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revista de estudos ibéricos

Centro de Estudos Ibéricos

Número 13
Ano XIII
2017
coordenação deste número
Rui Jacinto
Alexandra Isidro

capa e concepção gráfica
Via Coloris

impressão
Pride Colour, Lda. - Guarda

edição
Centro de Estudos Ibéricos
Rua Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

ISSN: 1646-2858
Depósito Legal: 231049/05
Dezembro 2017

Os conteúdos, forma e opiniões expressos nos textos são exclusiva responsabilidade dos autores.
Índice
Iberografias 13 2017

5 Imaginar territórios de esperança: investigação & cooperação para o desenvolvimento –
Rui Jacinto

I. As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa. Moçambique

I.I. Breve história: testemunhos e apontamentos
11 Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da Universidade de Lourenço-Marques
(1969-1975) – Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira
17 A Geografia moçambicana: percurso e tendências atuais – Aniceto dos Muchangos
21 O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75) –
António de Souza Sobrinho
31 Memórias de um espaço e de um tempo – Isabel Boura
37 Ilha do Inhaca, do Unhaca ou do Ynhaqua: um esboço de recordações – Maria Helena Dias
41 Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique – Maria Helena Dias
49 Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa – Rui Jacinto & Lúcio
Cunha
71 Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique – Eliseu Savério
Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

I.II. Investigação recente: o estado da arte
103 Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçam­
bique – Cláudio Artur Mungói
119 O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em
Moçambique – Elmer Agostinho Carlos de Matos
137 O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de
Moçambique – Inês M. Raimundo & José A. Raimundo
153 Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivên­
cia – Ramos Cardoso Muanamoha
160 O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise
conceptual e teórica – Rogers Hansine
173 Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sani­
tária mais próxima: uma contribuição para a planificação das infraestruturas nas áreas rurais
de Moçambique – Paulo Alberto Covele
iberografias 13 2017

186 Avaliação da qualidade de dados de população e de óbitos dos Censos demográficos de
Moçambique – Serafim Adriano Alberto
203 Influência socioeconómica na variação geográfica do comportamento preventivo da malária
nas áreas urbanas de Moçambique – Boaventura M. Cau
II. Foto(Geo)grafia: imaginar o território

II.I. Rumores do mundo
215 Lucília Caetano – Espaços Industriais: memórias revisitadas
227 Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira – Ilhas – num desfile de paraísos, refúgios,
aconchegos e degredos
250 Judite Medina do Nascimento – Geografias do Olhar: território, vivências e apropriações
256 Maria Encarnação Beltrão Sposito – fotos, grafias, janelas, portas, tons, tramas e gente
264 Maria Auxiliadora da Silva – Paris e Salvador. Um Olhar
279 Maria Adélia de Souza – Território Brasileiro: Usos, memórias, incertezas...

II.II. Poéticas do olhar
293 Fragilidade | Construir Olhar Construir – Susana Paiva
295 Por uma sociologia da descolonização do olhar – Jenniffer Simpson
297 Entre o peixe vermelho e o peixe preto – Notas para reflexão sobre o olhar no texto
poético mais recente – Margarida Gil dos Reis
299 O olhar feminino na organização e re-imaginação do território – Clara Moura Lourenço
301 Geo-grafando afetos, preenchendo brancos (territórios) – Marie Ange Bordas
305 Trazer o inconsciente do real à superfície da imagem – Luísa Ferreira
309 Geograficidade na Paisagem-fotografia – Flora Sousa Pidner

III. Prémio Eduardo Lourenço 2017
315 Prémio Eduardo Lourenço 2017 – Fernando Paulouro Neves
317 Álvaro dos Santos Amaro
320 Eduardo Lourenço
322 Arnaldo Saraiva
327 Fernando Paulouro das Neves
331 Jorge Gaspar

337 Palavras à procura da Beira – Fernando Paulouro Neves
Uma mão cheia de terra
Reserva de imaginário
E, no entanto, a Jangada move-se…
Da “ilha sem barcos” ao coração da Europa
O prodígio das “Perfeitas coisas”
Quando as palavras voam à procura do mundo
Uma escrita feita da matéria dos sonhos

IV. CEI. Atividades 2017
367 I. Ensino e Formação
371 II. Investigação
374 III. Eventos e Iniciativas de Cooperação
379 IV. Edições
Imaginar territórios de esperança:
investigação & cooperação para o desenvolvimento
Iberografias 13 2017

Rui Jacinto
Assistente Convidado
Universidade de Coimbra
CEGOT – FLUC
rui.jacinto@iol.pt

O Centro de Estudos Ibéricos (CEI) promovido por António Manuel Godi­
tem vindo a editar, anualmente, a Revista nho da Fonseca, Iniciativas de “ageing in
de Estudos Ibéricos, Iberografias, onde place” – Valorizar e Divulgar, seja o que é
fica espelhado o seu empenho na coope­ dinamizado por Cristina Amaro da
ração territorial e na promoção de ini­cia­ Costa, Pontes entre agricultura familiar e
tivas que o afirmam como uma plataforma agricultura biológica.
estratégica para difusão de conhecimentos. Os contributos desinteressados de
As múltiplas atividades promovidas no dezenas de colaboradores, que merecem
decurso de 2017 atestam uma continuada um forte agradecimento, alimentam este
aposta no ensino e na formação, na número da Iberografias que se estrutura
realização de eventos culturais e cientí­ em torno de três pilares: (i) As Novas
ficos, no incremento da investigação que Geografias dos Países de Língua Portuguesa,
envolve vários parceiros e o integra, que este ano se centrou em Moçambique;
progres­sivamente, em diferentes redes. (ii) Foto(Geo)grafia: imaginar o território
Além das iniciativas que habitualmente que ausculta diferentes rumores do mun­
promove, como o Curso de Verão e o do e aposta na valorização das poéticas do
Prémio Eduardo Lourenço, importa assi­ olhar; (iii) Prémio Eduardo Lourenço
nalar a atenção que vem dando à 2017, que regista para memória futura as
investigação, apoiando projetos como: palavras proferidas no evento que assina­
Transversalidades: Fotografia sem frontei­ lou a entrega do respetivo galardão a
ras; As Novas Geografias dos Países de Fernando Paulouro. Segue-se a saudação
Língua Portuguesa; Oficina de História da a Eduardo Lourenço, Diretor Honorífico
Guarda; Prémio CEI-IIT: Investigação, do CEI, feita por Jorge Gaspar, quando o
Inovação e Território. Ao lançar a primeira ensaísta foi entronizado na Academia das
edição deste Prémio reafirma o compro­ Ciências de Lisboa edição 2017 termina
misso, que urge aprofundar, com os com Palavras à procura da Beira, coletânea
espaços fronteiriços e de baixa densidade, que reúne dispersos de Fernan­do
além de sinalizar uma agenda a favor Paulouro, crónicas e ensaios de forte
duma inovação focada no reforço da coo­ pendor literário, publi­cados, ao longo do
peração, da coesão e da competi­tividade tempo, em diversas edições do CEI.
dos territórios mais frágeis. Os trabalhos
iberografias 13 2017

A aposta no diálogo e na cooperação
distinguidos inscrevem-se em temas con­ que o CEI tem vindo a promover colocou
cretos e estratégicos para o desenvolvi­ frente a frente profissionais do mesmo
mento do Interior do país, seja o projeto ofício, com percursos e vivências distintas,
Imaginar territórios de esperança: investigação & cooperação para o desenvolvimento
Rui Jacinto 6

no espaço e no tempo, a dialogarem sobre “a maior desgraça de uma nação pobre é
As Novas Geografias dos Países de Língua que, em vez de produzir riqueza, produz
Portuguesa, como imaginam o território a ricos”. Tantas vezes, perante realidades
partir das suas experiências, atividades e tão cruas, “mais do que incentivar um
viagens, como as imagens que foram pensamento inovador e criativo estamos
captando, devidamente comentadas, a trabalhar ao nível do que é superficial.
podem gerar verdadeiras Foto(Geo)grafias. Técnicos e especialistas moçambicanos
As dissonâncias e as distintas perspetivas estão reproduzindo a linguagem dos
que ressaltam de todas estas abordagens outros, preocupados com o poder agradar
acabam por evidenciar um relativo e fazer boa figura nos workshops. Trata-se
desconhe­cimento do outro, de gentes de um logro, um jogo de aparências,
e/ou de territórios, realidade que importa alguns de nós parecemos bem preparados
esbater. Tal situação não resulta apenas da porque sabemos falar essa língua, o
distância que o mar impõe, mas do modo desenvolvimentês. (…) O problema do
como cada um e cada uma vive, lê e desenvolvimentês é que só convida a
interpreta o mundo que nos rodeia. Antes pensar o que já está pensado por outros.
de mais, porque continua a subsistir Somos consumidores e não produtores
A fronteira da Cultura, essa linha intan­ de pensamento”.
gível que Mia Couto identificou numa Apoiar a investigação e fomentar a
célebre palestra para economistas. Ao cooperação entre investigadores também
disser­tar sobre “o que fomos”, “o que ajuda a enfrentar problemas transversais e
somos”, “o que queremos e podemos ser” preocupações comuns, ajuda a elaborar
(Pensatempos, 2005) aproxima-se dum diagnósticos mais qualificados que supor­
pensamento expresso por Eduardo Lou­ tem políticas públicas mais assertivas.
renço no capítulo onde tenta compreender A inves­tigação e a cooperação para o
porque “somos um povo de pobres com desenvolvimento permitem sonhar que é
mentalidade de ricos” (Labirinto da possível imaginar territórios de esperança.
Saudade, 1978).
Sem nos alongarmos em encontrar Trago no sangue uma amplidão de
mais olhares cúmplices entre estes dois coordenadas geográficas e mar índico./
autores fixemos a ideia de Lourenço onde Rosas não me dizem nada,/ caso-me
reconhece que “o povo português é um mais à agrura das micaias/ e ao silêncio
povo trabalhador e foi durante séculos longo e roxo das tardes/ com gritos de
um povo literalmente morto de trabalho”. aves estranhas. // Chamais-me europeu?
Mudando de hemisfério encontramos Pronto, calo-me./ Mas dentro de mim
preocupações similares em Mia Couto há savanas de aridez/ e planuras sem
quando, referindo-se aos “pobres dos fim/ com longos rios langues e sinuosos
nossos ricos”, adianta a convicção que (Rui Knopfli, O país dos outros, 1959)
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I.
As Novas Geografias dos
Países de Língua Portuguesa.
Moçambique
I.I
Breve história:
testemunhos e apontamentos
Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da
Universidade de Lourenço-Marques (1969-1975)
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Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira
Professora Catedrática Aposentada
Universidade de Lisboa

A Universidade de Lourenço Marques mentos de libertação que se multiplicavam
pelo continente.
Em Outubro de 1969, na sequência
A maior parte dos licenciados portu­
da criação dos Cursos de Letras, iniciou­
gueses que habitavam em Moçambique e
‑se o Curso de Geografia, na Universidade
Angola haviam frequentado universidades
de Lourenço Marques, oficialmente
da então Metrópole (Eduardo Mondlane
criada em Dezembro de 1968, no segui­
e Agostinho Neto foram licenciados,
mento dos Estudo Gerais Universi­tários respectivamente em 1950 e 1958, pela
de Moçambique, instituição que, em Universidade de Lisboa, embora A. Neto
1962, fora iniciada com a supervisão da tenha iniciado o curso de Medicina na
Universidade de Coimbra, e dirigida por Universidade de Coimbra). Um grupo
J. Veiga Simão, físico nuclear pela Univer­ mais restrito frequentou outras universi­
sidade de Cambridge, e Professor Cate­ dades estrangeiras, dentre elas, as mais
drático da Faculdade de Ciências da prestigiadas sul-africanas (Universidades
Universidade de Coimbra. Ao mesmo se do Cabo – 1829, de Stellenbosch – 1866,
deve o impulso para a criação da Univer­ de Witswatersrand (Wits) – em Joanes­
sidade, e o desvelo com que desempenhou burgo, de Pretória, de Durban), espe­
o cargo de seu primeiro Reitor, bem cialmente preferidas pelos habitantes de
como o havia feito no reitorado dos Moçambique que dispunham de meios
Estudos Gerais Univer­sitários de Moçam­ financeiros para tal. Das universidades
bique. europeias estrangeiras, as do Reino Unido
A jovem Universidade de Lourenço eram as instituições de ensino superior
Marques, e a ainda mais jovem Univer­ mais concorridas por candidatos adeptos
sidade de Nova Lisboa (Angola), também de ideologias políticas progressistas, ou
criada por Veiga Simão, em 1973, já apenas pelos que rejeitavam o apartheid
como Ministro da Educação Nacional, oficial no país vizinho.
tentariam responder às pertinentes obser­
vações internacionais sobre a ausência de
O Curso de Geografia
ensino universitário nas colónias portu­
guesas em África. Esta falta, notória em No fim da década de sessenta do
colónias tão vastas, vinha a ser interpretada século passado, as disciplinas de História
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como mais uma tentativa do Estado e de Geografia assumiram um papel
Novo para evitar o desenvolvimento de especial, e bem importante, no apoio dos
elites intelectuais favoráveis aos movi­ nacionalismos sócio-políticos e territo­
Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da Universidade de Lourenço-Marques (1969-1975)
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riais. A História mais que a Geografia. das disciplinas, de modo a ajustarem-se
A Geografia Humana mais que a melhor ao espaço africano. A vantagem
Geografia Física, porém não esquecida na estava no pequeno número de alunos e
discussão das fronteiras coloniais, um na escassez de recursos, que permitia o
tema cheio de interesse em qualquer uso partilhado dos espaços e dos serviços,
estratégia, mas cuja importância, e talvez, facilitando, assim, a aplicação das novas
complexidade, ou… inoportunidade, técnicas de ensino multidisciplinar, que,
logo desapareceu na sombra do exacer­ para além das vantagens pedagógicas,
bamento histórico. E o curso de História, respondiam à necessária racionalização
que fora criado antes do de Geografia, dos recursos que custeavam as aulas e os
retomava a importância dos Quaterna­ estágios de campo.
ristas no estudo da Arqueologia e da Pré­ O curso de Geografia, ainda que
‑História Africanas, na busca dos primór­ integrado nos Cursos de Letras, no
dios verdadeiramente moçambi­canos. primeiro ano tinha um elenco de três
A voz e a visita do Professor Dom Fernan­ disciplinas da Faculdade de Ciências –
do de Almeida, da Universidade de Botânica Geral, Zoologia Geral e Mine­
Lisboa, ficou ligada ao nascimento do ralogia e Geologia, e apenas uma disci­
movimento promissor. Tive a sorte de o plina – Geografia Física I – na Faculdade
acompanhar, e ao grupo, e conhecer, pela de Letras. A Geografia Física, entendida
primeira vez, os imensos terraços do rio que era como uma ciência da Terra, foi
Limpopo, no deserto da Malvérnia, onde entregue à docência do Doutor A. Ferrei­
os moçambicanos reconheciam os pri­ ra Soares, do departamento de Minera­
mei­ros artefactos de pedra lascada feitos logia e Geologia da Faculdade de Ciências
pelos seus antepassados. Dois anos mais da Universidade de Coimbra, e a mim
tarde, eu estudaria os modestos terraços própria, como sua Assistente, recém­
do Rio Umbelúzi, e a nova geração de ‑licenciada em Geografia, na Faculdade
estudantes de Arqueologia da ULM de Letras da mesma Universidade, e
partilhava com os de Geografia, os recur­ encarregue das aulas teóricas e práticas de
sos oferecidos pelos geólogos do Instituto Climatologia, e das aulas práticas de
de Investigação Científica de Moçam­ Geomorfologia.
bique, cujo departamento de Ciências da Também não dispunha, ainda no pri­
Terra era dirigido pelo Professor Gaspar meiro ano, nem de espaço próprio nem
Soares de Carvalho, que nos acolheu a de biblioteca, pelo que a maior parte das
todos, em gabinetes, laboratórios e aulas de Geografia Física ocorriam nas
bibliotecas, e nos ajudou a orientar as instalações da Faculdade de Ciências,
nossas pesquisas individuais. Mais que fruindo-se da proximidade científica e da
isso, aprendemos, com a sua experiência, facilidade logística oferecida. E essa
o que era um supervisor. Ainda que proximidade espacial, bem como o uso
dispersos por vários países, também todos de bibliotecas e laboratórios, facilitou a
louvamos a sua memória – a do Professor. perspectiva integradora do ensino, que
Apesar da boa vontade de Veiga Simão culminava num estágio de campo comum,
em aproximar a universidade dos inte­ com alunos e docentes de todas as
resses dos moçambicanos, o currículo do disciplinas, como faziam os sul-africanos
curso de Geografia da ULM era exacta­ da Wits, que, por vezes, também se nos
mente o mesmo das Universidades de juntavam nos estágios de Biologia. Era o
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Coimbra e Lisboa, pelo que a inovação modelo do ensino transversal, integrativo,
pretendida se resumiria aos conteúdos usado nos países fronteiriços, e no mundo
programáticos, e não à alteração do leque anglo-saxónico que se aventurava no
Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da Universidade de Lourenço-Marques (1969-1975)
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estudo das ciências do ambiente, ou, Mas os jovens docentes vindos de
simplesmente, do Ambiente. The Environ­ Coimbra ou de Lisboa, ainda que alunos
ment. Ambiente foi o conceito mais dos Mestres tropicalistas (Alfredo Fernan­
discutido-contestado na Geografia portu­ des Martins, Orlando Ribeiro, Suzanne
guesa de então, onde custou a entrar, e Daveau e Ilídio do Amaral), conheciam
onde hoje se encontra desgastado, como ambientes naturais diferentes e esforça­
quase no resto do Mundo. Para todos, vam-se até ao limite, para aprender a
alunos e docentes, o intercâmbio de novidade que queriam ensinar. Fácil não
conhecimentos foi um enorme enrique­ foi, tal tarefa. Diziam-nos, os mais expe­
cimento científico, e até humanístico, de rientes, em pleno mato espinhoso das
que só muito mais tarde me apercebi. dunas da ilha da Inhaca: “aqui, nem a
E que só foi possível, creio, porque todos, couve na horta… nem o pinheiro na
mesmo todos, tentavam aprender tudo mata”! Uma pura imagem da Beira, de
de novo. Especifique-se que os alunos onde vínhamos, nós, assistentes-caloiros
desse primeiro primeiro ano de Geogra­ produzidos por Coimbra, de Botânica,
fia, eram adultos trabalhadores, e haviam Mineralogia ou Geografia! Conhecedores
frequentado um curso prévio (11.º a palmo do Senhor da Serra! Da Serra da
Grupo), coordenado pela nossa colega Boa Viagem! Dos Inselbergen de Nampu­
Dr.ª Esmeralda Ferreira, que havia sido la, ou das formas de relevo do Delta do
professora de Geografia e Reitora, do Níger, apresentadas em famosas aulas de
Liceu Feminino de D.ª Ana Costa Geografia Tropical, e documen­tadas nos
Almeida, em Lourenço Marques, e que nossos apontamentos apressa­dos, com as
ensinava, no novo curso, Geografia cópias dos esquissos desenha­dos no
Humana I. Pessoalmente, honro a sua quadro. Cada um copiava como sabia,
memória pela generosidade com que e o melhor que podia. A ver­dade é que o
me recebeu. saber transmitido perdu­rou no velho
Na jovem Universidade existiam Pro­ caderno, e com mais por­menor (dado
fessores com vasta experiência de investi­ pelo discurso), no arquivo da nossa
gação no mundo tropical. Uns porque memória.
eram nascidos e criados em Moçambique; Mas a nova realidade era tão rica, tão
outros porque viajados pelo resto de variada, que, para ser assimilada, passava
África, outros estavam integrados em de mão em mão, nos raminhos das novas
instituições de investigação sediadas em espécies, nos calhaus das novas rochas,
Moçambique, outros porque, integrados nas diferentes armadilhas da pesca tradi­
em universidades, benefi­cia­vam do apoio cional, com cuidado e muita curiosidade.
das Missões Científicas do Ministério do Era o encanto da iniciação ao conhe­
Ultramar. Veja-se a riqueza de publicações cimento de mais um mundo novo. Com
científicas do IICT (Insti­tuto de Inves­ a preocupação de aprender bem, para
tigação Científica Tropical), acabado de bem ensinar. Com a responsabilidade
reintegrar na Universi­dade de Lisboa, e a acrescida de ser professor.
importância científica dos seus espó­lios e Até ao fim do terceiro ano (1971-72),
dos numerosos investigadores, ainda hoje que era equivalente ao bacharelato,
nomes ligados à autoria de obras de haviam chegado mais duas jovens colegas,
referência mundial. Dentre elas, apenas vindas da Universidade de Lisboa.
enuncio a importância e a riqueza da Aumentava a diversidade de disciplinas
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informação rigorosa da Cartografia do de Geografia, de cuja docência nos
Índico e suas costas, realizada pela encarregávamos. Aumentava a responsa­
Marinha Portuguesa. bilidade de termos de exportar os nossos
Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da Universidade de Lourenço-Marques (1969-1975)
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alunos para as Universidades de Coimbra universidades sul-africanas. E foi contí­
ou de Lisboa, onde iriam terminar as nuo, e fácil, e proveitoso, desde o início
licenciaturas. Aumentava a pressão de do curso, na aquisição de bibliografia, na
nos graduarmos para que a Universidade aprendizagem de conhecimentos e méto­
entrasse na fase de produzir os seus dos de ensino, e na nossa própria apren­
doutores, e de, assim, crescer e se conso­ dizagem como docentes e investigadores.
lidar. O que cedo aconteceu, com a A tutoria nunca foi tradição em Portugal.
chegada de um assistente que fora aluno As reuniões abertas e informais para
no primeiro ano de funcionamento do discutir uma publicação recente ou
curso, e logo licenciado na Universidade qualquer dúvida, também não. E o não
de Lisboa e regressado à Universidade de uso da língua inglesa era uma verdadeira
Lourenço Marques. Do último curso limitação em Moçambique. No que
(1972-1975) outro se seguiu, partido respeita às disciplinas de Geografia, a
para a Alemanha Oriental, e regressado tradição portuguesa era de herança
com doutoramento já à Universidade franco-germânica, e os livros de consulta,
Eduardo Mondlane. Onde ambos se franceses e escritos em francês. “Die Tro­
fizeram catedráticos, e o ciclo se comple­ pischen Gebirge” de Carl Troll, referenciado
tou e se continuou a renovar. Realizara-se no quadro, pelo Mestre, na primeira aula
o propósito de Veiga Simão. E os que de Geografia das Regões Tropicais
partiram e se licenciaram noutras univer­ (16.11.1965), estava fora de questão!
sidades de outras terras, e nelas se Acho mesmo que foi para nos perturbar!
afirmaram, se regozijam também. Impossível não deixar escapar um sorriso
A responsabilidade de progredir na afectuoso sempre que vejo escrito o nome
nossa carreira docente aumentava a deste livro! Excelente, por sinal. Mas cin­
necessidade de alargar a procura de novos quenta anos depois!
horizontes académicos, fora de Moçam­ Moçambique é um enclave entre o
bique. A Professora Suzanne Daveau Oceano Índico e um conjunto de países
assumira oficialmente a direcção do de cultura e de língua oficial inglesa, que
curso, no seguimento do Professor Ilídio satisfaziam o mercado científico (e tecno­
do Amaral. O Professor Ferreira Soares lógico) de toda a África Austral e Oriental,
regressara a Coimbra. E o Curso de e também a Austrália. Alguns desses
Geografia da ULM passara a depender, países, na década de sessenta do século
cientificamente, da Universidade de passado, ainda eram colónias inglesas.
Lisboa. Na prática, o apoio recebido para Nem por isso eram menos desenvolvidas.
a docência e a investigação em Geografia Pelo contrário.
Física, tal como na Arqueologia, vinha do A Universidade de Durban, no Natal
IICM, em regime de troca de serviços, (ZwaZulu-Natal) foi um apoio poderoso
uma vez que colaborávamos nos projectos no domínio das ciências da Terra, nomea­
do Instituto. Um múltiplo ganho, porque damente sobre a Geologia e a Geomorfo­
na diversidade, mais se aprendia. Apesar logia, e da Natureza, como a Botânica.
da moda, nas ciências da Terra e da Saliente-se que a província de Maputo
Natureza ser a defesa do “saber tudo faz parte da mesma unidade geo-estru­
acerca do nada”. Nas chamadas Humani­ tural e fitogeográfica do ZwaZulu-Natal.
dades, imperava o “saber nada acerca Conhecer Lester King foi mítico. Tão
de tudo”! con­testado e tão solícito. Como eu enten­
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O recurso inicial à internacionalização do, agora, o encanto do Professor que há
(como hoje se chama!) era uma necessi­ muito não dá aulas, cuja teoria magna é
dade, e, no meu caso, foi dirigido às contestada, e recebe uma visita curiosa,
Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da Universidade de Lourenço-Marques (1969-1975)
15 Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira

vinda de um fim do mundo, ainda que tões sediados na Universidade de Tulear,
tão próximo. É outro esquisso que que estudavam o mesmo que eu, cada
carinhosamente conservo, o da sua teoria um de seu lado do canal de Moçambique.
das superfícies de aplanamento embutidas Com eles foi possível aceder às publicações
em Thousand Hills Valley, explicadas do malgaxes. Porém, em Moçambique, o
alpendre da sua casa de Durban. Genti­ francês era um idioma de uma pequena
lissimamente apoiada pelo chá britânico elite de adultos, que pouco ajudava os
da Senhora Lester King! Porque, segundo alunos. Antes da viragem para os manuais
o autor, para que o entendimento do em língua inglesa, dois alunos chegaram
modelo dos aplanamentos fosse perfeito, a traduzir um manual francês, autorizados
era necessária a contribuição das sombras devidamente pelo autor, P. Pedelaborde,
crepusculares que, entre o rosa, o cinzento sem direito de publicação. E fizeram-no.
e o lilás, perspectivavam, no horizonte, as Durante um ano, Madagáscar foi o
famosas superfícies de aplanamento afri­ país estudado na disciplina de Geografia
ca­nas! Perfeito. E também inesquecível. Regional, tal como havia sido a República
A Universidade de Witswatersrand, da África do Sul e, depois, Moçambique,
em Joanesburgo, foi o apoio mais eficaz que acabou por substituir a Geografia de
no domínio da Climatologia. A da Portugal, em 1974-75, ainda na Univer­
Cidade do Cabo, também, mas no sidade de Lourenço Marques. Que, em
domínio da Botânica e de outras ciências Maio de 1976 recebeu, oficialmente, o
da Natureza. O custo da distância nome de Universidade Eduardo Mondla­
Lourenço Marques – Cape Town, ne, como já era chamada, ainda em 1975.
infelizmente, fez com que não tivesse Em Maio de 1975, era a fotografia de
aproveitado como desejava. Os métodos Eduardo Mondlane a única decoração do
de ensino e investigação, e a incomparável gabinete do então Reitor Fernando dos
aprendizagem no campo, porém, Reis Ganhão. O último Reitor da Univer­
perduram. Não sei se pela vege­tação, se sidade de Lourenço Marques, e o primei­
pelas formas, se pelas rochas e estruturas, ro jovem Reitor da Universidade Eduardo
se pelas cores e pela austeridade das Mondlane, ainda empossado por Samora
paisagens, se por tudo junto, a sensa­ção, Machel. O quarto Reitor da minha
no regresso, é a de trazer a alma tatuada. carreira académica, e, na verdade, aquele
É a da vontade imperiosa de voltar, de com quem mais contactei naqueles tem­
novo. Como um feitiço, dizem. E com pos conturbados. Preservo na memória a
razão. Tenho a certeza que vou voltar… sua tolerância, o sentido artístico e o
mais uma vez, pelo menos, apesar das respeito pela justiça.
dezenas de horas de avião, dos milhares Já são tantos os que repousam na paz
de euros, de milhões de sola­vancos desde do Além! Eterna é a minha gratidão pela
o primeiro ao último dia! herança com que me presentearam.
Madagáscar era o país de língua Mas, para minha alegria, muitos,
francesa que se encontrava mais próximo; daqueles que ficaram tatuados na alma
mas, para além da dificuldade das comu­ (como as paisagens Namaquas) conti­
nicações, havia o problema político de nuam vivos, felizes, e continuam a parti­
um jovem país, independente há quase lhar comigo a sua incomparável presença.
uma década, e ainda conturbado, que BEM HAJA a TODOS!
não se relacionava com uma colónia Prometi-me não citar nomes, para
iberografias 13 2017

portuguesa. Mesmo assim, através da além daqueles que pertencem a gerações
Embaixada de França, foi possível obter que me antecedem e cuja sabedoria recebi
um visto e visitar os doutos colegas bre­ como herança. Não que não tenha apren­
Memórias (ou lembranças?) do Curso de Geografia da Universidade de Lourenço-Marques (1969-1975)
Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira 16

dido ou não continue a aprender com os O inevitável processo natural de quem
mais novos, ou com os do mesmo pata­ desce a rampa da curva descendente,
mar geracional. Não apenas aprendi com me justificará.
os professores, colegas e alunos, mas com E, porque na proximidade criada
motoristas, barqueiros, funcionários, em­ neste modelo de ensino mútuo, é impossí­
pregados, pescadores e trabalhadores da vel não fazer Amigos, eu guardo-Os,
terra, ou simples pessoas que se cruza­ como a maior Fortuna que desse país
ram nos mesmos caminhos. Ainda que trouxe, como a melhor lembrança desse
apenas tenhamos trocado uma saudação. tempo único.
Mesmo que a saudação não seja mais Prometi-me não escolher e incluir
que uma palavra! É mais uma palavra fotografias. De Todos. Dos Amigos.
que se aprende, e mais um afecto que De um Lugar. De um Momento. Quase
se troca. Não os cito porque são tantos todas foram descoradas pelo tempo.
e tão diversos, de tantos lugares, que O tempo que amareleceu os rascunhos.
me apercebo de não ter capacidade de O tempo que alisa e esbate a memória.
recor­dar todos, como o merecem. Além “O tempo… esse ladrão…”, nas palavras
disso, de muitos que recordo o que poéticas de James Joyce.
aprendi, e cuja imagem física me brilha
no espelho da memória, eu não recordo
o nome!

iberografias 13 2017
A Geografia moçambicana: percurso e tendências atuais
Iberografias 13 2017

Aniceto dos Muchangos
Professor Catedrático
Departamento de Geografia
Universidade Eduardo de Mondlane

Introdução na organização do ensino superior e da
investigação. Nestas circunstâncias, é fácil
Antes de mais, gostaria de louvar a
de compreender o nível de apetrecha­
iniciativa de tornar possível a apresentação
mento, de degradação e da qualidade de
e o debate da Geografia em/de Moçambi­
formação. No caso da Geografia, os tra­
que. A Universidade Eduardo Mondlane
balhos práticos de gabinete e de campo,
(UEM) e os seus departamentos cientí­
simplesmente não existem. O número
ficos, embora jovens e ainda em processo
elevado de ingressos (atinge os 100 estu­
de afirmação e de caracterização, já fazem dantes), a exiguidade de docentes qualifi­
parte das melhores 100 universidades de cados (apenas 2 catedráticos jubilados e 6
África. Com pouco mais de meio século, jovens doutorados) não garantem a reali­
acompanharam e são o espelho das dife­ zação de qualquer investigação de base.
rentes fases das transformações sociais e De facto, a investigação que se faz é
económicas registadas em cada etapa do aplicada, no âmbito de consultorias, soli­
desenvolvimento do país. citadas no âmbito de projetos de desenvol­
A compreensão do estado atual da vimento e por organizações internacionais.
ciência geográfica em Moçambique só se Quanto à investigação básica e experimen­
consegue compreender plenamente se tal, essa é praticamente inexistente.
retivermos alguns dos aspetos mais Atualmente, o Departamento de Geo­
marcantes do desenvolvimento do país. grafia coordena um Mestrado em “Popu­
Desde a sua criação, em Agosto de 1962, lação e Desenvolvimento” e prepara-se
a Universidade desenvolveu-se num am­ para a introdução do curso de Pós-gra­
biente de conflito armado, com breves dua­ção e Mestrado em “Geografia Física
momentos de estabilidade, onde relevam: – Ambiente e Ordenamento do Terri­
(i) 10 anos de luta pela independência tório”, o que representa um reforço
(entre 1964 e 1974); (ii) 16 anos de na formação de docentes, investigadores
guerra civil “pela democracia” (1976­ e técnicos com vocação espacial e
‑1992); (iii) as chamadas ”hostilidades ambiental.
militares”, que ainda se fazem sentir Neste cenário é evidente que ainda
(desde 2012). não existem publicações científicas; e as
Os efeitos desta instabilidade são
iberografias 13 2017

poucas publicações são feitas a título
notórios na estrutura económica, social, individual em revistas no estrangeiro,
cultural e ambiental do país, com as especialmente no Brasil, país preferencial
consequentes repercussões na evolução e para pós-graduações.
A Geografia moçambicana: percurso e tendências atuais
Aniceto dos Muchangos 18

Contexto Institucional anos, em regime regular. Em 2000,
o currículo de 1990 beneficiou de uma
O Departamento de Geografia da
reforma, que resultou num modelo de
Faculdade de Letras e Ciências Sociais
curso com quatro saídas, a saber: orien­
(FLCS) da UEM é, reconhecidamente, o
tação em População e Desenvol­vimento e
mais im­portante e o mais antigo do país,
Ambiente; orientação em Desenvolvi­
no domínio da formação e investigação
mento Regional; orientação em ensino
geográfica. Historicamente, desde a sua
da Geografia; e orientação em Cartografia
criação em 1969, o Departamento de
e Sistemas de Informação Geográfica.
Geografia desempenhou um papel crucial Em 2011 procedeu-se a uma nova revisão.
na formação superior e na investigação Prevê-se para 2018 a introdução do
de fenómenos e processos territoriais. Mestrado em Ordenamento Territorial
Na primeira fase, após a sua institu­ Ambiental cujo conteúdo temático se
cionalização, as principais finalidades da apro­xima dos modelos adotados em vários
Geografia foram a formação de professo­ países. De acordo com a proposta, a
res e uma investigação científica universi­ estrutura e a duração do curso corres­
tária marcada pelo paradigma da expli­ pondem ao 2.º ciclo do processo
cação dos fenómenos através das relações preconizado na Lei do Ensino Superior e
entre os grupos humanos e o meio conduzem ao grau de “Mestre” em
natural. Após a Independência Nacional, Geografia Física. O esquema curricular
em 1975, do ponto de vista mais prático, adotado compreende uma fase com a
a Geografia surge como ciência de apoio duração de dois semestres dedicada ao
ao conhecimento e sistematização dos desenvolvimento de capacidades técnicas
recursos físicos e humanos do país. e a sua aplicação e uma segunda fase,
Até aos inícios da década de 80, tal igualmente de dois semestres, dedicada à
como todos os departamentos da FLCS, investigação e à preparação e apresentação
o Departamento de Geografia conferia de uma dissertação.
apenas o grau de Bacharel. Dada a inexis­
tência de condições para a licenciatura no
país, os estudantes concluíram os seus A Geografia e os desafios atuais de
cursos, sobretudo, em países europeus. Moçambique
Foi o meu caso, que fiz a Licenciatura em Os esforços atuais no combate à
1980 e concluí o doutoramento em pobreza e na promoção do Desenvolvi­
1983. Em 1985, a UEM introduziu a mento Sustentável exigem cada vez mais
licenciatura em Geografia, em regime o envolvimento de técnicos qualificados
especial, o que permitiu graduar, no ano capazes de interpretar o equilíbrio entre o
seguinte, os primeiros 10 licenciados da ser humano, o meio físico e os recursos
então Faculdade de Letras. naturais. O aproveitamento racional e
Com a criação da Universidade Peda­ susten­tável dos recursos naturais, a pro­
gógica, em 1986, surgiu uma nova moda­ moção do equilíbrio ambiental, a promo­
lidade de formação de geógrafos, inicial­ ção da unidade nacional, a valorização
mente com vocação bivalente para o dos diversos potenciais de cada região, a
ensino da Geografia e da História que, promoção da qualidade de vida dos cida­
mais tarde, em 2003, foi transformado dãos, o equilíbrio entre a qualidade de
em monovalente. vida nas zonas rurais e nas zonas urbanas.
iberografias 13 2017

Em 1990, o Departamento de Geo­ A investigação dos processos de melho­
grafia iniciou o 1.º Curso de Licenciatura ramento das condições de habita­ção, das
em Geografia, com a duração de cinco infraestruturas e dos sistemas urbanos, a
A Geografia moçambicana: percurso e tendências atuais
19 Aniceto dos Muchangos

segurança das populações vulneráveis a resultam, de certa maneira também, das
desastres naturais ou provo­cados, são particularidades económicas tradicionais
tarefas em que a Geografia moçambicana na utilização da Natureza e seus recursos
pode dar o seu contributo. e nos métodos e opções de desenvol­
Moçambique necessita, perante esta vimento do país.
realidade, de inventariar, os seus recursos A estes aspectos adicionam-se as trans­
naturais e dispor de dados suficientes formações negativas do Ambiente relacio­
para fazer face à avalia­ção complexa nadas com a prevalência de estru­turas
destes recursos. Apesar de ter havido um agrárias e os métodos tradicionais de uso
grande número de estudos realizados nas do solo que não acompanham as necessi­
últimas décadas, sobretudo por consul­ dades da população em rápido crescimento.
tores estrangeiros, quer no âmbito social Porém, o estudo dos efeitos negativos
quer ambiental, na maior parte dos casos, sobre o Ambiente provocados pela intro­
os resultados são inacessí­veis ao público e dução de técnicas modernas de cultivo e
não se encontram sistematizados para a sua adequação ao meio tropical em que
propósitos da sua utilização prática. Por se desenvolve a produção deve abranger a
isso, no estudo científico dos recursos possível inadaptação às condi­ções natu­
naturais é necessá­rio ter em consideração rais das técnicas modernas que contribuam
a ausência de dados importantes sobre para reforçar a ocorrência de processos
cada recurso, as dificuldades de aproveita­ nefastos, tais como a erosão e a salinização
mento prático, devido à insuficiência de dos solos, bem como a deserti­ficação.
quadros especia­lizados nacionais, entre As particularidades naturais das regiões
outros problemas de carácter económico, tropicais são ainda mal conhecidas,
social e cultural. sobre­­tudo no que se refere ao uso de
No estudo científico dos problemas tecnologias agrárias modernas e equipa­
ambientais, o sistema das ciências geográ­ mento sofisticado, muitas vezes importa­
ficas desempenha um papel importante, do de países com condições físico­‑geo­
dado que o seu âmbito abrange aspetos gráficas diferentes. A maior parte do
naturais, sociais, económicos, ecológicos território moçambicano situa-se na zona
e outros diretamente relacionados com o tropical em que se alternam os períodos
desenvolvimento na sua ligação dinâmica chuvosos e de seca. As ocorrências cíclicas
com territórios concretos. O estudo das inundações e das secas provocam
complexo dos recursos naturais, as grandes problemas de aptidão agrícola de
alterações provocadas pela sua utilização vastos territórios e de estabilidade no
e a sua degradação sob influência das desenvolvimento rural. Tendo em conta a
várias atividades humanas no processo importância da agricultura na economia
histórico-natural constituem um objeto nacional, a solução destes problemas tem
primordial da investigação geográfica. carácter urgente se se considerar adicio­
A investigação dos processos económi­ nalmente o rápido crescimento da popu­
co-ecológicos específicos permitem ela­ lação e a necessidade de assegurar a
bo­rar um prognóstico territorial das alimentação para todos.
transformações ambientais de carácter A experiência acumulada em algumas
local e que, por sua vez, exercem influên­ províncias mostra, simultaneamente, que
cia directa sobre as condições do desen­ é possível aproveitar mais eficazmente
volvimento a nível nacional. Estes estudos todos os territórios situados na periferia
iberografias 13 2017

incluem as várias perturbações no equilí­ dos grandes empreendimentos (barra­
brio ambiental com origem em factores gens, empresas, locais de extracção
naturais – desastres naturais – que mineira, áreas protegidas, etc.), melho­
A Geografia moçambicana: percurso e tendências atuais
Aniceto dos Muchangos 20

rando as condições de vida e criando concepções pragmáticas em que a regio­
novas iniciativas de produção. Com o na­lização se baseie em territórios homogé­
aumento do número de projectos, surge a neos, procurando responder aos objecti­
necessidade de equacionar o uso completo vos do desenvolvimento integrado das
de todas as potencialidades criadas à volta forças produtivas locais. Surge, assim, a
dos mesmos e que exigem estudos geográ­ necessidade de elaborar novas abordagens
ficos complexos de territórios concretos. e princípios da regionalização económica
Relativamente às unidades territoriais, do país, com base nas recomendações dos
em particular as regiões económicas ou resultados de investigações geográficas
unidades administrativas (províncias, que, ao mesmo tempo, exercerão influên­
distri­tos) e os corredores económicos o cia sobre as concepções teóricas e sobre a
estudo de indicadores económico-geográ­ planificação do desenvolvimento.
ficos, combinando critérios demográficos, Torna-se necessário iniciar investiga­
sociais, étnicos podem constituir um ções sobre os modelos territoriais do
campo muito interessante e importante desenvolvimento regional e da estrutura
na investigação geográfica. económica do país. Para isso haverá que
Dadas as grandes diferenças internas optar pelo uso de métodos matemáticos e
na estrutura territorial da economia do estatísticos que servirão para o estudo de
país, edificada ainda durante o colonia­ certas particularidades sociais e econó­
lismo, o desenvolvimento regional equili­ mico-geográficas. O uso destes métodos
brado e a eliminação das desigualdades e deve ser complementado com a carto­
contrastes sócio-económicos entre regiões grafia temática e modelos de sistemas
exigem impulsos dirigidos para as regiões espaciais de modo a criar e desenvolver a
mais atrasadas através da realização de base científica para a solução dos proble­
novos projectos. mas do desenvolvimento e da distribuição
As tendências actuais da descentra­ racional das forças produtivas.
lização (municipalização) revelam o inte­ A realização destas tarefas, cuja lista­
resse dos órgãos estatais em argumentar gem é incompleta, exige a conjugação de
cientificamente os esquemas e modelos esforços entre os geógrafos e especialistas
de regionalização económica integrada, de outras áreas, não só moçambicanos,
tal como sucede na concepção de corre­ mas também, de outros países. Neste
dores do desenvolvimento, iniciativas contexto destaca-se a impor­tância da
espaciais, regiões costeiras, áreas turísticas, cooperação sobretudo com os países
vale do Zambeze, etc. vizinhos e da comunidade de língua
A base metodológica para a construção portuguesa.
de planos regionais deve assentar em
iberografias 13 2017
O “meu” curso de Geografia na
Universidade de Lourenço Marques
Iberografias 13 2017

(1972/73-1974/75)*
António de Souza Sobrinho
Geógrafo

No liceu (2.º ciclo) fui sempre bom Letras, junto ao Hospital de Santo
aluno a Geografia. Talvez por isso, sonhan­ António no Porto. Um dos examinadores
do com mapas e aventuras, ingressei em foi a Dra. Rosa Fernanda Moreira da
1971 na Escola Naval (Alfeite) como Silva, tida pelos alunos como bastante
Cadete da classe de Marinha. No entanto, exigente. Recordo-me que nesse exame
decidi mudar de rumo e, em Junho de ficaram aprovados pouquíssimos alunos.
1972, comecei a preparar-me para o No ano lectivo de 1972/73, estava
exame da disciplina de Geografia que iria prevista a abertura do curso de Geografia
efectuar como aluno externo no Liceu na Universidade do Porto mas as ordens
D. Manuel II, no Porto. Nessa fase prepa­ paternas foram as de regressar a Moçam­
ratória, fui orientado pelo Dr. Bernardo bique. Procurei ficar o máximo de tempo
Serpa Marques, à época professor de possível na Metrópole, pois gostava do
liceu, naquela cidade. Tinha por objectivo ambiente familiar em que privava com os
assimilar em cerca de um mês, as matérias meus primos, primos dos primos e ami­
nucleares da alínea c) – Geografia, corres­ gos dos primos. Para além da cidade do
pondentes a 2 anos lectivos. A 7 de Julho Porto, recordo as deslocações que fiz a
de 1972 concluía, com a classificação de Arouca, ao Bombarral, à Praia das Maçãs
12 valores, o exame da disciplina de e a Vila Praia de Âncora, de visita a fami­
Geografia no Liceu D. Manuel II.1 liares e amigos, aproveitando para obser­
A 2 de Agosto de 1972 ficava aprovado var a natureza e os costumes das gentes.
– com nota mínima (10 valores) – no Ao chegar a Lourenço Marques, em
exame de aptidão ao curso de Geografia, Setembro de 1972, a recepção que me foi
realizado num frio edifício de granito dispensada não foi das mais efusivas, o
onde então funcionava a Faculdade de que me levou a concluir que a desistência
da carreira militar naval, aliada à mudança
*
São passados em revista alguns momentos/acontecimentos para um curso que não fazia parte da
que vivenciei durante os anos 1971-75. Por essa razão, tradi­ção familiar, haviam causado perple­
achei adequado utilizar a toponímia/termos utilizados na
época. Nessa altura, a guerra em Moçambique encontrava­ xidade e apreensão lá por casa. Nessa
‑se numa fase crítica e no território conviviam distintas altura, o estado de saúde do meu Pai
realidades que tinham como pano de fundo a contestação à
inspi­rava sérias preocupações, em conse­
administração portuguesa. Esta, num esforço tardio, visava
quência de um cancro que o atormentava.
iberografias 13 2017

a construção de um Estado multirracial. No entanto, o
resultado foi outro: com o 25 de Abril de 1974, acelerou-se Havia que demonstrar credibilidade.
o processo de independência de Moçambique, sob a égide
de um partido único – FRELIMO – que apostou na cons­
Consciente do pouco tempo que lhe
trução de uma democracia de tipo popular. restava, o meu Pai, antes que eu me
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
António de Souza Sobrinho 22

envolvesse noutras actividades para além alunos, que era escasso, podia concluir-se
dos estudos na Universidade de Lourenço que a existência do curso se devia a impe­
Marques (ULM), entendeu ter uma rativos de ordem política mas também
conversa comigo e sugeriu que me seria pragmática, já que aquele estava associado
útil obter, a breve trecho, uma qualificação à formação de professores destinados ao
técnica. Percebi, de imediato, o alcance ensino secundário. Os alunos que fre­
da conversa e matriculei-me na Escola de quen­tavam o “11.º grupo de cadeiras”,
Topografia dos Serviços Geo­gráficos e uma fórmula “mágica” que se encontrou,
Cadastrais (SGC) e, quase em simultâneo, iriam fazer face às necessidades de pessoal
no 1.º ano do curso de Geografia na ULM. para o ensino secundário na então Provín­
Entretanto, em Lourenço Marques cia de Moçambique, que eram imen­sas!
alguma coisa havia mudado. A contes­ta­ A democratização do ensino, também
ção estudantil que alastrava na Metrópole, passava por ali.
também havia chegado à ULM, onde No dia em que fui à Reitoria com o
estudavam muitos dos meus antigos intuito de me matricular na ULM, tive o
colegas do 7.º ano do Liceu Salazar, então primeiro contacto com alguém do curso
maioritariamente empenhados nas licen­ de Geografia que espontaneamente me
ciaturas em engenharia e medicina. prestou algumas informações relativas ao
O distanciamento fez com que o funcionamento do curso, ambiente das
contacto com os meus antigos colegas do aulas e modo de actuação dos docentes.
liceu fosse limitado. A maioria tinha per­ No momento foi emitido o meu bilhete
tencido à turma-piloto de matemáticas de identidade, enquanto aluno da Licen­
modernas. Recordo-os como excelentes ciatura em Geografia, com a data de
colegas e de grande qualidade! No entan­ 25 de Setembro de 1972.
to, o facto de ter sido seleccionado para
integrar uma turma de elite, constituiu
para mim mais do que um privilégio, um
verdadeiro pesadelo visto não me ter
adapta­do, conforme seria desejável, aos
novos conteúdos e métodos de ensino,
não obstante vir credenciado com uma
média de 16 valores no exame de matemá­
tica do 2.º ciclo dos liceus. Também não
me ajudou em nada uma enfermidade de Cartão de estudante da ULM
que padeci, durante o primeiro período
do 7.º ano e que me obrigou a ficar de O plano dos 3 primeiros anos1 do
quarentena. curso de Geografia, que vigorava desde
Na ULM fui encontrar um outro am­ 1969, era o seguinte:
biente, com novos colegas oriundos dos (1.º ano): Geografia Física I, Zoologia
mais variados pontos de Moçambi­que. Geral, Botânica Geral e Mineralogia e
Todavia, havia que recomeçar; fazer novos Geologia Gerais.
amigos mas, sobretudo, adoptar uma nova (2.º ano): Geografia Física II, Geo­
atitude enquanto aluno, procuran­do grafia Humana I, Pré-História, Geologia
destacar-me, se possível. Geral e Curso de Desenho Topográfico
A licenciatura em Geografia fazia
iberografias 13 2017

(semestral).
parte dos “Cursos de Letras” da ULM,
sendo provavelmente o parente pobre das Na ULM, o curso de Geografia estava limitado aos 3
1

demais faculdades. Pelo número de primeiros anos.
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
23 António de Souza Sobrinho

(3.º ano): Geografia Humana II, casos de Glenn Trewartha e Arthur
Geografia Regional, Geografia de Portugal, Strahler, ambos norte-americanos. Con­
História de Portugal e Etnologia Geral. servo ainda o livro Physical Geography de
As aulas do primeiro ano decorriam Arthur Norman Strahler, ao tempo
na sua grande maioria nos “laboratórios”, professor na Columbia University (New
um conjunto de edifícios construídos no York), e que me foi oferecido nessa altura.
recinto do Laboratório de Engenharia e Em 1973, a Professora Suzanne
Mecânica dos Solos, situado a 7 km do Daveau (Universidade Clássica de Lisboa)
centro da cidade, para lá do Jardim Zoo­ efectuou uma curta visita a Moçambique
lógico, junto à estrada provincial n.º 1. e eu tive a incumbência de lhe mostrar a
Aí conviviam alunos de várias faculdades, parte baixa da cidade de Lourenço Mar­
nomeadamente, enge­nha­ria, medicina, ques, que eu bem conhecia.
ciências e letras. Da cidade de betão2 para A sala de aulas do curso tinha ar
os laboratórios ou destes para a cidade de condicionado, o que nos permitia vencer
betão, deslocá­vamo-nos nos machimbom­ alguma sonolência, já que no período de
bos3 dos Serviços Municipalizados de maior calor um certo torpor podia apode­
Viação (SMV) ou aproveitávamos uma rar-se de nós. Essa sala servia para quase
boleia. tudo: aulas, biblioteca, reuniões e secreta­
riado do curso.
(1.º Ano: 1972/73) Era um luxo para nós, alunos, estu­
As aulas de Geografia Física I (Dra. darmos nessas condições. Não eram mais
Celeste Coelho) tinham lugar durante a do que três ou quatro os alunos que, com
manhã e eram dadas num edifício situado alguma regularidade, frequentavam as
ao lado da cervejaria Vela Azul, conhecida aulas. Recordo os meus colegas, Rachael
pelas generosas sandwich e cerveja à pressão Elisabeth Thompson, Aniceto dos Muchan­
bem fresca que, por vezes nos satisfazia o ­gos e José Augusto Ventura Duarte da
apetite e refrescava por dentro. Fonseca que, com maior fre­quência, a
A Dra. Celeste Coelho deu-nos as elas assistiam. Eramos o “núcleo duro” ao
primeiras luzes de Geografia, centrando­ qual outros alunos, com cadeiras em
‑se nos clássicos, citando essencialmente atraso ou então do “11.º grupo”, vinham
autores da escola francesa. Após uma juntar-se a nós; eramos como uma
introdução sobre a ciência em si mesma, pequena família que se diver­tia, ao ponto
passávamos à Geografia Física, propria­ de considerarmos que não deve­ríamos
mente dita, iniciando-nos na climatologia faltar às aulas para que o docente não
e na geomorfologia. Abundavam as refe­ ficasse a falar sozinho…
rências à escola francesa em que pontua­ A disciplina de Botânica Geral era
vam nomes como Vidal de la Blache, leccionada por um professor de alta
Emmanuel De Martonne, Élisée Réclus, craveira, o açoriano, António Viveiros
Albert Demmangeon, entre outros, mas Bettencourt. O livro de base consistia
também eram citados autores mais num volumoso tratado de botânica geral
actuais como Pierre Pédelaborde, Max da autoria de Eduard Strasburguer.
Derruau e Jean Demangeot, por exemplo. Quando concluí a disciplina, o Professor
Excepções havia com referências a autores Viveiros indagou se eu estaria interessado
que nos transmitiam o flavour de uma em seguir Biologia, talvez por me ter
Geografia mais moderna como eram os esforçado na disciplina de que foi meu
iberografias 13 2017

professor mas que a maioria dos colegas
Os laboratórios ficavam em parte na área dos bairros
2

de caniço.
de curso achava desinteressante. As aulas
Autocarros.
3 práticas eram asseguradas pelas assistentes
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
António de Souza Sobrinho 24

Ana Paula, Maria Augusta e Inês. Ao seguinte; consulta da bibliografia para
micros­cópio, efectuámos várias observa­ com­plemento dos apontamentos; opti­
ções de tecidos vegetais. mizar a calendarização das pro­vas de
Em Zoologia Geral, um professor avaliação. Com disciplina, método,
catedrático de Coimbra, Xavier da Cunha persis­tência e vontade, era possível alcan­
Marques, referia amiúde as suas contri­ çar bons resultados.
buições para a ciência. Tinha investigado Passei a “fabricar” sebentas, as quais se
genética fisiológica e era o tradutor de revelaram bastante úteis, pois desde a sua
Zoologia Geral, da autoria de Alfred feitura até ao estudo através das mesmas,
Kühn, de quem fora discípulo em foi sempre possível acumular conheci­
Goettingen. Não me recordo de ter tido mento e poupar tempo. Não havia egoís­
aulas práticas a esta disciplina, embora mos entre nós e trocávamos frequente­
não o possa afirmar em absoluto. men­te informações e apontamentos. Teve
Em Mineralogia e Geologia gerais êxito a minha sebenta de Botânica Geral.
tivemos dois docentes: nas teóricas o De manhã, à tarde ou à noite, con­
Dr. Carlos Coelho Pires; e nas práticas, o soante os horários me permitissem, a
Engenheiro Luiz Herculano Brito de Cervejaria-Restaurante Safari era a minha
Carvalho. As aulas teóricas estavam diri­ sala dilecta onde encontrava a concen­
gidas para o nosso curso. Já as aulas tração necessária para progredir nos estu­
práticas eram dadas em conjunto com os dos, havendo quase sempre por perto
alunos de Geologia. Posso afirmar que companhia inspiradora. Fazia intervalos
não ficávamos atrás desses colegas. para espairecer e quando, ao final da
O Dr. Coelho Pires transmitiu-nos as noite, dava os estudos por terminados,
bases teóricas da mineralogia e da geolo­ partia em busca de aventura na companhia
gia, assim como da história geológica da do amigo Luís Godinho, estudante
vida. O Eng.º Brito de Carvalho, docente em Economia.
das aulas práticas, falava pausadamente e O Luís também frequentava o curso
era duma paciência e educação infinitas. de topografia nos SGC. Foi essa circuns­
As nossas incursões na mineralogia, atra­ tância, e o facto de vivermos próximo um
vés do microscópio polarizador permi­ do outro, que nos aproximou ainda mais.
tiam-nos entender melhor alguns segre­ Foi ele quem me ajudou a recuperar o
dos da história da geologia. O afável atraso acumulado das aulas a que não
engenheiro preparava a sua tese na Cerve­ pude assistir por me ter matriculado
jaria-Restaurante Safari onde alunos de tardia­mente no curso de topografia.
diferentes cursos ali faziam sala de estudo, Para além das aulas na ULM, frequen­
incluído eu. tava a Escola de Topografia dos SGC.
Os meus colegas e eu gostávamos de Nesta cumpria-se um horário ante e pós
aprender. Procurei estudar seriamente e laboral. De 2.a a 6.a feira havia 2 horas de
ser rigoroso. Estabelecia períodos de aulas teóricas diárias, das 18h00 às
estudo para que pudesse aproveitar ao 20h00. Quanto às aulas práticas, penso
máximo, o tempo de que dispunha e que elas teriam lugar 2 a 3 vezes por
seguia um método de estudo que se reve­ semana, das 6h00 às 8h00 da manhã. Foi
lasse eficaz em termos de aproveitamento. nessas aulas que aprendi a manejar
A receita era simples: estar atento e tirar modelos diferentes de teodolitos (T0, T1
apontamentos nas aulas; passar a limpo e T2), para além do nível, Distomat e
iberografias 13 2017

os apontamentos, de preferência, no telurómetro. Nessas manhãs, quando
próprio dia; havendo dúvidas, procurar apanhava o machimbombo que me
esclarecê­‑las antes do início da aula deixava próximo dos SGC, o revisor,
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
25 António de Souza Sobrinho

confundindo-me como trabalhador de Antes de partir para Gaza, acordei
um qualquer ofício, cobrava-me apenas com o Aniceto dos Muchangos traduzir­
bilhete de operário (mais barato) em vez mos do francês o livro “Étude Scientifique
do bilhete de estudante ou mesmo o du Climat”, cuja autorização de publi­
normal (mais caros). Após as aulas da cação para fins estritamente académicos
manhã nos SGC, íamos para a Pastelaria nos foi dada pelo Professor Pierre Péde­
Hazis, na Avenida D. Luís, onde tomá­ laborde, através da Dra. Celeste Coelho.
vamos novo mata-bicho4, enquanto o A nossa atitude como alunos era de
Luís lá me ia explicando as matérias que cooperação numa universidade onde
eu tinha em atraso. Depois disso, ia muito havia por fazer. Havia em nós o
assistir às aulas na universidade. desejo de contribuirmos com algo que
Era óptimo estudar na Baixa da pudesse vir a ser útil para terceiros. Com
cidade. Quando tinha tempo, descia a pé o Aniceto em Manica e eu, algures, no
a Av. 24 de Julho até à Escola Industrial, vale do Limpopo, fomos paulatinamente
inflectindo em direcção à baía até encon­ traduzindo o livro, tendo concluído com
trar o portão do jardim Vasco da Gama, êxito a nossa tarefa antes do início do
que eu gostava de atravessar. Dali até à novo ano lectivo. Cristina Bulha, secre­
Av. da República era um instante. Metia tária no curso de Geografia, teve a paciên­
pela Travessa da Maxaquene e chegava ao cia de dactilografar o texto5. Lembro-me
edifício das “Matemáticas” sito na rua também do servente José Macuacua,
Alexandre Herculano. O trajecto era sempre delicado connosco e diligente nas
agradável e colorido, através de ruas e tarefas que lhe eram confiadas.
avenidas arborizadas que, nalguns dos
seus trechos e por um breve período do (2.º Ano: 1973/74)
ano, formavam uma galeria florida de No segundo ano do curso as disciplinas
jacarandás alternando com acácias rubras. começaram a ser mais interessantes.
Quando acabei o 1.º ano do curso de Na disciplina de Geografia Humana I
Geografia (com média de 14,25 valores e a docente era a Dra. Esmeralda Valente
dispensado de todos os exames finais) de Almeida, ex-Reitora do Liceu feminino
pude partir de seguida para o Xai-Xai a D. Ana da Costa Portugal, convertida ao
fim de integrar a Brigada de Cadastro de ensino universitário. As aulas eram regu­
Gaza dos SGC, onde passaria a ganhar lares e decorriam num estilo de geografia
cerca de 8.250$00/mês, com ajudas de clássica, sobretudo muito descritiva.
custo incluídas, o que, para mim, era Orlando Ribeiro, Jacqueline Beaujeau­
bastante bom! ‑Garnier e Josué de Castro eram frequen­
temente citados. Efectuei um estudo
sobre o Bairro do Chamanculo.
António Cavaleiro Paixão era, na
altura, um jovem licenciado quando
leccio­nou Pré-História na ULM. As aulas
tinham lugar no edifício da Reitoria,
juntamente, ao que julgo, com o 1.º ano
de História. O Dr. Paixão ainda não se
havia ainda entrosado na Pré-História
O Autor numa pausa durante os trabalhos de africana, pelo que seguia um programa
iberografias 13 2017

topografia em Lhanguene (1973)
5
Mais tarde, pude constatar que o texto por nós traduzido
deveria ter merecido uma revisão mais aprofundada pois
4
Pequeno-almoço. foram detectados vários erros de tradução.
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
António de Souza Sobrinho 26

Carta do Professor
P. Pédelaborde à
Dra. Celeste Coelho

exclusivamente adaptado à realidade A disciplina de Desenho Topográfico
euro­peia, talvez inspirado nos estudos de (semestral) era ministrada ao fim da tarde
Henri Breuil, o que soava particularmente pelo Dr. Samuel do Carmo Moral. Os
estranho na­quele canto do Mundo. alunos de Geografia constituíam um gru­
O Dr. Coelho Pires voltou a ser nosso po à parte já que durante o mesmo tempo
docente, desta vez da disciplina de Geo­ lectivo, alunos das engenharias tinham
logia Geral, dando assim sequência à aulas de geometria descritiva. Era uma
Mineralogia e Geologia Gerais, cadeira disciplina bastante acessível, embora
do primeiro ano. Passámos dos minerais houvesse quem se visse aflito…
às rochas e à interpretação das formações A disciplina de Geografia Física II era
e estruturas geológicas. Aprendemos a assegurada pela Dra. Maria Eugénia
fazer a leitura de mapas geológicos e a Soares de Albergaria Moreira Lopes, uma
executar cortes geológicos e a saber inter­ açoriana, com um sotaque micaelense
pretar no campo. Aprendemos que as que a fazia passar por francesa. Embora
rochas também têm sabor e, por vezes, jovem, revelou-se uma excelente professo­
lambíamos as mesmas a fim de as poder ra. Era seguidora de Jean Tricart (Uni­
distinguir umas e outras. O martelo do versidade de Estrasburgo), talvez por
geólogo passou a ser um instrumento de influência do Professor Gaspar Soares de
apoio que me acompanhava nos trabalhos Carvalho, um geólogo dedicado ao estudo
de campo. Lembro-me, particularmente, da sedimentologia e com quem trabalhava
de uma saída para o campo, para os lados no Instituto de Investigação Científica de
de Salamanga/Bela Vista, dirigida pelo Moçambique (IICM). Foi ela quem nos
geólogo Renato Araújo dos SGM6. alargou os horizontes da Geografia Física,
Efectuámos várias paragens para observa­ mais propriamente no estudo dos meios
ção das formações geológicas e, em tropicais e na geomor­fologia fluvial e do
seguida, fomos visitar o “velho” Santos, litoral. Na altura, a Dra. Eugénia andava
do Chalala que, duma forma rudimentar a preparar uma tese de doutoramento
e obsessiva, ia perfurando várias forma­ sobre geomorfologia fluvial na bacia do
ções geológicas à procurava de um qual­ rio Umbelúzi. Com ela efectuámos várias
quer filão de ouro que, segundo creio, visitas de estudo, sempre úteis e divertidas.
nunca chegou a encontrar. Alunos do Recordo a visita à Estação de Biologia
curso de Geologia acompanharam esta Marinha na ilha da Inhaca7 e a deslocação
visita. Recordo-me da presença do Lopo
iberografias 13 2017

Vasconcelos. Ao regressar da visita de estudo constatei que o meu Pai,
7

que se encontrava hospitalizado, havia sido transferido para
uma clínica em Joanesburgo. A última vez que o vi foi antes
SGM: Serviço de Geologia e Minas.
6
de partir para a Inhaca.
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
27 António de Souza Sobrinho

ao Inhasso­ro8. Em ambas viagens de José Pedrosa de Souza Sobrinho (Aluno);
estudo participaram alunos do 2.º e 3.º Fernando Ganhão (FRELIMO).
anos tendo sido efectuados estudos do As reuniões que conduziram à rees­tru­
litoral e da acti­vidade pesqueira na área turação do curso decorreram em ambiente
de Barto­lomeu Dias. sereno e sem crispações. A “palavra de
Antes do termo do ano lectivo, a Dra. ordem” era a de reestruturar o curso de
Maria Eugénia propôs-me colaborar com Geografia, adaptando-o aos novos tem­
ela no Laboratório de Geomorfologia pos e às necessidades de ensino em
Fluvial do Instituto de Investigação Cien­ Moçambique. Para além da reformulação
tífica de Moçambique (IICM). Foi então do curso, previu-se um ano de transição
que ingressei na ULM como “preparador (1974/75), passando o curso a funcionar
de 2.ª classe assalariado even­tual”, desta­ plenamente reestruturado, a partir do
cado no IICM. Durante o período que ano lectivo de 1975/76.
ali trabalhei, colaborei em tarefas e O único ponto que na altura me
análises laboratoriais relacionadas com a mereceu discórdia, foi a inclusão, no
morfometria de seixos, granulo­metrias de plano do curso, de tempos lectivos
areias e separação de minerais pesados, dedicados à “Formação Política”. Para
que iriam servir de elementos de base mim parecia óbvio que, no mínimo, se
para a elaboração da tese de douto­ pretendia proceder à “reeducação” dos
ramento da Dra. Maria Eugénia. Concluí discentes. Foi um dos primeiros sinais
o ano lectivo com média de 15,4 valores. que pude descodificar em relação ao
Com a revolução do 25 de Abril de modo de instauração do novo regime,
1974, acelerou-se o processo de inde­ assente numa democracia de tipo popu­
pendência de Moçambique. Em pouco lar, conforme atestavam os manuais da
tempo muito iria mudar, inclusive, a nível FRELIMO.
do plano curricular do curso de Geografia. O curso ficou reestruturado do seguin­
É então que surge no nosso curso um te modo:
destacado elemento da FRELIMO, Dr.
Fernando Ganhão, indivíduo cordato (1.º ano): Geografia Física I, Geografia
que sabia ouvir mas, simultaneamente, Humana I, Ecologia Geral, Mineralogia
transmitir as novas directrizes relativas ao e Geologia Gerais e Formação Política.
funcionamento dos cursos de Letras,
incluindo o de Geografia.
À época, o delegado do curso de
Geografia era o Aniceto dos Muchangos.
No entanto, como se encontrava de férias
em Manica, coube-me a mim substituí-lo
a fim de assegurar a representação por
parte dos alunos do curso de Geografia.
A pequena comissão que procedeu à rees­
truturação do curso era composta por:
Maria Eugénia Soares de Albergaria
Moreira Lopes (Assistente); Manuel G.
Mendes de Araújo (Assistente); António
iberografias 13 2017

8
A visita ao Inhassoro teve lugar pouco tempo após o
falecimento do meu Pai. Dra. Maria Eugénia Lopes (1973)
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
António de Souza Sobrinho 28

(2.º ano): Geografia Física II, Geogra­ considerou excluída do processo de
fia Humana II, Antropologia Cultural, descolonização e que reagiu com violência
Psico-Pedagogia (Semestral), Opção no dia 7 de Setembro de 1974) e os
(Anual) e Formação Política. incidentes de 21 de Outubro de 1974 9,
(3.º ano): Geografia Regional de Mo­ estiveram na origem de uma gradual
çambique, História de Moçambique, perda de confiança entre diferentes secto­
Geografia Política e Económica, Didá­ res da população. Influenciados pelos
ctica da Geografia, 2 Opções (Anuais) e acontecimentos, um número significativo
Formação Política. do corpo docente de diversas faculdades
Cada “Opção” anual poderia ser decidiu deixar Moçambique. Tal circuns­
substi­tuída por duas opções semestrais. tância criou enormes dificuldades ao
Durante o ano lectivo de 1974/75 normal funcionamento da Universidade.
(ano de transição), o plano do curso de No período em que substituí tempora­
Geografia deveria ser o seguinte: riamente o Aniceto dos Muchangos na
(1.º ano): Curso reestruturado Comissão de Gestão dos Cursos de
(2.º ano): Curso reestruturado Letras, pude observar e apoiar o empenho
(3.º ano): Geografia Humana II, Geo­ da Dra. Maria Eugénia Lopes na criação
grafia Regional, Geografia de Moçam­ de um ambiente favorável para o arranque
bique, História de Moçambique e Etno­ do ano lectivo 1974/75. Constatou-se
logia Geral. que seria irrealista esperar pela consti­
Para os alunos que haviam transitado tuição, em simultâneo, do corpo docente
do 1.º para o 2.º ano propôs-se que lhes em todos os cursos da academia. Ficou
fosse dada a equivalência de: Zoologia então decidido que o ano lectivo arran­
Geral para Ecologia Geral; Botânica caria por fases, à medida que cada curso
Geral (Opção do 2.º ano). conseguisse apresentar uma lista do res­
Estretanto estabeleciam-se contactos pectivo corpo docente, capaz de assegurar
que deveriam conduzir às conversações o normal funcionamento das aulas.
paz em Moçambique de 1974. A 1 de O curso de Geografia, segundo creio, foi
Maio, teve lugar a III Assem­bleia Magna o primeiro a funcionar no ano lectivo
da ULM. Pelo teor dos discursos e escolha 1974/75. Para tal, houve porém que
dos oradores não foi difícil perceber que estabelecer um novo calendário para o
as rédeas do poder em Moçambique seriam ano lectivo, sacrificando-se o período de
entregues exclu­sivamente à FRELIMO. férias de Janeiro de 1975, já que as aulas
Entretanto, a FRELIMO decidia haviam começado com atraso. Tal decisão
desen­­cadear, a 1 de Agosto de 1974, uma surtiu um efeito psicológico considerável
acção armada de que resultou a tomada e contribuiu para que outros cursos da
do quartel de Omar (Norte de Moçam­ academia iniciassem as respectivas aulas.
bique), onde se encontravam aquarteladas O curso de Geografia havia perdido
forças portuguesas, precipitando as nego­ docentes, nomeadamente as Dras. Esme­
ciações. Estas tiveram lugar em Lusaka e ralda Valente de Almeida e Clara Mendes.
haveriam de culminar na assinatura dum A Dra. Celeste Coelho encontrava-se na
acordo, a 7 de Setembro de 1974, que Escócia com bolsa para doutoramento.
previa o fim da luta armada, a criação de Para suprir essas faltas de pessoal, foram
um governo de transição e a independência contratados a Dra. Isabel Coelho, ex-pro­
de Moçambique. fessora no Liceu Pêro de Anaia (Beira) e o
iberografias 13 2017

O incidente de Omar, a não-aceitação Dr. Manuel Garrido Mendes de Araújo,
dos acordos de Lusaka (maioritariamente
por parte da população europeia que se Incidente provocado por soldados-comando portugueses.
9
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
29 António de Souza Sobrinho

Nota relativa à
substituição
temporária de
Aniceto dos
Muchangos

Excerto da Acta da
reunião de 23.1.1975

recém-licenciado pela Universi­dade de (3.º Ano: 1974/75)
Lisboa. Passado o período conturbado e os
A contribuição da Dra. Maria Eugénia momentos de indecisão, o 3.º ano do curso
foi fundamental para a normalização do de Geografia ia funcionando regu­lar­men­
funcionamento dos Cursos de Letras e, te. Apenas foi necessário proceder a uma
em particular, do curso de Geografia. adaptação de última hora. Não haven­do
Assim, durante o ano lectivo 1974/75, docente qualificado para ministrar a disci­
foi possível por a funcionar os 3 anos do plina de Etnologia Geral, resolveu-se o
bacharelato, com a garantia de que o problema permitindo aos alunos que se
3.º ano pudesse ficar concluído até à data inscrevessem numa cadeira opcional. No
da independência, fixada para 25 de meu caso concreto, escolhi Sedimentologia.
Junho de 1975. Na disciplina de Geografia Regional, a
Em suma, ficava consolidado o corpo Dra. Maria Eugénia, assegurou as aulas.
docente do curso de Geografia, que podia Recordo-me de termos andado às voltas
funcionar normalmente e, simultanea­ na Catembe com vista à elaboração de
mente, era confirmada a permanência da um mapa funcional da vila. Acho que
Dra. Celeste Coelho na Escócia, onde se num dos intervalos do trabalho nos
encontrava a preparar o seu doutoramento. fomos deliciar com um excelente caril de
Exarado em acta, da reunião de 23 de camarão preparado pelo Diogo, um
Janeiro de 1975, da Comissão de Gestão indo-português que geria um restaurante
dos “Cursos de Letras” consta um louvor debruçado sobre a baía. Era bonito
dirigido à Dra. Maria Eugénia pela boa e vermos a cidade de Lourenço Marques
eficaz colaboração que prestou à acade­ do outro lado da baía do Espírito Santo.
mia. Também eu vim a merecer uma Com alguma imaginação, parecia uma
breve citação pela assiduidade e interesse espécie de Nova Iorque em miniatura…
demonstrados durante o período em que O magnífico historiador Dr. Alexandre
substituí o colega Aniceto dos Muchangos. Lobato adaptou a sua habitual História
Para quem não acompanhou de perto da Expansão à História de Moçambique,
os acontecimentos durante na preparação uma novidade curricular. Tínhamos aulas
do ano lectivo 1974/75, jamais se poderá no Arquivo Histórico de Moçambique.
aperceber da capacidade e empenho da Pude testemunhar o amor e a dedicação
Dra. Maria Eugénia que, num período daquele homem ao Arquivo, que ele
iberografias 13 2017

crítico do processo de descolonização, se ajudara a criar. De vez em quando, e para
manteve firme na defesa do futuro da incómodo da sua mulher, Adélia, que
Geografia em Moçambique. partilhava o gabinete com ele, dizia-nos,
O “meu” curso de Geografia na Universidade de Lourenço Marques (1972/73-1974/75)
António de Souza Sobrinho 30

quando não apreciava uma observação da tema da sua tese de licenciatura; Geografia
nossa parte: “Eu fornico-vos!” Mas não… de Moçambique, em que foi preciso
antes pelo contrário! Ele soube transmitir­ “inventar”, ou seja procurar elementos
‑nos o rigor do historiador, a leitura que nos pudes­sem servir de base a um
obrigatória das fontes, a sua crítica e estudo prático colectivo (Mapa climato­
tentarmos saber como se podem ajuizar lógico de Moçambique) e outros trabalhos
os acontecimentos vividos noutras épo­ de natureza individual. Esta disciplina
cas. Um dia, no Porto, passando por um funcionou em parte como se dum semi­
alfarrabista, dei com uma edição antiga nário se tratasse.
da “Ethiopia Oriental” de Frei João dos Concluí o 3.º ano com média de 15,6
Santos. Era cara mas não resisti. Guardo-a valores. Conforme previsto, terminei o
comigo como reconhecimento ao profes­ Bacharelato em Geografia a 2 de Junho
sor que me fez apreciar ainda mais a de 1975, com média final de 15 valores.
História de Moçambique, que partilha Conservo em meu poder duas certidões
500 anos com a História com Portugal. de conclusão do bacharelato: uma,
A disciplina de Sedimentologia foi emitida antes da independência, a 19 de
leccionada pelo Professor Gaspar Soares Junho de 1975 (sem classificação final) e
de Carvalho. Não tive qualquer dificul­ outra, emitida depois da independência,
dade nesta disciplina pois trabalhava a 25 de Agosto de 1975 (com classificação
diariamente em exames laboratoriais no final). Ainda não levantei a carta de curso
IICM. De resto, as aulas eram ministradas na Secretaria da Universidade…
no Instituto, salvo erro da minha parte. Os tempos que passei na Universidade
Foram-me muito úteis os estudos das de Lourenço Marques foram (são) ines­
couraças, efectuadas pelo Professor que quecíveis! Sei que se, ao dobrar duma
era um seguidor do geógrafo Jean Tricart esquina encontrar o Aniceto, mesmo que
da Universidade de Estrasburgo. O Pro­ vários anos tenham passado desde o
fessor chamava-me “o homem dos méto­ nosso último encontro, iremos continuar
dos” mas na verdade era ele quem os a conversa antes interrompida. O Fonse­
estabelecia, fazendo jus às suas qualidades ca, vi-o há muito tempo numa aldeia
de organizador e a alma dum laboratório próximo de Coimbra. A Rachael é que já
de sedimentologia modelar. não vejo desde 1975!
Por fim, o então recém-licenciado, Este foi (é) o “meu” curso de Geografia!
Dr. Manuel Araújo, leccionou duas disci­ Muito obrigado a todos os docentes,
plinas: Geografia Humana II, em que nos colegas e funcionários, que me ajudaram
transmitiu o conhecimento que tinha da a formar como geógrafo! Bem hajam!
agricultura do Colonato do Limpopo,
iberografias 13 2017

Certidões da conclusão do
Bacharelato em Geografia
Memórias de um espaço e de um tempo
Iberografias 13 2017

Isabel Boura
Geógrafa
Aluna no Curso de Geografia
na ULM (1971-1974)

Através das imagens é possível voltar, naquela fase da nossa vida foi muito
sempre, ao lugar onde tanto se aprendeu enriquecedor. Vários foram os mestres
e, sobretudo, onde se foi feliz! que nos marcaram profundamente não
O terminar do 3.º ciclo do Liceu apenas pelo conhecimento que nos trans­
marcava sempre uma etapa, importante, mitiram, mas também pela abertura de
na vida de qualquer estudante e, em horizontes, que nos proporcionaram,
particular para os que viviam fora de para além do conteúdo dos compêndios e
Lourenço Marques. Em causa estavam as da perceção do imediato. Foram estas as
escolhas de um possível futuro de vida, razões mais fortes e determinantes para
mas também a incerteza de poder perma­ que não nos pudéssemos escusar ao
necer num espaço amplo e aberto em que contributo que nos foi solicitado.
fomos criados, Moçambique, ou ter que As fotos das saídas em trabalho de
enfrentar territórios desconhe­cidos, na campo, aqui utilizadas, são ilustrativas da
dimensão, na cultura e na forma de estar. vertente inovadora do ensino que já então
O ingresso no curso de Geografia na, se praticava, criando oportunidades de
então, Universidade de Lourenço Mar­ conhecer novos lugares e outras reali­
ques permitiu encontrar realidades difer­ dades, com vista à compreensão das
enciadas dentro de um mesmo país e, diferentes dinâmicas instaladas, tanto do
mais importante que essa constatação, ponto de vista da Geografia Física como
promoveu a curiosidade pelo conheci­ da Humana e Social.
mento das razões e das dinâmicas que O ambiente que se vivia na comu­
lhes estavam subjacentes. O carácter nidade estudantil da ULM, no período
híbrido que caraterizava o Plano de 1971/1974, norteado pela ânsia do
Curso, em vigor, com disciplinas das conhe­cimento, da verdade, da justiça e
Faculdades de Ciências e Letras, nos três da igualdade, terá sido dos maiores
primeiros anos, adequava-se à tendência privilégios na formação de muitos da nossa
do nosso perfil pessoal que sempre osci­ geração. Foi um período de grande enri­
lou, no que hoje se enquadraria, entre as quecimento pessoal em que o desenvolvi­
ciências exatas e as ciências humanas. mento da componente científica se aliou
Aquele facto permitiu, também, a ao reforço da permanente descoberta
interação com colegas e Professores de de valores.
iberografias 13 2017

áreas científicas diferenciadas, o que,
Memórias de um espaço e de um tempo
Isabel Boura 32

Trabalho de Campo no Curso de Geografia da Universidade de Lourenço Marques
(Cursos 1971-1974 e 1972-1975)

Regresso da Inhaca. Viagem de estudo dos 2.º e 3.º anos de Geografia, coordenada pela
Prof.ª Maria Eugénia Soares de Albergaria (Fevereiro 1974)

Pausa de trabalho de campo, 2.º e 3.º anos
de Geografia. Inhassoro (Abril 1974)
Colegas de Geografia, desde 69/70, no Liceu
Pero de Anaia, Beira. Bartolomeu Dias (Abril
1974)
iberografias 13 2017
Memórias de um espaço e de um tempo
33 Isabel Boura

Forte. Ilha de Sta. Carolina, Abril 1974 Inhassoro, Abril 1974

O descanso dos pescadores. Bartolomeu Dias (Abril 1974)
iberografias 13 2017

Crianças da Inhaca (Fevereiro 1974)
Memórias de um espaço e de um tempo
Isabel Boura 34

Estratificação simples e entrecruzada. Barto­ Corais na Inhaca (Fevereiro 1974)
lomeu Dias (Abril 1974)

Grés costeiro estratificado. Ilha de Sta. Caro­
lina (Abril 1974)

Recolha do pescado. Perto de Bartolomeu
Microdunas marcando a direção do vento. Dias/Inhassoro (Abril 1974)
iberografias 13 2017

Inhaca (Fevereiro 1974)
Memórias de um espaço e de um tempo
35 Isabel Boura

Chegada de pescadores. Inhaca (Fevereiro 1974) Barco de pesca. Inhaca (Fevereiro 1974)

Chegada do mar. Perto de Bartolomeu Dias/Inhassoro (Abril 1974)
iberografias 13 2017

O coser das redes. Inhassoro (Abril 1974)
Memórias de um espaço e de um tempo
Isabel Boura 36

Descarregar das Holotúrias. Perto de Bartolomeu Dias/Inhassoro (Abril 1974)

O cozer das Holotúrias. Perto de Bartolomeu Seca das Holotúrias. Perto de Bartolomeu
Dias/Inhassoro (Abril 1974) Dias/Inhassoro (Abril 1974)
iberografias 13 2017

N.B.: Imagens selecionadas no meu espólio pessoal; além de fotografias feitas por mim, foram ainda incluídas
imagens captadas por colegas cuja autoria não me foi possível apurar.
Ilha do Inhaca, do Unhaca ou do Ynhaqua:
um esboço de recordações
Iberografias 13 2017

Maria Helena Dias
Professora associada com agregação, aposentada, e ex-investigadora
Centro de Estudos Geográficos
Universidade de Lisboa
mdias@campus.ul.pt

E assim como os Geógrafos dão à Itália a figura de uma bota, do
mesmo modo daremos nós a esta baía [de Louren­ço Marques] a
figura de uma borboleta com duas pontas, uma das quais, que é o
Reino do Inhaca, que fica para o Sul, e a outra o Reino do Manhiça,
que jaz ao Norte. Os rios Belingane e o Manhiça, de quem este
Reino toma o nome, formam as asas desta borboleta, aquele da
banda do Sul e este da parte do Norte, cuja origem é comum com a
do Nilo, e vêm desaguar naquela parte a que chamam Baía
Formosa, que vem a ser o mesmo rio do Espírito Santo, o qual
forma o focinho da figura da borboleta, cujo corpo é a mesma Baía
de Lourenço Marques, e os dois rios que nela desembocam fazem as
duas farpas de seu cabo.
Década undécima da Ásia de Diogo do Couto
Da Asia de João de Barros e de Diogo do Couto (1777-1788). Nova edição. Lisboa: Regia
Officina Typographica, vol. 22, pp. 18-19.

Conhecida por várias designações várias denominações desta bem conhecida
desde o tempo dos Descobrimentos por­ ilha da costa sudeste de África. A impor­
tu­gueses e assim figurada nas primeiras tância advinha-lhe outrora da sua posição
cartas náuticas ou relatada nos roteiros da geográfica na extremidade da entrada
costa, a ilha da Inhaca e a mais pequena para aquela baía e porto de abrigo das
ilha dos Portugueses ou dos Elefantes, naus, que exigia atenção na navegação,
que lhe é contígua, fecham o arco de terra e também do comércio de marfim.
firme que individualiza e protege a baía Paradisíaca, pequena mas feita de con­
de Lourenço Marques ou a Delagoa Bay, trastes, a Inhaca era no dealbar da Guerra
como era antigamente assinalada pelos Colonial (1961-1974) ocupada por cerca
portugueses e pelos ingleses. Unhaca de 7200 habitantes2, conhecendo um
(Manuel Pimentel, 1712), Ynhaqua importante fluxo turístico de sul-africa­
(João Teixeira, 1630, fig. 1) ou mesmo
Inyack (deste modo referida pelos Lourenço Marques, Delagoa Bay. Lisboa: Imprensa
ingleses, nomeadamente quando a Nacional.
ocuparam em 18611), eis algumas das
2
Ver as respostas a um questionário confidencial
iberografias 13 2017

dos Serviços de Centralização e Coordenação de
Informações de Moçambique no período da
Guerra Colonial, incluindo o posto administrativo
1
Sobre as pretensões inglesas, ver, por exemplo: da Inhaca, datadas de 1965, sobre população,
Paiva Manso, visconde de (1870). Memoria sobre hábitos culturais e religiosos e actividades subver­
Ilha do Inhaca, do Unhaca ou do Ynhaqua: um esboço de recordações
Maria Helena Dias 38

Fig. 1. A ilha do Ynhaqua numa carta do Atlas de João Teixeira (1630), manuscrito e colorido, existente na Biblioteca
do Congresso (E.U.A., G1015.T4 1630, disponível em linha).

nos. Um hotel, uma reduzida pista de Island (1958)3, uma referência incontor­
aviação, um posto administrativo e a nável que retrata os trabalhos pioneiros
Estação de Biologia Marítima (fig. 2), de investigação aí realizados.
situados do lado ocidental, complemen­ Na Universidade de Lourenço Mar­
tavam os locais de apoio nesta ilha ques, que sucede no final dos anos 60 aos
isolada, embora próxima da capital de anteriores Estudos Gerais Universitários
Moçambique, pela falta de ligações regu­ de Moçambique (1962), ao ser criado o
lares. Praias – baixas e calmas na parte curso de Geografia, seguindo o modelo
oeste e com arribas arenosas voltadas ao vigente em Portugal, foram chamados

Fig. 2. Estação de Biologia Marítima da
Inhaca, construída em 1951, em
fotografia publicada oito anos
depois na revista Garcia de Orta
[Sanches, J. Gonçalves (1959). Aspectos
da ilha da Inhaca: texto e fotos. Garcia
de Orta, vol. 7, n.º 1, pp. 169-172.].

Índico –, corais e mangais expressam para o ensino alguns jovens assistentes
alguns dos aspectos mais interessantes formados nas Universi­dades de Coimbra
deste espaço. A Estação de Biologia e de Lisboa. Embora se perspectivasse, na
Marítima fora construída pelo governo fase inicial, uma licenciatura em 5 anos,
da colónia em 1951 e, de início, era apenas funcio­naram, até à Independência,
sobretudo frequentada por investigadores os três pri­meiros anos, correspondentes
da Universidade de Witwatersrand ao antigo grau de bacharelato. Tivemos o
(Joanesburgo, África do Sul), que chega­ privilégio de a frequentar na segunda
ram a publicar A natural history of Inhaca incorporação de alunos (ano lectivo de
iberografias 13 2017

3
Macnae, W. & Kalk, M. (Ed.) (1958). A natural
history of Inhaca Island, Moçambique. Johan­
sivas (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, nesburg: Witwatersrand University Press. Com
PT/TT/SCCIM-A/1/8). novas edições, posteriores.
Ilha do Inhaca, do Unhaca ou do Ynhaqua: um esboço de recordações
39 Maria Helena Dias

1970/71) e, sobretudo, tivemos o quadro um pouco mais vasto (2005)4.
privilégio de fazer­mos parte do grupo À Maria Eugénia dedico estas recordações,
que efectuou um dos três estágios de lembrando o muito que lhe devo, pri­
campo realizados na Ilha da Inhaca, meiro como aluna, depois como colega e,
integrando não só a compo­nente geográ­ sobretudo, como a amiga de sempre:
fica do ensino como aquela que era BEM-HAJA!
leccionada nas cadeiras de Zoolo­gia e de Do nosso trabalho resta apenas um
Botânica (para além da Geologia e até da dos mapas, o principal (fig. 3 e 4), já sem

Fig. 3. Reprodução do
esbo­ço inédito, na es­
ca­la de 1:15 000 (87,5
x 66,5 cm, pela esqua­
dria), que foi por nós
elaborado com base na
fotografia aérea de
1968 e nas obser­va­ções
do estágio de cam­po,
sob a orienta­ção de
Maria Eugénia Alber­
ga­ria. O documen­to,
em papel vegetal e a
cores, está assinado e
datado de Março de
1973, contendo a
indi­cação, na margem
superior esquerda, de
se tratar do mapa
n.º 2.

História), que enformavam o curso de
Geografia na década de 70. Daí nasceu 4
Moreira, Maria Eugénia (1973). Algumas notas
um trabalho, inédito e desapare­cido, que sobre o clima da Inhaca. Lourenço Marques:
fizemos sob a orientação da Professora Instituto de Investigação Científica de Moçam­
Maria Eugénia Albergaria, para a cadeira bique, 53 p. Separata de Memórias do Instituto de
Inves­tigação Científica de Moçambique, n.º 9,
de Geografia Regional (3.º ano), após o série B.
estágio. Esta investigadora publicaria, Id. (2001). Síntese da evolução geomorfológica
da ilha da Inhaca, Moçambique. In Livro de
aliás, alguns trabalhos rele­vantes sobre homenagem ao Prof. Dr. Gaspar Soares de Carvalho,
aquele pequeno espaço insular, tanto
iberografias 13 2017

pp. 137-158.
sobre o clima (1973), como sobre os Id. (2005). A dinâmica dos sistemas litorais do
Sul de Moçambique durante os últimos 30 anos.
traços geomorfológicos (2001) ou, Finisterra: Revista Portuguesa de Geografia, vol.
mesmo, sobre a dinâmica litoral num XL, n.º 79, pp. 121-135.
Ilha do Inhaca, do Unhaca ou do Ynhaqua: um esboço de recordações
Maria Helena Dias 40

Fig. 4. Versão em desenho
definitivo, executado
em 2008 por José
Mon­­­teiro Peres em
escala reduzida (34,5 x
28,5 cm) e também a
cores. Sabendo quan­
tas recordações guar­
dá­va­mos deste estágio
de campo na Inhaca,
esta foi mais uma das
derradeiras provas da
competência de quem
connosco partilhou a
vida, até no plano
profissional.

o respectivo relatório, que há poucos práticas de Geografia das Regiões Tropi­
anos tive o privilégio de receber de cais, nas quais uma jovem assistente nos
presente das mãos de quem o orientou. ensinava a ver a fotografia aérea com o
Foi o nosso primeiro mapa, construído estereoscópio de bolso assente sobre uma
em 1973, com base na fotografia aérea só imagem! A aprendizagem em Lourenço
datada de 5 anos antes e o apoio instru­ Marques fora-nos preciosa, até nas via­
mental do Instituto de Investigações do gens de campo feitas logo a seguir na
Ultramar, sedeado em Maputo. A nossa região de Lisboa, em que se adivinhava a
partida para Lisboa, em Setembro ingenuidade dos nossos colegas ao ten­
daquele ano, com vista à conclusão da tarem traçar no papel um corte do terreno
licenciatura (4.º e 5.º anos), deixou para que se observava. E, no entanto, inte­
trás tudo o que embaraçasse uma simples grávamos um pequeno grupo de uma
viagem de avião, que se previa com dezena de alunos, num centro de excelên­
retorno num prazo curto. A vida tratou cia! Apesar de acabada de criar nesta
de nos impedir o regresso e, portanto, a época, a jovem Universidade de Lourenço
recuperação de tudo o que deixáramos. Marques conseguiu prestigiar a investi­
Revisitando, agora, as nossas memórias gação e o ensino português, em muitos
de há mais de 40 anos, não podemos domínios, o que pode ser também avalia­
senão expressar espanto e incredulidade, do em termos do número e da carreira
iberografias 13 2017

tanto mais quanto, na Universidade de daqueles que nela começaram por leccio­
Lisboa, assistimos, logo depois, a aulas nar ou estudar.
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique*
Iberografias 13 2017

Possessões, colónias, províncias ultra­ A Cartografia foi, na partilha de Áfri­
marinas e às vezes estados, estas eram ca, um instrumento fulcral no apoio às
algumas das designações sucessivas ou decisões políticas e à propaganda colonial.
simultâneas atribuídas aos antigos Não bastava só ter descoberto esses lon­
territórios portugueses de além-mar. Do gínquos territórios, era preciso sobretudo
primitivo rectângulo peninsular dos provar o seu conhecimento e o seu
come­ços do século XV, Portugal expan­ efectivo controlo. Daí a criação da
dira-se pelo mundo. E, a partir da Comissão de Cartografia em 1883, sob a
incipiente ocupação do litoral africano, tutela do Ministério da Marinha e
iria, após a independência do Brasil, a sua Ultramar, que rapidamente pôs em
colónia predilecta, competir com outros marcha um plano de ampla difusão de
países europeus, tanto na exploração do expeditas compilações de informação, de
desconhecido interior do continente como proveniência diversa e de valor desigual.
no seu rápido desmembramento. As Organizada deficientemente e às vezes
travessias científicas dos exploradores no criticada, esta Comissão diversificaria a
terceiro quartel do século XIX foram sua actuação, muito para além da
acompanhadas pelos conflitos diplomá­ Cartografia, ao transformar-se, a partir
ticos da partilha, sobretudo a partir da de 1936, em sucessivas Juntas de Inves­
conferência de Berlim (1884-1885), dos tigação, com várias designações de raiz
quais saíram vitoriosos os mais fortes. comum, que precederam o mais moderno
Mas, meio século depois, a maioria das Instituto de Investigação Científica
colónias africanas começava a adquirir a Tropical (1983), recentemente dissolvido
sua independência. Entretanto, a descober­ (2015). Nas primitivas missões de
­ta do interior do continente e a sua demarcação das fronteiras ou nas tenta­
ocupação exprimiam-se num número tivas de constituição de missões geodésicas
inenarrável de mapas ou esboços, mos­ se fundaram as mais sólidas missões
trando imagens de espaços exóticos, geográficas e hidrográficas, que actuaram
nunca antes figurados e vistos. 1
a partir de Lisboa depois do final dos
anos de 1920, sempre sob a mesma tutela.
Ao mesmo tempo, adquiriam também
*
Texto parcialmente extraído e adaptado de:
responsabilidades nesse domínio os orga­
iberografias 13 2017

Maria Helena Dias. In Cartografar África: memó­
rias da construção do Império à Guerra Colonial nismos locais, cada vez mais apetrechados
[exposição sobre o projecto cartÁFRICA]. Institu­
to Geográfico do Exército (2011). Disponível em:
e independentes da Comissão de Carto­
https://www.igeoe.pt/index.php?id=72. grafia ou das Juntas, que apologias recen­
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
Maria Helena Dias 42

tes ignoram ao enaltecer as actividades Enquanto a edição da primeira carta
destas como se aqueles nunca tivessem 1:250 000 avançava desde Tete em direc­
existido. Os Serviços Geográficos e Cadas­ ção ao mar, ao mesmo tempo progredia
trais implantados em cada uma das também mais a sul, junto a Maputo, a
colónias, sucessores directos dos Serviços Inhambane e à região de Manica, para o
de Agrimensura que haviam sido criados que foram fulcrais nestes pólos a exis­
na viragem do século, veiculavam os cada tência de trabalhos anteriores da respon­
vez mais vultosos financiamentos das sabilidade dos Serviços de Agri­mensura e
colónias aos seus trabalhos geodésicos e da Companhia de Moçam­bique. O levan­
cartográficos, acompanhando a redução tamento começou com os processos
da participação de Lisboa nas despesas clássicos à prancheta, tendo nas zonas
com as suas missões geográficas, que nelas litorais já o apoio da fotografia aérea
acabariam tardiamente sediadas. executada pela Missão Hidrográfica
A organização da Missão Geográfica desde o final dos anos 30, restituída
de Moçambique, em 1932, permitiu o depois em Lisboa. A compilação das
recomeço dos trabalhos geodésicos, que pranchetas e o desenho das folhas efectua­
se foram ligar aos que Gago Coutinho vam-se inicialmente nos Serviços de
principiara a executar a sul (1907-1910). Agrimensura locais, quando as cartas
Ao mesmo tempo, levantou-se a topo­ eram ainda gravadas em pedra; depois,
grafia da área correspondente na escala de por questões de economia, os desenhos
1:250 000. Em 20 anos, as 60 folhas da originais passaram a ser também enviados
primeira cobertura completa de Moçam­ para reprodução por fotolitografia.
bique estavam terminadas (1933-1953, A carta 1:500 000, publicada aproxi­
levantamento). Para a carta, na qual ma­damente no mesmo período (18
colaboraram ainda os técnicos dos Servi­ folhas, 1939-1956), resultou do agru­
ços de Agrimensura de Moçambique (ou pamento e redução da carta homóloga,
os dos Serviços Geográficos e Cadastrais, em escala dupla, com a qual naturalmente
a partir de 1946), o orçamento da própria se aparenta. E, no fim dos anos 60, seria
colónia e destes serviços excedeu larga­ iniciado então o empreendimento de
mente a contribuição financeira atribuída uma outra cobertura na mesma escala,
pelo Ministério do Ultramar português à agora totalmente da responsabilidade dos
Missão Geográfica, como o demonstrou Serviços Geográficos e Cadastrais de
então o seu director Soares-Zilhão (1941), Moçambique, partindo da informação
ao estimar o preço do levantamento de obtida para a nova carta topográfica
uma folha. A mudança do título de Carta 1:50  000: intitulada Carta de Portugal
da colónia de Moçambique, até 1951, para 1:250 000, província de Moçambique (até
Carta da província de Moçambique, após 1971) ou Carta 1:250 000, estado de
essa data, acompanharia a mudança de Moçambique (após essa data), dela só se
designação do principal organismo res­ chegaram a publicar duas dezenas de
ponsável, ao passar de Junta das Missões folhas. Mas também dessa carta topo­
Geográficas e de Investigações Coloniais gráfica mais detalhada (1:50 000) apenas
para Junta das Missões Geo­gráficas e de se completaram até à Independência
Investigações do Ultramar, mais tarde cerca de uma centena e meia das mais de
simplificada. 1200 folhas que a deveriam constituir.
iberografias 13 2017
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
43 Maria Helena Dias

No contexto da partilha europeia de África

Mapa 1. Carta da Africa meridional portugueza, escala 1:6 000 000, editada pela Comissão de
Cartografia, sob coordenação de A. A. de Oliveira, e impressa em Paris em 1886

Em 1886, Portugal assinava, com a França primeiro e com a Alemanha a seguir, tratados sobre a
delimitação das suas possessões africanas. Exprimia-se então oficialmente o sonho de uma “província
Angolomoçambicana”, delineada no mapa “cor-de-rosa”, que nessa cor estendia as ambições
portuguesas de um império africano, indo do Atlântico ao Índico. Com duas versões, este mapa
mostrou a mudança de posição da fronteira sul de Angola, nas negociações com a diplomacia francesa
situada em Cabo Frio, como Portugal sempre havia considerado, e com os alemães, já desviada para
norte, coincidindo com o Cunene (versão aqui mostrada). Mas, ao mesmo tempo, o mapa “cor-de-
rosa” esboçava com limites cinzentos alguns estados africanos existentes (Barotze, Matabeles,
Muatiânvua…), provando não se desconhecer que África não era um continente politicamente vazio.
Fortemente contestadas as ambições portuguesas pela Inglaterra, com o Ultimatum (1890) esta
potência interpunha-se definitivamente entre Angola e Moçambique, ameaçando as fronteiras de um
e do outro lado e avançando do Cabo para norte. Apesar da intensa actividade diplomática, Portugal,
que já havia perdido o domínio sobre a embocadura do Zaire, veria também perigar a sua antiga
ocupação ao longo do rio Zambeze.
Flutuando as fronteiras ao sabor de convenções ou tratados com as outras nações europeias, num
curto período de tempo o continente africano era talhado e retalhado pelas pretensões de cada uma.
Do lado português, a Comissão de Cartografia (1883­‑1936) apoiava tecnicamente a partilha e
iberografias 13 2017

divulgava profusamente o império. Com fronteiras traçadas à régua nos gabinetes diplomáticos das
principais capitais europeias, seguindo paralelos e meridianos estabelecidos sobre mapas fanta­siosos,
ou delineadas ao longo de rios ou cumes de montanhas, que mal se conheciam e pior se encon­travam
representados, a Europa acabaria por deixar uma pesada herança aos países africanos.
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
Maria Helena Dias 44

Mapa 2. Carta das possessões portuguezas da Africa meridional, segundo o projecto de tratado de 20
de Agosto de 1890, na mesma escala e com idênticas responsabilidades, publicada em 1890

iberografias 13 2017

Mapa 3. Carta das possessões portuguezas da Africa meridional, segundo as convenções celebradas em
1891, editada nesse ano pela Comissão de Cartografia
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
45 Maria Helena Dias

Compilando e difundindo imagens cada vez menos imaginárias

Mapa 4. Mappa original da provincia de Moçambique, coordenado em 1873 a partir de inúmeros
documentos por Alberto Carlos de Paiva Raposo, secretário do governo de Lourenço Marques,
e litografado, em Lisboa, a partir do manuscrito original na Secção Fotográfica (1872-1879)
da Direcção­‑Geral dos Trabalhos Geodésicos

Sendo muito antigo o reconhecimento de que o território português, na costa oriental de África, se
estendia do rio Rovuma à baía de Lourenço Marques, mesmo assim não escapou às ambições dos velhos
aliados ingleses. Ao mesmo tempo que contestavam a soberania portuguesa na embocadura do Zaire e
ocupavam a ilha de Bolama, na Guiné, os ingleses hastearam a sua bandeira, em 1861, nas ilhas da Inhaca e
dos Elefantes, à entrada daquela baía. A “questão” – que ficou também conhecida por “questão de Delagoa
Bay” –, já remontava à década de 20. Nessa altura, o capitão Owen, da marinha inglesa que procedia aqui a
levantamentos hidrográficos, apoderou-se à força de um navio apresado pelas autoridades portuguesas devido
a contrabando e estabeleceu tratados com os régulos dos territórios a sul da baía. A referida questão foi
dirimida por arbitragem internacional, em 1875. Era então reconhecida a Portugal a posse aos territórios em
iberografias 13 2017

litígio com a Inglaterra e o limite sul de Moçambique ficava estabelecido pelo paralelo 26° 30’. Neste mapa
ficou expresso, entre outros aspectos, o limite acordado anteriormente com o governador da república do
Transvaal ao longo das “montanhas Lobombos”, ou seja, pelos montes Libombos. Mas a demarcação do
território moçambicano iria decorrer mais tarde.
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
Maria Helena Dias 46

Mapa 5. Carta de Moçambique, escala 1:3 000 000, compilada e desenhada por M. Dinis, gravada
por J. Palha e editada pela Comissão de Cartografia em 1903

As primeiras cartas publicadas pela Comissão de Cartografia sobre os territórios africanos, que excediam
em mais de 20 vezes a extensão de Portugal, resultaram sobretudo de compilações efectuadas em Lisboa a
partir de informações diversas e desiguais, como as resultantes dos trabalhos de delimitação das fronteiras ou
dos relatos e esboços de exploradores e viajantes. Essas cartas “de ocasião”, como alguém lhes chamou, foram
a solução para rapidamente se dar conta dos territórios ocupados, provando-o além-fronteiras, nas múltiplas
questões da partilha de África que tiveram que ser dirimidas por via diplomática e algumas até arbitradas
internacionalmente. A fronteira sul de Moçambique foi a primeira a ser objecto de demarcação (1889-1890),
finalizando-se o trabalho nos anos 50, na região do Niassa. Nessa altura firmava-se um novo acordo entre
Portugal e o Reino Unido (1954), substituindo o tratado de 1891 (e a correspondente demarcação de 1899­
‑1900). Assinalava-se então com exactidão, em levantamento topográfico, a linha divisória de águas entre o rio
Zambeze e o lago Niassa e voltavam a demarcar-se certos troços dessa fronteira.
Aquando da missão de delimitação da fronteira de Tete (1904-1905), em que foi examinado o sector
desconhecido do Zambeze que separa as duas secções navegáveis, a do Zumbo e a de Tete, dizia Gago Coutinho
(1906), que a chefiou: “O mapa africano ganhou, com tanto trabalho, mais alguns centímetros quadrados que
até agora tinham escapado aos seus colaboradores (…). E aos que em Lisboa, não querendo apartar-se destas
convencionais comodidades, desejarem contudo adquirir uma noção concreta sobre o que é essa misteriosa
quartelada do grande Zambeze, poderemos indicar-lhes que a Kahoura-Bássa, não tendo mais largura do que
a nossa praça do Rossio, está contudo entalada entre montes seis a oito vezes mais altos do que o elevado morro
do Castelo de S. Jorge, que, com os seus mesquinhos cem metros de altura, já tanto nos assoberba quando o
iberografias 13 2017

avistamos cá de baixo, encostados à porta da Mónaco ou comodamente repimpados num eléctrico. A água
ocuparia na estação seca a parte central, já empedrada sugestivamente a fingir ondas, mas, nas grandes cheias,
toda a elevada casaria seria coberta, e a corrente revolta iria bater nas ruínas do Carmo e enferrujar a fábrica
do relógio”.
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
47 Maria Helena Dias

Representações rigorosas e papel dos organismos cartográficos locais

Mapa 6. Cadastro geometrico 1:25 000 do distrito de Lourenço Marques editado em 10 folhas,
entre 1915 e 1936, pelos Serviços de Agrimensura de Moçambique. Esta folha, que abrange a
capital, foi uma das primeiras publicadas, contendo a assinatura do director dos Serviços, o
coronel Belegarde da Silva

As primeiras folhas da carta cadastral de Moçambique foram produzidas na década de 10 do século XX, no
período em que Pedro Luís de Belegarde da Silva (1853-1918), oficial de artilharia, dirigiu os Serviços de Agrimensura
da colónia. Estes Serviços foram criados em 1909 pelo diploma que estabeleceu o regime provisório para a concessão
de terrenos em Moçambique, embora já anteriormente existisse, pelo menos desde 1901, uma secção embrionária,
subordinada às Obras Públicas.
Os trabalhos aproveitaram a triangulação de 1.ª ordem iniciada pela Missão Geodésica da África Oriental
(1907-1910), chefiada por Gago Coutinho (1869-1959), que se estendeu desde o sul de Moçambique até ao
Bazaruto, pelo que o plano geral das cartas progrediu a partir do Maputo mas tendo desde logo sido projectado
para norte, cobrindo a área que fora abrangida pelos resultados daquela Missão. Além disso, também foram
utilizados os dados das triangulações efectuadas por Hugo de Lacerda (1860-1944) para o levantamento do
plano hidrográfico da baía de Lourenço Marques (1903-1907, editado em 1908). Organizada por distritos, a
carta cadastral foi publicada inicialmente na escala de 1:25 000, não obstante terem sido logo previstos
levantamentos mais detalhados para o cadastro e escalas mais reduzidas para as cartas topográficas e para outras
de carácter geral, constituindo tudo colecções (ou “atlas”) de fácil consulta e arrumação.
Depois, foi decidido passar a adoptar a escala 1:50 000, por se ter verificado durante os levantamentos serem
iberografias 13 2017

longos e dispendiosos os trabalhos, mantendo-se o mesmo plano. A partir de 1939 tiveram lugar os levantamentos
para a 1:100 000 (compreendendo 3 subconjuntos, com algumas características diferentes), que completavam a área
abrangida, tendo em vista também o seu aproveitamento para a carta 1:250 000 executada pela Missão Geográfica
de Moçambique, desde 1932, com a colaboração dos Serviços de Agrimensura.
Apontamento para a História da Cartografia de Moçambique
Maria Helena Dias 48

Mapa 7. Lourenço Marques, folha n.º 98-99 da Carta de Moçambique 1:250 000, editada pelos
Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique em 1968. Compõem a carta 22 folhas,
publicadas entre 1966 e 1973, das 102 previstas que deveriam constituir esta série cartográfica

Estreitamente ligados à atribuição de terrenos do Estado e à necessidade do seu levantamento cadastral, os
Serviços de Agrimensura foram surgindo em Moçambique (1909, embora já existisse um embrião desde 1901,
anexo às Obras Públicas) e nas outras colónias africanas, todos eles reformulados em 1946 e então legalmente
designados por Serviços Geográficos e Cadastrais, dependentes dos respectivos governadores. Com autonomia em
relação aos restantes ramos da administração pública de cada colónia, esses Serviços tinham como principal objectivo
a realização do cadastro, sem que no entanto se descurassem as preocupações com os levantamentos topográficos e
a realização das cartas gerais dos territórios respectivos. A utilização em larga escala dos processos fotogramétricos e
a necessidade de incrementar as modernas séries cartográficas transformou-os, dotando-os com uma estrutura de
maior fôlego e mais uniforme.
Os Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique (1946-1975) foram sendo sucessivamente renovados e,
em 1966, retomava-se a produção de uma nova carta 1:250 000, que pretendia substituir a que se publicara nos anos
30 a 50. Naturalmente, a Missão Geográfica de Moçambique (1932-1983), criada na dependência da Comissão de
Cartografia e extinta com a definição da nova estrutura orgânica que conduziria ao Instituto de Investigação
Científica Tropical (embora a sua última campanha no terreno date de 1973), continuou a prestar aos trabalhos a
sua contribuição, cada vez mais restringida ao apoio geodésico, tendo ficado sediada na colónia a partir de 1962
(tal como aconteceu em Angola) e evitando-se assim as contínuas deslocações da equipa que, findo em cada ano o
iberografias 13 2017

trabalho de campo, retornava a Lisboa. Nessa altura estava já consagrada a autonomia dos serviços cartográficos locais.

Imagens cedidas por: 1 a 5: Mapoteca do Centro de Estudos Geográficos/Instituto de Geografia e Ordenamento
do Território/Universidade de Lisboa; 6 e 7: Centro de Informação Geoespacial do Exército.
Geografia de Moçambique:
um olhar a partir da Geografia portuguesa
Iberografias 13 2017

Rui Jacinto
Assistente Convidado
Universidade de Coimbra
CEGOT – FLUC
rui.jacinto@iol.pt

Lúcio Cunha
Professor Catedrático
Universidade de Coimbra
CEGOT – FLUC
luciogeo@ci.uc.pt

Introdução décadas que nos separam do final dos
anos setenta, onde se distinguem ciclos
A evolução do conhecimento geográ­
mais curtos que correlacionam a história
fico sobre Moçambique só pode ser
recente da Geografia de Moçambique
plenamente apreendida se levarmos em
com a trajetória política do país.
consideração, além das vicissitudes histó­
Sem nos alongarmos em considerações
ricas e das dependências socioeconó­mi­
sobre tempos muito recuados é a partir
cas, os sucessivos enquadramentos (geo)
de meados do seculo XIX que a Geografia
políticos do país desde os mais remotos se afirma como ciência e alcança popula­
tempos coloniais. Esta reflexão não pode ridade, facto que não se pode dissociar da
descurar, também, a génese da Geografia difusão das Sociedades de Geografia nem
moderna, a evolução dos contextos cien­ das viagens de exploração que estas Socie­
tíficos que a moldaram ao longo dos dades vão patrocinar, sobretudo às regiões
tempos nem a relação estreita e cúmplice, mais remotas dos continentes menos
embora nem sempre pacifica, com a conhecidos. Com este quadro em pano
Geografia portuguesa. de fundo e focando-nos em Moçambique
A Geografia de Moçambique é baliza­ são de destacar alguns acontecimentos
da por duas datas incontornáveis: a ocorridos no final do século XIX pelo seu
institucionalização em 1969 do Curso de contributo para o impulso e reconheci­
Geografia na, então, Universidade de mento granjeados pela Geografia em
Lourenço Marques (Decreto Lei nº Portugal, que trouxeram informações
44530, de 20 de junho) e a proclamação relevantes sobre esse distante território
da independência do país, em  25 de então vinculado a Portugal. Os dados de
junho de 1975. Estas datas ajudam a cunho geográfico captados no decurso
definir três fases marcantes da Geografia das viagens empreendidas para desbravar
moçambi­cana, com escalas temporais o sertão africano, designadamente as
bem distin­tas: (i) o longo período, que se destinadas a fazer a ligação entre a costa
arrastou até 1969, que antecede a institu­ (ocidental, do Atlântico) e a contra-costa
cio­nalização do Curso de Geografia; (ii) o (oriental, do Índico), além dos objetivos
período curto, breve mas intenso, com­ científicos que as haviam justificado,
preendido entre o arranque da Geografia
iberografias 13 2017

serviram outros fins, designadamente de
e os anos de rutura, imediatos à inde­ natureza política e administrativa.
pendência da atual República de Moçam­ O inquestionável serviço prestado
bique; (iii) o período posterior, de quatro pela Geografia aos interesses geopolíticos
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 50

de Portugal em África coincidiu com os bique não é alheia à guerra e à violência,
primórdios da moderna Geografia e o que merecem a devida atenção enquanto
dealbar da exploração de África. Os estu­ objeto de estudo pela permanência e
dos geográficos mais sistemáticos sobre as recorrência de conflitos, pela expressão
colónias portuguesas também foram territorial das suas consequências (deslo­
incrementados devido à pressão política cados, urbani­zação forçada, etc.) e pelo
internacional exercida sobre Portugal, uso desta ciência pelos estados-maiores
por causa do seu projeto colonial. Ao das diferentes partes em conflito. Mais
ditar a partilha de África e o desenho recentemente, as grandes empresas trans­
arbitrário das fronteiras africanas, a nacionais, sobretudo as ligadas à explora­
Conferência de Berlim (1885) acaba por ção dos recursos mineiros ou aos programas
suscitar problemas quanto aos limites extensivos dos agronegócios, continuam
fronteiriços e à soberania territorial, acir­ a tomar suas decisões estratégicas com
rando ambições e interesses antagónicos base nos estudos sobre o território, com o
entre as potencias coloniais. É o que apoio de uma Geografia, que tanto em
acontece com Inglaterra, quando reclama termos globais como a nível regional e
de Portugal o vasto território entre Ango­ local, recorre a sistemas de informação
la e Moçambique, num conflito imposto geográficos cada vez mais sofisticados,
pela sua ambição de pretender ligar o com vista à escolha do onde, do porquê
Cairo à cidade do Cabo por caminho de ali e do melhor modo de domínio territo­
ferro, diferendo que ficará conhecido por rial.
Mapa Cor de Rosa (1890) e que haveria A presente reflexão sobre a evolução
de ter profundas consequências politicas dos temas nucleares que se albergam sob
em Portugal. o vasto manto da Geografia foi precipitada
A Geografia sempre representou um pela proximidade do 50º aniversário da
conhecimento estratégico, o que lhe institucionalização do primeiro Curso de
havia de conferir um estatuto de verda­ Geografia no ensino superior em Moçam­
deiro instrumento de poder, que levou bique. A viagem de mais de um século
muito mais tarde, Yves Lacoste a vaticinar que vamos empreender para apresentar o
que “a geografia serve antes de mais para contributo da Geografia para a leitura e
fazer a guerra”. No que a Moçambique interpretação do território moçambicano
diz respeito, esta frase tem um significado será assim estruturada:
bem real pois há muito tempo que guerra, – Viagem à contra-costa em demanda dos
violência, política e Geografia andam a antecedentes da Geografia de Moçam­
par. Tensões e conflitos militares, em bique, procurando entre os estudos
Moçambique, sobreviveram a todas as elaborados num momento do projeto
mudanças e ruturas politicas, das mais colonial português os que apostaram
antigas às mais recentes, da queda da no (re)conhecimento do território para
monarquia em Portugal (1910), aos melhor o ocupar e administrar;
conflitos episódicos que degeneraram e – O ensino da Geografia de Moçambique
atingiram o seu auge com a mortífera e em Portugal, jogado entre a semântica
dolorosa guerra colonial (1964-1974). duma Geografia Colo­nial e duma
Mesmo depois da independência a Geografia das Regiões Tropicais, assi­
violên­cia não terminou, prolongando-se nalando a importância do legado dos
com uma guerra civil “pela democracia” mestres por contextualizar a géne­se da
iberografias 13 2017

(1976-1992) que antecedeu um novo Geografia de Moçambique, institu­
período de “hostilidades militares”, cionalizada em 1969, e a relação que
depois de 2012. A Geografia de Moçam­ manteve com a Geografia de Portugal;
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
51 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

– Contributo da Geografia e da investi­ passando a contar, também, com a
gação para o desenvolvimento (Geoide) preciosa colaboração das Sociedades de
como contributo para o diálogo e a Geografia, que começavam a proliferar
cooperação visando uma nova Geogra­ no mundo. Estas agremiações, então na
fia. moda, foram cruciais para afirmarem a
popularidade e o reconhecimento cientí­
fico da Geografia. Os primórdios da Geo­
1. Viagem à contra-costa: o projeto
grafia de Moçambique, então vinculada à
colonial português e os primórdios dos
da Geografia de Portugal, radicam neste
estudos geográficos sobre Moçambique
ambiente, onde se pode desbravar a sua
O conhecimento geográfico sobre história mais longínqua. A este quadro
Moçambique foi, desde tempos recuados, geral devemos juntar outros fatos, de
um processo lento de acumulação de natureza diversa, fundamentais para
informações que evoluiu ao sabor das contextualizar o seu percurso mais
solicitações que se colocavam à admi­ remoto, em que se destacam o papel
nistração colonial e dos progressos regis­ científico, quiçá político, da Sociedade
tados pela Geografia, cujos préstimos de Geografia de Lisboa, as viagens e
foram pertinentes para o (re)conheci­ explorações coloniais e a envolvente (geo)
mento e administração do território. política onde se enredaram as pretensões
Estas razões, mesmo implícitas, acabarão portuguesas em África.
por estar igualmente presentes quando se Sociedade de Geographia de Lisboa. A
institucionalizou a Geografia em 1969, Sociedade de Geografia de Lisboa, criada
ainda que (re)posicionada em virtude de em 1875, surge “no contexto do movi­
alterações nas referências teóricas e nas mento europeu de exploração e coloni­
mudanças sociopolíticas em Portugal e zação” com o objetivo de “promover e
em Moçambique. auxiliar o estudo e progresso das ciências
Geografia e viagem: (re)conhecer o geográficas e correlativas”. Como as suas
terri­tório para melhor o ocupar. Antes congéneres1, além de financiar expedições,
de a Geografia ser reconhecida como teve um importante papel “científico”, ao
ciência e de os geógrafos serem pro­ publicar mapas, divulgar técnicas, fomen­
fissionais encartados, o conhecimento tar pesquisas e coletar dados de relevo
geográfico era construído de maneira para o progresso do conhecimento geo­
empírica e quase informal. A viagem, gráfico. Além do impulso que deu à
independentemente das motivações que Geografia, colocando Portugal em linha
a originava, foi importante nesta com o movimento de difusão das Socie­
evolução, como atestam as obras de dades de Geografia no mundo, em­
Ptolomeu, Ibn Batuta ou Humboldt. Ao penhou-se, desde o início, na exploração
longo dos séculos a descrição da Terra científica e na divulgação do continente
não dispensou a cartografia, os mapas africano. É de sublinhar, entre os tra­
nem a fotografia, a partir da sua invenção, balhos e relatórios que patrocinou ao
em 1826, técnicas de produção de longo do tempo, o que publicou sobre
imagens que a Geografia incorporou no
Em 1830 foi fundada, em Londres, a Sociedade
1
seu discurso, escrito e visual, como na Geográfica Real. Seguiram-se muitas outras, de
cultura visual que lhe está associada.
iberografias 13 2017

que referiremos a Sociedade Brasileira de Geo­
A partir de meados do século XIX o grafia, criada em 1838, a Sociedade Americana de
Geografia, em Nova Iorque, em 1852, e a National
rumo da Geografia é muito influenciado Geographic Society, a mais conhecida, em Washin­
pela evolução daquelas ferramentas, gton, no ano de 1888.
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 52

Moçambique, em 1881, na sequência da grafia de Lisboa promoveram, posterior­
comunicação apresentada por Joaquim mente, a coberto de viagens de cunho
José Machado, na Sociedade de Geografia cientifico, várias explorações a Angola e a
de Lisboa, em sessões que tiveram lugar Moçambique, preocupados com essa
em de dezembro de 1880. “terra de ninguém” que se situava entre as
Viagens e explorações coloniais. A rela­ costas daqueles dois territórios, onde se
ção da Europa com África alterou-se no destacaram as levadas a cabo por Serpa
início do século XIX, terminando com Pinto (1877-1879), Brito Capelo (1877­
uma enorme pressão sobre Portugal, país ‑1885), Roberto Ivens (1877-1885),
de parcos recursos, para reagir de maneira Henrique Dias de Carvalho (1884­
adequada a esta nova dinâmica interna­ ‑1888), Francisco Newton (1880-1907)
cional. É neste contexto que se intensi­ ou José Pereira do Nascimento (1888­
ficou a organização de explorações, quer ‑1911). Estas viagens, realizadas no
de âmbito comercial quer de carácter rescaldo das Conferências de Bruxelas e
científico-geográfico, como as empreen­ de Berlim, ocorreram num contexto
didas por Joaquim Rodrigues Graça geopolítico bem determinado, quando se
(1843), Frederick Welwitsch (1852­ promoveu uma política mais ativa de
‑1860) ou a concretizada por José Anchie­ penetração e ocupação do continente
ta, em Angola, durante cerca de trinta africano. Tais viagens não deixaram de,
anos2. O Governo e a Sociedade de Geo­ concomitantemente, carrear abundante
informação de cariz geográfico sobre os
2
Entre a vasta literatura sobre as viagens realizadas
sertões africanos por onde se entendia o
neste período aos sertões africanos transcrevemos domínio português, designadamente o
duas passagens: interior moçambicano.
(i) “Parecia também conveniente que esta diligência
tivesse o seu princípio antes pelo rio Sena e
(Geo)política e pretensões portuguesas
Moçambique do que por Angola, ou por Benguela. em África. Após a Conferência de Bruxelas
O sertão que vai descobrir-se está mais chegado à (1876), a Conferência de Berlim, que
costa Oriental, e, por conseguinte, mais próximo
àquele rio e àquela provocação e capital; os negros decorreu entre Novembro de 1884 e
dessa parte são indubitavelmente mais disciplinados, Fevereiro de 1885, terminou com os
mais bravos e mais valentes; e havendo algum representantes plenipotenciários dos 14
obstáculo que romper, convém que agente esteja
fresca e vigorosa, para resistir e aplanar qualquer países presentes a assinarem o Acto Geral
dificuldade que da parte dela possa oferecer-se; o que e, em simultâneo, a Convenção de
não se conseguiria se a expedição fosse começada
pela costa ocidental de Benguela. Porque, quando
Reconhe­cimento dos Limites de Acção
chegasse à contracosta, vinha a esse tempo a gente já da Associação Internacional Africana e o
estropiada, cansada, provavelmente desbastada e Livro das Propostas e Projectos, que
bem diminuída, e como tal incapaz de resistir e
vencer os embaraços que os negros dessa costa
haviam sido discutidos durante o
suscitassem” (“Observação sobre a viagem de Angola encontro”. Foram abordadas seis questões
à costa de Moçambique”, feita no final do século fundamentais relativas aos interesses
XVIII, por José Maria Lacerda (Albuquerque, 1989;
p. 73). coloniais na África Central: “liberdade
(ii) Moçambique era colónia boa para “fazer África”, do comércio na bacia do Congo e seus
refere Alexandre Lobato, acrescentando: “o estado afluentes; interdição ao comércio de
das povoações refletia com eloquência o estado
econômico. Nada se fazia para durar por ser
desnecessária casa de pedra e cal. O UEM estava
disposto a gastar em África apenas alguns anos de costa oriental, isto é absolutamente certo e seguro,
vida”. (…) “O procedimento português em África e tanto para o litoral como para o sertão. Pelo con­
iberografias 13 2017

no Oriente confirma a tese que, fundamentalmente, trário, os régulos negros eram considerados verdadei­
o que interessava era o substrato à concorrência ros reis, reverenciados e respeitados, e cumpriam-se e
estrangeira no comércio ultramarino. (…) Chegados observavam-se inteiramente seus usos e costumes
aos portos de África, os Portugueses não políticos e administrativos” (Alexandre Lobato,1951;
consideravam suas as terras e as gentes e, quanto à p. 136)
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
53 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

escravos; neutralidade dos territórios na na questão colonial um dos pontos
bacia do Congo; navegação no Congo e críticos do nacionalismo português: é em
no Níger; condições essen­ciais a serem torno dela que, em grande parte, se pensa
seguidas nas novas ocupações no a identidade do país e se refaz a sua
Continente Africano; e por último, quais memória, se traçam os caminhos a
as ocupações já efectuadas que seriam percorrer e se calculam as hipóteses de
consideradas como efectivas”3. No sobrevivência nacional num mundo em
decurso das movimentações geopolíticas transformação” (Alexandre, 1996: 196).
que haviam de conduzir à partilha de O debate da relação que Portugal deve
África e ao desenho arbitrário das fron­ estabelecer com África permanece incon­
teiras africanas, o governo britânico clusivo até aos nossos dias, mesmo depois
apresentou um Ultimato a Portugal, em da entrada na União Europeia. O tema,
1890, que ficaria para a história como o hoje como naquele final de século, conti­
Mapa Cor de Rosa. Tinha implícito o nua na agenda política portuguesa, desper­
insanável conflito de interesses motivado ­ta emoções pela grande carga simbólica
pelo interesse da Inglaterra querer ligar o que assume, onde coração e razão nem
Cairo à cidade do Cabo, por caminho de sempre encontram um justo equilíbrio4.
ferro, decisão que colidia com a “a pre­ A pressão externa começou por colocar o
tensão de  Portugal exercer soberania país perante a necessidade de dinamizar
sobre os territórios entre Angola e em Moçambique uma administração
Moçambique, nos quais hoje se situam a eficaz, com capacidade de controlar e
Zâmbia, o Zimbábue e o Malawi, numa desenvolver um território vasto, o que
vasta faixa de território que ligava o implicava forte organização e disponibi­
Oceano Atlântico ao Índico”. O litígio lidade em mobilizar capitais, públicos e
em torno do referido Mapa Cor de Rosa, privados, de que o país, objetivamente,
além das profundas consequências em não dispunha. Oliveira Martins, um dos
Portugal, terá repercussões diretas nas inconformados da geração de 70, exprime
fronteiras externas e na (re)organização assim o seu sentimento crítico: «Como
da geografia interna de Moçambique. quer que seja, para fazer alguma coisa
num ponto, seria mister pôr de parte os
Administrar: implantar uma adminis­
domínios vastos e as tradições históricas,
tração mais eficaz em todo o território
concentrando num lugar os recursos e as
moçambicano. O projeto colonial portu­
forças disponíveis, se caso os há. Alienar
guês nunca foi pacífico nem politicamente
mais ou menos claramente, além do
consensual do ponto de vista interno,
Oriente, Moçambique, por enfeudações
sobretudo a partir da segunda metade do
a companhias, abandonar protectorados
século XIX, quando “o sistema interna­
irrisórios e domínios apenas nominais, e
cional conhe­ceu dois grandes movimentos
congregar as forças de uma política sábia
de fundo: a recomposição do mapa
e sistemática na região de Angola – eis aí
político europeu, designadamente pela
o que talvez não fosse ainda inteiramente
emergência de duas novas potências, a
impolítico” 5.
Alemanha e a Itália, e a partilha de África,
que leva rapidamente à formação dos Lembremo-nos de Rumo de Portugal. A Europa ou
4

modernos impérios coloniais”. (…) o Atlântico? (Joaquim Barradas de Carvalho,
“Durante todo o século XIX, mas sobre­ 1974) ou, noutro registo e noutro contexto, A Nau
iberografias 13 2017

de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da
tudo no seu último quartel, esteve sempre Lusofonia (1999), onde Eduardo Lourenço faz
algumas reflexões a este propósito.
3
www.socgeografialisboa.pt/historia/exploracoes- O colonialismo pragmático advogado por Olivei­
5

cientificas/. ra Martins levá-lo-ia a escrever em “O Brasil e as
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 54

A administração colonial, sobretudo para evocar Mouzinho de Albuquerque,
em Moçambique, debatia-se com a em jeito de homenagem, num texto dado
necessidade de exercer uma efetiva ocupa­ à estampa pela Sociedade de Geografia de
ção em todo o território, de pacificar os Lisboa (Mouzinho de Albuquerque: sua
povos que se rebelavam contra o jugo acção em Moçambique, 1902).
português e de combater o crónico António Enes, um civil que já havia
desequi­líbrio orçamental que constituía desempenhado outros altos cargos públicos,
um fardo para as contas do estado. Altos foi um dos sócios fundadores da Socie­
dirigentes do Estado foram enviados com dade de Geografia de Lisboa. Mouzinho
a missão de enfrentar estes árduos proble­ de Albuquerque foi um militar de carreira
mas, onde destacaremos António Enes e que granjeou prestígio pela condução das
Mouzinho da Silveira, por terem elabo­ chamadas “campanha de pacificação”
rado relatórios, enquanto administradores (1894-1895) destinadas a “subjugar” as
na varanda do Índico, que estão impre­ populações locais à administração colo­
gnados duma geograficidade que os nial portuguesa, que culminariam, em
transforma em fontes importantes para a Chaimite (1895), com a captura do
Geografia de Moçambique. imperador nguni Gungunhana. Estamos
A Geografia de Moçambique primor­ perante personalidades a quem foram
dial e embrionária que encerram obriga a confiadas missões que mostram as
destacá-los no âmbito deste trabalho por preocupações reinantes à época, dois
confirmarem, também neste caso, que a modos distintos de abordar a adminis­
Geografia é, antes de mais, um saber e tração colonial, baloiçando entre uma
um instrumento de poder, sempre usado
versão mais civil e outra mais musculada
pelos poderes dominantes em proveito
ou, mesmo, militar.
próprio. Por estas razões, os devemos
revi­sitar para uma análise critica: Moçam­
bique, relatório apresentado ao Governo, 2. O ensino da Geografia de Moçam­
em 1893, elaborado por António Enes; bique em Portugal: da Geografia
Moçambique 1896-98, escrito por Mou­ Colonial à Geografia das Regiões
zinho de Albuquerque, em 1899. Na Tropicais
sequência do trágico desaparecimento
deste militar, Aires de Ornelas usou-o O século XX foi conturbado, percorri­
do por guerras mundiais, regionais e
Colónias Portuguesa”: «É possível que em breves
anos os vapores corram no Congo e no Zambeze
locais, pela descolonização em África e
com caixeiros e missionários, Bíblias e fardos de por mudança nos paradigmas onde se
algodão, para irem comunicar com as feitorias alicerçavam, em termos teóricos e meto­
francas estabelecidas no interior, ao longo dos
rios; e o que aconteceu já com o Congo, venha dológicos, as diferentes áreas de saber.
também a repetir-se com o Zambeze. Éramos Portugal, Moçambique e as respetivas
senhores de duas chaves da navegação fluvial
africana: fomos forçados a franquear já uma delas
Geografias não ficaram imunes a tais
à navegação e ao comércio estrangeiro; sê-lo-emos alterações nem foram indiferentes aos
a franquear a outra, se antes disso não passar a ventos de mudança que haviam de alterar
febre um tanto excessiva que mais uma vez impele
a Europa para a África. O domínio histórico do radicalmente o quadro das (inter)depen­
litoral não nos dá o direito de proibir ou de taxar dências onde se movimentavam. Entre o
com alfândegas as feitorias do interior.» Em breve
início do século XX e 1974-75, com o 25
só a bandeira seria portuguesa tanto em Angola
de Abril em Portugal e a consequente
iberografias 13 2017

como em Moçambique, restando-nos – sempre
segundo Oliveira Martins – a «condição de independência de Moçambique, também
guardas das costas de África […] provavelmente
ruinosa para nós, sem ser proveitosa para mudou o modo de ensinar e de fazer
ninguém» (Alexandre, 1996, p. 196). Geografia, que passou a ser menos escolás­
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
55 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

tica e a ter um envolvimento mais ativo da Geografia aumenta e é criada, em
dos geógrafos na investigação e na ação. 1926, a disciplina de Antropogeografia
A partir da segunda metade do século geral, que faz adivinhar a influência da
assiste-se a um reforço deste tipo de inter­ obra com o mesmo nome de Friederich
venção, mais alinhado com a preocupação, Ratzel; foi ainda “desdobrada a disciplina
então em voga, duma Geografia mais de Geografia de Portugal e Colónias em
ativa e aplicada e com geógrafos mais duas, Geografia de Portugal e Geografia
envolvidos na elaboração e implementação Colonial Portuguesa. A par destas altera­
das políticas públicas, bem evidente ao ções, foi instituída a especialização em
nível do ordenamento do território e do Ciências Geográficas, continuando, no
planeamento do desenvolvimento regio­ entanto, a Geografia a estar associada à
nal e local. Esta tendência havia de levar História, nos cursos de Licenciatura”.
à institucionalização da Geografia nas A alteração da Lei Orgânica da Faculdade
universidades, o que aconteceu “não de Letras, já durante o Estado Novo,
tanto na lógica interna do conhecimento (Decreto de 25 de fevereiro de 1930),
científico”, pois “deve ser sublinhado o determina que fossem ministradas, no
facto de a geografia aparecer nos pro­gra­ Curso de Geografia, entre outras, as
mas do ensino primário e secundário e a disciplinas de Geografia Colonial Portu­
correspondente necessidade de formar pro­ guesa e a História dos Descobrimentos e
fessores” (Gama, 2011, p. 219). da Colonização Portuguesa. Foi estipula­
do, posteriormente, que a Licenciatura
Semântica, pressupostos e conteúdos: em Geografia devia contemplar, nos 4º e
da Geografia Colonial à Geografia das 5º ano, as cadeiras de Geografia das
Regiões Tropicais. Os planos de curso Regiões Tropicais I e II e de História da
que estruturaram o ensino da Geografia Expansão Portuguesa (Decreto de 30 de
nas Universidades portuguesas denun­ fevereiro de 1957). A Geografia das
ciam os interesses materiais, políticos e Regiões Tropicais veio, assim, substituir a
ideológicos, mesmo quando não explici­ Geografia Colonial, “designação mais
tados, que acompanharam a sua evolução consentânea com os tempos de descolo­
ao longo do século XX. Embora já exis­ nização e das independências após a
tisse o ensino de “matérias que fundamen­ segunda Grande Guerra” (Gama, 2011,
tavam aspectos correlativos dos futuros p. 239).
estudos geográficos”, o quadro legislativo Os novos programas curriculares para
mostra que a Geografia só alcança verda­ os Cursos de Geografia surgidos com o
deira alforria com o advento da República, advento da democracia, em 1974, procuram
em 1910, e a subsequente reorganização conjugar o novo quadro político com a
do ensino superior. Em 1911 são “extintos “Nova Geografia”, tão discutida nos países
o Curso Superior de Letras em Lisboa e a europeus, mais progressiva cientifica­
Faculdade de Teologia na Universidade mente e pedagogicamente mais prática e
de Coimbra” e são criadas as Faculdades mais dinâmica. A posição relativamente a
de Letras de Lisboa e Coimbra (Oliveira, África e à Geografia Tropical também
2003, p. 23). muda radicalmente por preconceito
A exemplo do que acontecia nas ideológico ou por rejeição natural a uma
universidades francesas, a Geografia ficou opção que havia sido imposta, que
incluída nas Faculdades de Letras, sendo evoluiu para uma guerra traumatizante e
iberografias 13 2017

aquela data o verdadeiro início dos estu­ que acabaria dolorosamente com o
dos universitários de Geografia em Portu­ “regresso das caravelas”. A África acabaria
gal (Gama, 2011, p. 220). A importância por ser trocada pela aproximação à
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 56

Europa, solução política e estratégica que Fernan­des Martins e Orlando Ribeiro,
serviu de contraponto a um retorno fundadores das primeiras escolas de
rápido e precipitado, opção que mudaria Geografia, sediadas nas Universidades de
a Geografia portuguesa e o modo de Coimbra e de Lisboa. Os conteúdos
olhar e nos relacionarmos com os espaços minis­trados nas suas aulas revelariam
africanos6. como o ensino foi sustentado por um
A primeira alteração oficial do plano conhecimento indireto e incipiente da
da licenciatura em Geografia ainda realidade moçambicana, que os dois
mantém a Geografia das Regiões Tropicais últimos Professores só colmataram mais
(4º ano) e remete a História da Expansão tarde.
Portuguesa para disciplina de opção Além de Paiva Boléo, cuja obra
(vertida num Decreto Lei de 15 de maio comentaremos mais adiante, Alfredo
de 1978). Uma reforma posterior do Fernandes Martins e Orlando Ribeiro
plano de estudos do Curso de Geografia foram os geógrafos que realizaram mais
de Coimbra, realizada em 1992, em trabalho de campo em Moçambique,
sintonia com os tempos que se viviam, fazendo missões científicas num deter­
extingue a Geografia das Regiões Tropi­ minado contexto histórico de Portugal e
cais e cria uma disciplina de Geografia da de Moçambique, que se começa a esgotar
Comunidade Europeia. nos anos sessenta do século XX. O legado
A história da moderna Geografia destes geógrafos foi importante por terem
ensinada nas Universidades portuguesas esboçado um certo modo de olhar o
revela facetas úteis para enquadrar a mundo que se esconde, imenso e miste­
evolução da Geografia em Moçambique. rioso, em cada um dos Países Africanos
Em primeiro lugar, o contexto sociopolí­ de Língua Oficial Portuguesa. Os seus
magistérios foram referência para sucessi­
tico e ideológico que orientou a evolução
vas gerações de estudantes que influen­
da Geografia em Portugal, do pragma­
ciaram pela pala­vra, escrita e falada, através
tismo que levou à criação duma Geografia
das suas lições e do que publicaram, onde
Colonial Portuguesa, posteriormente,
esboçaram mapas mentais e uma cultura
transvertida em Geografia das Regiões
territorial que perdurou no imaginário
Tropicais. Por outro lado, a importância
coletivo. É neste tempo e neste universo
dos mestres, onde pontificou uma mítica
geográfico que estão ancorados os laços
trindade constituída pelos Professores
primordiais e longínquos das filiações,
Aristides de Amorim Girão, Alfredo
dependências e afastamentos que conti­
Vozes insuspeitas, como a de Joaquim Barradas de
6 nuam a persistir entre as Geografias de
Carvalho, refere: “Portugal terá de escolher. Se Portugal e de Moçambique.
rumar para a Europa – esta Europa tão do agrado
dos tecnocratas – Portugal perderá a independência O legado dos mestres e a Geografia de
de novo, chegará a mais curto ou a mais longo
prazo à situação de 1580. Na Europa do Mercado
Moçambique ensinada em Portugal.
Comum, e numa futura hipotética, Europa Aristides de Amorim Girão, Orlando
política, a economia dos grandes espaços forjará Ribeiro e Alfredo Fernandes Martins
uma Península Ibérica unificada, e seguramente
com a capital económica em Madrid, que de foram geógrafos do seu tempo, persona­
capital económica se transformará, a mais curto lidades distintas, cujo modo próprio de
ou a mais longo prazo, em capital política. (…)
Assim, perante a encruzilhada, pronunciamo-nos
estar na vida influenciou a maneira de ver
o mundo, ensinar e fazer Geografia. Se o
iberografias 13 2017

pelo Atlântico, como única condição para que
Portugal reencontre a sua individualidade, a sua primeiro não teve qualquer experiência
especificidade, a sua genuinidade, medieva e
renascentista” (Joaquim Barradas de Carvalho, africana, Alfredo Fernandes Martins e
1974, p. 64). Orlando Ribeiro tiveram contactos com
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
57 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

Moçambique, que acabariam por deixar como: “fases da colonização portuguesa”;
expressos nos respetivos legados escrito distribuição e extensão de Portugal
ou oral, transmitidos nas suas aulas. Ultramarino”; “portugueses e luso-des­
Aristides de Amorim Girão (1895­ cen­dentes em países estrangeiros” (Girão,
‑1960), um dos pioneiros da Geografia 1941; 2.ª edição: 1949-50, pp. 483-492).
portuguesa, fruto desta e das suas Sem fazer qualquer referência à Geografia
circunstâncias, acabou por construir uma das Províncias Ultramarinas, deixa plas­
interpretação de África sobretudo a partir mado com eloquência é a sua visão sobre
da bibliografia, tendo transmitido uma esta problemática: “as condições determi­
visão do “mundo português” sem a nantes e influentes da expansão ultrama­
distância crítica relativamente à posição rina e a feição humanitária da colonização
veiculada pelo discurso ideológico do portuguesa, que tanto se dirigia aos terri­
regime. A sua leitura dos vastos espaços tórios como às almas, se por um lado
africanos, patente nas Lições de Geografia explicam a capacidade única que teve o
Humana (1936) e retomada em Geografia povo português de perpetuar-se noutros
Humana (1946), expressa uma geografi­ povos, no dizer de Gilberto Freyre
cidade de pendor determinista, um tanto (O Mundo que o Português criou),
ingénua, condicionada e “conservadora” explicam também este facto consolador:
se atendermos à maneira como contesta, que seja ainda possível fazer a viagem por
recupera ou alinha com certas explicações. mar de Lisboa até à Índia e à China,
Nestas publicações, inclui perto de 100 sempre a ver terras, ilhas, cabos e portos
estampas, fora de texto, para ilustrar o que nós baptizamos, e até mesmo a ouvir
mundo onde, então, se vivia. Mesmo que falar a nossa maviosa língua” (p. 486).
se leve em consideração a dificuldade no A proximidade ideológica com o regi­
acesso a imagens e o caracter didático das me também se percebe numa passagem
obras, é elucidativo que resumam os do Atlas de Portugal dedicada a Moçam­
principais países da atual CPLP a apenas bique: “A província de Moçambique, na
10 fotos, no caso do Brasil, 11 de Angola sua grande extensão Norte-Sul, vem
e 1 de Moçambique. A única imagem de confirmar a lei dos litorais (António
Moçambique, curiosamente, é a de um Sardinha) a que obedeceu a expansão dos
rancho de mais duma dezena de negros, Portugueses no mundo, de tal maneira
enquadrado por um capataz branco, que é possível viajar ainda hoje por mar
fazendo a ceifa do trigo, no Vale do da Europa ate a Índia sempre a ouvir falar
Limpopo, que quase poderia ser no a língua de Camões. (…) Desempenhou
Alentejo, assim legendada: “a cultura do sempre o papel de intermediário entre o
trigo, “cereal da civilização”, desempenha Ocidente e o Oriente, como sucedeu
actualmente no mundo um papel unifor­ com o cajueiro (Anacardium occidentale),
mizador da superfície: em regiões muito planta de origem brasileira que os Portu­
distantes e de características bem distin­ gueses ali introduziram e depois difun­
tas, as formas de ocupação do solo reve­ diram por todo o Oriente, a ponto de ser
lam às vezes aspetos paisagísticos muito conhecido nas ilhas da Malásia por «fruto
semelhantes” (Estampa LXXXIV, p. 318). de Portugal». Se há uma civilização luso-
A sua Geografia de Portugal, onde faz tropical (Gilberto Freire), que forte­mente
considerações alinhados com o discurso marcou a fisionomia e ligou os destinos
do regime sobre “a extensão e a eficiência das terras marginais de três grandes
iberografias 13 2017

da colonização portuguesa”, termina com Oceanos, poderá talvez apontar-se essa
um capítulo dedicado a “Portugal e aos planta como o seu melhor símbolo
portugueses no mundo”, aborda temas vegetal” (Girão, 1941; 2.ª edição, 1958).
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 58

Alfredo Fernandes Martins (1916­ da conferência que proferiu na Semana
‑1882), geógrafo arguto e peculiar, do Ultramar reali­zada em Coimbra. Não
começou por construir a sua ideia de são conhe­cidos textos que deem conta
África a partir da literatura de viagens, das missões que realizou, designadamente
das descrições de grandes aventureiros, a Moçam­bique8, onde fez muito trabalho
onde pontificavam Saint-Exupéry e de campo durante várias temporadas.
Hemingway. O ideal romântico que o Depois de ter sido nomeado adjunto da
caracterizava foi alimentado por estes Missão de Geo­grafia Física e Humana do
companheiros de jornada e outros viajan­ Ultramar (Diário do Governo, n.º 160,
tes, marinheiros e demais aventu­reiros. O de 10.07.1961), coadjuvando Orlando
coração acabaria superado pela razão Ribeiro, em 1961 esteve em Angola
quando, por dever de ofício, foi obrigado (Luanda) e Moçambique (distritos de
a fazer leituras mais “científicas” para Moçambique e Niassa), fazendo na região
preparar as aulas de Geografia Colonial e de Nampula o “reconhecimento de níveis
as missões que empreendeu a Angola e de erosão correlacionados com duas
Moçambique. No ano de 1942-43 come­ gerações de formas de tipo Inselberg”.
çou a dar aulas práticas de Geografia Nos anos seguintes continuou a
Colonial Portuguesa e a partir de 1950­ trabalhar em Moçambique, onde “prosse­
‑51 as respetivas teóricas, continuando a guiu no reconhecimento dos níveis de
regência da Geografia das Regiões Tropi­ erosão da região de Nampula, esteve no
cais, cadeira que lhe havia de suceder. planalto dos Macondes e, no intento de
Após o precoce trabalho O clima de estabelecer correlações, percorreu o litoral
Inhambane (1938) publica ensaios sobre moçambicano ao norte de Porto Amélia”
os trópicos e a Geografia Colonial, como (1962). Em 1964 visitou a região de
a Geografia Humana do Brasil (1944), a Quelimane, “preocupado com problemas
Grandeza, declínio e novas possibilidades de morfologia litoral e, no seu caminho
da borracha brasileira (1944) e Alguns para Nampula, buscou outros elementos
reparos à classificação das colónias dos níveis já reconhecidos nas campanhas
proposta por Hardy (1944). Publica, anteriores”. Em 1965 percorre a “região
ainda, O condi­cionalismo geográfico na costeira entre Porto Amélia e Pebane,
expansão portu­guesa (1964)7, resultado então de novo preocupado com temas de
morfologia litoral e da evolução da costa
Escreveu: “se a terra-pátria não dava, salvo raras
7

excepções, nem frutos, nem matérias primas de animais domésticos e as plantas cultivadas. Vão o
apreço e grande valia no mercado contemporâneo, café do velho mundo para o continente americano,
se nem sequer as grandes vias comerciais coevas e da terra do pau-brasil trazemos o cacau para
tracejavam o território nacional, importava então África; e logo a vinha do mundo mediterrâneo
que se pudesse levar aos mercados distantes o será encaminhada para as baixas latitudes; e o
produto desejado e de bom preço, para desta coqueiro é levado das margens do Índico a
guisa compartilhar da riqueza que ostentavam espalhar-se pelo mundo tropical; o trigo iniciava a
aqueles que mais bem situados estavam no viagem e o milho vem da América para o
concerto euro-asiático e euro-africano. (…) continente europeu e a cana-de-açúcar fará longa
A epopeia estava lançada: havia o ímpeto, a posi­ jornada de arquipélago em arquipélago, de costa a
ção, a área de influência, os homens à altura da costa do Atlântico.” (Martins, in Campar et al.,
missão e o navio excelente. Mobilizamos tudo: 2006: 172).
homens e coisas e espécies da ementa agrícola 8
No âmbito da Missão de Geografia Física e
europeia e tropical. Viajam os homens: conti­ Huma­na do Ultramar fez trabalho de campo em
nentais, ilhéus, negros e todos viajando para ir diversas regiões de Moçambique em 1961
iberografias 13 2017

cada vez mais longe, a outra terra achada, onde se (Nampula), 1962 (Nampula, Planalto dos
fixarão, e donde talvez os filhos irão partir um dia Macondes, Litoral de Porto Amélia), 1964
para outra terra então achada ou que nessa hora (Quelimane), 1965 (Porto Amélia e Pebane) e
mereceu o empenho da colonização. E vão os 1966 ((); Moçambique (da Foz do Rio Molocué à
hábitos e os usos, e os costumes, e as alfaias, e os Baía de Condúcia).
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
59 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

contemporânea” e, em 1966, “os process­ Terras Portuguesas, 1953), importa
os de pesca indígenas” e “da morfologia destacar Problemas Humanos de
litoral desde a foz do rio Molocué à baía África (1954-1989)10, texto angular,
de Condúcia” (Curriculum Vitae, 1967). refeito e várias vezes reeditado, incluí­
António Gama havia de referir que dos como outros dispersos em Origi­
“Alfredo Fernandes Martins atravessou nali­dade da expan­são portuguesa
estes tempos não sem dilemas e expressou- (1994), livro organizado e legendado
os na escrita e na palavra”. Quando a por Suzanne Daveau, editado com o
Geografia das Regiões Tropicais substitui patrocínio da Comissão Nacional para
a Geografia Colonial, “designação mais as Comemo­rações dos Descobrimentos
consentânea com os tempos de descolo­ Portugue­ses, onde compilou seis arti­
nização e das independências após a gos dis­persos, funda­mentais para
segunda Grande Guerra”, que lecionou apreciar o pensamento do autor sobre
durante vários anos, não deixou de se estas matérias11. A tudo isto importa
confrontar com os dilemas dum cidadão, juntar o relatório da Missão da
“militante de esquerda da sua época, Geografia à Guiné (1947) e da Missão
dividido entre uma perspectiva civiliza­ de Geografia da Índia (1956)12.
dora da colonização e o sonho de liberda­
de que as independências, como expressão
10
Incluído em Ensaios de Geografia Humana e
regional (1970, pp. 265-290), onde retoma o
dos sonhos de libertação dos povos essencial de Aspectos e problemas da Expansão
colonizados” (Gama, 2011: 240). portuguesa (1954; 1955; 1962) e Problemas
humanos de África, publicado no âmbito dos
Orlando Ribeiro (1911-1997) foi o Colóquios sobre problemas humanos nas Regiões
geógrafo português que mais investigou, Tropicais, 1961.
viajou e escreveu sobre territórios fora do 11
Orlando Ribeiro (1994) – Originalidade da
expansão portuguesa, Porto, Figueirinhas. Compila
Continente, percorrendo em diferentes seis artigos: Aspectos e Problemas da Expansão
momentos a Madeira e Porto Santo Portuguesa (1954), Apresentados como lição
(1947, 1948), Açores (1953, 1958), inaugural do Curso de Férias da Faculdade de
Letras de Lisboa, em Julho de 1954; “Um povo na
Guiné (1947), Cabo Verde (1951, 1952), Terra”, Portugal. Oito séculos de História ao
S. Tomé e Príncipe (1952), Goa, Damão serviço da valorização do homem e da aproximação
e Diu (1955, 1956), Angola (1935; 1960, dos povos, Lisboa, Comissariado Geral de Portu­
gal para a Exposição Universal e Internacional de
1961, 1962, 1963) e Moçambique Bruxelas de 1958; O Infante e o mundo novo,
(1960, 1961, 1962, 1963)9. O seu pensa­ Conferência proferida a 25 de Março de 1960 na
Universidade de Lisboa; Originalidade da Expan­
mento sobre matérias rele­vantes para a são Portuguesa, Conferência proferida na Socie­
Geografia de Moçambique espraia-se por dade de Geografia de Lisboa, em 14 de maio de
vários trabalhos, dispersos no tempo e no 1956, inaugural da Semana do Ultramar, profe­
rida naquela Sociedade, em 14 de Maio de 1956;
espaço, que nesta sucinta apresentação Reflexões em torno da Expansão Portuguesa,
estruturamos em três eixos que se comple­ Confe­rência proferida no Liceu Pedro Nunes,
mentam: Lisboa, em 16 de Março de 1960; Panorama da
Expansão Portuguesa, súmula das lições proferidas
– Expansão portuguesa e problemas hu­ no primeiro Curso Universitário de Férias no
manos de África. Além de textos curtos, Ultra­mar, organizado pela Universidade de Lisboa
mas significativos, como Vocação colo­ em Lourenço Marques e Luanda, em Agosto e
Setembro de 1960.
­nial (Palestra que passou na Rádio 12
Reeditado pela Comissão Nacional para as Come­
Nacional em 1 de Outubro de 1944) morações dos Descobrimentos Portugueses,
Lisboa, 1999, com Prefácio de Fernando Rosas e
e Casa Grande e Senzala (reproduzido Introdução de Suzanne Daveau, com o título Goa
em Gilberto Freyre, Um Brasileiro em
iberografias 13 2017

em 1956. Relatório ao Governo. Sobre o Oriente,
particularmente Goa. Algumas observações de
geografia tropical, por Pierre Gourou (1956),
9
Referências e passagens retiradas de: http://www. Goa, por Norberto Krebs (1956), Inquérito das
orlando-ribeiro.info/home.htm. aldeias de Goa (1956).
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 60

Geografia portuguesa e iconografia colonial: mapas e símbolos

Mapa desenhado por Alfredo Fernandes Martins.
Protótipo instalado no Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra, serviu de
modelo ao mapa mural localizado na entrada do Portugal dos Pequenitos, obra da iniciativa
de Bissaya Barreto, com projeto do arquiteto Cassiano Branco, inaugurada em 8 de junho de
1940. Con­cebida segundo o espírito nacionalista do Estado Novo, para quem Portugal ia do
“Minho a Timor”, converteu-se num par­que temático que constitui, hoje, conforme explica a
página da Instituição, uma “repre­sentação etnográfica e monumental dos atuais países africanos
de Língua Oficial Portuguesa, do Brasil, de Macau, da Índia e de Timor, envolvidos numa
vegetação própria destas regiões.”

Sociedade de Geografia de Lisboa: ornamento Finisterra, Revista Portuguesa de Geografia,
iberografias 13 2017

em ferro na porta de entrada Capa do número 1.º (1966). Fundada por
Orlando Ribeiro, tem desde o primeiro
número a esfera armilar como tema prin­
cipal da capa
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
61 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

– Geografia de África e da Zona Inter­ – Geografia da Expansão Portuguesa.
tropical. O livro escrito em colabora­ Com este título que deu às lições que
ção com Suzanne Daveau, La Zone proferiu no Primeiro Curso Univer­
Intertropicale Humide (Paris, A. Colin, sitário de Férias no Ultramar, em
1973), destinado fundamen­talmente 1960, tratou dos seguintes temas:
a estudantes de Geografia, como escre­ A génese e os instrumentos da expan­
veu Philippe Pinchemel no prefácio, é são; As Ilhas Atlânticas; O Oriente:
“uma autêntica geografia cultural dos Goa; Brasil: o Recôncavo da Baía;
trópicos húmidos, descre­ve uma im­ A mestiçagem. Problemas africanos;
pressionante sedimentação histórica Refle­xos em Portugal.
de civilizações autóctones e de coloni­ – Problemas Humanos de África. A Con­
zações sucessivas”, onde “os aspectos e ferência que proferiu em Lourenço
problemas do Brasil e das antigas Marques e Luanda, naquele mesmo
colónias portuguesas têm a impor­ ano, com esta designação, que apro­
tância que merecem”. São ainda deste funda ideias anteriormente publicadas,
período os artigos em que Orlando terá uma versão final, incluída nos
Ribeiro analisa os traços fundamentais Ensaios de Geografia Humana e Regio­
do pensamento geográ­fico de um dos nal (1970), onde havia de colocar a
grandes Mestres da Geografia das seguinte observação: “é a reconstituição
Regiões tropicais, Pierre Gourou. de uma conferência proferida em
– Fracasso da colonização e destinos do Louren­ço Marques e em Luanda em
Ultramar. Volta ao tema em circuns­ 1960, antes de a apresentar na série de
tâncias especiais, num contexto socio­ colóquios onde foi publicada, no ano
político que havia mudado, para seguinte. Suscitou, como era meu
fechar o ciclo ultramarino, tendo como desejo, reações diversas, de adesão e de
pretexto a descolonização e o retorno repúdio, mas não indiferença: concor­
para, em jeito de balanço, testamento dando ou não, creio que todos
ou, se quisermos, dum certo ajuste de aceitaram a plena e dolorosa sinceri­
contas com a história, publicar dois dade com que comuniquei ao público
livros. Um primeiro em que colige no as reflexões do meu regresso aos
volume Destinos do Ultramar (1975) estudos africanos, interrompidos em
uma série de artigos, publicados no 1947” (Ribeiro, 1989).
Diário de Notícias, entre 24 de – Problemas da investigação científica
Setembro e 28 de Outubro de 1974, colonial: em torno da Universidade e da
“redigidos ao correr da pena, sobre investigação científica. Conferência
resultados de alguns anos inter­polados proferida no dia 17 de Setembro de
de viagens e de muitos de reflexão” e 1963, no Salão de Festas do Liceu
um outro, mais reflectido para tentar Sala­zar, publicada no Boletim da
explicar A Colonização de Angola e o Socie­dade de Estudos de Moçambi­
seu fracasso (1981). que (Lourenço Marques, 136, 1963,
A passagem de Orlando Ribeiro por p. 5­‑14). Retoma ideias apresentadas
Moçambique teve três momentos que, a no Colóquio na Junta de Investigações
nosso ver, são importantes para contex­ Científicas Coloniais (Problemas da
tualizar o processo que conduzirá à insti­ investigação científica colonial, 1950)
tucionalização, em 1969, da Geografia e incluídas em Variações sobre Temas
iberografias 13 2017

em Moçambique na, então, Universidade de Ciência, 1970); voltaria ao tema no
de Lourenço Marques: artigo publicado no Diário de Notícias
(Lisboa, 28 de Outubro de 1974 e
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 62

incluído em Destinos do Ultramar, século XX, pela “Junta de Investigações
1975), intitulado Descolonização, do Ultramar (a partir de 6 de Novembro
ensino e ciência, onde antecipa alguns de 1973), logo depois Laboratório Nacio­
cenários que acabariam por ocorrer. nal de Investigação Cientifica Tropical
Além do artigo Ilha de Moçambique (31 de Dezembro de 1979) e, na forma
(1976), a passagem do autor por Moçam­ atual, Instituto de Investigação Científica
bique ainda proporcionou a publicação Tropi­cal, o IICT (desde 8 de Abril de
póstuma, em reedição, Orlando Ribeiro 1982, por decreto que seria regulamentado
– Cadernos de Campo, Moçambique com outro de 19 de Abril de 1983)”
1960­‑1963, que tem na contra-capa uma (Amaral, 1983, p. 327).
fotografia de Orlando Ribeiro e de O património acumulado por estes
Fernandes Martins conversando na base organismos, herdeiros dum saber e dum
de um inselberg em Moçambique (1961),
espólio admirável, e que haviam conse­
edição organizada por João Sarmento e
guido sobreviver ao 25 de Abril, acabaria
Eduardo Brito-Henriques (2013; Edições
por ser desmembrado com a extinção do
Húmus – Centro de Estudos Africanos
Instituto de Investigação Científica Tro­
da Universidade do Porto).
pical (IICT), em 31 de Julho  de  2015,
pelo decreto-lei n.º 141/2015, decorrente
3. Geografia, investigação e desenvol­ da intervenção da Troika e da crise e
vimento (Geoide): dos primórdios da auste­ridade que, supostamente, a moti­
investigação geográfica em Moçambique vou. O património reunido sobre a inves­
à cooperação para uma nova Geografia tigação tropical foi repartido entre a
Os comentários do ponto anterior, Universidade de Lisboa e a Direção Geral
em muitos casos, resultaram de missões do Livro, Arquivos e Bibliotecas, ficando
realizadas com o apoio das Junta das as competências na área da investigação
Missões Geográfica e de Investigação divididas pelo Instituto Superior de
Coloniais, criada em 7 de Janeiro de Agronomia (na área do saber tropical) e
1936 e reorganizada em 1945, com o pela Faculdade de Letras da Universidade
objetivo de promover a observação direta, de Lisboa (na área de história); a tutela
o trabalho de campo e a elaboração de do Arquivo Histórico Ultramarino acaba­
relatórios sobre os territórios ultrama­ ria por ser entregue à Direção Geral
rinos. Tendo por objetivo promover a do Livro.
investigação nos territórios de além-mar,
aquela entidade governamental sucedeu à
Commissão de Cartographia, criada em Antecedentes dos estudos geográficos em
19 de Abril de1883, herdeira da Com­ Moçambique: cartografia, atlas, mono­
missão Central Permanente de Carto­ grafias. O projeto colonial português,
graphia, que havia sido instituída por em qualquer das suas fases, sempre pecou
decreto de 17 de Fevereiro de 1876, “no por défice de conhecimento detalhado
Ministério dos Negócios da Marinha e dos territórios, de estudos técnicos apro­
Ultramar, com as suas secções de Geo­ fundados e, a partir de determinado
grafia, História Etno­lógica e Arqueologia, momento, de recursos humanos cada vez
Antropologia e Ciências Naturais. Acom­ mais qualificados. O (re)conhecimento
do território moçambicano foi demorado,
iberografias 13 2017

panhou, portan­to, a constituição da
Sociedade de Geografia de Lisboa”, criada resultando o conhecimento geográfico
em Janeiro de 1876. A herança da tradi­ que foi sendo adquirido pela acumulação
ção destes estudos foi continuada no de levantamentos cartográficos, da edição
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
63 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

de atlas e de publicação de algumas Gago Cou­tinho havia de publicar um
monografias temáticas ou regionais. “Relatório da Missão Geodésica da África
Oriental, 1907-1910”, em 1911, e anos
Cartografia. A Comissão de Carto­
mais tarde, em 1921, um “Álbum de
grafia, criada em 1883, havia de sobreviver
fotos da Missão Geodésica da África
sob várias designações até 2015, data da
Oriental, 1907-1910”.
extinção do Instituto de Investi­gação
Atlas. A Geografia de Moçambique,
Científica Tropical (IICT). A importância
no final do século XIX, tinha um carácter
estratégica da sua atuação para o conhe­
francamente elementar, devido à parca
cimento geográfico de Moçambique está
informação disponível e incipiente por
bem patente no seguinte texto: “Moçam­
assentar num empirismo metodo­lógico,
bique foi o primeiro país a ser objecto de
se levarmos em consideração a norma e o
operações geodésicas com vista à sua
padrão que viria a alcançar décadas
cobertura trigonométrica regular e de
depois. A partir de então foram sendo
cadastro, para o que foi criada a Missão
divulgados alguns tra­balhos, relevando
Geodésica da África Oriental, chefiada
atlas que passaram a constituir uma
por Gago Coutinho, consi­derada a pio­
modalidade que se havia popularizado.
neira das missões cientí­ficas. Por Portaria
Os mapas incluí­dos passaram a ser cada
Ministerial de 18 de Janeiro de 1907, foi
vez mais detalhados e de melhor quali­
criada a Missão Geodésica da África
dade, mostrando que os levantamentos
Oriental para, sob a direcção do Primeiro
feitos no âmbito das Missões Geodésicas
Tenente da Armada Gago Coutinho,
e Geográficas estavam a dar resultados.
serem defi­nidas as linhas de fronteira de
Estas edições forneciam, além uma
África Oriental (Moçambique) com as
visão do conjunto do Império, o esta­do
coló­nias vizinhas inglesas e alemãs. Esta
da arte em cada ramo científico bem
missão funcionou durante quatro cam­
como as características e especifi­cidades
panhas e seus trabalhos foram interrom­
geográficas de cada uma das suas parcelas,
pidos em 1910, mas foi cumprida cabal­
designadamente as de Moçambique.
mente, não só no referente às delimitações
Subliminarmente, a men­sagem que pas­
das fronteiras com as colónias vizinhas,
sa­vam oscila entre a exaltação patriótica e
como tam­bém na observação de uma
a propaganda colonial, enfatizando a
cadeia geodésica ao longo da costa desde
dimensão des­mesurada que o Império
a fronteira sul até ao farol do Bazaruto,
tinha atingi­do. Passamos em revista algu­
sendo Gago Coutinho, nesses tra­balhos,
mas obras representativas deste percurso:
coadjuvado por Sacadura Cabral, Dias de
(i) Geographia e estatística de Portugal e
Carvalho, Vieira da Rocha e Jorge Cas­
colónias com um atlas. A Geografia de
tilho” (Santos, 2012; 2014)13. O próprio
Portugal da autoria de Gerardo
Augusto Pery14, publicada em 1875, é
13
“Os seus trabalhos foram continuados pela
Missão Geográfica de Moçambique (MGM)
criada em 1932. Durante cerca de 40 anos a e respectivos cálculos. Várias décadas passadas,
operar no campo, esta missão estabeleceu uma estas infraestruturas geográficas são ainda de uma
estrutura geodésica, que apoia a cartografia exis­ importância fundamental pois, para além de
tente, constituída por uma rede de triangulação cobrirem geograficamente o território Moçambi­
com cerca de 900 vértices, 16 bases e 16 estações cano, são facilmente convertíveis nos sistemas de
de Laplace, uma rede de nivelamento geométrico coordenadas usados pelos actuais sistemas de posi­
com cerca de 6000 marcas e uma rede gravimétrica cionamento e navegação, como o GPS” (Santos,
iberografias 13 2017

com mais de 1300 pontos. Em 1973, por motivos 2012; 2014).
histórico-políticos termina a sua actividade de 14
Gerardo Pery (1835-1893) pertencia a uma
campo sem ter concluído a cobertura do país. Em família de origem francesa, cuja linhagem militar
gabinete, a MGM, procede à inventariação e o levaria a abraçar o exército, onde prestou serviço
organização de parte da documentação recolhida como cartografo. A excelência do seu trabalho
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 64

uma obra relativamente exten­sa, em­ interior, é em toda a África ao sul do
bo­ra descritiva, cons­truída em moldes Equador o que apresenta maior
modernos com recurso a estatísticas e extensão de planí­cies litorais, sulca­das
inclui um capítulo breve, de algumas de caudalosos rios, como o Zambeze,
páginas bastante elementares, onde se que se tornaram as vias naturais de
descreve Moçambique. pene­tração no conti­nente. Lourenço
(ii) Atlas com mapas de Moçambique. (a) Marques é uma cidade-porto, cujo
Atlas Colonial Português (1914), o pri­ vasto hinterland abrange não apenas a
meiro e mais antigo Atlas das colónias, Província, mas ainda se estende ao
composto por 22 cartas impressas a Transval e outras regiões da União
cores, dobradas a meio e publicado Sul-Afri­cana e as Rodé­sias. Nesse
pela Comissão de Car­tografia inte­ porto se articulam, de maneira muito
grada no Ministério das Colonias. (b) curio­sa, as comuni­cações por terra
Atlas Missionário Português (1962), com as ligações por mar. E o mesmo
editado pela Junta de Investigações do pode dizer-se da cidade da Beira, que
Ultramar15. (c) Atlas de Portugal, constitui também uma das grandes
elaborado por Amorim Girão (1941, encruzi­lhadas terrestres, marítimas e
2.ª ed. 1958), onde, a par dos mapas, aéreas da Africa do Sul. Escala
se faz a uma elucidativa descrição de obrigatória que foi em todos os
Moçam­bique: “O seu território, ape­ tempos no caminho da Índia, Moçam­
sar de bem integrado nos planaltos bique atrai ainda hoje numerosos
africa­nos pela sua zona montanhosa India­nos e Goeses, que lhe dão já um
certo ar oriental”.
está patente nos mapas de diferentes parcelas do Monografias. Após a fase de levanta­
Continente publicados pelos serviços carto­
gráficos; pertence-lhe ainda a tentativa de editar mentos cartográficos e de recolha de
uma primeira Geografia de Portugal estatisti­ informação avulsa e relativamente espon­
camente documentada. Um dos seus filhos havia tânea, o estado português sente a necessi­
de protagonizar uma história curiosa que o
relaciona com Moçambique: João António Pery dade de promover a sua sistematização,
de Lind (1861-1930) foi destacado como gover­ tratamento e organi­zação. A partir dos
nador da Companhia de Moçambique, que tinha anos 30, parale­lamente a uma política
concessão do governo português, por um período
de 50 anos (1892-1942), sobre os territórios de mais ativa de colonização e fomento,
Manica e Sofala. O impulso de João Pery de Lind interna e de além-mar, desencadeia vários
dado a este território, no corredor da linha férrea
vinda do porto da Beira, levou a população,
inqué­ri­tos e monografias para cobrirem
especialmente os agricultores da povoação de dife­rentes domínios económicos, sociais
Chimiala, cujo nome, entretanto, havia mudado e regionais (p. ex. Inquéritos agrícolas). A
para Mandingos, a atribuir a este lugar, em 1916,
o nome de Vila Pery. João António Pery de Lind opção estratégia e política que impulsou
teve, pois, a honra de, em vida, ver o seu nome a elaboração deste surto de monografias
ligado a uma importante terra como reconheci­ foi respaldada, academicamente, pelas
mento pela sua obra. Vila Pery passou a designar-
se Chimoio, em 12 de Junho de 1975, nome ciências sociais que prosseguiam esta
porventura derivado dum clã local, proclamação linha de inves­tigação: foram desenvolvidos
que ocorreu durante um comício popular orien­ trabalhos deste tipo pela agronomia,
tado pelo primeiro presidente de Moçambique,
Samora Machel. etnografia, antropologia e geografia (Rio
15
De referir outros já elaborados no período pó de Onor e Vilarinhos de Furnas de Jorge
colonial: Atlas sócio-cultural de Moçambique, da
autoria de Cahen, Waniez & Brustlein (2002);
Dias foram modelo para várias gerações
de estudantes).
iberografias 13 2017

Atlas da Lusofonia, editado pelo Instituto Portu­
guês da Conjuntura Estratégica, que teve o Os trabalhos de índole monográfico,
volume dedicado a Moçambique, lançado em
2005 (Coordenção: Pedro Cardoso e Francisco inspirados em Vidal de la Blache e supor­
Proença Garcia). tados teoricamente pelos seus discípulos
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
65 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

Moçambique em obras da Geografia portuguesa

Fonte: Pery , Gerardo A., 1875 Fonte: Girão, Amorim, 1941; 1958

da geografia francesa, dominaram o 1950, (ii) Moçambique, da autoria de José
arranque do ensino e da investigação da de Oliveira Boléo, editado em 1951 pela
Geografia em Portugal, tanto em Coim­bra Agência Geral do Ultramar (Ministério do
como em Lisboa, podendo apontar-se Ultramar, Divi­são de publicações e
como trabalhos exemplares desta fase as biblioteca. Moçam­bique: pequena mono­
seguintes teses: Alto Trás-os-Montes grafia (1961), versão con­densada daquele
(Virgílio Taborda, 1932) e O esforço do trabalho, acabaria por ter uma larga
Homem na Bacia do Mondego (Alfredo difusão, com duas edições posteriores, em
Fernan­des Martins, 1940). Enqua­dram­‑se 1966 e 1968.
nesta linha de pesquisa os guiões de A obra de Oliveira Boléo marca uma fase
16

inquérito elaborados por Orlando Ribei­ro, da Geografia de Moçambique, além de
enquanto bolseiro do Insti­tuto para a Alta representativa duma época e dum certo
Cultura, “prepa­rados para o estudo modo de fazer Geografia, acabou por
geográfico dos terri­tórios”: Inquérito de cristalizar e projetar uma leitura de
geografia regional (1938; 2.ª ed. 1947) e
Inquérito do Habitat Rural (1939). 16
José de Oliveira Boléo (Fatela, Fundão, 2 de
Fevereiro de 1905 – Lisboa, 28 de Junho de 1974).
É nesta linha de investigação científica, Tirou o Curso de Ciências Históricas e Geográficas
dominante numa determinada fase das na Faculdade de Letras da Univer­sidade de Lisboa,
ciências sociais e da geografia, que deve­mos onde teria sido docente de Geografia e obtido
doutoramento com a tese “Sintra e o seu Termo.
enquadrar alguns trabalhos publica­dos
iberografias 13 2017

Estudo Geográfico”, publicado em 1940. A
sobre Moçambique, de que destaca­mos: (i) importância da sua obra para compreendermos os
Moçambique, de Moura-Braz, publicado primórdios da Geografia de Moçambique levam-
nos a incluir a sua rela­tivamente longa bibliografia
pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em sobre este terri­tório num apartado dedicado ao
legado dos mestres.
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
Rui Jacinto & Lúcio Cunha 66

Moçambique no pós-guerra, visão que micas socioeconómicas e gover­nan­ças no
havia de perdurar. litoral norte de Moçam­bique (Província
de Cabo Delgado) (Medeiros, 2012).
Geoide: Diálogo e cooperação para O diálogo que tem existido entre
uma nova Geografia. A investi­gação siste­ geógrafos de Portugal e de Moçambique
mática de cariz geográfico sobre Moçam­ tem sido esparso e esporádico, assegurado
bique, feita por geógrafos obedecendo por algumas teses orientadas e defendidas
aos métodos da sua ciência, feita de modo em Portugal, feitas por geógrafos moçam­
sistemá­tico e com recurso a trabalho de bicanos sobre o seu país ou a participações
terreno, só vai acontecer a partir de 1960, em algum encontro ou seminário.
sob impulso das Missões de Geografia Apesar do que foi dito acerca do
Física e Humana do Ultramar (Amaral, desenvolvimento da Geografia nos tem­
1983, p. 328). Desta­cam-se, neste con­ pos coloniais e pós-coloniais, o desenvol­
texto, as viagens reali­zadas, funda­men­ vimento da investigação em Geografia
talmente, por Alfredo Fernan­des Martins Física nos Países Africanos de Língua
e Orlando Ribeiro. Ofi­cial Portuguesa ainda permanece rela­
Depois da monografia Moçambique, tiva­mente desconhecida entre as comuni­
elaborada por Oliveira Boleo (1951), “a dades geográficas dos restantes países que
Geografia Física de Moçambique foi comunicam no mesmo idioma. Como
estu­dada pelo menos, por Alfredo Fer­ foi dito, por um lado, a institucionalização
nan­des Martins e Raquel Soeiro de Brito. da Geografia ocorreu, nestes países, rela­
Em termos de publicações registe-se o tivamente tarde e de forma não genera­
trabalho pioneiro de Martins (1938) lizada; por outro lado, a instabilidade
sobre o clima de Inhambane e de R. S. subsequente às independências, que foi
Brito (1965) sobre os aspectos físicos particularmente grave e conflituosa nos
gerais do país. Alguns trabalhos desenvol­ casos de Moçambique e de Angola,
vidos nesta época deram origem, já dificultou tanto a evolução e o desenvol­
depois do processo de independência de vimento normal das ciências como a
Moçambique, a importantes trabalhos, inserção dos geógrafos destes jovens
como a tese de doutoramento de Maria países nas diferentes redes que se iam
Eugénia Moreira (1979) sobre os aspectos formando no seio da comunidade geo­
geomorfológicos do Rio Umbeluzi“ gráfica internacional.
(Cunha, et al., 2016, p. 81). As relações entre as escolas de
A fundação da moderna geografia Geografia de Portugal e do Brasil têm-se
moçambicana ocorre no momento em intensificado nos últimos anos (Cunha e
que os geógrafos tinham vínculo a Jacinto, 2012) e com elas, também de
Portugal. Além dos nomes atrás citados, certo modo, as relações com os PALOP, e
os trabalhos que se publicam são de dois particularmente com Moçambique, ainda
tipos: resultam de teses de Doutoramento, que relativamente mais tímidas e mesmo
juntando-se à de Maria Eugénia Moreira pontuais. A ténue relação da Geografia
as realizadas por Maria Clara Mendes portuguesa com a de Moçam­bique tem-
(Maputo antes da independência: geo­ se materializado, sobretudo, na orientação
grafia de uma cidade colonial; 1979) e de dissertações de mestrado e de teses de
por Celeste Alves Coelho (A study of doutoramento ou através da participação
suspended sediments and solutes from de investigadores moçambi­canos em
iberografias 13 2017

river Don. Aberdeenshire; 1979); artigos alguns eventos científicos, tanto em
e publicações tais como Beira, cidade e Portugal como no Brasil. No entanto
porto do Índico (Amaral, 1969) ou Dinâ­ estamos perante uma cooperação cientí­
Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
67 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

fica que importa aprofundar a partir de Carvalho, Joaquim Barradas de (1974). Rumo
múltiplas parcerias que se venham a de Portugal. A Europa ou o Atlântico?
estabelecer, permitindo uma melhor e Lisboa, Livros Horizonte.
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mais eficaz integração dos geógrafos dos
Fontes para a história, geografia e comér­
dois países nas redes internacionais de cio de Moçambique (séc. XVIII). Anais
investigação já existentes. Por outro lado da Junta das Missões Geográficas e de
é de todo interesse aproveitar a diversidade Investigações do Ultramar; vol. 9, tomo 1,
de contextos naturais, ambientais, sociais Lisboa.
e culturais dos dois países para concretizar Enes, António (1893; 4.ª ed., 1971). Moçam­
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debater conceitos, aferir metodologias e do Ultramar, Imprensa Nacional, Lisboa.
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Existe, pois, um longo caminho a (coord.; 2014). História da Geografia e
percorrer no aprofundamento destas Colonialismo. Lisboa, CEG.
relações de cooperação, de modo a que Machado, Joaquim José (1881). Moçambi­
elas contribuam e se integrem verdadei­ que: comunicação à Sociedade de Geogra­
hia de Lisboa nas sessões de 6, 13 e 22 de
ramente numa Comunidade de Geó­
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iberografias 13 2017

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Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa
69 Rui Jacinto & Lúcio Cunha

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iberografias 13 2017
Institucionalização, ensino e investigação
da Geografia em Moçambique
Iberografias 13 2017

Eliseu Savério Sposito
Professor Titular da UNESP-FCT
Bolsita de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nivel 1B
essposito@gmail.com

José Maria do Rosário Chilaúle Langa
Doutorando em Geografia pela UNESP-FCT
Bolseiro Capes do Programa PEC-PG
langajoemaria@hotmail.com

Rui Jacinto
Assistente Convidado
Universidade de Coimbra
CEGOT – FLUC
rui.jacinto@iol.pt

0. Introdução Lisboa, é a Professora Maria Eugénia
Soares de Albergaria Moreira, natural dos
A Geografia foi institucionalizada em
Açores e recém-formada na Universidade
Moçambique pelo Decreto-Lei nº 44
de Coimbra, a primeira geógrafa, contra­
530, de 20 de junho de 1969, quando o
tada como assistente, a quem se vão
governo colonial português criou o Curso
juntar, nos anos subsequentes, Celeste
de Bacharelato em Geografia na então
Alves Coelho e Maria Clara Mendes,
Universidade Lourenço Marques (ULM).
Os estudos geográficos, embora sejam licenciadas em Lisboa.
muito anteriores a esta data, aumentaram A Geografia não é imune ao tempo
em função dos interesses da metrópole nem indiferente aos acontecimentos
em conhecer melhor a Província Ultra­ sociopolíticos, sobretudo quando estão
marina para, mais eficazmente, ocupar, em causa mudanças históricas tão radicais
administrar e aproveitar suas potencia­ como as que aconteceram em Moçam­bi­
lidades e recursos. As informações de que. Se o momento fundador da Geogra­
índole geográfica foram sendo carreadas ­fia, em 1969, aproxima o conhecimento
por viajantes, administradores e investiga­ geográfico do discurso mais canónico e
dores, vinculados a diferentes instituições, dos métodos que esta ciência então
que foram aumentando de intensidade trilhava, a independência, ocorrida em
desde que se formou a Sociedade de 1975, será outra data marcante e incon­
Geografia de Lisboa (1875) e instituiu a tornável. Neste breve lapso de tempo de
Comissão de Cartografia (1983), que apenas seis anos acontece tamanha rutura
havia de sobreviver, sob várias designações, que se pode falar duma Geografia antes e
até à extinção, em 2015, do Instituto de outra depois, isto é, dum período anterior
Investigação Cientifica Tropical (IICT). ou outro posterior à independência.
Desde os anos 1950, geógrafos portu­ Os temas abordados pelos geógrafos
gueses como José de Oliveira Bóleo, em cada um desses períodos espelham a
Orlando Ribeiro e Alfredo Fernandes evolução do conhecimento geográfico, os
Martins mantinham contacto com a alinhamentos e as filiações teóricas relati­
reali­dade moçambicana através da realiza­ vamente às escolas e correntes da Geografia
dominantes, que vão polarizar e acabam
iberografias 13 2017

ção de trabalho de campo, da investigação
e de outras atividades. Quando se implan­ por ser hegemónicas em Moçambique.
ta o Curso de Geografia na ULM, em Se no tempo colonial a Geografia de
1969, tutelado pela Universidade de Moçam­bique era norteada pela Escola
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 72

Francesa, depois da independência, em tempos coloniais. Esta pesquisa sobre a
1975, os referenciais e diretivas que História da Geografia, além de ser um
balizam esta disciplina vão mudar ao exercício sobre esta ciência, pretende ser
sabor dos encaminhamentos políticos e um contributo para aprimorar o ensino,
ideológicos trilhados pelo país. Neste a formação e a investigação que se tem
período imediato, além de emergir a vindo a promover em Moçambique.
Escola Russa, muito ligada à análise de
sistemas, sejam naturais, económicos ou
políticos, licenciam-se os primeiros geó­ 1. Institucionalização do Ensino Supe­
grafos, naturais do país, como Aniceto rior e da Geografia em Moçambique
dos Muchangos.
1.1. O Ensino Superior em Moçam­
A assinatura dos Acordos de Gerais de
bique e o contexto geopolítico africano
Paz, em 1992, entre a FRELIMO e a
no limiar dos anos 1960
RENAMO, o país abre-se ao mercado e a
Geografia de Moçambique passa a Os Estudos Gerais Universitários
contatar com o saber geográfico doutros foram a primeira instituição de Ensino
países, sobretudo Brasil, Austrália, Superior criada em Moçambique, em
Estados Unidos da América, Espanha e 1962, pelo Decreto-Lei nº 44.530, de 12
França. O ensino da Geografia também de Agosto, elevados à categoria de
deixou de estar circunscrito a Maputo e à Universidade, em 1968, com o nome de
Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Universidade de Lourenço Marques
perdendo esta universidade a exclusivi­ (ULM), antes de receber em 1976 a atual
dade de formar geógrafos quando é denominação de Universidade Eduardo
criado o Instituto (1985), depois Uni­ Mondlane (UEM). A criação deste nível
versidade Pedagógica (UP; 1995), voca­ de ensino coincide com o aparecimento
cionada para a formação de professores. dos movimentos de libertação contra o
Esta expansão foi acompanhada pela regime colonial português, em África,
difusão do ensino em polos criados em permitindo especular se não foram
várias cidades do país (Beira, Quelimane, motivações políticas a ditar a sua criação,
etc.). na tentativa de minimizar a pressão inter­
Quando se aproxima o 50º aniversário nacional relativamente ao regime colo­
da institucionalização do ensino da nial. Portugal era, então, o único país que
Geografia na, então, “Província Ultrama­ continuava a negar a independência aos
rina” de Moçambique, urge conhecer o territórios sob sua jurisdição, quando a
percurso trilhado pelo conhecimento França e a Inglaterra, por exemplo, já
geográfico no país, balanço que não haviam concedido independência à gene­
dispensa uma reflexão crítica sobre o ralidade das colónias sob seu domínio.
atual estado da arte que ajude a lançar Também terá pesado nesta decisão a forte
um olhar prospetivo sobre o futuro da pressão da classe média branca, residente
Geografia no país. Esta análise, que nas colónias, que viam os seus filhos
inicide sobre a evolução do conhecimento serem obrigados a continuar os seus
geográfico e da Geografia em Moçam­ estudos universitários na metrópole, por
bique, não pode deixar de levar em falta de condições no nível local.
consideração as vicissitudes históricas, as A criação de uma Universidade na
dependências e os sucessivos enquadra­ África sob administração portuguesa era
iberografias 13 2017

mentos (geo)políticos, isto é, os contextos reivindicação antiga, feita, inclusive, por
económicos, sociais, culturais e científicos alguns altos dignitários da igreja, como
que o país atravessou desde os remotos Dom Sebastião de Resende, Bispo da
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
73 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

A Geografia serve, antes de mais, para difundir uma ideia

Mapa difundido durante o Estado Novo visando,
pela dimensão, enaltecer a visão Imperial
Fonte: Amorim Girão (1949), Geografia de Portugal:
dum Portugal que se estendia do Minho a
487 Timor

Da Geografia Colonial à Geografia das Regiões Tropicais: mapas didáticos, difundidos pelas escolas
primárias, de Portugal, para ensino da Geografia

Beira1. Em carta pastoral de 1951, ele dantes ser enviados para a Metrópole
apelava para que fosse sediada em porque “a deslocação para Portugal dos
Moçam­bique uma universidade, de cunho candidatos a universitários permitiria
local e não transplantada, para acolher uma mais perfeita assimilação dos mes­
estudantes oriundos tanto da província mos. A convivência entre metropo­litanos
como do oriente. Contrapunha-se que, e oriundos do Ultramar criaria laços de
num primeiro momento, deviam os estu­ amizade com espírito de unidade difíceis
de destruir, mesmo sujeitos aos embates
1
Dom Sebastião Soares de Resende criou várias maliciosos da subversão. A Alma nacional
infraestruturas para a evangelização, concreta­ fortalecer-se-ia com os valores resultantes
mente paróquias e missões, introduzindo pela da vivência em comum e tornar-se-ia
primeira vez na Diocese da Beira o ensino
secundário geral. Fundou ainda o Instituto D. menos vulnerável à corrosão ideológica”
Gonçalo de Silveira, actual Faculdade de Ciências (Almeida, 1988, p. 59).
Médicas da Universidade Católica de Moçambi­ Este discurso correspondia à tentativa
que, o Colégio Nossa Senhora dos Anjos, actual
de controlo da corrente nacionalista que
iberografias 13 2017

Faculdade de Economia e Gestão da referida
Universidade; criou ainda a “Revista Economia”, se alastrava, existindo o receio duma
o “Diário de Moçambique” e foi o pai do sema­
nário “A Voz Africana”. (http://www.ucm.ac.mz/
adesão mais intensa aos novos ventos que
cms/node/1441). varriam o continente africano, que a
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 74

criação de Universidades no Ultramar naquele ano, 15 países africanos torna­
poderia potenciar: “As autoridades portu­ ram-se independentes e outos tantos
guesas estavam convencidas que o espírito inicia­ram processos de luta para as
embrionário de nacionalismo africano de conquistar. Esta nova realidade, animada
Mondlane podia ser sufocado e dirigido pela força crescente do nacionalismo afri­
para serviço do Estado português através cano, obrigou as metrópoles a ensaiarem
da influência direta da metrópole por­ novas estratégias de colonização para
tuguesa”. Os resultados mostram que esta manterem os interesses em África,
opção não se revelou eficaz, bastando acabando por desenhar um novo mapa
recordar Eduardo Mondlane, no caso de de relações políticas e económicas com o
Moçambique, que depois de expulso da continente. A década de 1960 foi, ainda,
África do Sul, onde se havia matriculado, “a fase da consolidação da consciência
em 1948, na Universidade de Witwa­ nacionalista que, de uma forma mais
tersrand (Joanesburgo), frequentou a clara, contestava os processos de integra­
Universidade de Lisboa, em 1950. Em ção e assimilacionismo que apareceram
Lisboa, “Mondlane estabeleceu fortes como recurso dos sistemas coloniais que
laços com os poucos estudantes prove­ procuravam apressadamente encontrar,
nientes das colónias africanas portuguesas. entre os povos das colônias, quem pudesse
Em vez de ficarem mais ligados a Portugal, continuar o sistema sem a presença dos
tornaram-se ainda mais antagónicos a próprios colonos na administração”.
este país. Apesar de uma estreita vigilân­ É ainda nesta década que, noutros con­
cia, Mondlane e outros estudantes afri­ textos regionais, despontam grandes
canos formaram urna rede embrionária conflitos, nomeadamente no Vietname,
anti-portuguesa da qual derivam muitos enquanto na América Latina se sucedem
dos dirigentes que estão hoje (1969), na vários golpes militares que fazem antever
frente da luta anticolonialista contra as grandes mudanças que vão marcar,
Portugal em África” (Almeida, 1988, definitivamente, no virar do século, a
pp. 59-60). O mesmo aconteceria com geopolítica (Rosário, 2013, p. 46).
outros futuros dirigentes moçambicanos No auge do debate sobre a instalação
que iniciaram os seus estudos superiores do ensino universitário no Ultramar, o
na Metrópole (Joaquim Chissano, governo promove um Curso de Férias em
Pascoal Mocumbi, etc.). Angola e Moçambique, em 1960, orien­
No rescaldo da Segunda Guerra Mun­ tado por professores da Universidade de
dial ocorre uma grande viragem no Lisboa, que veio a funcionar como um
sistema colonial vigente quando emer­ verdadeiro teste para a institucionalização
gem, por todo o continente africano, da Universidade naqueles territórios.
movimentos que contestam a adminis­ Assim, “a 14 de Agosto quando come­
tração das potências europeias, desenca­ çaram a chegar os professores universi­
deando um alvoroço generalizado que tários a Luanda, iniciou-se no Instituto
acabaria por fazer desmoronar os impérios de Angola um curso destinado a médicos
que durante séculos lhes haviam dado e a farmacêuticos, regido por três profes­
acesso direto aos recursos africanos. sores da Faculdade de Medicina de Lisboa.
O ano de 1960, em função dos sucessivos A partir de 16 de Agosto, o Curso de
acontecimentos ocorridos, acabaria por Férias realizou-se, em simultâneo, em
ficar conhecido como o “ano de África”, Luanda e Lourenço Marques, estabeleci­
iberografias 13 2017

pois muitos países tornaram-se indepen­ dos que foram dois grupos de 6 pro­
dentes ou desencadearam lutas armadas fessores. Nos finais do mês proceder-se-ia
que culminam nas suas independências; à troca dos grupos, repetindo-se as lições.
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
75 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

O número de inscrições correspondeu A criação e o desenvolvimento do
totalmente aos desejos dos governos sistema de ensino e investigação, em
gerais, tanto de Angola como de Moçam­ Moçambique como em qualquer outro
bique” (Almeida, 1988, p. 74). Com o lugar, sobretudo o de nível superior, é
argumento de garantir a qualidade dos sempre reflexo da matriz ideológica e
Cursos Universitários de Férias no Ultra­ demais interesses políticos, principio
mar, organizado pela universidade de ainda mais evidente num contexto
Lisboa, foi atribuída a responsabilidade colonial. Em determinada fase, até aos
de gestão e coordenação a 12 professores anos de 1960, as missões científicas apos­
da Universidade de Lisboa, divididos em tavam, quase exclusivamente, no reconhe­
dois grupos de seis, assim organizados: cimento e em realizar estudos sociocul­
(i) o de Angola foi tutelada por Victorino turais visando obter informações que
Nemésio (Letras), Marcelo Caetano proporcionassem uma ocupação e explo­
(Direito) Torres de Assunção (Ciências), ração do território mais eficácia. Numa
Almeida Ribeiro (Farmácia), João Sequei­ fase posterior, estes estudos orientam-se
ra (Universidade Técnica – I.S.T) e para o aproveitamento dos recursos, a
Jacinto Nunes (ISCEF); (ii) o de Moçam­ expansão e exploração de aproveitamentos
bique foi coordenado por Delfim Santos agrícolas e pecuários duma burguesia
e Orlando Ribeiro (Letras), Paulo Cunha colonial vinculada à exportação para a
(Direito), Lopes de Andrade e Almeida metrópole.
Lima (Medicina), e Flávio Resende O controlo político do sistema de
(Ciências). ensino é patente no modelo de universi­
Na sequência destes Cursos foi publi­ dade instituída e nos cursos criados, que
cado, em 1962, o Decreto-lei nº 44.530, correspondiam às áreas com maior carên­
de 21 de agosto, assinado por Oliveira cia de pessoal com formação superiores,
Salazar e Adriano Moreira, que cria os destinados a suprir a escassez de pessoal
Estudos Gerais Universitários, simulta­ qualificado em domínios estratégicos do
neamente, em Luanda e Lourenço ponto de vista político e econômico para
Marques, que se deve articular com a o poder colonial. Apostou-se em cursos
Universidade da Metrópole. Referia o como Filologia Românica, História e
diploma que “as cadeiras e cursos pro­ Geografia para responder à necessidade
fessados nos estudos gerais universitários de professores que alimentassem um
terão perfeita equivalência com as cadei­ sistema de ensino em franca expansão,
ras e cursos correspondentes professados enquanto as outras ciências sociais
em qualquer outro estabelecimento de (Sociologia, Ciências Políticas, Direito,
ensino superior e serão válidos em todo o etc.) só serão introduzidos depois da
território nacional” (Artigo IV). No ano independência nacional.
seguinte é promulgado o regime de Embora o número de discentes e
funcionamento desses Estudos Gerais docentes tenha aumentado considera­
Universitários onde se indicam os cursos velmente nos últimos anos do regime
a oferecer (Decreto-Lei nº 44.530, de colonial (1968-1974), as oportunidades
5 de Agosto de 1963). Os Estudos Gerais para os estudantes nativos ingressarem na
Universitários de Moçambique, como os universidade eram reduzidas. Nesta fase
de Angola, começaram a funcionar em existiam, ainda, outras pesadas limitações
1963, passando à categoria de Universi­ estruturais para o arranque da universi­
iberografias 13 2017

dade em 1968 (Decreto-Lei 48790 de 23 dade: (i) o grau de Bacharelato, instituido
de Dezembro), como Universidade de em 1969, continuava a obrigar os alunos,
Lourenço Marques. mesmo os de Geografia, a terminar a sua
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 76

licenciatura em Portugal na Metrópole; universidade era formar pessoal que
(ii) “a exclusão dos nativos do sistema de asseguraria a proposta política e econó­
ensino colonial, principalmente no nível mica da Metrópole, logo, não seriam
superior, contribuiu para uma crise moçambicanos muito menos negros
generalizada na área de educação ocorrida (Taimo, 2010; Buque, 2013).
nos primeiros anos pós-independência,
causada pelo êxodo para Portugal da
1.2. A Geografia em Moçambique:
maioria da população de estudantes e de
ante­cedentes, institucionalização, difu­
docentes da então ULM, composta quase
são
que exclusivamente por portugueses”
(Zimba, 2010, p. 72). Os primeiros trabalhos de índole geo­
O ensino superior em Moçambique gráfica sobre Moçambique foram elabora­
foi pautado, durante o período colonial, dos por não geógrafos, o que confere uma
por uma preocupação politico-ideológica génese “informal” à Geografia se levarmos
que não foi capaz de superar as contra­ em consideração as regras e os métodos
dições e condicionantes estruturais exis­ mais canónicos seguidos por esta ciência.
tentes na sociedade moçambicana. Tais pesquisas foram realizadas, normal­
Acabou por fracassar a ideia que a criação mente, por altas patentes da administração
dos Estudos Gerais iria formar uma elite colonial, civis ou militares, importando
negra que continuaria a administrar o destacar trabalhos publicados por Antó­
sistema colonial. O ensino superior nio Enes, Mouzinho da Silveira, Francisco
criado na década de 1960, em Angola Xavier da Silva Telles, Ernesto Júlio de
como em Moçambique, não só foi Carvalho de Vasconcellos ou, mesmo
incapaz de absorver a elite negra como, Gago Coutinho2 (Amaral, 1992). A parir
uma década mais tarde, quando colapsou dos anos 1950 começam a surgir alguns
o regime colonial, as universidades de trabalhos elaborados por geógrafos onde
Angola e de Moçambique tinham poucos pontifica os publicados por José de
naturais, como a elite se encontrava “nas Oliveira Boléo. Os anos 1960, que se
matas combatendo o regime colonial, ou iniciam com o importante Curso de
exilada no estrangeiro” (Rosário, 2013, Férias já referido, prossegue sob os
p. 47). auspícios da Missão de Geografia Física e
Os Estudos Gerais Universitários Humana do Ultramar3 que permite a
tinham sido pensados, antes de mais,
para portugueses residentes nas províncias 2
Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959),
do Ultramar e não para moçambicanos antes de se tornar um dos pioneiros da aviação e
fazer, com Sacadura Cabral, a primeira travessia
ou nativos, como atesta a sua notória aérea do Atlântico Sul (1922), em hidroavião, que
exclusão do sistema de ensino. Era um os tornou famosos, foi oficial da Marinha
défice que começava no ensino secun­ Portuguesa, além de historiador, onde desenvolveu
a atividade de geógrafo-cartógrafo. Foi sócio da
dário, que “tinha poucos africanos e Sociedade de Geografia de Lisboa e em Moçam­
consequentemente a entrada ao ensino bique realizou um trabalho notável de geodesia,
superior obedeceria à mesma lógica de até 1920, onde levantou e cartografou o Niassa
(1900), Zambézia (1904-1905), Barotze (1912­
privilegiar os assimilados, os filhos dos ‑1914); fez, ainda, a delimitação definitiva da
colonos e filhos de indianos” (Taimo, parte norte da fronteira entre Angola e Zaire.
A sua paixão pela geografia levou-o a escolher,
2010, p. 78). O acesso à universidade era para epitáfio, como pretendia ser reconhecido
ainda dificultado por duas ordens de
iberografias 13 2017

para a eternidade: Geógrafo.
rqazões: porque poucos moçambicanos 3
No âmbito da Missão de Geografia Física e
Humana do Ultramar efetuaram trabalho de
tinham escolaridade para chegar à univer­ campo em Moçambique dois nomes incontor­
sidade ou porque o objetivo maior da náveis da Geografia portuguesa: (i) Alfredo
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
77 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

realização de várias viagens de trabalho de Coimbra, onde recrutou muitos
de campo a Orlando Ribeiro e a Alfredo profes­sores para a novel instituição. Este
Fernandes Martins. Neste período, além principio, contudo, não foi seguido em
de se concluírem duas teses de licenciatura Geografia, a nosso ver, pelo elevado
no Centro de Estudos Geográficos de prestígio pessoal de Orlando Ribeiro,
Lisboa, culmina, em 1969, com a pelas fortes relações institucionais e por
institucionalização do primeiro Curso de ter integrado o grupo de prestigiados
Geografia na Universidade de Lourenço professores da Universidade de Lisboa
Marques, como já antes citamos. que havia organizado, em 1960, o primei­
O Curso de Geografia, como os ro Curso de Férias no Ultramar. Além
demais, foi assim justificado: “Conside­ destes ponderosos motivos, o vinculo do
rando as especiais dificuldades que se Curso de Geografia da ULM é atribuído
depararam no recrutamento de pessoal à Universidade de Lisboa não só por estar
docente para o ensino secundário nas sediado no Centro de Estudos Geográficos
províncias ultramarinas aconselham a de Lisboa, desde final dos anos 1950, a
que nas Universidades de Luanda e de Missão de Geografia Física e Humana do
Lourenço Marques passe a ministrar-se o Ultramar, mas por Alfredo Fernandes
ensino da parte geral das licenciaturas em Martins, Professor Catedrático de Geo­
Filologia Românica, História e Geografia, grafia, em Coimbra, apesar das várias
a que corresponde o grau de Bacharel” missões de investigação feitas em Moçam­
(preambulo do Decreto Lei 49 072, de bique, não oferecer, eventual­mente,
20 de Junho de 1969). É a necessidade de garantias pessoais e politicas.
formar “pessoal docente para o ensino O Curso de Geografia é iniciado por
secundário” que levou à criação dum professores doutras disciplinas cientificas
Curso que conferisse o grau de Bachare­ (Geologia, Botanica, etc.) a que se junta
lato, equivalente aos três primeiros anos uma pequena equipa de jovens geógrafas,
da Licenciatura, nível académico que já especificamente recrutadas para este
permitia exercer a docência em liceus e efeito. Maria Eugénia Soares de Albergaria
colégios. A obtenção da Licenciatura Moreira é a primeira Assistente a iniciar
obrigava que os estudos continuassem no as funções em 1969, a que se juntaram,
Continente, em Lisboa ou em Coimbra, no ano letivo de 1971-1972, Celeste
as únicas universidades onde, então, se Alves Coelho e Maria Clara Mendes.
ministravam Cursos de Geografia em O final dos anos 1960 foi vivido sob
Portugal. tensão e conflito, em Moçambique e em
A tutela direta do Curso acabou por Portugal, com a guerra colonial em pano
ser atribuída à Universidade de Lisboa, de fundo, que viria a ser evocada como
apesar do então Reitor da ULM, Professor uma das principais razões para a Revo­
Veiga Simão, ser oriundo da Universidade lução do 25 de Abril de 1974. As mudan­
ças políticas conduzem à descolo­nização
e à independência de Moçambi­que, em
Fernandes Martins, cujos cadernos de campo não 25 de Junho de 1975, sucessão de aconte­
chegaram até nós, desenvolveu trabalho em Nam­
pula (1961), Nampula, Planalto dos Macondes, cimento com múltiplas conse­quências
Litoral de Porto Amélia (1962), Quelimane coletivas e individuais, acabando por
(1964), Porto Amélia e Pebane (1965) e da Foz do
Rio Molocué à Baía de Condúcia (1966); (ii)
precipitar o abandono de Moçam­bique
pela elite branca, onde se integram estu­
iberografias 13 2017

Orlando Ribeiro efetuou viagens a Moçambique
entre 1960 e 1963, tendo as respetivas anotações dantes e professores da única Univer­
sido publicadas pelo Centro de Estudos Africanos
da Universidade do Porto (3.º Caderno de Campo sidade existente no país, à data da inde­
do Professor Orlando Ribeiro). pendência, factos que vão marcar, indele­
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 78

A Geografia em Moçambique: difusão no tempo e no espaço do ensino
em instituições do Ensino Superior
Curso de Nº de Vagas (2016)* Mestrados/
Geografia Alunos: Regime Doutorados em
Polo / Cidade
(Ano de Geografia
início) diurno noturno (Ano de início)
Universidade Eduardo Mondlane (UEM):
Maputo 1969 50 50 2003(1)
Universidade Pedagógica (UP)
Maputo – sede 1985 35 2008(2); 2014(3)
Delegações:
Sofala/Cidade da Beira 1990 42 2010(2)
Zambézia/Cidade de Quelimane 1995 31
Nampula/Cidade de Nampula 2001 38
Gaza/Cidade de Xai-Xai 2005 39 60
Niassa/Cildade de Lichinga 2005 36
Inhambane/Município Massinga 2007 39 60
Manica/Cidade de Chimoio 2008
Pemba/Município Montepuez 2008
Tete/Cidade Tete 2009
Total 310 170
* Fonte: Vagas para os Exames de Admissão (Edital de 2016).
(1) Mestrado em População e Desenvolvimento.
(2) Mestrado em Ensino de Geografia.
(3) Doutorado em Geografia.

velmente, o futuro imediato do ensino Com a independência e o reconhecimento
superior e os destinos da Geografia no do contributo que a Geografia pode dar à
país. O envolvimento ativo de geógrafos construção da “Moçambicanidade”, abre­
naturais de Moçambique, como professo­ ‑se um novo ciclo para a Geografia em
res no Curso, só viria a acontecer mais Moçambique. Os primeiros estudan­tes
tardiamente, depois da independência. moçambicanos que haviam começado os
Em 1976, depois duma breve interru­ estudos de Geografia, na então ULM,
pção do ensino superior em Moçambique, depois de terem terminado os respetivos
emerge a Universidade Eduardo Mondla­ doutoramentos no exterior – Aniceto dos
ne4 apostada num ensino mais inclusivo, Muchangos (1983), e Rachael Thompson
comprometida com os novos desafios do (1990) – iniciam o seu percurso acadé­
país, com uma missão renovada que passa mico no seio da Geografia moçambicana
pelo envolvimento ativo na reconstrução onde Manuel de Araújo, após a indepen­
da nação recém-nascida politicamente. dência, já há muito trabalhava para este
saber em Moçambique. Assim, foi em
1976 que se criou o primeiro curso de
O Presidente Samora Moisés Machel atribuiu,
4

a 1 de Maio de 1976, à então Universidade Lou­ formação de professores de Geografia e
ren­ço Marques (ULM) o nome de Universidade História.
Eduardo Mondlane (UEM), em homenagem ao O Instituto Superior Pedagógico5,
relevante papel histórico representado pelo
Doutor Eduardo Chivambo Mondlane. A UEM, voca­cionado para a formação de professo­
iberografias 13 2017

desde cedo, se assumiu como uma Universidade
nacional, tendo concebido uma política para
garantir a equidade de acesso a estudantes 5
O Instituto Superior Pedagógico (ISP) foi criado
oriundos das diversas regiões do país e procurar em 1985 pelo Diploma Ministerial n.º 73/85, de
manter a presença feminina na instituição. 4 de Dezembro, “como instituição vocacionada
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
79 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

res, criado em 1985 e que evolui para a pelos principais acontecimentos da histó­
Universidade Pedagógica em 1995, ria recentes do país, e as mudanças opera­
acabou com o monopólio do ensino e a das no sistema universitário. Embo­ra a
exclusividade do ensino da Geografia, em definição de qualquer limite temporal
nível superior, detido até àquela data pela nunca seja pacífica nem unanime, parece
Universidade Eduardo Mondlane. Depois natural consagrar dois ciclos funda­
duma génese tardia e dum percurso mentais, que correspondem ao Período
relativamente atribulado, o ensino e a Colonial e ao Período Pós-Colonial. Uma
investigação da Geografia em Moçambi­ análise mais detalhada, que cruze dife­
que tem registado uma expansão quanti­ rentes informações e evidencie outros
tativa, uma diversificação qualitativa e ciclos, de menor amplitude, balizados
uma progressiva difusão territorial, que por acontecimentos importantes da
lhe dá um espaço interessante no contexto história de Moçambique e da evolução da
das restantes Ciências Sociais. A Geografia Geografia no país. Assim, os dois períodos
é ensinada, atualmente, em todo país, longos atrás enunciados encerram ciclos
sendo a cidade de Maputo com curso da mais curtos que marcam o já longo
UEM e UP, e as demais províncias com processo de construção, apesar das
cursos da UP. convulsões, ruturas e problemas, da
A possibilidade dos Cursos de Geogra­ História da Geografia de Moçambique:
fia serem frequentados por mais 480 – Período Colonial: (i) Geografia Colo­
jovens, em 2016, atesta que se consolida nial: um lento porvir (de meados do
a procura e que a comunidade geográfica século XIX aos anos de 1950; antece­
em Moçambique está em crescimento. dentes: da Geografia Colonial à
O alargamento desta comunidade havia Geogra­fia das Regiões Tropicais); (ii)
de levar, em 2009, à constituição da Geografia em tempo de guerra (1960-
Associa­ção dos Geógrafos de Moçam­ 1969): Missões de Geografia do Ultra­
bique (AGM), institucionalizando um mar e transição para a moderni­dade;
espaço de discussão sobre a atuação dos (iii) Geografia e revolução (1969­
profissio­nais de Geografia no país, dos ‑1976): institucionalização, tran­­si­ção,
envolvidos em tarefas de ensino, de refundação.
planeamento ou de investigação. Além – Período Pós-Colonial: (i) Geografia em
desta discussão, prossegue ainda o debate tempos de incerteza (1976-1992):
no seio da comunidade, como aconteceu demanda dum novo rumo; (ii) Geo­
durante o I Congresso de Geografia de grafia de Moçambique (1993-2009):
Moçambique, que teve lugar em 2016, se abertura a outras geografias; (iii) Uma
já é o momento de se falar duma verda­ Nova Geografia de Moçambique (a
deira Escola Moçambicana de Geografia. partir de 2010): da contingência
A sinopse onde se compilam os marcos neocolonial ao desafio pós-colonial a
que pontuam a evolução do ensino e da afirmação duma escola.
investigação da Geografia, no Ensino
Superior, em Moçambique (cf. tabelas 2. A Geografia em Moçambique: o
anexas), mostra uma notória correlação tempo e o modo
entre a trajetória sociopolítica, desenhada
2.1. Ensino e evolução curricular:
tendências e (re)alinhamentos
iberografias 13 2017

para formação de professores para todos os níveis
do Sistema Nacional de Educação (SNE) e de O modelo de ensino herdado do
outros técnicos de educação”. Em 1995, com a
aprovação dos Estatutos (Decreto 13/95, de 25 de período colonial, tanto ao nível dos temas
Abril), passa a ser a Universidade Pedagógica. e dos conteúdos ministrados como da
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 80

abordagem conceptual e metodológica tam­bém, geoestratégicos, em que a Geo­
foi profundamente alterado, em 1975, grafia de Moçambique se viu envolvida.
com a Independência Nacional (Thom­ Uma apreciação global dos seis planos
pson, 2007). Concomitante, instala-se curriculares implementados na UEM,
um certo vazio motivado pela saída, em desde que o Curso arrancou em 1969 ao
massa, de alunos e professores da mais recente, introduzido em 2012,
universidade, o que acarretaria inúmeros evidencia que a Geografia, ao longo de
problemas imediatos. Seguiu-se um breve meio século, manteve uma certa linha de
interregno interrompido com o apareci­ permanência pois, de alguma maneira,
mento do primeiro curso de formação de subsiste uma continuidade que remete
professores de Geografia, em 1976, na para os eixos estruturantes onde mergu­
Faculdade de Educação da nova Univer­ lham as raízes mais profundas desta
sidade Eduardo Mondlane, integrado no ciência: há um eixo ligado à Geografia
programa educativo criado pela deno­ Física, outro à Geografia Humana e outro
minada Geração 8 de Março. Este grupo à Geografia Regional, onde se pode
de jovens, provenientes de diferentes incluir a Geografia dedicada ao país em
partes do país, que se haviam internado causa ou ao continente onde ele se
no Centro 8 de março, em Maputo, integra.
tentando responder ao desafio de assu­ Além de disciplinas de opção, a matriz
mirem o comando da reconstrução do que serviu de base ao primeiro Curso
país, após a saída de vários quadros (1969) foi-se desdobrando na medida em
portugueses, assumiria elevados cargos, que a Geografia incorporou o debate
até recentemente, nas esferas política, teórico que alimentou os anos 1960 e
económica e social do país. 1970, conheceu algum refinamento
Tudo isto concorreu para que fosse técni­co e assumiu, em linha com as
alterado o panorama da Geografia em demais ciências, uma crescente especiali­
Moçambique. A responsabilidade de zação. Acabaram por se afirmar, assim,
prosse­guir o ensino da Geografia, após temas que viraram disciplinas pela sua
aquele hiato, acabou por recair sobre os relevância para a formação geográfica: a
poucos geógrafos e geógrafas moçam­ cartografia e o planeamento progrediram
bicanas, que haviam iniciado o Curso na enquanto a história e demais ciências
então Universidade de Lourenço Mar­ sociais, depois dalguma importância,
ques, onde se incluem alguns nomes atrás come­­çaram a perder expressão nos
referidos, conjuntamente com alguns tempos mais recentes; o mesmo acontece
professores estrangeiros, cooperantes ou com as disciplinas das ciências duras.
exilados, entretanto chegados a Moçambi­ O esquema rígido inicialmente adotado
que. Após essas mudanças estruturais, refletia uma conceção de geografia impor­
houve mudanças significativas que se tada da escola francesa, que remontava à
registaram no ensino de Geografia que se primeira metade do século XX, conheceu
podem acompanhar a partir da sequência uma evolução ao longo do tempo em
dos currículos implementados, como os função das mudanças epistemológicas
do Curso da UEM, cujas disciplinas estão que a Geografia foi internalizando, com
listadas em anexo. A migração das com­ tradução no nível do discurso, dos con­
po­nentes curriculares (disciplinas e teúdos e da própria designação das
saberes) evidencia as tendências evolutivas disciplinas. As principais tendências
iberografias 13 2017

operadas nesse campo do saber que, entre verificadas no modo de conceber e abor­
continuidade e mudança, mostra os (re) dar a Geografia ficaram espelhadas no
alinhamentos ideológicos, teóricos e, peso relativo de cada disciplina nos
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
81 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

Curso de Geografia na Universidade Eduardo Mondlane: evolução curricular
(1969-2012); número de disciplinas segundo as principais áreas de saber
[1969- [1979- [1990- [2001- [2009- [2012-
-1974](*) -1989] -2000] -2008] -2011] -…]
Introdução à Geografia 1 2 1 1 1

Geografia Física 12 6 5 3 4 4
Ambiente / Paisagem / Recursos 1 2 4 3 4
Naturais

Geografia Humana 4 6 5 7 8 11

Geografia Regional 6 2 1 2
Geografia de Portugal / Moçambique 2 6 4 1 1 2
– África

Metodologias 2 2 1 1 1
Desenho Topog. / Cartografia / 2 1 1 7 3 9
Teledeteção / SIG
Planeamento (Territorial, Urbano, 1 2 2 1 3
Urbano, …)

Seminário / Práticas de investigação 3 6 1 1 1
Trabalho Diploma / Lic. / Fim de 1 1 1 1
Curso
Estágio 2 1 1

História de Portugal / Moçambique 4 1
Etnologia Geral / Materialismo / 2 2 2 1
Sociologia
Outras disciplinas / opções 4 2 10 7 2 8
Fonte: Currículos dos Cursos de Geografia da UEM (Org.: José Maria Langa).
(*)
Só funcionava o Curso de Bacharelato. Por isso, só se contemplaram estas cadeiras. A Licenciatura incluía, ainda,
as seguintes cadeiras de 4º e 5º anos: Geografia de Portugal, Geografia das Regiões Tropicais I e II, Geografia
Regional, Etnologia Regional, Geografia Aplicada, História da Expansão Portuguesa, Seminário. Pressupunha,
ainda, a apresentação duma Tese de Licenciatura que, no Continente, terminou em 1974.

Curso de Geografia na Universidade Eduardo Mondlane:
evolução dos principais domínios disciplinares dos currículos (1969-2012)
iberografias 13 2017
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 82

sucessivos planos de curso: umas ganham ção Territorial, Planeamento Regional
e outras perdem representatividade no e Urbano, Planificação e Gestão de
quadro formativo consoante a impor­ Projetos) e da Cartografia, declinada
tância atribuída às respetivas matérias. com diferentes designações, desde
Deixando para melhor oportunidade Sistemas de Informação Geográfica e
a discussão de cariz ideológico sobre a Produção Cartográfica até Teledeteção,
relevância dada à História de Portugal Fotogrametria e Fotointerpretação ou,
(de Moçambique, no período seguinte) e mesmo, Geodesia, Agrimensura e
à Etnologia Geral e Regional, no tempo Cadastro;
colonial, ou ao estudo do Materialismo – o espaço da investigação integrada no
no período imediato à independência, período de formação não regista
sob a perspetiva estritamente geográfica, alteração significativa.
importa assinalar algumas tendências A dinâmica curricular espelha, por
mais relevantes, tais como: outro lado, o relacionamento estabelecido
– diminuição do número de disciplinas com outras Geografias e o envolvimento
relacionadas com a Geografia Física dos professores e pesquisadores moçambi­
ou as ciências “duras” (Geologia, canos com outras escolas e com certos
Pedologia, Biogeografia) que não foi temas de investigação onde mais inves­
compensada com a introdução dou­ tiram. Por tudo isto, a Geografia de
tras, em reformas mais recentes, como Moçambique conheceu uma sucessão de
as afins à problemática ambiental, posicionamentos e (re)alinhamentos com
designadamente Gestão dos Recursos que se foi quebrando o vínculo fundador,
Naturais, Direito do Ambiente, forte e único, desde a sua institucio­
Economia Ambiental, Avaliação do nalização, com a Geografia portuguesa e
Impacto Ambiental ou Geografia da a Escola Francesa. Por esta razão, até aos
Paisagem; anos 1980 apenas se reproduziam saberes
– aumento da expressão de disciplinas que eram frutos desta herança (Araújo,
da órbita da Geografia Humana (Geo­ 1992); o que se sabia e o que se ensinava,
grafia da População e Povoamento, das escolas primárias e secundárias à
Demografia, População e Desenvol­ universidade, provinha duma herança
vimento), motivada pela crescente que acabou por filiar e fazer alinhar a
especialização (Geografia Agrária, Geografia em Moçambique, do ponto de
Desen­volvimento Rural, Geografia vista teórico, na Escola Clássica Francesa,
Urbana), pela importância adquirida enraizando saberes e uma lógica de ensino
pela vertente económica (Geografia e aprendizagem que assenta no principio
Económica, Geografia da Indústria, que o professor só ensina o que aprendeu.
Geografia do Turismo, Geografia dos Apesar de não existir uma “verdadeira”
Transportes) ou, ainda, porque alguns Geografia de Moçambique à data da
temas tradicionais da Sociologia independência, o Governo assumiu a
passa­ram a ser tratados no âmbito da importância do ensino da Geografia pelo
Geografia Social (Geografia Social e contributo que podia dar para a constru­
do Género, Geografia das Migrações); ção da “Moçambicanidade” e do Estado­
– perda de importância relativa do ‑Nação. Cria-se, então, o primeiro curso
segmento de disciplinas relacionadas de formação de professores visando dar a
com a componente Geografia Regio­ conhecer os aspetos físicos e humanos do
iberografias 13 2017

nal; território, aposta na edição de livros didá­
– reforço apreciável das áreas “técnicas”, ticos sobre Moçambique, onde se inclui o
em torno do Planeamento (Planifica­ primeiro Atlas Geográfico, informação
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
83 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

que passou a alinhar o ensino da Geografia cano, realizadas por geografas portuguesas
no país. A refundação do ensino da que estiveram ligadas à génese do Curso
Geografia no Ensino Superior, em de Geografia na ULM (Maria Eugénia
Moçam­bique, acontece nesse período de Moreira, Celeste Coelho e Maria Clara
transição, conflito e compromisso, Mendes); (iii) na década de oitenta, são
enquanto surge um tímido esboço no defendidas outras três teses, as primeiras
nível da investigação se levarmos em elaboradas por geógrafos de origem
consideração as teses de doutoramento moçambicana (Aniceto dos Muchangos,
produzidas em Geografia, ressaltando 1983; Manuel de Araújo, 1988; Rachael
como aspetos mais relevantes: (i) durante Thompson, 1990); (iv) o maior número
o período colonial nenhuma tese de de teses de investigação sobre Moçam­
doutoramento foi elaborada, embora bique, elaborados por moçambicanos,
mereça referência a monografia oficial de ocorre já no decurso do novo milénio,
José Oliveira Boléo (Moçambique, sendo defendidas 17 teses de doutora­
1951); (ii) a defesa das três primeiras mento, entre 2001 e 2016, em várias
teses de doutoramento em 1979, tendo universidades de diferentes países.
como área de estudo o espaço moçambi­

Atlas e ensino da Geografia em Moçambique: algumas referências
iberografias 13 2017
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 84

A evolução do ensino da Geografia em captado os seus princípios ou concluído
Moçambique também reflete a diáspora o respetivo doutoramento em Portugal
cientifica que se espraiou a partir dos (Manuel Araújo, p. ex.). Se até um deter­
anos de 1990, em função dum novo minado momento a Geografia de Moçam­
quadro de relações internacionais que os bique foi pensada pela Comunidade
docentes moçambicanos estabeleceram Geográfica Portuguesa, no período mais
no decurso do processo formativo e de recente, o apoio dado pelo Brasil à for­
investigação que realizaram no exterior, mação avançada e, consequentemente,
permitindo contactos com diferentes uma geração de geógrafos ter sido orien­
centros produtores de saber e o acesso e tada por geógrafos brasileiros recentrou a
inclusão de novas temáticas. A afinidade influência na Geografia brasileira.
teórico-metodológica inicial da Geografia Estas razões obrigam-nos a percorrer a
de Moçambique, ao saber que emanava produção cientifica desta comunidade
da Geografia Francesa que recebeu da geográfica para melhor conhecer os con­
herança portuguesa, posteriormente, a textos em que foi efetuada e as condições
influencia da Alemã e Soviética, antes de que a influenciaram a investi­gação, isto é,
a partir de 1990 se abrir ao mundo e o tempo e o modo que determinaram a
diversificar, adquire o sentido duma evolução da Geografia de Moçambique.
Geografia mais crítica e plural que resulta (i) Antecedentes da Geografia em Moçam­
da relação mais estreita com diferentes bique: de meados do século XIX à década
Universidades do Brasil. de 50. A produção de conhecimento
geográfico intensifica-se partir de
meados do século XIX com as viagens
2.2. Investigação e produção científica:
de reconhecimento e de penetração
vínculos, redes, temas
no interior de Moçam­bique, patroci­
O conhecimento geográfico em Mo­ nadas pelo governo português e pela
çam­bique foi sendo construído a partir recém-criada Socie­dade de Geografia
da relação ancestral, por via da pesquisa e de Lisboa (1875), inscritas no movi­
do ensino, entre o território e Portugal, mento de ocupação e partilha de
que a institucionalização do Curso de África impulsionadas pela Conferência
Geografia em 1969 havia de reforçar. A de Berlim (1885). É um processo que
Geografia de Moçambique era entendida, se prolonga até meados do século XX
até à independência, como parte inte­ apoiado numa crescente qualificação
grante da Geografia de Portugal, influên­ técnica e cartográfica, onde acabam
cia que havia de perdurar para além do por se destacar nomes como Freire
período colonial. O que se sabia e se de Andrade6 ou Gago Coutinho.
ensinava, desde a escola primária à Enquanto o ensino no seio das Univer­
universidade, baseava-se nos trabalhos de sidades portuguesas se debatia, subtil­
Oliveira Boléo ou nos que haviam sido mente, entre Geografia Colonial e
elaborados ainda sob administração de
Portugal. Além de ter permanecido a 6
Freire de Andrade (1859-1929) foi engenheiro
língua comum, após a independência, militar pela Escola Politécnica de Lisboa e de
haviam de concluir os seus doutoramentos minas pela Escola Superior de Paris. Enviado para
Moçambique, em 1889, como Comissário Geral
sobre o país pesquisadoras portuguesas de minas, pedras e metais preciosos e posterior­
que haviam ensinado e investigado sobre
iberografias 13 2017

mente como Administrador da Companhia de
Moçambique e geógrafos moçambicanos Moçambique, teve a oportunidade de percorrer a
antiga província, visitando diversas minas e estu­
haviam de continuar a ter Geografia dando detalhadamente a sua geologia (Brandão,
portuguesa como referência por terem 2010).
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
85 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

Geografia de Moçambique: um olhar a partir da produção cientifica
(teses de doutoramento sobre o país)
Ano Masculino Feminino Nº Total Universidade País onde foi defendida a Tese
1979 2 2 Lisboa (2) Portugal (2)
1983-1990 2 1 3 UEM (3) Alemanha (2); Portugal (1)
2001-2003 2 1 3 UEM (2); UP (1) Brasil (1); Austrália (1); Espanha (1)
2006-2009 4 2 6 UEM (2); UP (3); …(1) Afr. Sul (3); Brasil (2); França (1)
2011-2013 3 1 4 UEM (2); UP (1); …(1) Brasil (2); EUA (1); Portugal (1)
2016 4 4 UEM (1); UP (2); …(1) Brasil (3); Moçambique (1)
Total 15 7 22 UEM (10); UP (6); …(3)

Geografia de Moçambique: alguns livros emblemáticos

Geografia das Regiões Tropicais, o Moçambique – da autoria de José de
lento porvir do conhecimento geográ­ Oliveira Boléo7.
fico passou por levantamentos carto­
iberografias 13 2017

gráficos cada vez mais detalhados e José de Oliveira Boléo (1905-1974) publicou um
7

numero significativo de trabalhos que colocam
por estudos, de forte cunho etnográ­ este autor no lugar de charneira e de transição
fico, como a extensa monografia – para a moderna Geografia de Moçambique. A títu­
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 86

(ii) Geografia em tempo de guerra (dos anos pretação geográfica (1962), elabo­
60 a 1990): emergência da moderna rada por Maria Helena Carvalho de
Geografia, transição e incerteza. Três Almeida e A Ilha de Moçambique
longas décadas medeiam entre os (1966) por de Maria Isabel Monteiro
primeiros passos dados em demanda Coelho.
duma moderna Geografia e a expansão – Geografia e revolução (1969-1977):
do seu ensino em Moçambique, que institucionalização, transição, refun­
acontece num contexto de guerra e de da­ção. Entre a última fase colonial e
consolidação do sistema universitário os primeiros anos da independência,
no país. Um quadro de guerra, revo­ com a Guerra e uma forte turbulência
lução e incerteza havia de culminar, em pano de fundo, aconteceu a
em 1990, com a abertura dum novo institucionalização do Curso de
polo de ensino superior, na Beira, Bacharelato, em Geografia (1969) e,
onde se passa a ministrar um curso após a Independência Nacional
monovalente de ensino em Geografia (1975), o arranque duma nova etapa
(Universidade Pedagógica), pautado da Geografia em Moçambique, com
por um conjunto de apontamentos de a “refundação” do Curso em 1976.
que destacamos: Os anos imediatos à independência
– Primeiros passos: a emergência da revelam-se simétricos relativamente
moderna Geografia. Os momentos ao período imediatamente anterior
marcantes que antecederam a insti­ por continuar a ser marcado pela
tucionalização da Geografia em guerra (a guerra civil começa em
Moçam­bique incluem: a designação 1976 só vai terminar com o Acordo
de Orlando Ribeiro com um dos de Paz de 1992), a expansão do
coordenadores do Curso de Férias Ensino Superior (criação da Univer­
(1960), iniciativa que serviu de sidade Pedagógica) e difusão do
ensaio para o arranque do Ensino ensino da Geografia que passa a ser
Superior em Moçambique (1962) e, lecionado nas duas Universidades
posteriormente, do Curso de Geo­ do país, que funcionam no Maputo
grafia (1969); as missões a Moçam­ (UEM e UP). Durante este período
bique de Orlando Ribeiro (1960 e de transição e rutura são ainda
1963) e de Alfredo Fernandes Mar­ dignos de registo: os trabalhos publi­
tins, catedrático de Geografia, da cados por Maria Eugénia Moreira
Universidade de Coimbra, que fará Lopes, Celeste Coelho e Clara
cinco Missões a Moçambique, entre Mendes, geógrafas que prestaram
1961 e 1966. Além dos estudos que serviço na Universidade Lourenço
realizaram neste âmbito sobre a Marques, que formalizam o arran­
Geografia de Moçambique, Orlando que de estudos sistemáticos sobre a
Ribeiro ainda orientou as seguintes Geografia em Moçambique; a con­
dissertações de licenciatura: Louren­ clusão da licenciatura do primeiro
ço Marques. Tentativa de uma inter­ geógrafo moçambicano; a publi­
cação do manual Noções Elemen­
lo indicativo refira-se Geografia Física de Moçam­ tares da Geografia de Moçambique
bique (Esboço Geográfico), 1950 ou Moçambique
(1951), monografia elaborada segundo o estilo da
(1977) que adquire importância por
repre­sentar o primeiro contributo
iberografias 13 2017

época, que reconverte, em 1961, em Moçambique,
pequena monografia, obra reeditado em 1968 e dum moçambicano para o conhe­
em 1971 com o título Monografia de Moçam­
bique, livros editados pela Agencia Geral do cimento geográfico da sua terra
Ultramar. (Araújo e Raimundo, 2002).
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
87 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

– Geografia em tempos de incerteza onde realizaram seus metrados e dou­
(1979-1990): afirmação e demanda to­rados, enriqueceram a Geografia do
dum novo rumo. A conclusão das país sob duas perspetivas: a) diversi­
cinco primeiras teses de doutoramen­ ficação temática da investigação que
to sobre a Geografia de Moçambique, permitiu transcender as abordagens
duas por geógrafos de nacionalidade mais comuns e tradicionais; b) criar
portuguesa e três por moçambicanos, parcerias e integrar redes, esboçando
abre um novo ciclo na Geografia de um processo de internacionalização
Moçambique: Maria Eugénia Soares que se estende e cria vinculos externos
de Albergaria Moreira conclui A com universidades de paises como
bacia do rio Umbelúzi (Moçam­bi­ Brasil, onde foram defendidas 8 teses
que): estudo geomorfológico (1979), de doutoramento, Africa do Sul (3) e
Maria Clara Mendes termina outros países, onde se elaborou pelo
Maputo antes da independência: menos uma tese (Portugal, Austrália,
geografia de uma cidade colonial Espanha, França e EUA).
(1979), Aniceto dos Muchangos A diversidade temática atrás referida,
apresenta O uso e a alteração da contudo, não deixa de estar alinhada e ser
natureza numa cidade grande enquadrada nas linhas de ação estru­
trópico-africana (1983), Manuel turantes da Geografia de Moçambique
Araujo defende O sistema das que, de certo modo, dão continuidade à
aldeias comunais em Moçambique investigação iniciada pelos (re)fundadores
(1988) e Rachael Thompson O nos idos anos de 1980:
estu­do de Moçambique no ensino 1. Geografia Física, abrangendo as
de Geografia da 5ª classe da escola mudanças ambientais e os riscos naturais.
moçambicana (1990). A conclusão Depois do trabalho pioneiro de Aniceto
dos respetivos trabalhos, fora do dos Muchangos, com O uso e a alteração
país, por estes três doutores moçam­ da natureza numa cidade grande trópico-
bicanos esboça um novo desenho do africana, concluido em 1983, surgiram
saber geográfico, começando a Geo­ mais quatro trabalhos O risco de inun­
grafia de Moçambique a ser escul­ dações no Baixo Limpopo (Sobrinho
pida de forma clara a partir de três Dgedge, 2003), Mudança ambiental no
coordenadas fundamentais: a Geo­ centro-sul de Chibuto, no sul de Moçam­
grafia Física, a Geografia Humana e bique (Zacarias Ombe, 2006), Desterri­
o Ensino da Geografia. torialização e reterritorialização das comu­
(iii) Geografia de Moçambique, o ultimo nidades antigas pela exploração do carvão
quarto de século: abertura a outras mineral em Moatize (Elmer Matos,
Geografias e diversificação temática. A 2016), Análise da degradação ambiental
expansão da oferta quantitativa (nú­ por erosão hídrica de solos na Bacia
me­ro de alunos) e qualitativa (mestra­ Hidrográfica do Rio Lifidzi no Planalto
dos e doutoramentos) que se verificou de Angónia (Sabil Mandala, 2016).
no ensino da Geografia em Moçam­bi­ 2. Geografia Humana, do povoamento,
que foi acompanhada pelo correla­tivo migrações, urbanização e processos de
aumento do número de doutorados e, desenvolvimento. O sistema das aldeias
consequentemente, da investigação. comunais em Moçambique, estudado
Os dezasseis doutoramentos concluí­ por Manuel de Araújo (1987), antecedeu
iberografias 13 2017

dos depois de 2001, que resultaram da os seguintes dez estudos sobre diferentes
saída de docentes e pesquisadores temas e parcelas do território moçam­
moçam­bicanos para outros países, bicano, feitos por outros tantos geógrafos:
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 88

Carlos Arnaldo (Fertilidade e seus deter­ quadas; falta de equipamentos para vários
minantes próximos em Moçambique, fins de pesquisa; exíguo acervo bibliográ­
2003), Ramos Muanamoha (A dinâmica fico; trabalho em equipa ainda fragilizado
da migração sindical moçambicana (Suzete Lourenço Buquê, 2012: 33).
indocumentada para a África do Sul, Contudo, é evidente que a Geografia de
2008), Cláudio Mungói, Desenvolvi­ Moçambique, nos últimos anos, além de
mento Regional no Vale Zambeze, 2008), desenvolver um novo quadro de relações,
Inês Raimundo (Gênero, escolha e alargou o debate temático, promovido
migração: dinâmica doméstica e urbani­ por novos investigadores que abriram
zação em Moçambique, 2008), Alexandre novos eixos de formação e outros campos
Baia (Os conteúdos da urbanização em de pesquisa. O caminho de abertura e
Moçambique: considerações a partir da diálogo que foi encetado constitui uma
expansão da cidade de Nampula; 2009), janela de oportunidade para fazer emergir
Rui Paes Mendes (A Cidade colonial e a uma nova Geografia de Moçambique,
estruturação do território em Moçam­ que supere dependências e certas contin­
bique; 2012), Boaventura Cau (Afiliação gências, comprometida com os problemas
religiosa individual, contexto da comu­ do país, disponível para enfrentar posi­
nidade religiosa e saúde em Moçambique; tivamente os desafios que se colocam à
2011), Serafim Alberto (Estimativas de afirmação duma escola com uma agenda
mortalidade adulta em Moçambique, própria.
2013), Joaquim Maloa (Urbanização
moçam­bicana: uma proposta de interpre­
3. Balanço prospetivo: demanda duma
tação, 2016)
Geografia Pós-colonial
3. Ensino da Geografia. O trabalho
iniciado por Rachael Thompson (1990) Eis a questão retomada: há uma
foi contiuado por Stela Duarte (Avaliação Geografia com características próprias
da aprendizagem de geografia: desvelando em Moçambique? Antes de debater esta
a produção do fracasso escolar na 10ª questão, importa rever alguns aspectos
classe do ensino secundário geral – aflorados que passamos a abordar a partir
Cidade de Maputo, 2001), Alice Freia (A de três tópicos.
construção da geografia escolar em O primeiro sobre Geografia e poder
Moçambique e o estatuto das figuras, remete para um livro emblemático, “a
2006) e Suzete Buque (Conhecimentos geo­grafia serve, antes de mais nada, para
docentes dos alunos da Licenciatura em fazer a guerra” (de Yves Lacoste), que no
Geografia da Universidade Pedagógica- contexto moçambicano tanto pode expres­
Maputo, 2013) sar a tradicional dimensão metafórica
Apesar dos esforços notórios ao nível como assumir uma visão mais realista e
do ensino e da investigação, como se literal. O momento da institucionalização
incluem várias reformas e revisões da Geografia em Moçambique vem na
curriculares, não deixarão de subsistir a esteira da criação da Universidade de
curto prazo alguns problemas já identifi­ Lourenço Marques, depois Universidade
cados, trans­ver­sais e comuns a outras Eduardo Mondlane, e está embasada na
latitudes, onde se inclui: necessidade de ideologia da afirmação do domínio
melhorar a qualificação do corpo docente; colonial português em África. Nessa fase,
excesso de carga horária por parte de pôde-se detetar o poder da Geografia
iberografias 13 2017

docentes; baixos salários que fazem com como um campo do saber importante
que os docentes procurem lecionar em para a formação de profissionais, inicial­
outras instituições; infraestruturas inade­ mente de origem lusitana e não moçam­
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
89 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

bicana. A geografia do poder assim investigação autónomas, que permita à
gerada, cujos matizes não evitam a guerra, Geografia de Moçambique traçar as
foi um elemento importante para o opções estratégicas da investigação que
conhecimento do país, para identificar as levem em consideração os problemas e
suas potencialidades, que teve por missão reais preocupações dum país tão amplo e
ajudar a formar, sem o conseguir, uma diverso. Autocentrar a investigação passa
elite nativa que acabou envolvida e a por dar força e expressão aos temas
pugnar pela independência do país e a nacionais, pois analisar e interpretadas
afirmar a sua “moçambicanidade”, neolo­ com detalhe as dinâmicas socio-territo­
gismo que tenta resumir a identificação riais é dar um contributo decisivo para
nacional, as especificidades e maneiras de que o Estado-nação defina as politicas
ser diferente e independente. Durante a publicas mais ajustadas ao desenvolvi­
transição politica (da colônia para o país mento e coesão territorial e social.
independente), o papel, posicionamento Esta reflexão conduz-nos à inevitável
e utilização da Geografia pode ser lem­ pergunta se há, efetivamente, uma Escola
brada por uma certa modernização meto­ de Geografia de Moçambique e, a existir,
dológica e pela difusão dos conhecimentos qual sua identidade, emergência e seus
desta área do saber. (re)posicionamentos. As linhas de rumo
Um segundo tópico de reflexão será começaram a ser traçadas com a abertura
em torno da Geografia e dependência, da às Geografias doutros países, principal­
transição duma da geografia colonial para mente o Brasil, abrindo perspetivas de
uma desejada geografia pos-colonial. As futuro que se vislumbram a partir da
opções iniciais foram direcionadas aos atual produção científica, dos temas que
países estrangeiros, principalmente a abordam, das orientações teóricas e
França, importante centro de produção metodológicas, dos seus posicionamentos
do conhecimento geográfico, cuja Geo­ em relação às questões nacionais e por
grafia inspirou tanto a portuguesa como suas opções estratégicas na ampliação e
os primeiros geógrafos e professores de confirmação de uma forma de se fazer a
Geografia formados em Moçambique. Geografia que se identifique com o
A Geografia afirmou-se, nesse momento, Estado-nação, ou seja, em direção à
como saber institucionalizado, apropria­ afirmação da sua “moçambicanidade”.
do pelo poder no período de transição
politica, exposto à influência dos movi­
mentos revolucionários que se enfrenta­ Bibliografia geral
vam no país. Os geógrafos passam a ser
influenciados pelo conhecimento geográ­ A Geografia em Moçambique: insti­
fico de inspiração soviética em virtude do tucionalização e difusão da Geografia
posicionamento ideológico dos primeiros em Moçambique
governos, passando a absorver uma Geo­ Almeida, A. A. M. de (1988). A criação do
grafia física estruturada nos modelos ensino universitário em Angola e Moçam­
interpretativos. A viragem politica irá bique. Africana, n.º 3 (Setembro 1988),
encaminhar os geógrafos moçambicanos p. 9-144.
para o exterior, sobretudo o Brasil, onde Almeida, A. C. de; Gama, A.; Cravidão, F.
efetuam a formação avançada e elaboram D.; Cunha, L. &; Jacinto, R. (2006).
Alfredo Fernandes Martins. Geógrafo de
as respetivas teses, pois a instituição de
iberografias 13 2017

Coimbra, Cidadão do Mundo, Instituto de
doutoramentos no próprio chão moçam­ Estudos Geográficos, Coimbra.
bicano é bastante recente. Este facto tem Almeida, A. C. de; Gama, A.; Cravidão, F.
condicionado a definição de linhas de D.; Cunha, L.; Martins, P. F. & Jacinto,
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 90

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1979 – Maria Eugénia Soares de Albergaria – Australian National University.
Moreira (UL-CEG): A bacia do rio Umbe­ 2003 – Gustavo Sobrinho Dgedge (UP). O
lúzi (Moçambique): estudo geomorfológico. risco de inundações no Baixo Limpopo
Faculdade de Letras da Universidade de (Moçambique). Espanha – Universidad
Lisboa. Alcala
1979 – Maria Clara Mendes (UL-Arq.): 2006 – Zacarias Alexandre Ombe (UP).
Maputo antes da independência: geografia Mudança ambiental no centro-sul de
de uma cidade colonial. Faculdade de Chibuto, no sul de Moçambique (1965-
Letras da Universidade de Lisboa. 2000). Africa do Sul – University of the
1979 (1980) – Celeste Alves Coelho (UA). A Witwatersrand.
study of suspended sediments and solutes 2006 – Alice C. Binda Freia (UP). A
from river Don. Aberdeenshire. PhD by the construção da geografia escolar em
University of Aberdeen, U.K.; equiva­ Moçambique e o estatuto das figuras. França
lência Universidade do Porto (1980). – Université Paris 7 – Denis Diderot,
1983 – Aniceto dos Muchangos (UEM). O France.
uso e a alteração da natureza numa cidade 2008 – Ramos Cardoso Muanamoha
grande trópico-africana, ilustrados através (UEM). A dinâmica da migração sindical
do 18 exemplo de Maputo, República moçambicana indocumentada para a
Popular de Moçambique [Die Nutzung África do Sul. Africa do Sul – University
und Veränderung der Natur in einer of Kwazulu-Natal
tropischafrikanischen Grossstadt – 2008 – Cláudio Artur Mungói (UEM).
dargestellt am Beispiel von Maputo, Desenvolvimento Regional no Vale Zambeze
Volksrepublik Mocambique], Martin- – Moçambique em Perspectiva. Brasil –
Luther Universität, Halle, Germany Universidade Federal do Rio Grande do
1988 – Manuel Garrido Mendes Araújo Sul.
(UEM). O sistema das aldeias comunais 2009 – Alexandre Hilário Monteiro
em Moçambique: Transformações na orga­ Baia(UEM). Os conteúdos da urbanização
nização do espaço residencial e produtivo. em Moçambique: considerações a partir da
Faculdade de Letras da Universidade de expansão da cidade de Nampula. Brasil –
Lisboa. Universidade de São Paulo. Orientadora:
1990 – Rachael Elizabeth Thompson (UP). Ana Fani Alessandri Carlos
O estudo de Moçambique no ensino de 2009 – Inês Macamo Raimundo (UEM).
Geografia da 5ª classe da escola Gênero, escolha e migração: dinâmica
moçambicana – uma contribuição para a doméstica e urbanização em Moçambique.
estruturação do programa e a configuração Africa do Sul – University of Kwazulu-
do livro do aluno com vista ao processo Natal
de ensino-aprendizagem. [Die Behan­ 2011 – Boaventura Manuel Cau (UEM).
dlung Moçambiques im Geographieun­ Afiliação religiosa individual, contexto da
terricht der 5. Klasse der moçam­ comunidade religiosa e saúde em Moçam­
biquanischen Schule: ein Beitrag zur 22 bique. EUA – Arizona State University.
Lehrplanstruktur und Lehrbuchgestaltung 2012 – Rui Paes Mendes (U.Porto). A Cidade
im Hinblick auf den Unterrichtsprozess], colonial e a estruturação do território em
Pädagogische Hochschule Karl Wander, Moçambique: a evolução urbana de Lou­
Dresden, Germany renço Marques/Maputo, Beira, Nampula e
iberografias 13 2017

2001 – Stela Cristina Mitha Duarte (UP). Porto Amélia/Pemba. Portugal – Univer­
Avaliação da aprendizagem de geografia: sidade do Porto.
desvelando a produção do fracasso escolar 2013 – Serafim Adriano Alberto (UEM).
na 10ª classe do ensino secundário geral Esti­mativas de mortalidade adulta em
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 92

Moçam­bique, 1987 a 2007. Brasil – 2016 – Sabil Damião Mandala (UP). Análise
Universidade Federal de Minas Gerais. da degradação ambiental por erosão hídrica
2013 – Suzete Lourenço Buque (UP). de solos na Bacia Hidrográfica do Rio
Conhecimentos docentes dos alunos da Lifidzi no Planalto de Angónia: contribuição
Licenciatura em Geografia da Universidade metodológica para Moçambique. Brasil –
Pedagógica – Maputo. Brasil – Univer­ Universidade Estadual Paulista.
sidade Federal de Goiás. 2016 – João Carlos Lima (UP) – Conflitos
2016 – Elmer Agostinho Carlos de Matos entre sabres na urbanização: as tradições
(UEM). Desterritorialização e reterritoria­ das comunidades e o planeamento territorial
lização das comunidades antigas pela no Município de Mocuba. Universidade
exploração do carvão mineral em Moatize Pedagógica – Moçambique.
– Moçambique. Brasil – Unversidade
Federal do Rio Grande do Sul.
2016 – Joaquim Miranda Maloa (UEM).
Urbanização moçambicana: uma proposta (Fonte: Gerdes (2013) e pesquisa na internet;
de interpretação. Brasil – Universidade de Organização: José Maria Langa, Rui Jacinto, Eliseu
São Paulo. S. Sposito)

iberografias 13 2017
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
93 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

Anexo I
Moçambique: breve geografia

População Superfície Densidade
Região
HM % Km 2
% Hab./Km2
Moçambique 25.727.911 100,0 799.380 100,00 32,2
Niassa 1.656.906 6,4 129.056 16,14 12,8
Cabo Delgado 1.893.156 7,4 82.625 10,34 22,9
Nampula 5.008.793 19,5 81.606 10,21 61,4
Zambézia 4.802.365 18,7 105.008 13,14 45,7
Tete 2.517.444 9,8 100.724 12,60 25,0
Manica 1.933.522 7,5 61.661 7,71 31,4
Sofala 2.048.676 8,0 68.018 8,51 30,1
Inhambane 1.499.479 5,8 68.615 8,58 21,9
iberografias 13 2017

Gaza 1.416.810 5,5 75.709 9,47 18,7
Maputo Província 1.709.058 6,6 26.058 3,26 65,6
Maputo Cidade 1.241.702 4,8 300 0,04 4139,0
Fonte: Instituto Nacional de Estatística, Anuário Estatístico 2014 – Moçambique
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 94

Anexo II
Contexto sociopolítico e enquadramento institucional do Ensino e da
Investigação em Geografia de Moçambique: sinopse; alguns marcos e referências

I.1. Período Colonial

Enquadramento Institucional: Investigação
Ensino Superior e Curso de Geografia (Referências; (*) Teses de Doutoramento)
Contexto Sociopolítico: Geografia colonial: um lento porvir
Antecedentes: da Geografia Colonial à Apontamento para a história da geografia
Geografia das Regiões Tropicais 1875 – Criação da Sociedade de Geografia de Lisboa
1883 – Criação da Comissão d Cartografia
1885 – Conferências de Berlim
1886 – De Angola á contra-costa; descripção de uma viagem atravez do
continente africano (Hermenegildo Capello e Roberto Ivens )
Alguns Governadores de Moçambique que publicaram obras com
interesse geográfico: António José Enes (1895); Joaquim Augusto
Mouzinho de Albuquerque (1896-1897); Alfredo Augusto Freire de
Andrade (1906-1910)

1907 – Moçambique, primeiro país a ser objecto de operações
geodésicas. Missão Geodésica da África Oriental, chefiada por Gago
Coutinho, considerada a pioneira das missões científicas, criada por
Portaria Ministerial de 18 de Janeiro de 1907
(…)
1950 – Geografia Física de Moçambique (Esboço Geográfico) (José de
Oliveira Boléo)
1951 – Moçambique (José de Oliveira Boléo)
Contexto Sociopolítico: Geografia em tempo de guerra: Missões de Geografia do Ultramar e transição para a modernidade
1964-1974 - Guerra colonial / Luta pela independência
1960 – Primeiro Curso de Férias em Angola e Missão de Geografia Física e Humana do Ultramar.
Moçambique. Orlando Ribeiro coordenadorViagens a Moçambique dos Professores Orlando Ribeiro e Alfredo
das Letras em Moçambique Fernandes Martins (1960-1966):
1962 – Estudos Gerais Universitários 1960 e 1963 – Viagens de Orlando Ribeiro.
(Decreto Lei nº 44.530, de 12 de Agosto), 1961-1966 – Viagens de Alfredo Fernandes Martins: Nampula, 1961;
1963 – Regime de funcionamento dos Nampula, Planalto dos Macondes, Litoral de Porto Amélia, 1962;
Estudos Gerais Universitários de Angola e Quelimane, 1964; Porto Amélia e Pebane, 1965; Morfologia
de Moçambique (Decreto-Lei nº 44.530, Litoral – da Foz do Rio Molocué à Baía de Condúcia, 1966.
de 5 de Agosto) 1961 – Moçambique: pequena monografia (José de Oliveira Boléo)
1968 – Universidade de Lourenço Marques Teses de Licenciatura em Geografia (CEG, Universidade de Lisboa):
(ULM), 1962 – Lourenço Marques. Tentativa de uma interpretação geográfica,
Maria Helena Carvalho de Almeida
1966 – A Ilha de Moçambique, Maria Isabel Monteiro Coelho
197? – …. Limpopo – Manuel Araujo
Contexto Sociopolítico: Geografia e revolução: institucionalização, transição, refundação
1974. Portugal, 25 de Abril
1975. Moçambique – Independência Nacional, 25 de junho
1969 – Criação do Curso de Geografia na
ULM (Bacharelato; Decreto Lei 49.072, de
20 de Junho de 1969).
(Maria Eugênia Moreira, primeira Assistente
de Geografia na ULM)
1974-1975 – Descolonização: retorno a
Portugal de muitos alunos e professores.
iberografias 13 2017
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
95 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

I.2. Período Pós-Colonial
Enquadramento Institucional: Investigação
Ensino Superior e Curso de Geografia (Referências; (*) Teses de Doutoramento)
Contexto Sociopolítico: Geografia em tempos de incerteza
1976-1992 – guerra civil “pela democracia”
1992 – celebrado o Acordo Geral de Paz entre Governo liderado pela FRELIMO e a RENAMO
1977 – Edição de Noções Elementares da Geografia de Moçambique
1976 – Universidade Eduardo Mondlane
1979 – A bacia do rio Umbelúzi (Moçambique): estudo geomorfológico
(UEM)
(Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira)
1976 – Curso de Formação de Professores
1979 – Maputo antes da independência: geografia de uma cidade
de Geografia 1985 – Criado o Instituto
colonial (Maria Clara Mendes)
Superior Pedagógico (ISP)
1983 – O uso e a alteração da natureza numa cidade grande trópico-
1990 – Beira (Delegação da Universidade
africana (Aniceto dos Muchangos):
Pedagógica). Início do curso monovalente
1988 – O sistema das aldeias comunais em Moçambique (Manuel
de ensino em Geografia
Araújo)
1990 – UEM faz a primeira reforma
1990 – O estudo de Moçambique no ensino de Geografia da 5ª classe da
curricular
escola moçambicana (Rachael Thompson)
Contexto Sociopolítico: Geografia de Moçambique: abertura a outras geografias
1995 – ISP passa a Universidade Pedagógica 2001 – Avaliação da aprendizagem de geografia (Stela Cristina Mitha
(Estatutos aprovados pelo Decreto 13/95, Duarte)
de 25 de Abril) 2003 – Fertilidade e seus determinantes próximos em Moçambiquel
2001 – Nampula (Delegação da (Carlos Arnaldo)
Universidade Pedagógica). Inicio do 2003 – O risco de inundações no Baixo Limpopo (Gustavo Sobrinho
curso monovalente de ensino em Dgedge)
Geografia 2006 – Mudança ambiental no centro-sul de Chibuto (1965-2000)
2003 – Criação do Mestrado em População (Zacarias Alexandre Ombe)
e Desenvolvimento na Universidade 2006 – A construção da geografia escolar em Moçambique e o estatuto
Eduardo Mondlane das figuras (Alice C. Binda Freia)
2007 – Criação do Mestrado em Ensino de 2008 – A dinâmica da migração sindical moçambicana indocumentada
Geografia e na Universidade Pedagógica para a África do Sul (Ramos Cardoso Muanamoha)
2009 – Criação da Associação de Geógrafos 2008 – Desenvolvimento Regional no Vale Zambeze (Cláudio Artur
de Moçambique (GAM) Mungói)
2008 – Gênero, escolha e migração: dinâmica doméstica e urbanização
em Moçambique (Inês Macamo Raimundo)
2009 – Os conteúdos da urbanização em Moçambique: considerações a
partir da expansão da cidade de Nampula (Alexandre Hilário
Monteiro Baia)
2011 – Afiliação religiosa individual, contexto da comunidade religiosa e
saúde em Moçambique (Boaventura Manuel Cau)
2012 – A Cidade colonial e a estruturação do território em
Moçambique (Rui Paes Mendes)
2013 – Estimativas de mortalidade adulta em Moçambique (Serafim
Adriano Alberto)
2013 – Conhecimentos docentes dos alunos da Licenciatura em
Geografia da Universidade Pedagógica (Suzete Lourenço Buque)
2014 – Criação do Doutoramento em
2016 – Desterritorialização e reterritorialização das comunidades
Geografia na Universidade Pedagógica
antigas pela exploração do carvão mineral em Moatize (Elmer
Agostinho Carlos de Matos)
2016 – Urbanização moçambicana: uma proposta de interpretação
(Joaquim Miranda Maloa)
2016 – Análise da degradação ambiental por erosão hídrica de solos
na Bacia Hidrográfica do Rio Lifidzi no Planalto de Angónia (Sabil
Damião Mandala)
2016 – Conflitos entre sabres na urbanização: as tradições das
iberografias 13 2017

comunidades e o planeamento territorial no Município de Mocuba
(João Carlos Lima)
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 96

Anexo IV
Planos curriculares do Curso de Geografia da Universidade Eduardo Mondlane:
temas e disciplinas

Plano Curricular 1 [1969-1974] Plano Curricular 2 [1979-1989] Plano Curricular 3 [1990-2000]
Introdução à Geografia Introdução da Geografia
História da Geografia
Geografia Física I Geomorfologia Geomorfologia
Geografia Física II Climatogeografia
Hidrogeografia Hidrogeografia
Oceanologia
Minerologia e Geologia Gerais Geologia Física Geral Geologia Geral
Geologia Geral PedoGeografia Pedogeografia
Botanica Geral Biogeografia
Zoologia Geral
Defesa da Natureza e do Meio Sociedade e Meio Ambiente
Ambiente

Avaliação e Utilização Económica dos
Recursos Naturais
Geografia Humana I Geografia da População e Povoamento Geografia da População
Geografia Humana II Geografia dos Povoamentos

Geografia Agrária
Geografia Urbana
Geo. Económica dos Países Geografia Económica I
Capitalistas, Socialistas e em
Desenvolvimento
Estatística Económica Geografia Económica II
Economia Política Geografia Económica III

Geografia Reginal III
Geografia Regional I
Geografia Regional II
Teoria da Terra
Teoria da Divisão em Regiões
Económicas
Teoria da Divisão em Regiões
Naturais
Geografia de Portugal Geografia Física de África Geografia de Africa I
Geografia Económica de África Geografia de Africa II
Geografia da República Popular de Moçambique
Geografia Física de Moçambique Geogrfia de Moçambique I
Geografia Económica de Moçambique Geografia de Moçambi-
que II
Geologia de Moçambique
História de Portugal I História da República Popular de Moçambique
Pré-História
iberografias 13 2017

Etnologia Geral Educação Política e Ideológica Elementos de Socilogia I
Meterialismo Histórico e Diáletico Elementos de Sociologia II
Planificação Territorial Planificação Territorial
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
97 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

Plano Curricular 4 [2001-2008] Plano Curricular 5 [2009-2011] Plano Curricular 6 [2012-...]
Evolução do Pensmento Geográfico Introdução à Geografia Introdução à Geografia

Geografia Física I Geomorfologia
Geografia Física II Climatologia
Hidrologia

Geologia Geologia Geologia
Pedologia Pedologia
Biogeografia

Fundamentos de Educação Ambiental Geografia da Paisagem Geografia da Paisagem
Economia Ambiental Gestão Ambiental Gestão dos Recursos Naturais
Ecossistema da Terra Direito do Ambiente
Avalição do Impacto Ambiental Avaliação do Impacto Ambiental Economia Ambiental
Fundamentos de Educação Ambiental

Geografia da População e Geografia da População Demografia
Povoamentos
Padrões de Assentaentos Humanos Geografia dos Povoamentos Geografia da População e do
Povoamento
População e Desenvolvimento População e Desenvolvimento
População e Género Geografia Social e do Género Geografia Social e do Género
Geografia das Migrações Geografia das Migrações
Geografia Agrária Desenvolvimento Rural
Geografia Urbana
Geografia Económica I Geografia da Indústria Geografia Económica I
Geografia Económica II Geografia do Turismo Geografia Económica II
Geografia dos Transportes Economia
Teoria da Economia e Desenvolvimento Teoria da Economia de
Desenvolvimento
Geografia Regional Geografia Regional Geografia Regional

Uso da Terra Uso de Terra

Geografia de África

Geografia de Moçambique Geografia de Moçambique Geografia de Moçambique
iberografias 13 2017

Sociologia
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto 98

Plano Curricular 1 [1969-1974] Plano Curricular 2 [1979-1989] Plano Curricular 3 [1990-2000]
Planeameto Urbano

Curso de Desenho Topografico Cartografia e Topgrafia Topografia Geral

Metodologia Métodos Matemáticos em Geografia
Métodos de Ensino Bases Metodologicas da Geografia

Seminário de Geografia Económica Seminário de Especialização
Seminário de Geografia Física Seminário de Especializa­-
ção I

Prática de investgação Práticas de Investigação I
Práticas de Investigação II
Práticas de Investigação II
Praticas de Investigação III

Trabalho de Diploma Trabalho de Licenciatura
Estágio Pedagógico
Estágio Produtivo
Matematica Análise Matématica
Probabilidades e Metódos Estátisticos
Matemáttica Básica
Física Básica
Quimica Básica
Introdução a Informática
Disciplina de opção (2) Língua Inglesa Inglês I
Inglês II
Inglês III
Inglês IV
(*) Só existia o Bacherelato. Por isso só se incluiram estas cadeiras
iberografias 13 2017
Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambique
99 Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto

Plano Curricular 4 [2001-2008] Plano Curricular 5 [2009-2011] Plano Curricular 6 [2012-...]
Planificação Territorial
Planeamento Urbano Planeamento Regional e Urbano Planeamento Urbano
Planeamento Participativo Planificação e Gestão de Projectos
Cartografia Cartografia Produção Cartográfica
Agrimensura e Cadastro Sistemas de Informação Geográfica Sistemas de Informação Geográfica
Fotogrametria Teledetecção Teledetecção
Geodesia Teledetecção e SIG
Sistema de Informação Geográfica Fotogrametria
Teledetecção Fotointerpretação
Teledetecção e SIG
Geodesia
Agrimensura e Cadastro
Métodos de Investigação Métodos de Investigação

Seminário de Fim do Curso Seminário de Fim do Curso

Metodos de Investgação
Técnicas de expressão

Projecto Trabalho de Fim do Curso

Estágio Estágio
Matematica Estatística
Estatísctica Análise de Dados
Análise de Dados Análise Espacial
Dinâmica dos Processos Espaciais
Gestão de Dados Espaciais

Opção 1,2 Opção 1 Opção
Opção 3,4 Opção 2 Opção
Opção 5,6,7 Opção 1
Opçao 8
(*) Só existia o Bacherelato. Por isso só se incluiram estas cadeiras
iberografias 13 2017
I.II
Investigação recente:
o estado da arte
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no
contexto de pobreza em Moçambique
Iberografias 13 2017

Cláudio Artur Mungói
Professor Associado
Departamento de Geografia
Universidade Eduardo Mondlene
cmungoi2002@yahoo.com

Resumo Buscam-se aportes bibliográficos que
dão sustentação a intersecção entre a
O presente artigo rediscute com recur­
teoria e práctica numa região potencial­
so a perspectivas interpretativas e analí­
mente rica em recursos naturais no
ticas e paradoxos da realidade rela­tivas a
entanto dominada pela pobreza.
concepções de desenvolvimento, o uso
do espaço geográfico e a ideia da susten­
Palavras-chave: Desenvolvimento sus­
tabilidade baseada numa raciona­lidade
ten­tável; pobreza; uso do espaço.
desconectada das condições objectivas
para a sua efectivação.

1. Introdução no socialismo de Estado e na planificação
centralizada da economia foram cedendo
A implantação do Estado de direito
lugar a uma democracia capitalista de
democrático e a abertura do país (Mo­
economia aberta, voltada para o mercado.
çambique) à economia de mercado trou­
1989 marca o fim da Guerra Fria e do
xeram novos usos políticos e econó­micos socialismo real, e ao mesmo tempo o
do território e novas formas e conteúdos triun­fo provisório da globalização econó­
territoriais como consequência da ruptu­ mica, sob a hegemonia do mercado
ra de paradigmas de desenvolvi­mento. (LEFF, 1998).
Na verdade, tratou-se de rupturas de Modelos produtivistas e de revolu­ção
paradigmas socioeconómicos e políti­cos verde implementados em épocas ante­
com significados e alcances multi­formes. riores foram substituídos por um novo
Sua expressão manifestou-se através da paradigma de desenvolvimento vinculado
introdução de uma nova opção de desen­ à noção de sustentabilidade, ou seja, à
volvimento de matriz neoliberal e de uma necessidade de compatibilizar o “desen­
democracia multipartidária, plasmada na volvimento económico” indefinido com
Constituição de 1990. a diminuição contínua das desigual­dades
Não é novidade a constatação de que, sociais e a preservação dos “recur­sos” e
após a queda do socialismo de Estado,
iberografias 13 2017

equilíbrios naturais.
vivemos uma época de retraimento e de Para a obtenção desse objectivo,
reflexão conceitual crítica (Carneiro, recomenda-se a pesquisa e a aplicação de
2004, p. 1). Os antigos modelos baseados uma série de medidas, tanto no âmbito
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 104

de cada Estado nacional como no âmbito lógica e os seus fundamentos de repro­
internacional, com vista ao “direciona­ dução.
mento” político e “científico” das inter­ Pretende-se fazer uma análise crítica
ações entre a economia de mercado e da noção de desenvolvimento sustentável
processos e condições naturais (Carneiro, com base na análise de algumas particula­
2004, p. 1). ridades próprias de um país e de uma
É pois, sob este novo contexto político região ainda dominada pela pobreza
e económico que vai ganhando espaço a absoluta.
noção de sustentabilidade no cenário Também se assume que a pobreza em
moçam­bicano, através da sua incorpo­ Moçambique é um fenómeno generali­
ração nas políticas, planos e estratégias de zado, mas predominantemente rural.
desenvolvimento do país, plasmadas nas Mais de metade da população do país
políticas territoriais aqui entendidas vive abaixo da linha da pobreza, sendo os
como o conjunto de planificações estraté­ níveis mais acentuados nas áreas rurais,
gicas de médio e longo prazo e as suas onde a maior parte da população vive
correspondentes formas de actuação dependente da práctica da agricultura em
dirigidas a intervir sobre o território, a pequenas explorações familiares de onde
fim de que assumam as formas que sejam obtem directamente os seus rendimentos.
adequadas ao conjunto de interesses dos Nesta perspectiva, um dos objectivos
que controlam o poder político (Sanchez, do presente artigo é apresentar uma
1992, p. 72). interpretação teórica e prática sobre a
Este poder político é, sobretudo, relação entre o desenvolvimento susten­
controlado pelo Estado, aqui entendido tável e o desenvolvimento rural em con­
como instituição política territorializada di­ções de pobreza numa região dominada
e legitimada pela sociedade, inscrito nos pela agricultura de subsistência e pelo
tempos do território e da sociedade. esta­belecimento de um grande empreen­
É desta inscrição que resulta o processo de dimento hidroelétrico concebido pelo
transformação a que ele se encontra fre­ Estado como locomotiva para o desenvol­
quentemente submetido (Castro, 2005). vimento da região que é a barragem de
É, pois, sob este cenário, que se destaca a Cahora Bassa, na bacia do Zambeze.
incorporação da noção de desenvol­ A bacia do Zambeze ocupa uma área
vimento sustentável em Moçambique. de 225.000 km2 (cerca de 27,7% da
Assim, a problemática do artigo superfície do país), com uma população
circuns­­creve-se à incorporação à realidade de 3.775 milhões de habitantes (25% da
moçambicana do discurso sobre o desen­ população moçambicana) e integra
volvimento sustentável numa região quatro províncias do centro do país: Tete,
marca­da pela pobreza absoluta. Nesta Manica, Sofala e Zambézia, dos quais
pers­pectiva, a questão que se coloca 56% da população dessas províncias se
circuns­creve-se no entendimento das encontram ao longo do Vale. Em relação
possibilidades prácticas de efectivação de à África Austral, a bacia representa a
um desenvolvimento sustentável em maior reserva de água do sub-continente;
Moçambique dentro do quadro teórico a maior reserva de energia renovável; a
“ocidentalizado” e que lhe dá sustentação. maior reserva de carvão de coque, a região
Ou seja, dentro de uma lógica capitalista, de maior potencial agrícola, em termos
que ao invés de contemplar apenas a de vastidão de terras e de qualidade. Para
iberografias 13 2017

dimen­são economicista, estende o seu além destas características merece refe­rên­
leque às questões voltadas à dimensão cia a sua elevada potencialidade hidroelétri­
ambiental, mas sem com isso perder a sua ca. Por estas razões naturais traduzidas
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
105 Cláudio Artur Mungói

em potencialidades de desenvolvimento, do crescimento sem limites que, muitas
a bacia do Zambeze reúne condições vezes, tem levado no dizer de LEFF
naturais para se tornar num dos maiores (1998), a insustentabilidade.
motores do desenvolvimento do país e da Ora, o enquadramento teórico-con­
África Austral (Gabinete do Vale do ceitual do chamado desenvolvimento
Zambeze, 2003). sustentável no contexto moçambicano
A bacia do Zambeze também é uma deve reflectir a realidade de um país e de
região privilegiada para se analisar a uma região ainda fortemente dependente
dimensão das políticas territoriais e dos recursos naturais básicos para a sobre­
programas de desenvolvimento nas suas vivência da sua população e onde não se
diferentes perspectivas; área de concreti­ experimentou ainda o progresso e a
zação e materialização de grandes empre­ modernidade dentro dos padrões do
en­dimentos agroindustriais e energéticos, Ocidente, embora se reconheça a presen­
como são os casos das açucareiras de ça de sintomas do desequilíbrio ecológico,
Marromeu e do Luabo, da barragem de da escassez de recursos, da pobreza extre­
Cahora Bassa, do Projeto do carvão de ma, dos riscos ecológicos e da vulnera­
Moatize e de iniciativas de desenvolvi­ bilidade da sociedade.
mento comunitário. Paradoxalmente, a As consequências dessa visão de desen­
região apresenta o mais baixo Índice de volvimento ocidentalizado, vinculada a
Desenvolvimento Humano (IDH), ou uma racionalidade económica desnatura­
seja, de 0,267, contra 0,285 que é a lizada são bem conhecidas. Ela resultou
média do país. em situações de miséria física e social
profunda para as populações que não se
beneficiaram dos seus ganhos. Gerou
2. Desenvolvimento sustentável e a
também conflitos nas relações sociais
“Questão ambiental”
e confu­sões de sentido das camadas socio­
É patente nas nossas sociedades, nos económicas privilegiadas nos países ricos.
dias de hoje, a hegemonia do paradigma Do lado ambiental, os danos são enormes,
do desenvolvimento sustentável, sobretu­ tanto em níveis locais e regionais quanto
do após a Conferência do Rio 92. Tal no nível global do planeta (Raynaut,
paradigma vem incorporado em progra­ 2004, p. 30).
mas, políticas e planos de acção das mais Em 1990, Moçambique adoptou uma
diversas origens que acaba funcionando nova Constituição baseada na democracia
no dizer de Carneiro (2004, p. 2), como e numa economia de mercado e que passa
“ideologia de legitimação do status quo” a incorporar a questão ambiental dentro
que a reboque os países em vias de desen­ desta nova matriz política e económica
volvimento procuram a todo o custo que como postula O’Connor (citado por
adoptar dentro dum quadro prático e Carneiro, 2004), aponta para a existência
realístico que lhes é muitas vezes incom­ de uma “segunda contradição” do sistema
patível. capitalista – articulada à clássica contra­
Assim, um segundo objectivo do dição primária entre forças produtivas e
artigo vai no sentido de fazer uma crítica relações de produção no processo de
à noção de desenvolvimento sustentável produção de mercadorias.
concebido à luz de uma visão ocidenta­ Longe de ser um processo de geração
lizada, ou seja, àquela ligada ao progresso de mercadorias, portanto com valor de
iberografias 13 2017

e à modernidade, a uma racionalidade troca, as condições naturais no contexto
modernizadora que tem gerado externa­ moçambicano são o garante de sobrevi­
lidades económicas e sinergias negativas vência de uma população que não possui
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 106

outras alternativas de vida ou de entrada dante, assumindo o pressuposto de que o
no jogo de relações entre as forças produ­ capitalismo está automaticamente orien­
tivas e relações de produção. O paradigma tado para a acumulação da riqueza abstra­
de desenvolvimento sustentá­vel incorpo­ ta, quantificado pela moeda, median­te a
rado no discurso capitalista e na Agenda produção de mercadorias, pois isto
política do Estado aponta para o uso das corres­ponde à sua própria matriz teórica
condições naturais como condições do ocidentalizada e como se deve calcular,
processo de acumulação de riqueza incompatível para uma realidade domi­
abstra­ta sem considerar as condi­ções reais nada por uma pobreza rural absoluta.
de apropriação social dos recur­sos natu­ Ou seja, para uma realidade basicamente
rais pelos pobres rurais. pré­‑capitalista de que se referiu Marx ao
Trata-se de utilizar um paradigma e colocar que a produção, neste contexto,
um discurso de sustentabilidade sob uma destina-se, fundamentalmente, ao auto­
realidade completamente diferente da­ ‑sustento e onde ao vendedor interessava­
quela que lhe dá sustentação e é por isso ‑lhe simplesmente o consumo do valor
que o Estado, em nosso entender, vem se de uso do bem comprado, e, ao com­
comportando historicamente como uma prador, importava-lhe obter a moeda
entidade contraditória que por um lado, para, por sua vez, trocá-la por bens de uso
pretende defender os interesses e o bem que necessitava consumir (Carneiro,
estar das populações e por outro, age 2004).
como uma plataforma de transplantação Se isto corresponde à situação da
de modelos disvinculados da realidade do maior parte das famílias rurais moçam­
seu território e que teimam em não bicanas e, particularmente, da região da
produzir resultados positivos. bacia do Zambeze, então, para quê ado­
Tal paradigma dominante está assente tarmos paradigmas teóricos que não se
sob uma perspectiva de reprodução das compadecem com a realidade desses
condições de produção capitalista, ou territórios?
seja, da contradição entre as forças pro­ É evidente que a partir de princípios
dutivas e as relações de produção tomadas dos anos 1970, as actividades que impli­
pelo processo de produção de mercadorias caram no uso intensivo de “recursos
estruturalmente orientado pela busca de naturais” e com altos níveis de impacto
maior rentabilidade na acumulação de ambiental como é o caso da barragem de
riqueza abstrata e que, muitas vezes, Cahora Bassa concluída em 1974 passa­
conduz à degradação daquelas condições ram a concentrar-se nos países pobres do
da qual depende. sul (Reis e Amaro citado por Carneiro,
Talvez como exemplo elucidativo, seja 2004) e nesses países, em áreas habitadas
importante destacar para o cenário de por populações de baixa renda que não
Moçambique o papel da barragem hidro­ dispõem de recursos económicos e polí­
elétrica de Cahora Bassa concebida para ticos para fazer frente a esse processo
rentabilizar o processo de desenvolvimento (Carneiro, p. 14).
rural na região e os seus efeitos sobre o No entanto, a preocupação com o
ecossistema natural e a produção agrícola desenvolvimento sustentável, ou melhor,
de subsistência. com a problemática do meio ambiente
Seguindo esta lógica, ou seja, a ideo­ começou a ser contemplada na reflexão e
logia do desenvolvimento sustentável nas discussões sobre o desenvolvimento,
iberografias 13 2017

assumida no entender de Carneiro como principalmente, a partir da década de 70,
uma doxa estamos condenados a pensar após trinta anos de crescimento acelerado
que tal desenvolvimento é sempre degra­ da produção económica dos países indus­
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
107 Cláudio Artur Mungói

trializados (Raynaut et al, 2004), sobre­ sustentável no contexto de pobreza, pois
tudo, com o Relatório de Clube de Roma que a região da bacia do Zambeze possui
que apontava os limites de crescimento um Índice de Desenvolvimento Humano
da produção devido ao carácter finito das dos mais baixos do mundo. Mas, tal
reservas mundiais dos recursos não reno­ consideração nos levaria a assumirmos
váveis, especialmente os energéticos. uma interpretação neomalthusiana para a
O rápido aumento do preço de explicação da incorporação da noção de
petróleo gerou uma crise económica pro­ desenvolvimento sustentável no contexto
funda nos países importadores e os países moçambicano, facto que contraria os
industrializados, principalmente os euro­ pressupostos do artigo.
peus, com o nível de consumo alto, foram Contudo, independentemente de
duramente atingidos e iniciaram uma todos esses aspectos, é em 1987 com o
mudança profunda da sua economia a Relatório Brundtland: “Nosso Futuro
fim de reduzir seu grau de dependência Comum” que se consolida o marco
energética, sem contudo, modificarem o conceitual da ideia de desenvolvimento
seu modelo de desenvolvimento, manten­ sustentável. Nele, se define o desenvol­
do como seu objectivo o crescimento vimento sustentável “como o processo
contínuo do padrão de vida da população. capaz de satisfazer as necessidades das
No entanto, esta crise do aumento do gerações presentes sem comprometer a
preço do petróleo pouco ou quase nada capacidade das gerações futuras satisfa­
tinha a ver com uma região em que a base zerem as suas próprias necessidades”
energética era dependente quase que (Nações Unidas, 1987). Nessa perspecti­
exclusivamente do combustível lenhoso, va, o desenvolvimento económico e o uso
muito por conta do seu nível de desen­ racional dos recursos ambientais estão
volvimento tecnológico e onde a produ­ inexoravelmente vinculados.
ção familiar é de subsistência, embora a O desenvolvimento sustentável for­
taxa de crescimento da população fosse mula-se em termos do processo de
de facto considerada alta em relação ao transformação das diferentes dimensões
padrão europeu. ou componentes do “sistema da sociedade
De acordo com Raynaut et al. (2004), nacional” (Trigo et al. citado por Sepúl­
nos anos 70 também iniciou-se um outro veda, 2005, p. 34) que compre­en­de
grande debate, que também dizia respeito mudanças na destinação dos inves­
à questão de limites dos recursos disponí­ timentos, mudanças de ordem tecnológica
veis no mundo, mas salientando os riscos e de acesso a informações que garantam
associados ao crescimento populacional um uso racional da base de recursos
que poderia induzir uma pressão global ambientais e, com esses, satisfazer as
excessiva sobre os recursos disponíveis e necessidades e aspirações de todos os
sobre os sistemas naturais que levaria a grupos sociais no presente e no futuro
uma crise geral do abastecimento, bem (Sepúlveda, 2005, p. 34).
como uma sobrexploração dos meios natu­ Mais do que um conceito a noção de
rais, com todas as consequências associadas. desenvolvimento sustentável tem como
Assim, este era um problema dos paí­ uma das premissas fundamentais o
ses em desenvolvimento do que dos reconhecimento da insustentabilidade ou
países ocidentais que tinham uma taxa de inadequação económica, social e ambien­
crescimento baixa, até próxima de zero, tal do padrão de desenvolvimento das
iberografias 13 2017

como assinala Raynaut et al. (2004). sociedades contemporâneas ocidentais.
Talvez aqui se enquadre o marco teórico Trata-se de uma noção que nasce da
e conceitual referente ao desenvolvimento compreensão da finitude dos recursos
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 108

naturais e das injustiças sociais provocadas patibilizado com a sustentabilidade ecoló­
pelo modelo de desenvolvimento vigente gica e com justiça social (Carneiro, 2004,
na maioria dos países centrais (Almeida, p. 19. Grifo no original).
1999) e que foi literalmente transplantado Tomando como linha de interpretação
para os países periféricos, passando a agir de que a pobreza em contexto moçam­
como uma ideologia ou uma doxa bicano se configura como causa e efeito
(Bourdieu, 1994)… a doxa é um ponto de dos desequilíbrios ambientais a adequação
vista particular, o ponto de vista dos do conceito de desenvolvimento susten­
dominantes que se apresenta e que se impõe tável nos padrões que se conhece apre­
como ponto de vista universal (1994, senta uma série de limitações. Pois, como
pp. 128-129 citado por Carneiro, 2004). coloca Sepúlveda (2005), tanto os pobres
Sob esta perspectiva, a visão desen­ rurais como os urbanos geralmente se
volvimentista da história considera que vêem compelidos a fazer um uso intensivo
os países industrializados ocupam o topo dos limitados recursos naturais aos quais
de uma escala evolutiva, para onde um têm acesso e que muitas vezes provocam
dia convergiriam também os países peri­ um alto grau de erosão do solo, a alteração
féricos (Carneiro, 2004). Mesmo com o de microbacias hidrográficas e as fontes
malogro dos esforços politicamente de água, a perda da qualidade de água
conduzidos de industrialização tardia ou disponível, o despejo de efluentes conta­
quase nula, com vista à “recuperação” do minadores, entre outros.
atraso, encetados pelas elites políticas
técnicas e burocráticas dos países do
3. Desenvolvimento rural: aspectos
Terceiro Mundo, e apesar do longo ciclo
teóricos e conceituais
de crise de realização de valor que, desde
meados dos anos 1970, se arrasta apro­ É notório que a África Sub-Sahariana
fundando as desigualdades sociais e regio­ ainda não conseguiu produzir ou pelo
nais e destruindo as condições naturais menos fazer aplicar os seus próprios
da biosfera, apesar disso tudo, a concepção modelos de desenvolvimento, os governos
desenvolvimentista da história continua, e as agências internacionais continuam a
em todos os quadrantes do “mundo da usar o corpus conceitual e as teorias
mercadoria”, vertebrando os discursos e produzidas no Norte (as doxas). Há ainda
acções de governantes e governados um grande caminho a percorrer até que
(Carneiro, 2004, p. 17). se consigam criar e aplicar modelos que
Ou seja, essa doxa, consenso tácito e tirem a África Sub-Sahariana da situação
inconsciente sobre o silêncio dos domi­ de pobreza e do déficit alimentar em que
nados, define o limite do problematizável se encontra (Negrão, 1999).
e acaba funcionando como um paradigma Desde os primeiros anos da década de
universalizado abafando qualquer tipo de 70, estes países têm experimentado uma
questionamentos ou de realidades especí­ sucessão de quedas de produção e de
ficas. episódios de fome, acompanhados da
Assim, compreende-se porque é que morte de milhares de pessoas e de
para a ideologia do desenvolvimento sus­ centenas de milhares de cabeça de gado.
tentável, o “desenvolvimento”, inexorável Áreas enormes, antes ocupadas por flores­
como uma lei natural, pode e precisa tas, tornaram-se quase desertas. A compo­
continuar, mas (e aqui chega-se ao limite nente climática desses acontecimentos é
iberografias 13 2017

da “consciência ambientalista” possível indiscutível, mas não explica tudo.
no horizonte da forma mercadoria) só Como coloca Raynaut (2004), só a
pode continuar se for politicamente com­ conjunção e a interacção de muitos facto­
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
109 Cláudio Artur Mungói

res – climáticos, demográficos, técnicos, Agendas e Planos de Desenvolvimento
políticos, económicos e sociais – podem em Moçambique as preocupações cres­
dar conta da amplitude e duração dessa centes com o meio ambiente e tornaram­
crise. Por isso, no meu entender, a proble­ ‑se também elementos críticos na elabo­
mática ambiental e do desenvolvimento ração de políticas públicas.
sustentável deve ser enquadrada no con­ A definição do desenvolvimento rural
texto africano dentro dessa matriz e não não é consensual e este facto tem alimen­
apenas da adaptação ou transplantação tado tanto discussões teóricas e analíticas
de um padrão ocidentalizado, ou seja de quanto seus efeitos normativos e institu­
uma doxa ocidental. cionais. No entanto, não é nossa intenção
A retórica para a promoção de desen­ cair aqui na polissemia das significações
volvimento rural e redução da pobreza que as diferentes abordagens trazem a sua
absoluta tem sido focalizada para a definição. Pretende-se, isto sim, tão­‑somen­
impor­tância que assumem as políticas de te colocarmo-nos à margem da confusão
desenvolvimento capazes de promover a intelectual e normativa e trazer­mos àquelas
melhoria da qualidade de vida e do bem que em nossa opinião mais reflectem a
estar das populações rurais na maior nossa realidade, muito por força do seu
parte dos países africanos. Graças a uma nível de desenvolvimento econó­mico.
mobilização sem precedentes das entida­ Um aspecto que tem chamado a
des de ajuda internacional, programas de atenção nessas discussões é a menção em
pesquisa e programas de desenvolvimento todos eles a quatro elementos-chave a
foram lançados em todos os países da partir dos quais se preconiza a retomada
África sub-sahaariana. do debate sobre o desenvolvimento rural:
Segundo Raynaut (2004), seus objecti­ a erradicação da pobreza rural, a questão
vos eram tentar entender melhor as do protagonismo dos actores sociais e sua
dimensões locais daquela crise global e participação política, o território como
encontrar soluções adequadas para unidade de referência e a preocupação
permitir que as sociedades locais sobrevi­ com a sustentabilidade ambiental (Schnei­
vessem e se desenvolvessem num am­ der, 2004) e que, de seguida, trazemos as
biente natural difícil e frágil, aplicando suas principais consta­tações.
técnicas adaptadas para pôr fim às No período recente, as várias tentativas
dinâmicas de desertificação e, se possível, de sistematização de novos referenciais
recuperar os sectores já degradados. sempre acabam por destacar a necessidade
Poucos destes programas conseguiram de se estabelecer o deslocamento de
resultados concretos e duráveis, mas enfoque, quer seja do produtor/agricultor
todos participaram da elaboração de um para as redes de actores (ator network), do
novo enfoque de desenvolvimento rural, setor agrícola (ou da agricultura) para o
mais aberto à diversidade das situações espaço rural alargado, das ações do tipo
locais e da complexidade das relações blueprint ou top-down para as de botton­
entre as sociedades humanas e o seu ‑up, grassroots, abajo-arriba, entre outros.
ambiente. Esta tendência convergente em torno
Portanto, hoje, um dos aspectos que da preocupação constante em sugerir
tem suscitado debate sobre o desenvolvi­ deslocamentos é ainda maior no que se
mento rural em Moçambique é a incor­ refere à incorporação do conceito de
poração nas discussões e nas prácticas da território nas questões de desenvolvimento
iberografias 13 2017

ideia sobre o desenvolvimento sustentável rural. Na verdade, parece haver consenso
com vista à redução da pobreza. Foi assim entre diferentes autores que o território
que passaram a ser incorporadas nas seja a unidade de referência mais ade­
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 110

quada para se estudar e analisar os pro­ destaca que a noção de desenvolvimento
cessos gerais de reestruturação societários rural emerge dos debates e disputas
e seus impactos locais. sociais e políticas. Segundo este autor, o
Um dos autores a propor uma nova desenvolvimento rural seria uma tentativa
abordagem para o desenvolvimento rural, de reconstrução de bases económicas,
particularmente em países em desenvol­ sociais e ambientais, e das próprias uni­da­
vimento, é o inglês Frank Ellis (2001; des familiares, face as limitações e lacunas
2000; 1998). Sua abordagem privilegia o intrínsecas do modelo produtivista.
que se denomina de estratégias de sobre­ Em síntese, como dispositivo heurís­
vivência familiares e a diversificação de tico, o desenvolvimento rural represen­
modos de vida rurais (household strategies taria uma possibilidade de ir além da
and rural livelihood diversification), modernização técnico-produtiva, apre­
mostran­do que as iniciativas e acções que sen­tando-se como uma estratégia de
geram impactos significativos na melhoria sobrevivência desenvolvida por unidades
das condições de vida dessas populações e familiares rurais que buscam, através de
que ampliam suas perspectivas de garantir seu esforço e disposições, incrementar as
a reprodução social e económica estão, na possibilidades de garantir sua reprodução
maioria das vezes, nas próprias localidades (Ploeg et al. 2000, p. 396).
e territórios onde vivem. A diversificação José Eli da Veiga destaca as dimensões
não implica apenas ampliação das possi­ ambientais e territoriais do desenvolvi­
bilidades de obtenção de rendimentos mento rural. Não arrisca uma definição
(agrícolas, não-agrícolas e outras), mas para o desenvolvimento rural, preferindo
representa, sobretudo, uma situação em destacar suas interfaces e vínculos em
que a reprodução social, económica e relação ao desenvolvimento em geral
cultural é garantida mediante a combi­ (sobretudo a necessidade de conceber o
nação de um repertório variado de acções, desenvolvimento rural e urbano de forma
iniciativas, escolhas, enfim, estratégias. interconectada), que é entendido a partir
Frank Ellis não atribui um sentido da perspectiva avançada por Amartya
teórico à noção de desenvolvimento Sen, que o define como “um processo de
rural, no entanto define-o como um expansão das liberdades substantivas
conjunto de acções e práticas que visam dirigindo a atenção para os fins que o
reduzir a pobreza em áreas rurais, visando tornam importante e não para os
estimular um processo de participação meios…” (Sen citado por Veiga, 2001).
que empodera (empowerment) dos habi­ Nesta perspectiva de expansão das
tantes rurais, tornando-os capazes de capacitações individuais e melhoria dos
defi­nir, controlar suas prioridades para a funcionamentos, Veiga aponta como
mudança (2000, p. 25; 2001, p. 443). elemen­tos importantes do processo de
Jan Douwe Van Der Plog et al. (2000, desenvolvimento rural a valorização e
Ploeg & Dijk, 1995) apoia-se no que fortalecimento da agricultura familiar, a
chama de teoria empiricamente fun­ diversificação das economias dos terri­
damentada (empirically grounded theory) tórios (sobretudo através do estímulo aos
e apresenta vários elementos semelhantes sectores de serviços e a pluriatividade), o
aos apontados por Ellis, contudo, mais estímulo ao empreendendorismo local e o
voltada para o contexto e problemas dos empurrão que viria do Estado para forma­
países desenvolvidos. ção de arranjos institucionais locais como
iberografias 13 2017

Ploeg também reconhece que os esfor­ elementos-chave para a nova estra­tégia de
ços em definir conceitualmente o desen­ desenvolvimento rural sustentável (2001).
volvimento rural fracassaram, no entanto
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
111 Cláudio Artur Mungói

Para Navarro (2002; 2001; 1999), o mico que na agricultura se alcançava
ressurgimento do debate em torno da através da mecanização, agricultura de
noção de desenvolvimento rural estaria escala e exploração intensiva do recurso
relacionado com as inquietações sociais, terra. Aos agricultores tradicionais foram
típicas da época atual, em que mais do reservadas as terras marginais onde o
que haver clareza sobre seu significado e objetivo era a sua reprodução como força
características, o que existe é uma incó­ de trabalho para a indústria, a proletari­
gnita em relação à sua própria possi­ zação do campesinato. Este paradigma da
bilidade. Para este autor, o desenvolvi­ modernização não teve cor política, tanto
mento rural deveria ser meramente foi adotado por países capitalistas como
enten­dido como uma definição opera­ pelos socialistas.
cional, a posteriori, como análise de ações A adopção deste modelo teve por
do Estado dirigidas ao meio rural ou consequência um crescimento divorciado
como uma ação prática dirigida para do desenvolvimento. O crescimento das
implantar programas que estimulem grandes propriedades agrícolas foi acom­
alterações socioeconómicas no futuro. panhado do empobrecimento das famílias
Assim, para este autor a noção de rurais. Embora os produtores familiares
desenvolvimento rural restringe-se ao seu tivessem segurança de acesso e de posse
uso prático e normativo, com finalidade nas terras que lhes foram reservadas, o
de caracterizar estratégias e ações do facto é que a sua produção não aumentou,
Estado que visam alterar e/ou melhorar houve um declínio na quantidade de
as condições de vida no meio rural. produtos fornecidos per capita devido ao
Negrão (1999), considera que em esgotamento dos solos e ao rápido au­
termos simples e nas condições específicas men­to populacional.
da África Sub-sahariana, o desenvolvi­ Nas décadas 1960s e 1970s a Revo­
mento rural tem por objectivos: aumentar lução Verde levou ao surgimento do
a produção em quantidade e qualidade modelo “produtivista”. A estratégia
para consumo e para mercado; melhorar adotada para os produtores do setor fami­
a qualidade de vida das populações rurais; liar foi a maximização dos rendimentos a
e permitir uma participação crescente e curto prazo, independentemente da qua­
consciente de todos no processo de lidade nutricional, das taxas de alfabe­
tomada de decisão sobre o seu próprio tização, dos níveis da mortalidade infantil
desenvolvimento. e das redes de assistência médica e infra­
A contribuição de José Negrão para ‑estruturas sanitárias. Assumiu-se que
entender o desenvolvimento rural é bas­ a agricultura tradicional embora não
tante expressiva. O autor aponta os fosse eficaz era “pobre, mas eficiente”,
modelos de desenvolvimento rural expe­ bastando tão-somente promover a trans­
rimentados em África e faz referências fe­rência tecnológica através da distri­
específicas para o caso particular de buição de pacotes tecnológicos pela
Moçambique. extensão rural.
Negrão (1999), identifica cinco Mas os pobres não tinham dinheiro
mode­los e enquadra-os em contextos para comprar os pacotes tecnológicos e
histó­ricos e políticos que a seguir são cedo, onde a Revolução Verde teve lugar,
apresentados: tiveram de começar a vender a sua terra
Entre 1950s e 1960s o modelo de aos latifundiários. O contrato da venda
iberografias 13 2017

desenvolvimento rural era o da “moderni­ da terra dava ao latifundiário a obrigação
zação”. Para este paradigma o desenvolvi­ de fornecer os pacotes tecnológicos e ao
mento era fruto do crescimento econó­ expropriado o pagamento pelo aluguer
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 112

da terra através da venda do produto. altos para resolver um problema social,
Se no modelo anterior havia crescimento mas aumentando os custos da produção
sem desenvolvimento em territórios sepa­ por unidade ou tirar os rendimentos do
rados, aqui houve produção com manu­ aumento da produção e aplicá-los mais
tenção da pobreza em terras alugadas tarde ao desenvolvimento comunitário.
pelos “sem terra”. Em África a aplicação A prática veio a demonstrar que somente
deste modelo tornou-se tanto mais em condições muito particulares e com
dificultada por a possibilidade de compra forte intervenção exógena é que a comple­
dos pacotes tecnológicos ser praticamente mentaridade harmoniosa entre sectores
nula e por a terra, devido à abundância, veio a resultar, uma vez mais não houve
não ter valor de mercado que justificasse desenvolvimento, mas perpetuação do
a sua venda. status quo do dualismo setorial.
Nas décadas 1970 e 1980, surgiram Era uma posição defensiva e passiva
em paralelo duas escolas de pensamento em relação às camadas mais pobres ou
teórico sobre o desenvolvimento rural, a mais marginalizadas do setor familiar.
escola do desenvolvimento rural integra­ Defensiva porque se autopropôs de
do e a escola das necessidades básicas. protecionista dos interesses do Estado e
O desenvolvimento rural integrado dos privados nos megaprojectos como,
defendia a complementaridade entre a por exemplo, o dos 400.000 hectares em
agricultura e a agroindústria devendo, Moçambique e outros do Plano Prospecti­
para tal, utilizar-se formas de trabalho vo Indicativo. Passiva porque não induziu
intensivo nas grandes lavouras de proprie­ ao investimento no setor familiar, mas
dade estatal ou privada. Era a tentativa de tão somente à preservação do status quo
incorporação do dualismo setorial estru­ produtivo, ou seja, dos baixos níveis de
turalista no modelo de desenvolvimento produtividade, da dependência dos pro­
rural. dutos convencionais de consumo e de
Justificar-se-ia assim a divisão das exportação e da perpetuação da baixíssima
terras, a segurança de posse para a pro­ taxa de poupança.
dução de alimentos estaria definitivamente A teoria das necessidades básicas tinha
assegurada e o acesso aos rendimentos em por objetivo principal o alívio da pobreza
moeda viria via emprego nas grandes em programas especiais orientados para
empresas agro-pecuárias. Acontece, porém os pequenos agricultores e outros grupos
que a taxa de crescimento da oferta de vulneráveis das comunidades rurais. Era
emprego tendia a ser menor que a da um modelo orientado para dentro, resol­
procura uma vez que a eficiência da ver as carências de consumo alimentar
empresa aumenta exponencialmente com independentemente da integração no
a adoção da mecanização. mer­cado. O “campesinato não-captu­
Não se justificava, assim, a necessidade rado” pelo mercado que se contenta com
de incorporar formas de trabalho inten­ a auto-suficiência, estudada por Chaya­
sivo nas operações agrícolas da empresa. nov no início do século na Rússia, nada
Por outro lado, o salário médio agrícola tem a ver com o campesinato africano
era tão baixo que não se podia apresentar que, pelo menos desde o séc. X, participa
como substituto viável à necessidade de em complexas redes de comércio à
aumento de rendimentos na lavoura distância que hoje se manifestam no
familiar. preponderante papel do mercado infor­
iberografias 13 2017

O Estado ficou perante o dilema de mal na economia doméstica.
pressionar as empresas a adotarem formas A procura de camponeses em terras
de trabalho intensivo com salários mais remotas, mesmo que marginais ao merca­
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
113 Cláudio Artur Mungói

do, passou a ser preocupação de estudiosos tamento social rapidamente alimentou
nos finais da década 1970 e início da inúmeros conflitos baseados nas identi­
de 1980. dades culturais de caráter étnico, regional
A terra, em particular a sua localização ou religioso. O velho sistema do Banco
relativa, não constituía um problema Mundial de treino e visita aos produtores
uma vez que o objetivo era a produção individuais não se aplica mais a África,
para a satisfação pura e simples das pelo simples facto da renda marginal ser
necessidades alimentares. Foi o tempo do bem menor da alcançada no mercado
Niassa em Moçambique e de outras informal. As imperfeições dos mercados
iniciativas do Estado que conduziram à são bem mais complexas do que o modelo
sobrevivência sem crescimento das gentes tinha por pressuposto e ao Estado volta a
que viviam em terras marginais. competir a direção da “mão invisível”
Nas últimas duas décadas, 1980 e do mercado.
1990, surgiu a escola do “desenvolvimento Hoje, cerca de 60% da população
induzido”. Os conceitos neoliberais do rural de Moçambique continua a viver
Banco Mundial do “get prices right”, abaixo do nível mínimo de consumo, em
orientaram para a aplicação dos progra­ média é necessário caminhar 46 km para
mas de reajustamento estrutural de forma se chegar a um médico e 66 km para ir às
uniforme um pouco por toda a África. aulas do ensino secundário. Cerca de
A paridade internacional das moedas 35% da população não tem acesso a água
nacionais exigia o aumento das expor­ potável, só 40% dos adultos é que sabe
tações de matérias primas nacionais e o ler e escrever e só 24% das mulheres é
aumento de competitividade no mercado que são alfabetizadas. As famílias rurais
internacional. Para alcançar este objetivo constituem 85% da população economi­­
importava desenvolver formas de pro­ camente ativa, mas a sua contribuição
priedade privada da terra para que esta para o PIB é somente de 30%. As culturas
pudesse servir de colateral para o crédito, industriais de algodão, mafurra e caju,
constituísse um ótimo incentivo ao que tanta esperança de mudança de vida
investimento e pudesse servir de fonte de levantam no mundo rural, somente
rendimento através do aluguer. repre­sentam 10% do Produto Interno
Mas na maioria dos países os produ­ Bruto.
tores rurais de matérias-primas eram os Por tudo isto, e conforme se pode
pobres que não tinham acesso a insumos depreender a partir do posicionamento
nem respondiam à procura do mercado destes cinco autores, a noção de desenvol­
quando os preços tendiam a cair. As vimento rural continua a ser de definição
famílias rurais continuam dependentes complexa e multifacetada passível de ser
dos créditos em insumos, não tendo uma abordada por perspectivas teóricas das
taxa de poupança que lhes permita tomar mais diversas. Seja como for, nossa defi­
decisões económicas para além da quanti­ nição se assenta na ideia do desenvol­
dade de tempo de trabalho a adjudicar à vimento rural como um processo que
agricultura ou fora dela. Em lugar de resulta de ações articuladas, que visam
reorientarem a produção para culturas induzir mudanças socioeconómicas e
com maior valor no mercado, como seria ambientais no âmbito do espaço rural
de desejar, aumenta as áreas de cultivo à para melhorar a renda, a qualidade de
custa do trabalho feminino e infantil, ou vida e o bem-estar das populações rurais
iberografias 13 2017

migram para os centros urbanos. dentro do quadro da complexidade das
O aumento da criminalidade chegou relações entre as sociedades humanas e o
a níveis incomportáveis e o desconten­ seu ambiente no contexto africano.
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 114

4. Entre a teoria e a prática: a bacia do de desenvolvimento rural que deverá
Zambeze em questão responder aos interesses de imparcialidade
não só de uma geração, mas também
Talvez a bacia do Zambeze ilustre
entre gerações. É, pois sob este prisma
melhor, em termos práticos, essa discus­
que se incorpora à dimensão de susten­
são teórica e conceitual que foi acima
tabilidade que nos temos referido, só que
exposta e nos leve a prestarmos alguma
tal sustentabilidade deverá ser analisado
atenção a um exemplo emblemático sobre
em contexto de pobreza absoluta para
a aproximação e conflitos entre estas duas
maior parte destas populações.
noções: desenvolvimento sustentável e É assim que teorizações sobre o desen­
desenvolvimento rural no contexto de volvimento sustentável vinculadas a
pobreza em Moçambique. padrões de racionalidade económica do
O certo é que a tentativa de incor­ mundo ocidental fazem pouco sentido
poração do conceito de sustentabilidade no contexto da região, embora um dos
às políticas de desenvolvimento é facto objectivos preconizados no Plano para
relativamente recente no contexto do país. Redução da Pobreza Absoluta (PARPA I)
Como considera Raynaut et al. (2004), vise “alcançar a utilização racional dos
até o início da década de 70, as estratégias recursos naturais e a proteção eficaz do
globais de desenvolvimento, mesmo meio ambiente”. Mas é, em minha opi­
aquelas denominadas integradas, não nião, necessário destacar que a prossecução
contemplavam especificamente a proble­ deste objectivo só será possível através da
mática do meio ambiente ou do uso redução dos níveis de pobreza absoluta,
continuado de seus recursos. situação que torna a maior parte das
Drenado por uma área de cerca de populações da região fortemente depen­
250.000 quilómetros quadrados e esten­ dentes dos recursos naturais para a sua
dendo-se por quatro províncias do país – sobrevivência.
Sofala, Manica, Tete e Zambézia – a bacia Portanto, este objectivo deverá estar
do Zambeze constitui um dos recursos em sintonia com um outro constante do
naturais mais importantes de Moçam­ Plano, ou seja, “alcançar o desenvolvi­
bique. É um habitat importante no que se mento e o crescimento, aliviar a pobreza,
refere à biodiversidade e onde habitam melhorar o nível e a qualidade de vida
cerca 2/3 da população moçambicana. Por dos povos e apoiar os socialmente excluí­
tudo isto, é talvez o exemplo que melhor dos, através da integração regional”. Isto
representa aquilo que de melhor existe em vale afirmar que o desenvolvimento rural
termos de capital natural do país. Dentro perseguido, não deverá ser alcançado sob
desta grande extensão que tem a bacia a lógica da racionalidade económica de
encontram-se os recursos aquáticos, terra e um mundo já desenvolvido ou de uma
solos, floresta e fauna bravia. Estes recursos doxa, mas sim de acordo com um
definem as acti­vidades econmicas da contexto que passa pela minimização da
região, que vão desde a agricultura, sobre-exploração dos recursos naturais a
silvicultura, manu­factura e mineração, partir da elevação e do desenvolvimento
até à conservação e turismo, passando económico e social integrado do país e
pela observação e pesquisas científicas. que se modifique o campo internacional
Nesta perspectiva, os habitantes desta de comércio, tido como um nó de estran­
região dependem do seu ambiente natural gulamento para as nossas economias. Isto
iberografias 13 2017

no que se refere, por exemplo, ao abaste­ significa que devemos ter nossa aborda­
cimento de energia, água, alimentos, gem própria do desenvolvimento susten­
turismo, empregos, ou seja, ao processo tável. Ou seja, os nossos padrões de con­
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
115 Cláudio Artur Mungói

sumo e pobreza é que deverão determinar Estudos feitos pela Missão de Fomento
a nossa sustentabilidade. de Povoamento do Zambeze (MFPZ),
Como recurso natural a bacia do nos anos 50 sustentavam que a barragem
Zambeze está a ser sobre-explorada para a de Cahora Bassa proporcionaria uma
obtenção de ganhos imediatos e insusten­ fonte ilimitada de energia eléctrica barata
táveis, em vez de ser alvo de um desen­ que, por sua vez, estimularia a produção
volvimento sustentável de longo prazo. agrícola, mineira e industrial de toda a
Existem estudos que apontam para várias região da bacia do Zambeze. No entanto,
preocupações ambientais, associadas a a primeira avaliação conhecida dos im­
planos de desenvolvimento que não pactos da barragem pertecente a Hall &
consideram perspectivas inte­gradas dos Davies (1974), chegou a duas importantes
ecossistemas. Chenje (2000), aponta, por conclusões relacionadas com esta questão
exemplo, para a degradação dos solos, a de racionalidade económica e sustentabi­
má gestão das descargas das águas, esgotos lidade. Primeiro, que este projecto daria
e poluição industrial, a drenagem de o seu máximo benefício apenas se o
zonas húmidas, que atingiram uma desenvolvimento económico da bacia do
magnitude que apelam por uma acção Zambeze fosse tomado no seu conjunto e
urgente em termos de desenvolvimento não se limitasse a considerar apenas
econó­mico e de uma gestão ambiental­ aspectos económicos relativos a produção
mente saudável na região. energética. Em segundo lugar, que a
A maior parte dos projectos actuais na planificação integrada dos recursos natu­
bacia são centrados em abordagens rais da bacia deve requerer muito mais
sectoriais dirigidas ao fortalecimento das conhecimentos sobre os sistemas ecoló­
capacidades e potenciais de desenvolvi­ gicos que ele contém.
mento, enquanto as abordagens inte­ É importante observar que nestes
gradas de gestão sustentável dos recursos estudos Hall & Davies (1974), vatici­
naturais são ainda fracas. Isto é resultado, naram impactos negativos da barragem
principalmente, de um foco sectorial e de de Cahora Bassa (a jusante) sustentando,
maus mecanismos e estruturas de coorde­ por exemplo, que no âmbito ecológico,
nação intersectoriais que eviden­ciam a ela iria reforçar a regularização do caudal
falta de conhecimento e de informação do Zambeze, processo que causaria o
sobre a dinâmica e as funções dos ecossis­ desaparecimento das cheias naturais deste
temas (CHENJE, 2000). rio que, por sua vez, provocaria o avanço
Impactos ambientais de alguns empre­ progressivo do bosque sobre a planície.
endimentos estratégicos na bacia do Por conseguinte, iriam se perder extensas
Zambeze são, hoje, sobejamente conhe­ áreas de savana de grande importância
cidos e datam do início dos anos 50, para a fauna selvagem regional.
época em que a bacia começou a ser Por exemplo, no distrito de Caia a
objeto de uma série de projectos hidro­ barragem de Cahora Bassa tem criado
elétricos e de irrigação. Em Dezem­bro de problemas sociais adversos sobre as
1958, foi concluída, na fronteira entre a comu­nidades ribeirinhas que viviam da
Zâmbia e o Zimbabwe, a cons­trução da agricultura pós-cheias. Covane (1998),
barragem de Kariba. Em 1970 e em sintetizando o pensamento de alguns
1976, foram concluídas, na Zâmbia, as pesquisadores, destacou que para minim­
barragens de Kafue e de Ithezi-Thezi, izar os prejuízos causados pelos impactos
iberografias 13 2017

respectivamente (Bolton, 1978). Em negativos da barragem de Cahora Bassa,
1975, a barragem de Cahora Bassa em seria importante o restabelecimento de
Moçambique começou a sua operação. um regime de caudais e sedimentos apro­
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 116

ximando-os mais às flutuações sazonais blemas para se alcançar o desenvolvi­men­
naturais e inter-anuais, processo que to sustentável. Assim, o desenvolvi­mento
resultaria em rápidos e significativos rural é visto como condição sine qua non
bene­fícios ecológicos com os concomi­ para se atingir um desen­volvi­mento sus­
tantes impactos sociais. tentável que na opinião de muitos auto­res
Portanto, é necessário verificar o passa necessariamente pelo aumento da
paradoxo destes grandes empreen­di­ produtividade agrícola. Para­doxalmente,
mentos estratégicos de desenvolvimento embora a agricultura seja a principal
numa região onde a maior parte da sua actividade económica das comu­ni­dades
população vive em situação de pobreza da bacia ela é responsável pelos maiores
absoluta. Ou seja, desenvolver dentro de problemas de degradação ambiental.
uma racionalidade económica do mundo O “desequilíbrio produção alimentar/
ocidental ou priorizarmos as nossas /população” na bacia está a conduzir ao
atenções para a solução de problemas aumento da produção através da abertura
mais permentes e urgentes de uma de novas terras, por vezes marginais,
população vivendo em situação de bem como a intensificação da produção
pobreza absoluta? Quer-me parecer que a agrícola. Sem os rendimentos agrícolas
segunda opção seria a mais ponderada. suficientes para assegurar o seu sustento,
No entanto, o propósito da construção os camponeses estão expandindo-se para
da barragem de Cahora Bassa foi visto áreas ambientalmente frágeis. Os tempos
pelo Estado como um “empreendimento de pousio diminuíram drasticamente,
motor” capaz de dinamizar todo o nor­malmente não acompanhados por
processo de desenvolvimento rural na uma melhor gestão da fertilidade, resul­
região da bacia do Zambeze. Porém, tando em baixos rendimentos.
desde a sua conclusão em finais de 1974, Portanto, a degradação dos recursos
a barragem tem passado por adversidades como resultado da pobreza e da pressão
que não permitiram ainda a satisfação do populacional atingiu níveis alarmantes.
seu objectivo económico inicial, no O deflorestamento devido a agricultura é
entanto, os seus impactos ambientais e um problema ambiental chave. São con­
sociais são já conhecidos. sumidos na região milhões de metros
Portanto, é destes paradoxos que cúbicos de lenha e as florestas indígenas
caminhamos, meio sem rumo, meio sem são a principal fonte de madeira serrada,
intervenções que façam valer os nossos de barrotes e de toros para minas. A
próprios paradigmas de desenvolvimento pobreza e a degradação ambiental encon­
sustentável e a reboque do Ocidente tram-se ligadas num ciclo vicioso, em
vamo-nos adaptando ao som da sinfonia que as pessoas pobres não têm capacidade
e as novas configurações visando por um para cuidar do ambiente, uma vez que
lado atingir o propósito de desenvolvi­ não têm outra alternativa senão utili­
mento e por outro, do alívio à pobreza. zarem, de uma forma insustentável, os
E é precisamente aqui que está o grande recursos ambientais para a sua sobrevi­
enigma: entre a pobreza e o desen­ vência básica. Ou seja, estamos tratando
volvimento. de uma situação em que o dia seguinte é
uma incógnita, o que existe é para ser
consumido e suprir as necessidades
5. Considerações finais
humanas do presente, não existe futuro e,
iberografias 13 2017

Em Moçambique, e particularmente portanto, uma sustentabilidade.
na região da bacia do Zambeze, a pobreza Não se pretende aqui negar a necessi­
apresenta-se como um dos principais pro­ dade de um uso racional de recursos
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
117 Cláudio Artur Mungói

naturais. Não, definitivamente esta não a noção de desenvolvimento sustentável
foi minha intenção, mas o que se preten­ entre desiguais.
deu demonstrar foi que a noção que se Portanto, longe de aceitar que o
tem sobre o desenvolvimento sustentável compromisso com as gerações futuras
vinculada a compatibilização entre tecno­ seja uma simplificação, o objectivo neste
logia e ambiente encontra aqui um déficit, artigo foi procurar fazer uma crítica à
pois a situação de extrema pobreza em ideia do desenvolvimento sustentável sob
que vive a maior parte da população da uma matriz ocidentalizada, embora, seja
bacia do Zambeze é tão dramática e importante destacar a pertinência da
complexa que não pode ser limitada compatibilização entre o desenvolvimento
apenas a uma análise conceitual, embora e o ambiente, mesmo naquelas regiões
se reconheça que o desenvolvimento mais deprimidas do mundo. Sob esta
sustentável é uma resposta ao actual perspectiva, a realidade do país e particular­
modelo de crescimento económico que mente da bacia do Zambeze é clara: sem
tem gerado enormes desequilíbrios. a erradicação da pobreza e a promoção
Comungo com a ideia de que se, por do desenvolvimento rural não será possí­
um lado, nunca houve tanta riqueza e vel garantir o desenvolvimento sustentá­
fartura no mundo, por outro, a miséria, a vel, mesmo que se adopte o seu próprio
degradação ambiental aumentam dia-a­ paradigma.
‑dia. Diante desta constatação, surge a Primeiro que tudo há que limitar o
ideia do desenvolvimento sustentável, crescimento populacional, garantir a
buscando conciliar o desenvolvimento alimentação a longo prazo, preservar a
económico com a preservação ambiental biodiversidade e os ecossistemas, dimi­
e, ainda, pôr fim à pobreza no mundo. nuir o consumo de energia através do uso
A dúvida que se levanta é a seguinte: de fontes energéticas renováveis e que,
será possível conciliar tanta pobreza com em última análise, significa erradicar a
uma racionalidade económica baseada pobreza e promover o desenvolvimento
num crescimento económico exponen­ integrado dentro do quadro em que a
cial, onde as estatísticas são importantes e relação entre o homem e a natureza deve
a distribuição da riqueza pouco ou nada ocorrer com o menor dano possível do
interessa às classes ou grupos que acumu­ ambiente. Ou seja, as políticas, os siste­
lam tal riqueza? Seria possível um desen­ mas de produção, a transformação, o
volvimento sustentável num mundo em comér­cio, os serviços – agricultura, turis­
que aumentam as tendências de desigual­ mo, mineração e o consumo têm de existir
dades e injustiças sociais? preservando a biodiversidade. Talvez aí,
Certamente que não, se assumirmos em clima de harmonia total se atinja o
que o desenvolvimento se preocupa com desenvolvimento sustentável. Seria isso
a geração de riquezas sim, mas tem o uma utopia? Certamente que não! Mas,
objectivo de as distribuir, de melhorar a não tenho dúvidas de que se trata de um
qualidade de vida de toda a população, grande desafio.
levando em consideração, portanto, a
quali­dade ambiental do planeta.
No entanto, não é esta a realidade a Bibliografia
que se assiste, pois vivemos num mundo
Almeida, Jalcione Pereira (1999). A Pro­ble­
cada vez menos distributivo, mais ganan­
iberografias 13 2017

mática do Desenvolvimento Sus­ten­tável.
cioso e egoísta. Num mundo em que se In Dinizar F. Becker (Org.). Desenvol­
aprofundam as diferenças entre os ricos e vimento Sustentável: Necessi­dade e/ou
os pobres, mas que se pretende padronizar Possibilidade. USCS: Rio Grande do Sul.
Desenvolvimento sustentável e desenvolvimento rural no contexto de pobreza em Moçambique
Cláudio Artur Mungói 118

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iberografias 13 2017
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na
exploração dos recursos naturais em Moçambique
Iberografias 13 2017

Elmer Agostinho Carlos de Matos
Assistente
Departamento de Geografia
Universidade Eduardo Mondlane
elmermats@yahoo.com.br

Resumo pretende discutir, visto que muitas vezes
essa troca acaba por ser uma pedra no
Neste ensaio pretendemos, ainda que
processo de inserção e desenvolvimento
estejamos no início da construção da
dos atingidos pelos projectos desenvolvi­
nossa tese, demonstrar que os processos
de desenvolvimento deverão ter em conta mentistas. Entender as perdas resultantes
as questões de território e não apenas de desse processo implica diferenciar terra
terra. A legislação moçambicana permite (espaço) de território, para poder se apre­
que nos processos de implantação de ender que é o território o principal funda­
projectos económicos haja substituição mento responsável pelas reivindica­ções
(ou compensação) dos territórios comu­ das famílias afectadas pelos projectos.
nitários por terra (espaços desprovidos de
narrativa), no qual os reassentados deve­ Palavras-chave: espaço; território;
rão erguer uma nova história sobre a terra comu­nidade local; desenvolvimento rural;
(espaço). É esse processo, carregado de Moçambique.
sonhos coloridos, que o presente ensaio

1. Introdução tância da comunidade no desenvol­
vimento rural. A comunidade local passa
Após o fim do sistema socialista, o
a ser um importante interlocutor para as
país engrenou numa estratégia de desen­
estratégias de desenvolvimento traçadas
volvimento rural que primava pela entrada pelo novo Estado neoliberal, pois esta
de novos actores sociais e económicos tinha a terra como o principal activo para
com poderes e acções essenciais para a a negociação de investimentos na “sua”
con­dução do comboio desenvolvimen­ área, sendo, deste modo, um parceiro e
tista. É, precisamente, na década de 90, beneficiador do investimento.
com a reforma constitucional, o fim da A estratégia desenvolvimentista rural
guerra civil e a criação/ajuste/reformas de adoptada pelo país se materializava na
leis que a comunidade local passou a se Gestão Comunitária dos Recursos Natu­
evidenciar como um actor importante rais, a partir de um modelo “openborder”,
iberografias 13 2017

para o desenvolvimento rural. desenhado em torno de um determinado
Todas as políticas e legislações aprova­ recurso natural existente numa comuni­
das na década de 90 ressaltam a impor­ dade, mas que não estava a ser devida­
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 120

mente explorado. Ou por outra, o recurso seria um importante meio de obtenção
não estava incluído no circuito do capital. de lucros, evitando conflitos com a
Esse modelo permitia a entrada de comunidade local e consequente­mente
investidores (extralocais), com condição reduziria os riscos do seu inves­timento.
económica certificada pelo Estado para a Ao Estado estava alcançada a sua estra­
exploração do recurso, a partir de acordos tégia desenvolvimentista.
alcançados entre a comunidade e o É importante referir que no início da
investidor, mediados pelo Estado. introdução dessa estratégia, ainda na
Esta estratégia de desenvolvimento, década de 90, as questões de divergência
difundida em Moçambique pelos orga­ (tanto dos actores envolvidos como dos
nismos internacionais, como a USAID e académicos que se interessavam por essas
o Banco Mundial, se posicionava como questões) desaguavam na questão de
extensão dos programas de reabilitação acesso, posse e segurança da terra. Os
económica, já implementados no país projectos introduzidos estavam ligados à
desde 1987. Era uma estratégia de desen­ exploração da fauna e flora e que, frequen­
volvimento que distanciava o Estado (já temente, isso implicava na realização de
que tinha sido muito presente, senão “pequenos” deslocamentos, muitas vezes
demasiadamente presente) da condução sem a perda da “sua” terra.
do comboio desenvolvimentista. A mesma Com a aprovação da Lei de Minas em
introduzia novos actores, antes margina­ 2002, mesmo quando já se entrava num
lizados, como o sector privado, as orga­ período de esfriamento da estratégia de
nizações sociais (principalmente as não desenvolvimento rural calcada na Gestão
governamentais) e os agricultores (mas Comunitária dos Recursos Naturais, o
desta vez considerados como uma comu­ papel da comunidade local continuava
nidade local, associados pelos laços linha­ a ser preponderante em todos os investi­
geiros) para a sua participação no processo mentos que tinham como direcção as
desenvolvimentista. áreas rurais. As questões de deslocamento
A estratégia de desenvolvimento rural compulsório começaram a apresentar-se
parecia apresentar-se como a mais acer­ como parte do processo lesivo, mas neces­
tada opção de melhoria da qualidade de sário. Neste “novo” cenário, a questão
vida dos pobres rurais, pois a terra (que se de direito à terra e direito ao território
presumia ser um importante recurso de preci­sam ser problematizados para se
disputa, principalmente devi­do ao apetite compre­ender melhor o que está em
internacional ligado à reforma constitu­ jogo para as comunidades locais e, que
cional e da estabilidade política) “perten­ impacto essa estratégia de desenvolvi-
ceria” às comunidades locais. Assegurados mento tem.
os seus direitos de posse, as comunidades A (re)descoberta do potencial mineiro
firmariam par­cerias com o sector privado em Moçambique está a atiçar para o país
(considerado o mais eficiente no domínio grandes investimentos internacionais com
das activi­dades económicas) para a implicações ao nível do território das
exploração dos importantes recursos comunidades locais. Os grandes pro­
existentes nas terras comunitárias. Essa jectos, consumidores de terra, são respon­
aliança geraria ganhos para todos os sáveis pelos processos de reassentamentos,
intervenientes envolvidos, pois originaria visto que as áreas concessionadas para a
renda, emprego, divisão de lucros, realização dessas actividades não toleram
iberografias 13 2017

acordos para compra e produ­ção, infra- outros usos, ou seja, o uso mineiro exclui
estruturas e mais benefícios para a outros tipos de uso e, com isso, a formação
comunidade local. Para o sector privado de territórios corporativos. A Lei de
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
121 Elmer Agostinho Carlos de Matos

Minas de 20021 é clara quanto a esse questão da compreensão do território se
aspecto, ou seja, ela se sobrepõe ao direito apresenta crucial para que o movimento
ao território, transformando os territórios de transição de território para terra seja
comunitários em territórios corporativos, menos penoso e que possa providenciar
ao mesmo tempo que esta legislação e as as bases necessárias para a construção de
outras providenciam a troca de território uma nova narrativa.
por terra. Para sustentar as análises efectuadas ao
Ao se impor, nos processos de implan­ longo do texto recorremos à pesquisa
tação de projectos económicos, a substi­ bibliográfica de assuntos ligados ao
tuição (ou compensação) dos territórios território, conflitos de usos do solo,
comunitários por terra (espaços despro­ impacto dos projectos de desenvolvimento
vidos de narrativa), a legislação permite a nas comunidades locais e a importância
troca de território por terra (espaço), no da terra para as comunidades locais.
qual os reassentados deverão erguer uma Também recorremos às entrevistas semi­
nova história sobre a terra (espaço). É esse estruturadas e aos cadernos de notas
processo, carregado de sonhos colori­dos, utilizados em trabalhos de campo reali­
que o presente ensaio pretende discutir, zados em três momentos diferentes e em
visto que muitas vezes essa troca acaba dois locais de Moçambique. O primeiro
por ser uma pedra no processo de inserção refere-se ao trabalho de campo realizado
e desenvolvimento dos atingidos pelos em Junho de 2004 na Área de Conserva­
projectos desenvolvimentistas. Entender ção Transfronteiriça de Chimanimani; o
as perdas resultantes desse processo segundo refere-se ao trabalho de campo
implica em diferenciar terra (espaço) de realizado na Reserva de Chimanimani,
território, para poder se apreender que é mas em Junho de 2010. E o terceiro
o território o principal fundamento momento foi a realização do trabalho de
responsável pelas reivindicações das famí­ campo em Moatize, em Agosto de 2014.
lias afectadas pelos projectos. Os trabalhos de campo permitiram a
Neste ensaio pretendemos, ainda que elaboração de uma dissertação e uma
estejamos no início da construção da tese, ambas discutindo os processos e
nossa tese, demonstrar que os processos implicações da introdução de novos usos
de desenvolvimento deverão ter em conta para as comunidades locais. A revisitação
as questões de território e não apenas de dos trabalhos de campo permitiu-nos
terra. É preciso que se procure provi­ com­preender melhor, não apenas o deba­
denciar um quadro legislativo que tenha te teórico entre espaço e território, mas
como enfoque o território e não apenas a também a importância de cada um desses
terra. Ao realçarmos o papel prepon­ conceitos para os atingidos. É com base
derante do território para as comunidades nessa discussão que pretendemos deslocar
locais pretendemos, também, ressaltar as atenções nos debates sobre o desenvol­
que nos processos desenvolvimentistas a vimento rural, da dimensão da terra para
território, com as consequentes implica­
ções.
1
Em 2014 é aprovada a nova Lei de Minas (Lei
n.º 20/2014 de 18 de Agosto) que aparenta seguir
um novo caminho, tentando colmatar os vários
problemas resultantes da exploração mineira. 2. A produção do território no espaço
Apesar da retirada o artigo 43 que sentenciava que
Ao discutirmos a produção do terri­
iberografias 13 2017

a exploração mineira tinha primazia sobre todas
as outras formas de uso, constata-se que a tório precisamos compreender que este se
preferência pela exploração mineira é mantida.
Para mais detalhes consulte a tese de doutoramento materializa no espaço, ou seja, como refe­
de Matos (2016). re Raffestin (1993, p. 143), o território
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 122

“é o resultado de uma acção conduzida de uma dimensão espacial acaba por
por um actor sintagmático (actor que gerar um território mediado por relações
realiza um programa) em qualquer nível”. de poder.
Raffestin (1993) vai mais além ao afirmar Desta forma, podemos compreender
que quando um actor se apropria do o território como uma extensão do espaço
espaço, quer seja de uma forma concreta apropriada por um ou vários atores.
ou abstracta (podendo ser pela represen­ A partir do momento que introduzimos
tação), o mesmo territorializa o espaço. os objectos artificiais, ou moldamos a
É importante destacar que o autor tem o organização espacial dos objectos naturais
cuidado de enfatizar que não podemos e/ou artificiais, estamos deixando as
compreender a produção do território a nossas etiquetas sobre o espaço e, produ­
partir de um único actor, o mais difun­ zindo um território que engendrará
dido durante muito tempo, o Estado, acções próprias aos fins que pretendemos,
mas que há diferentes actores ou colecti­ ou seja, estamos produzindo o nosso
vidades que podem produzir um territó­ território.
rio, fora da dimensão político-adminis­ Corrêa (1994) recorre a etimologia da
trativa. palavra território para o compreender.
O território é produzido na história, O autor constata que etimologicamente
num processo relacional, onde os atores território deriva do latim terra e torium,
o vão construindo, num movimento que significa terra pertencente a alguém.
dialéctico, em que as marcas dos atores Com o pertencente o autor desfaz alguns
vão sendo inscritas no espaço, ao mesmo equívocos que se podem tirar da sua
tempo que este deixa também as suas nos compreensão, mostrando que o pertencer
produtores. Essa característica permite não se vincula necessariamente à proprie­
diferenciar território de espaço, como dade da terra, mas à sua apropriação, que
nos informa Raffestin (1993) ao eviden­ pode apresentar um duplo significado.
ciar que o espaço seria a prisão original e Por um lado, “associa-se ao controle de
o território seria a prisão construída pelos fato, efectivo, por vezes legitimado, por
atores que o produzem. Saquet (2007; parte de instituições ou grupos sobre um
2009) refere que existem três principais dado segmento do espaço. Nesse sentido
características que diferenciam o espaço o conceito de território vincula-se à geo­
do território, sendo elas: (a) as relações de gra­fia política e geopolítica. A apropria­
poder multidimensionais, constituindo ção, por outro lado, pode assumir uma
campos de força económicos, políticos e dimensão afectiva, derivada das práticas
culturais sobrepostos e concomitantes; espacializadas por parte de grupos dis­
(b) a construção histórica e relacional de tintos definidos segundo renda, raça,
identidades; e o (c) movimento de religião, sexo, idade ou outros atributos.
territorialização, desterritorialização e Nesse sentido o conceito de território
reterritorialização. vincula-se a uma geografia que privilegia
Tanto Raffestin (1993) e Saquet os sentimentos e simbolismos atribuídos
(2007; 2009), assim como Haesbaert aos lugares, [...] Apropriação passa a
(2011) colocam ênfase nas relações de associar-se à identidade de grupos à
poder para diferenciarem o espaço do afectividade espacial” (CORRÊA, 1994,
território. Haesbaert (2011) apesar de p. 251).
criticar a diferenciação apresentada por Com a concepção trazida por Corrêa,
iberografias 13 2017

Raffestin (1993), finaliza demonstrando podemos compreender que a produção
que são duas categorias diferentes e que a do território, a partir da apropriação,
priorização ou colocação do foco dentro quer seja mais material, ou de facto, quer
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
123 Elmer Agostinho Carlos de Matos

pela afectividade ou simbólica, o impor­ espaços vai variar de acordo com o nível
tante é compreender como os diferentes de inserção dos mesmos no mundo
atores, a partir dos seus respectivos considerado moderno, ou melhor, as
domínios de poder organizam os seus estratégias utilizadas pelas sociedades
objectos e agem sobre eles no espaço. modernas vão diferir daquelas utilizadas
Nesse contexto, é a forma como os atores pelas sociedades consideradas tradicio­
organizam os sistemas de objectos e de nais. Como também irão variar de acordo
acções que se torna a base para o estudo, com o tipo de actor. Senão vejamos, o
ou melhor, como defende Milton Santos, Estado apropria-se do território a partir
o território em si não é uma categoria de da dimensão político-administrativa,
análise, mas sim o seu uso. Santos (1994; mate­ria­lizada no Estado-Nação e legiti­
2011) defende que é o território usado mada por instituições internacionais.
ou o uso do território que é uma categoria Essa apropriação do Estado apresenta-se
de análise, e vai mais além ao destacar como a força capital para a legitimação
que quando fizermos um estudo de ou não da produção de outros territórios
qualquer parte do território precisamos no seu interior, gerados a partir de outras
ter em conta a interdependência e a dimensões. Fernandes (2008, p. 280)
inseparabilidade entre a materialidade. argumenta que “quando esse território é
Para o autor se está incluindo a natureza concebido como uno, ou seja, apenas
e o seu uso, que pressupõe a acção huma­ como espaço de governança e se ignoram
­na, ou seja, o trabalho e a política. os diferentes territórios que existem no
Com base nos argumentos trazidos interior do espaço de governança, temos
por Santos (1994; 2011) e Corrêa (1994), então uma concepção reducionista de
compreenderemos o território como o território, um conceito de território que
espaço apropriado e usado. É esse espaço serve mais como instrumento de domi­
mediado espacialmente pelas relações de nação por meio de políticas neoliberais”.
poder que se torna o objecto de estudo. Na citação acima, Fernandes discute a
A apropriação desse espaço, tanto de fato produção do território incluindo outras
como simbolicamente implica na adop­ dimensões, ou melhor, critica a produção
ção de estratégias adequadas para a sua do território uno, por ofuscar a existência
manutenção como espaço de domínio de outros territórios que se embasam em
pelos atores que o detêm. Essas estratégias outras dimensões. Em um outro momen­
são denominadas por territorialidade. to o autor inclui a multiescalaridade
Nesse âmbito, ao estudarmos as acções como sendo um atributo importante
desenvolvidas pelos atores para a satisfa­ para a compreensão do território. Com a
ção das suas necessidades, gerando espa­ multiescalaridade compreenderíamos a
ços mediados espacialmente pelas relações produção de território a nível de escalas
de poder, estamos nos preocupando com diferenciadas, ou tendo territórios que
a territorialidade desses atores. Autores toleram a existência de outros territórios
como Sack (2011), Raffestin (2010) e no seu interior, mas desde que não
Corrêa (1994) nos fornecem as ferra­ inviabilize os seus interesses. Em relação
mentas necessárias para a compreensão a multidimensionalidade estamos abor­
das estratégias utilizadas pelos diferentes dan­do a dimensão responsável pela
actores para a produção dos seus produção do território, podendo ser a
respectivos territórios. política, fundamentalmente dominada
iberografias 13 2017

É importante destacar que as estra­ pelo Estado e os seus subpoderes; a
tégias utilizadas pelos diferentes actores dimensão económica dominada pelas
para obterem o domínio dos respectivos corporações que produzem os seus terri­
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 124

tórios, tanto no interior dos territórios do lismo, as políticas e estratégias desenhadas
Estado-Nação, como extrapolando as pelos Estados tendem a privilegiar a pro­
barreiras nacionais; e a dimensão simbó­ dução dos territórios do capital, desterri­
lico-cultural, associada aos territórios torializando os territórios das comuni­
produzidos por grupos sociais que dades locais, que condensam o tempo.
apresentam uma relação de afectividade Os Estados se adequam às necessi­dades
com o espaço. São os territórios marcados do capital, providenciando o arcabouço
por uma relação imaterial (e material) legal e institucional adequado à produção
com o espaço apropriado. Aqui já se dos territórios corporativos.
inclui a categoria de identidade, e como Ajustados à nova realidade, o capital
tem alicerce com o espaço, então nos se impõe no território, afectando o
referimos à identidade territorial. Esse território das comunidades locais com a
grupo de atores apresenta “o sentido de importação de novos modos de usar o
pertencer àquilo que nos pertence” território, alterando os conteúdos quali­
(Silveira, 2011, p. 39), ou seja, esses tativos e quantitativos, isto é, são intro­
grupos sociais ostentam o sentido de duzidos novos objectos que geram novas
pertencimento e de enraizamento. acções produtoras de processos de
Fernandes (2008) enfatiza a necessi­ desterri­torialização.
dade de se diferenciar os territórios como Os processos de desterritorialização
espaços de governança e como espaços de afectam as questões identitárias, que
propriedade. Na categoria dos territórios conse­­quentemente vão reflectir-se no
de propriedade o autor inclui os territórios terri­tório que hospeda aquela identidade.
das empresas corporativas (ou do capital) Nestas circunstâncias, o território é a base
e os territórios das comunidades (com da identidade, que encontra nela a sua
lógicas locais próprias e produzidas na maior forma de consolidação, a base fértil
história). Esses dois tipos de territórios para a sua (re)produção. Autores como
encontram-se, geralmente, imersos no Heidrich (2013), Hall (2011), Saquet
território de governança. São esses dois (2011), Castells (2010), Haesbaert
tipos de território que vão disputar os (2007), Cruz (2007), Medeiros (2006) e
espaços, pois “são totalidades diferencia­ Mbembe (2001), associam a identidade
das, nas quais se produzem relações com o território, demonstrando que toda
sociais diferentes, que promovem mode­ a identidade tem uma referência territo­
los divergentes de desenvolvimento” rial. Mbembe (2001, p. 193) argumenta
(Fernandes, 2008, p. 280). A materiali­ que “(...) toda a identidade teria de ser
zação de um exclui o outro, quer fisica­ traduzida em termos territoriais. Sob este
mente, deslocando-os no espaço (ou no ponto de vista, não há identidade sem
território de governança), quer politica­ territorialidade, que não seja a vívida
mente, com a perda do mando das acções, consciência de ter um lugar e ser dono
ou seja, perdendo a capacidade de gerir as dele, seja por nascimento, por conquista
acções a serem desencadeadas no territó­ ou pelo fato de ter se estabelecido em um
rio em questão. dado local e este ter se tornado parte de
Os territórios de propriedade, quer sua auto-representação”.
seja a particular individual quer seja a É com base nessa referência espacial
comunitária, encontram-se dependentes que as comunidades que a reivindicam
das políticas desenhadas pelo Estado, ou olham para o território como parte de
iberografias 13 2017

melhor, do território de governança. Nos sua constituição e perder esse território
tempos actuais, onde a globalização se significa morrer. A identidade é produzida
impõe, difundindo consigo o neolibera­ ao longo da história, sendo, neste âmbito,
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
125 Elmer Agostinho Carlos de Matos

algo que só o tempo foi capaz de produzir mentação fica claro que é apenas o tempo
e a consolidar como parte da comunidade. que vai formar a identidade, num
Entender a identidade é compreendê­ processo em que os povos constroem o
‑la como algo que é histórico e não território e a sua identidade, moldando,
acabado, mesmo sabendo que as bases segundo as suas culturas, ao mesmo
que a sustentam sejam bastante consoli­ tempo em que o processo corre no
dadas e persistam no tempo e no espaço. sentido inverso, isto é, o território vai
Hall (2011), recorrendo aos escritos de construindo a identidade dos sujeitos.
Giddens (1991), comenta que as comuni­ Com o passar do tempo, tanto o
dades, ditas como tradicionais, veneram espaço físico, de materialização das
o passado e valorizam os símbolos porque intenções de um determinado grupo,
contêm e perpetuam a experiência de como os sujeitos que habitam esse espaço,
gerações. Para Giddens (1991), a tradição passam a ser uma totalidade, onde
é um meio de lidar com o tempo e o condensam todas as dimensões (sociais,
espaço, permitindo que qualquer activi­ económicas, culturais e até naturais).
dade ou experiência particular seja uma Abordando esse aspecto, Haesbaert
continuidade do passado, presente e (2007, p. 45) refere que “o espaço, em
futuro, pelos quais são estruturados por sua dimensão material, não é apenas um
práticas sociais recorrentes. ‘instrumento de manipulação’ no livre
São essas recorrências e valorações das jogo da ‘invenção’ identitária, mas um
actividades e práticas do passado que têm referencial que, uma vez ‘eleito’ (ou
sustentação no território, que as comuni­ ‘reconstruído’), passa a interferir na próp­
dades reivindicam como território de sua ria intensidade e longevidade da dinâmica
pertença, da qual reproduzirão as suas identitária”.
culturas, transmitindo aos seus descen­ Desfazer-se desse espaço, que conden­
dentes e, assim, perpetuarem por longos sa a história e a cultura do grupo, apre­
períodos históricos. Porém, como é senta-se como uma rotura drástica para
ressaltado por Hall (2011) a identidade é esse povo, que perde parte de si. Essa
“algo formado, ao longo do tempo, rotura é cada vez mais dolorosa quando
através de processos inconscientes, e não o grupo naturaliza essa identidade.
algo inato, existente na consciência no Haesbaert (2007, p. 52) argumenta que
momento do nascimento. Existe sempre “o poder da identidade social é tanto
algo ‘imaginário’ ou fantasiado sobre sua mais enfático quanto maior for a eficácia
unidade. Ela permanece sempre incom­ dos grupos sociais em ‘naturalizar’ esta
pleta, está sempre ‘em processo’, sempre identidade, tornando ‘objectivo’ o que é
‘sendo formada’” (Hall, 2011, p. 38). pleno de subjectividade, transformando a
Souza & Pedon (2007) destacam que complexidade da construção simbólica
a identidade territorial não existe nem
a priori e nem a posteriori à formação do
território, visto que é no movimento de
sua formação e nas transformações Heidrich (2013, pp. 57-58) revela que “os vínculos
que as sociedades possuem com seus territórios
perma­nentes a que estão sujeitos ao longo são resultado de uma história. Quando se faz
do tempo que vão definir o status onto­ parte de um determinado agrupamento humano,
ao mesmo tempo se vivenciam as relações com o
lógico desse processo2. Com essa argu­ espaço ocupado por esse grupo. Permanecer
iberografias 13 2017

numa determinada área de modo continuado e
repetido e compreender uma história da qual se
Discutindo a ligação dos povos com o território e,
2
participa, constrói uma experiência que liga o
a consequente formação da identidade territorial, indivíduo ao grupo e a seu respectivo espaço de
tendo como o seu principal aliado o tempo, convivência e uso”.
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 126

no simplismo de uma ‘construção natu­ Ao destacar a relevância da terra para a
ral’, a-histórica e aparentemente estática”. família rural africana, o autor considera
Para discutir as identidades territoriais não apenas o uso económico da mesma,
é fundamental compreender as diferenças mas também o uso social e cultural. Ao
que existem entre os diferentes tipos de incluir a dimensão sociocultural da
sociedades, as ditas modernas que são apropriação da terra, percebe-se que a
consideradas sociedades de mudanças preocupação do autor se amplia, deixando
constantes, rápidas e permanentes, en­ de se circunscrever apenas à importância
quan­to as chamadas de tradicionais são económica do uso da terra para a família
mais fixas e menos móveis (Hall, 2011). rural, incorporando outros usos que
Isso não significa que as sociedades consi­ alicerçam a ligação da família com a terra,
deradas tradicionais sejam estáticas e que construindo laços de afinidade (iden­
a identidade não se encontra em cons­ titários) que permitem ser parte impor­
trução, apenas se pretende realçar que tante para a sua reprodução social. Ou
estas sociedades são as que mais veneram seja, não é só apenas a necessidade de
o passado e os seus símbolos são sacrali­ obtenção de um meio e lugar de
zados no espaço3. Daí que para esse grupo sobrevivência da família, mas também é
de pessoas, perder o território é perder um espaço que permite a sua existência
parte de si, como foi reportado por no tempo e no espaço, e proporciona o
Escobar num estudo que realizou com as prolongamento da sua linhagem.
comunidades do pacífico, no qual consta­ A importância da terra para a família
tou que para eles “Si perdermos nuestra rural moçambicana foi reafirmada na
cultura se acaba todo; ya no somos nada” década de 90 com as reformas e/ou
(Escobar, 2010, p. 260). alteração constitucional4·e legislativa5,
tendo sido produzido um conjunto de
documentos legais que providenciaram
3. A importância do território (da
as condições necessárias para o acesso,
terra) para as comunidades locais
posse e segurança da terra ou, como
moçambi­canas
prefere Chiziane (2007, p. 7), “direito da
Num estudo realizado por Negrão terra”.
(2002) intitulado A indispensável terra As legislações aprovadas na década de
africana para o aumento da riqueza dos 90 não só providenciaram aos moçambi­
pobres, o autor demonstra a importância canos o direito à terra, mas também ao
da terra para a reprodução social da usufruto dos recursos nele existente,
família africana. É a partir do acesso a
terra que esta encontra as formas de 4
Constituição da República de Moçambique de
sobrevivência e de manutenção no tempo 1990.
e no espaço, procurando encontrar estra­
5
Resolução do Conselho de Ministros n.º 10/95
de Outubro que aprova a Política Nacional de
tégias adequadas à melhoria da quali­dade Terras; Lei n.º 19/97 de 1 de Outubro que aprova
de vida. a Lei de Terras; Decreto do Conselho de Ministros
n.º 66/98 de 8 de Dezembro que aprova o Regula­
mento da Lei de Terras; Diploma Ministerial

Cruz (2007, p. 118) estudando as populações
3
n.º 29-A/2000 de 17 de Março que aprova o
tradicionais na Amazónia, constatou a existência Anexo Técnico ao Regulamento da Lei de Terras;
de “três elementos que marcam a razão histórica e Diploma Ministerial n.º 76/99 de 16 de Julho
iberografias 13 2017

que substancializa a territorialidade das popula­ que aprova a distribuição de receitas consignadas
ções tradicionais: a) regime de propriedade resultantes da cobrança de taxas; Decreto do
comum, b) sentido de pertencimento a um lugar Conselho de Ministros n.º 77/99 de 15 de
específico, c) profundidade histórica da ocupação Outubro que aprova Taxas diferenciadas segundo
guardada na memória colectiva”. as actividades.
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
127 Elmer Agostinho Carlos de Matos

desde que seja nos moldes de subsistência, ria ocupar a terra para o desenvolvimento
ou seja, de consumo próprio6. O uso das suas actividades económicas, visando
comercial deverá ser antecedido por um o lucro, o Estado passou a atribuir-lhe o
pedido ao governo que depois ajuizará se DUAT a partir de um pedido. Com isso,
existe capacidade financeira para o fazer. assegurar-se-ia a pretensão do Estado,
Apesar dessa limitação nos direitos atribuí­ materializado na Política Nacional de
dos às famílias (ou comunidades), importa Terras “Assegurar os direitos do povo
referir que esses avanços na legislação moçambicano sobre a terra e outros
eram fundamentais para que as famílias recursos naturais, assim como promover
e/ou comunidades continuassem a o investimento e o uso sustentável e
manter uma ligação histórica com a terra. equitativo deste recurso” (Moçambique,
A estratégia desenvolvimentista dese­ 1995, p. 3).
nha­da e implementada nesse período Embarcando num tempo em que as
estava ajustada às políticas neoliberais e, estratégias de desenvolvimento encon­
pretendiam um distanciamento do Esta­ travam-se calcadas na abordagem parti­
do como o principal e único promotor cipativa e na gestão comunitária dos
do desenvolvimento. Primavam pela recursos naturais, o conceito de comuni­
incor­poração de diferentes actores, dando dade é trazido para a legislação e, este
um papel de destaque ao sector privado, pretendia reflectir, não só “a moda7”
considerado capaz de conduzir o “desen­ desenvolvimentista, como também mate­
volvimento” do país. rializar a organização espacial, económica
A incorporação de novos actores, e sociocultural das famílias rurais, que
muitas vezes de origem estrangeira, origi­ concorriam para a formação do conceito
nou uma preocupação com a usurpação de comunidade. Nessa perspectiva, as
da terra e a criação dos “sem terra”. ideias de Kepe (1998) que argumentava
A Política Nacional de Terras e a Lei de que o conceito de comunidade abarca
Terras aprovadas pretendiam harmonizar três principais características: a unidade
os interesses do Estado, das famílias espacial, a unidade económica e a unidade
moçam­bicanas e dos investidores. A terra de interacção social, que inclui o sistema
continuou a ser propriedade do Estado, de parentesco social e as relações sociais,
não podendo ser vendida, alienada, hipo­ aparece na Lei de Terras de 1997. A lei
tecada ou penhorada. E é o Estado quem definiu comunidade local como sendo
concede os direitos de uso e aproveita­ “agrupamento de famílias e indivíduos,
mento da terra (DUAT) aos interessados. vivendo numa circunscrição territorial de
Mas, como boa parte das famílias rurais nível de localidade ou inferior, que visa a
havia ocupado a terra a partir dos pro­ salvaguarda de interesses comuns através
cessos históricos e como as formas de da protecção de áreas habitacionais, áreas
ocupação e uso do solo eram mais de agrícolas, sejam cultivadas ou em pousio,
sobrevivência, o governo resolveu atribuir florestas, sítios de importância sociocul­
a terra ocupada pelas famílias a partir da tural, pastagens, fontes de água e áreas de
ocupação (que inclui os direitos históri­ expansão” (Moçambique, 1997, p. 15).
cos). Ao sector privado, que lhe interessa­ Este conceito de comunidade local
ajusta-se às necessidades de reprodução
6
A Lei de Florestas e Fauna Bravia define consumo
iberografias 13 2017

próprio como sendo a exploração florestal e fau­ 7
Compreendemos o conceito de moda na acepção
nística exercida pelas comunidades locais sem fins de Negrão (1997, p. 3) que considera ser um
lucrativos para a satisfação das suas necessidades conceito sem lógica, pois é “poética e com isso
de consumo e artesanato, com base nas respectivas apaixona e é transportada até aos mais recôndidos
práticas costumeiras (artigo 1). lugares do mundo”.
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 128

social das famílias rurais, pois ele incor­ xo da localidade não teriam os seus
pora, para além do espaço de cultivo (a poderes reconhecidos for­malmente.
terra), os meios de sobrevivência dispo­ Mas, como a preocupação não era
níveis naquele espaço e as relações descentralizar até o nível das lideranças
imateriais presentes, ou seja, ele é um comunitárias (ou dos territórios do terri­
conceito que se aproxima do conceito de tório9), este novo conceito pouca ou
território. Importa destacar que Negrão quase nenhuma aplicabilidade teve ao
(2001) trabalhou com o conceito de nível da implantação dos projectos ditos
família e não o de comunidade local para de “desenvolvimento”. As lideranças pas­
esboçar uma estratégia de como induzir o saram a desempenhar o papel de elo de
desenvolvimento em África. Apesar do reprodução das intenções definidas ao
autor não discutir o conceito de comu­ nível hierárquico superior e peça chave
nidade, conceito este que era corriqueiro nas negociações no acesso à terra comuni­
no debate desenvolvimentista moçambi­ tária, pois estes facilmente poderiam
cano, ele labuta o conceito de família ceder os seus territórios visto que estavam
rural que se encontra próximo do concei­ ao serviço do Estado10. Contudo, apesar
to de comunidade e de território, pois a do destaque apresentado por nós no
base da definição do conceito de família papel exercido pelas lideranças tradicio­
utilizado pelo autor é a de Russel (1992)8. nais, os documentos legais referem que
O conceito de comunidade local foi antes da atribuição da terra aos inves­
adoptado por quase todas as legislações tidores, é necessário que se faça uma con­
que se seguiram, mostrando que a sulta. Neste decurso, Chiziane (2007),
preocupação com a unidade histórica das reporta-nos algumas lacunas que o pro­
famílias era importante para a implan­ ces­so de atribuição do DUAT enfrenta:
tação de projectos ditos de “desenvolvi­ (a) falta de critérios claros sobre a repre­
mento”. Ou, por outra, para a sentação das comunidades locais (os
implantação de projectos (principalmente mecanismos de representação e actuação
económicos) era importante haver um das comunidades locais que fora fixado
diálogo com a comunidade, representada na Lei de Terras, no seu artigo 30,
pelo seu chefe tradicional (régulo), que demorou a ser aprovado. Muito embora
ao mesmo tempo era o representante do o Regulamento da Lei de Terras aponte
Estado ao nível local, visto que era a como limites mínimos e máximos, 3 e 9
partir desta figura que os programas e pessoas para a representação da comu­
planos do governo eram implantados ao nidade local, ainda ficam por clarificar os
nível da comunidade. É interessante
notar que quando se abraçou a “moda” 9
Vide a Tese de Elmer Matos (2016).
da descentra­lização, o conceito de 10
Matos (2016) destaca a astúcia das lideranças
comunidade local definido na legislação locais em satisfazer os interesses das comunidades
locais e do Estado, pois sendo parte da estrutura
apropriada, que é o Decreto n.º 15/2000, do Estado encontram-se amarrados aos interesses
não incluiu as áreas comunitárias do Estado. Saber convier com esse dilema (e tentar
inferiores ao nível de loca­lidade, ou seja, agradar os dois lados) é a chave para a sua manu­
tenção e, quiçá, aumento do seu poder. Em várias
ficou claro que os líderes comunitários situações observados nos trabalhos de campo
que gerem organização comunitária abai­ realizados em Chimanimani e em Moatize,
consta­tou-se o posicionamento das lideranças
locais aos ditames do Estado. O relatório da
iberografias 13 2017

Justiça Ambiental e UNAC (2011) refere que em
Nipiode, Zambézia, os líderes locais concordaram
Russel, Margo (1992). Do Swazis have house­holds?
8
em transferir os direitos de uso e aproveitamento
why the unit of analysis matters. University of the da terra para a empresa Ntacua sem a concordância
Witwatersrand. Mimeo. dos membros da comunidade.
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
129 Elmer Agostinho Carlos de Matos

mecanismos de designação ou legitimação dos recursos naturais existentes, ou seja,
das pessoas indicadas) e (b) falta de elas seriam as parceiras e os benefícios
transparência dos processos de consulta gerados pela actividade estavam garan­
comunitária (registo de várias consultas tidos a partir da legislação. Os projectos
realizadas com deficiências ou viciadas, de desenvolvimento introduzidos, na sua
isto é, com violação das formalidades maioria, estavam relacionados com a
previstas no Formulário da acta de exploração florestal e faunística, o que
consulta)11; permitia gerir as dinâmicas territoriais ao
A aprovação dos documentos legais nível das comunidades. Matakala e
(Regulamento da Lei de Terras de 1997 e Muchove (2001) revelam no seu estudo
o seu Anexo Técnico) que orienta o que mais de metade dos projectos de
processo de transferência da terra das gestão comunitária implementados esta­
comunidades locais para os investidores vam relacionados com o potencial de
abriu as portas para o “mercado de terras”. recursos naturais existentes (com desta­
Claro que a legislação não permite a que para fauna, florestas e pesca) e as
transacção da terra mas, como nos restantes iniciativas estavam associadas
informa Negrão, há o mercado de títulos com a preocupação de conservação ou
de terra, que para o autor tem diferenças, redução do estágio avançado de degra­
pois um envolve a negociação da transfe­ dação dos mesmos. Do estudo desses
rência de propriedades e o outro envolve autores constata-se que a estratégia apre­
apenas a transferência dos títulos do sentava-se selectiva, pois as áreas não
DUAT, permanecendo o Estado como o enquadradas num desses critérios eram
proprietário da terra. Apesar de haver excluídas do processo.
distinção entre esses dois processos, Se até o início do novo milénio os
verifica-se que na prática há uma transac­ projectos desenvolvimentistas estavam
ção de terras, pois a terra é adquirida pelo associados à abordagem de gestão comu­
investidor e passa a ter vários direitos nitária dos recursos naturais, os anos que
sobre ela, incluindo o uso exclusivo pelo se seguem mostram uma tendência para a
tempo que lhe for concessionado (veja preferência por grandes investimentos
Matos, 2016 e Langa, Souza & Hespanhol, (chamados de megaprojectos), consumi­
2013). dores de territórios comunitários e, quase
A abordagem desenvolvimentista apre­ sempre, responsáveis por gerar novos
goada na década de 90 aparentava devol­ usos. Esses novos usos se materializam
ver a terra às comunidades locais, visto com a introdução de novos objectos e
que as mesmas continuariam a viver no acções no espaço, providenciando novos
seu território e negociariam a exploração territórios (corporativos) que são protegi­
dos por legislações específicas.
A (re)descoberta do potencial mineiro
11
O relatório da Justiça Ambiental e UNAC (2011)
reafirma o que Chiziane (2007) destacou no seu e a sua (re)colocação no mercado interna­
estudo, quando analisou os 10 anos da aprovação cional é acompanhado pela aprovação da
da Lei de Terras de 1997. O relatório, no seu Lei de Minas de 2002, que destruiu o
sumário executivo, assevera que “um dos requi­
sitos para a atribuição do direito de uso e direito ao território comunitário, quando
aproveitamento da terra é a realização de consulta define o uso mineiro como sendo priori­
pública, verificando-se que ocorre com várias
falhas e de forma imprópria, atentando gravemen­
tário que qualquer outro tipo de uso,
incluindo o uso para fins de consumo
iberografias 13 2017

te contra o direito à informação e à participação
pública, pela manipulação das comunidades por próprio. No ponto 2 do artigo 43, define­
parte dos investidores, muitas vezes através das
estruturas de poder locais, com falsas pro­ ‑se que “o uso da terra para operações
messas”(Justiça Ambiental; UNAC, 2011, p. 2). mineiras tem prioridade sobre outros
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 130

usos da terra quando o benefício econó­ materializa a transição do território para
mico e social relativo das operações terra, isto é, as comuni­dades atingidas
mineiras seja superior” (Moçambique, pelos projectos são forçadas a abandonar
2002a, p. 9). A mesma legislação privile­ os seus territórios e a deslocarem-se para
gia a exploração mineira nas formas de os espaços indicados pelo governo.
concessão mineira e certificado mineiro, Os processos de reassentamentos
ou seja, essas formas de exploração minei­ ocorri­dos no país, muitos deles realizados
ras sobrepõem-se às formas tradicionais até antes da aprovação do Regulamento
(ou artesanais) de exploração dos recursos sobre o Processos de Reassentamentos
minerais. Resultante das Actividades Económicas13
Com a aprovação desta legislação fica apresentam várias contestações por parte
claro que o debate ao nível da implemen­ dos reassentados. A preocupação com a
tação dos projectos desenvolvimentistas construção de novas habitações, muitas
transitam para um novo estágio, onde a delas construídas com material conven­
questão não é a forma de comparticipação cional, relativamente melhor que as des­
das comunidades na parceria, mas sim as truídas para a implantação do projecto,
formas de compensação, indemnização e negligenciou outros aspectos do processo,
os processos de reassentamento. Esse como áreas férteis para a prática da agri­
novo estágio implica em formas de nego­ cultura, o acesso ao rio, o acesso a fontes
ciação capazes de minimizar os impactos alternativas de renda, e outros de carácter
das perdas dos seus territórios, ou por sociocultural.
outra, a questão não se resume em aceitar Parece que nesse processo de fragili­
ou não a implantação do projecto, como zação do direito à terra, observa-se que
abordam os autores do relatório Os um dos pressupostos defendidos por
senhores da terra: análise preliminar do Negrão para o desenvolvimento da famí­
fenómeno de usurpação de terras em lia rural havia sido precavido, que é a
Moçambique – caso de estudo 12, mas sim indispensável terra africana. Esse pressu­
quais benefícios o deslocamento compul­ posto parece ter sido acautelado nos
sório poderá oferecer aos atingidos. processos de reassentamento (ou desloca­
Nesse processo de fragilização (e pre­ ção compulsória de famílias), quando se
ca­­­rização) do “direito ao território”, garantiu terra para moradia e para o
observa-se que a Lei de Minas de 2002 e cultivo agrícola. Contudo, era preciso
as legislações complementares não dei­ entender melhor Negrão (2001, p. 7),
xam de se preocupar com as famílias pois ele argumenta que o processo de
atingidas por esses projectos, pois im­ indução do desenvolvimento rural africa­
põem a realização de um reassentamento, no passa pelo acesso a terra, pois para ele
bem como o pagamento das devidas “evidência empírica e histórica permite
com­pensações e indemnizações. O Esta­ definir a família rural como a mais
do e os investidores têm responsa­bilidades pequena unidade de produção, consumo
com os atingidos. O Estado deverá garan­ e distribuição das sociedades rurais
tir um espaço e o investidor deverá garan­ africanas. Subentende-se que a agricultura
tir a existência de condições necessárias representa uma fonte de rendimento
para a ocupação do novo espaço, forne­ indispensável mas não exclusiva e que o
cendo habitação, infra­‑estru­turas e os comportamento de cada unidade singular
meios de sobrevivência afectados pelo
iberografias 13 2017

projecto. A realização de reassentamento 13
Lei n.º 31/1012 de 8 de Agosto – Regulamento
sobre o Processo de Reassentamento Resultante
Justiça Ambiental; UNAC (2011)
12
de Actividades Económicas.
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
131 Elmer Agostinho Carlos de Matos

é parte integrante de um todo onde reside projectos económicos implementados no
a reprodução social e o seguro contra país, são a manifestação clara da migração
riscos”. da família rural do seu território para
Negrão (2001, 2002) demonstra que uma terra. As comunidades são forçadas
o acesso a terra é indispensável para a a abandonar os seus espaços de vida para
família rural, mas também destaca as ocupar outros, desprovidos do tempo
formas de divisão familiar do trabalho e a condensado e, muitas vezes, sem o
importância dos laços linhegeiros para a domínio dos objectos e das acções que
garantia da sua reprodução social. O autor nele ocorrem. A produção do novo
argumenta que para que haja desenvol­ território é um processo que deverá
vimento da família rural é preciso “com­ acontecer com o tempo, quando nos
preender-se como são tomadas as decisões novos espaços as comunidades se
das famílias rurais africanas sobre como apropriarem dos objectos e das acções
adjudicar o tempo de tra­balho, sobre necessárias à sua reprodução social.
quando usar a linhagem como colateral, A implantação de vários projectos
sobre quanto poupar, sobre onde investir económicos no país tem impactado nega­
e sobre quanta pro­priedade adquirir ou tivamente nos territórios locais, produ­
vender” (Negrão, 2001, p. 15). zindo lógicas diferentes das existen­tes e,
Mais do que entender a preocupação em muitos casos os usos do novo território
de Negrão com a terra é compreender a excluem os anteriores. A exclu­são dos
ênfase que ele dá a terra, não apenas antigos usos, que pode não significar a
como meio e lugar de produção, mas mudança de espaço, pode levar a perda
como um espaço de vida, um espaço dos serviços que o território oferece.
onde se condensa a história da família e Vários estudos realizados em Moçam­
onde o espaço é parte da família, ou seja, bique têm evidenciado a precarização das
é entender o território para que se possa condições de vida dos atingidos pelos
induzir o desenvolvimento nas comuni­ projectos económicos. Essa precarização
dades locais. está associada ao facto da não compreensão
da importância do território para os
atingidos, visto que a análise quando se
4. O direito ao território
limita apenas à dimensão da terra mascara
Discutir o direito ao território é ir as oportunidades que só o território pode
além do debate sobre a importância da oferecer.
terra para a realização das actividades Se percorrermos, de uma forma breve,
económicas. É compreender as “rugosida­ a análise de alguns casos seleccionados
des” que o espaço contém e que são para o presente estudo poderemos com­
responsáveis pela reprodução social das preender a importância do debate ir além
famílias rurais. E nesse debate, parece do direito à terra. Senão vejamos:
ficar claro que o direito à terra, como um – Um estudo realizado por Langa,
meio e lugar de vida é garantido pelo Souza & Hespanhol (2013) sobre a
Estado moçambicano, mas o espaço introdução da produção de agrocom­
como um lugar que condensa as narra­ bustíveis na província de Manica, centro
tivas, este não é assegurado pelo Estado, do país, demonstrou como a empresa
pois a sua preferência está para aquelas Mozambique Principle Energy Ltda
actividades que são responsáveis por (MPE) está a usurpar a terra de centenas
iberografias 13 2017

alavancar a economia nacional. de camponeses que dependiam da agricul­
Os vários exemplos de ocupação do ­tura familiar para a sua sobrevivência.
território das comunidades locais pelos Os autores reportam que essa expropriação
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 132

da terra está a ser responsável pelo maior – Estudo realizado por Eusébio (2016)
conflito de terras registado no posto na comunidade de Cancope, no distrito
administrativo de Dombe, distrito de de Moatize, província de Tete, mostra a
Sussundenga, em Manica. Essa usurpa­ importância de riachos na vida das
ção, para além de ocupar as terras férteis, comunidades locais, pois é próximo deles
impede que os agricultores se socorram que são construídos os poços tradicionais
da terra disponível para ter acesso a para a obtenção de água potável. A água
outros bens (a partir da troca – venda – obtida do poço é também utilizada para a
de parte das suas terras para obter irrigação em tempos de seca. Porém, a
materiais de construção e alimentos), chegada de novos actores, com o discurso
assim como limita a possibilidade de sua desenvolvimentista, introduziu novos
manutenção no tempo e no espaço, visto objectos e novas acções produzindo uma
que a terra que seria herança dos seus nova configuração do espaço que condi­
descendentes deixa de existir; cionou o uso dos serviços providen­ciados
– Alfredo (2009) fez um levantamento pelo riacho. O autor vai além ao mostrar
de vários casos de conflitos de terra que a empresa construiu uma vala de
registados nos tribunais moçambicanos, depósito de dejectos a 1 km a montante
suas características e as soluções encon­ do riacho e que em períodos chuvosos
tradas. Dentre os vários casos listados regista-se o transbordo dos dejectos, que
pelo autor, podemos destacar o conflito tem contaminado os poços de uso
que ocorreu em Macaneta, distrito de comunitário. Esse problema pode ser
Marracuene, província de Maputo, onde responsável pela destruição dos terri­
um investidor ocupou e vedou uma área tórios das comunidades, pois a condição
de 20 hectares que era tradicionalmente de sobrevivência e de reprodução socio­
ocupada pelos camponeses locais para a cultural pode ficar ameaçada;
prática da agricultura e da pesca. A veda­ – Matos (2011) estudando a implan­
ção comprometeu as actividades de subsis­ tação da Área Transfronteiriça de Chi­
tência dessas famílias, como também manimani, no distrito de Sussundenga,
impediu o acesso ao mar (lazer e outros em Manica, demonstrou como a intro­
tipos de actividades que eram parte dessas dução de novos objectos e acções produ­
famílias). Num outro caso, o autor apre­ ziu um novo território, regido por novas
senta conflitos existentes na província da normas e estranho para a realidade local.
Zambézia, que goza de um dos maiores O autor aponta que várias interdições
potenciais de terra florestal (cerca de 33% foram introduzidas na área de conser­
de área de terra da província), e que tem vação, como a alteração das actividades
sido uma das províncias bastante cobiçada de subsistência e a proibição de obtenção
para a exploração de madeira. A concessão de vários serviços de que dispunham da
de terras para os projectos tem condicio­ área. Mais do que a interdição, para o
nado o acesso das comunidades locais aos autor, foi a introdução dessas famílias
bens e serviços oferecidos pela floresta, numa outra lógica de concepção de vida,
como a obtenção de materiais de constru­ que culminou com a degradação da
ção, frutas, cogumelos, mel, insectos biodi­versidade porque o financiamento
comestíveis, medicamentos, lenha e carne acabou e as comunidades, inseridas numa
de caça. Essa limitação no acesso a esses economia de mercado, resolveram satisfa­
bens e serviços, associado aos poucos zer o seu apetite;
iberografias 13 2017

bene­fícios práticos que recebem da explo­ – A importância dos serviços ofere­
ração madeireira, têm sido responsáveis cidos pelo território é também destacada
pelos conflitos de terra; no relatório da Justiça Ambiental e
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
133 Elmer Agostinho Carlos de Matos

UNAC (2011) que analisou vários vência encontram entraves no seu acesso,
projectos económicos implantados no pois a área pertence a um novo dono.
país. O relatório demonstra como esses Tudo isso concorre para que se deteriore
projectos não se preocuparam com as as condições de vida dos atingidos.
comunidades, mas sim com os ganhos Os vários exemplos apresentados aci­
económicos a serem obtidos. A ocupação ma demonstram como a preocupação
de terras ocorreu sem o cumprimento da com o bem-estar das comunidades não
legislação e, muitas vezes, tem a colabo­ deve se limitar ao direito à terra, mas sim
ração das estruturas administrativas ao direito ao território. Muitos dos exem­
locais, assim como das lideranças locais. plos citados valorizam a importância do
O relatório destaca a importância que o cumprimento das legislações, como tam­
território representa para os atingidos, bém a preocupação com o acesso e posse
recorrendo a uma resposta dada por um de terra. Apesar desse enfoque, é possível
entrevistado em Niassa: “quem arranca a compreender que a preocupação dessas
terra arranca tudo: a nossa vida, o nosso análises vai mais além do simples espaço
futuro e dos nossos filhos. Já não iremos de produção, inclui os vários serviços que
ter acesso às nossas mangas, bananas, esses espaços podem providenciar, bem
capim para cobrir as nossas casas”. como o resgate das histórias calcadas
– Analisando os processos de reassen­ naquele espaço, pois é com base nesse
tamento realizados pela Vale e Rio Tinto processos que as comunidades melhor
em Moatize, na província de Tete, Matos podem se reproduzir social e cultural­
(2016) constatou que os processos tive­ mente.
ram como consequência a degradação da Entender que o indispensável para as
qualidade de vida das famílias atingidas comunidades locais não é somente a
pelos projectos. O processo foi imposto terra, mas sim o tempo condensado
às comunidades, sem alternativas de naquele espaço14 é um passo para se
recusa, e foi alardeado como um processo alcançar o almejado desenvolvimento
que geraria melhoria das condições de (sócio espacial). Se compreendermos que
vida das famílias. Porém, os resultados o que está em jogo para as comunidades
não foram satisfatórios para as comuni­ locais é o território e não a terra, as nossas
dades reassentadas, pois as habitações abordagens de desenvolvimento poderão
construídas com material moderno e envolver uma outra dimensão. Os estudos
convencional não tinham qualidade; a poderão ser mais abrangentes e serão
terra para a prática da agricultura era incluídas novas variáveis para que se
pobre e limitada a dois hectares; a mesma perceba que a transição de um território
encontrava-se distante das áreas residen­ para terra implicará em graves perdas
ciais; as fontes de abastecimento de água para as comunidades locais, que não se
eram insuficientes e as famílias encontra­ limitam apenas à terra para a agricultura
vam-se a residir distante dos cursos hídri­ e para a construção de habitação.
cos. Os serviços de que dispunham nas Os processos de reassentamento, que
suas antigas áreas de residência já não são responsáveis pelas migrações forçadas
estão disponíveis, o que coloca em causa das famílias dos seus territórios para uma
as estratégias de sobrevivência dos reas­
sentados, pois o espaço de reassentamento 14
Que pode reflectir-se na capacidade das famílias
ainda não é de domínio delas. Para as
iberografias 13 2017

conhecerem melhor a dinâmica do seu território o
famílias que não foram reassentadas, mas que permite obter os vários bens e serviços que só
o território pode oferecer. Isso só acontece com o
que tinham a área concessionada como conhecimento profundo (produzido na história)
espaço de obtenção de meios de sobrevi­ da sua terra.
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
Elmer Agostinho Carlos de Matos 134

terra, negligenciam várias variáveis que 5. Bibliografia
podem ser fundamentais para que se Alfredo, Benjamim (2009). Alguns aspectos
providenciem as mínimas condições aos do regime jurídico da posse e do direito de
reassentados, podendo assim transfor­ uso e aproveitamento da terra e os conflitos
marem a nova terra (espaço) em território. emergentes em Moçambique. Tese subme­
É preciso entender que o território da tida para a obtenção do grau de Doutor.
comunidade não se limita apenas à terra Universidade de África de Sul. Univer­
sidade de África de Sul (UNISA).
agrícola disponível, mas também a terra Castells, Manuel (2010). O poder da
em pousio, a terra que pode ser utilizada identidade – A era da informação:
como moeda de transacção para obtenção economia, sociedade e cultura. Volu­me II.
de outros bens, a terra para ser disponi­ São Paulo: Paz e Terra.
bilizada aos seus descendentes. É preciso Chiziane, Eduardo (2007). Implicações
entender que o mato existente não é ape­ jurídicas do debate sobre a implemen­tação
da legislação de terras. Maputo: UEM/
nas um espaço sagrado (bastante impor­ Faculdade de Direito.
tante para as comunidades), mas que Corrêa, Roberto L. (1994). Territoria­lidade e
também é de lá onde provêm alguns dos corporação: um exemplo. In Milton
mais importantes serviços fundamentais Santos; Maria A. A. de Souza & Maria L.
à sobrevivência das famílias, espaços que Silveira (Org.). Território: globalização e
podem ser a salvação em épocas de crise. fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994.
pp. 251-258.
É preciso entender que a localização da Cruz, Valter do C. (2007). Territoriali­dades,
machamba próxima de um curso de rio identidade e lutas sociais na Amazônia. In
não é apenas um capricho do processo de Frederico G. B. Araújo & Rogério
irrigação, mas que também influencia Haesbaert. Identidade e território: questões
nas decisões de divisão do trabalho e olhares contempo­râneos. Rio de Janeiro,
familiar tomadas pelo chefe da família. pp. 93-122, access. 2007.
Escobar, Arturo (2010). Territorios de dife­
É preciso entender que as indemnizações
rencia: lugar, movimentos, vida, redes.
e a incorporação dos reassentados nos Colombia: Enció Editores.
novos postos de trabalho não implicarão Eusébio, Albino J. (2016). “Cancope” a
na abdicação da prática da agricultura, comunidade onde nutre a esperança:
visto que esta é sempre fundamental, transformações sociais na vita coti­diana
como refere Negrão (2001), para a obten­ de uma comunidade rural do distrito de
Moatize, província de Tete, Moçambique.
ção de bens que podem ser dispensados
Revista Visagem - Antro­pologia Visual e da
da sua aquisição por outras fontes. Imagem. Vol. 2, n. 2, pp. 354-371.
Compreender essa complexidade de Fernandes, Bernardo M. (2008). Entran­do
dimensões que a terra apresenta é trans­ nos territórios do Território. In Eliane T.
portar o debate para o território. É resga­ Paulino & João E. Fabrini. Campesinato e
tar a história do território calcada no territórios em disputa. São Paulo: Expressão
Popular, pp. 273-302.
espaço, reprodutora de uma relação
Giddens, Anthony (1991). As conse­quências
afectiva da comunidade com o seu da modernidade. São Paulo: Editora
espaço, produzindo um espaço vivido, UNESP.
uma identidade. É também chamar ao Haesbaert, Rogério (2011). O território e a
debate o regulamento sobre o processo de nova des-territorialização do Esta­do. In
reassentamento que se limita em provi­ Leila C. Dias & Maristela Ferrari (Org.).
Territorialidades huma­nas e redes sociais.
denciar habitação, terra para as actividades
iberografias 13 2017

Florianópolis: Insular, pp. 17-37.
de subsistência e não inclui os vários Haesbaert, Rogério (2007). Identidade terri­
serviços que só o território pode oferecer. torial: entre a multiterritorialidade e a
reclusão territorial (ou: do hibri­dismo
O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
135 Elmer Agostinho Carlos de Matos

cultural à essencialização das identidades). Mbembe, Achille (2001). As formas africa­nas
In Frederico G. B. Araújo & Rogério de auto-inscrição. In: Estudos Afro­
Haesbaert. Identi­dade e território: questões ‑Asiáticos. Ano 23, n.º 1, pp. 171-209.
e olhares contemporâneos. Rio de Janeiro, Medeiros, Rosa M. V. (2006). Campo­neses,
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iberografias 13 2017

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O direito ao território: ensaio sobre a problemática na exploração dos recursos naturais em Moçambique
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territorial. 1.ª ed. São Paulo: Outras Insular, pp. 39-62.
Expressões. Souza, Edevaldo A. & Pedon, Nelson R.
Saquet, Marcos A. (2009). Por uma aborda­ (2007). Território e identidade. In Revista
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Eliseu S. Sposito (Orgs). Territórios e Territo­ Brasileiros, Seção Três Lagoas, Três Lagoas,
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São Paulo: Expressão Popular, pp. 73-94.

iberografias 13 2017
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos
minerais no despovoamento rural de Moçambique
Iberografias 13 2017

Inês M. Raimundo
Professora Associada
Departamento de Geografia
Faculdade de Letras e Ciências Sociais
Universidade Eduardo Mondlane
inesmacamo@gmail.com

José A. Raimundo
Professor Auxiliar
Faculdade de Ciências Sociais e Filosóficas
Universidade Pedagógica, Maputo
jaraimundo@hotmail.com

Resumo médio prazos atrair investimentos e mão­
‑de-trabalho qualificada estrangeira com
Nos últimos 20 anos tem sido notório
capacidade para usar tecnologia moderna
o discurso sobre “Descoberta de recursos
e a possibilidade de treinar a mão-de­
minerais em Moçambique” como se o
‑obra moçambicana. O artigo baseia-a
conhecimento de sua existência fosse um
em reflexões sobre o discurso “descober­
dado novo. O discurso de descobertas
remete-nos a uma questão ideológica tas”, movimentos populacionais e forma­
muito profunda que merece especial ção de novos espaços geográficos. As refle­
atenção para análise geográfica. Este xões fundamentam-se na leitura de artigos
discurso pode induzir ao gravíssimo erro de jornais nacionais e experiências simi­
de entendermos que somente agora é que lares em outros países, onde por causa da
os recursos minerais foram descobertos e, febre dos minerais aldeias inteiras foram
por outro lado, atiçar o desejo de migrar invadidas enquanto outras foram desapa­
para estes lugares e consequentemente recendo. As leituras feitas e consulta de
rápido crescimento populacional, despo­ mapas geológicos de Moçambique fazem­
voamento urbano, conflito de terras, ‑nos concluir que a mineração em
migra­ção internacional irregular e despo­ Moçam­bique é muito mais antiga desde
voa­mento e um povoamento rural caracte­ o período pré-colonial e continuou no
rizado por mineração em oposição a período colonial até à independência.
agricultura, pesca e relocação de frutos e A interrupção deveu-se aos 16 anos de
de plantas. A relegação da agricultura instabilidade militar e seguido do período
para plano secundário, levará a redução de reconstrução a partir do qual foram
da produção de alimentos e a dependência continuados estudos geológicos para a
à importação dos mesmos. Em última prospeção dos minerais.
instância, a rápida formação de povoa­
mentos desordenados. Por outro lado, as Palavras-chave: descoberta; minerais;
áreas de mineração poderão a curto e migração; povoamento e despovoamento.

Introdução
conhecimento de sua existência fosse um
iberografias 13 2017

Nos últimos 20 anos tem sido notório dado novo. O discurso de descobertas
o discurso sobre “Descoberta de recursos remete-nos a uma questão ideológica
minerais em Moçambique” como se o muito profunda que merece especial aten­
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 138

ção para análise geográfica. Este discurso Os estudos ou reflexões sobre “descober­
pode induzir ao gravíssimo erro de tas” dos recursos minerais, também inva­
entendermos que somente agora é que os riavelmente mencionados como “recursos
recursos minerais foram descobertos, mas naturais” (aqui descordamos completa­
também, poderá nos levar as seguintes mente, pois recursos naturais incluem
situações específica: água, florestas, solos, ar, minérios, animais)
1) Migração maciça para estes lugares e podem ser categorizados da seguinte forma:
as devidas consequências, tais como 1) Alarido sobre o perigo das riquezas e
despovoamentos nos lugares de saída e possíveis conflitos internos e regionais
congestionamento nos lugares de com os vizinhos, considerando que
chegada; estes recursos são transnacionais (em
2) Rápida urbanização e em consequên­ várias fronteiras). Sobre o assunto vide
cia povoamento desordenado; Mosca e Selemane (2011);
3) Crescimento rápido das actuais peque­ 2) Discórdia sobre Megaprojectos, par­
nas e médias cidades; ticular­mente os referentes a indústria
4) Substituição das actuais actividades extractiva, pois consideram que outros
económicas tais como, agricultura, sectores tais como agricultura, edu­ca­
pesca, criação de animais pela mine­ ção, transportes, comércio, saúde são
ração; relegados em segundo plano. Alguns
5) Aumento da mineração ilegal e arte­ dos estudos foram feitos por Zeca
sanal ou de pequena escala; (2013); Mosca e Selemane (2011);
6) Aumento da imigração internacional Selamene (2010); Castel-Branco (2008);
(legal e ilegal); e 3) Barulho sobre o garimpo também
7) Formação de assentamentos multicul­ assumido como uma actividade ilegal
turais, multiétnicos como consequên­ (Notícias; O País; Tsambe, 2016);
cia da migração de povos de outros Justiça Ambiental (2012);
lugares e regiões do mundo. 4) Questões sobre reassentamentos for­
Para um país cuja economia é agrária çados resultantes das disputas entre as
onde apenas 10% da população se encon­ empresas de mineração e as comuni­
tra organizada em grandes empresas e dades onde se localizam os minérios,
90% em pequenas propriedades (Mosca, pois segundo estes estudos, as compen­
2016) o discurso sobre “descobertas” se sações não são justas e as pessoas
por um lado pode reorientar pequenos removidas dos seus lugares habituais
produtores agrícolas para actividade de são reassentados em lugares longe dos
mineração, e, em consequência redução seus campos agrícolas (Mosca e Sele­
da mão-de-obra agrícola, também, pode mane; Ordem dos Advogados de
causar movimentos populacionais sem Moçambique (2016);
precedentes. O lado positivo deste frene­ 5) Os Megaprojectos não trazem divi­
sim é a atracção de investimentos e de dendos económicos para Moçambique
mão-de-trabalho qualificada estrangeira (Mosca e Selemane; Zeca); e
com capacidade para usar tecnologia 6) Impactos ambientais negativos resul­
moderna e a possibilidade de treinar a tantes da extracção mineira (Justiça
mão-de-obra moçambicana. A relegação Ambiental).
da agricultura para plano secundário, O artigo baseia-a em reflexões sobre o
levará a redução da produção de alimentos discurso “descobertas”, movimentos popu­
iberografias 13 2017

e a dependência à importação dos mes­ ­lacionais e formação de novos espaços
mos. Em última instância, a rápida for­ geográficos. As reflexões funda­mentam­
mação de povoamentos desordenados. ‑se na leitura de artigos de jornais nacio­
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
139 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

nais e experiências similares em outros Zimbabwe) e na província de Tete na
países, onde por causa da febre dos fronteira com o Malawi. Entretanto, a
minerais aldeias inteiras foram invadidas esmeralda é encontrada na província da
enquanto outras foram desaparecendo. Zambézia (centro), grafite na província
Em conse­quência, novos povoamentos de Cabo Delgado (norte). Em relação ao
foram sur­gindo e, quando o minério gás foi identificado nas províncias de
esgotou, deu origem a formação das Inhambane (sul de Moçambique), Sofala
chama­­das “ghost towns”, ou cidades­ (centro de Moçambique), Cabo Delgado
‑fantasmas. (norte) e o carvão na província de Tete.
Se partirmos do pressuposto de que as
áreas mineralógicas de Moçambique estão
Fundamento para recusa do discurso
sendo descobertas nas últimas décadas
“descoberta” de recursos minerais em
estamos a admitir que os mapas minera­
Moçambique
lógicos e de jazigos minerais mencionados
no Atlas Geográfico Volume 1 (MINED,
Carta geológica de Moçambique em
1986) constituem ficção; isto é, o que
1986
está representado nada tem a ver com a
O Atlas Geográfico de Moçambique, realidade. Leituras mais profundas sobre
Volume I (1986) indica, na página 11, a o assunto, levam-nos a acreditar que o
carta geológica e a carta de jazigos e de que está sendo propalado como sendo
ocorrências minerais identificados até a “descoberta” é, na verdade, o reconhe­
essa altura. Alguns dos minérios encon­ cimento económico ou valorização dos
trados nesses mapas são: ágatas, areias recursos minerais.
siliciosas, asbestos, bauxite, bentonite, Historiadores tais como Medeiros
calcário, carvão, caulino, cobre, esme­ (2000), Rocha (2000), Serra (2000) e
raldas, feldspato, granadas, mármore, Nogueira (1993) referem que o Império
mica, minérios pegmátiticos (tantalite, de Monomotapa formado há mais de mil
columbite, mangano-tentalite, microlite, anos no actual Zimbabwe, e que se esten­
monazite, terras-raras, bismutite, lepido­ deu até Moçambique baseou-se na explo­
lite, berilo industrial), pedras semi-pre­ ração do ouro, assim como, os Prazos da
ciosas (turmalinas de cores variadas, Coroa ao longo do Vale do Rio Zambeze
morganite, água-marinha, etc.) e ocorrên­ floresceram com base na extracção do
cias minerais importantes tais como: ouro de aluvião. Nogueira da Costa
apatite, asbestos, areias caulínicas, argilas (1993: 505) escreve especificamente que
refractárias, carvão, cassiterite, caulino, a exploração mineira foi o primeiro
cianite, cobre, diamonitos, minérios de grande objectivo da Companhia de
ferro, fluoropatite, gás, grafite, granitos Moçambique1. Onde através da criada
negros, granitos vermelhos, minérios de Repartição de Minas permitiu a assinatura
níquel, minérios pesados das areias dos primeiros documentos entre a Com­
costeiras ilmenite, rútilo, zircão, mona­ panhia e o Estado Português. A respectiva
zite), nióbio, ouro, perilites e sienitos Repartição tinha como competências:
nefelínicos. Fiscalizar a execução da Lei de Minas;
A distribuição geográfica destes miné­ orientar o laboratório de Ensino de
rios varia desde grandes concentrações no
centro e norte de Moçambique e peque­
iberografias 13 2017

1
Criada pelos decretos de 11 de Fevereiro e 30 de
nas concentrações no sul. Por exemplo, Junho de 1891, com poderes majestáticos, a Com­
panhia de Moçambique ocupou praticamen­te os
o ouro encontra-se nas províncias centrais territórios de Manica e Solafa (Nogueira da Costa,
de Manica (próximo da fronteira com o 1993: 12).
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 140

Minerais; fazer a estatística da produção vam as comunidades locais a praticarem a
mineral e o levantamento da Carta Geo­ mineração do ouro em escala considerável,
lógica do Território. Entre 1892 e 1920, incluindo a comercialização. Sobre o
a acção da Companhia orientou-se no mesmo assunto Brandão (2010) diz que
sentido de estimular e proteger a explo­ no decurso da exploração científica dos
ração mineira. Por outro lado, a Com­pa­ territórios portugueses em África, nas
nhia orientou-se pelo primeiro documen­ últimas décadas do século XIX, foram
to que regula actividade – O Regulamento chegando à Comissão Geológica do
18/05/1892 para a Concessão e Explora­ Reino de Portugal, com regularidade,
ção de Pedras e Metais Preciosos e de diversas colecções de rochas, minerais e
Minas em Geral no Território da Com­ fósseis. Sendo que o seu reconhecimento
panhia de Moçambique. Mais tarde em e importância levou à constituição, em
1897 foi publicado, com o intuito de 1905, no seio da Comissão, de um núcleo
disciplinar a exploração mineira, o Regu­ de geologia colonial que se manteve até
lamento para a Pesquisa, Concessão e meados da década de 1970”. E muito
Exploração de Metais Preciosos e Minas recentemente o Plano Director do Gás
em geral da Companhia de Moçambique. Natural – Conselho de Ministros – 2014
Em 1923 faz-se, segundo a autora em refere, por exemplo, que as primeiras
referência, pela primeira, referência à pesquisas exploratórias de gás natural
força de trabalho das minas. Esta Com­ ocorreram entre 1904 e 1920 em Inha­
panhia era-lhe garantida a posse de todas minga na actual Província de Sofala e em
as minas de ouro e de carvão, conhecidas Pande na actual Província de Inhambane.
e pertencentes ao Estado, bem como o E posteriormente entre 1948 e 1974
privilégio exclusivo de exploração, por 20 através do envolvimento nas actividades
anos, de todas as outras minas, tais como de exploração mineira das companhias
ouro, ferro, cobre, etc. e outros minérios petrolíferas tais como Gulf & Amoco,
que viessem a ser descobertos na área, e Hunt, Aquitaine e Sunray & Clark &
os direitos de exploração de todas as Skelly. Entretanto, refere-se que estas
florestas pertencentes ao Estado, na região descobertas foram declaradas como não
do Zambeze. Sobre o assunto, Serra comerciais e sómente em 2000 é que a
(2000) diz que a existência de minérios empresa Sul-Africana Sasol, em parceria
era um facto, mas o trabalho nas minas com a Empresa Moçambicana de Hidro­
aparecia às vezes como imposição da carbonetos (ENH) chegaram a conclusão
aristocracia dominante ou dos comer­ da viabilidade de exploração de gás natu­
ciantes estrangeiros. Porém, era conhecida ral a partir de Pande e Temane.
como actividade sazonal no âmbito de Estes exemplos, nos remetem a ques­
outras actividades produtivas. Para Serra tionar a razão do uso indevido do con­
o ouro constituía o principal artigo do ceito “descoberta” sobre um assunto que
comércio: com efeito, já muito antes da já se reconhece a sua existência há vários
chegada dos mercadores portugueses os séculos. Queremos entender que são usa­
swahíli-árabes controlavam o ouro vindo das duas palavras que se pretendem que
do Império de Monomotapa. Estes jazi­ sejam sinónimas: descoberta dos recur­sos
gos situavam-se, essencialmente, nas terras minerais e reconhecimento econó­mico
planálticas de Manica. Entretanto, citan­ da existência dos recursos minerais. Partin­
do o autor em referência, com o correr do do do pressuposto de que os minerais
iberografias 13 2017

tempo, a penetração árabe-swahili e estão sendo descobertos agora no Século
portu­guesa trouxe novas necessidades, as XXI, a nossa análise estará orientada para
quais voluntária ou coercivamente, leva­ o impacto destas descobertas sobre mobi­
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
141 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

lidade populacional, despovoamento e volvidos por belgas e alemães. Mais ainda
formação de novos povoamentos. Pois, as Brandão refere que a Comissão Africana,
‘descobertas’ podem constituir factor criada no seio da Sociedade de Geografia
atractivo enunciada nas Leis de Migração em 1878, protagonizou a chamada de
de Ravenstein (atracção e repulsão) e do atenção para a pertinência da realização
de melhorar as condições económicas da de explorações mineralógicas e geológicas
vida, como teoria de migração defendida nos territórios de Angola e Moçambique,
por Lee. a par do reconhecimento geográfico e
cartográfico. Uma vez que esta fase inicial
não trouxe grandes avanços, o autor em
Primeiros estudos sistémicos mineraló­
referência diz que foi a comunicação
gicos em Moçambique
apresentada pelo engenheiro de minas
A exploração colonial efectiva dos Lourenço Malheiro na Sociedade de
minérios fundamenta-se na necessidade Geografia em 17 de Janeiro de 1881 que
que Portugal tinha em conhecer a despertou a Comissão Africana voltasse a
geologia das colónias. Segundo Brandão assumir como prioritárias as questões do
o conhecimento servia para: conhecimento geológico das colónias,
1) Domínio da exploração dos recursos em particular de Angola. Foi neste
minerais; contexto, segundo Brandão, que se cons­
2) Aplicação prática no domínio das tituiu em 1883, no âmbito do Minis­tério
obras públicas (construção civil e da Marinha e Ultramar, a Comissão de
sanea­mento); Cartografia, que se desdobrou em sucessi­
3) No conhecimento dos solos; e vas missões geodésicas e geográficas,
4) Para todo um conjunto de trabalhos e constituindo desta maneira, o início da
actividades de preparação da coloni­ moderna cobertura cartográfica do
zação. Sendo óbvio que Portugal inves­ ultramar. Como diz o autor, as campanhas
tisse na exploração mais sistémica dos coloniais tiveram como foco: i) a demar­
recursos naturais incluindo a prospec­ cação de fronteiras; ii) afirmar a presença
ção ou estudos geológicos. E desta colonial portuguesa; e iii) a gradual substi­
forma a produção de mapas geológicos tuição das grandes exploração em extensão
de Moçambique até hoje usados. por explorações regionais mais detalhadas
Durante séculos viajantes europeus sobre recursos geológicos e mineiros.
foram entrando e explorando lugares que Não obstante o estudo de Brandão dar
mais tarde se tornaram colónias. Inicial­ ênfase a Angola, relatos sobre o assunto
mente em missões de reconhecimento em Moçambique se tornam evidentes.
(Araújo e Raimundo, 2002) e posterior­ Por exemplo, o autor em referência refere
mente em missões geográficas incluindo que em 1901, chegou ao Museu de Geo­
cartografia dos lugares identificados davam lo­gia de Portugal, uma importante
informação sobre traços mais evidentes remessa de amostras colhidas na baía de
da geologia dos territórios atravessados. Canducia, província de Nampula, Moçam­
Até o século XIX o conhecimento geoló­ bique, onde já em 1843 tinha sido
gico das colónias se resumia, praticamente, assinalada, por um geólogo alemão, a
a impressões de viagens e de observações pre­­sença de amonites de grandes dimen­
pontuais do que encontravam. Ainda sões (página 191). Ainda Brandão enfa­
Brandão refere que os trabalhos conduzi­ tiza que através da Direcção-Geral do
iberografias 13 2017

dos no terreno por naturalistas ou engenhei­ Ultramar, continuavam a chegar à Comis­
­ros de minas nesses territórios eram são novas colecções de amostras de rochas
poucos, em oposição aos trabalhos desen­ e fôsseis de Maxixe, Província de Inham­
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 142

bane e amostras de calcários explo­rados contêm elementos bombásticos sobre
pela Companhia do Buzi em Sofala. descobertas de recursos minerais em
Brandão diz que a entrada de minerais, Moçambique e em alguns casos tratados
fósseis e rochas valiosas em Portugal como recursos naturais. Para melhor nos
influenciou na necessidade da criação de situarmos, procuramos a definição de
um museu de geologia colonial e para “descobertas” recorrendo ao dicionário
que em 1901 no 1º Congresso Colonial, da língua portuguesa. Assim, o Novo
em que se discutiram diversos aspectos dicionário Aurélio da língua portuguesa
do desenvolvimento das colónias, nos define “descoberta” como sendo aquilo
domínios da educação e formação dos que se descobriu ou encontrou por acaso
agentes coloniais e do conhecimento e ou mediante busca, pesquisa, observação,
exploração dos recursos naturais destes dedução ou invenção. Ora bem, esta
territórios. Foi aqui que segundo Brandão definição nos remete ao questionamento
surgiu a ideia da criação do museu sobre “descoberta de recursos minerais”,
colonial, que serviria como centro de porque:
informação colonial e de apresentação 1) A literatura nos diz que sobre os
dos produtos daqueles territórios, refe­ recursos minerais a sua existência é
rindo-se a Angola e Moçambique. Neste reconhecida há bastante tempo como
contexto, foi enviado em 1889 a Moçam­ ilustra a história dos Impérios de
bique Freire de Andrade, engenheiro Monomotapa e de Gaza assim como a
militar pela Escola Politécnica de Lisboa, história dos Prazos da coroa;
e de minas pela Escola Superior de Paris 2) Os estudos geológicos sobre os mine­
para assumir a função de Comissário rais também existem há séculos, há
Geral de Minas, pedras preciosas e metais pelo menos dois séculos e foram conti­
preciosos e posteriormente como Admi­ nuando na década de L até hoje. O
nis­trador da Companhia de Moçambique. que nos parece é que com a indepen­
Todos estes factos aqui mencionados dência de Moçambique, a “guerra
fundamentam a nossa tese de que os civil” e a reconstrução pós-guerra os
minerais não estão sendo descobertos, estudos tenham sido negligenciados.
mas sendo-lhes reconhecido o seu valor Porque o slogan do Governo da FRE­
económico. E em consequência, o alarido LIMO – Frente de Libertação de
sobre o assunto leva-nos a crer que os Moçambique – pós independência,
lugares onde estão sendo “descobertos” era “Agricultura é base da economia e
os ditos minérios tenham novos assenta­ a indústria o seu factor dinamizador”
mentos e o os que não possuem minerais (Teses do III Congresso da FRELIMO
estejam sujeitos ao despovoamento. em 1977).
Entretanto, sem dados recentes sobre Não obstante a guerra e outros factores
migração torna-se difícil tirar conclusões associados a desaceleração na busca dos
definitivas. Espera-se que o IV Recensea­ minérios, não significa que as comuni­
mento Geral da População a rer lugar em dades onde se encontram alguns destes
Agosto de 2017 permita trazer respostas minérios estivessem de braços cruzados, e
sobre a migração interdistrital. muito menos, que fossem isentos da
cobiça de olhares além fronteira. Em
con­versas informais, são relatados episó­
“Descoberta de minerais” versus “reconhe­
dios de garimpos e de mineração de
iberografias 13 2017

­cimento económico dos minerais”
pedras preciosas de forma clandestina.
O discurso oficial e em alguns círculos Apenas ficando de fora a exploração dos
académicos e dos Média nacionais, recursos minerais energéticos.
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
143 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

Para começar, queremos refutar o explosivo da população. Garrido e Costa
termo “descoberta” e substituí-lo por (2006) definem boom como sendo o cres­
“reconhecimento económico”. Pois, tem cimento explosivo de uma actividade
sido argumentado que para instalação da económica. Independentemente do campo
indústria extractiva, não basta a existência de estudo, queremos admitir que este
do recurso mineral, é muito mais impor­ boom tem a ver com algo que terá crescido
tante, o seu “reconhecimento económico, de forma desmesurada, ou expo­nencial.
ambiental e social”; especificamente: Ora quando se trata da nova era do
1) Viabilidade (custos referentes aos estu­ reconhecimento dos recursos minerais
dos, quantidade e qualidade do minério); em Moçambique, têm sido usados, de
2) Necessidade do minério no mercado); forma indiscriminada, os termos boom e
e o “descoberta”, não se sabendo ao certo
3) Sustentabilidade ambiental (concer­ de que se trata. Entre­tanto, para o enten­
nente aos possíveis danos ambientais dimento de qualquer indivíduo estamos
que possam ocorrer no decurso da dizer que Moçambique tem recursos mi­
exploração). nerais identificados há séculos e prontos
Em seguida, queremos afirmar que ao para o seu uso. A sua abundância é inques­
usarmos o temor “reconhecimento econó­ tionável, facto reconhe­cido pelo Governo
mico” queremos enfatizar que na altura de Moçambique (2013). Porém, a explo­
os ditos minérios não tinham o actual ra­ção dos minérios (principalmente ouro
valor económico que lhes é devido, possi­ e pedras preciosas e semipreciosas) é domi­
velmente pelo facto de não se conhecerem nada por operadores artesanais, que operam
as quantidades e a respectiva viabilidade de forma ilegal, situação que coloca os
para a extracção. mineiros em risco e a fraca capacidade
Em relação à tese de que o momento por parte do governo de cobras taxas resul­
actual é de reconhecimento económico tantes desta actividade. Entretanto, o petró­
dos recursos minerais e não descoberta ­leo, gás e carvão, são minerais, até então,
dos recursos, baseamo-nos no conceito explorados por via de grandes empresas.
‘reconhecimento’ per si. Assim, “reconhe­ Observando a situação social e econó­
cimento”, é segundo o Dicionário da mica de Moçambique onde a área rural
Língua portuguesa Porto Editora, o acto está sendo afectada negativamente pela
ou efeito de reconhecer a existência de seca (INGC et al., 2011; 2013) e cheias
algo. Entretanto, a nossa recusa em aceitar devastadoras, parece-nos que parte da
o termo “descoberta” tem, também a ver população afectada por estes eventos
com a definição de mineral. Pois nesta naturais, não terá outra alternativa se não
definição fica subjacente que os minerais ir em busca das pedras preciosas. A este
sempre existiram na sociedade e foi grupo populacional, também se juntará a
através deles que os povos foram organi­ população urbana que vive em condições
zando a sua estrutura produtiva e residen­ difíceis. Estes grupos serão atraídos pelas
cial. Então, como explicar a ‘descoberta’ áreas de mineração.
de algo que sempre foi usado e reconhe­ O perigo de tanto alarido no uso de
cido desde o período pré-colonial? termos como “descobertas” e boom dos
recursos minerais, para algo cuja existên­
cia é reconhecida há séculos, pode
O boom dos recursos minerais
influenciar a decisão de migrar para os
iberografias 13 2017

O conceito boom do baby boom é lugares de mineração, como aliás, tem
usado em Demografia e em Geografia da acontecido em outros lugares. Apesar de
População como sendo um crescimento não termos dados concretos queremos
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 144

crer na hipótese de despovoamento rural passemos então, a análise do discurso de
e mudança de actividades económicas da “descobertas” para a migração da popu­
população rural e crescimento populacio­ lação. A história da humanidade é
nal das áreas de mineração em consequên­ caracte­rizada por deslocamentos popula­
cia da imigração. Com estes discursos, cionais em consequência de factores de
(in)conscientemente a população está ordem natural, social, económica, polí­
sendo forçada a mudar de actividade tica e ambiental. Cada indivíduo decide
econó­­mica com os devidos impactos migrar por um conjunto determinado de
econó­micos, sociais, ambientais e espa­ razões. É a multiplicidade de causas ou
ciais. Económicos seriam o declínio da de factores por detrás da migração que
agricultura e a criação de animais, enquan­ foram sendo desenvolvidas teorias
to o ambiental tem a ver com a contami­ explicativas. Em muitos casos a migração
nação da água e dos solos devido a se explica apenas por uma causa (factores
inobservância de princípios ambientais e de ordem económica e ou pobreza) mas
impacto espacial seria o despovoamento e não explicando as razões que fazem com
povoamento acelerado. Casos extremos que nas mesmas circunstâncias nem
de despovoamentos são situações de surgi­ todos optem por migrar (Raimundo
mento de ghost towns ou cidades fantasma. 2010; Raimundo e Raimundo 2015).
O exemplo bastante menciona­do é o da Sendo, por isso, importante reconhecer a
cidade de Kolmanskop, na Namíbia, multiplicidade de factores de migração.
perto do porto de Luderitz, que no início Porém, embora as abordagens clássicas
do século XX atraiu famílias da Alemanha defendam que as pessoas migram por
no âmbito da “descoberta“ de diamantes. causa de factores económicos, há que
Com a epopeia dos dia­mantes, o lugar se considerar outras razões não menos
tornou atractivo para muita gente. relevantes que incluem as decisões toma­
Entretanto, devido a varia­dos factores das dentro da estrutura dos agregados
incluindo a I Grande Guerra e outras familiares, as distâncias a percorrer e as
interrupções, a mineração foi abandona­ ligações históricas que se estabeleceram
da, e foi sendo ocupada pelas areias do entre as antigas colónias e os países
deserto de Namíbia. Aos poucos Kolman­ colonizadores sem perder de vista que a
skop foi-se tornando em cidade fantasma. tomada de decisão para a migração da
Kolmanskop é conhecida como “a cidade pessoa não é tomada pelo indivíduo de
que foi deixada afundar na areia”. (Gray, forma isolada, mas por pessoas que são
www.bbc.com/future/gallery/2017/01/ membros do mesmo agregado familiar
thediamond). Outro exemplo de aban­ ou com ele relacionadas.
dono é-nos relatado por Serra (2000) em Analisando tudo o que foi dito até
referência ao Grande Zimba­bwe que foi então, não queremos aqui enfatizar que o
abandonado entre 1450 e 1550, não relativo despovoamento e o povoamento
sendo claras as razões do abandono, mas sejam apenas por causa do boom da
tem sido mencionado o assoreamento e o mineração. Queremos concordar que
esgotamento dos recursos. existe uma multiplicidade de factores que
levam pessoas ou famílias a decidirem
por fixar residência nas áreas de mine­
“Descoberta” de recursos minerais,
ração. Mas achamos que o crescimento
migra­ção, despovoamento e formação
populacional nas áreas de mineração
iberografias 13 2017

de novos povoamentos
pode ter relação directa com o discurso
Demonstrada a evidência da descober­ do boom dos minerais, tomando a expe­
ta dos minerai anteriores ao século XXI, riência que nos é contada nos manuais de
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
145 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

história. Tomando como base as conversas b­ ique nem no mapa das reservas de
corriqueiras e notícias propaladas nos carvão mineral e nem no mapa das
jornais e televisões nacionais sobre reservas de petróleo e do gás. Apenas são
mineração artesanal em Moçambique, referidos os seguintes países e regiões na
queremos defender que nas últimas duas produção de carvão, nomeadamente
décadas a migração interna e internacional Estados Unidos, Rússia, China, Polónia,
tem sido formatada pelas “descobertas” Inglaterra, Alemanha, Índia, África do
ou o propalado boom de minerais asso­ Sul, Austrália, Coreia do Norte e América
ciada a pobreza, falta de emprego e a seca do Sul e na produção do petróleo, nomea­
e cheias cíclicas que destroem os parcos damente América do Norte, Rússia,
recursos dos agregados familiares. América Latina, África e Extremo Orien­
te. Uma das dificuldades apontadas na
prospecção d petróleo é, segundo Popp, o
O alarido dos recursos minerais e o
facto de requerer investimentos elevados
impacto na migração
na tecnologia e a prospeção em lugares de
A identificação dos minérios segundo difícil acesso tais como florestas, desertos
Popp (1995) requer equipamentos de e mares. Quanto a Moçambique o Banco
laboratório, análises químicas e estudos Mundial (2015) e Plano Director do Gás
de óptica ao microscópio petrográfico. Natural – Conselho de Ministros (2014)
Talvez seja por isso que se usam os discur­ afirma que o país possui as maiores
sos descoberta. Mas também, admitimos reservas de África, ultrapassando Angola
que o seu reconhecimento depende, e Argélia conhecidos até então, como
fundamentalmente, do valor económico sendo as maiores reservas do continente.
e da procura no mercado internacional. Mais ainda, o Plano Director menciona a
existência de grandes reservas na Bacia do
Rovuma. E em decorrência disso a
Os recursos minerais preciosos: Rubi,
atracção do aumento de investimentos
turmalinas, esmeraldas e ouro
como resultado das “descobertas” pela
Popp classifica o ouro como um Companhia Anadarko (EUA), de com­
mineral da categoria de metais nativos postos de gás natural de classe mundial
em conjunto com a prata, o cobre, a enquanto isso a Companhia Italiana ENI
platina e o ferro enquanto o berilo e as também “descobriu” quantidades consi­
tur­malinas são ciclossilicatos. São tam­ deráveis de gás natural.
bém pedras preciosas e de elevado valor Contrariamente ao ouro e outras
monetário. Porém, se a exploração pedras preciosas e semipreciosas, os mine­
responde às necessidades financeiras das rais na forma de combustíveis energéticos,
famílias, também acarreta consequências nomeadamente gás natural, carvão e
negativas, porque algumas famílias petróleo o seu conhecimento é relativa­
forçam seus filhos menores a desistir da mente mais recente, isto é, já no século
escola a fim de realizarem actividades XX. Zeca (2013) refere que o gás de
domésticas enquanto os pais praticam a Pande foi descoberto em 1961. Foi segui­
mineração (Notícias 26/07/2017). do de Búzi, em 1962 e Temane, em 1967.
Sendo que o primeiro furo de pesquisa de
petróleo foi em 1980, em Mocímboa da
Os recursos energéticos: Carvão, gás e
Praia, na Bacia do Rovuma, e o segundo
iberografias 13 2017

petróleo
foi aberto perto de Xai-Xai. Porém, estes
O mapa mundial de Schneider de estudos não foram avançados, porque
1978 citado por Popp não coloca Moçam­ nesse período Moçambique estava a
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 146

braços com a guerra iniciada em 1976 e um “esvaziamento” em decorrência da
terminada em 1942. mineração. Para fundamentar a nossa
É nosso entendimento que o alarido hipó­tese analisaremos em seguida a
em torno destas descobertas mudará situação de alguns distritos cuja referência
drasticamente o traçado actual dos mineralógica tem sido bastante divulgada
povoa­mentos. Para além da rápida pela imprensa e nos discursos políticos.
urbanização das cidades circundantes e a São os seguintes: Inhassoro (Pande),
criação de novos assentamentos com Moatize (Tete) Montepuez, Ancuabe,
características urbanas, o mais grave será Palma localizados na Bacia do Rovuma
a forma como se implantarão, pois con­ (vide mapa 1).
tra­riará todo o esforço do ordenamento Os distritos em questão são ilustrados
territorial de Moçambique. Um ordena­ como os que apresentam as maiores
mento territorial contém entre outros reservas de minerais, por exemplo grafite
aspectos, o estabelecimento de regras nos em Ancuabe e Montepuez; gás em Pande,
domínios espacial e ambiental por forma Búzi e na bacia do Rio Rovuma, pedras
a assegurar que os moçambicanos possam preciosas e semipreciosas em Nhama­
beneficiar de lugares seguros para o nhum­bir no Distrito de Montepuez e
exercício das suas actividades, construção carvão mineral no distrito de Moatize.
das suas habitações e de lazer. (Lei de Para além deste minério Moçambique é
Ordenamento Territorial No 19/2007 de reconhecido como sendo o sexto maior
18 de Julho). produtor de carvão a nível mundial e de
reservas mundiais de gás natural descober­
tas pela Empresa Anadarko na Bacia do
O despovoamento rural de Moçam­
Rovuma (Zeca 2013 e Plano Director do
bique na era das “descobertas” minerais
Gás 2014).
Despovoamentos rural e recursos mine­
­rais Caracterização dos distritos com reser­
vas minerais: Ancuabe, Palma, Monte­
Sabendo-se que a migração e os migran­
puez, Moatize e Inhassoro
tes contribuem para o povoamento ou
assentamento populacional e para o desen­ Conforme o mapa mineralógico e dos
volvimento é importante que haja um jazigos minerais de Moçambique previa­
entendimento prévio sobre as causas do mente mencionado, seleccionamos 4 dis­
despovoamento rural no contexto do tritos para análise sendo Ancuabe,
êxodo rural. Isto é, a migração das áreas Montepuez e Palma localizados na Bacia
rurais para as áreas urbanas. Santos do Rovuma com as mencionadas grandes
(2012) defende que o despovoamento reservas de gás e petróleo. A selecção foi
rural acontece como consequência da baseada nos recursos mais referidos pela
expansão do capital técnico-científico imprensa e nos debates políticos, onde
que leva à expulsão de um grande número são enfatizados os recursos energéticos e
de residentes tradicionais e à chegada de se reconhece o seu papel preponderante
mão-de-obra de outras áreas. Para este no desenvolvimento de um país ou
caso acreditamos que sejam as pessoas região. Os distritos em análise para além
atraídas por novas atividades em conse­ de serem produtores energéticos são por
quência de investimentos na mineração e excelência, distritos rurais. Significando
iberografias 13 2017

não necessariamente pelo capital técnico- que a sua economia está orientada para
científico. Porém, continuaremos a ques­ agricultura, criação de animais, pesca e
tionar se as áreas rurais estarão a sofrer silvicultura. Cada um dos distritos selec­
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
147 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

Mapa 1. Recursos minerais dos distritos seleccionados

cionados para ilustração possui uma última década é que começou a grafite e
variedade de recursos reconhecida a sua ao gás natural. O distrito de Palma, por
existência há muito mais tempo do que exemplo, localizado a norte da Província
os discursos pretendem informar. de Cabo Delgado possui uma área de
Ancuabe é um dos distritos da Provín­ 3.492Km2 e uma população estimada em
cia de Cabo Delgado. Tem de superfície 51.041 habitantes em 2011 (PRONASAR
4.940Km2 e uma população estimada em – Programa Nacional de Abastecimento
117 mil habitantes em 2012 (INE – de Água e Saneamento Rural 2012). Tem
Instituto Nacional de Estatística 2012). a base económica assente na agricultura,
A sua economia é baseada na agricultura principalmente madioca, legumes e
praticada em pequenas explorações fami­ feijões. Também, referindo ao MAE –
liares e com características de sequeiro. Ministério da Administração Estatal
A principal cultura de rendimento men­ (2014) a população deste distrito produz
iberografias 13 2017

cio­nada pelo MAE (2005) é o algodão. arroz, palma e caju. Para além desta
Também pratica pecuária de pequena actividade também fazem caça e pesca ao
escala. Quanto a mineração apenas na longo do mato e dos rios e riachos.
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 148

Enquanto isso, o distrito de Montepuez anteriores a sua economia é agrária,
localizado a sul da província de Cabo Del­ incluindo agricultura e pesca.
gado, com uma superfície de 17.874 km2 Reconhecendo que a economia dos
(MAE, 2005) e uma população em 2012 reconhecidos distritos mineiros é funda­
de 218 mil habitantes possui uma variada mentalmente agrária é pertinente ques­
gama de recursos minerais. Dentre eles tio­nar, se os distritos em referência não
grafite, mármore e gás natural e petróleo. estariam sendo forçados a reorientar a sua
O Distrito de Moatize localizado na economia. Será que a mineração não
província da Tete possui uma área de estaria substituir a produção de alimentos?
8.462 km2 e uma população estimada em Por outro lado, será que a força de
292.000 habitantes em 2012 (2014). trabalho do sector mineiro que está sendo
É segundo MAE (2005) caracterizado usada para a mineração é local? E se não?
por jazigos de carvão (considerado muito De onde veio? Este é que é o nosso ponto
bom para a indústria siderúrgica), e inú­ de análise. Analisar o impacto da migra­
meras jazidas de ferro, titânio e vanádio. ção no contexto dos discursos sobre
Segundo a fonte em referência a explo­ “descobertas” de recursos minerais.
ração do carvão neste distrito data dos
princípios do Século XX, em pequena
Migração e população
escala e a céu aberto. Entretanto, a explo­
ração em galeria (subterrânea) iniciou em Desde o primeiro Recenseamento Geral
1940 com uma produção anual de da População de 1980 até ao ter­ceiro de
10.000 toneladas. O nível de produção 2007, foram recolhidas várias informações
foi aumentando sucessivamente de 1950 sobre migração em Moçam­bique, sem,
e até a altura da independência atingiu contudo, uma análise aprofun­dada das
575.000 toneladas. Entretanto entre causas desta migração. Com a excepção de
1975 e 1980 o carvão foi explorado pela estudos de Araújo (1990) e Lates (1990),
CARBOMOC – Empresa Carbonífera sobre as migrações inter-dis­tritais em
de Moçambique. Com a guerra entre Moçambique, nos anos de 1980, não
1976 e 1992 a exploração foi relegada a existem outros com análise exaustiva sobre
um segundo plano. E só no início de o assunto, embora possam ser mencio­
2000 é que se retoma a produção a partir nados alguns, com enfoque mais variado,
das empresas VALE Moçambique Ltd, cobrindo tópicos como trabalho migra­
Riversdale Moçambique Ltd e JINDAL tório ou migração laboral, migrações
Mozambique Minerals. Para além do inter­nas e género, migrações forçadas, etc.
carvão encontra-se ferro, que segundo o (alguns destes estudos são os de Covane,
MAE (op cit.) constitui uma posição de 2001; Das Neves, 1998; Bilale, 2007;
riqueza excepcional e um caso raro no Muanamoha, 2008; Raimundo, 2010).
mundo. O distrito é também rico em Como já nos referimos a nossa tese
metais tais como chumbo, quartzo-carbo­ sobre despovoamento e povoamento
natados, corindo, ouro, prata, volfrâmio, baseia-se na crença de que o discurso das
rutilo e minerais radioactivos constituídos “descobertas” pode influenciar na decisão
por davitite, samarsquite, estibitalite e para migrar em busca do mineral como
pecholanda. Por último o Distrito de fonte de renda. Os poucos dados numé­
Inhassoro, localizado no norte da Provín­ ricos que conseguimos obter sobre a
cia de Inhambane e com uma superfície população nos distritos e que nos levariam
iberografias 13 2017

de 4.480 km2 é potencialmente rico em a fundamentar a tese de povoamento e
gás natural, gesso e titânio (INE, 2012; despo­voamento pela migração são apre­
MAE, 2005). Tal como os distritos sen­tados na tabela 1.
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
149 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

Tabela 1. População em 1980, 1997 e 2007 dos Distritos seleccionados com recursos minerais
Taxa de crescimento
Território Minério 1980 1997 2007
(%)
Moçambique 12.130.000 15.278.334 20.579.265 1,5
Inhassoro
Gás – 43.406 48.190 1,2
-Pande
Moatize Carvão – 109.103 215.092 10,8
Grafite e
Ancuabe – 87.243 107.238 2,5
granadas
Montepuez
– Posto 149.081
Grafite – 193.602 3,5
Administrativo de 16.647
Nhamanhumbir
Palma Petróleo e gás – 42.182 48.318 1,6
Fonte: MAE, 2014a; 2014b; 2014 c; INE, 2009a; 2009b; 2009c; 2009d.

A tabela 1 ilustra a taxa de crescimento 1) No período anterior a guerra o Dis­
da população calculada na base da trito foi conhecido pela actividade
fórmula mineira. As minas tinham a designação
! 𝑃𝑃!!! de Chipanga e tinham assessoria técni­­
𝑟𝑟 = ( 𝑃𝑃!) −1
ca da extinta República Demo­crática
de Araújo (2001). Onde (Pt+1) população da Alemanha;
em 2007, (Pt) População de 1997, (N) 2) Repatriamento pós guerra. Sobre tudo
Intervalo inter-censal e (r) Taxa de cresci­ das famílias que se encontravam como
mento da população. refugiados em Malawi, Zâmbia e
Calculada a taxa de crescimento regis­ Zim­babwe;
tamos que Moçambique teve entre 1997 3) Retorno de famílias que estavam
e 2007 uma taxa de crescimento de 1,5% como População Deslocada Interna­
um pouco acima da taxa de crescimento mente na cidade capital de Tete;
do Distrito de Inhassoro que é de 1,2% 4) Reassentamento voluntário de algu­
em igual período. Porém, o Distrito de mas famílias que se encontrava na
Moatize registou em igual período, uma cidade de Tete e que passaram a cons­
taxa exponencial de 10,8%, sendo por truir habitações na cidade de Moatize
isso, o  valor mais elevado da série em ou áreas circundantes; e
análise. Em seguida o Distrito de Monte­ 5) Implantação da primeira empresa de
puez registou uma taxa de 3,5% seguido mineração de carvão no período pós­
pelo Distrito de Ancuabe com 2,5% e ‑guerra – Companhia Vale do Rio
por último o Distrito de Palma com uma Doce (CVRD), ou Vale Ltda. Sobre
taxa de 1,6%. esta empresa de mineração Mosca e
Poderíamos dizer que o Distrito de Selemane (2011) referem que a Com­
Moatize tem uma taxa de crescimento panhia ganhou o concurso em 2004 e
exponencial provavelmente por causa da só em 2007 é que iniciou a operar.
migração. Mas para uma análise conclu­ Significando que por causa do alarido
siva precisaríamos de dados da população sobre existência de carvão terá iniciado
desagregados por idades e por sexo. a primeira grande vaga de migrantes
Porém, até a elaboração deste artigo não no pós-guerra. Importa mencionar
iberografias 13 2017

tinha sido possível obter tal infor­mação. que Mosca e Selemane fazem referên­
Entretanto, dizemos provavel­mente, pelas cia a um processo de transferência
seguintes razões: compulsivo de famílias na área de
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 150

extracção do carvão. Esta transferência de recursos minerais em Moçambique.
ocorreu entre 2009 e 2010. Foram, Socorremo-nos do Atlas Geográfico
segundo os autores em referência, no Volume I produzido em 1986 que ilustra
total 5 mil pessoas reassentadas em os recursos minerais e jazigos identificados
Cateme e na Vila de Moatize. Quere­ até então, assim como nos textos de
mos acreditar que também nesta fase História de Moçambique e estudos
inicial terão vindo migrantes qualifi­ mineralógicos realizados em Moçambique
cados do estrangeiro e das grandes na antiga colónia portuguesa. São
cidades de Moçambique. Interna­ exemplos, a mineração no Estado de
mente terão entrado no distrito em Monomotapa, os Estados Prazeiros e de
referência migrantes não qualificados Gaza, cuja economia se baseava na
de outros distritos rurais que terão agricultura e na mineração de aluvião.
visto possibilidades de emprego. Em referência a outros minerais tais
Usando a mesma fórmula calculamos como o carvão e o gás natural a sua
a taxa de crescimento para distritos sem existência é mencionada desde o início
recursos minerais para aferir a nossa do século XIX.
hipótese de migração. Os distritos Os motivos que nos levaram a reflectir
seleccionados são os seguintes: Govuro, sobre o conceito de “descobertas” dos
Changara, Namuno e Mueda (tabela 2). minerais e impactos na formação de
A tabela 2 mostra que a taxa de novos assentamentos humanos resultantes
crescimento dos distritos em referência do movimento migratório basearam-se
varia entre 1,7% em Mueda e 3,4% em nos seguintes pressupostos:
Changara. Portanto, as diferenças são 1) O alarido em torno destas “descober­
insignificantes. Correspondem a tendên­ tas” pode impulsionar a mudança
cia geral do crescimento dos distritos brusca de actividades económicas,
rurais. Pelo que, cada vez mais nos nomeadamente agricultura, pesca e
inclinamos na existência de uma relação caça para a mineração sem que, as
forte entre migração e o discurso sobre comunidades tenham garantido a
recursos minerais. Entretanto, chama­ produção alimentar;
‑nos atenção a taxa de crescimento de 2) Migrações internas em busca de em­
3,4% e 3,3% dos distritos de Mueda e de prego e do aumento da renda familiar;
Namuno. Que recursos minerais terão 3) O aumento da mineração artesanal e
estes distritos? de actividades ilegais referentes;
4) Migrações internacionais decorrentes
de investimentos e na busca incessante
Conclusão
do “tesouro perdido”; e
Ao longo do texto tentamos refutar a 5) O despovoamento de alguns lugares e
ideia do uso do discurso de “descoberta” povoamentos de outros com conse­

Tabela 2. População em 1980, 1997 e 2007 dos Distritos seleccionados sem recursos minerais
Taxa de Taxa de
Território 1980 1997 2007
crescimento (%) crescimento (%)
Moçambique 12.130.000 15.278.334 1,5 20.579.265 2,7
Govuro – 29.031 – 34.494 2,1
iberografias 13 2017

Changara – 119.551 – 156.545 3,4
Namuno – 138.229 – 179.408 3,3
Mueda – 98.654 – 113.742 1,7
Fonte: INE 2009a; 2009b; 2009c; 2009d; INE 2009e; INE 1999a; 1999b; 1999c; 1999d
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
151 Inês M. Raimundo & José A. Raimundo

quências negativas sobre o ordena­ 3) A chamada de atenção aos decisores
mento territorial. políticos sobre o perigo da secunda­
As evidências que apresentamos ao rização dos sectores de emprego, terra,
longo do texto sobre existência de recur­ habitação, agricultura e produção ali­
sos minerais levam-nos a aceitar que o mentar, transportes e a criminalidade
uso do discurso “descoberta” só pode ter por causa da apelação a indústria
fundamento na situação de que até então extractiva e subsequentes descobertas
não existia tecnologia capaz de encontrar, de novos jazigos;
identificar e classificar econo­mi­camente 4) Mineração artesanal assumida como
estes recursos, a guerra, a falta de mercado, garimpo ilegal; e
questões relacionados com impactos am­ 5) Conflitos entre as empresas de mine­
bientais negativos, e eventualmente, porque ração e população residente nas áreas
a economia de Moçambique baseava-se de exploração mineira, etc.
na agricultura, e, por isso, a prioridade Por último, como foi antes mencio­
seria o investimento neste sector. nado nenhum destes estudos ou reflexões
Após análise deste conjunto de se orienta para as questões de migrações
evidências mineralógicas em Moçam­ com impactos no povoamento e despo­
bique gostávamos de chamar atenção a voamento populacional, e, por isso, esta é
substituição do termo descoberta, para uma indicação da necessidade urgente
reconhecimento ou valorização económi­ em estudar mais a fundo sobre o assunto
ca dos recursos minerais. Não preten­ por forma a compreender a evolução
demos dizer que o novo termo não possa espacial dos povoamentos em Moçam­
trazer os mesmos impactos, mas a nossa bique.
tese é que devam ser usados os termos em
função da realidade sob o risco de desva­
lorizarmos o trabalho realizado muito Bibliografia
antes. Por outro lado, pretendemos cha­ Araújo, Manuel. G. M. de e Raimundo, Inês
mar atenção ao facto de o uso de certos M. (2002). A evolução do Pensamento
termos poder trazer impactos negativos, Geográfico: Um percurso na História do
como por exemplo, o mencionado caso conhecimento da Terra e das Correntes e
de pais que obrigam os seus filhos a Escolas Geográficas, Livraria Universitária
UEM, Maputo.
desistência escolar e os impactos negativos Bilale, Cecília C. (2007). Migração feminina
sobre rápido crescimento populacional para a cidade de Maputo e suas consequências
dos distritos em decorrência da migração. sócio-demográficas e económicas. Disserta­
Vale mencionar que a indisponibilidade ção de Mestrado, Universidade Eduardo
de dados populacionais e os poucos Mondlane, Faculdade de Letras e Ciências
existentes não permitem tirar conclusões Sociais.
Brandão, José M. (2010). O Museu de Geo­
definitivas. São apenas hipóteses resul­
logia Colonial das Comissões Geológicas de
tantes de observações, de literaturas e Portugal: contexto e memória. Centro de
comparações sobre estudos similares Estudos de História e Filosofia da Ciência
realizados em outras regiões em outras e – LNEG-IP. Revista Brasileira de História
artigos publicados esporadicamente. da Ciência, Rio de Janeiro, Vol. 3, n. 2,
Estudos existentes têm como enfoque: pp. 184-1999.
1) O perigo das descobertas dos minerais Covane, L. (2001). O Trabalho Migratório e a
Agricultura no sul de Moçambique (1920­
para a tradição da convivência pacífica
iberografias 13 2017

‑1992). Promédia. Colecção Identidades.
e estabilidade entre Estados vizinhos; Maputo.
2) A atracção das descobertas a a territó­ Da Costa Nogueira, Inês (1993). Inventário
rios anteriormente ignorados; do Undo “Companhia de Moçambique –
O impacto do discurso das “descobertas” dos recursos minerais no despovoamento rural de Moçambique
Inês M. Raimundo & José A. Raimundo 152

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iberografias 13 2017
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana:
informalidade e estratégias de sobrevivência
Iberografias 13 2017

Ramos Cardoso Muanamoha
Investigador e Professor Associado
Faculdade de Letras e Ciências Sociais
Universidade Eduardo Mondlane
ramos.muanamoha@gmail.com

Resumo estudos já realizados nesta área, pouco
se tem falado sobre as diferentes estra­
Há um reconhecimento de que a
tégias a que os migrantes têm recorrido
migração de moçambicanos para a
para garantir a sua sobrevivência na
República da África do Sul não é um
África do Sul, já que a maioria destes
fenómeno recente. Várias publicações migrantes tem sido ocupado em acti­
têm-se referido diferentemente a este vidades informais, de baixo rendimento,
fenómeno, com destaque para a história no meio urbano. Portanto, este texto
do trabalho migratório de moçambi­ constitui uma pequena contribuição
canos para o sector mineiro e agrícola nesse sentido, e foi elaborado com base
da África do Sul. Publicações mais nos dados de um inquérito realizado
recentes dão enfoque sobre as novas em finais de 2012, na cidade de Joanes­
dinâmicas da migração moçambicana burgo, cobrindo uma amostra de 305
para a República da África do Sul, com agregados familiares de imigrantes
ênfase para a migração forçada (entre a moçambicanos.
segunda metade da década de 1970 e
princípios da de 1990), migração labo­ Palavras-chave: migrantes moçambi­
ral indocumentada, migração e xenofo­ canos; África do Sul urbana; estratégias
bia, etc. Entretanto, apesar de vários de sobrevivência.

1. Introdução nalmente para a cidade-capital, Maputo,
há evidência de que os migrantes actuais
Moçambique tem uma tradição relati­
estão agora dirigindo-se para as médias
vamente longa de migração, quer interna cidades, tais como Xai-Xai e Inhambane.
ou internacional (IOM, 2006). Interna­ Entretanto, apesar de uma taxa relativa­
mente, os padrões desiguais de desenvol­ mente elevada de crescimento económico
vimento entre as três regiões do país têm sustentado no passado muito recente, as
testemunhado a mobilidade de migrantes, áreas urbanas, mesmo na região sul, têm
rumo à região sul de Moçambique, a mais
iberografias 13 2017

sido incapazes de responder à demanda de
desenvolvida, em busca de emprego e emprego. Como uma consequência disto,
melhores condições de vida. Embora a um número crescente de migrantes moçam­
maioria dos migrantes se mova tradicio­ bicanos tem empreendido movimentos
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivência
Ramos Cardoso Muanamoha 154

internacionais, principalmente para a ainda continuam relativamente elevados
vizinha África do Sul. A mobilidade de (Gallego e Mendola, 2011), precisando
moçam­bicanos para destinos internacionais da persistência da migração internacional,
não é um fenómeno novo. Desde o início particularmente para a economicamente
dos anos 1900, moçambicanos têm mais próspera África do Sul e, de forma
migrado para outros países dentro da específica, para o pólo industrial de
região, em busca de oportunidades de Gauteng. Actualmente, há um número
emprego, particularmente nos sectores de considerável de moçambicanos que ainda
minas e agricultura de países como África continuam a residir na África do Sul,
do Sul e Zimbabwe. Conforme observado alguns a trabalhar nas indústrias, e outros
por Crush et al. (2005: 3), havia 77.921 ainda no florescente sector informal da
trabalhadores mineiros de origem moçam­ região.
bicana nas minas sul-africanas, por volta Vários estudos têm sido levados a cabo
dos anos 1920, tendo atingido o pico de sobre a migração internacional moçam­
101.733 na década de 1960. O número bicana, com enfoque na integração de
total de cidadãos moçambicanos na Áfri­ moçambicanos nas comunidades rurais
ca do Sul, em 1911, era de 114.976, sul-africanas (Polzer, 2004), migração
tendo subido para 161.240 em 1951 transfronteiriça (Nhambi e Grest, s/d),
(Crush et al., 2005: 3). De Vletter (2006) migração laboral e participação das redes
observou que os cidadãos moçambicanos sociais (Gallego e Mendola, 2011), gestão
perfaziam mais de 25% da mão-de-obra da migração e desenvolvimento (Raimun­
mineira, em 2006. No Zimbabwe, dados do, 2009), migração e desenvolvimento
do censo indicam que havia 13.588 (De Vletter, 2006), migração de menores
migrantes de origem moçambicana em não acompanhados (Save the Children,
1911, 17.198 em 1921 e 101.618 em 2008), migração de retorno e empreen­
1951 (Crush et al., 2005:3). dedorismo (Batista et al., 2010), migração
Enquanto a migração da década de internacional e inclusão urbana (Ostanel,
1960 era motivada mais pela demanda e 2010), migração indocumentada e redes
necessidades económicas, a migração dos sociais (Muanamoha et al., 2010), adapta­
anos de 1970 tinha a ver principalmente ção ao quadro legal em mudança (Polzer,
com a insegurança no país, resultante da 2005) e vulnerabilidade dos migrantes à
guerra civil. Entre 1979 e 1992, cerca de xenofobia (Friebel et al., 2011).
5,7 milhões de moçambicanos encontra­ Enquanto estes estudos contribuíram
vam-se deslocados de suas residências, muito para a compreensão da natureza
4  milhões internamente e 1,7 milhões da migração internacional entre Moçam­
internacionalmente (Steinberg, 2005: 3). bique e África do Sul, de como as remessas
A maioria dos deslocados internacional­ dos migrantes ajudam as famílias nas
mente encontrava-se nos países da região, comunidades de origem, bem como da
tais como Malawi, Zimbabwe, Tanzania vulnerabilidade dos migrantes à xenofo­
e África do Sul. Embora uma parte dos bia, quase nada se tem escrito sobre as
migrantes tivesse regressado para estratégias de sobrevivência destes mi­
Moçambique após o fim da guerra civil grantes na África do Sul. Na sua maioria,
em 1992, um número considerável ainda os migrantes estão ocupados nas minas e
permaneceu nos países vizinhos. Enquan­ em trabalhos de natureza doméstica,
to a paz e a estabilidade no país resultavam como, por exemplo, empregados domés­
iberografias 13 2017

numa taxa de crescimento económico ticos, serventes de bar, guardas de segu­
positiva sustentada, de 7% ao ano, por rança, etc., trabalhos que não lhes garan­
uma década, os níveis de pobreza no país tem um rendimento estável e suficiente.
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivência
155 Ramos Cardoso Muanamoha

Muanamoha (2010) observou que a bicanos, pelo facto de ser uma área tradi­
maioria dos imigrantes das comunidades cionalmente ocupada por uma grande
moçambicanas em Gauteng (África do parte de migrantes portugueses na década
Sul) trabalhava no sector informal, de 1920. Após a independência de
comprando e revendendo diferentes tipos Moçambique em 1975, a maioria dos
de bens nas ruas ou dentro de mercados portugueses que abandona ram Moçam­
próximos das suas comunidades. Portan­ bique para residir na África do Sul foram
to, isto significa que a maioria dos parar em Rosetenville. Portanto, os
imigrantes na África do Sul urbana luta migran­tes moçambicanos pobres, que
para garantir a sua sobrevivência e dos pretendem trabalhar na África do Sul,
seus agregados familiares. À luz desta tendem a deslocar-se para esta área, já
constatação, o presente texto procura que têm maior possibilidade de encontrar
explorar quais são as estratégias de sobre­ trabalho nesta área e podem comunicar­
viência que são adoptadas pelos imigran­ ‑se efectiva­mente em português.
tes moçambicanos, ocupados maioritaria­ O estudo levado a cabo em Joanes­
mente no sector informal da África do burgo consistiu de ambos os métodos
Sul urbana. quantitativo e qualitativo. No método
O texto é composto por cinco secções. quantitativo (inquérito), foi administrado
A seguir a esta nota introdutória, faz-se um questionário padronizado a 305 agre­
uma breve descrição da natureza de dados gados familiares de imigrantes nas três
e do método de sua obtenção, na secção 2. áreas de estudo, tendo sido colectados
A terceira secção é sobre o perfil dos dados referentes a 733 indivíduos (vide
migrantes moçambicanos na África do distribuição da amostra na Tabela 1).
Sul urbana considerados neste texto. Em Não obstante os esforços feitos para se
seguida, a secção 4 trata das estratégias de obter um número considerável de respon­
sobreviência dos migrantes. Por último, dentes de cada uma das áreas de estudo, o
na secção 5 são apresentadas as considera­ número final de respondentes por área
ções finais. não pôde ser pré-determinado, pelo facto
de a população total de imigrantes nas
diferentes áreas ser desconhecida.
2. Dados e método
A informação usada para a elaboração Tabela 1 Agregados familiares de imigrantes e
respectiva população por área de estudo
deste texto provem de uma pesquisa de
campo realizada em Setembro de 2012 Agregados
Área de População
em Joanesburgo, a maior área urbana da familiares
estudo N
África do Sul e que alberga a maioria de N
imigrantes moçambicanos. Três áreas, Tembisa 100 238
dentro de Joanesburgo, fizeram parte da Alexandra Park 76 174
amostra da pesquisa: Alexandra Park, Rosetenville 129 321
Tembisa e Rosetenville. As duas primeiras Total 305 733
áreas, Alexandra Park e Tembisa, são
bairros onde os imigrantes têm maior O questionário foi complementado
probabilidade de encontrar alguns dos por entrevistas qualitativas (entrevistas
seus conhecidos dos locais de origem e de em profundidade e discussões de grupos
conseguir algum lugar para morar e seu focais) em todas as áreas de estudo, que
iberografias 13 2017

envolvimento no sector informal que pudem providenciar informação mais
floresce nestas áreas. Rosetenville é um detalhada sobre a situação de segurança
destino atractivo para imigrantes moçam­ alimentar nos agregados familiares de
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivência
Ramos Cardoso Muanamoha 156

imigrantes, assim como sobre as formas rior a 50 anos. No que respeita ao estado
de como os agregados lidam com os desa­ civil, cerca de 56% dos migrantes da
fios da segurança alimentar, ou seja, as amostra eram solteiros. Entretanto, a
diferentes alternativas de estratégias de proporção de casados e unidos marital­
sobrevivência. No geral, todos os instru­ mente era relativamente elevada (42%).
mentos de pesquisa aqui referidos visa­
vam a recolha de dados sobre a situação
b) Educação, ocupação e situação de
da segurança alimentar nos agregados
emprego
familiares de imigrantes, diversidade da
dieta, fontes de alimentos nos agregados Os resultados da pesquisa indicam
familiares, estratégias de sustento alterna­ que o nível de escolaridade dos migrantes
tivas e outra informação relevante para moçambicanos na África do Sul é muito
compreensão da situação da segurança baixo, com apenas 9,2 porcento dos
alimentar dos agregados familiares de migrantes abrangidos pelo estudo tendo
imigrantes moçambicanos na África do completado nível superior. A maioria dos
Sul urbana. migrantes distribuía-se entre aqueles com
Em termos de procedimento de amos­ alguma frequência do nível superior
tragem para o inquérito, recorreu-se ao (22,5 porcento), os que completaram
método de “bola de neve”, na identificação nível primário (15,5 porcento) e os que
de potenciais respondentes. Este método apenas frequentaram nível primário
consistiu na identificação de alguns imi­ (29,6 porcento). Além disso, a proporção
grantes moçambicanos na área de estudo de migrantes analfabetos era muito signi­
e, depois, a partir deles foram identificados ficativa (17,7 porcento).
outros, e assim sucessivamente, procuran­ No que se refere à ocupação dos
do-se sempre salvaguardar a sua diver­ migrantes, a presença de estudantes foi
sidade socioeconómica e de género. muito significativa, tendo representado
A elaboração deste texto teve como cerca de 17 porcento da população da
base a informação proveniente do inqué­ amostra. Entretanto, a maioria dos
rito. A seguir, é apresentado o perfil dos migrantes, laboralmente activos, distri­
migrantes abrangidos pela pesquisa, com buía-se entre comerciantes informais
base em algumas características seleccio­ (com cerca de 14 porcento), trabalhadores
nadas, para que se possa perceber o tipo profissionais (12,7 porcento), trabalha­
de migrantes de que se trata. dores especializados (11,6 porcento) e
empresários (11,1 porcento).
Em relação à situação de emprego
3. Perfil dos migrantes moçambicanos
(emprego assalariado), muitos migrantes
na África do Sul urbana
da amostra consideraram-se como empre­
gados, sendo 48,3 porcento empregados
a) Sexo, idade e estado civil
a tempo inteiro e uns 11,8 porcento a
Cerca de 55 porcento dos migrantes tempo parcial. Entretanto, houve outros
abrangidos pela pesquisa eram do sexo tantos migrantes que não estavam a tra­
masculino. A sua composição por idade balhar, dos quais, 10,3 porcento estavam
indica que a maioria dos migrantes (cerca à procura de emprego e 29,2 porcento
de 61% da população da amostra) encon­ não estavam. Estes últimos eram princi­
trava-se na faixa etária laboral mais activa, palmente estudantes e crianças.
iberografias 13 2017

entre 20 e 39 anos, um reflexo da selecti­ Na secção que se segue são apresentadas
vidade da migração por idade. Apenas as estratégias que estes migrantes têm
3,6% dos migrantes tinham idade supe­ usado para a sua sobrevivência, quer
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivência
157 Ramos Cardoso Muanamoha

como formas alternativas de incremento Conforme o Gráfico 1, a estratégia de
do rendimento da actividade principal, sobrevivência alternativa mais referida foi
quer como alternativas em situações de o trabalho ocasional, por 11,5 porcento
escassez de meios de subsistência dos agregados familiares, seguida de
(alimentos). crédito informal, por 8,9 porcento, auto­
‑emprego em casa, por 4,9 porcento,
vendas no mercado, por 4,3 porcento,
4. Estratégias de sobrevivência dos
entre outras.
migrantes moçambicanos na África do
Sul urbana
b) Estratégias usadas em casos de escas­
As estratégias de sobreviência podem
sez de alimentos
ser agrupadas em duas categorias: (i)
estratégias alternativas ao rendimento da Os migrantes recorrem a uma série de
actividade principal; e (ii) estratégias estratégias quando os alimentos tornam­
usadas em casos de escassez de alimentos. ‑se escassos. Algumas destas estratégias
Nesta segunda categoria, as estratégias ocorrem ao nível da dieta (Gráfico 2).
são usadas em dois níveis: ao nível da Estas incluem o recurso aos alimentos
dieta e ao nível do orçamento do agregado menos caros (53,8% dos agregados
familiar. familiares), alimentos menos preferidos
(43,4%) e alimentos de baixa qualidade
(34%). Mais de 20% dos agregados fami­
a) Estratégias alternativas ao rendimento
liares disseram que limitavam a porção da
da actividade principal
comida durante as refeições, reduziam o
De acordo com Crush & Tawodzera número das refeições diárias e contraíam
(2016), a sobrevivência no desafiante empréstimo de dinheiro para comprar
meio urbano da África do Sul demanda comida. Cerca de 20% recorriam à ajuda
que os membros do agregado familiar se de um amigo ou parente. Outros agre­
engajem em outras actividades para gados familiares, em proporção reduzida,
aumen­tar o rendimento do emprego reportaram que restringiam o consumo
formal. Entretanto, os resultados da pes­ dos adultos a favor das crianças (7,2%) ou
quisa indicam uma percentagem relati­ compravam alimentos a crédito (2,6%).
vamente baixa dos agregados familiares Outras estratégias usadas pelos agre­
que se engajaram em outras actividades gados familiares em casos de escassez de
para incrementar a sua base de sustento. alimentos ocorrem ao nível do orçamento
iberografias 13 2017

Gráfico1. Estratégias
de sobrevivência
alternativas ao
rendimento
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivência
Ramos Cardoso Muanamoha 158

Gráfico 2. Estraté­
gias usadas ao
nível da dieta
em casos de
escassez de
alimentos

familiar. Ou seja, o orçamento é sujeito a em proporção não desprezível, disseram
alguns ajustamentos, por forma a fazer que recorriam ao uso das poupanças
face ao problema de escassez de alimentos. (7,6%) ou ao reagrupamento dos mem­
Estas estratégias incluem o não paga­ bros da família para poupar (5,6%).
mento das contas/serviços (em 16,5% Alguns ainda reduziam os gastos com a
dos agregados familiares), a venda do saúde e educação, ou então recorriam à
mobiliário do agregado familiar e mudan­ junção dos agregados fami­liares, como
ça de lugar de residência para poupar forma de minimizar as despesas e econo­
dinheiro (em 8,6% dos agregados para mizar dinheiro para alimentação e outras
cada caso). Outros agregados fami­liares, com­pras relevantes (Gráfico 3).

Gráfico 3. Estratégias
usadas ao nível do
orçamento familiar em
casos de escassez de
alimentos

5. Considerações finais os migrantes recorrem para incrementar
a sua base de sustento (rendimento de
Os dados analisados neste texto, pro­
alguma actividade principal). Por outro
ve­nientes do inquérito sobre a segurança lado, os migrantes recorrem a algumas
iberografias 13 2017

alimentar dos migrantes moçambicanos estratégias de sobrevivência como respos­
na África do Sul urbana, permitiram ta a situações concretas de carência de
aferir sobre as variadas estratégias a que meios de subsistência (alimentos ou
Migrantes moçambicanos na África do Sul urbana: informalidade e estratégias de sobrevivência
159 Ramos Cardoso Muanamoha

recursos financeiros). No primeiro caso, pation from the Southern Mozambique.
em que os migrantes têm procurado INSIDENET Working Paper No. 28,
incrementar o seu rendimento de alguma July 2011. http://www.insidenet.org/wp-
content/files_flutter/1311660639
actividade principal, estes têm recorrido
Inside_28.pdf.
principalmente às estratégias de trabalho IOM (2006). Briefing Note on HIV and
ocasional ou de crédito informal. No Labour Migration in Mozambique, IOM
segun­do caso, em que o propósito é mini­ Regional Office for Southern Africa,
mizar a escassez de meios de subsistência, Pretoria.
os migrantes recorrem principalmente às Muanamoha, R. C., Maharaj, B. & Preston-
Whyte, E. (2010). Social Networks and
estratégias de busca de alimentos baratos,
undocumented Mozam­bican migrants to
menos preferidos e de baixa qualidade. South Africa. Geofo­rum, doi:10.1016/j.
Também, outra principal estratégia, neste geoforum.2010. 06.001.
caso, inclui o não pagamento das contas/ Nhambi, S. & Grest, J. (n.d.). Mobility,
/serviços do agregado familiar, como Migration and Trade: Interactive Flows Bet­
forma de poupar dinheiro para a compra ween Durban and Southern Mozambique,
de alimentos. http://www.iese.ac.mz/lib/publication/
livros/South/IESE_South_2.MobMig.
pdf .
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www.csae.ox.ac.uk/confe rences/2011- Legal Frameworks: Mozambican refugees
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prepared for the Policy Analysis and Research paper/working-paper-17-adapting-
program of the Global Commission on changing-legal-frameworks-
International Migration. http://www.iom. mozambican-refugees-south-africa-m.
int/jahia/wuebdav/site/shade/mainsite/ Polzer, T. (2004). “We are All South Afri­cans
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(IZA), Bonn. Number 117, 2005, Institute for Securi­ty
Gallego J. M. & Mendola, M. (2011). Labor Studies, South Africa.
iberografias 13 2017

Migration and Social Networks Partici­
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade
em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
Iberografias 13 2017

Rogers Hansine
Assistente
Departamento de Geografia
Universidade Eduardo Mondlane
rogers.hansine@yahoo.com

Resumo lação urbana, permite concluir que a
urbanização e fecundidade estão rela­
Em Moçambique entre 1960 e 2015 a
cionadas, no contexto Moçambicano.
taxa de urbanização passou de 4.8% para
Embora haja uma discussão acesa à volta
32.2%. Durante, aproximadamente o da questão da transição demográfica e
mesmo período (1950-2011) a Taxa como acelerá-la, de modo a materializar
Global de Fecundidade Nacional passou o chamado dividendo demográfico em
de 7.1 para 5.7 filhos por mulher em África, incluindo em Moçambique é
idade reprodutiva; tendo nos espaços preocupante a ausência duma discussão
urbanos passado de 5.7 para 4.3 filhos, crítica, sobre o significado de urbanização
entre 1980 e 2011, respectivamente. quando esta é frequentemente associada
Com base na revisão bibliográfica e em com a redução da fecundidade.
dados estatísticos o artigo investiga em
que medida a redução da fecundidade Palavras-chave: crescimento urbano;
face ao aumento da proporção da popu­ urbanização; fecundidade; Moçambique.

1. Introdução A tendência destes dados estatísticos é
relevante pois no processo de transição da
Segundo os dados do Banco Mundial,
fecundidade, isto é, a passagem de elevada
em Moçambique entre 1960 e 2015 a
para baixa fecundidade, a urbanização é
taxa de urbanização passou de 4.8% para
32.2% com uma taxa de crescimento um dos factores fundamentais no contex­
urbano anual estimada em 5.9% durante to da África subsariana e consi­dera-se que
o período. Por outro lado, durante, apro­ este processo de transição demográfica
xi­madamente o mesmo período (1950­ tende a começar nos espaços urbanos
‑2011) a Taxa Global de Fecundidade, ou (veja: Cohen, 1998; Shapiro & Tambashe,
seja, o número médio de filhos que as 1999; Garenne & Joseph, 2002). Com
mulheres moçambicanas têm durante a base na revisão bibliográfica e nos dados
sua vida reprodutiva passou de 7.1 para estatísticos o artigo investiga em que
5.7 filhos; e nos espaços urbanos o medida a redução da fecundidade face ao
iberografias 13 2017

decréscimo foi mais pronunciado tendo aumento da proporção da população
passado de 5.7 para 4.3 filhos por mulher urbana, permite concluir que a urbani­
(Arnaldo, 2013). zação teve influência na fecundi­dade em
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
161 Rogers Hansine

Moçambique. Por um lado, a questão ção rural ou o aumento de espaços defini­
permite analisar que papel a urbanização dos como urbanos em relação aos espaços
joga no processo de transição da definidos como rurais (Cohen, 2006);
fecundidade no contexto Moçambi­cano mas é um processo complexo de transfor­
e, por outro lado, avaliar a robustez das mação social e espacial no qual as caracte­
teorias de transição da fecundidade que rísticas da sociedade rural cedem lugar a
enfatizam o papel da urbanização. outras, consideradas urbanas. Portanto, é
A associação entre a transição demo­ imperioso distinguir a relação entre o
gráfica e a urbanização é problemática. cres­cimento urbano e a fecun­didade e a
Em primeiro lugar, falar em urbanização rela­ção entre a urbanização e a fecundidade.
implica falar em “espaço urbano” e este é Este debate sobre a relação entre o
um conceito equívoco. A esse respeito, crescimento urbano e a fecundidade e
Araújo (2003) e Cohen (2006), dizem relação entre a urbanização e a fecundi­
que os critérios para definição de espaços dade enquadra-se perfeitamente no
urbanos diferem de país para país e âmbito das teorias de transição demográ­
dentro do mesmo país tais critérios fica. Historicamente, a primeira formula­
variam ao longo do tempo. Portanto, ção destas teorias ou modelos teve lugar
além dos critérios ambíguos que são em 1929 por Warren Thompson. Kirk
empregues para definir espaços urbanos, (1996), relata que procurando categorizar
o significado Moçambicano de urbano, os países em função do seu nível de
por exemplo, não é válido fora das fecundidade e mortalidade, Thompson
fronteiras Moçambicanas e consequen­ divide-os em três grupos: A, os países
temente a noção de urbanização deve ser com reduzida taxa de crescimento demo­
criticamente analisada no contexto de gráfico e potencial declínio da população;
Moçambique. Em segundo lugar, lamen­ B, os países com crescimento demográfico
tavelmente, não há uma preocupa­ção acelerado em virtude da queda da morta­
sistemática em distinguir o processo de lidade, porém com relativa elevada
urbanização da noção de crescimento natalidade; e C, os países com natalidade
urbano quando se analisa a transição da e a mortalidade elevadas que, Thompson
fecundidade na África subsariana. Porém, designou países Malthu­sianos. Para
dado que a urbanização e o crescimento Thompson cada grupo de países estaria
urbano não são sinónimos, naturalmente, numa fase correspondente ao seu grau de
não se esclarece se é a urba­nização ou o evolução sócio-económica. Embora, em
crescimento urbano ou ainda ambos que 1934, Landry tenha publi­cado o seu La
têm impacto na redução da fecundidade. Révolution Démo­graphique com resul­
Muitos estudos apontam que a urbani­ tados semelhantes aos de Thompson, sem
zação em Moçambique é essencialmente aparentemente ter conhe­cimento da obra
um processo de rápido crescimento urba­ deste, a teoria de transi­ção demográfica
no demográfico, ou seja, mera acumu­ como se conhece hoje, somente foi
lação de pessoas nos espaços definidos formulada em 1944 por Notestein.
como urbanos sem o necessário aumento Para Bloom & Wiliamson (1998), a
de infraestruturas e da capacidade de teoria de transição demográfica descreve
providenciar serviços básicos (Araújo, a passagem da sociedade pré-industrial,
2003; Jenkins, 2006; Baia, 2011; Melo, com elevada natalidade e mortalidade
2013; Gonçalves, 2016). As implicações para a sociedade pós-industrial com baixa
iberografias 13 2017

são profundas. A urbanização não corres­ mortalidade e natalidade. Kirk (1996),
ponde ao simples aumento da proporção por seu lado considera que essencialmente
de população urbana em relação a popula­ a transição demográfica estatui à medida
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
Rogers Hansine 162

que a sociedade se moderniza passa dum enfatizam o papel da difusão de novas
regime de elevada natalidade e morta­ ideias no processo de redução da fecun­
lidade para outro de baixa nata­lidade didade a validade da teoria de transição
e mortalidade. Enquanto Bloom & demográfica clássica, como é conhecida a
Wiliamson (1998), preocuparam-se em teoria de Notestein de 1944, permanece
aplicar a teoria para explicar o sucesso quase intacta (Kirk, 1996). À luz desta
recente das economias emergentes do sul controversa, mas válida teoria, este tra­
da Ásia, os tigres asiáticos, Kirk (1996), balho analisa no contexto Moçambicano
por seu lado, observa que a teoria não dá a problemática a relação entre o cresci­
importância a definição de modernização. mento urbano e a fecundidade e também
Portanto pode-se pressupor que seja a relação entre a urbanização e a fecun­
sinónimo de urbanização, ocidentalização didade. Para abordar esta problemática é
ou de industrialização se compararmos pertinente começar por tratar da questão
com Bloom & Wiliamson (1998). da conceptualização dos espaços urbanos
Segundo Ross (1998), embora, for­ em Moçambique.
mulada com base na história demográfica
europeia, a teoria tem sido criticada pelos
2. A urbanização e o crescimento
seguintes aspectos: primeiro, ignorar o
urbano em Moçambique
papel do Malthusianismo na dinâmica
demográfica Europeia na fase pré-indus­ Dado que Moçambique conquistou a
trial; segundo, por assumir que em todas sua independência em 1975 e uma vez
circunstâncias o decréscimo da natalidade que cada país possui seus critérios para
é precedido pelo decréscimo da mortali­ definir o que são espaços urbanos, a aná­
dade; terceiro, por não considerar que em lise sobre a urbanização e o crescimento
muitas regiões europeias o declínio da urbano cinge-se ao período de 1975 em
fecundidade não esteve relacionado com diante. Entre 1975 e 2015, a taxa de
a modernização sócio-económica, ou urbanização no país passou de 9.6% para
com a industrialização e muito menos 32.3% (Banco Mundial, 2017). O factor
com a urbanização, mas com a difusão de determinante para a urbanização em
ideias dentro de contextos culturais e Moçambique, segundo Araújo (2003),
linguísticos específicos. tem sido o crescimento urbano. Quer tal
Finalmente, Bongaarts & Watkins crescimento tenha tido origem na
(1996), notaram que nos países em migração do campo para cidade, i.e.,
desenvolvimento entre 1960 e 1990 a êxodo rural, quer no crescimento natural
fecundidade reduziu em 36% passando da população, i.e., a diferença entre
de 6 para 3.8 filhos por mulher. Estes óbitos e nascimentos, o crescimento
países não experimentaram os níveis de urbano é o factor determinante da urba­
urbanização, modernização e industriali­ nização em Moçambique.
zação observados na Europa, para expe­ Contudo, o crescimento urbano não é
rimentarem esta significativa queda da sinónimo de urbanização. A urbanização
fecundidade. As interpretações sobre o tem lugar à medida que as características
facto destes países terem sido capazes de rurais tais como: economia baseada na
reduzir drasticamente a fecundidade agricultura de subsistência, densidade
desafiando os pressupostos da teoria de populacional baixa, povoamento disperso
transição demográfica divide a comuni­ e fraca concentração e fraco recurso a
iberografias 13 2017

dade intelectual. tecnologias são substituídas por outras
Apesar das criticas, e do aparecimento tais como: economia baseada na activi­
de teorias de transição demográfica que dade industrial e prestação de serviços,
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
163 Rogers Hansine

elevada densidade populacional, povoa­ localizada no litoral o que indica clara­
mento concentrado e elevado recurso a mente um interesse dos colonizadores em
tecnologias (Dyson, 2011). Em outras localizar estes espaços para facilitar a
palavras a urbanização tem lugar quando exportação de matéria-prima.
à sociedade rural cede lugar a sociedade Quanto à morfologia urbana, é possí­
urbana. Por isso, no contexto dos países vel identificar duas formas espaciais
desenvolvidos, Cohen (2006) reconhece marca­damente distintas, porém interre­
a dificuldade em diferenciar os espaços lacionadas: o espaço urbano planificado e
urbanos dos espaços rurais dado que edificado com material convencional,
nesses países o modo de vida urbano está designada cidade de cimento e o espaço
presente em todo lado. Por seu lado, o urbano de ocupação espontânea e edifi­
crescimento urbano refere-se ao aumento cado com material precário, designada
da magnitude da população definida cidade de caniço ou de madeira e zinco,
como urbana ou dos espaços definidos conforme o material de construção domi­
como urbanos e é geralmente mensurado nante (Araújo, 2003; Jenkins, 2016).
em termos de taxa de crescimento urbano O dualismo dos espaços urbanos
durante um certo período de tempo, Moçambicanos tem origem no processo
geralmente um ano. colonial. Pela necessidade de estabelecer
Em Moçambique, embora a taxa de o perímetro urbano por questões de defe­
crescimento urbano seja elevada, a histó­ sa e segurança e a segregação espacial com
ria da urbanização é antiga. Segundo Baia base na raça e na nacionalidade, durante
(2011), antes da presença europeia no o colonialismo surgiram dois espaços
actual território de Moçambique há urbanos estruturalmente, funcionalmente
registo de assentamentos cuja as caracte­ e morfologicamente diferentes, mas inter­
rísticas em termos de tamanho e densi­ dependentes (Melo, 2013; Gonçalvez,
dade da população, complexidade da 2016). Expandindo o argumento, os
vida social e política e pelas funções autores realçam que o espaço urbano
admi­nistrativas e comerciais que desem­ planificado possuía limites por necessi­
penhavam constituíam centros urbanos. dade de proteção e segurança dos seus
Contudo, Gonçalvez (2016) lembra que habitantes e era organizado com base em
os actuais espaços definidos como urba­ princípios europeus; enquanto no espaço
nos têm uma natureza exógena pois urbano de ocupação espontânea destinada
foram criados pelos colonialistas segundo aos não-europeus, e especialmente aos
os seus interesses. Entretanto, o processo habitantes locais negros os princípios de
de rápida urbanização em Moçambique é uso e ordenamento do solo eram infor­
recente e tem tido lugar, sobretudo a mais e os seus limites nunca eram precisos
partir da segunda metade do século XX e sempre estavam em constante expansão.
como sucede na generalidade das ex-coló­ Para os habitantes dos espaços não plani­
nias africanas. ficados, fixar residência e circular no
Dada a sua origem exógena e o seu interior do espaço urbano planificada era
recente e rápido desenvolvimento, os fortemente desencorajado e geralmente
espaços urbanos em Moçambique caracte­ proibido (Melo, 2013). Contudo, estes
rizam-se por profundas contradi­ções no encontravam nos espaços urbanos plani­
que diz respeito à sua distribuição espacial ficados não somente oportunidades de
e à sua morfologia. No que toca a distri­ emprego, mas de participação na moder­
iberografias 13 2017

buição espacial é possível constatar, por nidade e por seu lado, os espaços
exemplo, que a maioria dos principais planificados necessitavam de mão-de­
centros urbanos em Moçambique está ‑obra barata que os suburbanos podiam
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
Rogers Hansine 164

oferecer. Dai a relação entre estes dois ficados em três níveis, nomeadamente:
espaços que sendo distintos necessitavam nível A (cidade de Maputo), nível B
um do outro para a sua existência e (todas restantes capitais provinciais) e
coprodução de identidades socio-espaciais. nível C (as cidades de Nacala e Chókwe).
Com o advento da independência, em As disparidades entre estes centros
1975, e adopção do Socialismo, os urbanos, a vários níveis, era notória, prin­
Moçambicanos passaram a poder fixar cipalmente em relação à cidade capital
residência nos espaços urbanos planifi­ Maputo, especialmente em relação ao
cados. Jenkins (2006) realça que, embora número de habitantes, actividade econó­
a ocupação dos imóveis tivesse a cargo do mica dominante e o tipo e o volume de
Estado a fraqueza institucional para gerir infraestruturas e equipamentos sociais.
os espaços urbanos levou à degradação Dado que o critério político-administra­
dos imóveis, como também contribuiu tivo teve mais relevância na (re)classi­
para a ocupação espontânea e irregular de ficação urbana, ou seja, os espaços urba­
terrenos urbanos. Tal ocupação não obe­ nos foram definidos com base na sua
decia a nenhum princípio de planificação importância administrativa e os aspectos
e ordenamento do território, onde e se económicos e demográficos foram secun­
houvesse tais princípios. Isto resultou no darizados, naturalmente a noção de urba­
rápido aumento de áreas de residência nização como um processo complexo de
urbana consideradas informais e onde as transformação social, espacial e econó­
condições de vida são precárias. Por outro mica fica debilitada.
lado, Araújo (2003) considera que os Em 1986 teve lugar mais uma (re)clas­
migrantes transportavam os seus hábitos si­ficação territorial e os espaços urbanos,
rurais para os assentamentos urbanos, foram (re)classificados em quatro níveis,
contribuindo para a degradação do parque a saber: nível A, a cidade capital, Maputo;
imobiliário e ocupação informal do solo nível B, as cidades de Beira e Nampula,
urbano. Porém é preciso notar que foi dada a sua importância regional; nível C
precisamente a incapacidade dos gestores as demais cidades capitais provinciais e as
dos espaços urbanos em integrar no cidades cuja dimensão histórico­‑cultural
sistema sócio-económico urbano que nacional e universal assim como impor­
precipitou que os migrantes não somente tância económica têm interesse nacional
mantivessem o modo de vida rural como e regional; e por fim nível D, os demais
estratégia de sobrevivência, quando e onde centros urbanos do país, cujo grau de
fosse possível, mas desenvolvessem outras desenvolvimento é relevante para o
estratégias, sobretudo consideradas infor­ desenvolvimento local (Pililão, 1989).
mais como alternativa para sobrevi­vência. Os critérios administrativos sendo os
A primeira (re)classificação dos espa­ mais relevantes na definição de espaços
ços urbanos Moçambicanos teve lugar urbanos em Moçambique classificaram
em 1979. Nessa (re)classificação consi­ automaticamente as 10 cidades capitais
derou-se como critério base o grau de das então 10 províncias como espaços
desenvolvimento alcançado pelos centros urbanos. Dado que há outras cidades que
urbanos, particularmente a complexidade não sendo capitais provinciais têm um
da sua vida política, económica, social e peso importante não somente pelo peso
cultural; densidade populacional e tipo demográfico, mas também económico
de indústria, comércio, actividades sani­ estas também tiveram que ser classificadas
iberografias 13 2017

tá­rias, educativas, culturais e desportivas como cidades (Veja Figura 1).
(Pililão, 1989: 109). Com base nesses Independentemente das enormes dis­
critérios os espaços urbanos foram classi­ paridades que caracterizavam as diferentes
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
165 Rogers Hansine

cidades com o estatuto de capital de cidades e as vilas são irreconciliáveis.
província, todas foram consideradas Igualmente, no caso dos municípios,
centros urbanos. Por exemplo, a diferença Nuvunga (2012), explica que com a
entre a cidade da Matola e a cidade de aprovação da Lei 2/97, em 1997, que é a
Lichinga, capital da província do Niassa Lei das Autarquias Locais em Moçam­
não abrange somente os aspectos demo­ bique a definição dos assentamentos que
gráficos onde Matola possui uma popu­ teriam o estatuto de Autarquia Municipal
lação 6 vezes superior que a de Lichinga. teve que ser elaborada. Igualmente, foram
Em termos do sector de actividade (re)classificados as 23 cidades Moçambi­
económica dominante a cidade da Matola canas e outras 10 vilas como municípios.
é industrial enquanto Lichinga é uma Contudo ao longo do tempo o número
cidade agrícola. Apesar destas diferenças, de autarquias municipais foi aumentando.
ambos assentamentos foram definidos Em 2008, 10 vilas foram reclassificadas
como espaços urbanos por conta de serem como autarquias e em 2013 seguiu-se a
ambas capitais das respectivas províncias. aprovação de mais 10 vilas. No total o
Em 1997, realizou-se o segundo país conta com 53 municípios. No recen­
Recenseamento Geral da população, seamento de 2007 o número de assen­
sendo o primeiro depois do fim da guerra tamentos urbanos que foi definido em
em 1992, portanto a noção de espaço 1997 permaneceu inalterado.
urbano teve de ser actaulizada. O Insti­ Se os critérios para definição de
tuto Nacional de Estatística de Moçam­ espaços urbanos têm sido meramente
bique definiu que os espaços urbanos em administrativos, no caso das autarquias
Moçambique são constituídos por 23 municipais estas foram definidas com
cidades e 68 vilas espalhadas pelo país base nos seguintes critérios: grau de
(INE, 1999; INE, 2010). Se as disparida­ desenvolvimento sócio-económico, a
des entre as cidades são enormes, porém loca­lização geográfica, o tamanho da
todas sem excepção são consideradas população, interesses de ordem nacional
espaços urbanos, as disparidades entre as ou local, razões de ordem histórica e

Figura 1 As 23 cidades
iberografias 13 2017

Moçambicanas por número
de habitantes segundo os
censos de 1997 e 2007
Fonte: INE (1999) e INE (2010)
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
Rogers Hansine 166

cultural. A disparidade entre os espaços profundo e complexo (Dyson, 2011).
urbanos Moçambicanos e as disparidades Do ponto de vista social e cultural é rele­
entre os municípios é alarmante e difícil vante que adopção, produção e reprodu­
de interpretar o que levanta a questão ção de valores, hábitos e comportam
sobre que indicadores são usados nesse distintos do modo de vida rural tenha
processo. Por exemplo comparando os lugar. Do ponto de vista de planificação
espaços urbanos como a cidade de do uso e ordenamento do solo as activi­
Maputo com 1.2 milhões de habitantes e dades típicas do sector agrícola de subsis­
com elevada complexidade da vida social, tência e as formas de uso e aproveitamento
económica e política e a Vila de Metan­ da terra rurais devem dar lugar a activi­
gula no Niassa com cerca de 15 mil dades relacionadas com a industrialização
habitantes que se dedicam a agricultura e ou com o sector terciário, forçando a
a pesca é ininteligível o facto de com estas deslocação da forca de trabalho do sector
diferenças ambos serem definidos como primário para os outros sectores. Do
espaços urbanos e como municípios. ponto de vista de infraestruturas e equi­
Estas ambiguidades em volta da questão pamentos públicos o seu aumento e
do que é um espaço urbano e como tal densificação devem ser persistentes quan­
espaço é definido tornam problemática a do o aumento demográfico tem lugar.
interpretação da relação entre urbanização Consequentemente, considerar a urbani­
e fecundidade e o crescimento urbano e a zação como meras mudanças quantitativas
fecundidade no contexto Moçambicano. do ponto de vista demográfico devido ao
aumento da população urbana, sobretudo
pelo aumento de espaços considerados
3. Espaços urbanos e a fecundidade
urbanos, como sucede em Moçambique,
Não é a mera concentração da popula­ contribuí para uma noção de urbanização
ção num determinado assentamento que no mínimo deturpada, pois está disso­
o leva a transforma-se em espaço urbano. ciada de mudanças estruturais e qualita­
Nem tão pouco o aumento da população tiva em termos económicos, espaciais e
que vive em espaços definidos como sócio-culturais. (Veja Figura 2)
urba­nos significa urbanização. O aumen­ O facto de definição de espaços urba­
to de espaços definidos como urbanos é nos ser feita com base em critérios admi­
um factor importante para a urbanização, nistrativos e a urbanização corresponder
assim como é o crescimento da população a mera acumulação de pessoas nesses
que reside nesses espaços, porém ambos espaços oculta aspectos importantes. Em
devem ser acompanhado a pari passu por primeiro lugar, o sector primário conti­
um processo de transformação estrutural nuam sendo o sector económico mais

Figura 2 Evo­lução
da população
urbana e da
taxa de urbani­
zação em
iberografias 13 2017

Moçambique
(1960-2015)
Fonte: Banco
Mundial (2017)
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
167 Rogers Hansine

dominante nos espaços urbanos e em comparar a evolução da repartição da
segundo lugar o sector industrial e o dos população activa por ramos de actividades
serviços são incipientes. De acordo com económicas nas áreas urbanas, todavia é
os dados do Inquérito do Orçamento evidente que o peso do sector primário
Familiar em 2002/3 (IOF, 2002/3), em na economia nos espaços urbanos Moçam­
Moçambique cerca de 47.8% da força de bicanos é substancial. Outrossim, no que
trabalho urbana estava ocupada na agricul­ diz respeito ao ramo industrial os dados
tura, silvicultura e pescas, seguida de do IOF 2002/3 e do IOF 2014/15
“comércio e vendas” (formal e infor­mal), indicam que a proporção da força de
com 18.2% e “serviços” com 15.1% trabalho empregue no sector industrial
(INE, 2004). Embora o IOF de 2014/15 nos espaços urbanos moçambicanos é
mostre a mesma tendência na distribuição insípida sendo 1.8% em 2002/3 e 8.1%
da força de trabalho urbana, a diferença é em 2014/15. (Veja Figura 3)
que a força de trabalho empregue no Dyson (2011), reconheceu que está é
sector de “outros serviços” cresceu passan­ uma diferença muito importante quando
do para 29.9% e proporção de força de se trata de estabelecer alguma conexão
trabalho na agricultura, silvicultura e entre urbanização e o declínio da fecun­
pescas reduziu passando para 27.4% en­ didade em África comparando-a com os
quanto o “comércio e finanças” ocupava países desenvolvidos. Diz ele, enquanto
21.3% da força de trabalho (INE, 2015). nas nações desenvolvidas a industria­
Os dados do IOF devem ser inter­ lização, a urbanização e o declí­nio da
pretados com muita cautela tendo em fecundidade caminharam lado-a-lado,
conta como foram definidas as categorias em África o que quer que seja que se
dos ramos de actividade económica. Em chama urbanização precede a industria­
2002/3 o sector de “comério e vendas” lização e os dados existentes não permitem
incorporou o formal e o informal e em concluir se a fecundidade tem estado a
2014/15 esta categoria foi redefinida reduzir por conta da urbanização (idem).
como “comércio e finanças” (formal e Portanto, interpretar a relação entre a
informal). Por outro lado, o sector urbanização e a fecundidade e o cresci­
“outros serviços” em 2002/3 e “serviços” mento urbano e fecundidade no contexto
em 2014/15 compreendem várias activi­ Moçambicano não é fácil. Os critérios
dades que no caso de 2002/3 não incluía empregues para identificar os espaços
a banca e actividade financeira, mas no urbanos permitem medir o ritmo de
IOF 2014/15 a actividade financeira foi crescimento demográfico e analisar do
associada ao comércio (formal e infor­ ponto de vista estatístico a relação entre o
mal). Estas alterações tornam difícil crescimento demográfico urbano e a

Figura 3 Repartição
da população
economicamente
activa pelos
principais ramos
de actividade
económica nos
iberografias 13 2017

espaços urbanos
em Moçambique
Fonte: INE (2004) e
INE (2015)
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
Rogers Hansine 168

redução da fecundidade. Contudo, anali­ formal (11.5%) que as mulheres rurais
sar as transformações estruturais que vêm (2.3%).
tendo lugar nesses espaços e comparar Ainda que, estas diferenças sejam
estes espaços entre si em termos da sua impor­tantes para interpretar as dispari­
natureza urbana é extremamente difícil dades da fecundidade entre o urbano e
dado os critérios para definição de espaços rural, elas estão longe de reflectir dife­
urbanos em Moçambique e os dados renças entre urbanidade e ruralidade. Por
estatís­ticos disponíveis. exemplo, embora a proporção de adoles­
Portanto, a relação estatística que se centes (15-19 anos) que já começaram a
pode estabelecer entre a dinâmica de procriar seja menor no meio urbano
crescimento demográfico nos espaços (30.8%) que no meio rural (41.5%), a
urbanos Moçambicanos e a fecundidade percentagem de adolescentes grávidas
não traduz a relação entre urbanização e a segundo o IDS (2011) foi de 5.4% na
fecundidade. É imperioso analisar a cons­ área urbana e 9.8% na área rural.
trução do conceito do espaço urbano em Adicionalmente, 25.4% das adolescentes
Moçambique para responder satisfato­ nos espaços urbanos tiveram um nasci­
riamente em que medida a urbanização e mento vivo enquanto nos espaços rurais a
a fecundidade estão relacionadas. proporção foi de 31.7%. Quanto às
Os estudos sobre a fecundidade no intenções reprodutivas, embora entre as
contexto Moçambicano, indicam que a mulheres urbanas a taxa de fecundidade
taxa de fecundidade nacional diminui desejada seja de 3.8 filhos e entre as
ligeiramente tendo passado de 7 filhos mulheres rurais de 5.8 filhos a idade
para 6 filhos entre 1960 e 2011, média ao nascimento do primeiro filho
respectivamente; e actualmente a fecundi­ das mulheres urbanas é de 19.4 anos e
dade urbana (4.5 filhos por mulher) é das rurais é 19.2 anos. Estas diferenças
menor que a fecundidade rural (6.6 não são significativamente importantes
filhos). Ademais aquela tem vindo a redu­ para diferenciar o urbano do rural em
zir significativamente, sobretudo desde termos de comportamento reprodutivo
1980, em comparação com a fecundidade e, portanto, assumir que a transição
no resto do país (INE e MISAU, 2011; demo­gráfica começa nos espaços urbanos
Muanamoha e Arnaldo, 2013). antes de propagar-se para outros lugares
Há diferenças importantes no que como reflexo de urbanidade.
toca aos determinantes da fecundidade e Como já foi notado em alguns estudos
ao contexto social, cultural e económico a população africana serve-se dos métodos
que afectam o comportamento reprodu­ contraceptivos para espaçar os nasci­
tivo entre as moçambicanas urbanas e as mentos e não para limitá-los (Caldwell
moçambicanas rurais (INE e MISAU, et al., 1992; Mbacke, 1994). Num con­
2011). Os dados do IDS 2011 (idem), texto como o Moçambicano em que o
revelam que o uso de métodos contra­ urbano é distinto do rural por critérios
ceptivos modernos é maior entre as meramente administrativos as evidências
mulheres urbanas casadas (21.6%) que para afirmar que a transição demográfica
entre as mulheres rurais casadas (7.4%); a tende a ter início nos espaços urbanos
proporção de mulheres sem nenhuma como efeito da urbanização são frágeis,
escolarização é menor na área urbana sobretudo tendo em conta as signi­
(13.3%) que na área rural (40.8%); ficativas semelhanças do comportamento
iberografias 13 2017

as mulheres urbanas têm níveis de parti­ reprodutivo salvo a exceção no uso de
cipação maior no mercado laboral contraceptivos, educação e emprego que
se explicam pela maior oferta e acessi­
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
169 Rogers Hansine

bilidade no espaço urbano e não necessa­ Em outros contextos de países menos
riamente pela demanda. desenvolvidos foi observado que a urba­
Estando estatuído que a população nização pode levar a opção por limitar
urbana é aquela que reside em 23 cidades nascimentos como forma de enfrentar a
e em 68 vilas espalhadas pelo país, a dura realidade da pobreza urbana
relação entre urbanização e fecundidade (Gurmu & Mace, 2008; Knodel et al.,
torna-se difícil de identificar, não somente 1984). Desse modo a possibilidade
devido aos critérios administrativos defendida por Strulik & Vollmer (2010),
empregues para definição de espaços segundo a qual a escolha por uma família
urbanos, mas sobretudo ao processo de menor, controlando os nascimentos, é o
reclassificação urbana que levou a que destino de todos os países quer sejam
cidades e vilas com diferenças extremas mais industrializados ou menos industria­
como a cidade capital Maputo e a vila lizados, mais modernos ou menos moder­
pesqueira e agrária de Metangula no nos e mais urbanizados ou menos urbani­
Niassa sejam classificadas como espaços zados.
urbanos. Os critérios administrativos De facto, além de permanecer vaga a
podem ser suficientes e relevantes para questão fundamental sobre qual é a
identificar espaços urbanos, mas não natureza do espaço urbano em Moçam­
respondem à questão fundamental sobre bique, o que é definido como espaço
a natureza dos espaços urbanos Moçam­ urbano no contexto Moçambicano não o
bicanos e o fenómeno da reclassificação seria na África do Sul, no Brasil, na
urbana torna complexa esta questão da Nigéria ou em Portugal, pois os critérios
urbanização pois, segundo Aráujo são diferentes. Entretanto o que os
(2003), em Moçambique pode-se falar indicadores estatísticos revelam quando
que há populações que foram dormir se faz a correlação entre a redução da taxa
como rurais e acordaram como urbanas, de fecundidade urbana e o aumento da
ou seja, o assentamento foi reclassificado taxa de urbanização é uma associação
como urbano por decretos legislativos estatística que pode ser encontrada em
sem que a estrutura social económica e qualquer país e sobretudo em qualquer
espacial tivesse efectivamente experimen­ outro domínio em que se relacionem
tado alterações. estatisti­camente duas ou mais variáveis
Portanto a urbanização toma apenas econó­micas e demográficas. A associação
uma dimensão administrativa que per­ esta­tística não implica uma relação causal
mite mensurar a sua dinâmica em termos entre urbanização e fecundidade.
demográficos sem apreender efectiva­
mente sua natureza transformadora.
4. Conclusão
Estas inconsistências na definição do
fenómeno urbano em Moçambique e a Neste artigo a questão analisada é a
impossibilidade de conceptualizar ine­ relação entre a urbanização e a fecundi­
quivo­camente o que é o espaço urba­no, dade no contexto Moçambicano. Esta
não são discutidas quando se faz menção questão é pertinente porque se inscreve
que a urbanização influencia o declínio no domínio das teorias de transição
da fecundidade. Por isso a relação entre a demo­gráfica e permite analisar o papel da
urbanização e a fecundidade, considerada urbanização na transição demográfica e
à luz das teorias de transição demográfica avaliar a robustez destas teorias tendo em
iberografias 13 2017

é equiparado com modernização e indus­ conta o contexto Moçambicano como
trialização. No contexto Moçambicano base empírica. O ponto de partida foram
tal equiparação é uma falácia. os dados estatísticos referentes à urbani­
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
Rogers Hansine 170

zação, ao crescimento urbano e fecun­ da urbanização e do crescimento urbano
didade e Moçambique. Segundos dados tiveram lugar em Moçambique. Entre
do Banco Mundial (2017), em 1960 a elas destacam-se a migração do campo
taxa de urbanização em Moçambique era para a cidade e o crescimento natural
de 4.8% e em 2015 passou para 32.2%. urbano que contribuíram para um rápido
Por outro lado, entre 1950 e 2011 a crescimento demográfico. Aliado a este
fecundidade Moçambicana reduziu ligei­ crescimento demográfico a reclassificação
ramente tendo passado de aproxima­ urbana teve consequências profundas no
damente 7 para cerca de 6 filhos por processo de crescimento urbano pois à
mulher em idade reprodutiva (Arnaldo, medida que aumentou o número de
2013). Esta redução foi especialmente espaços definidos como urbanos com
impulsionada pelo declínio da fecun­ base em critérios fundamentalmente
didade nos espaços urbanos onde a fecun­ administrativos, a população considerada
didade passou de 5.7 filhos por mulher urbana também aumentou e com ela a
em 1980 para 4.5 filhos em 2011 (INE, taxa de urbanização.
2009 e INE e MISAU 2011). Porém estas dinâmicas espaciais e
Para alguns defensores das teorias de demográficas não foram acompanhadas
transição demográfica estas tendências por uma transformação estrutural, social
são indícios da transição demográfica em e económica profunda nos espaços con­
Moçambique pois subscrevem o facto de siderados urbanos. Portanto o facto de a
a transição demográfica começar nos fecundidade ter decrescido à medida que
espaços urbanos antes de se alastrar para a taxa de urbanização foi aumentando
o resto do país. permite estabelecer uma associação esta­
Todavia a problemática emerge quan­ tístico-matemática entre taxa de cresci­
do se nota que não existe uma definição mento urbano e fecundidade. Inferir a
universal e inequívoca de espaços urbanos partir desta relação estatístico-matemática
e portanto, cada país estabelece os crité­ que há uma relação entre urbanização e
rios que considera válidos e suficientes fecundidade é ignorar dois factos: pri­
para definir o que são espaços urbanos. meiro o critério Moçambicano de defini­
Por outro lado, a urbanização e o cresci­ ção de espaços urbanos permite identi­
mento urbano, não são sinónimos. Uma ficar, mas não explicar a natureza dos
vez que a urbanização pressupõe a trans­ espaços urbanos; segundo, não havendo
formação do modo de vida rural para o uma definição inequívoca de espaços
modo de vida urbano, no contexto urbanos a influência da urbanização
Moçambicano nem sempre esta premissa sobre a fecundidade se torna problemática
é verificável quando se analisa o processo e dependente dos critérios usados para
de urbanização. Ademais a relação entre definir o que são espaços urbanos.
urbanização e fecundidade não é a mesma No contexto Moçambicano, o papel
que a relação entre crescimento urbano e que a urbanização joga no processo de
fecundidade. O facto de a fecundidade transição demográfica depende em
ter reduzido à medida que o crescimento primeiro lugar da análise que se fizer
urbano aumentou não implica de algum sobre o que é urbanização. Esta por sua
modo que a urbanização levou à redução vez depende de como se definem os espa­
da fecundidade. ços urbanos tendo em conta os critérios
A história da urbanização em Moçam­ empregues para tal. Fundamentalmente a
iberografias 13 2017

bique é antiga. Contudo durante o análise feita mostra que no contexto das
período pós-independência, isto é, depois teorias de transição demográfica que
de 1975, as dinâmicas mais significativas enfatizam o papel da urbanização, tal
O crescimento urbano, a urbanização e a fecundidade em Moçambique: uma análise conceptual e teórica
171 Rogers Hansine

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Tempo de viagem e distância para avaliação da
acessibilidade da população a unidade sanitária mais
Iberografias 13 2017

próxima: uma contribuição para a planificação das
infraestruturas nas áreas rurais de Moçambique
Paulo Alberto Covele
Professor e Investigadorz
Departamento de Geografia
Universidade Eduardo Mondlane
pcovele@gmail.com

Resumo termos do tipo de intervenção necessária
para o melhoramento da acessibilidades
A avaliação da acessibilidade da popu­
os resultados mostraram que: 55% da
lação é um instrumento importante na
população encontra-se a menos de 1 hora
planificação de novas infraestruturas.
da unidade sanitária mais próxima,
O presente trabalho pretende avaliar a
enquanto 20,6% encontra-se a mais de 3
acessibilidade da população aos serviços
horas. 44% da população encontra-se a
de saúde, usando tempo de viagem e
uma distância menor que 6 km de uma
distância, estimar o total da população
unidade sanitária mais próxima e 34%
em cada nível de tempo e distância e
no intervalo de 6 a 12 km. 22% está além
propor os locais para a ampliação das
dos 18 km da unidade sanitária mais
infraestru­turas sanitárias e das vias de
próxima. As províncias de Maputo, Gaza,
acesso.
Inhambane e Sofala, têm mais pessoas
O tempo de viagem foi estimado
próximas das unidades sanitárias em
usando o método de Schmidt E. (2011)
tempo e distância, enquanto Tete, Cabo
que toma em conta o revestimento e
Delgado, Nampula e Manica, têm mais
condições das estradas existentes, eleva­
pessoas longe das unidades sanitárias.
ção, uso e cobertura da terra e hidro­grafia
Há necessidade de construção de
(rios e lagos); os dados são, mais tarde,
novas unidades sanitárias nas províncias
integrados às unidades sanitárias para
de Tete, Manica, Cabo Delgado, Sofala,
calcular o tempo de viagem para a uni­
Nampula, Inhambane e Zambézia; e
dade sanitária mais próxima. A distância
necessário reabilitar estradas nas pro­
para a unidade sanitária mais próxima foi
víncias de Sofala, Tete e Nampula; por
calculada usando distâncias euclidianas,
fim devem ser construídas novas estradas
também chamadas de voo do pássaro.
em Tete, Manica e Cabo Delgado.
Combinando o resultando do tempo e
distância com dados de população por
Palavras-chave: sistemas de informação
aldeia, foi estimado o total da população
geográfica; análise espacial; acessibilidade
por tempo e distância para a unidade
a serviços.
sanitária mais próxima e a previsão em
iberografias 13 2017
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
Paulo Alberto Covele 174

Introdução da população aos serviços da saúde: rácio
provedor/população, distancias e tempo,
População saudável e acesso aos cuida­
e modelo de gravidade (Unal, 2007). O
dos de saúde são factores significantes
rácio provedor/população, mede a capa­
que influenciam o desenvolvimento
cidade das unidades sanitárias por tama­
econó­mico e prosperidade (Eda Unal,
nho da população dentro de uma unidade
2007). O conhecimento do nível de
administrativa, por exemplo o número
acessibilidade da população aos serviços
de unidades sanitárias por Distrito; o
de saúde, é um instrumento importante
modelo de distâncias usa geralmente
na planificação de novas infraestruturas. distâncias euclidianas ou em linha recta,
A acessibilidade aos serviços de saúde é também chamado voo do pássaro, a
um conceito multidimensional e pode partir de cada unidade sanitária até cobrir
ser definida como a habilidade da popula­ a área de estudo, assim a cada aldeia ou
ção em obter os serviços de saúde (Eda casa será atribuída a distância onde se
Unal, 2007); o conceito está relacionado encontra em relação à unidade sanitária
com a habilidade e desejo dos clientes em mais próxima; a avaliação do tempo é
entrar no sistema de cuidados de saúde feita usando análise de redes, baseada
(Thomas 1981, citado por Higgs, 2005). princi­palmente no tempo de viagem
A avaliação de acesso aos serviços de pelas estradas ou a partir de análise espa­
saúde requere acesso socio-organizacional cial, onde elementos como relevo, uso e
(não espacial) e geográfico (espacial) cobertura da terra, e hidrografia são
(Owen et al., 2010). O acesso sócio-orga­ modelados juntamente com as estradas
nizacional, inclui os atributos que para avaliar o tempo de viagem para a
limitam ou facilitam o acesso aos serviços unidade sanitária mais próxima. O pre­
de saúde e podem ser factores do lado da sente artigo está mais focado na acessi­
demanda/procura, como rendimento da bilidade geográ­fica, na componente do
família, factores culturais e psicológicos, acesso potencial. O objectivo final do
conhecimento de saúde ou do lado do artigo é contribuir na definição de uma
fornecimento como: tipo de facilidades, metodo­logia prática para a planifi­cação
custo, disponibilidade de medicamentos e das infra­estruturas de saúde e estradas:
outros suprimentos, atitude dos trabalha­ locais para a construção de unidades
dores e tempo de espera. O acesso sanitárias, cons­trução de novas estradas e
geográfico é definido como a disponi­ reabilitação das estradas existentes.
bilidade dos serviços de saúde num O artigo divide se em 3 partes: Na
tempo de viagem razoável das residências. introdução fez-se uma contextualização
Uma hora tem sido o tempo usado da pesquisa, seguida pela caracterização
(Owen et al., 2010). da área de estudo; mais tarde faz-se uma
Considerando a acessibilidade geográ­ descrição dos dados e da metodologias
fi­ca, (Guagliardo, 2004, citado por Eda usadas no trabalho para depois apresentar­
Unal, 2007) faz mais subdivisão entre ‑se os resultados e discussão. Por fim são
acesso potencial e realizado. O acesso apresentadas as conclusões e recomen­
potencial está relacionado com a distância dações.
e disponibilidade dos serviços de saúde,
sem se interessar com a sua real utilidade,
Área de estudo
assunto tratado nos estudos da utilização
iberografias 13 2017

(acesso realizado). O estudo foi realizado em Moçambi­
Existem muitas técnicas usadas para que (Mapa 1), um país tropical localizado
avaliar a disponibilidade e acessibilidade no Sul do equador, na região da África
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
175 Paulo Alberto Covele

Austral com uma superfície de 789.700 km2. avaliação do tempo de viagem. As estradas
Em termos astronómicos situa-se entre foram usadas para a estimativa da veloci­
10 28’ 19’’S e 26 51 59S e 30 12’ 43E e dade por carro, enquanto que os factores
40 50’ 26’’E. Possui uma população de ambientais contribuíram para a veloci­
20 milhões de habitantes em 2007, com dade de viagem fora das estradas (isto é a
as províncias de Zambézia e Nampula as pé), As unidades sanitárias funcionam
mais populosas. como targets (alvos) sobre os quais se
determina o tempo de vigem e distância
Dados e metodologias
para a unidade sanitária mais próxima.
A avaliação do tempo de viagem é O mapa da população por aldeia foi
feita usando o mapa das estradas, factores usado para o cálculo da população por
ambientais, nomeadamente relevo, hidro­ cada tempo e distância para a unidade
grafia (rios e lagos) e uso e cobertura da sanitária mais próxima. Todo o processa­
terra, unidades sanitárias e população por mento, análise e representação espacial,
aldeia. As estradas e os factores ambientais foi feito usando modelação cartográfica
são os principais dados de entrada para a num programa de Sistema de Informação
iberografias 13 2017

Mapa 1. Localização
de Moçambique
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
Paulo Alberto Covele 176

Geográfica (GIS) chamado ArcGIS na Avaliando o comportamento das
sua versão 10.4, usando a extensão Spatial variáveis revestimento, condições e densi­
Analyst. Os dados estatísticos foram dade, dentro de cada província, nota-se
processados no Ms Access e Ms Excel. que em termos de revestimento, as
províncias de Sofala (33%), Tete (26,5) e
Maputo (26,3), possuem maior percen­
Comprimento, revestimento, condições
tagem das estradas pavimentadas e as
e densidade das estradas
províncias de Gaza (75%), Nampula
As condições, comprimento, revesti­ (74,5%) e Niassa (72,3%) possuem
mento e densidade das vias de acesso são maior extensão do seu território com
determinantes para o cálculo final do estradas não pavimentadas (Tabela 1).
tempo de viagem e distância para a uni­ Em relação às condições, Manica
dade sanitária mais próxima, daí a (30,1%), Inhambane (21,96%) e Tete
necessidade de sua análise mais detalhada. (18,9%), possuem a maior percentagem
Segundo os levantamentos de 2012, de estradas boas, em relação às outras
Moçambique possui 29.615 km de províncias. As estradas com más condi­
estradas das quais 6.137,9 km (20,73%) ções cobrem mais as províncias de Niassa
são pavimentados e 20.457 (69%) não (36,8), Zambézia (36,1) e Maputo
são pavimentadas. 4.384,49 km (14%) (34,4). Em termos de densidade de
estão em boas condições, 14.748,18 km cobertura, as províncias de Maputo
(49,8%) estão em condições razoáveis e (6,94), Nampula (5,25) e Gaza (4,19)
7.712,48 km (26%) estão em más possuem maior densidade de cobertura
condições. O Gráfico 1 abaixo mostra a de estradas (Tabela 2).
relação entre o comprimento, revesti­ A avaliação do tempo de viagem para
mento e condições das estradas em a unidade sanitária mais próxima foi feita
Moçambique. Em termos de densidade em 4 fases: I – Produção do mapa de
(comprimento de estradas por 100 km2 fricção das estradas; II – produção do
de terra), Moçambique tem uma média mapa de custo; III – produção do mapa
de 3,8 km/100 km2 de massa de terra, do tempo de viagem para a unidade sani­
uma das mais baixas do mundo1. tária mais próxima e IV – estimação to
total da população por tempo de viagem
https://knoema.com/atlas/ranks/Road-density
1 à unidade sanitária mais próxima.
acedido d 13/08/17.

Gráfico 1. Comprimento, revestimento e condições de estradas em Moçambique
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Fonte ANE 2012 Processado pelo autor com base em GIS
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
177 Paulo Alberto Covele

Tabela 1. Percentagem de revestimento das estradas por província 2012
Província Pavimentada Não pavimentada Misturado Desconhecido
Niassa 13,68 72,32 0,00 14,00
Cabo Delgado 20,26 64,80 2,16 12,78
Nampula 12,60 74,50 0,00 12,90
Zambézia 17,98 71,00 0,40 10,63
Tete 33,03 60,22 0,00 6,74
Manica 20,03 65,80 2,09 12,08
Sofala 26,53 67,28 0,00 6,19
Gaza 23,88 75,22 0,00 0,90
Inhambane 22,99 69,29 0,00 7,22
Maputo 26,35 64,28 7,45 1,93
Total 20,73 69,08 0,85 9,34
Fonte: ANE processado no computador usando GIS

Tabela 2. Condições, comprimento e densidade de estradas por província
Muito Desconhe­ Comprimento Densidade
Província Boa Razoável Má
má cido (km) (km/km2)
Niassa 7,86 41,28 36,86 0,00 14,00 3.602,58 2,94
Cabo Delgado 13,93 43,35 29,95 0,00 12,78 2.823,70 3,62
Nampula 10,29 46,55 30,26 0,00 12,90 4.101,71 5,25
Zambézia 10,75 42,46 36,10 0,07 10,63 4.233,89 4,11
Tete 18,90 49,80 24,56 0,00 6,74 2.903,00 2,88
Manica 30,12 52,84 4,96 0,00 12,08 2.498,16 4,01
Sofala 11,31 71,52 10,98 0,00 6,19 2.397,57 3,54
Gaza 12,74 68,39 17,97 0,00 0,90 2.879,92 4,19
Inhambane 21,96 47,75 22,58 0,00 7,72 2.535,22 3,36
Maputo 18,48 45,20 34,40 0,00 1,93 1.639,25 6,94
Total 14,80 49,80 26,04 0,01 9,34 29.615,00 3,80

A produção do mapa de fricção foi camada/mapa dos rios foi atribuída uma
feita combinando a classe da estrada média do tempo de travessia de 4 km/h.
(primária, secundária, terciária e vicinal), A camada dos lagos foi dado a média de
as condições e tipo de cobertura (asfaltada tempo de travessia de 6 km/h. Já que a
e não asfaltada). Foi possível, com ajuda cobertura da terra consiste de vários
de informação pré-definida pela ANE, tipos, como forma de torná-lo simples e
atribuir a cada troço da estrada uma velo­ mais lógico foi atribuída uma velocidade
cidade média para o carro (km/h). A velo­ média de 4 km/h. A grelha do relevo foi
cidade foi depois convertida em min/km, ajustada como factor em vez de usá-lo
calculando o tempo que o carro leva para como grelha separado de custo. Este é
atravessar 1 km de estrada. Tendo esta usado como multiplicador para as outras
infor­mação, seguiu o processo da produ­ componentes de atrito O factor do decli­
ção do mapa de custo. Este mapa resulta ve foi ajustado com base na fórmula de
da integração dos factores ambientais Van Wagtendonk ss Benedict (1980):
(rios, lagos, relevo e uso e cobertura da v = v0 e − ks
iberografias 13 2017

terra) ao mapa de fricção das estradas. Onde
Às camadas ambientais foram atri­ v = velocidade a pé fo a da Estrada em
buídas velocidades fora da estrada. A terreno declivoso
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
Paulo Alberto Covele 178

v0 = a velocidade base de travessia num tempo e distância, relativamente à uni­
terreno plano, 4 km/h neste caso dade sanitária mais próxima. Cerca de
s = gradiente de declive (metros por 56% do território encontra-se em áreas
metro) com mais de 3 horas de viagem para a
k = um factor que define o efeito do unidade sanitária mais próxima e apenas
declive na velocidade da viagem. 21,5% encontra se a menos de 1 hora
(Gráfico 2a). 61% do território nacional
Os mapas de fricção das estradas e dos encontra-se a mais de 18 km de uma
factores ambientais, foram combinados unidade sanitária mais próxima e apenas
numa ordem hierárquica (estradas, rios, 14% está a menos de 6 km (Gráfico 2b).
lagos e uso e cobertura2) para produzir o
mapa de custo. Este mapa calcula o custo
acumulado de viagem de cada célula para
a fonte mais próxima.
Os dados das unidades sanitárias
foram incluídos como alvos para a deter­
minação do tempo de viagem. Usando as
(a)
unidades sanitárias como alvos, foi possí­
vel calcular o tempo de viagem de cada
local para a unidade sanitária mais pró­
xima. Usando o mapa da população por
aldeia, estimou-se o total da população
por cada tempo de viagem para a unidade
sanitária mais próxima.
O mapa das distâncias para a unidade (b)

sanitária mais próxima foi produzindo
Gráfico 2. Território nacional por tempo (a) e
usando distâncias Euclidianas. As distân­
distância (b) para a unidade sanitária mais
cias euclidianas consideram distâncias próxima
em linha recta (chamadas voo do pássaro),
numa área sem obstáculos. Usando o Existe uma diferenciação espacial no
mapa das aldeias registadas no censo tempo de viagem para a unidade sanitária
2007, foi possível determinar o total da mais próxima (Mapa 2). As áreas de
população em cada tempo e distância maior tempo de viagem cobrem a maior
para a unidade sanitária mais próxima. parte das províncias de Gaza (parte
Oeste3 e Noroeste), Tete (quase toda a
Resultados província, mas com maior intensidade na
parte Sul e Ocidental) e Niassa (na sua
Território nacional por tempo e distância parte Norte, ocupado pela reserva do
para a unidade sanitária mais próxima Niassa). Outros locais com maior tempo
Os resultados mostram que maior de viagem incluem a parte Oeste de
parte do território está distante, em Inhambane e Cabo Delgado, Nordeste e
Sul da província de Sofala e Sul da
Esta ordem significa que se num local existe certo
2 província de Zambézia. Menor tempo de
tipo de uso e cobertura de terra e passa la uma viagem abrange maior parte do Sul do
iberografias 13 2017

estrada, a velocidade a ser considerada será da país: quase toda a província de Maputo e
estrada. O mesmo acontece entre estradas e rios,
se a estrada passa em cima do rio, quer dizer que
existe uma ponte, assim os carros não precisam 3
Referenciar que a parte Oeste de Gaza é ocupada
reduzir a velocidade de modo a atravessar o rio. pelo Parque transfronteiriço de Limpopo.
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
179 Paulo Alberto Covele

Mapa 2. Tempo de viagem
para a unidade sanitária
mais próxima

as partes costeiras de Gaza e Inhambane; Inhambane, possuem maior distância em
outras áreas abrangem o corredor da Beira, relação a unidade sanitária mais próxima4.
atravessando a província de Manica até à
Cidade da Beira, na área do limite das
População por tempo e distância para a
províncias de Tete, Sofala e Zambézia e
unidade sanitária mais próxima
as zonas costeiras de Nampula e Cabo
Delgado. Duma forma gral, as unidades sanitá­
O padrão da distância para a unidade rias acompanham a distribuição da popu­
sanitária mais próxima (Mapa 3), é lação. 55% da população encontra-se a
similar ao do mapa do tempo de viagem, menos de 1 hora da unidade sanitária
maior parte dos locais com maior tempo mais próxima enquanto que 20,6%
de viagem à unidade sanitária mais próxi­ encontra-se a mais de 3 horas da unidade
ma estão também longe da unidade sanitária mais próxima (Gráfico 3a). 44%
sanitária mais próxima. Contudo algumas da população encontra-se a uma distância
áreas com maior tempo de viagem, como menor que 6 km de uma unidade sani­
são os casos do Nordeste de Sofala e Sul tária mais próxima e 34% no intervalo de
da Zambézia, possuem pequena distância 6 a 12 km. 22% está além dos 18 km da
em relação a unidade sanitária mais uni­dade sanitária mais próxima (Gráfico
próxima. Ao contrário, algumas áreas
iberografias 13 2017

3b).
com pequeno tempo de viagem, como
são os casos da parte costeira Norte de
Inhambane e no limite Sul de Gaza com 4
Este assunto será discutido mais tarde.
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
Paulo Alberto Covele 180

Mapa 3. Distância para a
unidade sanitária mais
próxima

Avaliando estes resultados, nota-se
claramente que não há uma relação
directa entre o tempo de viagem e a
(a) distância em relação à unidade sanitária
mais próxima. Desta forma, a maior
acessibilidade da população por tempo
para a unidade sanitária mais próxima,
pode ser aparente. Embora mais de 55%
da população esteja a menos de uma hora
da unidade sanitária mais próxima, cerca
de 60% da população está a uma distância
(b)
de 6 a 12 km da unidade sanitária mais
próxima (distância para além da admis­
sível para caminhada indicando a necessi­
dade de uso de carro para a unidade
sanitária mais próxima. Se tomarmos em
Gráfico 3. População por tempo de viagem (a)
conta que muitas das pessoas poderão ir a
e distância (b) para unidade sanitária mais pé para o hospital pode-se notar que a
iberografias 13 2017

próxima maioria das pessoas estão longe da unida­
de sanitária mais próxima.
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
181 Paulo Alberto Covele

Acessibilidade por província maior parte da sua população a menos de
6 km da unidade sanitária mais próxima,
Analisando a acessibilidade por tempo
enquanto Tete (30%), Cabo delgado
e por província (Tabela 3), os resultados
(37%) e Manica (42%), possuem menor
indicam que as três províncias do Sul do
número da sua população a menos de 6
país (Maputo, Gaza e Inhambane) com
km da unidade sanitária mais próxima
78%, 74% e 68%, respectivamente,
(tabela 4).
possuem a maior percentagem da popu­
Fazendo uma análise comparativa entre
lação, nas suas províncias, vivendo a
o tempo de viagem com a distância, nota
menos de 1 hora de viagem para a
se Maputo e Gaza, continuam tendo
unidade sanitária mais próxima. Tete
maior número da sua população com
(43%), Cabo Delgado (50%) e Nampula
menos de 1 hora da unidade sanitária
(51%), possuem a percentagem mais
mais próxima e com menos de 6 km para
pequena de população com menos de
uma unidade sanitária mais próxima. Isto
1 hora em relação à unidade sanitária
pode mostrar uma boa distribuição das
mais próxima (Tabela 3).
infraestruturas de saúde e das vias de
Analisando a acessibilidade por dis­
acesso para transportar as pessoas para
tância e por província, Maputo (66%),
estes serviços. Pelo contrário, Inhambane
Gaza (62%) e Sofala (50%) possuem
quando comparada em ralação à distância

Tabela 3. Percentagem da população por tempo de viagem para a unidade sanitária mais próxima
por província 2012
Província/Tempo < 30 min 1 2 3 4 5 >5 h
Niassa 40,66 20,08 23,17 9,78 3,71 2,12 0,47
Cabo Delgado 31,58 19,03 25,93 11,30 5,79 3,19 2,89
Nampula 31,84 20,10 28,08 13,20 4,47 1,91 0,21
Zambézia 27,61 25,13 26,14 9,57 6,22 2,26 2,99
Tete 25,34 17,89 23,95 14,20 6,78 3,21 7,76
Manica 38,25 17,68 18,75 12,07 5,99 4,56 2,70
Sofala 32,24 20,58 23,57 13,46 6,41 1,49 1,63
Inhambane 40,28 23,34 20,72 8,43 4,00 1,46 1,67
Gaza 47,90 26,38 15,91 5,39 1,80 1,23 1,39
Maputo 52,59 25,81 16,01 3,83 1,62 0,11 0,02
Total 33,50 21,57 24,13 10,92 5,07 2,28 2,30

Tabela 4. Percentagem da população por distância para unidade sanitária mais próxima por
província 2012
Província/Distância < 3 km 6 12 18 24 30 > 30 km
Niassa 28,05 20,67 37,25 10,13 3,29 0,39 0,24
Cabo Delgado 16,39 20,55 33,05 17,00 10,46 2,24 0,31
Nampula 20,71 24,14 36,91 14,07 3,27 0,71 0,07
Zambézia 14,42 26,89 36,29 13,09 5,93 2,23 1,14
Tete 12,94 17,65 33,70 20,95 7,38 3,59 3,78
Manica 18,68 23,33 27,97 21,31 5,68 2,53 0,51
Sofala 21,74 29,13 34,78 10,52 2,66 0,28 0,72
Inhambane 14,13 29,75 34,41 12,94 5,82 1,25 1,70
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Gaza 28,62 33,91 25,10 7,67 2,57 1,18 0,95
Maputo 33,72 32,37 23,06 8,36 1,75 0,73 0,00
Total 18,97 25,09 33,96 14,16 5,18 1,63 0,96
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
Paulo Alberto Covele 182

para a unidade sanitária mais próxima, tempo e distância em que cada aldeia se
perde o terceiro lugar, passando para o encontra em relação à unidade sanitária
7.º lugar, isto pode mostrar uma fraca mais próxima. Deste modo, cada aldeia
distribuição das infraestruturas de saúde, passa a ter 3 atributos importantes: o
mas com uma melhor distribuição e total da população da aldeia; o tempo em
condições das vias de acesso. que a aldeia se encontra em relação à
Relativamente aos piores, as províncias unidade sanitária mais próxima e a
de Tete e Cabo Delgado ocupam o último distância para a unidade sanitária mais
lugar, tanto em termos da percentagem próxima. Os dados foram exportados
da população com menos de 1 hora em para Excel e usando pivot table produziu­
relação ªa unidade sanitária mais próxima, ‑se uma tabela/matriz de duas entradas
como em termos da percentagem da da relação destas 2 unidades e da popu­
população a menos de 6 km para a uni­ lação (Tabela 5).
dade sanitária mais próxima. Isto pode As colunas indicam a variação da
estar a demostrar uma fraca distribuição popu­lação nos diferentes níveis de distân­
tanto das infraestruturas sanitárias como cia em relação à unidade sanitária mais
das vias de acesso (densidade e condições). próxima, com o mesmo tempo de viagem.
A província de Nampula subiu 3 degraus, Por exemplo 465.6530 habitantes encon­
estando na 6.ª posição mostrando uma tram-se a 30 minutos da unidade sanitária
boa distribuição das infraestruturas de mais próxima, contudo elas estão a dis­
saúde, embora com uma rede de estradas tâncias diferentes, 2.293.957 estão a 3 km,
relativamente fraca ou degradadas. 1.245.343 estão a 6 km, assim sucessi­
vamente. As linhas indicam o total da
população nos diferentes níveis de tempo
Tempo de viagem e distância para a uni­
mas a uma distância constante, por
dade sanitária mais próxima: contribui­
exemplo, considerando a distância de
ção para a planificação das infraestruturas
18 km, nota-se que 1.967.668 habitantes
Os resultados da análise do tempo de estão a 18 km de uma unidade sanitária
viagem e distância, podem ser usados mais próxima. Destes 162.029 estão a 30
para apoiar o processo de planificação de minutos de tempo para a unidade sani­
novas infraestruturas. Usando o mapa tária mais próxima, 315.776 estão a
das aldeias, foi possível extrair, no GIS, o 1 hora, … 160.090 está a 5 horas.

Tabela 5. Cenário do estado da população por tempo e distância para a unidade sanitária
mais próxima
Distância Total
< 30 min 1 2 3 4 5 >5
Tempo Distância
<3 2.293.957 335.624 2.235         2.636.643
1
6 1.245.343 1.341.251 897.699         3.487.192
12 933.010 926.012 1.891.540 908.913 54.179 3 316   4.719.873
18 162.029 315.766 396.655 441.014 478.572 160.090 13.542 1.967.668
24 22.191 65.678 125.462 116.207 130.682 129.150 119.994 720.596
iberografias 13 2017

30   11.797 27.402 43.445 34.892 21.938 87.302 226.776
2 4
> 30   1.823 12.526 7.563 6.894 6.020 98.308 133.134
Total Tempo 4.656.530 2.997.951 3.353.519 1.517.142 705.219 317.514 319.146 13.891.882
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
183 Paulo Alberto Covele

De seguida os dados foram distribuídos de viagem não superior a 2h]. 35% da
em 4 classes5: população encontra-se nestes locais;
1. Locais sem necessidade urgente de 3. Locais com necessidade de reabilitação
intervenção – População que se de estradas e construção de novas
encontra perto de infraestruturas de unidades sanitárias – População que
saúde e de boas estradas, onde facil­ se encontra a um tempo razoável, mas
mente pode chegar à unidade sanitária com estradas degradadas e poucas
mais próxima [um tempo máximo de infraestruturas de saúde [Distância
2 h6 e distância máxima de 6 km]. entre 12 e 18 km e tempo de viagem
Esta área cobre 44% da população superior a 3 h]. Esta área abrange 7%
nacional; da população;
2. Locais com necessidade de novas 4. Locais com necessidade de construção
infraestruturas sanitárias – População de novas estradas e novas unidades
que se encontra em locais com boas sanitárias – População que se encontra
estradas, mas com infraestruturas de em locais distantes das unidades sani­
saúde distantes, pode se chegar á uni­ tárias e com maior tempo de viagem
dade sanitária mais próxima a partir [Distância superior a 18 km e tempo
de carro, deste modo há necessidade de viagem superior a 3h]. Possui 13%
de instalação de infraestruturas sanitá­ da população.
rias nas proximidades da população de
modo que os mais desfavorecidos con­ Avaliando os 4 cenários a nível pro­
sigam chegar mesmo a pé [Distância vincial nota-se através da Tabela 6:
maior ou igual a 12 km e um tempo 1. As províncias de Maputo, Gaza e
Sofala possuem a maior percentagem
da população em locais com boas
estradas e unidades sanitárias bem
5 Pode notar-se claramente a correspondência entre
30 minutos e 3 km; 1 h e 6 km, respectivamente. distribuídas. Em quanto que Tete,
Partiu se de pressuposto que uma pessoa pode Cabo Delgado e Zambézia possuem
caminhar 6 km em 1h, 12 km em 2 h….
6 Se considerarmos que uma pessoa pode caminhar
menor número de população;
6 km/h por se considerar que nesta classe as 2. Há necessidade de construção de mais
pessoas podem continuar a chegar por 1 h, mas unidades sanitárias nas províncias da
que o mesmo seria complicado se se tivesse que
usar uma viatura (falta de estradas ou estradas
Zambézia, Cabo Delgado e Inham­
intransitáveis). bane;
Tabela 6. Percentagem da população por tipo de acções a tomar nas infraestruturas
Estradas e U. Estradas boas, Reabilitação Construção
Províncias/Estado Sanitárias bem nec. mais U. Estradas e estradas e U.
dist. Sanitárias Const. U. San. Sanitarias
Niassa 48,72 35,20 6,98 5,93
Cabo Delgado 36,89 39,65 6,11 11,68
Nampula 44,78 35,24 8,18 6,20
Zambézia 41,30 37,58 5,85 10,85
Tete 30,52 36,67 9,41 16,92
Manica 42,01 32,67 7,85 13,20
Sofala 50,41 25,99 12,04 8,92
Inhambane 43,88 40,46 4,45 7,12
iberografias 13 2017

Gaza 62,53 27,67 3,10 4,42
Maputo 66,10 28,32 1,70 1,75
Total 46,13 36,90 7,27 9,71
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
Paulo Alberto Covele 184

3. Deve-se reabilitar as vias de acesso 6 km de uma unidade sanitária mais
para depois construir unidades sani­ próxima, enquanto Tete (30%), Cabo
tárias nas províncias de Sofala, Tete e delgado (37%) e Manica (42%), possuem
Nampula; menos pessoas.
4, Novas estradas e unidades sanitárias Combinando o tempo e distância,
são necessárias nas províncias de Tete verifica-se que 44% da população nacio­
Manica e Cabo Delgado. nal encontra-se em locais com bom
acesso às unidades sanitárias; 35% da
população encontra-se em locais com
Conclusões gerais
necessidade de novas infraestruturas
O tempo de viagem foi estimado sanitárias; 7% em locais com necessidade
usando o método de Dorosh e Schidt, de reabilitação e construção de estradas e
2008 que toma em conta as estradas 13% estão em locais com necessidade de
existentes e pressupostos sobre a veloci­ construção de novas estradas e novas.
dade média de deslocação por tipo de Há necessidade de construção de
estrada, considerando também as con­ novas unidades sanitárias nas províncias
dições de elevação, uso e cobertura da de Tete, Manica, Cabo Delgado, Sofala,
terra e hidrografia (rios e lagos). Usando Nampula, Inhambane e Zambézia;
unidades sanitárias foi também possível Reabilitação das estradas: Sofala, Tete e
determinar as distâncias de cada ponto Nampula; Construção de novas estradas:
do país para a unidade sanitária mais Tete, Manica e Cabo Delgado.
próxima. Integrando dados de população
foi possível estimar o total da população
Conclusão sobre os resultados
por tempo e distância para a unidade
sanitária mais próxima. Os resultados Dados usados são do censo popula­
mostraram que: cional 2007, a localização de cada aldeia
55% da população encontra-se a é um ponto no centro da aldeia e é a esse
menos de 1 hora da unidade sanitária ponto que se atribui o total da popula­
mais próxima enquanto que 20,6% ção. Quer dizer que as análises feitas
encontra se a mais de 3 horas. 44% da consideram uma população concentrada
população encontra-se a uma distância apenas no centro da aldeia, sem uma
menor que 6 km de uma unidade sanitá­ consideração sobre a sua real distribuição
ria mais próxima e 34% no intervalo de 6 na aldeia, facto que daria uma avaliação
a 12 km. 22% está além dos 18 km da correcta em termos de distância e o
unidade sanitária mais próxima. tempo de viagem em relação à unidade
As províncias de Maputo com 78%, sanitária mais próxima.
Gaza com 74% e Inhambane com 68%, A avaliação do tempo de viagem
possuem a maior percentagem da sua baseia­‑se somente nas estradas classifica­
população vivendo a menos de 1 hora de das da rede da ANE, sem consideração
viagem para a unidade sanitária mais das estradas rurais, facto que poderia
próxima. Tete (43%), Cabo Delgado melho­rar os resultados aqui apresentados.
(50%) e Nampula (51%), possuem a Os resultados indicam a população
percentagem mais pequena de população desfavorecida e o tipo de intervenção a
com menos de 1 hora em relação à ser feita para o melhoramento da acessi­
unidade sanitária mais próxima. Consi­ bilidade da população, contudo há neces­
iberografias 13 2017

derando a distância, Maputo (66%), si­dade da espacialização das intervenções,
Gaza (62%) e Sofala (50%) possuem a de modo a se conhecer o local onde deve
maior parte da sua população a menos de ser feita a intervenção.
Tempo de viagem e distância para avaliação da acessibilidade da população a unidade sanitária mais próxima
185 Paulo Alberto Covele

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iberografias 13 2017
Avaliação da qualidade de dados de população e de óbitos
dos Censos demográficos de Moçambique
Iberografias 13 2017

Serafim Adriano Alberto
Departamento de Geografia
Universidade Eduardo Mondlame
kampambe@gmail.com

Resumo Para se atingir o objectivo traçado
neste trabalho foram calculados alguns
A boa qualidade de dados de popu­
indicadores comumente conhecidos para
lação e de óbitos permite a formulação e
avaliar a qualidade de idade declarada
implementação de políticas capazes de
tanto da população como dos óbitos.
minimizar os problemas de saúde dessa
Foram usados os índices de Whipple, de
população. A limitada qualidade de dados
concentração em idades simples, segunda
de muitos países devido a proble­mas como
medida de Coale & Kisker e razões entre
erros de declaração de idade impossibilita
os números de pessoas ou óbitos de certas
a estimativa directa de medi­das de morta­
lidade. Por isso, foram desenvolvidos idades agrupadas.
vários métodos que permitem avaliar a Os resultados indicam que tanto no
qualidade de dados A idade consti­tui a país quanto nas três regiões estudadas a
principal variável para análise ou cálculo qualidade de dados não é boa e não
dos indi­cadores tanto da popu­lação como apresentou melhorias significativas entre
de óbitos. Este artigo avalia a qualidade o Censo de 1997 e o de 2007. A qualidade
dos dados de população e de óbitos dos de dados é deficiente devido à má decla­
Censos demo­gráficos de Moçam­bique e ração de idade, exagero na declaração da
suas regiões. A avaliação foi feita concre­ idade por parte dos idosos.
tamente para apurar a preferência e
Palavras-chave: Censo demográfico;
exagero na decla­ração da idade pelo facto
qualidade de dados; idade; Moçambique.
dessa variável ser importante para cálculo
de muitos indi­cadores. 1. Introdução

A má qualidade de dados colectados Unidas, 1986; Hill, 2001; Hill, Choi &
levam à obtenção de imprecisas medidas Timaeus, 2005; Hill, You & Choi, 2009).
de mortalidade em muitos países em Os problemas mais frequentes encon­
desenvolvimento. Os dados disponíveis trados nos dados são erros de declaração
têm sido incompletos pela limitada de idade, a incompleta cobertura de
cober­­tura das estatísticas vitais, e mesmo registo (ou enumeração) de população
iberografias 13 2017

quando a cobertura é boa, a informação e de óbitos (Naciones Unidas, 1986;
referente à idade tem sido imprecisa Dorrington, Timaeus & Gregson, 2007;
(Bennett & Horiuchi, 1981; Naciones Hill, You & Choi, 2009). A deficiente
Avaliação da qualidade de dados de população e de óbitos dos Censos demográficos de Moçambique
187 Serafim Adriano Alberto

qualidade de dados que permite a esti­ incorporar nos Censos demográficos das
mação de indicadores de mortalidade rondas de 2000 a 2010 o quesito
tanto em Moçambique como em muitos mortalidade ocorrida nos domicílios nos
países africanos vem desde os tempos últimos 12 meses anteriores ao censo
passados (Bangha, 2008) e pode estar (United Nations, 1997). Moçambique
relacionada com várias situações que teve a oportunidade de incorporar esse
dizem respeito às características socioeco­ quesito desde o Censo de 1997. Por isso,
nómicas, da distribuição geográfica da a disponibilidade de dados de mortalidade
população e da situação política do país. ocorrida nos últimos 12 meses anteriores
Em muitos países em desenvolvimento, aos Censos demográficos de 1997 e 2007
dada a limitada cobertura e/ou a inexis­ é uma grande oportunidade para avaliar a
tência dos registos civis que são fontes qualidade dos dados de mortalidade e de
básicas de dados demográficos, os dados população registados nos censos. Portan­
utilizados para estimar a mortalidade são to, este trabalho tem como objectivo
provenientes de censos demográficos ou avaliar a qualidade de dados de população
pesquisas amostrais (Naciones Unidas, e de óbitos.
1986). Isso limita os estudos de morta­
lidade nesses países. Os censos demo­
2. Metodologia
gráficos são geralmente realizados num
período de 5 ou 10 anos (Naciones Unidas, Uma das primeiras fases num trabalho
1986), dependendo das condições econó­ científico é a preparação das bases de
micas e políticas de cada país, e as pesqui­ dados a serem utilizadas. Antes do uso
sas amostrais acontecem em um período dos dados de população e de óbitos de
mais curto dependendo da sua abran­ 1997 e 2007 foram primeiro analisados e
gência amostral e também dos recursos ajustados. Os dados estavam organizados
financeiros. As pesquisas amostrais têm por país e por províncias. Moçambique é
uma limitação que é o tamanho da composto por 11 províncias e estão
amostra, que pode dificultar a mensuração distribuídos em três regiões. Alguns
adequada da mortalidade e outras medi­ dados como os de mortalidade do Censo
das de interesse. de 1997, apresentavam óbitos com idade
Na Região da África Austral, onde não declarada e outros tinham sexo
Moçambique se localiza, a maior parte desconhecido. Em geral, a percentagem
dos países apresenta problemas com os tanto dos óbitos com idade não declarada
dados colectados por meio dos registos como do sexo desconhecido era relativa­
civis, tanto no que diz respeito à abran­ mente pequena, abaixo de 15%. Por isso,
gência nacional quanto à sua qualidade antes de os dados serem agrupados em
(Moçambique, 2009; 2010). Devido a regiões, foi necessária uma análise cuida­
esse constrangimento, muitos países dosa e de alguns ajustes. O ajuste consistiu
dessa região não utilizam dados do registo na incorporação dos óbitos com sexo e
civil para a mensuração da morta­lidade. idade desconhecida nos respectivos sexo e
Segundo Dorrington, Timaeus & Gregson grupos de idades. Esse processo foi feito
(2007), na Região da África Austral, em cada sexo pela distribuição pró-rata1
apenas a África do Sul e Zimbábue dos óbitos e população sem declaração de
utilizam os dados dos registos civis.
Como forma de solucionar ou mini­
iberografias 13 2017

1
nNajustadox = (nNobservadox * Nobservadototal)/(Nobservadototal -
mizar o problema de dados dos registos Nobservadomissing), onde N se refere ao número de
pessoas ou de óbitos, n – intervalo etário, x –
civis, muitos países da região seguiram as limite inferior de um grupo etário (Hill, Stanton
recomendações das Nações Unidas para & Gupta, 2001).
Avaliação da qualidade de dados de população e de óbitos dos Censos demográficos de Moçambique
Serafim Adriano Alberto 188

idade. Primeiro incorporaram-se as idades agrupando os dados das províncias que
desconhecidas de cada sexo em grupos de constituem cada uma das regiões.
idade. Feito isso, foi necessário calcular De referir que a avaliação dos dados
os novos somatórios de cada grupo de de população e de óbitos foi feita para
idade. Em seguida, inseriram-se os óbitos idades iguais ou superiores a 10 anos, pois
ou pessoas com sexo desconhecido no considerou-se que para as idades meno­res
respectivo sexo. Depois de serem feitos os a esta a qualidade de dados é influen­ciada
ajustes, juntou-se os dados, compondo os por outros factores e não prin­cipalmente
dados em regiões. pela má declaração da idade.
A avaliação da qualidade dos dados de
população de 1997 e 2007 foi feita por 2.1. Medidas para avaliar a qualidade
meio da aplicação de vários índices que de dados de população
permitem a análise de preferência por
dígitos terminais (índices de Whipple, A análise da qualidade de dados de
índice de concentração de idades simples) população foi feita para os dados prove­
(United Nations, 1955; Madeira, 1972; nientes dos Censos de 1997 e 2007,
Shryock, Siegel & Associates, 1980; colectados pelo Instituto Nacional de
Fernandes, 1999; Formiga, Ramos & Estatística de Moçambique (INE). Essa
Monteiro, 2000; Hobbs, 2008; Agos­ avaliação foi feita para o país e para as três
tinho, 2009) por idade e sexo e medidas regiões de Moçambique (Norte, Centro e
para idades avançadas (segunda medida Sul), por idade e sexo. Em seguida, são
de Coale e Kisker) (Coale & Kisker, descritos os diferentes índices que foram
1986; Agostinho, 2009) também por utilizados para análise de qualidade de
idade e sexo. dados.
Para os dados de mortalidade foram
calculadas as razões entre o número de 2.1.1. Índices de Whipple, de concen­
óbitos nas idades avançadas (70+ e 80+) e tração em idades simples e medidas de
o de óbitos de 60 anos ou mais (60+) para Coale e Kisker
medir o exagero na declaração de idade.
Foram também calculadas as razões entre – Índice de Whipple
óbitos de 60 anos e mais (60+) e óbitos O índice de Whipple (IW) é utilizado
de 40 anos e mais (40+) e entre óbitos de para analisar certa distorção dos dados a
50 anos e mais e de 40 anos e mais (40+) serem utilizados. A tal distorção é refe­
também para análise de exagero na decla­ rente à atractividade de idades declaradas
ração de idade. As razões de óbitos foram terminadas em dígitos 0 ou 5. A expressão
calculadas para idades baixas pelo facto matemática aplicada para verificar a
de Moçambique registar uma menor atracção pelas idades terminadas pelos
esperança de vida e um menor número dígitos 0 ou 5 é a seguinte:
de pessoas que chega às idades extremas,
do que normalmente observado em  
países desenvolvidos. Foram também  
P  Pi ,s  Pi ,s  Pi ,s
calculados para análise de preferência de IWs   i ,s 62
 *100
(1)
 1 
Pi ,s
10 i
dígitos, os índices de Whipple e índices de  * 
  23 
concentração para o ano de 2007.
Fonte: Shryock, Siegel & Associates, 1980; Hobbs,
O estudo foi feito para o país inteiro e
iberografias 13 2017

2008
para as três regiões do país (Norte, Centro
e Sul), por isso, o processo de avaliação Onde Pi,s refere-se à população de
de dados foi feito para essas áreas, idade i e de sexo s.
Avaliação da qualidade de dados de população e de óbitos dos Censos demográficos de Moçambique
189 Serafim Adriano Alberto

A fórmula (1) foi aplicada para medir a – Índice de concentração em idades
atracção pelas idades terminadas por dígi­ simples (ICIS)
to 0 e para as idades terminadas por dígito
Este índice avalia também a preferência
5. Por isso, a idade i no numerador corres­
por dígito em certa idade. A diferença
ponde às idades de pessoas de 30, 40, 50
deste com o índice de Whipple é que
e 60 anos ou de 25, 35, 45 e 55 anos.
índice de concentração em idades simples
Para verificar a atracção pelas idades
avalia a tendência de atracção por dígitos
terminadas em dígitos 0 e 5, aplica-se a
em uma idade simples.
seguinte equação:
A equação para estimar o índice de
  concentração em idades simples é a
 
 P25,s  P30,s  P35,s  ...  P60,s  seguinte:
IWs  62
*100 (2)
 1   
* Pi ,s
5 i
   
 23   ni ,s 
Fonte: Shryock, Siegel & Associates, 1980; Hobbs, ICISi ,s    *100 (3)
 i2 
 exp 1 * ln(n )  
  5 y
2008
y ,s  

O cálculo do índice de Whipple geral­   i  2 
mente é feito para o intervalo de idades Fonte: Jdanov et al., 2008; Agostinho, 2009

entre 23 e 62 anos, mas, pode-se fazer
Onde ni,s é o número de pessoas de
para outras idades dependendo do
idade i e sexo s. y são as cinco idades do
objectivo ou das idades de interesse. Os
denominador (a idade do numerador e as
grupos de idade inferiores a 23 anos e
outras duas inferiores e duas superiores
superiores a 62 geralmente são excluídos
a ela).
porque esses são mais afectados por
Segundo Agostinho (2009), não foi
outros tipos de erros que os de preferência
encontrado algum padrão que permite
pelo terminal de dígito (Shryock, Siegel
classificar a qualidade de dados utilizando
& Associates, 1980; Hobbs, 2004; 2008).
o índice de concentração de idades sim­
A classificação deste índice varia de
ples. Para contornar essa situação,
100 a 500. O valor 100 indica ausência
Agostinho (2009) calculou índices de
de concentração na idade terminada no
concentração em idades simples para
referido dígito e 500 sugere uma con­
países com boa qualidade de dados,
centração total da declaração de idades
nomeadamente Inglaterra, França, Itália,
terminadas em dígitos 0 e/ou 5 (Formiga,
Holanda, Suécia e Japão, e usou os
Ramos & Monteiro, 2000; Hobbs, 2004;
resultados encontrados como padrão
2008; Agostinho, 2009).
para efeitos de comparação. O valor
A classificação geral desse índice obe­
mínimo encontrado foi de 78% e o máxi­
dece ao seguinte critério: entre 100 e
mo de 128% (Agostinho, 2009). Por
104,9 – dados precisos; entre 105 e 109,9
isso, para se considerar que uma idade
– indica dados pouco precisos; entre 110
terminada por certo dígito não teve
e 124,9 – consideram-se dados aproxima­
maior atracção, o valor encontrado deve­
dos; entre 125 e 174,9 – dados grosseiros
‑se situar dentro do intervalo ou mesmo
ou imprecisos; e valores iguais ou supe­
inferior ao valor mínimo dos países
riores a 175 – indicam que os dados são
seleccionados com melhor qualidade de
muito grosseiros ou muito imprecisos
dados. Caso o valor encontrado esteja
(Formiga, Ramos & Monteiro, 2000).
iberografias 13 2017

acima de 128% considera-se que existe
Para o cálculo desse índice é necessário
uma maior concentração nessa idade.
que os dados estejam em idades simples
(Hobbs, 2004; 2008).
Avaliação da qualidade de dados de população e de óbitos dos Censos demográficos de Moçambique
Serafim Adriano Alberto 190

Medidas de Coale e Kisker óbitos foram usados como padrão os
resultados encontrados por Agostinho
Existem duas medidas de Coale e
(2009) para os países com boa qualidade
Kisker que são aplicadas para avaliar o
de dados. O menor valor encontrado foi
nível de exagero de idades declaradas. A
de 73,4% e o maior de 149,4% para a
primeira medida consiste em uso de
Suécia. Para além desses índices, foram
tabelas-modelo e dois censos consecutivos.
aplicadas para análise de exagero da idade
Neste trabalho foi apenas utilizada a
declarada em algumas idades avançadas e
segunda medida de Coale & Kisker
em algumas idades adultas, as razões
(1986). Esta medida consiste em rela­
entre número de mortes em certas idades
cionar duas proporções de pessoas em agrupadas seleccionadas. Para tal, são
idades avançad