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GRUPO Educaçã o a Distância Caderno de Estudos TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA NEAD Prof.

GRUPO

GRUPO Educaçã o a Distância Caderno de Estudos TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA NEAD Prof. Paulo

Educaçã o a Distância

Caderno de Estudos

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

NEAD

Prof. Paulo Cesar dos Santos Prof.ª Graciela Márcia Fochi Prof. Thiago Rodrigo da Silva

UNIASSELVI

2016

CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, nº 1.040, Bairro Benedito 89130-000
CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, nº 1.040, Bairro Benedito 89130-000

CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI

Rodovia BR 470, Km 71, nº 1.040, Bairro Benedito 89130-000 - INDAIAL/SC www.uniasselvi.com.br

Copyright UNIASSELVI 2016

Elaboração:

Prof. Paulo Cesar dos Santos Prof.ª Graciela Márcia Fochi Prof. Thiago Rodrigo da Silva

Revisão, Diagramação e Produção:

Centro Universitário Leonardo da Vinci - UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial.

907

S237h

Santos, Paulo Cesar dos

Teoria da história e historiografia/ Paulo Cesar dos Santos; Graciela Márcia Fochi; Thiago Rodrigo da Silva. Indaial :

UNIASSELVI, 2016.

209 p. : il.

ISBN 978-85-7830-952-7

1. História – Estudo e Ensino. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.

APRESENTAÇÃO

Caro(a) acadêmico(a)! Bem-vindo ao Caderno de Estudos da disciplina Teoria da História

e Historiografia! A intenção deste caderno é apresentar o processo pelo qual a história se

constituiu como uma disciplina no campo das ciências humanas. Deste modo, iremos expor (em uma perspectiva cronológica e contextualizada) as principais teorias e escolas historiográficas dos últimos quatrocentos anos. Para tanto, iremos relacionar os principais estudiosos, como eles definiram e conceituaram a história. Também veremos a relação da história com outras ciências.

Na Unidade 1 serão apresentadas questões concernentes à teoria da história. Polêmicas como objetividade, verdade e método serão abordadas. Também os principais teóricos da historiografia, da época iluminista até o final do século XIX serão contemplados. Assim, veremos a relação de alguns pensadores com o desenvolvimento da história enquanto campo do conhecimento. Entre eles, Descartes, Vico, Kant, Hegel, Marx, Comte e Ranke.

Na Unidade 2 será discutida a produção historiográfica do século XIX e como esta se relacionou com o conhecimento histórico do século XX. Em especial, foram contemplados os intelectuais e as escolas teóricas. Os intelectuais relacionados foram: Michele, Droysen, Buckhard, Weber, Walter Benjamim e Michel Foucault. Entre as escolas de pensamento histórico, estão relacionadas a Escola dos Annales, a Escola de Frankfurt, a Escola Marxista Inglesa, a Historiografia Latino-americana, a Micro-História, a História Ambiental e a História do Tempo Presente.

Na Unidade 3 será abordada a historiografia brasileira. Assim serão relacionados os historiadores dos períodos colonial, imperial e republicano. As influências teóricas e as diversas gerações de historiadores brasileiros serão trabalhadas. Intelectuais como Varnhagen, Capistrano de Abreu, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freire, além de pesquisadores contemporâneos, terão sua produção acadêmica apresentada e analisada.

Um detalhe importante: procure ter em mãos e não hesite em consultar dicionários toda vez que surgirem expressões e conceitos de outras áreas, que ainda lhe são estranhos, como do campo da ciência e da filosofia. Retome os conteúdos já abordados nas disciplinas

de Introdução ao Conhecimento Histórico, Metodologia do Ensino da História, História Moderna

e História Contemporânea.

Votos de uma jornada construtiva e satisfatória de conhecimentos!

Os autores

Oi!! Eu sou o UNI, você já me conhece das outras disciplinas. Estarei com você
Oi!! Eu sou o UNI, você já me conhece das outras disciplinas.
Estarei com você ao longo deste caderno. Acompanharei os seus
estudos e, sempre que precisar, farei algumas observações.
Desejo a você excelentes estudos!
UNI
UNI

SUMÁRIO

UNIDADE 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

1

TÓPICO 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

3

1 INTRODUÇÃO

3

2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS

4

2.1 CIÊNCIA

4

 

2.2 TEORIA

5

2.3 PARADIGMA

6

2.4 MÉTODO

7

2.5 DISCURSO

8

2.6 HISTORIOGRAFIA

9

2.7 EPISTEMOLOGIA

9

 

2.8 RAZÃO

10

2.9 IDEOLOGIA

10

2.10 DIALÉTICA

11

2.11 PROGRESSO

12

3

O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO

13

3.1

O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO

15

4

O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E HEGEL SOBRE A HISTÓRIA

19

4.1

O EXEMPLO DE KANT

19

4.1.1 A ideia de história cosmopolita

21

4.2

O PENSAMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E RAZÃO NA HISTÓRIA

21

LEITURA COMPLEMENTAR

24

RESUMO DO TÓPICO 1

29

AUTOATIVIDADE

30

TÓPICO 2 – O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

33

1 INTRODUÇÃO

33

2 O POSITIVISMO COMTEANO: A FÍSICA SOCIAL E A HISTÓRIA ENQUANTO CIÊNCIA DO PASSADO

34

3 O MATERIALISMO HISTÓRICO

36

4

O MATERIALISMO DIALÉTICO

40

RESUMO DO TÓPICO 2

43

AUTOATIVIDADE

44

TÓPICO 3 – O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

47

1 INTRODUÇÃO

47

2 A HISTÓRIA, AS FONTES E A ESCRITA

47

3 O EXEMPLO DE LEOPOLD VON RANKE (1795-1888)

49

4 O PROBLEMA DA OBJETIVIDADE NA CIÊNCIA E NA HISTÓRIA

51

5

A PROBLEMÁTICA DA VERDADE NA HISTÓRIA

55

LEITURA COMPLEMENTAR

57

RESUMO DO TÓPICO 3

61

AUTOATIVIDADE

62

AVALIAÇÃO

63

UNIDADE 2 – O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX

65

TÓPICO 1 – A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS

67

1 INTRODUÇÃO

67

2 SÉCULO XIX: QUAL HISTÓRIA?

68

3 JULES MICHELET

69

4 FUSTEL DE COULANGES

70

5 JOHANN GUSTAV DROYSEN

71

6 JACOB BUCKHARDT

71

7 MAX WEBER

73

8 FRIEDRICH NIETZSCHE

74

9

CHARLES-VICTOR LANGLOIS (1863- 1929) E CHARLES SEIGNOBOS

75

77

79

(1854- 1942)

RESUMO DO TÓPICO 1

AUTOATIVIDADE

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

81

1 INTRODUÇÃO

81

2 A ESCOLA DE FRANKFURT

81

3 THEODOR ADORNO (1903-1969)

82

4 WALTER BENJAMIN (1892-1940)

83

5 A NOVA ESQUERDA INGLESA

86

5.1

A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA DOS MARXISTAS INGLESES NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX

87

6 A HISTORIOGRAFIA LATINO-AMERICANA

89

7 A TRADIÇÃO DOS ANNALES

91

7.1 PRIMEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1929-1945)

93

7.2 SEGUNDA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1945-1968)

95

7.3 TERCEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (PÓS 1968 OBJETOS E ABORDAGENS

):

NOVOS MÉTODOS,

98

8

O CASO DE MICHEL FOUCAULT

100

LEITURA COMPLEMENTAR

102

RESUMO DO TÓPICO 2

109

AUTOATIVIDADE

111

TÓPICO 3 – AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI

113

1

INTRODUÇÃO

113

2

A NOVA HISTÓRIA CULTURAL

114

3

A MICRO-HISTÓRIA

115

3.1 O MÉTODO INDICIÁRIO DE GINZBURG

116

4 HISTÓRIA E SABER LOCAL

118

5 LINGUÍSTICA E NARRATIVA

118

6 A HISTÓRIA AMBIENTAL

121

7 A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE

122

8

CONSIDERAÇÕES FINAIS

124

LEITURA COMPLEMENTAR

126

RESUMO DO TÓPICO 3

132

AUTOATIVIDADE

133

AVALIAÇÃO

136

UNIDADE 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

137

TÓPICO 1 – HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB À GERAÇÃO DE 1930

139

1 INTRODUÇÃO

139

2 O PERÍODO ANTERIOR AO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

(IHGB)

139

3 O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

141

4

A GERAÇÃO DOS ANOS 1930 E SEUS DESDOBRAMENTOS

146

RESUMO DO TÓPICO 1

154

AUTOATIVIDADE

155

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA

157

1 INTRODUÇÃO

157

2 OS ENSAÍSTAS DA REALIDADE HISTÓRICA BRASILEIRA

158

3 A PRODUÇÃO UNIVERSITÁRIA DE HISTÓRIA DO BRASIL, A FORMAÇÃO DE CENTROS DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HISTÓRICA

161

4 OS PRINCIPAIS DEBATES ACADÊMICOS

164

5

OS BRASILIANISTAS

167

RESUMO DO TÓPICO 2

170

AUTOATIVIDADE

171

TÓPICO 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

173

INTRODUÇÃO

173

2 NOVOS ESTUDOS, NOVAS INSTITUIÇÕES, NOVOS TEMAS: O CONTEXTO DAS TRANSFORMAÇÕES HISTORIOGRÁFICAS DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS

174

3 HISTÓRIA ATLÂNTICA/ HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO/ BRASIL COLONIAL E IMPERIAL

176

4 NOVA HISTÓRIA CULTURAL, GÊNERO, NOVA HISTÓRIA SOCIAL E HISTÓRIA AMBIENTAL: OS NOVOS TEMAS DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

179

5 OS DEBATES SOBRE O GOLPE MILITAR DE 1964

186

LEITURA COMPLEMENTAR

188

RESUMO DO TÓPICO 3

196

AUTOATIVIDADE

197

AVALIAÇÃO

198

REFERÊNCIAS

199

UNIDADE 1

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

ObjETIvOS DE ApRENDIzAGEm

A partir dos estudos desta unidade, você será capaz de:

definir, contextualizar e problematizar os principais conceitos que são solicitados nos estudos dos temas de teoria da história e

historiografia;

apresentar os principais autores, teorias e paradigmas científicos da História que compõem a matriz do pensamento da sociedade ocidental moderna, e da influência que exerceram no pensamento científico e histórico das gerações posteriores;

abordar os fundamentos do pensamento iluminista, cartesiano,

hegeliano, positivista, marxista e historicista nos aspectos teóricos

e metodológicos, contextualizando o momento histórico em que foram formulados;

estudar e contextualizar a matriz de pensamento marxista, as categorias do materialismo histórico e dialético e suas implicações na análise e na escrita da história.

discutir e problematizar as questões de objetividade e verdade que perpassam as principais tradições do pensamento científico

e a produção do conhecimento histórico.

pLANO DE ESTUDOS

Caro acadêmico! Esta unidade de estudos encontra-se dividida

em três tópicos de conteúdos. Ao longo de cada um deles, você

encontrará sugestões e dicas que visam potencializar os temas

abordados e ao final de cada um, estão disponíveis resumos e

autoatividades que visam fixar os temas estudados.

TÓPICO 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS

TÓPICO 2 – O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX

TÓPICO 3 – O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

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UNIDADE 1
UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

TÓPICO 1

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS 1 INTRODUÇÃO
TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA:
CONCEITOS INICIAIS
1 INTRODUÇÃO

As disciplinas, os textos, os artigos que se prepõem a analisar e discutir Teoria da História e Historiografia são em número muito inferior aos demais temas da História, como por exemplo, História Regional, História Antiga, História Medieval; assim como acabam sendo motivo de desinteresse e distanciamento por parte dos estudantes e profissionais da história.

Refletir sobre estas questões significa pensar sobre os aspectos que perpassam todo o processo de pesquisa, sistematização e comunicação da História. O historiador e o profissional da história consciente e comprometido com o fazer histórico não pode negligenciar tais aspectos, pois estará procedendo de forma superficial com o conhecimento que está elaborando e até com o conhecimento que se utiliza, cuja autoria não é sua.

Cardoso (1997) nos coloca a questão de que devemos estar despertos e atentos em meio ao contexto social, político, econômico e cultural no qual nos encontramos, pois este se apresenta tanto com ares de tradição sólida, como de renovação, se encontra em pleno devir e superação, tende a se tornar outro, ainda mais aberto e tolerante, porém ainda está sendo plasmado em meio a um modelo fortemente estruturado, hierarquizado e conservador; em outdoors esboçam- se tempos de mudança, mas as bases de realização prática encontram-se ainda sustentadas na antiga matriz ideológica do capitalismo, que impera pelo menos há três séculos.

Rüsen (2009) discute que a Teoria da História conta com toda uma identidade construída, porém o desafio está em estabelecer as fronteiras entre a escrita da história (historiografia), o estudo crítico, fazer a história da história, pois a historiografia, mal consegue ser separada de seu objeto mais evidente que é a escrita da história.

A indecisão na forma de referir a atividade intelectual, o fazer/pesquisar escrever em História (historiografia, história da história, teoria da história) é resultado também da escassez

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TÓPICO 1

UNIDADE 1

de problematizações teóricas, fato que pode ser verificado com facilidade se tomados os temas anunciados nos encontros dos profissionais em história, nos títulos das dissertações e teses defendidas no interior das instituições de ensino de pós-graduação e nas linhas de pesquisas que são desenvolvidos pelas mesmas instituições.

Trata-se de uma discussão e tema que requer aprofundamentos sobre os conceitos e concepções teóricas que pertencem à teoria do conhecimento, à história da filosofia e da ciência, e paradigmas científicos. Cientes disto, procurou-se apresentar e definir os conceitos que vão ser mencionados com maior ênfase ao longo deste Caderno de Estudos.

Não perca de vista a ideia de recorrer e consultar um dicionário toda vez que surgirem conceitos e expressões que lhe parecem estranhos ou incertos dos significados que comportam. No sentido de lhe auxiliar, observe as sugestões de consulta a seguir:

 
DICAS!
DICAS!
DICAS! DICINÁRIO DE CONCEITOS HISTÓRICOS SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos
DICINÁRIO DE CONCEITOS HISTÓRICOS SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos
DICINÁRIO DE CONCEITOS HISTÓRICOS
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de
conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2009.
Disponível em: <http://www.meuportalacademico.com.br/wp-
content/uploads/2013/04/SILVA-K-SILVA-M.-Dicion%C3%A1rio-
de-conceitos-hist%C3%B3ricos.pdf>.
DICIONÁRIO DE FILOSOFIA
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5 ed. São Paulo:
Martins Fontes, 2007.
Disponível em: <http://charlezine.com.br/wp-content/
uploads/2011/11/Dicionario-de-Filosofia-Nicola-ABBAGNANO.pdf>.

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2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS
2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS

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2.1 CIÊNCIA
2.1 CIÊNCIA

Compreende o processo, o percurso metodológico, os princípios lógicos de investigação;

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tem por finalidade elaborar conhecimentos e/ou resolver os problemas que o próprio homem

TÓPICO 1

formula ou que se apresentam em uma dada realidade. Entre os principais métodos existe o da observação empírica, seja de seres ou fenômenos naturais ou de fatos e fenômenos sociais, cuja finalidade reside em promover o aprimoramento e melhoramento da vida e da humanidade.

UNIDADE 1

5

A ciência moderna se desenvolveu e consolidou ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, tratou-se de um conhecimento obtido de forma natural, independente e desarticulado das dimensões sobrenaturais, mitológicas, mágicas e/fantásticas da realidade. É quando se acentua

o distanciamento entre o campo da fé, do espiritual, do religioso, do sagrado e do eterno (poder

invisível) e o campo do temporal, do método, do racional, do profano e do leigo (poder visível).

A ciência acabou por se tornar em uma ideologia dominante – o cientificismo, uma forma de saber superior, criada pelo positivismo no século XIX. A ciência resumia-se na busca pela verdade a qualquer custo, almejava extrair todos os segredos que houvesse na natureza, e para tanto deveria proceder rigorosa observação empírica, lançando mão da imaginação, dos sentimentos e das emoções quando investigava tanto os seres da natureza como os fatos e acontecimentos humanos.

Surgiram muitas críticas à ciência, entre elas estão as que foram proferidas por Nietzsche (1844-1900), quando afirmava que a ciência havia matado Deus. Outros estudiosos começam a perceber que a racionalização e o cientificismo não estavam dando conta de libertar o homem,

pelo contrário, as forças produtivas do capitalismo, que eram justificadas e estimuladas pelo saber científico-tecnológico, favoreciam ainda mais a dominação predatória do homem sobre

a natureza e do homem sobre o próprio homem.

Para Max Weber (1983) a ciência não possui maior objetivo e sentido do que o de fazer surgir novas questões, novos problemas, ser ultrapassada e superada; que se trata de um fazer que jamais cessa e que não tem fim. Silva (2009) apresenta que a ciência data de aproximadamente 10 mil anos, que teria surgido no Oriente Médio, quando eram reunidos exemplares e conhecimentos sobre plantas, animais e tecnologias.

No século XX, com as experiências das guerras mundiais, com o aprofundamento da fome e da miséria, da concentração da riqueza e aumento das desigualdades, dos conflitos étnico-raciais, os estudiosos passam a questionar os objetivos, os meios e os fins da ciência

e do cientificismo descomprometido com a melhoria da vida humana.

2.2 TEORIA
2.2 TEORIA

Pode ser considerado desde o ato de ‘tomada de consciência’, a formulação e organização do pensamento, a reflexão sobre a realidade, que almeja resultados práticos, a

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TÓPICO 1

UNIDADE 1

ação e a transformação da realidade. Somente adquire o status de teoria quando apresenta uma estrutura toda organizada de princípios, categorias, métodos, regras e leis que podem ser aplicados e verificados diante de fatos, fenômenos do mundo e da natureza.

Kuhn (2000) afirma que as teorias não são eternas, possuem certo tempo de validade e que quando não dão conta de fornecer resultados e respostas satisfatórios diante dos problemas e fatos, fornecem as condições para que outras teorias sejam apresentadas em seu lugar:

A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de in- segurança profissional pronunciada, pois exige a destruição em larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal. Como seria de esperar, essa insegurança é gerada pelo fracasso constante dos quebra-cabeças da ciência normal em produzir resultados esperados. O fracasso das regras existentes é o prelúdio para a busca de novas regras. (KUHN, 2000, p. 95).

Silva (2009) apresenta que existem teorias em praticamente todas as áreas do conhecimento, apesar de serem mais usuais e empregadas nas ciências biológicas e exatas. Nas ciências humanas, as áreas do conhecimento que mais buscam formular teorias são as da economia, a sociologia, a antropologia e a linguística.

A peculiaridade dos fenômenos e fatos humanos (o homem, o homem no tempo) é que estes costumam ser atípicos, anárquicos, imprevisíveis e não ocorrem duas ou mais vezes, bem como é raro conseguir estabelecer semelhanças e repetições para com outros fatos e fenômenos ocorridos em outros locais, e por fim serem classificados numa teoria rigorosa e precisa.

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Silva (2009) aborda que os historiadores atualmente são mais receosos em formular

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teorias do que em outras épocas (embora não dispensem conceitos, categorias e modelos

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explicativos em suas análises). A autora explica que durante o século XVIII e XIX, quando vigorava o historicismo, a escola metódica e o materialismo histórico, muitos historiadores se

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preocupavam com o estabelecimento de modelos que estruturavam as explicações da História,

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porém com os questionamentos e as crises que a ciência sofreu ao longo do século XX, em

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especial com a ascensão da Nova História, na segunda metade do século, a História foi se

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tornando cada vez menos teórica, ou seja, cada vez menos preocupada com os métodos,

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com categorias e explicações preestabelecidas para proceder análises de fatos e fenômenos.

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2.3 PARADIGMA
2.3 PARADIGMA

Kuhn (2000) discute que um paradigma corresponde aos elementos que unem e

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aproximam membros de uma comunidade, e estes preparam um campo de atuação, iniciam e

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formam outras pessoas e estudantes para serem futuros membros da comunidade científica. Os

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paradigmas são compostos pelas realizações científicas que são reconhecidas universalmente,

TÓPICO 1

são responsáveis por legitimar a ciência feita e o conhecimento elaborado por um determinado grupo ou nicho/campo de pesquisa.

UNIDADE 1

7

É comum ouvirmos falar fulano de tal é weberiano, ciclano é marxista, isso quer dizer que em suas atividades científicas e intelectuais apresentam estudos que possuem temas, recortes temporais, aplicam métodos e categorias de análises que pertencem originalmente aos paradigmas daqueles estudiosos.

2.4 MÉTODO
2.4 MÉTODO

Caminhos, procedimentos pelos quais se chega a um determinado resultado coerente; técnicas para realizar praticamente uma ação teórica; regras racionais que regulamentam, metodizam a pesquisa histórica no sentido de obter reconhecimento científico e teor de verdade.

Diehl (2001) apresenta que os procedimentos metodológicos utilizados no fazer histórico (fontes e narrativas) indicam os processos pelos quais o passado humano é contemporaneizado como história.

Consiste no conjunto de elementos que compõe o percurso, as regras e o tratamento investigativo, analítico e crítico atribuídos ao passado (fatos e fenômenos humanos e sociais); uma vez coerentemente aplicados são responsáveis por conferir ao conhecimento unidade, inteligibilidade e teor científico. O método representa uma tentativa de destrinchar o passado dos interesses e visões/versões que o alteram, o distorcem e o corrompem da verdade e de como os fatos e fenômenos transcorreram.

Existem inúmeros métodos que são utilizados pelos pesquisadores e estudiosos, cada paradigma estrutura-se de forma diferente e variável aos outros. Determinados estudiosos participaram como idealizadores ou como adeptos, observe a tabela a seguir:

QUADRO 1 - PRINCIPAIS PARADIGMAS DO CONHECIMENTO

PARADIGMAS

PRESSUPOSTOS

REPRESENTANTES

 

MÉTODO INDUTIVO:

O conhecimento é obtido com base nos fatos dados da experiência vivida no mundo (empirismo). Tem como finalidade alcançar o formalismo lógico-matemático e a aplicação prática dos conhecimentos obtidos.

 

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Bacon, T. Hobbes,

POSITIVISMO

EMPIRISMO

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Comte

Locke, Hume, A.

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TÓPICO 1

UNIDADE 1

 

MÉTODO DEDUTIVO:

Dotado de uma unidade funcional e coerência interna. Os elementos culturais representam a ligação de necessidade entre o grupo humano e o meio físico (necessidades biológicas e os imperativos culturais). Parte-se de uma teoria geral para explicar o caso particular.

 

FUNCIONALISMO

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D e s c a r t e s ,

RAZÃO

Spinoza, Leibniz

 

METÓDO DIALÉTICO:

 

MATERIALISMO

Considera relações concretas e materiais como suficientes para explicar os fenômenos mentais, sociais, históricos.

Karl Marx, Friedrich Engels

HISTÓRICO

ESTRUTURALISMO

MÉTODO SISTÊMICO: Preocupa-se com aspectos quantitativos dos fenômenos e a inter- relação dos objetos que o compõe. As estruturas pressupõem relações, existem conexões entre as partes de um fenômeno.

Saussure, Claude L e v i - S t r a u s s , Jacques Lacan.

FONTE: Os autores

Caro(a) acadêmico(a)! Ao longo deste Caderno de Estudos, os principais paradigmas do conhecimento serão retomados
Caro(a) acadêmico(a)!
Ao longo deste Caderno de Estudos, os principais paradigmas
do conhecimento serão retomados e discutidos no sentido de
como foram introduzidos na escrita da história. Fique atento(a)!
ATENÇÃO!

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2.5 DISCURSO
2.5 DISCURSO

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discurso é composto pelo universo de experiências, referências e significados que

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compõem o imaginário de quem redige e narra o passado. Estes são oriundos das posições

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em que os indivíduos se encontram ou querem alcançar, aos grupos aos quais se encontram

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associados e filiados; aos ideais que defendem ou querem galgar para si e para os demais

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integrantes e apoiadores.

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discurso possui e fornece informações dos indivíduos que tanto abarcam a dimensão

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individual/particular como relações sociais e coletivas mais amplas. Um discurso, uma narrativa

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deve ser entendida como um ato político, no sentido de que almeja, objetiva, tem algo em

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vista. A finalidade de todo e qualquer discurso é transmitir uma ideologia, alcançar algum fim.

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UNIDADE 1

TÓPICO 1

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2.6 HISTORIOGRAFIA
2.6 HISTORIOGRAFIA

Diz respeito às variáveis que perpassam a produção e sistematização do conhecimento histórico. Assemelha-se com as noções de “Filosofia da História”, ‘História das Ideias’, ‘História da Intelectualidade’, ‘História da escrita da História’. O conhecimento histórico é tomado em perspectiva e no conjunto que o compõe; são feitos balanços, análises, comparações e sínteses.

Trata-se do estudo do processo de redação da História propriamente dito, onde se procura identificar de que forma os historiadores pesquisam, organizam e narram o conhecimento, os métodos que foram utilizados, os elementos discursivos, as categorias de análise e interpretação, o repertório conceitual, o sentido e o valor moral e ético que foi atribuído aos fatos e ações humanas.

Cada profissional da história acaba por fazer a sua escolha, por consequência os demais estudiosos que tomarão os escritos que este historiador produziu, tenderão a procurar identificar semelhanças, aproximações ou distanciamentos com relação a determinados paradigmas, tendências, escolas já conhecidas assim como reconhecer se tal escrito, estudo e tese foi responsável por formular e empreender alguma mudança ou revolução na forma de fazer/escrever a história como até então havia sido feito.

DICAS!
DICAS!
Ao longo deste Caderno de Estudos serão apresentadas as principais escolas e tendências historiográficas
Ao longo deste Caderno de Estudos serão apresentadas as
principais escolas e tendências historiográficas (Historicismo,
Escola Metódica, os Annales, Nova História Cultural, Micro-
história, entre outras), que são reconhecidas no interior da
produção do conhecimento histórico. Prossiga na leitura do
Caderno de Estudos!
2.7 EPISTEMOLOGIA
2.7 EPISTEMOLOGIA

É um modo de tratar um problema nascido de um pressuposto filosófico específico no âmbito de determinada corrente filosófica. Estudo da natureza, das origens e da validade de um determinado conhecimento. Episteme significa também "lugar", local onde o homem se instala, para conhecer e agir de forma apropriada e de acordo com as regras estruturais daquela episteme.

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Na frase, ‘as ciências humanas são parte da episteme moderna’, significa dizer que as ciências humanas correspondem ao local de onde a sociedade moderna retirava suas

referências teóricas; por outro lado, pode-se dizer que a teologia foi a episteme da Idade Média. Cada uma possui categorias, bases de referências e valores específicos para analisar

e interpretar a realidade. Abbagnano (2007) explica que se trata de um modo de abordar um

problema nascido de um pressuposto filosófico específico, no âmbito de determinada corrente filosófica, no interior de uma dada área do conhecimento.

2.8 RAZÃO
2.8 RAZÃO

Abbagnano (2007) descreve que consiste na base de referenciais sob os quais é possível proceder a indagações e investigações. Trata-se de uma faculdade que é reconhecida no homem e não nas demais espécies e seres da natureza.

Razão também comporta a ideia de justa medida, postura comedida, de uso de critérios

e parâmetros racionais. É comumente empregada no sentido de designar a força que liberta

dos preconceitos, dos mitos, das opiniões enraizadas, do mundo das aparências, permitindo estabelecer um critério universal ou comum para a conduta do homem em todos os campos. Também é colocada como ponto de referência e equilíbrio aos sentimentos desmedidos, às paixões, às emoções, aos instintos viscerais, aos modos rudes e aos apetites primitivos.

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Descartes (1979) identificou a razão ao bom senso e a definiu como sendo a capacidade

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de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso; de ser um instrumento do conhecimento

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provável, e não apenas do conhecimento estabelecido. Para Hegel (1995) a razão é a identidade

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da autoconsciência, do pensamento, da realidade, das coisas e dos acontecimentos, como

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manifestação ou determinação.

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2.9 IDEOLOGIA
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IDEOLOGIA

Abbagnano (2007) descreve que o termo foi criado por Destut de Tracy, em 1801, para

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designar "a análise das sensações e das ideias". Outros estudiosos defendem que consistiu

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na corrente filosófica que marcou a transição do empirismo iluminista para o espiritualismo

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tradicionalista que floresceu na primeira metade do séc. XIX. Napoleão empregou o termo

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para nomear os estudiosos que eram desfavoráveis ao seu governo, porém com um sentido

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depreciativo, querendo designá-los como pessoas sectárias, dogmáticas, sem senso político

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distantes da realidade.

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A palavra ideologia é também empregada para designar qualquer espécie de análise filosófica, ou uma doutrina que possui validade objetiva e que é mantida em nome dos interesses de quem a utiliza e se vale dela. Em meados do séc. XIX, a última noção de ideologia passou a ser fundamental em meio ao paradigma marxista, quando foi utilizada na interpretação da luta dos trabalhadores operários contra a dominação dos proprietários capitalistas e da sociedade burguesa.

UNIDADE 1

11

Segundo Marx (2010), os homens faziam a sua própria história, mas não a faziam segundo sua própria vontade; não a faziam sob circunstâncias de sua escolha, mas sob as circunstâncias que encontravam diante de si, que foram legadas e transmitidas pelo passado, impingidas e plasmadas pelas ideologias. Segundo Marx (2010) é também pelas formas ideológicas em que os homens tomam consciência da sua condição de vida e das contrariedades que se apresentam na vida material. Nesse sentido, pode-se entender ideologia como sendo toda crença que é usada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo-se o termo crença, em seu significado mais amplo, como noção de compromisso da conduta, que pode ter ou não validade objetiva.

2.10 DIALÉTICA
2.10 DIALÉTICA

Abbagnano (2007) discorre que a dialética pode ser compreendida como método da divisão entre bem e mal (platônica) e como síntese dos opostos (hegeliana). Levando em consideração estas duas definições pode-se pensar que a dialética é um processo em que há um adversário que é combatido ou uma tese que será refutada, existem dois protagonistas ou duas teses em debate, diálogo, conflito; ou então, que é um processo resultante de conflito ou de oposição entre dois princípios, dois momentos ou duas atividades quaisquer.

O conceito de dialética, como síntese dos opostos, defendida por Hegel, sugere que se pense que a resolução das contradições se move dialeticamente e, portanto, a filosofia

hegeliana vê em toda parte a tríade de tese, antítese e síntese, nas quais a antítese representa

a "negação", "o oposto", ou "o outro" da tese, e a síntese constitui a unidade e, ao mesmo tempo, a negociação, a certificação de ambas.

Assim como as teorias generalizadoras e racionalistas, a dialética também acabou por sofrer críticas de que possuía a pretensão de ser mais uma fórmula e modelo ideal e totalizador, bem como foi indicada como responsável por justificar tudo o que aconteceu no passado e que se prevê ou se espera que aconteça no futuro, uma espécie de “aconteceu por que tinha que acontecer”, “é aceitável o mal em nome do bem”, “a escravidão em nome da liberdade”,

e assim por diante.

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2.11 PROGRESSO
2.11 PROGRESSO

Abbagnano (2007) descreve que consiste no raciocínio que os acontecimentos históricos se desenvolvem num sentido desejável, em que se dá o aperfeiçoamento crescente e que vai assim transcorrer rumo ao futuro. A principal implicação da noção de progresso na sociedade que é a percepção do ‘curso dos eventos (naturais e históricos) como uma série unilinear’.

A noção de progresso é reconhecida como de autoria de Francis Bacon, que a apresentou na obra Novum Organum, publicada em 1620. Este conceito dominou as manifestações da cultura ocidental do séc. XIX e ainda continua sendo o pano de fundo de muitas concepções filosóficas e científicas.

Por outro lado, a noção moderna de progresso reside na significação da concepção de tempo com uma dinâmica cumulativa, que desloca a centralidade do tempo cíclico à dinâmica temporal crescente e linear. O progresso é propriedade e forma, a do progredir, construir (typisch aufbauend) e em expansão contínua.

Progresso refere-se, também, à emancipação humana, a evolução do saber e da técnica, os desdobramentos cada vez mais complexos, em que impera a racionalidade cumulativa e progressiva, cada vez mais complexa. É acompanhado pelas noções de ‘secularização’, ou seja,

explicações científicas que suplantam as tradições religiosas e a “divina providência”; e a noção de ‘estado laico’ que estabelece o fim da influência religiosa nas decisões políticas e vice-versa.

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Tanto na história, na filosofia, na cultura e na sociedade, esta expressão encontra-se

relacionada à visão de acúmulo e síntese do passado e como profecia realizável e triunfante

no futuro, que interpreta a humanidade como uma grande estrutura, que ao longo das eras

e épocas caminha arduamente e constantemente a um desenvolvimento glorioso, que conta

com o campo técnico e científico como os principais motores propulsores.

Da mesma forma como a ciência e a razão receberam fortes críticas dos estudiosos,

a noção de progresso também passou por este processo, especialmente depois das duas

grandes guerras mundiais do século XX, quando foram criados comitês de ética cujos estatutos

solicitam zelo pela dignidade e preservação da vida, bem como antever riscos, custos e danos

para com o meio ambiente e as pessoas participantes de projetos/pesquisas e obras tanto no

ramo científico, da extração de matéria-prima da natureza, como em projetos de urbanização,

construção de usinas, estradas e de obras em geral.

UNIDADE 1

TÓPICO 1

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3 O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO
3 O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO

O

Iluminismo, ou século das luzes ou da ilustração, foi um movimento intelectual e

cultural do século XVIII, que almejava libertar o homem das crenças mitológicas e de toda herança dogmática da época medieval. Defendia os princípios da razão crítica, do progresso, da autonomia dos indivíduos e da liberdade de pensamento. O Iluminismo não foi uma invenção da sociedade de sua época propriamente dita, sustentava-se em bases teóricas que já haviam sido defendidas ainda na Antiguidade e também na época da Renascença, porém encontrou no século XVIII o melhor momento de alcance e amplitude.

Abbagnano (2007) descreve que é possível entender o Iluminismo como uma linha filosófica que defende a razão como crítica e guia a todos os campos da experiência humana. Kant (1724-1804) defende que o Iluminismo contou com o empirismo como um grande aliado, ambos garantiram a abertura do domínio da ciência e, em geral, do conhecimento, que por sua vez favoreceu à crítica da razão, no sentido de que toda verdade poderia e deveria ser colocada à prova, e eventualmente modificada, corrigida ou abandonada.

Os fundamentos teóricos que favorecem a ancoragem do movimento do Iluminismo podem ser encontrados na física e sistematizados na obra de I. Newton (1643-1727) ‘Princípios matemáticos de filosofia natural, publicada em 1687, nas pesquisas de Boyle (1627-1691), que encaminham a química como ciência positiva; na obra de Buffon (1707-1788) e de outros naturalistas, que assinalam as ciências biológicas como responsáveis por explicar as etapas fundamentais de desenvolvimento.

O empirismo foi o ponto de partida e o pressuposto da filosofia defendida como por

exemplo de Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784) e D'Alembert (1717- 1783). A Enciclopédia continha o pensamento contrário aos privilégios que foram reclamados posteriormente na Revolução Francesa, defendia a felicidade ou o bem-estar do gênero humano, alcançados e desfrutados através de práticas tolerantes e com fé no progresso. Estas noções enfraqueceram a ideia de fatalidade histórica que impedia qualquer iniciativa de transformação da realidade. Segundo Abbagnano (2007), o princípio da tolerância religiosa não só exigia a convivência pacífica das várias tradições religiosas, como também impedia que a religião se tornasse um instrumento de governo.

Dosse (2003) apresenta em 1880 que a História ganha um estatuto próprio como disciplina e conhecimento científico, separada da literatura. Fochi (2015) apresenta que quando os primeiros diplomas em História foram emitidos, imediatamente foram fundadas as primeiras revistas de caráter erudito e científico.

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UNIDADE 1

Os historiadores se preocupavam no sentido de promover uma acumulação volumosa de trabalhos científicos, os temas ganhavam uma abordagem linear e eram enriquecidos pelos conhecimentos de outras áreas como a antropologia, numismática, paleografia, epigrafia, diplomacia, entre outras. Rüsen (1997) explica que o Iluminismo deu o primeiro passo na direção dos procedimentos de crítica das fontes e da formulação de método histórico.

Entre os principais estudiosos pode-se relacionar Spinoza (1632-1677), John Locke (1632-1704), Isaac Newton (1643-1727), Voltaire (1694-1778) Montesquieu (1689-1755). Segundo Ruanet (1987) o Iluminismo, oferecia inúmeras possibilidades ao homem de sua época, porém que com o passar dos tempos acabou por apresentar equívocos e erros:

Ele acenou ao homem com a possibilidade de construir racionalmente o seu destino, livre da tirania e da superstição. Propôs ideais de paz e tolerância, que até hoje não se realizaram. Mostrou o caminho para que nos libertássemos do reino da necessidade, através do desenvolvimento das forças produtivas. Seu ideal de ciência era o de um saber posto a serviço do homem, e não o de um saber cego, seguindo uma lógica desvinculada de fins humanos. Sua moral era livre e visava uma liberdade concreta, valorizando como nenhum outro período a vida das paixões e pregando uma ordem em que o cidadão não fosse oprimido pelo Estado, o fiel não fosse oprimido pela religião, e a mulher não fosse oprimida pelo homem. Sua doutrina dos direitos humanos era abs- trata, mas por isso mesmo universal, transcendendo os limites do tempo e do espaço, suscetível de apropriações sempre novas, e gerando continuamente novos objetivos políticos. (RUANET, 1987, p. 26).

Isaac Newton, físico, matemático, filósofo e teólogo inglês ficou amplamente conhecido com os três volumes de ‘Princípios matemáticos da filosofia natural’, nos quais constam as

famosas Leis de Newton, que compõem os princípios da mecânica e de todo o pensamento

moderno. As leis de Newton contêm o princípio de ‘inércia’, em que todo corpo continua em seu

estado (repouso ou movimento) a menos que seja forçado a mudar; o princípio de ‘dinâmica’

em que a mudança é proporcional à força atribuída; e o princípio de ‘ação e reação’ em que para toda ação há sempre uma reação oposta e em igual proporção.

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Um século anterior ao florescimento do movimento do Iluminismo existia o movimento

intelectual chamado de pensamento cartesiano. René Descartes (1596-1650) foi um dos principais

ideólogos e propagadores das ideias iluministas. Escreveu a obra Discurso sobre o método,

(Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência) publicada no ano de 1637, na qual consta a defesa da ideia de que para encontrar a verdade fazia-se necessário empreender os procedimentos científicos tais como: fragmentar, fracionar,

romper em partes, reduzir, dividir: quebrar a integridade dos seres e das coisas; o que sustentaria

basicamente todo sistema e paradigma chamado cartesiano. Este paradigma possuía forte relação

com conhecimentos matemáticos e mecânicos, e buscava essencialmente obter certeza e eliminar

qualquer resquício de dúvida tanto diante dos seres da natureza, fatos e fenômenos sociais.

Descartes buscava provar a existência do próprio eu (que duvida: portanto, é sujeito

de algo); que se expressava na máxima Ego cogito ergo sum, "eu que penso, logo existo".

TÓPICO 1

Rejeitava as formas de conhecimento do mundo realizadas através dos sentidos, da intuição, da subjetividade e dos sentimentos, defendendo a razão e o pensamento como formas mais coerentes e significativas de conhecer.

UNIDADE 1

15

Para tanto, como método para realizar esta tarefa, propôs que se faziam necessários os seguintes procedimentos:

VERIFICAR: evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada.

ANALISAR: dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e estudar essas coisas mais simples.

SINTETIZAR: agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro.

ENUMERAR: as conclusões e princípios utilizados, a fim de estabelecer coerência e ordem do pensamento.

Uma das críticas que foi feita ao método proposto por Descartes é a de que uma vez divididas e reagrupadas todas as partes de um animal, por exemplo, o custo inerente e imprescindível seria a vida daquele ser, ou seja, o reagrupamento não seria capaz de reverter o rompimento e a desintegração da vida que havia ocorrido em meio ao processo de investigação.

Na essência da filosofia de Descartes encontra-se a noção de ceticismo com relação ao conhecimento histórico. Descartes não identificava na História conhecimentos coerentes e com potencial de verdade, pois considerava a História (o estudo do passado) uma espécie de fuga da realidade; que um estudioso, uma vez mergulhado no passado, ficava estranho, indiferente ao momento presente, à realidade; e de que as narrativas históricas resultavam do conhecimento indireto do passado, e que eram exageradamente fantasiosas, lendárias e fabulosas, não dignas de confiança.

3.1 O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO
3.1 O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO

O homem é uma vontade, uma força e um conhecimento que tende para o infinito.

Giambattista Vico

Giambattista Vico (1668-1744), filólogo e historiador italiano, foi um pensador que se interessou por direito, poesia, história, mitologia e linguagem, as ‘novas ciências humanas’, como eram chamadas em sua época. Foi responsável pela escrita de ‘Ciência Nova’ publicada em 1725, que se tornou um clássico no campo da teoria da História, cujo valor e relevância somente foi reconhecida postumamente.

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A obra de Vico se encontra em contraponto à duas tradições, tanto a da época medieval como da época moderna, pois procura desvencilhar-se da tradição que atribuía à história uma finalidade teológica (época medieval), apresentava-se como um erudito antirracionalista, assistemático, cujos escritos eram de difícil leitura e interpretação, isto em pleno Iluminismo, época em que vigorava o modelo cartesiano.

As principais críticas de Vico ao pensamento de seu tempo voltavam-se ao Iluminismo cartesiano, no ponto em que o homem não poderia conhecer o que não é fruto da própria criação, que só é possível conhecer com propriedade o que se fez e os seres da natureza não são obras humanas. Para Vico, a matemática, as artes, a história, os costumes e a cultura são conhecíveis; já os animais, as florestas, as aves, e demais seres da natureza constituem um conhecimento não verdadeiro.

No que se refere em específico ao campo da história, Vico fez inúmeras contribuições. Vico defendia que o processo de realização do homem não se dava de forma linear e que não se encontrava em marcha constante e que partia do homem natural ao homem civilizado, do mitológico ao científico; mas que ocorria em uma relação de integração progressiva, cíclica, espiralada, helicoidal, da emoção à razão, da fantasia ao pensamento racional, conforme procura expressar a imagem da escada espiral a seguir:

FIGURA 1 - FOTO DE AFONSO MASEDA VARELA. MUSEUS DO VATICANO

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FONTE: Disponível em: <http://www.minube.com.br/fotos/sitio-preferido/3405/7639507>. Acesso

em: 15 jan. 2016.

UNIDADE 1

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Caro(a) acadêmico(a)! Você deve se perguntar: – isso nada mais é que o sentido de
Caro(a) acadêmico(a)! Você deve se perguntar: – isso nada
mais é que o sentido de evolução que o Iluminismo defendia? –
Vamos com calma. É exatamente a partir deste ponto que se dá a
grande ruptura que Vico apresentava em relação ao pensamento
iluminista e evolucionista de seu tempo. Mas vamos ver com mais
profundidade como Vico discorreu sobre tal teoria.
ATENÇÃO!

Para Vico os homens, as nações e as civilizações passam por três fases, nas quais se destacam três linguagens, três tipos de governo e três jurisprudências.

Observe o quadro síntese a seguir:

QUADRO 2 - A DIVISÃO/EVOLUÇÃO DA HISTÓRIA SEGUNDO VICO

FASE

 

PREDOMÍNIO

 

Quando predominavam os governos mágicos e divinos,

ou

seja, teocráticos, ou repúblicas monásticas, geridas

FASE/ERA DOS DEUSES

por autoridades paternas. Centrada em tradições religiosas surgem os primeiros códigos morais, os matrimônios solenes, as famílias; sepultam e cultuam seus mortos. Na civilização grega, pode ser identificada com a época

DA INFÂNCIA,

OU DOS SENTIDOS

dos oráculos, das adivinhações entre os gregos. Júpiter foi o grande deus deste período, que se manifestava através de raios e trovões.

(‘o imã ama o ferro, o sol é namorado da lua’)

O

pensamento e linguagem são cifrados, esotéricos,

figurativos, em versos, com acesso apenas à poetas

 

teólogos, que decifravam as mensagens e os mistérios das coisas (coisas com alma, deuses). Coisas inanimadas ganham vida e paixão; a fantasia

e

a fábula dão sentido ao mundo.

 

Pode ser ilustrada com as experiências da Grécia

FASE/ERA DOS HERÓIS

narrada por Homero em Ilíada e Odisseia (Ulisses, Aquiles e Teseu) e a Roma dos reis (Rômulo). Os heróis, homens fortes, semideuses, passam a ganhar importância diante dos desígnios dos deuses. Surgem as primeiras instituições políticas, os governos são aristocráticos, ocorre a construção das primeiras cidades.

(‘tanto mais robusta a fantasia, tanto mais débil o raciocínio’)

A

estrutura social era mantida pela autoridade, sem

negociação e/ou discussão, pois a vontade de Deus deveria ser atendida. Diferenciam-se os grupos sociais dos patrícios e

 

plebeus, que passam a se relacionar de forma hostil

e

conflituosa.

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pensamento e a linguagem são ao mesmo tempo

poéticos, heroicos, herméticos e religiosos.

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Corresponde à Grécia Clássica, à Roma Republicana

ao mundo moderno. Processo longo e trabalhoso. Predomínio do governo dos homens, repúblicas

e

FASE/ERA DOS HOMENS

populares, porém de fortes conflitos e tensões entre os grupos sociais, que almejavam por igualdade. As distinções sociais são demarcadas pela capacidade de trabalho. Criam-se as condições favoráveis ao desenvolvimento

LEIS RACIONAIS E UNIVERSAIS

da

filosofia, centrada nas questões de verdade e justiça.

O

reconhecimento dos direitos dos cidadãos fomenta

a

elaboração dos códigos civis, a polis grega e o fórum

romano são os espaços primordiais destas realizações. As leis como a do dever, da consciência e da razão ganham espaço e se tornam universais

O

pensamento e a linguagem são populares, benignas,

modestas, moderadas e de acesso a todos. Ocorre o declínio da fantasia e da imaginação.

FONTE: Os autores

Vico compreendia que quando uma nação chega ao seu momento de maior expressão na fase/era racional, concreta, lógico-demonstrativa, ocorre uma espécie de retorno ao estágio mitológico, da fantasia, da magia e da lenda; segundo ele as fases/eras vão e vem, retornam, recorrem, recomeçam. Veja como procura explicar Reis (2001, p. 12).

Ela avança para a racionalidade, recusando a irrazão (corsi) e, depois, retorna à irracionalidade (ricorsi), para novamente avançar, em um nível acima, em uma razão equilibrada, que integra a razão em si a irrazão (corsi), para recair no irracionalismo.

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Vico não pode ser taxado como um relativista, de que compreendia cada época como

fase/era de forma particular e que possuía importância e relevância indiferente uma da outra,

pois aponta costumes e leis que foram elaborados ainda em momentos primitivos, e que

significam melhoramentos e desenvolvimentos como verdades universais e que ocorreram

em todas as civilizações, tais como o sepultamento dos mortos, o casamento ritualístico e as

tradições religiosas.

Outra preocupação de Vico em Ciência Nova foi o de demostrar que o direito natural

nasceu em todos os povos, mesmo que estes tivessem contato entre si, ou seja, pode-se

deduzir que para Vico, as atividades humanas possuem um fundo comum e que é recorrente

a todo gênero humano, o que depois mais tarde foi estudado e aprofundado por Carl Jung (1875-1961) e compreendido como ‘inconsciente coletivo’.

Vico defendia que a maior criação do homem é a sua própria história, que esta não

significa somente uma necessidade política ou econômica, mas o registro da necessidade que

o próprio homem tem de se expressar. Com isto Vico pretendia colocar a História em grau

de hierarquia maior do que as ciências naturais. Para Vico o conhecimento histórico deveria

ser compreensivo, e promover ao ser humano, em sua diversidade, uma autoconsciência de

sua própria vida. Estes argumentos foram utilizados posteriormente para justificar a ciência

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TÓPICO 1

enquanto disciplina do conhecimento.

19

Burke (1997) considera Vico ‘o homem do futuro que nasceu no passado’, pois anunciava reflexões que seriam contempladas posteriormente pelo historicismo, existencialismo, estruturalismo e na fenomenologia.

CARO ESTUDANTE! Inspiraram-se nos estudos de Vico estudiosos de diversas épocas. No século XIX, Goethe,
CARO ESTUDANTE!
Inspiraram-se nos estudos de Vico estudiosos de diversas épocas.
No século XIX, Goethe, Herder, Dilthey, Ranke, Victor Cousin,
Michelet e Marx; no século XX Collingwood, Croce, Meinecke,
Levi-Strauss, Piaget e os integrantes dos Annales, que serão
abordados na continuidade deste Caderno de Estudos.
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4 O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E HEGEL SOBRE A HISTÓRIA
4 O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E
HEGEL SOBRE A HISTÓRIA
4.1 O EXEMPLO DE KANT
4.1 O EXEMPLO DE KANT

Concordia discors. Kant

Immanuel Kant (1724-1804) tem sua produção intelectual e filosófica denominada de filosofia crítica, idealismo transcendental, que tinha como finalidade estabelecer um método cognitivo e uma doutrina da experiência pelo uso da razão que suplantasse a metafísica racionalista dos séculos XVII e XVIII, que ele chamava de sono dogmático.

Kant foi leitor de Isaac Newton (1643-1727), John Locke (1632-1704), Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) e David Hume (1711-1776). A principal questão de Kant foi: com que direito e entre quais limites a razão pode formular juízos sintéticos a priori sobre dados do sentido? Pergunta que procurou responder na obra ‘Crítica da razão pura’, escrita entre os anos de 1781 e 1787.

As contribuições de Kant à História estão no sentido de favorecerem a compreensão da ideia de progresso da humanidade na sua dimensão cultural. Para Kant os homens possuem planos e objetivos diversos, que almejam por desenvolvimento, e que se movem numa dinâmica

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do pior ao melhor, e que deve ser percebida e buscada ao longo de toda a experiência humana

e não localizada em experiências individuais.

Segundo Kant, o fator responsável por colocar em movimento tal dinâmica residia nos desejos antagônicos do homem em sociedade, o que favorecia o desenvolvimento e a manifestação dos talentos individuais, bem como promovia a diferenciação e o acúmulo de cultura.

Bodei (2001, p. 46) afirma que no entendimento de Kant:

é com a busca do ganho e com a avareza que nasce o comércio e, por conse- guinte, a benéfica troca entre os homens; é pela vaidade de serem recordados, de deixar o próprio nome, que as pessoas realizam atos de beneficência e fazem erguer hospitais ou asilos; é pela inquietação e pela violência de homens sempre prontos a combaterem-se, que as civilizações entram em contato.

Neste raciocínio, tanto leis, instituições e estruturas coletivas eram o resultado materializado do operar de bilhões de homens, mesmo vivendo em tempos e lugares diferentes.

Segundo Kant (2001), a História avançava por que existe uma espécie de competição benéfica entre indivíduos e estes para se realizarem como pretendem são dependentes uns dos outros. Para Kant (2001) a civilização é o resultado do ondular de homens comedidos na discórdia pela concórdia e por serem concordes na discórdia.

Para explicar este processo, Kant faz analogia entre o homem e uma planta, ao ponto

que se não tivéssemos outros indivíduos que concorrem pelos mesmos bens que nós e se

 

fizéssemos somente o que mais nos agrada, seríamos como uma árvore, que se expande

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de forma horizontal e tranquila. Mas como somos ameaçados pelos próprios semelhantes e

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podemos perder para estes os bens que possuímos e almejamos, nos expandimos para o alto

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de forma vertical; competimos, nos qualificamos para obter e conservar tais bens.

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Caro(a) acadêmico(a)! Percebe-se aqui a prefiguração da dialética que foi discutida e aprofundada posteriormente por
Caro(a) acadêmico(a)! Percebe-se aqui a prefiguração da dialética
que foi discutida e aprofundada posteriormente por Hegel e Marx.

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Nos estudos de Kant percebe-se o forte afastamento da noção de que a providência

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divina representava um fator determinante da História, a ampla defesa da ideia de racionalidade

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e de télos (fim/alvo) e de progresso, que se há passos contínuos, conduziriam a humanidade

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à

emancipação plena. A história, guiada pela razão, seria a fonte maior a partir da qual se

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alcançaria a liberdade e a perfeição humana. Estas intenções contagiariam a humanidade e se

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realizariam em escala universal. A ideia de uma história universal se realizaria na conjugação

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das forças do homem de posse e uso da razão apoiado nas disposições da natureza.

UNIDADE 1

TÓPICO 1

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4.1.1 A ideia de história cosmopolita
4.1.1 A ideia de história cosmopolita

Para Kant o fim supremo da natureza seria um ordenamento cosmopolita, em uma federação dos povos na qual cada Estado seria tutelado por uma organização maior. Dosse (2003) descreve que quando Kant trata de uma História cosmopolita, refere-se a um sistema de ordenamento semelhante aos dos corpos celestes. Para assegurar uma sociedade reguladora, o homem encontraria no direito formas de conter as alterações e distorções do uso da liberdade.

Raulet (apud Dosse, 2003) apresenta que Kant é contrário à ideia cosmopolita que negligencia o que é oriundo das peculiaridades antropológicas dos povos e das culturas, ou dos impactos da absorção de um Estado por outro e contra toda fusão orgânica dos Estados-nações que, enquanto realidade jurídicas e territoriais, possuem e impõem uma identidade própria.

Dosse (2003) apresenta que a concepção de história de Kant é teleológica, que atribui

à espécie humana a primordialidade diante dos outros seres da natureza, pois estes são

dotados de liberdade e razão. O ser humano em Kant seria o cidadão responsável e principal protagonista da História. Bodei (2001) descreve que, para Kant, a Historiografia constitui um

conhecimento que fornece elementos à decifração de nós mesmos, e em especial que dá significado e inteireza à nós mesmos.

em especial que dá significado e inteireza à nós mesmos. 4.2 O PENSMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E

4.2 O PENSMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E RAZÃO NA HISTÓRIA

Georg W. Friedrich Hegel (1770-1831) foi influenciado pelas obras de Heráclito (353 a.C-475 a.C), Espinoza (1632-1677), Kant (1724-1804) e Rousseau (1712-1778), assim como pela Revolução Francesa e Napoleão Bonaparte. Dedicou-se aos estudos do Idealismo Absoluto, procurou investigar a relação entre mente e natureza, sujeito e objeto do conhecimento, para tanto, empreendeu estudos em história, arte, religião e filosofia.

Com a obra “Fenomenologia do espírito” pretendeu mostrar que a ideia não é seguir

o acumular do desenvolvimento histórico da humanidade na dimensão do tempo, mas de

colher os momentos estratégicos, de vicissitudes e ideais que são responsáveis por conferir desenvolvimento ao espírito. Para Hegel o desenvolvimento da realidade passa por três momentos fundamentais: o da ideia, o da natureza e o do espírito.

O espírito é o absoluto, o complemento de todas as coisas, o ponto extremo de síntese para a qual tende toda filosofia, ciência, religião e cultura. O espírito não é transcendente em relação ao mundo, mas constitui seu complemento interno e sua essência que é a liberdade.

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Para Hegel o espírito subjetivo e o espírito objetivo são a via pela qual se vai elaborando o espírito absoluto, cujas formas são a arte, religião e filosofia.

Hegel apresenta também a unidade dos opostos, como princípio fundador de uma nova lógica, no sentido de que esta é imanente, de modo que aquilo que é real deve ser caracterizado pela unidade dos opostos. Nesse momento, Hegel se aproxima do que defendia anteriormente Vico quando apresentava as fases/eras humanas como um tecer espiralado. Para Hegel o espírito absoluto e o fio formam a espiral, e que cada anel do espiral é uma determinação do espírito absoluto, que segue, avançando de um anel a outro, configurando assim uma espécie de progresso, e destes ao todo.

Bodei (2001) apresenta que para Hegel a História deveria ser olhada na perspectiva de buscar a razão, a finalidade, o objetivo “eu” se encontrava por traz das ações humanas, pois defendia que a História não se explicava pelas intenções conscientes dos homens, mas sim pelas suas paixões e pelos interesses individuais.

Para Hegel as paixões são o verdadeiro motor da História, elas realizam a si mesmas e os seus fins segundo as suas finalidades naturais e fazem surgir o edifício da sociedade humana. Hegel não foi tão idealista em defender que somente a consciência/razão é a condutora da História. Segundo Hegel, o ordenamento do mundo é constituído pelo ‘ingrediente’, o das paixões e o outro pelo ‘momento racional’, mas para Hegel o elemento ativo é dado pelas paixões.

Para Hegel o ‘Espírito’ é nós mesmos, ou os indivíduos, ou os povos; e ‘Razão’ é o sentido.

Para Hegel o homem se apresenta como um animal que não tem uma natureza

determinada, mas que se forma incessantemente. Seguindo este raciocínio, a História do

passado não é capaz de ensinar alguma coisa de útil ao momento presente; o que coloca Hegel distante da doutrina historia magistra vitae que foi proposta desde os historiadores da

época antiga como Heródoto, Tucídides e Cícero.

A história apresenta uma racionalidade própria, mas não deve apresentar uma tendência

na direção de um telos (fim, alvo) específico. Para Hegel os ‘meios’ são mais importantes que

os ‘fins’; ou seja, o navio, o automóvel e o trem são mais importantes do que alcançar e chegar do outro lado do oceano, na cidade, e qualquer destino traçado. Uma vez que se conta com tais recursos, pode-se trilhar novos caminhos, percorrer outras distâncias, chegar a diferentes lugares.

Bodei (2001) aborda que os instrumentos inventados pelo homem (conceitos, ideias,

máquinas, tecnologias) e que são transmitidos de geração a geração são indispensáveis e

primordiais. Segundo ele, nós usamos as nossas energias, nossas paixões, para dominar

outras energias, na direção dos objetivos por nós mesmos almejados. O homem se apropria

dos meios e os submete à sua finalidade, que são diferentes em cada homem e fornecem

diferenciação e contraste diante dos demais homens.

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A grande tese de Hegel reside na defesa de que o finalismo ad usum hominis (para uso humano) não existe na natureza e, que quando existe na história, não é por virtude da divina providência, mas unicamente pelos feitos das ações humanas. E o fato de propor a relação de prioridade dos meios diante dos fins distanciava-se do pensamento que havia sido proposto desde Maquiavel (1469-1527), Voltaire (1694-1778) até Herder (1744-1803).

UNIDADE 1

23

Para Hegel a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia tem o poder de compreender a racionalidade da história. O pensamento capta a racionalidade da história. Mas Hegel substitui a história linear do progresso por uma filosofia da contradição, da dialética. O percurso dialético que resulta disso pressupõe uma visão unitária e uma síntese do espírito por meio de suas múltiplas concretizações.

No pensamento de Hegel, o espírito do mundo está na preparação de um desenvolvimento cuja efetividade escapa aos atores, conforme Dosse (2003, p. 236) procura explicar que “todo momento histórico é atravessado por uma contradição interna que lhe dá seu caráter singular, ao mesmo tempo que o prepara para ultrapassar para um novo momento”. Pode-se pensar que se trata de um momento ideal e revolucionário que fornece as condições de superação das condições anteriores.

Hegel nos adverte que cada ator acredita realizar unicamente as suas paixões, quando que na verdade, só está cumprindo um destino que está inserido em um vasto contexto. Por conseguinte, os indivíduos não conseguem evitar que aconteça o que deve, tende a acontecer; seja o mal, seja uma guerra, pois impera a razão que é almejada e desejada por um todo, pelo conjunto, por uma nação, um Estado.

Nesse raciocínio, o autor explana a ideia de Hegel (1995) de particularidade nos termos de que o Espírito particular de um povo pode declinar, desaparecer, mas ele forma e registra uma etapa na marcha geral do Espírito do Mundo e isso não pode desaparecer. Em Hegel (1995), a partir da ideia de que cada ator acredita realizar suas paixões quando, na verdade, ele só cumpre, apesar dele, um destino mais vasto que o engloba, procura explicar que os indivíduos desaparecem diante da substância do conjunto e este conjunto forma os indivíduos dos quais ele necessita. Os indivíduos não conseguem impedir que aconteça o que deve acontecer.

Veja o teor de importância que Hegel (1995, p. 31) atribui à razão no curso da história:

O único pensamento que consigo traz a filosofia é o simples pensamento da razão, de que governa o mundo, de que, portanto, também a história universal transcorreu de modo racional. Esta convicção e discernimento é um pressuposto

relativamente à história como tal. Na filosofia, porém, isto não é pressuposto algum; demostra-se nela, mediante o conhecimento especulativo, que a razão

[

a vida natural e espiritual e, como forma infinita, a atuação deste seu conteúdo.

a substância, como poder infinito, é para si mesma a matéria infinita de toda

],

Dosse (2003) discute que o horizonte de percepção de Hegel sobre a realização do

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Espírito não foi o de uma história linear do progresso, mas que se dava pelos caminhos da contradição. Para Hegel todo momento histórico é atravessado por uma ‘contradição interna’ que lhe fornece as condições para ultrapassar e adentrar em um novo momento, o que ele denominou como ‘motor da história’.

A noção de Espírito explicada por Hegel no século XVIII pode ser verificada no século
A noção de Espírito explicada por Hegel no século XVIII pode ser
verificada no século XX por meio da ideologia nazista, que surgiu
após a Primeira Guerra Mundial. Acabou por fazer com que os
indivíduos, cidadãos alemães, fossem unânimes em apoiar as
razões do governo de Hitler em submeter a população judaica
ao holocausto.
ATENÇÃO!

LEITURA COMPLEMENTAR

O olhar de Hegel sobre a história e seus heróis

Agemir Bavaresco

Entrevista concedida à Márcia Junges e Ricardo Machado, do Instituto Humanistas da Unissinos On Line (IHU On Line).

 

IHU On-Line - Quem eram os heróis na História segundo Hegel?

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Agemir Bavaresco - A figura do herói aparece ao longo de toda a trajetória intelectual de

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Hegel. Ele apresenta muitas figuras de heróis que atravessam a história, desde a antiga

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Grécia (heróis na cultura) até a modernidade (heróis na moral e na política). Para compreender

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quem são os heróis, é preciso levar em conta a teoria da ação que justifica o agir do herói

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na história. Na Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Editora Vozes, 1992), Hegel usa, ao

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menos 12 vezes, explicitamente, a palavra herói vinculada às figuras da consciência, agindo

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na cultura e na política. Aqui, nós encontramos uma das chaves da teoria da ação, pois se

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trata de um silogismo formado pelo fim, meio e objeto, expressando-se como interesse, meio

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e

circunstâncias. Ele descreve a consciência ativa, por exemplo, na figura do herói moderno,

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que se especializa em atividades como comércio, artesanato etc., constituindo a esfera da

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sociedade civil em formação. Os indivíduos como heróis modernos tendem a se fixar em sua

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tarefa privada, trabalhando de forma isolada. Porém, o conceito de individualidade contém a

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reflexividade relacional, tornando a ação universal. Ou seja, o indivíduo descobre o público

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no seu agir privado, isto é, ele, pouco a pouco, universaliza-se na ação pública. O sujeito

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burguês é reconhecido como singular na esfera da sociedade e na intimidade familiar e, ao

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mesmo tempo, é reconhecido como universal na esfera pública. Este duplo reconhecimento

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é

a identidade entre o Eu e o Nós que é realizado no sujeito burguês. Então, os heróis, para

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Hegel, são aquelas figuras históricas, tanto individuais como coletivas, que são capazes de articular a dimensão privada com a pública, ou seja, a ação que realiza os interesses privados conduz a ampliar a participação nos interesses sociais e públicos.

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IHU On-Line - Qual é a fundamentação filosófica e quais as influências da ideia de herói nesse autor?

Agemir Bavaresco - Na Filosofia do Direito, Hegel usa sete vezes, explicitamente, o termo herói, que está vinculado à figura dos grandes homens ou indivíduos. O herói e o grande homem, em sentido amplo, têm sua fundamentação no agir inserido em mediações históricas constituídas pelas estruturas da liberdade, ou seja, a pessoa de direito, o sujeito moral e o cidadão membro da sociedade civil e do Estado. Os direitos do indivíduo são afirmados no interior de uma comunidade ética em que a liberdade pessoal e pública é garantida num sentido político-pedagógico: “Faze-o cidadão de um Estado no qual as leis são boas”, afirma Hegel em Princípios da Filosofia do Direito (HEGEL, G. W. F. Filosofia do Direito. Trad. Paulo Meneses e outros. São Paulo: UNISINOS/ UNICAP/LOYOLA, 2010). Esta é a resposta de um pitagórico a um pai que lhe pergunta qual é a melhor maneira de educar seu filho. Esta resposta mostra que o indivíduo é mediatizado pelo Estado, num processo pedagógico em que ele se torna um cidadão. Para que ocorra uma mudança essencial na história não é suficiente apenas a boa vontade ou as boas ideias, mas a ação. “O que o sujeito é, é a série de suas ações”, afirma Hegel na Filosofia do Direito. A essência do homem não está apenas no seu interior, mas se exterioriza. A história não é um processo anônimo que sucede sem os indivíduos acima deles ou reduzindo- os a meros instrumentos da astúcia da razão. O processo da história existe apenas através da mediação das ações dos indivíduos. São esses os fundadores do Estado, isto é, os heróis que fundam os Estados na história. Ora, são os indivíduos ou os heróis que podem instituir, mediante seu agir, um Estado ou mudar a Constituição de um Estado em direção à liberdade. Por isso, Hegel coloca a fundamentação da ideia de herói na ação, tanto no começo do Estado como nas permanentes mediações dos grandes homens individuais ou coletivos em nível do direito, da moralidade e da eticidade.

IHU On-Line - Como pode ser compreendida a ideia de herói em Hegel a partir do autodesenvolvimento do Espírito e a situação histórica?

Agemir Bavaresco - Cabe afirmar, inicialmente, que, para Hegel, o critério determinante para avaliar o progresso ou a evolução da história é o grau de consciência da liberdade que os povos alcançam em seu desenvolvimento. Trata-se de uma concepção teleológica da história que encontramos também em Kant, isto é, há um fio condutor nas ações humanas que conduz a um progresso contínuo da humanidade a fim de realizar suas disposições naturais racionais, como se a espécie seguisse um propósito da natureza.

Para Hegel, esse propósito da natureza implica a ideia da astúcia da razão, pois é a razão que governa a história. Os indivíduos realizam seus interesses movidos por paixões particulares, porém, eles são aliados do universal, pois o resultado da atividade particular efetiva o universal.

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Ou seja, na ação de um indivíduo, o interesse particular e universal é inseparável do histórico universal. O indivíduo que se expõe aos perigos gerados por sua ação e se desgasta nos conflitos de oposição, enquanto agente privado, nele, a astúcia da razão está realizando a ideia universal de liberdade. Então, a astúcia da razão permite que as paixões individuais atuem por si mesmas, experimentando perdas e danos, avanços e recuos; porém, nessa luta e nessas perdas, tem-se como resultado algo positivo, isto é, a razão afirmativa. Este é o fenômeno da progressiva consciência da liberdade e que justifica as ações dos grandes homens não só de imediato, mas em toda a história da humanidade. Por isso, o progresso na consciência da liberdade torna-se o critério e o tribunal da história para avaliar quem é, ou não é, um “grande homem”. Pois um herói permite o progresso na consciência da liberdade, enquanto o anti- herói permite a recaída na barbárie. Então, o herói é aquele que, em seu tempo, participa do desenvolvimento do Espírito, ou seja, da consciência histórica como realização da liberdade.

IHU On-Line - De que forma pode-se compreender o Espírito do mundo como a moral do herói,

e a situação privada como a moral da vítima?

Agemir Bavaresco - A famosa frase “ninguém é herói para seu criado-de-quarto”, que, segundo os intérpretes, é atribuída a Napoleão, mostra o homem privado na sua singularidade da necessidade imediata – representada pelo criado-de-quarto — ainda amarrado ao domínio privado da subjetividade familiar ou da sociedade civil, enquanto domínio da troca de mercadorias e do

trabalho. No domínio da família e da sociedade civil, o indivíduo permanece preso pelo imediato do homem privado e de suas necessidades – o comer, o beber, o vestir. Enquanto o herói, que já representa a esfera pública ou o lado universal do sujeito burguês, é o sujeito que se opõe

 

à singularidade da individualidade e, pela ação pública, afirma sua universalidade. O herói é

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a encarnação reconciliada da ação privada e pública. O agir moral da sociedade burguesa do

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século XVIII vive esta contradição: o domínio privado do criado-de-quarto ou o espaço público da

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sociedade civil emergente. Hegel encontra a reconciliação no herói, que se pode, aqui, interpretar como sendo o sujeito burguês e, ao mesmo tempo, o cidadão, enquanto ele é membro do

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Estado. O “burguês-cidadão” age ao mesmo tempo como criado-de-quarto no domínio privado

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da intimidade de sua família ou da sociedade civil e como cidadão na esfera pública cultural e

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política. O sujeito burguês sabe que ele realiza, através de sua ação moral, a reconciliação de sua

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essência universal e de sua essência singular. Por isso, o agir moral do herói moderno efetiva a

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reconciliação da ação privada e pública para além de dualismos excludentes que não encontram justificação lógica nem sustentação filosófica no pensamento hegeliano.

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IHU On-Line - Quais são as implicações de que o herói hegeliano é completamente orientado

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pelo Espírito do mundo e o Espírito do mundo o utiliza para seus próprios fins?

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Agemir Bavaresco - No Prefácio da Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Editora Vozes, 1992),

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Hegel entende o conceito de Espírito como a consciência capaz de expressar a verdade não

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apenas como uma substância estática, mas como sujeito, isto é, como movimento dialético em

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permanente mediação na história. Assim, o Espírito do mundo se exterioriza na objetividade das

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TÓPICO 1

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culturas, da arte, da religião e da filosofia dos povos, na objetividade das ações dos indivíduos.

O Espírito do mundo ocupa-se dos Estados, dos povos e dos indivíduos, enquanto estes

desenvolvem seu princípio particular em suas constituições políticas, conscientes e imersos em seus interesses; ao mesmo tempo, são meios e figuras que passam para um grau superior

da

humanidade. A história do espírito é um apreender de sua exteriorização e passagem, isto

é,

um apreender de novo esse apreender, indo dentro de si a partir da exteriorização. Nesse

processo de aprendizagem, o herói é capaz de apreender a contradição do fim sempre aberto

no finito, ou seja, reinventando novos conteúdos para a liberdade ao infinito.

A filosofia da história positivista afirma que há uma linearidade na evolução da humanidade em

três estágios: o teológico, o metafísico e o positivo. Essa evolução está vinculada à figura do

herói, do grande homem que conduz a sociedade e a própria história de um modo absoluto. Não

é assim que Hegel pensa a história, pois, para ele, há o princípio da liberdade que funciona como critério evolutivo da humanidade, ou seja, os povos que concebem a liberdade em grau mais elevado é que evoluem na história. O herói ou o grande homem estão inseridos dentro deste princípio da liberdade, agindo para implementar o espírito de seu tempo e o Espírito do mundo.

IHU On-Line - Que implicações éticas surgem da compreensão de que o herói histórico, através

de sua percepção e energia, é o sujeito da história e que o indivíduo humano sem tal percepção

e energia é o objeto da história, sua vítima?

Agemir Bavaresco - Hegel usou, inicialmente, a figura do herói para designar o fundador do Estado. Nesse caso, o herói aparece apenas na fundação dos Estados, isto é, antes do início

da história? A rigor, o herói tem a função de fundar o Estado, depois, uma vez que continua a

marcha da história, cabe, daí em diante, aos grandes homens levar o estandarte do Espírito para desenvolver os princípios éticos dos povos. O grande homem é, portanto, aquele que explicita o

que seu tempo quer e realiza-o. Ele é grande, porque ele realiza o que é, objetivamente, segundo

o conceito racional da liberdade. O grande homem torna efetivos os princípios substanciais e

desenvolve as exigências do espírito do tempo. Hegel afirma, no parágrafo 348 da Filosofia do Direito, que “no ápice de todas as ações, portanto também das ações histórico-mundiais, situam-se indivíduos, enquanto subjetividades que efetivam o substancial”. Basta olhar a história mundial para constatar que ela tem sido sempre atravessada por mudanças mais ou menos profundas. Hegel é muito atento às transformações que têm permitido a

fundação dos Estados nos diferentes momentos de sua evolução. Ele exprime isso pelo direito do herói a fundar ou a transformar os Estados. Hegel reserva esse direito a um momento histórico, em que não se alcançou ainda a maturidade do conceito. Mas isso é apenas uma

das possibilidades, pois, se o conceito tende à reforma, ele não é, necessariamente, submetido

a ela. Aqui, intervém de novo o conceito de insurgência, ou melhor ainda, o direito do herói a transformar uma situação dada. As causas que podem levar a uma insurreição são múltiplas, como a reificação de uma sociedade ou a passividade de seus cidadãos que torna necessária

a transformação social. O conceito de seu lado pode encontrar-se no máximo de sua paciência.

É neste cenário que se justifica a intervenção dos heróis. O direito dos heróis torna-se, então,

essencialmente um direito de revolta. Ele é um recurso constante dos indivíduos, dos grupos

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sociais, que se revoltam contra uma situação de injustiça insuportável e buscam por lá fazer valer seus direitos. O conceito tem o direito de impacientar-se. Reforma sim, se for possível. Direito dos heróis ou insurgência se isso for necessário.

O grande homem é capaz de descobrir a parte de verdade que contém a opinião pública.

Hegel, na Filosofia do Direito, quando aborda a questão da opinião pública, afirma, no adendo ao parágrafo 319, que o grande homem de sua época é aquele que expressa o que quer seu tempo e realiza-o. Aquele que não é capaz de desprezar a opinião pública, tal qual se ouve

aqui e acolá, não realizará jamais nada de grande. Ele afirma que, em política, é preciso não

se deixar, imediatamente, influenciar pela opinião pública, caso contrário não se criaria nada de

verdadeiramente grande, permanecendo cativo de prejuízos ou de proposições gerais, o que não atende à condição formal do racional. A opinião pública imediata caracteriza-se pela impaciência, pois quer a realização do próprio direito. A este nível do direito abstrato, cabe lembrar que a impaciência da opinião busca realizar seu direito privado e defender seus interesses particulares. Porém, em nível da liberdade pública, a impaciência do opinar torna-se também portadora dos

interesses universais. A opinião não suporta a lentidão da paciência do conceito e o longo processo

de

efetivação de suas determinações históricas. Isso porque a opinião tem um papel importante

no

cenário sociopolítico, pois ela contém em si a força da contradição e a reserva da indignação

moral e ética, que faz mudar toda situação que não corresponde à ideia de liberdade. Então, as implicações éticas do herói e de todo o indivíduo humano precisam ser compreendidas que, em todas as ações, quer sejam em nível privado ou público, quer sejam as ações histórico-mundiais, situam-se indivíduos, enquanto subjetividades que efetivam o substancial, isto é, a mediação da opinião pública em suas diversas esferas culturais e políticas.

 

IHU On-Line - Por que Hegel tinha Napoleão em mente quando falava sobre o “grande homem”?

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Agemir Bavaresco - Hegel elaborou dois conceitos para compreender os movimentos da história:

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Zeitgeist (espírito do tempo) e Volksgeist (espírito do povo). Ele pensa o seu tempo conforme a estrutura lógico-conceitual, cuja expressão resulta na auto-organização e na autodiferenciação

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da realidade histórico-cultural de seu contexto histórico. Hegel valoriza a história, o espírito

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do povo e o espírito do tempo. Aquilo que corresponde ao espírito do povo pode não coincidir

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com o espírito do tempo e vice-versa, pois, em determinados períodos históricos, sobretudo

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em épocas de crise, em que ocorrem as grandes transformações, as acelerações da história, a

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adequação ao espírito do tempo precede e faz avançar o espírito do povo. Ou seja, na filosofia da história hegeliana, o espírito do povo representa o princípio da continuidade, e o espírito

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do

tempo encarna o princípio da mudança. A razão hegeliana não se sobrepõe à história, mas

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também não se limita a justificá-la, daí a dialética entre o espírito do povo e o espírito do tempo.

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Segundo Hegel, essa dialética foi realizada pelo grande homem Napoleão, porque foi capaz

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de reconciliar tanto o espírito do tempo como o espírito do povo.

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FONTE: Texto adaptado da entrevista ‘O olhar de Hegel sobre a história e seus heróis’ proferida

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por Agemir Bavaresco ao Instituto Humanistas da Unisinos On Line nº 430, Ano XIII, de

21.10.2013. Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content

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&view=article&id=5234&secao=430>. Acesso em: 30 jan. 2016.

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UNIDADE 1

TÓPICO 1

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RESUMO DO TÓPICO 1
RESUMO DO TÓPICO 1

Nesse tópico, você viu que:

Historiografia consiste no estudo de como se deu o processo de redação da História, de que forma os historiadores pesquisam, organizam e narram o conhecimento, os métodos que

utilizam para alcançar e apresentar os resultados, as categorias de análise e interpretação,

repertório conceitual, o sentido e o valor moral/ético que foi atribuído aos fatos e ações humanas no tempo.

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Iluminismo versava contra as narrativas mitológicas, o pensamento dogmático, as crenças

teológicas da Idade Média e advogava a favor do pensamento racional, do progresso, da autonomia dos indivíduos e liberdade de pensamento.

Os critérios investigativos do método cartesiano consistem nas operações de ‘verificar’ as evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada; ‘analisar’ que significava dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e estudar essas

coisas mais simples; ‘sintetizar’: agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro; ‘enumerar’: as conclusões e princípios utilizados, a fim de estabelecer coerência

e

ordem do pensamento.

O Pensamento de Vico defendia que o desenvolvimento humano não se dava de forma linear e que não se encontrava em marcha constante, mas que ocorria em uma relação de integração progressiva, cíclica, espiralada, helicoidal, da emoção à razão, da fantasia ao pensamento racional, da fase dos deuses, fase dos heróis e a fase dos homens.

Kant contribuiu ao pensamento histórico no sentido de que refletia que o ser humano almeja se desenvolver, se aprimorar, e que isto se dá em meio a contradições, competições e antagonismos de um com os outros, dinâmica que fornece o cenário necessário de realização

a

todos os indivíduos.

Hegel defendeu que as paixões constituem o motor primordial da história; que existe uma razão/sentido por trás das ações humanas e que o pensamento humano é capaz de captar

a racionalidade na história; substitui a história linear e progressista pela noção da relação de contradição e dialética que compõem a natureza de todas as coisas.

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AUTOATIVIDADE
AUTOATIVIDADE
1 René Descartes (1596-1650) foi responsável pela difusão do método cartesiano que nortearia a prática
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René Descartes (1596-1650) foi responsável pela difusão do método cartesiano que
nortearia a prática científica moderna. Entre suas teses está a de Ego cogito ergo
sum: “eu que penso, logo existo”, que outras teses também são referentes às teorias
de Descartes?
Analise as sentenças a seguir atribuindo V para as verdadeiras e F para as falsas:
(
) Entre os princípios de investigação encontrava-se o pressuposto da dúvida que em
contrapartida exigia que se provasse, por procedimentos e métodos, a existência
de algo.
(
) No interior do processo de investigação do funcionamento ou da composição de
um ser ou objeto o autor defendeu que fazia necessário dividir, isolar, reduzir e
reunir/recombinar novamente o que estivesse sendo estudado.
(
) Em meio aos exercícios de investigação deviam ocorrer as operações de verificar,
analisar, enumerar e sintetizar, e deveriam ser as partes primordiais para que se
garantisse a verdade no interior do processo científico de produção do conhecimento.
(
) O autor defendeu que a ciência e os métodos de investigação deveriam buscar
a verdade como finalidade, e como método deveria resguardar a integridade dos
seres e não intervir nos fenômenos e ao em meio/sociedade em que eles ocorrem.
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
a)
(
) V – F – F – V.
b)
(
) F – F – V – F.
c)
(
) V – V – V – V.
d)
(
) V – V – V – F.
2
Na tabela a seguir procure preencher variáveis que fazem parte do pensamento de
cada autor:
UNIDADE 1 TÓPICO 1 31 VARIÁVEIS VICO KANT HEGEL PRINCIPAIS CONCEITOS DINÂMICA/FASES DE DESENVOLVIMENTO
UNIDADE 1
TÓPICO 1
31
VARIÁVEIS
VICO
KANT
HEGEL
PRINCIPAIS
CONCEITOS
DINÂMICA/FASES DE
DESENVOLVIMENTO
FATORES
RESPONSÁVEIS
POR MUDANÇAS/
DESENVOLVIMENTO
FINALIDADE/
TENDÊNCIAS A
LONGO PRAZO
IMPORTÂNCIA DA
HISTÓRIA

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TÓPICO 1

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TÓPICO 2

O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX 1 INTRODUÇÃO
O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO
SÉCULO XVIII E XIX
1 INTRODUÇÃO

O contexto histórico no qual se instaura a filosofia positivista foi o das revoluções e o dos grandes impérios, em que ocorria paulatinamente a desagregação das estruturas remanescentes da sociedade feudal, e em contrapartida, a consolidação da civilização capitalista; nas relações internacionais à política imperialista e uma espécie de eclosão em grande escala dos acontecimentos políticos, econômicos, religiosos e artísticos, que se acumulavam e avolumavam desde o século XVIII.

A produção capitalista, que introduziu a máquina a vapor, a modernização dos métodos de produção, acabou por desintegrar costumes e introduzir novas formas de organização da vida social. A transição da produção artesanal para a manufatureira e desta para a produção fabril, foi o fator principal para o surgimento de novos sujeitos, novas realidades e acordos sociais, que se caracterizaram pela migração do campo para a cidade; pelo fim da servidão; pelo desmantelamento da família patriarcal; pela introdução do trabalho feminino e infantil.

No campo da produção científica ocorreu a tendência da universalização do conhecimento ocidental, no qual a sociedade industrial sinalizava ao alcance da condição de prosperidade e de poder; no sentido de que a cada indivíduo, conforme a sua capacidade e aptidão, seria capaz de obter. Assim, a indústria passa a se alinhar à organização científica do trabalho, que produziria crescimento constante das riquezas e a concentração dos operários no interior das fábricas.

Em meio ao curso destes fatores, duas ideologias se destacavam, a do positivismo, que

ia ao encontro aos interesses das mudanças de pensamento e as revoluções tecnológicas, e o

marxismo, que procurava refletir sobre os impactos destas mudanças e denunciar os impactos

e as perdas sociais e culturais que a primeira era responsáve