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PAULO HAMURABI FERREIRA MOURA

A RELIGIÃO E O ESTADO LAICO NO BRASIL

Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia.

Orientador: Amauri Leite.

Rio de Janeiro

2014

C2014 ESG

Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG

Paulo Hamurabi Ferreira Moura

Biblioteca General Cordeiro de Farias

Moura, Paulo Hamurabi Ferreira. A religião e o estado laico no Brasil / Padre Paulo Hamurabi Ferreira Moura. - Rio de Janeiro: ESG, 2014.

43 f.

Orientador: Amauri Leite. Trabalho de Conclusão de Curso Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2014.

1. Estado. 2. Religião. 3. Laicidade. 4. Laicismo. 5. Cidadão. I.Título.

A todos da Escola Superior de Guerra que durante o meu período de formação contribuíram com ensinamentos e incentivos. A minha gratidão, em especial ao Pe. Valtemário Frazão e aos paroquianos da Basílica Nossa Senhora de Lourdes pela compreensão, como resposta aos momentos de minhas ausências e omissões, em dedicação às atividades da ESG.

AGRADECIMENTOS

A Arquidiocese de S. Sebastião do Rio de Janeiro na pessoa do Sr. Cardeal arcebispo, Dom Orani João Tempesta O.Cist. pelo apoio e o incentivo. Aos meus professores de todas as épocas por terem sido responsáveis por parte considerável da minha formação e do meu aprendizado. Aos estagiários da melhor Turma do CAEPE pelo convívio harmonioso de todas as horas. Ao Corpo Permanente da ESG pelos ensinamentos e orientações que me fizeram refletir, cada vez mais, sobre a importância de se estudar o Brasil com a responsabilidade implícita de ter que melhorar.

"Não se reza a um deus que só existe no pensamento. Mas quando o deus que o pensamento descobre se encontra no interior de uma religião como deus que fala e age, então conciliam-se pensamento e fé."

Joseph Ratzinger

RESUMO

O presente trabalho trata da Religião e o Estado Laico no Brasil. Frequentemente este tema é abordado de maneira parcial, tendenciosa e confusa. Para alguns, Estado laico significa rejeição da religiosidade, pois para eles laicidade e laicismo são sinônimos. No entanto, são duas realidades completamente diferentes. Esta monografia procura mostrar que a religião é uma dimensão da pessoa humana que deve ser reconhecida e valorizada pelo Estado. O cidadão tem o direito de expressar sua religiosidade e no Brasil, isso está assegurado pela Constituição da República. Assim sendo, o exercício da religião, ou seja a pratica de um credo deve ser favorecida pelo Estado, pois ele existe para defender e salvaguardar os direitos de todos. O Estado laico não se identifica com nenhuma religião, mas protege e corrobora para que o povo viva sua religiosidade. O objetivo deste estudo é, a partir da questão: qual é a relevância da religião no Estado laico no contexto religioso da sociedade brasileira contemporânea, fornecer subsídios que sirvam de base para o conhecimento e esclarecimento dos termos laicidade e laicismo, a fim de que se redescubra que entre religião e Estado não existem hostilidades. O bem comum, a ordem, a paz e a justiça visados pelo Estado para se consolidarem necessitam dos princípios religiosos. A religião é um fator unificador. Partindo deste aspecto se procurou refletir sobre o papel do Estado e da religião. Tentou-se mostrar que embora o Estado e a religião tenham funções e responsabilidades diferentes, isto não significa que ambos sejam antagônicos.

Palavras chave: Estado. Religião. Laicidade. Laicismo. Cidadão.

ABSTRACT

This Work evaluates religion and how it relates to the secular State within Brazil. Frequently, this topic is addressed in partial, biased and confusing manner. For some, the term “secular Statesignifies a rejection of religion, often because, for many, secularity and secularism are considered synonymous. However, these terms present two completely different realities. This study demonstrates that religion is a dimension of human beings that must be recognized and valued by the state. People have the right to express their religiosity in Brazil; as it is a fundamental right guaranteed by the Constitution. Thus, the exercise of religion, or in other words, the practice of a creed, should be championed by the State, as this institution exists to defend and safeguard the rights of all. While the secular State is not identified with any religion, it has the duty to protect and supports the right for the people to exercise live their choice religiosity. The objective of this study stems from the question: What is the relevance of religion in the secular State in the religious context of contemporary Brazilian society? Also, this study contributes a basis of Knowledge and clarification for the terms secularity and secularism in order to aid in the realization that between religion and the State there doesn’t have to exist hostilities, but instead there can and should be mutual cooperation. The ideals of common good, peace and justice as envisioned by the State as also the same ideals that form the basis of religious principles. Religion is a unifying factor. From this aspect, this study attempted to reflect on the roles of the State and religion, while also demonstrating that although the State and religion have different roles and responsibilities, these differences do not signify that these institutional roles must be antagonistic.

Keywords: State. Religion. Secularism, Secularity, Citizen.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABNT C N B B CNPq SAREX SARM SARA IBGE

Associação Brasileira de Normas Técnicas Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Conselho Nacional de Pesquisa Serviço de Assistência Religiosa do Exército Serviço de Assistência Religiosa da Marinha Serviço de Assistência Religiosa da Aeronáutica Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

 

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2 RELIGIÃO

 

13

3 O

CONCEITO

DE

ESTADO,

SUA

FUNÇÃO

E

SEUS

PRINCÍPIOS

NORTEADORES

 

16

4 A

IMPORTÂNCIA

DA

RELIGIÃO

NA

FORMAÇÃO

DA

SOCIEDADE

BRASILEIRA

 

26

5 O SERVIÇO RELIGIOSO NAS FORÇAS ARMADAS

 

29

6 CONCLUSÃO

 

32

REFERÊNCIAS

35

GLOSSÁRIO

37

ANEXO

A

-

ENTREVISTA

 

38

ANEXO

B - ENTREVISTA

41

9

1 INTRODUÇÃO

No século XXI, a religião voltou a ocupar novamente espaço na mídia e nas redes sociais, apesar das previsões do Iluminismo que asseguravam seu desaparecimento e da filosofia da morte de Deus apregoadas pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche em 1882, a religião reapareceu com mais força. Assim, no Brasil, ao contrário destas previsões sobre o eclipse da religião, houve nos últimos anos um interesse considerável pelo tema e ocorreu o surgimento significativo de várias expressões de religiosidade. Este contexto ocasionou uma discussão em torno do papel da religião no Estado laico. Alguns se perguntam: teria a religião função num Estado que não se identifica com um credo religioso? Percebemos que essa questão é abordada de maneira parcial, tendenciosa e confusa sem uma análise acurada. Para algumas pessoas o Estado laico significa rejeição a toda expressão religiosa; em outros termos, segundo essa visão Estado e religião são duas instituições antagônicas. Na realidade, notamos que há uma enorme confusão entre laicidade e laicismo o que pretendemos explicar. O Estado sem dúvida é laico, ele não se identifica com nenhum credo religioso, mas os cidadãos têm o direito de se expressar e praticar sua religiosidade. Nesta perspectiva, podemos perguntar: qual é então a relevância da religião no Estado laico?

Esta questão não é nova, uma vez que desde a Proclamação da República quando a religião católica deixou de ser a religião oficial no Brasil ela apareceu e “volta e meia” reaparece na mídia com maior ou menor intensidade. Contudo, nos nossos dias, essa questão reassumiu novas conotações. No Brasil, apesar da religião católica não ser mais a religião oficial e com o surgimento de outras expressões de religiosidade, as pesquisas apontam que 64,6% por cento da população se diz católica 1 . Ao lado desta realidade, existem outras expressões de religiosidade no Brasil que mostram que o povo brasileiro é religioso. Assim, a relevância da religião no cenário nacional é um tema pertinente e atual que merece uma análise e um estudo aprofundado com o objetivo de explicar sua existência, finalidade e posicionamento dentro da política nacional e dirimir preconceitos e eventuais confusões.

Disponivel em: <http://censo2010.ibge.gov.br/notícias->. Acesso em: 10 ago. 2014.

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O objetivo geral e a questão principal será analisar a questão em tela: qual é

então a relevância da religião no Estado laico? Os argumentos delineados tiveram a finalidade de demonstrar que laicismo e laicidade não possuem o mesmo

significado. Para isso, realizaremos uma análise acurada dos termos: Estado; religião; laicismo e laicidade. Procuraremos fazer uma análise da religião no cenário da nação brasileira. Analisaremos as questões norteadoras associadas à questão principal: O que significa a religião e o que ela representa para o ser humano. Tentamos demonstrar como a religião pode contribuir no processo de implantação da paz e da justiça social. Detivemos-nos a pensar durante essa análise como o bem comum e a ordem social fazem parte do horizonte da religião e do horizonte do Estado. Por isso, defendemos que a religião é um fator unificador. Partindo desta ótica procuramos refletir sobre o papel do Estado e da religião. Assim sendo, impostamos a pergunta: quais são os principais deveres do Estado e porque eles não são antagônicos aos princípios religiosos que norteiam a religião? Tentamos mostrar que embora o Estado e a religião tenham funções e responsabilidades diferentes, um a força, a ordem social e a outra a persuasão, o equilíbrio do ser humano e o respeito pelo próximo, isto não significa que ambos sejam antagônicos. Assim, tentamos demonstrar como e até que ponto a religião pode contribuir para a consolidação da paz e do bem comum

A nossa justificativa se pautou no fato de que as questões propostas foram

fundamentais em razão de alguns argumentos. O primeiro esteve ligado à trajetória profissional filosófica, teológica do autor como Padre e educador no campo das Ciências Humanas e da religião. Além disso, a participação no Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE) em 2014, na Escola Superior de Guerra (ESG) possibilitou ampliar a visão e exercer a cidadania, traduzindo-se na forma de um trabalho de interesse público. O segundo argumento de natureza social revelou que a sociedade brasileira, que possui sensibilidade religiosa, deseja e precisa ter um esclarecimento acerca do papel da religião e do Estado no contexto atual. O

terceiro foi estimulado pela escassez da produção acadêmica sobre o tema, fator esse que nos motivou a dar uma contribuição sobre o assunto. Neste aspecto, novos estudos permitiriam aprofundamento e detalhamento do objeto da pesquisa.

A interpretação que serviu de pano de fundo para esclarecer a questão

principal e as secundárias aludiu ao campo das discussões nacionais sobre o papel da religião numa sociedade, em especial, a brasileira, onde o Estado se apresenta

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como laico. Alguns debates sobre esse tema revelaram uma gama de conhecimentos difusa e incompleta, bem como uma confusão dos termos. A fim de reconstruirmos esse debate, conceitos tais como: Estado; religião; laicidade e laicismo foram adotados levando-se em consideração o significado de cada termo a partir de sua etimologia e o constante no Dicionário Aurélio. A Constituição brasileira de 1988 garante que todo cidadão brasileiro deve ter direito de praticar livremente seu credo religioso. A referida Carta Magna assegura a todo cidadão brasileiro ainda a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva como, por exemplo: Forças

Armadas e presídios. Segundo a Constituição, a liberdade de consciência e de crença é inviolável. O Estado brasileiro é laico, mas como indica a Carta, ele não é laicista, pois assegura aos seus cidadãos o direito de livremente expressarem e praticarem sua religião. Na hipótese, consideramos que a religião é uma dimensão da vida do ser humano. O ser humano é religioso por natureza, tem uma dimensão transcendente. O Estado existe em função do bem comum e da ordem social. Os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil são: construir uma sociedade livre, justa e solidária; promover o bem de todos; entre outros. Em outros termos, a razão de ser do Estado é o bem do homem, assegurar que seus direitos sejam respeitados. Os princípios religiosos visam também o bem e a paz social. Reconhecemos os limites desta pesquisa em razão dos prazos reduzidos impostos aos estagiários do CAEPE para elaboração da monografia e sendo assim, não foi possível aprofundar a relação entre a Religião e o Estado. A pesquisa se ateve na parte bibliográfica e comportou uma entrevista, mas os instrumentos de coleta de dados; tais como os questionários não foram aplicados.

A Metodologia adotada foi a de uma pesquisa bibliográfica de cunho

qualitativo sobre as questões delimitadas já apresentadas, à luz da Constituição Brasileira e da posição de alguns especialistas sobre o tema. Assim, de forma

preliminar, os conceitos que perpassaram a discussão foram quatro: Estado, religião, laicidade e laicismo. Não obstante, outros conceitos surgiram no desenvolvimento da pesquisa, bem como a inclusão de outros analistas.

A monografia encontra-se estruturada em quatro seções. A introdução

descreve o problema e sua problemática, as principais finalidades da pesquisa, sua justificativa e as opções teórico-metodológicas empregadas. A primeira seção

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analisa o conceito de religião e faz um apanhado histórico sintético sobre algumas manifestações da religiosidade em algumas civilizações. A segunda seção aborda o conceito de Estado, sua função e seus princípios norteadores. Neste capitulo se pretende demonstrar que laico e laicista são duas realidades completamente diferentes. A terceira seção versou sobre a importância da religião na formação da sociedade brasileira. Como a religião contribui para a formação do caráter nacional. Veremos que os objetivos fundamentais da Constituição do Brasil não se contrapõem aos princípios que norteiam a religião. Como a religião pode colaborar para a aquisição da ordem e da paz social. A quarta seção examina o Serviço religioso nas Forças Armadas. As razões que justificam o exercício da religiosidade no meio militar, pois a Constituição Brasileira assegura o direito à assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva. A conclusão reúne os principais argumentos e recomendações discorridos no trabalho, enfatizando a necessidade de interação entre o Estado e a Religião respeitando-se suas legítimas competências.

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2 RELIGIÃO

A palavra religião significa relação-ligação com o Divino, em outras palavras, pode-se dizer: forma de relacionar-se com a Divindade, comunhão com o sagrado. O termo religião vem do latim religio, religare, ligação do ser humano com o Transcendente. A religião através do culto e dos seus ritos expressa o desejo do homem de entrar não só em contato para pedir favores ou proteção, mas ligar-se com uma Instância maior que o Transcende. Em todas as civilizações encontramos sinais de religiosidade. Todos os povos expressaram o desejo de se comunicar com o divino edificando templos e oferecendo sacrifícios a seus respectivos deuses. A crença em um Ser Supremo esteve sempre associada à prestação de um culto de louvor e reconhecimento à divindade. Nós podemos afirmar que o desejo do ser humano de se comunicar com o infinito manifestou-se de modo visível pelos ritos e sinais que evocavam a presença do Sagrado. A história dos povos primitivos revelou a existência de lugares especiais reservados, separados, consagrados aos deuses, destinados às celebrações religiosas, onde o homem se colocava em atitude de prece, invocavam o Ser Supremo e o homenageavam com danças e canções de acordo com Hans Kung (Kung, p.25-27) O senso religioso motivou muitas vezes o homem a sair em peregrinação em direção a lugares que os antigos consideravam santos. Segundo esses relatos, nestes espaços, os peregrinos eram envolvidos por uma atmosfera espiritual que os enlevava até o divino. Em seguida, os participantes voltavam para suas respectivas cidades ou tribos com a mente e o corpo regenerados e revigorados. As viagens para os chamados santuários da fé eram realizadas em datas especiais com intervalos que giravam em torno de um ano ou meses. No entanto, o sentido de pertença ao Sagrado não se limitava apenas a esses momentos. A religiosidade se expressava na maneira como aravam a terra, como eram realizados os pactos matrimoniais e como os mortos eram sepultados. Neste contexto, cabe uma pergunta: o homem primitivo vivia sua religiosidade apenas no âmbito privado? Se partirmos do ponto de vista de que a natureza do ser humano é sociável, seria precipitado responder que sim. Sem negar a individualidade, aspecto por sinal inerente ao homem, não se pode deixar de mencionar que o senso do sagrado é um ponto comum em todas as sociedades organizadas. Sendo assim, se tem observado

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que o homem, em qualquer civilização, possui esse apelo ao divino. Por vezes, a religiosidade se expressa de modo diverso, mas o sentimento que anima a busca do infinito é o mesmo: o finito anseia pelo Infinito. Pode-se afirmar que o ser humano busca o invisível sozinho e comunitariamente, pois o homem que vive em sociedade leva consigo suas necessidades, seus êxitos e limites. A vida social não elimina, mas reafirma as várias dimensões do homem, inclusive a religiosa. A filosofia da religião, disciplina que se ocupa do estudo do fenômeno religioso formula a seguinte questão: quando surgiu a religião? A resposta é simples. A religião apareceu com o homem.

A religiosidade é parte integrante da condição humana. Deste modo, assim como não convém separar e antagonizar a dimensão individual da social, pois ambas fazem parte de uma mesma natureza, parece razoável ter em consideração o fato da religião se manifestar na esfera pública. Neste sentido, os antigos parecem não ter tido nenhum escrúpulo de praticar a religião na sociedade ou de serem consideradas pessoas religiosas. A religião para eles era encarada como algo normal, condizente com a condição humana. Quando analisamos o aspecto cultural presente nos diversos povos da antiguidade se impõe uma pergunta: existiu alguma civilização sem religião? A questão é complexa, mas se levarmos em conta os hábitos e os costumes arraigados nas várias culturas percebemos que a religião enquanto grupo organizado de pessoas que obedecem a certos preceitos e se reúnem frequentemente para prestar um culto, seja difícil afirmar que sim. No entanto, se pensarmos na religião como tentativa de encontro com o mistério, encontramos vestígios da religião em todas as civilizações Os relatos históricos mostram que a religiosidade é um fator que sempre teve ressonância na vida dos seres humanos. Neste sentido convém ainda ressaltar que a dimensão religiosa sempre esteve associada ao desejo de conhecer e explicar os mistérios relacionados à vida como: a morte, as catástrofes naturais e o sofrimento humano. A tentativa de entender e explicar as leis e os fenômenos naturais que envolviam o Cosmo constituíam motivações que reforçavam a religiosidade das civilizações passadas. No entanto, não eram as únicas, pois quando analisamos as razões da busca do Sagrado somente sob este ângulo, poderíamos ser levados a crer que a religião desapareceria com a evolução da ciência e o avanço tecnológico. No entanto, a religiosidade não foi eliminada. Ao contrário, houve nos últimos anos

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um surto do sagrado, reapareceram novas formas de religiosidade. Assim sendo, pode-se considerar que a religião não é apenas um vago sentimento de dependência do Ser Absoluto. A presença da religiosidade em toda a civilização e a persistência do desejo do Infinito, que se manifesta ainda hoje revelam que a religião é algo intrínseco ao ser humano. A religiosidade não é uma imposição que vem de fora, ela é um imperativo da natureza humana.

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3

O

CONCEITO

DE

NORTEADORES

ESTADO,

SUA

FUNÇÃO

E

SEUS

PRINCÍPIOS

O conceito de Estado está indubitavelmente ligado à definição de povo. Na verdade, a palavra Estado vem do latim status que significa posição e ordem. Essa posição e ordem transmite a ideia de manifestação de poder, ou seja, podemos conceituar que Estado é uma forma de sociedade organizada politicamente. Nilson Nunes da Silva Junior no seu artigo sobre o conceito de Estado diz:

O Estado é uma figura abstrata criada pela sociedade. Também podemos entender que o Estado é uma sociedade política criada pela vontade de unificação e desenvolvimento do homem, com intuito de regulamentar, preservar o interesse público. 2

Quando analisamos esta citação percebemos que o conceito e a definição de Estado estão relacionados com a realização e a preservação do bem comum. Na verdade, Nilson afirma que o Estado originou-se da vontade de preservação desse interesse ou bem comum”. Segundo essa perspectiva o Estado surgiu porque a sociedade natural não detinha os mecanismos (regulamentação) necessários para promover a paz e o bem estar de seus membros. Assim, a única forma de preservação do bem comum foi a delegação de poder a um único centro, o Estado. O estudo sobre o conceito de Estado suscita uma questão: de onde se originou o Estado? São Tomás de Aquino e Santo Agostinho pregavam que o Estado, assim como tudo foi criado por DEUS, ou seja, o Estado não se originava do homem, da sociedade e da ordem social, e sim de uma figura maior que organizou o homem, transformando-o de homem-natural à homem-social. Hobbes se contrapunha a esse entendimento da origem e formação do Estado defendido por São Tomás de Aquino e por Santo Agostinho. Na concepção de Hobbes o homem viveria sem poder e sem organização, num estágio que ele o denominou de estado de natureza, o qual representava uma condição de guerra. Com intuito de evitar a guerra, Hobbes propôs que haveria à necessidade de se criar o Estado para controlar e reprimir o homem o qual vivia em estado de natureza. Na visão de Hobbes o Estado seria a única instância capaz de conseguir a paz, e para tanto o homem deveria ser supervisionado pelo Ente Estatal legitimado por um contrato social na concepção de Thomas Hobbes (HOBBES, p. 143)

2 Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/Site>. Acesso em: 8 jul. 2014.

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Rousseau defendia que o contrato social tem como objetivo proteger e assegurar os direitos da pessoa. Nesta linha ele afirmava (HOBBES, p. 143):

encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e

os bens de cada associação de qualquer força comum, e pela qual, cada um, unindo-se a todos, não obedeça, portanto, senão a si mesmo, ficando assim tão livre como dantes

] [

Neste trecho Rousseau deixa claro que o Estado existe para defender a pessoa e promover o bem comum dos cidadãos. Já Emmanuel Kant afirmava que o Estado é o aglutinamento de pessoas, através do contrato social visando, necessariamente, o bem comum. Ele corrobora com esse raciocínio quando diz (KANT, p. 158):

O ato pela qual um povo se constitui num Estado é o contrato original. A se expressar rigorosamente, o contrato original é somente a idéia desse ato, com referência ao qual exclusivamente podemos pensar na legitimidade de um Estado. De acordo com o contrato original, todos omnes et singuli no seio de um povo renunciam à sua liberdade externa para reassumi-la imediatamente como membros de uma coisa pública, ou seja, de um povo considerado como um Estado universi. E não se pode dizer: o ser humano num Estado sacrificou uma parte de sua liberdade externa inata a favor de um fim, mas, ao contrário, que ele renunciou inteiramente à sua liberdade selvagem e sem lei para se ver com sua liberdade toda não reduzida numa dependência às leis, ou seja, numa condição jurídica, uma vez que esta dependência surge de sua própria vontade legisladora.

Quando analisamos todas essas teorias, entendemos que o Estado é a vontade de unificação de membros do grupo social, visando o bem comum ou bem

público. Deste modo podemos afirmar que “[

social, dotada de poder e com autoridade para determinar o comportamento de todo o grupo”na visão de Enio Moraes (SILVA, p. 216). O Estado, no entanto não é apenas uma instância de poder. Ele é reconhecido também, por seus elementos constitutivos, tais como povo, território e a soberania. E o que significa povo? O povo é caracterizado pelo conjunto de pessoas que se unem com intuito organizacional e fiscalizador. Darcy Azambuja define o povo assim (AZAMBUJA, p. 19):

o Estado seria uma organização

]

Povo é a população do Estado, considerada sob o aspecto puramente jurídico, é o grupo humano encarado na sua integração numa ordem estatal determinada, é o conjunto de indivíduos sujeitos às mesmas leis, são os súditos, os cidadãos de um mesmo Estado.

Nesta citação percebemos que entre Estado e povo existe uma relação estreita. Neste sentido, é correto afirmar que o Estado tem sua razão de ser na

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salvaguarda dos interesses e anseios do povo, dentre esses anseios, encontra-se o

desejo de exercitar sua religiosidade. Nós, nas páginas precedentes afirmamos que

o

Estado foi constituído pelo povo, para que esse salvaguardasse seus direitos.

A

definição de soberania está vinculada a autoridade do Estado que permite

o

exercício de suas funções. A soberania do Estado encontra-se intrinsecamente no

segundo elemento constitutivo e será exercida em seu território e essa transporta a ideia de ordem interna, com poder de impor determinações e condições, isto é:

regulamentar a ordem social interna. Hans Kelsen qualifica o papel da soberania do Estado nestes termos:

A afirmação de que a soberania é uma qualidade essencial do Estado significa que o Estado é uma autoridade suprema. A “autoridade” costuma ser definida como o direito ou poder de emitir comandos obrigatórios. O poder efetivo de forçar os outros a certa conduta não basta para constituir uma autoridade. 3

A soberania, como algo intrínseco ao Estado é defendida como expressão

jurídica. Por isso, Miguel Reale a define assim:

Soberania é tanto a força ou o sistema de força que decide o destino dos povos, que dá nascimento ao Estado Moderno e preside ao seu desenvolvimento, quanto a expressão jurídica dessa força no Estado, constituído segundo os imperativos éticos, econômicos, religiosos etc., da comunidade nacional, mas não é nenhum desses elementos separadamente: a soberania é sempre sócio-jurídico-política, ou não é soberania.

A partir das análises destas citações podemos dizer que soberania, é a capacidade jurídica e territorial de autodeterminação, fixando competências dentro do território estatal e limitando a invasão de outro Estado. Quando estudamos a função e a missão do Estado junto ao povo, percebemos que o Estado tem o fim de promover e defender os direitos dos cidadãos Entre esses direitos encontra-se a dimensão religiosa. No caso especifico do Brasil, desde o início o governo se uniu a Igreja.

A relação entre o Estado e a religião no Brasil, personificado pela aliança

Igreja Católica e Império vigorou por muitos anos, de modo muito estreito, desde a época do descobrimento. O Estado cognominado império conseguia harmonizar os seus interesses temporais e políticos com o fim espiritual da Igreja. Nesta época o Império se identificava com o credo católico. O escritor Júlio Maria no seu livro: A

3 KELSEN, Hans. Teoria geral do direito e do estado. Tradução: Luis Carlos Borges. 3. ed. São Paulo:

Martins Fontes, 2000, p. 544.

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Igreja e a República, p. 66 afirma que o Brasil já mesmo antes do período imperial era impregnado da doutrina católica e que a Constituição Política de 1824, conhecida como pacto fundamental do Império não fez senão reconhecer esse fato, prescrevendo no art. 5°: “a religião católica, romana continuará a ser a religião do Império”. Isso significou uma mútua cooperação entre a Igreja e o Império. O imperador se tornou protetor da Igreja. Neste período, o governo do Brasil mantinha a Igreja, concedia subsídio financeiro e por isso fazia ingerências nos assuntos eclesiásticos. Dentre essas prerrogativas do governo imperial na Igreja, destaca-se o direito de escolher os bispos. A proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, separou definitivamente a Igreja do Estado. O início do regime republicano foi o primeiro passo para a concretização do estado laico. A esse propósito é bom recordar que uma boa parte dos membros da Igreja da época recebeu a nova situação com grande entusiasmo. Segundo as crônicas daquele tempo, sobretudo a carta pastoral coletiva do episcopado brasileiro, de 19 de março de 1890, dizia que a separação entre a Igreja e o Estado era necessária, pois o regime de cooperação se tornara dominação do Império sobre a Igreja que sufocava sua liberdade. Segundo Aldir Guedes Soriano, um dos primeiros a reconhecer a utilidade da separação entre a Igreja e o Estado foi Melásporo, pseudônimo utilizado pelo advogado, jornalista e político alagoano Aureliano CândidoTavares Bastos, que já em 1866 escrevia o panfleto "Exposição dos verdadeiros motivos sobre que se baseia a liberdade religiosa e a separação entre a Igreja e o Estado", onde se lê que "a separação completa da Igreja do Estado, a independência absoluta do poder religioso, na economia, governo e direção dos cultos, é o único meio de tornar satisfatórias as relações dos poderes civis e eclesiásticos” 4 . Neste período muitos intelectuais e políticos se somaram à luta pelo estabelecimento de um Estado laico, dos quais se sobressai o jurista baiano Rui Barbosa, que desde 1876 passou a escrever e pregar contra o consórcio da Igreja com o Estado. Agora, perguntemos. Em que consistiu essa separação? A Igreja passou a ser não mais subsidiada pelo Estado, ou seja, ela deveria sustentar-se sem o apoio do governo. A religião católica passara a não ser mais o credo oficial do Estado. Neste sentido, não podemos deixar de mencionar que já em 1885 o Papa Leão XIII na Encíclica Immortale Dei

4 SORIANO, Aldir Guedes. Liberdade religiosa no direito constitucional e internacional. São Paulo:

Juarez de Oliveira, 2002, p. 78.

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afirmava que Deus dividiu o governo do gênero humano entre dois poderes: o poder eclesiástico e o poder civil; o primeiro para as coisas divinas, e o segundo para as coisas humanas. 5 Nós percebemos que a distinção entre Igreja e Estado também era um anseio da própria Igreja que, na pessoa do seu representante maior, o Papa reconhecia e defendia a plena separação entre a religião e o Estado. Na referida carta encíclica, o Papa Leão XIII, ao mesmo tempo em que assegura a necessidade da Igreja viver sem a ingerência do Estado, deixa claro que Igreja e Estado não são instituições antagônicas. Isso quer dizer que embora ambas tenham campos distintos de atuação, elas não devem se recusar a mútua cooperação, evidentemente respeitando-se as suas devidas competências. Segundo essa perspectiva, o poder eclesiástico e o poder divino têm sua origem na mesma fonte, ou seja, em Deus. Ambos Estado e Igreja foram estabelecidos para o bem do homem e o progresso da sociedade. Sendo, assim o campo do poder eclesiástico são as coisas divinas e a tarefa do poder civil são as questões humanas. Vejamos as próprias palavras do Papa: “…Cada um deles (religioso e civil) é soberano. Eles estão encerados em limites perfeitamente determinados, e traçados em conformidade com a sua santa natureza e com o seu fim especial”. 6 Nós, a partir deste texto, podemos concluir que a Igreja considera a autonomia da esfera civil e política em relação á esfera religiosa e eclesiástica como um fator positivo. Percebemos que isso significa defesa da liberdade dos cidadãos que, exatamente no exercício de sua liberdade e responsabilidade cooperam para o progresso e a ordem da sociedade sem renunciarem a prática da religião. A neutralidade do Estado em assuntos de cunho religioso não significa aversão a cooperação e ao diálogo entre a esfera civil e a religiosa. O Estado neutro considera o desenvolvimento de todas as potencialidades humanas e o bem da sociedade. Neste sentido, o ordenamento brasileiro adotou uma neutralidade benevolente, tendente a obsequiar o fenômeno religioso e não a expurgá-lo por completo do espaço público. Este aspecto não escapa à acuidade intelectual de Manoel Gonçalves Ferreira Filho, que assim se pronuncia:

5 LEÁO XIII, Papa. Immortale Dei, S. Paulo: Edições Paulinas, 1965, p.9. 6 Idem p. 13.

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A Constituição de 1988 segue em princípio o modelo de separação, mas a neutralidade que configura é uma "neutralidade" benevolente, simpática à religião e às igrejas. É o que decorre das normas adiante assinaladas:

1. A Constituição não é ateia. Invoca no Preâmbulo o nome de Deus (o

que já fazia a Constituição de 1934), pedindo-lhe a proteção.

2.

Aceita como absoluta a liberdade de crença (art. 5º, VI).

3.

Consagra a separação entre Igreja e Estado (art. 19, I).

4.

Admite, porém, a "colaboração de interesse público" (art. 19, I, in

fine).

5.

Permite a "escusa de consciência", aceitando que brasileiro se

recuse, por motivos de crença, a cumprir obrigação a todos imposta (art. 5º, VIII), desde que aceite obrigação alternativa. (Caso não o faça, ocorrerá a perda dos direitos políticos arts. 5º, VIII, e 15, IV.)

6 Assegura a liberdade de culto (art. 5º, VI) (subentendida a limitação em razão da ordem pública).

7 Garante a "proteção dos locais de culto e das liturgias", mas na

forma da lei".

8 Favorece as Igrejas, assegurando-lhes imunidade quanto a impostos

incidentes sobre seus "templos" (art. 150, VI, b). Entretanto, como explica o

art. 150, § 4º., esta imunidade abrange "o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as (suas) finalidades essenciais" 7

As normas acima estão em consonância com o modelo de Estado laico aberto no qual a religião é vista como algo positivo e agregador de valores. Deste modo podemos pensar que o modelo de laicidade estatal adotado pelo sistema constitucional brasileiro valoriza a religião. Na verdade, existe um Estado laico mais aberto para a manifestação religiosa inclusive no espaço público e um modelo de Estado laico mais fechado, normalmente adotado por alguns países europeus como a França. O preâmbulo da Constituição de 1988 nos dá uma visão de uma laicidade democrática.

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem- estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Constatamos que os constituintes invocam a proteção de Deus, deixam claro que a ordem jurídica constitucional não adota uma separação extremada entre Estado e Religião, da espécie a que os doutrinadores europeus denominariam de "laicismo". A invocação da proteção divina não é destituída de significado. Podemos

7 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Religião, Estado e Direito. Revista Direito Mackenzie, Ano 3, Número 2, p. 89.

22

dizer, com efeito, que a referência a Deus no preâmbulo da Carta Magna de 1988 está a revelar que o Estado brasileiro tem em relação ao transcendente, ou seja, à fé religiosa, uma atitude de respeito e valorização. Nós podemos dizer que o modelo de laicidade, adotado atualmente pelo Estado brasileiro, é do tipo tendente ao favorecimento da expressão religiosa e muito importante quando da interpretação dos preceitos legais do nosso ordenamento jurídico, que se inserem na temática da liberdade de organização religiosa. Isso porque evita que o intérprete do direito incorra no equívoco de, na aplicação das normas que compõem o nosso ordenamento, recorrer a propostas hermenêuticas importadas de países que adotam um modelo que pretende confinar a religião ao foro íntimo dos indivíduos, ante sua flagrante incompatibilidade com o ordenamento constitucional brasileiro. Na verdade, a laicidade do Estado brasileiro, proclamada desde a instauração da República, na forma como é adotada pela atual Constituição Federal, longe de significar uma diminuição do espaço conferido ao fenômeno religioso, presta-se até a ampliá-lo e, sendo assim, a interpretação dos dispositivos constitucionais e infraconstitucionais que tratam da questão da liberdade religiosa não pode ignorar esse viés hermenêutico. Quando comparamos a Constituição de 1988 com a Constituição de 1891 no que diz respeito a posição do Estado com relação a religião notamos que há uma mudança significativa de visão. Na verdade, a carta Magna de 1988 adota uma postura mais flexível e aberta para com a religião que não encontramos na Constituição de 1891. Analisemos no quadro abaixo os pontos principais em que ambas se distanciam:

23

 

A Constituição de 1988

 

A Constituição de 1891

Invoca

a

proteção

de

Deus

no

seu

Não fazia referência em momento

Preâmbulo.

 

algum ao nome de Deus.

Assegura, nos termos da lei, a prestação de

Não previa a prestação de

assistência religiosa nas entidades civis e

assistência religiosa nas entidades

militares de internação coletiva (art. 5º, VII).

de internação coletiva.

No próprio preceito que estabelece o

Rejeitava peremptoriamente

princípio da separação entre Igreja e Estado

quaisquer relações de dependência

(art. 19, I), admite, como exceção ao

ou aliança entre o Estado e as

princípio, a "colaboração de interesse

organizações religiosas (art. 72, §

público".

7º), não prevendo a "colaboração

de interesse público".

Dispõe que o ensino religioso, de matrícula

Previa que seria leigo o ensino

facultativa, constituirá disciplina dos horários

ministrado nos estabelecimentos

normais das escolas públicas de ensino

públicos (art. 72 - § 6º), não abrindo

fundamental (art. 210, § 1º).

 

exceção para o ensino religioso.

Estabelece imunidade tributária quanto aos

Não previa qualquer espécie de

impostos incidentes sobre os templos

imunidade tributária em favor das

religiosos.

 

organizações religiosas.

Atribui ao casamento religioso o efeito civil

Somente reconhecia o casamento

(art. 226, § 2º).

 

civil (art. 72, § 4º).

Quadro 1: Comparativo Constituição de 1988 x Constituição de 1891 Fonte: O autor (2014)

Quando analisamos os dois modelos de Estado laico, notamos que a

Constituição de 1988 reconhece e valoriza o fenômeno religioso, sem anular o

aconfessionalimo do Estado. Neste aspecto parece ter havido uma evolução da

compreensão do conceito de laico, com relação a Carta Magna de 1891.Veremos na

próxima seção como a religião pode contribuir para que o Estado atinja seus

objetivos, sem ingerência entre as esferas.

O quadro acima demonstra também que a Constituição de 1988 se aproxima

mais do ideal da liberdade religiosa que constitui uma das prerrogativas principais do

Estado laico que a Carta Magna de 1891. Na verdade, nenhum regime de governo

24

pode ser considerado democrático se não oferece aos seus cidadãos o direito de praticar seu credo. Neste sentido, a Constituição de 1988 é mais coerente com o conceito de Estado aconfessional ou Estado laico. Vejamos em que concerne o exercício da religião:

Uma vez que o exercício da religião tem significado central para toda crença

e toda confissão, esse conceito precisa ser, em face de seu conteúdo

histórico, interpretado extensivamente [

]

8

A liberdade religiosa está entre os direitos fundamentais do ser humano. Assim sendo, o fato do Estado zelar pelo respeito aos valores religiosos e culturais dos cidadãos não significa que ele perda sua neutralidade e aconfessionalidade. O verdadeiro Estado é aquele que leva em consideração os anseios e as necessidades do povo, inclusive sua aspiração pelo Transcendente. Mas, agora podemos nos perguntar: em que consiste essa liberdade religiosa? Ela implica:

De acordo com sua interpretação extensiva, fazem parte do exercício da religião não somente os procedimentos litúrgicos e a prática e a observância dos usos religiosos, como culto religioso, coleta de contribuições, orações, recebimento dos sacramentos, procissão, hastear as bandeiras das igrejas e tocar os sinos, mas também a educação religiosa, festas laicas e atéias, bem como outras manifestações da vida religiosa. 9

Entende-se pela leitura do texto acima que a religião não é simplesmente algo do fórum interno ou da esfera privada. O cidadão tem o direito de expressar exteriormente sua religiosidade. Jônatas Machado: explica a relação entre o caráter privado e o coletivo da religião nestes termos:

A titularidade de direitos fundamentais pelas pessoas colectivas reveste-se

de particular importância no caso do fenômeno religioso. A história demonstra a existência e influência de inúmeros grupos que surgem da dinâmica social do homem e da religião. No caso particular do Cristianismo, por exemplo, a idéia de assembléia (ecclesiae), marcou tão profundamente os hábitos sociais que se torna hoje difícil conceber a religião desligada de sua dimensão associativa. Acresce que um dos actos mais significativos através dos quais o indivíduo exerce sua liberdade religiosa consiste, justamente, na adesão de uma comunidade moral de natureza religiosa. Assim, dado o caráter eminentemente social do fenómeno religioso, o reconhecimento do direito à liberdade religiosa individual tem como corolário o respeito pela autonomia das formações sociais a que aquele naturalmente dá lugar 10 .

9 Idem.

10 Idem

25

O Estado laico se compromete com o bem comum e a aquisição daquelas condições que corroboram para a implantação do bem estar e da paz social. A religião por sua vez transmite esperança e estimula seus adeptos a buscarem com tenacidade os meios para a consolidação da harmonia e da ordem no seio da comunidade humana. Quando o Estado laico se engaja na satisfação dos anseios religiosos e sociais do povo, ele contribui para o fortalecimento dos laços humanos entre os cidadãos, e isso redunda no progresso do próprio Estado.

26

4

A

BRASILEIRA

IMPORTÂNCIA

DA

RELIGIÃO

NA

FORMAÇÃO

DA

SOCIEDADE

No seu livro: A Igreja e a República o escritor e advogado brasileiro Júlio Cesar de Morais Carneiro afirmava:

[] Onde o início e o desenvolvimento de nossa nacionalidade, a formação da pátria, as lutas coloniais, a educação do povo, os usos e costumes- tudo isto está identificado com as crenças religiosas de nossos antepassados. Aliás, o critério que adoto para descrever o fato religioso no Brasil é o critério que se impõe a todo escritor consciencioso; porque, quer se trate do fato religioso na história geral do mundo, quer se trate, como nesta Memória do fato religioso na história particular de um povo, o papel do historiador deve ser sempre o mesmo. Ele não pode impunemente, isto é, sem falar a verdade, violar as leis divinas da História. 11

Este trecho ressalta que a formação do caráter nacional do povo brasileiro não pode ser compreendida sem referência a experiência religiosa que incutiu princípios e norteou costumes que contribuíram para o desenvolvimento das virtudes cívicas e morais que enaltecem a cultura brasileira. A Constituição da República Federativa do Brasil promulgada em 1988 no seu artigo 3° diz que os objetivos fundamentais são: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional e promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Os fins que a Constituição brasileira visa alcançar não estão em contraposição com a religião cristã. Se levarmos em consideração os valores apregoados pela religião como: respeito pelo próximo, o valor da vida humana, a justiça, liberdade, a concórdia, o bem comum e a paz social e os princípios que norteiam a Carta Magna da nação brasileira encontraremos vários pontos em comum.

Os interesses da religião podem entrar em conflito com os objetivos do Estado somente quando a dignidade do homem não é tratada com respeito. Nós sabemos, que quando os valores humanos são pontuados e defendidos na sua integralidade a religião acaba contribuindo e incentivando seus membros a tomarem parte no tecido social. Os cristãos são constantemente motivados a participarem da vida social, pois estão conscientes de serem cidadãos e creem que a sociedade possui fins e objetivos que não são incompatíveis com seus deveres de cristãos. A

11 MORAIS CARNEIRO, Júlio Maria. A Igreja e a República: Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 12.

27

constituição de 1988, seguindo a mesma linha de pensamento da Carta Magna de 1889 afirma que o Brasil é um Estado laico. O Brasil é oficialmente um Estado laico. Ele não se identifica com nenhum credo religioso, mas a Constituição Brasileira e outras legislações preveem a liberdade de crença religiosa aos cidadãos, além de proteção e respeito às manifestações religiosas. No artigo 5º da Constituição Brasileira (1988) está escrito:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

A liberdade de consciência e de crença significa que ao cidadão brasileiro é assegurado o direito de praticar sua religião sem deixar de ser cidadão. O cristão sabe que, como membro da sociedade civil, deve colaborar para que o bem comum, a paz e a justiça sejam implantados na comunidade. O cristianismo não isenta seus membros de suas legítimas responsabilidades e deveres sociais. A religião cristã incentiva e estimula seus adeptos a se empenharem para que a comunidade humana desfrute de bem estar material e espiritual. Enquanto o Estado motiva os cidadãos a assumirem seus deveres civis por razões sociais e políticas a religião estimula por razões humanitárias, fundamentadas na dignidade da pessoa humana. Seguindo essa linha de raciocínio se pode seguramente afirmar que a religião e o Estado não são instituições que devem se hostilizar. O papel específico do Estado, guardião da liberdade e dos interesses comuns da coletividade, encontra na religião um forte aliado. Aliás, quando estiver em pauta o bem comum, a religião não pode parecer indiferente, pois se trata sempre da dignidade humana que o cristianismo é chamado a defender e a promover, pois do contrário se distanciaria dos seus próprios princípios. A questão da contribuição da religião na formação do povo brasileiro no contexto de um Estado que se declara laico, suscita a necessidade de esclarecer alguns pontos. Estado laico significa que os governantes não devem se posicionar nem a favor e nem contra a religião, mas os cidadãos têm o direito de praticar seu credo religioso. O fato, ou seja, o direito reconhecido e garantido pela Carta Magna do Brasil, dos brasileiros terem uma religião não os isenta de seus deveres sociais. Vimos anteriormente que o cristianismo, não dispensa seus membros da responsabilidade de atuarem para o progresso e a ordem social. Sendo assim, se pode pensar que o Estado pode ser laico, no entanto, quem governa não pode

28

legislar e governar desconhecendo o direito dos cidadãos de terem sua religião e que esses cidadãos possuem valores e princípios que podem contribuir para a consolidação dos objetivos e fins que o estado se propõe alcançar. No artigo VIII do capítulo primeiro, Dos direitos e garantias fundamentais dos brasileiros”, da Constituição do Brasil encontramos a seguinte formulação:

Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Deste modo, se entendemos como um direito, a participação de qualquer brasileiro, independentemente de seu credo, na vida pública; compreendemos que a nação brasileira não exclui ninguém quanto a colaboração de seus cidadãos na aquisição de seus fins como: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Vemos nestes objetivos vários aspectos que se assemelham com valores defendidos pela religião cristã. O cristão se identifica com esses valores. Eles não são alheios a sua formação humana e cristã, por isso se sentem ainda mais motivados a colaborar para que se tornem realidade. Quando analisamos os objetivos do estado e seus fins e os princípios cristãos, constatamos que ao contrário do que afirmam alguns não existem discrepâncias entre eles, mas certa consonância. Essa realidade nos faz pensar que a religião na sua essência não constitui uma ameaça para o Estado. Os cidadãos que ao mesmo tempo são cristãos, respaldam seus deveres sociais nos princípios religiosos que não se opõem aos legítimos interesses do Estado brasileiro.

29

5 O SERVIÇO RELIGIOSO NAS FORÇAS ARMADAS

A Constituição brasileira garante a prestação de assistência religiosa nas

entidades civis e militares de internação coletiva. O direito dos militares e civis em situação de internação coletiva de praticarem seu credo é uma necessidade que o estado deve prover. Mas em que consiste essa assistência religiosa?

O Serviço de Assistência Religiosa do Exército (SAREX) tem por finalidade prestar assistência religiosa e espiritual aos militares e aos civis em serviço nas Organizações Militares e às respectivas famílias, bem como atender a encargos relacionados com as atividades de educação moral realizadas no Exército. 12

A garantia da assistência religiosa assegurada às Forças Armadas que o

Estado brasileiro reconhece constitucionalmente suscita uma questão: o Estado quando proporciona a realização desse direito estaria ferindo sua laicidade ou neutralidade com relação à religião? Se concebermos o Estado, como a instituição que zela para que as legítimas aspirações dos cidadãos sejam atendidas, podemos seguramente dizer que não, pois uma coisa é o Estado como instituição e outra coisa é o povo que faz parte deste Estado que como declara a carta Magna brasileira tem o direito de praticar seu credo. Deste modo, quando o Estado garante apoio religioso aos militares e as demais categorias de internação coletiva está cumprindo seu dever de detentor dos interesses e anseios dos cidadãos. Assim, nós entendemos que Estado laico como instituição não se identifica com nenhum credo, porém essa posição não o exime de criar as devidas condições para que os cidadãos usufruam de seus direitos, inclusive o da assistência religiosa. Além disso, se faz necessário especificar o que significa de fato essa neutralidade do Estado. Estado laico é Estado leigo, secular (por oposição a eclesiástico). É Estado neutro. 13 Segundo Celso Lafer, “laico significa tanto o que é independente de qualquer confissão religiosa quanto o relativo ao mundo da vida civil” 14 . Todavia ser independente não significa ser hostil a religião. Por isso, Celso Lafer afirma que uma

das primeiras dimensões da laicidade é de ordem filosófico-metodológica, com suas implicações para a convivência coletiva. Neste sentido se diz que nesta dimensão, o

12 Disponível em: <http://sarex.dgp.eb.mil.br/>. Acesso em: 4 ago. 2014.

13 MICHAELIS: Minidicionário Escolar da Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 2000, p. 355.

14 LAFER, Celso. Estado Laico. In: Direitos Humanos, Democracia e República Homenagem a Fábio Konder Comparato. São Paulo: Quartier Latin do Brasil, 2009, p. 226.

30

espírito laico, que caracteriza a modernidade, é um modo de pensar que confia o destino da esfera secular dos homens à razão crítica e ao debate, e não aos impulsos da fé e às asserções de verdades reveladas. Isto não significa desconsiderar o valor e a relevância de uma fé autêntica, mas atribui à livre consciência do indivíduo a adesão, ou não, a uma religião. O modo de pensar laico

está na raiz do princípio da tolerância, base da liberdade de crença e da liberdade de opinião e de pensamento. Nós podemos dizer que raiz de um Estado laico está na tolerância e no respeito pela identidade cultural e religiosa de um povo.

O advogado Iso Chaitz Scherkerkewitz ao abordar a questão da liberdade

religiosa e da neutralidade do Estado com relação à religião escreveu:

o critério a ser utilizado para saber se o Estado deve dar proteção aos

ritos, costumes e tradições de determinada organização religiosa não pode estar vinculado ao nome da religião, mas sim aos seus objetivos. Se a organização tiver por objetivo o engrandecimento do indivíduo, a busca de seu aperfeiçoamento em prol de toda a sociedade e a prática da filantropia, deve gozar da proteção do Estado. 15

[ ]

O texto acima parece vir em sintonia com alguns temas propostos pela

instrução religiosa que é ministrada aos membros das Forças Armadas, que visam

justamente o crescimento humano deles, que mais tarde redundará no progresso e na ordem da sociedade. Dentre esses destacamos os seguintes:

1. Relacionamento humano expor aos militares os vários ângulos do

relacionamento humano que levam à maturidade psicológica, à convivência

harmônica e à sadia camaradagem;

2. Vocação e trabalho explicar aos militares como também é vital ter

uma habilitação, um trabalho e(ou) uma profissão que se ajustem ao

indivíduo e permitam uma boa remuneração para a sua subsistência e para

o

estabelecimento de uma família bem estruturada;

3.

A fé cristã e a vida militar sob enfoque ecumênico, explicar aos

militares que não há oposição entre ser um bom militar e um bom cristão;

4. O militar e a religião nos dias atuais esclarecer os militares, com

enfoque ecumênico, sobre a importância da prática religiosa como fator atenuante das tensões do mundo moderno;

5. Virtudes militares e virtudes cristãs sob um prisma ecumênico,

apresentar aos militares como muitas das virtudes militares que enobrecem

a

carreira militar encontram correspondência nas virtudes cristãs;

6.

Drogas lícitas e ilícitas conscientizar os militares sobre os grandes

malefícios que elas trazem para a saúde física e mental e, também, que elas se constituem numa das maiores causas de desajustes familiares;

mostrar os princípios religiosos que as condenam e a força da fé para combater e afastar os vícios. 16

15 Disponível em: <http://sarex.dgp.eb.mil.br/>. Acesso em: 4 ago. 2014.

16 Idem.

31

Quando nós analisamos todos esses temas propostos pelo Serviço de Assistência Religiosa do Exército encontramos valores humanos que não derivam diretamente da religião. No entanto, são reforçados pela religião que os reconhece e aprecia e sem eles a sociedade não tem como avançar nem no plano político e nem no plano econômico. O fato dos fins do Estado e da religião serem diversos não representa ameaça, mas complementaridade. A cooperação entre Estado e religião no que diz respeito ao bem comum, não compromete a legitima autonomia da esfera

estatal e da religiosa. O serviço religioso que é prestado às Forças tem objetivos que convergem para a paz e o bem da nação. O aspecto psicossocial que constitui uma dimensão significativa do ser humano e que encontra na religião sua principal base de apoio não pode ser negligenciada, caso contrário o militar estaria sujeito ao fracasso da sua missão social.

O serviço religioso nas Forças visa o crescimento de todos os aspectos

ligados ao ser humano. Ele tem por base, fundamento o homem na sua integralidade. A esse propósito, nós não podemos deixar de destacar que durante a história do Exército Brasileiro nas suas diversas missões, inclusive durante a guerra os capelães desempenharam funções humanitárias e sociais junto aos soldados em missão que foram além da dimensão especificamente religiosa. Os militares distantes de suas famílias, vivendo e enfrentando muitas vezes em situações desafiadoras em consequência de suas tarefas como descreve Ivan Xavier.

} Morte, insegurança, possibilidade de matar, necessidades biológicas e

afetivas não atendidas, notícias negativas da família, desgaste no relacionamento social, doenças endêmicas, acidentes, extenuação física, moral e emocional encontraram no serviço de assistência religiosa apoio religioso e psicológico. (IVAN, p. 12)

[

O capelão militar como vemos deve levar em consideração o contexto real

em que vivem os soldados sem descuidar dos aspectos afetivo, psicológico e comportamental deles. Neste sentido, podemos dizer que o trabalho do capelão visa o engrandecimento humano e social dos militares que assim revigorados pelos

ideais religiosos e cívicos podem servir a Pátria com maior coragem e abnegação.

32

6 CONCLUSÃO

O objetivo desta monografia é mostrar que o Estado laico não significa oposição à religião. Estado laico ou neutro quer dizer tolerância a todos os credos religiosos como expressão de liberdade e respeito por uma das dimensões mais relevantes do ser humano. Vê-se na atualidade que há uma confusão entre os termos laico e laicismo. Embora se pareçam etimologicamente os dois são completamente diferentes. A formação humana e o progresso de uma nação não podem ignorar nenhuma dimensão dos seus cidadãos. O Estado laico é aquele que reconhece essa realidade e canaliza seus esforços para que todas as aspirações dos seus membros sejam realizadas. Nós vimos que a verdadeira laicidade do Estado não o exime de sua tarefa de proporcionar recursos para que o povo usufrua de seus direitos inalienáveis em todas as circunstâncias, inclusive quando se encontrar em regime de internação coletiva como ocorre nas Forças Armadas. Notamos ao longo desse trabalho que os valores apregoados pela religião não estão em contraposição com os fins e objetivos da nação brasileira. O bem comum e a ordem social que corrobora para a aquisição da paz almejada pelo Estado são reforçados e motivados pelos princípios religiosos. Esta pesquisa foi guiada pela questão: Qual é a relevância da religião num Estado laico? O Estado possui ideais que não derivam diretamente da religião. No entanto, tudo aquilo que é autenticamente humano a religião cristã reconhece como sendo verdadeiro, nobre e digno da condição humana. Assim, o bem comum, a justiça, a ordem e a paz, bandeiras sustentadas pelo governo encontram na religião uma sólida fonte de motivação. A autonomia entre a esfera estatal e a religiosa estabelecida pelas últimas Constituições brasileiras e confirmada pela Carta Magna de 1988 não deve constituir um motivo de conflito. A diferença de campos de atuação do Estado e da religião é um apelo ao intercâmbio e a cooperação mútua. Quando está em questão o bem comum e a concórdia entre os povos o melhor caminho parece ser a soma dos esforços e não a perda de energias e alternativas que em nada contribuem na solução dos problemas.

33

O laicismo exacerbado deve ser evitado a todo custo, pois ele representa um perigo para o desenvolvimento da sociedade. Ele ignora a dimensão religiosa do homem. Ele preconiza hostilidade entre o Estado e a religião. A suposta dicotomia entre a religião e o Estado apregoados por algumas correntes de pensamento da atualidade parece desconhecer a presença e a atuação do serviço religioso prestado nas Forças Armadas. As instruções propostas pelos capelães católicos e protestantes aos membros das Forças Armadas atestam uma consonância de valores. Os princípios religiosos reforçam os valores cívicos. O aspecto psicossocial reconhecido pelo Estado como fator indispensável para o progresso social se baseia na religião. Ao longo desta pesquisa constatamos que existem dois tipos de Estado laico. O primeiro modelo de Estado laico é o que promove uma separação tendente a confinar a religião ao foro íntimo das pessoas, procurando afastá-la do espaço público. Este é, aparentemente, o modelo que vem gradativamente sendo adotado nos países mais secularizados. O segundo modelo de Estado laico é o que, vendo no fenômeno religioso um importante elemento de integração social, não pretende afastá-lo por completo do espaço político. Ao contrário, até incentiva as expressões de religiosidade no espaço público, chancelando-as de diversos modos, como, por exemplo, favorecendo o estabelecimento de capelanias em corporações militares. Realçamos que a atual Constituição Federal do Brasil sufraga um modelo de laicidade que favorece o fenômeno religioso e, no particular, ainda é mais aberto para a incursão da religião no espaço público que o adotado pela primeira Constituição Republicana. Um Estado autenticamente democrático considera todos as potencialidades de seus cidadãos, inclusive a transcendente e corrobora para que elas se desenvolvam. A liberdade religiosa corresponde aos ditames de um Pais evoluído. O modelo de Estado laico que valoriza o aspecto religioso como algo positivo para o engrandecimento do povo e o bem estar social parece corresponder mais as legítimas expectativas dos cidadãos. Para a realização desta pesquisa dividimos este trabalho em quatro seções. Na introdução descrevemos o tema e sua problemática, as principais finalidades da pesquisa, sua justificativa e as opções teórico-metodológicas que empregamos. A primeira seção se propôs analisar o conceito de religião e tentou fazer um apanhado histórico sintético sobre algumas manifestações da religiosidade em algumas

34

civilizações. A segunda seção aborda o conceito de Estado, sua função e seus princípios norteadores. Nesta seção se pretendeu demonstrar que laico e laicista são duas realidades completamente diferentes. O Estado laico é aconfessional. Isso significa que ele não se identifica com nenhum credo religioso. No entanto, aconfessionalismo não quer dizer oposição a religião. A terceira seção se esforçou para mostrar que a religião possui princípios que podem corroborar na formação da sociedade. Como a religião contribui para a formação do caráter nacional. Notamos que os objetivos fundamentais da Constituição do Brasil não se contrapõem aos princípios que norteiam a religião. A religião pode colaborar para a aquisição da ordem e da paz social. A quarta seção descreve o Serviço Religioso nas Forças Armadas. As razões e as motivações que justificam o exercício da religiosidade no meio militar, pois a Constituição brasileira assegura o direito à assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva. O trabalho dos capelães sejam eles católicos ou pertencentes a outras denominações não se limitam ao aspecto religioso. Ambos visam também a formação humana e moral dos militares. A conclusão tentou reunir os pontos abordados sobre o papel da religião no Estado laico. Os argumentos e recomendações discorridos no trabalho, enfatizaram a necessidade da distinção entre laico e laicismo, a valorização da religião e a importância da interação entre o Estado e a Religião respeitando-se suas legítimas competências. A religião não representa nenhuma ameaça para o Estado quando este leva em consideração o bem estar integral dos seus cidadãos.

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XAVIER, Ivan. Assistência religiosa da tropa em missões de paz da ONU: uma proposta de capelania Militar Preventiva. Campo Grande, 2005.

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GLOSSÁRIO

ARTIGO - é o texto com autoria declarada, que apresenta e discutem ideias, métodos, técnicas, processos e resultados nas diversas áreas do conhecimento (ABNT. 1994. p. 1).

ESTADO DEMOCRÁTICO - é aquele que, garantindo as liberdades públicas e o processo de escolha das opções políticas da sociedade, reconhece que há critérios de valor que norteiam essas opções e que são legitimas as manifestações da Igreja.

ESTADO LAICO - aquele em que há separação entre as duas esferas. Com autonomia do Estado e da Igreja, mas relação de mútua cooperação, respeitada a liberdade religiosa e o pluralismo religioso, sem uma religião estatal.

LAICISMO ANTICLERICAL - absoluta separação das duas esferas, com repúdio á tradição religiosa, colocada como elemento a ser vivenciado exclusivamente na esfera privada do indivíduo, sem qualquer manifestação pública externa.

HIPÓTESE - proposição provisória que fornece respostas condicionais a um problema de pesquisa, explica fenômenos e/ou antecipa relações entre variáveis, direcionando a investigação.

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ANEXO A - Entrevista

A nossa pesquisa contemplou a entrevista com dois responsáveis pelo serviço religioso nas forças. Assim, transcrevemos abaixo o depoimento de um capelão católico da Marinha e um pastor protestante capelão do Exército. Conversamos com o Padre Ubiratan de Oliveira, capelão do Colégio Naval. Propomos a ele as seguintes questões:

1. Em que consiste o serviço religioso na Marinha e como ele é visto pelos superiores e subalternos?

O Serviço de Assistência Religiosa da Marinha (SARM) tem por finalidade prestar Assistência Religiosa e espiritual aos Militares, aos Servidores Civis das Organizações Militares e às suas famílias, colaborando com as atividades de educação moral realizadas na Marinha do Brasil, respeitando a liberdade religiosa. A Assistência Religiosa, em si, é uma atividade de apoio ao propósito de formação humana e integral no meio militar, e não uma atividade fim, dentro de todo o contexto militar. Esse apoio/atividade deve ser prestado em tempo de paz e em tempo de guerra, procurando promover um autêntico ecumenismo. Este, como mais um meio para fomentar a harmonia e coesão na vivência da vocação militar. Esta atividade baseia-se na Constituição Apostólica "Spirituali Militum Curae", do Santo Papa João Paulo II (21/04/1986), o acordo entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé sobre a Assistência Religiosa às Forças Armadas (23/10/1989), o Estatuto do Ordinariado (Arquidiocese) Militar do Brasil e o documento interno chamado DGPM- 502 "Normas sobre o Serviço de Assistência Religiosa da Marinha". Este serviço, de modo geral, é visto positivamente e respeitado tanto pelos superiores quanto pelos subalternos. Porém, isso ocorre sempre, não porque há acordos, leis e normas que regularizam essa atividade, mas principalmente por causa da vivência e testemunho dos sacerdotes, padres chamados "capelães", que executarão suas atividades. Haverá sempre entre esses sacerdotes testemunhos positivos e autênticos, que fomentarão a confiabilidade e a bom seguimento de suas atividades e, outros, que carecerão de aspectos positivos que poderão turvar a visão que se tem das atividades.

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A atuação do Padre Capelão, apesar de ser preconizada pelas normas

vigentes que padronizam o serviço, dependerá, além do seu testemunho, da realidade, das atividades e missão da Organização Militar na qual ele está servindo.

Haverá ocasião em que o Capelão terá a seu dispor, uma capelania que em muito se assemelhará a uma paróquia, onde ele conseguirá atuar com pessoal, estrutura, pastorais e movimentos, inclusive envolvendo os familiares dos militares. Em outras ocasiões, o Capelão terá uma ação mais reduzida, onde sua atividade será efetivamente uma pastoral pessoal, de contato direto com o militar e o servidor, promovendo palestras de apoio e formativas, além de reuniões de culto. Isso se deve, repito, à realidade e à missão da Organização Militar na qual ele serve.

2. Como se realiza o diálogo ecumênico no serviço religioso da Marinha?

Já a partir da formação do Quadro de Capelães Navais, formado por padres

católicos e por pastores de denominações evangélicas, submetidos a um comando único do Serviço. O Capelão, seja ele católico ou protestante, tem a função de assistente religioso da Organização Militar como um todo. Assim, sendo, ele cultuará e professará junto àqueles que são partícipes do seu credo, porém dará apoio, acompanhamento e favorecerá as oportunidades de culto para os demais, dentro

dos limites da liberdade religiosa, não tocando no que é referente à fé particular de cada um.

O diálogo religioso é fomentado entre os componentes da Organização

Militar, também, nas ocasiões quando se sugere que haja os chamados "cultos ecumênicos" ou, na maioria dos casos, "celebrações inter-religiosas", geralmente envolvendo os três núcleos majoritários: católicos, evangélicos das várias

denominações e espíritas kardecistas. Isto, porém, não ocorre sem alguma dificuldade inicial, pois já que religiosidade será algo que sempre será de foro íntimo, particular, não se deve obrigar a participação daqueles que efetivamente não desejam.

3. Quais são os principais desafios do serviço religioso nas Forças?

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O desafio principal, a meu ver, é justamente a dificuldade do diálogo inter- religioso com membros de denominações que já têm o costume de evitar ou, até mesmo, constranger algum contato maior com aquele "profissional" (o Capelão) que professa outro credo. Além disso, a capelania militar deve sempre ser vista como "território de missão", com suas conquistas e contrariedades. Por exemplo, um Oficial Capelão poderá ser respeitado por alguns, ou até mesmo suportado, somente por causa de sua patente hierárquica, quando estes fazem questão de vê-lo como Oficial e não como ministro religioso. Ou, ainda, há os que por diferença de credo, ou mesmo por não terem credo algum, mostram-se indiferentes à presença do Capelão e, ainda outros, chegam a questionar o porquê de haver esse "profissional" dentro da estrutura militar. Tudo isso, como dito inicialmente, pode ser superado pelo empenho e testemunho do Capelão, mas isso será sempre de cada um. O fato do Capelão Católico já ser um vocacionado, e ter que abraçar uma outra vocação, que é ser militar, pode gerar maiores ou menores dificuldades. Mas, partindo-se do princípio de que o objetivo desse ministério será "alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram" (cf. Rm 12, 15), o Padre Capelão Militar saberá que é necessário adaptar-se a este meio, para poder progredir junto com aqueles que com ele congregam, e que também já são membros fiéis em suas comunidades civis. "Fiz-me tudo para todos a fim de ganhar a todos” (I Cor 9,22b).

ANEXO B - Entrevista

Segue-se a entrevista com o Pastor Carvalho Lima capelão protestante do Exército.

1. Em que consiste o serviço religioso nas Forças e como ele é visto pelos

superiores e subalternos?

Resposta: consiste em prestar a assistência religiosa e moral a todos os integrantes das Forças Armadas (FFAA), incluindo a família e servidores civis.

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Resposta: em etapas a saber:

a) Através de Concurso Público que é realizado anualmente, prevendo até

cinco vagas (uma para Pastor Evangélico e de três a quatro para Sacerdote da Igreja Católica Romana). Obs: Para o candidato requerer inscrição, este deverá

solicitar na Diocese ou Concílio Superior de sua denominação a autorização para prestar o concurso, que mediante formulário próprio, descreverá a Idoneidade, a formação (Bacharel em Teologia) propedêutica e o tempo de ordenado (que deverá ser de 3 anos);

b) Após o Deferimento do Requerimento do Candidato, este vai para o

Processo Seletivo, que consta provas objetivas de Específica da Carreira (Teologia),

Português e Redação;

c) Os candidatos que forem aprovados, dentro do número de vagas, até a

majoração de dois candidatos abaixo, serão submetidos aos exames de saúde e físico, sendo aptos, o candidato que for melhor classificado deverá ser matriculado na condição ao posto de Aspirante-a-Oficial do EIA/QCM. O período de formação dura em torno de dez meses, dividido entre a Formação Básica do Oficial (oito semanas, sendo quatro na Escola de Sargentos de armas, em Três Corações-MG e quatro em Brasília-DF, que é a sede do Serviço de Assistência Religiosa) e o estágio, a ser realizado na Guarnição de destino do militar. O estágio é feito em um Comando Militar de Área, Região Militar, Brigada, Hospital ou Escola de Formação, no caso do Exército ocorre na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende-RJ, na Marinha no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW) no Rio de Janeiro-RJ e na Força Aérea Brasileira no Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica (CIAAR), em Belo Horizonte- MG; na Forças Auxiliares ocorre em suas respectivas Academias, nos seus Estados-membros da Federação. Uma vez

ingresso no Quadro Permanente de Oficiais, ao alcançar estabilidade, este oficial concorrerá a todos os postos da carreira, até o posto de Coronel, alcançado após 25 a 30 anos de serviços, em média.

3. Quais são os principais desafios do serviço religioso nas Forças?

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Resposta: A meu ver caríssimo amigo, a cada dia encontramos desafios que não são simples. Não temos problemas quanto a Laicidade, pois, a história política de nosso país, se tratando de Instituições perenes tem nos garantido a mais de 100 anos a liberdade de culto e a mais de 200 anos que a Instituição Exército repousa suas tradições na Hierarquia e na Disciplina, Pilares fundamentais para a sobrevivência de qualquer Instituição. A tradição religiosa nas FFAA vem desde os primórdios do descobrimento, passando pelos exploradores Bandeirantes, as Guerras de Independência, Revoluções, Segunda Grande Guerra até os dias atuais com outra configuração (Haiti, Angola, Moçambique, Complexos do Alemão, Penha e Maré). Mas vejo como grande desafio fazer entender a nova oficialidade e as praças ingressam nas fileiras das FFAA anualmente o real papel e a função do Capelão Militar. Muitos acham que o Sacerdote Católico e o Pastor Evangélico só são necessários para celebrações cúlticas e mais nada, isto se deve a desinformação na formação escolar desse oficial ou praça que durante sua formação nas Academias Militares tem o contato apenas com estes religiosos durante celebrações de Santa Missa e cultos Evangélicos. Mas na verdade este eclesiástico muita das vezes possui habilitações, dons e talentos que vão facilitar e contribuir na formação Técnico-Moral desse militar. Obs: Não temos problemas quanto a discriminações e preconceitos em relação aos diversos credos e religiões existentes nas FFAA, pois agimos estritamente dentro de regulamentos e Instruções Gerais que regulam nossa atuação dentro e fora da caserna. Além dos regulamentos, temos a subordinação a Arquidiocese Militar sediada no Ministério da Defesa.