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O leitor comum

Virgínia Woolf
Título original, The Cotnmon Reader.

Contracapa

Reflexões sobre a arte literária - da liberdade de criação ao prazer da leitura
- baseadas
nas obras-primas de Conrad, Defoe, Dostoievski, Jane Austen, Joyce, Montaigne,
Tolstoi, Tchecov, Sterne, na busca de uma estética não só do texto mas de sua
percepção.

Orelhas:

Como se deve ler um livro? Eis uma
das perguntas que Virgínia Woolf não só propõe mas eleva à categoria de título e
tema de um dos ensaios aqui reunidos.
Outras questões fundamentais à literatura - tanto para os que apenas a desfrutam
quanto para os que a praticam ou estudam - se juntam a essa: que faz de um livro
uma obraprima? Qual é a função da liberdade de expressão no processo criativo?
Como se reconhece o valor e se prevê a permanência de um contemporâneo? Por que
é
indispensável o gosto pessoal? Quando os diários contam mais de uma época da
vida humana do que muitos manuais de história? Será desprezível para o artista a
definição
prévia de seu público? Quais são as conexões finais entre origem e
originalidade?
As respostas são luminosas, mostrando com a simplicidade só conseguida pelos
grandes escritores como parece fácil conciliar o máximo de pedagogia e o mínimo
de
enfado, erudição e clareza, profundidade e transparência.
A companhia ajuda. Conrad, Defoe, Dostoievski, Jane Austen, Joyce, Montaigne,
Tchecov, Tolstoi, Sterne povoam estas páginas, com suas criaturas, suas aldeias,
suas
ilhas, seu cotidiano, sua solidão e suas paixões, reinterpretadas por uma
leitora capaz de condensar em poucas palavras o fascínio destes mundos
imaginários e verossímeis.
São sínteses críticas de tal forma
sedutoras que provocam no leitor uma imediata e irresistível vontade de
comprovar com os próprios olhos, lendo ou relendo os clássicos citados, se é
mesmo verdade tamanha beleza.
O Leitor Comum foi publicado em Londres pela Hogarth Press, a célebre editora
que Virgínia Woolf mantinha com o marido, Leonard, em dois pequenos volumes - o
primeiro
em 1925; o outro em 1932 - há mais de setenta anos
portanto, mas só agora chega ao Brasil em língua portuguesa. É espantoso este
ineditismo, tratando-se de obra da extraordinária romancista, e obra única e
singular,
pois reúne o melhor do que escreveu sobre a arte literária, o que, no seu caso,
não é apenas texto, armação de palavras, mas, para citar duas palavras que lhe
são
caras, vida e alma.
Ao longo dessas sete décadas, que para tantos são as de ocaso do leitor e das
letras impressas em papel, muitas teorias literárias nasceram,
venderam suas fórmulas e acabaram

melancolicamente sepultadas no cemitério das coisas datadas. Não é o
destino, como esta edição oferece uma prova, das idéias e das emoções de
Virgínia Woolf.
Seleção, tradução e notas: Luciana Viégas
Edição
Graphia Projetos de Comunicação Ltdá.
Capa
Victor Burton
Título original, The Cotnmon Reader.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
Woolf, Virgínia, 1882-1941
O leitor comum
Virgínia Woolf
Título original, The Cotnmon Reader.

tradução de
Luciana Viégas
Rio de Janeiro
Graphia, 2007.
Tradução de: The common reader
ISBN 978-85-85277-54-3
1. Literatura inglesa - História e crítica. 2. Literatura
moderna - História e crítica. I. Título.
07-0516
CDD: 820.9 CDU: 821.111.09

Sumário

Nota do editor 7
O leitor comum 11
Notas sobre uma peça elizabetana 13
Montaigne 23
Divagações sobre Evelyn 34
Robinson Crusoe 42
Defoe 50
JaneAusten 59
Ficção moderna 71
O ponto de vista dos russos 80
O patrocinador e as flores 91
Joseph Conrad 96
Como atacar um contemporâneo 104
A Viagem Sentimental 115
Como se deve ler um livro? 123

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Brasil
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2007

NOTA DO EDITOR
Este livro, que resume a arte de escrever e a arte de ler segundo Virginia
Woolf, celebra quem, mesmo ignorando segredos de tais artes, protagoniza o
fenômeno literário

porque lhe cabe, como argumenta o texto de abertura, decidir o destino final de
toda e qualquer autoria: aquele que lê pelo prazer de ler, livre se possível de
tudo,
pois a liberdade é a primeira, a mais importante condição proposta nestas
páginas para o exercício pleno da leitura.
Que seria, afinal, da literatura se faltassem leitores, simples leitores, e
sobrassem escritores, críticos, teóricos e editores, todos debruçados sobre os
textos
com propósitos e pareceres profissionais? É a principal questão que o título
destes ensaios sugere de forma implícita e premonitória. Quando Virginia Woolf
os escreveu,
na primeira metade do século XX, o horizonte de um mundo sem leitores, ameaçador
não só para os que vivem da literatura mas para os que a amam, já se
prenunciava,
ainda que não fosse tão dominante. Estamos, portanto, antes de tudo, ao entrar
neste livro, no limiar do futuro.
O Leitor Comum foi originariamente publicado em dois volumes pela Hogarth Press,
o primeiro deles em 1925, sete anos após a editora ter sido fundada por Virginia
e seu marido, Leonard Woolf, na casa em que moravam. Reunião de vinte e um
textos críticos da escritora, que estreara na ficção em 1915 com The Voyage Out,
a primeira
série traz, entre inéditos e publicados em periódicos, artigos sobre obras
clássicas e temas permanentes da literatura ao lado de questões da atualidade às
vezes
diretamente relacionadas a sua militância pessoal. No primeiro caso, incluemse
os estudos sobre o teatro elizabetano e a herança paradoxal,
exuberante e tediosa, dos contemporâneos de Shakespeare; a sabedoria e a solidão
de Montaigne, na troca das disputas mundanas pela viagem ao fundo da própria
alma;
a originalidade do romance russo e a grandeza de Dostoievski, Tchecov e Tolstoi;
o lugar e o encanto da ficção de Jane Austen; o grande mar romanesco de Conrad.
No segundo caso, ao refletir sobre a arte contemporânea e as dificuldades de
julgá-la, não se furta à polêmica, resguardado o
tom sempre requintado e sutil, seja
apontando o empobrecimento da ficção inglesa de então, personificada em Wells,
Bennett e Galsworthy, por excesso de "materialismo"; seja saindo em defesa de
Joyce,
depois que a Little Review, pressionada por denúncias de imoralidade, suspendeu
a publicação de Ulisses, em 1920, - ("difícil não proclamá-la uma obra-prima",
escreve
em "A ficção moderna"); seja exemplificando, em nota de pé-de-página, a
virulência com que a crítica recebeu The Waste Land ("Um punhado de papel
inútil", segundo
The Manchester Guardian), de T. S. Eliot, um dos autores, como se sabe,
publicados pela Hogarth Press, que editou também E. M. Forster e Katherine
Mansfield e trouxe
para uma Inglaterra ainda vitoriana as obras de Freud.
Em 1932, quatro anos após a publicação de Orlando, o segundo volume de O Leitor
Comum é lançado, reunindo vinte e dois novos estudos, entre resenhas para
jornal,
inéditos e palestras. A ênfase desloca-se dos clássicos (entre os quais Sterne e
Defoe) para autores e obras que, em sua maioria, não ultrapassaram as fronteiras
nacionais.
Apresentados aqui na ordem original de publicação - à exceção do artigo dedicado
a Robinson Crusoe, que se paginou antes do estudo sobre as personagens femininas

de Defoe - os catorze textos que compõem a presente edição foram selecionados,
ressalvada a subjetividade da escolha, pela atualidade e interesse dos temas e
pela
significação de obras e autores na cultura ocidental. Conseqüentemente, apenas
três deles foram extraídos da segunda série de estudos: o mencionado ensaio
sobre
Crusoe e os dois capítulos finais.
Há pouco mais de meio século, uma leitora brasileira de rara argúcia, Lúcia
Miguel Pereira, a crítica e biógrafa de Machado de Assis, já ressaltara, em
artigo para
jornal, que os ensaios de
1925 são "nitidamente superiores" aos do volume seguinte. E ao destacar O Leitor
Comum no conjunto da obra de Virgínia Woolf, entre "as suas melhores, as suas
grandes
páginas", escreveu: "Haverá outros críticos mais profundos ou mais diferentes do
que Virginia Woolf: para só falar de vivos e de escritores de língua inglesa, aí
estão T. S. Eliot e Edmund Wilson; mas creio que nenhum a excede em finura, em
vivacidade, nenhum dá mais vontade de conhecer os autores que comenta. com ela,
embora
feita com precisão, com agudeza e com erudição, a crítica perde qualquer
dogmatismo, abandona aquele ar de superioridade que é um dos seus mais
desagradáveis
e mais freqüentes defeitos."*
O leitor comprovará, virando a página, o acerto deste juízo.
* Ver Lúcia Miguel Pereira, Escritos da maturidade, Rio de Janeiro, Graphia,
2005,
(2» edição).

Há uma frase em Life ofGray, de Dr. Johnson, que deveria estar pendurada em
certas salas, modestas demais para serem chamadas de bibliotecas, ainda que
repletas
de livros, onde algumas pessoas compartilham a leitura. "Agrada-me concordar com
o leitor comum; pois no senso comum dos leitores, não corrompido por
preconceitos
literários, a despeito de todos os refinamentos da sutileza e do dogmatismo do
aprendizado, devem finalmente decidir-se todas as pretensões de reputação
poética".
Isso define suas qualidades; dignifica suas intenções; confere a uma atividade a
que se devota grande parcela de tempo, e que, mesmo assim, tende a ser deixada
de
lado como algo não muito substancial, o aval da aprovação pelos grandes homens.
O leitor comum, como compreende Dr. Johnson, se diferencia do crítico e do
professor. Ele é menos instruído, e a natureza não o fez tão generosamente
dotado. Lê
para seu próprio prazer muito mais do que para repartir conhecimento ou corrigir
opiniões alheias. Acima de tudo, ele é guiado pelo instinto de criar para si
mesmo,
à margem de quaisquer outras miudezas que possa amealhar, alguma espécie de
plenitude - o retrato de um homem, a descrição de uma época, uma teoria da arte
de escrever.
Enquanto lê, ele jamais pára a fim de remendar alguma construção imperfeita e
precária que lhe daria a satisfação momentânea de se parecer suficientemente com
alguma
coisa real ao ponto de lhe despertar o afeto, o riso, a discussão. Impaciente,
descuidado e superficial, pinçando ora um poema, ora as sobras de um velho
cenário,

Beaumont e Fletcher -. divide-nos em duas partes enquanto lemos. mas se ele tem. Chapman. aventurar-se naquela selva é para o simples leitor uma provação. alguma palavra final no legado das reputações poéticas. Shakespeare que se eleva mais ainda quando examinado ao nível de seus próprios contemporâneos. questiona princípios que adquirimos o hábito de desconsiderar. era bem considerado nos círculos políticos. poderá valer a pena prosseguir escrevendo algumas idéias e opiniões que. atormenta-o com dúvidas. sublime o alívio de ser liberado para perambular . nenhuma a ser examinada aqui. somente as obras-primas de uma época passada o grande poder que o corpo de uma literatura possui para se impor: como ele não se deixa ser lido passivamente.lendo. ""?"-£ And ere he could get shelter of a tree "'"-" Nail him with his rich antlers to the earttí Onde está Smith. que sucedeu a seu pai no negócio familiar de importação de madeira. de fato. como defende Dr. falando toscamente. mas nos pega e nos ensina. muito fez pelos pobres de Liverpool. deve-se admitir. ceder terreno ou empunhar nossas armas. Johnson. irão contribuir muitíssimo para um resultado. Shakespeare que se manteve sob os focos de luz dos seus dias aos nossos. uma experiência perturbadora que o importuna com perguntas. como tendemos a fazer. fazendo- nos. That watch'd himfor the treasure ofhis brow. A realidade a que crescemos acostumados é. então. talvez.Greene. perguntamos. e. insignificantes em si mesmas. mesmo se gostamos. Então abrimos a primeira peça elizabetana que nos cai às mãos e lemos como / once did see In my young traveis through Armênia An angry unicom in hisfull career Charge with too swiftafoot ajeweüer . Por muitas razões. comércio de toras e exportação de carvão vegetal. Este é o mundo que conhecemos. onde está Liverpool? E os bosques do drama elizabetano ecoam "onde"? Rara é a satisfação. e morreu na última quarta-feira de pneumonia enquanto visitava seu filho em Muswell Hill. e o principal entre eles aquela mata virgem. Peele. Mas as peças dos elizabetanos menores . A princípio ao ler uma peça elizabetana somos surpreendidos pela extraordinária discrepância entre a visão elizabetana de realidade e a nossa. alguns territórios extraordinariamente notáveis na literatura inglesa. baseada na vida e na morte de algum fidalgo chamado Smith. . floresta. as deficiências críticas do leitor comum são bastante óbvias para serem apontadas. zomba de nossos preconceitos. Pois somos capazes de esquecer.sem se importar onde o encontra ou de que natureza seja desde que sirva a seus propósitos e sustente seus argumentos. alternadamente o deliciando e o irritando com prazeres e sofrimentos. moderados e da igreja. selva que é o drama elizabetano. Eis a realidade que nossos poetas e romancistas têm de expor e elucidar. Dekker. 12 NOTAS SOBRE UMA PEÇA ELIZABETANA Existem. Shakespeare se sobressai.

/E antes que ele pudesse se abrigar em uma árvore/Pregou-o com seus ricos chifres à terra. nunca a vê em uma perspectiva errada. o fantástico tornando- * "Certa vez eu vi/Em minhas viagens de juventude pela Armênia/Um unicórnio raivoso em plena carreira/Atacar com os pés muito velozes um joalheiro/Que o espreitava pelo tesouro de sua testa. então. Gonzalos e Bellimperias. a violenta volubilidade da linguagem. em nossas tranqüilas poltronas. eles se elevam milhas céu adentro onde nada é visível por horas de uma vez só. tudo isto sacia e farta nos elizabetanos mas parece ser arrancado com um berro do mesmo modo que um fogo tênue é sugado por uma folha de jornal. vaiando ou manifestando aprovação. Há. se é para nos manter alerta durante cinco atos ou trinta e dois capítulos. que o grande artista é o homem que sabe onde se localizar sobre o cenário mutante." 14 se freqüentemente tanto mais nos acostumamos com ele o mais próximo da verdade. em algum lugar no espaço. Os elizabetanos nos aborrecem. ter um pé tocando Liverpool. inflige. estas velhas peças são há tanto tempo tão intoleravelmente monótonas? Não deve aquela literatura. o sóbrio mais afastado dela. que passam a vida entre assassinatos e intrigas. implacável. e morrem em quantidade. Em vez de manter uma estabilidade adequada acima da vida. e uma paisagem de nuvens afinal de contas não é satisfatória aos olhos humanos. ser baseada em Smith. vêem fantasmas. uma peça de Tennyson ou de Henry Taylor. Nossa argumentação simplesmente é de que existe uma estação. . vestem-se como homens se são mulheres. retrucando-as com veemência. enlouquecem. Mas logo a voz baixa. francesa e russa. e nada mais comprovador da grandeza de um escritor do que sua capacidade de consolidar sua cena pelo uso daquilo que.na terra do unicórnio e do joalheiro entre duques e nobres. até no pior. nunca perdendo a visão de Liverpool. de onde Smith e Liverpool podem ser vistos com melhor proveito. parecia fiapos de nuvens e fios emaranhados. falando como se despejassem imprecações de soberbo vigor ou elegias do mais selvagem desespero. com tudo isto para estimular e encantar. levantar vôo em quaisquer alturas que satisfaçam à realidade? Não somos tão tolos para supor que um homem por se chamar Smith e morar em Liverpool seja "real". até que ele o tenha tocado. à mais leve provocação. suas Liverpools em ilhas fabulosas e palácios em Gênova. como mulheres se são homens. o aborrecimento de uma peça elizabetana é de uma qualidade totalmente diferente do aborrecimento que uma peça do século dezenove. Os elizabetanos nos aborrecem porque sufocam nossa imaginação em lugar de colocá-la para trabalhar. O turbilhão de imagens. de alguma forma. exceto uma orgia de nuvens. então. que. um intermitente vigor gritando que nos deixa com a sensação. apesar de forte o bastante. de cavalariços e de mocinhas ruivas aparteando as falas. Sabemos de fato que esta realidade é de feição camaleônica. indaga por que. porque seus Smiths são todos transformados em duques. que se quisermos identificar devemos supor típica de um leitor alimentado pela moderna literatura inglesa. Além disso.

Mas temos o direito de exigir (desde que os gregos provaram que é perfeitamente possível) que o que aconteça deve ter um fim em vista. as incessantes. sente-se. metade do trabalho dos dramaturgos. Mas a Spanish Tragedy é reconhecida como uma precursora incipiente. quase ininteligíveis circunvoluções que presumivelmente satisfaziam de fato o espírito de um público excitável e inculto em uma casa de espetáculos. improváveis. Pegue-se qualquer herói ou heroína naquelas peças antigas . e a violência que aqueles enredos demandam tão terrível. merecem a mais cuidadosa investigação. porque o que ocorre é tão proximamente confundido com as emoções dos atores que lembramos as pessoas e o enredo em um único e mesmo momento. exceto pela lembrança da história separada das emoções que ela provocou? Quanto aos elizabetanos menores. Retóricas e bombásticas.Mas o drama deliberado da era vitoriana é escrito evidentemente em um estúdio. grandemente valiosa porque tão primitivos esforços deixam à mostra a estrutura descomunal que dramaturgos maiores poderiam . Mas quem pode nos dizer o que acontece em White Devil ou emMaid's Tragedy. como Greene e Kyd. nem aplauso. Ninguém pode deixar de lembrar o enredo de Antígona.a platéia incendiada. convém apontar o fato de que a influência do público foi em muitos aspectos detestável. E o resultado é inevitável. fazer com que os atores digam o que não poderia ser dito sem este estímulo. foi feito na época elizabetana pelo público. Não deixa . indubitavelmente uma peça em que nada aconteça é uma impossibilidade. Indubitavelmente. as complexidades de seus enredos são tão grandes. têm a mesma exuberância e 15 imprevisibilidade insolentes. devemos replicar. com todas as suas deficiências.como ocorreu. as falas são atiradas e impelidas à cena e conseguem as mesmas improvisações felizes. não há personagens no drama elizabetano. com o público elizabetano . que os próprios atores são esquecidos e as emoções. Deve produzir grandes emoções. Afora Shakespeare e talvez Ben Jonson. de acordo pelo menos com nossas convenções.o enredo. Para começar devemos ter em mente o grande peso que o drama elizabetano coloca sobre nós . que.e honestamente podemos 16 dizer que nos inquietamos um pouco que seja pela moça infeliz que passa por toda uma série de misérias humanas até se matar no final? Não mais do que por um cabo de vassoura animado. Contra isto. que a encenação algumas vezes atinge. entretanto apenas confundem e fatigam um leitor com o livro diante de si. trazer à tona cenas memoráveis. Tem como público relógios tiquetaqueando e fileiras de clássicos encadernados em marroquim. são totalmente apagadas do quadro.Bellimperia na Spanish Tragedy servirá tão bem quanto qualquer outra . mas raramente em nossa época a autoria deliberada e solitária. alguma coisa deve acontecer. no entanto. Não há manifestação. apenas a impetuosidade de quem sabemos tão pouco que mal podemos cuidar que venham deles. a análise mais delicada. e em um trabalho que lida com homens e mulheres a prevalência de cabos de vassoura é uma desvantagem. De fato.

pode revelar-nos o suficiente para que adivinhemos o restante. a emoção toda cindida. Mesmo assim." A peça . a seguir ela confessa seu amor por ele. Que momentos de intensidade. Mas ao dizermos isso sabemos que perdemos alguma coisa. Ford é um psicólogo. que frases de beleza estonteante a peça nos atira! O. mas como alguém que tem procurado intimamente e sentido com simpatia instintiva as fibras dos seus corações. dissipada e depois recomposta. com seu desprezo pelo marido quando ele abusa dela. "Este homem". vibrante e temperamental. Estivemos comparando a peça com prosa e a peça. de uma vez. sua astúcia atenta. ele pode esclarecer.i. Ninguém a descreve. ela é sem profundidade. a seguir engravida dele. r\-- Ou .. seus trechos de música italiana. Ela está sempre no auge da paixão. a pequena peça concisa. apenas que chega. A peça é poesia.sobre a qual este julgamento é principalmente baseado mostra-nos por inteiro a natureza de Annabela saltando aqui e ali numa série de vicissitudes terríveis. os ângulos e limites de cada um. elevada na peça. Traçar o rastro de sentimentos que se pode esperar que tais crises e calamidades ocasionem em uma mulher de sensibilidade comum deve ter preenchido muitos volumes. é poesia. prosa. reconsiderando cada um. "escreve sobre as mulheres não como um dramaturgo ou um amante. Ford. my lords. e colocar os dois diante de nós lado a lado. não há traço. seu irmão lhe diz que a ama. I but deceived your eyes with antic gesture. é da escola de Stendhal e de Flaubert. sentindo. Ignoramos a emoção que vem-se acumulando porque foi acumulada em lugares em que não esperávamos achá-la. 17 A mulher russa é de carne e osso. mas têm de usar. Primeiro. Ofdeath! anddeath! anddeath! still Idanced forward* : . tanto quanto pudermos. o longo romance há muito tempo cultivado. a seguir se força a casar com Soranzo. claro. finalmente é morta. afirma Mr. como um todo. Mas de caráter. Então.modificar. Um dramaturgo. e o romance. afinal de contas. não tem um volume para preencher. Mas o que é isto que sabemos sem usar microscópios nem nos perder em minúcias sobre o caráter de Annabella? Tateando compreendemos que ela é uma menina esperta. como se sabe. * • f When one news straight carne huddling on another . no romance. Havelock Ellis. a seguir se arrepende. a emoção concentrada. Vamos tentar suprimir detalhes. sem complexidade. Compare-a com Anna Karenina. devagar e gradualmente reunida em um todo. dizemos. Deixamos o significado da peça escapar por nossas mãos. e é seu amante e irmão quem a mata. sua maneira de amar simples e alegre. sem extensão. como compreendemos a palavra. corpo e mente onde a menina inglesa é plana e rude como uma face pintada em uma carta de baralho. generalizada. Ford é um analista. nunca no início. a seguir é descoberta.'Tis pity she's a Whore . tanto quanto formos capazes. tem coração. Não sabemos como ela chega a suas conclusões. as diferenças básicas aparecem. cérebro. Ele é forçado a condensar.

do tom bombástico.. mostrando não Annabella amando. nos tornamos mais do que nunca cientes da riqueza incansável da sensibilidade humana.. apesar da monotonia. Como. a linguagem tão inadequada à sua experiência. estou morto de verdade. Em vez de cantar Lay a garland on my hearse Ofthedismalyew.alma./ Apenas enganei seus olhos com caretas / Quando umas notícias chegavam misturadas a outras / De morte! morte! morte! E ainda dancei diante dela. que. manter seus olhos no chão. Say I died true." " "Quase sempre tens por estes lábios / Rejeitado as cássias ou as doçuras naturais / Das violetas em flor: elas ainda não estão muito murchas. e esperamos com impaciência a criação do que poderia ainda ser imaginado para nos liberar do enorme peso do inexpressado." ** ".soul. mensagens acumuladas. Anna Karenina jamais diria: "You have oftfor these two lips Neglected cássia ".. censurando a trivialidade da arte do romancista. Maidens."* Portanto. Mas qual é então a exclamação com que fechamos Guerra e Pazl Nenhuma de desapontamento. ." 19 vir com vagar de todos os quadrantes impressões deliberadas. Iknow not whither.. /. nos queixamos de que são incapazes de se manter passo a passo com a riqueza do material. trazei os ramos do salgueiro / Digam. não sei para onde.. ainda lemos os elizabetanos menores. na peça. não revelar pela iluminação. willow branches bear. o particular. * ele deve enumerar os crisântemos murchando sobre uma sepultura e os homens da funerária bufando com pressa em suas carruagens. lordes. com perdoavel impaciência podemos exclamar ao terminarmos nossa peça elizabetana. sugerir pela descrição. ainda continuamos nos aventurando na terra do joalheiro . não somos deixados lamentando a superficialidade. da retórica. não no céu.. podemos comparar esta arte pesada e morosa com a poesia? Garantidas todas as pequenas habilidades pelas quais o romancista nos faz saber o individual e reconhecer o real. o dramaturgo segue além do específico e distinto." 18 Algumas das mais profundas emoções humanas ficam por esta razão fora do alcance dela. driven. não Anna Karenina se jogando debaixo do trem. longe de descartar uma forma de literatura ou de decretar sua inferioridade em relação às outras.. e da confusão. no romance. mas o amor em si. ' Oh. *" com toda sua realidade. Ali nos estendemos e nos expandimos e deixamos * "Ponham uma guirlanda em meu caixão / De teixo escuro / Donzelas.Youhave oftfor thesetwolips Neglected cássia or the natural sweets Ofthe spring- violet: they are not yet much wither 'd. portanto. A mente fica tão saturada de sensibilidade. mas a ruína e a morte e a . Assim.. . os casamentos perfeitos de som e sentido não são para ele. ele precisa domesticar sua velocidade até a lentidão. ali. Antes.guiada. Aqui. reconhecemos o geral. Os extremos da paixão não são para o romancista. como um navio na negra tempestade. Aqui reunimos todas as nossas energias em um ramaIhete e florescem. like a ship in a black storm.

a vida farta de fragatas. Lord. e. Morrer e se desembaraçar de tudo é o desejo deles. ouvir as palavras conforme são gargalhadas e gritadas. impondo não a unidade mas alguma espécie de estabilidade. "Lord. também. subentende-se timidez se desconsiderarmos que um conjunto da literatura com características comuns é uma mera exalação dos altos espíritos. E fazer as necessárias alterações de perspectiva. Para ligar aqueles territórios e reconhecer o mesmo homem em diferentes disfarces temos de nos ajustar e corrigir. "• When we're gone. um feliz acaso intelectual que. de colares de pérolas.e do unicórnio. Mesmo na mata e na selva a bússola continua a orientar. colocam-se inflexivelmente em confronto com outra presença do drama elizabetano que é a vida. on the stage Ofmy mortality my youth hath acted Some scenes ofvanity . Seria um crítico corajoso aquele que tentasse impor algum credo à quantidade e à variedade de dramaturgos elizabetanos. o sino que badala por todo o drama é morte e desencantamento. por mais ardorosamente que o espírito público possa tentar. O poder do conjunto é inegável. . . Então. a morte. Deles. está aquilo que se pode sumariamente chamar de o senso da presença dos Deuses. é o talento da invenção de palavras. em resumo. maS o espetáculo do mundo é vaidade. por circunstâncias favoráveis. O thou soft natural death that art joiní-twin To sweetest alumber -** O espetáculo do mundo é maravilhoso. não conforme são impressas nas letras pretas sobre a página. that l were dead!"* • estão para sempre chorando. ó Deus. de delfins e de néctar das flores do verão. perpetuamente a morte. uma empresa de fazer dinheiro. Ali life is but a wandering tofind home. como se o pensamento mergulhasse em um mar de palavras e brotasse grotejando.*** • ."** A ruína. •• glories Ofhuman greatness are butpleasing dreams And shadows soon decaying. estivesse eu morto!" " "Oh. no entanto. retirar naqueles filamentos de sensibilidade o que os modernos têm tão maravilhosamente desenvolvido. em um estágio diferente porém não mais elementar de desenvolvimento de sua leitura e então os méritos verdadeiros do drama elizabetano irão afirmar- se. é impossível uma vez que o corpo está vestido. o cansaço. Deles é aquele humor franco baseado na nudez do corpo que. ver diante dos olhos as faces mutantes e os corpos vivos de homens e mulheres - colocar-se. we're there. usar em seu lugar o ouvido e o olho que os modernos têm tão radicalmente enfraquecido. As fábricas familiares de Liverpool se esvanecem no ar e mal reconhecemos qualquer semelhança entre o fidalgo que importava toras de madeira e morreu de pneumonia em Muswell Hill e o Duque da Armênia que morria como um romano pela espada enquanto a coruja guinchava na hera e a Duqueza dava à luz um bebê morto entre mulheres uivando. por trás disso. vossa suave morte natural que é semelhante / Ao mais doce descanso -" Glórias / da grandeza humana são nada mais que bons sonhos / e sombras em breve . pinheiros e marfim. do leite de unicórnios e do hálito de panteras. irrompe sucessivamente. cérebros 20 * "Deus.

ou algum trecho harmonioso de música encanta. Perambulando no labirinto da história impossível e tediosa subitamente algum ímpeto apaixonado se apodera de nós. / Sem raízes confortáveis. a pena escorrega de nossos dedos. Assim nos relacionamos com imperadores e palhaços. Mas aos poucos isto se apossa de nós. a mente se retira para meditar em solidão. se não tem o nome. não para compartilhar. mas nossas próprias feições são demasiado familiares. allhis powerto live " '"' Is given to no endbut t'have power to grieve* Este é o eco lançado com veemência do outro lado da peça que. em Bar-le-duc. e então estamos sendo contraditórios? O que é isto que estamos querendo com tanta persistência. audível. misteriosa e esmagadora dificuldade. como ele fez com crayonT' Imediatamente alguém deve ter respondido. rimos e nos exultamos e maravilhamos com o esplendor. no conjunto da literatura. para onde iremos. que não só é permitido como nada pode ser mais fácil. de riso extravagante. joalheiros e unicórnios. No root in comforts. Montaigne viu um retrato que Renato. tornado visível. não é permitido a qualquer um se desenhar com uma pena. É um mundo cheio de tédio e delícia. para criticar. fizera de si mesmo. não para agir. floresta e selva do drama elizabetano. Outras pessoas podem iludir-nos. E então. Afinal. Uma raiva nobre nos consome quando cai a cortina. ' "O homem é uma árvore sem grandes cuidados na cabeça. quando nos aventuramos na tarefa. para Montaigne. para Sir Thomas Browne. ficamos aborrecidos." 22 MONTAIGNE Certa vez. para explorar sua própria escuridão. Rei da Sicilia. Não há privacidade aqui. a vida a mais temerária e abundante. para pensar." *"* "Toda a vida é somente o sonho de encontrar a casa / De onde viemos. para os guardiões das chaves da solidão. Ela retorna para Donne. poesia e esplendor. não as faces esplendorosas dos outros. prazer e curiosidade. todo seu poder vital / E dado para fim nenhum senão ter o poder de chorar. Uma dezena de mortes de mulheres e homens maduros nos mobiliza menos que o sofrimento de um vôo de Tolstoi. AReligio Mediei é um vidro . que a menos que tenhamos instantaneamente. devemos procurar em outros lugares? É a solidão. é um assunto de profunda. no palco / De minha morte minha juventude tem representado / Algumas cenas de vaidade." 21 de pavão e vinho de Creta. dramático. Tudo é compartilhado. e indagou. quantas pessoas conseguiram retratar-se com uma pena? Somente Montaigne e Pepys e talvez Rousseau. A isto. também. o humor e a fantasia de tudo isto. alguma sublimidade se exalta. Assim divagamos pela mata. Sempre a porta abre e alguém entra. eles respondem Man is a tree that hath no top in cares. e enjoados com os velhos truques enfadonhos e os floreados bombásticos. ainda mostra o efeito da presença dos Deuses. Enquanto isso.decaindo. Comecemos. da mesma maneira. como se cansada da companhia. "Por que.

não é fácil. ainda que a um oponente nosso. mas quando ele começa a falar. sua imperfeição - esta arte pertenceu a um homem apenas: a Montaigne. Todos nós nos deixamos levar pelo estranho e delicioso processo chamado pensamento. em primeiro lugar. No entanto. Todos os seus esforços foram para se descrever. examinando em suas profundezas. penetrar as obscuras profundidades de seus meandros mais íntimos. 5 volumes. Conforme se passam os séculos. sua polimorfia. Há. Neste momento. a Navarre Society está reeditando na Inglaterra em cinco belos volumes * a tradução de Cotton. trata-se de um empreendimento novo e extraordinário. possui todos os tipos de hábitos e cerimônias próprias. se negou a fazer pregações. Rosto. Não ouvimos falar de mais do que dois ou três precursores que persistiram nesta trilha [disse Montaigne]. Novas edições comprovam esta perene fascinação. The Na varre Society.) 24 se recusou a ensinar. vendo mais longe do que costuma olhar. nunca apta a expressar com exatidão um pouco daquilo que vê. a dificuldade de expressão. Também é ditadora. seguindo as próprias fantasias.colorido através do qual se vêem obscuramente corridas de estrelas e uma alma estranha e atormentada. 6 libras. dando o mapa completo. Ele " Essays of Montaigne. É por esta razão que Montaigne se sobressai da legião de mortos com uma vivacidade tão irreprimível. ou bem devagar afunda e retorna para a escuridão profunda que se iluminou por um momento de uma luz inconstante. . voz e sotaque suprem com dificuldade nossas palavras e marcam a debilidade delas fortemente quando se fala. revelar-se como na palma da mão. Um espelho brilhante e bem polido reflete a fisionomia de Boswell espreitando entre os ombros de outras pessoas na biografia famosa. Não duvidamos nem por um instante de que seu livro era ele mesmo. e que nos priva das mais corriqueiras e recomendadas ocupações mundanas. e alterando a viagem naturalmente cambaleante da fala humana em uma marcha solene e estática de estilos. selecionar e capturar tantos pequenos impulsos de sutil agilidade. Armaingaud dedicou um longo tempo de pesquisas. pode dizer muito pouco. está sempre transformando homens comuns em profetas. sempre há uma multidão diante deste retrato. é um caminho acidentado. Contar a verdade sobre si mesmo. seguir um andar tão errante e incerto. como ficamos insignificantes para o transmitir! O fantasma atravessa a mente e fica do lado de fora das janelas antes que consigamos saltar em seu rabo. o peso. o que pensamos. e o diâmetro da alma em sua desordem. a pena é um instrumento rígido. (Nota da edição inglesa. Ninguém desde então seguiu-lhes as pegadas. a cor. quanto o da alma. Mas este relato de si mesmo. ao mesmo tempo na França a empresa de Louis Conard publica as obras completas de Montaigne com as várias revisões em edição a que Dr. muito mais do que parece. manteve-se declarando que era exatamente igual às outras pessoas. tradução de Charles Cotton. vendo sua própria face nele refletido.

muito mais do que parece. De fato ela é a mais esquisita criatura do mundo. e ela era' 'um caminho acidentado.para comunicar. Ela se torna disforme e vazia por dentro.. certamente. "tímida. A alma de Montaigne diz. tagarela. Às vezes se conformam. que é na velhice que se deve viajar e que ao casamento . O prazer da procura supera qualquer dano que se possa impor às perspectivas mundanas de alguém. melancólica. Retornando à discussão política. casta. ignorante. próxima do heróico. enfadonha. O homem que é ciente de si mesmo é a partir de então independente. tomada de impaciência. delicada. Montaigne revoltou-se numa explosão de raiva. às vezes fazem o que outras fazem pois elas assim o fazem. mentirosa. "Tantas cidades demolidas. e apregoando a obrigação moral de civilizar o selvagem. ela sempre responderá o exato oposto ao que outras pessoas diriam.. há a suprema dificuldade de ser si mesmo. há muito tempo resolveram que os cavalheiros idosos e inválidos devem ficar em casa e instruir todos os demais com o espetáculo de sua fidelidade matrimonial. sovina e pródiga" .. Outras pessoas. deixam que a vida escape por elas numa espécie de devaneio. os governantes estão sempre exaltando as grandezas do Império. estaria com maior freqüência fundado no amor . enquanto outras pessoas. que o homem pode consumir sua vida meramente correndo atrás dela pôr toda a terra. lasciva. entorpecida. 25 volúvel como um catavento. insensível e indiferente. tantas nações exterminadas. e ele está completamente imerso em uma felicidade profunda ainda que moderada. diligente. Pois além da dificuldade de comunicação propriamente. e a parte mais rica e mais bonita do mundo arrasada pelo tráfico de pimenta e pérola! Conquistas da máquina!" Assim. insolente. e a letargia se apossa sobretudo das mais refinadas disposições e capacidades da alma. verdadeira. mesmo separada do castelo principal. erudita.. Se alguém tiver a coragem de lhe perguntar o que pensa. por exemplo. tão complexa. possui uma visão abrangente da situação. Mas examinando a Espanha no México. agradável. ou a vida dentro de nós. Montaigne indagou: O que eu poderia ter dito àquelas pessoas? É certo que este dever de humanidade lhes causaria problemas. agride as formas mais palpáveis das grandes assombrações de Montaigne. e a vida é apenas muito curta. criativa.nas proximidades do fim da vida. Ele simplesmente vive.em resumo. correspondendo tão pouco à versão que a ela se atribui em público. Aqui a alma. silenciosa. tão indefinida. A alma. Mas acompanhem-na enquanto ela medita junto ao fogo na sala íntima daquela torre em que. escravas das cerimônias. ao contrário. . de maneira alguma concorda com a vida exterior. Nada mais há nem tão grosseiramente nem tão ordinariamente falho quanto as leis.que. quando os camponeses chegaram e lhe disseram que haviam encontrado um homem mortalmente ferido e o abandonaram por medo de que a justiça os incriminasse. a convenção e a cerimônia. liberal. para contar a verdade. e nunca está aborrecido. assenta melhor uma gravata formal de que dispensá-la.

Não lhes cabe encarar os fatos como são. Talvez haja mais das qualidades que interessam entre os incultos do que entre os instruídos.com certeza. Paris foi o lugar que mais amou no mundo - "jusques à sés vermes et à sés taches". Ao escrever. quanto elas custariam? Ele sempre se misturou a homens inteligentes. então. se pedimos a este grande mestre da arte de viver que nos conte seu segredo. com as paredes pintadas e as estantes espaçosas. uns óculos quebrados põem seus nervos no limite. e da inconstância. e sua memória era tão fraca que esquecia o que estava em sua cabeça enquanto andava de um quarto a outro. da injustiça. mas ele observou que.) 26 Quanto à leitura. Podemos nos regalar em nosso quarto na torre. Observe por si mesmo: em um momento você está enlevado. e deixar o governo do mundo para os outros. com suas pálpebras pesadas e a expressão sonhadora e zombeteira. é bem verdade. com alguns livros e verduras e flores.* * Traduções livres do texto original de Montaigne foram agrupadas no final do capítulo. É impossível extrair uma resposta clara e simples daquele homem sutil. Todos os extremos são perigosos. Mas não. ele nos recomendará que nos recolhamos à sala íntima de nossa torre e lá fiquemos a folhear as páginas dos livros. a melhor prosa é aquela que mais estiver entranhada de poesia. que coisa desprezível é o populacho! "a mãe da ignorância. ainda que gastos. A verdade só pode ser conhecida pelas almas bem-nascidas . apesar de terem seus momentos de fineza. suas miragens. é quase sempre extremamente insípida. É melhor se manter no centro da estrada. ele raramente podia ler qualquer livro por mais de uma hora. (Nota da tradutora. escape dos exageros e da eloqüência . o mais iluminado deles estremece quando à beira da loucura. Será razoável que a vida de um homem culto deva depender do julgamento de parvos?" Suas mentes são frágeis. e é ele e os seus que vivem a vida real e falam o idioma real. Quem. Recolhimento e contemplação . mas lá embaixo no jardim há um lavrador que enterrou seu pai pela manhã. a perseguir fantasia após fantasia enquanto elas se seguem umas às outras pela chaminé. e seu pai devotava uma veneração indiscutível por eles. por outro lado. mansas e sem poder de resistência. Devem ser orientados sobre o que lhes é útil saber. Há com certeza uma partícula de verdade nisso.porém. que estamos almejando a uma simplicidade democrática. Coisas são ditas com muita elegância ao fim da mais humilde refeição. nos trilhos habituais. Montaigne não é de maneira alguma explícito. a poesia é uma delícia. O saber livresco não é digno de muito orgulho. e em relação às conquistas da ciência. no minuto seguinte. escolha as palavras cotidianas. Parece. Mas. assim. então. A verdade é que a vida no campo.estes devem ser os principais elementos de sua prescrição. Ele nunca pôde ver que suas ervilhas verdes eram muito melhores que as de outras pessoas. são estas almas bem- nascidas. meio sorridente. a quem deveremos imitar se somente Montaigne nos esclarece com exatidão? . seus exageros."l'âme bien née". meio melancólico.

que temos uma vida própria e a resguardamos até o infinito como a mais preciosa de nossas posses. "Je n'enseigne poinct. seria aconselhável o retorno à 28 religião para que nos guie? "Talvez" é uma de suas expressões favoritas. já que assim deve ser. O movimento e a mudança são a essência de nosso ser. Sem rodeios começamos a protestar. que de se tenir attaché et obligé par necessite a un seul train". Devemos respeitar aqueles que se sacrificam em serviços públicos. Leis são meras convenções. nossa salada de impulsos. entretanto. os hábitos e os costumes são conveniências tramadas como amparo para naturezas tímidas que não ousam permitir a suas almas movimentos livres. existem algumas coisas no presente que devem ser apenas insinuadas. Estas palavras ajudam a abafar opiniões que seriam altamente impelidas se professadas com franqueza. portanto. honra. cuja censura é muito mais temível do que qualquer outra pois conhece a verdade. je raconte. e Montaigne jamais deixa de despejar desprezo sobre a miséria. a rigidez é a morte. nossa cativante confusão. ordem. incapazes de salvaguardar vestígios da imensa variedade e do tumulto dos impulsos humanos. quando de fato isto lhe vinha mais e mais obscuro a cada dia? Uma propriedade ou princípio há talvez . então. nos contradizer. "un patron au dedans". mas quanto a nós. mas. nosso milagre incessante . a ditar leis. e. e nos apiedarmos deles por tolerarem. Mas nós. como Etienne de La Boétie. "C'est être. Para alguns. é claro. espalhando no ar as bobagens mais impensadas. não para nós mesmos. Vivemos para os outros. mais cê n'est pás vivre. outro guia. para aqueles que gozam de uma vida própria. cumular-lhes de honras. conformidade é morte: vamos revelar o que se passa em nossas cabeças. e todas as ocupações que nos coloquem devendo favores a alguém. os compromissos inevitáveis. as que compreendem. que é a essência de nosso ser.Mas não. sobre si mesmo. como ele pôde explicar às almas de outras pessoas se nada pode- 27 ria dizer "inteiramente simples e sólido. uma vez que todas as restrições à opinião particular ou à lei pública têm sido escarnecidas. a fragilidade. Escreve-se para muito poucas pessoas. por exemplo. Esta liberdade." Apesar de tudo.não se devem fixar regras. e seguir as fantasias mais fantásticas sem se preocupar com o que o mundo faz ou pensa ou diz. As almas com quem gostaríamos de nos assemelhar. há.pois a alma se assombra a cada segundo. Pois nada importa exceto vida. definhamos. suspeitamos muito de uma orientação. sem confusão ou mistura. um censor invisível interno. são sempre as mais condescendentes. aspira-se à orientação divina de todas as formas. com certeza. numa só palavra". Este é o juiz a quem devemos nos . a assumir também posições. a vaidade da natureza humana. que se esvaneçam fama. deve ser controlada. nos repetir. também não há nada mais agradável que a sonoridade de sua aprovação. Deixemos que se aqueçam nosso caldeirão incalculável. "talvez" e "eu acho" e todos aqueles termos qualificativos de suposições precipitadas da ignorância humana. Mas é difícil vislumbrar qual poder invocaremos para nos ajudar. nada significam. Talvez.

comme je sais par une trop certaine expérience. de maneira alguma impede a liberdade da alma de investigar e experimentar. se somos ignorantes digamos então. e Etienne de La Boétie entre os modernos. não está levantando uma estátua na praça do mercado.. tudo pode acontecer. Viajam apenas para retornar. Alexandre. em silêncio e desconfiadas. ir até o fundo ousadamente e trazer à luz os mais mórbidos dos pensamentos ocultos. Tais maravilhas estão no mundo. ". e leis e costumes. enquanto sob controle. e sem precedente. bem acima de nós.. U n 'est aucune si douce consolation en Ia perte de nos amis que celle que nous aporte Ia science de n'avoir rien oublié a leur dire et d'avoir eu avec eux une parfaite et entière communication. Estes ensaios são uma tentativa de comunicação de uma alma. a comunicação é a verdade. algo definido. aves fabulosas e terras desconhecidas. quem sabe. ". 29 mas para alargar as relações com nosso tempo e nossa província. nada esconder. por algum equilíbrio interno conseguirá aquela estabilidade precária e inconstante que. "se défendans de Ia contagion d'un air incognu".submeter. A comunicação é nossa tarefa principal. não para ganhar a vida. ele deseja somente comunicar sua alma. il faut vivre entre lês vivants". Compartilhar é nossa obrigação. A comunicação é saúde. car. Deveríamos partir sem qualquer idéia fixa de onde passaremos a noite. O mais necessário. ele é explícito. e com sinceridade apreciam a prosa de carpinteiros e jardineiros. Há pessoas que.a natureza humana. se agasalham. Abençoados são todos que conversam facilmente com seus vizinhos sobre suas atividades esportivas ou seus prédios ou seus aborrecimentos. não é daqueles tipos de homem que buscam renome no futuro. homens com cabeças de cão e olhos no peito. e Epaminondas entre os antigos. conquanto . Eis aqui. Neste ponto. Mas é uma arte. ou de quando pretendemos voltar. cujo exemplo pode nos auxiliar. como Homero. Dela devemos ficar bem perto. a despeito de todas as contradições e de todas as qualidades. nada fingir.. o Grande. Convém recearmos qualquer excentricidade ou requinte que nos aparte de nossos semelhantes. não para acumular conhecimento. a comunicação é a felicidade. embora existam. Mas ele agirá mediante luz própria. a viagem é tudo. é possível que haja algum outro em que sejam reveladas aos seres percepções que nos faltam agora. Ao jantar. precisam servir-se da mesma comida que têm em casa. Não é a fama que deseja. se amamos nossos amigos deixemos que saibam disso. dois ou três homens. a sociedade e o companheirismo nossos prazeres principais. e a leitura. É uma arte que cada um deve aprender consigo mesmo. por certo é muito mais difícil viver bem a vida privada do que a pública. é o censor que nos ajudará a conquistar a graça daquelas almas bem- nascidas. quando viajam. e a matéria real em que se trabalha é variável. Todas as paisagens e costumes são ruins a menos que se pareçam com os de sua província. Pois "c'est une vie exquise. elle qui se maintient en ordre jusques en son prive". complexa e infinitamente misteriosa . Sem outro guia. É possível que estejamos adormecidos neste mundo. pelo menos. Esta é de todas a pior forma de começar..

deve ter um cortinado para sua cama. variando de circunstância tanto quanto possível. limpa os dentes com um guardanapo (graças a Deus. vamos agradecer à Natureza por sua generosidade aproveitando cada um dos sentidos que ela nos deu. ora para aquele. faceties. Pois o prazer não tem sabor algum a não ser que o compartilhemos. Melhor de tudo. e. et dês vers amoureux". "Lê plaisir est dês principales espèces du profit". depois desgosta.sempre vale a pena se arriscar a uma indisposição por causa de um prazer. indo ora para este lado. entre meninas e bons companheiros que não protestariam nem se lamentariam.podem ser realçadas e iluminadas pela cooperação do pensamento. tem tom de voz alto. o máximo da curiosidade. um diálogo. lá. e saboreando por inteiro. É a vida que irrompe com cada vez maior clareza conforme estes ensaios sem chegar ao seu final bruscamente se interrompem. Além disso.uma caminhada. É a vida que se torna mais e mais absorvente à proporção que a morte se aproxima da intimidade de um. corta o cabelo após o jantar. que a morte nos encontre em nossas ocupações cotidianas.podemos nos resfriar ou ter uma dor de cabeça . pois um soluço de um criado ou um toque de mãos nos faria sucumbir. Basta de morte. Logo. a solidão em nosso quintal . nunca usou óculos. mexe com os próprios pés. guarda segredos. Nenhum . e as ações mais corriqueiras . et Ia musique. esta deplorável restrição à alegria de viver. Médicos e homens prudentes podem se opor. de cada fato da existência: de alguém que sempre está bem vesti- 31 do seja inverno ou verão. que somos homens e mulheres comuns. em nome da saúde e da sanidade. e agora gosta de novo. estranhos nos fechem os olhos. eles são bons!). mas vamos abandonar médicos e homens prudentes à triste filosofia que professam. A beleza está em todo o lugar. Mesmo o sono. precisa ter copos para o drinque. e a beleza representa não mais que uma pitada da bondade. é capaz de coçar as orelhas. é a vida que interessa. carrega um relógio em um dos pulsos. o vinho tinto e o branco. não vamos nos alongar sobre o fim da jornada. De nossa parte. ou que sorrateiros nos escondamos em alguma cabana e. entretiens communs et populaires. os beijos da juventude e os ecos de uma voz bonita cantando Catulo. que nos ache "parmi lês jeux. antes que o sol se ponha. a companhia e a solidão. põe água no vinho de outro. no rumo da cordialidade. sempre fazemos o que é bom para nós. Toda estação é aprazível e os dias chuvosos e os belos. começa gostando de rabanetes. gosta de carnes caras. Que a morte caia sobre nós no plantio de repolhos. ou quando estivermos a cavalo.seja sorte mais rara. Quanto aos perigos 30 . se fazemos o que gostamos. é que antes de partir devemos tentar encontrar alguma pessoa de nosso estilo que siga conosco e a quem possamos dizer a primeira coisa que nos venha à cabeça. da alma de outro. lês festins. pode ser pleno de sonhos.

Um homem rico furta porque seu pai o mantinha com pouco dinheiro quando menino. e ao mesmo tempo não crê. Observe. ninguém tem um entendimento claro . Nestes volumes extraordinários 32 de declarações curtas e fragmentárias. alguma elucidação do mistério? Para ele. à medida que assistimos com interesse meticuloso o encantador espetáculo de uma alma a se descortinar diante de nossos olhos. Através de experimentos incessantes e observações das mais sutis ele realizou por fim um ajuste miraculoso de todas aquelas partes irregulares que compõem a alma humana. por intermédio de um véu que.plus je me hante et connois. ". e. alhures.fato é tão insignificante para se deixar escapulir entre os dedos. escutamos os verdadeiros ritmos e pulsações da alma. Observa. Observe como a alma está sempre revelando suas luzes e sombras. Agarrou a beleza do mundo com todos os dedos. também. que respostas podem haver lá? Nenhuma. oco.. foi proprietário de terra. O prazer é o fim de tudo? De onde surge este preponderante interesse pela natureza da alma? Por que este supremo desejo de se comunicar com os outros? A beleza deste mundo é suficiente. Observe sua extraordinária susceptibilidade para as impressões. Ela crê. Se tivesse de viver novamente. pai. moins je m'entens en mói". viveria a mesma vida do princípio ao fim.de como ela trabalha ou o que é se não a mais misteriosa de todas as coisas. substancial. Mas. e refletiu sozinho por horas sobre velhos livros. observa sem parar. não obstante. com o passar do tempo. se pudéssemos fazêlo desviar os olhos desse ofício cativante. e no instante da morte se diverte com ninharias. e o débil. Há apenas mais uma indagação: "Que . ano após ano. se excita tanto com fantasmas quanto com a realidade. quem serviu a seu país e viveu em retiro. tem um agridoce prazer malicioso diante do sofrimento dos outros. "sans cesse et sans travail". e dentro de cada um o maior dos monstros e dos milagres existentes no mundo. Alcançou a felicidade. sua duplicidade. gostaríamos de apresentar a este grande mestre da arte de viver. Este muro não foi construído só por ele. amou várias mulheres. Mas permanece uma questão final que. a alma está totalmente ornada de enervações e afinidades que contaminam suas ações. torna-se quase transparente. Ela fica sabendo da perda de um amigo e se compadece. mas porque seu pai gostava de construir. especialmente na juventude. e inclusive. sonha em plena luz do dia. e. sua complexidade. palpitando dia após dia. lógicas e contraditórias.somos tão covardes.. como torna o substancial. conviveu com reis. Em resumo. plus ma difformité m'estonne. e a despeito de todo o interesse que os fatos despertam temos o singular poder de alterar os fatos pela força da imaginação. ou haverá. marido. a questão se coloca por si. ainda agora em 1580. amamos tanto os plácidos caminhos convencionais . elaboradas e eruditas. enquanto existam tinta e papel. Montaigne escreverá. Eis aqui alguém vitorioso diante da perigosa empresa da vida. afirmou.

Para tal audiência não há necessidade de afetação nem de restrições. ao cair da tarde. mas ele nunca usou suas páginas para revelar segredos do coração. sem dúvida. outras é rascunhado como uma agenda. contando casos famosos. Apresenta-se algumas vezes como memória. primeiro. "O prazer é uma das principais espécies de benefício". * Escrito em 1920. eu relato". por exemplo. Apenas. inexiste consolação alguma tão doce na perda de nossos amigos do que estar ciente de nada ter esquecido de lhes dizer e de com eles ter havido uma comunicação perfeita e completa". portanto. Há outras falhas nas transcrições do francês: "1'estre" por "l'étre". sua melhor providência. que a posteridade o incluirá entre os grandes homens. "Não ensino coisa alguma.por erro de revisão: "Que scais-je?". com a consciência tranqüila. "É uma vida incomum. estar preso e obrigado pela necessidade a uma única maneira". mas o brilho é desnecessário. para as crianças. e é preciso conhecer o próprio ofício e exercê-lo com engenho. é o assunto em questão. livros que lemos numa convalescença. Sinceridade é o que buscam. Pois ou se escrevem diários para si mesmo apenas ou para uma posteridade longínqua o bastante para escutar todos os segredos e avaliar com justiça todos os motivos. detalhe. Se imaginarmos. e tudo o que escreveu pode ser lido em voz alta. faça correr a pena convenientemente. "É preciso viver entre os viventes". e a música. que diários são sempre diários. mas isso não é viver. O diário. "Que sei eu?" 33 DIVAGAÇÕES SOBRE EVELYN Caso deseje assegurar-se de que seu aniversário será comemorado daqui a trezentos anos. os festins. "pois. em tradução livre. que nos relembra o aniversário de trezentos anos de John Evelyn*.) . divertindo-se com parentes e populares. (Nota da edição inglesa. passeando a cavalo. é manter um diário. "quanto mais me acompanho e conheço. como eu sei por grande experiência. utilizada aqui . uma reimpressão da terceira edição. são as seguintes: "até às suas verrugas e às suas sardas". "um patrão interior". aquela que se mantém em ordem até em sua privacidade". "É ser. tanto mais minha deformidade me espanta e menos me entendo". "a alma bem nascida". "se protegendo do contágio de um ar desconhecido". e uns versos amorosos". o gênio é até um obstáculo. os gracejos. certifique-se de que terá a coragem de colocar seu íntimo nessas anotações pessoais e o ânimo para desfrutar uma fama que só será sua no túmulo. "sem interrupção e sem sobresforço".sais-je?"* * Na edição da Hogarth Press. e intensidade. de 1929 . "entre os jogos.a de 1933. primeiro. quer dizer. os motivos pelos quais ainda nos preocupamos em ler o que consideramos um trabalho aborrecido de um bom homem temos de confessar. As demais citações do texto original de Montaigne. ou deitando com as mulheres mais interessantes na terra.

Mas se for para irmos buscar dentro de uma casa uma faca e com esta faca dissecar a cabeça de Red Admirai. mera fantasia e ociosidade. podemos concluir. mas deixe-o tocá-la de leve com a sombra do ancinho. percorreu o Continente por dez anos. também. um refinado da mais alta cultura e inteligência. Se um gato travesso estivesse na cama de Evelyn. em grande parte. circula com seu carrinho de mão. e em dois minutos ficamos sabendo não apenas mais do que Evelyn soube em toda a sua vida. é. ainda que justamente confiante de que com suas próprias mãos ele poderia fazer avançar não só seu próprio conhecimento mas o conhecimento da espécie humana. a ignorância dele e nossa relativa erudição. Alua. A ignorância. dizem. estamos muito de acordo com Evelyn. um descanso numa poltrona com um livro.em ocasiões fúnebres. Evelyn se intrometeu em todas as artes e 35 ciências. em primeiro lugar. antes de continuar lendo o livro de Evelyn. cuidadosamente anotou todos os cometas e portentos."A natureza. a borboleta vê mas não escuta. mas coletivamente bem sabemos que há pouco estímulo para nos aventurar às descobertas particulares. Buscamos as enciclopédias. sobre a qual muitas coisas refinadas têm sido ditas. foi vista uma baleia. estimulava a devoção de seus admiradores do século dezessete através de exibições de violência e excentricidade que ela hoje detém. que sua leitura. no século vinte. ninguém em sã consciência. instantaneamente em alerta. mas que a massa de conhecimento é tão vasta e pouco valorizada quanto simples migalhas de pão. não as tesouras. Em 1658. some. Havia tempestades. certamente. cometas fulguravam no céu. está tão grande neste outono que os cogumelos nem vão brotar. e traçou conclusões e concebeu especulações que valem hoje tanto quanto conversas de senhoras de chinelo em torno da bomba d'água de uma vila. encamparia um projeto desses nem por um segundo. ainda que proveniente das coisas triviais. a ignorância está no fundo de tudo. bastante velho. e a felicidade. uma ocupação improdutiva a que nenhum crítico se dá o trabalho de investigar e em nome da qual somente um moralista teria alguma palavra a dizer. acrescentará. determinar em que nossa concepção moderna de felicidade se distingue da dele. e aqui. parece. Ninguém pode ler os relatos de Evelyn sobre suas viagens ao estrangeiro sem invejar. o Tâmisa gelava. enchentes e períodos de seca. o gatinho seria inevitavelmente . e considerou um presságio sinistro quando uma baleia subiu o Tâmisa. sua energia. Portanto Evelyn. Como indivíduos podemos saber tão pouco quanto Evelyn. Então. Cavaleiro da Sociedade Real. como Evelyn teria feito. e em segundo. segundo. observou com incansável gosto mulheres peludas e cachorros racionais.aquela borboleta fica imóvel lentamente sobre a dália enquanto o jardineiro. Pois ele a admitirá como uma tarefa inocente. de fato. Ignorante. sem dúvida. visão de borboletas sobre dálias. É aconselhável. "Neste ano Cromwell morreu. a simplicidade de sua alma. e a mulher do carpinteiro dará à luz a gêmeos. e daí ela voa. provavelmente tem feito mais para preservar os seres humanos da mudança de suas crenças ou da morte de seus deuses do que a filosofia ou o púlpito. Para citar um simples exemplo da diferença entre nós .

do mesmo jeito que poderíamos dizer que os leões urram tão alto e a visão da carne crua é tão desprezível que iremos agora visitar os pingüins.dotado de oito pernas. amarrados cerca de um metro e meio a mais que o máximo do seu comprimento até outra argola no chão do recinto. Mas voltemos à felicidade. Admitindo o desconforto dele. para levar a vida de um fidalgo do campo de fortes simpatias . e então anotou que "o espetáculo era tão desagradável que não fui capaz de ficar para assistir a outro". há suficiente discrepância entre a sua visão de sofrimento e a nossa que nos faz pensar se vemos algum fato com os mesmos olhos. Parte disso podemos atribuir à ignorância deles e ao nosso conhecimento. e uma das suas pontas em argolas de ferro afixadas à parede a cerca de um metro do chão. dois corpos e dois rabos. Mas continuemos com o diário. casamos as mulheres pelos mesmos motivos ou julgamos as condutas sob os mesmos padrões. Evelyn retornou à Inglaterra com a esposa. Se pudéssemos sustentar que nossa susceptibilidade ao sofrimento e nosso amor à justiça foram profundos. Algumas vezes parece que se há discrepância insolúvel entre nossos ancestrais e nós isto deve-se ao fato de extrairmos nossa felicidade de fontes distintas. despejou dois baldes de água pela garganta de um homem. quando parecia que as coisas estavam se decidindo de forma bastante infeliz. não se esquivar quando o cavalete foi posicionado mais alto e o carrasco agarrou uma orelha e. Mas iremos supor que a ignorância altera os nervos e os afetos? Acreditaremos que sofreríamos penitências intoleráveis se vivêssemos de forma similar aos elizabetanos? Acharíamos necessário abandonar os cômodos da casa por causa dos hábitos de Shakespeare e recusar os convites da rainha Elizabeth para jantar? Talvez.tudo isto parece lançar Evelyn a uma daquelas prisões em que mentalmente segregamos a ralé de Whitechapel. "eles primeiro amarram seus pulsos com um fio resistente ou um cabo curto. e nós com ele. eles atravessavam um cavalete de madeira sob a corda que amarrava seus pés.. Evelyn observou isto no fim. que todos nossos instintos humanos foram tão altamente desenvolvidos quanto aqueles. suas lentes venezianas e o restante de suas engenhocas. Avaliamos as mesmas coisas por valores diferentes. "estando tudo completamente em mãos rebeldes". que era tão retesada." E por aí segue. e deitado mas na diagonal. Assim suspenso. e depois seus pés em outras cordas. puxando em todo o comprimento de maneira extraordinária. Apenas é óbvio que temos aí alguma coisa errada. que machucava as juntas do camarada de forma desesperadora. Pois Evelyn foi um homem sóbrio de inusual refinamento ainda que estivesse se dirigindo a uma câmara de tortura do mesmo modo que nos aglomeramos para ver leões sendo alimentados. ele usando somente ceroulas de linho sobre seu corpo nu. Sentar-se passivo enquanto músculos são dilacerados e ossos. quebrados. tolerar a iniqüidade de desconfiar de um roubo que o sujeito nega . seus Mapas de Veias e Artérias. seis orelhas.. então poderíamos dizer que o mundo melhora. Em 1652.

tomado por um entusiasmo que o fez conceder- lhe todo o crédito. está tudo muito bem em se ser escrupuloso diante dos sofrimentos dos miseráveis e sensível aos direitos das jovens serviçais. as maçãs de brilho encarnado ao sol do entardecer. Evelyn parava o coche para observar. Polidoro. e esteve disposto a construíla com "uma cúpula nobre. Sem dúvida há milhares de desculpas para nós. gostamos do campo. mas até aqui temos encontrado desculpas para ele. Evelyn nunca olhou para o céu. Seis dias depois o incêndio de Londres alterou seus planos. . O mundo visível estava sempre próximo dele. mas quão prazeroso também. Em qualquer lugar onde houvesse uma imagem que seria notada por Júlio Romano. uma casa elegante. caminhando sozinho. ou um jardim traçado com nobreza. esteve na Catedral de São Paulo inspecionando "a decadência total da velha e venerável igreja". com os olhos tapados. Wren outras apreciações sobre o restante. ocorreu ao olhar pela janela de "uma pobre casa de sapê na vizinhança de nossa paróquia" ver ali um jovem esculpindo um crucifixo e. vento oeste" 36 37 seu tempo era gasto em grande parte como gastamos o nosso. Wren concordou. Rafael ou Tintoretto. Evelyn. pois a prova está espalhada em pequenas frases insignificantes. Wren e outros. se. teceu com Dr. que nenhum fazendeiro na Inglaterra adormece com um caixão aberto ao lado da cama para se lembrar da morte. Uma flor vermelha. Mas havia uma diferença difícil de se ilustrar com uma simples citação. como se a visão das coisas se escancarasse tanto para fora quanto para dentro das portas e não estivesse confinada em algumas poucas telas à óleo penduradas nas paredes. Indo à igreja e ao centro da cidade. Para nossa dose de desumanidade Evelyn pode perfeitamente retrucar apontando Bayswater e as cercanias de Clapham. lua nova. o encanto de um quadro. e se ele afirmasse que nada agora tem caráter ou convicção. especialmente pela forma como mostra o caráter do avô e dignifica a família descendente de tamanha carranca. parece estranho. mas estes são fragmentos dispersos - pequenas relíquias 38 de beleza num mundo que cresceu indescritivelmente insípido. Na verdade. quitando suas contas e cultivando seu jardim "Plantei o pomar em Sayes Court. De fato.monarquistas em Deptford. e abria o diário para registrar sua opinião. com o que Dr. com Dr. levou Grinling Gibbons e sua escultura para a Corte. Em 27 de agosto. A Evelyn novamente. pudéssemos rememorar rua após rua de belas casas. uma paisagem. não poderíamos efetivamente revidar de imediato. um formato de igreja construída como ainda não se conhecera na Inglaterra mas de uma graça deslumbrante". A impressão em geral que elas dão é que ele fez uso de seus olhos. O mundo visível se afastou tanto de nós que ouvir todos os apelos dos prédios e dos jardins. estátuas e esculturas. Guido.

A patron of some thirty charities. James's Park são. A quarter-sessions chairman abler none* Tudo isto ele foi. Godolphin. A pamphleteer on guano and on grain. um pouco patronal. Ele teve . ele é a melhor pessoa e deve ser desculpado por um pouco de vaidade. Ou qual é a qualidade. de quebra. um pouco censor. e um pouco obtuso diante dos de outras pessoas. ainda que ele nunca tenha podido tomar a decisão de romper com a Corte e se retirar para "meu pobre mas tranqüilo vilarejo". Depois da Restauração Evelyn irrompeu de posse de uma variedade de talentos que em nossa época de especialistas parece digna de destaque. apresentou a questão da fumaça e seu controle . Embora tenha deplorado os vícios de sua época nunca pôde se manter distante deles. seu luto no falecimento dela não impediu que contasse o número de coches vazios puxados por seis cavalos que compareceram ao funeral. embora amasse sua filha Mary. mas um pouco vaidoso.as tílias de St.alguma coisa de maçante. "era a melhor pessoa"./um patrono de umas trinta esmolas/um panfletário nos charcos ou nos celeiros/ um presidente de sessão de um tribunal apto para nada. o resultado de suas ponderações. um pouco seguro demais de seus próprios méritos. designado para escrever uma história da guerra com a Holanda . Foi encarregado de negócios públicos. claro." 39 "A voluptuosa vadiagem e profanação" da Corte.Mas retornemos. que disse dele após uma longa manhã de divertimento: "Enfim. mas ele pode muito bem ser assim. sugeriu o design para a reconstrução de Londres. As palavras salientam exatamente a definição. dizse. secretário da Sociedade Real. inevitável. " "Um senhor de margaridas abundantes e de carneiros. Pepys. Pepys é quem nos propõe outra reflexão. Mas é Pepys quem resume nosso caso contra Evelyn. sendo um homem tão acima dos outros". a visão da "Sra. Evelyn não era gênio. foi a primeira autoridade no que se refere a árvores e jardins da Inglaterra. a menina de seus olhos e um dos locais pitorescos na Inglaterra. ele sobrepujou o escudeiro de "A Princesa". desnecessária. ou ausência de qualidade. que era. a quem ele celebrou em uma sincera e comovente biografia. isto se deve a certa inconsistência que seria rude chamar de um nome tão grosseiro como hipocrisia. escreveu peças e poemas. A raiser ofhuge melons and ofpine. talvez. "amou estar em funerais" e escolheu quase sempre "o bocadinho de carne mais seco e magro". Suas amigas mulheres combinavam virtude e beleza de tal modo que dificilmente poderíamos atribuir-lhes. talvez desastrada. algum juízo. pelo menos. sob quem podem estáf os hábitos de um anjo mas não apresenta sua amizade com Evelyn em uma luz sedutora. Nelly" olhando sobre o muro de seu jardim e mantendo uma "conversa muito sem cerimônia" com o rei Charles no gramado defronte. Assim./um produtor de melões gigantes e abacaxis. . e dividiu com Sir Walter outra característica que Tennyson não menciona. Pobre Sra.não podemos deixar de suspeitar . que garante nossas simpatias? Em parte. provocou-lhe grave desgosto.em resumo. a quem por várias razões antecipou - A lord offat pf 'ze-oxen and ofsheep.

Nossos olhos vagueiam de um para outro. sem parágrafos se edificando na memória. não vemos quaisquer profundezas nele. no Capitão Wray demorando-se em Gênova para namorar a filha de M. um som perceptível de comunicação. parando de sonhar. Mesmo quando cochilamos.no temperamento agitado do Capitão Wray. suas árvores florescendo. e como estava pronto a dar opiniões. tem seu encanto. mas sem efusão . que era colérico. ainda assim estamos sendo informados a todo instante. anônimos . como estava pronto para ler em voz alta seus próprios trabalhos.que delícia é seu menosprezo por ele. que catástrofe aconteceu. e como ele era meticuloso. em M.pois o homem de rosto expressivo nunca seria assim . Godolphin por alguma razão. e quando o Tzar conduziu um carrinho de mão até a sua cerca viva. e recordando como "depois das preces vespertinas meu filho doente estava perto dos outros irmãos . também. parando de sorrir. no próprio Evelyn acima de todos. parando meramente de olhar. Mas ele escreve um diário. e como estava afetuoso. mas à semelhança de um método artístico. Saladine. de uma forma ou de outra o maior dos elegantes nos traz. agora e novamente a visão da passagem da gola de um paletó sugere mais que a figura completa de um cidadão postado sob luz plena. e as borboletas voando e tremulando sobre suas dálias. estava para atirar no dono da cabra. ou observando. esse. os homens maus. resgatando pessoas que jamais seriam citadas novamente. e podemos adivinhar a empoada e refinada Sra. Ele não era um artista. aliás. Saladine. seu neto o honrando. suas mágoas alinhadas. Talvez porque os flagramos desprevenidos.a morte de Richard. e como é ácida sua crítica aos jardins alheios. celebridades. que os pombinhos no viveiro estão taciturnos.estão entrando e saindo do salão mais uma vez. A maioria deles mal notamos. as galinhas em Sayes Court põem os melhores 40 ovos da Inglaterra. Saladine. envelhecido. a caminhar em seu jardim em Wotton. Então. sem frases prolongando-se na alma. lamentando amargamente. como o velho Marquês de Argyle. De modo algum cogitam que por esses três séculos ou mais serão contemplados no gesto de saltar um portão.meu muito amado filho". de modo que sem projetar tensão sobre algo em particular. na filha de M. nossa afeição se fixa aqui ou ali . a porta se fecha e desaparecem. as citações latinas escapando exatas de seus lábios. Todos através de suas páginas . tinha um cachorro que matou uma cabra. por exemplo .Seu texto era mais opaco que transparente. apresentando Sir Thomas Browne mas nunca o deixando falar. e o faz muitíssimo bem. 41 ROBINSON RUSOE . Seu jardim. sugerindo intrigas que nunca se deflagrarão. por exemplo. Ele tampouco pode fazer- nos odiar um regicida nem gostar da Sra. Entretanto. e como Evelyn resmungava sozinho. sequer movimentos mais secretos da alma ou do coração. seu pequeno prodígio. de alongar a história de cada dia circunstancialmente. Evelyn. através de três séculos. estejamos certos. estava para atirar em seu cavalo quando ele caiu em um precipício. eficiente e fidedigno.os homens bons.

Há muitas maneiras de abordar este volume clássico; qual devemos escolher?
Devemos começar dizendo que, desde que Sidney morreu em Zutphen deixando a
Arcádia inacabada,
grandes mudanças ocorreram na vida inglesa, e o romance escolheu, ou foi
obrigado a escolher, sua direção? Uma classe média começa a existir, capaz de
ler e ansiosa
por ler não apenas sobre amores de príncipes e princesas, mas sobre si mesma e
os detalhes de suas vidas enfadonhas. Espalhada entre mil penas, a prosa se
acomodou
à demanda; adaptou-se a expressar os fatos da vida melhor do que a poesia. Esta
é, com certeza, uma maneira de abordar Robinson Crusoe - através do
desenvolvimento
do romance; mas outra imediatamente se insinua - através da vida do autor. Aqui
também, nos campos paradisíacos da biografia, podemos gastar muito mais horas do
que as necessárias para ler o livro do início ao fim. A data de nascimento de
Defoe, para começar, é incerta - teria sido em 1660 ou 1661? Além disso,
escrevia seu
nome com uma ou duas palavras? E quem eram seus antepassados? Dizem ter sido um
negociante de tecidos; mas o que, afinal, era um negociante de tecidos no século
dezessete? Ele se tornou um panfletário e caiu nas graças de Guilherme, o
Terceiro; um de seus panfletos levou-o ao pelourinho e à prisão em Newgate; foi
empregado
por Harley e mais tarde por Godolphin; foi o primeiro dos jornalistas venais;
escreveu inumeráveis panfletos e artigos, além de Moll Flandres t de Robinson
Crusoe;
teve mulher e seis filhos; era um tipo magro, de nariz curvo, queixo definido,
olhos cinzentos, e uma verruga enorme perto da boca. A ninguém que tenha
qualquer
breve conhecimento
da literatura inglesa é necessário ser dito quantas horas podem ser gastas e
quantas vidas têm sido gastas em investigar o desenvolvimento do romance e em
examinar
os queixos dos romancistas. Apenas ocasionalmente, ao transitarmos da biografia
à teoria e da teoria à biografia, uma dúvida se insinua - se soubéssemos a data
de
nascimento verdadeira de Defoe, e por quem se apaixonou e por quê, se tivéssemos
decorado a história da origem, ascensão, desenvolvimento, declínio e queda do
romance
inglês desde sua concepção (dizem) no Egito até sua decadência nas terras
(talvez) do Paraguai, teríamos sugado um grama de prazer adicional de Robinson
Crusoe ou
o teríamos lido com um bocadinho mais de inteligência?
Pois o livro persiste por si. Contudo, qualquer que seja nossa abordagem dos
livros, uma batalha solitária nos espera no fim. Há uma negociação a ser
cumprida entre
escritor e leitor antes que quaisquer procedimentos adicionais sejam possíveis,
e ser relembrado no meio deste contato particular de que Defoe vendia meias,
tinha
cabelos castanhos e foi preso é uma distração e um aborrecimento. Nossa primeira
tarefa, e isto é muitas vezes suficientemente formidável, é nos assenhorearmos
de
sua perspectiva. Até que saibamos como o romancista ordena seu mundo, os
ornamentos deste mundo, que os críticos nos realçam, e as aventuras do escritor,
em que
os biógrafos prestam atenção, são bens supérfluos que não podemos utilizar.
Sozinhos, devemos subir nos ombros dos romancistas e fitar através de seus olhos
até,

também, compreendermos em que ordem ele dispõe os variados objetos comuns que os
romancistas estão fadados a observar: o homem e a humanidade; por trás deles a
Natureza;
e sobre todos aquele poder que por conveniência e brevidade devemos chamar de
Deus. E de súbito a confusão, os juízos errados e a dificuldade começam. Simples
como
se apresentam a nós, estes objetos podem tornar-se monstruosos e de fato
irreconhecíveis devido à maneira pela qual o romancista os relaciona com cada um
dos outros.
Parece ser verdade que pessoas que vivem lado a lado e respiram o mesmo ar se
distingam imensamente em seu senso de
43
proporção; para um o ser humano é vasto, a árvore, minúscula; para outro,
árvores são enormes e seres humanos, pequenos objetos insignificantes na
obscuridade.
Portanto, a despeito dos manuais, escritores podem viver no mesmo tempo e,
entretanto, nada ver na mesma dimensão. Eis Scott, por exemplo, com suas
montanhas surgindo
enormes e seus homens, por conseguinte, projetados em escala; Jane Austen
colhendo rosas em suas xícaras de chá para combinar com a sagacidade de seus
diálogos;
enquanto isso, Peacock traz os céus à terra num espelho distorcido em que uma
xícara pode ser o Vesúvio ou o Vesúvio, uma xícara. No entanto, Scott, Jane
Austen
e Peacock viveram os mesmos anos; viram o mesmo mundo; estão arrolados nos
manuais didáticos no mesmo período da história literária. É na perspectiva de
cada um
deles que são diferentes. Se, portanto, tivéssemos a garantia de compreender
isto com firmeza, por nós mesmos, a batalha terminaria vitoriosa; e poderíamos
retornar,
seguros em nosso íntimo, para nos regozijar com os encantos variados que os
críticos e biógrafos tão generosamente nos fornecem.
Mas aqui muitas dificuldades surgem. Pois temos nossa própria visão de mundo;
nós a elaboramos a partir de nossas próprias experiências e preconceitos, e ela,
portanto,
é estreitamente ligada a nossas próprias vaidades e paixões. É impossível não se
sentir ofendido e insultado se nos pregam peças e nossa harmonia íntima é
perturbada.
Assim, quando Judas, o Obscuro aparece ou um novo volume de Proust, os jornais
são inundados de protestos. O Major Gibbs de Cheltenham dispararia uma bala na
cabeça
amanhã se a vida fosse como Hardy pinta; Miss Wiggs de Hampstead deve protestar
que, embora a arte de Proust seja maravilhosa, o mundo real, ela dá graças a
Deus,
nada tem em comum com as distorções do francês pervertido. Tanto o cavalheiro
como a senhora estão tentando controlar a perspectiva do romancista de modo que
ela
se assemelhe e reforce a deles próprios. Mas o grande escritor - Hardy ou Proust
- segue seu caminho indiferente aos direitos da propriedade privada; com o suor
do seu rosto, retira ordem do caos; planta sua árvore lá, e seu homem
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aqui; traça a figura de seu deus mais distante ou mais próxima conforme deseja.
Nas obras-primas - ou seja, livros em que a visão é clara e a ordem foi
conquistada
- ele nos impõe sua perspectiva tão severamente que em geral nos angustiamos -
nossa vaidade se ofende porque nossa própria ordem é perturbada; nos
amedrontamos

porque os velhos esteios estão sendo arrancados de nós; e ficamos aborrecidos -
pois que prazer ou divertimento pode ser extraído de uma fagulha de idéia nova?
Ainda
que seja de raiva, medo e aborrecimento, um raro e duradouro encanto às vezes
nasce.
Robinson Crusoe, talvez, seja um exemplo pertinente. É uma obra-prima, e é uma
obra-prima em grande parte porque do começo ao fim Defoe se manteve coerente a
seu
próprio senso de perspectiva. Por esta razão, nos contraria e zomba de nós a
todo instante. Observemos o tema ampla e livremente, comparando-o com nossos
preconceitos.
É, sabemos, a história de um homem atirado, após muitos perigos e aventuras,
sozinho, em uma ilha deserta. A mera sugestão - perigo, solidão e uma ilha
deserta -
é suficiente para despertar em nós a expectativa de alguma terra longínqua no
fim do mundo; do sol nascendo e do sol se pondo; de um homem, isolado de sua
espécie,
meditando sozinho sobre a natureza da sociedade e os estranhos caminhos da
humanidade. Antes de abrirmos o livro, talvez tenhamos vagamente esboçado o tipo
de prazer
que esperamos que ele nos proporcione. Lemos; e somos rudemente contraditados em
todas as páginas. Não há ocasos nem auroras; não há solidão nem sentimento. Há,
pelo contrário, colocado bem na frente, nada além de um grande pote de argila.
Somos informados, diga-se, que era primeiro de setembro de 1651; que o nome do
herói
é Robinson Crusoe; e que seu pai tem gota. Obviamente, então, devemos mudar
nossa atitude. A realidade, o fato, a essência dominará tudo que se segue.
Devemos com
rapidez modificar nossas proporções completamente; a Natureza deve recolher suas
esplêndidas púrpuras; ela é apenas a doadora de seca e de água; o homem deve ser
reduzido a um esforçado animal salva-vidas; e Deus se contrair dentro de um
magistrado cujo assento, importante e de alguma forma sólido, é apenas um
45
minúsculo ponto sobre o horizonte. Cada investida nossa à procura de informações
sobre estes pontos cardeais de perspectiva - Deus, homem, Natureza - é tratado
friamente
com um bom senso ímpio. Robinson Crusoe pensa em Deus: "certas vezes eu discutia
comigo mesmo, por que a providência teria arruinado tão completamente suas
criaturas...
Mas alguma coisa sempre me respondia imediatamente para rever estes
pensamentos." Deus não existe. Ele pensa na Natureza, os campos "ornamentados
com flores e relva,
e cheios de árvores muito boas", mas o importante sobre uma árvore é que ela
abriga uma abundância de papagaios que podem ser domesticados e ensinados a
falar. A
natureza não existe. Ele reflete sobre os mortos, sobre os que ele matou. É da
maior importância que sejam enterrados logo, pois "eles se expõem ao sol e podem
vir
a ficar repulsivos". A morte não existe. Nada existe exceto um pote de argila.
Finalmente, diga-se, somos forçados a renunciar a nossos próprios preconceitos e
aceitar
o que Defoe deseja nos oferecer.
Voltemos, então, ao início e vamos repetir de novo, "Nasci no ano de 1632 na
cidade de York, de boa família". Nada pode ser mais singelo, mais trivial, que
este

início. Somos guiados a sobriamente considerar todas as bênçãos da vida ordenada
e industriosa de classe média. Não há maior boa sorte assegurada a nós do que
ter
nascido na classe média britânica. Os importantes são dignos de piedade tanto
quanto os pobres; ambos são expostos a destemperos e intranqüilidades; a estação
intermediária
entre o mediano e o grande é a melhor; e suas virtudes - temperança, moderação,
calma e saúde - são as mais desejáveis. Foi uma coisa lastimável, portanto,
quando
por algum fato infeliz a juventude de classe média foi mordida pelo tolo amor à
aventura. E assim continua a prosear, delineando, pouco a pouco, seu próprio
retrato,
de forma que nunca nos esquecemos dele - imprimindo em nós indelevelmente, pois
nunca se esquece também disso, sua perspicácia, sua cautela, seu amor à ordem,
ao
conforto e à respeitabilidade; até que por todos os meios, nos percebemos no
mar, sob uma tempestade; e, olhando de fora, tudo é visto precisamente
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como se apresenta a Robinson Crusoe. As ondas, os marinheiros, o céu, o navio -
todos são vistos através daqueles olhos astutos, sem imaginação e de classe
média.
Nada há a lhe escapar. Tudo aparece como deveria aparecer para aquela
inteligência naturalmente cautelosa, apreensiva, convencional e solidamente
factual. Ele é
incapaz de entusiasmo. Tem um leve desagrado inato pelas sublimidades da
Natureza. Suspeita até dos exageros da Providência. Ele é tão atarefado e tem
olhos tão
somente para seu alvo principal que percebe apenas a décima parte do que vem
ocorrendo ao seu redor. Todas as coisas são passíveis de uma explicação
racional, está
certo disso, quem dera tivesse tempo de examinálas. Ficamos muito mais alarmados
com as "criaturas imensas" que nadam durante a noite e circundam seu barco do
que
ele mesmo fica. De um único golpe, ele pega sua arma e atira nelas, que param de
nadar - se eram leões ou não ele de fato não pode dizer. Antes mesmo de
sabermos,
vamos ficando boquiabertos cada vez mais. Estamos engolindo monstros de que nos
teríamos esquivado se nos tivessem sido oferecidos por um viajante sonhador e
exuberante.
Todavia qualquer coisa que este esforçado homem de classe média observa pode ser
tomado como realidade. Ele está sempre contando seus barris, e fazendo sensatas
provisões de seu estoque de água; nem também o flagramos jamais tropeçando em
qualquer detalhe. Terá ele se esquecido, queremos saber, de que tem uma grande
quantidade
de cera de abelha no barco? Absolutamente. Ora, se ele já tinha preparado velas,
já não terá tanta cera na página trinta e oito quanto tinha na página vinte e
três.
Quando por um milagre deixa alguma incongruência solta no ar por que os gatos
selvagens são tão domesticáveis e as cabras são tão ariscas? - não ficamos
seriamente
perturbados, pois temos a certeza de que houve uma razão, e uma bela razão, que
nos será dada na hora certa. Mas a força da vida quando alguém está sobrevivendo
inteiramente sozinho em uma ilha deserta não é sem dúvida matéria de riso.
Tampouco de choro. Um homem deve ter olho para tudo; não é hora de
arrebatamentos sobre
a Natureza quando um relâmpago pode explodir a pólvora de alguém - é
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não procriara. uns contra os outros com tanta força. do modo mais prosaico do mundo. e na realidade gatos se tornam muito incômodos quando próximos da fecundação. quanto a de um homem em toda sua grandeza destacando-se contra um fundo de montanhas irregulares e oceanos encapelados com estrelas brilhando . pela qual a perspectiva que um simples pote de argila encerra poderia não nos satisfazer tão completamente. Assim Defoe. dizendo a verdade diretamente como ela lhe aparece . machadinhos. troncos. com certeza descrever o fato é suficiente. Acreditando firmemente na solidez do pote e em sua materialidade terrena. pois ele possui um modo de 48 desdenhar de nosso entusiasmo. enquanto o cão. em um momento de angústia. a história avança com uma magnífica simplicidade. Sendo assim. diz. o senso de realidade . "Deixemos que os naturalistas". estes são novos gatos. E então.. e a razão delas e a maneira delas.como são sérias estas simples ocupações.ele chega ao fim para tornar as ações comuns dignificadas e os objetos comuns belos. para ver o quão parecido com um rei eu era jantei absolutamente só.embora Defoe imediatamente nos informe. ele apertou as mãos de um jeito que qualquer coisa teria sido triturada. reiterando que nada exceto um reles pote de argila aparece em primeiro plano.seu papagaio. Através desta habilidade com o fato Defoe chega a resultados que são superiores aos de qualquer um que não seja dos grandes mestres da prosa descritiva. Seu próprio instinto sobre o assunto é correto. e dois sapatos que não eram do mesmo par.imperioso buscar um alojamento seguro para ela. eixos como se tornaram belos estes simples objetos.. um boné. escoltado por meus servos" . não podemos deixar de sentir que toda a humanidade está em uma ilha deserta e isolada . Mas quando conta como. plantar. Ele tem apenas uma palavra ou duas sobre "o cinza da manhã" para pintar com vivacidade um alvorecer selvagem. E há alguma razão. não na mente. ele submeteu todos os outros elementos à forma que planejou. como "os dentes na minha cabeça trincaram-se." Quando afinal exclama. pois o fato é o fato correto. assim que o agarramos. Livre de comentários. sem par. cozinhar. que os gatos não eram os mesmos que vieram no navio. persuade-nos a ver ilhas distantes e a solidão da alma humana. construir . o efeito é tão profundo quanto páginas de análise teriam feito. que por um instante não pude separá-los novamente"." Quando se é Defoe. como um comentário poderia torná-la mais impressionante? E verdade que ele opta pelo caminho oposto ao dos psicólogos . Um sentimento de desolação e das mortes de vários homens é comunicado observando. Cavar. "Depois. "Nunca mais os vi depois. envolveu o universo inteiro em harmonia. nos perguntamos ao fechar o livro. tesouras. ou qualquer sinal deles exceto três de seus chapéus. tudo que posso lhes dizer é descrever o fato. seu cão e seus dois gatos.por ser um grande artista e abster-se disso e ter a coragem disso a fim de concretizar sua qualidade primordial. "expliquem estas coisas.ele descreve o efeito da emoção no corpo. Aqueles estavam mortos.

Por isso quando o editor de Christian World. o biógrafo de Defoe.) ligeiramente desnecessária ao fato de que. a despeito de ficarmos indignados com a omissão. não nos surpreendemos. Em qualquer monumento digno do nome de monumento os nomes de Moll Flanders ou Roxana. É verdade que Robinson Crusoe já completou dois séculos até este 25 de abril de 1919. estamos fazendo uma alusão * Escrito em 1919. obscureceu o fato de que ele foi o escritor de outros trabalhos que. mas longe de ampliar as especulações usuais sobre se as pessoas atualmente o lêem e se vão continuar a fazê-lo. Eles figuram entre os poucos romances ingleses que podemos . Parece. O livro se assemelha mais a uma daquelas produções anônimas de uma raça do que ao resultado de uma única mente. pois enquanto lhe garantiu uma espécie de glória anônima. ao celebrarmos o bicentenário do livro. devemos deplorar o fato de que a aparente rudeza deles ou que a celebridade universal de Robinson Crusoe. Mas. Nunca nos ter ocorrido que havia uma pessoa como Defoe. Parte disso podemos atribuir ao fato de nos terem lido Robinson Crusoe em voz alta quando éramos crianças. a lápide foi gravada em memória do autor de Robinson Crusoe. Nenhuma menção foi feita a Moll Flanders. As impressões da infância são as que se conservam por mais tempo e mais profundamente penetram. conclamou os "meninos e meninas da Inglaterra" a erigir um monumento sobre a sepultura de Defoe. Capitão Singleton. nem ter sido contado que Robinson Crusoe era o trabalho de um homem com um lápis nas mãos tampouco nos teria afligido desagradavelmente ou significaria algo. Considerando os temas tratados neste livro. e foi praticamente o mesmo estado de espírito diante de Defoe e sua história que os gregos tiveram diante de Homero. exista só a partir de um período de tempo tão curto. Coronel Jack e os demais. e durante a celebração deste centenário seria bom que pensássemos logo na celebração dos centenários de Stonehenge. Wright. que o nome de Daniel Defoe não tem o direito de aparecer na folha de rosto de Robinson Crusoe. os tenha levado a ser bem menos famosos do que merecem. no ano de 1870. É possível concordarmos com Mr.no céu? 49 DEFOE" O medo que sente o memorialista de centenários de se descobrir medindo um fantasma cada vez menor e de ser forçado a vaticinar sua dissolução próxima não só inexiste no caso de Robinson Crusoe como a mera referência a isso é ridicularia. e que. o eterno e imortal. pelo menos. como Stonehenge. deveriam estar entalhados com tanta força quanto o de Defoe. é seguro afirmar. destruída por um relâmpago. não nos são lidos em voz alta quando somos crianças. (Nota da edição inglesa. inclusive. a sensação predominante neste bicentenário é a de nos maravilhar com o fato de que Robinson Crusoe. ele continua existindo. e em Roxana. que estes títulos "não são obras para a mesinha no centro da sala". a menos que concordemos em fazer desta peça do mobiliário o árbitro final do gosto. A fama grandiosa do livro causou a seu autor certa injustiça.

tornou-se aprendiz de batedor de carteira".chamar indiscutivelmente de grandes. * Ele passou dezoito meses em Newgate e conversou com larápios. exposta às circunstâncias e obrigada a mudanças por si mesma." Roxana começa sob os melhores auspícios. Felizmente estes foram princípios que se coadunaram muito bem com sua disposição e seus dotes naturais. casando-se aos quinze. exceto que ele partiu para os manuscritos do romance com certas concepções próprias sobre a arte resultantes em parte de ter sido ele um dos primeiros a praticá-la. o resultado de pura sorte e de seus próprios esforços. e a sobrevivência. e um dos primeiros a verdadeiramente dar um formato ao romance e a projetar seu caminho. "Completar uma narrativa com invenções é certamente o crime mais escandaloso". por conseguinte. O romance tem de justificar sua existência por contar uma história 51 verdadeira e pregar uma moral sólida. "E um tipo de mentira que produz um grande buraco no coração. escreveu: No mau hás tasted differing fortunes more. e que este seu propósito representava o desejo altamente moralizante de converter o mau ou de alertar o inocente. é desnecessário pesquisar os eventos precedentes. Mas os fatos lhe serem empurrados por força da vida ou por acidente é uma coisa. Coronel Jack. Não se trata apenas de Defoe ter conhecido a violência da pobreza e conversado com suas vítimas. embora "um fidalgo de berço. Moll Flanders nasceu em Newgate de uma mãe criminosa. pode ser acatada como consistente. Capitão Singleton quando criança foi furtado e vendido aos ciganos. atraiu-lhe no plano imaginativo como a matéria adequada à sua arte. Defoe era um homem idoso quando se tornou romancista. pelo qual pouco a pouco o hábito de mentir vai penetrando". antecessor em muitos anos a Richardson e Fielding. . que tanto têm em comum com a deste outro. engoli-los com avidez e lhes preservar intacta a marca característica. Os fatos tinham lhe instruído por sessenta anos de variada sorte antes que aproveitasse sua experiência para contar na ficção. piratas. mas de que a vida desprotegida. Entretanto. ele reduz seu herói ou sua heroína a um tal estado de desconsolada miséria que a existência deles precisa ser um empenho permanente. vê seu marido ir à bancarrota e é largada com cinco filhos nas "mais deploráveis condições que as palavras podem expressar". ladrões de estradas e falsificadores de moedas antes de escrever a história de Moll Flanders. é outra. "Homem algum provou fortunas tão diversas/E treze 52 vezes rico e pobre já fiquei. A ocasião do bicentenário do companheiro mais famoso nos levaria a considerar em que a grandeza deles. "Há algum tempo resumi as cenas de minha vida neste dístico". And thirteen times I have been rich e poor. Seja no prefácio ou no corpo do texto de cada um de seus trabalhos. escreveu. ele insistiu em que não recorreu de forma alguma à sua inventividade mas se fiou nos fatos. Nas primeiras páginas de cada um de seus grandes romances. mas.

que foi sempre alegre. ao transgredir as leis estabelecidas quando ainda muito jovem. permite-se um momento de 53 desespero. é agrilhoada por "aquele pior dos demônios. Ela tem um espírito que adora enfrentar a tormenta. a exemplo de todas as mulheres de Defoe. nem pode alguém acusá-la de leviandade. Quando descobre que o homem com quem se casou na Virgínia é seu próprio irmão se amargura intensamente. assim que põe o pé em Bristol. e isto foi o mais penoso para mim. insiste em deixá-lo. ainda que desafortunadamente. há qualquer coisa de incontestável em sua verdade quando é dita. sua ambição possui aquele leve traço de imaginação que a insere na categoria das emoções nobres. e daí "segue a história". conduzida de lugar em lugar. continuava a sê-lo e muito bem". ela é ainda perseguida pelo desejo de aventura e pela qualidade que a faz perceber em cada homem um cavalheiro.Assim. e evita o perigo óbvio dos romances de aventura. ela ter adquirido dali em diante a liberdade do proscrito. se apaixonando. Que ela deva se reerguer e casar com algum outro e observar bem atentamente as intenções dele e chances de sucesso futuro não é menosprezar sua paixão. e. A partir do fato de não manifestar qualquer escrúpulo ao contar mentiras quando convenientes aos seus propósitos. mas ser marcado por um fardo de nascença. Ela sente prazer em exercitar seus poderes. Ele nos faz compreender que Moll Flanders era um mulher que se bastava e não apenas matéria para uma sucessão de aventuras. a pobreza". Perspicaz e adestrada pela necessidade. mas a vida a encanta. O único acontecimento impossível é que sossegasse com conforto e segurança. ela é uma figura de inteligência vigorosa. Há mais consolo em ser arruinada por um cidadão honrado que por um salafrário". "me dei o descanso de ir a Bath. Moll Flanders. forçada a ganhar a vida tão logo pudesse costurar. a mais notável de todos. . "Era realmente um verdadeiro espírito galante. Prova disso é que ela começa. cada um destes meninos e meninas tem o mundo pela frente e uma batalha para enfrentar sozinho. sem exigências a seu criador pela atmosfera doméstica sutil que ele não conseguia suprir mas dele extraindo tudo que ele soubesse sobre pessoas e costumes diferentes. Desde o começo. cai uma lágrima. Desde o instante exato de seu nascimento ou com um intervalo de seis meses no máximo. Mas desde o princípio o gênio peculiar do autor se declara. A vivacidade da história deve- se em parte ao fato de. pois estava ainda muito longe de ser uma velha e meu humor. como Roxana também começa. Ela não tem tempo a desperdiçar com requintes de afeição pessoal. o peso de provar seu direito de existir é jogado sobre ela. Ela deve contar inteiramente com sua própria sagacidade e discernimento. Além do mais. e negociar com cada situação crítica como se ela surgisse de uma norma moral utilitária maquinada em sua própria cabeça. A situação criada a partir daí era inteiramente ao gosto de Defoe. mas. Impiedosa ela não é. e a heroína que encarna nos domina.

Uma vez que o registro das qualidades e virtudes desta velha e experimentada pecadora de forma alguma se completa. Por seguir este espírito ela pôde sentir orgulho de seu último companheiro. quando não afirmava. cruel. e a paixão com que ela beijou o chão que seu filho pisara. preferindo caçar. ele se desculpa pela digressão. arrogante. como o ladrão em Newgate. Encontramos por nós mesmos significados que ele foi cuidadoso em disfarçar até mesmo de seus próprios olhos. como se a despeito do autor e não completamente ao seu gosto. quando no auge. pois ele se recusa a trabalhar quando chegam às plantações. A interpretação que atribuímos a seus personagens pode entretanto muito bem tê- lo confundido. Ele nunca se demora ou reforça qualquer lance de sutileza ou compaixão. Ele parece ter arrancado seus personagens de tão fundo da mente que lhes deu vida sem saber exatamente como. Nem podemos acreditar que Defoe houvesse decidido cada um dos passos de sua infratora.escreveu ao ser iludida por um forasteiro num dos lances de seu destino. um mero jornalista e contador literal de fatos desprovido de qualquer concepção de natureza psicológica. leu-o até que seus olhos doessem. um elegante cavalheiro". não possamos falar disso durante o nosso sono. e a exemplo de todos os artistas inconscientes. e a injustiça praticada contra elas. Sua verdadeira preferência pelas altas temperaturas é coerente. É verdade que seus personagens ganham forma e substância por suas próprias conveniências. e sua nobre tolerância diante de toda espécie de imperfeição desde que não fosse "completa baixeza de espírito. No entanto. A partir dos indícios fornecidos por seu ensaio sobre a "Educação de Mulheres" ficamos sabendo que ele refletiu com profundidade e muito além de seu tempo sobre as obrigações femininas. ou que ignorasse que ao tratar da vida dos abandonados. mas os imprime impassivelmente como se tivessem chegado ali sem seu conhecimento. É por isso que mais admiramos Moll Flandres do que a censuramos. e deve ter sentido prazer em comprar para ele perucas e punhais com cabo de prata "para fazê-lo parecer. como de fato era. respostas totalmente em desacordo com as suas profissões de fé. que ele repreendeu com aspereza. e que Borrow. como tem sido acusado de ser. deixa mais ouro em sua obra do que tudo o que sua geração foi capaz de trazer à tona. Um toque de imaginação. Depois da dissertação curiosamente moderna sobre a necessidade de se comunicar assuntos de importância a uma outra pessoa para que. despertava muitas questões sérias e insinuava. como aquele em que o Príncipe se senta à cabeceira de seu filho e Roxana observa como "ele adorava vê-lo adormecido". 55 . mantendo o livro bem escondido na sua barraca. nos demoramos sobre 54 tais características da personagem somente como uma maneira de provar que o criador de Moll Flanders não era. e implacável. abjeta e mesquinha quando por baixo". podemos compreender muito bem como foi que a mulher de Borrow em London Bridge chamou-a de "Santa Maria" e valorizava seu livro acima de todas as maçãs de sua banca. que ele avaliou muito altas. Para o restante do mundo ela nada dedicava senão boa vontade. parece significar muito mais para nós que para ele.

estou confiante de que tendo elas as vantagens da educação equivalentes às nossas. é melancólico. Todavia Defoe é o último escritor a ser acusado de fazer pregações triviais. Roxana. dizia Moll Flandres. ou como quem escreveu cenas que (curiosas associações de idéias acontecem) remetem às peças de Ibsen. Tendo desde o princípio limitado seu objetivo e circunscrito suas ambições. Ele omite o conjunto da natureza vegetal. e a determinação de "ocupar seu espaço". Mas isto não enfraquece o mérito peculiar do que permanece. a que o leva a tratar com a face importante e permanente das coisas da vida e não com o passageiro e trivial. o de negar às mulheres as vantagens do saber. elas são um produto incidental de sua principal virtude. aclamar Moll Flandres e Roxana entre suas santas padroeiras. nem. Quaisquer que fossem suas idéias sobre a posição das mulheres. Os defensores dos direitos das mulheres apreciariam bastante. Roxana mantém nossa atenção pois é abençoadamente inconsciente de que é. em larga medida. Freqüentemente. conquanto tenhamos de admitir defeitos de igual gravidade em muitos escritores a quem chamamos grandes. Ele é capaz de imitar com a verdadeira precisão de um cientista viajante ao ponto de imaginarmos que sua pena poderia traçar ou sua inteligência conceber algo que não tem sequer a desculpa da verdade para suavizar sua aspereza. admitindo que estamos em um país civilizado e cristão. e grande parte da natureza humana. um exemplo para seu sexo e. uma moça de mesmo credo. o comerciante disse. "pitorescos". argumenta com mais sutileza contra a escravidão do matrimônio. portanto. Coragem. que aquele reconhecimento origina. ele conquista uma verdade da percepção que é bastante mais rara e mais duradoura do que a verdade factual que ele proclamou ter como objetivo. talvez. Repreendemos o sexo todos os dias com desvario e impertinência. era do que precisavam as mulheres. "era uma maneira de argumentar contrária à prática geral". porque eram . elas iriam ser menos incriminadas do que nós. como ele afirmou.Sempre encarei isso como um dos mais bárbaros costumes do mundo. Moll Flanders e seus amigos o atraíram não porque eram. Tudo isto podemos admitir. de maneira alguma". e além disso é claro que Defoe não apenas pretendeu que exprimissem algumas doutrinas muito modernas sobre o assunto mas as colocou em circunstâncias em que seus malogros peculiares são expostos de maneira a fazer aflorar nossa simpatia. O reconhecimento de suas próprias fragilidades e o questionamento honesto de seus motivos. livre para admitir que parte dos argumentos dela é "de um estilo elevado que de fato não aparecia em meus pensamentos a princípio. como diríamos. Ela "iniciou uma novidade no mundo". garantem o feliz resultado de mantê-la jovem e humana quando os mártires e pioneiros de tantos romances problemáticos minguaram e se reduziram a migalhas e minúcias de seus respectivos credos. Mas o direito de Defoe a nossa admiração não se baseia no fato de que ele pode ser apresentado como quem antecipou alguns dos pontos de vista de Meredith. e imediatamente deu uma demonstração prática dos benefícios que poderiam resultar.

à escola dos grandes escritores. que despertou seu interesse. na natureza humana. As moças maltrapilhas com violetas nas mãos nas esquinas das ruas. Quanto à bisbilhotice. e não meramente um discípulo na mesma posição atrasada da aprendizagem. sobretudo. o desembaraço e a tenacidade deles encantaram-no. A visão de Londres da Hungerford Bridge. apenas para ela confidenciou suas esperanças e. exceto seus romances. Mitford. parecem personagens de seus livros. 57 Ele pertence. de fato. se o boato é verdadeiro. nada teríamos de Jane Austen.. o maior desgosto de sua vida. algumas cartas. compacta. Em seguida temos Mrs. a duras penas. e tomada pela contida agitação do trânsito e dos negócios. de confiança mútua e de uma moralidade comezinha.. Pode-se objetar que Defoe seja enfadonho. ela incinerou. e vida em si. semeada neles por uma vida de privações. nenhum doce refúgio obscureceria suas razões. e por causa disso até hoje eles mantém sua vitalidade intacta. mas quando Miss Cassandra Austen envelheceu. bisbilhotice que tem sobrevivido à sua época. Para eles. cuja obra se funda sobre o conhecimento do que há de mais persistente. A pobreza era o tirano. e seus livros. Mesmo o sórdido assunto do dinheiro. nunca é desprezível.exemplos de uma vida desgraçada de que o público tiraria proveito. toda e qualquer carta que pudesse satisfazer a curiosidade deles. mas seu fundador e mestre. Jane é excêntrica e afetada". trazem- no à mente. embora nem sempre mais sedutor. surge nada sórdido mas trágico quando significa não conforto e suas conseqüências mas honra. de histórias divertidas. 58 JANE AUSTEN É provável que se tudo fosse como Miss Cassandra Austen queria. e o crescimento da fama de sua irmã lhe fez suspeitar de que poderia chegar um tempo em que estranhos viriam fazer perguntas e doutores viriam especular. que conheceu . não havia desculpas. que aparece bem à margem de suas histórias. circunspecta. Estes homens e mulheres eram. Foi a veracidade natural. honestidade. banal se não fosse pelos mastros dos navios e as torres e altos edifícios da cidade. diz Philadelphia Austen de sua prima. e preservou somente o que julgou trivial demais para interessar. diferente de uma moça de doze anos. Ele descobriu esse pessoal cheio de bons diálogos. ela serve admiravelmente a nossos propósitos. Por esta razão nosso conhecimento sobre Jane Austen é proveniente de pequenas bisbilhotices. apreciou e observou com admiração em sua própria vida. mas nunca que ele tenha se ocupado com coisas insignificantes. e as senhoras maltratadas pelo tempo pacientemente mostrando seus fósforos e cadarços ao abrigo dos arcos. Mas a coragem. Defoe pronunciou não mais que um juízo acurado sobre suas falhas. O destino deles possuía aquela versatilidade infinita que ele exaltou. livres para falar abertamente das paixões e desejos que têm movido homens e mulheres desde o começo dos tempos. cinzenta. Apenas para sua irmã mais velha escreveu com liberdade. Por exemplo. com uma certa ordenação. Há uma dignidade em tudo que é olhado abertamente. Jane "não é de todo bonita é muito esguia. Ele é da escola de Crabbe e de Gissing.

Amor e Amizade. era nada mais nada menos que a autora de uma surpreendente e original narrativa. de Philander e Gustavo. de mães famintas e seus filhos que encenavam Macbeth. foi escrita aos quinze anos. de quem uma cópia perfeita jamais teriam expectativa de ver. a seu irmão. Foi escrita.. uma das histórias do livro é dedicada. a história deve ter levado . uma delineadora de caráter. outra é nitidamente ilustrada com figuras de aquarela por sua irmã. há uma amiga anônima de Mrs. Irmãos e irmãs devem ter-se divertido quando Jane leu em voz alta sua última investida aos maus hábitos que eles todos detestavam. Indubitavelmente. O caso é bem diferente agora". Adiante.. Estas são brincadeiras que. do roubo do dote que estava guardado na gaveta da mesa. sente-se. Cuidado com os Swoons. para contar as aventuras inacreditáveis de Laura e Sofia. até Orgulho e Preconceito haver revelado que pedra preciosa se ocultava naquela figura inflexível. Eram ligados a ela por seu talento.. mas não desmaie. que ficavam dentro de casa pois as jovens Austens zombavam juntas das mocinhas elegantes que "suspiravam e se espichavam no sofá". mais frívola de que se possa lembrar".. Faça as loucuras que quiser.* que. escrupuloso e taciturno exemplar de celibatária que jamais existiu. Laura querida. e suas maneiras sedutoras. há os Austens.." E acelerava. Uma arguta. claro. suas virtudes. adorada em casa mas temida por estranhos. aquela menininha esguia que Philadelphia achou tão diferente de uma garota de doze anos.estes contrastes não são de forma alguma incompatíveis. inacreditável quanto possa parecer. Chatto and Windus. e quando nos voltamos para os romances nos encontramos tropeçando também ali sobre as mesmas complexidades da escritora. e cada um adoraria mais tarde reconhecer em alguma sobrinha ou filha uma semelhança com a dileta irmã Jane. aparentemente. e não obstante. que pouco fala. do fidalgo que guiava um coche entre Edinburgo e Stirling todos os dias. e que.mas uma intrometida a quem todos temem. tiradas satíricas. tão rápido quanto conseguisse escrever e mais veloz do que era * Lave and Friendship. língua mordaz mas meiga de coração . para distrair a turma na escola. a boa moça prossegue. Mitford "que a visita há pouco [e] diz que ela se firmou como o mais correto.. com zombeteira solenidade." Sedutora mas correta. os irmãos dela "lhe foram muito apegados e muito orgulhosos dela.. é na verdade um terror!" Por outro lado. uma estirpe um tanto inclinada ao panegírico de si mesma.) 60 capaz de falar.. excêntrica e afetada. mais delgada. Um desmaio fatal custou-me a vida. pertencem ao repertório familiar. (Nota da edição inglesa. ela era vista em sociedade não mais do que uma intrometida ou livre-atiradora. Antes de tudo. "Morro martirizada pela perda de Augusto. "ela ainda é uma intrometida .as Austens ainda garotas e considerou Jane "a mariposa à caça de maridos mais elegante. contam.

desde muito jovem Jane Austen esteve escrevendo. Quando a escritora. Ficamos sabendo disso pelo ritmo. Nunca. Riem quando Mr. aos quinze ela tinha algumas ilusões sobre as outras pessoas e nenhuma sobre si mesma.do outro lado. pela beleza e pela exatidão de suas frases. nada é mais óbvio que esta moça de quinze anos. que esnoba. Jane Austen. e a pobre Maria. Mas Jane Austen sabia disto desde o dia em que nasceu. ela sabia não apenas como o mundo parecia ser. apontando com sua varinha. Mas estão chorando no momento seguinte. Ela estava escrevendo para todos. Seu olhar mirava certeiro o alvo. E assim. Ela é impessoal. não cobiçaria qualquer outro. Não se fixam num ponto de onde vejam que há alguma coisa eternamente risível na natureza humana. Meninas de quinze anos estão sempre rindo. terminam ali. Assim. e a linha fronteiriça é perfeitamente precisa. e sabemos precisamente onde.a sala de aula a uma ruidosa gargalhada. Quase morrem de rir quando a velha Mrs. Uma daquelas fadas que pousam sobre os berços deve ter sobrevoado o mundo com ela precisamente na hora em que nasceu. Tudo o mais que escreva é concluído. parece haver dito. para sua época. são figuras permanentes em qualquer baile." Uma frase como esta tem um significado que excede as férias de Natal. mas desde então já havia 61 escolhido seu reinado. Compreendeu que se dominasse aquele território. Jane Austen. nem para consumo doméstico. mas que marca é essa que nunca desaparece no conjunto. ela é inescrutável. mesmo na idade emotiva dos quinze anos. em seu canto. sentando-se em seu canto de estimação na sala de visitas. do mundo. que soa distinta e penetrantemente em todo o volume? É o som das risadas. Quando foi colocada no berço novamente. para si própria. para ninguém. Binney se serve de sal em vez de açúcar. o alvo está. Tomkins senta-se sobre o gato. suprimiu algum sarcasmo num espasmo de compaixão. em outras palavras. -Amor e Amizade é tudo isso. refletido e pautado em suas relações. no mapa da natureza humana. ou embaçou um perfil com uma névoa de exagero. a esnobada. "Ela nada era além de uma simples jovem bem disposta. E até criou . fácil.era somente uma coisa desprezível. cheio de graça. Espasmos e exageros. ela constrangeu-se envergonhada. Não sabem que Lady Greville. Mas ela não nega que luas e montanhas e castelos existam . no limite entre a liberdade e o nonsense absoluto. mas com o universo. Sabemos por que Jane Austen manteve-se concisa. como tal não podíamos sequer nos antipatizar com ela . escreveu na cena mais excepcional do livro um trecho do diálogo de Lady Greville. estivesse escrevendo não para arrancar risadas de irmãos e irmãs. não há qualquer traço de raiva diante do esnobismo com que a filha do clérigo. nunca transgrediu seus limites. certa vez foi tratada. Espirituoso. A menina de quinze anos está rindo. prestativa e educada. alguma qualidade nos homens e nas mulheres que está sempre a excitar nossa sátira. não com o personagem.

escrito secretamente ao abrigo de uma porta que rangia. Ela realmente admirou-a muito. Mrs. Knight e eu.seu próprio romance. graças a algum motivo a rápida cena perde todo o equilíbrio diante da sua solenidade superficial. tom Musgrave retira-se para uma esquina distante com uma tigela de ostras e está notavelmente agasalhado. Mrs. deixou-a inacabada. Tornou-se "a mariposa à caça de maridos mais afetada". Mas o milagre deve ter-se completado. sobre o Duque de Wellington. ela nos pode contar que Charles está "se protegendo com suas luvas e assegurou que as manteria". permaneceu por muitos anos inédito. estamos possuídos por uma intensidade peculiar que somente ela pode oferecer. Um pouco mais tarde. não muito depois. acréscimos e artifícios habilidosos. "Uma das principais personalidades do mundo". ela vai tateando. conseguiu. "uma cativante Princesa cujo único amigo era então o Duque de Norfolk. teve de criar a atmosfera em que seu gênio peculiar e específico pudesse dar frutos." com estas palavras seu encantamento fica nitidamente circunscrito. e rodeado por um sorriso. Os trabalhos de segunda categoria de um grande escritor são dignos de serem lidos pois 62 propiciam a melhor avaliação de suas obras-primas. E sobre a Rainha da Escócia. Imediatamente nossos sentidos se excitam. Aqui percebemos que ela não fazia mágicas afinal de contas. ela iniciou outra narrativa. A mocinha esguia cresceu. a história insípida de quatorze anos da vida familiar deve ter sido convertida em algumas daquelas primorosas e aparentemente despretensiosas introduções. Ali suas dificuldades ficam mais aparentes. na casa paroquial do norte. a autora do romance chamado Orgulho e Preconceito. nos deixa na expectativa. Mrs. Fomos preparados para observar que se Emma se comportou assim no salão de baile de que maneira atenciosa. por acaso. Como isto deve ter sido feito não podemos afirmar . De repente. A carruagem dos Tomlinsons está passando. e catastroficamente. agora as coisas podem acontecer como ela gosta que as coisas aconteçam.por quais supressões. Além disso. e. Como outros escritores. alguns casais se encontrando e se dando as mãos numa sala de reuniões. que. e o método que adotou para superálas menos engenhosamente disfarçado. Contudo. Whitaker. ali. classificou-a. presume-se. e agora somos Mr. e tendo ficado por alguma razão insatisfeita. e jamais adivinharemos que páginas do maçante trabalho preliminar Jane Austen forçou sua pena a enfrentar. Aqui. Os Edwardses estão indo ao baile. É interessante relembrar em que termos as jovens Brõnte escreveram. um rapaz sendo esnobado por uma jovem senhora e tratado com amabilidades por outra. O gênio dela está liberto e ativo. Lefroy. a dureza e o despojamento dos primeiros capítulos provam que ela era uma daquelas escritoras que dispõem seus fatos de maneira bem crua na primeira versão e depois voltam e voltam e voltam e os encobrem de humanidade e atmosfera. Não há tragédia nem heroísmo. um pouco de comida e de bebida. A princípio. inspirada por qual sinceridade de sentimentos ela deve ter-se mostrado naquelas crises . Mitford já relembrou. de que tudo isto se compõe? De um baile em uma cidade interiorana. The Watsons. suave.

uma insignificante. meio no futuro. Sempre a ênfase recai sobre um personagem. ela não conseguia. Nossa atenção está meio no momento presente. Jane Austen é portanto uma mestra muito mais das emoções profundas que das que se revelam na superfície. decerto. Mas a bisbilhotice diz de Jane Austen que ela era correta. um jantar festivo. por si mesma. diversifica as emoções e a simetria das partes de tal maneira que é possível se deleitar. estavam um pouco secos e um pouco empoeirados. exatamente quando Mary estiver trazendo a bandeja e o faqueiro? Eis uma situação extremamente embaraçosa. Há a qualidade permanente da literatura. estão todos os elementos da grandeza de Jane Austen. um chá festivo. estavam de fora. Pense. na cena do salão de baile. e nada é desconsiderado. pés molhados e a uma tendência por parte das senhoras à fadiga. inferior. uma ninharia. com paciência e meticulosamente ela nos conta como eles "não paravam em lugar algum até . adiante da movimentação superficial. Os rapazes estão acostumados a um refinamento muito maior. Retire isso também da cabeça e qualquer um pode discorrer longamente com extrema satisfação sobre a arte mais abstrata que. vulgar. nos mobilizamos como se tivéssemos sido vitoriosos em um assunto da mais alta importância."uma intrometida a quem todos temem". Emma pode mostrar-se malcriada. e um piquenique ocasional. Emma se comporta de forma a justificar nossa mais elevada confiança nela. e não como uma conexão que leva a narrativa para um lado ou para outro. Emma se comportará quando Lord Osborne e tom Musgrave lhe telefonarem às cinco para as três. com humildade e alegria. aventuras. Ela nos estimula a completar o que não está lá. de nada ela se esquiva. aparentemente. Aqui. As idas e vindas do diálogo nos mantém na ansiedade do suspense. em si mesmos. é uma das mais consistentes satiristas de toda a literatura. chegam inevitavelmente diante de nossos olhos. Havia a casa maior e a casa menor. E quando. nesta narrativa inacabada e. como alguém se deleita com poesia. somos impelidos a descobrir. um raro discernimento dos valores humanos. como Emily Brontê. ainda que composta de alguma coisa que se expande na mente do leitor e contém a forma mais permanente de vida em cenas que são externamente triviais. às estradas enlameadas. paixões. algumas pequenas conseqüências. em grande parte. a vida se restringia às relações valiosas e aos rendimentos adequados. ela recolheu gravetos e palhas para construir o ninho e os juntou muito bem. na semelhança com a vida. Aqueles primeiros capítulos desajeitados de The Watsons com- 64 provam que o talento dela não era prolífico. O que ela oferece é. 63 mais graves da vida que. para garantir um prazer mais profundo. Como. de toda esta pequenez. simplesmente abrir a porta para se sentir emocionada. escrupulosa e taciturna . e lá se conserva. e na educação comumente apreciada pelas famílias da alta classe média habitante do campo. Mas de todo este prosaísmo. Os gravetos e a palha. como vimos. Sobre isso também há indícios. ela pode ter sido inclemente o bastante. Vícios. baseava-se em alguns poucos princípios. no final.

nenhuma desculpa é encontrada para eles e nenhum perdão. pois ele parte do padrão de sanidade e sentido que ela tem na cabeça. suas intrometidas. Grant. ou moveria um tijolo ou uma gramínea num mundo que lhe proporciona tão extraordinário prazer. Por vezes. Ela os envolve com o chicote de uma frase lancinante que. Mas ali permanecem. devido a três jantares monumentais em uma semana". Ela se satisfaz. As pessoas são assim . e nos transporta. Esta qualidade ardilosa é. está quieta. é na verdade um terror!" Ela não deseja corrigir nem aniquilar. suas Mrs. Pois mesmo se as estocadas da futilidade excessiva ou as brasas da indignação moral nos incitassem a aperfeiçoar um mundo tão repleto de maledicência. seus Sir Walter Elliotts. Um após outro ela inventa seus tolos. Bennets. uma delineadora de caráter. Nada sobra de Julia e Maria Bertram após o encontro que teve com elas. onde uma refeição reconfortante. à medida que os laça. na maioria das vezes a atitude dela resgata a exclamação feminina anônima . é como se suas criaturas tivessem nascido meramente para ofertar a Jane Austen o supremo prazer de decapitá-las. mesmo enquanto nos faz rir. acaba provocando "apoplexia e morte. a tarefa estaria além de nossas forças. parece impedida pela santidade do ofício dele ao livre uso de seu instrumento principal. fica contente. seus mundanos. Tampouco ela rendeu às convenções meramente o tributo de uma homenagem fingida. Seu tolo é um tolo. nós conseguiríamos. encerrava os divertimentos e as fadigas do dia". um farto ajantarado. ela não alteraria um fio de cabelo na cabeça de alguém. sem sombra de dúvida. A argúcia de Jane Austen tem como cúmplice a perfeição de seu requinte. como Edmund Bertram. Neste exato momento alguma Lady Bertram está tentando manter Pug longe do canteiro de flores. que necessitam de um gênio peculiar que os reúna. Quando descreve um vigário. Dr. Jamais algum romancista fez melhor uso de um senso impecável de valores humanos. Collinses.uma jovem de quinze anos soube disso. A beleza ilumina estas tolices. que pouco fala.alcançarem Newbury. É contra a linearidade de um coração . a mulher madura o confirma. por mais consistente que seja. O prazer estranhamente se confunde com nosso divertimento. ela envia Chapman para auxiliar Miss Fanny um pouco tarde. nem insinuação de maledicência nos despertam de nossa contemplação. que. Mas são exceções. e isto é na verdade um terror. Nenhuma sensação de mesquinharia. e tende portanto a escorregar no panegírico elogioso ou na descrição trivial. seus Mr. acreditou nelas além de aceitá-las. sua esnobe é uma esnobe. o talento cômico. O discernimento é tão perfeito. recorta-lhes a silhueta para sempre. na verdade. que começa parecendo um néscio."Uma arguta. a sátira tão acertada. em particular. sempre constituída de muitos elementos. mesquinharia e leviandade. A justiça divina é distribuída. quase escapa à nossa atenção. Nem. decerto. ou um marinheiro. Lady Bertram é deixada "sentada e chamando Pug e 65 tentando impedi-lo de se aproximar do canteiro de flores" eternamente.

Mas. nenhum romance. Não pôde incluir-se de coração aberto em uma situação romântica. e qual era o material que melhor se adequava como material a ser tratado por uma escritora cujo padrão de caráter era superior. é meio-dia em Noithamptonshire. mas para o mundo em geral. profundo. vibrante. a complexidade de suas cenas. e danças provincianas? Nem "sugestões para alterar seu estilo de escrever" do Príncipe Regente ou Mr. da frivolidade. mas uma parte inseparável dele. incandesce. um jovem melancólico está conversando com uma mocinha frágil nas escadas em que sobem para se vestir antes de um jantar. com as empregadas passando por perto. De tais contrastes provêm a beleza. Haveria algo mais natural. torna-se um dos mais inesquecíveis em suas vidas. Em The Watsons ela nos oferece um aperitivo deste poder. torna-se tão cheio de significado. não pôde colocar uma menina conversando entusiasmadamente sobre bandeiras e igrejas. e o momento. do que Jane Austen ter escolhido escrever sobre as trivialidades da existência cotidiana. e imediatamente toda a tagarelice de Mary Crawford. sereno por um segundo. Faz uma algazarra contra o clero. e este lampejo. e nunca escreveu para o Príncipe Regente ou seu bibliotecário. Daí a profundidade. uma moralidade quase de pedra. mascarar uma discrição infalível. bem discretamente. Nelas nada há fora do lugar. com percepções desta profundidade. ou em defesa de baronetes e de dez mil por ano. que são não só tão notáveis quanto seu talento. de festas. Ela retrata uma Mary Crawford em sua mistura de bondade e maldade totalmente desta 66 forma. Clarke poderiam seduzi-la. A menina que emitiu suas opiniões com tanto refinamento aos quinze anos nunca desistiu de 67 fazê-lo. um bom gosto que não falha. mas de vez em quando ela surpreende com uma informação pessoal.que não erra. nos faz imaginar por quais motivos um gesto rotineiro de generosidade. a empregada passa. mas em tom perfeito. da forma como ela observou. da verdade e da sinceridade que estão entre as mais refinadas manifestações da literatura inglesa. De fato. Ele se completa. emoções que sem qualquer esforço ou artifício puderam ser bem tratadas e retratadas por suas habilidades peculiares. Em suas obras-primas. nem política ou intrigas teriam a mesma importância que a vida em uma casa de campo com escadarias. nem aventuras. portanto. para ambos. o Príncipe Regente e seu bibliotecário voltaram suas atenções contra um formidável obstáculo. Ela soube exatamente qual era seu poder. do lugar comum. o mesmo dom é levado à perfeição. como ela o descreve. Houve impressões que se estenderam para fora da província. brilha. Por exemplo. Usou todas as espécies de truques para escapar de cenas . em que toda a felicidade da vida se encerra. suas palavras irrompem subitamente plenas de sentido. projeta-se à nossa frente. no instante seguinte. com todo o desembaraço e o entusiasmo possíveis. ressoa oca. a solenidade mesmo. tentavam falsificar uma consciência incorruptível. embora continue a divertir. a beleza. suavemente se reduz para fazer parte de novo do lufa-lufa da existência cotidiana. que ela vem-nos revelar aqueles desvios da generosidade. piqueniques.

enquanto sentimos que Jane Austen já fez isto antes. com uma força inventiva de grande vitalidade. e não as registra com tanto vigor. Fala da "influência tão doce e tão triste dos meses outonais no campo". tivesse vivido mais. Ela . Sentimos que isto é verdadeiro para ela quando diz de Anne: "Ela foi compelida à prudência em sua juventude. crua. Mas. com toda simplicidade. Entretanto. "Não se ama um lugar menos porque nele se sofreu". e suave. e é tentador considerar se ela não teria escrito de forma diferente. A escritora está ligeiramente cansada. à medida que lemos as frases pouco formais sobre "o esplendor de uma noite clara e o contraste com a densa sombra das árvores". em sua íntima alegria e em seu estilo brilhante. 68 A melancolia é aquela que com freqüência caracteriza o estágio de transição entre dois diferentes períodos. Ela amadureceu muito próxima das trilhas de seu mundo. não pode haver dúvida de que ela teria escrito mais. mais misterioso e mais romântico do que supunha. Entre seus romances concluídos não se encontram falhas. a qualidade. apesar de tudo. e castelos situam-se do outro lado. Destaca "as folhas amareladas e as cercas-vivas ressequidas". que fez Dr. e fascinante" quanto ela nos conta. o último romance concluído. que era. Abordou a natureza e seus encantos como um prolongamento de si mesma. e tomou conhecimento das aventuras do coração ao envelhecer . Estava ainda sujeita àquelas mudanças que em geral fazem o período final da carreira de um escritor como o mais interessante de todos. a noite é de imediato tão "solene. Sua atitude diante da vida em si se alterou. também sentimos que está tentando fazer alguma coisa que nunca houvera experimentado. Ela está começando a descobrir que o mundo é maior. e entre muitos capítulos poucos decaem visivelmente em relação ao nível dos demais. a contemplar uma sutil viagem de descoberta? Peguemos Persuasão. observa. talvez. e vejamos por seus indícios que livros ela teria escrito tivesse ela vivido. Whewell se inflamar e insistir que era "a mais bela de suas obras". A sátira torna-se cruel. Há uma beleza peculiar e uma peculiar melancolia em Persuasão. Há uma aspereza em seu humor que insinua que ela quase desistiu de se interessar pelas futilidades de Sir Walter ou pelo esnobismo de Miss Elliott. Mas ela não seria vez por outra tentada a ultrapassar a fronteira por um minuto? Não estaria ela começando. Há um novo elemento em Persuasão. irreprimível. Ela descreve uma noite encantadora sem nem por uma vez mencionar a lua.de paixão. a graça. quando se habituara a se deter na primavera. sobre o outono. e o fez melhor.a conseqüência natural de um começo desnatural. montanhas. Sua cabeça não está completamente no assunto. luas. Ela vai se distanciando cada vez mais das distrações da vida cotidiana. Mas não é somente nessa nova sensibilidade diante da natureza que detectamos a mudança. Os limites estavam definidos. Morreu no auge de sua capacidade." Ela discorre com freqüência sobre a beleza e a melancolia da natureza. Esperta. Mas. ela morreu aos quarenta e dois anos. O equilíbrio de seus dons era singularmente perfeito.

porém mais profundo e sugestivo. menos como indivíduos. Portanto a observação é menos de fatos e mais de sentimentos do que o usual. a escritora cujos livros são imortais. também. na maior parte do livro. Sua veia cômica teria sofrido. claro e sereno como de costume. em uma conversa breve de poucos minutos. resultante de algo sério. viajado. Vãs são estas especulações: a mais perfeita artista dentre as mulheres. Ela teria ficado em Londres. Teria acreditado menos (isto é quase perceptível em Persuasão) no diálogo e mais na reflexão para nos dar conhecimento de seus personagens. Não teria arremetido contra o despropósito de editores ou contra a adulação de amigos da sujeira ou da insinceridade. método aleatório que contém capítulos de análise e psicologia. esta taquigrafia. se enraizou muito fundo. tudo de que necessitamos para conhecer um Almirante Croft ou uma Mrs. Externamente. "Duvido". Ela deve ter vislumbrado um método. E que conseqüências tudo isto teria provocado nos seis romances que Jane Austen não escreveu? Ela não teria escrito sobre crimes. infeliz ela mesma. A experiência. Aquelas maravilhosas falas curtas que resumiam. uma mudança era iminente. Austen Leigh. teria sido mais ácida e severa. em 1817. 70 FICÇÃO MODERNA . em última instância. feito novos amigos. ela é obrigada a contemplar em silêncio. "se seria possível mencionar algum outro autor notável cuja obscuridade pessoal fosse tão perfeita". em suas circunstâncias de vida. escreveu Mr. Sua ironia. ates- 69 que ela se permitisse tratar dela na ficção. paixões ou aventuras. Ela teria se colocado mais distante de seus personagens. e os visto mais como um grupo. mas o fato estético que ela tanto receou exprimir. lido. mas o que deixam por dizer. reserva uma simpatia especial pela felicidade ou pela infelicidade dos outros. teria se tornado insuficiente para captar tudo que agora ela perceberia acerca da complexidade da natureza humana. e carregado para o chalé do campo um tesouro de observações para se banquetear com calma. ela estava pronta. pelo olhar de uma mulher que. jantado e almoçado fora. Teria sido a precursora de Henry James e de Proust . os quais. Há uma emoção revelada na cena do concerto e no famoso diálogo sobre a fidelidade feminina que prova não exatamente o fato biográfico de que Jane Austen se apaixonou. mas o que a vida é. e se tornou completamente asséptica pela passagem do tempo. não apenas o que são. Musgrove para sempre. para exprimir não somente o que as pessoas dizem. embora fosse acionada em menor freqüência. Mas teria ficado sabendo mais. Sua fama vinha se ampliando bem devagar. conhecido pessoas famosas.a está observando.e basta. Seu senso de segurança teria sido abalado. morreu "justamente quando estava começando a ter confiança em seu próprio sucesso". Mas agora. Tivesse ela vivido somente alguns anos a mais. tudo isso teria se modificado.

Hardy. não é com os clássicos. uma respiração. Gals worthy. o que com certeza não poderíamos fazer. Ao rés do solo. e num degrau muito inferior a Mr. por existirem em carne e osso. e Mr. Green Mansions. reservamos nossa gratidão incondicional a Mr. na multidão. outros para as cinzas e o deserto. mas da mesma forma. que eles digam se estamos agora no começo ou no fim ou no centro de um importante período da prosa de ficção. Wells. para quem a batalha está vencida e cujos feitos se revestem de um ar de tão serena plenitude que mal conseguimos conter a queixa de que o combate não foi tão violento para eles quanto o é para nós. Hudson de The Purple Land. Nossa contenda. tenhamos aprendido alguma coisa sobre fazer literatura. Mr. enquanto lhes agradecemos por milhares de dádivas. isto se deve de certo modo ao simples fato de que. que certos atalhos parecem levar a terras férteis. para citar um exemplo. Conrad. mas comparar suas oportunidades com as nossas! Suas obras-primas sem dúvida têm um estranho ar de simplicidade. e se falamos em contendores com Mr. é possível se dizer. igualmente admiráveis ou não. Unicamente sabemos que algumas gratidões e hostilidades nos inspiram. Nenhuma frase isolada resumirá a responsabilidade ou o descontentamento que atiraremos contra um sem número de obras tão volumosas e que contém tantas qualidades. Mr. tudo que podemos dizer é que se mantém em movimento. Mas também é verdade que. sobre ficção moderna. Bennett e Mr. Se tentássemos formular nosso raciocínio em uma palavra diríamos que estes três escritores são materialistas. é difícil não se confirmar que a prática moderna da arte é quase como o aperfeiçoamento da antiga. Não conseguimos escrever melhor. talvez. Bennett. uma imperfeição comezinha que nos induz a tomar certas liberdades com nossos eleitos.Em qualquer pesquisa que se faça. pois daqui da planície pouco se vislumbra. com seus instrumentos simples e materiais primitivos. E mesmo a analogia entre literatura e o processo. mas com uma tendência rotativa indicando que toda a extensão do percurso seja observada de uma altitude suficientemente elevada. de produzir motores para automóveis mal se sustenta após um rápido olhar. Galsworthy provocaram tantas esperanças e as desapontaram tão repetidamente que nossa gratidão basicamente se revelará melhor ao lhes agradecermos por nos terem mostrado o que deveriam ter feito mas não o fizeram. neste patamar privilegiado. e isso talvez tenha relevância no momento em que se intenta alguma avaliação. apesar de termos aprendido muito sobre a produção de máquinas. Nada garante que no decorrer dos séculos. mesmo a mais livre e descomprometida. e Far Away and Long Ago. a Mr. sequer por um momento. meio cegos pela poeira. seus trabalhos têm um halo de vida. Fielding trabalhou muito bem e Jane Austen ainda melhor. Mr. ora um pouco nesta direção. não quisemos fazer. É porque estão interessados não com o espírito mas com o corpo que nos têm decepcionado. Wells. e . portanto. revemos com inveja os guerreiros mais bem sucedidos. ora naquela. É preciso apenas ser dito que não temos a pretensão de permanecer. Que os historiadores da literatura decidam.

Mas ela reaparece mais persistentemente quando deixamos o fim de um romance no embalo de um suspiro . Seus personagens vivem abundantemente. pode perfeitamente declarar ter superado. iremos encontrar o que buscamos em suas páginas. para gastar o tempo em algumas macias cabines estofadas de vagões da primeira classe. Não há muito mais que uma passagem de ar entre os caixilhos das janelas. ou uma fenda nas tábuas da mesa. Wells ela nitidamente passa longe da mira. que desperdiçam uma habilidade imensa e uma engenhosidade imensa fazendo o trivial e o transitório parecerem o verdadeiro e o permanente. que em uma palavra seria materialistas. Ele pode 72 produzir um livro tão bem construído e sólido em sua perícia artesanal que é difícil para o mais meticuloso dos críticos perceber através de quais rachaduras ou fendas a decadência pode infiltrar-se. a imperfeição e a grosseria de seus seres humanos. Temos de admitir que somos exigentes. com o melhor de sua alma. que achamos difícil justificar nosso descontentamento explicando o que é que exigimos. e na pletora de suas idéias e fatos dispõe raramente de um tempinho livre para fazer real. Edwin Clayhanger. além disso. Apenas o que pode ser dito de Mr. indicaremos com isso que 73 tratam de coisas dês importantes. No caso de Mr. Ele é um materialista da mais ampla bondade de coração. Reiteramos nossa indagação diferentemente em diferentes momentos. apertando diversas campainhas e botões. apesar de respeitarmos profundamente a integridade e a humanidade de Mr. George Cannon. um rótulo para todos estes livros. mesmo no caso dele. Wells é que ele é um materialista no sentido de que inclui prazer demais no arcabouço de seu trabalho. Naturalmente.mas e se a vida tiver se recusado a viver ali? Este é um risco que o criador de The Old Wives' Tale. mas resta saber como vivem. e o destino para o qual viajam com tanto luxo torna-se mais e mais inquestionavelmente uma felicidade eterna consumida no melhor hotel de Brighton. só que avançando para o deserto. Portanto que outra crítica negativa pode haver tanto para sua terra quanto para seu Paraíso a não ser que só se prestam a serem habitados agora ou no futuro por seus Joões e seus Pedros? A inferioridade da natureza deles não deslustra todas e quaisquer instituições e ideais que lhes foram providenciados pela generosidade de seu criador? Tampouco. jamais uma simples palavra atinge o centro de três alvos distintos.nos deixam com a sensação de que a ficção inglesa mais recente regride com eles. E. Que seja . e para que vivem? Cada vez mais nos parecem abandonando os vilarejos bem desenvolvidos de Five Towns. uma vez que de longe é o melhor artífice. Se fixarmos. carregando em seus ombros a tarefa que deveria ser cumprida pelo pessoal do governo. e. e de um bando de outras figuras. Bennett é talvez o mais condenável dos três. e marcha. Contudo Mr. indica para nosso pensamento o amálgama fatal em seu gênio. muito distintamente como de costume. todavia. o amontoado de barro que se misturou nele com a pureza de sua inspiração. até de modo inesperado. então. Galsworthy. ou se esquece de considerar importante. Sua mente é bastante generosa com suas simpatias para lhe permitir gastar muito tempo fazendo coisas de forma ordenada e substancial.

De todos os lados elas vêm. nos surpreende uma dúvida momentânea. Admitindo a incerteza que atinge toda a crítica de romances. e talvez fora da vida nada mais valha a pena. talvez. A mente capta uma miríade de impressões . Mr. mas somente seremos melhores na matéria. Examine por um momento uma mente comum e um dia comum. evanescente ou esculpida com a firmeza do aço.trivial. a coisa essencial. se puder escrever o que escolheu. ou se mudou. está muito longe de ser "assim". Se a isto chamamos vida ou espírito. nem tragédia. nem interesse amoroso ou catástrofe no estilo aceito. devido a um daqueles pequenos desvios que o espírito humano costuma tomar de tempos em tempos.ele tem algum valor? Qual o sentido de tudo isso? Será possível que. com a realidade. fantástica. verdade ou realidade. e um ar de probabilidade embalando o conjunto de modo tão impecável que se todas suas personagens desembarcassem na vida elas se encontrariam com os casacos 74 abotoados de cima abaixo no auge da última moda. o romance está no ponto. mas ali. deixem-nos arriscar a opinião de que para nós neste momento a forma de ficção em maior voga perde mais freqüentemente do que retém a coisa que procuramos. Muito do enorme trabalho de comprovar a solidez. com freqüência maior conforme passa o tempo. A vida não é uma sucessão de lanternas de carruagens dispostas em simetria. A vida é assim? Os romances devem ser assim? Olhe por perto e a vida. Entretanto. se o escritor for um homem livre e não um escravo. prosseguimos perseverantemente. não o que deve. sequer um único botão costurado como são os dos ternos de Bond Street. Mas algumas vezes. uma incessante exposição de inumeráveis átomos. nem comédia. nem.. qualquer que seja . enquanto se acomodam à vidinha de segunda ou terça-feira. É uma confissão de incerteza ter de recorrer a uma figura assim. O tirano é obedecido. construindo nossos dois ou três capítulos conforme um esboço que mais e mais deixa de se assemelhar com a visão de nossas mentes. um invólucro semi- transparente nos envolvendo dos primórdios da consciência até o fim. conscientemente. argumentando. não haverá trama. à medida que as páginas se completam em sua arrumação costumeira. Não é tarefa do romancista comunicar esta variedade. tragédia. partiu. espírito desconhecido e ilimitado. parece. um espasmo de rebelião. portanto. a semelhança com a vida. a preparar uma comédia. isto. não por sua livre vontade própria mas por algum tirano poderoso e sem escrúpulos que o mantém escravo. a ênfase recai diferentemente da antiga. como os críticos tendem a fazer. o momento de importância aparece não aqui. O escritor parece constrangido. interesse amoroso. a vida é um halo luminoso. do enredo não é apenas trabalho desperdiçado mas trabalho inapropriado ao ponto de obscurecer e apagar a luz da concepção. e enquanto caem. Bennett tenha escorregado com seu magnífico aparato de apreensão da vida uma polegada ou duas no caminho errado? A vida escapa. a preparar uma trama. e se nega a ficar contida num uniforme desconfortável como o que providenciamos. se puder basear sua obra em sua própria intuição e não sobre a convenção.

mesmo se para conseguirem isso tiverem 75 de se descartar da maioria das convenções que são usualmente observadas pelo romancista. agora sendo publicado na Little Review. É. aqui seguramente a teremos. a alguma limitação imposta pelo método tanto quanto pela mente. Qualquer um que tenha lido O retrato do artista quando jovem ou. mais do que amplo e livre. Se quisermos a vida em si. em alguns modelos deste tipo que procuramos definir a qualidade que diferencia a obra de vários escritores jovens. Ulysses". por exemplo. tracemos a configuração. com apenas um fragmento à frente. penetra sem dúvida alguma tão no cerne da cabeça que. é inegavelmente importante. entre os quais Mr. Joyce é espiritual.sua aberração ou complexidade. e por preservar mais sincera e exatamente o que lhes interessa e impulsiona. Mas é possível avançarmos um pouco mais e investigar se não podemos atribuir nossa sensação de estar dentro de um quarto apertado. de qualquer maneira. podemos simplesmente dizer e ponto final. ou melhor. ou qualquer outro destes indicadores que por gerações têm servido para guiar a imaginação do leitor quando convocado a imaginar o que não pode nem tocar nem ver. é difícil não proclamá-la uma obra-prima. É o método . James Joyce é o mais notável. difícil ou enfadonho conforme se julgue. nos sentimos desajeitados. Não tenhamos como certo que a vida existe com mais plenitude no que é comumente considerado grande e não no que é comumente considerado pequeno. com Youth ou The Mayor of Casterbridge. ou coerência. mesmo em uma primeira leitura. com tão pequena mistura de estranheza e formalidade quanto possível? Não estamos pleiteando simplesmente coragem e sinceridade. é mais um palpite que uma afirmação. (Nota da edição inglesa. ainda que isto seja a probabilidade. o que promete ser um trabalho muito mais interessante. sua sordidez. De nossa parte. Isso devido à relativa * Escrito em abril de 1919. Mr. ainda que desconectada e incoerente na aparência.) 76 pobreza de espírito do escritor. com embaraços. sua incoerência. Recordemos como os átomos caem na mente na ordem em que caem. não se pode questionar que é de extrema sinceridade e que o resultado. com seu brilho. poderá arriscar algumas hipóteses desta natureza como intencionais para Mr. seus súbitos lampejos de significação. Joyce. confinado e opressivo. Por certo. da de seus predecessores. ao tentarmos dizer algo mais que pretendemos além disso. estamos sugerindo que o estofo próprio da ficção é pouco mais do que os costumes em que nos fizeram acreditar. e disposto a preservar isso ele desconsidera com total coragem tudo que lhe parece casual. Em contraste com aqueles a quem chamamos de materialistas. com que cada visão ou ocorrência atinge a consciência. Eles se esforçam por chegar mais perto da vida. mas seja qual for a intenção do conjunto. pois devemos tomar exemplos elevados. A cena no cemitério. está preocupado a todo custo em revelar as centelhas da chama mais íntima que ilumina suas mensagens intelectuais. e por qual razão uma obra de tamanha originalidade ainda não se compara.

repousa muito provavelmente nos espaços escuros da psicologia. . de imediato. e algo mais. e como fielmente em obediência à sua visão de mundo Tchekov escolheu isto. a despeito de seus tremores de susceptibilidade. nunca admite ou inventa o que está fora de si mesmo ou além? A ênfase dada. ninguém a não ser talvez um russo. e colocou-os juntos para compor alguma coisa nova. à indecência. até que o próprio Gusev morre. alguns bem mais importantes em questão. ele nos transporta para mais perto da intenção do romancista se somos leitores. devem ser breves e conclusivos. talvez didaticamente. pode ser rigorosamente chamado de conto. ao expressar o que desejamos expressar. mas centrados em alguém que. difícil para nosso 77 entendimento. se isso. Alguns soldados russos adoecem a bordo de um navio que os leva de retorno à Rússia. como supomos que deva ter sido no passado. De imediato. assim como os olhos se acostumam à penumbra e discernem o formato dos objetos em um salão vemos como completa a narrativa está. todo método está certo. é inventar formas de ser livre ao registrar o que escolhe. Este método tem o mérito de nos deixar mais perto do que fomos preparados a chamar de vida em si mesma. e então. Por mais que possa ser isso. e parecendo igual a "uma cenoura ou um rabanete" é atirado ao mar. tem-nos ensinado. a ênfase está sobre alguma coisa até hoje ignorada.que inibe o poder criativo? Deve-se ao método não nos sentirmos joviais nem magnânimos. uma vez que contos. A ênfase é deslocada para lugares tão inesperados que a princípio é como se não houvesse de todo ênfase alguma. um esboço diferente da forma se torna necessário. que é vago e inconclusivo. nem temos certeza. mas. a tônica recai de modo um pouco diferente. Para os modernos "aquilo". e isto não vem com o impacto ao se iniciar Tristram Shandy ou mesmo Pendennis e ser por eles convencido de que há não apenas outros aspectos da vida. contribui para o resultado de alguma coisa aguda e única? Ou meramente em qualquer esforço de tamanha originalidade é bem mais fácil. Ninguém a não ser um contemporâneo. aos contemporâneos especialmente. São dados para nós alguns fragmentos de suas conversas e alguns de seus pensamentos. o problema que se apresenta ao romancista no presente. teria percebido o mais interessante da situação que Tchekov armou no conto a que chamou "Gusev". Qualquer método é certo. Ele tem de ter a coragem de dizer que o que lhe interessa não é bem "isto" mas "aquilo": apenas com "aquilo" deve construir sua obra. ainda por cima. se somos escritores. entretanto. então um deles morre e é lançado para fora do navio. o centro de interesse. sentir o que lhe falta do que mencionar o que ele oferece? De qualquer modo é um erro ficarmos do lado de fora examinando "métodos". a leitura de Ulysses não nos sugere quanto da vida está excluído ou ignorado. a conversa continua entre os outros por um tempo. como é profunda. incompreensível para nossos predecessores. aquilo. Mas é impossível dizer "isto é cômico" ou "aquilo é trágico".

É o santo que neles há que nos confunde com o sentimento de nosso próprio cotidiano sem religião.. Mais cuidadosamente entretanto devemos falar do caráter inconclusivo da mentalidade russa. e por que deveria esta voz de discordância se misturar com nosso desânimo? A voz de protesto é a voz de uma outra e mais antiga civilização. Mas talvez vejamos alguma coisa que lhes escapa. quem sabe. com o amor entre eles. "A matéria própria à ficção" não existe. todo sentimento. ela estaria sem dúvida alguma nos incitando a transgredi-la e ameaçá-la. nenhuma percepção é inoportuna. Mas não deixe que esta simpatia se realize apenas com a cabeça . todo pensamento. e por fim. É o sentimento de que não há resposta. na verdade. indiscutivelmente percebem além do que nós o fazemos e sem nossos graves impedimentos de visão. E se podemos imaginar a arte da ficção sobrevivendo e permanecendo em nosso meio. ressentido. tudo é matéria própria à ficção. na beleza da terra. mesmo o mais ousado ." Em todo grande escritor russo parecemos distinguir as feições de um santo. que parece ter gerado em nós o instinto de se alegrar e lutar mais do que sofrer e compreender. Mas quaisquer deduções que tracemos a partir da comparação de duas ficções tão imensuravelmente apartadas são fúteis exceto. As conclusões da mentalidade russa. são inevitavelmente. todas as qualidades da consciência e do espírito seduzem. da mais completa tristeza. pois só assim seu vigor estará renovado e sua soberania garantida. quando eles nos inundam com a visão das infinitas possibilidades da arte e nos relembram de que não há limite para o horizonte e de que nada .nenhum "método". conquanto compreensíveis e compadecidas.pois com a cabeça é fácil . e no esplendor da humanidade. talvez. de que se honestamente observada a vida apresenta pergunta atrás de pergunta que devem ser deixadas ressoando depois que a narrativa se conclui em uma desolada interrogação que nos enche de um desespero profundo. tanto quanto a honrá-la e amá-la.. o amor entre iguais. a não ser apenas falsidade e pretensão. talvez. 79 . o esforço para atingir 78 alguma meta digna das mais exigentes indagações do espírito constituírem santidade.As mais elementares observações sobre a moderna ficção inglesa dificilmente podem evitar alguma menção à influência russa. Se desejamos a compreensão da alma e do coração onde mais poderemos achá- la com profundidade comparável? Se nos encontramos doentes de nosso próprio materialismo o menos considerável dos romancistas deles tem por direito de nascença uma reverência natural pelo espírito humano. "Aprenda a se tornar parecido com o povo. nenhum experimento. e desvia vários de nossos romances famosos para o ornamento e o embuste.mas com o coração. se a compaixão com os sofrimentos alheios.é proibido. A ficção inglesa de Sterne a Meredith esbanja indícios de nosso prazer nato no humor e na comédia. Estão certos. nas atividades intelectuais. e se os russos são mencionados corre-se o risco de achar que escrever qualquer ficção que não seja a deles é perda de tempo.

apesar de todo o entusiasmo. talvez não mais que um ou dois tenham sido capazes de os ler em russo. mas é difícil se sentir seguro. em particular os que têm escrito com o maior discernimento acerca de nossa literatura e de nós mesmos. do trabalho de tradutores. em alguma catástrofe terrível. e galgaram enfim todos os degraus para se tornarem súditos do rei George. como freqüentemente estamos. mas uma barreira muito mais grave . apesar de alguns considerarem que uma personagem assim representa a simplicidade. Encarados assim.seus costumes. Perderam seus trajes. não ler neles uma ênfase que é falsa. e o toma-lá-dá-cá das relações familiares. Quando se transpõe qualquer palavra de uma frase do russo para o inglês. diante destas mutilações. alteramos um pouco com isso o seu significado. o peso. Não só temos tudo isso a nos separar da literatura russa. os grandes escritores russos ficam como homens despojados por um terremoto ou um acidente de trem não apenas de todos os seus trajes. cega e implicitamente. a entonação das palavras em relação a cada uma das outras do conjunto. O debate pode prolongar-se indefinidamente até o limite do que significa para nós "compreender". Apesar de tudo isso.O PONTO DE VISTA DOS RUSSOS Duvidando. devemos admitir dúvidas ainda maiores sobre se é possível aos ingleses. A todos ocorrerão os exemplos de escritores americanos. é qualquer coisa bastante poderosa e muito impressionante. Dostoievski e Tchekov durante os últimos vinte anos. mas não aquela falta de autoconsciência. as idiossincrasias de seus personagens. não distorcer.a diferença do idioma. o estrangeiro irá alcançar sempre. Nossa avaliação de suas qualidades tem sido formada por críticos que nunca leram uma palavra em russo. De todos aqueles que se deleitaram com Tolstoi. de que os franceses ou os americanos. dissemos. ou viram a Rússia. ou que sua crítica aos escritores ingleses foi redigida por um homem que leu Shakespeare abstendo- se da distância interposta pelo Oceano Atlântico e pelos duzentos ou trezentos anos de separação entre a civilização que estudou e a nossa? Uma argúcia e desprendimento especiais. surpreendida . a humanidade. O que estamos dizendo significa isso. ou mesmo escutaram a linguagem falada pelos nativos. um exato ângulo de visão. que têm dependido. de quanto podemos crer em nós para não lhes atribuir. portanto. O que sobrevive. mas também de alguma coisa mais sutil e mais importante . que temos julgado uma literatura inteiramente desnudada de seu estilo. eles nos têm compreendido ou permanecerão estrangeiros até o fim de seus dias? Alguém poderia acreditar que os romances de Henry James foram escritos por um homem que cresceu na sociedade que descreve. aquele bem-estar e companheirismo e sentimento de valores comuns que fazem a intimidade. nada permanecendo senão uma tosca e incipiente interpretação de sentido. como têm demonstrado os ingleses pelo fanatismo de sua admiração. que tanto têm em comum conosco. os que têm despendido uma existência entre nós. a sanidade. possam de fato compreender a literatura inglesa. compreenderem a literatura russa. o som.

Homens despojados de seus paletós e de seus hábitos. será profundamente alterada quando um escritor genial se puser a trabalhar. Hagberg Wright considera característica do povo russo. coisas difíceis." . indagou. deva-se isto à tradução ou a alguma razão mais profunda. negando nossas qualidades.no esforço para ocultar e disfarçar seus instintos. Encontramos estas características em fermentação. atordoados por um acidente de trem.mas com o coração" . Contudo é sofrimento comum. que a literatura russa. com um toque sardônico. claro. uma sugestão indefinível de humor. balançando a cabeça. e por que ele narrou dessa forma?.. com o amor entre eles. Mas não deixe que esta simpatia se realize apenas com a cabeça . Uma generalização desta espécie. e se afastam e se encontram. O equivalente inglês para "irmão" é "companheiro" . mesmo que possua algum grau de verdade ao se aplicar ao sistema literário. mais que felicidade. claro. que gerou sua literatura. temos certeza.e. nos indagamos enquanto lemos narrativa após 82 narrativa. Um homem se apaixona por uma mulher casada.pois é fácil com a cabeça . "Aprenda a se tornar parecido com o povo. É a "tristeza profunda". se diria instantaneamente. esforço ou desejo comuns que produz o sentimento de fraternidade. que o Dr. mesmo se o dizem com o desamparo e a simplicidade que a catástrofe tenha provocado neles.. encontrar um emprego. "Como? Como?'. Há uma narrativa de Mr. fazer suas fortunas. Embora submersos como estão nas profundezas do infortúnio os dois ingleses que se cumprimentam com tanto sentimento irão. e ao final são largados conversando sobre a situação deles e por quais expedientes podem tornar-se livres "desta intolerável dependência". a ausência de esforço. Não podemos dizer "Irmão" com uma convicção simplória. Qual a importância disto. em todo lugar onde se encontrasse citação deste quilate. com resultados desastrosos.. a suposição de que num mundo arrebentado pela miséria o principal clamor que se abate sobre nós é para compreendermos nossos camaradas 81 sofredores. é altamente complexo.mas com o coração." "Dos russos". Imediatamente tudo passa a ser forçado e artificial. Imediatamente outras questões aparecem. Nos tornamos ineptos e constrangidos. Torna-se claro que uma "atitude" não é algo simples. coisas desagradáveis.esta é a nuvem que se forma sobre o conjunto da literatura russa. dizem coisas grosseiras. A simplicidade.pois com a cabeça é fácil . Nossas primeiras impressões de Tchekov não são de simplicidade mas de espanto. nos provoca.um termo bem diferente. E parecia como se por pouco a solução estivesse para ser encontrada e então uma vida nova e esplêndida fosse iniciar-se. que nos seduz por causa de nossa própria pompa ressecada e de nossos caminhos áridos até irradiar toda a sua sombra . gastar os últimos anos de suas vidas na luxúria e deixar uma quantia de dinheiro para evitar que outros pobres-diabos se chamem reciprocamente de "irmão" em uma hora de contenção. "e não com a cabeça .. escrevemos com uma afetação de bondade e simplicidade que é nauseante ao extremo. Galsworthy em que um dos personagens se dirige desse jeito a outro (ambos estão no máximo do infortúnio). tão evidentes nos menores quanto nos maiores escritores. coisas ríspidas.

Um carteiro guia um estudante até a estação e por todo o caminho o estudante tenta fazer o carteiro falar. um diálogo como este entre nós". e o sentimento é essencial para a nossa satisfação. dormimos mal. ou é como se uma canção se interrompesse subitamente sem os esperados acordes que a concluem. com a pobreza. . Quando a melodia é familiar e o fim enfático . "com quem ele estará aborrecido? Será com as pessoas. mas ele fica em silêncio. com as noites de outono?" De novo. e que Tchekov não estava meramente divagando sem nexo. termina a história. Provavelmente teremos de ler à exaustão muitas narrativas antes de sentirmos. Mas. mas conversamos bastante. Estas histórias são inconclusivas. A mente lhe interessa enormemente. ora por aquele propósito. Será que ele está prioritariamente interessado não na relação da alma com outras almas. em busca de completar seu sentido. ou simplesmente a informação de que continuam conversando. há uma enorme diferença entre Tchekov e Henry James. As próprias palavras de Tchekov nos encaminham na direção certa. Obviamente . a condição dos camponeses o assusta. intrigas reveladas . E passa a andar para cima e para baixo na plataforma com um olhar de raiva em sua face. de novo. ele é o mais sutil e delicado analista das relações humanas. Temos bem nítida a intuição de que ultrapassamos nossos sinais. Ao fazer isso. ele diz. a alma está curada. "seria impensável para nossos pais. pose. mas dormiam profundamente. À noite eles não conversavam. inimigos derrotados. que juntamos as partes. o fim não está aí. um ponto de interrogação. mas atingido ora por este tom. a alma não está curada. Estes são os pontos enfáticos em suas histórias. alguns homens foram corrompidos pela inumanidade de suas circunstâncias. precisamos de um senso literário muito ousado e alerta para nos fazer ouvir a melodia.este não é o sinal para pararmos.mas onde ela surge? Tchekov.com a relação entre alma e bondade? Estas narrativas estão sempre nos revelando alguma afetação. ainda não. e estamos sempre tentando descobrir se estamos certos ou não". ". está ciente dos pecados e injustiças da sociedade. e continuamos a formular uma crítica baseada no conceito de que as narrativas devem concluir-se de uma forma que reconheçamos.. Certas mulheres caíram em uma relação falsa. e em especial aquelas últimas notas que completam a harmonia. 83 Devemos pesquisar para descobrir aonde a ênfase nestas narrativas diversas exatamente recai.uniões apaixonadas. podemos raramente nos equivocar. A alma está doente. Mas isto será o fim?. somos intranqüilos. nós. mas o fervor dos reformistas não é o seu . De repente o carteiro diz sem que se espere. dizemos. nossa geração.Este é o final. como em Tchekov. perguntamos. entre Tchekov e Bernard Shaw. também.como ocorre em grande parte na ficção vitoriana.. mas com a relação entre alma e saúde . mas quando a melodia não é familiar e o fim. suscitamos a questão de nossa própria competência como leitores. mas apesar de tudo. Nossa literatura de sátira social e requinte psicológico brotou tanto daquele sono intranqüilo como dos diálogos intermináveis. insinceridade. "É contra o regulamento trazer alguém junto com a correspondência".

espiralando as tempestades de areia. elas aparecem como transparências com uma luz por trás . Os romances de Dostoievski continuam agitando as águas dos moinhos. dos que tutelam os generais russos. É. o método que a princípio pareceu tão casual. assim ele a escreveu. suas enteadas e primas. Em conseqüência. Por outro lado. sufocados. revirados. mas não tem uma alma de verdade. a alma adquire uma revigorante sensação de liberdade. À exceção de Shakespeare não há leitura mais excitante. mas permanece o tema predominante. antipática. achamos. A "alma" lhe é estranha. é a alma que é a característica primordial da ficção russa." De fato. brilhantes.você está por cima no trabalho. as pessoas estão acostumadas à música mais alta. é de profundidade e volume maiores em Dostoievski. à medida que lemos estes contos sobre nada. composto impecavelmente e controlado por uma honestidade com 84 a qual não acharemos semelhança salvo entre os próprios russos.Uma vez que o olhar se acostuma com estas sombras. ". mas conforme a melodia foi tocada. submetida a uma quantidade infinita de humores e destemperos. Tem uma conexão muito tênue com o intelecto. São compostos pura e integralmente de substância da alma. incapaz. difusa. nada é concatenado com exatidão. às medidas mais grosseiras.espalhafatosas. a morte. quase. 85 . superando todos os limites. veio da maneira mais rudimentar. mas ao mesmo tempo não devemos jamais manipular as evidências de maneira a produzir alguma coisa conveniente. tão fortemente sublinhada. um grande número de pessoas de origens diversas que falam no mais alto tom de voz sobre seus casos mais íntimos. ficamos cegos. Delicada e sutil em Tchekov.. trombas d'água que sibilam e entram em ebulição e nos sugam. O clímax do último capítulo. agora torna visível o resultado de um gosto extraordinariamente original e exigente. tumultuada. afinal. Pode não haver respostas para estas questões. Talvez por isso seja necessário um esforço tão grande da parte do leitor inglês quando lê Os Irmãos Karamazov ou O Possesso uma segunda vez. É amorfa. decorosa. e ao mesmo tempo plenos de um êxtase vertiginoso. parece. de se submeter ao controle da lógica ou à disciplina da poesia. Velhos beberrões usam-na livremente. adequada à nossa vaidade. É confusa. inconclusivo e ocupado com ninharias. meu garoto. metade das "conclusões" sobre ficção se dissipa no ar. superficiais. Pode não ser essa a forma de garantir a audiência do público. o casamento. o horizonte se alarga. Nada é resolvido. não há qualquer vigor nisso. Possui pequeno senso de humor e nenhum senso de comédia. a declaração de valores tão sonoramente proclamada. Abrimos a porta e nos deparamos com uma sala repleta de generais russos. Contra nossa vontade somos atraídos.. ousadamente seletivo.. efetivamente nada.. Lendo Tchekov nos descobrimos repetindo a palavra "alma" muitas e muitas vezes. Ela batiza suas páginas. é sujeita a violentas dissenções e febres intensas.

somos levados pela correnteza. que há de mais natural? . sem controle. e recebendo tantas revelações como se fôssemos acostumados a ter somente a impressão de vida em sua maior plenitude. Somos almas. um novo panorama da mente humana é revelado. almas torturadas. mal se segurando. E se nossas vozes de repente se elevam em gargalhadas. confessar. até certo ponto. cada uma com suas próprias tradições. E mais.os nomes das pessoas. ou se somos sacudidos pelos mais violentos soluços. deveríamos fixar seu meio ambiente. revelar. sua paixão. seus atos são a uma só vez belos e desprezíveis. o espaço.isto não é digno de nota. mas fronteiriços. médias e superiores. Nada há daquela divisão precisa entre bom e mau a que estamos habituados. A sociedade é dividida em classes mais baixas. golpeado pelo impacto e ferido nas rochas do fundo. há uma pressão constante sobre o romancista inglês para reconhecer essas barreiras. nos agarramos a um monólogo. As velhas divisões se misturam gradualmente entre si. em um apartamento ou em um quarto de aluguel. seu tumulto. é difícil para o leitor inglês se sentir à vontade. . sua mistura desconcertante de beleza e vilania. Os homens são ao mesmo tempo vilões e santos. e. Mas. deveríamos começar pela sua casa. inextricavelmente confundidos. outras vezes num momento de clareza compreendendo mais do que jamais compreendêramos antes. cuja única ocupação é falar. Amamos e odiámos ao mesmo tempo. que Polina está envolvida num caso com o Marquês de Grieux . intrincados. Se desejamos contar a história de um caso de paixão de um general (e acharíamos muito difícil em primeiro lugar não rir de um general). nos precipitamos. se faz sentir. extrair de toda e qualquer laceração de carne e nervo aqueles pecados obscuros que rastejam no fundo de nós. O passo em que vivemos é tão tremendo que faíscas devem desprender-se de nossas rodas no momento em que voamos. quando a velocidade é assim acelerada e os elementos da alma são vistos. o tempo é limitado.mas que situações desimportantes são essas quando comparadas com a alma! A alma é o que interessa. 86 Jogado contra a crista das ondas. O processo a que ele está acostumado em sua própria literatura é o oposto. Além disso. febrilmente. enquanto ouvimos. Queira ele ou não. às vezes submersos. a influência de outros pontos de vista. superlotado. Ninguém se lembra de esclarecer. Quase sempre aqueles por quem sentimos maior afeto são os maiores criminosos. sua própria linguagem. infelizes. seus relacionamentos. e os mais abjetos pecadores nos movem à mais forte admiração. Apenas quando tudo isto estiver pronto deveríamos tentar tratar do general em si. de outros livros. não separadamente em cenas de humor ou cenas de paixão como nossa mentalidade inglesa mais fleumática as concebe. não é o samovar mas o bule de chá que impera na Inglaterra. quase ao amor. nosso tumulto aos poucos se acalma. Como se sobrevoássemos entendemos tudo . seus próprios costumes. mesmo de outras épocas.Entretanto onde estamos? Por certo cabe ao romancista nos informar se estamos em um hotel. Uma corda nos é arremessada. que estão hospedados num hotel em Roulettenburg.

A alma não está limitada por barreiras. poderosos. ele é inclinado mais à sátira que à compaixão. 87 Nessa altura resta o maior de todos os romancistas . A simples narrativa de um gerente de banco que não pôde pagar uma garrafa de vinho se expande. o modo de um cavalo mexer seu rabo. precioso. são argutos. qualquer pluma aderem a seu ímã.a alma humana. além disso. É um daqueles aristocratas natos que usaram seus privilégios ao máximo. Seus sentidos. espumante. ele é educado. nas vidas do sogro dele e das cinco senhoras a quem seu sogro tratava abominável mente e na vida do carteiro. antes de sabermos o que está acontecendo. se encharca. Qualquer graveto. com desconfiança e confusos? Desde suas primeiras palavras podemos estar certos de uma coisa. ele não pára. pois nada está fora de lugar na província de Dostoievski. na da faxineira. que não é selvagem.aqui está um homem que vê o que vemos. a regra lhe é imposta e alguma espécie de forma.pois do que mais podemos chamar o autor de Guerra e Paz! Deveremos considerar Tolstoi. a examinar a sociedade mais do que a compreender os indivíduos em si. Aqui está um homem. Sem amarras. seu cérebro infalível atribui a alguma coisa implícita ao personagem. a alma. até que nos tenhamos tornado discípulos e assim perdido nossas referências. estranho. pode transmitir do mesmo modo a excitação do esporte. não somente pela maneira por que . maravilhosa. em conseqüência. e bem nutridos. um estrangeiro? Há alguma singularidade em seu ângulo de visão que. Ninguém. E o que seu olho infalível descreve de uma tosse ou de um truque com as mãos. deste material turvo. derrama-se sobre nós. de forma que conhecemos suas pessoas. também. Nada parece lhe escapar. como estamos acostumados a proceder. Ela transborda. tem tido toda sorte de experiência. terrível. mesclada. o som de uma tosse. opressiva . Para ele era o mesmo quer se tratasse de um nobre ou de um cidadão simplório. o jeito de um homem tentando pôr a mão em bolsos que tinham sido cerzidos. É um cosmopolita. não de dentro para fora. de todo modo. difícil. Ele observa o azul ou o vermelho de uma túnica de criança. Nada resvala por ele sem registro. Há alguma coisa orgulhosa e soberba na investida de uma mente assim e de um corpo assim à existência. que procede. e quando ele está cansado. todos são o vaso deste líquido envolvente. pelo menos . Fosse quem fosse. seu intelecto. não um suburbano. escaldante. Aqui está um mundo em que o toque do carteiro é ouvido às oito horas. Ele não pode aceitar limitações.e. mas de fora para dentro. se mistura com as almas dos outros. de uma vagabunda ou de uma grande dama. quente. ele prossegue. não é cria da natureza. mantém-nos à distância. e na das princesas que se hospedavam no mesmo bloco de apartamentos. Nenhuma destas limitações foi imposta a Dostoievski. a beleza dos cavalos. portanto. e as pessoas se deitam entre dez e onze. também. e toda a feroz ânsia do mundo aos sentidos de um jovem cheio de vigor.

" Muitas e muitas vezes compartilhamos os sentimentos de Masha em Family Happiness. Nesta mesma história há duas descrições. que nos transmitem um sentimento de felicidade tamanha que fechamos o livro para senti-la melhor. Há sempre no centro de todas as brilhantes e efêmeras pétalas da flor esse escorpião. é Tolstoi quem mais nos encanta e mais repele.talvez a cabeça de um homem . sentindo-nos ao mesmo tempo embalados e purificados. respirando fundo. de que felicidade assim como ele descreve é intensa demais para durar. Então. é o homem que os conheceu. mesmo quando lhe agrada. desgarra- se para longe da verdade. mas também pela maneira com que soltam e prendem espirros. que estamos à beira da desgraça? Ou então que a própria intensidade de nosso prazer é de certa forma questionável e nos força a perguntar.amam ou por suas idéias sobre política e a imortalidade da alma. Mas a mente traz seus preconceitos desde seu local de origem. querer escapar do olhar fixo que Tolstoi concentra em nós. Mesmo numa tradução sentimos que fomos elevados ao topo de uma montanha e tivemos um telescópio posto em nossas mãos. de uma maneira alarmante. de súbito. para me livrar daquele sentimento de prazer e medo que seu olhar fixo estava produzindo em mim. outra de recém-casados dançando na sua sala de visitas. ou Levin que reúne em si toda a experiência. "Mas por que viver?" A vida predomina em Tolstoi tanto quanto a alma predomina em Dostoievski. ou Pierre. "De repente uma coisa estranha me aconteceu: primeiro deixei de ver o que estava à minha volta. a seguir os olhos pareciam estar em minha própria cabeça.chega até nós fora de foco.. gira o mundo entre seus dedos. "Por que viver?" Há sempre no centro do livro algum Olenin. Mas sempre há um elemento de medo que nos faz.de escrever o que têm de escrever tão sucintamente . Será a percepção. brilhando demais defronte dos meus. qual o sentido disso. logo sua face pareceu esvanecer-se até que somente os olhos restaram. e quais devem ser nossas intenções. Não é o pároco quem destroça nossos desejos mais efetivamente. Assim o medo se mescla com nosso prazer. com Pozdnyshev na Sonata Kreutzer. quando ela se choca com uma literatura tão estrangeira quanto a russa. uma de uma jovem caminhando num jardim à noite com seu amado. e dos três grandes escritores russos. como se expelido pela enorme intensidade de sua vida. 90 O PATROCINADOR E AS FLORES Moças e rapazes quando começam a escrever recebem em geral a recomendação - plausível mas totalmente impraticável . Alguém fecha os olhos de alguém para escapar do sentimento de prazer e medo. e então tudo se tornou confuso - Eu não podia ver coisa alguma e fui forçada a fechar meus olhos. Quase sempre é o prazer que é superior. tal qual Masha. o mundo de fato torna-se cinza e pó sob nossos pés. e nunca deixa de indagar. algum detalhe . que na vida real nos atormentaria. e sem dúvida. justo quando estamos exultando. e por eles se afeiçoou. Quando zomba deles.. Tudo é estonteantemente claro e absolutamente nítido.

cada um desejou um público. Ao se admitir. e a flor será uma flor imperfeita até que seja compartilhada. malformadas. embora este seja o ponto mais importante de toda a questão. o público inglês e o americano. e Henry James podem comprovar. porém superior a ele . "Dispense-os todos. mas também de um jeito bastante sutil e insidioso o incentivador e inspirador do que é escrito. o intelectual e o das notícias de violência e sangue. pense apenas em sua flor".para quem devemos escrever? Pois a atual oferta de patrocinadores é sem precedentes e de uma variedade estonteante. a imprensa semanal e a imprensa mensal. os intelectuais irão alegar que deve ser um público submisso. O primeiro ou o último dos homens pode escrever apenas para si. é da máxima importância que ele seja um parceiro. que todo escritor tem um público ou outro ao final de sua escrita. cada um falhou em atingir um público. e cada um vingou no público seu malogro através de uma sucessão. Pois um livro é sempre escrito para alguém ler. Há a imprensa diária. Cada um desdenhou do público. No século dezenove. porque escrever é um método de comunicação. com intensidade gradualmente crescente. para falar toscamente. então. obscuridades e excessos que nenhum escritor cujo patrocinador fosse seu igual e amigo teria imaginado ser necessário impor. tudo parece invejavelmente simples e claro como água se comparado com nossas próprias dificuldades . todos eles entidades recém-organizadas com consciência própria capazes. Plausível como a teoria parece ser. em conseqüência. George Meredith. antes de pôr a caneta no papel. os grandes escritores produziram para as revistas baratas e as classes ociosas. Assim. mas é uma exceção e não provoca qualquer inveja. murchas de . é este companheiro . como os trabalhos de Samuel Butler. E rememorando e aplaudindo os esplêndidos resultados destas diferentes alianças. Os elizabetanos. e sem outro pensamento em suas mentes senão dizer com exatidão o que nelas se passa. escolheram escrever para a aristocracia e o público de teatro.uma combinação desconfortável e infeliz. entre um grupo de concorrentes. grandes riscos se associam a ela. Mas quem.quanto possível. desde que o patrocinador não seja simplesmente o pagante. de asperezas. então. e. o público que paga bem e o mau pagador. Ninguém jamais acrescenta nestas ocasiões a única coisa necessária: "E se certifique de que escolheu quem o patrocinará com sabedoria". O patrocinador do século dezoito foi uma combinação da sabedoria de botequim e de um livreiro de Grub Street. Pois neste caso o escritor permanece ciente de seu público. belas e brilhantes.o patrocinador que convencerá o escritor a tirar o melhor de seu cérebro e a dar à luz a mais diversificada e robusta produção de que seja capaz? Diferentes épocas têm respondido à questão diferentemente. tão claramente quanto possível. são plantas torturadas. de tornar suas necessidades conhecidas e sua aprovação ou desagrado sentidos. aceitando obedientemente qualquer coisa que ele goste de lhes oferecer. o patrocinador especial que melhor se adapta a ele. mas com alguma coisa torcida em volta delas. e as gaivotas são bem vindas às suas obras se as gaivotas as puderem ler. o escritor que se motivou ao contemplar a primeira flor em Kensington Gardens tem de escolher. através de seus vários porta-vozes. É infrutífero dizer. Suas flores.

ainda assim. Diminutas partículas de vidro perderiam seu esplendor se atiradas ao mar. A flor do jornal é uma planta maravilhosa mas. e se precisa de integridade e firmeza consideráveis para não ser cegado pelas ambições ou iludido pelos argumentos da turba de concorrentes. além disso. Um toque do sol lhes faria muitíssimo bem. calorosa. Ele deve discernir com acuidade entre o montinho de estrume que se agarra às flores por necessidade e o que se gruda nelas . custar tanto. dar a dois milhões de olhos alguma coisa luminosa. Nos dias de hoje. Mas como suas qualidades mudam de época para época. ele deve ser informado sobre a literatura de outros períodos e raças. e pó de palha. quando deslocado de seu contexto é poeira. portanto. O patrocinador que desejamos. Mas se nos detivermos em algumas dessas plantas. areia. Há a questão da obscenidade. O escritor precisará neste momento. cintilantes de outro. muito diferente. Ocupa exatamente o espaço destinado a ela. e não deverá ser de um amarelo brilhante para reluzir a tanta distância. Mas há outras qualidades que nossas especiais fragilidades e inclinações exigem dele. Irradia um tom dourado. de um patrocinador com mais hábito de leitura de livros do que de 93 assistir a peças. para que ninguém pense que a arte de "nosso crítico de teatro" do Times ou de Mr. é aquele que nos ajudará a preservar nossas flores da decadência. por exemplo. Devemos então correr para o extremo oposto e aceitar (na imaginação apenas) as lisonjeiras propostas que os editores do Times e do Daily News se permitem nos fazer - "Vinte libras contra entrega por suas flores 92 em exatamente mil e quinhentas palavras. e ter o nome de alguém a ele associado? A imprensa é sem sombra de dúvida uma grande multiplicadora de flores. O patrocinador do século vinte deve ser imune ao choque. é óbvio. Saber para quem se escreve é saber como se escreve. e o mais brilhante dos artigos. portentosas prima-donas uivariam como hienas se fossem trancadas em cabines de telefone. que deverão florescer em todas as mesas do café de John o'Groats até o fim do mundo antes das nove da manhã de amanhã com a assinatura do escritor incluída"? Mas será suficiente uma flor. Não é um feito desprezível pôr um milhão de cérebros em ação às nove horas da manhã. Entretanto a noite chega e estas flores desfalecem. Algumas das qualidades do patrocinador moderno contudo estão razoavelmente evidentes. Lynd do Daily News seja vulgar. haveremos de considerar que são muito distantemente apenas aparentadas ao peculiar amarelo original ou às flores roxas que espocam no gramado em Kensington Gardens no início de março todos os anos. É belissimamente retocada. esta ocupação de encontrar um patrocinador é um dos testes e provas da autoria. alegre e divertida para se olhar. O jornalismo embalsamado em um livro é ilegível. É genial. afável.um lado. também. que nos incomoda e nos confunde muito mais do que aos elizabetanos.

que ele agora está pronto para se retrair ou se expor conforme seus 94 escritores ordenem. Mas como escolher acertadamente? Como escrever bem? Eis as questões. e talvez mais comum. Tennyson com idílios. como iniciamos dizendo. há emoção para ele em opinar. nobre. que se arrepende de ter aborrecido Carlyle com gritarias. há muitos anos passados. alguma coisa sobre a linguagem. É necessário que o patrocinador consiga difundir e embalar a flor em uma atmosfera que a faça parecer uma planta da mais alta importância. os olhos mais brilhantes e falava inglês com forte acento estrangeiro. também. daquelas influências sociais que inevitavelmente desempenham papel tão preponderante na literatura moderna. de outro. que serão gêmeos de fato. A principal qualidade de um patrocinador é alguma coisa diferente. de forma que deturpá-la seria ultraje digno para não ser esquecido à beira do túmulo. em parte sua preferência por viver no interior do país. Deve ser um árbitro. e ele em nenhuma área pode fazer trabalho mais útil do que armando o escritor contra o sentimentalismo. para se hospedar neste país. Além do mais. do medo pavoroso de expressar seus sentimentos. lhe é suficiente. pois o destino da literatura depende desta feliz aliança . Ele acrescentará. . um escritor não tem sexo. enquanto nós. não melhoramos notavelmente Antônio e Cleópatra. que ele não deseja ser um homem erudito. ele dirá. que ele tudo fará com mais desvelo do que um abraço materno. fora do alcance dos anfitriões. e seu afastamento sem despedida ou cerimônia está de acordo com sua chegada misteriosa. em parte sua aparência memorável. apesar de mantermos nossos dedos com solene afetação nas notas pretas do teclado. um prosperando só quando o outro prosperar. ter medo dos sentimentos do que ter sentimentos demais. nosso convidado nos deixou. se for flor real.por inabilidade. quais inibem e a tornam estéril.tudo isto comprova. e indicará quantas palavras Shakespeare usou e quanto da gramática Shakespeare violou. e Ruskin com insanidades. e capaz de dizer quais delas amadurecem e fortificam. longe da voz dos fofoqueiros. de forma que para ter notícias dele ficava-se na dependência de informações de simples visitantes com o hábito de tocar campainhas que a propósito do dono da casa deles desconhecido contavam que tinha os modos mais perfeitos. E se for possível esquecer completamente seu sexo. É pior. talvez. ou superior.elementar e controverso. Ele deve nos fazer sentir que uma só flor. 95 JOSEPH CONRAD" De repente. Pois sempre houve um ar de mistério em torno dele. instruído. que a escolha do patrocinador é da mais alta importância. Foi em parte sua origem polonesa. sem nos dar tempo de organizar nossos pensamentos ou de preparar nossas frases. somente para ser revelada talvez pelo uso daquele termo conveniente que tanto mascara - atmosfera. de um lado. um se deitando só se o outro se deitar. muito melhor. dirá. Mas tudo isto é passageiro . e.

que com a passagem do tempo já haviam consumido seus caminhos até o coração da literatura e ali * Agosto. claro. Scott. e deve ter perdido de fato até o significado das palavras quem não escuta naquela música um tanto densa e sombria. concluem que os objetivos da vida estariam mais bem servidos se em vez de arranhar Mozart aqueles cinqüenta violinistas quebrassem pedras na estrada. ser considerada uma mulher comum. trilhando seus caminhos através de Marryat. Elas paralisam e embaraçam e confundem. devoravam-no e aos demais. Ele era introspectivo. seus críticos dizem. suas próprias observações são interrompidas e. nunca poderia. com uma exceção óbvia. Abrem-se suas páginas e se sente como Helena deve ter sentido quando se olhou no espelho e percebeu que. Eles vêem a orquestra. apontando para aquelas passagens famosas que já está se tornando hábito ressaltá-las fora de seu contexto e exibi-las entre outros exemplos antológicos da prosa inglesa. colocaram Conrad escrupulosamente sobre sua mesa de banquete. difícil de abordar. enquanto isso. seu orgulho. com que cor. revolveram algumas poucas migalhas preciosas. e majestade! Ainda assim é discutível que Conrad angariasse prestígio e popularidade se tivesse escrito o que tinha de escrever sem essa incessante preocupação com as evidências. mas como iremos convencê-los. por mais que fizesse. A crítica é conhecida. quase em repouso. seu estilo é um pouco sonolento às vezes. 1924 (Nota da edição inglesa). Sua reputação nos últimos anos foi. e o som da própria voz lhe era mais caro do que a voz da humanidade em sua angústia. e tamanho era o seu compromisso com uma língua estrangeira cortejada tipicamente mais por suas características latinas do que pelas saxônicas que lhe parecia impossível usar da pena de forma desagradável ou insignificante. triunfo. tão estudioso. sua vasta e implacável integridade. aquela beleza é uma disciplinadora. ser encontrada onde os homens em todos os tempos a encontraram. Mas assim que alguém fala com ela. Sua amante. inquestionavelmente a mais elevada na Inglaterra. em sua beleza. eles censuram. ainda assim ele não era popular. os amadurecidos e exigentes. Aquela beleza ensina. aí se prende ao gênio de Conrad alguma coisa em termos essenciais e não acidentais.Assim. como é melhor ser . Estudantes de quatorze anos. em circunstância alguma. com que magnificência ela se abate sobre nós. lá longe escutam um triste som arranhado. inflexível e preciosista. outros. se o aprendizado dela é inseparável do som de sua voz e eles estão surdos para isso? No entanto leia-se Conrad. não em livros eventuais mas no atacado. e tão difícil de refutar quanto as observações de pessoas surdas quando Figaro é apresentada. muito naturalmente. Henty. por mais que seja um hábito mortal apressar e fixar num só ponto nossas memórias. ele deixou frios e apáticos. Uma fonte de dificuldade e desagregação deve. Conrad era tão talentoso. e Dickens. Ele foi lido com prazer apaixonado por alguns. Entre seus leitores havia pessoas das mais opostas idades e preferências. com sua 97 reserva.

as qualidades de líder e capitão. acostumados à solidão e ao silêncio. Era um destino único e próprio deles. a despeito das mudanças e modelos. a devassidão .mas não conheceram o medo. Até Nostromo ser escrito. mas em paz com o homem. a capacidade de suportá-lo parecia a eles o privilégio dos eleitos! A geração deles viveu desarticulada e insubstituível. desregrados e crédulos. Typhoon. perdem seu poder de excitar e alfinetar. A natureza era a antagonista deles. Estavam em conflito com a natureza. eram fundamentalmente simples e heróicos. Ressecados em nossas pequenas amostras. Pessoas bem intencionadas tentaram representar estes homens tanto resmungando da comida quanto partindo para o trabalho por medo da vida. como a lealdade é boa e a honestidade e a coragem. e estes livros. Youth. Homens difíceis de administrar. como Marryat a contou. a violência. como os jovens eram rápidos em perceber. Eram homens do mar. é preciso possuir uma dupla visão. que eram para Conrad o apogeu de nossa raça. à lealdade. os homens para quem ele nunca se cansava de dedicar aplausos: "Eles têm sido fortes como são fortes aqueles que nem conhecem dúvidas nem esperanças. mesmo que sutil a mente e indireto o método de seu criador. homens sem voz . as qualidades próprias ao homem. Para apreciar .mas homens o bastante para menosprezar em 98 seus corações as vozes sentimentais que lamentavam a rudeza de seus destinos. ou Fenimore Cooper. não reivindica possuir. que Conrad manteve sua influência sobre rapazes e jovens. sem conhecer a doçura dos afetos ou o refúgio de um lar . Pois é claro que para admirar e celebrar homens assim e proezas assim. violentos e devotados.e morreu livre da tenebrosa ameaça de uma cova rasa. era ela quem induzia à honra. Mas é um mau trabalho arrancar insinuações deste tipo do contexto original. seus personagens. à magnanimidade. ela que em enseadas escondidas erigia à condição de mulher belas meninas insondáveis e austeras. Mas na verdade eles têm sido homens que conheceram a brutalidade. Acima de tudo. sem a mágica e o mistério da linguagem.Lord Jim. romanticamente. de coração inteiro e com o fervor de um apaixonado.bom do que mau. e não tiveram desejo de ódio em seus corações. Eles têm sido impacientes e tolerantes. Para louvar o silêncio deles é preciso possuir uma voz. era a Natureza que formava personagens tão calejados e testados como o Capitão Whalley ou o velho Singleton. é preciso estar a um só tempo dentro e fora. Eles foram os filhos eternos do misterioso mar. perdem a força drástica que é uma qualidade constante da prosa de Conrad. Pois foi pela virtude de alguma coisa drástica nele. Entretanto eles alcançam esta altura por meio de qualidades que a simples história de aventura. ainda que ostensivamente Conrad tenha-se concentrado apenas em nos mostrar a beleza de uma noite no mar. The Nigger ofthe "Narcissus". Assim eram os personagens dos livros iniciais . obscuros mas gloriosos em sua obscuridade. mas fáceis de animar. a privação. têm seguramente seus lugares garantidos entre nossos clássicos.

quando vemos. em alguma enseada desconhecida do Tâmisa.a rudeza deles é preciso ser sensível à fadiga. com ouvidos surdos. Ele declarou que o poder lhe veio subitamente.. Ele tinha o hábito de abrir os olhos de repente e olhar . Conrad e mais ninguém era capaz de viver aquela vida dupla. E tampouco Marlow viveu inteiramente envolvido pela fumaça de seus próprios charutos. ouvimos. e homens e mulheres. Todavia. suas casas e suas atitudes. mandando após sua baforada belos anéis de palavras até que toda a noite de verão se tornasse um pouco enevoada pela fumaça do charuto. o mais inteligente homem". como o tempo passa!" "Nada [ele comenta] poderia ter sido mais banal que esta observação. para um porto. compreendemos. ele pintou crepúsculos e alvoradas. ouvir por acaso um oficial francês murmurar: "Mon Dieu. Ele foi um observador cuidadoso e inabalável. navios na enseada. como nunca antes todas as coisas . E extraordinário como vamos através da vida com olhos meio fechados.. seu humor era sardônico. educado para aquela "lealdade absoluta para com seus sentimentos e sensações". "O mais discreto. antes de quedarmos de volta novamente em nossa agradável sonolência. Quadro após quadro ele pintou assim sobre aquele fundo negro. mas ele percebia o humor deles. fumando e relembrando. pois Conrad era composto de dois homens.em um lampejo.para um amontoado de entulho. com pensamentos entorpecidos. também.e então completar em seus candentes halos de luz aquilo que reluziu brilhante sobre o fundo misterioso. fumando e especulando. navios ancorados. Introspectivo e analítico. por exemplo. navios antes de tudo. ele pintou a noite. Ele farejava e descrevia de maneira magistral aquelas criaturas lívidas que pilhavam os veteranos desajeitados. que. Conrad escreveu. "um autor deveria preservar em seus mais exaltados momentos de criação. pintou o mar em todos os aspectos. junto com o capitão do mar vivia aquele sutil. para um balcão de loja . É preciso estar apto a viver em termos equivalentes aos dos Whalleys e dos Singletons e ainda assim ocultar de seus olhos desconfiados as verdadeiras qualidades que habilitam alguém a compreendê- los. Marlow tinha. um profundo respeito pelos homens com quem havia navegado. pode ser que haja poucos de nós que jamais tenha conhecido um destes raros momentos de iluminação. Poderia. navios velejando antes da tempestade. Levantei meus olhos quando ele falou e o vi como se nunca o tivesse visto antes." E muito tranqüila e compadecidamente Marlow às vezes deixa escapar algumas palavras de epitáfio . refinado e exigente analista que ele chamou de Marlow. disse de Marlow. mas sua pronúncia coincidiu para mim com um momento de visão. pintou o brilho exótico dos portos orientais. Tinha um 99 instinto para a deformidade humana. Marlow de nada gostava além de se sentar em um convés. Marlow era ciente desta peculiaridade. Marlow era um daqueles observadores natos que são bem mais felizes quando em recolhimento.

sentindo como deve ter sentido que nunca poderia melhorar a tempestade em The Nigger of "Narcissus". que disse isto. o comentarista. e ele chegou a ponto talvez de sugerir que. e desistir da navegação. aconteceu quando ele terminou a última história no volume de Typhoon . uma vez que ele é uma pessoa única com uma sensibilidade. Ele jamais acreditou em seus personagens posteriores e mais altamente sofisticados .que nos relembram. suponhamos. foi Marlow o parceiro dominante. The Arrow of Gold representam aquele estágio da aliança que alguns continuarão a julgar o mais rico de todos. complexa. e se como romancista se deseja testar o homem em todos os seus relacionamentos. a esclarecer aquela mudança que. com toda aquela beleza e brilho diante de nossos olhos. 100 sabedores de que estamos em um terreno perigoso. tem suas criaturas da noite. sentar fumando em um convés.parecia de alguma forma que nada mais havia no mundo sobre a qual escrever. da escuridão do fundo. não na solidão.com alguma alteração no relacionamento dos dois velhos amigos. Pois a visão de um romancista é ao mesmo tempo complexa e especializada. o conselho foi claro. Para eles sempre haverá uma fascinação peculiar nos livros em que a luz daqueles olhos brilhantes caem não somente sobre a devastação das águas mas sobre o coração em sua perplexidade. ou render um tributo mais fidedigno às qualidades dos navegadores ingleses do que aquele que já fizera em Youth e Lord Jim. aqueles anos atribulados guardavam suas memórias. ainda que de caráter mais pessoal. Ela nos levaria."uma mudança sutil na natureza da inspiração" . pudessem ser também interessantes. se deste modo Marlow aconselhou Conrad a mudar seu 101 ângulo de visão. dirão. ficaram em terra inúmeros homens e mulheres cujos relacionamentos. Conrad quem cria. Após o período intermediário Conrad nunca mais foi capaz de conduzir suas figuras em perfeita correlação com seu fundo. Contudo deve ser admitido que. revendo com triste satisfação as histórias que contou. Dessa forma uma distinção tosca e breve nos faria dizer que é Marlow quem comenta. Nostromo. ele lhe relembrava. porque por trás de seus personagens e dissociada deles deve permanecer alguma coisa estável com a qual ele os relaciona. no curso da natureza." Foi Conrad. deve-se envelhecer. Por alguns anos. lembrou-lhe como. o antagonista mais apropriado é o homem. Mas. especializada porque. ele tem suas tempestades. Conrad nos conta. Conrad o criador. portanto. os aspectos da vida em que ele pode acreditar com convicção são estritamente limitados. Foi então que Marlow. Chance. Se além disso supusermos que havia um volume de Henry James a bordo e que Marlow deu a seu amigo o livro para levá-lo para a cabeceira. Tão delicado equilíbrio é facilmente perturbado.. embora a última palavra pudesse ter sido sobre Capitão Whalley e sua relação com o universo. O coração humano é mais complexo que a floresta. ".. podemos recorrer ao fato de que foi em 1905 que Conrad escreveu um excelente ensaio sobre aquele mestre. sua provação está na sociedade.

que devemos ler integralmente. virão à mente e farão tais questões e comparações parecerem um tanto fúteis. quase uma desilusão que aturde e cansa. repetidas vezes. Homens complexos e mulheres de muitos interesses e relações não se submeteriam a tão sumário julgamento. no mundo de conceitos e relações pessoais. compaixão. como se os tempos tivessem 102 mudado. muito do que era importante neles escaparia ao veredicto. se Conrad iria criar. esplêndido no monólogo. mas onde. se o fizessem. Sua forma de pensar era um pouco sedentária. Então. eles emergem na memória como. ou. Pois quando a questão é formulada. estes livros.bonitas sempre. uma inconclusividade. embora devamos realizar expedições aos últimos livros e trazer de volta troféus maravilhosos. com sua força luxuriante e romântica. talvez. o mundo do último período de Conrad tem em torno de si uma obscuridade involuntária. "Ele navegou com cuidado". o que de Conrad sobreviverá e onde na classificação dos romancistas iremos localizá-lo. e aqueles "momentos de visão" resplandecendo e desfalecendo. Typhoon. o tufão não testa o valor de políticos e homens de negócio. vindo no fim de uma tempestade. ele não levou em conta que. não serviam tão bem quanto a luz de lampiões fixos para iluminar a ondulação da vida e seus longos.este mundo de pessoas civilizadas e conscientes de si é baseado em "algumas poucas idéias muito simples". ter alguma lei pela qual suas criações pudessem ser tentadas. The Nigger ofthe "Narcissus " . muito modestos e muito belos. Procurando e não achando tais apoios. carregava em si toda a moralidade. era essencial primeiro que acreditasse. São os livros iniciais . respeito . honra. 103 COMO ATACAR UM CONTEMPORÂNEO . naquelas noites quentes de verão. ele estava bem menos seguro de quais eram aqueles valores. Ele esteve sentado no convés por muito tempo. E dessa maneira era muito necessário ao gênio de Conrad.assim ainda era o seu credo . Talvez fosse Marlow que faltasse. grandes trechos deles irão permanecer para muitos de nós inexplorados. Quando ele teve que indicar a relação deles com aquele outro mundo invisível dos romancistas. que se encontrava escondida mas é agora revelada. haveremos de estar para achá-las? Não há mastros nas salas de visitas.como acreditara em seus primeiros navegadores. sucessivos anos. estava menos propenso às idas e vindas da conversação. Essencialmente . mas agora um pouco exaustivamente reiteradas. uma só frase. com seu jeito de estar nos contando alguma coisa muito antiga e perfeitamente verdadeira. Completos e serenos. Prendemo-nos somente ao crepúsculo de velhas nobiliarquias e sonoridades: fidelidade. Por esta razão.Youth. Lord Jim. lenta e grandiosamente uma estrela aparece primeiro e depois outra. Mas neste mundo mais populoso e complicado frases breves como essas tornavam-se cada vez menos apropriadas. o mundo de valores e convicções. Acima de tudo.

à medida que a conversa prossegue. por um milagre. O livro em foco. e de fato muito mais perturbador. ou foi Stephen Phillips. ao contrário. concordando entre si. É igualmente desconcertante para o leitor que deseja posicionar-se no caos da literatura contemporânea. ambos os cavalheiros. e o caso se resolverá muito adequadamente com uma recomendação para a biblioteca. está no ponto de arder para sempre entre as luzes eternas das letras da Inglaterra ou. No entanto ambos os críticos estão de acordo sobre Milton e sobre Keats. na primavera e no outono. e ainda nos provocassem com a necessidade de decidir se apostaríamos em seus juízos alguns poucos trocados. que automaticamente nos indica. Deve ser algum cinismo inato. de algum modo impregnou o ambiente. Portanto qual o valor de seus próprios julgamentos onde novos livros são examinados? Certamente. simultaneamente. deveria ser lançado às chamas. Mas se nos identificamos com o leitor e exploramos seu dilema primeiro. Haverá algum guia. Ouvimos falar de doutores se desentendendo sobre o novo e concordando sobre o velho duas vezes ao ano em média. desde que Robert Elsmere. um entusiasmo genuíno. e nos faz devolvê-la sem medo aos próprios críticos. declarassem o livro de Blank uma indiscutível obra-prima. Entretanto a questão persiste. de um lado. eles continuam a retirar . na fogueira. as opiniões lançadas com tanta espontaneidade aqui estarão imobilizadas em colunas de prosa sóbria nas quais se preserva a dignidade das letras na Inglaterra e na América. produzido com infinitas dificuldades e em quase total obscuridade. E do repertório de experiência deles. e houve a mesma discordância entre pessoas maduras sobre certos livros também. eis por que divergem. se o fogo não se apagasse. portanto. seja atormentado pela suspeita de que a reverência aos mortos está visceralmente conectada à compreensão da vida? Após uma rápida pesquisa ambos os críticos concordam em que não existe lamentavelmente alguém assim. se. Aí.que meio guinéu é de modo geral uma soma muito alta para ser desperdiçada em entusiasmos contemporâneos. nossa confusão se reduz bastante. e para o escritor que tem o desejo natural de saber se seu próprio trabalho. de outro lado. sem dúvida. um mero pacote de papel velho que. Seria muito mais incrível. quase nenhum. um contemporâneo pode raramente ser atacado com precisão pelo fato de que dois críticos em uma mesma mesa no mesmo momento irão pronunciar opiniões completamente diferentes sobre o mesmo livro.mesmo sem mostrar sinal algum disso . que é ao mesmo tempo a mais duradoura contribuição à literatura inglesa e uma mera miscelânea de mediocridade pretensiosa. A mesma coisa já aconteceu muitas vezes antes. Ambos são críticos de reputação. para o leitor. estarem de acordo . Eis a explicação. foi publicado há cerca de dois meses. nos dias de hoje. Exibem uma sensibilidade refinada e têm. alguém que sem ficar apenas na reverência aos mortos.Em primeiro lugar. se diz ser uma obra-prima da prosa inglesa. algum mesquinho receio do espírito contemporâneo. A explicação é estranha. É apenas quando discutem o trabalho de escritores contemporâneos que eles inevitavelmente chegam aos tapas.

Agradecendo-lhes humildemente. os ponha à prova pela leitura. Coleridge. exceto os antropólogos e literatos. uma disciplina. podemos apenas dizer que embora Mr. "O texto [To/d by an Idiot] deveria ser lido como a Tempestade. devemos 105 crer. crimes da crítica que. 106 . Não que se diga que o grande crítico . Johnson. mas no fundo da cabeça de todo leitor formava-se a consciência de haver pelo menos uma pessoa preservando os mais importantes princípios da literatura em horizonte visível: alguém que.fosse um juiz infalível da produção contemporânea. Arnold . poderiam somente ser dominadas por um gigante de dimensões fabulosas. se fossem cometidos contra os mortos e não contra os vivos. as rachaduras e turbulências das várias correntes que compõem a sociedade de nosso tempo. siga-os sem temor. As diversas escolas devem ter debatido calorosamente como sempre. mais que os submeter ao controle de algum crítico ou pesquisador vivo." . Os encontros à mesa de jantar dispersos pelo mundo moderno. Homens de bom gosto e erudição e habilidade ficam para sempre repreendendo a juventude e *Estas duas citações mostrarão quanto elas são violentas. Mas o simples fato de terem existido teve uma influência determinante. muito mais que um punhado de papel inútil.hester Guardian. e se sua ironia por acaso for menos extraordinária que a do autor de As Viagens de Gulliver. cujos veredictos selavam o livro indelevelmente e resguardavam o leitor da preocupação de reconhecer o valor por si mesmo. teria tateado com perseverança e ordenado pela própria autoridade ao contrário das explosões de louvor e de censura. não é fantástico supor. pois se o dom poético de Miss Maculay por acaso for menos sublime que o do autor da Tempestade. leitura e releitura." .The Manc.Dryden. teria controlado os desentendimentos à mesa do jantar e dado à conversa fortuita sobre algum livro o parecer de uma autoridade agora inteiramente em falta. No dia seguinte lemos: "Além disso. como é para todos. O único conselho que podem dar é que cada um respeite seus próprios instintos. que controlava a vasta república de leitores de uma maneira que é agora desconhecida. lhes custariam seus empregos e poriam em perigo suas reputações. milhões de policiais competentes e incorruptíveis. Os enganos destes grandes homens sobre seus contemporâneos são bem notórios para merecerem lembrança. das obras-primas do passado.The Daily News. sua imparcialidade e sua sabedoria não são menos nobres que as deles. The Waste Land não deve ser. Em tempos passados. e como AÍ Viagens de Gitlliver. Eliot tenha se contentado em escrever em inglês vulgar. a natureza deve ser generosa e a sociedade amadurecida. não podemos deixar de refletir que nem sempre foi assim.exemplos terríveis de erros do passado.* Mas quando isto servir para a formação de um crítico. Isso apenas. E onde está este homem altíssimo a quem temos o direito de esperar? Resenhistas nós temos. se lhe for atribuída alguma excentricidade momentânea. mas não críticos. havia uma regra. mas não juizes.

tumulto . mas que estamos mais que em dúvida se algum livro exista. Não há um mestre cujos ensinamentos os jovens fiquem orgulhosos de usar em seu aprendizado. Hyperion. mas. francamente. Kubla Khan. teremos de responder não só que não podemos concordar a propósito do mesmo livro. os críticos generosamente concordam. Nosso século não tem carência de operosidade. ou Flaubert e o tremendo poder de seu fanatismo. E de resto. Mas o resultado mais freqüente de suas penas hábeis e engenhosas é a dessecação dos tecidos vivos da literatura até serem pequenos esqueletos. que os pessimistas estão certos. mas se perguntamos pelas obras-primas parece. são formados graças à prodigalidade da época. sua percepção profunda e sua sanidade. com muito a justificar sua pobreza. Em primeiro lugar. Algumas poucas estrofes. como deveríamos mantê-lo. ou Keats com sua conduta distinta e natural. aparentemente. um capítulo aqui ou ali. e Prometeus Unboundforam todos publicados entre 1800 e 1821. Mas podemos caminhar para a posteridade com um feixe de páginas soltas. Hazlitt 's Essays. Conrad que o faz não tanto uma influência quanto um ídolo. se não são eles mesmos grandes poetas. sobretudo. com o conjunto da produção literária à frente. repetimos. Há algum grande homem a ser reabilitado. os romancistas e poetas. dizem. ou Coleridge. É como se uma época de gênios devesse ser sucedida por uma época de diligência. Se projetarmos pelo período de um século nosso teste. ou pedir aos leitores daqueles dias. o início deste romance. e indagarmos quanto do trabalho produzido nos dias de hoje na Inglaterra continuará a existir então. o final daquele. Sim. honrado e admirado. Hardy há muito tempo se retirou da arena e existe alguma coisa exótica relacionada ao gênio de Mr. Mas nossa época é de escassez à beira da penúria. conquanto sejam muitos e vigorosos e em plena torrente de atividade criativa. Mr. E nisto tudo. fermentando em seu cérebro a totalidade da poesia e deixando escapar aqui e ali uma daquelas profundas sínteses que são alcançadas pela mente quando aquecida na fricção da leitura. algumas poucas páginas. Em nenhum lugar iremos encontrar o vigor categórico de um Dryden. Mas caso miraculosamente aparecesse um. Não há um nome que tenha autoridade sobre o restante.celebrando o passado. são equivalentes ao melhor de qualquer outra época ou 107 autor. o peso do pessimismo parece suficiente para derrotar toda objeção. PrideandPrejudice. Waverly. é uma época de mesquinharia. É uma época de fragmentos. DonJuan. alguma escola a ser fundada ou destruída. The Excursion. é o mais raro dos seres. de que o alimentaríamos? Grandes críticos. também. Um grande crítico. como se fossem da própria alma do livro. para peneirar em nosso enorme monte de entulhos minúsculas pérolas? Tais são as questões que os críticos deverão legitimamente colocar para seus companheiros à mesa. se colocarmos um século contra o outro a comparação parece ser esmagadoramente contra nós. não há um cuja influência possa afetar seriamente seus contemporâneos. ou se prolongar além de nossos dias até aquele não muito distante futuro que nos agrada chamar de imortalidade. mas distante e à parte.

seres humanos. Nenhuma outra geração teve mais necessidade que a nossa de apreciar seus contemporâneos. uns poucos poemas de Mr. Mr. e finalmente temos de admitir a objeção de que apesar de tudo isso estamos apenas concordando com os críticos em respeito ao fato de que somos uma época incapaz de esforço consistente. E assim. tem a mesma influência sobre nós e a mesma fascinação. do pessimismo. sobreviverá. de Mr. Nosso otimismo. De Ia Maré. dispersa em fragmentos. aquilo em que vivemos. Toda a honra. tem seu próprio romance. Beerbohm. a distinção mais refinada. e justificar a revolta precipitada do otimismo contra a plausibilidade superior. E a literatura moderna. embora nobre. Yeats. Somos nitidamente apartados de nossos predecessores. Mr. Mas quando indagamos por obras-primas. É como uma relação de que esnobamos e escarnecemos diariamente. ainda que seja alguma coisa. nos alienou do passado . podemos estar certos. Trechos de For Away and Long Ago indubitavelmente passarão à posteridade inteiros.o súbito deslocamento das massas durante anos . que interrompe os mais sérios diálogos e reduz as mais graves observações. no final.e extravagância por clareza e trabalho duro. 108 Todavia. Lawrence. Uma alteração de escala . portanto. Ela possui a mesma valorosa qualidade de ser aquilo que somos. Devemos tentar desenredar as duas. mas horas de alguma coisa muito diferente. separando e escolhendo. casas. de Mr. é justo quando as opiniões universalmente prevalecem e adicionamos o boca a boca à autoridade delas que nos tornamos com mais exatidão conscientes de que não acreditamos em uma só palavra do que estamos dizendo. Ulysses foi uma catástrofe memorável . é em grande parte instintivo. que se entrelaçarão naquele momento para sempre. damos ouvidos às defesas ou às zombarias.imenso na coragem. mas não é uma grande maneira. E as conversas ao acaso entre pessoas que não têm qualquer chance de imortalidade e deste modo podem expor suas opiniões têm um cenário quase sempre de luzes. e contemplada pelo lado de fora. selecionamos ora isto. ruas. a conversa é sobre literatura. nada podemos fazer sem ela. tem momentos de grandeza. terrível no infortúnio. claro. preferimos a vida como ela é. mas. A vida não está completamente desprovida de colorido. recolhemos uma amostra. aquilo que fizemos. à sua maneira. O telefone. e muito embora admiremos os mortos. É uma época estéril e exaurida. àqueles que sacrificaram a própria imortalidade para pôr a casa em ordem. Há alguma coisa relativa ao presente que não trocaríamos. Entretanto este é um dos primeiros belos dias da primavera. é perfeito.nos mobilizou os tecidos de cirna a baixo. estranha a nós mesmos. Davies. e longe de ser seriamente comparada com a época anterior. brota do fato de que quando a vida revela tesouros assim diariamente. Ele brota de um dia bonito e do vinho e da conversa. ora aquilo. claro. repetimos. onde as contemplaremos? Alguma poesia. elegantes ou grotescos. ainda que nos fosse oferecida a opção de todas as épocas passadas para viver. Mas isto é vida. diariamente sugere mais do que o mais tagarela pode expressar. deveríamos rever com inveja o passado. com todas as suas imperfeições.

vacilando de extremo a extremo. Aqui de fato há todas as razões para otimismo. Todos os dias nos flagramos fazendo.estas cenas. Há uma deslavada tranqüilidade entre páginas e mais páginas de Wordsworth e Scott e Miss Austen que é sedativa até a beira da sonolência. Mas o brilho rapidamente se dissipa. com a difusa originalidade de nosso tempo. mas o leitor mais casual mergulhando na poesia. no outro pessimistas. Nuances e sutilezas se acumulam e eles as ignoram. Há um pouco de tudo nas obras de Wordsworth e Scott e Jane Austen. o sentido de ser humano. Muito do que é o melhor na produção contemporânea aparenta ser escrito sob pressão. então. voltamos ao começo. da audição. e aí nos resta uma insatisfação profunda.sobretudo. De que. registrado por um desolado taquígrafo que preserva com surpreendente brilho os movimentos e expressões das figuras conforme transitam pela tela. Parecem deliberadamente recusar-se a satisfazer aqueles sentidos que são estimulados tão vivamente pelos modernos. sua complexidade. em um momento entusiasmados. portanto. do tato . o choque da comparação entre passado e presente é de início desconcertante. de brilho que foi roubado da vida mas não transmutado em literatura. Pedimos aos críticos que nos auxiliassem. A irritação é tão aguda quanto o prazer foi intenso. na ficção. deriva aquela sensação de segurança que aos . Indubitavelmente há uma monotonia nos grandes livros. é a hora de aceitar os conselhos deles e corrigir estes extremos pela consulta às obras-primas do passado. Nenhuma época pode ter sido tão rica quanto a nossa em escritores determinados a expressar as diferenças que os separam do passado e não às semelhanças que os conectam com ele. os sentidos da visão. então. Agora.e nos tornou talvez mais ativamente conscientes 109 do presente. sua profundidade e a variedade de suas percepções. devolvê-la aos nossos cuidados completa e compreendida. mas eles desaprovaram a tarefa. e aparentemente fortuitos conjuntos de idéias incongruentes que nos atropelam com um tão afiado sentido de novidade . seu íntimo.e. em uma palavra. a sinceridade. As oportunidades ocorrem e eles as negligenciam. Seria desagradável mencionar nomes. na biografia dificilmente pode deixar de se impressionar com a coragem. incapazes de chegar a alguma conclusão acerca de nossos contemporâneos. em resumo. impelidos não pelo juízo sereno mas por alguma necessidade imperiosa de ancorar nossa instabilidade na segurança delas. Mas nosso contentamento é estranhamente abreviado. Livro após livro nos deixam com a mesma sensação de promessa malograda. honestamente. Novos livros nos atraem a leitura em parte na esperança de que irão refletir esta reordenação de nossa atitude . pensamentos. de pobreza intelectual. Nos sentimos de fato guiados para elas. como a literatura faz. E sentimos as diferenças que não têm sido notadas de maneira mais aguda ainda que as semelhanças que têm sido perfeitamente manifestadas. 110 Entretanto. sua desordem. dizendo ou pensando coisas que seriam impossíveis a nossos pais. Depois de tudo.

O minúsculo grão de experiência uma vez selecionado. aceito como verdade. dizem. levam a nada. pôde ser encaixado precisamente em seu lugar. Basta acreditar. através de um processo que nunca revela seus segredos ao analista. O mais sincero deles nos contará somente o que lhe tem acontecido. e não é. diante do próximo e diante do universo. mas fará com que sintam isso como literatura. É estar livre. que rabiscava obras-primas para construir castelos antes do café da manhã.poucos. Mas é igualmente verdadeiro no caso do descuidado Scott. Acreditar que suas impressões são válidas para os outros é estar liberto da paralisia e 111 do confinamento da personalidade. como bem poderia ser. talvez. e também no caso da modesta moça solteira que escrevia furtiva e mansamente apenas para proporcionar prazer. porque não estão livres de outros seres humanos. Mas aqui os críticos se interpõem. Não podem narrar histórias porque não crêem que aquelas histórias sejam verdadeiras. Se esta descrição se confirma. e tudo o mais virá por si mesmo. e externado. Basta acreditar. Não podem criar um mundo. Não podem generalizar. o poeta filósofo. mais do que do intelecto cuja mensagem é obscura. Em Wordsworth. e ela estava então livre para fazê-lo. que se impõe sobre nós. Conhecem as relações dos seres humanos. deliciosamente. Assim nossos contemporâneos nos afligem porque deixaram de acreditar. e com alguma demonstração de justiça. para explorar com um vigor que ainda nos mantém fascinados todo um mundo de aventura e peripécias. Estacionados em um ângulo novo de uma perspectiva eterna. e então. que. acreditando-se no fato implícita e inquestionavelmente. nos surpreendemos a dizer. Nenhum deles provavelmente tem uma palavra a dizer sobre a matéria em sua totalidade. Eles têm seus juízos de conduta. para pegarmos um exemplo muito simples que a recente publicação de The Watsons nos faz lembrar. há a mesma convicção natural de que a vida é de uma qualidade inalterável. Porque uma certeza deste tipo é a condição que torna possível escrever. podem somente sacar seus cadernos e registrar com torturada intensidade as centelhas esvoaçantes. É também o primeiro passo naquele processo misterioso em que Jane Austen foi tão excepcional conhecedora. e por completo nos domina? É o poder de suas crenças - suas convicções. timidamente passam de mão em mão e de livro a livro somente as mais desprezíveis moedas de cobre. com toda a riqueza do idioma inglês às costas. que iluminam o quê? e os esplendores transitórios. que uma bela moça irá instintivamente tentar abrandar os sentimentos de um rapaz que fora esnobado em um baile. isto é óbvio o bastante. como Scott estava livre. isso não apenas fará com que as pessoas cem anos depois sintam a mesma coisa. cujo testemunho é fidedigno. Dependem de seus sentidos e emoções. E ainda forçosamente precisam se negar ao uso de algumas das mais poderosas e das mais raras armas de seu ofício. Em todos. mas tudo depende disso. naquela manifestação plena que é a literatura. inteiramente dependente de nossa posição à mesa e de certas preferências meramente pessoais .

com sua irmã? Para resumir. a continuidade e a calma. ou não. nas profundezas. um palmo da mesa onde nos sentamos a tagarelar. afastando-se. os trabalhadores individualmente podem bem 113 permanecer anônimos. resistiu a muitas mudanças. A literatura. foi escrito no ano de 1880. irá carregá-los sob os braços. e o Tempo. admitamos. e Wordsworth. vamos pedir a eles que sejam generosos ao encorajar.parece que seria sensato aos escritores do presente renunciar à esperança de criar obras-primas.se Byron casou com sua irmã . se ele casou. e a questão candente do momento é. em colocar sob um microscópio uma polegada de fita que se estende por milhas. Que tranquem a porta à amável confraria onde o açúcar é barato e a manteiga farta. é difícil. sendo erguida pelo esforço comum. A tormenta e o transbordamento estão na superfície. parem. peças.se de fato alguma conclusão é possível quando todo mundo fala ao mesmo tempo e já é tempo de ir embora . parecerem um pouco ridículos. e é somente uma visão curta e uma mente paroquial que irão exagerar a importância destes vendavais. como um bom diretor de escola. mas pessoais e apaixonadas. de quem as avaliações são quase sempre não apenas pessoais. escreveu Matthew Arnold. no prazo de seis meses. moderação. Há todas as desculpas para eles se erram longe o alvo. mas não os atirará à lixeira.e. Shelley. se conservou. então os riscos de se julgar a produção contemporânea são maiores do que nunca antes. da terra arrasada do presente em direção à segura tranqüilidade do passado. romances não são livros mas cadernos. e murcham. Ele irá mantê-los pois outros estudantes irão considerá-los muito úteis. e os rasgará pela metade. mas se poupando daquelas grinaldas e coroas que tanto tendem a entortar. Além disso. por um tempo ao menos. portanto . "Adentramos em uma terra arrasada". biografias. como Matthew Arnold aconselhou. talvez. mesmo se possam agitar as pequenas embarcações que agora estão balançando no mar. Seus poemas. nos lembram. É dos cadernos do presente que as obras-primas do futuro são feitas. "à medida que 112 nos aproximamos da poesia de tempos tão próximos a nós. o centenário de Byron está a um palmo. e o estudo dos clássicos devem ser recomendados." e isto.por potes de mostarda e vasos de flor. poesia como a de Byron. Que assumam uma visão da literatura moderna mais ampla e menos pessoal. como os críticos vêm dizendo atualmente. em que. cujo trabalho. e considerem de fato os escritores como se estivessem engajados em alguma grande construção. perigoso e quase sempre insípido. apontar suas rasuras e rabiscos e manchas. com a discussão daquele assunto fascinante . e fazem os usuários. Quanto aos críticos cuja tarefa é proferir sentenças sobre os livros do momento. as coisas evoluem por si se você aguardar. Tenham cuidado. digam alguma coisa de interessante sobre a literatura . a vida é curta. e sem dúvida seria melhor se retirar. dizem.

"meu projeto com isso foi nos ensinar a amar o mundo e os nossos próximos melhor do que fazemos". Desde as primeiras palavras . com impaciência mas confiante. sentiu as críticas no fundo do coração. Eliza Draper. digo. Um mundo em que qualquer coisa pode acontecer. Nenhum jovem escritor poderia ter a ousadia de tomar tamanhas liberdades com a gramática e a sintaxe e o sentido e a propriedade e a tradição há muito estabelecida de como um romance deve ser escrito. isto é. Em seu próximo livro. e convocá-los a seguir o exemplo dela: esquadrinhem o horizonte. era-lhe impossível corrigir o estilo. Vamos entretê-los enquanto nos permitem. por menos que tenha deixado transparecer. e a provar. e então preparem o caminho para que venham as obras-primas. No entanto se era possível a Sterne corrigir suas maneiras. a voz do público comum em geral podia ser ouvida protestando que. e evocar à memória deles aquela aristocrata esquálida.estamos no mundo de Tristram Shandy. e os seres honrados. para dizer o mínimo. É necessária uma forte dose da segurança da meia idade e de sua indiferença à censura para correr tantos riscos de chocar os letrados pela inconveniência do estilo pessoal. foi escrito em uma época em que muitos escreviam sobre seus vinte anos. que lampejo de poesia não estará à espreita de repente através da brecha aberta por . Mas ostenta todos os sinais de maturidade.Elas ordenam. ficaram encantados. Sterne tornou-se o ídolo da cidade. Mas Sterne. não apenas o brilho de sua inteligência. e que o arcebispo de York deveria aplicar. Mas o risco foi corrido e o sucesso foi prodigioso. nada fez. Aquele coração já muito aflito desde a publicação de Tristram Shandy. Só que na algazarra das gargalhadas e dos aplausos que saudaram o livro. examinem o passado em relação ao futuro. pela irregularidade de sua moral. Lady Hester Stanhope.em si. Todos os grandes. 114 que se sentou para escrever a narrativa de uma pequena viagem à França que chamou de Uma Viagem Sentimental. este assunto melhor na França . uma repreensão. os exigentes. A VIAGEM SENTIMENTAL r j listram Shandy. o objeto de sua paixão. que manteve um cavalo branco igual leite em seu estábulo de prontidão para o Messias e permaneceu para sempre esquadrinhando os cumes das montanhas. como o nariz grande ou os olhos brilhantes. Dificilmente sabemos que gracejo. em busca de sinais de Sua chegada. quando tinham vinte e cinco. se tratava de um escândalo. O arcebispo. viajara para se encontrar com o marido em Bombaim. embora seja o primeiro romance de JL Sterne. Ele se tornou cada vez mais uma parte sua. parece. Foi com motivos iguais a esses animando-o. Em suas próprias palavras. mas as profundezas de sua sensibilidade. que zombaria. vindo de um clérigo. Sterne estava determinado a apresentar os efeitos da mudança que lhe aconteceu. eu.

Até agora. A Catedral tem sido sempre um imenso edifício em qualquer livro de viagens e o homem uma figura pequena. A verdadeira pontuação é a do discurso. conta-nos. e suas aventuras principais não eram com bandidos e precipícios mas com as emoções de seu próprio coração. Esta mudança no ângulo de visão foi por si mesma uma inovação ousada. não escrito. e traz consigo os sons e as associações do discurso oral. a surpresa e irrelevância delas. pode criar um personagem e nos deixar em paz com ele. Pouco ou nada de Uma Viagem Sentimental sobraria se tudo a que chamamos o próprio Sterne fosse extraído dali. As cerimônias e convenções usuais que mantém leitor e escritor distantes um do outro desaparecem. Sterne de algum modo resolveu esta combinação surpreendente. A mais extrema fluidez coexiste com a mais extrema permanência. É como se a maré subisse e agitasse o mar para lá e para cá e deixasse as marcas do ir e vir das ondas na areia como que em mármore. Ninguém.esta pena surpreendente e ágil na espessa cerca viva da prosa inglesa. Será Sterne. Esteve viajando pela França de fato. Ele não tem qualquer informação valiosa para dar. nenhuma filosofia razoável para compartilhar. Ele deixou Londres. desconectadas. A ordem das idéias. teve mais necessidade da liberdade de ser ele mesmo do que Sterne. ou traído por uma desordem e uma dispersão incríveis. Pois enquanto há escritores cujo dom é impessoal. adequadamente diminuta. a seu lado. Mas Sterne era perfeitamente capaz . qualquer um que tenha tentado a experiência foi por sua vez emudecido pela dificuldade. de modo que um Tolstoi. são tão rápidas e tendem a parecer tão pouco controladas como as frases que jorram dos lábios de um orador brilhante. é mais fiel à vida que à literatura. Sob a influência desse estilo extraordinário o livro torna-se semi transparente. o viajante havia observado certas leis de proporção e perspectiva. "com tanta precipitação que sequer me veio à cabeça que estávamos em guerra com a França". por exemplo. Estamos tão próximos da vida quanto podemos. claro. mas a estrada passava sempre através de sua própria mente. ele mesmo. Sterne precisa sempre estar lá em pessoa para nos ajudar em nossa comunicação. o responsável? Será que sabia que o que iria dizer em seguida a todos seria analisado como o comportamento mais importante de sua época? As frases espasmódicas. para responder a seus caprichos e impulsos mais brilhantes. Pois embora o escritor seja sempre perseguido pela crença de que de algum modo deva ser possível espanar para longe as cerimônias e convenções da escrita e falar ao leitor tão diretamente quanto pela palavra oral. Que Sterne consiga essa ilusão apenas pelo uso de extrema arte e de extraordinário esforço fica óbvio sem que se vá aos seus manuscritos para comprovar. para expressar suas mudanças de ânimo. Ele nada tem a dizer sobre quadros ou igrejas ou sobre a miséria ou o bem-estar campestre. Há uma intimidade nesta comunicação que permite que as coisas escapem irreprimidas de modo que seria de gosto duvidoso terem sido ditas em público. e ainda assim o resultado é perfeitamente tranqüilo e preciso. Nenhum texto parece fluir com mais exatidão entre as muitas 116 dobras e rugas da mente dos indivíduos.

Os olhos de Sterne eram ajustados de tal modo que coisas pequenas quase sempre tinham neles importância maior que as grandes. um jumento e uma moça com carteira de cetim verde. Sua escolha é caprichosa e individual. De minha parte. conquanto seu método seja arbitrário e em ziguezague. Inútil ir a um livro de viagens. E embora o . Isto é tudo uma questão do ponto de vista de cada um. e carreguei comigo vinte diferentes diálogos. 117 A conversa de um barbeiro sobre a presilha de sua peruca revelava-lhe mais sobre o caráter da França do que a grandiloqüência de seus estadistas. a senhora. escala alguma de valores universal. A despeito de todo seu interesse em psicologia Sterne foi muito mais ágil e menos profundo do que os mestres desta escola um tanto sedentária vieram a ser. Ao preferir os meandros de sua própria mente ao guia de viagens e às bifurcações das rodovias. onde os grandes homens de todas as nações conversam e andam de maneira tão semelhante. as coisas em si também o interessavam intensamente. não sob o claro meio-dia em ruas largas e abertas. somente elas podem nos falar qual a importância relativa de uma catedral. devemos consultar nossas próprias mentes. um jumento morto mais instrutivo que um filósofo vivo. 118 • VIRGÍNIA WOOLF Ele está. os Richardsons e os Fieldings. ele parece insinuar. seria preciso procurar por isso. Pois não há. Por todas nossas divagações.uma sucessão de cenas. Porém há uma diferença. Penso que posso ver os sinais precisos e distintos do caráter nacional mais nestes minutiae sem sentido. Uma moça pode ser mais interessante que uma catedral. . do que nos mais importantes assuntos de estado. vou interpretando todo o caminho. Seria preciso cultivar uma espécie de taquigrafia que exprimisse as muitas variedades de olhares e braços em palavras claras. Uma moça com uma carteira de cetim verde poderia ser muito mais importante que a Notre Dame. a moça na livraria. que não daria sequer uns vinténs para estar entre eles. o Cavalheiro vendendo pâtés. Interessado como era no modo como via as coisas. La Fleur em seus novos culotes. estive mais de uma vez por perto de uma roda de pessoas. Da mesma maneira.de omitir a Catedral por inteiro. Uma Viagem Sentimental é uma sucessão de quadros . E por estas razões ele é muito mais íntimo de nós hoje do que seus grandes contemporâneos. Em seu interesse pelo silêncio maior do que pela fala Sterne é o precursor dos modernos. ocupando-se de uma viagem. mas nenhum realista conseguiu ser mais brilhantemente bem sucedido ao exprimir a impressão do momento. se alguém deseja dimensionar a essência das coisas como um viajante sentimental faria. mas de uma esquina despercebida à chegada do anoitecer. É assim que Sterne transfere nosso interesse do exterior para o interior. percorremos a distância entre Calais e Módena no espaço de algumas poucas páginas. os quais poderia muito bem escrever e assinar embaixo. contando uma história. onde nem três palavras haviam sido ditas.Monk. Sterne é singularmente de nossa época. afinal. graças a antigos hábitos. Era uma arte em que Sterne se exercitou durante muito tempo para praticar. faço isto tão mecanicamente que quando ando pelas ruas de Londres.

somos empurrados de volta para olhar os prados verdes se incendiando do outro lado. permite a Sterne quase uma licença poética. É possível recortar e os ler destacados do texto. pareceria intoleravelmente estranha em suas páginas. é por outra razão.o público que ficou chocado. lastimavelmente. E sem rodeios um escritor se ergue para provar a si mesmo que esta ou aquela de nossas suspeitas são incitadas. Os mendigos se juntam ao seu redor . correndo na arena do prazer. Pois sentimos que Sterne está pensando não na coisa em si.todos lutando como se empunhassem espadas fascinantes em torneios de outrora por fama e amor. Mudamos de uma emoção para outra oposta num piscar de olhos. Se ele (Uma Viagem Sentimental) não é considerado um livro casto. e olhando através da vidraça vi o mundo todo amarelo. Aí. humano.que em Tristram Shandy jamais esteve em questão . considerou necessário replicar. E aqui a responsabilidade repousa. seu perpétuo poder de surpreender e de chocar são o resultado destes contrastes. Sorrimos. e em vez de sentimento. esta negligência com a seqüência ordenada da narrativa. . tende piedade daqueles que o leram. 119 sua leveza.. zombamos. e escolhe as flores não ao acaso mas por alguma rara harmonia ou alguma discórdia brilhante.eles assentam harmoniosamente lado a lado na página impressa. Ele nos leva às verdadeiras margens de algum profundo precipício da alma. Sterne.o jovem em armadura esplendorosa que brilhava feito ouro. e ainda assim pois Sterne foi um mestre da arte do contraste . mas na sua repercussão sobre o que achamos dele. emplumado com vistosas penas orientais . que acima de todas as coisas preza a decência. eu era mais shandeano do que de fato sempre fui. Há muitos trechos como este de pura poesia em Sterne.. Ele consegue expressar idéias que os romancistas comuns iam ignorar em linguagem que. sentimentalismo. O mundo imaginou [disse a Lord Shelburne] que por ter escrito Tristram Shandy. e em elmos que tinham perdido suas viseiras . que reclamou após a publicação de Tristram Shandy que o escritor era um cínico que merecia ser destituído da batina. Seu frescor. mesmo se o romancista comum pudesse dominá-la.O velho com suas lanças quebradas. lançamos um breve olhar em suas profundezas. simpático.começamos a duvidar. ao menos em parte. pois devem ter uma imaginação ardente.vôo desta mente errante seja tão ziguezagueante quanto o de uma libélula. não se pode negar que esta libélula tenha algum método em seu vôo. em vez de sermos convencidos da ternura do coração de Sterne . Caminhei solenemente até a janela em meu casaco preto etnpoeirado. simpatizamos por etapas. sobre o público . Esta frágil ligação com a realidade aceita.todos . a simplicidade do coração humano. no momento seguinte. de forma que em vez de humor. azul e verde. Se Sterne nos inquieta. temos farsa. Pois a pequena tensão excedente depositada na qualidade que deseja que vejamos nele. choramos. sem dúvida! Assim sendo em Uma Viagem Sentimental nunca nos é permitido esquecer que Sterne é acima de todas as coisas sensível. torna-a grosseira e de um colorido borrado.

uma perversão latente .a filosofia do prazer.uma insinuação de uma impura presença. e somos obrigados a fitar por longo tempo a modéstia. Sua mente. que faz a alegria. sua mente está particularmente em nós. É verdade que é uma filosofia que estava bem fora de moda na era vitoriana . parecer mais desejável que seus sofrimentos. teve a irreverência de refletir. diferente da que é causa ou conseqüência de simples alegria. mesmo a de outras pessoas. De modo que sua conclusão. é baseada em alguma coisa fundamentalmente filosófica. Na realidade. deve ter sido em algum intervalo entre uma paixão e outra". "Mais vive Ia joie. a arrogância do romancista vitoriano parece pelo menos tão digna de culpa quanto as infidelidades do pároco do século dezoito... ao fim do capítulo. O humor é subjugado a alguém uniformemente bondoso. colocada. por toda sua leveza e perspicácia. para verificar se apreciamos sua bondade. Vive 1'amour! Et vive Ia bagatelle!" Embora fosse clérigo. como se o autor tivesse refreado a variedade natural e a vivacidade de seus gostos. a filosofia que defende que é necessário se comportar bem tanto com as pequenas coisas quanto com as grandes. para maior ênfase. a principal falha de Uma Viagem Sentimental vem do interesse de Sterne por nossa boa opinião sobre seu coração. - "Numa palavra. Perde-se a variedade. Aos olhos do século dezenove tudo o que Sterne escreveu ficou enevoado por sua conduta como marido e amante. não está apenas e tão simplesmente nos mendigos." Aos nossos dias. O pulha teve audácia de chorar através dos lábios de um de seus personagens. Onde os vitorianos deploraram suas mentiras e suas frivolidades. porém. e exclamou que "Não há uma página dos textos de Sterne em que não haja alguma coisa que seria melhor à distância. "e desejo poder continuar assim até morrer. enquanto assistia aos lavradores franceses dançando. De fato Uma Viagem Sentimental. nos enjoa com sua doçura como um torrão de açúcar puro no fundo de uma xícara. o vigor. a libertinagem de Tristram Shandy. Thackeray chicoteou-o com sua justa indignação. apesar de seu brilhantismo. terno e compadecido demais para ser natural. e de acrescentar. a coragem com que devolveu todas as aflições da vida ao riso e o brilhantismo da expressão são muito mais evidentes agora." . com receio de que pudessem ser ofensivos. Contudo é significativo da mudança de gosto que nos atinge que seja o sentimentalismo de Sterne que nos ofende e não sua imoralidade. O homem desavergonhado teve a ousadia de confessar "ter tido um caso amoroso com uma princesa ou outra quase por toda a minha vida". O interesse pela sua sensibilidade cegou sua agudeza natural. a simplicidade e a virtude estabelecidas com imobilidade demais para serem olhadas.e ele dá âopauvre honteux mais do que era pretendido. que poderia distinguir uma elevação de espírito. Há uma monotonia acerca disso. 121 firmemente convencido de que se alguma vez realizei uma ação maldosa. creio que vejo Religion misturado à dança. "e acreditei que ele me agradeceu mais do que todos os outros".

mesmo que a piada não seja muito decente.o homem que desperdiçou seu tempo de forma tão imoral com tantas mulheres e escreveu cartas de amor em papéis ornados de ouro quando deveria estar deitado em uma cama de doente ou redigindo sermões . a procura da felicidade não é tão fácil. minúsculas. o que ler. devemos exercitá-los. COMO SE DEVE LER UM LIVRO?" Em primeiro lugar. de nos controlar. usar suas próprias razões. É preciso piruetar pelo mundo. então. então me sentirei com liberdade para expor algumas idéias e sugestões pois não se haverá de supor que sejam cerceamentos à independência. Admitir autoridades. sua graça. Somente quando se põe o livro de lado e se invoca seu equilíbrio. não. se o chavão é perdoável. se sua esposa é desagradável. o que pode. que uma pessoa pode dar à outra sobre o ato de ler é não seguir conselho algum. você está consumindo todo o seu tempo. chegar a suas próprias conclusões. persegui-la é uma obrigação. desavisada e ignorantemente. se. . aqui neste lugar único. a religião da felicidade teve grande dificuldade para se sobrepor. pois tornais a estrada da vida mais fácil!" É preciso . e a tranqüilidade e a beleza brilhantes com que nos são transmitidas. desculpá-lo é que. olhando e prescrutando. este não seria um termo que Sterne gostasse de usar. E de que Sterne foi um grande escritor não podemos duvidar. seguir seus próprios instintos. a resposta valeria somente para mim e não para vocês. de fato. que valor atribuir ao que lemos.ali. com exatidão e com energia.basta de tanto precisar. afinal. e um professor? Escritores muito maiores existem. afinal. Mesmo que pudesse responder sozinha à pergunta.Era um atrevimento para um clérigo perceber a relação entre religião e prazer. sua sincera alegria em todos os diferentes aspectos da vida. doces cortesias da vida. O único conselho. mas Hamleté uma peça melhor que Lear? Ninguém pode afirmar. em nossas bibliotecas e deixálas nos dizer como ler. Mesmo na vida diária é preciso não se esquecer de gritar "Ave. Se você não é mais jovem. mesmo austeramente engomadas e togadas. entregando uns cobres ali. quero enfatizar o ponto de interrogação no fim de meu título. Em todos os demais lugares poderemos ser constrangidos por leis e convenções . Isso talvez seja uma das primeiras dificuldades que nos aparecem numa biblioteca. Mas para desfrutar a liberdade. esguichando água em metade da casa para regar uma simples roseira. e sentando-se em qualquer pedaço de terra ensolarado que se possa achar. claro. se está totalmente endividado. Porém. Cada um deve decidir esta questão por si. É preciso contar uma piada. Acima de tudo. Se concordarmos com isso. que leis podem ser formuladas sobre livros? A batalha de Waterloo sem dúvida foi disputada em um determinado dia. que é a qualidade mais importante que um leitor pode ter. ao sacolejar pela França em uma carruagem. é destruir o espírito de liberdade que é o oxigênio desses santuários. se acredita ter um escritor uma convicção que o apoia. talvez.não foi ele um estóico à sua maneira e um moralista. em seu caso. Não foi o covarde de Thackeray . Ou mais. Não podemos esbanjar nossos poderes. deleitando-se com um flerte aqui. temos.

numa esquina. Certas pessoas. Poemas e romances. ler é um processo lento e mais complicado que ver. Se pudéssemos banir todas essas visões preconcebidas quando lemos já teríamos um início admirável. todo o domínio sobre a emoção propriamente. Onde. a luz elétrica tremeluzia. algum acontecimento que lhe tenha deixado uma impressão especial . as mulheres fofocam em torno da bomba d'água.ficção. Seja seu colaborador e cúmplice. biografia. Evoque. procuram por livros que digam o que os livros nos podem oferecer. da história o que possa vir a reforçar nossos preconceitos. e faz restrições e critica logo de início. você perderá. da biografia o que seja lisonjeiro. inclusive. da poesia o que possa ser falso.) 122 123 Que é esse "lugar único"? Ele pode muito bem nos parecer nada mais que uma conglomeração.como. Uma árvore agitava-se. raças e idades apertam-se uns aos outros na estante. envolva-se pessoalmente com isso. um amontoado de coisas confusas. Algumas devem se abrandadas. (Nota da edição inglesa.* Palestra realizada em uma escola. Não dê ordens a seu autor. tente aproximarse dele. Se você hesita. enfrentar suas próprias experiências com os perigos e dificuldades das palavras. portanto. em que você passou por duas pessoas que conversavam. estamos? Como traremos a ordem para este fabuloso caos e então conseguir daquilo que lemos o prazer mais vasto e profundo? É bastante simples dizer que. por estarem os livros classificados . Mais comumente recorremos a eles com a alma perturbada e dividida. provavelmente. irão colocá-lo diante de um ser humano diferente de qualquer outro. E lá fora os asnos urram. Os trinta e dois capítulos de um romance . ou tentando lhe oferecer. Mas quando você tenta reconstruí-lo em palavras. quem sabe.devemos separá-los e retirar de cada um o que é certo que nos ofereça.se considerarmos primeiramente como ler um romance . dicionários e relatórios. mas escrever. histórias e memórias. para começar. exigindo da ficção o que possa ser verdadeiro. alguma coisa muito mais definida. verificará que ele se reparte em milhões de impressões conflitantes. Mergulhe nisso. você impede a si mesmo de alcançar a mais plena possibilidade de avaliar aquilo que lê. desde os subterfúgios das primeiras frases. mas também trágico. os potros galopam pelos campos. uma idéia integral parecia contida naquele momento. livros escritos em todas as linguagens por homens e mulheres de todos os temperamentos. e logo você encontrará o que seu autor está lhe oferecendo. outras enfatizadas. o tom da conversa era cômico. Mas se você abre sua cabeça o máximo possível. Então saia de suas confusas páginas rascunhadas para as páginas iniciais de . no processo.são uma tentativa de produzir alguma coisa tão planejada e sob controle quanto um edifício: mas as palavras são mais impalpáveis do que tijolos. então os sinais e as alusões de sutileza quase imperceptível. Talvez a maneira mais rápida de compreender os elementos de que é feito um 124 romancista não seja ler. uma visão completa. poesia .

mas entre a natureza e o destino. . com diferentes intenções? Deveremos ler. uma coisa acontece depois de outra. mudamos para Hardy. e aventuras? Biografias e memórias respondem a todas estas indagações. cada um é coerente consigo. Os pântanos nos cercam e as estrelas estão muito acima de nossas cabeças. o fato e a ordem dos fatos bastam. Assim. ou Thomas Hardy .os serviçais fofocando. o que são. Não é que estejamos meramente na presença de pessoas diferentes . Por mais diferenças que haja entre estes mundos. Deve-se ser capaz não apenas de grandes delicadezas de percepção. de todo modo.o lado escuro em que sobressai a solidão. de homens falecidos há muito tempo e esquecidos.é ser colhido. Quem são. As dela estão na sala de visitas. nos postamos diante de uma casa onde as lâmpadas estão acesas e ainda não cerraram as cortinas. um trabalho artístico. ao inserir duas espécies de realidade 125 no mesmo livro.Defoe. de Peacock a Trollope. Biografias e autobiografias. quais seus nomes.algum grande romancista-Defoe. Jane Austen. seus pensamentos. JaneAusten. mais uma vez damos uma guinada. nos recusaremos a ler porque não são "arte"? Ou deveremos ler. antes de tudo. para satisfazer aquela curiosidade que se apossa de nós algumas vezes quando. somos consumidos pela curiosidade sobre a vida destas pessoas .mas que estamos vivendo num mundo diferenciado. Ler um romance é uma arte complexa e difícil. nada significam para Jane Austen. os senhores jantando. O outro lado da mente é agora exposto . Agora. Entretanto. quando nos acostumamos à sala de visitas e a seus reflexos. e as pessoas conversam. vidas de grandes homens. ao anoitecer. um rápido olhar no conjunto heterogêneo da estante mostrará que escritores são muito raramente "grandes artistas". a menina se vestindo para uma festa.lhe oferece. jogam luz imensurável naquelas casas. não o lado luminoso que mostra o companheirismo. mas de maneira diferente. O criador de cada um deles é cuidadoso ao observar as leis de sua perspectiva pessoal. um livro tem pretensões de ser. E se. por exemplo. suas ocupações. é ser lançado ora num caminho ora em outro.o grande romancista . Nossas relações não se dão entre pessoas. muito remotamente. marchamos em caminho largo e plano. de Scott a Meredith . em geral. mas de grandes audácias da imaginação caso se vá explorar tudo que o romancista . como escritores menores freqüentemente fazem. se exaurindo. Aqui. ir de um grande romancista a outro . em Robinson Crusoe. e apesar da grande força de estilo com que nos brindam nunca nos confundem. você estará melhor capacitado a admirar a mestria deles. revelam-nos pessoas envolvidas com seus afazeres diários. que permanecem lado a lado com romances e poemas. e pelos muitos espelhos de suas falas revelam seus caracteres.de Jane Austen a Hardy. a velha senhora à janela com seu tricô. e cada pedaço de assoalho nos indica a existência de uma vida humana? Assim. Hardy. Mas se ar livre e aventura significam as coisas que mais importam para Defoe.

e então viajar novamente para o norte com aquela outra Lady Pembroke. Os Temples e os Swifts. E algumas vezes. Esta. é uma das maneiras pelas quais podem ser lidas 127 estas vidas e obras. e malcheirosa. por um instante. a grande casa de praia ao pé das colinas. comendo. até Twickenham. portanto. e encontrar Voltaire e Diderot. estamos entre selvagens e soldados. seguindo as trilhas que se estendem nas páginas dos livros. nos degraus da varanda de Miss Berry. e depois voltar para a Inglaterra e para Twickenham . Mas aí não há escoras. um famoso local de encontro de nobres e poetas. combatendo. os Harleys e os St.como certos lugares se repetem e se repetem certos nomes! . ele é o amigo da mulher amada por Walpole. até a casa de Walpole em Strawberry Hill. 126 Vemos um poeta. caçando. Podemos acompanhá-lo. de casa em casa. em Londres. ou se jogar dentro da cidade e controlar nosso contentamento com a aparição de Gabriel Harvey. passamos de um ponto a outro da literatura inglesa e despertamos para nos localizar aqui. por exemplo. a casa torna-se menor. de novo o cenário muda. facetada. velejando. hora após hora pode ser gasta desenrolando seus conflitos e interpretando suas personalidades. de novo no presente. passando por uma senhora de preto a ostentar seus diamantes. Ou se preferirmos ficar aqui na Inglaterra. chega Thackeray. prosperando. até o Parque de Lady Bedford. até seu pântano ermo. estamos participando de grandes batalhas. Mas Walpole nos apresenta uma tal quantidade de gente conhecida. há tantas casas a visitar e campainhas a tocar que se hesitamos. e ouvir Sidney lendo a Arcadia para sua irmã. podemos flagrar o morto famoso em seus hábitos familiares e em alguns momentos fantasiar que de tão próximos seremos capazes de surpreender seus segredos. pondo o chapéu. podemos fazê-las clarear muitas janelas do passado. e daí dirigir nossos passos até Wilton. Nada é mais fascinante que ir tateando e por acaso topar com a escuridão e o esplendor da Londres elizabetana. amando. se for de nosso agrado. Donne.onde Lady Bedford teve seu terreno por um tempo e onde mais tarde Pope viveu. até Samuel Johnson e Goldsmith e Garrick. enquanto espreitamos. se pudermos distinguir a tal ponto este momento de todos os outros anteriores. as ruas se estreitam. e perambular por muitos brejos e descobrir as muitas garças que figuram naquele célebre romance. a casa desaparece e as grades de ferro somem e estamos nós. assim. debatendo poesia com Spencer. e eventualmente pinçar uma peça ou um poema enquanto escreviam e verificar se em companhia do autor . de jardim a jardim. apertada. até que morrem.falindo. em pleno mar. apenas indo de amigo a amigo. e quando nos cansamos deles podemos flanar. em seu casaco de veludo preto. Madame du Deffand. quando percebemos. Johns nos acenam. expulso de uma casa modesta assim pois as suas paredes eram tão finas que quando as crianças choravam suas vozes vazavam por elas. ou atravessar o Canal. Anne Clifford.

Todavia também podemos ler estes livros com intenção diversa. se .os cavalos galopando no campo. seu movimento contínuo . em sua inconsciência. Nada disso tem qualquer valor. Não há uma janela aberta do lado direito da estante? Que delícia parar de ler e olhar lá fora! Como o cenário é deslumbrante. Até que ponto. um livro é influenciado pela biografia de seu autor .tão delicadas são as palavras quanto impressionável o caráter de seu autor? Estas questões nos assediam quando lemos sobre vidas e suas histórias. porém. suspirando. Toda literatura. pois nada pode ser mais fatal que ser guiado pelas preferências alheias num assunto tão pessoal.e em que medida é confiável deixar que o homem seja o intérprete do escritor? Até quando resistiremos ou cederemos às simpatias e antipatias que o cidadão nos provoca .mas quanto sugere! Vez por outra toda uma história virá acompanhada de um humor tão belo e de compaixão e de tamanha inteireza que se parecerá como se um grande romancista a tivesse elaborado. A grande parte de uma biblioteca qualquer nada mais é do que o registro destes momentos fugazes das vidas de homens. seja apenas um jovenzinho subalterno a serviço de Arthur Wellesley e apaixonado por uma menina bonita em Lisboa.a leitura seria diferente. ser deveras conquistado. mulheres e asnos. os asnos revirando a cabeça e soltando seu gemido longo e pungente. sua irrelevância. é desprezível ao extremo. lembrandose da estranha história do Capitão Jones. outras questões. Eles não tinham o poder artístico de dominar e eliminar. e fatos são uma forma de ficção bastante inferior. Fatos são tudo que nos podem oferecer. lamentar o quanto deveria ter acatado os bons conselhos de Dr. a mulher enche seu balde na nascente e o asno zurra. Burney e jamais ter fugido de casa com seu Rishy. e as Maria Allens são capazes de nos oferecer. Mas ao se entregar aos encantos da leitura de certas tolices você pode se surpreender. não poderiam dizer a verdade completa sequer sobre suas próprias vidas. entretanto. devemos nos questionar. seja tão somente Maria Allen deixando cair seus retalhos na sala vazia e. os Bunburys. a mulher enchendo seu balde na nascente. tem seus montes de entulho. como é cativante examinar de novo as montoeiras de tolices e encontrar sinos e tesouras e narizes quebrados sepultados num imenso passado e tentar reuni-los enquanto os potros galopam pelos campos. não para iluminar a literatura nem para nos aproximar de pessoas famosas. Pode ser uma carta - mas que perspectiva descortina! Podem ser algumas frases . desfiguraram a história que poderia estar bem modelada. Assim. Isto suscita novamente. nos aborrece a leitura de bobagens. à medida que o tempo passa. seus registros de momentos findos e vidas esquecidas contados em torn vacilante e medíocre que se deterioraram. Tate Wilkinson. e devemos respondê-las intimamente. pelas relíquias de humanidade que foram banidas do que se considera modelo. ao longo do caminho. Mas. mas para refrescar e exercitar nossos próprios poderes criativos. Nos aborrece procurar razões para completar as meias-verdades que são tudo o que os Wilkinson. mesmo que seja somente um velho ator.

a mais pura verdade da ficção. and we look onit. Só to conclude calamity in rest. ./Cristo./E em minha cama novamente!" 128 129 O impacto da poesia é tão forte e direto que para este momento não há outra sensação senão a do poema em si. . começam a ressoar e a inquirir e permanecemos atentos a ecos e reflexões." 130 Whether we be young or old. que é a expressão natural da poesia. e termina em tristeza. alheio a detalhes. With hope it is. mas quem ao ler estas quatro linhas pára para perguntar quem as escreveu. Our destiny. and only there. seus efeitos são planejados. intenso e generalizado. Only remembering that I grieve* com a ondulante modulação de Minutes are numbered by thefall ofsands. • As by anhour glass.apossa de nós o desejo de fazer insinuações e aproximações. revelled out. as percepções mais remotas são aproximadas.. e observamos .e como é súbito e completo nosso mergulho! Não há nada em que nos agarrar. . And I in my bed again!' * "Vento do oeste. ou invoca o ambiente da casa de Donne ou a secretária de Sidney. fica centrado e contrito. e o tempo de ler poesia é aquele em que se está praticamente habilitado a escrevê-la. • An age of pleasure. desfrutada. mas marcado por uma pulsação regular e recorrente. e achar minha sepultura/Rememorando apenas que sofri. * Ou identificar a serenidade meditativa de ' "Deveria tombar' como uma árvore. ou os evolve na complexidade do passado e da sucessão gerações? O poeta é sempre nosso contemporâneo. quando soprarás?/ A chuva fina pode cair. Dothwaste us to our graves. Que abismos profundos visitamos então . • . a medida do tempo/ nos desgasta até o túmulo. se meu amor estivesse em meus braços. • Is with infinitude. Em seguida./uma idade de prazer. mas a vida/exausta de tumulto. comes home :< At last. Havemos apenas de comparar a força e a objetividade de / shallfall like a tree. conta cada grão de areia/ queixando-se sussurranle. A intensidade da poesia abrange uma imensa gama de emoção. munbers every sand. but the life. . A ilusão da ficção é gradativa. . volta para casa/ no fim. de interromper a exploração de nuances menores do caráter humano. como sob um choque violento de emoção pessoal. andfmd my grave. nada para estancar nosso vôo. Nosso ser. Western wind. Wailing in sighs. hope that can never die. a sensação começa a se espalhar através de elos significativos em nossa mente. and ends in sorrow. Christ. when wilt thou blow? The small rain down can rain. Weary of rlot. iftny love were in my arms. . Em conseqüência inventamos o ânimo. our being 's heart and home. the spanoftirne . é verdade. . until the last drop down." * "Minutos são contados pela queda de grãos/como por uma ampulheta. até que o último caia/para pôr fim à desventura que resta. por um instante. para desfrutar uma abstração maior.'•.'".

" 131 impressões com a máxima vontade de entender. ou durma. caminhe./uma branda chama sobrevoando/Parece. Softly she was going up. And a star or two beside ' : Ou a extraordinária fantasia de And the woodland haunter . Mas este ato de comparar significa que nossa atitude mudou. far down some glade. sem que ansiássemos por isso./e uma estrela ou duas a seu lado. podemos comparar livro com livro. e ser Falstaff ou Lear. O primeiro procedimento. que o conflito e as indagações se aquietem. mas de forma diferente. seu poder de condensar. to his discerning. ele deverá ser completado." " "A Lua errante subiu no céu. Mas não imediatamente. mas juizes dele.Effort. de repente. and expectation. Ele virá à tona do entendimento como um todo.. And nowhere did abide. seu poder de introduzir as mãos na personagem como se fosse uma luva. esperança que não pode morrer nunca/Empenho." "E o ermitão da mata /Não deveria parar a sua andança/quando. seu poder para nos fazer a um só tempo atores e platéia. esperança. o livro retornará. Então. . nosso fundo de coração e casa. Reconhecemos seu contorno do início ao fim./e em nenhum lugar habita:/suavemente vai subindo. ou uma catedral. E o livro como um todo é diferente do livro comumente apreendido em frases separadas. e somente ali. não somos mais os amigos do autor. de ampliar. Aguarde que a poeira da leitura abaixe. converse. um chiqueiro. receber as * "quer sejamos jovens ou velhos/Nosso destino.. amasse pétalas murchas de uma rosa. Não são criminosos os livros que desperdiçaram nosso tempo e nossa atenção. Ofthe great world's burning. de uma única vez e para sempre.. é só metade do procedimento de leitura. devemos fazer dos modelos provisórios alguma coisa sólida e permanente. Agora. tal como a percebe.com estas palavras o gato está com o rabo de fora. pois é assim que a Natureza se encarrega destas mudanças. de situar. Ao lado da completa e inexaurível solidão de The moving Moon went up the sky./Está na infinitude. eis um estábulo. como comparamos edifício com edifício. e a verdadeira complexidade do ato de ler é admitida. One soft flame upturning Seems. Devemos ir além dos juízos resultantes destas numerosas impressões./açafrão no escuro. Shall not cease to saunter When. and desire. longe de qualquer clareira. ••. desejo. portanto. e assim como não podemos ser demasiado indulgentes como amigos. também como juizes não podemos ser severos demais.. por outro./Com esperança./no incêndio de todo aquele mundo. Detalhes agora se ajustam em seus lugares. caso nos interesse usufruir integralmente o prazer de um livro./e alguma coisa sempre a fazer. Crocus in the shade"' para nos fazer refletir sobre a arte múltipla do poeta. And something evermore about to be* . "Havemos de simplesmente comparar" .

Entretanto. Seria tolice. biografia . amo". E da mesma forma com a poesia . não podemos suprimir nossas próprias idiossincrasias sem desgastá-las. Ernma. aqui. livros mascarados. Compare os romances com esses - mesmo o último e menor dos romances tem o direito de ser examinado diante do melhor. se fartar de livros de toda espécie . Não seria mais sábio. e ainda mais difícil é se adiantar e dizer. Prosseguir lendo sem o livro à sua frente. profanadores. com o passar do tempo. E estejamos certos de que a inovação da nova poesia e ficção é sua qualidade mais superficial e que devemos alterar apenas muito levemente. não para reformar. ainda assim nosso gosto. seja tão simples quanto a primeira . ter lido com abrangência suficiente e com suficiente compreensão para deixar que surjam comparações vivazes e esclarecedoras . severos em nossos julgamentos. isto é mau. o nervo central da sensação que emite choques para nós. impossível para o mais autoconfiante de todos encontrar alguma coisa além de sementes destas capacidades em si mesmo. insight. "Odeio. e aprender que é árduo encantar uma mente minimamente dotada. de forma ávida e abundante. talvez. ali. talvez possamos educar nosso gosto. então. então. e caso não seja com estes. história. os critérios pelos quais temos avaliado o passado. com tudo o que houver 132 de melhor ou que para nós seja considerado o melhor do gênero.quando a intoxicação do ritmo tiver arrefecido e o esplendor dos vocábulos desbotar. "Não só é um livro desta natureza.isto é difícil. tentar suprimir nossa própria identidade conforme lemos. Mas sabemos que não podemos nos simpatizar inteiramente nem nos anular por completo. E mesmo que os resultados sejam incompatíveis e nossos juízos estejam equivocados. aprendemos através das emoções. Nesse momento se projetam em nossa mente os modelos dos livros que lemos já consolidados por juízos que sobre eles nos transmitiram Robinson Crusoe. De fato. é nosso principal farol. comparemos cada livro com o melhor de seu gênero. aquilo é born.e tiver interrompido . The Return ofthe Native. mas algo de valor. há sempre um demônio interior que sussurra. julgar. um modelo imaginário nos retornará e deverá ser comparado com Lear. com O Prelúdio. e não conseguimos silenciá-lo. é exatamente porque odiámos e amamos que nossa relação com poetas e romancistas é tão íntima a ponto de considerarmos intolerável a presença de outra pessoa. 133 possamos submetê-lo a algum controle.abrir a amplidão da mente para uma revoada de impressões inumeráveis. ficção. eliminar esta parte da leitura e deixar que os críticos. sustentar uma determinada argumentação contra outra.poesia. pretender que a segunda etapa da leitura. é bem sucedido. com Fedra. comparar. ele desaponta. livros que disseminam pelo ar decadência e discórdia? Sejamos. Quando ele." Executar esta etapa das atribuições de um leitor exige um tanto de imaginação. corruptores. portanto. que decidam por nós a questão do valor absoluto de um livro? Impossível! Nós devemos ressaltar o valor da simpatia. os escritores de livros falsos.não são os inimigos mais insidiosos da sociedade. as togadas e engomadas autoridades das bibliotecas.

talvez se possa concluir que a literatura é uma arte muito complexa e que é 134 improvável que estejamos aptos. a fim de nos acentuar esta qualidade comum. Devemos permanecer leitores. Alcançaremos um prazer maior e mais raro com este discernimento. insight e julgamento. a fazer qualquer contribuição valorosa à sua crítica. aponta e atira e deve perfeitamente ser perdoado se troca coelhos por tigres. ou . está mais reflexivo. e o crítico tem apenas um segundo em que carrega. eles iluminam e solidificam idéias vagas que estavam desordenadas nas profundezas mais nebulosas de nossas mentes. Erguemos os padrões e disseminamos os julgamentos pelo ar e eles se tornam parte da atmosfera que escritores respiram enquanto trabalham. se fosse bem ordenada. E esta influência. das incongruências do mundo. Mas como valores sobrevivem apenas quando continuamente violados pelo contato com os próprios livros . em suas críticas respeitadas. seria bom voltarmos aos legítimos e raros escritores que são capazes de nos iluminar em literatura como na arte.agora. não está tão ávido. Coleridge e Dryden e Johnson. mesmo depois de toda uma vida dedicada à leitura. podia ser de grande valor agora quando a crítica está necessariamente adormecida. deveremos nomeá-las e em seguida estruturar uma escala de valores que organize nossas percepções. não devemos nos imputar a glória adicional que pertence àqueles seres raros que também são críticos. Eles nada podem fazer por nós se nos curvamos sob suas autoridades e deitamos como ovelha à sombra das cercas-vivas. Se é assim. Mas ainda assim temos nossas responsabilidades como leitores e até mesmo nossa importância. talvez. o Agamemnon. Podemos apenas entender seus pareceres quando surgirem em conflito com os nossos próprios e os superarem. do que podemos chamar istol E nos fará ler talvez Lear ou. Mas apenas serão habilitados a nos auxiliar se os requisitarmos cheios de indagações e sugestões adquiridas honestamente no decorrer de nossas leituras. no vácuo .a leitura e procurado os vastos territórios da diversidade. para nos firmarmos nesta árdua experiência. Escute. por fim. Uma influência se produz sobre eles ainda que jamais encontre sua forma impressa. águias por andorinhas. Ele começará a nos trazer não simples julgamentos sobre livros em particular. podemos admitir que esteja mudando um pouco. os próprios poetas e romancistas em suas máximas desconsideradas. se ler um livro como deve ser lido exige as mais raras qualidades da imaginação. mas nos mostrará que há qualidades comuns a certos livros. então. com nosso gosto a nos orientar. quando se passam livros em revista como um desfile de animais em uma galeria de tiro ao alvo. dirá. são quase sempre surpreendentemente relevantes. vigorosa e individual e sincera.nada mais fácil nem tão estúpido quanto formular valores para existirem alheios à aproximação com os fatos. Assim. nos aventuremos por um livro determinado à procura das qualidades que agrupam livros num conjunto.

não é de qualquer modo desejável? Não há certas atividades que praticamos porque são boas em si mesmas. a opinião de pessoas lendo pelo amor à leitura. não sem uma dose de inveja quando Ele nos vir chegando com nossos livros debaixo dos braços. "Olhem. isto seria um objetivo digno a se alcançar. e julgando com grande simpatia ainda que com grande severidade. algumas vezes tenho sonhado que quando raiar o Dia do Juízo Final e os grandes vencedores e advogados e estadistas chegarem para receber seus prêmios . isto não poderá aperfeiçoar a qualidade de seu trabalho? E se por nosso arbítrio os livros se tornassem mais vigorosos. pelo menos. mais ricos e mais variados. estes não precisam de troféus. da Graphia Editorial. Digitalizado e revisto por Virgínia Vendramini em abril de 2008 . lenta e amadoristicamente.suas coroas. Até quem lê para realizar um objetivo. Eles amaram ler. seus nomes indelevelmente gravados em mármore imperial . seus lauréis. Nada temos para lhes oferecer aqui." 135 Este livro. e alguns prazeres que são conclusivos? E o que há entre tudo isso? Eu. Se por trás do bombardeio a esmo da imprensa o autor perceber que houve outro tipo de crítica.o Onipotente se virará para Pedro e dirá.se confunde em tudo e desperdiça o tiro em alguma vaca mansa pastando num prado distante. foi editorado na Abreu's System e impresso na Parkgraf em abril de 2007.