UFSC — UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CCJ — CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS Disciplina: Direito Civil II Aluno: Victor Cavallini

Fichamento do artigo “Tripartição Fundamental das Obrigações”, de Fernando Noronha O artigo tem o objetivo de demonstrar a existência de três tipos diferentes de obrigações (negócio jurídico, enriquecimento sem causa e responsabilidade civil), classificação esta negligenciada pela doutrina, a qual tende a falar apenas de obrigações nascidas em contratos e negócios jurídicos em geral. Para isso o autor faz, de início, a desconstrução das ditas fontes das obrigações — haja vista que a classificação atual se assenta na classificação destas —, começando pela lei. A lei, por si mesma, não cria obrigações. Ela apenas reconhece que certos fatos ensejam obrigações. Logo, por necessitar de verificação de uma situação de fato, pode-se dizer que a lei não é, necessariamente, uma fonte obrigacional. Assim, tais situações de fato, que são pressupostos para a aplicação dos preceitos legais (fatos jurídicos; atos ilícitos; atos jurídicos; negócios jurídicos) é que seriam as verdadeiras fontes das obrigações. Fatos jurídicos seriam então aqueles que, observados no mundo fático, têm sua respectiva significação na esfera jurídica. Portanto, o estudo dos fatos compreende dois momentos: o fático e o dos efeitos jurídicos. Das quatro categorias de fatos juridicamente relevantes (fatos jurídicos; atos ilícitos; atos jurídicos; negócios jurídicos), não existe uma que não possa dar origem a obrigações. As derivadas dos negócios jurídicos são as de maior importância, o que explicaria a teoria “geral” das obrigações ser tão voltada (infelizmente) ao estudo do negócio jurídico. Em seguida viriam os atos ilícitos, outro grande gerador de obrigações, e os fatos jurídicos, onde não há a observância da vontade humana. Por fim, os atos jurídicos stricto sensu também acarretam obrigações, tanto no campo do enriquecimento sem causa quanto na responsabilidade civil. Assim as obrigações, da mesma forma que não se é possível classificar ou reconhecer suas fontes, não são passíveis de classificação a partir das mesmas “fontes”. Por este caminho, só seria possível fazer a distinção entre obrigações negociais e não-negociais, o que, no entanto, apenas exageraria ainda mais a importância das primeiras. Mais importante do que essa classificação seria dividir as obrigações de acordo com suas especificidades. Na seqüência, o autor procede à classificação das obrigações segundo suas funções. Primeiro ele classifica as obrigações em autônomas e não-autônomas, conforme derivem ou não, conforme estejam ou não ao serviço de relações jurídicas extra-obrigacionais, constituídas entre as pessoas que virão a ser os seus sujeitos e preexistentes à relação obrigacional propriamente dita. Obrigações autônomas seriam, assim, as que nascem de uma situação jurídica preexistente, sendo estudadas em outros ramos que não o Direito das Obrigações, como o direito de família, relações de vizinhança, direito tributário, etc. Contudo, estas seriam regradas da mesma forma do que as obrigações autônomas, salvo algumas particularidades. Já as autônomas seriam o contrário, não constituindo mero desenvolvimento ou projeção de outra

relação jurídica anterior. Portanto, são as únicas tradicionalmente estudadas no âmbito do Direito das Obrigações. Dentro das obrigações autônomas haveria a distinção entre aquelas que nascem estritamente da vontade do devedor e do credor (obrigações negociais) e as que nascem da violação de um dos deveres genéricos e gerais, que podem incidir num dano ao credor (que no caso seria a responsabilidade civil) ou num acréscimo patrimonial ao devedor (enriquecimento sem causa). Esta seria então a divisão fundamental das obrigações. A seguir o autor destaca a importância e a diferenciação do interesse do credor em cada caso (que, apesar de ser um interesse egoístico, tem todo o direito de ser protegido, visto que os direitos têm tanto uma finalidade individual quanto uma social). Graças a essa diferença dos interesses é que o direito das obrigações estabelece regulamentações diferentes, porque tais obrigações têm finalidades diversas, ou seja, desempenham diferentes funções econômico-sociais: as obrigações negociais, por geralmente terem uma finalidade de produção e distribuição de bens e serviços e acréscimos ao patrimônio do credor, têm uma função distributiva e tutelam uma expectativa de mudança (aí falando em termos econômico-sociais); as obrigações de responsabilidade civil tem finalidade estática (manutenção do status quo), de proteção da esfera jurídica de cada pessoa, reparando os danos por outrem causados; o enriquecimento sem causa tem componentes tanto estáticos quanto dinâmicos, haja vista que resulta do aproveitamento indevido de bens ou outros valores de outrem e protege o interesse do prejudicado na remoção para o seu patrimônio do acréscimo auferido à sua custa. A cada uma dessas três categorias de obrigações corresponde um princípio ético-jurídico diferente, que assinala claramente a diversidade de cada uma. Às negociais corresponde o princípio de que os pactos devem ser acatados (pacta sunt servanda), às de responsabilidade civil o princípio de não causar dano a ninguém (neminem laedere), reparando-o no caso de fazê-lo, e às de enriquecimento sem causa o princípio de dar a cada um o que é seu (suum cuique tribuere). Tal sistematização, segundo o autor, seria essencial num estudo do Direito das Obrigações se ele fosse feito a partir dessas três categorias, o que seria mais conveniente do ponto de vista didático: a responsabilidade civil deveria vir antes dos negócios jurídicos, haja vista que o descumprimento dos mesmos acarretam responsabilidade civil. Esta atua como regime-regra dos negócios jurídicos. Inclusive, pela sua importância, as três categorias de obrigações deveriam constituir uma base para uma distinção de três ramos específicos dentro do Direito das Obrigações, de acordo com as funções de cada tipo.

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