e mineral consumido pela vegetação. apresentam solos ricos em nutrientes. a vegetação de terra firme (a chamada hiléia) se espalha em cerca de 80% da área. A reciclagem dos nutrientes orgânicos e minerais necessários à manutenção dos ecossistemas regionais não é feita pelos solos. mas pela própria floresta. por exemplo. As toneladas de folhas. o Domínio Amazônico apresenta múltiplos enclaves de campos e cerrados. inundadas pelo Rio Amazonas. porém. compondo uma das maiores reservas biológicas do planeta. 171 . a floresta protege os solos. que prevalece na paisagem desse domínio. Mais de 70% do Domínio Amazônico são constituídos por solos ácidos e intemperizados. Apenas algumas planícies aluviais. – O Domínio Amazônico A Floresta Amazônica. Isto é: a vegetação nutre-se dela mesma. Esse contraste revela a fragilidade do ecossistema amazônico. Além disso. impedindo que os poucos nutrientes sejam carreados pelas águas da chuva. contrastam com a pobreza de grande parte dos solos da região.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A caça predatória e ilegal. o desmatamento das margens dos principais rios que atravessam o Pantanal e o extrativismo mineral figuram como grandes geradores de impcatos ambientais na região. Estima-se que o ecossistema florestal abrigue aproximadamente 80 mil espécies vegetais e 30 milhões de animais. Além da caça. ampliando a área de inundação do rio e ameaçando a fauna silvestre. No Rio Taquari. A riqueza e a exuberância do ecossistema florestal. representa uma grande ameaça à fauna pantaneira.

do café nas serras do Sudeste foram os grandes responsáveis pelo início da devastação da mata original. Originalmente. seringueiros – representava uma adaptação especial a esse ecossistema frágil. Além dos “Mares de Morros”. O desmatamento está trazendo danos irreparáveis ao ecossistema florestal. Hoje. que utiliza a coivara. o desmatamento atinge algo entre 8% e 20% da Amazônia. Depois de abandonadas. Trata- se de uma formação florestal densa e heterogênea. a batata-doce e o inhame – em sistema de roça itinerante. compõem a morfologia da região as escarpas planálticas que separam o planalto cristalino da planície costeira. verdadeiras ilhas florestais em alguns trechos montanhosos das escarpas planálticas. produziu um relevo típico de morros arredondados. Segundo cálculos aproximados. empobrecendo ainda mais os solos descobertos. As madeireiras abrem brechas enormes na vegetação. A vegetação original não se regenera e a erosão pluvial age destruidoramente. a floresta tropical úmida conhecida como Mata Atlântica recobria cerca de 95% do Domínio dos “Mares de Morros”. em forma de “meias-laranjas”. espaços de pastagens homogêneas substituem a mata. – O Domínio dos “Mares de Morros” Florestados Este domínio macroecológico caracteriza-se pela morfologia e pela cobertura vegetal. Não existem dados precisos sobre o tamanho e a velocidade do desmatamento na Amazônia.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A agricultura tradicional dos povos da floresta – índios. caboclos. Mato Grosso (23%) e Maranhão (19%). 172 . A introdução do cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste e. as clareiras conhecem uma recolonização biológica pela mata. Mas a ocupação empresarial da Amazônia provoca interferências profundas e permanentes no meio natural. o milho. restam menos de 4% da cobertura vegetal primária. A ação dos agentes do modelado sobre a estrutura geológica. culturas agrícolas de mercado se espalham extensivamente sobre as velhas áreas florestadas. Os estados mais afetados foram os do Pará (34%). mais tarde. A baixa densidade demográfica possibilitou o desenvolvimento de cultivos de subsistência – como a mandioca. predominantemente cristalina.

videiras e árvores frutíferas. com a expansão da agricultura. No início do século XX. a área encontra-se exposta a desmoronamentos e transporte de material. As características climáticas são. retirando seus nutrientes. Em 1950. responsáveis pela baixa fertilidade dos solos desse domínio. móveis e artefatos domésticos. – O Domínio dos Planaltos de Araucárias O Domínio das Araucárias ocupa os planaltos sedimentares- basálticos da porção oriental da Bacia do Rio Paraná. – O Domínio dos Cerrados O Domínio dos Cerrados abrange as chapadas e chapadões do Brasil Central. Nas primeiras décadas do século. o que provoca acúmulo do ferro e do alumínio responsáveis pela toxidez e acidez dos solos. mais de 80% do território dos estados de Santa Catarina e Paraná ainda estavam recobertos pela vegetação nativa. em parte. Atualmente. a seca prolongada tem como conseqüência altas taxas de evaporação. as chuvas abundantes “lavam” o solo. no inverno.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A devastação da Mata Atlântica tem agravado os processos erosivos que atingem a região. nos quais a altitude média varia entre 850 metros e 1. No verão. A devastação da Mata das Araucárias se iniciou com a colonização alemã e italiana. Originalmente. de verões chuvosos e invernos secos. Sujeita a chuvas intensas.300 metros. concentradas nos meses do verão. os colonos utilizavam a madeira para a construção de casas. mais de metade da vegetação original já estava devastada. especialmente nas escarpas mais íngremes. Também desmatavam pequenos trechos para a prática da policultura de alimentos. 173 . extensas áreas florestais foram queimadas e se transformaram em áreas de cultivo de milho. esse domínio era revestido por uma floresta subtropical conhecida como Mata das Araucárias e por manchas de vegetação herbácea e arbustiva. restam apenas algumas manchas dos bosques de araucária originais. Mais tarde. Trata-se de uma região tropical. trigo.

ao contrário. quando essas são reincidentes. O ecossistema florestal. 174 . o arbóreo-arbustivo. Assim. e o herbáceo- subarbustivo. As pesquisas indicam que incêndios anuais podem tornar os solos ainda mais pobres. o impacto positivo das queimadas sobre o ecossistema dos cerrados parece depender da freqüência com que são realizadas. o que resulta em solos pouco profundos intercalados por terrenos pedregosos e afloramentos rochosos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO O Cerrado. cerca de 400 quilos por hectare em um campo cerrado. quando desmatado através de queimadas. vegetação dominante. – O Domínio da Caatinga O Domínio da Caatinga apresenta relevo em forma de colinas com vertentes suaves. muitas espécies conseguem rebrotar poucos dias após a passagem do fogo. Durante o incêndio. funcionam como uma preciosa fonte de nutrientes minerais. Entretanto. podem se transformar em campos limpos. de campos sujos (gramíneas e arbustos). o fogo ajuda na reciclagem de nutrientes. A combinação desses estratos produz uma cobertura vegetal em forma de um grande mosaico. As cinzas resultantes. a camada superficial dos solos do Cerrado funciona como um isolante térmico. nas quais o estrato herbáceo-arbustivo é muito pobre e rarefeito). Nas áreas recobertas por campos limpos. constituído por trechos de campos limpos (predominância de gramíneas). formado pelas gramíneas e outras ervas. não se regenera. A semi-aridez é responsável pela pouca decomposição química das rochas. de caráter lenhoso. abriga espécies que sobrevivem após as queimadas. as colinas sertanejas. é composto principalmente por dois estratos. radicalmente distinto das florestas tropicais úmidas. O Cerrado. campos sujos e campos cerrados. Já os cerradões são menos adaptados às queimadas. O Cerrado compõe um ecossistema bastante peculiar. de campos cerrados (predominância de arbustos. absorvidos principalmente pelas plantas do estrato herbáceo-subarbustivo. com espécies de 3 a 5 metros) e cerradões (florestas cujas copas se tocam e criam sombra. e. protegendo o sistema subterrâneo das plantas.

O excesso de calor e a predominância de solos pouco profundos. – O Domínio das Pradarias Esse domínio paisagístico abrange a região conhecida como Campanha Gaúcha. a vegetação se torna mais densa e diversificada. forma-se um tapete herbáceo ralo e pobre em espécies. o cultivo excessivo e a mineração figuram entre as principais causas dos processos de desertificação já iniciados. portanto. Nos topos mais planos. A irregularidade das precipitações e a natureza dos solos e da cobertura vegetal fazem do domínio macroecológico da Caatinga uma área naturalmente susceptível aos processos de desertificação e. 175 . nas encostas. quando a perda de umidade é maior do que a precipitação. Devido ao pisoteio excessivo do gado. vegetação dominante. registra-se uma sensível diminuição das espécies forrageiras nativas dos campos gaúchos. Nele. bastante vulnerável a ocupação humana. que recebem chuvas de relevo. O uso recorrente da queimada como técnica de limpeza das pastagens contribui para o empobrecimento dos solos. Suas principais espécies possuem folhas pequenas e hastes espinhentas. encontram-se alguns trechos de matas úmidas. conhecidas regionalmente como brejos. na forma de colinas conhecidas como “coxilhas”. As colinas são recobertas por vegetação campestre. destaca-se a presença de um relevo suavemente ondulado. A pecuária extensiva é a principal atividade econômica da região.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A Caatinga. o sobrepastoreio. é uma formação vegetal adaptada ao calor e à aridez. A rede hidrográfica da Caatinga caracteriza-se pela predominância de rios intermitentes e sazonais: os rios autóctones permanecem secos por cinco a sete meses durante o ano. tornam o balanço da evapotranspiração negativo durante a maior parte do ano. A irrigação. Nas áreas de maior altitude. incapazes de reter a água.

em algumas áreas. o início de um processo de desertificação. os geógrafos José Bueno Conti e Sueli Angelo Furlan apresentam e comentam os esforços realizados pelo governo brasileiro no sentido de preservar o patrimônio ambiental do país. hoje ultrapassa os 185 hectares. em expansão nas áreas originalmente recobertas pelos campos. Texto 1 – Tentativas de Conservação e Preservação Ambiental à Brasileira Influenciado pela crítica à sua controvertida participação na Conferência de Estocolmo em 1972 e pela polêmica gerada em torno da proposta brasileira de desenvolvimento a qualquer custo. o aumento dos processos erosivos e até. posteriormente: • acompanhar as transformações do ambiente por meio de técnicas de aferição direta e sensoriamento remoto. tendo em vista o uso racional dos recursos naturais. cuja função era a de atuar nos campos da pesquisa. à SEMA coube. com a devida autonomia e poder jurídico outorgado pelo Estado. o “deserto de São João”. atingia 12 hectares. Vinculada ao Ministério do Interior. Texto Complementar No fragmento de texto reproduzido abaixo. Há cinqüenta anos. essas funções foram desdobradas e. 176 . • assessorar órgãos e entidades incumbidos da conservação do meio ambiente. o governo brasileiro. têm provocado a diminuição da fertilidade dos solos. da coordenação e do assessoramento no combate à poluição e na preservação da qualidade dos recursos hídricos. no município de Alegrete (RS). identificando as ocorrências adversas e atuando no sentido de sua correção.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO A pecuária e a monocultura de trigo e soja. do planejamento. em 1973. criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA).

cada uma com seu estatuto próprio. criando órgãos e entidades da União. quando o governo federal decidiu descentralizar a atuação da SEMA. em todos os níveis. entre outras funções. O IBAMA é responsável. quando foi criado o IBAMA. Umas são bastante 177 . principalmente os recursos hídricos. • manter atualizada a relação dos agentes poluidores e substâncias nocivas no que se refere ao interesse do país. dos Estados. Para os objetivos deste livro. • atuar junto aos agentes financeiros para a concessão de financiamentos a entidades públicas e privadas com vistas à recuperação dos recursos naturais afetados por processos predatórios ou poluidores. Territórios e Municípios. • educar o povo a respeito do uso adequado dos recursos naturais. a formação e o treinamento de técnicos e especialistas em assuntos relativos à preservação do meio ambiente. pela política nacional de unidades de conservação. • cooperar com os órgãos especializados na preservação de espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção e na manutenção de estoques de material genético. • promover. bastam os resultados da política criada por essas instituições governamentais. Esses itens sofreram pequenas modificações em 1981.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL • promover a elaboração e o estabelecimento de normas e padrões relativos à preservação do meio ambiente. Distrito Federal. Abordar item por item dessa política hoje seria escrever um tratado. Uma unidade de conservação é uma amostra representativa de ecossistemas brasileiros que deverá ser regida por regras especiais de uso do solo. • realizar diretamente ou colaborar com órgãos especializados no controle e na fiscalização das normas e padrões estabelecidos. Foram criadas diversas modalidades de unidades de conservação. Novas modificações ocorreram com a fusão do antigo IBDF e Sudepe com a SEMA.

Sob as leis brasileiras. podendo ou não representar as áreas atuais de maior diversidade de plantas e animais. O tamanho mínimo efetivo para as unidades de conservação não está ainda bem definido. A terceira prioridade é para áreas protegidas recomendadas pelo RADAMBRASIL. essas aves necessitam de uma área mínima de aproximadamente 250 mil ha para 178 . é claro).MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO restritivas quanto à exploração. Na Amazônia. foi decidido basear o tamanho de áreas protegidas nas espécies de aves neotropicais de florestas úmidas de planície. O projeto deve também mostrar modos de induzir “manchas” de floresta a suportar mais espécies do que elas naturalmente suportariam. metade da terra incluída em qualquer projeto econômico deve ser mantida como floresta (onde houver essa formação. além das unidades de conservação. A primeira prioridade é dada a áreas onde estudos independentes de duas ou mais autoridades indicam a existência de “refúgios do Pleistoceno”. pela antiga SEMA. estações ecológicas e áreas de proteção ambiental? Vários são os fatores a serem considerados quando se decide sobre a localização das áreas protegidas. A segunda prioridade é para áreas que representam tanto formações vegetais típicas como também refúgios do Pleistoceno. reservas biológicas. outras se assemelham a unidades de planejamento nas quais as atividades têm de obedecer a regras estabelecidas pelo poder público. As espécies de plantas e animais da área a ser estudada são registradas antes que a “ilha” de floresta seja isolada (como parte do processo de desenvolvimento) e estudos posteriores são programados para determinar as mudanças no período de alguns anos. Essas áreas são consideradas como sendo de dispersão evolutiva. Como são os critérios para a seleção de áreas a serem preservadas? O que são parques. O Fundo Mundial para a Vida Silvestre (WWF) e o Instituto Brasileiro de Pesquisa da Amazônia (INPA) estão se baseando nessa lei para a execução de um projeto que visa determinar se “ilhas” ou “manchas” isoladas de floresta podem suportar tantas espécies quanto uma mesma área incluída numa floresta contínua e maior. pelo IBGE e outras agências.

A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL manter as taxas de extinção abaixo de 1% da totalidade inicial de espécies por século.4 milhão de ha. basicamente. Uma estação ecológica é uma extensão de área natural. 179 . quando foi estabelecido o Parque Nacional de Itatiaia. Desde então novos parques nacionais e reservas biológicas têm sido criados. na proteção de amostras representativas dos principais ecossistemas brasileiros. Estações ecológicas e áreas de proteção ambiental A política de preservação de recursos ambientais no Brasil consiste. Mas esses dados não podem ser generalizados para outros grupos de animais. Nela somente podem ser realizadas pesquisas que não impliquem alteração do ecossistema natural. por exemplo. Em 1972 havia dezesseis parques nacionais e quatro reservas biológicas no país. como queimadas. no Sudeste do Brasil. Com o advento da Lei nº 6.902 (27/04/81). embora houvesse oito reservas florestais e uma categoria transitória que confere pouca ou nenhuma proteção. Parques nacionais e reservas biológicas O sistema de parques nacionais brasileiros começou em 1937. As áreas de proteção ambiental compreendem determinadas porções do território nacional de relevante interesse para a proteção ambiental. que tenham como finalidade o estudo dos efeitos de certas atividades sobre o ecossistema. totalizando aproximadamente 12 milhões de ha. Atualmente o Brasil tem 53 parques e 18 reservas. além de algumas reservas indígenas. com vistas a assegurar as condições ecológicas locais. A maior parte da área de cada estação – cerca de 90% – é considerada área de reserva integral. Outros fatores foram também considerados. denominada área de proteção ambiental. entretanto os critérios para selecioná-los têm variado ao longo do tempo. ocupando 1. foi estabelecida uma nova modalidade de preservação ambiental. Não havia nenhuma unidade de conservação na região amazônica. de valor ecológico. Os 10% restantes podem ser utilizados para experimentações. destinada à pesquisa e experimentação científica.

José Bueno e FURLAN. vivem em cidades. Na Europa e nos Estados Unidos. A Revolução Industrial mudou esse quadro. Sueli Angelo. que diminuem cada vez mais nos grandes centros. Alguns dos parques estabelecidos pelas prefeituras municipais contam com uma reserva de vegetação bastante densa que também é aberta ao público. 202-207. Uma quantidade crescente de energia e alimentos passou a ser importada de lugares cada vez mais distantes para suprir as demandas urbanas. Do ponto de vista do planejamento. o que equivale à cerca de metade da população mundial. As Demandas de Saneamento Básico e a Qualidade de Vida nas Cidades Brasileiras Atualmente. “Geocologia: o clima. só 3% da humanidade habitava no meio urbano e. a urbanização acelerada da população mundial é um fenômeno recente.). p. ainda em 1850. De forma geral a pesquisa ainda é incipiente quando comparada à velocidade com que se dá a degradação ambiental neste país. Entretanto. a segunda metade do século XIX foi um período de rápida urbanização. quase 3 bilhões de pessoas.] 3.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO Parques urbanos Em nível municipal foram estabelecidos parques cujo objetivo principal é preservar áreas verdes. Em 1800. proporcionando assim locais de lazer à população. Sanches (org. In: ROSS. [CONTI. os solos e a biota”. Jurandyr I. pode-se dizer que são poucos os trabalhos que visam ao conhecimento e monitoramento das áreas citadas. a própria Europa era um continente predominantemente rural. Os parques urbanos cumprem um importante papel no lazer da população urbana e representam em muitos casos as manchas mais significativas de áreas verdes das cidades. Foi o início do processo de metropolização que deu origem a 180 . no qual apenas duas cidades ultrapassavam a marca de um milhão de habitantes: Londres e Paris. 1995. São Paulo: EDUSP. Geografia do Brasil.

Dallas de 1 para 5 milhões.2 milhões para 6. perdeu 2% de sua população entre 1980 e 1990. mas os bombardeios da Segunda Guerra Mundial foram responsáveis por uma significativa retração populacional. Também algumas metrópoles da costa oeste e do sul dos Estados Unidos fugiram ao padrão do mundo desenvolvido e conheceram uma verdadeira explosão demográfica entre 1950 e 1990: nesse período. A partir da década de 1970. e apesar dessas exceções.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL imensas aglomerações urbanas como Londres. com mais de 13 milhões de pessoas. atualmente figura na quarta posição e.4 milhões de habitantes. A população de Nova Iorque continua a crescer. nos países subdesenvolvidos. contava com apenas 100 mil habitantes. Houston. Paris.7 milhões. Londres. Na maior parte dos casos. a metrópole contava com 7. de 1 milhão para 3.7%. A explosão populacional que acompanhou estrondoso crescimento econômico vivenciado pelo Japão nas décadas do pós-guerra transformou a região metropolitana de Tóquio no centro da mais populosa área urbanizada do mundo. por exemplo. Los Angeles foi o caso mais espetacular: no início do século XX. São Francisco passou de 2. Nova Iorque. mas muito lentamente: a cidade. No conjunto do mundo desenvolvido. Entretanto. nas últimas décadas o ritmo frenético da urbanização e o aparecimento de novas megacidades. deverá ocupar um modesto nono lugar em 2015. têm sido um fenômeno característico do mundo subdesenvolvido.2 milhões de habitantes. figurava como a sétima metrópole do mundo. grandes aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes. Tóquio figura como a principal exceção: em 1942. o crescimento anual da população urbana gira em torno de 0. de acordo com os cálculos da ONU. elas apresentaram crescimento fraco ou até mesmo estagnação e regressão populacional. a taxa de urbanização anual 181 . que em 1950 era a maior do mundo. atingiu 6 milhões em 1940 e. as metrópoles dos países industriais centrais viveram o apogeu de seu crescimento populacional entre 1850 e 1950. No início do século XX. 14% da população mundial já viviam nas cidades. Mesmo assim. a região metropolitana de Tóquio já possuia mais de 15 milhões de habitantes em 1970 e ultrapassou a marca dos 26 milhões em 1996. isto é. Chicago. em 1996.

formando muralhas de prédios em frente ao mar. realizou-se basicamente pela autoconstrução. As terras agregadas à cidade. os graves problemas ambientais urbanos afetam a qualidade de vida de parcelas crescentes na população. Sucessivas anistias do poder público regularizaram as vias e loteamentos. Esses loteamentos clandestinos. 182 . pelo menos até a década de 70. Das 21 megacidades que existem hoje no mundo. vendidos em prestações à população de baixa renda. O êxodo rural acelerado e o processo de metropolização do pós-guerra geraram a expansão da “cidade clandestina”. Como vimos na Unidade II. A expansão das grandes cidades se realizou de forma predominantemente horizontal. em grande parte. de modo clandestino e ilegal. a expansão da mancha urbana das metrópoles brasileiras não impediu o aparecimento de “ilhas de verticalização”. em São Paulo. O predomínio do crescimento horizontal que marcou. as “ilhas de verticalização” conviveram. por várias décadas. 17 estão localizadas em países subdesenvolvidos. formou- se. de forma que a cidade real. no Brasil o processo de urbanização foi notadamente acelerado a partir da década de 1950. Os principais centros comerciais e de escritórios. a transferência de parcelas expressivas da classe média para a orla oceânica deflagrou o erguimento de torres residenciais. desafiavam a legislação municipal. principalmente sob a forma de loteamentos na periferia da mancha urbana. são exemplos de espaços intensamente verticalizados. constituíram bairros imensos que se encontram atualmente consolidados e legalizados. Entretanto. através da ocupação de áreas suburbanas carentes de serviços públicos. Nas metrópoles e grandes cidades litorâneas. como Rio de Janeiro ou Santos.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO gira em torno de 5%. Atualmente. Assim. glebas de especuladores imobiliários arruadas irregularmente e subdivididas em lotes diminutos. nessas áreas periféricas. Entre elas. pouco mais de três quartos da população brasileira vivem nas cidades. atualmente legalizada. figuram duas cidades brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. como o “centro velho” e a região da Avenida Paulista. A produção da moradia. com um modelo predominantemente horizontal de expansão da área edificada.

bem como por infra-estruturas viárias. conheceram desvalorização imobiliária. Na Grande São Paulo. alongando-se sobre alguns eixos principais de tráfego. As metrópoles brasileiras assumiram uma feição espalhada e disforme. As áreas das bacias hidrográficas tributárias das represas Billings e Guarapiranga. As águas pluviais correm diretamente para os cursos d’água.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Essa tendência à horizontalização foi determinada pelo atraso na implantação de um esqueleto de vias férreas e de metrô para o transporte urbano de massa. horizontalizada e espalhada da metrópole gera uma pressão crescente de demanda por serviços públicos de água. A ausência dessa “armadura ferroviária” condicionou uma expansão da área urbanizada ao longo do eixo das avenidas radiais. O transporte automotivo comandou a ampliação territorial das cidades. protegidas legalmente de ocupação desde 1975. esgotos. espaços com baixa densidade de ocupação surgiam no intervalo entre as grandes vias radiais. os trens suburbanos e as linhas de metrô nas metrópoles brasileiras cobrem uma parcela relativamente pequena dos fluxos de passageiros. A expansão desordenada. Por outro lado. escolas e postos de saúde. o desmatamento das várzeas e cabeceiras dos córregos e rios para expansão dos loteamentos agravou o problema das enchentes. o alastramento da mancha urbana na direção sul do município e sudeste da Região Metropolitana provocou a invasão das áreas de proteção de mananciais. O alastramento espacial das periferias – mais rápido que o crescimento da população e muito superior ao incremento da arrecadação de impostos – acarreta carência crônica dos serviços públicos e de infra-estruturas urbanas. geralmente direcionados para os vetores com menores obstáculos naturais. Ao mesmo tempo. em vez de serem barradas por áreas verdes e superfícies permeáveis. proliferaram os loteamentos 183 . devorando terras cada vez mais distantes do centro. iluminação e transportes. Ainda hoje. As conseqüências ambientais da ocupação desordenada dos espaços periféricos são de gravidade semelhante. além de intensificar o estrangulamento financeiro das administrações municipais. Os custos mais baixos de abertura de ruas e avenidas estimularam o prolongamento dos eixos de transporte ao longo de traçados lineares. Em conseqüência.

53. Como conseqüência do esgotamento desse modelo. 184 .MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO clandestinos nas proximidades dos córregos e das represas. essa é uma dinâmica nova na ocupação do espaço de São Paulo. ocorre uma aproximação entre as localizações residenciais populares e as localizações residenciais das classes médias. Prefeitura de São Paulo/Brasiliense. o importante reside no surgimento de relativa dispersão dessas camadas por outros espaços da cidade: maior parcela de pobres tomou o rumo das zonas centrais. s/d. os morros próximos à orla oceânica são de propriedade pública ou da Marinha. (.. Localizadas junto aos bairros residenciais de classe média da Zona Sul. caracterizada por visível empobrecimento das áreas centrais. A redução do movimento migratório em direção às cidades maiores e a desaceleração do crescimento vegetativo contribuem também para o encerramento dessa etapa de descontrolada expansão horizontal das metrópoles. a alternativa para muitas famílias é a moradia em favelas ou cortiços”1. as encostas desses morros abrigam algumas das principais favelas da cidade. que constituem importante fonte de empregos no comércio e nos serviços. ameaçando poluir as águas e inviabilizar a utilização dessas fontes de abastecimento da cidade. sem que com isso se diga que as periferias deixaram de abrigar predominantemente os contingentes de baixo poder aquisitivo.) Diante desses fenômenos. Esse processo de deslocamento dos grupos pauperizados aponta – senão para o esgotamento – para a rápida queda do padrão periférico do crescimento urbano de São Paulo. pg. que se acentuaram durante os anos 80. Do ponto de vista espacial. baseado na autoconstrução em terrenos desprovidos de benfeitorias públicas. Contudo. Nas metrópoles litorâneas. 1 Prefeitura de São Paulo. O modelo de expansão periférica e horizontalizada das metrópoles brasileiras entrou em crise na última década. como o Rio de Janeiro. em função da incapacidade crescente das camadas populares de adquirirem terrenos e materiais de construção. “sem dúvida. São Paulo Crise e Mudança.. De acordo com um estudo realizado pela Prefeitura de São Paulo no início dos anos 90. aumenta a favelização e o encortiçamento nas áreas mais antigas e estabilizadas das cidades.

seja da cidade ou do campo. No Brasil urbano a realidade socioambiental de uma grande parcela da população está marcada pelas dimensões da exclusão. Esse quadro é ainda agravado pelos sérios danos à qualidade de vida decorrentes de verdadeiras cirurgias urbanas realizadas a título de resolver problemas de circulação que resultam na perda de identidade. Os mais graves problemas ambientais são principalmente um efeito da urbanização sobre os ecossistemas. Saneamento e Transporte A intensidade e as características da urbanização em todo o mundo geraram dois grandes problemas nesse final de século: a questão urbana e a questão ambiental. principalmente o ar e a água. problema agravado pela intensidade da concentração urbana. provocando uma crescente contaminação dos recursos naturais. A Conferência Habitat II dá ênfase à questão urbana ambiental ao definir a sustentabilidade como princípio e assentamentos humanos sustentáveis como objetivo a ser perseguido. e apresenta indicadores importantes acerca da qualidade de vida de suas populações. o arquiteto Nabil Bonduki discorre sobre os principais problemas ambientais que afetam as cidades brasileiras. legibilidade e rigidez dos espaços urbanos. do risco. resultando em crescente vulnerabilidade das cidades. da falta de informação e de educação sanitária e ambiental. 1992). reforçaram-se as iniciativas visando associar as duas questões. do agravo. é a intensidade dos processos de degradação ambiental que acompanham a urbanização. é problema antigo e sempre existiu na história da humanidade. essenciais à manutenção da saúde e à proteção do meio ambiente. A partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio. A deterioração ambiental. podem ser assim resumidas: 185 . As causas dessa carência de serviços públicos. neste final de século. O que é novo. Texto 1 – Meio Ambiente.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Texto Complementar No fragmento de texto reproduzido abaixo.

Assim. É muito recente a explicitação do componente ambiental nas políticas urbanas e de saneamento. a urbanização acelerada e desordenada. e particularmente a dos setores de saneamento e transportes públicos. ampliação e modernização. a crise ambiental urbana brasileira representa um tema muito propício para colocar em debate a necessidade de novos compromissos com o desenvolvimento de assentamentos humanos – urbanos ou rurais – sustentáveis. • As necessidades de ajustamento político-institucionais dos modos de regulação das relações sociais entre os produtores de serviços e usuários.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO • A crise institucional e financeira que afetou a capacidade de investimento do setor público. • O aumento da demanda por transportes públicos derivados da retomada do crescimento econômico. As 186 . em geral. a concentração da população e das atividades econômicas no espaço e os padrões tecnológicos da produção industrial têm reforçado um quadro ambiental altamente degradado em conseqüência de um estilo de desenvolvimento que leva ao uso predatório dos recursos naturais. • O envelhecimento das redes e dos sistemas de infra-estrutura que demandam substituição. a preocupação com os problemas ambientais urbanos (brown agenda) ainda não recebeu a mesma atenção da agenda verde. Embora a ação governamental de proteção ao meio ambiente e à conservação dos recursos naturais tenha se intensificado no campo da gestão ambiental na última década. Situação ambiental urbana Nas últimas décadas. • A diversificação e o aumento quantitativo das necessidades de saneamento da população urbana e da demanda por serviços.

tem-se um quadro extremamente precário.81% nas áreas urbanas e 9. concentrando os problemas mais sérios de degradação ambiental. mas são servidos por rede geral. bem como a diminuição da cobertura vegetal. O atendimento na área do saneamento O acesso aos serviços de água teve uma considerável expansão nas duas últimas décadas. O quadro urbano brasileiro está marcado pela existência de assentamentos humanos precários. As variações entre regiões dão uma dimensão das desigualdades 187 . sendo 87. poluição das águas e do ar. em conseqüência da prioridade concedida ao serviço pelo Plano Nacional de Saneamento – Planasa executado sob comando do BNH. áreas de proteção de mananciais. Em 1991. risco agravado pela ausência de infra-estrutura.29% do total da população são servidos. Com relação à cobertura de rede de esgotos.87% nas áreas urbanas e 6. e um comprometimento ambiental que provocam graus crescentes de deterioração da qualidade de vida. o índice de domicílios servidos era de 70. deslizamentos. 65% do total de domicílios permanentes tinham canalização interna abastecida por rede geral de água.84% nas áreas rurais. várzeas inundáveis. particularmente nas grandes cidades. Enchentes. As diferenças de atendimento entre população urbana e rural igualmente refletem a estratégia da política de saneamento do BNH. uma vez que os dados mostram que se considerarmos os domicílios que não possuem canalização interna. beiras de rio e cursos d’água. sendo que este índice atinge 85. erosões. forçou os grupos mais pobres da população a ocupar ilegalmente espaços impróprios para assentamentos como encostas íngremes. A falta de alternativas de moradia popular e de lotes urbanos a preços acessíveis.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL cidades estão no cerne dessa questão: enquanto centros de produção e consumo são grande exploradores de recursos naturais como água. combustíveis fósseis e terra agriculturável.8% nas rurais. áreas de risco para o tipo de moradia precária dessa população. afetando diferencialmente os setores mais pobres. atingem o cotidiano da população. de acordo com o Censo Demográfico. uma vez que apenas 35.71%. onde vivem os pobres.

lagoa de estabilização.14% do lixo coletado recebe tratamento adequado: 24.88%.2% utilizavam emissário para lançamento do esgoto coletado em corpos d’água e 7. A maioria dos municípios brasileiros joga o lixo em vazadouros a céu aberto. a maior parte dos que dispõem realiza a coleta mas não trata do esgoto coletado.25% dos municípios possuíam alguma forma de serviço público de esgotamento sanitário. representando cerca de 22 milhões de domicílios com cobertura desses serviços. no Nordeste 3. 11. Enquanto na região Norte apenas 1. totalizando 72% do lixo coletado e somente 47.55% jogam em terrenos baldios e outros locais e 0.33% dos domicílios está ligado à rede geral. Do total dos domicílios urbanos 8. além dos 52.68% não possuem qualquer tipo de escoadouro.79% realizavam algum tipo de tratamento.24%. Assim. em 1989. Esses dados indicam que ainda perdura uma quantidade significativa do lixo produzido que não recebe tratamento adequado.46%. conforme os dados a seguir.65%. 32% possuem fossas rudimentares e 14. na região Sul. As disparidades regionais são flagrantes: na região Sudeste apenas 15% dos municípios tratam o esgoto coletado. sendo que apenas 12. na Centro-Oeste 3. apenas 13. constata-se que. e na Centro-Oeste 27. 16. uma vez que a maior parte é despejada em vazadouros a céu aberto (lixões).63% e na região Norte 7.66% em aterro controlado. que é melhor servida. na maioria dos casos. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico. Em 1989. na região Sul 7%. no Nordeste esse número representa 8. 1989). o total de domicílios servidos representa 63.11% dos domicílios brasileiros têm fossa séptica.51% queimam ou enterram o lixo.7% (IBGE.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO existentes. 47. Verifica-se portanto que uma parte considerável dos domicílios urbanos dá destinação inadequada para o lixo produzido.72% 188 . onde 17.69%. Ainda utilizando dados do Censo Demográfico de 1991.75% dos municípios que não dispõem de serviço de coleta. Estes indicadores mostram o nível de precariedade existente. constata- se que 80% dos domicílios urbanos brasileiros têm coleta de lixo. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE.72% dá outra destinação para o lixo. em todas as regiões do país o problema que se coloca é muito sério. na região Sudeste.

incremento nos investimentos públicos necessários. o solo. de responsabilidade dos Estados. entre esses. preparo. os lixões liberam gases e substâncias líquidas de elevadas toxicidades que poluem o ar. por um lado. O custo da implantação e manutenção da infra-estrutura viária. e os trens metropolitanos. afetando direta e indiretamente a população que mora em suas vizinhanças. tem impedido o atendimento adequado das necessidades de transporte para a maioria da população. onde vivem as camadas mais pobres da população.8 milhões em 1995. particularmente nas grandes cidades brasileiras. incineração e reciclagem. Pelo fato de não receberem qualquer tipo de tratamento e controle. Além de provocarem problemas ambientais. O enorme contingente de veículos particulares resultante dessa expansão circula hoje nas cidades sem que tenha havido. Os sistemas metroviários.73% em usinas de compostagem. os rios e aqüíferos subterrâneos e superficiais. sendo que. da sinalização e da operação do tráfego próprias para o automóvel. por outro lado.63% despejam o lixo hospitalar em vazadouros a céu aberto e nos demais municípios o lixo hospitalar é incinerado ou disposto em aterros especiais. operados pelos Estados e pela União. contribuem para a degradação da paisagem urbana. Somente 52. responsáveis 189 . O atendimento às necessidades de transporte urbano A situação precária dos transportes públicos urbanos.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL em aterro sanitário e 5. A produção da indústria automobilística saltou de 914 mil automóveis/ano em 1990 para quase 1. decorre da prevalência dos deslocamentos por transporte particular individual em detrimento da priorização do transporte coletivo. 74. em face do atual quadro de incapacidade de investimento do Estado. Esses problemas concentram-se nos bairros periféricos. aparelhamento e incremento nas atividades de gerenciamento dos transportes nem. A adoção de vazadouro a céu aberto como solução para disposição final dos resíduos representa um sério risco que não se circunscreve apenas à área onde se localiza.55% dos municípios brasileiros declararam ter recolhimento de lixo hospitalar.

representando respectivamente 31% e 12% do país. Em relação ao setor industrial.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO por 8% do total das viagens metropolitanas. cujo crescimento resultou do desenvolvimento da indústria automobilística. implantados no Brasil na década de 70. representando 52% do total. Tal como no caso da poluição do ar. A concentração de estabelecimentos se dá nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. À exceção do Metrô de São Paulo. deixando de cumprir seu papel de principal meio de transporte das áreas onde foram implantados. destaca-se que a maior parte dos estabelecimentos com alto potencial poluidor da água localiza-se na região Sudeste. não têm conseguido ampliar o atendimento da demanda devido à descontinuidade dos investimentos necessários e aos cortes substanciais nos seus orçamentos. resultantes tanto das atividades econômicas (agrícola. a grande concentração industrial e urbana apresenta elevadas cargas orgânicas e inorgânicas em relação à capacidade assimilativa dos corpos receptores e torna suas águas impróprias para a maioria dos usos. Os problemas ambientais gerados pela poluição do ar nas grandes cidades brasileiras têm duas fontes: as fontes industriais e as fontes veiculares. A poluição do ar e da água Dentre as questões ambientais urbanas mais importantes no caso brasileiro alinha-se a poluição atmosférica. Tais fatores levaram a opções equivocadas que priorizaram o transporte individual em detrimento do transporte coletivo e os sistemas rodoviários em detrimento dos transportes ferroviários e hidroviários nas grandes cidades. sendo que 21% estão no Nordeste e 19% no Sul. A inexistência de sistemas adequados de tratamento de resíduos líquidos e sólidos. os demais sistemas de alta capacidade. não puderam ser expandidos ou concluídos. que tem se beneficiado por fluxos regulares de recursos. tem provocado também altos índices de poluição hídrica. do baixo preço do petróleo e da expansão das malhas rodoviária e urbana. Mas a principal fonte de poluição atmosférica ainda é o monóxido de carbono produzido pela frota de veículos. 190 . industrial e mineradora) quanto das atividades domésticas.

A reformulação da política de saneamento e a modernização do setor são objeto do Projeto de Modernização do Setor de Saneamento – PMSS. através do Programa Pró-Saneamento. questão amplamente tratada na Consulta Nacional sobre a Gestão do Saneamento e do Meio Ambiente Urbano.A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Estratégias de intervenção do Estado e da Sociedade Persiste a desvinculação entre as políticas públicas de saneamento e meio ambiente. com recursos do FGTS. Trata-se do Programa de Zoneamento Ecológico Econômico do Território Nacional – ZEE. efetiva e democrática. a órgãos e entidades estaduais ou municipais. Não obstante. Os empréstimos poderão ser concedidos. entre outras. coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e executado pelos Estados. que vem progressivamente agindo para a superação da mencionada desvinculação das políticas ambientais e urbanas. para uma tendência de criação de novos formatos institucionais capazes de propiciar uma gestão ambiental urbana integrada. em todas as regiões do país. O PMSS é o 191 . mais eficiente. As conclusões dessa Consulta Nacional apontam. o poder decisório sobre as prioridades na alocação de recursos. envolvendo representantes do governo e da sociedade. Quanto às ações de saneamento. formados por representantes de governo (Estado e Municípios) e da sociedade. em nível federal. cabe lembrar uma ação governamental. através da Caixa Econômica Federal. cujas prioridades são o atendimento à população mais carente e a conclusão das obras já contratadas em todo o país. reiniciam-se as operações de financiamento à expansão e à melhoria dos serviços. realizada em 1994 pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal com o apoio do Programa de Gestão Urbana (PNUD/Habitat/Banco Mundial). de acordo com as diretrizes de descentralização. Coerente com as propostas de descentralização da execução das políticas públicas. o Programa transfere a colegiados estaduais. conduzido pela Secretaria de Política Urbana do Ministério de Planejamento e Orçamento e financiado com recursos do Banco Mundial.

A tendência observada é de extensão de seu uso. Nabil (org. Nabil. custos que a grande maioria da população não pode pagar. “Habitat e Qualidade de Vida: as práticas bem sucedidas em cidades brasileiras”. inclusive o princípio poluidor-pagador. Algumas alternativas de mobilização de capitais privados para o setor têm sido ensaiadas.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO trabalho mais abrangente. o qual procura explorar novo ordenamento institucional. Isso porque a tecnologia tradicionalmente usada para a execução desse tipo de obra tem altos custos de implantação dos serviços. mas não são passíveis de generalização uma vez que não se pode pretender substituir por completo o investimento público pela privatização. e novas alternativas de prestação de serviços. para todas as áreas urbanas do país. novos mecanismos de regulação e financiamento. As práticas 192 . onde se concentram os maiores déficits de cobertura em todo o país e cuja resolução por tecnologia convencional é extremamente onerosa. A preocupação com os problemas ambientais gerados pelos transportes levou ao desenvolvimento de tecnologias que utilizam fontes de energia renováveis e aquelas de menor impacto no meio ambiente. frotas de táxis e veículos do serviço público têm sido realizadas em vários Municípios. tem sido um campo fértil para a experimentação com tecnologias de baixo custo. A dimensão dos problemas de esgotamento sanitário. O uso de tecnologias adequadas A escassez de recursos para investimentos em face dos déficits de infra-estrutura levou a se prestar maior atenção às tecnologias de baixo custo.). completo e ambicioso sobre saneamento já enfrentado pelo país. Habitat. [BONDUKI. Exemplo mais conhecido e estudado é o saneamento condominal. chamadas de “alternativas” ou “adequadas”. onde as condições técnicas o permitam. In: BONDUKI. Experiências de resultados animadores com a utilização de gás natural automotivo em frotas de ônibus urbanos.

” Concurso de 1999 9 “A expressão ‘polígono das secas’ é de uso corrente na geografia regional brasileira. 2ª ed. 28-32. 1997. Por outro lado. p. Localize com precisão tal área no território nacional e descreva os mecanismos atmosféricos que determinam. num percurso que vem registrando significativas mudanças de concepção quanto ao equacionamento do tema. Exemplos de Questões Concurso de 1997 9 “Segundo vários autores.” 193 . agir localmente’. levando em conta seus possíveis reflexos sobre as soberanias nacionais. estrutural e sazonalmente. meio ambiente e gestão urbana nas cidades brasileiras. Tais mudanças ficam bem mais evidentes nos documentos gerados por comissões e conferências internacionais. São Paulo: Studio Nobel. ‘há que se tomar cada lugar na Terra como uma fração do espaço mundial’. comenta o Professor Milton Santos. sua situação climática. é uma máxima do movimento ambientalista internacional a afirmação ‘pensar globalmente. Faça uma reflexão sobre a relação entre essas escalas no mundo contemporâneo.” Concurso de 1998 9 “A percepção internacional acerca da questão ambiental foi se fortalecendo ao longo das últimas décadas..A QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL bem-sucedidas em habitação. Aponte os principais documentos elaborados sobre a matéria a partir da década de 1970 e comente as modificações observadas nos seus enfoques sobre a ‘questão ambiental’. a globalização e a questão ambiental seriam projetos associados. Quanto ao primeiro.] 4.

1993. 1997. Maria Adélia A. Antônio Carlos R. Bertha K. 1999. 194 . Mariana (orgs. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 1996. São Paulo: EDUSP/ Hucitec. A Geografia Política do Desenvolvimento Sustentável. e MIRANDA. Antônio Carlos. Contribuições para a Gestão da Zona Costeira do Brasil: elementos para uma geografia do litoral brasileiro. São Paulo: Hucitec. 1997. CAVALCANTI. Meio Ambiente. Desenvolvimento Sustentável e Políticas Públicas. DIEGUES. et alli. Meio Ambiente e Ciências Humanas. ———. Natureza e Sociedade de Hoje: uma Leitura Geográfica. 1994. São Paulo: Hucitec/ANPUR. São Paulo: Cortez. São Paulo: Hucitec.). Clóvis et alli. Bibliografia Bibliografia Básica BECKER.MANUAL DO CANDIDATO – GEOGRAFIA REGINA CÉLIA ARAÚJO 5. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. SOUZA. Bibliografia Complementar MORAES.

SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA 195 .

8 Papel Cartão Supremo 240 gm2 (capa) Ap 75 gm2 (miolo) Número de Páginas 196 Tiragem 1500 exemplares Impressão e Acabamento .9 cm Tipologia Times New Roman 12/17.7 cm Mancha Gráfica 12.5 x 25. Título Manual do Candidato Geografia Autora Regina Célia Araújo Capa Editoração Eletrônica Samuel Tabosa de Castro Revisão de Texto José Romero Pereira Júnior Formato 21 x 29.