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[...

] as diferenas de origem socioeconmica, de gnero e das representaes sociais de cada


uma das profisses.

Em primeiro lugar, h a desigualdade de classe social entre os que buscam a medicina e a


enfermagem. O curso de medicina feito em tempo integral, mesmo numa escola pblica, o
aluno tem outras despesas: ser dependente at terminar os seis anos ou mais do curso, no
havendo tempo para trabalho remunerado durante o curso. Isto evidencia o nvel de renda da
famlia de origem do estudante. [...]

A medicina , em grande medida, uma profisso das classes mais abastadas, opo da elite
econmica. [...]

As diferenas econmicas e de classe correspondem as diferenas de escolaridade,


conhecimento e oportunidades.

Em segundo lugar, h as diferenas de gnero. A medicina j no mais preponderantemente


masculina, no aspecto quantitativo. Porm, ainda mantm um ethos marcado pelos valores
identificados como masculinos e os cargos diretivos nas instituies de sade so ocupados
majoritariamente por homens. Na outra ponta, a enfermagem predominantemente feminina,
inclusive no aspecto quantitativo. O desejo de poder do mdico ser exercido, muitas vezes,
sobre uma categoria profissional considerada subalterna ou auxiliar, sobre uma mulher e uma
pessoa de classe social inferior.

Em terceiro lugar, as definies profissionais da enfermagem buscam hoje um distanciamento


da definio do seu papel inicial, o cuidar. H maior aproximao do trabalho intelectual,
consequncia do mundo capitalista, no qual h valorizao das atividades de nvel decisrio.
Na sociedade brasileira, em particular, o trabalho visto como braal ainda mais
discriminado em funo de recortes atribudos ao perodo da escravatura. [...]

O cuidar considerado braal, enquanto comandar ou gerenciar identificado como trabalho


intelectual, e executar um, distanciar-se do outro. [...]

A superao dos problemas no relacionamento entre a enfermagem e o corpo mdico est nas
posturas de maior flexibilidade, a partir das quais os espaos de trabalho sejam respeitados e o
saber socializado.

BAZZARELLI, tala*. Anlise dos conflitos entre enfermeiros e mdicos em hospitais e prontos-
socorros. In: Para entender a sade no Brasil. So Paulo: LCTE editora, 2006.

*Psicloga, doutora em Cincias Sociais pela PUC/SP.