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Manuel Correia de Andrade

CiEOCiRAFIA
Ciência da Sociedade

-. .

. .
M
anUel Correia de
Andrade nasceu
no e n g e nh o
Jundiá, em Vi c ê n c i a ,
Pernambuco a 3 de agosto de
1922. Fe z seus estudos
fundamentais na cidade em
que nasceu e os secundários e
s up e r i o r e s - D i r e i t o,
Geografia e História - no
Recife. ·Estudou no Rio de
Janeiro - 1956 ,... e.em P.aris na
..
.

França - 1964/66; viajando e


participando de congressos
científicos e realiz ando
conferências em vários países
do mundo, como Estados
U n i d o s, P eru, Ca n a d á,
Fr a n ç a , Portu gal e
Argentina. Dedicou-se aos
e s tu d o s de g e o g ra f i a
e c o n ó m i c a, s o b re t u d o
agrária e política e ahistória
económica e social do Brasil e
possui numerosos livros
publicados, dentre os quais se
destacam - A Guerra dos
C a b a n o s, P ai s agens e
P roble m a s do Br a s il,
G e op ol í t i c a do Bra s il,
Pernambuco Im ort al e
Pernambuco: cinco séculos de
colonização. No momento é
coordenador da Cátedra
G ilb erto Fr eyre da
Universidade Federal de
Pernambuco.
,L
?

GEOGRAFIA
Ciência da Sociedade
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inclusão de qualquer parte da obra em qualquer programa jus cibernético. Essas
proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração.

Capa: Sérgio Siqueira


Projeto gráfico: Gilberto Santos
Revisão: O autor
Impressão e acabamento: Editora Universitária/UFPE
IIi, MANUEL CORREIA DE ANDRADE

GEOGRAFIA
Ciência da Sociedade

Editora �
UniversitáriWUFP E
....

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO


Reitor: Prof Amaro Henrique Pessoa Lins
Vice-Reitor: Prof. Gilson Edmar Gonçalves e Silva
Diretora da Editora: Prof' Gilda Maria Lins de Araujo

COMISSÃO EDITORIAL

Presidente: Prof' Gilda Maria Lins de Araujo


Titulares: Anco Márcio Tenório Vieira, Aurélio Agostinho da Boaviagem, Carlos
Alberto Cunha Miranda, Cláudio Cuevas, José Augusto Cabral de Barros, José Dias
dos Santos, Gilda Lisboa Guimarães, Jairo Simião Domelas, José Zanon de Oliveira
Passavante, Leonor Costa Maia.
Suplentes: Izaltina Azevedo Gomes de Mello, Aldemar Araújo Santos, Anamaria
Campos Torres, Christine Paulette Yves Rufino Dabat, Elba Lúcia Cavalcanti de
Amorim, Gorki Mariano, José Policarpo Júnior, Patricia Cabral de Azevedo Restelli
Tedesco, Rita Maria Zorzenon dos Santos, Vera Lúcia Menezes Lima.

EDITORA EXECUTIVA

Maria José de Matos Luna

EDITORA ASSOCIADA À

Associaç5o Brasileira de
Editorns Universitária<>

Andrade, Manuel Correia de


Geografia : ciência da sociedade I Manuel Correia de Andrade. - Recife:
Ed. Universitária da UFPE, 2008.
246 p.

Inclui bibliografia
ISBN 85-7315-298-2

I. Geografia- História. 2. Geografia contemporânea- Características­


Escolas filosóficas. 3. Geografia brasileira - Pensamento geográfico -
Sociedade- Globalização- Importância da geografia no mundo atual. I. Título.

911.3 CDU (2. ed.) UFPE


910 CDD (22. ed.) BC2008-660
PREFÁCIO A 2a EDIÇÃO. ........................................................ 9

INTRODUÇÃO. ......................................... ................................ 13

1. A GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA. .................................. 17

1.1 O que é a Geografia. ................................................... 17


1.2 · A Geografia e o problema de Interdisciplinalidade. . . . 23
1.3 A unidade e a diversidade em Geografia. ................... 27
1.4 O caráter social da ciência geográfica. ....................... 28

2. AS IDÉIAS GEOGRÁFICAS NA ANTIGÜIDADE........... 31


2.1 Entre os povos primitivos. .......................................... 31
2.2 A Geografia na antigüidade oriental........................... 34
2.3 A contribuição dos gregos. ......................................... 36
2.4 A Geografia dos romanos. ................. .............. ........ ... 41

3. A GEOGRAFIA NA IDADE MÉDIA. ................................ 45


3.1 A reorganização do espaço na Idade Média - a ação
dos árabes.................................................................... 45
3.2 A reorganização do espaço na Idade Média - os
povos do norte............................................................. 49
3.3 As grandes viagens medievais. ................................... 50
3.4 O conhecimento do território e o desenvolvimento
da Geografia................................................................ 5?
4. A GEOGRAFIA DOS TEMPOS MODERNOS. ................. 57
4.1 O capitalismo e a expansão do mundo conhecido. ... .. 57
4.2 A descoberta do caminho marítimo para as Índias. .... 59
4.3 A procura da Índia pelo Ocidente. .............................. 61
4.4 A expansão da Ásia Setentrional. ............................... 63
· 4.5 O desenvolvimento do conhecimento geográfico nos
tempos modernos. ....................................................... 65
4.6 Os precursores da Geografia....................................... 68

5. O SURGIMENTO DA GEOGRAFIA CONTEMPO-


RÂNEA. ............................................................................... 71
5.1 O capitalismo e o desenvolvimento da Geografia. ..... 71
5.2 O pensamento científico do século XIX e o
surgimento da Geografia modema.............................. 76
5.3. A contribuição de Humboldt e de Ritter. .. ................. . 80
5.4 Friedrich Ratzel e a Geografia do poder. .................... 84
5.5 Por uma Geografia libertária- Reclus e Kropotkin.... 87

6. A GEOGRAFIA CLÁSSICA............................................... 99
6.1 Características da Geografia clássica.......................... 99
6.2 A escola alemã............................................................ 105
6.3 A escola francesa. ....................................................... 109
6.4 A escola britânica. .................... .................................. 117
6.5 A escola norte-americana............................................ 122
6.6 A escola russa. ............................................................ 125

7. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA GEOGRAFIA
BRASILEIRA....................................................................... 129
7.1 Antecedentes............................................................... 129
7.2 A ação das universidades............................................ 133
7.3 A contribuição do IDGE. ............................................ 140
7.4 A contribuição da AGB. ............................................. 146
7.5 O Congresso Internacional e a maturidade da
Geografia brasileira. ................................................... 148
8. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E AS MODIFI-
CAÇÕES NO PENSAMENTO GEOGRÁFICO. ................ 151
8.1 O Impacto da Segunda Guerra Mundial sobre a
sociedade e a cultura................................................... 151
8.2 A conscientização dos geógrafos sobre o esgota-
mento da Geografia clássica. .................................... .. 154
8.3 Sistemas económicos, posições ideológicas e ciência
geográfica. .................................................................. 163

9. A BUSCA DE NOVOS PARADIGMAS. ........................... 169


9.1 O impacto da tecnologia sobre o conhecimento e a
procura de novos paradigmas. .............. ..................... . 169
9.2 A corrente teórico-quantitativista. .. ........ .. ... .......... . . . . . 172
9.3 A Geografia do comportamento e da percepção......... 179

10. GEOGRAFIA E AÇÃO. ...................................................... 187


10.1 Os geógrafos e a conjuntura social. ............................ 187
1 O .2 A corrente ecológica. ...................................... ............ 191
10.3 A Geografia crítica ou radical..................................... 196

11. A GEOGRAFIA E A PROBLEMÁTICA DO MUNDO


ATUAL. ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . ........... ......... . . . . . . .. . . . ......... . . . . ............ 211
11.1 A Geografia brasileira no início do século XXI. ........ 211
11.2 A Geografia e os grandes problemas brasileiros......... 213
11.3 O sentido da Geografia atual. .................................... . 217

12. BIBLIOGRAFIA.................................................................. 223


PREFÁCIO
..............!.........

Q
uando escrevemos este livro levamos em conta a
importância do conhecimento geográfico na
interpretação dos· fatos que ocorrem no mundo,
levamos em conta tanto aqueles de ordem fisico-naturais, como
os resultantes da influência da sociedade na formação das
paisagens existente na superficie da Terra. Essa análise é
complementada pela interpretação que os cientistas sociais dão
ao processamento dos fatos e dos impactos causados sobre os
sistemas sociais e o meio ambiente.
Ao fazermos Geografia devemos levar em conta tanto o
processamento do que vai ocorrendo diariamente na superficie
do Planeta, como as idéias que norteiam a ação do homem nas
transformações que provocam. Em um país como o Brasil,
observamos processamentos que atingem os mais diversos
setores da sociedade, como o processo de ocupação da
Amazônia, onde milhões de quilômetros quadrados estão sendo
desmatados e a antiga floresta vai sendo substituída por campos
de pastagens e lavouras exploradas de forma predatória tanto
para a natureza como para a população local, em grande parte
desprovida dos recursos de que dispõe e de que sobrevive, ou
até destruída fisicamente.
Nas áreas tradicionalmente ocupadas, observa-se a luta
que se trava entre os grandes proprietários rurais e os
agricultores sem terra, ou com pouca terra, por espaço para a

9
agricultura. Vê-se a disputa entre a perspectiva de desenvol­
vimento de uma lavoura voltada para o mercado interno, feita
por pequenos proprietários, e de uma lavoura de exportação, do
chamado agro-negócio para atender a grandes proprietários e
empresas, muitas delas estrangeiras. Seria, em linguagem
figurada, a luta entre a mandioca e a soja. Observa-se aí também
o crescimento desmedido das cidades, muitas delas com mais
de um milhão de habitantes, e a evolução do processo de
urbanização, criando problemas de dificil solução. E o Brasil,
um dos maiores países do Mundo, vive esse problema de
crescimento com desigualdade que desafia seus pensadores na
procura de soluções as mais diversificadas.
Não se pode negar que o país possui uma geografia das
mais avançadas, mantendo mais de uma centena de cursos de
graduação e dezenas de cursos de pós-graduação - especia­
lização, mestrado e doutorado - que seguem orientações as mais
diversas, diante dos desafios de suas várias regiões e da
influência das numerosas escolas geográficas. Daí a importância
dos estudos de geografia fisica, ligados a problemas do meio
ambiente, tanto relacionada ao processo de ocupação de áreas
tropicais úmidas - caso da Amazônia- como semi-áridas - caso
do Nordeste, de degradação do meio ambiente quer pelas
atividades agrárias quer pelas indústrias, com a degradação
dos solos feita por uma agricultura sem preocupações
preservacionistas, como pela indústria que polui o ar, e os solos
com seus resíduos e dejetos. Com o baixo nível da população,
dividida em classes ou grupos sociais com grandes desníveis de
renda, que espalha a pobreza, a miséria, o desemprego, a fome e
o baixo nível sanitário sobre essa população de mais de cento e
setenta milhões de habitantes.
Estes fatores têm contribuído para o desenvolvimento de
áreas do saber, comprometidos com a geografia agrária, a
geografia urbana, a geografia industrial, a geografia comercial e
a dos transportes e comunicações.

10 10
O Brasil vem tendo grande influência sobre os países
vizinhos, sobretudo em áreas consideradas em desenvolvimento,
e procura estender essa influência sobre a América Latina e o
Caribe, através de associação com a Argentina, através do
Mercado Comum Latino Americano, e sobre a África, através de
sua ação na Comunidade de Países de Língua Portuguesa,
aglutinando os vários países que foram, no passado, dominados
pelos portugueses. E, nesta ação, ele estende essa influência até
o Timor Leste, no Extremo Oriente. Também se desenvolvem
preocupações com o andamento do processo de globalização e
de relacionamento do Brasil com países importantes do Terceiro
Mundo e com os Estados Unidos e a União Européia. Daí o
grande crescimento dos estudos sobre relações internacionais e
da geopolítica.
Neste livro, procuramos enfatizar a importância da
Geografia como ciência social, ciência do homem, relacio­
nando-a ao mesmo tempo, como ponto de partida para a
formação da cidadania e a conscientização de concepções
nacionalistas mais conciliatórias coin os desejos de paz e
harmonia entre os povos.

11
12
INTRODUÇÃO
IMMWiiUI\I:W A f'IIHI& "-iltiAI

E
ste livro foi escrito visando fazer a análise da
evolução da Geografia e do pensamento
geográfico, desde a Antigüidade até os nossos
dias, em face da preocupação que atinge os geógrafos no
momento atual, quando várias alternativas se abrem ao
pensamento geográfico e se formam correntes que procuram
encaminhar o conhecimento geográfico em diversas direções.
Na realidade, desenvolvemos as nossas preocupações
abordando, ao mesmo tempo, a evolução da Geografia e do
pensamento geográfico.
Para nós o conhecimento científico e, consequentemente,
o geográfico estão profundamente comprometidos com as
estruturas sociais que servem de infra-estrutura às formações
culturais. As manifestações culturais, nos vários ramos do
conhecimento, não são estáticas nem estreitas, limitadas; muito
ao contrário, são dinâmicas e estão comprometidas com as
formas de ação e de pensamento oriundas das estruturas
dominantes na sociedade. Daí acreditarmos e procurarmos
demonstrar, no livro-texto que se segue, que a concepção da
Geografia como ciência e como ação está estreitamente ligada e
dependente das relações sociais, ao mesmo tempo em que o
pensamento geográfico não tem forma isolada, mas se
interpenetra com o pensamento das demais ciências, tanto

13
13
soc1ms como naturais. Acima das especializações existe, para
nós, certa unidade no conhecimento científico.
Baseados nestes princípios é que organizamos este livro;
no primeiro capítul@, procuramos caracterizar a natureza da
ciência geográfica, passando em seguida, nos Capítulos 2, 3 e 4,
a fazer uma história da evolução do pensamento geográfico e do
conhecimento da superficie da terra, até a Idade Contemporânea.
Procuramos periodizar aquilo que chamamos Geografia institu­
cionalizada, analisando o pensamento das principais figuras de
geógrafos, na fase de institucionalização, no período clássico -
época das escolas nacionais - e no período moderno, posterior à
Segunda Guerra Mundial, estudando as várias correntes,
apontando seus paradigmas e a influência ideológica a que estão
ligados. Daí chegarmos ao comprometimento político das novas
escolas e a contribuição do pensamento geográfico para a ação
política e social. Não esquecemos, ao abordarmos a proble­
mática da Geografia, em escala mundial, de incorporar capítulos
ou partes de capítulos onde analisamos a evolução da Geografia
brasileira.
Este é um livro de síntese que se destina a um público
muito variado e heterogêneo, mas cremos que o sei.l maior
interesse está voltado para os estudantes de bacharelado e de
licenciatura dos 200 cursos de Geografia existentes no País e aos
milhares de professores de ensino médio, que trabalham isolados
·nas mais diversas cidades e têm dificuldades de acesso a uma
literatura mais especializada. Daí a rica bibliografia que o
acompanha. Ele interessa também aos estudantes dos vários
cursos de Ciências Sociais, de Filosofia, de História, de
Economia, de Política, de Direito, de Administração, de
Comunicações, de Relações Internacionais etc., que, natural­
mente, têm interesse em conhecer as relações das ciências a que
se dedicam com a Geografia. Destina-se também aos professores

14
14
de Geografia e às pessoas aficionadas a esta ciência; a fim de
melhor localizarem a posição desta ciência em seu campo de
estudos.
Esperamos que este livro provoque reflexões e debates e
que traga alguma contribuição à divulgação e à consolidação do
conhecimento geográfico no Brasil, prestigiando a Geografia e
os geógrafos na sociedade e na vida universitária.

MANUEL CORREIA DE ANDRADE

15
15
16
Mf 4 @I *P' :q
1
A GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA

1.1 O QUE É A GEOGRAFIA

N
ão é fácil definir nem estabelecer, com
precisão, o q�e é a Geo�rafia; este ��ob! e­
,
ma, porem, e comum as outras c1enc1as
sociais, pois não existem ciências estanques, com objetivo
bem delimitados, mas uma ciência única que, para facilitar
o estudo de determinadas áreas, foi dividida, um pouco
arbitrariamente, em várias outras, compartimentando-se
uma totalidade. Esta divisão da ciência em vários campos
do conhecimento foi o resultado tanto do alargamento do
conhecimento científico, tornando difícil a uma pessoa
dominar todo o seu campo, como faziam os sábios da
Grécia, como do domínio da filosofia positivista, cada vez
mais proeminente com a expansão do capitalismo, visando
formar especialistas que entendam o mais profundamente
possível de áreas cada vez mais restritas. Para que se
castrassem os estudiosos de uma visão global, totalizante
da realidade, tratou-se de estimular, cada vez mais, a
especialização e, em conseqüência, neutralizar ou reduzir a
capacidade crítica dos estudiosos, sábios e pesquisadores.

17
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Admite-se que a Geografia se tornou uma ciência


autónoma a partir do século XIX, graças aos trabalhos dos
geógrafos alemães Alexandre von Humboldt e Karl Ritter,
e foi no século XIX que surgiram ou ganharam autonomia
as demais ciências sociais, salvo a Economia Política,
desenvolvida a partir dos trabalhos de Adam Smith, já no
século XVIII. Isto não quer dizer que não existissem um
conhecimento geográfico e uma aplicação da Geografia
desde a pré-história; conhecimento e aplicação que foram
expandindo-se à proporção que a civilização foi desenvol­
vendo-se e a sociedade aumentando a sua capacidade de
dominar e modificar a natureza, para melhor desfrutar dos
recursos nela disponíveis.
Com a evolução das estruturas económico-sociais
houve também o desenvolvimento da superestrutura
cultural e da forma de interpretar o processo de relações
entre a sociedade e a natureza; daí terem evoluído também
o conceito e a idéia de qual o objeto da Geografia. Na pré­
história, na Antigüidade e na Idade Média, como veremos
nos capítulos que seguem, a Geografia era utilizada apenas
para desenhar roteiros a serem percorridos, para indicar
os recursos a serem explorados, para analisar as relações
meteorológicas etc., estando profundamente identificada
com a Cartografia e com a Astronomia. Assim, os grandes
geógrafos eram sobretudo cartógrafos ej ou astrónomos.
Uns poucos estudiosos, como Heródoto e Estrabão, é que
se aventuraram a tirar conclusões além das descrições
que faziam.1 Na Idade Moderna começou a procurar
explicações mais profundas sobre sistemas de relações
entre a Terra e os astros, entre as condições naturais,

1 VALLOUX, Camille. Les sciences géographiques. Paris, Felix Alcan,


1929.

18
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

climáticas, sobretudo, e as sociedades ; tivemos então


obras precursoras como as de Varenius e as do filósofo E.
Kant. Também Montesquieu, no seu livro O espírito das
leis, mostrou preocupações de ordem geográfica, relacio­
nando sociedade e natureza.
Na Idade Contemporânea, graças aos estudos de
Humboldt, o grande naturalista e viajante alemão, e de
Ritter, filósofo e historiador que lecionou por muitos anos
na Universidade de Berlim, é que a Geografia se tornaria
uma ciência autônoma. Dos trabalhos do naturalista sobre
regiões as mais diversas - Europa, Ásia Setentrional,
América Latina - e das divagações de analogias formu­
ladas pelo filósofo, surgiu a Geografia como um ramo
autônomo do conhecimento, muito ligada a explicações de
fenômenos físicos e muito comprometida com as posições
políticas dos seus fundadores. Assim, os continuadores dos
dois pioneiros, Ratzel e Élissée Reclus, que viveram nas
últimas décadas do século XIX, tiveram a preocupação de
defender posições políticas. O primeiro estava ideologi­
camente ligado à "necessidade" da construção de um
império colonial para a Alemanha, que chegara tarde na
partilha do mundo, e em desenvolver estudos que levaram
à Geografia Política e. à Geopolítica, utilizados pelas
oligarquias e pelos ditadores em favor de uma política
expansionista, pan-germanista, como o princípio do
"espaço vital". O segundo, francês, anarquista militante,
desenvolveu toda uma teoria libertária em que defendia a
existência da luta de classes e condenava o processo
expansionista da colonização .
Apesar do trabalho pioneiro destes mestres e dos
seus continuadores, a Geografia demorou a ser aceita nas
Universidades. A sua preocupação principal, sobretudo no

19
19
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

ensino secundário, continuou a ser a de informar a


respeito das várias áreas do globo terrestre, catalogando
nomes de montanhas, de rios, de mares, de cidades, de
países e de recursos produzidos. Era, assim, um ramo do
conhecimento meramente informativo, que não estimu­
lava a reflexão mais profunda. E este caráter foi fortalecido
pelo próprio expansionismo colonial, então dominante nos
países europeus e nos Estados Unidos e que se preocupava
sobretudo com a catalogação do que poderia retirar dos
povos e países conquistados, militar ou economicamente.
Daí definir-se durante muitos anos a Geografia
como a "ciência que faz a descrição da superfície da Terra",
como se a simples descrição constituísse uma atividade
científica.
A importância destas descrições, às vezes eivadas de
fantasias ditadas pela imaginação dos autores, às vezes
preocupadas com a explicação dos principais fenômenos
descritos, iria dar origem, na primeira metade do século
XX, a uma multiplicidade de enfoques geográficos. Havia
uma Geografia dos exploradores, desenvolvida pelas
sociedades exploradoras, e que continha uma série de ricas
informações sobre áreas pouco conhecidas ; ao seu lado
havia uma geografia vulgar, popular, em que se detalhava,
em mapas e em compêndios, uma relação de acidentes e
de divisões políticas e informações económicas de grande
interesse para curiosos; e uma terceira, a Geografia dita
científica, cultivada nas Universidades, em que havia
disciplinas específicas de Geografia, que procuravam para
esta ciência o seu paradigma, a sua caracterização.
A evolução da geografia acadêmica, com a
contribuição de numerosos cientistas que publicaram suas
obras nos fins do século XIX e no início do século XX,

20
20
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

levou Emanuel de Martonne a definir a Geografia como


"a ciência que estuda a distribuição dos fenômenos físicos,
biológicos e humanos pela superfície da Terra".2 Trata-se
de uma grande evolução sobre a definição anterior, de vez
que no estudo desta distribuição cabe não apenas
descrever, mas também explicar como e por que a
distribuição é feita da forma descrita. E esta explicação é
que dá foros de ciência à Geografia.
As grandes revoluções a que foi submetido o
conhecimento geográfico no pós-guerra envelheceram esta
definição. Assim, os neopositivistas, entusiasmados com o
desenvolvimento das técnicas e das máquinas, procura­
ram, em nome da "neutralidade científica", despolitizar
formalmente a Geografia, procuranqo torná-la uma
matemática espacial. Para isso eles renegaram as preo­
cupações e diferenciações regionais, utilizaram dados
estatísticos em bloco, como se os espaços e os níveis de
desenvolvimento fossem homogêneos, e matematizaram a
Geografia. Com seus métodos, e eles tinham mais
preocupações metodológicas que epistemológicas, presta­
vam grande serviço aos governos autoritários que
procuravam desenvolver o crescimento econômico, sem
dar importância aos custos sociais e ecológicos deste
desenvolvimento. Foi assim uma geografia a serviço das
ditaduras, no plano interno, e das grandes empresas que
procuravam uniformizar e integrar o mundo capitalista, no
plano externo. Naturalmente, o agravamento da pobreza, a
destruição da natureza e a reação das forças populares, no
plano político, atingiram também a Geografia, e surgiu o
que se chamou Geografia Crítica ou Geografia Radical,

2 MARTONNE, Emanuel de. Traité de géogniphie physique, 83 ed. Paris,

Arrnand Colln, 1950. T. I. p. 15 ss.

21
--

MANUEL CORREIA DE ANDRADE

reunindo em um só bloco todos aqueles que, almejando


uma reforma da sociedade e melhor distribuição da renda,
batalharam para sensibilizar a Geografia e os geógrafos
para os problemas sociais, políticos e econômicos.
Alguns trabalhos foram contundentes, como o de Yves
Lacoste, 3 fazendo acusações fortes aos que, procurando
"neutralizar" a Geografia, a esterilizaram e a colocaram a
serviço dos poderosos do dia, e que desprezaram os
conhecimentos adquiridos através dos estudos da
chamada, pejorativamente, geografia tradicional. Contra­
punham assim uma Geografia Nova à Nova Geografia dos
quantitativistas, neopositivistas etc. Esta reação trouxe
forte enriquecimento da Geografia, com a utilização de
categoria dialéticas marxistas, na análise das relações
.
entre o homem e a natureza. Utilização feita, muitas
vezes, com cuidado, com critérios científicos, tomando o
marxismo como um método de análise para a compre­
ensão da realidade; mas, infelizmente, muitas vezes feita
tomando o marxismo como uma doutrina, como uma
teoria inquestionável e sem necessidade de renovação,
colocando a realidade dos países, sobretudo dos não­
-europeus, em uma verdadeira camisa-de-força, caindo
assim na mesma alienação em que caíram os neopo­
sitivistas.
Admitimos que no momento histórico em que
vivemos, de vez que as definições e os objetos das ciências
não são imutáveis, sofrem transformações com as
mudanças que se operam na sociedade, a Geografia pode
ser definida como a "ciência que estuda as relações entre a
sociedade e a natureza", ou melhor, a forma como a

3 Leia-se "A Geografia", de CHATELET, François. História da Filosofia; a


filosofia das ciências sociais. Rio de Janeiro, Zahar, 1873. v. 7. p. 221-74.

22
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sociedade organiza o espaço terrestre, visando melhor


explorar e dispor dos recursos da natureza. Naturalmente,
no processo de produção e de reprodução do espaço, cada
formação econômico-social procura organizar o espaço à
sua maneira, ao seu modo, de acordo com os interesses do
grupo dominante e de acordo também com as suas
disponibilidades de técnica e de capital. Daí uma área
territorial com as mesmas características apresentar
formas de utilização do espaço diferentes, se dividida entre
países que optaram por sistemas econômicos diferentes,
ou se for dividida por fronteiras que separam países com
elevado desnível de desenvolvimento.

1.2 A GEOGRAFIA E O PROBLEMA DE


INTERDISCIPLINALIDADE

Já afirmamos no item anterior que não existem


várias ciências sociais, mas apenas uma, que, por
contingências filosófico-políticas e por necessidade de
especialização, foi dividida em uma série de ciências.
Os limites que as separam são muito tênues, muito difíceis
de ser precisados, havendo áreas do conhecimento para as
quais convergem os quadros das várias ciências.
No caso da Geografia, a situação é mais grave;
estudando as relações entre a sociedade e a natureza, ela
tem áreas em comum com os dois grandes grupos
científicos, e se o espaço é produzido e reproduzido pela
sociedade, a Geografia tem grande aproximação com -as
mais diversas ciências sociais; se analisa a intervenção
desta sociedade na natureza, tem naturalmente a neces­
sidade de manter contatos, de trocar conhecimento e
experiências com muitas das ciências ditas naturais. Ao

23
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

usar técnicas modernas, divulgadas pelas c1encias ditas


exatas, a Geografia necessita manter contatos com as
chamadas ciências exatas. Esta diversidade de contatos e
de enfoques tem colocado em perigo até a identidade da
Geografia, fazendo com que autores conceituados afirmem
ora a dualidade da Geografia, ora até a existência não de
uma mas de diversas ciências geográficas. 4
Analisando a ação da sociedade sobre o espaço,
produzindo e reproduzindo formas que são visíveis ao
observador, mas que necessitam ser investigadas nas suas
origens, o geógrafo muitas vezes tem de recorrer ao
conhecimento da Sociologia, da ciência especializada no
estudo da estrutura e das relações da sociedade; além
disso, as transformações no espaço se fazem provocando
modificações de formas anteriores e contrariando inte­
resses estabelecidos, consolidados, provocando resistên­
cias a mudanças, assunto que está confiado, nas estruturas
científicas atuais, à Antropologia; as transformações nas
formas de utilização do espaço são provocadas pelas
necessidades de ordem econômica que formam a infra­
estrutura que influencia a formação das várias supra­
estruturas sociais, levando o geógrafo a necessitar de uma
formação razoável de Economia Política, para melhor
explicar o seu objeto de estudo; mas o homem não é
apenas uma máquina, ele raciocina, delibera, toma
posições de apoio e de resistência a mudança, fazendo
representações mentais, o que faz com-que haja também
uma influência psicológicà-e, consequentemente� -grande
intercâmbio, relação íntima entre a Geografia e a

4 VALLOUX, Camille. Les sciences géographiques. Paris, Felix Alcan,


1929. Estuda em profundidade o problema da unidade e da dualidade da
ciência geográfica.

24 24
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Psicologia. Ao se defrontar com os vários espaços em


transformação, o geógrafo sabe que eles são povoados e
que os povos que neles habitam formam etnias, têm um
embasamento cultural tradicional que, naturalmente,
terá grande influência sobre a produção do espaço,
levando a Geografia a ter maior contato com a Etnologia.
Alguns geógrafos franceses, como Jean Brunhes e Pierre
Deffontaines, deram muita importância à Etnologia e à
Etnografia, chegando a formar uma tendência etnográfica
na Geografia Humana.
A História, como a ciência que estuda a evolução da
Humanidade e a forma como ela se processa, também tem
muita correlação com a Geografia; durante decênios elas
estiveram ligadas no ensinamento. Os primeiros geógrafos
franceses foram, inicialmente, historiadores de formação,
como Vidal de la Blache, Emanuel de Martonne e Jean
Brunhes, e a história foi durante muito tempo a fonte da
Geografia, que era inicialmente retrospectiva. Élisée
Reclus, após escrever a sua famosa Nova geografia
universal, em 19 volumes, escreveu um livro, não menos
famoso. O homem sobre a Terra, em seis volumes,
com a finalidade de fazer um corte vertical na ação do
homem sobre o planeta, após concluir o majestoso corte
horizontal, feito na mais extensa de suas obras. Para a
Geografia a segunda obra talvez sej a mais importante do
que a primeira.
Com as ciências da natureza, a Geografia também
tem grande relacionamento, em face da necessidade de
bem conhecer o palco em que a sociedade está instalada e
onde atua. Assim, para melhor conhecer os recursos
renováveis e não renováveis de que a sociedade dispõe, a
Geografia necessita manter grande intercâmbio com a

25
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Geologia, que estuda a estrutura da crosta terrestre; com a


Pedologia, que estuda os solos; com a Mineralogia, que
estuda as rochas e minerais existentes; com a Hidrologia,
que estuda as águas. É indispensável ainda maior contato
com a Meteorologia, a fim de melhor caracterizar o tempo
e o clima e de realizar, hoje, estudos sobre problemas de
poluição. A Astronomia ainda fornece-lhe informações
sobre o andamento das estações do ano, necessárias a
uma melhor planificação na utilização de certos recursos.
A Oceanografia é indispensável ao conhecimento geográ­
fico, sabendo-se da importância direta dos oceanos, que
influenciam os climas, facilitam os transportes e fornecem
alimentos e produtos minerais à sociedade.
A Geografia não pode deixar de utilizar as novas
técnicas fornecidas pela Cartografia, a que esteve sempre
· ligada, pela Estatística e pela Informática sabendo-se que
o geógrafo necessita não só do controle qualitativo do
conhecimento da ação da sociedade sobre o espaço, mas
também no nível quantitativo da capacidade de sua
intervenção e da importância do seu controle.
Como a Geografia é uma ciência que tem relaciona­
mento com uma série de ciências afins, é natural que entre
ela e as outras ciências se desenvolvam áreas de conhe­
cimento intermediário, ora como ramos do conhecimento
geográfico, ora como ramos do conhecimento de outras
ciências que se tornaram ou tendem a tornar-se novas
ciências a serem pragmaticamente catalogadas. Daí a
existência da Geomorfologia, entre a Geografia e a
Geologia; da Hidrografia, entre a Geografia e a Hidrologia;
da Climatologia, entre a Geografia e a Meteorologia; da
Biogeografia, entre a Geografia e a Biologia; da Geo­
história, entre a Geografia e a História; da Geopolítica

26 26
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

entre a Geografia, a Ciência Política e as Relações


Internacionais ; da Geoeconomia, entre a Geografia e a
Economia Política etc.
É preciso não confundir estes ramos do conheci­
mento com as partes ou especializações da Geografia,
como a Geografia Física, a . Geografia Histórica ou
Retrospectiva, a Geografia Política, a Geografia Econômica
etc.

1.3 A UNIDADE E A DIVERSIDADE EM GEOGRAFIA

Como vimos anteriormente, a Geografia, estudando


as relações entre a Sociedade e a Natureza, tem um objeto
muito amplo, levando a ser confundida ou a penetrar em
outras ciências. Daí as discussões sobre a existência de
uma Ciência Geográfica ou de Ciências Geográficas que
tanto preocuparam os seus estudiosos em congressos
nacionais e internacionais, desde o primeiro, como o
realizado em Amberes, em 1871.s O fato é que a ampliação
dos conhecimentos geográficos e o desejo da especiali­
zação dos geógrafos, a partir da primeira metade do século
XX, levaram os mesmos a se dividirem em dois grupos: os
que faziam Geografia Física e os que faziam Geografia
Humana. Posteriormente, esta divisão foi considerada
pequena e surgiram numerosas subdivisões, entre os
geógrafos que optaram por ser geomorfólogos, hidrólogos,
climatólogos, especialistas em geografia econômica,
política, social, agrária, urbana, regional, transformando
praticamente cada capítulo da Geografia em especia­
lização, como se os fatos estudados não estivessem

s DAUS, Frederico A. Que es la geografia. 6a ed. Buenos Aires,


Olkos/Asociación para la Promoción de los Estúdios Territoriales, 1982, p. 49.

27
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

interligados. Este excesso de especialização foi em grande


parte estimulado pela entrada do geógrafo nos trabalhos
de planejamento, em que tinha de conviver e colaborar
com especialistas de outras ciências.
Da tendência à especialização ao esfacelamento do
conhecimento geográfico era um passo e a ocorrência
desta especialização excessiva levou à quebra da unidade
da Geografia. Hoje se processa uma reação que procura
localizar o geógrafo na área concreta de seu conhecimento,
recuperando uma Geografia Física em sua unidade e
voltada para os problemas de meio ambiente e em uma
Geografia Humana mais globalizante, fazendo com que o
geógrafo se capacite melhor das possibilidades que cada
formação social tem de produzir formas, sistemas de
relações, plasmando um espaço. Mas esta separação em
dois grandes ramos, Geografia Física e Geografia Humana,
tende a ser ultrapassada com o estabelecimento de uma
geografia única em que integrem o humano, o social e o
físico. ·

1.4 O CARÁTER SOCIAL DA CI ÊNCIA GEOG RÁFICA

Ao se voltar à unidade de Geografia, consagrada


pelos clássicos que a formaram, dando-lhe uma visão
totalizante, não se pode deixar de classificá-la como
Ciência Social. A sua preocupação central é a formação da
sociedade e os tipos de intervenção que esta sociedade
executa na natureza. Assim, a Sociedade é o sujeito e a
Natureza o objeto. Esta importância do social é acentuada
ao se saber que cada sociedade, cada formação social gera
um tipo de relação, de território, sendo diferente o espaço
do mundo onde domina o modo de produção asiático, do

28
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

espaço feudal, do capitalista e do socialista. A sociedade é


quem determina as metas a serem atingidas, o tipo de
espaço que desej a construir, modificando, transformando
este desejo à proporção que mudam as formas de relações
e as disponibilidades de capital e de técnica. É bem
verdade que a sociedade não pode transformar a natureza
arbitrariamente, da forma que desejar, mas tem grande
capacidade de modificá-la. Para dar um exemplo simples é
suficiente que se observe, em países de clima temperado, a
realização de culturas, no período do inverno, em estufas
que garantem o seu desenvolvimento, graças à produção
de um clima artificial; no Brasil e em outros países, em
áreas de clima árido e semi-árido, desenvolvem-se culturas
típicas dos climas tropicais úmidos, graças ao uso da
irrigação. No submédio São Francisco, em área onde
chove menos de soo mm por ano, existe uma usina de
açúcar com produção elevada e uma produtividade
agrícola superior a 150 t/ha, graças à irrigação.
É bem verdade que a natureza, uma vez modificada
pelo homem, pode recompor-se, mas não em sua forma
primitiva, porque sofre transformações que vão necessitar
de novas modificações na técnica de intervenção para se
obter nova utilização. No Brasil sabemos que a natureza
vem sendo devastada de forma exacerbada desde a
conquista portuguesa, e a destruição torna-se cada vez
mais forte, mais nociva, com o desenvolvimento da
tecnologia, mas sabemos também que esta natureza, uma
vez transformada, não se reconstitui na forma primária,
surgindo uma segunda natureza, diferente da primeira.
É impressionante a quem viaj a pelo Norte do País observar
os estragos que vêm sendo feitos na Amazônia, por
empresas subsidiadas e muitas vezes multinacionais, ao

29
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

destruírem a floresta secular para substituírem-na por


pastagens ou por culturas, acelerando a lixiviação e a
erosão dos solos, expulsando populações que lá viveram
séculos, desrespeitando o equilíbrio biológico existente.
Cabe à Geografia, estudando as relações entre a
sociedade e a natureza, analisar a forma como a sociedade
atua, criticando os métodos utilizados e indicando as
técnicas e as formas sociais que melhor mantenham o
equilíbrio biológico e o bem-estar social. Ela é uma ciência
eminentemente política, no sentido aristotélico do termo,
devendo indicar caminhos à sociedade, nas formas de
utilização da natureza. Daí admitirmos que a Geografia
é eminentemente uma ciência social, uma ciência da
sociedade.

30
AS IDÉIAS GEOGRÁFICAS
NA ANTIGÜIDADE

2.1 ENTRE OS POVOS PRIMITIVOS

dmitindo-se como povos primitivos aqueles

A que viveram na pré-história, sem conheci­


mento da escrita, somos forçados a admitir
que eles, vivendo na superfície da Terra, dela retirando o
seu sustento e tendo uma concepção do mundo, já tinham
idéias geográficas. Do ponto vista ocidental, a história, e
com ela a Antigüidade, ter-se-ia iniciado quarenta séculos
antes de Cristo, com as civilizações do Egito e da
Mesopotâmia; esta cronologia, porém, não pode ser
aplicada corretamente a outras áreas do mundo que se
desenvolveram sem a influência das civilizações do
Mediterrâneo e do Oriente Médio, como a chinesa e a
hindu da Ásia Oriental e Meridional. Os povos da Oceania
e da América, sem contato com os europeus até o século
XVII para aqueles e o XVI para estes, desenvolveram
civilizações próprias, enquanto outros povos, localizados

31
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

na mesma área, permaneceram na Idade da Pedra até a


conquista européia. O esquema da divisão cronológica da
história da humanidade funciona apenas em uma cultura
européia que faz culminar esta história com o desenvolvi­
mento do Capitalismo Comercial e a expansão européia
pela superfície da Terra.
Ao falarmos em povos primitivos, considerando-os
como os que viveram na pré-história, vemos que eles,
mesmo sem possuírem a escrita, transmitindo os conhe­
cimentos através da versão oral e dos desenhos em rochas
e em cavernas, passadas de geração a geração, tinham uma
concepção de vida e uma cultura, ambas impregnadas de
idéias geográficas.
Vivendo da caça, da pesca, da coleta e, às vezes, de
uma agricultura primitiva, as sociedades indígena s
entravam em contato com a natureza, procurando retirar
dela os elementos de que precisavam; a sua ação não se
limitava apenas à coleta dos produtos naturais, eles modi-
- ficavam a natureza, embora de formas pouco expressiva.
Assim, era da floresta que retiravam os materiais
necessários à construção de suas habitações, de seus
barcos, quando navegadores; e o material necessário à
construção de suas armas e de muitos dos seus utensílios.
Destruíam com a coivara trechos da floresta para cultivar e
conheciam vegetais que colocados na água provocavam a
asfixia de peixes que poderiam ser facilmente apanhados e
utilizados como alimento, sem lhes causarem danos.
Conheciam também as áreas fluviais e costeiras mais
piscosas onde não só pescavam peixes e crustáceos como
também apanhavam moluscos que consideravam saboro­
sos. Conheciam o mecanismo das estações, fazendo
migrações, às vezes de longos percursos, a fim de acom-

32
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

panharem os animais silvestres que utilizavam como


alimentos ou para colherem os frutos de determinadas
áreas, na ocasião da "safra". São famosos as migrações dos
indígenas no Nordeste do Brasil, antes da chegada dos
portugueses, do interior para a área litorânea. Na época da
safra do caju, alimento rico em vitamina e substancial para
eles. Muitas guerras foram travadas entre tribos visando a
posse das áreas onde havia matas de cajueiro.
Na América Andina os quéchuas, ao construírem o
Império Inca, estabeleceram suas cidades mais importan­
tes em pontos estratégicos tanto do ponto de vista militar
como de abastecimento alimentar e, para melhor controlar
os povos vencidos, construíram estradas empedradas, com
centenas de quilômetros, partindo da capital em direção
aos quatro pontos cardeais, como a que ligava Cuzco a
Quito. Eles tinham uma noção da translação da Terra em
torno do Sol e da importância da orientação.
Os polinésios, vivendo em um oceano cheio de ilhas
e sendó dominantemente pescadores, desenvolveram a
arte da navegação e estabeleceram comunicações entre
ilhas distantes, conhecendo a direção dos ventos e das
correntes marinhas que facilitavam a navegação em seus
barcos, bastante seguro s para a época e para o nível
tecnológico que dominavam.
No Saara encontram-se cavernas com desenhos
rupestres que representam cenas de caça de animais de
porte médio e grande, abundantes na região em períodos
históricos passados, indicando a existência, em outras
épocas, de um clima bem menos seco que o atual.
Os povos primitivos tinham ainda uma concepção
religiosa, dominada por um Deus superior (às vezes eram
politeístas, mas sempre entre os deuses havia um mms

33
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

importante, mais poderoso) e faziam correlação entre a


Terra em que viviam e os astros que observavam no
firmamento - o Sol, a Lua, as estrelas -, admitindo
sistemas de mundo nos quais estes astros eram encarados
como os próprios deuses ou como a materialização dos
mesmos. Assim, não se pode afirmar que eles fizessem ou
cultivassem uma Ciência geográfica, mas em seu saber
prático, saber da experiência feita, e em sua mitologia,
suas crenças, eles cultivavam idéias de ordem geográfica e
lançavam as sementes que no futuro seriam desenvolvidas
em uma ciência, em um saber acadêmico.

2.2 A GEOGRAFIA NA ANTIGÜIDADE ORIENTAL

Os povos orientais não só desenvolveram o conheci­


mento empírico da Geografia, como também realizaram
observações e estabeleceram estudos matemáticos que
deram origem ao conhecimento sistemático do mundo.
Podemos dizer que as idéias geográficas, em coexistência
com as de outras ciências, se desenvolveram a partir dos
conhecimentos práticos de exploração da Terra e das
observações dos viaj antes, ao lado da sistematização de
pensadores, filósofos e matemáticos.
As civilizações agrícolas da Mesopotâmia e do
Egito, por exemplo, dependentes da irrigação, levaram os
agricultores a estudar os rios Nilo, Tigre e Eufrates,
levando em conta a origem, a extensão e o regime dos
mesmos tanto em relação à periodicidade, quanto ao
regime e às conseqüências da variação do volume d'água
durante o ano. Isto porque da cheia dependia a maior ou
menor área a ser cultivada, a quantidade de alimentos a
ser produzida e a oportunidade de trabalho para uma

34
34
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

população que se dedicava à agricultura. Esta preocupação


foi o primeiro passo para o desenvolvimento de estudos de
hidrografia fluvial e de geometria, de vez que as cheias
destruíam as demarcações feitas entre as áreas de cultura
das várias famílias, forçando uma nova divisão entre as
mesmas.
O mundo conhecido também se expandiu com o
desenvolvimento da civilização oriental; a necessidade da
troca de produtos levou os povos a intensificarem as
relações comerciais com aqueles que viviam em áreas mais
distantes. A navegação passou a ser feita coní maior
intensidade no mar Mediterrâneo e no mar Vermelho,
provocando o surgimento de núcleos coloniais e a
dominação econômica e política dos povos em ascensão.
Os fenícios percorreram o Mediterrâneo e o mar Negro
e, alcançando o sul da Espanha, atravessaram o estreito
de Gibraltar e exploraram a costa européia do Atlântico
até a Grã-Bretanha, e a africana, possivelmente até o
Camerum.1 Das áreas distantes traziam mercadorias
inexistentes na bacia do Mediterrâneo que eram trocadas
pelos produtos dos países aí situados.
Eles chegaram até a fazer a circunavegação da
África, a serviço do Faraó Nécao II, no século VII a.C.2 Um
faraó egípcio planejou construir um canal que cortasse o
istmo de Suez, ligando os mares Mediterrâneo e Vermelho,
com a finalidade de estender as navegações mediterrâneas
até o oceano Í ndico, detendo-se em seu propósito ao
constatar que o nível do mar Vermelho era mais elevado

1 KRETSCHMER, Konrad. História de la geografia. 2 a ed. Barcelona.


Labor, 1930, p. 12.
2 CLOSIER, René. As etapas da geografia. Lisboa. Publicações Europa­

-América, 1950, p. 15.

35
35
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

do que o do mar Mediterrâneo e que a abertura do canal


provocaria a invasão do mar Mediterrâneo pelas águas do
mar Vermelho e a conseqüente inundação das planícies
costeiras, onde se localizavam importantes cidades e
campos cultivados.
Os conhecimentos acumulados pelos povos orien­
tais seriam depois utilizados pelos gregos, quando se
tornaram um povo dominante, de conquistadores, para
elaborarem os conhecimentos básicos que deram à ciência
modrna.

2.3 A CONTRIBUIÇÃO DOS GREGOS

A contribuição dos gregos à civilização ocidental é


da maior importância, quer do ponto de vista quantitativo,
quer do qualitativo. Essa importância decorre tanto do
grande desenvolvimento que teve a cultura grega, como do
fato de serem numerosas as obras que não foram
destruídas e que chegaram até nós.
Os gregos aprenderam com as civilizações da
Mesopotâmia uma série de ensinamentos astronômicos,
como a maneira de distinguir as estrelas dos planetas e a
identificação de numerosos planetas, como Mercúrio,
Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Aprenderam ainda a
conhecer o movimento da revolução lunar em torno da
Terra, a dividir o ano de acordo com esta revolução e a
agrupar os dias da semana de acordo com as fases da Lua.
Os conhecimentos de Geometria, indispensáveis às pesqui­
sas posteriormente realizadas por Dicearco e Eratóstenes,
visando estabelecer as dimensões da Terra, medindo as
latitudes, foram também contribuição dos orientais à
cultura grega.

36
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Sendo um povo de navegadores, seguindo o


exemplo dos fenícios, os gregos fundaram colônias na
costa do Mediterrâneo - Sicília, Sul da Itália, Espanha etc.
-, desenvolvendo o comércio e os conhecimentos com
estes lugares. Graças ás conquistas de Alexandre,
estenderam a sua cultura para o Oriente até o mar Cáspio
e a Í ndia, tanto pelo interior como através da navegação no
golfo Pérsico e no oceano Í ndico. Nessas áreas conquis­
tadas tiveram notícias de povos que viviam em regiões
ainda mais distantes, aguçando o interesse dos conquista­
dores e dos comerciantes e a curiosidade dos estudiosos.
Ao mesmo tempo em que se ampliava o conheci­
mento do espaço geográfico, aguçando a pesquisa dos
sistemas de relações entre a sociedade e a natureza -
sistemas agrícolas, técnicas de uso do solo, relacionamento
entre as cidades e o campo, relações entre classes sociais e
entre o Poder e o povo -, desenvolvia-se também a
curiosidade sobra as características naturais, os sistemas
de montanha, os rios com os seus variados regimes, a
distribuição das chuvas, a sucessão das estações do ano
etc. Tudo isto vinha estimular os escritores que contavam
o que viam e o que ouviam e estudiosos que pesquisavam a
natureza das coisas . Entre os escritores, para citar apenas
os principais, pode-se salientar Homero, com os seus
poemas Ilíada e Odisséia, em que procurou descrever a
guerra dos Estados gregos contra Tróia, cidade situada na
Ásia Menor, dando ricas informações sobre as ilhas gregas
e a costa da Ásia Menor; Heródoto, considerado o pai da
história, apresenta-se, até certo ponto, como um precursor
do determinismo geográfico e faz a descrição das regiões e
países cuja história estudou; Estrabão escreveu um livro,
em 17 volumes, intitulado Geografia,3 em que, baseado

3 Grande parte desta obra está perdida, sendo conhecida apenas através de
citações e de trechos que foram recuperados. Há uma edição da parte

37
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

nos conhecimentos de sua época, procurou descrever o


mundo conhecido. A ele cabe o mérito de haver utilizado,
pela primeira vez, o termo Geografia e de haver
compilado todo o conhecimento científico, geográfico, da
época.
Os estudos descritivos, das áreas litorâneas e das
centrais, dominadas pelos gregos, eram enriquecidos com
mapas de itinerários chamados périplos, ainda que
imperfeitos, de vez que nessa época ainda não se
estabelecia uma escala nem se podia medir as longitudes.
Mapas sem escalas definidas indicavam distâncias as mais
diversas entre os vários pontos tomados como referência.
Sabiam os gregos da existência de terras situadas ao norte,
na Europa Setentrional e na Ásia, com as quais não
mantinham relações nem possuíam informações exatas,
ficando as mesmas fora de suas cogitações. Seriam
reservas a serem exploradas no futuro.
Ao mesmo tempo em que os cronistas descreviam
as áreas conhecidas diretamente ou através de infor­
mações - muitos escritores gregos foram meros com­
piladores de outros que os precederam ou reuniram
informações fornecidas por pessoas que conheciam áreas
diferentes -, os filósofos e matemáticos discutiam idéias
sobre a forma, as dimensões da Terra e sobre a
distribuição das terras, das águas e das populações.
A esfericidade da Terra teve aceitação geral entre os
sábios gregos da época; Aristóteles chegou a apresentar o
fato de a Terra projetar na Lua uma sombra redonda,
durante os eclipses, como prova da mesma;os trabalhos de
Geodésia, efetuados por Eratóstenes para indicar dimen-

recuperada, publicada em espanhol pela Editora Aguilar sob o título


Geografia; prolegómenos. Madrid, Aguilar, 1980.

38
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sões do planeta, partiam da idéia de que a Terra tinha


forma esférica e se baseavam na medida da inclinação dos
raios solares em um poço, em dois pontos diferentes,
situados na mesma longitude - no caso, Sienna e
Alexandria. Para isto Eratóstenes utilizava um instru­
mento muito simples, o gnômon, e chegou a estabelecer
que a esfera terrestre teria 250.000 estádios, ou 42.000
quilômetros, medida quase idêntica à hoje aceita de
40.000 quilômetros.4
Merece ser ressaltada a contribuição de Aristóteles
ao desenvolvimento do conhecimento geográfico. Ele ad­
mitiu a esfericidade da Terra apresentando três provas em
favor desta afirmação: a) a matéria tende a concentrar-se
em torno de um centro comum; b) a sombra projetada
pela Terra na superfície da Lua, durante os eclipses, é
circular; c) só se podem explicar as mudanças que se
produzem no horizonte e o aparecimento das constelações
na esfera celeste por ser a Terra uma esfera. Suas preo­
cupações, porém, não se limitaram apenas a este
problema. Ele também tratou de temas como a erosão, a
formação dos deltas, a relação entre plantas e animais e o
meio físico, as variações do clima com a latitude e as
estações do ano, a vinculação das águas dos rios e oceanos,
as relações entre as raças humanas, o clima e as formas
políticas.s
Admitindo a esfericidade da Terra, admitiam
também a inclinação de sua superfície em relação dos
raios .solares, aceitando a tese de que os climas derivam
desta inclinação e de que haveria uma zona muito quente

4 CLOSIER, René. Ob. Cit. P. 21.


s FIGUEIRA, Ricardo. Geografia; ciência humana. Buenos Aires, Centro
Editor da América Latina, 1977, p. 14.

39
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

no Equador, seguida de uma zona temperada, onde eles


viviam, e, finalmente, uma zona muito fria ao norte, na
proximidade do pólo. Davam grande ênfase a esta
diferenciação climática, admitindo que a vida só era
possível na zona temperada, sendo eliminada pelo excesso
de calor na tórrida e pelo excesso de frio na frígida. Assim,
o ecúmeno se circunscrevia à Zona Temperada da Terra.
Vivendo em uma área de intenso vulcanismo e de
tremores de terra, tinham preocupações com os
fenômenos sísmicos; foi certamente impressionado com
a explosão e destruição parcial da ilha de Somotrácia
que Platão imaginou a existência de um continente
desaparecido, de forma catastrófica, no Atlântico, a
Atlântida, onde haveria grande civilização, lenda que
ainda hoje alimenta farta literatura.
Os gregos admitiam ainda que na distribuição das
terras e das águas estas ocupavam maior porção da
superfície terrestre, achando que Europa, Ásia e África
formavam um grande continente setentrional cercado de
águas por todos os lados, enquanto o Oceano era contínuo.
Quando à existência de outro continente, antípoda do que
habitavam e situado no hemisfério sul, havia grande
discussão entre eles, advogando uns a existência do
mesmo como necessária ao equilíbrio do globo, enquanto
outros não a aceitavam.
Finalmente, já no século II d.C. merece referência
a obra de Ptolomeu, sábio grego de Alexandria que
desenvolveu em seu livro, Sintaxis, divulgado em árabe
com o nome de Almagesto, uma teoria ou sistema
planetário geocêntrico, por admitir que a Terra se situava
no centro do Universo tendo em seu redor círculos
concêntricos onde se localizavam a Lua, o Sol, os planetas

40
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

e as estrelas fixas. De acordo com esta teoria, que foi aceita


até o século XIV, a Terra seria o centro do universo e em
torno dela giravam os vários astros, sendo o movimento
aparente do Sol em torno da Terra um movimento real.
Ao lado deste famoso trabalho, o astrônomo Ptolomeu
escreveu também um livro onde fez a descrição do mundo
conhecido, tendo sido largamente considerado, no período
final do Império Romano e durante a Idade Média, como
verdade absoluta. Escrito em grego, já quando a Grécia se
achava sob o domínio político de Roma e havia influen­
ciado a civilização romana, teve ele a oportunidade de ver
as suas idéias divulgadas por toda a área do Mediterrâneo.
Com a queda do Império Romano e a conquista árabe, o
seu livro foi traduzido para a língua dos novos domina­
dores e continuou a ter grande divulgação, tendo sido
objeto de estudos e reflexões dos sábios da Igreja, durante
a Idade Média. Daí a sua grande importância histórica.

2-4 A GEOGRAFIA DOS ROMANOS

Os romanos conquistaram a Grécia no século II


a.C. e dominaram toda a bacia do Mediterrâneo,
estendendo o seu domínio sobre o Oriente Médio até os
mares Negro e Cáspio e na Europa até o Reno, tendo
atravessado a Mancha e dominado a Bretanha. Senhores
do maior império até então conhecido, procuraram não só
explorar este vasto território, como também estender a sua
língua e a sua cultura. Bastante inferiores culturalmente
aos gregos, absorveram a cultura grega e utilizaram os
seus pedagogos para ensinar os seus filhos. Sábios gregos,
como Ptolomeu e Estrabão, continuaram a escrever em
grego, vivendo sob o domínio de Roma. Daí ser difícil

41
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

separar a contribuição grega e romana à formação da


ciência geográfica.
Os romanos, porém, sendo muito pragmáticos,
procuraram desenvolver ao máximo a organização do seu
império e o comércio entre as dezenas de províncias que
o compunham. Daí a importância maior que deram
à geografia descritiva e a menor preocupação com a
geografia matemática, deixada aos sábios gregos.
Os grandes geógrafos romanos como Pompônio
Mela e Plínio, foram homens mais preocupados com a
descrição do vasto império, visando indicar a localização
das áreas ricas em produtos comerciais e as vias de acesso
às mesmas - por água ou por terra -, a importância das
cidades e os problemas ligados ao abastecimento das
mesmas, os povos e etnias que se distribuíam pelo
território, os problemas fronteiriços, indicando os povos
localizados nos limites do império que constantemente
punham em risco a estabilidade da paz romana.
Estes estudos tinham grande importância em um período
em que algumas cidades tiveram grande crescimento de
população, criando problemas sanitários, de abasteci­
mento e de comunicações e se tornou necessária a
construção de estradas que facilitassem as relações
comerciais, o tráfego de mercadorias e, ao mesmo tempo,
se prestassem a um rápido movimento de legiões romanas
às áreas conflagradas. Áreas conflagradas tanto por
incursões de povos que viviam fora do império - partas,
líbios, mongóis, germanos etc. - como por rebeliões
de populações nativas subjugadas. O crescimento da
demanda por parte da população urbana, dedicada a
atividades secundárias e terciárias e necessitando apro­
priar-se da produção primária do campo, provocava a

42
42
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

necessidade de crescimento de produtividade agrícola e de


modificações sociais, dando origem a lutas entre os
trabalhadores rurais e os grandes latifundiários. Lutas que
provocaram intensa ação política dos irmãos Tibério e
Caio Graco, em favor de uma reforma agrária, e o desen­
volvimento de uma política de colonização em áreas
situadas fora da península itálica.
Todos estes problemas se refletiam na literatura
romana, geográfica e não-geográfica, interessando não só
aos atuais historiadores, como também aos cientistas
sociais em geral e, entre estes, aos geógrafos que, pro­
curando fazer estudos retrospectivos, necessitam muitas
vezes analisar a realidade do passado, que ainda repercute
nas estruturas dominantes nos dias de hoje.
Outro fato que se exacerbaria no período romano
foi a expansão do Cristianismo, tornado religião oficial de
Roma no século IV e que deu grande ênfase ao poder dos
monges. Estes, em seus mosteiros, se dedicavam a estudos
os mais diversos e procuravam encontrar toda a verdade
na Bíblia Sagrada. O seu poder se tornaria maior após a
queda do Império Romano do Ocidente, no século V,
quando passaram a ser os detentores da cultura européia,
frente aos povos classificados como bárbaros e pouco
cultos. Este domínio dos princípios bíblicos faria recuar
uma série de "verdades científicas" aceitas pelos gregos,
voltando-se a velhas teorias, como as que negavam a
esfericidade da Terra, considerando-a como um disco,
tornando perigosa a navegação a certa distância do
continente, pois o navegador poderia chegar ao fim do
disco e desaparecer da superfície do planeta. Nesses livros
descritivos, escritos no passado, ao lado de informações
concretas e verdadeiras, havia uma série de informações

43
43
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

falsas, fantasiosas, sobretudo as que descreviam monstros,


animais de dimensões formidáveis e formas diversas de
'
terrenos, informações que dificultavam o melhor conheci­
mento da realidade existente e consequentemente se
constituíam num desserviço ao avanço do conhecimento
científico.

44
...].i
3
A GEOGRAFIA NA IDADE MÉDIA

3.1 A REORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO NA IDADE M É DIA


- A AÇÃO DOS ÁRABES

destruição do Império Romano do Ocidente


sua divisão entre reinos "bárbaros", a
xpansão do islamismo, a pressão turca no
Oriente e o esfacelamento progressivo do Império de
Bizâncio provocaram uma rearrumação territorial na
Idade Média, fazendo com que surgissem novas fronteiras
e que outras, consolidadas, se desestabilizassem.
Nos séculos V e VI, os germanos fizeram grandes
migrações às terras outrora dominadas pelos imperadores
do Ocidente, destruíram cidades, depredaram os campos,
construíram novos centros administrativos e comerciais e,
convertendo-se ao Cristianismo, deram maior poder ao
Papa e permitiram a formação de feudos pertencentes à
Igrej a onde seriam feitos estados que continuariam as
tradições culturais greco-romanas. No Oriente mediter­
râneo, o Império de Constantinopla conseguiu manter-se

45
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

por cerca de mil anos, mas sofreu desmembramentos


sucessivos em lutas com os árabes e com os turcos que
conquistaram Constantinopla e destruíram as instituições
latinas.
Era natural que em um período de lutas constantes
houvesse grande dificuldade de comunicações e uma
queda no ritmo do comércio e nas preocupações filosóficas
e, consequentemente, um retrocesso do conhecimento na
Europa Ocidental.
Em outras áreas, porém, a formação de estados
·

fortes e a intensificação das viagens e do comércio


permitiram que as tradições culturais gregas e latinas se
integrassem com a de povos do Oriente e houvesse maior
difusão cultural. Dentre estes movimentos merecem
maior destaque a expansão árabe realizada sob as bases
religiosas do islamismo, as viagens dos escandinavos nos
mares setentrionais, atingindo a Islândia, a Groenlândia e
a América do Norte, e as tentativas de comerciantes e
missionários italianos de estabelecerem contatos com os
povos do Extremo Oriente e da Í ndia.
'
Quanto aos árabes, após a pregação de Maomé e a
conversão dos povos da península arábica ao islamismo,
passaram eles, fundamentados em sua nova crença
religiosa, a fazer guerras de conquista e a conquistar as
terras do Império Bizantino na Á sia Menor e no norte da
África. Em pouco mais de. um século, eles dominaram as
velhas civilizações da Síria e da Palestina, cristã ortodoxas,
e conquistaram o norte da África, até a costa atlântica.
Após a conquista de Marrocos, atravessarem os estreitos
que ligam o Mediterrâneo ao Atlântico e dominaram toda
a Península Ibérica. Tentaram expandir-se além Pireneus,
mas foram derrotados pelos franceses, na batalha de

46
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Poitiers. Para o leste eles dominaram a Mesopotâmia e


levaram o islamismo ao Irã e à Í ndia.
Senhores de tão extenso Império, organizaram
as vias de transportes, não só por razões comerciais,
corno também a fim de facilitar a peregrinação que todo
muçulmano deveria fazer a Meca, pelo menos urna vez na
vida. Apossaram-se de documentos e livros de grande
valor cultural - entre outras bibliotecas caiu em seu poder
a de Alexandria, famosa em seu tempo, e de que Ptolomeu
havia sido diretor - e traduziram para o árabe, a partir do
século XI, numerosos livros gregos. Conheceram assim as
obras fundamentais de Aristóteles e de Ptolomeu, entre
outros. Conquistando tão grande império, os árabes
procuraram dominar e não assimilar as populações que
ficavam sob seu domínio, como os berberes do norte da
África e os godos da Espanha, cobrando delas elevados
tributos. Fizeram obras notáveis em suas cidades, grandes
palácios e mesquitas, além de desenvolverem obras de
irrigação, tornando mais produtiva a agricultura tradicio­
nal, e deram a maior importância ao desenvolvimento da
cultura. Sevilha, Córdoba e Granada na Espanha são
·-
testemunhas do poder e da riqueza dos árabes ao
dominarem a Península Ibérica.
Alguns árabes fizeram viagens de longo percurso e
estudaram não só as condições naturais e os recursos a
serem explorados, nas áreas percorridas, como também as
instituições e os costumes dos povos dominados. Estes
escritores deixaram obras notáveis, ainda hoje de grande
interesse para os estudiosos da ciência geográfica.
Naturalmente, eles não se preocupavam especificamente
com a Geografia corno tal, mas estudavam as caracte­
rísticas da natureza e as formas utilizadas pelo homem

47
47
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

para melhor explorá-la e explorar os outros homens. Entre


os escritores árabes mais difundidos hoje destacam-se El
Edrisi, Ibn Batouta e Ibn Khaldum. Os três foram
viaj antes, bons observadores, comerciantes, crentes, em
Alá e no Profeta, mas foram homens que refletiram a
sociedade de seu tempo e descreveram a natureza e os
problemas ligados à sua exploração. Ibn Khaldum, o mais
famoso deles, teve a sua obra publicada, em português, no
Brasil1 e foi objeto de análise em um substancioso livro de
Yves Lacoste2•
O Império Árabe, porém, não se manteve intacto,
unido, tendo sofrido vários desmembramentos; estabele­
cendo califados em vários pontos, em várias cidades,
tornou-se vulnerável à conquista de um povo asiático, de
origem mongólica, que havia sido convertido ao islamismo
- os turcos. Foram os turcos que a partir do século XIV
passaram a conquistar as províncias orientais dos impe­
rios árabes e, finalmente, no . século XV conquistaram
Constantinopla e destruíram o Império Bizantino.
O comércio que os árabes vinham mantendo com os
cristãos, através do Mediterrâneo, fazendo chegar aos
portos da Á sia Menor os produtos do Oriente, contri­
buindo também para um intercâmbio cultural, foi
interrompido pelos turcos que passaram a exercer controle
mais rígido sobre os povos dominados.
A interrupção do comércio entre o Oriente e o
Ocidente provocou grandes problemas aos países euro­
peus, católicos, fazendo com que se realizassem expedições

1 KHALDUM, Ibn. Os prolegômenos ou filosofia social. Tradução de

José Khoury e Angelina Bierrembach Khoury. São Paulo, Instituto de


Filosofia, 1959, 3 v.
2 LACOSTE, Yves. KHALDUM, Ibn. Naissance de l'histoire, passe du

Tiera-Monde. Paris, François Maspero, 1966.

48
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

que deveriam ir à Palestina reconquistar para os cristãos


os locais sagrados onde Cristo vivera, pregara e se
encontrava sepultado. Passou a Igreja a organizar as
Cruzadas, expedições que iriam lutar contra os turcos e
restabelecer o domínio dos cristãos sobre os Lugares
Santos, embora, ao lado desta estrutura ideológica,
religiosa, visassem sobretudo garantir as rotas comerciais
do Oriente. Povo, nobres, senhores feudais e até reis, como
São Luís, da França, e Ricardo Coração de Leão, da
Inglaterra, participaram de expedições que por terra e por
mar partiram para atacar os "infiéis" na Terra Santa e no
norte da África. Estas expedições, que se realizaram nos
séculos X a XI, contribuíram tanto para expansão das
relações comerciais, como também para o intercâmbio
cultural. Desse intercâmbio os cristãos tiveram maior
acesso às obras dos gregos, dominados pelos turcos, como
também à cultura árabe, que nos legou os algarismos,
ainda hoje denominados arábicos, e nos transmitiria o
conhecimento de invenções chinesas a que tinham tido
acesso, como a pólvora, o papel e a bússola. Com a guerra,
por incrível que pareça, consolidaram-se e refizeram-se
relações entre povos que séculos antes haviam estado sob
o domínio de um mesmo Império, o Romano.

3 . 2 A REORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO NA IDADE


M É DIA - OS POVOS DO NORTE

Os povos nórdicos que viveram séculos sem contato


com os povos do Mediterrâneo dedicavam-se sobretudo à
pesca e à navegação; daí marinheiros noruegueses e dina­
marqueses haverem navegado pelos mares setentrionais
do Atlântico, descobrindo as ilhas Orçadas, Shetland e

49
49
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Faeroer ao norte da Escócia e, em seguida, a Islândia, onde


estabeleceram colônias, a Groenlândia, que denominaram
de Terra Verde, e, finalmente, a Terra Nova e o Norte do
Canadá, onde encontraram vinhas nativas. Erick, o
vermelho, ficou conhecido na história como o principal
navegador destes périplos. Os nórdicos, porém, não
tiveram condições de instalar colônias no Canadá, como
haviam feito na Groenlândia e na Islândia, nem deixaram
documentação básica sobre a Oceanografia e a natureza
das terras que ocuparam. Poderiam ter dado contribuição
bem maior do que o fizeram sobre as relações entre
a sociedade e a natureza nestas áreas de clima frio .
Eles, porém, para realizarem essas viagens transoceânicas
deveriam ter conhecimento do regime dos ventos, da
direção e intensidade das correntes marítimas, do
movimento oscilatório da água do mar, da influência das
geleiras e das condições climáticas, semelhantes a de suas
terras de origem. Suas tradições permaneceram e se
repetiram através dos séculos e devem ter enriquecido a
crença da existência de terras ao Ocidente, defendidas por
navegadores dos séculos XV e XVI .

3.3 AS GRANDES VIAGENS MEDIEVAIS

Foi na Idade Média que numerosos viajantes


partiram do Ocidente, da Itália sobretudo, à procura das
terras do Extrerrio Oriente, onde sabiam existir o grande
império mongol. As viagens eram feitas com grande difi­
culdade até às costas orientais do mar Negro, de onde
partiam para o mar Cáspio e daí, através das estepes
inóspitas, à procura da capital do império, inicialmente
localizada em Samarcanda e posteriormente transferida

50
50
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

para Pequim . Ao lado da cobiça, do desejo de comércio,os


missionários viajaram também como enviados do Papa,
com a finalidade de tentar converter os soberanos do
Oriente ou de descobrir o reino de Preste João, apontado
como um reino cristão "ilhado" entre os países muçulma­
nos. Este reino ora era localizado na Ásia, ora na África,
havendo alguns estudiosos admitido que se tratava da
atual Etiópia, que era governada por uma dinastia cristã,
copta e estava cercada por povos muçulmanos.
Dentre os numerosos viajantes podem ser destaca­
dos o monge Piano de Carpini, que no século XIII
conseguiu, sem obter resultados práticos, manter contatos
com o soberano mongol em Samarcanda, e o comerciante
veneziano Marco Polo que viajou em companhia do pai até
a China e aí se colocou a serviço do soberano, adminis­
trando províncias e executando missões de alta confiança
do mesmo, regressando à Itália após mais de vinte anos .
Sua viagem se realizou de 1271 a 1295. De volta à Itália,
após conhecer numerosos países e cidades do Oriente,
escreveu um livro de grande importância sobre o que
testemunhou, mas que deve ser usado com precauções
pelos estudiosos modernos. Isto porque os viajantes da
Idade Média, em sua maioria, não tinham preocupações
científicas e quando escreviam o faziam apenas para
contar as suas aventuras, não se preocupando muito com a
veracidade das informações que transmitiam. Assim, ao
lado do que viam, do que participavam, costumavam
contar histórias fantásticas e até a afirmar a presença de
monstros de grandes dimensões ou de homens diferentes
dos europeus, em sua forma e em sua maneira de agir.
Mas os italianos, divididos politicamente em
cidades-estados, não se limitaram a realizar viagens e

51
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

explorações no Mediterrâneo e na Ásia Central e Oriental,


desenvolveram também a navegação no Atlântico,
tendo-se afastado bastante da Costa africana. Admite-se3
que antes dos portugueses e espanhóis eles visitaram ilhas
como as Canárias, Porto Santo, Madeira e Açores, no
século XIV. Não é de admirar, portanto, que nos séculos ·

XV e XVI fossem numerosos os navegadores italianos


que realizaram viagens a serviço dos reis de Portugal e de
Espanha.

3 -4 O CONHECIMENTO DO TERRITÓ RIO E O DESEN­


VOLVIMENTO DA GEOGRAFIA

Os problemas de ordem cultural tiveram grande


influência no pensamento geográfico da Idade Média, em
face da inflúência e poder que caracterizaram a Igreja
Medieval. Os monges e os doutores da Igreja procuraram
desenvolver a fé, sobretudo quando ameaçada pela expan­
são mulçumana, e adaptar todas as idéias e concepções aos
ensinamentos bíblicos. Surgiram, da interpretação do
texto da Bíblia, dúvidas e contestações à idéia da esferi­
cidade da Terra, procurando-se justificar outras formas
para o planeta que não contrariassem a interpretação do
livro sagrado. No século VI, em Alexandria, se procurou
estabelecer que a Terra tinha uma forma tabular, por ser
semelhante ao Tabernáculo judeu, sendo mais comprida
que estreita. Essa tese foi defendida pelo monge e viajante
Cosmos Indicopleustes que admitia ainda que o menorá,
candelabro de sete braços, era uma alusão mística ao Sol e
aos sete dias da semana. Ele admitia que a Terra estava

3 KRETSCHMER, Konrad. Ob. Cit., p. 48.

52
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

cercada pelo Oceano e este, por sua vez por outra Terra, ao
Oriente, na qual viveram os p.rimeiros homens antes do
dilúvio.4
A idéia de que a Terra era um disco se generalizou e
tornou-se para a Igreja de então uma verdade que não
podia ser contraditada, conforme os ensinamentos de
sábios e santos, . Só com a difusão das idéias de Aristóteles,
após o século XII, é que se voltou a admitir, não sem
grandes riscos, a esfericidade do planeta.
A distribuição das terras e das águas na superfície
da Terra também provocou grandes discussões entre os
sábios e pensadores, em conseqüência da expansão do
mundo conhecido, provocada pelos movimentos religiosos
e pelo interesse comercial, acentuando-se nos Tempos
Modernos em face das grandes inovações ocorridas nos
estudos náuticos - a divulgação do uso do astrolábio, da
bússola, o surgimento de novos tipos de embarcações,
como a caravela e a nau etc. Esta expansão atingia as
classes dominantes de então que se preparavam para o
advento do capitalismo comercial e promoviam tanto as
viagens, como a divulgação das mesmas, através de livros e
de mapas.
A cartografia antiga foi reformulada e, com as
navegações, passaram a ser produzidos os portulanos ou
mapas que descreviam com detalhes as rotas marítimas,
indicando as reentrâncias e as saliências existentes na
costa. As descrições de grandes viagens terrestres que iam
desde o Mediterrâneo até o Extremo Oriente traziam
também informações de grande valor as montanhas, os
rios, os lagos - alguns de grandes dimensões, como o

4 KRETSCHMER, Konrad. Ob. Cit., p. 37.

53 53
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Cáspio e o de Arai -, as grandes planícies, os desertos e a


descrição de como os povos viviam e exploravam os
recursos existentes nessas regiões até então desconhe­
cidas. Alguns textos são ainda hoje de grande interesse
para uma leitura crítica, sobretudo se se quer comparar as
formas de ação do homem sobre a natureza em períodos
históricos diferentes, com fins diversos e com tecnologias
também diversificadas. Falamos em análise crítica porque
os livros de então eram escritos por aventureiros, sem
grande interesse científico, mas com grande entusiasmo
e com o desej o de tornar maravilhosos os fatos e as
paisagens descritas. A expansão, quer no sentido hori­
zontal, quer no vertical - maior aprofundamento da
natureza e da ação da sociedade sobre ela -, provocou
discussões sobre temas que já haviam preocupado os
gregos, como o da distribuição das terras e das águas, o da
distribuição da população - ecúmeno e anecúmeno - e o
dos antípodas.
Despertaram ainda grandes discussões a origem
dos continentes e dos mares - começava-se a navegar no
Atlântico - e a existência de um relevo submarino.
Acreditava-se que a superfície submarina não era uma
bacia que se aprofundava à proporção que se distanciava
da costa. Sabia-se da existência no fundo do Oceano, de
um relevo semelhante ao dos continentes e admitia-se a
existência de fossas mais profundas, ligadas a fenômenos
sísmicos e ao vulcanismo.
Os rios já eram grande preocupação para os
estudiosos, de vez que eles não só eram fonte de abasteci­
mento d'água para as populações e para a irrigação, como
também porque eram muito usados pela navegação, em
um período em que os transportes terrestres eram muito

54
54
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

precários e dependentes de animais de tiro. Considere-se


que a região Mediterrânea não era muito favorável à
criação de animais de grande porte, preferindo-se o uso
de embarcações de tonelagens as mais diversas. Daí a
importância do conhecimento do regime dos rios e dos
lagos, de grande utilidade econômica e social. Sobretudo
os grandes rios como o Nilo, o Tigre, o Eufrates, o
Danúbio, o Reno, o Volga e, no Oriente, o Ganges, o Indus
e os rios chineses - Azul e Amarelo - preocupavam muito

os sábios e administradores. As relações entre o homem e


a água eram fundamentais para o desenvolvimento das
civilizações e a apropriação dos recursos naturais .
Tratando-se a região Mediterrânea de uma área de
intenso vulcanismo, com numerosos vulcões em erupção,
às vezes provocando catástrofes, como a de Pompéia e
Herculanum, destruídas em segundos pelo Vesúvio, era
natural que os problemas ligados ao vulcanismo preo­
cupassem os estudiosos medievais, da mesma forma que
preocupara os da Antiguidade. Daí surgiram explicações as
mais diversas, muitas vezes eivadas de fantasia, sobre os
fenômenos sísmicos e vulcânicos. Estes estudos, natural­
mente, não se centravam apenas no fenômeno em si, mas
também se estendiam à análise da formação do relevo e
até a do surgimento de ilhas.
Ao se iniciarem as navegações oceânicas, passaram
os navegadores a preocupar-se com o fenômeno das
marés, com a alternância da elevação e rebaixamento do
nível do mar e com a mudança da direção das correntes
litorâneas e a procurar explicações para o problema.
Na verdade, havia contraste entre o fenômeno nos mares
abertos, no Oceano e nos mares fechados ou isolados e
mediterrâneos ou interiores,s onde o fenômeno não era

s MARTONNE, Emanuel de. Traité de géographie physique. ga ed. Paris.

Armand Colin, 1950. T. I., p. 393-418.

55
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

observado ou onde tinha pouca expressão. É interessante


salientar que já na Idade Média havia quem atribuísse a
existência das marés à atração exercida pela Lua sobre a
superfície da Terra, fazendo-se sentir de forma mais
intensa sobre a massa líquida - os oceanos e mares - do
que sobre a massa sólida - os continentes. Também é claro
que o nível das marés seria bem mais significativo na
superfície oceânica, de dimensões bem maiores, do que na
dos mares de pequenas dimensões.
Fazendo-se um balanço do avanço do conhecimento
geográfico na Idade Média, observa-se que ele sofreu
descontinuidade em relação à Idade Antiga, devido ao
período de grande conturbação que se observou nos
séculos V e VI, com a destruição do Império Romano do
Ocidente; mas, surgidas novas estruturas e iniciado o
intercâmbio com os árabes, esses estudos voltaram a
desenvolver-se, quer pelo enriquecimento de informações
e de descobertas, quer pela retomada .dos ensinamentos
dos sábios gregos - Aristóteles, Ptolomeu, Estrabão,
Heródoto etc. - e por sua atualização. Assim, vários dos
temas discutidos no período medieval foram retomados do
período grego e romano, e uma das maiores contribuições
a esta retomada foi dada pelos padres Alberto Magno e
Tomás de Aquino, quando renovaram e puseram na ordem
do dia as idéias aristotélicas. Daí a crença na esfericidade
da Terra, apesar de condenada pela Igreja Católica, no fim
da Idade Média, e a preparação dos grandes movimentos
que geraram os Tempos Modernos.

56
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A GEOGRAFIA DOS TEMPOS
MODERNOS

4.1 O CAPITALISMO E A EXPANSÃO DO MUNDO


CONHECIDO
. .

N
os fins da Idade Média, séculos XIII e XIV,
o comércio alcançaria maior desenvolvi­
mento; os burgueses que viviam nas cidades
e faziam oposição à prepotência dos senhores feudais
passaram a ter influência política junto aos reis absolutos,
que enfrentavam estes senhores, e a receber cargos e
títulos, formando uma nobreza de funções, que se
contrapunha e disputava influência e poder à nobreza de
sangue. O aumento de influência da burguesia permitiria o
crescimento das cidades com funções comerciais, daria
maior importância ao dinheiro, em relação à propriedade
da terra, e desagregaria a vida feudal, fazendo com que
servos libertos passassem à condição de assalariados, . na
indústria manufatureira nascente.
Para que houvesse maior enriquecimento e se
satisfizessem as ambições da burguesia, tornou-se neces-

57
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

sária a unificação das nações, o surgimento das monar­


quias absolutas e ampliação do mercado, a princípio
no próprio continente europeu e depois no além-mar.
Daí o estímulo à expansão do horizonte conhecido e a
organização de expedições que procuravam novas terras,
novos povos e novas mercadorias com que comerciar em
terras distantes.
A sede de riqueza e a intensificação do intercâmbio
entre o Ocidente e o Oriente provocaram o desenvolvimen­
to cultural e a difusão de instrumentos que teriam grande
importância nas transformações econômicas e sociais que
seriam feitas nos séculos XV, XVI e XVII, nos chamados
Tempos Modernos, e que abalariam as estruturas políticas
e sociais nos séculos XVIII e XIX.
Os séculos XV e XVI presenciariam a intensificação
das grandes navegações, com o descobrimento do caminho
marítimo para as Í ndias, o descobrimento e a conquista
da América e o início da navegação no oceano Pacífico, que
seria intensamente explorado no século XVIII. Nesse
século, além da exploração da costa australiana e das ilhas
do Pacífico, observou-se também, ao norte, a expansão
russa pela Ásia Setentrional e a integração de vastos
territórios ao mundo conhecido dos ocidentais. A explo­
ração do interior de continentes como a Ásia Central e
Meridional, a América e a África seria intensificada nos
séculos XVIII e XIX, quando se intensificariam também as
expedições às regiões polares, Ártica e Antártica.
Nestes empreendimentos contou a burguesia com o
apoio decidido dos soberanos de seus países - Portugal,
Espanha, França, Holanda e Inglaterra - que procuravam
fortalecer a unidade nacional em torno da esperança de
maiores nquezas, conseguidas nas terras de além-mar

sB 58
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

através do comércio e do saque. É interessante caracterizar


como se procedeu esta expansão.

4.2 A DESCOBERTA DO CAMINHO MARÍTIMO PARA


AS ÍNDIAS

As Í ndias j á eram conhecidas dos europeus desde a


Antigüidade e j á havia um comércio por terra e por mar -
através do oceano Índico e do mar Vermelho - ora feito
com maior ora com menor intensidade. Os europeus de há
muito desejavam manter um contato direto com as Í ndias,
a fim de obterem certos produtos, como a pimenta, o
cravo, a noz etc., por preços que permitissem maior
dinamização do comércio; estes produtos porém chega­
vam às suas mãos através de vários intermediários,
tornando-os muito caros e de difícil acesso ao mercado
consumidor; eram trazidos por mar, pelos árabes, até o
Egito, e de Alexandria era vendido a mercadores genoveses
e venezianos que os distribuíam pela Europa. Eram
adquirido s também a comerciantes que os traziam até os
portos da Á sia Menor, por terra, em caravanas que
viajavam meses dos pontos de produção ao mercado de
redistribuição .
Os portugueses, após a expulsão dos mouros da
Península Ibérica, sendo um povo de pescadores e de
navegantes, passaram a explorar a costa africana, man­
tendo contatos comerciais com os mouros, adquirindo
mercadorias tropicais, ouro e escravos. No século XV, o
Infante D. Henrique estabeleceu-se em Sagres, promon­
tório situado ao Sul de Portugal, e começou a estimular as
navegações pelo Atlântico. Ele reuniu em torno de si
navegadores e cosmógrafos que estudavam as informações

59
59
MANUEL CO RREIA DE ANDRADE

já existentes, analisavam os portulanos e planejavam


expedições que visavam sobretudo descobrir o caminho
que levasse diretamente às Í ndias. Assim, os portugueses
redescobriram as ilhas de Madeira, Canárias e Açores e,
em seguida, mais ao sul, descobriram o arquipélago de
Cabo Verde (1445) e continuando a navegar na costa
africana o cabo Bojador e exploraram o golfo de Guiné.
Diogo Cão chegou à foz do rio Congo em 1486 e
Bartolomeu de Gusmão descobriu o cabo das Tormentas,
depois denominado cabo da Boa Esperança, pois indicava
a existência de uma passagem ao sul da África para o
Oceano Í ndico. Chegava-se assim à conclusão de que,
contornado a África, se chegaria ás Í ndias e que os
portugueses, realizando tal feito, poderiam concorrer com
vantagem com os árabes. O rei de Portugal enviou a
expedição de Vasco da Gama, que chegou a Calicut em
1498, retornando com grande carregamento de pimenta.
Como o rendimento obtido nesta viagem fosse muito
elevado, o rei enviou outra expedição, composta de 13
navios, sob o mando de Pedro Álvares Cabral, que deveria
fundar feitorias na Í ndia e, na viagem, desviar-se da rota
usual e descobrir terras ao oeste; o Brasil, que já aparecia
em mapas antigos como uma ilha existente no Atlântico.
Dadas as ordens, a missão foi cumprida. Em abril de 1500,
Cabral chegava ao Brasil e tomava posse da terra em nome
do rei e seguia para a Índia, cumprindo o que havia sido
determinando; posteriormente esta missão seria consoli­
dada por Afonso de Albuquerque, 2° vice-rei da Índia.
Nessas viagens, os portugueses tanto faziam o
comércio e estabeleciam tratados com príncipes estran­
geiros, como atacavam e saqueavam cidades,1 sendo o

1 AZEVEDO, João Lúcio de. Épocas de Portugal Econômico. Lisboa.


Livraria Clássica Editora 1947, p. 55-164.

60
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

produto do saque, durante certo período, superior ao do


comércio; a sua ação se estendia por toda a costa da África,
onde obtinham a malagueta e o ouro e ia além das Í ndias,
de vez que exploraram o Sri Lanka, a Malásia, chegando à
China e ao Japão.
A importância deste ciclo foi muito grande, quer do
ponto de vista econômico, revolucionando a vida européia,
quer do cultural porque os navegadores eram acompa­
nhados por estudiosos que levantavam mapas das
costas, corrigindo erros e distorções, e escreviam livros,
descrevendo paisagens, povos e costumes que passaram a
conhecer.

4·3 A PROCURA DA ÍNDIA PELO OCIDENTE

Enquanto os portugueses procuravam as Í ndias


navegando para o leste, contornando a África, os espa­
nhóis, estimulados por Colombo, procuravam o caminho
das Índias pelo oeste. É que eles tinham notícias das
viagens dos vikings e informações em mapas antigos,
como o de Toscanelli, de que a China se encontrava ao
leste, em uma posição bem mais próxima da Europa do
que a real. Não desconfiavam da existência ao oeste, de um
continente - o americano - nem do oceano Pacífico.
Após muitas lutas e desenganos, o navegador
genovês Cristóvão Colombo conseguiu o apoio dos reis
católicos, Fernando e Isabel, e obteve uma pequena frota -
três caravelas, a Santa Maria, a Pinta e Nina. Levantando
velas do porto de Palas a 3 de agosto de 1492, chegou
Colombo às Bahamas a 12 de outubro do mesmo, após
enfrentar sérios problemas com a tripulação. É que ele
partia da Espanha para as Canárias, tomando aí o rumo

61
61
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

oeste, justamente onde o oceano Atlântico é mais largo,


enfrentando calmarias e descobrindo o famoso mar dos
Sargaças, de difícil navegação. O grande navegador, ao
encontrar terras, ficou convencido de que se encontrava
nas ilhas de Zipango - · o Japão de Marco Pólo -, sendo
fácil navegar daí para China e alcançar as Í ndias. Por isso
denominou as habitantes da terra de índios e as terras de
Í ndias Ocidentais. Mais três viagens fez Colombo ao Novo
Mundo, sempre procurando uma passagem para o oeste,
para as desej adas Í ndias.Como ele, ingleses e franceses, de
vez que seus países não reconheceram a divisão do mundo
entre espanhóis e portugueses, feita pelo Papa Alexandre
VI, navegaram pelas costas da América do Norte e do Sul à
procura da tão desej ada passagem.
A passagem do oceano Atlântico para o Pacífico só
seria encontrada na primeira metade do século XVI , por
Fernão de Magalhães, que bordejou a costa meridional da
América e encontrou o estreito a que deu o seu nome,
muito ao sul e de difícil navegação. Daí seguiu pelo
Pacífico, atravessando o grande oceano e indo falecer nas
Filipinas, tendo a sua viagem de circunavegação do globo
sido concluída por Sebastião Elcano, seu imediato, em
1522. Estava provada a redondeza da Terra.
O oceano Pacífico, onde os europeus procuravam
um continente que fosse o antípoda do Velho Mundo, seria
perlustrado e explorado por numerosos navegadores
holandeses, que se estabeleceram na Insulíndia, franceses
que ocuparam o Tahiti e a Nova Caledônia, ingleses que
ocuparam a Austrália e a Nova Zelândia e alemães que se
estabeleceram na Nova Guiné, nos séculos XVIII e XIX.
E o grande continente nunca foi encontrado, mas em seu
lugar um oceano imenso que cobre um terço da superfície

62
62
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

da terra, e um continente de pequenas dimensões - a


Austrália -, além de milhares de ilhas, umas de grande
dimensões, como a Nova Guiné e a Nova Zelândia, e outras
verdadeiros enxames de pequenas ilhas vulcânicas e de
coral que formam os numerosos arquipélagos da Oceania.
O grande estudioso e explorador do Pacífico seria o
almirante James Cook, que por ele navegou em várias
direções, acompanhado de cientistas, e explorou terras e
águas desde a linha equatorial até as águas glaciais.
Estas expedições enriqueceram a ciência com
importantes informações de ordem oceanográfica, clima­
tica, geológica, económica e antropológica. Os europeus
acumularam os conhecimentos necessários para estabe­
lecer a dominação política e a exploração económica sobre
os povos aí existentes, retirando deles seus produtos e suas
tradições culturais. No século XIX, os norte-americanos
estenderam a sua influência na área, concorrendo com as
potências européias e com o Japão. Após a conclusão da
Segunda Guerra Mundial, o domínio americano sobre o
Pacífico se fez hegemónico.

4-4 A EXPANSÃO NA ÁSIA SETENTRIONAL

A Ásia Setentrional, banhada pelo mar Ártico, apre­


sentava-se de difícil acesso aos europeus, movidos em
sua expansão pelo capitalismo comercial, em face das
condições climáticas, de grande hostilidade ao homem do
clima temperado.O mar Ártico e os pequenos mares
por ele formados, gelados a maior parte do ano, e as
numerosas ilhas neles existentes - Francisco José
Spitzberg, Nova Zembla, Wrangel etc., - não ofereciam
condições de habitabilidade. A navegação só podia ser feita

63
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

no curto período de verão, quando o gelo se dissolvia, mas


"
continuava a oferecer sérios empecilhos aos navegadores,
devido aos icebergs flutuantes. Mesmo assim numerosas
ilhas foram descobertas por ingleses, alemães, austríacos e
russos. A expansão russa se fez mais fortemente por terra,
sobretudo depois que os príncipes russos, contando com o
apoio dos cossacos, derrotaram os povos nômades que
dominavam a taiga e as estepes. A partir de 1581, os
soberanos russos conseguiram atravessar os montes Urais,
estabelecendo a suserania sobre os povos nômades da
Sibéria - ostiacks, s amoiedas etc., - caminhando até o
cabo Oriental. Penetraram ainda pela Ásia Central
fundando cidades que seriam pontos de apoio para a
dominação política do Império do Tzar sobre os nômades
do grupo mongólico.
O avanço russo foi bem-sucedido, tendo chegado ao
Pacífico e atravessado o estreito de Bering, onde impôs o
seu domínio sobre as ilhas Aleutas e o atual Alasca,
vendido depois aos Estados Unidos, nos meados do século
XIX. Controlaram ainda a Península de Kamchatka e a ilha
de Sacalina, impedindo uma expansão japonesa para o
norte. Na Ásia Central controlaram grandes áreas,
dominando povos nômades, e fizeram recuar para o leste,
em vários pontos, a fronteira chinesa, construindo assim o
maior império da superfície da Terra. Com esta conquista,
os russos promoveram a expansão e a exploração dos
recursos disponíveis e desenvolveram os estudos neces­
sários à esta exploração, abrangendo as mais diversas
áreas do conhecimento científico - a climatologia, a
glaciologia, a geologia, a hidrografia, a antropologia etc.
No fim do século XVIII, os europeus já tinham
conhecimento da distribuição das terras e das águas,

64
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

acumulavam informações sobre as condições naturais nas


mais diversas latitudes e preparavam-se para explorar o
interior dos continentes, organizando, dentro dos. padrões
capitalistas, a exploração do planeta, em função do inte­
resse das potências conquistadoras. Velhos povos e
civilizações milenares estavam estagnadas e seriam des­
truídas por novas formas de vida e de relações, fazendo
predominar em toda a superfície da Terra o modo de
produção capitalista, às vezes controlando e estimulando
formas intermediárias de modos de produção envelhecidos
- o modo de produção asiático e o modo de produção
feudal - ou criando novos modos de produção depen­
dentes, como o escravista, na América.2
O capitalismo evoluía da sua fase comercial para a
fase industrial, tendo na Grã-Bretanha o seu grande pólo
de desenvolvimento e de expansão.

4.5 O DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO


GEOGRÁFICO NOS TEMPOS MODERNOS

A grande revolução para o conhecimento geográfico


na Idade Moderna foi a expansão extraordinária do espaço
conhecido, a dominação da configuração da Terra e a
rejeição de uma série de idéias e crenças a respeito de sua
superfície.
A expansão do território conhecido repercutiu
primeiro sobre a cartografia, que foi transformada e
aperfeiçoada. As noções de latitude e longitude, muito
imprecisas e incorretas nos mapas antigos e medievais,
ainda largamente usados, foram corrigidas e nelas intro-

2 GORENDER. Jacob estuda exaustivamente este modo de produção em


O escravismo colonial. São Paiulo, Ática,1978.

65
-

MANUEL CORREIA DE ANDRADE

duzidas um novo continente, a América. Durante anos


discutiu-se se a Terra era tripartida - composta de três
continentes - ou quatripartida - com quatro continente;3
as descobertas dos caminhos marítimos, no século XVI,
não deixavam dúvidas de que havia um quarto continente,
separando os oceanos Atlântico e o Pacífico. Posterior­
mente, no século XVII, as viagens e explorações de
Damp-ier e de Tasman demonstraram a existência de um
quarto continente - a Austrália. Admitia-se já a existência
de mais um continente, a Antártida, ao sul, mas este
só no século XX, sobretudo depois do Ano Geofísico
Internacional - 1958 -, se tornaria mais bem conhecido.4
Dentre as cartas que marcaram a renovação da cartografia
podemos mencionar a de Bahaim, enfocando o leste da
Ásia, e a de Marcartor, que revolucionou o uso dos mapas,
embora as suas cartas, com paralelos e meridianos em
linhas retas, quando representam a superfície da Terra -
planisfério -, ampliem as terras situadas em altas latitudes
e diminuam as terras situadas rias proximidades do
equador. NC> que diz respeito à Cosmografia, foi de grande
valor a contribuição do sábio Sebastião Munster.
A importância do conhecimento científico para a
realização das aspirações comerciais e políticas dos
soberanos era de tal ordem que os reis de Espanha
fundaram a Casa da Contratação de Sevilha (1503),
transformada depois em verdadeira escola de pilotos.
Aí não só eram estudadas as bases técnicas da navegação,
como também as informações sobre as superfícies

3KRETSCHMER, Konrad. Ob. Cit. p. 112-239.


4Sobre o Ano Geográfico Internacional é interessante consultar: BARNIER,
Lucian. L aterre: planete inconnu. L'Année Géophysique International. Paris
Savoir et Connaitre, 1957; e ROSS JR., Frank. A ciência descobre a Terra.
·

São Paulo, Fundo de Cultura, 1961.

66
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

marinhas e as costas desenvolvendo conhecimentos astro­


nômicos, náuticos e meteorológicos.
Entre os séculos XV e XVIII foram aperfeiçoados os
conhecimentos sobre o magnetismo da Terra, estabe­
lecendo-se a diferença entre o pólo magnético e o
geográfico, passando-se a fazer, com maior precisão, a
medida das longitudes, corrigindo-se os velhos mapas;
as correntes marítimas, de grande influência sobre as
navegações entre os continentes, foram mais bem
estudadas, assim como a intensidade e a direção dos
ventos, sobretudo dos alísios. Os navegadores, nos mares
tropicais, necessitavam usar os alísios para impulsionar as
suas embarcações e fugir à calmaria equatorial, onde
poderiam permanecer meses, praticamente sem se
movimentar, à falta da força propulsora do vento. Todos
estes estudos, ora de origem geográfica, ora ligados a
ciências hoje consideradas afins da Geografia, iriam
contribuir para que, na Idade Moderna, no século XVII,
surgissem estudos considerados precursores da Geografia
científica
Foi no século XVIII que se constatou que a Terra
era redonda, mas não esférica, apresentando forma
própria, dilatada no equador e achatada nos pólos,
como conseqüência do próprio movimento de rotação,
descoberto por Galileu. Para se constatar este achata­
mento nos pólos foram enviadas expedições à região polar
- a Lapônia - sob a direção de Maupertuis e de Clairaut -
(1736) e às regiões equatoriais - Peru - sob a direção de
Bouger e De la Condamine, que deveriam medir o arco do
meridiano. Constatou-se, então, maior comprimento do
grau do meridiano na região polar do que na equatorial,

67
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

comprovando-se que o geóide é realmente achatado nos


pólos e dilatado no equador.
Neste período houve grande desenvolvimento da
Astronomia, com repercussões diretas sobre o conheci­
mento geográfico, em face da descoberta da lei da
gravitação universal, por Isaac Newton, a formulação do
sistema solar heliocêntrico, por Nicolau Copérnico, pondo
fim à crença de que a Terra era o centro do sistema
planetário, a descoberta da forma da órbita dos planetas
em seu movimento de translação, por Kepler, e as grandes
descobertas de Galileu.
Já havia, então, condições para maior caracteri­
zação do conhecimento científico em áreas de saber e para
o surgimento das várias ciências, com relativa autonomia.

4.6 OS PRECURSORES DA GEOGRAFIA

Ao chegar ao século XVII, os conhecimento geográ­


ficos esparsos e interligados às várias ciências afins já
eram bastante numerosos e haviam adquirido certa
profundidade. Na Astronomia, Copérnico reformulara a
concepção do sistema planetário, apresentando o sistema
heliocêntrico, colocando o Sol como centro do universo
e admitindo que os planetas giravam em torno dele,
enquanto os satélites giravam em torno dos planetas.
Contestava desse modo o velho sistema geocêntrico de
Ptolomeu de que a Terra era o centro do Universo e aceito
pela Igrej a e pelo mundo oficial. Kepler depois corrigia
Copérnico, indicando que os planetas não descreviam
órbitas circulares, mas elípticas, ocorrendo em cada
translação um momento em que os planetas se achavam
mais próximos do Sol, o periélio, e outro em que se
achavam mais afastados, o afélio.

68
68
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Os geólogos passaram a preocupar-se com a


estrutura da Terra e a formação das rochas; os vulcões e
outras manifestações catastróficas levaram a admitir que a
Terra possuía um intenso calor em seu interior que
dissolvia as rochas resistentes, expelindo-as através dos
vulcões, sob a forma de lavas e de cinzas. Daí também a
preocupação em explicar a participação dos fenômenos de
origem interna na formação do relevo terrestre. Leibnitz
tentou explicar que as rochas sedimentares, por haverem
sido depositadas pelas águas ou pelo vento, se apresen­
tavam sob a forma de camadas. Alguns estudiosos se
preocuparam com a identificação de fósseis nas rochas
sedimentares, certamente preocupados com os estudos
paleontológicos e com a datação da história da Terra.
Montesquieu, o famoso humanista francês que
tentou dar uma orientação política à estruturação do
estado moderno, estudando os climas, admitiu que eles
tinham grande influência nas formas de pensar e de agir
dos homens. Seria um precursor do determinismo de
Ratzel.
Isaac Newton, o famoso físico inglês, formulou o
princípio da lei da gravitação universal resolvendo um
grande problema que preocupava os homens, a razão pela
qual eles podiam viver sem se desprender da Terra nos
mais diversos pontos da sua superfície.
Para a Geografia, porém, a figura central foi a de
um médico holandês, Bernardo , Varenius, que viveu na
primeira metade do século XVII e que, apesar de viver
apenas 28 anos, deixou um, livro fundamental, intitulado
Geografia geral. Sua obra infelizmente não foi
concluída, mas sua importância é de tal ordem que Max
Sorre o considera genial.s Em seu livro, Varenius abordou

sSORRE, Max. Rencontres de la géographie et de la sociologia. Paris,


Michael Riviere, 1957.

69
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

de forma sintética a chamada geografia matemática, que


estuda a Terra como astro e procura explicar as relações
existentes entre este planeta e os outros astros, enve­
redando em seguida pelos temas de Geografia Física,
procurando explicar as formas de relevo, a rede fluvial e as
condições climáticas se interinfluenciando, para chegar ao
papel da sociedade, do homem na elaboração do espaço.
Esta terceira parte foi a que sofreu uma abordagem mais
geral; menos aprofundada em face do seu falecimento
prematuro. Varenius não se limitou a descrever a
superfície da Terra, baseado só na observação e nas
informações disponíveis, ele procurou explicar a origem
dos fenômenos e das formas que modelaram a sua
superfície. Daí a afirmativa de Sorre de que ele tinha uma
concepção genial, e o interesse de Isaac Newton pela sua
obra, a ponto de reimprimi-la em 1762 . O grande valor de
Varenius resulta do fato de haver ele unido a Geografia
Geral, Matemática, à Geografia descritivo, humanista,
literária em uma só totalidade e de haver feito tanto
a descrição como a interpretação das formas e feno­
menos descritos, indicando relações de causa e efeito.
Foi um precursor de Kant, que durante mais de vinte
anos ensinaria Geografia Física na Universidade de
Kroeninsberg, e do próprio Humboldt, considerado o pai
da ciência geográfica. A obra de Varenius necessita ser
mais divulgada e discutida pelos que fazem a geografia nos
dias de hoje.

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O SURGIMENTO DA GEOGRAFIA
CONTEMPORÂNEA

5.1 O CAPITALISMO E O DESENVOLVIMENTO DA


GEOGRAFIA

desenvolvimento das ciências em geral e da

O G �ografia em particular acelerou-se nos


séculos XVIII e XIX, em conseqüência da
expansão do capitalismo, O capitalismo comercial
provocaria, a partir do século XV, grande expansão das
navegações e, como conseqüência, o descobrimento dos
novos continentes e ilhas, fazendo com que se
intensificasse o comércio entre os povos que viviam em
condições naturais, e em organizações sociais as mais
diversas. A Europa, que possuía o núcleo de civilização
mais dinâmica e tinha maior controle da tecnologia,
estendeu a sua influência econômica e política por toda a
superfície da Terra ou, pelo menos, pelas áreas litorâneas,
de fácil acesso às embarcações. A burguesia, enriquecida
com o comércio, ganhou importância, passando a

71
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

produzir mais e a intensificar as relações com outros


povos. Com o dinheiro e controlando os transportes e o
comércio, ela foi colocando a nobreza - proprietária de
terras e detendo cargos e dignidades - em um segundo
plano. Os próprios reis e nobres mais influentes
assimilaram hábitos burgueses e passaram a comerciar.
O enriquecimento da burguesia e a sua influência
crescente no governo e na administração estimularam o
desenvolvimento de técnicas e pesquisas, visando raciona­
lizar e maximizar a exploração dos recursos naturais.
Forçando o controle dos meios de produção, ela fez a sua
revolução política e destruiu a secular monarquia fran­
cesa, seguindo-se a essa revolução política uma verda­
deira revolução cultural e administrativa. Os ideais da
Revolução Francesa foram levados a outros países da
Europa, sobretudo durante o Império Napoleônico, e,
embora essas monarquias subsistissem, fizeram conces­
sões e assimilaram diretrizes que permitiram e às
vezes estimularam a sociedade burguesa, em formação.
Na Inglaterra, por sua vez, desde a Revolução Gloriosa
(1688), a burguesia vinha apossando-se de fatias do poder
e enfraquecendo os poderes do rei frente aos interesses de
classe. Daí a Revolução Industrial ter-se iniciado na
Inglaterra, no século XVIII, se expandindo pela França na
primeira metade do século XIX, e depois pela Europa
central e ocidental, a partir dos meados deste século.
A importância política da burguesia provocou
verdadeira revolução de ordem cultural e técnica.
Na segunda metade do século XVIII as ciências naturais,
como a Física, a Química, a Biologia, a Botânica, a
Zoologia, a Astronomia, desenvolveram-se com reper­
cussões na Geografia. O poder da Igreja e o respeito às

72
72
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

crenças tradicionais geraram certa luta entre a ciência e a


religião, e as idéias e os princípios finalistas e teleológicos
começaram a perder terreno. O iluminismo seria vagaro­
samente substituído pelo racionalismo burguês. Os filóso­
fos puseram-se a questionar problemas e crenças e a
formular as bases de novas ciências - as sociais - que se
desenvolveriam no século XIX. A Geografia foi largamente
beneficiada pelas reflexões de Kant, apesar de considerá-la
uma ciência do domínio da razão prática e admitir, em
conseqüência, que ela era, como a História, uma ciência
descritiva, distinguindo-se desta por ser corológica,
enquanto a História era cronológica. Admitia ainda a
dualidade entre a Geografia Física e a Humana, de vez que
em seus cursos ensinava que a Geografia fazia o sumário
ordenado da natureza, dividindo-se em duas partes, a
primeira, geral, estudando a Terra, as águas, o ar, os
continentes, e a segunda, particular, estudando os
produtos da terra, ou sej a, o homem, os animais, os
vegetais e os minerais. Para ele havia cinco campos
geográficos : o matemático, dedicado à análise da forma,
dos movimentos, das dimensões e da localização da Terra
·-
no sistema planetário; o da geografia moral, abrangendo
os hábitos e costumes das regiões ; o da geografia política,
que estudava os estados; o da geografia mercantil, que
estudava o comércio; e o da geografia teológica, que
estudava as religiões.1 Leibnitz e Herder também tiveram
preocupações geográficas, admitindo Paul Claval2 que
Herder teria exercido maior influência sobre Humboldt e

1FIGUEIRA, Ricardo. Ob. Cit.p.17.


2 Géographie humaine et économique contemporaine. Paris, PUF,
1984. Sobre o assunto, o autor tem dois livros fundamentais: La pansée
géographique. Paris, Sedes, 1972; e Evolución de la geografia humana.
Barcelona, Oikostau, 1974.

73
73
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Ritter do que o próprio Kant. Herder revelou-se, até certo


ponto, um determinista; analisando as · diferenças das
condições naturais nos vários pontos da superfície da
Terra, ele afirma que cada povo realizava o seu destino e
desenvolvia a sua civilização, de acordo com o relacio­
namento com o meio físico. Nas relações entre o homem e
o meio natural, os homens isoladamente não construíam o
seu destino, mas o povo, os grupos ligados por uma
solidariedade étnica, cultural, religiosa etc. Seria o grupo,
ou o povo e não o indivíduo o motor das formas de
utilização do território.
Os conhecimentos sobre as áreas novas deslumbra­
vam a classe dominante européia, que procurava explica­
ções para as diferenças existentes entre as várias regiões e
países, impressionando-se com as diferenças de hábitos,
de costumes, de alimentação, de crenças etc. Isto ali­
mentou a produção de numerosos livros, provocou, a
médio prazo, a fundação de sociedades científicas e
de exploração, estimulou a organização de expedições
militares e o surgimento de correntes que tentavam
explicar essas diferenças. Os europeus, com condições
superiores às dos povos com que se defrontavam, tanto em
função do domínio econômico, das forças políticas, como
da tecnologia militar, deram margem a que se atribuísse a
eles uma superioridade sobre os outros povos, uma
suposta superioridade racial conseqüente de uma influên­
cia climática. A idéia de superioridade racial ganhou corpo
e chegou até aos nossos dias, tendo-se destacado como um
dos seus sacerdotes o Conde de Gobineau, e a idéia da
influência exagerada das condições climáticas consolidaria
o determinismo geográfico. Pensadores políticos como
Hobbes e Rousseau refletiram sobre os selvagens e
formularam posições interpretativas que se chocavam,
levando o primeiro a afirmar que o selvagem era

74
74
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sobretudo mau , que a sociedade se formou com o


domínio dos fortes sobre os fracos e que a instituição do
estado, o Leviatã, deveria ser forte e impor os seus
princípios e interesses sobre os fracos. Rousseau, ao
contrário, admitiu que o selvagem era bom, cândido, e que
por um acordo entre os homens - o contrato social -
organizou o estado, estab�lecendo assim a negação do
direito divino dos reis e o princípio de que o povo deve
decidir a forma de governo a que quer submeter-se.3
Destes princípios gerais surgiram as idéias básicas para a
consolidação do Estado moderno.
Montesquieu4 defendeu as formas de governo
democráticas, com a separação de poderes, mas, ao fazer
digressões sobre o espaço geográfico, admitiu grande
influência do meio natural sobre as formas de pensar e de
agir dos homens .
Ao mesmo tempo em que os filósofos e cientistas
políticos divagavam sobre relações entre o meio e o
homem, organizado em sociedade, sobre as formas de
estado, de governo, de religiões etc., os homens práticos,
os comerciantes e os administradores organizavam a
relação dos recursos disponíveis e passíveis de exploração
e formavam a sua contabilidade para otimizar os seus
lucros. Daí o desenvolvimento da estatística e a origem da
geografia política e da economia, inicialmente formadas
por verdadeiros catálogos de estados e cidades, de um
lado, e da distribuição da produção, de outro.s
Iniciava-se, assim, o século XIX, o chamado século
das luzes, preparado para uma grande revolução econô-

3 QUIRINO, Célia Galvão; SOUZA, Maria Teresa Sadek R. de. O pen­


samento político clássico. São Paulo, TAQ. 1980, p. 49-76 e 379-418.
4 MONTESQUIEU, Charles. O espírito das leis. São Paulo, Difel, 1962, 2 v.

s CLAVAL, Paul. Ob. Cit.p. 22-3.

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MANUEL CORREIA DE ANDRADE

mica e cultural que consolidaria o domínio da burguesia e


do modo de produção capitalista em todos os quadrantes
do globo. A superestrutura ideológico-cultural se conso­
lidava consagrando a racionalidade da ação do homem
sobre a natureza, o que permitiria a sua exploração com
grandes vantagens, a dominação técnica, a valorização do
pensamento científico, com a preocupação do estabeleci­
mento de leis universais, a partir das formulações de
Newton, e crença generalizada no progresso, que seria
linear e contínuo. 6 O homem, empregando os meios de
que dispunha, procuraria dominar a natureza e fazê-la
produzir, de acordo com suas metas e com os seus
interesses. Daí se idealizar a missão da Europa de expandir
as suas crenças e a sua civilização por toda a superfície da
terra, explorando e dominando - diziam civilizando - os
povos selvagens e bárbaros. Ainda em 1935, em pleno
séculoXX, a Itália justificaria a invasão da Etiópia e a sua
transformação em uma colônia, alegando que iria civilizá­
la, omitindo as razões de rapina que, na verdade, moviam
a sua intervenção. Repetia os mesmos argumentos que os
povos colonizadores formularam, um século antes, para
levar a guerra e a dominação aos povos da Ásia e da África.

5.2 O PENSAMENTO CIENTÍ FICO DO S ÉCULO XIX E O


SURGIMENTO DA GEOGRAFIA MODERNA

As condições culturais, econômicas e políticas do


m1ciO do século propiciaram as diretrizes intelectuais e
científicas que mudariam o pensamento do século XIX e
levariam as idéias ao positivismo, estruturado por Augusto
Conte.7 A preocupação com o controle da natureza pro-

6 MENDOZA, Josefine Gómez e outros. El pensamento geográfico.


Madrid. Alianza Editorial. s.d. p. 21-2.
7 COMTE, Augusto. O espírito positivo. Porto, Reis, s.d.

76
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

vocou uma expansão das c1encias da observação e da


experimentação, do domínio da razão prática, como diria
Kant. Os cientistas procuraram acumular conhecimentos
empíricos e fazer as suas formulações teóricas; os gover­
nos dos países mais comprometidos com a expansão
colonial, como a Inglaterra, a França, a Prússia e, após
1871, a Alemanha, a Rússia etc., estimularam a formação
de sociedade geográficas que patrocinavam expedições
científicas ao interior da África, da Ásia e da América do
Sul, à procura de recursos susceptíveis de exploração.
Mesmo no Brasil, nas primeiras décadas do século XIX,
foram numerosos os cientistas europeus que percorreram
trechos do nosso território, escrevendo livros a respeito
das condições naturais e das suas formas de exploração.
Livros em que analisavam as condições de vida da
população, contribuindo para o desenvolvimento da
Antropologia Cultural, ciência muito próxima da Geografia
Humana.
Um dos mais famosos cientiatas do século XIX, o
inglês Charles Darwin, fez a volta ao mundo estudando os
animais e as plantas e desenvolveu, em livro que se tornou
célebre, A origem das espécies, uma teoria da evolução
dos seres vivos, que contrariava as posições bíblicas,
admitindo que as espécies evoluíam conforme a sua
capacidade de adaptação ao meio natural e sua capacidade
de vencer na luta pela vida. O racionalismo substituía o
finalismo, o iluminismo. Suas idéias, muito debatidas,
exerceram grande influência sobre numerosos estudiosos.
Haekel, seu discípulo, aprofundaria o estudo das relações
entre o homem e o meio e usaria pela primeira vez a
expressão Ecologia; já Herbert Spencer desenvolveria o
evolucionismo, que contribuía para trazer aos estudos

77
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

sociais as idéias darwinistas. O evolucionismo levaria ao


organicismo - comparação da sociedade a um organismo
- e à crença no progresso contínuo e no aperfeiçoamento
do homem, tão comum aos positivistas e aos anarquistas
da segunda metade do século XIX.
Se a seleção natural, como ensinava Darwin, se
realizava através da luta entre as espécies, vencendo os
mais capazes, transportado este axioma para as ciências
sociais poderiam os capitalistas justificar a vitória dos
bem-sucedidos como o resultado de sua capacidade
superior e a derrota dos demais em face da sua inca­
pacidade natural. Este pensamento, no plano individual,
justificava os grandes desníveis sociais, a presença dos
muito ricos ao lado dos miseráveis, e no plano coletivo
justificava a dominação dos estados mais fortes, mais
capazes sobre os mais fracos, os dominados e explorados.
Justificavam assim, a um só tempo, as desigualdades
sociais no plano interno e a dominação colonial no plano
externo. Naturalmente, estas idéias não passariam desper­
cebidas aos fundadores da Geografia.
No século XIX, as desigualdades sociais tornaram-
. -se tão fortes, tão marcantes que estudiosos da sociedade
formularam teorias que contestavam os princípios justi­
ficadores do capitalismo em expansão. Esta contestação
foi feita, a princípio, pelos socialistas utópicos, que
imaginavam sociedades mais justas, situadas em pontos de
difícil acesso, como ilhas imaginárias, localizadas a grande
distância; em seguida surgiram pensadores materialistas
que, baseados na observação, na análise das estruturas
sociais e na evolução da sociedade, criticaram estas
estruturas e partiram para o desenvolvimento de uma
metodologia de análise dialética, para a contestação da

78
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sociedade e a indicação de transformações sociais que


deveriam ocorrer em determinados momentos históricos.
Nessa ocasião reforçava-se a filosofia dialética, contes­
tando-se a filosofia positivista. As idéias de Hegel, B
reformuladas por Karl Marx e Friedrich Engels, procura­
ram explicar a dinâmica social, analisando a sociedade
de forma totalizadora. Os pais do socialismo científico
não se limitaram a usar o método histórico, estudando a
formação do capitalismo, a sucessão dos modos de
produção na Europa Ocidental, o desenvolvimento do ma­
terialismo histórico e dialético, preocuparam-se também
com a natureza. Marx chegou a escrever sua tese de
doutorado sobre Diferença entre a filosofia da
natureza em Demócrito e Epicuro,9 e Engels rio livro
Dialética da natureza,10 analisou as transformações
dialéticas provocadas na natureza virgem, pela ação do
homem, explicando como ela, ao se reconstituir, não o
fazia de forma semelhante à primitiva, mas apresentando
novas características. Nos livros em que analisa a natureza
e a sociedade, Engels dá grande importância às relações
entre o homem e o meio, mostrando dialeticamente como
os dois agem e reagem.
Os ensinamentos de Marx e de Engels, enfrentando
as forças dominantes na sociedade, pois eles não foram
apenas pensadores, mas também homens engaj ados na
ação política, não tiveram grande influência sobre os
geógrafos do século XIX; os geógrafos, quase todos,
estavam muito comprometidos com as estruturas de poder

8 Denre as principais obras de Hegel, salientam-se Filosofia de la lógica y


de la naturaleza. Buenos Aires, Claridad, s.d.; e Ciência de la lógica.
Buenos Aires, Solar, 1968.
9 São Paulo, Global, 1979.
10 4a ed. São Paulo, Paz e Terra, 1985.

79
79
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

de seus países e Élisée Reclus e Piter Kropotkin, geógrafos


contestadores e anarquistas, romperam com o grupo de
Marx na Primeira Internacional, permanecendo, apesar de
suas idéias reformadoras, fiéis, em linhas gerais, às idéias
positivistas.

5·3 A CONTRIBUIÇÃO DE HUMBOLDT E DE RITIER

Alexandre von Humboldt e Karl Ritter são consi­


derados os fundadores da Geografia Moderna; vivendo na
mesma época, estavam ligados às classes dominantes de
seu país. Tiveram vidas bem diversas, mas as idéias de um
e outro convergiram para os mesmos princípios.
Humboldt foi um nobre prussiano que se dedicou
aos estudos das ciências naturais, sobretudo da botânica.
Muito curioso, tornou-se grande viaj ante, tendo perlus­
trado os caminhos da Europa, da Ásia Central e Setentrio­
nal e da América Latina. Andou por latitudes de clima
frio, temperado, tropical e equatorial e acumulou grande
quantidade de conhecimentos que legou aos leitores dos
seus numerosos livros. Apesar de naturalista, tinha grande
curiosidade pelo homem e pela sua organização social e
política, achando que esta tinha relação íntima com as
condições naturais. Após percorrer o mundo, voltou à
Europa e radicou-se em Paris, onde estimulou a orga­
nização de sociedade e de reuniões científicas, contri­
buindo assim para a expansão do conhecimento dos vários
quadrantes da Terra. Na velhice, voltou a Berlim, dedicou­
-se ao magistério e tornou-se conselheiro do rei da Prússia,
já então preocupado com a unificação da nação alemã.
Karl Ritter teve formação na área das ciências
humanas, sendo filósofo e historiador. Homem ligado às

80
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

classes dominantes, foi preceptor de jovens de famílias


nobres, acompanhando-os em viagens à Itália e à Grécia.
Teve grandes preocupações com a Ásia Menor, que
estudou exaustivamente em sua Geografia Geral. Dedicou­
-se por muitos anos ao ensino na Universidade de Berlim,
tendo sido um grande professor. Apesar de ter ensinado
aos maiores geógrafos dos fins do século XIX, como
Friedrich Ratzel, Élisée Reclus e Vidal de la Blache, não
fez escola. Estes, porém, tinham grande entusiasmo
por ele a ponto de Reclus, ao traduzir o seu estudo
A configuração dos continentes sobre a superfície
do globo e suas funções na história, haver afirmado
que Ritter "retirou a geografia da miserável sombra da
nomenclatura, que nos fez estudar com o mesmo espírito
da terra e dos astros", e, em seguida, "graças a ele nós
sabemos que os continentes, os planaltos, os rios, os
litorais são dispostos não ao hazard, mas em virtude de
leis, de movimentos, leis eternas que fazem gravitar os
astros em torno dos astros, os continentes e mares em,
torno de um eixo austral" . 1 1
As idéias centrais de Humboldt foram o resultado
da influência do racionalismo ilustrado francês do século
XVIII, do idealismo alemão e do projeto positivistaP
Daí a sua grande preocupação com o estabelecimento de
leis gerais que explicassem o mundo em que vivia,
relacionando o povo, categoria social, com o meio
ambiente. Para estabelecer leis sócias ele aceitava e
defendia princípios baseados nos ensinamentos de
Newton, sendo a sua grande preocupação conhecer e

11
RIITER, Karl. Introduction à la géographie générale comparée.
p. 221.
12 MENDOZA, Josefine Gómez e outros. Ob. Cit. p. 25-6.

81
81
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

determinar estas leis. Como era naturalista, procuravà


conhecer a natureza física, a fim de chegar à explicação da
evolução da sociedade, não se preocupando porém com as
relações sociais em si, destinadas pelos seus contempo­
râneos a outra ciência também em formação, a Sociologia.
Utilizando largamente ·a Cartografia, em face de
grande desenvolvimento, Humboldt idealizou o traçado de
linhas que ligassem os pontos que apresentassem as
mesmas temperaturas médias - as isotermas - a princípio
para definir o que chamou de zodíaco isotérmino que
deveria ter uma largura de 35°13 tendo como centro o
paralelo de 40° Norte.
Comparando a distribuição do relevo, do clima e
das associações vegetais em várias latitudes, Humboldt
analisou a interação entre estes elementos, estabelecendo
causas e efeitos, o que o levou à formulação do princípio
da causalidade, tão caro aos geógrafos da primeira metade
do século XX .
Suas preocupações sociais eram muito grandes e
entre os livros que escreveu destaca-se o Ensaio político
sobre o reino de Nova Espanha, que seria poste­
riormente utilizado por Malthus ao formular as suas
teorias demográficas. Os principais livros foram, porém,
Quadros da natureza 14 e Cosmos,IS onde ele se dedi­
cou a descrever paisagens.
Karl Ritter não foi viajante, um explorador, mas um
grande leitor e excelente expositor. Procurou explicar a
evolução a humanidade ligando-a às relações entre o povo

13CI..AVAL, Paul. Ob. Cit. p. 25.


14Rio de Janeiro, W. M. Jackson, s.d. 2 v.
1s Cosmos; ensayo de uma descripción física del mondo. Buenos Aires,
Editorial Glem, 1944.

82
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

e o meio natural, fazendo sobretudo a descrição da


sociedade. Baseado no idealismo de Shelling e no forma­
lismo neoplatônico, admitiu que o todo era formado pela
soma das partes e que da soma das partículas locais se
poderia partir para a formulação de leis gerais, válidas
para toda a superfície da Terra.1 6 Daí a formulação do
princípio da geografia geral ou da analogia, utilizado em
sua vasta obra., escrita em numerosos volumes. I? Ao tentar
estabelecer leis gerais que explicassem os fatos humanos,
teve dificuldades,uma vez que as leis sociais não eram
uniformes como as leis físico-naturais. Este problema
ainda hoje dificulta a ação dos especialistas nas ciências
sociais, levando várias correntes de pensamento, de
quando em vez, a caminhar para o organicismo.
O conjunto da obra destes dois sábios alemães
.
respondia ao desafio da sociedade européia em que
viviam, tanto em função da dominação capitalista como
para a formação da unidade da Alemanha. Nesse país, o
capitalismo começou a desenvolver-se após a revolução de
1848, mas sem conseguir a unidade política que ampliaria
o mercado e sem obter as transformações sócio-políticas
alcançadas pela França, depois da Grande Revolução; essa
unidade viria através de uma aliança entre os soberanos
locais, de pequenos e médios estados - reis, príncipes,
duques etc. - com grupos burgueses, utilizando uma
política centralizadora e autoritária. O conhecimento do
mundo e o aprofundamento das relações entre a sociedade
e a natureza eram, pois, de grande importância para os

16 MENDOZA, Josefine Gómez e outros. Ob. Cit. p. 28-9.


!7 Há uma edição francesa de Introduction à la géographie générale
comparée dos Annales Literaires de l'Université de Besançon. Paris, Les
Belles Lettres. 1974.

83
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

grupos dominantes que aspiravam à umao nacional, à


unificação política, em um primeiro estágio, e à disputa
pelo domínio do mundo extra-europeu, com os grandes
impérios em consolidação, britânico, francês, russo e
norte-americano, em um segundo estágio .

5-4 FRIEDRICH RATZEL E A GEOGRAFIA DO PODER

Friedrich Ratzel tornou-se famoso por haver dado


maior ênfase ao homem na sua formulação geográfica.
Vivendo na Alemanha e tendo assistido à sua unificação,
sob a égide da Prússia, formulou uma concepção geo­
gráfica que correspondia aos anseios expansionistas do
novo Império. Dedicando-se às c1encias naturais,
sobretudo à Antropo-logia, encarou o homem como uma
espécie animal e não como um elemento social, tentando
explicar a evolução da humanidade dentro dos postulados
de Darwin. A evolução se processaria através da luta entre
as várias espécies, vencendo as mais capazes na sua
adaptação ao meio natural. Se isto ocorria entre as várias
espécies, ocorria também entre as raças humanas e os
povos, sendo selecionadas para a sobrevivência e para o
mundo as mais capazes de se adaptar e de controlar o
meio natural. Daí a idéia da superioridade dos europeus,
povos com uma civilização mais dinâmica frente aos
coloniais, . ditos selvagens, bárbaros e com civilizações
estagnadas. Esta concepção levou geógrafos ingleses e
americanos, sobretudo, ao determinismo declarado, de vez
que para eles o homem era um produto do meio .1s

18MENDOZA, Josefine Gómez e outros. Ob. Cit. p. 32-9; CLAVAL. Paul. Ob.
Cit. p . 31; MORAES, Antônio Carlos Roberto de. Geografia: pequena história
crítica. sa ed. São Paulo. Hucitec, 1981. p. 52-60.

84
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Os americanos necessitavam justificar a superioridade dos


anglo-saxões da América sobre os povos indígenas do
oeste e os hispano-americanos do México e do Caribe e a
expansão dos Estados Unidos; j á os ingleses, controlando
o maior império colonial existente na época, procuravam
justificar o domínio britânico sobre as mais diversas
regiões e povos do mundo.
Destes princípios ele partiu para a formulação de
leis gerais que explicassem as relações entre o homem e o
meio natural, indicando que as diferenças existentes entre
povos e civilizações resultaram deste relacionamento
através dos tempos. Passou, então, a estudar o E stado, em
sua Geografia Política, admitindo que este é a sociedade
organizada dominando um território; desse modo, a
dominação do território caracteriza o Estado, dependendo
a sua importância da extensão e da situação do território
ocupado. Na sua teoria política, as noções de espaço e
de posição têm a maior importância. O progresso ou a
decadência de um Estado dependeria de sua capacidade
de expansão - ampliação do território sob seu domínio -
ou de redução - diminuição do território dominado.
Justificava as guerras de conquista e a dominação dos
povos fracos pelos fortes. Daí se desenvolveria a idéia do
espaço vital, tão usada por Hitler nos meados do século
XX, e que seria a relação entre a população de um Estado e
a capacidade de utilização do seu território. As idéias de
Ratzel tiveram grande difusão e levaram seu discípulo, o
sueco Kjellen, a usar a expressão Geopolítica, que seria o
ponto de encontro entre as teorias e conhecimentos dos
geógrafos e dos generais, 19 Seria a forma da utilização
militar dos conhecimentos geográficos, ramo do saber

'9 ATENCIO, Jorge E. Que es la geopolítica. Buenos Aires, Preamar, 1965.

85 ss
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

muito cultivado nos dias . que correm, embora se possa


admitir que existe, ao mesmo tempo, uma Geopolítica do
poder, da dominação, utilizada pelos ditadores, pelos
conquistadores, pelas classes dominantes em geral e,
contrapondo-se a ela, uma Geopolítica dos povos, utilizada
nas guerras de libertação e ainda, até certo ponto,
embrionária, em formação.
Pode-se compreender melhor a obra de Ratzel
quando se analisa o momento histórico em que ele viveu,
em uma Alemanha recém-unificada e que chegava a essa
unificação no momento em que a França, a Inglaterra, a
Rússia e os Estados Unidos j á haviam dividido o mundo.
Ele imaginou que, a longo prazo, os impérios britânico e
francês tenderiam ao esfacelamento, em face da sua
distribuição descontínua por áreas as mais diversas;
reunindo povos étnica e culturalmente heterôgenos, e pela
maior solidez dos impérios russo e norte-americano,
contínuos e com a dominância numérica, econômica e
cultural de um povo sobre os demais. Qual a saída para a
Alemanha? Para Ratzel, situada no centro da Europa, o
seu destino deveria ser jogado, inicialmente, no próprio
continente europeu, expandindo-se para o leste e o sul,
habitados por povos eslavos - a Áustria germânica havia
sido vencida pela Prússia - e, em seguida, para o oeste,
onde a queda de Napoleão III e do seu império poderia ser
encarada como presságio da decadência. O Império
alemão já conquistara à França as províncias da Alsácia
e da Lorena, ricas em minério de ferro e de carvão.
A expansão alemã fora do continente europeu se
contentaria com territórios menos expressivos da África -
Tanganica, Namíbia, Togo, Camerum - e com alguns
arquipélagos da Oceania. O quadro para Ratzel seria

86
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

éomplementado pelos seus discípulos e contestado pelos


geógrafos da chamada Escola Francesa, mas serviria de
suporte para a política do Império alemão (guerra de
1914-18) e do III Reich (1939-45). Haushofen, embora
mais extremado, seria inegavelmente um dos seus·
continuadores.
A obra de Ratzel, expressa nos seus dois livros mais
famosos, a Antropogeografia e a Geografia política,
malgrado as críticas que suscitou, teve grande influência
,.

no desenvolvimento da Geografia, salientando o papel do


homem e demonstrando claramente o caráter político e
social desta ciência.

5.5 POR UMA GEOGRAFIA LIBERTÁRIA - RECLUS E


KROPOTKIN

Élisée Reclus e Pietr Kropotkin foram dois grandes


geógrafos que viveram nos fins do século XIX e início do
XX e deram uma contribuição bem diversa daquela dada
pelos geógrafos anteriormente estudados. Enquanto os
primeiros se colocaram de acordo com a classe dominante,
ocuparam cátedras universitárias e assessoraram príncipes
e presidentes, os dois se colocaram contra a estrutura de
poder, negaram validade ao Estado, adotaram idéias de
reformas sociais radicais e defenderam as classes menos
favorecidas. Embora positivistas e com posições que se
opunham a Marx, na militância política, eles adotaram
algumas categorias marxistas e abriram perspectivas a
uma visão libertária, tanto da sociedade como da
Geografia como ciência. Tiveram origens sociais distintas,
mas lutaram juntos pelos mesmos ideais e colaboraram
tanto em obras de cunho político como científico.

87
MANUEL CORREIA DE ANDRADE
I

Élisée Reclus nasceu na França, oriundo de família


humilde, filho de pastor protestante. A família o destinou
ao sacerdócio, mas as leituras dos socialistas utópicos cedo
o tornaram republicano e em seguida ateu.::w Participou de
conspirações para frustrar o golpe de Luís Bonaparte, em
1851, e militou na Comuna de Paris (1871) , o que o obrigou
a expatriar-se, pela primeira vez, para evitar a prisão
provável, indo para a , Irlanda, os Estados Unidos e a
Colômbia; foi depois exilado, passando a viver na Suíça.
Viajou muito e colheu uma volumosa bibliografia que
serviria dé fonte para os seus livros mais notáveis, como
A terra, em dois vo1umes, publicado em 1869, a Nova
geografia universal, publicado de 1875 a 1892, em 19
volumes, e O homem e a terra, em seis volumes, escrito
quando professor da Universidade Livre de Bruxelas e
editado de 1905 a 1908. Meticuloso e detalhista, ele dava
grande importância à descrição e à ilustração cartográfica,
o que o aproximava do grande público. Não fazia
separação entre a geografia física e a humana como a
maioria dos seus contemporâneos, mas analisava detalha­
damente fatos físicos, procurando assinalar as interações
com o processo de ação do homem, da sociedade, e as
transformações que ele realizava na natureza para melhor
utilizá-la. O estudo da natureza para ele era feito com o
fim de facilitar a compreensão da evolução da humani­
dade, daí haver escrito primeiro uma Geografia Universal

20 Entre as obras a respeito de Reclus podemos salientar: ANDRADE, Manuel


Correia de, org. Éliée Reclus . São Paulo. Ática, 1983; GIBB LIN, Beatrice.
Introduction et choix des textes. In: RECLUS, Élisée. L'homme et la
terre. Paris, François Maspero, 1982. 2 v.; SARRAZIN, Helene. Élisée
Reclus ou la passion de monde. Paris, Éditions de la Découverte, 1985.
MASQUETE, Maria Tereza Vicente & Élisée Reclus. La geografia de um
anarquista. Barcelona, Les Livres de la Frontera, 1983.

88
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

em que fazia um corte horizontal da superfície da Terra,


com suas divisões políticas, sociais e culturais e, em
seguida, o livro O homem e a terra com um corte
vertical, de profundidade, analisando a ação do homem
desde a pré-história até a época em que viveu e escreveu as
suas obras. Não tinha preocupação com os limites da
Geografia, como ocorreu com muitos dos geógrafos seus
contemporâneos, não tendo, em conseqüência, entrado em
choque com sociólogos e antropólogos, de vez que a sua
preocupação científica não era compartimentada, mas
totalizante.
Para Reclus, os geógrafos deveriam fazer uma
análise a partir dos seguintes princípios : que a sociedade
está dividida em classes sociais, em conseqüência das
formas de apropriação dos meios de produção; que esta
diferença de classes provoca a luta entre as classes
dominadas que aspiram a melhor sorte e as classes
dominantes que não querem perder o controle do poder e
das riquezas; finalmente, que há uma tendência ao
aperfeiçoamento individual e à melhoria das estruturas
sociais em face do aperfeiçoamento progressivo do
homem.21 Esta conclusão resultava do seu cientificismo,
isto é, da idéia de que a ciência desenvolvida era capaz de
solucionar os problemas e ' de aperfeiçoar socialmente os
homens, e da sua crença inabalável no progresso.
Reclus não conseguiu abstrair as idéias político­
-sociais de sua produção científica; mesmo em livros em
que ele foi forçado, tanto pelo Editor como pela
necessidade de sua subsistência, a se auto-censurar,
analisva como os. povos procediam em suas relações com

21RECLUS, Élisée. L'homme et la terre. Paris, Universelle, 1905. v. L p. III


e IV.

89
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

outros povos. Na Nova geografia universal, o capítulo


sobre a dominação inglesa na Í ndia22 apresenta um
esquema racional e objetivo sobre o processo de domi­
nação direta, enquanto na análise da influência européia
na China23 ele mostra uma forma de dominação diferente,
mas que não exclui o processo de exploração do domina­
dor sobre o dominado.
Os grandes temas da época, muitos deles ainda com
atualidade, são abordados em suas obras, como o colonial,
embora numa ótica bem diversa daquela dos seus
contemporâneos que sempre procuravam justificar o
processo de colonização; o da degradação do meio
ambiente intensificado com a expansão, em escala
mundial, do capitalismo e hoje fonte de grande preo­
cupação para estudiosos e administradores; o cres­
cimento urbano e industrial, provocando o surgimento de
grandes aglomerações populacionais e intensificando os
problemas de transporte, de saúde e de abastecimento; o
do controle dos países dominados, hoje chamados do
Terceiro Mundo, pelos países industrializados etc. Em sua
visão crítica, ele mostrava que já nos fins do século XIX
seria inexpressiva a participação na população da Terra,
de povos ainda em economia natural, de vez que o
capitalismo, com maior ou menor grau de intensidade, j á
penetrara em todos o s recantos d a Terra. Reclus, apesar de
todas as suas críticas revolucionárias, tinha visão europo­
cêntrica; ele condenava o estabelecimento de colónias de
exploração, mas justificava a implantação de colónias de
povoamento em áreas sub-habitadas.

22 ANDRADE, Manuel Correia de. Élisée Reclus, p. 119-29.


23 Idem, ibidem, p. 130-42.

90
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Embora exercesse grande influência sobre os


leitores, tinha pouca penetração nos meios universitários,
apesar de sua obra A terra ter sido largamente utilizada
por estudantes e professores durante algumas décadas, só
perdendo importância após a publicação Tratado de
geografia tisica, de Emanuel de Martonne. Após 1900
veio o período de exacerbação do nacionalismo e da
institucionalização universitária da Geografia, dando
origem às chamadas escolas nacionais, nas quais a
Geografia se tornou uma ciência de larga utilização política
por parte dos donos do Poder. Hoje, com o desenvol­
vimento de uma posição crítica nas universidades,
observa-se um ressurgimento do interesse pelo estudo
do pensamento de Reclus, o que tem determinado · a
publicação parcial dos seus textos de maior atualidade em
antologias.
Ao contrário de Reclus, Kropotkin era da nobreza
russa, descendente da casa de Rurik, mais antiga que a
família do próprio Imperador, e filho de grande pro­
prietário de terras. Por seu nascimento, ele estava
destinado à vida militar, devendo participar de batalhões
de elite que se incumbiam da guarda do Tzar. Como relata
em suas memórias,24 participou de recepções na Corte e
foi matriculado em escola preparatória de oficiais. O gosto
pela leitura e a curiosidade a respeito da natureza o
levaram a solicitar a sua integração no corpo de Cossacos
do Amur, indo para o Extremo Oriente. Como oficial
do Exército Russo, teve acesso a informações sobre a
área e pôde trabalhar em levantamentos topográficos e
geográficos no Sougari, nas montanhas do Grande

24 KROPOTKIN, Pietr. Em torno de uma vida; memórias de um


revolucionário. Rio de Janeiro, José Olympio, 1956.

91
91
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Khingan, no Saian oriental e no Olekma-Vitim.25 Em mis­


são secreta, a fim de consolidar o poderio do Império
Russo no Extremo Oriente, atravessou a Manchúria.
Ao retornar da Sibéria, onde havia retificado
numerosos mapas - posições geográficas de montanhas e
rios - , corrigindo até trabalhos de Humboldt, abandonou
a vida militar, passando a trabalhar em atividades cientí­
ficas e a envolver-se em conspirações. Como cientista,
realizou viagens à Finlândia e fez estudos sobre a
porção setentrional, de clima glacial, do Império Russo.
Determinou a existência, no mar Ártico, de arquipélago
que foi em seguida descoberto pelos alemães - ilhas de
Francisco José -, e desenvolveu estudos de glaciologia.
Tornou-se famoso e passou a participar da Sociedade
Geográfica Russa, sendo por muitos anos seu secretário e
dela recebendo, pela importância dos seus estudos
geográficos, a Medalha de Ouro.
Em suas viagens e explorações científicas,
Kroporkin tomou contato com a realidade da vida
camponesa e impressionou-se com as difíceis condições de
vida dos que trabalhavam a terra, em contraste com o nível
de conforto dos que a possuíam. Isto o levou a uma
atividade revolucionária mais intensa que teve como
conseqüência a prisão na Fortaleza de Pedro e Paulo,
em São Petersburgo, a uma fuga espetacular para o
exterior e à permanência no exílio durante mais de 40
·
anos, só voltando à Rússia após a Revolução Socialista,
revolução que não apoiou, por achar que ela fortaleceria o

25KROPOTKIN, Pietr. Oeuvres. FM/Petite Collection. Paris, François


Maspero, 1976, p. 7·

92
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Estado que ele queria ver abolido, mas que o prestigiou e o


homenageou até a morte, em 1921.26
Como geógrafo, ele tinha grande paixão pela
observação da natureza e acreditava em um verdadeiro
poder mágico da ciência. Era um cientificista e admitia que
tanto nas ciências naturais - e para ele a Geografia era
uma ciência da natureza - como nas ciências sociais
existiam leis gerais que regiam os fenômenos. Manteve-se
fiel ao positivismo27 e admitia que a dialética, defendida
por Marx e Engels, não podia dar uma contribuição
positiva ao desenvolvimento das ciências. Preocupava-se
muito com a educação e com o papel a ser desempenhado
pela Geografia no processo educativo.
Seu comprometimento com o naturalismo levou-o a
admitir certo determinismo físico-natural e étnico sobre a
evolução dos povos, embora condenasse as discriminações
raciais, bem acentuadas entre os europeus.
Dando um caráter de ciência natural à Geografia,
Kropotkin admitia que ela compreendia quatro grandes
ramos :

1 . aquele que estudaria as leis que determinam a


distribuição das terras e das águas sobre a
superfície da Terra e as modificações que se
processam e se processaram nesta distribuição;

26 Sobre Kropotkin é interessante ler WOODCCOCK, George. O


anarquismo, Lisboa, M eridiano, 1962, p. 274-490; COLE, G. D. H .
Historia dei pensamiento socialista. v . I I , Marxismo y anarquismo,
1850-1890 e v. III, La Segunda Internacional, 1889-1914. Buenos Aires, Fundo
de Cultura Econômica, 1962.
27 KROPOTKIN, Pietr. Lo que la geografia debe ser. In: MENDOZA, Josefine
Gómez e outros. Ob. cit. p. 230.

93
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

2 . o que procurava estabelecer as leis que explicam


a formação das montanhas, dos rios, a formação
do relevo em si a influência exercida pelas
condições meteorológicas sobre a sua formação.
Compreenderia assim o que os geógrafos tradi­
cionalistas catalogaram como Geomorfologia,
Hidrografia e Climatologia. Preocupava-se com
os acidentes, encarando-os como um processo
cujos resultados, sempre dinâmicos, eram con­
seqüência de uma interação;
3· apresentando grande preocupação com os
animais e as plantas, admitia que a Geografia
deveria preocupar-se com a forma e as causas
da distribuição dos mesmos na superfície da
l Terra, levantando problemas ligados hoje à
Biogeografia, em seus dois grandes ramos, a
Fitogeografia e a Zoogeografia;
4· em quarto lugar viria o ramo que se preocupava
com a distribuição dos homens pela superfície
do planeta. Nesta área era importante a análise
da distribuição dos grupos humanos, das
influências das condições climáticas sobre a
mesma, da distribuição geográfica das raças, das
religiões, dos costumes, das formas de pro­
priedade, da "íntima dependência a respeito das
condições geográficas, como se há adaptado o
homem à natureza que o rodeia e a mútua
influência de ambos",2s da construção das
cidades, da distribuição dos países, dos obstá­
culos apresentados pelas fronteiras políticas e da
formação de bacias industriais.

2s KROPOTKIN, Pietr. Ob. cit.p. 232-5.

94
94
r

GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Muito preocupado com a educação e a formação


da juventude e admirando os princípios de Pestalozi,
Kropotkin condenou a forma como era feito o ensino de
modo geral, e o ensino da Geografia em particular, que,
por ser muito teórico e rico em nomenclatura, não
despertava o interesse dos estudantes; achava que os
professores deveriam usar livros de viagens, de descrições
de hábitos e de costumes dos vários países para despertar
o interesse dos estudantes ; levá-los ao campo a fim de que,
pela observação, compreendessem melhor as formas de
relevo, a estrutura do meio rural e urbano, enfim, da
paisagem (termo que ele usava com freqüência) e, a partir
daí, pudessem melhor compreender e interessar-se pelos
textos didáticos, a respeito de áreas que não poderiam ser
diretamente contactadas.
Achava ainda que o ensino não era neutro, nem a
ciência, admitindo que a Geografia, aliada à Antropologia,
ciência por que tinha verdadeira fascinação, deveria
encaminhar os estudantes para maior compreensão dos
vários povos, fazendo desaparecer as fronteiras existentes,
alimentar um sentimento fraterno com as diversas raças
e culturas e contribuir para a paz e a compreensão
internacionais.29 Admitindo o futuro desaparecimento do
Estado, Kropotkin propugnava pela preparação dos jovens
para viverem em uma sociedade livre, aberta a todos os
povos, sem ricos e pobres, sem dominadores e dominados
e administrada por associações e sindicatos. Em livro
sobre o anarquismo,3° ele demonstrava o caráter objetivo
destas idéias.

29 KROPOTKIN, Pietr. Ob. cit. p. 228-30.


3o Idem. O anarquismo. Salvador, Progresso, 1954.

95
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Estes dois geógrafos libertários, Reclus e K.ropotkin,


apesar de positivistas, receberam forte influência dialética,
citando frequentemente Marx e aceitando e categoria
classe social, no estudo da Geografia; escreveram livros e
artigos explícitos de doutrinação e propaganda política
contra a sociedade estabelecida ao lado de livros especifi­
camente geográficos. K.ropotkin redigiu os capítulos de
Geografia Física da Rússia e do Extremo Oriente, na Nova
geografia universal, de Reclus. A leitura da obra dos
dois anafcÍuistas-geógrafos, porém, mostra que as idéias
filosóficas e políticas que abraçavam tiveram grande
influência nas mesmas; ao analisarem as formas de
utilização do espaço pela sociedade, davam sempre uma
interpretação baseada nas idéias que defendiam.
Da mesma forma que os geógrafos conservadores
ao formularem as suas leis, doutrinas e interpretações
defendiam pontos de vista que iam ao encontro das
crenças e dos interesses dos seus estados e da classe a que
estavam ligados, as dos geógrafos libertários iam de
encontro às crenças e aos interesses desta mesma classe.
Daí os primeiros haverem ocupado cátedras universi­
tárias e posições de aconselhamento junto aos gover­
nantes, enquanto os segundos foram excluídos da vida
universitária, exilados, presos e perseguidos. Reclus só se
tornou professor da Universidade Livre de Bruxelas aos 64
anos de idade e Kropotkin não pôde aceitar uma cátedra
na Universidade de Cambridge porque ela lhe foi oferecida
com a condição de abandonar a militância política.
Daí também a grande influência que tiveram os primeiros,
com fácil acesso aos meios de comunicação de sua época,
ao contrário dos últimos, que encontravam grande
dificuldade de apoio da parte de editores para os seus

96
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

livros, livros que naturalmente não agradavam à maioria


dos leitores, pessoas ligadas às classes mais bem aqui­
nhoadas econômica e socialmente.
Só recentemente, quando o capitalismo atingiu o
apogeu, agravando as condições de vida da maioria da
população e grandes contingentes populacionais passaram
a ter maior acesso à leitura e à reflexão, é que se vem
observando uma espécie de recuperação da obra dos dois
grandes geógrafos, provocando a difusão e a discussão
das mesmas. Observa-se assim que a neutralidade da
Geografia, tão defendida pela escola clássica, é um mito, e
que hoje à Geografia do Poder se vem contrapondo,
embora de forma descontínua, uma Geografia do Povo.

97 97
98
_.......,
6
A GEOGRAFIA CLÁSSICA

6.1 CARACTERÍ STICAS DA GEOGRAFIA C LÁSSICA

conhecimento científico está em perma­

O nente processo de transformação, com o


aporte que se faz, a cada geração, de novos
conhecimentos, daí o hábito de se periodizar a evolução do
conhecimento científico como um todo. Para a Geografia
admitimos, de forma esquemática, a existência de um
primeiro período em que pontificaram os instituciona­
lizadores desta ciência, ao qual se seguiu outro de
consolidação e de difusão do conhecimento geográfico, a
que chamamos período clássico, e em seguida, após a
Segunda Guerra Mundial, teríamos o período moderno.
Torna-se difícil estabelecer os limites de cada
período, uma vez que as transformações e as mudanças na
orientação do estudo e do ensino da Geografia se
- processam lentamente e em uma mesma fase há autores
que se encontram em um e em outro período, da mesma
forma que um mesmo autor participa, através dos seus

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MANUEL CORREIA DE ANDRADE

trabalhos, de dois períodos que se sucedem. Podemos


admitir, em linhas gerais, que o período clássico seja
delimitado pelos anos 1901 - primeiro do século XX - a
1946 - ano em que foi concluída a Segunda Guerra
Mundial; temos de reconhecer, porém, que, nas primeiras
décadas do século XX , autores que adquiriram prestígio e
fama no século XIX, impregnados das idéias dominantes
naquele século, continuaram a produzir, e muitos dos
grandes geógrafos clássicos começaram a escrever e
estudar no século XIX da mesma forma que grandes
geógrafos da primeira metade do século XX continuaram
a produzir obras de grande importância no pós-guerra.
As delimitações temporais são assim relativas.
Mas quais as grandes transformações por que
passou o pensamento geográfico nesse período que pro­
vocaram diferenças entre este pensamento e o dos mestres
estudados no capítulo anterior? Que diferenças foram
bastante fortes para caracterizar uma escola, mas insu­
ficientes para caracterizar uma ruptura com o pensamento
geográfico institucionalizado?
A primeira grande diferença entre os dois períodos
foi a queda no prestígio do finalismo positivista e evolucio­
nista e do esforço de encontrar leis gerais que explicassem
as diferenciações existentes na superfície da terra, de
forma uniforme para todo o planeta. Os geógrafos, impos­
sibilitados de aplicar as leis físicas ao processo de
produção do espaço pelo homem, tenderam a abandonar a
geografia humana, considerando a geografia como uma
ciência apenas física, como aconteceu na Alemanha com
Oscar Peschel e Fernando Richthofen,1 ou a pro.curar fazer

1 KRETSCHMER, Konrad. Historia de la geografia. p. 129.

100
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

estudos corológicos, de caracterização e explicação de


paisagens e de tipos de relação entre o homem e o meio,
em determinadas áreas, sem maiores preocupações com
a generalização para toda a superfície da Terra; daí
haver crescido, até meados do século XX, o prestígio da
Geografia Regional, em detrimento da geografia sistemá­
tica ou Geral.
Os geógrafos clássicos, vivendo a fase de desenvol­
vimento do capitalismo industrial e da necessidade de um
conhecimento aprofundado do espaço produtivo, fizeram
estudos corológicos, procurando desenvolver uma análise
de porções mais ou menos restritas da superfície do
planeta. Partiram do princípio de que a análise das
várias partes levaria à soma das mesmas e ao melhor
conhecimento do todo. Levavam a Geografia a consolidar­
-se como uma ciência ideográfica e descritiva, usando o
método indutivo, que parte do particular para o geral.
Nestes estudos regionais, os alemães preocuparam-se
com a descrição e a análise da paisagem, em suas
características naturais, enquanto entre os franceses a
geografia da paisagem, considerada uma ciência de
síntese, dava grande importância à visualização da mesma,
tanto em seus aspectos físicos como nas marcas nela
deixadas pelo homem. De qualquer forma, o positivismo
era transformado . em um funcionalismo que invadiria
todas as ciências sociais. Os estudos regionais ganharam
grande prestígio e muitos geógrafos admitiam ser eles
os mais legítimos estudos de Geografia porque se
preocupavam tanto com os aspectos naturais como com os
sociais, sem se aperceberem que nesses estudos havia
muito mais uma justaposição do físico ao humano do que
a necessária integração. Isto porque na análise regional

101
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

predominava, conforme a formação do geógrafo, ora a


caracterização do físico - geológico e climático - ora
a caracterização do humano, sobretudo do histórico. 2
A influência das condições naturais foi tão grande que
durante decênios as regiões geográficas foram chamadas
regiões naturais, e se admitiu que as condições naturais
determinavam a delimitação das regiões, enquanto a
intervenção social, humana, apenas dividia as regiões em
zonas. Só em 1941 é que André Chollay propôs que se
conceituassem as regiões geográficas como o resultado da
influência dos domínios físicos - estrutura geológica,
clima, relevo e hidrografia -, do meio natural - flora e
fauna - e da organização humana.3
Os estudos regionais provocaram uma separação
entre a Geografia Geral ou Sistemática e a Geografia
Regional, desestruturaram, dentro dos conhecimentos e
das técnicas usadas na época, a integração entre o regional
e o geral. Essa desintegração também contribuiu para que
houvesse uma especialização maior entre os geógrafos,
estabelecendo áreas de investigação separadas entre a
Geografia Física e Biológica de um lado e a Geografia
Humana do outro. Linhas de separação que se adensaram
cada vez mais, fazendo com que se desenvolvessem como
verdadeiros campos autónomos do conhecimento cien­
tífico tanto capítulos da Geografia Física - Geomorfologia,
Climatologia, Hidrografia, Fitogeografia, Zoogeografia -
como da Geografia Humana - Geografia da População,
Agrária, da Indústria, da Circulação e Transportes, Econô-

2 Para maior aprofundamento do assunto é interessante consultar CLAVAL.


Géographie humaine et économique contemporaine. Paris, PUF,
1984. p. 55-129; e MENDOZA, Josefine Gómez e outros. El pensamiento
geográfico. Madrid, Alianza Editorial, 1982. p. 49-95.
3 CHOLLAY, André. La géographie ; guide de l'étudiant. Paris, PUF, 1951.

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GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

mica, Política, Social etc. Estas subdivisões puzeram em


risco a própria existência da Geografia, como ciência.
Levantando dúvidas até em geógrafos famosos como
Camille Valloux4 e Henry Baulig.s Esta geografia dividida,
compartimentada tanto na direção horizontal como na
vertical, veio empobrecer epistemológica e metodológica­
mente a Ciência Geográfica.
O estudo das regiões levou o geógrafo a preocupar­
-se com uma visão totalizante da mesma e a procurar
compreender e explicar a realidade como um todo, com a
máxima fidelidade. Isto o fez aprofundar-se no estudo das
condições naturais, como a estrutura geológica, as rochas,
o solo, as influências climáticas e sua ação sobre o solo e a
vegetação, e o levou à análise das formas de organização
do homem, dominando capitais e técnicas para maximizar
a utilização dos recursos disponíveis. Sentiu então o
geógrafo a necessidade de ampliar sua área de conheci­
mento e de ir buscar em outras ciências, a que chamou de
auxiliares, os conhecimentos necessários à explicação da
paisagem e à interpretação da realidade regional. Daí a
acusação de enciclopedismo que recaiu sobre os geógrafos,
a acentuação das divergências entre eles, as tentativas de
. delimitação entre a Geografia e as ouj:ras ciências - a
geograficidade de Vidal de la Blache _ 6 e as polêmicas
entre geógrafos e cientistas sociais de outras especia­
lidades, como Émile Durkheim. Tentativas foram feitas
para explicar as inter-relações entre as ciências, a apresen­
tação da confluência das mesmas com enfoques diversos

4 VALLOUX, Les sclences géographiques. Paris, Felix Alcan, 1929.


s BAULIG, Henry. A Geografia é uma ciência? In: CHRISTCFOLETII,
Antônio. Perspectivas da Geografia. São Paulo, Difel, 1980. p. 59-70.
6 LACOSTE, Yves. Geographicité et géopolitique: Élisée Reclus. Herodote.

Paris, n. 0 22, 1981. p. 14-56.

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MANUEL CORREIA DE ANDRADE

sobre uma mesma área ou um mesmo tema e os estudos,


hoje famosos, de Max Sorre7 e de Pierre George. s Dentro
dos ditames positivistas, já em parte recusados, contesta­
dos, mas ainda com grande influência sobre o pensamento
científico, não se admitia a existência de uma única
ciência social, mas de uma série de ciências cujos obj etos
deveriam ser rigorosamente delimitados. Entre os geógra­
fos, numerosos eram os que consideravam a Geografia
como uma ciência natural e não como uma ciência social.
Mesmo Vidal de la Blache, historiador de formação e
muito ligado ao pensamento da escola de historiadores,
liderada por Marc Bloch, admitia que a Geografia era uma
ciência dos lugares e não do homem.9 Só posteriormente,
com os estudos de Pierre George e de Paul Claval, é que se
generalizou a opinião de que a Geografia é uma ciência
social, do homem, e não uma ciência da natureza.
Distinção que tem grande importância epistemológica,
pois, se a Geografia fosse uma ciência natural, dos lugares,
ela não poderia procurar compreender e explicar como e
por que a sociedade produz e reproduz permanentemente
o espaço social, apenas estudaria os resultados deste
trabalho. Como ciência social, humana, Ji_Geo�m a
responsabilidade de analisar a- própria sociedade, às- _
refaÇões que iilfluemnu- tipo de espaço produzido e
explicar a razão de ser da ação da sociedade sobre esse
espaço. Assuntó da maior importância nos dias de hoje.
A geografia clássica, porém, com todas as suas
fraquezas, teve grande importância porque atendeu aos

7 SORRE, Max. Rencontres de la géographie et de la sociologie. Paris,


Riviere, 1957.
8 Idem. Sociologia et géographie. Paris, PUF, 1966.

9 BLACHE, Vidal de la. As características principais da Geografia. In:

CHRISTOFOLEITI, Antônio. Ob. cit. p. 11-36.

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GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

desafios que a burguesia, como classe dominante, encon­


trou na sua luta pela exploração dos recursos e dos
homens na superfície da Terra. Como os meios, conforme
a situação económica e social de cada país e os desafios
que os governos, comprometidos com as classes domi­
nantes, encontravam para fazer o seu próprio "desenvolvi­
mento", fossem diversos, ela se fragmentou em escolas
nacionais ou até regionais. Surgiram, então, as escolas,
uma escola alemã, uma escola francesa, uma escola
britânica, uma escola americana etc. Estas escolas, porém,
não se apresentavam como compartimentos estanques,
separadas completamente em suas proposições e métodos;
elas se orientavam para estudos de maior interesse para o
próprio país e procuravam soluções e orientação que
justificassem a ação do mesmo. Serviriam, na Alemanha,
para justificar e tentar legitimar a luta pelo espaço vital, na
França e na Grã-Bretanha para melhor conhecer os seus
impérios coloniais, nos Estados Unidos e na Rússia para
justificar e consolidar a expansão por áreas contínuas e
habitadas por povos pobres que permaneceriam sob o seu
domínio e orientação. Tinham essas escolas, como não
- ------- poderia deixar de ser, um sentido profundamente nacio­
nalista, estavam comprometidas com os governos de que
dependiam e a que serviam.

6.2 A ESCOLA ALEMÃ

Tendo sido a Alemanha o país em que primeiro a


Geografia se institucionalizou e onde viveram e ensinaram
os três grandes geógrafos, considerados tradicionalmente
como pais da Geografia Moderna - Humboldt, Ritter e

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MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Ratzel -10 é natural que aí se desenvolvessem, em profun­


didade, os estudos geográficos, que aí surgissem os
grandes geógrafos do período clássico e que as idéias
germânicas se expandissem por outros países, sobretudo
nos Estados Unidos.
·
Dentre os grandes geógrafos alemães da escola
clássica destaca-se Alfred Hettner, que teve grandes
preocupações epistemológicas em um momento histórico
em que os geógrafos em geral se voltaram para os estudos
da realidade. Ele considerava a Geografia como uma
ciência do espaço, admitindo que seria "a ciência da
superfície da terra, segundo as dimensões regionais".
Recusava-se a contrapor o regional ao geral e admitia que
a Geografia era, a um só tempo, ciência da natureza e do
homem. Encaminhava o conhecimento geográfico em
direção à ecologia, preocupando-se com a paisagem
natural e com a ação do homem, usando e degradando esta
paisagem. A tendência ecológica na Geografia teve e tem
grande importância no pensamento alemão, tendo sido
defendida e continuada por Friederich e mais recente­
mente por Karl Troll, que procurou estudar sobretudo os
problemas fitogeográficos.
Outro geógrafo alemão, Eduard Hahn, dedicou-se a
fazer a geografia natural moderna, reconstituindo a
·
história da domesticação dos animais e da adaptação dos
vegetais à agricultura, levantando interrogações sobre as
relações entre técnicas e crenças, assim. como entre a
agricultura da enxada e do arado. Foi levado a desenvol-

10
MENDOZA, Josefine Gómez e outros. Ob. cit. p. 72; e MORAES, Antônio
Carlos Robert de. Contribuição para uma história crítica do
pensamento geográfico. (Dissertação de mestrado apresentada ao
Departamento de Geografia da USP) estuda em detalhe o pensamento dos
mestres alemães. São Paulo, 1983 (mimeografado).

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GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

ver estudos sobre gêneros de vida e sobre problemas


religiosos. A influência das religiões sobre a produção do
espaço vem preocupando numerosos geógrafos, como
Pierre Deffontaines, na França.n
Schluter desenvolveu estudos sobre o Landschaft,
preocupando-se com a ação do homem sobre o meio,
através de grupos organizados e não individualmente,
dando grande importância às manifestações materiais e
procurando partir da análise da região para a compre­
ensão de áreas maioresP
No período clássico podem ser constatadas várias
tendências entre os geógrafos alemães, como aquela
voltada para o estudo das paisagens, dando maior peso
à participação do natural sobre o social na formação
da mesma. Nesta linha trabalhou muitos anos o
geomorfólogo Siegfrid Passarge, com estudos na Namíbia,
então Sudoeste Mricano Alemão, observando sobretudo a
formação do relevo nas áreas de clima desértico.
Os estudos de interesse político continuaram os
trabalhos de Ratzel, não só em obras de Geografia, como
também de Geopolítica. Nesta linha de pensamento, os
estudos de A. Dix13 e, posteriormente, de Haushofen ·

passaram da ciência à propaganda, tentando legitimar


a política expansionista alemã e defender a conquista
de territórios vizinhos aos eslavos e latinos. Para isto
consideravam os alemães como arianos, superiores aos
outros povos brancos, e admitiam a necessidade de
expansão do seu espaço vital.

11 DEFFONTAINES, Pierre. Géographie et religion. 8 ed. Paris, Gallimard,


1948.
12 MENDOZA, Josefine Gómez e outros. Ob. cit. p. 72 3.
-

13 DIX. A.Geografia política. 2. ed. Barcelona, Labor, 1943.

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MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Na área econômica merece destaque Leo Waibel,


que desenvolveu, dentro de uma linha naturalista, os
estudos de Geografia Tropical, inclusive no Brasil, onde
aprofundou a análise dos resultados da colonização alemã
nos estados do Sul,14 como se procedeu à produção do
espaço colonial no Sul do Brasil e quais os resultados
obtidos pelo homem, pela sociedade na utilização da
natureza. Também merecem destaque na geografia
alemã os estudos de Geografia Econômica, dirigidos e
coordenados por Otremba.1S
Deve-se levar em conta ainda a importância dos
estudos de teoria de localização, aplicada tanto à agri­
cultura como à indústria, por pensadores alemães. Desde o
século XVIII, von Thünen procurou desenvolver raciocínio
sobre a existência de um estado ideal, fisicamente
uniforme que se desenvolveria a partir de um centro
dinamizador - a capital - com zonas concentradas, a
partir deste centro, as mais próximas, especializadas
na produção de mercadorias com necessidade de um
consumo mais rápido e de maiores proporções até aqueles
de manutenção de florestas. Esta teoria daria origem a
especulações de outros estudiosos alemães, economistas,
quase sempre, como Alfred Weber e Losch, e chegaria até
Walter Christaller, que na década de 30 desenvolveu a
teoria dos lugares centrais, .pouco aceita ao ser formulada,
mas que alcançou grande difusão após a Segunda
Guerra Mundial, Christaller baseou-se em estudos sobre
a Alemanha Meridional, analisando a difusão, pelo espaço,

14 CONSELHO NACIONAL DE GEOGRAFIA. Capítulos de geografia tropical e


do Brasil. Rio de Janeiro, IBGE, 1958.
• 1 5 OTREMBA, Erich. Geografia geral, agrária e industrial. Barcelona,

Omega, 1955.

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GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

de cidades, classificadas de acordo com seu porte, e


procurando estabelecer sua área de influência, de acordo
com nível de demanda de produtos mais ou menos
especializados.16 A reflexão sobre os seus trabalhos na
década de 60 e de 70 provocou grande florescimento da
chamada geografia quantitativa e do conseqüente uso dos
métodos matemático-estatísticos nos estudos geográficos.
Ela contribuiria para a perda de influência da geografia
regional e representava uma volta ao positivismo, alimen­
tando a escola neopositiva moderna.

6.3 A ESCOLA FRANCESA

A Escola Francesa formou-se na primeira metade


do século XX, tendo por centro as idéias defendidas por
Vital de la Blache, primeiro geógrafo francês a ocupar uma
cátedra universitária de Geografia. A derrota da França
frente à Alemanha em 1871 foi por muitos tida como
conseqüência do ensino ministrado no país e considerado
de inferior qualidade ao ministrado na Alemanha. Tanto
que se disse que a guerra foi ganha pelo mestre-escola
alemão. A França, humilhada, derrotada, dependente de
uma astronômica dívida de g�erra e tendo a Alsácia e
parte da Lorena desmembradas, procurou recuperar-se,
e um dos setores que muito preocupou o Governo
Republicano que sucedeu ao II Império foi a educação.
Daí a reorganização do ensino, de que participou
Lavasseur,17 dando maior importância às disciplinas da
Geografia e da História no nível secundário.

16P ROST, Marie A. La hiérarchle des villes. Paris, Gauthier-Villares, 1965.


17 CLAVAL, Paul. Géographie humaine et économique
contemporaine. Paris, PUF, 1984. p. 60.

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MANUEL CORREIA D E ANDRADE

Em seguida, criada a cadeira de Geografia na


Universidade de Nancy, ela foi confiada ao historiador
Vidal de la Blache, que exercera a sua profissão na Grécia e
tinha grandes preocupações com o Oriente Próximo.
Tendo sido discípulo de Ritter, estava imbuído de preo­
!! cupações geográficas e aceitava, até certo ponto, a
influência do meio sobre o homem. Tanto que nunca
considerou a Geografia como uma ciência social, mas
como uma ciência natural, "dos lugares".
Como historiador, tinha grande preocupação com a
desigual distribuição da população pela superfície da Terra
e, para explicar tal fato, procurou desenvolver ao máximo
a Cartografia como forma de visualizar esta distribuição e
de procurar explicar as grandes diferenças e contrastes
existentes, com grandes concentrações em alguns pontos e
verdadeiros vazios demográficos em outros. Preocupou-se
então com o estudo das relações entre o homem e o meio
físico, passando a admitir que o meio exercia alguma
influência sobre o homem, mas que este, dependend9 das
condições técnicas e do capital de que dispunha, poderia
exercer influência sobre o meio. Daí o surgimento da
expressão possibilismo, 18 divulgada por Lucien Febvre,
hoje apontada como a principal característica da escola
francesa de Geografia. De Nancy, la Blache seria trans­
ferido para a Sorbonne e fundaria a revista Annalles de
Géographie, que seria grande tribuna de combate e de
divulgação de suas idéias. Tendo acesso fácil ao poder do
Estado, divulgou os princípios que nortearam, em grande
parte, os estudos geográficos na França, colocando em
segundo plano os trabalhos, até então muito divulgados,

1 8 BLACHE, Vidal de la. L aterre et l'évolution humaine Paris, Albin


.
Michel, 1949.

110
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

de Élisée Reclus . Era a Geografia do Estado, institucio­


nalizada na Universidade e ligada às classes conserva­
doras, a combater a Geografia popular, divulgada nos
vários setores da população, desligada do poder público,
opondo-se aos senhores do dia e a serviço da reforma
social. Foi fácil a la Blache ocupar o espaço em disputa,
sobretudo no momento em que já se passara quase meio
século sem que houvesse uma guerra européia, com envol­
vimento direto da França, e em que se consolidara o
Império Colonial Francês.
As idéias de Vidal de la Blache combatiam a
evolução linear. Pregada pelos positivistas e evolucionistas
do século XIX, relegava a um segundo plano as preocupa­
ções teóricas globalizadoras e detinha-se nos trabalhos
de campo, valorizando a intuição, o "olho clínico" do
geógrafo. Ao geral ele contrapôs o regional, conduzindo os
seus discípulos a realizarem estudos de campo limitados a
pequenas áreas, às regiões, levando em conta os aspectos
físicos e a eles sobreponho os humanos e econômicos.
Desenvolveu de tal forma os estudos regionais, que seus
continuadores passaram a admitir que a essência da
Geografia estava no Regional porque nele se conciliava, se
integrava o físico e o humano. Na realidade, não havia
uma integração, mas apenas uma justaposição.
Admitindo que a região ou o meio físico é o suporte
que o homem utiliza para viver, para fazer suas cons­
truções, para extrair os produtos de que necessita, Vidal de
la Blache estimulou grande preocupação nos geógrafos
com a descrição deste meio, das formas de utilização do
mesmo e deu base à formulação da noção de gênero de
vital ao esquema de trabalho. Para ele, o gênero de vida
seria o conjunto articulado de atividades que, cristalizadas

111
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

pela influência do costume, expressam as formas de


adaptação, ou seja a resposta dos grupos humanos aos
desafios do meio geográfico .19 A noção de gênero de vida
aproxima-se assim da noção antropológica de _cultura, tão
usada pelos alemães e americanos. Esta noção levaria a
uma visão estática e rural da Geografia, quando nas
ciências sociais em geral se dava maior importância à
categoria classe social, na análise da sociedade. Vidal de la
Blache, que publicara o seu Tableau de Géographie de la
France e numerosos artigos, procurou dar maior ênfase ao
estudo das comunicações para que se compreendesse o
relacionamento entre os gêneros de vida e as regiões,
sobretudo agrárias, e as cidades que cresciam e ganhavam
importância.
Seu pensamento não somente manteve certa
uniformidade entre os pensadores franceses, como deu
origem a um elo comum que dominou a geografia francesa
durante dezenas de anos e se expandiu pelo exterior,
sobretudo pela Grã-Bretanha e pelo Brasil. Entre os seus
continuadores destacam-se o historiador Lucien Febvre,
do grupo da revista de Síntese, que publicou notável livro
onde difundiu as idéias do seu mestre, e L. Galais, que
continuou a coordenação da Grande Geografia Universal,
publicada em 1927, em 15 tomos, que viria substituir
a Nova Geografia Universal de Reclus, ainda bastante
difundida na França.
Mas a Escola Geográfica Francesa não apresentava
uma estrutura monolítica, havendo muitos dos geógrafos
nela classificados que aceitavam, em parte, as idéias de
Vidal de la Blache e discordavam do mestre em outros.

19 SORRE, Max. La notion de genre de vie et la valeur actualle. Annales


de Géographie, Paris, 1948. Ano VII.

112
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Merecem maior destaque Emanuel de Martonne, que,


após a morte de la Blache, coordenou as notas e artigos
deixados pelo mesmo, reunindo-os em livros em que
procurou sintetizar o pensamento do grande geógrafo. 20
Ele é famoso por haver desenvolvido os estudos de
Geografia Física, tendo publicado um Tratado de Geogra­
fia Física em três volumes, com edições sucessivas, sempre
atualizadas e corrigidas, e que durante décadas foi o livro
básico dos estudos desta disciplina. Martonne foi muito
influenciado pelas idéias do norte-americano W. M. Davis,
que formulou uma teoria geral sobre evolução do relevo,
admitindo que ela era comandada pelo escoamento fluvial
- tipo dominante nos países de clima temperado - e de
forma cíclica, apresentando-se o relevo jovem, quando
ainda muito escarpado e pouco erodido, maduro e velho,
quando o processo erosivo chegada ao fim de sua obra.
Apesar de aceitar as idéias centrais do geomorfólogo
americano, Martonne atenuou a rigidez das mesmas,
salientando que as formas de relevo evoluem de forma
diferente em condições climáticas e em estruturas
geológicas diversas . Não foi ao extremo de alguns discípu­
los do mestre famoso que consideravam o sistema de
erosão fluvial como normal e os demais sistemas como
exceções ou até como acidentes, como ocorreria com o
geomorfólogo belga Paul Maçar.21 Esta linha geomor-

20
BLACHE, Vidal de la. Princípios de geografia humana. Lisboa,
Cosmos, s.d. Ainda sobre a Escola Geográfica francesa há uma bibliografia
muito rica, em que se destacam os livros de MEYNIER, André. Histoire de
la pensée géographique em France. Paris, PUF, 1968; BERDOULAY,
Vincent. La formation de l'école française de géographie (1870-
1914). Paris, Publiotheque Nationale, 1981. GEORGE, Pierre et alli. Les
géographes françaises. Bulletin de la Section Géographie, LXXXI . Paris,
1975 -
21
MAÇAR, Paul. Príncipes de géomorphologie normale. Masson. Liege,
1946.

113
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

fológica seria seguida por Henry Baulig22 e por Pierre


Birot,23 que aceitavam a teoria cíclica, mas admitiam uma
variação zonal dos sistemas de erosão; preocupavam-se
com evolução das vertentes e admitiam que o processo era
dinâmico e não estático, o que levava a aceitar que um
ciclo nunca era concluído, sendo substituído por outro,
dando margem a que o relevo fosse policíclico e dinâmico.
Jean Brunhes viveu na Suíça, onde foi professor da
Universidade de Friburgo, mantendo grande contato com
os alemães, e os seus estudos tiveram concentrada
preocupação com temas como o da irrigação na Espanha e
no norte da África. Publicou uma geografia humana na
qual classificou os fatos de ocupação do espaço em três
grandes grupos: os fatos de ocupação produtiva do solo, os
de ocupação improdutiva do solo e, finalmente, os de
ocupação destrutiva.24 Sua ligação ao pensamento alemão
fez com que não desprezasse tanto as formulações teóricas
gerais e que desse grande importância ao estudo das
relações entre o homem e o meio natural. Preocupou-se
com os problemas antropológicos, fazendo com que os
seus estudos monográficos dessem grande importância à
análise de técnicas e seus seguidores chegaram a publicar
uma revista25 dedicada, a um só tempo, à Geografia
Humana e à Etnografia. Também Pierre Deffontaines,

22 BAULIG, Henry. Essais de géomorphologie. Paris. Société d' Édition Les


Belles Lettres, 1950 ; e Vocabulaire franco-anglo-allemand de
géomorphologie. Paris, 1956.
23 BIROT, Pierre. Pécis de géographie physique générale. Paris. Armand
Coiin, 1959; e Le cycle d'érosion sous les differents climats. Rio de
Janeiro, Faculdade Nacional de Filosofia, 1960.
24 BRUNHES, Jean. La géographie humaine. 4.ed. Paris, Felix Alcan,
1934· 3 v.
25 La Revue de Géographie humaine et d'ethnologie, dirigida por
Pierre Deffontaines e André Lerol. Paris, Gourhan, 1948. 4 v.

114
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

que foi muito influenciado por suas idéias, dirigiu na


Editora Gallimard, por muitos anos, uma coleção de
livros de Geografia Humana, cujos títulos estavam
ligados sobretudo às relações entre o homem e o meio.26
Aproximando-se de Camille Valloux, publicou em colabo­
ração com este um livro de análise de geografia histórica. 27
Camille Valloux é uma figura singular na geografia
francesa da primeira metade do século XX; escreveu livros
diversos sobre geografia histórica, geografia política,2s em
que faz uma classificação das fronteiras em três tipos, as
vivas, as mortas e as esboçadas, e outros sobre a geografia
dos mares, 29 preocupado não só com as noções básicas de
oceanografia, como também com a exploração econômica
do espaço oceânico.
Os estudos de geografia política não ficaram apenas
com Valloux, de vez que, como a França possuía o segundo
maior império colonial do mundo, passou a realizar
estudos sobre a geografia das suas colônias, aprofundando
o conhecimento do meio tropical e das formas de
exploração dos recursos existentes no mesmo, e a
racionalizar as formas de dominação colonial. George
Hardy escreveu livro clássico sobre o assunto, retomando
idéias de Reclus ao fazer uma tipologia dos países
colonizados em três grupos : colônias de exploração,

26 Entre outros títulos podem ser salientados: DEFFONTAINES, Pierre.


L'homme et la foret. 22 ed. Paris, Gallimard, 1933; BLACHE, Jules.
L'homme et la montagne. 19 ed. Paris, Gallimard. 1931; RUE, Albert de la.
L'homme et les iles, 1956; e L'homme et le vent. 11 ed. Paris.
Gallimard, 1940; PRAT, Henri. L'homme et le sol. 6 ed. Paris. Gallimard,
1949·
27 VALLOUX, Camille & BRUNHES, Jean. La géographie et l'histoire.

Paris, Felix Alcan, 1921.


28 Idem. Géographie sociale; le sol et d'état. Paris. Enciclopedie
Scientifique, 1911.
29 Idem. Géographie sociale; la mer. Paris. Enciclopedie Scientifique, 1908.

115
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

colônias de povoamento e colônias de posição.3° A Uni­


versidade de Bordeaux foi o principal centro de estudos
coloniais. Com a descolonização, a expressão Geografia
Colonial foi substituída pela Geografia Tropical,
procurando não só atenuar o choque sobre os colonizados,
como também utilizar métodos de estudos e de análise
mais compatíveis com o processo de descolonização .
Ainda merecem referência entre os grandes geógra­
fos da escola clássica francesa nomes como os de Max
Sorre, de orientação profundamente ambientalista e que
retomou uma linha biológica para a explicação dos fatos
geográficos, tendo escrito um livro fundamental31 para a
compreensão desta linha de pensamento e se preocupado
com as relações entre a Geografia e as ciências sociais;32
Roger Dion, que dentro da tradicional linha historicista da
geografia do século XIX desenvolveu estudos de geografia
humàna retrospectiva,33 levando geógrafos e historiadores
a fazer a reconstrução mental das formas de espaço
produzidas no passado e os processos que levaram à
construção e à reconstrução das mesmas ; André Chollay,
retomando os estudos de caracterização das regiões
geográficas, destacou a importância do homem como
organizador, como produtor das regiões,34 revolucionando
a concepção dominante de que as regiões geográficas eram
verdadeiras regiões naturais.
Em um estudo como este não se pôde aprofundar o
pensamento de numerosos outros geógrafos franceses da

3o HARDY, George. Géographie et colonization. Paris. Gallimard, 1933.


3' SORRE, Max. Les fondarnents de la géographie humaine. Paris,
Armand Collin, 1951.
32 Sobre o assunto é interessante consultar MENGALE, Januário Francisco.

Max Sorre. São Paulo, Ática, 1984; e Geografia e sociologia em Max


Sorre. São Paulo, IPE/USP, 1985.
33 DION, Roger. Histoire de la vigne et du vin em France; des origines

au XIX siecle. Paris, 1959.


34 CHOLLAY, André. La géographie; guide de l'étudiant. Paris, PUF, 1951.

116
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

primeira metade do século XX, que deram grande


contribuição à consolidação da geografia como ramo do
saber, frente a outras ciências sociais. Merecem referência,
entre outros, Albert Demangeon, por seus estudos mono­
gráficos; Raul Blanchard, por sua preocupação com a
geografia das áreas montanhosas; Daniel Faucher, que deu
grande contribuição ao desenvolvimento da Geografia
Agrária etc.
De forma geral pode-se admitir que a Escola
Geográfica Francesa, apesar das divergências que natural­
mente existiam entre os seus principais mestres, caracteri­
zou-se por acentuada preocupação regionalista, por
uma orientação ideográfica, por uma posição política
conservadora, encoberta por neutralidade científica, e por
dar grande importância a descrição, embora não menos­
prezasse a explicação . Profundamente ligada à Universi­
dade, à formação cultural, teve de se transformar para se
adaptar às novas condições criadas pela Segunda Guerra
Mundial, quando o geógrafo foi chamado a participar da
reconstrução, do planejamento ; teve de depender menos
da análise do homem/meio e dar maior importância ao
papel da indústria e das cidades na produção e na reorga­
nização do espaço.

6-4 A ESCOLA BRITÂNICA

A Escola Britânica, em grande parte ligada às


Universidades de Cambridge e Oxford, foi muito influen­
ciada pela Escola Francesa, valorizando os estudos
regionais e preocupando-se com gêneros de vida.3s Na
Inglaterra, o papel das sociedades exploradoras ganhou
importância considerável em face da necessidade que os

3s CLAVAL, Paul. Ob. cit. p. 61-2.

117
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

ingleses tinham, como colonizadores de territórios e de


povos situados nas mais diversas zonas da Terra, de
conhecer os problemas dessas áreas e de dominar os povos
que nelas habitavam; povos que tiveram a sua economia
direcionada no sentido de atender às necessidades
inglesas. Nesses estudos se observa, de forma gritante, o
comprometimento ideológico da Geografia36 e a sua
preocupação militar. Foi necessário, para o geógrafo
inglês, analisar a importância das comunicações e das
relações entre o dominante e os dominados, assim como
entre os diversos povos dominados,37 para melhor exercer
a sua prepotência. Daí a importância adquirida pela
Geopolítica e a importância e o prestígio, no pensamento
inglês, das idéias pregadas pelo geógrafo e parlamentar
Helford J. Mackinder. Este pensador desenvolveu suas
idéias em vários livros, mas a conferência que pronunciou
na Sociedade Geográfica Real em Londres, a 25 de janeiro
de 1904, marcou época pela sintetização que fez da
situação geopolítica mundial.38
Nesta conferência, ele admitiu a existência de áreas
coração ou país pivô, que se encontram em um ponto
central que o beneficia como centro potencialmente forte
para dirigir agressões e dominar os países vizinhos e
também aqueles que se apresentam, em face da sua
extensão, sob ameaça dos povos vizinhos. Considerou a
Eurásia - Europa, Ásia e África do Norte - como a área
central, em escala mundial desde a expansão dos descobri-

36 SOBRE, Nelson Werneck. Introdução à geografia; geografia e ideologia.


2.ed. Petrópolis, Vozes,1977· Estuda as vinculações entre geografia e ideologia.
37 Para compreender a dinâmica da dominação é interessante consultar

RECLUS, Élisée. O problema colonial. ln ANDRADE, Manuel Correia de.


Élisée Reclus. São Paulo, Ática, 1984. p. 109-30.
38 MACKINDER, Helford John. El pivot geográfico de la historia. ln:

RAITENBACH, Cel. Augusto B . Antologia geopolítica. Buenos Aires,


Preamar, 1975. p. 63-81.

118
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

mentos e da dominação colonial, considerando a vocação


da mesma para dominar o mundo. Admitindo grande
influência das condições naturais sobre o desenvolvimento
e a história da humanidade, afirmou que na Idade Média
os povos europeus que viviam em áreas de relevo
acidentado e de cobertura florestal foram atacados por
hordas de bárbaros vindos do Oriente, utilizando cavalos,
e por navegadores vikngs vindos da Escandinávia. Esses
ataques colocaram os europeus ocidentais em situação de
perigo e os forçaram a uma reação que foi coberta de êxito,
porque, ao saírem de suas áreas, os povos cavaleiros
perderam a sua mobilidade e, ao abandonarem a costa e os
rios navegáveis, os vikings perdiam sua condição de
combate. A necessidade da defesa e a maior concentração
demográfica nas áreas florestais e agrícolas fortaleceram
os europeus que, da defensiva, passaram ao ataque, por
terra, por ocasião das cruzadas, ou por mar, com os
grandes descobrimentos dos séculos XV e XVI.
Os nômades foram contidos, seus impérios desmo­
ronaram após campanhas sucessivas e os europeus
puderam fundar colônias em toda a superfície da Terra.
Nesta expansão destacaram-se os russos com os cossacos,
que conquistaram toda a Sibéria e a Ásia Central,
atingindo o Alasca, e os britânicos que ocuparam pontos
fundamentais nas Américas, na Ásia, na África e na
Oceania. O cavalo e o camelo, na porção terrestre, para
esta expansão, tiveram tanta importância quanto as
embarcações, na marítima. No século XIX, as estradas
de ferro substituíram os animais no avanço terrestre,
surgindo como unificadoras de Estados as estradas
transcontinentais da Rússia, dos Estados Unidos e do
Canadá.
Segundo Mackinder, a Eurásia formava grande área
coração, tendo em torno dela um arco exterior formado

119
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

pela Inglaterra, África do Sul, Estados Unidos, Canadá e


Japão. Descendo a uma escala menor, ele admitia que a
Rússia, formava uma área coração, tendo um arco
formado pela Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China, e
que os países situados na área nuclear, central, tinham
melhores condições de exercer sua influência, seu poder de
pressão sobre os demais. Naturalmente que j á antevia uma
desestruturação do domínio russo em face do perigo de
uma revolução social, vendo pontos em que este país
poderia ser atacado pelas forças inglesas, no mar Negro e
no Meganistão. Daí certamente o apoio inglês e de seus
aliados à revolução anarquista na Ucrânia, no início da
década de 20, e as preocupações ocidentais com a invasão
soviética ao Afeganistão.
Para ele, o Oceano Atlântico era a linha de limite
entre o Ocidente (Eurásia) e o Oriente, e neste oriente uma
área coração era representada pelos Estados Unidos, que
utilizando o poder terrestre, estendera os seus domínios
até o Pacífico e que no século XX, apossando-se de
colônias e de protetorados no Caribe e no Pacífico e
ligando' os dois oceanos pelo canal de Panamá, expandiria
o seu domínio, a sua área de influência sobre a América
Latina e o Pacífico.
Meditando-se hoje sobre os seus ensinamentos,
chega-se à conclusão de que no começo do século XX,
baseado em suas concepções políticas bastante impreg­
nadas de determinismo, Mackinder previa a grande
disputa pelo domínio mundial que no século XX, nos fins
da década de 8o, se desenrolou entre soviéticos e
amencanos.
Se os ingleses deram maior importância pragmática
à Geografia para uso externo, também souberam fazê-lo
para uso interno. Assim, durante a Segunda Guerra
Mundial, quando a Inglaterra, bloqueada pelos alemães,

120
120

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-------· ----

GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

viu-se sujeita a bombardeios diários e à falta de alimentos


essenciais, foi outro geógrafo, Dudley Stamp, o professor
da Escola de Ciências Sociais de Londres, quem orientou e
dirigiu o planej amento regional para melhor reorganização
do território, desenvolvendo a política que se chamou
Town and Coutry Planning, que previa a regionalização da
agricultura na Grã-Bretanha e a reconstrução de forma
descentralizada das cidades que apresentavam grande
concentração demográfica. Assim, para Londres, que
estava sendo destruída pelos grandes bombardeios, ele
previu não a construção nas linhas anteriores, mas a
reconstrução dos edifícios destruídos acompanhada da
implantação, em torno da capital e, a certa distância, de
uma série de cidades satélites cuja população não deveria
exceder algumas dezenas de milhares de habitantes, por
cidade.39 Estas cidades não seriam simples dormitórios,
porque haveria o problema do fluxo e refluxo nas horas de
início e de fim do período de trabalho, em uma e outra
direção, mas cidades dotadas de serviços e de indústrias
que empregassem certa quantidade de pessoas e ofereces­
sem a estas os serviços essenciais. Com isto seria com­
trolado o crescimento urbano excessivo, que preocupava
os estudiosos e os administradores, e simplificava-se o
problema dos transportes, de segurança, de abaste­
cimento, de saneamento etc. Dudley Stamp iniciava desse
modo uma geografia pragmática, para uso interno de cada
país, e que teria grande importância, no pós-guerra, em
diversos países, embora com nomes diferentes, como
organização do espaço, na Holanda; aménagement du

39ANDRADE, Manuel Correia de. Estuda o problema em Geografia;


região e desenvolvimento. 3. a ed. Recife, Imprensa Universitária, 1977; e
Espaço, polarização e desenvolvimento. s. a ed. São Paulo, Atlas, 1987.

121
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

territoire, na França; planejamento regional, no Brasil, e


que levaria o geógrafo a participar de equipes multidisci­
plinares em trabalho nos órgãos governamentais.
Nesta nova fase a Geografia iria continuar a ter
preocupações com o regional, mas passava a usar maiores
escalas, passando muitas vezes a ser utilizada em escala
nacional ou até pelas organizações internacionais, a nível
continental.

6.5 A ESCOLA NORTE-AMERICANA

A Escola Geográfica Norte-americana desenvolveu­


-se a partir da segunda metade do século XIX, tendo sido
muito estimulada pela migração de dois geógrafos suíços
para os Estados Unidos. Arnold Guyot e Louis Agassiz, que
desenvolveram estudos de geografia regional e de
geomorfologia, de acordo com os modelos germânicos.
O segundo realizou estudos tambéní no Brasil, sobretudo
na área da Amazônia, 4° desenvolvendo uma linha
ecológica, inspirada nos trabalhos de George Perkins
March.
Em conseqüência o aparte destes dois mestres, teve
a geografia americana maior desenvolvimento em seus
aspectos físicos, destacando-se J. W. Powell, na geomorfo­
logia, estudando o Oeste, e William Morris Davis, que foi o
grande teorizador da geomorfologia em seu tempo, de vez
que foi o autor da teoria do ciclo de erosão fluvial, baseado
nas observações feitas nos Estados Unidos, em áreas de
clima temperado úmido. Suas teorias tiveram grande
aceitação nos Estados Unidos e na Europa. Com o apro­
fundamento dos estudos regionais, porém, observou-se
que não havia um único sistema de erosão para toda a

4°AGASSIZ, Louis & CARRY, Elisabeth. Viagem ao Brasil (t865-1866).


São Paulo, Nacional, 1938.

122
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

superfície do planeta em face da dialética dominante nas


relações entre os fatores naturais e a ação do próprio
homem, o ciclo de erosão era uma imagem abstrata
que nunca se concluía, sendo interrompido du rante o
seu processamento por fatores os mais diversos, como
movimentos eustáticos, movimentos epeirogênicos, modi­
ficações nas condições climáticas, ação do homem etc.
O próprio Davis, que escreveu durante mais de 30 anos,
admitiu a existência de outros sistemas erosivos, conside­
rando-os, porém, como acidentes climáticos ou tectô­
nicos.41
Quanto à geografia humana, os historiadores
da Geografia admitem a existência de duas escolas
americanas, a de Chicago e a de Berkeley.42 Na primeira
dominariam geógrafos inspirados em Ratzel, como a
Senhora Elen Semple e E. Huntington. A primeira levou ao
extremo as teorias deterministas, o que servia para
legitimar a expansão norte-americana para o Oeste,
dizimando as tribos indígenas, e para o Sul conquistando
mais da metade do território mexicano. Como homens de
clima temperado e de raça branca, anglo-saxões, os ameri­
canos da Nova Inglaterra julgavam-se superiores a índios e
latinos e podiam expandir os seus domínios sobre as terras
que conquistavam. Depois, baseando na doutrina de
Monroe, expandiriam estes domínios pelas Américas
Central e do Sul. Huntington, também determinista, em
livros muito bem escritos43 afirmava que as civilizações só
poderiam surgir nas regiões de clima temperado, o que
justiçava uma política de dominação sobre povos tropicais.

4' DAVIS, Wlliam Morris. Geographical essays. New York, Dover


Publications, 1954.
4 2 CLAVAL, Paul. Ob. cit. 75-81.
43 HUNTINGTON, Ellsworth. Lãs fuentes de la civilizatión. México Aires,
Fondo de Cultura Econômica, 1949; e Principies of human geography.
New York, John Wiley & Sons, 1951.

123 12 3
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

A Escola de Berkeley ou da Califórnia teve a sua


principal figura em Carl Sauer, que também se deixou
influenciar profundamente por geógrafos alemães, como
Hettner, e pela chamada escola histórico-cultural. Traba­
lhando no Oeste, em área de clima seco, desértico, ele
observou e analisou as civilizações indígenas, admitindo
um condicionamento da atividade humana pelo meio
físico, com a adaptação das civilizações ao meio natural.
Dando grande importância às culturas, ele aproximou a
Geografia da Antropologia, como acontecera na França
com os discípulos de J. Brunhes.
Finalmente, o teorizador da Geografia da escola
clássica norte-americana foi Richard Hartshorne, que
muito influenciado pelo pensamento de Hettner, procurou
desenvolver reflexões sobre a epistemologia, sobre a
natureza da Geografia como ciência. Em dois livros,
A natureza da geografia, publicado em 1939, e
Propósitos e natureza da geografia, publicado em
1966, desenvolveu as teses do mestre alemão a quem
seguia e especulou sobre a análise das inter-relações entre
os fenômenos, admitindo duas formas de estudá-los: ou
partir do particular, da região, quando se fazia a geografia
a que chamou de Ideográfica, ou de forma generalizadora,
aquilo que se considera como Geografia Geral, ao se fazer
o que denominava Geografia Nomotética.44 Hartshorne
pode ser considerado o maior teorizador da escola clássica
nos Estados Unidos.

44O livro Propósitos e natureza da geografia foi publicado no Brasil, em


sua 2. a edição, pela Hucitec/USP, São Paulo, 1978. Antônio Carlos Robert de
Moraes, no seu livro Geografia; pequena história crítica. s . a ed. São Paulo,
Hucitec, 1986, desenvolve interessante estudo sobre a importância da obra de
Hartshorne nas páginas 84-92.

124
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Ainda hoje as escolas de Chicago e de Berkeley


representam os dois centros mais importantes de estudos
geográficos nos Estados Unidos. Na primeira Universidade
teria grande destaque, no pós-guerra, a aplicação dos
métodos quantitativos à Geografia.

6 . 6 A ESCOLA RUSSA

A geografia russa do período imperial recebeu


grande influência do pensamento alemão, em vista da
proximidade geográfica entre os dois países e das relações
culturais estabelecidas desde o tempo de Pedro, o Grande.
Vivendo em uma região de condições climáticas muito
rigorosas e tendo dificuldades para o desenvolvimento da
agricultura, os russos concentraram os seus estudos nos
climas e nos solos, daí o grande desenvolvimento da
pedologia.
As variações zonais das formações vegetais que se
sucedem de norte a sul fazem com que a paisagem, do
ponto de vista fisionômico, seja muito marcada pela
vegetação. Como conseqüência, Doukontchev tentou
classificar as paisagens do ponto de vista fitogeográfico.
A exploração das terras árticas, já iniciada no século
XIX por Kropotkin, fez com que os russos trouxessem
para a geografia precioso conhecimento sobre os sistemas
de erosão glaciar e periglaciar, assim como sobre os
problemas de escoamento fluvial desta região . Os rios que
congelam no inverno e em geral só descongelam no verão,
como os baixos cursos do Lena, do Ob e do Yenessey,
apresentam grande complexidade no seu regime; esses
rios, correndo para o norte, têm o seu degelo na primavera
no alto e médio curso; no verão,o degelo acontece no baixo

125
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

curso, o que aumenta consideravelmente o volume das


inundações. Os russos também se preocuparam muito com
o avanço das culturas agrícolas para o norte, para as
regiões onde os períodos em que os solos não estão
cobertos pelo gelo são cada vez menores e as plantas
necessitam ter um ciclo vegetativo mais curto.
Com a revolução bolchevista e a aplicação do plane­
j amento à Economia, os geógrafos foram convocados para
prestar serviços nos trabalhos de construção de novas
cidades, de vias de comunicação e de organização do
espaço agrícola e industrial, a fim de corrigir os desníveis
de desenvolvimento regional. Foram também largamente
utilizados nos planos de ocupação das áreas desérticas da
Ásia Central, onde se desenvolveram culturas tropicais,
como a do algodão e a da cana-de-açúcar.
Como os soviéticos foram os pioneiros na planifi­
cação da economia e também os pioneiros na compre­
ensão de que a importância da geografia não era apenas
cultural, acadêmica e política, mas também que ela
poderia ser aplicada no planejamento do território, tal fato
abriu largas perspectivas de inovação para os trabalhos do
geógrafo.4s
Poderíamos analisar ainda as escolas nacionais,
mais ou menos autónomas umas das outras, mas
observamos que o abandono do evolucionismo e o
interesse pelo conhecimento da realidade levaram a uma
diversificação da Geografia nos vários Estados. Em geral,
porém, a geografia clássica manteve-se ambientalista -
dentro de princípios ora mais ora menos ortodoxos - na
análise da relação entre o homem e o meio ambiente,

45ACADEMIA DE CI ÊNCIAS DA URSS.Recueil des articles pour le


XVIII Congrés International Géographique. Moscou, Leningrado, 1956.

126

126

--------�-���- - � - -
------- -

GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sendo a unidade da ciência mantida. A Segunda Guerra


Mundial traria modificações acentuadas na superfície da
terra, nas relações entre os homens na sociedade e nas
relações entre a sociedade e a natureza, o que deu margem
a grandes transformações, abrindo novos caminhos,
novas perspectivas ao conhecimento geográfico. As super­
estruturas são condicionadas pelas infra-estruturas, e a
Geografia, a cultura, é uma superestrutu�a.

127

127
128
7
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA
GEOGRAFIA BRASILEIRA

7. 1 ANTECEDENTES

ensino e a pesquisa da geografia no Brasil

O só se institucionalizariam após a Revolução


de Trinta, quando a burguesia e a classe
média urbana passaram a ter maior influência sobre o
governo e a atenuar o poder da burguesia agrário­
exportadora. É bem verdade que ainda na chamada
República Velha foram publicados livros de interesse geo­
gráfico, influenciados sobretudo pelos geógrafos alemães e
franceses,mas eram publicados desvinculados de um
movimento organizado. Deixando de lado os livros que
apenas incidentemente tinham interesse geográfico, po­
demos apontar como especificamente geográficos os
trabalhos de Delgado de Carvalho, abordando temas de
geografia regional,1 de geografia física2 e de metodologia e

1 CARVALHO, Delgado de. Le Brésil meridional; étude économique sur les


états de sud. Paris, Garnier, 1910.

129
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

ensino da geografia,3 dentro dos padrões teóricos da escola


clássica francesa; os estudos de Raimundo Lopes sobre
o Maranhão4 e sobre geografia humana,s denotando
grande influência ratzeriana e ainda uma tese para
concurso de cátedra, defendida no Ginásio Pernambucano
por Agamenon Magalhães, 6 que se notabilizaria posterior­
mente como constitucionalista e como político militante.
Nesta tese, o autor mostrava conhecer bem a obra de Vidal
de la Blache e de alguns dos seus discípulos e procurava
aplicar estes princípios à análise da problemática do
Nordeste brasileiro.
Nos grandes projetas de geografia Universal fran­
ceses, nos fins do século XIX e no início do século XX , o
Brasil esteve presente, estudado a nível e proporções
condizentes com a sua importância e com a sua dimensão
territorial. Na Nova geografia universal, de Élisée
Reclus, a parte destinada ao Brasil, que recebeu a
colaboração do Barão do Rio Branco, é muito interessante,
quer pelas acuradas descrições, quer pelas ilustrações, pela
precisão dos conceitos e afirmativas. Ela foi traduzida pelo
Barão de Ramiz Galvão e publicada em português,? tendo
larga difusão. O Brasil esteve presente ainda no projeto de

2 Idem. Météorologie du Brésil. Londres, John Bale, Sons & Danielson,


1917; e Physiographie du Brésil. Rio de Janeiro, Brigulet, 1926.
3 Idem. Methodologia do ensino geográfico; Introdução ao estudo da

geografia moderna. Petrópolis, Vozes, 1925; e Corografia do Brasil. Rio de


Janeiro. Francisco Alves, 1926.
4 LOPES, Raimundo. Uma região tropical. 3. a ed. Rio de janeiro, Fon Fon e
Salete, 1970.
s Idem. Antropogeografi.a. Rio de Janeiro, Nuseu Nacional, 1956.
Publicações avulsas.
6 MAGALHÃES , Agamenon. O nordeste brasileiro. 2.a ed. Recife,
Secretaria de Educação e Cultura, 1970. Introdução de Manuel Correia de
Andrade.
7 RECLUS, Éliée. Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro, Garnier, 1900.

130

130
L
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Vidal de la Blanche e L. Galois, com um estudo minucioso


e aprofundado feito por Pierre Denis, no qual caracteriza
bem a situação do País, no momento em que a obra foi
elaborada. s
Numerosos estudos foram ainda escritos naquele
período sobre problemas geográficos, por autores que se
projetariam depois da década de 30, como Everardo
Backheuser,9 Mário Travassos10 e Lysias Rodrigues.n
Eram autores que ora se preocupavam com a projeção
do prestígio brasileiro na América Latina, ora cOm a
organização político-administrativa do País. É claro que
a contribuição desses autores não se iniciou com a
publicação desses livros, pois já haviam publicado
anteriormente artigos para revistas, jornais e livros de
menor divulgação.
A Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e os
institutos históricos e geográficos existentes nos estados
contribuíram também, durante dezenas de anos, com
estudos de levantamento de dados e informações, não
só de interesse histórico e geográfico, como também
arqueológico, antropológico e político, que podem ser
consultados como fonte de informação em suas revistas.
O estudo e o ensino de Geografia do Brasil, em nível
superior, porém, só seriam institucionalizados após a
Revolução de Trinta, quando criadas as Faculdades de
Filosofia, Ciências e Letras, na Universidade de São Paulo

s BLACHE, Vidal de la & GALOIS, L. Géographie universelle. Paris,

Armand Colin, 1977. T. XV, La partie, p. 88-204.


9 BACKHEUSER, Everardo. A geopolítica geral e do Brasil. Rio de
Janeiro, Biblioteca do Exército, 1932.
10
TRAVASSOS, Mário. Projeção continental do Brasil. 4. a ed. Rio de
Janeiro, Nacional, 1947.
11 RODRIGUES, B. Lysias. Geopolítica do Brasil. Rio de Janeiro,Biblioteca
Militar, 1947.

13 1
131
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

(1934) e na Universidade do Distrito Federal (1935), atual


Universidade Federal do Rio de Janeiro.12 Ainda na década
de 30 o Governo Federal criaria, no Rio de Janeiro, o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com três
Conselhos, o de Geografia, o de Cartografia e o de
Estatística, que seriam utilizados para desenvolver o
conhecimento do território nacional e para racionalizar a
política de coleta de dados estatísticos, com influência na
própria administração. O IBGE seria a instituição que
primeiro admitiria a existência de profissionais de
geografia, não dedicados ao ensino, mas à pesquisa,
embora tenha fornecido professores a numerosas universi­
dades. Também de 1934 foi a fundação da Associação
dos Geógrafos Brasileiros (AGB), organizada inicialmente
pelo professor Pierre Deffontaines e que durante alguns
decênios prestou notáveis serviços ao desenvolvimento da
Geografia no Brasil.
Podemos admitir que o pensamento da escola
clássica francesa dominou a geografia brasileira desde a
implantação destas instituições até o XVIII Congresso
Internacional de Geografia, realizado no Rio de Janeiro,
em 1956; a partir daí começou a ser sentida a influência de
mestres de outras nacionalidades sobre os geógrafos do
Brasil; tal influência criou grande inquietação nos meios
geográficos e deu aos geógrafos maior participação no
planejamento a níveis nacional e regional. Essa transfor­
mação não pode ser marcada por data certa, a não ser para
estabelecer uma periodização. Daí admitirmos neste livro
o domínio do pensamento clássico, lablachiano na
geografia brasileira desde o início dos anos 30 até 1956,

'2 ANDRADE, Manuel Correíra de. Tendências atuais da geografia

brasileira. Recife, Asa, 1986. p. 9-12.

13 2

132
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sendo responsáveis pela difusão e adaptação deste pensa­


mento três frentes de trabalho: as universidades, o IBGE e
a AGB.

7.2 A AÇÃO DAS UNIVERSIDADES

Como já foi salientado, o início do ensino superior


da Geografia deu-se a partir de 1934, em São Paulo, e de
1935, no Rio de Janeiro. Ao montar a Universidade de São
Paulo, o governador Armando de Sales Oliveira convidou
vários professores franceses para virem exercer o magis­
tério na nova Universidade; em 1934, recebia a colabora­
ção, na área de Geografia, do professor Pierre Deffontaines
e, em seguida, do professor Pierre Mombeig, que subs­
tituiu aquele professor em 1935, quando o mesmo se
transferiu para o Rio de Janeiro.
O ensino da Geografia em São Paulo, dentro da boa
tradição francesa, estava muito ligado ao da História e da
Sociologia, tendo os dois mestres citados dado maior
ênfase à Geografia Humana e Regional; ao analisar as
regiões, levavam em consideração os aspectos físicos, mas
sobrepunham a estes os demográficos e os econômicos.
Estudos de Pierre Deffontaines sobre o Brasil13 e de
Pierre Mombeig, em ensaios e em teses,14 mostram
bem a aplicação da doutrina lablachiana. É verdade que
Mombeig, influenciado certamente por sólida cultura

13 DEFFOBTAINES, Pierre. El Brasil; la tierra y el hombre. Barcelona,


Editorial Juventud, 1944.
14 MOMBEIG, Pierre. Ensaios de geografia humana brasileira. São
Paulo, Martins, 1940; Novos estudos de geografia humana brasileira.
São Paulo, Difel, 1975; Plonnier et planteurs de São Paulo. Paris ,
Armand Colin, 1962; e La croissance de la ville de São Paulo. Grenoble,
Institut de Géographie Alpine, 1953.

133
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

histórica, j á na década de 30, preocupava-se com o papel


desempenhado pelo capital na Geografia e já utilizava a
classe social como categoria de análise.
Dispondo de maiores recursos e imprimindo um
espírito universitário mais comprometido com o ensino e a
pesquisa, a Universidade de São Paulo desmembrou a
cadeira de Geografia em disciplinas, que foram confiadas a
professores nacionais e incentivou a produção de teses de
doutoramento. A primeira tese de doutoramento em
Geografia, defendida no Brasil, ocorreu em 1944, quando a
professora Maria da Conceição Vicente de Carvalho
apresentou um trabalho intitulado "Santos e a Geografia
Urbana do Litoral Paulista", infelizmente não publicado.
Os catedráticos, para se efetivarem, apresentavam teses de
cátedra, como Aroldo Azevedo, 15 João Dias da Silveira,I6
Ary França17 e Dirceu Lino de Mattos,18 enquanto outros,
como os professores J. R. de Araújo Filho,I9 Nice Lecocq
Müller,20 Renato Silveira Mendes,21 Aziz N. Ab'Sáber,22

15 AZEVEDO, Aroldo de. Subúrbios orientais de São Paulo. São Paulo,


1945. Tese de cátedra.
16 SILVEIRA, João Dias da. Baixadas litorâneas quentes e úmidas. Boletim

da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. São Paulo, n.0


156, 1952.
17 FRANÇA, Ary. A Ilha de São Sebastião; um estudo de geografia humana.

Boletim da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. São


Paulo, n.0 178, 1954.
18 MATTOS, Dirceu Lino de. Vinhedos e viticultores de São Roque e
Jundiaí (São Paulo). São Paulo, Faculdade de Ciências Económicas da
USP, 1958.
1 9 ARAÚJO FILHO, J. R. A baixada do rio Itanhaém. Boletim da Faculdade

de Filosofia Ciências e Letras da USP. São Paulo,n.0n6, 1954.


20 MOLLER, Nice Lecocq. Sítios e Sítios e sitiantes no Estado de São Paulo.

Boletim da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. São


Paulo, n. 0 132, 1951.
21 MENDES, Renato Silveira. Paisagens culturais da Baixada Fluminense.

Boletim da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. São


Paulo, n. ° CX, 1950 .

1 34 134
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Pasquale Petroni23 etc., apresentaram teses de doutora­


mento, que foram aprovadas, servindo de degraus para a
ascensão à carreira do magistério. Nestas teses observa-se,
quase sempre, uma preocupação com o estudo mono­
gráfico regional, mas já se nota também preocupação com
problemas de geografia urbana e de geografia econômica.
Na primeira linha podem ser colocados os trabalhos de J.
R. de Araújo e de Pasquale Petroni, com os estudos
agrários, enquanto Aroldo de Azevedo desenvolve estudo
urbano, embora vendo a cidade de forma estática. Este
geógrafo também escreveu uma série de livros didáticos
para o 2 . 0 grau, orientado pelo s manuais franceses de
Demanjeon; Renato Silveira Mendes fez um estudo de
fundamentação histórica e cultural muito ao gosto de
Roger Dion, enquanto João Dias da Silveira e Aziz
Ab'Sáber dedicaram-se sobretudo à Geomorfologia. Com
sólida formação humanística, Ab'Sáber vem recentemente
reformulando o pensamento geográfico brasileiro, sobre­
tudo na área da Geografia Física, fazendo a análise do
meio ambiente.
A USP desdobrou-se não só ampliando os seus
cursos de graduação, fornecendo ao ensino médio mestres
bem formados, como também instituindo cursos de
especialização e incentivou a criação do doutoramento;
realizou pesquisas em que os seus mestres trabalharam em
colaboração, como, por exemplo, a que, sob a direção de
Aroldo de Azevedo, estudou a cidade de São Paulo.

22
AB'SÁBER, Aziz N. Geomorfologia do sítio de São Paulo. Boletim da
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. São Paulo, n.0 219,
1960.
2 3 PETRONI, Pasquale. A Baixada da Ribeira; estudo de geografia humana.

Boletim da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. São


Paulo, n. 0 283, 1966.

135
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Desenvolveu grande esforço para elaborar uma grande


geografia do Brasil,24 da qual publicou apenas dois
volumes. Posteriormente, o estudo sobre o litoral
paulista25 foi organizado por um grupo de professores
da USP. Atuou ainda de forma decisiva nos trabalhos
realizados pela AGB, que tem a sua sede instalada no
próprio Departamento de Geografia da USP.
Sem dispor dos recursos da USP, a Universidade do
Brasil teve também o seu corpo docente formado por
professores estrangeiros, como Pierre Deffontaines e
Francis Ruellan, o primeiro na área de Geografia Humana
e o segundo na da Geomorfologia, desenvolvendo e publi­
cando estudos importantes para o Brasil.26 Além destes
dois professores, teve a colaboração dos mestres brasi­
leiros Victor Ribeiro Leuzinger, 27 na área da geomorfo­
logia, Josué de Castro, na de Geografia humana e,
posteriormente, Hilgard O'Railly Sternberg na de geogra­
fia do Brasil.
A Universidade do Brasil teria grandes ligações com
o IBGE, de vez que muitos geógrafos recém-formados
foram trabalhar neste Instituto, que também recorria aos
professores da Universidade ao ministrar cursos de férias
para professores dos vários Estados. Mestres estrangeiros

24 AZEVEDO, Aroldo de. A cidade de São Paulo ; estudo da geografia


urbana. São Paulo, Nacional, 1958. 4 v.; e Brasil; a terra e o homem. São
Paulo, Nacional, 1964, 2 v.
25 A Baixada Santista; aspectos geográficos. São Paulo, Edusp, 19464/65.
2 6 RUELLAN, Francis. Estudo preliminar de geomorfologia do leste da

Mantiqueira. Boletim Carioca de Geografia. Rio de Janeiro, ano VI, n.0'


2,3 e 4, 1951 ; e O papel das enxurradas no modelado do relevo brasileiro.
Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, n.0' 13 e 14, 1953.
27 LEUZINGER, Victor Ribeiro. Controvérsias geomorfológicas. Rio
Janeiro, 1948. (Tese de cátedra.)

136
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

que permaneceram por período relativamente longo no


Brasil trabalharam simultaneamente nas duas instituições.
A figura de Josué de Castro merece uma análise
mais detalhada, por se tratar de um geógrafo brasileiro
que desfrutou de grande prestígio internacional, mas que,
discordando em grande parte da filosofia lablachiana, teve
pouca influência na formação dos geógrafos brasileiros,
inebriados com as influências vindas de outros países.
Josué de Castro, além de geógrafo, era político militante -
foi deputado federal em duas legislaturas - e defendia
posições de reforma social, o que dificultava a expansão de
seu pensamento, em um país dominado por grupos
políticos conservadores. Iniciando a sua vida como
médico, dedicado a problemas de fisiologia e alimentação,
impressionou-se com as carências alimentares da popu­
lação pobre do nordeste brasileiro e passou a procurar
as razões, as causas destas carências. Após numerosos
trabalhos orientou-se para a geografia da alimentação e
produziu seus dois principais livros sobre a problemática
da fome no Brasil e no mundo.28 Foi um geógrafo
combatente29 e teve no Brasil papel semelhante ao desem­
penhado por Élisée Reclus na França.
Outros geógrafos estrangeiros visitaram o Brasil
neste período, ficando aqui pouco tempo, mas deixando
contribuições valiosas a respeito do País, como Emanuel
de Martonne, Maurice le Lannou, Pierre Gourou, Leo
Waibel, Pierre Dansereau etc.

2s CASTRO, Josué de. Geografia da fome; a fome no Brasil. Rio de Janeiro.


O Cruzeiro, 1945; Geopolítica da fome. São Paulo, Brasiliense, 1968; e
A alimentação brasileira à luz da geografia humana. Porto Alegre,
Globo, 1937.
29 ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia, sociedade e cultura.

Mossoró, 1983. v. CCXCIII, p. 21-3.

137
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

O movimento iniciado nas universidades do Centro­


-Sul se expandiria, com menor intensidade, por outras
áreas do País onde já havia certa maturidade científica em
algumas universidades, antes mesmo da realização, no
Rio de Janeiro, do XVIII Congresso Internacional de
Geografia. Na Universidade Federal de Pernambuco um
pequeno grupo de geógrafos desenvolveu estudos de geo­
morfologia e de geografia agrária, ao mesmo tempo
em que, em colaboração com o Instituto Joaquim Nabuco
de Pesquisas Sociais, realizou estudos sobre os proble­
mas causados pelo lançamento do vinhoto . nos rios.3°
Na Universidade Federal da Bahia foram desenvolvidos
estudos sobre a região cacaueira31 e sobre a cidade de
Salvador,32 possibilitando, a partir de 1956, a vinda de
mestres estrangeiros, como Jean Tricart, e a implantação
do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais; na
Universidade de Minas Gerais, com a colaboração de
mestres franceses, desenvolveram-se estudos de geografia
humana e na do Paraná tiveram grande importância os
estudos de geomorfologia.
Quando foi realizado o XVIII Congresso Interna­
cional de Geografia, no Rio de Janeiro, grande número de
professores e alunos desta e de outras universidades
compareceu ao mesmo, redigindo guias de excursão,
apresentando teses e comunicações e participando de
debates. Pode-se afirmar que a Geografia brasileira estava

3° ANDRADE, Gilberto Osório de. Os rios do nordeste oriental, I - O rio


Ceará-mirim, III - o rio Paraíba do Norte; Recife, Instituto Joaquim
Nabuco de Pesquisas Sociais, 1953 e 1956; e ANDRADE, Manuel Correia de.
II - o rio Mamanguape; e IV - os rios Coruripe. Jiquiá e São
Miguel. Recife, Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1954 e 1957.
3l SANTOS, Milton. Zona do cacau. São Paulo, Nacional, 1955 .

3 2 Idem. O centro da cidade de Salvador. Salvador, Universidade da

Bahia, 1959.

138
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

madura e que se encontrava apta a participar das grandes


transformações que se processavam na sua natureza e na
sua metodologia.
Entre os grandes benefícios trazidos à Geografia
brasileira pelo XVIII Congresso Internacional de Geogra­
fia, podem ser salientados os vários cursos ministrados
pelos grandes mestres europeus e norte-americanos, em
universidades brasileiras. O principal deles foi o Curso
de Altos Estudos Geográficos, coordenado por Hilgard
Sternberg, na Universidade do Brasil, para 40 professores
assistentes de universidades brasileiras, procurando
dar-lhes visão geral da situação em que se encontrava a
ciência geográfica. Neste curso foram ministradas aulas de
Cartografia Temática por E. Rainz; . de Fitogeografia,
dentro de uma linha ecológica por Carl Troll; de
Sedimentalogia de Areias e Seixos, com trabalhos práticos
e uso de métodos estatísticos, por André Cailleux; de
Geomorfologia, a respeito do ciclo de erosão nos climas
tropicais úmidos, por Pierre Birot; de Geografia Agrária de
Países Tropicais, por Pierre Mombeig; de Geografia da
Pecuária, por Pierre Deffontaines, e, finalmente, de
Geografia Histórica da Expansão Portuguesa no mundo,
por Orlando Ribeiro.
Em outras universidades foram ministrados cursos,
como o de Jean Tricart, sobre as zonas morfoclimáticas em
que foi feita uma crítica à geomorfologia de Morris Davis,
demonstrando que os sistemas de erosão se encontram na
dependência de uma distribuição zonal, teoria que vinha
sendo desenvolvida pelo mestre francês, com forte forma­
ção dialética e sob influência de mestres alemães. Estas
idéias seriam desenvolvidas posteriormente em livros que
marcaram época.

139 1 39
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Dos cursos ministrados em vários Estados do


Brasil, das discussões travadas nas reuniões do próprio
Congresso, das conferências feitas em vários locais e das
publicações distribuídas durante o conclave, os geógrafos
brasileiros foram levados a uma reflexão maior sobre
métodos, técnicas e objetivos da ciência geográfica e sobre
a natureza da Geografia e dos objetivos a serem atingidos
com a sua utilização. Preparava-se assim o caminho para o
abandono gradual do modelo clássico e a procura de novos
métodos que iriam depender, naturalmente, da formação e
das convicções dos geógrafos, assim como da evolução
político-administrativa do País.

7-3 A CONTRIBUIÇÃO DO IBGE

Fundado em 1937, quando as faculdades de forma­


ção de geógrafos davam os primeiros passos, é natural que
o novo Instituto absorvesse, como geógrafos, pessoas de
outras formações profissionais, mas que se interessavam
pelos estudos geográficos, sobretudo os engenheiros civis;
daí a colaboração dada por Teixeira de Freitas, Cristovam
Leite de Castro e José Veríssimo. Incluiu em seus quadros
jovens diplomados em Geografia pela Universidade do
Distrito Federal e do Brasil, como Orlando Valverde e
Eloísa de Carvalho, recebeu estudantes de geografia
como estagiários e trouxe professores estrangeiros para
ministrar cursos e conferências e dirigir trabalhos de
pesquisa de campo.
Para a formação de geógrafos no Brasil o IBGE
o q?;anizou duas publicações que tiveram a maior impor­
tância: o Boletim Geográfico, com 259 números editados,
no período 1943/78, em que eram publicados principal-

14 0
140
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

mente artigos transcritos de outros periódicos nacionais e


estrangeiros, mas de grande interesse teórico ou para o
conhecimento da realidade brasileira; a Revista Brasileira
de Geografia, ainda em circulação, onde são divulgados
artigos de pesquisas, informações e resenhas de obras de
interesse geográfico. Esta revista pode ser utilizada para se
conhecer as tendências dominantes no IBGE, desde a sua
fundação até os nossos dias; assim, nos primeiros números
observa-se uma preocupação geopolítica, sobretudo com a
possibilidade de uma redivisão territorial do Brasil, e
estudos que procuravam dividir o Brasil em regiões
geográficas, então denominadas regiões naturais, em
trabalhos, respectivamente, de Teixeira de Freitas33 e de
Fabio de Macedo Soares Guimarães.34
Estas duas contribuições merecem alguma reflexão.
Teixeira de Freitas, como homem do Estado Novo,
condenava o federalismo da Primeira República e pensava
em eclipsar os Estados. O Estado Novo já retirara dos
mesmos o hino, a bandeira e o direito de eleger os seus
governadores, e ele, seguindo esta linha, pensava em fazer
nova redivisão política do País, sem levar em consideração
as divisas tradicionais existentes. Inspirado no modelo
norte-americano propunha que os Estados tivessem
dimensões semelhantes - entre 150 e 250 mil quilômetros
quadrados - e fossem separados uns dos outros por linhas
retas. Esquecia-se da existência de montanhas, de rios e de
fluxos sociais e econômicos. Propunha ainda agrupar
pequenos Estados, sem consultar as rivalidades locais, e

33 FREITAS, Teixeira de. A redivisão política do Brasil. Revista Brasileira


de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 1941, ano III, n.0 3, p. 558-88.
34 GUIMARÃES, Fabio de Macedo Soares. Divisão regional do Brasil. Revista
Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, ano III, n.0 2, p. 319-45, 1944.

141
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

dividir aqueles de grandes dimensões. O Governo Federal


não teve, porém, coragem de executar esta política, mas
em 1943 resolveu desmembrar alguns Estado, criando os
territórios federais do Amapá, desmembrado do Pará, de
Rio Branco, hoje Roraima, desmembrado do Amazonas, de
Guaporé, hoje Rondônia, desmembrado do Amazonas e do
Mato Grosso, de Ponta-Porã, desmembrado de Mato
Grosso e, finalmente, o de Iguaçu, desmembrado do
Paraná e de Santa Catarina. Os dois últimos foram extintos
pela Consti�uição de 1946, voltando aos Estados de
origem. Ocorre, porém, que em numerosas áreas existem
movimentos em favor da criação de novos Estados e ou
Território, como o do Tapajós no Pará, o do Tocantins em
Goiás, desde 1988 elevado a condição de estado, os do São
Francisco e de Santa Cruz na Bahia, os do norte de Minas e
do Triângulo Mineiro em Minas Gerais e o do sul de Mato
Grosso, este último conseguindo efetivar--se na década de
70, fazendo ressurgir como Estado de Mato Grosso do Sul,
em dimensões maiores, o antigo Território de Ponta-Porã;
algumas áreas ainda subpovoadas, situadas em pontos
estratégicos, podem ser transformadas em territórios
federais, não só para induzir o desenvolvimento, como,
sobretudo, em face de problemas de segurança nacional,
como o Alto Rio Negro, o Trombetas, o Alto Solimões etc.
Assim, as idéias de Teixeira de Freitas, que ainda possuem
defensores, foram parcialmente efetivadas . Tudo indica
que em certas áreas surgirão novos territórios e que, em
algumas outras, movimentos em favor da autonomia local
dêem origem a novos Estados.
Quanto ao professor Fabio Guimarães, observa-se
que recebeu uma tarefa difícil de ser realizada, a de dividir
o País, muito extenso e pouco conhecido, em regiões, em .

14 2

142

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GEOGRAFIA Cíêncía da Socíedade

um modelo europeu. O primeiro problema com que se


defrontou foi o da escala, tendo de adaptar a milhões de
quilômetros modelos elaborados para áreas de milhares
de quilômetros. Daí a sua divisão em regiões que não
apresentam homogeneidade. A Amazônia, então conhe­
cida apenas pela navegação fluvial, foi considerada
fisicamente homogênea, quando se sabe hoje que ela
apresenta grandes diversificações entre as várias áreas.
Incluiu no Nordeste o Maranhão e o Piauí que, na
realidade, são uma área de transição entre esta região e a
Amazônia e o Centro-Oeste, e excluiu Sergipe e Bahia que
apresentam maior identidade com a região nordestina.
Colocou São Paulo no Sul do País quando este Estado tem
maior semelhança com os que compõem o atual Sudeste
do que com os Estados sulistas. Tendo de atender à
necessidade de coleta de dados e a injunções de políticas,
foi forçado a estabelecer os limites regionais adotando os
estaduais, quando existem Estados com áreas muito
diversificadas, como Goiás, Mato Grosso e Bahia, que
deveriam participar de mais de uma grande região.
Também pecou o grande geógrafo por haver esquecido, em
seu trabalho, as implicações humanas na produção das
regiões, quando esta idéia já se generalizara nos países em
que a geografia se encontrava em maior desenvolvimento.
Contudo, o seu trabalho, hoje clássico, serviu de marco, de
ponto de partida para uma reflexão sistemática para o
estudo da regionalização em grandes espaços, em um país
de dimensões continentais como o Brasil. Sua contribuição
foi positiva, embora mereça e deva ser criticada e cor­
rigida. Há, porém, grande preocupação do IBGE com o
estudo regional, quer do ponto de vista físico, quer do
ponto de vista humano, agrário e urbano. Alguns temas

143
143
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

aparecem com mais freqüência, como o da colonização, o


que não é de espantar, sabendo-se a preocupação do
Governo brasileiro com a assimilação de colonos estabele­
cidos nos Estados do Sul e pouco ou não assimilados.
Nos estudos de colonização destacam-se trabalhos de Leo
Waibel35 e Orlando Valverde.36 Esses estudos de Leo
Waibel vinham trazer aos jovens geógrafos do Instituto os
métodos e as teorias geográficas alemães, provocando
algumas influência na forma como se conduzia a pesquisa
em certas áreas. Waibel tinha preocupações teóricas que
não eram comuns aos mestres franceses, como aquelas
ligadas à análise espacial de Von Thünen, e encarava a
paisagem mais por seus aspectos naturais, sobre as quais
havia a influência do homem, condicionado pela cultura de
que era portador.
Não se pode minimizar a passagem, mesmo rápida,
de Pierre Dansereau, geógrafo canadense, especializado
nos estudos de fitogeografia, que tentou, sem sucesso,
formar um grupo de estudiosos desta especialidade no
Brasil, mas que conseguiu interessar alguns dos geógrafos
brasileiros nestes estudos, sem, contudo, formar uma
escola. Entre os geógrafos que se dedicaram aos estudos de
biogeografia no IBGE podem ser salientados Dora do
Amarante Romariz e Walter Albert Egler. Os estudos de
zoogeografia não tiveram a difusão que foi alcançada pela
fitogeografia.37 Importante também foi a contribuição

35 WAIBEL, Leo Capítulos de geografia tropical e do Brasil. (Coletânea


organizada por Orlando Valverde). Rio de Janeiro, CNG/IBGE, 1958 .
3 6 VALVERDE, Orlando. Excursão à região colonial antiga d o Rio Grande do

Sul. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 1952, ano X,


n.o 4·
37 Sobre o assunto é interessante consultar MONTEIRO, Carlos Augusto de
Figueiredo. A geografia no Brasil (1934-1977); avaliação e tendências.
São Paulo, Instituto de Geografia da USP, 1980.

144
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

trazida por Pierre . Gourou, especialista em geografia


tropical e homem de grande prestígio nos meios geo­
gráficos europeus, que escreveu dois artigos fundamentais
sobre a Amazônia.38 Emanuel de Martonne também
daria importante contribuição à geomorfologia brasileira,
ao analisar a faixa atlântica do País, e Lester King,
geomorfólogo sul-africano que nos visitou na década de
50, fez estudos sobre níveis de erosão e superfícies de
aplainamento na área subtropical do território brasileiro.39
Mas o IBGE, no seu período áureo, não foi apenas
uma escola de formação de geógrafos; ele forneceu aos
mesmos condições de maior segurança em seu trabalho.
Assim, foi feito pelo Conselho Nacional de Cartografia o
levantamento cartográfico do País, de que resultou a
publicação do Atlas do Brasil ao milionésimo, como
também deu maior consistência e uniformidade às estatís­
ticas, realizando os recenseamentos populacionais e
econômicos decenais -1940, 1950, 1960 etc. - e
publicando o Anuário Estatístico do Brasil. Serviu de órgão
técnico de consulta para o Poder Central e fez, no bom
sentido, a política do poder, contribuindo, inclusive, para a
escolha do local em que se construiria a nova capital do
País - Brasília.
Com ele se criava a carreira do profissional da
Geografia no País e se encaminhava o geógrafo para os
trabalhos de planej amento. Também seria local de discus­
são de idéias e de métodos e ponto de apoio para os cursos
de aperfeiçoamento ministrados anualmente, durante

3 8 GOUROU, Pierre. Observações geográficas na Amazônia. Revista


Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 1949, ano XI, n.0 3.
3 9 Geomorfologia do Brasil oriental. Revista Brasileira de Geografia.
Rio de Janeiro, IBGE, 1956,ano XVIII, n. 0 2.

145
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

muito tempo, aos professores de ensino médio e superior


de vários pontos do País.

7-4 A CONTRIBUIÇÃO DA AGE

A Associação dos Geógrafos Brasileiros foi fundada


por Pierre Deffontaines, em São Paulo, em 1934, no ano
em que se iniciava o curso de Geografia da USP, reunindo
um grupo de intelectuais que se interessavam pelo tema,
entre os quais Caio Prado Junior, Luiz Fernando Morais
Rego e Rubens Borba de Morais. Eles se reuniam na
Biblioteca Municipal e discutiam temas, sobretudo pau­
listas, passando logo a imprimir uma revista intitulada
Geografia, de que saíram apenas oito números nos anos
de 1935 e 1936. Com a transferência de Pierre Deffontaines
para o Rio de Janeiro, a AGE passou a ser dirigida por
Pierre Mombeig, seu sucessor na cadeira de Geografia, e se
manteve durante cerca de dez anos como uma instituição
paulista. Organizou inclusive grupos que participaram de
congressos nacionais, promovidos pela antiga Sociedade
Brasileira de Geografia, sediada no Rio de Janeiro.
Em 1944,os geógrafos de São Paulo se reuniram
com os do Rio de Janeiro e resolveram dar à associação
dimensões nacionais, aceitando sócios efetivos, geral­
mente geógrafos que possuíam trabalhos publicados e que
teriam influência na administração superior da associação,
e sócios colaboradores, estudantes, pessoas interessadas
em geografia e iniciantes na profissão, de todos os
Estados. Nos Estados em que havia sócios efetivos foram
organizadas Secções Regionais, quando não se criavam
núcleos municipais. Foram logo criadas secções regionais
em São Paulo e no Rio de Janeiro e depois em Minas

146
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Gerais, Paraná, Pernambuco e Bahia. Os núcleos munici­


pais foram bem mais numerosos.
A Associação promovia regular e periodicamente
assembléias gerais em cidades, quase sempre de pequeno
tamanho populacional, onde os sócios apresentavam
trabalhos a serem debatidos e publicados nos Anais, se
aprovados pelos sócios efetivos, e realizavam pesquisas
de campo, das quais eram redigidos relatórios prelimi­
nares, também a serem publicados. A primeira reunião
científica4° se procedeu em Lorena, São Paulo, em 1946, e
a ela sucederam-se reuniões anuais em várias cidades do
Brasil até 1955. Em 1956 não houve reunião da associação,
em face do XVIII Congresso Internacional de Geografia,
no Rio de Janeiro. O Sistema continuaria a funcionar por
anos sucessivos, até quando ficou claro que não havia
condições de se manter o sistema dominante e foram
feitas reformas nos estatutos da AGB, partindo-se para a
realização de reuniões de dois em dois anos. A inviabi­
lidade do sistema dominante no período em estudo
decorreu do crescimento da afluência de associados e da
impossibilidade de enquadrá-los nas várias equipes de
pesquisa de campo. As reuniões bianuais continuaram até
que na de Fortaleza (1978) houve maior pressão das bases,
provocando nova reformulação dos estatutos, reformula­
ção feita em reunião administrativa realizada em São
Paulo em 1979 .
A grande contribuição da AGB ao desenvolvimento
da Geografia brasileira, no período em estudo, decorre do
fato de · que ela reunia geógrafos de pontos diversos do
País, para debaterem temas e questões e realizar, em

4°No ano anterior se realizara a primeira assembléia geral (administrativa)


em São Paulo.

147
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

conjunto, trabalhos de pesquisa de campo; divulgava os


métodos e técnicas e também os princípios dominantes
nos centros mais adiantados. Ela difundiu métodos de
trabalho numa época em que não havia cursos de pós­
graduação em Geografia, contribuindo para consolidar a
formação dos geógrafos mais novos ou menos experientes.
Realizando reuniões em pontos diversos do território
nacional e fazendo pesquisas, a AGB deu ensejo a que se
conhecesse melhor estas áreas e os seus problemas. Daí a
importância da leitura dos Anais e das Publicações Avulsas
produzidas pela AGB em seu período áureo. Muito
importante é também a contribuição dos Boletins de
Geografia das Secções Estaduais, sobretudo os de São
Paulo e Rio de Janeiro.

7·5 O CONGRESSO INTERNACIONAL E A MATURI­


DADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA

Na fase que se estende de 1930 a 1956, a Geografia


lablachiana, influenciada por outras correntes de pensa­
mento alemãs e norte-americanas, teve grande importân­
cia para a formação de um pensamento geográfico
autônomo, fazendo com que se desenvolvessem os estudos
regionais e melhor se conhecessem as porções mais
dinâmicas do País. Feito este levantamento em modelos
clássicos, é natural que os geógrafos brasileiros viessem a
defrontar-se com problemas que não estavam capacitados
a resolver, com os métodos e técnicas que dominavam, e
procurassem outros caminhos, tanto na literatura estran­
geira como em autores nacionais de outras especialidades
e na sua própria experiência. Não se podem esquecer as
contribuições de Pierre George e Jean Tricart no período

148
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

imediatamente posterior ao XVIII Congresso Internacio­


nal. Tirava-se o atraso em que se encontrava a geografia,
ao se iniciar o estudo em nível superior e as pesquisas
eminentemente geográficas.
A realização deste Congresso foi a grande marco de
desenvolvimento do pensamento geográfico no Brasil e do
potencial do geógrafo brasileiro para procurar encontrar
os seus próprios caminhos, ao estudar a realidade bra­
sileira, assim como de participar dos grandes debates
entre as correntes de pensamentos que disputam a pri­
mazia no movimento geográfico internacional. Estávamos
preparados para dar maior importância aos problemas
climáticos na evolução morfológica, para aprofundarmos
os estudos das áreas de influência das cidades, a dar ênfase
ao social na geografia humana e a partir para a partici­
pação no planejamento, que ganhou muita importância no
pós-guerra. Mudavam as formas de fazer geografia,
embora se mantivessem os princípios que a norteavam
desde os primeiros tempos de sua institucionalização.

149
150
� - �.......­
8
A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E AS
MODIFICAÇÕES NO PENSAMENTO
GEOGRÁFICO

8.1 O IMPACTO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


SOBRE A SOCIEDADE E A CULTURA

oda guerra de grandes proporções é uma


revolução; provoca abalo nas estruturas
sociais dominantes, torna necessária uma
reforma da sociedade e, consequentemente, abre novas
perspectivas às atividades culturais. A guerra de 1939/45
provocou a destruição da economia e das cidades da maior
parte dos países europeus; velhos valores e morais desa­
pareceram e a destruição material provocou a necessidade
de reconstrução. Os administradores, os políticos, os
cientistas, os professores e o povo em geral se pergun­
tavam o que reconstruir e como reconstruir. Voltar ao
passado, reconstruindo tudo o que fora destruído da forma
anterior, não era possível; as formas são o resultado dos
processos que lhes deram origem em momentos históricos

151
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

diversos, e a reconstrução deveria ser a resposta ao desafio


do momento histórico que era vivido e não de momentos
históricos pretéritos. E como reconstruir de outra forma?
Era necessário planejar, dentro de padrões políticos
definidos. Os países que optaram pela manutenção do
sistema capitalista procuraram fazer um planejamento que
orientasse a empresa privada a reconstruir as suas
indústrias e os serviços, visando, naturalmente, à obtenção
de lucros cada vez maiores. Mas a reconstrução e o
planejamento não poderiam esquecer que, durante a
guerra, grupos econômicos burgueses enfraqueceram-se,
foram parcialmente ou totalmente absorvidos pelo capital
estrangeiro - americano, sobretudo - e passaram a
defrontar-se com um movimento operário cada vez mais
consciente dos seus direitos. O planejamento deveria,
portanto, levar em conta os choques de interesses entre
os grupos econômicos de países diferentes e de um
mesmo país e a sua capacidade de reação frente à pressão
do movimento operário. Era um planejamento mais
indicativo, deixando uma margem de ação bastante ampla
para a empresa privada, para as transnacionais.
Nos países que optaram pelo sistema socialista, no
Leste da Europa e nos Bálcans, com a economia em grande
parte estatizada e com o controle do partido sobre a
economia, foi feita a planificação; desaparecia a luta entre
os grupos econômicos e eliminava-se a influência do
capital estrangeiro.
A generalização das políticas de planej amento abria
novas perspectiva de trabalho para os cientistas sociais
que eram utilizados no levantamento do diagnóstico em
que se identificava a situação econômica e social e do prog­
nóstico que indicava os caminhos a serem seguidos para

152
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

que se atingissem os fins almejados, em um tempo


definido .Daí o fortalecimento da política de Town and
Coutry Planning, iniciada na Inglaterra durante a guerra, e
o desenvolvimento na França e na Bélgica da política
de aménagement du territoire, 1 procurando dar ao
planej amento uma dimensão ao mesmo tempo histórica e
geográfica, Histórica, projetando as direções naturais do
crescimento para o futuro e indicando a possibilidade de
turbulência e de mudanças de rumo neste direcionamento,
fazendo desenvolver-se os trabalhos de prospectiva; geo­
gráfica, procurando indicar como as atividades econômi­
cas e a população se distribuem pelo espaço dos países
e as possibilidades de se estimular melhor distribuição,
através de uma relocalização das indústrias, das comu­
nicações e da utilização agrícola do território. A neces­
sidade de realização de trabalhos nesta área era um
desafio constante aos geógrafos
'
que vinham desenvol-
vendo trabalhos sobre a distribuição espacial da população
e das atividades econômicas, desde o século XIX.
Esta oportunidade de trabalho era um grande
desafio : os geógrafos, que vinham trabalhando isolada­
mente ou no ensino universitário, teriam de se adaptar a
um sistema de trabalho realizado em comum e em
colaboração com outros especialistas, procurando atingir
fins pragmáticos. Daí o cre�cimento e até o surgimento de
disciplinas do conhecimento geográficos que se interpu­
nham entre a Geografia e a Economia, a Sociologia ou
Antropologia, e se passou a falar em uma Geografia
Aplicada e em uma Geografia Ativa. Este desafio con-

1Sobre o assunto é interessante consultar ANDRADE, Manuel Correia de.


Geografia, região e desenvolvimento. 3. a ed. Recife, Imprensa
Universitária, 1977.

153
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

duziria os geógrafos a fazerem uma revisão nas categorias


científicas que utilizavam e de promoverem grandes
polêmicas em torno da transformação do conhecimento e
do estudo da Geografia.

8.2 A CONSCIENTIZAÇÃO DOS GEÓ GRAFOS SOBRE


OS ESGOTAMENTOS DA GEOGRAFIA C LÁSSICA

A constatação destes fatos e a necessidade de


participar do movimento de reformulação científica e a
política da sociedade inquietaram os geógrafos, que
passaram a percorrer novos caminhos, ora procurando
atualizar os princípios gerais da geografia clássica e
tradicional, ora procurando romper com ela, criando uma
"nova" geografia. Colocava-se o dilema - reforma ou
revolução. Constata-se hoje, porém, que muitas vezes as
propostas de reforma eram mais revolucionárias do que as
de "revolução", de vez que, num contexto mais amplo,a
revolução que se propunha era uma verdadeira contra.,­
-revolução . Procurava mudar para que as coisas continuas­
sem como estavam.
Os geógrafos clássicos, chamados a dar uma contri­
buição à reconstrução do pós-guerra, compreenderam que
esta contribuição, dentro dos métodos utilizados, poderia
ser dada apenas no levantamento do diagnóstico, não
estando mentalmente equipados, na maioria das vezes,
para participar · dos prognósticos. A geografia que se
limitava a observar, a descrever e a explicar a paisagem,
utilizando o "olho clínico", não usava técnicas que a
levassem a ver o que se fazia, de forma invisível, na
elaboração da paisagem. Ela não poderia continuar a ser
apenas ideográfica, corológica. Passaram então a intensifi-

1 54
154
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

car as pesquisas em dados estatísticos - até então despre­


zados ou pouco utilizados -, a desenvolver a cartografia,
com a elaboração de mapas temáticos, e a sentir a sedução
de fazer projeções para o futuro . Sedução que se acentuava
a partir do momento em que, trabalhando em equipe
pluridisciplinares, observaram a importância destes dados
para os economistas e planejadores.
Viram também que estava ultrapassada aquela idéia
muito difundida nos meios geográficos de dar maior
· importância à geografia agrária, ao campo, por estar a
agricultura mais dependente das condições naturais do
que a indústria e os serviços. Os estudos de Geografia
Urbana e de Geografia Econômica intensificaram-se, ga­
nharam importância, e a agricultura passou a ser encarada
não mais como um gênero de vida, mas · como uma
atividade profissional.
Na França, esta transformação foi levada a cabo
sobretudo por Pierre George que, marxista, procurou dar
uma importância maior aos estudos ligados à indústria, às
cidades, ao comércio, aos transportes e ao consumo.
Usando a dialética, embora com certas limitações em face
da sua formação lablanchiana, ele apresentou uma face
desta nova concepção geográfica em sua Geografia
Econômica2 em que enfatizou a importância da existência
de sistemas políticos diferentes, dominando grandes áreas
da superfície da terra, dando em seguida prioridade ao
estudo da indústria em relação à agricultura. Em geral, os
livros-textos de geografia econômica ej ou humana coloca­
vam o estudo da agricultura antes do da indústria e davam
espaço bem maior à mesma. George, admitindo que a

2 GEORGE, Pierre. Geografia econômica. São paulo, Difel, 1957.

155
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

indústria é o setor que comanda a vida econômica


moderna, não só colocou o seu estudo antes do da
agricultura, como também lhe deu maior atenção.
Sua sede de inovação científica levou-o a fazer estudos de
profundidade na área da geografia rural3 e da geografia
urbana, 4 salientando as características do meio rural e
urbano na sociedade capitalista avançada, dos meados do
século XX . Procurou desenvolver estudos renovadores na
área da geografia da população,s preocupando-se não só
com a sua distribuição espacial, como também com a
estrutura por idade e sexo, com a produção e o enga­
jamento da força de trabalho nos vários setores da
economia. Olhou o homem como habitante, como
produtor e consumidor. Incursionou pela geografia
regional, publicando substancioso livro sobre a União
Soviética, mostrando a maneira como se procede à
produção do espaço sob o sistema socialista6 e escreveu,
para estudantes, uma série de livros de divulgação.
Como autor de dezenas de livros e de centenas de
artigos, além de professor na Sorbonne, Pierre George
formou um grupo de discípulos que continuou a sua obra e
divulgou as suas idéias, como Michel Rochefort, estudioso
dos problemas urbanos e profundo conhecedor do Brasil,
Bernard Kayser, especialista nos estudos agrários, e Yves
Lacoste, o geógrafo do Terceiro Mundo que apresentou
posições científicas e políticas bastante radicais.

3 Idem. La compagne; ]e fait rural à travers le monde. Paris, PUF, 1956; e


Précis de géographie rurale. Paris, PUF, 1963.
4 Idem. La ville; le fait urbaine à travers le monde. Paris, PUF, 1952; e Précis

de géographie urbaine. Paris, PUF, 1961.


s Idem. Introduction a l'étude géographique de la population du
monde. Paris, PUF, 1951; Population et peuplement. Paris, PUF, 1969; e Les
populations actives. Paris, PUF, 1978.
6 Idem. Géographie de la URSS. Paris, PUF, 1963.

156
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Em 1956, Pierre George participou, no Rio de


Janeiro, do XVIII Congresso Internacional de Geografia
e, após o mesmo, proferiu numerosas conferências
em instituições brasileiras, tendo grande influência no
Brasil, quando quebrando a velha tradição descritiva e
"despolitizada" da geografia brasileira, abriu perspectivas
para uma visão mais ampla e para maior preocupação com
o social, preocupação esta observada em poucos geógrafos
brasileiros no período anterior a 1964.
O chamamento dos geógrafos a participarem da
reconstrução do mundo do pós-guerra, na Europa, pro­
vocou também igual oportunidade no Terceiro Mundo,
que se libertava politicamente de suas metrópoles e nos
países já independentes desde o século XIX, levando-os
à necessidade de planejar o desenvolvimento de sua 1

economia. Planejamento que apresentava, quase sempre,


distorção, atendimento às necessidades dos países em
desenvolvimento, pois se voltava sobretudo para a
modernização e o crescimento econômico, sem maiores
preocupações com a problemática social.
Este chamamento desenvolveu nos vários países
o que se convencionou chamar Geografia Aplicada e
deu novo alento à Geografia Política. Podeinos afirmar
que geografia aplicada sempre existiu; houve, desde a
Antigüidade, preocupação dos governos, com fins milita­
res e administrativos, de reconhecimento do território
onde atuavam. César, antes de conquistar a Gália, pro­
cedeu, através de prepostos, ao levantamento das distân­
cias entre a Itália e a Espanha e dos recursos disponíveis
na área a ser conquistada.? Alexandre no Oriente Médio e

7 PHILLIPONNEAU, Michel. Géographie et action; Introduction à la

géographie appliquée. Paris, Armand Colin, 1960, p. 16-26. É interessante


consultar também STAMP, Duedley. Geografia aplicada. Buenos Aires,
Editorial Universitária, 1965 .

157
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Napoleão na França agiram da mesma forma em seus


governos. Vauban, engenheiro militar de Luís XIV, fez
verdadeiras pesquisas de interesse geográfico para desen­
volver os seus planos de defesa do território do Reino.
Mas esses estudos geográficos não eram feitos por
geógrafos, mas por funcionários. Os geógrafos, bem
caracterizados a partir do século XIX, ficaram muito
ligados às atividades culturais, à Universidade, e desenvol­
veram inicialmente grandes teorias para serem aplicadas
em qualquer ponto da superfície da Terra e, em seguida,
estudos monográficos onde havia preocupação maior em
fortalecer, do ponto de vista científico, a Geografia, de
defendê-la da penetração de outras ciências no que
consideravam o seu campo de estudos .
A participação n o planejamento levou-os à convi­
vência com outros especialistas e a tomar conhecimento de
novas preocupações, de novas metas a atingir e dos
métodos que conduziam às mesmas. Esta abertura, porém,
trazia novos compromissos: chamava-se o geógrafo não
para realizar trabalhos de coordenação e síntese a que
estava habilitado - estes lugares estavam ocupados por
engenheiros e economistas -, mas para realizar trabalhos
complementares com estudos específicos, de solos, de
climas, de interpretação de fotografias aéreas - mais
recentemente de imagens de satélites - para elaboração de
mapas temáticos. Com isto, o geógrafo ia transformando­
se de humanista em especialista, ia deixando a síntese pela
análise, o que, na opinião de alguns mestres, ameaçava
afastá-lo de sua profissão para se dedicar ao trabalho em
áreas restritas. Isto iria refletir-se no cerne do pensamento
geográfico, quando os novos geógrafos-planejadores pás­
saram a questionar o ensino ministrado nas universidades
e a exigir uma formação mais técnica, formação que

158
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

ganharia grande pre�tígio nos anos 6o com a chamada


Geografia Quantitativa. Se esta orientação se acentuasse, o
geógrafo deixaria de ser um cientista para ser um técnico e
depois se transformaria em tecnocrata.
A Geografia aplicada ganhou prestígio e expandiu­
-se em todo o mundo, nas décadas de 50 e de 6o, quando
se formaram centros de difusão em universidades ameri­
canas, belgas, inglesas, francesas etc. Na França, as
universidades de Strasbourg - sob a influência de J.
Tricart e E. Juillard -, de Renes - sob a influência de
A. Meynier e, sobretudo, de M . Philliponneau - e de
Bordeaux sob a influência de L. Papy e Enjalbert -,
-
passaram a oferecer estágios e a ministrar cursos de
geografia aplicada. Os Seminários da Universidade de
Liege, dirigidos por Omer Toulippe, também ficaram
famosos. B
Mas o s partidários d a geografia aplicada defen­
deram sempre a sua filiação à escola clássica e apontavam
o novo rumo como um desdobramento e uma evolução da
mesma, em um período em que o capitalismo passava a
dominar as relações de trabalho na cidade e no campo,
eliminando os modos de produção dependentes. Na obra
de Pierre George observa-se preocupação em conciliar os
postulados marxistas com os lablachianos. Ele insurgiu-se
contra a idéia da existência de um novo ramo da geografia
aplicada, admitindo apenas a aplicação dos princípios
geográficos, defendendo o que chamou Geografia Ativa.
Em obra muito divulgada,9 escrita com uma série de discí­
pulos, R. Guglielmo, B. Kayser e Y. Lacoste, combateu os
projetas de ensino de geografia aplicada nas universidades

8 TOULIPPE, Omer. La géographie appliquée, p. 111-12. Bulletin de la Belge

d' Études Géographiques. Liege, t. XXV, 1956.


9 GEORGE PIERRE et alli. A geografia ativa. São Paulo, Dífe/Edusp. 1966.

1 59
159
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

sob pena de tecnicizar e reduzir a sua área de ensino,


fazendo correr o risco de destruir a unidade desta ciência.
Para ele, o ensino universitário devia continuar nas linhas
em que era ministrado, de vez que distinguia a Geografia
Aplicada da Ativa, que defendia, afirmando : " É por isso
que é tão importante separar a missão de uma geografia
ativa, que é trabalho científico, de uma geografia aplicada,
ou mais exatamente de uma aplicação dos dados forne­
cidos pela geografia, que é tarefa de administradores
sensíveis por essência e por obrigação a outras consi­
derações e a outras pressões, que as que decorrem da
pesquisa científica."10 Admitia como campo de ação da
Geografia Ativa "o balanço geográfico do subdesenvol­
vimento, ou mais exatamente, dos subdesenvolvimentos, a
contribuição da geografia à compreensão do desigual
desenvolvimento dos setores industrial e agrícola e da
diferenciação do desenvolvimento de cada um desses
setores no espaço, aspectos geográficos da coleta e da
distribuição dos produtos , condições e formas geográficas
do desenvolvimento urbano, diversidade das combinações
locais e regionais, formação e deformação das regiões,
mecanismos e meios de ação sobre os mecanismos . . . "
Admitia porém que se formassem nas universidades
ou em outras instituições setores de preparação de
geógrafos, já formados, para atuarem na área de planeja­
mento. A sua proposição para a França lembra um pouco o
que fora criado, no Brasil, nos fins da década de 30, o
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -
que durante mais de 30 anos deu uma contribuição à for­
mação de geógrafos, professores e não professores, enca­
minhando-os à pesquisa e à procura de solução para os
problemas geográficos . Neles foram produzidos trabalhos
de grande importância, publicados no Boletim, na Revista

10 Idem. Ob. cit. p. 40.

160
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

e na coleção de livros, embora se deva observar que estes


trabalhos refletiam, em grande parte, as preocupações
governamentais e apoiavam as metas políticas do governo.
Daí a ênfase que era dada, na maioria dos artigos, durante
o Estado Novo, de nova revisão territorial do Brasil, no
período de redemocratização (1946/64), de uma preo­
cupação com o conhecimento dos problemas do território,
com o levantamento do mesmo e, nos geógrafos mais
sensíveis à problemática social, como Orlando Valverde, a
denúncia dos grandes problemas causados pelas estrutu­
ras sócio-económicas dominantes. Durante a ditadura
militar observou-se, nos fins da década de 6o e início de
70, grande engajamento dos geógrafos do IBGE com a
política económica do governo, com o desprezo pelos
problemas sociais e do meio ambiente, com a abstração
matemático-estatística e até a própria destruição do
Conselho Nacional de Geografia.
O movimento renovador fez-se sentir também nas
universidades brasileiras, que intensificaram as missões
científicas e a colaboração com universidades estran­
geiras, e desenvolveram estudos de maior interesse para a
compreensão da nossa realidade, como os do Laboratórios
de Geomorfologia e Estudos Regionais da Universidade
da Bahia, criado por Milton Santos recebendo grande
influência de Tricart, e os realizados em Pernambuco em
convênio entre a então Universidade do Recife e, na época,
o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, sobre a
poluição dos rios provocada por despejos industriais.11

11 Destes trabalhos resultou a publicação da série Os rios do açúcar no


nordeste oriental, já citados, e o estudo de Manuel Correia de Andrade, A
poluição dos cursos d'água da Zona da Mata de Pernambuco, pelo desejo dos
resíduos e águas servidas pelas indústrias. Boletim do Instituto Joaquim
Nabuco de Pesquisa Sociais. Recife, n.0 16, 1966.

161
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Ao mesmo tempo em que se observa uma trans­


formação na Geografia Humana, havia também rejeição,
na geografia física, da morfologia de Davis, graças à
contribuição, entre outros, de J. Tricart,12 destruindo
o que se chamava geomorfologia "normal" e defendendo
princípios de zonalidade nos processos morfológicos.
A climatologia também ia perdendo o seu caráter estático e
passava a ser encarada de forma dinâmica.
A renovação do pós-guerra veio provocar ainda o
renascimento da Geografia Política, desvinculada da
Geopolítica, através da análise não só dos problemas de
fronteiras entre Estados, como também do papel do
Estado na produção do seu espaço interno, estudos que
vieram contribuir para que o planej amento deixasse
de ser muito tecnocrático e passasse a levar em conta
características e interesses regionais e locais.
Os estudos do poder político, quer do ponto de vista
econômico, quer social, quer antropológico, passara a
interessar aos geógrafos no momento em que adquiriram
características espaciais e interferiram na utilização do
território. Eles tiveram grande difusão na França com Paul
Claval,13 Jean Dresch e Reffestin14 e nos Estados Unidos
com W. Izard1s e vêm-se desenvolvendo no Brasil quando
se analisam as estruturas que entravam a modernização e
o desenvolvimento e quando se estuda o processo de
ocupação dos espaços vazios.

'2 TRICART, J. Príncipes et méthodes de la géomorphologia. Paris,


Masson & Liêge, 1965.
'3CLAVAL, Paul. Espaço e poder. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
14 DRESCH, Jean. Un géographe au déclin des empires. Paris,
FM/Herodote, 1979 & REFFESTIN, Ch. Pour une géographie du
pouvoir. Paris, Litec, 1979.
15 IZARD, Walter. Métodos de análise regional. Barcelona, Ariel, 1971.

162
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Democratizado o país, aguçados os problemas de


diferenças de desenvolvimento regional, agravadas as
condições de vida urbana e rural, é normal que os estudos
de Geografia Política e ate de Geopolítica despertem
a atenção dos geógrafos brasileiros, nos dias atuais.
Às tentativas de despolitização da geografia brasileira
estão seguindo intensas campanhas em sentido contrário,
de politização e de conscientização dos problemas da
sociedade.

8.3 SISTEMAS ECONÔMICOS, POSIÇÕ ES IDEOLÓ GI­


CAS E CI ÊNCIA GEOGRÁFICA

Conforme o nível de desenvolvimento e o sistema


econômico adotado em um país, foram os geógrafos
orientados em direções diversas. Na União Soviética
organizaram-se faculdades de Geografia que deram maior
importância aos estudos de geografia física, das condições
naturais, sendo os geógrafos geralmente engajados nos
trabalhos de planificação, nas equipes dedicadas aos
problemas físico-naturais. Os problemas de organização
do espaço, com criação de bases de desenvolvimento,
foram deixados a planificadores especializados nas
outras ciências sociais, como sociólogos, economistas,
antropólogos, urbanistas etc. O papel desempenhado pelos
antropólogos foi agigantado, de vez que a União Soviética
era um país em que conviviam mais de 100 povos e nações
diferentes, com línguas, crenças e hábitos culturais os mais
diversos.16 Em sua política de planificação necessitavam os
planejadores não só de reorganizar o espaço densa e

16
CHAMBRE, H. Le développement du bassin du Kuznetz. Les Cahiers de
l'ISEA. Paris, n.0 100, 1960.

163
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

tradicionalmente habitado, como também organizar a


ocupação de áreas despovoadas e subpovoadas em
função quase sempre da exploração de recursos minerais.
Problemas semelhantes ocorreram na China, também país
de grande extensão territorial, de grandes diversificações
regionais, de culturas e tradições diversificadas.
Na França, numerosos geógrafos trabalharam
no Ministério da Construção e na Delegacion à
l'Aménagement du Territoire et à l'Action Regionale,
visando reorganizar o funcionamento de atividades
econômicas, sobretudo estabelecimentos industriais e
cidades destruídas pela guerra. Daí terem surgido os
estudos designados de Aménagement du Territoire, que
procuravam descentralizar a vida econômica francesa e
atenuar a concentração existente em Paris e sua região.
Os trabalhos de Aménagement du Territoire procuravam,
ao mesmo tempo, fazer o diagnóstico da situação existente
e desenvolver a prospectiva, projetando o crescimento
para o futuro, estabelecendo etapas a curto e a longo
prazo.17 Eles serviram para o encontro de estudiosos de
formações diversas, sobretudo geógrafos e economistas.
Também foi muito utilizada a Teoria de Pólos de
Desenvolvimento, formulada por François Perroux18 e
divulgada por discípulos, que, inclusive, aplicaram essa
teoria ao espaço brasileiro.19

17 GOTIMANN, J. Essais sur l'aménagement de }'espace habite. Paris,


La Haye, Mouton, 1966; e LABASSE, Jean. L'organisation de l'espace.
Paris, Hermann, 1966.
1s PERROUX, François. L'économie du XXeme siecle. 2.a ed. Paris, PUF,

1964.
19 BOUDEVILLE, J. R. Contribuition à étude de croissance brésilienne; une

industrie motrice. La siderurgie de Minas Gerais. Cahiers de l'ISEA. Paris,


1957; e Croissance polarisée du Rio Grande do Sul. Caravelle, Toulouse,
n.0 3, 1964.

164
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Nos Estados Unidos merece especial referência o


trabalho desenvolvido por Walter Izard, 20 que criou
nova disciplina, a Ciência Regional, dedicada à análise
regional, utilizando em larga escala métodos estatístico/
matemáticos e que atraiu para os seus estudos especia­
listas de várias profissões, inclusive geógrafos. Ela contri­
buiu para estimular e:::ltre os geógrafos o uso dos
chamados métodos quantitativos. Fernando de Oliveira
Mota, quando superintendente da SUDENE, procurou
difundir e aplicar a sua metodologia, conciliando-a,
tanto quanto possível, com os ensinamentos de F.
Perroux. Para isto chegou a realizar, no Recife, em 1966
o I Seminário sobre Pólos de Desenvolvimento, em que
reuniu especialistas diversos, procurando encaminhá-los à
utilização de métodos e técnicas comuns.
As tendências à utilização de métodos estatísticos
nos trabalhos geográficos ganharam grande prestígio no
pós-guerra, em vista do rápido desenvolvimento do
capitalismo, estimulado pela necessidade de reconstrução
dos países mais atingidos pela Segunda Guerra Mundial e
pelo fato de que a indústria, que havia sido montada
durante a guerra por razões militares, poderia ser
convertida à produção dos materiais necessários à recons­
trução. Concluída a guerra, estavam os Estados Unidos,
com a liderança incontestável do mundo capitalista,
podendo estender a sua dominação econômica sobre a
Europa Ocidental e sobre o Japão. Temeroso da expansão
do socialismo na Europa Central - Polônia, Alemanha
Oriental e Tchecoslováquia - e Meridional - Iugoslávia,
Hungria, Romênia, Albânia e Bulgária - e na Ásia - Coréia

20 IZARD, W. Métodos de análise regional. Barcelona, Ariel, 1971.

165
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

do Norte, China e Vietnã do Norte -, trataram os Estados


Unidos de formar uma espécie de cordão de isolamento
em torno do mundo socialista, a fim de conter a expansão
deste sistema econômico. Iniciou-se a chamada Guerra
Fria. Na década de 50, quando a reconstrução já chegara
ao ápice e a expansão capitalista começava a ser freada, foi
feita a guerra da Coréia que novamente mobilizou e
estimulou a indústria bélica, carreando mais recursos para
o mundo industrializado e acentuando as diferenças
existentes entre o Primeiro e o Terceiro Mundo.
Este crescimento rápido teria de ser feito à custa da
degradação do meio natural - uma política preservacio­
nista tornaria mais elevado o custo de produção - e da
condição de vida da população, sobretudo do chamado
mundo subdesenvolvido, acentuando a questão social.
Para encobrir estes dois grandes problemas tornava-se
necessário concentrar toda a atenção na problemática
econômica e otimizá-la frente à problemática ecológica e
social. Daí a mobilização de meio cultural, universitário,
no sentido de desenvolver teorias que renascessem o
positivismo, admitindo a �xistência de soluções gerais,
com caminhos idênticos, para problemas diversificados, e
para considerar que o uso da matemática era indispen­
sável e único para o desenvolvimento científico e a solução
dos problemas sociais. Cresceu, então, a importância dada
ao quantitativismo nos fins da década de 6o e início de 70,
com a Econometria, com a Sociometria e com a Geografia
Teorética. O domínio dos modelos matemáticos entusias­
mou grandes setores de cientistas e passou-se a falar em
uma verdadeira "revolução" na Geografia, que admitia um
rompimento com todo o pensamento tradicional, recusava
a reflexão sobre os clássicos e afirmava que uma Nova

166
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Geografia revolucionariamente substituía a Geografia


Tradicional,21 expressão utilizada de forma depreciativa,
como veremos no capítulo que segue.

21 CHISHOLM, Michael. Geografia humana; evolução ou revolução. Rio de

Janeiro, Interciência, 1979.

167
168
9
A BUSCA DE NOVOS PARADIGMAS

9.1 O IMPACTO DA TECNOLOGIA SOBRE O


CONHECIMENTO E A PROCURA DE NOVOS
PARADIGMAS

impacto do pós-guerra sobre a geografia


não se limitou a fazê-lo sair da Universidade
e tentar disputar espaço com outras dis­
ciplinas na área do planejamento e da crítica social.
Ela provocou a reflexão dos geógrafos sobre a natureza da
geografia e os levou a atitudes de crítica, à reformulação
dos seus princípios científicos e filosóficos, à negação do
passado, por parte de alguns grupos, e à procura de novos
caminhos.
Na opinião de Osvaldo Bueno Amorim Filho,1 entre
os vanos impactos que abriram perspectivas para a
renovação do conhecimento geográfico, observava-se a

' AMORIM FILHO, Osvaldo Bueno. Reflexões sobre as tendências


teórico-metodológicas da geografia. Belo Horizonte, Universidade
Federal de Minas Gerais, n.0 2, 1985. Número especial.

169
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

formulação da teoria geral dos sistemas, a formulação do


estruturalismo, as bases teóricas da cibernética, a teoria
dos conjuntos, a teoria dos jogos e as bases teóricas da
comunicação. Vê-se, assim, que a Geografia seria atingida
por reformulações bem diversificadas, como a teoria geral
dos sistemas, de origem positivista e organicista, 2 o
estruturalismo, formulado por Lévy-Strauss, que durante
algum tempo viveu no Brasil, ensinando na Universidade
de São Paulo, e que, partindo de um revisionismo do
marxismo, tinha dimensões antropológicas ;3 e, ainda, por
formulações matemáticas e estatísticas que ganhariam
grande prestígio e desenvolveriam métodos estatísticos
que iam permitir maior abstração e teorização do conhe­
cimento geográfico. Tentava-se substituir a formulação
tradicional, ib.dutiva da Geografia por formulações gerais,
dedutivas.
Travou-se então grande discussão entre as corren­
tes de pensamentos a respeito da natureza e da
metodologia do conhecimento geográfico em todo o
mundo, discussão que durou mais de um decênio e que
refletiu de forma flagrante as ligações ideológicas do
pensamento geográfico. O geógrafo, mesmo ao tentar se
apresentar como um cienti. sta neutro, desvinculado de
compromissos políticos e ideológicos, revelava-se, antes de
tudo, às vezes até inconscientemente, um cidadão.
Nos fins da década de 70,Carlos Augusto de
Figueiredo Monteiro, em livro angustiado, apresentou aos
geógrafos, reunidos em Fortaleza, forte reflexão sobre os

2 BERTALANFFY, Ludwig von. Teoria geral dos sistemas. Petrópolis,

Vozes, 1973.
3 STRAUSS, Lévy. Anthropologie structurale. Paris, Plon, 1958.

170
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

caminhos percorridos pela geografia brasileira, até então;4


para ele três eram os caminhos a serem escolhidos como
alternativas para a geografia brasileira: o da Concepção
sociológica de Kuhn, o do Modelo evolucionista de Popper
e o da Proposta pluralista de Feyeraband. Contribuições
que haviam influenciado as decisões do autor, que
desenvolveu grande programa de reformulação do estudo
e do ensino da Climatologia, aceitando em grande parte os
princípios da Teoria Geral dos Sistemas. s Os seus estudos
climáticos, porém, não se mantiveram em posições
abstratas, eles desceram à análise de situações típicas e à
apresentação da problemática local e regional, sobretudo
nos Estados de São Paulo e da Bahia, onde atuou mais
assiduamente. Alguns estudantes de pós-graduação da
USP, que foram seus orientandos, defenderam disserta­
ções e teses nesta linha de pensamento.
Para analisarmos os últimos 30 anos de evolução
da Geografia e do pensamento geográfico, decidimos
fazer uma classificação, até certo ponto arbitrária, como
toda classificação, em quatro grandes correntes teórico­
metodológicas : a corrente teórico-quantitativista, a cor­
rente da geografia do comportamento e a da percepção, a
corrente ecologista e a corrente radical, em grande parte
marxista. Analisaremos cada uma, procurando mostrar
que se interpenetram, havendo convergências entre as
mesmas, em alguns pontos, e também divergências e até a
formação de subcorrentes dentro de cada uma delas.

4 MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo. A geografia no Brasil (1934-


1977) ; avaliação e tendências. São Paulo, Instituto de Geografia da USP,
1980.
s Teoria e clima urbano. São Paulo, Instituto de Geografia da USP, 1976.

171
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

9 . 2 A CORRENTE TEÓ RICO-QUANTITATIVISTA


·
Esta corrente destacou-se por usar em larga
escala os modelos matemático-estatísticos, desenvolvendo
diagramas, matrizes e utilizando sempre a análise fatorial
e a cadeia de Markov.6 Rompeu inteiramente com a
Geografia Clássica e se apresentou como Nova Geografia,
sem ligações com o pensamento tradicional, apresentando
grandes formulações nomotéticas que facilitavam o uso da
estatística. Condenou, no ensino, o uso das excursões,
das aulas práticas de campo por achar desn�cessária a
observação da realidade, substituindo o campo pelo
laboratório, onde seriam feitas as medições matemáticas,
os gráficos e tabelas sofisticadas, procurando visualizar a
problemática através de desenhos e diagramas. Uma ala
intitulou -se de Teorética, para quebrar qualquer vínculo
com os trabalhos empíricos, afirmando-se inteiramente
comprometida com a reflexão teórica.
A corrente que se apresentou como revolucionária,
por negar as origens da Geografia, desenvolveu-se inicial­
mente na Suécia, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha,
tendo fortes repercussões na União Soviética e na Polônia.
Encontrou porém forte resistência na Alemanha e na
França.
Na Suécia ela iniciou-se com os trabalhos de
Torsten Hargerstrand que já nos fins da década de 40 se
preocupava com o estudo das modificações trazidas à
agricultura pela introdução de novas técnicas, como o uso
de máquinas agrícolas, o de tuberculização dos bovinos e

6FAISSOL, Speridião et alli,org. Tendências atuais na geografia urbana­


regoional; teorização e quantificação. Rio de Janeiro, Fundação IBGE, 1978.

172
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

os novos métodos de cultura de ervas. ? Elaborou cartas


que indicavam a progressão da modernização nas áreas da
província de Scania, correlacionando a progressão do
processo no meio urbano e no rural, utilizando, em larga
escala, os métodos estatísticos e as cartas temáticas. O fato
de escrever em sueco dificultou a difusão de suas idéias e
de seus processos de trabalho, apesar de haver sido o
piOneiro.
Nos Estados Unidos, estas idéias tiveram o seu
núcleo de expansão em torno da figura de Edward
Ulmann, professor da Universidade de Washington que
formou estudantes, transmitindo para os estudos urbanos
e de comunicação os princípios e métodos utilizados antes
da guerra mundial, por Alfred Weber8 e Walter Christaller.
Mas o grande centro de difusão das idéias quantitativistas
foi o da Universidade de Chicago, com grande prestígio
nos meios geográficos norte-americanos, onde William
Bunge9 publicou um livro fundamental para o pensamento
teórico, dando maior ênfase à reflexão sobre as proprie­
dades geométricas dos sistemas físicos e sociais, e
menor importância aos modelos de funcionamento, não
se preocupando, assim, com as dimensões espaciais dos
processos sociais e econômicos.
Na Escola de Chicago, a grande figura foi Brien
Barry, que se dedicou sobretudo aos estudos urbanos,
retomando as idéias de Christaller e desenvolvendo
princípios em uma área da Geografia que havia sido, até
certo ponto, relegada pelos próprios geógrafos clássicos.

7 CLAVAL, Paul. Géographie humana et économique contemporaine.


Paris, PUF, 1984, p. 100.
8 WEBER, Alfred. Theory of the location of industries. Chicago,
University of Chicago Press, 1969.
9 BUNGE, William. Theoretical geography. C.W.K. Gleerup, Lund, 1962.

173
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Ele apresentou grande produção isolada e com grupo


de colegas e discípulos, 10 exercendo grande influência
tanto nos Estados Unidos, como na Europa e no Terceiro
Mundo.
Na Inglaterra, alguns autores, como Peter Haggett,
Michael Chisholm e Richard Chorley, realizaram trabalhos
intensos utilizando a pesquisa operacional, a cibernética e
a teoria dos jogos, demonstrando grande familiaridade
com os princípios dominantes na Ciência Económica e
produzindo trabalhos que seriam de utilidade ao desenvol­
vimento do planejamento capitalista. Muito ativos, os
"revolucionários" demonstravam grandes ligações com o
pensamento positivista, de vez que procuravam aplicar às ,
ciências sociais os métodos, bastante positivos, utilizados
nas ciências ditas exatas, ao mesmo tempo em que
desenvolviam progressões lineares visando estabelecer os
critérios para a prospectiva. Ao se ligarem à Teoria Geral
dos Sistemas, atualizaram e modernizaram as famosas
teorias organicistas que comparam a cidade e as
instituições sociais aos organismos animais.n Depois de
algum tempo, a figura central da Geografia Teorética a
mais famosa, foi David Harvey que publicou um livro de

10 Entre outros livros podem ser citados os seguintes: Géographie des


marches et du commerce de détail. Paris, Armand Colin, 1971; e em
colaboração com HORTON, Franck E. Geography; perspectives on urban
systems; with integrate reading. New Jersey, Prentice-Hall, 1970; e com
CONKLING, Edgar C. & RAY, D. Michael. The geography of economics
systems. New Jersey, Prentice-Hall, 1972.
11 Os
autores ingleses citados e outros tiveram suas. obras muito difundidas nas
áreas de língua inglesa, destacando-se, entre outros, os seguintes livros:
COLE, J. P . Geografia quantitativa. Rio de Janeiro. Fundação IBGE, 1972;
....,----
- ---..,- & KING, C. A. M. Quantitative Geography; techniques and

theories in geography. Londres, University of London Press, 1972; HAGGETT,


Peter. L'analyse spatiale en géographie humaine. Paris, Armand Colin, 1973;
:::-:---:-- ...,.-- & CHORLEY R. Modelos físicos e informação em geografia.
· Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos, Edusp, 1974.

174
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

base, 12 que continha profundas reflexões sobre o caráter


científico da Geografia e sobre a "revolução" que se realiza.
Embora, após a publicação desse livro, fizesse novas
reflexões e passasse a militar na Geografia crítica,
aproximando-se cada vez mais do pensamento neomar­
xista, esse livro continua a ter grande importância tanto
pela influência que ainda exerce sobre os geógrafos
neopositivistas, como por servir de base a uma análise
sobre a sua obra, sobre as suas mudanças teórico-metodo­
lógicas e sobre o verdadeiro conteúdo da Geografia
Teorética.
Na Alemanha e na França, a sólida formação
clássica dos discípulos de Hettner da escola lablachiana
serviram como um escudo, dificultando a penetração
das idéias quantitativistas que eram muito propagadas
tanto em livros e revistas, como em reuniões cien­
tíficas, sobretudo naquelas promovidas pela União
Geográfica Internacional. Alguns geógrafos famosos, como
Pinchemel, que traduziu o livro de Haggett e Claval,
aceitaram parcialmente os pontos de vista da nova escola.
Na Universidade de Grenble chegou mesmo a formar-se
um grupo, que se entitulou Chadule, composto por
professores como Henri Chamussy, J oel Charre, Pierre
Dumonlard, Maria Genevieve Dirand e Maryvonne la
Berry, que se comprometeu profundamente com a nova
escola e publicou uma obra coletiva de apoio e de difusão
da mesma.13 Antes que se firmasse e conquistasse maiores
áreas, veio a reação formulada pela geografia crítica e a
difusão da geografia do comportamento; no primeiro caso,
'

12 HARVEY, David. Explanation in geography. Londres, Arnold, 1969.


13 CHEDULE, Maryvonne la. Iniciation aux méthodes statistiques em

géographie. Paris, Masson, 1974.

1 75

175
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

contestou as f0rmulações quantitativas e no segundo pro­


curou novos caminhos, novas alternativas.
No Brasil, a geografia teorético-quantitativa teve
difusão nos fins da década de 6o e primeiro período na de
70, quando o Governo militar estava consolidado e
procurava integrar a economia brasileira, como dependen­
te, à economia mundial, e projetava, de forma linear, um
crescimento da economia brasileira que a levaria, segundo
a propaganda, a colocar o país entre as grandes potências.
Para isto o governo acionou a Fundação IBGE que dis­
punha de ricas informações estatísticas e de um corpo
de geógrafos que, em parte, apoiou a utilização de
novos métodos. Desprezaram a orientação francesa,
até então dominante, enviaram geógrafos para fazer a
pós-graduação nos Estados Unidos, promoveram a vinda
de americanos e ingleses para ministrar cursos e
seminários no Brasil e, através de livros, como o de Cole,
já citado, e da Revista Brasileira de Geografia,
divulgaram os novos métodos e técnicas. Os encontros
promovidos pela Associação dos Geógrafos Brasileiros
foram também utilizados como tribunas de divulgação e
passou-se a fazer verdadeira guerra contra os geógrafos
que não aderiam à "revolução quantitativa", acusando-os
de antiquados e passados ou de velhos que se opunham às
renovações e à ascensão dos jovens.
Também foi palco de estudos quantitativos o curso
de Geografia da UNESP, localizada em Rio Claro, onde, ao
lado dos estudos urbanos, desenvolveram-se, principal­
mente, estudos agrários ou de localização das principais
culturas. Neste centro universitário foram produzidas
numerosas teses de doutorado e dissertações de mestrado
utilizando os métodos quantitativos. Seu prestígio tornou-

176
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

se nacional, sendo a sua pós-graduação uma das mais


procuradas, atraindo estudantes de todo o Brasil, contri­
buindo para a difusão do neopositivismo e da teoria dos
sistemas. Em Rio Claro foi fundada em 1971 a Associação
de Geografia Teorética, que publica um Boletim, que já
chegou ao némero 30, em que a metodologia estatística é
bastante difundida, e livros nesta mesma linha de pensa­
mento. Em 1973, a AGB patrocinou, no Rio de Janeiro, um
Seminário sobre a Renovação da Geografia que teve
como relatara a professora Bertha Backer. O Seminário
apresentava o caminho Teorético quantitativista que deve­
ria ser seguido pela geografia brasileira.
Passada a fase áurea de crescimento capitalista,
pós-guerra da Coréia, sobreviveu a crise com uma série de
problemas ligados à recessão econômica e à desestabi­
lização dos regimes autoritários do Terceiro Mundo.
Os geógrafos quantitativistas compreenderam a fragili­
dade de suas postulações e se dividiram em dois grandes
grupos, um liderado por Harvey, que aderiu ao marxismo,
talvez fazendo uma leitura positivista dos ensinamentos de
Marx, e outro por Brien Barry, que procurou atenuar a
agressividade dos quantitativistas e desenvolver reflexões
sobre a Geografia, utilizando, de forma menos ortodoxa,
as matrizes, a análise fatorial e outros instrumentos
matemáticos.14
No Brasil houve uma reação tanto dos g eógrafos
clássicos como, sobretudo, daqueles que desde a década de
40 refletiam, com compromissos sociais, a realidade
brasileira, continuando um trabalho iniciado com Caio

'4 CHISHOLM, Michael. Geografia humana; evolução ou revolução.


. Rio de
Jasneiro, Interciência, 1979, p. 144 ss.

177
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Prado Junior1s e com Josué de Castro,16 ora apresentando


uma interpretação marxista da problemática geográfica,
ora apenas apresentando comprometimento com transfor­
mações sociais. Esses se organizaram melhor e se agrupa­
ram em torno do Boletim Paulista de Geografia, que
em seu n.0 54, de julho de 1977, publicou uma série de
artigos apresentando novos caminhos para o pensamento
geográfico brasileiro, criticando frontalmente a experiên­
cia quantitativista brasileira.17 Estava aberta a disputa que
se acentuaria na década de 80. Entre os quantitativistas, a
influência de Harvey era muito grande e o seu livro,
Justiça social e cidade, publicado em inglês, em 1973,18
orientou para uma atenuação nas posições de numerosos
geógrafos e a reflexão sobre a possibilidade de utilização
de métodos quantitativos, como métodos, como caminhos
que levavam · à reflexão científica. Os horizontes se
clarearam e o grupo de Rio Claro passou a editar a revista
Geografia, que já conta com 20 números publicados,
onde coexistiam as várias orientações ; foram ainda
publicados, por professores de Rio Claro, dois livros
marcantes,I9 tanto sobre o conhecimento geográfico em si,
como sobre o uso dos métodos quantitativos. Daí se desen­
volveriam também os trabalhos iniciais dos estudos de
Geografia da percepção, com os ensinamentos da profes-

1s PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo; a colônia. 11. a


ed. São Paulo, Brasiliense, 1971.
16 CASTRO, Josué de. Geografia da fome; a fome no Brasil. Rio de Janeiro,

O Cruzeiro, 1945; e Geopolítica da fome. São Paulo, Brasiliense, 1968.


1 7 ANDRADE, Manuel Correia de. O pensamento geográfico e a realidade

brasileira. Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, n.0 54, 1977.


18 Publicado em português pela Hucitec, São Paulo, 1981.
19 CHRISTOFOLETTI, Antônio. Análise dos sistemas em geografia. São
Paulo, Hucitec/Edusp, 1979; e GERARDI, Maria Lúcia de Oliveira & SILVA,
Bárbara Christine. Quantificação em geografia. São Paulo, Di fel, 1981.

178
178
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

sora Lívia de Oliveira, e a tradução, por ela, das duas obras


fundamentais de Yi-Fu Tuan.20

9.3 A GEOGRAFIA DO COMPORTAMENTO E DA


PERCEPÇÃO

O crescimento desordenado e os custos sociais e


políticos do capitalismo começaram a preocupar os
geógrafos, nos fins da década de 6o e no início da de 70,
quando ficou evidenciado que, em escala mundial, o
crescimento não beneficiara os países subdesenvolvidos e
em escala nacional e local não corrigira e nem ao menos
atenuara as diferenças sociais. Ao contrário, os programas
desenvolvimentistas aumentaram as distâncias entre as
condições de vida dos vários Estados e, a nível nacional,
fizeram crescer a pobreza e a miséria, sobretudo no
Terceiro Mundo, tornando inviáveis as condições de vida
nas grandes cidades. O uso cada vez maior de tecnologias
avançadas aumentava as rendas das grandes empresas,
mas acelerava o processo de destruição e de degradação do
meio ambiente. Viram os geógrafos que os seus estudos
abstratos, técnicos, despreocupados com a situação real, e
os seus cálculos matemáticos não contribuíram para
resolver os problemas que estavam levando a humanidade
a uma crise cada vez mais aguda. Foi a hora da procura de
novos caminhos, do " cisma", entre os que pensavam ter
feito uma "revolução" na Geografia e criado uma nova
ciência.
Um grupo investiu na busca de compreender as
causas da crise e de procurar caminhos que fossem à raiz
dos problemas, daí ser chamado radical, e outro procurou
fugir à discussão do mesmo, à cata de caminhos que

20 TUAN, Yi-Fu. Topofilia; um estudo da percepção. Atitudes e valores do


meio ambiente. São Paulo, Difel, 1980.

179
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

contornassem a difícil crise que a humanidade enfrentava.


Este segundo grupo daria origem a uma volta a velhas
fontes do pensamento geográfico utilizando caminhos
mais modernos. Daí o surgimento da chamada geografia
da percepção que, apesar de suas crises internas, vem
tendo grande desenvolvimento nos países anglo-saxões e
até certo ponto o Brasil.
A preocupação entre o psicólogo e meio natural
é encontrada j á na antiguidade entre os gregos,
com Heródoto, e no século XVIII, na França, com
Montesquieu, quando se procurou identificar os caracteres
dos p çvos com as condições climáticas e morfológicas.
Tamb � m não esteve ausente no pensamento das escolas
determinista e possibilista dos inícios da Geografia
Moderna, havendo até autores que defenderam a
existência de uma Geopsicologia e que procuraram;
estudando os povos dominados que viviam em civilização
primitiva, apreender o conhecimento que eles tinham da
natureza e da maneira como percebiam o espaço e a forma
de como organizá-lo.21 Daí haver entre discípulos de Jean
Brunhes aqueles que caminharam sempre em uma áreas
de conhecimento bem próximo à Antropologia Cultural e à
Psicologia Social.
De modo geral pode-se admitir que a escola em
estudo - ela apresentou algumas variáveis - se inspira no
positivismo e no kantismo, estando alguns dos seus
seguidores altamente comprometidos com o humanismo,
dedicando-se exclusivamente ao papel desempenhado pelo
homem, como ser independente, não com a sociedade

21 CLAVAL, Paul. A geografia e a percepção do espaço. Revista Brasileira


de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 1983, ano 45, n. 0 2.

180
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

na forma como ela se apercebe do espaço. É assim


profundamente subjetivista.
Os trabalhos iniciais feitos por Wright, com a
"geosofia", as explorâções com a imaginação geográfica de
Lowenthal e o reconhecimento no processo de tomada de
decisão do significado do "ambiente comportamental" de
Kirk22 levaram os estudiosos a pesquisas no sentido de
precisar a natureza das migrações, que sempre teriam
causas econômicas, na forma do design urbano e nas
formas de percepção do espaço a pequena e longa
distância.
Dentro de uma linha behaviorista em geografia, os
seguidores da nova escola preocuparam-se sobretudo com
os modelos de investigação da sociedade empregados na
investigação geográfica, com a multidisciplinalidade, com
a orientação para a política de planejamento e o desejo de
produzir estudos geográficos mais integralmente envolvi­
dos na educação ambiental e na interpretação do meio
ambiente.23 Esta tendência levava o geógrafo a realizar
estudos para caracterizar como o indivíduo tem a per­
cepção do lugar próximo e distante e como fez refletir esta
percepção através de uma sistematização. Daí resultará
uma tendência à idealização de tantos espaços quantos
forem os indivíduos a percebê-los, fazendo com que haja
volta a uma posição ideográfica. Esta posição básica
dificulta qualquer reflexão objetiva, coletiva, de vez que a
percepção de cada lugar será realizada de forma diferente
entre indivíduos, sobretudo quando oriundos de Classes

22 GOODEY, Brian & GOLD, John. Geografia do comportamento e da

percepção. Belo Horizonte. Departamento de Geografia da Universidade


Federal de Minas Gerais, n. 0 3, 1986.
23 GOODEY, Brian. Ob. cit. p. 16.

181
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

diferentes - os valores sociais variam de uma classe a


outra - de origens diferentes - se oriundos do campo ou
da cidade - e de nações e culturas diferentes. Não haveria
assim uma concepção do espaço, quando se passasse do
individual ao social, mas uma superposição de espaços
para um mesmo lugar.
As idéias centrais, defendidas por numero­
sos geógrafos do mundo anglo-sexão, como David
Lowenthal,24 Yi-Fu Tuan2s e Anne Buttimer,26 entre
outros, tiveram repercussões no Brasil, onde a professora
Lívia de Oliveira, traduzindo a obra de Yi-Fu Tuan,
1
tornou-se a maior defensora dos princípios da Geografia
da Percepção. A discussão suscitada no mundo dos
geógrafos tomou grande impulso, havendo críticas que
condenavam as ligações estabelecidas entre o behaviora­
lismo e o behaviorismo - admitindo-se que o primeiro
"indica um movimento nas ciências sociais que procura
tomar o lugar das teorias tradicionais sobre as relações
homem/ambiente, com novas versões que reconhecem
explicitadamente as verdadeiras complexidades do com­
portamento humano", enquanto ••o behaviorismo foi
uma escola reducionista e de psicologia que constitui
precisamente o tipo de teoria que a behavioralismo visa
substituir".27 Os radicais, sobretudo os neomarxistas,
combatem a Geografia da Percepção alegando que ela foge
à análise da realidade e conduz à reflexão a teorias

24 LOWENTHAL, David. Geografia: expenenc1a e imaginação; em


direção e uma epistemologia geográfica. ln: CHRISTOFOLETil, Antônio.
Perspectivas da geografia. São Paulo, Difel, 1980, p. 103-42.
2s TUAN, Yi-Fu. Geografia humanista. ln: CHRISTOFOLETil, Antônio. Ob.

cit. p. 143-65.
26 BUTIIMER, Anne. Aprendendo o dinamismo do mundo vivido. ln:

CHRlSTOFOLETII, Antônio. Ob. cit. p. 165-94.


27 GOODEY, Brian. Ob. cit. p. 25-6.

182
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

alienadas e comprometidas com o psicologismo. Assim,


sendo profundamente subjetivistas, eles levam a uma
balcanização, à atomização que dificulta qualquer ação
social. Chegam a admitir que, sendo neodarwinianos,
facilitam a ascensão das ditaduras de direita e das
filosofias mais agressivas.
Goodey2s admite que os geógrafos da percepção
estão enfraquecidos devido à cisão havida no grupo entre
os positivistas e os humanistas, mas vêm-se fortalecendo
com a organização, pela UNESCO, de um programa sobre
o Homem e a Biosfera e com a formação de um grupo de
trabalho na União Geográfica Internacional ligado à
Percepção Ambiental. Admite ainda que a Geografia da
Percepção e do Comportamento desenvolve três áreas
de pesquisa que seriam: a da percepção regional, a do
desenvolvimento da percepção espacial da criança e a da
percepção da forma urbana.
Admitindo a existência destas três áreas, observ'\-se
que, mesmo com visão subjetiva, ligada à Teoria \lo_
Conhecimento, têm os seguidores desta linha de pensa­
mento· importante com o problema da região, procurando
caracterizá-la, não de forma objetiva, a partir da natureza,
como faziam os geógrafos tradicionalistas, ou da análise da
forma como a sociedade plasma e organiza as regiões,
como fazem os neomarxistas, mas da análise subjetiva,
variada, diversificada de cada indivíduo. Como se poderia
chegar no fim deste tipo de reflexão a uma caracterização
das regi9es?
Na segunda área de trabalho observa-se grande
preocupação com a criança e, consequentemente, com o

2s GOODEY, Brian. Ob. cit. p. 33·

183
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

futuro da humanidade, daí a ação que vem sendo


desenvolvida junto às atividades de ensino e a aproxi­
mação dos geógrafos da percepção e do comportamento
com os estudos realizados por Piaget e seus discípulos.
Finalmente, na terceira área de estudo observa-se a
preocupação dos geógrafos com design urbano, isto é,
com o desenho das cidades e com as relações internas
existentes nelas. Nesta área vêm sendo desenvolvidos tra­
balhos em comum com arquitetos e urbanistas, premiados
que se encontram pela deterioração da vida urbana,
agravada pelos problemas de circulação, de transporte, de
abastecimento, de saneamento e de segurança. Na reali­
dade, os geógrafos marxistas e os urbanistas vinham tendo
grande preocupação com os problemas das relações entre
a cidade e o campo e entre a cidade e a região e dando
menor importância à análise das relações intra-urbanas.
A importância destas relações se agigantou à proporção
que as cidades tiveram as suas populações em crescimento
acelerado, agravando-se os problemas crônicos e fazendo
surgir outros de difícil solução. Esta dificuldade deriva não
só de problemas de ordem técnica, como sobretudo de
interesses de grupos econômicos que controlam a proprie­
dade dos solos e os circuitos de comercialização.
Como se pode observar, a Geografia da Percepção e
do Comportamento, apesar de apresentar dificuldades
internas - divergências entre os vários grupos que a
compõem - , encontra-se em ascensão; isto porque ela não
contesta a ordem estabelecida e transfere ao individual, ao
pessoal muitos problemas considerados por outros grupos
como _ sociais. Ela não é contestatária frente à ordem
dominante. --
Além disso, sabendo-se que o problema ecológico
vem agravando-se com o desenvolvimento do capitalismo,
provocando a destruição da natureza e a degradação do

184
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

meio ambiente, em escala que põe em risco a existência


da humanidade, o grupo em estudo tem grande campo
de ação, participando de uma luta de defesa do meio
ambiente, defendendo a criação de parques e reservas, a
preservação de bairros históricos e a preservação de
animais e plantas em extinção; desenvolvem campanhas
de ensinamentos que mostram a importância destas
medidas, embora sem ir ao cerne do problema, sem
contestar o sistema econômico que, para sobreviver,
necessita degradar e destruir a natureza. O subjetivismo
inerente ao grupo de geógrafos da percepção e do compor­
tamento, bem salientado por Milton Santos,29 leva a
caminhos que não ameaçam a ordem estabelecida, sendo
por isso considerado, pelos mais radicais, conservador e
reacionário.
Vê-se ainda que a divisão que fizemos das novas
\
tendências dominantes no pensamento geográfico dos
anos 8o é, até certo ponto, artificial, porque, se elas se
separam, contestam nas linhas gerais mais amplas, se
completam ou chegam a um consenso no particular.
Assim, a defesa do meio ambiente é comum aos geógrafos
da percepção, aos ecologistas e aos marxistas, mas a
forma, a maneira de explicar e de combater este mal
separa-os em três grandes correntes que se subdividem em
correntes menores.

29 SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo, Hucitec/Edusp,


1978, p. 68-71. Faz uma análise da geografia do comportamento.

185
185
186
10
GEOGRAFIA E AÇÃO

10.1 OS GEÓ GRAFOS E A CONJUNTURA SOCIAL

partir da segunda metade da década de 70,

A os geógrafos passaram a ter preocupação


maior com a problemática social, de vez que
o desenvolvimento industrial passou a exercer grande
impacto sobre a natureza e a sociedade, degradando e
dilapidando os recursos naturais. O desejo de lucros cada
vez maiores levou as grandes empresas a estimularem o
crescimento do consumo e, consequentemente, a inten­
sificarem a exploração dos recursos naturais renováveis
e não-renováveis. Tivemos, então, o crescimento da
produção mineral, ameaçando de esgotamento as jazidas
conhecidas, a intensificação da destruição das florestas e
erosão das encostas, provocando redução das áreas de
utilização agrícola. O lançamento dos resíduos industriais
e dos esgotos das cidades nas águas e nos solos
provocaram um processo acelerado de degradação, pondo
em risco a produção de alimentos e a saúde da população.

187
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Além disso, o uso indiscriminado de defensivos agrícolas,


visando as barateamento do custo de produção e o
crescimento da produtividade, vem provocando sérios
problemas ao meio ambiente e afetando a saúde dos con­
sumidores. Isto sem falar no risco e nos danos provocados
pela construção de usinas de produção de energia nuclear
que, como aconteceu em 1986 com a de Chernobyl, trazem
grandes problemas de radiação em alimentos, provocando
pânico e risco à saúde da população. Aqui no Brasil a
construção de grandes barragens, como Tucuruí, Itaipu,
Sobradinho etc., cobrindo com um espesso lençol d'água
as áreas mais férteis das várzeas fluviais, vem expulsando
agricultores e criando problemas não só de queda de pro­
dução agrícola, como também de realocamento dos
mesmos. Não menos graves são ainda os problemas
causados pela política de irrigação, que traz consigo a
salinização dos solos e o desequilíbrio no regime dos rios.
Casos há, como o das grandes áreas irrigadas na Ásia
Central ex-soviética, em que a utilização, em larga escala,
das águas dos rios Syr e Amur, tributários do mar de Aral,
vem provocando a diminuição do nível das águas deste
mar e de sua área territorial, com a perspectiva, a
longo prazo, de que venha a desaparecer. As experiências
atômicas desenvolvidas pelas grandes potências nas áreas
desérticas e em ilhas do Pacífico provocam, naturalmente,
um impacto de radiação pernicioso às áreas situadas a
distâncias relativamente grandes. Todos estes problemas
vêm alertando a humanidade para o risco de que ela corre .
com programas de desenvolvimento com fins eminente­
mente econômicos, que visem dar maior poder às grandes
potências e maior riqueza às multinacionais, com com­
pleto desprezo pelas condições de vida da população.

188

-
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Estes fatos vêm provocando o surgimento de movimentos


com participação popular e de especialistas nos vários
ramos do saber que defendem uma política mais humana
e mais ecológica que procure sustar o desenvolvimento
desenfreado, tornando-o mais lento e mais racional.
Daí ter surgido o famoso Clube de Roma, que, em reuniões
sucessivas, vem denunciando a situação, propondo até que
se reduza o crescimento econômico a nível zero.
Se a situação é grave nos países desenvolvidos, é
ainda mais grave nos subdesenvolvidos, para onde os
países industrializados transferem as suas indústrias com
maior capacidade poluidora, e orientallf uma política
"desenvolvimentista" que provoca a distÓ rção do cresci­
mento natural da economia, que, ao invés de atender às
suas necessidades, atende às necessidades do país e das
empresas que o colonizam política ou economicamente.1
Diante de tal perspectiva de degradação das
condições de vida e até de possível desaparecimento da
humanidade, os cientistas em geral e os geógrafos em
particular não poderiam ficar de braços cruzados, sob o
risco de conivência com o crime que é cometido. Não se
pode justificar a construção de barragens monumentais
para produzir e vender energia, por baixo preço, a
empresas multinacionais que contribuem para esgotar as
reservas disponíveis, deixando no país apenas os sinais da
exploração, os salários pagos a trabalhadores e uns poucos
impostos. Não se justifica a implantação de gigantescos
programas de irrigação visando apenas dar trabalho e
lucro às grandes empresas construtoras e oportunidade de
emprego de capital a grandes empresas agro-industriais,

1 BERTHLEM, Charles. Planification et croissance accelerée. Paris,


François Maspero, 1964.

189
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

em detrimento dos interesses da população local, cons­


tituída de pequenos produtores. Estes programas devem
ser estimulados quando visam também ao benefício das
populações radicadas nas áreas a serem por ela atingidas,
ao benefício do país e da região, operando em escala que
atenda a estes objetivos e não apenas para alimentar os
negócios de grandes empresas.
Estes fatos levaram os geógrafos a conviver com
especialistas de outros ramos do saber e a se convencer de
que a "neutralidade" científica é uma balela que serve
apenas para encobrir o comprometimento com os grupos
dominantes. Observaram também a falsidade da delimita­
ção rigorosa entre as ciências, uma vez que o conheci­
mento científico tem unidade e que as ciências são
separadas apenas para efeito didático e de especialização;
o cientista deve ter um conhecimento geral que possibilite
compreender por que as coisas são feitas, como devem ser
feitas e para que, com que finalidade são feitas. Este
raciocínio leva o cientista em geral e o geógrafo em
particular a compreender que a ação política, a coragem de
fazer denúncias e de lutar por uma racionalização da
política desenvolvimentista é decorrência de um compro­
misso inerente à sua formação. O geógrafo deve ser,
assim, um combatente das causas, comprometido com os
interesses da sociedade.
Existe, no momento, uma corrente de geógrafos que
pode ser considerada ecológica, ao lado de outras, como a
da percepção e da crítica ou radical. Isto não significa que
entre os ativistas destas correntes não haja preocupações
da ordem ecológica e que elas estejam separadas uma das
outras por linhas inflexíveis, mas podemos considerar
como ecológica sobretudo a dos geógrafos que têm na

19 0
190
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

defesa do meio ambiente o ponto principal de sua argu­


mentação, de seu trabalho .

10. 2 A CORRENTE ECOLÓ GICA

Ligados à corrente ecológica e com grande contato


com os geógrafos, encontramos, de saída, duas figuras da
maior importância: o agrônomo René Dumont e o
economista Ignacy Sachs. O primeiro é especialista em
agricultura dos países socialistas e do Terceiro mundo,
tendo escrito numerosos livros de observação e de crítica
sobre estes países, apontando as diretrizes que devem ser
seguidas para uma agricultura comprometida com a
sociedade - abastecimento da população - e com o
meio natural. Militante político, ligado ao Partido Verde,
foi candidato à Presidente da República, na França.
Preocupado com o problema da fome, escreveu livros
sobre o assunto,2 demonstrando que o crescimento econô­
mico capitalista leva o mundo, sobretudo o subdesenvol­
vido, à situação de fome em que se encontra. Abordando
o problema ecológico em uma economia socialista,3
demonstra sempre grande independência e capacidade
crítica. O segundo, polonês naturalizado francês, viveu
muitos anos no Brasil e na Í ndia e dirige, na França, o
Centre Internacional de Recherches sur l'Environnement
et le Développement (CIRED), que publica a revista
Nouvelles de l'Ecodéveloppement e desenvolve pro­
gramas em áreas do Terceiro Mundo, procurando utilizar
os recursos e a população local, levando em conta os

2 DUMONT, Renê. Nous alions à la famine. Paris, Seuil, 1966; e La


croissance de la farnine. Paris, Seuil, 1975.
3 Idem. Seule une écologie socialiste. Paris, Robert Lafont, 1977.

191
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

costumes e as técnicas das populações nativas. Interes­


sante programa deste tipo vem sendo desenvolvido na
Amazônia Peruana, com o estímulo, inclusive, de criação
de animais silvestres, como a anta e a capivara. Dentre os
seus livros mais recentes, traduzidos para o português,
destacam-se Espaços, tempos e estratégias de de­
senvolvimento e Ecodesenvolvimento : crescer sem
destruir.4
Os geógrafos passaram também a preocupar-se
seriamente com o problema do meio ambiente, obser­
vando-se que na área de Geografia Física muitos
evoluíram de trabalhos específicos sobre morfologia,
clima, hidrologia etc. , para realizar pesquisas mais amplas
a respeito do meio ambiente, ou, continuando os trabalhos
em suas áreas específicas, passaram a aplicar os conhe­
cimentos especializados, levando em conta o impacto dos
elementos naturais quando influenciados pela sociedade
sobre o meio ambiente. Jean Tricart, o grande geógrafo
francês e um dos reformuladores da geomorfologia,
utilizando o método dialético, trabalhou muito no Terceiro
Mundo e publicou um livro que dá a visão global de
uma geografia ecológica.s Também Paskoff, após muitos
anos de trabalho na Tunísia, com observações em áreas
desérticas ou em processo de desertificação, publicou um
livro de caráter geográfico sobre o assunto.6 Naturalmente,
a preocupação com o meio ambiente vem interessando
sobretudo àqueles que trabalham em áreas desérticas ou
semi-áridas, de vez que existe uma tendência à expansão

4 Ambos publicados pela Editora Vértice, São Paulo, 1986.


s TRICART, J. & KILLIAN, J. L'Ecogeographie. Paris, FM-Herodote,
1979.
6 PASKOFF. Géographie de l'environnement. Exemples tunisiennes.
Tunis, Université de Tunis, 1985.

192
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

dos desertos, quer em conseqüência do avanço das condi­


ções de aridez nas suas áreas marginais, ·quer em áreas
distantes, mas vítima da degradação da vegetação, conse­
qüência das formas irracionais de uso da terra.
A preocupação com os problemas de meio am­
biente, no Brasil, não é recente; ele tem sido objeto de
discussão sobre várias regiões geográficas brasileiras,
como a Amazônia, em face do processo de destruição da
floresta estimulado por incentivos fiscais e subsídios
oficiais, as áreas de cerrado onde se procura desenvolver
culturas de soja e de café, com uso intenso de máquinas
que aceleram a erosão dos solos, e de defensivos,
verdadeiros agrotóxicos, e áreas do semi-árido, com
uma política voltada para a irrigação. O processo de
desertificação do Nordeste antes de sua extinção a
SUDENE, que tem patrocinado estudos do ecólogo
Vasconcelos Sobrinho sobre o problema.7 No Nordeste foi
realizado, durante a XXVI Reunião Anual da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência, em 1974, um
seminário sobre "Meio Ambiente, Desenvolvimento e
Subdesenvolvimento", coordenado por Manuel Correia de
Andrade, com participação multidisciplinar do médico
Walter Leser, dos economistas Ignacy Sachs e Celso
Furtado e do biólogo Warwick Estevam Kerr;s nesse
seminário se debateu, para um grande público, a
problemática do desenvolvimento diante do impacto
ecológico por ele gerado.

7 VASCONCELOS, Sobrinho. A desertificação do nordeste. Recife,


Sudene, 1980.
8 Meio ambiente, desenvolvimento e subdesenvolvimento. São Paulo.
Hucitec, 1975.

193 1 93
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

O geógrafo Hilgard O'Railly Sternberg, que durante


muitos anos lecionou a cadeira de Geografia do Brasil na
Universidade Federal do Rio de Janeiro, apesar de hoje
radicado na Califórnia, continua a desenvolver os seus
trabalhos de pesquisa na Amazônia, apresentando preo­
cupações tanto com a percepção dos recursos naturais,
como o impacto ecológico causado pelas frentes pioneiras
que avançam pelo espaço antes ocupado pela floresta, des­
truindo-a com o machado, com a "coivara" e até com
processos técnicos mais modernos e mais danosos, como
as correntes atreladas a dois possantes tratores. A devasta­
ção da floresta para a expansão de pastagens ou de
culturas temporárias vem expondo os solos pouco
espessos da Amazônia, à lixiviação e ao transporte da
camada decomposta, pelos lençóis de escoamento das
águas das chuvas. Desse modo, a erosão mecânica e
química, ao mesmo tempo, destroem, em poucos anos, um
solo que levou milênios para se formar e uma floresta que
se auto-alimenta.9
Em São Paulo, o geomorfólogo Aziz Nacib Ab'Sáber,
após anos de trabalho e pesquisas em todo o Brasil, passou
a militar como cientista e como cidadão na luta em favor
do respeito às condições ecológicas, destacando-se sobre­
tudo na luta pela reorganização do espaço após a
construção de barragens, fazendo a defesa da preservação
ambiental nos espaços atingidos pela influência das
mesmas. Destacou-se ainda na luta contra a construção do
aeroporto de Cumbica em área que deveria ter a sua

9 STERNBERG, Hílgard O'Railly. Frentes pioneiras contemporâneas; alguns


aspectos ecológicos; Interfacies. São José do Rio Preto, UNESP, n.0 27,
1972; e A região amazônica e a mudança de percepção dos recursos naturais.
Interfacies. São José do Rio Preto, UNESP, n.0 36, 1980.

1 94
194
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

vegetação preservada, e na defesa das encostas da serra


do Mar que vêm sendo castigadas tanto pela poluição
industrial - área atingida pela poluição do ar das indús­
trias de Cubatão -, como pelo desmatamento que
provocaria uma aceleração da erosão mecânica, do
escorregamento das encostas. Dando entrevistas nas
cadeias de rádio e televisão, publicando notas e artigos em
jornais e escrevendo ensaios contundentes.10 Ab'Sáber é
hoje uma das maiores autoridades na luta em defesa do
patrimônio ecológico brasileiro.
Importante trabalho está sendo desenvolvido tam­
bém na Universidade de São Paulo pelo professor
Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, especialista em
climatologia, que vem estudando o problema da poluição
nos grandes centros urbanos e a influência do clima,
sobretudo das chuvas, na agricultura. Além de trabalhos
próprios, vem dando assistência técnica à Secretaria de
Planej amento do Estado da Bahia, organizando um Atl<l.sn
e desenvolvendo intensa atividade na orientação de estu­
dantes de pós-graduação, na elaboração de dissertações de
mestrado e de teses de doutorado. Recentemente, uma sua
orientada publicou importante trabalho sobre o problema
de elevação da temperatura em áreas metropolitanas.12

10
Entre seus ensaios destacam-se: Barragens do Tietê na depressão periférica
paulista. Problemas de reorganização do espaço em função da construção de
barragens. Série Geografia e Planejamento. São Paulo, Instituto de
Geografia da USP, I n.0 3, 1972; A estrutura metropolitana e o novo aeroporto
'
de São Paulo. Série Geografia e Planej amento. São Paulo, Instituto de
Geografia da USP, n.0 18, 1975; O reservatório de Juqueri na área de
Malriporã. Estudos básicos para a defesa ambiental e ordenação de espaços
envolventes. Série Geografia e Planejamento. São Paulo, Instituto d e
Geografia d a USP, n . 0 3 2 , 1978.
11 Atlas Climatológico do Estado da Bahia (Doe. n.05 1, 2, 3 e 4). Salvador,
CEPLAB, 1977.
12
LOMBARDO, Magna Adelaide. llhas de calor nas metrópoles; o
exemplo de São Paulo. São Paulo, Hucitec, 1985.

1 <15
195
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

, Não há, naturalmente, identidade ideológica entre


os vários geógrafos sobre as soluções a serem dadas aos
impactos ecológicos, mas em comum eles defendem a
preservação da natureza e combatem a política desenvol­
vimentista que vem financiando a devastação da vegetação
natural, feita de forma indiscriminada, e a implantação de
indústrias altamente poluidoras, sem a utilização dos
mecanismos que neutralizem os efeitos poluentes, e a
degradação das condições de vida e de alimentação das
populações. Mesmo quando especialistas em Geografia
Física, a formação ampla fornecida pelos cursos de
geografia tem dado aos geógrafos a competência para
apresentarem críticas à política antiecológica dos governos
e das empresas, colaborando com especialistas de áreas
diversas para apontar soluções, quase sempre mais
racionais que as apenas econômicas, ou melhor, economi­
cistas. Em muitos pontos, eles se aproximam do grupo dos
chamados geógrafos críticos ou radicais, enquanto em
outros se contactam com o grupo que faz a geografia da
percepção e do comportamento.

10.3 A GEOGRAFIA CRÍTICA OU RADICAL

A geografia crítica ou radical não apresenta unifor­


midade de pensamento, não forma propriamente uma
escola. Costuma-se catalogar neste grupo geógrafos que se
conscientizaram da existência de problemas muito graves
na sociedade em que vivem e compreenderam que toda a
geografia, tanto a tradicional como a quantitativa e a da
percepção, embora se apregoando de neutras, tem um
sério compromisso com o status quo, com a sociedade de
classe. A neutralidade científica apregoada é uma forma de

196
196

--""--- - - -
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

esconder os compromissos políticos e sociais . Os radicais


, compreenderam também que as poucas críticas feitas
pelos geógrafos destas escolas às injustiças com que
convivem são feitas visando à correção de detalhes, de
problemas complementares, sem ir ao cerne dos mesmos
problemas. Daí se chamarem radicais, isto é, de tornarem
urna atitude que, ao analisar as injustiças sociais e os
bloqueios a um desenvolvimento social, vão às raízes,
às causas verdadeiras destes problemas, e de críticos
por assumirem os seus compromissos ideológicos, sem
procurarem esconder-se sob falsa neutralidade . 13
Neste grupo observam-se grandes subdivisões,
corno a corrente formada por geógrafos não-marxistas,
mas comprometidos com reformas sociais, geógrafos com
formação anarquista que . se ligam originariamente aos
discursos de Élisée Reclus e P. Kropotkin, em suas críticas
à sociedade burguesa, e propugnam por uma evolução
libertária, e geógrafos de formação marxista. Ao ler o texto
dos geógrafos marxistas, observamos que há grande
diversificação entre as suas postulações; existem várias
interpretações do marxismo e há até quem procure
distinguir diversos discursos marxistas. Em linhas gerais
podemos distinguir entre os marxistas aqueles que
' I
aceitaram Marx corno um pensador, como um filósofo e
procuram aplicar a práxis ao analisar as situações que se
lhes apresentam para estudo. Estão preocupados com os
problemas da totalidade, dão grande importância à análise
das formações econômico-soc1a1s e dos modos de

13Sobre o assunto é i nteressante consultar R.A.CINE, Jean Bernard. Discurso


geográfico y discurso ideológico; perspectivas epistemológicas. Geocrítica,
Barcelona, n.0 7, 1977; e PEET, richard. O desenvolvimento da geo­
grafia radical nos Estados Unidos. ln: CH RISTOFOLETTI, Antônio.
As perspectivas da geografia. São Paulo, Difel, 1980, p. 2.25-54.

19 7
197
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

produção, mas levam em conta que Marx viveu e estudou a


Europà no século XIX, não podendo haver transposição
dos seus pensamentos sem uma adaptação, tanto para
outros continentes como para a época. Outro grupo que
aceita Marx como um doutrinador e o marxismo como
uma doutrina procura transferir as categorias de Marx
para a realidade do século XX e para todos os continentes,
preocupando-se em enriquecer, ao máximo,os seus
textos, com citações de Marx, de Kautsky, de Lênin etc.
São os marxistas ortodoxos, que, em geral tendo vindo de
uma formação neopositivista, lêem Marx através de uma
formulação positivista, como se o marxismo não fosse
uma filosofia dialética . Há, naturalmente, um distancia­
mento cada vez maior entre marxistas e marxólogos, entre
ortodoxos e heterodoxos .
O marxismo geográfico nos Estados Unidos foi o
resultado da reflexão de alguns geógrafos quantitativistas
que compreenderam o esvaziamento de suas técnicas
e o comportamento que tinham para com a sociedade
capitalista em expansão ;procuravam indicar os locais
ideais para a localização das indústrias, as formas de
organização do espaço urbano e agrário etc., sem se preo­
cuparem com os danos causados por esta racionalização
capitalista sobre a qualidade do meio ambiente e da
sociedade. Daí o radicalismo de um Bunge, que terminou
perdendo os lugares universitários em Detroit e em
Toronto, transformando-se depois em motorista de táxi, e
de Harvey que, como novo converso, investe contra os seus
companheiros da "revolução" quantitativa como Brien
Barry. Mas, controlando lugares importantes nos centros
universitários, escrevendo em inglês e tendo fácil acesso
aos meios de comunicação, fizeram grande avanço, sobre-

198
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

tudo depois da publicação, por Harvey, dos seus livros


A justiça social e a cidade, em 1973, e Os limites do
capital, em 1982. Na realidade, Harvey, que em 1969 era
positivista, avançou em direção ao marxismo e quatro
anos após j á se posicionava crítico em relação à sua
produção anterior e, em seguida, se tornou marxista
bastante agressivo.
Kirk Mattson, 14 analisando o avanço da geografia
crítica nos Estados Unidos, afirma que ela surgiu do desejo
de alguns geógrafos tomarem maior conhecimento da
realidade existente e da constatação das injustiças sociais
que os cercavam, sem que a Geografia neopositivista
tivesse preocupação com a mesma. Daí surgirem , nos
Estados Unidos, três movimentos paralelos e conver­
gentes : o das expedições geográficas, o da publicação da
revista Antipode e o da fundação da União dos Geógrafos
Socialistas.
As expedições geográficas foram formuladas por
W. Bunge na cidade de Detroit, onde era professor
universitário e residia próximo ao bairro negro de
Fitzgerald. Bunge interessou-se pelos problemas deste
bairro e passou a visitá-lo a fim de fazer investigações e
tomar cantata com os seus habitantes, verificando que o
nível de vida no bairro era muito precário e que as reivin­
dicações dos seus habitantes não eram analisadas pelos
geógrafos e planejadores nos estudos realizados para os
departamentos governamentais . Chegou à conclusão de
que se deveria inverter as posições e se proceder a um
planejamento em função das comunidades que iam ser
atingidas. Resolveu organizar grupos de professores e

'4MATISON, Kirk. Uma Introducción à la geografia radical. Geocrítica.


Barcelona, n. 0 13, 1976.

199
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

alunos de Geografia que iam- ao bairro de Fitzgerald e se


reuniam com os seus habitantes, em geral pobres, e faziam
o levantamentos das necessidades, das reivindicações e
dos resultados das intervenções oficiais. Das expedições
evoluiu para o ensino, organizando cursos livres sobre os
aspectos geográficos do planejamento urbano, que tiveram
grande aceitação tanto por universitários como por
populares. Escreveu um livro sobre o bairro e a sua
experiência, despertando a reação conservadora, que levou
a universidade a dispensá-lo e a interditar seus cursos.
Não interessava a ela maior contato com o povo, podia
admitir em seus quadros um professor que não tivesse
compromissos com o status quo. Bunge, demitido,
-
transferiu-se para a Universidade de Toronto, onde a sua
conduta foi repetida e suas idéias marxistas começaram a
.....1 incomodar os controladores do ensino superior canadense .
Não dispondo mais de emprego no meio universitário,
- . tornou-se motorista de táxi, participando do movimento


.1 sindical, afirmando que a sua nova profissão era ideal para
v; um geógrafo, de vez que, como taxista, tinha oportunidade
de melhor conhecer a cidade em que vivia a trabalhava.1s
A revista Antipode foi organizada a partir de 1969,
a fim de divulgar os trabalho das expedições geográficas
de Bunge e passou a fazer uma crítica radical tanto à
geografia tradicional quanto à geografia teorética. Teve
grande aceitação, animando os seus organizadores, não só
devido ao suporte financeiro de que dispunha, como
também à oportunidade de abrir novos horizontes aos
j ovens geógrafos. Quase todos os seus colaboradores eram

Sobre a trajetória científico-política de Bunge há um interessante ensaio de


'5

RACINE, Jean Bernard. De la géographie théoretique a la revolution. In:


BUNCE, William. Herodote. Paris,n° 4, 1976.

200
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

geógrafos quantitativistas que se haviam desenganado


dos princípios da geografia abstrata e dos métodos
matemático-estatísticos. A partir de 1974, o desejo de
encontrar uma diretriz filosófica e ideológica e de expandir
os seus estudos para o Terceiro Mundo, onde as injustiças
sociais e os danos da dominação cápitalista eram
mais sensíveis, esta revista adotou uma linha marxista,
o que provocou uma queda em sua penetração nos
meios universitários, controlados pela ultra-conservadora
Associação dos Geógrafos Americanos . Ela tem quatro
funções essenciais : ser um veículo de comunicação de
idéias, · ter finalidades didáticas, uma abértura para a
crítica e um meio de exposição dos tra_balhos de inves­
tigação teórica e prática de vanguarda. Entre os temas
mais freqüentes em suas páginas se encontram os
problemas de desenvolvimento e séú interesse geográfico,
a economia política urbana, os problemas ecológicos, a
habitação, a planificação, os problemas pedagógicos etc.16
Os principais centros de difusão das idéias defendidas
por Antipode então nas Universidades de Clark, de
Vancouver e de Londres.
A União dos Geógrafos Socialistas, formada em
1974, é uma associação que não tem caráter político­
-militante nem profissional. Para ela afluem interessados
pela Geografia e pela mudança social, desenvolvendo tra­
balhos de organização com vistas a uma mudança radical
na sociedade e desenvolver uma teoria geográfica que
contribua para a luta revolucionária.17 Ela mantém uma
revista, participa de movimentos políticos e de reivindica­
ções locais e regionais, realiza congressos e tem centros

16 MATISON, Kirk. Ob. cit. 15.


17 • Ob. cit. 16.

201
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

organizados em Boston e Baltimore nos Estados Unidos e


em Montreal, Toronto e Vancouver no Canadá. Procura
difundir as suas idéias visando à renovação do conheci­
mento geográfico e à oferta de novas alternativas
aos profissionais e tenta contribuir para a reforma da
sociedade.
Na realidade, a Geografia Radical na América do
Norte teve dois grandes líderes,ambos neopositivistas, até
os fins da década de 6o: David Harvey e William Bunge.
Em livros e artigos mais recentes eles vêm aprofundando
cada vez mais a análise das vinculações do capital com
a organização espacial e desenvolvendo os princípios
marxistas. Trata-se, assim, de uma corrente que procura
no socialismo as alternativas para uma sociedade capita­
lista em crise, que procura novos caminhos, novas alter­
nativas, tanto científicas como sócio-políticas.
A geografia crítica ou radical na Europa não­
-saxônica apresenta outras características e outras origens.
Encontra raízes em trabalhos do século XIX, escritos por
autores como Karl Marx, Friedrich Engels, Karl Kautsky,
V. Lênin, Élisée Reclus e Kropotkin, autores sempre
esquecidos pelos geógrafos da escola tradicional e pelas
escolas modernas, saídas da "Nova Geografia" .
O interesse da obra de Marx, para a Geografia,
é muito grande, sobretudo quando formula categorias
científicas como os modos de produção e as formações
econômico-sociais,IB quando analisa as relações campo/
cidade19 e vincula a evolução da sociedade à luta de

18 MARX, Karl. El capital: crítica de la economia política. México. Fondo de


Cultura Economia, s.d.; e Elementos fundamentales para la crítica de
la economia política (borrador) 1857/1858-4. a ed. Buenos Aires, Siglo
Veintuno, 1974.
19 & ENGELS, F. A ideologia alemã. Portugal/Brasil,
Presence/Martins Fontes, s.d.

202
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

classes, aceita também por Reclus,20 enquanto Engels


traz grande contribuição ao estudar as transformações
naturais21 e os problemas urbanos.22 Kautsky, em livros
memoráveis,23 analisa o problema agrário, tornando-se
clássico e utilizado pela maioria dos cientistas sociais. Seus
estudos sobre a pequena e a grande produção agrícola e
sobre a transformação da agricultura de gênero de vida
em uma atividade comercial, capitalista, são indispen­
sáveis para a reflexão sobre qualquer transformação na
agricultura moderna. Reclus e Kropotkin, como revolu­
cionários e geógrafos, embora esquecidos pela Geografia
oficial, institucionalizada, foram mais objetivos na abor­
dagem dos temas geográficos, como já foi salientado
anteriormente.
No pós-guerra observou-se maior interesse pelo
marxismo entre os geógrafos, quando se tentou fazer a
reconstrução da Europa. Nessa ocasião, vários geógrafos
franceses, como J. Tricart, J. Dresch, Pierre George,
Michel Rochefort, Bernard Kayser, Yves Lacoste, chega­
ram a participar dos quadros do Partido Comunista
Francês qu� tivera grande destaque durante a resistência
à ocupação alemã. Estes geógrafos não só passarem a
procurar caminhos para a explicação geográfica, dentro da
filosofia marxista, como também procuraram conciliar os
velhos princípios do possibilismo francês com a dialética
hegeliana-marxista. Tricart investiu contra às velhas

20 RECLUS, Élisée. L'homme et I aterre. Paris, Librairie Universelle. V. I,


r
p. I-IV.
21 ENGELS, F. Dialética da natureza. 4. a ed. São Paulo, Paz e Terra, 1985.
22 Idem. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Porto,
Afrontamento, 1975.
23 KAUTSKY, Karl. A questão agrária. Rio de Janeiro, , Laemmert, 1968.

A política agrária do partido socialista. São Paulo, Assunção, s.d.;


Socialización de la agricultura. Bogotá, El Ojo Tapado, 1973.

20 3
203
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

concepções defendidas por H. Baulig e divulgou a teoria da


zonalidade dos processos geomorfológicos, mostrando a
importância da dialética na elaboração dos novos
caminhos; Dtesch desenvolveu os estudos de geografia em
b ases modernas; como o problema da deterioração dos
impérios colônias, sobretudo na África do Norte. Ele abriu
novas perspectivas à an álise das regiões áridas.24 George
procurõu analisar o des envolvimento da URSS2s e dos
países c&e se tran�formaram em democracias populares, 2 6
indicando como hàVia uma racionalização econômica
a comarid�r estas transformações ; Rochefort, em tese
marcartte,:n revolucionou os estudos das relações interur­
·
banas; estâbelecendo uttia hierarquia funcional nas regiões ·

dominadas por éenttos urbanos; e Yves Lacoste ques­


tionou as estruturas. da Geografia tradicional, em
colaboração a utna História da Filosofia, organizada por
François·· Chátefet,2s móstrandó a existência de grande
distância entre a geografia dos professores, ensinada nas
escolas secund�tias é nas universidades, e a geografia da
máss-mediá e qos generais e administradores.
A invasão da Hungri á pelas tropas soviéticas e dos
países ·do Corriecon, em 1956, afastou muitos destes
geógrafos do P CF e provocou uma perda de interesse
pelo marxismo nos meios universitários, mas ficaram as
ligações cóm .especialistas de outras ciências, como os

24 D�$CH, Jean. ú-éographie des régions árides. Paris, PUF, 1982 .


2s GEORGE, Pierre. UR8S, Haute Asie ét Iran. Paris, PUF, 1943.
26 & TRI CART, Jean. L'Europe Centrale. Paris, PUF, 1964.
27 ROCHEFO iU, M ichel. L'organisation urbaine de L'Alsace. Paris, Les

Belles Lettres, 1960.


28 LACOS1% Yves. A geografi a. ln: CHATELET, François. História da
filosofi' a: a filosofia das ciências sociais. Rio de Janeiro, Zahar, 1973,
p. 221-'/'4, v. 7.

204

------ - - -
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

filósofos L. Althusser29 e Henry Lefebvre,3° de urbanistas


como Manuel Castels31 e de economistas como Charles
Bethleim,32 que trabalham utilizando a dialética marxista.
Também a terminologia marxista e os princípjos pregados
por Marx e seus discípulos continuaram prese11tes em
trabalhos de numerosos geógrafos franceses.
A corrente mais conseqüente, porém, foi a liderada
por Yves Lacoste, que criou a revista Hefodote, em 1976,
e passou a desenvolver,na mesma, temas da maior
atualidade, como a crise que atingia a Geografia em face
das novas tendências, a discussão da dialética hegeliana e
sua ligação com a Geografia, a obra de Élisée Reclus e a
importância da análise do seu pensamento,33 o problema
ideológico, o problema da paisagem, o problema do
trabalho no campo, o problema urbano, o problema do
imperialismo ligado à colonização e ao colonialismo, o
problema das cidades metropolitanas, o problema do
habitar, o problema da Arg�lia, o problema da e�tratégia e
da ideologia, o problema da história da geografia, os
problemas climáticos e ecológicos, o problema da análise
geográfica na e da França etc. A partir do número 27 do
terceiro semestre de 1982, ele passou a assumir uma
posição de análise tanto geográfica como geopolítica,
publicando volumes sobre a América Central e o Caribe,

29 ALTHUSSER, L. A favor de Marx. 2a ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1979; e


ler O capital. Rio de Janeiro, Zahar, 1979.
3° LEFEBVRE, Henry. La production de l'espace. Paris, É ditions
Anthropos, 1974; e Du rural à l'urban. Paris, É ditions Anthropos, 1970.
3• CASTELS, Manuel. La question urbaine. Paris, François Maspero, 1972.

3 2 BETHLEIM, Charies. Planification et croissance acelerée. Paris,


François Maspero, 1964.
33 HERODOTE, n.0 18 (1980) e n.0 22 (1981); e GIBBLIN, Beatrice.
Introduction et choix des textes. In: RECLUS, Élisée. L'homme et I aterre.
Paris, François Maspero, 1982, 2 . 0 v.

20 5
205
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

sobre a Geopolítica alemã, sobre o Oriente Próximo, sobre


o Mar, sobre o Islã, sobre as ilhas de língua francesa e
sobre o jogo de fronteiras na África.
Em seu número 33/34, do segundo semestre de
1984, dedicado aos Geógrafos e à Ação Política, em
brilhante introdução Yves Lacose defende a participação
dos geógrafos, como tais, na ação política e faz a
reabilitação da expressão Geopolítica, condenada no
pós-guerra por haver sido utilizada pelos nazistas para
justificar a sua política expansionista e racista. Ele afirma
que todas as ciências foram utilizadas pelos nazistas para
justificar a sua ação, e da mesma forma que existe uma
geopolítica dos governos ditatoriais, das classes dominan­
tes para justificar a expansão das fronteiras dos grandes
Estados e a dominação interna, existe também uma geopo­
lítica dos povos para fazerem a libertação nacional, no
plano externo, e a libertação interna.
Lacoste, incansável, não se limitou à direção da
revista; em livros memoráveis analisou como a Geografia é
utilizada para fazer a guerra,34 como se faz a expoliação do
Terceiro Mundo3s e, mais recentemente, em livro sobre o
terceiro mundismo como doutrina, analisa a problemática
desta ideologia, apresentando-se bem mais moderado.36
Mas não é só Herodote que toma uma posição
simpática ao pensamento marxista na área geográfica.
Também a revista Espaces/Temps dedicou um número,
o 18/19/20, ao problema da análise marxista do espaço, e
o 26/27/28 ao problema ecológico, visto de um prisma

34 LACOSTE, Yves. La géographie, ça sert, d'abord, à faire la guerre.


Paris, François Maspero, 1976.
35 Idem. Géographie du sous développement. 3. a ed. Paris, PUF, 1978.

3 6 Idem. Contre les anti tiers-mondistes et contre certains


tiersmondistes. Paris, Éditions la Decouverte, 1985.

206
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

bastante radical. Nestes números encontram-se ensaios de


geógrafos de grande renom�, ao lado de jovens geógrafos
que procuram novos caminhos.
As idéias radicais ou críticas, tanto oriundas dos
Estados Unidos como da França, repercutiram no Brasil,
nos fins da década de 70. Houve, assim, uma confluência
de fontes diferentes alimentando a produção geográfica
brasileira; já se observava, desde a década de 40, uma
preocupação com os aspectos sociais da geografia, explici­
tados diretamente por Caio Prado Junior em artigo
publicados na revista Geografia37 e também na sua obra
máxima, Formação do Brasil Contemporâneo, cuja
primeira edição é de 1943, em que faz uma geografia
retrospectiva do Brasil, no fim do Período Colonial.
Marxista, profundo conhecedor do marxismo, mas livre de
qualquer dogmatismo, Caio Prado Junior procurou aplicar
à realidade brasileira os métodos do grande filósofo
alemão e produziu o livro que é considerado um marco
no pensamento brasileiro, ao lado de Raízes do Brasil,
de Sérgio Buarque de Holanda, e o Casa grande &
senzala, de Gilberto Freyre.38 Também os trabalhos de
Orlando Valverde, publicados na Revista Brasileira
de Geografia,39 demonstram grande preocupação pelos
problemas sociaiS e o aprofundamento da análise às
causas, às raízes dos problemas. Manuel Correia de

37 O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São


Paulo. Geografia, São Paulo, ano 3, n.0 3, 1935; Distribuição da propriedade
fundiária rural no Estado de São Paulo. Geografia. São Paulo, n. 0 1, 1935;
Contribuição ao estudo das influências étnicas no Estado do Paraná.
Geografia. São Paulo, n.0 2, 1935.
3 8 MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974).
São Paulo, Ática, 1977.
39 VALVERDE, Orlando. Ensaios de geografia agrária brasileira.
Petrópolis, Vozes, 1984.

207
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Andrade, nas décadas de 50 e 6o, caminhando à margem


dos padrões geográficos então dominantes, também
apresentou grandes preocupações sociais, em artigos e
monografias, depois aprofundados em tese de, concurso
para a Cátedra de Geografia Econômica da Faculdade de
Ciências Econômicas e em livro publicado pela Editora
Brasiliense em 1963.4° Este livro teve muito maior acei­
tação entre historiadores e sociólogos do que entre os
geógrafos mais influentes que o consideravam não-geográ­
fico, em face das suas preocupações sociais.
A crise do regime autoritário levou os geógrafos a
procurarem novos caminhos, a tomarem conhecimento do
surgimento de Antipode e de Herodote. A volta de
Milton Santos de longo exílio e a sua participação no
Conselho Editorial destas duas revistas trouxe novo
impulso à crítica na e sobre a Geografia, sobretudo com a
publicação de seu livro Por uma geografia nova, em
1978.41 Muitos dos geógrafos quantitativistas, surpreendi­
dos com as novas posições de Bunge e de Harvey e sempre
ligados à geografia americana, passaram a tentar superar e
até a criticar acerbament� os princípios que antes defen­
diam,partindo para posições críticas, 42 enquanto outros
que não tinham participado da grande querela da
"revolução quantitativista" e que tinham compromissos
com um pensamento dialético passaram a desenvolver o

4° ANDRADE, Manuel Correia de. A pecuária no Agreste


pernambucano. Recife, 1961 (tese de concurso de cátedra); e A terra e o
homem no nordeste. s. a ed. São Paulo. Atlas, 1988.
4' Além deste livro, Milton Santos desenvolveu a sua linha de pensamento em
numerosos livros como O espaço dividido. Rio de Janeiro, Francisco Alves,
1978; Manual de geografia urbana. São Paulo, Hucitec, 1961; Espaço &
método. São Paulo, Nobel, 1985.
42 LOBATO, Roberto. Região e organização especial. São Paulo, Ática,
1986.

208
208
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

pensamento em direção a novas linhas, em publicações


prestigiadas como o Boletim Paulista de Geografia, a
partir do número 54, que vem analisando problemas
candentes, como o da natureza da geografia, o do proble­
ma agrário, valorizando as relações de trabalho no meio
rural (n. 0 6o) e do imperalismo (n.0 59) etc. Publicações
novas e, às vezes, de .duração efêmera, como Território
Livre, Terra Livre, Geonordeste etc., vêm assumindo
ora uma posição radical, ora admitindo em suas páginas
uma colaboração de radicais. Geógrafos brasileiros tam­

I
bém têm escrito livros numerosos sobre problemas
nacionais, publicados em coleções ora dedicadas inteira­
mente à geografia, ora em coleções mais abertas, de
ciências sociais. Há grande intercâmbio entre o pensamen­
to da geografia crítica e a sociologia e a economia de
vanguarda, tendo grande público entre os leitores de
geografia sociólogos como Florestan Fernandes, Fernando
Henrique Cardoso, Octávio Ianni, José de Souza Martins,
economistas como Celso Furtado e Luiz Carlos Bresser
Pereira, filósofos como Marilena Chauí, historiadores
como Fernando Navais, Carlos Guilherme Mota, Nelson
Werneck Sodré etc.
Com a Geografia Crítica vem-se desenvolvendo, no
Exterior e no País, o que se denomina Geografia Política.
Assim, na França, sob a inspiração de Yves Lacoste, vem
sendo publicado, há seis anos, o anuário L'État du
Monde, em que se analisa a problemática política em
relação ao espaço produzido, fornecendo aos estudantes
uma visão geral da situação mundial. No Brasil, os estudos
de geografia política vêm-se desenvolvendo em função da
análise da posição do Brasil no concerto das nações -
sobretudo em face da América Latina e da África - e em

20 9
209
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

relação ao processo de ocupação dos espaços vazios no


território brasileiro. A expressão geopolítica já deixou de
ser usada apenas pelos militares e políticos conservadores,
passando também a ser usada pelos geógrafos em ensaios
sobre a ocupação da Amazônia e do Centro-Oeste, assim
como sobre o processo de desequilíbrio regional em
relação ao Nordeste e, até certo ponto, ao Sul do País.

210
210
11
A GEOGRAFIA E A PROBLEMÁTICA
DO MUNDO ATUAL

11.1 A GEOGRAFIA BRASILEIRA NO INÍ CIO DO


S É CULO XXI

C
omo ficou claro no início deste livro, o Brasil
possui hoje, uma equipe de geógrafos que
pode ser considerada como uma das de mais
alto nível no Mundo, comparando-se em igualdade de
condições com a de países mais desenvolvidos, como os
Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido e alguns
países latino-americanos, como o México e a Argentina.
Tendo uma grande extensão territorial
8.515.oookm2 - e uma população comparável a de alguns
países mais populosos - 175. 000.000 hab -, o Brasil
coloca-se no 11.0 lugar na economia mundial - PIB de
502.509 milhões de dólares em 2001 - Apresenta, porém,
.

uma grande desigualdade na distribuição de renda e uma


qualidade de vida, indicada pelo IDH, de 0777, em 2001,
que o coloca em posição inferior a de numerosos outros

211
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

países bem menos importantes, mais precisamente no


64. 0 lugar no Mundo.
Daí os geógrafos brasileiros elaboraram a sua
geografia tentando responder aos desafios dessa realidade,
comparando a sua situação no contexto mundial com a de
outros países e blocos de países, sobretudo nessa época de
globalismo. Eles se sentem forçados a não se limitar ao
estudo do que ocorreu dentro de suas fronteiras, mas
também ao que ocorre nos países de outros continentes
muitas vezes muito distantes do nosso. Com uma
influência e com relações comerciais em todo o mundo, o
geógrafo brasileiro se vê forçado a comparar situações de
equilíbrio e de desequilíbrio expostas por estudiosos de
outros continentes.
É interessante observar como aqueles que estuda­
ram e definiram cientificamente o nosso território, na
primeira metade do século XX, estavam preocupados
apenas com o mesmo, ao contrário do que ocorre hoje,
quando se sabe da importância do internacional para a
vida brasileira; eles têm de se preocupar tanto com o nosso
território quanto com o que acontece nos outros países e
continentes. Desse modo, passamos de uma visão em
escala nacional para uma visão em escala mundial.
Dispondo de uma grande quantidade de centros
universitários que desenvolvem o ensino da geografia,
tanto em nível de graduação como de pós-graduação -
especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado -, o
Brasil vem formando cientistas que abordam os mais
diversos problemas e mantém contatos com as mais
diversas instituições internacionais; isto os leva ao estudo
não só dos problemas regionais e locais como se
abeberarem de posições filosóficas as mais variadas. ·

212
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

Observa-se que as várias correntes de pensamento


que exerceram influências na trajetória da geografia
brasileira, não a dominaram completamente, mas deixa­
ram marcas profundas na orientação dos principais
geógrafos e no pensamento geográfico em geral, sobretudo
aquelas correntes mais dinâmicas, como às ligadas à teoria
dos sistemas e à dialético-marxista. Numerosas foram as
marcas deixadas por novas tecnologias, anteriormente
desconhecidas. Tem havido um maior intercâmbio com
ciências afins, tanto das chamadas ciências naturais -
geologia, pedologia, petrografia, biologia - como das
chamadas humanas - a história, a antropologia, a sociolo­
gia, a ciência política, etc.
A formação de geógrafos fora do território nacional,
feita em cursos e estágios de pós-doutorado - o mestrado
e o doutorado hoje são feitos principalmente no Brasil - se
diversificou quanto aos locais de destino, diminuindo a
influência francesa que foi decisiva para a formação da
geografia brasileira e, em menor escada, a alemã e a
saxônica. O fato, porém, não diminui a importância que
ainda hoje tem para a geografia brasileira, autores como
Pierre Mombeig, Pierre Deffontaines, Francis Ruellan, Leo
Waibel, Pierre Donsereau entre outros.

11.2 A GEOGRAFIA E OS GRANDES PROBLEMAS


BRASILEIROS

Analisando-se a bibliografia brasileira mais recente,


observa-se o papel desempenhado pelo Prof. Milton
Santos, com a série de livros escritos após seu regresso
de treze anos de exílio, quando se fixou em São Paulo.
Estes livros, sem desmerecer os que publicou antes,

213 21 3
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

no estilo clássico, foram fundamentais para indicar as


direções filosóficas da produção científica brasileira,
aprofundando com um senso filosófico extraordinário,
conceitos fundamentais, como o de espaço e de território,
caracterizando métodos e técnicas de pesquisas, orien­
tando uma grande quantidade de teses no doutorado da
USP.1
Muito grande também é a contribuição do Prof.
Aziz Ab'Sáber, sobretudo no setor ligado à análise do meio
ambiente, compreendendo tanto estudos teóricos como
análises específicas sobre a Amazônia e o Nordeste.2
Assim, o competente geomorfólogo paulista procurou
levar as suas preocupações não só à análise da região do
trópico úmido, mas a do trópico semi-árido, sem esquecer
as implicações do meio natural sobre a formação da
sociedade e em contra partida, a sociedade sobre o meio
natural.
Os problemas agrários foram ainda objeto de preo­
cupação de geógrafos como Orlando Valverde, também
especialista em Amazônia,3 e de geógrafos mais re­
centes, como Ariovaldo Umbelino de Oliveira e Bernardo
Mançano Fernandes, que introduziram, na temática, as
preocupações sociais, analisando a luta dos sindicatos
ligados à CONTAG e de movimentos populares, como o
MST (Movimento dos Trabalhadores rurais sem Terra),
procurando chamar a atenção para a necessidade urgente

1 Entre as principais obras de Milton Santos salientamos: Por uma

geografia nova. São Paulo: HUCITEC, 1978; Por uma outra


globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000; O espaço do cidadão. São
Paulo: Nobel, 1987.
2 Os domínios da natureza no Brasil. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003;

Bases para os estudos dos ecossistemas da Amazônia brasileira. São


Paulo: Estudos Avançados, n.0 45, pág. 7/31.
3 Estudos de Geografia Agrária Brasileira. Petrópolis : Vozes, 1985.

214
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

de uma reforma agrana massiva, a fim de apagar a


mancha colonial que ainda pesa sobre o Brasil.4
Quanto aos estudos urbanos, os geógrafos passaram
da análise estática das cidades para uma visão dinâmica
das mesmas, como nos trabalhos de Ana Fanny Carlos,
principalmente em São Paulo, e de Maurício Abreu nos
livros e artigos a respeito da formação urbana do Rio de
Janeiro. Na área da climatologia é muito importante a
contribuição do geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo
Monteiro, que formou em São Paulo uma verdadeira
escola de climatologistas tanto na abordagem de aspectos
mais gerais como regional e local. Também Antonio Carlos
Robert Morais, unindo a formação de geógrafo a de
sociólogo, desenvolveu uma série de estudos sobre a
evolução do pensamento geográfico, abrindo novas pers­
pectivas para aqueles com maiores preocupações sociais.
No Nordeste do Brasil, a preocupação de levar o
conhecimento geográfico, científico, ao ensino médio,
levou geógrafos a organizarem Atlas Escolares estaduais
do Ceará,s do Rio Grande do Norte,6 da Paraíba,7 de
Pernambucos e da Bahia,9 procurando fazer uma intro­
dução a geografia em sua totalidade, sem perder o caráter
de generalidade, onde o todo e as partes se completam.

4 STEDILE, João Pedro,; FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava Gente.


A tragetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Fundação
Perseu Abramo, 1999.
s SILVA, José Borzacchiello da. Atlas Escolar do Ceará. João Pessoa:

Grafset, 2002.
6 FELIPE, José Lacerda Alves et alli. Atlas Escolar do Rio Grande do
Norte. João Pessoa: Grafset, 1999.
7 RODRIGUEZ, Janete et alli. Atlas Geográfico da Paraíba. João Pessoa:
Grafset, 1985.
8 ANDRADE, Manuel Correia de et alli. Atlas Geográficos de
Pernambuco. João Pessoa: Grafset.
9 SILVA, Silvio Bandeira de Melo e et alli. Atlas Escolar da Bahia. João
Pessoa: Grafset.

215
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

1É conveniente lembrar ainda que a intensificação


das relações internacionais do Brasil e a proj eção dos seus
interesses fora do país, na América . Latina e em outros
continentes, vem desenvolvendo estudos das relações
internacionais e da geopolítica, provocando, inclusive, o
desenvolvimento, na universidade br.asileira, de curso de
Bacharelado em Relações Internacionais.
Estes fatos e o avanço do processo de globalização,
vêm, assim, ampliando a área dos estudos geográficos e
incentivando proposição a novas aberturas .
Podemos aquilatar a importância da geografia
brasileira tanto pelas reuniões científicas que promove,
quer no âmbito nacional quer no estadual, no regional, e
sub-regional, até mesmo municipal, por associações como
a Associação dos Geógrafos Brasileiros, fundada em São
Paulo em 1934 e hoje atuando em todo o país, como pela
participação de delegações universitárias brasileiras em
colóquios, seminários, congressos e reuniões científicas no
exterior.
Ligadas aos departamentos específicos das Univer­
sidades ou a instituições culturais diversas, com o apoio da
CAPES e do CNPq, são numerosas as revistas geográficas
publicadas no país, algumas com regularidade, outras
temporárias. Algumas delas já conseguiram um elevado
conceito, mesmo fora da área específica da geografia.
Observa-se ainda a publicação de artigos e de notícias
sobre autores nacionais em revistas estrangeiras, e
da grande importância do trabalho desenvolvido pel a
Associação de Pós-graduação e Pesquisas em Geografia
que congrega os vários cursos de pós-graduação em
Geografia do país, além de, promover reuniões científicas.

216
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

11.3 O SENTIDO DA GEOGRAFIA ATUAL

Tendo o país uma grande diversificação regional,


em conseqüência da sua extensão territorial, apresenta
uma série de problemas cruciais, tais como : a ocupação da
Amazônia, as dificuldades do Nordeste, a questão agrária,
o desemprego e a fome, dependentes da projeção, até os
nossos dias, da formação colonial, o crescimento urbano
desordenado e a procura do equilíbrio internacional em
pleno processo de globalização.
O primeiro grande problema deriva do fato de
possuir cerca de cinco milhões de quilômetros quadrados
- mais de metade do seu território - na Amazônia - área
que se manteve sub-explorada até a segunda metade do
século XX, diante da existência de uma população
indígena, em parte ainda não contatada pelos "civilizados",
além de caboclos chamados genericamente de "homens da
floresta", que viviam e vivem em economia extrativista.
Na verdade, houve um avanço sobre as áreas de florestas
mas, feito de forma intensa por grupos de "grileiros", de
proprietários de outras regiões, de garimpeiros e de
empresas de exploração mineral e de madeireiros, provo­
cando grandes desastres ecológicos, expropriação e muitas
vezes a morte dos antigos habitantes. Foram civilizações e
culturas destruídas de forma cruel e desumana, dando
margem a assassinatos de figuras marcantes como Chico
Mendes, de grupos de trabalhadores - caso de Eldorado
dos Carajás - e, mais recentemente, da missionária norte­
-americana, Dhorothy Stang.
Tentativas de preservação da floresta, explorando
racionalmente os recursos naturais e desenvolvendo
uma agricultura de subsistência, têm sido anuladas

217
217
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

pela formação de grandes latifúndios e pelo uso do


trabalho compulsório, semi-escravo, em completo desres­
peito à sociedade constituída.10
Isto mostra que a ocupação da Amazônia necessita
ser controlada pelos órgãos governamentais, a fim de que,
ao se territorializá-la, o espaço não seja degradado e o
povo não seja vítima de um novo processo de escravização .
Não se pode esquecer que os grandes grupos interna­
cionais, ligados à exploração de madeiras duras e de
minérios, têm naturalmente o apoio dos seus países de
origem que cobiçam a Amazônia e desej am internacio­
nalizá-la. Ao se analisar este processo é interessante
refletir sobre o que foi escrito por David Harvey, sobre a
forma mais moderna de imperialismo .H
No que se refere ao Nordeste, uma das regiões secas
mais povoadas do Mundo, há uma grande quantidade de
estudos elaborados por estudiosos de outras regiões do
país e da própria região, podendo-se concluir, com Josué
de Castro,12 que a fome e a pobreza que vitimam a região
são conseqüências mais. do sistema de sociedade nela
estruturado pela colonização, do que das condições
climáticas ; estudos realizados na região, nos fins do
século XX, pela SUDENE, demonstram essa realidade
incontestável.
A questão agrária existe no país desde o período do
colonial, quando se estruturou a ocupação do território,
baseada no latifúndio, na monocultura e na escravidão;
apesar de cinco séculos de colonização, não se fez, até hoje,

10
GONÇALVES, Carlos Walter Porto. O desafio ambiental. Rio de Janeiro:
Record, 2004.
11 HARVEY, David, O Novo Imperialismo. São Paulo : Loyola, 2005.

12 Geografia da Fome. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1968.

218
218
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

uma reforma agrária que desse acesso à propriedade da


terra aos que nela trabalham, tornando-se este o problema
magno do país. Sobre o tema Caio Prado Júnior13 e Manuel
Correia de Andrade14 escreveram livros que elucidam ou
tentam elucidar a problemática.
O desemprego que apresenta taxa muito elevada no
país, e a fome, que o acompanha, são, em grande parte,
conseqüência da estrutura agrária dominante e até agora,
sem que os governos tenham demonstrado vontade
política de realizá-lo.
O crescimento urbano intenso e desordenado é
outro sério problema que aflige ao país, fazendo que se
acumule nas cidades, sobretudo nas de grande e médio
portes, um excedente populacional que vem provocando
uma grande insegurança, um baixo nível sanitário,
impedindo o desenvolvimento de estruturas sanitárias e
habitacionais que atendam aos desejos e necessidades
de sua população. Daí a coexistência de cidades ultra­
-modernas, em grande parte verticalizadas, que se
continuam ou se deixam penetrar por favelas e mocambos,
casebres muito pobres e pouco higiênicos; os planos de
políticas públicas que vêm sendo desenvolvidas, porém,
não atendem aos reclamos, aos desafios da realidade
existente.
Finalmente, quanto aos problemas internacionais, o
Brasil, nos últimos decênios, deixou de ser um país de
imigração para ser um país de emigração, alimentando
correntes migratórias para os Estados Unidos, onde vivem
cerca de 8oo.ooo brasileiros, o Paraguai, para o Japão,
Portugal, Alemanha e, em menor escala, para Argentina,
Itália, França, etc.

13 A Questão Agrária. São Paulo: Brasiliense, 1968.


14 A Terra e o Homem no Nordeste. São Paulo: Cortez, 2005, 7.a ed.

219
219
MANUEL CORREIA DE ANDRADE

Tendo ocupado grande parte dos seu espaço, passou


a intensificar interesses em determinadas direções, como
no Pacífico, tentando expandir a sua influência na Bolívia
e no Peru, através da construção de ferrovia e de rodovia,
assim como para o Norte, em direção à Venezuela e à
Guiana, em busca de espaço no Caribe, 15 que é uma
área de grande importância como produtora e refinadora
de petróleo, zona também de grande atração turística.
No Caribe, e provavelmente na América Central, ele se
defrontará com a ação mexicana e com a presença dos
Estados Unidos, que tratam de consolidar uma influência
direta sobre todo continente americano e o Mundo.
Como país que recebeu uma grande influência
africana na sua formação e que tem mais de 50% de sua
população formada por pardos e pretos, o Brasil procura
desenvolver essa influência na áfrica; a partir das
antigas colônias portuguesas aí existentes - Guiné-Bissau,
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique
- procura desempenhar um papel importante na
comunicação de Países de Língua Portuguesa, através dos
quais pode estender a sua influência até na lnsulíndia, ou
no Timor Leste.
Mas o ponto de maior atração para o Brasil é repre­
sentado pela área meridional do continente sul-americano,
onde se encontram países associados no Mercosul -
Argentina, Uruguai e Paraguai, que já formam um
mercado comum. Associação que procura atrair outros
países do continente, como o Chile, a Bolívia, o Peru e a
Venezuela e que, tendo maior intercâmbio comercial com
a União Européia do que com a América do Norte, cria

'5 ANDRADE, Manuel Correia de. Geopolítica do Brasil. Campinas:

Papirus, 2. a ed.

220
GEOGRAFIA Ciência da Sociedade

problemas com a ALÇA, ainda em fase de consolidação.


Este problema internacional e outros causados pelo pro­
cesso de globalização, vêm incentivando os estudiosos
brasileiros, geógrafos sobretudo, a estudar temas de
política e das relações internacionais e, consequen­
temente, a Geopolítica. Tema presente em estudos de
numerosos geógrafos como Antônio Carlos Robert
Morais,16 Wanderley Messias da Costa,17 Bertha Beaker,
Gervásio Neves, Armen Manigonias, etc.

16 Território e História no Brasil. São Paulo: Amir-Blanc, 2002.


As Bases da Formação Territorial do Brasil. São Paulo: HUCITEC,
2000.
17 Geografia e Política. São Paulo: HUCITEC, 1992.

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INFORMAÇÕES GRÁFICAS

FORMATO
1 5,5 x 22 cm

TIPOLOGIA
Times New Roman
Georgia

PAPEL
2
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2
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