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O Milagre da Fonte da Gomeira

Versão para revisão

Samuel Viana
Conteúdo

1 I. Os Francas, navegantes de Tavila 2

2 II. Um dia na Alfândega 7

3 III. Um dia nas Terras da Ordem 18

4 IV. Um visitante não esperado 25

5 V. Um segredo descoberto 32

6 VI. José Perez, moçárabe de Granada 36

7 VII. Ordem no regadio 39

8 VIII. Vamos fazer uma fonte ? 44

9 IX. Salvo da morte por um triz 53

10 X. Uma terra caída na desgraça ? 63

11 XI. E a Senhora não voltou 67

12 XII. A visita do físico 73

13 XIII. Um assassinato inconsumado 84

14 XIV. Dilúvio no Vale do Almargem 92

15 XV. (Re)nascimento e regresso 101

16 XVI. O novo ribeiro 108

17 XVII. Uma noite dos infernos 112

18 XVIII. Reencontros na Terra da Ordem 120

Mapa 127

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I. Os Francas, navegantes de Tavila

Conta-se que um navegante, de origem genovesa de nome Lançarote da Franca, viera há muitos, mui-
tos anos, só Deus nosso senhor sabe, viver para Tavila para servir de imediato a bordo das naus de
Emanuelle Pessagno (ou Manuel Pessanha, como ficou conhecido em Portugal), igualmente genovês,
a quem fora dada a honradez de ser o Almirante-mor da Frota de Galés de Sua Majestade o Rei D.Dinis.
Este Lançarote era um homem bravo, corajoso, temerário, amante da refrega e do combate, e viera vi-
ver para o Algarve conjuntamente com a sua senhora, Leonor de Abreu, estabelecendo residência nas
Terras da Ordem, atribuído pelo pai de D.Dinis, Afonso III, à ordem de Santiago de Espada, cujos mon-
ges guerreiros, conta a tradição, conquistaram Tavila sob o comando do grande Paio Peres Correia, seu
grão-mestre, mas que após a conquista do Algarve acabaram por se avassalar com o Rei de Castela e
por lá se fixaram, não tendo nenhum membro da Ordem vindo tomar posse das referidas propriedades,
que ficaram abandonadas desde a fuga dos mouros.
Então Lançarote pensou em gizar um acordo com o pároco da Igreja de Santa Maria em Tavila - a que
recebeu o túmulo dos sete cavaleiros de Santiago mortos covardemente pela mourama - de que pagaria
as despesas que fossem necessárias para preservar a igreja e o túmulo, para além de ofertar todos os
anos uma décima parte dos proveitos das terras da Ordem a todos os fregueses da dita paróquia, e de
dar trabalho e sustento a todos os fregueses se para isso desejassem.
Diz-se que Leonor Abreu ofereceu trabalho a todos quantos se apresentaram para trabalhar na terra e
que dela precisavam. Era uma propriedade vasta, com sede no alto de um monte que dominava a oeste
todo o vale da Ribeira que agora chamamos de Almargem. Ao monte tinha sido dado pelos mouros o
nome de Benamur , de Bin-Ah-mur (o ``filho do devoto'' em árabe), e compreendia outra parte, situada
para sul do que restava da antiga estrada romana, o lugar da Gomeira, que se estendia até ao mar.
Essa velha estrada romana era a que ligava de oeste a leste a antiga Ossonoba (agora Faro) a Baesuris
(Castro Marim), atravessando o Rio Gilão através da chamada ponte romana. Para leste a propriedade
ia por terrenos selvagens onde havia muita caça até ao ribeiro de Afonso Martins, que chamam agora
de Lacém, onde tinha início o Termo do outro castelo, Cacela. (Antigamente dava-se o nome de termo
de uma vila ou cidade com castelo ao que nós hoje chamamos concelho.). Coelhos, lebres, perdizes,
javalis, raposas e o grande gato de barbilhos era habitual verem-se nas matas não desbravadas das
Terras da Ordem. Eram terrenos de caça onde por vezes a família gostava de praticar as artes de caça.
Apesar de em ambas as propriedades serem vastas e os campos povoados por alfarrobeiras, figuei-
ras, amendoeiras e oliveiras, estes estavam a precisar de ser desbravados e limpos, porque muitos anos
passaram desde que alguém deles tirasse deles sustento. E, além disso, as terras não eram ricas em
água para poderem ser irrigadas o suficiente para o trigo poder levantar haste e dar espiga.
Lançarote passava a maior parte do tempo no mar com o almirante Pessanha, nas lutas contra as
galés mouras que ameaçavam os cristãos mais lá para das bandas das Colunas de Hércules, e quando
lhes permitiam sossego, em tempos de paz demandaram o mar desconhecido, para muitas léguas
além de costas conhecidas, por mar aberto na busca das chamadas Ilhas Afortunadas, e que agora
chamamos de Canárias. Mas as batalhas que os ocupavam com a mourama e às vezes também contra

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CAPÍTULO 1. I. OS FRANCAS, NAVEGANTES DE TAVILA 3

a armada castelhana nunca lhes permitiram concluir tais aventuras. Sendo Lançarote um guerreiro
constantemente ocupado em batalhas e aventuras em Alto mar, quando tinha tempo ancorava em Tavila
e procurava sossego junto do leito de Leonor, que tratava sozinha do sustento das propriedades da
Ordem. Regressado à quinta, era vê-lo insultar e maltratar todos os camponeses e lavradores, por vezes
na frente da esposa, para humilhá-la.
—Rodeias-te de gente imbecil e tonta que não sabe sequer como manejar um arado e cultivar cereal
de onde possamos fazer pão.
—Onde tens andado, meu marido, e o que tens feito ? Apenas vens para junto de mim parar buscares
paz junto do meu leito. Trouxeste ao menos riquezas dos longínquos mares ou dos saques que nos
ajudem a melhorar as nossas sortes ? E agradecei a Deus os representantes da Ordem de Santiago não
terem ainda regressado para vir reclamar estas Terras - redarguiu Violante.
Ao ouvir estas altivas palavras, Lançarote não teve qualquer receio em esbofetear a pobre esposa,
porque ele considerava atrevimento para uma mulher levantar a voz para um cavaleiro da casa de sua
majestade, ao serviço de Nosso Senhor ao manter seguras as costas portuguesas.
Mas apesar da sua impulsividade, Lançarote era um homem temente a Deus que se encomendava
sempre à Virgem sempre que tinha de viajar por esses mares longínquos e desconhecidos. E assim
visitava sempre a Igreja de Santa Maria para rezar na capela diante do altar da Virgem antes de subir
a bordo, acompanhando misser Pessanha nas suas viagens. Apesar de os Franca terem a sua própria
santa padroeira, Nossa Senhora A Franca, cuja imagem era guardada a sete chaves num altar dentro
do seu próprio solar no Benamur.
A Ordem de Santiago regressou efectivamente para verificar as suas terras, quando D.Afonso IV, que
sucedeu a D.Dinis, nomeou um grão-mestre da Ordem de Santiago só para Portugal, que não prestasse
obediência à Ordem de Santiago castelhana. E assim de vez em quando os visitadores da ordem visi-
tavam Tavila, e achando em bom estado as terras concedidas no Foral antigo, acabaram por avalizar o
acordo que Lançarote da Franca fizera com o pároco de Santa Maria.
As condições em que Leonor matinha a fazenda não eram famosas, os mouros que antes tinham
erguido a quinta tinham deixado uma nora e curtas valas de irrigação que, aproveitando o facto da nora
estar situada num lugar elevado, fazia a água descer lentamente, por efeito da gravidade, por valas de
irrigação para as hortas, onde se cultivavam cenouras, ervilhas, feijão, linho, grão-de-bico e hortelã. Mas
pouco mais. Culturas que exigissem mais água eram escusadas porque a água necessária não vinha
em quantidade suficiente.
Mas o estrago feito à quinta depois da conquista aos mouros tinha sido muito e ninguém tinha
reparado as estruturas. E o cultivo de trigo estava portanto fora de questão. A Lançarote apenas lhe
interessava as estrebarias e os potros e os gloriosos corcéis que eram lá criados e que pudessem ser
apresentados em alturas festivas, cavalgando com a esposa e seus cavaleiros exibindo as armas dos
Franca pelas ruas de Tavila.
Ocorrendo finalmente oportunidade para as pazes com Castela e a Mourama, Lançarote teve final-
mente oportunidade para concretizar o seu sonho, navegando por mar aberto alcançando as ditas Ilhas
Afortunadas, tendo atingido as ditas ilhas, ficando para a posteridade conhecido como Lançarote, o
Malocello. A ideia era reclamar pelo menos algumas das ilhas, sendo um grande arquipélago, para a
coroa portuguesa. Já então o rei de Portugal era D. Fernando, o Belo, neto de Afonso IV e filho de D.
Pedro, aquele que se deixou morrer de amores pela dama Inês de Castro e que colocou os portugueses
em terrível situação após a sua morte sem filho varão. Lançarote deu a uma dessas ilhas descobertas o
nome de Nossa Senhora A Franca, como prova dos votos de devoção à sua padroeira e a outra batizou-a
de Gomeira, o nome da outra propriedade quem em conjunto com o Benamur constituíam as Terras da
Ordem.
Dispondo de poucos meios, Lançarote da Franca quis instalar-se na Ilha da Franca. Acabou por
morrer por lá, em luta com os nativos, ao tentar estabelecer uma colónia que desse a Portugal a posse
das Canárias. O nome da Franca desapareceu e o que ficou para a posteridade foi o seu nome, que
CAPÍTULO 1. I. OS FRANCAS, NAVEGANTES DE TAVILA 4

acabou por dar o nome à ilha: a Ilha de Lanzarote. O nome de Gomeira acabou também por ficar para
a posteridade. De modo que ainda hoje vemos o nome de La Gomera no mapa das Canárias. Mas
Portugal após um século de contestação pela posse das outrora chamadas Ilhas Afortunadas, acabou
por desistir quando foram descobertas outras terras mais além, os Açores e a Madeira.
Apesar de morrer em terras longínquas, Lançarote da Franca deixou descendência que lhe herdou
os foros da Ordem de Santiago em Tavila, nomeadamente Lopo Afonso da Franca, que esteve do lado
do mestre de Avis na Batalha de Aljubarrota quando João de Castela quis reinar também em Portugal
quando D.Fernando não havia deixado filho varão no torno. Como recompensa o novo rei D. João I
confirmou-lhe a posse das Ilhas de Lanzarote onde o seu pai havia perdido a vida, mas ele nunca chegou
de facto a desembarcar nas ditas ilhas. Esteve na frota que partiu com os filhos de D. João I, os infantes
da Ínclita Geração a conquistar Ceuta. Este Lopo era também um homem de poucas conversas, e de
raivas mal reprimidas, e casou com Môr Eanes da Cunha, descendente dos Cunhas de Vila do Conde.
Marinheiro quase por tempo inteiro, como o pai e o avô, dizem que pouco tempo dispunha para partilhar
com a esposa e pouca paciência teria igualmente para ocupar-se dos terrenos da Ordem.
O que foi no entanto chegado aos seus ouvidos das poucas vezes que se recolhia em Terra era a
que a esposa Môr Eanes o traíra dadas as suas longas ausências na peleja no mar. Em virtude disso, e
numa chamada à atenção à esposa, devido ao acesso de ciúme, acabou por a matar. Menos sorte teve
a capitanear a galé de que era comandante no ataque a Tânger, já sob as ordens do Infante D.Henrique,
pois foi atacado e acabou por morrer afogado no seu afundamento. Dizem que foi castigo divino me-
recido por ser tão desconfiado e não ter acreditado na esposa, de que eram intrigas movidas pelos
seus inimigos na corte, e que usaram a sua impulsividade contra si próprio, da mesma maneira do que
quando um feitiço se vira contra o feiticeiro.
Lopo Afonso, o segundo deste nome registado nas linhagens dos da Franca foi pai de Afonso Lopes
da Franca, e tal como o pai, detinha o título de senhor da Ilha de Lanzarote, e capitaneou também naus ao
serviço do Infante, que foi o que veio a suceder em 1447, quando comandou a frota que içou âncora de
Lagos para saber dos destinos de Gonçalo Cintra, que tinha atingido a praça africana de Arguim, já além
do Bojador, não havendo dado mais notícias. Deste Afonso Lopes que foi a caminho de Arguim nunca
mais nada se soube igualmente, sabendo-se apenas que da relação com Catarina Afonso, que foi pai
de cinco mancebos, estando entre eles um segundo Lopo Afonso, para além de Diogo Lopes da Franca,
do qual de seguida esta história se vai concentrar, e que tomou como mulher Genoveva Pessanha, filha
de Álvaro Pessanha, bisneto de Manuel Pessanha, o mesmo Pessanha almirante de Portugal. De Diogo
Lopes da Franca alguns cronistas diziam que era uma figura importante na vila chegando a dizer que era
juíz-môr da alfândega de Tavila e por ventura desse cargo desligou-se das aventuras do mar, procurando,
ao contrário dos seus antepassados, dedicar-se à vila e às suas propriedades. Tal como os seus Francas
antecessores, manteve o trato com a Ordem e a Igreja de Santa Maria para tomar conta das terras do
Benamur e da Gomeira. Enquanto os irmãos voltaram ao mar, marinheiros nas explorações portuguesas
para sul da Costa Africana, Diogo Lopes começou a ocupar-se dos resultado das Descobertas na costa
africana, pois Tavila era, a par de Lagos, uma dos lugares costeiros com porto favorável ao comércio,
largo e aberto ao mar era o rio naquele tempo. Em termos concretos, Diogo Lopes era o novo nobre
nomeado para juíz-mor e responsável pela alfândega. Tudo o que entrava e saía de Tavila por mar teria
que ser do seu conhecimento.
Já Tavila era uma vila que recebia imensa navegação e comércio, provindo de outros portos do
Mediterrâneo, pois sendo o primeiro porto português depois de os mercadores entrarem no Atlântico,
era quase lugar de paragem obrigatório de franceses, genoveses, aragoneses, venezianos, sicilianos
e outros povos que vinham não só fazer comércio ou no mínimo saber notícias das descobrimentos
para sul ao largo da costa africana. Castro Marim, apesar de se apresentar voltada para o Guadiana,
com o seu largo estuário, era uma povoação fechada dentro de muralhas, sempre receosa de qualquer
eventual ataque que os castelhanos pudessem infringir na outra margem, e portanto nada feita para
poder receber de mãos abertas o comércio.
Naquele o tempo o Rio Gilão possuía um largo estuário como o do Guadiana ou o do Arade em Por-
CAPÍTULO 1. I. OS FRANCAS, NAVEGANTES DE TAVILA 5

timão, permitindo que as naus e galés da Armada Naval do Reino invernassem no interior do seu amplo
estuário, resguardados dos perigos e humores de perigos do Oceano e outras ameças pela estreita foz
do Gilão.
Assim Tavila era a inevitável primeira paragem para todos estes comerciantes curiosos e desejosos
de venderem os seus produtos, e levarem algum do ouro que haviam ouvido contar corria num rio a céu
aberto, o Rio do Ouro, para além do Bojador.
Além disso, também era também lugar de importante estratégia militar, pois era o ponto de embar-
que que permitia viagens mais rápidas de todos as companhias de guerreiros que iam guarnecer a única
praça conquistada até então no Norte de África, Ceuta.
De modo que o rio Gilão recebia dezenas de naus provindas de todas as partes da Europa, principal-
mente da parte Mediterrânica. E foi assim deste modo que a nobreza floresceu e acalentou-se com as
riquezas que chegavam ao porto da vila. Os nobres já não precisavam de mostrar serviço para serem
merecedores das mercês que ostentavam, as riquezas que adquiriam de todos os produtos como finas
sedas, panos e bordados que chegavam a Tavila, eram suficientes para lhes suster os desejos de luxúria
e ostentação.
Da florescente Tavila e da conquista de Ceuta havia brotado um novo clã, que ficaria para sempre
gravado na história de Portugal: os Corte-Real filhos de Vasco Anes da Costa, combatente em Aljubar-
rota, na pessoa de seu filho também de nome Vasco Anes, grande guerreiro e um dos heróis da tomada
de Ceuta, a quem el-rei D. Duarte concedera a graça de se chamar Corte-Real, pois era o cicerone de
todos os visitantes da sua corte. Nesta história irão participar diversos personagens oriundos desta
família.
Estando no entanto delimitado por oeste do restante termo de Tavila pela irmã mais nova do Rio
Gilão, a Ribeira do Almargem, naquele tempo no entanto navegável quase até junto da propriedade
gerida pelos Franca, - um vau impedia a progressão das águas do mar na subida do rio - de modo
que se Diogo quisesse ir para o Benamur sem ser a cavalo teria que pegar num bote e ir de Tavila até
Benamur, aproveitando a proximidade das fozes do Gilão e do Almargem.
Por estas alturas, um grande conjunto de camponeses, lavradores, pastores, tecedeiras, e lavadei-
ras laborava na velha propriedade, ora varando oliveiras, tomando conta do gado ovino, e criadores de
cavalos que aproveitavam as pastagens do Benamur para criar os melhores cavalos para os Francas. E
o novo casamento de Diogo Lopes, arranjado pelo pai Afonso Lopes, combinado por um razão de inte-
resses por insistência do pai,e dos seus entendimentos com Álvaro Pessanha, filho bastardo de Carlos
Pessanha, o último almirante Pessanha, e que havia perdido o direito ao título por pecados do seu pai,
o último almirante-mor dentro dos Pessanha.
A família Pessanha passava por um mau momento e o casamento com um dos Franca, por acaso
seus antigos companheiros e a razão original por se terem estabelecido em Tavila, mais de cem anos
antes, e o casamento da filha de Álvaro Pessanha, Genoveva, era visto como uma forma de querer recu-
perar influência junta da sociedade nobre de uma vila que fervia de comércio e das novas oportunidades
abertas pelas descobertas.
Genoveva Pessanha (ou Genebra Pessanha) era uma donzela muito devota ao culto mariano, que
professava na concepção imaculada da própria Maria mãe de Cristo. Apesar dos escândalos da família
e da bastardia do pai Álvaro Pessanha, Genoveva era a filha do casamento celebrado diante de Deus e
por isso com a linhagem entendida pelos linhagistas como a mais pura dentro dos Pessanha. A mãe
era Isabel da Cunha, filho do grande Álvaro Vaz de Almada, o conde de Avranches, e primeiro capitão-
mor em Mar, como se dizia naquele tempo, e que tinha sido um dos célebres ``doze de Inglaterra'' que
tinham combatido pelos ingleses em Azincourt e derrotado os franceses num dos períodos de guerra
entre estas duas nações que os historiadores insistem em querer chamar guerra dos cem anos.
O primeiro casamento de Genoveva fora com Álvaro de Arca, irmão do navegador e militar Rodrigo
da Arca, que já procurava recuperar a reputação dos Pessanha, mas tal não tivera êxito, já que Álvaro
de Arca conjuntamente com o irmão morreria na batalha da tentativa de tomada a Alcácer Ceguer -
CAPÍTULO 1. I. OS FRANCAS, NAVEGANTES DE TAVILA 6

uma cidadela entre Ceuta e Tanger - poucos meses depois do casamento. Á procura de novo meio de
restabelecer os Franca, este encontrara em Diogo Lopes da Franca o possível parceiro ideal para reunir
novamente as duas famílias, e com essa possibilidade trazer os Pessanha de Tavila de volta para os
fidalgos de honra de sua majestade. O casamento foi realizado na Igreja de Santa Maria, a ela ligados
pelo trato com a Ordem, e diz-se que desde o momento do casamento, os Céus haviam abençoado a
união.
II. Um dia na Alfândega

Tavila, 46 anos após a Conquista de Ceuta e da assunção de Vasco Anes da Costa, depois chamado de
Corte-Real, como Alcaide-Mor da vila, por graça de João I, o de Boa-Memória
23º ano do reinado de Afonso V, o Africano
Vastas eram as propriedades aforadas aos Franca. Depois de passar o Ribeiro dito do Almargem,
eram as duas herdades separadas pelo velho caminho romano que se estendia até Cacela, para terminar
em Castro Marim. A Gomeira compreendia tudo que ia da estrada romana até ao mar, que naqueles
tempo penetrava sem barreiras por terra adentro. Os seus solos eram menos aptos para o cultivo do
cereal, e a escassez de fontes de água naturais um problema para quem quisesse fazer agricultura
que precisasse de irrigação intensiva. As árvores plantadas e deixadas pelos mouros compreendiam
antigas amendoeiras, oliveiras e alfarrobeiras. No entanto, os camponeses que lavravam estas terras
plantaram muitas figueiras, que lhes davam sustento quando o senhorio não lhes pudesse dar do seu
proveito.
No entanto, eram poucos os cultivos feitos e o trigo difícil de medrar, pois o solo era muito seco.
Havia uma antiga nora deixada pelos mouros, mas havia duzentos anos ninguém a havia reparado os
canais de irrigação que dela irradiavam aproveitavam o facto da dita estar situada no topo de uma
colina sobranceira ao Almargem. Havia muita pastorícia e criação de cavalos, para depois ser vendido
nas feiras de gado ou para o esforço de guerra em Marrocos. Na Gomeira era grande a quantidade de
amendoeiras, oliveiras e alfarrobeiras. O cultivo de alfarroba era algo que os mouros haviam deixado,
pois as alfarrobas fertilizavam as terras e era um bom alimento para o gado de qualquer tipo. O que
faltava era água, e condições para alojar os camponeses que trabalhavam para as terras da Ordem.
As mulheres tinham de descer a encosta do Benamur para lavarem a roupa na Ribeira do Almargem,
correndo o risco de serem levadas pela corrente ou caírem num pego. Genoveva Pessanha, a nova
senhora das Terras da Ordem, preocupava-se com as pobres criaturas que trabalhavam para manter
a produtividade da herdade. A falta de água era uma realidade e nos quentes e tórridos meses de
Verão, essa necessidade do líquido precioso só conseguia ser resolvida graças à nora do Benamur que
tinha uma cisterna que quase nunca secava, e os poços nos campos eram poucos e estavam muito
distanciados entre si. Alternativas para matar a sede era através de alimentação baseada na fruta com
polpa húmida, como por exemplo o figo ou a ameixa. Os rios mais próximos eram largos e salgados,
a água insalubre, e conseguir arranjar água potável só mandando alguém a Tavila de propósito para
encher os cântaros nas fontes do Castelo e do Largo do Cano, para além de que a ribeira do Almargem
só tinha água potável prosseguindo da sua antiga ponte em direcção à serra, e em meses de Verão este
leito, reduzido a poças, secava por completo, deixando os pobres camponeses sedentos e com poucas
soluções.
Diogo Lopes, esse estava mais preocupado com a gestão da alfândega para pagar as constantes
viagens de frequência quase semanal destinadas ao reabestecimento de Ceuta.
Pelo porto de Tavila começaram a chegar escravos africanos quando foi o descoberto o Rio do Ouro,
e quando a Europa inteira soube, todas as nações mandaram navios com as suas maiores maravilhas

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CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 8

para atracarem nos portos de Portugal. E qual o primeiro porto logo ali a seguir à fronteira com Castela,
para poder ter mão nesse Ouro !? Era Tavila.
Diogo Lopes assistia pasmado à chegada todos os dias de novas naus de todas as partes da Europa:
do Atlântico provinham roupas e panos finos da Flandres, calçado, jóias da Germânia, e do Mediterrâneo,
do Reino de Aragão louça e cerâmica do mais puro e fino recorte. Como responsável da alfândega, não
tinha mãos a medir com tanta demanda portuária, nada melhor para cobrar o imposto de Alfândega,
directamente para os cofres de sua majestade D. Afonso V.
Este Franca passara a ser, ao contrário dos seus avós, navegadores e mareantes, um escrivão e
funcionário real, um nobre fidalgo acostumado agora a ficar sentado em Terra, tornando num burocrata
de pincel e pena a registar no papel todos os tesouros que chegavam de todos os cantos da Europa
demandando em troca conseguir algum do Ouro que tinha sido descoberto no Continente Negro. De
seu irmão Lopo Afonso, segundo na família registado nas genealogias com este nome, pouco mais
se soube: terá acompanhando Pedro Escobar ou Fernão Gomes quando estes sob concessão do rei
exploraram a Serra Leoa e o Golfo da Guiné, atravessando pela primeira vez o Equador.
Também o açúcar que tinha começado a ser obtido da cana cultivada na Madeira, entrava na Europa
através de Tavila, sendo revendido precisamente aqui antes de ser levado para outras partes da Europa.
Tavila era uma porta de entrada e saída para a Europa inteira e todos os dias Diogo Lopes conhecia
maravilhas e histórias dos marinheiros, algumas vezes em línguas que ele nem compreendia, mas que
na cabeça dele deviam ter apenas um significado: ouro e jóias, para além de quererem saber até que
terras os portugueses haviam chegado. Mas Diogo Lopes ansiava por oferecer algumas destas riquezas
à sua amada esposa Genoveva que ficava sozinha o dia todo a tomar conta das Terras da Ordem. Diogo
começou a sentir que Genoveva adoraria partilhar de todas as maravilhas que eram reveladas no Porto
de Tavila, e começou a pensar de que teria um dia de convidá-la para partilhar a seu lado o posto do
paço da Alfândega onde Diogo fazia o seu trabalho quotidiano.
De marinheiros a burocratas, a família Franca continuava nas boas graças divinas e da Virgem Mãe
de Deus. Que Deus abençoe Portugal, sua majestade Afonso V e a nossa família, pensava para consigo
Diogo Lopes. Terminada a jornada de mais um dia de cobrança do imposto alfandegário, era ver Diogo
pegar o cavalo apeado na Praça da Ribeira e vê-lo a cavalgar pela Ponte Romana acima, mirando com
orgulho à luz do sol poente a quantidade de naus ancoradas na terra do Gilão. ``Minha querida Genoveva
tens que passar um dia comigo! Tem de ser hoje!''. Depois de ter prometido a si próprio que seria este o
dia que pediria encarecidamente à amada para que partilhasse um dia inteiro consigo ao seu lado para
saber ter uma ideia do comércio que se fazia na vila e ter procrastinado por tanto tempo na sua mente
por maior o tempo que fosse. Cavalgando ao sabor do vento enquanto saía da vila e encaminhando-se
para o caminho real, já no exterior da vila, aqui e ali revelando ainda alguns vestígios da antiga calçada
romana desaparecendo com o tempo, Diogo disse para consigo: ``É hoje!''. E assim, e para não perder
tempo em ter que acompanhar a margem direita do Almargem até atingir a ponte romana do Almargem
decidiu arriscar-se a saltar com o cavalo para dentro da água da Ribeira que naquele dia de Março e
após as chuvas de Inverno a Ribeira corria com estiqueza, mas naquele ponto de travessia a Ribeira
tinha um vau que permitia salvar uns poucos quilómetros no trajecto para finalmente poder atingir a
casa do Benamur, onde Genoveva, o aguardava como sempre ao final do dia.
E lá estava ela, ao fim do dia, e sob as parcas luzes do lusco-fusco, Diogo Lopes pareceu-a ainda
achar mais bela que sempre, santa e pura, merecedora do seu amor abençoado pelo Altíssimo.
Ela que vinha de saia longa, mas puxada pelo joelho, dando mostras do esforço em tomar conta da
quinta e de trabalhos mais físicos não dignos da sua nobreza.
Ao desmontar o cavalo, tirar o gorro e preparar-se para abraçar a sua amada, Diogo Lopes estranhou
a frieza constante dela ao recebê-lo, ele sempre alegre e motivado pelas riquezas que passavam na
alfândega e ela sempre retirada, como se estivesse noutro lugar, onde as riquezas não tinham lugar na
sua mente.
—Meu amado marido, chegas feliz, como sempre, pudera eu partilhar da tua alegria. Como foi hoje.
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 9

—Nem sabes, minha Genoveva, uma nau carregada dos mais finos vestidos para damas vindos de
um lugar chamado Antuérpia, que fica na Terra dos Flamengos, ao que dizem, acho que alguns deles
ficariam lindos em ti, haver-te de ver ainda mais bela. Mas como sou chefe da portagem, não posso
comprá-los para ti, tens de ser tu a lá ir comigo.
E Diogo prosseguiu:
—Por isso meu amor, peço-te, que passes um dia comigo ao meu lado a partilhar das belezas que
chegam de todos os cantos do mundo a Tavila. Há-de ser um dia diferente de teres de orientar as
pastores, as tecedeiras, e os lavradores. Dá um dia de descanso a ti própria, meu amor.
—Adoro quando tu me estragas com mimos, meu amor. Eu passarei um dia contigo, mas tu não
fazes ideia como foi o meu dia, Diogo, estamos em Março, temos de ter as hortas prontas para depois
termos de comer para o Verão, quando já não tivermos água. Toda a gente que trabalha nas terras da
Ordem precisam de alguma coisa para que comer. Eu tenho orado pela Virgem santíssima para que nos
acuda. A ti tem-te abençoado com riquezas, a mim só me tem dado fastio. Parece que não há forma
de trazer mais fertilidade para estas terras.
—Assim será, meu amor, amanhã, acompanhar-me-ás ao Porto, para poderes escolher o que achares
melhor para ti. De certeza que encontrarás lá outras damas da tua condição. Elas concorrerão contigo
pela posse das melhores peças.
—Não são belos panos, vestidos e sedas o que mais me atrai, meu amor. É tratar deste povo que
trabalha nas terras da Ordem. Para além de lhes dar de comer, precisamos também precisamos de
lhes dar um sentido, algo que os ocupe fora das horas de labor. Para além disso, a falta de água é um
problema que nunca teve solução, desde que há mais de cem anos o teu bisavô Lançarote que tomou
conta destas terras nunca foi possível encontrar uma solução!
—Não te preocupes com estas terras, elas nunca deixarão de ser o que são, mas com o nosso amor,
esse sim, vai dar flor e semente que depois em solo rico medrará para uma nova flor…
—Uma nova flor Franca, com a benção de um ventre dos Pessanha.
—Eu vou, meu amor e senhor, contigo, amanhã, à vila, mas com uma condição.
—E qual é, meu amor e senhora ?
—Tirares também um dia teu comigo aqui nas nossas terras, para verdes como as riquezas não
fazem pão, nem lindos panos dão de beber, nem diamantes ou ouro sustentam os nossos criados.
Perante estas inesperadas e sábias palavras, Diogo Lopes estremeceu e ficou impávido procurando
uma resposta.
—Que se faça como desejaste, minha senhora. Acompanhar-me-às amanhã da vossa mecê para
comigo, mas no dia seguinte, e sou fiel às palavras que juro debaixo da padroeira do nosso clã, Nossa
Senhora A Franca, que partilharei um dia inteiro contigo nas nossas terras, e não irei a Tavila.
—Assim seja, meu senhor. - tentando baixar-se para beijar os dedos de Diogo Lopes, algo que Diogo
Lopes evitou que ela fizesse, segurando-a pelos ombros, e abraçando-a depois, pois aquilo que Diogo
Lopes sentia por Genoveva era um verdadeiro amor, e não uma formalidade, como um rainha diante de
um rei.
E assim foi, e no dia seguinte, Genoveva Pessanha seguiu, cavalgando na mesma sela com Diogo
Lopes, para fora dos ares do campo das Terras da Ordem. E ao atingir Tavila, e mal ao atravessar a
ponte, Genoveva pôde contemplar, o rio pleno de naus com todas as formas de velas e feitios, de todas
as cores, umas acabadas de chegar, outras a ancorar e a iniciar o desembarque, uma azáfama de gente
que pareciam formigas vistas de longe, ao longe da estreita margem direita do Gilão, desde a Torre do
Mar até perder-se lá ao fundo, onde se via o reflexo do Sol, onde as águas do rio finalmente encontravam
descanso em mar aberto. Parecia que o próprio rio resplandecia de ouro contagiado pelas riquezas que
as naus transportavam. O toque de Midas havia atingido o Gilão.
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 10

A azáfama da tripulação de marinheiros e comerciantes a tentarem escoar e vender os seus produ-
tos. Tudo tinha de ter passagem primeiro na Alfândega, o edifício rematado em arcos ali que assomava
para a Praça da Ribeira, de onde se vendia de tudo, desde o açúcar da Madeira, escravos do Rio do Ouro,
finas porcelanas de Valência, e as mais belas vestes para bem vestir as damas da efervescente Tavila
vindas de Antuérpia. A acrescentar a isso finas jóias de adorno. Diogo desceu da sua sela, apeando-a
depois na Praça da Ribeira, junto da troço de muralha que terminava na Torre do Mar e auxiliou a sua
amada a descer do cavalo. A dama Pessanha envergava vestes modestas, parecendo mais uma cam-
ponesa ou freira do que a esposa de um dos mais importantes nobres da vila. Naquele que parecia
ser apenas um mundo de homens, eram os que vinham desembarcar a mercadoria de lá para cá e os
que iam para lá que procuravam carregar açúcar para depois vender aos nobres da vila. Pelo meio
do caminho Diogo Lopes cruzou-se com os inevitáveis Corte-Real, o alcaide-mor Vasco Anes acompa-
nhado de seus filhos os mareantes João Vaz e Fernão Vaz, ambos na casa dos 30 a 40 anos, e o pai,
idoso, já nos idos dos 60. As relações entre as duas famílias eram já de longa data, praticamente desde
a conquista de Ceuta que os Corte-Real e os Franca, que conjuntamente com os Pessanha procura-
vam em comum ocupar-se dos destinos da vila. Vasco Anes era filho do Vasco Anes da Costa, antigo
companheiro do mestre de Avis em Aljubarrota, e o primeiro guerreiro que valente fora na refrega pela
conquista de Ceuta, pelo que outras crónicas juram. D. Duarte, filho do rei mestre de Avis, dissera que
ele tinha sangue real no seu corpo e por isso sugeriu que trocasse o vulgar Costa por algo mais notável,
e daí apareceu Corte-Real. Vasco Anes, depois de Ceuta, era na altura mais um homem com os pés
bem firmes em Terra, e o rei João I nomeara-o Alcaide da vila e vivia no Castelo. João Vaz tornara-se
navegador e viajava entre Tavila e as novas ilhas dos Açores. Dizia-se de vez em quando que João Vaz
voltava dos Açores trazia mais do que era esperado: que o rei o incumbira pessoalmente de praticar o
corso atacando outras naus em pleno mar alto, extorquindo tesouros e riquezas que ele não merecera
conquistar. Diogo perguntou-lhe:
—Que trazes aí João Vaz na tua nau, vai ter de passar pelas minhas mãos eu que sou o alfandegário.
—Nada que seja da tua liça, Diogo Lopes, isto são tesouros que daqui vão directamente para os
cofres de sua majestade. Não vais cobrar a sua majestade o que já é de sua majestade por inteiro ! E,
para mais, tu sabes muito bem que nesta vila só tenho de responder perante o Alcaide.
A querer parecer-se cínico e distante diante de Diogo, João Vaz sorriu e piscou o olho, e Diogo per-
cebeu logo imediatamente qual era a natureza da carga que transportava a sua nau. Outra nau de outro
país, provavelmente Castelhana, havia sido abordada por um português que a tinha aliviado da sua
carga e permitido viajar mais ligeira e rapidamente para a sua origem. João Vaz havia prestado uma
grande ajuda à nau que não precisava da sua carga mas que fazia isso sim muito mais falta a Sua Ma-
jestade el-rei de Portugal. A nau tinha-se enganado na rota ou João Vaz enganado pelos ventos, o que
é certo João Vaz ganhou qualquer coisa que a outra nau perdeu, e a conversa ficou por ali.
Genoveva conhecia bem Tavila, mas desde que casara, e se recolhera para os campos do Benamur,
e da desdita que foi a perda do seu primeiro marido, ela chegara a pensar recolher-se a um convento.
No entanto, o casamento com Diogo Lopes tinha sido por ele uma nova descoberta, pois ele descobrira
nele o amor verdadeiro, tal como finalmente um Franca tinha descoberto um amor verdadeiro, após
um século de aventuras por esses mares fora era uma coisa que os Franca nunca tinham descoberto,
servindo sempre nas naus de Portugal. Com Diogo Lopes, tudo seria agora diferente. Ao penetrar na
Marginal do Gilão. Genoveva sentiu-se intimidada por ser a única mulher a estar num mundo quase
só de homens, mas Diogo Lopes deu-lhe a mão e insistiu que acompanhasse até junto da sua banca
de escrivão alfandegário, debaixo dos arcos que assomavam para a praça da Ribeira. Diogo Lopes
era recebido logo por um funcionário do porto que trazia a lista de todas as embarcações que tinham
acabado de desembarcar e procurava fazer uma ideia, de acordo com o que os mestres das referidas
naus afirmavam, ter uma relação do que eram as mercadorias e que espécie de imposto aplicar a cada
caso. Quanto a Genoveva, de faces claras e um poucos sujas pela Terra, sentara-se ao seu lado, inocente
e incapaz de entender toda aquela azáfama de que o marido ia começar a rodear-se. A única coisa que
lhe apeteceu fazer era subir ao castelo e orar diante do templo de Santa Maria ou visitar os túmulos
dos seus antepassados no convento de São Francisco. Aquilo ao menos era algo a que ele estava
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 11

habituada. Mas Diogo levantou-se depois de despachar o homem que trazia a ficha dos desembarques
e ofereceu a mão a Genoveva para que o acompanhasse. Quando lhe tomou a mão, disse:
—Querida Genoveva, tu nem pareces uma Pessanha, o teu bisavô foi o grande Manuel Pessanha, o
primeiro grande almirante que Portugal e teve e era temido por todos os mares conhecidos. Os Pessa-
nha foram feitos para estar no mar, e não em Terra. Tal como nós, os Franca, não fomos feitos para
estarmos em Terra, só eu estou a revelar-me a excepção. Devias admirar o mar. Sei que esta confusão
louca do porto te dá a volta a cabeça, querida, mas queria por favor que não me largasses a mão, porque
tenho tantas coisas maravilhosas para te mostrar.
—Eu não tenho receio do mar, meu senhor. Só que havia muito tempo que não vinha tão perto da
margem do rio.
Ao descer a margem acompanhado da amada, Diogo evitou propositadamente que passassem pró-
ximo da Nau que descarregava os africanos vindos de Arguim, desviando a sua atenção para a carga
já colocada em Terra por outro navio.
Uma donzela perdida conduzida na mão por um nobre de Tavila não era habitual ver-se em plena
praia do porto, e depois de passar por outra caravela que carregava peixe seco armazenado em barricas,
para além de azeite e vinho, Diogo continuando a segurar a mão da amada apontou para um navio mais
pequeno, que havia colocado uma rampa de descida para a margem, mas que ainda não tinha efectuado
carga ou descarga.
Diogo gritou para dentro do navio :
—Ici monsieur Damien, je suis Diogo Lopes avec mon fiancée. Peut-être monter à bord?.
De repente de dentro da caravela apareceu um senhor com um pequeno pano atado em volta da ca-
beça mas deixando a testa descoberto com o cabelo ligeiramente cortado acima das orelhas recebeu-os
de braços abertos:
—Vous sons bien-venue a bord, mon monsieur et dame, S'il vous plait monter à bord! .
Diogo Lopes acenando com a cabeça fez questão que Genoveva subisse primeiro a rampa. Hesi-
tante, e com o calçado pouco apertado para uma tão estreita rampa que não consistia em mais do que
uma simples tábua comprida, e levantando e segurando as saias, depois de se haver descalçado e su-
bindo hesitante a rampa de quatro metros que levava do areal da margem do rio para dentro do barco
varado na margem. Por trás, Diogo Lopes seguiu-a atento a cada passo de Genoveva, não fosse ela
escorregar na rampa. No último passo Genoveva foi auxiliado por mr. Damien a entrar, e já sentindo
nos pés a madeira a bordo do navio, Diogo Lopes apareceu logo de imediato, agradecendo a Monsieur
Damien por os ter aceite a bordo.
Genoveva olhando em redor para dar conta do que a caravela dispunha, vislumbrou uma série de
grandes e pesados baús. Alguns maiores, outros mais pequenos. O que transportavam, ela não fazia a
mínima ideia.
—Monsieur Damien, peut-entre montrer votre charge, les vêtements avec les garments ? Mon fianceé
cette très anxioux pout les experimenter pas. - disse no seu melhor francês Diogo Lopes a monsieur
Damien.
Apesar de Genoveva não perceber muito de francês, ela percebeu então do que se tratava - vestidos
e joalharia para damas. Com os portugueses a enriquecer - eram as notícias que se estavam a espalhar
pela Europa inteira - um mercador flamengo de roupas finas considerou que os ricos precisariam de
novos trajes mais adequados para exibir a sua riqueza e condição de classe.
Ainda embasbacada e sem conseguir reagir a tamanha dignidade que o marido lhe estava a conce-
der - mas não sendo uma donzela dada a vaidades - preferindo a virtude da palavra e do acto à osten-
tação, não resistiu no entanto à oferta que lhe estava a lhe concedida pelo marido - a possibilidade de
novas roupas, bem mais finas e limpas do que as que estava habituadas a usar no solar.
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 12

Monsieur Damien não perdeu e abriu uma das maiores arcas que tinha arrumadas junto à borda da
popa. Ao abrir foi possível ver vários vestidos, das mais diversas cores, vermelho, branco, verde e azul.
Mr. Damien foi ainda a caminho de abrir outro baú mais pequeno, que revelou no seu interior colares,
fios de outro e de prata, outros de pérolas rematados por uma fina pedra preciosa. Diogo não hesitou em
escolher o colar de pérolas com uma preciosa esmeralda trabalhada cravada na sua ponta e disse-lhe:
—Genoveva, escolhe por favor um vestido que condiga o melhor possível com esta jóia. Não tenho
pressa, escolhe apenas com a tua alma e o teu bom gosto algo que em que a combinação do vestido
com esta peça seja algo nobre de ti e do nosso amor.
Ainda sem palavras, e hesitante, a humilde Genoveva aproximou-se do baú onde uma série de ves-
tidos do mais fino recorte estavam cuidadosamente dobrados. Tirou alguns vestidos para verificar o
estilo - a moda das francesas não era propriamente algo que fosse do seu agrado - mas após expe-
rimentar três ou quatro vestido de cores diferentes decidiu-se pelo branco. Um vestido branco com
pequenos rebordos pretos e um decote onde um colar adornado por uma esmeralda poderia resplande-
cer em todo o seu esplendor. O vestido verde também lhe caiu no goto, mas a cor verde da esmeralda
ia ser esbatida na presença de um vestido da mesma côr da jóia.
Genoveva colocou o vestido na sua frente para ter uma ideia das suas dimensões e Diogo Lopes
colocou-lhe o colar por detrás do pescoço para ficar com uma ideia do que como a donzela ficaria na
combinação dos dois elementos. Genoveva desatou inclusivamente a trança em que prendia o cabelo
deixando o seu longo cabelo castanho arruivado cair-lhe por detrás das costas. Queria perceber como o
seu amado iria sentir-se na presença da concretização do seu mais ansiado desejo - ver a sua amada e
o seu amor resplandecer graças às mais nobres vestes e jóias que o mundo lhe acaba de oferecer. Sem
perder mais tempo Mr. Damien entendeu que estava perante um sim dada a reacção dos convidados,
algo que Diogo concordou com um acenar de testa, perante o regalo da esposa. A compra estava
consumada. Para não perder mais tempo com os pormenores, Diogo entregou uma pequena bolsa a
Genoveva e disse para a entregar depois ao senhor da embarcação. Genoveva percebeu que Diogo
Lopes, proibido de fazer de compras por ser o director da alfândega - poderia haver uma denúncia de
corrupção por parte de um rival - encarregava a esposa de concluir a transacção sem mais conversas.
Genoveva e Diogo Lopes saíram do barco com a sua compra dentro de um baú fechado sem mais
conversas e com um grande gesto de agradecimento por parte de monsieur Damien.
Enquanto faziam o caminho de volta para a alfândega, Diogo ainda convidou Genoveva a entrar
numa nau que trazia gaiolas com animais capturados na costa africana acabada de desbravar - entre
eles criaturas ferozes, como uma leoa que ameaçava com rugidos e patadas na jaula toda a gente que
se aproximava - e outras criaturas mais inocentes, como pequenos animais que pareciam coelhos mas
que não saltavam - diziam que se alimentavam no pasto das searas, para além de pequenos macacos
em cujas gaiolas se penduravam de cabeça para baixo buscando uma maneira de se escapar, mas o que
mais despertou a atenção foi uma ave de penas cinzentas e rabo vermelho - de grande bico encurvado
para baixo e olhos muito vivos com írises azuladas quase brancas - e o seu olhar hipnótico não parecia
fazer com que a curiosa Genoveva lhe tirasse o olhar de cima - e a ave parecia arrepiar as penas do
dorso ao sentir-se mirada. Genoveva aproximou-se lânguida mas paulatinamente da gaiola ave como
para a acariciar até que a sua mão foi detida por um tripulante assustado, que suspirou de alívio por ter
conseguido chegar a tempo:
—Não lhe deite a mão, minha senhora, ia ficar sem ela se você lhe tocasse. Esta ave consegue
despedaçar qualquer tipo de fruta com o bico, imagine o que lhe iria fazer à mão.
—Mas parece tão meiga e inocente.
—Uma coisa é parecer, outra coisa é realmente o ser. E este ave é um diabo disfarçado de anjo.
—Então se é perigosa, porque é a conservam ?
—Apenas para gáudio de quem vai ficar com ela. A ave já tem dono, e por isso temos que a trans-
portar até ao seu dono.
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 13

—E quem é esse dono, se me é permitido fazer tal pergunta !?
—O filho de Sua Majestade, o princípe D. João.1
Genoveva ficou perplexa ao saber que iam oferecer semelhante criatura a uma criança de poucos
anos de idade. Podia facilmente arrancar os dedinhos do pequeno príncipe, mas o rei ordenara que lhe
trouxessem todos os exemplares de todos os animais exóticos que pudessem encontrar, para assim
poder maravilhar a corte nas visitas que fazia pela Europa a mostrar as façanhas portuguesas nas
descobertas por essa África abaixo. Uma espécie de Arca de Noé em que o objectivo não era salvar as
inocentes criaturas do dilúvio, mas apenas para requintes de ostentação.
—Bem, minha querida Genoveva, acho que de maravilhas por hoje é tudo, a não ser que queiras ir ver o
barco que descarrega açúcar vindo da Ilha da Madeira e comprares tu própria um pouco da especiaria
para o nosso solar. Também temos um barco cheio de fruta colhida nas novas costas descobertas.
Queres ir experimentá-la !? Se calhar podemos cultivá-las nas ``nossas'' terras.
—Terras do Ordem, querido. Não te esqueças, elas não são nossas. Não são nossas. São da Ordem
de Santiago e continuam a pertencer-lhes. Enquanto eles concordarem em manter o acordo que fizeram
com o teu bisavô.
—O acordo no estado que o meu bisavô fez com eles, melhor, fez com o prior da Igreja de Santa
Maria desta vila, que era o representante mais próximo da ordem que conseguimos chegar. E nós
continuamos a honrar esse acordo. Os Franca têm sido desde sempre o garante que as Terras do
Mato da Ordem se mantêm cultivadas e assim se manterão por muitas mais gerações dos Franca. Dos
nossos filhos que ainda estão por nascer.
Após esta frase, beijarem-se ternamente por uns poucos segundos. Apesar de Diogo saber que se
já não era vulgar estar uma donzela no meio do porto, muito menos o era ver o nobre dignatário da
alfândega em prazeres carnais no meio da azáfama do porto.
Por isso Diogo não quis esmerar-se mais e conduziu Genoveva de volta para a praça da Ribeira e da
segurança das instalações da Alfândega. Lugar da Portagem, era outro nome que lhe davam. Visitar o
navio da fruta exótica ficaria para outro dia. Todas as semanas praticamente chegava um dessas naus,
frutas que eram depois revendidas por mercadores castelhanos, aragoneses, genoveses, florentinos
e venezianos. Diogo Lopes sorria na sua imaginação que sua santidade o Papa já teria tido o prazer
de provar alguma desta fruta trazida de África pelos portugueses e que teria sido transacionada em
Tavila. Com o imposto da exportação na alfândega a ter que ser devidamente cobrado. Quanto mais
fino o possível consumidor final, mas Diogo se punha a reclamar - para não dizer regatear - com os
mercadores das naus a cobrar-lhes um imposto mais alto tendo em conta o preço a que eles iriam
vender ao suposto consumidor final - que podia muito bem ser Sua Santidade.
Mas para Diogo o dia de hoje tinha sido um dia especial - ter partilhado com a amada as maravilhas
que chegavam de todas as partes do mundo a Tavila era para ele um sentimento de realização que
nunca havia sentido. Mais tarde, quando regressasse a casa, e ver a amada envergando as suas novas
maravilhosas vestes e suas jóias, isso sim, era impossível de desviar da imaginação.
—Querido, a que horas voltamos para casa ? - a simples interrogação fez Diogo despertar das suas
fantasias.
—Amada Genoveva, a manhã já deve ter passado, estamos ao meio-dia, volto contigo depois ao
Benamur. Não posso abandonar o meu posto durante o dia. Depois, voltamos a ver-nos à noite, quando
tiver terminado o meu trabalho na Portagem.
—Mas querido, tu não querias que eu passasse um dia inteiro contigo ?
—Sim, pedi, e falta honrar a minha outra parte do nosso trato. Mas aqui para a tarde, o que vou fazer
é passar o dia sentado a esta mesa que tu vês a assinar papéis e a fazer contabilidade dos proveitos
para sua majestade. O vedor da fazenda de sua majestade vai querer ver estes papéis assinados pela
1 Futuro rei João II
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 14

minha mão. Papelada, contas, tinta e penas, e mais nada querida e de vez em quando lá terei de ouvir
uma reclamação de um mercador que acha que lhe estamos a cobrar imposto demasiado alto. Achas
que consegues suportar o tédio de ficares sozinha a ser espectadora de tudo isto !?
—Bem, assim sendo, acho que subirei ao Castelo, irei orar por nós e talvez visitá-los, a nova família
do meu pai, já que eles não moram muito longe daqui.
Genoveva saiu do Paço da Alfândega deixando Diogo entregue às suas tarefas. Sim, o pai, Álvaro,
morava na rua da Mó Alta, depois do casamento, ainda não se contavam pelos dedos de uma mão o nú-
mero de vezes que Genoveva o havia visitado. A eles, e aos meios-irmãos, filhos da nova relação do pai
com Brites Valente, uma dama descendente de um antigo alcaide de Lisboa. Sendo bastardo de Carlos
Pessanha, não tinha conseguido ascender à condição de fidalgo da casa de sua majestade, e uma vida
de marinheiro sem ser ao comando de uma embarcação era uma humilhação. Vivia dos rendimentos
que obtivera da herança que havia recebido do pai, e este do avô, o grande almirante Manuel Pessanha.
Ainda era bom haverem nobres que cediam alguma herança aos seus bastardos. Genoveva tinha um
irmão com o nome do pai, que tentara singrar na corte de Afonso V mas sem sucesso, mais uma vez,
por culpa da condição do pai, os descendentes de Álvaro Pessanha tinham o acesso vedado, só após
uma permissão de Sua Majestade seria possível regressar à condição de nobres.
Genoveva entrou no Castelo pela porta da Alfeição, a que se tinha acesso subindo pela Rua Nova
Grande, virando ali na esquina onde estavam os calabouços, tendo orado na Igreja de Santiago, e
dirigindo-se para a Rua da Mó Alta para rever o pai, deu de caras com uma menina, pequenina, não
devia ter mais de cinco anos, a subir a rua. Não a reconhecendo a princípio, mas viu que se tratava da
meia-irmã pequenina, Simoa, Genoveva perguntou-lhe
—Simoa, ainda te lembras de mim ? Sou a Genoveva ? Sou tua irmã!
—Não, tu não és minha irmã! Só tenho mais uma irmã: a Joana.
—Tens uma irmãzinha !? Não acredito ! Quero vê-la ! Diz-me onde moras, Simoa.
Simoa tinha crescido tanto naquele espaço de dois anos em que Genoveva deixara a casa do pai. A
mãe havia falecido há anos. E o pai procurara alguém de de entre a fidalguia de Lisboa quem pudesse
substituir-lhe a querida mãe de Genoveva.
—Moro ali! - disse a pequena, apontando para a casa que tinha sido sua durante 17 anos. Genoveva
bateu à porta sem saber quem haveria de esperar, se o pai se a madrasta, e eis que surge uma distinta
senhora, talvez da sua idade ou mais velha, a princípio não a conheceu, mas depois entendeu tratar-se
de Brites Valente, a sua madrasta. Esta, reconheceu-a, imediatamente:
—Que vens aqui fazer, Genoveva? O teu pai não está. Deve estar no solar dos Corte-Reais. E o teu
irmão? Já conseguiu entrar ao serviço de Sua Majestade na Corte ?
—Nada sei do meu irmão Álvaro - disse Genoveva - ele partiu para Lisboa e nunca mais deu notícias.
E o que o pai está a fazer em relação aos Corte-Reais?
—Não sei, coisas de senhores. Já sabes, donzela, eles é que combinam com que vamos casar. A
nossa felicidade não é aqui chamada. Mas no teu caso, posso dizer que o teu pai teve muita sorte
ao conseguir casar a filha primeiro com alguém importante como o comandante Rodrigo Da Arca, que
infelizmente morreu e depois com um Franca. Os Francas sempre estiveram ao lado dos Pessanhas
naquilo que fizeram por Portugal. O teu pai não tinha um grande enxoval para te dar no momento
do casamento, mas o facto de seres filha de uma relação dele com a filha do saudoso Álvaro Vaz de
Almada, isso abriu muitas portas. Mesmo dentro dos Francas. Estás feliz com Diogo, Genoveva !?
—Ele tem feito tudo para me agradar, ainda hoje ele insistiu em que eu viesse visitar com ele os
barcos que chegam ao porto. E acedi-lhe ao pedido, subi a bordo de um barco, e o Diogo escolheu um
vestido e um colar para mim. Depois fez de modo para ser eu a tratar do pagamento.
—Algumas coisas que aparecem no porto de Tavila são despudoradas. De certeza que não viste
uma multidão de homens pretos com as vergonhas à mostra a ser descarregada como gado à força de
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 15

chicote.
—Não, não vi essa parte. O Diogo conduziu-me sempre pelo braço dele, levou-me por um caminho
diferente para evitar essa parte. O que irão fazer com essa gente ?
—Se são tratados com a força do chicote, é para serem tratados como gado. Desconfio sejam
vendidos para os campos, trabalhos pesados, puxar arados, azenhas e mós, sendo só serem pagos
com comida e com péssimas condições para dormirem. Escravos, ponto final. Mas ele levam-nos para
outros sítios. Dizem que muitos senhores donos de maiores terras compram-nos aos magotes de dez
ou vinte e vêm com grandes séquitos de homens soldados buscá-los, dão-lhes roupas para cobrirem
as vergonhas e depois seguem à força dentro de grandes carruagens guardadas por cavaleiros com
destino para os campos para onde depois vão ser forçados a trabalhar.
—Como sabes tudo isso, Brites ?
—O meu senhor conta-me tudo ele não me guarda segredos, e vejo tudo o que se passa no porto,
são os Corte-Reais que estão a levá-los para as terras deles para depois os porem a trabalharem lá.
—Nas nossas propriedades não precisamos de escravos. Todos os nossos trabalhadores, apesar de
trabalharem em condições difíceis como pouco água, são bem cuidados e alimentados. E damos-lhe
guarida quando não conseguirem voltar para a cidade. Alguns até já começaram a fazer casa junto da
antiga estrada que divide o Benamur da Gomeira. Alguns já têm família e tudo. É pelo bem-estar deles
que eu rezo, ao início e fim de todos os dias, perante o altar que temos no nosso solar do Benamur,
dedicada à padroeira da família, Nossa Senhora a Franca.
—Os Francas têm uma imagem de padroeira só deles ? Engraçado, eles não abrem mão da sua
santa nem para o seu povo poder gozar da benção da Santa?
—Tal nunca sucedeu porque não seja porque nunca tenhamos desejado. Os nossos trabalhadores
são fregueses da paróquia de Santa Maria. Quando vão à missa ao Domingo é sempre na Igreja de
Santa Maria em Tavila. Sabes que nós temos um trato com eles.
—``Nós'' - já falas como se fosse uma deles - uma Franca - e de facto já o és. Casada há menos de
seis meses, com um jovem nobre que te oferece dos mais dignos presentes. Acho que tiveste muita
sorte, minha querida enteada, em teres encontrada um homem que te ama de verdade, se bem que o
casamento que o Álvaro te arranjou seja um contrato com benefícios de parte a parte. O amor verdadeiro
não vinha lá incluído ! Como é que ele entrou aí para dentro ?
—Não sei. Eu ainda estava padecendo pelo pesar obrigatório pela morte do Rodrigo da Arca, meu
primeiro marido, mas ele nunca me amou de verdade. Foi como tu dizes, um contrato do pai para tentar
recuperar a glória da família. E logo com alguém com a importância dele. Pena que não tenha du-
rado dois meses. O Rodrigo foi convocado comandar a armada nem um mês tinha passado. Aquilo
que eles estão a fazer no Norte de África, morrem tantos homens nossos para mantermos umas for-
talezas minúsculas e difíceis de aceder. Depois para mantê-las temos que mandar todas as semanas
abastecimento pelo mar.
—Tás bem, informada, Genoveva. Agora sou eu que te pergunto quem te conta todas essas coisas.
É o teu novo marido ?
—O Diogo não me esconde nada. Ele adora contar histórias de como consegue ter êxito em rega-
tear um valor mais elevado para o imposto aplicado sobre o açúcar que chega da Madeira e depois é
exportado para Itália. O Diogo insiste com os exportadores que como o Papa pode vir a ser um dos
consumidores do açúcar o imposto a aplicar tem de ter isso em conta.
—E se sua santidade não tiver dentes nem língua, de que lhe vale o açúcar !? Como aqueles padres
velhos que já nem olham para nós e só sabem falar latim, não se percebe nada do que dizem.
—Brites não digas disparates - corrigiu-a Genoveva.
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 16

—Se o Papa vai apreciar o açúcar e o mercador vender ao preço mais alto possível, é perfeitamente
justo ao Diogo ter de cobrar um imposto tendo em conta quem sejam de alta senhoria os eventuais
compradores da mercadoria do mercador. - continuou Genoveva.
—Tenho de ir, daqui a bocado é tarde e o Diogo deve tar a perguntar a por mim, vou descer do Castelo
e voltar à Ribeira, talvez noutro dia eu convido-vos a visitarem o Benamur connosco, vou insistir junto
do Diogo para que vocês nos venham visitar. É tão linda, aquela vista desde o vale…
—Foi uma prazer rever-te, minha linda. Pena não tenha sido tua mãe..
—Foi também pena minha. E eu queria ter mais tempo com as minhas novas manas, como a Simoa,
que diz que não me conhece. E ela disse-me que tem uma irmãzinha mais nova, Joana.
—Sim, a Joaninha, só tem três meses, e está entregue a uma ama. Quando passares aqui outro dia,
poderás vê-la. E quando pensas em teres um filho teu e do Diogo, Genoveva ?
Apanhada pela surpresa da inesperada pergunta, Genoveva corou e tentou esboçar uma reacção:
—Não sei o que o Diogo pensa, Brites, ele e eu temos estados tão ocupados: eu a tratar das Terras
do Ordem, ele na Alfândega.
—Há-de chegar o vosso tempo ! Tenho a certeza ! Tenta entretê-lo e dar-lhe mais atenção.
—É difícil, ele adora o trabalho dele, contar os contos de cruzados e réis que vão para o baú de sua
majestade, mais a criatividade dele a regatear com os mercadores. Todos os dias ele vem com as mara-
vilhas e histórias dos navegadores que vêm dessa Europa fora e não fala de outra coisa. Começarmos
a fazer uma família ainda não o preocupou. Sabes que eu fiz um trato com ele para que em troca de
passar um dia em Tavila, para me mostrar as maravilhas do porto, conseguir que ele dispense um dia
do trabalho dele para dar atenção às terras da Ordem !?
—Esperta Genoveva, se fosse eu a tua mãe teria-te elogiado por essa proposta de génio, mas não
sou.
—Bem querida madrasta, trata bem das minhas irmãs, um beijo, até um dia. Um beijo também para
o pápá.
—Assim ficará entregue, Genoveva - despediu-se Brites com um beijo na testa da enteada.
Para descer , todos os caminhos ajudam - lembrou-se Genoveva ao descer das estreitas e íngremes
ruas do castelo - tal como o pai, Álvaro, o nome da família Pessanha tinha que ser recuperado. Para
cair, não é preciso de ajuda. Para subir, aí, é preciso ajuda que, se não aparecer, é escusado continuar a
insistir!
Genoveva desceu do castelo saindo pela Porta Nova, cuja saída era mesmo junto à margem do rio,
mas a jusante da Ponte, indo ter à Rua dos Pelames, onde um imenso estendal de peles de animais se
encontrava a secar ao sol, para depois, serem usados como couro pelos alfaiates ou para uniformes
para os marinheiros. Para chegar à Alfândega, teve que passar o Arco das Ameias da Torre do Mar, que
marcava a entrada para a praça da Ribeira. Lá, juntamente com outros, ainda se encontrava apeado
o cavalo de Diogo que, provavelmente, a esta hora, talvez cinco da tarde em Março, ainda estaria de
volta das suas tarefas, a tentar ``extorquir'' o melhor que podia para o Tesouro Real dos valores que se
transacionavam no Porto de Tavila. Genoveva entrou directamente para o arco do edifício da Alfândega
onde tinha mesa o amado. Viu Diogo sozinho a escrevinhar e com a ajuda de um ábaco, provavelmente
a fazer somas dos proveitos de sua majestade naquele dia. Estava tão abstraído na tarefa que nem deu
pelo vulto de Genoveva a entrar. Muito lenta e languidamente, Genoveva não quis atrapalhar o marido
e fez menção de sair até que alguém imediatamente a entrar naquele momento precisamente no salão
da alfândega fez com que Diogo Lopes encarasse a amada:
—Genoveva! Chegaste, já cá estás, querida. Estava quase aqui a concluir as contas das receitas de
hoje. Este papel que vai sair que está das minhas mãos chegará as mãos do vedor da Fazenda. Espero
bem que ele não caia para o lado, vai achar que estou a exagerar. Mas o número é o correcto: vinte
CAPÍTULO 2. II. UM DIA NA ALFÂNDEGA 17

mil réis só para fechar a semana. Já vai dar para financiar a nova cruzada que o papa quer fazer para
libertar Constantinopla. Os malditos otomanos profanaram-na com outro nome: Instambul. O papa
declarou cruzada contra a ameaça otomana a espalhar-se no Mediterrâneo.
—Querido, já te ouvi falar do papa hoje só a propósito de quereres regatear com um mercador vene-
ziano o preço a cobrar pelo açúcar da Madeira. Achas que os mercadores vão continuar a ter de aceitar
essa história de quem são os lábios que vão provar o açúcar !?
—Isto não vai acabar, para a semana arranjo outra artimanha, e vou ser ainda mais regateador, para
ver se fecho a semana com mais de meia centena de milhares de réis. Vale de tudo, se for por nosso
senhor Jesus Cristo ou por Sua Majestade.
—Pensava que ias dizer por Nossa Senhora a Franca, a padroeira da família.
—Família !? Bem me dizes. Por nossa Senhora A Franca, também, ainda bem que me lembraste.
—Bom, querida, pelo nosso trato, fico-te a dever passar um dia junto de ti a velar pelas Terras da Ordem.
Já tratei de tudo, e depois de consultar o alcaide Vasco Anes Corte-Real, vai então ser o teu pai Álvaro
Pessanha, que amanhã vai dirigir a Alfândega, em minha substituição, Vasco Anes assentou que sim e
não vai ser necessário ir mais acima, como os ouvidos de sua majestade, para confirmar a nomeação,
o teu pai vai ter a honradez de trabalhar connosco. Não vai voltar a ser comandante de uma nau, mas
vai poder, como eu digo, ``saborear'' dos frutos das viagens quando elas chegam em Terra, enquanto
despachante alfandegário.
Diogo continuou:
—A única coisa que é preciso para este trabalho é minúncia, paciência, saber escutar, fazer contas
com o ábaco, e, é claro, pesar, se for caso disso. O teu pai, apesar de bastardo, tem educação, e eu vi
que ele tom todas essas qualidades. Por isso, e por vontade de D. Vasco Anes, e com o meu acordo,
ele vai amanhã assumir o meu lugar, por um dia. E acho que vai saber bem estar à altura da função.
Regatear acho que também lhe está nas qualidades. É preciso ter criatividade na altura de confrontar
os mercadores com os seus proveitos por usarem o nosso porto. Não vais ter problemas em vê-lo aqui
na alfândega e a tomar conta do expediente enquanto amanhã vamos ver o que podemos fazer pelas
Terras da Ordem.
E tendo assim terminado o dia na alfândega para o casal, foi vê-los a subirem para o cavalo apeado
na praça da Ribeira e regressarem, à luz vespertina, para o seu solar nas Terras da Ordem. Uma vez mais
o Gilão respondeu-lhe com os tons carmíneos com os vultos tremeluzentes dos mastros das caravelas
ancoradas no Gilão. Contra o crepúsculo revelavam o esplendor de toda uma vila por onde passavam
grande parte das riquezas do reino. Diogo Lopes havia concretizado o seu desejo e agora voltava feliz
e realizado com a esposa nas suas costas por ter conseguido atingir o seu tão ansiado desejo.
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