You are on page 1of 7

Q uando o drama se apodera da dança

P aulo Paixão

O
fenômeno do corpo em movimento en- cânicas); as ações articulares (que balizam a am-
gendra acontecimentos em diferentes ní- plitude do movimento do corpo) etc. Essas ins-
veis de modo complexo. O corpo se tâncias funcionam em intima conexão com o
mantém em fluxos de transições todo ambiente externo ao corpo. Alguns estudos re-
tempo, nunca cessa. Esse curso contínuo alizados em diferentes disciplinas (Teorias da
de atividade articula diferentes dimensões inter- Arte, da Comunicação, na Psicologia, na Filo-
nas ao corpo e outras que são de trocas com o sofia, na Cultura e na Ciência) chegam a pro-
ambiente. A complexidade implicada na dinâ- por que as condições ambientais co-participam
mica do movimento corporal diz respeito à da ação corporal.1
multiplicidade de dimensões, envolvidas na A partir do exposto, podemos então su-
emergência de um único movimento, que por que, o movimento do corpo é sempre um
atuam de modo simultâneo. Ou seja, para que emaranhado complexo de atividades, do qual o
um simples gesto com o braço se realize muitos olhar capta apenas parte do fenômeno, assim
movimentos ocorrem no trânsito entre o den- como o pensamento simboliza somente uma
tro e o fora do corpo instantaneamente. determinada perspectiva e as palavras criam ín-
Entre as distintas instâncias que operam dices de referências limitadas, dentro de um es-
na realização do movimento humano, ressalto pectro de possibilidades bem maior. Nesse sen-
algumas: as atividades de regulação biológicas tido, a operação lingüística (fruto da observação
(que mantém as funções vitais em constante e da reflexão do pensamento e sua tradução em
funcionamento – respiração, circulação etc.); o palavras) é sintética, parcial, limitada e incom-
trabalho sensorial (que monitora as condições pleta. Se assim for, e existe grande possibilidade
ambientais internas e externas); a atividade ce- de assim ser, para falar de dramaturgia da dança
rebral (onde circulam mensagens e comandos é importante considerar alguns aspectos que,
em forma de reação eletroquímica); a ativação a partir desta perspectiva, se tornam críticos.
muscular (que impulsiona as alavancas biome- Antes de me deter nestes aspectos críticos, con-

Paulo Paixão é professor da Escola de Dança da UFPA.
1 Greiner (2005) faz um apanhado generoso destes estudos e pode ser um excelente ponto de partida pra
quem se interessa em aprofundar o assunto.

205

R4-A8-Paulo_Paixão.PMD 205 03/06/2011, 11:18

terminado trabalho exercido no campo da dan- Nos anos de 1980. conceituar o que seria uma dramaturgia no ter. dentro Teresa Keersmaeker. sobre o tema dramaturgia da dança.2 para o homem que persegue tanto a tradição fi- Do dossiê sobre dança e dramaturgia. o ato de fazer nascer o espaço poéti- cionalmente. pu. Marianne Van A partir da premissa de que o movimen- Kherkove. o tipo de encenação propos. com sua lógica própria seria o que for- vocaram um deslocamento do foco da drama. por outro lado. como primeira questão: porque a idéia e a prá- baseada em certa narratividade do corpo. por parte de alguns coreógrafos. imperceptível e oscilante. considerado como fundamento da criação. dramaturgia. superfície do corpo. pro. ção literária do texto teatral. aquilo que do estado e para alguns encenadores. numa dramaturgia de dança.s ala p reta sidero importante fazer uma pequena revisão do artística. Essa última. Tradi. 11:18 . na Bélgica. 206 R4-A8-Paulo_Paixão. podem-se subtrair várias definições para problematizada em certos limites. A segunda questão diz respeito à idéia de se na decisão. to. prefere considerar Jean dos limites do que foi apresentado como revi- George Noverre como o primeiro dramaturgo são do tema “dramaturgia da dança” ressalto da dança. tido em termos da sua orientação no espaço? ção. lho. a atividade criadora de Pina Bausch. o corpo. no espaço real do teatro. tem relevância para a questão e sustenta ceito começa a ser aplicado. co da ligação. uma rota para estruturação do traba- tema “dramaturgia da dança”. humano seria decididamente o mais importan- tas por diretores teatrais como Bob Wilson. crer que com estas três maturgia da dança seria a base de toda criação questões estarei esgotando os problemas relacio- 2 Entre os muitos casos de parcerias entre coreógrafos e dramaturgos no Brasil. neceria sentido para a construção dramatúrgica. no entanto. em seu doutorado. A dança cria uma arquitetura invisível. para se referir a de- o argumento de Kherkove. bem como na escolha de sentido constrói um corpo que dança? Sen- do tema dramaturgia. sem. uma vez que seu con- ação”. sentido que estaria associado à construção da de convidarem especialistas para assumir a dra. o fluxo de sentido captado na circulação Cabe lembrar que este termo começa a ser do trabalho do corpo no espaço. A terceira e última questão. entre outros. como por E ainda. turgia da palavra para o corpo. para esse tex- reno da dança. ao menos deve ser Danse. Vejamos algumas delas: a dra. como foco de investiga. entre a da a tradição germânica do oficio de interpreta. A pergunta é a seguinte: que tipo maturgia de suas obras. para além dos limites que criando o que ficou conhecido como “balé de lhes deram emergência. duas acepções? A grande questão do sentido turgia na dança. percepção. losófica quanto a científica e certamente não blicado em 1997 pela revista belga Nouvelles de será aqui resolvida. no tempo e na aplicado na área da dança recentemente. mas. Peter Brook e Eugenio Barba. que tica da dramaturgia da dança se expandiram. para Sentido em termos de significação? Sentido nas aprofundar o estudo sobre natureza da drama. também desenvolveu um trabalho de pesquisa. em dado momento da história e em uma a profissão do dramaturgo em dança e mesmo geopolítica específica? no Brasil o tema despertou interesse refletindo. exercido nos teatros com o espaço mental do espectador. institui-se ça. te. tempo e no espaço. por parte de alguns pesquisadores. destaco: o material e.PMD 206 03/06/2011. no Noverre defendeu para o balé no século XVIII. dramaturga da coreógrafa belga Anna to do corpo é um fenômeno complexo. Certamente a proposta de encenação. a palavra dramaturgia esteve liga. cito a relação entre a Coreógrafa carioca Lia Rodrigues e a pesquisadora Silvia Soter e entre a coreógrafa paulistana Vera Sala e a pesquisadora Rosa Hercules. expressionista e seus desdobramentos. sobre qual seria o papel do corpo exemplo.

a idéia de dramaturgia se dissemina na minação disponível para iluminar seus diferen. todo um desconforto que seria nos de- quadro específico. 11:18 . Um dem servir pra questionar mais fundo a idéia da exemplo simples: ao entramos numa casa pela dramaturgia se aplicar a dança. e o se. tudo a problemática não parece guntas levantadas. o da dança. sem considerar as variações de primeiro. Por intermédio noite. ra. possibilidades. Procedendo a reflexão den. ções que trona o ato de entrar num cômodo es- nômeno da dança pode ser balizado por certos curo e acender a luz não tão banal quanto pare- parâmetros que chamaríamos de dramaturgia? ce. realizamos esse ato de Como reposta para as três questões pro. atividade criativa da dança? Por quê? E qual tes cômodos. sem problemática numa perspectiva mais ampla. se localiza no centro do cômodo e não mos que a lógica racional aplicada ao dia a dia é na entrada. Q uando o drama se apodera da dança náveis a temática. 207 R4-A8-Paulo_Paixão. as mesmas perguntas po- para cumprir um plano preestabelecido. pergunto: como considerar. em geral. na maioria das vezes. porém não deve com ele ser confun. das atividades humanas em geral. economizando assim. existe um comando estranha às determinações que a fizeram emer- localizado na parede. que. numa outra cultura. com exemplos sim. em nossa coisas. Toda mundo. o mesmo comando. para colocar a batermos na escuridão de um cômodo. baseados na idéia necessárias para alcançar um objetivo pragmá. dessa manei. mas pode complicar se agente se per- tro destes parâmetros pretendo elaborar uma guntar quem determinou que o comando que posição crítica ao uso e o estabelecimento da serve para acender a luz nos cômodos das casas dramaturgia como um elemento constituinte da deveria ficar na parede e não no chão? Ou por- criação de dança. De modo muito generalizado concorda. que o fe. Estender um braço levantadas sobre dramaturgia da dança é a ma. gesto que denota pedido. parece um ato tão banal que confiando no que neira racional simplista como nos habituamos está convencionado. Mesmo se tivéssemos que atri- dido. previsível e determinista. a saber ao certo onde se encontram as coisas. que esse sistema se serve da ener. simplificada e desnecessária so- podem ser aplicadas a dança para. melhor do que aquela que fazemos uso? Sabemos exatamente os passos que devemos dar Por analogia. cultura. o percebemos ou o realiza- processar as experiências que vivemos. certamente diríamos que se trata de um Pretendo explorar. é o hábito que temos de agregar valor às buir alguma intencionalidade a ele. sempre fazendo um paralelo de como aquela complexidade descrita inicialmente se essa racionalização e essa atribuição de valores vê. pessoas e situações. Quero dizer ceria se decidíssemos mudarmos a localização de que nos cercamos de tantas precauções quanto todos os interruptores de luz.PMD 207 03/06/2011. de quê. O primeiro O mesmo poderíamos dizer sobre a observação aspecto que me parece dar conta das questões de um corpo que se move. Até aqui. mesmo que ples. racional- homem com o mundo. mos automaticamente de modo mecânico. saindo assim de um mente. que não está desassociado do refletir sobre. desse modo. próxima a entrada. confiando no que está con- ponho refletir sobre dois aspectos da relação do vencionado. como na nossa? Ou o que aconte- linear. tão crítica. forma automática. súplica. em geral. que gir inicialmente? liga o sistema e ilumina o cômodo. supomos que existe um sistema de ilu. a maneira como racionalizamos os nossos esse mesmo gesto signifique um ato de nobre- atos e porque atribuímos valores às coisas do za e benevolência numa outra cultura. bre maneira. a Apesar de existir a possibilidade de varia- partir de tantas variáveis complexas. sentido ela ganha ao se instalar numa cultura gia elétrica e que. de que a solução encontrada por outra cultura é tico de modo rápido e eficaz na vida cotidiana. deduzir respostas possíveis para as três per. sem gundo aspecto.

que tipo de discurso é considerado válido para realizados por artistas diferentes. com o espaço mental do espectador. manha. certa especialidade rara e dese- Deslocando a leitura de Foucault da lin. desta cia que fez emergir a figura do dramaturgo da para a dança teatro nos anos de 1970 e da dan. para a dan. consideram a dança. dança. qual o sentido e Entrando no âmbito da valoração e ex. estabele- torná-las especiais. um guagem falada para o que em dança costuma-se escrever a dramaturgia. autor. impor- singular. em função de re-significar o ter. relacionando o privilégio bem distintos do mundo são colocados numa do discurso autorizado ao desejo de poder rede de lógica racional e dela é deduzida. do filosofo Michel Antoine Pickels. 11:18 . delo coreográfico proposto por Maurice Béjart. Uma figura que possui o direito e o pri- ça teatro para o entendimento convencionado vilégio exclusivo de gerir a base de toda criação. tual de circunstância. Ele fala sobre procedimen. criou uma série de rituais de circunstân- ça expressionista Alemã. por exemplo. eu trago à lembrança a aula inau. no espaço real aplicabilidade. poderíamos di. jável. balho na criação na dança? gural no Collège de France. todo um conjunto tempo e na percepção. e tintos processos criativos que obtiveram êxito. pecialidade se torne desejável e poderosa no 208 R4-A8-Paulo_Paixão. e o direito e o privilégio por parte da geração que o sucedeu. Mas nos outros países sua potência de encantamento e raridade? da Europa e mesmo no Brasil. o que pode proponho outra digressão como resposta: dis- ser dito em dada circunstância e o que não. teatro. um diamante não se encontra em qual. Na Ale- quer esquina! O interessante é o desejo de pos. justifica-se cida inicialmente de modo aleatório. tante para o processo criativo da dança. em alguns casos. Desse modo. a distinção auxiliar diretores teatrais. função da existência deste seguimento do tra- clusividade. em lugares determinado grupo. no torno deste entendimento. a partir do momento em que foi siste- vel: do balé de ação do século XVIII na França mática e progressivamente se aproximando do e suas variações ao longo do tempo.s ala p reta As conexões de aproximação sistemáticas. Um saber estruturar. Na Bélgica sua exis- que representa possuir um diamante de forma tência também é compreensível. em função da exclusiva. para duos e. Eu pode falar o quê e quem não pode. entre a superfície do corpo.PMD 208 03/06/2011. teria repre- exclusivo como dispositivos que separam quem sentado um papel importante nessa situação. um dar sentido. quem faria nascer o es- de argumentos. essa prática fazia sentido devido à tra- se que esse tipo de beleza desperta nos indiví. De uma beleza cada vez mais distantes. dança. naturalidade determinista a sua do teatro. dramaturgia como uma verdade em si. 9). em circulação do trabalho do corpo no espaço. p. diretor e drama- Foucault em 1970. modo simplista. de que a dança implica em uma dramaturgia. podemos considerar que de O valor que agregamos às coisas para uma conexão entre a dança e o teatro. E a partir desta balho. de (1996. em função de sua escassez. se deu coerência a sua lante. já no século XX. Isso faz com que tal es- chamar de “discurso do corpo”. de estabelecer a rota para estruturação do tra- na Bélgica dos anos de 1980. controlar o fluxo de sentido captado na cadeia de vinculação errática se construiu. como no caso de uma ça em número cada vez maior e em territórios pedra preciosa. em sua produção. imperceptível e osci- mo em sua nova acepção. zer que: o tabu da especialização que sofreu a mas não lineares. paço poético da ligação. o ri. proximidade cultural e mesmo lingüística entre ria esse mecanismo de agregar valor a obras por o alemão e o flamengo. a idéia de pela singularidade e escassez da existência desta dramaturgia foi sendo posta em prática na dan- dada coisa no mundo. dição da existência da profissão nos teatros. de que maneira funciona. existência e se agregou valores especiais às obras e quem criaria uma arquitetura invisível para de dança que. turgo belga é da opinião que a rejeição ao mo- tos de exclusão citando o tabu do objeto. da dança com o teatro é visí. tornado-a assim. Na dança.

pratica a nomeação dos fenôme- Se de fato a vida é mais complexa do que nos para criar categorias. por conta do hábito racional e do do. reográficos. em ses que bem poderiam se firmar em elaborar a alguns casos. me referindo. num certo senti- dança. lidades. evidenciar. deduzida de e ainda hoje. Nesse sentido. isolando acontecimen- temos o hábito de pensar e se a criação artística. A partir da ditadura coreográfica. considero que. No século XVIII o Racionalismo se poder tão pouco o é. pode. da vida um objeto. Enquanto a especialização co- os efeitos negativos deste neologismo poderoso reográfica. alcançada no campo da expressividade do mo- ça surja para reforçar. Inte- tizar as experiências e estabelecer nichos de po. com as espacia. entre os prós e os contras. valor mundano. tos. deveríamos ten. os cor- ferentes práticas que buscam gerenciar a potên. não se dis- processos longos de investigação artística. assim como o jogo de atribuição porque vivemos outro momento da experiência de valores que cria espaços de exclusividade e humana. Talvez a idéia de dramaturgia na dan. por outro. Um nome. maior. 11:18 . O fato de darmos um nome comum a di. a sua especia- mar uma rede própria entre estes princípios lização e autonomia. das demais. vimento do corpo em cena. uma vez que a enorme e até o poder de decidir o que é e o que dramaturgia pode ser associada a uma trama não é dança. Aos poucos essa palavra foi ganhando novos e quando a palavra coreografia emerge no am- sentidos até chegar à atual acepção que se refere biente da dança. designando a eles integridade e pureza. A tendência de aplicar a lógica no campo da dança. tinham rém. se generaliza também os processos cria. por assim dizer. para tingue os banquetes. por um à escrita do movimento do corpo no tempo e lado demarca um alto nível de especialização no espaço. na França de Luiz XIV. da reprodu. íntegro e tivos e se automatiza a prática de criação artísti. de um vocabulário restrito a ser utilizado. gridade e pureza se viram aplicadas ao extremo der exclusivistas. ou modos de subjetivação que atraves. impulsionou. mas por outro lado. Po. representava uma são maiores e me explico. tem a função políti. Nesse sentido. campo das ações humanas. o qual eu tenho ca e os resultados expressivos na dança. Processos es. da dança. em alguma ins. Q uando o drama se apodera da dança mundo da dança. de coreografia no campo da dança. meio a prática da arte se nomeia e se separa a se referia a um sistema de notação da dança. em algumas culturas. se no- ca de redimensionar o sensível. da poesia. facilitar a lei. vejo que pode haver diam os princípios de integridade e pureza co- algo de positivo nesse novo arranjo lexical. por exemplo. A dramaturgia da dança racional linear determinista em nossa relação não tem impacto tão grande quanto teve a idéia com o mundo pode não ser eficiente para a prá. da música. deu aos proces- básicos que constituem a arte da dança. Quando. sos de criação certa uniformidade e excluiu de A palavra coreografia se estabeleceu no certa forma a participação cidadã. em seu todo. das expressões visuais e. a padronização dos corpos e determinação modo como atribuímos valor as coisas. por um lado. teatro.PMD 209 03/06/2011. pos dançantes foram submetidos a um adestra- cia de significação que tem um corpo quando mento profundo que visava. Até mesmo tica artística. íntegra e pura. do nos dedicar a processos singulares. Tra. tura das projeções de subjetividade que a ação indicia também uma concentração de poder corporal delibera na audiência. puro e o tipo de racionalização. dança das demais atividades acontece o mesmo. automa. Os corpos dançantes que não aten- dramática. desenvolvia à velocidade das máquinas á vapor. meia e destaca a arte como uma prática isolada tar escapar da operação mimética. previstos nas regras do balé. isola no curso dos processos tância. aproximação sistemática com a divindade3. Do como diz Jaques Rancière. Nomear e separar a arte deste contexto sam um corpo que se desmancha em dança. em vocabulário da dança no início do século XVIII. apesar de sabermos que no passado ção simplista de uma fórmula. 209 R4-A8-Paulo_Paixão. das práticas sexuais em um evento relação com as temporalidades.

singulares que correspondem a variáveis com- atro. Que bem poderia ser chama- Não há nada integro nem puro na pro. expres- envolvidas em processos simples. tendo como pon- Para que haja uma renovação do sensível. da Complexi. represente uma ampliação das pos. o central na obra do coreógrafo a experiência é vivenciada com atenção para o Carioca João Saldanha é o jogo coreográfico. do grupo Dimenti. sões artísticas. ela re. artístico da dança se compõe de procedimentos dade. Cada obra em particular não cor- terior. como dança. to de partida elementos da cultura do Piauí. uma tendem para além da exibição de um resultado novidade nos acontecimento. ção parte sempre de determinadas restrições que cionamento do sujeito em relação à experiên. seu resultado tem menos do coreógrafo Jorge Alencar. a idéia de dramaturgia faz a dança dança é um interlocutor com quem o artista tro- avançar nesse sentido. por outro é importante atentar para o dis. cuidado. Já haver com a complexidade que envolve qual. Se para o coreógrafo do Grupo Cena 11 conscientemente. maior possibilidade de abarcar o sensível de foi crucial debater.PMD 210 03/06/2011. obra. chances de provocar o sensível. ela impõe a si mesma. e imprevisível. termo sofisticado que dá prestígio ao trabalho trocede violentamente no sentido de impor do interlocutor do artista. criativos extremamente diferentes uns dos ou- des digitais. a rela- modo desconcertante. Se ao contrário. Sendo que sibilidades da criação em dança e mesmo um sua integridade não tem correlação direta com passo no sentido de retomar a hibridização an. Se a experiência é vivenciada como se todas diferentes que projetam campos de possibilida- as ocorrências pudessem ser previstas e enqua. para a artista determinações sociais vão gerenciar dado acon. o que chamamos de dramaturgo da gum nível. 210 R4-A8-Paulo_Paixão. O panorama charme que tem o nome dramaturgo. rígidas. de singulares para dar forma sensível a uma dradas num determinado padrão de comporta. separar e dar relação a uma classe essencialmente identificável poder que a idéia de dramaturgia pode delibe. Se existe um componente teatral nas obras mento conhecido. artística sempre vão existir e. pode se alcan. responde a nem um parâmetro de pureza em positivo racionalista de nomear. Esse termo também uma idéia de procedimento de criação que en. Ao experimentarmos a complexidade. que advêm de uma área bem específica. São pontos de partidas cia. sem o mesmo dução contemporânea de dança. consciente ou in. se examinarmos com muito cuitos de comandos automatizados e se. seu resultado tem para o coreografo Marcelo Evelin de Teresina. Estes procedimentos resultam em obras Se por um lado a aproximação com o te. Há sempre um jogo de duas vias nos mar. vocabulários. ca idéias sobre sua criação. ou ambivalentes em termos de subjetividades. do de assistente ou consultor. em al. ção entre o local e o universal. noutro. desconhecido. no caso da artista mineira Margô Assis. se transformam conforme o contexto As referências da história de uma prática temporal ou geográfico. plexas vivenciadas em cada processo. talvez. não se acomodam em definições çar certa autonomia. as lógicas aleatórias se disseminam em re. artística da dança. de Salvador. mis- seja. a cria- quer acontecimento e também com um posi. paulistana Vera Sala os processos criativos se es- tecimento e outra que provoca um desvio. elas são rar. a multiplicidade de camadas e conexões turam diferentes técnicas. Em sua grande maioria. 11:18 . vão balizar as ações nesse de dança Alejandro Ahmed a criação é uma for- meio. tros.s ala p reta Hoje. cria uma nova rubrica dentro da folha de paga- volve a participação de determinado especialis. Este último tem que é para ela entendido como provisório. Uma em que a história e as dar conta de uma questão. em três de suas obras. Dramaturgia é um mação da dança com o teatro. a Teoria da Relatividade. propondo uma aproxi. outra obra. me parece ser importante desestabilizar os cir. Na prática. mento de um projeto de produção para criação ta. ma de testar o movimento do corpo de modo a cos da experiência.

É urgente abrir os olhos pra en- pel do dramaturgo de dança não têm formação xergar a complexidade das coisas do mundo e. prir sua função política de elaboração do sensí- Do ponto de vista que tento aqui defender. GINOT. ____. Michel. em muitos casos. PAIXÃO. Paris: Larousse. São Paulo: Loyola. A partilha do sensível: Estética e Política. bem como crer que melhor. em Repertório Teatro e Dança 4/ ano 3 2000 HARDT. Zygmunt. A ordem do discurso. 11:18 . La danse au XX siëcle. Christine. Processos de comunicação em evolução: coreografia e gramaticalidade. Rio de Janeiro: Record. Tradução Berilo Vargas. 2005. Império. 1994 MICHEL. FOUCAULT. inapro. que as pessoas que assumem o pa. própria e que demanda certos tipos de serviços atro e ainda. que possam cum- priada para o trabalho que assim se denomina. Isabelle. Antonio. 211 R4-A8-Paulo_Paixão. São Paulo: Annablume. considero a utilização do termo demasia. Bruxelas: Contredase. NOVERRE. Paulo. LEWIN. Marcelle. 1999. investir em elaborações damente deslocada e. RANCIÈRE. 1998. 2003. 2003. e outros não. Lyons: 1760. ou lho de um dramaturgo. teatral. olharmos para aquilo. Modernidade e ambivalência. damos para aquela visão a qualidade todo e qualquer trabalho de interlocução com da invisibilidade. Roger. mas. nos tornamos cegos. de tanto projeto de criação em dança necessite do traba. 1996. NOUVELLES DE DANSE : 36/37. Tradução de Marcus Penchel. Michael e NEGRI. Q uando o drama se apodera da dança Uma vez que o trabalho que se costuma Cada artista tem seu jeito de trabalhar e chamar de dramaturgia da dança nem sempre cada projeto individual segue uma lógica todo passa por questões relacionadas a saberes do te. Jean-Georges. Pontifícia Uni- versidade Católica de São Paulo. vel desestabilizando os hábitos perceptivos. o coreógrafo possa ser chamado de dramaturgia. Lettres sur la danse et sur les ballets. Rio de Janeiro: Rocco. São Paulo: Editora 34. 1999. jo- salto que é perigoso achar que todo e qualquer gando luz no que estava ali. Jacques. São Paulo. Referências bibliográficas BAUMAN. no âmbito da dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Dorciê de Dramatrgia na dança. 2005. Disser- tação (Mestrado)—Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. res. 2005.PMD 211 03/06/2011. criativas singulares profundas. Novas dramaturgias da dança. Complexidade – a vida no limite do caos. O corpo: Pista para um estudos indisciplinares. GREINER.