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REVISTA MAGIS

SUBSÍDIOS

Número 06 – 1999

Espiritualidade,
Vida Leiga e
Discernimento

SUMÁRIO

Editorial

Espiritualidade Inaciana e Vida Leiga
Pe. Ulpiano Vásquez Moro S.J.

Critérios Inacianos de Discernimento a partir da América Latina
Pe. J. B. Libânio S.J.
1. Pressupostos do discernimento na perspectiva latino-americana
a. Concepção da história do mundo
b. Concepção da graça
c. Recuperação do público em confronto com o privado
2. Tirar de si todas as afeições desordenadas
3. Dialética do “magis” e da pequena mediação
4. Buscar Deus no cotidiano
5. Sentire cum Ecclesia
Conclusão

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EDITORIAL

A Revista Magis Subsídios traz nessa edição dois assuntos de especial importância para
todos aqueles que vivem a Espiritualidade Inaciana.

O primeiro texto, do Pe. Ulpiano Vásquez Moro S.J., amigo, colaborador e acompanhante
espiritual do Centro Loyola, é a transcrição de sua conferência aqui realizada em maio de 1998
sobre o tema Espiritualidade Inaciana e a Vida Leiga. O texto não apresenta, como se pode imaginar
em um primeiro momento, aspectos específicos ao laicato em um sentido eclesial, mas aprofunda os
objetivos e sentimentos de Santo Inácio quando, nos Exercícios Espirituais, propõe uma escolha ou
reforma de estado de vida. Assim, o texto conduz ao conhecimento da graça de viver continuamente
a busca da vontade de Deus que supera e suporta qualquer estado de vida escolhido.

O segundo texto, do também amigo e incansável colaborador deste Centro, Pe. João Batista
Libânio S.J., apresenta os aspectos de relevante importância para a prática do discernimento da
vontade de Deus na vida de cada um, tendo como pano de fundo as questões sócio-políticas e
culturais que desafiam a realidade da América Latina e, conseqüentemente, do cristão que nela vive
e exerce sua missão apostólica.

Boa Leitura a todos!

A EQUIPE

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Guimarães Rosa definia o poeta como aquele que pede esmola às palavras para poder dizer aquilo que ele quer transmitir aos outros. quando nos detemos de uma maneira contemplativa para perceber o seu sentido. ou o conceito de vida. começa a acontecer. Portanto. sem fazer distinção entre vida leiga ou vida religiosa. aqui. tudo aquilo que possamos 4 . Eu vou tentar. contemplar a significação de algumas das palavras que Santo Inácio utiliza para tratar desse tema. têm que pedir esmola às palavras do Evangelho ou. o exame. aquilo que Santo Inácio diz de mais geral e ao mesmo tempo de mais concreto sobre a vida. nesta noite. a contemplação. O mais geral e ao mesmo tempo o mais concreto que Santo Inácio diz sobre a vida é que Jesus Cristo é a vida verdadeira. de idéias. de alguma maneira. É em Jesus Cristo que a vida verdadeira se mostra ou se manifesta. Digo “maneira de pensar” porque como sabem os que conhecem os Exercícios. isto é. vem uma série de associações de sentimentos. Vou tentar desenvolver o tema de uma maneira inaciana. É uma expressão interessante. como foi Santo Inácio. na vida de Jesus Cristo. não é a idéia de vida. Como na contemplação evangélica ou na contemplação de uma paisagem. ou sacerdotal. no caso aqui. usando uma das maneiras de pensar que Santo Inácio coloca nos exercícios. em primeiro lugar. Ulpiano Vásquez Moro S. o mais geral e ao mesmo tempo o mais concreto. Na verdade. de um tema mais ou menos parecido. há neles vários modos de orar: a meditação. Contemplar a significação das palavras. Santo Inácio o denomina: “contemplar a significação das palavras”.J. Um deles. Quais são as palavras de Santo Inácio sobre isso que nós chamamos de vida leiga? Eu recordaria. para começar a nossa conversa sobre a espiritualidade inaciana e a vida leiga. ou religiosa. que nos fazem aprofundar no sentido que essas palavras têm na nossa vida. As palavras têm uma significação que. Ou. ESPIRITUALIDADE INACIANA E VIDA LEIGA Pe. de uma maneira autêntica. Eu acho que o cristão e o teólogo cristão. já que Santo Inácio não faz essa distinção entre vida leiga e “outra” vida: clerical. A vida verdadeira se mostra em Jesus Cristo. como veremos. pedir esmola às palavras de alguém que viveu o Evangelho de uma maneira intensa. que são também modos de pensar.

ou não tenha lido nos Evangelhos. o espaço. É o próprio Jesus.falar sobre a vida. a nossa vida. no Evangelho de João. No número <177> dos Exercícios. onde esses dois estados de vida se diferenciam é a Igreja. entre esses estados. entre estados de vida. na petição do exercício chamado “Das Duas Bandeiras”. portanto. leigas. não é uma idéia de vida. Disso também Santo Inácio fala. de todos aqueles e aquelas que a ela pertencem. ou falamos do ponto de vista social. A distinção. ou qualquer uma das distinções que muitas vezes nós utilizamos quando falamos de nossa sociedade. Santo Inácio faz uma distinção. ou qualquer outra distinção que nós possamos fazer para falar dos diferentes modos. ou uma diferenciação. Sempre partindo do pressuposto inaciano que a Igreja é mãe. religiosos. o que é a vida. Aí ele fala – já que se trata de uma eleição . Qual é o espaço. é uma pessoa. antes de mais nada. mãe de todos. De fato. no número <135> dos Exercícios. político e assim por diante. deve se situar nesse pano de fundo: de que a vida verdadeira se manifesta em Jesus Cristo. ele fala dos dois estados de vida que acontecem – cito literalmente – “dentro dos limites da Igreja”. A distinção que ele venha a fazer. essa distinção entre dois estados de vida? Para ele. Ou é uma distinção que acontecerá entre irmãos e irmãs. Viver. que é a vida verdadeira. de classe. para mim é Cristo. se manifesta. que diz: “Eu sou o caminho. leigos. pois de uma distinção que só tem sentido entre filhos. No âmago dos Exercícios está o que ele chama “eleição de estado de vida”. Repito. a partir do qual ele pode fazer esse mapeamento.de várias formas ou estados de vida que se pode escolher. padres. escrevia Paulo. para ele é um espaço materno. É isso que Santo Inácio escreveu no número <139> dos Exercícios. para imitar. 5 . não haveria como fazer eleição. Quando ele recomenda ao exercitante: “pedir conhecimento da vida verdadeira” e mostra o sumo e verdadeiro chefe. Se só existisse um. a verdade e a vida”. ou o lugar. aqui neste caso por causa do tema que me foi confiado sobre a vida leiga. Na verdade. que. no que ele chama “Preâmbulo para considerar os estados de vida”. antes de mais nada. econômico. A vida de cada um de nós. é mãe. Jesus Cristo. É uma pessoa na qual se mostra. Vida leiga ou religiosa só encontra a sua verdade em Jesus Cristo. acontece na Igreja. Da Igreja que. entre dois estados de vida. devem existir pelo menos dois estados de vida. Trata-se. Já que se trata de uma escolha livre. portanto. Santo Inácio aí não está dizendo algo que ele mesmo não tenha ouvido. nunca será uma distinção de categoria. formas ou estados de vida.

na “fossa”. ter um estado de vida ou outro na Igreja. para Santo Inácio. É o próprio Deus que estabelece as diferenças. Creio que é um dos segredos dos Exercícios. Creio que isso é muito profundo: considerar essa realidade do nosso estado de vida ao mesmo tempo como um dom. Lembrar-nos que essas circunstâncias podem ser compreendidas como um dom. aparecem em primeiro lugar como um dom de Deus. ou uma distinção de gênero. que uns sejam mais condecorados do que os outros. que podemos assumir como dom e como graça. que às vezes nos são impostas pelas situações pelas quais passamos. Devemos lembrar-nos dessas circunstâncias concretas da nossa vida. que uns estejam vestidos de uma maneira ou de outra. Que o estado de vida que cada um de nós tem na Igreja seja dom de Deus. portanto. Se se trata de irmãos. Muito pelo contrário. No número <135>. Portanto. ou tal outro estado de vida. sem esperanças. Em que sentido? No sentido de que muitas vezes nós não temos muitas condições de escolher nosso estado de vida. filhos da mesma mãe. 6 . ou uma distinção que estabeleça uma diferença que rompa a fraternidade. ele diz que essa forma ou esse estado de vida é algo que Deus nos dá. Lembrem-se de quando Santo Inácio fala da desolação. essas formas. Não é a graça de escolher tal estado de vida.falando um tipo de linguagem mais atual . O estado de vida que tenhamos ou venhamos a ter na Igreja não pode ser nunca uma imposição de quem quer que seja. não supõe. Ele diz uma frase que pode parecer chocante. que a liberdade de escolha desse estado de vida não exista também. antes de mais nada. muitas vezes parece que a nossa liberdade não tem como se desenvolver. uma graça que suscita a nossa liberdade. dom de Deus. ou seja. só podem ter um sentido de enriquecimento dessa fraternidade fundamental numa Igreja que é mãe. Parece que é muito importante nas circunstâncias da vida pelas quais cada um de nós passa. isto é. E não simplesmente suportar. ou estados de vida. Se. mesmo que tenham carreiras diferentes. isso não deve nos impedir de perceber que se trata de irmãos. declara que nós devemos nos esforçar para chegar à perfeição em qualquer estado de vida que Deus Nosso Senhor nos dê a escolher. Se a Igreja é mãe. fala de uma situação em que a pessoa se encontra . a distinção nunca será uma distinção de categoria. É. é um dom de Deus. se o espaço da Igreja é para os irmãos. mas dom que é oferecido à nossa liberdade. ao mesmo tempo. no estado de vida escolhido. O dom de Deus suscita a nossa liberdade de escolha. uma graça de Deus. Citando literalmente Santo Inácio quando fala da escolha de estado de vida. No número <135>. Ou.

Creio que é isso que Santo Inácio – e neste momento estou interpretando as suas palavras ou tentando contemplar o que ele diz . Vamos a um segundo ponto. os para ques. para Santo Inácio. às vezes. mesmo na linguagem eclesiástica. livremente. Na linguagem que o dicionário já adotou. como nós mapeamos a Igreja. quando se fala da Igreja pensa-se imediatamente nos representantes da hierarquia. vejamos como nós vemos. Ou aparentemente não há como exercitar a liberdade. de padre para cima: padre. Tenho a impressão de que. por exemplo. É na experiência de como. no nosso modo de ver as diferenças dentro da Igreja. É quando somos capazes de reconhecer o dom e a graça de Deus. Ou seja. Leigo. ou os estados de vida que. entre leigos e padres. normalmente. Mesmo na pior das situações. arcebispo. ou então não pode 7 . como se costuma falar.nos comunica quando. ou um leigo simples. existem dentro da Igreja? Antes de falar de Santo Inácio. Ele se pergunta: “para que a desolação?”. Aprender o que é a vida verdadeira é aprender a encontrar – mesmo para situações mais negativas – um sentido positivo. Não há escolha. Mas. normalmente nós falamos de leigos ou leigas e religiosos ou religiosas. é possível encontrar um sentido. Encontrar uma saída pascal mesmo para a pior das situações. isso não se impõe pela força de uma argumentação ou de um silogismo. Quais as formas. Digo experimentar porque. que já escolhemos. nós podemos dar a essa situação que se impõe à nossa vida. o estado de vida que possamos escolher. É quase que normal estabelecer essa diferença. No jornal. ao mesmo tempo. na esperança e no amor nós podemos dar um sentido positivo às situações mais negativas. muitas vezes eu tenho encontrado situações assim. E escolhemos o sentido. cardeal e o papa. evidentemente. Digo “aparentemente” porque sempre é possível. nos fala que ela é. ou não pode. fala-se de alguém que pertence à hierarquia da Igreja. Em qualquer situação podemos experimentar isto: que tudo é dom e graça. que nós podemos experimentar aquilo que já dizíamos no início: para Santo Inácio a vida é Cristo. mas que na fé. ou ainda. na fé. Tem como função fazer com que sintamos internamente que tudo é dom e graça. E não se precisa ser padre para isso. Ele acaba dizendo que mesmo a desolação tem como função “dar a verdadeira notícia e conhecimento”. dom e liberdade. ou modos. Como padre. um simples leigo. ou. um leigo é alguém que não sabe do assunto. ou uma significação que não se impõe. mesmo para uma situação que nos é imposta. quando se está falando da Igreja. Aliás. falando da escolha do estado de vida.sem sentir pelo menos o alicerce da fé e a força do amor. Pode dar muitas voltas e procurar os porquês. continuará sendo sempre um dom que o Senhor oferece para a nossa escolha. bispo. a situação de ser padre faz com que nós vejamos muitas situações em que aparentemente não há nenhuma saída. é alguém da base.

Mas não quer utilizar palavras que vão como definir a situação. o que é muito importante. na linguagem de Santo Inácio. O radical é ser do povo. que eu acho que merece o nome de perverso. Mas isso nunca nos deveria fazer esquecer que somos filhos e portanto irmãos. essa linguagem deve ter surgido. Essa linguagem em que leigo já significa alguém que está por fora do assunto é uma perversão. evidentemente. nesse sentido. Esses dois estados de vida que ele não define . Nossa linguagem. de uma maneira muito curiosa. Etimologicamente. Ele quer fazer uma distinção. Nesse sentido. que a Igreja é mãe de filhos que como filhos.primeiro e segundo . Como fala Santo Inácio da distinção ou das diferenças dentro da Igreja? Santo Inácio fala. Diz simplesmente primeiro e segundo: o primeiro estado e o segundo estado. ou estados de vida. primeiro e segundo. não pode ou não sabe na Igreja. Fala dos estados de vida e os define como primeiro e segundo. A categoria de religioso. na prática. é uma linguagem que deve ser corrigida. onde já com a palavra vem a idéia de que quem for leigo. ele mesmo. porque todos na Igreja pertencem ao povo de Deus. de bispo. todos na Igreja. O significado dessa palavra “leigo”. como os teólogos antigos e modernos têm tentado mostrar. ou que tenham distinções.porque não sabe. ou como irmãos da mesma mãe são iguais. ou para que essa palavra possa ser utilizada no seu significado autêntico. Ambos os estados de vida. Ou. E era esse o modo de pensar de Santo Inácio. porque se se trata da liberdade. para ser utilizado. ou surgiu. Ele fala de estados de vida. Evidentemente essa linguagem não é usada sem motivo. Jesus Cristo viveu. O Concílio Vaticano II fez de tudo exatamente para corrigir essa visão deturpada que foi se sedimentando no interior da Igreja. Pode haver filhos que colocam na cabeça um chapéu estranho – como ele se chama? – a mitra. então há que haver mais de um. não é uma categoria radical. de uma visão da Igreja onde se esqueceu.ambos são considerados como vocação de Deus. ou que tenham funções ou ministérios diferentes. etimologicamente. Ninguém nasceu bispo. ser filho. ou indica uma perversão na compreensão do que a Igreja do Cristo é. A vocação – que também na linguagem eclesiástica muitas vezes foi esquecida – não é um privilégio daqueles que vão ser religiosos ou 8 . são leigos. Qualquer distinção que venha a ser feita entre modos diferentes de viver na Igreja tem que encontrar. que nos chama a um estado de vida ou ao outro. o radical é. a palavra leigo simplesmente significa alguém que pertence ao povo de Deus. sempre. ou definir cada um dos lados dessa distinção. Não diz que o primeiro seja o leigo e o segundo o religioso. em Jesus Cristo a sua raiz. nos Exercícios. temos que remover dela esse sentido. ou leiga. ao longo dos séculos. ele diz que foram vividos por Jesus Cristo. que existem na Igreja. Infelizmente. de padre. e experimentou qualquer uma das formas.

que se diferencia do primeiro. se contenta – tomara todos nos contentássemos – com a observância dos mandamentos. O que significa isso? Que os outros não têm vocação? No modo como Santo Inácio fala dos estados de vida. A distinção. está nessa palavra evangélica: perfeição evangélica. O segundo estado de vida. Como acabei de dizer. Seja o primeiro ou seja o segundo. Escolher qual o estado de vida que Deus quer para mim e que no seu querer Ele me dá a escolher. Pode ser um leigo que procura a perfeição evangélica. Esse estado de vida é o estado de vida em que Jesus Cristo viveu a observância dos mandamentos. a maneira de pensar de Santo Inácio. Santo Inácio é muito “mineiro”. Santo Inácio supõe que quem lê esse texto já fez as contemplações da primeira parte da vida de Jesus Cristo. O que faz a diferença? Porque em qualquer estado ou vida a pessoa deve se esforçar para chegar à perfeição. Vão ver o que essa palavra significa. Viveu a vida de uma maneira em que os mandamentos de Deus são obedecidos. para Santo Inácio. chegar à perfeição. ou o sacerdócio. A distinção está no adjetivo. Isso significa que. os estados de vida não são algo já definido e definitivo. no seu estado de vida. leigo ou padre. às vezes na mentalidade. é responder a um chamado de Deus. Em que consiste a diferença? Porque existe uma diferença entre o primeiro e o segundo estado. vai ser jesuíta. mesmo no interior da Igreja. olhando as palavras. deve procurar. Não é essa. Qualquer estado de vida. No segundo. Pode ser um padre que. ele escreve: mas todos devemos nos esforçar para chegar à perfeição em qualquer estado ou vida que Deus nos der à escolher. A diferença seria essa? Sim e não. De novo.religiosas ou padres. trata-se de um chamado. a palavra vocação estava como que reservada só para as pessoas que escolhiam a vida religiosa. encontra a sua diferença no que Inácio chama de perfeição evangélica. para Inácio. a diferença está em que no primeiro Santo Inácio diz que se trata da observância dos mandamentos. Em que consiste o primeiro estado? Em que consiste o segundo? O primeiro estado – mais uma vez. portanto. 9 . Qualquer cristão. uma vocação. Sim e não porque. consiste na observância dos mandamentos. A distinção entre esses dois estados de vida não passa. não se está falando de vida leiga ou de vida sacerdotal – para Inácio. na mentalidade comum. uma graça de Deus. de forma alguma. Portanto. depois de fazer essa diferença entre os estados de vida. qualquer estado de vida deve ser visto como uma vocação de Deus. pelo leigo ou religioso. repito. da perfeição evangélica. não é simplesmente o que ele chama de perfeição. Às vezes se diz: essa pessoa tem vocação. de alguma maneira. Não passa na cabeça de Inácio essa idéia que no nosso imaginário nos representa a Igreja como já dividida entre a hierarquia eclesiástica e os leigos. O que significa evangélica.

é muito sutil e difícil de manter. à obediência. que a diferença estivesse constituída pelo grau. não merecia a consideração de nenhuma pessoa letrada. como Santo Inácio distingue. do ponto de vista de Santo Inácio. que traduz esse número <135> dos Exercícios de Santo Inácio. Ou foi adaptado à situação “normal”. Mas aí Santo Inácio de novo é original. nós nos decidimos. que escreveu em espanhol. Quando o texto foi traduzido para o latim. O mais e o menos – de novo aí não dizem respeito a uma generosidade subjetiva – mas não há distinção. Será que Santo Inácio pensava que não existem então. passa pelo modo como nos sentimos chamados a seguir Jesus Cristo. Em terceiro lugar. Deus pede. nem que seja pelo que penou. Seja qual for também a função que temos na Igreja. com a tradução latina. Não é isso que Santo Inácio. seja casado. existem religiosos e religiosas. não está entre o mais ou menos. escreve de uma maneira que ajuda a compreender esse primeiro estado e o segundo. A distinção está entre aquilo que a mim. ou a você. religiosos ou padres. o menosprezo e a humildade. ou receber uma ordenação ministerial que faz com que a pessoa. em primeiro lugar. a distinção entre o primeiro estado. de vivermos como Jesus Cristo. o evangélico está se referindo. que não há diferença entre leigos. Quem fez os Exercícios está lembrado. E introduziram. à castidade. que é a vida leiga e o segundo estado que é a vida religiosa. Isso na tradição da linguagem onde foi se construindo a língua da Igreja. ele fala de pobreza – e no lugar onde. repito. A diferença está na maneira como enquanto leigos. Mas ele não via. Em segundo lugar. às vezes. religiosos e padres? Santo Inácio não era cego.para ele? Na tradição em que Santo Inácio bebeu. Sabia que na Igreja existem leigos. o que Santo Inácio tinha escrito já foi. no sentido que nós damos à essa palavra. solteiro. Portanto. mudado. viúvo ou qualquer outra condição de estado civil. não é o fato de entrar numa ordem ou numa congregação. no comentário chamado Autógrafo dos Exercícios. de alguma maneira. se o texto não fosse traduzido para o latim. existem padres. Mas não era isso que Santo Inácio tinha escrito. No “Exercício das Duas Bandeiras”. nessas distinções que existem dentro da Igreja. conforme a tradição esperaríamos que falasse de castidade – ele fala de menosprezo. quando o texto foi traduzido para o latim. à pobreza. seja mais ou menos perfeita. A distinção. Ele diz ou fala da perfeição evangélica dizendo que ela pode ser escolhida na vida religiosa ou fora da vida religiosa. ele fala de humildade. A perfeição e o que estabelece uma distinção na 10 . ou nós escolhemos a possibilidade que Deus nos dá. onde esperaríamos que se falasse de obediência. No terceiro lugar. Essa distinção. quando confrontados com a pobreza espiritual ou atual. no texto latino. Quatro anos depois do texto dos Exercícios ter sido acabado por Santo Inácio. Naquele tempo. naquele exercício onde se tratava de ver os critérios da nossa vontade de seguir Jesus Cristo.

Santo Inácio tinha uma espécie de fixação mimética. isso não teria sentido. Quando. Tentem recordar. Por isso. portanto. Não é. Ele queria fazer o que eles fizeram e mais ainda. ou no início da sua conversão. Ele quer apenas que sejamos cristãos. Era valente e pensava que poderia ser como eles e mais. para Santo Inácio. Imitar e seguir a Jesus Cristo. A primeira vez que Jesus Cristo aparece nos Exercícios. digo que Santo Inácio não gostaria muito que nós falássemos de características inacianas. À medida em que a conversão foi se aprofundando. nós não deveríamos nos preocupar demais pelo adjetivo e sim pelo substantivo. Imitar e seguir Jesus Cristo é algo que todo cristão. essa pergunta não dá para responder assim em poucas palavras. Lembro a primeira e a última forma ou maneira como Jesus Cristo aparece nos Exercícios. que qualquer pessoa – leigo ou religioso – deve seguir. Chamo a atenção para um ponto: eu creio que Santo Inácio não gostaria nada que nós falássemos de características inacianas. Se tornou a mais comum porque. Como Inácio via Jesus Cristo? Evidentemente. Por isso. as características inacianas da vida leiga não poderiam ser outras do que as características segundo as quais Santo Inácio contempla o próprio Jesus. As características da vida leiga. de alguma maneira. A imagem que de alguma maneira se tornou o símbolo do cristianismo. Santo Inácio e seus primeiros companheiros resolveram fundar a Companhia de Jesus. Tomara que – mesmo aqueles que estamos pescados numa mesma rede apostólica que se chama inaciana – não nos esqueçamos que esse adjetivo deve ser sempre discreto. depois de muita deliberação. Jesus Cristo aparece pela primeira vez nos Exercícios como o Crucificado. ou. quase que estereotipada. para ser verdadeiramente seguidores do modo que Santo Inácio teve de viver o Evangelho. não é algo que só os padres ou as irmãs fazem. são simplesmente as características do seguimento de Jesus Cristo. em qualquer estado de vida. 11 . Por aquilo que é substancial. é da maneira que se tornou mais comum. Ou o sinal dos cristãos que é o “sinal da cruz”. Antes de. no colóquio do Primeiro Exercício da Primeira Semana. da vida leiga não contraposta à vida sacerdotal ou à vida religiosa. Quais seriam as características inacianas da vida leiga? Insisto. É a imagem mais difundida. porque esse era o nome primeiro de Santo Inácio. que é o seguimento de Jesus Cristo. uma questão de grau ou uma questão de mais ou menos. ele se esqueceu da imitação dos santos e quis imitar e seguir Jesus Cristo. ou de imitação de São Francisco e de São Domingos. Para Santo Inácio. “iniguistas”. E que. como alguns chamavam.Igreja é sempre em função de um apelo de Deus ao qual a pessoa responde livremente. deve fazer. para Santo Inácio. Santo Inácio sempre lutou para que os jesuítas não fossem chamados inacianos.

pelos efeitos dela. em qualquer estado ou vida que Deus nos dê para escolher. e não seja só a imagem de uma pessoa. Uma pessoa perfeita é 12 . se torna. ao longo da segunda e da terceira semana dos Exercícios. parece-me. Jesus Cristo. se manifestam no fato da consolação. Cinqüenta mistérios da vida de Jesus Cristo em que sempre o pedido de conhecê-lo internamente. Ir até o fim. na medida em que. pode chegar à perfeição. Isso só pode ser sabido por cada um. diz Inácio. em que ele destaca. para mais amá-lo e segui-lo vai se repetindo. de tal maneira que a vida de Jesus Cristo – o que ele chamava a vida verdadeira – não seja só mais uma idéia. aproximando a nossa vida da vida dele. usando as palavras de Santo Inácio. É assim. que manifesta a sua ressurreição. vai como que nos transportando para a vida de Jesus Cristo. que vem. o Ressuscitado. Perfeição não é um ideal inatingível. Santo Inácio coloca cinqüenta mistérios da vida de Jesus Cristo. É aí onde cada um de nós. que contemplamos com os nossos sentidos. Esse ir e voltar ou esse sair para a vida dele. leigo ou religioso. vai experimentando pela ação do seu Espírito em nós. E os efeitos da ressurreição se concentram. mas seja toda a história de Jesus Cristo. o que é que concretamente cada um de nós pode fazer. Perfeição! Não é acabamento. Esse é o trabalho da contemplação. Ou então. e voltar para a nossa vida trazendo as características da vida dele é o grande trabalho dos Exercícios. com o ofício de consolar. Não há uma receita inaciana para viver como leigo ou leiga. é a capacidade de ir até o fim. Pode ser sentida. vai fazendo com que a vida de Jesus Cristo venha para a nossa vida. como. de verdade. Essa receita não existe. Já a última maneira pela qual Santo Inácio o apresenta. também. Entre a primeira imagem do Crucificado e a última do Ressuscitado. ao pé da letra. na sua situação. pode experimentar o dom da livre escolha do modo de viver cristãmente. Ser perfeito não é ser acabado de acordo com um modelo preestabelecido e que nós tentamos imitar e quebramos a cabeça porque nunca conseguimos. Vai se repetindo nas contemplações. como padre ou como irmã. e utilizando o texto que certamente Santo Inácio tinha na cabeça – o texto do Evangelho – quando fala de perfeição. concreto. justamente. o aspecto de “Consolador”. formada do substantivo “telos” que significa fim. que o fato de Jesus Cristo ser o exemplo para qualquer homem ou mulher.representa também o mistério mais profundo de quem é Jesus Cristo para nós. A perfeição é essa capacidade de andar num caminho sem desistir. é quando nos solicita para contemplar Jesus Cristo Ressuscitado. em todas as suas dimensões. A palavra grega é téleios. que tirando-nos das circunstâncias do nosso viver. contemplando Jesus Cristo. E aproximando a vida dele da nossa. Perfeição. sobretudo.

porque são fundamentais na vida de Jesus Cristo. a missão. ajudar a humanidade que Ele criou. Jesus Cristo não vem. é como alguém que ajuda a humanidade. que para Santo Inácio são fundamentais. a sua conversão para Deus significou também uma conversão aos outros. Já sou perfeito. das coisas que nos são próprias. ou não se encarna. Ajudar. no capítulo XIII de João. Essa é a missão de Cristo e essa é a missão daquele que em qualquer estado de vida quer seguir Jesus Cristo. Do próprio amor. da maneira que for. São fundamentais para a vida cristã. Ver Jesus Cristo como aquele que ajuda é ver a si mesmo como aquele que tem também essa missão de ajudar os outros. A perfeição não é um estado permanente. na nossa vida se torna. não se faz homem para renegar a humanidade. Sair do próprio contexto de si mesmo. É nesse sentido que os cinqüenta mistérios da vida de Jesus Cristo. A perfeição é esse caminhar sem desistir. é ajudar as almas. Ajudar a humanidade. mas que. Amar a humanidade. do próprio querer e do próprio interesse. Se alguém. O modo como. Ajudar a humanidade a ser humana. naquilo que ele é. O modo como Santo Inácio vê a Jesus Cristo privilegia nele. Como. Ser perfeito não é algo que nós conseguimos. do amor a si mesmo. A vida cristã é esse seguimento. assume a humanidade que Ele criou. Santo Inácio expressa isso. Por isso é que. Santo Inácio fala que é alguém que devemos conhecer e amar para seguir. É para ajudar a humanidade a ser humana. Ele aparece. 13 . diz ele ou escreve na Autobiografia na sua linguagem. os amou até o fim”. me parece. Porque é assim que a humanidade se reconhece como criatura. Desde que Inácio se converteu. Pronto. Segue. como sentido de sua vida. nos mistérios da vida de Jesus Cristo. Ajudar as almas é ajudar a vida das outras pessoas. naquilo que ele faz. O Enviado pelo Pai. naquela decisão da Santíssima Trindade. disser isso. Ajudar porque ele vê que Jesus Cristo não vive para o Pai sem viver também para as outras pessoas. Jesus Cristo é o Enviado. das coisas em que nós estamos também interessados. Não que ele pensasse que as almas – no sentido que nós damos hoje a essa palavra – precisem de ajuda. do próprio querer e do próprio interesse. Há duas. se fala de Jesus Cristo: “Tendo amado os seus que estavam no mundo. com uma missão que Santo Inácio resume numa palavra bem simples: a missão de “ajudar”. nas circunstâncias da vida de cada um de nós. das coisas que nos interessam. algum dia. vão ensinando as características da nossa vida em Cristo. bem concreto quando ele fala que a perfeição na vida espiritual consiste na capacidade de sair do próprio amor. de uma maneira geral. Segue até chegar ao fim como Ele foi até ao fim.uma pessoa que caminha até o fim. ao longo do mês dos Exercícios. Que tem como missão. está mostrando que é extremamente imperfeito. de Jesus Cristo.

Mesmo o problema. soube discernir nas propostas do Maligno. o mistério e a autoridade. pelo menos. da auto-suficiência de pensar que. a grande ilusão é a ilusão da soberba. tal como Inácio vê o cristianismo na vida de Jesus Cristo. sobre o modo de ser humano. O que sustenta a religião não é o milagre que vem ou viria resolver todos os nossos problemas. Mesmo que todos nós o procuremos. do ponto de vista da espiritualidade inaciana. tentações contra a sua missão. ou a questão. Essas três verdades. sobre o mundo em que vivemos. O que sustenta a religião. material. ou. ele diz que o papa e os jesuítas renegaram o Cristo. A grande ilusão segunda que Jesus Cristo quer arrancar de nossas vidas é a ilusão de que a honra. nós podemos nos realizar. o que nós parecemos aos olhos dos outros. os grandes enganos. ou da nossa vida. não é o milagre. sozinhos. Na passagem em que um dos personagens do romance “Os Irmãos Karamazov” conta a lenda do Grande Inquisidor. É isso que o grande romancista Dostoievsky dizia que os jesuítas não ensinavam. As grandes ilusões. segundo Dostoievsky são: o milagre. São essas ilusões que nos impedem de ver que tudo no mundo – como nos lembra o “Princípio e Fundamento” – foi criado para todos os homens e para que possamos realizar e atingir o fim para o qual fomos criados. a imagem que nós tentamos dar aos outros de nós mesmos é a nossa verdade. dentro da Igreja Católica. com Santo Inácio. Santo Inácio destaca nessa ajuda o que nós costumamos chamar de discernimento. sobre as outras pessoas. Um Deus que fosse simplesmente um 14 . É pensar que são os bens materiais que vão realizar a nossa humanidade. Ou que vão fazer com que nós nos realizemos como pessoas. Inacianamente. A terceira característica de uma vida inaciana deveria ser uma humildade verdadeira. A última – e como sempre que Santo Inácio colocava no último lugar o mais fundamental –. deveria ser uma vida onde há um espaço privilegiado para a pobreza espiritual e. A segunda característica da vida leiga na espiritualidade inaciana devia ser a capacidade de superar situações onde nós somos menosprezados. no deserto. na medida do chamado de cada um. com os jesuítas. sem Deus e sem os outros. colocando como ensinamento três verdades que mantêm o povo na ilusão. Com tudo o que isso significa. de ser humano. me parece que seria necessário dizer que a vida leiga. São essas ilusões que o próprio Cristo venceu quando. Essas ilusões sobre nós mesmos. são a ilusão da riqueza. ou tentações. A ajuda de Jesus Cristo à humanidade consiste em abrir os nossos olhos para perceber como muitas vezes vivemos iludidos. Que Dostoievsky seja injusto com a Igreja Católica e concretamente. que para Santo Inácio Jesus Cristo vem arrancar dos nossos olhos. é que nos impedem de ser a criatura que Deus ama como Pai. é evidente.

Graça para uma Igreja onde existe muitas vezes tão forte a diferença que separa a compreensão do leigo como aquele que não sabe que não pode. como a palavra autoridade quer dizer na sua etimologia. aqui e agora. é ou deve ser uma característica de todo o cristão. Alguém de quem nós podemos ser companheiros e companheiras. Não creio que o importante seja. é possível realizar em nossa vida a vida de Jesus Cristo. A ter a 15 . a aumentar. impede que a Igreja Católica seja Igreja de Cristo é o mistério. Essa simplicidade do seguimento de Jesus Cristo como se nós fôssemos personagens do Evangelho. onde. A autoridade. Porque uma autoridade que se satisfaz a si mesma. A humildade. a contemplação do mundo como a criação. por uma etiqueta ou uma “griffe” inaciana. sempre se retirava. O mistério de Deus que se revela na humanidade de Jesus Cristo. E quanto mais autoridade tiver. que discreto. Tem tudo para não ser. simplicidade que é feita da contemplação de Jesus Cristo como alguém que é o nosso contemporâneo e não simplesmente uma figura do passado. feito o Cristo que era manso e humilde de coração. Porque o mistério pode ser.Deus de milagres. na Igreja. hoje. que por nós se fez homem para mais amá-lo e segui-lo. O que Santo Inácio nos ensinou é a olhar para Jesus Cristo. é isso que quem fez os Exercícios de Santo Inácio de alguma maneira está devendo à Igreja e ao mundo. Quando nos Exercícios pedimos conhecimento interno de Jesus Cristo. que solicita a nossa entrega. conhecido. que solicita a nossa ação. no mundo em que nós vivemos e na Igreja em que nós vivemos. Graça para a Igreja. uma autoridade que se sobrepõe aos outros tem tudo para não ser autoridade cristã. Eu acho que a contemplação dos mistérios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo como nosso contemporâneo. O que importa mesmo é tentar viver hoje aquilo que Santo Inácio nos ensinou. estamos pedindo para conhecer o mistério. Eu creio que. ou que rompa essa fraternidade essencial. sem que seja esgotado. aquilo que ajuda aos outros a crescer. é o que pode dar riqueza à graça que quem faz os Exercícios recebe. nunca seria um Deus que solicita o nosso amor. não é – na Igreja mãe que Santo Inácio crê – algo que seja ou crie dentro da comunidade eclesial uma classe especial que diferencie. essa simplicidade inaciana que é feita de contemplação da verdade de Jesus Cristo. A segunda grande verdade que. E o que Santo Inácio nos ensinou não é tanto a olhar para ele. diante das outras pessoas. mais humildade deveria ter. Manter o povo enganado dizendo que Deus é simplesmente um mistério que ninguém pode compreender. segundo Dostoievsky. nos caracterizarmos. como eu tentei mostrar. como antes dizia.

A distinção verdadeira passa. Ele dizia: é tudo. É. mas para a unidade. O modo de ser cristão. na medida em que formos fiéis a essa certeza de que Jesus Cristo está no meio de nós. ou se faz. Todas elas são vocação de Deus. imediata. pelo modo em que cada um é chamado por Deus a responder. Eu disse. esse chamado a seguir a Jesus Cristo. era a única maneira em que valia a pena viver. Para uns poderá ser uma coisa. é um chamado que a todos Jesus Cristo faz. já determinado. como Santo Inácio escrevia. que para Santo Inácio não existe distinção entre vida leiga. quer ir até o fim. na Igreja. um passo a mais. cada um a cada uma em particular. em Jesus Cristo. a nossa liberdade que se realiza nesse seguimento perfeito de Jesus Cristo. E dessa contemplação levando você a essa perfeição que a palavra quer dizer. As diferenças. Tomara que essas palavras possam. ou um “status” poderia nos dar. Essa vida. Essa vida é uma vida que pode parecer louca. de que esse é o espírito que anima a nossa vida. são diferenças não só na unidade. Eu lhe pedia para que o senhor falasse mais um pouco sobre essa contemplação da palavra. Não por soberba. do nosso querer. O chamado à perfeição. 16 . todas elas solicitam. Também trabalho na PUC. saindo do nosso próprio amor. na igualdade. outra. o chamado a caminhar até o fim. aquele que Deus enviou para salvar a humanidade. a necessidade dos outros do que o nosso próprio desejo. Quer que olhemos mais. Mais ou menos. Perguntava a Santo Inácio qual era o típico dos jesuítas. não existe sem esse mais. para Santo Inácio. Rodrigo: Faço Engenharia na PUC. Não por vanglória. Isso é o que me ocorre ou me ocorreu para dizer a propósito do tema “Espiritualidade Inaciana e a Vida Leiga”. em nós mesmos.ousadia de experimentar o abraço de Deus Pai. Mas porque só no dia-a-dia é que podemos saber qual é a melhor maneira de seguir Jesus Cristo. Sem a importância que um estado de vida reconhecido. ou uma classe. a maneira de ser fiéis Àquele que nos ajudou e quer que nós possamos também ajudar os outros. A ver. isto é. como ele. do nosso próprio interesse. num seguimento de Jesus Cristo que. ou secular. Numa relação. pelo menos. todas elas são dom e graça. o perigo que as palavras têm de nos desviar dessa perfeição. resumindo. sempre mais. para outros. e vida religiosa. muitas vezes no desprezo. E a sentir. que nós poderemos também encontrar na pobreza. ou uma vida que pode parecer alienante mental. como ele diz. para Santo Inácio. cada um a seu modo. ter ajudado a dar um passo à frente. do sentido da palavra. sempre na humildade. Não é algo a priori.

Ou então se eu tentava contemplar essa palavra na boca de Jesus. porque eu não sou leigo. essa palavra foi inventada para dizer. É por aí. nos revitalizam. não tem atrás desse significado um outro significado. Sou do Centro Loyola de Juiz de Fora. Por exemplo. Se eu contemplando essa palavra disser: “Olha. ir entrando no sentido que elas têm. Gostaria de fazer a seguinte pergunta: como você vê o protagonismo do leigo. etimologicamente. ou que elas querem nos transmitir. Eu dizia. A palavra de Deus é vida. láicos. antes de qualquer outra diferença. usando a frase de Santo Inácio. de alguma maneira. então temos que ver como estas palavras nos revigoram. não!” Citei aquela frase de Guimarães Rosa. Por aí. Na Igreja. que é uma forma também de pensar. nesse sentido.” O significado dessa palavra está sendo mal contemplado. nós chegamos já a um outro sentido. Se quiser. Está vendo? Então. rumo ao terceiro milênio? A segunda pergunta: a posição e o rumo das mulheres dentro da Igreja rumo ao terceiro milênio. sobretudo se são palavras que o próprio Jesus utilizou e utilizou com um sentido vital. fazer isso com uma série de palavras. Maristela: Boa Noite. somos parte do povo de Deus. leigo. no início. chamei a atenção para essa forma de orar. para o bem ou para o mal. A palavra “leigo”. Aí tem um significado. Eu tentei. Imagina que eu sou padre. a palavra “leigo”. eu sou mais do que os outros. Vou tentando ver o que ela pode significar na boca de Jesus Cristo. significa isso: leigo num assunto é aquele que não sabe. Mas será que esse significado é válido para falar das pessoas que fazem parte da Igreja? Será que a Igreja é feita dos que sabem e dos que não sabem? Dos que têm e dos que não têm? Dos que podem e dos que não podem? Esse primeiro significado da palavra “leigo” tem que ser como que perfurado para ver se não tem por trás. nós. Jesus ia dizer: “Não é por aí. 17 . Nossa nacionalidade ou nossa pertença fundamental é Deus. hoje. O que ela pode me dizer sobre quem eu sou. Na Igreja.Padre Ulpiano: Eu. “contemplar o significado das palavras”. é pedir esmolas às palavras para irmos entrando no significado. eu tenho a palavra e vou pensando no que ela significa. ou para mostrar alguém que faz parte do povo de Deus: láos. eu sou padre. um dia fazemos um exercício de contemplação de palavras. Nós somos membros do povo de Deus. de repente. essa palavra deveria significar o que todos nós somos. que consiste em. na Igreja. quando contemplamos o significado que ela tem.

O resto somos todos coadjuvantes. Se o papel da mulher na Igreja 18 . sobre esse tema. Não reconhecido pela forma – não sei se dizer machista – como a Igreja está institucionalizada. está se supondo um antagonista. assim por diante. mudariam muito o rosto da Igreja tal como nós o conhecemos. não é uma reação minha como padre dizendo: “Ih. Isso seria ainda uma tutela vergonhosa. Não reconhecido. também. Então isso mantém. Que seja papel de protagonistas. Não é só para fugir do assunto. que cada um tenha na Igreja o seu papel. Mas que é. foi utilizada na Conferência dos Bispos Latino-Americanos. Quem sou eu para falar isso? Eu acho que são vocês que devem falar. Quer dizer. Isso é perigoso porque se se fala de protagonista. um homem e um padre tem mais é que escutar. o papel da mulher na Igreja era um papel que eu creio fundamental. Ou então o protagonista é Jesus Cristo. sinceramente.Padre Ulpiano: Eu vejo muito bem. houve. Eu confesso que essa expressão para mim soou um pouco demagógica. como sabem. Mas. As circunstâncias da história da Igreja nos últimos séculos não facilitaram isso que os bispos de São Domingos. Que os leigos fossem protagonistas da sua própria história. agora nós não somos mais protagonistas”. e é evidente que as catequistas. pode ser importante para pensar. É isso. por circunstâncias históricas. Eu acho que não tem protagonista. não. Sobre o papel da mulher. ou pode manter. Eu acho que o papa atual tem dito coisas fundamentais sobre o papel da mulher na Igreja que. nefasta quando se trata da vida da Igreja. viram que era necessário. não só na nossa cultura no Brasil. Isso vale para o leigo e vale para o papa. A função da obediência é de todos. certamente movidos pelo Espírito Santo. ou quando se trata da fraternidade que deve existir entre todos os membros da Igreja. Eu acho que. se fossem levadas a sério. a percepção de que era necessário para o bem da Igreja que os leigos tivessem nela o que chamaram de protagonismo. Porque só faltava que ainda fôssemos nós quem tivéssemos que falar às mulheres o que elas devem fazer. Penso assim. Essa expressão “protagonismo”. como foi escrito até em documentos pontifícios. ou na cultura ibérica. as mães. tinham um papel fundamental na transmissão do cristianismo. repito. implicitamente. uma oposição que pode ser importante nas assembléias. Melhor tarde do que nunca. a função e o papel do leigo era obedecer. O primeiro estado de vida é a obediência aos mandamentos. da parte dos bispos. A fé foi transmitida. parece-me. Mas. culturais e assim por diante. as avós. eu acho que se explica pela situação de uma Igreja onde. como Santo Inácio lembrava. em São Domingos. protagonismo do leigo. uma oposição no interior da Igreja.

Tudo isso para dizer: “olha Santo Inácio fala muito bem dos leigos.não aparece em lugar nenhum. ao invés disso. E que. uma afirmação a respeito da vida do leigo e da espiritualidade inaciana. Eu procuro. muito bem feita. Na coluna da esquerda está a espiritualidade inaciana sendo desenvolvida. um próprio método dessa espiritualidade ao sentido da palavra leigo. Eu fui estudar a vida de Santo Inácio e vi que essa distinção – leigos e clérigos . poderíamos talvez dizer que estamos num caminho. que é aplicar a própria espiritualidade inaciana. creio que há muito para ser feito. mesmo do ponto de vista metodológico. essa possibilidade de colocar em duas colunas a espiritualidade inaciana e a vida do leigo. é impossível. Padre Ulpiano: Eu me sinto muito gratificado pela interpretação aqui do meu irmão. Resumindo a colocação. No final. Parece que talvez essa tenha sido a sua idéia quando falou a partir da perfeição como um processo que vai em continuidade. eu acho que nesse sentido nós podíamos nos perguntar se a colocação do Ulpiano é. Santo Inácio era leigo. na verdade. fazemos uma aplicação da espiritualidade inaciana e da sua fecundidade para a vida do leigo. de acabar. Então. Eu confesso a minha surpresa. Vamos caminhar juntos e tentar descobrir o que Deus quer de nós ao longo desse caminho. havia imaginado um quadro com duas colunas. Na coluna da direita. A minha surpresa com Santo Inácio foi muito grande. Eu. ou se ela é – e me parece que é mais isso – um convite para que todos nós retornemos sobre esse sentido. E da vida do leigo dentro da dinâmica dos Exercícios Espirituais. Eu gostei muito porque. Mas. Fui pesquisar a relação entre Santo Inácio e os leigos. depois da colocação do Ulpiano. um processo que vai adiante e que não tem uma perspectiva de terminar. eu queria fazer uma apreciação da colocação. Mas não cabe a mim dizer o que. E foi isso que de alguma maneira eu quis transmitir. eu acho que cabe a vocês ver como esse papel deve acontecer. mas acho que você interpretou muito bem o que eu quis fazer e o disse melhor do que eu mesmo. pessoalmente. a vida do leigo. Cabe a mim ser bom companheiro e não atrapalhar. parece.deve ser maior. o Ulpiano fez uma coisa bastante original. confesso que no primeiro momento. Trouxe os Exercícios 19 . porque está tudo claríssimo. portanto. Espero que você faça isso não simplesmente por causa da fraternidade entre jesuítas. Álvaro: Mais do que fazer uma pergunta. a partir da dinâmica dos Exercícios.

mas essa distinção que para nós hoje parece assim como evidente e importantíssima entre leigo e secular.para os leigos”. secular. Acho que isso. em que ele diz. Mas eu queria falar da espiritualidade inaciana e não poderia fazer isso. para Santo Inácio não tinha importância nenhuma. se trata de se chegar à perfeição em qualquer estado ou vida. em qualquer estado ou vida. é válido para os padres. Álvaro lembrou. O que é válido desse ponto de vista para os leigos. Sim. Se trata de procurar ir até o fim. em Belo Horizonte. Tudo isso é verdade. Padre Ulpiano Vásquez Moro S. perfeição nesse sentido. sacerdotal. Quer dizer. 20 . religioso. ou leigo. é válido para o religioso. mas são ineficazes.J. parece mais fecundo do que tentar procurando diferenças inexistentes do ponto de vista de Santo Inácio e construir também discursos que podem ser floridos. Vocês me desculpem se eu não dei conselho aos leigos. Nesse sentido. é professor de Teologia no Instituto Santo Inácio. Eu dava conselhos a vocês como dava conselhos a mim. a mim.

. A espiritualidade inaciana do discernimento surge em momento de profunda transformação e turbulência sociocultural. pelas grandes viagens. Loyola. 28. Inegavelmente vivemos hoje outro momento de enorme turbulência cultural e espiritual. in: Antigos alunos e a espiritualidade inaciana. n. já fazia tempo. com a descoberta da antigüidade clássica pagã e cristã no desejo de livrar-se do peso medieval. Cl. J. pelos comércios intercontinentais.J. 2 M. A espiritualidade veste-se. 28s. 1990. Inácio é o homem-síntese que assume e sublima o passado medieval para dentro da modernidade nascente(1). minada pelas transformações econômicas. age com sua livre transcendência sobre o coração humano. pp. Nessa encruzilhada cultural e espiritual é-lhe dado por Deus viver intensa experiência espiritual que nos lega através sobretudo do pequeno livro dos Exercícios Espirituais(2). tendo sido. Mas tal acontece no contexto concreto de determinada situação histórica. com o surgimento do novo intelectual não-clérigo contando com o livro impresso. 36. fonte primeira e fundamental de toda a espiritualidade. portanto. com a consciência da percepção mais aguda da eficácia organizativa. com a afirmação crescente do indivíduo. O mundo moderno irrompe com o renascimento e seus humanismos. 1991. Os antigos alunos dos jesuítas e a formação permanente. CRITÉRIOS INACIANOS DE DISCERNIMENTO A PARTIR DA AMÉRICA LATINA Pe. Em tudo amar e servir. Fé e Realidade. com a atenção à interioridade introspectiva. parte onde se analisam com maestria os Exercícios Espirituais. Ignatiana. espiritual e culturalmente. O Notas: 1 Antonio Marzal. Bingemer. L. com a reforma protestante. Loyola. mas que produzem uma resultante única. B. com o novo instrumental de estudo. Mística Trinitária e práxis cristã em Santo Inácio de Loyola. col. E vai responder a outros momentos culturais à medida que haja um parentesco espiritual e cultural. col. especialmente a II. pelo crescimento demográfico. n. pela urbanização. São Paulo. O Espírito de Deus. entra nos estertores de sua agonia. Libanio S. São Paulo. As espiritualidades nascem da confluência de dois vetores desiguais na sua qualidade e natureza. A Idade Média. da força do Espírito com a cor do tempo.

portanto. Beber no próprio poço. 1984. nas lutas. a uma história a ser criada. provocação. presente e futuro. que só aparece no final do processo. discernir a presença de Deus nos acontecimentos. mas mesmo na atualidade reina entre cristãos diversidade. de reino de luz e reino das trevas. Vozes. quer uma fuga-refúgio em zonas espirituais alheias ao terra-a-terra humano. desponta uma teologia e espiritualidade que se autodenominou da libertação e que desde o início confessou sua afinidade com a espiritualidade inaciana. ruptura ou novidade sublimante. 29. trata-se da mesma realidade. O discernimento espiritual pressupõe o mundo e a história como palco de batalha profunda. Passado ao retomar como sinais de Deus o que já aconteceu. Itinerário espiritual de um povo. Ao mesmo tempo.continente latino-americano. por saber que o passado não esgota as possibilidades de Deus. 3 G. os dados já acumulados até o presente. E tanto mais viva. Gutiérrez. de modo que o presente pode ser a confirmação. não só ao longo do tempo. sobretudo ao perceber que ela permitia descobrir. nem o limita e muito menos o determina. Futuro porque ele se orienta à ação a ser posta. mas. de busca da vontade de Deus. cultural e religioso. no fundo. Os nomes dos combatentes variam. O mundo e a história estão envolvidos por essas realidades. nas transformações da realidade social. uma concepção de mundo histórico e de sua relação com a graça. ainda que desde o início esteja presente sob forma de impulso.(3) 1 – Pressupostos do discernimento na perspectiva latino-americana Caracteriza toda experiência a dimensão síntese. Presente. p. Discernir é entrelaçar num ato único as três dimensões de passado. Tal atitude implica. da graça e do pecado. atravessa violentas tormentas no campo econômico. político. a tradição. Concepção de história e mundo A concepção de mundo e história não tem sido constantemente a mesma. evitando quer uma vivência puramente secular. a. como pressuposto. integrada e estimulante é uma espiritualidade. de oração. Petrópolis. Na raiz. O imaginário religioso tradicional fala dos demônios e anjos. a codificação humana. mais que nenhum outro. E dentro desse horizonte se situa o discernimento e se podem elaborar os critérios correspondentes. Discernir é uma forma de espiritualidade. 22 . está a dualidade do bem e do mal. quanto mais ela consegue apontar para a presença de Deus na realidade humana.

bondoso de Deus. b. Concepção da graça Do lado do Primeiro Mundo rico. Gutiérrez. esforços. de kuzes e trevas. de absurdos dolorosos e sentidos resgatados. pensar que no início está a graça. Gutiérrez. caminha-se na história por veredas sombreadas. provocando-a de novo e em outros momentos a reafirmação de sua maldade. A força histórica dos pobres. tem questionado essa leitura filosófica e teológica triunfalista da história. do bem e do mal. a modo de um gigantesco caminhar da história para uma meta. 4 G. que terminam por adquirir certa consistência. está a infinita ternura de um Deus trino. 23 . dos condicionamentos e contaminações que ela criou. que se vão abrindo à custa de lutas. Petrópolis. buscas e esperanças. brota a resposta negativa. criada. A racionalidade moderna das filosofias da história criou certa teologia da história com toques grandiosos e ingenuamente positivos. Contra esse fundo religioso comum. Em vez de uma estrada iluminada. Teologia desde el reverso de la historia. 1977. sobretudo dos países do terceiro Mundo. já que ele busca construir através desse cipoal o caminho da libertação. G. A abundância consumista termina. 1981. O discernimento consiste em procurar discernir as tramas da liberdade pecaminosa. No início e no fim. a real possibilidade e factidade do mal. Vozes. parece fácil. englobante. Nele não se radica o princípio do mal. E rapidamente se confunde com os bens. A dolorosa experiência. O mumdo e a história pertencem fundamentalmente ao plano amoroso. Precisamente essa realidade abre espaço privilegiado para o discernimento. numa mistura confusa. misericordioso. Nesse encontra-se da liberdade criada frente às propostas infinitas de amor e ternura de Deus. momentos de morte e de vida. Mais recentemente tem-se questionado uma visão histórico-salvífica demasiadamente clarividente. encipoadas e brenhosas. de paixão e ressurreição. CEP. em muitos lábios. o bem. visões estritamente dualistas de cunho maniqueu e/ou gnóstico concebem dois princípios autônomos. Lima. duas verdadeiras divindades. Este surge da liberdade. A tradição bíblico-cristã travou e ainda trava batalha contra essa ancestral percepção humana. já clara e definida. às vezes. vivida no reverso da história(4).

Permanece firme o pressuposto teológico da originalidade fontal da graça. de falta de bens. diversas ciências foram ocupando o lugar da “publicidade”. e. Discernir a graça atuante nesse submundo da falta. o corte entre o público e o privado. De dentro desse pressuposto. encerrando-a no mundo privado(6). do modo de pensar e julgar moralmente as próprias atitudes. Com a modernidade. nos mutirões organizados. completa o mesmo movimento de discernimento. Torna-se impossível que um discernimento se possa fazer fora do contexto em que se vive. constituem desafios levantados pelo Terceiro Mundo. suspeitar da identificação rápida da posse dos bens com a dádiva amorosa de Deus. A religião ocupava lugar público de destaque na configuração das relações humanas. Por mais que se fale dela e que se dê publicidade na TV. nada tira a 5 Paulo VI. relegando a religião para o mundo da interioridade. E no interior da experiência crucificada desses povos. de certo modo. 4. da privacidade.em ação de graças a Deus por ser tão generoso. a questões religiosas. da precedência inquestionável da vontade libertadora e salvífica de Deus. desconfiar. nas lutas travadas. já não como sinal da condescendência de Deus. quando se está cercado de carência. pelo contrário. Paulo VI já tinha percebido que cada vez mais se tornava difícil uma palavra universal que cobrisse as mais diversas regiões(5). na imprensa. Octogesima Adveniens n. Nas sociedades da antigüidade e medieval havia uma profunda interação entre esses dois mundos. sem mais. como um de seus deturpadores avatares para a fé cristã. é pensar a graça como original e originante e não o pecado. de miséria absoluta. 24 . da conduta. a outros lugares. confirmar com facilidade essa sensação de bem-estar e satisfação. no rádio. numa interrelação superficial. mas como usurpação fratricida a crescente acumulação por parte de uns poucos – povos e classes – à custas e em detrimento da miséria de continentes. A modernidade cultural trouxe. ir descobrindo os anúncios da ressurreição nas solidariedades conseguidas. das necessidades humanas básicas não satisfeitas. saber discernir. E pior ainda é impingir um discernimento feito alhures. c. Verdadeiro desafio teológico é afirmar esta precedência absoluta da graça. Recuperação do público em confronto com o privado Um terceiro pressuposto desprende-se do processo discernido em ação nas igrejas latino- americanas. só é possível em comunhão com os povos crucificados da terra. O Ad amorem de Inácio pode.

para cumprir adequadamente e com pertinência tal missão. e. A religião. Discernimento y politica. Tornos. são vistas como possibilidades aceitáveis por quem as quiser. Escatologia. in: Escritos eclesiásticos 64 (1089) 249-269. pensa-se na irrupção do pobre(9). da novidade do momento atual. retirá-lo da privacidade também na sua dupla dimensão. Não necessariamente no sentido do protagonismo histórico de maneira que o pobre será a grande força transformadora da sociedade. a cuya luz deben discernir-se e interpretar-se todos los demás. Ellacuria. Publicaciones de la Universidad Pontificia Comillas. de fé. faz-se reconhecer por ela como atuando. Mas o mais importante é reconhecer a dimensão histórico-teologal no sentido de que a realidade histórica tem capacidade de manifestação da presença do próprio Deus. alcance político das decisões. por mais abstrusas que se dêem de fenômenos religiosos. unos llamativos y otros apenas perceptibles. Santander. 1977. II. 9 “Entre tantos signos como siempre se dan. “sinais dos tempos” são categorias que entram na dinâmica do discernimento espiritual na perspectiva latino-americana(7). no fundo.percepção de que se trata de algo do mundo pessoal. ninguém tem nada a dizer sobre o outro. o Espírito manifesta-se como realidade. 183-6. I. de um lado. in: Diakonia 17 (1981) p. v. o próprio discernimento não pode prescindir da repercussão social da decisão. que junta a su permanencia la siempre distinta forma histórica del siervo de Yahvé. Nesse universo de pensar. em dado momento. visto desde o horizonte da revelação. al que los poderes de esse mundo siguen despojando de todo. verdade e novidade. As interpretações. Tem uma dimensão sacramental. 25 . 1991. 58. para configurar uma consciência coerente com valores fundamentais da pessoa humana. Cristo exerce atual senhoria. Os fatos estão a 6 A. A perspectiva latino-americana tenta. Libanio. . A primeira refere-se à missão pastoral e requer um adequado conhecimento da história. Deus se comunica a pessoas na história. le siguen arrebatando la vida. Los “signos de los tiempos” em la teologia de la liberación. E quando se aponta para o verdadeiro sinal dos tempos. o discernimento converte-se na tarefa duplamente do mundo privado. Além disso. Esse signo es siempre el pueblo históricamente crucificado. por sua vez. dando-se a conhecer(8). é praticada pela pessoa na sua solidão individual. Sal Terrae. onde. E faz-se mister não só captar o fato mas também que tyraços do ser e projeto de Deus estão. 8 J. Sobrino. a fé assume a prática profética que ultrapassa o mundo da privacidade para questionar a conduta e as relações sociais. sobre todo la vida”. 7 J. hay em cada tiempo uno que es el principal. do lugar social. Cada um siga sua religião. E quando se trabalha o conceito de sinais dos tempos. parte-se de uma constatação básica de que se trata de sinais atuais da presença e dos planos de Deus na história. Madris. B. Este é o fato maior da nossa época e continente. Trata-se de questões de religião. al que el pecado del mundo sigue quitandole toda figura humana. Deus continua presente na história. do outro. Discernir ‘el signo de los tiempos’. pp. Distinguem-se as dimensões histórico-pastoral e histórico-teologal.

Segundo. in: Sal Terrae 74 (1986/6) p. onde falta o básico de humanidade. Pode-se. como sua condição e fim ao mesmo tempo. Contudo o escopo dos exercícios espirituais e do próprio discernimento é ajudar o exercitante a livrar-se de suas afeições desordenadas.480. Daí a dimensão pública e política do discernimento. 26 . Inácio chama esta atitude de “indiferença”. no sentido antes de tudo de bem materialista. já que elas viciam na raiz qualquer escolha. não se discerne verdadeiramente. não se encontra a vontade de Deus. Quem está conduzindo a história são os ricos e países ricos. De fato. primeiro do sofrimento. sem uma atitude profunda de liberdade diante das afeições. chega-se até Deus. Implica de nossa parte colocar tudo para tirá-los dessa discussão. concreto. Enquanto eles existirem. está a indicar-lhes onde Deus está presente e se não quiserem passar à margem de Deus. de todos os nossos desejos espontâneos. E quando se procura ir ao coração do significado da opção pelos pobres. Todo cristianismo e Igreja que desconhecer tal fato maior terá que defrontar-se com o juízo de Jesus desde os pobres (Mt 25. de todos os nossos sonhos imediatos diante do absoluto do mistério de Deus que nos manifesta em dada realidade. 31- 45). trata-se de uma percepção profunda da relatividade de todas as coisas criadas. Desde a revelação. Apesar disso. Inácio coloca. La opción por los pobres como clave hermenéutica para entender el Evangelio. Está-se-lhes adscrevendo um libelo de perversidade ética. “tirar de si todas as afeições desordenadas”. continuam os pobres o fator maior da história atual. No fundo. Os pobres e países pobres estão cada vez tornando-se mais pobres. ordenando sua vida. Tirar de si todas as afeições desordenadas (11) No processo de discernimento. mais que como critério. devem voltar-se aos pobres e países pobres. 2. 10 J.desmentir tal visão. A opção pelos pobres é a “compaixão de Deus para os que mais sofrem”(10). de desapego das afeições desordenadas. Mais. porém. L. em outros termos. E mais ainda. dizer que é um critério de juízo sobre a validez mesma dum discernimento a disposição da liberdade. está se passando um atestado de incompetência técnica e política aos ricos e países ricos.

São Paulo. Sem o lugar social não se percebe tal pré-compreensão. geradas e transmitidas pelas forças dominantes da sociedade. de valores introjetados. B. mas sobretudo das exigências de prática daí decorrentes. 36. Ela tem uma gratuidade hermenêutica. Ignatiana n. que já vimos trabalhando. da força perniciosa e deturpadora das ideologias. não se assume tal preocupação. mas de origem social. Loyola-Bilbao 1991. racionalizações que dominam a atual sociedade são. 1991. A ascética batalhou e ainda batalha com todas as suas armas em vista de purificar os sentidos desde uma razão ordenada pela fé e a própria razão e razões desde uma visão radicada na revelação. Desde a América Latina. que não arranca da letra do evangelho. A psicologia tem colaborado muito no desmascaramento de racionalizações que se vestem no nível aparentemente consciente de perfeita lógica e no fundo não passam de subterfúgios e fugas do real. Elaboram-se racionalizações. Sem a liberdade humana. 13 P. de mitologias. 17. Permanece pertinente a afirmação de K. col. Peter-Hans Kolvenbach. Ela funda-se na natureza mesma do conhecimento de decisão humanos. quer na dimensão consciente como também inconsciente. ligadas aos interesses (in)conscientes de classe. do entorno. Sem a graça (ou pecado) não se capta (resiste a ) seu alcance teologal. 1. p. menos estudada até então. de mitologias de classe e de cultura(13). da liberdade e da experiência-lugar social. n. 27 . em sua parte dominante. não somente no nível da leitura dos acontecimentos. das opções sociais prévias. tem-se desenvolvido no discernimento outra dimensão. Ninguém se aproxima de uma realidade. não somente de caráter estritamente pessoal. Há uma consideração de natureza antes estrutural. por sua vez. in: Antigos alunos e a espiritualidade inaciana. porque se cairia no círculo vicioso. Marx de que “as idéias dominantes são as idéias das classes dominantes”. mas encontra nele sintonia (ou não) (12). Exercícios Espirituais. Alocução do Padre Geral na sessão inaugural no congresso mundial de antigos alunos e alunas. 12 J. do lugar social. nem faz uma leitura do evangelho. Esta. Ninguém se aproxima de uma realidade sem vir carregado de apriorismos. Esta pré-compreensão é fruto do jogo de fatores fundamentais: da graça (ou pecado). Segundo trata muito bem desta questão no artigo citado. Por isso essa rede de valores. 11 Santo Inácio. A espiritualidade tem trabalhado esta atitude em nível pessoal. de raça. sem uma pré-compreensão de natureza ideológi8ca-social. não pode fundar-se na letra do evangelho. apriorismos. Loyola.

2. in: Vida y Espiritualidad (1985) n. diz o documento: “E pior é que todas essas situações de pobreza ocorreram em países que se dizem católicos. No discernimento funcionam as motivações profundas. 16 Medellín e nas suas pegadas Puebla afirma esse caráter de escândalo. correm o risco de virem contaminados pelos interesses dominantes. 436487. A realidade histórico-concreta vista desde a América Latina dos pobres permite perceber com maior clareza os engodos ideológicos do atual sistema neocapitalista dominante. as decisões. São Paulo. DE um lado. 15 Congresso Internacional sobre la Reconciliación. como fruto de suas decisões livres. 119-122. terminam por afetar esse jogo ideológico. A presença do pobre não simplesmente como um dado objetivo. Os discernimentos e decisões feitos nesse universo. sem uma atenção muito especial a tal fato. Antes de tudo. volta-se à mesma tecla. 28 . do outro lado. IV Conferência geral do Episcopado latino-americano. O documento de consulta para a Assembléia de São Domingos retoma mais uma vez esse fato de concentração de riqueza na mão de poucos e da grande maioria empobrecida como “grave falta de solidariedade para com quem tornou possível a acumulação desses capitais”. rompe a ilusão. da graça. 28. pp. Não vem a propósito elencar a rede de valores da ideologia neoliberal. 1. 35. do universo simbólico em que se vive. do imaginário social atual. ainda que ele seja grave e escandaloso(16). João Paulo II alerta-nos para esse risco. do neocapitalismo vitorioso e dominante até as raias da arrogância. Elas configuram lentamente no interior da pessoa. 1992. Há uma circularidade hermenêutica entre a realidade social e as decisões com seu respectivo discernimento. dos preconceitos. ao julgar como “inaceitável a afirmação de que a derrocada do denominado ‘socialismo real’ deixa o capitalismo como único modelo de organização econômica”(14). de que a realidade seja neutra e que seja possível uma reconciliação prescindindo do conflito e para além dele enquanto se viver na história humana. De novo. n. É uma interpelação de Deus a toda consciência humana e cristã. estatístico da realidade. Arequipa (11-13 enero 1985). por mais pessoas que sejam. Loyola. nn. a realidade social batalha continuamente o discernimento com sua ambigüidade ideológica e. Centesimus annus. Depois de descrever os rostos da pobreza. 115-123. pp. Temas para una teologia de la reconciliación. O discernimento visa precisamente a reagir a decisões confusas e de motivações mescladas. tão cara a certa linha de uma espiritualidade de reconciliação(15). 164. mas também da infiltração sutil das impressões. neutro. 133. Card. Teologia de la reconciliación. sobretudo depois da falência do “socialismo real”. 1257. in: Vida y Espiritualidad 1 (1985) n. Conclusões de Puebla. Tal contradição é escandalosa e fere profundamente nossa alma de pastores”: CELAM. Documento de Trabalho. A novidade maior que a espiritualidade da América Latina traz para o discernimento é a presença do pobre. Portanto não se pode pensar num discernimento sem levá-lo em consideração. 14 João Paulo II. n. de contradição com o ser cristão. Alfonso Lópes Trujollo. de pecado social.

tem-se mostrado que perturba mais o discernimento cristão. Muitas vezes o discurso de um discernimento pode ser puramente ortodoxo nas suas formulações. Loyola. Na interpretação do “magis” e das pequenas mediações a perspectiva latino-americana pode trazer a sua contribuição. mas como desonestidade. Rahner. Deus Pai é origem da libertação. Tavares Martins. o Filho de Deus é nosso irmão nesse processo e o Espírito gera comunhão e participação. portanto. encobrimento da verdade-realidade. nem mesmo um secularismo imanentista. A dialética entre revelação e libertação na teologia latino-americana da “Evangelii Nuntiandi” à “Libertatis conscientia”. Nega-se o Deus da vida. na qual Jesus viu a bondade do Pai. Rahner. Liv. Este é o maior risco já que valores e realidades criadas se vestem de Deus. regidas por interesses ideológicos de manutenção de (des)ordem estabelecida. H. A denúncia da idolatria precisa encontrar um horizonte a partir do qual se podem perceber os ídolos. como centro da revelação bíblica. São Paulo. se entregam para a vida dos mais pobres(17). de absoluto e conseguem infiltrar sob esta veste religiosa nas motivações e decisões de muitos cristãos. De fato. – já que seu contraste com a revelação é tão flagrante que não permite ilusão – mas a idolatria. mostrou que tal dialética acompanhou toda a vida de Inácio e que se iluminou na sua conversão e continua sendo a estrutura fundamental do discernimento para os pósteros(18). São Paulo. Fé e Realidade. 29 . 1956. mentira. Dialética do “magis” e da pequena mediação Outro critério fundamental do discernimento inaciano é a articulação correta das exiG6encias do “magis” com a pequena mediação. mas da exigência de vida da realidade. Porto. Feller. oposto aos ídolos que sacrificam vítimas a si. O discernimento de Jesus é modelo e critério para o nosso. E desde os pobres da América Latina tal situação se deixa ver. Jesus viveu em relação com os fariseus este problema. manipulação. 24. Ele o fez não a partir de uma teoria ortodoxa de Deus. 1990. o “magis” da maior glória de Deus pode ser interpretado numa 17 G. G. n. Este é o deus da vida que. O Deus da revelação. Gutiérrez. 3. apresenta a tensão fundamental entre revelação e realidade na perspectiva da dupla face da TdL. a saber. Loyola. O Deus da vida. em genial estudo. Col. mas de uma prática incompatível com ele. ao defrontar-se com a ortodoxia da posição deles sobre o sábado. Homem de Igreja. não através de uma palavra heterodoxa. Por isso. da luta contra uma falsa imagem de Deus e da afirmação do Deus da vida. mas radicalmente ferir a ortopráxis cristã. mas incompatível com o Deus que queria a vida dos enfermos. 18 H. Inácio de Loyola. não uma negaçãop de Deus – ateísmo –. pela prova da realidade no sentido de saber a voz de Deus nos acontecimentos. Há uma inverdade em relação à realidade que não se define simplesmente como erro noético ou ignorância. 1988: nesta obra o A. V. O critério de autenticidade do discernimento passa.

não por causa de sua grandeza. senhores poderosos. esses meios eram vistos. lidos e interpretados desde a experiência pessoal individual. a perspectiva dos pobres pode trazer alguma luz para questionar o desejo desse “magis” de seus criadores. No discernimento de tal projeto. como horas dedicadas a escrever cartas aos grandes desse mundo. O “magis” é entendido na perspectiva da libertação dos pobres no contexto da América Latina. E na Carta se refere a exemplos bíblicos de como Deus usou de autoridades em benefício do povo: José do Egito. A situação da América Latina mais uma vez coloca no horizonte do “magis” a situação concreta do pobre. Pequeno fato pode dar alguma luz. seja por uma percepção espiritual da necessidade das mediações humanas no serviço de Deus (20). Aproximou-se um negro pobre e perguntou-lhe para que aquela construção. a perspectiva latino-americana trouxe elementos novos para o discernimento. um missionário europeu estava trabalhando na construção de um gigantesco centro de catequese numa região da África. de Lima. aparentemente ineficazes como visita a doentes nos hospitais. tratando com papas. 1990.perspectiva pessoal individual de apelo para o percebido na própria consciência. não entendeu corretamente como ordenar todas as coisas para a glória de Deus. Pois Inácio foi alguém que pessoalmente trabalhou muito as mediações políticas. com a única e exclusiva intenção de anunciar o evangelho. 100ss. Desde cedo descobre pra si e para sua ordem a importância das letras. pp. Essa dimensão individual é antes uma vertente interpretativa de textos de Inácio que sua própria prática. dos 19 Délcio M. mas enquanto estão na linha dos pobres. Rio de Janeiro. 20 Nesse sentido. cardeais. Ele era uma pessoa sensível ao social. as mediações concretizadoras do “magis”. que relativiza certas percepções do “magis”. Enquanto o diabo cochila. dos estudos sérios. A questão coloca-se. não simplesmente das ciências sagradas. Em sua vida pessoal conjugou tanto o tempo dedicado aos trabalhos mais simples. responde: “Aqui na África para evangelizar basta a sombra de uma árvore”! Certas situações de pobreza servem para questionar discernimentos pastorais. portanto. mas também da cultura humanística pagã. etc. Ele se situava no centro das grandes decisões do mundo. fundamentalmente em relação com os meios. imperadores. No momento está em andamento um projeto de evangelização – Lumen 200 – que envolve enormes somas de dinheiro(19). Ester e Mardoqueu. Em geral. A dimensão política de tais meios apenas aflorava. Este horizonte permite assumir também grandes projetos. ao político. 30 . Francisco Alves. De novo. pode-se entender o que Inácio de Loyola escrevia que “aquele (que) não acha bom servir-se destes meios (humanos ou indústrias humanas ou fatores humanos). nobres. seja por própria experiência e formação na corte espanhola. da retórica. Diante da resposta que era para evangelizar. humildes. Certa vez. cuidado de prostitutas. Era alguém aberto aos estímulos culturais da época.

mas enquanto pobre no sentido mais material do termo. Este lugar não é outra coisa que o pobre e o oprimido”(21). E o sinal de que esta práxis toca a raiz do mundo do pecado é a reação que ela provoca. escolher aquele lugar determinado da história que fosse capaz de encaminhá-lo para a totalidade de Deus. não só enquanto humanidade. Na perspectiva da América Latina. “Encarnar-se para Jesus não significou situar-se na totalidade da história para a partir daí a totalidade de Deus. Sobrino. 56. 23 EE. Na configuração histórica de hoje esta luta leva muitos cristãos a serem perseguidos. defende sua causa e assume seu destino. mas do real compromisso com os pobres e oprimidos. faz-se o homem universal a partir do pequeno”(22). Essa prática inaciana está na fonte inspiradora do discernimento. no martírio. Para verificar a verdade do discernimento. com os desejos. “Parcialidade significa que Jesus se situa no mundo da pobreza e dos pobres. n. Inácio na meditação das Duas Bandeiras descreve-nos essa luta. a saber. São Paulo. de uma ortodoxia imaculada. Em termos atuais. O martiriológio da nossa recente história da Ighreja atesta 21 J. 22 Id. os recursos humanos. as qualidades e conhecimentos naturais com a intencionalidade.clássicos da filosofia. a mediação fundamental para concretizar tal prática de síntese é mais uma vez o grande sinal dos tempos da presença do pobre. Inácio desenvolve uma linha de discernimento que articula o que na linguagem teológica clássica se chamava de natural e sobrenatural. 233. significou. Em nota preliminar nessa mesma contemplação. A verdadeira práxis do reino se concretiza através de palavras corretas. com os objetivos do maior serviço de Deus e salvação das pessoas. Jesus na América Latina. Os dons recebidos devem ser reconhecidos para que se possa “em tudo amar e servir a Sua Majestade”(23). mas em violentas perseguições. rejeitados e até martirizados. Inácio afirma categoricamente que “o amor deve pôr-se mais em obras que em palavras”(24). O critério do 30 grau de humildade não se concretiza nas pequenas humilhações pessoais do cotidiano simples. p. EE. 31 . 199. Loyola. p. dir-se-ia que a práxis é um critério de verificação do amor. Os dons recebidos existem e adquirem sentido se postos à disposição dos outros em sinal de amor e serviço. Jesus é o verdadeiro homem sendo pobre. 1982. Inácio deixa num dos prelúdios da “Contemplação para alcançar o amor” preciosa observação sobre a atitude básica em todo esse processo. antes. de declarações de efeito.

Subjaz a tal prática uma percepção teologal profunda. Loyola. quando se assume posição dogmática indialogável. org. O povo latino-americano está a apontar para essa realidade. A cruz é o grau máximo da renúncia de si. pp. 464s.abundantemente esta realidade(25). profeta e mártir da libertação. Petrópolis. Conceptos fundamentales de la Teologia de la Liberación. EE. Trotta. Martirológio latino-americano. Loyola. já que percebe neles. 26 J. Mas existe também uma confirmação exterior que é a proximidade objetiva com o Cristo perseguido e crucificado. n. E a solidariedade com essa situação torna-se critério de verificação do discernimento. A experiência evangélica com e do pobre corrige todas essas deturpações. vinda da mais lídima tradição 24 EE. loyola. A própria solidariedade no sofrimento. 1990.. Espiritualidad y seguimeiento de Jesus. Buscar Deus no cotidiano Buscar a Deus nas mediações do cotidiano é a tarefa mais importante na prática do discernimento. na práxis com os mais pobres necessita passar pelo critério de espírito de bem-aventurança (Paulo VI). Madrid. O martírio na América Latina. 230. Existe uma confirmação interior através da consolação. Há avatares de uma opção militante pelo pobre que no fundo não traduz a perspectiva evangélica. Paulinas. 32 . São paulo. a presença da misericórdia e ternura de Deus. São Paulo. quando se absolutizam certas práticas concretas anteriormente a qualquer discernimento. Marins e equipe. in: I. como entrega de vida ao irmão. II. quando se assume uma atitude ética purista intransigente e insensível a qualquer crítica diferente. P. p. quando se busca o protagonismo da prática libertadora a todo preço. 1984. Depoimentos sobre os seis jesuítas mártires de El Salvador. 1990. 1988. São Paulo. Sobrino. Sobrino. Mysterium Liberationes. 1984. São Paulo. quando finalmente qualquer fracasso eqüivale a desânimo já que se conta unicamente com a vitória(27). J. J. quando se afoga o projeto popular com a imposição da própria prática. 25 Instituto histórico centro-americano de Manágua. 9-37. E a Companhia de Jesus experimentou isso de modo violento no assassinato de toda uma comunidade que vivia seu compromisso sério com a libertação dos pobres em El Salvador (26). Inácio atribuía muita importância ao tempo da confirmação. M. Sobrino. acontece ainda com maior clareza evangélica o sinal verificador da presença de Deus. 1984. Ellacuría – J. 4. antes de tudo. Oscar. Sobrino. quando se manipula a dimensão religiosa em vista de efeitos políticos. Sangue do povo. Vozes. org. 27 J. Martírio – Memória perigosa na América Latina hoje. E se a cruz nos vem do compromisso com o pobre. Ferrari e equipe.

cujo cântico das criaturas é a expressão mais lídima(28). ó Altíssimo”: Os escritos de São Francisco de Assis. a perspectiva latino-americana traz também novidade. A originalidade maior de Inácio não foi tanto seguir a linha franciscana. tradução e comentários: K. é negar a presença de Deus na criação. Hoje tal experiência de Deus serve como excelente critério para discernir a qualidade. que se tornara 28 “Louvado sejas. Inácio retoma-a na contemplação para alcançar o amor. a pobreza. Há uma percepção social de que a natureza está sendo destruída pela ganância. nuvem.jesuana. a saber. O santo louva a Deus pelas criaturas. a saber. pessoas que perdoam. a intensidade. fechar o olho à crescente pobreza. E ele é belo e radiante com grande esplendor. entendido como modernidade ou como materialidade. sereno. Sua espiritualidade forja-se sobretudo sobre esta intuição de modo que pode ser resumida na frase: “Buscar a Deus em todas as coisas”. no cotidiano das pessoas. Na concepção de mundo. por mais religiosa e de Deus que queira ser. Deus é sempre maior e deixa-se encontrar nas mais diversas formas. históricas. São Paulo. Loyola. cotidianas(29). que nenhuma tradição. especialmente o senhor irmão Sol. Buscar a Deus em todas as coisas. Esser – L. ar. voracidade e desordem do desenvolvimento. Não se trata de uma simples experiência pessoal individual de extasiar-se diante da beleza da natureza. De novo. Predominou uma concepção positiva a respeito do mundo e da história na esteira de Teilhard de Chardin. na história. a exploração e a dependência em relação aos países ricos. pode-se perceber e criticar tal desenvolvimento. Petrópolis. suportam enfermidades e tribulações. morte. pois ele é dia e nos ilumina por si. Há uma tradição franciscana que desenvolveu belamente a presença de Deus nas criaturas. Vida no convívio do mundo e oração inaciana. Combater a poluição nos países ricos. o pobre torna-se o critério de teste. Hardick. céu. Desde o pobre. o Terceiro Mundo tem dentro de si a causa mais poluente. entendendo pela palavra “coisas” as realidades humanas. de verificação do discernimento. Tanto mais compreensível é esta visão quanto mais se procurava superar uma visão negativa do mundo. estrelas. tempo. Se do Primeiro Mundo surge um grito de alarme em relação à destruição do ambiente. vento. meu Senhor. fogo. a natureza. transferindo para os países pobres as fábricas poluidoras. 29 J. pp. 182ss. E porta teu sinal. cuja repercussão se faz cada vez mais grave nas regiões pobres. A linguagem do Primeiro Mundo concebe o mundo como totalidade e a ação de Deus como história da salvação. Vozes. 1990. 1979. Lua. nenhuma estrutura dita do Reino pode ser considerada última e definitiva para todos os lugares. a direção do desenvolvimento tecnológico. 33 . com todas as tuas criaturas. introdução. terra. água. Stierli. mas antes assinalar a presença de Deus nos acontecimentos.

em muitos casos. as dimensões mais ligadas a ele. Afirmar a fé no Filho de Deus implica no nível de prática essa relação com o pobre. e não só a escato-logia continuam sendo problema fundamental. o amor ao irmão mais pobre deixa de ser simplesmente uma exigência ética para tornar-se uma realidade teologal. a humanidade está submetida à pobreza. Pois vê-se no mundo não simplesmente um fruto de um sistema social. mas história devido à ação de uns contra os outros. A perspectiva latino-americana alerta para o perigo de uma visão otimista da história escamotear a verdade da realidade. Diante da vida ameaçada para bilhões de pessoas. Sem este olhar. Se os filósofos dizem que a filosofia nasce da admiração. mas pela descoberta cada vez mais clara do que significa ser um mundo periférico. Sal Terrae. esse movimento espiritual protesta e confessa um sim incondicional à vida. No fundo. dependente. 25. O Terceiro Mundo. Santander. ao mesmo tempo que proclama um não inegociável ao reino da morte. Busca tornar a realidade transparente a fim de encontrar a vontade de Deus. resistira a tais embates. a teologia e a espiritualidade européia encaminham-se numa visão positiva do mundo. descobre que “atualmente. resgatando-a do reino da morte. faz-se necessário dizer um não rotundo ao pecado maior contra o reino de Deus. oprimido. 34 . Mas a maneira de viver a 30 J Sobrino. negação absoluta da vontade de Deus. já não pelas razões que comandaram a visão negativa a respeito do mundo na Igreja tradicional. que é a opressão do pobre. sobretudo IX a XII). A maior parte da humanidade está à margem do progresso.comum na Igreja. 1985. a realização do Concílio Vaticano II. o cristão é chamado a viver a realidade da misericórdia para com os seres ameaçados de morte e para com os atentadores à vida. os discernimentos se viciam. Com a entrada do Papa João XXIII. Pois esta deseja reconciliar o mundo consigo e os homens entre si. a criação de Deus está ameaçada e viciada. trata-se de descobrir a verdade sobre o mundo e a história à luz do projeto de Deus. o corpo. Em termos bem concretos. p. o mundo (moderno) insurgia virulento contra a Igreja nas suas principais correntes culturais. Nesse jogo. mas a imagem de Deus violentada por esse sistema. Pra isso. à violência institucionalizada e. Liberación com espiritu. Latina nasce do assombro diante da situação dos pobres e duma concepção dramática da história. Apuntes para unas nueva espiritualidad. à morte lenta ou violenta. A proto-logia. como realidade hostil ao espírito. Nesse sentido. o discernimento na A. os discernimentos pessoais não podem ficar insensíveis. Teologicamente. Além disso. embaladas por muitas idéias teilhardianas. Ademais. a realidade é pecado. Naturalmente a Igreja até o final da era piana (pontificado dos Pios. Uma leitura ascética vira a matéria. como essa realidade não é simplesmente natural. gravíssimo e fundamental pecado”(30).

Sobrino. in: Cadernos do CEAS 40 (1975). o cotidiano se resume na vida familiar. Loyola. O que é “popular” no catolicismo popular? In: REB 36 (1976) 5-18. nas suas lutas 31 Onde está o termo “revelação”. E a espiritualidade do discernimento tem ajudado muitas pessoas nesse mundo a encontrarem a vontade de Deus. tanto em suas origens. fora do qual e independentemente do qual não se capta a revelação. O cotidiano da maioria de nosso povo pobre é de outra natureza. “honradez e fidelidade em relação à realidade não é só pressuposto para uma experiência espiritual de Deus. ela se traduz em acolhida. Por isso. Ultimamente têm-se feito em nossos países experiências de retiro na vida com grupos populares onde a prática de discernimento se faz no cotidiano popular(32). na encarnação do Filho e inclusive na escatologia final(31)”. na profissão. Com isso ele dá sentido a todas as contradições da história e da luta com e pelos pobres.misericórdia é diferente. O cotidiano moderno não é fácil também para as classes mais abastadas. assunção de sua causa. O Pai. Liberación com espiritu. Sem querer entrar na questão de definir o sujeito popular(33). Mais difícil ainda é falar de discernimento para aqueles que vivem o cotidiano na percepção da pós-modernidade. mas seu próprio conteúdo. Na maioria dos discernimentos. a misericórdia assume a forma prática profética de Jesus. surgem novas realidades de discernimento. Em relação aos morcegos da noite e da morte. compromisso. No meio popular. no decurso da história. Em todas essas situações. pp. 32 M Iglesias. 35 . sabe ler o projeto do Pai. confirma averdade de tal discernimento. Cesar. Tal reflexão mereceria longo espaço. 1985. Uma delas refere-se sobretudo à participação do cristão nos movimentos populares. p. Pode-se ler. Mas não é eese o mundo que caracteriza a América Latina. Exibe uma honradez e fidelidade à realidade a toda prova de ir descobrindo através dela a vontade de seu Pai. São Paulo.1-23). Cultura popular e religiosidade popular. nem se responde a ela. 33 W. Isto corresponde positivamente a tão repetida estrutura histórica da revelação de Deus. sem mais. por isso deixaremos esse capítulo fora de nosso trabalho. “discernimento”: J. O cotidiano também varia segundo as classes e países. condutores cegos. Sobre elas incide a presente reflexão. pode-se afirmar que ele introduz no processo de discernimento certas inovações. Em relação aos pobres. No horizonte do discernimento está sempre a prática de Jesus que ilumina altamente a nossa nesse jogo de contrastes. ao ressuscitá-lo. Jesus desmascara os engodos da realidade que a prática farisaica produz (Mc 7. Ele mesmo experimentou essas duas formas. Subindo para Jerusalém – Subsídios para um retiro. Compaixão para com o povo sem pastor e invectiva aos fariseus. em quem confia até o último momento na cruz. 32. 54ss. nos deveres diários.

36 Pedro Casaldáliga. 51-61. porque “os ricos se enchem de violência”. as proibições. Leplace. Brasileira. Libânio. estratégias e jogadas. Vivia um momento de crise da Igreja. Rio. Javé tem um processo contra o seu povo. Civ. São Paulo. Em vez de posicionar-se em atitude de confronto com ela e desde fora lançar-lhe dardos. Desloca para o social o ponteiro do discernimento. Sabia pessoalmente da fragilidade dessa Igreja visível que estava saindo do triste período dos papas do renascimento. 36 . 5. Tal tipo de conhecimento só é possibilitado por elementos sócio-analíticos de natureza política(34). 35 J. julho. 34 J. 1978. Sentire cum Ecclesia É característico de Inácio o sentido eclesial. Nesse momento. não se opõem nem se contrapõem à experiência dolorosa da indignação. a prática de discernimento necessita defrontar-se com questões novas. Por isso. antes predominantemente centrado nos problemas pessoais individuais e subjetivos. Oséias. falsificam as balanças. as suspeitas. Um retiro bíblico. 1990. Creio na justiça e na esperança. preferiu de dentro iniciar um profundo processo de reforma. nas comunidades de base. colocadas como grande critério da presença de Deus(35). tais como. n. A paz e alegria. tem-se que ter um mínimo de conhecimento de seus projetos. Conheceu a prisão.reivindicatórias. Assiste ao casamento da filha de Paulo III no próprio Vaticano. Miq 6. 3. o discernimento desde a ª Latina articula no seu interior mediações sócio-analíticas. mais homens do mundo que de Deus e da Igreja. Isaías ou Miquéias que refletem a indignação de Javé diante das injustiças que o mais fraco sofre. pp. in: Itaici: Cadernos de espiritualidade inaciana. B. da ira em face à injustiça triunfante do poderoso sobre o pobre(36). nas greves. Observações preliminares para uma hermenêutica dos Exercícios em vista dos meios populares. 37 Basta citar os profetas Amós. além de conhecer a realidade dos verdadeiros atores sociais. Paulinas. Este cotidiano conflitivo desafia critérios estabelecidos desde outra experiência do cotidiano. Experiência que aproxima o exercitante de profetas e homens do Antigo Testamento nos momentos em que eles sofriam com o pobre explorado(37). nas lutas partidárias. sofre sob a tenaz da inquisição. 1968. Antes de que se possa perceber a presença de Deus e o modo da mesma nos movimentos sociais. no compromisso com as lutas sindicais. interesses.12ss. aproximar-se analiticamente da realidade social para permitir que o exercitante descubra sua participação política com lucidez. Sofreu as contradições da Igreja na sua própria carne. as censuras. etc.

144-160. São Paulo. A articulação da fé e o compromisso social: discernimento da prática pastoral. Tal reflexão ainda que pareça formal. de outro. de um lado. a força vulcânica de um Deus sempre maior percebido na oração. in: id. que quisesse o poder pelo poder. col. pp. Vida religiosa inserida nos meios populares. O discernimento espiritual de Inácio consiste em saber levar a tensão fundamental entre o serviço à Igreja visível e a experiência da presença imediata de Deus. na vida. agente de pastoral junto ao povo. Loyola. políticas e econômicas que pareçam necessárias com urgência em cada caso”(39). 39 Paulo VI. Octagesima Adveniens. 71-116. 1985. da palavra humana. Inácio Não entendia uma Igreja que se buscasse a si. Autonomias específicas e articulações mútuas. não fica preso unicamente ao critério discernidor da hierarquia 38 K. A espiritualidade latino-americana tem procurado inserir mais na dimensão eclesiológica a presença do Espírito. nunca pode ser pensada e vivida fora do horizonte da presença imediata de Deus em relação à consciência de cada pessoa. Inácio via a Igreja no maravilhoso projeto salvífico de Deus em relação a todos os seres humanos. Em vez de trabalhar unicamente com o critério cristocêntrico. 1986. tem-se buscado valorizar a dimensão pneumatológica da Igreja e portanto do “sentire cum Ecclesia”. Rahner. resumo em: Seleciones de teologia 23 (1984) n. no cotidiano. n. Se. A Igreja da A. Eclesiogênese: a Igreja que nasce da fé do povo. nas exigências. traz conseqüências pesadas para o discernimento. A experiência da A. n. de presença de Deus e fragilidade humana. Ignatiana. Petrópolis. Rio. col. Fé e Política. sem escutar antes esse mesmo povo e medir o significado para ele de tal mudança(41). C. Por exemplo. um superior não deveria discernir o deslocamento de algum súdito. Latina pode trazer também para o “sentire cum Ecclesia” elementos novos. institucional e oficial dos bispos e do papa de Roma. Latina descobriu de modo forte a sua condição de povo pobre. Não sem a influência do crescimento das igrejas locais com seus compromissos sociais na América Latina. São Paulo. De um lado. 6. É uma Igreja que se faz povo pobre e um povo pobre que se faz Igreja(40). Vozes. pp. n. dos sacramentos visíveis. 37 . Loyola. e. Palácio. E a Igreja se faz povo. Esta dimensão popular da Igreja leva o discernimento a pensar o serviço na dupla dimensão eclesial e popular. Paulo VI reconhece a importância do discernimento que se faz nas comunidades locais no referente “às opções e compromissos que convém assumir para realizar as transformações sociais. Palavras de Inácio de Loyola a um jesuíta de hoje. com tudo o que ela tem de graça e pecado. Puebla e Vida religiosa.. ela é a Igreja das instituições. 1980. a instituição. 18. B. 4 40 L. 29- 34. 41 J. Com isso. 90. que se concentrasse na conservação de si mesma por causa dela mesma. pp. Libanio. 1981. à experiência mística(38). CRB. Boff. com o risco do cristomonismo.

dos critérios da consciência e da subjetividade. Gonzáles Faus. carisma e poder. Ensaios de Eclesiologia Militante. que não se deixa aprisionar pela letra. in: Razón y Fe 220 (1989) nn. mal grado a má companhia em que se colocava. 43 J. as comunidades locais e da periferia. pp. !987. O movimento atual da Igreja salienta o lado visível. dir. a situação parece oposta. Le Centurion. por uma obediência material e formal. Um fenômeno social e religioso. vivemos um momento oposto ao de Inácio. a centralidade. Inácio. Ladrière – R. J. na nossa labuta terrestre de viver esses princípios trinitários é tensão. as decisões da hierarquia. A decadência escandalosa do poder da Igreja.. O neoconservadorismo. in: Concilium n. 1981. Vozes. P. 44-73. oposições. as deliberações do povo simples e pobre. a instituição. 161-178. a dimensão pneumatológica. o poder central. Igreja. Cristo e Espírito tem uma unidade profunda na distinção de pessoas. Elabora-se uma eclesiologia em que o carisma assume maior importância e se torna princípio de organização da própria Igreja (42). pp. No seu tempo a tempestade se levantava do lado oposto à visibilidade da Igreja. 1089-90. e. in: REB 50 (1990). Petrópolis. O que em Deus é pura harmonia. Cartaxo Rolim. A espiritualidade da A. pp. Blanquart. Paris. n. Latina tem procurado trazer para o processo de discernimento esta dimensão menos acentuada. em resposta. 38 . mas. Neoconservadorismo eclesiástico e uma estratégia política. Didaticamente somos chamados a acentuar o lado menos valorizado para evitar as hipertrofias. 259-281. e a relevância da dimensão do Espírito permitem um discernimento criativo. da pureza evangélica. Comblin. desconhece o lado misterial. quis manter-se firme no lado visível. in: P. pleonasticamente popular.(L. Hoje. comunhão amorosa de distintos na unidade. mais próxima das copiadoras que do desenho criativo. livre. 67-84. Colocar-se junto ao povo é andar em má 42 L. Esta comunhão com o povo de Deus. G. El meollo de la involución eclesial. Col. F. No discernimento nunca se trata de oposição e muito menos de exclusão. O ressurgimento do tradicionalismo na teologia latino-americana. Luneau. O movimento principal revigora o poder. 12). pp. a inteligentsia dos poderosos(43). pelo contrário. Le pape em voyage: la géopolitique de Jean-Paul II. Sob certo sentido. a dimensão cristomonística. 234-249. não raro. Boff. 161 – 1981/1. por uma atitude servil. por uma felicidade canina. I. a visibilidade. a venalidade de muitos elementos de sua hierarquia tinham provocado a avalanche protestante em nome da liberdade. A unidade de ambos não nasce da negação das diferenças e da distinção. e. de sua afirmação em tal plenitude e amor que termina na mais profunda comunhão de unidade. in: REB 49 (1989) pp. CID Teologia/21.

Lisboa. “Nós sabemos que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus. 44 ª Holl. Jesus em más companhias. É um processo sempre diferente em todas as partes. na imitação de Jesus(44) e de Inácio. 39 . As luzes que nos vêm das maneiras de formular e viver o discernimento do Primeiro Mundo ajudam-nos a viver a maneira de nós vivermos no Terceiro Mundo nossos discernimentos. Riqueza que ajuda a cada um a viver em seu lugar com maior pureza e evangelicidade seu discernimento. Conclusão É um mesmo processo de discernimento que se opera em todas as partes. A diversidade das maneiras é riqueza. Latina tem aceitado. propor colocar-se ao lado da má companhia popular e desde aí fazer o discernimento. que são chamados segundo o seu desígnio” (Rm 8. 1972. E esperamos que nossa maneira ajude aos do Primeiro Mundo a viverem com autenticidade a sua busca da vontade de Deus.28). já que esta vontade se encarna nas diversas situações. Moraes. A espiritualidade da A.companhia. no sentido de que se busca sempre sob a guia do Espírito a vontade de Deus.