Virtudes

É fácil fazer juízos sobre os outros. Parece que faz parte da nossa natureza humana esta tendência para analisar, medir, avaliar aquele com que nos deparamos. A visão dá-nos quase de imediato uma série de informações que se relacionam com a estatura, o aspecto, a apresentação. Instantaneamente processamos tudo isto estabelecendo comparações com imagens padrão que guardamos no subconsciente. Segue-se, quase sempre, a avaliação. Tudo isto, porquê? Com que finalidade? Bom, poder-se-ia dizer que é um “processo automático” e que, a finalidade é a tomada de decisão do: gosto, não gosto, é-me indiferente. Os "processos automáticos" revelam uma vontade fraca que não comanda o pensamento, a emoção ou as respostas aos estímulos externos. O sacerdote e o levita da parábola do samaritano deviam ter este defeito. O de Samaria, ao invés, é um homem sem preconceitos, reage ao estímulo de solidariedade que lhe provoca o homem prostrado na vera do caminho, ferido e maltratado por bandidos. É um ser solidário que caminha na vida considerando os outros - todos - seus iguais, dignos da sua atenção e do seu crédito. Poderá ser tripudiado na sua boa-fé, terá desilusões, facilmente convencido, levado a fazer o que não que deseja? Nada mais falso; esta pessoa nunca é enganada porque o que faz pelos outros é sem pensar num possível retorno.

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Jamais fará o que for contra a sua vontade porque sabe muito bem o que lhe convém querer e, muito menos, arrastado por outros porque sabe o seu caminho. Os outros, não! Passam pela vida sempre sozinhos porque gastam o tempo a avaliar, a julgar e, enquanto o fazem, a oportunidade perde-se e, muito provavelmente, não voltará a repetir-se. Estes ficam sós o outro, terá, sempre, muitos amigos que nunca o abandonarão. Na nossa vida corrente, de todos os dias, encontramos, a cada passo, estas duas figuras humanas. E, o interessante, é que não poucas vezes, assumimos nós próprios ambas as características quase sem darmos por isso. Quando lemos, ou escutamos, uma notícia sobre alguém tentamos ler nas entrelinhas de quem escreve ou detectar no acento do locutor, algo mais do aquilo que está escrito ou que ouvimos. Esse algo mais é o nosso julgamento, a apreciação que fazemos da pessoa visada na notícia. Se se trata de alguém que conduz uma obra meritória de solidariedade social, ou praticou um acto de relevante auxílio a outrem sentimo-nos como fazendo parte, também, desse mesmo assunto e, aliás, consideramos como é que nós procederíamos em iguais circunstâncias. Normalmente chegamos a uma conclusão apressada que teríamos feito mais e muito melhor. Se o enfoque da notícia cai sobre algo de reprovável, talvez, até, de muito reprovável aceitamos muito rapidamente que o visado é de facto uma má pessoa, pouco recomendável e, provavelmente, fez muito pior do que o que se relata.

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Existe, de facto, em cada um de nós um crítico em serviço permanente, comportamo-nos como se fossemos uma ilha isolada no meio de um vastíssimo oceano, onde afloram todas as águas trazendo com elas inúmeros detritos, objectos dos mais diversos, coisas que não são identificáveis, até, por vezes, cadáveres de afogados. Dedicamos então, o nosso tempo livre, que é muito, a apreciar tudo isto, a tentar identificar, descobrir a origem, a causa, o porquê daquilo que nos veios às mãos. Quer dizer, estamos de facto sozinhos nessa ilha, não temos ninguém que nos controle a ânsia de “investigação”, não temos, em suma, que dar contas a ninguém do que fazemos e, muito menos das conclusões a que chegamos. Vamos guardando para nós, dentro de nós, um acervo interminável de opiniões, descobertas, conceitos. Conseguimos arranjar espaço para “arquivar” um enormíssimo catálogo que, no fim e a cabo, não vai servir, nunca, para nada. Talvez cheguemos à conclusão que, pelo menos, estamos a perder tempo na construção – e manutenção – de tal “armazém” no qual ninguém entrará nunca para recolher o quer que seja. Ou, é possível que pensemos que talvez um dia, possamos ir retirando desse acervo coisas interessantes para comparar com outras que se nos vão deparando na vida. As ruas da cidade onde vivemos são a nossa “ilha” de onde apreciamos os que passam: este è baixo, aquela é gorda, estoutro parece tonto, aquele parece estar na companhia da filha mais nova ou, talvez, uma neta, aquele casal discute, este, vê-se bem, tem sérios problemas, reparamos no que sorri, ou que tem a tristeza ou a preocupação estampadas no rosto, um que se veste como um

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palhaço, outra que se julga uma estrela de cinema, uma criança malcriada, um miúdo muito acertadinho, uma pessoa já de idade que coxeia bastante, aquele que corre com o suor a escorrer-lhe do pescoço, aproxima-se alguém que parece falar consigo mesmo… Registamos fotograficamente este interminável oceano que nos envolve com todos os pormenores, características, cores, volumes e dimensões. Com uma rapidez impressionante chegamos ao fim de uns minutos com um registo enormíssimo repleto de apontamentos, rasgos, traços, pinceladas, anotações mas… não temos um quadro, uma visão de conjunto, um todo. Coisas esparsas, vagas, difusas, misturadas sem critério – nem preocupação de tê-lo – e, com tudo isto, que é muito, entramos finalmente em casa e constatamos que chegamos como partimos: vazios! Às vezes, a nossa ilha, é o automóvel onde nos deslocamos, onde nos sentimos reis e senhores com uma série de direitos e prerrogativas. Quando na paragem do semáforo alguém se aproxima para nos pedir algo nem reparamos no gesto maquinal que fazemos que, traduzido, quererá, talvez dizer: tenha paciência… Paciência? Claro que tem paciência se não a tivesse, não estava ali, horas, batendo nos vidros dos automóveis que param. Se, de manhã, com um pequeno sorriso expectante de esperança, se ao final da tarde com um ar de cansaço desiludido. Quando “abre” o sinal verde, talvez pensemos: “bolas, podia ter dado uma moedita ao desgraçado, se calhar tinha fome…” mas, este pensamento desvanece-se tão rapidamente como surgiu: “Não! Chega! São os bombeiros, é para ajuda das crianças com não sei que doença, é para o asilo não sei de onde, para a Liga dos Amigos de… não!; o Estado, sim o Estado é que tem obrigação de olhar por estas coisas, suprir estas necessidades. É para isso que pago impostos.”

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(E… pago mesmo os impostos, não tento fugir, dar um “jeitinho”, afinal… todos fazem o mesmo!) E pronto! O brevíssimo incómodo passou. Atrás de nós um qualquer carrega na buzina o que nos irrita profundamente. Só não fazemos um gesto feio porque levamos os miúdos no banco detrás. “Não querem lá ver o apressado! Se calhar o carro nem é dele ou, o mais certo, é ter as prestações em atraso…” (Nem nos lembramos que, esse, talvez seja o nosso caso!) Voltemos ao Samaritano. Sabe-se da animosidade que existia entre judeus e samaritanos, principalmente por questões de ordem e prática religiosa. Havia, de facto uma clivagem profunda entre eles. Parece lógico que dos três: o sacerdote, levita e o samaritano, se esperasse que fosse este a continuar a viagem sem prestar auxílio ao necessitado. Mas não foi, o que traduz um significado profundo, a solidariedade, a compaixão, o espírito de serviço aos outros vence essas barreiras, ultrapassa essa dificuldade. São os outros dois piores que ele, neste sentido de serviço e solidariedade? Provavelmente sim mas o que, de certeza não têm é atenção, ao que os rodeia, aos que encontram no caminho. A sua mente está demasiado ocupada com as suas coisas, no coração mal cabem as preocupações pessoais, não tem lugar para mais nada nem ninguém. Estes, estão de facto, sozinhos na vida e não sentem necessidade de estar de outro modo. Na medida em que os outros possam constituir um problema, uma preocupação, até um simples incómodo já não lhes interessa. Se a questão é dar de si alguma coisa sem ter uma razoável certeza de um retorno, uma compensação, um ganho qualquer, nem que seja uma satisfação íntima, então, nem sequer consideram deter-se, ainda que brevemente, a considerar o assunto.

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São tantos estes homens sós, amargos, cheios de si que passam incólumes e indiferentes pelos caminhos da vida! Olham sempre em frente, não aconteça que algo marginal interfira na sua marcha privada e solitária. No final de cada dia recolhem as coisas que julgam ser suas e nada mais porque não deram e não receberam nada. O outro ao deparar-se com o desgraçado em mísero estado não se detém um segundo a avaliar a situação, do que e de quem se trata. Vê, tão-somente, um ser humano que necessita urgentemente de auxílio e, isso, é para motivo suficiente e bastante para que ponha em prática o que lhe dita o seu coração generoso e solidário. Felizmente há muitos, muitíssimos mesmo, destes seres humanos, mulheres e homens, jovens e não tão jovens que não só estão sempre prontos a assistir solidariamente quem precisa mas, até, vão ao seu encontro nos locais onde possam estar, quer nas noites frias e tempestuosas de Inverno quer em países distantes cujas carências aterradoras não os detêm. Estes estão sempre rodeados de outros seres humanos, são lembrados, fala-se deles, admira-se a sua postura e comportamento. Mais, são, quase sempre, pessoas muito alegres e bem-dispostas. Lidando com a miséria, a doença, situações de vida estranhas e difíceis nota-se perfeitamente que esse serviço desinteressado lhes traz uma alegria visível. Quando se recolhem para descansar as suas mãos estão cheias de boas acções, sentem os seus corações repletos de consolação. Naquele momento sabem que muitos se lembram deles e dos bons serviços que lhes prestaram. Estão felizes. Não se trata de dar muito ou dar pouco. Não interessa se o que se dá, nos sobra, ou nos faz alguma falta.

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No primeiro caso, de facto dá-se, no segundo, reparte-se. Aqui reside a grande diferença da solidariedade: dar e repartir são duas coisas bastante diferentes. Ambas são, evidentemente, dádiva, só que uma é um pouco mais que isso, traduz uma preocupação real, efectiva, pelos outros e, sobretudo, um saudável conceito que, de facto, nada é propriamente nosso. No hospital, na cabana, no palácio, na paz e na guerra, todos nascemos nus e, aquilo que nos põem em cima, ou nos vestem, não depende absolutamente da nossa vontade ou querer. Durante muito tempo, alguns anos pelo menos, ninguém nos perguntará o queremos fazer, o que desejamos tomar como alimento. Não temos qualquer capacidade de escolha ou eleição do quer que seja. Somos, efectivamente, seres humanos, com direitos e garantias mas, esses direitos e garantias, que são efectivamente nossos, tal como a nossa identidade única e irrepetível, não dependem de nós, não os podemos exigir. Somos seres inteiramente dependentes dos outros, da sociedade em geral e de alguns em particular. Esta dependência mantém-se pela vida fora até ao último dia da nossa vida em que, alguém, terá de nos fechar os olhos e dar destino ao nosso corpo. Durante algum tempo – talvez muitos anos – teremos uma ilusão de independência porque podemos escolher, optar fazer isto em vez daquilo, gostar desta pessoa e não daquela, comandamos a nossa própria vida diária. Isto é uma ilusão. Todo o conhecimento que adquirirmos foi-nos proporcionado por alguém que no-los transmitiu, ou partilhou connosco. O que ficamos a saber não nos valerá de coisa nenhuma se não houver alguém que nos proporcione pô-lo em prática, desenvolvendo e aumentando a panóplia de serviços que se podem colocar à disposição da sociedade. Nem mesmo quando atingimos o topo de

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uma carreira profissional deixamos de depender de outros que irão pondo em prática o que lhes vamos transmitindo. Há, portanto, uma igualdade e interdependência intrínseca real e consistente entre os seres humanos. Esta não é uma conclusão apressada ou de mera retórica, é uma constatação. A vida humana encerra em si mesma, muitos aspectos de contradição que nos custa aceitar de bom grado. Vejamos, para começar, o que se passa com a liberdade do homem. Primeiro, talvez, a grande pergunta: O que é a liberdade? A liberdade é o poder, dado por Deus ao homem, de agir e não agir, de fazer isto ou aquilo, praticando assim por si mesmo acções deliberadas. A liberdade caracteriza os actos propriamente humanos. Quanto mais faz o bem, mais alguém se torna livre. A liberdade atinge a perfeição quando é ordenada para Deus, sumo Bem e nossa Bem-aventurança. A liberdade implica também a possibilidade de escolher entre o bem e o mal. A escolha do mal é um abuso da liberdade, que conduz à escravatura do pecado. (1) Então, nesse caso, o homem tem direito à liberdade? O direito ao exercício da liberdade é próprio de cada homem enquanto é inseparável da sua dignidade de pessoa humana. Portanto, tal direito deve ser sempre respeitado, principalmente em matéria moral e religiosa, e deve ser reconhecido civilmente, e tutelado nos termos do bem comum e da justa ordem pública. (2) Estas afirmações levam-nos, inevitavelmente, a uma pergunta:
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CCIC: 363, CIC: 1730-1733; 1743-1744 CCIC: 365 - CIC – 1738 – 1747

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O homem é de facto livre? Pode fazer o que entender e como entender? Em teoria é, pode de facto eleger o que faz ou deixa de fazer. Isto é uma verdade que o próprio Criador aceita e respeita, não interferindo nunca, o que é lógico uma vez que foi Ele quem decidiu que teríamos uma liberdade pessoal. Mas, de facto, a liberdade envolve responsabilidade pessoal, ou não? A liberdade torna o homem responsável pelos seus actos, na medida em que são voluntários, embora a imputabilidade e a responsabilidade de um acto possam ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência suportada, o medo, as afeições desordenadas e os hábitos. (3) Pondo a questão de outra forma, podemos fazer o bem ou fazer o mal com livre arbítrio pessoal? É verdade, podemos. Mas o conceito de bem e mal encerra em si mesmo uma questão séria porque, basicamente, depende do conhecimento próprio do que é bem e do que é mal. O que hoje em dia é considerado uma monstruosidade reprovável em todos os sentidos, pode não o ter sido, para alguns, que a praticaram em tempo. Não darei exemplos porque me parece evidente que o comportamento humano difere na sua, digamos, “justificação” conforme a época, a circunstância e o motivo.

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CCIC: 364 - CIC – 1734 – 1737; 1745-1746

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«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34), Jesus diz isto porque sabe que os Seus verdugos, não conhecem Quem sujeitam à tortura e à crucifixão. São meros executores de ordens, na época, comuns. Não é da sua competência julgar ou não da licitude do que fazem. Num outro plano podemos considerar que a prática do bem, isto é, fazer coisas naturalmente boas, para o próprio e para os outros, é uma atitude louvável e merecedora de recompensa. O contrário, o mal praticado com plena consciência, merece reprovação e, eventualmente, castigo. Mas, quando é que um acto é moralmente bom? O acto é moralmente bom quando supõe, ao mesmo tempo, a bondade do objecto, do fim em vista e das circunstâncias. O objecto escolhido pode, por si só, viciar toda a acção, mesmo se a sua intenção for boa. Não é lícito fazer o mal para que dele derive um bem. Um fim mau pode corromper a acção, mesmo que, em si, o seu objecto seja bom. Pelo contrário, um fim bom não torna bom um comportamento que for mau pelo seu objecto, uma vez que o fim não justifica os meios. As circunstâncias podem atenuar ou aumentar a responsabilidade de quem age, mas não podem modificar a qualidade moral dos próprios actos, não tornam nunca boa uma acção que, em si, é má. (4) Logo, parece, a liberdade humana não é total mas sim condicionada: posso fazer mal mas sujeito-me a uma pena; desejo fazer o bem porque terei um benefício. Este conhecimento condiciona ou não a liberdade?
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CCIC: 368 – CIC: 755-1756; 1759-1760

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Acho que sim, porque entendo que uma liberdade total não distingue o bem do mal, isto é, tanto faz fazer uma coisa ou outra porque não haverá consequências. Claro que, colocado desta forma, deixamos de estar a falar de seres humanos, dotados de alma: vontade, querer, conhecimento, razão. Um cão não tem esta capacidade e por isso o ensinamos a fazer isto ou aquilo, conforme nos convém e, o cão, passará a fazê-lo porque obedece a um estímulo de prémio. No fundo da questão estará, talvez, um dito muito antigo: a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros! Isto resume um magnífico entendimento empírico do bem e do mal na medida em que, o primeiro é sempre uma manifestação de respeito pelo semelhante e, o segundo, a ausência dessa preocupação. Acrescentamos, assim, uma característica fundamental e única do ser humano: O respeito. Começamos, preferencialmente, pelo respeito próprio. (Andam uns anúncios na televisão que, em suma, terminam assim: “Se eu não gostar de mim, quem gostará?” Parece-me algo de muito errado e indutor de narcisismo. Os outros têm de gostar de nós, preocupar-se connosco? Têm, respondo sem mais lucubrações. Porquê? Exactamente por princípio de solidariedade, porque eu também me preocupo e gosto deles.

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O que o tal anúncio parece querer dizer é: deixe lá os outros e olhe mas é para si! Voltemos ao respeito próprio. Olhamos para nós como um ser individual, irrepetível com uma entidade própria e exclusiva. Somos, os seres humanos, autênticas obras de arte complexa e bela ao mesmo tempo. Temos o dever de cuidar de nós, tudo fazer para manter-nos sãos e competentes. Temos, principalmente, de capacitar-nos que somos criados na verdadeira acepção da palavra, isto é, pertencemos a quem nos criou e, por isso mesmo tal como não podemos determinar quando começamos a existir também nos deve ser vedado escolher quando terminamos essa existência. Sendo assim, o respeito pessoal pelo próprio corpo, pela entidade, pelo ser completo que somos, parece lógico. Este respeito impede-nos, por exemplo, de praticar seja o que for que nos prejudique ou altere de forma profunda a nossa “construção”. Não podemos “recriar” um corpo à nossa medida ou de acordo com um gosto pessoal. Seria, no mínimo cometer uma falsidade comparável a assumir-mos uma identidade que não é a nossa. Tem isto algo a ver com, por exemplo, as cirurgias plásticas tão em voga nestes tempos em que vivemos? Entendamo-nos! Corrigir defeitos do corpo com intervenção cirúrgica, ou outro método qualquer (fazer exercício físico para manter ou recuperar massa muscular, por exemplo) não tem mal nenhum, desde que, naturalmente, aquilo que consideramos defeitos ou anomalias o sejam de facto, isto é, que seja constatável pelo próprio ou por outros.

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Diferente é a alteração do corpo, ou partes dele, com critérios de ordem meramente pessoal: “acho que fico melhor com olhos azuis”, “um peito mais volumoso favorecia-me”. Uma coisa é o respeito pelo próprio corpo, outra, diferente e reprovável, é o culto do corpo. Porque, o erro, está quase sempre na apetência que sentimos que os outros gostem de nós pelo que parecemos em vez querer que gostem pelo que somos. Igualmente nos é vedada a prática de actos que atentem seriamente contra a saúde do nosso corpo como, por exemplo, os excessos na comida ou na bebida, o uso de drogas não recomendadas por médico, a prática de actividades perigosas, a condução de veículos com velocidade excessiva. Verificamos facilmente que tudo isto não nos é vedado fazer apenas por respeito por nós próprios mas também, em grande medida, por respeito pelos outros. O mal que posso provocar a mim mesmo repercute-se num mal para a sociedade, como resulta evidente, por exemplo, num acidente de trânsito que provoquei pela minha má conduta. Para ajudar na “competição” íntima entre as práticas boas e os actos maus, os seres humanos têm de cultivar o que convencionamos chamar: VIRTUDES. E o que é a Virtude? A Virtude (latim: virtus; em grego: ἀρετή) é uma qualidade moral particular. É uma disposição estável em ordem a praticar o bem; revela mais do que uma simples característica ou uma aptidão para uma determinada acção boa: trata-se de uma verdadeira inclinação.

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Pode também dizer-se que as virtudes são todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer colectivamente, a qualidade do que se conforma com o considerado correcto e desejável, seja do ponto de vista da moral, da religião, do comportamento social ou do dever. Segundo a doutrina da Igreja Católica, e especialmente S. Gregório de Nissa, a virtude é "uma disposição habitual e firme para fazer o bem", sendo o fim de uma vida virtuosa tornar-se semelhante a Deus Existem numerosas virtudes que se relacionam entre si tornando virtuosa a própria vida. A Igreja Católica assinala duas categorias de virtudes: as virtudes teologais e as virtudes humanas

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AS VIRTUDES TEOLOGAIS:

cuja origem, motivo e objecto imediato são o próprio Deus. São infundidas no homem com a graça santificante, tornando os homens capazes de viver em relação com a Santíssima Trindade. Fundamentam e animam o agir moral do cristão, vivificando as virtudes humanas.  Fé: acreditar em Deus, nas suas verdades reveladas e nos ensinamentos da Igreja, visto que Deus é a própria Verdade.  Esperança: com a ajuda da graça do Espírito Santo, esperar a vida eterna e o Reino de Deus, colocando uma confiança perseverante nas promessas de Cristo. Sem dúvida

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que a esperança é um estado da alma, não um simples movimento interior de expectativa. E o que é um estado de alma? Trata-se de uma disposição permanente e duradoura que se vive independentemente dos acontecimentos exteriores. Por outras palavras, o que acontece é observado criticamente tal como é e não o que, eventualmente possa parecer que é. Por isso a esperança não assenta nem na concretização dalgo que se deseja ou espera, nem no alheamento dessa realidade. A esperança leva a encarar os acontecimentos como fases num caminho para um fim desejado. Também por isso, talvez, se costuma dizer que a esperança é a última a morrer. Esperar é viver com perspectiva de futuro com os olhos postos no presente não ignorando ou tentando escamotear o que possa pensar-se que vai contra essa disposição. Quem possui a virtude da esperança tem muito mais possibilidades de ser feliz que aquele que a não tenha. Porquê? Porque o homem tende inevitavelmente para Deus que lhe incutiu uma ânsia de eternidade que é, como se compreende, a última felicidade. Por isso a virtude da esperança é autêntico alimento já que se pode viver, perfeitamente, dela e, ao contrário, a sua ausência retira todo o sentido à vida.  Caridade (ou Amor): "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É o mandamento novo Jesus , a plenitude da lei".

A Fé não surge por simples vontade ou desejo do homem. A Fé depende de Deus que a concederá gratuitamente mas, de facto, para

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se manter, depende da vontade e desejo humanos, isto porque, como já vimos, Deus não impõe nada, antes respeita a liberdade pessoal do homem. Compreende-se que das três, a Fé é fundamental para que existam as outras duas que são como que o complemento natural dela. A Esperança fundamenta-se na Fé, que lhe dá as razões pelas quais existe. A Caridade emana da Fé porque, ao acreditar em Deus o homem é conduzido naturalmente para a prática do Mandamento Novo. Sendo assim, a Caridade é a mais importante e o fundamento das virtudes. 2.
AS VIRTUDES HUMANAS:

são perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade humanas. Regulam os actos, ordenam as paixões guiando a conduta humana segundo a razão e a fé. Adquiridas e reforçadas por actos moralmente bons e repetidos, estas virtudes são purificadas e elevadas pela graça divina. Entre as virtudes humanas destacam-se as virtudes cardeais, que são consideradas as principais por serem os apoios à volta dos quais giram as demais virtudes humanas:  Prudência, que dispõe a razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para o atingir. Ela conduz a outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida.

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 Justiça, que é uma constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido;  Fortaleza que assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem;  Temperança que modera a atracção dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados. Podemos ainda considerar muitas outras virtudes que emanam das anteriores, por exemplo: Paciência; Fidelidade; Paz; Confiança, Constância; Generosidade; Obediência; Simplicidade; Mansidão; Humildade; Serenidade; Bom Humor; Amizade; Fraternidade; Optimismo; Flexibilidade. Prudência Na Grécia, no frontispício do Oráculo do deus da harmonia, lê-se: “Conhece-te a ti mesmo!” Então, pode ter-se como condição sine qua non para se ser prudente, o conhecimento próprio. Aliás, se não me conhecer não posso realmente fazer nada humana mente aceitável, quer dizer, como um acto humano racional. As nossas capacidades, virtudes, dons, características únicas, as várias facetas do carácter têm de ser objecto do nosso conhecimento pessoal quanto mais profundo e detalhado melhor. Só este conhecimento nos permitirá agir com verdade e seriedade, de forma justa e moderada, com fidelidade e paciência, merecer a confiança dos outros e ser constantes nas nossas acções. Esse entrar-mos em nós mesmos – introspecção – com serena preocupação de nos conhecer-mos, é uma tarefa à qual nos

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dedicaremos toda a nossa vida, desde a idade da razão até ao último momento. Porquê? Porque, naturalmente, evoluímos com o tempo e vamos adquirindo novos contornos, esquinas, arestas que constantemente formatam o nosso carácter. Isto pode fazer-se sozinho, sem dúvida, e se se o fizer de forma séria obtêm-se resultados; mas, em princípio, ninguém é bom juiz em causa própria, daí que recorrer ao auxílio de alguém em quem possamos confiar, dotado de experiência e são critério, é uma excelente medida para levar a cabo essa necessidade. A nossa formação pessoal – repito, contínua e permanente – tem muito a ganhar com esta opção na medida em que sendo absolutamente sinceros com quem nos escuta podemos chegar a conclusões que talvez nos escapassem se o fizéssemos sozinhos. O nosso – chamemos-lhe assim – director espiritual, está numa posição privilegiada para avaliar o nosso comportamento e sugerir a forma, se for caso disso, de corrigir o que não estiver bem e, também, incentivar evoluções positivas no nosso carácter que nos conduzam a um melhor aproveitamento das nossas qualidades e outras características para nosso próprio bem e dos outros. Ao contrário do que alguém possa pensar, o director espiritual não está tão empenhado em apontar-nos o que está mal como ajudar-nos a descobrir o que e como devemos fazer para melhorar na prática do bem. Ou seja, não tem um papel crítico mas uma acção construtiva e benéfica. Há, evidentemente, algo a considerar muito seriamente e que é a sinceridade e honestidade com que nos relacionamos com esse mentor. Isto talvez afaste muitas pessoas desta prática, porque se trata de abrir a alma e o coração, sem guardar ou mascarar seja o que for que, por respeito humano, possamos considerar menos abonatório da nossa personalidade. Se não estivermos dispostos a

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proceder desta forma, então, a direcção espiritual é perfeitamente inútil e traduzir-se-á numa mistificação e pura perda de tempo. Justiça No Antigo Testamento os homens bons são chamados de “Justos”. Isto quer dizer que a justiça é uma virtude importante na consideração que se possa fazer acerca de alguém. Parece que a pessoa justa só pratica actos bons e, quando por deslize pessoal ou qualquer outro motivo o não faz, é capaz e reconhecer e pedir perdão. A justiça começa por si próprio, quer dizer, ninguém poderá ser justo com os outros, a sociedade, se, consigo mesmo, não for justo. Para tal é, como também já vimos a propósito de outro tema, um conhecimento próprio profundo e apurado. A consciência do que se é e do que se faz, do que se pensa e do que se diz, na medida em que os efeitos da acção possam ser aceitáveis e correctos. Quem, por exemplo, não é pontual no seu horário de trabalho não está a ser justo nem para com o empregador nem para com os outros. Mas também está a ser injusto para consigo porque assumiu um compromisso de um horário de trabalho que não cumpre. Um estudante que não estuda, ou o faz mal, ou sem dedicação está a ser injusto, pelo menos, para com os seus pais que esperam dele que estude, para com os professores que se esforçam porque aprenda, para com os seus colegas porque lhes dá um mau exemplo e, claro está, para consigo porque está a desperdiçar uma oportunidade que lhe compete aproveitar. Um cristão que não reza como deve, com amor e assiduidade, falta à justiça para com Deus que merece e espera que ele o faça, e consigo também porque foge a um dever que lhe vem do facto de ser cristão.

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A justiça, portanto, vai bastante além do estrito cumprimento das leis humanas. Não há justiça, só, em cumprir os nossos deveres. Não roubar, por exemplo, não é um acto de justiça mas um dever, mas devolver o que se tirou e não nos pertence é um acto justo. A administração dos bens que nos são confiados é algo particularmente sensível à justiça porque envolve, entre outras, o respeito, a fidelidade, e a confiança de quem entregou os seus bens à nossa guarda ou administração. Se reparamos no termos empregue – confiados – vemos imediatamente implícita a confiança que em nós o outro deposita. Fortaleza Pode pensar-se que a fortaleza e a coragem são a mesma coisa mas não são. A coragem é uma qualidade e simultaneamente uma virtude. A fortaleza é uma virtude e um dom. A coragem tem a ver com a atitude que se tem relativamente ao exterior. A fortaleza é antes uma emanação do íntimo. É claro que, normalmente quem tem fortaleza tem necessidade da coragem para levar a cabo os actos que a fortaleza lhe sugere ou solicita. Vejamos um exemplo simples: a fortaleza sugere que a frequência de determinado ambiente é prejudicial mas necessita da coragem para levar a cabo as acções necessárias para, de facto, o fazer. Como sugeria São Josemaria Escrivá: «Não tenhas a cobardia de ser “valente”; foge!» (5) ou seja: és forte porque sabes que tens de fugir dessa situação e corajoso porque o fazes.

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S. JOSEMARIA,

Caminho, 132

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Talvez que uma das melhores ilustrações do que atrás se descreve seja a cena que o evangelho de S. Marcos (6) nos descreve a respeito das negações de Pedro no átrio da casa de Caifás onde Jesus está a ser interrogado logo a seguir à Sua prisão. A fortaleza do carácter de Pedro leva-o a constatar a enorme falta que acaba de cometer: Por três vezes negar conhecer Jesus e, uma delas, com juramento e que na situação em que se encontra corre o risco de voltar a fazê-lo. A seguir tem a coragem necessária para sair dali, sem se deter a avaliar as consequências que tal atitude lhe poderia acarretar. Teve coragem de corrigir algo que a fortaleza lhe sugeria ser mau e perigoso: continuar no mesmo local estaria sujeito a novas traições. Experimentar o que não se conhece bem talvez envolva correr ricos desnecessários, ou, por outras palavras, pôr à prova a nossa fortaleza não parece ser uma boa prática. Não se trata de ter medo ou receio, mas, simplesmente, evitar situações, ambientes ou acções que podem conduzir a um fim inconveniente. Não sei se morro ao atirar-me da janela de um sétimo andar para a rua, mas não estou disposto a experimentar. Isto não é medo mas bom senso. Dissemos que a fortaleza se pode classificar como uma virtude mas que, realmente, é um dom. Porquê? Porque precisa de uma decisiva acção do Espírito Santo para que possa ser adquirida. É que se trata de uma disposição íntima da própria vontade, que actua principalmente no foro íntimo das escolhas, decisões e atitudes. Claro que a fortaleza se apoia na fidelidade, na justiça e no respeito.

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Mc 14, 66-72

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Temperança Disse-se que, entre outras características, a temperança assegura o domínio da vontade. Por isso mesmo é uma virtude cardeal, isto é, de primeira importância. O domínio da vontade não é nem fácil nem rápido. É algo que depende exclusivamente do próprio e que, por norma, leva muito tempo a adquirir, às vezes, uma vida inteira não chega para se conseguir esta virtude. Porque é tão importante para o homem ter controlo sobre a sua vontade? Parece óbvio que fazendo o que se quer, como se quer e quando se quer se chega a um distúrbio grave do comportamento e a um péssimo hábito de agir sob estímulos ou impulsos sem considerar se os mesmos são bons, maus, valem ou não a pena levar cabo. Se se considerar que a vontade é “cega” chegamos à consideração que o que temos a fazer é dar-lhe “olhos” para ver em cada momento o que convém ao próprio e aos outros e, muitas vezes estas duas formas de ver podem estar em conflito: O que quero para mim pode não ser conveniente para o outro e, se assim for, então, não me convém. Quero, por exemplo, afirmar-me como crítico de determinada acção praticada por alguém. Mas porquê, devemos questionar. O que é que eu vejo nesse acto que me mereça crítica – não interessa se favorável ou não – e que capacidade tenho para a fazer. Além disso, tenho o direito de a fazer? Estou a ver bem, a apreciar devidamente? A temperança aconselha-me moderação, isto é, um rigoroso exame da matéria em causa, para que a minha vontade seja esclarecida, informada quanto à bondade do que me sugere fazer. É muito provavelmente a principal característica do ser humano completo, nenhum outro ser possui esta virtude ou tem acesso a ela.

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Quando muito, um cão tem um instinto que o conduz a fazer algo e, esse instinto é suficiente e bastante para que o faça a menos que o treino a que tenha sido submetido o impeça de o fazer. Não tem, portanto, capacidade de escolha nem possibilidade de eleição. Logo, parece lógico que agindo sem controlo da sua vontade, o homem se coloca ao mesmo nível do cão e as consequências deste comportamento serão sempre graves porque se demite de uma prerrogativa excelente que lhe foi dada por Deus. Como a vontade se vai desenvolvendo com o crescimento do indivíduo, esse desenvolvimento tem de ser acompanhado pela temperança que vai, por assim dizer, formatando a vontade para aquilo que convém. Aqui exercem um papel predominantemente crucial, os formadores, em primeiro lugar os pais, o ambiente familiar, os educadores e o meio em que se desenvolve a formação da pessoa. As consequências desta formação do carácter do indivíduo, e, consequentemente, do controlo sobre a sua vontade revelam-se determinantes. A formação rabínica recebida por São Paulo, uma vez convertido ao cristianismo estava bem patente quando declarava: «Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero.» (7) Paciência: O que é a paciência? Quem pode responder melhor a esta pergunta que o impaciente? Sim, há várias coisas que sabe. Por exemplo: • A sua falta traz-lhe sofrimento porque, habitualmente faz sofrer outros;
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Rm 7, 15-25 Romanos 7:15-25

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• • • • • • • • • • • Quer, agora, o que só estará disponível mais tarde; Esgota num ápice o que deveria durar algum tempo; Responde mesmo antes da pergunta estar completamente elaborada; Adianta-se quando deveria esperar; Começa sem ter acabado o que começou; Agita o que estava tranquilo; Desconfia do evidente; Pretende o que não lhe compete; Julga sem analisar; Precipita a conclusão; Não espera pelo resultado.

E, sofre ainda mais porque se dá conta que: É desagradável no trato; Cai com frequência no destempero de atitudes e linguagem; Dá-se conta do afastamento dos outros. Continua a sofrer porque: • • • • • • Perde oportunidades; Não presta a atenção que os outros merecem; Não tem uma trajectória recta; Ziguezagueia de emoções em emoções; Troca coisas importantes por ninharias; Muda de verdades essenciais para hipóteses efémeras.

Na verdade, o impaciente, sofre muitíssimo porque não dando felicidade aos outros não a consegue para si próprio.

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Assim temos, exactamente, o que a paciência não é. Fidelidade A virtude da Fidelidade é, uma das mais belas. Bem entendido, todas as virtudes têm beleza e um fulgor característico que as distingue, mas, a Fidelidade tem um brilho tão intenso e envolvente que acaba por transmitir, ao que a possui, como que uma aura pessoal que o torna nalguém notável. Ser fiel é também uma disposição interior porque não depende nem das circunstâncias nem das pessoas mas sim de uma estabilidade própria nos sentimentos e emoções. Não pode ser fiel quem não tenha vida interior, segura, esclarecida, exactamente porque, a Fidelidade, nasce no mais profundo de nós. Não é, de modo nenhum, algo externo, influenciável, mutável. A pessoa fiel torna-se, automaticamente nalguém digno de confiança em quem se pode depositar e entregar tudo o que se queira com a certeza que é guardado e mantido tal como o entregamos. Há uns anos surgiu um filme que causou um grande impacto a nível mundial e, se não me engano obteve vários prémios. (8) O nome do filme é: “FILADÉLFIA”. O tema principal da película parecia ser a doença chamada SIDA – (AIDS, em inglês). Disse “parecia ser” porque, pelo menos para mim, o tema de fundo era a fidelidade. O protagonista contraiu a terrível doença de que viria a falecer por causa de um acto de infidelidade.

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Pelo menos 1 Óscar para a melhor música de Bruce Springsteen

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Bom… de facto era um homem homossexual que vivia com um companheiro masculino mas que traiu, embora uma única vez, num encontro fortuito. A fidelidade não tem, portanto, a ver com a situação, a forma, o critério, o ambiente em que se vive. Quer dizer, não há situações em que a fidelidade seja mais ou menos importante que outras. Ser fiel significa honrar um vínculo livremente assumido. Fidelidade (do latim fidelitas pelo latim vulgar fidelitate) é o atributo ou a qualidade de quem ou do que é fiel (do latim fidelis), para significar quem ou o que conserva, mantém ou preserva as suas características originais, ou quem ou o que se mantém fiel à referência. Fidelidade implica confiança e vice-versa, e essa relação de implicação mútua aplica-se quer entre dois indivíduos, quer entre determinado sujeito e o objecto sob sua consideração, que, por sua vez, também pode ser abstracto ou concreto. Essa co-significação originária mostra-se plena quando se trata de dois sujeitos, ambos com capacidade activa, pois, nesse caso pode invocar-se a correlação confiança (do latim cum, e fides). Poder-se-á dizer também que fidelidade significa lealdade, constância, firmeza, nas afeições, nos sentimentos; perseverança, observância rigorosa da verdade; exactidão. Temos assim, que há alguma complexidade nesta virtude, porque de virtude se trata, que não pode ser ignorada. Aparecem várias vezes nos discursos de Jesus Cristo referências à fidelidade como algo imprescindível para que possa existir uma relação estável de confiança entre os homens e entre os homens e Deus.

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(O inverso não se coloca porque Deus, por definição, é fiel.) «In pauca fidelis»(9) refere-se Cristo no Evangelho, fiel no pouco, nas pequenas coisas, mesmo naquilo que, aparentemente, tem pouco relevo ou importância. Não há, portanto “níveis” de fidelidade; ou se é fiel em tudo e em qualquer circunstância e de forma constante, diria, sem intervalos conforme as situações, ou não existe fidelidade. A fidelidade é um acto bom, uma actividade voluntária e permanente, uma força que inclina a cumprir com sinceridade e valentia os compromissos adquiridos, as promessas feitas e a palavra dada. (10) Por isso mesmo, a Fidelidade, é uma virtude já que só é possível ser fiel a quem tiver estabilidade de vida e comportamento. Seja porque tem ideais elevados que levam a pessoa a manter-se numa linha de conduta que é comum chamar-se unidade de vida, ou porque tem aspirações pessoais que transcendem as possíveis conveniências de momento. Não se trata de uma inspiração ocasional mas de um acto permanente da vontade. A fidelidade requer um fundamento profundo e forte de paciente indagação, o anelo de encontrar um motivo para viver. Não é possível falar de fidelidade a quem carece de ideais ou a quem não sabe de valores que transcendem a própria vida. (11) Quem anda pela vida como um espectador, por mais atenção que possa ter ao que se passa à sua volta, se não tiver uma vida interior sólida, com uma hierarquia de valores bem definida, não pode ser fiel
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Mt 25, 21
JAVIER ABAD GÓMEZ, JAVIER ABAD GÓMEZ,

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Fidelidade, Quadrante, 1991 nr. 10 Fidelidade, Quadrante, 1991 nr. pg. 34

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a nada, porque, como já se viu, não há “fidelidades momentâneas”, mas constantes. A introspecção necessária a cada pessoa que se preocupe com o seu papel neste mundo – para que nasceu -, que faz não unicamente o que lhe convém, mas e com o que deve fazer como pessoa única e irrepetível, é fundamental para chegar a um conhecimento próprio sério e concreto. Deve haver uma finalidade superior em todos os actos que se praticam, mesmo os mais banais. A finalidade superior de, por exemplo, comer é alimentar-se e não degustar algo que dá prazer ou contentamento. Se esse prazer e contentamento existem tanto melhor, mas ninguém, de bom senso, deixará de comer porque o único alimento disponível não lhe agrada. Nisto se diferencia o ser humano do animal. Aquele come para se alimentar, este come para se saciar. Daí que devamos comer o que de facto necessitamos, e não mais o que implica um acto da nossa vontade, um controlo sobre o apetite ou o desejo. De tal forma assim é – deve ser – que quando verificamos que o nosso corpo mostra as consequências de uma alimentação desregrada ou exagerada, começamos uma dieta que, mais não é, que uma contenção forçada pela vontade. Esta constatação do que somos seres superiores deve levar-nos exactamente ao que atrás se dizia: ter ideais e a noção dos valores que ultrapassam a própria vida porque se colocam numa esfera que raia o divino. Não exageramos porque se fomos criados à imagem e semelhança do Criador, que é Deus, porque dele viemos e para Ele tendemos, há algo de divino no homem que é exactamente o que o distingue do resto da criação. Que espanto pode haver se, assim, os nossos ideais se aproximem e procurem cada vez mais aproximar-se do próprio Deus?

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Paz Houve-se por imperturbável. vezes dizer de alguém que é uma pessoa

Com esta qualificação pretende-se atribuir ao outro uma indiferença perante o que o rodeia, às notícias que lhe trazem ou os acontecimentos que forem. Também poderá querer inferir-se uma apatia ou, pior, uma ausência total de emoções. Isto pode não querer significar a antítese do emotivo, que vibra, deixa transparecer os sentimentos às vezes, até, com a “lágrima fácil”. Na verdade, a observação pode referir-se tão-somente a um controlo pessoal muito apertado. Ficamos então com duas possibilidades de qualificação, uma boa e outra má. Põe-se de lado uma hipótese e que é uma pessoa emotiva capaz de se controlar? Mas, a ser assim, essa pessoa funcionaria como um actor, ou seja, alguém capaz de aparentar uma personalidade diferente da que realmente tem. O fim pode, igualmente ser bom ou mau na medida em que seja o bom resultado de uma luta interior, ou um disfarce usado por conveniência pessoal. A paz de espírito, absolutamente necessária no primeiro caso, não é possível no segundo e é fácil perceber porquê. A luta interior por domínio de alguma faceta mais marcante do carácter, em lugar de

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provocar um distúrbio traz consigo a tranquilidade que é sempre o resultado de se praticar um acto bom. E, o esforço por exercer controlo sobre si mesmo, não deixando 'à solta' ímpetos, arrobos, atrevimentos, desvarios ou excessos de qualquer natureza, é, sem dúvida muitíssimo bom. Mas atenção: Tranquilidade e paz são duas coisas diferentes. A Paz, como se verá mais adiante, é fruto da entrega. A luta interior que o ser humano trava durante toda a sua vida consciente é a consequência necessária de uma atracção para a perfeição. Conduzir a vida como se esta fosse constituída por uma série de actos inevitáveis, aguardando sem expectativa o que se sucede no tempo, não é próprio de um ser inteligente. Alguns chamam-lhe ''destino'' e fazem-no deixando transparecer uma inevitabilidade. Estão absolutamente errados. De facto, no próprio momento da concepção, Deus cria e atribui a esse novo ser uma alma. Sendo espiritual e directamente criada por Deus, a alma tem essa marca divina que a torna imortal. O humano tem características próprias - o ADN - que lhe vêm dos seus pais biológicos. Estas têm a ver apenas e somente com questões de ordem física e, evidentemente, podem ser cultivadas, rejeitadas, até manipuladas. A alma, que é a chama da vida que só se manterá enquanto habitar no corpo, tem o ''ADN" divino, que não sofre mutação em nenhum caso ou circunstâncias.

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A luta interior é exactamente o confronto entre estas duas "estruturas" do ser humano. A primeira evolui à medida que a vida vai avançando no tempo, trazendo à tona as suas características dominantes, criando, quase sempre, à segunda, uma necessidade de domínio, de controlo. As potências espirituais da alma, tendem, naturalmente, a controlar as potências físicas. Entre as potências espirituais da alma contam-se a inteligência que permite a aquisição de conhecimento, as qualidades, as tendências boas, as emoções, a capacidade de distinção do bom do mau. Diria que há, contudo, uma necessidade comum às duas "estruturas" e que é a sua "alimentação". Na primeira parece óbvia a necessidade de crescimento, a manutenção em boas condições da sua existência o que o homem faz, normalmente há medida do tempo que vai decorrendo. Pois, de modo similar a "estrutura" espiritual, a alma e as suas potências, também carecem de "alimento" de "manutenção". Mas, neste caso, o homem não pode consegui-lo sem a participação activa de Deus. Deus não tem porque o fazer e o que é certo é que só o fará a instâncias do homem. (Senhor aumenta a minha fé, dá-me um coração puro, ajuda-me nas minhas fraquezas, etc.) Isto é o que normalmente se conhece por oração. A oração é pois, a comunicação do homem com Deus. È uma comunicação simples, natural, despida de artificialismos porque se trata (deve tratar-se) de um processo íntimo entre a criatura e o seu Criador. Há uma necessidade intrínseca nesta comunicação. O homem não deve alhear-se da presença de Deus na sua vida, independente da sua vontade. Pode sim, numa má opção, escolher ignorar a presença de Deus e proceder como se Ele não existisse ou

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não lhe importasse para nada. Diz-se que é uma má opção porque vai contra a ordem natural que é, sempre, a tendência do criado para o criador. Há, de facto, uma pertença, um vínculo, que não pode ser destruído pela vontade humana e, a vontade divina também nunca não vai nesse sentido. A razão é simples se considerarmos que o homem é imortal, ou seja, teve um começo, a sua criação, mas de facto não morrerá uma vez que a sua alma não está sujeita às mesmas leis que o corpo. Em mim mando eu! Houve-se esta insensatez com alguma frequência. E não pode ser verdade porque ninguém é efectivamente dono de si mesmo, aliás, não é dono de coisa nenhuma, apenas portador temporal de uns bens, qualidades, defeitos ou características que lhe vêm não de aquisição própria mas por indução alheia a si mesmo, seja dos Pais, do conhecimento transmitido ou de Deus. Leva-nos esta consideração, de volta à liberdade pessoal. De modo similar, a liberdade e a posse pessoais podem considerar-se relativas e, nunca, absolutas. A consequência do uso, mau ou bom, dessa relatividade, marca a conduta do ser humano. O egoísmo que é uma excessiva concentração em si mesmo, leva, quase sempre ao isolamento o que parece ser óbvio já que, o egoísta, se afasta dos actos de solidariedade que caracterizam a vivência em sociedade. Porquê, isto, agora? Porque a excessiva preocupação com o que se tem ou o que se é leva, quase sempre, ao egoísmo, à consideração do próprio eu como a peça à volta da qual se move toda a maquinaria e, a verdade, é que isto não existe como tal, é apenas fruto da imaginação do homem.

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É ou não verdade que a vida, a sociedade, a comunidade dos seres humanos, prossegue o seu caminho mesmo quando desaparece do seu convívio – morre – alguém muito importante que ocupou um espaço notável entre os seus semelhantes? E esta pessoa excepcional, não ficará reduzida à memória dos que se sucedem? Ou seja, de facto ninguém, absolutamente é fundamental, embora possa e deva, ser muito necessário em determinados momentos e circunstâncias. Ora bem, o egoísmo incapacita a pessoa para detectar essa “fundamentalidade” que é, de uma forma ou outra, chamada a exercer perdendo-se assim, oportunidades de serviço que, talvez, não voltem a apresentar-se. O facto é que aquilo que alguém deixa de fazer nunca será feito. Poderá alguém fazer o que o outro não fez mas nunca o fará da mesma forma porque cada um só faz o que, ele próprio, sabe e pode fazer, com as capacidades, aptidões, defeitos e limitações que lhe são próprias e não com as do outro. Podem, de facto, imitar-se os gestos, as atitudes e, até, em certa medida, os sentimentos, mas, no cerne da questão, permanecerá, sempre, essa dúvida sobre a fiabilidade da imitação. Confiança. Poderíamos dizer que a confiança é a previsibilidade do comportamento do outro. Assim esta virtude tem uma raiz eminentemente moral porque assenta num julgamento ou apreciação do carácter do próximo o que é sempre uma dificuldade porque pode colidir com o respeito e com a justiça. Quem confia tem uma responsabilidade própria, quer dizer, foi por sua iniciativa, decisão ou discernimento que decidiu confiar, logo, os

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efeitos bons ou maus dessa confiança que depositou em alguém só afectam a si mesmo. Mas aquele em quem se confia tem, de facto, uma responsabilidade alargada, tem de ser justo consigo mesmo e também para com quem confiou nele não defraudando a sua expectativa de ter agido acertadamente. Para prever o comportamento do outro é necessário que esse outro dê sinais, mostre por obras e factos concretos de quem é, como pensa e age no assunto em causa. Um dito popular consigna: “quando a esmola é grande o santo desconfia”, o que quer dizer que confiar em alguém não é uma mera decisão pessoal avulsa mas alicerçada numa observação de vários sinais que o outro dá sobre si próprio. Por outras palavras, terá de dizer-se que a confiança não pode ser “cega”, automática mas uma disposição pensada de acordo com o que o bom senso e a justiça nos dizem respeito do outro e do seu comportamento e, de novo, aqui avulta o que já classificámos como muito importante para a definição do carácter que é e unidade de vida. Não é possível, a ninguém, dar o que não tem e se se propõe fazê-lo estará a enganar, deliberadamente, o outro talvez com o objectivo de conquistar a sua confiança. Continua a haver fariseus no nosso tempo, daqueles mesmos fariseus dos Evangelhos que ensinavam o que não faziam e exigiam o que não praticavam. Talvez onde esta faceta humana tão lamentável se torne mais evidente é na vida política. Parece, realmente, ser uso e costume prometer tudo e mais alguma coisa de modo a conseguir os votos no sufrágio e, depois, ou porque o que prometeu não se pode de modo nenhum cumprir ou, até, porque se esqueceu o prometido, as coisas tomam um caminho diferente e, em princípio, inesperado.

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Daí que, a credibilidade dos políticos, esteja num nível muito baixo e, naturalmente, a confiança das pessoas ressente-se muito e, em grande parte dos casos, como muita razão. Nesta situação funciona o princípio da “bola de neve”, a falta de confiança nos políticos leva à desconfiança do sistema no seu conjunto, nas suas instituições e nas suas práticas. Como se acredita que nada funciona como deve, seja em que sector do Estado for, na justiça, por exemplo, geram-se fenómenos de corrupção extremamente nocivos para a sociedade porque apostando na impunidade corrompem de facto verticalmente a sociedade inteira. O que se faz tem sempre consequências que se revelam de forma transversal e vertical. Suponhamos um médico que tem uma má prática clínica, ofende quer o paciente, vertical, como a classe a que pertence, transversal. Assim, dizemos que a corrupção afecta a sociedade de forma vertical porque de facto tem de haver, pelo menos, dois actores: o corrompido e o corruptor. As suas acções têm consequências para os dois, para o objecto da corrupção, para a sociedade no seu todo porque é prejudicada em alguma coisa em benefício de apenas alguns. Tudo isto leva a uma sociedade de “desconfiados” e, como num choque em cadeia, multiplicam-se os efeitos da desconfiança: o banqueiro desconfia do cliente a quem empresta dinheiro e tenta precaver-se, em primeiro lugar levantando dificuldades de toda a ordem e depois impondo condições gravosas e difíceis de suportar; o professor quer assegurar-se seja como for, que o seu aluno não copiou o seu trabalho; proliferam os sistemas de vigilância cada vez mais sofisticados, atentando não poucas vezes contra o direito das pessoas à privacidade…

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Parece que, na sociedade, o derradeiro refúgio da confiança está na família em que cada um é amado pelo que é e não pelo que tem.

Constância A constância não é a mesma coisa que a perseverança, embora tenham muito em comum. A constância é um estado de alma permanente, a perseverança é um acto da vontade. De facto pareceria preferível ter a primeira como uma qualidade e a segunda, uma virtude. A estabilidade emocional ou comportamental definem o homem constante. Permanece fiel a princípios, compromissos, responsabilidades e opções não mudando ou variando em função de circunstâncias ou estímulos. Mantém uma uniformidade no comportamento e na relação com os outros. A pessoa que possui esta qualidade - optamos por esta qualificação é uma pessoa que merece confiança, pratica a justiça naturalmente, é fiel e segura de si própria. Revela uma sólida formação e uma panóplia de princípios muito bem estruturada. Por isso mesmo não sente necessidade de mudar apressada ou, sobretudo, sem cuidada reflexão prévia. Tem uma estabilidade própria que revela, também, fortaleza de carácter. O não estar satisfeito com o emprego que se tem ou com o que se faz pode levar a duas atitudes: A primeira é procurar outra actividade, ou outro ambiente onde desenvolvê-la; a segunda é procurar valorizar o que se tem, tirando partido do facto de ter uma actividade remunerada o que, cada vez mais, está ao alcance de menos.

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A atitude é muito importante para o êxito na actividade que se tem. Quem, ao principiar o dia, se arrasta penosamente como que para um trabalho forçado, está a dispor-se para que o seu trabalho, nesse dia, seja amargo, pouco compensador e, muito provavelmente deficientemente feito. O contrário, isto é, encarar o dia que começa como uma oportunidade de fazer algo construtivo que contribua para o bem pessoal e alheio, leva a que o “peso” do trabalho seja vivamente atenuado pela atitude de disponibilidade e desejo de servir. O que tem isto a ver com a constância? Tem tudo, porque só pode trabalhar bem – única forma admissível de trabalhar – quem for constante naquilo que faz, sem andar a movimentar-se de uma coisa para outra, deixando para mais tarde algo que não apetece fazer agora, que se dispõe todos os dias, a fazer, se necessário, as mesmas coisas da mesma forma. Aliás, não há outra forma de ganhar a confiança de quem é responsável pelo seu salário. Generosidade Desde Descartes – que tentou definir a generosidade de modo científico – até aos pensadores mais comuns têm tentado dar uma imagem concreta da generosidade. De facto, parece-me, uma virtude bastante complexa que tem a ver com a maneira de ser, o carácter, de cada indivíduo. Quero dizer que não há uma formula que se aplique para ser generoso já que, cada ser humano reage de forma diferente perante circunstâncias semelhantes. Aliás, também não é quantitativa porque não se é muito ou pouco generoso, ou se é ou não se é de todo. Parece-me que a generosidade se avalia melhor considerando a entrega que de si mesmo se faz a um apelo, convite, chamamento.

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A resposta à vocação pessoal envolve, seguramente, generosidade, porque significará sempre uma escolha, uma eleição entre algo que significa desprendimento de alguma coisa com a finalidade de conseguir alcançar outra. Tem, portanto, a ver com a entrega consciente e desejada a um ideal de vida para atingir um determinado fim, bom, para si mesmo e para os outros. A entrega só o é se for total, completa, incondicional, aceitando e cumprindo os quesitos necessários para atingir o fim proposto. A generosidade é desapego, livre e intencional. Se for assim, dar, pode ser um acto de generosidade, se não, será algo feito com espírito de obter retorno ou apenas cumprir aquilo que se julga ser uma obrigação naquela circunstância particular. Vemos que, a ser assim, a generosidade envolve algum sacrifício, tal como a entrega, já que ao seleccionar algo se descarta alguma outra coisa. A vocação é também uma eleição, uma escolha de algo que convém em detrimento de algo que não interessa. O homem só pode ser inteiramente feliz se seguir a vocação que lhe foi sugerida pelo Espírito Santo no seu íntimo. Por isso a felicidade é interior e não exterior, porquanto não depende do que fazemos, mas do que pensamos. Ao considerarmos que a felicidade é uma gama de emoções ou sentimentos que vai desde o contentamento ou satisfação até à alegria intensa ou júbilo e, ainda, significando bemestar ou paz interna, percebemos que, a suprema aspiração do homem, é, sem dúvida, ser feliz. Será lícito, portanto, concluir que na base da felicidade pessoal está a virtude da generosidade.

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Obediência A obediência define-se como um comportamento pelo qual um ser aceita ordens dadas por outrem. O termo obediência, tal como a acção de obedecer, conduz da escuta atenta à acção, que pode ser puramente passiva ou exterior ou, pelo contrário, provocar uma profunda atitude interna de resposta. Obedecer implica, em diverso grau, a subordinação da vontade a uma autoridade, o acatamento de uma instrução, o cumprimento de um pedido ou a abstenção de algo que é proibido. A figura da autoridade que merece obediência pode ser, antes de mais, uma pessoa, mas também, uma doutrina ou uma ideologia e, em grau superior, a própria consciência e Deus. Está intimamente ligada à liberdade já que, a obediência só é verdadeira quando é uma opção livremente tomada e aceite. A liberdade dos Filhos de Deus, que somos todos os homens, sugere essa obediência natural ao Pai, ao Criador, ao Senhor que dispôs de forma coerente e possível onde, como e quando a obediência deve existir. Com os Mandamentos, Deus entregou ao homem um código de conduta que é a lei natural que deve reger a sua vida. Não é necessário acreditar em Deus para, não matar alguém num acto de vingança, por exemplo, uma vez que se vai contra a lei natural que deve reger o comportamento humano em sociedade. Mas, o facto de ser cristão reveste o acto de um valor superior, ou acrescenta-lhe responsabilidade. Sendo um acto interior da vontade, a obediência forma-se na consciência do que é útil ou conveniente fazer em cada circunstância para viver – conviver – na sociedade humana dentro dos parâmetros

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comummente aceites como necessários. A obediência passiva caracteriza-se pela aceitação pura e simples do que é sugerido ou mandado quer interiorizando quer demonstrando-a por acções concretas ao passo que, a activa, se traduz numa atitude profunda e concreta de execução do que é sugerido ou mandado, como será, por exemplo, a entrega sugerida como sendo a vocação própria. Como se disse, a obediência só o é, verdadeiramente, como emanação livre da vontade própria e, portanto, não pode nunca ser confundida com sujeição ou submissão. Por isso mesmo, o acto de obedecer, implica, sempre, uma escolha, uma opção. Simplicidade Se procurarmos uma definição de simplicidade podemos correr o risco de contrariar o que pretendemos. Quer dizer que as explicações ou definições tendem a ser minuciosas, detalhadas ou seja, tudo menos simples. Ausência de extravagâncias, eufemismos, preconceitos, dúvidas mais ou menos sérias, obsessão pelo detalhe, por exemplo, tudo isso é a antítese da simplicidade. Diria que, a simplicidade, é um estado interior de clareza de sentimentos e emoções. Não tem a ver com passividade nem com alheamento das realidades da vida, própria ou alheia, mas com uma atitude séria de estabilidade quer do comportamento quer emocional. Possivelmente será uma virtude muito difícil de conquistar e, mais ainda, de manter, porque, de certo modo, vai contra a tendência natural do homem de interrogar, de apreciar, avaliar algo que se lhe depara ou é proposto.

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A simplicidade é conduzida, informada, pela consciência, por isso a pessoa simples tem uma atitude de aceitação naturalmente pacífica. A partir do momento em que a consciência toma valores como definidos e propostas vindas de determinadas pessoas como aceitáveis a simplicidade tende a dar o “caso” como arrumado, isto é, não se envolve em lucubrações de nenhuma espécie questionando esses valores ou propostas consoante as circunstâncias em que ocorrem. A Fé em Deus é – deve ser - sempre simples, isto é, não questiona, não duvida, não sugere alternativas. Só nesta medida é que pode ser inteiramente vivida. Aliás, não se justifica a Fé sem seja vivida plena e conscientemente. Se o não for, para que serve? A simplicidade envolve virtudes como: entre outras, a constância, a fidelidade, a obediência, e a mansidão. Mansidão Uma virtude e um Fruto do Espírito Santo, a mansidão, encontra em Jesus Cristo a sua personificação completa: «Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas» (Mt 11:29). A chave parece estar aqui: descanso para as vossas almas! Dotado desta virtude o homem está apto a gozar de uma tranquilidade e serenidade que lhe dão uma visão completa, detalhada e muito concreta de tudo o que lhe importa. Assim, fica dotado de uma capacidade ímpar para praticar os actos de maior

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relevo e aceitar pacificamente os desafios mais exigentes com que possa deparar-se. No Sermão da Montanha Jesus Cristo afirma que os mansos possuíram a terra (Mt 5, 3-12) o que pode parecer um contraste com o que diz a propósito da conquista do Reino de Deus (Mt 11, 12): possuir a terra com mansidão conquistar o Céu com violência! Como compreender isto? A nossa visão humana dir-nos-ia que deveria ser precisamente o contrário. Encontramos que para alcançar o Céu é, de facto, necessária a violência, entendida como o vencimento do próprio eu, dos obstáculos que se levantam à passagem dos que desejam progredir nesse caminho, na luta exigente, contínua, sem descanso que é preciso travar para se conseguir o objectivo, ao passo que, para entrar na posse de algo terreno a violência não conduz a nenhum resultado estável, duradouro, como atestam as constantes querelas, amiúde violentíssimas, entre homens, países, raças e religiões. Uma vitória só é completa e satisfatória quando alcançada com a razão e, nunca, com a imposição pela força de algo que se pretende conseguir. O ser humano, como já se viu, tende para o seu Criador, para Deus e só será feliz, completamente feliz, quando alcançar este objectivo e, este, sendo atingível não está ao alcance daqueles que não se empenharem a sério, na sua conquista. Um dos principais quesitos para o sucesso desta luta é a humildade de reconhecer as próprias limitações e defeitos que são obstáculos nesse percurso.

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Humildade O que se tem escrito e dito sobre esta virtude encheria muitos livros. A razão é simples: é tão difícil de conseguir que costuma dizer-se que, até ao último sopro de vida o homem tem de lutar por conquistá-la. A ser inata na natureza humana, esta virtude e o mundo, como o conhecemos, seria absolutamente diferente. Mas não! O ser humano tem uma personalidade própria que, tendencialmente, o leva a julgar-se superior ou mais capaz que o seu semelhante. Não se alargarão, pois estes, comentários já que noutros locais se podem encontrar muito boas definições, conselhos, instruções e valiosas considerações, que pessoas de grande estatura moral e intelectual tê, ao longo dos tempos, feito sobre esta virtude Voltamos ao que atrás dissemos: a tendência para avaliar os outros e o seu comportamento em função daquilo que somos e do que fazemos. Somos o nosso próprio exemplo, vemo-nos como que num espelho, reflectidos no aspecto exterior deixando escondido o que realmente somos. Há uma relação muito grande entre a humildade e a consciência do próprio eu, das limitações e barreiras que se levantam dentro de nós e, também, da correcta avaliação das nossas capacidades e potências porque, ser humilde, não significa considerar-se nem incapaz nem miserável mas, sim, ter a consciência daquilo que nos falta para sermos perfeitos. A perfeição, pedida por Cristo: «sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito» (12) é, obviamente inatingível – é impossível
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Mt 5, 48

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igualar Deus – e, não obstante Cristo exigiu-o e não a um grupo restrito e escolhido de seguidores, mas a todos os seres humanos. Evidentemente que Jesus não poderia nunca exigir, aos homens, algo impossível; tão só quer que façamos tudo quanto que está ao nosso alcance para o conseguir. Ou seja, Cristo não exige, como condição para nos salvarmos, a conquista do objectivo mas a luta empenhada por consegui-lo. Esta luta que a humildade pessoal deve orientar, ir-nos-á levando por caminhos cada vez mais elevados, naturalmente mais difíceis e exigentes, que nos conduzirão a um estado de alma crescente em alegria, satisfação e serenidade. Serenidade A serenidade é uma virtude do carácter estável que enfrenta os factos e circunstâncias da vida corrente com uma atitude positiva evitando as reacções repentinas ditadas pela emoção, antes analisando com objectividade a verdadeira natureza da coisa na busca da solução ideal. Às vezes pode ser confundida com os defeitos que se lhe opõem como a preguiça ou o desleixo e, por isso mesmo, S. Josemaria Escrivá avisa: «Não confundas a serenidade com a preguiça, com o desleixo, com o atraso nas decisões ou no estudo dos assuntos. A serenidade complementa-se sempre com a diligência, virtude necessária para considerar e resolver, sem demora, as questões pendentes.» (13)

13

S. JOSEMARIA, Forja, 467

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Talvez que uma das situações da vida humana onde a serenidade se mostre mais necessária seja no matrimónio. Os cônjuges têm, quase sempre, maneiras de ser diferentes e, consequentemente, as formas de encarar os factos e incidentes da vida comum podem não coincidir. Daqui que seja frequente a discussão mais ou menos acesa, sobre o assunto em causa. A ausência de serenidade em pelo menos um dos cônjuges pode levar a algum extremismo de posições, transformando o que começara por ser uma discussão normal entre dois adultos que se amam, numa altercação viva e ruidosa em que se vai perdendo o controlo das palavras e das emoções, continuando na sublimação dos defeitos de cada um como se estivessem a discutir duas pessoas que se odeiam. O final é sempre um mal-estar entre o casal em que nenhum dos dois quer ceder nos seus pontos de vista, surgindo um mau humor mais ou menos perdurável. Por isso, esta virtude é importante para, pelo menos, «Aquele que estiver mais sereno diga uma palavra que contenha o mau humor até mais tarde» (14) A vida no mundo de hoje constitui um desafio permanente a esta virtude. São tantas e tão variadas as dificuldades que cada dia se levantam, as dúvidas quanto a um futuro cada vez mais incerto, as pressões de toda a ordem a que se é sujeito, a rapidez com que ocorrem mudanças, muitas vezes radicais, no mundo que nos rodeia que, diria, manter a serenidade é um complexo e difícil exercício da vontade e de um carácter que requer equilíbrio, estabilidade emocional e, naturalmente, bom humor.

14

S. JOSEMARIA, Cristo que Passa, 26

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Bom Humor
Alfred Montapert (15) escreveu: «O bom humor espalha mais felicidade que todas as riquezas do mundo. Vem do hábito de olhar para as coisas com esperança e de esperar o melhor e não o pior.» Realmente o bom humor é uma virtude excelente que torna o convívio ou as relações com aquele que a possui, muito agradável. Em qualquer tempo, mas sobretudo no que decorre, é bastante difícil não ser constantemente assediado com assuntos, factos ou incidências que nos provocam apreensão, dúvida, sentimentos contraditórios, e, se em sociedade, discussões e confrontos que por vezes desgastam desnecessariamente a pessoa e podem de alguma forma corromper essas mesmas relações. Normalmente, o bom humor está associado à serenidade porque também é uma virtude estável do indivíduo não sujeita a influências alheias, do meio ambiente, etc. Mas não tem nada a ver com a inconsciência ou a ligeireza de carácter que levam a encarar o que se lhe depara com a displicência própria dos néscios. Pelo contrário, é uma virtude que dá ao que a possui, um enfoque optimista das coisas, procurando sempre o “lado bom”, tirando partido das situações que se apresentam como menos boas para lhes descobrir um bem que não parece evidente.

15

ALFRED ARMAND MONTAPERT, The Supreme Philosophy of Man: The Laws of Life, 1970.

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Sim, tem também muito a ver com a esperança já que, esta, é fundamental para evitar o derrotismo, a consideração da inevitabilidade do que se apresenta. Na luta interior, então, esta virtude é fundamental para que, associando-a à consciência, se possa ter um optimismo razoável quanto aos resultados do esforço por melhoria. A pessoa bem-humorada faz amizades com mais facilidade já que, tem um espírito mais aberto e construtivo que, naturalmente, atrai e arrasta. Amizade «Para que haja verdadeira amizade é necessário que exista correspondência, é preciso que o afecto e a benevolência sejam mútuos.» (16) Esta afirmação feita por S. Tomás define por excelência os quesitos fundamentais para que exista amizade verdadeira. Temos muitas vezes a tendência para chamar amigos a simples conhecidos que, por uma razão ou outra, podemos achar simpáticos e em cuja companhia nos agrada. Isto é banalizar o significado de amizade que, como já vimos, é bastante mais que simpatia. Envolvendo sentimentos profundos, a amizade não se forjará em qualquer ocasião ou contacto, é algo que se constrói com o tempo e à medida que a relação vai adquirindo uma forma estável e o conhecimento do outro se vai aprofundando.

16

Cfr. S. Tomás DE AQUINO, Suma Teológica, 2-2, q. 23, a. 1.

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Há sempre – tem de haver – reciprocidade de sentimentos, interesses, afectos, quando não a relação é unilateral o que a amizade não é. Por outro lado só se entende amizade por uma relação construída para o bem, próprio e alheio, porque se trata de dar e receber. Assim, pode afirmar-se que «Só são verdadeiros amigos aqueles que têm algo para dar, e ao mesmo tempo, a humildade suficiente para receber. Por isso é mais própria dos homens virtuosos. O vício partilhado não produz amizade mas sim cumplicidade, que não é o mesmo. Nunca poderá ser legitimado o mal com uma pretensa amizade.» (17) Repare-se bem que se diz que a amizade é mais própria dos homens virtuosos, o que baliza imediatamente o campo em que amizade pode existir. Há um ditado muito antigo e conhecido que diz, mais ou menos, “se queres perder um amigo pede-lhe dinheiro emprestado”. Isto é absolutamente contrário à amizade. Mesmo que o amigo não empreste o que se lhe pede – e as razões podem ser muitas – porque razão haveria de deixar de ser amigo do que lhe pediu? Se considerar que lhe pediu exactamente por ser seu amigo, deve, ao contrário, aferir que foi uma prova de confiança, de humildade, que a petição sempre infere, de esperança, de optimismo. Não é lógico pedir a um desconhecido tendo um amigo que pode socorrer-nos, porque, enquanto o primeiro não tem qualquer razão para aceder ao que pedimos, o segundo tem-na e em grau elevado

17

J. ABAD, Fidelidad, Palabra, Madrid 1963, nr. 110, trad AMA

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porque nos conhece bem, sabe das nossas dificuldades e conhece as circunstâncias que nos levaram ao pedido. É verdade que, quem pede a um amigo, fá-lo porque espera receber e, o amigo que dá, também recebe não só a gratidão do outro mas a própria satisfação interior de lhe ter assistido no que precisava. A generosidade retribui sempre muito bem àquele que a pratica e deve ser algo natural entre amigos verdadeiros. Receber é uma constante na vida de qualquer ser humano desde os primeiros momentos até ao último. É claro que, quando alguém recebe alguma coisa, outro alguém dá essa mesma coisa e esta é uma verdade sem discussão porque não é próprio receber sem dar, nem dar sem receber. A amizade implica amor, é sempre um acto de amor pelo outro, expresso numa atitude fraterna. Fraternidade A fraternidade é expressa no primeiro artigo da Declaração universal dos direitos do homem quando ela afirma que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. A ideia de afecto, união, carinho ou parentesco entre irmãos estava presente na palavra correspondente no grego comum do primeiro século - adelfótes. Segundo o apóstolo Pedro era o tipo de união que identifica os verdadeiros cristãos. (18) De facto a palavra parece indicar um grau de parentesco bastante grande, ou de relação entre irmãos. O vínculo de intimidade e
18

1Ped 2:17

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vivência entre irmãos é um dos mais fortes nas relações entre os seres humanos. Na antiguidade, com alguma excepção, não havia outra palavra para definir o grau de parentesco. Por exemplo primos, cunhados e outros membros próximos na família eram todos designados por irmãos. Talvez alguma inflexão na voz pudesse fazer a distinção, o que, obviamente não sabemos. Quando os contemporâneos de Jesus Cristo falam dos ''seus irmãos e irmãs”, (19) é evidente que se referem a familiares de outro grau de parentesco já que todos os seus conterrâneos sabiam que Jesus era filho único de Maria. (20) Temos pois, que a fraternidade é uma virtude que estabelece um vínculo talvez mais abrangente que a amizade, porque infere tendências, gostos, preferências iguais ou muito semelhantes com vista a um mesmo fim. A algumas comunidades é frequente dar-se o nome de ''fraternidade'' exactamente porque perseguem o mesmo fim ou objectivo através das mesmas práticas e convicções. A fraternidade é uma virtude indispensável para na vida em sociedade tornar as relações mais fáceis entre todos, porque, como diz São Josemaria Escrivá, «Que difícil parece por vezes o trabalho de superar as barreiras, que impedem o convívio entre os homens! E contudo nós, os cristãos somos chamados a realizar esse grande milagre da fraternidade: conseguir, com a graça de Deus, que os homens se tratem cristãmente, levando uns as cargas dos outros, vivendo o mandamento do Amor, que é o vínculo da perfeição e o resumo da lei.» (21)
19

por exemplo Mt 12, 47 Nota: Aliás as especulações à volta deste assunto só revelam a profunda e lamentável ignorância de quem as faz. 21 S. JOSEMARIA, Cristo que Passa, 157
20

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Uma das práticas mais interessantes e benéficas desta virtude é a chamada correcção fraterna. Sobretudo entre pessoas próximas seja por parentesco, amizade, partilha de objectivos, etc., esta prática é altamente recomendável na medida em que constitui uma ajuda fundamental e que a pessoa tem direito a esperar. Quem está “de fora” aprecia melhor os pormenores que passam despercebidos ao próprio e não só pode, como deve, fazer essa correcção que é, sempre, no sentido construtivo de ajudar e, nunca, com a intenção de supor algum julgamento ou reprovação do que se aponta. Normalmente, esta correcção fraterna será feita a propósito de coisas pequenas que mal se percebem e podemos fazê-la depois de, em consciência, avaliarmos bem da justiça e da bondade do que pretendemos fazer. Algo mais complexo, grave ou sério, deverá previamente, ser prudentemente visto com a alguém com capacidade e qualidade para aconselhar. Só depois, e se for julgado útil, se deve fazer. Quando acima se diz que a correcção fraterna é algo a que a pessoa tem o direito de esperar quer-se dizer que se tem a mesma correcção fraterna como um verdadeiro bem porque ajuda singularmente a corrigir algo que não nos dávamos conta. Para quem a faz, como para quem a recebe, a correcção fraterna produz sempre um verdadeiro benefício ao primeiro porque pratica um acto de justiça, ao que a recebe porque pode assegurar-se que, o que lha fez se preocupa consigo e está disponível para lhe prestar a ajuda que necessita. Optimismo

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Não poucas vezes se considera que a pessoa optimista tem uma visão desfocada da realidade, que espera sempre algo que resolva o problema ou a situação, algo que não sabe bem o que é ou vindo de quem, nem quando mas que, seguramente, acontecerá. Bem, a pessoa com estas características não pode considere-se optimista, pelo menos à luz do conceito que fazemos do optimismo e que é: a tendência para pensar de forma positiva. A recomendação de S. Josemaria Escrivá é muito esclarecedora: «Fé, alegria, optimismo, - mas não a estupidez de fechar os olhos à realidade.» (22) Na verdade tudo quanto se nos depara na vida corrente tem várias formas de ser avaliado ou considerado mas, destas, duas avultam: com atitude negativa que leva a considerar a inevitabilidade do que sucede ou se presume vai acontecer ou, a atitude positiva que considera as possibilidades de influir, alterar ou modificar, se for caso disso, a ver o lado bom, a retirar sempre um bem mesmo de algo, aparentemente, mau. É muito conhecida a citação que refere a forma de duas pessoas sedentas avaliarem a água contida num jarro, um considera que está meio cheio enquanto, outro dirá que está meio vazio. Ambas apreciações são verdadeiras e referem-se a uma mesma coisa, dependendo a sua expressão do enfoque de cada um. Liminarmente, poder-se-ia dizer que o primeiro é optimista – “que bom, ainda tenho água para matar a sede” - e o segundo exactamente o contrário – “provavelmente esta quantidade de água não será suficiente para a sede que tenho”.

22

S.

JOSEMARIA,

Caminho, 40

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O optimismo cristão baseia-se na certeza de que Deus não nos envia nada superior às nossas forças e, se dá a carga, também dá a força para a suportar. Sendo assim, o optimismo não deixa lugar ao derrotismo nem à excessiva preocupação. Naturalmente que – e falamos do optimismo saudável, isto é, consciente – esta convicção nasce de um estado de alma onde a confiança em Deus ocupa um lugar predominante. Bem visto, esta atitude de confiança, não deve iludir o que cada um tem de se pôr ou fazer para que as situações se clarifiquem ou resolvam. Mesmo observada pelo lado estritamente material esta atitude atrás referida deve ser sempre tida em conta. Não se pode querer ganhar a lotaria sem, pelo menos, previamente comprar uma cautela. O que São Josemaria Escrivá chamava a «mística do oxalá - oxalá não me tivesse casado; oxalá não tivesse esta profissão; oxalá tivesse mais saúde; oxalá fosse mais novo; oxalá fosse velho!...» (23) não conduz, obviamente a coisa nenhuma, servindo apenas para distrair a mente da realidade e impedir a vontade de influir nessa mesma realidade. Há pessoas que andam pela vida como que carregando um peso insuportável, de semblante carregado, com ar de derrota e inevitabilidade confrangedores. Não é exagero, olhemos bem à nossa volta quem se cruza connosco na rua ou se senta no mesmo transporte público que nós e comprovaremos o que se diz. Arrancar um sorriso a estas pessoas, é um desafio fenomenal, de tal forma estão dominadas pelo seu

23

S.

JOSEMARIA,

Temas Actuais do Cristianismo, 116

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sentimento de desgraçados, de vítimas de todas as misérias e coisas más da vida. Há, parece, uma espécie de “tristeza nacional” que quase se apalpa no dia-a-dia. Isto tem de ser contrariado, há que dizer às pessoas que nem tudo é mau, que o futuro não tem que ser pior que o dia de hoje, que há esperança de evolução positiva da sociedade, que o bem acabará por triunfar sobre o mal, que, em suma, há motivos e razões suficientes para o optimismo. Flexibilidade Esta virtude, que se cita em último, não é, por isso, menos importante; aliás, a ordem porque foram citadas não obedece a nenhum critério de importância ou interesse. Pode dizer-se que a Flexibilidade é a capacidade de mudar de atitude ou forma de pensar adaptando-se a determinadas circunstâncias, sem necessariamente, e de uma forma geral, implicar uma mudança de opinião ou convicções mais profundas. Claro que é necessário ter uma atenção especial para não se cair na contradição da constância, por exemplo, mas, ao contrário, apoiar-se mais noutras virtudes como, por exemplo: a Humildade, a Confiança, a Obediência a Simplicidade a Mansidão; a Amizade e a Fraternidade. A irredutibilidade de opinião, conceito ou critério são, quase sempre sinal de falta de humildade e, bastantes vezes de orgulho e autoconvencimento. Fechar-se num hermetismo impassível ao que se passa à sua volta, completamente alheio das opiniões ou conceitos dos outros, sejam quem forem, conduz a um anquilosamento da personalidade que torna a pessoa antipática e pouco ou nada

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participativa na vida social. Numa espécie de ilha – com o já falámos – sente-se dono e senhor de umas razões e certezas que não está disponível para avaliar e, muito menos, discutir. Não evolui, não cresce, não melhora. A atitude contrária manifesta-se na abertura às opiniões dos outros, contrastando-as com as próprias e elegendo as que, em consciência, parecem mais adequadas à circunstância. Não se trata de “ceder” mas de aceitar, de submissão mas de cooperação. É a virtude da flexibilidade que nos permite ir pela vida colhendo a beneficiando das experiências e conhecimentos dos outros, adaptando-nos, usando a Humildade, a Confiança, a Amizade e a Fraternidade para, com Simplicidade e Mansidão, progredir nas demais virtudes que devem estar sempre presentes. Sem elas, seria muito difícil, ou mesmo impossível, ao homem progredir no caminho do bem, da melhoria pessoal e alheia, dando à sociedade o contributo que tem obrigação de dar.

Porto, 2010-08-31

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