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Teologia e Comunicação

:
reflexões sobre o tema
Pedro Gilberto Gomes, SJ

UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS – UNISINOS
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INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

Cadernos Teologia Pública

A publicação dos Cadernos Teologia Pública concepções de mundo e as religiões, constituem o hori-
quer ser uma contribuição para a relevância pública da zonte da teologia pública. Os Cadernos Teologia Públi-
teologia. A teologia como função do reino de Deus no ca, sob a responsabilidade do Instituto Humanitas Unisi-
mundo se desenvolve na esfera pública como teologia nos – IHU, se inscrevem nesta perspectiva. Eles são fruto
pública. Ela participa da vida pública da sociedade com da realização do Simpósio Internacional O Lugar da Te-
a qual se compromete crítica e profeticamente, na pers- ologia na Universidade do Século XXI, ocorrido, na Uni-
pectiva do reino de Deus que vem. Os desafios da vida versidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, de 24 a
social, política, econômica e cultural da sociedade, hoje, 27 de maio de 2004, celebrando a memória do nasci-
especialmente, a exclusão socioeconômica de imensas mento de Karl Rahner, importante teólogo alemão do
camadas da população, no diálogo com as diferentes século XX.

CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA .

ponto de partida é sempre a doutrina: a Trindade. rompeu com esta tendência. apesar de todas mente é a estruturação de uma “teologia da comunica. ao partir da realidade da comunicação social. Por outro lado. como a comunicação. De- mente sobre uma realidade muito importante para a vida pois vêm as aplicações práticas e as incidências na vida humana: a comunicação. isso pode estar das pessoas2. ao falarem de co- ção”. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS Teologia e Comunicação: reflexões sobre o tema1 Pedro Gilberto Gomes. um documento da Santa Sé. Por um lado. são incapazes de partir da realidade. Jesus Cristo (visto como o comunicador perfeito). deva ser “batizada” para ter A relação entre a comunicação e a Teologia ainda a sua dignidade reconhecida. 1 Este texto foi apresentado em oficina realizada no Simpósio Internacional O Lugar da Teologia na Universidade do Século XXI. por exemplo. promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos. os documentos oficiais. 2 Este é o caso. a tendên. na parte que fala da comunicação social (ponto 3. Aetatis Novae. primeiro faz uma “Ilu- minação Teológica” (nº 279). o que vem à O problema se agrava quando. É a municação. necessário que não está totalmente esclarecida no pensamento da Igreja. se elabore uma “teologia da comunicação”. quando se fala nesta relação. Normalmente. Paradoxalmente. Seu chamada “teologia do genitivo”. as conquistas. São Leopoldo. Relação Comunicação/Teologia significando que uma realidade tão profundamente hu- mana. RS. pois procura refletir teologica. cia tem as suas vantagens. 25 de maio de 2004. portanto. o Pai. É.5). do documento de São Domingos quando. SJ 1. na tradição corrente de pôr a teologia em tudo. .

ibidem. Nestas últimas déca. precá. optamos por fa. 1984. Isso acontece e aconteceu principalmente a “encontrar. não pode ser estudada fora dessa perspectiva e desse municação da mensagem cristã. lugar de “teologia da comunicação”. te de idéias. depois Puebla. mento da “ciência da comunicação” no mundo contem- rios e escassos”3. sobretudo a partir de Medellín. 17. p. reconhece que se pode porâneo. relação com a Teologia se evidencia pelo desenvolvi- municação é recente e os resultados. 4 Idem. A importância do estudo da comunicação em sua mento que “o estudo das relações entre Teologia e co. contexto e que se sujeita. São Paulo: Loyola. p. comunicação na América Latina” 4 O próprio Departa. cit. 1984. considerações percebeu-se “que a comunicação. e nunca faltaram. Comunicação. até agora. na história da Teologia. desembocando no que se para o que se chama de Comunicação Libertadora. na reflexão teológica. Afirma um docu. 7 Idem. ao mecanismo de das. bastante desenvolvidas sobre o lugar do símbolo na co.. Por isso. vista como processo. subserviência aos poderosos e aos interesses que domi- gistra-se grande esforço em aprofundar a temática da nam na sociedade”7. de maneira contundente.16. em e da comunidade cristã primitiva. Petrópolis: Vozes. 6 . 6 UCBC. Entretanto. partir dos postulados da Teologia da Libertação que mentos dirigidos para essa temática. Para uma Teologia da Comunicação. importantes ele. dade. fundamen- 3 UCBC. voltada venientes das ciências sociais. também. em comunicação5. utilizando subsídios pro- tica levantada pela Teologia da Libertação. um trabalho teológico-pastoral sobre o tema da lar aqui de “relação entre comunicação e teologia". Os medievais interessaram-se pelo universo lingüístico Partindo de uma visão de classes da sociedade.16. mas da experiência histórica do povo de Israel pal Latino-americano (DECOS-CELAM) publicou. re.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA Tendo em vista esta realidade. p. desde as reflexões “abriu o debate sobre as relações entre a Igreja e a socie- de Santo Agostinho a respeito do signo até a problemá. É fundamental considerar que a Teologia não par- mento de Comunicação Social do Conselho Episco. Teologia e Libertação. 1985. conhece por opção preferencial pelos pobres”6. 5 DECOS-CELAM. op.

Deus rompeu o silêncio!” 2. Idem. Os ângulos de entrada para esta problemática são em nosso mundo. fundamentada na pro. A ética da comunicação na América Latina. 75-97. A Teologia da Liber. p. 10 Idem. que necessita ser construído relações de comunicação.1).. 7 . que a Teologia da Libertação se constitui como instrumento crítico da comunicação no tempo pre. de Reino que se tem. Depende. para aceitar a promessa recebida de Deus da comunidade organizada. ibidem. que se afirme. p. de uma para que o mundo venha a ser humano e a comunica- sociedade nova. cabe indagar pelos fundamentos inerentes à forma e à estrutura da sociedade atual. São Paulo: Paulinas. partindo das experiências das contradições municação e Teologia. teológicos para uma comunicação adequada ao projeto mar os cristãos e os não-cristãos a trabalharem pela im. opressão e injustiça8. ed. Pedro Gilberto. 2. Pedro Gilberto. plantação da comunicação sem violência e sem censura. 11 As reflexões deste ponto serão todas tomadas do livro: GOMES.. São Paulo: Paulinas. tomemos o caminho bí- tação. ibidem. 9 Idem. analisando as relações de Deus com o povo como imagem do Reino de Deus. “é a partir dessa fé. Isso não é uma tarefa fácil. Fundamentos teológicos da comunicação messa de Deus. Nestas reflexões. e estabelecer a situação de comunhão os mais diversos. Ora. ao tratar da comunicação. 1980. libertada não só do ção. projeta como modelo a blico. mas também de todas as formas de violência. 8 Cf.. de justiça e de amor. 18. pois é conquista negação11. 1989. mesmo quando eivadas de aqui e agora. Tendo presente esta necessária relação entre co- sente e pode. da visão teológica e amor que o evangelho anuncia”9. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS ta-se na fé. “. Idéias semelhantes encontram-se em GOMES. “Tanto as estruturas como pelo povo de Israel e pela comunidade cristã primitiva de as pessoas precisam da força libertadora do evangelho um “novo céu e de uma nova terra”(Ap 21. cha. inclusive. plena”10. pecado e da morte. Direito de Ser.

como uma oferta do Criador à sua cria- Se nosso olhar se debruçar sobre o relato bíblico tura. a iniciativa. por meio da linguagem. No momento em que “disse” a sua palavra.26). quando o Senhor falou: “Faça- te de Deus. Por isso.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA A. uma dialética comunicativa entre vida. É gesto. O máxi- rio entre Deus e o povo. Porque chama. o queio à comunicação. o blo. nas relações de Deus lavra vazia. humanos. Vejamos mais de Deste modo. no relato bíbli- irresistível. Nunca dita inutilmente. Deste modo. notamos a dialética da comuni. ao co. anseiam criação. A comunicação de Deus. comunicação permanente da par. gratuita e livre. eles exis- 8 . experimentada como força que o Senhor profere é criadora. leva-as à comunicação entre si. passou a existir. em termos religiosos. Através do sopro de seu Espírito. porque também ele capaz de criar. No caso que nos ocupa. veremos. O povo rompe a comunicação. Incomunicação esta conseqüência da ambi. experimentam. os seres A dinâmica. a palavra ção de Deus com as pessoas. é ação. A ação do Pai iniciativa. do profundo de seus seres. de amar e se comunicar. a palavra de Deus rompe o silêncio perto isso. güidade da natureza humana. mas prenhe de significados e criadora de com o povo de Israel. um Deus que salva e um mundo pecador. em si próprias. no Antigo Testamento. a palavra criadora de Deus fê-la existir. A partir de sua criação. mundo que antes não era. Entretanto. criam e recriam um oferece a comunicação. fruto do pecado. coisas foram feitas. não é uma pa- do Antigo Testamento. Deus chama o a. do homem e da mulher. quebra o gelo do “sempre” e se torna o elo de ligação entre o criador e a criatura. as pela comunicação. é esta: Deus humanos. A comunica. ocasionado. mo deste primeiro processo comunicativo foi a criação cação/incomunicação. via vida. uma comunicação seus colaboradores na organização deste mundo caótico entre dois seres livres. sem conteúdo. incomunicação freqüente da parte dos seres mos o homem à nossa imagem e semelhança”(Gn 1. mundo de sentido. A iniciativa de comunicação homem e a mulher para conviverem com ele. Onde não ha- pelo pecado. Imagem e semelhança. é de Deus. é necessário que um deles tome a que necessita de ordenação. Deus torna a oferecer a comunicação. entretanto. em todo o processo comunitá. a primeira manifestação divina registrada é a própria mesmo tempo que. para serem Sempre que há um diálogo. da eternidade.

A Palavra com o povo que escolhera. sempre que Deus se dirige a festa em gestos concretos. Deus particulariza sua comunicação num homem Aliança. É ABRAÃO. que o leva a comunicar-se e a A partir de Abraão. Por isso. ram em busca de alimentos e proteção. um fiel seguidor do Deus Vivo. Duas pessoas que realizam um compromisso entre si. É a terceira grande manifestação comunicativa de Deus: zer fértil e produtivo um ventre estéril e de um adorador o processo de libertação. cuja circuncisão é o sinal desta criar.9). identidade do Deus que o envia. de sua Aliança. Deus permaneceu em constante comunicação que escolhe para ser o gérmen de um povo. A resposta é pronta: ele 9 . de muitos deuses. O fa- A escolha de um povo é diálogo. foi mais longe. seria o pai de um grande povo. Com Abraão começou a Mais uma vez a comunicação de Deus se mani- história do Povo. lembra a história: libertação do povo da opressão do Egito. Um Deus pessoal e um homem que “Vi a aflição do meu povo” (Ex 3. Depois do espraiamento (Gn 12.7). Sua comu- muitos povos. esta comunicação começou de maneira muito Deus se manifesta a Moisés no deserto: simples e humilde. A situação é de conflito e Ela é um acordo pessoal. Este deixa tudo o que tem e parte como nicação escolheu um povo e agora vai agir mais profun- um peregrino em busca da terra que a Palavra do Senhor damente neste povo errante e não constituído como tal. Abraão sabe que esta palavra é capaz de fa. raó dominava aquelas pessoas que.2). de José. por Deus. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS tem. chama Abrão que muda de nome. graças à atuação as. lhe promete. “Farei de ti uma grande nação e te abençoarei” ção.7). este indaga sobre a para dar-te esta terra” (Gn 15. articula a Abraão. A palavra dialogal de Deus é criativa: faz surgir a Lembra-o da obrigação: vida. Faz surgir o mundo! “Guardarás a minha Aliança” (Gn 17. mas perpassa os séculos. de seu amor profundo. para lá fo- porque toda Aliança pressupõe pelo menos duas pesso. faz surgir nova criatura. No caso da escolha de um povo opressão. Os tempos mudaram. O segundo momento criativo corporifica-se na es. No diálogo “Eu sou o Senhor que te fiz sair de Ur da Caldéia que se trava entre Deus e Moisés. porém. Lembrado de sua promessa. pai de A ação de Deus. A ação de Deus não se detém na cria. O povo sofria a opressão em terra do Egito. um dia. Lembra a bênção que derramou sobre ele: colha de um povo. Por meio de Moisés. é comunicação.

só nela criando estruturas que as afastam do encontro e da co- realizando-se plenamente como pessoa. Mas a história da ambigüidade humana continua. aquele Esta mesma dinâmica. A mais emblemática é a Torre de Babel. como libertador do povo.Gn 3. 10 . que diz: “Eu sou aquele que sou. sem a menor chance de entendi- ambigüidade de sua condição: à dinâmica do diálogo mento entre os seres humanos. O processo comunicativo que se locutor). cear a comunicação de modo definitivo (a morte do inter- municação é de Deus. em que o revela a si mesmo. dialogan- contrapartida. le- que vos dará uma terra. Egito. municação. desde os pri. perguntar: “Acaso sou eu o guarda do meu irmão?”(Gn mina com a saída do Egito. Ela prossegue na jornada 4. seres humanos se fecham sobre si mesmos. eu sou aquele Esta ambigüidade torna-se mais aguda quando os que serei”. gam a sua condição de seres relativos. Mas Moisés insiste: quer saber o nome de ticamente em si. Serei aquele que vos libertará do manos rompem a ligação que os vincula ao Criador.5). nato. vê-se que a iniciativa de co. para com aquele que.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA é o Deus dos pais do povo. também uma práxis concreta do povo. as pessoas vão Se bem que criado para a comunicação. Deste modo. b. não ter. ele renega a responsabilidade para com aquele estabelece se expressa numa práxis concreta e exige. além de romper a fraternidade. O mais grave da situação reside no fato de Caim A ação de Deus. Deus. rumo à terra prometida. Deus afirma também que o povo o conhecerá outro para se realizarem. os homens e as mulheres experimentaram a termina em confusão. ao mesmo tempo sua própria condição de seres abertos para o outro.9). cer- Neste breve recorrido. Por isso diz: “Eu tos. que necessitam do pulá-lo. através do deserto. aquele que vos acompanhará no deserto. O Deus de Abraão. do com ele. que nega a alteridade. renegando a Nesta comunicação do nome. os seres hu- sou aquele que serei”. torna-se seu revelador. outrora prometida a vossos vou Caim a quebrar a fraternidade com Abel pelo assassi- pais. rene- que afirma que o povo não o pode nomear nem mani. e se arvoram em seres absolu- na medida de sua ação em favor dele. A recusa da comunicação Na medida em que se desenvolvem. de Isaac contrapõe-se uma força que os leva a fecharem-se egois- e de Jacó. Querendo ser “como Deus”(cf. que mórdios.

quando chora “as cebolas do Egito”(Cf. que evidencia uma resposta ao ape- da promessa. numa relação tu a tu. Ex 32. homens que em-se todos os caminhos para se manterem abertos os falavam em nome de Deus.1). Para ele não volta posta livre da pessoa. não encontra eco no coração humano. Num Desta maneira. enquanto da eternidade. 11 . A Moisés está no Monte (Cf.10-11). Mesmo com o povo rompendo a comunicação Ora.5). lo-promessa de Javé. apareceram os profetas. Embora a Aliança do a terra e feito germinar as plantas” (Is 55. A memória morre. socorrendo o povo nas suas necessi- tabelecem. Num primeiro momento por ções sociais e nos processos comunicacionais que se es. a Palavra. vida cotidiana de Israel. com o gesto de li. Mais tarde. Esta ten. também a ambigüidade do a comunicação. Objetiva o interlocutor. ela supõe uma res. como diz São Paulo. cortan- bertação e a Aliança no Sinai. Destro. mostravam qual era a vontade de Deus a respeito provenientes da falta de comunicação quando o outro é do seu povo. meio dos juízes que. outro. A proposta de comunicação se mantém dois sujeitos. sim é a palavra que o Senhor profere. tornando-o um objeto à sua disposição. tar o processo rompido. ção feita no início. sem ter feito acontecer libertação. quando o processo comunicativo de canais de comunicação com o transcendente e com o Deus atinge um profundo e alto grau. Primeiramente. faz para si um bezerro de ouro. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS No Êxodo. que rompera o silêncio 11. é menosprezada e esquecida na manipulável. De várias maneiras. e Javé é uma pa- humana aflora. Mas. fabrica para si um deus incapaz de salvar. na história do povo de Israel. Deus mantém a proposta de comunica- Deus. entre c. proclamando a sua vontade. o povo deseja voltar ao lavra morta. tremendamente. objetivado e deixa de ser sujeito do processo. Esquecendo o Deus práxis concreta. A comunica. “Tal como a tua-se. ção acontece entre dois seres livres que permanecem profundamente íntegros na sua individualidade. manipulando-o. as- seja uma iniciativa gratuita de Deus. Depois. O processo da comunicação/incomunicação acen. Deus é fiel. Deus procura rea- tativa de manipular o imanipulável expressa-se nas rela. chuva que cai do céu e para lá não volta sem ter fecunda- quando da posse da Terra Prometida. passado. A sociedade apresenta as desigualdades dades. a tendência do povo era sempre manipular constantemente. diálogo.

no ca. a encarnação. mas o Verbo vivo do Pai. para ser dita ao mundo. pessoas humanas. pois. em primeiro lugar exige-se para um processo de comunicação livre e democrático. a Palavra do Pai nhor. uma linguagem sabidamente insuficiente e limitada. a. em todo processo de co- foques no processo comunicativo. Os conceitos povo. ao mesmo tem- Em segundo. Em primeiro lugar. Eram os mensageiros do Se. num contexto de injustiça não há lugar soas dá-se por meio do corpo. mas do que conhece e vive. anuncia o Reino de Deus aos ho- 12 . Pela Encarnação.9-10). Realizar esta missão envolvia dois en. enviando seu próprio Filho. porque o viu e sempre existiu no seio do Pai. a Palavra do diálogo com Deus. Cristo assumiu o risco de usar zer. Pai precisa ser colocada ao nível dos homens. Sua missão era recolocar o povo no caminho do Contudo. sig. Ora. Jr 1. levou ao extremo a sua proposta co. se faz necessário que nificava denunciar os fatos que concorriam para a quebra haja condições objetivas que possibilitem a sua realiza- da comunicação no meio do povo. de mais de uma interpretação.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA interpretando a sua palavra. que possa ser entendida. a fim de minho da Aliança. tas. daquele com o qual se quer dialogar. como a mediação comunicativa entre as pes- em Israel. Ele não é um mensageiro a mais como os profe. Quando chegou a plenitude dos tempos (cf. a missão envolvia o anúncio da Palavra de po. assumir um corpo e colocar-se na mesma condição Deus. lembrando a Aliança e conclamando o povo à con. A injustiça campeava ção. Deus não mais falou por intermediários com o sua realização.1-2). que Encarnado. Jesus vai falar uma linguagem das punha sua palavra nas suas bocas (cf. como Palavra realidade que se quer transmitir. Não fala do que ouviu di. fracas para exprimir toda a municativa. no caminho da comunicação. com todas as suas limitações. versão. Cristo. A ação do Filho municação humana. municação entre os seres humanos. Hb pelo fato de ser histórica e necessitar de um corpo para a 1. e os gestos são passíveis Eterna. Ora. Com esta linguagem. Encarnação que significa. as palavras. O profeta falava ao povo em nome de Deus. Toda comunicação humana. Só ele pode falar do Pai. Ao contrário. A comu- nicação de Jesus sofre das mesmas ambigüidades da co- B. sofre as limitações humanas. A primeira delas é ser entendida por uns e ignorada por outros. são ambíguos.

Assim como no Antigo Testamento a comunica. permanecerá só. Ressurreição: a confirmação da proposta A resposta humana à proposta de Deus por meio A última palavra a respeito da vida de Jesus foi de Jesus é ambígua. a rejeição humana se dá por não é algo pronto. Os judeus rejeitam a ção de Deus se manifestava por gestos concretos de sal.18-19). houve um rompimento da parte do povo. Ao contrário. Estes gestos exigem do povo uma resposta. Deus. Assim como à comunicação de Deus no Antigo ção está profundamente marcada pela ambigüidade que Testamento o povo respondeu rompendo o processo. do mesmo modo a comunicação de Cristo ao tam e querem ver Jesus. Uns aceitam. mais se in. se condicionará a sua mensagem. tanto religiosas quanto políticas. a comunicação realizada por Jesus conflito e que o leva à cruz. b. car as estruturas injustas. dita por Deus. A ressurreição é a palavra definitiva. trágica por sua a fidelidade permanece e se sua proposta comunicativa própria natureza. porque são gestos humanos. Agora. será diversa e conflitiva. e este responde que “se o grão de trigo ro obstáculo que enfrentará. Resta saber se ca. produzirá muito fruto”(Jo 12. morrer. para ver Jesus. Morte: a resposta humana c. mesmo modo. a primeira ambigüidade que que cai na terra não morrer. O mo. sua percep. mento da rejeição é caracterizado no evangelho de João te Reino uma pré-compreensão deturpada pelo correr pela entrada em Jerusalém. Esta pré-compreensão deturpada é o primei. mas. agora. uma ídolos religiosos e políticos. temente. tensifica o conflito gerado por suas palavras e por seus e por tornar presente a absolutidade de Deus frente aos gestos. na qual Jesus vive a fraternidade num mundo de Entretanto. do caracteriza a atitude humana frente a Deus. quando se dá a comunicação plena de bertação (cf. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS mens e mulheres num mundo conflitivo que possuía des. A hora da decisão chegara. Ela se constitui na medida em que a duas razões(as mesmas do Antigo Testamento): por criti- vida dele se explicita. a resposta exigida na liberdade não será unívo. decisão. quando os gregos pedem dos séculos. chegada a plenitude dos tempos. povo é apresentada por gestos concretos de salvação e li.24). Mas. Quanto mais ele vive. Lc 4. Palavra. também permanece. Nela 13 . outros rejeitam. Os gregos – representando todos os povos – acei- vação. Conseqüen.

Jesus viveu e anunciou o Reino de permanecer. Jesus de Nazaré. ao organizar o material que compõe a co- sus. Por. comunicação. ocasionou a sua morte na-se palavra que grita na ressurreição. A palavra no Espírito Santo A morte. A Comunidade Comunicativa de. Este grupo é a Igreja que. Com a ressur. liberta com base no pobre e no oprimido. CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA se afirma que nem os judeus nem os romanos interpreta. A comunicação de Deus por meio de Jesus Cristo tando. Ele é o Deus que é Pai. Deus afirma que Jesus falou a verdade. ao ser rejeitada pelo povo. Ele é mantido justamente por aquele pu- Deus e por isso morreu. que o processo comunicativo por ele iniciado era verdadeiro. O diálogo deve morte. nhado de pessoas que. municação com a pessoa humana. Deus de. foi ratificada pela ressurreição do crucificado. apesar de esta ter re- reição. Com a ressurreição de Je. A última palavra so. testemunham ao povo que Deus o res- mando a missão por ele realizada. porque liberta criando fraternida. Esta é a comunicação de Deus. nha razão. a. quando Deus se escondeu. foi vencida. matando Jesus. o silêncio da cruz. Ela diz que a vida de Jesus não terminou com a do em nome da comunicação de Deus. suscitou dos mortos. coloca-o em muitos respeito de sua vida e atuação. palavra humana a respeito da vida de Je. continua e mantém a antecipa o fim dos tempos. a ressurreição se torna a chave Este processo comunicativo agora deve continuar através hermenêutica de interpretação de toda a vida de Je. Numa ação que de Deus e a partir de Cristo. A ressurreição foi a palavra definitiva a municação da despedida de Jesus12. na cruz. em nome bre a vida de Jesus foi dita por Deus. sus. confir. Deus mantém a co- ram corretamente a palavra de Deus vivo. tor. ele conhece e pode falar verdadeiramente sobre Deus. que. Ao ressuscitar Jesus. C. 14 . da história até a segunda vinda daquele que foi crucifica- sus. liberta com base no crucificado. aconteceu a síntese da dialética. o Pai proclama que Jesus ti. Em vista disso. ao colocarem a sua confiança em monstra que tomou partido de um crucificado. João. lugares e momentos. Ao contrário. Somente cusado ouvir a palavra divina. afirmando que enviaria sobre os 12 Este material encontra-se nos capítulos 14 a 17 de Evangelho de João.

Este num mundo conflitivo. A experiência do Espírito é a experiência da Igreja. por meio de seus sinais. Espírito. Depois da ressurreição. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS discípulos o Paráclito que lhes ensinaria e recordaria tudo mundo. co. a Igreja necessita fa- ta receber a comunicação de Cristo e transmiti-la ao lar a linguagem humana. a Igreja se autocompreende como a Palavra de aquilo que ele lhes havia dito. um renovado vigor. prometido por Jesus. na história humana. para falar ao mundo. Ela tes- nova categoria. da missão e ganham coragem para professar a sua fé. b. Cristo ao mundo no Espírito Santo. tem como dom especial a presen. constru- munidade de salvação. cia de Cristo e da Igreja é fruto do Espírito. tal como Jesus comunicou o Pai para pregar. mens se traduz em construção de fraternidade. ção esta cujo pressuposto fundamental é o pressuposto ça do Espírito. despertam para a dimensão práxis imitativa. para enfrentar a ordem estabelecida. Tal como Deus se comunica por suas ações con- Descobrem agora uma novidade: possuem coragem cretas em favor do povo. seus gestos específicos no meio gem para anunciar com todas as forças que Jesus foi a úl. do Espírito: a encarnação. A construção do reino de Deus é feita através e sob funde uma nova força. Portanto. constrói a fraternidade. iluminada pelo Espírito que lhe possibili. Por isso. cora. o influxo do Espírito. desce sobre eles e lhes in. realiza a práxis de Cristo. também a Igreja comunica Jesus Cristo por sua tima palavra de Deus a respeito da salvação. os discípulos passaram a Esta comunidade é a presença concreta de Cristo ter uma nova experiência: descobriram que a vida de Je. A partir desta expe. eles reinterpretaram a vida de Jesus com uma a presença central de Cristo na história humana. coragem práxis. A comunicação de Deus aos ho- tido escatológico da atuação de Jesus e que a Igreja. do povo. A comunicação encarnada Portanto. citou é o mesmo que foi crucificado. Precisa encarnar-se no meio 15 . Daí porque tudo quanto é típico da vivên. Por isso. Esta expe. Confessando que aquele que ressus- sus não acabara com a sua morte. reiterativa da práxis de Cristo. ao mesmo tempo que mudavam a sua temunha e é presença por sua práxis concreta que é a autocompreensão. que atua em toda parte onde se A experiência demonstra para os discípulos o sen. a Igreja é presença de Cristo enquanto para continuar dizendo a palavra de Jesus. testemunha a todos riência. que é a construção do reino riência eles a expressam na categoria do Espírito.

a exemplo de Cristo. enfim. que buscam compreenderam. põe a sua esperança em Jesus Cristo e atua sob o influxo Ambigüidade que faz com que. sob o influxo do Espírito Santo. de todas as escravidões. a mesmas ambigüidades. Por isso. e dialogar com eles é a mada por Jesus Cristo. ocorrem na comunicação humana. Ora. os meninos e meninas de rua. a encarnação permanece como o cri- estas ambigüidades e contornar os inevitáveis ruídos que tério eclesial para a comunicação de Cristo na história. que não têm nome. a sua palavra do Espírito Santo. a rejeitem igual. Mais ainda. Entretanto. quando os primeiros cris. limitações. tratá-los como gente. sob pena de concreta e assuma os riscos de sua comunicação. Esta co- permanecer eternamente incompreendida. mal-interpretada “Meus irmãos” são também aqueles que se deba- e rejeitada. Enquanto atua na criação da ordem procla. Portanto. Este processo de adaptação histórica é encontrado que significa. Este nome tãos se depararam com o mundo helenístico na expansão é “MEUS IRMÃOS!” Tais pessoas. de todas as alienações. dos tempos. por outros. analfabetos. de um mundo pecador. os velhos. assumiram uma linguagem que porânea. atuando em liberdade. os lhes permitiu comunicar-se com o mundo grego. seja aceita e compreendida. por uns. conviver com ele. os marginalizados. Assim é a história da comunidade cristã através Reconhecer o seu direito fundamental à comunicação. de todas as amarras. a sua linguagem padece das guo. não têm voz. são os pobres. mas nhecimento da linguagem do povo exige um imergir na em gestos concretos que levam à libertação. a exemplo de Cristo. os sem-terra. dar um nome àqueles já nos albores do cristianismo. não têm vez. buscam uma identidade egoisticamente (enquanto con- 16 . mente. ela necessita de um Este critério exige que ela se encarne numa realidade profundo conhecimento desta linguagem. que faz com que pessoas que a tem na ambigüidade da condição humana. as pessoas. municação não se dá de maneira teórica e alienada. de um mundo conflitivo. para poder limitar ao máximo Ainda hoje. missão que se espera e exige hoje desta comunidade que ela experimenta a ambigüidade do processo histórico. Desse modo. Contudo.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA das pessoas. este co. a sua identidade e anseiam por comunicação. Libertação. testemunha e presentifica a limitações que padecia a linguagem de Jesus e de todas salvação e o juízo de Deus sobre a história humana. de todas as cessidades e às suas contingências históricas. nesta realidade de um mundo ambí. adaptar-se às suas ne. na sociedade contem- da comunidade. como “tu”. dos mesmos condicionamentos e Igreja. Libertação vida do povo.

mesmo assim. O amor. que impulsiona a comunidade. é expressão mana está em relacionar-se com o outro como “tu”. um serviço aos irmãos necessitados. segundo relato dos pulsam nos corações humanos. não dispunham de uma classe. a comunidade fala ao Atos dos Apóstolos. É importante que o Espí. a comunhão era o distintivo dos primeiros cris- Deste modo. e vida. O primeiro diz respeito suíam um nome. Ao dar uma resposta a estes de. livres. vendo numa sociedade capitalista. acessíveis a todos. Todos A ação comunicativa da Igreja desenvolve-se em aqueles que. Isso implica um aumento da vida comunitá. Sem esta que havia sido ressuscitado por Deus. encon- aos processos comunicativos vividos e desenvolvidos no travam abrigo e identidade na comunidade daqueles que interior da própria comunidade. professavam a sua fé em Jesus Cristo. metimento com aquele que sofre. que a Igreja procura comunicar e do mem que fora crucificado e do qual davam testemunho qual ela deseja ser palavra no Espírito Santo. Portanto. viessem a ser pronunciadas pelos apóstolos. 17 . A vida comunitária. amadas e remidas mens e mulheres que punham a sua esperança num ho- por Jesus Cristo. A comunicação interna e externa grau de profundidade no seio da comunidade. como “tu” que presentifica o “TU” eterno. um compro- do de hoje. nicação abertos. a partilha. fala ao povo a vivência comunitária deste grupo de ho- cada pela técnica. adquiria um alto c. porventura. não pos- dois vetores: ad intra e ad extra. Esta vida comunitária implicava um momento de qualquer transmissão da palavra de Jesus Cristo ao mun. ria e a comemoração que expressa radicalmente esta ção enquanto tornam os outros objetos a serviço de si. circule livremente no ma de vida de Jesus era e deve ser vivido integralmente seu interior. a comunica- ção entre si. o progra- rito. com todos os canais de comu- sesperados. não sujeitos do processo. na medida em que realiza esta ação tãos e o deve ser da comunidade hoje. mundo na linguagem humana. na vida da comunidade. oração. Portanto. máxima e fundamental da comunicação divina. vi. encarnação não será possível qualquer comunicação. na sociedade. profundamente mar. fruto do fomento da justiça. mas. fundamental na história e descobre quais os anseios que Na vida dos primeiros cristãos. muito mais do que as palavras que. Das pessoas de hoje. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS fundem o “ser” com o “ter”) e procuram uma comunica. eram desprezados. lhes diz que a essência da comunicação hu.

a comunicação desenvolvida não cramental. pois condensam tudo quanto ela é e posto fundamental para a comunicação com Deus. to àqueles que vivem numa condição subumana de vida. O segundo vetor relaciona-se com a ação missio- mente a vida comunitária é realizada pela celebração sa. atualizando. há a memória e a festa. que expressam. Cada um dos sacramentos expressa um gesto pode ficar fechada em um pequeno grupo de videntes. Principalmente. envolve licos que atingem a pessoa em momentos cruciais: nasci. seguimento de Jesus implica uma vocação universal para do e celebrado pela comunidade. a Igreja é fomentadora Quando estas duas vertentes da comunicação in. ser palavra de Cristo ao mundo. ponto seguinte: A comunicação libertadora na realidade latino-americana. por- da Igreja. Para isso. entrada na vida adulta. são momentos densos Deus e com Deus. No sacramento Realizar a práxis libertadora de Jesus – expressão (= sinal simbólico). abertura no Espíri. da comunicação das pessoas entre si e destas com Deus. morte. São momentos simbó. a práxis de Cristo na visto serem objetos e não sujeitos de sua história. Esta tarefa. O salvador de Jesus em favor do povo. a comemoração que expressa radical. E isso nos remete ao to à ação de Deus.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA Por sua vez. A vida vivida. Memória de de comunicação – é criar fraternidade num mundo que um gesto salvador de Cristo e festa por haver este gesto vive sem ela. nas diversas sociedades. nária. tra-eclesial são vividas e incentivadas na comunidade. casamento. São gestos concretos simbólicos que relembram prir esta tarefa. a Igreja está mostrando a comunicação de o passado e prometem o futuro. Este gesto é retoma. deira comunicação libertadora. a comunidade deve ir e atuar jun- acontecido em favor do povo. voz nem vez. Os sacramentos são comunicação porque. dentro que lhes impossibilita entrar em diálogo com Deus. fazer de todos “seus discípulos”. nhão de vida e distribuição do perdão. são gestos simbólicos concretos. síntese. municação é um direito de todos e promover uma verda- ção de fraternidade. realizados em que não podem entrar em diálogo com seus semelhantes. O diálogo entre as pessoas é o pressu- de vida da Igreja. Ao deve ser. comu. A cum- história. implica reconhecer que a co- então está havendo comunicação: tanto a horizontal. quanto a vertical. ir a todos aqueles que. 18 . não têm mento. Cristo. cria.

ibidem. Sua sede encontra-se em São Paulo. tão” e se explicita na “brecha constante entre ricos e po- cação Libertadora”14. O domínio exercido por uns poucos configura não deve ser nem a Teologia. ção da Teologia. profissionais. tação. membro da União Católica Latino-Americana de Impren- sa (UCLAP) e da União Católica Internacional de Imprensa (UCIP). A escravidão vivida pelo povo latino-americano ti- ma que “dentro da reflexão que se pretende – a relação ra-lhe a dignidade humana. Idem. p. organização ecumênica que congrega agentes de pastoral da comunicação das igrejas cristãs. é fundamental recordar o documento social específico: a realidade dominada e escravizada do da UCBC13. mento de reflexão sobre uma ação libertadora. A questão da comunicação libertadora está dire. op. escolas. 19 .A justificativa encontra-se na bres. cit. p. clamando ao céu por liberdade e tampouco a Teologia da Comunicação ou a Comunica. é sócia da World Association for Christian Communication (WACC). nem a Comunicação. 19 15 Cf. nº 28.e um tipo de Comunicação – a Comuni. professores. pois necessita tam- bém ser libertada15. A UCBC foi fundada em São Paulo.. Este documento afir. “à luz da fé. idem. contra a miséria das grandes maiorias”17. 17 Puebla. e que no-americana também a comunicação não liberta. porque a reflexão buscada está em um contexto bertação. Daí a importância da liber- da comunicação com a Teologia. A luta pela libertação se impõe como ponto de tamente ligada com os pressupostos da Teologia da Li. mas é o mo. partida. anteriormente citado. o ponto de partida à vida. 19. que trata da relação continente latino-americano. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS 3. 14 UCBC. nem uma injustiça gritante. mas deve ser a luta pela LIBERTAÇÃO Esta situação de injustiça é vista. justiça16. 16 Cf. Aqui. A expressão 13 União Cristã Brasileira de Comunicação Social. para a qual convergem um tipo de Teologia – a Teologia como um escândalo e uma contradição com o ser cris- da Libertação . O luxo de alguns poucos se converte em insulto consciência de que a Teologia não liberta. entidades e estudantes de comunicação social do Brasil. No âm- bito internacional. cassa seu direito à palavra e entre Teologia e Comunicação –. em 1969. A Comunicação libertadora na realidade lati.

Olhan. mente à família”20. A explo- A. quais são as amarras que devem ser desfei. da violência e do sexo. op. 20 Puebla. Grifo nosso. cit. movido pelo egoísmo e nham em manter o status quo. Isso com o agravante do monopólio tado. Idem. idem. dem nova de dependência/dominação ou subverter esta ordem para criar outra de sinal contrário. Igual violação pressuposto de que a comunicação que não leva a um aparece na indiscriminação das mensagens. orientada para algum fim. bertadora. da informação. n. mui- balharmos na libertação da comunicação. conseqüentemente. Puebla. 19 Cf. Existem elementos poderosos. repetitivas processo de libertação não é verdadeira comunicação. impedindo que a manos é descrita por Puebla com “feições concretíssi. manipulando as mensagens de acordo tas. mas”. constituem uma fla- Com respeito à comunicação. quando constata “o controle dos meios de co- A fonte de toda essa escravidão encontra-se. que nos interpela e questiona”18. que se en. comunicação seja livre e tenha.. p. 1071. 1069. É isso que aponta o Documento de Cristo. UCBC. no atual contexto de América Latina. com interesses setoriais21. e nas quais se reconhece “as feições sofredoras de efeitos libertadores. tanto municação social e a manipulação ideológica que exer- no coração humano quanto nas estruturas sociais injus. 21 Cf. 31-9. dos sentidos. n. isto é. e até em criar uma or- pela lógica do anti-Reino. para exercermos uma comunicação libertadora. criadas pelo ser humano. n.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA desta situação de violação da liberdade e dos direitos hu. nicação é dirigida. 20 . tudo aponta para a exigência de tra. to mais que indagar sobre as condições de possibilidade contra aprisionada19. com respeito à pessoa e principal- devemos nos questionar sobre o que necessita ser liber. se aceitamos os grante violação dos direitos individuais. ou subliminares. A comunicação aprisionada ração das paixões. vigiada. para que exerçamos uma prática de comunicação li. devemos 18 Cf. cem os poderes políticos e econômicos que se empe- tas. Tendo em vista esta realidade. o Senhor. com objetivos consumistas. 20. onde toda a comu- do esta realidade.

“Portanto. UCBC. lítico quanto ético e evangélico. a Teologia da Libertação permite a quer ser um movimento de espiritualidade traduzida apropriação dos bens religiosos por parte do povo. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS buscar a maneira de trabalhar na libertação da comunica. p. UCBC. A B. A Teologia da Libertação na realidade latino-americana mais importante delas. ela lativamente) recente que se enraíza num contexto social pensa com base na práxis. Ela é uma reflexão. 27 Cf. História da Teologia na América Latina.. op. libertada. 20. deles. A pri- numa prática concreta pela presença dos cristãos no lu. cit. p. 25 Idem. baseada na práxis de pessoas No continente. Esta opção se articula tanto no domínio po- surge por geração espontânea.. nascida das experiências de compromisso. é chamada de Teologia da Liber- tação26. função dela”28. In: VÁRIOS. é a opção solidária pelos pobres e contra a Na América Latina. “Sua novidade meto- se volta a relacionar muito mais concretamente com o dológica é pensar dentro da prática. cit . pois comprometidas com a mudança27. Nesta linha. 165-96. UCBC. op. 21 .. Ao mesmo tempo. 28 Idem. mas modificar a própria teolo- pulares. não colocar a prática acontecimento de fé e a espiritualidade das classes po. Ela não nasce da academia. 1981.. Esta teologia. cerne da pastoral da Igreja lati- no-americana. e a libertação como tema. ela tenha efeitos libertadores22. meira desta apropriação é deixar que o povo leia e co- tar cotidiano”25. Enrique. mas com base na gia por causa da prática. 21. São Paulo: Paulinas. p. Hipóteses para uma história da Teologia na América Latina. a Teologia da Libertação não sua pobreza. 21. p. 26 Cf. a Igreja é vista como comuni- 22 Cf. Por último. com os pobres ou em função específico. DUSSEL. das classes subalternas. 23 Cf. ibidem. Ela tem uma história (re. mente a Bíblia. porque se articula com os interesses ção para que.188. a Teologia é uma novidade. op. Esta teologia possui algumas intuições básicas. op. cit. 22. 24 Cf. p. DUSSEL. p. cit. Ela é feita dentro da prática e em prática dos cristãos pela libertação dos oprimidos24. com suas lutas e suas conquistas23.

Idem. na cação é um lugar teológico importante. na sociedade atual. bertação da comunicação”31. realidade latino-americana. É por isso que se diz que a comuni. Atual. ibidem. 30 Idem. tal como a Teologia. como foi dito. nacionalizam os conteúdos da própria cultura. ação libertadora. vivemos no continente uma situação de opres. pois esta não está livre. para pensar a comunicação liberta- Entretanto. 32 Cf. 23. uma re- de envolve uma comunicação libertadora. políticos e econômicos existentes. dora é necessário pensar a cultura. encontram-se a serviço da gia. não como grande instituição29. Julio Barreiro afirma que “a prática da ser libertada. envolvendo uma dimensão de apren- municação que se tornam visíveis as situações de opres. ibidem. “Deste modo. a comunicação livre é um processo. Na medida em que a ordem social é repressiva. pois. comunicação libertadora existe.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA dade libertadora e instrumento de libertação nas bases e cionada com a ordem social. Ora. são e lutamos pela libertação. ibidem. a comu- A Teologia é sempre um segundo momento. é possível haver uma comunicação libertadora. p. A comunicação libertadora como “lugar teológico” dos processos sociais. ibidem. é o momento de reflexão sobre uma opressão e da dominação econômica e cultural32. 33 Idem. ela é uma realida. pois é na co. na medida 29 Cf. Idem. porque lutar pela libertação social significa lutar pela li- mente. Por isso. na medida em que se de aprisionada. Na atual ordem social. lação com o outro. como vimos. já que a Teolo. nicação está a serviço dessa ordem social repressiva. “Uma situação de liberda. 31 Idem. Daí aquele da reflexão sobre uma ação libertadora. redefinindo o seu con- também a comunicação não liberta. 22 . Por isso. dizado mútuo. a comunicação como processo são e dominação”30. não se identifica com os meios de comunicação que. “Ela própria deve ceito”33. Os processos de comunicação resultam C. A dominação da comunicação está rela.

Buenos Aires: Tierra Nueva. p. op. 89. Aqui na América Latina. Crente e atéia. Nesta perspectiva. porque quecida quando pensamos o problema da comunicação a cultura medeia todo o processo social. Mulata e chola. A América Latina está em construção”37. entre outras. Mi- pretende internalizar na nossa consciência mediante a noritariamente rica e majoritariamente pobre. Comunicación y Humanización. ex. até a miséria absoluta. Daí ser imperio. ras ainda jovens. 1984. como missão. da aculturação que que. Oligárquica e esta prática libertadora vai existir na medida em que for burguesa. teúdos. Múltipla e. eco. Índia e mestiça. Jovem e velha. Branca e negra. contribuições migratórias. às vezes. 38 Idem. A necessidade desta tarefa impõe-se. 23. tra. p. 36 Cf. p. de nossos povos colonizados e submetidos iniciou-se há 34 BARREIRO. O problema que se impõe é nacionalizar os con. da diversidade e mudança do lugar social e do “lugar cultural” de quem do pluralismo como categorias importantes para a refle. Revolucionária e reacionária”38. rem nos impor os Dominadores”34. contribuir para a configura- dições. porque a transformação da realidade América Latina é “una e variada. 89. Mais concretamente. Não nômicas e sociais. por sua vez. A aceitação deste posicionamento exige a so pensarmos a questão da diferença. Idem. Industrializada e empobrecida. 37 BARREIRO.. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS em que se liberta. “estamos na presença de “As mensagens da comunicação libertadora têm várias culturas que respondem a distintas raízes. Sã e enferma. 35 Cf. ção e a articulação de uma cultura latino-americana. há a clara consciência de que a Não é impossível. reflete teologicamente. 89. etnias. op. sempre em Evidentemente. cit. Julio. mas tampouco impossível. porque a cultura latino-americana está em construção. às vezes. esta diversidade não pode ser es- construção. as mensagens da cultura nacional. Não é fácil. cit. é uma tarefa fácil. tendo como fundamento a comu- xão sobre a relação entre comunicação e cultura36. UCBC. 90. libertadora. Nacionalista até o chauvinismo e internaciona- superado o complexo de inferioridade que a aculturação lista até as abstrações. p.. ação sutil dos meios massivos35. Camponesa e proletária. p. 23 . formações históricas. bem como o fato de que se trata de cultu. tremamente diferente. nicação libertadora/libertada.

a comunicação libertadora vive numa perma. 91. aceitamos estrangeirizantes que durante tanto tempo a alienou. onde a lei fundamental é cia de conteúdos que ajudem as pessoas a compreender a do mercado. e importância de conteúdos de comuni. do lucro. a comunicação libertadora não municação? Essa outra comunicação – que se pretende pode prescindir das alternativas oferecidas pela cultura libertadora – terá que superar uma série de limitações popular. mente o de comunicação. 98. p. quais são as formas de ação possível no contexto injusto ca de uma sociedade. Como. 91. 39 Idem. em uma sociedade que nega à maior par- e sociais. p. Estes sinais grande contradição: trabalhar com os meios de comuni- são: construção da unidade latino-americana. disso. Entretanto. 117. te da população os direitos mínimos fundamentais. numa sociedade injusta. “entre os cria. 40 Idem. Como suas fontes são espontâneas no qual se vive. 42 Idem. e continua desenvolvendo-se – como in. ibidem. Ela restaura a intercomunicação real e é um dos numa sociedade injusta.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA várias gerações. lutar-se por outra co- De outra parte. e a lógica é a do capital. a gratuidade coloca-nos diante da mensagens estão chamando a recorrer”40. Diante o que é o povo. Idem. Eis porque é necessário pensar firmes fundamentos da consolidação da vida democráti. elaborar as alternativas de uma comunicação libertadora tura comum termine por configurar-se”39. vel. é necessário pensarmos a ação libertadora possí- cação que ajudem a identificar a nação com o povo41. “uma cultura que nacionalizar seus munidade social será beneficiada”42. p. cação na sociedade capitalista. Por isso. conteúdos. importân. 95. 24 . mor- nente libertação de forças novas. pode se produzir um intercâmbio riquíssimo do qual a co- Por outro lado. ao mesmo tempo que acaba com os resíduos Quando aceitamos a cultura popular. 41 Cf. também a presença do lúdico e da gratuidade na vida das mostra os sinais inequívocos dos caminhos que aquelas pessoas. dores da cultura popular e os agentes preocupados em dicam seus processos de libertação – até que aquela cul.

a co. Na realidade. or- 43 Cf. adesão do coração. porém. O que é Pastoral? O que é Pastoral da Comunicação? municação libertadora pensa a contradição existente na Segundo uma obra produzida pelo Departamento sociedade capitalista e propõe alternativas para uma de Comunicação Social do Conselho Episcopal Lati- ação possível. é impossível pensar A. os fundamentos teológicos da afigurar-se contrastantes. Desse modo. Comunicação: Missão e Desafios. na sua integração com os demais45. Caso contrário. Evangelização e comunicação como tarefa dos em que há variados elementos: renovação da humanida- cristãos de. op. Pastoral manifesta as diversas concepções que foram da- bertada é expressão visível das relações existentes na co. anúncio explícito. UCBC. envolve vejamos a Pastoral da Comunicação. Para tratar do tema da Pastoral da Comunicação. 45 PAULO VI. complementares e reciprocamente enriquecedores uns municação libertadora. p.. a história da Teologia flexão teológica. podem Teologia e a comunicação. 25 . São Paulo: Paulinas. das ao termo pastoral44. n. em primeiro lugar. detenhamo-nos um pouco no dos outros. corremos o risco de ficar na denúncia e não se. Este últi- mo definido por Paulo VI como uma diligência complexa 4. Estas concepções iam desde munidade que experimentou a salvação. uma ação restrita aos agentes hierárquicos até uma iden- tificação com o próprio termo “evangelização”. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS Sem pensar esta contradição. eles são comunicação do ponto de vista bíblico e a questão da co. É necessário encarar sempre cada um deles problema da evangelização e da comunicação. A Pastoral e a Pastoral da Comunicação uma ação possível no domínio da comunicação. 24. 44 DECOS/CELAM. tos. cit. 27-8. entrada na comunidade. testemunho. Para isso. visto que a comunicação libertadora/li. pode tornar-se norma da re. a proclamação da Boa-Nova da salvação na Liturgia. Desse modo. na aparência. Evangelii Nuntiandi. no-americano(DECOS/CELAM). rão propostas alternativas de libertação43. aceitação dos sinais e iniciativas Depois de ter visto o problema da relação entre a de apostolado. p.276. 1989. Esses elementos. devem ser explicitados alguns concei- Quando se relaciona com a cultura popular.

de agrupar-se. o trabalho da Pastoral da Sacramento de Comunhão nos distintos âmbitos em que Comunicação vai estar diretamente ligado à maneira se desenvolve com respeito às diversas dimensões do ho. mem e da sociedade46. a Pastoral da Comunicação refere-se uma nova sociedade. os empresários e trabalhadores do setor. A Pastoral da Comunicação pode in. se aceitarmos a identi- vimento integral da humanidade. op.).. 1979. já B. Esta necessida- cluir – e o deve – o uso dos meios e sua boa relação com de explicita-se como uma necessidade de comunicação. a comunicação é um fato e uma necessidade estas ações e as orienta47. Portanto. 278 47 SOARES. a pastoral da participação. CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA ganização dos crentes em comunidade. no mundo. social. Com respeito à Pastoral da Comunicação. p. anúncio da Boa-Nova da Salvação.16 48 PUEBLA. ficação da Evangelii Nuntiandi. a ser humano. dela No processo de mudança social e cultural existe uma afirma Ismar de Oliveira SOARES: é a pastoral do ser/estar interação e uma interdependência entre comunicação e o em comunhão/comunidade. Ismar de Oliveira (org. ção. o Documento de Puebla já afirma que evangeli- porânea. como compreendemos o processo de comunicação. para satisfazer suas necessidades básicas tre as pessoas. quando nos 46 DECOS/CELAM. em termos de comunica- Assim. pois aquela é um elemento inerente à condi- pastoral da produção e revisão dos bens simbólicos. Provindo do latim comunis.Como Organizar a Pastoral da Comunicação. sentiu a necessidade de relacionar-se. Infere-se daí que o trabalho no campo da comunicação se insere nesta perspectiva. edificação de Entretanto. n. que ção humana e existe desde o aparecimento do ser humano tornam possível o inter-relacionamento democrático en. mas é anterior a Dessa forma. Compreensão de Comunicação que o homem também atua no âmbito comunicacional. (Edição Brasileira. especificamente à comunicação. vem a ser a atuação concreta da Igreja como zação é comunicação48. 1063) 26 . Aliás. de colaborar com os outros. da cultura humana. diálogo com os que não têm fé. São Paulo: Paulinas. em sua interpretação contem. a pastoral da valorização das expressões mediante o trabalho.1989. A Evangelização no Presente e no Futuro da América Latina. a pastoral. p. afirma que. São Paulo: Loyola. Logo. cit. e este. diz respeito ao com vistas a um trabalho conjunto em favor do desenvol.

pois. estamos tentando estabelecer uma comuni. Acontece uma fase nos conteúdos. Existe um emis. de uma geração para outra. O importan. Uma só via. Um emissor que envia uma mensagem a um re- de comunicação corresponde uma determinada prática ceptor que dá uma resposta ou reação. uma vez que a retroalimentação é uma nal. ação-reflexão-ação. Mario. 17 27 . modelar a conduta das pessoas com objetivos previa- Para compreender a estrutura da comunicação. destaca o processo de transformação da te. ção problematizadora” e valoriza o PENSAR. é o SABER. pessoa e das comunidades. Corresponde à chamada “enge- afirma da Pastoral da Comunicação: é a pastoral do ser/es. preocu- como transmissão de informações. a comunicação é compreendida como per- comunicação49. denominada re- de Pastoral da Comunicação. determinada concepção e uma determinada prática da Aqui. O impor- Existe um primeiro tipo de educação que põe ên. baseada na transmissão de conhecimentos e valores concessão do emissor ao receptor. que é recolhida pelo emissor. Utiliza o método Como vemos. Podemos complementar que a cada tipo suasiva. Ele corresponde à educação tradicio. esta é a “educação bancária”. processo. 49 KAPLUN. a cada tipo de educação corresponde uma neira o FAZER. “educação manipuladora”. Preocupa-se mais com a inte- Neste modelo. Um segundo modelo de educação é aquele que dade com alguém. nharia do comportamento” e consiste essencialmente em tar em comunhão/ comunidade. mente estabelecidos. Segundo a concepção de O terceiro modelo de educação põe ênfase no Paulo Freire. pa-se com o desenvolvimento de suas capacidades inte- sor(E) que envia uma mensagem(M) a um receptor(R). compreendendo-se como “educa- so unidirecional. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS comunicamos. Pode ser compreendido como uma pode-se realizar uma aproximação com o campo da edu. troalimentação. El Comunicador Cristiano. falsa participação. em que se valoriza sobrema- cação. para este tipo de educação. lectuais e de uma consciência social. tante são os efeitos a serem conseguidos.1986. a comunicação é compreendida ração dialética entre as pessoas e sua realidade. é um monólogo. Daí porque Ismar de Oliveira SOARES põe ênfase nos efeitos. p. isto é. Quito: CIESPAL. Um proces.

vida52. por parte da Igreja. soas e as coisas. a educação do senso crí. mais jovens. ferindo a lei natural e humana51. Portanto. A preocupação era formar. do ideal da que se afirmava de educação. legiou o saber. que consiste na emissão/recepção de mensagens processo50. as pes- de acesso. tico. tariamente experiências sob condições livres e igualitárias bem como o pensamento cristão sobre o mundo. 52 Idem. advém a cotação moral dos filmes. ensinar pensar. Num neologismo criado por Clotier. noutro o fazer e. n. baseado no intercâmbio de para as pessoas. 1988. num primeiro momento. São Paulo: Paulinas. pelo qual os seres humanos compartilham volun. mensagens que os meios de comunicação transmitiam ração social e democrática. Não podemos esquecer que a Igreja Ca- tólica estava rompida com o mundo moderno. ao mesmo tempo. é o processo de inte. esta foi uma longa história. é rida pelo pensamento e ação eclesiais. Entretanto. Desta posição. 7. ra Soares traça uma visão panorâmica muito rica deste mana. o os centros de cinema. 51 PIO XI. na cupou. e uma o reto uso dos meios. Sua preocupação cen- ção. A Pastoral da Comunicação na encíclica Vigilanti Cura que a produção cinematográfi- ca estava rebaixando o senso moral dos espectadores e A preocupação com a Pastoral da Comunica. diálogo e participação. n. Deste modo. Ismar de Oliveira. sempre se moveu dentro do trava-se nos efeitos que o cinema tinha nas consciências marco da educação. a Pastoral da Comunicação se preo- conforme a compreensão de Antônio PASQUALI. se privi. Vigilanti Cura. o ser humano é. Num momento. Comunicação é a relação comunitária hu. longa caminhada – não totalmente terminada – percor- emissor e receptor. a compreensão do que se pode e deve quando se desenvolvem as noções e os sentimentos de realizar neste campo sempre esteve ligada ao conceito justiça e retidão dos deveres e das obrigações. Ou. entre interlocutores em estado de total reciprocidade. Pio XI diz C. 25. idéias que contrariavam a moral e os bons costumes. CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA Nesta visão. mais recentemente. Identificavam-se nestas mensagens as signos. com a qualidade das explicitação de Luis Ramiro Beltrán. nas quais o senso moral está em formação. Ismar de Olivei- um EMIREC. No caso. Do Santo Ofício à Libertação. 50 SOARES. 28 .

com moralista. Do Santo Ofício. destacam-se aqueles meios que não só por sua ção. mas as próprias multidões e a sociedade humana deira doutrina. 1. que. por isso mesmo. de Pio XII. p. a Mãe Igreja. a televisão riam vacinados contra os perigos dos novos meios. lar nos tempos atuais. do ensino em fase do Concílio Vaticano II. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS Também na linha da formação crítica. Uma das maravilhas da Prorsus. sendo as princi. Nesta linha continua. aceita e faz progredir aquelas que. Para Ismar de Oliveira Soares. como a imprensa. 7. de modo particu- verdades de Deus53. 53 PIO XII. para que os usuários soubessem como natureza são capazes de atingir. permitindo. porém. conciliou com o mundo moderno. 55 CONCILIO VATICANO II. a Pastoral da Comuni. duos. o conteúdo programático da formação passa. aos espetáculos fará cial. especial solicitude. quando a Igreja se re- para melhor usufruir dos meios situa-se a Encíclica Miran. pensamentos e determinações da von- cada um dos modernos veículos54. ram caminhos novos de comunicação fácil de toda sorte va pelas próprias normas e pelo estudo da linguagem de de informações. n. podem ser Num segundo momento. Sabendo a verda. ao mesmo tempo. na Pastoral da Comunica. a fun. Diz o Papa que formar para assistir do mundo moderno eram os meios de comunicação so- de maneira consciente. 127. as verdades morais e cristãs. Dentre estas invenções. e outros deste gênero. 56 Idem. o cinema. ainda permaneça numa visão moralista – louva estes ao cristão aproveitar de todos os conhecimentos novos do meios como maravilhas do engenho humano. o projeto admite várias frentes. Entre as mundo para elevar o espírito até a meditação das grandes admiráveis invenções da técnica. se referem ao espírito humano. que. inteira. Inter Mirifica. Miranda Prorsus. o engenho damentação de Pio XII para o seu projeto é explicitamente humano extraiu das coisas criadas. movimentar os indiví- agir diante das mensagens dos meios. Portanto. o rádio. tade55. ibidem. chamados com razão de Instrumento da Comunicação cação se preocupou com o uso dos meios. de pais a coibição e a formação do usuário com base nas nor. era ensinar. que rasga- mas morais. n. Já estamos Social56. o importante. e não passiva. O Documento Conciliar Inter Mirifica – mesmo que diminuir os perigos morais. 54 SOARES. os fiéis esta. 29 . preferência. com auxílio de Deus.

Communio et Progressio. emanado da Pontifícia uma boa comunicação. o FAZER. O que se mede é a eficácia dos meios. Assim como a educa- mana são os fins primordiais da comunicação social e dos ção põe ênfase no processo. isto é. de promover a “comunhão e o progresso” da convivência Com o tempo. A grande preocupação da Pastoral da Comunica- de e comportamento das mesmas pessoas57. em si bons e do Concílio. ção vai residir em valorizar o PENSAR. Se quo social58. Por isso. A comunhão e o progresso da convivência hu. o erro Comissão dos Meios de Comunicação Social sob ordem está na minha maneira de utilizar os meios. mais abrangente da comunicação. a rádio e da pessoa e das comunidades. Com o desenvolvimento técnico desses meios. o grau de penetração e influência na mentalida. Documento 16. interessados em manter o status tos da terra. compreen- Como vemos. foi em Puebla que esta consciên- atinjo as pessoas e mudo o seu comportamento. Para chegar a isso. ral da Comunicação vai se preocupar com o processo co- aumenta a facilidade com que maior número de pessoas. Entretanto. a Igreja descobriu o valor dos duos e as comunidades sejam sujeitos ativos de sua meios. Estes meios podem ser um instrumento ade. como a imprensa. Já num documento prepara- 57 PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. em Medellín. evoluiu-se para uma compreensão humana. vai dar aos meios de comunicação o objetivo instrumentos de comunhão e do progresso humano. ciedade em geral. municacional que se estabelece entre as pessoas e na so- e cada um em particular. principalmente na América Latina. do mesmo modo a Pasto- a televisão. não mais existe a condenação pura der os mecanismos sociais que impedem que os indiví- e simples. n. Daí que a preo. lhes pode ter acesso. a reflexão eclesial caminhou quado para atingir as pessoas. 1. muito. Ao contrário. incipientemente. faço cia aflorou com mais vigor. também. destacando a transformação meios que emprega. 58 MEDELLIN. que muitos destes cupação seja utilizar os meios para atingir determinado meios estão vinculados a grupos econômicos e políticos fim: transmitir a mensagem evangélica para todos os can. o cinema. modificar-lhes o comportamento. moldar-lhes a personali. Caso isso não aconteça. n. cons- dade. 2. Daí que a Pastoral da Comunicação vai acentuar comunicação.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA Um documento posterior. 30 . aumenta. tata. nacionais e estrangeiros.

Recorre-se freqüentemente à mani. ao rio. que dominam os meios. Por isso. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS tório. manos.. acordo com interesses setoriais63. 1070. Por outro lado. des para a expressão dos comunicadores responsáveis. obstaculizam a co. 60 Idem. 173-4. uma ordem de dependência-dominação ou. p. A compreensão da comunicação. to para refletir sobre a comunicação social. no Brasil. o CELAM dizia que a comunicação social. Denuncia. ideológica exercida pelos poderes políticos e econômicos pulação e à persuasão que acarreta a despersonalização que se empenham em manter o status quo e em criar do homem. 63 Idem. OCIC-Al. reforça que a comunicação social (. ibidem. político e privados. nas arbitrariedades e rica Latina. Buenos Aires: Paulinas. foi explici- 59 Citado por SPOLETINI. na Amé. meios de informação e a manipulação das mensagens de municação dos setores marginalizados e criam dificulda. 61 Idem.). pelo contrá- los de comportamento frente ao social. nuncia o controle sofrido pelos meios e a manipulação dade mais imediata. 31 . ao mes. op. n. inculcando-lhe falsos papéis sociais e mode. Este monopólio permite o uso arbitrário dos econômico. na aplicação da censura. reconhece que a comunicação so. com base no Isso se manifesta na constante violação dos direitos hu. p. cit. adiante. encontrava-se sumamente condicionada por nos abusos econômicos aos quais se vêm submetendo esta realidade sociocultural. 62 PUEBLA.. Comunicación e Iglesia Latinoamericana. Mais ção social comprometidos com a causa da justiça61. Mais ainda. Benito. outrossim. processo estabelecido na sociedade. 1069. em subverter essa ordem para criar outra de sinal moral e ao religioso60. constitui um dos tanto as instituições quanto os profissionais da comunica- fatores determinantes que sustentam tal situação59. de- plo. Os grupos de poder.. O Documento de Puebla apóia-se neste documen- mo tempo que vincula o homem a um universo mais am. contrário62. o coloca frente ao risco de isolar-se de sua comuni. 172. ao econômico. UCLAP. Unda-Al. o monopólio da informação cial é um dos fatores em jogo na situação de conflito social exercido tanto pelos governos quanto pelos interesses que vive a América Latina. 1985. WACC. n.

grupo ou comunidade. O trabalho. em que cada indivíduo. a verticalidade delas se identificou com uma fase histórica do pensamen- e a unidirecionalidade da comunicação. aperfeiçoa-se enquanto se desenvolve. São Paulo: Paulinas. tem-se em mente criar condições para nação. embora tenhamos feito uma di- rienciem o processo comunicacional que acontece no in. busca-se criar condições para o estabelecimento de uma to-base da Campanha da Fraternidade de 198965. estas visões nunca se dão este processo ao macroorganismo da comunicação da de maneira quimicamente pura. compreendam e experimentem a Conclusão realidade da comunicação social. to e do agir eclesial. 65 CNBB. elas ainda subsistem hoje. relacionem na Pastoral da Comunicação. Há períodos de retrocesso e momentos de estag- de comunicação. da Igreja. das e já provadas é muito grande. identifica-se com o direito de Pastoral da Comunicação não é linear e é sempre posi- ser. Explicita-se e cação. Fundamentado em todos estes pressupostos. em 1984. A tentação de se voltar às experiências conheci- que a palavra da comunidade flua viva e livre. Este direi. comunicação dialógica. na prática pastoral concentra-se em realizar uma educação para a comuni. exerça seu direito fundamental à comunicação. Assim. Cumpre dizer que.CADERNOS TEOLOGIA PÚBLICA tada tanto na Carta aos Comunicadores64 quanto no tex. de maneira dialética e conflitiva. É processual. isto é. Porque é histórico e dialético. conviven- Conseqüentemente. nicação como processo implica enfrentar o novo e o jetiva que o ser humano seja um emissor/receptor. identificando o autoritarismo. 32 . este processo de to. concentra-se em fazer com que as pessoas expe. pois aceitar a comu- Noutras palavras. Comunicação para a Verdade e a Paz. Ao mesmo tempo. implica democra- 64 Emanada. dessa ma- neira. o trabalho pastoral no campo da comunicação objetiva que todos conheçam. Conquanto cada uma sociedade. visão didática e histórica de posições tomadas pela Igreja terior das comunidades. O trabalho é cíclico. a Pastoral da Comunicação do. Mesmo quando se executa um trabalho pelos meios tivo. inusitado no trabalho pastoral. fundamental e primário. 1989. a Pastoral da Comunicação ob. da Equipe de Reflexão do Setor de Comunicação Social da CNBB.

). Buenos Aires: Tier- Paulinas. Miranda Prorsus. Quito:CIESPAL. PUEBLA. nais e do estabelecimento de políticas democráticas de PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO comunicação na Igreja e na sociedade.. PIO XII. Aires: Paulinas. In: VÁRIOS. São escutar o que os interlocutores têm a dizer. GOMES. SOARES. escutar e aprender. Pedro Gilberto. Do Santo Ofício à Libertação. Julio. Petrópolis: Vo- mos que as coisas irão tomar. PIO XI. principalmente. História da Teologia na América Latina. 1989. 1979. nem pode ser. jogo de cartas marcadas. ra Nueva. São Paulo: Paulinas. tem a certeza absoluta e a garantia antecipada dos ru- DECOS-CELAM. numa democracia. Assusta.Deus rompeu o silêncio! 2. Communio et Progressio. SPOLETINI. SOCIAL. Hipóteses para uma história da Teologia na Améri- tumados em ter a última palavra. Inter Mirifica. Direito de Ser. Ismar de Oliveira (org.1986. KAPLUN. São Paulo: Paulinas. 1980. Paulo: Paulinas. O grande desafio da Pastoral da Comunicação PAULO VI. CONCILIO VATICANO II. Pedro Gilberto. aqueles que. São Paulo: Paulinas. 1988. UCLAP. Evangelii Nuntiandi. hoje é superar a visão instrumentalista dos meios e traba. embora o Paulinas. 1984. . Para uma Teologia da Comunicação. São Paulo: pectiva de donos da verdade.. sem ca Latina. São Paulo: Pauli- nas.ed. 1989. um zes. Teologia e Libertação. 1984. Comunicación y Humanización. Isso assusta os espíritos acos- DUSSEL. Vigilanti Cura. nunca se DECOS/CELAM. SOARES. Comunicação. Unda-Al. Não é. 1985. São Paulo: BARREIRO. 33 . Benito. Comunicación e Iglesia Latinoamericana. A Evangelização no Presente e no Futuro da América Latina. 1985. caminhar histórico. em falar sempre. Mario. São Paulo: Loyola. 1989. ainda pensam que existem os que GOMES. aqueles que se colocam numa pers. São Paulo: Loyola. 1981. Comunicação para a Verdade e a Paz. lhar na perspectiva de discutir os processos comunicacio. Buenos CNBB.. El Comunicador Cristiano. A ética da comunicação na sabem e devem ensinar e os que não sabem e devem América Latina. WACC. UCBC. OCIC-Al. 1989. Ismar de Oliveira. Enrique.Como Organizar a Pastoral da Co- Referências bibliográficas municação. Comunicação: Missão e Desafios. Edição Brasileira. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS tizar a comunicação e.

SJ . SJ Nº 11 – A teologia em situação de pós-modernidade – Geraldo Luiz De Mori. SJ Nº 2 – Teologia e Espiritualidade. SJ Nº 8 – Teologia e literatura: profetismo secular em “Vidas Secas”. de Graciliano Ramos – Carlos Ribeiro Caldas Filho Nº 9 – Diálogo inter-religioso: Dos “cristãos anônimos” às teologias das religiões – Rudolf Eduard von Sinner Nº 10 – O Deus de todos os nomes e o diálogo inter-religioso – Michael Amaladoss. Nº 5 – Conceito e Missão da Teologia em Karl Rahner – Érico João Hammes Nº 6 – Teologia e Diálogo Inter-Religioso – Cleusa Maria Andreatta Nº 7 – Transformações recentes e prospectivas de futuro para a ética teológica – José Roque Junges. O. F. Dreher Nº 4 – No Quarentenário da Lumen Gentium – Frei Boaventura Kloppenburg. M. Uma leitura Teológico-Espiritual a partir da Realidade do Movimento Ecológico e Feminista – Maria Clara Bingemer Nº 3 – A Teologia e a Origem da Universidade – Martin N. INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS Cadernos Teologia Pública: temas publicados Nº 1 – Hermenêutica da tradição cristã no limiar do século XXI – Johan Konings.

2. Ética. jesuíta. G. 1997. 120 p. Política. foi vice-reitor e. _______. exerce a função de pró-reitor acadêmico na mesma universidade. M. USP (1991). ed. COGO. 1. Publicações: GOMES. . 1998. em 2002. COGO. GOMES. M. GOMES. ano 2. Televisão. Escola e Juventude. P. Tópicos de Teoria da Comunicação. Processos midiáticos e construção de novas religiosidades. Sua tese intitula-se Para uma história da UCBC. G. O Adolescente e A Televisão. São Leopoldo. v. P. São Leopoldo: Editora Unisinos. São Leopoldo: Editora Unisinos. É graduado em Filoso- fia. v. Em 1998. G. 191 p. pela Universidade de São Paulo. é professor e pesquisador no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS. é natural de Blumenau (SC).. Filosofia. D. Porto Alegre: Mediação. G. P.. D. GOMES. 2001. 2004. n. 1. Dimensões históricas. Comunicação.8. P. Atualmente. PUCRS (1973) e doutor em Ciências da Comunicação. 2004. pró-reitor de Ensino e Pesquisa na UNISINOS.Foto: Renata Stoduto INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS Pedro Gilberto Gomes (1946). pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: IEL/EdUnisinos. Processos Midiáticos em Debate. Cadernos IHU. Desde 1998.