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Bater ou não Bater?

Por uma releitura do uso da vara em Provérbios

Alexandre Gonçalves1*

Há poucos anos atrás a aprovação pelo Congresso Nacional da Lei n.º 13.010/2014, que
estabeleceu que as crianças e adolescentes têm o direito de serem educadas sem o uso de castigos
físicos ou tratamento cruel e degradante, reacendeu o debate em torno da legitimação das
punições corporais como forma de disciplina, especialmente entre muitos cristãos. A chamada de
“Lei da Palmada” ou “Lei Menino Bernardo” – em referência a Bernardo Uglione Boldrini, de
11 anos, morto no Rio Grande do Sul, sendo seu próprio pai o principal suspeito – tem recebido
várias críticas, notadamente dos setores cristãos mais conservadores. Para os defensores da
“vara” enquanto método de correção, o Estado está interferindo em um direito dos pais de
aplicarem a correção que eles julgam – a partir de sua leitura da Bíblia – legítimo e necessário.

Para além da discussão sobre a influência (cada vez maior) do Estado na vida privada –
tema que em si merece constante apreciação –, também tem causado bastante desconforto entre
os cristãos defensores das palmadas o fato de que outros cristãos têm reinterpretado e aplicado
de maneira alternativa os textos bíblicos referentes à disciplina infantil. Para os cristãos que se
opõem às palmadas, há muito mais coisas em questão nos textos bíblicos do que simplesmente
uma chancela divina aos castigos físicos.

A verdade é que historicamente boa parte dos cristãos figura entre os defensores mais
fervorosos desse tipo de castigo, e encontram na Bíblia textos que fundamentam os argumentos
utilizados por sucessivas gerações até os dias de hoje. Essas pessoas consideram a Bíblia e suas
instruções sobre punição corporal uma base sólida para seus métodos disciplinares. E de fato, há
textos bíblicos que consideram a punição uma virtude, exaltada como um meio de purificação
(Provérbios 20:30).

Entretanto, todo e qualquer texto carece de interpretação e contextualização, não apenas
de citação. A propósito, o livro de Provérbios, ou mais especificamente 9 de seus 927 versículos
(10:13; 13:24; 19:18; 22:15; 23:13-14; 26:3; 29:15,17) divididos em 31 capítulos, figuram entre
os textos da Bíblia mais utilizados ao se tratar do tema da punição corporal de crianças. É verdade
que alguns desses textos não se referem exclusivamente às crianças, e como outros acabam sendo
utilizados como reforço argumentativo. Mas é notório entre os defensores da palmada (ou da
utilização da vara, para sermos bíblicos) uma ética dúbia e seletiva. Uma vez que o método de
leitura e aplicação utilizado pelos cristãos pró-palmadas é, em sua grande maioria, literal e
específico, o mesmo deveria valer para outros textos, tais como esse:

“Se alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedece à voz de seu pai e à de sua
mãe e, ainda castigado, não lhes dá ouvidos, seu pai e sua mãe o pegarão, e o levarão aos
anciãos da cidade, à sua porta, e lhes dirão: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá

1
* Pastor da Igreja da Irmandade, Educador Social, Consultor na área de prevenção das violências contra crianças
e adolescentes, Mestrando em Teologia com ênfase em Estudos da Paz pelo Bethany Theological Seminary, EUA.

todos os homens da sua cidade o apedrejarão até que morra. por uma abordagem concreta e específica em sua leitura a interpretação da Bíblia. restrição da mulher ao ambiente doméstico. e 7) a disposição emotiva dos pais. conforme orientação do texto de Deuteronômio acima. esses cristãos afirmam basicamente que: ▪ A Bíblia ensina claramente a punição corporal. sob a alegação de respeito à autoridade das Escrituras. 2011). e consequentemente como prática punitiva na sociedade. E uma vez que se observa ser essa a abordagem preferencial desses cristãos. professor de Novo Testamento do Tyndale Seminary em Toronto.” (Deuteronômio 21:18-21) Se bater em crianças é ainda hoje válido e necessário somente porque é bíblico. assim. é dissoluto e beberrão. enquanto outros são completamente ignorados. todo o Israel ouvirá e temerá. Ele diz que. eles deveriam demonstrar coerência e ler toda a Bíblia da mesma forma. Fica bastante difícil então. segundo William Webb. Há muito tempo há discordâncias sérias entre cristãos a respeito dos métodos de leitura da Bíblia. Ou seja. penas de morte por apedrejamento. até há poucas décadas. sob o risco de desvalorizar ou diminuir a autoridade bíblica. ouvidos à nossa voz. Ele menciona ao menos sete maneiras pelas quais isso é feito: 1) limitação de idade [os castigos físicos devem ser restritos às crianças mais novas]. que também é autor do livro Corporal Punishment in the Bible (Punição Corporal na Bíblia – InterVarsity Press. o que dizer então sobre a validade da lei do talião. atribuindo outros significados e adicionando observações que não constam no texto bíblico. O que quero destacar é que. a maior parte dos defensores da palmada optam claramente. Ao examinar cada um desses critérios em contraposição ao mesmo método concreto e específico que utilizam. 4) evitar marcas e feridas no corpo da criança. 3) a localização corporal da surra. Mas como compreender e aplicar textos bíblicos permeados por culturas . a interpretação cristã dominante sobre os castigos físicos. segundo seu próprio entendimento: “[estas pessoas] não estão fazendo o que a Bíblia claramente ensina”. Não vou entrar na questão sobre qual método é o mais apropriado para a leitura e interpretação da Bíblia. os mesmos que defendem as palmadas na criação dos filhos. escravidão. 2) número de açoites ou golpes. Segundo Webb. 6) a frequência das surras e o tipo de ofensa punível. em geral (porque sempre há exceções) são contra o apedrejamento de um filho teimoso e incorrigível. 5) determinação do instrumento da disciplina. Poucos foram os que se opuseram. ▪ Não há outro posicionamento na Bíblia do que apoiar o uso de punição corporal na aplicação da disciplina dos filhos. Webb demonstra em seu livro que na prática os defensores da palmada vão além da interpretação concreta e específica dos textos relacionados aos castigos físicos. para não dizer desconhecidos. ▪ Suas instruções sobre bater em crianças são bíblicas. crendo que estão sendo fiéis aos mandamentos de Deus. dietas alimentares e demais costumes particulares de um determinado povo em um determinado período da história? A questão crucial é que o apelo indiscriminado dos cristãos defensores das palmadas à Bíblia para validar suas práticas de punição corporal é incoerente e inconsistente porque é seletivo. Webb afirma que “em pelo menos cinco exemplos os atuais defensores da palmada escolheram desconsiderar um explícito ensinamento da Escritura”. eliminarás o mal do meio de ti. explicar por que motivos alguns textos são seguidos à risca. ▪ Pais e mães cristãos não devem tomar qualquer outra atitude na correção de seus filhos. Então.

particularmente a família e o clã. E embora . da sabedoria bíblica. ou códigos legais como os demais livros das Escrituras Hebraicas. por exemplo. Por esse motivo. Uma vez que o foco do livro está em indivíduos e não na história de grandes grupos. portanto. os editores finais acabaram por compor um livro que combinava a tradição recebida com novas percepções culturais. Pequenas porções da Instrução de Amenemopet. Não era necessário. tanto em forma quanto em conteúdo.). Mais especificamente. Sirácida. ou Eclesiástico (na tradição católica) e Sabedoria de Salomão (deuterocanônico). A busca por sabedoria é uma busca pelo significado da vida. ao passo que as condições culturais se alteravam (com o advento do Helenismo. escribas e professores durante o período da monarquia dividida (entre 922 e 721 a. Uma curiosidade sobre o livro de Provérbios é que. foram incluídas no livro de Provérbios (22: 17 a 24:22). 31:1-9). percepções vindas de outras nações eram igualmente válidas e aceitas. alianças. tornou-se lugar comum culpar os tolos por suas “inevitáveis” adversidades ou recomendar castigos corporais para crianças temendo que sua desobediência pudesse produzir as piores consequências possíveis em sua vida adulta. ou de Sabedoria. Assim. devido à legendária sabedoria do sucessor de Davi (I Reis 3-4). respeitando um princípio importante para os cristãos que é a autoridade das Escrituras? Webb nos coloca ainda a seguinte pergunta: “É possível mover- se além da Bíblia biblicamente?” A resposta está na constância do exercício hermenêutico. juntamente com duas coleções de autores não hebreus desconhecidos (30:1-4.. Provérbios – assim como os outros escritos da Literatura Sapiencial –. datadas do séc. É verdade que. ele expressa um conceito de verdade universal.C. por exemplo). fazer uma leitura de um texto que se desconheça ou desconsidere seu quadro de referências histórico e cultural é o mesmo que transpor indiscriminadamente certos costumes e tradições que não tem lugar na atualidade O livro de Provérbios faz parte de um conjunto de escritos denominados Literatura Sapiencial. Provérbios é composto por uma série de coleções de ditos e instruções vindos de vários contextos. provavelmente entre os séculos V e III a. alguns aspectos daquele tipo de mentalidade também mudaram.C. Desta forma. Ou seja. o mundo e a vida humana em termos gerais. o livro de Provérbios pertence ao gênero da sabedoria didática. e está influenciado pelo pensamento da elite intelectual de Israel. mas hoje se sabe que tal atribuição é considerada por muitos estudiosos como honorária. Os primeiros sábios a escreverem e a coletar os ditos de Provérbios estavam ligados à corte e ao templo de Jerusalém. de modo que se possa conhecer o contexto no qual as instruções bíblicas foram originalmente formuladas e se possa distinguir o que é universal e perene daquilo que é particular e transitório. reflete uma visão que cobre um vasto período de tempo. na qual instruções e conselhos de um sábio contribuem para a formação do caráter ético de um indivíduo. Sua autoria foi tradicionalmente atribuída à Salomão.C. que determinado dito ou conjunto de instruções tivesse origem no povo Hebreu para que fizesse parte do corpus sapiencial. XIII a. verificada independente do contexto histórico ou cultural. e serviram como conselheiros. Livros de sabedoria egípcios em particular são bastante próximos. O estágio final de composição e edição ocorreu muito depois. Acreditava-se que o caráter e o comportamento de uma pessoa produziriam consequências previsíveis. Outra característica fundamental de Provérbios é que seu conteúdo está permeado de uma justiça (e teologia) retributiva. ao invés de privilegiar as revelações divinas. Em si. Outros livros que compõem o corpus sapiencial são Eclesiastes e Jó (na tradição protestante). É o processo pelo qual se reflete sobre a sociedade.e tradições do Oriente Antigo nos dias atuais.

Em seu livro. desonestidade ou dolo. entendimento. 24-26. obediência e disciplina (Provérbios 2:3-6).os sábios estivessem cientes de que as aparências podem enganar. bom senso. Na verdade. 31). Webb diz que. as surras que deixam marcas visíveis no corpo fizeram parte de um padrão comportamental no mundo bíblico”. No entanto. os defensores das palmadas transitam com bastante facilidade entre o “bater com a vara” e as metáforas de punição divina (Hebreus 12:5-11). E é justamente por causa dessa metáfora teológica que a maioria dos cristãos valida o argumento favorável à punição corporal de crianças (senão também de adultos) afirmando que o próprio Deus. e a inteligência é um ato de vontade. e se refere à obediência e a um relacionamento apropriado com Deus. disciplina seus filhos através do sofrimento (Provérbios 3:12). Em outras palavras. aptidão. que o pobre merece cuidado ao invés de culpabilização. No livro de Provérbios. sem no entanto. De acordo com Provérbios. arrogância. a tolice implica em uma responsabilidade moral: o jovem imaturo (ou a criança) é “treinável” – no sentido de que pode ser corrigido de seu comportamento insensato – mas também responsável por aceitar a disciplina (2:1). desprezo orgulhoso. não verdades absolutas. obtusidade. insolência e imaturidade. A distinção entre sabedoria e tolice. e infelizmente constroem seus argumentos a favor dos castigos físicos a partir da prática equívoca de utilizar tais analogias a fim de estabelecer uma ética contemporânea. que é o “princípio da sabedoria” e que leva à maturidade e à uma consciência moral completa. Eles não entendem a natureza ambígua da ética baseada em uma analogia teológica. 28:17. sendo um pai perfeito. e que os propósitos de Deus transcendem os planos humanos. é a base para a percepção teológica e moral. insensatez. mas muito mais para sua família: . Do mesmo modo que a sabedoria. a sabedoria se adquire com disposição. dentre outras coisas. Estas duas palavras em Hebraico são ricas em nuances e transmitem uma infinidade de termos justapostos. conselho. literal ou metafórica. falta de disciplina. é uma vergonha para o indivíduo. rigorosa análise. Outras evidências encontradas na literatura judaica demonstram que os açoites e as marcas e feridas produzidas faziam parte de uma visão de mundo nos tempos bíblicos (Neemias 13:25. Daí o consenso de que a sabedoria é também uma virtude ética: a prudência vem incutida com a ordem moral. tem a ver então com um bom julgamento das coisas. Já a ignorância obstinada o coloca no caminho da morte. disciplina. Eclesiástico 23:10. o princípio de recompensa e punição é predominante. o objetivo fundamental de Provérbios pode ser resumido em ensinar a aquisição da sabedoria (hokma) e evitar a tolice (ivveleth). estupidez. conhecimento. Contudo. no contexto do antigo oriente. confirmada por gerações. a observação da experiência humana no dia-a-dia. A propósito. representada sobretudo pela voz do “pai” que fala ao “filho”. louca. Esta é a razão pela qual encontramos em Provérbios uma constante advertência com relação à importância da disciplina. tolice pode significar ignorância. Isaías 10:5. prudência. A palavra tolice é usada ainda para descrever uma pessoa facilmente influenciável ou completamente fora de si. Às vezes com tons de vingança (1:24-26. não um atributo inato. tais experiências concretas produziam princípios gerais. experiência. inteligência. Enquanto sabedoria pode ser vista como percepção. 30:31-32. a falta de disciplina. pessoas e relações em um nível prático. mesmo em um nível mais basilar nas relações humanas. “temer ao Senhor” é um conceito chave. Esses princípios deveriam ser observados e compreendidos a partir dos contextos nos quais os dilemas da vida se davam. Assim. “sejam administradas literalmente por seres humanos ou metaforicamente por Deus. Além do mais. bater até deixar marcas e feridas não era visto como uma ação vergonhosa ou abusiva da parte dos que administravam os castigos físicos. esta era considerada uma ação virtuosa e razoável dentro da prática mais ampla da punição corporal (20:30). juízo. 50:6).

Em suas variações essa palavra é encontrada cerca de 43 vezes nas Escrituras Hebraicas. Essa é a mesma virtude que aparece através de um amplo espectro de idade em versículos sobre punição corporal. ao conjunto de leis ou ordens exigidas que administram ou dominam um ambiente ou grupo social. à dureza ou rigor exigidos. treinar. Mas a disciplina também exerce uma função positiva ao encorajar a sabedoria. mas não diz exatamente como fazê-lo. 11. E uma vez que no livro de Provérbios encontramos em sua maioria ditos de sabedoria em unidades (ou em duplas). 21:18-21). repreender. Os sinais que representam os fonemas vocálicos surgiram séculos depois do nascimento da língua hebraica. capaz de colocar em risco a segurança de toda a comunidade (Deut. punir/castigar. a mesma palavra usada para definir o ato de disciplinar (yasar) pode ter sentidos muito diferentes entre si. também está relacionada à obediência. como por exemplo ensinar. disciplina. O maior problema sobre a disciplina era (e ainda é) a falta dela. qual seja. obediência e conhecimento enquanto virtudes para toda a vida (1:2-5. por exemplo. nem sempre é simples determinar se a palavra disciplina foi usada para descrever uma instrução ética. A partir dessa exortação constante em Provérbios. 14:33. como a punição corporal. e alguns meios transitórios e substituíveis. quanto para sua família e até mesmo para o futuro da comunidade. Disciplina vem do latim discere. bom senso. 19:29. Não há qualquer objeção a esse pensamento.. deve-se fazer uma análise mais ampla da coleção em que eles se encontram. corrigir. instrução. O que queremos dizer quando dizemos disciplina? A língua Hebraica possui um alfabeto consonantal e um vocabulário relativamente pequeno comparado a outras línguas (possui cerca de 8 mil vocábulos). 18:6. “O filho sábio alegra a seu pai. etc. um indivíduo indisciplinado era visto como um problema coletivo. O empenho dos pais em disciplinar os filhos era crucial tanto para o indivíduo. O contexto é determinante para o significado e intenção desses ditos. mas os métodos de aplicação da mesma. Assim como as demais línguas. e também estariam ligados conceitualmente àqueles sobre os castigos destinados aos tolos (Provérbios 10:13. que . 26:3).” (29:15) Em sociedades culturalmente moldadas pelo pensamento e tradições tribais. prudência. Pode se referir à instrução propriamente dita (daí que temos diversas “disciplinas” na escola ou na faculdade). 4:5. Por exemplo. em Provérbios a disciplina assume uma função negativa. de que alguma disciplina era necessária para a formação de um indivíduo. ou um castigo físico. mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe. remover a tolice da criança. Por isso. reprimir. 22:6). portanto. à atitude regrada ou determinada de um indivíduo. advertir. conhecimento. Em nosso contexto a palavra disciplina também se aplica a distintos contextos. mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe. castigos e punições. Provérbios fala insistentemente sobre a importância da aquisição de sabedoria. o Hebraico passou por muitas modificações ao longo dos anos. Isso torna o processo de tradução um pouco mais complexo. e sua raiz primitiva significa literalmente o ato de atingir/alcançar o outro com golpes ou palavras. O que temos são princípios essenciais. imutáveis e perenes. por exemplo. Havia um consenso. tanto como idioma falado quanto escrito. 22:15. criticar. e claro. a discussão não é mais sobre a necessidade da disciplina.” (10:1) “A vara e a disciplina dão sabedoria. Conceitualmente.

a resposta é: sim. Em geral. comunicação. alguns ajustes na rota são necessários. mas de adestrar através da obediência irrestrita e imposta pela força. capaz de contribuir para desenvolver valores saudáveis para o futuro da criança e a resposta é não. Disciplinar é o ato de estender a mão para (re)orientar o outro ao longo da jornada da vida.significa aprender. . humilhação e vergonha para aprender a se comportar. transmitem a ideia de que a criança precisa sentir-se pior. tendo que ser substituídas por outros métodos – ele também demonstrou que os castigos físicos compõem um método transitório e substituível. estes pais e mães lançam mão dos castigos físicos acreditando que esta é a melhor maneira de discipliná-los. A partir de uma leitura ideológica (adultocêntrica) dá-se mais importância ao que é instrumental e circunstancial (vara) do que aquilo que é fundamental (educação e disciplina). dentre outros valores essenciais. ajudando-as a compreender os significados do respeito. etc. e não uma orientação clara do comportamento esperado ou mesmo da reparação do dano. as punições corporais enfatizam o erro cometido. autoridade (diferente de autoritarismo). Quando William Webb demonstrou em seu livro que os defensores das palmadas recomendavam as surras para crianças mais novas – sob a alegação de que elas aprenderão a lição mais cedo e que. constância. Essas. as palmadas funcionam. tampouco às punições corporais. porque foram criados dessa forma. Além disso. cuidadores. Aliás. ou simplesmente porque não conhecem outros métodos para lidar com os comportamentos indesejáveis das crianças.. Refere-se originalmente ao processo de aprendizagem. cabo de vassoura e congêneres – é um método punitivo. o conceito de disciplina não pode ser limitado ao castigo. que envolve amor. nossas sociedades carecem de adultos. os quais a lei quer evitar. e não somente à atenuação de uma situação imediata? Se aplicamos a palavra “funciona” quando nos referimos à ação bem-sucedida de suprimir o comportamento indesejado da criança. Essas “correções” são apenas uma parte do todo que denominamos educação. Mas se estivermos nos referindo a um processo educativo eficaz a médio e a longo prazo. dentre outros valores essenciais para o seu aprendizado e formação. Portanto. Vale perguntar então: não haveria outras alternativas disciplinares para crianças mais novas? Por que os castigos físicos funcionam com crianças mais novas. sejam pais/mães. à jornada em busca do conhecimento. dispostos a assumir de fato seus papéis de referência positiva para as crianças. solidariedade. realinhamentos. não disciplinar. que vai desde a palmada até a utilização de objetos como chicote. Mas é preciso distinguir claramente as coisas. encorajamento do autocontrole. seja em nosso contexto ou mesmo no texto bíblico. A vara – e tudo aquilo que representa os castigos físicos. Os castigos físicos não são uma forma de educar. Durante essa jornada. fios elétricos. Conclusão Ainda que os índices de violência doméstica contra crianças e adolescentes sejam altos em todos os setores da sociedade a grande maioria dos pais e mães realmente ama seus/suas filhos/filhas e não pretendem machucá-los nem submetê-los a tratamentos degradantes. sentir dor. certo rigor e determinação. ensino do respeito e dos limites nas relações. e o que queremos dizer com “funcionar”? Que tipo de resultados práticos as surras oferecem à criança e ao seu processo de aprendizagem. conforme elas crescem as surras podem não funcionar muito bem. por sua vez. educadores.

utilização de certos instrumentos e gêneros musicais nos cultos. particípio de respicere). procedimentos. assim que possível. em que as surras ficam mais frequentes e mais intensas diante da resposta negativa das crianças. Embora há quem defenda a ideia de que o medo é um tipo de respeito. A dubiedade desse amor se manifesta tanto no desejo de agradar o outro quanto na rapidez em que lhe desfere um golpe. “… a única coisa boa que as crianças aprendem quando apanham é que os adultos também perdem o controle”. reparação (quando possível) do que foi feito de errado ou mesmo respeito pelo adulto. envolvimento direto ou indireto em processos político-partidários. E como tal. e não um fim em si mesmo. diversos temas da ordem da moral sexual (como o uso de contraceptivos) dentre muitas outras coisas. A maioria das igrejas reviu ao longo do tempo suas práticas em relação à restrição de vestimentas (especialmente para mulheres). perspectivas em torno do divórcio e casais de segunda união. É justamente a ineficácia do método punitivo corporal enquanto forma de disciplina que faz aumentar o risco de abuso físico. A terceira é a naturalização paulatina da violência. Mas essa será uma obediência baseada no medo. muitas delas como estratégia de defesa também aprendem a esconder ou mentir sobre os erros que cometem. nem todo respeito pelo outro deveria se fundamentar no medo. Métodos são instrumentos. podem ser substituídos quando já não mais respondem às demandas de nosso tempo. Os resultados imediatos para os adultos já sabemos: a obediência da criança. de modo que se possa (re)considerar o que foi visto ou feito de errado. na qual a criança tem duas saídas básicas: se cala resignada diante do poder do mais forte ou. travestida de amor e legitimada divinamente. como bem observado pelo doutor em Direito Público José Eduardo Romão. A segunda pior coisa que ensinamos é que a violência. não na compreensão. vias de acesso. em sua etimologia. Creio que uma das piores coisas que ensinamos às crianças através dos castigos físicos é que é possível bater em quem se ama. significa “olhar uma outra vez”. inclusive sob uma reavaliação bíblico-teológica. a palavra respeito (do latim respectus. se torna o opressor do qual um dia teve medo. pode ser usada para resolver conflitos. Ensinar respeito significa dar à criança uma oportunidade para rever suas próprias atitudes e agir de maneira diferente. Por que não rever também seus paradigmas sobre a educação das crianças? . Além do mais. Por fim. Porque de fato.