Ascensão e queda do
Terceiro Reich
O começo do fim
(1939- 1945)
William L. Shirer
TRADUÇÃO
Pedro Pomar e
Leônidas Gontijo de Carvalho
Volume II
Ia reimpressão
A
A g i r
Sumário
9 Nota do editor
11 Prefácio
I. A g u e r r a : p rim e ira s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c is iv o
19 c a p ítu lo 1 . A queda da Polônia
30 c a p ítu lo 2 . Sitzkrieg na frente ocidental
84 c a p ítu lo 3 . A conquista da Dinamarca e da Noruega
136 c a p ítu lo 4. Vitória no Ocidente
195 c a p ítu lo 5. Operação Leão do Mar: a malograda invasão
da Inglaterra
241 c a p ítu lo 6. “Barbarossa”: a vez da Rússia
320 c a p ítu lo 7. A reviravolta
344 c a p ítu lo 8. A vez dos Estados Unidos
388 c a p ítu lo 9. 0 grande momento decisivo: 1942 — Stalingrado e
El Alamein
II. O c o m e ç o d o fim
431 c a p ítu lo 1. A Nova Ordem
507 c a p ítu lo 2. A queda de Mussolini
531 c a p ítu lo 3. Invasão da Europa Ocidental pelos Aliados e
tentativas de matar Hitler
III. A q u e d a d o T e r c e ir o R e ic h
623 c a p ítu lo 1 . A conquista da Alemanha
652 c a p ítu lo 2. Gõtterdàmmerung: os últimos dias do Terceiro Reich
699 Notas
719 Bibliografia
733 Agradecimentos
737 índice
765 Sobre o autor
Sinto, não raro, profunda tristeza ao pensar no povo alemão, tão estimável
como indivíduo e tão infortunado na generalidade...
Go eth e
Hitler foi o destino da Alemanha, e esse destino não podia ser evitado.
W a l t e r v o n B r a u c h it s c h
Marechal-de-campo
Comandante-em-chefe do exército alemão
Mil anos passarão, e a culpa da Alemanha não será apagada.
H ans F rank
Governador-geral da Polônia,
pouco antes de ser enforcado em Nuremberg
Os que não se lembram do passado estão condenados a revivê-lo.
Santa ya n a
Nota do editor
Publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1960, Ascensão e queda
do Terceiro Reich contava mais de mil páginas em volume único. Dois anos de
pois, ganhou edição brasileira, reorganizada em quatro tomos. Para esta nova
versão, a Agir optou por dividir a obra em dois volumes, delimitados por um
corte cronológico.
Nesta lógica, Triunfo e consolidação (1933-1939) registra as origens históricas
e sociais do nazismo, a tomada de poder na Alemanha por Adolf Hitler e as ante-
vésperas da Segunda Guerra Mundial. O começo do fim (1939-1945) narra, por
sua vez, o conflito bélico mundial desde o avanço inicial do nazismo sobre a Eu
ropa até o fracasso e o conseqüente colapso do Terceiro Reich. As seis seções que
Shirer designou originalmente como “livros” tiveram estrutura e título mantidos
e foram renumeradas dentro da lógica de cada volume.
Preserva-se assim o conteúdo integral do clássico de Shirer, dividido em dois
volumes que, apesar de evidentemente complementares, podem ser lidos de for
ma autônoma.
Prefácio
Embora eu tenha vivido e trabalhado no Terceiro Reich durante a primeira
metade de sua breve existência, observando diretamente Adolf Hitler consolidar
seu poder ditatorial sobre a grande mas desconcertante nação, e depois conduzi-
la à guerra e à conquista, esta experiência pessoal não me levaria a escrever o
presente livro, se não ocorresse, no fim da Segunda Guerra Mundial, um aconte
cimento único na História.
Esse acontecimento foi a captura de quase todos os arquivos confidenciais
do governo alemão e de todos os seus departamentos, incluindo os do Ministé
rio do Exterior, do exército e da marinha, do Partido Nacional-Socialista e da
polícia secreta de Himmler. Antes, creio eu, jamais tão vasto tesouro caiu nas mãos
de historiadores contemporâneos. Até então, os arquivos de um grande Estado,
mesmo quando era derrotado na guerra e seu governo deposto por uma revolu
ção, como ocorreu na Alemanha e na Rússia, em 1918, eram preservados, e so
mente os documentos que serviam aos interesses do regime dominante subse
qüente eram posteriormente publicados.
O rápido colapso do Terceiro Reich, na primavera de 1945, resultou na captura
não apenas de enorme quantidade de documentos secretos mas também de outros
materiais de inestimável valor, tais como diários íntimos, discursos altamente se
cretos, relatórios de conferências, correspondência, e até mesmo reproduções de
conversas telefônicas entre os chefes nazistas, registradas por um corpo especial
de funcionários criados por Hermann Gõring no Ministério da Aeronáutica.
O general Franz Halder, por exemplo, conservava um volumoso diário, em que
anotava, em taquigrafia Gabelsberger, não somente o que ocorria dia a dia mas o
que se verificava de hora em hora. Constitui esse diário uma fonte concisa de in
formações referentes ao período que vai de 14 de agosto de 1939 a 24 de setembro
de 1942, quando ele era chefe do Estado-maior do exército e mantinha contatos
12 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 " 1 9 4 5 )
diários com Hitler e outros líderes da Alemanha nazista. É o mais revelador dos diá
rios alemães; mas há ainda outros de grande valor, entre os quais o do dr. Joseph
Goebbels, ministro da Propaganda e íntimo colaborador de Hitler, e o do general
Alfred Jodl, chefe de operações do Alto-Comando das Forças Armadas (OKW).
Há diários do próprio OKW e do Alto-Comando Naval. Com efeito, as sessenta
mil pastas de documentos dos arquivos da marinha alemã, capturadas em Schloss
Tambach, perto de Coburg, contêm, praticamente, todos os sinais convenciona
dos, anotações, diários de bordo, memorandos, etc., desde abril de 1945, quando
foram encontradas, até, reversivamente, 1868, quando foi fundada a moderna
marinha germânica.
As 485 toneladas de documentos do Ministério do Exterior alemão, captura
das pelo lfi Exército americano em vários castelos e minas das montanhas Harz,
justamente quando estavam prestes a ser queimadas por ordem de Berlim, abran
gem não apenas o período do Terceiro Reich, mas recuam, passando pela Repú
blica de Weimar, até o início do Segundo Reich de Bismarck. Durante muitos
anos, após a Segunda Guerra Mundial, toneladas de documentos nazistas per
maneceram selados num depósito do exército norte-americano situado em Ale
xandria, Virgínia, sem que nosso governo demonstrasse sequer interesse em
abrir tais pacotes, a fim de ver que espécie de documentos de valor histórico po
deriam conter. Finalmente, em 1955, dez anos depois de sua captura, graças à
iniciativa da American Historical Association e à generosidade de duas institui
ções particulares, os documentos de Alexandria foram abertos, e um grupo la
mentavelmente pequeno de eruditos, auxiliado por pessoal e equipamento ina
dequados, entregou-se à tarefa de selecioná-los e fotografá-los, antes que o
governo, muito apressado em relação ao assunto, os restituísse à Alemanha. Tais
documentos constituíram rico achado.
O mesmo se pode dizer de documentos como o registro taquigráfico parcial de
51 “Conferências do Führer” sobre a situação militar diária, tal como era vista e
discutida no quartel-general de Hitler, e o texto completo das discussões dos gran
des comandantes nazistas com seus antigos camaradas de partido e secretários,
durante a guerra. Os primeiros desses documentos foram salvos em meio aos res
tos carbonizados de outros papéis de Hitler, em Berchtesgaden, por um oficial do
serviço secreto pertencente à 101â Divisão Aérea dos Estados Unidos, e os segun
dos, encontrados entre os papéis de Martin Bormann.
PREFÁCIO 13
Centenas de milhares de documentos nazistas apreendidos foram apressada
mente reunidos em Nuremberg, como provas, durante o julgamento dos princi
pais criminosos de guerra nazistas. Enquanto fazia a cobertura jornalística da
primeira parte do julgamento, reuni montes de folhas mimeografadas e, mais
tarde, os 42 volumes de depoimentos e documentos publicados, acrescidos de
dez volumes de documentos importantes vertidos para o inglês. O texto de outros
documentos, publicados numa série de 15 volumes, acerca dos 12 julgamentos efe
tuados em Nuremberg, foi-me valioso, embora muitos papéis e depoimentos te
nham sido omitidos.
Finalmente, além desse acúmulo sem precedente de documentos, há os regis
tros dos exaustivos interrogatórios a que foram submetidos os oficiais alemães, os
membros do Partido Nazista e os altos funcionários do governo, e depoimentos
subseqüentes, feitos sob juramento, em vários julgamentos do pós-guerra, pro
porcionando uma quantidade de material como ninguém, creio eu, teve antes à
sua disposição, proveniente de tais fontes, depois das guerras anteriores.
Não li, por certo, toda essa atordoante quantidade de documentos, pois isso
estaria muito além da capacidade de um só indivíduo. Mas examinei parte consi
derável desse material, retardando-me nessa pesquisa, como ocorre a todos os
que esquadrinham tão rico manancial, pela absoluta falta de índices adequados.
É realmente extraordinário que nenhum de nós, jornalistas e diplomatas que
nos encontrávamos na Alemanha durante o nazismo, soubesse o que estava efeti
vamente ocorrendo atrás da fachada do Terceiro Reich. Uma ditadura totalitária,
pela sua própria natureza, age com grande sigilo, e sabe como manter esse sigilo
longe dos olhares perscrutadores dos estranhos. Era bastante fácil registrar e es
crever os simples, excitantes e, não raro, revoltantes acontecimentos que se verifi
cavam no Terceiro Reich: a ascensão de Hitler ao poder; o incêndio do Reichstag;
o expurgo sangrento de Rohm; o Anschluss (anexação) da Áustria; a capitulação
de Chamberlain e Daladier em Munique; a ocupação da Tchecoslováquia; os ata
ques contra a Polônia, a Escandinávia, o Ocidente, os Bálcãs e a Rússia; os horro
res da ocupação nazista e dos campos de concentração; e a liquidação dos judeus.
Mas as decisões fatais tomadas secretamente, as intrigas, as traições, os motivos e
as aberrações que conduziam a tais decisões, os papéis desempenhados pelos ato
res principais nos bastidores, a extensão do terror que exerciam e a técnica de que
se valiam para implantá-lo — tudo isso e muito mais permaneceu, em grande
parte, oculto, até surgirem os documentos secretos alemães.
14 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 - 1 9 4 5 )
Talvez se possa pensar que ainda é muito cedo para alguém tentar escrever
uma história do Terceiro Reich; que tal tarefa deveria ser deixada para uma gera
ção posterior de escritores, a quem o tempo proporcionasse melhor perspectiva
dos acontecimentos. Constatei que essa opinião prevalecia particularmente na
França, quando para lá me dirigi, a fim de fazer algumas pesquisas. Os historiado
res não deviam abordar nada que fosse mais recente do que a era napoleônica,
disseram-me.
Essa opinião é bastante ponderável. A maioria dos historiadores aguardou
cinqüenta, cem anos, ou mais, antes de tentar escrever uma narração da vida de
um país, de um império, de uma época. Mas não seria isso devido, principalmen
te, ao fato de levarem mais tempo a vir à luz os documentos pertinentes que lhes
fornecessem o material autêntico de que necessitavam? E, embora ganhassem
perspectiva, acaso não se perdia alguma coisa, devido ao fato de faltar aos autores,
necessariamente, um conhecimento pessoal da vida e dos ambientes em que vive
ram as figuras históricas sobre as quais escreviam?
No caso do Terceiro Reich, que é caso único, quase todo o material documen
tal se tornou disponível quando de sua queda, sendo enriquecido pelo testemu
nho de todos os líderes, militares e civis, sobreviventes, alguns dos quais foram
posteriormente executados. Dispondo de fontes incomparáveis de pesquisa e ten
do ainda vivos na memória não só a lembrança da vida na Alemanha nazista, mas
também o aspecto físico, a conduta e a natureza dos homens que a governavam,
sobretudo Adolf Hitler, decidi tentar escrever a história da ascensão e queda do
Terceiro Reich.
“Vivi durante toda a guerra”, observa Tucídides em sua História da guerra do
Peloponeso, um dos maiores livros de história já escritos, “numa idade em que me
era dado compreender os acontecimentos, e dedicava-lhes atenção, a fim de co
nhecer a verdade exata a respeito deles”.
Pareceu-me extremamente difícil e nem sempre possível conhecer a verdade
exata acerca da Alemanha de Hitler. A avalanche de material documental nos
impelia pelo caminho da verdade até um ponto que, vinte anos atrás, seria impos
sível atingir; por outro lado, a própria vastidão desse material nos deixava, não
raro, confusos, sobretudo quando se sabe que em todos os registros e depoimen
tos humanos costuma haver contradições embaraçosas.
Sem dúvida, meus próprios preconceitos, que surgem inevitavelmente de mi
nha experiência e formação pessoal, insinuam-se, de quando em quando, nas
PREFÁCIO 15
páginas do livro. Detesto, em princípio, as ditaduras totalitárias e passei a odiá-las
mais ainda ao viver em uma delas e ao presenciar seus ataques revoltantes contra
o espírito humano. No entanto, procurei ser, neste livro, rigorosamente objetivo,
deixando que os fatos falassem por si próprios e anotando a fonte de cada um de
les. Nenhum incidente, nenhum episódio ou citação provém de minha imagina
ção: baseiam-se todos em documentos, em depoimentos de testemunhas oculares
e em minha própria observação pessoal. Em algumas passagens, há certa especu
lação, devido à ausência de fatos positivos, mas ela está claramente rotulada.
Minhas interpretações, não tenho dúvida, serão contestadas por muitos. Coisa
inevitável, já que nenhum homem é infalível em suas opiniões. Aquelas que, aqui e
ali, me aventurei a dar, a fim de esclarecer o leitor e aprofundar a narrativa, foi o que
de melhor pude deduzir dos fatos evidentes e de meu conhecimento e experiência.
Adolf Hitler talvez seja o último dos grandes conquistadores aventureiros,
dentro da tradição de Alexandre, César e Napoleão e o Terceiro Reich, o último
dos impérios a seguir o caminho percorrido anteriormente pela Macedônia,
Roma e França. A cortina desceu, afinal, sobre essa fase da História, devido à in
venção da bomba de hidrogênio, dos mísseis balísticos e de foguetes que podem
ser dirigidos à Lua.
Em nossa época de inventos letais, aterrorizadores, que tão rapidamente su
plantaram os antigos meios de destruição, a primeira grande guerra agressiva, se
agora vier, será deflagrada por homúnculos suicidas que apertam um botão ele
trônico. Não haverá vencedores nem vencidos, mas apenas os ossos carbonizados
dos mortos sobre a crosta de um planeta desabitado.
A guerra: primeiras vitórias e o momento decisivo
CAPÍTULO 1
A queda da Polônia
Às 1Oh de 5 de setembro de 1939, o general Halder teve uma conferência com
o general von Brauchitsch, comandante-em-chefe do exército alemão, e o general
von Bock, que dirigia o grupo de exércitos do norte. Após examinarem a situação,
tal como ela se lhes afigurava ao começo do quinto dia do ataque alemão contra a
Polônia, concordaram, conforme Halder escreveu em seu diário, que “o inimigo
está praticamente derrotado”.
Na noite anterior, a batalha pelo Corredor Polonês terminara com a junção
do 4e Exército, comandado pelo general von Kluge que, da região da Pomerânia,
avançava para o leste, e o 3 fi Exército, sob o comando do general von Küchler,
que, da Prússia Oriental, fazia seu avanço. Foi nessa batalha que o general Heinz
Guderian conquistou renome com seus tanques. Em determinado ponto, arran
cando para o leste pelo Corredor, eles foram contra-atacados pela brigada de
cavalaria de Pomorska. O autor deste livro, ao passar pelo campo de batalha dias
depois, viu ali aterradora prova de carnificina, símbolo daquela breve campanha
na Polônia.
Cavalos contra tanques! A comprida lança dos cavalarianos contra o comprido
canhão dos tanques! Apesar de sua bravura, valor e temeridade, os poloneses
foram facilmente dominados pelo ataque alemão. Foi sua primeira experiência
— e do mundo também — da guerra-relâmpago (blitzkrieg): o rápido ataque de
surpresa; os aviões de caça e os bombardeiros, roncando no alto, fazendo reco
nhecimentos, atacando, espalhando o incêndio e o terror; os stukas zunindo ao
mergulharem; os tanques, divisões completas deles, rompendo linhas e avançan
do cinqüenta ou sessenta quilômetros por dia; pesados canhões de autopropulsão
e fogo rápido rolando a sessenta quilômetros por hora, mesmo pelas estradas
acidentadas da Polônia; a rapidez quase inacreditável da infantaria, de todo aque
le vasto exército de 1,5 milhão de soldados em carros motorizados, dirigidos e
20 A g u e r r a : p r i m e i r a s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c i s i v o
coordenados por um dédalo de comunicações eletrônicas que consistiam de
intrincadas instalações de rádio, telefone e telégrafo. Era um monstruoso peso
pesado mecanizado como jamais a terra havia presenciado.
A força aérea polonesa foi destruída no período de 48 horas, a maioria de seus
quinhentos aviões de primeira linha, pelo bombardeio que os alemães fizeram
nos aeródromos antes que pudessem decolar. Incineraram-se as instalações, e a
maior parte das tripulações de terra foram mortas ou feridas. Cracóvia, a segunda
cidade da Polônia, caiu em 6 de setembro. Nessa noite, o governo polonês fugiu
de Varsóvia para Lublin. No dia seguinte, Halder ocupou-se dos planos para
começar a transferência das tropas para a frente ocidental, embora não perce
besse ali qualquer atividade. Na tarde de 8 de setembro, a 4a Divisão dos panzer
alcançou as proximidades da capital polonesa, enquanto, logo ao sul da cidade,
o 10a Exército, comandado por Reichenau, vindo da Silésia e Eslováquia, con
quistava Kielce, e o 14a Exército, de List, chegava a Sandomierz, na junção dos
rios Vístula e San.
Numa semana, fora vencido o exército polonês. A maior parte de suas 35 di
visões — tudo que houvera tempo de mobilizar — foi esmagada ou colhida num
vasto movimento de pinças que se fecharam em torno de Varsóvia. Restara para
os alemães a segunda fase: apertar o laço em volta das aturdidas e desorganizadas
unidades polonesas que tinham sido cercadas, destruí-las e completar um segun
do movimento de pinças ainda maior a 160 quilômetros a leste, o qual colheria as
remanescentes formações polonesas a oeste de Brest Litovsk e do rio Bug.
Essa fase começou em 9 de setembro e terminou no dia 17. A ala esquerda dos
exércitos do grupo norte, do general von Bock, marchou para Brest Litovsk, que
o 19a Corpo de Guderian atingiu no dia 14 e conquistou dois dias depois. Em 17
de setembro, encontrou as patrulhas do 14a Exército, de List, a oitenta quilôme
tros ao sul de Brest Litovsk, em Wlodawa, fechando as segundas grandes pinças.
O contra-ataque, como Guderian observou mais tarde, chegara a uma “conclusão
definitiva” em 17 de setembro. Todas as forças polonesas, salvo certo número de
las na fronteira russa, ficaram cercadas. Bolsas de tropas polonesas, no triângulo
de Varsóvia e, mais a oeste, nas proximidades de Posen, resistiram galhardamente,
mas estavam condenadas. O governo polonês, ou o que dele restara, após ser in
cessantemente bombardeado e metralhado pela Luftwaffe, chegou a uma aldeia,
na fronteira da Romênia, no dia 15. Para ele e para a altiva nação, tudo estava
A QUEDA DA POLÔNIA 21
terminado, salvo para os moribundos, nas fileiras das unidades, que ainda resis
tiam com incrível força de vontade.
Chegara então a hora de os russos invadirem o país devastado para apoderar-
se de seu quinhão nos despojos.
Os russos invadem a Polônia
O Kremlin, em Moscou, como todas as outras sedes de governo, surpreendeu-
se com a rapidez com que os exércitos alemães se movimentaram na Polônia. Em
5 de setembro, Molotov, ao responder formalmente à sugestão dos nazistas para
que a Rússia atacasse a Polônia, do leste, declarou que isso seria feito “em ocasião
oportuna”, e que ‘essa ocasião não havia ainda chegado”. Julgava que uma “pressão
excessiva” poderia prejudicar a causa dos soviéticos. Insistiu, porém, em que os
alemães, mesmo que chegassem primeiro, deveriam observar escrupulosamente a
“linha de demarcação” na Polônia, conforme fora acordado nas cláusulas secretas
do pacto nazi-soviético.1 Já se tornavam evidentes as desconfianças dos russos em
relação aos alemães. A impressão, no Kremlin, era de que a conquista da Polônia
pelos alemães levasse talvez um tempo bastante longo.
Logo depois da meia-noite de 8 de setembro, porém, depois que uma divi
são blindada alemã atingiu as imediações de Varsóvia, Ribbentrop enviou ur
gentemente uma mensagem secretíssima a Schulenburg, em Moscou, declaran
do que as operações da Polônia estavam “progredindo muito além de nossas
expectativas” e que, em tal circunstância, a Alemanha apreciaria conhecer as
“intenções militares do governo soviético”.2 Às 16:10h do dia seguinte, Molotov
respondeu que a Rússia se movimentaria militarmente “dentro dos próximos
dias”. Horas antes, nesse dia, o comissário dos Negócios Estrangeiros do gover
no soviético felicitou oficialmente os alemães “pela entrada das tropas alemães
em Varsóvia”.3
Em 10 de setembro, Molotov e o embaixador von der Schulenburg viram-se
em situação bastante embaraçosa. Após declarar que o governo soviético fora
pego “completamente de surpresa pelos êxitos militares alemães inesperada
mente rápidos” e que a União Soviética se achava, por conseqüência, em “situação
difícil”, o comissário das Relações Estrangeiras referiu-se à escusa que o Kremlin
22 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
teria que apresentar pela sua própria agressão na Polônia. A escusa, conforme a
mensagem telegráfica urgentíssima e secretíssima de Schulenburg a Berlim, foi:
que a Polônia se estava esfacelando e que, por conseguinte, era necessá
rio que a União Soviética fosse em auxílio dos ucranianos e russos
brancos que se viam ameaçados pela Alemanha. Esse argumento [disse
Molotov] tornava-se necessário para que os povos aceitassem a inter
venção da União Soviética, evitando-se, ao mesmo tempo, que lhe des
sem a aparência de agressora.
Além disso, Molotov queixou-se de que o general von Brauchitsch tinha aca
bado de ser citado pela D.N.B. como tendo declarado que “não mais se tornava
necessária uma ação militar na fronteira oriental alemã”. Se era assim, se a luta
estava terminada, a Rússia, disse Molotov, “não podia iniciar uma nova guerra”.
Toda aquela situação lhe havia desagradado bastante.4 Para complicar mais ainda
a questão, chamou Schulenburg ao Kremlin, em 14 de setembro, e, após informá-
lo de que o Exército Vermelho iria pôr-se em marcha mais cedo do que o previsto,
quis saber quando se daria a queda de Varsóvia. Com o propósito de justificar
suas operações, os russos deviam aguardar a conquista da capital polonesa.5
O comissário levantou algumas sugestões embaraçosas. Quando cairia Varsó
via? Como os alemães acolheriam o fato de serem responsabilizados pela inter
venção da Rússia? Na noite de 15 de setembro, Ribbentrop expediu uma mensa
gem urgentíssima e secretíssima a Molotov, pela embaixada alemã, respondendo
àquelas perguntas. Varsóvia, informou ele, seria ocupada “nos próximos dias”. A
Alemanha “acolheria prazerosamente as operações militares dos soviéticos agora”.
Quanto à desculpa da Rússia de a Alemanha ser responsabilizada por esse fato,
isso “estava fora da questão (...) contrário às verdadeiras intenções dos alemães
(...) estaria em contradição com os arranjos feitos em Moscou e finalmente (...)
faria os dois Estados aparecerem inimigos perante o mundo inteiro”. Terminou
pedindo ao governo soviético que marcasse “o dia e a hora” em que atacaria a
Polônia.6
Foi o que se fez na noite seguinte. Dois despachos de Schulenburg, que figu
ram entre os documentos capturados aos alemães dizendo como isso foi feito,
demonstram claramente o estratagema dos russos.
A QUEDA DA POLÔNIA 23
Estive com Molotov às 18h [telegrafou Schulenburg em 16 de setem
bro]. Ele declarou que a intervenção militar da União Soviética estava
iminente — talvez se verificasse mesmo amanhã ou depois. Stalin acha
va-se, no momento, em conferência com chefes militares (...)
Molotov acrescentou que (...) o governo soviético pretendia justificar a
ação como se segue: o Estado polonês desintegrara-se e não existia
mais; em conseqüência, todos os acordos concluídos com a Polônia fi
caram nulos; outras potências talvez tentassem aproveitar-se do caos
surgido. O governo soviético considerava-se obrigado a intervir, a fim
de proteger seus irmãos ucranianos e russos brancos e possibilitar a
esse infeliz povo trabalhar em paz.
Como a Alemanha podia ser a única possível “terceira potência” na questão,
Schulenburg fez suas objeções.
Molotov admitiu que os argumentos do governo soviético encerravam uma
nota que feria a sensibilidade dos alemães, mas pediu-nos, dada a difícil situação
do governo soviético, que não nos ofendêssemos por uma coisa assim insignifi
cante. O governo soviético não via, infelizmente, possibilidade de quaisquer ou
tras razões, uma vez que a União Soviética não havia, até ali, considerado as con
dições de sua minoria na Polônia e precisava, de um modo ou de outro, justificar
perante o estrangeiro sua presente intervenção.7
Às 17:20h de 17 de setembro, Schulenburg expedia outra mensagem urgentís
sima e secretíssima para Berlim.
Stalin recebeu-me às 14h (...) e declarou que o Exército Vermelho atra
vessaria a fronteira soviética às 18h (...) Os aviões soviéticos começa
riam a bombardear o distrito a leste de Lwów [Lemberg].
Quando Schulenburg se opôs a três pontos do comunicado soviético, o dita
dor russo “muito prontamente” alterou o texto.8
Foi assim que, com o mesquinho pretexto de que a Polônia deixara de existir
e de que o pacto de não-agressão soviético-polonês, portanto, deixara também de
24 a g u e r r a : p r im e ira s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c is iv o
existir e se tornava necessário proteger seus próprios interesses e os das minorias
de ucranianos e russos brancos, a União Soviética começou a esmagar a Polônia
prostrada, na manhã de 17 de setembro. Para maior afronta dessa injustiça, o
embaixador polonês, em Moscou, foi informado de que a Rússia manteria estrita
neutralidade no conflito da Polônia! No dia seguinte, 18 de setembro, as tropas
soviéticas encontraram-se com os alemães em Brest Litovsk, onde, exatamente 21
anos antes, um recém-nascido governo bolchevista menosprezara os laços que o
ligavam a seus Aliados ocidentais, recebendo e aceitando, do exército alemão,
uma paz em separado sob rígidas condições.
Conquanto fossem agora cúmplices da Alemanha nazista em varrer do mapa
a Polônia, os russos se mostraram ao mesmo tempo cheios de desconfianças para
com seus novos companheiros. Na reunião que tivera com o embaixador alemão,
na véspera da agressão soviética, Stalin manifestara suas dúvidas, conforme Schu-
lenburg notificou devidamente a Berlim, de que o Alto-Comando alemão mante
ria os acordos firmados em Moscou e se retiraria para a linha com a qual haviam
concordado. O embaixador procurou tranqüilizá-lo a esse respeito, mas, ao que
parece, sem êxito. “Em vista da conhecida atitude de desconfiança de Stalin”, tele-
grafou Schulenburg a Berlim, “eu ficaria satisfeito se fosse autorizado a fazer uma
nova declaração dessa natureza de modo a remover as últimas dúvidas”.9 No dia
seguinte, 19 de setembro, Ribbentrop telegrafou ao embaixador, dando-lhe a au
torização: “Informe Stalin de que os acordos que fiz em Moscou serão natural
mente mantidos, e nós os consideramos a pedra fundamental nas novas relações
amistosas entre a Alemanha e a União Soviética.” 10
Continuaram, entretanto, os atritos entre os dois sócios forçados. Em 17 de
setembro, houve um desentendimento sobre o texto de um comunicado conjun
to que justificaria a destruição da Polônia pelos russos e alemães. Stalin opôs-se
à versão alemã, porque “ela apresentava os fatos com demasiada franqueza”. Es
creveu imediatamente sua própria versão, uma obra-prima de subterfúgios, e
forçou os alemães a aceitá-la. Declarava que o objetivo comum da Alemanha
e da Rússia era “restaurar a paz e a ordem na Polônia, que haviam sido destruí
das com a desintegração do Estado polonês, e auxiliar o povo a estabelecer novas
condições para sua política”. Em matéria de cinismo, Hitler encontrara em Stalin
um igual.
A princípio, ao que parece, ambos os ditadores pensaram em estabelecer
um Estado polonês tampão — à feição do grão-ducado de Varsóvia de Napoleão
A QUEDA DA POLÔNIA 25
— com o propósito de abrandar a opinião pública mundial. Mas, em 19 de setem
bro, Molotov revelou que os bolchevistas já estavam com idéias diferentes a
respeito. Após protestar irritadamente junto a Schulenburg que os generais ale
mães estavam desrespeitando o acordo de Moscou, ao procurarem apoderar-se
do território que devia caber à Rússia, ele feriu o ponto principal.
Molotov deu a entender [telegrafou Schulenburg a Berlim] que a primei
ra tendência manifestada pelo governo soviético e por Stalin pessoal
mente, de permitir a existência do que restasse da Polônia, cedera lugar
à tendência de dividi-la ao longo da linha Pissa-Narew-Vístula-San. O
governo soviético deseja começar imediatamente as negociações.11
Partiu assim dos russos a iniciativa de dividir completamente a Polônia e ne
gar ao povo polonês qualquer existência própria e independente. Não foi preciso
insistir muito para que os alemães concordassem. Em 23 de setembro, Ribbentrop
telegrafou a Schulenburg ordenando-lhe que informasse Molotov de que “a idéia
russa de uma linha limítrofe, ao longo do curso daqueles quatro rios conhecidos,
coincide com o ponto de vista do governo do Reich”. Propôs ir novamente de
avião a Moscou para elaborar os detalhes desse plano e da ‘estrutura definitiva da
área polonesa”.12
Stalin, então, encarregou-se pessoalmente das negociações, e os Aliados ale
mães e, mais tarde, os Aliados britânicos e americanos, puderam ver o quanto ele
era um negociador inflexível, cínico e oportunista. O ditador soviético chamou
Schulenburg ao Kremlin às 20h do dia 25. O telegrama do embaixador, horas
depois, prevenia Berlim de algumas duras realidades e de outras novidades.
Stalin declarou (...) que considerava um erro deixar um Estado polonês
tampão independente. Propôs que, partindo do território a leste da
linha de demarcação, toda a província de Varsóvia que se estende até
o Bug fosse adicionada ao nosso quinhão. Em troca, renunciaríamos
às nossas pretensões sobre a Lituânia.
Stalin (...) acrescentou que, se consentíssemos, a União Soviética tra
taria imediatamente da solução do problema dos países bálticos, de
conformidade com o protocolo [secreto] de 23 de agosto, e, a esse
26 a g u e r r a : p r i m e i r a s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c i s i v o
respeito, esperava o apoio irrestrito do governo alemão. Stalin citou
expressamente a Estônia, a Letônia e a Lituânia, mas não mencionou
a Finlândia.13
Era uma barganha demasiado dura e difícil. Stalin oferecia trocar duas pro
víncias polonesas, que os alemães já haviam conquistado, pelos Estados bálticos.
Estava tirando vantagem do grande serviço que havia prestado a Hitler — tornando-
lhe possível atacar a Polônia — a fim de obter para a Rússia tudo o que pudesse
enquanto a oportunidade era boa. Além disso, propunha que os alemães puses
sem sob seu domínio a massa do povo polonês. Como russo, ele sabia perfeita
mente o que os séculos, na história, haviam ensinado: os poloneses jamais se sub
meteriam pacificamente à perda de sua independência. Que eles dessem dores de
cabeça aos alemães, não aos russos! Entrementes, ele obteria os Estados bálticos
arrebatados da Rússia depois da Primeira Guerra Mundial e cuja posição geográ
fica oferecia à União Soviética grande proteção contra algum ataque surpresa de
seu aliado alemão.
Ribbentrop chegou de avião a Moscou pela segunda vez, às 18h de 28 de se
tembro. Antes de dirigir-se ao Kremlin, teve tempo de ler dois telegramas proce
dentes de Berlim que o notificavam do que os russos estavam arquitetando. Eram
telegramas expedidos pelo ministro alemão em Tallinn, a capital, relatando que o
governo estoniano tinha acabado de informar que a União Soviética exigira, “sob
a mais grave das ameaças de ataque iminente”, bases militares e aéreas na Estô
nia.14Mais tarde, nessa noite, após uma longa conferência com Stalin e Molotov,
Ribbentrop telegrafou a Hitler que “nesta mesma noite” estava sendo concluído
um pacto que colocaria duas divisões do Exército Vermelho e uma brigada da
força aérea “no território da Estônia, sem abolir, porém, o sistema de governo
desse país, no momento”. Mas o Führer, muito experiente nessas questões, sabia
como seria transitória a duração da Estônia. Logo no dia seguinte, Ribbentrop foi
informado de que Hitler ordenara a evacuação dos 86 mil Volksdeutsche da Estô
nia e Letônia.15
Stalin apresentava sua conta, e Hitler, pela primeira vez, pelo menos, teve de
pagá-la. Estava abandonando imediatamente não só a Estônia mas a Letônia, am
bas as quais — concordara no pacto nazi-soviético — pertenciam à esfera dos
interesses soviéticos. Antes de terminado o dia, renunciava também à Lituânia, na
A QUEDA DA POLÔNIA 27
fronteira nordeste da Alemanha, a qual, segundo as cláusulas secretas do pacto de
Moscou, pertencia à esfera do Reich.
Stalin apresentou aos alemães duas opções na conferência com Ribbentrop,
que começara às 22h de 27 de setembro e durara até lh. Conforme sugerira a
Schulenburg, no dia 25, eram: aceitação da primitiva linha de demarcação na Po
lônia, ao longo dos rios Pissa, Narew, Vístula e San, obtendo a Alemanha com isso
a Lituânia; ou cessão da Lituânia à Rússia em troca de mais território polonês (a
província de Lublin e as terras a leste de Varsóvia), o que entregaria aos alemães
quase todo o povo polonês. Stalin insistiu fortemente na segunda opção. Ribben
trop, num longo telegrama expedido às 4h de 28 de setembro, submeteu-a a Hi
tler, que concordou.16
A divisão da Europa Oriental exigiu um bom número de traçados intrincados
nos mapas. Após mais três horas e meia de negociações na tarde de 28 de setem
bro, a que se seguiu um banquete oferecido pelo governo, no Kremlin, Stalin e
Molotov retiraram-se a fim de conferenciar com uma delegação da Letônia, que
tinham chamado a Moscou. Ribbentrop correu para a Ópera a fim de assistir
ainda a um ato do O lago dos cisnesyvoltando ao Kremlin à meia-noite para fazer
novas consultas sobre mapas e outras questões. Às 5h, ele e Molotov apuseram
suas assinaturas num novo pacto oficialmente chamado Tratado de Amizade e
Limites Germano-Soviético, enquanto Stalin mais uma vez se mostrava, confor
me relatou mais tarde um alto funcionário alemão, “visivelmente satisfeito”.* Ti
nha razão para isso.17
O próprio tratado, que se tornou público, anunciava os limites dos “interesses
nacionais” dos dois países no “antigo Estado polonês” e declarava que, nos terri
tórios adquiridos, iriam restabelecer “a paz e a ordem” e “assegurar ao povo que lá
vivia uma vida pacífica em harmonia com seu caráter nacional”.
Mas, da mesma maneira que o acordo nazi-soviético anterior, havia “protoco
los secretos” — três, aliás, dos quais dois encerravam a parte substancial. Um
acrescentou a Lituânia à “esfera de influência” dos soviéticos e as províncias de
Lublin e Varsóvia oriental à dos alemães. O segundo era curto e decisivo.
* Esse alto funcionário, Andor Hencke, subsecretário do Ministério das Relações Exteriores, que duran
te muitos anos servira na Embaixada de Moscou, escreveu um minucioso e interessante relatório sobre
as conversações. Foi o único registro que os alemães fizeram das conferências do segundo dia.18
28 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Ambas as partes não tolerarão em seus territórios qualquer agitação
dos poloneses que possa afetar os territórios da outra. Eliminarão, em
seus territórios, toda agitação em seu início e informarão, um ao outro,
sobre as medidas convenientes para tal objetivo.
E assim a Polônia, à semelhança do que se passara anteriormente com a Áus
tria e a Tchecoslováquia, desapareceu do mapa da Europa. Dessa vez, porém, Hi
tler fora auxiliado e secundado na destruição pela União das Repúblicas Socialis
tas Soviéticas, a qual, durante tanto tempo, se conclamava paladina dos povos
oprimidos. Era a quarta vez que a Rússia e a Alemanha dividiam a Polônia* (a
Áustria tomara parte nas outras) e, enquanto isso durou, revestiu-se da mais feroz
crueldade. No protocolo secreto de 28 de setembro,** Hitler e Stalin concordaram
em instituir na Polônia um regime de terror destinado a suprimir brutalmente a
liberdade, a cultura e a vida nacional.
Hitler guerreou contra a Polônia e ganhou a batalha, mas o maior vencedor foi
Stalin, cujas tropas quase não dispararam um tiro.*** A União Soviética obteve qua
se metade da Polônia e um baluarte nos Estados bálticos. Isso bloqueava a Alema
nha mais solidamente do que nunca em dois de seus principais objetivos a longo
prazo: o trigo ucraniano e o petróleo romeno, dos quais ela tinha grande necessi
dade se quisesse sobreviver ao bloqueio britânico. Mesmo a região petrolífera de
Borislav-Drogobycz, na Polônia, que Hitler desejava, foi exigida por Stalin, e ele
prazerosamente concordou em vender aos alemães o equivalente da produção
anual dessa área.
Por que Hitler pagou aos russos um preço assim tão elevado? É verdade que
concordara com isso em agosto, a fim de manter a União Soviética afastada do
campo dos Aliados e fora da guerra. Ele nunca fora defensor de acordos feitos e,
com a Polônia conquistada por uma incomparável proeza das armas alemãs, era
de esperar que violasse o pacto de 23 de agosto, conforme insistia o exército. Se
Stalin fizesse objeção, o Führer poderia ameaçá-lo com o ataque do exército mais
* Amold Toynbee, em seus vários trabalhos, chama-a "a quinta divisão"
** Conquanto fosse assinado às 5h de 29 de setembro, o tratado é datado oficialmente de 28 de
setembro.
*** As baixas alemãs na Polônia foram oficialmente apresentadas como sendo 10.752 mortos, 30.322
feridos e 3.400 desaparecidos.
A QUEDA DA POLÔNIA 29
poderoso do mundo, de que a campanha da Polônia acabara de dar provas. Será
que poderia? Não enquanto os ingleses e franceses estivessem com seus exérci
tos no Ocidente. Ele precisava manter livre sua retaguarda, para guerrear com a
Inglaterra e a França. Conforme suas declarações posteriores deixariam bem
claro, essa era a razão por que permitiu fechar aquele negócio tão duro com
Stalin. Não se esqueceu, contudo, das ásperas negociações do ditador soviético ao
voltar depois sua atenção para a frente ocidental.
CAPÍTULO 2
Sitzkrieg na frente ocidental
Nada importante acontecera na frente ocidental. Não se dera sequer um tiro.
O homem de rua alemão começava a chamá-la de a “guerra de braços cruzados”
— Sitzkrieg. No Ocidente, seria logo apelidada de “guerra de mentira”. Ali estava
“o exército mais poderoso do mundo (o francês)” para dizer com as palavras do
general britânico J. F. C. Fuller, “enfrentando não mais que 26 divisões (alemãs),
sendo imóvel e abrigado por trás de aço e concreto enquanto um aliado quixotes
camente valente estava sendo exterminado!”1
Mostravam-se surpresos os alemães? Bem pouco. No primeiro registro do diá
rio de Halder, o de 14 de agosto, este chefe do Estado-maior geral avaliou minu
ciosamente a situação na frente ocidental caso a Alemanha atacasse a Polônia.
Considerou “não muito provável” uma ofensiva por parte da França. Tinha certe
za de que ela não mandaria seu exército atravessar a Bélgica “contra a vontade
dela” Concluiu dizendo que os franceses permaneceriam na defensiva. Em 7 de
setembro, com o exército polonês aniquilado, Halder, conforme se notou, já se
ocupava com os planos de transferência das divisões alemãs para o Ocidente.
Nessa noite, ele anotou o resultado de uma conferência que Brauchitsch tivera
à tarde com Hitler.
A operação no oeste ainda não está clara. Segundo indicações, não
há realmente intenção de se travar uma guerra (...) Falta ao gabinete
francês uma têmpera heróica. Também na Inglaterra vislumbra-se pru
dente reflexão.
Dois dias depois, Hitler expedia a Diretiva nfi 3 para a orientação da guerra, or
denando que se providenciasse a remessa de unidades do exército e da força
aérea, da Polônia para o Ocidente. Não necessariamente para lutar, porém, “Mesmo
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 31
após a hesitante abertura das hostilidades pela Inglaterra (...) e a França, uma or
dem expressa minha”, traçava a diretiva, “deve ser obtida em cada um dos seguin
tes casos: cada vez que nossas forças de terra (ou) (...) um de nossos aviões cruza
rem as fronteiras do Ocidente; (e) para cada ataque aéreo contra a Inglaterra”.2
Que haviam a França e a Inglaterra prometido à Polônia caso fosse atacada?
A garantia britânica era de ordem geral. A da França, porém, era específica. Fora
traçada no acordo militar franco-polonês de 19 de maio de 1939. Nele, acordara-
se que os franceses “desencadeariam progressivamente operações de ofensiva
contra limitados objetivos por volta do terceiro dia após o Dia da Mobilização
Geral”. A mobilização geral foi decretada em lô de setembro. Mas, além disso,
“concordou-se que assim que o principal esforço dos alemães se desenvolver
contra a Polônia, a França desencadeará uma ofensiva contra a Alemanha com o
grosso de suas forças, a partir do 15a dia após o primeiro dia da mobilização
geral dos franceses”. Quando o representante-chefe do Estado-maior polonês,
coronel Jaklincz, perguntou quantos soldados franceses estariam disponíveis
para essa grande ofensiva, o general Gamelin respondeu que haveria cerca de 35
a 38 divisões.3
Mas, em 23 de agosto, quando se tornava iminente o ataque alemão contra a
Polônia, o tímido generalíssimo francês informava ao seu governo, conforme já
vimos,* que ele possivelmente não poderia preparar uma séria ofensiva “em me
nos de dois anos, aproximadamente (...) em 1941-1942” — na suposição, acres
centara, de que a França, nessa ocasião, tivesse o “auxílio das tropas inglesas e do
equipamento norte-americano”.
Nas primeiras semanas da guerra, para sermos exatos, a Inglaterra infelizmen
te dispunha de poucos soldados para enviar à França. Em 11 de outubro, três se
manas após o término da luta na Polônia, estava com quatro divisões — 158 mil
homens — na França. “Uma contribuição simbólica”, assim a designou Churchill,
e Fuller anotou que a primeira baixa britânica — um cabo morto por um tiro
quando em missão de patrulhamento — só se verificou em 9 de dezembro. “Uma
guerra assim tão destituída de sangue”, comenta Fuller, “jamais ocorrera desde as
batalhas de Molinella e Zagonara”.**
* Ver capítulo "O início da Segunda Guerra Mundial: triunfo e consolidação (1933-1939)".
** Em 9 de outubro, este autor fez uma viagem por estrada de ferro pela margem leste do Reno, onde,
numa extensão de 160 quilômetros, o rio forma a fronteira franco-germânica, e anotou em seu diário:
32 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Fazendo um retrospecto, em Nuremberg, os generais alemães concordaram
que os Aliados ocidentais perderam uma excelente oportunidade ao deixar de
atacar, a oeste, durante a campanha da Polônia.
O êxito na luta contra a Polônia somente foi possível [declarou o gene
ral Halder] ao desfalcarmos quase completamente nossas fronteiras
ocidentais. Se os franceses tivessem percebido essa situação lógica e se
aproveitado do momento em que as forças alemãs se achavam empe
nhadas na Polônia, teriam podido atravessar o Reno sem que pudésse
mos impedir e teriam ameaçado a área do Ruhr, a qual era o fator mais
decisivo na direção da guerra traçada pelos alemães.4
(...) Não sofremos um colapso em 1939 [disse o general Jodl], devido
apenas ao fato de que, durante a campanha polonesa, aproximada
mente 110 divisões francesas e inglesas, no Ocidente, mantiveram-se
completamente inativas contra as 23 divisões alemãs.5
E o general Keitel, chefe do OKW, acrescentou este testemunho:
Nós, soldados, sempre esperamos que a França nos atacasse durante a
campanha polonesa, e ficamos muito surpresos de nada ter acontecido
(...) Um ataque francês teria encontrado apenas uma tropa alemã de
cobertura, não uma verdadeira defesa.6
Por que, então, o exército francês (as duas primeiras divisões britânicas so
mente se desdobraram na primeira semana de outubro), que tinha uma esmaga
dora superioridade sobre as forças alemãs no oeste, não atacou, como o general
Gamelin e o governo francês prometeram por escrito que fariam?
Muitas foram as razões: o derrotismo no Alto-Comando francês, no governo
e no povo; a lembrança de como a França se esvaíra em sangue na Primeira Guer
ra Mundial e a determinação de não sofrer novamente tal carnificina se pudessem
"Não há sinal de guerra, e o pessoal do trem contou-me que não se dera um tiro nessa frente desde que
a guerra começara (...) Podíamos avistar os abrigos franceses e, em muitos lugares, grandes redes de
aço, atrás das quais os franceses construíam fortificações. Via-se quadro idêntico no lado da Alemanha.
Os soldados (...) entregavam-se a suas atividades à vista e ao alcance uns dos outros (...) Os alemães
içavam canhões e suprimentos na linha férrea, sem que os franceses os perturbassem. Que guerra mais
esquisita." (Berlin Diary, p. 234).
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 33
evitar; a compreensão de que, em meados de setembro, o exército polonês fora de
tal forma derrotado que os alemães logo iriam poder movimentar um número
superior de forças para o oeste e, com isso, eliminar provavelmente quaisquer
avanços iniciais dos franceses; o temor da superioridade dos alemães em arma
mentos e no ar. Na verdade, o governo francês insistira, desde o princípio, em que
a Real Força Aérea britânica não bombardeasse objetivos na Alemanha, temendo
represálias contra as fábricas francesas, se bem que um bombardeio total no Ruhr,
o coração das indústrias do Reich, pudesse redundar em desastre para os alemães.
Isso foi motivo de grandes preocupações para os generais alemães, em setembro,
como muitos deles admitiram mais tarde.
Fundamentalmente, a resposta à pergunta de por que a França não atacara a
Alemanha, em setembro, talvez tivesse sido enunciada melhor por Churchill.
“Esta batalha”, escreveu ele, “fora perdida uns anos antes”.7 Em Munique, em 1938,
por ocasião da reocupação da Renânia, em 1936; no ano anterior, quando Hitler
proclamou o recrutamento para a formação do exército, desrespeitando o Tratado
de Versalhes. O preço dessa lamentável falta de ação dos Aliados tinha de ser pago
agora, embora parecesse que, em Paris e em Londres, se julgava que, de um modo
ou de outro, poderia-se fugir ao pagamento pela inação.
No mar lutava-se, porém.
A marinha de guerra alemã não ficara naquela estagnação em que se com-
prazia o exército no Ocidente. Durante as primeiras semanas de hostilidades, pôs
a pique 11 navios britânicos, num total de 64.595 toneladas, quase metade da to
nelagem destruída no apogeu da guerra submarina em abril de 1917, quando a
Inglaterra estivera às portas de uma catástrofe. As perdas britânicas decresceram
depois disso: 53.561 toneladas na segunda semana, 12.750 na terceira e apenas
4.646 na quarta — para um total, durante o mês de setembro, de 26 navios de
135.552 toneladas afundados pelos submarinos alemães e três navios de 16.488
toneladas pelas minas.*
* Churchill, na ocasião primeiro-lorde do almirantado, revelou as cifras gerais na Câmara dos Comuns,
em 26 de setembro. Dá as cifras oficiais retificadas, em suas memórias. Informou também à Câmara que
seis ou sete submarinos alemães haviam sido postos a pique, mas, na verdade, conforme observa em
seu livro, veio a saber-se que foram apenas dois.
O discurso de Churchill foi marcado por uma anedota engraçada, na qual conta como o comandante
de um submarino alemão lhe havia expedido pessoalmente uma mensagem, assinalando a posição de
um navio britânico que tinha acabado de ser posto a pique e aconselhando que fossem em socorro dos
34 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Havia uma razão, que os britânicos desconheciam, para aquele nítido declínio.
Em 7 de setembro, o almirante Ráder teve uma longa conferência com Hitler. O
Führer, exultante com suas primeiras vitórias na Polônia e com a falta de ataque
por parte da França no Ocidente, aconselhou sua marinha que agisse mais moro
samente. A França estava demonstrando ‘entraves políticos e militares”; os britâ
nicos, sua “hesitação”. Em vista dessa situação, ficara decidido que os submarinos,
no Atlântico, poupariam todos os barcos de passageiros sem exceção e se abste-
riam completamente de atacar os de nacionalidade francesa, e que os encouraça-
dos de bolso, o Deutschland, no Atlântico Norte, e o GrafSpee, no Atlântico Sul,
se recolheriam, entrementes, a seus postos de espera. A “política geral”, observou
Ráder em seu diário, seria a de “exercer controles até que se tornasse mais clara a
situação política no Ocidente, o que levará mais ou menos uma semana”.8
O afundamento do Athenia
Houve outra decisão com que Hitler e Ráder concordaram por ocasião da
conferência de 7 de setembro. O almirante anotou no seu diário: “Não se deverá
fazer tentativa alguma para solucionar a questão do Athenia até que os submari
nos regressem a suas bases.”
A luta no mar, conforme notamos, começou dez horas depois da declaração
de guerra da Inglaterra, quando o vapor inglês Athenia, repleto de passageiros,
mais ou menos em número de 1.400, foi torpedeado sem aviso às 21h de 3 de
setembro, a 320 quilômetros a oeste das Hébridas, com a perda de 112 vidas,
incluindo 28 americanos. O Ministério de Propaganda alemão conferiu os pri
meiros comunicados de Londres com o Alto-Comando naval; informaram-no
de que não havia nenhum submarino alemão nas vizinhanças. Negaram pronta
mente que o navio tivesse sido afundado pelos alemães. Essa catástrofe embara
çou Hitler e o comando naval. A princípio não acreditaram nos comunicados in
gleses. Haviam sido dadas ordens estritas a todos os comandantes de submarinos
para que observassem a Convenção de Haia, a qual proibia que se atacasse um
sobreviventes. "Eu não tinha muita certeza quanto ao endereço para o qual devia enviar uma resposta",
disse Churchill. "Contudo, o homem está agora em nosso poder." Não estava, porém. O autor entrevis
tou o comandante do submarino, capitão Herbert Schulze em Berlim, dois dias depois, numa transmis
são radiofônica para os Estados Unidos. Ele mostrou, em seu diário de bordo, a mensagem que havia
enviado a Churchill. (Ver Churchill, The Gathering Storm, p. 436-7; Berlin Diary, p. 225-7).
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 3 5
navio sem aviso. Como todos os submarinos alemães mantinham silenciosos seus
rádios, não havia meios de verificar imediatamente o que acontecera.* Isso não
impediu que os jornais controlados pelos nazistas afirmassem, dali a dois dias, que
os ingleses torpedearam seu próprio navio a fim de provocar a entrada dos Estados
Unidos na guerra.
A Wilhelmstrasse se achava realmente preocupada com a reação americana à
catástrofe, que causara a morte de 28 cidadãos americanos. No dia seguinte ao
afundamento, Weizsácker chamou o encarregado de negócios americano, Ale-
xander Kirk, e negou que um submarino alemão tivesse torpedeado o vapor. Ne
nhum barco alemão se achava nas imediações, acentuou ele. Nessa noite, segun
do depoimento que ele mais tarde prestou em Nuremberg, o secretário de Estado
procurou Rãder e lembrou-lhe como o afundamento do Lusitânia pelos alemães,
durante a Primeira Guerra Mundial, contribuíra para a entrada dos Estados Uni
dos no conflito e instou com ele que “se fizesse tudo” para evitar-lhes provoca
ções. O almirante garantiu-lhe que “nenhum submarino alemão estivera envolvi
do no caso”.9
A instâncias de Ribbentrop, o almirante Rãder convidou o adido naval ameri
cano para que fosse vê-lo em 16 de setembro, declarando-lhe, então, que já rece
bera relatórios de todos os submarinos, “pelos quais ficou esclarecido definitiva
mente que o Athenia não fora afundado por submarinos alemães”. Pediu-lhe que
informasse o seu governo a respeito, o que o adido fez prontamente.**10
O almirante não dissera toda a verdade. Não haviam ainda regressado ao por
to todos os submarinos que se achavam no mar, em 3 de setembro. Entre eles
encontrava-se o [7-30, comandado pelo tenente Lemp, que somente aportou em
águas alemãs em 27 de setembro, sendo ali recebido pelo almirante Karl Dõnitz,
comandante de submarinos que, anos depois, em Nuremberg, descreveu e reve
lou, finalmente, a verdade sobre quem afundara o Athenia.
Encontrei o comandante, o tenente Lemp, nas docas, em Wilhelmsha-
ven, na ocasião da chegada do submarino ao porto. Pediu permissão
* No dia seguinte, 4 de setembro, todos os submarinos alemães receberam a seguinte mensagem:"Por
ordem do Führer, não deverão levar a efeito, de maneira alguma, operações contra navios de passagei
ros, mesmo quando estiverem escoltados."
** Aparentemente a mensagem não foi escrita em código. Exibiu-se em Nuremberg uma cópia da que
o adido naval expediu para Washington, a qual constava dos documentos navais alemães.
36 A g u e r r a : p r i m e i r a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
para falar-me em particular. Logo observei que parecia acabrunhado.
Contou-me então que julgava ser o responsável pelo afundamento do
Athenia na área do Canal do Norte. De conformidade com minhas ins
truções anteriores, ele estivera exercendo severa vigilância sobre possí
veis barcos mercantes armados, nas vias de acesso às Ilhas Britânicas, e
torpedeara um navio que, depois, pelas mensagens de rádio, identifica
ra como sendo o Athenia. Torpedeara-o sob a impressão de que se tra
tava de um barco mercante armado em serviço de patrulhamento (...)
Mandei-o imediatamente de avião para Berlim, a fim de comunicar o
fato ao Estado-maior da guerra naval [SKL]; entrementes, como medi
da provisória, ordenei que se mantivesse completo sigilo. Mais tarde,
nesse mesmo dia, ou nas primeiras horas do dia seguinte, recebi uma
ordem do Kapitàn zur See Fricke de que:
1. O caso devia ser mantido em completo segredo.
2. O Alto-Comando naval [OKM] considerava não ser necessário um
conselho de guerra, porque achava que o comandante agira de boa-fé.
3. Esclarecimentos políticos seriam tratados pelo OKM*
Não tomei parte nos acontecimentos políticos, no decorrer dos quais o
Führer alegara que nenhum submarino alemão afundara o Athenia.11
Mas Dõnitz, que devia ter suspeitado da verdade durante todo aquele tempo,
pois de outro modo não teria estado nas docas para saudar o regresso do [7-30,
exerceu um papel no caso ao alterar o diário do submarino e o dele, a fim de eli
minar qualquer prova que denunciasse a verdade. De fato, conforme confessou
em Nuremberg, ele próprio ordenou que se eliminasse do diário do U-30 qual
quer menção ao Athenia e fizera o mesmo em seu próprio diário. Fez os tripulan
tes do barco jurarem que guardariam absoluto sigilo.**
* Grifos do almirante.
** Os oficiais, Lemp inclusive, e alguns membros da tripulação foram transferidos para o U - 1 W e afun
daram com ele em 9 de maio de 1941. Um membro da tripulação fora metralhado por avião poucos
dias após o afundamento do Athenia. Foi desembarcado em Reykjavik, Islândia, comprometendo-se a
guardar o mais estrito sigilo; mais tarde foi levado para um campo de prisioneiros de guerra, no Cana
dá. Assinou, depois da guerra, um depoimento relatando os fatos. Ao que parece, os alemães receavam
que ele "desse com a língua nos dentes", mas ele só falou ao terminar a guerra.12
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 37
Os Altos-Comandos militares de todos os países costumam indiscutivelmente
manter certos segredos em seus gabinetes no decurso de uma guerra, e era com
preensível, senão louvável, que Hitler, conforme o almirante Rãder depôs em Nu
remberg, insistisse em que o caso do Athenia fosse mantido em segredo, sobretu
do depois que o comando naval, agindo de boa-fé, negou, a princípio, a
responsabilidade da Alemanha. Ele teria ficado deveras embaraçado se tivesse
que admiti-la depois. Mas Hitler não ficou só nisso. Na noite de domingo, 22 de
outubro, o ministro da Propaganda Goebbels, falando pelo rádio — o autor recor
da-se perfeitamente da irradiação —, acusou Churchill de ter afundado o Athe
nia. No dia seguinte, o jornal oficial nazista, o Võlkischer Beobachter; publicou
uma história na primeira página com o título “Churchill afundou o Athenia\ nela
declarando que o primeiro-lorde do almirantado colocou uma bomba-relógio no
porão do navio. Ficou esclarecido em Nuremberg que o Führer; pessoalmente,
ordenara a declaração pelo rádio e a publicação daquele artigo — e também que
Rãder, Dõnitz e Weizsàcker, embora grandemente desgostosos com tão deslavada
mentira, não ousassem fazer coisa alguma a respeito.13
Essa submissão da parte dos almirantes e do suposto líder antinazista no Mi
nistério das Relações Exteriores, que era completamente compartilhada pelos ge
nerais, toda vez que o diabólico chefe nazista explodia, ia conduzir a Alemanha a
uma das páginas mais negras de sua história.
Hitler propõe a paz
“Esta noite os jornais falam abertamente na paz”, anotei em meu diário em 20
de setembro. “Todos os alemães, com os quais conversei hoje, estão absolutamen
te certos de que teremos paz dentro de uma semana. Estão muito animados.”
Na tarde do dia anterior, eu ouvira, no ornamentado salão da prefeitura de
Dantzig, Hitler fazer seu primeiro discurso desde a oração com que se dirigira ao
Reichstag, em Ia de setembro, ao desencadear a guerra. Conquanto ele estivesse
enfurecido por ter ficado impedido de fazer aquele discurso em Varsóvia, cuja
guarnição resistia ainda heroicamente, e instilasse veneno toda vez que citava a
Inglaterra, fez um leve gesto a favor da paz. “Não tenho nenhum propósito de
guerra contra a Inglaterra e a França”, disse. “Minhas simpatias acham-se voltadas
38 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
para o poilu [soldado francês da Grande Guerra]. Ele não sabe por que está lutan
do.” E invocou o Todo-Poderoso “que agora abençoou nossas armas para que os
outros povos compreendam como esta guerra será inútil (...) e reflitam sobre os
benefícios da paz”.
Em 26 de setembro, na véspera da queda de Varsóvia, os jornais e o rádio ale
mães desencadearam uma grande ofensiva de paz. Registrei em meu diário o que
diziam: “Por que a França e a Inglaterra querem lutar agora? Não há razão para a
luta. A Alemanha nada pretende no Ocidente.”
Dois dias depois a Rússia, abocanhando rapidamente seu quinhão na Polônia,
uniu-se àquela ofensiva. Juntamente com a assinatura do Tratado de Amizade e
Limites Germano-Soviético, com suas cláusulas secretas de dividir a Europa
Oriental, Molotov e Ribbentrop prepararam e assinaram em Moscou, em 28 de
setembro, uma vibrante declaração em favor da paz.
Os governos da Alemanha e da Rússia [dizia], após terem resolvido
definitivamente os problemas oriundos da desintegração do Estado po
lonês e criado uma base firme para uma paz duradoura na Europa
Oriental, exprimem mutuamente sua convicção de que atenderia aos
verdadeiros interesses de todos os povos dar paradeiro ao estado de
guerra entre a Alemanha e Inglaterra e França. Ambos os governos di
rigirão, portanto, seus esforços comuns (...) no sentido de atingir esse
objetivo o mais breve possível.
Caso, porém, os esforços de ambos os governos se tornem infrutíferos,
isso demonstrará que a Inglaterra e a França ficam responsáveis pelo
prosseguimento desta guerra (...)
Desejaria Hitler a paz ou desejaria continuar a guerra e, com o auxílio dos
soviéticos, lançar sobre os Aliados ocidentais a responsabilidade de sua continua
ção? Talvez ele mesmo não soubesse, embora estivesse convencido disso.
Em 26 de setembro, ele teve uma longa conferência com Dahlerus, que ainda
não renunciara de todo aos seus esforços em favor da paz. Dois dias antes, esse
infatigável sueco visitara seu velho amigo Ogilvie Forbes, em Oslo, onde o antigo
conselheiro da embaixada em Berlim servia então, nessa mesma posição, na le-
gação britânica da capital norueguesa. Dahlerus informou Hitler, segundo um
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 39
memorando confidencial do dr. Schmidt,14 que Forbes lhe comunicara que o go
verno inglês desejava a paz. A única questão estava no seguinte: como poderiam
os ingleses salvaguardar seu prestígio?
“Se os ingleses desejam verdadeiramente a paz”, respondeu Hitler, “poderão
tê-la em duas semanas (...) sem que, com isso, percam seu prestígio.”
Eles teriam que conformar-se com o fato de que “a Polônia não podia erguer-
se novamente”, disse o Führer. Além disso, ele estava preparado — declarou —
para manter o status quo “do restante da Europa”, incluindo as garantias de “segu
rança” para a Inglaterra, a França e os Países Baixos. Seguiu-se um debate sobre
como iniciar as conversações de paz. Hitler sugeriu que Mussolini o fizesse. Dah-
lerus aventou a idéia de que a rainha da Holanda talvez conviesse mais, dada a
“neutralidade de seus país”. Gõring, que se achava presente, sugeriu que represen
tantes da Inglaterra e da Alemanha primeiro se encontrassem na Holanda, e de
pois, se fizessem progresso, a rainha convidaria ambos os países para entabularem
as conversações sobre o armistício. Hitler, que várias vezes se manifestara cético
quanto à “vontade da Inglaterra de fazer a paz”, finalmente concordou com a pro
posta do sueco, pela qual ele “iria à Inglaterra no dia seguinte a fim de sondar na
direção indicada”.
“Os ingleses poderão ter a paz se a quiserem”, declarou Hitler a Dahlerus no
momento em que ele saía, “mas terão de se apressar.”
Foi essa uma tendência do pensamento do Führer. Manifestou outra a seus
generais. No dia anterior, 25 de setembro, um registro no diário de Halder men
ciona o recebimento de um “comunicado sobre o plano de Hitler para atacar o
Ocidente”. Em 27 de setembro, dia que se seguiu à garantia que dera a Dahlerus
de que estava pronto a fazer a paz com a Inglaterra, Hitler convocou os coman-
dantes-em-chefe da Wehrmacht para uma reunião na chancelaria e informou-os
de sua decisão de “atacar no Ocidente o mais breve possível, porque o exército
franco-britânico não se acha ainda preparado”. Segundo Brauchitsch, ele mesmo
estabeleceu uma data para o ataque: 12 de novembro.15 Sem dúvida, Hitler estava
entusiasmado nesse dia pela notícia de que Varsóvia finalmente capitulara. Prova
velmente julgara que, pelo menos, poderia dominar a França com a mesma faci
lidade que tivera na Polônia, se bem que dois dias depois Halder fez uma anotação
no diário para explicar ao Führer que “a técnica da campanha polonesa não servi
ria de receita para o Ocidente. Não adiantaria contra um exército coeso”.
40 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Talvez Ciano penetrasse melhor o espírito de Hitler quando manteve com ele
uma longa conferência em Berlim, em lfi de outubro. O jovem ministro das Rela
ções Exteriores da Itália, que, a essa altura, já detestava bastante os alemães, mas
tinha de manter as aparências, encontrou o Führer disposto a confidências. Ao
traçar seus planos, os olhos do chanceler “faiscavam de maneira sinistra sempre
que discorria sobre seus métodos e seus meios de luta”, observou Ciano. Resumin
do suas impressões, o visitante italiano escreveu:
(...) Hoje, oferecer ao povo uma paz sólida após uma grande vitória tal
vez constitua um objetivo que ainda seduz Hitler. Mas, se para alcançá-lo
ele tiver que sacrificar, mesmo num mínimo grau, o que lhe parece frutos
legítimos de sua vitória, haveria então de preferir mil vezes a batalha* 16
Quando assisti à sessão do Reichstag que começou ao meio-dia, em 6 de outu
bro, e ouvi Hitler pronunciar seu apelo de paz, isso me pareceu um velho disco de
gramofone que estava tocando pela quinta ou sexta vez. Quantas vezes, antes, o
ouvira daquela mesma tribuna, após sua última conquista, e, com o mesmo apa
rente tom de seriedade e sinceridade, propor o que semelhava — se se esquecesse
de sua última vítima — uma paz decente e razoável. Ele o fizera assim naquele dia
revigorante e claro de outubro, com sua habitual eloqüência e hipocrisia. Fora um
longo discurso — uma de suas orações públicas mais compridas —, mas no final,
após mais de uma hora de típicas distorções da história e de um relato jactancioso
dos feitos das armas alemãs na Polônia (“este ridículo Estado”), chegou às propos
tas de paz e às razões para isso.
Meu principal esforço tem sido libertar nossas relações com a França
de todos os traços de má vontade e torná-las toleráveis para ambas as
nações (...) A Alemanha nada mais pretende contra a França (...) Recu
sei até mesmo mencionar o problema da Alsácia-Lorena (...) Sempre
manifestei à França meu desejo de sepultar, de uma vez por todas, nossa
* Mussolini não compartilhou da confiança de Hitler na vitória, que Ciano lhe comunicara. Achava que
os ingleses e os franceses "resistiriam firmemente (...) Por que escondê-lo?" Ciano escreveu em seu
diário, em 3 de outubro: "Ele (Mussolini) está um tanto ressentido com a súbita expansão da fama de
Hitler." (Ciano Diaries, p. 155).
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 41
antiga inimizade e reunir esses dois países, ambos os quais encerram
um passado tão glorioso (...)
E a Inglaterra?
Não menores têm sido meus esforços para chegar a um entendimento
anglo-germânico, ou antes, mais do que isso, à concretização das ami
zades anglo-germânicas. Em tempo algum e em lugar algum agi contra
os interesses ingleses (...) Acredito que mesmo hoje em dia só poderá
haver verdadeira paz na Europa e em toda parte do mundo se a Alema
nha e a Inglaterra chegarem a um entendimento.
E a paz?
Por que se deveria travar esta guerra no Ocidente? Para restauração da
Polônia? A Polônia do Tratado de Versalhes jamais se erguerá nova
mente (...) A questão do restabelecimento do Estado polonês é um pro
blema que não será solucionado pela guerra no Ocidente, porém exclu
sivamente pela Rússia e pela Alemanha (...) Seria insensato aniquilar
milhões de homens e destruir propriedades valendo milhões a fim de
reconstruir um Estado que, na própria ocasião em que nasceu, foi ta
chado de aborto por todos aqueles que não eram de origem polonesa.
Que outras razões existem?
Se se deve realmente travar esta guerra somente para dar à Alemanha
um novo regime (...) então milhões de vidas serão sacrificados inutil
mente (...) Não, esta guerra no Ocidente não poderá solucionar ne
nhum problema (...)
Havia problemas para serem resolvidos. Hitler apresentou toda uma lista de
les: “formação de um Estado polonês” (que ele já tinha concordado com os russos
que não devia existir); “acomodação e solução do problema judaico”; colônias
para a Alemanha; restauração do comércio internacional; “garantia de uma paz
42 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
incondicional”; “redução dos armamentos”; “regulamentação da guerra aérea, ga
ses venenosos, etc.”; e solução dos problemas das minorias na Europa.
Para “atingir esses grandes objetivos” ele propôs uma conferência das princi
pais nações européias “depois da mais perfeita preparação”.
É impossível [continuou ele] que tal conferência, que tem por fim de
terminar o destino deste continente para muitos anos vindouros, possa
levar a efeito suas deliberações enquanto os canhões estiverem troando
ou os exércitos mobilizados estiverem fazendo pressão para exercer in
fluência sobre ela.
Se, porém, esses problemas devem ser solucionados logo ou mais tar
de, é então mais sensato atacar a solução antes que se enviem para a
morte inútil milhões de homens, e que se destruam incomensuráveis
riquezas. Inconcebível a continuação do presente estado de coisas no
Ocidente. Dentro em pouco, cada dia que passar irá exigir sacrifícios
cada vez maiores (...) A riqueza nacional da Europa será dissipada em
forma de granadas, e o vigor de todas as nações, debilitado nos campos
de batalha (...)
Uma coisa é certa. Jamais houve, no curso da história do mundo, dois
vencedores; quase sempre, porém, somente perdedores. Oxalá esses
povos e seus líderes, que são da mesma opinião, dêem agora sua respos
ta. E deixemos que aqueles que consideram a guerra a melhor solução
rejeitem a mão que agora estou estendendo.
Ele estava pensando em Churchill.
Mas, se as opiniões de Churchill e seus adeptos prevalecerem, esta mi
nha declaração terá sido a última que faço. Então lutaremos (...) Não
haverá outro novembro de 1918 na história da Alemanha.
Parecia-me altamente duvidoso, conforme escrevi em meu diário, ao voltar do
Reichstag, que os ingleses e franceses dessem, “durante cinco minutos”, ouvidos
àquelas vagas propostas. Mas os alemães se mostraram otimistas. A caminho para
a estação de rádio, naquela noite, adquiri um exemplar da edição matinal do jor
nal de Hitler, o Võlkischer Beobachter. Os flamejantes títulos diziam:
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 43
D e s e jo s d e paz da A lem an h a — N en h um d e s íg n io de g uerra
CONTRA A FRANÇA E A INGLATERRA — NENHUMA OUTRA REVISÃO DAS
PRETENSÕES, EXCETO AS RELATIVAS ÀS COLÔNIAS — REDUÇÃO DOS AR
MAMENTOS — C o o p e r a ç ã o com todas as n a çõ es da E uropa —
PROPOSTA DE UMA CONFERÊNCIA.
Sabe-se agora, pelos documentos secretos alemães, que a Wilhelmstrasse se
sentiu encorajada a acreditar, pelos relatórios que recebia de Paris dos embaixa
dores italiano e espanhol ali, que os franceses não se mostravam inclinados a con
tinuar a guerra. Já em 8 de setembro, o embaixador espanhol informara aos ale
mães que Bonnet ‘está se esforçando para conseguir um entendimento assim que
ficarem concluídas as operações na Polônia, dada a grande impopularidade da
guerra, na França. Há certas indicações de que ele se acha em contato com Mus-
solini para esse fim”.17
Em 2 de outubro, Attolico entregou a Weizsãcker o texto da última mensagem
do embaixador italiano em Paris, a qual afirmava que a maioria dos membros do
gabinete francês era a favor de uma conferência de paz e que a questão girava agora,
principalmente, em torno de “possibilitar à França e à Inglaterra salvaguardarem
seu prestígio”. Ao que parecia, porém, o primeiro-ministro Daladier não fazia
parte dessa maioria.*18
Via-se aí uma bela argúcia. Em 7 de outubro, Daladier respondeu a Hitler.
Declarou que a França não deporia as armas enquanto não obtivesse garantia de
uma “paz verdadeira e segurança geral”. Mas Hitler mostrou-se mais interessado
em receber notícias de Chamberlain do que do primeiro-ministro francês. Em 10
de outubro, por ocasião de um breve discurso no Palácio dos Esportes, para a
inauguração do Auxílio de Inverno, ele novamente acentuou sua “boa vontade
para estabelecer a paz”. A Alemanha, acrescentou, “não tem motivos para uma
guerra contra as potências ocidentais”
A resposta de Chamberlain chegou em 12 de outubro. Foi uma ducha fria
para o povo alemão, senão para Hitler.** Dirigindo-se à Câmara dos Comuns, o
* Pouco depois, era 16 de novembro, os italianos comunicaram aos alemães que, segundo informa
ções recebidas de Paris, "considera-se o marechal Pétain advogado de uma política de paz na França
(...) Se a questão da paz se tornar mais aguda em França, Pétain virá a exercer um grande papel".19 Isso
parece ser a primeira indicação, para os alemães, de que Pétain talvez lhes viesse a ser útil mais tarde.
** No dia anterior, 11 de outubro, ocorreu em Berlim uma desordem relacionada à paz. Pela manhã, um
comunicado no rádio de ondas longas de Berlim anunciava que o governo britânico havia caído e que
44 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
primeiro-ministro declarou serem “vagas e incertas” as propostas de Hitler, ob
servando que “elas não contêm sugestões para corrigir os males feitos à Tchecos-
lováquia e à Polônia”. Não se podia confiar nas promessas “do atual governo ale
mão”, disse ele. Se o governo alemão desejava a paz, “que apresentasse atos e não
somente palavras”. Exigiu que Hitler desse “provas convincentes” de que desejava
realmente a paz.
O homem de Munique não se ludibriaria mais com as promessas de Hitler. No
dia seguinte, 13 de outubro, uma declaração oficial alemã dizia que Chamberlain,
ao rejeitar a proposta de paz de Hitler, havia deliberadamente escolhido a guerra.
O ditador nazista tinha, agora, sua desculpa.
Na verdade, como agora sabemos pelos documentos capturados dos alemães,
Hitler não esperou pela resposta do primeiro-ministro para ordenar os preparati
vos para um ataque imediato no Ocidente. Em 10 de outubro, reuniu os chefes
militares, leu-lhes um longo memorando sobre a situação da guerra e do mundo,
e lançou a Diretiva ne 6 para a orientação da guerra.20
O fato de o Führer insistir, no fim de setembro, em que se preparasse um ata
que no Ocidente o mais breve possível, deixou o Alto-Comando do exército sur
preso. Brauchitsch e Halder, auxiliados por vários outros generais, uniram-se para
provar-lhe que uma ofensiva imediata estava fora de questão. Levaria vários me
ses, disseram, para que os tanques usados na Polônia pudessem ser readaptados.
O general Thomas forneceu cifras para demonstrar que a Alemanha, mensalmen
te, registrava um déficit de 600 mil toneladas de aço. O general von Stülpnagel,
chefe do serviço de intendência do exército, informou que havia munições dispo
níveis apenas “para cerca de um terço de nossas divisões, para quatorze dias de
combate” — o que, certamente, não era suficiente para ganhar uma batalha contra
a França. O Führer não deu ouvidos ao comandante-em-chefe do exército e ao
chefe do Estado-maior geral quando eles lhe apresentaram um relatório formal
sobre as deficiências do exército em 7 de outubro. O general Jodl, principal paten
te do OKW, depois de Keitel, preveniu Halder “de que se estava esboçando uma
crise muito séria” por causa da oposição do exército a uma ofensiva no Ocidente,
e que o Führer estava “irritado porque os generais alemães não lhe obedecem”.
haveria logo um armistício. A capital berlinense rejubilou-se ao se espalhar esse rumor. Mulheres já de
idade, nas feiras, tomadas de alegria, atiraram suas cestas para o ar, destruíram suas barracas e dirigi
ram-se para o bar mais próximo a fim de brindar a paz com schnaps.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 45
Foi nesse cenário que Hitler convocou os generais às llh, em 10 de outubro.
Não lhes foi pedido que dessem opinião. A Diretiva n2 6, datada da véspera, disse-
lhes o que deviam fazer:
SECRETÍSSIMO
Caso se torne aparente em faturo próximo que a Inglaterra e, com sua
liderança, também a França, não estão dispostas a dar paradeiro à
guerra, estou decidido a agir vigorosa e agressivamente sem grande
demora (...)
Por conseguinte, dou as seguintes ordens:
a — Devem ser feitos preparativos para uma operação de ataque (...)
nas áreas de Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Esse ataque deve ser rea
lizado (...) o mais cedo possível.
b — O objetivo será derrotar fortemente uma parte do exército de ope
rações da França e dos Aliados que combatem a seu lado, e, ao mesmo
tempo, conquistar uma área tão grande quanto possível na Holanda, na
Bélgica e no norte da França, como base para realizarmos uma promis
sora guerra aérea e marítima contra a Inglaterra (...)
Peço aos comandantes-em-chefe que me dêem, o mais breve possível,
minuciosos relatórios sobre seus planos com base nesta diretiva, e me
mantenham constantemente informado (...)
O memorando secreto, também datado de 9 de outubro, que Hitler leu para os
chefes militares antes de apresentar-lhes a diretiva, constitui um dos documentos
mais impressionantes que o antigo cabo austríaco escreveu. Mostrou não só do
mínio da história, do ponto de vista alemão, e de estratégia e tática militares, o que
é notável, como também — o que se provaria mais tarde — a noção profética de
como a guerra se desenvolveria no Ocidente e com que resultados. A luta entre a
Alemanha e as potências ocidentais que — disse ele — vinha prosseguindo desde
a dissolução do Primeiro Reich alemão pelo Tratado de Münster (Vestfália), em
1648, “teria que ser resolvida de um modo ou de outro”. Após a grande vitória na
Polônia, contudo, “não haveria objeção em terminar a guerra”, contanto que as
conquistas na Polônia não ficassem comprometidas.
46 A g u e r r a : p r i m e i r a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Não é objeto deste memorando examinar as possibilidades nessa dire
ção ou mesmo levá-las em consideração. Limitar-me-ei exclusivamente
ao outro caso: a necessidade de continuar a luta (...) O alvo da guerra
alemã é destruir militarmente o Ocidente, isto é, destruir a força e a
capacidade das potências ocidentais de novamente poderem opor-se à
consolidação do Estado e ao novo desenvolvimento do povo alemão na
Europa.
No que tange ao mundo exterior, esse alvo eterno terá de sofrer vários
ajustes para propaganda (...) Isso não alterará o objetivo da guerra. É e
será a destruição de nossos inimigos ocidentais.
Os generais tinham se oposto a apressar a ofensiva no Ocidente. O tempo,
porém, favorecia o inimigo, disse-lhes ele. Lembrou-lhes que as vitórias na Polô
nia foram possíveis porque a Alemanha, na verdade, teve apenas um front. Preva
lecia ainda essa situação (...) mas por quanto tempo ainda?
Não se pode assegurar neutralidade duradoura com a Rússia soviética,
com tratados ou pactos. Presentemente, o bom senso não admite que a
Rússia abandone sua neutralidade. Daqui a oito meses, um ano ou mes
mo vários anos, isso talvez fique alterado. Tem-se provado, nos últimos
anos, da parte de todos, o valor insignificante dos tratados. A maior
proteção contra qualquer ataque russo está (...) numa demonstração
imediata do poderio alemão.
Quanto à Itália, a ‘esperança do apoio italiano à Alemanha” dependia, em
grande parte, de Mussolini viver e de haver novos êxitos alemães para atrair o
Duce. Nisso, o tempo constituía também um fator, como o era para a Bélgica e a
Holanda, as quais podiam ser obrigadas pela Inglaterra e pela França a renunciar
à sua neutralidade — coisa que para a Alemanha não convinha esperar. Mesmo
em relação aos Estados Unidos, “tinha de se considerar o tempo como trabalhan
do contra a Alemanha”.
Havia grandes perigos para a Alemanha, admitiu Hitler, numa guerra longa.
Enumerou vários deles. Os neutros amistosos e inamistosos (parece que se referia
principalmente à Rússia, à Itália e aos Estados Unidos) poderiam ser atraídos para
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 47
o lado oposto, como na Primeira Guerra Mundial. Além disso — continuou — “a
base limitada de alimentos e matérias-primas” da Alemanha faria que se tornasse
difícil encontrar “os meios para levar avante a guerra”. O maior perigo, disse ele,
estava na vulnerabilidade do Ruhr. O ataque a esse centro da produção industrial
alemã “acarretaria o colapso da economia de guerra da Alemanha e, portanto, de
sua capacidade de resistir”.
Deve-se admitir que, nesse memorando, o antigo cabo demonstrou extraordi
nária compreensão de estratégia e tática militares, se bem que fosse acompanhada
de uma típica falta de moral. Há várias páginas sobre a nova tática desenvolvida
pelos tanques e aviões, na Polônia, e uma análise minuciosa de como essa tática
podia surtir efeito no Ocidente e nos pontos devidos. O principal, declarou ele,
era evitar a guerra de posições de 1914-1918. As divisões blindadas devem ser
usadas nas rupturas decisivas das linhas de defesa.
Elas não devem perder-se por entre o labirinto de infindáveis filas de
casas nos centros das cidades belgas. Não é necessário atacar os centros,
porém (...) que mantenham o fluxo do avanço do exército, impeçam as
linhas de frente de se tornarem estacionárias pelas investidas em massa
nas posições fracamente defendidas.
Era uma predição horrivelmente exata de como a guerra no Ocidente seria
travada. Quando a lemos, admiramo-nos de que ninguém, no lado dos Aliados,
tivesse tido idêntico discernimento.
Segue-se também uma estratégia de Hitler: “A única possível área de ataque”,
disse ele, era através de Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Deveria haver em mente,
primeiro, dois objetivos militares: destruir os exércitos holandeses, belgas, france
ses e britânicos e, com isso, conquistar posição no Canal e mar do Norte, dos
quais a Luftwaffe pudesse ser “empregada brutalmente” contra a Inglaterra.
“Antes de tudo”, disse, voltando à questão tática, “improvisem!”
A natureza peculiar desta campanha talvez torne necessário recorrer ao
máximo à improvisação, concentrando no ataque ou defendendo forças
em certos pontos numa proporção acima da normal [por exemplo, for
ças de tanques ou antitanques] e, em concentração anormal, em outras.
48 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Quanto à ocasião do ataque, Hitler declarou a seus relutantes generais, “nunca
seria cedo demais para iniciá-lo. Quaisquer que fossem as circunstâncias, tinha
que realizar-se (se de todo possível) neste outono”.
Os almirantes alemães, contrariamente aos generais, não tiveram necessidade
de ser incitados por Hitler a tomar a ofensiva, não obstante a inferioridade da
armada em relação à britânica. De fato, no fim de setembro e nos primeiros dias
de outubro, Ráder pleiteou junto ao Führer que levantasse todas as restrições que
pesavam sobre a armada. Isso foi feito gradativamente. Em 17 de setembro, um
submarino alemão torpedeou o porta-aviões britânico Courageous a sudoeste da
Irlanda. Em 27 do mesmo mês, Rãder ordenou que os encouraçados de bolso
Deutschland e GrafSpee deixassem suas áreas de espera e começassem a atacar a
navegação britânica. Em meados de outubro, eles destruíram sete navios mercan
tes britânicos e apreenderam o navio americano City ofFlint.
Em 14 de outubro, o submarino alemão U-47, comandado pelo tenente Gün-
ther Prien, penetrou nas defesas aparentemente inacessíveis de Scapa Flow, a
grande base naval da Inglaterra, e torpedeou, pondo a pique, o encouraçado Royal
Oak que ali estava ancorado, com perda de 786 vidas entre oficiais e marinheiros.
Foi um notável êxito, explorado ao máximo pelo dr. Goebbels em sua propagan
da, o que enalteceu a marinha de guerra no espírito de Hitler.
Os generais, porém, continuaram a ser um problema. A despeito do longo e
meditado memorando que Hitler lhes endereçou e a exposição da Diretiva ne 6,
instando a que se preparassem para um ataque no Ocidente, procuraram ganhar
tempo. Não que tivessem escrúpulos contra a violação dos territórios belga e ho
landês; duvidavam, simplesmente, do êxito naquela ocasião. Havia, porém, uma
exceção.
O general Wilhelm Ritter von Leeb, comandante do grupo C de exércitos, que
defrontava os franceses no Reno e ao longo da Linha Maginot, não só se mostrava
cético quanto à vitória no Ocidente como também — sozinho conforme revelam
os documentos existentes — se opôs, pelo menos em parte e com fundamentos de
ordem moral, a que se atacassem a Bélgica e a Holanda, dada sua neutralidade. No
dia que se seguiu à conferência de Hitler com os generais, 11 de outubro, Leeb
preparou, ele mesmo, um longo memorando que enviou a Brauchitsch e outros
generais. O mundo inteiro, escreveu ele, voltar-se-ia contra a Alemanha,
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 49
que, pela segunda vez em 25 anos, ataca a Bélgica! A Alemanha solene
mente garantira e prometera preservar e respeitar essa neutralidade
fazia poucas semanas!
Finalmente, após detalhar argumentos militares contra um ataque no Ociden
te, fez um apelo em favor da paz. “Toda a nação”, disse ele, “anseia pela paz.” 21
Mas Hitler, a essa altura, ansiava pela guerra, pela batalha, e já não mais tole
rava a atitude dos generais, que julgava imperdoável pusilanimidade. Brauchitsch
e Halder, em 14 de outubro, reuniram-se para uma demorada conferência. O che
fe do exército via “três possibilidades: atacar; esperar para ver; mudanças funda
mentais”. Halder anotou-as em seu diário nesse dia e, depois da guerra, explicou
que as “mudanças fundamentais” significavam “o afastamento de Hitler”. Mas o
fraco Brauchitsch considerou essa drástica medida “essencialmente negativa e
tendente a tornar-nos vulneráveis”. Chegaram à conclusão de que nenhuma das
três possibilidades oferecia “perspectivas de êxitos decisivos”. A única coisa a fazer
era continuar a ver o que se podia conseguir junto a Hitler.
Brauchitsch visitou o Führer novamente em 17 de outubro, mas seus argu
mentos, contou ele a Halder, não surtiram efeito. A situação era desesperadora.
Hitler disse-lhes secamente, conforme Halder escreveu em seu diário nesse dia,
que “os ingleses estarão dispostos a conferenciar somente depois de uma surra.
Precisamos atacá-los o mais depressa possível. A data: entre 15 e 20 de novembro,
o mais tardar”.
Houve novas conferências com o senhor supremo da guerra nazista, o qual
traçou, em 27 de outubro, as normas que os generais deviam seguir. Após uma
cerimônia, em que conferiu a 14 deles a comenda de Cavalheiro da Cruz de Fer
ro, o Führer passou logo a discorrer a respeito do ataque no Ocidente. Quando
Brauchitsch procurou explicar que o exército só estaria preparado para isso dali
a um mês, a 26 de novembro, Hitler respondeu que seria “demasiado tarde”. O
ataque, ordenou ele, começaria em 12 de novembro. Brauchitsch e Halder retira
ram-se da conferência abatidos e derrotados. Nessa noite, procuraram consolar-
se um ao outro. “Brauchitsch acha-se cansado e descoroçoado”, anotou Halder
em seu diário.
50 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
A conspiração de Zossen para derrubar Hitler
Chegara então o tempo para os conspiradores entrarem mais uma vez em
ação, ou assim pensaram eles. Os infelizes Brauchitsch e Halder viram-se diante
de duas opções: ou levariam a efeito a terceira daquelas possibilidades que ha
viam examinado em 14 de outubro — o afastamento de Hitler — ou organiza
riam um ataque no Ocidente, que julgavam desastroso para a Alemanha. Os
conspiradores militares e civis, que subitamente entraram em cena, aconselha
ram a primeira opção.
Já tinham deixado escapar uma oportunidade uma vez, desde que a guerra
começara. O general von Hammerstein, que havia muito estava afastado da ati
va, fora novamente chamado para servir temporariamente, às vésperas do ata
que à Polônia. Foi-lhe dado um comando no Ocidente. Durante a primeira se
mana da guerra, ele insistiu para que Hitler visitasse o seu quartel-general a fim
de mostrar-lhe que não estava negligenciando naquela frente, enquanto se con
quistava a Polônia. Hammerstein, na verdade, era um implacável adversário de
Hitler e planejava prendê-lo. Fabian von Schlabrendorff, já havia informado
confidencialmente Ogilvie Forbes sobre esse plano, no dia em que a Inglaterra
declarou a guerra — 3 de setembro — num rápido encontro que tiveram no
hotel Adlon, em Berlim. Mas o Führer, desconfiado de qualquer coisa, declinou
do convite para aquela visita ao antigo comandante-em-chefe do exército, e logo
depois destituiu-o.22
Os conspiradores continuaram a manter contato com os ingleses. Tendo dei
xado de tomar qualquer medida para impedir que Hitler destruísse a Polônia,
concentraram seus esforços no sentido de evitar que a guerra se espalhasse para o
Ocidente. Os membros civis perceberam, mais do que nunca, que o exército era a
única organização no Reich que possuía os meios de deter Hitler; seu poder e
importância aumentaram enormemente com a mobilização geral e com a vitória
relâmpago na Polônia. Mas a própria expansão do exército, conforme Halder pro
curou explicar aos civis, constituía também um empecilho. As fileiras de oficiais
ficaram repletas de elementos da reserva, muitos deles nazistas fanáticos, e a mas
sa das tropas achava-se completamente imbuída da doutrina nazista. Seria difícil,
assinalou Halder — era um grande personagem para salientar dificuldades quer a
amigos quer a inimigos — descobrir uma formação do exército na qual se pudes
se confiar para um golpe contra o Führer.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 51
Houve outra consideração que os generais apontaram e que os civis compreen
deram perfeitamente. Se preparassem uma revolta contra Hitler, a que se seguiria
uma confusão no exército e no país, não se aproveitariam os franceses e ingleses
para atacar no Ocidente, ocupar a Alemanha e impor uma paz severa ao povo
alemão — mesmo que se tivesse desembaraçado de seu líder criminoso? Era, por
tanto, necessário manter contato com os ingleses a fim de chegar a um entendi
mento bem claro, pelo qual os Aliados não se aproveitariam da vantagem que lhes
pudesse dar um golpe alemão antinazista.
Serviram-se de vários canais. Um foi criado no Vaticano pelo dr. Josef Müller,
ilustre advogado de Munique, católico devoto, de tão grande robustez física e
tremenda energia e resistência que o apelidaram, na mocidade, de Ochsensepp
(José, o Touro). No princípio de outubro, com a conivência do coronel Oster, da
Abwehr, Müller fez uma viagem a Roma e estabeleceu, no Vaticano, contato com
o ministro britânico junto à Santa Sé. Segundo as fontes alemãs, conseguiu obter
não só a garantia do ministro como também a aquiescência do papa no sentido
de agirem como intermediários entre um novo regime alemão antinazista e a
Inglaterra.23
O outro contato foi em Berna, Suíça. Ali, Weizsácker instalou Theodor Kordt,
até recentemente encarregado dos negócios alemães em Londres, como adido, na
legação alemã, e foi na capital suíça que ele se encontrou vez ou outra com um
s, o dr. Philip Conwell-Evans, que, por ter exercido uma cátedra na Univer
sidade alemã de Kõnigsberg, tornara-se perito no tocante ao nazismo e, até certo
ponto, um simpatizante da doutrina. Conwell-Evans trouxe, no fim de outubro,
para Kordt, uma promessa solene de Chamberlain de tratar com justiça e com
preensão o futuro governo alemão antinazista. Na verdade, o inglês apenas trou
xera trechos do discurso de Chamberlain na Câmara dos Comuns, nos quais,
embora rejeitasse as propostas de paz de Hitler, o primeiro-ministro declarava
que a Inglaterra não desejava4excluir do lugar a que ela tinha direito uma Alema
nha que quisesse viver com amizade e confiança com as outras nações”. Con
quanto essa declaração e outras, nesse discurso de natureza amistosa para com o
povo alemão, tivessem sido irradiadas de Londres e, provavelmente, captadas
pelos conspiradores, eles acolheram o penhor trazido pelo representante não-
oficial dos ingleses em Berna como sendo da máxima importância. Com esse
penhor e as garantias dos ingleses que julgavam ter por intermédio do Vaticano,
52 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
os conspiradores voltaram-se esperançosos para os generais alemães. Esperanço
sos, mas também desesperados. “Nossa única esperança de salvação”, disse Wei-
zsàcker a Hassell em 17 de outubro, “está num coup detat militar. Mas como?”
O tempo era curto. O ataque alemão pela Bélgica e a Holanda estava projetado
para iniciar-se em 12 de novembro. A conspiração tinha de ser levada a efeito
antes dessa data. Conforme Hassell prevenira os outros, seria impossível obter
uma “paz decente” depois que a Alemanha invadisse a Bélgica.
Há vários relatos de participantes da conspiração sobre o que aconteceu de
pois, ou melhor, porque nada aconteceu de importante; tais relatos são contradi
tórios e confusos. O general Halder, chefe do Estado-maior geral, foi mais uma
vez a figura-chave, como ao tempo de Munique, mas tornou-se vacilante e inde
ciso. No seu interrogatório, em Nuremberg, explicou que as “unidades de forças
terrestres” não podiam levar a efeito a revolta, porque tinham “à sua frente um
inimigo completamente armado”. Declarou ter apelado ao “exército metropolita
no”, que não estava defrontando o inimigo, para que agisse, mas o máximo que
conseguira de seu comandante, general Friedrich (Fritz) Fromm, fora o entendi
mento de que ele, “como soldado”,24 executaria qualquer ordem de Brauchitsch.
Mas Brauchitsch mostrou-se ainda mais fraco que o seu chefe do Estado-
maior geral. “Se Brauchitsch não tem força de caráter suficiente”, disse o general
Beck a Halder, “para tomar uma decisão, cumpre então a você tomar a decisão e
presenteá-lo com um fait acomplu Halder, porém, insistiu no fato de que a res
ponsabilidade final seria de Brauchitsch, uma vez que era ele o comandante-em-
chefe do exército. Ia-se, assim, passando a responsabilidade de um para outro.
“Halder”, queixou-se Hassell em seu diário no fim de outubro, “não está à altura
da situação, quer em capacidade, quer em autoridade.” Quanto a Brauchitsch, era,
conforme disse Beck, “uma figura elementar”. Ainda assim, os conspiradores, li
derados dessa vez pelo general Thomas, economista do exército, e pelo coronel
Oster, da Abwehr, trabalharam junto a Halder que, finalmente, concordou — jul
gavam eles — em preparar um Putsch assim que Hitler desse a ordem final para o
ataque no Ocidente. Diz o próprio Halder que isso estava condicionado à decisão
final que seria tomada por Brauchitsch. Seja como for, em 3 de novembro, segun
do o coronel Hans Groscurth, do OKW, um confidente de Halder e Oster mandou
uma mensagem ao general Beck e Goerdeler, dois dos principais conspiradores,
para que se mantivessem de prontidão de 5 de novembro em diante. Zossen,
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 53
quartel-general do comando do exército e do Estado-maior geral, tornou-se o
foco da atividade dos conspiradores.
Cinco de novembro era a data-chave. Nesse dia devia começar o movimento
de tropas para os pontos de assalto fronteiriços à Holanda, à Bélgica e a Luxem
burgo. Também nesse dia Brauchitsch teve um encontro com Hitler, para dar uma
explicação definitiva. Ele e Halder haviam visitado os grandes comandos do exér
cito no Ocidente, 2 e 3 de novembro, e sentiram-se fortalecidos com as opiniões
negativas dos comandantes. “Nenhum dos grandes quartéis-generais, confiou
Halder ao seu diário, “julga que a ofensiva (...) ofereça qualquer perspectiva de
êxito.” Assim, suprido com os argumentos que ouvira dos generais na frente oci
dental, com os dele próprio e os de Halder e Thomas, reunidos num memorando,
e levando consigo, como boa medida, um contra-memorando, no dizer de Halder,
respondendo ao memorando de Hitler, de 9 de outubro, o comandante-em-chefe
do exército alemão dirigiu-se à chancelaria, em Berlim, em 5 de novembro, deci
dido a convencer Hitler de que não fizesse a ofensiva no Ocidente. Brauchitsch se
uniria então aos conspiradores para afastar o ditador, caso fosse mal-sucedido,
assim compreenderam eles. Estavam excitadíssimos (...) e otimistas. Goerdeler,
segundo Gisevius, já preparava uma lista dos membros de gabinete para o gover
no antinazista, e teve que ser contido por Beck, o mais comedido em seus atos.
Somente Schacht mostrou-se demasiado cético. “Observem bem”, preveniu ele,
“Hitler vai ficar desconfiado e não tomará decisão alguma amanhã”.
Como sempre, erraram todos.
Brauchitsch, como era de esperar, não chegou a parte alguma com seus me
morandos ou com os relatórios obtidos dos comandantes das linhas de frente, ou
com seus próprios argumentos. Quando acentuou o mau tempo reinante no Oci
dente àquela época do ano, Hitler replicou que era tão ruim para o inimigo quan
to para os alemães, acrescentando que talvez não seria melhor na primavera. De
sesperado, o chefe do exército informou finalmente ao Führer que o moral das
tropas no Ocidente era idêntico ao que existira em 1917-1918, quando houve
derrotismo, insubordinações e, até, motins no exército alemão.
Ao ouvir isso, Hitler, segundo Halder (cujo diário constitui a principal fonte
para esse encontro altamente secreto), enraiveceu-se. “Em que unidades”, quis
saber, “houve casos de falta de disciplina? Que aconteceu? Onde?” Ele mesmo
voaria até lá no dia seguinte. O pobre Brauchitsch, consoante a anotação de Halder,
54 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
exagerara propositadamente “a fim de dissuadir Hitler”. Sentiu então toda a força
da incontrolável ira do Führer. “Quais as medidas tomadas pelo comando do
exército?” — gritou Hitler. “Quantas sentenças de morte foram executadas?” A
verdade era, esbravejou Hitler, que “o exército não queria lutar”.
“Era impossível prosseguir na conversação”, declarou Brauchitsch no tribunal,
em Nuremberg, ao evocar sua infeliz experiência. “Foi então que saí.” Outros lem-
bravam-se de que ele entrara cambaleante no quartel-general, 28 quilômetros dis
tante, em tal estado de choque que, a princípio, não pôde narrar de modo coeren
te o que acontecera.
Foi esse o fim da Conspiração de Zossen. Falhou tão ignobilmente quanto a
Conspiração de Halder, ao tempo de Munique. Todas as vezes que os conspirado
res traçaram as condições para agir, foram elas atendidas. Dessa vez, Hitler man
tivera sua decisão para que se efetuasse o ataque em 12 de novembro. De fato,
depois que o desolado Brauchitsch o deixou, mandou a ordem por telefone, a
Zossen, tornando a confirmá-la. Quando Halder pediu que a enviasse por escrito,
atendeu-o imediatamente. Tiveram assim os conspiradores, por escrito, a prova
da qual diziam ter necessidade a fim de derrubar Hitler — a ordem para um ata
que que eles julgavam desastroso para a Alemanha. Nada mais fizeram, porém.
Foram tomados pelo pânico. Processou-se uma verdadeira luta para queimar do
cumentos comprometedores e apagar vestígios. Ao que parece, somente o coronel
Oster manteve a calma. Mandou um aviso às legações belga e holandesa, em Ber
lim, para que esperassem um ataque na manhã de 12 de novembro.25 Partiu de
pois para a frente ocidental, numa expedição inútil: ver se podia interessar o ge
neral von Witzleben na derrubada de Hitler. Os generais, Witzleben inclusive,
sabiam quando estavam derrotados. O antigo cabo havia, mais uma vez, triunfa
do sobre eles com a maior facilidade. Dias depois, Rundstedt, comandando o gru
po A do exército, reuniu seus comandantes de corpos e divisões para discutir os
detalhes do ataque. Conquanto ainda duvidasse do êxito, aconselhou os generais
a enterrar as dúvidas. “Foi dada ao exército uma tarefa, e ele terá que cumpri-la!”
Hitler, depois de quase ter provocado em Brauchitsch um colapso nervoso,
ocupou-se no dia seguinte em preparar o texto das proclamações aos povos da
Holanda e da Bélgica, justificando o ataque a eles. Halder anotou o pretexto: “Os
franceses estão marchando para a Bélgica.”
Logo no dia seguinte, 7 de novembro, para alívio dos generais, Hitler adiou a
data do ataque.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 55
SECRETÍSSIMO
Berlim, 7 de novembro de 1939
(...) O Führer e comandante supremo das forças armadas, após ouvir os
relatórios sobre a situação meteorológica e dos transportes ferroviários,
ordenou:
O dia-A fica protelado por três dias. A próxima decisão será dada às
18h de 9 de novembro de 1939.
Keitel
Foi essa a primeira das 14 ordens de Hitler, sobre o adiamento durante o outo
no e o inverno, das quais se encontraram cópias nos arquivos do OKW ao término
da guerra.26Elas demonstraram que, em tempo algum, o Führer abandonara por
um momento sua decisão de atacar no Ocidente: adiou o ataque, simplesmente,
de uma semana para outra. Em 9 de novembro, foi ele adiado para o dia 19; em 13 de
novembro, para o dia 22 do mesmo mês, e assim por diante, com seis dias de aviso
prévio de cada vez, citando-se geralmente o tempo como motivo. Talvez o Führer
estivesse, até certo modo, submetendo-se à opinião dos generais. Era possível,
porém, que se tivesse convencido de que o exército não estava preparado. Certa
mente os planos estratégicos e táticos não tinham sido bem calculados, uma vez
que ele constantemente os modificava.
Talvez tivessem surgido outras razões para o primeiro adiamento da ofensiva
que ordenara. Em 7 de novembro, o dia em que foi tomada a decisão, os alemães
ficaram sumamente embaraçados com a declaração que o rei dos belgas e a rainha
da Holanda fizeram em conjunto, oferecendo-se como mediadores da paz “antes
que a guerra na Europa começasse com toda a violência”. Em tais circunstâncias,
teria sido difícil convencer quem quer que fosse — como Hitler procurava fazer
nas proclamações que elaborava — de que o exército alemão estava marchando
em direção aos Países Baixos porque soubera que o exército francês estava prestes
a marchar para a Bélgica.
Era também possível que Hitler tivesse sabido que seu ataque contra a peque
nina Bélgica neutra não viesse a ter o cunho de surpresa com o qual contava. No
fim de outubro, Goerdeler fez uma viagem a Bruxelas com uma mensagem secre
ta de Weizsàcker instando junto ao embaixador alemão, Bülow-Schwante, para
que prevenisse o rei, particularmente, da “extrema gravidade da situação”. Foi o
56 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
que fez o embaixador. Imediatamente o rei Leopoldo precipitou-se para Haia a
fim de consultar a rainha e, com ela, elaborar uma declaração. Mas os belgas tive
ram informações ainda mais específicas. Algumas vieram de Oster, conforme vi
mos. Em 8 de novembro, Bülow-Schwante telegrafou a Berlim prevenindo que o
rei Leopoldo comunicara à rainha da Holanda que possuía “informações exatas”
sobre uma concentração de tropas alemãs na fronteira, o que indicava uma ofen
siva alemã através da Bélgica “dali a dois ou três dias”.27
Foi então que, na noite de 8 de novembro e à tarde do dia seguinte, verificaram-
se dois estranhos acontecimentos: a explosão de uma bomba que por pouco não
matava Hitler e o seqüestro de dois agentes ingleses pelas S.S., na Holanda, nas ime
diações da fronteira alemã, o que, a princípio, desviou a atenção do chefe nazista
de seus planos de atacar o Ocidente; sustentou-lhe, entretanto, o prestígio na
Alemanha e assustou os conspiradores de Zossen, os quais, na verdade, nada ti
nham a ver com ambos os casos.
O seqüestro praticado pelos nazistas e
a explosão da bomba na cervejaria
Na noite de 8 de novembro, 12 minutos após Hitler ter terminado seu discurso
anual aos companheiros da Velha Guarda do partido, na Bürgerbráukeller, em
Munique, comemorando o Putsch que tivera sua origem no salão da cervejaria
em 1923 — um discurso mais curto que de costume — explodiu uma bomba num
pilar logo atrás da plataforma do orador, matando sete pessoas e ferindo 63. Na
quele momento, já todos os líderes nazistas importantes, com Hitler à frente, ha
viam deixado precipitadamente o edifício, embora fosse costume deles, em anos
anteriores, permanecerem ali por mais algum tempo bebendo cerveja e trocando
reminiscências com os velhos companheiros sobre o Putsch inicial.
Na manhã seguinte, o Võlkischer Beobachter, o jornal de Hitler, foi o único que
publicou a história do atentado contra a vida do Führer. Lançava a culpa sobre o
serviço secreto britânico e até mesmo sobre Chamberlain, pela perfídia. “Essa
tentativa de assassinato”, escrevi essa noite em meu diário, “fortalecerá Hitler na
opinião pública e iniciará o ódio contra a Inglaterra (...) A muitos isso está chei
rando a outro caso idêntico ao do incêndio do Reichstag.”
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 57
Que ligação podia ter o serviço secreto britânico com o fato, senão o que se
passasse na mente febril de Goebbels? Procurou-se logo estabelecer a relação.
Uma ou duas horas após a explosão da bomba em Munique, Heinrich Himmler,
chefe das S.S. e da Gestapo, telefonou para um de seus jovens subordinados então
em ascensão nas S.S., Walter Schellenberg, em Düsseldorf, e, por ordem do
Führen mandou-o atravessar no dia seguinte a fronteira da Holanda e seqüestrar
dois agentes do serviço secreto britânico com os quais ele, Schellenberg, estivera
em contato.
A ordem de Himmler deu ensejo a um dos mais bizarros incidentes da guerra.
Durante mais de um mês, Schellenberg, que, à semelhança de Alfred, era um fa
cínora intelectual formado em universidade, estivera se encontrando na Holanda
com dois funcionários do serviço secreto britânico: o capitão S. Payne Best e o
major R. H. Stevens. A eles intitulava-se “major Schaemmer, oficial antinazista no
OKW (Schellenberg adotou o nome de um major ainda vivo), e contara a história
convincente de como os generais alemães estavam decididos a derrubar Hitler. O
que desejavam dos ingleses — dissera-lhes — eram garantias de que o governo de
Londres trataria com correção o novo regime antinazista. Como os ingleses sa
biam por intermédio de outras fontes (conforme já vimos) de uma conspiração
militar na Alemanha, cujos membros desejavam a mesma espécie de garantias,
Londres interessou-se em desenvolver novos contatos com o “major Schaemmer.
Best e Stevens ofereceram-lhe um pequeno aparelho de rádio transmissor e recep
tor. Disso resultaram inúmeras comunicações e novos encontros em várias cida
des holandesas. Em 7 de novembro, quando eles se encontraram em Venlo, cidade
holandesa na fronteira alemã, os agentes ingleses deram a “Schaemmer uma
mensagem um tanto vaga recebida de Londres para os chefes da resistência alemã,
a qual expunha em termos gerais as bases para uma paz justa com o regime anti
nazista. Combinou-se que “Schaemmel” traria um dos chefes — um general ale
mão — a Venlo no dia seguinte, para encetarem as negociações definitivas. A
reunião, entretanto, foi adiada para o dia 9.
Até aquele momento eram claros os objetivos de ambos os lados. Os ingleses
estavam procurando estabelecer contato com os putschistas militares alemães, a
fim de os encorajar e auxiliar. Himmler tentava descobrir, por intermédio dos
ingleses, os conspiradores alemães e suas ligações com o serviço secreto do inimi
go. Evidencia-se que Himmler e Hitler já suspeitavam de alguns generais e de
58 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
homens — como Oster e Canaris — da Abwehr (...) Mas, já na noite de 8 de no
vembro, Hitler e Himmler viram que precisavam alcançar um novo objetivo: se
qüestrar Best e Stevens e culpar os dois agentes do serviço secreto britânico pela
explosão da bomba na cervejaria.
Entrou então em cena um personagem conhecido. Alfred Naujocks, que ha
via preparado o “ataque dos poloneses” à estação de rádio alemã de Gleiwitz,
surgiu comandando 12 robustos homens do serviço de segurança (S.D.) para
auxiliar Schellenberg a efetuar o seqüestro. Saíram-se bem na empreitada. Às 16h
de 9 de novembro, enquanto Schellenberg tomava um aperitivo no terraço de um
café em Venlo, aguardando o momento de encontrar-se com Best e Stevens, eles
chegaram num Buick e estacionaram-no atrás do café. Foram atingidos por uma
saraivada de balas, vindas de um carro das S.S. repleto de comparsas de Nau
jocks. O tenente Klop, oficial do serviço secreto holandês que sempre acompa
nhava os dois ingleses em suas conversações com Schellenberg, caiu mortalmente
ferido. Best e Stevens foram atirados para o carro das S.S. “como se fossem feixes
de feno” — segundo Schellenberg lembrou mais tarde — juntamente com o feri
do Klop, e transportados para a Alemanha, tendo o carro cruzado a fronteira a
toda velocidade.*28
E assim, em 21 de novembro, Himmler anunciou ao povo que a trama para o
assassínio de Hitler, na cervejaria, fora solucionada. Realizara-se por instigação
do serviço secreto britânico, tendo sido presos dois de seus chefes, Stevens e Best,
“na fronteira germano-holandesa”, no dia seguinte ao da explosão da bomba. Ci
tou-se como tendo perpetrado o atentado Georg Elser, carpinteiro alemão comu
nista residente em Munique.
O relato minucioso que Himmler fez sobre o crime me pareceu suspeito,
conforme escrevi em meu diário no mesmo dia. Mas o que com isso conseguiu
não deixou de ser real. “O que Himmler e seu bando evidentemente planejam”,
* Segundo relato holandês de cunho oficial, que veio à luz depois da guerra, o carro inglês no qual vi
nham Stevens, Best e Klop foi rebocado pelos alemães pela fronteira, que ficava a cerca de 40 metros.
No dia seguinte, 10 de novembro, o governo holandês solicitou nove vezes por escrito, em freqüentes
intervalos, que repatriassem Klop e o chofer holandês, exigindo também que a Alemanha investigasse
aquela violação da neutralidade holandesa. Só recebeu resposta em 10 de maio, quando Hitler justifi
cou seu ataque contra os Países Baixos alegando que a questão de Venlo havia provado a cumplicidade
dos holandeses còm o serviço secreto britânico. Klop morreu dias depois, vítima dos ferimentos rece
bidos. Best e Stevens sobreviveram ainda cinco anos em campos de concentração dos nazistas.29
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 59
registrei, “é convencer o ingênuo povo alemão de que o governo britânico tentava
vencer a guerra assassinando Hitler e seus principais auxiliares.”
O mistério sobre quem preparou o atentado não ficou completamente escla
recido. Elser, conquanto não tivesse a imbecilidade daquele Marinus van der
Lubbe do incêndio do Reichstag, era um homem de limitada inteligência, se bem
que muito sincero. Não somente se confessou culpado de ter fabricado e feito
explodir a bomba, como também se vangloriou do fato. Ainda que, naturalmente,
nunca tivesse se encontrado com Best e Stevens antes do atentado, travou conhe
cimento com Best durante os longos anos passados no campo de concentração de
Sachsenhausen. Ali contou ao inglês uma longa e complicada — e não muito ló
gica — história.
Certo dia, em outubro, no campo de concentração de Dachau, onde estava
encarcerado desde meados do verão como simpatizante comunista — relatou ele
— foi chamado ao escritório do comandante do campo, onde o apresentaram a
dois estrangeiros. Explicaram-lhe a necessidade de eliminar alguns partidários
Kque estavam traindo” o Führer, fazendo explodir uma bomba na cervejaria ime
diatamente depois que Hitler fizesse seu discurso habitual na noite de 8 de novem
bro e deixasse o local. Devia colocar a bomba num pilar atrás da plataforma dos
oradores. Como Elser era hábil carpinteiro, eletricista e artífice, deram-lhe a en
tender que era o homem indicado para aquele trabalho. Se o fizesse, arranjariam
para que pudesse escapar para a Suíça, munido de uma grande soma de dinheiro
que lhe permitiria ali viver com conforto. Para demonstrar que falavam seriamen
te, prometeram-lhe, nesse ínterim, um tratamento melhor no campo de concen
tração: alimentação melhor, trajes civis, grande quantidade de cigarros — ele era
fumante inveterado — mesa de carpinteiro e ferramentas. Ali, Elser construiu
uma bomba grosseira porém eficiente, dotando-a com o mecanismo de um reló
gio despertador com oito dias de corda e um dispositivo pelo qual se podia deto-
ná-la. Elser afirmou que o levaram uma noite, no princípio de novembro, à adega
da cervejaria, onde instalou seu engenho no pilar apropriado.
Na noite de 8 de novembro, mais ou menos à hora em que a bomba devia de
tonar, Elser foi levado pelos cúmplices — disse — para a fronteira suíça, recebeu
uma soma em dinheiro e — interessante — um cartão-postal mostrando a foto
grafia do interior do salão da cervejaria, com o pilar no qual colocara a bomba
assinalado por uma cruz. Mas, em vez de ser auxiliado na travessia da fronteira
6o A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
— e isso parece ter surpreendido um pouco a inteligente criatura —, foi agarrado
pela Gestapo com o cartão-postal e tudo. Mais tarde foi instruído pela Gestapo
para que implicasse Best e Stevens por ocasião do julgamento que o Estado ia fa
zer, e no qual se tornaria o alvo da atenção geral.*
Não se realizou, porém, o julgamento. Sabemos agora que Himmler, por mo
tivos que só ele conhecia, não ousou levar a questão a julgamento. Sabemos tam
bém — agora — que Elser continuou a viver em Sachsenhausen e depois nos
campos de concentração de Dachau, onde recebeu, aparentemente por ordem ex
pressa de Hitler, que pessoalmente tanto ganhara com o atentado, um tratamento
humano, dadas as circunstâncias. Mas Himmler manteve-o sob vigilância até o
fim. Não convinha deixar o carpinteiro sobreviver à guerra e contar sua história.
Logo depois do término da guerra, em 16 de abril de 1945, a Gestapo anunciou
que Georg Elser morreu num bombardeio dos Aliados, no dia anterior. Sabemos
agora que a Gestapo o assassinou.30
Hitler dirige-se aos generais
Tendo escapado ao assassinato, ou ao que fizeram parecer que fosse, e domi
nado a rebeldia de seus generais, Hitler prosseguiu em seus planos para o grande
ataque no Ocidente. Em 20 de novembro, expediu a Diretiva nQ8 para a orienta
ção da guerra, ordenando a manutenção do “estado de alerta” de modo a “tirar
proveito imediato das condições do tempo” e traçando planos para a destruição
da Holanda e da Bélgica. Depois, para incutir coragem nos timoratos e estimulá-
los a manter o espírito que julgava necessário à véspera de grandes batalhas, con
vocou os generais-comandantes e os membros do Estado-maior geral para uma
reunião em 23 de novembro, ao meio-dia.
* Posteriormente, em Dachau, Elser contou história semelhante ao pastor Niemõller que, desde então,
manifestou sua convicção pessoal de que o caso da bomba fora aprovado por Hitler a fim de aumentar
sua própria popularidade e estimular o povo para a guerra. É apenas um ato de justiça acrescentar que
Gisevius, arquiinimigo de Hitler, Himmler e Schellenberg, acreditava — conforme depôs em Nurem-
berg e escreveu em seu livro — que Elser tentara realmente matar Hitler e que não houve cúmplices
nazistas. Schellenberg, que merece menos fé, afirmou que, conquanto suspeitasse de Himmler e
Heydrich, chegara mais tarde à conclusão, depois de interrogar o carpinteiro e ler os interrogatórios
feitos enquanto Elser se achava primeiro sob o efeito de drogas e depois hipnotizado, que se tratava de
uma verdadeira tentativa de assassinato.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 6 l
Foi uma das falas secretas reveladoras que dirigiu a seus principais chefes mi
litares no sentido de animá-los, e, graças à descoberta que os Aliados fizeram em
alguns dos arquivos do OKW, em Flensburg, foi ela preservada na forma de ano
tações feitas por um participante não identificado.31
O objetivo desta conferência [começou Hitler] é dar uma idéia dos inú
meros pensamentos que me governam em face dos futuros aconteci
mentos e informar minhas decisões.
O passado, o presente e o futuro dominavam-lhe o espírito. Falou àquele limi
tado grupo com franqueza brutal e grande eloqüência, fazendo um magnífico
resumo de tudo que lhe vinha passando pelo cérebro pervertido, porém fértil, e
prevendo com implacável exatidão a forma das coisas futuras. É difícil imaginar
que alguém, que o ouvisse, pudesse ainda alimentar dúvidas de que o homem que
tinha em suas mãos o destino da Alemanha — e do mundo — se transformara
inegavelmente num perigoso megalomaníaco.
Tive a intuição clara do provável curso da história [disse ao discorrer
sobre suas primeiras lutas] e a vontade firme de tomar decisões bru
tais (...) Quanto a este último fator, devo citar, com toda a modéstia,
minha própria pessoa como sendo insubstituível. Nenhum militar ou
civil poderá substituir-me. Poderão repetir-se as tentativas de assassi
nato. Estou convencido da força de meu intelecto e de minhas deci
sões (...) Ninguém jamais realizou o que tenho realizado (...) Conduzi
o povo alemão a grandes alturas, mesmo que o mundo agora nos odeie
(...) O destino do Reich depende somente de mim. Agirei de acordo
com isso.
Censurou os generais pelas dúvidas quando tomou a “dura decisão” de aban
donar a Liga das Nações, decretar a conscrição, ocupar a Renânia, fortificá-la e
conquistar a Áustria. “Era muito reduzido o número de pessoas que confiava em
mim”, disse.
“O passo seguinte”, declarou ao descrever suas conquistas, com um cinismo
que é lamentável Chamberlain não ter presenciado, “foi a Boêmia, a Morávia e a
Polônia”.
62 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Tornou-se-me claro, desde o primeiro momento, que eu não podia sa
tisfazer-me com o território dos Sudetos alemães. Aquilo fora apenas
uma solução parcial. Tomou-se a decisão de marchar contra a Boêmia.
Seguiu-se depois o estabelecimento do protetorado e, com isso, assen
taram-se as bases para a conquista da Polônia, mas eu não estava ainda
muito certo, nessa ocasião, se devia começar contra o leste e depois
contra o Ocidente, ou vice-versa. Dada a pressão dos acontecimentos,
coube-me primeiro lutar contra a Polônia. Alguém poderia acusar-me
de desejar lutar, lutar sempre. Na luta, vejo o destino de todas as criatu
ras. Ninguém pode deixar de lutar se não quiser perecer.
O aumento cada vez maior da população [alemã] requeria um Lebens-
raum maior. Meu objetivo era criar uma relação racional entre o núme
ro de habitantes e o espaço para eles viverem. Daí devia começar a luta.
Nenhuma nação pode evitar a solução desse problema; caso contrário
terá de capitular e decair gradualmente (...) Não adianta, para isso,
qualquer habilidade calculada: solução, somente com a espada. Um
povo incapaz de demonstrar energia para lutar deve retirar-se (...)
O mal dos dirigentes alemães do passado, incluindo Bismarck e Moltkee —
disse Hitler — foi “insuficiência de firmeza. A solução somente é possível atacan
do um país no momento favorável”. O desconhecimento disso resultou na guerra
de 1914 “nas várias frentes. Ela não trouxe uma solução para o problema”.
O segundo ato desse drama está sendo escrito hoje [prosseguiu Hitler].
Pela primeira vez, em 67 anos, não temos de travar uma guerra em duas
frentes (...) Mas ninguém pode saber quanto tempo isso permanecerá
assim (...) Basicamente eu não organizei as forças armadas para não
atacarem. Eu trazia sempre comigo a decisão de atacar.
Os pensamentos daquelas bênçãos do momento, de ter uma só frente de guer
ra, levaram o Führer a abordar a questão da Rússia.
A Rússia, presentemente, não oferece perigo. Acha-se enfraquecida por
muitos fatores de ordem interna. Além disso, temos um tratado com
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 63
ela. Contudo, mantêm-se os tratados enquanto atendem a um objetivo.
A Rússia o manterá somente enquanto ela mesma considerar que ele
lhe traz benefício (...) Ela ainda tem objetivos muito importantes, aci
ma de todos o fortalecimento de sua posição no Báltico. Somente pode
remos combater a Rússia quando estivermos livres no Ocidente.
Quanto à Itália, tudo dependia de Mussolini, “cuja morte poderá alterar tudo
(...) Do mesmo modo que o trespasse de Stalin, o do Duce poderá trazer-nos um
grande perigo. Eu mesmo já passei pela experiência de como a morte de um esta
dista pode ocorrer facilmente”. Hitler não julgava que os Estados Unidos ainda
constituíssem perigo, “por causa das leis de neutralidade”, nem que o auxílio deles
aos Aliados fosse ainda de grande monta. O tempo, contudo, favorecia o inimigo.
“O momento é agora favorável; talvez não o seja mais daqui a seis meses.” Portanto:
Minha decisão é imutável. Atacarei a França e a Inglaterra no momento
mais favorável e o mais breve possível. A quebra da neutralidade da
Bélgica e da Holanda não tem importância. Ninguém questionará isso
quando tivermos triunfado. Não vamos justificar a quebra de neutrali
dade com a mesma tolice que se fez em 1914.
O ataque no Ocidente — declarou Hitler aos generais — significa “o fim da
Guerra Mundial, não uma simples operação. Não diz respeito a uma única ques
tão, porém à existência ou não existência da nação”. Lançou-se depois em sua
peroração.
O espírito dos grandes homens de nossa história deve estimular-nos a
todos. O destino não exige, de nós, mais do que exigiu dos grandes
homens da história da Alemanha. Enquanto eu viver, pensarei apenas
na vitória do meu povo. Não recuarei perante coisa alguma e aniquila
rei todo aquele que se opuser a mim (...) Quero aniquilar o inimigo!
Foi um discurso eficaz, e tanto quanto se sabe nenhum dos generais ergueu a voz
quer para exprimir as dúvidas que quase todos os combatentes do exército com
partilhavam acerca do êxito de uma ofensiva naquela ocasião, quer para contestar
64 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
a imoralidade de um ataque à Bélgica e à Holanda, cujas, neutralidade e fronteiras
o governo alemão havia solenemente garantido. Segundo alguns dos generais pre
sentes, as observações de Hitler, sobre a fraqueza de espírito que reinava nos altos
escalões do exército e no Estado-maior geral, foram muito mais fortes que as des
critas no relato anterior.
Horas depois, nesse mesmo dia, às 18h, o senhor supremo da guerra nazista
mandou chamar novamente Brauchitsch e Halder, e, ao primeiro — o chefe do
Estado-maior geral esperou do lado de fora da sala de Hitler como se fosse um
menino insubordinado — fez uma severa preleção sobre o “espírito de Zossen”. O
Alto-Comando do exército (OKH) estava completamente dominado pelo derro
tismo, acusou Hitler, e o Estado-maior geral de Halder adotara “uma atitude tei
mosa que o impedia de concordar com o Führer”. Exausto, Brauchitisch, segundo
seu próprio testemunho prestado perante o tribunal de Nuremberg, apresentou
sua resignação, mas Hitler rejeitou-a lembrando-lhe asperamente, conforme o
comandante-em-chefe se lembrava, “que eu tinha de cumprir meu dever e minhas
obrigações como qualquer outro soldado”. Nessa noite, Halder escreveu uma nota
taquigráfica em seu diário: “Um dia de crise!”32
Em muitos sentidos, o dia 23 de novembro de 1939 foi uma data importante.
Assinalou o triunfo final e decisivo de Hitler sobre o exército, o qual, na Primeira
Guerra Mundial, tinha afastado do poder o imperador Guilherme II e assumido
a suprema autoridade política e a autoridade militar na Alemanha. Desse dia em
diante, o antigo cabo austríaco considerou não só seu julgamento político, mas,
também, seu julgamento militar superior ao de seus generais e, portanto, recu
sou-se a ouvir-lhes a opinião ou a permitir-lhes críticas (...) do que resultou, final
mente, um desastre para todos.
“Verificou-se uma brecha”, declarou Brauchitsch no tribunal de Nuremberg ao
descrever os acontecimentos de 23 de novembro, “que se fechou mais tarde, mas
que não ficou completamente reparada.”
Além disso, a arenga de Hitler aos generais, naquele dia de outono, havia des-
coroçoado quaisquer desejos que Halder e Brauchitsch pudessem ter, por mais
ardentes que fossem, para derrubá-lo. Prevenira-os de que aniquilaria todo aque
le que se opusesse a ele, e Halder declarou que Hitler acrescentara, de modo espe
cífico, que esmagaria qualquer oposição “com força brutal”, qualquer oposição do
Estado-maior geral contra ele. Halder, naquele momento pelo menos, não era
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 65
homem para enfrentar aquelas terríveis ameaças. Quando, quatro dias depois, em
27 de novembro, o general Thomas procurou-o a instâncias de Schacht e Popitz,
e pediu-lhe que insistisse junto a Brauchitsch para que tomasse uma medida con
tra o Führer (“Hitler tem que ser afastado!” Halder recordou-se mais tarde de
ter-lhe dito Thomas), o chefe do Estado-maior geral lembrou-lhe todas as “difi
culdades”. Não estava ainda certo, disse, de que Brauchitsch “tomasse parte ativa
num coup d e ta tV 3
Dias depois, Halder apresentou a Goerdeler as razões mais ridículas para não
prosseguir com aqueles planos de quererem desembaraçar-se do ditador nazista.
Hassell anotou-as em seu diário. Além do fato de que “a gente não se rebela quan
do se defronta o inimigo”, Halder acrescentou, segundo Hassell, os seguintes pon
tos: “Devemos dar a Hitler a última chance de libertar o povo alemão da escravi
dão do capitalismo inglês (...) Não temos ainda um grande homem à mão (...) A
oposição não se acha suficientemente amadurecida (...) Não se pode confiar em
oficiais jovens”. O próprio Hassell apelou ao almirante Canaris, um dos primeiros
conspiradores, para que levasse a coisa avante, mas nada conseguiu. “Ele renun
ciou à esperança de que os generais resistissem”, registrou o antigo embaixador no
seu diário em 30 de novembro, “e acha que seria inútil tentar qualquer coisa mais
nesse sentido”. Hassell anotou, pouco tempo depois, que “Halder e Brauchitsch
não passam de lacaios de Hitler”.34
O terror nazista na Polônia: primeira fase
Não haviam decorridos muitos dias, após o ataque contra a Polônia, já meu
diário acumulava anotações sobre o terror nazista no país conquistado. Mais tar
de se saberia que muitos outros diários estavam também repletos delas. Em 19 de
outubro, Hassell relatou ter tido notícias sobre os “chocantes atos bestiais pratica
dos pelas S. S., especialmente contra os judeus”. Pouco tempo depois, ele registra
va um fato narrado por um proprietário de Posen.
A última coisa que tinha visto fora um chefe distrital do partido, bêbado,
que ordenara que se abrissem as portas da cadeia; ele atirou contra cinco
meretrizes e tentou violentar outras duas.35
66 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
Em 18 de outubro, Halder anotou no diário os pontos principais de uma con
versa que teve com o general Eduard Wagner, chefe do serviço de intendência do
exército, que conferenciara com Hitler nesse dia, acerca do futuro da Polônia.
Esse futuro seria cruel.
Não pretendemos reconstruir a Polônia (...) Não para ser um Estado
modelo segundo os padrões alemães. Deve-se impedir que a classe cul
ta se estabeleça como classe dirigente. Deve-se manter um baixo pa
drão de vida. Escravos baratos (...)
Cumpre fazer uma desorganização total! O Reich dará ao general-go-
vernador os meios para executar esse plano diabólico.
O Reich os deu.
Pode-se fazer agora um breve relato do começo do terror nazista na Polônia,
conforme revelam os documentos capturados aos alemães e as provas apresen
tadas nos vários julgamentos realizados em Nuremberg. Era apenas um precur
sor de atos atrozes e tenebrosos que os alemães eventualmente iriam infligir a
todos os povos conquistados. Mas, do primeiro ao último, mais que em qual
quer outro lugar, o pior foi na Polônia. Ali, o barbarismo nazista atingiu uma
incrível profundidade.
Pouco antes de ser desfechado o ataque contra a Polônia, Hitler informou os
generais, na conferência de Obersalzberg, em 22 de agosto, que iam acontecer
coisas que “não seriam do agrado dos generais alemães” e preveniu-os de que
“não deveriam interferir em tais questões e sim limitar-se a seus deveres milita
res”. Sabia do que falava. Este autor logo ficou assoberbado, tanto em Berlim como
na Polônia, de relatórios sobre massacres nazistas. O mesmo se dava com os gene
rais. Em 10 de setembro, com a campanha da Polônia em livre curso, Halder ano
tou em seu diário um exemplo que logo se tornou conhecidíssimo em Berlim.
Alguns brutamontes pertencentes a um regimento de artilharia das S. S., tendo
feito cinqüenta judeus trabalharem o dia todo no serviço de reparo de uma ponte,
levaram-nos depois para uma sinagoga e, segundo as próprias palavras de Halder,
“massacraram-nos”. Até o general von Küchler, comandante do 32Exército, que mais
tarde iria ter suas apreensões, recusou-se a confirmar as leves sentenças que a
corte marcial aplicou contra os criminosos — um ano de prisão —, alegando que
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 6 ~J
o tribunal tinha sido muito benevolente. Mas o comandante-em-chefe do exérci
to, Brauchitsch, revogou-as completamente, depois da intervenção de Himmler,
com a escusa de que havia sido dada uma “anistia geral”.
Os generais alemães que se tinham na conta de sinceros cristãos, acharam a
situação embaraçosa. Em 12 de setembro, houve uma conferência no vagão ferro
viário do Führer; entre Keitel e o almirante Canaris, que protestou contra as atro
cidades na Polônia. O lacaio-chefe do OKW respondeu rispidamente que “o
Führer já tinha tomado decisão nesta questão”. Se o exército “não quisesse partici
par dessas ocorrências, teria que aceitar as S.S. e a Gestapo como rivais” — isto é,
teria que aceitar os comissários das S.S. em cada unidade militar “para levar a
efeito as execuções”.
Assinalei ao general Keitel [escreveu Canaris no seu diário que foi exi
bido em Nuremberg] que se arquitetavam execuções em grande escala
na Polônia, especialmente da nobreza e do clero. O mundo, eventual
mente, haveria de responsabilizar a Wehrmacht por esses atos.36
Himmler era demasiado esperto para deixar que os generais se esquivassem
de parte da responsabilidade. Em 19 de setembro, Heydrich, seu principal assis
tente, fez uma visita ao Alto-Comando do exército e informou ao general Wagner
dos planos das S.S. para “limpar a casa, dos judeus (poloneses), da classe culta, do
clero e da nobreza”. A reação de Halder a tais planos foi registrada no seu diário
depois da informação que lhe prestou Wagner:
O exército insiste em que a “limpeza da casa” seja protelada até que ele
se tenha retirado e o país seja confiado à administração civil. Princípio
de dezembro.
Esse breve registro do chefe do Estado-maior geral fornece a chave para com
preender a moral dos generais alemães. Não se oporiam seriamente à “limpeza
da casa” — isto é, à eliminação dos judeus poloneses, da classe culta, do clero e da
nobreza. Pediriam simplesmente que fosse protelada até que tivessem saído da Po
lônia, podendo, assim, fugir à responsabilidade. E, naturalmente, tinha que se
considerar a opinião pública do estrangeiro. Como Halder anotou em seu diário,
68 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO
no dia seguinte, após demorada conferência com Brauchitsch sobre a limpeza na
Polônia:
Nada deve acontecer que proporcione aos países estrangeiros oportuni
dade de desencadear qualquer espécie de propaganda sobre atrocida
des baseadas em tais acidentes. O clero católico! Impraticável nesta
ocasião.
No dia seguinte, 21 de setembro, Heydrich enviou ao Alto-Comando do exér
cito uma cópia de seus planos iniciais para a “limpeza da casa”. Como primeiro
passo, os judeus deveriam ser transportados para as cidades (onde seria fácil cer
cá-los para seu extermínio). “A solução final”, declarou ele, levaria algum tempo
para ser atingida e devia ser mantida “estritamente secreta”, mas nenhum general
que tenha lido o memorando confidencial podia ter duvidado de que a “solução
final” era o extermínio.37 Decorridos dois anos, quando chegou a ocasião de exe
cutá-la, tornou-se um dos nomes mais sinistros do código empregado pelos altos
funcionários alemães a fim de ocultar um dos mais horríveis crimes praticados
pelos nazistas durante a guerra.
O que restou da Polônia, depois que a Rússia se apoderou de seu quinhão a
leste e a Alemanha anexou formalmente suas antigas províncias e alguma parte
adicional do território a oeste, foi designado por um decreto do Führer, de 12 de
outubro, como o governo geral da Polônia. Hans Frank foi nomeado governador-
geral, sendo seu representante Seyss-Inquart, o quislingv ienense. Frank era o exem
plo típico do facínora intelectual nazista. Ingressara no partido em 1927, logo
depois de se formar numa faculdade de direito, e adquirira rapidamente renome
como orientador jurídico do movimento. Sagaz, enérgico, muito lido não só em
direito como em literatura geral, apreciador das artes, especialmente da música,
tornou-se uma força na profissão de advogado depois que os nazistas assumiram
o poder. Serviu primeiro como ministro da Justiça da Baviera, depois como mi
nistro sem pasta do Reich e presidente da Academia de Direito e da Associação
dos Advogados Alemães. Uma figura morena, elegante, pai de cinco filhos, sua
inteligência e cultura contrabalançaram em parte seu primitivo fanatismo e até
esse tempo fizeram-no um dos menos repulsivos elementos que cercavam Hitler.
Por trás desse verniz de civilizado, porém, estava o assassino frio. O diário de 42
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 69
volumes que manteve de sua vida e de sua obra, exibido em Nuremberg,* foi um
dos mais estarrecedores documentos a saírem do tenebroso mundo nazista, des
crevendo o seu autor como um homem frio, eficiente, cruel e sedento de sangue.
Aparentemente, não omitiu nenhuma de suas concepções de bárbaro.
“Os poloneses”, declarou ele no dia seguinte à sua posse no novo posto, “deve
rão ser escravos do Reich alemão.” Certa vez, ao saber que Neurath, Protetor da
Boêmia, colocara cartazes anunciando a execução de sete estudantes universitá
rios tchecos, Frank exclamou para um jornalista nazista: “Se eu desejasse ordenar
que se deviam colocar cartazes para cada sete poloneses fuzilados, não haveria
florestas suficientes na Polônia para a fabricação de papel para esses cartazes.”38
Himmler e Heydrich foram destacados por Hitler para liquidar os judeus. A
tarefa de Frank, além de arrancar da Polônia alimentos, suprimentos e mão-de-
obra forçada, consistia em liquidar a classe culta. Os nazistas tinham um belo
nome de código para essa operação: Ação Extraordinária de Pacificação (Ausse -
rordentliche Befriedigungsaktion ou Ação AB, nome pelo qual passou a ser conhe
cida). Levou algum tempo para Frank pô-la em plena atividade. Foi somente no
fim da primavera seguinte, quando a grande ofensiva alemã no Ocidente afastou
da Polônia a atenção do mundo, que ele começou a obter resultados. Em 30 de
maio, conforme demonstra seu próprio diário, Frank vangloriou-se, numa ani
madora conversa com seus auxiliares policiais, dos grandes progressos feitos — a
vida de “alguns milhares” de intelectuais poloneses destruídos ou prestes a serem.
“Peço-lhes, senhores”, disse, “que tomem as medidas mais rigorosas possíveis
para auxiliar-nos nessa tarefa”. Acrescentou, confidencialmente, que eram “ordens
do Führer”. Hitler, declarou ele, exprimiu-as da seguinte maneira:
“Devem ser destruídos os homens que possam exercer liderança na
Polônia. Aqueles que os acompanharem (...) devem, por sua vez, ser
eliminados. Não há necessidade de sobrecarregar o Reich com isso (...)
nenhuma necessidade de enviar esses elementos para os campos de
concentração do Reich.”
Seriam eliminados ali mesmo na Polônia.39
* Foi encontrado em maio de 1945 pelo tenente Walter Stein, do 7e Exército, no apartamento de Frank,
no Hotel Berghof, nas imediações de Neuhaus, Baviera.
70 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Nessa conferência, conforme Frank anotou em seu diário, o chefe da polícia de
segurança entregou-lhe um relatório sobre o progresso feito. Cerca de dois mil
homens e centenas de mulheres, declarou, foram presos “no começo da Ação Ex
traordinária de Pacificação”. A maioria já tinha sido “sentenciada sumariamente”
— eufemismo nazista para liquidação. Uma segunda leva de intelectuais estava
agora sendo reunida para receber a “sentença sumária”. Ao todo, “cerca de 3.500
pessoas”, as mais perigosas da classe culta polonesa, seriam assim eliminadas.40
Frank não se esqueceu dos judeus, embora a Gestapo se encarregasse direta
mente da tarefa de extermínio. Seu diário está repleto de idéias e realizações sobre
o assunto. Registra, em 7 de outubro de 1940, o discurso que fez nesse dia a uma
assembléia nazista, na Polônia, resumindo seu primeiro ano de trabalho.
Meus camaradas! (...) Eu não poderia eliminar todos os piolhos e judeus
em apenas um ano. [“O público achou graça”, anotou ele nesse ponto].
Mas, com o tempo e se me ajudarem, esse objetivo será atingido.41
Duas semanas antes do Natal do ano seguinte, Frank encerrou uma reunião de
gabinete, na Cracóvia, seu quartel-general, dizendo:
No que diz respeito aos judeus, quero dizer-lhes com toda a franqueza
que eles precisam ser eliminados de um modo ou de outro (...) Senho
res, devo pedir-lhes que se libertem de qualquer sentimento de pieda
de. Precisamos aniquilar os judeus.
Era difícil — admitiu — “fuzilar ou envenenar os 3,5 milhões de judeus no
governo-geral, mas podemos tomar medidas que, de um modo qualquer, condu
zam a seu aniquilamento”. Foi uma predição exata.42
A perseguição aos judeus e poloneses, arrancando-os das casas em que eles e
suas famílias haviam morado durante gerações, começou assim que terminou a
luta na Polônia. Em 7 de outubro, dia que se seguiu a seu “discurso em favor da
paz”, no Reichstag, Hitler nomeou Himmler chefe de uma nova organização: Co
missariado do Reich para o Fortalecimento da Nação Alemã, ou, abreviadamente,
R.K.F.D.V. Cumpria à organização deportar primeiro os poloneses e judeus das
províncias polonesas anexadas à Alemanha, nelas colocando, em seu lugar, os
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL J1
alemães e Volksdeutsche, isto é, alemães de nacionalidade estrangeira que a elas
afluíam, procedentes dos países bálticos ameaçados e de várias partes adjacentes
da Polônia. Halder soube desse plano 15 dias antes e anotou em seu diário que
“duas pessoas serão expulsas da Polônia para cada alemão que se mudasse para
esses territórios”.
Em 9 de outubro, dois dias depois de assumir o último de seus postos, Himm-
ler decretou que 550 mil dos 650 mil judeus que viviam nas províncias polonesas
anexadas, juntamente com todos os poloneses não apropriados para a assimila
ção, seriam deslocados para o território do governo geral, a leste do rio Vístula.
Em um ano, 1,2 milhão de poloneses e 300 mil judeus foram deslocados para o
leste. Mas somente 497 mil Volksdeutsche instalaram-se em suas terras. Foi uma
proporção melhor que a citada por Halder: dois poloneses e um judeu expulsos
para cada alemão que lá se instalava.
Foi um inverno extraordinariamente severo o de 1939-1940 — como bem se
recorda o autor deste livro —, com pesada neve. O “novo povoamento”, levado a
efeito com a temperatura a zero e, muitas vezes, durante tempestades de neve,
custou mais vidas de judeus e poloneses que as que se perderam diante dos pelo
tões de fuzilamento e das forças nazistas. Pode-se citar, como autoridade na ma
téria, o próprio Himmler. Dirigindo-se à Leibstandarte das S.S. no verão seguinte,
após a queda da França, traçou uma comparação entre as deportações que seus
homens estavam começando a proceder no Ocidente com o que havia realizado
na parte leste.
(...) aconteceu na Polônia, a temperatura marcando quarenta graus abai
xo de zero, onde tínhamos de evacuar milhares, dezenas de milhares,
centenas de milhares; onde tínhamos de ser inflexíveis — devem ouvir
isso, mas devem também esquecê-lo imediatamente — e fuzilar milhares
de poloneses importantes (...) Senhores! É muito mais fácil, em muitos
casos, entrar num combate com uma companhia do que eliminar uma
população obstrucionista e de baixo nível cultural ou fazer execuções ou
evacuar um povo ou expulsar mulheres a gritarem histericamente.43
Já em 21 de fevereiro de 1940, o Oberführer das S.S., Richard Glücks, chefe da
Inspetoria dos Campos de concentração, procedendo a um reconhecimento nas
72 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
imediações de Cracóvia, informara Himmler de que encontrara um “lugar apro
priado” para o novo “campo de quarentena”, em Auschwitz, uma cidadezinha algo
abandonada e pantanosa de 12 mil habitantes, na qual estava situado, além de al
gumas fábricas, um antigo quartel da cavalaria austríaca. Fizeram-se, imediata
mente, as obras necessárias e, em 14 de junho, Auschwitz foi oficialmente inaugu
rado como campo de concentração para os prisioneiros políticos poloneses, aos
quais os alemães desejavam dispensar um tratamento especial e duro. Iria tornar-
se, logo, um lugar ainda mais sinistro. Entrementes, os diretores da firma I. G.
Farben, o grande truste de produtos químicos alemão, descobriram que Aus
chwitz era um local conveniente para a instalação de uma nova fábrica de borra
cha e óleo de carvão sintético. Ali, não só a construção dos novos edifícios, mas,
também, as operações da nova fábrica seriam beneficiadas com mão-de-obra es
crava e barata.
Para superintender o novo campo e suprir a mão-de-obra escrava para a I. G.
Farben, chegou, na primavera de 1940, a Auschwitz, um bando dos mais selecio
nados rufiões das S. S., entre eles Josef Kramer, que se tornaria mais tarde conhe
cido do público inglês como a Fera de Belsen, e Rudolf Franz Hõss, um criminoso
que cumprira cinco anos de pena numa prisão — passou a maior parte da vida
adulta primeiro como convicto e, depois, como carcereiro — e que em 1946, à
idade de 46 anos, iria vangloriar-se em Nuremberg de que havia supervisionado,
em Auschwitz, o extermínio de 2,5 milhões de pessoas, sem contar meio milhão
que deixaram “sucumbir de inanição”.
Pois Auschwitz logo estaria destinada a tornar-se o mais célebre dos campos
de extermínio — Vernichtungslager —, que cumpre distinguir dos campos de con
centração, onde uns poucos ainda puderam sobreviver. Não deixa de ser significativo,
para se compreender os alemães, até mesmo os mais respeitáveis, no governo de
Hitler, que uma firma tão ilustre e internacionalmente conhecida como a I. G.
Farben, cujos diretores se distinguiam entre os principais homens de negócios da
Alemanha, todos eles tementes a Deus, deliberadamente escolhessem aquele
campo de morte como local apropriado para operações lucrativas.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 73
Atrito entre os totalitários
O eixo Roma-Berlim sofreu perturbações naquele primeiro outono da guerra.
Ocorreram sérias dissensões em vários níveis, em razão de divergências: a de
não ter a Alemanha levado a efeito a retirada de Volksdeutsche do sul do Tirol, na
Itália, com a qual ela havia concordado anteriormente, em junho; a de não ter ela
fornecido mensalmente à Itália um milhão de toneladas de carvão; a de os italianos
não terem suprido a Alemanha de matérias-primas, independentemente do blo
queio britânico; a prosperidade do intercâmbio comercial da Itália com a Ingla
terra e a França, inclusive a venda de matérias-primas a ambos os países; os sen
timentos antigermânicos de Ciano, que se acentuavam cada vez mais.
Mussolini, como sempre, passava de um ponto de vista para outro, e Ciano
registrava suas vacilações. Em 9 de novembro, o Duce teve dificuldade de compor
um telegrama a Hitler, felicitando-o por ter escapado do assassinato.
Ele desejava que fosse caloroso, mas não muito, porque, em seu julga
mento, nenhum italiano sente alegria pelo fato de Hitler ter escapado à
morte (...) muito menos o Duce.
No dia seguinte ao Natal, o Duce exprimia o “desejo de uma derrota alemã” e
instruía Ciano a advertir secretamente a Bélgica e a Holanda de que ambos os
países estavam prestes a ser atacados.* Já na véspera do ano-novo, porém, falava
novamente em lançar-se à guerra ao lado de Hitler.
A principal causa do atrito entre as duas potências do Eixo era a política da
Alemanha pró-Rússia. Em 30 de novembro de 1939, o Exército Vermelho sovié
tico atacou a Finlândia, o que colocou Hitler numa posição humilhantíssima.
Expelido do Báltico como preço de seu pacto com Stalin, forçado a retirar apres
sadamente as famílias alemãs que lá viviam, e cujas gerações vinham de séculos,
tinha agora de aceitar oficialmente o ataque não provocado da Rússia contra um
pequeno país que tinha laços muito estreitos com a Alemanha e cuja própria in
dependência, como país não-comunista, havia sido arrebatada à União Soviética,
* Ciano transmitiu a advertência ao embaixador belga em Roma, em 2 de janeiro, anotando o fato em
seu diário. Segundo Weizsácker, os alemães interceptaram dois telegramas em código do embaixador,
para Bruxelas, contendo a advertência da Itália e decifraram-nos.44
74 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
em grande parte, graças à intervenção das tropas regulares alemãs em 1918 * Era
uma pílula difícil de engolir, mas ele a engoliu. Foram dadas instruções escritas às
missões diplomáticas no estrangeiro, à imprensa e às estações de rádio alemãs,
para que apoiassem a agressão russa e evitassem qualquer manifestação de simpa
tia para com os finlandeses.
Isso podia ter passado do limite da tolerância de Mussolini, que teve de se
haver com demonstrações antigermânicas por toda a Itália. Seja como for, logo
depois do ano-novo, em 3 de janeiro, desabafou numa longa carta ao Führer.
Nunca antes e tampouco depois o Duce fora tão franco com Hitler, ou tão dispos
to a manifestar uma opinião tão vigorosa e desagradável.
Ele estava “profundamente convencido” — disse — de que a Alemanha, mes
mo auxiliada pela Itália, jamais faria a Inglaterra e a França “dobrar os joelhos ou
separarem-se. Querer acreditar nisso é iludir a si mesmo. Os Estados Unidos não
permitiriam que as democracias sofressem uma derrota total”. Portanto, agora
que Hitler se havia assegurado de sua fronteira oriental, era necessário “arriscar
tudo — o regime inclusive — e sacrificar a flor das gerações alemãs” a fim de ten
tar derrotá-los? Poderia obter-se a paz — sugeriu Mussolini — se a Alemanha
consentisse na existência de “uma Polônia modesta, desarmada, que fosse exclu
sivamente polonesa. A menos que estejais irrevogavelmente resolvido a prosse
guir a guerra até o fim — acrescentou —, creio que a criação de um Estado polo
nês (...) seria um elemento que resolveria a guerra e constituiria uma condição
suficiente para a paz”.
Mas foi a política com a Rússia que, principalmente, preocupou o ditador italiano.
(...) Sem desfechar um golpe, a Rússia tirou proveito da Polônia e dos
bálticos com esta guerra. Mas eu, revolucionário nato, vos digo que não
podeis sacrificar permanentemente os princípios de vossa revolução às
exigências táticas de certo momento político. É meu dever acrescentar
que o ato de dar mais um passo em vossas relações com Moscou terá
repercussões catastróficas na Itália (...)45
* Em 9 de outubro de 1918 — trata-se de pedaço de história pouco conhecido, mas um tanto ridículo
— , a Dieta finlandesa, sob a impressão de que a Alemanha estava ganhando a guerra, elegeu, por 75
votos contra 25, o príncipe Friedrich Karl, de Hesse, para rei da Finlândia. A vitória dos Aliados, um mês
depois, pôs termo a esse fantástico episódio.
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 75
A carta de Mussolini não só advertia Hitler do enfraquecimento das relações
ítalo-germânicas como feria um alvo vulnerável: a lua-de-mel do Führer com a
Rússia soviética, o que já começava a irritar ambos os partidos. Ela permitira ao
Führer desencadear a guerra e destruir a Polônia. Dera-lhe até mesmo outros be
nefícios. Os documentos apreendidos aos alemães revelam, por exemplo, um dos
segredos da guerra mais bem mantidos: o auxílio da União Soviética ao propor
cionar portos no Ártico, no mar Negro e no Pacífico, pelos quais a Alemanha
podia importar matérias-primas de que tinha necessidade e de que se via privada
com o bloqueio da Inglaterra.
Em 10 de novembro de 1939, Molotov concordou ainda que o governo sovié
tico pagasse as tarifas de frete sobre todas as mercadorias transportadas nas ferro
vias russas.46Foram dadas facilidades de reabastecimento de combustíveis e para
reparação de navios alemães, submarinos inclusive, no porto ártico de Teriberka,
a leste de Murmansk. Na opinião de Molotov, esse porto “não era bastante isola
do”; achava que Teriberka “convinha melhor por ser mais distante e não visitado
por navios estrangeiros”.47
Durante todo o outono e na primeira fase do inverno de 1939, Moscou e
Berlim negociaram no sentido de incrementar o comércio entre os dois países.
No fim de outubro, foram consideráveis as entregas de mercadorias, especial
mente trigo e óleo, que a Rússia fez à Alemanha, que desejava mais. Os alemães,
porém, estavam aprendendo que, em matéria de economia e política, os soviéti
cos eram hábeis e de difícil negociação. Em l2 de novembro, o marechal-de-
campo Gõring, o grande-almirante Rãder e o general Keitel, “independente
mente um do outro”, conforme anotou Weizsàcker, protestaram junto ao
Ministério das Relações Exteriores dizendo que os russos estavam exigindo da
Alemanha demasiado material bélico. Um mês depois, queixava-se Keitel nova
mente a Weizsàcker de que as necessidades russas de produtos alemães, espe
cialmente equipamento para fabricação de munições, estavam “tornando-se cada
vez mais volumosas e desarrazoadas”.48
Se a Alemanha desejasse alimentos e óleo da Rússia, no entanto, teria de pagar
com as mercadorias que Moscou desejasse e de que necessitasse. Tão desesperado
via-se o bloqueado Reich que depois, em 30 de março de 1940, num momento cru-
ciante, Hitler ordenou que a entrega de matéria-prima à Rússia devia ter prioridade
76 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO
até mesmo sobre as destinadas às forças armadas alemãs.*50A certa altura, os ale
mães ofereceram, como parte dos pagamentos correntes a Moscou, o cruzador
pesado Lützou que ainda se achava inacabado. Anteriormente, em 15 de dezem
bro, o almirante Ráder propusera vender aos russos, se pagassem “um preço bem
alto”,51os planos e desenhos do Bismarck, o maior encouraçado do mundo (45 mil
toneladas), então em construção.
No fim de 1939, o próprio Stalin participou das negociações, em Moscou, com
a delegação comercial alemã. Os economistas alemães acharam-no um notável
comerciante. Nos documentos apreendidos na Wilhelmstrasse existem longos e
detalhados memorandos das três inesquecíveis reuniões com o terrível ditador
soviético, o qual possuía uma compreensão nítida e extraordinária dos detalhes,
o que assombrou os alemães. Viram que Stalin não podia ser blefado ou ludibria
do e sabia ser exigentíssimo; às vezes, o dr. Schnurre, um dos membros da delega
ção nazista, reportou a Berlim, “tornava-se muito agitado”. A União Soviética —
lembrou Stalin aos alemães — “prestara um relevante serviço à Alemanha e
granjeara inimigos ao prestar esse auxílio”. Em retribuição, esperava certa consi
deração da parte de Berlim. Numa conferência no Kremlin, na véspera do Ano-
Novo de 1939-1940,
Stalin declarou peremptoriamente que o preço total dos aviões estava
fora de cogitação. Representava mais que o dobro dos preços atuais. Se
a Alemanha não desejava entregar os aviões, ele preferia que declarasse
isso francamente.
Numa conferência à noite, no Kremlin, em 8 de fevereiro,
Stalin pediu aos alemães que propusessem preços convenientes e não
os fizessem demasiado altos como acontecera antes. Como exemplo,
citaram-se: o preço total de 300 milhões de Reichsmarks para aviões e
o de 150 milhões que os alemães haviam orçado para o cruzador Lüt
zou. Não se devia aproveitar da boa disposição da União Soviética.52
* Após a conquista da França e dos Países Baixos, Gõring informou ao general Thomas, o economista-
chefe do OKW, que "desejava que se fizessem entregas pontualmente à Rússia somente até a primave
ra de 1941" Acrescentou que "mais tarde não teríamos mais interesse em satisfazer completamente as
exigências russas".49
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL JJ
Em 11 de fevereiro de 1940, um complicado acordo comercial foi finalmente
assinado em Moscou, prevendo uma troca de mercadorias durante os 18 meses
seguintes, abrangendo, no mínimo, um valor de 640 milhões de Reichsmarks.
Tratava-se de outro além do que fora assinado durante o mês de agosto do ano
anterior, cujos fornecimentos montavam em aproximadamente 150 milhões por
ano. A Rússia devia receber, além do cruzador Lützou e dos planos do Bismarck ,
canhões pesados para a marinha de guerra e outros equipamentos como trinta
aviões de guerra alemães do último modelo, incluindo caças Messerschmitt 109 e
110 e bombardeiros de mergulho Ju-88. Além disso, os soviéticos deviam receber
máquinas para suas indústrias petrolíferas e elétricas, locomotivas, turbinas, gera
dores, motores diesel, navios, ferramentas e amostras alemãs de armas de artilha
ria, tanques, explosivos, equipamento químico para a guerra, etc.53
O que os alemães receberam no primeiro ano foi registrado pelo OKW —
um milhão de toneladas de cereais, meio milhão de toneladas de farinha de trigo,
900 mil toneladas de petróleo, 100 mil toneladas de algodão, 500 mil toneladas de
fosfatos, consideráveis quantidades de numerosas outras matérias-primas vitais e
o transporte de um milhão de toneladas de soja da Manchúria.54
De volta a Berlim, o dr. Schnurre, economista perito do Ministério das Rela
ções Exteriores que orientara as negociações comerciais em Moscou para a Ale
manha, elaborou um longo memorando sobre o que havia conseguido para o
Reich. Além das matérias-primas de que tinham grande urgência e de que a Rús
sia ia supri-los, Stalin — disse ele — prometeu4generoso auxílio” em atuar1como
comprador de metais e matérias-primas em outros países”.
O acordo [concluiu Schnurre] significa para nós uma porta aberta para
o leste (...) Os efeitos do bloqueio britânico ficarão decisivamente en
fraquecidos.55
Foi essa uma razão por que Hitler teve de conter seu orgulho, apoiou a agres
são da Rússia contra a Finlândia — muito impopular na Alemanha — e aceitou a
ameaça das tropas e da aviação soviéticas ao assentarem bases nos três países bál
ticos (eventualmente para serem usadas contra quem senão a Alemanha?). Stalin
estava auxiliando-o a superar o bloqueio britânico. Porém, mais importante do
que isso, Stalin ainda lhe dava a oportunidade de lutar numa só frente de guerra,
78 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO
concentrar todo o seu poderio militar no Ocidente para poder desfechar um gol
pe formidável contra a França e a Inglaterra e invadir a Bélgica e a Holanda, após
o que (...) bem, Hitler já havia exposto aos generais o que tinha em mente.
Já em 17 de outubro de 1939, com a campanha da Polônia apenas terminada,
ele lembrava a Keitel que o território polonês
nos é importante do ponto de vista militar como posto avançado para a
arrancada e para a concentração estratégica de tropa. Para tal fim, de
veriam ser mantidos em perfeita ordem os canais de comunicações, as
ferrovias e as estradas.56
Ao aproximar-se do fim o momentoso ano de 1939, Hitler compreendeu —
conforme informou aos generais em seu memorando de 9 de outubro — que não
podia contar para sempre com a neutralidade soviética. Dali a oito meses ou um
ano — disse ele — as coisas poderiam mudar. Acentuou, na arenga que lhes fez em
23 de novembro, que ‘somente poderemos combater a Rússia quando estivermos
livres no Ocidente”. Era uma idéia que jamais abandonava seu espírito inquieto.
Aquele ano fatídico mergulhava a história numa atmosfera curiosa e, até mes
mo, lúgubre. Embora houvesse uma guerra mundial, não se lutava em terra, e, nos
ares, os grandes bombardeiros transportavam apenas panfletos de propaganda, e,
como tal, muito mal redigidos. Somente no mar é que havia verdadeiramente
guerra. Os submarinos alemães continuavam a ceifar a navegação britânica e, às
vezes, a de países neutros, no cruel e gélido Atlântico Norte.
No Atlântico Sul, o GrafSpee, um dos três encouraçados de bolso da Alema
nha, saiu de sua área de espera e, no decurso de três meses, afundou nove navios
cargueiros britânicos num total de 50 mil toneladas. Depois, duas semanas antes
do primeiro Natal da guerra, em 14 de dezembro de 1939, o povo alemão foi sur
preendido pela notícia, em flamejantes manchetes de imprensa e em boletins
transmitidos pelo rádio, de uma grande vitória no mar. O GrafSpee, diziam, tra
vara combate com três cruzadores britânicos no dia anterior, a quatrocentas mi
lhas marítimas da costa de Montevidéu, e pusera-os fora de ação. Mas o entusias
mo logo se transformou em perplexidade. A imprensa anunciou, três dias depois,
que o encouraçado de bolso fora posto a pique pela própria tripulação no estuário
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 79
do Prata, quase defronte à capital do Uruguai. Que espécie de vitória era essa? Em
21 de dezembro, o Alto-Comando naval anunciou que o comandante do Graf
Spee, capitão Hans Langsdorff, “seguiu o destino de seu navio” e, assim, “atendeu,
como combatente e herói, às expectativas de seu Führer; do povo alemão e da
marinha de guerra”.
Não disseram ao infeliz povo alemão que o Graf Spee ficara seriamente danifi
cado pelos três cruzadores britânicos, cujo poderio de fogo era inferior ao do
encouraçado de bolso,* que ele tivera que aportar em Montevidéu para reparos e
que o governo uruguaio, de conformidade com as leis internacionais, permitira que
ali permanecesse apenas 72 horas, o que não era suficiente, e que o herói, capitão
Langsdorff, em vez de se aventurar a uma nova batalha contra os britânicos, com
o seu mui danificado barco, preferira afundá-lo; e que ele mesmo, em vez de
acompanhar o encouraçado ao fundo, suicidara-se dois dias depois num quarto
solitário de um hotel, em Buenos Aires. Tampouco informaram — é claro — que,
conforme Jodl anotou em seu diário em 18 de dezembro, o Führer “ficou enfure
cido por terem afundado o Graf Spee sem luta” e mandou chamar o almirante
Ráder, a quem fez severa crítica.57
Em 12 de dezembro, Hitler expediu outra diretiva secretíssima adiando o ata
que no Ocidente e estipulando que nova decisão só seria tomada em 27 de dezem
bro; e que a data para o Dia A seria, praticamente, l2 de janeiro de 1940. Informou
que se poderiam conceder, portanto, as licenças de Natal. Segundo meu diário, o
Natal, data festiva para os alemães, foi desanimador naquele inverno, com poucas
trocas de presentes, comida espartana, as casas sem seus homens, as ruas mergu
lhadas no blecaute, as persianas e cortinas completamente fechadas e toda gente
queixando-se da guerra, da alimentação e do frio.
Houve uma troca de saudações de Natal entre Hitler e Stalin.
Os melhores votos [telegrafou Hitler] pelo seu bem-estar pessoal como,
também, para um futuro cheio de prosperidade para os povos da União
Soviética, nossos amigos.
* Na véspera do afundamento, Goebbels fez a imprensa alemã publicar um telegrama simulado de
Montevidéu dizendo que o GrafSpee sofrerá apenas "danos superficiais"e que as notícias inglesas de que
fora seriamente atingido eram "puras mentiras".
8o A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Stalin respondeu:
A amizade dos povos da Alemanha e da União Soviética, cimentada
pelo sangue, tem todos os motivos para ser duradoura e firme.
Em Berlim, o embaixador von Hassell aproveitou os feriados para conferenciar
com seus companheiros conspiradores, Popitz, Goerdeler e o general Beck, tendo
registrado no seu diário, em 30 de dezembro, o último plano, segundo o qual
certo número de divisões ficaria em Berlim “em trânsito de oeste para
leste”. Witzleben devia aparecer em Berlim e dissolver as S.S. Baseado
nessa ação, Beck seguiria para Zossen e assumiria o comando supremo,
tirando-o das mãos de Brauchitsch. Um médico declararia Hitler inca
paz de permanecer no poder, e, com isso, o encarcerariam imediata
mente. Far-se-ia depois um apelo com os seguintes pontos: prevenção
de novas atrocidades das S.S., restauração da dignidade e da moralida
de cristã, continuação da guerra, mas com boa vontade para a instaura
ção da paz numa base razoável (...)
Tudo isso, porém, era irreal, puro boato. E tão confusos se achavam os conspi
radores que Hassell dedicou bom trecho de seu diário a considerações sobre se
deveriam ou não deter Gõring!
O próprio Gõring, juntamente com Hitler, Himmler, Goebbels, Ley e outros
chefes do partido, aproveitaram-se do Ano-Novo para expedir grandiosas pro
clamações. Disse Ley: “O Führer está sempre certo! Obedecei ao Führer/” Hitler
proclamou que não tinha sido ele quem começara a guerra e sim “os judeus e os
capitalistas forjadores de guerras”, e prosseguiu:
Unidos no país, preparados economicamente e armados militarmente
até o mais alto grau, entramos neste ano mais decisivo da história alemã
(...) Tomara que o ano de 1940 nos traga a decisão. Aconteça o que
acontecer, será a nossa vitória.
Em 27 de dezembro, ele protelou novamente o ataque ao Ocidente “pelo menos
por uma quinzena”. Em 10 de janeiro, ordenou que fosse assentado definitivamente
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 81
para 17 de janeiro, “15 minutos antes do levantar do Sol — 8:16h”. A força aérea
devia começar o ataque em 14 de janeiro, três dias antes, sendo sua tarefa destruir
os aeródromos inimigos na França, mas não na Bélgica e na Holanda. Devia-se
deixar os dois pequenos países neutros conjeturando, até o último momento, so
bre seu destino.
Em 13 de janeiro, porém, o senhor supremo da guerra nazista adiou novamen
te o ataque “por causa das condições meteorológicas”. Os documentos apreendi
dos no OKW no Dia D, no Ocidente, guardam silêncio até 7 de maio. O tempo
talvez tivesse exercido certo papel no adiamento do ataque em 13 de janeiro; sa
bemos agora, porém, que principalmente dois outros fatores foram responsáveis
por isso: a infeliz aterrissagem de um avião alemão muito especial na Bélgica, em
10 de janeiro, e uma nova oportunidade que, na ocasião, surgiu no norte.
Naquele mesmo dia, 10 de janeiro, em que Hitler havia ordenado que no dia
17 se começasse o ataque através da Bélgica e da Holanda, um avião militar ale
mão, voando de Münster para Colônia, perdeu-se nas nuvens sobre a Bélgica e foi
forçado a descer nas imediações de Mechelen-sur-Meuse. Achava-se nele o major
Helmut Reinberger, um importante oficial do Estado-maior da Luftwaffe. Sua
pasta continha os planos alemães, completos e com mapas, para o ataque no Oci
dente. Ao aproximarem-se os soldados belgas, o major correu para um matagal
próximo e acendeu uma fogueira para queimar o conteúdo da pasta. Atraídos por
esse interessante fenômeno, os belgas extinguiram as chamas e salvaram o que
restara. Levado para um alojamento nas proximidades, Reinberger, num gesto
desesperado, agarrou os documentos em parte queimados que um oficial belga
havia colocado sobre a mesa e atirou-os a um fogareiro aceso. O oficial apanhou-
os rapidamente.
Reinberger informou o quartel-general da Luftwaffe, em Berlim, pela sua em
baixada em Bruxelas, que conseguira queimar os documentos reduzindo-os a “in
significantes fragmentos do tamanho da palma da mão”. Mas foi grande a conster
nação nos altos meios militares. Jodl comunicou imediatamente a Hitler “sobre o
que o inimigo talvez soubesse, talvez não”. Ele mesmo, porém, ignorava-o. “Se
o inimigo se acha de posse de todos os documentos”, confiou a seu diário em 12
de janeiro, depois de avistar-se com Hitler, “a situação é catastrófica”. Naquela
noite, Ribbentrop enviou um telegrama urgentíssimo à embaixada alemã em Bru
xelas, pedindo um relatório imediato sobre “a destruição da bagagem do mensa
geiro especial”. Na manhã de 13 de janeiro, o diário de Jodl revela que houve uma
82 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
conferência de Gõring com o seu adido da aeronáutica, em Bruxelas, que voltou
às pressas para Berlim, e com os principais dirigentes da Luftwaffe. “Resultado:
dada como certa a queima da pasta do mensageiro”, registrou Jodl.
Mas isso não passara de conjectura, conforme assinala o diário de Jodl. Às
13h, diz a anotação: “Ordem ao general Halder por telefone: cessar todos os mo
vimentos.”
Naquele mesmo dia 13, o embaixador alemão em Bruxelas informava urgen
temente Berlim sobre consideráveis movimentos de tropas belgas “em conseqüên
cia de notícias alarmantes recebidas pelo Estado-maior geral belga”. No dia se
guinte, o embaixador expediu outra mensagem urgentíssima a Berlim: os belgas
estavam ordenando a Fase D, o próximo até o último passo na mobilização, e
convocando duas novas classes. A seu ver, a razão era “notícias de movimentos de
tropas alemãs nas fronteiras belgas e holandesas, e o conteúdo da mala, em parte
não queimado, encontrado em poder do oficial da força aérea alemã”.
Na noite de 15 de janeiro, surgiram dúvidas no espírito dos chefes militares,
em Berlim, sobre se o major Reinberger realmente destruíra os documentos incri
minadores, como alegara. “Presumivelmente foram queimados”, observou Jodl
após outra conferência sobre a questão. Em 17 de janeiro, porém, o ministro das
Relações Exteriores da Bélgica, Paul-Henri Spaak, mandou chamar o embaixador
alemão e disse-lhe, categoricamente, conforme este último informou prontamen
te Berlim, que
o avião fizera uma aterrissagem de emergência em 10 de janeiro, colo
cando em mãos dos belgas um documento da mais extraordinária e da
mais grave natureza, o qual continha provas evidentes da intenção de
um ataque. Não se tratava de mero plano de operações, mas de uma
ordem de ataque elaborada com todos os detalhes, na qual ficara para
se inserir apenas a data.
Os alemães jamais tiveram certeza de que se tratava ou não de um blefe de
Spaak. Da parte dos Aliados — os Estados-maiores gerais da Inglaterra e da Fran
ça receberam cópia do plano alemão — havia a tendência de considerar os docu
mentos alemães “coisa forjada”. Churchill diz que se opôs vigorosamente a essa
interpretação, lamentando que nada tivesse sido feito com relação àquela grave
SITZKRIEG NA FRENTE OCIDENTAL 83
advertência. O certo é que, em 13 de janeiro, o dia que se seguiu à informação
que a respeito foi dada a Hitler, ele adiou o ataque e, na primavera, quando sur
giu novamente a questão, todo o plano estratégico estava fundamentalmente
modificado.58
Mas a aterrissagem forçada na Bélgica e as más condições atmosféricas não
foram as únicas razões para o adiamento do ataque. Planos de um ousado ataque
alemão contra dois outros pequenos países neutros, mais ao norte, estavam sendo
esboçados e tiveram depois prioridade. A ‘guerra esquisita”, no que dizia respeito
aos alemães, estava chegando ao fim com a aproximação da primavera.
CAPÍTULO 3
A conquista da Dinamarca e da Noruega
O nome em código, de ressoante inocência, que os alemães deram para seu
último plano de agressão foi Weserübung ou Exercício de Weser. Suas origens e
desenvolvimento foram singulares, completamente diferentes dos que elabora
ram para os ataques não provocados que ocupam uma parte tão grande desta
narrativa. Não foi fruto do cérebro de Hitler, como todos os demais, porém de um
ambicioso almirante e de um confuso chefete do partido nazista. Foi o único ato
da agressão militar alemã na qual a marinha de guerra desempenhou papel deci
sivo. Foi, também, o único para o qual o OKW traçou os planos e coordenou as
forças das três armas. De fato, o Alto-Comando do exército e seu Estado-maior
geral nem sequer foram consultados, para grande aborrecimento deles, e Gõring
somente foi trazido à cena no último momento — menosprezo que enfureceu o
corpulento chefe da Luftwaffe.
Havia muito que a marinha de guerra alemã estava de olho no norte. A Ale
manha não tinha acesso direto ao grande oceano, fato geográfico que ficara gra
vado no espírito dos oficiais navais durante a Primeira Guerra Mundial. Uma cer
rada rede britânica através do estreito mar do Norte, desde as Ilhas Shetland até a
costa da Noruega, mantida por uma barragem de minas e pelo patrulhamento de
navios, engarrafara a poderosa marinha imperial, dificultando seriamente as ten
tativas dos submarinos alemães de irromper pelo Atlântico Sul e mantendo a
navegação mercante alemã fora dos mares. A frota de grande curso dos alemães
jamais atingira o alto-mar. O bloqueio naval britânico sufocara a Alemanha im
perial. Entre as duas guerras, grande número de oficiais navais alemães, que co
mandaram a modesta armada do país, meditou sobre aquela experiência e o fator
geográfico, chegando à conclusão de que, em qualquer guerra futura com a In
glaterra, a Alemanha deveria procurar conquistar bases na Noruega, o que rom
peria o bloqueio britânico no mar do Norte, abriria o grande oceano para os
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 85
navios de superfície e submarinos, e ofereceria, realmente, uma oportunidade
para se inverterem os papéis, e o Reich estabelecer um bloqueio eficiente contra
as Ilhas Britânicas.
Não constituiu surpresa, pois, que, ao romper a guerra em 1939, o almirante
Rolf Caris, o terceiro oficial em importância da marinha de guerra alemã e pode
rosa personalidade, começasse a enviar sucessivas cartas ao almirante Rãder,
como ele anotou em seu diário e depôs em Nuremberg, sugerindo “a importância
da ocupação da costa norueguesa pela Alemanha”.1 Mas não foi preciso insistir
muito junto a Rãder. Em 3 de outubro, ao fim da campanha da Polônia, ele enviou
um questionário confidencial ao Estado-maior naval pedindo que se assegurasse
da possibilidade de conquistar “bases na Noruega sob a pressão conjunta da Rús
sia e da Alemanha”. Consultado acerca da atitude de Molotov, Ribbentrop respon
deu que “se podia esperar importantíssimo apoio” dessa fonte. Rãder informou
seu Estado-maior que Hitler devia ser informado o mais breve possível sobre as
possibilidades.2
Em 10 de outubro, num longo relatório ao Führer sobre operações navais, Rãder
salientou a importância de obter bases navais na Noruega, se necessário com o
auxílio da Rússia. Essa — segundo mostram os registros confidenciais — era a
primeira vez que a marinha levava diretamente a questão à atenção de Hitler. Diz
Rãder que o Führer “percebeu imediatamente a importância do problema norue
guês”. Pediu-lhe que lhe deixasse suas notas sobre o assunto e prometeu conside-
rá-las. Nessa ocasião, porém, o chefe nazista achava-se preocupado com o desen-
cadeamento do ataque no Ocidente e com as hesitações dos generais, que
procurava vencer.* Ao que parece, escapou-lhe do espírito o caso da Noruega.3
Mas voltou-lhe novamente no decurso de dois meses, por três razões.
Uma, foi a chegada do inverno. A própria existência da Alemanha dependia
da importação de minério de ferro da Suécia. Para o primeiro ano de guerra, de
um consumo anual de 15 milhões de toneladas, os alemães contavam com a im
portação de 11 milhões. Durante os meses quentes, o minério era transportado
do norte da Suécia; descia pelo golfo de Bótnia e atravessava o Báltico rumo à
Alemanha. Não apresentava problemas mesmo com a guerra, porque o Báltico
* Foi em 10 de outubro que Hitler convocou os chefes militares, leu-lhes um longo memorando sobre
a necessidade de um ataque imediato no Ocidente e entregou-lhes a Diretiva nfi 6, ordenando os pre
parativos para uma ofensiva através da Bélgica e da Holanda. (Ver p. 45-7).
86 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
ficara eficientemente protegido contra os submarinos e os navios de superfície
ingleses. Mas, na estação invernosa, não se podia usar essa passagem de navega
ção em virtude das camadas de gelo. Durante os meses frios, o minério sueco ti
nha de ser embarcado por via férrea em um porto de Narvik, nas proximidades da
Noruega, e descia pela costa norueguesa por navio, para a Alemanha. Durante
quase todo o mês de janeiro, os barcos que transportavam o minério puderam
navegar nas águas territoriais norueguesas e, com isso, escapar à destruição por
parte dos bombardeiros e barcos da marinha britânica.
Por conseguinte, como Hitler acentuara a princípio à marinha de guerra, uma
Noruega neutra tinha suas vantagens. Isso possibilitaria à Alemanha obter o seu
minério vital, sem interferência da Inglaterra.
Em Londres, Churchill, nessa ocasião primeiro-lorde do almirantado, perce
beu imediatamente o fato e, logo nas primeiras semanas da guerra, procurou con
vencer o gabinete de que lhe permitisse colocar minas nas águas territoriais no
rueguesas a fim de deter o tráfego do minério para a Alemanha. Mas Chamberlain
e Halifax mostraram-se extremamente relutantes em violar a neutralidade da No
ruega, e a proposta foi, na ocasião, posta de lado.4
O ataque da Rússia contra a Finlândia, em 30 de novembro de 1939, modifi
cou radicalmente a situação da Escandinávia, aumentando imensamente sua im
portância tanto para os Aliados ocidentais quanto para a Alemanha. A França e a
Inglaterra começaram a organizar uma força expedicionária na Escócia, para ser
enviada em auxílio dos bravos finlandeses que, desafiando todas as predições,
resistiam estoicamente aos ataques do Exército Vermelho. Mas ela somente podia
alcançar a Finlândia pela Noruega e a Suécia. Os alemães perceberam imediata
mente que, se às tropas aliadas fosse dada permissão para atravessar a parte seten
trional dos dois países escandinavos, ou se o fizessem de qualquer maneira, um
número suficiente delas ali permaneceria com a escusa de manter comunicações,
para cortar completamente o suprimento do minério de ferro sueco* Além disso,
os Aliados franqueariam o Reich no norte. O almirante Ráder não hesitou em
lembrar a Hitler essas ameaças.
* Foi uma suposição exata. Sabe-se agora que o conselho supremo de guerra dos Aliados, numa reu
nião realizada em Paris a 5 de fevereiro de 1940, decidiu que, ao enviar-se uma força expedicionária à
Finlândia, os campos de ferro da Suécia deviam ser ocupados pelas tropas desembarcadas em Narvik,
cujo porto ficava a pequena distância das minas. (Ver The Challenge of Scandinavia, p. 115-16 n. do au
tor). Churchill observa que, por ocasião da reunião, decidiu-se "incidentalmente obter controle do cam
po de minérios de Gullivare". {The Gathering Storm, p. 560).
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 87
O chefe da marinha de guerra alemã descobriu então na Noruega um valioso
aliado para seus desígnios, na pessoa do major Vidkum Abraham Lauritz Quisling,
cujo nome logo iria tornar-se, em quase todas as línguas, sinônimo de traidor.
Aparece Vidkun Quisling
Quisling começou a vida honradamente. Nascido em 1887, filho de aldeões,
diplomou-se como primeiro aluno de sua classe na Academia Militar Norueguesa
e, com apenas vinte e poucos anos, foi enviado a Petrogrado como adido militar.
Pelos serviços prestados, ao cuidar dos interesses britânicos depois que foram
rompidas as relações com o governo bolchevique, a Inglaterra concedeu-lhe o tí
tulo honorífico de Comandante da Ordem do império britânico. Naquela ocasião,
ele era pró-Inglaterra e pró-União Soviética ao mesmo tempo. Permaneceu na
Rússia soviética durante certo tempo como assistente de Fridtjof Nansen, o gran
de explorador e filantropo norueguês, na obra de socorro e auxílio aos russos.
O jovem oficial de exército norueguês ficou tão impressionado pelo êxito dos
comunistas na Rússia que, ao voltar a Oslo, ofereceu seus serviços ao Partido Tra
balhista que, na ocasião, era membro do Comintern. Propôs fundar uma Guarda
Vermelha, mas o partido, suspeitando dele e de seu projeto, repeliu a proposta.
Quisling voltou-se então para o extremo oposto. Após servir como ministro da
Defesa, de 1931 a 1933, fundou, em maio desse último ano, um partido fascista
denominado Nasjonal Samling — União Nacional —, adotando a ideologia e a
tática dos nazistas que acabavam de assumir o poder na Alemanha. Mas o nazis
mo não frutificou no fértil solo democrático da Noruega. Quisling nem mesmo
conseguiu eleger-se para o parlamento. Derrotado na eleição pelo seu próprio
povo, voltou-se para a Alemanha nazista.
Ali estabeleceu contato com Alfred Rosenberg, o desnorteante filósofo oficial do
movimento nazista, o qual, entre suas muitas outras, exercia a função de chefe
do gabinete do partido para os negócios estrangeiros. Esse amalucado báltico, um
dos primeiros mentores de Hitler, julgou ver no oficial norueguês grandes possi
bilidades, pois uma das fantasias favoritas de Rosenberg era criar um grande im
pério nórdico, do qual seriam excluídos os judeus e outras raças impuras, que,
88 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s E o M OMENTO DECISIVO
eventualmente, dominaria o mundo sob a liderança nazista. Em 1939 e nos anos
que se seguiram, manteve-se em contato com Quisling e cumulou-o com sua tola
filosofia e propaganda.
Em junho de 1939, ao acumularem-se as nuvens da guerra sobre a Europa,
Quisling aproveitou-se de uma convenção a que assistiu na Sociedade Nórdica,
em Lübeck, para pedir a Rosenberg algo mais além do apoio ideológico. Segundo
os relatórios confidenciais de Rosenberg, exibidos em Nuremberg, Quisling pre-
veniu-o do perigo de a Inglaterra obter o controle da Noruega no caso de uma
guerra, e das vantagens que adviriam para a Alemanha em ocupá-la. Pediu subs
tancial auxílio para seu partido e seus jornais. Rosenberg, que escrevia admiravel
mente, redigiu três memorandos: um a Hitler, outro a Gõring e outro a Ribbentrop,
mas os três figurões o ignoraram; ninguém, na Alemanha, levava muito a sério o
“filósofo oficial”. O próprio Rosenberg conseguiu arranjar um curso de treina
mento de duas semanas na Alemanha, em agosto, para 25 robustos soldados das
tropas de assalto de Quisling.
Durante os primeiros meses da guerra, o almirante Rãder — ou de acordo
com o que ele depôs em Nuremberg — não teve contato com Rosenberg, a quem
mal conhecia, e nenhum com Quisling, de quem nunca ouvira falar. Logo depois
do ataque russo contra a Finlândia, porém, Rãder começou a receber relatórios de
seu adido naval em Oslo, capitão Richard Schreiber, sobre iminentes desembar
ques dos Aliados na Noruega. Mencionou-os a Hitler, em 8 de dezembro, e acon
selhou-o positivamente sobre “a importância da ocupação da Noruega”.5
Logo depois, Rosenberg apressou-se em dirigir um memorando (sem data)
ao almirante “sobre a visita do conselheiro privado Quisling — Noruega”. O
conspirador norueguês tinha chegado a Berlim, e Rosenberg achou que Rãder
devia ser informado sobre o que ele representava e o que pretendia. Quisling,
disse ele, tinha muitos simpatizantes entre os oficiais-chave do exército norue
guês e, como prova, mostrou-lhe uma carta recente que recebera do coronel
Konrad Sundlo, o oficial-comandante em Narvik, descrevendo o primeiro-mi
nistro da Noruega como “pessoa bronca” e um de seus principais ministros como
“um velho beberrão” e declarando sua disposição de “arriscar a vida pela insur
reição nacional”. Mais tarde, o coronel Sundlo não arriscou a vida para defender
o país contra a agressão.
Rosenberg informou Rãder que Quisling tinha verdadeiramente um plano
para o golpe. A informação foi, sem dúvida, tomada a sério em Berlim, pois foi
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 89
copiada do Anschluss. Certo número de soldados das tropas de assalto de Quisling
seria treinado às pressas na Alemanha “por experientes e ferrenhos nacional-so-
cialistas que tinham prática em tais operações”. Os alunos, uma vez de volta à
Noruega, apoderar-se-iam dos pontos estratégicos de Oslo,
e, ao mesmo tempo, a marinha de guerra alemã, com contingentes do
exército alemão, aparecerá em uma preestabelecida baía defronte a
Oslo, atendendo a um apelo especial do novo governo norueguês.
Repetia-se, mais uma vez, a tática do Anschluss, com Quisling exercendo o
papel de Seyss-Inquart.
Quisling não duvida [acrescenta Rosenberg] que tal golpe (...) teria a
aprovação das seções do exército com as quais ele está agora relacionado
(...) Com referência ao rei, ele acredita que aceitará essefait accompli.
O número de soldados alemães que Quisling avalia serem necessários
para a operação coincide com a estimativa alemã.6
O almirante Ráder encontrou-se com Quisling em 11 de dezembro, tendo o
encontro sido arranjado com Rosenberg por um certo Viljam Hagelin, comer
ciante norueguês cujos negócios o mantinham em grande parte do tempo na
Alemanha, e que era ali o chefe da ligação de Quisling. Hagelin e Quisling deram
muitas informações a Ráder, que as registrou devidamente nos arquivos confi
denciais da marinha.
Quisling declarou (...) planeja-se um desembarque de ingleses nas vizi
nhanças de Stavanger e propõe-se Kristiansand como possível base
inglesa. O atual governo norueguês, o Parlamento e toda a política
estrangeira estão controlados pelo conhecido judeu Hambro [Carl
Hambro, presidente do Storting], um grande amigo de Hore-Belisha
(...) Foram descritos com grandes minúcias os perigos que adviriam,
para a Alemanha, da ocupação inglesa (...)
Para antecipar-se ao golpe dos ingleses, Quisling propôs colocar as necessárias
bases à disposição das forças armadas alemãs. Já tinham sido comprados homens
90 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
em importantes posições (vias férreas, correios e comunicações) para esse objeti
vo. Ele e Hagelin tinham ido a Berlim estabelecer “relações bem definidas com a
Alemanha para o futuro (...) Desejavam a realização de conferências para discutir
uma ação combinada, transferência de tropas para Oslo, etc”.7
Ráder, consoante o testemunho que prestou mais tarde em Nuremberg, ficou
bastante impressionado e informou seus dois visitantes que iria conferenciar
com o Führer e que depois lhes comunicaria o resultado. Foi o que fez no dia que
se seguiu ao encontro, ao qual Keitel e Jodl estiveram também presentes. O co
mandante-em-chefe da marinha de guerra (cujo relatório sobre essa conferência
figura entre os documentos apreendidos) informou Hitler de que Quisling lhe
“dera a impressão de que se podia confiar nele”. Expôs-lhe então os pontos prin
cipais que os noruegueses lhe haviam relatado, acentuando “as boas relações
que Quisling mantinha com oficiais do exército norueguês” e sua disposição de
“apoderar-se do governo por meio de um golpe político e de pedir o auxílio da
Alemanha”. Todos os presentes concordaram que a ocupação da Noruega pelos
ingleses não seria encorajada, mas Ráder, que se tornara subitamente muito cau
teloso, assinalou que uma ocupação por parte dos alemães “provocaria natural
mente fortes contramedidas dos ingleses (...) e a marinha de guerra alemã não se
encontra ainda preparada para enfrentá-los durante um grande período de tem
po. No caso de uma ocupação, isso constitui um ponto fraco”. Por outro lado,
Ráder sugeriu que
se permitisse ao OKW traçar planos com Quisling para preparar e exe
cutar de uma maneira ou outra a ocupação:
a) por métodos amigáveis, isto é, as forças armadas alemãs são chama
das pela Noruega, ou
b) pela força.
Hitler não se achava, na ocasião, completamente disposto a chegar até esse
ponto. Respondeu que desejava primeiro falar pessoalmente com Quisling “a fim
de formar uma impressão sobre ele”.8
Foi o que fez no dia seguinte, 14 de dezembro. Ráder, pessoalmente, levou os
dois traidores noruegueses à chancelaria. Conquanto não tivessem sido en
contrados registros da reunião, Quisling, evidentemente, deve ter causado boa
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 91
impressão ao ditador alemão,* como acontecera com o chefe da marinha de
guerra, pois, nessa noite, Hitler ordenou ao OKW que esboçasse um plano com as
indicações de Quisling. Halder ouviu que o plano abrangeria também um ataque
à Dinamarca.10
Hitler encontrou-se novamente com Quisling em 16 e 18 de dezembro, a des
peito de suas preocupações com as más notícias acerca do GrafSpee. Aquele de
sastre naval, porém, parece tê-lo tornado mais prudente com relação a uma aven
tura na Escandinávia, a qual dependeria, acima de tudo, da marinha. Segundo
Rosenberg, o Führer salientou a seu visitante que “a atitude que se preferiria na
Noruega seria (...) a de completa neutralidade”. Contudo, se os ingleses estives
sem se preparando para entrar na Noruega, os alemães teriam que tomar-lhes a
dianteira. Entrementes, forneceria fundos a Quisling para combater a propagan
da inglesa e fortalecer seu próprio movimento em favor da Alemanha. Foi-lhe
concedida, inicialmente, a soma de 200 mil marcos ouro em janeiro, com a pro
messa da concessão de 10 mil libras esterlinas por mês, durante três meses, a
partir de 15 de março.11
Pouco antes do Natal, Rosenberg mandou um agente especial, Hans-Wilhelm
Scheidt, à Noruega para trabalhar com Quisling; e, naqueles dias de festas natali
nas, muitos oficiais do OKW, que estavam a par da questão, começaram a traba
lhar no Estudo Norte, designação que a princípio foi dada aos planos. A opinião
da marinha achava-se dividida. Rãder estava convencido de que os ingleses ten-
cionavam ocupar a Noruega num futuro próximo. A divisão de operações do Es
tado-maior geral da marinha discordou dele. Suas divergências foram abordadas
no relatório confidencial, em 13 de janeiro de 1940.12
A divisão de operações não acredita ser provável uma ocupação imi
nente da Noruega pelos ingleses (...) Todavia, considera que a ocupação
da Noruega pela Alemanha, se não é de se temer um ataque inglês, seria
um empreendimento perigoso.
O Estado-maior geral da marinha concluiu, portanto, “que a solução mais favo
rável é, positivamente, a manutenção do status quon e salientou que isso permitiria
* Ele não causou boa impressão ao ministro alemão em Oslo, dr. Curt Brãuer, que duas vezes, em dezem
bro, preveniu Berlim de que "não se devia levar Quisling a sério (...) sua influência e futuro são (...) muito
fracos".9 Pela sua franqueza e relutância em fazer o jogo de Hitler, o ministro havia logo de pagar.
92 A guerra: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
que se continuassem a usar as águas territoriais norueguesas para o transporte de
minério “com perfeita segurança”.
Hitler se irritou com as hesitações da marinha e com os resultados do Estudo
Norte que o OKW lhe apresentou em meados de janeiro. Em 27 de janeiro, man
dou Keitel expedir uma diretiva secretíssima mandando prosseguir nos trabalhos
do Estudo sob a “supervisão pessoal e imediata” do Führer e encarregando Keitel
de todos os preparativos. Devia-se instalar no OKW uma pequena comissão com
posta da um representante de cada uma das três armas, e dali por diante a opera
ção devia receber o nome em código de Weserübung.13
Essa medida parece ter posto um ponto final nas hesitações de Hitler com re
lação à ocupação da Noruega, mas, se existisse ainda alguma dúvida, foi elimina
da por um incidente em águas norueguesas, em 17 de fevereiro.
Um navio-auxiliar de abastecimento do Graf Spee, o Altmark, conseguira
romper o bloqueio inglês e, em 14 de fevereiro, foi descoberto por um avião de
reconhecimento inglês quando descia as águas territoriais da Noruega rumo à
Alemanha. O governo britânico sabia que a bordo havia trezentos marinheiros
ingleses que haviam sido capturados de navios postos a pique pelo Graf Spee.
Estavam sendo transportados para a Alemanha como prisioneiros de guerra. Os
oficiais navais noruegueses tinham feito uma inspeção superficial no Altm ark,
acharam que não havia prisioneiros a bordo e que o barco estava desarmado, e
deram-lhe permissão para que prosseguisse a viagem para a Alemanha. Chur
chill, que tinha informações diferentes, ordenou pessoalmente que uma flotilha
de destróieres seguisse para as águas norueguesas, abordasse o barco alemão e
libertasse os prisioneiros.
O destróier britânico Cossack, comandado pelo capitão Philip Vian, levou a
cabo a missão na noite de 16 para 17 de fevereiro em Jõsing Fjord, onde o Altmark
procurara proteger-se. Após uma luta corpo-a-corpo em que quatro alemães fo
ram mortos e cinco ficaram feridos, os atacantes britânicos libertaram 299 mari
nheiros que estavam encerrados em cabinas e num tanque de óleo vazio para não
serem descobertos pelos noruegueses.
O governo norueguês fez um veemente protesto à Inglaterra acerca dessa vio
lação de suas águas territoriais, mas Chamberlain respondeu, na Câmara dos
Comuns, que a própria Noruega violara as leis internacionais, ao permitir que
suas águas fossem utilizadas pelos alemães para transportar prisioneiros britâni
cos para uma prisão na Alemanha.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 93
Isso foi além do limite da tolerância de Hitler. Convenceu-o de que os norue
gueses não se oporiam seriamente a uma manifestação de força da Inglaterra em
suas próprias águas territoriais. Enfureceu-se também, conforme Jodl anotou em
seu diário, com o fato de a tripulação do Graf Spee, a bordo do Altm ark , não ter
oferecido uma luta mais dura — “nenhuma resistência, nenhuma baixa britânica”.
Em 19 de fevereiro, revela o diário de Jodl, Hitler “insistiu energicamente” para
que se terminassem os planos para o Weserübung. “Equipe os navios. Ponha as
unidades de prontidão”, ordenou a Jodl. Faltava-lhes ainda um oficial para dirigir
a empresa. Jodl lembrou-lhe que era tempo de nomear um general e seu Estado-
maior para esse objetivo.
Keitel sugeriu um oficial que havia combatido com a divisão do general von
der Goltz, na Finlândia, ao fim da Primeira Guerra Mundial, o general Nikolaus
von Falkenhorst, que, nessa ocasião, comandava um corpo de exército no Oci
dente. Hitler, a quem passara despercebida essa pequena questão de comandante
para aquela aventura no norte, mandou chamá-lo imediatamente. Embora o ge
neral se originasse de uma velha família de militares da Silésia, de nome Jastrzem-
bski, que ele mudara para Falkenhorst, (em alemão, “ninho do falcão”), Hitler não
o conhecia pessoalmente.
Mais tarde, no interrogatório que lhe fizeram em Nuremberg, Falkenhorst
descreveu aquele seu primeiro encontro na chancelaria, na manhã de 21 de feve
reiro, o qual não deixou de revestir-se de aspectos engraçados. Falkenhorst nunca
ouvira falar da Operação Norte e era então a primeira vez que se avistara com o
chefe nazista que, aparentemente, não lhe infundiu terror como se dava com to
dos os outros generais.
Mandaram que me sentasse [contou ele em Nuremberg]. Eu tinha en
tão que relatar ao Führer as operações na Finlândia em 1918 (...) Disse
ele: “Sente-se e diga-me como elas se passaram”, o que fiz.
Levantamo-nos depois e ele me conduziu a uma mesa coberta de ma
pas. Ele explicou: “(...) O governo do Reich tem conhecimento de que
os ingleses tencionam fazer um desembarque na Noruega (...)”
Falkenhorst declarou que teve de Hitler a impressão de que fora o incidente
com o A ltm ark que mais influenciara o Führer a “levar a efeito, agora, o plano”.
94 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
O general viu-se, com grande surpresa sua, nomeado nessa mesma ocasião para
executar o plano como comandante-em-chefe. O exército, acrescentara Hitler, co
locaria cinco divisões à sua disposição. A idéia era apoderar-se dos principais
portos noruegueses.
Ao meio-dia, o chefe nazista, despedindo-se de Falkenhorst, ordenou-lhe que
voltasse às 17h com os planos para a ocupação da Noruega.
Saí e comprei um Bãdeker, um guia de viagem [explicou Falkenhorst
em Nuremberg], a fim de formar uma idéia sobre a Noruega. Não tinha
idéia alguma (...) Dirigi-me depois para o hotel e estudei o Bãdeker (...)
Às 17h voltei à presença do Führer.14
Os planos do general, elaborados de um antigo guia Bãdeker — não lhe ha
viam mostrado os que foram traçados pelo OKW — eram, como se pode imagi
nar, simples esboços; pareceram, porém, ter satisfeito Hitler. Devia-se escalar uma
divisão para cada um dos cinco principais portos da Noruega: Oslo, Stavanger,
Bergen, Trondheim e Narvik. “Não havia algo mais que se pudesse fazer”, decla
rou Falkenhorst depois, “pois eles eram os grandes portos.” Depois de ter jurado
guardar sigilo e sido ordenado que “se apressasse”, o general retirou-se novamente
e tratou imediatamente de pôr mãos à obra.
Brauchitsch e Halder, ocupados nos preparativos da ofensiva na frente oci
dental, ignoraram, em grande parte, todo aquele movimento até o dia em que
Falkenhorst visitou o chefe do Estado-maior geral (26 de fevereiro), quando so
licitou algumas tropas, especialmente unidades alpinas, para levar a efeito as
operações. Halder não se mostrou muito cooperador; de fato, indignou-se e exi
giu mais informações sobre o que se estava passando e sobre o que era preciso.
“Não havia sido trocada uma só palavra sobre essa questão entre o Führer e
Brauchitsch”, exclamou Halder em seu diário. “Cumpre registrar o fato para a
história desta guerra!”
Hitler, porém, não ia ser dissuadido em seus projetos pelos velhos generais do
exército, aos quais, e especialmente ao chefe do Estado-maior geral, votava grande
desprezo. Em 29 de fevereiro, aprovou entusiasticamente os planos de Falkenhorst,
inclusive a obtenção de duas divisões alpinas. Além disso, declarou que seriam
necessárias mais tropas porque desejava “uma poderosa força em Copenhague”.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 95
Acrescentara-se definitivamente a Dinamarca à lista das vítimas de Hitler; a força
aérea estava de olho nas bases dali, para empregá-las contra a Inglaterra.
No dia seguinte, le de março, Hitler expediu a diretiva formal para a operação
Weserübung (Exercício Weser):
SECRETÍSSIMO
O desenvolvimento da situação na Escandinávia exige que se façam to
dos os preparativos para a ocupação da Dinamarca e da Noruega. Esta
operação impedirá que os ingleses invadam a Escandinávia e o Báltico.
Além disso, garantirá nossas bases de minério na Suécia e dará à nossa
marinha de guerra e à força aérea um ponto de partida para os ataques
contra a Inglaterra (...)
Dado nosso poderio militar e político, em comparação com o dos es
tados escandinavos, a força a ser empregada no “Exercício Weser” será
mantida o mais reduzida possível. A fraqueza numérica será equilibra
da por feitos ousados e operações de surpresa.
Como princípio, faremos todo o possível para fazer com que a opera
ção pareça uma ocupação pacífica, cujo objetivo será a proteção militar
à neutralidade dos Estados escandinavos. Transmitir-se-ão, no começo
da ocupação, as correspondentes exigências aos governos. Se necessá
rio, demonstrações por parte da marinha de guerra e da força aérea
ressaltarão sua importância. Se, a despeito disso, se encontrar resistên
cia, empregar-se-ão todos os meios para esmagá-la (...) A travessia da
orla dinamarquesa e os desembarques na Noruega devem ser realiza
dos simultaneamente (...)
É importantíssimo que os Estados escandinavos e os adversários ociden
tais sejam pegos de surpresa (...) As tropas somente poderão ser informa
das dos verdadeiros objetivos depois que se fizerem ao mar (...)15
Naquela mesma noite, l2 de março, o ambiente no Alto-Comando do exército
foi tempestuoso — relatou Jodl — por causa das exigências que Hitler fizera de
tropas para a operação no norte. No dia seguinte, Gõring esbravejou com Keitel e
foi queixar-se a Hitler. O gordo marechal-de-campo estava furioso por terem-no
mantido fora do segredo, e pelo fato de a Luftwaffe ter sido colocada sob o co
mando de Falkenhorst. Ameaçado de uma séria disputa de jurisdição, Hitler
96 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
convocou os chefes das três armas à chancelaria, em 5 de março, para aplanar as
dificuldades, o que não foi fácil.
O marechal-de-campo [Gõring] deu vazão a seu mau humor [escreveu
Jodl em seu diário] porque não havia sido consultado antecipadamen
te. Domina a discussão e procura provar que todos os preparativos an
teriores não servem para nada.
O Führer abrandou-o, fazendo-lhe algumas pequenas concessões, e então
prosseguiu-se, celeremente, com os planos. Já em 21 de fevereiro, segundo seu
diário, Halder tinha a impressão de que o ataque contra a Dinamarca e a Noruega
somente começaria depois que a ofensiva no Ocidente tivesse sido desencadeada
e “conduzida até certo ponto”. O próprio Hitler estivera duvidoso sobre qual a
operação que devia ser empreendida em primeiro lugar, e abordou a questão com
Jodl em 26 de fevereiro. Jodl opinou que se deviam manter as duas operações
completamente separadas, e Hitler concordou, “se isso fosse possível”.
Em 3 de março, o Führer decidiu que o Exercício Weser devia preceder o Caso
Amarelo (o nome em código para a ofensiva no Ocidente) e manifestou “bem
claramente” a Jodl “a necessidade de uma ação forte e imediata na Noruega”. Nes
sa ocasião, o corajoso exército finlandês, inferior, porém, em número e em arma
mentos, se defrontava com um desastre ante a maciça ofensiva russa, e havia ru
mores bem fundamentados de que um corpo expedicionário anglo-francês se
preparava para embarcar, de sua base na Escócia, com destino à Noruega; atraves
saria esse país e a Suécia para ir em socorro dos finlandeses* Tal ameaça foi a
principal razão da pressa de Hitler.
* Em 7 de março, o general Ironside, chefe do Estado-maior geral britânico, informou o marechal
Mannerheim de que uma força expedicionária aliada de 57 mil homens estava pronta para ir em auxí
lio dos finlandeses e que a primeira divisão, com 15 mil soldados, poderia chegar à Finlândia no fim de
março, se a Noruega e a Suécia lhe permitissem a passagem. Na realidade, cinco dias antes, em 2 de
março, conforme Mannerheim sabia, tanto a Noruega quanto a Suécia haviam rejeitado o pedido
anglo-francês para o direito de passagem. Isso não impediu que o primeiro-ministro Daladier, em 8
de março, censurasse os finlandeses por não pedirem oficialmente o auxílio de tropas dos Aliados e
desse a entender que elas seriam enviadas independentemente dos protestos da Noruega e da Sué
cia. Mas Mannerheim não ia deixar-se ludibriar. Tendo aconselhado seu governo a pedir a paz, en
quanto o exército finlandês se mantinha intacto e invencível, aprovou o envio imediato de uma dele
gação a Moscou, em 8 de março, para negociar a paz. O comandante-em-chefe dos finlandeses, ao
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 97
Em 12 de março, porém, cessou repentinamente a guerra russo-finlandesa,
aceitando a Finlândia as duras condições de paz da Rússia. Conquanto o término
da guerra fosse em geral bem acolhido em Berlim, por ter libertado a Alemanha da
proteção impopular que estendia aos russos na luta contra os finlandeses e desse,
no momento, paradeiro à investida dos russos para se assenhorearem do Báltico,
a situação, entretanto, embaraçou Hitler no tocante à sua própria aventura na
Escandinávia. Conforme Jodl registrou em seu diário, tornou difícil o “motivo”
para a ocupação da Noruega e da Dinamarca. “A conclusão da paz entre a Finlân
dia e a Rússia”, anotou ele em 12 de março, “priva a Inglaterra, e a nós também, de
qualquer base política para ocupar a Noruega”.16
De fato, Hitler enfrentava dificuldades para encontrar uma desculpa. Em 13
de março, o fiel Jodl registrou que o Führer “procurava ainda uma justificativa”.
No dia seguinte: “O Führer ainda não resolveu como justificar o Exercício Weser”.
Para agravar a situação, o almirante Rãder começou a hesitar. “Duvidava que fos
se ainda importante empenhar-se numa guerra preventiva (?) na Noruega”.
Hitler, nessa ocasião, hesitou. Entrementes, surgiram dois outros problemas:
1) como tratar com Sumner Welles, o subsecretário de Estado dos Estados Uni
dos, que chegara a Berlim em l2 de março, em missão do presidente Roosevelt,
para ver se havia qualquer possibilidade de terminar a guerra antes que começas
se a matança no Ocidente; e 2) como acalmar o abandonado e ofendido aliado
italiano. Hitler ainda não se tinha dado ao trabalho de responder à desafiadora
carta de Mussolini, de 3 de janeiro, e, na verdade, as relações entre Berlim e Roma
tinham esfriado. Acreditavam agora os alemães, e com certa razão, que Sumner
Welles viera à Europa para tentar afastar a Itália do Eixo já algo abalado e, em úl
timo caso, persuadi-la a não entrar na guerra ao lado da Alemanha se o conflito
continuasse. De Roma, haviam sido enviadas a Berlim várias advertências de que
já era tempo de fazer alguma coisa para acalmar o mal-humorado Duce.
que parece, mostrava-se cético quanto ao empenho dos franceses em lutar na frente finlandesa ao in
vés de o fazerem na sua própria linha de frente, na França. (Ver TheMemoirs ofMarshal Mannerheim).
Pode-se especular sobre a confusão total que resultaria entre os beligerantes, se o corpo expedicioná
rio anglo-francês tivesse chegado à Finlândia e combatido contra os russos. Em pouco menos de um
ano, a Alemanha estaria em guerra com a Rússia, caso em que os inimigos, no Ocidente, teriam sido
Aliados no leste!
98 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Hitler encontra-se com Sumner Welles e Mussolini
Era profunda a ignorância de Hitler, de Gõring e de Ribbentrop sobre os Esta
dos Unidos.* Conquanto a política deles, nesse tempo, fosse a de procurar manter
os Estados Unidos fora da guerra, eles, como seus predecessores, na Berlim de
1914, não consideravam que a nação yankee fosse seriamente uma força militar
poderosa. Já em l Qde outubro de 1939, o adido militar alemão em Washington,
general Friedrich von Bõtticher, aconselhou o OKW, em Berlim, a não se preo
cupar com a possibilidade do envio de uma força expedicionária americana à
Europa. Em Ia de dezembro, informou também a seus superiores militares, em Ber
lim, que o armamento americano era simplesmente inadequado “para uma agres
siva política de guerra” e acrescentou que o Estado-maior geral, em Washington,
“contrastando com a estéril política de ódio do Departamento de Estado e a polí
tica impulsiva de Roosevelt — quase sempre baseada no cálculo exagerado do po
derio militar americano — compreende perfeitamente a Alemanha e sua orienta
ção de guerra”. Em sua primeira mensagem, Bõtticher observou que “Lindbergh
* Exemplos da opinião esquisita que Hitler formava dos Estados Unidos foram dados em capítulos
anteriores, mas existe entre os documentos apreendidos no Ministério das Relações Exteriores um
que revela o estado de espírito do Führer nessa mesma ocasião. Em 12 de março, teve ele uma longa
conferência com Colin Ross, um perito alemão no tocante aos Estados Unidos, que recentemente
chegara de uma viagem à América onde fizera conferências e contribuíra com seu quinhão para a
propaganda nazista. Quando Ross observou que prevalecia uma "tendência imperialista" nos Estados
Unidos, Hitler perguntou (segundo as anotações taquigrafadas pelo dr. Schmidt) "se essa tendência
imperialista não fortalecia o desejo de se fazer o Anschluss do Canadá aos Estados Unidos, criando,
com isso, uma atitude antibritânica".
Deve-se admitir que os conselheiros de Hitler, nessa questão dos Estados Unidos, não auxiliaram muito
para que se pudesse lançar luz sobre a matéria. Nessa mesma conferência, Ross, ao procurar responder
às perguntas de Hitler sobre por que os Estados Unidos eram tão antigermânicos, respondeu, entre
outras coisas, o seguinte:
(...) Um fator adicional do ódio contra a Alemanha (...) é o formidável poder dos judeus, que dirige, com
habilidade e capacidade organizadora realmente fantásticas, a luta contra tudo que é alemão e nacio-
nal-socialista (...)
Colin Ross falou depois sobre Roosevelt, que acredita ser inimigo do Führer por motivos de pura inveja
e, também, por causa de sua sede de poder (...) Roosevelt subira ao poder no mesmo ano que Hitler e
tinha que ficar observando os grandes planos do Führer, enquanto ele, Roosevelt (...) não havia atingido
seu objetivo. Ele também tinha suas idéias de ditadura que, em certos aspectos, semelhavam muito às
idéias do nacional-socialismo. Mas, precisamente por reconhecer que o Führer havia atingido seu obje
tivo ao passo que ele não, dava à sua ambição patológica o desejo de representar no palco da história
mundial o papel de rival de Hitler (...) Depois que Herr Colin Ross se despediu, o Führer, comentando,
observou que Ross era um homem muito inteligente que, certamente, tinha muito boas idéias.17
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 99
e o famoso aviador Rickenbacker” recomendavam que os Estados Unidos se man
tivessem fora da guerra. Em P de dezembro, porém, a despeito de seu fraco juízo
sobre o poderio militar americano, ele preveniu o OKW de que wos Estados Uni
dos entrarão na guerra se considerarem que o hemisfério ocidental se encontra
ameaçado”.18
Hans Thomsen, o encarregado dos negócios da Alemanha em Washington,
esforçou-se por transmitir alguns fatos sobre os Estados Unidos a seu ignorante
ministro das Relações Exteriores, em Berlim. Em 18 de dezembro, quando a cam
panha na Polônia se aproximava do fim, preveniu a Wilhelmstrasse de que “as
simpatias de esmagadora maioria do povo americano estão voltadas para os nos
sos inimigos, estando a América convencida de que a culpa da guerra cabe à Ale
manha”. Nessa mesma mensagem assinalou as calamitosas conseqüências de
quaisquer tentativas da Alemanha em levar a efeito sabotagens na América e pe
diu que não as fizessem “de forma alguma”.19
O pedido não foi levado muito a sério em Berlim, pois em 25 de janeiro de
1940 Thomsen telegrafou a Berlim:
Soube que um germano-americano, von Hausberger, e um cidadão ale
mão, Walter, ambos de Nova York, estão citados como planejando atos
de sabotagem contra a indústria de armamentos americana, sob a
orientação da Abwehr alemã. Supõe-se que von Hausberger possui
explosivos escondidos em sua residência.
Thomsen pediu a Berlim que renunciasse a tais processos, declarando que
não existe meio mais seguro de impedir os Estados Unidos de entrarem
na guerra do que recorrer novamente a um curso de ação que os fize
ram entrar para as fileiras de nossos inimigos, outrora, na Grande
Guerra e que, incidentalmente, não lhes cerceou o desenvolvimento
das indústrias de guerra.
Acrescentou, além disso: “Ambos esses indivíduos são, sob todos os aspectos,
inadequados para agir como agentes da Abwehr.”*
* Weizsàcker respondeu que o próprio Canaris lhe havia assegurado que nenhum dos homens citados
por Thomsen era agente da Abwehr. São coisas, porém, que um bom serviço secreto jamais admite.
100 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Desde novembro de 1938, quando Roosevelt chamara o embaixador america
no em Berlim, em sinal de protesto contra o movimento de violências patrocina
do oficialmente pelos nazistas contra os judeus, nenhum dos dois países ficara
representado, no outro, por um embaixador. O comércio ficara reduzido a uma
insignificância, em grande parte como resultado do boicote dos americanos, e
nessa ocasião foi completamente encerrado pelo bloqueio britânico. Em 4 de no
vembro de 1939, levantou-se o embargo que pesava sobre os armamentos, em
seguida à votação do Senado e da Câmara, abrindo-se assim o caminho para os
Estados Unidos abastecerem de armamentos os Aliados ocidentais. Foi em meio
a esse cenário, em que se desvaneciam rapidamente as relações, que Sumner Wel-
les chegou a Berlim em lfi de março de 1940.
Na véspera, 29 de fevereiro — era ano bissexto —, Hitler tomara a desusada
medida de expedir uma “diretiva para as conversações com Mr. Sumner Welles”,
secreta.20 Exigia reserva da parte dos alemães e aconselhava que “deixassem Mr.
Welles falar tanto quanto fosse possível”. A diretiva traçava cinco pontos para
orientação de todos os altos funcionários que deviam receber o emissário especial
dos Estados Unidos. O principal argumento devia ser o de a Alemanha não ter
declarado guerra à Inglaterra e à França; e, sim, o contrário. O Führer oferecera a
paz em outubro e elas a recusaram; a Alemanha aceitara o desafio; os objetivos da
Inglaterra e da França eram “destruir o Estado alemão” e à Alemanha, portanto,
só restava a opção de prosseguir a guerra.
Deve-se evitar, tanto quanto possível, um debate [concluiu Hitler] sobre
questões políticas, como, por exemplo, a questão de um futuro Estado
polonês. No caso de [ele] trazer à baila assuntos dessa natureza, cumpre
responder que tais assuntos são decididos por mim. Fica inteiramente
Outros documentos do Ministério das Relações Exteriores revelam que, em 24 de janeiro, um agente da
Abwehr deixara Buenos Aires com instruções para se apresentar a Fritz von Hausberger, em Weeha-
wken, NJ.,"a fim de receber instruções referentes à nossa especialidade". Outro agente havia sido en
viado daquela mesma cidade a Nova York, em dezembro, para colher informações sobre fábricas de
aviões americanos e sobre embarques de armamentos para os Aliados. O próprio Thomsen relatou em
20 de fevereiro a chegada do barão Konstantin von Maydell, um alemão do Báltico, de cidadania esto-
niana, o qual informara a embaixada alemã, em Washington, que se achava em missão de sabotagem
para a Abwehr.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 101
fora de questão discutir o caso da Áustria e do Protetorado da Boêmia
e Morávia (...)
Cumpre evitar todas as declarações que pudessem ser interpretadas
(...) como significando que a Alemanha, presentemente, esteja interes
sada, de uma forma ou de outra, em discutir as possibilidades de paz.
Ao contrário, peço que a Mr. Sumner não seja dada a mais leve razão
para duvidar de que a Alemanha está decidida a terminar vitoriosa
mente esta guerra.
Não só Ribbentrop e Gõring seguiram a diretiva ao pé da letra, como também
o próprio Hitler, quando se avistaram separadamente com Welles em l s, 3 e 2 de
março. Julgando pelas extensas minutas das conversações, conservadas pelo dr.
Schmidt (as quais figuram entre os documentos apreendidos), o diplomata ame
ricano, homem algo cético e taciturno, devia ter tido a impressão de que entrara
num asilo de loucos — se pudesse acreditar no que ouvira. Cada um dos Três
Grandes Nazistas bombardeou Welles com as mais grotescas deturpações da His
tória, nas quais se torciam fantasticamente os fatos e a mais simples das palavras
perdia toda a significação.* Hitler, que em l2 de março expedira a diretiva para o
Weserübung, recebeu Welles no dia seguinte e insistiu em afirmar que o objetivo
da guerra dos Aliados era o aniquilamento; o da Alemanha, a paz. Fez uma prele-
ção a seu visitante sobre tudo que havia feito para manter a paz com a Inglaterra
e a França.
Pouco antes do rompimento da guerra, o embaixador britânico se as
sentara exatamente no lugar em que Sumner estava agora sentado, e o
Führer lhe havia feito a maior proposta de sua vida.
Todas as suas propostas aos britânicos tinham sido recusadas e agora a Ingla
terra estava a campo para destruir a Alemanha. Hitler, portanto, acreditava “que a
guerra tinha de ser travada até o fim (...) não havia outra solução senão uma luta
de vida e morte”.
* "Perante Deus e o mundo" exclamou Gõring a Welles, "ele, o marechal-de-campo, podia afirmar que
a Alemanha não desejara a guerra. Forçaram-na a fazê-la (...) Mas que devia fazer a Alemanha quando
os outros desejavam destruí-la?"
102 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Não era de admirar que Welles confiasse a Weizsàcker e repetisse a Gõring que,
se a Alemanha estava decidida a conquistar uma vitória militar no Ocidente, sua
viagem, então, à Europa “era inútil (...) e nada mais havia que ele pudesse dizer”.*21
Embora tivesse salientado em suas conversações com os alemães que aquilo
que ouvira dos estadistas europeus, em sua viagem, destinava-se somente aos ou
vidos de Roosevelt, Welles julgou prudente ser suficientemente indiscreto e expor
a Hitler e Gõring que tivera uma conversa “longa, construtiva e muito útil” com
Mussolini, e que ele julgava que “havia ainda possibilidades de realizar uma firme
e duradoura paz na Europa”. Se era esse o pensamento do ditador, então era tempo
— assim entendiam os alemães — de corrigi-lo. A paz, sim, mas somente depois
de uma retumbante vitória da Alemanha no Ocidente.
O fato de Hitler não ter respondido à carta de Mussolini, de 3 de janeiro, en
cheu o Duce de preocupações. Durante todo esse mês, o embaixador Attolico
andou perguntando a Ribbentrop quando se podia esperar uma resposta e, ao
mesmo tempo, insinuava que as relações da Itália com a França e a Inglaterra — e
também de comércio com ambos os países — estavam melhorando.
Esse comércio, que abrangia vendas de materiais de guerra pela Itália, exacer
bou os alemães que, constantemente, protestaram em Roma, dizendo que ela es
tava indevidamente auxiliando os Aliados ocidentais. O embaixador von Ma-
ckensen continuou informando de suas “graves ansiedades” seu amigo Weizsàcker
* Um mediador não-oficial americano achava-se também em Berlim, nessa ocasião: James D. Mooney,
vice-presidente da General Motors. Estivera em Berlim, se bem me recordo, pouco antes ou pouco de
pois do rompimento da guerra, tentando, como outro diplomata amador, Dahlerus — se bem que este
não tivesse as relações do primeiro — salvar a paz. No dia seguinte à saída de Welles de Berlim, 4 de
março de 1940, Hitler recebeu Mooney, que o informou — segundo um registro da conferência apreen
dido aos alemães — que o presidente Roosevelt se mostrava "mais amistoso e mais bem disposto" para
com a Alemanha "do que geralmente se acreditava em Berlim", e estava preparado para agir como
mediador a fim de harmonizar os beligerantes. Hitler simplesmente repetiu o que havia declarado a
Welles dois dias antes.
Em 11 de março, Thomsen enviou a Berlim um memorando confidencial, que lhe foi preparado por um
informante americano incógnito, declarando que Mooney "era mais ou menos pró-alemães". O presi
dente da General Motors foi certamente ludibriado pelos alemães. O memorando de Thomsen decla
rara que Mooney informara Roosevelt, baseando-se numa conferência anterior com Hitler, que ele
"queria a paz e desejava impedir o derramamento de sangue numa campanha de primavera". Hans
Dieckhoff, o embaixador alemão que fora chamado de seu posto nos Estados Unidos e estava passan
do tempo em Berlim, visitou Mooney logo depois da entrevista dele com Hitler, e informou o Ministério
das Relações Exteriores que o industrial americano era "um tanto loquaz" e que "não posso acreditar
que a iniciativa de Mooney tenha grande valor".22
A CONQUISTA DA DINAMARCA E DA NORUEGA 103
que já receava que a falta de resposta à carta de Mussolini, se persistisse por mais
tempo, daria ao Duce “liberdade de ação” — e tanto ele como a Itália poderiam ser
considerados perdidos para sempre.23
Foi então que Hitler teve, em F de março, uma boa oportunidade. A Inglater
ra anunciou que estava cortando os embarques de carvão da Alemanha por mar,
via Roterdã, para a Itália. Representava isso um pesado golpe à economia italiana
e fez com que o Duce se enfurecesse contra a Inglaterra e melhorasse seus senti
mentos para com os alemães, os quais, prontamente, prometeram descobrir um
meio de despachar o carvão por via férrea. Aproveitando-se dessa circunstância,
Hitler endereçou uma longa carta a Mussolini, em 8 de março, que Ribbentrop
entregou pessoalmente em Roma dois dias depois.24
Não apresentava desculpas pelo atraso na resposta, mas seu tom era muito
cordial. Expunha, com grande minuciosidade, o pensamento e a política do
Führer sobre todos os assuntos concebíveis e era mais prolixa que qualquer outra
carta que enviara anteriormente ao parceiro italiano. Defendia a aliança nazista
com a Rússia, o abandono dos finlandeses e o fato de não permitir a existência de
um Estado tampão polonês.
Se eu tivesse retirado as tropas alemães do governo geral, não teríamos
conseguido realizar uma pacificação na Polônia. Teríamos um caso
horrível. E a Igreja não exerceria suas funções em louvor de Deus; ao
contrário, seus sacerdotes seriam decapitados (...)
Quanto à visita de Sumner Welles — prosseguiu Hitler — nada adiantara. Ele,
Hitler, estava decidido a atacar no Ocidente. Sabia “que a próxima batalha não
será um passeio, porém a mais feroz das lutas na história da Alemanha (...) uma
luta de vida ou morte”.
Hitler, em seguida, fez o seu lance para Mussolini entrar na guerra:
Creio, Duce, que não poderá haver dúvida de que o resultado desta
guerra decidirá também o futuro da Itália (...) Algum dia sereis defron
tado pelos mesmos adversários que hoje estão lutando contra a Alema
nha (...) Eu, também, vejo o destino de nossos dois países, de nossos
povos, de nossas revoluções e de nossos regimes indissoluvelmente
unidos entre si.
104 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
E, finalmente, permiti-me assegurar-vos que, a despeito de tudo, creio
que, cedo ou tarde, o destino nos forçará a lutar lado a lado, isto é, vós
também não escapareis a esse choque de armas, independentemente do
que os aspectos individuais da situação possam desenvolver-se na atua
lidade, e que vosso lugar, mais do que nunca, será a nosso lado, assim
como o meu ao vosso.
Mussolini sentiu-se lisonjeado com a carta e assegurou imediatamente a Rib
bentrop que concordava que seu lugar era ao lado de Hitler, “na linha de fogo”. O
ministro nazista das Relações Exteriores, de sua parte, não perdeu tempo em
adular seu anfitrião. O Führer, disse ele, “ficou entusiasmado com as últimas me
didas dos britânicos, impedindo os embarques de carvão da Alemanha para a
Itália, por mar”. Qual a quantidade de carvão de que os italianos necessitavam?
De 500 mil a 700 mil toneladas por mês, respondeu Mussolini. A Alemanha
achava-se agora preparada para fornecer um milhão de toneladas por mês e su
priria a maior parte dos vagões para o transporte, declarou Ribbentrop com o
maior desembaraço.
Houve duas longas conversações entre os dois, com a presença de Ciano, em
11 e 12 de março. As minutas taquigrafadas pelo dr. Schmidt revelam que nunca
Ribbentrop se mostrara tão fluente.25 Embora houvesse assuntos mais importan
tes para serem debatidos, ele exibiu mensagens diplomáticas que haviam sido
apreendidas aos poloneses, procedentes das capitais ocidentais, para demonstrar
£a culpa enorme que cabia aos Estados Unidos na guerra”.
O ministro das Relações Exteriores explicou que aqueles documentos
demonstravam especificamente o papel sinistro dos embaixadores
americanos Bullitt [Paris], Kennedy [Londres] e Drexel Biddle [Varsó
via] (...) Davam a perceber as maquinações da facção plutocrática-ju-
daica, cuja influência, por intermédio de Morgan e Rockefeller, atingia
todas as camadas até Roosevelt.
Durante várias horas, o arrogante ministro nazista dos Negócios Estrangeiros
falou entusiasticamente, demonstrando, entretanto, sua habitual ignorância das
questões mundiais, salientando o destino comum das duas nações fascistas e o
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 105
fato de que Hitler iria logo atacar o Ocidente, “derrotar o exército francês no
decurso do verão” e expulsar os ingleses do continente “antes do outono”. Musso
lini ouvia-o a maior parte do tempo, interpondo, vez ou outra, uma observação,
cujo sarcasmo escapava aparentemente à percepção do ministro nazista. Quando,
por exemplo, Ribbentrop declarou pomposamente que “Stalin renunciara à idéia
de uma revolução mundial”, o Duce replicou, segundo as anotações de Schmidt:
“Acreditais realmente nisso?” Quando Ribbentrop explicou que “não havia um
único soldado alemão que não acreditasse que a vitória seria conquistada este
ano”, Mussolini exclamou: “Eis uma observação interessantíssima.” Nessa noite,
Ciano anotou em seu diário:
Após a entrevista, quando ficamos a sós, Mussolini disse que não acre
ditava na ofensiva alemã, nem numa só vitória completa dos alemães.
O ditador italiano havia prometido expor seus próprios pontos de vista na
conferência, no dia seguinte, e Ribbentrop sentia-se um tanto preocupado quanto
ao que poderiam ser. Telegrafou a Hitler dizendo que não pudera obter uma “idéia
sobre o que o Duce tinha em mente”.
Ribbentrop não devia ter-se preocupado. No dia seguinte, Mussolini mostrou-
se um homem completamente diferente. Segundo anotou Schmidt, “passou a ser
inteiramente pró-guerra”. A questão não era — disse ele a seu visitante — saber se
a Itália entraria na guerra ao lado da Alemanha, mas quando. A questão do prazo
era “extremamente delicada, pois só devia intervir quando todos os preparativos
estivessem terminados, a fim de não embaraçar seu parceiro”.
Entretanto, tinha de declarar nessa ocasião, com toda a firmeza, que a
Itália não estava em situação financeira para sustentar uma guerra pro
longada. Não dispunha de meios para despender um bilhão de liras por
dia, como faziam a Inglaterra e a França.
Parece que essa observação embaraçou um pouco Ribbentrop, que procurou
fazer com que o Duce assentasse uma data para a entrada da Itália na guerra, mas
o Duce agiu com cautela para não assumir um compromisso. “Haveria de chegar o
momento”, declarou ele, “em que se definiriam as relações da Itália com a França
106 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
e a Inglaterra, isto é, em que ocorreria o rompimento” Seria fácil, acrescentou,
provocar o rompimento. Embora insistisse, Ribbentrop não conseguiu obter uma
data definitiva. Obviamente, o próprio Hitler teria que intervir pessoalmente para
isso. O ministro nazista das Relações Exteriores sugeriu, então, um encontro no
Passo de Brenner entre os dois homens na segunda quinzena de março, depois do
dia 19, com o que Mussolini concordou prontamente. Ribbentrop, incidental-
mente, não disse palavra sobre os planos de Hitler de ocupar a Dinamarca e a
Noruega. Havia certos segredos que não se deviam mencionar a um aliado, muito
embora se insistisse para que ele participasse da empresa.
Sem conseguir que Mussolini estipulasse uma data, Ribbentrop obteve dele o
compromisso de entrar na guerra. “Se ele desejava fortalecer o Eixo”, lamentou
Ciano em seu diário,4conseguiu fazê-lo.” Quando Sumner Welles, depois de visi
tar Berlim, Paris e Londres, voltou a Roma e avistou-se novamente com Mussoli
ni, em 16 de março, achou-o mudado.
Parecia ter-se desembaraçado de um grande peso [Welles escreveu mais
tarde] (...) Muitas vezes perguntei a mim mesmo se, durante as duas
semanas desde a minha visita a Roma, ele não estava resolvido a dar um
passo decisivo e se a visita de Ribbentrop não havia colaborado para
forçar a Itália a entrar na guerra.26
Welles não devia admirar-se por isso.
Assim que Ribbentrop deixou Roma em seu trem especial, o atormentado di
tador italiano viu-se presa de novas considerações. “Ele está receando”, lançou
Ciano em seu diário em 12 de março, “que se tenha adiantado muito no seu com
promisso de lutar contra os Aliados. Gostaria, agora, de dissuadir Hitler de sua
ofensiva em terra, e é isso que espera conseguir no encontro que vão ter no Passo
de Brenner.” Ciano, porém, mesmo com suas limitações, não se deixou enganar
pelos fatos. “Não se pode negar”, acrescentou no diário, “que o Duce está fascinado
por Hitler, fascinação que envolve algo profundamente enraizado em sua imagi
nação. O Führer obterá do Duce mais do que Ribbentrop conseguiu.” Era uma
verdade — com reservas, como se verá dentro em pouco.
Nem bem regressara a Berlim, Ribbentrop telefonou a Ciano, em 13 de março,
pedindo-lhe que o encontro fosse realizado mais cedo, dia 18. “Os alemães são
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 107
intoleráveis”, explodiu Mussolini. “Não dão à gente tempo para respirar ou para
pensar sobre o assunto.” Concordou, entretanto, com a data.
O Duce estava nervoso [registrou Ciano em seu diário, nesse dia]. Até
agora ele vivia sob a ilusão de que não se travaria uma verdadeira guer
ra. A perspectiva de um choque iminente, ao qual pudesse permanecer
estranho, perturba-o e, para usar suas próprias palavras, humilha-o.27
Nevava, quando os trens dos dois ditadores chegaram, na manhã de 18 de
março de 1940, à pequena estação da fronteira, no Passo de Brenner, abaixo dos
alterosos Alpes cobertos por um manto de neve. Como engodo para Mussolini, a
conferência realizou-se no seu vagão particular, mas foi Hitler quem esteve com
a palavra durante quase todo o tempo. Ciano resumiu a conferência em seu diá
rio, na noite desse dia:
A conferência foi mais um monólogo (...) Hitler falou durante todo o
tempo (...) Mussolini escutou-o com interesse e deferência. Falou pou
co e confirmou sua intenção de acompanhar a Alemanha. Reservou
para si apenas a faculdade de escolher o momento oportuno.
Ele compreendia, disse Mussolini quando finalmente pôde falar, que era “im
possível permanecer neutro até o final da guerra”. A cooperação com a Inglaterra e
a França era “inconcebível. Nós as odiamos. Portanto, é inevitável a entrada da
Itália na guerra”. Hitler despendera mais de uma hora procurando convencê-lo
disso — se a Itália não quisesse ficar ao desamparo e, como acrescentara, vir a ser
uma potência de segunda categoria.28 Não obstante ter respondido à pergunta
principal a contento do Führer; o Duce começou logo a procurar uma escapatória.
O grande problema no entanto era a data (...) Ter-se-ia que preencher
uma condição para isso. A Itália teria que estar “muito bem preparada
(...)” Sua posição financeira não lhe permitia uma guerra prolongada (...)
Perguntou ao Führer se a Alemanha não correria perigo protelando a
ofensiva. Não acreditava que houvesse tal perigo (...) teria [assim] termi
nado seus preparativos militares em três ou quatro meses e não ficaria
108 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
na embaraçosa posição de ver seu companheiro lutando e ele mesmo
limitado a fazer demonstrações (...) Desejava fazer alguma coisa e não
se achava, entretanto, em situação de fazê-lo.
O chefe nazista não tencionava protelar a ofensiva no Ocidente e declarou-o.
Tinha, entretanto, “algumas idéias teóricas” que talvez solucionassem as dificul
dades de Mussolini em desfechar um ataque frontal na parte montanhosa do sul
da França, uma vez que o conflito — a seu ver — “exigiria muito sangue”. Por que
— sugeriu — a Itália não supriria uma poderosa força que, juntamente com as
tropas germânicas, avançaria ao longo da fronteira suíça rumo ao vale do Ródano,
“a fim de desviar da retaguarda a frente franco-italiana dos Alpes?” Antes disso,
os principais exércitos alemães, naturalmente, teriam feito os franceses e britâni
cos recuarem do norte. Hitler, evidentemente, procurava facilitar as operações
para os italianos.
Quando o inimigo tivesse sido esmagado [no norte da França], seria
então o momento [prosseguiu Hitler] de a Itália intervir altivamente,
não no ponto mais difícil da frente Alpina, porém algures (...)
A guerra será decidida na França. Uma vez eliminada a França, a Itália
seria senhora do Mediterrâneo, e a Inglaterra teria que pedir a paz.
Cumpre dizer que Mussolini não demorou em perceber essa brilhante pers
pectiva de obter grandes vantagens depois que a tarefa mais dura das batalhas ti
vesse sido executada pelos alemães.
O Duce respondeu que interviria imediatamente, assim que a Alema
nha tivesse feito um avanço vitorioso (...) Não perderia tempo (...)
quando os Aliados ficassem abalados pela ofensiva alemã e apenas fos
se necessário um segundo golpe para fazê-los dobrarem os joelhos.
Por outro lado,
(...) declarou Mussolini que, se o progresso dos alemães fosse lento, ele
então esperaria.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 109
Essa barganha crua e covarde parece não ter perturbado Hitler. Se Mussolini
se sentia, intimamente, fascinado por ele, como disse a Ciano, “por alguma coisa
profundamente enraizada em sua imaginação”, poder-se-ia dizer que esse fascínio
era mútuo, pelas mesmas misteriosas razões. Desleal como fora para com alguns
de seus íntimos companheiros — alguns dos quais mandara assassinar, entre eles
Rohm e Strasser —, Hitler mantinha uma estranha e inusitada lealdade para com
seu ridículo parceiro italiano, lealdade essa que não enfraquecia e que, na verdade,
se fortalecera quando a adversidade e, depois, o desastre surpreenderam o pom
poso e frágil César romano. É um dos paradoxos interessantes desta narrativa.
Seja como for, a entrada da Itália na guerra, pelo que valia — e poucos eram os
alemães além de Hitler, especialmente entre os generais, que a julgavam de algum
valor —, foi afinal prometida solenemente. O chefe nazista pôde voltar novamen
te sua atenção para novas e iminentes conquistas. Da mais iminente — no norte
— não disse palavra a seu amigo e aliado.
Frustrados novamente os conspiradores
Mais uma vez os conspiradores antinazistas procuraram persuadir os generais
a depor o Führer — dessa vez antes que ele pudesse efetuar sua nova agressão no
norte, da qual vieram a saber por linhas transversas. O que os conspiradores civis
novamente desejavam era a garantia do governo britânico de que faria a paz com
um regime alemão antinazista, e, sendo como eram, insistiram que, em qualquer
acordo que fizessem, fosse permitido ao governo do Reich manter a maior parte
das conquistas territoriais de Hitler: a Áustria, a região dos Sudetos e a fronteira
de 1914, na Polônia, embora esta última apenas tivesse sido, no passado, obtida
pela eliminação da nação polonesa.
Foi com tal proposta que Hassell, mui corajosamente, viajou para Arosa, na
Suíça, em 21 de fevereiro de 1940, para conferenciar com um agente de contato
britânico, a quem ele chama de Mr. X em seu diário e que era um certo J. Lonsda-
le Bryans. Conferenciaram dentro do maior sigilo em quatro reuniões que efetua
ram em 22 e 23 de fevereiro. Bryans, que fizera bela figura na sociedade diplomá
tica de Roma, era outro dos que se tinham arvorado em negociadores da paz e que
citamos nesta narrativa. Tinha contatos em Downing Street, e Hassell, quando se
110 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO
encontrou com ele, teve boa impressão. Após o fracasso da tentativa do major
Stevens e do capitão Best, na Holanda, para entrarem em contato com os conspi
radores alemães, os britânicos se mostraram algo céticos quanto a toda essa ques
tão e, quando Bryans insistiu junto a Hassell que o esclarecesse de maneira fide
digna quanto aos elementos em nome dos quais ele falava, o emissário alemão
mostrou-se reservado.
“Não estou em posição de citar os nomes das pessoas que me apoiam”, respon
deu Hassell. “Somente posso garantir-lhes que uma declaração de Halifax chega
ria às mãos das pessoas certas.”29
Hassell delineou, depois, o ponto de vista da oposição alemã: compreendia-se
que Hitler devia ser derrubado “antes que se empreendessem operações militares
de grande envergadura”; isso devia ser “uma questão exclusivamente alemã”; de
via haver “uma declaração oficial inglesa” sobre a maneira pela qual um novo re
gime antinazista em Berlim seria tratado e que “o principal obstáculo a qualquer
mudança de regime é a história de 1918, isto é, o receio dos alemães de que as
coisas se desenvolvam da maneira que o fizeram depois que o Kaiser foi sacrifica
do”. Hassell e seus amigos desejavam garantias de que, se se livrassem de Hitler, a
Alemanha seria tratada mais generosamente do que fora depois que os alemães se
desembaraçaram de Guilherme II.
A essa altura, ele entregou a Bryans um memorando que ele mesmo elaborou,
em inglês. É um documento confuso, se bem que repleto de nobres sentimentos
sobre um futuro baseado “nos princípios de moral, justiça e leis cristãs, bem-estar
social e liberdade de pensamento e de consciência”. O maior perigo em continuar
“esta guerra louca”, escreveu Hassell, estava na “bolchevização da Europa”, que ele
considerava pior que a continuação do nazismo. E sua principal condição para a
paz era deixar a Alemanha com quase todas as conquistas de Hitler, as quais enu
merou. Nem mesmo se poderia discutir a anexação da Áustria e da região dos
Sudetos, em qualquer proposta de paz; a Alemanha teria que ter a fronteira de
1914 com a Polônia que, naturalmente, embora não o dissesse, era verdadeira
mente a de 1914 com a Rússia, porquanto não se permitira nesse ano que a Polô
nia existisse.
Bryans concordou em que era necessária uma ação rápida, em virtude da imi
nência da ofensiva alemã no Ocidente, e prometeu entregar o memorando de Hassell
a lorde Halifax. Hassell regressou a Berlim para informar seus companheiros de
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 111
conspiração sobre seu último passo. Embora esperassem o melhor do Mr. X de
Hassell, estavam nessa ocasião mais interessados num documento denominado
Relatório X que Hans von Dohnanyi, um dos membros do grupo na Abwehr
havia elaborado, baseado no contato do dr. Müller, com os britânicos, no Vatica
no.* Dizia o relatório que o papa se achava disposto a intervir junto aos britânicos
para tratar de uma paz razoável com um novo governo antinazista, e pode-se
medir a opinião dos adversários de Hitler pelo fato de que uma de suas condições,
que pretendiam fossem apoiadas pelo santo padre, era “a solução da questão do
leste em favor da Alemanha”. O demoníaco ditador nazista obtivera a solução
no leste “em favor da Alemanha” por uma agressão armada; os interessantes cons
piradores alemães desejavam que a mesma coisa lhes fosse concedida pelos britâ
nicos com as bênçãos do papa.
O Relatório X agigantou-se no espírito dos conspiradores nesse inverno de
1939-1940. No fim de outubro, o general Thomas mostrou-o a Brauchitsch com a
intenção de animar o comandante-em-chefe do exército a dissuadir Hitler do desen-
cadeamento da ofensiva no Ocidente, naquele outono. Mas Brauchitsch não apre
ciou esse encorajamento. De fato, ameaçou mandar prender o general Thomas, se
levantasse novamente a questão. Era “simplesmente alta traição”, gritou-lhe.
Com uma nova agressão nazista à vista, Thomas levou o Relatório X ao general
Halder com esperança de que ele pudesse tomar uma decisão. Foi, porém, uma
esperança vã. Conforme o chefe do Estado-maior geral informou a Goerdeler, um
dos mais ativos conspiradores — que também lhe pediu que liderasse o movimen
to, uma vez que o desfibrado Brauchitsch não queria —, ele não podia, nessa oca
sião, justificar a quebra de seu voto de lealdade para com o Führer. Além disso
a Inglaterra e a França haviam declarado guerra contra nós, e tínhamos
de ir até o fim. Aceitar o compromisso de uma paz era insensato. So
mente na maior das emergências se poderia tomar a decisão desejada
por Goerdeler.
“AlsOy doch /” — exclamou Hassell em seu diário, em 6 de abril de 1940, ao re
gistrar o estado de espírito de Halder conforme lhe fora comunicado por Goerdeler.
“Halder”, acrescentou, “que começara a chorar durante a discussão que, sob sua
* Ver p. 51.
112 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
responsabilidade, se travou, dava a impressão de um homem fraco, cujos nervos
estivessem completamente esfrangalhados.”
É duvidoso que tal impressão seja exata. Quando se examina o diário de Hal
der durante aquela primeira semana de abril, repleto de centenas de minuciosos
registros acerca dos preparativos para a gigantesca ofensiva no Ocidente, em cuja
orientação auxiliava, a impressão que se tem, pelo menos o autor deste livro, é que
o chefe do Estado-maior geral se achava em alegre disposição quando conferen-
ciava com os comandantes das forças e examinava os planos finais para a maior e
a mais ousada operação militar na história da Alemanha. Não se percebe, em seu
diário, qualquer alusão a uma idéia de traição ou a uma luta com sua consciência.
Posto que tivesse apreensões acerca do ataque contra a Dinamarca e a Noruega,
baseavam-se elas puramente em razões de ordem militar. Não há uma palavra de
dúvida sobre o ponto de vista moral da agressão nazista aos quatro pequenos
países neutros, cujas fronteiras a Alemanha havia solenemente garantido e que
estava prestes a atacar, e contra duas das quais, a Bélgica e a Holanda, ele mesmo
exercera o principal papel na elaboração dos planos.
Terminou assim a última tentativa dos “bons alemães” para derrubar Hitler
antes que fosse tarde demais. Fora a última oportunidade que teriam para obter
uma paz generosa. Os generais, conforme Brauchitsch e Halder deixaram bem
claro, não estavam interessados em paz negociada. Pensavam agora, da mesma
maneira que o Führer; numa paz ditada por eles — ditada depois da vitória da
Alemanha. Somente depois que as probabilidades dessa vitória começaram a en
fraquecer, voltaram eles a suas antigas idéias de traição, as quais haviam sido tão
fortes em Munique e Zossen, de eliminar o louco ditador. Cumpre lembrar-se
desse estado de espírito e de caráter, dados os acontecimentos subseqüentes e o
desgaste dos mitos que depois se processou.
Conquista da Dinamarca e da Noruega
Os preparativos de Hitler para a conquista da Dinamarca e da Noruega foram
chamados, por muitos escritores, um dos segredos mais bem guardados da guer
ra, mas pareceu ao autor deste livro que os dois países escandinavos foram apa
nhados desprevenidos, não porque não tivessem sido avisados do que estava para
vir, mas por não terem, nesse tempo, acreditado nas advertências.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 113
Dez dias antes do golpe, o coronel Oster, da Abwehr, avisou um amigo muito
chegado, o coronel J. G. Sas, adido militar da embaixada holandesa em Berlim,
dos planos alemães para o Weserübung, tendo Sas informado imediatamente o
adido naval dinamarquês, capitão Kjõlsen.30 O complacente governo dinamar
quês, contudo, não quis acreditar em seu próprio adido naval; e quando, em 4 de
abril, o ministro dinamarquês em Berlim mandou Kjõlsen, às pressas, a Copenha-
gue, para retransmitir pessoalmente a notícia, ainda não a levaram a sério. Mes
mo à véspera da catástrofe, na noite de 8 de abril, após ter sido recebida a infor
mação de que um navio-transporte alemão, repleto de soldados, havia sido
torpedeado ao sul da costa da Noruega — mesmo ao norte da Dinamarca — e
tivessem os dinamarqueses visto, com seus próprios olhos, uma grande armada
alemã navegando ao norte, entre suas ilhas, o rei da Dinamarca repudiou, com
um sorriso, uma observação que fizeram por ocasião de um jantar, a de que seu
país estava em perigo.
“Ele não acreditava verdadeiramente nisso”, relatou mais tarde um oficial da
guarda que lá se achava presente. De fato, informou o oficial, depois do jantar o rei
seguiu para o Teatro Real muito confiante e com alegre disposição de espírito.31
Já em março, o governo norueguês recebeu informação de sua legação em
Berlim e dos suecos sobre uma concentração de tropas e navios da marinha de
guerra alemã nos portos do mar do Norte e do dos portos bálticos. Em 5 de abril,
chegaram de Berlim notícias definidas sobre iminentes desembarques alemães na
costa meridional da Noruega. Todavia, o complacente gabinete, em Oslo, mante
ve-se cético. Nem mesmo no dia 7, quando vários grandes navios de guerra ale
mães foram avistados subindo ao longo da costa norueguesa e chegaram notícias
de aviões britânicos metralhando uma frota de batalha alemã ao largo da embo
cadura do Skagerrak; nem mesmo em 8 de abril, quando o almirante inglês infor
mou a legação da Noruega em Londres que uma poderosa força naval fora desco
berta aproximando-se de Narvik, e os jornais, em Oslo, relataram que soldados
alemães, salvos do transporte Rio de Janeiro, torpedeado nesse dia ao largo da
costa norueguesa, em Lillesand, por um submarino polonês, haviam declarado
que eles estavam a caminho de Bergen para defendê-la contra os britânicos —
considerou o governo norueguês necessário tomar providências, como se tornava
evidente, tais como mobilização do exército, completo guarnecimento dos fortes
que defendiam os portos, bloqueio das pistas dos aeródromos ou, o mais importante
114 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
de tudo, lançamento de minas que facilmente poderia ser feito nas estreitas águas
que davam acesso à capital e às primeiras cidades. Tivessem-no feito, e a história
teria tomado feição diferente.
Notícias tétricas, conforme disse Churchill, começaram a chegar em Londres
em 1- de abril. Em 3 de abril, o gabinete de guerra inglês discutiu as últimas notí
cias do serviço secreto, principalmente as que procediam de Estocolmo, as quais
denunciavam a concentração de poderosas forças militares alemãs em seus portos
setentrionais com o objetivo de desembarcarem na Escandinávia. Mas, ao que
parece, as notícias não foram consideradas seriamente. Dois dias depois, em 5 de
abril, quando a primeira onda de navios alemães de abastecimento já se achava no
mar, o primeiro-ministro Chamberlain proclamou, num discurso, que Hitler, ao
deixar de atacar no Ocidente, quando os britânicos e franceses não se encontra
vam preparados, havia “perdido a oportunidade” — uma frase da qual logo have
ria de arrepender-se.*
O governo inglês, nessa ocasião, segundo Churchill, estava propenso a acredi
tar que a concentração alemã nos portos do Báltico e do mar do Norte estava
sendo feita somente para possibilitar a Hitler um contra-ataque, no caso de os
britânicos, minando as águas norueguesas para cortar os embarques de minério
de Narvik, ocuparem também esse porto e talvez outros ao sul.
Na realidade, o governo britânico pensava nessa ocupação. Após sete meses de
frustrações, Churchill, primeiro-lorde do almirantado, finalmente obteve do ga
binete de guerra do conselho supremo de guerra dos Aliados aprovação para mi
nar as estreitas águas norueguesas em 8 de abril — operação denominada Wil-
fred. Como parecia provável que os alemães reagissem violentamente a esse golpe
mortal, de ficar com seus suprimentos de minério de Narvik cortados, decidiu-se
que uma pequena força anglo-francesa fosse enviada para Narvik e avançasse
para a fronteira sueca que ficava próxima. Outros contingentes seriam desembar
cados em Trondheim, Bergen e Stavanger, mais ao sul, a fim de — conforme
Churchill explicou — “impedir que essas bases ficassem em mãos do inimigo”.
Essa operação era conhecida pela designação de Plano R-4.32
Assim, durante a primeira semana de abril, enquanto as tropas alemãs estavam
sendo carregadas em vários barcos de guerra para a travessia, rumo à Noruega,
* Os três primeiros navios alemães de abastecimento partiram para Narvik às 2h do dia 3 de abril. O
maior navio-tanque alemão zarpou de Murmansk para Narvik em 6 de abril, com a conivência dos
russos que prazerosamente forneceram a carga de combustível.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 115
tropas britânicas, ainda que em número muito menor, estavam sendo embarcadas
em transportes no Clyde e em cruzadores, no Forth, para o mesmo destino.
Na tarde de 2 de abril, Hitler, após uma longa conferência com Gõring, Ráder
e Falkenhorst, expediu uma diretiva formal ordenando que começassem a
Weserübung às 5:15h de 9 de abril. Expediu, ao mesmo tempo, outra diretiva es
tipulando que “se devia impedir, a todo custo, a fuga dos reis da Dinamarca e da
Noruega de seus países por ocasião da ocupação”.33Nesse dia também o OKW pôs
o Ministério das Relações Exteriores a par do segredo. Uma longa diretiva foi
apresentada a Ribbentrop, dando-lhe instruções para preparar medidas diplo
máticas induzindo a Dinamarca e a Noruega a se renderem sem luta assim que as
forças armadas tivessem chegado e para que inventasse qualquer justificativa para
a última agressão de Hitler.34
O embuste, porém, não ficaria limitado ao Ministério das Relações Exteriores.
A marinha de guerra recorreria também a ele. Em 3 de abril, com a partida dos
primeiros navios, Jodl, em seu diário, refletiu sobre o problema de como poderia
enganar os noruegueses no caso de virem a suspeitar da presença de tantos barcos
de guerra alemães em suas vizinhanças. Essa pequena questão, na verdade, já fora
elaborada pela marinha de guerra. A marinha dera instruções aos navios de guer
ra e de transporte para que procurassem passar como barcos britânicos — mesmo
que fosse necessário hastear a Union Jacki Ordens secretas da marinha traçavam
instruções minuciosas para “encobrir e camuflar a invasão da Noruega”.35
SECRETÍSSIMO
Conduta durante a entrada no porto
Todos os navios mergulhados na escuridão (...) Deve-se mantê-los dis
farçados em barcos britânicos o maior tempo possível. Todas as inter
pelações dos navios noruegueses serão respondidas em inglês. Ao res
ponder, observar-se-á algo mais ou menos parecido com o seguinte:
“Passando por Bergen para uma pequena visita. Nenhuma intenção
hostil.”
(...) As interpelações devem ser respondidas com nomes dos encoura-
çados britânicos:
Kõln — H.M.S. Cairo
Kõnigsberg — H.M.S. — Calcutta (...) [etc.]
1 16 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Deve-se providenciar para que as bandeiras inglesas sejam iluminadas (...)
Para Bergen (...) O que se segue é para orientação, caso uma de nossas
unidades se veja obrigada a responder às interpelações de algum barco
que passar:
Para interpelar: [no caso do Kõln] H.M.S. Cairo.
Ordenar para parar: “[1] Favor repetir o último sinal. [2] Impossível
compreender seu sinal.”
No caso de um tiro de advertência: “Cesse fogo. Navio britânico. Bom
amigo.”
No caso de perguntarem qual o destino e objetivo: “Indo para Bergen.
Perseguindo barcos alemães.”*
E assim, em 9 de abril de 1940, às 5:20h, precisamente (4:20h na Dinamarca),
uma hora antes do alvorecer, os emissários alemães em Copenhague e Oslo, ten
do arrancado do leito os respectivos ministros das Relações Exteriores vinte mi
nutos antes (Ribbentrop insistira num horário estrito, em coordenação com a
chegada das tropas alemãs àquela hora), apresentaram aos governos da Dinamar
ca e Noruega o ultimato da Alemanha exigindo que aceitassem, naquele instante,
e sem resistência, “a proteção do Reich”. O ultimato foi talvez o mais importante
documento até então composto por Hitler e Ribbentrop, que nisso eram grandes
artistas e já muito experimentados em ardis diplomáticos.37
Depois de declarar que o Reich tinha vindo em auxílio da Dinamarca e da
Noruega, para proteger ambos os países contra uma ocupação anglo-francesa, o
memorando dizia que:
As tropas alemãs, portanto, não descem em solo norueguês como ini
migas. O Alto-Comando não pretende utilizar-se dos pontos ocupados
pelas tropas alemãs como bases para operações contra a Inglaterra en
quanto não for forçado a isso (...) Ao contrário, as operações militares
da Alemanha visam, exclusivamente, proteger o norte contra a proje
tada ocupação das bases norueguesas pelas forças anglo-francesas.
* Depondo perante o tribunal de Nuremberg, o almirante Ráder justificou tais táticas com o fundamen
to de que era um legítimo "estratagema de guerra, contra o qual, do ponto de vista legal, não se pode
fazer objeção"36
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 117
(...) Dentro do espírito das boas relações que têm existido até agora
entre a Alemanha e a Noruega, o governo do Reich declara ao governo
real da Noruega que a Alemanha não tenciona infringir, com suas me
didas, a integridade territorial e a independência política do reino da
Noruega, agora ou no futuro (...)
O governo do Reich espera, portanto, que o governo norueguês e o povo
(...) não ofereçam resistência a ele. Qualquer resistência teria que ser, e
seria, quebrada por todos os meios possíveis (...) e somente poderia,
pois, conduzir a um derramamento de sangue absolutamente inútil (...)
As expectativas dos alemães provaram ser justificadas quanto à Dinamarca,
não, porém, quanto à Noruega. Isso se tornou conhecido na Wilhelmstrasse com
as primeiras mensagens urgentes que receberam dos ministros naqueles países.
O emissário alemão em Copenhague telegrafou a Ribbentrop às 8:34h, dizendo
que os dinamarqueses haviam “aceitado todas as nossas exigências [embora] re
gistrassem um protesto”. O ministro Curt Bráuer, em Oslo, tinha uma informa
ção completamente diferente para dar. Às 5:52h, justamente 32 minutos depois
de ser entregue o ultimato alemão, telegrafou a Berlim a pronta resposta do go
verno norueguês: “Não nos submetemos voluntariamente: a luta já se acha em
progresso.”38
O arrogante Ribbentrop sentiu-se ultrajado.* Às 10:55h telegrafou urgentíssi-
mamente a Bráuer: “Queira enfatizar mais uma vez ao governo, aí, que a resistên
cia da Noruega é completamente insensata.”
Foi o que o infeliz emissário alemão não pôde mais fazer. O rei, o governo e os
membros do parlamento da Noruega, nessa ocasião, haviam deixado a capital e
* Raras foram as vezes em que o autor viu o ministro das Relações Exteriores nazista mais insuportá
vel do que naquela manhã. Pavoneou-se perante a imprensa, numa entrevista especialmente convo
cada para seu gabinete, envergando um brilhante uniforme cinzento de campanha e parecendo —
anotei em meu diário — "que era o senhor da terra". Declarou ele: "O Führer já respondeu (...) A
Alemanha ocupou o solo da Dinamarca e da Noruega a fim de proteger esses países contra os Aliados,
e defenderá sua verdadeira neutralidade até o fim da guerra. Salvou-se, assim, de uma ruína certa,
uma ilustre parte da Europa"
Era de se verem também os jornais de Berlim nesse dia. O Bõrsenzeitung:“IK Inglaterra tripudia friamen
te sobre os cadáveres dos pequenos povos. A Alemanha protege os estados fracos contra os assaltan
tes de estrada ingleses (...) A Noruega "deve reconhecer a justiça das medidas da Alemanha, as quais
foram tomadas para assegurar a liberdade do povo norueguês." O próprio jornal de Hitler, o Võlkischer
Beobachter, trazia a seguinte manchete: "A Alemanha salva a Escandinávia!"
1 18 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
voado para as montanhas, no norte. Por mais impossível que fosse a luta, eles es
tavam determinados a resistir. De fato, já havia começado a resistência em alguns
lugares, com a chegada dos navios alemães na escuridão da noite.
Os dinamarqueses estavam em situação mais desesperadora. Seu país, uma
agradável ilha, não podia defender-se. A ilha era muito pequena, de superfície
demasiado plana, e a região maior — Jutlândia — jazia aberta por terra aos pa n -
zers de Hitler. Não havia montanhas para onde o rei e o governo pudessem fugir,
como era o caso da Noruega, nem podiam esperar qualquer auxílio da Inglaterra.
Tem-se dito que os dinamarqueses eram demasiadamente civilizados para lutar
em tais circunstâncias; seja como for, não lutariam. O general W. W. Pryor, co
mandante-em-chefe do exército, foi quem, quase sozinho, pleiteou que se opuses
se resistência; seu apelo, porém, foi rejeitado pelo primeiro-ministro Thorvald
Stauning, pelo ministro das Relações Exteriores Edvard Munch e pelo rei, o qual,
quando chegaram as más notícias em 8 de abril, recusou seus apelos no sentido de
ser decretada a mobilização. Por motivos ainda obscuros ao autor, mesmo após
uma investigação feita em Copenhague, a marinha não disparou um tiro, quer de
seus navios quer de suas baterias de terra, nem mesmo quando os navios de tro
pas alemães passaram sob o nariz de seus canhões e podiam ter sido destruídos.
O exército fez algumas escaramuças na Jutlândia, a guarda-real disparou alguns
tiros ao redor do palácio, na capital, e teve alguns feridos. À hora em que os dina
marqueses haviam terminado sua substanciosa refeição matinal, tudo já estava
terminado. O rei, a conselho do governo, contra, porém, o do general Pryor, capi
tulou e ordenou que qualquer leve resistência cessasse.
Os planos para tomar a Dinamarca de surpresa e por meio de um estratagema,
conforme demonstram os documentos apreendidos ao exército alemão, foram
preparados com meticuloso cuidado. O general Kurt Himer, chefe do Estado-
maior da força de tarefa destinada à tomada da Dinamarca, havia chegado de
trem, em trajes civis, em Copenhague, no dia 7 de abril, para proceder ao reco
nhecimento da capital e fazer os arranjos necessários para que o navio-transporte
de tropas Hansestadt D antzig pudesse ter um ancoradouro conveniente e para
arranjar um caminhão destinado ao transporte de suprimentos e um transmissor
de rádio. O comandante do batalhão — tudo isso foi considerado necessário para
tomar a grande cidade — estivera também em Copenhague, usando roupas civis,
dois dias antes, a fim de obter o traçado da região.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 119
Não era, portanto, tão estranho que os planos do general e do comandante do
batalhão fossem executados quase sem empecilho. O navio-transporte de tropas
chegou ao largo de Copenhague pouco antes do alvorecer, passou sem interpela
ção pelos canhões do forte que protegiam o porto e os barcos patrulha dinamar
queses, e atracou no cais da Langelinie, no coração da cidade, à pequena distân
cia da Cidadela, quartel-general do exército dinamarquês, e a uma distância
também pequena do palácio Amalienborg, onde residia o rei. Ambos foram ra
pidamente tomados por aquele batalhão isolado, sem que houvesse resistência
digna de menção.
No pavimento superior do palácio, em meio ao pipocar dos tiros dispersos, o
rei conferenciou com os ministros. Todos eles opinaram para que não se resistisse.
Somente o general Pryor foi quem pediu permissão para travar a luta. Pediu, de
pois, ao rei que, pelo menos, partisse para Hvelte, o acampamento militar mais
próximo, para não ser capturado. Mas o rei concordou com seus ministros. Se
gundo uma testemunha ocular, perguntou “se nossos soldados haviam lutado
bastante tempo”, ao que Pryor respondeu que não.*39
O general Himer impacientou-se com a demora. Telefonou para o quartel-
general, recomendando a realização da operação em conjunto — a qual havia sido
preparada em Hamburgo (as autoridades dinamarquesas não haviam ainda pen
sado em cortar as linhas telefônicas ligadas à Alemanha) — e, segundo sua pró
pria versão,40 solicitou a remessa de alguns bombardeiros para sobrevoar Cope
nhague “a fim de forçar os dinamarqueses a aceitar as exigências alemãs”. A
conversação foi feita em código, e a Luftwaffe compreendeu que Himer estava
pedindo que realizassem um bombardeio, coisa que ela prometeu fazer imediata
mente — engano que, finalmente, foi corrigido a tempo. Diz o general Himer que
os bombardeiros, “sobrevoaram ruidosamente a capital dinamarquesa, não deixa
ram de causar impressão: o governo aceitou as exigências alemãs”.
Houve certa dificuldade em descobrir um meio de irradiar para as tropas
dinamarquesas a capitulação do governo, pois as estações de rádio locais não es
tavam ainda no ar àquela hora da manhã. Solucionou-se a questão irradiando-a
nas ondas longas dinamarquesas pelo transmissor que o batalhão alemão trouxe
ra consigo, e para o qual o general Himer havia, pensadamente, arranjado um
caminhão para transportar à Cidadela.
* O total das baixas dinamarquesas, em todo o reino, foi de 13 mortos e 23 feridos. As baixas alemães
foram em torno de vinte.
120 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Às 14h daquele dia, o general Himer, acompanhado do ministro alemão Cecil
von Renthe-Fink, visitou o rei da Dinamarca, que já não era o soberano, embora
ainda não soubesse. Himer deixou um registro dessa entrevista nos arquivos se
cretos do exército.
Aquele rei de 70 anos de idade parecia, no íntimo, abaladíssimo, se bem
que sua aparência fosse perfeita; manteve, durante a audiência, absoluta
dignidade. Todo o seu corpo tremia. Declarou que ele e seu governo
tudo fariam para manter a paz e a ordem no país e para eliminar qual
quer atrito entre as tropas alemãs e o povo. Desejava poupar à pátria
infortúnios e sofrimentos.
O general Himer respondeu que, pessoalmente, lamentava bastante ir à
sua presença com tal missão, mas que estava cumprindo seu dever de
soldado (...) Fomos como amigos, etc. Quando o rei perguntou se podia
manter sua guarda, o general Himer respondeu (...) que o Führer per
mitiria, sem dúvida, que a mantivesse. Não tinha dúvidas a respeito.
O rei mostrou-se visivelmente aliviado ao ouvir isso. No decurso da
audiência (...) o rei ficou mais à vontade e, ao terminá-la, dirigiu-se ao
general Himer com as seguintes palavras: “General, permite que eu,
como velho soldado, lhe diga uma coisa? De soldado para soldado? Os
senhores, alemães, fizeram novamente uma coisa inacreditável! Deve-
se admitir que é um magnífico trabalho!”
Durante quase quatro anos, até o momento em que mudou a maré da guerra,
o rei da Dinamarca e seu povo, uma raça de boa índole, despreocupada e civiliza
da, poucas dificuldades ofereceram aos alemães. A Dinamarca tornou-se conhe
cida como “protetorado-modelo”. O monarca, o governo, os tribunais, até mesmo
o parlamento e a imprensa, receberam de seus conquistadores, a princípio, um
surpreendente grau de liberdade. Nem mesmo os sete mil judeus dinamarqueses
foram molestados — durante certo tempo. Mas os dinamarqueses, depois de
muitos outros povos que haviam sido conquistados, compreenderam finalmente
que era impossível a “cooperação leal”, como a chamavam, com seus tiranos teu-
tônicos, cuja brutalidade aumentava com os anos e com os reveses da guerra, se
tivessem que manter qualquer sombra de respeito próprio e honra. Começaram
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 121
também a compreender que a Alemanha não poderia afinal ganhar a guerra, e
que a pequena Dinamarca não estava inexoravelmente condenada, como tantos
temiam a princípio, a ser um Estado-vassalo na inqualificável Nova Ordem. Foi
então que começou a resistência.
Resistem os noruegueses
A resistência começou na Noruega desde o início do ataque, se bem que não o
fosse por toda parte. Em Narvik, porto e estação da linha ferroviária do transpor
te do minério de ferro da Suécia, o coronel Konrad Sundlo, que comandava a
guarnição local e que, conforme vimos, era um fanático adepto de Quisling,* ren
deu-se aos alemães sem disparar um tiro. Já o comandante naval era diferente. Ao
aproximarem-se da embocadura do comprido fiorde dez destróieres alemães, o
Eidsvold, um dos dois antigos encouraçados, no porto, disparou um tiro de adver
tência e fez sinal aos destróieres para que se identificassem. O contra-almirante
Fritz Bonte, que comandava a flotilha alemã, respondeu enviando um oficial
numa lancha ao barco norueguês, para exigir a rendição. Houve nisso certa trai
ção por parte dos alemães, embora os oficiais navais alemães tenham, mais tarde,
defendido o seu ato com o argumento de que, na guerra, a necessidade não tem
lei. Quando o oficial, da lancha, fez sinal ao almirante alemão de que os noruegue
ses haviam declarado que resistiriam, Bonte apenas esperou que a lancha se pu
sesse fora do caminho e fez explodir o Eidsvold com torpedos. O segundo encou-
raçado norueguês, o Norge, abriu então fogo, mas foi rapidamente destruído.
Trezentos marinheiros noruegueses — quase toda a tripulação dos dois barcos
— pereceram. Às 8h, Narvik estava em poder dos alemães, tomada por dez des
tróieres que passaram despercebidos por uma formidável frota britânica, e foi
ocupada por apenas dois batalhões de soldados nazistas sob o comando do gene-
ral-brigadeiro Eduard Dietl, um velho companheiro de Hitler, na Baviera, desde
os tempos do Putsch na cervejaria, que ia provar mais tarde ser um comandante
corajoso e cheio de recursos quando as coisas se tornassem duras em Narvik,
como aconteceu a partir do dia seguinte.
Trondheim, a meio caminho da longa costa ocidental da Noruega, foi tomada
pelos alemães quase com a mesma facilidade. As baterias do porto deixaram de
* Ver p. 88.
122 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
atirar contra os navios alemães conduzidos pelo cruzador pesado Hipper, ao apro
ximarem-se eles do comprido fiorde. As tropas que vinham a bordo desse navio e
de quatro destróieres desembarcaram comodamente no cais, sem interferência.
Alguns fortes resistiram umas poucas horas e o aeródromo próximo, em Vaernes,
dois dias; mas essa resistência não afetou a ocupação de um belo porto muito
conveniente para a estadia de grandes barcos de guerra e de submarinos; e impor
tante estação ferroviária de uma linha que atravessava o centro e o norte da No
ruega em demanda da Suécia e pela qual os alemães esperavam, com certa razão,
receber suprimentos, caso os ingleses os bloqueassem no mar.
Bergen, o segundo porto e a segunda cidade da Noruega, situada cerca de 480
quilômetros ao sul de Tromdheim, na costa, e ligada a Oslo, a capital, por estrada
de ferro, opôs alguma resistência. As baterias que protegiam o porto danificaram
bastante o cruzador Kõnigsberg e um navio auxiliar, mas as tropas de outros bar
cos desembarcaram a salvo e ocuparam cidade antes do meio-dia. Foi em Bergen
que chegou a primeira ajuda direta dos ingleses para os aturdidos noruegueses.
À tarde, 15 bombardeiros navais de mergulho puseram a pique o Kõnigsberg , o
primeiro barco desse porte a ir ao fundo como resultado de um ataque aéreo.
Fora do porto, os ingleses tinham uma poderosa frota de quatro cruzadores e
sete destroéieres, a qual podia ter subjugado a pequena força naval alemã. Ela ia
entrar no porto, quando recebeu ordens do almirantado para suspender o ata
que, por causa do perigo que corria com as minas e um bombardeio pelo ar, de
cisão da qual Churchill participara e que lamentou depois. Foi o primeiro sinal
de cautela e de meias medidas que ia custar caro aos ingleses nos dias cruciantes
que se seguiram.
O aeródromo de Sola, próximo ao porto de Stavanger, na costa sudoeste, foi
tomado por pára-quedistas alemães depois que as plataformas de metralhado
ras — não havia verdadeiramente proteção de canhões antiaéreos — foram si
lenciadas. Era o maior aeródromo da Noruega e, estrategicamente, o mais im
portante para a Luftwaffe, porque dali os bombardeiros podiam ser lançados
não só contra a frota britânica ao longo da costa norueguesa, como, também,
contra as principais bases navais no norte da Inglaterra. Sua conquista deu aos
alemães imediata supremacia nos ares, na Noruega, e afastou qualquer tentativa
dos ingleses de desembarcar forças substanciais.
Kristiansand, na costa meridional, opôs considerável resistência aos alemães;
suas baterias duas vezes fizeram recuar uma frota inimiga dirigida pelo cruzador
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 123
leve Karlsruhe. Mas os fortes foram logo silenciados pelo bombardeio da Luft-
waffe, tendo o porto sido ocupado no meio da tarde. O Karlsruhe , porém, ao
deixar o porto nessa noite, foi atingido por um torpedo de um submarino britâni
co e ficou tão seriamente avariado que teve de ser afundado.
Ao meio-dia ou logo depois, as cinco principais cidades e portos da Noruega
e um grande aeródromo, ao longo da costa ocidental e da costa sul que se esten
dem por 2.400 quilômetros desde Skagerrak até o Ártico, estavam em mãos dos
alemães. Foram conquistados por um contingente de tropas transportado por
uma armada muito inferior à da Inglaterra. A ousadia, o estratagema e a surpresa
deram a Hitler uma retumbante vitória por um preço muito baixo.
Mas em Oslo, a principal presa, a força militar e a diplomacia do Führer de
frontaram-se com dificuldades inesperadas.
Durante toda a gélida noite de 8-9 de abril, um alegre grupo de recepção da
legação alemã, dirigido pelo capitão Schreiber, adido naval, a quem, por acaso, se
juntou o atarefadíssimo dr. Bráuner, o ministro, achava-se no cais do porto de
Oslo esperando a frota e os navios-transporte alemães. Um adido naval secundá
rio percorria a baía numa lancha, esperando agir como piloto para a frota, que
era dirigida pelo encouraçado de bolso Lützou (cujo nome anterior era Deuts-
chland e foi depois mudado, porque Hitler não queria correr o risco de perder
um navio com aquele nome) e pelo novíssimo cruzador pesado Blücher; a nau
capitânea da frota.
Esperaram em vão. Os grandes navios não chegaram. Tinham sido interpela
dos na entrada do fiorde de Oslo, de oitenta quilômetros de extensão, pelo navio
lança minas Olav Trygverson, que pôs a pique um barco alemão e danificou o
cruzador leve Emden. Após desembarcar uma pequena força para subjugar as ba
terias da costa, a frota alemã prosseguiu seu avanço pelo fiorde. Em certo ponto,
distante de Oslo uns 24 quilômetros, onde as águas se estreitavam, surgiram no
vas dificuldades. Erguia-se ali a antiga fortaleza de Oskarsborg, cujos defensores
estavam mais alerta do que os alemães suspeitavam. Pouco antes do alvorecer, os
canhões Krupp de 28 centímetros abriram fogo contra o Lützou e o Blücher, e
torpedos foram também lançados da costa. O Blücher, de 10 mil toneladas, incen
diado e despedaçado pela explosão de suas munições, foi ao fundo com a perda
de 1.600 homens, incluindo vários membros da Gestapo e funcionários adminis
trativos (com todos os seus documentos), os quais deviam prender o rei e os
124 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
membros do governo e assumir a administração da capital. O Lützou foi também
danificado, não, porém, completamente imobilizado. O contra-almirante Oskar
Kummetz, comandante da frota, e o general Erwin Engelbrecht, que dirigia a 163â
Divisão de infantaria — que se achavam no Blücher — conseguiram chegar a
nado à costa, onde foram feitos prisioneiros pelos noruegueses. A mutilada frota
alemã retrocedeu imediatamente, para se aliviar um pouco dos estragos. Falhara
em sua missão de conquistar o principal objetivo dos alemães, a capital da Norue
ga. Só conseguiram no dia seguinte.
A queda de Oslo, na realidade, verificou-se ante uma força fantasma de pára-
quedistas alemães lançados sobre o desprotegido aeroporto local. As notícias ca
tastróficas procedentes de outros portos e o martelar dos canhões, 24 quilômetros
abaixo do fiorde de Oslo, fizeram a família real norueguesa, o governo e os mem
bros do parlamento deixarem a capital às pressas, num trem especial, às 9:30h, e
rumarem para Hamar, 128 quilômetros ao norte. Vinte caminhões com o ouro do
Banco da Noruega e três outros com os documentos secretos do Ministério das
Relações Exteriores partiram à mesma hora. A valorosa ação da guarnição de
Oskarsborg frustrou, assim, os planos de Hitler de apoderar-se do rei, do governo
e do ouro da Noruega.
Oslo, porém, ficou completamente confusa. Havia ali algumas tropas norue
guesas, mas não foram colocadas em posição de defesa. Ademais, nada se fizera
para bloquear o aeroporto nas imediações de Fornebu, o que podia ter sido feito
com alguns automóveis velhos estacionados ao longo da pista e em torno do cam
po. A altas horas da noite anterior, o capitão Spiller, adido da aeronáutica alemã
em Oslo, ali permanecera para receber as tropas aerotransportadas que deviam
chegar depois que os barcos da marinha de guerra chegassem à cidade. Como não
haviam aparecido, a legação, extremamente inquieta, transmitiu um rádio a Ber
lim informando sobre a inesperada e desastrosa situação. A resposta foi imediata.
Logo desciam em Fornebu pára-quedistas e tropas de infantaria aerotranspor
tadas. Por volta do meio-dia, cinco companhias já se achavam reunidas. Como
estavam apenas equipadas com armas leves, podiam ter sido facilmente destruí
das pelas forças norueguesas da capital. Mas, por motivos ainda não esclarecidos
— tão grande era a confusão em Oslo — não foram concentradas e muito menos
coordenadas, e a simbólica infantaria alemã marchou para a capital atrás de uma
retumbante e improvisada banda militar. Caiu assim a última das cidades da No
ruega; não, porém, o país. Este ainda estava de pé.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 125
Na tarde de 9 de abril o Storting — Parlamento norueguês — reuniu-se em
Hamar com apenas cinco dos seus duzentos membros, mas suspendeu a sessão às
19:30h, quando chegaram notícias de que as tropas alemãs se aproximavam da
cidade. Passaram então para Elverum, poucos quilômetros a leste, na fronteira
sueca. O dr. Bráuer, instado por Ribbentrop, pediu uma audiência imediata com
o rei. O primeiro-ministro norueguês concordou, sob a condição de as tropas
alemãs, como medida de segurança, permaneceram a certa distância. Com isso
não concordou o ministro alemão.
Na verdade, mais uma traição nazista se preparava naquele momento. O capi
tão Spiller, adido da aeronáutica, havia partido do aeroporto de Fornebu para
Hamar com duas companhias alemãs de pára-quedistas a fim de capturar o recal-
citrante monarca e o governo. Isso parecia-lhes mais um divertimento do que
qualquer outra coisa. Como as tropas norueguesas não haviam disparado um tiro
para impedir a entrada dos alemães em Oslo, Spiller não esperava encontrar resis
tência em Hamar. De fato, as duas companhias, viajando em ônibus, tinham a
impressão de estarem fazendo um passeio turístico. Mas não contavam com um
oficial do exército norueguês que agiu de maneira diferente da de muitos outros.
O coronel Ruge, inspetor-geral da infantaria, que acompanhara o rei para o norte,
insistira em prover certa proteção ao governo fugitivo e instalara uma barricada
nas imediações de Hamar e ali ficara com dois batalhões de infantaria que conse
guira reunir às pressas. O avanço dos alemães foi detido e, numa escaramuça que
se seguiu, Spiller ficou mortalmente ferido. Após sofrer novas baixas, os alemães
retrocederam para Oslo.
No dia seguinte, o dr. Bráuer partiu sozinho de Oslo pela mesma estrada, a fim
de se encontrar com o rei. Diplomata profissional da velha escola, o ministro ale
mão apreciou muito o seu papel, mas Ribbentrop insistira fortemente com ele
para que convencesse o rei e o governo a se render. A difícil tarefa de Bráuer
complicou-se ainda mais, dados certos acontecimentos políticos que acabavam de
verificar-se em Oslo. Na noite anterior, Quisling pusera-se finalmente em ativi
dade, assim que a capital ficou firmemente em mãos dos alemães: invadiu a esta
ção de rádio e irradiou uma proclamação nomeando-se chefe do novo governo e
ordenando que, na Noruega, cessasse toda resistência. Embora Bráuer não pu
desse compreender ainda tal situação — e nem Berlim a compreendeu depois —,
esse ato de traição condenou os esforços dos alemães para induzir a Noruega a
126 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
capitular. E, paradoxalmente, se bem que fosse aquele um momento em que toda
a nação se envergonhava com a traição de Quisling, esse gesto uniu os estupefatos
noruegueses para uma resistência que se tornaria formidável e heróica.
O dr. Brãuer encontrou-se com Haakon VII — o único rei que, no século XX,
fora conduzido ao trono pelos votos do povo e o primeiro monarca próprio que a
Noruega teve em cinco séculos* — numa escola da pequena cidade de Elverum,
às 15h do dia 10 de abril. Por uma conversa que o autor teve com o monarca,
tempos depois, e pela leitura de documentos e do relatório secreto do dr. Brãuer
— que figura entre os documentos do Ministério das Relações Exteriores apreen
didos — é possível narrar o que aconteceu. Após considerável relutância, o rei
concordou em receber o emissário alemão na presença de seu ministro das Rela
ções Exteriores, dr. Halvdan Koht. Quando Brãuer insistiu em falar a sós com
Haakon, ele, de acordo com Koht, consentiu em recebê-lo.
O ministro alemão, agindo de conformidade com instruções, ora linsonjeava
ora procurava intimidar o rei. A Alemanha desejava preservar a dinastia. Pedia
apenas ao rei que agisse como fizera seu irmão, em Copenhague. Era loucura re
sistir à Wehrmacht. Disso resultaria apenas uma inútil carnificina para os norue
gueses. Pedia-se ao rei que aprovasse o governo de Quisling e regressasse a Oslo.
Haakon, um homem sutil e de espírito democrático, um grande defensor, mesmo
naquele momento crítico, dos processos constitucionais, procurou explicar ao di
plomata alemão que, na Noruega, o rei não tomava decisões políticas, as quais
cabiam exclusivamente ao governo, a quem iria então consultar. Koht entrou de
pois na conversação, tendo ficado combinado que a resposta do governo seria
dada por telefone a Brãuer, para algum ponto do caminho de sua volta a Oslo.
Para Haakon, que embora não pudesse tomar decisões políticas podia, sem
dúvida, exercer sua influência nelas, havia uma única resposta aos alemães. Reti
rando-se para uma modesta estalagem na aldeia de Nybergsund, nas proximida
des de Elverum — dada a possibilidade de os alemães, após a partida de Brãuer,
tentarem um ataque de surpresa para capturá-lo — reuniu os membros do gover
no como conselho de Estado.
* A Noruega fez parte da Dinamarca durante quatro séculos e da Suécia mais de um. Reconquistou sua
independência somente em 1905, quando se separou da Suécia. O povo elegeu o príncipe Carlos, da
Dinamarca, como rei na Noruega. Ele tomou o nome de Haakon VII. Haakon VI morrera em 1380. Ha
akon VII era irmão de Cristiano X, da Dinamarca, o qual capitulara prontamente aos alemães na manhã
de 9 de abril de 1940.
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 127
(...) De minha parte [disse-lhes] não posso aceitar as exigências dos
alemães. Entraria em conflito com tudo o que tenho considerado meu
dever como rei da Noruega desde que vim para este país, há coisa de 35
anos (...) Não desejo que a decisão do governo seja influenciada por esta
declaração ou baseada nela; mas (...) não posso nomear Quisling pri
meiro-ministro, um homem em que sei que meu povo (...) e seus repre
sentantes no Storting não depositam confiança alguma.
Se, portanto, o governo resolver aceitar as exigências alemãs — e eu
compreendo perfeitamente as razões em favor disso, considerando o
iminente perigo de guerra, a que tantos jovens noruegueses terão que
dar suas vidas — nesse caso, a abdicação é o único caminho que me
resta a seguir.41
O governo, embora nele pudesse haver alguns vacilantes até aquele momento,
não podia ser menos corajoso que o rei. Uniram-se todos a ele. Quando Bráuer
chegou a Eidsvold, metade do caminho de volta a Oslo, Koht já estava na linha
telefônica para dar-lhe a resposta da Noruega. O ministro alemão transmitiu-a
imediatamente à legação em Oslo, por telefone, apressando-se a legação a telegra
fá-la para Berlim.
O rei não nomeará nenhum governo chefiado por Quisling, e esta deci
são foi tomada com o parecer unânime do governo. À pergunta especí
fica que fiz, o ministro das Relações Exteriores Koht respondeu: “A re
sistência continuará tanto tempo quanto for possível.”42
Naquela noite, de uma fraca e pequena estação de rádio rural das imediações
— único meio de comunicação que ali havia para o mundo exterior —, o governo
norueguês atirou a luva para o poderoso Terceiro Reich. Anunciou sua decisão de
não aceitar as exigências alemãs e apelou para o povo — havia apenas três milhões
de almas — que resistisse aos invasores. O rei associou-se formalmente ao apelo.
Mas os conquistadores nazistas pareciam não acreditar que os noruegueses
estivessem falando seriamente. Fizeram-se duas tentativas para dissuadir o rei.
Na manhã de 11 de abril, um emissário de Quisling — o capitão Irgens — che
gou à pequena localidade e insistiu para que o monarca regressasse à capital.
128 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Prometeu que Quisling o serviria lealmente. Sua proposta foi repudiada com
silencioso desprezo.
À tarde, chegou uma mensagem urgente de Bráuer, pedindo nova audiência
com o rei para conversar sobre ‘certas propostas”. O bem apressado emissário
alemão fora instruído por Ribbentrop que dissesse ao monarca que ele “desejava
dar ao povo norueguês uma última oportunidade para um acordo razoável”.*
Desta vez, o dr. Koht, após consultar o rei, respondeu que, se o ministro alemão
tinha “certas propostas” a fazer, devia comunicá-las ao ministro das Relações
Exteriores.
A reação dos nazistas a essa recusa de um país tão pequeno, e que se achava
em trágica situação, foi imediata e característica. Os alemães tinham fracassado,
primeiro ao tentar capturar o rei e os membros do governo e, depois, quando
procuraram persuadi-los a que se rendessem. Procuraram então matá-los. Na
noite de 11 de abril, mandaram a Luftwaffe desencadear na aldeia de Nybergsund
todo o seu ódio. Os aviadores nazistas destruiram-na com bombas explosivas e
incendiárias e metralharam as pessoas que procuraram escapar às chamas das
ruínas. Aparentemente, os alemães acreditaram, a princípio, que haviam massa
crado o rei e os membros do governo. O diário de um aviador alemão, capturado
mais tarde no norte da Noruega, registrava o seguinte com a data de 11 de abril:
“Nybergsund. Oslo Regierung. Alies vernichtef. (Governo de Oslo. Completamen
te destruído).
A aldeia foi destruída; não, porém, o rei e o governo. Ao aproximarem-se os
bombardeiros nazistas, refugiaram-se numa floresta das proximidades. De pé,
com a neve até os joelhos, viram a Luftwaffe reduzir a um montão de ruínas as
modestas casas da aldeia. Viram-se diante da alternativa: ou seguir para a fron
teira sueca, nas proximidades, e asilar-se nesse país neutro, ou avançar para o
norte, para suas próprias montanhas, que a neve ainda cobria profundamente.
Resolveram dirigir-se para o acidentado vale de Gudbrands que, passando por
Hamar e Lillehammer e as montanhas, conduzia a Andalsnes, na costa noroeste,
* Há um sinistro sinal de nova traição nas instruções secretas de Ribbentrop. Brãuer foi instruído a ar
ranjar o encontro "num ponto entre Oslo e o atual local de residência do rei" Por razões óbvias, ele,
Brãuer, teria de discutir essa proposta com o general von Falkenhorst e, depois, teria também de infor
má-lo sobre o local do encontro que ficasse combinado. Gaus, que telefonara as instruções de Ribben
trop, relatou que “Herr Bráuer compreendeu claramente o significado dessas instruções" Não se pode
deixar de pensar que, tivesse o rei ido ao encontro, os soldados de Falkenhorst o teriam capturado.43
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 129
160 quilômetros a sudoeste de Trondheim. Poderiam talvez, ao longo dessa rota,
organizar as forças norueguesas ainda confusas e dispersas, para continuar a re
sistência. E havia, também, certa esperança de que as tropas britânicas pudessem,
eventualmente, vir em seu auxílio.
As batalhas pela Noruega
No longínquo norte, em Narvik, a marinha britânica já reagira vigorosamen
te à ocupação de surpresa dos alemães. Fora “completamente burlada” pelos ale
mães, conforme Churchill, que a dirigia, admitiu. Agora, no norte pelo menos,
fora do raio de ação dos bombardeiros alemães com bases em terra, entregava-
se ela à ofensiva. Na manhã de 10 de abril, 24 horas depois de dez destróieres
alemães terem conquistado Narvik e desembarcado forças em Dietl, uma frota
de cinco destróieres britânicos entrou no porto de Narvik, pôs a pique dois dos
cinco destróieres alemães que ali se achavam, danificou os outros três e afundou
todos os barcos cargueiros alemães, exceto um. Nessa operação, foi morto o
comandante naval alemão, o contra-almirante Bonte. Quando deixavam, po
rém, o porto, os barcos britânicos defrontaram-se com os cinco destróieres ale
mães remanescentes surgidos de fiordes adjacentes. Os barcos alemães eram
dotados de canhões mais pesados e puseram a pique um destróier britânico e
forçaram outro a encalhar; nele, o comandante inglês, capitão Warburton-Lee,
foi mortalmente ferido. Danificaram ainda um terceiro destróier. Três dos cinco
destróieres britânicos conseguiram ganhar o mar aberto onde, ao retirar-se,
afundaram um grande navio cargueiro alemão carregado de munições, que se
aproximava do porto.
Ao meio-dia de 13 de abril os ingleses, dessa vez com o encouraçado Warspite,
sobrevivente da batalha da Jutlândia na Primeira Guerra Mundial, capitaneando
uma flotilha de destróieres, voltou a Narvik e destruiu os remanescentes vasos de
guerra alemães. O vice-almirante W. J. Whitworth, comandante-em-chefe, trans
mitindo uma mensagem ao almirantado sobre sua operação, insistiu para que
Narvik fosse ocupada imediatamente “pela principal força de desembarque”, uma
vez que as tropas alemãs, em terra, ficaram aturdidas e desorganizadas (Dietl e
seus homens haviam de fato fugido para as montanhas). Infelizmente, para os
130 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Aliados, o comandante do exército britânico, general-de-Divisão P. J. Mackesy,
era um oficial excessivamente cauteloso. Quando chegou no dia seguinte com o
contingente de vanguarda, composto de três batalhões de infantaria, resolveu
não arriscar um desembarque em Narvik, preferindo Harstad, 56 quilômetros ao
norte, localidade que se encontrava em mãos dos noruegueses. Foi um erro que
custou caro.
Dado o fato de haverem preparado um pequeno corpo expedicionário para a
Noruega, os britânicos agiram com inexplicável morosidade ao movimentar as
tropas. Na tarde de 8 de abril, depois de terem sido recebidas notícias sobre o
movimento de navios de guerra alemães no alto da costa norueguesa, a marinha
britânica desembarcou apressadamente as tropas que já tinham sido embarcadas
para proceder à possível ocupação de Stavanger, Bergen, Trondheim e Narvik, sob
o fundamento de que havia necessidade de todos os navios para as operações
navais. Ao tempo em que as forças britânicas em terra foram novamente embar
cadas, todos aqueles portos estavam em poder dos alemães. E, quando chegaram
à parte central da Noruega, viram-se condenados, como todos os navios da mari
nha de guerra britânica que deviam protegê-los, em virtude dos ataques da Luft-
waffe que estava com a supremacia dos ares.
Em 20 de abril, uma brigada britânica, reforçada por três batalhões de caçado
res alpinos franceses, desembarcara em Namsos, pequeno porto, 128 quilômetros
a nordeste de Trondheim, e uma segunda, em Andalsnes, 160 quilômetros a su
doeste de Trondheim, que assim seria atacada pelo norte e pelo sul. Mas nenhuma
dessas forças pôde ameaçar seriamente Trondheim, pois lhes faltavam artilharia,
canhões antiaéreos e apoio aéreo, e suas bases estavam sendo marteladas noite e
dia pelos bombardeiros alemães, os quais bloquearam novas remessas de abaste
cimentos ou reforços. A brigada da Andalsnes, após encontrar-se com uma uni
dade norueguesa em Dombas, junção ferroviária, 96 quilômetros a leste, aban
donou o ataque que se propunha fazer ao norte, rumo a Trondheim, e avançou
pelo Gudbrandsdal a sudoeste, a fim de auxiliar as tropas norueguesas, que, sob
o enérgico comando do coronel Ruge, estavam retardando o principal avanço
alemão no vale, vindo de Oslo.
Em Lillehammer, ao norte de Hamar, o primeiro embate da guerra entre sol
dados britânicos e alemães realizou-se em 21 de abril, mas foi uma luta desigual.
O navio que transportava a artilharia da brigada inglesa havia sido posto a pique,
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 131
e só havia fuzis e metralhadoras com os quais teria que enfrentar uma poderosa
força alemã armada de artilharia e tanques ligeiros. Pior ainda, a infantaria britâ
nica, à qual faltava apoio aéreo, foi incessantemente atacada pelos aviões da Luft
waffe que operavam partindo de campos noruegueses próximos. Lillehammer
caiu após uma batalha de 24 horas. As forças britânicas e norueguesas começaram
uma retirada de 224 quilômetros pela estrada ferroviária do vale que conduzia a
Andalsnes, detendo-se aqui e acolá para uma luta na retaguarda, o que diminuía
o avanço alemão sem, porém, detê-lo.
Nas noites de 30 de abril e l2 de maio, as forças britânicas foram evacuadas de
Andalsnes, e, em 2 de maio, o contingente anglo-francês, de Namsos; foram, aliás,
proezas formidáveis, pois ambos os portos estavam em chamas e em ruínas, em
conseqüência dos contínuos bombardeios dos alemães. Na noite de 29 de abril, o
rei da Noruega e os membros de seu governo foram acolhidos a bordo do cruza
dor britânico Glasgowy era Molde, do lado oposto do Romsdalsfjord de Andals
nes, que a Luftwaffe deixara também em ruínas, e levados para Tromso, muito
acima do Círculo Ártico e ao norte de Narvik, onde, no dia lfi de maio, foi insta
lada a capital provisória.
Já nesse tempo, a parte meridional da Noruega, abrangendo todas as cidades e
os principais centros, havia ficado irreparavelmente perdida. A parte setentrional,
porém, parecia segura. Em 28 de maio, uma força aliada, composta de 25.000 ho
mens abrangendo duas brigadas de noruegueses, uma brigada de poloneses e dois
batalhões da legião estrangeira francesa, expulsou de Narvik os alemães, ali em
número muito inferior. Não parecia haver razão para duvidar que Hitler ficasse
privado de seu minério de ferro e de seu objetivo de ocupar a Noruega e obrigar o
governo a capitular. Mas, a esse tempo, a Wehrmacht havia atacado com formidá
vel poderio a frente ocidental, e necessitava-se de todo soldado aliado para preen
cher os claros. Narvik foi abandonada, as tropas aliadas reembarcaram às pressas,
e o general Dietl, que havia resistido numa região selvagem e montanhosa nas
imediações da fronteira sueca, tornou a ocupar o porto em 8 de junho e, quatro
dias depois, aceitou a capitulação do perseverante e valoroso coronel Ruge e de sua
estupefata e ressentida tropa norueguesa, que achava ter sido abandonada pelos
ingleses. O rei Haakon e seu governo foram acolhidos a bordo do cruzador De-
vonshire, em Tromso, no dia 7 de junho, e partiram para Londres e o amargo exílio
132 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
de cinco anos* Em Berlim, Dietl foi promovido a general-de-Divisão, distinguido
com a Cruz de Cavalheiro e aclamado por Hitler como o Sieger von Narvik.
A despeito de seus extraordinários êxitos, o Führer teve seus maus momentos
durante a campanha da Noruega. O diário do general Jodl está repleto de regis
tros concisos relatando uma série de crises de nervos do senhor da guerra. “Ter
rível excitação”, anotou ele em 14 de abril, após ter Hitler recebido notícias de
que as forças navais alemãs haviam sido destruídas em Narvik. Em 17 de abril,
Hitler teve um acesso por causa da perda de Narvik. Exigiu que as tropas do
general Dietl fossem evacuadas pelo ar — uma coisa impossível. “Cada notícia
má provoca as piores apreensões”, escreveu Jodl. E dois dias depois: “Nova crise.
Falhou a ação política. Chamado o emissário Brãuer. Segundo Hitler, tem-se que
empregar a força (...)”** As conferências na chancelaria em Berlim, no dia 19 de
abril, tornaram-se tão tumultuosas, os chefes das três armas culpando uns aos
outros pelos atrasos, que até o lacaio Keitel se retirou da sala. “O caos ameaça
* Quisling não durou muito na sua tentativa de governo, na Noruega. Seis dias depois de se ter procla
mado primeiro-ministro, em 15 de abril, os alemães puseram-no para fora e nomearam um conselho
administrativo formado de seis importantes cidadãos noruegueses, incluindo o bispo Eivind Berggrav,
chefe da igreja luterana da Noruega, e Paal Berg, presidente do Supremo Tribunal. Foi mais uma proeza
de Berg, um eminente e agressivo jurisconsulto que, mais tarde, passou a ser o chefe secreto do movi
mento de resistência da Noruega. Em 24 de abril, Hitler nomeou Josef Terboven, um rijo Gauleiter na
zista, para Comissário do Reich na Noruega, e foi quem verdadeiramente governou o país, com cres
cente brutalidade, durante a ocupação. Brãuer, que se opusera a Quisling desde o começo, foi chamado
à Alemanha em 17 de abril, aposentou-se do serviço diplomático e acabou sendo enviado para a fren
te ocidental como soldado. Os alemães reintegraram Quisling no cargo de primeiro-ministro em 1942;
embora sua impopularidade entre o povo fosse imensa, seu poder era nulo, a despeito de todos os
esforços que fazia para servir seus patrões alemães.
Ao fim da guerra, Quisling foi julgado por crime de traição e, após um exaustivo julgamento, condena
do à morte e executado em 24 de outubro de 1945.Terboven preferiu suicidar-se a ser capturado. Knut
Hamsun, o grande romancista norueguês, que colaborara abertamente com os alemães, cantando-
lhes louvores, foi acusado de traição; as acusações, porém, acabaram sendo retiradas, alegando-se sua
senilidade. Foi, porém, julgado e condenado "por tirar proveito do regime nazista" e multado em 65 mil
dólares. Morreu em 19 de fevereiro de 1952, aos 93 anos de idade. O general von Falkenhorst foi julga
do como criminoso de guerra por um tribunal militar composto de noruegueses e ingleses, sob a acu
sação de ter entregado às S.S., para serem executados, os comandos Aliados que capturara. Condena
ram-no à morte em 2 de agosto de 1946, mas a sentença foi comutada para prisão perpétua.
** Em 13 de abril, o general von Falkenhorst, sem dúvida incitado por Hitler que se achava furioso por
causa da resistência dos noruegueses, assinou uma ordem dispondo que se tomassem como reféns
vinte dos mais ilustres cidadãos de Oslo, incluindo o bispo Berggrav e Paal Berg, os quais, segundo as
palavras do ministro Brãuer, "deviam ser fuzilados, caso continuasse a resistência ou houvesse tentati
vas de sabotagem".44
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 133
novamente envolver a direção”, anotou Jodl. E em 22 de abril acrescentou ele: “o
Führer está cada vez mais preocupado com os desembarques dos ingleses.”
Em 23 de abril, o lento progresso das forças alemãs que de Oslo avançavam
para Trondheim e Andalsnes fez “aumentar a excitação”, segundo as palavras de
Jodl, mas já no dia seguinte as notícias foram melhores e, desse dia em diante, a
situação continuou a apresentar-se mais rósea. No dia 26, o chefe nazista estava
em tão excelente disposição que, às 3:30h, durante uma sessão, que durou a noite
toda, com seus conselheiros militares, informou-os de que pretendia iniciar o
Caso Amarelo entre l2 e 7 de maio. O Caso Amarelo era o nome em código para
o ataque no Ocidente, através da Holanda e da Bélgica. Embora em 29 de abril ele
se mostrasse de novo “preocupado com Trondheim”, já no dia seguinte estava ale
gríssimo com a notícia de que um grupo de batalha procedente de Oslo alcançara
a cidade. Pôde, finalmente, voltar sua atenção para o Ocidente. Em l e de maio,
ordenou que até o dia 5 ficassem prontos os preparativos para o grande ataque.
Os comandantes da Wehrmacht — Gõring, Brauchitsch, Halder, Keitel, Jodl,
Ráder e outros — puderam pela primeira vez ver, durante a campanha da Norue
ga, como seu demoníaco chefe perdia completamente o domínio sobre si mesmo
sob a tensão de dificuldades, até mesmo pequenas, numa batalha. Era uma fra
queza que o haveria de dominar quando, após uma série de novos e surpreenden
tes êxitos militares, a maré da guerra mudasse, e que iria contribuir poderosa
mente para a derrocada final do Terceiro Reich.
Por qualquer ângulo que se encare a situação, contudo, o fato é que a rápida
conquista da Dinamarca e da Noruega foi uma importante vitória para Hitler e
uma desanimadora derrota para os ingleses. Ela assegurou a rota para o transpor
te de minério de ferro, aumentou a proteção na entrada do Báltico, permitiu que
a corajosa marinha de guerra alemã irrompesse no Atlântico Norte e proporcio
nou, aos alemães, excelentes facilidades nos portos para os submarinos e navios
de superfície, na guerra marítima contra a Inglaterra. Proporcionou a Hitler bases
aéreas, centenas de quilômetros mais próximos do principal inimigo. E, talvez o
mais importante de tudo, aumentou imensamente o prestígio militar do Terceiro
Reich, diminuindo, na mesma proporção, o dos Aliados ocidentais. A Alemanha
nazista parecia invencível. A Áustria, a Tchecoslováquia, a Polônia e, agora, a Di
namarca e a Noruega haviam sucumbido facilmente ante a força de Hitler, ou
ameaça de força, e nem mesmo o auxílio dos dois grandes Aliados, no Ocidente,
134 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
fora, nos últimos casos, da menor valia. A maré do futuro, conforme escrevera
uma eminente americana, parecia estar a favor de Hitler e do nazismo.
A última conquista de Hitler foi também uma atemorizadora lição para os
restantes estados neutros. Obviamente, a neutralidade não mais oferecia proteção
às pequenas nações democráticas que procuravam sobreviver num mundo domi
nado pelos Estados totalitários. A Finlândia acabara de descobrir isso, e depois a
Noruega e a Dinamarca. Elas só podiam culpar a si mesmas por terem sido tão
cegas e por recusarem, no devido tempo — antes da agressão — a aceitar o auxílio
das potências de um mundo amigo.
Espero que esse fato [declarou Churchill na Câmara dos Comuns em
11 de abril] mereça a atenção de outros países que poderão amanhã, ou
daqui a uma semana, ou daqui a um mês, ser vítimas de um plano mi
litar semelhante, meticulosamente preparado, tendo por objetivo a sua
destruição e escravização.45
Churchill pensou, evidentemente, na Holanda e na Bélgica; mas, mesmo no
caso de ambas, embora houvesse um mês de suspensão, não se fez tal cogitação*
* Os suecos, pegos entre a Rússia, na Finlândia e nos países bálticos, e a Alemanha, de posse de suas
vizinhas Dinamarca e Noruega, meditaram e acharam que não havia alternativa senão perseverar em
sua precária neutralidade e morrer lutando se fossem atacados. Acalmaram a União Soviética recusan
do aos Aliados permissão para que as suas tropas transitassem em seu território rumo à Finlândia e
depois, sob forte pressão, acalmaram os alemães. Conquanto a Suécia tivesse enviado copioso estoque
de armamentos à Finlândia, recusou-se a vender à Noruega quer armas quer gasolina quando esse país
foi atacado. Durante todo o mês de abril, os alemães exigiram permissão da Suécia para o trânsito de
tropas rumo a Narvik, a fim de socorrerem Dietl, mas os suecos negaram-se até o fim das hostilidades,
se bem que tivessem permitido a passagem de um trem com pessoal médico e medicamentos. Em 19
de junho, temendo um ataque direto da Alemanha, a Suécia cedeu à pressão de Hitler e concordou em
permitir o transporte de tropas nazistas e material bélico pelas suas vias férreas para a Noruega, com a
condição, porém, de que o número de tropas, movimentando-se em cada direção, fosse equilibrado de
modo a não ficarem as guarnições, na Noruega, reforçadas com tal acordo.
Isso auxiliou imensamente a Alemanha. Transportando novas tropas e material bélico por terra, pela
Suécia, Hitler evitava o risco de vê-los afundados no mar pelos ingleses. Nos seis primeiros meses do
acordo, foram trocados 140 mil soldados alemães na Noruega, e os que ali se achavam foram grande
mente fortalecidos pelos abastecimentos. Mais tarde, pouco antes do ataque alemão contra a Rússia, a
Suécia permitiu que o Alto-Comando nazista transportasse, pelo seu território, toda uma divisão do
Exército, completamente armada, procedente da Noruega, para a Finlândia, a fim de ser usada no ata
que contra a União Soviética. Concedera à Alemanha nazista o que recusara aos Aliados um ano antes.
Para detalhes da pressão alemã sobre a Suécia e para o texto das cartas trocadas entre o rei Gustavo V
A CONQUISTA DA DINAM ARCA E DA NORUEGA 135
Havia também, para se aprender, razões de ordem militar da conquista relâm
pago que Hitler fizera dos dois países escandinavos. A mais significativa era a
importância do poderio aéreo e sua supremacia sobre a potência naval, quando as
bases terrestres para aviões bombardeiros e aviões de caça se achavam próximas.
Não menos importante era uma antiga lição, a de que a vitória quase sempre cabe
aos ousados e imaginosos. A marinha de guerra e a força aérea alemãs mostraram
ser ambas as coisas, e Dietl, em Narvik, demonstrou a fertilidade de recursos do
exército alemão, o que faltava aos Aliados.
Houve uma conseqüência de ordem militar na aventura escandinava que não
foi aquilatada de imediato, se bem que isso fosse devido a não ter sido possível
antecipar de muito o futuro. As baixas, em soldados, na Noruega, em ambos os
lados, foram leves. Os alemães tiveram 1.317 mortos, 2.375 desaparecidos e 1.604
feridos, num total de 5.296 baixas; as dos noruegueses, franceses e britânicos fo
ram pouco menos de 5 mil. Os britânicos perderam um porta-aviões, um cruza
dor e sete destróieres, e os poloneses e franceses, um destróier cada. As perdas
navais alemãs, em comparação, foram muito mais pesadas; dez de vinte destróie
res, três de oito cruzadores, enquanto os cruzadores de batalha Scharnhorst e
Gneisenau e o encouraçado de bolso Lützou foram tão seriamente danificados que
tiveram de ficar fora de ação durante vários meses. Hitler não teve, para aqueles
seus próximos movimentos de verão, uma frota digna de menção. Quando che
gou a ocasião de invadir a Inglaterra, o que logo aconteceu, essa situação provou
ser um obstáculo insuperável.
Todavia, as possíveis conseqüências da séria imobilização da marinha de
guerra não entraram nas cogitações de Hitler, pois no começo de maio, com a
Dinamarca e a Noruega já somadas à sua longa lista de conquistas, ele estava es
tudando com seus ansiosos generais — eles já não mais se mostravam apreensivos
como no outono anterior — os preparativos dos últimos minutos para o que, es
tavam confiantes, seria a maior de todas as conquistas.
e Hitler, vide Documents on German Foreign Policy, IX. O autor relatou o assunto mais minuciosamente
em The Challenge ofScandinavia.
CAPÍTULO 4
Vitória no Ocidente
Logo após o alvorecer do belo dia de primavera, 10 de maio de 1940, o em
baixador da Bélgica e o ministro da Holanda foram chamados à Wilhelmstrasse,
onde Ribbentrop os informou de que as tropas alemãs entrariam em seus países
para salvaguardar-lhes a neutralidade contra um iminente ataque dos exércitos
anglo-franceses — a mesma desculpa esfarrapada que havia sido dada, um mês
antes, à Dinamarca e à Noruega. Foi dado, formalmente, um ultimato aos dois
governos para providenciarem no sentido de não oferecerem resistência. Se re
sistissem, seriam esmagados por todos os meios, e a responsabilidade pelo der
ramamento de sangue ‘caberia exclusivamente aos governos reais da Bélgica e
da Holanda”.
Em Bruxelas e em Haia, como anteriormente acontecera em Copenhague e
Oslo, os emissários alemães encaminharam-se aos Ministérios das Relações Exte
riores com mensagens similares. O que não deixa de ser irônico é o fato de, em
Haia, ter sido o portador do ultimato o ministro alemão conde Julius von Zech-
Burkersroda, genro de Bethmann-Hollweg, chanceler do Kaiser que, em 1914,
chamara publicamente de “farrapos de papel” a garantia que a Alemanha havia
dado de respeitar a neutralidade da Bélgica, a qual o Reich dos Hohenzollern
havia acabado de violar.
No Ministério das Relações Exteriores, em Bruxelas, enquanto os bombardei
ros alemães roncavam no ar e a explosão de suas bombas, nos aeródromos adja
centes, fazia estremecer as janelas, Bülow-Schwante, embaixador alemão, come
çava a tirar do bolso um papel, assim que entrou no gabinete do ministro, quando
Paul-Henri Spaak o deteve.
“Desculpe-me, sr. embaixador. Sou eu quem fala primeiro.”
O exército alemão [disse Spaak, sem procurar ocultar o que sentia por
aquele ultraje] acaba de atacar nosso país. É a segunda vez, em 25 anos,
VITÓRIA NO OC IDENTE 137
que a Alemanha comete uma agressão criminosa contra uma Bélgica
neutra e leal. O que está acontecendo talvez seja até mais odioso que a
agressão de 1914. Nenhum ultimato, nenhuma nota, nenhum protesto,
de qualquer espécie, foram apresentados ao governo belga. Só com esse
ataque veio a Bélgica a saber que a Alemanha violou as garantias dadas
(...) O Reich alemão será responsabilizado perante a História. A Bélgica
está decidida a defender-se.
O infortunado diplomata alemão começou, depois, a ler o ultimato formal da
Alemanha, mas Spaak interrompeu-o. “Entregue-me o documento”, disse. “Eu
gostaria de poupar-lhe uma tarefa dolorosa.”1
O Terceiro Reich havia dado aos dois pequenos países inúmeras garantias de
que respeitaria sua neutralidade. A independência e a neutralidade da Bélgica
haviam sido garantidas “perpetuamente” pelas cinco grandes potências européias
em 1839, pacto observado durante 75 anos até que a Alemanha o rompeu em
1914. A República de Weimar prometeu jamais empunhar armas contra a Bélgica,
e Hitler, depois de assumir o poder, continuamente reafirmou essa política e deu
garantias semelhantes aos holandeses. Em 30 de janeiro de 1937, depois de repu
diar o Tratado de Locarno, o chanceler nazista proclamou publicamente:
O governo alemão novamente assegura à Bélgica e à Holanda que está
preparado para reconhecer e garantir a inviolabilidade e a neutralidade
desses territórios.
Preocupada com a remilitarização do Terceiro Reich e a ocupação da Renâ-
nia, novamente, na primavera de 1936, a Bélgica — que prudentemente aban
donara a neutralidade depois de 1918 — procurou de novo refugiar-se nela. Em
24 de abril de 1937, a Inglaterra e a França libertaram-na das obrigações de
Locarno e, em 13 de outubro daquele mesmo ano, a Alemanha confirmou ofi
cial e solenemente
sua determinação de que, em circunstância alguma, prejudicaria a invio
labilidade e a integridade [da Bélgica], e que respeitaria sempre o terri
tório belga (...) e [estaria] preparada para auxiliar a Bélgica no caso de
ela estar sujeita a um ataque (...)
13» A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Desse dia em diante, houve uma nota familiar nas garantias que Hitler, solene
e publicamente, fizera aos Países Baixos e nas censuras que, particularmente, fazia
a seus generais. Em 24 de agosto de 1938, considerando um dos documentos que
lhe foram elaborados para o Caso Verde — o plano para o ataque contra a Tche-
coslováquia — ele falou sobre a “extraordinária vantagem” que adviria para a Ale
manha se a Bélgica e a Holanda fossem ocupadas. Pediu a opinião do exército
“sobre as condições em que se poderia levar a efeito uma ocupação dessa área e o
tempo que isso levaria”. Em 28 de abril de 1939, em sua resposta a Roosevelt, Hi
tler novamente acentuou as “declarações sobre as garantias” que havia feito, entre
outros países, à Holanda e à Bélgica. Menos de um mês depois, em 23 de maio, o
Führer; conforme se notou, dizia aos generais que “deviam ser ocupadas as bases
aéreas da Holanda e da Bélgica por forças armadas (...) imediatamente. Deviam-
se ignorar declarações sobre neutralidade”.
Não tinha ainda começado a guerra, mas seus planos estavam prontos. Em 22
de agosto, uma semana antes de desencadeá-la com o ataque à Polônia, conferen-
ciou com os generais sobre a possibilidade de violar a neutralidade dos dois paí
ses. “A Inglaterra e a França”, disse, “não violarão a neutralidade desses países.”
Quatro dias depois, em 26 de agosto, ordenou a seus emissários em Bruxelas e em
Haia que informassem seus governos de que, no caso de irrompimento da guerra,
a “Alemanha em circunstância alguma prejudicaria a inviolabilidade da Bélgica e
da Holanda”, garantia que repetiu publicamente em 6 de outubro, após o término da
campanha da Polônia. No dia seguinte, 7 de outubro, o general von Brauchitsch
aconselhou os comandantes de grupo de seu exército, a instâncias de Hitler,
que fizessem todos os preparativos para a invasão imediata dos territó
rios holandês e belga, se a situação política exigir.2
Dois dias depois, em 9 de outubro, Hitler ordenava na Diretiva ne 6:
Cumpre fazerem preparativos para uma operação de ataque (...) através
de Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Esse ataque deve ser executado o
mais breve e o mais poderosamente possível (...) O objetivo desse ata
que é adquirir na Holanda, na Bélgica, e no norte da França uma área
tão grande quanto possível.3
VITÓRIA NO OC ID EN TE 139
Os belgas e holandeses, naturalmente, não estavam a par das ordens secretas
de Hitler. Recebiam, não obstante, avisos do que estava reservado para eles. Certo
número desses avisos já havia sido anotado: o coronel Oster, um dos conspirado
res antinazistas, preveniu os adidos militares holandeses e belgas em Berlim, em
5 de novembro, que aguardassem o ataque alemão em 12 de novembro, que era
então a data marcada. No fim de outubro, Goerdeler, outro dos conspiradores,
instigado por Weizsàcker, foi a Bruxelas prevenir os belgas de um ataque iminen
te. E, logo depois do ano-novo, em 10 de janeiro de 1940, os planos de Hitler para
a ofensiva no Ocidente caíram em poder dos belgas quando um oficial, que os
levava, foi obrigado a aterrissar na Bélgica.*
Nessa ocasião, os Estados-maiores gerais da Holanda e da Bélgica souberam,
por seus serviços secretos, que os alemães estavam concentrando cerca de 50 di
visões em suas fronteiras. Foram também beneficiados por uma desusada fonte
de informações na capital alemã. Essa fonte era o coronel G. J. Sas, adido militar
da Holanda em Berlim. Sas era amigo íntimo do coronel Oster e muitas vezes
jantava na residência dele, no retirado subúrbio de Zehlendorf — uma prática
que, assim que a guerra começou, era facilitada pelo blecaute que, nessa ocasião,
possibilitava a muitas pessoas alemãs e estrangeiras porem-se em movimento em
missões subversivas, sem receio de serem descobertas. Foi de Oster que Sas rece
beu a informação, no princípio de novembro, sobre o ataque alemão que estava
sendo assentado para 12 de novembro. Oster deu nova informação ao adido, em
janeiro. O fato de nenhum ataque ter sido realizado diminuiu a possibilidade de
acreditar nas informações de Sas, em Haia e Bruxelas, onde naturalmente se
desconhecia o fato de Hitler haver realmente fixado datas para sua agressão,
adiando-as depois. Contudo, o aviso antecipado de dez dias que Sas recebeu, de
Oster, da invasão da Noruega e da Dinamarca; e a predição da data exata, parece
terem restabelecido seu prestígio em seu país.
Em 3 de maio, Oster contou positivamente a Sas que o ataque alemão no Oci
dente, pela Holanda e a Bélgica, começaria em 10 de maio. O adido informou
prontamente seu governo. No dia seguinte, Haia recebeu a confirmação do fato
por intermédio de seu enviado no Vaticano. Os holandeses imediatamente a
transmitiram aos belgas. O dia 5 de maio era domingo e, ao começar a desdobrar-
se a semana, tornou-se evidente a todos nós, em Berlim, que o golpe no Ocidente
* Ver p. 52,53,81,82 e 83, respectivamente.
140 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
seria desfechado dentro de poucos dias. A tensão subiu na capital. Em 8 de maio,
telegrafei ao meu escritório em Nova York que segurasse um de nossos corres
pondentes em Amsterdã, em vez de despachá-lo para a Noruega, onde a guerra
terminara de um modo ou de outro, e nessa noite os censores militares permiti
ram-me insinuar, em minha irradiação, que logo haveria atividades no Ocidente,
incluindo a Holanda e a Bélgica.
Na noite de 9 de maio, Oster e Sas jantaram juntos — o que seria a última vez.
O oficial alemão confirmou que fora dada a ordem final para o desencadeamento
do ataque no Ocidente, ao alvorecer do dia seguinte. A fim de se assegurar de que
não haveria mudanças de última hora, Oster passou pelo quartel-general do
OKW, na Bendlerstrasse, depois do jantar. Não havia modificações. “O porco foi
à frente ocidental”, informou Oster a Sas. O “porco” era Hitler. Sas transmitiu a
informação ao adido militar belga e, dirigindo-se para sua legação, fez uma liga
ção telefônica para Haia. Já havia sido arranjado um código especial para esse
momento. Sas disse algumas palavras aparentemente inofensivas, que transmi
tiam a mensagem. “Amanhã ao alvorecer. Mantenham-se firmes!”4
Coisa bastante estranha: as duas grandes potências ocidentais, Inglaterra e
França, foram apanhadas desprevenidas. Seus Estados-maiores gerais não leva
ram em conta as alarmantes informações procedentes de Bruxelas e Haia. A pró
pria Londres estava preocupada com uma crise de gabinete que já durava três
dias, e somente ficou resolvida na noite de 10 de maio, pela substituição de Cham
berlain por Churchill como primeiro-ministro. A primeira coisa que os quartéis-
generais francês e britânico ouviram sobre o ataque alemão foi quando a paz da
primavera se rompeu, antes do alvorecer, pelo ronco dos bombardeiros alemães e
o silvo dos bombardeiros de mergulho stukas seguidos, logo depois, ao surgir o
dia, pelos frenéticos pedidos de auxílio dos governos holandês e belga, os quais
haviam mantido os Aliados a distância durante oito meses, em vez de combina
rem com eles uma defesa em comum.
Contudo, o plano dos Aliados para enfrentar o principal ataque alemão na
Bélgica seguiu seu curso, durante os dois primeiros dias, quase sem dificuldades.
Um grande exército anglo-francês precipitou-se para o nordeste, procedente da
fronteira franco-belga, para fortalecer a principal linha de defesa belga ao longo
dos rios Dyle e Mosa, a leste de Bruxelas. Acontece que era justamente o que
queria o Alto-Comando alemão. Esse maciço movimento circular dos Aliados
VITÓ R IA NO O C ID EN TE 141
favoreceu-lhe diretamente os planos. Embora não soubessem, os exércitos anglo-
franceses dirigiram-se diretamente para uma armadilha que, ao fechar-se, de
monstraria logo ser totalmente desastrosa.
Os planos rivais
O primitivo plano de ataque dos alemães no Ocidente foi drasticamente mo
dificado desde que caiu em mãos dos belgas e, como os alemães suspeitavam, em
mãos dos franceses e britânicos, em janeiro. O Fali Gelb (Caso Amarelo) havia
sido maquinado às pressas, no outono de 1939, pelo Alto-Comando do exército
sob a pressão da ordem de Hitler de desencadear a ofensiva no Ocidente em mea
dos de novembro. Há muita controvérsia entre os próprios generais alemães so
bre se esse primeiro plano era ou não uma versão do antigo plano Schlieffen;
Halder e Guderian sustentaram que era. O plano determinava a principal inves
tida alemã contra o flanco direito através da Bélgica e norte da França, com o fim
de ocupar os portos do Canal. Ficou aquém do célebre plano Schlieffen, que por
pouco deixou de ter êxito em 1914; determinava não só a conquista dos portos do
Canal como, também, a continuação de um grande movimento circular que le
varia a ala direita dos exércitos alemães através da Bélgica e norte da França e
para o outro lado do Sena, após o que eles virariam para leste, abaixo de Paris,
e encurralariam as remanescentes forças francesas. Seu objetivo era pôr rápido
paradeiro à resistência armada francesa, a fim de a Alemanha, em 1914, poder
voltar-se contra a Rússia com todo o peso de seu poderio militar.
Mas em 1939-1940 Hitler não teve que se preocupar com uma frente russa.
Seu objetivo, portanto, era mais limitado. Seja como for, na primeira fase da
campanha, seu plano não era eliminar o exército francês, mas fazê-lo recuar e
ocupar a costa do Canal, separando assim a Inglaterra de seu aliado e, ao mes
mo tempo, assegurando-se de bases aéreas e navais com as quais poderia hosti
lizar e bloquear as Ilhas Britânicas. Evidencia-se de suas várias arengas aos jor
nais, nessa ocasião, que julgava que, após tal derrota, a Inglaterra e a França
estariam inclinadas a fazer a paz e deixá-lo livre para voltar a atenção mais uma
vez para o leste.
Mesmo antes de o plano original para o Fali Gelb ter caído em mãos do ini
migo, ele já tinha sido previsto pelo comando supremo dos Aliados. Em 17 de
142 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
novembro, o supremo conselho da guerra dos Aliados, reunindo-se em Paris,
adotou o Plano D, o qual, no caso de um ataque alemão pela Bélgica, determinava
que os lfi e 2- Exércitos franceses e a força expedicionária britânica se precipitas
sem para a principal linha de defesa nos rios Dyle e Mosa, que partia da Antuér
pia, atravessava Louvain, Namur e Givet e alcançava Mézières. Uns dias antes, os
Estados-maiores francês e britânico, numa série de reuniões com o Alto-Coman
do belga, haviam recebido dos belgas a garantia de que fortaleceria as defesas
nessa linha e faria ali sua principal resistência. Mas os belgas, que ainda se agarra
vam às ilusões da neutralidade e fortificavam sua esperança de que talvez pudes
sem ser poupados no envolvimento da guerra, não quiseram ir mais além. Os
chefes do Estado-maior britânico fizeram ver que não haveria tempo para desdo
brar as forças aliadas para tão longe, se os alemães atacassem, mas prosseguiram
com o Plano D a instâncias do general Gamelin.
No fim de novembro, os Aliados acrescentaram um esquema para lançar o 7®
Exército, do general Henri Giraud, rumo à costa do Canal, a fim de auxiliar os
holandeses ao norte da Antuérpia, no caso de ser também a Holanda atacada.
Assim, a tentativa alemã de avançar através da Bélgica — e talvez da Holanda —,
para poder flanquear a Linha Maginot, seria enfrentada nesse jogo logo de início
por toda a força expedicionária britânica, pelo grosso do exército francês, pelas 22
divisões dos belgas e pelas dez divisões dos holandeses — uma força numerica
mente igual à dos alemães, como aliás aconteceu.
Foi para evitar esse choque de frente e, ao mesmo tempo, pegar numa armadi
lha os exércitos britânico e francês, que se precipitaram depressa a tão grande
distância, que o general Erich von Manstein (nome de família: Lewinski), chefe do
Estado-maior do grupo A dos exércitos de Rundstedt, na frente ocidental, propôs
uma mudança radical no Fali Gelb. Manstein era um prendado e engenhoso ofi
cial do Estado-maior, de categoria relativamente inferior, mas durante o inverno
conseguiu que sua ousada idéia fosse submetida a Hitler não obstante a oposição
que a princípio ofereceram Brauchitsch, Halder e certo número de generais. A
proposta de Manstein era que o assalto principal fosse desfechado no centro, pelas
Ardenas, com uma maciça força blindada, que cruzaria depois o Mosa bem ao norte
de Sedan e, irrompendo em campo aberto, precipitar-se-ia depois rumo ao Canal,
em Abbeville.
Hitler, sempre atraído por soluções ousadas e até mesmo imprudentes, mos
trou-se interessado. Rundstedt insistiu infatigavelmente na idéia, não porque nela
VITÓRIA NO OC IDENTE 143
acreditasse e sim porque daria ao grupo A um papel decisivo na ofensiva. Não
obstante a antipatia de Halder por Manstein e os ciúmes, próprios da profissão, da
parte de certos generais que lhe eram superiores na hierarquia militar, fizessem
com que ele fosse transferido de sua posição no Estado-maior para o comando de
um corpo de infantaria, no fim de janeiro, Rundstedt teve oportunidade de expor
pessoalmente suas teorias ortodoxas a Hitler, num jantar oferecido a certo núme
ro de novos comandantes de corpos, em Berlim, em 17 de fevereiro. Argumentou
que um ataque de forças blindadas pelas Ardenas atingiria os Aliados onde eles
menos esperavam, porquanto seus generais, provavelmente, como a maioria dos
alemães, consideravam essa região montanhosa e cheia de florestas inapropriada
para tanques. Uma finta pela ala direita, das forças alemãs, faria precipitar os exér
citos anglo-franceses em confusão para a Bélgica. Depois, abrindo uma fenda en
tre os franceses em Sedan e avançando a oeste, ao longo da margem norte do
Somme em demanda do Canal, os alemães encurralariam as forças anglo-france-
sas e o exército belga.
Era um plano temerário, não sem riscos, conforme acentuaram vários gene
rais, incluindo Jodl. Mas Hitler, que se considerava um gênio militar, acreditava
praticamente que se tratava de sua própria idéia. Seu entusiasmo cresceu. Halder,
que a princípio afastara a idéia julgando-a louca, começou também a absorvê-la e,
de fato, com o auxílio dos oficiais de seu Estado-maior geral, melhorou-a conside
ravelmente. Em 24 de fevereiro de 1940, foi formalmente adotada uma nova dire
tiva do OKW, tendo sido os generais instruídos para novamente desdobrarem
suas tropas em 7 de março. Em algum lugar, ao longo da linha, incidentalmente, o
plano para a conquista da Holanda, que havia sido riscado do Fali Gelb, numa
revisão feita em 29 de outubro de 1939, foi restabelecido em 14 de novembro a
instâncias da Luftwaffe, a qual desejava os aeródromos para usá-los contra a Ingla
terra e se ofereceu para fornecer uma grande leva de tropas aerotransportadas
para essa pequena mas algo complicada operação. Baseados em tais considera
ções são às vezes decididos os destinos de pequenas nações.5
E assim, ao aproximar-se a campanha na Noruega de seu fim vitorioso e já nos
primeiros dias quentes do começo de maio, os alemães, com o mais poderoso
exército que ao mundo era dado ver nesse momento, achavam-se prontos para
atacar no Ocidente. Em números simples, ambos os lados se igualavam: 136 di
visões alemãs contra 135 divisões dos franceses, britânicos, belgas e holandeses.
144 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Os defensores tinham a vantagem das vastas fortificações defensivas: a impene
trável Linha Maginot no sul, a extensa linha de fortes no centro e os canais forti
ficados da Holanda, ao norte. Mesmo em número de tanques, os Aliados se igua
lavam aos alemães. Mas os aliados não os tinham concentrados como os alemães.
E por causa do erro dos holandeses e belgas em apegarem-se à neutralidade, não
houve consultas entre os Estados-maiores, pelas quais os defensores pudessem
coordenar seus planos e recursos para melhor vantagem. Os alemães tinham um
comando unificado, a iniciativa do ataque, nenhum escrúpulo moral contra a
agressão, uma confiança que os contagiava e um plano temerário. Adquiriram
experiência na batalha da Polônia. Ali testaram sua nova tática e suas novas armas
de combate. Conheciam o valor dos bombardeiros de mergulho e o uso de tan
ques em massa. Sabiam, ainda, conforme Hitler nunca deixara de assinalar, que os
franceses, conquanto estivessem defendendo seu próprio solo, não sentiam qual
quer ânimo para a luta.
Não obstante sua confiança e decisão, o Alto-Comando alemão, conforme dei
xam bem claro os arquivos secretos, sofreu momentos de pânico ao aproximar-se
a hora zero — ou, pelo menos, Hitler, o comandante supremo, sofreu. O general
Jodl anotou-os em seu diário. Hitler ordenou vários adiamentos de última hora
para o ataque, o qual, em lfi de maio, ele determinara fosse efetuado no dia 5. No
dia 3, prorrogou-o para o dia 6, devido às condições atmosféricas, mas, talvez, em
parte também porque o Ministério das Relações Exteriores não julgasse suficien
temente boa a justificação proposta para a violação da neutralidade da Bélgica e
da Holanda. No dia seguinte, marcou o 7 de maio como sendo o Dia X, e, depois,
adiou-o novamente para 8 de maio, uma quarta-feira. “O Führer terminou a jus
tificativa para o Caso Amarelo”, anotou Jodl. A Bélgica e a Holanda seriam acusa
das de terem infringido a neutralidade.
7 de maio: A composição ferroviária de Hitler devia partir de Finkenkrug
às 16:38h [continuou o diário de Jodl]. O tempo, porém, permanece
incerto, e, portanto, a ordem [para o ataque] fica anulada (...) O Führer
acha-se bastante agitado acerca dos novos adiamentos, porque existe o
perigo de traição. A conferência do emissário belga no Vaticano com
Bruxelas permite deduzir que foi cometida uma traição por um perso
nagem alemão que partiu de Berlim para Roma em 29 de abril (...)
VITÓRIA NO OC ID EN TE 145
8 de maio : Notícias alarmantes vindas da Holanda. Cancelamento de
licenças, retiradas, barricadas, outros métodos de mobilização (...) O
Führer não quer esperar mais. Gõring quer que se protele até o dia 10,
pelo menos (...) O Führer está muito agitado; consente depois em pro
telar para o dia 10 de maio, que diz ser contra sua intuição. Mas nem
um dia a mais (...)
9 de maio : O Führer resolve que o ataque seja, efetivamente, em 10 de
maio. Saída do trem do Führer.; às 17h, de Finkenkrug. Depois do relato
de que as condições atmosféricas serão favoráveis no dia 10, deu-se à
ocupação o nome em código de Dantzig às 21h.
Hitler, acompanhado de Keitel, Jodl e outros membros do Estado-maior do
OKW, chegou ao quartel-general, a que ele deu o nome de Felsennest (ninho
na rocha), nas imediações de Münstereifel, logo ao alvorecer do dia 10 de maio.
A 40 quilômetros a oeste, as forças alemãs estavam sendo arremessadas sobre a
fronteira belga. Ao longo de uma frente de 182 quilômetros, do mar do Norte
à Linha Maginot, as tropas nazistas irromperam pelas fronteiras de três pequenos
Estados neutros: Holanda, Bélgica e Luxemburgo, violando brutalmente a palavra
que a Alemanha, solene e repetidamente, havia dado.
As seis semanas de guerra: 10 de maio-25 de junho de 1940
Para os holandeses foi uma guerra de cinco dias e, verdadeiramente, nesse
breve período foi selado o destino da Bélgica, da França e da força expedicionária
britânica. Para os alemães, tudo decorreu de conformidade com suas normas, ou
melhor ainda, de conformidade com o desenvolvimento de sua estratégia e sua
tática. Seus êxitos ultrapassaram as mais caras esperanças de Hitler. Seus generais
ficaram perplexos com a rapidez fulminante e a extensão de suas próprias vitórias.
Quanto aos chefes Aliados, ficaram logo paralisados pelo desenvolvimento de
operações que mal esperavam e que — na total confusão que sobreveio — não
compreendiam.
O próprio Winston Churchill, que assumira o cargo de primeiro-ministro no
primeiro dia da batalha, ficou atônito. Foi acordado as 7:30h da manhã de 15 de
146 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
maio por um chamado telefônico do primeiro-ministro francês Paul Reynaud, de
Paris, que lhe disse em voz entusiasmada: “Fomos derrotados! Perdemos a bata
lha!” Churchill recusou-se a acreditar no fato. O grande exército francês vencido
em uma semana? Era impossível. “Não compreendia”, escreveu depois, “a violên
cia dessa revolução efetuada, desde a última guerra, pela incursão de uma massa
blindada a movimentar-se rapidamente”.6
Tanques — sete divisões deles concentradas num ponto, o mais fraco nas de
fesas ocidentais, para a grande investida —, fora isso que causara tudo aquilo. Isso
e os bombardeiros de mergulho stukas e as tropas aerotransportadas que desce
ram por trás das linhas aliadas ou sobre seus fortes aparentemente inexpugnáveis
e fizeram a devastação.
Nós, que estávamos em Berlim, indagávamos a nós mesmos por que aquela
tática alemã teria atingido com esmagadora surpresa os chefes Aliados. Não ha
viam as tropas de Hitler demonstrado sua eficiência na campanha contra a Polô
nia? Ali, as grandes investidas que haviam cercado ou destruído os exércitos po
loneses no decurso de uma semana foram conseguidas pela massa de forças
blindadas depois que os stukas amoleceram a resistência. Pára-quedistas e tropas
aerotransportadas não se saíram bem na Polônia, mesmo na muito limitada esca
la com que foram empregados; deixaram de conquistar, intactas, as pontes-chave.
Mas, na Noruega, um mês antes do ataque no Ocidente, aquelas forças agiram
prodigiosamente, conquistando Oslo e todos os aeródromos e reforçando os pe
quenos grupos isolados que chegaram por mar em Stavanger, Bergen, Trondheim
e Narvik e com isso possibilitando-lhes resistir. Não haviam os comandantes Alia
dos estudado essas campanhas e aprendido as lições que elas ensinavam?
A conquista da Holanda
Somente uma divisão de panzers pôde ser reservada pelos alemães para a
conquista da Holanda, em cinco dias, em grande parte por pára-quedistas e tro
pas descidas de aviões-transporte por trás das linhas inundadas de água que mui
tos, em Berlim, acreditavam que deteriam os alemães por algumas semanas. Aos
assombrados holandeses ficou reservada a experiência de se verem submetidos
ao primeiro ataque em grande escala de forças aerotransportadas na história da
VITÓRIA NO OC ID EN TE 147
guerra. Considerando que eles não estavam preparados para essa experiência, e
a completa surpresa com que foram atacados, agiram melhor do que na ocasião
se imaginou.
O primeiro objetivo dos alemães era desembarcar uma poderosa força pelo ar
nos aeródromos próximos a Haia, ocupar imediatamente a capital e capturar a
rainha e o governo, como haviam tentado fazer um mês antes com os noruegue
ses. Mas em Haia, assim como em Oslo, o plano falhou, embora em circunstân
cias diferentes. Voltando a si da surpresa e confusão iniciais, a infantaria holande
sa, apoiada pela artilharia, pôde rechaçar os alemães — dois regimentos — dos
três aeródromos nos arredores de Haia, na noite de 10 de maio. Isso salvou a ca
pital e o governo momentaneamente, mas imobilizou reservas holandesas que
eram imensamente necessárias em outros lugares.
A chave do plano alemão foi a conquista, pelas tropas aerotransportadas, das
pontes ao sul de Roterdã sobre o Nieuwe Maas e as situadas mais a sudoeste, sobre
os dois estuários do Mosa, em Dordrecht e Moerdijk. Era sobre essas pontes que
o 18®Exército do general Georg von Küchler, avançando da fronteira alemã, qua
se a 160 quilômetros de distância, esperava forçar o caminho para a fortaleza da
Holanda. De nenhum outro modo podia este ponto entrincheirado, que jazia por
trás de formidáveis barreiras de água e abrangendo Haia, Amsterdã, Utrecht, Ro
terdã e Leyden, ser conquistado fácil e rapidamente.
As pontes foram conquistadas na manhã de 10 de maio por unidades aero
transportadas — incluindo uma companhia que aterrissou no rio, em Roterdã,
em antiquados aviões anfíbios — antes que os surpresos guardas holandeses pu
dessem destruí-los. Unidades holandesas improvisadas fizeram desesperados es
forços para rechaçar os alemães e quase conseguiram. Mas os alemães continua
ram a lutar, se bem que fracamente, até que na manhã de 12 de maio chegou em
auxílio a única divisão blindada destinada a Küchler, a qual esmagou a linha Gre-
bbe-Peel, uma frente fortificada a leste, fortalecida por certo número de barreiras
aquáticas com as quais os holandeses esperavam resistir vários dias.
Havia certa esperança de que os alemães pudessem ser contidos nas pontes de
Moerdijk pelo 72 Exército francês, do general Giraud, que havia acorrido do Ca
nal e chegado a Tilburg na tarde de 11 de maio. Mas aos franceses, da mesma
maneira que aos holandeses, que sofriam forte pressão, faltavam apoio aéreo, for
ças blindadas e canhões antitanques e antiaéreos; foram facilmente rechaçados
148 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
para Breda. Isso abriu o caminho para a 9- Divisão panzer dos alemães, que atra
vessou as pontes em Moerdijk e Dordrecht e chegou, na tarde de 12 de maio, à
margem sul do Nieuwe Maas oposta a Roterdã, onde as tropas alemãs aerotrans-
portadas ainda mantinham as pontes.
Os tanques, porém, não puderam atravessar as pontes de Roterdã. Entremen-
tes, os holandeses haviam-nas fechado na extremidade norte. Na manhã de 14 de
maio, a situação tornou-se desesperadora mas não perdida de todo. A fortaleza da
Holanda continuava ainda firme. As poderosas forças alemãs aerotransportadas
ao redor de Haia haviam sido ou capturadas ou dispersadas para as aldeias vizi
nhas. Roterdã continuava resistindo. O Alto-Comando alemão, ansioso por tirar
da Holanda as tropas de apoio e a divisão blindada, a fim de explorar uma nova
oportunidade que acabara de surgir ao sul da França, não se mostrava satisfeito.
De fato, na manhã do dia 14, Hitler expediu a Diretiva na 11 que dizia: “A força de
resistência do exército holandês demonstrou ser mais poderosa do que esperáva
mos. Considerações de ordem política e militar requerem que essa resistência seja
quebrada rapidamente.” Como? Ordenou que destacamentos da força aérea fos
sem retirados da frente do 6a Exército, na Bélgica, “a fim de facilitar a rápida con
quista da fortaleza da Holanda”.7
O Führer e Gõring ordenaram explicitamente que se bombardeasse pesada
mente Roterdã. Os holandeses seriam forçados a render-se ante uma dose de
terror — da espécie da que havia sido aplicada no outono anterior, na sitiada
Varsóvia.
Na manhã de 14 de maio, um oficial do Estado-maior alemão do 39fi Corpo
atravessou a ponte em Roterdã empunhando uma bandeira branca e exigiu a ca
pitulação da cidade. Preveniu que, a menos que capitulasse, seria bombardeada.
Enquanto se processavam as negociações — um oficial holandês fora ao quartel-
general alemão, nas proximidades da ponte, a fim de tratar dos detalhes e regres
sava com as condições impostas pelos alemães —, surgiram bombardeiros que
destruíram o centro da grande cidade. Umas oitocentas pessoas, quase todas civis,
foram massacradas, muitos milhares feridos e 78 mil ficaram desabrigadas/ Essa
traição, esse ato de calculada crueldade, seria durante muito tempo lembrado
* Informou-se, a princípio, e durante muito tempo se acreditou, que haviam sido mortos de 25 mil a
trinta mil holandeses, e são essas as cifras dadas na edição de 1953 da Encyclopaedia Brítannica. Con
tudo, em Nuremberg, o governo holandês deu a cifra como sendo de 814 mortos.8
VITÓRIA NO OCID EN TE 149
pelos holandeses, se bem que, em Nuremberg, Gõring e Kesselring, da Luftwaffe,
o defendessem, alegando que Roterdã não era uma cidade aberta, porém forte
mente defendida pelos holandeses. Ambos negaram que soubessem que havia
negociações para a capitulação quando mandaram os bombardeiros, embora haja
fortes provas nos arquivos do exército alemão de que eles sabiam.*9Seja como for,
o OKW não apresentou, na ocasião, qualquer escusa. Eu mesmo ouvi pelo rádio
de Berlim, na noite de 14 de maio, um comunicado especial do OKW:
Sob a tremenda impressão dos ataques dos bombardeiros de mergulho
e o iminente ataque dos tanques alemães, a cidade de Roterdã capitu
lou, evitando assim ser destruída.
Roterdã rendeu-se e, logo em seguida, as forças armadas holandesas. A rainha
Guilhermina e os membros do governo fugiram para Londres em dois destróieres
britânicos. Ao escurecer do dia 14 de maio, o general H. G. Winkelmann, coman-
dante-em-chefe das forças holandesas, ordenou às tropas que depusessem as ar
mas e, às llh do dia seguinte, assinou a capitulação oficial. Em cinco dias termi
nara tudo, isto é, a luta. Dali por diante, os alemães fariam descer durante cinco
anos sobre o pequenino país, que havia sido violado, uma noite de terror selva
gem.
A queda da Bélgica e o cerco dos exércitos anglo-franceses
Ao capitular a Holanda, foi lançada a sorte da Bélgica, França e a força expe
dicionária britânica. Catorze de maio, conquanto fosse apenas o quinto dia do
ataque, foi o dia fatal. Na véspera, as forças blindadas alemãs haviam estabelecido
quatro cabeças de ponte do outro lado das margens muito inclinadas e cobertas
de florestas do rio Mosa, de Dinant a Sedan, conquistaram Sedan — que havia
sido o cenário da rendição de Napoleão III a Moltkee, em 1870, e do fim do Ter
ceiro Império — e gravemente ameaçaram o centro das linhas aliadas e o eixo
sobre o qual girara tão rapidamente a flor dos exércitos britânicos e franceses que
entrara na Bélgica.
* Em Nuremberg, não houve condenações pelo bombardeio de Roterdã.
150 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Em 14 de maio desencadeou-se a avalancha. Um exército de tanques, cujo
número, concentração, mobilidade e poder ofensivo eram sem precedentes na
história das guerras — e que, na ocasião em que partira da fronteira alemã, em seu
território se estendia até o Reno, em três colunas, por uma distância de 160 quilô
metros —, rompeu o 9a e o 2fi Exércitos franceses e dirigiu-se, rapidamente, para
o Canal, na retaguarda das forças aliadas na Bélgica. Foi uma formidável e estar-
recedora corrida de carros de assalto. Precedida por ondas de bombardeiros de
mergulho stukas, que enfraqueciam as posições defensivas dos franceses, com gran
des levas de engenheiros de combate que lançavam barcos de borracha e erguiam
pontes de pontões para a travessia de rios e canais, cada divisão panzer, dotada de
sua artilharia de autopropulsão e de uma brigada de infantaria motorizada, e o
corpo blindado seguido de perto por divisões de infantaria motorizada para
manter as posições abertas pelos tanques, essa avalancha de aço e fogo não pôde
ser detida de modo algum pelos desnorteados defensores. Em ambos os lados de
Dinant, no Mosa, os franceses não puderam resistir ao 15a Corpo blindado do
general Hermann Hoth, de cujas duas divisões uma era comandada por um ou
sado jovem general-brigadeiro, Erwin Rommel. Mais ao sul, ao longo do rio, em
Monthermé, a mesma ação estava sendo executada pelo 41fi Corpo blindado,
que era composto de duas divisões de tanques sob a direção do general Georg-
Hans Reinhardt.
Mas foi em torno de Sedan, de desastrosa lembrança para os franceses, que se
desfechou o maior golpe. Ali, na manhã de 14 de maio, duas divisões de tanques
do 19fi Corpo blindado,* do general Heinz Guderian, irromperam por uma ponte
de pontões construída às pressas sobre o Mosa durante a noite, e avançaram para
oeste. Embora as forças blindadas francesas e os bombardeiros britânicos procu
rassem desesperadamente destruir a ponte — 40 dos 71 aviões da Real Força Aé
rea foram derrubados num único ataque, a maioria por fogo antiaéreo, e 70 tan
ques franceses foram destruídos — não conseguiram. À noite, a cabeça-de-ponte
dos alemães em Sedan era de 48 quilômetros de largura e 24 de profundidade; as
forças francesas, no centro vital da linha aliada, tinham sido destroçadas. Aqueles
que não tinham sido cercados e capturados tinham-se posto em desordenada
* Os dois corpos blindados de Reinhardt e Guderian formavam o grupo de panzers sob o comando do
general Ewald von Kleist, que se compunha de cinco divisões de tanques e três divisões de infantaria
motorizada.
VITÓRIA NO OC IDENTE 15 1
retirada. Os exércitos franco-britânicos no norte e as 22 divisões dos belgas foram
colocados em horrível perigo de ficarem isolados.
Os dois primeiros dias tinham corrido regularmente bem para os Aliados, ou
assim pensavam eles. A Churchill, que mergulhara com novo ardor em suas novas
responsabilidades como primeiro-ministro, “até a noite do dia 12”, conforme es
creveu depois, “não havia razão para supor que as operações não estivessem cor
rendo bem”.10Gamelin, o generalíssimo das forças aliadas, estava altamente satis
feito com a situação. Na véspera, a melhor e a maior parte das forças francesas, o
lfi, o 7- e o 9a Exércitos, juntamente com a força expedicionária britânica, formada
de nove divisões sob o comando de lorde Gort, uniu-se aos belgas, conforme os
planos, numa forte linha defensiva que se estendia ao longo do rio Dyle e que
partia da Antuérpia, atravessava Louvain e ia até Wavre, de onde atravessava o
desfiladeiro de Gembloux, até Namur e descia pelo sul ao longo do Mosa até Se-
dan. Entre a formidável fortaleza belga de Namur e Antuérpia, numa frente de
apenas 96 quilômetros, o número das forças aliadas excedia ao dos atacantes ale
mães, 36 divisões contra as 20 do 6- Exército, de Reichenau.
Os belgas, embora tivessem combatido bem ao longo da esfera de sua frontei
ra nordeste, não resistiram ali tanto quanto se esperava, certamente não tão de-
moradamente quanto em 1914. À semelhança dos holandeses ao norte deles, sim
plesmente não puderam enfrentar a nova tática revolucionária da Wermacht. Ali,
como na Holanda, os alemães apoderaram-se das pontes vitais por meio de gran
de número de tropas especialmente preparadas, que aterrissaram silenciosamente
em planadores, ao alvorecer do dia. Dominaram os guardas em duas das três pon
tes sobre o canal Albert, atrás de Maastricht, antes que os defensores pudessem
manobrar as chaves que deveriam fazê-las explodir.
Os alemães tiveram um êxito ainda maior ao conquistarem o forte Eben-Emael,
que dominava a junção do rio Mosa e o canal Albert. Essa fortaleza, moderna e
estrategicamente bem localizada, era considerada inexpugnável, tanto pelos Alia
dos quanto pelos alemães, mais poderosa que qualquer coisa que os franceses
tivessem construído na Linha Maginot ou os alemães na muralha ocidental.
Construída numa série de galerias de aço e concreto subterrâneas, esperava-se que
suas torres de canhões protegidas por pesada blindagem e manobradas por 1.200
homens resistissem indefinidamente contra o martelar das mais pesadas bombas
e granadas. Caiu em trinta horas ante o ataque de oitenta soldados alemães que,
152 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
sob o comando de um sargento, haviam aterrissado em nove planadores sobre seu
teto e cujo total de baixas remontou a seis mortos e 19 feridos. Em Berlim —
lembro-me — o OKW fez que a empresa parecesse muito misteriosa, ao anunciar
num comunicado especial, na noite de 11 de maio, que o forte Eben-Emael havia
sido conquistado por meio de um “novo método de ataque”, comunicado que deu
origem a que se espalhassem boatos — e o dr. Goebbels deleitou-se em soprá-los
— de que os alemães possuíam uma novíssima “arma secreta”, talvez um gás que,
atuando sobre os nervos, paralisara temporariamente os defensores.
A verdade era muito mais prosaica. Com seu extraordinário gosto de prepara
tivos minuciosos, os alemães, durante o inverno de 1939-1940, construíram em
Hildesheim uma réplica do forte e das pontes sobre o canal Albert e treinaram
uns quatrocentos soldados transportados em planadores, para conquistá-los. Três
grupos deviam conquistar as três pontes, e o quarto, o forte Eben-Emael. Essa
última unidade, formada de oitenta soldados, aterrou no topo da fortaleza e colo
cou ali um explosivo “oco” especialmente preparado, sobre as torres blindadas,
que não só as punha fora de ação como espalhava chamas e gás nas câmaras,
embaixo. Lança-chamas portáteis foram também usados nos portais dos canhões
e nas aberturas de observação. Em uma hora, os alemães puderam penetrar nas
galerias superiores, tornar inúteis os canhões pesados e leves do forte e cegar os
postos de observação. A infantaria belga, atrás do forte, procurou em vão desalo
jar o pequeno bando de atacantes; foi, porém, rechaçada pelos ataques dos stukas
e dos pára-quedistas que chegaram como reforços. Na manhã de 11 de maio, uni
dades avançadas de panzers, que haviam atravessado as duas pontes intactas, no
norte, chegaram ao forte e cercaram-no e, após novos bombardeios dos stukas e
luta corpo-a-corpo nos túneis, foi hasteada uma bandeira branca ao meio-dia. Os
1.200 atordoados defensores belgas saíram em fileira e renderam-se.11
Esse feito, juntamente com a conquista das pontes e a violência do ataque
desfechado pelo 6e Exército, do general von Reichenau, que foi sustentado pelo
16a Corpo blindado de duas divisões de tanques e uma divisão de infantaria me
canizada sob o comando do general Hoepner, convenceu o Alto-Comando dos
Aliados que, da mesma maneira que em 1914, a força ofensiva alemã estava sendo
descarregada pela sua direita, e tomaram medidas para detê-la. De fato, já na noi
te de 15 de maio, as forças belgas, britânicas e francesas estavam mantendo-se
firmes na linha de Dyle, que ia da Antuérpia a Namur.
VITÓRIA NO OC IDENTE 15 3
Era justamente o que desejava o Alto-Comando alemão. Tornara-se agora
possível lançar o plano de Manstein e atacar o inimigo no centro. O general Hal
der, chefe do Estado-maior geral, viu, muito claramente, a situação — e suas opor
tunidades — na noite de 13 de maio.
Ao norte de Namur [escreveu ele em seu diário] podemos contar uma
completa concentração de 24 divisões britânicas e francesas e 15 divi
sões belgas. Contra elas, nosso 6a Exército dispõe de 15 divisões na
frente e 6 na reserva (...) Estamos suficientemente fortes para afastar
qualquer ataque do inimigo. Nenhuma necessidade de se trazerem mais
forças. Ao sul de Namur enfrentamos um inimigo mais fraco. Cerca de
metade de nosso poderio. O resultado do ataque no Mosa decidirá se,
quando e onde poderemos explorar essa superioridade. O inimigo não
dispõe de força digna de menção atrás dessa frente.
Nenhuma força digna de menção atrás dessa frente que, no dia seguinte, foi
rompida?
Em 16 de maio, o primeiro-ministro Churchill voou para Paris a fim de averi
guar. À tarde, quando se dirigia ao Quai d’Orsay para avistar-se com o prem ier
Reynaud e com o general Gamelin, pontas-de-lança alemãs estavam a 96 quilô
metros a oeste de Sedan rolando pelo campo aberto e desprotegido. Nada de valor
se interpunha entre elas e Paris ou entre elas e o Canal. Churchill ignorava esse
ponto. “Onde está a reserva estratégica?”, perguntou a Gamelin, e passando para
o francês: “Oii est la masse de manoeuvre?” O comandante-em-chefe dos exércitos
Aliados voltou-se para ele e, meneando a cabeça e dando de ombros, respondeu:
“Aucuné ” (não há nenhuma).*
“Fiquei perplexo”, relatou Churchill mais tarde. Inacreditável que um grande
exército, quando atacado, não mantivesse tropas de reserva. “Admito”, disse Chur
chill, “ter sido essa uma das maiores surpresas que tive em minha vida.”12
Não menor foi a surpresa do Alto-Comando alemão ou, pelo menos, de Hitler
e dos generais, no OKW, se não a de Halder também. Duas vezes, durante essa
campanha no Ocidente, que o próprio Führer dirigia, ele hesitou. A primeira, em
* Depois da guerra, Gamelin declarou que sua resposta não fora "não há nenhuma" e sim "não há mais
nenhuma" (UAurore, Paris, 21 de novembro de 1949).
154 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
17 de maio, quando se viu presa de uma crise de nervos. Nessa manhã, Guderian,
que estava a uma terça parte do caminho para o canal com seu corpo d epanzers,
recebeu ordem de suspender a marcha. Haviam sido recebidas informações da
Luftwaffe de que os franceses estavam preparando um grande contra-ataque para
isolar as forças blindadas cujas cunhas se estendiam a oeste de Sedan. Hitler con-
ferenciou apressadamente com o comandante-em-chefe do exército, Brauchitsch,
e com Halder. Estava certo de que se desenvolvia no sul uma séria ameaça dos
franceses. Rundstedt, comandante do grupo A de exércitos, a principal força que
havia feito a primeira ruptura no Mosa, apoiou-o quando conferenciaram mais
tarde, nesse dia. Esperava, disse, “uma grande contra-ofensiva de surpresa, por
poderosas forças francesas das áreas de Verdun e Châlons-sur-Marne”. Surgiu no
espírito febril de Hitler o espectro de um segundo Marne. “Estou vigilante nesse
ponto”, escreveu ele no dia seguinte a Mussolini. “O milagre do Marne de 1914
não se repetira.”13
Um dia muito desagradável [anotou Halder em seu diário, na noite de
17 de maio]. O Führer acha-se horrivelmente nervoso. Está preocupado
com seu próprio êxito, não quer arriscar coisa alguma e insiste em to-
lher-nos os movimentos. Desculpa-se dizendo que tudo isso é devido à
sua preocupação com o flanco esquerdo (...) Só tem provocado confu
são e dúvidas.
O chefe nazista não demonstrou qualquer melhora durante o dia seguinte, a
despeito da avalancha de notícias sobre o colapso francês. Halder registrou a crise
em seu diário no dia 18.
O Führer acha-se inexplicavelmente preocupado com o flanco sul. Vo
cifera e grita que estamos caminhando para a ruína de toda a operação
e cortejando o perigo de uma derrota. Não quer saber de continuar a
investida pelo oeste, muito menos a sudoeste, e apega-se sempre à idéia
de um avanço a noroeste. É essa a matéria de um debate desagradabilís-
simo entre o Führer; de um lado, e Brauchitsch e eu, do outro.
O general Jodl, do OKW, para quem o Führer quase sempre tinha razão, tam
bém anotou a discórdia na alta esfera nazista:
VITÓRIA NO OC IDENTE 15 5
Dia de grande tensão [escreveu no dia 18]. O comandante-em-chefe do
exército [Brauchitsch] não organizou, o mais depressa possível, uma
nova posição de flanco ao sul (...) Brauchitsch e Halder foram chama
dos imediatamente e a eles foi peremptoriamente ordenado adotarem
imediatamente as medidas necessárias.
Halder, porém, estava com a razão; os franceses não dispunham de tropas com
as quais pudessem preparar um contra-ataque ao sul. Conquanto as divisões p a n
zers, impacientes que estavam, recebessem ordens para nada mais fazer senão
prosseguir numa ação de “reconhecimento com pleno vigor”, isso foi tudo de que
precisavam para fazer pressão em direção ao Canal. Na manhã de 19 de maio,
uma poderosa força de sete divisões blindadas, investindo inexoravelmente na
direção oeste, ao norte do rio Somme, e passando pelos cenários históricos da
batalha da Primeira Guerra Mundial, achou-se apenas a uns oitenta quilômetros
do Canal. Na noite de 20 de maio, para surpresa do quartel-general de Hitler, a 2-
Divisão panzer chegou a Abbeville, na embocadura do Somme. Os belgas, a força
expedicionária britânica e os três exércitos franceses viram-se cercados.
O Führer não se contém de alegria [escreveu Jodl em seu diário nessa
noite]. Tece palavras laudatórias ao exército alemão e a seus chefes. Está
redigindo o tratado de paz que deverá conter o seguinte: devolução do
território roubado, durante os últimos quatrocentos anos, ao povo ale
mão, e de outros valores (...)
Encontra-se nos arquivos um memorando especial contendo as pala
vras do Führer, embargado pela emoção, ao receber a informação tele
fônica do comandante-em-chefe sobre a conquista de Abbeville.
A única esperança dos Aliados de se livrar daquele desastroso cerco era os
exércitos, na Bélgica, virarem imediatamente para sudoeste, desembaraçarem-
se do 62 Exército alemão, atacando-o ali, abrirem caminho através da força blin
dada alemã, que se estendia pelo norte da França até o mar, e unirem-se às for
ças frescas dos franceses que avançavam em direção norte, vindas do Somme.
Foi, realmente, o que o general Gamelin ordenou na manhã de 19 de maio, mas
ele foi nessa noite substituído pelo general Maxime Weygand que, imediatamente,
156 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
cancelou a ordem. Weygand, que adquirira formidável fama na Primeira Guerra
Mundial, quis conferenciar antes com os comandos Aliados na Bélgica, e depois
resolver o que devia ser feito. Como resultado, perderam-se três dias para, por
fim, ele apresentar precisamente o plano de seu predecessor. Essa demora custou
caro. Havia ainda 40 divisões francesas, britânicas e belgas no norte, já experien
tes na luta, e, tivessem elas atacado ao sul a fina linha blindada alemã, em 19 de
maio, conforme Gamelin ordenara, teriam conseguido rompê-la. Quando se
movimentaram, as comunicações entre os vários comandos daqueles países ti
nham-se tornado caóticas, e os vários exércitos Aliados, sob a forte pressão em
que se achavam, começaram a agir desordenadamente. Seja como for, o plano de
Weygand existia apenas no espírito do general; nenhuma força francesa surgiu
do Somme.
Entrementes, o Alto-Comando alemão lançava na luta todas as tropas de in
fantaria que puderam ser arremessadas para fortalecer e alargar a brecha das for
ças blindadas. Em 24 de maio, os tanques de Guderian, avançando de Abbeville
para o Canal, capturaram Boulogne e cercaram Calais, os dois principais portos,
e atingiram Gravelines, na costa, a 32 quilômetros de Dunquerque. A frente na
Bélgica moveu-se para o sudoeste, ao tentarem os Aliados desligar-se dali. No dia
24, já os exércitos britânicos, franceses e belgas, no norte, se viram comprimidos
num triângulo relativamente pequeno com sua base ao longo do Canal, de Grave
lines e Terneuzen, e seu vértice em Valenciennes, a 112 quilômetros no interior.
Não havia, agora, esperança de romper o cerco. A única, e parecia muito frágil, era
a possível evacuação por mar, em Dunquerque.
Foi nessa emergência, em 24 de maio, que as forças alemãs, agora à vista de
Dunquerque e estabilizadas ao longo do Canal Aa, entre Gravelines e St. Omer,
para o aniquilamento final, receberam uma estranha ordem — e aos soldados, no
campo, ela foi inexplicável — de suspenderem o avanço. Foi o primeiro dos gran
des erros cometidos pelo Alto-Comando alemão na Segunda Guerra Mundial;
tornou-se o assunto de violenta controvérsia, não só entre os próprios generais
alemães como entre os historiadores militares sobre quem era o responsável por
isso, e por quê. Voltaremos a tratar dessa questão à luz de um acervo de material
agora existente. Quaisquer que fossem as razões para suspender a marcha, isso pro
porcionou milagrosa trégua aos Aliados, especialmente aos britânicos, causando,
como causou, o milagre de Dunquerque. Mas essa ordem não salvou os belgas.
VITÓRIA NO OC IDENTE 157
A capitulação do rei Leopoldo
O rei Leopoldo III dos belgas capitulou nas primeiras horas da manhã de 28
de maio. O jovem e teimoso soberano, que tirara o país da aliança com a França e
a Inglaterra e se colocara à sombra de uma tola neutralidade, que recusara resta
belecer essa aliança mesmo durante os meses em que sabia estarem os alemães
preparando um ataque maciço através de suas fronteiras, e que, no último mo
mento, após o ataque de Hitler, clamara pelo auxílio militar dos franceses e britâ
nicos e o recebera, abandonava-os agora, numa hora desesperadora, abrindo o
dique pelo qual as divisões se despejariam sobre o flanco das tropas anglo-france-
sas fortemente acossadas. Além disso — como disse Churchill em 4 de junho, na
Câmara dos Comuns —, “sem prévia consulta, sem o menor aviso possível, sem o
parecer de seus ministros, agindo de maneira puramente pessoal”.
Na verdade, contra o parecer unânime de seu governo, que ele, constitucional
mente, jurara seguir. Às 5h de 25 de maio, houve uma reunião para uma explica
ção definitiva entre o monarca e três membros do gabinete, entre eles o primeiro-
ministro e o ministro das Relações Exteriores. Eles aconselharam-no pela última
vez a não capitular pessoalmente e a não se tornar prisioneiro dos alemães, pois,
se o fizesse, “seria degradado ao papel de Hácha”, em Praga. Lembraram-lhe tam
bém que era um chefe de Estado e o comandante-em-chefe, e que, se a situação
piorasse, poderia exercer seu cargo no exílio, como a rainha da Holanda e o rei da
Noruega haviam decidido fazer, até que se verificasse, eventualmente, a vitória
dos Aliados.
“Resolvi ficar”, respondeu Leopoldo. “A causa dos Aliados está perdida.”14
Às 17h de 27 de maio, mandou o general Derousseaux, chefe-representante do
Estado-maior geral belga, encontrar-se com os alemães e pedir um armistício. Às
22h o general trouxe as condições impostas pelos alemães: “O Führer exige que as
armas sejam depostas incondicionalmente.” O rei aceitou a capitulação incondi
cional às 23h e propôs que se cessasse a luta às 4h, o que foi feito.
O prem ier Reynaud, da França, denunciou colericamente a capitulação de
Leopoldo numa violenta transmissão radiofônica. O primeiro-ministro belga,
Pierlot, também falou pela rádio de Paris, mas num tom mais condigno; infor
mou o povo belga de que o rei agira contra o conselho unânime do governo, rom
pera os laços que o unia ao povo e não mais se achava em posição de governá-lo;
l 58 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
e que o governo belga, no exílio, continuaria a luta. Churchill, ao falar na Câmara
dos Comuns em 28 de maio, evitou manifestar-se sobre o ato de Leopoldo, mas
em 4 de junho associou-se à crítica geral. A controvérsia perdurou muito tempo
depois de finda a guerra. Os defensores de Leopoldo, e havia muitos na Bélgica e
fora dela, acreditavam que ele fizera uma coisa justa e honrosa partilhando do
destino de seus soldados e do povo belga. E insistiram na afirmação de que o rei,
ao capitular, agira, não como chefe de Estado, mas como comandante-em-chefe
do exército belga.
Não se discute que as maltratadas forças belgas estivessem, em 27 de maio, em
situação desesperadora. Valentemente, concordaram em estender sua frente a fim
de dar aos britânicos e franceses a possibilidade de forçar um caminho para o sul.
E essa linha desmoronava-se rapidamente, embora os belgas lutassem tenazmen
te. Leopoldo também não foi informado de que, em 26 de maio, lorde Gort rece
beu, de Londres, ordem para se retirar para Dunquerque, salvando o que pudesse
da força expedicionária britânica. É esse um lado do argumento, mas há outro. O
exército belga achava-se sob o comando total dos Aliados, e Leopoldo havia feito
uma paz em separado sem consultá-lo. Em sua defesa, tem-se assinalado que, às
12:30h do dia 27 de maio, ele telegrafara a Gort, que logo “seria forçado a capitular
a fim de evitar um colapso”; e que o comandante britânico, que se achava atarefa-
díssimo e constantemente em movimento, não recebera a mensagem. Testemu
nhou mais tarde que somente tivera conhecimento da capitulação pouco tempo
depois das 23h de 27 de maio, quando se viu “subitamente frente a uma brecha
aberta de 32 quilômetros entre Ypres e o mar, pela qual as forças blindadas do
inimigo poderiam alcançar as praias”.15Ao general Weygand, comandante militar
superior do rei, a notícia chegou por telegrama procedente dos franceses de liga
ção junto ao quartel-general belga, pouco depois das 18h; e a notícia atingiu-o
— declarou mais tarde — “como um raio que tivesse caído do céu. Não houve
qualquer advertência (...)”16
Finalmente, mesmo como comandante-em-chefe das forças armadas, Leopol
do, nessa monarquia constitucional e democrática, era obrigado a aceitar o con
selho de seu governo. Quer nesse papel, quer no de chefe de Estado, não tinha
autoridade para capitular por conta própria. O povo belga, afinal, julgou como
convinha o seu soberano. Só foi chamado da Suíça, onde se refugiara, ao fim da
guerra, para assumir o trono, cinco anos depois. Quando isso se deu, em 20 de
julho de 1950, sua volta, após ter sido aprovada por 57% dos que votaram num
VITÓRIA NO OC IDENTE 159
referendo, provocou uma reação tão violenta entre o povo, que ameaçou irromper
uma guerra civil. Leopoldo logo abdicou em favor do filho.
Em qualquer coisa que se dissesse sobre a conduta de Leopoldo não deveria
haver — e no entanto houve* — contestação sobre a magnífica maneira com a
qual seu exército combateu. Durante alguns dias, em maio, eu segui o 6e Exército
na Bélgica, e presenciei a tenacidade com que os belgas lutaram contra dificulda
des insuperáveis. Nem uma vez se prostraram sob o bombardeio impiedoso e li
vre da Luftwaffe ou quando as forças blindadas procuraram atravessar suas linhas.
Não se poderia dizer isso de outras tropas aliadas nessa campanha. Os belgas re
sistiram durante 18 dias e teriam resistido mais tempo, não tivessem eles, como a
força expedicionária britânica e os exércitos franceses do norte, sido apanhados
numa armadilha que não era criação sua.
Milagre em Dunquerque
Desde 20 de maio, quando os tanques de Guderian romperam as linhas em
sua investida para Abbeville, na costa, o almirantado britânico, obedecendo às
ordens pessoais de Churchill, começara a concentrar barcos para a possível eva
cuação da força expedicionária britânica e outras tropas aliadas dos portos do
Canal. Elementos não combatentes e outras “bocas inúteis” começaram a ser trans
portados imediatamente pelo estreito mar para a Inglaterra. Em 24 de maio, con
forme vimos, a frente belga ao norte achava-se prestes a cair e, ao sul, as forças blin
dadas alemãs, atacando de Abbeville, na costa, depois de conquistar Boulogne e
envolver Calais, atingiram o Canal Aa a apenas 32 quilômetros de Dunquerque.
Nesse bolsão foram apanhados o exército belga, as nove divisões da força expe
dicionária britânica e dez divisões do lfi Exército francês. Conquanto o terreno,
na extremidade sul do bolsão, fosse ruim para a passagem de tanques, por ser en-
trecruzado de canais, fossos e áreas inundadas, os corpos de panzers de Guderian
e Reinhardt já haviam conseguido estabelecer cinco cabeças-de-ponte no lado
oposto da principal barreira, o Canal Aa, entre Gravelines, na costa, e St. Omer, e
* Entre muitos, do general sir Alan Brooke, que comandou o 2a corpo do Exército britânico, tornando-se
mais tarde marechal-de-campo lorde Alanbrooke, chefe do Estado-maior imperial. (Ver The Turn ofthe
Tide, de sir Arthur Bryant, baseado no diário de Alanbrooke).
1Ó 0 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
estavam prontos para os golpes que malhariam os exércitos Aliados contra a bi
gorna dos 6a e 18GExércitos alemães que, do nordeste, vinham avançando e que os
destruiriam completamente.
Inesperadamente, na noite de 24 de maio, veio a ordem peremptória do Alto-
Comando — expedida ante a insistência de Hitler, apoiado por Rundstedt e
Gõring, porém a que objetaram violentamente Brauchitsch e Halder — para que
as forças de tanques se detivessem na linha do Canal e não procurassem avançar.
Isso proporcionou a lorde Gort um alívio inesperado e vital, que ele e a marinha
de guerra e a força aérea britânica aproveitaram ao máximo e que, conforme
Rundstedt mais tarde percebeu e afirmou, conduzira “a um dos grandes momen
tos decisivos da guerra”.
Como surgiu essa inexplicável ordem para deter no limiar o que seria, certa
mente, a maior vitória alemã nessa campanha? Quais foram as razões que a dita
ram? E quem foi o responsável por ela? Essas questões provocaram uma das
maiores controvérsias da guerra, entre os generais envolvidos e entre os historia
dores. Os generais, liderados por Rundstedt e Halder, lançaram a culpa exclusiva
mente sobre Hitler. Churchill acrescentou mais lenha à fogueira no segundo vo
lume de suas memórias sobre a guerra, afirmando que a iniciativa da ordem
partira de Rundstedt e não de Hitler e citando, como prova, os diários de guerra
do próprio quartel-general de Rundstedt. Na confusão dos testemunhos que se
entrechocam e contradizem, tem sido difícil estabelecer a verdade dos fatos.
Quando se preparava para escrever este capítulo, o autor dirigiu uma carta ao
general Halder pedindo-lhe que prestasse novos esclarecimentos, tendo recebido
prontamente uma delicada e minuciosa resposta. Com base nela e em muitas outras
provas agora existentes, podemos tirar certas conclusões e encerrar a controvér
sia, senão de modo concludente, pelo menos razoavelmente convincente.
Quanto à responsabilidade pela célebre ordem, Rundstedt, a despeito das afir
mações em contrário que fez depois, deve partilhá-la com Hitler. O Führer visitou
o quartel-general do grupo A de exércitos, sob o comando desse general, em
Charleville, na manhã de 24 de maio. Rundstedt propôs que as divisões panzers ,
na linha do canal diante de Dunquerque, suspendessem o avanço até que pudes
sem chegar mais divisões de infantaria.* Hitler concordou, observando que as
* Esse fato, determinado segundo os registros do próprio quartel-general de Rundstedt, não impediu
que o general fizesse várias declarações após a guerra, nas quais lançava a culpa inteiramente sobre
Hitler."Se eu pudesse ter agido a meu modo", contou o general ao major Milton Shulman, um oficial do
VITÓRIA NO OC IDENTE 1 61
forças blindadas deviam ser conservadas para operações posteriores contra os
franceses, ao sul do Somme. Além disso, declarou que se o bolsão em que haviam
sido pegos os Aliados se tornasse demasiado pequeno, dificultaria as atividades
da Luftwaffe. Provavelmente Rundstedt, com a aprovação do Führer, expediu ime
diatamente a ordem para sustar a marcha, pois Churchill observa que a força ex
pedicionária britânica interceptou uma mensagem alemã pelo rádio dando or
dens para esse fim, às 1l:42h.17Hitler e Rundstedt achavam-se, nessa ocasião, em
conferência.
Seja como for, nessa noite Hitler expediu a ordem formal do OKW, e Jodl e
Halder anotaram-na em seus diários. O chefe do Estado-maior geral ficou de-
soladíssimo:
Nossa ala esquerda, composta de forças blindadas e motorizadas [es
creveu ele], ficará assim imobilizada no caminho por ordens diretas do
Führerl O aniquilamento do exército inimigo, cercado, fica a cargo da
força aérea!
Esse ponto de exclamação e de desprezo indica que Gõring interviera junto a
Hitler, e sabe-se que realmente interveio. Ofereceu-se para liquidar, somente com
sua força aérea, os soldados inimigos que estavam cercados! As razões de sua
ambiciosa e presunçosa proposta foram dadas ao autor na carta que recebeu de
Halder, em 9 de julho de 1957:
serviço secreto canadense, "os ingleses não teriam tão facilmente saído de Dunquerque. Mas minhas
mãos estavam amarradas pelas ordens diretas do próprio Hitler. Enquanto os ingleses subiam para os
navios ao largo da costa, eu fui obrigado a ficar inativo fora do porto, incapacitado de fazer um movi
mento (...) Fiquei fora da cidade, observando os ingleses escaparem, enquanto meus tanques e a infan
taria se achavam proibidos de mover-se. Esse inacreditável erro foi devido à idéia pessoal de Hitler
como dirigente." (Shulman, Defeatin the West, p. 42-3).
Rundstedt, em 20 de junho de 1946 (transcrição mimeografada, p. 1.499), acrescentou perante uma
comissão do Tribunal Internacional: "Foi um grande erro do comandante (...) Indescritível a cólera que
nós, chefes, sentimos na ocasião." Rundstedt fez declarações semelhantes a Liddell Hart (The generais
talk, p. 112-3) e perante o Tribunal Militar, em Nuremberg, no processo United States v. Leeb (p. 3.350-3,
3.931-2, da transcrição mimeografada).
Telford Taylor, em The March of Conquest, e o major L. F. Ellis, em The War in Trance and Flanders,
1939-1940, analisaram os documentos do exército alemão sobre o incidente, e suas conclusões dife
rem de certo modo. O livro de Ellis é o relato oficial dos britânicos sobre a campanha e contém docu
mentação tanto britânica quanto alemã. Taylor, que despendeu quatro anos como promotor dos nor
te-americanos nos julgamentos de Nuremberg, é uma autoridade no tocante à documentação alemã.
1 Ó2 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Durante os dias que se seguiram [isto é, depois de 24 de maio], tomou-
se conhecido que a decisão de Hitler fora particularmente influenciada
por Gõring. Ao ditador, aquele rápido movimento do exército, cujos
riscos e perspectivas de êxito não compreendia por lhe faltar educação
militar, tornava-se quase sinistro. Estava constantemente apreensivo
com a possibilidade de uma reviravolta (...)
Gõring, que conhecia bem o Führer, tirou proveito dessa apreensão.
Ofereceu-se para empreender o restante da luta, nessa grande batalha
de cerco, somente com a Luftwaffe, eliminando-se assim o risco de uti
lizar valiosas formações depanzers. Fez essa proposta (...) por uma razão
que caracterizava a falta de escrúpulos e a ambição de Gõring. Queria
assegurar para sua força aérea, após as operações até então surpreen
dentemente fáceis para o exército, o ato final e decisivo na grande bata
lha e, assim, conquistar a glória da vitória perante o mundo inteiro.
O general Halder narra depois, em sua carta, uma informação que lhe foi dada
por Brauchitsch depois de uma conversa que este último tivera com os generais
da Luftwaffe — Milch e Kesselring — na prisão de Nuremberg, em janeiro de
1946, na qual esses oficiais da força aérea declararam
que Gõring nessa ocasião [maio de 1940] enfatizou a Hitler que se os
generais do exército reivindicassem exclusivamente para si a grande vi
tória na batalha que então se desenvolvia, o prestígio dele, Hitler, ficaria
abalado para sempre na Alemanha. Isso só poderia ser evitado se a
Luftwaffe, e não o exército, levasse a cabo a batalha decisiva.
É razoavelmente claro, pois, que a idéia de Hitler, inspirada por Gõring e
Rundstedt, à qual Brauchitsch e Halder se opuseram formalmente, era deixar que
a força aérea e o grupo B dos exércitos comandado por Bock — que, sem qualquer
força blindada digna de menção, vagarosamente fazia recuar os belgas e os bri
tânicos a sudoeste, para o Canal — procedessem à operação de limpeza das for
ças inimigas no bolsão. O grupo A dos exércitos, de Rundstedt, com uma das sete
divisões de tanques paradas nos canais a oeste e ao sul de Dunquerque, ficaria fir
me ali, mantendo o inimigo cercado. Nem a Luftwaffe nem o grupo de exércitos,
VITÓRIA NO OC IDENTE 1Ó 3
de Bock, porém, demonstraram poder atingir seus objetivos. Na manhã de
26 de maio, Halder dava vazão à cólera em seu diário, dizendo que ‘essas ordens
do alto não têm sentido algum (...) Os tanques estão parados como se estivessem
paralisados”.
Finalmente, na noite de 26 de maio, Hitler anulou a ordem e concordou em
que, dado o lento avanço de Bock na Bélgica e o movimento de transportes ao
largo da costa, as forças blindadas reiniciassem o avanço contra Dunquerque. Mas
já era tarde. O inimigo encurralado tivera tempo para fortificar suas defesas e,
protegido por elas, começava a escapar pelo mar.
Sabemos agora que houve também razões políticas para a ordem fatal de Hi
tler. Halder anotou, em seu diário, em 25 de maio, dia — disse ele — que “come
çara com uma daquelas desagradáveis discussões entre Brauchitsch e o Führer
sobre os movimentos seguintes na batalha do cerco”, que
agora a ordem política criou a idéia fixa de que a batalha decisiva não
devia ser travada em solo flamengo e sim no norte da França.
Esse registro deixou-me perplexo. Quando escrevi ao antigo chefe do Estado-
maior geral, perguntei-lhe se se lembrava das razões políticas de Hitler para que
rer terminar aquela batalha no norte da França em vez de na Bélgica. Halder
lembrou-se perfeitamente delas: “Segundo a lembrança que ainda tenho bem viva
na memória”, respondeu, “Hitler, em nossas conversações, naquele tempo, apoiou
suas razões para dar a ordem de suspender o avanço, tendo dois pensamentos em
vista. O primeiro, razões de ordem militar: a natureza do terreno imprópria para
os tanques, as altas perdas que resultariam, enfraquecendo o ataque contra o res
tante da França, etc.” Em seguida — escreveu Halder — o Führer citou
uma segunda razão que sabia que nós, como soldados, não podíamos
combater, porque era de ordem política e não militar.
Essa segunda razão era que, por motivos políticos, ele não queria que a
batalha decisiva e final, que inevitavelmente causaria grande dano à po
pulação, fosse travada em território habitado pelo povo flamengo. Ti
nha a intenção, declarou, de formar com ele uma região nacional-socia-
lista independente, ligando-o, assim, mais para o lado da Alemanha.
1Ó4 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Seus adeptos, no solo flamengo, há muito vinham ali exercendo suas
atividades, e ele lhes prometera manter a região livre dos danos da guer
ra. Se não mantivesse a promessa, agora, a confiança que nele deposita
vam ficaria seriamente abalada. Isso criaria uma desvantagem para a
Alemanha que ele como chefe responsável por sua política devia evitar.
Absurdo? Se isso parece mais uma das súbitas aberrações de Hitler (Halder
escreveu que ele e Brauchitsch “não ficaram convencidos com tal raciocínio”),
outras considerações políticas que ele confiou a outros generais eram mais justas
(...) e importantes. Descrevendo, depois da guerra, a conferência de Hitler com
Rundstedt em 24 de maio, o general Günther Blumentritt, chefe de operações
de Rundstedt, informou Liddell Hart, o escritor militar britânico:
Hitler estava de bom humor (...) e deu-nos sua opinião de que a guerra
seria terminada dali a seis semanas. Depois disso, desejava concluir
uma paz razoável com a França, quando então o caminho estaria livre
para um acordo com a Inglaterra (...)
Ele surpreendeu-nos, depois, ao falar com admiração sobre o império
britânico, sobre a necessidade de sua existência e sobre a civilização que
a Inglaterra trouxera para o mundo (...) Declarou que tudo o que dese
java da Inglaterra era que ela reconhecesse a posição da Alemanha no
continente. A devolução das colônias alemãs seria desejável mas não
essencial (...) Concluiu dizendo que seu objetivo era fazer a paz com a
Inglaterra numa base que ela considerasse compatível com sua honra,
para que pudesse aceitá-la.18
Tais pensamentos Hitler iria muitas vezes exprimir durante as semanas se
guintes, a seus generais, a Ciano e Mussolini e, finalmente, em público. Ciano fi
cou surpreendido, um mês depois, ao ver o ditador nazista, então no zênite de
seus sucessos, repisando a importância de manter o império britânico como “fa
tor no equilíbrio do mundo”,19e em 13 de julho Halder, em seu diário, descreveu
o Führer como estando completamente perplexo com o fato de a Inglaterra deixar
de aceitar a paz. Fazer a Inglaterra dobrar os joelhos à força, declarou ele nesse dia
aos generais, “não beneficiaria a Alemanha (...) mas somente o Japão, os Estados
Unidos e outros países”.
V ITÓRIA NO OC IDENTE 165
Talvez fosse então por isso, embora muitos duvidem, que Hitler deteve suas
forças blindadas diante de Dunquerque, a fim de poupar à Inglaterra uma amarga
humilhação e, assim, facilitar um acordo para a paz. Teria de ser — conforme ele
disse — uma paz na qual a Inglaterra deixava livre a Alemanha para se voltar no
vamente para o leste, dessa vez contra a Rússia. Londres teria de reconhecer, como
disse também, o domínio do Terceiro Reich sobre o continente. Durante os dois
meses seguintes, Hitler continuava confiante em que tal paz estava a seu alcance.
Mais do que nunca, em todos aqueles anos, compreendeu o caráter da nação bri
tânica ou a espécie de mundo pelo qual seus líderes e seu povo estavam determi
nados a lutar (...) até o fim.
Nem ele nem seus generais, desconhecedores do mar como eram — e conti
nuaram a ser — sonharam que os britânicos, imbuídos todos de espírito maríti
mo, pudessem evacuar uma terça parte de um milhão de homens, de um pequeno
porto bombardeado e daquelas praias sem proteção, mesmo sob o nariz deles.
Três minutos antes das 19h de 26 de maio, logo depois da anulação da ordem
de Hitler, o almirantado britânico deu sinal de começar a Operação Dínamo,
nome pelo qual se designou a retirada de Dunquerque. Nessa noite, as forças
blindadas alemãs reiniciaram o ataque contra o porto, vindas do oeste e do sul,
mas, dessa vez, os panzers encontraram dificuldades em sua marcha. Lorde Gort
tivera tempo de desdobrar contra eles três divisões de infantaria, apoiadas por
artilharia pesada. Os tanques fizeram pouco progresso. Entrementes, começou a
retirada. Uma armada composta de 850 barcos de todos os tamanhos, tipos e
métodos de propulsão, desde cruzadores e destróieres até pequenos barcos à
vela e skoots holandeses, muitos deles dirigidos por voluntários civis vindos das
cidades costeiras da Inglaterra, convergia para Dunquerque. No primeiro dia, 27
de maio, levaram 7.669 soldados; no dia seguinte, 17.804; no outro, 47.310; e,
em 30 de maio, 53.823, perfazendo o total de 126.606 nos primeiros quatro dias.
Era mais do que o almirantado esperava retirar. Quando começou a operação,
contavam retirar somente cerca de 45 mil soldados nos dois dias de prazo que
então julgavam ter.
Só no quarto dia da Operação Dínamo, 30 de maio, o Alto-Comando alemão
se deu conta do que estava acontecendo. Durante quatro dias os comunicados do
OKW repetiam que os exércitos inimigos, cercados, estavam condenados. Um co
municado de 29 de maio, que anotei em meu diário, afirmou peremptoriamente:
l6 6 a guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
“O destino do exército francês em Artois está selado (...) O exército britânico, que
foi comprimido no território (...) ao redor de Dunquerque, está também a cami
nho de sua destruição ante nosso ataque concêntrico”.
Mas não estava; estava a caminho do mar. Sem seus pesados armamentos e
equipamentos, é certo, mas com a segurança de que os homens viveriam para lu
tar outra vez.
Já na manhã de 30 de maio, Halder registrava confidencialmente em seu diá
rio que 4continua a desintegração do inimigo que cercamos”. Alguns dos britâ
nicos, admitiu ele, estavam “lutando com unhas e dentes”, e outros “fugindo para
a costa e procurando atravessar o Canal em tudo que possa flutuar. Le débâcle”
concluiu, aludindo ao famoso romance de Zola sobre a derrota francesa na
guerra franco-prussiana.
À tarde, após uma conferência com Brauchitsch, o chefe do Estado-maior ge
ral compreendeu o significado dos enxames de pequenos e miseráveis barcos, nos
quais os britânicos fugiam.
Brauchitsch está furioso (...) O bolsão teria sido fechado na costa, se o
avanço de nossas forças blindadas não tivesse sido suspenso. O mau
tempo imobilizou a Luftwaffe em terra, e nós, agora, devemos ficar ali
contemplando milhares e milhares de soldados inimigos fugindo para
a Inglaterra bem debaixo de nosso nariz.
Foi, realmente, o que eles presenciaram. A despeito da crescente pressão que
os alemães aplicaram por todos os lados do bolsão, as linhas britânicas resistiram
e mais tropas foram evacuadas. O dia seguinte, 31 de maio, foi o que apresentou o
maior número de soldados retirados. Uns 68 mil foram embarcados para a Ingla
terra, uma terça parte deles das praias e os restantes do porto de Dunquerque.
Haviam sido retirados, então, 194.620 homens, quatro vezes mais do que a prin
cípio esperavam.
Onde estava a famosa Luftwaffe? Parte do tempo, conforme Halder anotou,
impedida de alçar vôo em virtude das más condições atmosféricas; o restante do
tempo, encontrou ela inesperada oposição da Real Força Aérea, a qual, de bases
situadas no outro lado do Canal, a enfrentou com êxito pela primeira vez.* Apesar
* Muitos dos esgotados tommies, nas praias, que sofreram severo bombardeio, não perceberam isso,
porque os encontros no ar se davam, muitas vezes, acima das nuvens ou numa distância longínqua.
VITÓRIA NO OC IDENTE l6j
de em inferioridade numérica, os novos Spitfires britânicos provaram ser capa
zes de vencer os Messerchmitts; ceifaram os pesados bombardeiros alemães. Oca
siões houve em que os aviões de Gõring chegaram sobre Dunquerque, entre as
sortidas dos britânicos, e fizeram estragos em grande extensão do porto, o qual,
durante algum tempo, ficou imprestável, tendo as tropas de ser retiradas exclusi
vamente das praias. A Luftwaffe atacou fortemente a navegação. De um total de
861 barcos, 243 foram afundados, a maior parte por ela. Mas não conseguiu rea
lizar o que Gõring havia prometido a Hitler: o aniquilamento da força expedicio
nária britânica. Em Ia de junho, quando desfechou seu mais pesado ataque (e
sofreu as mais pesadas baixas — cada lado perdeu trinta aviões), destruindo três
destróieres britânicos e certo número de pequenos transportes, o total de homens
retirados foi de 64.429, o segundo dia de maior número. Ao alvorecer do dia se
guinte, somente 4 mil soldados britânicos permaneceram no perímetro, protegi
dos por 100 mil franceses que guarneciam as defesas.
Entrementes, chegava a artilharia média alemã. Eles ficaram a seu alcance, e
as operações de retirada à luz do dia tiveram que ser abandonadas. Nessa ocasião,
a Luftwaffe não operava depois que escurecia, e, durante as noites de 2 e 3 de ju
nho, o restante da força expedicionária britânica e 60 mil soldados franceses pu
deram ser embarcados com êxito. Dunquerque, ainda defendida tenazmente por
40 mil soldados franceses, resistiu até a manhã de 4 de junho. Até esse dia, 338.226
soldados britânicos e franceses haviam escapado das garras alemãs. Não eram
mais um exército; a maioria — é compreensível — estava na ocasião em mísero
estado. Mas tinham a experiência da batalha; sabiam que poderiam enfrentar os
alemães se estivessem devidamente armados e adequadamente protegidos do ar.
A maioria, quando se estabelecesse o equilíbrio nos armamentos, haveria de pro
vá-lo — e prová-lo-ia em praias não muito distantes da costa do Canal donde
haviam sido salvos.
Cabia aos britânicos o salvamento. Mas Churchill lembrou-lhes na Câmara, em
4 de junho, que “não se ganha guerras com retiradas”. A situação da Inglaterra era
Sabiam apenas que tinham sido bombardeados e metralhados durante todo o caminho de volta, da
parte leste da Bélgica até Dunquerque, e achavam que sua força aérea os tinha deixado entregues à
sua sorte. Quando chegaram aos portos da Inglaterra, alguns deles, insultaram os homens que enver-
gavam o uniforme azul da Real Força Aérea. Isso afligiu bastante Churchill, que tratou logo de esclare
cer a situação, declarando na Câmara, em 4 de junho, que o salvamento em Dunquerque "foi consegui
do por intermédio da força aérea"
i68 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
verdadeiramente grave, mais perigosa do que fora por ocasião dos desembarques
dos normandos um milênio antes. Não tinha um exército para defender suas
ilhas. A força aérea ficara grandemente enfraquecida na França. Restava apenas a
armada, mas a campanha norueguesa demonstrara quanto as grandes naus eram
vulneráveis à aviação com bases em terra. Os bombardeiros da Luftwaffe estavam
agora com suas bases a apenas cinco ou dez minutos de vôo do outro lado do es
treito Canal. A França, é certo, ainda resistia abaixo do Somme e do Aisne. Mas
suas melhores tropas e armamentos haviam sido perdidos na Bélgica e no norte
de seu território; sua pequena e antiquada força aérea fora em grande parte des
truída, e dois de seus mais ilustres chefes militares, o marechal Pétain e o general
Weygand, que agora começavam a dominar o vacilante governo, não mais tinham
disposição para lutar contra um adversário superior.
Esses lúgubres fatos dominavam o espírito de Winston Churchill, quando ele
se levantou na Câmara dos Comuns, em 4 de junho de 1940, enquanto os últimos
transportes de Dunquerque estavam sendo descarregados, decidido — conforme
escreveu mais tarde — a mostrar não só a seu próprio povo mas também ao mun
do e, especialmente aos Estados Unidos, “que nossa resolução de continuar a lutar
se baseava em razões muito sólidas”. Foi nessa ocasião que pronunciou sua célebre
peroração, que por muito tempo será lembrada e cujo mérito ocupa, seguramen
te, o mesmo nível das grandes orações até então proferidas:
Embora grande parte da Europa e antiquíssimos e famosos estados ha
jam caído ou possam ainda cair nas garras da Gestapo e de todo o odio
so aparato do domínio nazista, não haveremos de ceder nem fracassar.
Iremos até o fim: lutaremos na França, lutaremos nos mares e oceanos,
lutaremos, com crescente confiança e poderio, no ar; defenderemos
nossa Ilha custe o que custar; lutaremos nas praias, lutaremos nos aeró
dromos, lutaremos nos campos, nas ruas e nas colinas; jamais nos ren
deremos, e mesmo que — o que não creio sequer por um momento —
esta Ilha ou uma grande parte dela seja subjugada e esteja passando
fome, nosso império de além-mar, armado e guardado pela esquadra
britânica, continuará a lutar até que, quando Deus quiser, o Novo Mun
do, com toda a sua força e poderio, se ponha em marcha para socorrer
e libertar o Velho.
VITÓRIA NO O C ID EN TE 1Ó 9
A queda da França
A determinação da Inglaterra em continuar a lutar parecia não ter perturbado
os pensamentos de Hitler. Ele estava convicto de que os ingleses veriam com
clareza a situação depois que tivesse liquidado a França, o que então tratou de
fazer. Na manhã que se seguiu à queda de Dunquerque, 5 de junho, os alemães
desfecharam um ataque maciço no Somme e, logo depois, com esmagador pode
rio, ao longo de uma frente de 640 quilômetros que se estendia pela França,
desde Abbeville até o Alto Reno. Os franceses estavam condenados. Contra 143
divisões alemãs, incluindo dez blindadas, puderam desdobrar apenas 65, a maio
ria delas de segunda categoria, pois as melhores unidades e a maior parte das
forças blindadas haviam sido consumidas na Bélgica. Pouco restava da defi
ciente força aérea francesa. Os britânicos poderiam contribuir apenas com uma
divisão de infantaria, que havia estado em Saar, e parte de uma divisão blindada.
A Real Força Aérea podia reservar poucos aviões para essa batalha, a menos que
deixasse as próprias Ilhas Britânicas sem defesa. Acrescente-se a isso que o Alto-
Comando Francês, agora dominado por Pétain e Weygand, ficara presa do derro
tismo. Algumas unidades francesas, contudo, lutaram com grande bravura e tena
cidade, até mesmo detendo o avanço das forças blindadas alemãs aqui e acolá e
enfrentando, resolutamente, o incessante bombardeio da Luftwaffe.
Mas era uma luta desigual. Em “vitoriosa confusão” — como disse acertada-
mente Telford Taylor — as tropas alemãs derramaram-se pela França à semelhan
ça de uma grande torrente, vinda a confusão do fato de serem elas em tão grande
número e movimentando-se tão rapidamente que, muitas vezes, chegavam a difi
cultar o caminho umas das outras.20 Em 10 de junho, o governo francês deixou
apressadamente Paris e, em 14 de junho, a grande cidade, a glória da França, des
protegida, foi ocupada pelo 182 Exército sob o comando do general von Küchler.
A bandeira com a suástica foi imediatamente hasteada na Torre Eiffel. Em 16 de
junho, o prem ier Reynaud, cujo governo havia fugido para Bordéus, resignou,
sendo substituído por Pétain que, no dia seguinte, pediu aos alemães, por inter
médio do embaixador espanhol, o armistício.* Hitler respondeu no mesmo dia
* Nesse dia, 17 de junho de 1940, de seu exílio em Doom, na Holanda ocupada, o Kaiser enviou a Hitler
um telegrama de felicitações, embora a ele votasse, durante muito tempo, um grande desprezo, por
considerá-lo um aventureiro vulgar. O telegrama foi encontrado entre os documentos apreendidos aos
nazistas:
170 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
que devia, antes, consultar Mussolini, seu aliado. Esse guerreiro vacilante, após
assegurar-se de que os exércitos franceses estavam irremediavelmente vencidos,
havia, à semelhança de um chacal, saltado para a guerra em 10 de junho, a fim de
participar dos despojos.
O Duce crava seu pequeno punhal nas costas da França
A despeito de suas preocupações com o desenvolvimento da batalha do Oci
dente, Hitler encontrava tempo para escrever a Mussolini freqüentemente — o
que não deixava de ser surpreendente —, mantendo-o informado das crescentes
vitórias alemãs.
Após a primeira carta (7 de maio) comunicando-lhe que estava atacando a
Bélgica e a Holanda “para assegurar-se da neutralidade de ambos os países”, e di
zendo que manteria o amigo informado de seu progresso, a fim de que ele, Duce,
pudesse tomar sua própria decisão no devido tempo, escreveu outras em 13,18 e
25 de maio, cada qual mais minuciosa e entusiástica que a outra.22Embora os ge
nerais, conforme confirma o diário de Halder, pouco se interessassem pelo que a
Itália fizesse — se entraria ou não na guerra —, o Führer, por alguma razão qual
quer, ligava grande importância à intervenção italiana. Assim que a Holanda e a
Bélgica capitularam e os exércitos anglo-franceses do norte foram esmagados e as
tropas britânicas sobreviventes começaram a correr para os barcos em Dunquer
que, Mussolini decidiu entrar na guerra. Informou Hitler por carta, em 30 de
maio, que a data seria 5 de junho. Hitler respondeu imediatamente, dizendo que
se sentia “profundamente emocionado”.
Sob a mais profunda emoção que me causa a capitulação da França, eu vos felicito, a vós e a toda a
Wehrmacht alemã, pela formidável vitória concedida por Deus, nas palavras do imperador Guilherme
o Grande, em 1870:"Que reviravolta nos acontecimentos nos proporcionou a Divina Providência"
Em todos os corações ressoa o coral de Leuthen cantado pelos vitoriosos de Leuthen, os soldados do
Grande Rei: "Agradeçamos todos, agora, ao nosso Deus!"
Hitler, que acreditava ser a formidável vitória devida mais a ele do que a Deus, elaborou uma concisa
resposta, mas os documentos não esclarecem se foi enviada.21
Pouco antes, o Führer enfurecera-se quando uma unidade alemã, que invadira Doom, colocou uma
guarda de honra em volta da residência do imperador exilado. Ordenou que fosse removida a guar
da e que se mantivesse Doom fora dos limites para toda a soldadesca alemã. Guilherme II morreu em
Doom no dia 4 de junho de 1941, e ali foi sepultado. Sua morte, anotou Hassell em seu diário (p. 200),
"passou quase despercebida" na Alemanha. Hitler e Goebbels tomaram nesse sentido as devidas
providências.
VITÓRIA NO OCIDENTE 171
Se ainda houvesse qualquer coisa que pudesse fortalecer minha fé ina
balável no resultado vitorioso desta guerra [escreveu Hitler em 31 de
maio], seria vossa declaração (...) O simples fato de entrardes na guerra
constitui um elemento bem calculado para desfechar um golpe fulmi
nante contra a frente de nossos inimigos.
O Führer; entretanto, solicitou a seu aliado que adiasse a data para três dias
depois — desejava primeiro destroçar o restante da força aérea francesa, disse —,
e Mussolini aquiesceu marcando-a para 10 de junho. As hostilidades, declarou o
Duce , começariam no dia seguinte.
Elas não significaram muita coisa. Em 18 de junho, quando Hitler chamou seu
pequeno parceiro a Munique para discutir sobre um armistício com a França, 32
divisões italianas após uma semana de “luta”, não puderam desalojar uma simples
força francesa composta de seis divisões, da frente alpina e, mais ao sul, ao longo
da Riviera, embora os defensores estivessem na ocasião ameaçados, na retaguarda,
por um ataque dos alemães que avançavam pelo vale do Reno*
Em 21 de junho, Ciano anotou em seu diário:
Mussolini sente-se humilhado pelo fato de nossas tropas não terem
avançado um passo sequer. Mesmo hoje elas não conseguiram avançar,
e acham-se detidas diante da primeira fortificação francesa que opôs
certa resistência.23
O poderio militar de que se vangloriava Mussolini revelou-se inócuo desde o
começo, e isso colocou o desapontado ditador italiano em sombria disposição
quando ele e Ciano partiram de trem, na noite de 17 de junho, para conferenciar
com Hitler sobre o armistício com a França.
Mussolini está descontente [escreveu Ciano em seu diário]. Essa paz
inesperada perturba-o. Conversamos bastante durante a viagem, a fim
* O derrotista Alto-Comando francês proibiu qualquer ataque contra a Itália. Em 14 de junho, uma es
quadrilha naval francesa bombardeou fábricas, tanques de óleo e refinarias nas imediações de Gênova,
mas o almirante Darlan proibiu novas operações desse gênero. Quando a Real Força Aérea tentou en
viar bombardeiros dos aeroportos de Marselha para atacar Milão e Turim, os franceses conduziram ca
minhões para o campo a fim de impedir que os aviões decolassem.
172 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o DECISIVO
de esclarecer as condições sob as quais se deverá conceder o armistício
aos franceses. O Duce (...) gostaria de ir até o ponto de ocupar todo o
território francês, e exige a capitulação da esquadra francesa. Sabe, po
rém, que sua opinião tem apenas valor consultivo. A guerra foi ganha por
Hitler sem participação militar por parte da Itália, e é a Hitler que cabe a
última palavra. Isso, naturalmente, perturba e entristece Mussolini.
A suavidade da “última palavra” do Führer constituiu um verdadeiro choque
para os italianos, quando conferenciaram com o chefe nazista em sua casa, em
Munique, e onde Chamberlain e Daladier se haviam mostrado tão acomodatícios
perante os dois ditadores com referência à Tchecoslováquia, menos de dois anos
antes. O memorando secreto alemão sobre o encontro24 deixa claro que Hitler
estava decidido, acima de tudo, a não deixar a esquadra francesa cair em poder
dos britânicos. Ele receava, também, que o governo francês fugisse para o norte
da África ou para Londres e continuasse a guerra. Por essa razão, os termos do
armistício — os termos finais da paz poderiam ser algo diferentes — teriam de ser
moderados, destinados a manter “um governo francês funcionando em território
francês” e “uma esquadra francesa neutralizada”. Repeliu bruscamente as exigên
cias de Mussolini de os italianos ocuparem o vale do Ródano, inclusive Toulon (a
grande base naval francesa do Mediterrâneo, onde se achava concentrada a maior
parte da esquadra) e Marselha, e para que se procedesse ao desarmamento da
Córsega, da Tunísia e de Djibuti. Esta última cidade, a porta de entrada para a
Etiópia dominada pela Itália, foi lançada na conferência por Ciano — dizem as
notas alemãs — “em tom baixo”.
Ciano achou que até mesmo o belicoso Ribbentrop se mostrava “excepcional
mente moderado e calmo, e a favor da paz”. O guerreiro Mussolini achava-se
“muito embaraçado”, observou seu genro.
Ele acha que seu papel é secundário (...) Na verdade, o Duce receia que
a hora da paz esteja se aproximando cada vez mais e vê desaparecer,
novamente, o sonho que não pôde realizar em sua vida: a glória no
campo de batalha.25
Mussolini nem mesmo pôde fazer com que Hitler concordasse em negocia
rem conjuntamente o armistício com os franceses. O Führer não ia partilhar seu
VITÓRIA NO OC IDENTE 17 3
triunfo justamente num lugar histórico (declinou o nome a seu amigo) com aque
le companheiro de última hora. Prometeu, porém, ao Duce , que o armistício com
a França só entraria em vigor quando ela o assinasse também com a Itália.
Mussolini deixou Munique cheio de rancor e frustrado. Ciano teve impressão
bastante favorável sobre uma das facetas de Hitler, que seu diário deixa claro não
ter visto ou suspeitado antes:
De tudo que ele [Hitler] diz [escreveu ao regressarem a Roma], é claro
que deseja agir rapidamente para dar paradeiro a tudo isso. Hitler é
agora o jogador que, tendo ganho uma grande parada, gostaria de le-
vantar-se da mesa e não mais arriscar coisa alguma. Hoje ele fala com
reserva e perspicácia que, após tal vitória, não deixam de ser surpreen
dentes. Não posso ser acusado de excessiva benevolência para com ele,
mas hoje admiro-o verdadeiramente.26
O segundo armistício em Compiègne
Segui o exército alemão em sua entrada em Paris naquele mês de junho, sem
pre o mais belo dos meses na majestosa capital que agora se mostrava desolada.
Em 19 de junho, soube, por vias indiretas, do local onde Hitler estabeleceria os
termos para o armistício que Pétain havia solicitado dois dias antes. Seria o mes
mo local onde o império alemão havia capitulado à França e seus Aliados, em 11
de novembro de 1918: uma pequena clareira da floresta, em Compiègne. Ali, o
chefe nazista teria sua revanche. O próprio local aumentar-lhe-ia a doçura da re-
vanche. Viera-lhe essa idéia em 20 de maio, apenas dez dias depois de começada
a grande ofensiva no Ocidente e no dia em que os tanques alemães atingiram
Abbeville. Jodl anotou-o no diário, nessa ocasião: “O Führer está elaborando o
tratado de paz (...) As primeiras negociações na Floresta de Compiègne.” Ao en
tardecer do dia 19 de junho, dirigi-me de automóvel para lá e encontrei os enge
nheiros do exército alemão demolindo a parede do museu onde haviam conser
vado o velho vagão-dormitório do marechal Foch, no qual havia sido assinado o
armistício de 1918. Na ocasião em que saí, os engenheiros, trabalhando com bro
cas pneumáticas, já haviam demolido o muro e estavam puxando o vagão para os
174 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
trilhos, no centro da clareira, para o lugar exato — disseram eles — em que esti-
vera às 5h do dia 11 de novembro de 1918 quando, sob as ordens de Foch, os
emissários alemães apuseram suas assinaturas no termo do armistício.
E foi assim que, na tarde do dia 21 de junho, parei na orla da floresta, em Com-
piègne, a fim de observar o mais recente e o maior dos triunfos de Hitler, dos
quais, no decurso de meu trabalho, vi tantos nesses últimos e turbulentos anos.
Foi um dos mais belos dias de verão que me lembro ter visto na França. Um sol
quente de junho batia sobre as majestosas árvores — olmos, carvalhos, ciprestes e
pinheiros —, lançando sombras agradáveis sobre as avenidas arborizadas que
conduziam à pequena clareira circular. Precisamente às 15:15h, Hitler chegou em
seu grande automóvel Mercedes, acompanhado de Gõring, Brauchitsch, Keitel,
Rãder, Ribbentrop e Hess, todos em seus vistosos uniformes; Gõring, o único
marechal-de-campo, brincava com o bastão nas mãos. Desceram dos automóveis
a 180 metros do Reich, defronte ao monumento da Alsácia-Lorena, coberto de
bandeiras alemãs, a fim de que o Führer não visse a grande espada (se bem que
dela eu me lembrasse de visitas anteriores, feitas em dias mais felizes), a espada
dos Aliados vitoriosos de 1918 espetada numa águia derrotada, que representava
o império alemão dos Hohenzollern. Hitler lançou um olhar para o monumento
e prosseguiu em seu caminho.
Observei-lhe o rosto [escrevi em meu diário]. Grave, solene, porém
cheio de vingança. Havia também nele, assim como nos passos ligeiros,
um ar de conquistador triunfante, de desafiador do mundo. Havia algo
mais (...) uma espécie de desprezo, uma alegria interior de se achar
presente àquela grande reviravolta do destino — uma reviravolta que
ele mesmo elaborara.
Quando chegou à pequena clareira, na floresta, e sua bandeira pessoal foi iça
da no centro, sua atenção foi atraída por um grande bloco de granito que se erguia
a um metro do solo.
Hitler, seguido dos demais, caminhava vagarosamente em direção dele [estou
transcrevendo meu diário], sobe nele e lê a inscrição gravada (em francês) em gran
des letras:
VITÓRIA NO OC IDENTE 17 5
“A q u i, e m 1 1 d e n o v e m b r o d e 1918 , c a i u o o r g u l h o c r i m i n o s o d o
I m p é r io A l e m ã o - v e n c i d o p e l o s p o v o s l i v r e s q u e e l e p r o c u r o u
ESCRAVIZAR.”
Hitler a lê e Gõring também. Todos eles a lêem ali, de pé, sob o sol de
junho e em meio ao silêncio reinante. Procuro ver a expressão no rosto
de Hitler. Estou a apenas 45 metros dele e vejo-o com meu binóculo
como se o estivesse vendo bem diante de mim. Já vi esse rosto muitas
vezes nos grandes momentos de sua vida. Mas, nesse dia! Está fremen-
te de desprezo, ira, ódio, vingança e triunfo.
Ele desce do monumento e esforça-se por fazer até com esse gesto uma
obra-prima de desprezo. Vira o rosto e lança-lhe um olhar, um olhar
de desprezo rancoroso — quase se lhe percebe o rancor, porque não
pode apagar aquelas letras terríveis e provocantes com um movimento
de sua alta bota prussiana.* Relanceia vagarosamente o olhar em volta da
clareira e agora, ao encontrarem seus olhos os nossos, pode-se perceber
a profundeza de seu ódio. Mas um ar de triunfo — um ar vingativo e de
ódio triunfante — via-se também nele. Subitamente, como se seu rosto
não estivesse concretizando inteiramente seus sentimentos, lança todo
o corpo em harmonia com sua disposição de espírito. Coloca rapida
mente as mãos na cintura, arqueia os ombros e fica com os pés separa
dos. É um majestoso gesto de desafio, de ardente desprezo por esse lu
gar, agora, e por tudo que representou nos vinte anos que decorreram
desde que foi testemunha da humilhação do Império Alemão.
Hitler e seu grupo entraram em seguida no vagão do armistício, sentando-se
o próprio Führer na cadeira que Foch ocupou em 1918. Cinco minutos depois
chegava a delegação francesa, dirigida pelo general Charles Huntziger, coman
dante do 2e exército em Sedan, e formada por um almirante, um general da força
aérea e um civil, Léon Noèl, o antigo embaixador na Polônia, que agora testemu
nhava a segunda queda que lhe causavam as armas alemãs. Pareciam acabrunha
dos, mas mantinham uma trágica dignidade. Não os haviam informado que se
riam conduzidos àquele alto santuário francês para sofrer tal humilhação, e o
* Fizeram-no ir pelos ares três dias depois, por ordem de Hitler.
176 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
choque foi sem dúvida o que Hitler calculara. Conforme Halder escreveu em seu
diário nessa noite, depois que Brauchistsch lhe contou o que presenciara,
os franceses não tinham sido prevenidos de que receberiam os ter
mos do armistício no próprio local das negociações de 1918. Parecia
terem ficado abalados por esse arranjo e, a princípio, mostraram-se
taciturnos.
Talvez fosse natural, mesmo para um alemão tão culto como Halder, ou Brau
chitsch, confundir uma dignidade solene com taciturnidade. Os franceses — per
cebia-se logo — estavam certamente aturdidos. Contudo, contrariamente às in
formações da épota, procuraram — conforme sabemos agora pelas minutas
oficiais dos alemães sobre as conferências, encontradas entre os documentos se
cretos apreendidos aos nazistas27— suavizar as partes mais duras dos termos pro
postos pelo Führer e eliminar as que julgavam desonrosas. Tentaram-no em vão.
Hitler e seu grupo retiraram-se do vagão-dormitório assim que o general Keitel
leu o preâmbulo dos termos do armistício aos franceses, deixando as negociações
a cargo do chefe do OKW, sem lhe dar, porém, margem para afastar-se das condi
ções que ele mesmo havia traçado.
Huntziger declarou logo aos alemães, assim que as ouviu, que elas eram “duras
e cruéis, piores que as que a França havia entregado ali à Alemanha, em 1918”. Além
disso, se “outro país do outro lado dos Alpes, que não derrotou a França (Huntziger
despreza demais a Itália para citar-lhe o nome), apresentasse exigências similares,
a França, em circunstância alguma, submeter-se-ia a elas. Lutaria até a morte (...)
Era-lhe, pois, impossível apor sua assinatura no acordo do armistício (...)”
O general Jodl, o segundo oficial em importância no OKW, que presidia tem
porariamente, não esperava aquelas palavras desafiadoras de um adversário ven
cido e respondeu que, embora não pudesse deixar de manifestar sua “compreen
são” pelo que Huntziger dissera acerca dos italianos, não dispunha de poderes
para modificar os termos do Führer. Tudo o que podia fazer — disse — era “dar
explicações e esclarecer os pontos obscuros”. Os franceses teriam que aceitar o
documento de armistício ou deixá-lo como estava.
Os alemães aborreceram-se com o fato de uma delegação francesa ter chega
do sem autoridade para concluir um armistício, salvo com o acordo expresso do
VITÓRIA NO OC IDENTE 1JJ
governo em Bordéus. Por um milagre de engenharia e, talvez, com certa sorte,
conseguiram estabelecer uma ligação telefônica do velho vagão — e pelas linhas
de batalha, onde a luta continuava — a Bordéus. Os delegados franceses foram
autorizados a servir-se dela para transmitir o texto dos termos do armistício e
discuti-lo com seu governo. O dr. Schmidt, que servia de intérprete, foi instruído
a ouvir as conversações, que um carro de comunicações do exército interceptava a
poucos metros dali, atrás de um grupo de árvores. No dia seguinte, eu mesmo
consegui ouvir o registro alemão de parte da conversa entre Huntziger e o general
Weygand.
Para honra de Weygand, que tem sobre si a responsabilidade pelo derrotismo
e a capitulação dos franceses e a ruptura com a Inglaterra, deve-se consignar que
ele, pelo menos, se opôs tenazmente a muitas das exigências alemãs. Uma das
mais odiosas delas obrigava os franceses a entregarem ao Reich todos os refugia
dos alemães antinazistas que se encontravam em território francês. Weygand ta
chou esse ato de desonroso, em virtude do tradicional direito de asilo em França,
mas, quando se discutiu esse ponto no dia seguinte, o arrogante Keitel não quis
saber de sua eliminação. “Os emigrados alemães”, bradou ele, “eram os maiores
forjadores de guerras”. Tinham “traído seu próprio povo”. Deviam ser entregues
“de qualquer maneira”. Os franceses não protestaram contra uma cláusula segun
do a qual todos os seus nacionais que fossem pilhados lutando com outro país
contra a Alemanha seriam tratados como “franco-atiradores”, e imediatamente
fuzilados. Isso se destinava a De Gaulle, que já estava procurando organizar uma
força da França Livre, na Inglaterra, e tanto Weygand como Keitel sabiam que se
tratava de uma clara violação das primitivas leis de guerra. Tampouco contesta
ram os franceses um parágrafo de acordo com o qual todos os prisioneiros de
guerra permaneceriam em cativeiro até a conclusão da paz. Weygand estava certo
de que os britânicos seriam vencidos dali a três semanas, e que os prisioneiros
seriam depois libertados. Com isso, condenou um milhão e meio de franceses a
cinco anos de reclusão nos campos de prisioneiros de guerra.
O ponto crucial do tratado de armistício foi a disposição referente à marinha
de guerra francesa. Churchill, ao cambalear a França, propusera desligá-la de seu
compromisso de não fazer uma paz em separado se ordenasse que sua marinha se
dirigisse para os portos britânicos. Hitler estava decidido a que isso não se realizas
se; compreendia perfeitamente, conforme disse a Mussolini em 18 de junho, que
l 78 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
seria fortalecer incomensuravelmente a Inglaterra. Com tanta coisa em jogo, tinha
que fazer uma concessão ou, pelo menos, uma promessa ao adversário vencido. O
acordo de armistício estipulava que a esquadra francesa seria desmobilizada e
desarmada, e os navios ancorados nos portos de França. Em troca disso,
o governo alemão solenemente declara ao governo francês que não ten-
ciona empregar para seus próprios fins, na guerra, a esquadra francesa
que se acha nos portos sob a supervisão dos alemães. Além disso, decla
ra solene e expressamente que não tenciona apresentar qualquer reivin
dicação referente à esquadra de guerra da França por ocasião da con
clusão da paz.
Como quase todas as promessas de Hitler, essa também seria quebrada.
Hitler, finalmente, deixava ao governo francês uma zona não ocupada, no sul
e a sudoeste, na qual teria ostensivamente liberdade para governar. Foi um golpe
astuto; não só dividiria, geográfica e administrativamente a própria França, como
tornaria difícil, senão impossível, a formação de um governo francês no exílio e
anularia qualquer plano dos políticos em Bordéus de mudar a sede do governo
para a África do Norte francesa — projeto que quase foi realizado, sendo afinal
anulado não pelos alemães, mas pelos derrotistas franceses: Pétain, Weygand, La
vai e seus adeptos. Ademais, Hitler sabia que os homens que agora tinham assu
mido o controle do governo francês, em Bordéus, eram inimigos da democracia
francesa e que deles podia esperar que o auxiliassem a estabelecer a Nova Ordem
nazista na Europa.
Contudo, no segundo dia das negociações em Compiègne, os delegados fran
ceses continuaram com protelações. Uma das razões era insistir Huntziger em
que Weygand lhe desse não uma autorização mas uma ordem para assinar o ar
mistício — ninguém na França queria assumir essa responsabilidade. Às 18:30h,
finalmente, Keitel expediu um ultimato. Os franceses aceitariam ou rejeitariam os
termos alemães do armistício dentro de uma hora. Nesse intervalo, o governo
francês capitulou. Às 18:50h de 22 de junho de 1940, Huntziger e Keitel assinaram
o tratado de armistício.*
* Estipulou-se que entraria em vigor assim que o armistício franco-italiano fosse assinado, e que as
hostilidades cessariam seis horas depois desse acontecimento.
VITÓRIA NO OC ID EN TE 1J$
Eu ouvi até a última cena conforme estava sendo gravado por microfones
ocultos no vagão-dormitório. Antes mesmo de assinar, o general francês disse, em
voz trêmula, que desejava fazer uma declaração pessoal. Anotei-a em francês en
quanto ele falava.
Declaro que o governo francês me ordenou que assinasse esses termos
do armistício (...) Forçada pela decisão das armas a cessar a luta na qual
nos empenhávamos ao lado dos Aliados, a França vê impostas sobre si
pesadíssimas condições. A França tem o direito de esperar que, nas fu
turas negociações, a Alemanha demonstre um espírito que permita aos
dois países vizinhos viverem e trabalharem em paz.
Tais negociações para um tratado de paz jamais se realizariam, mas o espírito
que o Terceiro Reich nazista teria mostrado, se o tivesse, logo se evidenciou ao
tornar-se mais cruel a ocupação e ao ser aumentada a pressão sobre o servil regi
me de Pétain. A França estava agora destinada a tornar-se um vassalo dos ale
mães, como Pétain, Weygand e Lavai aparentemente acreditavam — e aceitavam.
Começou a chuviscar quando os delegados deixaram o carro do armistício e
tomaram seus automóveis. Pela estrada da floresta podia-se ver uma ininterrupta
fila de refugiados dirigindo-se para suas casas, muitos a pé, cansados, outros em
bicicletas, ou carroças, e uns poucos afortunados em velhos caminhões. Entrei na
clareira. Um grupo de engenheiros do exército alemão, gritando alegremente, já
havia começado a movimentar o velho vagão-dormitório.
“Para onde vão levá-lo?”, indaguei.
“Para Berlim”, responderam.*
O armistício franco-italiano foi assinado em Roma dois dias depois. Mussolini
só pôde ocupar o que suas tropas haviam conquistado, o que significava umas
centenas de metros de território francês, e impor uma zona desmilitarizada de oi
tenta quilômetros do outro lado da França e Tunísia. O armistício foi assinado às
19:35h de 24 de junho. Seis horas depois silenciavam os canhões na França.
A França, que resistira sem fraquezas durante quatro anos na última vez, foi
posta fora desta guerra após seis semanas de luta. As tropas alemãs ocuparam a
* O vagão chegou a Berlim no dia 8 de julho. Ironia do destino: foi destruído num bombardeio que,
mais tarde, os Aliados ali realizaram.
180 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
maior parte da Europa; do cabo Norte, acima do Círculo Ártico, até Bordéus; do
Canal inglês até o rio Bug, na Polônia Oriental. Adolf Hitler havia atingido seu
ponto culminante. O antigo órfão austríaco, que foi o primeiro a unir os alemães
num estado verdadeiramente nacional, esse cabo da Primeira Guerra Mundial,
tornara-se então o maior dos conquistadores alemães. Tudo que se interpunha
entre ele e a implantação da hegemonia alemã, na Europa, sob sua ditadura, era
um indômito inglês, Winston Churchill, e o povo resoluto que Churchill guiava,
os quais não reconheciam a derrota quando ela os encarava de frente e que agora
se viam sós, virtualmente desarmados, sua ilha cercada pela mais poderosa má
quina militar até então jamais vista pelo mundo.
Hitler joga com a paz
Dez dias depois que começara a ofensiva no Ocidente, na noite em que os
tanques alemães atingiram Abbeville, o general Jodl, após descrever em seu diário
a alegria do Führer, acrescentou: “(...) ele está redigindo o tratado de paz (...) A
Inglaterra poderá obter a paz em separado em qualquer tempo, após a restituição
das colônias.” Isso foi em 20 de maio. Durante várias semanas depois, ao que pa
rece, Hitler não duvidava que, com a França vencida, a Inglaterra estaria ansiosa
por fazer a paz. Seus termos, do ponto de vista alemão, pareciam muito genero
sos, considerando-se a derrota que os britânicos sofreram na Noruega e na Fran
ça. Ele os expôs ao general von Rundstedt em 24 de maio, exprimindo sua admi
ração pelo império britânico e acentuando a necessidade de sua existência. Tudo
que ele queria de Londres — disse — era liberdade de movimento no continente.
Estava tão certo de que os britânicos concordariam com isso que, mesmo de
pois da queda da França, não traçou qualquer plano para continuar a guerra contra
a Inglaterra; e o arrogante Estado-maior geral, que, ao que se supõe, se preparava
antecipadamente com toda a meticulosidade prussiana para todas as contingên
cias, não se deu ao trabalho de fornecer-lhe um plano. Halder, o chefe do Estado-
maior geral, não fez menção ao assunto, nessa ocasião, em seus inúmeros regis
tros. Estava mais preocupado com as ameaças dos russos nos Bálcãs do que com
os britânicos.
VITÓR IA NO OC ID EN TE 1 81
De fato, por que continuaria a Inglaterra a lutar contra o impossível? Especial
mente quando podia obter uma paz que, diferentemente da França, Polônia e to
dos os demais países derrotados, a deixaria ilesa, intacta e livre? Era uma pergun
ta que se fazia em toda parte, exceto em Downing Street onde — conforme
Churchill revelou mais tarde — ela jamais fora discutida, porque já se sabia qual
a resposta.28Mas o ditador alemão não sabia, e quando Churchill começou a dizer
publicamente que a Inglaterra não abandonaria a luta, Hitler, ao que parece, não
acreditou. Nem mesmo quando, em 4 de junho, após a retirada de Dunquerque, o
primeiro-ministro fez seu retumbante discurso no qual disse que continuaria a
lutar nas colinas e nas praias; nem mesmo quando, em 18 de junho, depois que
Pétain solicitou o armistício, Churchill reiterou na Câmara dos Comuns a “reso
lução inflexível da Inglaterra em continuar a guerra”, e em outra de suas eloqüen
tes e memoráveis perorações concluiu:
Apeguemo-nos, portanto, aos nossos deveres e comportemo-nos de tal
forma que, se o império britânico e sua comunidade de nações durarem
mil anos, os homens ainda dirão: “Aquela foi a sua hora mais bela.”
Isso podiam ser meras palavras animadoras de um talentoso orador, e isso era
o que Hitler, ele mesmo um brilhante orador, havia de ter pensado. Devia, tam
bém, ter ficado encorajado pelas sondagens nas capitais dos países neutros e pelos
apelos que delas partiam para que se terminasse a guerra. Em 28 de junho che
gou-lhe uma mensagem confidencial do papa — comunicações análogas foram
endereçadas a Mussolini e a Churchill — oferecendo sua mediação para “uma paz
justa e honrosa” e declarando que, antes de dar os primeiros passos, desejaria as
segurar-se confidencialmente de como ela seria recebida.29O rei da Suécia entrou
também em atividade no sentido de propor a paz a Londres e a Berlim.
Nos Estados Unidos, a embaixada alemã, sob a direção de Hans Thomsen, o
encarregado dos negócios, despendia todos os dólares de que podia lançar mão
para apoiar os isolacionistas em manter os Estados Unidos fora da guerra, desen
corajando, assim, a Inglaterra. Os arquivos apreendidos no Ministério das Rela
ções Exteriores da Alemanha estão repletos de mensagens de Thomsen, relatando
os esforços da embaixada para fazer a opinião pública norte-americana inclinar-
se a favor de Hitler. Realizavam-se, naquele verão, as convenções dos partidos, e
182 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Thomsen estava quebrando lanças para influir em suas plataformas sobre política
estrangeira, especialmente a dos republicanos.
Em 12 de junho ele telegrafou a Berlim, em código “urgentíssimo, secretíssi
mo”, que um “congressista republicano conhecido”, que trabalhava intimamente
com a embaixada alemã, oferecera-se, por US$ 30 mil para convidar cinqüenta
congressistas republicanos isolacionistas para a convenção do partido “a fim de
que pudessem trabalhar junto aos delegados a favor de uma política estrangeira
isolacionista” Esse mesmo indivíduo, relatou Thomsen, desejava US$ 30 mil para
ajudar a pagar um anúncio de página inteira nos jornais americanos, com o cabe
çalho: “Mantenhamos os Estados Unidos fora da guerra!”30*
No dia seguinte, Thomsen telegrafou a Berlim acerca de um novo projeto que
disse estar negociando por intermédio de um agente literário americano: fazer
com que cinco autores americanos de renome escrevam livros “dos quais espero
grandes resultados”. Precisava, para esse projeto, de US$ 20 mil, quantia que Rib
bentrop aprovou poucos dias depois.31**
Uma das primeiras declarações públicas de Hitler, sobre suas esperanças de
fazer a paz com a Inglaterra, fora feita a Karl von Wiegand, correspondente do
Herald, e publicada no Journal-American, de Nova York, em 14 de junho. Quinze
dias depois, Thomsen informava o Ministério das Relações Exteriores da Alema
nha que havia mandado imprimir um milhão de cópias extras da entrevista e que
pude ainda, por meio de um agente confidencial, induzir o deputado
isolacionista Thorkelson [republicano de Montana] a mandar inserir a
entrevista do Führer no Congressional Record, de 22 de junho, o que lhe
assegura a mais larga distribuição.33
* Tal propaganda apareceu no New York Times, em 25 de junho de 1940.
** Em 5 de julho de 1940, Thomsen ficara tão apreensivo com os pagamentos que telegrafou a Berlim
pedindo permissão para destruir todos os recibos e contas:
Os pagamentos (...) são feitos aos interessados por intermediários de confiança, mas, dadas as circuns
tâncias, é evidente que não se podem esperar recibos (...) Tais recibos ou memorandos cairiam em
mãos do serviço secreto norte-americano, caso a embaixada fosse subitamente tomada pelas autori
dades americanas, e, a despeito de toda a camoufiage, dado somente o fato de sua existência, eles
significariam a ruína política e trariam outras graves conseqüências para os nossos amigos políticos, os
quais provavelmente são conhecidos de nossos inimigos (...)
Solicito, portanto, que se autorize a embaixada a destruir esses recibos e contas e se dispense, doravan
te, sua elaboração bem como a escrituração das contas de tais pagamentos.
Essa comunicação telegráfica foi destruída.32
VITÓRIA NO OC ID EN TE 1 83
A embaixada nazista, em Washington, lançava mão de todos os recursos. Em
certa ocasião, durante o verão, seu adido junto à imprensa transmitiu o que disse
ser uma sugestão de Fulton Lewis Jr., comentarista de rádio, que descreveu como
sendo um admirador da “Alemanha e do Führer, e um respeitabilíssimo jornalista
americano”.
O Führer devia enviar telegramas a Roosevelt (...) mais ou menos no
seguinte teor: “Vós, Mr. Roosevelt, tendes repetidas vezes apelado a
mim, manifestando sempre o desejo de evitar uma guerra sanguinária.
Eu não declarei guerra à Inglaterra; ao contrário, sempre acentuei que
não desejava destruir o império britânico. Os constantes pedidos que fiz
a Churchill para que fosse razoável e pudéssemos, assim, chegar a uma
paz honrosa, foram persistentemente rejeitados por ele. Sei que a Ingla
terra sofrerá duramente quando eu ordenar que seja desencadeada uma
guerra total contra as Ilhas Britânicas. Peço-vos, portanto, que abordeis
Churchill e o conciteis a abandonar essa obstinação insensata”. Lewis
acrescentou que Roosevelt, naturalmente, daria uma resposta rude e
rancorosa; isso não teria importância. Tal apelo causaria, seguramente,
uma profunda impressão no povo norte-americano e especialmente na
América do Sul (...)34
Adolf Hitler não aceitou esse conselho de Mr. Lewis, mas o Ministério das
Relações Exteriores, em Berlim, telegrafou perguntando até onde ia a importância
desse comentarista radiofônico nos Estados Unidos. Thomsen respondeu que
Lewis havia “gozado, ultimamente, de certo sucesso (...) [mas que] por outro lado,
em contraste com outros proeminentes comentaristas americanos, não se lhe
dava importância política”.35*
* Os atos da embaixada alemã em Washington, nesse período, conforme revelam seus próprios despa
chos publicados em Documents on German Foreign Policy, forneceriam material para um interessante
livro. Salta logo à vista a tendência dos diplomatas alemães para dizerem ao ditador nazista quase tudo
que ele desejava ouvir, prática comum entre os representantes de Estados totalitários. Dois oficiais do
OKW informaram-me, em Berlim, que o Alto-Comando, ou, pelo menos, o Estado-maior geral, nutria
fortes desconfianças quanto à objetividade dos relatórios da embaixada em Washington e havia esta
belecido seu próprio serviço secreto militar nos Estados Unidos.
Eles não foram muito bem servidos pelo general Friedrich von Bõtticher, o adido militar alemão em
Washington, a julgar pelos despachos dele que se acham incluídos nos volumes do DGFP. Ele não se
184 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
O próprio Churchill, conforme relatou mais tarde em suas memórias, sentiu-se
um tanto inquieto com aquelas sondagens de paz emanadas da Suécia, dos Estados
Unidos e do Vaticano, e, convencido de que Hitler procurava tirar o maior partido
delas, tomou medidas severas para rebatê-las. Informado de que o encarregado
cansava de prevenir o OKW e os Estados-maiores do Exército e da força aérea, aos quais dirigia suas
mensagens, que os Estados Unidos eram controlados por judeus e maçons, e isso era exatamente o
que Hitler pensava. Bõtticher também exagerou a influência dos isolacionistas na política norte-ameri
cana, especialmente a do coronel Charles A. Lindbergh, o qual surge em seus despachos como o seu
grande herói. Algumas transcrições indicam o teor de tais relatórios:
20 de julho de 1940: (...) Como expoente dos judeus, que, especialmente por intermédio da maçonaria,
controlam grandes massas do povo americano, Roosevelt deseja que a Inglaterra continue lutando e
que a guerra se prolongue (...) Os elementos do círculo de Lindbergh perceberam esse desenvolvimen
to e procuram agora, ao menos, impedir o controle inevitável da política norte-americana pelos judeus
(...) Tenho informado constantemente sobre a campanha mesquinha e vil movida contra Lindbergh, o
qual os judeus temem como seu mais poderoso adversário (...) {DGFP, X, p. 254-5).
6 de agosto de 1940: (...) Cenário do ressurgimento de Lindbergh em público e a campanha contra ele.
Os elementos judeus controlam agora posições-chave nas forças armadas norte-americanas, depois de
terem preenchido, nas últimas semanas, os cargos de secretário da Guerra, secretário-assistente da
Guerra e secretário da marinha, com indivíduos subservientes e colocando um judeu preeminente e
muito influente, "coronel" Julius Ochs-Adler, como secretário do secretário da Guerra.
As forças que se opõem aos elementos judeus e à atual política dos Estados Unidos foram mencionadas
em meus relatórios, que também consideram a importância do Estado-maior. A figura inteligente de
Lindbergh, cujas relações são extensas, é a mais importante de todas. Os elementos judeus e Roosevelt
temem a superioridade de espírito desse homem, e especialmente sua superioridade moral e pureza.
Domingo (4 de agosto) Lindbergh desfechou um golpe que ferirá os judeus. Ele (...) insistiu para que
os Estados Unidos se esforçassem em colaborar sinceramente com a Alemanha, com vistas à paz e à
preservação da cultura ocidental. Horas depois, o velho general Pershing, que há muito vem sendo
um títere nas mãos de Roosevelt, e, portanto, dos judeus, leu pelo rádio uma declaração que lhe foi
insinuada pelos elementos que o manobram, dizendo que os Estados Unidos correriam perigo com a
derrota da Inglaterra (...)
O coro dos elementos judeus lançando suspeitas sobre Lindbergh na imprensa, e a denúncia que
contra ele fez um senador (...) Lucas, que falou contra Lindbergh, no rádio, segunda-feira à noite, a
pedido de Roosevelt (...) tachando-o de"quinta-colunista", isto é, traidor, serve apenas para acentuar o
temor pela força espiritual desse homem, sobre cujo progresso tenho enviado relatórios desde o co
meço da guerra e em cuja grande importância para as futuras relações germano-americanas acredito
{DGFP, X, p. 413-5).
Em 18 de setembro, Thomsen, em nova comunicação, transmitiu conversação confidencial que disse
ter sido realizada entre Lindbergh e vários oficiais do Estado-maior norte-americano. Lindbergh mani
festara a opinião de que a Inglaterra logo sucumbiria ante os ataques aéreos alemães. Os oficiais do
Estado-maior, porém, eram de opinião que o poderio aéreo dos alemães não era suficiente para forçar
uma decisão {DGFP, X, p. 413-5).
Em 19 de outubro de 1938, três semanas depois do Pacto de Munique, a Lindbergh foi conferida — e
ele aceitou — a Cruz de Serviço da Águia Alemã com Estrela. Esta era — creio — a segunda mais alta
condecoração alemã, geralmente conferida a estrangeiros ilustres que, nas palavras oficiais das cita
ções, "bem mereciam do Reich".
VITÓRIA NO OCID EN TE 1 85
dos negócios alemães em Washington, Thomsen, estava tentando ter uma confe
rência com o embaixador britânico ali, telegrafou que “lorde Lothian deverá ser
informado de que, de modo algum, poderá dar qualquer resposta à mensagem do
encarregado dos negócios”.36*
Ao rei da Suécia, que aconselhava a Inglaterra a aceitar um acordo para a paz,
o inflexível primeiro-ministro traçou uma forte resposta:
Antes que qualquer solicitação ou proposta desse gênero possa ser leva
da em consideração, será necessário que garantias concretas, por meio
de fatos, não de palavras, sejam apresentadas pela Alemanha, quanto à
restauração da vida livre e independente da Tchecoslováquia, da Polô
nia, da Noruega, da Dinamarca, da Holanda, da Bélgica e, acima de
tudo, da França (...)37
Era essa a essência do caso de Churchill e, ao que parece, ninguém em Londres
sonhava em comprometê-la, concluindo uma paz que preservaria a Inglaterra
mas que escravizaria permanentemente os países que Hitler conquistara. Isso, po
rém, não foi compreendido em Berlim, onde, conforme me lembro, naqueles
dias de verão, toda gente, especialmente na Wilhelmstrasse e na Bendlerstrasse,
confiava em que a guerra já estava quase terminada.
Durante toda a segunda quinzena de junho e os primeiros dias de julho, Hitler
esperou notícias de Londres de que o governo britânico já estava pronto para dar-se
por vencido e concluir a paz. Em le de julho, ele comunicou ao novo embaixador
* Existem nos volumes do DGFP vários despachos ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha
sobre pretensos contatos com vários diplomatas e personagens britânicos, alguns diretos, outros por
intermédio de neutros, como os espanhóis de Franco. O príncipe Max von Hohenlohe, sudeto-alemão
anglófilo, informou Berlim sobre suas conversações com o ministro britânico na Suíça, sir David Kelly, e
com Aga Khan. Afirmou que Aga Khan lhe pedira que transmitisse a seguinte mensagem ao Führer:
O Quediva do Egito, que se encontra também aqui, havia combinado com ele que, no dia em que o
Führer se hospedasse por uma noite no Castelo de Windsor, eles beberiam uma garrafa de champanha
juntos (...) Se a Alemanha ou a Itália estivesse cogitando conquistar a índia, ele se colocaria à nossa
disposição (...) A luta contra a Inglaterra não era uma luta contra o povo inglês, porém contra os judeus.
Churchill estivera há anos a soldo deles, e o rei era demasiado fraco e limitado (...) Se ele fosse com essas
idéias à Inglaterra, Churchill mandaria encarcerá-lo (...) {DGFP, X, p. 294-5).
Deve-se ter em mente que se trata de relatórios alemães e que talvez não reflitam a verdade; mas era
nesses documentos que Hitler tinha que se basear. O plano nazista de atrair o duque de Windsor, na
realidade o plano de seqüestrá-lo e depois servir-se dele, conforme revelam os documentos do Minis
tério das Relações Exteriores, acha-se anotado depois.
i8 6 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
italiano, Dino Alfieri,* que “não podia conceber que houvesse ainda alguém na
Inglaterra que acreditasse seriamente na vitória”.38Nada se fazia no Alto-Coman
do no sentido de continuar a guerra contra a Inglaterra.
Mas no dia seguinte, 2 de julho, o OKW expediu finalmente a primeira direti
va sobre o assunto. Era uma ordem hesitante:
O Führer e comandante supremo decidiu:
Que é possível um desembarque na Inglaterra, contanto que se possa
alcançar a supremacia nos ares e se satisfaçam certas outras condições
necessárias. Não está ainda decidida a data de começar. Devem-se ini
ciar imediatamente todos os preparativos.
Aquela fraca disposição de Hitler em relação à operação e sua crença em que
não seria necessária acham-se refletidas no parágrafo final da diretiva:
Todos os preparativos devem ser feitos na base de que a invasão ainda
continua sendo apenas um plano e que não foi ainda decidida.39
Quando Ciano visitou o Führer em Berlim, no dia 7 de julho, teve a impressão
— conforme anotou em seu diário — de que o chefe nazista lutava com dificulda
de para tomar uma resolução.
Ele está um tanto propenso a continuar a luta e a desencadear uma
tempestade de ódio e aço sobre a Inglaterra. Mas não chegou à decisão
final, e é por essa razão que está protelando seu discurso, do qual, con
forme ele mesmo diz, deseja pesar todas as palavras.40
Em 11 de julho, Hitler começou a reunir todos os chefes militares no Obersalz-
berg para conhecer-lhes a opinião sobre a questão. O almirante Rãder, cuja arma
da deveria transportar um exército invasor pelo Canal, teve uma longa conferên
cia com o Führer nesse dia. Nenhum dos dois mostrou-se ansioso para atacar o
problema, porque, na realidade, passaram a maior parte do tempo discutindo a
questão da criação de bases navais em Trondheim e Narvik, na Noruega.
* Attolico havia sido substituído por Alfieri por instigação de Ribbentrop, em maio.
VITÓRIA NO OC ID EN TE l8j
O comandante supremo, a julgar-se pelo relatório confidencial de Ráder sobre
a conferência,41 mostrava-se moderado. Perguntou ao almirante se achava que o
discurso que planejava fazer no Reichstag “seria eficaz”. Ráder respondeu que sim,
especialmente se fosse precedido de um bombardeio concentrado contra a Ingla
terra. O almirante, que lembrou a seu chefe que a Real Força Aérea estava levando
a efeito “ataques que causavam danos” às principais bases navais alemãs em Wi-
lhelmshaven, Hamburgo e Kiel, era de opinião de que a Luftwaffe devia entrar
imediatamente em atividade contra a Inglaterra. Mas, na questão da invasão, o
comandante-em-chefe da marinha de guerra mostrou-se decididamente frio.
Aconselhou insistentemente que a empreendessem “apenas como último recurso,
para forçar a Inglaterra a solicitar a paz”.
Ele [Ráder] estava convencido de que se podia obrigar a Inglaterra a
pedir a paz, bloqueando-se-lhe simplesmente o comércio de importa
ção por meio da guerra submarina, ataques aéreos contra os comboios
e pesados ataques aéreos contra seus principais centros (...)
O comandante-em-chefe da marinha de guerra [Ráder], de sua parte,
não pode, portanto, apoiar a invasão da Inglaterra como o fez no caso
da Noruega (...)
O almirante pôs-se, em seguida, a dar uma longa e minuciosa explicação sobre
todas as dificuldades que tal invasão envolvia, o que devia ter sido bastante desa-
nimador para Hitler. Desanimador, mas também, talvez, convincente, pois Rãder
relata que “o Führer também encara a invasão como último recurso”.
Dois dias depois, 13 de julho, os generais chegaram em Berghof, acima de
Berchtesgaden, para conferenciar com o comandante supremo. Encontraram-no
ainda intrigado com a posição dos ingleses. “O Führer”, lançou Halder em seu
diário nessa noite, “acha-se obcecado com o fato de a Inglaterra ainda não desejar
tomar o caminho da paz.” Mas agora, pela primeira vez, uma das razões começa a
manifestar-se-lhe no espírito. Halder notou-a:
Ele vê, do mesmo modo que nós, que a solução está no fato de a Ingla
terra continuar a depositar suas esperanças na Rússia. Assim, ele tam
bém julga que a Inglaterra terá de ser compelida pela força a fazer a paz.
Não lhe agrada, contudo, tal disposição. Razões: se esmagarmos a
J.88 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Inglaterra militarmente, o império britânico desintegrar-se-á. A Ale
manha, entretanto, não se beneficiará com isso. Com o sangue alemão
iríamos realizar algo que somente beneficiaria o Japão, os Estados Uni
dos e outros países.
Nesse mesmo dia, 13 de julho, Hitler escreveu a Mussolini agradecendo e de
clinando sua proposta de fornecer tropas e aviões italianos para a invasão da In
glaterra. Evidencia-se nessa carta que o Führer estava, finalmente, começando a
tomar uma decisão. Os estranhos britânicos simplesmente não queriam dar ouvi
dos à razão.
Fiz à Inglaterra tantas propostas de acordo, até de cooperação, e tenho
sido tratado tão indignamente [escreveu] que estou agora convencido
de que qualquer novo apelo à razão seria igualmente repelido. Pois,
naquele país, presentemente não é a razão que governa C..)42
Três dias depois, em 16 de julho, o chefe nazista chegou finalmente a uma
decisão. Expediu a Diretiva ne 16 sobre os preparativos de uma operação de de
sembarque contra a Inglaterra.43
SECRETÍSSIMO
Quartel-General do Führer, 16 de julho de 1940. Uma vez que a Ingla
terra, a despeito de sua desesperadora situação militar, continua a não
dar sinais de que está inclinada a chegar a um acordo, decidi preparar e,
se necessário, levar a efeito uma operação de desembarque contra ela.
O objetivo dessa operação é eliminar o solo inglês como base para a
continuação da guerra contra a Alemanha e, caso se torne necessário,
ocupá-lo completamente.
O nome em código para o assalto devia ser Leão do Mar. Os preparativos para
sua execução foram terminados em meados de agosto.
“Se necessário, levá-la a efeito .” A despeito de seu crescente instinto de que a
operação seria necessária, ele não se sentia ainda completamente seguro, confor
me demonstra a diretiva. O “se” era ainda coisa preponderante quando Adolf
Hitler se ergueu no Reichstag, na noite de 19 de julho, para fazer sua última
V ITÓRIA NO O C ID EN TE 1 89
proposta de paz à Inglaterra. Foi o último de seus grandes discursos no Reichstag,
e o último de muitos que naqueles anos ouvi. Foi também um dos melhores que
proferiu. Registrei, nessa mesma noite, a impressão que tive dele:
O Hitler que vimos hoje à noite no Reichstag era o conquistador, e dis
so tinha plena consciência, e ainda tão maravilhoso ator, tão magnífico
manipulador do espírito alemão, que mesclava admiravelmente a plena
confiança do conquistador com a humildade, atitude que as massas
acolhem sempre bem quando percebem que o homem está no auge do
poder. Sua voz era mais baixa nesse dia; raras vezes gritava como geral
mente fazia, e em nenhuma vez debulhou-se em lágrimas histéricas
como o vimos fazer tantas vezes daquela tribuna.
Seu longo discurso estava, inegavelmente, repleto de falsidades sobre a histó
ria e liberalmente salpicado de insultos pessoais a Churchill. Era, entretanto, mo
derado no tom, considerando as brilhantes circunstâncias, e habilmente concebi
do para ganhar o apoio, não só de seu próprio povo como também dos neutros, e
para dar às massas na Inglaterra algo que pudessem meditar sobre.
Da Inglaterr ouço agora apenas um único brado — não do povo, porém
dos políticos — de que a guerra deve continuar! Não sei se esses políti
cos têm uma idéia exata de como será a continuação desta guerra. É
verdade que declaram que a prosseguirão e que, mesmo que a Inglater
ra perecesse, prosseguiriam com ela, do Canadá. Dificilmente posso
acreditar que, com isso queiram dizer que o povo da Inglaterra deverá
ir para o Canadá. Presumivelmente só aqueles cavalheiros interessados
na continuação de sua guerra é que irão para lá. Receio, entretanto, que
ao povo caberá permanecer na Inglaterra e (...) ele certamente encarará
a guerra com olhos diferentes dos de seus pretensos líderes no Canadá.
Creiam-me, senhores, que me repugna profundamente esse tipo de po
líticos inescrupulosos que arruinam nações inteiras. É-me quase dolo
roso pensar que fui escolhido, pelo destino, para desfechar o golpe final
à estrutura que esses homens já deixaram vacilante (...) Mr. Churchill
(...) indubitavelmente já estará no Canadá, para onde o dinheiro e os
190 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
filhos dos principais interessados na guerra já foram enviados. Para mi
lhões de outras criaturas, entretanto, irá começar o grande sofrimento.
Mr. Churchill talvez devesse, ao menos uma vez, acreditar-me quando
profetizo que um grande império será destruído — um império que
jamais tive a intenção de destruir ou, mesmo, de prejudicar (...)
Tendo assim investido contra o obstinado primeiro-ministro e procurado des
ligar dele o povo britânico, Hitler chegou ao ponto decisivo de seu longo discurso:
Sinto nesta hora que é meu dever, perante minha própria consciência,
fazer, ainda uma vez, um apelo à razão e ao senso comum, tanto na
Inglaterra quanto em outras partes. Considero-me em posição de fazer
este apelo, uma vez que não sou adversário vencido a suplicar favores,
mas o vencedor, falando em nome da razão.
Não vejo razão para que se deva continuar esta guerra*
Não especificou mais do que isso. Não fez sugestões concretas para os termos
da paz, não mencionou o que aconteceria aos cem milhões de criaturas que agora
se achavam sob o jugo nazista nos países conquistados. Mas nessa noite poucos
havia no Reich, se é que havia, que acreditassem ser necessário, a essa altura, en
trar em detalhes. Misturei-me com muitos funcionários e oficiais ao findar a ses
são, e nenhum deles tinha a mais leve dúvida — conforme disseram — de que a
Inglaterra aceitaria a proposta do Führer; que julgavam muito generosa e até mes
mo magnânima. Não ficaram, porém, enganados durante muito tempo.
* Houve, na história da Alemanha, uma cena muito animada e sem precedentes quando Hitler se in
terrompeu subitamente em meio ao discurso para conferir bastões de marechal-de-campo a 12 gene
rais, e um particularmente grande a Gõring, que foi elevado à categoria de marechal do grande Reich
alemão, havia pouco criada, o que o colocava acima de todos os outros. Foi-lhe também conferida a
Grande Cruz de Ferro, a única dada durante toda a guerra. Halder foi omitido nessa avalancha de
promoções ao posto de marechal-de-campo, sendo promovido apenas um grau: de tenente-general
para general. Essas promíscuas concessões — o Kaiser só nomeou cinco marechais-de-campo dos
corpos de oficiais durante toda a Primeira Guerra Mundial, e nem Ludendorff chegou a ser nomeado
— ajudaram indubitavelmente a abafar qualquer oposição latente a Hitler entre os generais, como a
que ameaçara afastá-lo, no passado, pelo menos em três ocasiões. Ao realizar isso, e ao depreciar o
valor do mais alto posto militar com a promoção de tantos elementos, Hitler agiu habilmente, a fim
de firmar seu domínio sobre os generais. Nove generais do exército foram então promovidos a mare-
chal-de-campo: Brauchitsch, Keitel, Rundstedt, Bock, Leeb, List, Kluge, Witzleben e Reichenau; e três
oficiais da Luftwaffe; Milch: Kesselring e Sperrle.
VITÓRIA NO OC IDENTE 191
Dirigi-me diretamente à estação de rádio a fim de transmitir para os Estados
Unidos uma notícia sobre o discurso. Nem bem cheguei ali, captei uma transmis
são da BBC, de Londres, em alemão. Já transmitia a resposta britânica a Hitler
— na mesma hora. Era um decidido nãol*
Oficiais subalternos do Alto-Comando e funcionários de vários ministérios
achavam-se sentados em volta da sala ouvindo atentamente a transmissão. Ficaram
consternados. Não podiam acreditar no que ouviam. “Pode-se compreender isso?”,
gritou um deles perto de mim. Parecia confuso. “Pode-se compreender esses bri
tânicos tolos?” continuou a gritar. “Rejeitaram agora a paz? Eles estão loucos!”
Ciano** ouviu nessa mesma noite a reação dos ingleses loucos, em Berlim, num
nível mais elevado que o meu. “Tarde da noite, escreveu ele em seu diário, quando
chegou a primeira reação fria dos ingleses ao discurso, uma sensação de mal dis
farçado desapontamento espalhou-se entre os alemães.” O efeito em Mussolini,
segundo Ciano, foi justamente o contrário.
Ele (...) o define como “um discurso excessivamente hábil”. Receia que
os ingleses possam encontrar no discurso um pretexto para dar começo
a negociações. Isso seria ruim para Mussolini porque agora, mais do
que nunca, ele deseja a guerra.44
O Duce, conforme Churchill observou mais tarde, “não precisou incomodar-
se muito. Não lhe foi negada toda a guerra que ele desejou”.45
“Como manobra calculada para unir o povo alemão na luta contra a Inglater
ra”, escrevi em meu diário naquela noite, “o discurso de Hitler é uma obra-prima,
pois o povo alemão dirá agora: Hitler oferece a p a z à Inglaterra e o f a z sem restri
ções. Ele d iz que não vê razão p o r que se deva continuar a guerra. Se ela continuar ;
será p o r culpa da Inglaterra”.
* Churchill declarou mais tarde que essa imediata e brusca rejeição à proposta de paz de Hitler foi
aceita "Pela BBC sem qualquer sugestão da parte do governo de Sua Majestade, assim que o discurso
de Hitler foi ouvido pelo rádio". (Churchill, Their Finest Hour, p. 260).
** O ministro das Relações Exteriores da Itália conduziu-se como um clown durante a sessão, levantan-
do-se e sentando-se como um boneco de uma caixa de surpresas, para fazer saudação fascista toda
vez que Hitler fazia uma pausa para ganhar fôlego. Notei também a presença de Quisling, um homen-
zinho de olho de porco encolhido numa cadeira, num canto, no primeiro balcão. Tinha vindo a Berlim
a fim de pedir a Hitler que o reintegrasse no poder, em Oslo.
192 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
E não era essa a principal razão que daria três dias depois de expedir a Direti
va nfi 16, mandando preparar a invasão da Inglaterra? Ele o admitiu — antecipa
damente — a dois confidentes italianos, Alfieri e Ciano. Em lfi de julho, disse ao
embaixador:
(...) Era sempre uma boa tática fazer que o inimigo parecesse responsá
vel perante os olhos da opinião pública, na Alemanha e no exterior,
para o futuro curso dos acontecimentos. Isso fortaleceria o seu próprio
moral e enfraqueceria o do inimigo. Uma operação, tal como a que a
Alemanha estava preparando, seria muito sangrenta (...) Devia-se, por
tanto, convencer a opinião pública de que a princípio se fizera tudo que
pudesse evitar esse horror (...)
Em seu discurso de 6 de outubro [quando ofereceu a paz ao Ocidente,
ao concluir a campanha da Polônia — W.L.S.], guiara-o igualmente o
pensamento de tornar responsáveis, por todos os acontecimentos sub
seqüentes, os adversários. Ganhara com isso a guerra, como ela se apre
sentava, antes que tivesse realmente começado. Agora, mais uma vez,
por motivos psicológicos, pretendia fortalecer o moral, por assim dizer,
para a operação que estava prestes a empreender.46
Uma semana depois, no dia 8 de julho, Hitler confiou a Ciano que
ia encenar outra demonstração a fim de que, no caso de a guerra conti
nuar — que ele julgava ser a única possibilidade verdadeiramente im
portante —, pudesse conseguir um efeito psicológico sobre o povo in
glês (...) Talvez fosse possível, por meio desse hábil apelo ao povo inglês,
isolar ainda mais o governo inglês na Inglaterra.47
Resultou que isso não foi possível. O discurso de 19 de julho surtiu efeito no
povo alemão, não, porém, no britânico. Em 22 de julho, lorde Halifax, numa
transmissão, tornou oficial a rejeição à proposta de paz de Hitler. Conquanto
isso fosse esperado, transtornou um tanto a Wilhemstrasse, onde encontrei
muitas fisionomias enfurecidas naquela tarde. “Lorde Halifax”, informou-nos o
porta-voz oficial do governo, “recusou-se a aceitar a proposta de paz do Führer.
Senhores, haverá guerra!”
VITÓRIA NO OC IDENTE 193
Era mais fácil falar do que fazer. Na verdade, nem Hitler, nem o Alto-Coman-
do, nem os Estados-maiores do exército, da marinha e da força aérea jamais
consideraram como se poderia travar uma guerra contra a Inglaterra e vencê-la.
Naquele meados de verão de 1940, não sabiam o que fazer de seus brilhantes
êxitos. Não tinham planos e quase nenhum desejo de explorar as maiores vitórias
militares que tinham registrado na história de sua nação de soldados. É um dos
grandes paradoxos do Terceiro Reich. No próprio momento em que Hitler estava
no auge do poderio militar, com a maior parte do continente europeu a seus
pés, seus exércitos, estendidos desde os Pireneus até o Círculo Ártico, desde o
Atlântico até além do Vístula, agora descansados e prontos para nova luta, ele
não tinha idéia de como continuar a guerra e conduzi-la a um final vitorioso.
Tampouco tinham seus generais, 12 dos quais empunhavam agora o bastão de
marechal-de-campo.
Há, naturalmente, uma razão para isso, se bem que, naquela ocasião, não nos
fosse clara. Aos alemães, a despeito de seu decantado talento na arte militar, falta
va a concepção de uma grande estratégia. Seus horizontes limitaram-se — sempre
se limitaram — à guerra terrestre contra nações vizinhas no continente europeu.
O próprio Hitler tinha horror ao mar,* e a ignorância de seus capitães nessa esfera
era quase total. Cogitavam mais da terra que do mar. E embora seus exércitos
pudessem ter esmagado, numa semana, as fracas forças terrestres da Inglaterra, se
se tivessem atracado com elas, aquelas águas do estreito de Dover que os separa
vam — tão estreito que se pode ver a costa do outro lado — agigantavam-se em
seu espírito ao começar o fim daquele esplêndido verão, como um obstáculo que
eles não sabiam como vencer.
Havia, naturalmente, outra tentativa para os alemães. Poderiam, talvez, subju
gar a Inglaterra fazendo o ataque, no Mediterrâneo, com seus Aliados italianos,
conquistando Gibraltar, na sua frente ocidental, e, no leste, investindo das bases
na Itália, no norte da África, pelo Egito e o Canal até o Irã, cortando uma das
principais linhas vitais do império. Seriam porém necessárias vastas operações no
mar, em distâncias longínquas das bases da Alemanha, e, em 1940, isso parecia
estar além dos limites da imaginação alemã.
Assim, no apogeu de seus estonteantes êxitos, Hitler e seus capitães hesita
ram. Não haviam calculado o próximo passo e ignoravam como executá-lo. Essa
* "Em terra sou um herói, mas no mar sou um covarde" disse ele uma vez a Rundstedt. (Shulman,
Defeatin the West, p. 50).
194 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
fatídica negligência demonstraria ser um dos pontos decisivos da guerra e, na
verdade, da breve vida do Terceiro Reich e da carreira meteórica de Adolf Hitler.
Após tantas vitórias espetaculares, começaria agora o fracasso. Isso certamen
te não podia ser previsto, porque a Inglaterra, assediada e agora resistindo sozi
nha, só poderia contar com os poucos meios de que dispunha para enfrentar o
ataque alemão naquele fim de verão.
CAPÍTULO 5
Operação Leão do Mar:
a malograda invasão da Inglaterra
“A vitória final da Alemanha sobre a Inglaterra é agora apenas uma questão de
tempo”, escreveu em 30 de junho de 1940 o general Jodl, chefe de operações no
OKW. “As operações de uma ofensiva inimiga em grande escala não são mais
possíveis.”
O estrategista favorito de Hitler estava confiante e complacente. A França ca
pitulara na semana anterior, deixando a Inglaterra só e aparentemente indefesa.
Em 15 de junho, Hitler informou aos generais que desejava a desmobilização par
cial do exército — de 160 para 120 divisões. “Supõe-se que isso signifique que a
tarefa do exército esteja terminada”, registrou Halder em seu diário nesse dia. “À
força aérea e à marinha será confiada a missão de levar a efeito, sozinhas, a guerra
contra a Inglaterra.”
O exército mostrou-se, na verdade, pouco interessado nesse particular. Tam
pouco o próprio Führer demonstrou muito interesse. Em 17 de junho, o coronel
Walter Warlimont, representante de Jodl, informou à marinha que “com relação
ao desembarque na Inglaterra, o Führer (...) não manifestou até agora tal inten
ção (...) Por conseguinte, mesmo nesta ocasião, não se fez qualquer trabalho pre
paratório no OKW”.1 Quatro dias depois, em 21 de junho, no mesmo momento
em que Hitler entrava no vagão do armistício, em Compiègne, para humilhar os
franceses, foi a marinha informada de que o “Estado-maior geral não se está pre
ocupando com a questão da Inglaterra. Eles consideram impossível a execução.
Não sabem como deverão ser conduzidas as operações da área meridional (...) O
Estado-maior geral rejeita a operação”.2
Nenhum dos inteligentes estrategistas das três armas alemãs sabia como pro
ceder para invadir a Inglaterra, se bem que foi naturalmente a marinha que pen
sou primeiro no assunto. Já em 15 de novembro de 1939, quando Hitler procura
va, em vão, animar os generais para que se lançasse um ataque no Ocidente, Ráder
196 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
instruía o Estado-maior naval para que examinasse “a possibilidade de invadir a
Inglaterra, possibilidade que surgiria se certas condições fossem preenchidas no
decurso da guerra”.3 Foi a primeira vez na história que se pediu a um Estado-
maior alemão que considerasse tal operação. Parece provável que Ráder tivesse
dado esse passo em grande parte porque desejava antecipar-se a qualquer súbita
aberração de seu imprevisível chefe. Não existe registro de que Hitler tivesse sido
consultado ou sabido qualquer coisa a respeito. O mais que pensou naquela oca
sião foi obter aeródromos e bases navais na Holanda, na Bélgica e na França, a fim
de apertar o bloqueio contra as Ilhas Britânicas.
Em dezembro de 1939, os altos comandados do exército e da Luftwaffe come
çaram também a pensar no problema da invasão da Inglaterra. Trocaram-se idéias
algo vagas entre as três armas, mas não tiveram grande alcance. Em janeiro de
1940, a marinha e a força aérea rejeitaram um plano do exército por julgá-lo fan
tasioso. Na opinião da marinha, o plano não levava em consideração o poderio
naval dos britânicos; na da Luftwaffe, ele subestimara a Real Força Aérea. <£Em
conclusão”, observou o Estado-maior geral da Luftwaffe numa comunicação ao
OKW, ‘uma operação combinada para desembarque na Inglaterra, como seu ob
jetivo, deve ser rejeitada”.4 Conforme veremos depois, Gõring e seus auxiliares
iriam adotar um ponto de vista completamente contrário.
A primeira menção, nos documentos alemães, de que Hitler estava encarando
a possibilidade de invadir a Inglaterra, foi feita em 21 de maio, no dia que se se
guiu à investida das forças armadas, rumo ao mar, em Abbeville. Rãder debateu,
“particularmente”, com o Führer, “a possibilidade de fazer depois um desembar
que na Inglaterra”. A fonte dessa informação é o próprio almirante Rãder,5 cuja
marinha não estava participando da glória nas extraordinárias vitórias do exérci
to e da força aérea, no Ocidente, e ele — o que é bastante compreensível — estava
procurando meios de trazê-la de novo para a cena. Mas os pensamentos de Hitler
estavam voltados para a batalha do cerco no norte e na frente do Somme que,
nessa ocasião, se formava ao sul. Não importunou seus generais com questões
além dessas duas tarefas urgentes.
Os oficiais navais, entretanto, com pouca coisa além para fazer, continuaram a
estudar o problema da invasão, e, em 27 de maio, o contra-almirante Kurt Fricke,
chefe da divisão de operações do Estado-maior naval, surgiu com um novo plano
intitulado Studie England. Começou-se também um trabalho preliminar sobre
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 197
concentração de navios e criação de barcos para desembarque, de que a marinha
alemã estava completamente desprovida. A esse respeito, o dr. Gottfried Feder, o
extravagante economista que auxiliou Hitler a traçar o programa do partido nos
primeiros dias de Munique e que agora era secretário de Estado do Ministério da
Economia, onde dispensavam um ríspido e sumário tratamento a suas idéias lou
cas, apresentou um plano que denominou “guerra de crocodilo”. Tratava-se de
uma espécie de chata a autopropulsão, feita de concreto, que podia transportar
duzentos soldados completamente equipados ou vários tanques ou peças de arti
lharia, rodar em qualquer praia e dar cobertura às tropas e veículos que desem
barcassem. O plano foi estudado pelo comando naval e até mesmo por Halder,
que o mencionou em seu diário, tendo sido amplamente discutido por Hitler e
Ráder em 20 de junho. Terminou, porém, dando em nada.
O mês de junho já se aproximava do fim, e aos generais alemães parecia que
nada se concretizava relativamente à invasão das Ilhas Britânicas. Em seguida à
sua aparição em Compiègne, no dia 21 desse mês, Hitler partiu com alguns velhos
companheiros para uma breve visita a Paris* e depois aos campos de batalha, não
os desta guerra, porém os da Primeira, onde servira como correio. Junto a ele
achava-se o seu rude sargento daqueles tempos, Max Amann, agora um editor
nazista e milionário. O futuro curso da guerra — especificamente, como conti
nuar a luta contra a Inglaterra — parecia a menor de suas preocupações, ou talvez
se desse o caso de ele acreditar que essa pequena questão já estava resolvida, uma
vez que os britânicos haveriam agora de ter “bom senso” e fazer a paz.
Hitler só voltou ao seu novo quartel-general, em Tannenberg, a oeste de Freu-
denstadt, na Floresta Negra, em 29 de junho. No dia seguinte, ao voltar para a
realidade, meditou sobre o memorando de Jodl que dizia respeito aos passos se
guintes. Intitulava-se “Continuação da Guerra contra a Inglaterra”.6 Depois de
Keitel, no OKW, era Jodl outro que acreditava fanaticamente no gênio do Führer;
quando, porém, se achava só, era geralmente um prudente estrategista. Mas agora
ele partilhava da opinião geral, no supremo quartel-general, de que a guerra esta
va ganha e quase terminada. Se a Inglaterra não percebia isso, ter-se-ia que aplicar
um pouco mais de força para lembrar-lhe. Para o cerco da Inglaterra, seu memo
rando propunha três medidas: intensificação da guerra aérea e marítima contra a
* E para contemplar o túmulo de Napoleão nos Invalides. "Esse foi o maior e o mais belo momento de
minha vida" disse ele a Heinrich Hoffmann, seu fiel fotógrafo.
198 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
navegação, os armazéns, as fábricas e a força aérea da Inglaterra; “ataques de ter
ror contra os centros populosos”; “desembarque de tropas com o objetivo de ocu
par a Inglaterra”.
Jodl reconhecia que “a luta contra a força aérea britânica devia ter prioridade”.
Mas, no todo, achava que tanto este como os outros aspectos do ataque podiam
ser executados sem muita dificuldade.
Juntamente com a propaganda e ataques periódicos para implantar o
terror, enunciados como represálias, esse crescente enfraquecimento
das bases de abastecimento de alimentos paralisará e dobrará finalmen
te a vontade do povo de querer resistir, e, com isso, forçará o governo a
capitular*
Quanto ao desembarque, podia
apenas ser considerado depois que a Alemanha tiver conquistado o do
mínio dos ares. O desembarque, portanto, não devia ter como objetivo
a conquista militar da Inglaterra, tarefa que se podia deixar para a força
aérea e a marinha. Seu objetivo deverá, antes, ser o de aplicar um golpe
de morte [Todesstoss] a uma Inglaterra já economicamente paralisada e
não mais capaz de lutar nos ares, se isso ainda for necessário.**
Jodl, porém, julgava que tudo isso talvez fosse desnecessário.
Como a Inglaterra não mais poderá lutar para vencer, mas somente
para preservar suas possessões e seu prestígio no mundo, ela deverá,
segundo todas as predições, estar inclinada a estabelecer a paz quando
souber que ainda poderá conseguir por um preço relativamente baixo.
Foi essa também a opinião de Hitler, que qual se pôs imediatamente a trabalhar
no seu discurso em favor da paz, que pronunciaria no Reichstag. Entrementes,
* Grifo de Jodl.
** Jodl sugeriu também a possibilidade de "estender a guerra à periferia", isto é, atacar o império britâ
nico com o auxílio não só da Itália, como também do Japão, da Espanha e da Rússia.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 199
conforme vimos, ele ordenou (em 2 de julho) que se fizessem certos planos preli
minares para um desembarque e, em 16 de julho, visto não chegar qualquer pala
vra sensata de Londres, expediu a Diretiva nfi 16 para a operação Leão do Mar.
Depois de mais de seis meses de hesitação, decidiu-se finalmente pela invasão da
Inglaterra, “se necessária”. Isso, conforme Hitler e seus generais começaram tar
diamente a compreender, deveria ser uma grande operação militar, não sem ris
cos e dependendo, para seu êxito, do fato de a Luftwaffe e a marinha de guerra
poderem ou não preparar o terreno para as tropas, contra a armada britânica que
lhes era superior e uma força aérea inimiga da qual não se deveria descuidar.
Seria a operação Leão do Mar um plano verdadeiramente sério? Tencionava-
se realmente levá-lo a efeito?
Até então muitos duvidavam e, nisso, foram apoiados pela voz unânime dos
generais alemães depois da guerra. Rundstedt, que estava no comando da invasão,
informou os inquiridores dos Aliados em 1945:
A proposta invasão da Inglaterra era uma tolice, porque não existiam
navios adequados (...) Considerávamos todo o plano uma espécie de
jogo, pois evidenciava-se que não era possível uma invasão quando
nossa armada não se achava em situação de proteger a travessia do
Canal ou de transportar reforços. Tampouco se achava a força aérea
alemã capacitada a assumir essas funções se a armada falhasse (...)
Sempre me mostrei cético a respeito de toda essa questão (...) Tenho a
impressão de que o Führer jamais quis verdadeiramente invadir a In
glaterra. Não tinha coragem suficiente (...) Esperava definitivamente
que os ingleses aceitassem a paz (...)7
Blumentritt, chefe de operações de Rundstedt, expressou opinião similar a
Liddell Hart depois da guerra, afirmando que “entre nós a considerávamos [a ope
ração Leão do Mar] um blefe”.8
Eu mesmo passei, em meados de agosto, uns dias no Canal, bisbilhotando
da Antuérpia a Boulogne à procura do exército da invasão. Em 15 de agosto,
vimos em Calais e no cabo Gris-Nez muitos bombardeiros e caças alemães pas
sando pelo Canal rumo à Inglaterra, o que parecia ser o primeiro ataque aéreo
maciço. E conquanto parecesse evidente que toda a Luftwaffe saíra a campo, a
200 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
falta de navios e, especialmente, de chatas para invasão, nos portos, canais e rios
atrás deles, deixou-me também a impressão de que os alemães estavam blefan
do. Pelo que pude ver, eles não dispunham de meios para transportar suas tropas
pelo Canal.
Mas um repórter pouco pode ver de uma guerra, e nós sabemos agora que os
alemães somente começaram a concentrar a frota de invasão em l2 de setembro.
Quanto aos generais, qualquer pessoa que leia seus depoimentos ou que os tenha
ouvido na inquirição, nos julgamentos de Nuremberg, acaba recebendo seu teste
munho de pós-guerra com certas restrições.* A burla da memória de um homem
é sempre considerável, e os generais alemães não faziam exceção a esta regra. Ti
nham, também, de resolver muitas dificuldades, sendo uma das mais importantes
a de desacreditar a liderança militar de Hitler. Realmente, o principal tema deles,
exposto segundo suas longas e aborrecidas lembranças e nos interrogatórios e
depoimentos, era que, tivessem eles que tomar as decisões, jamais Hitler teria le
vado o Terceiro Reich à derrota.
Infelizmente para eles, mas felizmente para a posteridade e a verdade, os volu
mosos documentos militares secretos alemães não deixam dúvida de que o plano
de Hitler para invadir a Inglaterra no princípio do outono de 1940 era sério; e de
que, conquanto sujeito a inúmeras hesitações, era de fato intenção do ditador
nazista levá-lo a efeito se houvesse qualquer probabilidade de êxito. Sua sorte final
foi decidida não por qualquer falta de determinação ou esforço, mas pelos azares
da guerra que então, pela primeira vez, começaram a se voltar contra ele.
Em 17 de julho, dia que se seguiu à expedição da Diretiva nfi 16, que ordenava
os preparativos para a invasão, e dois dias antes do discurso de paz do Führer no
Reichstag, o Alto-Comando do exército (OKW) distribuiu as forças para a opera
ção Leão do Mar o ordenou que 13 divisões escolhidas fossem enviadas para os
locais de embarque na costa do Canal, para a primeira vaga de invasão. Nesse
mesmo dia, o comando do exército completou seu minucioso plano para o de
sembarque numa larga frente na costa sul da Inglaterra.
O primeiro assalto ali, como na batalha da França, seria executado sob o co
mando do marechal-de-campo Rundstedt (como seria nomeado em 19 de julho)
* Mesmo um crítico militar tão astuto quanto Liddell Hart deixou de fazê-lo, e essa negligência preju
dica seu livro The German Generais Talk. De fato, eles falaram, mas nem sempre deixando transparecer
uma boa memória ou, mesmo, toda a verdade.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 201
como comandante do grupo A de exércitos. Seis divisões de infantaria do 16a
Exército, do general Ernst Busch, deveriam embarcar do Passo de Calais e atingir
as praias entre Ramsgate e Bexhill. Quatro divisões do 9- Exército, do general
Adolf Strauss, atravessariam o Canal, partindo da área do Havre e desembarcando
entre Brighton e a Ilha de Wight. Mais a oeste, três divisões do 6a Exército do
marechal-de-campo von Reichenau (do grupo B de exércitos, do marechal-de-
campo von Bock), partindo da península de Cherburgo, seriam desembarcadas
em Lyme Bay, entre Weymouth e Lyme Regis. Ao todo, 90 mil homens formariam
a primeira vaga; para o terceiro dia, o Alto-Comando planejou desembarcar um
total de 260 mil homens. Forças aerotransportadas auxiliariam, depois de lança
das em Lyme Bay e em outras áreas. Uma força blindada, formada de não menos
de seis divisões panzers , reforçadas por três divisões motorizadas, seguiria na se
gunda vaga. Planejou-se que, em poucos dias, teria sido desembarcado um total
de 39 divisões e mais duas aerotransportadas.
Era esta a tarefa: após firmarem-se nas cabeças-de-ponte, as divisões do grupo
A do exército, no sudoeste, investiriam para o primeiro objetivo, a linha que se
estendia entre Gravesend e Southampton. O 6QExército, de Reichenau, avançaria
ao norte para Bristol, isolando Devon e Cornualha. O segundo objetivo seria uma
linha entre Maldon, na costa leste, ao norte do estuário do Tâmisa, até o rio Se-
vern, isolando o País de Gales. Esperavam-se “grandes batalhas com poderosas
forças britânicas” na ocasião em que os alemães alcançassem seu primeiro objeti
vo. Elas seriam, porém, vencidas rapidamente, Londres seria cercada, e a investi
da para o norte reencetada.9 Brauchitsch declarou a Rãder, em 17 de julho, que
toda a operação seria completada em um mês e seria relativamente fácil.10*
* O serviço secreto alemão exagerou o potencial britânico em terra durante os meses de julho, agosto
e setembro, que era apenas 8 divisões. No princípio de julho, o Estado-maior geral alemão estimou as
forças britânicas em um número que ia de 15 a vinte divisões "valor combatente". Na verdade, havia 29
divisões na Inglaterra naquela ocasião, mas não mais que meia dúzia de "valor combatente", porque
não dispunha praticamente de elementos blindados ou de artilharia. Mas, ao contrário da crença geral
naquele tempo, que perdura até hoje, o exército britânico, em meados de setembro, teria rivalizado
com as divisões alemãs que haviam sido destinadas à invasão. Estava à época preparada para enfrentar
um ataque na costa sul uma força de 16 divisões bem treinadas, das quais três eram blindadas, e havia
quatro divisões, mais uma brigada blindada, cobrindo a costa leste, do Tâmisa a Wash. Isso representa
va uma notável recuperação depois da derrocada de Dunquerque, que deixara a Inglaterra pratica
mente indefesa em terra, em junho.
O serviço secreto britânico foi extremamente deficiente ao atentar para os planos dos alemães e, pela
primeira vez em três meses de ameaça de invasão, inteiramente inexato. Durante todo o verão, Churchill
202 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Mas Ráder e o Alto-Comando naval mostraram-se céticos. Uma operação da
quela envergadura numa larga frente — estendendo-se por mais de 320 quilôme
tros, de Ramsgate a Lyme Bay — estava além da capacidade de a marinha alemã
poder comboiar e proteger. Foi o que Ráder informou ao OKW, dois dias depois,
e trouxe à baila novamente em 21 de julho, quando Hitler o chamou juntamente
com Brauchitsch e o general Hans Jeschonnek (chefe do Estado-maior-Geral da
Luftwaffe) para uma conferência em Berlim. O Führer estava ainda confuso quan
to ao “que se estava passando na Inglaterra”. Apreciava as dificuldades da mari
nha, mas acentuou a importância de terminar a guerra o mais breve possível, pois
necessitava das divisões da invasão — disse —, e a “operação principal” teria que
estar terminada até 15 de setembro. Aliás, o chefe nazista mostrava-se otimista a
despeito da recusa de Churchill, naquela mesma ocasião, de dar ouvidos a seu
apelo de paz.
A situação da Inglaterra é desesperadora [anotou Halder como tendo
sido declarado por Hitler]. A guerra foi vencida por nós. Impossível
uma inversão das perspectivas de êxito.11
Mas a marinha, defrontando-se com a apavorante tarefa de transportar um
grande exército através do encapelado Canal, diante de uma armada britânica
incomensuravelmente mais forte e de uma força aérea que parecia ainda algo ati
va, não alimentava, a respeito, a mesma certeza. Em 29 de julho, o Estado-maior
da marinha de guerra elaborou um memorando opinando “contra o empreendi
mento da operação neste ano” e propondo que “fosse ela examinada em maio de
1941 ou depois”.12
Hitler, porém, insistiu em examinar a operação em 31 de julho de 1940, quan
do novamente convocou seus chefes militares, dessa vez para sua Villa em Ober-
salzberg. Além de Ráder, lá se achavam Keitel e Jodl, do OKW, e Brauchitsch e
Halder, do Alto-Comando do exército. O grande almirante, como era agora, foi
quem mais falou. Não se mostrava muito esperançoso.
Quinze de setembro, disse ele, seria a data para começar a operação Leão do
Mar e, mesmo assim, somente se não houvesse “circunstâncias imprevistas devidas
e seus conselheiros militares ficaram convencidos de que os alemães fariam sua principal tentativa de
desembarque na costa leste, e foi ali que se concentrou, até setembro, o grosso das forças terrestres
britânicas.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 203
ao tempo ou ao inimigo”. Quando Hitler indagou sobre o problema atmosférico,
Ráder respondeu com uma preleção sobre o assunto e tornou-se eloqüente e, cer
tamente, desagradável. Salvo a primeira quinzena de outubro, o tempo, explicou
ele, era “geralmente ruim” no Canal e no mar do Norte; um leve nevoeiro surgia
em meados daquele mês, e um nevoeiro denso no fim do mês. Isso, porém, era
apenas parte do problema do clima. “A operação”, declarou, “só poderá ser execu
tada se o mar estiver calmo? Se as águas estivessem agitadas, as chatas afundariam
e até os grandes barcos se tornariam inúteis, porque não poderiam descarregar
abastecimentos. O almirante tornou-se mais sombrio à medida que previa o que
os aguardaria.
Mesmo que a primeira vaga faça a travessia com êxito [prosseguiu], sob
favoráveis condições de tempo, não há garantia de que haverá o mesmo
tempo favorável para o transporte da segunda ou da terceira vagas (...)
Realmente, devemos compreender que nenhum transporte digno de
menção poderá, durante vários dias, fazer a travessia até que possa se
utilizar de certos portos.
Isso deixaria o exército em trágica situação, paralisado nas praias, sem supri
mentos e sem reforços. Rãder chegou depois ao ponto principal: a diferença entre
o exército e a armada. O exército desejava uma frente larga, do estreito de Dover
a Lyme Bay. A armada, entretanto, não poderia prover tal operação com navios
necessários, contra a forte reação que se esperava da marinha de guerra e da força
aérea britânicas. Ráder argüiu, pois, fortemente, em defesa do encurtamento da
frente, manifestando sua opinião de que ela deveria ser estendida apenas do es
treito de Dover a Eastbourne. O almirante reservou seu argumento decisivo para
o fim. “Considerando-se tudo”, disse, “a melhor ocasião para a operação seria o
mês de maio de 1941”.
Hitler, porém, não queria esperar todo esse tempo. Concordou que, natural
mente, nada havia que pudessem fazer com relação às condições atmosféricas.
Mas deviam considerar as conseqüências da perda de tempo. Na primavera, a
armada alemã não estaria mais forte vis-à-vis da britânica. O exército inglês, no
momento, achava-se em más condições. Dar aos ingleses mais oito ou dez meses,
permitir-lhes-ia dispor de trinta a 35 divisões, uma força considerável na restrita
204 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
área que se propunha invadir. Sua decisão, por conseguinte — segundo as notas
confidenciais de Rãder e Halder13— era a seguinte:
Devem-se estudar diversões na África. Mas o resultado decisivo so
mente poderá ser obtido mediante um ataque contra a Inglaterra.
Cumpre, portanto, fazer um esforço para preparar a operação para 15
de setembro de 1940 (...) A decisão, sobre se ela deverá realizar-se em
setembro ou ser adiada para maio de 1941, será tomada depois de ata
ques concentrados da força aérea ao sul da Inglaterra, durante uma se
mana. Se o efeito dos ataques aéreos for tal, que prejudique seriamente
a força aérea, os portos, as forças navais, etc., do inimigo, a operação
Leão do Mar será realizada em 1940. Caso contrário, será adiada para
maio de 1941.
Tudo dependia da Luftwaffe.
No dia seguinte, lfi de agosto, Hitler expediu, como conseqüência, duas direti
vas diretamente do OKW: uma assinada por ele próprio e outra por Keitel.
Quartel-general do Führer.; Ia de agosto de 1940
Secretíssimo
Diretiva na 17 para conduzir a guerra aérea e naval contra a Inglaterra.
A fim de estabelecer as condições necessárias à conquista final da Ingla
terra, tenciono continuar a guerra aérea e naval contra o território in
glês mais intensamente do que tem sido feito até agora.
Para esse fim, expeço as seguintes ordens:
A força aérea alemã deve vencer a força aérea britânica com todos os
meios a seu alcance e o mais breve possível (...)
Após ganhar a supremacia nos ares, local ou temporariamente, deverá
a guerra ser desencadeada contra os portos, especialmente contra os
estabelecimentos ligados ao abastecimento de produtos alimentícios
(...) Devem-se empreender ataques contra os portos na costa do sul na
menor escala possível, em virtude das operações que tencionamos (...)
A Luftwaffe deve estar a postos, em grande número, para a operação
Leão do Mar.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 205
Reservo-me decidir sobre os ataques de terror como meio de represália.
A intensificação da guerra aérea poderá começar em 6 de agosto ou
depois (...) A armada fica autorizada a começar a projetada intensifica
ção da guerra naval, na mesma ocasião.
Adolf Hitler14
A diretiva assinada por Keitel em nome de Hitler, no mesmo dia, diz em parte:
SECRETÍSSIMO
Operação Leão do Mar
Ao relatar o comandante-em-chefe da marinha de guerra, em 31 de
julho, que não poderiam ser terminados antes de 15 de setembro os
preparativos necessários à Leão do Mar, o Führer ordenou:
Os preparativos para a Leão do Mar devem ser continuados e estar ter
minados, pelo exército e pela força aérea, por volta de 15 de setembro.
Oito ou 14 dias depois de desencadeada a ofensiva aérea contra a Ingla
terra, cujo início foi marcado para mais ou menos 5 de agosto, o Führer
decidirá sobre se a invasão se dará ou não neste ano; sua decisão depen
derá, em grande parte, do resultado da ofensiva aérea (...)
A despeito da advertência da marinha, de que somente ela poderá ga
rantir a defesa de uma estreita faixa da costa [até Eastbourne, a oeste],
dever-se-ão continuar os preparativos para o ataque numa frente ex
tensa, conforme se traçou no plano original (...)15
O último parágrafo só serviu para inflamar a disputa entre o exército e a ma
rinha na questão sobre uma larga ou curta frente de invasão. Quinze dias antes, o
Estado-maior da marinha de guerra havia estimado que, para atender às exigên
cias do exército para o desembarque de 100 mil homens com equipamento e abas
tecimentos, na primeira vaga, ao longo de uma frente de 320 quilômetros, de
Ramsgate a Lyme Bay, seria necessário concentrar 1.722 chatas, 1.161 barcos a
motor, 471 rebocadores e 155 navios-transporte. Mesmo que fosse possível reunir
tão imensa quantidade de barcos, Ráder informou a Hitler, em 25 de julho, que
isso arruinaria a economia alemã, pois o afastamento de tantas chatas e rebocado
res destruiria todo o sistema de transporte fluvial do país, do qual dependia em
206 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO
grande parte sua vida econômica.16 De um modo ou de outro, Rãder esclareceu
que a proteção de tal armada procurando atender a tão larga frente contra os
ataques certos das forças aéreas e navais britânicas estava além da capacidade
das forças navais alemãs. A certa altura, o Estado-maior da marinha de guerra
preveniu o exército de que, insistisse ele naquela frente extensa, a marinha pode
ria perder todos os seus navios.
O exército, porém, insistiu na execução do plano. Exagerando o potencial dos
britânicos, como fazia, argumentava que o desembarque numa faixa estreita co
locaria os atacantes ante uma força terrestre britânica em número superior à
deles. Em 7 de agosto, houve uma explicação definitiva entre as duas armas,
quando Halder se encontrou com seu oponente da marinha, o almirante Sch-
niewind, chefe do Estado-maior geral da marinha de guerra. Houve um choque
ríspido e dramático.
“Rejeito completamente a proposta da marinha”, esbravejou o chefe do Esta
do-maior geral, habitualmente um homem muito calmo. “Do ponto de vista do
exército, considero-a um verdadeiro suicídio. Seria colocar as tropas desembarca
das dentro de uma máquina de fabricar salsichas!”
Segundo o registro da reunião* do Estado-maior da marinha de guerra, Sch-
niewind respondeu que seria “igualmente um suicídio” tentar transportar tropas
para uma frente tão larga como a que o exército desejava, “em vista da supremacia
da armada britânica”.
Era um dilema cruel. Caso se tentasse estabelecer uma frente extensa com um
grande número de tropas para guarnecê-la, toda a expedição alemã poderia ser
destruída no mar pela marinha britânica. Caso se adotasse uma frente curta, com
menor número de tropas, portanto, os invasores poderiam ser arremessados para
o mar pelo exército britânico. Em 10 de agosto, Brauchitsch, comandante-em-
chefe do exército, informou o OKW de que “não podia aceitar” um desembarque
entre Folkestone e Eastbourne. Estava inclinado, contudo, se bem que “muito re
lutantemente”, a renunciar ao desembarque em Lyme Bay, a fim de encurtar a
frente, fazendo, com isso, uma concessão à marinha.
* No registro que fez em seu diário, Halder não citou aquelas palavras como suas. Declarou, porém, que
"a conversação levou apenas à confirmação da existência de uma brecha intransponível". A marinha,
escreveu, "receava a esquadra britânica e sustentava que a defesa a ser feita pela Luftwaffe contra esse
perigo era impossível". A marinha, nessa ocasião, se não o exército, tinha poucas ilusões sobre o poder
ofensivo da força aérea de Gõring.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 207
Isso, porém, não era o suficiente para os obstinados almirantes, cuja cautela e
inflexibilidade começavam a exercer efeito no OKW. Em 31 de agosto, Jodl elabo
rou uma apreciação da situação, traçando cinco condições para o êxito da Leão do
Mar que, aparentemente, teriam parecido aos generais e almirantes quase ridícu
las, não fosse tão grave o dilema em que se encontravam. Primeiro, disse ele, a
marinha britânica teria de ser eliminada da costa sul, e, segundo, a Real Força
Aérea teria também que ser eliminada dos céus britânicos. As outras condições
diziam respeito ao desembarque de tropas com um potencial de força e uma rapi
dez que, obviamente, estavam além da capacidade da marinha. Se essas condições
não fossem preenchidas, ele considerava o desembarque “um ato de desespero
que deveria ser executado numa situação desesperadora, o qual, entretanto, não
temos motivos para levar a efeito agora”.17
Se os temores da marinha passavam agora para Jodl, as hesitações do chefe de
operações do OKW começavam a produzir seus efeitos em Hitler. Durante toda a
guerra, o Führer apoiara-se muito mais fortemente em Jodl que no chefe do OKW,
o obtuso e servil Keitel. Não é de surpreender, portanto, que em 13 de agosto,
quando Rãder se avistou com o supremo comandante em Berlim e solicitou uma
decisão sobre o problema da frente larga ou curta, Hitler mostrou-se inclinado a
concordar com a marinha, optando pela operação em menor escala. Prometeu
uma decisão definitiva para o dia seguinte, depois de ter conferenciado com o
comandante-em-chefe do exército.18Após ouvir a opinião de Brauchitsch no dia
14, Hitler tomou finalmente sua decisão e, no dia 16, uma diretiva do OKW assi
nada por Keitel declarava que o Führer resolvera renunciar ao desembarque em
Lyme Bay, que o 6- Exército de Reichenau deveria realizar. Deviam-se continuar
os preparativos para desembarques numa frente mais curta, em 15 de setembro,
mas agora, pela primeira vez, as dúvidas do próprio Hitler insinuavam-se numa
diretiva secreta: “Ordens finais”, dizia ela, “somente serão dadas quando a situação
estiver clara”. As novas ordens, porém, eram uma espécie de compromisso, pois
uma nova diretiva, nesse dia, ampliava a frente mais curta.
A travessia principal deverá ser feita numa frente estreita. Desem
barques simultâneos de quatro mil a cinco mil soldados em Brighton,
transportados por barcos a motor, e o mesmo número de forças
aerotransportadas em Deal-Ramsgate. No dia D-menos-1, além disso,
208 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
deverá a Luftwaffe desencadear um forte ataque contra Londres, ataque
que obrigue a população a fugir da cidade e a bloquear as estradas.19
Conquanto Halder, em 23 de agosto, registrava uma nota taquigráfica em seu
diário, afirmando que “nesta base não há probabilidade de êxito este ano”, uma
diretiva com a assinatura de Keitel, em 27 de agosto, traçava os planos finais para
desembarques em quatro áreas principais na costa sul, entre Folkestone e Selsey
Bill, a leste de Portsmouth, tendo por primeiro objetivo, como anteriormente,
uma linha que se estendia entre Portsmouth e o lamisa a leste de Londres, em
Gravesend, a ser alcançada assim que as cabeças-de-ponte tivessem sido ligadas e
organizadas e as tropas pudessem atacar o norte. Ao mesmo tempo, eram dadas
ordens para preparar a execução de certas manobras de despistamento, das quais
a principal era a Viagem de Outono (Herbstreise). Estabelecia-se um ataque simu
lado em grande escala contra a costa leste da Inglaterra, onde, conforme notamos,
Churchill e seus conselheiros militares ainda aguardavam que fosse desfechado o
principal golpe da invasão. Para tal fim, quatro grandes vapores, inclusive o Euro
pa e o Bremen, os maiores da Alemanha, e dez transportes adicionais, escoltados
por quatro cruzadores, deviam sair dos portos meridionais da Noruega e da baía
de Heligoland no dia D-menos-2 e dirigir-se para a costa inglesa entre Aberdeen
e Newcastle. Os transportes estariam vazios e toda a expedição voltaria ao cair da
noite, repetindo-se a manobra no dia seguinte.20
Em 30 de agosto, Brauchitsch expediu uma longa lista de instruções para os
desembarques, mas os generais que a receberam indagaram a si mesmos qual a
confiança que o chefe do exército tinha agora no empreendimento. Ele intitulara-
a “Instruções para os Preparativos da Operação Leão do Mar” — um tanto tardias
naquele jogo mandar preparar-se para uma operação que ele ordenara que devia
ser executada a partir de 15 de setembro. “A ordem de execução”, acrescentou ele,
“depende da situação política”, condição que devia ter deixado confusos os gene
rais apolíticos.21
Em lfi de setembro, começaram a movimentar-se os navios dos portos alemães
do mar do Norte rumo aos portos de embarque no Canal, e dois dias depois, em
3 de setembro, vinha do OKW uma nova diretiva:
A data mais próxima para a saída da frota de invasão foi fixada para 20
de setembro e a do desembarque para 21 de setembro.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 209
As ordens para o desencadeamento do ataque serão dadas no dia D-
menos-10, presumivelmente portanto em 11 de setembro.
As ordens finais serão dadas, o mais tardar, no dia D-menos-3, ao meio-dia.
Todos os preparativos devem ficar sujeitos a cancelamento 24 horas an
tes da hora zero.
Keitel22
A coisa, agora, parecia séria. Mas o tom era enganador. Em 6 de setembro,
Ràder teve uma longa conferência com Hitler. “A decisão do Führer; de realizar os
desembarques na Inglaterra”, registrou o almirante no diário do Estado-maior da
marinha de guerra, nessa noite, “não está de forma alguma assentada, pois ele está
firmemente convencido de que a derrota da Inglaterra será conseguida sem de
sembarque.” De fato, conforme demonstra o longo registro que Ráder fez da con
ferência, o Führer discursou demoradamente sobre quase tudo, exceto sobre a
operação Leão do Mar: falou sobre a Noruega, Gibraltar, Suez, “o problema dos
Estados Unidos”, o tratamento das colônias francesas e sua fantástica opinião
acerca do estabelecimento de uma União Germânica do Norte.23
Se Churchill e seus chefes militares tivessem ao menos conhecimento do que
se passara nessa extraordinária conferência, a palavra em código Cromwell talvez
não tivesse sido transmitida na Inglaterra na noite do dia seguinte, 7 de setembro,
significando “invasão iminente” e que causou uma confusão sem fim, um repicar
interminável dos sinos pela guarda metropolitana, a destruição de várias pontes
pelos engenheiros reais e um desnecessário número de mortes devido às minas
colocadas às pressas.*
Mas às últimas horas da tarde de sábado, 7 de setembro, começaram os ale
mães o primeiro bombardeio maciço de Londres, levado a efeito por 625 bombar
deiros protegidos por 648 caças. Foi o mais devastador ataque aéreo desfechado
* Diz Churchill que nem ele nem os chefes do Estado-maior tinham "noção de que a palavra em código
Cromwell havia sido dada. Foi expedida pelo quartel-general das forças metropolitanas. {Their Finest
Hour, p. 312). Quatro dias depois, porém, em 11 de setembro, o primeiro-ministro, numa transmissão,
preveniu que se a invasão se realizasse, ela não poderia "demorar muito tempo". "Portanto", disse ele,
"precisamos considerar a próxima semana ou a seguinte como um período muito importante de nossa
história. Estamos na mesma situação daquele dia em que a armada espanhola se aproximava do Canal,
e Drake acabava de terminar seu jogo de bolas, ou da ocasião em que Nelson se interpôs entre nós e o
grande exército de Napoleão, em Boulogne."
210 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
até aquele dia contra uma cidade — os bombardeios contra Varsóvia e Roterdã
foram simples picadas de agulha, comparados a ele, e, ao anoitecer, toda a área das
docas da grande cidade era uma imensa massa de chamas; toda a linha férrea para
o sul, tão vital para a defesa contra a invasão, estava bloqueada. Dadas as circuns
tâncias, muita gente acreditava que esse monstruoso bombardeio era o prelúdio
de desembarques imediatos dos alemães, e foi por causa disso, mais que qualquer
outra coisa, que se expediu o sinal de alerta — o da “invasão iminente”. Como
logo se verá, esse selvagem ataque contra Londres, em 7 de setembro, conquanto
fosse uma prematura advertência e causasse muitos danos, assinalou um momen
to decisivo na Batalha da Inglaterra, a primeira grande luta no ar que até então se
experimentava e que se aproximava de seu clímax.
Aproximava-se também a hora de Hitler tomar sua decisão fatal de desenca
dear ou não a invasão. Ela devia ser dada, conforme estipulava a diretiva de 3 de
setembro, em 11 desse mês, dando às forças armadas dez dias para levarem a efei
to as operações preliminares. Mas no dia 10 Hitler resolveu adiar sua decisão para
o dia 14. Parece que, pelo menos, houve duas razões para a protelação. Uma, era
a crença no OKW de que o bombardeio de Londres estava causando tanta des
truição, não só nas propriedades como no moral do povo britânico, que talvez
não fosse necessária a invasão.*
A outra razão surgia das dificuldades que a marinha alemã começava a expe
rimentar ao reunir seus navios. Além das condições atmosféricas, que as autori
dades navais relataram em 10 de setembro como sendo “completamente anormais
e instáveis”, a Real Força Aérea, que Gõring prometera destruir, e a marinha britâ
nica estavam intervindo cada vez mais na concentração da frota de invasão. Nesse
mesmo dia, o Estado-maior da marinha de guerra advertiu sobre o perigo dos
ataques aéreos e navais dos britânicos contra os movimentos de transporte ale
mães, ataques esses que — dizia — haviam “sem dúvida, sido coroados de êxito”.
Dois dias depois, em 12 de setembro, o quartel-general do grupo naval do oeste
enviou uma mensagem sinistra a Berlim:
* Os alemães ficaram muito impressionados pelos relatórios procedentes da embaixada em Washing
ton, que transmitiam informações de Londres, lá recebidas, exagerando-as.
Diziam os relatórios que o chefe do Estado-maior geral americano acreditava que a Inglaterra não
poderia resistir por muito tempo. Segundo o tenente-coronel von Lossberg {lm Wehrmacht
Fuehrungsstab, p. 91), Hitler esperava seriamente que irrompesse uma revolução na Inglaterra.
Lossberg era representante do exército no OKW.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 211
As interrupções causadas pelas força aérea, artilharia de grande alcance
e forças ligeiras do inimigo assumiram, pela primeira vez, grande im
portância. Os portos de Ostende, Dunquerque, Calais e Boulogne não
podem ser usados como ancoradouros noturnos, para a navegação, por
causa do perigo das bombas e granadas dos ingleses. Unidades da es
quadra britânica podem agora operar no Canal quase sem serem mo
lestadas. Dadas essas dificuldades, esperam-se novas protelações na
concentração da frota invasora.
No dia seguinte, a situação agravou-se ainda mais. As forças navais ligeiras
britânicas bombardearam os principais portos de invasão do Canal, Ostende,
Calais, Boulogne e Cherburgo, enquanto a Real Força Aérea afundava oitenta
chatas no porto de Ostende. Em Berlim, nesse dia, Hitler conferenciou com os
chefes das três armas durante o almoço. Ele achava que a guerra aérea ia muito
bem e declarou que não tinha intenção de correr o risco de uma invasão.24 De
fato, Jodl teve, das observações de Hitler, impressão de que 4ele, aparentemente,
decidira abandonar completamente a operação Leão do Mar”, impressão exata
nesse dia conforme Hitler confirmou no dia seguinte — quando, porém, mudou
novamente de idéia.
Ráder e Halder deixaram anotações confidenciais sobre a conferência de Hi
tler com seus comandantes-em-chefe, em Berlim, em 14 de setembro.25 O almi
rante conseguiu passar às mãos de Hitler um memorando antes da abertura da
conferência, expondo a opinião da marinha de que
a atual situação aérea não fornece condições para levar a efeito a opera
ção [Leão do Mar], pois o risco continua sendo demasiado grande.
No começo da conferência, o chefe nazista demonstrou disposição algo nega
tiva, e suas idéias estavam repletas de contradições. Não queria dar a ordem de
invasão, tampouco renunciar a ela — anotou Ráder no diário da marinha de guer
ra — como “aparentemente planejara fazer em 13 de setembro”.
Quais teriam sido as razões para sua última mudança de idéia? Halder regis
trou-as com certa minúcia:
212 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Um desembarque bem-sucedido [argumentou o Führer], seguido por
uma ocupação, terminaria a guerra em curto prazo. A Inglaterra mor
reria de fome. Não se precisa levar a efeito um desembarque dentro de
prazo específico (...) Mas uma guerra demorada não é desejável. Já con
seguimos tudo de que precisávamos.
As esperanças que os britânicos depositam na Rússia — disse Hitler — não se
concretizaram. A Rússia não derramaria sangue pela Inglaterra. O rearmamento
dos Estados Unidos somente estaria em plena eficácia em 1945. No momento, a
“solução mais rápida seria um desembarque na Inglaterra. A marinha tem prepa
rado as condições necessárias para isso. As operações da Luftwaffe são mais que
louváveis. Quatro ou cinco dias de bom tempo trariam resultados decisivos (...)
Temos uma boa possibilidade de fazer a Inglaterra dobrar os joelhos”.
O que estava errado então? Por que hesitar mais tempo em proceder à invasão?
Hitler admitiu qual era o problema:
O inimigo está se restabelecendo novamente (...) Os caças inimigos não
foram ainda completamente eliminados. Nossos próprios relatórios so
bre os êxitos obtidos não fornecem um quadro inteiramente digno de
confiança, se bem que o inimigo tenha sido seriamente atingido.
No todo, pois, declarou Hitler, “não obstante nossos êxitos, as condições indis
pensáveis para a operação Leão do Mar não foram ainda estabelecidas”. (Grifo de
Halder).
Hitler resumiu suas reflexões:
Um desembarque bem-sucedido significa vitória, mas para isso preci
samos obter completa supremacia nos ares.
As más condições atmosféricas têm, até então, impedido que obtivésse
mos completa supremacia nos ares.
Todos os demais fatores estão em ordem.
A decisão, portanto, é a seguinte: ainda não se renunciará à operação.
Tendo chegado a essa conclusão negativa, Hitler passou logo a expor suas gran
des esperanças de que a Luftwaffe talvez ainda trouxesse a vitória que, embora
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 213
próxima, continuava a fugir-lhe tão atormentadoramente. “Os ataques aéreos até
agora”, disse ele, “têm causado tremendo efeito, se bem que, talvez, mais sobre os
nervos. Mesmo que a vitória no ar só seja conseguida daqui a dez ou 12 dias, é
possível que os ingleses ainda venham a ser presa de histeria coletiva”.
Para auxiliar a provocar essa histeria, Jeschonnek, da força aérea, solicitou per
missão para bombardear os distritos residenciais de Londres, porque, disse ele,
não havia sinal de “pânico no povo” em Londres, já que essas áreas estavam sendo
poupadas. O almirante Ráder apoiou entusiasticamente a idéia de ser realizado
um bombardeio de terror. Hitler, porém, achou que a concentração do bombar
deio nos objetivos militares era mais importante. “O bombardeamento com o ob
jetivo de causar pânico no povo”, disse, “deve ser deixado para o fim.”
O entusiasmo de Rãder pelo bombardeio de terror parece ter se originado de
sua falta de entusiasmo pelos desembarques. Interveio, nessa ocasião, para nova
mente acentuar os “grandes riscos” envolvidos. A situação no ar, acentuou, mal
podia melhorar antes das projetadas datas de 24-27 de setembro para os desem
barques; por conseguinte, a operação deverá ser abandonada “até 8 ou 24 de
outubro”.
Isso, porém, era renunciar completamente à invasão, conforme Hitler perce
beu. Declarou que suspenderia sua decisão sobre o desembarque somente até 17 de
setembro — dali a três dias — de modo que a operação poderia ainda realizar-se
em 27 de setembro. Se não fosse praticável nessa ocasião, teria então que pensar em
outras datas de outubro. Expediu-se depois uma diretiva do comando supremo:
Berlim, 14 de setembro de 1940
Secretíssimo
(...) O Führer decidiu:
Fica adiado o começo da operação Leão do Mar. Nova ordem seguirá
em 17 de setembro. Devem-se continuar todos os preparativos.
Deve-se prosseguir os ataques aéreos contra Londres e estender a área
visada para as instalações militares e outras vitais [por exemplo: esta
ções ferroviárias].
Ficam os ataques de terror, contra áreas puramente residenciais, reser
vados como derradeiro meio de pressão.26
214 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Assim, conquanto Hitler tivesse adiado por três dias a invasão, não abandona
ra absolutamente a idéia. Dessem à Luftwaffe mais uns dias para liquidar a Real
Força Aérea e destruir o moral dos londrinos, e o desembarque poderia então ser
realizado. Traria a vitória final. Mais uma vez, pois, tudo dependia da tão alardea
da força aérea de Gõring. Ela faria, de fato, seu esforço supremo no dia seguinte.
A cada hora que passava, ia se tornando pior a opinião da marinha sobre a
Luftwaffe. Na noite daquela decisiva conferência em Berlim, o Estado-maior da
marinha de guerra alemã apresentou o relatório dos severos bombardeios da Real
Força Aérea sobre portos de invasão, da Antuérpia a Boulogne.
(...) Na Antuérpia (...) infligiram-se consideráveis danos nos transpor
tes — cinco vapores-transporte no porto pesadamente danificados;
afundamento de uma chata, destruição de dois guindastes, explosão de
trem de munições, incêndio lavrando em vários armazéns.
A noite seguinte foi ainda pior, comunicando a marinha “fortes ataques aéreos
do inimigo em toda a área costeira, entre o Havre e a Antuérpia”. Os marinhei
ros expediram um S.O.S. pedindo mais canhões antiaéreos, para proteção dos
portos de invasão. Em 17 de setembro, o Estado-maior da marinha informou:
A Real Força Aérea ainda não está derrotada. Ao contrário, está demons
trando crescente atividade em seus ataques aos portos do Canal e em sua
interferência cada vez maior nos movimentos de concentração.*27
* Em 16 de setembro, segundo uma autoridade alemã, os bombardeiros da Real Força Aérea surpreen
deram um grande exército de treinamento para a invasão e infligiram pesadas perdas na soldadesca e
em barcos para desembarque. Isso deu origem a muitas notícias na Alemanha e em outras partes do
continente de que os alemães haviam realmente tentado um desembarque, tendo sido rechaçados
pelos britânicos. (Georg W. Feuchter, Geschichte des Luftkrieges, p. 176). Eu ouvi tal notícia na noite de
16 de setembro em Genebra, Suíça, onde passava uns dias de férias. Em 18 de setembro e, novamente,
no dia seguinte, vi dois grandes trens-ambulância descarregando soldados feridos nos subúrbios de
Berlim. Pelas ataduras, cheguei à conclusão de que a maior parte dos ferimentos eram queimaduras.
Não houve luta em terra durante três meses.
Em 21 de setembro, documentos confidenciais da marinha alemã assinalavam que 21 navios de trans
porte e 214 chatas — cerca de 12% do total de barcos reunidos para a invasão — haviam sido perdidos
ou danificados. (Führer Conferences on NavalAffairs, p. 102).
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 215
Naquela noite havia lua cheia, e os bombardeios noturnos britânicos aprovei
taram o máximo. O Estado-maior da marinha de guerra Alemã comunicou “per
das bastante consideráveis” de barcos que se comprimiam nos portos de invasão.
Em Dunquerque, 84 chatas foram postas a pique ou danificadas, e, de Cherburgo
a Den Helder — informou a marinha —, entre outros itens depressivos, a explo
são de 500 toneladas de munições, incêndio de um depósito de mantimentos, o
afundamento de muitos vapores e barcos-torpedos e muitas baixas. O severo
bombardeio, além do canhoneio de pesadas peças do outro lado do Canal, fez que
se tornasse necessário — comunicou a marinha — dispersar as naus e os navios
de transporte que já se achavam concentrados no Canal e parar com o movimen
to da navegação para os portos de invasão.
Em caso contrário [dizia] com a enérgica ação do inimigo ocorrerão
perdas tais, no decorrer do tempo, que se tornará problemática a execu
ção da operação na escala previamente elaborada.28
Já se tornava problemática.
Há no diário da marinha de guerra alemã um registro lacônico datado de 17
de setembro:
A força aérea inimiga de forma alguma está derrotada. Demonstra,
pelo contrário, crescente atividade. As condições atmosféricas, no seu
todo, não nos permitem esperar um período de calma (...) O Führer
decide, portanto , adiar indefinidamente a Leão do Mar.*29
Adolf Hitler, após tantos anos de brilhantes sucessos, havia finalmente fracas
sado. Durante quase um mês, depois disso, manteve-se a impressão de que a in
vasão ainda poderia realizar-se no outono; pura simulação, porém. Em 19 de
setembro, o Führer ordenou formalmente que cessasse a concentração da tropa
invasora e a dispersão de todos os barcos que já se achavam nos portos, M a fim de
que pudessem ser reduzidas ao mínimo as perdas de transportes causadas pelos
ataques aéreos inimigos”.
Mas era impossível manter dispersados até mesmo uma armada e todas as
tropas, canhões, tanques e abastecimentos que haviam sido concentrados para
* Grifo da marinha.
216 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
cruzar o Canal e destinados a uma invasão que fora adiada indefinidamente. Esse
“estado de coisas” — exclamou Halder em seu diário, no dia 28 de setembro —,
“de se arrastar continuamente a existência da operação Leão do Mar, é insuportá
vel”. Quando Ciano e Mussolini se encontraram com o Führer no Passo de Bren-
ner, em 4 de outubro, observou o ministro das Relações Exteriores da Itália em
seu diário: “Não se fala mais em um desembarque nas Ilhas Britânicas.” O recuo
de Hitler colocou seu parceiro Mussolini num humor excelente, que há muito
não demonstrava. “Raramente vi o Duce com tão bom humor (...) como hoje no
Passo de Brenner”, anotou Ciano.30
Já a marinha e o exército insistiam junto ao Führer para que resolvesse cance
lar de vez a operação Leão do Mar. O Estado-maior geral fez-lhe ver que a manu
tenção de tropas no Canal, “sob contínuos ataques aéreos dos britânicos, acarre
taria contínuas baixas”.
Em 12 de outubro, finalmente, o chefe nazista admitiu formalmente o fracas
so; adiou a invasão para a primavera, se não para um pouco antes. Expediu-se
uma diretiva formal:
Quartel-General do Führer, 12 de outubro de 1940
Secretíssimo
O Führer decidiu que, a partir de agora e até a primavera, os preparati
vos para a operação Leão do Mar deverão prosseguir somente para
manter pressão política e militar sobre a Inglaterra.
Caso se considere a invasão na primavera ou no princípio do verão de
1941, as ordens para renovação dos preparativos para a operação serão
expedidas mais tarde (...)
O exército recebeu ordem de destacar as formações da Leão do Mar “para
outras tarefas ou para empregá-las em outras frentes” A marinha foi instruída a
“tomar todas as medidas no sentido de desligar o pessoal e os transportes”. Ambas
as armas deviam camuflar seus movimentos. “Os britânicos”, declarou Hitler, “de
vem continuar a crer que estamos preparando um ataque numa larga frente”.31
Que acontecera para obrigar, finalmente, Adolf Hitler a ceder?
Duas coisas: o curso fatal da Batalha da Inglaterra e a volta de seu pensamento,
mais uma vez, para o leste: a Rússia.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 217
Batalha da Inglaterra
A grande ofensiva aérea de Gõring contra a Inglaterra, Operação Águia (Adle-
rangriffe), havia sido desencadeada em 15 de agosto com o objetivo de afastar dos
ares a força aérea inglesa e assim conseguir uma condição da qual dependia a in
vasão. O gordo marechal do Reich, posto a que havia sido elevado, não duvidava
da vitória. Em meados de julho mostrava-se confiante de que a defesa dos caças
britânicos no sul da Inglaterra poderia ser esmagada dentro de quatro dias por
meio de um ataque total, abrindo assim caminho para a invasão. Levaria um pou
co mais para destruir completamente a Real Força Aérea, informou Gõring ao
Alto-Comando do exército: de duas a quatro semanas.32De fato, o condecoradís-
simo chefe da força aérea alemã achava que a Luftwaffe, sozinha, poderia fazer a
Inglaterra dobrar os joelhos, e que talvez não fosse necessária uma invasão por
forças terrestres.
Para atingir esse poderoso objetivo, dispunha ele de três grandes frotas aéreas
(Luftflotten): a ne 2, sob o comando do marechal-de-campo Kesselring, operando
nos Países Baixos e norte da França; a ne 3, comandada pelo marechal-de-campo
Sperrle, com suas bases no norte da França; e a n2 5, sob a direção do general
Stumpff, estacionada na Noruega e na Dinamarca. As duas primeiras possuíam
um total de 929 caças, 875 bombardeiros e 316 bombardeiros de mergulho; a n2 5
era muito menor, com 123 bombardeiros e 34 caças bimotores ME. Contra essa
vasta força, a Real Força Aérea dispunha, para a defesa aérea do reino, no princí
pio de agosto, de setecentos a oitocentos caças.
Durante todo o mês de julho, a Luftwaffe aumentou gradativamente seus ata
ques contra a navegação britânica no Canal e nos portos do sul. Foi uma operação
de sondagem. Conquanto fosse necessário varrer do Canal as naves britânicas,
antes de poder ser iniciada a invasão, o principal objetivo desses ataques prelimi
nares era atrair os caças britânicos para a luta. Os alemães fracassaram nesse ob
jetivo. O comando da Real Força Aérea evitou, astutamente, comprometer mais
que uma fração de seus caças, e, como resultado, consideráveis danos foram feitos
à navegação e a alguns portos. Quatro destróieres e 18 navios mercantes foram a
pique, mas esse encontro preliminar custou à Luftwaffe 296 aviões destruídos e
135 danificados. A Real Força Aérea perdeu 148 caças.
Em 12 de agosto, Gõring expediu ordens para que fosse desencadeada a
Operação Águia no dia seguinte. Logo de início, nesse dia, foram feitos pesados
218 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
ataques contra as estações de radar do inimigo, cinco das quais foram de fato
atingidas e danificadas e uma foi posta fora de ação; nessa fase, porém, os alemães
ignoravam o quanto o radar era vital para a defesa da Inglaterra e não prossegui
ram no ataque. Nos dias 13 e 14 os alemães colocaram no ar cerca de 1.500 aviões,
a maioria deles contra os campos dos caças da Real Força Aérea, e, embora decla
rassem ter “destruído completamente” cinco, o dano fora insignificante, perdendo
a Luftwaffe 47 aviões contra 13 dos ingleses.*
O dia 15 de agosto trouxe a primeira grande batalha aérea. Os alemães lança
ram na luta o grosso de seus aviões de todas as três frotas, realizando 801 sortidas
de bombardeiros e 1.149 de caças. A Luftflotten nfi 5, operando da Escandinávia,
sofreu verdadeiro fracasso. Ao enviar oitocentos aviões num ataque maciço con
tra a costa meridional, os alemães esperavam encontrar indefesas as costas a nor
deste. Mas uma força de cem bombardeiros, escoltada por 34 caças bimotores
ME-110, foi surpreendida por sete esquadrilhas de Hurricanes e Spitfires quando
se aproximava de Tyneside e foi duramente castigada. Trinta aviões alemães, na
maioria bombardeiros, foram derrubados sem perda para os defensores. Foi o fim
da frota n2 5 na Batalha da Inglaterra; não voltou mais a atacar.
No sul da Inglaterra, nesse dia, os alemães foram mais felizes. Desfecharam
quatro ataques maciços, num dos quais puderam atingir Londres. Quatro fábricas
de aviões, em Croydon, foram atingidas, e cinco aeródromos de caças da Real For
ça Aérea foram danificados. Em todos eles, os alemães perderam 75 aviões contra
34 da Real Força Aérea.** Nessa proporção, a despeito de sua superioridade numé
rica, dificilmente os alemães poderiam esperar eliminar dos ares o adversário.
Gõring cometeu agora o primeiro de seus dois erros táticos. A habilidade do
Comando de Caças Britânico, ao empenhar seus aviões na batalha contra forças
atacantes grandemente superiores em número, baseava-se no uso inteligente do
radar. Desde o momento em que deixavam suas bases na Europa Ocidental, as
telas do radar os assinalavam e determinavam com tal precisão o seu curso que
o Comando de Caças sabia exatamente onde e quando podia atacá-los melhor.
* A Luftwaffe alegou ter destruído 134 aviões britânicos contra uma perda de 34. Dessa data em diante,
ambos os lados exageravam os danos causados um ao outro.
** Em Londres, nessa noite, um comunicado oficial mencionou que 182 aviões alemães haviam sido
derrubados e 43, provavelmente, haviam sido destruídos. Isso foi um grande estímulo para o moral
britânico em geral e, especialmente, para o dos pilotos de caça que lutavam dura e desmedidamente.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 219
Era algo novo, na guerra, que deixou os alemães intrigados; em relação aos ingle
ses, estavam muito mais atrasados no tocante à criação e ao uso de dispositivos
eletrônicos.
Percebemos [depôs mais tarde Adolf Galland, famoso piloto alemão de
aviões de caça] que as esquadrilhas de caças da Real Força Aérea de
viam ser controladas do solo por algum processo novo, porque ouvía
mos ordens dirigindo, com habilidade e precisão, Spitfires e Hurricanes
contra as formações alemãs (...) Para nós, o radar e o controle dos caças
constituíram uma surpresa bastante amarga.33
Não se prosseguiu, contudo, o ataque às estações de radar da Inglaterra, o qual,
em 12 de agosto, causara tanto dano. Em 15 de agosto, dia de seu primeiro grande
revés, Gõring cancelou-os inteiramente, declarando: “É duvidoso haver qualquer
vantagem em continuar o ataque contra as estações de radar, uma vez que nenhu
ma daquelas que têm sido atacadas foi, até agora, posta fora de ação.”
A segunda chave para a brilhante defesa dos céus do sul da Inglaterra foram as
estações de setores. Era o centro nevrálgico subterrâneo, do qual os Hurricanes e
Spitfires eram guiados para a batalha por meio de radiotelefonia, com base nas
últimas informações do radar, dos postos de observação terrestres e dos pilotos
no ar. Os alemães, conforme observou Galland, podiam ouvir as constantes con
versações pelas ondas aéreas entre as estações dos setores e os pilotos, no ar, e fi
nalmente começaram a compreender a importância daqueles centros de controle
terrestre. Em 24 de agosto modificaram a tática, visando à destruição das estações
de setores, sete das quais dos aeródromos em torno de Londres eram de suma
proteção para o sul da Inglaterra e a própria capital. Foi um golpe contra as partes
vitais da defesa antiaérea da Inglaterra.
Parecia, até então, que a batalha se processava desfavoravelmente para a Luft
waffe. Em 17 de agosto, ela perdeu 71 aviões contra 27 da Real Força Aérea. O va
garoso bombardeiro de mergulho Stuka, que auxiliara a preparar o caminho às vi
tórias do exército na Polônia e no Ocidente, demonstrava ser um alvo perfeito para
os caças britânicos. Nesse dia, foi retirado da batalha por Gõring, o que reduziu a
força dos bombardeiros da Alemanha a uma terça parte. De 19 a 23 de agosto,
houve inatividade no ar devido ao mau tempo. Revendo no dia 19 a situação em
220 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Karinhall, local de exposições nas proximidades de Berlim, Gõring ordenou que
a Luftwaffe concentrasse os ataques exclusivamente contra a Real Força Aérea
assim que o tempo melhorasse.
“Chegamos ao período decisivo da guerra aérea contra a Inglaterra”, declarou.
“A derrota da força aérea inimiga constitui tarefa vital. Nosso primeiro objetivo é
destruir os caças do inimigo.”34
De 24 de agosto a 6 de setembro, os alemães empregaram, em média, mil
aviões por dia para consecução desse objetivo. Dessa vez, o marechal do Reich
tinha razão. A Batalha da Inglaterra entrara em sua fase decisiva. Embora os pi
lotos da Real Força Aérea, já fatigados pelas sortidas diárias de seus aparelhos
durante um mês, lutassem valorosamente, a simples preponderância dos alemães
em número de aviões começou a produzir efeito. Cinco campos de caças, no sul
da Inglaterra, foram grandemente danificados e seis das sete estações-chave de
setores foram tão severamente bombardeadas que quase todo o sistema de co
municações parecia prestes a ser posto fora de ação. A Inglaterra viu-se ameaçada
de uma catástrofe.
E o pior: o ritmo do ataque começou a se refletir nas defesas dos caças da Real
Força Aérea. Na decisiva quinzena de 23 de agosto a 6 de setembro, os britânicos
perderam 466 caças, destruídos ou seriamente danificados, e, conquanto não sou
bessem na ocasião, as perdas da Luftwaffe tinham sido menores: 385 aviões, dos
quais 214 caças e 138 bombardeiros. Além disso, a Real Força Aérea havia perdido
231 pilotos, dos quais 103 mortos e 128 gravemente feridos — um quarto do total
de que dispunha.
“A balança”, escreveu Churchill mais tarde, “pendeu contra o comando dos
caças (...) Houve muita ansiedade”. Mais algumas semanas assim, e a Inglaterra
não teria defesa organizada nos ares. A invasão poderia ser bem-sucedida.
Gõring, logo depois, cometeu o segundo erro tático; em suas conseqüências,
foi comparável ao de Hitler quando ordenou a sustação do ataque das forças blin
dadas contra Dunquerque, em 24 de maio. Salvou a derreada e entontecida Real
Força Aérea e assinalou um dos pontos decisivos da primeira grande batalha aé
rea da história.
Com os caças britânicos da defesa a sofrerem perdas no ar e no solo, o que não
podia ser sustentado por muito tempo, a Luftwaffe mudou o alvo de seus ataques
em 7 de setembro; passou a efetuar bombardeios maciços noturnos em Londres,
e os caças da Real Força Aérea tiveram uma trégua.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 221
Que havia acontecido no campo alemão, para obrigar essa mudança de tática
que estava destinada a ser fatal às ambições de Hitler e Gõring? A resposta está
cheia de ironias.
Para começar, houve um pequeno erro de navegação por parte dos pilotos de
uma dúzia de bombardeiros alemães na noite de 23 de agosto. Instruídos para
lançar suas cargas sobre fábricas de aviões e tanques de óleo, nas vizinhanças de
Londres, erraram o alvo e deixaram-nas cair no centro da capital, destruindo ca
sas e matando civis. Os britânicos julgaram que o ataque havia sido propositado
e, em represália, bombardearam Berlim na noite seguinte.
O bombardeio de Berlim não teve grande relevância. Havia uma densa cama
da de nuvens sobre a cidade nessa noite, e somente cerca de metade dos 81 bom
bardeiros da Real Força Aérea que para lá foram enviados encontraram o alvo. Os
danos materiais foram insignificantes; mas o efeito sobre o moral dos alemães foi
tremendo, pois era a prim eira vez que haviam caído bombas em Berlim.
Os berlinenses estão estupefatos [escrevi em meu diário no dia seguin
te, 26 de agosto]. Nunca pensaram que isso pudesse acontecer. Quando
começou a guerra, Gõring assegurou-lhes que jamais aconteceria (...)
Acreditaram nele. A desilusão é, portanto, maior ainda. É preciso ver-
lhes os rostos para se poder avaliá-la.
Berlim estava bem defendida por dois grandes anéis de peças antiaéreas e du
rante três horas, enquanto os bombardeiros visitantes roncavam acima das nu
vens, o que impedia que centenas de baterias de holofotes os colhessem em sua
luz, o fogo antiaéreo foi o mais intenso até então por mim presenciado. Mas não
foi derrubado um único avião. Os britânicos, também, lançaram alguns boletins
dizendo que “a guerra que Hitler começou continuará e durará enquanto Hitler
prosseguir nela”. Foi uma boa propaganda, mas a explosão das bombas que caíam
foi melhor.
A Real Força Aérea tornou a aparecer, em maior número, na noite de 28 para
29 de agosto, e, conforme anotei em meu diário, “pela primeira vez matou ale
mães na capital do Reich”. As cifras oficiais foram: dez mortos e 29 feridos. Os
chefes nazistas sentiram-se ultrajados. Goebbels, que havia ordenado à imprensa
que publicasse apenas umas poucas linhas sobre o primeiro ataque, deu então
222 a g uerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO
instruções para que proclamasse a brutalidade dos aviadores britânicos em atacar
mulheres e crianças indefesas, em Berlim. A maioria dos diários da capital trazia
os mesmos cabeçalhos: Covarde ataque dos britânicos. Duas noites depois, após a
terceira invasão, diziam: Piratas aéreos britânicos sobre Berlim!
O principal efeito de uma semana de constantes bombardeios notur
nos, da parte dos britânicos [escrevi em meu diário em lfi de setembro]
foi espalhar grande desilusão entre o povo e semear a dúvida em seu
espírito (...) Na verdade, os bombardeios não foram muito mortíferos.
Primeiro de setembro era o primeiro aniversário da guerra. Notei a má dis
posição do povo, afora seus nervos abalados, por terem sido privados do sono, e
o temor causado pela surpresa dos bombardeios e o barulho terrível do fogo
antiaéreo.
Neste ano, as armas alemãs obtiveram vitórias até então inigualáveis na
brilhante história militar dessa nação agressiva e militarista. E, entre
tanto, a guerra não foi ainda terminada nem vencida. Eles anseiam pela
paz e a desejam antes da chegada do inverno.
Hitler julgou necessário dirigir-lhes a palavra em 4 de setembro, por ocasião
da abertura da Campanha de Auxílios de Inverno no Palácio dos Esportes. Seu
comparecimento ali foi mantido em segredo até o último momento, aparente
mente pelo receio de os aviões inimigos poderem tirar partido da camada de nu
vens e dispersar a reunião, se bem que ela fosse realizada à tarde, uma hora antes
do anoitecer.
Raramente vi o ditador nazista mais sarcástico ou tão imbuído do que o povo
alemão considerava humor, não obstante ser ele um homem essencialmente des
tituído de bom humor. Descreveu Churchill como ‘esse conhecido correspon
dente de guerra”. Para “um personagem como Duff Cooper”, disse, “não existe
palavra no alemão convencional; somente os bávaros têm um vocábulo que des
creve apropriadamente esse tipo de homem, e ele é uma Krampfhenn ”, palavra
que se poderia traduzir como “uma galinha velha e nervosa”.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 223
A loquacidade de Mr. Churchill ou de Mr. Eden [disse ele] — o respei
to pela velhice proíbe que se mencione Mr. Chamberlain — nada signi
fica para o povo alemão. Quando muito, o faz rir.
E Hitler continuou a fazer o público, composto principalmente de enfermeiras
e assistentes sociais, rir e, depois, aplaudir histericamente. Viu-se frente ao pro
blema de responder a duas questões que pesavam bastante no espírito do povo
alemão: quando seria invadida a Inglaterra e o que seria feito com relação aos
bombardeios de Berlim e outras cidades alemãs. Quanto à primeira:
Na Inglaterra, eles estão cheios de curiosidade e vivem perguntando:
“Por que ele não vem?” Tenham calma. Tenham calma. Ele vai! Ele vai!
Os ouvintes acharam graça na piada, mas também acreditaram que era uma
inequívoca promessa. Quanto aos bombardeios, começou com uma típica falsi
dade e terminou com uma sórdida ameaça:
Mesmo agora (...) Mr. Churchill está apresentando seu novo filho prodí
gio, a incursão aérea noturna. Está executando essas incursões não por
que prometam ser eficazes, mas por não poder sua força aérea voar à luz
do dia sobre a Alemanha (...) ao passo que os aviões alemães voam sobre
o solo inglês todos os dias (...) Toda vez que o inglês vê uma luz, deixa
cair uma bomba (...) sobre os distritos residenciais, granjas e aldeias.
E veio depois a ameaça:
Durante três meses não respondi, porque acreditei que cessariam tal
loucura. Mr. Churchill tomou isso como sinal de fraqueza. Estamos
agora respondendo noite por noite.
Quando a força aérea britânica lançar dois ou três ou quatro mil quilos
de bombas, lançaremos então, numa só noite, 150,230, 300 ou 400 mil
quilos.
A esse ponto do discurso, segundo meu diário, Hitler teve de fazer uma pausa
por causa dos aplausos histéricos de suas ouvintes alemãs.
224 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
“Quando eles declaram”, prosseguiu Hitler, “que aumentarão seus ataques con
tra nossas cidades, nós arrasaremos então as suas”. Nesse ponto, observei, as jo
vens damas ficaram fora de si e aplaudiram freneticamente. Quando serenaram, o
Führer acrescentou: “Com o auxílio de Deus, faremos cessar o trabalho desses
piratas aéreos noturnos!”
Ao ouvirem isso, anotei também que “as jovens alemãs começaram a pular e,
arquejantes, aos gritos, manifestaram sua aprovação”.
“Virá a hora”, concluiu Hitler, “em que um de nós cederá, e não será a Alema
nha nacional-socialista!” Ao ouvirem essas palavras, finalmente anotei, “as deli
rantes jovens apenas se controlaram para romper, com selvagens brados de alegria
em coro, que a Alemanha jamais cederia!”
Ciano, em Roma, ouvindo a transmissão — que foi feita horas depois por meio
de discos —, confessou que ficara perplexo. “Hitler devia estar muito nervoso”,
concluiu.35
Seus nervos foram fator importante na fatal decisão de passar, dos ataques
decisivos da Luftwaffe à luz do dia contra a Real Força Aérea, para os bombar
deios maciços a Londres, à noite. Foi uma decisão política e militar, feita, em
parte, para vingar os bombardeios de Berlim e de outras cidades alemãs (que
eram simples alfinetadas comparadas com as que a Luftwaffe estava realizando às
cidades da Inglaterra) e destruir a vontade de resistir dos britânicos, arrasando
para isso sua capital. Se fossem bem-sucedidos — e Hitler e Goebbels não alimen
tavam dúvidas a respeito —, talvez não fosse necessária a invasão.
E assim, às últimas horas da tarde de 7 de setembro, começou o grande ata
que contra Londres. Os alemães lançaram nele, conforme vimos,* 625 bombar
deiros e 648 caças. Mais ou menos às 17h desse sábado, a primeira leva de 320
bombardeiros, protegidos por todos os caças de que dispunham os alemães,
voou sobre o Tâmisa e começou a despejar suas bombas sobre o arsenal de
Woolwich, sobre várias fábricas de gás, usinas elétricas, armazéns e docas, nestas
últimas numa extensão de vários quilômetros. Toda aquela vasta área transfor
mou-se logo num mar de chamas. Numa localidade, Silvertown, a população
ficou cercada pelos incêndios e teve de ser retirada por via fluvial. Às 20:1 Oh,
chegou uma segunda vaga de 250 bombardeiros que renovou o ataque, mantido
até as 4:30h de domingo por sucessivas levas de aviões. Na noite seguinte, às 19:30h,
* Ver p. 209.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 225
foi o ataque recomeçado por duzentos bombardeiros, prosseguindo durante toda
a noite. Foram mortas 842 pessoas e feridas 2.347, segundo o historiador oficial
britânico, durante essas duas primeiras noites, tendo sido infligidos consideráveis
danos à espalhada cidade.36 As incursões prosseguiram durante toda a outra se
mana, noite após noite.*
E foi então que, estimulada pelos seus êxitos, ou o que julgavam que fosse, a
Luftwaffe decidiu levar a efeito um grande ataque diurno contra a castigada capi
tal em chamas. Esse ataque, realizado no domingo, 15 de setembro, provocou
uma das batalhas decisivas da guerra.
Bombardeiros alemães em número de duzentos, aproximadamente, escolta
dos por cerca de seiscentos caças, apareceram sobre o Canal por volta do meio-
dia, dirigindo-se para Londres. O Comando de Caças observara a concentração
dos atacantes em suas telas de radar e, portanto, achava-se preparado. Os alemães
foram interceptados antes de se aproximarem da capital. Alguns aviões consegui
ram atravessar a barreira, muitos foram dispersados e outros abatidos antes de
poder descarregar suas bombas. Duas horas depois, voltou uma formação alemã
ainda mais forte, e foi rechaçada. Conquanto alegassem os britânicos terem abati
do 185 aviões da Luftwaffe, a quantidade verdadeira, conforme se soube depois da
guerra pelos arquivos de Berlim, foi muito menor: 56, mas, deste número, 34 fo
ram bombardeiros. A Real Força Aérea perdeu somente 26 aparelhos.
Aquele dia demonstrou que a Luftwaffe no momento não podia, depois de ter
dado ao Comando de Caças uma semana para se refazer, levar a efeito com êxito
um ataque diurno contra a Inglaterra. Dado isso, as perspectivas de um desem
barque eficaz eram sombrias. O dia 15 de setembro, portanto, assinalou um ponto
crítico, como mais tarde julgou Churchill, da Batalha da Inglaterra. Embora
Gõring no dia seguinte — ao ordenar uma mudança de tática estabelecendo o
emprego de bombardeiros à luz do dia não para bombardear, mas, tão-somente,
para servir de chamariz aos caças britânicos — alardeasse que os caças inimigos
“haviam de ser liquidados dentro de quatro ou cinco dias”,37 Hitler e os coman
dantes do exército e da marinha não acreditaram nisso; dois ou três dias após
aquela batalha decisiva, em 17 de setembro, conforme se notou, o Führer adiou
sine die a operação Leão do Mar.
* Naquela ocasião, as defesas noturnas não se achavam ainda aperfeiçoadas, tendo sido insignificantes
as perdas alemãs.
226 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Embora Londres devesse receber durante 57 noites consecutivas, de 7 de se
tembro a 3 de novembro, terríveis ataques de, em média, duzentos bombardeiros,
a ponto de parecer quase certo a Churchill, conforme ele revelou mais tarde, que
a cidade logo estaria reduzida a um amontoado de destroços, e embora a maioria
das outras cidades da Inglaterra, sobretudo Coventry, devessem sofrer grandes
danos durante todo aquele sombrio período de outono e inverno, o moral britâ
nico não decaiu, tampouco a produção de armamentos, conforme Hitler esperava
tão confiantemente. As fábricas de aviões, na Inglaterra, um dos principais objeti
vos dos bombardeiros da Luftwaffe, produziram, na verdade, mais que as alemãs,
em 1940: 9.924 aparelhos contra 8.070. As perdas de Hitler na Inglaterra, em
bombardeiros, foram tão graves que não puderam ser compensadas. De fato, a
Luftwaffe, segundo os documentos confidenciais alemães deixam claro, não pôde
refazer-se inteiramente do golpe que recebeu nos céus da Inglaterra naquele verão
e naquele outono.
A marinha de guerra alemã, imobilizada pelas perdas ao largo das costas da
Noruega, no princípio da primavera, não podia, conforme seus chefes admitiram,
prover a força marítima para a invasão da Inglaterra. Sem isso e sem a supremacia
dos ares, o exército alemão se via incapacitado de cruzar as estreitas águas do
Canal. Pela primeira vez, na guerra, Hitler viu-se detido; seus planos de nova
conquista foram frustrados exatamente naquele momento em que, conforme vi
mos, estava certo de haver alcançado a vitória final.
Jamais concebera — tampouco outros até aquele momento — que uma bata
lha decisiva podia ser travada no ar. Talvez ainda nem tivesse percebido, ao apro
ximar-se o inverno europeu, que um punhado de pilotos de caças britânicos, im
pedindo sua invasão, preservara a Inglaterra tornando-a uma grande base para a
possível reconquista do continente, do oeste, em data posterior. Seus pensamen
tos estavam, forçosamente, voltando-se para outro lugar; e de fato, conforme ve
remos, já se haviam voltado.
Salvou-se a Inglaterra. Durante quase um milênio ela se defendera brilhante
mente com seu poderio marítimo. Bem a tempo, seus chefes, poucos deles, reco
nheceram nos anos que entremearam a guerra, a despeito de todas as confusões
(das quais estas páginas estão repletas), que a força aérea se tornara, em meio ao
século XX, um fator decisivo, e o pequeno avião de caça e seu piloto, o principal
escudo para a defesa. Como disse Churchill na Câmara dos Comuns em 20 de
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 22 7
agosto, em outra memorável peroração, quando a batalha se travava nos ares com
toda a violência e o resultado era duvidoso: “Nunca, no campo dos conflitos hu
manos, tantos deveram tanto a tão poucos”.
Se a invasão fosse coroada de êxito
A ocupação da Inglaterra pela Alemanha não teria sido uma questão deli
cada. Os documentos apreendidos aos alemães não deixam dúvida a respeito.
Em 9 de setembro, Brauchitsch, comandante-em-chefe do exército, assinou
uma diretiva dispondo que “a população masculina fisicamente capaz, de 17 a 45
anos de idade (na Inglaterra), a menos que a situação local exija uma decisão
excepcional, será internada e despachada para o continente”. Ordens para esse
fim foram expedidas dias depois pelo chefe do serviço de intendência, no OKH,
aos 9- e 162 Exércitos que se achavam concentrados para a invasão. Em qualquer
outro país conquistado, nem mesmo na Polônia, haviam os alemães começado
com medidas tão drásticas. As instruções de Brauchitsch traziam o título: “Or
dens Relativas à Organização e à Função do Governo Militar na Inglaterra”, e
entravam em um sem-número de detalhes. Pareciam destinadas a assegurar uma
pilhagem sistemática da ilha e a implantar o terror entre seus habitantes. Organi-
zou-se, em 27 de julho, um “Estado-maior econômico-militar na Inglaterra”, para
consecução desse primeiro objetivo. Tudo deveria ser confiscado imediatamente,
exceto as provisões normais ao abastecimento de uma família. Far-se-iam reféns.
Qualquer pessoa que colocasse um cartaz de que os alemães não gostassem fica
ria sujeita a execução sumária; estabelecer-se-ia uma penalidade similar para
aquelas que deixassem de entregar suas armas de fogo ou aparelhos de rádio
dentro de 24 horas.
Mas o verdadeiro terror seria imposto por Himmler e pelas S.S. Isso ficaria a
cargo da temível R.S.H.A.,* sob a direção de Heydrich. O homem designado para
dirigir suas atividades, em Londres, era um certo coronel das S.S., o professor dr.
Franz Six, outro dos peculiares vilões intelectuais que, no tempo dos nazistas, se
sentiram de um modo qualquer atraídos para servir na polícia secreta de Himmler.
* R.S.HA , iniciais da Repartição Central da Segurança do Reich (Reichssicherheitshauptamt) que, confor
me se notou, assumiu em 1939 o controle da Gestapo, a Polícia Criminal e serviço de segurança, ou S.D.
228 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
O professor Six tinha deixado sua posição de deão da faculdade de economia da
Universidade de Berlim para unir-se ao S.D. de Heydrich, onde se especializou
em “questões científicas”, cujo lado fantástico fascinou o míope Heinrich Himm-
ler e seus sequazes. Do que escapou o povo britânico, por não ter tido em sua
presença o dr. Six, pode ser julgado pela sua carreira, mais tarde, na Rússia, onde
exerceu atividades no Einsatzgruppen das S.S., cujos elementos se distinguiram
em massacres em massa; uma das especialidades do professor foi desentocar e
capturar comissários políticos soviéticos para serem executados*
Revelam os arquivos apreendidos à R.S.H.A. que Gõring ordenou a Heydrich,
em le de agosto, que se pusesse em atividade. A Polícia de Segurança (S.S.) e o
serviço de segurança (S.D.) deviam
começar suas atividades simultaneamente com a invasão militar, a fim
de combater as inúmeras e importantes organizações e sociedades que,
na Inglaterra, fossem hostis à Alemanha, e apoderar-se delas.
No dia 17 de setembro que, por ironia, foi aquele em que Hitler adiou indefi
nidamente a invasão, o professor Six foi formalmente nomeado para seu novo
posto na Inglaterra pelo dr. Heydrich. Recebeu as seguintes instruções:
Sua tarefa é combater, com todos os meios necessários, todas as organi
zações e instituições antigermânicas e grupos de oposição, dos quais se
possa apoderar, na Inglaterra, para ser impedida a remoção de todo ma
terial existente, a fim de que se possa centralizá-lo e salvaguardá-lo para
futuro aproveitamento. Designo Londres como sua sede (...) e autorizo-
o a estabelecer pequenos Einsatzgruppen em outras partes da Inglaterra,
conforme exigir a situação e à medida das necessidades.
Já em agosto, Heydrich havia verdadeiramente organizado seis Einsatzkomman-
do para a Inglaterra, os quais deviam operar de quartéis-generais em Londres,
Bristol, Birmingham, Liverpool, Manchester e Edinburgo — ou em Glasgow, caso
se encontrasse destruída a Ponte Forth. Deviam levar a efeito o terror nazista;
* O dr. Six foi condenado, em 1948, em Nuremberg, como criminoso de guerra, a vinte anos de prisão.
Foi, porém, posto em liberdade em 1952.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 229
para começar, deviam todos os que se achavam na Lista de Buscas Especiais, I.
[Inglaterra], que em maio havia sido compilada às pressas e quase indiferente
mente por Walter Schellenberg, outro dos espertos jovens formados numa uni
versidade, a serviço de Himmler, que era então chefe da Repartição IV E — con
tra-espionagem — da R.H.S.A. Ou foi mais ou menos isso que ele alegou mais
tarde, se bem que nessa ocasião estivesse ocupado principalmente em Lisboa,
Portugal, na estranha missão de seqüestrar o duque de Windsor.
A Lista de Buscas Especiais, I. (die Sonderfahndungsliste> I.) figura entre os
documentos mais divertidos sobre a invasão que se encontraram nos arquivos de
Himmler, se bem que, naturalmente, o fim não fosse uma diversão. Encerra os
nomes de cerca de 2.300 pessoas preeminentes na Inglaterra, nem todas inglesas,
que a Gestapo achava importante encarcerar imediatamente. Churchill figura
nela, naturalmente, com diversos membros do gabinete e outros conhecidos polí
ticos de todos os partidos. Redatores, editores e repórteres de destaque, incluindo
dois antigos correspondentes do Times em Berlim, Norman Ebbutt e Douglas
Reed, cujas matérias haviam desagradado os nazistas, aparecem na lista. Escrito
res britânicos requerem especial atenção. O nome de Shaw acha-se ausente, mas
o de H. G. Wells nela figura com os de outros escritores, tais como Virgínia Woolf,
E. M. Forster, Aldous Huxley, J. B. Priestley, Stephen Spender, C. P. Snow, Noêl
Coward, Rebecca West, sir Philip Gibbs e Norman Angell. Não se omitiram tam
bém os doutos. Entre eles: Gilbert Murray, Bertrand Russell, Harold Laski, Bea-
trice Webb e J. B. S. Haldane.
A Gestapo pretendia também aproveitar-se de sua estada na Inglaterra para
arrebanhar os emigrados estrangeiros e alemães. Paderewski, Freud* e Chaim
Weizmann apareciam em sua lista, bem como Benes e Jan Masaryk, presidente e
ministro das Relações Exteriores do governo tchecoslovaco no exílio. Dos refu
giados alemães havia, entre outros, dois antigos amigos pessoais de Hitler que se
voltaram contra ele: Hermann Rauschning e Putzi Hanfstàngl.
Muitos nomes ingleses estavam escritos tão erradamente que se tornavam qua
se irreconhecíveis e, às vezes, ligavam-se-lhes bizarras designações para identifi
cá-los; como o de lady Bonham Carter, que figurava na lista como “Lady Carter-
Bonham” e era descrita não só como “née Violet Asquith” mas como “uma senhora
política do Encirclement”. Em seguida a cada nome, achava-se marcada a seção da
* O célebre psicanalista morreu em Londres, em 1939.
230 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO
R.S.H.A. que devia cuidar da pessoa visada. Churchill devia ser confiado à Repar
tição VI — serviço secreto no Estrangeiro — mas a maioria à Repartição IV —
Gestapo.*
Esse Livro Negro nazista era na realidade o suplemento de um suposto manual
altamente secreto denominado Informationsheft, que Schellenberg declara tam
bém ter escrito e cujo objetivo parece ter sido auxiliar os conquistadores a faze
rem pilhagens na Inglaterra e, ali, esmagar as instituições antinazistas. É ainda
mais divertido que a Lista de Buscas. Entre as instituições perigosas, além das lo
jas maçônicas e organizações judaicas, que mereciam “atenção especial” da
R.S.H.A., figuravam as “escolas públicas” (na Inglaterra, as escolas particulares), a
Igreja Anglicana, que era descrita como “poderoso instrumento dos políticos im
perialistas da Inglaterra”, e os escoteiros, assinalados como “excelente fonte de
informações para o serviço secreto britânico”. Seu venerando chefe e fundador,
lorde Baden-Powell, devia ser preso imediatamente.
Tivessem os alemães tentado a invasão, não teriam sido recebidos delicada
mente pelos ingleses. Churchill, mais tarde, confessou que muitas vezes pergun
tava a si mesmo o que teria acontecido. De uma coisa estava certo:
O massacre teria sido, dos dois lados, tenebroso e formidável. Não teria
havido mercê nem quartel. Os alemães teriam usado o terror, e nós es-
taríamos preparados para ir até o fim da linha.38
Ele não diz especificamente como, mas Peter Fleming, em seu livro sobre a
operação Leão do Mar, cita uma das disposições. Os ingleses haviam decidido —
diz ele — como último recurso e caso falhassem outros métodos convencionais de
defesa — atacar os cabeças-de-ponte alemães com gás mostarda lançado de aviões
em vôo baixo. Era uma decisão dolorosa que se tomara, nas altas esferas, e — co
menta Fleming — a decisão foi “cercada de sigilo na ocasião e, mesmo, depois”.39
Esse massacre especial em que Churchill meditava, o desencadear do terror
que a Gestapo arquitetava, não ocorreu nessa ocasião e nesse lugar pelos motivos
* Figuram na lista de prisão diversos americanos, inclusive Bernard Baruch, John Gunther, Paul
Robeson, Louis Fischer, Daniel de Luce (o correspondente da Associated Press que aparece na letra
"D" como "Daniel, de Luce — correspondente dos Estados Unidos") e M. W. Fodor, correspondente
do Daily News, de Chicago, muito conhecido pelos seus artigos contra o nazismo.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 231
que foram expostos neste capítulo. Mas em menos de um ano, em outra parte da
Europa, os alemães lançariam o terror numa escala jamais presenciada. Antes
mesmo de ter abandonado a idéia de invadir a Inglaterra, já Adolf Hitler havia
chegado a uma decisão. Voltar-se-ia contra a Rússia na primavera seguinte.
Postscriptum: o plano nazista de seqüestrar o
duque e a duquesa de Windsor
Mais divertida que importante, e que não deixa de revelar o lado ridículo dos
governantes do Terceiro Reich, naquele verão de suas grandes esperanças, é a his
tória do plano nazista para seqüestrar o duque e a duquesa de Windsor e, com
isso, induzir o rei da Inglaterra a trabalhar com Hitler para a celebração da paz
com a Inglaterra. A evolução desse fantástico plano acha-se exposta minuciosa
mente nos documentos que foram apreendidos no Ministério das Relações Exte
riores do Reich40 e citada por Walter Schellenberg — o jovem chefe S.S.-S.D. de
signado para levá-lo a efeito — em suas memórias.41
A idéia — informou Ribbentrop a Schellenberg — era de Hitler. O ministro das
Relações Exteriores nazista acolheu-a com todo o entusiasmo a que sua profunda
ignorância muitas vezes o lançava, e o seu gabinete, juntamente com os represen
tantes diplomáticos na Espanha e Portugal, viu-se forçado a perder muito tempo
com o plano durante o sombrio verão de 1940.
Após a queda da França, em junho de 1940, o duque, que havia sido membro
da missão militar britânica junto ao Alto-Comando do exército francês, fugiu
com a duquesa para a Espanha para não serem capturados pelos alemães. Em 23
de junho, o embaixador alemão em Madri, Eberhard von Stohrer, um diplomata de
carreira, telegrafou a Berlim:
O ministro das Relações Exteriores da Espanha solicita informações
sobre o tratamento que deverá dispensar ao duque e à duquesa de Win
dsor, os quais deviam chegar a Madri hoje, aparentemente a caminho
da Inglaterra, via Lisboa. O ministro das Relações Exteriores supõe que
talvez estivéssemos interessados em deter o duque aqui e, possivelmen
te, estabelecer contato com ele. Peço telegrafarem suas instruções.
232 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Ribbentrop expediu, logo no dia seguinte, instruções telegráficas. Sugeriu
que “detivessem na Espanha por umas duas semanas” os Windsor, mas preveniu que
não deixassem transparecer “que a sugestão partira da Alemanha”. No dia seguin
te, 25 de junho, Stohrer respondeu: “O ministro das Relações Exteriores [da Espa
nha] prometeu fazer todo o possível para deter os Windsor durante certo tempo”.
O ministro, coronel Juan Beigbeder y Atienza, avistou-se com o duque e transmi
tiu a conversa que tivera com o embaixador alemão, o qual informou Berlim por
telegrama secretíssimo, em 2 de julho, que Windsor não regressaria à Inglaterra,
a menos que sua esposa fosse reconhecida como membro da família real e dessem a
ele uma posição importante. Caso contrário, instalar-se-ia na Espanha, num cas
telo que o governo de Franco lhe prometera.
O próprio Windsor pronunciou-se perante o ministro das Relações Ex
teriores e outros conhecidos [acrescentou o embaixador] contra Chur
chill e contra esta guerra.
Os Windsor partiram para Lisboa no princípio de julho e, no dia 11, o minis
tro alemão dali informou Ribbentrop que o duque fora nomeado governador das
Bahamas, mas “pretendia adiar a partida para lá o mais rápido possível (...) espe
rando uma reviravolta dos acontecimentos favorável a ele”.
Ele está convicto [prosseguiu o ministro] de que, se tivesse permaneci
do no trono, ter-se-ia evitado a guerra, e manifestou-se como firme
baluarte de um acordo de paz com a Alemanha. O duque acredita real
mente que um contínuo e severo bombardeio prepararia a Inglaterra
para a paz.
Essa informação estimulou o arrogante ministro das Relações Exteriores ale
mão a expedir de seu trem especial, em Fuschl, um telegrama assinalado “muito
urgente, secretíssimo” à embaixada alemã, em Madri, tarde da noite daquele mes
mo dia 11 de julho. Desejava que impedissem a partida do duque para as Baha
mas, trazendo-o de volta para a Espanha, preferivelmente por meio de seus ami
gos espanhóis: “Depois da volta do duque e da duquesa de Windsor à Espanha”,
aconselhou Ribbentrop, “deveriam persuadi-lo ou obrigá-lo a ficar em território
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 233
espanhol”. Se necessário, a Espanha poderia interná-lo como oficial inglês e tratá-
lo como “fugitivo militar”.
Em tempo oportuno [prosseguiu Ribbentrop] deve-se informar o duque
que a Alemanha deseja a paz com o povo inglês, que a facção de Chur
chill impede que isso se realize e que seria conveniente que o duque se
mantivesse preparado para novos desenvolvimentos. A Alemanha está
decidida, por todos os meios, a forçar a Inglaterra a estabelecer a paz e,
acontecendo isso, estaria disposta a acomodar qualquer desejo expres
so pelo duque, especialmente com vista à subida dele e da duquesa ao
trono da Inglaterra. Se o duque tiver outros planos, estando, porém,
disposto a cooperar no estabelecimento de boas relações entre a Ale
manha e a Inglaterra, nós também estaremos dispostos a assegurar-
lhes, a ele e à mulher, uma subsistência que permitiria (...) levar uma
vida apropriada a um rei.*
O estulto ministro nazista, cuja experiência como embaixador em Londres
pouco lhe ensinara acerca dos ingleses, acrescentou que tinha informações de
que o “Serviço Secreto Britânico ia liquidar” o duque assim que chegasse às
Bahamas.
No dia seguinte, 12 de julho, o embaixador alemão em Madri conferenciou
com Ramón Serrano Suner, ministro do Interior da Espanha e cunhado de Fran
co, o qual prometeu conseguir a colaboração do generalíssimo na execução do
seguinte plano: o governo espanhol enviaria a Lisboa um velho amigo do duque,
Miguel Primo de Rivera, líder madrilense da Falange e filho de um antigo ditador
espanhol. Rivera convidaria o duque para umas caçadas na Espanha e, também,
para conferenciar com o governo acerca das relações anglo-espanholas. Suner in
formaria o duque sobre o plano do serviço secreto britânico que visava matá-lo.
O ministro [comunicou o embaixador alemão a Berlim] ainda fará,
então, um convite ao duque e à duquesa para que aceitem a hospita
lidade espanhola e, possivelmente, um auxílio financeiro. Também se
* Cinqüenta milhões de francos suíços, depositados na Suíça, declarou Ribbentrop a Schellenberg,
acrescentando ainda que "o Führer está disposto a aumentar esta cifra".
234 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E o M OMENTO DECISIVO
poderia impedir por algum meio a partida do duque. Em todo esse
projeto, nos manteremos em segundo plano.
Rivera, segundo os documentos alemães, regressou de Lisboa a Madri após
sua primeira visita aos Windsor, em 16 de julho, e trouxe uma mensagem ao mi
nistro das Relações Exteriores da Espanha, que a transmitiu ao embaixador ale
mão, o qual, por sua vez, a telegrafou para Berlim. Churchill, dizia a mensagem,
designara o duque governador das Bahamas “numa carta muito fria e categórica”
e ordenara-lhe que partisse imediatamente para seu posto. “Churchill ameaçara
Windsor de conselho de guerra” se deixasse de ir. O governo espanhol concordou,
acrescentava o despacho, “em preveni-lo com toda a urgência, mais uma vez, que
não assumisse o cargo”.
Rivera voltou para uma segunda visita, em 22 de julho, e, no dia seguinte, o
embaixador alemão em Madri relatou suas descobertas num telegrama “urgentís
simo e secretíssimo” a Ribbentrop.
Ele teve duas longas conferências com o duque de Windsor; na última,
a duquesa esteve presente. O duque manifestou-se livremente (...) Poli
ticamente, achava-se cada vez mais afastado do rei e do atual governo
britânico. O duque e a duquesa receiam menos o rei, que era bastante
tolo, do que a arguta rainha, que fazia hábeis intrigas contra o duque e
especialmente contra a duquesa.
O duque cogitava fazer uma declaração pública (...) desaprovando a
atual política inglesa e rompendo com o irmão (...) O duque e a duque
sa disseram que desejavam muito voltar à Espanha.
Para facilitar isso, o embaixador arranjou com Suner, acrescentava o telegra
ma, para que enviasse outro emissário espanhol a Portugal “para persuadir o du
que a deixar Lisboa, como se fosse fazer uma grande excursão de automóvel e a
cruzar depois a fronteira, num local já combinado, onde a polícia secreta espa
nhola providenciaria para que a travessia fosse feita com segurança”.
Dois dias depois, o embaixador acrescentou novas informações de Rivera num
telegrama “urgente e estritamente confidencial” dirigido a Ribbentrop.
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A MALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 235
Quando aconselhamos o duque a não ir às Bahamas e a regressar à Es
panha, porque seria provavelmente chamado a exercer importante pa
pel na política inglesa, assumindo possivelmente o trono da Inglaterra,
tanto ele quanto a duquesa se mostraram surpresos. Ambos (...) res
ponderam que, segundo a constituição inglesa, isso não seria possível
depois da abdicação. Quando o emissário confidencial manifestou en
tão sua esperança de que o curso da guerra talvez trouxesse modifica
ções até mesmo na constituição da Inglaterra, ficaram pensativos, espe
cialmente a duquesa.
Nesse despacho, o embaixador alemão lembrou a Ribbentrop que Rivera não
sabia de “qualquer interesse dos alemães pela questão”. O jovem espanhol, ao que
parecia, julgava estar agindo por conta de seu próprio governo.
Elaborou-se na última semana de julho o plano nazista para o seqüestro dos
Windsor. Walter Schellenberg foi designado pessoalmente por Hitler para pô-lo
em execução. Ele voou de Berlim para Madri, conferenciou com o embaixador
alemão ali e, depois, seguiu para Portugal, a fim de dar início à tarefa. Em 26 de
julho, pôde o embaixador aprimorar um longo “urgentíssimo e secretíssimo” des
pacho para Ribbentrop esboçando o plano.
(...) Pode-se presumir que é firme a intenção do duque e da duquesa de
voltarem à Espanha. Para fortalecê-la, foi enviado hoje um segundo
emissário confidencial com uma carta habilmente dirigida ao duque; a
ela anexou-se o plano que se preparou, com toda a precisão, para levar
a efeito a travessia da fronteira.
De acordo com esse plano, o duque e a duquesa devem partir oficial
mente para umas férias de verão nas montanhas, num local próximo à
fronteira espanhola, a fim de fazerem a travessia num ponto precisa
mente designado, em determinada hora, no decurso de uma caçada.
Como o duque está sem passaporte, conquistar-se-á a adesão do fun
cionário encarregado da fronteira.
À hora estabelecida, de conformidade com o plano, o primeiro emissá
rio confidencial [primo de Rivera] deverá achar-se na fronteira com
forças espanholas convenientemente colocadas, a fim de garantir a
segurança da operação.
236 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Schellenberg, juntamente com seu grupo, está operando fora de Lisboa
com relação a esse mesmo objetivo.
Para esse fim, a viagem ao local das férias de verão e as próprias férias
serão vigiadas com o auxílio de um chefe de polícia português de toda
a confiança (...)
No exato momento da travessia da fronteira, conforme programado, o
grupo de Schellenberg deverá tomar a seu cargo as disposições de segu
rança no lado português da fronteira e continuar com elas pelo territó
rio espanhol, como escolta direta, a qual deverá ser trocada de tempos
em tempos sem chamar a atenção.
Para segurança de todo esse plano, o ministro [espanhol] escolheu ou
tro agente secreto, uma mulher, que, se necessário, poderá comunicar-
se com o segundo agente secreto e, se necessário ainda, levar informa
ções para o grupo de Schellenberg.
Estão sendo feitos preparativos para que o duque e a duquesa possam
alcançar a Espanha por avião, no caso de uma emergência que o serviço
secreto britânico possa suscitar. Nesse caso, da mesma maneira que na
execução do primeiro plano, o principal requisito é obter a disposição
de sair por meio de uma hábil influência psicológica sobre a pronuncia
da mentalidade inglesa do duque, sem dar impressão de fuga, explo
rando a ansiedade com relação ao serviço secreto britânico e a pers
pectiva de ele exercer diretamente do solo espanhol uma atividade
política completamente livre.
Além da proteção em Lisboa, está sendo considerada, em caso de neces
sidade, a possibilidade de induzir essa disposição de sair por meio de ma
nobras atemorizadoras que se imputarão ao serviço secreto britânico.
Tal era o plano nazista para o seqüestro dos Windsor. Um plano desajeitado,
tipicamente alemão, que se via prejudicado pela habitual incapacidade de eles
compreenderem “a mentalidade inglesa do duque”.
As “manobras atemorizadoras” foram devidamente executadas por Schellen
berg. Certa noite, ele providenciou para que se arremessassem pedras contra as
janelas da residência dos Windsor, fazendo depois circular boatos, entre os cria
dos, que aquilo havia sido feito pelo Serviço Secreto Britânico. Mandou um buquê
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 237
de flores à duquesa, com um cartão: “Tenha cuidado com as maquinações do
serviço secreto britânico. De um amigo português que se interessa pelo seu bem-
estar.” E, num relatório oficial a Berlim, informou que “uns tiros (sem outras con
seqüências além de algumas janelas quebradas), programados para a noite de 30
de julho, foram disparados, porque o efeito psicológico sobre a duquesa somente
aumentaria o seu desejo de partir”.
O tempo estava passando. Em 30 de julho, Schellenberg anunciou a chegada
em Lisboa de sir Walter Monckton, um velho amigo do duque e importante fun
cionário do governo britânico. Sua missão, obviamente, era conseguir que os
Windsor apressassem o quanto antes sua ida para as Bahamas. Nesse mesmo dia,
o embaixador alemão em Madri enviou um telegrama “urgentíssimo e secretíssi
mo” a Ribbentrop, informando-o de que um agente alemão em Lisboa lhe tinha
comunicado que o duque e a duquesa planejavam partir em ls de agosto — dali a
dois dias. Em vista dessa informação, perguntava a Ribbentrop “se devemos, até
certo ponto, sair de nossa atitude de reserva”. Segundo o serviço secreto alemão,
continuou o embaixador, o duque manifestara a seu anfitrião, o banqueiro portu
guês Ricardo do Espírito Santo Silva, o “desejo de entrar em contato com o Führer”.
Por que não arranjar um encontro entre Windsor e Hitler?
No dia seguinte, 31 de julho, em nova mensagem “urgentíssima e secretíssi
ma” a Ribbentrop, comunicava-lhe que, segundo o emissário espanhol que aca
bara de voltar de uma entrevista com os Windsor em Lisboa, o duque e a duque
sa, conquanto “fortemente impressionados com as notícias das intrigas dos
ingleses contra eles e com o perigo que corria sua segurança pessoal”, ao que pa
recia, estavam planejando partir em l2 de agosto, se bem que o duque procurasse
“ocultar a verdadeira data da partida”. O ministro do Interior espanhol, acrescen
tava o embaixador, ia fazer “um último esforço para impedir que o duque e a
duquesa partissem”.
A notícia de que os Windsor pudessem partir tão cedo alarmou Ribbentrop.
De seu trem especial em Fuschl, expediu um telegrama “urgentíssimo e secretís
simo” ao ministro alemão em Lisboa, à última hora da tarde daquele mesmo dia,
31 de julho. Pediu que o duque, por intermédio de seu anfitrião, o banqueiro por
tuguês, fosse informado do seguinte:
Basicamente, a Alemanha deseja a paz com o povo inglês. A facção de
Churchill está entravando essa paz. Em conseqüência de o último apelo
238 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
de Hitler ter sido rejeitado, a Alemanha está decidida a forçar a Ingla
terra a fazer a paz por todos os meios a seu alcance. Seria conveniente
que o duque se mantivesse preparado para os novos desenvolvimentos.
Nesse caso, a Alemanha estaria inclinada a cooperar intimamente com
o duque para desobstruir dificuldades a qualquer desejo expresso por
ele e pela duquesa (...) Se o duque e a duquesa tiverem outras intenções,
estando, porém, dispostos a colaborar para o estabelecimento de boas
relações entre a Alemanha e a Inglaterra, a Alemanha também estará
preparada para cooperar com o duque e a arranjar o futuro do casal de
conformidade com o desejo deles. O confidente português, com o qual
o duque está residindo, deve fazer os maiores esforços para impedir a
partida deles amanhã, porque temos em nosso poder informações se
gundo as quais Churchill pretende manter o duque em seu poder, nas
Bahamas, a fim de conservá-lo ali permanentemente; e também porque
o estabelecimento de contato num momento apropriado, com o duque,
nas ilhas Bahamas, apresentaria as maiores dificuldades para nós (...)
A mensagem urgentíssima do ministro das Relações Exteriores alemão che
gou à legação pouco antes da meia-noite. O ministro alemão avistou-se com o sr.
Espírito Santo no decurso da madrugada e instou para que ele passasse as infor
mações ao seu distinto hóspede. Foi o que o banqueiro fez na manhã de Ia de
agosto, e, segundo um despacho da legação, o duque ficou profundamente im
pressionado.
O duque rendeu homenagem ao Führer pelo seu desejo de paz, a qual
estava de completo acordo com seu próprio ponto de vista. Estava fir
memente convencido de que fosse ele o rei, não se chegaria à guerra.
Acolheu prazerosamente o apelo de cooperar, num tempo apropriado,
no estabelecimento da paz. Contudo, no atual momento, ele devia se
guir as ordens oficiais de seu governo. Desobedecê-las seria revelar pre
maturamente suas intenções, criar um escândalo e privá-lo de seu pres
tígio na Inglaterra. Estava também convicto de que o atual momento
era demasiado cedo para ele aparecer, porque não havia ainda inclina
ção na Inglaterra para uma aproximação com a Alemanha. Mas estaria
OPERAÇÃO LEÃO DO MAR: A M ALOGRADA INVASÃO DA INGLATERRA 239
pronto a voltar imediatamente assim que se modificasse essa disposição
de espírito (...) Ou a Inglaterra ainda o chamaria, o que ele considerava
inteiramente possível, ou a Alemanha manifestaria o desejo de nego
ciar com ele. Em ambos os casos estava preparado para qualquer sacri
fício pessoal e pronto para servir sem a mais leve ambição pessoal.
Permaneceria em comunicação constante com seu anfitrião, com quem
combinara uma palavra em código, à recepção da qual voltaria imedia
tamente.
Para consternação dos alemães, o duque e a duquesa partiram na noite de lfi
de agosto no vapor americano Excalibur. Numa comunicação final sobre o fracas
so de sua missão, feita num longo telegrama dirigido ao “ministro das Relações
Exteriores (Ribbentrop), pessoalmente”, no dia seguinte, Schelenberg declarou
que fizera todo o possível, até o último momento, para impedir a partida. Insta
ram junto ao irmão de Franco, que era o embaixador da Espanha em Lisboa, para
que fizesse ainda um apelo de última hora aos Windsor para que não partissem.
O automóvel que transportava a bagagem do casal foi sabotado, informou Schel
lenberg, a fim de que chegasse atrasado ao navio. Os alemães espalharam boatos
de que havia sido colocada uma bomba-relógio no barco. Os funcionários portu
gueses revistaram-no de alto a baixo, atrasando com isso a saída.
Os Windsor, contudo, partiram nessa noite. O plano nazista falhara. Schellen
berg, em seu último relatório a Ribbentrop, atribui o fracasso à influência de
Monckton, ao desastre do “plano espanhol” e à “mentalidade do duque”.
Há ainda um último documento sobre o plano nos papéis apreendidos dos
arquivos do Ministério do Exterior alemão. Em 15 de agosto, o ministro alemão
em Lisboa telegrafou a Berlim: “O confidente acabou de receber um telegrama do
duque, das Bermudas, pedindo-lhe que lhe comunique assim que for aconselhá
vel agir. Deve-se dar alguma resposta?”
Não se encontrou resposta nos documentos da Wilhelmstrasse. Em meados
de agosto, Hitler resolveu conquistar a Inglaterra por meio de força armada. Não
havia necessidade de descobrir um novo rei para a Inglaterra. A ilha, como to
dos outros territórios conquistados, seria governada de Berlim. Ou assim pen
sou Hitler.
Não é preciso dizer mais sobre essa curiosa história, conforme foi contada pelos
documentos secretos alemães e acrescida por Schellenberg — a menos fidedigna
240 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
das fontes — se bem que seja difícil acreditar que tivesse inventado seu próprio
papel, o qual, ele admite, era absolutamente ridículo.
Numa declaração feita através de seus procuradores em Londres, em l2 de
agosto de 1957, após ter sido permitida a publicação dos documentos alemães, o
duque tachou as comunicações entre Ribbentrop e os embaixadores em Espanha
e Portugal de ‘completas invencionices e, em parte, de terem distorcido a verda
de”. Windsor explicou que ao tempo em que estava em Lisboa, em 1940, esperan
do partir para as Bahamas, “certas pessoas”, que ele descobrira serem simpatizan
tes dos nazistas, fizeram definidos esforços para persuadi-lo a voltar para a
Espanha e não assumir seu cargo de governador.
“Foi-me até mesmo dado a entender que a duquesa e eu correríamos risco
pessoal se partíssemos para as Bahamas”, disse ele. “Em tempo algum alimentei
qualquer idéia de concordar com tal sugestão, que tratei com o desprezo que ela
merecia.”
O Ministério das Relações Exteriores britânico expediu uma declaração for
mal de que o duque jamais vacilou em sua lealdade para com a Inglaterra durante
a guerra.42
CAPÍTULO 6
“Barbarossa”: a vez da Rússia
Enquanto Hitler se ocupava, naquele verão de 1940, em dirigir a conquista do
Ocidente, Stalin estava tirando partido das preocupações do Führer; movimen
tando suas tropas para os Estados bálticos e estendendo-as para os Bálcãs.
Eram aparentemente amistosas as relações entre as duas grandes ditaduras.
Molotov agindo para Stalin não perdia a oportunidade de louvar e lisonjear os
alemães todas as ocasiões em que se verificava um novo ato de pressão ou uma nova
conquista. Quando a Alemanha invadiu a Noruega e a Dinamarca, em 9 de abril de
1940, o Comissário dos Negócios Estrangeiros dos sovietes apressou-se em infor
mar o embaixador von der Shulenburg, em Moscou, na mesma manhã, que “o go
verno soviético compreendia as medidas que a Alemanha se via forçada a tomar”.
“Desejamos à Alemanha completo êxito em suas medidas defensivas”, declarou.1
Um mês depois, quando o embaixador alemão visitou Molotov para informá-
lo oficialmente do ataque da Wehrmacht, no Ocidente, Ribbentrop instruiu seu
enviado para que explicasse que “a Alemanha se vira forçada a fazê-lo para impe
dir que os anglo-franceses investissem contra o Ruhr pela Bélgica e a Holanda”. O
estadista soviético novamente manifestou sua satisfação. “Molotov recebeu a co
municação com espírito compreensivo”, telegrafou Schulenburg a Berlim, “acres
centando que compreendia que a Alemanha devia proteger-se contra o ataque
anglo-francês. Ele não duvidava de nosso êxito”.2
Em 17 de junho, dia em que a França pediu o armistício, Molotov convocou
Schulenburg a seu escritório “e exprimiu as mais calorosas felicitações do governo
soviético pelo esplêndido êxito da Wehrmacht alemã”.
O comissário dos Negócios Estrangeiros tinha algo mais a dizer e o que disse
não soou de modo muito agradável aos ouvidos dos alemães. Informou ao embai
xador alemão, conforme telegrama urgentíssimo que ele enviou a Berlim, sobre “a
ação soviética contra os Estados bálticos”, acrescentando — e pode-se quase ver os
242 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E o M OMENTO DECISIVO
olhos de Molotov se iluminarem — “que se tornara necessário dar paradeiro a
todas as intrigas, pelas quais a Inglaterra e a França procuravam semear a discór
dia entre a Alemanha e a União Soviética, nos Estados bálticos”.3Para dar paradei
ro a tal discórdia, o governo soviético — acrescentou Molotov — enviou “emissá
rios especiais” aos três países bálticos. Eles eram, de fato, três dos melhores
sequazes de Stalin: Dekanozov, enviado à Lituânia; Vishinsky, à Letônia; e Zhda-
nov, à Estônia.
Os emissários executaram suas atribuições com a meticulosidade que seria de
se esperar do trio, especialmente Vishinsky e Zhdanov. Já em 14 de junho, dia em
que as tropas alemãs entraram em Paris, o governo soviético havia enviado, à Li
tuânia, um ultimato com o prazo de nove horas exigindo a resignação do governo,
a prisão de alguns de seus funcionários-chave e o direito de enviar para ali tantos
soldados do Exército Vermelho quantos lhe aprouvesse. Embora o governo lituano
aceitasse o ultimato, Moscou julgou a aceitação “não satisfatória” e no dia seguin
te, 15 de junho, tropas soviéticas ocupavam o país, o único dos Estados bálticos
limítrofe com a Alemanha. Durante os dois dias seguintes, ultimatos semelhantes
dos soviéticos foram expedidos à Letônia e à Estônia, depois dos quais ambos os
países foram, igualmente, invadidos pelo Exército Vermelho.
Stalin podia ser tão rude e desumano quanto Hitler nessas questões — e até
mais cínico. Tendo sido suprimida a imprensa, presos os líderes políticos e decla
rados ilegais todos os partidos, exceto o comunista, os russos encenaram eleições
nos três países em 14 de julho. Depois de os parlamentos assim eleitos terem vo
tado a incorporação de seus países à União Soviética, o Soviete Supremo (parla
mento) da Rússia admitiu-os na pátria-mãe: a Lituânia em 3 de agosto, a Letônia
no dia 5 e a Estônia no dia 6.
Adolf Hitler sentiu-se humilhado; ocupado, porém, como estava, em organi
zar a invasão da Inglaterra, nada pôde fazer a respeito. As cartas dos emissários
dos três Estados bálticos, em Berlim, protestando contra a agressão russa, foram
devolvidas por ordem de Ribbentrop. Para humilhar ainda mais os alemães,
Molotov ordenou-lhes bruscamente, em 11 de agosto, que liquidassem suas lega-
ções em Kaunas, Riga e Tallinn dentro de 15 dias e fechassem seus consulados,
nos Estados bálticos, por volta de P de setembro.
A conquista dos Estados bálticos não satisfez o apetite de Stalin. O colapso
surpreendentemente rápido dos exércitos anglo-franceses incitou-o a obter tudo
“ba r b a r o ssa ”: a vez DA RÚSSIA 243
o que pudesse enquanto era fácil. Achou, evidentemente, que não tinha tempo a
perder. Em 23 de junho, dia que se seguiu à capitulação formal dos franceses e à
assinatura do armistício em Compiègne, Molotov chamou novamente o embaixa
dor nazista em Moscou e declarou-lhe que “a solução da questão da Bessarábia
não mais comportava delongas. O governo soviético estava resolvido a empregar
a força, caso o governo romeno rejeitasse um acordo pacífico. Esperava que a
Alemanha não criasse embaraços e apoiasse os soviéticos em sua ação”. Além dis
so, “as reivindicações soviéticas se estendiam também sobre a Bucovina”.4A Bes
sarábia fora tomada à Rússia pela Romênia no fim da Primeira Guerra Mundial,
mas a Bucovina jamais havia pertencido à Rússia, tendo ficado sob o domínio da
Áustria até 1919, quando lhe foi arrebatada pela Romênia. Por ocasião das nego
ciações em Moscou para a realização do pacto nazi-soviético, Ribbentrop, confor
me lembrou então a Hitler que o inquiriu a respeito, havia sido obrigado a entre
gar a Bessarábia à esfera de interesses da Rússia, mas não cedera a Bucovina.
Houve certo alarme em Berlim, que se estendeu até o quartel-general do OWK
no Ocidente. A Wehrmacht dependia vitalmente do petróleo da Romênia, e a
Alemanha precisava dos produtos alimentícios e forragens que também recebia
dali. Perderia isso se o Exército Vermelho ocupasse a Romênia. Tempos atrás, em
23 de maio, no auge da batalha da França, o Estado-maior geral romeno enviou
um pedido de socorro ao OKW, informando-o de que as tropas soviéticas esta
vam se concentrando nas fronteiras. Jodl resumiu a reação no quartel-general de
Hitler, em seu diário, no dia seguinte: “A situação no leste está se tornando amea
çadora por causa da concentração de forças russas contra a Bessarábia.”
Na noite de 26 de junho, a Rússia entregou um ultimato à Romênia exigindo a
cessão da Bessarábia e do norte da Bucovina e insistindo numa resposta no mes
mo dia. Ribbentrop, alarmado, expediu imediatamente instruções, de seu trem
especial, a seu ministro em Bucareste, ordenando-lhe que aconselhasse o governo
romeno a ceder, o que foi feito em 27 de junho. As tropas soviéticas entraram, no
dia seguinte, nos territórios recentemente conquistados, e Berlim suspirou ali
viada. Ao menos as ricas fontes de petróleo e alimentos não haviam sido cortadas
ao deixar a Rússia de abocanhar toda a Romênia.
Evidenciava-se, de seus atos e dos documentos secretos alemães, que Stalin,
embora estivesse agindo para conseguir tudo o que pudesse na Europa Oriental,
enquanto os alemães se vissem amarrados no Ocidente, não desejava ou não es
perava um rompimento com Hitler.
244 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOM ENTO DECISIVO
No fim de junho, Churchill procurou prevenir Stalin, numa carta pessoal, do
perigo que as conquistas da Alemanha representavam para a Rússia, assim como
para a Inglaterra.5O ditador soviético não se deu ao trabalho de responder; pro
vavelmente, como quase todos os demais, julgava que a Inglaterra estivesse liqui
dada. Tratou de informar aos alemães do que o governo britânico estava traman
do. Sir Stafford Cripps, um líder da ala esquerda do Partido Trabalhista que o
primeiro-ministro mandara às pressas a Moscou como embaixador britânico, na
esperança de despertar mais interesse e simpatia da parte dos bolcheviques —
uma esperança frustrada, como admitiu pesarosamente mais tarde —, foi recebi
do por Stalin no princípio de julho, numa entrevista que Churchill descreveu
como “formal e frígida”. Em 13 de julho, Molotov, seguindo instruções de Stalin,
entregou ao embaixador alemão um memorando relatando aquela conversação
confidencial.
É um documento interessante. Revela, como nenhuma outra fonte, as severas
limitações do ditador soviético em seus cálculos frios em relação aos negócios
externos. Schulenburg apressou-se em transmiti-lo a Berlim numa mensagem ur
gentíssima e, naturalmente, secreta. Ribbentrop ficou tão satisfeito com o conteú
do que disse ao governo soviético “ter apreciado bastante essa informação”. Cripps
insistira junto a Stalin, diz o memorando, para que tomasse uma atitude sobre
esta principal questão, entre outras:
O governo britânico estava convencido de que a Alemanha procurava
conseguir a hegemonia na Europa (...) Isso era perigoso para a União
Soviética e também para a Inglaterra. Por conseguinte, ambos os países
deviam fazer um acordo sobre uma política comum de proteção
própria contra a Alemanha e sobre o restabelecimento do equilíbrio
de forças na Europa (...)
As respostas de Stalin são dadas como segue:
Ele não via qualquer perigo de hegemonia de qualquer país na Europa
e ainda menos qualquer perigo de que a Europa pudesse ser tragada
pela Alemanha. Stalin observava a política da Alemanha e conhecia
bem vários estadistas ilustres desse país. Não descobrira qualquer desejo
“b a r b a r o ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 245
da parte deles de tragar países europeus. Stalin não era de opinião que
os êxitos militares alemães ameaçassem a União Soviética e relações
amistosas suas com a Alemanha (...)6
Tão desconcertante ingenuidade, tão profunda ignorância, é de deixar qual
quer um atônito. O tirano russo não sabia, naturalmente, os segredos da túrgida
mente de Hitler, mas a conduta passada dele, suas conhecidas ambições e con
quistas, inesperadamente rápidas, deviam ter sido suficientes para preveni-lo do
terrível perigo em que a União Soviética se encontrava. Mas — é incompreensível
— não eram suficientes.
Dos documentos apreendidos aos nazistas e do testemunho de muitas das
principais figuras alemãs no grande drama que estava sendo representado, naque
le ano, em vasta extensão da Europa Ocidental, evidencia-se que, naquele mesmo
momento da monumental complacência de Stalin, Hitler martelava em seu espí
rito a idéia de se voltar contra a União Soviética para destruí-la.
Essa idéia básica remontava há 15 anos, pelo menos, à Minha luta.
E assim nós, nacional-socialistas [escreveu Hitler] recomeçamos onde
nos interrompemos há seiscentos anos. Vamos deter o interminável
movimento ao sul e a oeste da Europa e voltar nossas vistas para os
países do leste (...) Quando hoje falamos em novo território na Europa,
devemos pensar principalmente na Rússia e nos seus estados vassalos
limítrofes. O próprio destino parece assinalar-nos o caminho nesse
ponto (...) Esse colossal império no leste está amadurecido para a disso
lução, e o fim do domínio judaico na Rússia será também o fim da Rús
sia como Estado.7
Essa idéia jazia como coisa básica no espírito de Hitler, e seu pacto com Stalin
não a modificara absolutamente. Apenas fora protelada sua execução, mas por
breve tempo. De fato, menos de dois meses após o pacto ter sido assinado e utili
zado para destruir a Polônia, o Führer deu instruções ao exército para que o terri
tório conquistado à Polônia fosse considerado “área de concentração para as futu
ras operações alemãs”. A data era 18 de outubro de 1939. Halder registrou-a nesse
dia em seu diário.
246 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Cinco semanas depois, em 23 de novembro, quando arengava seus relutantes
generais sobre o ataque no Ocidente, não estava fora de suas cogitações a Rússia.
“Somente poderem os atacar a Rússia”y declarou, “quando estivermos livres no
Ocidente .” Nesse tempo, a guerra de duas frentes — o pesadelo que havia um sé
culo pesava sobre os generais alemães — preocupava muito o espírito de Hitler, e
ele discorreu largamente sobre o assunto nessa ocasião. Não ia repetir o erro dos
antigos governantes alemães: continuaria a proceder de maneira a que o exército
tivesse uma única frente de cada vez.
Era natural, pois, que com a queda da França, com o exército britânico lan
çado para o outro lado do Canal e as perspectivas de colapso iminente na Ingla
terra, Hitler voltasse mais uma vez os pensamentos para a Rússia. Supunha-se,
agora, livre no Ocidente, e, com isso, que era chegada a condição que traçara a
fim de estar em situação de “atacar a Rússia”. A rapidez com que Stalin conquistara
os Estados bálticos e as duas províncias romenas, em junho, incitou Hitler a to
mar uma decisão.
Pode-se agora ver como se elaborou a decisão. Diz Jodl que a “decisão funda
mental” foi tomada “já durante a campanha no Ocidente”.8O coronel Walter War-
limont, representante de Jodl no OKW, lembra-se de que, em 29 de julho, Jodl
anunciou, num encontro dos oficiais da divisão de operações, que “Hitler preten
dia atacar a URSS na primavera de 1941”. Algum tempo antes dessa conferência,
relatou Jodl, Hitler informara Keitel de “que pretendia desfechar o ataque contra
a URSS durante o outono de 1940”. Isso, porém, não convinha até mesmo a Keitel.
Procurou convencer Hitler a renunciar à idéia, explicando-lhe que as más condi
ções atmosféricas no outono e as dificuldades para transferir o grosso do exército
do oeste para leste tornavam a operação impossível. Ao tempo dessa conferência,
29 de julho, relata Warlimont, “a data para o pretendido ataque [contra a Rússia]
havia sido novamente marcada para a primavera de 1941”.9
Apenas uma semana antes — sabe-se pelo diário de Halder10 —, sustentou
o Führer a possibilidade de levar a efeito a campanha contra a Rússia durante o
outono, se a Inglaterra não fosse invadida. Numa conferência militar realizada em
Berlim no dia 21 de julho, ele ordenou a Brauchitsch que tratasse de fazer os pre
parativos. Que o comandante-em-chefe do exército e seu Estado-maior já tives
sem pensado no problema — mas não o bastante — evidencia-se pela sua respos
ta a Hitler. Brauchitsch informou-o de que a campanha “duraria de quatro a seis
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 247
semanas” e que o objetivo seria “derrotar o exército russo ou, pelo menos, ocupar
território russo suficiente de modo a impedir que bombardeiros soviéticos alcan
çassem Berlim ou a área industrial da Silésia, enquanto, por outro lado, os bom
bardeiros da Luftwaffe pudessem atingir todos os objetivos importantes da União
Soviética”. Brauchitsch achava que de oitenta a cem divisões alemãs poderiam
executar a tarefa; estimou as forças russas em torno de “cinqüenta a setenta boas
divisões”. As notas de Halder sobre o que Brauchitsch lhe contou da conferência
demonstram que Hitler se vira melindrado pelas conquistas de Stalin no leste,
achando que o ditador soviético estava “galanteando a Inglaterra” a fim de enco-
rajá-la a resistir, mas que ele não vira sinais de que a Rússia estivesse se preparan
do para entrar em guerra contra a Alemanha.
Numa nova conferência, em Berghof, no último dia de julho de 1940, as
perspectivas de uma invasão da Inglaterra tornando-se cada vez mais distantes
fizeram com que Hitler anunciasse, pela primeira vez, aos chefes do exército, sua
decisão com relação à Rússia. Halder achava-se presente nessa ocasião e anotou
taquigraficamente as palavras exatas proferidas pelo chefe nazista.11 Elas reve
lam não só que Hitler tomara definitivamente a decisão de atacar a Rússia na
primavera seguinte, mas, também, de que traçara em seu espírito os principais
objetivos estratégicos.
A Inglaterra deposita suas esperanças na Rússia e na América [disse
Hitler]. Se as esperanças que ela deposita na Rússia forem destruídas,
dar-se-á o mesmo com relação à América, porque a eliminação da Rús
sia aumentará enormemente o poderio do Japão no Extremo Oriente.
Quanto mais meditava, tanto mais estava convencido — declarou Hitler — de
que a obstinada decisão da Inglaterra em continuar a guerra era devida a contar
com a União Soviética.
Algo estranho [explicou] aconteceu na Inglaterra! Os britânicos já ha
viam tombado completamente.* Tornaram agora a levantar-se. Inter-
ceptaram-se conversações. A Rússia acha-se sobremodo preocupada
com o rápido desenrolar da situação na Europa Ocidental.
* Halder usa a palavra inglesa down no texto alemão.
248 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Basta a Rússia dar a entender à Inglaterra que não deseja ver a Alema
nha muito forte, e os ingleses, como um homem a afogar-se, reconquis
tarão a esperança de que a situação estará completamente mudada da
qui a seis ou oito meses.
Mas se a Rússia for esmagada, ficará destruída a última esperança da
Inglaterra. A Alemanha será então senhora da Europa e dos Bálcãs.
Decisão: em vista dessas considerações, a Rússia deve ser liquidada. Pri
mavera de 1941.
Quanto mais cedo, melhor *
O chefe nazista estendeu-se depois sobre seus planos estratégicos, os quais —
para os generais era óbvio — estivera amadurecendo em seu espírito durante al
gum tempo, a despeito de todas as preocupações com a luta no Ocidente. Valeria
a pena, disse ele, executar a operação nem que seu objetivo fosse apenas esmagar
a nação soviética num só grande golpe. Não bastaria a conquista de uma parcela
do território russo. “Eliminar completamente a própria capacidade da Rússia de
existir! Eis o objetivo!”, acentuou Hitler. Haveria dois ataques iniciais: um, no sul
de Kiev e do rio Dnieper; outro, no norte, pelos Estados bálticos e depois em di
reção a Moscou. Ali, os dois exércitos fariam uma junção. Se necessário, depois
dessa operação especial, conquistariam-se os campos petrolíferos de Baku. A pró
pria idéia dessas novas conquistas empolgava Hitler; ele já tinha em mente o que
faria com elas. Anexaria imediatamente à Alemanha — disse — a Ucrânia, a Rús
sia Branca e os Estados bálticos, e estenderia o território da Finlândia até o mar
Branco. Escalaria, para toda a operação, 120 divisões, mantendo sessenta para a
defesa do Ocidente e da Escandinávia. O ataque, traçou ele, começaria em maio
de 1941 e levaria cinco meses para ser completado. Estaria terminado no inverno.
Teria preferido fazer nesse ano — disse —, mas tudo demonstrava não ser possível.
No dia seguinte, 1Gde agosto, Halder pôs-se a trabalhar nos planos com seu
Estado-maior geral. Embora alegasse mais tarde que se opusera a toda aquela idéia
de ataque contra a Rússia, tachando-a de insana, o registro em seu diário, nesse
dia, revela todo o seu entusiasmo ao entregar-se à nova e desafiadora tarefa.
Procedeu-se ao traçado dos planos com a típica meticulosidade alemã, nos três
níveis: no Estado-maior geral do exército, junto aos elementos da divisão de ope
rações sob a direção de Warlimont; no OKW; na seção de economia e armamentos
* Grifo de Halder.
“ba rb a ro ssa ”: a VEZ DA RÚSSIA 249
do OKW, sob a direção do general Thomas. Gõring instruiu Thomas, em 14 de
agosto, de que Hitler desejava que as entregas de mercadorias encomendadas pe
los russos “somente fossem feitas na primavera de 1941”.* Entrementes, seu de
partamento devia fazer um estudo minucioso da indústria, dos transportes e dos
centros petrolíferos soviéticos, como orientação para os objetivos e, mais tarde,
como auxílio para administrar a Rússia.
Dias antes, em 9 de agosto, Warlimont expediu sua primeira diretiva para a
preparação das áreas de desdobramento de forças no leste para o assalto contra os
russos. O nome em código para isso era Aufbau Ost (Construção Leste). Em 26 de
agosto, Hitler ordenou que fossem enviadas do Ocidente para a Polônia duas di
visões blindadas e dez de infantaria. As unidades panzer, estipulou ele, deviam ser
concentradas no sudeste da Polônia, a fim de poderem intervir e proteger os campos
petrolíferos da Romênia.13A transferência de grandes corpos de tropas para leste**
não podia ser feita sem provocar facilmente as suspeitas de Stalin, se dela soubes
se, e os alemães empenharam-se bastante para que ele não soubesse. Como alguns
movimentos não podiam deixar de ser percebidos, o general Ernst Kõstring,
adido militar alemão em Moscou, foi instruído para informar o Estado-maior
geral soviético de que se tratava apenas de uma substituição de soldados mais
velhos, que iriam servir nas indústrias, por outros mais novos. Em 6 de setembro,
Jodl expediu uma diretiva traçando minuciosamente os meios de camouflage e de
despistamento. “Esses reagrupamentos”, traçou ele, “não devem criar na Rússia a
impressão de que estamos preparando uma ofensiva no leste”.14
As forças armadas não devem, pois, descansar sobre seus louros depois das
grandes vitórias do verão, declarou Hitler em 12 de novembro de 1940, numa di
retiva secretíssima e compreensiva em que traçava as novas tarefas militares em
toda a Europa e mais além. Voltaremos a falar sobre algumas delas. O que nos
preocupa agora é a que diz respeito à União Soviética.
* Em seu relatório a respeito, Thomas assinala o quanto as entregas das mercadorias pela Rússia à
Alemanha eram feitas pontualmente, nessa ocasião. De fato, diz ele, os russos continuaram a ser"muito
corretos até o início do ataque", e observa, não sem certa graça, que "mesmo durante os últimos dias,
os embarques de borracha, procedentes da índia, haviam sido completados (pelos russos) por trens
expressos"— presumivelmente pela Estrada de Ferro Transiberiana.12
** Os alemães conservaram somente sete divisões na Polônia, duas das quais foram transferidas para o
Ocidente durante a campanha da primavera. As tropas ali, troçou Halder, mal bastavam para manter o
serviço alfandegário. Se Stalin tivesse atacado a Alemanha em junho de 1940, o Exército Vermelho
poderia ter atingido Berlim antes que se organizasse qualquer resistência séria.
250 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Iniciaram-se discussões políticas com o objetivo de esclarecer a atitude
da Rússia no momento atual. Independentemente dos resultados des
sas discussões, deverão ser continuados todos os preparativos para a
operação no leste já ordenados verbalmente. Seguirão instruções a res
peito assim que o esboço geral dos planos de operações do exército fo
rem submetidos a mim e por mim aprovados.15
O fato é que, naquele mesmo dia, 12 de novembro, Molotov chegou a Berlim
para continuar com o próprio Hitler as discussões políticas.
Molotov em Berlim
As relações entre Berlim e Moscou tinham assumido, havia alguns meses, uma
feição desagradável. Uma coisa era Stalin e Hitler traírem terceiros e outra traí
rem-se mutuamente. Hitler nada pudera fazer para impedir que os russos aboca
nhassem os Estados bálticos e as duas províncias romenas da Bessarábia e norte
da Bucovina, e a frustração apenas aumentou seu já crescente ressentimento. A
investida russa para o oeste teria de ser contida e, sobretudo, na Romênia, cujos
recursos petrolíferos eram de importância vital para a Alemanha que, por causa
do bloqueio britânico, não mais podia importar petróleo por via marítima.
Para complicar o problema de Hitler, a Hungria e a Bulgária também exigiram
parcelas do território romeno. De fato, a Hungria, ao aproximar-se o fim do verão
de 1940, preparou-se para a guerra, a fim de reconquistar a Transilvânia, que a
Romênia lhe arrebatara depois da Primeira Guerra Mundial. Hitler percebeu que
tal guerra cortaria a principal fonte de abastecimento de óleo cru da Alemanha, e
traria provavelmente a intervenção da Rússia, a qual ocuparia toda a Romênia e
privaria para sempre da Alemanha o óleo desse país.
Em 28 de agosto, a situação tornou-se tão ameaçadora que Hitler ordenou que
cinco divisões panzer e três divisões motorizadas, juntamente com tropas pára-
quedistas e aerotransportadas, ficassem preparadas para se apoderar dos campos
petrolíferos da Romênia em F de setembro.16Nesse mesmo dia, ele conferenciou
com Ribbentrop e Ciano, em Berghof, mandando-os para Viena onde deveriam
ditar a lei aos ministros das Relações Exteriores da Hungria e da Romênia e fazê-los
“b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 251
aceitar a arbitragem do Eixo. Essa missão foi realizada sem dificuldade depois que
Ribbentrop intimidou ambos os lados. Os húngaros e romenos aceitaram o acor
do proposto pelo Eixo em 30 de agosto, no Palácio Belvedere, em Viena. Quando
Mihai Manoilescu, o ministro das Relações Exteriores da Romênia, viu o mapa no
qual se estipulava que cerca de metade da Transilvânia iria para a Hungria, des
maiou, caindo sobre a mesa na qual se realizava a assinatura do acordo, e somen
te voltou a si depois que os médicos o fizeram cheirar cânfora.*17A Romênia rece
beu da Alemanha e da Itália — aparentemente pela sua sensatez, mas, na
realidade, para dar a Hitler uma desculpa legal a seus novos planos — uma garan
tia para a manutenção do que restara do território.**
Fez-se luz sobre os novos planos do Führer, a seus íntimos, três semanas
depois. Em 20 de setembro, numa diretiva secretíssima, Hitler ordenou o envio de
“missões militares” à Romênia.
Ao mundo, sua tarefa será a de guiarem amistosamente a Romênia na
organização e instrução de suas forças.
A verdadeira tarefa — que não deve aparecer quer aos romenos quer às
nossas próprias tropas — será:
Proteger os distritos petrolíferos (...)
Preparar para o desdobramento, partindo de bases romenas, das forças
alemãs e romenas no caso de sermos obrigados a travar uma guerra
contra a Rússia soviética.18
Isso atenderia ao flanco sul de uma nova frente que ele começava a delinear
em seu espírito.
A decisão tomada em Viena e, especialmente, a garantia dada pela Alemanha
à Romênia no tocante ao restante de seu território, foram mal acolhidas em Mos
cou, que não havia sido consultada. Quando Schulenburg visitou Molotov em l2
de setembro para apresentar-lhe um bombástico memorando de Ribbentrop, em
* O acordo custou 0 trono ao rei Carol. Em 6 de setembro, ele abdicou em favor de seu filho Miguel, de
18 anos, e fugiu com sua amante de cabelos ruivos, Magda Lupescu, num trem especial — cuja compo
sição era constituída de dez vagões repletos do que se poderia descrever como"produtos de pilhagem"
— para a Iugoslávia rumo à Suíça. O general lon Antonescu, chefe da Guarda de Ferro fascista e amigo
de Hitler, tornou-se o ditador.
** Menos a parte sul de Dobrudja, que a Romênia foi forçada a ceder à Bulgária.
252 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
que procurava explicar — e justificar — o que havia acontecido em Viena, o co
missário dos Negócios Estrangeiros (informou o embaixador) “mostrou-se reser
vado em contraste com suas maneiras habituais”. Mas não se mostrou demasiado
reservado para lançar um forte protesto verbal. Acusou o governo alemão de vio
lar o artigo III do pacto nazi-soviético, o qual exigia que se fizessem consultas, e
de apresentar à Rússia “fatos consumados” que colidiam com as garantias alemãs
sobre as “questões de interesse comum”.19Os ladrões, como é quase sempre inevi
tável em tais casos, começavam a brigar por causa dos despojos.
As recriminações tornaram-se mais acaloradas nos dias seguintes. Em 3 de
setembro, Ribbentrop telegrafou um longo memorando a Moscou, negando que a
Alemanha tivesse violado o pacto de Moscou e acusando a Rússia de tê-lo feito, ao
tragar os Estados bálticos e as duas províncias romenas sem consultar Berlim. O
memorando estava escrito em linguagem forte, e os russos responderam a ele em
21 de setembro com palavras igualmente duras — nessa ocasião, ambos os países
estavam expondo seus casos por escrito. A resposta soviética reafirmava que a
Alemanha havia rompido o pacto, prevenia que a Rússia tinha ainda muitos inte
resses na Romênia e concluía com uma sarcástica proposta: se o artigo que esta
belecia consultas envolvia “certas inconveniências e restrições” para o Reich, o
governo soviético estava disposto a fazer uma emenda ou eliminar completamen
te essa cláusula do tratado.20
As suspeitas que o Kremlin votava a Hitler foram ainda estimuladas por dois
acontecimentos em setembro. No dia 16, Ribbentrop telegrafou a Schulenburg
pedindo que visitasse Molotov e o informasse casualmente que reforços alemães,
destinados ao norte da Noruega, iam ser enviados pela Finlândia. Dias depois, em
25 de setembro, o ministro das Relações Exteriores nazista expediu outro telegra
ma à embaixada, em Moscou, dessa vez dirigido ao adido, pois Schulenburg havia
regressado a Berlim, em férias. Era uma mensagem muito confidencial, marcada
“estritamente secreta — segredo de Estado” e informando que suas instruções
deviam ser executadas se o adido recebesse no dia seguinte, de Berlim, por tele
grama ou por telefone, uma palavra especial em código.21
Ele devia informar Molotov que “nos próximos dias” o Japão, a Itália e a Ale
manha assinariam em Berlim uma aliança militar. Não se visava aplicá-la contra
a Rússia — um artigo específico disporia sobre isso.
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 253
Essa aliança [declarou Ribbentrop] se dirige exclusivamente contra os
forjadores de guerra norte-americanos. Certamente, como de costume,
isso não está expressamente enunciado no tratado, mas pode-se facil
mente inferir de seus termos (...) Seu fim exclusivo é fazer com que
aqueles que estejam pressionando para os Estados Unidos entrarem na
guerra readquiram o bom senso, demonstrando-lhes, de maneira con
cludente, que, se entrarem na presente luta, automaticamente terão de
se haver com as três grandes potências como adversárias.22
O frio comissário dos Negócios Estrangeiros da União Soviética, cujas descon
fianças para com os alemães já eram bem acentuadas, mostrou-se completamente
cético quando Werner von Tippelskirch, o adido, levou-lhe essa notícia na noite
de 26 de setembro. Disse imediatamente, com aquela pedante atenção para com
os detalhes, que tanto aborrecia aqueles com quem tratava, amigos ou adversá
rios, que, segundo o artigo IV do pacto de Moscou, o governo soviético tinha o
direito de ver o texto da aliança militar tríplice — antes que fosse assinadof incluin
do — acrescentou — o texto de “qualquer protocolo secreto”.
Molotov quis também saber mais pormenores sobre o acordo da Alemanha
com a Finlândia, relacionado com o transporte de tropas no país, sobre o qual tive
ra notícia mais pela imprensa — disse — e até por um despacho da United Press
procedente de Berlim. Durante os três últimos dias, acrescentou Molotov, Moscou
havia recebido comunicações sobre o desembarque de forças alemãs em três portos
finlandeses, pelo menos, “sem que disso tivesse sido informada pela Alemanha”.
O governo soviético [continuou Molotov] deseja receber o texto do
acordo sobre a passagem de tropas pela Finlândia, incluindo suas par
tes secretas (...) e ser informado quanto ao objetivo do acordo, contra
quem se dirige e os objetivos a que se destina.23
Era necessário apaziguar os russos — até mesmo o obtuso Ribbentrop com
preendia isso — e, em 2 de outubro, ele telegrafou a Moscou o que dizia ser o
texto do acordo com a Finlândia. Reafirmou, também, que o pacto tríplice, que
entrementes havia sido assinado,* não se dirigia contra a União Soviética; e declarou
* Foi assinado em Berlim, em 27 de setembro de 1940, em meio a uma cerimônia burlesca que des
crevi em outro lugar (Berlin Diary, p. 532-57). Nos artigos 1 e 2, o Japão reconhecia "a liderança da
254 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E o MOMENTO DECISIVO
solenemente que “não havia protocolos secretos nem qualquer outro acordo se
creto”.24 Depois de instruir Tippelskirch, em 7 de outubro, para que informasse
Molotov incidentalmente que uma “missão militar” alemã ia ser enviada à Romê
nia, e após receber a cética reação de Molotov a essa nova notícia (“Quantos sol
dados estão enviando à Romênia?” quis saber o comissário dos Negócios Estran
geiros),25 Ribbentrop expediu, em 13 de outubro, uma longa carta a Stalin, numa
tentativa de tranqüilizar os soviéticos a respeito da Alemanha.26
É, como se podia esperar, uma fátua e, ao mesmo tempo, arrogante epístola
repleta de tolices, mentiras e subterfúgios. Responsabiliza a Inglaterra pela guerra
e todas as suas conseqüências até então, afirmando que uma coisa era certa: “Esta
guerra foi ganha por nós. É apenas questão de tempo o momento em que a Ingla
terra teria de admitir sua derrota.” Os movimentos da Alemanha contra a Rússia,
na Finlândia e na Romênia, e o pacto tríplice são explicados como um verdadeiro
benefício para a Rússia. Entrementes, a diplomacia e os agentes secretos — dizia
— estão tentando provocar dificuldades entre a Rússia e a Alemanha. Para frus
trar-lhes o plano, por que não enviariam Molotov a Berlim — perguntava Ribben
trop a Stalin — a fim de que o Führer pudesse “explicar pessoalmente seu ponto
de vista com relação à futura feição das relações entre nossos dois países?”
Ribbentrop, ardilosamente, deu uma idéia do que seria esse ponto de vista:
nada menos que a divisão do mundo entre as quatro potências totalitárias .
Parece que a missão das quatro potências [disse ele] — União Soviética,
Itália, Japão e Alemanha — é adotar uma política de grande raio de ação
(...) pela demarcação de seus interesses numa escala mundial*
Houve certa demora na embaixada alemã, em Moscou, em fazer chegar essa
carta a seu destinatário, o que enfureceu Ribbentrop e provocou áspero telegrama
Alemanha e da Itália no estabelecimento de uma Nova Ordem na Europa" e os dois países reconheciam
a liderança do Japão, para o mesmo fim, na Ásia Oriental. O artigo 3 dispunha sobre assistência mútua,
caso qualquer das potências fosse atacada pelos Estados Unidos, se bem que este país não fosse espe
cificamente mencionado, apenas definido. Para mim, ao escrever em meu diário nesse dia, em Berlim,
a coisa mais significativa acerca do pacto era que ele dava a entender que Hitler estava agora confor
mado com uma longa guerra. Ciano, que assinou o pacto pela Itália, chegou à mesma conclusão (Ciano
Diaries , p. 296). Apesar do desmentido, o pacto era e implicava uma advertência à União Soviética.
* Grifo de Ribbentrop.
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 255
seu a Schulenburg, exigindo que informasse por que a carta havia sido entregue
somente no dia 17 e por que, “dada a importância de seu conteúdo”, não fora en
tregue pessoalmente a Stalin? (Schulenburg entregara-a a Molotov).27 Stalin res
pondeu em 22 de outubro num tom extraordinariamente cordial. “Molotov admi
te”, escreveu ele, “que se sente na obrigação de fazer-vos uma visita em Berlim.
Aceita, pela presente, vosso convite”.28A cordialidade de Stalin devia ter sido ape
nas simulada. Schulenburg telegrafou a Berlim, dias depois, dizendo que os rus
sos estavam protestando contra a recusa da Alemanha em entregar o material de
guerra, quando estava, na mesma ocasião, embarcando armas para a Finlândia.
“Essa é a primeira vez”, comunicou Schulenburg a Berlim, “que os soviéticos men
cionaram nossas remessas de armas à Finlândia.”29
Molotov chegou num dia sombrio e garoento, sendo sua recepção
extremamente protocolar e formal. Subindo de automóvel a Linden
rumo à embaixada soviética, parecia-me um laborioso mestre-escola
provinciano. Devia, entretanto, ter seu valor para ter sobrevivido à im
placável competição do Kremlin. Os alemães falaram garrulamente em
deixar Moscou realizar o velho sonho da Rússia, a posse do Bósforo e
dos Dardanelos, ao passo que eles tomariam conta do resto dos Bálcãs:
Romênia, Iugoslávia e Bulgária (...)
Assim comecei o registro em meu diário no dia 12 de novembro de 1940, em
Berlim. Foi exata aquela conversa dos alemães, pelo que se depreendeu. Hoje sa
bemos muito mais a respeito daquela estranha e fatídica conferência — que resul
tou ser realmente fatídica — graças aos documentos apreendidos no Ministério
das Relações Exteriores, nos quais se encontram as minutas confidenciais dos ale
mães sobre cada uma das reuniões, todas, com exceção de uma, conservadas pelo
ubíquo dr. Schmidt.*30
Na primeira reunião entre os dois ministros das Relações Exteriores, pela ma
nhã, Ribbentrop assumira uma de suas mais enfadonhas e arrogantes atitudes,
mas Molotov percebeu-lhe a manha e pôde aquilatar o jogo a que os alemães se
* Stalin confirmou mais tarde sua exatidão, se bem que não intencionalmente. Diz Churchill que rece
beu de Stalin, em agosto de 1942, um relato sobre as conversações de Molotov em Berlim, "que em
nenhum ponto essencial difere do registro alemão", posto que fosse "mais incisivo". (Churchill, Their
FinestHour, p. 585-6).
256 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
entregavam. “A Inglaterra”, começou Ribbentrop, “está derrotada, e era apenas
questão de tempo o momento em que ela finalmente teria que admitir sua derrota
(...) O começo do fim já havia chegado para o império britânico.” Era verdade que
os britânicos estavam esperando que os Estados Unidos os auxiliassem, mas a ‘en
trada dos Estados Unidos na guerra não tem importância alguma para a Alema
nha. A Alemanha e a Itália jamais permitirão que um anglo-saxônico desembar
que no continente europeu (...) Isso não constitui problema militar (...) As potências
do Eixo não estão, portanto, considerando como poderão ganhar a guerra, e sim,
ao contrário, como poderão terminá-la rapidamente, agora que está ganha”.
Visto isso, explicou Ribbentrop, chegou a ocasião de as quatro potências —
Rússia, Alemanha, Itália e Japão — definirem suas “esferas e interesses”. O
Führer , continuou ele, chegou à conclusão de que todos os quatro países se ex
pandiriam naturalmente “em direção ao sul”. O Japão já se havia voltado para o
sul, assim como a Itália, enquanto a Alemanha, após o estabelecimento da Nova
Ordem na Europa Ocidental, iria encontrar seu Lebensraum —, (espaço vital)
— justamente onde? — na “África central”. Ribbentrop declarou que imaginava
se a Rússia não iria também “voltar-se para o sul, rumo à saída natural, o mar,
tão importante para ela”.
“Que mar?”, interrompeu Molotov friamente.
Foi uma pergunta embaraçosa, porém muito crítica, como os alemães iriam
descobrir durante as 36 horas seguintes de incessantes conversações com aquele
obstinado, prosaico e preciso bolchevique. A interrupção desconcertou Ribben
trop por um momento, pois não pôde logo arquitetar uma resposta. Em vez disso,
passou a discorrer sobre “as grandes mudanças que se operariam em todo o mun
do depois da guerra” e papaguear que o fato importante era que “ambos os parcei
ros do pacto russo-germânico haviam realizado juntos um excelente negócio” e
“continuariam ainda a fazer outros”. Mas quando Molotov insistiu para que res
pondesse àquela sua simples pergunta, Ribbentrop sugeriu que “afinal de contas a
mais vantajosa via de acesso ao mar, para a Rússia, poderia ser encontrada na di
reção do Golfo Pérsico e no mar da Arábia”.
Diz o dr. Schmidt, que se achava presente fazendo anotações, que Molotov
mantinha “uma expressão impenetrável”.31 Falou pouco, salvo para comentar, no
final, que eram necessárias “precisão e vigilância” na delimitação das esferas de
interesses, “especialmente entre a Alemanha e a Rússia”. O astuto negociador
“ b ARBAROSSA” A VEZ DA RÚSSIA 257
soviético estava poupando suas munições para enfrentar Hitler, com quem se
avistou à tarde. Para o todo-poderoso chefe nazista, a conferência resultou numa
experiência surpreendente, de irritar os nervos, decepcionante e, até mesmo, úni
ca no gênero.
Hitler mostrou-se tão vago quanto seu ministro das Relações Exteriores e até
mesmo mais grandioso. Assim que as condições atmosféricas melhorassem, co
meçou ele a dizer, a Alemanha desfecharia “o golpe final contra a Inglaterra”. Ha
via, certamente, “o problema da América”. Mas os Estados Unidos não podiam
“pôr em risco a liberdade de outras nações antes de 1970 ou 1980 (...) Nada tinha
a ver com a Europa, a Áustria ou a Ásia” — asserção que Molotov interrompeu
para dizer que concordava com ele. Não concordou, porém, com outras coisas
que Hitler disse. Depois que o chefe nazista terminou uma longa exposição de
agradáveis generalidades, salientando que não havia diferenças fundamentais en
tre os dois países ao irem eles ao encalço de suas respectivas aspirações, e, em seu
comum interesse, rumo ao “acesso para o oceano”, Molotov respondeu que “as
declarações do Führer haviam sido de ordem geral”. Ia agora, disse, expor as idéias
de Stalin, o qual, à sua saída de Moscou, lhe dera “instruções detalhadas”. E desan
dou a falar ao ditador alemão, que, conforme demonstram perfeitamente as mi
nutas, estava mal preparado para aquela situação.
“As perguntas choviam sobre Hitler”, lembrou-se Schmidt depois. “Nenhum
visitante estrangeiro jamais lhe falara daquele modo em minha presença.”32
Que pretendia a Alemanha na Finlândia? — quis saber Molotov. Qual a signi
ficação da Nova Ordem na Europa e na Ásia e que papel seria representado pela
URSS? Qual o significado do pacto tríplice? “Além disso”, continuou ele, “há ques
tões que devem ser esclarecidas com relação aos interesses da Rússia nos Bálcãs e
no mar Negro e no tocante à Bulgária, Romênia e Turquia”. Ele apreciaria ouvir,
disse, algumas respostas e “explicações”.
Talvez pela primeira vez em sua vida Hitler se tivesse sentido demasiadamente
surpreendido. Propôs adiarem a conferência “em virtude de um possível alarme de
ataque aéreo”, prometendo discutir minuciosamente as questões no dia seguinte.
Não se sonegou uma explicação definitiva; foi apenas adiada. Hitler, na manhã
seguinte, quando recomeçou as conversações com Molotov, notou que ele se mos
trou implacável. Para começar, a respeito da Finlândia, os dois mergulharam num
debate ferrenho e mordaz. Molotov exigiu que a Alemanha retirasse suas tropas
258 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
da Finlândia. Hitler negou que “a Finlândia estivesse ocupada por tropas alemãs”.
Estavam apenas sendo enviadas para a Noruega, através da Finlândia. Desejava,
porém, saber “se a Rússia tencionava marchar para a guerra contra a Finlândia”.
Segundo as minutas alemãs, Molotov “respondeu evasivamente a essa pergunta”,
o que não satisfez a Hitler.
“Não deve haver guerra no Báltico”, insistiu Hitler. “Seria provocar uma for
te tensão nas relações germano-soviéticas”, uma ameaça que ele logo depois
ampliou dizendo que tal tensão poderia trazer “conseqüências imprevisíveis”.
Afinal, que mais desejava a União Soviética na Finlândia? — quis saber Hitler.
Seu visitante respondeu que desejava “um acordo no mesmo nível do da Bessa-
rábia”, o que significava anexação imediata. A reação de Hitler a essa resposta
deve ter perturbado até mesmo o impassível russo, que se apressou a pedir a
“opinião do Führer”.
O ditador, por sua vez, mostrou-se um tanto evasivo, respondendo que so
mente poderia repetir que “não deveria haver guerra com a Finlândia, porque tal
conflito poderia ter uma repercussão muito séria”.
“Essa situação introduziu um novo fator nos debates”, replicou Molotov.
A discussão tornou-se tão acalorada que Ribbentrop, que a essa altura devia
ter ficado assustado, interveio para dizer — segundo as minutas alemãs — “que
não havia, verdadeiramente, razão alguma para criar um caso com a questão da
Finlândia. Talvez tudo não passasse de um mal-entendido”.
Hitler aproveitou-se da vantagem decorrente daquela oportuna intervenção
para mudar rapidamente de assunto. Não se poderia tentar os russos com a ilimi
tada pilhagem que logo haveria com a queda do império britânico?
“Vamos tratar de problemas mais importantes”, disse.
Depois da conquista da Inglaterra [declarou ele], o império britânico se
ria desmembrado como um gigantesco Estado mundial em bancarrota,
de quarenta milhões de quilômetros quadrados. Nesse Estado em ban
carrota, a Rússia teria acesso ao oceano livre do gelo e realmente aberto.
Até aquela época, uma minoria de 45 milhões de ingleses havia gover
nado os 600 milhões de habitantes do império britânico. Ele, Hitler,
estava na iminência de esmagar essa minoria (...) Em tais circunstân
cias, surgiam perspectivas mundiais (...) Todos os países, possivelmente
“ba rb a ro ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 259
interessados nesse Estado em bancarrota, deveriam suspender as con
trovérsias entre si e dedicar-se exclusivamente à idéia da partilha do
império britânico. Isso se aplicava à Alemanha, à França, à Itália, à Rús
sia e ao Japão.
O frio e impassível hóspede russo não pareceu emocionado por aquela bri
lhante “perspectiva mundial”, tampouco se mostrou convencido como os alemães
— um ponto em que insistiu depois — de que o império britânico estaria maduro
para ser colhido. Desejava, disse, discutir sobre problemas “mais chegados à Eu
ropa”. Por exemplo: sobre a Turquia, a Bulgária e a Romênia.
“O governo soviético”, prosseguiu, “é de opinião que a garantia que a Alema
nha dera à Romênia contraria os interesses da Rússia soviética, se é que se pode
exprimir assim sem rebuços.” Ele se exprimira sem rebuços o dia todo, para abor
recimento cada vez maior de seus anfitriões, e naquele momento continuava a
fazer pressão. Exigiu que a Alemanha revogasse a garantia. Hitler se recusou.
Muito bem, persistiu Molotov, dado o interesse de Moscou pelo Estreito, que
diria a Alemanha “se a Rússia desse à Bulgária (...) uma garantia exatamente nas
condições em que a Alemanha e Itália deram à Romênia?”
Quase se pode ver a expressão carrancuda de Hitler. Perguntou se a Bulgária
havia solicitado tal garantia, como fizera a Romênia. “Ele (o Führer)”, o memoran
do alemão transcreve o que acrescentara, “ignorava que a Bulgária tivesse feito
qualquer pedido”. Em todo caso, teria primeiro de consultar Mussolini, antes de
dar aos russos uma resposta mais definida à pergunta. E acrescentou, como um
presságio, que se a Alemanha “estivesse, por acaso, procurando motivos para atri
tos com a Rússia, não precisaria do Estreito para isso”.
Mas o Führer; geralmente tão loquaz, não pôde mais suportar uma conversa
ção com aquele russo impassível.
“Àquela altura da conversação”, dizem as minutas alemãs, “o Führer chamou
a atenção para a hora avançada e declarou que, dada a possibilidade de ataques
aéreos ingleses, seria preferível interromper a entrevista, tanto mais que as ques
tões principais haviam sido provavelmente bastante discutidas”.
Nessa noite, Molotov ofereceu um banquete de gala a seus convidados na
embaixada russa, na Unter den Linden. Hitler aparentemente exausto e ainda
irritado pela provação por que passara naquela tarde, não compareceu.
26o A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Os britânicos compareceram. Eu perguntava a mim mesmo por que seus
bombardeiros não apareciam sobre Berlim, como tinham feito quase todas aque
las noites, para lembrar ao comissário soviético, em sua primeira visita à capital,
que, dissessem o que quisessem os alemães, os britânicos ainda estavam na guerra
e (...) golpeando. Confesso que muitos de nós aguardávamos esperançosos os
aviões, mas aconteceu que eles não vieram. Funcionários, na Wilhelmstrasse, que
temiam o pior, mostravam-se visivelmente aliviados. Mas não por muito tempo.
Na noite de 13 de novembro, os britânicos chegaram cedo.* Em Berlim, o tem
po escurece por volta das 16h nessa época do ano. Logo depois das 21h, as sirenes
de alarme começaram a soar. Podia-se depois ouvir o ribombar do fogo antiaéreo
e, entrementes, o roncar dos bombardeiros no alto. Segundo o dr. Schmidt, que se
achava no banquete da embaixada soviética, Molotov acabara de erguer um brin
de cordial e Ribbentrop levantara-se para responder quando o alarme antiaéreo
soou. Os convidados se dispersaram para se abrigar. Recordo-me da correria pela
avenida Unter den Linden e nas imediações da esquina da Wilhelmstrasse, quan
do alemães e russos se precipitaram para o abrigo subterrâneo do Ministério das
Relações Exteriores. Alguns dos funcionários, entre eles o dr. Schmidt, mergulha
ram no Adlon Hotel, em frente ao qual o nosso pequeno grupo ficou de observa
ção. Não pudemos assistir à imprevista conferência que os dois ministros das Re
lações Exteriores tiveram no subterrâneo do Ministério. As minutas dessa
conferência foram portanto tomadas, dada a ausência forçada do dr. Schmidt, por
Gustav Hilger, conselheiro da embaixada alemã em Moscou, o qual agiu como
um dos intérpretes durante a conferência.
Enquanto os bombardeiros britânicos cruzavam os céus, naquela noite, e os
canhões antiaéreos atiravam eficazmente contra eles, o manhoso ministro das Re
lações Exteriores nazista tentou, uma última vez, ludibriar os russos. Tirou do
bolso o esboço de um acordo que, em substância, transformava o pacto tríplice
em um pacto das quatro potências, a Rússia como o quarto membro. Molotov
ouviu pacientemente a leitura de Ribbentrop.
O artigo II era o ponto essencial. Nele, a Alemanha, a Itália, o Japão e a União
Soviética comprometiam-se a “respeitar as naturais esferas de influência uns dos
* Diz Churchill que o ataque foi programado para aquela ocasião. "Tínhamos tido, de antemão, notícia
da conferência e, embora não fôssemos convidados para tomar parte na discussão, não desejáramos
permanecer inteiramente fora de seu curso." (Churchill, Their Finest Hour, p. 584).
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 261
outros”. Quaisquer disputas com relação a elas seriam solucionadas amigavelmen
te. Os dois países fascistas e o Japão concordavam em “reconhecer a atual exten
são das possessões da União Soviética e as respeitariam. Todos os quatro países,
no Artigo III, concordavam em não associar-se ou dar apoio a qualquer combina
ção “dirigida contra uma das quatro potências”.
O próprio acordo, propôs Ribbentrop, seria tornado público; não, porém, os
protocolos secretos, é claro, os quais passou a ler. O mais importante definia as
“aspirações territoriais” de cada país. A da Rússia seria “concentrar o sul do terri
tório nacional da União Soviética na direção do oceano Índico”.
Molotov não mordeu a isca. O tratado proposto era, evidentemente, uma ten
tativa para afastar a Rússia de sua histórica pressão a oeste, nos Bálcãs e, através dos
Estreitos, no Mediterrâneo, onde inevitavelmente colidiria com os vorazes proje
tos da Alemanha e da Itália A URSS não estava, pelo menos no momento, interes
sada no oceano Índico, o qual jazia muito distante. No momento estava interessada
— respondeu Molotov — na Europa e nos Estreitos da Turquia. “Conseqüente
mente”, acrescentou, “acordos no papel não satisfarão o governo soviético; ela te
ria que insistir em garantias positivas para sua segurança.”
As questões que interessavam à União Soviética [elaborou ele] diziam
respeito não só à Turquia como também à Bulgária (...) Mas o destino
da Romênia e da Hungria interessavam também à URSS, e ela não po
dia mostrar-se indiferente em quaisquer circunstâncias. Interessaria
ainda ao governo soviético saber o que o Eixo pretendia com relação à
Iugoslávia e à Grécia, e, também, o que a Alemanha pretendia no tocan
te à Polônia (...) O governo soviético estava também interessado na
questão da neutralidade da Suécia (...) Além disso, havia ainda a ques
tão das passagens fora do mar Báltico (...)
O incansável comissário dos Negócios Estrangeiros soviético, com sua expres
são de jogador de pôquer, não deixou de esmiuçar tudo, e Ribbentrop, que se
sentia enterrado sob uma avalancha de perguntas — pois a esta altura Molotov
declarara que apreciaria se o seu convidado respondesse a elas — protestou dizen
do que estava sendo “interrogado muito rigorosamente”.
2 Ó2 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Podia apenas repetir, como o fizera antes [respondeu francamente] que a
questão decisiva era saber se a União Soviética estava preparada e em
posição de cooperar conosco na grande liquidação do império britânico.
Molotov apressou-se a dar uma resposta contundente. Hilger anotou-a devi
damente nas minutas:
Em sua resposta, Molotov afirmou que os alemães presumiam que a
guerra contra a Inglaterra já houvesse sido ganha. Se, portanto [confor
me Hitler sustentara], a Alemanha se encontrava empenhada em luta
de vida e morte contra a Inglaterra, ele apenas podia deduzir que isso
significava que a Alemanha estava lutando 4pela vida” e a Inglaterra
“pela morte”.
O sarcasmo talvez tivesse passado despercebido a Ribbentrop, um homem de
monumental estupidez, mas Molotov não quis correr nenhum risco. Às suas cons
tantes afirmações de que a Inglaterra estava liquidada, o comissário respondeu
finalmente: “Se assim é, por que motivo nos encontramos aqui neste abrigo, e de
quem são essas bombas que estão caindo?”*
Hitler tirou finalmente suas conclusões daquela estafante experiência com o
duro negociador de Moscou e das novas provas que, 15 dias depois, teve do ape
tite cada vez mais voraz de Stalin.
Deve-se consignar aqui que o ditador soviético, não obstante os desmentidos
que fez depois, aceitou a proposta de Hitler para unir-se ao campo fascista, se
bem que a um preço mais elevado que o que lhe havia sido oferecido em Berlim.
Em 26 de novembro, apenas duas semanas após o regresso de Molotov da Alema
nha, ele informou o embaixador alemão em Moscou que a Rússia estava preparada
para associar-se ao pacto das Quatro Potências, sujeito às seguintes condições:
Que as tropas alemãs fossem retiradas imediatamente da Finlândia, a
qual (...) pertence à esfera de influência da União Soviética (...)
Que dentro dos próximos meses seja garantida a segurança da União
Soviética nos Estreitos, pela conclusão de um pacto de assistência
* Essa tirada de despedida é citada por Churchill, a quem foi relatada por Stalin tempos depois, na
guerra. (Churchill, Their Finest Hour, p. 586).
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 263
mútua entre a URSS e a Bulgária (...) e pelo estabelecimento de uma
base, pela União Soviética, para as forças de terra e mar dentro do al
cance do Bósforo e dos Dardanelos, por meio de arrendamento a longo
prazo.
Que a área ao sul de Batum e de Bacu, na direção geral do golfo Pérsico,
seja reconhecida como centro das aspirações da União Soviética.
Que o Japão renuncie a seus direitos a concessões de carvão e petróleo
ao norte da Sacalina.33
Stalin pediu, ao todo, cinco protocolos secretos — em vez de dois —, cobrindo
suas novas propostas e, como boa medida, pediu que as quatro potências tomas
sem medidas militares contra a Turquia, caso ela criasse dificuldades a respeito
das bases russas destinadas ao controle dos Estreitos.
As propostas constituíam um preço mais elevado do que Hitler estava disposto
a considerar. Tentara manter a Rússia fora da Europa, e Stalin estava agora exigin
do a Finlândia, a Bulgária, o domínio sobre os Estreitos e, conseqüentemente, dos
campos petrolíferos da Arábia e da Pérsia, os quais normalmente abasteciam a
Europa com a maior parte de seu petróleo. Os russos nem mesmo citaram o oce
ano Indico, que o Führer tentara impingir como centro das aspirações da Rússia.
“Stalin é muito esperto e manhoso”, disse Hitler a seus principais chefes mili
tares. “Está aumentando suas exigências. É um chantagista de sangue-frio. A Rús
sia não suporta as vitórias alemãs. Devemos, portanto, fazê-la dobrar os joelhos o
mais breve possível.”34
O grande e frio chantagista nazista encontrara seu igual, e isso o enfureceu.
No começo de dezembro, ordenou a Halder que lhe trouxesse o plano do Esta
do-maior geral para o ataque contra a União Soviética. Em 5 de dezembro, Hal
der e Brauchitsch obedientemente o levaram e, ao fim de uma conferência de
quatro horas, ele o aprovou. O diário de guerra do OKW e o próprio diário con
fidencial de Halder, que foram apreendidos, encerram um relatório sobre essa
conferência crucial.35 O chefe nazista acentuou que o Exército Vermelho devia
ser atacado ao norte e ao sul do pantanal de Pripet, cercado e aniquilado “como
na Polônia”. Moscou, disse ele a Halder, “não era importante”. O importante era
destruir a “força vital” da Rússia. A Romênia e a Finlândia deviam associar-se ao
ataque. A Hungria não. A divisão alpina, do general Dietl, em Narvik, devia
264 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
atravessar a Suécia e dirigir-se para a Finlândia, a fim de atacar a região ártica
dos soviéticos.* Ao todo, cerca de “120 a 130 divisões” foram escaladas para essa
grande campanha.
No relatório sobre essa conferência, e nas referências anteriores ao plano de
ataque contra a Rússia, o diário do general Halder cita o nome em código “Otto”.
Menos de 15 dias depois, em 18 de dezembro de 1940, substituiu-se esse nome
por outro que se estenderia pela História. Nesse dia, Hitler deu um passo decisivo.
Expediu a Diretiva n2 21, sob o título Operação Barbarossa. Começava:
SECRETÍSSIMO
Quartel-general do Führer; 18 de dezembro de 1940
As forças alemãs devem estar preparadas para esmagar a União Soviéti
ca numa campanha rápida, mesmo antes da conclusão da guerra contra
a Inglaterra.** Para este propósito, o exército deverá empregar todas as
unidades disponíveis, com a reserva de que os territórios ocupados
precisam ser garantidos contra ataques surpresa (...)
Os preparativos (...) deverão estar ultimados lá pelo dia 15 de maio de
1941. Tem-se de exercer grande cautela para que essa intenção de atacar
não seja descoberta.
A data em mira era a de meados de maio, na primavera seguinte. Hitler traçou
o “objetivo geral” da Operação Barbarossa como segue:
A massa do exército russo, na Rússia Ocidental, deverá ser destruída
em operações ousadas, por meio da penetração de profundas cunhas
couraçadas, e a retirada de unidades intactas e capazes de batalhar na
imensidão do território soviético deverá ser impedida. O objetivo final
da operação é estabelecer uma linha de defesa contra a Rússia asiática,
a partir de uma linha que corra do rio Volga a Arcangel.
* A Suécia, que havia recusado aos Aliados a passagem de tropas durante a guerra russo-finlandesa,
permitiu que essa divisão completa fizesse a travessia de seu território. A Hungria participou, natural
mente mais tarde, daquela guerra contra a Rússia.
** Grifos de Hitler.
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s i a 265
A diretiva de Hitler passava, depois, a citar minuciosamente os principais ele
mentos de ataque.* Estava definido o papel que caberia à Romênia e à Finlândia.
Ambas tinham que prover as áreas para o lançamento dos ataques no extremo
norte e flanco sul, e tropas para auxiliar as forças alemãs naquelas operações. A
posição da Finlândia revestia-se de especial importância. Vários exércitos germa-
no-finlandeses deviam avançar contra Leningrado e a área do lago Ladoga, cortar
a linha férrea de Murmansk, conquistar as minas de níquel de Petsamo e ocupar
os portos russos livres de gelo, no oceano Ártico. Muita coisa dependia, admitiu
Hitler, de a Suécia permitir a passagem das tropas alemãs procedentes da Norue
ga, mas ele predisse com exatidão que os suecos se poriam de acordo.
As principais operações seriam divididas pelo pantanal de Pripet. O golpe
principal seria desfechado ao norte do pantanal, por dois grupos completos do
exército. Um avançaria pelos Estados bálticos rumo a Leningrado; o outro, mais
ao sul, invadiria a Rússia Branca e viraria depois ao norte para ligar-se ao primeiro
grupo, cercando o que restasse das forças soviéticas porventura em retirada no
Báltico. Somente então, expôs Hitler, deveria ser empreendida uma ofensiva con
tra Moscou. A capital russa, que uma quinzena antes lhe parecera “sem importân
cia”, assumia agora grande valor. “A conquista dessa cidade”, escreveu ele, “significa
uma decisiva vitória política e econômica, além da queda da mais importante jun
ção ferroviária do país”. E assinalou que Moscou era não só o principal centro de
comunicações da Rússia como também seu principal produtor de armamentos.
O terceiro grupo do exército investiria ao sul do pantanal, atravessaria a Ucrâ
nia rumo a Kiev, sendo seu principal objetivo envolver e destruir as forças sovié
ticas ali, a oeste do rio Dnieper. Mais ao sul, tropas romeno-germânicas protege
riam o flanco da operação principal e avançariam para Odessa e, dali, ao longo do
mar Negro. Conquistariam em seguida a bacia do Donets, onde se concentravam
60% da indústria soviética.
Tal era o grandioso plano de Hitler, ultimado pouco antes das festas de Natal
de 1940, e tão bem preparado que nenhuma modificação essencial seria feita nele.
* Muitos historiadores contestam que Hitler, na sua primeira diretiva sobre a Operação Barbarossa, ti
vesse entrado em detalhes; é um mal-entendido devido provavelmente à abreviadíssima versão citada
na tradução inglesa dos volumes da NCA. Mas o texto alemão completo, no TMWC, XXVI, p. 47-52, reve
la todos os detalhes, mostrando assim o quanto estavam adiantados os planos militares dos alemães
numa data ainda bastante anterior.36
266 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Para mantê-lo em sigilo, fizeram-se apenas nove cópias da diretiva; cada uma
das três armas ficaria com uma cópia e as restantes seriam guardadas no quartel-
general do OKW. A diretiva deixava bem claro que até mesmo os altos comandan
tes da campanha deviam ser informados de que o plano era somente a título de
“precaução, no caso de a Rússia modificar sua atitude anterior para conosco”. Hitler
deu instruções para que “se mantivesse o menor número possível” de oficiais a par
do segredo. Caso contrário, existiria o perigo de os preparativos tornarem-se co
nhecidos, disso resultando as mais graves desvantagens políticas e militares.
Não há evidência de que os generais, no Alto-Comando alemão, se opusessem
à decisão de Hitler de atacar a União Soviética, a qual, ao cumprir lealmente o
pacto com a Alemanha, tornara possível suas vitórias na Polônia e no Ocidente.
Mais tarde, Halder escreveria ironicamente sobre “a aventura de Hitler na Rússia”,
afirmando que os chefes do exército se tinham oposto a ela desde o começo.37Não
existe, porém, em seu volumoso diário, quaisquer registros durante o mês de de
zembro de 1940, em apoio de sua asserção. De fato, ele dá a impressão de que es
tava entusiasmado com a aventura, em cujo plano ele próprio, como chefe do
Estado-maior geral, tivera a maior responsabilidade.
Seja como for, para Hitler a sorte estava lançada e, embora ele não soubesse, a
decisão de 18 de dezembro de 1940 selou seu destino. Aliviado por tê-la finalmen
te tomado, conforme revelou mais tarde, foi celebrar o Natal ao longo do Canal,
com os soldados e aviadores — para afastar do espírito, o mais possível, quaisquer
preocupações com a Rússia. Possivelmente não lhe assediaram o espírito pensa
mentos sobre Carlos XII, da Suécia, e Napoleão Bonaparte, que, após tantas con
quistas gloriosas, não diferentes das suas, foram malograr na imensidão das este
pes da Rússia. Como poderiam assediar-lhe o espírito? Naquela ocasião, conforme
os registros mostraram, o antigo pária de Viena considerava-se o maior conquis
tador que até então aparecera no mundo. A egolatria, essa doença fatal de todos
os conquistadores, começava a dominá-lo.
Seis meses de frustrações
Entretanto, apesar de todas as tumultuosas vitórias da primavera e dos primei
ros tempos do verão de 1940, houve seis meses de malogros para o conquistador
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 267
nazista. Não somente lhe escapara o triunfo final sobre a Inglaterra, como também
perdera a oportunidade de desfechar-lhe um golpe mortal no Mediterrâneo.
Dois dias depois do Natal, o almirante Rãder avistou-se com Hitler em Berlim,
mas poucas notícias animadoras teve para dar. aA ameaça da Inglaterra em todo o
Mediterrâneo Oriental, no Oriente Médio e no Norte da África — comunicou ao
Führer — foi eliminada (...) A ação decisiva, no Mediterrâneo, que esperávamos,
não mais se torna possível.”38
Adolf Hitler, desapontado com o astuto Franco, com a inépcia de Mussolini e
até mesmo com a senilidade do marechal Pétain, perdera, verdadeiramente, uma
oportunidade no Mediterrâneo. Uma catástrofe atingira o aliado italiano no de
serto egípcio, que agora, em dezembro, se via novamente às voltas com outra nas
montanhas cobertas de neve da Albânia. Esses desagradáveis acontecimentos fo
ram também os pontos decisivos na guerra e no curso da história do Terceiro
Reich. Verificaram-se não só por causa da fraqueza dos amigos e Aliados da Ale
manha como também, em parte, por causa da incapacidade do chefe nazista de
apreender a grande estratégia intercontinental que se tornava necessária, na qual
Rãder e até mesmo Gõring insistiram com ele.
Duas vezes em setembro de 1940, nos dias 6 e 26, o almirante tentou apresen
tar novas perspectivas para o espírito de Hitler, agora que o ataque direto contra
a Inglaterra parecia fora de questão. Na segunda conferência ficou a sós com Hi
tler e, sem os oficiais do exército e da força aérea para intervirem na conversação,
fez ao chefe uma longa preleção sobre estratégia naval e a importância em atingir
a Inglaterra em outros lugares, sem ser pelo canal da Mancha.
Os britânicos [disse Ráder] sempre consideraram o Mediterrâneo o
pivô de seu império mundial (...) A Itália, cercada pelo poderio britâ
nico, está se tornando rapidamente o principal alvo de ataque (...) Os
italianos ainda não perceberam o perigo de terem recusado nosso auxí
lio. À Alemanha, porém, cumpre mover a guerra contra a Inglaterra
com todos os meios à sua disposição, e sem demora, antes que os Esta
dos Unidos possam intervir eficazmente. Por essa razão, a questão do
Mediterrâneo precisa ficar resolvida nos meses do inverno.
Resolvida de que maneira? O almirante passou então aos fatos:
268 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Deve-se conquistar Gibraltar. As ilhas Canárias devem ser tomadas
pela força aérea.
Deve-se conquistar o canal de Suez.
Depois de citar Suez, Ráder pintou um quadro róseo do que, logicamente, vi
ria depois:
Torna-se necessária uma ofensiva partindo de Suez, atravessando a Pa
lestina e a Síria, chegando até a Turquia. Se alcançarmos esse ponto, a
Turquia ficará em nosso poder. O problema da Rússia aparecerá então
sob uma luz diferente (...) É duvidoso se será necessário um ataque con
tra a Rússia partindo-se do norte.
Tendo, no espírito, expulsado os britânicos do Mediterrâneo e colocado a
Turquia e a Rússia em poder da Alemanha, Ráder prosseguiu na exposição para
completar o quadro. Predizendo, com exatidão, que a Inglaterra, apoiada pelos
Estados Unidos e as forças de De Gaulle, eventualmente procuraria assentar pé
no noroeste da África como base para a subseqüente guerra contra o Eixo, o al
mirante insistiu para que a Alemanha e a França de Vichy impedissem tal opera
ção, apoderando-se elas mesmas, para isso, daquela região de grande importân
cia estratégica.
Segundo Ráder, Hitler concordou com o “rumo geral de suas idéias”, mas
acrescentou que teria que discutir o assunto, antes, com Mussolini, Franco e Pé
tain.39 Foi o que começou a fazer, após ter perdido muito tempo. Combinou para
conferenciar com o ditador espanhol em 23 de outubro, com Pétain — que agora
estava à testa do governo colaboracionista em Vichy — no dia seguinte, e com o
Duce alguns dias depois.
Franco, que devia seu triunfo na guerra civil espanhola ao maciço auxílio mi
litar da Itália e da Alemanha, demonstrava, como todos os seus companheiros
ditadores, um desusado apetite por despojos, especialmente se pudessem ser ga
nhos facilmente. Em junho, por ocasião da queda da França, apressara-se a infor
mar Hitler de que a Espanha entraria na guerra se lhe dessem a maior parte do
vasto império francês na África, Marrocos e a Argélia Ocidental inclusive, e se a
Alemanha abastecesse liberalmente a Espanha de armamentos, gasolina e manti
mentos.40 Foi para dar a Franco a oportunidade de resgatar essa promessa que o
“ b a r b a r o s s a ” : a v e z d a RÚSSIA 269
Führer chegou em seu trem especial à cidade de Hendaye, na fronteira franco-
espanhola, em 23 de outubro. Mas muita coisa havia acontecido, entrementes,
naqueles meses — e a mais importante era a galharda resistência da Inglaterra —,
e Hitler viu-se sob a ameaça de uma desagradável surpresa.
O astuto espanhol não se mostrou impressionado com a afirmativa jactanciosa
de que “a Inglaterra já está decisivamente derrotada”, nem satisfeito com a pro
messa de Hitler de dar à Espanha, como compensação, territórios na África do
Norte francesa “até onde fosse possível compensar as perdas das colônias france
sas com as colônias inglesas”. Franco queria o império francês na África sem res
trições. Hitler propôs que a Espanha entrasse na guerra em janeiro de 1941, mas
Franco fez ver os perigos de um ato assim precipitado. Hitler quis que os espa
nhóis atacassem Gibraltar em 10 de janeiro, com o auxílio de pára-quedistas
alemães, os quais haviam conquistado o forte belga de Eben-Emael. Franco res
pondeu, com típico orgulho espanhol, que Gibraltar teria que ser conquistada
pelos espanhóis “sozinhos”. E assim debateram os dois ditadores as questões, du
rante nove horas. Segundo o dr. Schmidt, que ali se achava presente, Franco falava
o tempo todo num tom de voz demasiado monótono e Hitler, exasperando-se
num dado momento, levantara-se — como fizera com Chamberlain — para
exclamar que não adiantava continuar as conversações.41
“Prefiro que me arranquem três ou quatro dentes a ter que tratar disso nova
mente”, disse ele mais tarde a Mussolini, ao contar-lhe a provação por que passara
com o caudilho.42
Após nove horas em que houve apenas um intervalo para o jantar, no vagão-
restaurante do carro especial de Hitler, interromperam-se as conversações tarde
da noite, sem que Franco se tivesse comprometido definitivamente a entrar na
guerra. Hitler partiu deixando Ribbentrop, naquela noite, para continuadas con
versações com Serrano Suner, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, e para
conseguir que os espanhóis assinassem alguma coisa, pelo menos um acordo
para expulsar os britânicos de Gibraltar e fechar-lhes a parte ocidental do Medi
terrâneo — mas nada adiantou. “Aquele covarde e ingrato! Deve-nos tudo e agora
não quer se unir a nós!”, esbravejou Ribbentrop junto a Schmidt na manhã se
guinte, ao comentar sobre Franco.43
Já a conferência de Hitler com Pétain, no dia seguinte, foi melhor. Isso, porém,
porque o velho marechal derrotista, herói de Verdun na Primeira Guerra Mundial
e autor da capitulação da França na Segunda, concordou em colaborar com o
270 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
conquistador de seu país, num último esforço para subjugar a Inglaterra, até pouco
tempo sua aliada. De fato, assentiu em fazer por escrito esse odioso acordo.
As potências do Eixo e a França têm interesses idênticos em ver a der
rota da Inglaterra o quanto antes. Conseqüentemente, o governo fran
cês apoiará, dentro dos limites de sua capacidade, as medidas que, para
esse fim, as potências do Eixo possam tomar.44
Em retribuição a esse ato traiçoeiro, seria dado à França, na Nova Europa, tco
lugar a que ela tinha direito”, e, na África, receberia dos ditadores fascistas com
pensação do império britânico por qualquer território que fosse obrigada a ce
der a outros. Ambas as partes concordaram em manter o pacto “absolutamente
secreto”.*
A despeito das concessões desonrosas, porém vitais, de Pétain, Hitler não se
deu por satisfeito. Segundo o dr. Schmidt, desejava algo mais: nada menos que
a participação ativa da França na guerra contra a Inglaterra. Em sua longa via
gem de volta a Munique, o intérprete encontrou Hitler desapontado e deprimi
do com os resultados de sua viagem. Iria ficar mais desapontado e deprimido
ainda em Florença, onde chegou na manhã de 28 de outubro para se avistar com
Mussolini.
Em 4 de outubro — apenas três semanas antes — já haviam conferenciado no
Passo de Brenner. Hitler, como de costume, falou a maior parte do tempo, fazen
do um de seus brilhantes tours tfhorizon, nos quais não incluiu qualquer menção
ao fato de estar enviando tropas à Romênia, também ambicionada pela Itália.
Dias depois, ao ter conhecimento desse fato, o Duce enfureceu-se.
Hitler sempre me aparece com um fait accompli [disse iradamente a
Ciano]. Desta vez vou pagar-lhe na mesma moeda. Ele vai saber pelos
jornais que ocupei a Grécia. Restabelecer-se-á, assim, o equilíbrio.45
* Conquanto não conhecessem o texto do acordo secreto realizado em Montoire, Churchill e Roosevelt
suspeitaram que as condições fossem piores. 0 rei da Inglaterra endereçou, através de canais america
nos, um apelo pessoal a Pétain pedindo-lhe que não tomasse posição contra a Inglaterra. A mensagem
do presidente Roosevelt ao marechal foi vasada em termos fortes e severos, e prevenia-o das terríveis
conseqüências que adviriam se a França de Vichy traísse a Inglaterra. (Ver William L. Langer, Our Vichy
Gamble, p. 9 7 .0 professor Langer, para escrever esse livro, teve acesso aos documentos alemães que
somente 11 anos depois foram divulgados pelos governos britânico e americano).
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 271
As ambições do Duce nos Bálcãs eram tão fortes quanto as de Hitler, às quais
atrapalhavam, o que fez com que, já em meados de agosto, os alemães advertissem
Roma contra quaisquer aventuras na Iugoslávia e na Grécia. “É uma ordem termi-
nante de deter qualquer movimento”, anotou Ciano em seu diário no dia 17 de
agosto. Mussolini pôs de lado, pelo menos nessa ocasião, seus planos de obter
novas glórias marciais nos Bálcãs, confirmando isso numa humilde carta que en
viou a Hitler em 27 de agosto. Mas a perspectiva, embora falsa, de uma rápida e
fácil conquista da Grécia, que o compensaria até certo ponto das brilhantes vitó
rias de seu parceiro, provou ser uma tentação demasiado grande para que o em
pertigado César fascista a ela resistisse.
Em 22 de outubro, marcou a data para o assalto italiano de surpresa contra a
Grécia para o dia 28 e escreveu, no mesmo dia, a Hitler, uma carta (antedatada de
19 de outubro) aludindo à operação que pretendia executar mas indicando vaga
mente a natureza e data exatas. Temia — Ciano anotou nesse dia — que o Führer
pudesse ordenar-lhe que não fizesse qualquer movimento. Hitler e Ribbentrop
vieram a saber dos planos do Duce quando voltavam da França nos seus trens
especiais, e, a uma ordem do Führer; o ministro nazista desceu na primeira esta
ção, na Alemanha, para telefonar a Ciano, em Roma, propondo uma conferência
imediata dos líderes do Eixo. Mussolini sugeriu que ela se realizasse em Florença,
em 28 de outubro. Quando seu visitante alemão desceu do trem na manhã desse
dia, cumprimentou-o, o queixo erguido e os olhos muito alegres: “Führer, estamos
em marcha! As vitoriosas tropas italianas atravessaram hoje, ao alvorecer, a fron
teira greco-albanesa!”46
Segundo todas as versões, Mussolini divertiu-se imensamente com essa vin
gança contra o amigo por todas as ocasiões anteriores em que o ditador nazista
marchara para um país sem informar previamente o aliado italiano. Hitler enfu
receu-se. Aquele ato precipitado contra um forte adversário, possivelmente na
pior época do ano, ameaçava transtornar seus planos nos Bálcãs. O Führer, confor
me escreveu a Mussolini pouco tempo mais tarde, tinha se apressado a ir a Floren
ça na esperança de impedir a operação, mas chegara demasiado tarde. Segundo
Schmidt, que esteve presente ao encontro de ambos, o chefe nazista conseguiu
dominar sua raiva.
Hitler seguiu nessa tarde para o norte [escreveu depois Schmidt] cheio
de rancor. Malograra três vezes: em Hendaye, em Montoire e agora na
272 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o M OMENTO DECISIVO
Itália. Nas compridas noites de inverno dos anos seguintes, aquelas lon
gas e estafantes viagens constituíram sempre o tema de constantes cen
suras amargas contra amigos ingratos e indignos de confiança, os par
ceiros do Eixo e os enganadores franceses.47
Devia, contudo, fazer alguma coisa para prosseguir na peleja contra os britâ
nicos, agora que a invasão da Inglaterra se tornara impossível. Nem bem voltara a
Berlim, já a necessidade de agir se impunha sobre ele, dado o fracasso dos exérci
tos do Duce na Grécia. Numa semana, o vitorioso ataque italiano contra esse país
transformou-se em malogro. Em 4 de novembro, Hitler convocou para uma con
ferência na chancelaria, em Berlim, Brauchitsch e Halder, do exército, e Keitel e
Jodl, do OKW. Graças ao diário de Halder e à cópia do relatório que, sobre ela,
Jodl enviou à marinha e que foi apreendida, tomamos conhecimento das decisões
do chefe nazista, incorporadas à Diretiva n218 de Hitler, em 12 de novembro, cujo
texto figura no processo de Nuremberg.48
A influência da marinha alemã sobre a estratégia de Hitler tornou-se evidente,
da mesma maneira que a necessidade de fazer alguma coisa com relação ao vaci
lante aliado italiano. Halder anotou que o Führer “não tinha confiança” na lide
rança italiana. Em conseqüência, decidiu não enviar tropas alemãs à Líbia até que
o exército do marechal Rodolfo Graziani, que em setembro avançara 96 quilôme
tros no Egito, até Sidi Barrâni, tivesse alcançado Mersa Matrüh, a 120 quilômetros
mais adiante ao longo da costa, o que não se esperava que fizesse antes do Natal,
se é que esperavam. Entrementes, far-se-iam planos para enviar alguns bombar
deiros de mergulho ao Egito, a fim de atacarem a esquadra britânica em Alexan
dria e minarem o canal de Suez.
Quanto à Grécia, o ataque dos italianos ali — Hitler admitiu a seus generais
— havia sido um “grande e lamentável erro” e, infelizmente, criara um perigo para
a posição da Alemanha nos Bálcãs. Os britânicos, ao ocuparem Creta e Lemnos,
haviam atingido bases aéreas, das quais podiam facilmente bombardear os cam
pos petrolíferos da Romênia e, ao enviarem tropas para o território grego, amea
çavam toda a posição dos alemães nos Bálcãs. Para contrapor-se a esse perigo,
Hitler ordenou ao exército que imediatamente preparasse planos para invadir a
Grécia, pela Bulgária, com uma força de, pelo menos, dez divisões, que seriam
primeiramente enviadas à Romênia. “É de prever que a Rússia se mantenha neu
tra”, disse.
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 273
Mas a maior parte da conferência de 4 de novembro e da Diretiva nQ18 que
dela resultou foi dedicada à destruição da posição da Inglaterra no Mediterrâneo
Ocidental.
Gibraltar será conquistada [dizia a diretiva] e os Estreitos serão fechados.
Os britânicos ficarão impedidos de firmar-se em outro ponto da penín
sula ibérica ou nas ilhas do Atlântico.
“Félix” seria o nome em código para a conquista de Gibraltar e das ilhas Caná
rias, da Espanha, e das ilhas de Cabo Verde, de Portugal. À marinha cumpriria,
também, estudar a possibilidade de ocupar a ilha da Madeira e os Açores. Mesmo
Portugal talvez tivesse que ser ocupado. “Operação Isabella” seria o nome que se
lhe daria. Três divisões alemãs seriam concentradas na fronteira hispano-portu-
guesa para levá-la a efeito.
Deviam, finalmente, ser libertadas unidades da esquadra e algumas tropas da
França para que ela pudesse defender suas possessões no noroeste da África con
tra os britânicos e De Gaulle. “Partindo dessa tarefa inicial, a participação da
França na guerra contra a Inglaterra poderá desenvolver-se completamente”, disse
Hitler em sua diretiva.
Os novos planos de Hitler, conforme foram expostos aos generais em 4 de
novembro e traçados em diretiva uma semana depois, entravam em muitos deta
lhes de ordem militar — especialmente sobre a maneira como Gibraltar seria con
quistada num golpe ousado dos alemães — e, ao que parece, impressionaram os
chefes do exército que os acharam audazes e hábeis. Mas, na realidade, eram meias
medidas que possivelmente não poderiam atingir seus objetivos e destinavam-se,
em parte, a enganar os próprios generais. Hitler assegurou-lhes, em 4 de novem
bro — anotou Halder —, que Franco acabara de renovar-lhe a promessa de unir-
se à Alemanha na peleja; isso, porém, conforme vimos, não era absolutamente
verdade. Os objetivos quanto à expulsão dos britânicos do Mediterrâneo eram
razoáveis; mas as forças escaladas para essa tarefa eram insuficientes, especial
mente em vista da fraqueza da Itália.
O Estado-maior da marinha de guerra assinalou a situação num memorando,
vasado em termos rígidos, que Ráder entregou a Hitler em 14 de novembro.49 O
desastre da Itália na Grécia — as tropas de Mussolini haviam sido agora rechaçadas
274 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO
para a Albânia e continuavam recuando — não somente havia melhorado gran
demente a posição estratégica da Inglaterra no Mediterrâneo, anunciavam os ho
mens do mar, como também levantara o prestígio dela em todas as partes do
mundo. Quanto ao ataque dos italianos no Egito, disse categoricamente a mari
nha a Hitler: <CA Itália jam ais levará a cabo a ofensiva no Egito .* É lamentável a
chefia italiana. Eles não têm noção alguma da situação. As forças armadas italia
nas não têm chefes nem eficiência militar para executar operações que, na área do
Mediterrâneo, se requerem para chegar a uma conclusão brilhante com rapidez e
decisão necessárias.”
Portanto, concluiu a marinha, cumpre à Alemanha executar essa tarefa. A
“luta pela área africana ” — preveniu a Hitler — constitui o “principal objetivo
estratégico da guerra da Alemanha como um todo (...) É de importância decisiva
para o resultado desta peleja”
Isso, porém, não convenceu o ditador nazista. Sempre encarara a guerra no
Mediterrâneo e no norte da África como algo secundário para seu objetivo prin
cipal. Ao discorrer o almirante Ráder sobre as concepções estratégicas da mari
nha, que desenvolvera na conferência que tiveram em 14 de novembro, Hitler
replicou afirmando que “estava ainda inclinado a uma demonstração contra a
Rússia”.50De fato, estava mais inclinado do que nunca, pois Molotov havia partido
de Berlim naquela manhã depois de ter-lhe acendido a ira. Quando o almirante se
avistou com seu chefe, dois dias depois do Natal, para informá-lo de como haviam
perdido a oportunidade no Mediterrâneo, ele não se perturbou. Fez ouvidos
moucos aos argumentos de que a vitória da Inglaterra sobre os italianos, no Egito,**
* Grifo da marinha.
** Naquela ocasião, uma força heterogênea britânica, formada de uma divisão blindada, uma divisão de
infantaria indiana, duas brigadas de infantaria e um regimento Royal Tank — 31 mil homens ao todo
— havia rechaçado do Egito uma força italiana três vezes maior e capturado 38 mil prisioneiros, custan
do-lhe a operação 133 mortos, 387 feridos e oito soldados desaparecidos. A contra-ofensiva britânica,
sob o comando geral do general s/r Archibald Wavell, começou em 7 de dezembro e, em quatro dias,
destroçou o exército do marechal Graziani. O que havia sido começado como um limitado contra-
ataque de cinco dias prosseguiu até 7 de fevereiro, em cujo tempo os britânicos avançaram pela Cire-
naica, uma distância de oitocentos quilômetros, aniquilaram na Líbia todo o exército italiano formado
de dez divisões, capturando 130 mil prisioneiros, 1.240 canhões e quinhentos tanques, e sofrendo a
perda de quinhentos soldados mortos, 1.373 feridos e 55 desaparecidos. Para o cético escritor militar
britânico, general J. F. Fuller, foi "uma das mais audaciosas campanhas até então travadas". (Fuller, The
Second World War, p. 98).
“b a r b a r o s s a ” : a v e z d a r ú s s ia 275
e o crescente material que ela estava recebendo dos Estados Unidos requeriam
que se concentrassem todos os recursos alemães para subjugar os britânicos, e que
se protelasse a Operação Barbarossa até que “se derrotasse a Inglaterra”.
“Em vista do desenvolvimento da situação política atual e, especialmente, da
interferência da Rússia nas questões dos Bálcãs”, disse Hitler, “é necessário elimi
nar, a todo custo, o último inimigo do Continente antes de nos atracarmos com a
Inglaterra”. Dali por diante, até o fim amargo, ele se apegaria fanaticamente a essa
estratégia fundamental.
Para agradar seu chefe naval, Hitler prometeu “tentar mais uma vez influen
ciar Franco”, para que se pudesse efetuar o ataque contra Gibraltar e fechar o Me
diterrâneo à esquadra britânica. Já tinha ele, na verdade, abandonado essa idéia.
Em 11 de dezembro, havia, sem alarde, ordenado que “não se executasse a Opera
ção Félix, porque as condições políticas para isso não mais existiam”. Forçado,
pela própria marinha alemã e pelos italianos, para que insistisse junto a Franco,
Hitler fez um esforço final, se bem que lhe fosse penoso. Em 6 de fevereiro de
1941, endereçou uma longa carta ao ditador espanhol.
(...) Uma coisa, Caudilho, é preciso que se esclareça: estamos travando
uma batalha de vida e morte e não podemos, nesta ocasião, fazer quais
quer caridades (...)
A batalha que a Alemanha e a Itália estão travando determinará tam
bém o destino da Espanha. Somente com nossa vitória continuará a
existir o vosso presente regime.51
Para desventura do Eixo, a carta chegou às mãos do Caudilho no mesmo dia
em que as últimas forças do marechal Graziani haviam sido varridas do sul de
Benghazi pelos britânicos. Pouco era de admirar que, ao decidir-se Franco a
responder — em 26 de fevereiro de 1941 —, embora protestando sua “absoluta
lealdade” ao Eixo, ele lembrasse ao chefe nazista que os acontecimentos recentes
A marinha italiana sofreu também um golpe mortal. Na noite de 11 -12 de novembro, bombardeiros do
porta-aviões lllustrious (que a Luftwaffe alegara ter posto a pique) atacaram a frota italiana ancorada
em Taranto e puseram fora de ação, durante muitos meses, três encouraçados e dois cruzadores. "Um
dia negro", começou Ciano em seu diário, em 12 de novembro. "Os britânicos, sem qualquer advertên
cia, puseram a pique o encouraçado Cavoure danificaram seriamente os navios Littorio e Duilio".
276 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
haviam deixado “as circunstâncias de outubro muito para trás” e que o entendi
mento que naquela ocasião mantiveram se tinha tornado obsoleto.
Pelo menos uma vez em sua vida tempestuosa Adolf Hitler admitiu a derrota.
“A parte essencial dessa aborrecida incoerência espanhola”, escreveu a Mussolini,
“é que a Espanha não deseja entrar e nem entrará nesta peleja. Isso é extremamen
te desagradável, porque significa que, para o momento, fica eliminada a possibili
dade de atacarmos a Inglaterra da maneira mais simples, nas suas possessões do
Mediterrâneo.”
Mas era a Itália, e não a Espanha, a chave para derrotar a Inglaterra no Medi
terrâneo; o frágil império do Duce, porém, não estava à altura da tarefa e Hitler
não teve suficiente senso para fornecer-lhe os meios — que tinha — para que pu
desse fazê-lo. A possibilidade de atacar a Inglaterra, quer diretamente pelo Canal,
quer indiretamente pela larga faixa do Mediterrâneo, confessava ele agora, ficou
afastada, “no momento”. Conquanto fosse uma frustração, reconhecê-la trouxe-
lhe alívio. Podia agora voltar-se para as questões que lhe dominavam o espírito.
Em 8-9 de janeiro de 1941, realizou um conselho de guerra em Berghof, acima
de Berchtesgaden, que agora jazia numa profunda camada de neve do inverno. O
ar da montanha parecia ter-lhe clareado o espírito. Mais uma vez, conforme reve
lam os longos relatórios confidenciais que, sobre a conferência, fizeram o almi
rante Rãder e o general Halder,52 suas idéias estendiam-se por vasto campo ao
delinear sua grande estratégia aos chefes militares. Voltara-lhe o otimismo.
O Führer [anotou Ráder] está firmemente convencido de que a situação
na Europa não mais poderá desenvolver-se desfavoravelmente para a
Alemanha, mesmo que perdêssemos toda a África do Norte. Nossa po
sição na Europa está tão firmemente estabelecida que não é possível
que o resultado nos seja desvantajoso (...) Os britânicos somente pode
rão nutrir esperanças de ganhar a guerra se nos derrotarem no conti
nente. O Führer está convencido de que isso é impossível.
Era verdade — admitiu ele — que a invasão direta da Inglaterra “não era pra
ticável, a menos que esse país ficasse imobilizado em considerável grau e a Ale
manha tivesse completa supremacia nos ares”. A marinha e a força aérea, disse,
devem concentrar os ataques às vias de navegação e cortar, com isso, o abasteci
mento. Tais ataques — pensava — “poderiam acarretar a vitória já mesmo em julho
“ba r b a r o ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 277
ou agosto”. Entrementes, prosseguiu, aa Alemanha deve fortificar-se no continen
te, de tal maneira que possa atender ainda à guerra contra a Inglaterra (e os Esta
dos Unidos)”. Os parênteses são de Halder e sua inclusão é significativa. É a pri
meira menção, nos documentos alemães apreendidos, de que Hitler — no começo
de 1941 — estava encarando a possibilidade de os Estados Unidos entrarem na
guerra contra ele.
O chefe nazista tratou, em seguida, das várias áreas e problemas estratégicos e
explicou o que pretendia fazer a respeito.
O Führer é de opinião [escreveu Ráder] ser vital para o resultado desta
peleja que a Itália não sofra um colapso (...) Está decidido a (...) impedir
que ela perca o norte da África (...) Isso significa uma grande perda de
prestígio para as potências do Eixo (...) Está [portanto] resolvido a dar-
lhe apoio.
A essa altura, ele preveniu os chefes militares que se acautelassem quanto à
divulgação dos planos alemães.
Ele não deseja informar os italianos sobre nossos planos. Há o gran
de perigo de que a família real esteja transmitindo informações à
Inglaterra!!*
O apoio à Itália, declarou Hitler, consistiria de formações antitanques e algu
mas esquadrilhas da Luftwaffe para a Líbia. Mais importante ainda, ele enviaria
um corpo do exército, de duas e meia divisões, para animar as forças italianas
que estavam em retirada na Albânia — para onde os gregos as tinham agora lan
çado. Seria desfechada, com isso, a Operação Marita.** A transferência de tropas
da Romênia para a Bulgária, ordenou ele, devia começar imediatamente, a fim de
que se pudesse dar início à Operação Marita em 26 de março. Hitler discorreu
longamente sobre a necessidade de se preparar para a execução da Operação
* Grifos de Rãder.
* * A Operação Marita foi promulgada na Diretiva na 20, de 13 de dezembro de 1940. Exigia um exército
de 24 divisões concentradas na Romênia e que, atravessando a Bulgária, atacariam a Grécia assim que
começasse um tempo favorável. Estava assinada por Hitler.53
278 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Átila — parecia que não havia fim para os nomes em código — a qual expusera
numa diretiva de 10 de dezembro de 1940. Era o plano de ocupação do restante
da França e da captura da esquadra francesa em Toulon. Julgava agora que se po
dia levá-la a efeito logo. “Se a França criar dificuldades”, declarou, “terá que ser es
magada completamente” Isso teria sido pura violação dos termos do armistício
celebrado em Compiègne, mas nenhum general ou almirante, segundo as anota
ções de Halder e Rãder — ou pelo menos segundo o que se registrou — levantou
essa questão.
Foi nessa conferência de guerra que Hitler descreveu Stalin como “um chanta
gista de sangue-frio” e informou os comandantes de que a Rússia teria que ser
subjugada “o quanto antes”.
Se os Estados Unidos e a Rússia entrassem na guerra contra a Alema
nha [disse Hitler, e era a segunda vez que mencionava essa possibilida
de por parte dos Estados Unidos], a situação se complicaria. Devia-se,
por isso, eliminar desde o início qualquer possibilidade de essa ameaça
vir a desenvolver-se. Caso se eliminasse a ameaça russa, poder-se-ia
travar indefinidamente a guerra contra a Inglaterra. Derrotada a Rús
sia, o Japão ficaria bastante aliviado: isto, por sua vez, significaria um
perigo maior para os Estados Unidos.
Tais eram as idéias do ditador alemão sobre a estratégia total ao começar o ano
de 1941. Dois dias depois desse conselho de guerra, em 11 de janeiro, ele as incor
porou na Diretiva na 22. Os reforços alemães para Trípoli deviam movimentar-se
de conformidade com a Operação Girassol, e os para a Albânia, com a Operação
Violetas dos Alpes.54
“O mundo ficará assombrado!”
Mussolini foi chamado por Hitler a Berghof a fim de conferenciarem nos dias
19 e 20 de janeiro. Abalado e humilhado pelas derrotas dos italianos no Egito e na
Grécia, não tinha ânimo para fazer a viagem. Ciano achou-o “carrancudo e ner
voso” quando ele tomou seu trem especial, receoso que Hitler, Ribbentrop e os
“b a r b a r o ss a ”: a VEZ DA RÚSSIA 279
generais alemães se mostrassem insultuosamente condescendentes. O que agra
vou ainda mais a situação: o Duce levou consigo o general Alfred Guzzoni, assis
tente do chefe do Estado-maior, que Ciano, em seu diário, descreveu como ho
mem medíocre, de ventre proeminente e que usava uma peruca tingida; e que
— julgava — seria positivamente humilhante apresentar aos alemães.
Para sua surpresa e alívio, Mussolini encontrou Hitler, que viera à plataforma
coberta de neve da pequena estação de Puch para saudá-lo, maneiroso e cordial,
não havendo censuras aos lamentáveis episódios da Itália nos campos de batalha.
Achou, também, conforme anotou Ciano em seu diário, seu anfitrião com forte
disposição contra os russos. Por mais de duas horas, no segundo dia, Hitler fez
aos hóspedes italianos e aos generais de ambos os países, ali reunidos, uma prele-
ção. Um relatório do general Jodl sobre essa preleção55 confirma que, enquanto o
Führer se mostrava ansioso por auxiliar os italianos na Albânia e na Líbia, seus
pensamentos estavam voltados para a Rússia.
Não creio que os Estados Unidos possam oferecer grande perigo [disse
Hitler] mesmo que entrem na peleja. Um perigo maior é o gigantesco
bloco da Rússia. Embora nossos acordos políticos e econômicos com
eles sejam muito favoráveis, prefiro confiar nos meios poderosos que
tenho à minha disposição.
Conquanto aludisse ao que pretendia fazer com seus “meios poderosos”, não
revelou seus planos para o parceiro. Eles, porém, já estavam suficientemente
adiantados para permitir que o chefe do Estado-maior geral do exército — res
ponsável pela elaboração dos detalhes — os apresentasse ao comandante supremo
numa conferência em Berlim, 15 dias depois.
Essa conferência sobre a guerra, a que estiveram presentes os principais gene
rais do OKW e do Alto-Comando do exército (OKH), durou desde meio-dia até
as 18h de 3 de fevereiro. Embora o general Halder, que traçara os planos do Esta
do-maior geral do exército, afirmasse mais tarde em seu livro,56 que ele e Brau
chitsch tinham levantado dúvidas sobre a própria avaliação que haviam feito do
potencial militar da Rússia e, de modo geral, se oposto à Operação Barbarossa,
tachando-a de aventura, não consta uma palavra, quer nos registros que nessa
mesma noite fez no seu próprio diário, quer no memorando secretíssimo do
28o A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
OKW sobre a conferência,57que confirme tal afirmação. Ao contrário, ambos re
velam ter Halder, a princípio, feito por alto uma estimativa das forças oponentes,
calculando que, enquanto o inimigo teria aproximadamente 155 divisões, o po
tencial alemão seria mais ou menos idêntico em número e, conforme Halder re
latou, “muito superior em qualidade”. Mais tarde, ao começar a catástrofe, Halder
e seus companheiros generais perceberam que as informações de seus agentes
sobre o Exército Vermelho haviam sido fantasticamente falhas. Mas em 3 de feve
reiro de 1941 eles não suspeitavam disso. De fato, tão convincente era o relatório
de Halder sobre as respectivas forças e a estratégia a ser empregada para aniquilar
o Exército Vermelho* que Hitler, no fim, não só manifestou sua concordância
com “tudo aquilo” como também, empolgado pelas perspectivas que o chefe do
Estado-maior geral apresentara, exclamou:
“Quando começar a Operação Barbarossa, o mundo ficará assombrado e não
fará comentários /”
Mal podia aguardar o momento para começá-la. Impacientemente, ordenou-
lhe que lhe mandassem “o quanto antes” o mapa das operações e o plano para o
desdobramento das forças.
Prelúdio nos Bálcãs
Antes que a Operação Barbarossa pudesse ser iniciada, na primavera, tinha-se
que conquistar e desenvolver o flanco sul que jazia nos Bálcãs. Na terceira semana
de fevereiro de 1941, os alemães concentraram um formidável exército de 680 mil
homens na Romênia, que bordejava a Ucrânia numa extensão de 480 quilômetros
entre a fronteira polonesa e o mar Negro.58Ao sul, porém, a Grécia ainda manti
nha os italianos imobilizados, e Berlim tinha razão para acreditar que as tropas
britânicas, procedentes da Líbia, logo desembarcariam ali. Hitler, conforme as
minutas de suas numerosas conferências nesse período deixam bem claro, temia
que se pudesse formar uma frente aliada acima de Salonica, o que tornaria a situa
ção, para a Alemanha, mais inquietante do que fora na Primeira Guerra Mundial,
* Traçou-se, em sua essência, a estratégia na Diretiva n2 21, de 18 de dezembro de 1940. (Ver p. 264-5).
Novamente ao comentar com Brauchitsch e Halder, Hitler salientou a importância de "varrer grandes
seções do inimigo" em vez de forçá-lo à recuar. E acentuou que "o principal objetivo (grifo dele) é conse
guir a posse dos Estados bálticos e de Leningrado".
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 281
porque isso daria aos britânicos uma base de onde poderiam bombardear os cam
pos petrolíferos da Romênia. Prejudicaria, além do mais, a Operação Barbarossa.
De fato, tinha-se previsto esse perigo já em dezembro de 1940, quando foi expe
dida a primeira diretiva para um forte ataque contra a Grécia, através da Bulgária,
com tropas concentradas na Romênia.
A Bulgária, que errara ao calcular quais seriam os vencedores na primeira
guerra, o que lhe custara um preço muito caro, tornou a errar num cálculo simi
lar. Acreditando nas afirmativas de Hitler, de que já havia vencido a guerra, e se
duzida pela perspectiva de obter o território grego ao sul, o que lhe daria acesso
ao mar Egeu, concordou em participar da Operação Marita — pelo menos até o
ponto de permitir a passagem de tropas alemãs. Fez-se, secretamente, um acordo
em 8 de fevereiro de 1941, entre o marechal-de-campo List e o Estado-maior geral
da Bulgária.59Na noite de 28 de fevereiro, unidades do exército alemão proceden
tes da Romênia atravessaram o Danúbio e tomaram posições estratégicas na Bul
gária, a qual, no dia seguinte, se uniu ao pacto tríplice.
Os resolutos iugoslavos não se mostraram tão acomodatícios. Sua teimosia,
porém, apenas incitou os alemães a trazerem-nos também para a peleja. Em 4-5
de março, o regente — príncipe Paulo — foi chamado pelo Führer; com grande
sigilo, a Berghof. Fizeram-lhe as usuais ameaças e, além disso, para suborná-lo,
ofereceram-lhe Salonica. Em 25 de março, o prem ier da Iugoslávia, Dragisha
Cvetkovic, e o ministro das Relações Exteriores, Aleksander Cincar-Markovic,
tendo saído às ocultas de Belgrado na noite anterior para evitar demonstrações
hostis ou mesmo a possibilidade de serem seqüestrados, chegaram a Viena, onde,
na presença de Hitler e Ribbentrop, subscreveram, em nome da Iugoslávia, o pac
to tríplice. Hitler ficou satisfeitíssimo e declarou a Ciano que isso facilitaria seu
ataque à Grécia. Antes de deixarem Viena, os chefes iugoslavos receberam duas
cartas de Ribbentrop confirmando a decisão da Alemanha de respeitar “a sobera
nia e a integridade territorial da Iugoslávia para sempre” e prometendo que o Eixo
não exigiria direito de passagem para suas tropas pela Iugoslávia “durante esta
guerra”.60 Ambos os compromissos foram rompidos por Hitler, num prazo de
tempo que constituiu um recorde até mesmo para ele.
Nem bem os ministros iugoslavos regressaram a Belgrado, foram eles, o gover
no e o príncipe regente derrubados do poder na noite de 26 para 27 de março, por
uma revolta popular encabeçada por certo número de altos oficiais da força aérea
282 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
e apoiada pela maior parte do exército. O jovem herdeiro do trono, Pedro, que es
capara à vigilância dos funcionários da regência descendo por uma calha, foi no
meado rei. Conquanto o novo regime do general Dusan Simovic se oferecesse ime
diatamente para assinar um pacto de não-agressão com a Alemanha, era óbvio
em Berlim que ele não aceitaria a posição de títere para a Iugoslávia, que Hitler lhe
havia atribuído. Nas delirantes comemorações realizadas em Belgrado, durante as
quais a multidão cuspira no automóvel do ministro alemão, os sérvios demons
traram para onde dirigiam suas simpatias.
O golpe em Belgrado lançou Adolf Hitler num dos maiores acessos de cólera
de toda a sua vida. Recebeu-o como afronta pessoal e, em sua furia, tomou subi
tamente decisões que provariam mais tarde ser completamente desastrosas para a
sorte do Terceiro Reich.
Convocou apressadamente os chefes militares à chancelaria, em Berlim, no
dia 27 de março — a conferência foi convocada tão às pressas que Brauchitsch,
Halder e Ribbentrop chegaram tarde — e vociferou sobre a vingança que tomaria
contra os iugoslavos. O golpe de Belgrado, disse, pusera em perigo as Operações
Marita e, sobretudo, a Barbarossa. Estava, portanto, decidido a destruir militar-
mente a Iugoslávia como nação, sem mesmo esperar possíveis declarações de
lealdade do novo governo. Não se farão indagações diplomáticas — ordenou —
nem se apresentará um ultimato. A Iugoslávia, acrescentou, seria esmagada ‘com
dureza e sem piedade”. Ordenou ali mesmo a Gõring “destruir Belgrado em on
das de ataques”, com bombardeiros operando das bases aéreas da Hungria. Expe
diu a Diretiva n2 2561 para a imediata invasão da Iugoslávia e mandou que Keitel
e Jodl elaborassem, naquela mesma noite, os planos militares. Instruiu Ribben
trop para que informasse Hungria, Romênia e Itália de que todos receberiam um
quinhão da Iugoslávia, a qual seria partilhada entre eles, exceto um pequeno esta
do títere da Croácia.*
Segundo uma passagem sublinhada nas notas secretíssimas da OKW sobre a
conferência,62 anunciou em seguida a mais fatídica de todas as decisões: “O início
da Operação Barbarossa terá de ser adiado por mais quatro semanas?**
* "A guerra contra a Iugoslávia seria muito popular na Itália, Hungria e Bulgária", escarneceu Hitler. De
clarou que daria a Banat à Hungria, a Macedônia à Bulgária e a costa do Adriático à Itália.
** Fora a princípio marcado para 15 de maio na primeira diretiva sobre a Barbarossa, datada de 18 de
dezembro de 1940.
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA 283
A protelação do ataque contra a Rússia, a fim de que o chefe nazista pudesse
dar vazão a seu rancor contra um pequeno país balcânico que ousara desafiá-lo,
foi, provavelmente, a decisão mais catastrófica da carreira de Hitler. Não seria
exagero dizer que, ao tomá-la na chancelaria, em Berlim, naquela tarde de março,
durante um acesso de raiva, ele deixou de lado sua última e bela oportunidade de
ganhar a guerra e fazer do Terceiro Reich — que criara com tão estonteante gênio,
se bem que bárbaro — o maior império na história da Alemanha e tornar-se, ele
mesmo, o senhor da Europa. O marechal-de-campo Brauchitsch, comandante-
em-chefe do exército alemão, e o general Halder, o talentoso chefe do Estado-
maior geral, haveriam de lembrar-se dela com profundo amargor e, também,
com maior compreensão de suas conseqüências do que demonstraram na ocasião
em que foi tomada, quando, tempos depois, imaginando necessitar de três ou
quatro semanas para conseguir a vitória final, a neve profunda e a temperatura
abaixo de zero na Rússia os feriram. Eles e os generais, seus companheiros, have
riam depois de condenar para sempre aquela decisão precipitada e insensata de
um homem vaidoso e enfurecido, devido aos desastres que dela resultaram.
A Diretiva militar nQ25, que o comandante supremo expediu aos generais
antes de dissolver-se a reunião, foi um documento típico de Hitler:
O Putsch militar na Iugoslávia alterou a situação política nos Bálcãs. A
Iugoslávia, a despeito de seus protestos de lealdade, deve ser considera
da no momento um inimigo e, portanto, esmagada tão rapidamente
quanto possível.
É minha intenção invadir a Iugoslávia (...) e aniquilar-lhe o exército (...)
Jodl, como chefe da divisão de operações do OKW, foi incumbido de preparar
os planos naquela noite. “Trabalhei a noite toda na chancelaria do Reich”, contou
mais tarde no tribunal de Nuremberg. “Às 4h de 18 de março coloquei um aide-
mémoire nas mãos do general von Rintelen, nosso oficial de ligação com o Alto-
Comando italiano”.63
Mussolini, cujos exércitos deprimidos na Albânia corriam perigo de ser colhi
dos na retaguarda pelos iugoslavos, devia ser informado imediatamente dos pla
nos de operações dos alemães e ser solicitado a cooperar com eles. Para ter certe
za de que o Duce compreendia o que dele se esperava, e sem esperar que o general
284 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Jodl consertasse os planos, Hitler escreveu rapidamente uma carta, à meia-noite
do dia 27, e ordenou que fosse telegrafada imediatamente, a fim de alcançar Mus
solini naquela mesma noite.64
Duce, os acontecimentos forçam-me a fazer-vos, por este meio mais
rápido, minhas considerações sobre a situação e as conseqüências que
dela poderão advir.
Desde o princípio considerei a Iugoslávia um fator bastante perigoso na
controvérsia com a Grécia (...) Por essa razão, fiz tudo que pude e esfor
cei-me sinceramente para trazer a Iugoslávia para a nossa comunidade
(...) Infelizmente minhas tentativas não tiveram êxito (...) As informa
ções hoje recebidas não deixam dúvida alguma sobre a iminente mu
dança na política exterior da Iugoslávia.
Já tomei todas as medidas necessárias (...) com recursos militares. Que
ro pedir-vos cordialmente, Duce, que não empreendais qualquer outra
operação na Albânia no curso dos próximos dias. Acho necessário que
cubrais e defendais, com todas as forças disponíveis, os desfiladeiros
mais importantes que da Iugoslávia descem para a Albânia.
(...) Acho também necessário, Duce, que reforceis vossas forças na fren
te ítalo-iugoslava com todos os elementos disponíveis e o mais rapida
mente possível.
Considero necessário, Duce, que se guarde absoluto sigilo de tudo que
fizermos e ordenarmos (...) Essas medidas perderão completamente
seu valor caso se tornem conhecidas (...) Se se mantiver o máximo sigi
lo, Duce, então (...) não terei dúvida de que iremos presenciar um êxito
que não será menor que o da Noruega, um ano atrás. Essa é minha fir
me convicção.
Aceitai minhas saudações muito calorosas e amigas.
Vosso, Adolf Hitler.
No tocante a esse objetivo de pouca amplitude, o chefe nazista acertou nova
mente em sua predição, mas parece que não imaginou o quanto lhe custaria, afinal,
a vitoriosa revanche contra a Iugoslávia. No alvorecer do dia 6 de abril, seus exér
citos, em potencial esmagador, lançaram-se sobre a Iugoslávia e a Grécia pelas
fronteiras da Bulgária, Hungria e da própria Alemanha, com toda a sua blindagem.
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 285
Avançaram rapidamente contra defensores mal armados e estonteados pelos
usuais bombardeios preliminares da Luftwaffe.
Conforme Hitler ordenara, a própria Belgrado foi arrasada. Durante três dias
e três noites consecutivos, os bombardeiros de Gõring fizeram vôos rasantes so
bre a pequena capital — pois a cidade não dispunha de canhões antiaéreos — ma
tando 17 mil civis, ferindo muitos mais e reduzindo-a a destroços fumegantes.
Operação Punição — assim a chamou Hitler — e ficou evidentemente satisfeito
por ver que seus comandados a haviam executado com toda a eficiência. Os iu
goslavos, que não tiveram tempo para mobilizar seu pequeno e forte exército, e
cujo Estado-maior cometera o erro de procurar defender todo o país, foram sub
jugados. Em 13 de abril, as tropas alemãs e húngaras entraram no que restava de
Belgrado e, no dia 17, as remanescentes forças do exército iugoslavo, formadas
ainda de 28 divisões, renderam-se em Sarajevo, tendo o rei e o primeiro-ministro
escapado de avião para a Grécia.
Os gregos, que haviam humilhado os italianos em seis meses de luta, não pu
deram resistir ao 122 Exército, do marechal-de-campo List, formado de 15 divi
sões, quatro das quais blindadas. Os britânicos apressaram-se a enviar, da Líbia
para a Grécia, quatro divisões — 53 mil homens ao todo — as quais, como as gre
gas, foram subjugadas pelos panzers alemães e pelos mortíferos ataques da Luft
waffe. Os exércitos gregos do norte capitularam aos alemães e — pílula amarga
— aos italianos, em 23 de abril. Quatro dias depois, os tanques nazistas entravam
ruidosamente em Atenas e hasteavam a suástica na Acrópole. A essa altura, os
britânicos procuravam desesperadamente, mais uma vez, evacuar suas tropas pelo
mar — uma Dunquerque em pequena escala e quase com o mesmo êxito.
No fim de abril — em três semanas — estava tudo terminado, menos na ilha
de Creta, que foi conquistada aos ingleses pelos alemães, num assalto de forças
aerotransportadas, no fim de maio. Onde Mussolini fracassara tão tristemente,
durante todo o inverno, Hitler fora coroado de êxito em poucos dias, na primave
ra. Conquanto se sentisse aliviado de se ter salvado daquela situação, o Duce sen-
tiu-se humilhado de que isso tivesse sido feito pelos alemães. Tampouco suavi-
zou-lhe o desgosto o desapontador quinhão nos despojos da Iugoslávia, cuja
partilha Hitler começara então a fazer.*
* Em 12 de abril de 1941, seis dias depois do desencadeamento de seu ataque, Hitler expediu uma di
retiva secreta partilhando a Iugoslávia entre a Alemanha, a Itália, a Hungria e a Bulgária. A Croácia foi
286 A GUERRA*. PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Os Bálcãs não foram o único lugar em que o Führer salvou o seu desnorteado
parceiro subalterno. Após o aniquilamento dos exércitos italianos na Líbia, Hal
der, embora relutantemente, consentiu finalmente em enviar uma pequena divi
são blindada e algumas unidades da Luftwaffe ao norte da África, onde arranjou
para que o general Erwin Rommel assumisse o comando geral das forças ítalo-
alemãs. Rommel, um arrojado oficial das forças blindadas, cheio de recursos, que
se distinguira como comandante de uma divisão panzer na Batalha da França,
era um tipo de general que os britânicos ainda não haviam conhecido no norte
da África e que, durante dois anos, ia demonstrar ser um grande obstáculo para
eles. Esse, porém, não foi o único problema. A apreciável força aérea e o exército
que os britânicos haviam enviado à Grécia, procedentes da Líbia, deixara-os en
fraquecidos no deserto. Não se mostraram, a princípio, realmente preocupados
nem mesmo depois que seus agentes secretos os informaram da chegada de uni
dades blindadas alemãs na Tripolitânia, no fim de fevereiro. Mas deviam ter fica
do preocupados.
Rommel, com sua divisão panzer alemã e duas divisões italianas, uma das
mais blindadas, atacou subitamente na Cirenaica, no último dia de março. Em 12
dias reconquistou a província, investiu contra Tobruk e atingiu Bardia, a poucos
quilômetros da fronteira egípcia. Toda a posição britânica no Egito e em Suez fi
cou novamente ameaçada; de fato, com os alemães e italianos na Grécia, corria
grave perigo o domínio dos britânicos no Mediterrâneo Oriental.
Mais uma primavera, a segunda na guerra, havia trazido mais vitórias brilhan
tes para a Alemanha, e a situação da Inglaterra, que agora resistia sozinha, gol
peada em seu solo metropolitano pelos bombardeios noturnos da Luftwaffe, seus
exércitos no estrangeiro rechaçados na Grécia e na Cirenaica, parecia mais som
bria e mais desesperada do que nunca. Seu prestígio, tão importante numa luta de
vida e morte, onde a propaganda constituía uma arma poderosa, especialmente
para poder exercer influência sobre os Estados Unidos e a Rússia, havia mergu
lhado num novo nível baixo.*
criada como Estado títere e autônomo. O Führer serviu-se liberalmente, tomando a Alemanha todo o
território contíguo à velha Áustria e conservando sob ocupação tudo da antiga Sérvia, bem como os
distritos das minas de cobre e carvão. Deixou algo vago o quinhão da Itália; que não era substancial.65
* Charles Lindbergh, o aviador herói, que ao autor deste livro parecera ter-se deixado levar, com ex
traordinária ingenuidade, durante suas visitas à Alemanha, pela jactanciosa propaganda nazista, já
havia considerado derrotada a Inglaterra, em seus discursos para grandes e entusiásticos públicos nos
“ b a r b a r o s s a ” : a VEZ DA RÚSSIA l 8 j
Hitler não demorou a tirar proveito da situação num discurso que, sobre suas
vitórias, pronunciou no Reichstag, em Berlim, no dia 4 de maio. Consistiu, prin
cipalmente, de um venenoso e sarcástico ataque pessoal contra Churchill, acusan
do-o de — juntamente com os judeus — instigador da guerra e de homem que
estava orientando a derrota.
Ele é o estrategista amador mais sanguinário de que se tem notícia na
história (...) Por mais de cinco anos esse homem se tem lançado pela
Europa como um louco em busca de alguma coisa a que possa atear
fogo (...) Como soldado, é um mau político, e, como político, um mau
soldado (...) O dom que Mr. Churchill possui é o de mentir com ex
pressão piedosa no rosto e distorcer a verdade fazendo até das mais
terríveis derrotas gloriosas vitórias (...) Churchill, um dos mais infeli
zes amadores em estratégia, conseguiu assim [na Iugoslávia e na Gré
cia] perder dois palcos de guerra num só golpe. Em qualquer outro
país, ele seria submetido a conselho de guerra (...) A anormalidade de
seu espírito somente se explica por uma doença paralisante ou pelos
desvarios de um bêbado.
No tocante ao golpe dos iugoslavos, que provocou sua fúria, Hitler não procu
rou ocultar seus verdadeiro sentimentos.
Espantou-nos a todos esse golpe, levado a efeito por um grupo de
conspiradores subornados (...) Compreenderão, senhores, que, assim
Estados Unidos. Em 23 de abril de 1941, no momento das vitórias nazistas nos Bálcãs e no norte da
África, ele discursou perante 30 mil pessoas em Nova York, na primeira reunião em massa do Primeiro
Comitê da América que se havia formado havia pouco tempo. "O Governo Britânico", disse ele, "tem
um último plano em seu desespero: (...) Persuadir-nos a enviar outra força militar americana à Europa
e participar militar e financeiramente do fiasco desta guerra". Condenou a Inglaterra por ter "encoraja
do as pequenas nações da Europa a lutar contra fatos adversos". Não ocorreu a esse homem, aparen
temente, que a Iugoslávia e a Grécia, que Hitler acabava de esmagar, tinham sido brutalmente ataca
das sem que o tivessem provocado, e que elas instintivamente haviam procurado defender-se porque
tinham noção de honra e porque tiveram coragem mesmo em face dos acontecimentos adversos. Em
28 de abril, Lindbergh se demitiu de seu posto de coronel em comissão na reserva do corpo aéreo do
exército dos Estados Unidos, depois que, no dia 25, o presidente Roosevelt o tachou, publicamente,
de derrotista e apaziguador. O secretário de Guerra aceitou a resignação.
288 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
que eu soube desse acontecimento, dei imediatamente ordem de atacar
a Iugoslávia. Não se tolera tal tratamento ao Reich alemão.
Por mais arrogante que fosse em cantar suas vitórias naquela primavera e, es
pecialmente, sobre a Inglaterra, Hitler não percebeu inteiramente o quanto elas
haviam golpeado esse país, tampouco quanto era desesperada a situação do impé
rio. No mesmo dia em que ele discursava no Reichstag, Churchill escrevia ao
presidente Roosevelt sobre as graves conseqüências da perda do Egito e do Medi
terrâneo Oriental, e pleiteava que os Estados Unidos entrassem na guerra. O pri
meiro-ministro estava num de seus mais sombrios estados de espírito durante
toda a guerra.
Peço-vos, sr. presidente, que não subestimeis a gravidade da situação
que possa surgir no caso de um colapso no Oriente Médio.66
A marinha alemã instou junto a Hitler para que tirasse o máximo proveito da
situação. Para melhorar ainda mais a posição do Eixo, Rashid Ali, que recente
mente havia sido nomeado premier do Iraque e era a favor dos alemães, encabe
çou um ataque contra a base aérea britânica de Habbaniya, situada nas imedia
ções de Bagdá, e apelou a Hitler para que o auxiliasse a expulsar os britânicos do
país. Isso foi no começo de maio. Conquistada Creta em 27 de maio, o almirante
Ráder, que nunca demonstrara entusiasmo pela Operação Barbarossa, apelou a
Hitler, em 30 de maio, para que preparasse uma ofensiva decisiva contra o Egito e
Suez. Rommel, ansioso por continuar o avanço assim que tivesse recebido refor
ços, fez, também, do norte da África, idêntico apelo. “Esse golpe”, disse Ráder ao
Führer, “seria mais mortal ao império britânico que a conquista de Londres!”
Uma semana mais tarde, o almirante entregou a Hitler um memorando prepara
do pela divisão de operações do Estado-maior da marinha de guerra, o qual pre
venia que, embora Barbarossa permanecesse naturalmente em primeiro plano na
direção do OKW, não deveria, em qualquer circunstância, provocar o abandono
ou a demora na condução da guerra no Mediterrâneo”.67
Mas o Führer já havia tomado sua decisão: de fato, não a modificou desde a
festa do Natal, quando anunciou a Operação Barbarossa e informou o almirante
Ráder de que a Rússia devia ser “eliminada primeiro”. Seu espírito voltado inteira
mente para a terra, simplesmente não compreendia a grande estratégia advogada
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 289
pela marinha. Mesmo antes de Ráder e o Estado-maior da marinha terem debatido
o problema junto a ele, no fim de maio, já havia tomado sua decisão com a Diretiva
n2 30, expedida em 25 de maio.68 Ordenou que uma missão militar, alguns aviões
e armamentos fossem enviados a Bagdá para auxiliar o Iraque. “Resolvi encorajar
a evolução dos acontecimentos no Oriente Médio, dando apoio ao Iraque”, disse.
Não tomou, porém, mais que essa pequena e inadequada medida. Quanto à gran
de e ousada estratégia defendida pelos almirantes e Rommel, declarou:
Se —e, caso possível, quais os meios —é viável desfechar depois uma ofen
siva contra o canal de Suez e, eventualmente, rechaçar os britânicos de
sua posição entre o Mediterrâneo e o golfo Pérsico, é questão que somen
te poderá ser decidida quando estiver terminada a Operação Barbarossa.
A destruição da União Soviética figurava em primeiro lugar; tudo mais devia
esperar. Podemos ver, agora, que isso foi um erro extraordinário. Naquela ocasião
— fim de maio de 1941 —, Hitler, utilizando-se apenas de uma fração de suas
forças, poderia ter desfechado um golpe esmagador contra o império britânico;
talvez fatal. Ninguém compreendeu isso melhor do que Churchill, que se achava
em situação difícil. Em sua mensagem ao presidente Roosevelt, em 4 de maio, ele
admitira que, perdidos o Egito e o Oriente Médio, a continuação da guerra “seria
uma dura, longa e cruel proposição”, mesmo que os Estados Unidos entrassem na
peleja. Hitler, porém, não compreendeu isso. Sua cegueira é ainda mais incom
preensível, porque sua campanha nos Bálcãs havia protelado o começo da Opera
ção Barbarossa por várias semanas, comprometendo-a com isso. A conquista da
Rússia tinha que ser realizada em um espaço de tempo mais curto do que havia
sido projetado originalmente, pois havia um impasse inexorável: o inverno russo
que derrotara Carlos XII e Napoleão. Isso dava aos alemães apenas seis meses
para invadir, antes que começasse o inverno, um imenso país que jamais havia
sido conquistado do oeste. E, embora junho tivesse chegado, o vasto exército que
fora desviado para sudeste, a fim de atacar a Iugoslávia e a Grécia, tinha de ser
trazido novamente de grandes distâncias para a fronteira soviéticá, por estradas
sem calçamentos e linhas férreas de uma só via, completamente inadequadas para
atender a um tráfego tão pesado.
Resultou que a demora foi fatal. Os defensores do gênio militar de Hitler ale
garam que a campanha dos Bálcãs não atrasara apreciavelmente o horário da
290 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Operação Barbarossa e que, em todo caso, a protelação fora, em grande parte,
devida ao degelo tardio que, naquele ano, deixou as estradas da Europa cobertas
de lama até meados de junho. O testemunho dos generais alemães é, contudo,
diferente. O marechal-de-campo Friedrich Paulus, cujo nome estará sempre liga
do a Stalingrado e que, naquele tempo, foi um dos principais elaboradores dos
planos para a campanha da Rússia, no Estado-maior geral, depondo no tribunal
de Nuremberg, declarou que a decisão de Hitler, de destruir a Iugoslávia, fez que
se protelasse por “cerca de cinco semanas” o início da Operação Barbarossa.69 O
diário da marinha de guerra menciona o mesmo período de tempo.70O marechal-
de-campo von Rundstedt, que comandou o grupo do exército sul na Rússia, de
clarou aos inquiridores Aliados, depois da guerra, que, por causa da campanha
nos Bálcãs, “começamos, pelo menos, com quatro semanas de atraso. Foi uma
demora que nos custou muito caro”, acrescentou.71
O fato é que Hitler, em 20 de abril, ao terminarem seus exércitos a conquista
da Iugoslávia e da Grécia, marcou a nova data para a Barbarossa. A operação de
via começar em 22 de junho de 1941.72
O planejamento do terror
Nenhum ponto de apoio devia ser posto de lado na conquista da Rússia.
Hitler insistiu junto aos generais para que compreendessem isso perfeitamente.
No início de março de 1941, convocou os chefes das três armas e os principais
comandantes-em-chefe do exército em campanha e ditou a lei. Halder anotou
suas palavras.73
A guerra contra a Rússia [disse Hitler] será tal que não poderá ser
conduzida de maneira cavalheiresca. É uma luta de ideologias e de
diferenças raciais e terá de ser conduzida com uma dureza sem prece
dentes, sem mercê e sem descanso. Todos os oficiais terão de desemba
raçar-se de ideologias obsoletas. Sei que a necessidade de tais meios
para ser travada uma guerra ultrapassa a compreensão dos senhores,
generais, mas (...) insisto em que minhas ordens sejam executadas
sem oposição. Os comissários são os portadores de ideologia que se
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s i a 291
contrapõe diretamente ao nacional-socialismo. Por conseguinte, liqui-
dar-se-ão os comissários. Desculpar-se-ão os soldados alemães acusa
dos de quebrar as leis internacionais (...) A Rússia não fez parte da Con
venção de Haia, não tendo, portanto, direito a elas.
Expediu-se assim a então chamada Ordem dos Comissários, que seria muito
debatida no tribunal de Nuremberg quando os generais ficaram confusos com a
grande questão moral: se deviam ter obedecido às ordens do Führer para comete
rem crimes de guerra ou se deviam ter obedecido às próprias consciências.*
Segundo Halder — pelo que mais tarde se lembrou —, os generais revoltaram-
se contra aquela ordem e, assim que terminou a reunião, protestaram junto ao
comandante-em-chefe Brauchitsch. Esse servil marechal-de-campo** prometeu
que iria “combater aquela ordem na forma que havia sido dada”. Mais tarde —
Halder jurou — Brauchitsch informou o OKW, por escrito, que os oficiais do
exército “jamais poderiam executar tais instruções”. Informou realmente?
Em seu depoimento, ao ser inquirido em Nuremberg, Brauchitsch admitiu
que não tomou tal medida junto a Hitler “porque nada no mundo poderia modi
ficar sua atitude”. O que o chefe do exército fez — contou ele ao tribunal — foi
expedir uma ordem escrita dizendo que “a disciplina no exército tinha que ser
observada estritamente dentro das normas e regulamentos que se aplicavam no
passado”.
“O senhor deu, diretamente, qualquer instrução referente à Ordem dos Co
missários?, perguntou o juiz Lawrence, o mordaz presidente do tribunal, a
Brauchitsch.
“Não”, respondeu ele. “Eu não podia anular diretamente a ordem”.75
Os velhos oficiais de carreira, do exército, com suas tradições prussianas, tive
ram nova ocasião de lutar com suas consciências contra as diretivas subseqüentes
* "Foi a primeira vez em que me vi envolvido no conflito entre a concepção que faço de um militar e o
dever de prestar obediência", declarou o marechal-de-campo von Manstein no julgamento realizado
em Nuremberg, ao debater a Ordem dos Comissários. "Na verdade, eu teria que obedecer; mas disse a
mim mesmo que, como soldado, possivelmente poderia não cooperar num caso como aquele. Falei ao
comandante do grupo de exércitos sob cujas ordens servia naquele tempo (...) que não poderia execu
tar tais instruções, que eram contra a honra de um soldado."74
A título de registro: a ordem foi, naturalmente, executada em grande escala.
** "Uma nulidade", disse Hitler mais tarde referindo-se a ele. (Hitler's Secret Conversations, p. 153).
292 a g u e r r a : p r im e ir a s v i t ó r i a s e o m o m e n to d e c is iv o
expedidas em nome do Führer pelo general Keitel, em 13 de maio. A principal li
mitava as funções dos conselhos de guerra alemães. Eles tinham de ceder a uma
forma de lei mais primitiva.
As transgressões puníveis cometidas por civis inimigos [na Rússia], até
novo aviso, ficarão mais sob a jurisdição dos conselhos de guerra (...)
As pessoas suspeitas de ação criminosa serão levadas imediatamente à
presença de um oficial. Ele decidirá se elas deverão ser fuziladas.
Com relação às transgressões cometidas contra civis inimigos por mem
bros da Wehrmacht, não é obrigatória a instauração de processos, mesmo
que o ato seja ao mesmo tempo uma transgressão e um crime militar*
O exército foi informado para que agisse cautelosamente com tais transgresso
res e se lembrasse, em cada caso, de todo o mal que, desde 1918, os bolcheviques
haviam feito à Alemanha. Somente seria justificado o conselho de guerra para os
soldados alemães se “a manutenção da disciplina ou segurança das forças exigisse
tal medida”. Seja como for, concluía a Diretiva, “confirmam-se apenas as senten
ças do conselho de guerra que estiverem de conformidade com as intenções polí
ticas do Alto-Comando”.76Essa diretiva devia “ser tratada com o máximo sigilo”.**
Uma segunda diretiva na mesma data, assinada por Keitel em nome de Hitler,
confiava a Himmler “tarefas especiais” para preparar a administração política na
Rússia: “tarefas”, dizia, “que resultam da luta que tem de ser levada a efeito entre dois
sistemas políticos opostos”. À sádica polícia secreta nazista eram delegados poderes
para agir independentemente do exército, “sob sua própria responsabilidade”. Os
* Grifos do original.
** Em 27 de julho de 1941, Keitel ordenou que se destruíssem todas as cópias dessa diretiva de 13 de
maio, relativas aos conselhos de guerra, se bem que "a validez da diretiva"— estipulou ele — "não fica
ria afetada pela destruição das cópias". A ordem de 27 de julho, acrescentou, "seria destruída". Mas so
breviveram cópias de ambas, e foram apresentadas em Nuremberg, para assombro do Alto-Comando.
Quatro dias antes, em 23 de julho, Keitel expediu outra ordem marcada secretíssima:
Em 22 de julho, o Führer, após receber o comandante do exército [Brauchitsch], decretou a seguinte
ordem:
Em vista da vasta extensão das áreas ocupadas no leste, as forças disponíveis para o estabelecimento
da segurança somente serão suficientes se toda resistência for punida, não pelo julgamento dos culpa
dos por meio de processo legal, porém com a propagação do terror pelas forças de ocupação que por
si só sirvam para erradicar da população toda inclinação para resistir.77
“ b a r b a r o s s a ” : A VEZ DA RÚSSIA 293
generais sabiam bem o que significava a designação de Himmler para a execução
de “tarefas especiais”, embora negassem quando foram inquiridos em Nuremberg.
Além disso — dizia a diretiva —, as áreas ocupadas na Rússia ficariam interditadas
enquanto Hitler estivesse operando. Nem mesmo às “mais altas personagens do
governo ou do partido”, estipulou Hitler, seria dada permissão para vê-las. A mesma
diretiva nomeava Gõring para “pesquisar o país e assegurar-se de seu potencial
econômico a ser utilizado pela indústria alemã”. Incidentalmente, Hitler declarou
também nessa diretiva que, assim que fossem concluídas as operações militares, a
Rússia seria “dividida em Estados individuais com governos próprios”.78
Como isso seria feito, era matéria que devia ser elaborada por Alfred Rosen
berg, o desnorteante homem dos Bálticos e, oficialmente, o principal pensador
nazista que, conforme vimos, havia sido um dos primeiros mentores de Hitler nos
tempos de Munique. Em 20 de abril, o Führer nomeou-o Comissário para o Con
trole Central das Questões Ligadas à Região da Europa Oriental. Esse parvo na
zista com positiva inclinação para interpretar mal a História, até mesmo a da
Rússia onde nascera e se educara, pôs imediatamente mãos à obra para construir
seus castelos na que fora outrora sua terra natal. Os volumosos arquivos de Ro
senberg foram apreendidos intactos. À semelhança de seus livros, sua leitura cau
sa horror, e não permitiremos que eles dificultem esta narrativa, embora, vez ou
outra, a eles tenhamos que nos referir, porque revelam alguns dos planos que
Hitler traçou em relação à Rússia.
No princípio de maio, Rosenberg elaborou seu primeiro trabalho prolixo
para o que prometia ser, na história, a maior conquista da Alemanha. Para come
çar, a Rússia européia seria dividida em o que ele designava por comissariados
do Reich. A Polônia russa passaria a ser um protetorado alemão chamado Ost-
land; a Ucrânia, “um Estado independente aliado à Alemanha”; a Caucásia, com
seus ricos campos petrolíferos, seria governada por um plenipotenciário alemão;
e os três Estados bálticos e a Rússia Branca formariam um protetorado alemão
como medida preparatória para sua anexação ao grande Reich alemão. Essa úl
tima façanha — explicou Rosenberg num de seus prolixos memorandos com
que cumulava Hitler e os generais, a fim de, conforme disse, elucidar “as condi
ções raciais e históricas” para suas decisões — seria conseguida germanizando os
bálticos racialmente assimiláveis e “banindo os elementos indesejáveis”. Preve
niu que “se tinha de considerar o banimento em grande escala na Letônia e na
294 a guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Estônia. Os banidos seriam substituídos por alemães, preferivelmente veteranos
de guerra. “O mar Báltico”, estabeleceu ele, “deve transformar-se num mar inte
rior germânico.”79
Dois dias antes do assalto das forças alemãs, Rosenberg dirigiu-se aos seus
colaboradores mais chegados, que deviam assumir o governo da Rússia:
A tarefa de alimentar o povo alemão [disse ele] figura no alto da lista de
reivindicações da Alemanha no leste. Os territórios ao sul [da Rússia]
terão que atender (...) à alimentação do povo alemão.
Não vemos, absolutamente, razão para qualquer obrigação de nossa
parte em alimentar também o povo russo com os produtos desse terri
tório. Sabemos que é uma necessidade cruel, despida de quaisquer sen
timentos (...) Muitos serão os anos duros que o futuro irá reservar aos
russos.80
Duríssimos, de fato, porque os alemães estavam projetando deliberadamente
a morte de milhões deles pela fome!
Gõring, incumbido da pesquisa econômica da União Soviética, deixou isso
ainda mais claro que Rosenberg. Numa longa diretiva, de 23 de maio de 1941, sua
divisão econômica de leste determinou que os mantimentos em excesso, proce
dentes da faixa de terra preta da Rússia, no sul, não deviam ser desviados para a
população das áreas industriais, onde, aliás, as indústrias seriam destruídas. Dei
xariam simplesmente os operários e suas famílias, nessas regiões, morrerem de
fome — ou, se pudessem, emigrarem para a Sibéria. A grande produção de ali
mentos da Rússia deveria reverter para os alemães.
A administração alemã nesses territórios [declarava a diretiva] poderá
talvez procurar mitigar as conseqüências da fome que indiscutivel
mente se verificará, acelerando a volta ao primitivo estado de agricul
tura. Essas medidas, contudo, não evitarão a fome. Qualquer tentativa,
ali, para salvar da morte pela fome, importando a produção em excesso
da zona de terra preta, seria feita à custa dos abastecimentos para a Eu
ropa. Isso reduziria a capacidade de resistência da Alemanha, na guer
ra, e afetaria sua capacidade e a da Europa de resistirem ao bloqueio.
É preciso que isso fique clara e perfeitamente entendido.81
“b a r b a r o ss a ”: a vez DA RÚSSIA 295
Quantos russos morreriam em conseqüência dessa deliberada política alemã?
Uma conferência de secretários de Estado, realizada em 2 de maio, já havia dado
a resposta geral. “Não há dúvida ’, declarava o memorando secreto dessa confe
rência, “que, como conseqüência, muitos milhões de pessoas morrerão de fom e, se
tirarmos do país o que nos é necessário.82 E Gõring dissera, assim como Rosenberg,
que seriam tiradas; isso devia ficar “clara e perfeitamente entendido”.
Algum alemão — um só que fosse — protestou contra essa crueldade que
projetaram, contra esse plano bem meditado para condenar à morte milhões de
seres humanos? Em todos os memorandos referentes às diretivas para espolia
ção da Rússia não há menção a alguém que a isso tivesse feito objeção — como
pelo menos alguns generais fizeram relativamente à Ordem dos Comissários.
Tais planos não eram meras fantasias loucas e cruéis de almas e espíritos defor
mados, tais como Hitler, Gõring, Himmler e Rosenberg. Evidencia-se pelos docu
mentos que, durante semanas e meses, centenas de funcionários alemães trabalha
ram arduamente em suas mesas, à alegre claridade dos dias quentes da primavera,
fazendo cálculos e compondo memorandos que computavam friamente o massa
cre de milhões de pessoas. Pela fome, neste caso. Heinrich Himmler, o ex-granjeiro
de expressão amável, sentava-se também à sua mesa no quartel-general das S.S.,
em Berlim, naqueles dias, contemplando através de seu pince-nez os planos para
o massacre de outros milhões de um modo mais rápido e violento.
Muito satisfeito com o labor de seus ocupadíssimos lacaios, militares e civis,
no planejamento do ataque contra a União Soviética, de sua destruição e explora
ção, e do massacre em massa de seus cidadãos, Hitler determinou em 30 de abril
a data para o assalto: 22 de junho. Fez seu discurso sobre a vitória, no Reichstag,
em 4 de maio, e retirou-se depois para seu abrigo favorito, o Berghof, acima de
Berchtesgaden, de onde podia contemplar o esplendor das montanhas alpinas,
seus picos ainda cobertos de neve da primavera e sua nova conquista, a maior de
todas, a qual, conforme dissera a seus generais, deixaria o mundo assombrado.
Foi ali, na noite de 10 de maio de 1941, sábado, que recebeu a estranha e ines
perada notícia que o abalou até os ossos e o forçou, como aconteceu a todos no
mundo ocidental, a desviar por um momento seu espírito da guerra. Seu mais ín
timo confidente, o representante do Führer no partido nazista, o segundo depois
de Gõring como seu sucessor, o homem que havia sido seu devotado adepto, de
uma lealdade fanática desde 1921 e desde o assassínio de Rohm, o amigo mais
chegado, havia, por conta própria, fugido para parlamentar com o inimigo!
296 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
O vôo de Rudolf Hess
A primeira notícia, tarde da noite de 10 de maio, de que Rudolf Hess partira
num avião de caça Messerschmitt-110 para a Escócia, atingiu Hitler, pelo que se
lembra o dr. Schmidt, ‘como se uma bomba tivesse caído em Berghof”.83O general
Keitel encontrou o Führer andando de um lado para outro em sua espaçosa sala de
trabalho, apontando o dedo para a testa e murmurando que Hess devia ter enlou
quecido.84“Preciso falar com Gõring imediatamente”, gritou ele. Houve, na manhã
seguinte, ruidosa discussão com Gõring e todos os Gauleiter do partido, ao procu
rarem “descobrir um meio” — as palavras são de Keitel — de apresentar aquele
embaraçoso acontecimento ao povo alemão e ao mundo. A tarefa não era fácil,
conforme Keitel atestou mais tarde, pois os britânicos, a princípio, mantiveram-se
silenciosos com relação ao seu visitante. Hitler e os que participaram da conferên
cia tiveram, durante certo tempo, esperança de que talvez houvesse esgotado a ga
solina do avião de Hess e ele tivesse caído no frio mar do Norte, afogando-se.
A primeira informação que chegou às mãos de Hitler veio numa carta de
Hess, um tanto incoerente, que lhe foi entregue por um mensageiro especial pou
cas horas depois que ele partira de Augsburg, às 17:45h de 10 de maio. “Nem
parece próprio de Hess. É de pessoa diferente. Alguma coisa deve ter acontecido
a ele (...) alguma perturbação mental”, disse Hitler a Keitel. Mas o Führer tinha
também suas desconfianças. Foi ordenada a prisão de Messerschmitt, de cujo
campo, em sua empresa, saíra o avião, e de dezenas de homens da divisão de seu
representante.
Se Hitler ficara confundido com a repentina partida de Hess, o mesmo se deu
com Churchill com a inesperada chegada.* Despertou também fortes suspeitas
em Stalin. Durante toda a guerra, o bizarro incidente permaneceu envolto em
mistério. Somente foi esclarecido no julgamento de Nuremberg, do qual Hess foi
um dos réus. Vamos descrever sucintamente os fatos.
Hess, que sempre fora um trapalhão, não tão parvo quanto Rosenberg, voou
por conta própria para a Escócia com a ilusão de que poderia conseguir um acor
do para a paz. Conquanto iludido, agira sinceramente — parece não haver razão
* Churchill descreveu pitorescamente como recebeu a notícia naquele sábado, tarde da noite, numa
visita ao interior, e como a julgou demasiado fantástica para que nela pudesse acreditar. {The Grand
Alliance, p. 50-5).
“ b a r b a r o s s a ”: a VEZ DA RÚSSIA 297
para dúvidas. Ele conhecera o duque de Hamilton em Berlim, em 1936, por oca
sião dos jogos olímpicos; e foi a 19 quilômetros da propriedade do duque, na Es
cócia, que — tão eficiente era sua pilotagem — saltou do Messerschmitt de pára-
quedas, caindo são e salvo no solo. Pediu a um sitiante que o encaminhasse ao
lorde escocês. Aconteceu que Hamilton, comandante de um grupo de esquadri
lhas da Real Força Aérea, naquela noite de sábado, estava de serviço numa sala do
setor de operações, e havia percebido o avião Messerschmitt ao largo da costa
quando o aparelho apareceu logo depois das dez horas e caiu. Informaram-no,
uma hora depois, que o avião se destroçara e incendiara, e que o piloto, que havia
saltado de pára-quedas e dizia chamar-se Alfred Horn, alegara ter vindo em “mis
são especial” para ver o duque de Hamilton. As autoridades britânicas providen
ciaram para que o encontro se realizasse na manhã seguinte.
Hess explicou ao duque que estava em “missão de humanidade, e que o
Führer não queria derrotar a Inglaterra e desejava cessar a peleja”. Disse
Hess, ainda, que o fato de ser aquela sua quarta tentativa para voar até
a Inglaterra — nas outras três tivera de voltar por causa das condições
atmosféricas — e de ser ele, afinal de contas, um ministro do gabinete
do Reich demonstrava “sua sinceridade e a disposição da Alemanha de
estabelecer a paz”. Nessa entrevista, como nas subseqüentes, Hess não
hesitou em afirmar que a Alemanha ganharia a guerra e que, continuasse
ela, a Inglaterra ficaria em situação terrível. Portanto — disse — seria
preferível que seus anfitriões aproveitassem sua presença para negociar
a paz. Estava o fanático nazista tão certo de que os britânicos anuiriam
em parlamentar com ele que pediu ao duque que solicitasse “ao rei que
lhe desse livramento condicional, porque viera desarmado e por sua
livre e espontânea vontade”.85 Pediu, depois, ser tratado com o respeito
devido a um membro de gabinete.
As entrevistas subseqüentes, salvo uma, foram conduzidas do lado dos britâ
nicos por Ivone Kirkpatrick, a inteligente ex-primeira secretária da embaixada
britânica em Berlim, cujos relatórios confidenciais foram mais tarde apresenta
dos ao tribunal de Nuremberg.86 Hess transmitiu a essa sofisticada estudiosa da
Alemanha nazista suas propostas de paz, após repetir, como papagaio, as explicações
298 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
de Hitler sobre todas as agressões nazistas, desde a Áustria até a Escandinávia e
os Países Baixos, e de insistir que a Inglaterra seria responsável pela guerra e cer
tamente a perderia se não a fizesse cessar agora. Não passava do que Hitler insis
tira junto a Chamberlain — sem êxito — na véspera de seu ataque à Polônia: que
a Inglaterra devia dar mão livre à Alemanha, na Europa. Em troca, a Alemanha
dar-lhe-ia ‘completa liberdade de ação no império”. As antigas colônias alemãs
deviam ser devolvidas e, naturalmente, a Inglaterra teria que celebrar a paz com
a Itália.
Finalmente, quando íamos sair da sala [relatou Kirkpatrick], Hess fez
ainda uma observação: declarou que tinha esquecido de salientar que
ficava entendido que as negociações para aquela proposta somente se
riam travadas pela Alemanha com outro governo inglês, e não com o
atual. O sr. Churchill, que havia planejado a guerra desde 1936, e seus
colegas que se tinham entregado à sua política de guerra, não eram
pessoas com as quais o Führer poderia negociar.
Para um alemão que tinha chegado até aquele ponto da luta selvagem, no par
tido nazista e depois no Terceiro Reich, Rudolf Hess, como podiam atestar todos
que o conheceram, mostrou-se singularmente simplório. Evidencia-se, pelos re
gistros das entrevistas, que ele esperava ser recebido imediatamente como impor
tante emissário para negociações de paz — senão por Churchill, pelo menos pelo
“partido da oposição”, do qual julgava fosse o duque de Hamilton um dos chefes.
Quando seus contatos com o mundo oficial britânico continuaram restritos a
Kirkpatrick, tornou-se belicoso e ameaçador. Numa entrevista realizada no dia 14
de maio, descreveu à cética diplomata as horríveis conseqüências que adviriam à
Inglaterra se ela prosseguisse com a guerra. Haveria logo — disse — um terrível e
total bloqueio das Ilhas Britânicas.
Era inútil [falou Hess a Kirkpatrick] todos ali imaginarem que a In
glaterra poderia capitular e, do império, travar a guerra. Era intenção de
Hitler, em tal eventualidade, continuar o bloqueio da Inglaterra (...)
de modo que teríamos que fazer face à morte deliberada da população
das ilhas, pela fome.
“b a r b a r o ss a ”: a vez DA RÚSSIA 299
Hess insistiu em que as conversações, para cuja realização tanto se arrisca
ra, fossem atendidas imediatamente. “Seu primeiro vôo”, conforme explicou a
Kirkpatrick, “foi feito com a intenção de dar-nos uma oportunidade para ence
tarmos as conversações sem haver perda de prestígio. Se rejeitássemos esse ense
jo, seria prova evidente de que não desejávamos um acordo com a Alemanha, e,
nesse caso, Hitler teria o direito (de fato, seria seu dever) de destruir-nos com
pletamente e de manter-nos, depois da guerra, em permanente sujeição.” Hess
insistiu em que fosse limitado o número de pessoas que deviam empreender as
negociações.
Como ministro do Reich, ele não podia colocar-se na posição de ver-se,
sozinho, às voltas com comentários e perguntas de um grande número
de pessoas.
E com essa nota ridícula terminaram as conversações no que dizia respeito a
Kirkpatrick. Mas — o que causa surpresa — o gabinete britânico, segundo escre
veu Churchill,87 “convidou” lorde Simon para entrevistar Hess, em 10 de junho.
De acordo com a declaração que, em Nuremberg, fez o advogado do representan
te do chefe nazista, Simon prometeu encaminhar ao governo britânico a proposta
de paz de Hess.*88
Os motivos de Hess são claros. Desejava, sinceramente, a paz com a Inglaterra.
Não tinha a menor sombra de dúvida de que a Alemanha venceria a guerra e
destruiria o Reino Unido, a menos que se concluísse imediatamente a paz. Havia,
decerto, outros motivos. A guerra deixara apagada sua pessoa; dirigir o partido
nazista como representante de Hitler, durante a guerra, era uma posição insípida
e não muito importante. O importante, agora, era dirigir a guerra e os negócios
estrangeiros. Eram essas as atividades que prendiam a atenção do Führer, com
exclusão de tudo o mais, e que ressaltavam as figuras de Gõring, Ribbentrop,
Himmler, Goebbels e os generais. Hess sentia-se frustrado e enciumado. Como
restabelecer sua antiga posição junto ao chefe amado e no país, senão realizando
um brilhante e ousado feito de habilidade política, realizando sozinho a paz entre
a Alemanha e a Inglaterra?
* Em Nuremberg, Hess disse ao tribunal que lorde Simon se havia apresentado a ele como"dr. Guthrie"
e declarara:"Venho com autorização do governo e estarei disposto a discutir com o senhor, tanto quan
to parecer conveniente, tudo que desejar dizer para informação do governo."89
300 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Aquele homem de sobrancelhas hirsutas, representante do Führer; à feição de
alguns outros figurões nazistas — Hitler e Himmler inclusive — acabara acredi
tando piamente em astrologia. Em Nuremberg, confiou ao psiquiatra americano
da prisão, dr. Douglas M. Kelley, que, no fim de 1940, um de seus astrólogos leu
nos astros que ele estava predestinado a estabelecer a paz. Relatou, também, como
seu antigo mentor, o professor Haushofer, o Geopolitiker de Munique, o vira num
sonho atravessando as salas dos castelos ingleses, fazendo a paz entre as duas
grandes nações nórdicas.90 Para um homem que não passara da adolescência
mental, isso era uma questão empolgante e, sem dúvida, auxiliou para que Hess
empreendesse sua fantástica missão junto à Inglaterra.
Em Nuremberg, um dos promotores britânicos sugeriu ainda outra razão: que
Hess voara para a Inglaterra a fim de tentar obter um acordo de paz para que a
Alemanha tivesse apenas uma única frente de guerra quando atacasse a União
Soviética. O promotor russo declarou ao tribunal que tinha certeza de que era
essa a razão. E o mesmo era o parecer de Joseph Stalin, cujas enormes desconfian
ças naquela crítica ocasião parecem ter-se concentrado não na Alemanha, como
deviam, porém na Inglaterra. A chegada de Hess na Escócia convenceu-o de que
se arquitetava alguma trama profunda entre Churchill e Hitler, trama que daria à
Alemanha a mesma liberdade para atacar a União Soviética que o ditador russo
havia dado ao Führer para assaltar a Polônia e o Ocidente. Quando, três anos
mais tarde, o primeiro-ministro britânico, então em sua segunda visita a Mos
cou, procurou convencer Stalin da verdade, ele simplesmente não acreditou.
Ficou mais ou menos claro nos interrogatórios conduzidos por Kirkpatrick, que
procurara sondar o líder nazista sobre as intenções de Hitler a respeito da Rússia,
que Hess não estava a par da Operação Barbarossa, ou, se estava, ignorava se ela
era iminente.
Os dias que se seguiram à partida de Hess figuram entre os mais embaraçosos
da vida de Hitler. Percebeu ele que o prestígio de seu regime ficara seriamente
abalado com o vôo do mais íntimo colaborador. Como explicaria o fato ao povo
alemão e ao mundo? O interrogatório dos membros da entourage de Hess, que
haviam sido presos, convenceu o Führer de que não houvera deslealdade para
com ele e, por certo, nenhum complô; e que seu lugar-tenente havia simplesmen
te enlouquecido. Decidiu-se em Berghof, depois que os britânicos tivessem con
firmado a chegada de Hess, oferecer essa explicação ao público. Logo depois, a
‘b a r b a r o s s a ” : a vez DA RÚSSIA 301
imprensa alemã obedientemente publicava breves notícias de que Hess, outrora o
grande astro do nacional-socialismo, transformara-se em “idealista desiludido,
tresloucado e confuso, atormentado por alucinações cujas causas se atribuíam a
ferimentos recebidos na Grande Guerra”.
Parecia [disse o primeiro comunicado da imprensa oficial] que o ca
marada do partido, Hess, vivia num estado de alucinação, em conse
qüência da qual achou que podia conseguir um entendimento entre a
Inglaterra e a Alemanha (...) Isso, porém, não terá efeito algum sobre
a continuação da guerra imposta ao povo alemão.
Particularmente, Hitler deu instruções no sentido de Hess ser fuzilado assim
que voltasse,* e, publicamente, destituiu o antigo camarada de todos os cargos,
substituindo-o, como seu representante no partido, por Martim Bormann, perso
nagem mais sinistro e mais servil. O Führer esperava que esse esquisito episódio
fosse logo esquecido, e seus pensamentos não demoraram em se voltar para o
ataque contra a Rússia, que não estava muito distante.
Os apuros do Kremlim
A despeito de todas as provas quanto às intenções de Hitler — a concentração
das forças alemãs na Polônia Oriental; a presença de um milhão de soldados
nazistas ali nos Bálcãs; a conquista da Iugoslávia e da Grécia pela Wehrmacht; e
a ocupação da Romênia, da Bulgária e da Hungria —, os homens do Kremlin, so
bretudo Stalin, conquanto reputados como fortes realistas, esperavam cegamente
* Hess, uma triste e alquebrada figura em Nuremberg, onde, durante uma parte do processo, simulou
uma amnésia total — seu espírito ficara certamente afetado —, sobreviveu a Hitler. Foi condenado à
prisão perpétua pelo Tribunal Internacional, escapando da condenação à morte em virtude de seu
colapso mental. Descrevi sua presença ali em EndofaBerlin Diary [Fim de um diário de Berlim].
Os britânicos trataram-no como prisioneiro de guerra, pondo-o em liberdade em 10 de outubro de
1945, para que pudesse ser julgado em Nuremberg. Durante seu tempo de prisão na Inglaterra, quei
xou-se amargamente por lhe serem negados "todos os privilégios que se reservam aos diplomatas", os
quais constantemente exigia. Seu espírito, já não muito equilibrado, começou a piorar, e ele teve lon
gos períodos de amnésia. Declarou ao dr. Kelley que, durante sua internação, tentara duas vezes suici
dar-se. Tinha se convencido, disse, de que os britânicos estavam procurando envenená-lo.
302 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
que, de um modo ou de outro, a Rússia ainda escapasse da fúria do tirano na
zista. As suspeitas que naturalmente nutriam não podiam deixar de ser alimen
tadas pelos fatos que vinham à luz, e o crescente ressentimento ante os movi
mentos de Hitler, no sudeste da Europa, tampouco podia ser eliminado. Há,
entretanto, algo irreal, quase inacreditável e completamente grotesco nas trocas
de mensagens diplomáticas, entre Moscou e Berlim, naquelas semanas da pri
mavera (exaustivamente registradas nos documentos nazistas apreendidos),
nas quais os alemães inabilmente procuravam ludibriar o Kremlin até o fim, e
os russos pareciam incapazes de perceber toda a realidade e de agir a tempo.
Embora protestassem contra a entrada das tropas alemãs na Romênia e na
Bulgária e, depois, contra o ataque à Iugoslávia e à Grécia, como sendo uma vio
lação do pacto nazi-soviético e uma ameaça aos “interesses da segurança”, os so
viéticos se esforçaram por apaziguar Berlim ao aproximar-se a data do ataque
alemão. Stalin, pessoalmente, tomou a iniciativa nesse ponto. Em 13 de abril de
1941, o embaixador von der Schulenburg telegrafou uma interessante mensagem
a Berlim, narrando como, por ocasião da partida de Moscou, naquela noite, do
ministro das Relações Exteriores do Japão, Yosuke Matsuoka, Stalin se mostrava
“extraordinariamente amistoso” não só para com o japonês como também para
com os alemães. Na estação ferroviária
Stalin chamou-me em público [telegrafou Schulenburg] (...)colocou o
braço em volta de meus ombros e disse: “Precisamos permanecer ami
gos, e o senhor deve agora fazer tudo para esse fim!” Virou-se, pouco
depois, para o adido militar em exercício, coronel Krebs, e, asseguran
do-se em primeiro lugar de que ele era alemão, disse-lhe: “Permanece
remos seus amigos tanto nas horas boas como nas más!”91
Três dias depois, o adido alemão em Moscou, Tippelskirch, telegrafou a Ber
lim acentuando que aquela demonstração, na estação, monstrava a atitude amiga
de Stalin para com a Alemanha e que isso era de especial importância “em vista
dos rumores que corriam persistentemente de que era iminente um conflito en
tre a Alemanha e a União Soviética”.92 No dia anterior, Tippelskirch informara
Berlim de que o Kremlin aceitaria incondicionalmente, após meses de debates, as
propostas alemãs para o acordo sobre a fronteira entre os dois países, do rio
“b a rb a ro ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 303
Igorka até o mar Báltico. “A atitude complacente do governo soviético”, disse ele,
4parece muito extraordinária.”93 Certamente era, dado o que se estava preparan
do em Berlim.
Ao abastecer de importantes matérias-primas a Alemanha bloqueada, o go
verno soviético continuara a ser igualmente complacente. Em 5 de abril de 1941,
Schnurre, que se achava a cargo das negociações comerciais com Moscou, infor
mou jubiloso aos chefes nazistas que, após o retardamento nas entregas russas em
janeiro e fevereiro de 1941, devido ao “resfriamento das relações políticas”, elas
haviam subido rapidamente em março, especialmente as de cereais, petróleo,
manganês e metais preciosos e não-ferrosos”.
O tráfego pela Sibéria [acrescentou ele] está se processando favoravel
mente, como de costume. A pedido nosso, o governo soviético colocou
até mesmo um trem especial de carga à nossa disposição para o trans
porte de borracha, na fronteira da Manchúria.94
Seis semanas depois, em 15 de maio, Schnurre informava que os russos pres-
timosamente haviam acrescentado vários trens de carga especiais a fim de que 4
mil toneladas de borracha em estado natural, de que se tinha grande necessidade,
pudessem ser despachadas para a Alemanha pela estrada de ferro da Sibéria.
As quantidades de matérias-primas contratadas estão sendo despacha
das pontualmente pelos russos, a despeito do pesado encargo que isso
impõe a eles (...) Tenho a impressão de que poderíamos fazer exigências
de ordem econômica a Moscou, as quais ultrapassariam as disposições
do tratado de 10 de janeiro, destinadas a assegurar mantimentos e ma
térias-primas à Alemanha acima das quantidades contratadas.95
As remessas de maquinaria para a Rússia estavam se atrasando, observou Sch
nurre, mas ele não parecia preocupar-se com isso, uma vez que os russos não se
incomodavam. Todavia, em 15 de maio, mostrou-se inquieto com outro fator:
“Os inúmeros rumores de um iminente conflito russo-germânico estão criando
dificuldades”, queixou-se, culpando as fontes oficiais alemãs. Extraordinariamente,
304 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
as dificuldades, explicou Schnurre num longo memorando ao Ministério das
Relações Exteriores, não partiam da Rússia, porém das firmas industriais alemãs,
as quais — disse — estavam procurando retirar-se dos contratos que haviam assi
nado com os russos.
Cumpre aqui ressaltar que Hitler se esforçava por contestar os rumores, mas,
ao mesmo tempo, estava ativamente procurando convencer os generais e os altos
funcionários de que aumentava, cada vez mais, o perigo de a Alemanha ser ataca
da pela Rússia. Conquanto os generais, dadas as informações que provinham de
seu próprio serviço secreto militar, não acreditassem, era tal o fascínio que Hitler
exercia sobre eles que, depois da guerra, Halder, Brauchitsch, Manstein e outros
(menos Paulus, que parece ter sido mais sincero) afirmaram que uma concentra
ção militar soviética na fronteira se havia tornado muito ameaçadora no início
daquele verão.
O conde von der Schulenburg, que viera de Moscou para uma breve licença,
conferenciou com Hitler em Berlim, no dia 28 de abril, e procurou convencê-lo
das intenções pacíficas da Rússia. “A Rússia”, tentou explicar, ‘está muito apreen
siva com esses rumores que anunciam um ataque da Alemanha contra ela. Não
posso acreditar que a Rússia venha a atacar a Alemanha (...) Se Stalin não pôde
tomar o partido da Inglaterra e da França em 1939, quando ambos os países ainda
estavam fortes, certamente não irá tomar hoje tal decisão, quando a França está
destruída e a Inglaterra fortemente golpeada. Ao contrário, estou convencido de
que Stalin está pronto a fazer-nos ainda novas concessões”.
O Führer fingiu ceticismo. Havia sido prevenido, disse, “pelos acontecimentos
na Sérvia (...) Que diacho se apossara dos russos para que fossem concluir aquele
pacto de amizade com a Iugoslávia?”, perguntou.* Era verdade que não acreditava
— disse — que “a Rússia pudesse vir a atacar a Alemanha”. Contudo, concluiu, era
obrigado a acautelar-se. Hitler não informou seu embaixador junto à União So
viética dos planos que tinha em vista para aquele país, e Schulenburg, um sincero
e decente alemão da velha escola, ignorou-os até o último momento.
* Em 5 de abril, na véspera do ataque alemão contra a Iugoslávia, o governo soviético concluiu apressa
damente um tratado de não-agressão e amizade com o novo governo iugoslavo, aparentemente numa
desesperada tentativa de afastar Hitler de seus propósitos. Molotov havia informado Schulenburg sobre
o pacto na noite anterior. O embaixador exclamou que "a ocasião era muito infeliz" e procurou conven
cer os russos de que, ao menos, adiassem a assinatura do tratado; nada, porém, conseguiu.96
“b a r b a r o ssa ”: a v ez da RÚSSIA 305
Stalin também ignorava o que Hitler estava tramando; não, porém, os sinais
ou os avisos. Em 22 de abril, o governo soviético protestou formalmente contra
oitenta casos de violação de fronteiras pelos aviões nazistas, que declarou terem-
se verificado no período de 27 de março a 18 de abril, fornecendo relatos minu
ciosos sobre cada um deles. Num desses casos — disse — foram encontrados em
um avião alemão de reconhecimento, que havia aterrado nas proximidades de
Rovno em 15 de abril, uma máquina fotográfica, rolos de filmes já utilizados e um
mapa rasgado dos distritos situados na parte ocidental da URSS, “tudo isso evi
denciando o objetivo da tripulação desse avião”. Mesmo no protesto, porém, os
russos mostraram-se conciliadores. Deram às tropas da fronteira — dizia a nota
— “ordem de não atirar contra os aviões alemães que sobrevoassem o território
soviético, contanto que tais vôos não ocorressem com muita freqüência”.97
Stalin tomou novas medidas conciliatórias no princípio de maio. Para agradar
Hitler, expulsou os representantes diplomáticos da Bélgica, Noruega, Grécia e até
mesmo da Iugoslávia em Moscou, e fechou suas legações. Reconheceu o governo
pró-nazi de Rashid Ali, no Iraque. Manteve sob o mais estrito controle a impren
sa soviética, a fim de evitar qualquer provocação contra a Alemanha.
Essas manifestações das intenções do governo de Stalin [telegrafou
Schulenburg a Berlim em 12 de maio] destinam-se (...) a aliviar a ten
são entre a União Soviética e a Alemanha, e a criar uma atmosfera me
lhor para o futuro. Precisamos ter em mente que Stalin, pessoalmente,
tem sempre defendido a existência de relações amigáveis entre a Ale
manha e a União Soviética.98
Embora Stalin fosse há muito tempo o ditador absoluto da União Soviética,
era essa a primeira vez que Schulenburg mencionara, em suas mensagens, a ex
pressão “governo de Stalin”. Havia boa razão para isso. Em 6 de maio, assumira a
presidência do conselho dos Comissários do Povo, o cargo de primeiro-ministro,
substituindo Molotov, que permaneceu como comissário dos Negócios Estrangei
ros. Era a primeira vez que o poderosíssimo secretário do Partido Comunista as
sumia um cargo governamental, e a reação geral no mundo foi que isso significa
va ter a situação se tornado tão séria para a União Soviética, especialmente em
suas relações com a Alemanha nazista, que somente Stalin poderia atender a ela
306 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
como chefe nominal do governo. Era óbvia esta interpretação; mas havia outra
não tão clara que o astuto embaixador alemão em Moscou assinalou prontamente
a Berlim.
Stalin — informou ele — estava descontente com o agravamento das relações
germano-soviéticas e culpara a inábil diplomacia de Molotov por muito daquela
situação.
Em minha opinião [disse Schulenburg] pode-se presumir com certeza
que Stalin resolveu atingir um objetivo de formidável importância na
política exterior (...) o que espera conseguir com seus esforços pessoais.
Acredito firmemente que, numa situação internacional que ele consi
dera muito séria, está decidido a preservar a União Soviética de um
conflito com a Alemanha."
Não percebia o astuto ditador soviético a essa altura — meados de maio de
1941 — que isso era um objetivo impossível, nada havendo que pudesse fazer
para atingi-lo, salvo uma abjeta capitulação a Hitler? Conhecia seguramente o
significado da conquista da Iugoslávia e da Grécia por Hitler, da presença de
grandes massas de tropas alemãs na Romênia e na Hungria, em suas fronteiras a
sudoeste, e da concentração da Wehrmacht, na Polônia, em sua fronteira ociden
tal. Os persistentes rumores, na própria Moscou, certamente chegaram até ele.
Em princípio de maio, o que Schulenburg descrevera numa mensagem do segun
do dia desse mês como “rumores de uma iminente e definitiva explicação de or
dem militar entre a Alemanha e a Rússia”, estava de tal modo fervendo na capital
soviética que ele e seus funcionários da embaixada alemã se viram em dificulda
des para combatê-los.
Queiram ter em mente [aconselhou a Berlim] que as tentativas para
neutralizar tais rumores, aqui em Moscou, tornam-se forçosamente
inúteis, uma vez que eles procedem incessantemente da Alemanha, e
que todo viajante que vem a Moscou ou passa pela capital, não somen
te os traz, como, também, chega a confirmá-los, citando fatos.100
O veterano embaixador, ele mesmo, já começava a ter suas desconfianças. Ber
lim deu-lhe instruções para que negasse os rumores e espalhasse a notícia de que
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s ia 307
não só não havia concentração de tropas alemãs nas fronteiras russas, como até
forças consideráveis (oito divisões, disseram-lhe para sua “informação pessoal”)
estavam sendo transferidas “do leste para o oeste”.101Essas instruções talvez apenas
viessem a confirmar a inquietação do embaixador, pois nessa ocasião a imprensa
de todo o mundo começava a trombetear a concentração militar alemã ao longo
das fronteiras soviéticas.
Muito antes disso, porém, já Stalin havia recebido advertências muito especí
ficas sobre os planos de Hitler e, ao que parece, não lhes deu atenção. A mais
grave partiu do governo dos Estados Unidos.
No começo de janeiro de 1941, o adido comercial norte-americano em Ber
lim, Sam Woods, enviou um relatório confidencial ao Departamento de Estado
dizendo que soubera, de fontes alemãs fidedignas, que Hitler estava fazendo pla
nos para atacar a Rússia na primavera. Era uma longa e minuciosa mensagem que
descrevia o plano de ataque elaborado pelo Estado-maior geral (o que demons
trou ser muito exato) e os preparativos que estavam sendo feitos para a exploração
econômica da União Soviética quando fosse conquistada.*
O secretário de Estado Cordell Hull pensou, a princípio, que Woods tivesse
sido vítima de uma vigarice dos alemães. Chamou J. Edgar Hoover, chefe do De
partamento Federal de Investigações, que leu o relatório e julgou-o autêntico.
Woods havia citado algumas de suas fontes, nos vários ministérios de Berlim e
no Estado-maior geral alemão. Fizeram-se averiguações, e ficou confirmado em
Washington que se tratava de homens que deviam saber o que estava acontecendo
* Sam Woods, um amável extrovertido cujos conhecimentos sobre história e política não eram notá
veis, parece-nos — a nós que o conhecíamos e apreciávamos — o último homem na embaixada norte-
americana que viesse a receber informações secretas de tal parte. Mas Cordell Hull confirmou o caso
em suas memórias e revelou detalhes. Woods — relata o finado secretário de Estado — tinha um ami
go alemão, antinazista, que mantinha contatos nas altas esferas dos ministérios, do Reichsbank e do
partido nazista. Já em agosto de 1940, esse amigo informou-o sobre conferências que se estavam
realizando no quartel-general de Hitler, relativas a preparativos para um ataque contra a União Sovié
tica. Desse tempo em diante, o informante manteve o adido comercial a par do que transpirava no
Estado-maior geral e entre as pessoas que projetavam a espoliação econômica da Rússia. Para evitar
que fossem descobertos, Woods encontrava-se com seu informante em vários cinemas de Berlim e, na
escuridão, recebia dele as informações. (Ver The Memoirs of Cordell Hull, p. 967-8).
Deixei Berlim em dezembro de 1940. George Kennan, o mais brilhante funcionário do Departamento
de Estado que servia na embaixada, que lá permanecera, informa-me que a embaixada soubera, de
várias fontes, do ataque que ia ser desfechado contra a Rússia. Duas ou três semanas antes do assalto
— disse ele — , o cônsul dos Estados Unidos em Kõnigsberg, Kuykendall, transmitiu um relatório no
qual dava, com exatidão, o dia do início do assalto.
308 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
e que eram antinazistas; daí terem dado com a língua nos dentes. A despeito das
tensas relações então existentes entre os governos soviético e norte-americano,
Hull resolveu informar os russos. Pediu ao subsecretário de Estado Summer Wel
les que comunicasse o teor do relatório ao embaixador Constantine Oumansky, o
que foi feito em 20 de março.
O sr. Oumansky empalideceu bastante [escreveu Welles mais tarde].
Guardou silêncio por um momento, dizendo depois apenas o seguinte:
“Compreendo perfeitamente a gravidade da mensagem que o senhor
me entregou. Meu governo ficar-lhe-á reconhecido pela confiança que
lhe dispensa. Vou informá-lo imediatamente sobre o assunto de nossa
conversa.”102
Se se sentiu reconhecido, se realmente acreditou nessa informação dada a
tempo, não fez qualquer alusão ao governo norte-americano. De fato, conforme
o secretário de Estado Cordell Hull relatou em suas memórias, Moscou tornou-
se hostil e mais agressiva, porque o apoio dos Estados Unidos à Inglaterra impos
sibilitava que se suprisse a Rússia de todos os materiais de que necessitava. Se
gundo Hull, o Departamento de Estado, apesar disso, tendo recebido mensagens
de suas legações em Bucareste e Estocolmo na primeira semana de junho — in
formando que a Alemanha invadiria a Rússia dentro de 15 dias — expediu cópias
delas ao embaixador Steinhardt, em Moscou, que as entregou a Molotov.
Churchill também procurou prevenir Stalin. Em 3 de abril, pediu a seu embai
xador em Moscou, sir Stafford Cripps, que entregasse um memorando pessoal
ao ditador, assinalando a importância do movimento de tropas alemãs no sul
da Polônia, de que tivera conhecimento por um agente britânico. A demora de
Cripps em entregar a mensagem foi um fato que Churchill ainda lamentou quan
do escreveu sobre o incidente, mais tarde, em suas memórias.103
Antes do fim de abril, Cripps sabia a data estabelecida para o ataque alemão, e
os alemães não ignoravam que ele soubesse. Em 24 de abril, o adido naval alemão
em Moscou enviou uma curta mensagem ao Alto-Comando naval, em Berlim:
O embaixador britânico prediz ser 22 de junho o dia do desencadea-
mento da guerra.104
‘b a r b a r o s s a ” : a v e z d a r ú s s ia 309
Essa mensagem, que figura entre os documentos apreendidos aos nazistas, foi
registrada no diário da marinha alemã no mesmo dia, com um ponto de exclama
ção no fim.105Os almirantes ficaram surpreendidos com a exatidão da predição do
embaixador britânico. O pobre adido naval que, à semelhança do embaixador em
Moscou, não foi deixado a par do segredo, acrescentou em seu despacho que
aquilo era4evidentemente um absurdo”.
Molotov devia ter imaginado a mesma coisa. Um mês depois, em 22 de maio,
recebeu Schulenburg para discutir vários assuntos. “Como sempre, ele mostrou-
se amável, muito confiante e bem informado”, comunicou o embaixador a Berlim,
acrescentando que Stalin e Molotov, “os dois homens mais fortes na União Sovié
tica”, esforçavam-se sobretudo para evitar um conflito com a Alemanha.106
Num ponto o embaixador, geralmente tão perspicaz, errou completamente.
Molotov, naquela ocasião, não estava certamente “bem informado”. Tampouco o
embaixador.
O nível da desinformação em que o comissário dos Negócios Estrangeiros
da Rússia demonstrava achar-se foi concretizado em 14 de junho de 1941, ape
nas uma semana antes de a Alemanha desfechar o golpe. Molotov chamou
Schulenburg nessa noite, entregando-lhe o texto de uma declaração da Tass que,
disse ele, estava sendo transmitido naquela mesma noite e ia ser publicado nos
jornais na manhã seguinte.107Culpando Cripps pessoalmente por “espalhar boa
tos de uma guerra iminente entre a URSS e a Alemanha pelos jornais ingleses e
estrangeiros”, essa declaração oficial do governo soviético tachava-os de “evidente
absurdo (...) uma grosseira manobra de propaganda das forças que se tinham
alinhado contra a União Soviética e a Alemanha”. A declaração acrescentava:
Na opinião dos círculos soviéticos, os boatos sobre a intenção da Ale
manha (...) de desfechar um ataque contra a União Soviética são com
pletamente destituídos de fundamento.
Mesmo os recentes movimentos de tropas alemãs dos Bálcãs para as fronteiras
soviéticas eram explicados no comunicado como “não tendo ligação com as rela
ções germano-soviéticas”. Quanto aos boatos de que a Rússia atacaria a Alema
nha, eram “falsos e insultuosos”.
Dois atos dos alemães, um no dia da publicação da comunicação — 15 de ju
lho — e outro no dia seguinte, ressaltam a ironia da notícia da Tass.
310 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
De Veneza, onde conferenciava com Ciano, Ribbentrop enviou uma mensa
gem secreta a Budapeste, em 15 de junho, prevenindo o governo húngaro para
“tomar providências a fim de proteger suas fronteiras”.
Em vista da pesada concentração de tropas russas na fronteira oriental
alemã, o Führer provavelmente será obrigado, o mais tardar no início
de junho, a esclarecer as relações germano-soviéticas e, nesse sentido, a
fazer certas exigências.108
Os alemães avisavam os húngaros a respeito, e não o seu principal aliado.
Quando, no dia seguinte, durante um passeio de gôndola pelos canais de Veneza,
Ciano interpelou Ribbentrop acerca dos boatos de um ataque alemão contra a
Rússia, o ministro das Relações Exteriores nazista respondeu:
“Caro Ciano, nada posso dizer ainda, porque todas as decisões estão encer
radas no espírito impenetrável do Führer. Uma coisa é certa, contudo: se
atacarmos a Rússia de Stalin, ela será riscada do mapa em oito semanas”.*
Enquanto o Kremlin, ingenuamente, preparava-se para irradiar ao mundo, em
14 de junho de 1941, que os boatos de um ataque alemão contra a Rússia não pas
savam de “evidente absurdo”, Adolf Hitler realizava no mesmo dia sua última gran
de conferência sobre a Operação Barbarossa com os principais oficiais da Wehr-
macht. O horário para a concentração de tropas a leste e seu desdobramento para
as posições de assalto havia sido posto em vigor em 22 de maio. Expediu-se uma
versão revisada do horário alguns dias depois.109É um documento longo e detalha
do. Mostra que, no começo de junho, não só estavam completos todos os planos
para o ataque à Rússia, como estava sendo observado a tempo e a hora todo o vas
to e complicado movimento de tropas, artilharia, carros blindados, aviões, navios
e abastecimento. Uma breve anotação no diário da marinha de guerra, em 29 de
maio, diz: “Começaram os movimentos preparatórios de navios de guerra para a
Barbarossa. Achavam-se terminadas as conferências com os Estados-maiores da
Romênia, da Hungria e da Finlândia; a Finlândia ansiava agora por conquistar
* Isso consta do último registro de Ciano, feito em 23 de dezembro de 1943, na cela 27 da prisão de
Verona, poucos dias antes de sua execução. Ele acrescentou que o governo italiano soube da invasão
da Rússia pelos alemães meia hora depois de ela ter começado. (Ciano Diaries, p. 583).
“b a r b a r o ss a ”: a v e z d a r ú s s ia 311
novamente o que lhe havia sido arrebatado pelos russos na guerra de inverno. Em
9 de junho, Hitler expediu, de Berchtesgaden, uma ordem convocando os coman-
dantes-em-chefe das três armas e os principais generais de campanha para uma
conferência final, em Berlim, no dia 14 de junho sobre a Operação Barbarossa.
A despeito da monstruosa tarefa, não só Hitler mas também seus generais se
mostraram confiantes ao examinar os mínimos detalhes da mais gigantesca ope
ração militar da História — um ataque total numa frente que se estendia por 2.400
quilômetros, do oceano Ártico até Petsamo, no mar Negro. Na véspera, Brau
chitsch havia regressado a Berlim de uma inspeção que fizera à concentração de
tropas no leste. Halder anotou em seu diário que o comandante-em-chefe do
exército estava satisfeitíssimo. Os oficiais e os soldados — disse ele — estão em
perfeita forma e preparados.
Essa última conferência militar, em 14 de junho, durou das 1lh até 18:30h. Foi
interrompida às 14h para o almoço, durante o qual Hitler dirigiu-se aos generais
com mais uma de suas pregações ardentes e estimuladoras que fazia na véspera
de uma batalha.110 Segundo Halder, foi “um discurso político compreensivo”, no
qual Hitler acentuou que precisava atacar a Rússia porque sua queda faria a Ingla
terra desistir. Mas o sanguinário Führer devia ter salientado algo mais, ainda.
Keitel contou-o, durante seu interrogatório no tribunal de Nuremberg:
O tema principal de Hitler era que se tratava de uma batalha decisiva
entre duas ideologias, e que os métodos que nós, como soldados, co
nhecíamos — os únicos admissíveis segundo as leis internacionais —,
deviam ser medidos por padrões completamente diferentes.
Em seguida — disse Keitel —, Hitler deu várias ordens no sentido de ser desen
cadeado na Rússia, por “meios brutais”, um terror sem precedentes.
“O senhor, ou qualquer outro general, levantou objeções a essas ordens?”, per
guntou o advogado do próprio Keitel.
“Não. Eu, pessoalmente, não fiz protesto algum”, respondeu o general. “Tam
pouco os outros generais”, acrescentou.*
* Hassell confirma-o. Escrevendo em seu diário dois dias depois, em 16 de junho, observa: "Brauchitsch
e Halder já concordaram com a tática de Hitler [na Rússia]. Deve o exército, assim, assumir o ônus dos
assassínios e incêndios que até então ficavam limitados às S.S."
312 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
É quase inconcebível, mas nem por isso deixa de ser verdade, que os homens
do Kremlin, mesmo que gozassem a fama de desconfiados, sagazes e obstinados,
e a despeito de todas as provas e todas as advertências que lhes eram dadas, não
compreendessem até o último momento que iam ser atacados e com uma força
que poderia quase destruir seu país.
Às 21:30h da agradável noite de verão de 21 de junho de 1941, nove horas
antes de ter sido determinado o início do ataque, Molotov recebeu o embaixador
alemão em seu gabinete, no Kremlin, e proferiu suas “fatuidades finais.* Após ci
tar novas violações das fronteiras pelos aviões alemães e dizer que havia instruído
o embaixador soviético em Berlim para que levasse esse fato à atenção de Ribben
trop, Molotov voltou a tratar de outro assunto que Schulenburg descreveu num
telegrama urgente à Wilhelmstrasse naquela mesma noite:
Havia indicações de que o governo alemão [dissera-lhe Molotov] se
mostrava descontente com o governo soviético. Havia até boatos de que
se achava iminente uma guerra entre os dois países (...) O governo so
viético não podia compreender as razões do descontentamento da Ale
manha (...) Ele muito apreciaria se eu pudesse dizer-lhe qual o motivo
que criou a presente situação nas relações russo-alemãs.
Respondi [acrescentou Schulenburg] que não podia responder a essa
questão devido à falta de informações sobre o assunto.111
Iria obtê-las logo, uma vez que pelas ondas aéreas entre Berlim e Moscou vi
nha uma longa mensagem em código, de Ribbentrop, datada de 21 de junho de
1941, marcada “Muito Urgente, Segredo de Estado, para o Embaixador Pessoal
mente”, a qual começava:
A princípio, os "conspiradores" nazistas acreditaram ingenuamente que as ordens para a implantação
do terror na Rússia pudessem chocar os generais e os fizessem unir-se à revolta contra o nazismo. Mas
em junho o próprio Hassell ficou desiludido. O registro em seu diário, nessa data, começa:
A série de conferências com Popitz, Goerdeler, Beck e Oster para considerar se certas ordens que os
comandantes do exército receberam (mas que ainda não expediram) bastariam para abrir os olhos dos
chefes militares à natureza do regime para o qual estão combatendo. Essas ordens dizem respeito às
medidas brutais que as tropas deverão tomar contra os bolcheviques quando a Rússia for invadida.
Chegamos à conclusão de que nada se podia esperar agora (...) Eles [os generais] enganavam a si mes
mos (...) Infelizes sargentos-ajudantes! {The von Hassell Diaries, p. 198-9).
* A expressão é de Churchill.
“ b a r b a r o ss a ”: a VEZ DA RÚSSIA 313
À recepção deste telegrama cumpre destruirdes todo o material em có
digo que ainda exista aí. O aparelho de rádio deverá ser inutilizado.
Peço-vos informar Herr Molotov, imediatamente, que tendes uma comuni
cação urgente a fazer-lhe (...) Rogo-vos declarar-lhe então o seguinte (...)
Era uma declaração familiar, repleta de mentiras e invencionices muito surra
das, nas quais Hitler e Ribbentrop há muito se tinham tornado peritos e que
tantas vezes haviam engendrado antes, para justificar cada novo ato de agressão
não provocada. Talvez — pelo menos é a impressão deste autor ao relê-la — ul
trapassasse todas as anteriores em desfaçatez e manhas. Enquanto a Alemanha
havia observado lealmente o pacto nazi-soviético — dizia —, a Rússia tinha-o
rompido repetidas vezes. A URSS havia praticado “sabotagem, terrorismo e es
pionagem” contra a Alemanha. “Combateu as tentativas da Alemanha de estabe
lecer uma ordem estável na Europa.” Conspirou com a Inglaterra, “para atacar as
tropas alemãs na Romênia e na Bulgária”. Ao concentrar “todas as forças russas
disponíveis numa longa frente, desde o Báltico até o mar Negro”, ameaçava com
isso o Reich.
Relatórios recebidos nos últimos dias [prosseguia] eliminavam as últi
mas dúvidas quanto ao caráter agressivo dessa concentração dos russos
(...) Além disso, há relatórios da Inglaterra referentes às negociações do
embaixador Cripps para uma colaboração política e militar mais estrei
ta entre a Inglaterra e a União Soviética.
Resumindo, o governo do Reich declara, portanto, que o governo so
viético, contrariamente às obrigações assumidas,
(1) não somente continuou como até intensficou suas tentativas para
minar a Alemanha e a Europa;
(2) tem adotado uma política exterior cada vez mais antigermânica;
(3) tem mantido todas as suas forças de prontidão na fronteira alemã.
Com isso, o governo soviético quebrou seus tratados com a Alemanha
e está prestes a atacar a Alemanha, da retaguarda, na sua luta pela vida.
O Führer ordenou, portanto, que as forças armadas alemãs se oponham
a essa ameaça com todos os meios à sua disposição.112
314 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
“Peço-vos não discutirdes sobre essa comunicação”, advertiu Ribbentrop a seu
embaixador no final da mensagem. Que poderia dizer o abalado e desiludido
Schulenburg, que devotara os melhores anos de sua vida para melhorar as rela
ções russo-alemães e sabia que o ataque contra a União Soviética não fora provo
cado e não tinha justificativa alguma? Chegando novamente ao Kremlin ao raiar
do dia, contentou-se em ler a declaração alemã.* Molotov, afinal aturdido, ouviu
em silêncio, até o fim, dizendo depois:
“É a guerra. O senhor acha que merecíamos isso?”
Àquela mesma hora do amanhecer, uma cena semelhante verificava-se na
Wilhelmstrasse, em Berlim. Durante toda a tarde do dia 21 de junho, o embaixa
dor soviético Vladimir Dekanozov estivera telefonando ao Ministério das Rela
ções Exteriores para pedir uma audiência a Ribbentrop, a fim de entregar-lhe seu
pequeno protesto contra novas violações das fronteiras pelos aviões alemães.
Disseram-lhe que o ministro se achava “fora da cidade”. Às 2h do dia 22 foi infor
mado de que Ribbentrop o receberia às 4h no Ministério. Ali o embaixador, que
havia sido representante do comissário dos Negócios Estrangeiros, um sequaz
de Stalin e quem arranjou a conquista da Lituânia, recebeu, à semelhança de
Molotov em Moscou, o maior choque de sua vida. O dr. Schmidt, que se achava
presente, descreveu o acontecimento:
Nunca vi Ribbentrop tão animado como naqueles cinco minutos, antes
da chegada de Dekanozov. Andava de um lado para outro na sala, como
um animal enjaulado (...)
Mandaram Dekanozov entrar, e ele, ignorando evidentemente que
qualquer coisa estivesse correndo mal, estendeu a mão para Ribben
trop. Sentamo-nos (...) e Dekanozov começou a expor, em nome do seu
governo, certas questões que precisavam ser esclarecidas. Mal havia co
meçado, quando Ribbentrop, com expressão dura, o interrompeu di
zendo: “Não é esse o caso, agora” (...)
* Assim terminou a carreira diplomática do veterano embaixador. Voltando para a Alemanha e força
do a aposentar-se, juntou-se ao círculo da oposição chefiado pelos generais Beck, Goerdeler, Hassell e
outros, tendo sido apontado, durante certo tempo, como o provável ministro das Relações Exteriores
de um governo anti-hitlerista. Hassell relatou que Schulenburg, em 1943, estava disposto a cruzar as
linhas russas a fim de conferenciar com Stalin sobre uma paz com um governo antinazista na Alema
nha. (The von Hassell Diaries, p. 321-2). Schulenburg foi detido e encerrado numa prisão depois da
conspiração de julho de 1944 contra Hitler, e executado pela Gestapo em 10 de novembro.
“ba rba ro ssa ”: a v e z d a r ú s s ia 315
O arrogante ministro nazista explicou qual era o caso. Deu ao embaixador
cópia do memorando que Schulenburg estava, naquele momento, lendo para Mo
lotov, e informou-o de que as tropas alemãs estavam naquele instante tomando
“contra-medidas militares” na fronteira soviética. O embaixador espantou-se —
diz Schmidt —, mas “recuperou depressa a calma e manifestou seu profundo pe
sar” pelos acontecimentos, dos quais culpou a Alemanha. “Levantou-se, curvou-
se ligeiramente e retirou-se sem um aperto de mão.”113
Terminara a lua-de-mel nazi-soviética. Às 3:30h de 22 de junho de 1941, meia
hora antes de encerrarem-se as formalidades diplomáticas no Kremlin e na
Wilhelmstrasse, o troar dos canhões de Hitler ao longo de centenas de quilôme
tros da frente destruiu-a para sempre.
Houve outro prelúdio diplomático para aquele conhoneio. Na tarde de 21 de
junho, Hitler achava-se sentado à mesa de trabalho em seu novo quartel-general
subterrâneo — Wolfsschanze (toca do lobo) —, nas proximidades de Rasten-
burg, numa obscura floresta da Prússia Oriental, e ditava uma longa carta que
dirigiria a Mussolini. Como se dera na preparação de todas as outras agressões,
não tivera suficiente confiança em seu aliado para mantê-lo a par do segredo.
Revelou-o somente no último momento. Sua carta é a prova mais evidente e
mais cabal que temos das razões determinantes daquele passo fatal que, durante
tanto tempo, intrigou o mundo e ia preparar o caminho para seu fim e o do Ter
ceiro Reich. A carta — é certo — está repleta das costumeiras mentiras e dos
subterfúgios que sempre procurava impingir até aos amigos. Nas entrelinhas,
porém, surge seu raciocínio fundamental e suas verdadeiras — conquanto errô
neas — idéias sobre a situação mundial ao começar oficialmente o verão de
1941, o segundo da guerra.
Duce!
Estou escrevendo esta carta num momento em que meses de ansiosas
deliberações e contínuas esperas, irritantes para os nervos, estão termi
nando na decisão mais difícil de minha vida.
Situação :* A Inglaterra perdeu esta guerra. À semelhança de uma pes
soa que se está afogando, procura agarrar-se ao que pode. Algumas
de suas esperanças, contudo, não são destituídas de certa lógica (...)
* Grifos de Hitler.
316 a guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
A destruição da França (...) fez com que os forjadores de guerra britâ
nicos dirigissem, constantemente, os olhos para o lugar onde procura
ram começar a guerra: a Rússia soviética.
Esses dois países, Rússia soviética e Inglaterra, acham-se igualmente inte
ressados em uma Europa (...) exaurida por uma longa guerra. Por trás
desses dois países encontra-se a União Norte-Americana, que os incita (...)
Hitler, em seguida, explicou que, com inúmeras tropas militares russas em sua
retaguarda, jamais poderia reunir forças — ‘especialmente no ar” — para desfe
char o ataque total contra a Inglaterra, para derrubá-la.
Realmente, todas as forças disponíveis encontram-se em nossas fron
teiras (...) Se as circunstâncias me obrigarem a empregar a força aérea
alemã contra a Inglaterra, haverá o perigo de a Rússia começar então
sua estratégia de extorsões, às quais eu teria que ceder em silêncio, sim
plesmente devido a uma sensação de inferioridade no ar (...) A Ingla
terra se sentiria então menos disposta a celebrar a paz, porque poderia
apoiar suas esperanças no parceiro russo. Essas esperanças devem, na
verdade, aumentar naturalmente com o progresso no preparo das for
ças armadas da Rússia. E, por trás disso, existem as remessas em massa,
dos Estados Unidos, que eles esperam receber em 1942 (...)
Após revolver constantemente o espírito, cheguei finalmente à decisão
de desfazer esse nó antes que venha a apertar mais (...) Minha perspec
tiva global é, agora, a seguinte:
1. Como sempre, não se pode confiar na França.
2. A própria África do Norte, no que diz respeito a suas colônias, Duce,
provavelmente esteja fora de perigo até o outono.
3. A Espanha está indecisa e — receio —somente tomará posição quan
do estiver decidido o resultado da guerra.
4. É fora de questão um ataque, antes do outono, contra o Egito (...)
5. É indiferente aos Estados Unidos entrarem ou não na guerra, mesmo
considerando o fato de eles apoiarem nosso inimigo com todo o pode
rio que são capazes de mobilizar.
6. A situação na própria Inglaterra é ruim; a provisão de mantimentos e
matéria-prima está se tornando cada vez mais difícil. O espírito marcial
“b a r b a r o ssa ”: a VEZ DA RÚSSIA 317
para guerra está, afinal de contas, vivendo apenas de esperanças. Essas
esperanças baseiam-se unicamente em duas suposições: Rússia e Esta
dos Unidos. Não temos meios de eliminar os Estados Unidos. Mas está
em nosso poder excluir a Rússia. A eliminação da Rússia significará ao
mesmo tempo um tremendo alívio para o Japão na Ásia Oriental e,
com isso, a possibilidade de uma ameaça mais forte às atividades dos
norte-americanos por meio de uma intervenção dos japoneses.
Dadas as circunstâncias, resolvi pôr um paradeiro à atuação hipócrita
do Kremlin.
A Alemanha, disse Hitler, não precisaria de quaisquer tropas italianas na Rús
sia. (Elas não partilhariam a glória de conquistar a Rússia, da mesma maneira que
não o fizeram ao conquistar a França). Mas a Itália — declarou — poderia “prestar
um auxílio decisivo” dando maior poderio a suas forças na África do Norte e
preparando-se “para marchar para a França no caso de ela violar o tratado”. Era
esta uma bela isca para o Duce, faminto por terras.
No tocante à guerra aérea contra a Inglaterra, permaneceremos na de
fensiva durante certo tempo (...)
Quanto à guerra no leste, Duce, ela será certamente difícil, nias não
alimento a menor dúvida quanto ao seu grande êxito. Espero, acima de
tudo, que nos seja possível assegurar uma base comum na Ucrânia para
o abastecimento de mantimentos, a qual nos possa fornecer suprimen
tos adicionais à medida que deles possamos necessitar no futuro.
Veio depois a desculpa por não ter avisado seu parceiro mais cedo.
Se esperei até este momento, Duce, para transmitir-vos esta informa
ção, é porque a própria decisão final somente será tomada hoje à noite,
às 19h (...)
Aconteça o que acontecer, Duce, nossa situação não poderá agravar-se
como resultado desse passo; somente poderá melhorar (...) Se a Ingla
terra, entretanto, não tirar quaisquer conclusões desses fatos penosos,
poderemos então, com nossa retaguarda protegida, concentrar-nos
com maior poderio na liquidação de nosso inimigo.
318 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
Hitler, por fim, descreveu sua grande sensação de alívio por ter tomado uma
decisão.
(...) Permiti-me acrescentar o seguinte, Duce. Depois de chegar, após
muita luta, a esta decisão, sinto-me de novo espiritualmente livre. A li
gação com a Rússia, a despeito de toda a sinceridade de nossos esforços
para conseguir uma conciliação final, era, entretanto, muitas vezes abor
recida para mim, pois de um modo ou de outro ela parecia desviar-se de
toda a minha origem, meus conceitos e antigas obrigações. Sinto-me
satisfeito, agora, por ter desembaraçado meu espírito desse tormento.
De vosso
Adolf Hitler114
Às 3h de 22 de junho, apenas meia hora antes do ataque das tropas alemãs, o
embaixador von Bismarck acordou Ciano em Roma para entregar-lhe a longa
missiva de Hitler, cujo texto o ministro das Relações Exteriores da Itália transmi
tiu depois, por telefone, a Mussolini, que se achava repousando em Riccione, em
sua casa de verão. Não era a primeira vez que o Duce era despertado de madruga
da por uma mensagem de seu parceiro do Eixo. Ressentiu-se por isso. “Nem meus
criados são por mim perturbados à noite”, irritou-se Mussolini com Ciano, “e os
alemães fazem-me saltar da cama a qualquer hora, sem a mínima consideração”.115
Apesar disso, assim que se sentiu bem desperto, deu ordens para que se preparas
se imediatamente uma declaração de guerra contra a União Soviética. Ficara
agora completamente prisioneiro dos alemães. Sabia-o e ressentia-se. “Espero
apenas uma coisa: que nesta guerra, no leste, os alemães percam muito de sua
arrogância”.116Mesmo assim, compreendia que seu próprio futuro dependia ago
ra das armas alemãs. Tinha certeza de que os alemães venceriam a Rússia, mas
esperava que, pelo menos, sofressem alguns reveses. Ele não podia saber, nem
suspeitava, como não o suspeitava nenhum outro no oeste, em ambos os lados,
que passariam por uma situação muito pior. Na manhã de 22 de junho, um domin
go, dia em que Napoleão atravessou o rio Niemen em 1812 na sua marcha para
Moscou, e exatamente um ano depois que a pátria de Napoleão — a França —
capitulara em Compiègne, os exércitos blindados e mecanizados de Hitler, até en
tão invencíveis, atravessaram também o Niemen e vários outros rios, penetrando
“b a r b a r o s s a ”: a v e z d a r ú s s i a 319
rapidamente na Rússia. O Exército Vermelho, a despeito de todos os avisos e si
nais de advertência, ficou — conforme o general Halder anotou em seu diário no
primeiro dia — “taticamente surpreso ao longo de toda a frente”.* As primeiras
pontes foram conquistadas intactas. De fato, diz Halder, em muitos lugares ao
longo da fronteira os russos não haviam estendido suas forças para a luta e foram
dominados antes de organizar a resistência. Centenas de aviões russos foram des
truídos nos aeródromos.** Em poucos dias, começaram a chegar dezenas de mi
lhares de prisioneiros; exércitos inteiros foram rapidamente cercados. Parecia
uma repetição da Feldzug in Polen.
“Não é exagero dizer”, anotou Halder, geralmente muito cauteloso, no dia 3 de
julho, em seu diário, depois de estudar os últimos relatórios do Estado-maior
geral, “que a Feldzug contra a Rússia seja vencida em 14 dias”. Estará terminada
em questão de semanas — acrescentou.
* Há uma anotação curiosa no diário de Halder sobre esse primeiro dia. Após mencionar que, ao meio-
dia, as estações de rádio russas — que os alemães estavam controlando — voltaram ao ar, escreveu ele:
"Eles pediram ao Japão que servisse de mediador nas diferenças políticas e econômicas que existiam
entre a Rússia e a Alemanha e permanecesse em ativo contato com o Ministério das Relações Exteriores
da Alemanha". Acreditava Stalin — nove horas depois do ataque — que de um modo ou de outro ainda
poderia contornar a situação?
** O general Günther Blumentritt, chefe do Estado-maior do 4* Exército, lembrou mais tarde que um
pouco depois da meia-noite do dia 21, quando a artilharia alemã já havia colocado alça zero contra
seus objetivos, o trem-expresso Berlim-Moscou passou pelas linhas alemãs às margens do rio Bug,
atravessou-o e chegou a Brest Litovsk"sem incidentes". Afigurou-se-lhe um "momento fantástico". Qua
se igualmente fantástico foi, para ele, a artilharia não responder até mesmo quando começou o assalto.
"Os russos", escreveu depois, "foram tomados inteiramente de surpresa em nossa linha de frente". Ao
alvorecer, postos de rádio alemães captaram mensagens da rede de rádio do exército russo. "Estão
atirando contra nós?" — cita Blumentritt como uma das mensagens dos russos. E veio a resposta do
quartel-general: "Vocês devem estar loucos. E por que sua mensagem não está em código?" (The Fatal
Decisions, publicado por Seymour Freidin e William Richardson).
CAPÍTULO 7
A reviravolta
No começo do outono de 1941, Hitler acreditava que a Rússia estava liquidada.
Em três semanas após o início de campanha do grupo de exércitos do centro,
do marechal-de-campo von Bock, com trinta divisões de infantaria e 15 divisões
panzer ou motorizadas, havia avançado de Bialystok até Smolensk. Moscou ficava
apenas 320 quilômetros mais além, a leste, ao longo da estrada que Napoleão ha
via tomado em 1812. Ao norte, o grupo de exércitos do marechal-de-campo von
Leeb, formado de 21 divisões de infantaria e seis divisões blindadas, movimenta-
va-se rapidamente pelos Estados bálticos rumo a Leningrado. Ao sul, o grupo de
exércitos do marechal-de-campo von Rundstedt, composto de 25 divisões de in
fantaria, quatro motorizadas, quatro alpinas e cinco panzer, avançava em direção
ao rio Dnieper e Kiev, capital da fértil Ucrânia, que Hitler cobiçava.
Tão Planmãssig (de conformidade com o plano) — na expressão dos comuni
cados do OKW — era o progresso dos alemães ao longo de uma frente de 1.600
quilômetros desde o Báltico até o mar Negro, e tão confiante se sentia o ditador
nazista de que o avanço continuaria, a passo acelerado, ao render-se ou dispersar-
se um exército russo atrás do outro, que em 14 de julho — apenas três semanas
depois da invasão — ele expediu uma diretiva informando que o esforço do exér
cito poderia ser ‘consideravelmente reduzido em futuro próximo” e que a produ
ção bélica seria concentrada em navios de guerra e especialmente aviões para a
Luftwaffe, para conduzir a guerra contra o último inimigo que restava, a Ingla
terra; e acrescentou: “E contra os Estados Unidos, se for o caso.”1No fim de setem
bro, determinou ao Alto-Comando que se preparasse para dar baixa em quarenta
divisões de infantaria, a fim de ser esse elemento humano utilizado na indústria.2
As duas maiores cidades da Rússia, Leningrado — que Pedro, o Grande havia
construído como capital no Báltico — e Moscou — a antiga e também agora a
capital dos bolcheviques — pareciam a Hitler prestes a cair. Em 18 de setembro,
ele expediu ordens muito estritas: “A capitulação de Leningrado ou de Moscou
A REVIRAVOLTA 321
não deve ser aceita mesmo que ofereçam.”3Deixou bem claro a seus comandantes,
numa diretiva de 29 de setembro, o que devia acontecer a ambas as cidades:
O Führer decidiu varrer da face da terra Petersburgo [Leningrado].* A
continuação da existência dessa grande cidade não interessará, uma vez
vencida a Rússia (...)
A intenção é aproximar-se da cidade e arrasá-la por meio de artilharia
e contínuos ataques aéreos (...)
Pedidos para que tomemos a cidade serão rejeitados, pois o problema
da sobrevivência da população e de abastecê-la de mantimentos não deve
ser resolvido por nós. Nesta guerra pela existência, não temos interesse
em manter até mesmo parte da população dessa grande cidade.4**
Naquela mesma semana, em 3 de outubro, Hitler regressou a Berlim e, num
discurso ao povo alemão, proclamou o colapso da União Soviética. “Declaro hoje,
e faço-o sem qualquer reserva” — disse — “que o inimigo no leste foi derrubado
e jamais se levantará (...) Atrás de nossas tropas já há um território duas vezes
maior que o Reich alemão quando assumi o poder em 1933”
Quando em 8 de outubro caiu Orei, cidade-chave ao sul de Moscou, Hitler
mandou de avião a Berlim seu agente publicitário, Otto Dietrich, para informar
aos correspondentes dos principais jornais do mundo que, no dia seguinte, os
últimos exércitos intactos soviéticos — os do marechal Timoshenko, que defen
diam Moscou — ficariam encurralados pelos alemães em dois bolsões de aço,
diante da capital; que os exércitos do sul, do marechal Budénny, haviam sido re
chaçados e dispersados; e que de sessenta a setenta divisões do marechal Voroshi-
lov estavam cercadas em Leningrado.
“Para todos os fins militares, a Rússia soviética está liquidada. Dissipou-se o
sonho dos britânicos de uma guerra de duas frentes”, concluiu Dietrich presun
çosamente.
* Grifos do original.
** Algumas semanas depois, Gõring declarou a Ciano: "Este ano, de vinte a trinta milhões de pessoas
morrerão de fome na Rússia. Talvez convenha ser assim, pois certos povos devem ser dizimados.
Mesmo que não fossem, nada se poderia fazer a respeito. É evidente que, se a humanidade está con
denada a morrer de fome, os últimos a morrer serão os nossos dois povos (...) Nos campos para pri
sioneiros russos, eles começaram a comer uns aos outros" (Ciano's Diplomatic Papers, p. 464-5).
322 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Essas jactâncias públicas de Hitler e Dietrich — para falarmos o mínimo
— foram precipitadas.* Os russos, na realidade, não obstante a surpresa com que
foram atacados em 22 de junho, suas subseqüentes grandes perdas em homens e
equipamentos, sua rápida retirada e o encurralamento de alguns de seus melho
res exércitos, haviam começado, em julho, a organizar uma resistência cada vez
maior, como jamais a Wehrmacht enfrentara antes. O diário de Halder e os rela
tórios dos comandantes das Unhas de frente — como os do general Guderian,
que dirigia um grande grupo panzer na frente central — começaram a ser ponti
lhados, e depois carregados, de informes sobre duras lutas, desesperada resistên
cia e contra-ataques dos russos, e sobre pesadas baixas tanto dos alemães como
dos soviéticos.
“A conduta das tropas russas”, escreveu o general Blumentritt mais tarde,
“mesmo nesta primeira batalha [pela conquista de Minsk] contrastou extraordi
nariamente com a dos poloneses e Aliados ocidentais na derrota. Mesmo quando
cercados, os russos resistiam e lutavam”.5 E provou-se que havia maior número
deles, e com melhor equipamento, do que Hitler pensara fosse possível. Novas
divisões soviéticas, das quais o serviço secreto alemão não tinha a menor idéia,
estavam sendo continuamente lançadas à peleja. “Está se tornando cada vez mais
evidente”, escreveu Halder em seu diário no dia 11 de agosto, “que subestimamos
o poderio desse colosso russo não só na esfera econômica, como também na mi
litar. A princípio, calculávamos que tivessem umas duzentas divisões, e já identi
ficamos 360. Ao ser destruída uma dezena delas, os russos lançam outra mais.
Nessa grande extensão de terra, nossa frente é demasiado estreita. Não tem pro
fundidade. Resulta que os repetidos ataques do inimigo são, muitas vezes, coroa
dos de êxito”. Rundstedt declarou, sem rebuços, aos inquiridores Aliados depois
da guerra: “Percebi, logo depois de termos começado o ataque, que tudo que se
escrevera sobre a Rússia não passara de tolices.”
Vários generais — entre eles Guderian, Blumentritt e Dietrich — deixaram
relatórios manifestando surpresa no primeiro encontro que tiveram com os tan
ques T-34 russos, dos quais não tinham ouvido falar antes e que eram tão pesada
mente blindados que as granadas dos canhões antitanques alemães se tornavam
* Não prematuras, porém, quanto às advertências do Estado-maior geral americano que, em julho,
havia informado confidencialmente aos redatores americanos e aos correspondentes em Washington
que o colapso da União Soviética era apenas questão de poucas semanas. Não é de surpreender que as
declarações de Hitler e do dr. Dietrich fossem, no início de outubro, largamente acreditadas nos Esta
dos Unidos e na Inglaterra, assim como na Alemanha e em outras partes do mundo.
A REVIRAVOLTA 323
ineficazes contra eles. A aparição dessa viatura, disse Blumentritt mais tarde, mar
cou o começo do que se chamou “terror dos tanques”. Também, pela primeira vez
naquela guerra, os alemães não se beneficiaram da esmagadora superioridade
aérea para proteger suas tropas de terra e abrir-lhes caminho. A despeito das pe
sadas perdas no primeiro dia de campanha e nos primeiros combates, os aviões de
caça russos continuaram a aparecer, não se sabe de onde, à semelhança das novas
divisões. Além disso, a rapidez do avanço alemão e a falta de aeródromos apro
priados na Rússia deixaram as bases dos aviões de caça alemães muito distantes
para proporcionarem cobertura eficaz na frente. “Em várias fases do avanço”, co
mentou mais tarde o general von Kleist, “minhas forças panzer viram-se prejudi
cadas pela falta de cobertura do ar”.6
Houve outro cálculo errôneo dos alemães com relação aos russos, que Kleist
mencionou a Liddell Hart e que, naturalmente, foi compartilhado pela maioria
dos outros povos do Ocidente, naquele verão.
“As esperanças de vitória”, disse Kleist, “assentaram-se em grande parte na
perspectiva de que a invasão produzisse uma revolta política na Rússia (...) Muitas
esperanças baseavam-se na crença de que Stalin seria derrubado por seu próprio
povo se sofresse pesadas derrotas. Os conselheiros políticos do Führer alimenta
vam essa crença”.7
Hitler, na verdade, dissera a Jodl: “Só teremos de dar um pontapé na porta
para que toda aquela estrutura podre desmorone.”
A oportunidade de dar um pontapé na porta já parecia, ao Führer; estar a meio
caminho durante o mês de julho, quando ocorreu no Alto-Comando alemão a
primeira grande controvérsia sobre estratégia, o que levou o Führer a tomar uma
decisão, não obstante os protestos dos grandes generais e a qual Halder conside
rou “o maior erro estratégico da campanha oriental”. O caso era simples, mas fun
damental. Devia o grupo de exército do centro — de Bock —, o mais poderoso e
até então o mais vitorioso das três principais armas alemãs, avançar naqueles 320
quilômetros até Moscou, partindo de Smolensk, que ele alcançara em 16 de julho?
Ou devia apegar-se ao plano original que Hitler traçara na diretiva de 18 de de
zembro, e que exigia que as principais investidas fossem realizadas nos flancos
norte e sul? Em outras palavras: era Moscou a grande presa final, ou Leningrado
e a Ucrânia?
O Alto-Comando do exército, chefiado por Brauchitsch e Halder e apoiado
por Block, cujo grupo de exércitos do centro movimentava-se pela principal
324 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
estrada que conduzia a Moscou, e por Guderian, cujas forças pan zer se adianta
vam a eles, insistiu numa investida total contra a capital soviética. Havia muito
mais coisas a favor de seus argumentos do que a simples menção do valor psico
lógico decorrente da conquista da capital inimiga. Moscou, ressaltaram eles, era
a fonte vital da produção de armamentos e, mais importante ainda, o centro do
sistema de transportes e comunicações da Rússia. Conquistando-a, os soviéticos
não só ficariam privados de uma fonte essencial de armamentos como também
ficariam impossibilitados de movimentar suas tropas e abastecimentos para as
frentes distantes, as quais, depois disso, enfraqueceriam, esgotar-se-iam e sofre-
riam um colapso.
Havia, entretanto, um argumento final e concludente que os generais apresen
taram ao antigo cabo que era agora seu comandante supremo. Todos os relatórios
de seu serviço secreto demonstravam que as principais defesas russas estavam
agora concentrando-se diante de Moscou para a defesa total da cidade. Mesmo a
leste de Smolensk, um exército soviético de meio milhão de homens, que conse
guira livrar-se do duplo envolvimento das forças de Bock, entrincheirava-se para
barrar novo avanço dos alemães em direção à capital.
O centro de gravidade da resistência russa [escreveu Halder num rela
tório preparado para os Aliados, logo depois da guerra]8achava-se,
portanto, diante do grupo de exércitos do centro (...)
O Estado-maior geral acostumara-se à idéia de que o alvo de uma ope
ração devia ser a derrota do poderio militar do inimigo. Considerou,
portanto, como tarefa mais premente, a derrota das forças de Timo-
shenko. Concentrou todas as forças do grupo de exércitos do centro no
avanço contra Moscou, com o fito de conquistar esse centro nevrálgico
da resistência inimiga e destruir suas novas formações. A concentração
para esse ataque devia ser executada o mais cedo possível, porque o
tempo corria. O grupo de exércitos do norte devia, entrementes, cum
prir sua missão original e procurar contato com os finlandeses. O gru
po de exércitos do sul devia avançar mais além, a leste, a fim de imobi
lizar o maior número de poderosas forças inimigas.
(...) Após terem falhado as discussões verbais entre o Estado-maior geral
e o comando supremo (OKW), o comandante-em-chefe do exército
A REVIRAVOLTA 325
(Brauchitsch) submeteu um memorando do Estado-maior geral a
Hitler.
Sabemos, pelo diário de Halder, que isso foi feito em 18 de agosto. “O efeito foi
explosivo”, diz ele. Hitler tinha os olhos famintos dirigidos para a faixa de alimen
tação e áreas industriais da Ucrânia, e para os campos petrolíferos russos mais
adiante, no Cáucaso. Além disso, julgou ver uma excelente oportunidade para
encurralar os exércitos de Budènny a leste do Dnieper, além de Kiev, os quais re
sistiam ainda. Desejava também conquistar Leningrado e fazer junção com os
finlandeses, no norte. Para realizar tais objetivos, várias divisões de infantaria e
panzer, procedentes do grupo de exércitos do centro, teriam que ser ligadas e en
viadas para o norte e, especialmente, para o sul. Moscou ainda podia esperar.
Hitler dirigiu, em 21 de agosto, uma nova diretiva para o rebelde Estado-maior
geral. Halder copiou-a palavra por palavra no dia seguinte, em seu diário.
As propostas do exército para o prosseguimento das operações no leste
não estão de acordo com minhas instruções.
O objetivo mais importante a ser atingido, antes de começar o inverno,
não é conquistar Moscou, mas a Criméia, as áreas industriais e as de
exploração de carvão da bacia do Donets, e cortar o abastecimento de pe
tróleo do Cáucaso aos russos. No norte, é cercar Leningrado e fazer jun
ção com os finlandeses.
O 5QExército soviético, às margens do Dnieper, no sul, cuja estóica resistência
aborrecera Hitler durante vários dias, devia — ditou ele — ser completamente
destruído, a Ucrânia e a Criméia ocupadas, Leningrado cercada e a junção com os
finlandeses feita. “Somente então se criarão condições sob as quais o exército de
Timoshenko poderá ser atacado e derrotado com êxito”, concluiu.
Assim [comentou Halder amargamente] o objetivo de derrotar decisi
vamente os exércitos russos, defronte a Moscou, ficou subordinado ao
desejo de obter-se uma valiosa área industrial, e de avançar na direção
do petróleo russo (...) Hitler ficou agora obcecado pela idéia de conquis
tar Leningrado e Stalingrado, pois convenceu-se de que a Rússia sofrerá
um colapso se essas duas4cidades sagradas do comunismo” caírem.
3^6 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Para agravar mais ainda o insulto aos marechais-de-campo e aos generais que
não apreciavam seu gênio estratégico, Hitler enviou o que Halder designou por
“contra-memorando” (ao do exército, do dia 18), e que o chefe do Estado-maior
geral descreveu como “repleto de insultos”, tais como a declaração de que o Alto-
Comando do exército estava cheio d e4espíritos fossilizados em teorias obsoletas”.
“Intolerável! Incrível! Passa da conta!”, bufou Halder em seu diário no dia se
guinte. Conferenciou toda a tarde e toda a noite com o marechal-de-campo von
Brauchitsch sobre aquela atitude inadmissível do Führer em imiscuir-se nas atri
buições do Alto-Comando do exército e do Estado-maior geral e, finalmente, pro
pôs que o chefe do exército e ele mesmo resignassem aos cargos. “Brauchitsch
recusou-se”, anotou Halder, “porque isso não seria prático e não mudaria coisa
alguma.” O pusilânime marechal-de-campo, como fizera em tantas outras oca
siões, já havia capitulado ao antigo cabo.
Quando o general Guderian chegou ao quartel-general do Führer no dia se
guinte, 23 de agosto, e foi aconselhado por Halder a procurar arrancar Hitler da
quela desastrosa decisão — se bem que o tenaz chefe das divisões panzer não ne
cessitasse de tal conselho —, foi ele abordado por Brauchitsch. “Proibo-o”, disse o
comandante-em-chefe do exército, “de mencionar a questão de Moscou ao Führer.
A operação do sul já foi ordenada. O problema, agora, é, simplesmente, saber
como levá-la a efeito. Será inútil qualquer discussão.”
Apesar disso, Guderian, quando foi levado à presença de Hitler — nem Brau
chitsch nem Halder o acompanharam — desobedeceu à ordem e argumentou o
mais fortemente que pôde em favor do assalto imediato a Moscou.
Hitler deixou-me falar até o fim [escreveu Guderian mais tarde]. De
pois, descreveu-me minuciosamente as considerações que o tinham le
vado a tomar uma decisão diferente. Disse-me que as matérias-primas
e a produção agrícola da Ucrânia eram vitalmente necessárias ao fu
turo prosseguimento da guerra. Falou sobre a necessidade de neutra
lizar a Criméia, “esse porta-aviões soviético, para atacar os campos
petrolíferos da Romênia”. Pela primeira vez ouvi-o usar esta frase:
“Meus generais não sabem coisa alguma sobre os aspectos econômi
cos da guerra (...)” Havia dado ordens estritas para que o ataque con
tra Kiev constituísse o objetivo estratégico imediato, e que todas as
A REVIRAVOLTA 327
operações fossem executadas com isso em mente. Vi, pela primeira
vez, um espetáculo com o qual eu devia familiarizar-me mais tarde:
todos os presentes — Keitel, Jodl e outros — assentiam com a cabeça
a cada sentença que Hitler proferia, enquanto eu me via a sós com
meu ponto de vista (...)9
Halder, porém, em nenhum ponto das discussões anteriores demonstrara es
tar de acordo. Quando Guderian o visitou no dia seguinte e relatou seu fracasso
ao procurar fazer Hitler mudar de idéia, disse que o chefe do Estado-maior geral,
“para surpresa minha, sofreu um distúrbio nervoso que o levou a fazer recrimina-
ções inteiramente injustificáveis”.*
Foi essa a crise mais séria que houve no Alto-Comando alemão desde o come
ço da guerra. As piores deviam sobrevir com a adversidade.
Em si mesma, a ofensiva do sul do próprio Rundstedt, tornada possível pelo
reforço das divisões pan zer de Guderian e das divisões de infantaria retiradas da
frente central, foi, nas palavras de Guderian, uma grande vitória tática. A própria
Kiev caiu em 19 de setembro — unidades alemãs já haviam penetrado 240 quilô
metros — e no dia 26 terminou a batalha com o cerco e a rendição de 665 mil
russos que foram feitos prisioneiros — segundo afirmam os alemães. Para Hitler,
foi “a maior batalha na história”, mas, embora se tratasse de uma realização sin
gular, alguns dos generais se mostraram céticos quanto ao significado estratégi
co. O grupo de exércitos de Bock, no centro, sem forças blindadas, foi obrigado a
esperar no sul durante dois meses ao longo do rio Desna, pouco além de Smo-
lensk. As chuvas do outono, que iriam transformar as estradas russas em verda
deiros lamaçais, aproximavam-se. E, depois delas, o inverno, o frio e a neve.
A grande ofensiva contra Moscou
Relutantemente, Hitler cedeu aos conselhos de Brauchitsch, Halder e Bock,
consentindo que se retomasse a ofensiva em direção a Moscou. Demasiado tarde,
* O diário de Halder (24 de agosto) apresenta uma versão completamente diferente do caso. Acusa Gu
derian de "irresponsável" ao mudar de idéia, depois de se ter avistado com Hitler, e medita o quanto é
inútil procurar modificar o caráter de um homem. Se sofreu, conforme alega Guderian, "completo distúr
bio nervoso" as notas pedantes de seu diário, nesse dia, indicam que se restabeleceu rapidamente.
328 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
porém! Halder conferenciou com ele na tarde de 5 de setembro e agora o Führer,
tendo tomado uma decisão, estava ansioso por chegar até o Kremlin. “Trate de
começá-la na frente ocidental dentro de oito ou dez dias”, ordenou o comandante
supremo. (“Impossível!”, exclamou Halder em seu diário). “Cerque-os, derrote-os
e destrua-os!”, acrescentou Hitler, prometendo devolver ao grupo de exércitos no
centro as divisões panzer de Guderian, nessa ocasião ainda em plena luta na Ucrâ
nia, e dar-lhe o corpo de tanques de Reinhardt que se achava na frente de Lenin
grado. Foi, porém, somente no início de outubro que as forças blindadas puderam
ser trazidas de volta, reequipadas e aprontadas. Em 2 de outubro, foi finalmente
desencadeada a grande ofensiva. Tufão era seu nome em código. Um verdadeiro
ciclone devia se abater sobre os russos, destruindo-lhes as últimas forças comba
tentes diante de Moscou e fazendo desmoronar a União Soviética.
Nisso também o ditador nazista tornou-se vítima de sua megalomania. Con
quistar a capital russa antes da chegada do inverno não era o bastante; deu ordens
para que o marechal-de-campo von Leeb, no norte, ao mesmo tempo conquistas
se Leningrado e fizesse junção com os finlandeses além da cidade e, continuando
o avanço, cortasse a linha férrea de Murmansk. Ao mesmo tempo, também, devia
Rundstedt limpar a costa do mar Negro, conquistar Rostov, apoderar-se dos cam
pos petrolíferos de Maikop e prosseguir na arrancada até Stalingrado, às margens
do Volga, cortando assim o último elo de Stalin com o Cáucaso. Quando Runds
tedt procurou explicar a Hitler que isso implicava um avanço de mais de 640
quilômetros além do Dnieper, com seu flanco esquerdo perigosamente exposto, o
comandante supremo falou-lhe que os russos, no sul, se achavam agora incapazes
de oferecer séria resistência. Rundstedt, que disse ter “dado uma gargalhada” ante
aquelas ordens ridículas, iria logo descobrir que as coisas eram outras.
O avanço alemão, ao longo da velha estrada que Napoleão havia seguido rumo
a Moscou, verificou-se a princípio com a fúria de um tufão. Na primeira quinzena
de outubro, num encontro que Blumentritt denominou “batalha de acordo com o
manual”, os alemães cercaram dois exércitos soviéticos entre Vyazma e Bryansk e,
segundo suas afirmações, foram feitos 650 mil prisioneiros e capturados 5 mil
canhões e 1.200 tanques. Em 20 de outubro, pontas-de-lança blindadas alemãs
achavam-se a 64 quilômetros de Moscou. Os ministérios soviéticos e as embaixa
das estrangeiras já estavam se retirando para Kuibyshev, às margens do Volga.
Mesmo o sóbrio Halder, que havia caído de um cavalo, fraturado uma clavícula e
A REVIRAVOLTA 329
estivera temporariamente hospitalizado, acreditava agora que, com uma direção
corajosa e favoráveis condições atmosféricas, Moscou poderia ser conquistada
antes que começasse o rude inverno russo.
Vieram, porém, as chuvas de outono e, com elas, rasputitza, o período da lama.
O grande exército, movimentando-se sobre rodas, perdera todo o seu ímpeto e
era obrigado muitas vezes a deter sua marcha. Tanques eram retirados da batalha
para desatolar canhões e caminhões de munições. Havia falta de correntes e en
gates para a execução dessa tarefa, lançando-se cordas dos aviões da Luftwaffe,
os quais, no entanto, eram extremamente necessários no transporte de outros
suprimentos militares. As chuvas começaram em meados de outubro e, confor
me Guderian lembrou-se mais tarde, Kas semanas seguintes foram dominadas
pelo lamaçal”. O general Blumentritt, chefe do Estado-maior do 42 Exército, do
marechal-de-campo von Kluge, força que estava no auge da batalha para a con
quista de Moscou, descreveu vividamente a situação angustiante:
Os soldados de infantaria escorregam na lama, ao passo que muitas
parelhas de cavalos são necessárias para arrastar cada canhão. Todos os
veículos afundam até o eixo no lodaçal. Até mesmo os tratores se movi
mentam com dificuldade. Uma grande parte de nossa artilharia pesada
ficou logo atolada (...) Pode-se talvez imaginar a tensão que tudo isso
tem causado a nossos soldados já esgotados.10
Pela primeira vez começaram a aparecer, no diário de Halder e nos relatórios
de Guderian, Blumentritt e outros generais, sinais de dúvida e, depois, de deses
pero. Tal situação espalhou-se pelos oficiais subalternos e pelas tropas, no campo,
ou, talvez, se estivesse originado entre eles. “O estado de espírito dos comandan
tes e das tropas começou a mudar, justamente agora que Moscou estava quase à
vista”, lembrou-se Blumentritt. “A resistência inimiga tornou-se mais forte e a luta
mais acirrada (...) Muitas companhias nossas foram reduzidas a apenas sessenta
ou setenta homens.” Havia falta de artilharia e tanques prestáveis. “O inverno”,
disse ele, “estava prestes a começar e não havia sinal de agasalhos (...) Muito dis
tante, na retaguarda, as primeiras unidades de guerrilheiros começavam a fazer
sentir sua presença nas vastas florestas e nos pântanos. Colunas de abastecimen
tos eram freqüentemente vítimas de emboscadas (...)”
330 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Nessa ocasião — lembrou-se Blumentritt — os fantasmas do grande exército,
que havia tomado aquela mesma estrada, e a lembrança da sorte de Napoleão
começaram a atormentar os sonhos dos conquistadores nazistas. Os generais ale
mães passaram a ler, ou reler, a lúgubre narrativa de Caulaincourt sobre o desas
troso inverno na Rússia, em 1812, que tanta influência exerceu na sorte do con
quistador francês.
Mais longe, ao sul, onde o tempo estava um pouco mais quente, porém com
chuvas e estradas lamacentas, as coisas também não corriam bem. Os tanques de
Kleist haviam entrado em Rostov, na embocadura do Don, em 21 de novembro,
em meio ao grande alarde da propaganda do dr. Goebbels de que “as portas para
o Cáucaso” haviam sido abertas. Elas, porém, não permaneceram abertas por
muito tempo. Tanto Kleist como Rundstedt perceberam que Rostov não podia ser
mantida. Cinco dias depois, os russos a retomavam. Os alemães, atacados em
ambos os flancos — norte e sul — recuaram oitenta quilômetros rumo ao rio
Mius, onde primeiramente Kleist e Rundstedt haviam desejado estabelecer uma
linha de inverno.
A retirada de Rostov constituiu outro pequeno momento crítico na história do
Terceiro Reich. Foi ali que o exército nazista sofreu seu primeiro grande revés.
“Nossos infortúnios começaram com Rostov”, comentou Guderian depois. “Foi o
sinal de iminentes desastres.” Custou o comando ao marechal-de-campo von
Rundstedt, o oficial mais antigo do exército alemão. Quando ele empreendia a
retirada para o rio Mius,
(...) subitamente chegou-me uma ordem do Führer [declarou mais tar
de aos inquiridores Aliados]: “Fique onde está e não prossiga na retira
da.” Telegrafei imediatamente: “É loucura tentar resistir. Em primeiro
lugar, as tropas não podem fazê-lo; e, em segundo, caso não se ponham
em retirada, serão destruídas. Repito: que essa ordem seja anulada ou
coloquem outro no comando.” Na mesma noite chegou a resposta do
Führer: “Aceito seu pedido. Queira renunciar ao comando.”
“Voltei então para a Alemanha” — disse Rundstedt.11*
* “Grõsste Aufregung (grande agitação) da parte do Führer", anotou Halder em seu diário, no dia 30 de
novembro, ao descrever a retirada de Rundstedt para o rio Mius e a demissão do marechal-de-campo.
"O Führer chamou Brauchitsch e lançou-lhe toda sorte de censuras." Halder, nesse dia, começou ano
A REVIRAVOLTA 331
Aquela mania de ordenar às tropas distantes que resistissem, independente
mente do perigo por que passavam, talvez tivesse salvado o exército alemão de
completo colapso nos terríveis meses que tinham pela frente, embora muitos ge
nerais o contestem; mas conduziria ao desastre de Stalingrado e a outros, contri
buindo para selar a sorte de Hitler.
Fortes nevadas e temperatura abaixo de zero chegaram cedo à Rússia naquele
inverno. Guderian registrou a primeira neve na noite de 6 para 7 de outubro, jus
tamente quando recomeçava a arrancada contra Moscou. Lembrou-se de pedir ao
quartel-general, novamente, vestuário apropriado para o inverno, especialmente
botas fortes e meias pesadas de lã. Em 12 de outubro, anotou que a neve conti
nuava a cair. Em 3 de novembro, surgiu a primeira frente fria, o termômetro cain
do abaixo do ponto de congelamento e prosseguindo na queda. No dia 7, relatou
os primeiros “casos graves de ulcerações produzidas pelo frio” em suas fileiras e,
no dia 13, que a temperatura havia caído para 8 graus abaixo de zero, e que a falta
de roupagens de inverno “se fazia sentir cada vez mais”. O frio intenso afetava os
canhões e as máquinas, assim como os homens.
O gelo está causando muitas dificuldades [escreveu Guderian], pois as
ferraduras com pontas para as esteiras dos tanques não chegaram. O frio
tornou inútil a mira telescópica. Para que se possa dar partida aos mo
tores dos tanques é necessário atear uma fogueira debaixo deles. Há
ocasiões em que a gasolina fica congelada e o óleo viscoso (...) Cada re
gimento [da 112â Divisão de infantaria] já perdeu cerca de quinhentos
homens, vítimas de ulcerações provocadas pelo frio. Em conseqüência do
frio, as metralhadoras não mais puderam ser usadas, e nossos canhões
tando no diário as cifras das baixas alemãs até 26 de novembro. "Perdas totais nos exércitos a leste (sem
contar os doentes), 743.112 oficiais e soldados, 23% de toda a força de 3,2 milhões de homens".
Em 1e de dezembro, Halder registrou a substituição de Rundstedt por Reichenau, ainda no comando
do 6S Exército, que dirigira na França e que estava passando por situação difícil ao norte das divisões
blindadas de Kleist, as quais estavam em retirada de Rostov.
"Reichenau telefonou ao Führer", escreveu Halder, "e pediu permissão para recuar hoje à noite para a
linha do rio Mius. Concedida a permissão. Estamos, pois, exatamente onde estávamos ontem. Mas sa
crificaram-se o tempo e nossas forças e perdeu-se Rundstedt."
"A saúde de Brauchitsch", acrescentou, "está novamente causando ansiedade em conseqüência dessa
contínua agitação" Halder havia registrado, em 10 de novembro, que o chefe do exército havia sofrido
um grave ataque cardíaco.
332 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
antitanques de 37mm tornaram-se ineficazes contra os tanques T-34
[dos russos].12
“O resultado é uma situação de pânico, que se estendeu até Bogorodsk, na re
taguarda”, disse Guderian. “Foi a primeira vez que isso ocorreu durante a campa
nha russa, e foi uma advertência de que a capacidade combativa de nossa infanta
ria estava no fim.”
Não somente da infantaria, porém. Em 21 de novembro, Halder escreveu em
seu diário que Guderian havia telefonado para dizer que suas forças panzer “ha
viam chegado ao fim”. Esse arrojado e agressivo comandante de tanques admitiu
que, nesse mesmo dia, resolveu visitar Bock, comandante do grupo de exércitos
do centro, para pedir-lhe que modificasse as ordens que havia recebido, porque
“não via meios de executá-las”. Sentia-se profundamente deprimido ao escrever
nesse mesmo dia:
O frio intenso, a falta de abrigos e agasalhos, as pesadas perdas de ho
mens e equipamentos, o miserável estado de nossos suprimentos de
combustível — tudo isso torna penosíssimos os deveres de um coman
dante; e quanto mais tempo permanecer esse estado de coisas mais me
vejo esmagado pela enorme responsabilidade com que tenho de arcar.13
Rememorando, Guderian acrescentou:
Somente quem viu aquela interminável região russa coberta de neve
durante aquele inverno que nos atormentou, e quem sentiu o vento ge
lado que cortava os ares, enterrando tudo na neve em seu percurso;
quem viajou horas após horas por aquela terra de ninguém para, no
fim, encontrar apenas uma fraquíssima cobertura com homens insufi
cientemente agasalhados, meio mortos de fome; e quem viu, também,
contrastando com eles, tropas novas de siberianos bem agasalhados,
muito bem equipados para a luta de inverno (...) é que poderá aquilatar,
verdadeiramente, os fatos que então se verificaram.14
Pode-se agora resumir aqueles fatos, não, porém, sem primeiro enfatizar um
ponto: conquanto fosse horrível o inverno russo e se admitisse que os soldados
A REVIRAVOLTA 333
soviéticos se achavam naturalmente mais bem preparados para ele que os ale
mães, o fator principal que se deve registrar não é o tempo, mas a luta feroz dos
soldados do Exército Vermelho e sua inquebrantável vontade de não ceder. O
diário de Halder e os relatórios dos comandantes alemães, que constantemente
manifestavam surpresa ante a extensão e a rudeza dos ataques e contra-ataques
russos, e o desespero ante as dificuldades e perdas dos nazistas, constituem prova
disso. Os generais nazistas não podiam compreender por que os russos, dados a
natureza de seu regime tirânico e os desastrosos efeitos dos primeiros golpes
alemães, não sofreram um colapso como acontecera aos franceses e a tantos
outros com menor número de elementos de escusa.
“Assombrados e desapontados”, escreveu Blumentritt, “descobrimos no fim de
outubro e princípio de novembro que os derrotados russos pareciam ignorar
completamente que, como força militar, tinham quase deixado de existir”. Gude
rian fala sobre o encontro que teve com um velho general czarista aposentado, em
Orei, na estrada que conduzia a Moscou:
“Se vós tivésseis vindo vinte anos atrás [declarou ele ao general das for
ças panzer ], nós vos teríamos acolhido de braços abertos. Agora, po
rém, é demasiado tarde. Estamos começando a levantar-nos, e viestes
agora para nos atirar vinte anos atrás, de maneira a termos que recome
çar desde o princípio. Estamos lutando pela Rússia e, nessa causa, esta
mos todos unidos”.15
Ao aproximar-se o fim de novembro, entretanto, em meio a novas tempesta
des de neve e contínuas temperaturas abaixo de zero, parecia a Hitler e a seus ge
nerais que Moscou já estava a seu alcance. Os exércitos alemães, ao norte, ao sul e
a oeste da capital, haviam atingido pontos que distavam de 32 a 48 quilômetros de
seu objetivo. A Hitler, que consultava o mapa em seu quartel-general, na longín
qua Prússia Oriental, a última etapa não parecia distante. Seus exércitos tinham
avançado oitocentos quilômetros; deviam percorrer apenas de 32 a 48 quilôme
tros mais. “Um último esforço e triunfaremos” — declarou a Jodl em meados de
novembro. Telefonando a Halder em 22 de novembro, o marechal-de-campo von
Bock, que dirigia o grupo de exércitos do centro na arrancada final em direção a
Moscou, comparou a situação à batalha do Marne, “onde o último batalhão que
nela havia sido lançado decidira a luta”. A despeito da crescente resistência do
334 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
inimigo, Bock informou ao chefe do Estado-maior geral que acreditava ser “tudo
realizável”. No último dia de novembro, estava literalmente lançado na peleja seu
último batalhão. O ataque final e total contra o coração da União Soviética foi
marcado para o dia seguinte, le de dezembro de 1941.
Tropeçou numa resistência de aço. A maior força de tanques até então concen
trada numa única frente: o 4S grupo de tanques do general Hoepner, e o 3fi, do
general Hermann Hoth, ao norte de Moscou e avançando para o sul; o 2- Exército
panzer ; de Guderian, ao sul da capital e rumando de Tula para o norte; o grande
4- Exército, de Kluge, no centro, lutando para abrir caminho a leste, através das
florestas que circundavam a cidade — nessa formidável formação assentavam as
grandes esperanças de Hitler. Em 2 de dezembro, um batalhão de reconhecimen
to da 258â Divisão de infantaria havia penetrado em Khimki, subúrbio de Mos
cou, donde se viam as agulhas das torres do Kremlin; foi, porém, repelido na
manhã seguinte por uns poucos tanques russos e uma heterogênea força formada
por trabalhadores, mobilizados às pressas nas fábricas da cidade. Foi o ponto mais
próximo de Moscou a que chegaram os soldados alemães. Foi a primeira e última
vez que puderam vislumbrar o Kremlin.
Já na noite de 1- de dezembro, Bock, que então estava sofrendo fortes dores
abdominais, telefonou a Halder para dizer que não podia mais “operar com suas
tropas enfraquecidas. O chefe do Estado-maior geral procurou animá-lo. “Tem-se
que tentar derrubar o inimigo”, disse, “mediante um último esforço. Se isso se tor
na impossível, tem-se que tirar novas conclusões”. No dia seguinte, Halder regis
trou em seu diário: “A resistência do inimigo atingiu seu ponto culminante.” Bock,
no dia 3, telefonou novamente ao chefe do Estado-maior geral, que anotou a men
sagem em seu diário:
Pontas-de-lança do 4fi Exército novamente recuadas, porque os flancos
não puderam avançar (...) Vai ser preciso enfrentar o momento em que
a resistência de nossas tropas terá chegado ao fim.
Quando Bock falou, pela primeira vez, em passar para a defensiva, Halder
procurou lembrar-lhe que “a melhor defesa é manter-se no ataque”.
Isso, porém, era mais fácil dizer do que fazer, tendo-se em vista os russos e
as condições atmosféricas. No dia seguinte, 4 de dezembro, Guderian, cujo 1Q
Exército pan zer se deteve na tentativa de tomar Moscou pelo sul, informou que o
A REVIRAVOLTA 335
termômetro havia caído a 31 graus abaixo de zero. No dia seguinte caiu mais
cinco graus. Seus tanques — disse ele — estavam “quase imobilizados”, vendo-se
ameaçados nos flancos e na retaguarda, ao norte de Tula.
Cinco de dezembro foi o dia crítico. Os alemães detiveram-se por toda parte
ao longo da frente semicircular de 320 quilômetros, em torno de Moscou. À noi
te, Guderian notificou Bock não só que havia parado como devia retroceder; e
Bock telefonou a Halder informando-o que “sua resistência chegara ao fim”.
Brauchitsch, por sua vez, comunicou ao chefe do Estado-maior geral, presa do
desespero, que ia deixar seu posto de comandante-em-chefe do exército. Foi um
dia lúgubre para os generais alemães.
Foi a primeira vez [escreveu Guderian mais tarde] que tive de tomar
uma decisão dessa espécie, e nenhuma foi mais difícil (...) Nosso ataque
contra Moscou caíra por terra. Todos os sacrifícios e resistência de nos
sos bravos soldados tinham sido em vão. Sofrêramos uma dolorosa
derrota.16
Blumentritt, no quartel-general do 42 Exército, de Kluge, compreendeu que
havia chegado o momento da reviravolta. Lembrando mais tarde, escreveu: “Nos
sas esperanças de lançar a Rússia fora da guerra, em 1941, haviam sido despeda
çadas no último momento.”
No dia seguinte, 6 de dezembro, o general Georgi Zhukov, que substituíra o
marechal Timoshenko no comando da frente central, apenas seis semanas antes,
desencadeou seu ataque. Lançou na luta, na frente de 320 quilômetros defronte de
Moscou, sete exércitos e dois corpos de cavalaria — cem divisões ao todo — for
madas de tropas novas, umas, e já experimentadas, outras, que estavam equipadas
e treinadas para combater no frio intenso e na neve profunda. O golpe que esse
general, relativamente desconhecido, desfechou com tão formidável força de in
fantaria, artilharia, tanques, cavalaria e aviação — que Hitler nem de leve suspei
taria que existisse — foi tão repentino e tão esmagador que o exército alemão e o
Terceiro Reich dele jamais se restabeleceram completamente. Durante algumas
semanas no decurso daquele frio e duro mês de dezembro e em janeiro, parecia
que os exércitos alemães, derrotados e em retirada, suas frentes continuamente
rompidas pelas brechas infligidas pelos soviéticos, iriam desintegrar-se e perecer
336 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
nas neves russas, como acontecera ao grande exército de Napoleão 130 anos an
tes. Houve momentos cruciantes em que isso quase se deu. Talvez fossem a von
tade férrea e a determinação de Hitler, e, certamente, a resistência do soldado
alemão, que salvaram os exércitos nazistas de uma completa derrocada.
Foi grande, porém, o fracasso. O Exército Vermelho ficara imobilizado, mas
não destruído. Moscou não havia sido conquistada, nem Leningrado, nem Stalin-
grado, nem os campos petrolíferos do Cáucaso; e as vias vitais para a Inglaterra e
os Estados Unidos, ao norte e ao sul, permaneceram abertas. Pela primeira vez,
em mais de dois anos de vitórias militares ininterruptas, os exércitos de Hitler
punham-se em retirada ante uma força superior.
Isso não foi tudo. O fracasso foi ainda maior. Halder percebeu-o, pelo menos
mais tarde. “Quebrou-se o mito da invencibilidade do exército alemão”, escreveu
ele. Haveria vitórias alemãs na Rússia quando chegasse outro verão, mas elas ja
mais poderiam restabelecer esse mito. Seis de dezembro de 1941 constituiu, pois,
outro momento decisivo na curta história do Terceiro Reich e um dos mais fatídi
cos. O poder de Hitler havia atingido seu zênite; dali por diante declinaria, mina
do pelos crescentes contragolpes das nações contra as quais resolvera travar uma
guerra agressiva.
Procedeu-se a um drástico expurgo no Alto-Comando alemão e entre os coman
dantes em campanha. Ao recuarem os exércitos pelas estradas geladas e pelos
campos cobertos de neve, ante a contra-ofensiva dos soviéticos, as cabeças dos
generais alemães começaram a rolar. Rundstedt, conforme vimos, foi substituído
no comando dos exércitos do sul porque fora forçado a recuar em Rostov. As do
res abdominais do marechal-de-campo von Bock agravaram-se com os desastres
em dezembro, tendo ele sido substituído no dia 18 pelo marechal-de-campo von
Kluge, cujo 4a Exército, muito castigado, estava sendo rechaçado para sempre das
vizinhanças de Moscou. Mesmo o intrépido general Guderian, o criador da guer
ra maciça de carros blindados, que tanto revolucionou a batalha moderna, foi
posto para fora — no dia de Natal — por ter ordenado uma retirada sem permis
são. O general Hoepner, um comandante de tanques igualmente brilhante, cujo
4Sgrupo de forças blindadas chegara a se aproximar de Moscou, ao norte, e fora
depois rechaçado, foi abruptamente demitido por Hitler por esse motivo, desti
tuído de seu posto hierárquico e proibido de usar uniforme. O general Hans von
Sponeck, que havia recebido a Cruz de Cavalheiro por ter dirigido, em Haia, no
A REVIRAVOLTA 337
ano anterior, a descida de forças aerotransportadas, recebeu punição mais severa,
por ter feito recuar uma divisão de suas tropas na Criméia, em 29 de dezembro,
depois que as forças russas haviam desembarcado, por mar, em sua retaguarda.
Não só foi sumariamente destituído de seu posto hierárquico como também
encarcerado, submetido a conselho de guerra e, por insistência de Hitler, conde
nado à morte.*
Mesmo o obsequioso Keitel viu-se em dificuldades com o comandante supre
mo. Até ele tivera senso bastante para perceber, durante os primeiros dias de de
zembro, que era necessária uma retirada geral da posição em torno de Moscou,
para ser evitado um desastre. Quando, porém, enchendo-se de coragem expôs o
fato a Hitler, ele voltou-se contra o general com palavras ferinas, e chamou-o de
‘cabeça dura”. Jodl encontrou o desventurado chefe do OKW, pouco depois, sen
tado à mesa de trabalho escrevendo sua resignação com um revólver ao lado. Jodl
afastou calmamente a arma e persuadiu Keitel — aparentemente sem muita difi
culdade — a permanecer no cargo e a continuar a engolir os insultos de Hitler, o
que ele fez até o fim com extraordinária paciência.17
A tensão que exigia a direção de um exército que não podia vencer sempre,
sob as ordens de um comandante supremo que insistia em que vencesse, provo
cou novos ataques de coração no marechal-de-campo von Brauchitsch; por oca
sião do início da contra-ofensiva de Zhukov, ele estava decidido a deixar a chefia
do comando. Voltou para o quartel-general, após uma viagem que fez em 15 de
dezembro à linha de frente, que então estava sendo recuada. Halder achou-o
“muito abatido”. “Brauchitsch não vê uma saída para salvar o exército de sua situa
ção desesperadora”, anotou Halder no diário. O chefe do exército estava prostra
do. Havia em 7 de dezembro pedido a Hitler que o substituísse e renovou o pedido
no dia 17. Foi formalmente atendido dois dias depois. O que o Führer realmente
pensava do homem que ele mesmo nomeara chefe do exército, disse-o a Goebbels
três meses depois.
O Führer apenas falou nele [Brauchitsch] com desprezo [escreveu
Goebbels em seu diário, em 20 de março de 1942]. Um vaidoso e míse
ro covarde (...) e um imbecil.18
* Foi executado somente depois do complô de julho de 1944, contra Hitler, no qual não se achava ab
solutamente envolvido.
338 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Aos íntimos, disse Hitler referindo-se a Brauchitsch: “Não é um soldado. É um
boneco. Se Brauchitsch tivesse permanecido em seu posto mais algumas semanas,
as coisas teriam terminado em catástrofe.”19
Houve certas especulações nos círculos do exército sobre quem seria o suces
sor de Brauchitsch; mas estavam tão longe da realidade quanto em anos anterio
res, quando se cuidou de saber quem seria o de Hindenburg. Em 19 de dezembro,
Hitler chamou Halder e informou-o de que ele mesmo assumiria o cargo de co-
mandante-em-chefe do exército. Halder poderia continuar como chefe do Esta
do-maior geral, se quisesse — e ele quis. Mas dali por diante, esclareceu Hitler, ele
mesmo dirigiria pessoalmente o exército, como o fizera com quase tudo o mais na
Alemanha.
A pequena questão em torno do comando das operações [disse-lhe
Hitler] é coisa que qualquer um pode fazer. A tarefa do comandante-
em-chefe é treinar o exército de maneira nacional-socialista. Não sei
de general algum que possa fazê-lo como desejo que se faça. Conse
qüentemente, tomei a resolução de assumir, eu mesmo, o comando do
exército.20
Completou-se, assim, o triunfo de Hitler sobre o corpo de oficiais prussianos.
O antigo vagabundo de Viena e ex-cabo era, agora, o chefe de Estado, o ministro
da Guerra, o comandante supremo das forças armadas e comandante-em-chefe
do exército. Os generais, conforme Halder queixou-se — em seu diário — não
passavam de mensageiros das ordens de Hitler, baseados na singular concepção
que tinha da estratégia.
O ditador megalomaníaco se fez, na verdade, algo maior, legalizando um po
der que anteriormente nenhum homem tivera — fosse ele imperador, rei ou pre
sidente — na vida do Reich alemão. Em 26 de abril de 1942, mandou o servil
Reichstag decretar uma lei que lhe dava absoluto poder de vida e morte sobre os
alemães e revogava quaisquer outras leis que pudessem impedi-lo. Torna-se ne
cessário ler o texto da lei para acreditar:
(...) Na presente guerra, em que o povo alemão se defronta com a luta
pela existência ou aniquilamento, deve o Führer ter todos os poderes
A REVIRAVOLTA 339
postulados por ele e que sirvam para promover ou alcançar a vitória.
Por conseguinte — sem que fique sujeito a preceitos legais —, em sua
capacidade de líder da nação, comandante supremo das forças arma
das, chefe do governo e chefe executivo supremo, juiz supremo e chefe
do partido — precisa o Führer estar em posição de forçar todo alemão,
se necessário, seja ele soldado comum ou oficial, funcionário de catego
ria ou não, ou juiz, alto funcionário do partido ou subordinado, traba
lhador ou empregador, a cumprir seus deveres. Em caso de violação
desses deveres, terá o Führer o direito de, após consciencioso exame,
independentemente dos chamados direitos adquiridos, impor a devida
punição ou afastar o transgressor de seu cargo, posto hierárquico ou
posição, sem instauração dos processos prescritos.21
Adolf Hitler tornara-se, assim, não só o chefe da Alemanha como também a
própria lei. Nem mesmo nos tempos medievais, nem mesmo nos dias das tribos
bárbaras, arrogara-se qualquer alemão tal poder tirânico, nominal e legal e, ao
mesmo tempo, real.
Mesmo, porém, sem essa autoridade aumentada, Hitler era o chefe absoluto
do exército, do qual tinha assumido o comando direto. Implacavelmente, propôs-
se naquele duro inverno a deter a retirada de seus exércitos derrotados e a salvá-
los da mesma sorte que tiveram os soldados de Napoleão, ao longo das mesmas
estradas cobertas de neve, ao voltarem de Moscou. Proibiu qualquer nova retirada.
Os generais alemães debateram durante muito tempo o mérito de sua obstinada
resistência: se isso salvaria as tropas de completo desastre ou se compensaria as
grandes perdas inevitáveis. A maioria dos comandantes sustentou que, tivesse li
berdade para recuar quando a posição se tornasse insustentável, teria salvo mui
tos homens e muitos equipamentos e ficado em situação melhor para se refazer e,
até mesmo, para contra-atacar. Da maneira que estavam, divisões inteiras foram
freqüentemente atacadas ou cercadas e esmagadas, quando uma retirada a tempo
teria podido salvá-las.
Alguns generais, contudo, admitiram mais tarde relutantemente que a von
tade de Hitler em insistir que os exércitos resistissem firmemente e lutassem foi
seu maior êxito na guerra, visto que, provavelmente, salvou seus exércitos de
completa desintegração na neve. O general Blumentritt resumiu melhor esse
ponto de vista:
340 A GUERRA: PRIM EIRAS VITÓRIAS E O M OMENTO DECISIVO
A ordem fanática de Hitler, no sentido de que as tropas resistissem fir
memente, independentemente de qualquer posição e das mais impossí
veis circunstâncias, foi indubitavelmente acertada. Hitler percebeu,
instintivamente, que qualquer retirada pela neve e pelo gelo devia, em
poucos dias, acarretar a dissolução da frente e que, se isso acontecesse,
a Wehrmacht sofreria o mesmo destino que teve a Grande Armée (...)
A retirada só podia ser feita em campo aberto, porque as estradas e os
caminhos se achavam bloqueados pela neve. Após algumas noites, isso
haveria de pesar demais sobre os soldados, os quais simplesmente aca
bariam caindo e morrendo onde quer que se encontrassem. Não havia
posições preparadas na retaguarda, para as quais pudessem retirar-se,
tampouco qualquer espécie de linha a que pudessem apegar-se.22
Com isso concordou o general von Tippelskirch, um comandante de corpo:
Foi o único grande feito de Hitler. Naquele crítico momento, os solda
dos lembravam-se do que tinham ouvido sobre a retirada de Napoleão,
de Moscou, e viviam sob esse pesadelo. Uma vez que tivessem começa
do, a retirada se transformaria em fuga desordenada.23
Houve pânico no exército alemão, não só na frente como também na retaguar
da, no quartel-general; isso foi graficamente registrado no diário de Halder. “Dia
dificílimo”, começou ele no Natal de 1941. Depois dessa data e pelo ano-novo
repetiu as mesmas palavras em muitos registros diários, ao descrever cada nova
brecha aberta pelos russos e a grave situação dos vários exércitos.
29 de dezembro. Outro dia crítico! (...) Dramáticas conversações de lon
ga distância, pelo telefone, entre o Führer e Kluge. O Führer proíbe nova
retirada da ala norte do 4- Exército. Gravíssima crise no 9a Exército,
onde os comandantes, aparentemente, perderam a calma. Ao meio-dia,
um chamado de Kluge, que se acha muito agitado. O 92Exército deseja
retirar-se para trás de Rzhev (...)
2 de janeiro de 1942. Um dia de luta feroz! (...) Grave crise no 4fí e 52Exér
citos (...) A brecha causada pelos russos, ao norte de Maloyaroslavets,
A REVIRAVOLTA 341
corta amplamente a frente, tornando-se difícil ver, no momento, como
se poderá restabelecer a frente (...) Essa situação leva Kluge a exigir a
retirada naquela frente vacilante. Debates tempestuosos com o Führer;
o qual, entretanto, mantém sua decisão: a frente ficará onde está, inde
pendentemente das conseqüências (...)
3 de janeiro. A situação tornou-se mais crítica em conseqüência da bre
cha entre Maloyaroslavets e Borovsk. Kübler* e Bock, animados, exigem
a retirada na frente norte, que está desmoronando. Nova cena dramática
do Führer; que duvida da coragem dos generais para tomarem decisões
firmes. Mas é que os soldados não podem manter as posições quando a
temperatura está 30 graus abaixo de zero. O Führer ordena: decidirá pes
soalmente sobre se são necessárias quaisquer outras retiradas (...)
Não era o Führer; porém, e sim o exército russo que agora decidia tais questões.
Hitler podia forçar os soldados alemães a resistir e morrer; não mais podia, con
tudo, deter o avanço soviético, da mesma maneira que o rei Canuto não pôde
impedir que a maré subisse. Num momento de pânico, alguns dos oficiais do Alto-
Comando sugeriram que talvez se pudesse salvar a situação empregando gás vene
noso. “O coronel Ochsner procura convencer-me de que devo iniciar a guerra
química contra os russos”, anotou Halder em seu diário, no dia 7 de janeiro. Talvez
o tempo estivesse demasiado frio; seja como for, nada resultou da sugestão.
Oito de janeiro foi “um dia muito crítico”, segundo Halder anotou no diário.
“A brecha em Sukhinichi [sudoeste de Moscou] se tornando insuportável para
Kluge. Em conseqüência, ele insiste na retirada do 4e Exército.” Durante todo o
dia, esse marechal-de-campo manteve conversa telefônica com Hitler e Halder,
insistindo na retirada. À noite, finalmente, o Führer; embora relutantemente, con
sentiu. Kluge teve permissão para fazê-la “gradativamente, a fim de proteger suas
comunicações”.
Gradativamente — e, às vezes, mais rapidamente durante todo aquele lúgubre
inverno — os exércitos alemães, que haviam projetado celebrar o Natal em Mos
cou, foram rechaçados ou obrigados a porem-se em retirada, dadas as operações
* O general Kübler substituiu Kluge em 26 de dezembro no comando do 4QExército, quando ele assu
miu o do grupo de exércitos do centro. Conquanto um vigoroso soldado, suportou a forte tensão ape
nas durante três semanas, até ser substituído pelo general Heinrici.
342 A guerra : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
de envolvimento e as brechas abertas pelos russos. No fim de fevereiro, viram-se
à distância de 120 a 320 quilômetros da capital. Ao fim desse gélido mês, Halder
anotava em seu diário o custo em homens que a malograda aventura lhes custara.
As perdas totais até 28 de fevereiro — registrou ele — eram de 1.005.636, ou 31%
de todas as forças: 202.251 foram mortos, 725.642 feridos e 46.511 desaparece
ram. (As baixas por ulcerações causadas pelo frio foram de 112.627). Isso não
incluía as pesadas perdas entre os húngaros, romenos e italianos, na Rússia.
Com o advento do degelo da primavera, houve um intervalo de calma na lon
ga frente, e Hitler e Halder começaram a traçar planos para enviar novas tropas e
mais tanques e canhões, a fim de retomar a ofensiva — pelo menos uma parte da
frente. Jamais, novamente, teriam poderio para atacar em toda aquela vasta linha
de batalha. Os amargos tributos do inverno e, acima de tudo, a contra-ofensiva de
Zhukov destruíram essa esperança.
Hitler, porém, pelo que agora sabemos, havia percebido muito antes disso que
o jogo de conquistar a Rússia — não somente em seis meses mas para sempre —
havia falhado. Num registro que fez em 19 de novembro de 1941, em seu diário,
o general Halder cita uma longa preleção do Führer a vários oficiais do Alto-
Comando. Conquanto seus exércitos estivessem a apenas poucos quilômetros de
Moscou e se movimentassem arduamente para conquistá-la, Hitler abandonara a
esperança de vencer a Rússia naquele ano, e já voltava os pensamentos para o ano
seguinte. Halder registrou as idéias do chefe.
Objetivo para o próximo ano. Primeiro de todos: o Cáucaso. Alvo: as
fronteiras do sul da Rússia. Prazo: de março a abril. No norte, após o
término da campanha deste ano, Vologda ou Gorki,* mas somente no
fim de maio.
Novos objetivos para o ano seguinte permanecerão em aberto. Depen
derão da capacidade de nossas vias férreas. Permanece também aberta
a questão de formar depois a Muralha Oriental.
Nenhuma Muralha Oriental seria necessária se a União Soviética fosse des
truída. Parece que Halder meditou sobre esse ponto enquanto o comandante su
premo continuava a expor suas idéias.
* Vologda, a 480 quilômetros a nordeste de Moscou, controlava a estrada de ferro que conduzia a Ar-
cangel. Gorki acha-se situada a 480 quilômetros a leste da capital.
A REVIRAVOLTA 343
No todo [concluiu ele] tem-se a impressão de que Hitler reconhece
agora que nenhum dos adversários poderá destruir o outro, e que isso
provocará negociações de paz.
Isso devia ter sido uma dura desilusão para o conquistador nazista que seis
semanas antes, em Berlim, havia feito uma transmissão declarando “sem reservas”
que a Rússia havia sido “derrubada para nunca mais se levantar”. Seus planos fo
ram arruinados e, com eles, as esperanças uma quinzena depois, em 6 de dezem
bro, quando suas tropas começaram a ser rechaçadas dos subúrbios de Moscou.
No dia seguinte, domingo, 7 de dezembro de 1941, deu-se um acontecimento
no outro lado da Terra que transformou a guerra européia, que ele tão leviana
mente provocara, em guerra mundial, a qual, se bem que não pudesse sabê-lo,
selaria seu destino e o do Terceiro Reich. Os bombardeiros japoneses atacaram
Pearl Harbor. No dia seguinte,* Hitler, que se achava em seu quartel-general em
Wolfsschanze, apressou-se a voltar de trem para Berlim. Havia feito uma promes
sa solene e secreta ao Japão e chegara a ocasião de cumpri-la — ou rompê-la.
* Os movimentos e o paradeiro de Hitler na ocasião acham-se anotados em sua própria agenda, que
figura entre os documentos apreendidos.
CAPÍTULO 8
A vez dos Estados Unidos
Adolf Hitler fizera uma importante promessa ao Japão, durante uma série de
conversações em Berlim com Yosuke Matsuoka, o ministro des Relações Exterio
res japonês pró-Eixo, na primavera do ano de 1941, pouco tempo antes do ataque
alemão à Rússia. As minutas das reuniões, apreendidas aos alemães, possibilita-
ram-nos traçar o desenvolvimento de mais outro dos monumentais erros de cál
culo de Hitler. Elas, e outros documentos nazistas daquele período, mostram o
Führer e Gõring demasiado arrogantes e Ribbentrop demasiado obtuso para po
derem compreender a potencial força militar dos Estados Unidos — erro crasso
que fora cometido pela Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial por Gui
lherme II, Hindenburg e Ludendorff.
Houve, desde o início, uma contradição básica na política de Hitler com rela
ção aos Estados Unidos. Conquanto ele encarasse com desprezo as proezas mili
tares desse país, esforçara-se, durante os primeiros anos do conflito, por mantê-lo
fora da guerra. Isso, conforme vimos, constituiu tarefa da embaixada alemã em
Washington, que se desdobrou em atividades, inclusive em subornar membros do
Congresso, tentar subvencionar escritores e auxiliar o Primeiro Comitê da Amé
rica para que apoiassem os isolacionistas americanos, e, com isso, impedir que os
Estados Unidos se unissem, na guerra, aos inimigos da Alemanha.
O ditador nazista compreendia perfeitamente, conforme suas manifestações
particulares deixam claro, que os Estados Unidos, enquanto fossem dirigidos pelo
presidente Roosevelt, seriam um obstáculo a seus grandiosos planos de conquis
tar o mundo e dividi-lo entre as potências do pacto tríplice. Via que a república
norte-americana teria que ser enfrentada eventualmente e, conforme disse, dura
mente. Um país de cada vez, porém. Havia sido esse o segredo de sua brilhante
estratégia até então. Chegaria a vez dos Estados Unidos, depois de a Inglaterra e a
União Soviética terem sido vencidas. Então, com o auxílio do Japão e da Itália,
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 345
enfrentaria os nouveaux riches americanos que, isolados e sós, sucumbiriam facil
mente ante o poderio do Eixo vitorioso.
O Japão era a chave dos esforços de Hitler para manter os Estados Unidos fora
da guerra até que a Alemanha estivesse pronta para combatê-los. O Japão, confor
me Ribbentrop assinalou a Mussolini em 11 de março de 1940, servia de contra
peso para evitar que os Estados Unidos procurassem intervir na Europa contra a
Alemanha, como tinham feito na Primeira Guerra.1
Em suas negociações com os japoneses durante a guerra, Hitler e Ribbentrop
acentuaram a princípio a importância de não fazerem os Estados Unidos abando
narem sua neutralidade. No começo de 1941, mostraram-se os chefes nazistas
ansiosos em arrastar o Japão para a guerra, não contra os Estados Unidos ou mes
mo contra a Rússia — que atacariam dentro em breve —, mas contra a Inglaterra,
que se recusara a se render mesmo no momento em que se achava aparentemente
derrotada. Ainda no princípio de 1941, acentuou-se a pressão alemã sobre o Ja
pão. Em 23 de fevereiro, Ribbentrop recebeu em Fuschl, em sua propriedade si
tuada próxima a Salzburgo, o ardente e belicoso embaixador japonês, general
Hiroshi Oshima, que muitas vezes impressionara este observador como sendo
mais nazista que os próprios nazistas. Disse Ribbentrop a seu convidado que, con
quanto a guerra já estivesse ganha, o Japão deveria entrar na peleja “o mais cedo
possível, para seu próprio interesse”, e apoderar-se do império britânico na Ásia.
Uma intervenção de surpresa do Japão [continuou ele] manteria os Es
tados Unidos fora da guerra. Não se encontrando eles armados, hesita
riam em expor sua marinha a quaisquer riscos, a oeste do Havaí, e nada
poderiam fazer em tal caso. Se, por outro lado, o Japão respeitasse os
interesses americanos, não haveria sequer a possibilidade de Roosevelt
usar o argumento do prestígio perdido para tornar admissível a guerra
aos americanos. Era pouco provável que os Estados Unidos declarassem
guerra se tivessem que assistir à tomada das Filipinas pelos japoneses.
Mesmo que os Estados Unidos se envolvessem na guerra, porém — declarou
Ribbentrop — “isso não poria em risco a vitória final dos países do pacto das três
potências”. A esquadra japonesa derrotaria facilmente a americana, e a guerra se
ria rapidamente terminada com a queda da Inglaterra e dos Estados Unidos. Isso
346 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
constituía inebriante material para o espadachim japonês, e Ribbentrop cuidou de
animá-lo. Aconselhou os japoneses a manterem-se firmes e “usarem linguagem
franca” nas negociações correntes em Washington.
Qualquer movimento dos Estados Unidos será contido, se perceberem
eles que se defrontam com uma decisão firme. O povo, nos Estados
Unidos, não estava disposto a sacrificar os filhos e, portanto, mostrava-
se contrário à entrada do país no conflito; sentia, instintivamente, que
estava sendo arrastado para a guerra, sem razão alguma, por Roosevelt
e pelos judeus que manobravam nos bastidores. Nossa política com os
Estados Unidos, portanto, deve ser clara e firme (...)
O ministro das Relações Exteriores nazista ainda tinha uma advertência a fa
zer, idêntica à que fizera a Franco e na qual falhara tristemente.
Se a Alemanha enfraquecesse, o Japão se veria frente a uma coalizão
mundial dentro de pouco tempo. Estávamos todos no mesmo barco. O
destino de ambos os países estava sendo determinado agora, para os
séculos vindouros (...) A derrota da Alemanha significaria o fim das
idéias imperialistas dos japoneses.2
Com o fim de dar a conhecer a seus comandantes militares e aos elementos
principais do Ministério das Relações Exteriores a nova política japonesa, Hitler
expediu em 5 de março de 1941 uma diretiva secretíssima, intitulada Ordem Bá
sica nô 24 Relativa à Colaboração com o Japão.3
O objetivo da colaboração, baseado no pacto das três potências, deve
ser induzir o Japão, o mais breve possível, a tomar medidas ativas no
Extremo Oriente. Poderosas forças britânicas ficarão, com isso, imobili
zadas, e o centro de gravidade dos interesses dos Estados Unidos se
desviará para o Pacífico.
Deve-se acentuar o objetivo comumy na condução da guerra, como
sendo forçar a Inglaterra a render-se depressa e, com isso, manter os
Estados Unidos afastados do conflito.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 347
A conquista de Cingapura, como posição-chave dos britânicos no Ex
tremo Oriente, significaria um êxito decisivo para toda a orientação
desta guerra das três potências*
Hitler também instou junto aos japoneses para que conquistassem outras ba
ses navais britânicas e, mesmo, bases americanas, “caso não se pudesse impedir a
entrada dos Estados Unidos na guerra”. Concluiu ordenando que “não dessem aos
japoneses qualquer idéia sobre a ‘Operação Barbarossa,”. Os Aliados japoneses, à
semelhança dos aliados italianos, deviam ser utilizados para auxiliar a Alemanha
em suas ambições, mas a nenhum dos dois governos Hitler confiaria suas inten
ções de atacar a Rússia.
Uma quinzena depois, em 18 de março, numa conferência com Hitler, Keitel
e Jodl, o almirante Rãder recomendou fortemente que se fizesse pressão no Japão
para atacar Cingapura. Jamais se apresentaria novamente tão favorável oportuni
dade — explicou Rãder — se se levasse em conta “toda a esquadra inglesa imobi
lizada, a falta de preparação dos Estados Unidos para a guerra contra o Japão e a
inferioridade da esquadra daquele país em confronto com a dos japoneses”. A
conquista de Cingapura — declarou o almirante — “resolveria todas as questões
na Ásia relativas aos Estados Unidos e à Inglaterra”, e, naturalmente, possibilita
ria ao Japão evitar, se desejasse, a guerra com os Estados Unidos. Havia apenas
uma dificuldade — opinou o almirante — e sua menção preocupou Hitler: se
gundo informações do serviço secreto da marinha, o Japão somente se movi
mentaria contra os britânicos no sudoeste da Ásia “se os alemães começassem o
desembarque na Inglaterra”. Não há, nas minutas da marinha sobre essa confe
rência, registro de qual teria sido a resposta de Hitler a essa observação. Ráder
sabia, certamente, que o comandante supremo não tinha planos nem esperanças
de um desembarque na Inglaterra, nesse ano. Acrescentou algo mais a que o
Führer não respondeu: recomendou que Matsuoka “fosse avisado dos planos re
lativos à Rússia”.4
O ministro das Relações Exteriores do Japão achava-se, agora, a caminho de
Berlim — via Sibéria e Moscou — fazendo, consoante as palavras do secretário
de Estado Hull,** declarações belicosas pró-Eixo. Sua chegada na capital alemã,
* Grifos de Hitler.
** Hull fez essa observação ao novo embaixador em Washington, almirante Nomura, na presença do sr.
348 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
em 26 de março, deu-se num momento muito embaraçoso para Hitler, pois nes
sa noite o governo iugoslavo pró-Alemanha havia sido derrubado no golpe des
fechado em Belgrado, e o Führer estava tão ocupado em improvisar planos para
esmagar o país rebelde que teve de adiar a audiência com o visitante japonês
para a tarde do dia 27.
Ribbentrop avistou-se com ele pela manhã, repetindo, por assim dizer, os ve
lhos discos reservados para hóspedes semelhantes em tais ocasiões, se bem que
se esforçasse por parecer ainda mais loquaz do que de costume e não permitir
que o pequeno e esperto Matsuoka falasse. As extensas minutas confidenciais
feitas pelo dr. Schmidt (e que figuram entre os documentos apreendidos no Mi
nistério das Relações Exteriores) não deixam dúvida a respeito.5 “A guerra já foi
definitivamente vencida pelo Eixo”, anunciou Ribbentrop, “e é apenas questão de
tempo a Inglaterra admiti-lo”. Aconselhou, em seguida, “um rápido ataque con
tra Cingapura”, porque isso seria “um fator decisivo para acelerar a derrota da
Inglaterra”. Ante essa contradição, o pequeno visitante japonês nem pestanejou.
“Ficou ali sentado numa atitude impenetrável”, lembrou Schmidt mais tarde,
“não revelando de forma alguma a impressão que lhe causavam aquelas curiosas
observações”.6
Quanto aos Estados Unidos, não havia dúvida [declarou Ribbentrop] de
que os britânicos há muito teriam abandonado a guerra se Roosevelt
não houvesse, sempre, dado novas esperanças a Churchill (...) O pacto
das três potências destinava-se, sobretudo, a atemorizar os Estados Uni
dos (...) e a mantê-los fora da guerra (...) Tinha-se que impedir, por todos
os meios, que os Estados Unidos tomassem parte ativa na guerra e pu
dessem auxiliar eficazmente a Inglaterra (...) A conquista de Cingapura,
muito provavelmente, faria os Estados Unidos se manterem afastados do
conflito, porque dificilmente se arriscariam a enviar sua esquadra às
águas japonesas (...) Roosevelt se sentiria em posição dificílima (...)
Conquanto Hitler tivesse decretado que não se contasse a Matsuoka o iminente
ataque da Alemanha à Rússia — precaução necessária para impedir que a notícia vies
se a público e que, entretanto, conforme veremos, traria desastrosas conseqüências
Roosevelt, em 14 de março. Nomura respondeu que Matsuoka "falava espalhafatosamente para efeito
interno e com o fim de satisfazer suas ambições políticas" {The Memoirs ofCordell Hull, 11, p. 900-1).
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 349
para a Alemanha — Ribbentrop fez várias insinuações a respeito. Declarou a seu
visitante que as relações com a União Soviética estavam bem, mas não muito
amistosas. Ademais, caso a Rússia ameaçasse a Alemanha, “o Führer a esmagaria”.
O Führer estava convicto, acrescentou, de que, sobrevindo uma guerra entre os
dois países, “a Rússia deixaria de existir dentro de poucos meses”.
Matsuoka, disse Schmidt, estremeceu ante essa declaração e pareceu ter ficado
alarmado. Ribbentrop apressou-se a assegurar-lhe então não acreditar que Stalin
“adotasse uma política imprudente”. A essa altura, ainda segundo Schmidt, Rib
bentrop foi chamado por Hitler, a fim de tratarem sobre a crise iugoslava, deixan
do até de voltar para o almoço oficial que esperava oferecer ao ilustre visitante.
Hitler, à tarde, tendo decidido esmagar outro país (Iugoslávia), tratou de con
vencer o ministro dos Negócios Exteriores do Japão. “A Inglaterra já perdeu a
guerra”, começou ele. “É apenas questão de inteligência admiti-lo.” Contudo, os
britânicos ainda se agarravam às duas tábuas no seu afogamento: a Rússia e os
Estados Unidos. Relativamente à União Soviética, mostrou-se mais circunspecto
que Ribbentrop. Não acreditava, disse, que surgisse perigo de guerra com a Rús
sia. A Alemanha, afinal de contas, tinha de 160 a 170 divisões “para a defesa con
tra a Rússia”. Quanto aos Estados Unidos:
Os Estados Unidos viam-se diante de três possibilidades: podiam ar
mar-se, podiam auxiliar a Inglaterra ou podiam fazer a guerra em outra
frente. Se auxiliassem a Inglaterra, não poderiam se armar. Se abando
nassem a Inglaterra, ela seria destruída e eles se veriam lutando sozi
nhos contra as potências do pacto tríplice. Em caso algum, porém, os
Estados Unidos poderiam travar uma guerra em outra frente.
Portanto, concluiu o Führer, “jamais, na imaginação humana”, poderia haver
melhor oportunidade do que essa para os japoneses atacarem no Pacífico. “Jamais
tornaria a voltar tal momento. Era um momento sem igual na História”, comple
tou ele exagerando o mais que pôde. Matsuoka concordou, mas lembrou Hitler de
que, infelizmente, “não controlava o Japão. Não podia, nesse momento, assumir
um compromisso em nome do império japonês, afirmando que iria agir”.
Hitler, porém, sendo ditador absoluto, podia assumir um compromisso e foi o
que fez para com o Japão em 4 de abril — muito casualmente e sem que fosse
solicitado — depois que Matsuoka voltou a Berlim em seguida a uma visita a
350 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Mussolini.* Essa segunda conferência realizou-se na véspera do ataque nazista
contra dois outros países inocentes, Iugoslávia e Grécia, e o Führer; sedento de
novas e fáceis conquistas e de vingar-se de Belgrado, achava-se num de seus beli
cosos estados de espírito. Embora considerasse indesejável uma guerra com os
Estados Unidos — disse ele — “já a havia incluído em seus cálculos”. Não tinha,
porém, os Estados Unidos em alta opinião como potência militar.**
A Alemanha se prepara para que nenhum americano possa desembar
car na Europa. Travaria uma guerra vigorosa contra os Estados Unidos
por meio de submarinos e da Luftwaffe; e, com toda a sua experiência
(...) vencê-los-ia, completamente, à parte o fato de serem os soldados
alemães, evidentemente, muito superiores aos americanos.
Essa fanfarronice fê-lo assumir o compromisso fatídico. O dr. Schmidt regis
trou-o em suas minutas:
Se o Japão entrar em conflito com os Estados Unidos, a Alemanha , de sua
parte, tomaria imediatamente as medidas necessárias.
Pelas anotações de Schmidt, evidencia-se que Matsuoka não compreendera
perfeitamente o significado daquilo que o Führer estava prometendo; e Hitler re
petiu a promessa.
Conforme ele havia declarado, a Alemanha, no caso de um conflito entre
o Japão e os Estados Unidos, participaria imediatamente dele.***
* Mussolini contara-lhe, informou Matsuoka a Hitler, que "os Estados Unidos eram o inimigo número 1,
figurando a Rússia em segundo lugar".
** Ou qualquer outra coisa que dissesse respeito aos Estados Unidos. A fantástica concepção que fazia
do país americano — nesse tempo chegara a acreditar em sua própria propaganda nazista — foi nova
mente exposta numa conferência que teve com Mussolini, na frente russa, no fim de agosto de 1941.
"O Führer", os registros italianos citam o fato como tendo Hitler dito indiretamente, "fez uma exposição
minuciosa sobre a camarilha judaica que cerca Roosevelt e explora o povo americano. Declarou que
não podia, por coisa alguma neste mundo, viver num país, como os Estados Unidos, cuja concepção de
vida se inspira no mais voraz comercialismo e não aprecia as mais elevadas manifestações do espírito
humano, por exemplo a música". (Ciano's Diplomatic Papers, p. 449-52).
*** Grifos do autor.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 351
Hitler pagou caro, não só por essa garantia, feita de modo tão casual, como
também pela sua malícia em não revelar aos japoneses sua intenção de atacar a
Rússia logo que os Bálcãs fossem ocupados. Um tanto timidamente, Matsuoka
havia perguntado a Ribbentrop, durante uma entrevista em 28 de março, se, por
ocasião de seu regresso, “devia permanecer em Moscou, a fim de negociar com os
russos o pacto de não-agressão ou o tratado de neutralidade”. O obtuso ministro
das Relações Exteriores nazista respondeu deslambidamente que “se possível, não
devia suscitar a questão em Moscou, porque isso, provavelmente, não se ajustaria
à estrutura da situação atual”. Não compreendera a importância daquilo que esta
va ocorrendo. No dia seguinte, porém, a questão penetrou em seu obtuso espírito,
começando então ele, nesse dia, as conversações referindo-se a ela. Antes de mais
nada, com a mesma atitude casual assumida por Hitler em 4 de abril, lançou a
garantia de que se a Rússia atacasse o Japão “a Alemanha a atacaria imediatamen
te”. Desejava oferecer essa garantia, disse, “para que o Japão pudesse avançar no
sul em direção a Cingapura, sem receio de qualquer complicação com a Rússia”.
Ao confessar finalmente Matsuoka que, durante sua estada em Moscou quando a
caminho de Berlim, ele mesmo havia proposto um pacto de não-agressão à União
Soviética, e deu a entender que os russos se mostraram favoravelmente inclinados
a fazê-lo, o espírito de Ribbentrop tornou-se novamente algo vazio. Aconselhou
Matsuoka a tratar do problema “de modo superficial”.
Quando, porém, passou por Moscou em sua viagem de volta para o Japão, o
ministro das Relações Exteriores japonês assinou um tratado de neutralidade com
Stalin, o qual, segundo o embaixador von Schulenburg, que previa suas conse
qüências e nesse sentido telegrafou a Berlim, dispunha que cada país se mantivesse
neutro no caso de um dos signatários ver-se envolvido na guerra. Foi um tratado,
assinado em 13 de abril, que o Japão honrou até o último momento, a despeito das
exortações posteriores dos alemães para que o desconsiderasse, pois, antes de
expirado o verão de 1941, os nazistas estariam implorando aos japoneses atacar,
não Cingapura ou Manila, mas Vladivostok!
A princípio, entretanto, Hitler não percebeu a importância do pacto de neu
tralidade russo-nipônico. Em 20 de abril, informou o almirante Ráder, respon
dendo a uma pergunta que a respeito ele lhe fez, que o pacto havia sido assinado
“com a aquiescência da Alemanha” e que ele o acolhera com prazer, “porquanto o
352 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Japão agora fica impedido de agir contra Vladivostok, devendo-se, em vez disso,
induzi-lo a atacar Cingapura”.*7
Hitler, nessa ocasião, estava seguro de que a Alemanha poderia destruir a Rús
sia durante o verão. Não queria que o Japão partilhasse desse formidável feito, da
mesma maneira que não quisera que a Itália participasse da conquista da França.
E estava absolutamente seguro de que o auxílio dos japoneses não seria necessá
rio. Ribbentrop, fazendo-se eco das idéias de seu chefe, declarara a Matsuoka em
29 de março que, se a Rússia forçasse a Alemanha “a atacar”, ele ‘consideraria
conveniente que o exército japonês se abstivesse de atacar a Rússia”.
Mas as idéias de Hitler e Ribbentrop sobre essa questão modificaram-se re
pentina e drasticamente, quase três meses depois. Em 28 de junho de 1941, seis
dias após terem os exércitos nazistas se lançado sobre a Rússia, Ribbentrop tele
grafou ao embaixador alemão em Tóquio, general Eugen Ott, recomendando-lhe
fazer tudo o que pudesse no sentido de conseguir que os japoneses atacassem
prontamente a Rússia soviética pela retaguarda. Aconselhava Ott a levar em con
sideração o apetite dos japoneses pelos despojos e, também, a explicar que era
essa a melhor maneira de manter neutros os Estados Unidos.
Pode-se esperar [esclareceu Ribbentrop] que a rápida derrota da Rússia
soviética, especialmente se o Japão agir no leste, provará ser o melhor
argumento para convencer os Estados Unidos da completa inutilidade
de entrar na guerra ao lado de uma Inglaterra inteiramente isolada e às
voltas com a mais poderosa aliança do mundo.8
Matsuoka manifestou-se a favor de um ataque imediato à Rússia, mas sua opi
nião não foi aceita pelo governo de Tóquio, cujo ponto de vista parecia o seguinte:
* A notícia da assinatura, em Moscou, do pacto de neutralidade russo-nipônico causou considerável
alarme em Washington, onde Roosevelt e Hull mostraram-se inclinados a adotar um ponto de vista si
milar ao de Hitler, isto é, que o tratado libertaria as forças japonesas, assinaladas para uma possível
guerra com a Rússia, permitindo-lhes que atacassem mais ao sul as possessões britânicas e talvez as
dos Estados Unidos. Revela Sherwood que, em 13 de abril, quando foi recebida a notícia da conclu
são do pacto, o presidente esboçou um plano para o desencadeamento de uma ação agressiva das
naves de guerra norte-americanas contra os submarinos alemães no Atlântico Ocidental. Uma Nova
Ordem determinava simplesmente que os navios de guerra americanos informassem quaisquer movi
mentos de barcos da marinha alemã a oeste da Irlanda, sem, entretanto, atirar contra eles. Considerava-
se que o novo tratado de neutralidade russo-nipônico tornara a situação no Pacífico demasiado peri
gosa para que corresse muito risco no Atlântico. (Robert E. Sherwood, Roosevelt and Hopkins, p. 291).
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 353
se os alemães estavam derrotando rapidamente os russos, como alegavam, não
necessitavam, portanto, do auxílio dos japoneses. Tóquio, contudo, não estava
muito seguro de uma vitória relâmpago dos nazistas e foi essa a verdadeira razão
de sua resistência.
Mas Ribbentrop insistiu. Em 10 de julho, quando a ofensiva alemã na Rússia
começava realmente a progredir e até mesmo Halder, como vimos, passou a julgar
que a batalha estava ganha, o ministro das Relações Exteriores nazista expediu de
seu trem especial, na frente oriental, um novo e mais incisivo telegrama a seu
embaixador em Tóquio.
Uma vez que a Rússia, conforme relatou o embaixador japonês em
Moscou, está prestes a tombar (...) é simplesmente impossível que o
Japão não resolva a questão de Vladivostok e da área da Sibéria assim
que seus preparativos militares estejam terminados.
Peço-vos que empregueis todos os meios de que possais dispor para
insistir novamente junto ao Japão que entre em guerra contra a Rússia
o mais breve possível (...) Quanto mais cedo isso se der, tanto melhor.
Permanece ainda o objetivo natural, de nós e o Japão fazermos junção
na estrada de ferro Transiberiana antes do início do inverno.9
Essa estonteante perspectiva não fez a cabeça do governo militarista do Ja
pão. Quatro dias depois, o embaixador Ott respondia que estava se esforçando
para persuadir os japoneses a atacar a Rússia o mais breve possível e que Mat
suoka era inteiramente a favor do ataque; ele, Ott, porém, devia lutar contra
“sérios obstáculos” no gabinete de Tóquio.10 O belicoso Matsuoka, na verdade,
foi logo obrigado a sair do Ministério. Com sua saída, os alemães perderam na
ocasião o melhor amigo e, conforme veremos, conquanto relações mais chega
das haveriam logo de ser restabelecidas entre Berlim e Tóquio, elas, entretanto,
não foram suficientes para convencer os japoneses da vantagem de auxiliar a
Alemanha na guerra contra a Rússia. Hitler, mais uma vez, havia sido suplantado
por um aliado astuto*
* Ribbentrop continuou tentando, durante aquele outono e várias vezes durante os dois anos seguin
tes, induzir os japoneses a atacar a Rússia pela retaguarda; todas as vezes, porém, o governo de Tóquio
escusava-se por não poder fazê-lo.
a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
354
“Evitai incidentes com os Estados Unidos!”
Com o Japão recusando-se firmemente a auxiliar Hitler na Rússia — os japo
neses estavam às voltas com suas próprias dificuldades —, tornou-se mais que
importante, para a Alemanha, manter os Estados Unidos afastados do conflito até
que a União Soviética fosse conquistada; e o Führer, naquele verão, estava seguro
de que ocorreria antes da chegada do inverno.
Há muito a marinha alemã se sentia irritada com as restrições impostas por
Hitler a seus esforços no sentido de cortar os embarques americanos para a Ingla
terra e fazer face à crescente beligerância das naves americanas para com os sub
marinos e barcos de superfície alemães que operavam no Atlântico. Os almirantes
nazistas, encarando a situação com mais visão do que Hitler — cujo espírito se
concentrava nas operações terrestres —, consideravam inevitável, quase desde o
princípio, a entrada dos Estados Unidos na guerra e insistiram, junto ao coman
dante supremo, em que se preparasse para isso. Imediatamente depois da queda
da França, em junho de 1940, o almirante Ráder, apoiado por Gõring, instou com
Hitler para que se apoderasse não só da África Ocidental francesa, mas também
— o que era mais importante —■das ilhas do Atlântico, incluindo a Islândia, os
Açores e as Canárias, para impedir que os Estados Unidos as ocupassem. Hitler
mostrou-se interessado, mas desejava em primeiro lugar invadir a Inglaterra e
conquistar a Rússia. Os nouveaux riches seriam atacados depois disso, uma vez
que então estariam em péssima situação. Um memorando secretíssimo do major
Freiherr von Falkenstein, do Estado-maior geral, revela a opinião de Hitler no fim
do verão de 1940.
O próprio Hitler nutriu esperanças durante todo o verão. Em 26 de agosto, declarou a Rãder que estava
"convencido de que o Japão levaria a efeito o ataque contra Vladivostok assim que tivesse concentrado
suas forças. Explica-se essa indiferença atual com o fato de que a concentração de forças deve ser feita
calmamente, e o ataque, de surpresa".11
Os arquivos japoneses revelam como Tóquio se eximiu das solicitações alemãs nessa embaraçosa
questão. Quando, por exemplo, em 19 de agosto, o embaixador Ott perguntou ao vice-ministro das
Relações Exteriores japonês acerca da intervenção do Japão contra a Rússia, respondeu ele: "Essa idéia
de o Japão atacar a Rússia seria uma questão seriíssima e exigiria profunda reflexão." Quando em 30 de
agosto Ott — que já se mostrava então um embaixador extremamente irritado — perguntou ao minis
tro dos Negócios Estrangeiros, almirante Toyoda, se havia alguma possibilidade de o Japão participar
da guerra russo-alemã, respondeu: "Os preparativos do Japão estão agora fazendo progresso, mas le
vará ainda algum tempo para serem concluídos."12
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 355
O Führer; presentemente preocupado com a questão da ocupação das
linhas do Atlântico e com a idéia de entregar-se a uma guerra com os
Estados Unidos em uma data posterior. A deliberação sobre esse assun
to está sendo considerada aqui.13
A questão não era, pois, pretender Hitler, ou não, entrar em guerra com os
Estados Unidos, e, sim, a data em que acharia dever aventurar-se nessa emprei
tada. Na primavera seguinte, a data começou a brotar-lhe no cérebro. Em 22 de
maio de 1941, o almirante Ráder conferenciou com o comandante supremo e
informou, pesaroso, que a marinha “tinha que rejeitar a idéia de ocupar os Aço
res”. Era forçoso reconhecer que não dispunha de forças para isso. Mas, já a esse
tempo, Hitler se entusiasmara com o projeto e, segundo as anotações confiden
ciais de Rãder:14
O Führer mostra-se ainda a favor da ocupação dos Açores a fim de poder
operar dali, contra os Estados Unidos, com seus bombardeiros de grande
raio de ação. A ocasião para isso poderia verificar-se no outono.*
Quis dizer: depois da queda da União Soviética, chegaria a vez dos Estados
Unidos. Explicou isso claramente a Rãder, quando o almirante conferenciou com
ele dois meses depois, em 25 de julho, na ocasião em que a ofensiva na Rússia
seguia seu livre curso. “Depois da campanha a leste”, anotou Ráder, “ele reservará
a si o direito de tomar uma medida enérgica contra os Estados Unidos”.15 Mas até
lá, acentuou Hitler ao chefe da marinha, desejava “evitar que os Estados Unidos
fossem obrigados a declarar a guerra (...) por consideração ao exército que se
achava envolvido em duros combates”.
Ráder não se sentia satisfeito com essa resistência. De fato, os relatos de suas
conferências com Hitler, que podem ser lidos nos documentos apreendidos, de
monstram sua crescente impaciência ante o freio que o Führer colocara na mari
nha alemã. Procurou, em todas as conferências, demovê-lo de sua idéia.
* Os alemães não possuíam bombardeiros de grande raio de ação que, partindo dos Açores, pudessem
bombardear a costa dos Estados Unidos — muito menos voltar depois — e é um sinal da distorção do
espírito de Hitler já nessa ocasião o fato de ele se referir a "bombardeiros de grande raio de ação" que
não existiam.
356 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Cedo, naquele ano, em 4 de fevereiro, Ráder havia submetido a Hitler um me
morando, no qual a marinha manifestava dúvidas acerca do valor, para a Alema
nha, da neutralidade dos Estados Unidos, pela maneira em que estava sendo pro
cessada. De fato, argumentavam os almirantes que a entrada dos Estados Unidos
na peleja talvez até demonstrasse que seria “vantajoso para o esforço de guerra da
Alemanha”, se, com isso, o Japão se tornasse beligerante ao lado do Eixo.16 Mas o
argumento não impressionou Hitler.
Ráder achava-se desanimado. A batalha do Atlântico estava no auge, e a Ale
manha não a ganhava. Choviam abastecimentos para a Inglaterra à sombra da
Lei de Empréstimos e Arrendamentos. A Patrulha da Neutralidade Pan-Ameri
cana dificultava, cada vez mais, uma ação eficaz dos submarinos alemães. Tudo
isso Ráder fez ver a Hitler, mas sem resultado. Ele encontrou-se com Hitler em
18 de março, informando-o de que os navios de guerra norte-americanos esta
vam escoltando comboios dos Estados Unidos até a Islândia e destinados à Ingla
terra. Pediu que se fizesse alguma coisa para impedir que os Estados Unidos se
firmassem na África Ocidental francesa. Essa possibilidade, disse, “era perigosís-
sima”. Após ouvi-lo, Hitler declarou que discutiria essas questões com o Ministé
rio das Relações Exteriores (ainda mais com quem!), o que era uma maneira de
afastar os almirantes.17
Durante toda a primavera e o começo do verão ele continuou a mantê-los
afastados. Em 20 de abril, recusou-se a ouvir os apelos de Ráder “para que inicias
sem operações bélicas contra os barcos mercantes dos Estados Unidos, de acordo
com os regulamentos que davam aos beligerantes o direito de capturarem barcos
em águas territoriais inimigas”.18 O primeiro choque registrado entre navios de
guerra dos Estados Unidos e da Alemanha ocorreu em 10 de abril, quando o des
tróier americano Niblack lançou cargas de profundidade contra um submarino
alemão que havia dado sinal de querer atacá-lo. Em 22 de maio, Ráder voltou a
Berghof com um longo memorando sugerindo contramedidas para os atos ina-
mistosos do presidente Roosevelt, mas não conseguiu modificar o ponto de vista
do comandante supremo.
O Führer [anotou o almirante] considera ainda indecisa a atitude do
presidente Roosevelt. Não deseja, em circunstância alguma, causar inci
dentes que possam provocar a entrada dos Estados Unidos na guerra.19
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 357
Havia maiores razões para evitar tais incidentes quando começou a campa
nha da Rússia, ponto que Hitler acentuou a Ráder em 21 de junho, um dia antes
de ter início o ataque. O almirante fez-lhe brilhante relato da maneira por que o
U-253, ao localizar o encouraçado Texas acompanhado de um destróier, na zona
bloqueada do Atlântico Norte proclamada pela Alemanha, os havia “perseguido
e procurado atacá-los”. Acrescentou que, “no tocante aos Estados Unidos, medi
das firmes são mais eficazes que uma aparente submissão”. O Führer concordou
com esse princípio, mas não com uma ação específica, e, mais uma vez, censu
rou a marinha.
O Führer declara minuciosamente que deseja evitar qualquer incidente
com os Estados Unidos até que a Operação Barbarossa esteja em franco
progresso. Após algumas semanas a situação ficará mais clara, quando
é de esperar que reflita de modo mais favorável sobre os Estados Uni
dos e o Japão. Os Estados Unidos se sentirão menos inclinados a entrar
na peleja devido à ameaça do Japão, que, então, se tornará ainda maior.
Se possível, portanto, devem cessar, nas próximas semanas, todos os
ataques contra navios de guerra.
Quando Ráder procurou argumentar que, à noite, era difícil distinguir navios
de guerra inimigos dos de países neutros, Hitler interrompeu-o bruscamente,
dando-lhe instruções no sentido de expedir novas ordens para evitar incidentes
com os Estados Unidos. Disso resultou que, nessa mesma noite, o chefe da mari
nha expediu ordens para que cessassem ataques contra quaisquer barcos de guer
ra “dentro ou fora da área bloqueada”, a menos que fossem claramente identifica
dos como sendo britânicos. Instruções semelhantes foram dadas à Luftwaffe.20
O presidente Roosevelt anunciou em 9 de julho que as forças norte-america-
nas estavam substituindo os ingleses na ocupação da Islândia. A reação em Ber
lim foi imediata e violenta. Ribbentrop telegrafou a Tóquio que “aquela intrusão
das forças militares norte-americanas, apoiando a Inglaterra num território ofi
cialmente proclamado por nós área de combate, é, em si mesma, uma agressão
contra a Alemanha e a Europa”.21
Ráder apressou-se a ir a Wolfsschanze, de onde o Führer estava dirigindo seus sol
dados na Rússia. Desejava que se decidisse, declarou, “se a ocupação da Islândia
358 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
pelos Estados Unidos devia ser considerada entrada na guerra ou um ato de pro
vocação a que não se devia dar atenção”. Quanto à marinha alemã, ela considerava
os desembarques dos americanos na Islândia um ato de guerra e, num memoran
do de duas páginas, lembrava ao Führer todos os outros atos de agressão contra a
Alemanha praticados pelo governo de Roosevelt. Mais ainda, a marinha exigia o
direito de pôr a pique os cargueiros americanos na área dos comboios e de atacar
os navios de guerra dos Estados Unidos, se a ocasião exigisse.* Hitler recusou-se
a anuir àquelas exigências.
O Führer explica em detalhes [declara o relatório de Ráder sobre a con
ferência] que deseja ardentemente protelar a entrada dos Estados Uni
dos na guerra por um ou dois meses mais. Por outro lado, a campanha
a leste deve prosseguir com toda a força aérea (...) a qual ele não deseja
desviar para outro ponto, mesmo parte dela; uma campanha vitoriosa
na frente oriental terá um efeito tremendo sobre toda a situação, e, pro
vavelmente, sobre a atitude dos Estados Unidos. Não deseja presente
mente, por conseguinte, que se modifiquem as instruções existentes;
deseja, aliás, estar seguro de que tais incidentes serão evitados.
Quando Ráder alegou que seus comandados da marinha não poderiam ser
responsáveis por “um engano”, no caso de serem atacados navios americanos, Hi
tler retrucou que, pelo menos no que dizia respeito aos barcos de guerra, a mari
nha faria melhor “estabelecer definitivamente” que se tratava de barcos inimigos
antes de atacá-los. Para ter certeza de que os almirantes o haviam compreendido
perfeitamente, expediu uma ordem específica em 19 de julho, estipulando que “na
extensa zona de operações os navios mercantes norte-americanos, quer navegan
do a sós ou em comboios ingleses ou norte-americanos e se reconhecidos como
tais, antes de recorrer às armas não devem ser atacados”. Dentro da área bloquea
da, também reconhecida pelos Estados Unidos como sendo fora dos limites, os
barcos americanos podiam ser atacados, mas Hitler, especificamente, decretou
nessa ordem que essa zona de guerra “não incluía a rota marítima EUA-Islândia”.
Hitler sublinhou o termo “não”.22
* Pode-se observar aqui que, depondo no tribunal de Nuremberg, o almirante Ráder insistiu em dizer
que fez tudo para evitar que se provocasse a entrada dos Estados Unidos na guerra.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 359
Era, porém, de esperar que ocorressem enganos, conforme Ráder dissera. Em
21 de maio, um submarino alemão afundou o cargueiro americano Robin Moor
quando se achava a caminho da África do Sul, num lugar bastante afastado da
zona bloqueada pelos alemães. Mais dois barcos mercantes foram torpedeados no
fim do verão. Em 4 de setembro, um submarino alemão lançou dois torpedos
contra o destróier norte-americano Greer, sem, no entanto, atingi-lo. Uma sema
na depois, em 11 de setembro, Roosevelt reagiu a esse ataque num discurso no
qual anunciou que havia dado instruções à marinha para que “atirasse à vista”, e
prevenia que os navios de guerra do Eixo, que entrassem na zona de defesa dos
Estados Unidos, o fariam com “risco próprio”.
O discurso foi glosado em Berlim. A imprensa nazista atacou Roosevelt
chamando-o de “forjador número um de guerras”. Ribbentrop lembrou-se, em
Nuremberg, que Hitler “ficou bastante animado”. Ao tempo em que o almirante
Ráder chegou ao quartel-general de Wolfsschanze, na frente oriental, entretanto,
na tarde de 17 de setembro, a fim de aconselhar uma represália drástica àquela
ordem de “atirar à vista”, o Führer acalmou-se. O comandante supremo disse, fir
memente, “não”, ao pedido do almirante para que finalmente libertasse a marinha
alemã das restrições contra os ataques aos navios americanos.
[Como] parece que o fim de setembro trará a grande decisão na campa
nha da Rússia — diz o registro que Ráder fez da conversação —, pede o
Führer que se tomem cuidados para evitar qualquer incidente, na guer
ra, contra os navios mercantes, mais ou menos até meados de outubro.
“Portanto”, anotou Ráder desoladamente, “o comandante-em-chefe da mari
nha e o almirante comandante dos submarinos [Dõnitz] retiram suas sugestões.
Os submarinos devem ser informados da razão de terem que observar as instru
ções antigas”.23 Em vista daquelas circunstâncias, Hitler estava certamente se con
duzindo com desusado controle. Mas admite-se que era mais difícil aos jovens
comandantes de submarinos controlarem a si mesmos, eles, que operavam em
águas tempestuosas do Atlântico Norte e viviam constantemente atormentados
pelas medidas anti-submarinas, cada vez mais eficientes, dos ingleses, das quais os
navios de guerra americanos às vezes também participavam. Hitler havia declara
do a Ráder, em julho, que nunca chamaria um comandante de submarino à fala se
36 o a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
torpedeasse um barco americano wpor engano”. Em 9 de novembro, em seu dis
curso anual à Velha Guarda Nazista, na conhecida cervejaria de Munique, res
pondeu ao discurso de Roosevelt.
O presidente Roosevelt ordenou que seus navios atirem no momento
em que avistem os barcos alemães. Dei instruções aos barcos alemães
para que não atirem quando avistarem os dos norte-americanos; que se
defendam, porém, quando forem atacados. Mandarei submeter a con
selho de guerra qualquer oficial alemão que deixar de se defender.
Em 13 de novembro, ele expediu uma nova diretiva ordenando que, embora se
devessem, tanto quanto possível, evitar combates com navios de guerra america
nos, os submarinos alemães deviam defender-se dos ataques.24
Eles, naturalmente, já haviam feito isso. Na noite de 16 para 17 de outubro, o
destróier americano Kearny, indo em auxílio de um comboio que estava sendo
atacado por submarinos alemães, lançou cargas de profundidade contra um deles
que, em represália, o torpedeou. Onze membros da tripulação foram mortos. Fo
ram as primeiras baixas norte-americanas na guerra não declarada contra a Ale
manha.* Outras mais haveriam logo de se seguir a elas. Em 31 de outubro, o des
tróier americano Reuben James foi torpedeado e afundado quando em comboio,
com a perda de cem dos 145 tripulantes, incluindo todos os sete oficiais. Assim,
muito antes das formalidades finais da declaração de guerra, já se havia iniciado
uma guerra de tiros.
O Japão faz seu próprio jogo
Ao Japão, conforme vimos, Hitler atribuíra o papel de não trazer os Estados
Unidos para a guerra, e sim o de mantê-los afastados dela, pelo menos naquela
* "A história registrou quem deu o primeiro tiro" declarou Roosevelt, referindo-se a esse incidente num
discurso que proferiu no Dia da marinha, 27 de outubro. Para sermos justos, parece que, ao lançar cargas
de profundidade, foram os Estados Unidos os primeiros a atirar. Segundo os registros confidenciais da
marinha alemã, não foi essa a primeira ocasião. O historiador oficial da marinha dos Estados Unidos con
firma que, já em 10 de abril, o Niblack{ver p. 354) atacou um submarino alemão com cargas de profundi
dade. (Samuel Eliot Morison, Historyofthe United States Naval Operations in World Warll, Vol. I, p. 57).
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 3Ó 1
ocasião. Sabia que se os japoneses tomassem Cingapura e ameaçassem a índia,
isso não só seria um duro golpe para os britânicos como, também, desviaria a
atenção dos Estados Unidos — e algumas de suas forças — do Atlântico para o
Pacífico. Mesmo depois que começou a pedir aos japoneses que atacassem Vladi-
vostok, via nisso um meio não só de auxiliá-lo a derrotar a Rússia como, também,
de fazer maior pressão para que os Estados Unidos se mantivessem neutros. E, o
que é estranho, parece que não lhe ocorreu — tampouco a outros e à Alemanha
até muito tempo depois — que o Japão tinha sua própria questão para atender e
que talvez receasse meter-se numa grande ofensiva a sudoeste da Ásia, contra os
britânicos e os holandeses, sem mencionar um ataque contra a Rússia pela reta
guarda, enquanto não tivesse garantido sua própria retaguarda por meio da des
truição da esquadra norte-americana do Pacífico. É verdade que o conquistador
nazista prometera a Matsuoka que a Alemanha entraria em guerra com os Esta
dos Unidos se o Japão o fizesse, mas Matsuoka já não integrava o governo e, além
disso, Hitler importunava constantemente os japoneses instando para que evitas
sem um conflito direto com os Estados Unidos e se concentrassem na Inglaterra
e na União Soviética, cuja resistência o impedia de ganhar a guerra. Não ocorreu
aos governantes nazistas que o Japão talvez pudesse preferir um desafio direto aos
Estados Unidos.
Berlim, naturalmente, não desejava que os japoneses e americanos chegassem a
um entendimento. Isso destruiria o principal objetivo do pacto tríplice — atemori
zar os americanos, obrigando-os a manterem-se afastados da peleja. Ribbentrop
talvez tivesse, pelo menos uma vez, feito uma exposição sincera e exata das idéias de
Hitler sobre tal questão, quando declarou a um dos inquiridores em Nuremberg:
Ele [Hitler] receava que, se fosse feito um acordo entre os Estados Uni
dos e o Japão, significaria isso, por assim dizer, deixar os norte-ameri
canos com a retaguarda livre, quando então se daria mais depressa um
ataque inesperado ou a entrada dos Estados Unidos na guerra (...) Sen
tia-se preocupado com um acordo, porque havia certos grupos, no Ja
pão, que desejavam realizá-lo com o país americano.25
Um dos membros de tal grupo era o almirante Kichisaburo Nomura, que che
gou em Washington em fevereiro de 1941 como embaixador do Japão e cuja série
362 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
de conversações confidenciais com Cordell Hull — iniciada em março com o ob
jetivo de regularizar pacificamente as diferenças entre os dois países e que conti
nuou até o fim — preocupou bastante Berlim*
Os alemães, na realidade, esforçaram-se por sabotar as conversações em Washing
ton. Já em 15 de maio de 1941, Weizsácker submetia um memorando a Ribben
trop assinalando que “qualquer tratado político entre o Japão e os Estados Unidos
é, presentemente, indesejável”, e argumentando que, a menos que o impedissem,
podiam considerar o Japão perdido para o Eixo.26 O general Ott, embaixador na
zista em Tóquio, procurou freqüentemente o Ministério das Relações Exteriores
para preveni-lo contra as negociações entre Hull e Nomura. Ao prosseguirem elas
a despeito disso, os alemães recorreram a uma nova manobra: procurar induzir os
japoneses a estabelecer como condição, para a continuação delas, que os Estados
Unidos abandonassem seu auxílio à Inglaterra e sua política hostil para com a
Alemanha.27
Isso foi em maio. O verão modificou a situação. Em julho, Hitler mostrou-se
mais interessado em amofinar o Japão para que atacasse a União Soviética, e, na
quele mês, o secretário de Estado Hull interrompeu as conversações com Nomura
porque o Japão invadira a Indochina francesa. Foram renovadas em meados de
agosto, quando o governo japonês propôs uma conferência pessoal entre o pre-
mier príncipe Konoye e o presidente Roosevelt, com o fim de chegarem a um
acordo pacífico. Tal fato não agradou a Berlim, e o infatigável Ott não demorou a
ir ao Ministério das Relações Exteriores, em Tóquio, para expressar o desagrado
dos nazistas ante aquela reviravolta nos acontecimentos. O ministro, almirante
Toyoda, e o vice-ministro Amau, informaram-lhe amavelmente que a conferên
cia, que haviam proposto realizar entre o príncipe Konoye e o presidente Roose
velt, apenas auxiliaria o objetivo do pacto tríplice, o qual, lembraram-lhe eles,
destinava-se a “impedir que os norte-americanos participassem da guerra”.28
No outono, enquanto prosseguiam as conversações entre Hull e Nomura, a
Wilhelmstrasse lançou-se à velha tática da primavera. Insistiu junto a Tóquio no
sentido de que fosse instruído para prevenir os Estados Unidos de que, se conti
nuassem com seus atos inamistosos para com o Eixo europeu, talvez obrigassem
a Alemanha e a Itália a lhes declarar guerra e, nesse caso, o Japão, de acordo com
os termos do pacto tríplice, teria que unir-se aos alemães e italianos. Hitler ainda
* "Acredito que Nomura agiu honesta e sinceramente" escreveu mais tarde Hull em suas memórias/ ao
procurar evitar a guerra entre seu país e o meu." (The Memoirs of Cordell Hull, II, p. 987).
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 363
não desejava os Estados Unidos na guerra; esse golpe, porém, foi dado para blefar
Washington e fazê-los permanecerem afastados do conflito, bem como, ao mes
mo tempo, para conseguir certo alívio em face da beligerância dos norte-america
nos no Atlântico.
O secretário de Estado Hull soube, imediatamente, dessa nova pressão alemã,
graças ao Magic, processo que, desde fins de 1940, havia possibilitado ao governo
americano a decifração dos mais secretos cabogramas e mensagens telegráficas
em código, de Tóquio — não só as dirigidas a Washington e dali recebidas, como
também as que transmitiam a Berlim e às outras capitais, ou delas recebiam. A
exigência alemã foi telegrafada por Toyoda a Nomura em 16 de outubro de 1941,
juntamente com instruções para apresentar a Hull uma versão atenuada.29
O governo Konoye caiu nesse dia e foi substituído por um gabinete militar
chefiado pelo impetuoso e belicoso general Hideki Tojo. Em Berlim, o general
Oshima — um guerreiro de idêntico calibre — apressou-se em ir à Wilhelms
trasse a fim de transmitir as boas-novas ao governo alemão. A aparição de Tojo no
cargo de primeiro-ministro significava — disse o embaixador — que o Japão se
aproximaria mais de seus parceiros do Eixo, e que as conversações em Washing
ton cessariam. Fosse ou não de propósito, esqueceu-se o embaixador de informar
aos amigos nazistas quais seriam as conseqüências da cessação daquelas conver
sações, e que a nomeação de Tojo implicava, portanto, algo muito mais importan
te que aquilo que suspeitavam: que seu novo governo estava decidido a entrar em
guerra com os Estados Unidos, a menos que as negociações em Washington ter
minassem rapidamente, o presidente Roosevelt aceitando os termos propostos
pelos japoneses de ficarem com as mãos livres, não para atacar a Rússia mas para
ocupar o sudeste da Ásia. Isso, naturalmente, jamais entrara no espírito de Rib
bentrop e de Hitler, os quais ainda encaravam o Japão como um útil auxiliar dos
interesses alemães, se ele atacasse a Sibéria e Cingapura e atemorizasse Washing
ton, deixando-a preocupada com o Pacífico e fora do conflito. O Führer e, natu
ralmente, seu petulante ministro das Relações Exteriores, não tinham compreen
dido que o fracasso das negociações entre Nomura e Hull, em Washington, que
tanto desejavam, iria justamente trazer o resultado que estavam procurando evi
tar aié que surgisse uma boa oportunidade: a entrada dos Estados Unidos no con
flito mundial.*
* As memórias de pós-guerra do príncipe Konoye revelam que, já em 4 de agosto, ele havia sido força
do a exigir do exército que se o presidente Roosevelt, na conferência que lhe havia sido proposta, não
364 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
O tempo estava passando rapidamente.
Saburo Kurusu chegou em Washington, no dia 15 de novembro, como embai
xador especial para auxiliar Nomura nas negociações. O secretário de Estado Hull
logo percebeu, porém, que o diplomata — que como emissário japonês em Berlim
havia assinado o pacto tríplice e era pró-alemães — não trouxera consigo novas
propostas. Seu objetivo, pensou Hull, era tentar persuadir Washingtou a aceitar
imediatamente as condições dos japoneses ou, se isso falhasse, enrolar o governo
americano com conversações, até que o Japão estivesse preparado para desfechar
um pesado golpe de surpresa.30 Em 19 de novembro, chegou de Tóquio para No
mura a sinistra mensagem “Ventos”, que os criptógrafos de Hull decifraram ime
diatamente. Se o noticiarista japonês, na irradiação em ondas curtas de Tóquio
que a embaixada captava diariamente, inserisse as palavras “Vento leste, chuva”,
significava isso que o governo japonês havia decidido guerrear os Estados Unidos.
Nomura recebeu instruções, à recepção da mensagem “Ventos”, para destruir to
dos os códigos e documentos confidenciais.
Foi então que Berlim compreendeu o que realmente se passava. No dia ante
rior à mensagem “Ventos”, 18 de novembro, Ribbentrop ficara algo surpreendido
ao receber, de Tóquio, o pedido para a Alemanha assinar um tratado pelo qual
ambos os países concordariam em não concluir uma paz em separado com inimi
gos comuns. Não estava claro quais os inimigos a que os japoneses se referiam,
mas o ministro das Relações Exteriores nazista esperava, evidentemente, que a
Rússia fosse o primeiro deles. Concordou “em princípio” com a proposta, aparen
temente na crença confortadora de que finalmente o Japão estava prestes a honrar
suas vagas promessas de atacar a União Soviética na Sibéria. A proposta foi aco
lhida com prazer e era oportuna, “pois a resistência do Exército Vermelho, na
extensa frente, estava se tornando formidável e o inverno estava começando mui
to mais cedo do que se julgara. Um ataque japonês contra Vladivostok e as pro
víncias marítimas do Pacífico poderia, talvez, proporcionar outra pressãozinha
que faria tombar a Rússia.
Foi rápida a desilusão de Ribbentrop. Em 23 de novembro, o embaixador Ott
telegrafou de Tóquio dizendo que tudo indicava que os japoneses estavam se mo
vimentando para o sul com a intenção de ocupar a Tailândia e os campos petrolíferos
aceitasse as condições do Japão, ele deixaria essa conferência "decidido a fazer a guerra contra os Esta
dos Unidos". (Hull, Memoirs, p. 1025-6).
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 365
de Bornéu, controlados pelos holandeses, e que o governo japonês desejava saber
se a Alemanha faria causa comum com ele se tivesse que começar uma guerra.
Essa informação indicava, claramente, que o Japão não atacaria a Rússia e que
estava cogitando de “começar uma guerra” com a Holanda e a Inglaterra, no Pací
fico Sul, o que podia muito bem envolvê-lo num conflito armado com os Estados
Unidos. Ribbentrop e Ott, porém, não perceberam o último ponto. Sua troca de
telegramas, durante esses dias, mostra que, conquanto agora compreendessem,
para sua desilusão, que o Japão não atacaria a Rússia, acreditavam que seu movi
mento rumo ao sul seria contra possessões holandesas e britânicas e não contra as
dos americanos. Tio Sam, conforme Hitler desejava, seria mantido de lado até que
chegasse sua vez.31
As falsas impressões dos nazistas, em grande parte, eram devidas ao fato de os
japoneses, àquela altura, não terem confiado ao governo alemão sua fatídica deci
são relativamente aos Estados Unidos. O secretário de Estado Hull, graças ao de-
cifrador de códigos Magic, achava-se muito mais bem informado. Sabia, já em 5
de novembro, que o novo ministro das Relações Exteriores, Shigenori Togo, havia
telegrafado a Nomura estabelecendo um prazo até 25 de novembro para a assina
tura de um acordo — segundo as condições japonesas — com o governo america
no. As propostas finais do Japão foram entregues em Washington no dia 20 de
novembro. Hull e Roosevelt sabiam que eram finais porque, dois dias depois, Ma
gic decifrou uma mensagem de Togo a Nomura e Kurusu que assim dizia, se bem
que estendesse o prazo para 29 de novembro.
Há razões que ultrapassam vossa capacidade para adivinhardes [tele-
grafou Togo a seus embaixadores] porque desejamos regularizar as re
lações nipo-americanas até o dia 25. Mas se a assinatura puder ser feita
por volta do dia 29 (...) esperaremos até essa data. Desta vez nossa deci
são é inabalável; o prazo não pode absolutamente ser alterado. Depois
disso, as coisas acontecerão automaticamente.32
Vinte e cinco de novembro é uma data tenebrosa.
Nesse dia, porta-aviões japoneses partiram em missão especial para Pearl Har-
bor. Em Washington, Hull dirigiu-se à Casa Branca para prevenir o conselho de
guerra do perigo que, do Japão, ameaçava o país e para ressaltar, junto aos chefes
366 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o DECISIVO
do exército e da marinha dos Estados Unidos, a possibilidade de ataques de sur
presa por parte dos japoneses. Em Berlim, nesse dia, houve uma cerimônia um
tanto grotesca na qual as três potências do Eixo, em meio a muita pompa e gran
des solenidades, renovaram o pacto anti-Comintern de 1936, gesto vazio que,
conforme alguns alemães observaram, de nada adiantou para fazer o Japão entrar
na guerra contra a Rússia, mas proporcionou ao pomposo Ribbentrop uma opor
tunidade para denunciar Roosevelt como o “principal culpado desta guerra” e de
derramar lágrimas de crocodilo para o “religioso e verdadeiro (...) povo america
no” traído por tal chefe irresponsável.
O ministro das Relações Exteriores nazista parecia ter ficado embriagado com
suas próprias palavras. Chamou Oshima na noite de 28 de novembro, em seguida
a um demorado conselho de guerra, nesse dia, presidido por Hitler, e deu ao em
baixador japonês a impressão de que a atitude alemã para com os Estados Unidos,
conforme Oshima prontamente radiografou para Tóquio, havia se tornado “con
sideravelmente mais dura”. A política de Hitler, no sentido de manter os Estados
Unidos fora do conflito até que a Alemanha estivesse pronta para enfrentá-los,
parecia prestes a ser posta de lado. Ribbentrop começou, subitamente, a insistir
para que o Japão entrasse na guerra contra os Estados Unidos e a Inglaterra, e
prometeu o apoio do Terceiro Reich. Depois de advertir Oshima de que “se o Ja
pão hesitar (...) todo o poderio militar da Inglaterra e dos Estados Unidos será
concentrado contra ele” — tese um tanto tola enquanto a guerra continuasse na
Europa — Ribbentrop acrescentou:
Como Hitler declarou hoje, há diferenças fundamentais no próprio direi
to à existência entre a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos. Recebe
mos informações de que não há, praticamente, esperança de que as nego
ciações entre os Estados Unidos e o Japão sejam concluídas com êxito,
porque os Estados Unidos se mostram irredutíveis em sua atitude.
Se essa for a realidade e se o Japão resolver lutar contra a Inglaterra e os
Estados Unidos, tenho certeza de que isso não só será de interesse recí
proco da Alemanha e do Japão como, também, trará resultados favorá
veis para o próprio Japão.
O embaixador, um homenzinho muito sensível, não escondeu a surpresa. De
sejava, porém, ter certeza de que compreendera perfeitamente.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 367
“Está V. Excia. dando a entender que vai estabelecer-se um estado de guerra
entre a Alemanha e os Estados Unidos?” — perguntou.
Ribbentrop hesitou. Talvez se tivesse excedido.
“Roosevelt é um fanático, de modo que é impossível advinhar o que ele fará”,
respondeu.
A resposta pareceu estranha e não satisfez Oshima em vista do que o ministro
das Relações Exteriores havia falado momentos antes. Ao fim da conferência, in
sistiu em abordar novamente o ponto principal. Que faria a Alemanha se a guerra
se estendesse realmente aos “países que estavam auxiliando a Inglaterra?”
Se o Japão se empenhar numa guerra contra os Estados Unidos [res
pondeu Ribbentrop] a Alemanha naturalmente entrará imediatamente
nela. Não há, em absoluto, necessidade de a Alemanha celebrar uma
paz em separado com os Estados Unidos em tais circunstâncias. O
Führer já decidiu sobre esse ponto.33
Essa era a garantia positiva que o governo japonês estivera esperando. Hitler,
na verdade, já havia dado a Matsuoka, na primavera, garantia idêntica; parecia,
entretanto, que fora esquecida, desde que ficara agastado com a recusa do Japão
de participar da peleja na Rússia. Tudo o que agora restava, no que dizia res
peito aos japoneses, era fazer com que os alemães dessem sua garantia por escrito.
O general Oshima, exultante, expediu seu relatório para Tóquio em 29 de novem
bro. Novas instruções chegaram-lhe às mãos, em Berlim, no dia seguinte. Infor
mavam-no de que as conversações em Washington “haviam fracassado”.
Queira V. Excia. [ordenava a mensagem], portanto, encontrar-se ime
diatamente com o chanceler Hitler e com o ministro das Relações Exte
riores Ribbentrop e transmitir-lhes oficialmente um resumo dos fatos.
Diga-lhes que ultimamente tanto a Inglaterra como os Estados Unidos
têm tomado atitudes provocadoras. Comunique-lhes que eles estão
projetando movimentar forças militares para vários lugares no leste da
Ásia e que nós, inevitavelmente, teremos de tomar contramedidas, mo
vimentando também nossas tropas. Diga-lhes, muito em sigilo, que
existe o extremo perigo de a guerra irromper subitamente entre o Japão
368 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
e as nações anglo-saxônicas por intermédio de choque de armas, e,
mais ainda, que o tempo para o irrompimento dessa guerra poderá vir
mais depressa do que se pensa.34*
A frota de porta-aviões japonesa já estava agora a bom caminho rumo a Pearl
Harbor. Tóquio tinha pressa de que a Alemanha desse sua garantia por escrito. No
mesmo dia em que Oshima recebia novas instruções — 30 de novembro —, o
ministro das Relações Exteriores do Japão conferenciava com o embaixador ale
mão em Tóquio, a quem acentuou que as conversações em Washington haviam
malogrado porque o Japão se recusara a aceder às exigências que lhe faziam os
americanos para que abandonasse o pacto tríplice. Os japoneses esperavam que
os alemães apreciassem esse sacrifício pela causa comum.
“Graves decisões estão em jogo”, disse Togo ao general Ott. “Os Estados Uni
dos estão se preparando seriamente para a guerra (...) o Japão não receia a ruptu
ra das negociações e espera que, nesse caso, a Alemanha e a Itália, consoante o
pacto tríplice, se manterão ao lado dele.”
Respondi [Ott radiografou a Berlim] que não podia haver dúvida sobre
a posição alemã no futuro. Nisso, o ministro das Relações Exteriores
japonês declarou que compreendia de minhas palavras que a Alema
nha, em tal caso, consideraria suas relações com o Japão como que liga
das pelo destino. Respondi que, na minha opinião, a Alemanha estava
certamente pronta para manter o acordo entre os dois países sobre esta
situação.35
Na véspera do ataque a Pearl Harbor
O general Oshima era um grande apreciador da música clássica alemã e aus
tríaca e, apesar da gravidade e da tensão da situação, partiu para a Áustria a fim de
assistir a um festival das músicas de Mozart. Não lhe foi permitido, contudo, ouvir
* Diz Hull que recebeu cópia dessa mensagem através do decifrador de códigos Magic. Assim, Wa
shington e Berlim sabiam, no último dia de novembro, que os japoneses poderiam talvez atacar os Es
tados Unidos "mais depressa do que se pensava". (Hull, Memoirs, p. 1092).
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 369
durante muito tempo as encantadoras músicas do grande compositor austríaco.
Um chamado urgente, em 1- de dezembro, obrigou-o voltar precipitadamente
para sua embaixada em Berlim, onde encontrou novas instruções para tratar ime
diatamente de conseguir que a Alemanha pusesse por escrito o que prometera.
Não havia tempo a perder.
Encurralado, Ribbentrop procurou ganhar tempo. Aparentemente perceben
do, pela primeira vez, as conseqüências de suas irrefletidas promessas aos japo
neses, o ministro nazista das Relações Exteriores tornou-se excessivamente frio
e ambíguo. Declarou a Oshima, tarde daquela noite de le de dezembro, que devia
consultar o Führer antes de assumir qualquer compromisso definitivo. O embai
xador japonês voltou à Wilhelmstrasse na quarta-feira, dia 3, para insistir no
caso, mas Ribbentrop adiou novamente a questão. À alegação de Oshima de que
a situação se tinha tornado extremente crítica, respondeu o ministro que, con
quanto fosse pessoalmente a favor de um acordo por escrito, o caso deveria es
perar até que o Führer voltasse do quartel-general, o que se daria mais tarde na
quela semana. Na verdade, conforme Ciano anotou em seu diário, não sem
demonstrar certa satisfação, Hitler havia voado para a frente sul, na Rússia, a
fim de conferenciar com von Kleist ‘cujos exércitos continuam a recuar sob a pres
são de uma ofensiva inesperada”.
Os japoneses, a esse tempo, voltaram-se também para Mussolini, que não se
achava em frente alguma. Em 3 de dezembro, o embaixador japonês em Roma
visitou o Duce e, formalmente, pediu à Itália que declarasse guerra aos Estados
Unidos, de conformidade com o pacto tríplice, assim que começasse o conflito
com aquele país. O embaixador desejava, também, um tratado especificando que
não haveria paz em separado. Anotou Ciano no diário que o intérprete japonês
“tremia como vara verde”. Quanto ao Duce, ele teria prazer em atender ao pedido
após consultar Berlim.
Ciano, no dia seguinte, viu que a capital alemã se tornara extremamente cau
telosa.
Talvez eles levem a questão para a frente [começou em seu diário no dia
4 de dezembro] por não poderem fazê-lo diferentemente, mas a idéia
de provocar a intervenção dos americanos torna-se cada vez menos
apreciada pelo alemães. Mussolini, por outro lado, sente-se satisfeito
com a questão.
370 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO
Independentemente da opinião de Ribbentrop — à qual Hitler ainda dava cer
ta atenção, o que não deixava de ser surpreendente —, a decisão sobre se a Alema
nha daria uma garantia formal ao Japão somente poderia ser tomada pelo próprio
chefe nazista. Durante a noite de 4 para 5 de dezembro, o ministro das Relações
Exteriores aparentemente conseguiu que o Führer chegasse a uma resolução; en
tregou, às 3h, ao general Oshima o esboço do tratado que ele solicitava, pelo qual
a Alemanha se uniria ao Japão na guerra contra os Estados Unidos e concordaria
em não celebrar paz em separado. Tendo dado aquele mergulho fatídico e seguido
o chefe em renunciar a uma política a que se tinham apegado obstinadamente
durante dois anos, não pôde deixar de providenciar para que seu aliado italiano o
acompanhasse.
Uma noite interrompida pela impaciência de Ribbentrop [escreveu
Ciano no diário em 5 de dezembro]. Após ter demorado dois dias, não
pode agora perder um minuto em responder aos japoneses. Às 3h, en
via à minha casa [o embaixador] Mackensen para submeter o plano do
pacto tríplice relativo à intervenção japonesa e à promessa de não se
fazer uma paz em separado. Desejavam que eu despertasse o Duce, mas
não o despertei, o que muito lhe agradou.
Os japoneses tinham o esboço de um tratado, aprovado por Hitler e Musso
lini, mas não haviam conseguido ainda que eles assinassem, e isso os preocupa
va. Suspeitavam de que o Führer estivesse procurando ganhar tempo por dese
jar um quid pro quo: se a Alemanha se unisse ao Japão na guerra contra os
Estados Unidos, o Japão teria que unir-se à Alemanha na guerra contra a Rússia.
Em seu telegrama de instruções a Oshima, em 30 de novembro, o ministro das
Relações Exteriores do Japão tinha dado alguns conselhos sobre a maneira com
que ele devia tratar esse delicado problema, caso os alemães e os italianos o
trouxessem à baila.
Se [eles] perguntarem sobre nossa atitude para com os soviéticos, dizei
que já a esclarecemos na declaração que fizemos em julho. Dizei que,
com os nossos atuais movimentos para o sul, não queremos com isso
dizer que relaxamos nossa pressão contra os soviéticos. Se a Rússia
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 371
cerrar as mãos com a Inglaterra e os Estados Unidos e resistir-nos com
hostilidades, estaremos prontos a voltar contra ela todo o nosso pode
rio. No momento, entretanto, é vantagem para nós fazer pressão no sul
e, por enquanto, preferimos abster-nos de qualquer movimento direto
no norte.36
Chegou o dia 6 de dezembro. Zhukov, nesse dia, desencadeou sua contra-
ofensiva na frente de Moscou, e os exércitos alemães rolaram na neve em meio ao
frio intenso. Mais razão havia para Hitler exigir o quidpro quo. Essa questão pro
vocara uma grande inquietação no Ministério das Relações Exteriores, em Tó
quio. A força naval em missão especial achava-se agora à distância de vôo de Pearl
Harbor para os aparelhos de seus porta-aviões. Até então — milagrosamente —,
ela não havia sido descoberta pelos navios ou aviões norte-americanos. Mas tal
vez viessem a ser a qualquer momento. Uma longa mensagem estava sendo radio
grafada de Tóquio a Nomura e Kurusu, em Washington, instruindo-os a que pro
curassem o secretário de Estado Hull precisamente à lh do dia seguinte, domingo
7 de dezembro, para apresentar-lhe a rejeição do Japão às últimas propostas dos
Estados Unidos e ressaltar que as negociações estavam “de fato rompidas”. Deses
perada, Tóquio voltou-se para Berlim e pediu-lhe a garantia, por escrito, do apoio
alemão. Os chefes japoneses ainda não confiavam bastante nos alemães, para in
formá-los do golpe contra os Estados Unidos que seria desfechado no dia seguin
te. Mas o que os preocupava ainda mais era que Hitler se abstivesse de dar a ga
rantia, a menos que o Japão concordasse em enfrentar não só os Estados Unidos
e a Inglaterra, mas também a União Soviética. Nesse transe, Togo expediu uma
longa mensagem ao embaixador Oshima, em Berlim, aconselhando-o a procurar,
de um modo ou de outro, ganhar tempo junto aos alemães na questão russa, e a
não ceder, a menos que isso se tornasse absolutamente necessário. Embora iludi
dos com sua capacidade de poder enfrentar os americanos e os britânicos, os ge
nerais e almirantes japoneses tiveram suficiente bom senso para compreender
que não podiam lutar contra os russos ao mesmo tempo — mesmo com o auxílio
dos alemães. As instruções de Togo a Oshima, naquele fatídico sábado, 6 de de
zembro, que figuram entre as mensagens interceptadas e decifradas pelos peritos
do secretário Hull, fornecem uma visão interessante da diplomacia exercida pelos
nipônicos junto ao Terceiro Reich na décima primeira hora.
372 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Gostaríamos de evitar (...) um choque armado com a Rússia, até que as
circunstâncias estratégicas o permitam; fazei, pois, o governo alemão
compreender essa nossa posição e negociai com ele a fim de que, pelo
menos por enquanto, não insista em trocar notas diplomáticas sobre
essa questão.
Explicai-lhe minuciosamente que, no tocante aos materiais america
nos que estão sendo embarcados para a Rússia soviética (...) eles não são
de alta qualidade, tampouco em grandes quantidades e que, no caso de
iniciarmos a guerra contra os Estados Unidos, capturaremos todos os
barcos americanos que rumem à Rússia soviética. Pedimos que vos es
forceis no sentido de chegar a um acordo sobre esse ponto.
Contudo, caso Ribbentrop insista em que demos uma garantia nessa
questão, uma vez que nesse caso não nos reste outro recurso, fazer uma
(...) declaração, como questão de princípio, de que nós impediremos
que materiais de guerra sejam enviados dos Estados Unidos para a Rús
sia soviética, por águas japonesas, e fazei-o concordar com um proces
so que permita o acréscimo de uma declaração pela qual não podere
mos, com meticulosidade, levar isso a efeito enquanto as razões de
ordem estratégica continuarem a obrigar-nos a impedir uma luta da
Rússia soviética com o Japão [refiro-me ao fato de que não podemos
capturar navios soviéticos].
Caso o governo alemão se recuse a concordar com o que foi exposto
acima e condicione inteiramente sua aprovação a esse problema à nossa
participação na guerra e à conclusão de um tratado contra a assinatura
de uma paz em separado, não nos resta outro meio senão adiar a con
clusão de tal tratado.37
Os japoneses não deviam ter-se preocupado tanto. Por motivos desconhecidos
aos militaristas de Tóquio ou a quaisquer outros, e que desafiam a lógica e a com
preensão, Hitler não insistiu para que o Japão enfrentasse a Rússia ao mesmo
tempo que os Estados Unidos e a Inglaterra, se bem que o curso da guerra possi
velmente tivesse sido diferente se insistisse.
Seja como for, os japoneses, naquela noite de sábado de 6 de dezembro de 1941,
estavam decididos a desfechar um golpe poderoso contra os Estados Unidos, no
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 373
Pacífico, embora ninguém em Washington ou em Berlim soubesse onde ou mes
mo exatamente quando. Naquela manhã, o almirantado britânico advertira o go
verno americano de que uma grande esquadra japonesa de invasão fora observa
da atravessando o golfo de Sião rumo ao istmo de Kra, o que indicava que os
nipônicos iam atacar a Tailândia e, talvez, a Malásia. Às 21h, Roosevelt expediu
uma mensagem pessoal ao imperador do Japão, implorando-lhe que se unisse a
ele para encontrar “um meio de afastar aquelas nuvens carregadas” e, ao mesmo
tempo, prevenindo que um ataque das forças militares japonesas no sudoeste da
Ásia criaria uma situação inconcebível. No departamento da marinha, os oficiais
do serviço secreto elaboraram seu último relatório sobre a localização das gran
des naves de guerra da marinha japonesa. Citavam que a maioria delas se achava
em águas japonesas, incluindo todos os porta-aviões e outros barcos da força que,
naquele mesmo momento, tinha chegado a 300 milhas (480 quilômetros) de dis
tância de Pearl Harbor e preparava seus bombardeiros para decolarem ao alvore
cer do dia.
Também naquele sábado à noite o Departamento de Estado informou o presi
dente e o sr. Hull de que a embaixada japonesa estava destruindo seus códigos.
Tiveram primeiro de decifrar a longa mensagem de Togo, cujo texto foi expedido
no decorrer de toda a tarde, parceladamente, em 14 partes ao todo. Os decifrado-
res de códigos da marinha iam também decifrando-a com a mesma rapidez com
que ela chegava e, por volta das 21:30h, já um oficial da marinha se achava na
Casa Branca com traduções das primeiras 13 partes do texto. O sr. Roosevelt, que
se achava em seu gabinete com Harry Hopkins, leu-as e disse: “Isso significa a
guerra.” Onde e quando, entretanto, a mensagem não dizia e o presidente não
sabia. Tampouco o almirante Nomura sabia. Nem mesmo Hitler, na Europa
Oriental. Sabia-o menos que Roosevelt.
Hitler declara guerra
O ataque japonês contra a esquadra norte-americana do Pacífico, em Pearl
Harbor, às 7:30h (hora local) de domingo, 7 de dezembro de 1941, pegou Berlim
completamente de surpresa, da mesma maneira que Washington. Embora Hitler
tivesse feito uma promessa verbal a Matsuoka de que a Alemanha se uniria ao
374 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s E o MOMENTO DECISIVO
Japão numa guerra contra os Estados Unidos, e Ribbentrop tivesse feito outra ao
embaixador Oshima, não havia ainda sido assinada tal garantia, e os japoneses
não disseram palavra aos alemães sobre Pearl Harbor.* Além disso, naquele mo
mento, Hitler estava completamente ocupado em reunir seus vacilantes generais
e as tropas que batiam em retirada na Rússia.
A noite havia caído sobre Berlim quando o serviço de controle de irradiações
do noticiário do estrangeiro captou a notícia do ataque surpresa contra Pearl Har
bor. Quando um funcionário do departamento de imprensa do Ministério das
Relações Exteriores telefonou a Ribbentrop dando-lhe a notícia que abalou o
^ mundo, ele, a princípio, recusou-se a acreditar nela e enfureceu-se por ter sido
importunado. O comunicado era “provavelmente um ardil do inimigo em sua
propaganda”, disse ele, e ordenou que não o perturbassem até a manhã seguinte.38
É, pois, provável que Ribbentrop, pelo menos uma vez, tivesse falado a verdade
quando declarou perante o tribunal, em Nuremberg, que “aquele ataque consti
tuiu uma completa surpresa para nós. Tínhamos considerado a possibilidade de o
Japão atacar Cingapura ou, talvez, Hong Kong; jamais consideramos, porém, que
um ataque contra os Estados Unidos redundasse em vantagem para nós”.39 Con
trariamente ao que declarou no tribunal, no entanto, ficou satisfeitíssimo com o
fato, ou, pelo menos, foi essa a impressão que teve Ciano.
Um telefonema de Ribbentrop, à noite [assim anotou Ciano em seu
diário, em 8 de dezembro]. Está exultante com o ataque japonês contra
os Estados Unidos. De fato, está tão satisfeito que só me cabe congratu
lar-me com ele, embora eu não tenha muita certeza dessa vantagem (...)
Mussolini [também] ficou satisfeito. Já há muito tempo defende a idéia
de se esclarecer a situação entre os Estados Unidos e o Eixo.
À lh de segunda-feira, 8 de dezembro, o general Oshima dirigiu-se à Wilhelms-
trasse para conseguir que Ribbentrop esclarecesse a posição da Alemanha. Pediu
uma declaração formal de guerra contra os Estados Unidos, imediata.
* Muitos acreditaram, durante muito tempo, que Hitler teve conhecimento antecipado da hora exata
do ataque contra Pearl Harbor; não me foi possível, contudo, descobrir um simples sinal de prova, nos
documentos secretos alemães, que o confirmasse.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 375
Ribbentrop respondeu [radiografou Oshima para Tóquio] que Hitler se
achava na ocasião em meio a uma conferência, discutindo como se po
deriam executar as formalidades de uma declaração de guerra causan
do boa impressão ao povo alemão, e que ele lhe transmitiria imediata
mente vosso desejo e faria tudo que pudesse para que fosse atendido
prontamente.
O ministro das Relações Exteriores nazista informou também ao embaixador,
segundo a mensagem dele a Tóquio, de que naquela mesma manhã do dia 8 “Hi
tler havia expedido ordens à marinha alemã para atacar os navios americanos
toda vez ou onde quer que os encontrasse”.40 Mas o ditador continuava a criar
obstáculos a uma declaração de guerra.*
O Führer, segundo uma anotação em sua agenda, apressou-se a voltar a Berlim
na noite de 8 de dezembro, ali chegando às llh da manhã seguinte. Ribbentrop
alegou, em Nuremberg, que acentuara ao chefe que a Alemanha não tinha forço
samente de declarar guerra aos Estados Unidos, nos termos do pacto tríplice, uma
vez que, obviamente, o Japão fora o agressor.
O texto do pacto tríplice obrigava-nos a auxiliar o Japão somente no
caso de um ataque contra o próprio Japão. Fui ver o Führer, expliquei-
lhe o aspecto legal da situação e declarei-lhe que, embora acolhêssemos
com prazer um novo aliado contra a Inglaterra, isso significava que tí
nhamos também um novo adversário para enfrentar (...) se declarásse
mos guerra aos Estados Unidos.
Disse-lhe que, segundo o que estipulava o pacto tríplice, uma vez que o
Japão havia atacado, não teríamos que declarar guerra formalmente. O
Führer meditou sobre a questão durante certo tempo e, depois, deu-me
uma decisão muito clara: aSe não nos colocarmos ao lado do Japão, o
pacto estará politicamente morto. Mas não é essa a razão principal. A
principal é que os Estados Unidos já estão atirando contra nossos na
vios. Eles têm sido um fator poderoso nesta peleja e, pelos seus atos, já
criaram uma situação de guerra.”
* Em Tóquio, o ministro das Relações Exteriores Togo informava, ao mesmo tempo, o embaixador Ott
de que o governo japonês esperava agora que a Alemanha também se apressasse a declarar guerra aos
Estados Unidos.41
376 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
O Führer, naquele momento, foi de opinião que era muito evidente que
os Estados Unidos iriam agora guerrear contra a Alemanha. Ordenou-
me, por isso, que entregasse os passaportes ao representante norte-
americano.42
Era uma decisão que Roosevelt e Hull, em Washington, estavam esperando
confiantemente. Houve certa pressão contra eles para que mandassem o Congres
so declarar guerra contra a Alemanha e a Itália, em 8 de dezembro, quando se
tomou essa medida contra o Japão. Mas eles tinham resolvido esperar. O bombar
deio de Pearl Harbor lhes havia dado a solução para parte do problema e certas
informações em seu poder indicavam que o obstinado ditador nazista lhes daria
a solução para a parte restante* Eles haviam meditado sobre a mensagem então
* Minha própria impressão, em Washington, naquele momento, era que talvez fosse difícil ao presiden
te Roosevelt conseguir que o Congresso declarasse guerra à Alemanha. Parecia haver uma forte ten
dência em ambas as câmaras, assim como no exército e na marinha, segundo a qual o país devia con
centrar seus esforços na derrota do Japão e não arcar com uma carga adicional, de lutar ao mesmo
tempo contra a Alemanha.
Hans Thomsen, o adido alemão em Washington, que, como todos os demais emissários nazistas no
exterior, era geralmente mantido na ignorância do que Hitler e Ribbentrop viviam tramando, relatou a
Berlim aquela tendência. Imediatamente após o discurso do presidente no Congresso, na manhã de 8
de dezembro, pedindo que se declarasse a guerra ao Japão, Thomsen radiografou a Berlim: "O fato de
ele [Roosevelt] não mencionar uma só palavra sobre a Alemanha e a Itália demonstra que procurará
primeiro evitar o agravamento da situação no Atlântico." À noite, Thomsen expediu outra mensagem
sobre o assunto: "É muito incerto Roosevelt exigir que se declare guerra à Alemanha e à Itália. Do pon
to de vista dos chefes militares americanos, seria lógico evitar tudo que os pudesse levar a uma guerra
com duas frentes." Em várias mensagens anteriores a Pearl Harbor, o adido alemão havia ressaltado
que os Estados Unidos simplesmente não se achavam preparados para uma guerra de duas frentes.
Em 4 de dezembro, radiografara as revelações do Chicago Tribune, sobre "os planos de guerra do Alto-
Comando americano e seus preparativos e perspectivas de derrotar a Alemanha e seus Aliados"
Os relatórios confirmam [disse ele] não ser de esperar que os Estados Unidos venham a participar inteira
mente da guerra antes de julho de 1943. As medidas militares contra o Japão são de caráter defensivo.
Em sua mensagem a Berlim, na noite de 8 de dezembro, Thomsen acentuou que Pearl Harbor decerto
aliviaria a Alemanha das atividades dos Estados Unidos, como beligerantes, no Atlântico.
A guerra contra o Japão [relatou ele] significa a transferência de todas as energias para o próprio rear
mamento dos Estados Unidos, a correspondente diminuição no auxílio da Lei de Empréstimos e Arren
damentos e a transferência de todas as atividades para o Pacífico.
Relativamente às mensagens trocadas entre a Wilhelmstrasse e a embaixada alemã, em Washington,
durante aquele período, sou grato ao Departamento de Estado, que as tornou acessíveis a mim. Serão
publicadas mais tarde na série dos Documentos sobre a política exterior da Alemanha [Documents on
German Foreign Policy].
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 377
interceptada do embaixador Oshima, de Berlim para Tóquio, em 29 de novembro,*
na qual Ribbentrop havia garantido aos japoneses que a Alemanha se uniria a eles
caso se vissem empenhados numa guerra contra os Estados Unidos. Nada havia
nessa garantia que fizesse condicionar o auxílio alemão à autoria da agressão. Era
um cheque em branco e os americanos não tinham dúvidas de que os japoneses
estivessem agora exigindo em Berlim que o honrassem.
Foi honrado, mas somente depois de nova hesitação do chefe nazista. Ele con
vocou o Reichstag para que se reunisse em 9 de dezembro, dia de sua chegada em
Berlim, mas protelou a reunião por dois dias. Aparentemente, conforme Ribben
trop relatou mais tarde, ele havia tomado uma decisão. Estava farto dos ataques
que Roosevelt fazia contra ele e o nazismo; sua paciência fora esgotada pelos atos
de guerra da marinha norte-americana contra os submarinos alemães, no Atlân
tico, sobre os quais Ráder continuamente o importunara durante quase um ano.
Crescera-lhe o ódio contra os Estados Unidos e os norte-americanos e — o que
afinal foi pior para ele — aumentou-lhe ainda mais a desastrosa tendência de su
bestimar o potencial das forças dos Estados Unidos.**
Ao mesmo tempo, ele superestimou grosseiramente o poderio militar do Japão.
De fato, parece ter acreditado que, tão logo os japoneses, cuja marinha ele consi
derava a mais poderosa do mundo, se tivessem desembaraçado dos britânicos e
americanos no Pacífico, voltar-se-iam contra a Rússia e, com isso, o auxiliariam a
terminar sua grande conquista no leste. Contou, na verdade, a alguns companhei
ros, meses mais tarde, ter julgado que a entrada do Japão na guerra havia sido “de
excepcional valor para nós, ao menos por causa da data escolhida”.
Era, com efeito, a ocasião em que as surpresas do inverno russo esta
vam refletindo pesadamente sobre o moral de nosso povo, e quando
todo o mundo na Alemanha se sentia oprimido pela certeza de que,
* Ver p. 367.
** "Não vejo muito futuro para os norte-americanos" declarou ele a seus companheiros, um mês de
pois, durante um discurso no quartel-general, em 7 de janeiro de 1942."É um país apodrecido. E eles
têm seu problema racial e o de desigualdades sociais (...) Meus sentimentos contra o americanismo
são sentimentos de ódio e de profunda repugnância (...)Tudo, na conduta da sociedade norte-ameri
cana, revela que metade dela é judaizada e a outra metade negrificada. Como se pode esperar que um
Estado assim possa manter-se unido — um país onde tudo gira em torno do dólar?" (Hitler's Secret
Conversations, p. 155).
378 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
cedo ou tarde, os Estados Unidos entrariam no conflito. A intervenção
do Japão, portanto, foi, do nosso ponto de vista, muito oportuna.43
Não há dúvida de que o poderoso golpe de surpresa do Japão contra a esqua
dra norte-americana em Pearl Harbor lhe provocou admiração, tanto mais por
que era a espécie de surpresa de que tanto se orgulhava de ter dado tantas vezes.
Manifestou sua admiração ao embaixador Oshima em 14 de dezembro, quando
lhe concedeu a Grande Cruz da Ordem do Mérito da Águia Alemã, de ouro:
Vós fizestes a verdadeira declaração de guerra! É este o único método
apropriado.
Correspondia, disse, ao seu “próprio sistema”.
Isto é, negociar o mais longamente possível. Mas se se percebe que o
outro está apenas interessado em protelar, confundir e humilhar, e não
se mostra interessado a chegar a um acordo, cumpre então atacar — de
fato, atacar o mais duramente possível —, não se perdendo tempo com
declaração de guerra. Animara-o bastante ter notícias das primeiras
operações dos japoneses. Ele mesmo fora muitas vezes paciente em
suas negociações, por exemplo, com a Polônia e também com a Rússia.
Quando percebeu que os outros não desejavam chegar a um acordo,
atacou repentinamente e sem formalidades. Continuaria a adotar esse
método no futuro.44
Havia outra razão para Hitler resolver com tal pressa acrescentar os Estados
Unidos à formidável lista de seus inimigos. O dr. Schmidt, que estivera às voltas
com a chancelaria e o Ministério das Relações Exteriores naquela semana, escla
receu qual era: “Tive a impressão”, escreveu ele mais tarde, “que, com o seu inve
terado desejo de prestígio, Hitler, que esperava uma declaração de guerra dos
Estados Unidos, queria que a sua saísse primeiro”.45 O chefe nazista confirmou-o
em seu discurso ao Reichstag em 11 de dezembro.
“Seremos sempre os primeiros a atacar”, declarou aos deputados que o aclama
vam. “Seremos sempre nós aqueles que desfecharão o primeiro golpe!”
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 379
De fato, Berlim receava tanto em 10 de dezembro que os Estados Unidos pu
dessem declarar guerra primeiro, que Ribbentrop advertiu seriamente Thomsen,
o adido alemão em Washington, contra qualquer indiscrição que pudesse dar a
entender ao Departamento de Estado o que Hitler projetava fazer no dia seguinte.
Num longo radiograma, do dia 10, o ministro das Relações Exteriores nazista
transmitiu o texto da declaração que ele faria em Berlim ao encarregado de negó
cios dos Estados Unidos, precisamente às 14:30h de 11 de dezembro. Thomsen
recebeu instrução de encontrar-se com Hull exatamente uma hora depois, às
15:30h (hora de Berlim), de entregar ao secretário de Estado uma cópia da decla
ração, pedir seus passaportes e confiar a representação diplomática da Alemanha
à Suíça. Ribbentrop preveniu, no fim da mensagem, que Thomsen não devia man
ter qualquer contato com o Departamento de Estado antes de entregar a nota.
“Desejamos evitar, em qualquer circunstância, que o governo se antecipe a nós
nessa medida”, declarou.
Quaisquer que fossem as hesitações que Hitler teve em adiar a sessão do Rei
chstag por dois dias, evidencia-se pela troca de mensagens entre a Wilhelmstrasse
e a embaixada alemã em Washington, apreendidas, e de outros documentos do
Ministério das Relações Exteriores, que o Führer tomou sua fatídica decisão de
declarar guerra aos Estados Unidos em 9 de dezembro, dia em que chegou à capi
tal procedente do quartel-general na fronteira russa. Parece que o ditador desejou
aqueles dois dias mais, não para novas reflexões, mas para preparar meticulosa
mente seu discurso no Reichstag, a fim de causar uma impressão apropriada no
povo alemão, que tinha bem vivo na lembrança o papel decisivo que os Estados
Unidos desempenharam na Primeira Guerra Mundial.
Hans Dieckhoff, oficialmente ainda embaixador alemão nos Estados Unidos,
que se achava na Wilhelmstrasse à espera de entrar em ação, uma vez que ambos
os países haviam retirado seus principais representantes no outono de 1938, foi,
em 9 de dezembro, encarregado de elaborar uma longa lista das atividades antiger-
mânicas de Roosevelt para o discurso que o Führer devia proferir no Reichstag*
* Dieckhoff, que Hassell julgava "de temperamento submisso", havia elaborado, uma semana antes, a
pedido de Ribbentrop, um longo memorando intitulado "Princípios para Influenciar a Opinião Pública
Norte-Americana". Entre seus 11 princípios havia o seguinte: "O verdadeiro perigo para a América é o
próprio Roosevelt (...) Influência dos judeus sobre Roosevelt (Frankfurter, Baruch, Benjamin Cohen, Sa
muel Rosenman, Henry Morgenthau, etc.) (...) O slogan para todas as mães americanas deve ser: "Não
criei meu filho para morrer pela Inglaterra!" (Dos documentos do Ministério das Relações Exteriores
38o A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Também em 9 de dezembro, Thomsen, em Washington, recebeu instruções
para queimar os códigos secretos e os documentos confidenciais. “Executadas as
medidas conforme ordenadas”, radiografou para Berlim nesse dia, às ll:30h. Pela
primeira vez, ele percebeu o que se passava em Berlim e, durante a noite, advertiu
a Wilhelmstrasse de que, aparentemente, o governo americano também o sabia.
“Acredita-se aqui”, disse, “que dentro de 24 horas a Alemanha declarará guerra aos
Estados Unidos ou, pelo menos, romperá as relações diplomáticas.”*
Hitler no Reichstag: 11 de dezembro
O discurso de Hitler aos fantoches do Reichstag em 11 de dezembro, em defe
sa de sua declaração de guerra aos Estados Unidos, constou principalmente de
insultos pessoais a Franklin D. Roosevelt: acusava-o de ter provocado a guerra
para encobrir os fracassos do New Deal e alardeava que “somente esse homem”,
apoiado pelos milionários e judeus, era o “responsável pela Segunda Guerra Mun
dial”. Todo o ressentimento que havia acumulado contra o homem que, desde o
princípio, fora um empecilho para sua ânsia de dominar o mundo, que sempre o
censurara, que proporcionara um auxílio maciço à Inglaterra na ocasião em que
esse castigado país ia tombar, e cuja marinha o estava fazendo malograr no Atlân
tico, irrompia com toda a violência de seu ódio.
Permitam-me definir minha atitude para com esse outro mundo que
tem, como representante, o homem que, enquanto nossos soldados
lutam na neve e no gelo, muito maneirosamente se compraz em fazer
ainda não publicados). Alguns americanos, no Departamento de Estado e na Embaixada dos Estados
Unidos, em Berlim, tinham, aliás, Dieckhoff em alto conceito e acreditavam ser ele antinazista. A im
pressão que eu tinha era que lhe faltava coragem. Serviu a Hitler até o fim — desde 1943 até 1945 —
como embaixador nazista na Espanha de Franco.
* Thomsen também aconselhou Berlim a prender os correspondentes americanos ali, em represália à
prisão de muitos correspondentes alemães nos Estados Unidos. Um memorando do Ministério das Re
lações Exteriores, assinado pelo subsecretário Emst Wõrmann, em 10 de dezembro, declara que havia
sido ordenada a prisão de todos os correspondentes americanos na Alemanha como represália. Exce
tuou-se Guido Enderis, principal correspondente em Berlim do New York Times, "por causa", escreveu
Wõrmann,"das provas de sua amizade para com a Alemanha". Isso talvez seja uma injustiça para o finado
Enderis, que na ocasião se achava doente, e talvez fosse essa a principal razão de não ter sido preso.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 381
suas palestras, ao pé da lareira, o homem que é o principal culpado
desta guerra (...)
Omitirei os ataques insultuosos feitos contra mim por esse pretenso
presidente. Não tem interesse o chamar-me ele de gângster. Afinal, essa
expressão não foi cunhada na Europa, mas nos Estados Unidos, sem
dúvida porque não existem aqui tais gângsteres. À parte isso, não posso
ser insultado por Roosevelt, pois considero-o louco, da mesma maneira
que Wilson (...) Primeiro ele incita a guerra, depois deturpa as causas,
em seguida envolve-se odiosamente num manto de hipocrisia cristã e,
vagarosamente mas com firmeza, conduz a humanidade à guerra, não
sem invocar Deus como testemunha da honestidade de seu ataque (...)
na maneira muito própria de um velho pedreiro-livre (...)
Rooselvet tem sido culpado dos piores crimes contra as leis internacio
nais. Apreensão ilegal de navios e outras propriedades de cidadãos ale
mães e italianos, a par das ameaças de despojar de seus bens aqueles que,
por terem sido internados, ficaram privados de sua liberdade. Em suas
crescentes invectivas, Roosevelt chegou ao ponto de ordenar à marinha
americana que atacasse em todas as partes os navios que navegam sob as
bandeiras alemã e italiana, e os afundasse (...) isso em flagrante violação
das leis internacionais. Secretários de Estado americanos vangloriam-se
de terem destruído submarinos alemães com esse processo criminoso.
Barcos mercantes alemães e italianos foram atacados por cruzadores
americanos, sendo capturados e suas tripulações aprisionadas.
Malograram, por isso, os esforços sinceros da Alemanha e da Itália para
impedir que a guerra se estendesse e para manterem relações com os
Estados Unidos, apesar das intoleráveis provocações que vêm sendo
feitas há anos pelo presidente Roosevelt (...)
Qual o motivo para Roosevelt “intensificar sentimentos antinazistas a fim de che
gar à eclosão de uma guerra?”, perguntou Hitler. Ele mesmo deu duas explicações.
Compreendo perfeitamente que uma distância incomensurável se in
terpõe entre as idéias de Roosevelt e as minhas. Roosevelt vem de
uma família rica e pertence à classe cujo caminho as democracias soem
382 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
aplainar. Eu fui o único filho de uma família pequena e pobre, e tive que
abrir meu caminho na vida pelo trabalho e pelos esforços. Quando veio a
Grande Guerra, Rooselvet ocupava uma posição onde só conheceu suas
agradáveis conseqüências, desfrutadas por aqueles que negociam enquan
to outros se esvaem em sangue. Eu era apenas um daqueles que cumpriam
ordens, um soldado comum, e naturalmente voltei da guerra tão pobre
quanto estava no outono de 1914. Partilhei do destino de milhões de pes
soas, e Franklin Roosevelt apenas o da chamada aristocracia.
Após a guerra, Roosevelt lançou-se em especulações financeiras. Obte
ve lucros com a inflação, com a miséria dos outros, ao passo que eu (...)
jazia num hospital (...)
Hitler prosseguiu com certa minuciosidade nessa singular comparação, an
de chegar ao segundo ponto: que Roosevelt havia recorrido à guerra para fugir
conseqüências de seu fracasso como presidente.
O nacional-socialismo subiu ao poder na Alemanha no mesmo ano em
que Roosevelt foi eleito presidente (...) Ele assumiu o governo de um
Estado que se achava em péssimas condições econômicas, e eu o do
Reich, que defrontava uma ruína completa graças à democracia (...)
Enquanto ocorria um ressurgimento sem precedentes da vida econô
mica, da cultura e da arte na Alemanha, sob a direção nacional-socia-
lista, não conseguiu Roosevelt realizar a mais leve melhoria em seu
próprio país (...) Não é de surpreender, se se tem em mente que os ho
mens que ele chamou para apoiá-lo, ou antes, os homens que o chama
ram, pertenciam ao elemento judaico, cujos interesses se destinam to
dos à desintegração, jamais à ordem (...)
A legislação do New Deal de Roosevelt estava completamente errada.
Não pode haver dúvida de que a continuação dessa política econômica
teria eliminado esse presidente em tempo de paz, a despeito de toda a
sua habilidade dialética. Num Estado europeu, ele acabaria, certamen
te, comparecendo perante um tribunal estatal acusado de desbaratar
deliberadamente a riqueza nacional; dificilmente teria escapado das
mãos de um tribunal civil sob a acusação de ter recorrido a métodos
criminosos de negócios.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 383
Hitler sabia que essas considerações sobre o New Deal eram partilhadas, até
certo ponto, pelos isolacionistas e por considerável parcela da comunidade co
mercial dos Estados Unidos, e procurou tirar desse fato o máximo proveito, igno
rando, porém, que, no dia de Pearl Harbor, esses grupos, como todos os demais
no país, se haviam unido para a defesa da pátria.
Este fato foi percebido [prosseguiu Hitler referindo-se aos grupos] e
devidamente apreciado por muitos americanos, incluindo alguns de
alta posição. Estava se formando uma oposição ameaçadora contra esse
homem. Compreendeu que sua única salvação estava em desviar a
atenção pública da política interna para a política externa (...) Nisso, foi
fortalecido pelos judeus que o cercam (...) Todo o povo judeu, com sua
diabólica mesquinharia, reuniu-se em torno dele, e ele, então, estendeu
suas mãos.
Começaram, assim, os esforços cada vez maiores do presidente ameri
cano para criar conflitos (...) Durante anos esse homem abrigou um só
desejo (...), de que surja um conflito, em algum lugar no mundo.
Seguiu-se uma longa exposição dos esforços de Roosevelt neste sentido, come
çando com o discurso de quarentena em Chicago, em 1937. “Agora, ele [Roose
velt] vê-se presa”, gritou Hitler em certo ponto, “do temor de que, se fizer a paz na
Europa, o esbanjamento sem conta de dinheiro, que fez, em armamentos, seja
considerado pura fraude, porque ninguém atacará os Estados Unidos (...) e, então,
ele mesmo precisa provocar o ataque contra seu país.”
O ditador nazista parecia aliviado com essa oportunidade e procurou parti
lhar sua sensação de alívio com o povo alemão.
Creio que os senhores todos consideraram agora um alívio o fato de,
finalmente, um Estado ter sido o primeiro a tomar a iniciativa de pro
testar contra o desvirtuamento da verdade e do direito, sem prece
dentes na história (...) O fato de o governo japonês, que há anos vem
mantendo negociações com esse homem, sentir-se finalmente cansado
de ser ludibriado por ele de maneira tão indigna, enche-nos, a nós, ao
povo alemão e, creio, a todos os outros povos decentes do mundo, de
384 a g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
profunda satisfação (...) O presidente dos Estados Unidos devia, afinal,
compreender — digo isso somente por causa de sua limitada inteligên
cia — que sabemos que o objetivo de sua luta é destruir um Estado
após outro (...)
Quanto à nação alemã, ela não precisa da caridade do sr. Roosevelt nem
do sr. Churchill, para não dizer ainda do sr. Eden. Ela deseja apenas
seus direitos! Assegurar para si esse direito de viver, mesmo que milha
res de Churchills e Roosevelts conspirem contra ela (...)
Providenciei, por isso, para que sejam entregues hoje os passaportes ao
encarregado dos negócios americanos, e o seguinte (...)46
Nesse ponto do discurso, os deputados do Reichstag ergueram-se de um salto
e romperam em aclamações, e as palavras do Führer foram abafadas pelo ruído
ensurdecedor.
Logo depois, às 14:30h, Ribbentrop, em uma de suas mais frias atitudes, rece
bia Leland Morris — encarregado dos negócios americanos em Berlim — e, sem
o mandar sentar-se, leu-lhe a declaração de guerra da Alemanha, entregando-lhe
depois uma cópia e, com a mesma frieza, deu por terminada a audiência.
(...) Conquanto a Alemanha, de sua parte [dizia a declaração] sempre
tivesse observado estritamente as disposições das leis internacionais
em suas relações com os Estados Unidos durante toda a presente guer
ra, o governo dos Estados Unidos acabou entregando-se francamente a
atos bélicos contra a Alemanha, criando, portanto, virtualmente, um
estado de guerra.
O governo do Reich rompe todas as relações diplomáticas com os Esta
dos Unidos e declara que, dadas as circunstâncias criadas pelo presi
dente Roosevelt, a Alemanha também se considera em guerra com os
Estados Unidos, a partir de hoje.47
O último ato nesse dia dramático foi a assinatura de um acordo tríplice entre
a Alemanha, a Itália e o Japão, declarando “sua inabalável decisão de não deporem
as armas até que a guerra que fazem em conjunto, contra os Estados Unidos e a
Inglaterra, chegue a um resultado vitorioso” e de não concluírem uma paz em
separado.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 385
Adolf Hitler, que apenas há seis meses enfrentava somente uma Inglaterra
bloqueada, numa guerra que já lhe parecia ganha, havia agora, por sua livre esco
lha, alinhado contra ele as três maiores potências industriais do mundo numa
luta em que o poderio militar dependia, em grande parte, da força econômica.
Esses três países, juntos, tinham também a supremacia do potencial humano so
bre as três nações do Eixo. Nem Hitler nem seus generais e almirantes pareciam
ter pesado tais fatos naquele dia fatídico de dezembro, ao aproximar-se de seu fim
o ano de 1941.
O general Halder, o inteligente chefe do Estado-maior geral, nem sequer ano
tou em seu diário, em 11 de dezembro, que a Alemanha havia declarado guerra
aos Estados Unidos. Mencionou apenas que, à noite, assistiu à palestra de um ca
pitão da marinha sobre o “cenário da guerra marítima nipo-americana”. O restan
te do diário, o que talvez fosse compreensível, tratava das contínuas más notícias
que procediam de muitos setores da opressiva frente russa. Não havia lugar, em
seus pensamentos, para o dia eventual em que seus exércitos enfraquecidos talvez
tivessem que enfrentar tropas frescas procedentes do Novo Mundo.
O almirante Ráder acolheu verdadeiramente satisfeito o lance militar de Hi
tler. Conferenciou com o Führer no dia seguinte, 12 de dezembro. “A situação no
Atlântico ficará facilitada com a brilhante intervenção do Japão”, assegurou ele. E,
entusiasmando-se com o assunto, acrescentou:
Foram recebidas notícias da transferência de alguns encouraçados
[americanos] do Atlântico para o Pacífico. É certo que se irá tornar
necessário no Pacífico um número cada vez maior de forças ligeiras,
especialmente destróieres. Será muito grande a necessidade de barcos-
transporte, de modo que se pode esperar a retirada de navios mercan
tes do Atlântico. A tensão sobre a navegação mercante dos britânicos
aumentará.
Tendo dado seu mergulho com tão insólita fanfarronice, Hitler viu-se, subita
mente, presa da dúvida. Tinha algumas perguntas a fazer ao almirante. “Acreditava
ele que o inimigo iria tomar, em futuro próximo, medidas para ocupar os Açores,
as ilhas de Cabo Verde e, talvez, até mesmo para atacar Dacar, a fim de reconquis
tar o prestígio perdido como resultado dos reveses no Pacífico?” Ráder não pen
sava que isso se verificasse.
386 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Os Estados Unidos [respondeu ele] terão de concentrar todo o seu po
derio no Pacífico durante os próximos meses. A Inglaterra não quererá
correr qualquer risco depois das sérias perdas de grandes navios.* É
pouco provável que haja transportes com tonelagem suficiente para
essa tarefa de ocupação ou para levar abastecimentos.
Hitler tinha ainda outra pergunta mais importante a fazer. “Há qualquer pos
sibilidade de os Estados Unidos e a Inglaterra abandonarem durante algum tem
po o leste da Ásia, a fim de em primeiro lugar esmagarem a Alemanha e a Itália?”
Nesse ponto o almirante também se mostrou confiante.
É improvável [respondeu] que o inimigo renuncie ao leste da Ásia, mes
mo temporariamente; se a Inglaterra fizesse isso, poria em graves riscos
a índia; e os Estados Unidos não podem retirar sua esquadra do Pacífi
co enquanto a esquadra japonesa ali estiver em superioridade.
Rãder procurou, ainda, animar o Führer, informando-o de que seis grandes
submarinos seguiriam “o mais depressa possível” para a costa leste dos Estados
Unidos.48
Com a situação da Rússia no pé em que estava, para não citar a da África do
Norte, onde Rommel estava também em retirada, os pensamentos do comandan
te supremo alemão e de seus chefes militares logo se afastaram do novo inimigo,
o qual, eles tinham certeza, se veria ocupadíssimo no Pacífico distante. Seus pen
samentos só a ele voltariam passado mais um ano de guerra, o ano mais fatídico,
em que se daria a grande reviravolta que irrevogavelmente decidiria não só o re
sultado do conflito — que durante todo o ano de 1941 os alemães acreditavam
estar quase terminado, quase vencido —, mas, também, a sorte do Terceiro Reich,
cujas surpreendentes primeiras vitórias o tinham erguido tão rapidamente a uma
* Dois dias antes, em 10 de dezembro, aviões japoneses haviam posto a pique dois encouraçados bri
tânicos, o Prince ofWales e o Repulse, ao largo da costa da Malásia. A par das paralisantes perdas ameri
canas em encouraçados em Pearl Harbor, no dia 7 de dezembro, esse golpe deu à esquadra japonesa
completa supremacia no Pacífico, no mar da China e no oceano Índico. "Em toda esta guerra nunca
recebi um choque mais direto do que esse", escreveu Churchill mais tarde, referindo-se à perda dos dois
grandes navios.
A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS 387
estonteante altura e que, Hitler sinceramente acreditava e dizia, floresceria duran
te mil anos.
As ligeiras anotações de Halder, em seu diário, apresentavam-se mais lúgubres
ao aproximar-se o ano-novo de 1942.
“Outro dia tenebroso!”, escreveu ele em 30 de dezembro de 1941 e, novamente,
no último dia do ano. O chefe do Estado-maior geral alemão pressentia os horrí
veis acontecimentos que estavam por vir.
CAPÍTULO 9
O grande momento decisivo:
1942 — Stalingrado e El Alamein
Os graves reveses do exército de Hitler na Rússia, durante o inverno de
1941-1942, e o expurgo de certo número de marechais-de-campo e de altos gene
rais, acenderam novamente as esperanças dos conspiradores antinazistas.
Não tinham podido interessar os principais comandantes numa revolta, en
quanto seus exércitos iam conquistando vitória atrás de vitória e a glória das ar
mas alemãs ia galgando alturas. Agora, porém, os orgulhosos e até então invencí
veis soldados estavam recuando na neve e em meio ao frio cruel, ante um inimigo
que provara ser um adversário digno deles; e uma legião dos mais afamados gene
rais estava sendo destruída sumariamente das posições, alguns deles, tais como
Hoepner e Sponeck, publicamente degradados e a maioria dos outro humilhada e
transformada em bode expiatório pelo cruel ditador.*
“Chegou a hora”, concluiu Hassell em seu diário no dia 21 de dezembro de
1941, cheio de esperanças. Ele e seus companheiros de conspiração estavam certos
* Entre os mais afetados, deve-se lembrar, achavam-se o marechal-de-campo von Brauchitsch, coman-
dante-em-chefe do exército, e os marechais-de-campo von Rundstedt e von Bock, que dirigiam os
grupos de exércitos do centro e do sul, e o general Guderian, a figura genial dos corpos de panzer. O
comandante do grupo de exércitos do norte, marechal-de-campo von Leeb, que logo o seguiu, foi
afastado de sua posição em 12 de janeiro de 1942. No dia anterior, o marechal-de-campo von Reiche
nau, que havia assumido o comando então ocupado por Rundstedt, morreu de derrame cerebral. O
general Udet, da Luftwaffe, suicidou-se em 17 de novembro de 1941. Mais ainda: cerca de 35 coman
dantes de corpos e divisões foram substituídos durante a retirada de inverno.
Isso, naturalmente, foi o começo. O marechal-de-campo von Manstein historiou em poucas palavras,
em Nuremberg, o que aconteceu aos generais quando começaram a perder batalhas ou quando, final
mente, tiveram coragem bastante para se opor a Hitler. "Dos dezessete marechais-de-campo", relatou
ele ao tribunal, "dez foram mandados para a Alemanha durante a guerra e três perderam a vida como
resultado do 20 de julho de 1944 [complô contra Hitler — W.L.SJ. Somente um marechal-de-campo
conseguiu atravessar toda a guerra e manter sua posição. Dos 36 generais superiores (Generalobersten),
18 foram mandados para a Alemanha e cinco morreram como resultado do 20 de julho ou foram de
sonrosamente postos de lado. Somente três generais superiores conseguiram manter suas posições
durante a guerra".1
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 389
de que o corpo de oficiais prussianos reagiria não só ao vil tratamento que haviam
recebido como, também, à loucura do comandante supremo em levá-los, a eles e
seus exércitos, às bordas do desastre no inverno russo. Conforme vimos, os cons
piradores já estavam convencidos de que somente os generais, no comando das
tropas, tinham força física para derrubar o tirano nazista. Aparecia agora a opor
tunidade de agirem antes que fosse demasiado tarde. O tempo era fator importan
tíssimo. Compreenderam que a guerra, depois dos reveses na Rússia e da entrada
dos Estados Unidos na peleja, não mais podia ser vencida. Tampouco, porém,
estava perdida. Um governo antinazista em Berlim poderia ainda conseguir con
dições de paz — pensavam — que deixariam a Alemanha como grande potência
e, talvez, com alguns ganhos, pelo menos, do que Hitler havia obtido, tais como a
Áustria, a região dos Sudetos e a parte ocidental da Polônia.
Essas idéias dominavam-lhes o espírito ao fim do verão de 1941, mesmo quan
do ainda eram boas as perspectivas de destruir a União Soviética. O texto da Car
ta do Atlântico, que Churchill e Roosevelt haviam redigido em 19 de agosto, fôra-
lhes um pesado golpe, especialmente o ponto 8, que estipulava dever a Alemanha
ser desarmada depois da guerra, enquanto não se realizasse um acordo geral so
bre o desarmamento. A Hassell, Goerdeler, Beck e aos membros de seu círculo de
oposição, isso significava que os Aliados não tinham intenção de fazer distinção
entre os nazistas e os antinazistas e era prova, segundo as palavras do próprio
Hassell, “de que a Inglaterra e os Estados Unidos não só estavam lutando contra
Hitler como, também, desejavam esmagar a Alemanha e torná-la indefesa”. De
fato, a esse antigo embaixador aristocrático, então mergulhado numa traição con
tra Hitler, mas decidido a obter tudo quanto fosse possível para uma Alemanha
sem Hitler, o ponto 8, conforme anotou em seu diário, “destrói toda a chance ra
zoável de se estabelecer a paz”.2
Conquanto ficassem desiludidos com a Carta do Atlântico, parece que os
conspiradores, com sua promulgação, sentiram-se estimulados a agir, mesmo por
que ela lhes fez ver a necessidade de eliminar Hitler enquanto ainda havia tempo
para um regime antinazista negociar vantajosamente em prol da paz para uma
Alemanha que ainda dominava a maior parte da Europa. Não se mostravam aves
sos a usar as conquistas de Hitler para obter condições mais favoráveis ao seu país.
O resultado de uma série de conferências em Berlim, durante os últimos dias de
agosto, de Hassell, Popitz, Oster, Dohnanyi e o general Friedrich Olbricht, chefe
390 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
do Estado-maior do exército metropolitano, foi que os “alemães partiotas” —
assim se intitulavam eles — fariam “exigências moderadas” aos Aliados, mas, para
citar Hassell novamente, “há certas reivindicações às quais não podemos renun
ciar”. Quais as exigências e reivindicações ele não diz; deduz-se, de outros regis
tros no diário, que importavam insistir no restabelecimento das fronteiras da Ale
manha no leste, como eram em 1914, e, mais, na manutenção da Áustria e da
região dos Sudetos.
O tempo passava e era preciso aproveitá-lo. Após uma conferência final com
seus confederados, no fim de agosto, Hassell escreveu no diário: “Foi unânime a
convicção de que, se não agissem logo, seria demasiado tarde. Quando se eviden
ciar que não há mais possibilidade de vitória, ou que ela seja diminuta, nada mais
haverá para se fazer.”3
Fizeram-se alguns esforços para induzir generais de postos-chave, na frente
oriental, a prender Hitler durante a campanha de verão na Rússia. Mas, embora
tais esforços redundassem inúteis, o que era inevitável, pois os grandes capitães
estavam naturalmente demasiado absorvidos em suas extraordinárias vitórias
iniciais para poderem pensar em derrubar o homem que lhes havia dado a opor
tunidade de obtê-las, não deixaram de lançar algumas sementes entre os espíritos
militares, as quais, eventualmente, haveriam de germinar.
O centro da conspiração no exército, naquele verão, era o quartel-general do
marechal-de-campo von Bock, cujo grupo de exércitos do centro estava progre
dindo na arrancada contra Moscou. O general de divisão Henning von Tresckow,
do Estado-maior de Bock, cujo entusiasmo pelo nacional-socialismo esfriara tan
to a ponto de lançá-lo nas fileiras dos conspiradores, era o cabeça. Era auxiliado
por Fabian von Schlabrendorff, seu aide-de-camp> e por dois companheiros de
complô que eles colocaram como aides-de-camp de Bock, o conde Hans von Har-
denberg e o conde Heinrich von Lehndorff, ambos rebentos de antigas e preemi-
nentes famílias.* Uma das tarefas a que se propunham era manobrar junto ao
marechal-de-campo a persuadi-lo a prender Hitler, numa de suas visitas ao
quartel-general daquele grupo de exércitos. Mas foi difícil convencer Bock. Con
quanto professasse ódio ao nazismo, fizera rápida carreira nele e era demasiado
vaidoso e ambicioso para assumir qualquer risco naquela fase do jogo. Certa vez,
* Lehndorff foi executado pelos nazistas em 4 de setembro de 1944.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 391
quando Tresckow tentou explicar-lhe que o Führer estava levando o país para a
ruína, Beck gritou: “Não permito que se ataque o Führer!”4
Tresckow e seu jovem auxiliar sentiram-se desanimados mas não atemoriza
dos. Decidiram agir por conta própria. Em 4 de agosto de 1941, quando o Führer
visitava o quartel-general do grupo de exércitos em Borisov, planejaram capturá-
lo quando se dirigia de automóvel do aeródromo para o quartel-general de Bock.
Mas os conspiradores eram ainda amadores nessa ocasião e não contaram com as
medidas de segurança do Führer. Cercado pelos seus próprios guarda-costas das
S.S. e recusando-se a usar um dos automóveis do grupo de exércitos para levá-lo
— ele havia mandado, na frente, sua frota de carros para esse fim —, não deu
oportunidade aos dois oficiais de se aproximarem dele. Esse fiasco — parece que
houve outros semelhantes — fez os conspiradores do exército aprenderem algu
mas coisas. A primeira, que não era fácil botar as mãos em Hitler; ele estava
sempre bem protegido. Outra, que o fato de agarrá-lo e prendê-lo talvez não re
solvesse o problema, porque seus generais-chave eram demasiado covardes ou
demasiado confusos no tocante a seus juramentos de fidelidade no auxílio à opo
sição para levar a coisa avante. Foi mais ou menos nesse tempo, no outono de
1941, que alguns jovens oficiais do exército, muitos deles civis em uniforme,
como Schlabrendorff, relutantemente chegaram à conclusão de que a solução
mais simples e a única era matar Hitler. Assim, os tímidos generais, libertados de
seus juramentos pessoais ao chefe, acompanhariam o novo regime e lhe dariam o
apoio do exército.
Mas os cabeças, em Berlim, não se achavam ainda preparados para ir tão lon
ge. Estavam engendrando um plano idiota chamado “ação isolada”, o qual, por
uma razão qualquer, achavam capaz de satisfazer a consciência dos generais no
tocante à quebra de seus juramentos ao Führer e lhes possibilitaria, ao mesmo
tempo, libertar o Reich de Hitler. É difícil, mesmo hoje, seguir-lhes o pensamento
nessa questão, mas a idéia era que os grandes comandantes militares, tanto no
leste como no oeste, simplesmente se recusassem, mediante um sinal preestabele-
cido, a obedecer às ordens de Hitler como comandante-em-chefe do exército.
Isso, naturalmente, teria sido o mesmo que quebrar o voto de obediência ao
Führer; mas os sofistas, em Berlim, fingiam não perceber. Explicaram, em todo
caso, que o verdadeiro objetivo do plano era criar confusão, em meio à qual Bock,
com o auxílio de destacamentos do exército metropolitano, em Berlim, assumiria
o poder, deporia Hitler e baniria o nacional-socialismo.
392 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
O exército metropolitano, porém, quase não era uma força militar. Era mais
um heterogêneo conglomerado de recrutas que faziam exercícios básicos antes de
serem enviados para as linhas de frente, a fim de substituir tropas lá existentes.
Para que a empresa pudesse ser bem-sucedida, era preciso conquistar a adesão de
alguns generais importantes, na Rússia ou nas zonas de ocupação, os quais ha
viam preparado as tropas sob seu comando. Um deles, que havia participado do
complô para prender Hitler ao tempo de Munique, parecia o mais apropriado
para isso: o marechal-de-campo von Witzleben, então comandante-em-chefe no
Ocidente. Com o propósito de iniciá-lo e também ao general Alexander von
Falkenhausen, comandante militar na Bélgica, no novo plano, os conspiradores
mandaram Hassell conferenciar com eles em meados de janeiro de 1942. Já sob a
vigilância da Gestapo, o antigo embaixador pretextou uma turnê em que faria
preleções a grupos de oficiais alemães e funcionários, em territórios ocupados”,
sobre a questão “Espaço Vital e Imperialismo”. Conferenciou com Falkenhausen
em Bruxelas e com Witzleben em Paris, entre uma preleção e outra, recebendo de
ambos uma impressão favorável, especialmente de Witzleben.
Em Paris, afastado da verdadeira luta enquanto os marechais-de-campo seus
companheiros travavam grandes batalhas na Rússia, Witzleben ansiava por entrar
em atividade. Declarou a Hassell que a idéia de “ação isolada” era uma utopia. A
única solução seria uma ação direta, a derrubada de Hitler. Disse estar disposto a
desempenhar um papel importante; o melhor tempo para o golpe seria, provavel
mente, durante o verão de 1942, quando se recomeçasse a ofensiva alemã na Rús
sia. A fim de preparar-se para esse grande dia, pretendia estar em ótimas condi
ções físicas; para isso, deveria submeter-se a uma pequena operação. Para pesar
do marechal-de-campo e seus comparsas, tal decisão teve conseqüências desas
trosas. À semelhança de Frederico, o Grande, e muitos outros, Witzleben sofria de
hemorróidas.* A operação para corrigir esse doloroso e aborrecido estado era,
sem dúvida, um caso comum de cirurgia; mas quando Witzleben tirou umas
breves férias na primavera para que ela fosse realizada, Hitler aproveitou-se da
situação para retirar do serviço o marechal-de-campo, substituindo-o por Runds-
tedt, que não teve coragem de conspirar contra o Führer, o qual, não fazia muito
tempo, o havia tratado tão indignamente. Viram assim os conspiradores que sua
* O rei da Prússia se queixava muitas vezes de sua moléstia, que entendia prejudicar-lhe a agilidade
mental e as atividades físicas.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 393
principal esperança no exército era um marechal-de-campo sem tropas sob co
mando. Sem soldados, não se poderia criar um novo regime.
Os chefes da conspiração achavam-se grandemente desalentados. Continua
ram a reunir-se clandestinamente e a tramar, mas sem vencer o desânimo que
pesava sobre eles. “No momento, parece que não se pode fazer coisa alguma com
relação a Hitler”,5 anotou Hassell no fim de fevereiro de 1942, após uma de suas
inúmeras reuniões.
Podia-se, entretanto, fazer muita coisa, acertando idéias sobre a espécie de
governo que desejavam para a Alemanha, depois que Hitler tivesse sido deposto,
e sobre o fortalecimento de sua organização até então deficiente, a fim de que ela
pudesse assumir o governo quando chegasse a ocasião.
Muitos dos chefes da resistência, por serem conservadores e já avançados em
anos, desejavam, antes de tudo, a restauração da monarquia dos Hohenzollern.
Durante algum tempo, porém, não chegaram a um acordo sobre qual dos prínci
pes Hohenzollern deveria ser colocado no trono. Popitz, um dos principais civis
desse círculo, desejava que fosse o príncipe herdeiro, figura execrada pela maioria.
Schacht era a favor do primogênito do príncipe herdeiro, príncipe Guilherme, e
Goerdeler pelo filho mais novo de Guilherme II, o príncipe Oskar da Prússia.
Todos estavam de acordo em que o quarto filho do Kaiser, o príncipe Augusto
Guilherme, apelidado Auwi, estava fora de questão, porque era um fanático nazis
ta e um Gruppenführer nas S.S.
No verão de 1941, chegou-se mais ou menos a um acordo de que o candidato
mais adequado para o trono seria Louis-Ferdinand, o segundo filho do príncipe
herdeiro, o mais velho dos que sobreviveram.* Já então com 33 anos, veterano de
cinco anos na fábrica Ford, em Dearborn, funcionário das linhas aéreas da Luft
hansa e em contato com os conspiradores, e de cuja simpatia gozava, esse interes
sante jovem havia finalmente surgido como o mais desejável dos Hohenzollern.
Ele compreendia o século XX, era democrata e inteligente. Além disso, tinha uma
mulher atraente, sensata e corajosa na pessoa da princesa Kira, uma antiga grã-
duquesa russa e — um tanto importante para os conspiradores naquela fase —
amiga pessoal do presidente Roosevelt, que havia convidado o casal para hospe
dar-se na Casa Branca durante a lua-de-mel em 1938.
* O príncipe Guilherme, o filho mais velho, havia morrido dos ferimentos que sofrerá na Batalha de
França, em 26 de maio de 1940.
394 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Hassell e alguns de seus amigos estavam absolutamente convencidos de que
Louis-Ferdinand era uma escolha ideal. “Faltam-lhe muitas qualidades impres
cindíveis”, comentou Hassell com certa perversidade em seu diário, por ocasião
do Natal de 1941, embora ele possuísse qualidades excelentes.
O principal interesse de Hassell residia na forma e natureza do futuro governo
alemão; no princípio do ano anterior ele havia traçado, após consultar o general
Beck, Goerdeler e Popitz, um programa para sua fase temporária, a que depois
deu mais apurada forma num novo projeto que fez no fim de 1941.6 O projeto
restaurava a liberdade individual até que se adotasse uma constituição permanen
te, pela qual o poder supremo seria confiado a um regente que, como chefe de
Estado, nomearia um governo e um conselho de Estado. Era, no seu todo, algo
autoritário, e Goerdeler e uns representantes de sindicatos comerciais — que figu
ravam entre os conspiradores — não o apreciaram. Ao contrário, propuseram um
plebiscito imediato, a fim de que o regime temporário tivesse apoio popular, pro
vando, com isso, seu caráter democrático. Por falta de coisa melhor, o plano de
Hassell foi aceito por todos, pelo menos como declaração de princípios, até ser
substituído por um programa liberal e mais esclarecido, elaborado em 1943 sob
pressão do Círculo de Kreisau, dirigido pelo conde Helmuth von Moltkee.
Naquela primavera de 1942, finalmente, os conspiradores adotaram formal
mente um líder. Todos reconheceram como tal o general Beck, não só por causa
de sua inteligência como também por causa de seu prestígio entre os generais e do
bom nome de que gozava no país e no exterior. Agiram, contudo, com negligência
ao organizarem a estrutura do movimento, e nem sequer chegaram a colocá-lo
verdadeiramente naquelas funções. Uns poucos, como Hassell, conquanto tives
sem grande admiração e respeito pelo antigo chefe do Estado-maior geral, ali
mentavam certas dúvidas a seu respeito.
“A principal dificuldade com Beck”, escreveu Hassell no diário pouco antes do
Natal de 1941, “está em ser ele muito teórico. Como diz Popitz, é um homem de
tática, porém de pouca força de vontade.” Esse juízo, conforme veio a ficar de
monstrado, não era sem fundamento. Tal singularidade no temperamento e no
caráter do general, a surpreendente falta de vontade para agir, iria, por fim, provar
ser trágica e desastrosa.
Em março de 1942, contudo, após muitas reuniões secretas, os conspiradores
resolveram, conforme Hassell relatou, que “Beck devia assumir a direção” e no
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 395
fim do mesmo mês, consoante nova anotação do embaixador, “fora Beck formal
mente adotado como chefe do grupo”.7
A conspiração permaneceu ainda obscura, e o ar de irrealidade, que cercava
até mesmo os membros mais ativos, continuava a pairar sobre as intermináveis
conferências, pelo que se depreende, ao procurar-se segui-la nessa fase, pelos re
gistros que eles deixaram. Sabiam que Hitler projetava recomeçar naquela prima
vera a ofensiva na Rússia, assim que o solo estivesse seco. Isso, na opinião deles,
poderia mergulhar mais ainda a Alemanha no abismo. E, entretanto, embora con-
ferenciassem bastante, nada faziam. Em 28 de março de 1942, Hassell permane
ceu em sua casa campestre, em Ebenhausen, e registrou em seu diário:
Durante os últimos dias em Berlim, debati minuciosamente o proble
ma com Jessen,* Beck e Goerdeler. As perspectivas não são boas.8
Como poderiam ser boas? Não tinham sequer planos para agir, naquela oca
sião, enquanto havia tempo.
Era Adolf Hitler quem no correr da primavera — a terceira da guerra — tinha
planos (...) e a vontade feroz de executá-los.
As últimas grandes ofensivas dos alemães na guerra
Embora a loucura do Führer — ao recusar-se a que os exércitos alemães se
retirassem a tempo — acarretasse pesadas perdas em homens e armamentos, a
desmoralização de muitos comandos e uma situação que em janeiro e fevereiro de
1942, durante algumas semanas, ameaçara terminar em catástrofe completa, não
se duvida que sua decisão fanática de manter o terreno, resistir e lutar, contribuiu
também para deter o avanço russo. A coragem e a resistência tradicionais dos
alemães fizeram o resto.
Por volta de 20 de fevereiro, a ofensiva russa do Báltico ao mar Negro perdeu
todo o ímpeto e, no fim de março, a época dos lamaçais trouxe para as grandes e
* Jens Peter Jessen, professor de economia da Universidade de Berlim, foi um dos cérebros do círculo
de conspiradores. Tornara-se um ardente nazista durante o período de 1931 a 1933 e foi um dos pou
cos verdadeiros intelectuais do partido. Desiludiu-se logo depois de 1933, tornando-se fanático antina-
zista. Preso por cumplicidade, na conspiração de 20 de julho de 1944 contra Hitler, foi executado na
prisão de Plõtzensee, em Berlim, em novembro.
396 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
sangrentas linhas de frente uma relativa calma. Ambos os adversários achavam-se
exaustos. Um relatório do exército alemão, em 30 de março de 1942, revelava que
se pagara um horrível tributo na luta, durante o inverno. De um total de 162 divi
sões de combate, no leste, somente oito estavam prontas para missões de ofensiva.
As 16 divisões blindadas tinham, ao todo, apenas 140 tanques em boas condições
de serviço, menos que o número normal de uma divisão.9
Enquanto as tropas descansavam e reaparelhavam-se — na verdade muito an
tes disso, quando se achavam ainda em retirada pela neve em meados do inverno
—, Hitler, que era então comandante-em-chefe do exército e comandante supre
mo das forças armadas, ocupara-se dos planos para a ofensiva do verão seguinte.
Não eram tão ambiciosos quanto os do ano anterior. Já então teve senso bastante
para compreender que não podia destruir todos os exércitos vermelhos numa só
campanha. Iria, nesse verão, concentrar o grosso das tropas no sul, conquistar os
campos petrolíferos do Cáucaso, a bacia industrial do Donets, os campos de trigo
de Kuban e Stalingrado, no Volga. Isso atenderia a vários objetivos importantes.
Privaria os soviéticos do petróleo e de grande parte de alimentos e indústrias de
que necessitavam desesperadamente para continuar a guerra, ao passo que daria
aos alemães combustíveis e recursos alimentícios de que precisavam quase tão
desesperadamente quanto os russos.
“Se não conseguir o petróleo de Maikop e Grozny deverei então dar paradeiro
a esta guerra”, declarou Hitler pouco antes da ofensiva de verão, ao general Paulus,
comandante do malfadado 6- Exército.10
Stalin poderia ter dito quase a mesma coisa. Também precisava do petróleo do
Cáucaso para persistir na guerra. Vinha daí a importância de Stalingrado. Apode-
rando-se da região, a Alemanha bloquearia a última rota principal, via mar Cás
pio e rio Volga, pela qual o petróleo, enquanto os russos mantivessem os poços,
podia alcançar a parte central da Rússia.
Além do petróleo para movimentar aviões, tanques e caminhões, Hitler preci
sava de soldados para preencher as fileiras já desfalcadíssimas. O total das baixas
ao fim da luta de inverno fora de 1.167.835, sem contar os doentes, e não havia
homens suficientes para compensar tais perdas. O Alto-Comando alemão recor
reu a seus Aliados — ou, antes, satélites — para que lhe fornecessem tropas adi
cionais. Durante o inverno, o general Keitel correra a Budapeste e Bucareste a fim
de aliciar soldados húngaros e romenos — divisões inteiras deles — para a luta do
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 397
próximo verão. Gõring e o próprio Hitler apelaram a Mussolini para que enviasse
formações da Itália.
Gõring chegou a Roma no fim de janeiro de 1942, para obter reforços de sol
dados italianos para a campanha na Rússia, assegurando a Mussolini que a União
Soviética seria derrotada em 1942 e que a Inglaterra deporia armas em 1943. Cia
no achou o gorducho e muito condecorado marechal do Reich insuportável.
“Como sempre, é muito vaidoso e autoritário”, anotou o ministro das Relações
Exteriores italiano no diário, em 2 de fevereiro. E dois dias depois:
Gõring deixa Roma. Jantamos no Hotel Excelsior e, durante o jantar,
quase não falou noutra coisa senão nas jóias que possuía. De fato, os
tentava nos dedos belos anéis (...) No caminho para a estação, usava
uma grande capa de zibelina, algo que os choferes de automóvel usa
vam em 1906 e que uma prostituta de alta classe costuma vestir quan
do vai à ópera.11
A corrupção e o desgaste do homem que ocupava o segundo lugar na direção
do Terceiro Reich progrediam firmemente.
Mussolini prometeu-lhe enviar duas divisões italianas à Rússia, em março, se
os alemães lhes dessem artilharia; mas o interesse pelas derrotas de seu aliado na
frente oriental atingira tais proporções que Hitler achou ser tempo de nova con
ferência, a fim de explicar-lhe o quanto a Alemanha continuava forte.
A conferência realizou-se em 29 e 30 de abril, em Salzburgo, onde o Duce,
Ciano e seu grupo foram instalados no palácio de estilo barroco de Klessheim,
outrora sede de bispados e agora decorado novamente com cortinas, móveis e
tapetes procedentes da França, pelos quais o ministro das Relações Exteriores da
Itália suspeitou que os alemães “não pagaram muita coisa”. Ciano achou o Führer
com ar cansado. “Os meses de inverno na Rússia afetaram-no bastante”, anotou no
diário. “Observo pela primeira vez que está com muitos cabelos brancos.”*
* Goebbels havia visto Hitler um mês antes, no quartel-general, e exprimiu sua grande surpresa, no
diário, ao vê-lo doente. "Notei que se tinha tornado muito grisalho (...) Contou-me ele que sofria de
fortes vertigens (...) Desta vez o Führer me preocupa realmente.""Sofreu", acrescentou Goebbels, "forte
reação com o frio intenso e a neve (...) O que atormenta e preocupa o Führer é o fato de o país estar
ainda coberto de neve (...)" (The Goebbels Diaries, p. 131-7).
398 A g u e r r a : p r im e ir a s v it ó r ia s e o MOMENTO DECISIVO
Seguiu-se a costumeira exposição dos alemães sobre a situação em geral, com
Ribbentrop e Hitler assegurando a seus hóspedes italianos que tudo corria bem
(...) na Rússia, na África do Norte, no Ocidente e nos mares. A próxima ofensiva,
confiaram eles, seria dirigida contra os campos petrolíferos do Cáucaso.
A Rússia dobrará os joelhos quando se esgotarem suas fontes de petró
leo [disse Ribbentrop]. Depois os britânicos (...) curvar-se-ão a fim de
salvarem o que resta do castigado império (...)
Os Estados Unidos não passam de um grande blefe (...)
Ouvindo mais ou menos pacientemente seu colega, Ciano, entretanto, teve a
impressão de que, no que dizia respeito ao que os Estados Unidos pudessem fazer,
eram os alemães que estavam blefando e que, na realidade, quando pensavam
nisso “sentiam calafrios na espinha”.
Como sempre, era o Führer quem mais falava.
Hitler fala o tempo todo [escreveu Ciano no diário]. Mussolini sofre
(...) Ele, que também gosta de falar, é praticamente obrigado a ficar ca
lado. No dia seguinte, depois do almoço, depois que tudo tinha sido
dito, Hitler falou ininterruptamente durante uma hora e quarenta mi
nutos. Não omitiu qualquer assunto: guerra e paz, religião e filosofia,
arte e história. Mussolini consultava sistematicamente seu relógio de
pulso (...) Os alemães — pobre gente — têm de tolerar aquela lengalen-
ga todos os dias, e tenho certeza de que não há um gesto, uma palavra
ou uma pausa que não conheçam de cor. O general Jodl, após uma luta
épica, acabou indo dormir num divã. Keitel estava tonto, mas conse
guiu manter a cabeça levantada. Estava muito perto de Hitler para
abandonar-se a seus impulsos (...)12
A despeito da avalancha de palavras ou talvez por causa dela, Hitler conseguiu
a promessa de mais buchas italianas para canhão, na frente russa. Tão bem-suce-
didos haviam sido eles e Keitel com todos os satélites, que o Alto-Comando ale
mão calculou que teria 52 divisões 4aliadas” disponíveis para a tarefa do verão —
27 romenas, 13 húngaras, nove italianas, duas tchecoslovacas e uma espanhola.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 399
Representava isso um quarto das forças combinadas do Eixo, no leste. Das 41
novas divisões que deviam reforçar a parte sul da frente, onde seria desfechado o
golpe alemão, dez eram húngaras, seis italianas e cinco romenas. Halder e a maio
ria dos outros generais não gostaram de assumir grandes riscos com tantas divi
sões “estrangeiras”, cujas qualidades guerreiras, em sua opinião, eram — para
usarmos uma expressão suave — duvidosas. Mas, dada a própria falta que tinham
de potencial humano, aceitaram o auxílio, embora relutantemente; e essa decisão
iria logo contribuir para o desastre que então sobreviria.
A princípio, naquele verão de 1942, a sorte bafejou o Eixo. Mesmo antes do
ataque em direção ao Cáucaso e a Stalingrado, conseguiu uma vitória sensacional
no norte da África. Em 27 de maio de 1942, o general Rommel recomeçou a ofen
siva no deserto.* Atacando rapidamente com seu famoso Afrika Korps (duas divi
sões blindadas e uma divisão de infantaria motorizada) e oito divisões italianas,
das quais uma blindada, conseguiu logo empurrar o exército britânico do deserto
para a fronteira egípcia. Em 21 de junho, conquistou Tobruk, ponto-chave das
defesas britânicas, que em 1941 havia resistido durante nove meses até que se
rendeu, e dois dias depois entrou no Egito. No fim de junho, achava-se em El
Alamein, a 104 quilômetros de Alexandria e do delta do Nilo. Parecia a muitos
estadistas dos Aliados, que consultavam o mapa espantados, que nada mais pode
ria impedir agora Rommel de desfechar um golpe fatal contra os ingleses, con
quistar o Egito e depois — se recebesse reforços — continuar a arrancada para o
nordeste a fim de conquistar os grandes campos petrolíferos do Oriente Médio e,
dali, rumar para o Cáucaso para fazer junção na Rússia com os exércitos alemães
que já estavam começando a avançar, no norte, em direção àquela região.
Foi um dos momentos mais negros da guerra para os Aliados e, portanto, um
dos mais brilhantes para o Eixo. Hitler, porém, conforme vimos, jamais com
preendera uma guerra global. Não soube tirar partido dos surpreendentes êxitos
de Rommel na África. Conferiu ao destemido chefe do Afrika Korps o bastão de
marechal-de-campo, mas não lhe enviou abastecimentos nem reforços.** Ante a
* Em uma série de batalhas selvagens com os britânicos, em novembro e dezembro de 1941, as forças
de Rommel haviam sido rechaçadas por entre a Cirenaica para a linha de El Agheila, na fronteira oeste.
Mas tornando a atacar com sua costumeira elasticidade em janeiro de 1942, Rommel reconquistou
metade do terreno perdido, numa rápida campanha de 17 dias que o levou novamente a El Gazala,
onde, no fim de maio de 1942, começou nova arrancada.
** A promoção de Rommel, por Hitler, ao posto de marechal-de-campo, no dia que se seguiu à conquis
ta de Tobruk, causou "grande dor" a Mussolini porque, conforme observou Ciano, tal ato acentuava "o
400 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
insistência do almirante Ráder e a instâncias de Rommel, consentiu em enviar o
Afrika Korps e uma pequena força aérea alemã, em primeiro lugar, à Líbia, mas
somente para impedir um colapso dos italianos no norte da África, e não porque
achasse importante a conquista do Egito.
A chave para essa conquista era, na verdade, a pequena ilha de Malta, que
jazia no Mediterrâneo, entre a Sicília e as bases do Eixo na Líbia. Era desse ba
luarte britânico que os bombardeiros, submarinos e barcos de superfície causa
vam devastação nos navios alemães e italianos que transportavam abastecimen
tos e soldados para a África. Em agosto de 1941, cerca de 35% dos abastecimentos
e reforços de Rommel foram destruídos; em outubro, 53%. Em 9 de novembro,
escreveu Ciano, pesaroso, em seu diário:
Desde 19 de setembro desistíramos de tentar enviar comboios para a
Líbia; pagamos um alto tributo em todas as tentativas (...) Hoje à noite,
tentamos novamente. Partiu um comboio de sete navios, acompanhado
de dois cruzadores de 10 mil toneladas e dez destróieres (...) Todos —
todos, repito — os nossos navios foram postos a pique (...) Os britâni
cos regressaram a seus portos [em Malta] depois de destruí-los.13
Embora tardiamente, os alemães desviaram vários submarinos da batalha do
Atlântico para o Mediterrâneo, e a Kesselring foram dadas outras esquadrilhas de
aviões para as bases da Sicília. Tinham decidido neutralizar Malta e destruir, se
possível, a esquadra britânica no Mediterrâneo Oriental. O êxito foi imediato. No
fim de 1941, os britânicos haviam perdido três encouraçados, um porta-aviões,
dois cruzadores e vários destróieres e submarinos; o que restou de sua esquadra
foi enviado às bases egípcias. Dia e noite, durante várias semanas, os bombardeiros
alemães atacaram as bases egípcias: atacaram Malta* dia e noite, durante várias
caráter alemão da batalha". O Duce partiu imediatamente para a Líbia a fim de colher algumas honrarias
para si, acreditando que podia entrar em Alexandria — diz Ciano — "dali a 15 dias". Em 2 de julho, ele
se pôs em contato com o Führer, pelo telégrafo, acerca da "questão do futuro governo político do Egito",
propondo Rommel como comandante militar e um italiano como "delegado civil". Hitler respondeu
que não considerava urgente a questão. (Ciano Diaries, p. 502-4).
"Mussolini aguardava impacientemente em Derna (atrás do front), lembrou-se mais tarde o general Fritz
Bayerlein, chefe do Estado-maior de Rommel, o dia em que poderia receber continência das tropas,
num desfile de tanques, à sombra das pirâmides". (The Fatal Decision, ed. Freidin & Richardson, p. 103).
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 401
semanas. Disso resultou conseguir o Eixo enviar seus abastecimentos — em janei
ro não perdeu uma tonelada de navio — e Rommel pôde concentrar suas forças
para a grande arrancada rumo ao Egito.
Em março, o almirante Ràder convenceu Hitler a provar os planos não só
para a ofensiva de Rommel em direção ao Egito (Operação Aída) como também para
a conquista de Malta por pára-quedistas (Operação Hércules). A ofensiva, par
tindo da Líbia, devia começar no fim de maio; e Malta devia ser tomada em mea
dos de julho. Em 15 de junho, no entanto, quando Rommel se encontrava em
meio a seus êxitos iniciais, Hitler adiou o ataque contra Malta. Não podia remo
ver tropas e aviões da frente russa, explicou a Ràder. Algumas semanas depois,
adiou novamente a Operação Hércules, dizendo que ela podia esperar até que a
ofensiva de verão, no leste, estivesse terminada e Rommel tivesse conquistado o
Egito.14 Podia-se, entrementes, imobilizar Malta por meio de contínuos bombar
deios — declarou.
Malta, porém, não foi imobilizada; e em virtude desse fracasso, de não pode
rem neutralizá-la ou conquistá-la, os alemães iriam dentro em pouco pagar alto
tributo. Um grande comboio inglês conseguiu chegar até a ilha sitiada, em 16 de
junho, e, conquanto se perdessem várias naves de guerra e vários cargueiros, Mal
ta entrou novamente em atividade. Spitfires, procedentes do porta-aviões ameri
cano Wasp, voaram para a ilha e logo varreram dos ares os bombardeiros da Luft-
wafFe que a atacavam. Rommel sentiu os efeitos. Três quartos de seus navios de
abastecimento foram postos a pique depois disso. O marechal chegou a El Ala-
mein com apenas 13 tanques em boas condições.* “Enfraqueceu nossa força”, es
creveu ele em seu diário no dia 3 de julho. E no momento em que as pirâmides se
achavam quase à vista, e além (...) os grandes troféus: o Egito e Suez! Foi outra
oportunidade perdida, e uma das últimas que a providência e os azares da guerra
haviam proporcionado a Hitler.
A ofensiva de verão dos alemães na Rússia: 1942
No fim do verão de 1942, Adolf Hitler parecia, mais uma vez, em esplêndida
situação. Os submarinos alemães estavam afundando 700 mil toneladas de barcos
* Segundo testemunho do general Bayerlein, prestado depois da guerra. Exagerou, provavelmente,
suas perdas. O serviço secreto dos Aliados informara que Rommel chegara com 125 tanques.
402 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
britânicos e norte-americanos por mês, no Atlântico, mais do que se podia subs
tituir nos estaleiros dos Estados Unidos, do Canadá e da Escócia, então em franco
progresso. Embora o Führer tivesse despojado suas forças, no oeste, da maior par
te de suas tropas, tanques e aviões, a fim de liquidar a Rússia, não havia sinal,
naquele verão, de que os britânicos e norte-americanos estivessem bastante fortes
para realizar um desembarque de pequenas forças procedentes do outro lado do
Canal. Eles nem mesmo se tinham aventurado a tentar ocupar o noroeste da Áfri
ca que os franceses mantinham — enfraquecidos e divididos, não tinham lá gran
de coisa para impedi-los, se tentassem —, e os alemães apenas alguns submarinos
e um grupo de aviões com bases na Itália e em Trípoli.
A marinha e a força aérea britânicas não puderam impedir que dois cruzado
res, o Scharnhorst e o Gneisenau, e o cruzador pesado Prinz Eugen, partindo de
Brest,* atravessassem o canal da Mancha em plena luz do dia e chegassem a salvo
às águas alemãs. Hitler temia que os britânicos tentassem ocupar o norte da No
ruega, razão por que insistira naquela fuga de Brest, a fim de poderem os três
pesados navios ser ali empregados na defesa das águas norueguesas. “A Noruega”,
declarou ele a Ráder no fim de janeiro de 1942, “é a zona do destino”. Tinha que
ser defendida a todo custo. Resultou que não houve necessidade disso; os anglo-
americanos tinham outros planos para suas limitadas forças no Ocidente.
No mapa, a soma das conquistas de Hitler, por volta de setembro de 1942,
parecia atordoante. O Mediterrâneo tornara-se, praticamente, um lago do Eixo, a
Alemanha e Itália mantendo a maior parte da costa setentrional, desde a Espanha
até a Turquia, e a costa meridional, desde a Tunísia até 96 quilômetros distante
do Nilo. De fato, as tropas alemãs mantinham guarda desde o cabo setentrional da
Noruega, no oceano Ártico, até o Egito; do Atlântico, em Brest, até a parte sul do
rio Volga, na borda da Ásia central.
As tropas alemãs do 6a Exército haviam alcançado o Volga, mesmo ao nor
te de Stalingrado, em 23 de agosto. Dois dias antes, a suástica fora hasteada
no monte Elbrus, o pico mais alto nas montanhas do Cáucaso (5.642 metros).
Os campos petrolíferos de Maikop, que produziam anualmente 2,5 milhões de
* Isso ocorreu em 11-12 de fevereiro de 1942 e pegou os britânicos de surpresa. Apenas fracas forças
navais e aéreas foram reunidas a tempo para atacar a frota alemã, à qual infligiram pequenos danos. "O
vice-almirante Ciliax [que dirigiu a travessia] foi coroado de êxito onde o duque de Medina Sidonia ha
via fracassado (...) Desde o século XVII não sentiu esta potência marítima golpe mais humilhante para
seu orgulho como o que aconteceu em suas águas metropolitanas", comentou o Times de Londres.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 403
toneladas de petróleo, haviam sido conquistados em 8 de agosto, embora os ale
mães os tivessem encontrado quase totalmente destruídos; no dia 25, os tanques
de Kleist chegaram a Mozdok, que distava apenas oitenta quilômetros do princi
pal centro petrolífero soviético, nas imediações de Grozny e a cerca de 160 quilô
metros do mar Cáspio. No dia 31, Hitler aconselhou o marechal-de-campo List,
comandante dos exércitos do Cáucaso, a que reunisse todas as forças então exis
tentes para a arrancada final contra Grozny, a fim de que ele “pudesse apoderar-se
dos campos petrolíferos”. Também nesse último dia de agosto, Rommel desenca
deou sua ofensiva em El Alamein, muito esperançoso de romper as linhas inimi
gas e chegar até o Nilo.
Conquanto Hitler nunca se mostrasse satisfeito com a atuação de seus gene
rais — havia dado o bilhete azul ao marechal-de-campo von Bock, que comanda
va toda a ofensiva no sul, em 13 de julho e, conforme revela o diário de Halder,
que constantemente importunava e amaldiçoava a maioria dos outros comandan
tes e o Estado-maior geral, por não avançarem com bastante rapidez —, acredita
va agora que a vitória estava ao seu alcance. Ordenou ao 6a Exército e ao 4a Exér
cito panzer que se lançassem para o norte, ao longo do Volga, depois que
Stalingrado fosse tomada, num vasto movimento envolvente que, eventualmente,
lhes permitisse avançar de leste e também do oeste contra o centro da Rússia e
Moscou. Acreditava que os russos estavam liquidados. Diz Halder que Hitler, na
quela ocasião, falava em fazer avançar parte de suas forças pelo Irã, rumo ao golfo
Pérsico.15 Logo faria junção com os japoneses no oceano Indico. Hitler não duvi
dou da exatidão de um relatório do serviço secreto alemão, de 9 de setembro, que
dizia terem os russos empregado todas as suas reservas em toda a frente. Numa
conferência com o almirante Ráder, no fim de agosto, seus pensamentos já se
afastavam da Rússia, que — dizia — ele considerava “um espaço vital à prova de
bloqueio”, e voltavam-se para os britânicos e americanos, os quais — estava certo
— seriam logo “obrigados a discutir os termos da paz”.16
No entanto, conforme o general Kurt Zeitzler lembrou mais tarde, as aparên
cias, mesmo naquela ocasião, conquanto fossem róseas, eram enganadoras. Qua
se todos os generais, na campanha, e os do Estado-maior geral, viram falhas na
quele belo quadro. Podiam ser assim resumidas: os alemães não dispunham de
recursos — faltavam-lhes soldados, canhões, tanques, aviões e meios de tranporte
— para atingir os objetivos que Hitler insistia em fixar. Quando Rommel procurou
404 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
informá-lo dessa situação com respeito ao Egito, Hitler ordenou-lhe que tirasse
uma licença por motivos de saúde e fosse para as montanhas de Semmering. Hal
der e o marechal-de-campo List foram postos de lado quando tentaram fazer a
mesma coisa em relação à frente russa.
Mesmo o mais simples estrategista amador podia perceber o crescente perigo
para os exércitos alemães, no sul da Rússia, ao fortalecer-se a resistência soviética
no Cáucaso e em Stalingrado, e ao aproximar-se a estação das chuvas de outono.
O longo flanco do norte do 6a Exército achava-se perigosamente exposto ao longo
da linha do Don superior numa extensão de 560 quilômetros, de Stalingrado a
Voronezh. Hitler havia colocado ali três exércitos satélites: a segunda divisão hún
gara, ao sul de Voronezh; a oitava divisão italiana, mais a sudeste; e a terceira di
visão romena, à direita, na curva do Don, logo a oeste de Stalingrado. Dada a
acerba hostilidade que reinava entre os romenos e húngaros, seus exércitos ti
nham que ficar separados pelo dos italianos. Nas estepes, ao sul de Stalingrado,
havia um quarto exército satélite, a quarta divisão romena. À parte suas duvidosas
qualidades como combatentes, todos eles achavam-se mal equipados. Faltavam-
lhes forças blindadas, artilharia pesada e mobilidade. Estavam, além disso, muito
espalhados e sem profundidade. O 3e Exército romeno mantinha uma frente de
168 quilômetros com apenas 69 batalhões. Esses exércitos “Aliados” eram tudo o
que Hitler possuía. Não havia unidades alemãs suficientes para preencher as bre
chas. Como acreditava — conforme contou a Halder — que os russos estavam
liquidados, não havia motivo para preocupar-se com o longo flanco do Don,
completamente exposto.
Era, no entanto, a chave para manter o 6fi Exército e o 4e Exército panzer em
Stalingrado, e o grupo A do exército no Cáucaso. Sofresse o flanco do Don um
colapso, e não só as forças alemãs em Stalingrado ficariam ameaçadas de envolvi
mento como também as do Cáucaso ficariam isoladas. O chefe nazista estava jo
gando, mais uma vez, com a sorte. Não era a primeira vez que o fazia na campa
nha de verão.
Em 23 de julho, no auge da ofensiva, jogou novamente com a sorte. Os russos
estavam em franca e rápida retirada entre os rios Donets e Don superior, em dire
ção a Stalingrado, a leste, e o Don inferior, ao sul. Uma decisão devia ser tomada.
As forças alemãs tinham de concentrar-se na conquista de Stalingrado e bloquear
o rio Volga, ou deviam desfechar o golpe principal no Cáucaso para a conquista
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 405
do petróleo russo? No começo do mês, Hitler havia meditado sobre essa questão
decisiva, sem poder chegar a uma solução. A princípio, o cheiro do petróleo ten
tara-o bastante; em 13 de julho havia desligado o 42 Exército panzer dos exércitos
do grupo B, que vinham avançando pelo Don em direção à curva do rio e de Sta-
lingrado, um pouco mais além, e enviara-o para o sul, a fim de auxiliar o l2 Exér
cito panzer; de Kleist, a transpor o Don inferior nas imediações de Rostov e pro
jetar-se dali para o Cáucaso, rumo aos campos petrolíferos. Naquele tempo, o 42
Exército panzer poderia ter continuado a avançar para Stalingrado que, então, se
achava em grande parte sem defesa, conquistando-a facilmente. Quando Hitler
percebeu seu erro era muito tarde. Encobriu-o. Quando o 4- Exército panzer foi
novamente deslocado para avançar contra Stalingrado, uma quinzena depois, já
os russos se haviam refeito e puderam detê-lo; a saída das tropas do Cáucaso dei
xara Kleist demasiado enfraquecido para terminar a arrancada em direção aos
campos petrolíferos de Grozny.*
O deslocamento daquela poderosa unidade blindada para o ataque contra Sta
lingrado foi o resultado da decisão fatal que Hitler tomou em 23 de julho. Sua fa
nática determinação de tomar Stalingrado e o Cáucaso ao mesmo tempo, contra
o parecer de Halder e dos comandantes em operações, que não acreditavam que
isso pudesse ser feito, constou da Diretiva n2 45, que se tornou célebre nos anais
do exército alemão. Foi um dos gestos fatídicos de Hitler na guerra, pois, no fim,
e em um tempo muito curto, resultou não conseguir atingir qualquer dos dois
objetivos e acarretou a mais humilhante derrota na história das armas alemãs,
deixando a certeza de que jamais ganharia a guerra e que os dias do Terceiro Reich
de “mil anos” estavam contados.
O general Halder estava apavorado. Houve uma cena tempestuosa no quartel-
general de Werewolf, na Ucrânia, nas proximidades de Vinnitsa, para onde Hitler
se mudara em 16 de julho a fim de ficar mais perto do front. O chefe do Estado-
maior geral insistiu para que se concentrassem as principais forças na conquista de
* Kleist confirmou o seguinte a Liddell Hart:"0 4QExército panzer (...) podia ter conquistado Stalingrado
sem luta no fim de julho, mas foi desviado para o sul a fim de auxiliar-me na travessia do Don. Eu não
precisava desse auxílio. Com isso, congestionaram as estradas que eu estava usando. Quando ele tor
nou a voltar para o norte, 15 dias depois, já os russos haviam reunido em Stalingrado forças suficientes
para detê-lo." Nessa ocasião, Kleist precisava de mais tanques. "Poderíamos ter atingido nosso objetivo
[o petróleo de Grozny] se minhas forças não tivessem sido desviadas (...) para ajudar no ataque contra
Stalingrado", acrescentou ele. (Liddell Hart, The German Generais Talk, p. 169-71).
406 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Stalingrado e procurou explicar que o exército alemão não possuía, na realidade,
forças suficientes para levar a efeito duas poderosas ofensivas em direções dife
rentes. Quando Hitler retrucou que os russos estavam liquidados, Halder tentou
convencê-lo de que, segundo o próprio serviço secreto do exército, isso estava
longe da realidade.
Essa contínua subestimação das possibilidades do inimigo [anotou
Halder pesarosamente no diário, naquela noite] assume formas grotes
cas e está se tornando perigosa. Impossível trabalhar aqui. Reações pa
tológicas a impressões momentâneas, e a completa falta de capacidade
para avaliar a situação e suas possibilidades, dão um caráter peculiarís-
simo a essa pseudoliderança.
Mais tarde, o chefe do Estado-maior geral, cujos próprios dias no posto esta
vam agora contados, lembrar-se-ia dessa cena e escrevia:
As decisões de Hitler deixaram de ter qualquer coisa comum com os
princípios da estratégia e de operações militares, conforme eram reco
nhecidos pelas gerações passadas. Eram o produto de uma natureza
violenta, que seguia seus impulsos momentâneos, não reconhecendo
limites para as possibilidades e tornando seus sonhos ambiciosos o se
nhor de seus atos (...)17
No tocante ao que ele chamava ‘exagero patológico” do comandante supremo
“em avaliar sua própria força e a subestimação criminosa pela do inimigo”, contou
Halder, depois, uma história:
Certa vez, quando lhe foi lido um relatório objetivo mostrando que
ainda em 1942 Stalin seria capaz de reunir de um milhão a 1,25 milhão
de soldados novos na região ao norte de Sialingrado e a oeste do Volga,
sem contar o meio milhão de homens do Cáucaso, e que dava provas de
que a produção russa de tanques para as linhas de frente montava, pelo
menos, a 1.200 unidades por semana, Hitler lançou-se para o homem
que estava lendo e, espumando de raiva, proibiu-o de ler qualquer coisa
mais sobre tais tolices.18
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 407
“Não era preciso ter o dom da profecia”, diz Halder, “para prever o que aconte
ceria quando Stalin lançasse aquele milhão e meio de soldados contra Stalingrado
e o flanco do Don.* Assinalei muito claramente essa questão a Hitler. Disso resul
tou ser demitido o chefe do Estado-maior geral”
Isso aconteceu em 24 de setembro. Já no dia 9, ao ser informado por Keitel de
que o marechal-de-campo List — comandante de todos os exércitos do Cáucaso
— havia sido demitido, Halder ficara sabendo que seria o seguinte a sair. O Führer
— disseram-lhe — convencera-se de que ele “não estava mais à altura de atender às
exigências psíquicas de sua posição”. Hitler explicou isso com todas as minúcias ao
chefe de seu Estado-maior geral, por ocasião do encontro de despedida no dia 24.
“O senhor e eu estivemos sofrendo dos nervos. Metade de minha exaustão
nervosa é devida ao senhor. Não convém continuar isso. Precisamos agora de ar
dor nacional-socialista e não de capacidade profissional. Não posso esperar isso
de um oficial da velha escola, como é seu caso.”
“Assim falou, não como chefe guerreiro responsável, porém como um político
fanático”, comentou Halder depois.19
Assim saiu Franz Halder. Tinha seus defeitos, semelhantes aos de seu prede-
cessor, o general Beck, visto seu espírito tornar-se muitas vezes confuso e como
que paralisada sua vontade de agir. Conquanto muitas vezes tivesse enfrentado
Hitler, sem resultado, porém, havia, também, à semelhança de todos os outros
oficiais do exército que desfrutaram altas posições durante a Segunda Guerra
Mundial, agido de acordo com ele e, durante longo tempo, secundado suas atro
zes agressões e conquistas. Havia, contudo, conservado algumas virtudes de tem
pos mais civilizados. Era o último dos chefes do Estado-maior geral da velha es
cola que teria o exército do Terceiro Reich.** Foi substituído pelo general Kurt
* Relata Halder que "quase por acidente" encontrou na Ucrânia, mais ou menos naquela ocasião, um
livro sobre a derrota que Stalin infligiu ao general Denikin entre a curva do Don e Stalingrado, durante
a guerra civil russa. Diz que a situação, então, era muito similar à de 1942, e que Stalin explorava magis
tralmente as fracas defesas de Denikin ao longo do Don. "Daí", acrescentou ele, "veio a mudança do
nome da cidade, deTsaritsyn para Stalingrado"
** A demissão de Halder foi uma perda não só para o Exército como também para os historiadores do
Terceiro Reich, pois seu valioso diário termina em 24 de setembro de 1942. Acabou sendo preso, colo
cado no campo de concentração de Dachau, juntamente com prisioneiros ilustres, tais como Schusch-
nigg e Schacht, e libertado pelas forças norte-americanas em Niederdorf, no sul doTirol, em 28 de abril
de 1945. Desde essa época, até o tempo em que escrevemos este trabalho, esteve colaborando com o
exército norte-americano em certo número de estudos sobre a história militar da Segunda Guerra
408 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Zentzler, um jovem oficial de tipo diferente, que estava servindo como chefe do
Estado-maior de Rundstedt, no Ocidente, e que permaneceu no posto que outro-
ra — especialmente na Primeira Guerra Mundial — fora o mais elevado e o mais
poderoso do exército alemão, quase como mensageiro de Hitler até o atentado
contra a vida do ditador em junho de 1944.*
A mudança dos chefes do Estado-maior geral não modificou a situação do
exército alemão, cujas ofensivas simultâneas contra Stalingrado e o Cáucaso ha
viam sido contidas pela resistência russa, que se fortalecera. Durante todo o mês
de outubro, continuou a luta atroz nas ruas da própria Stalingrado. Os alemães
fizeram algum progresso, de casa em casa, mas com perdas alarmantes, pois as
ruínas de uma grande cidade, como sabe todo aquele que já passou pela experiên
cia de uma guerra moderna, oferecem muitas oportunidades para uma obstinada
e prolongada defesa; e os russos, ao disputarem desesperadamente cada polegada
de terreno, delas aproveitaram-se ao máximo. Embora Halder e seu sucessor, de
pois, tivessem prevenido Hitler de que as tropas se estavam exaurindo em Stalin
grado, ele insistiu em que prosseguissem na arrancada. Lançaram novas divisões
naquele inferno, aos quais foram logo destruídas.
Em vez de ser um meio para determinado fim — o fim já havia sido atingido
quando as formações alemãs alcançaram as margens ocidentais do Volga, ao nor
te e ao sul da cidade, e cortaram o tráfego pelo rio —, Stalingrado passou a ser o
próprio fim. A Hitler, sua conquista era agora questão de prestígio pessoal. Quan
do até mesmo Zeitzler, enchendo-se de coragem, sugeriu ao Führer que retirasse
de Stalingrado para o cotovelo do Don o 6a Exército, dado o perigo que corria
naquele extenso flanco norte ao longo do rio, o Führer enfureceu-se. “Onde o
soldado alemão puser o pé, aí permanecerá!”, gritou.
A despeito da luta difícil e das pesadas perdas, o general Paulus, comandante do
6- Exército, informou Hitler pelo rádio, em 25 de outubro, que esperava terminar
Mundial. Já foi observada sua generosidade para com o autor deste livro em responder a inúmeras
perguntas e em assinalar as fontes.
* O fiel e fanaticamente leal general Jodl, chefe das operações OKW, achava-se também em desgraça
nesse tempo.Tinha se oposto à demissão do marechal-de-campo List e do general Halder e, ao defen-
dê-los, fez Hitler enraivecer-se a ponto de ter-se recusado, durante meses, a cumprimentá-lo ou a jantar
com ele ou com qualquer outro oficial do Estado-maior. Hitler estava prestes a demitir Jodl no fim de
janeiro de 1943, substituindo-o pelo general Paulus, mas era demasiado tarde. Conforme veremos, não
podia mais dispor de Paulus.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 409
a conquista de Stalingrado até 10 de novembro. Animado por essa afirmação,
Hitler expediu ordens no dia seguinte para que o 6- Exército e o 4a Exército panzer
— que lutava no sul da cidade — preparassem o avanço para o norte e o sul ao
longo do Volga assim que Stalingrado caísse.
Isso não era devido ao fato de Hitler ignorar a ameaça que pesava sobre o
flanco do Don. Os diários do OKW deixam claro que a situação lhe causava
preocupações. O fato, porém, é que ele não a levou muito a sério e, por conseguin
te, nada fez para evitá-la. Realmente, tão seguro estava de que a situação se achava
bem controlada que, no último dia de outubro, o Estado-maior geral do exército
e o do OKW abandonaram suas sedes em Vinnitsa, na Ucrânia, e voltaram para
Wolfsschanze, em Rastenburg. O Führer convencera-se de que, no caso de haver
qualquer ofensiva soviética no inverno, ela seria desfechada nas frentes central e
norte. Poderia atender melhor a ela de seu posto na Prússia Oriental.
Mal voltara para ali, chegaram-lhe más notícias de outra frente mais distante.
O Afrika Korps, do marechal-de-campo Rommel, estava em dificuldades.
O primeiro golpe:
El Alamein e os desembarques anglo-americanos
A Raposa do Deserto, nome pelo qual designavam von Rommel em ambos os
lados da frente, havia recomeçado sua ofensiva em El Alamein no dia 31 de agos
to, com intenção de fazer recuar o 8- Exército britânico e avançar para Alexandria
e o Nilo. Travou-se uma violenta batalha, em meio ao calor escaldante, naquela
frente do deserto de 64 quilômetros de extensão, situada entre o mar e a Depres
são de Quattara; Rommel, porém, não pôde vencê-la e, em 3 de setembro, inter
rompeu-a e passou para a defensiva. O exército britânico no Egito havia, final
mente, recebido reforços em homens, canhões, tanques e aviões (dos quais muitos
procedentes dos Estados Unidos). Recebera, também, em 15 de agosto, dois no
vos comandantes: um excêntrico, porém talentoso general chamado sir Bernard
Law Montgomery, que assumiu o comando do 82 Exército, e o general sir Harold
Alexander, que demonstraria ser um hábil estrategista e brilhante administrador,
assumindo o posto de comandante-em-chefe no Oriente Médio.
Logo depois de seu revés, Rommel partiu de licença, em setembro, para Sem-
mering, nas montanhas abaixo de Viena, para se curar de uma infecção no nariz
4 io A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
e de uma inflamação no fígado; foi ali que, na tarde de 24 de outubro, recebeu
um telefonema de Hitler: “Rommel, as notícias da África são ruins. A situação
parece um tanto obscura. Tem-se a impressão de que ninguém sabe o que acon
teceu com o general Stumme.* Crê o senhor que pode voltar à África e assumir,
ali, novamente, o comando?”20 Embora doente, Rommel concordou em voltar
imediatamente.
Ao tempo em que regressou ao quartel-general, a oeste de El Alamein, na noi
te seguinte, a batalha que Montgomery desencadeara às 21:40h de 23 de outubro
já estava perdida. O 8fi Exército tinha muitos canhões, tanques e aviões, e embora
as linhas teuto-italianas ainda resistissem e Rommel se esforçasse desesperada
mente para deslocar suas castigadas divisões a fim de conter os vários ataques e,
mesmo, para contra-atacar, percebeu ele que sua situação não tinha salvação. Não
dispunha de reservas, de homens, de tanques e de petróleo. A Real Força Aérea,
daquela vez, dominava completamente os ares e martelava sem piedade suas tro
pas, tanques e o que restava dos depósitos de abastecimentos.
Em 2 de novembro, a infantaria e os carros blindados de Montgomery abriram
uma brecha no setor sul da frente e começaram a devastar ali as divisões italianas.
Rommel, nessa noite, radiografou ao quartel-general do Führer, na Prússia Orien
tal, a 3.200 quilômetros distante, que não podia sustentar a luta e que pretendia
retirar-se, enquanto havia tempo, para a posição de Fuka, 64 quilômetros a oeste.
Tinha começado a retirada quando chegou no dia seguinte, pelo ar, uma longa
mensagem do chefe supremo da guerra:
Ao marechal-de-campo Rommel:
Eu e o povo alemão estamos contemplando a heróica batalha defensiva
que se trava no Egito, absolutamente confiantes em vossa capacidade de
chefia e na bravura das tropas ítalo-germânicas sob vosso comando. Na
situação em que vos encontrais agora, não há opção senão resistirdes
firmemente, não recuardes um passo, lançardes os canhões e todos os
soldados na batalha (...) Não deveis mostrar a vossas tropas outro cami
nho senão o que conduz à vitória ou à morte (...)
Adolf Hitler21
* Stumme, que era o comandante na ausência de Rommel, morreu de um ataque cardíaco na primeira
noite da grande ofensiva britânica, quando fugia a pé, no deserto, de uma patrulha britânica que qua
se o capturou.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 411
Essa ordem tola, se fosse obedecida, significava que os exércitos ítalo-germâ-
nicos estavam condenados a um rápido aniquilamento. Pela primeira vez, na
África, diz Bayerlein, Rommel não sabia o que fazer. Após uma breve luta com sua
consciência, resolveu obedecer ao comandante supremo, apesar dos protestos do
general Ritter von Thoma, que então comandava o Afrika Korps alemão e decla
rara que, nesse caso, deixaria o comando.* “Fui finalmente obrigado a tomar esta
decisão”, escreveu Rommel mais tarde em seu diário, “porque eu mesmo sempre
exigi obediência incondicional de meus soldados e, portanto, desejei aceitar esse
princípio para mim mesmo”. Depois, porém, mudou de idéia.
Relutantemente, Rommel deu ordem para cessar a retirada e, ao mesmo tem
po, mandou mensageiro especial, em avião, a Hitler, procurando explicar-lhe
que, a menos que lhe permitisse fazer a retirada imediatamente, tudo estaria per
dido. Mas os acontecimentos já estavam tornando a viagem desnecessária. Na
noite de 4 de novembro, com risco de ser submetido a conselho de guerra por
desobediência, Rommel resolveu salvar o que restava de suas forças e retirar-se
para Fuka. Só os remanescentes das unidades blindadas e motorizadas puderam
salvar-se. Os soldados de infantaria, na maioria italianos, foram deixados para
trás, a fim de se renderem, como de fato já havia feito a maior parte deles.** Em 5
de novembro, veio uma mensagem lacônica do Führer: “Concordo com a reti
rada de vosso exército para a posição de F u ka” Mas essa posição já havia sido
dominada pelos tanques de Montgomery. Em 15 dias, Rommel retrocedeu 1.120
quilômetros para além de Benghazi, com o remanescente de seu exército africa
no — cerca de 25 mil italianos, dez mil alemães e sessenta tanques — e não teve
oportunidade de parar mesmo ali.
Foi o começo do fim para Adolf Hitler, a batalha mais decisiva da guerra, ga
nha pelos seus inimigos, embora uma segunda e ainda mais decisiva estivesse
prestes a começar nas estepes cobertas de neve do sul da Rússia. Antes disso, en
tretanto, o Führer iria receber outras más notícias do norte da África, notícias
essas que determinaram a condenação do Eixo nessa parte do mundo.
* No dia seguinte, 4 de novembro — após dizer a Bayerlein que "a ordem de Hitler é um exemplo de
loucura sem paralelo; não posso, mais suportar isso"— , o general von Thoma envergou um uniforme
limpo, com as insígnias de seu posto e as condecorações, permaneceu junto a seu tanque em chamas
até que chegou uma unidade britânica. Entregou-se. À noite, jantou com Montgomery no refeitório do
seu quartel-general.
** As perdas de Rommel em El Alamein foram de 59 mil homens, entre mortos, feridos e capturados, dos
quais 34 mil eram alemães, de um total de 96 mil.
412 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Já em 3 de novembro, quando chegaram as primeiras notícias sobre o desastre
de Rommel, o quartel-general do Führer já havia recebido comunicado de que
fora avistada uma armada aliada concentrando-se em Gibraltar. Ninguém, no
OKW, adivinhava o que estavam preparando. Hitler estava inclinado a pensar que
era simplesmente outro comboio fortemente protegido, com destino a Malta. Isso
é interessante, porque mais de 15 dias antes, em 15 de outubro, os chefes do Esta
do-maior do OKW haviam debatido sobre vários comunicados concernentes a
um iminente “desembarque de forças anglo-americanas” no oeste da África. As
informações, ao que parece, procediam de Roma, pois Ciano, uma semana antes,
em 9 de outubro, anotou em seu diário — após uma conferência com o chefe do
serviço secreto militar — que “os anglo-americanos preparam-se para desembar
car forças no norte da África”. A notícia deixou Ciano deprimido; previu — com
exatidão, conforme ficou demonstrado depois — que isso conduziria inevitavel
mente a um assalto direto dos Aliados à Itália.
Hitler, preocupado com o fato de os russos não cessarem a infernal resistên
cia, não levou muito a sério essa primeira notícia do serviço secreto. Numa reu
nião do OKW, em 15 de outubro, Jodl sugeriu que se permitisse à França de Vichy
enviar reforços ao norte da África, a fim de que os franceses pudessem repelir
desembarques de forças anglo-americanas. O Führer, segundo o diário do OKW,
rejeitou a sugestão, porque talvez isso pudesse irritar os italianos, aos quais des
gostava qualquer movimento que pudesse fortalecer a França. Parece que, no
quartel-general do comandante supremo, a questão ficou esquecida até 3 de no
vembro. Nesse dia, porém, embora os agentes alemães no lado espanhol de Gi
braltar tivessem informado que avistaram uma grande frota anglo-americana
concentrando-se ali, Hitler estava demasiado ocupado em reanimar Rommel em
El Alamein para dar atenção ao que lhe parecia simplesmente outro comboio
para Malta.
Em 5 de novembro, o OKW foi informado de que uma força naval britânica
havia partido de Gibraltar para leste. Somente na manhã de 7 de novembro, con
tudo, 12 horas antes de as tropas norte-americanas e britânicas começarem a de
sembarcar no norte da África, é que Hitler dispensou certa atenção às últimas
informações de Gibraltar. Os comunicados da manhã, recebidos no seu quartel-
general na Prússia Oriental, diziam que forças navais britânicas, em Gibraltar, e
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 1942 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 413
uma vasta frota de transportes e navios de guerra, procedentes do Atlântico, reu-
niram-se e navegavam para leste, no Mediterrâneo. Houve um longo debate entre
os oficiais do Estado-maior e o Führer. Que significava aquilo? Qual o objetivo de
tão grande força naval? Hitler agora inclinava a acreditar, disse ele, que os Aliados
ocidentais talvez tentassem efetuar um grande desembarque com quatro ou cinco
divisões em Trípoli ou em Benghazi, a fim de pegar Rommel pela retaguarda. O
almirante Krancke, oficial de ligação da marinha no OKW, declarou que não po
deria haver, no máximo, mais de duas divisões inimigas. Mesmo assim! Tinha-se
que fazer algo. Hitler pediu que a LuftwafFe, no Mediterrâneo, fosse reforçada
imediatamente, mas disseram-lhe que “naquele momento” isso era impossível.
Julgando pelo diário do OKW, tudo o que Hitler fez nessa manhã foi notificar
Rundstedt, comandante-em-chefe no Ocidente, para se preparar para executar a
operação Anton. Era a palavra em código para a ocupação do resto da França.
Feito isso, o comandante supremo, sem dar atenção à sinistra notícia ou à má
situação em que se acharia Rommel, que seria pego numa armadilha, se os anglo-
americanos desembarcassem em sua retaguarda, e desconsiderando também os
últimos avisos dos agentes secretos sobre uma iminente contra-ofensiva russa, no
Don, na retaguarda do 6- Exército, em Stalingrado, embarcou, depois do almoço,
em 7 de novembro, para Munique, onde na noite seguinte devia pronunciar seu
discurso anual aos velhos companheiros do Partido reunidos para celebrar o ani
versário do Putsch na cervejaria!*
O político nele, conforme Halder anotou, sobrepujara o soldado num mo
mento crítico da guerra. O supremo quartel-general, na Prússia Oriental, foi dei
xado a cargo de um coronel, um Freiherr Treusch von Buttlar-Brandenfels. Os
generais Keitel e Jodl, os principais oficiais do OKW, seguiram juntamente com o
Führer para participar das festividades na cervejaria. Existe qualquer coisa de ab
surdo e fantástico no comportamento do chefe supremo — que até então insistia
em dirigir a guerra em frentes longínquas até o nível de uma divisão ou regimen
to ou, mesmo, de um batalhão — que o levou a milhares de quilômetros dos
* Vi, pela agenda de Hitler que foi apreendida, que a celebração havia sido mudada da velha Bürger-
brãukeller, onde ocorrera o Putsch, para um salão de cervejaria mais elegante, o Lõwenbrãukeller. O
Bürgerbráukeller — lembramos — havia sido danificado por uma bomba de explosão retardada que,
por pouco, não matava o Führer na noite de 8 de novembro de 1939.
414 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
campos de batalha a uma missão política sem importância, no momento em que
a casa estava começando a desmoronar. Começara a processar-se uma mudança
no homem, uma corrosão, uma deterioração, como já havia começado em Gõring,
que, não obstante sua Luftwaffe, outrora todo-poderosa, estivesse declinando fir
memente, estava cada vez mais se apegando a suas jóias e trens de brinquedo e
dispondo de pouco tempo para enfrentar as horríveis realidades de uma guerra
prolongada e cada vez mais cruel.
As tropas anglo-americanas, sob o comando do general Eisenhower, atingi
ram as praias de Marrocos e Argélia à l:30h de 8 de novembro de 1942. Às 5:30h,
Ribbentrop telefonava de Munique a Ciano, em Roma, para dar-lhe a notícia.
Ele estava um tanto nervoso [escreveu Ciano no diário] e desejava sa
ber o que pretendíamos fazer. Devo confessar que, tendo sido apanha
do de surpresa, me sentia demasiado sonolento para dar-lhe uma res
posta satisfatória.
O ministro das Relações Exteriores da Itália soube, da embaixada alemã, que
os funcionários estavam ali “literalmente aterrorizados com o golpe”.
O trem especial de Hitler, que vinha da Prússia Oriental, só chegou em Muni
que às 15:40h, e as primeiras notícias que o Führer recebeu sobre os desembarques
dos Aliados no noroeste da África foram otimistas.22 Em toda parte, os franceses
— contaram-lhe — estavam oferecendo tenaz resistência; em Alger e Orã repeli
ram as tentativas de desembarque. Na Argélia, o almirante Darlan — amigo da
Alemanha — organizava a defesa com aprovação do governo de Vichy. As pri
meiras reações de Hitler foram confusas. Ordenou à guarnição de Creta, que es
tava completamente afastada daquele novo teatro de guerra, que se fortificasse
imediatamente, explicando que tal medida era tão importante quanto a remessa
de reforços para a África. Instruiu à Gestapo que trouxesse os generais Weygand
e Giraud* a Vichy e os mantivesse sob vigilância. Pediu ao marechal-de-campo
von Rundstedt que pusesse em ação a operação Anton, mas que não cruzasse a
* O general Giraud, naquele momento, estava chegando em Alger. Escapara de um campo alemão de
prisioneiros de guerra e instalara-se no sul da França, onde havia sido recolhido por um submarino
britânico, em 5 de novembro, e levado para Gibraltar, a fim de conferenciar com Eisenhower, pouco
tempo antes dos desembarques.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 415
linha de demarcação, na França, até ter recebido novas ordens. E pediu a Ciano*
e a Pierre Lavai, então primeiro-ministro da França de Vichy, que se encontras
sem com ele em Munique no dia seguinte.
Durante cerca de 24 horas, Hitler cultivou a idéia de tentar fazer uma aliança
com a França, a fim de lançá-la na guerra contra a Inglaterra e os Estados Unidos,
e de reforçar a decisão do governo de Pétain no sentido de opor-se aos desembar
ques dos Aliados na África do Norte. Talvez estivesse encorajado nisso pela atitu
de de Pétain de romper as relações diplomáticas com os Estados Unidos na ma
nhã de domingo, 8 de novembro, e pela declaração do velho marechal francês ao
encarregado dos negócios dos Estados Unidos de que suas forças resistiriam à
invasão dos anglo-americanos. O diário do OKW, nesse domingo, enfatiza que
Hitler estava preocupado com os detalhes de “uma colaboração de grande alcance
com os franceses”. Naquela noite, o representante alemão em Vichy, Krug von
Nidda, submeteu uma proposta a Pétain para uma aliança estreita entre a Alema
nha e a França.23
No dia seguinte, após o discurso aos veteranos do partido, no qual proclamara
que Stalingrado estava “firmemente nas mãos dos alemães”, o Führer mudou de
idéia. Declarou a Ciano que não alimentava ilusões sobre o desejo dos franceses
de lutar, e que havia decidido fazer “a ocupação total da França, um desembarque
na Córsega, uma cabeça-de-ponte na Tunísia”. Essa decisão — menos a data — foi
comunicada a Lavai quando ele chegou a Munique, de automóvel, em 10 de no
vembro. Esse francês traidor prometeu, prontamente, que aconselharia Pétain a
ceder aos desejos do Führer, mas sugeriu que os alemães levassem avante os pla
nos sem esperar pela aprovação do marechal senil, o que Hitler pretendia real
mente fazer. Ciano deixou uma descrição do primeiro-ministro de Vichy, que foi
executado por crime de traição depois da guerra.
Lavai, com sua gravata branca e indumentária de algodão da classe mé
dia francesa, fica muito deslocado no grande salão entre tantos unifor
mes. Procura falar num tom familiar acerca de sua viagem e do longo
tempo que dormiu no carro, mas suas palavras passam despercebidas.
Hitler trata-o com fria cortesia (...)
* "Durante a noite" escreveu Ciano no diário em 9 de novembro, "Ribbentrop telefonou. Eu ou o Duce
devemos ir a Munique o quanto antes. Lavai estará lá também. Acordei o Duce. Ele não está muito inte
ressado em ir, tanto mais que não está se sentindo bem. Eu irei."
416 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
O pobre homem não podia sequer imaginar o fait accompli que os ale
mães iam apresentar-lhe. Não se disse palavra a Lavai sobre a operação
iminente — que as ordens para ocupar a França estavam sendo dadas
enquanto ele fumava o cigarro e conversava com várias pessoas na sala
ao lado. Von Ribbentrop contou-me que Lavai somente seria informa
do na manhã seguinte, às 8h, de que, devido a informações recebidas
durante a noite, Hitler havia sido obrigado a proceder à ocupação total
do país.24
As ordens para tomar a parte da França não-ocupada, violando claramente o
acordo do armistício, foram dadas por Hitler sem qualquer outro incidente, salvo
um futil protesto de Pétain. Os italianos ocuparam a Córsega, e aviões alemães
começaram a transportar tropas para apoderar-se da Tunísia, que os franceses
mantinham consigo, antes que as forças de Eisenhower pudessem chegar.
Houve ainda outro exemplo — e típico — da burla hitlerista. Em 13 de novem
bro, o Führer assegurou a Pétain que nem os alemães nem os italianos ocupariam
a base naval de Toulon, onde a esquadra francesa ficara imobilizada desde o ar
mistício. Em 25 de novembro, o diário do OKW registrou que Hitler havia deci
dido levar a efeito a Operação Lila o mais breve possível* Era a palavra em código
para a ocupação de Toulon e a captura da esquadra francesa. Na manhã do dia 27,
tropas alemãs atacaram o porto, mas os marinheiros franceses resistiram a elas o
tempo suficiente para permitir que as tripulações, seguindo ordens do almirante
Laborde, pusessem a pique os navios. Perdeu assim o Eixo a esquadra francesa, de
que tanto necessitava no Mediterrâneo, mas com isso perderam-na também os
Aliados, aos quais ela teria sido valiosíssima aquisição.
* É justo assinalar que Hitler desconfiava bastante, não sem razão, de que a esquadra francesa pudesse
zarpar para a Algéria, a fim de se juntar aos Aliados. A despeito de sua insídia, ao manter entendimen
tos com os alemães, e ao seu violento ódio contra os britânicos, o almirante Darlan, que havia ido visitar
um filho doente em Alger, a instâncias de Eisenhower passou a servir como comandante francês no
norte da África, não só porque parecia o único oficial que podia fazer o exército e a marinha franceses
cessarem a resistência aos desembarques das forças anglo-americanas, mas, também, porque havia
esperança de que ele poderia fazer com que o almirante que comandava na Tunísia se opusesse aos
desembarques de alemães ali e de que induzisse a esquadra francesa, em Toulon, a zarpar para o norte
da África. Essas esperanças provaram ser vãs, não obstante os esforços de Darlan. À sua mensagem
ordenando ao almirante Laborde que saísse com a esquadra de Toulon, recebeu em resposta uma só e
expressiva palavra — se bem que indelicada: "Merde". (Ver Procès du M. Pétain).
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 417
Hitler ganhou de Eisenhower a corrida para a conquista da Tunísia; foi, po
rém, uma vitória duvidosa. À sua insistência, quase 250 mil soldados alemães e
italianos foram ali despejados para manter a cabeça-de-ponte. Se o Führer tivesse
enviado uma quinta parte deste número de tropas e tanques para Rommel, sema
nas antes, a Raposa do Deserto provavelmente estaria, àquela altura, além do Nilo,
o desembarque de forças anglo-americanas no noroeste da África não se teria
realizado e o Mediterrâneo teria ficado irreparavelmente perdido para os Aliados,
garantindo com isso o ponto fraco do Eixo. O resultado foi que todos os soldados,
tanques e canhões que Hitler lançou na Tunísia, naquele inverno, e o remanescen
te do Afrika Korps, seriam perdidos ao fim da primavera e mais tropas alemãs
iriam marchar para os campos de prisioneiros de guerra do que as que combatiam
em Stalingrado, a cujo setor precisamos agora voltar.*
Desastre em Stalingrado
Hitler e os principais generais do OKW encontravam-se ainda na agradável
atmosfera alpina de Berchtesgaden quando chegaram as primeiras notícias da
contra-ofensiva russa no Don, poucas horas depois de ela ter sido desencadeada
em meio a uma nevasca, ao alvorecer do dia 19 de novembro. Embora se esperas
se um ataque soviético nessa região, não se acreditava, no OKW, que fosse de
importância tal que obrigasse Hitler e seus principais conselheiros militares, Kei
tel e Jodl, a se abalarem para o quartel-general da Prússia Oriental após o vibran
te discurso que o Führer proferira em Munique, na noite de 8 de novembro, aos
velhos companheiros do partido. Haviam, portanto, demorado em Obersalzberg
gozando o ar das montanhas.
Sua doce tranqüilidade foi subitamente quebrada por um chamado telefônico
urgente do general Zeitzler, o novo chefe do Estado-maior geral que havia ficado
atrás, em Rastenburg. Tinha ele o que o diário do OKW registrou como sendo
“uma notícia alarmante”. Mesmo nas primeiras horas do ataque, uma esmagado
ra força blindada russa rompera pelo 3e Exército romeno, entre Serafimovich e
* Cerca de 125 mil alemães, segundo o general Eisenhower, de um total de 240 mil soldados do Eixo;
os restantes eram italianos. Esse número inclui apenas aqueles que se entregaram durante a última
semana da campanha — de 5 a 12 de maio de 1943. (Crusade in Europe, p. 156).
418 a g u e r r a : p r i m e i r a s v it ó r ia s e o m o m e n t o d e c is iv o
Kletskaya, no Don, justamente a noroeste de Stalingrado. Ao sul dessa cidade
sitiada, outras poderosas forças soviéticas estavam atacando duramente o 4a
Exército panzer alemão e o 4a Exército romeno, ameaçando aprofundar-se em
duas frentes.
O objetivo dos russos era evidente para qualquer pessoa que olhasse um mapa
e especialmente claro a Zeitzler que, por notícias do serviço secreto do exército,
sabia que o inimigo concentrara 13 exércitos, com milhares de tanques, no sul,
para atingi-lo. Os russos estavam, evidentemente, avançando com grandes forças
do norte e do sul, para isolar Stalingrado e obrigar o 6a Exército alemão a realizar
dali uma retirada apressada para oeste, se não quisesse ficar cercado. Zeitzler ale
gou mais tarde que, assim que percebeu o que estava acontecendo, insistiu junto
a Hitler para permitir que o 6a Exército se retirasse de Stalingrado para a curva do
Don, onde se poderia restaurar a frente rompida. Essa simples sugestão provocou
um acesso de cólera no Führer.
“Não deixarei o Volga! Não sairei de lá!”, gritou. Nada se podia fazer. Tal deci
são, tomada num acesso de cólera, conduziu logo ao desastre. O Führer ordenou
pessoalmente ao 6a Exército que resistisse ao redor de Stalingrado.25
Hitler e seu Estado-maior regressaram ao quartel-general em 22 de novembro.
A esse tempo — quarto dia do ataque — as notícias eram alarmantes. As duas
forças soviéticas, procedentes do norte e do sul, haviam se unido em Kalach, 64
quilômetros a oeste de Stalingrado, na curva do Don. À noite, chegou um rádio
do general Paulus, comandante do 6a Exército, confirmando que suas tropas se
achavam cercadas. Hitler radiografou prontamente, ordenando a Paulus que
transferisse o quartel-general para o interior da cidade e organizasse uma defesa
bem fortificada. O 6a Exército seria abastecido pelo ar até poder ser socorrido.
Era, entretanto, uma futilidade. Havia agora vinte divisões alemãs e duas ro
menas isoladas em Stalingrado. Paulus radiografou dizendo que elas precisavam
de, no mínimo, 750 toneladas de suprimentos diários por via aérea. Isso ultrapas
sava a capacidade da Luftwaffe, à qual faltava o número necessário de aviões de
transporte. Mesmo que houvesse, nem todos poderiam chegar até lá em meio às
tempestades de neve, e numa área onde os russos haviam estabelecido agora sua
supremacia em aparelhos de caça. Gõring, mesmo assim, assegurou a Hitler que a
força aérea podia executar a tarefa. Jamais a iniciaram, porém.
O auxílio ao 6a Exército foi uma possibilidade mais prática e mais encoraja-
dora. Em 25 de novembro, Hitler tornou a chamar da frente de Leningrado o
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 419
marechal-de-campo von Manstein, o mais talentoso de seus marechais-de-
campo, e colocou-o na direção de uma formação recentemente criada, o grupo
de exércitos do Don. Sua tarefa era avançar do sudoeste e socorrer o 6- Exér
cito em Stalingrado.
Mas o Führer impôs condições impossíveis a seu novo comandante. Manstein
procurou explicar-lhe que a única chance de êxito estava em o 6- Exército forçar a
saída de Stalingrado para oeste, enquanto suas próprias forças, encabeçadas pelo
4fí Exército panzer, faria pressão a nordeste contra os exércitos russos que jaziam
entre as duas forças alemãs. Mais uma vez, no entanto, Hitler recusou-se a retirar-
se do Volga. O 6e Exército deveria permanecer em Stalingrado, e Manstein devia
lutar para chegar até lá.
Isso, conforme Manstein tentou explicar ao supremo chefe da guerra, não po
dia ser feito. Os russos estavam demasiado fortes. Não obstante sua apreensão,
Manstein desencadeou o ataque em 12 de dezembro. Chamaram-no, muito apro
priadamente, Operação do Inverno Tempestuoso, pois toda a fúria do inverno
russo havia agora atingido as estepes do sul, formando montes de neve e fazendo
a temperatura cair abaixo de zero. A princípio, a ofensiva fez satisfatório progres
so, o 4CExército panzer, comandado pelo general Hoth, avançando a nordeste por
ambas as margens da via férrea de Kotelnikovski a Stalingrado, distante cerca de
120 quilômetros. Em 19 de dezembro, havia avançado até 64 quilômetros do pe
rímetro sul da cidade, aproximadamente; no dia 21, estava a 48 quilômetros e,
através das estepes cobertas de neve, as tropas sitiadas do 6fiExército puderam ver,
à noite, os sinais luminosos de seus salvadores.
Naquele momento — segundo o testemunho dos generais alemães mais tar
de —, uma arrancada do 6- Exército para fora de Stalingrado, rumo às linhas do
42 Exército panzer que estava avançando, provavelmente teria sido bem-sucedida.
Hitler, porém, mais uma vez proibiu-o. Em 21 de dezembro, Zeitzler conseguiu
arrancar-lhe permissão para as tropas de Paulus forçarem uma saída, contanto
que não perdessem Stalingrado. Essa demonstração de idiotice — diz o chefe do
Estado-maior geral, quase o deixou louco.
“Na noite seguinte”, relatou Zeitzler tempos depois, “pedi a Hitler que autori
zasse a saída. Assinalei que isso era realmente nossa última chance de salvar os
200 mil homens do exército de Paulus.”
420 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Hitler não quis ceder. Descrevi-lhe, em vão, as condições no interior da
pseudofortaleza: o desespero dos soldados famintos, sua falta de con
fiança no comandante supremo, os feridos expirando por falta dos de
vidos cuidados, enquanto milhares morriam de frio. Ele mostrou-se
indiferente a tais argumentos e a outros que apresentei.
Em face da crescente resistência russa na frente e nos flancos, faltou ao general
Hoth força para cobrir aqueles últimos 48 quilômetros até Stalingrado. Ele acer-
ditava que, se o 62 Exército abrisse caminho, poderia ainda fazer junção com ele,
quando então ambas as forças poderiam retirar-se para Kotelnikovski. Isso, pelo
menos, salvaria cerca de 200 mil vidas alemãs.* Provavelmente durante um ou
dois dias — de 21 a 23 de dezembro — isso poderia ter sido feito; nesta última
data, porém, tornara-se impossível, pois, sem que Hoth soubesse, o Exército Ver
melho havia atacado mais ao norte e estava pondo em perigo o flanco esquerdo de
todo o grupo de exércitos do Don, de Manstein. Na noite de 22 de dezembro,
Manstein telefonou a Hoth para que se preparasse para receber ordens drásticas.
Elas chegaram no dia seguinte. Hoth devia abandonar o avanço contra Stalingra
do, enviar uma de suas três divisões panzer para a frente do Don e defender-se
onde estava e com o que lhe restasse, da melhor maneira que pudesse.
Falhara a tentativa de socorrer as tropas em Stalingrado.
As novas ordens drásticas de Manstein haviam sido dadas em conseqüência
das notícias alarmantes que recebeu em 17 de dezembro. Na manhã desse dia, um
exército soviético rompeu as linhas do 8° Exército italiano mais para além, no
Don, em Boguchar; à noite, a brecha estava com a profundidade de 43 quilôme
tros. Em três dias, ela se alargara numa extensão de 144 quilômetros; os italianos
estavam fugindo desordenadamente, e o 3a Exército romeno, ao sul, que já havia
sido duramente castigado no dia em que começara a ofensiva russa — 19 de no
vembro —também se desintegrava. Não era de surpreender que Manstein tivesse
de tirar parte das forças blindadas de Hoth para procurar fechar a brecha. Seguiu-
se uma reação em cadeia.
* Em suas memórias de pós-guerra, o marechal-de-campo von Manstein diz que, em 19 de dezembro,
desobedecendo ordens de Hitler, havia na verdade ordenado ao 6a Exército que começasse a forçar a
saída de Stalingrado para sudoeste, a fim de fazer junção com o 4a Exército panzer. Publica o texto da
diretiva que, porém, continha certas restrições, e Paulus, que observava ainda as ordens de Hitler para
não sair, devia ter ficado completamente confuso a respeito. "Era essa a nossa única chance de salvar o
6a Exército", declara Manstein. (Manstein, Lost Victories, p. 336-41,562-3).
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 421
Não só recuaram os exércitos do Don como também as forças de Hoth, que
haviam chegado até perto de Stalingrado. Essas retiradas, por sua vez, punham
em perigo o exército alemão no Cáucaso, o qual ficaria isolado, se os russos alcan
çassem Rostov, no mar de Azov. Um ou dois dias depois do Natal, Zeitzler acen
tuou a Hitler: “A menos que ordeneis a retirada do Cáucaso, agora, ver-nos-emos
logo com outra Stalingrado em mãos.” Relutantemente, o comandante supremo
expediu as necessárias instruções, em 29 de dezembro, ao grupo A do exército, de
Kleist, que abrangia o l2 Exército panzer e o 172 Exército e que havia falhado em
sua missão de apoderar-se dos ricos campos petrolíferos de Grozny. Ele também
começou uma longa retirada, após ter estado quase às portas de seu objetivo.
Os reveses dos alemães na Rússia e dos exércitos ítalo-germânicos no norte da
África deram o que pensar a Mussolini. Hitler o convidara a ir a Salzburgo em
meados de dezembro, a fim de conferenciarem, e o Duce, adoentado, agora obser
vando rigorosa dieta por causa de distúrbios do estômago, aceitou o convite, se
bem que — conforme contou a Ciano — iria mediante uma única condição: faria
suas refeições sozinho, porque não queria “que uma porção de alemães vorazes
notassem que ele era obrigado a alimentar-se somente de arroz e leite”.
Chegara o tempo — decidira Mussolini — de dizer a Hitler que reduzisse suas
perdas no leste, fizesse uma espécie de acordo com Stalin e concentrasse o pode
rio do Eixo na defesa do resto da África do Norte, nos Bálcãs e na Europa Ociden
tal: “1943 será o ano dos esforços dos anglo-americanos”, declarou ele a Ciano.
Hitler, entretanto, não pôde deixar seu quartel-general no leste para avistar-se
com Mussolini; coube então a Ciano fazer a longa viagem até Rastenburg em 18
de dezembro, em lugar de Mussolini, cujas propostas repetiu ao chefe nazista.
Hitler desdenhou-as e assegurou ao ministro das Relações Exteriores da Itália
que, sem enfraquecer a frente russa, podia enviar tropas adicionais ao norte da
África, o qual devia ser mantido — disse. Ciano encontrou, no quartel-general, os
alemães um tanto apreensivos a despeito da confiança que Hitler manifestava.
A atmosfera é pesada. Às más notícias cumpriria, talvez, acrescentar a
tristeza daquela úmida floresta e o tédio da vida em comum nas barra
cas (...) Ninguém procura ocultar-me a tristeza ante a notícia da brecha
na frente russa. Tentou-se, francamente, lançar a culpa em nós.
422 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Naquela mesma ocasião, os sobreviventes do 82 Exército italiano fugiam, no
Don, para salvar suas vidas. Quando um membro do grupo de Ciano perguntou
a um oficial do OKW se os italianos tinham sofrido pesadas perdas, ele respon
deu: “Nenhuma perda. Eles estão fugindo.”26
As tropas alemãs, no Cáucaso e no Don, se não estavam fugindo, estavam se
retirando o mais depressa que podiam para não ficarem isoladas. Cada dia, ao
começar o ano de 1943, elas se retiravam para um ponto mais distante de Stalin
grado. Havia chegado agora a ocasião de os russos liquidarem ali os alemães. De
ram primeiramente, aos soldados do 6a Exército então condenados, uma oportu
nidade de salvar a vida.
Na manhã de 8 de janeiro de 1943, três jovens oficiais do Exército Vermelho,
empunhando uma bandeira branca, entraram nas linhas alemãs no perímetro
norte de Stalingrado e apresentaram ao general Paulus um ultimato do general
Rokossovski, comandante das forças soviéticas na frente do Don. Após lembrar-
lhe que seu exército estava isolado e não podia ser socorrido ou abastecido pelo
ar, dizia a nota:
A situação de vossas tropas é desesperadora. Elas estão sofrendo fome,
doenças e frio. O cruel inverno russo mal começou. Geadas, ventos
frios e nevasca ainda vos esperam. Vossos soldados não se acham pro
vidos de roupas de inverno e estão vivendo em horríveis condições sa
nitárias (...) Vossa situação é desesperadora, e qualquer resistência ain
da, insensata.
Em vista disso, e a fim de evitar um derramamento de sangue desneces
sário, propomos que aceiteis os seguintes termos de rendição (...)
Eram termos honrosos. Todos os prisioneiros receberiam “rações normais”. Os
feridos, os doentes e os vitimados pelo frio receberiam tratamento médico. Todos
os prisioneiros poderiam conservar as insígnias de seus postos, as condecorações
e os pertences pessoais. Paulus teria 24 horas para responder.
Ele radiografou imediatamente o texto do ultimato a Hitler, pedindo-lhe que
lhe desse liberdade de ação. O comandante supremo rejeitou laconicamente o
pedido. Vinte e quatro horas depois da expiração do prazo exigido para a rendi
ção, na manhã de 10 de janeiro, os russos iniciaram a última face da batalha de
Stalingrado com um bombardeio da artilharia de cinco mil canhões.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 423
A luta foi renhida e sangrenta. Ambas as facções combateram com incrível
bravura e tenacidade naquele cenário lúgubre das ruínas da cidade — mas não
por muito tempo. Em seis dias, o bolsão alemão ficou reduzido à metade, numa
área de 24 quilômetros de comprimento por 14 de profundidade na parte mais
larga. Em 24 de janeiro, foi cortado em dois, perdendo-se a última pista de emer
gência para os aviões. Os aparelhos que haviam trazido alguns suprimentos, espe
cialmente remédios para os doentes e feridos, e que haviam transportado 29 mil
feridos para os hospitais, não mais podiam aterrissar.
Mais uma vez os russos deram a seu corajoso inimigo uma oportunidade de se
render. Emissários soviéticos chegaram às linhas alemãs com nova proposta, em
24 de janeiro. Novamente Paulus, desesperado, entre o dever de obediência ao
louco Führer e a obrigação de salvar do aniquilamento suas próprias tropas sobre
viventes, apelou para Hitler.
As tropas estão sem munições [radiografou no dia 24] e sem manti
mentos (...) Não é mais possível um comando eficaz (...) 18 mil feridos
sem suprimentos, curativos ou remédios (...) Insensato prosseguir na
defesa. Inevitável o colapso.
O exército solicita permissão para se render, a fim de salvar as vidas dos
soldados remanescentes.
A resposta de Hitler foi a mesma:
Proibida a rendição. O 62 Exército defenderá suas posições até o último
homem e o último cartucho, e com sua heróica resistência fará uma
contribuição inesquecível ao estabelecimento de uma frente defensiva e
para a salvação do mundo ocidental.
O mundo ocidental! Era uma pílula amarga para os soldados do 6GExército
que haviam lutado contra aquele mundo, na França e em Flandres, fazia pouco
tempo.
Continuar a resistência era não só insensato e futil como também impossível,
e, ao aproximar-se o mês de janeiro de 1943 de seu fim, a batalha épica perdeu
toda a força, expirando à semelhança da chama de uma vela gasta que tremula e
morre. Em 28 de janeiro, o que restara de um grande exército dividiu-se em três
pequenos bolsões; o general Paulus tinha seu quartel-general no do sul, na adega
424 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
da outrora muito próspera loja de departamento Univermag, agora em ruínas.
Segundo uma testemunha ocular, o comandante-em-chefe sentara-se em seu
leito de campanha, num canto mergulhado na escuridão, e parecia prestes a ter
um colapso.
Mal teve disposição, bem como seus soldados, para apreciar a abundância
de telegramas de felicitações que começaram a chegar. Gõring, que passara uma
boa parte do inverno na Itália ensolarada, pavoneando-se em seu grande casaco
de pele e ostentando suas jóias, enviou no dia 28 de janeiro uma mensagem
pelo rádio.
A luta travada pelo 6a Exército irá para a História, e as gerações futuras
falarão orgulhosamente sobre a temeridade em Langemarck, a tenaci
dade em Alcázar, a coragem em Narvik e o espírito de renúncia em
Stalingrado.
Tampouco sentiram-se eles animados quando na última noite, em 30 de janei
ro de 1943, décimo aniversário da subida dos nazistas ao poder, ouviram as pala
vras bombásticas do gorducho marechal do Reich.
Daqui a mil anos os alemães falarão sobre essa batalha [de Stalingrado]
com reverência e respeito, e se lembrarão de que, a despeito de tudo, a
vitória final da Alemanha foi ali decidida (...) Nos anos que advirão, se
dirá sobre essa heróica batalha no Volga: quando vierdes à Alemanha,
dizei que nos vistes morrer em Stalingrado, pois assim o ordenaram
nossa honra e nossos chefes para maior glória da Alemanha.
A glória e a horrível agonia do 6a Exército chegaram agora ao fim. Em 30 de
janeiro, Paulus radiografou a Hitler: “Não se poderá protelar o colapso final por
mais de 24 horas.”
A mensagem induziu o comandante supremo a fazer uma série de promoções
entre os oficiais condenados em Stalingrado, aparentemente com a esperança de
que tais honrarias fortalecessem a decisão de morrer gloriosamente em seus pos
tos sangrentos. “Não há registro, na história militar, de ter sido aprisionado um
marechal-de-campo alemão”, observou Hitler a Jodl e, em seguida, conferiu a
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 425
Paulus, pelo rádio, o cobiçado posto de marechal; mais 117 oficiais foram promo
vidos. Foi um gesto macabro.
O próprio fim foi tétrico. Tarde, no último dia de janeiro, Paulus expediu sua
última mensagem ao quartel-general.
O 62 Exército, fiel a seu juramento e cônscio da grande importância de
sua missão, manteve até o fim sua posição, até o último homem e o úl
timo cartucho, pelo Führer e pela pátria.
Às 7:45h, o operador de rádio, do quartel-general do 62 Exército, enviou a
última mensagem por sua própria conta: “Os russos acham-se à porta de nosso
abrigo. Estamos destruindo nosso equipamento.” Acrescentou as letras “CL” —
que no código internacional telegráfico significam: “Esta estação não fará mais
transmissões.”
Não houve luta no quartel-general nos últimos instantes. Paulus e seu Estado-
maior não resistiram até o último homem. Um esquadrão de russos, comandado
por um oficial subalterno, espreitou a adega em que se achava o comandante-em-
chefe. Os russos exigiram a rendição, e o chefe do Estado-maior do 6- Exército,
general Schmidt, aceitou-a. Paulus achava-se sentado em seu leito de campanha,
deprimido. Quando Schmidt perguntou-lhe se havia algo mais para dizer, não
respondeu, tão exausto estava.
Mais ao norte, um pequeno bolsão alemão, contendo tudo que restara de duas
divisões panzer e quatro divisões de infantaria, ainda resistia nas ruínas de uma
fábrica de tratores. Na noite de Ia de fevereiro, foi recebida uma mensagem do
quartel-general do Führer.
O povo alemão espera que cumprais vosso dever exatamente como o
fizeram as tropas que defendiam a fortaleza ao sul. Cada dia e cada hora
que continuardes a lutar facilitarão a formação de uma nova frente.
Pouco antes do meio-dia de 2 de fevereiro, esse grupo rendeu-se após uma
última mensagem ao comandante supremo: “(...) Lutamos até o último homem
contra forças imensamente superiores. Viva a Alemanha!”
O silêncio desceu finalmente sobre aquele campo de batalha coberto de neve e
ensangüentado. Às 14:46h de 2 de fevereiro, um avião de reconhecimento alemão
426 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
sobrevoou alto a cidade e radiografou para o quartel-general: “Nenhum sinal de
luta em Stalingrado.”
A esse tempo, 91 mil soldados alemães, incluindo 24 generais, meio famintos,
castigados pelo gélido frio, muitos deles feridos, todos aturdidos e alquebrados,
cambaleavam pela neve e o gelo, segurando sobre a cabeça seus lençóis empapa-
dos de sangue para se proteger de um frio de 24 graus abaixo de zero, rumo aos
lúgubres e gélidos campos de prisioneiros de guerra, na Sibéria. Salvo 20 mil
romenos e os 29 mil feridos, aproximadamente, que haviam sido retirados por
aviões, eram eles tudo o que restara de um exército conquistador, cujos efetivos
eram, dois meses antes, de 285 mil homens. Os restantes haviam sido mortos. E
daqueles 91 mil alemães que começaram a extenuante marcha para o cativeiro
naquele dia de inverno, somente cinco mil estavam destinados a rever a pátria.*
Entrementes, no bem aquecido quartel-general da Prússia Oriental, o chefe
nazista, cuja teimosia e estultícia foram responsáveis por aquele desastre, censu
rava seus generais de Stalingrado por não saberem como e quando morrerem. Os
registros de uma conferência que o Führer teve com seus generais, no OKW, em
Ia de fevereiro, sobreviveram e derramaram luz sobre a natureza do ditador ale
mão naquele exasperante período de sua vida, de seu exército e de seu país.
Eles se renderam lá, formalmente e de modo absoluto. Em outras cir
cunstâncias, teriam cerrado fileiras, formado uma fortificação e se sui
cidado com sua última bala (...) Aquele homem [Paulus] devia ter se
suicidado, da mesma maneira que os antigos comandantes que se lan
çavam sobre suas espadas quando viam a causa perdida (...) Até Varo
Públio deu a seu escravo essa ordem: “Mata-me agora!”
O rancor de Hitler para com Paulus, por haver ele decidido viver, tornou-se
ainda mais vivo na continuação de sua arenga:
Imaginai o seguinte: levá-lo-ão para Moscou (...) e fazei uma idéia de
armadilha ali. Ele assinará tudo. Fará confissões, proclamações (...) Ireis
ver. Eles agora vão descer a ladeira da bancarrota espiritual até suas
partes mais profundas (...) Vereis (...) Não levará uma semana para
* Segundo a cifra dada pelo governo de Bonn, em 1958. Muitos dos prisioneiros morreram durante
uma epidemia de tifo na primavera seguinte.
O GRANDE MOMENTO DECISIVO: 19 4 2 — STALINGRADO E EL ALAMEIN 42 7
Seydlitz e Schmidt, e até mesmo Paulus, falarem pelo rádio (...)* Irão
colocá-los no Liublanka, e ali os ratos os devorarão. Como se pode ser
tão covarde? É algo que não posso compreender (...)
Que é a vida? A vida é a nação. O indivíduo, de um modo ou de outro,
tem de morrer. Acima da vida do indivíduo está a nação. Como pode
alguém recear o momento da morte, com a qual poderá libertar-se des
ta miséria, se o dever não o prende a este vale de lágrimas? Pois é isso!
(...) Tantos homens têm de morrer e agora um homem como aquele
empana o heroísmo de tantos outros no último momento. Ele podia
ter-se libertado de todas as aflições e passado para a eternidade e para a
imortalidade da nação; mas preferiu ir para Moscou! (...)
O que mais me magoa, pessoalmente, é que ainda o promovi a mare-
chal-de-campo. Quis dar-lhe essa última satisfação. É o último marechal-
de-campo que nomearei nesta guerra. Não se devem contar os pintos
antes de sair da casca.27
Seguiu-se um breve debate entre Hitler e o general Zeitzler sobre como de
viam transmitir a notícia da rendição ao povo alemão. Em 3 de fevereiro, três dias
depois do fato, o OKW expediu um comunicado especial:
Terminou a Batalha de Stalingrado. Fiel ao juramento que fez, de lutar
até o último alento, o 6fi Exército, sob o comando exemplar do mare-
chal-de-campo Paulus, foi dominado pela superioridade do inimigo e
as circunstâncias desfavoráveis com que nossas forças se defrontaram.
A leitura do comunicado pelo rádio alemão foi precedida do rufar abafado dos
tambores e da execução do segundo movimento da Quinta Sinfonia de Beetho-
ven. Hitler decretou luto oficial por quatro dias. Todos os teatros, cinemas e cen
tros de diversões permaneceram fechados durante esse período.
Stalingrado, escreveu o historiador alemão Walter Gõrlitz em seu trabalho so
bre o Estado-maior geral, “foi uma segunda Jena e constituiu, certamente, a maior
derrota sofrida por um exército alemão”.28
* Hitler acertou em sua previsão, salvo quanto ao prazo. Em julho do verão seguinte, Paulus e Seydlitz,
que se tornaram os chefes do então comitê nacional da Alemanha Livre, falaram pelo rádio, em M os
cou, aconselhando o exército a eliminar Hitler.
428 A GUERRA: PRIMEIRAS VITÓRIAS E O MOMENTO DECISIVO
Foi, no entanto, mais do que isso. A par com El Alamein e os desembarques
dos anglo-americanos no norte da África, assinalou a grande reviravolta na Se
gunda Guerra Mundial. A grande maré de conquistas nazistas que rolara sobre
grande parte da Europa até as fronteiras da Ásia, no Volga, e na África, quase até
o Nilo, começara agora a refluir. Jamais subiria novamente. Chegara ao fim o tem
po das grandes ofensivas-relâmpago dos nazistas, com milhares de tanques e aviões
espalhando o terror nas fileiras dos exércitos inimigos e destroçando-os. Haveria,
decerto, desesperadas investidas — em Kharkov, na primavera de 1943, nas Ar-
denas, por ocasião do Natal, em 1944 —, mas elas formariam parte de uma luta de
fensiva que os alemães iriam fazer com grande tenacidade e valor durante os dois
anos seguintes, os últimos da guerra. A iniciativa fugira das mãos de Hitler para
jamais voltar. Estava agora com os inimigos, que a mantinham. Não a tomaram
somente em terra; também no ar. Já na noite de 30 de maio de 1942, os britânicos
haviam levado a efeito seu primeiro bombardeio com mil aviões sobre Colônia,
seguindo-se-lhe outros em outras cidades durante aquele verão tão cheio de acon
tecimentos. Pela primeira vez a população civil da Alemanha, à semelhança dos
soldados alemães em Stalingrado e El Alamein, ia sofrer os horrores que suas
forças armadas haviam infligido até então a outros povos.
Destruiu-se finalmente, na neve de Stalingrado e nas areias escaldantes do
deserto do norte da África, um grande e terrível sonho nazista. Não só o Terceiro
Reich viu-se condenado pelos desastres de Paulus e Rommel como também a
chamada Nova Ordem, hedionda e grotesca, que Hitler e seus sicários das S.S.
procuraram estabelecer nos países conquistados. Antes de entrarmos no capítulo
final, a queda do Terceiro Reich, convirá fazermos uma pausa e ver o que repre
sentava essa Nova Ordem — na teoria e na prática selvagem — e do que esse an
tigo e civilizado continente europeu escapou após um breve pesadelo em que ex
perimentou seus primeiros horrores. E forçosamente para este livro, como foi
para os bons europeus que passaram por ele ou que foram massacrados antes que
tivesse terminado, o capítulo mais negro de todos, na história do Terceiro Reich.
II
O começo do fim
CAPÍTULO 1
A Nova Ordem
Não se traçara um plano compreensível para a Nova Ordem, mas, pelos docu
mentos apreendidos e pelo que aconteceu, é claro que Hitler sabia bem o que de
sejava que ela fosse: uma Europa governada pelos nazistas, com seus recursos
explorados em benefício da Alemanha e com o povo transformado em escravo da
raça superior alemã, cujos4elementos indesejáveis” — principalmente os judeus e
muitos eslavos no leste, especialmente a classe culta que havia entre eles — seriam
exterminados.
Os judeus e os povos eslavos eram os Untermenschen, isto é, subumanos. Para
Hitler, não tinham o direito de viver, salvo aqueles, entre os eslavos, que pudessem
ser necessários para trabalhar nos campos e nas minas como escravos de seus
senhores alemães. Não só as grandes cidades do leste — Moscou, Leningrado e
Varsóvia — deviam ser eliminadas para sempre,* como também seria reprimida a
cultura dos russos, poloneses e outros povos eslavos, aos quais seria negada uma
educação formal. As prósperas indústrias seriam desmontadas e enviadas para a
Alemanha, e o próprio povo confinado aos labores da agricultura para produzir
alimentos aos alemães, sendo-lhe permitido para si apenas o suficiente à subsis
tência. A própria Europa, segundo as palavras dos chefes nazistas, devia ficar “li
vre dos judeus”.
“Não me interessa, absolutamente, o que acontece a um russo ou a um tcheco”,
declarou Heinrich Himmler em 4 de outubro de 1943, num discurso aos oficiais
de suas S.S., em Posen. Himmler, nessa ocasião, como chefe das S.S. e de todo o
aparelhamento policial do Terceiro Reich, era a primeira figura em importância
depois de Hitler, enfeixando nas mãos o poder de vida e de morte não só sobre
* Já em 18 de setembro de 1941 Hitler ordenou, de modo específico, que Leningrado devia ser"varrida
da superfície da Terra". Depois de cercada, devia ser arrasada e sua população (três milhões de almas)
destruída pelos bombardeios. (Ver capítulo "A reviravolta", neste livro).
432 O COMEÇO DO FIM
oitenta milhões de alemães como, também, sobre o dobro desse número nos mui
tos países conquistados.
O que as nações [continuou Himmler] puderem oferecer em matéria
de sangue bom, de nosso tipo, nós acolheremos, seqüestrando, se ne
cessário, suas crianças e educando-as, aqui, conosco. Se as nações vi
vem em prosperidade ou morrem de fome, como gado, apenas me in
teresso na medida em que delas necessitamos como escravas de nossa
Kultun fora disso, nenhum outro interesse tenho por elas.
Se dez mil mulheres russas caem exaustas ao cavarem fossos contra
tanques, interessa-me apenas que esses fossos sejam terminados para a
Alemanha (...)1
Muito antes do discurso de Himmler, em Posen, em 1943 (ao qual voltaremos
porque abrange outros aspectos da Nova Ordem), os chefes nazistas haviam tra
çado suas idéias e planos para a escravização dos povos do leste.
Em 15 de outubro de 1940, Hitler decidiu sobre o futuro dos tchecos, o pri
meiro povo eslavo conquistado. Metade devia ser assimilada; seria, aliás, despa
chada para a Alemanha, onde trabalharia como escrava. A outra metade, espe
cialmente os intelectuais, seria simplesmente, nas palavras constantes de um
relatório secreto sobre o assunto, eliminada.2
Os poloneses [acentuou Hitler] nasceram especialmente para o traba
lho pesado (...) Não é preciso pensar em melhorias para eles. Cumpre
manter, na Polônia, um padrão de vida baixo, não se permitindo que
suba (...) Os poloneses são preguiçosos e é necessário usar a força para
obrigá-los a trabalhar (...) Devemos utilizar-nos do governo geral (da
Polônia) simplesmente como fonte de mão-de-obra não especializada
(...) Poder-se-ia conseguir ali, todos os anos, os trabalhadores de que o
Reich possa necessitar.
Duas semanas antes, em 2 de outubro, o Führer esclareceu suas idéias sobre o
destino dos poloneses, o segundo dos povos eslavos a ser conquistado. Seu fiel se
cretário, Martin Bormann, deixou um longo memorando sobre os planos nazistas
A NOVA ORDEM 433
que Hitler encaminhou a Hans Frank, o governador-geral da parte remanescente
da Polônia, e a outros funcionários.3
Quanto aos sacerdotes poloneses,
(...) eles pregarão o que mandarmos. Se qualquer sacerdote agir dife
rentemente, daremos cabo dele. Sua tarefa é manter os poloneses tran
qüilos, broncos e fracos de espírito.
Havia duas outras classes de poloneses a serem tratadas, e o ditador nazista
não se esqueceu de mencioná-las:
Indispensável ter em mente que a pequena nobreza polonesa deve ces
sar de existir; por mais cruel que isso possa ser, ela deve ser extermina
da onde quer que se encontre (...)
Deve haver apenas um senhor para os poloneses: o alemão. Dois se
nhores, lado a lado, não podem e não devem existir. Todos os represen
tantes da classe culta polonesa, portanto, têm de ser exterminados. Isso
parece crueldade, mas é a lei da vida.
A obsessão dos alemães pela idéia de que eram uma raça superior, e que os
povos eslavos deviam ser seus escravos, era especialmente violenta no tocante à
Rússia. Erich Koch, o rude comissário do Reich na Ucrânia, exprimiu isso num
discurso proferido em Kiev no dia 5 de março de 1943.
Somos uma raça superior e devemos governar com dureza, mas com
justiça (...) Arrancarei deste país, entretanto, tudo que puder. Não vim
para espalhar bem-aventuranças (...) A população deve trabalhar, tra
balhar sempre (...) Não viemos para distribuir o maná. Viemos para
criar as bases da vitória.
Somos uma raça superior que precisa lembrar que o mais humilde
operário alemão é, racial e biologicamente, mais valioso que a popula
ção daqui.4
Quase um ano antes, em 23 de julho de 1942, quando os exércitos alemães
aproximavam-se, na Rússia, dos campos petrolíferos do Cáucaso, Martin Bormann,
434 O COMEÇO DO FIM
secretário do Partido de Hitler e, já então, seu braço direito, escreveu uma longa
carta a Rosenberg reiterando a opinião do Führer sobre o assunto. Um funcioná
rio do Ministério de Rosenberg fez o resumo dessa carta:
Os eslavos terão que trabalhar para nós. Se não precisarmos deles, po
derão morrer. Tornam-se supérfluos, por conseguinte, os serviços de
saúde alemães e a vacinação compulsória. A fertilidade dos eslavos é
indesejável; o ensino, perigoso. Basta que contem até cem (...) Toda
pessoa instruída é um futuro inimigo. Deixaremos a religião, para eles,
como meio de diversão. Quanto à alimentação, não receberão mais do
que o absolutamente necessário. Somos os senhores. Primeiro nós.5
Quando as tropas alemãs entraram na Rússia, foram acolhidas em muitos lu
gares como libertadoras por uma população que há muito vivia oprimida e domi
nada pelo terror da tirania de Stalin. Houve, no começo, deserções em massa de
soldados russos. Especialmente no Báltico, que, fazia pouco tempo, havia estado
sob ocupação soviética, e na Ucrânia, onde um movimento incipiente de inde
pendência não pudera ser completamente eliminado, muitos sentiram-se felizes
de se verem libertados do jugo soviético (...), mesmo pelos alemães.
Em Berlim, havia pessoas que acreditavam que se conquistaria a adesão do
povo russo para a sua causa, se Hitler tivesse agido habilmente, tratando a popula
ção com consideração e prometendo libertá-la do sistema bolchevique (conceden
do-lhe liberdade religiosa e econômica e transformando em cooperativas as fazen
das coletivas), e dando-lhe, eventualmente, um autogoverno. Poderiam eles então
cooperar com os alemães, não só nas regiões ocupadas como, também, nas não
ocupadas, para se libertarem do cruel domínio de Stalin. Se o tivessem feito —
argumentaram —, cairia o próprio regime bolchevique e se desintegraria o Exér
cito Vermelho, da mesma maneira que se dera com os exércitos czaristas em 1917.
Mas a selvageria da ocupação nazista e os óbvios objetivos dos conquistadores
alemães, muitas vezes proclamados publicamente, saquear terras, escravizar as
populações e colonizar o leste com alemães, logo destruíram qualquer possibili
dade de êxito.
Ninguém resumiu melhor essa desastrosa política e todas as oportunidades
que ela desdenhou e destruiu do que um alemão, o dr. Otto Bràutigam, diplomata
A N O VA O R D E M 43 5
de carreira e representante-chefe do Departamento Político do Ministério que
Rosenberg criara, fazia pouco tempo: o Ministério para os Territórios Ocupados
do Leste. Num acrimonioso relatório confidencial dirigido a seus superiores em
25 de outubro de 1942, Bráutigam ousou apontar os erros cometidos pelos nazis
tas na Rússia.
Encontramos, à nossa chegada na União Soviética, uma população
cansada do bolchevismo que aguardava, ansiosamente, novos slogans
que oferecessem perspectivas de melhor futuro. Era dever da Alema
nha fornecer tais slogans, mas manteve silêncio sobre eles. A popula
ção saudou-nos alegremente como libertadores e colocou-se à nossa
disposição.
Houve, na verdade, um slogan; mas o povo russo logo percebeu seu significado.
Com o inerente instinto dos povos orientais [continuou Bráutigam], es
ses homens primitivos logo descobriram que para a Alemanha o slogan
“Libertação do Bolchevismo” não passava de um pretexto para escravi
zar os povos orientais segundo seus próprios métodos (...) O operário e
o camponês logo perceberam que a Alemanha não os considerava com
panheiros com direitos iguais, mas apenas objetivo de suas pretensões
políticas e econômicas (...) Com uma presunção sem precedente, pomos
de lado todo conhecimento político e (...) tratamos os povos dos territó
rios do leste como “brancos de segunda classe”, aos quais a providência
apenas atribuiu a tarefa de servir à Alemanha como escravos (...)
Havia dois outros processos, declarou Bráutigam, que lançaram os russos con
tra os alemães: o bárbaro tratamento infligido aos prisioneiros de guerra e o em
barque forçado de mulheres e homens para a Alemanha, a fim de trabalharem
como escravos.
Já não constitui segredo de amigos e adversários que centenas de milha
res de prisioneiros de guerra russos têm morrido de fome ou de frio em
nossos acampamentos (...) Presenciamos agora a grotesca situação de termos
436 O COMEÇO DO FIM
que recrutar milhões de operários nos territórios ocupados no leste, de
pois que prisioneiros de guerra morreram de fome como moscas (...)
Nos desmandos ilimitados para com o povo eslavo, que ainda prevale
cem, empregaram-se métodos de recrutamento que, provavelmente,
têm sua origem nos períodos mais negros do tráfico de escravos. Inau
gurou-se uma constante caçada ao homem. Sem consideração à saúde
ou à idade, embarcaram-se pessoas para a Alemanha (...)*
A política e os métodos empregados pela Alemanha na Rússia “provocaram a
resistência dos povos orientais”, concluiu Bràutigam.
Nossa política forçou os bolcheviques e os nacionalistas russos a forma
rem uma frente comum contra nós. Os russos estão hoje lutando com
excepcional bravura e com espírito de renúncia, nada mais visando que
o reconhecimento da dignidade humana.
Fechando o memorando de 13 páginas com uma observação positiva, o dr.
Bràutigam pediu que se modificasse completamente a política adotada. “Deve-se
dizer aos russos algo de concreto sobre seu futuro”, argumentou ele.6
Fora, nada mais nada menos, uma voz que se fizera ouvir no deserto nazista.
Hitler, conforme vimos, antes mesmo de iniciar o ataque, já traçara diretrizes so
bre o que seria feito com a Rússia e os russos,** e não era homem que qualquer
alemão pudesse o persuadir a mudá-las, uma vírgula que fosse.
Em 16 de julho de 1914, menos de um mês depois do desencadeamento da
campanha na Rússia, mas quando já se evidenciava, dos êxitos iniciais, que uma
grande faixa da União Soviética estaria logo em seu poder, Hitler convocou a seu
quartel-general, na Prússia Oriental, Gõring, Keitel, Rosenberg, Bormann e Lam-
mers (este último, chefe da chancelaria do Reich), para lembrar-lhes de seus ob-
* Nem a exterminação de prisioneiros soviéticos em massa nem a exploração do russo no trabalho
escravo constituíram segredo para o Kremlin. Já em novembro de 1941 Molotov fez um protesto diplo
mático formal contra o extermínio dos prisioneiros de guerra russos, e, em abril do ano seguinte, outro
mais, contra o programa de trabalho escravo na Alemanha.
** Ver capítulo "Babarossa: a vez da Rússia", neste livro.
A NOVA ORDEM 4 3 ~J
jetivos na terra então conquistada. Seu alvo, finalmente, tão claramente enuncia
do em Minha luta, de assegurar um vasto Lebensraum (espaço vital) para a
Alemanha, na Rússia, achava-se à vista e nota-se claramente pelo memorando
confidencial de Bormann sobre a conferência (apresentada em Nuremberg)7 que
ele desejava que seus lugares-tenentes compreendessem bem o que pretendia
fazer. Suas intenções, preveniu, não deviam, entretanto, ter publicidade.
Não há necessidade disso [disse Hitler], mas o importante está em nós
mesmos sabermos o que desejamos (...) Ninguém precisa reconhecer
que se inicia uma solução final. Isso não impedirá que tomemos todas
as medidas necessárias — fuzilamentos, recolonização, etc. —, e nós as
tomaremos.
Como princípio, continuou Hitler,
(...) temos agora que enfrentar a tarefa de “cortar o bolo” em conformi
dade com nossas necessidades, a fim de podermos:
primeiro, dominá-lo;
segundo, administrá-lo;
terceiro, explorá-lo.
Não se preocupava, disse, em que os russos tivessem ordenado guerrilhas na
retaguarda das linhas alemães: “Isso nos possibilitará exterminar todos aqueles
que se opuserem a nós.”
De modo geral, explicou Hitler, a Alemanha dominará o território russo até os
Urais. Somente aos alemães será permitido o uso de armas nesse vasto espaço.
Hitler passou depois a discorrer de modo específico sobre o que faria com as “vá
rias fatias do bolo russo”.
Toda a região dos Bálticos terá de ser incorporada à Alemanha (...) To
dos os estrangeiros terão de evacuar a Criméia, que será colonizada
somente por alemães e se transformará em território do Reich (...) A
península de Kola será tomada pelos alemães, por causa das grandes
minas de níquel lá existentes. Dever-se-á preparar com cautela a anexa
ção da Finlândia como Estado federado (...) O Führer arrasará Lenin-
grado e a entregará depois aos finlandeses.
438 O COMEÇO DO FIM
Os campos petrolíferos de Baku, ordenou Hitler, passarão a ser uma “conces
são alemã”; e as colônias alemãs no Volga serão em seguida anexadas. Quando se
discutiu sobre qual dos líderes nazistas administraria o novo território, travou-se vio
lento debate.
Rosenberg declara que pretende usar o capitão von Petersdorff, devido
a seus méritos especiais; consternação geral; repulsa também geral. O
Führer e o marechal do Reich (Gõring) ressaltam que von Petersdorff
era indiscutivelmente um louco.
Discutiu-se também sobre os melhores métodos para policiar o povo russo
conquistado. Hitler sugeriu que a polícia alemã fosse equipada com carros blinda
dos. Gõring duvidou que isso fosse necessário. Seus aviões poderiam “lançar
bombas em caso de desordem”, disse.
Naturalmente [acrescentou Gõring] essa área gigantesca teria de ser
pacificada o mais rapidamente possível. A melhor solução será fuzilar
todo aquele que criar dificuldades.*
Gõring, como chefe do Plano Quadrienal, foi também encarregado da explo
ração econômica da Rússia.** “Saque” seria uma palavra melhor, pois Gõring dei
xou claro, em seu discurso de 6 de agosto de 1942 aos comissários nazistas para os
territórios ocupados. “Costumavam chamar isso de saque”, disse. “Hoje, porém, as
coisas tornaram-se mais humanas. Apesar disso, tenciono saquear e meticulosa
mente.”8 Nisso, pelo menos, cumpriu sua promessa não só na Rússia como em
toda a Europa conquistada pelos nazistas. Tudo fazia parte da Nova Ordem.
* Um ano antes Gõring declarou a Ciano que "este ano morrerão de fome na Rússia entre vinte e trinta
milhões de pessoas" e que "talvez convenha que assim seja". Os prisioneiros russos já começaram "a
comer uns aos outros" disse ele. (Ver capítulo "A reviravolta" neste livro).
** Ordenou-se a destruição de áreas industriais da Rússia numa diretiva de 23 de maio de 1941, do Estado-
maior de Gõring. Deixariam que os operários e suas famílias morressem de fome."Ficava proibida qual
quer tentativa de salvar a população, ali", dizia a diretiva, "da morte pela fome e de se importarem so
bras (de mantimentos) da zona de terra preta (da Rússia)". (Ver capítulo "Barbarossa: a vez da Rússia").
A NOVA ORDEM 4 39
Pilhagem na Europa pelos nazistas
Nunca se poderá saber o valor total da pilhagem; demonstrou estar além da
capacidade do homem calculá-lo exatamente. Existem, entretanto, algumas cifras
sobre ela, muitas oriundas dos próprios alemães. Mostram com que meticulosida-
de foram executadas as instruções de Gõring a seus subordinados.
Toda vez que encontrardes alguma coisa que possa ser necessitada pelo
povo alemão, tratai de segui-la como se fosse objeto de caça. Deve ser
apreendida (...) e levada para a Alemanha.9
Tirou-se muito, não só em mercadorias e pratarias, mas, também, em notas de
banco e de ouro. Sempre que Hitler ocupava um país, seus agentes financeiros
apoderavam-se do ouro e dos títulos estrangeiros do banco nacional. Era apenas
o começo. Avaliaram-se imediatamente os estonteantes4custos da ocupação”. No
fim de fevereiro de 1944, o conde Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças
nazista, avaliou o valor total de tais pagamentos recebidos em 48 bilhões de mar
cos (12 bilhões de dólares, aproximadamente), dos quais a França, o mais sugado
de todos os países conquistados, forneceu mais da metade. Ao fim da guerra, os
tributos da arrecadação montaram mais ou menos em 60 bilhões de marcos (15
bilhões de dólares).
A França foi forçada a pagar 31,5 bilhões de marcos desse total, suas contribui
ções anuais de mais de 7 bilhões chegando a ser quatro vezes maiores que as so
mas que a Alemanha havia pago, como reparações, segundo os planos de Dawes
e Young, depois da Primeira Guerra Mundial — tributo que a Hitler se afigurou
um crime abominável. Além disso, o Banco da França foi forçado a conceder à
Alemanha créditos de 4,5 bilhões de marcos, e o governo francês a pagar mais de
meio bilhão relativo a multas. Calculou-se, em Nuremberg, que os alemães arran
caram em “custos de ocupação” e créditos dois terços da renda nacional da Bélgi
ca e igual quantia da Holanda. Ao todo, segundo um estudo feito pelo U. S. Stra-
tegic Bombing Survey, a Alemanha arrancou de tributos, dos países conquistados,
104 bilhões de marcos (26 bilhões de dólares).*
* À taxa de câmbio oficial (2,5 Reichsmarks por dólar). Em termos de poder aquisitivo, é mais exato.
44° ° COMEÇO DO FIM
Quanto aos bens que foram tirados e transportados para o Reich sem a mais
simples formalidade de pagamento, não é possível fazer estimativa do valor.
Continuaram a chegar muitas cifras em Nuremberg, a ponto de atingir espantoso
valor; nenhum perito, no entanto, pelo que sei, pôde analisá-las para computar
os totais. Na França, por exemplo, estimou-se que os alemães levaram (como
“tributos em espécie”) 9 milhões de toneladas de cereais, 15% da produção to
tal de aveia, 80% da de óleo, 74% da de aço, etc., para um total geral de 184,5 bi
lhões de francos.
A Rússia, devastada pela guerra e pela selvageria dos alemães, foi mais difícil
de ser sugada. Os documentos nazistas estão repletos de relatórios sobre as entre
gas dos soviéticos. Em 1943, por exemplo, 9 milhões de toneladas de cereais, 2
milhões de toneladas de ferragens, 3 milhões de toneladas de batatas e 662 mil
toneladas de carne foram relacionadas pelos alemães entre as entregas, às quais a
Comissão de Investigações Soviética acrescentou — durante o tempo da ocupa
ção — 9 milhões de cabeças de gado, 12 milhões de porcos, 13 milhões de carnei
ros, para mencionar alguns itens. As “entregas” russas, contudo, demonstraram
ser menores do que se esperava; os alemães calcularam-lhes o valor líquido em
apenas cerca de 4 bilhões de marcos (1 bilhão de dólares).*
Os vorazes conquistadores nazistas sugaram da Polônia tudo que foi possível.
“Esforçar-me-ei para arrancar desta província tudo que ainda for possível” —
declarou o dr. Frank, governador-geral. Isso foi no fim de 1942 e, nos três anos,
já havia arrancado — conforme constantemente se vangloriava — bastante, es
pecialmente em mantimentos para os famintos alemães no Reich. Preveniu, en
tretanto, que “se o novo esquema para a alimentação for executado em 1943,
meio milhão de pessoas, só em Varsóvia e seus subúrbios, iria ficar privado de
mantimentos”.10
Traçou-se a natureza da Nova Ordem na Polônia assim que o país foi conquis
tado. Em 3 de outubro de 1939, Frank comunicou ao exército as ordens de Hitler.
Somente se pode administrar a Polônia dela se aproveitando por meio
de uma exploração implacável, da exportação de todos os suprimentos,
matéria-prima, máquinas, fábricas, etc., que são importantes para a
* Segundo Alexander Dallin, em seu exaustivo estudo sobre o domínio alemão na Rússia, a Alemanha
teria podido obter mais da Rússia em um comércio normal. (Ver Dallin, German Rule in Russia).
A NOVA ORDEM 44 1
economia de guerra alemã, do aproveitamento de todos os operários
para trabalharem na Alemanha, da redução de toda a economia polo
nesa ao mínimo necessário à existência da população, do fechamento
de todas as instituições educacionais, especialmente escolas técnicas e
colégios, a fim de impedir o desenvolvimento de nova classe culta. A
Polônia será tratada como colônia. Os poloneses serão escravos do
Grande Reich alemão.11
Rudolf Hess, o representante nazista do Führer, acrescentou que Hitler decidi
ra que “Varsóvia não será reconstruída, nem é intenção do Führer reconstruir ou
reformar qualquer indústria no governo-geral”.12
Em virtude de um decreto do dr. Frank, toda propriedade na Polônia, perten
cente quer aos judeus quer aos poloneses, ficaria sujeita a confisco sem compen
sação. Centenas de milhares de granjas, pertencentes a poloneses, foram sim
plesmente tomadas e entregues a colonizadores alemães. Em 31 de maio de 1943,
nos quatro distritos poloneses anexados à Alemanha (Prússia Ocidental, Posen,
Zichenau e Silésia), 700 mil propriedades, aproximadamente, abrangendo 15 mi
lhões de acres, foram apreendidas a seus donos, e 9.500, num total de 6,5 milhões
de acres, confiscadas. A diferença entre apreender e confiscar não está explicada
no minucioso gráfico preparado pelo Escritório Central de Propriedades alemão.13
Isso, porém, aos espoliados poloneses, não devia ter interessado.
Procedeu-se até a pilhagem de obras de arte nos países ocupados, e, segundo
revelaram mais tarde os documentos nazistas apreendidos, por ordem expressa
de Hitler e Gõring, os quais, com isso, aumentaram consideravelmente suas cole
ções particulares. O corpulento marechal do Reich, segundo sua própria estima
tiva, elevou sua coleção ao valor de 50 milhões de Reischsmarks. Gõring era, na
verdade, a força propulsora nesse campo especial de pilhagem. Imediatamente
após a conquista da Polônia, expediu ordens para que se apoderassem ali das
obras de arte; e, em seis meses, o comissário especial nomeado para executar suas
ordens pôde relatar que apreendera “quase todas as obras de arte do país”.14
Era, porém, na França que jazia o grosso das grandes obras de arte da Europa.
Nem bem esse país foi acrescentado às conquistas dos nazistas, Hitler e Gõring
decretaram sua apreensão. Para levar a efeito a pilhagem, Hitler designou Rosen-
berg, que criou uma organização denominada Einsatzstab Rosenberg, sendo
442 O COMEÇO DO FIM
auxiliado não só por Gõring, como também pelo general Keitel. De fato, uma
ordem de Keitel ao exército, na França, declarava que Rosenberg “tem o direito de
transportar para a Alemanha os bens culturais que lhe pareçam valiosos e de lá
colocá-los em segurança. O Führer reservou para si a decisão quanto a seu uso”.15
A idéia da decisão de Hitler “quanto a seu uso” acha-se revelada numa ordem
secreta expedida por Gõring em 5 de novembro de 1940, que especifica a distri
buição dos objetos de arte colhidos no Louvre, em Paris. “Sua disposição teria que
ser a seguinte.”
Os objetos de arte sobre os quais o Führer reservou para si a decisão
quanto a seu uso.
Aqueles (...) que sirvam para completar a coleção do marechal do Reich
[Gõring] (...)
Aqueles (...) que convenha serem enviados aos museus alemães (...)16
O governo francês protestou contra a pilhagem das obras de arte do país, de
clarando que era uma violação da Convenção de Haia. Quando um perito de arte
alemão, da divisão de Rosenberg, um tal Herr Bunjes, ousou atrair a atenção de
Gõring sobre esse fato, o untoso marechal respondeu:
“Meu caro Bunjes, deixe isso para minhas preocupações. Sou o mais alto juiz
neste Estado. Minhas ordens é que são decisivas, e ao senhor cabe agir de acordo
com elas.”
E assim, conforme um relato de Bunjes — é sua única aparição na história do
Terceiro Reich, tanto quanto demonstram os documentos —
(...) aqueles objetos de arte colhidos no Jeu de Paume, que devem ir
para o Führer, e os que o marechal do Reich reclama para si, serão em
barcados em dois vagões ferroviários engatados no trem especial do
marechal do Reich (...) com destino a Berlim.17
Seguiram-se-lhes mais vagões carregados. Segundo um relatório oficial secre
to dos alemães, vagões, carregando 4.174 caixões contendo 21.923 objetos de arte,
incluindo 10.890 quadros a óleo, partiram do Ocidente para a Alemanha até julho
de 1944.18 Incluíam, entre outras, obras de Rembrandt, Rubens, Hals, Vermeer,
A NOVA ORDEM 443
Velásquez, Murillo, Goya, Watteau, Fragonard, Reynolds e Gainsborough. Já em
janeiro de 1941, Rosenberg estimara o valor da pilhagem do material artístico, só
na França, em 1 bilhão de marcos.19
A pilhagem de matéria-prima, produtos manufaturados e mantimentos, se
bem que reduzisse as populações dos países ocupados ao empobrecimento, à
fome e, às vezes, à morte pela inanição violando a Convenção de Haia sobre a
conduta na guerra talvez tivesse sido defendida, se não justificada, pelos alemães,
como sendo necessária pelas duras exigências da guerra. Mas o furto de tesouros
artísticos não constituía auxílio algum para a máquina de guerra de Hitler. Era
um caso de pura cupidez, da cupidez de Hitler e Gõring.
As populações conquistadas poderiam ter suportado todas essas pilhagens e
espoliações — as guerras e a ocupação inimiga sempre trazem privações em sua
esteira. Isso, porém, era apenas uma parte da Nova Ordem, e a mais suave. Não
era na pilhagem de bens materiais, mas na de vidas humanas, que a Nova Ordem
— felizmente de curta duração — será sempre lembrada. Nisso, a degradação
nazista mergulhou até um nível raramente atingido pelo homem em todo o tem
po de sua história na Terra. Milhões de homens e mulheres decentes e inocentes
foram atirados nos trabalhos forçados, milhões de outros foram torturados e
atormentados nos campos de concentração, e, ainda, milhões mais, dos quais só
de judeus havia 4,5 milhões, foram massacrados friamente ou propositadamente
deixados morrer de fome, e seus despojos — a fim de se eliminarem os traços
— queimados.
Essa história dos horrores praticados seria inacreditável se não estivesse per
feitamente documentada e atestada pelos próprios criminosos. O que se segue
— um simples resumo que, por limitação de espaço, deixa de lado mil detalhes
chocantes — baseia-se nessa indiscutível evidência, com a corroboração ocasio
nal dos relatos de uns poucos sobreviventes que foram testemunhas oculares.
Trabalhos forçados na Nova Ordem
No fim de setembro de 1944, trabalhavam para o Terceiro Reich cerca de 7,5
milhões de estrangeiros civis. Quase todos eles haviam sido arrebanhados à força,
deportados para a Alemanha em vagões de carga, geralmente sem mantimentos
444 ° COMEÇO DO FIM
ou água ou quaisquer facilidades sanitárias, e postos lá para trabalhar nas fábricas,
campos e minas. Não só eram postos para trabalhar, como também humilhados e
surrados; passavam fome e, muitas vezes, morriam por falta de alimentos, agasa
lhos e abrigo.
Foram, além disso, postos para trabalhar com os estrangeiros dois milhões de
prisioneiros de guerra; meio milhão deles, pelo menos, foi obrigado a trabalhar
nas indústrias de armamentos e munições, em flagrantes violações das Conven
ções de Haia e Genebra, as quais estipulavam que nenhum prisioneiro de guerra
poderia ser empregado em tais tarefas.* Esta cifra não inclui as centenas de mi
lhares de outros prisioneiros de guerra recrutados para construir fortificações e
transportar munições para as linhas de frente e, até mesmo, para manejar os ca
nhões antiaéreos, num novo desrespeito às convenções internacionais que os ale
mães assinaram.**
Nas deportações em massa para trabalhos forçados no Reich, as mulheres se
paradas dos maridos, os filhos dos pais, eram enviados para pontos diferentes da
Alemanha. Não se poupavam os jovens, se tinham idade bastante para trabalhar.
Até importantes generais do exército cooperavam no seqüestro de crianças, que
eram enviadas à Alemanha para executar trabalhos forçados. Um memorando
dos arquivos de Rosenberg, datado de 12 de junho de 1944, revela essa prática na
região ocupada da Rússia.
O grupo de exércitos do centro tenciona deter de quarenta mil a cin
qüenta mil jovens, de 10 a 14 anos (...) e transportá-los para o Reich.
Essa medida foi, a princípio, proposta pelo 92Exército (...) A intenção é
destiná-los, primeiramente, à indústria alemã, como aprendizes (...)
Essa medida está sendo bem acolhida pelos industriais alemães, porque
representa um passo decisivo para aliviar a falta de aprendizes.
Visa não só impedir um reforço direto do poderio inimigo, como tam
bém reduzir sua potencialidade biológica.
* Albert Speer, ministro para os Armamentos e Produção de Guerra, admitiu em Nuremberg que 40%
de todos os prisioneiros de guerra foram empregados, em 1944, na produção de armas e munições e
em indústrias subsidiárias.20
** Um documento apreendido mostra o marechal-de-campo Milch, da força aérea, exigindo, em 1943,
mais cinqüenta mil prisioneiros de guerra russos para serem acrescentados aos trinta mil que já estavam
operando na artilharia antiaérea. "É engraçado terem os russos de manejar os canhões", gracejou ele.21
A NOVA ORDEM 445
A operação dos seqüestros tinha um nome em código: Ação Feno. Estava sen
do também executada pelo grupo de exércitos do norte da Ucrânia, do marechal-
de-campo Model.22
Usava-se de crescente terror na caça às vítimas. Foram, a princípio, emprega
dos métodos relativamente brandos. Prendiam-se pessoas que saíam das igrejas
ou de cinemas. No Ocidente, especialmente, unidades das S.S. bloqueavam sim
plesmente determinados distritos das cidades e prendiam todos os homens e mu
lheres capazes. Cercavam e vasculhavam as aldeias, com o mesmo objetivo. No
leste, onde havia resistência contra a ordem para trabalhos forçados, as aldeias
eram incendiadas e seus habitantes transportados para fora, em carroças. Os ar
quivos de Rosenberg, apreendidos, estão repletos de relatórios alemães sobre tais
fatos. Na Polônia, um funcionário alemão, pelo menos, foi de opinião que as coi
sas estavam passando um pouco da conta.
Essa desordenada e implacável caça ao homem [escreveu ele ao gover
nador Frank] como está sendo exercida nas cidades e nos campos, nas
ruas, praças, estações, até nas igrejas e, à noite, nas casas, abalou a sen
sação de segurança dos habitantes. Todos estão expostos ao perigo de
serem presos pela polícia em qualquer lugar e a qualquer hora, súbita e
inesperadamente, e de serem enviados a um campo de concentração,
sem qualquer parente saber o que lhes acontece.23
Mas o arrebatamento de operários para trabalhos forçados foi apenas o pri
meiro passo.* As condições do transporte deles para a Alemanha deixavam a
desejar. Um certo dr. Gutkelch descreveu um caso num relatório ao Ministério de
* Todo o programa dos trabalhos forçados foi confiado a Fritz Sauckel, que recebeu o título de general
plenipotenciário para a Distribuição do Trabalho. Instrumento dos nazistas, foi Gauleiter e governador
daTuríngia. Era um homenzinho de olhos de porco, muito rude, e, conforme Goebbels mencionou em
seu diário, "uma das criaturas mais aborrecidas". No recinto reservado aos réus, em Nuremberg, pareceu
ao autor uma completa nulidade, a espécie de alemão que, em outros tempos, poderia ter sido açou
gueiro no mercado de carnes de alguma cidadezinha alemã. Uma de suas primeiras diretivas ditava
que os operários estrangeiros deviam "ser tratados de maneira a serem explorados ao máximo, gastan
do-se com eles o mínimo possível".24 Admitiu, em Nuremberg, que, de todos os milhões de operários
estrangeiros, "nem mesmo duzentos mil haviam chegado voluntariamente" Negou no julgamento,
contudo, toda responsabilidade pelo mau tratamento que receberam. Foi julgado culpado, condenado
à morte e enforcado na prisão de Nuremberg na noite de 15 para 16 de outubro de 1946.
446 O COMEÇO DO FIM
Rosenberg, em 30 de setembro de 1942. Narrando como um trem repleto de tra
balhadores do leste, completamente exaustos, cruzara com outro trem num des
vio próximo a Brest Litovsk, apinhado de trabalhadores russos “recrutados recen
temente” e que se destinavam à Alemanha, escreveu:
Poderia ter acontecido uma catástrofe por causa dos cadáveres naquele
trem em que regressavam os trabalhadores (...) Nele, mulheres tinham
dado à luz crianças que foram lançadas pelas janelas durante a viagem.
Pessoas atacadas de tuberculose e doenças venéreas viajavam no mesmo
carro, com outras. Moribundas jaziam nos vagões de carga, sem um leito
de palha, e um dos mortos foi jogado para um barranco da linha férrea.
O mesmo devia ter ocorrido em outros transportes que regressavam.25
Isso não era uma apresentação promissora para o Terceiro Reich, com relação
ao Ostarbeiter; preparava os prisioneiros, entretanto, para as provações que os
esperavam. Aguardavam-nos a fome, pancadas, doenças e exposições ao frio com
seus andrajos de trabalho, apenas limitadas pela capacidade de poderem manter-
se de pé.
As grandes usinas Krupp, fabricantes de canhões, tanques e munições para a
Alemanha, eram o lugar típico para o emprego. Krupp empregava grande número
de trabalhadores-escravos, incluindo prisioneiros de guerra russos. Em determi
nado lugar, durante a guerra, seiscentas mulheres judias procedentes do campo de
concentração de Buchenwald foram levadas para trabalhar nas usinas; abrigaram -
nas num acampamento que havia sido bombardeado, de onde haviam removido
os primeiros ocupantes, os prisioneiros de guerra italianos. O dr. Wilhelm Jàger,
médico-chefe dos escravos da Krupp, descreveu num depoimento escrito, em Nu-
remberg, o que ali encontrou quando assumiu suas funções.
Encontrei, em minha primeira visita, aquelas mulheres com feridas
abertas e outras doenças. Fui o primeiro médico que elas viram pelo
menos durante uma quinzena (...) Não havia medicamentos (...) Elas
não possuíam sapatos e andavam descalças. A única roupa consistia
num saco, com buracos para os braços e a cabeça. Tinham-lhe raspado
os cabelos. O acampamento estava cercado com arame farpado e forte
mente guardado por sentinelas das S.S.
A NOVA ORDEM 44 7
A quantidade de alimentos no acampamento era diminuta e de quali
dade inferior. Não se podia entrar nos barracões sem ser atacado pelas
pulgas (...) Fiquei com furúnculos nos braços e no resto do corpo em
conseqüência das picadas (...)
O dr. Jãger relatou a situação aos diretores da Krupp e, mesmo, ao médico
pessoal de Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, o proprietário, mas em vão.
Tampouco trouxeram qualquer alívio seus relatórios sobre outros campos de tra
balhos forçados. Lembrou, em seu depoimento, alguns desses relatórios sobre as
condições sanitárias de oito acampamentos habitados por trabalhadores russos e
poloneses: superlotados, o que causava muita doença, falta de alimentação sufi
ciente para manter um homem vivo, falta de água e de instalações sanitárias.
A indumentária dos trabalhadores do leste era também completamente
inadequada. Eles trabalhavam e dormiam com a mesma roupa com que
haviam chegado. A bem dizer, não tinham sobretudos e eram obriga
dos a usar os cobertores para proteger-se do frio e da chuva. Em vista
da falta de sapatos, muitos eram obrigados a trabalhar descalços, até
mesmo no inverno (...)
As condições sanitárias eram atrozes. Em Kramerplatz havia apenas
dez toaletes de crianças para 1.200 habitantes (...) As excreções conta
minavam todos os soalhos desses toaletes (...) Os tártaros e quirguizes
eram os que mais sofriam; tombavam como moscas por causa dos pés
simos alojamentos, má qualidade e insuficiência de alimentação, exces
so de trabalho e pouco repouso.
Esses trabalhadores eram também atacados pelo tifo. Os piolhos, trans
missores da moléstia, juntamente com incontáveis moscas, percevejos
e outros insetos, torturavam os habitantes dos acampamentos (...) Sus-
pendia-se, às vezes, o suprimento de água durante períodos que iam de
oito a 14 dias (...)
Os trabalhadores-escravos do Ocidente passavam geralmente melhor que os
do leste, considerados simples escória pelos alemães. Mas a diferença era apenas
relativa, conforme o dr. Jãger descobriu num dos campos de trabalho da Krupp,
em Nogerraststrasse, Essen, ocupado por prisioneiros de guerra franceses.
448 o COMEÇO DO FIM
Seus habitantes foram mantidos quase meio ano em canis, mictórios e
velhos fornos. Os canis tinham um metro de altura, três de comprimen
to e dois de largura. Cinco homens dormiam em cada um deles. Os pri
sioneiros entravam neles de gatinhas (...) Não havia água no campo.26*
Cerca de 2,5 milhões de trabalhadores-escravos — na maioria eslavos e italia
nos — foram escalados para trabalhar nos campos da Alemanha, e, conquanto
sua vida fosse melhor que a dos que trabalhavam nas fábricas, nas cidades, por
força das circunstâncias, estava longe de ser ideal ou, mesmo, humana. Uma di
retiva sobre o Tratamento dos Trabalhadores Estrangeiros de Nacionalidade Po
lonesa, no campo, dá-nos idéia de como eram tratados. Embora se aplicasse a
princípio apenas aos poloneses — é datada de 6 de março de 1941, antes do apro
veitamento dos russos —, foi mais tarde usada como orientação para com os de
outras nacionalidades.
Os trabalhadores dos campos, de nacionalidade polonesa, não mais
têm o direito de reclamar, e, portanto, nenhuma reclamação será aceita
por qualquer agência oficial. Ficam terminantemente proibidas visitas
à igreja (...) Freqüência a teatros, cinemas ou outras diversões culturais
fica também terminantemente proibida (...)
* Além de obter para suas fábricas, na Alemanha, milhares de trabalhadores-escravos civis e prisionei
ros de guerra, a Krupp construiu também uma grande fábrica de espoletas no campo de extermínio,
em Auschwitz, onde judeus trabalhavam até se exaurirem e morriam depois em câmaras de gás.
O barão Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, o presidente do conselho, foi acusado como grande
criminoso de guerra em Nuremberg (juntamente com Gõring e outros), mas, por causa de suas condi
ções físicas e mentais (sofreu um derrame cerebral e ficou abobalhado), não foi julgado. Morreu em 16
de janeiro de 1950. A promotoria esforçou-se para que, em seu lugar, fosse julgado seu filho, Alfred,
para quem passara a propriedade da companhia em 1943, mas o tribunal negou-o.
Alfried Krupp von Bohlen und Halbach foi, depois, julgado perante um tribunal militar (puramente
americano) juntamente com nove diretores da firma, no caso Estados Unidos vs. Alfred Krupp e outros.
Foi sentenciado, em 31 de julho de 1948, a 12 anos de prisão, com o confisco de todos os bens. Foi li
bertado da prisão de Landsberg (onde Hitler havia cumprido pena em 1924) em 4 de fevereiro de 1951,
em seguida à anistia geral decretada por John McCIoy, o Alto Comissário dos Estados Unidos. Não só anu
laram o confisco da companhia como lhe devolveram a fortuna pessoal, calculada em 10 milhões de
dólares, aproximadamente. Os governos Aliados ordenaram a dissolução do vasto império da Krupp,
mas Alfred, que assumiu a direção ativa da firma depois de sua libertação, esquivou-se a essa ordem e,
ao tempo em que escrevemos este livro (1959), anunciou, com aprovação do governo de Bonn, que a
companhia não só não seria dissolvida como também estava adquirindo novas indústrias.
A NOVA ORDEM 449
Relações sexuais com mulheres ficam estritamente proibidas.
Se isso se verificasse com mulheres alemãs, a punição seria a morte,
segundo um edital de Himmler, em 1943.*
O uso de “estradas de ferro, ônibus ou de qualquer outro meio de transporte
público” era proibido para os trabalhadores-escravos dos campos. Tal ordem des-
tinava-se, aparentemente, a impedir que eles escapassem das granjas para as quais
haviam sido enviados.
Mudança arbitrária de emprego — declarava ainda a diretiva — fica
terminantemente proibida. Os trabalhadores dos campos têm de traba
lhar enquanto exigir o empregador. Não há limite de horas para a jor
nada de trabalho.
Todo empregador tem o direito de aplicar aos trabalhadores castigos
corporais (...) Eles devem, se possível, ser removidos da residência da
comunidade e instalados em estábulos, etc. Não se deve ter contempla
ção na execução de tal ato.28
Mesmo as mulheres eslavas, presas e embarcadas para a Alemanha para servi
ços domésticos, eram tratadas como escravas. Já em 1942, Hitler ordenara que se
arranjasse meio milhão delas “a fim de aliviar a dona de casa alemã”. O comissário
de trabalhos forçados traçou as condições de trabalho nos lares alemães.
Não há direito para tempo livre. As empregadas domésticas do leste po
derão deixar a casa tão-somente para atender aos serviços domésticos
(...) É-lhes proibido entrar em restaurantes, cinemas, teatros e estabele
cimentos similares. Fica também proibido freqüentarem igrejas (...)29
A mulher, é evidente, era quase tão necessária quanto o homem no programa
de trabalho escravo dos nazistas. De mais ou menos três milhões de civis russos
* A diretiva de Himmler, datada de 20 de fevereiro de 1942, destinava-se especialmente aos trabalha
dores-escravos russos. Ordenava "tratamento especial" também por "violações graves da disciplina,
incluindo recusa de trabalhar ou vadiagem em hora de serviço". Em tais casos, pede-se tratamento es
pecial. Este tratamento é a forca. Não deve ser aplicado nas vizinhanças do campo. Certo número de
trabalhadores, porém, deve assistir a ele.27
O termo "tratamento especial" era muito comum nos documentos de Himmler e na linguagem dos na
zistas, durante a guerra. Significava justamente aquilo que Himmler, em sua diretiva, queria que fosse.
450 O COMEÇO DO FIM
obrigados a trabalhar para os alemães, mais da metade era constituída de mulhe
res. A maioria delas destinava-se ao trabalho pesado nas granjas ou nas fábricas.
A escravização de milhões de homens e mulheres dos países conquistados,
como trabalhadores de ínfima classe, para o Terceiro Reich, não era apenas medi
da de tempo de guerra. Das declarações de Hitler, Gõring, Himmler e outros já
citados — e elas constituem apenas pequeníssimo exemplo — depreende-se que,
tivesse durado a Alemanha nazista, a Nova Ordem teria significado o domínio da
raça superior alemã sobre um vasto império eslavo que se estenderia do Atlântico
aos montes Urais. Os eslavos do leste seriam, sem dúvida, os que passariam pior.
Conforme Hitler acentuou em julho de 1941, apenas um mês depois que atacou
a União Soviética, seus planos para a ocupação constituíram “uma solução final”.
Um ano mais tarde, no auge de suas conquistas na Rússia, advertiu seus auxiliares:
Quanto aos ridículos cem milhões de eslavos, amoldaremos os melhores
deles à maneira que nos convém e isolaremos os restantes em suas pró
prias pocilgas; e todo aquele que falar em tratar bem e civilizar os habi
tantes locais irá, imediatamente, para um campo de concentração!30
Os prisioneiros de guerra
Embora representasse flagrante violação das Convenções de Haia e Genebra
servir-se de prisioneiros de guerra em fábricas de armamentos ou qualquer outro
trabalho ligado à luta nas linhas de frente, tal emprego, maciço como era, consti
tuía o mínimo de preocupações para milhões de soldados capturados pelo Tercei
ro Reich.
Sua preocupação acabrunhadora era sobreviver à guerra. Se eram russos, as pro
babilidades estavam fortemente contra eles. Havia mais prisioneiros de guerra
soviéticos que os outros países todos reunidos — uns 5,75 milhões. Destes, foram
encontrados vivos apenas um milhão quando as tropas aliadas libertaram os ocu
pantes dos campos de concentração em 1945. Cerca de um milhão havia sido li
bertado durante a guerra ou obtido permissão para servir nas unidades colabora-
cionistas organizadas pelo exército alemão. Dois milhões de prisioneiros russos
morreram no cativeiro alemão — de fome, de frio e de doenças. Não se explicou
o que aconteceu ao milhão restante. Em Nuremberg, chegou-se à conclusão de
A NOVA ORDEM 45 1
que a maioria havia morrido em conseqüência das causas anteriormente aponta
das ou sido exterminada pelo S.D. (Serviço de Segurança). Segundo os registros
alemães, sete mil foram executados; trata-se, indiscutivelmente, de cifra parcial.31
O grosso dos prisioneiros russos — mais ou menos 3,8 milhões deles — foi
capturado pelos alemães na primeira fase da campanha russa, nas grandes bata
lhas de envolvimento travadas de 21 de junho a 6 de dezembro de 1941. Admite-
se que era difícil para o exército, em meio ao combate e aos avanços rápidos,
cuidar adequadamente de tão grande número de prisioneiros. Os alemães, entre
tanto, não se esforçaram para isso. Os registros nazistas demonstram, conforme
vimos, que deixavam deliberadamente os prisioneiros passarem fome e os aban
donavam em pleno campo, sem abrigo, para morrerem naquele terrível inverno
de 1941-1942, de temperatura abaixo de zero e assolado pela neve.
“Quanto mais desses prisioneiros morrerem tanto melhor para nós.” Essa era
a opinião de muitos funcionários nazistas, segundo uma fonte não menos autori
zada, na pessoa de Rosenberg.
Esse grosseiro ministro para os Territórios Ocupados no Leste não era um
nazista humano, especialmente para com os russos, com os quais, conforme vi
mos, foi criado. Mesmo ele, porém, sentiu-se obrigado a protestar contra o trata
mento infligido aos prisioneiros russos numa longa carta dirigida ao general
Keitel, chefe do OKW, datada de 28 de fevereiro de 1942. Foi na ocasião em que a
contra-ofensiva russa, que havia rechaçado os alemães nas frentes de Moscou e
Rostov, atingira a máxima penetração naquele inverno e em que, finalmente, os
alemães haviam compreendido que sua aventura de destruir a Rússia numa breve
campanha — talvez para sempre — havia falhado e que possivelmente, depois de
os Estados Unidos se unirem à Rússia e à Inglaterra como seus inimigos, talvez
não ganhassem a guerra, caso em que eles seriam responsabilizados pelos crimes
cometidos durante a guerra.
A sorte dos prisioneiros de guerra soviéticos na Alemanha — escreveu
Rosenberg a Keitel — é uma tragédia incomensurável. Dos 3,6 milhões
deles, apenas algumas centenas de milhares podem ainda trabalhar efi
cazmente. Grande parte morreu de inanição ou dos azares do tempo.
Isso poderia ter sido evitado, continuou Rosenberg. Havia mantimentos sufi
cientes na Rússia para abastecê-los.
452 O COMEÇO DO FIM
Na maioria dos casos, contudo, os comandantes dos acampamentos
proibiram que se pusessem mantimentos à disposição dos prisioneiros;
preferiram deixá-los morrer de fome. Mesmo na marcha para os acam
pamentos, a população civil não teve permissão para lhes dar alimen
tos. Em muitos casos, quando os prisioneiros não mais podiam cami
nhar devido à fome e à exaustão, eram fuzilados diante dos olhos da
população civil horrorizada, e os corpos abandonados. Em numerosos
acampamentos não lhes deram abrigo algum. Permaneciam ao ar livre,
chovesse ou nevasse (...)
Cumpre mencionar, finalmente, o fuzilamento de prisioneiros de guer
ra. Era ignorada toda a compreensão política. Em vários acampamen
tos, por exemplo, todos os asiáticos foram fuzilados (...)32
Não somente os asiáticos. Logo depois do começo da campanha da Rússia,
o OKW e o serviço de segurança das S.S. fizeram um acordo pelo qual o serviço
de segurança “se desvencilharia” dos prisioneiros russos. O objetivo foi revela
do no depoimento de Otto Ohlendorf, um dos grandes carrascos das S.D. e —
como tantos outros homens que cercavam Himmler — um intelectual desajus
tado, uma vez que possuía diplomas universitários tanto de advogado como de
economista e havia sido professor no Instituto de Ciência Econômica Aplicada.
Todos os judeus e funcionários comunistas — depôs Ohlendorf — de
viam ser removidos dos acampamentos de prisioneiros de guerra e exe
cutados. Pelo que sei, essa medida foi levada a efeito durante toda a
campanha russa.33
Não sem dificuldades, porém. Às vezes, os prisioneiros russos achavam-se tão
exaustos que mal podiam caminhar para o local da execução. Isso provocou um
protesto de Heinrich Müller, chefe da Gestapo, personagem de expressão muito
viva e, ao mesmo tempo, um matador frio e calmo*
* Não se chegou a prender Müller depois da guerra. Foi visto pela última vez no abrigo de Hitler, em
Berlim, no dia 29 de abril de 1945. Alguns de seus colegas que sobreviveram acreditam que ele esteja
a serviço da polícia secreta soviética, da qual era um grande admirador.
A NOVA ORDEM 453
Os comandantes dos campos de concentração queixam-se de que de
5% a 10% dos russos destinados a serem executados chegam ao campo
mortos ou quase mortos (...) Notou-se, por exemplo, que, por ocasião
da marcha da estação ferroviária ao campo, um número um tanto
grande de prisioneiros tombava no caminho vitimado pelo cansaço;
prisioneiros caíam mortos ou quase mortos e tinham que ser recolhi
dos por um caminhão que seguia o comboio. Não se pode impedir que
o povo alemão tome conhecimento dessas ocorrências.
A Gestapo pouco se importava que os prisioneiros russos caíssem mortos de
fome e exaustão, salvo o fato de que isso privava os carrascos de receberem suas
presas. Não desejava, porém, que o povo alemão assistisse a tais espetáculos. O
“Müller da Gestapo”, designação pela qual Heinrich era conhecido na Alemanha,
ordenou, portanto, que
a partir de hoje (9 de novembro de 1941) os russos soviéticos obviamen
te marcados para morrer e que, por conseguinte, não podem resistir aos
esforços de uma breve marcha, deverão, no futuro, ser excluídos dos
transportes dos campos de concentração para o local da execução.34
Prisioneiros famintos ou exaustos não podiam trabalhar. Em 1942, quando se
tornou evidente aos alemães que a guerra ia durar muito mais tempo do que es
peravam, e que os soldados soviéticos prisioneiros constituíam uma reserva pre
ciosa para os trabalhos de que necessitavam, os nazistas abandonaram aquela
política de extermínio, a fim de aproveitá-los. Himmler explicou essa mudança
em seu discurso às S.S., em Posen, em 1943.
Naquele tempo (1941) não avaliamos aquela massa humana como a ava
liamos hoje, como matéria-prima, como mão-de-obra. O que afinal de
contas, pensando em termos de produção, não é para ser lamentado,
mas o que é agora deplorável, dada a perda de mão-de-obra, é que deze
nas e centenas de milhares de prisioneiros morressem de exaustão e fome.35
Eles deviam agora ser suficientemente alimentados para poderem trabalhar.
Em dezembro de 1944, 750 mil deles, inclusive muitos oficiais, trabalhavam em
454 ° COMEÇO DO FIM
fábricas de armamentos, minas (para onde duzentos mil haviam sido escalados) e
fazendas. Recebiam duro tratamento, mas, pelo menos, permitia-se que vivessem.
Abandonou-se até a marcação a ferro quente dos prisioneiros de guerra russos,
proposta pelo general Keitel.*
O tratamento aos prisioneiros ocidentais, especialmente britânicos e ameri
canos, era relativamente mais suave que o dispensado aos russos. Havia, vez ou
outra, casos de assassínios e massacre deles, mas isso, geralmente, era devido ao
excessivo sadismo e crueldade de certos comandantes. Um desses casos foi a ma
tança a sangue-frio de 71 prisioneiros americanos num campo próximo a Malmédy,
na Bélgica, em 17 de dezembro de 1944, durante a Batalha da Saliência.
Houve outras ocasiões em que o próprio Hitler ordenou o assassínio de prisio
neiros ocidentais, como no caso dos cinqüenta aviadores ingleses capturados na
primavera de 1944 depois de escaparem de um campo em Sagan. Gõring decla
rou, em Nuremberg, que ele “considerou esse incidente o mais sério de toda a
guerra” e o general Jodl tachou-o de “puro assassínio”.
Realmente, parecia fazer parte de uma política deliberada dos alemães, depois
que os bombardeios dos anglo-americanos se tornaram mais intensos a partir
de 1943, encorajar a matança de aviadores Aliados que caíssem em solo alemão.
Estimulavam-se os civis a lincharem os aviadores assim que saltassem de pára-
quedas. Certo número desses alemães foram julgados depois da guerra. Em 1944,
quando os bombardeios dos anglo-americanos atingiram o auge, Ribbentrop
aconselhou que executassem sumariamente os pilotos que fossem derrubados,
mas Hitler assumiu uma atitude conciliatória. Em 21 de maio de 1944, de acordo
com Gõring, ordenou simplesmente que fuzilassem, sem necessidade de conselho
de guerra, os aviadores capturados que tivessem metralhado trens de passageiros
ou civis ou aviões alemães que houvessem feito aterrissagens de emergência.
Os aviadores capturados eram, às vezes, simplesmente entregues ao S.D.
para receberem um “tratamento especial”. Assim, cerca de 47 aviadores ameri
canos, ingleses e holandeses, todos eles oficiais, foram brutalmente assassinados
* Keitel havia traçado a ordem em 20 de julho de 1942.
1. Deve-se marcar, com ferro em brasa, um sinal especial e durável nos prisioneiros de guerra soviéticos.
2.0 sinal deve ser um ângulo agudo de 45 graus, mais ou menos, e com os lados medindo um centíme
tro, apontando para baixo, na nádega esquerda e a distância de uma mão, aproximadamente, do reto.36
A NOVA ORDEM 455
no campo de concentração de Mauthausen, em setembro de 1944. Uma testemu
nha ocular, Maurice Lempe, prisioneiro francês nesse campo, descreveu em Nu-
remberg como se deu o fato:
Os 47 oficiais foram conduzidos descalços à pedreira (...) No fundo do
poço, os guardas colocaram uma carga de pedras nas costas dos pobres
homens, e eles tiveram de carregá-la até em cima. A primeira viagem
foi feita com pedras que pesavam cerca de trinta quilos e acompanhada
de pancadas (...) Na segunda, as pedras foram ainda mais pesadas; toda
vez que os infelizes caíam sob seu peso, davam-lhes pontapés e porre-
tadas (...) À noite, 21 corpos jaziam estendidos ao longo do caminho.
Os outros 26 morreram na manhã seguinte.37
Era uma forma de “execução” familiar em Mauthausen, aplicada em grande
número de prisioneiros de guerra, os russos entre outros.
De 1942 em diante — isto é, quando a maré da guerra começou a virar contra
ele — Hitler ordenou o extermínio dos comandos Aliados capturados, especial
mente no Ocidente (os guerrilheiros soviéticos capturados eram fuzilados suma
riamente). A Ordem Secretíssima Relativa aos Comandos, de 18 de outubro de
1942, figura entre os documentos nazistas.
Doravante, todos os inimigos em missões denominadas “de comando”,
na Europa ou na África, interpelados pelos soldados alemães, mesmo
que estejam em uniforme, estejam ou não armados, em batalha ou em
fuga, devem ser mortos até o último homem.38
Numa diretiva suplementar expedida no mesmo dia, Hitler explicou a seus
comandados a razão dessa ordem. Por causa do êxito obtido pelos “comandos”
Aliados, disse ele:
Fui obrigado a expedir ordens terminantes para a destruição de solda
dos inimigos encarregados de praticar sabotagem e a declarar que o
não cumprimento delas implica severa punição (...) Deve-se deixar
bem claro ao inimigo que toda tropa de sabotagem será exterminada,
sem exceção, até o último homem.
456 O COMEÇO DO FIM
Significa isso que é nula a possibilidade de eles escaparem com vida (...)
Em circunstância alguma poderão (eles) esperar tratamento de acordo
com as regras da Convenção de Genebra (...) Se vier a ser necessário
poupar a princípio um ou dois homens, para interrogatório, cumpre
fuzilá-los imediatamente depois de feito o interrogatório.39
Esse crime específico devia ser mantido em absoluto segredo. O general Jodl
acrescentou instruções à diretiva de Hitler, sublinhando a frase: “Essa ordem se
destina apenas aos comandantes e não deve, em circunstância alguma, cair em
mãos do inimigo.” Todas as cópias dela deviam ser destruídas depois de devida
mente anotada.
Ficou, certamente, impressa no espírito deles, pois começaram a executá-la.
Dois casos podem ser citados entre muitos.
Na noite de 22 de março de 1944, dois oficiais e 13 homens do 267e Batalhão
de reconhecimento especial do exército dos Estados Unidos desceram de uma
embarcação bem distante da retaguarda das linhas alemãs na Itália, a fim de
demolir um túnel ferroviário entre La Spezia e Gênova. Estavam todos uniformi
zados e não traziam consigo trajes civis. Capturados dois dias depois, foram exe
cutados por um pelotão de fuzilamento em 26 de março, sem julgamento, por
ordem do general Anton Dostler, comandante do 752 Corpo do exército alemão.
Julgado por um tribunal americano depois da guerra, o general Dostler justificou
seu ato alegando que estava simplesmente obedecendo à ordem de Hitler relativa
aos comandos. Declarou que ele mesmo teria sido submetido a conselho de guer
ra pelo Führer se não tivesse obedecido.*
Cerca de 15 membros de uma missão militar anglo-americana — incluindo um
correspondente de guerra da Associated Press, todos uniformizados — que haviam
saltado de pára-quedas na Tchecoslováquia em janeiro de 1945, foram executados
no campo de concentração de Mauthausen por ordem do dr. Ernst Kaltenbrunner,
o sucessor de Heydrich na chefia do S.D. e um dos acusados em Nuremberg.** Não
fosse o testemunho de um ajudante de campo que presenciou a execução, o assas
sínio deles teria permanecido ignorado, pois a maior parte dos documentos sobre
as execuções em massa, naquele acampamento, foram destruídos.40
* O general Dostler foi condenado à morte pelo tribunal militar americano, em Roma, em 12 de outu
bro de 1945.
** Kaltenbrunner foi enforcado na prisão de Nuremberg, na noite de 15 para 16 de outubro de 1946.
A NOVA ORDEM 457
O terror nazista nos países conquistados
O jornal francês Le Phare publicou, em 22 de outubro de 1941, a seguinte nota:
Criminosos covardes, a soldo da Inglaterra e de Moscou, mataram o
Feldkommandant de Nantes na manhã de 20 de outubro. Até o momen
to não foram presos os assassinos.
Como expiação para esse crime, ordenei que, para começar, cinqüenta
reféns fossem fuzilados (...) Cinqüenta outros mais serão também fuzi
lados caso o culpado não seja preso até a meia-noite de 23 de outubro.
Veio a ser uma nota habitual nas páginas dos jornais, ou em cartazes verme
lhos tarjados de preto, na França, Bélgica, Holanda, Noruega, Polônia e Rússia. A
proporção, publicamente proclamada pelos alemães era, invariavelmente, de cem
para um — cem reféns fuzilados para cada alemão morto.
Conquanto a captura de reféns fosse costume antigo, muito cultivado, por
exemplo, pelos romanos, tal prática não foi exercida nos tempos modernos, salvo
pelos alemães na Primeira Guerra Mundial e pelos britânicos na índia e na África
do Sul durante a guerra dos bôeres. Sob o regime de Hitler, porém, o exército
alemão exerceu-a em grande escala durante a Segunda Guerra. Dezenas de or
dens secretas, assinadas pelo general Keitel e pelos comandantes de categoria in
ferior, foram exibidas em Nuremberg: mandavam prender e fuzilar reféns. “É im
portante”, decretou Keitel em 1- de outubro de 1941, “que reféns devem incluir
pessoas importantes e bem conhecidas ou membros de suas famílias”; e o general
von Stülpnagel, comandante alemão na França, acentuou um ano depois que
“quanto mais conhecidos fossem os reféns a serem fuzilados tanto maior será o
efeito repressivo sobre os que cometerem atos condenáveis”.
Ao todo, 29.660 reféns franceses foram executados pelos alemães durante a
guerra, e essa cifra não inclui os quarenta mil que morreram nas prisões da Fran
ça. A cifra para a Polônia foi de oito mil e para a Holanda de dois mil, aproxima
damente. Na Dinamarca, o que se tornou conhecido como “sistema de acabar
com os assassínios” foi substituído pelo fuzilamento de reféns, que se procla
mava publicamente. Em virtude de ordens expressas do Führer, as represálias
pela matança de alemães deviam ser executadas em segredo, na Dinamarca, “na
458 O COMEÇO DO FIM
proporção de cinco para um”.41 Como conseqüência, o grande dramaturgo, poeta e
pastor dinamarquês Kaj Munk, uma das figuras mais amadas na Escandinávia, foi
brutalmente assassinado pelos alemães; deixaram seu corpo na estrada, nele prega
da uma tabuleta que dizia: “Porco, mesmo assim você trabalhou pela Alemanha.”
De todos os crimes que o general Keitel alegou, no tribunal de Nuremberg, ter
cometido em obediência às ordens de Hitler, o pior deles originou-se de Nacht
und Nebel Erlass (Decreto da Noite e do Nevoeiro). Essa ordem grotesca, reserva
da para os infelizes habitantes dos territórios conquistados no Ocidente, foi expe
dida pelo próprio Hitler, em 7 de dezembro de 1941. Seu objetivo, conforme o
lúgubre título indica, era prender pessoas “perigosas para a segurança dos ale
mães”, as quais não eram executadas imediatamente; desapareciam sem deixar
traços, no nevoeiro da noite de algum lugar desconhecido, na Alemanha. Infor
mação alguma era dada às famílias quanto ao destino delas, mesmo quando —
como ocorria invariavelmente — fosse apenas questão de saber o local onde ha
viam sido enterradas no Reich.
Em 12 de dezembro de 1941, Keitel expediu uma diretiva explicando as ordens
do Führer: “Como princípio, a punição por ofensas cometidas contra o Estado
alemão é a pena de morte.” Mas
(...) se essas ofensas forem punidas com prisão, ou mesmo com traba
lhos forçados por toda a vida, isso será considerado sinal de fraqueza.
Somente se pode intimidar eficientemente por meio da pena capital ou
medidas pelas quais os parentes do criminoso e a população venham a
ignorar o destino dele.42
Em fevereiro do ano seguinte, Keitel ampliou o Decreto da Noite e do Nevoei
ro. Nos casos em que a pena de morte não era imposta dentro de oito dias após a
prisão do indivíduo,
(...) o prisioneiro deverá ser transportado, secretamente, para a Alema
nha (...) Essas medidas terão efeito repressivo porque (...)
a) os prisioneiros desaparecerão sem deixar traços;
b) nenhuma informação poderá ser dada quanto a seu paradeiro ou
destino.43
A NOVA ORDEM 459
O S.D. foi encarregado dessa tarefa macabra. Os arquivos que se apreenderam
estão repletos de ordens relativas a “NN” (Nacht und Nebel), especialmente com
respeito à manutenção de rigoroso segredo quanto aos locais em que as vítimas
eram enterradas. Nunca se pôde determinar, em Nuremberg, o número de euro
peus ocidentais que desapareceram na Noite e Nevoeiro; ao que parece, porém,
uns poucos conseguiram sobreviver.
Obtiveram-se, contudo, algumas cifras esclarecedoras nos registros do S.D.,
relativas ao número de vítimas de outra operação de terror em territórios ocupa
dos, aplicada à Rússia. Essa operação especial foi desempenhada pela entidade
que, na Alemanha, era conhecida como Einsatzgruppen (Grupos de Ação Espe
cial), e que, dada sua tarefa, poderiam ser melhor designados Esquadrões de Ex
termínio. A primeira cifra redonda de seu trabalho foi obtida, em Nuremberg,
acidentalmente.
Certo dia, antes de ter início o julgamento, um jovem oficial da marinha nor
te-americana, o capitão de corveta Whitney R. Harris, da promotoria americana,
interrogava Otto Ohlendorf sobre suas atividades durante a guerra. Sabia-se que
esse atraente intelectual alemão, de jovem aparência — tinha 38 anos —, havia
sido chefe do Amt III do Escritório Central de Segurança, de Himmler (R.S.H.A.),
mas que durante os últimos anos da guerra despendera a maior parte do tempo
como perito em negócios estrangeiros no Ministério da Economia. Contou ele a
seu inquiridor que, exceto um ano, havia passado o período da guerra em função
oficial, em Berlim. Perguntado sobre o que fizera durante esse ano fora, respon
deu: “Eu era chefe do Einsatzgruppe D.”
Harris, advogado prático e a esse tempo autoridade nas questões do serviço
secreto alemão, sabia muita coisa acerca dos grupos Einstz. Perguntou então ime
diatamente:
— Durante o ano em que o senhor foi chefe do Einsatzgruppe D, quantos ho
mens, mulheres e crianças o seu grupo matou?
Ohlendorf, lembrou-se Harris mais tarde, encolheu os ombros e respondeu
sem a mínima hesitação:
— Noventa mil!44
Os grupos Einsatz foram primeiramente organizados por Himmler e Heydrich
para acompanhar os exércitos alemães na Polônia, em 1939, arrebanhando ali os
judeus e colocando-os em guetos. Foi somente no começo da campanha russa,
460 O COMEÇO DO FIM
quase dois anos depois, que, de conformidade com o exército alemão, foram in
cumbidos de acompanhar as tropas combatentes e executar uma fase da “solução
final”. Formaram-se, para esse fim, quatro Einsatzgruppen — A, B, C, e D. Foi o D
que Ohlendorf comandou no período de junho de 1941 a junho de 1942. Foi-lhe
atribuído o setor meridional da Ucrânia, ficando o grupo anexo ao l l s Exército.
Inquirido no tribunal pelo coronel John Harlan Amen sobre quais as instruções
que recebera, respondeu Ohlendorf:
—As instruções eram para que os judeus e os comissários políticos soviéticos
fossem liquidados.
— Quando o senhor diz liquidados, quer dizer mortos? — perguntou Amen.
— Sim, quero dizer mortos — respondeu Ohlendorf, explicando também que
isso se aplicava às mulheres e às crianças tanto quanto aos homens.
— Por que razão as crianças eram massacradas? — interveio o juiz russo, ge
neral I.T. Nikitchenko.
Ohlendorf: “A ordem era no sentido de que a população judaica devia ser to
talmente exterminada”.
O Juiz: “As crianças inclusive?”
Ohlendorf: “Sim.”
O Juiz: “Todas as crianças foram assassinadas?”
Ohlendorf: “Foram.”
Em resposta a novas perguntas de Amen e em seu depoimento, Ohlendorf
descreveu como se realizava uma típica matança.
A unidade Einsatz entrava numa aldeia ou cidade e ordenava aos
preeminentes cidadãos judeus que reunissem todos os judeus para
fins de “recolonização”.* Pedia-se-lhes que entregassem todos os bens
e, pouco antes de serem executados, suas roupas. Eram transportados
para o local das execuções, geralmente um fosso antitanque, em ca
minhões — sempre tantos quantos pudessem ser executados imedia
tamente. Procurava-se, desse modo, manter tão curto quanto possível
o espaço de tempo durante o qual as vítimas soubessem o que estava
para acontecer-lhes.
* Isto é, diziam-lhes que seriam instalados em outro lugar.
A NOVA ORDEM 46 1
Eram então fuzilados, ajoelhados ou de pé, por pelotões à moda militar,
e os cadáveres lançados no fosso. Nunca permiti que se fuzilasse um a
um. Ordenei que vários homens deviam atirar ao mesmo tempo, a fim
de evitar responsabilidades pessoais. Outros chefes de grupos exigiam
que as vítimas se deitassem ao comprido, no chão, para serem atingidas
na nuca. Eu desaprovava tais métodos.
— Por quê? — indagou Amen.
— Porque era, psicologicamente, um pesadíssimo fardo a suportar, tanto para
as vítimas como para aqueles que as executavam.
Na primavera de 1942, continuou depois Ohlendorf, veio uma ordem de
Himmler para que se mudasse o método de execução das mulheres e crianças.*
Dali por diante, deviam ser despachadas em “vagões de gás” especialmente cons
truídos para tal fim por duas firmas de Berlim. O oficial do S.D. descreveu ao
tribunal como funcionavam esses extraordinários veículos.
Não se podia perceber, de fora, o fim a que se destinavam esses vagões.
Pareciam caminhões fechados e eram construídos de tal modo que, ao
ser dada a partida no motor, o gás (escapamento) era conduzido para o
interior do vagão causando a morte em dez ou 15 minutos.
— Como induziam as vítimas a entrarem nos vagões? — quis saber o coronel
Amen.
— Diziam-lhes que seriam transportadas para outra localidade — respondeu
Ohlendorf.**
O sepultamento das vítimas dos vagões de gás, continuou ele como para quei
xar-se, constituiu uma “grande provação” para os membros dos Einsatzgruppen.
Isso foi confirmado por um certo dr. Becker, que Ohlendorf identificou como o
construtor dos vagões num documento exibido em Nuremberg. Numa carta ao
* Havia uma razão especial para isso. (Ver capítulo "A Nova Ordem" neste livro).
** Ohlendorf foi julgado em Nuremberg por um tribunal militar norte-americano, juntamente com
vinte outros, no Caso Einsatzgruppen. Quatorze deles foram condenados à morte. Somente quatro —
Ohlendorf e três outros comandantes de grupos — foram executados na prisão de Landsberg, em 8 de
junho de 1951, mais ou menos três anos e meio depois da sentença. A pena de morte, aplicada aos
demais, foi comutada.
462 O COMEÇO DO FIM
Estado-maior, o dr. Becker opôs-se a que alemães do S.D. descarregassem os ca
dáveres das mulheres e crianças mortas pelo gás, chamando a atenção para
(...) os imensos danos psicológicos e os prejuízos para a saúde deles,
que esse trabalho poderia causar-lhes. Queixaram-se a mim de dor de
cabeça, que os afligia depois de cada descarregamento.
O dr. Becker assinalou a seus superiores que
(...) a aplicação do gás não é, geralmente, feita corretamente. A fim de
terminar rapidamente a tarefa, o chofer aciona o acelerador ao máximo.
As pessoas a serem executadas morrem sufocadas em vez de dormindo,
conforme fora projetado.
O dr. Becker era muito humanitário — em sua própria opinião — e ordenou
que se modificasse a técnica.
Minhas instruções provaram agora que, pelo ajuste correto das alavan
cas, a morte vem mais depressa e os prisioneiros adormecem tranqüila
mente. Não se notam mais rostos contorcidos e excreções, como se via
antes.45
Mas os vagões de gás, depôs Ohlendorf, podiam despachar somente de 15 a 25
pessoas de cada vez, e isso era completamente inadequado para os massacres na
escala ordenada por Hitler. Inadequado, por exemplo, para a tarefa levada a efeito
em Kiev, capital da Ucrânia, em apenas dois dias: 29 e 30 de setembro de 1941,
quando, segundo um relato oficial do Einsatz, 33.771 pessoas, na maioria judeus,
foram executadas.46
O relatório de um alemão, testemunha ocular, sobre como era feita uma exe
cução em massa na Ucrânia, execução relativamente pequena, deixou o tribunal
de Nuremberg estarrecido quando foi lido pelo principal promotor britânico,
sir Hartley Shawcross. Foi um depoimento feito sob juramento por Hermann
Grábe, gerente e engenheiro da filial de uma firma de construções alemãs, na
Ucrânia. Em 5 de outubro de 1942, ele presenciou a ação dos “comandos do Ein
satz ’ apoiados pela milícia ucraniana, nas valas de execução, em Dubno. Tratava-
se de liquidar os cinco mil judeus da cidade, informou.
A NOVA ORDEM
(...) Meu capataz e eu fomos diretamente às valas. Ouvi tiros de fuzil em
rápida sucessão por trás dos montes de terra. As pessoas que deviam
descer dos caminhões — homens, mulheres e crianças de todas as idades
— eram obrigadas a despir-se por ordem de um indivíduo das S.S. que
empunhava um chicote. Tinham que deixar as roupas em lugares deter
minados para cada peça do vestuário. Vi um montão de sapatos, cerca de
oitocentos a mil pares, e grandes pilhas de costumes e roupas de baixo.
Sem gritar ou chorar, despiam-se todos; reuniam-se em grupos de famí
lia, beijavam-se uns aos outros, despediam-se e aguardavam um sinal de
outro homem das S.S. que se achava junto à vala e que também empu
nhava um chicote. Durante os 15 minutos que permaneci nas proximi
dades da vala, não ouvi uma queixa ou pedido de misericórdia (...)
Uma senhora idosa, de cabelos brancos como a neve, segurava nos bra
ços uma criança de 1 ano; cantarolava para ela e fazia-lhe cócegas. A
criança ria, satisfeita. Os pais contemplavam aquele quadro com os
olhos cheios de lágrimas. O pai segurava a mão do menino de 10 anos
e falava-lhe carinhosamente; o menino esforçava-se por reprimir as lá
grimas. O pai apontou para o céu e afagou-lhe a cabeça, parecendo ex
plicar-lhe alguma coisa.
Nesse momento, o homem das S.S. que se achava junto à vala bradou
qualquer coisa para o companheiro. Ele contou cerca de vinte pessoas,
ordenando-lhes que fossem para trás do grande monte de terra (...) Re
cordo-me perfeitamente de uma jovem, esbelta e de cabelos pretos, que,
ao passar por mim, apontou para si mesma e disse: “23 anos de idade”.
Dirigi-me para o outro lado do monte de terra e deparei com uma imen
sa vala. Estava socada de gente, jazendo uns sobre os outros de modo
que só se lhes viam as cabeças. Escorria sangue de quase todas elas.
Algumas das pessoas ainda se moviam; outras erguiam os braços e vira-
vam a cabeça como para mostrar que ainda estavam vivas. Duas terças
partes da vala já estavam tomadas. Calculei que continha cerca de mil
pessoas. Olhei para o homem que atirava. Era um elemento das S.S. Acha
va-se sentado à beira da vala, em sua extremidade, e balançava as pernas.
Tinha um fuzil-metralhadora sobre os joelhos e fumava um cigarro.
464 O COMEÇO DO FIM
As pessoas, completamente nuas, desciam alguns degraus e subiam
sobre as cabeças das que já estavam lá nos lugares para os quais o ho
mem da S.S. ordenava. Deitavam-se junto aos mortos ou feridos; al
guns acariciavam os que ainda estavam vivos e murmuravam-lhes
qualquer coisa. Ouvi, depois, uma série de tiros. Olhei para a vala; vi
corpos contorcerem-se e algumas cabeças já imobilizadas sobre os cor
pos que se encontravam debaixo. O sangue escorria-lhes do pescoço.
Aproximava-se o grupo seguinte. Desceram todos para a vala e alinharam-
se diante das vítimas que os antecederam. Foram também fuzilados.
E assim se passou com um grupo após outro. Na manhã seguinte, o
engenheiro alemão voltou ao local.
Vi cerca de trinta pessoas nuas estendidas junto à vala. Algumas ainda
estavam vivas (...) Mais tarde, ordenaram aos judeus ainda vivos que
lançassem os cadáveres para dentro da vala. Depois, tiveram que deitar-
se nela quando então lhes atiraram no pescoço (...) Juro, perante Deus,
que isto é a absoluta verdade.47
Quantos judeus e quantos funcionários do partido comunista russo (os judeus
excediam em grande número os russos) foram massacrados pelos Einsatzgruppen,
na Rússia, antes de os alemães terem sido rechaçados pelo Exército Vermelho?
Não se pôde, em Nuremberg, computar o total exato; os registros de Himmler,
porém, conquanto não fossem coordenados, dão uma idéia aproximada.
O Einsatzgruppen D, de Ohlendorf, com suas noventa mil vítimas, não apre
sentou o mesmo resultado que alguns dos outros grupos. O grupo A, por exemplo,
no norte, informou em 31 de janeiro de 1942 que havia executado 229.052 judeus
na região dos Bálticos e na Rússia Branca. Seu comandante, Franz Stahlecker,
informou Himmler que estava encontrando dificuldades na última província ci
tada, por haver iniciado tarde o trabalho, “depois que começou forte geada, o que
tornava a execução em massa muito mais difícil”. Contudo, informou ele, “foram
fuzilados até agora 41 mil judeus (na Rússia Branca)” Stahlecker, morto mais
tarde pelos guerrilheiros soviéticos, anexou a seu relatório um interessante gráfi
co mostrando o número dos que haviam sido liquidados — representado por cai
xões — em cada área sob seu comando. Só na Lituânia, o gráfico mostrava terem
sido mortos 136.421 judeus; 34 mil, aproximadamente, haviam sido poupados,
A NOVA ORDEM 465
por enquanto, “porque deles se tinham necessidade para mão-de-obra”. A Estô
nia, onde viviam relativamente poucos judeus, foi, nesse relatório, declarada “li
vre de judeus”.48
Os pelotões de fuzilamento dos Einsatzgruppen, após uma pausa durante o
rigoroso inverno, operaram no verão de 1942. Cerca de 55 mil judeus mais foram
exterminados na Rússia Branca até l2 de julho, e, em outubro, os remanescentes
16.200 habitantes do gueto de Minsk foram liquidados num só dia. Por volta de
novembro, Himmler pôde informar Hitler que 363.211 judeus haviam sido mor
tos na Rússia, de agosto a outubro, se bem que tal cifra fosse provavelmente exa
gerada, a fim de agradar o sanguinário Führer.49*
Segundo Karl Eichmann, chefe do Escritório de Assuntos Judaicos da Gesta-
po, considerando tudo, foram liquidados no leste pelos Einsatzgruppen dois mi
lhões de pessoas, quase todas de raça judaica. Isso, certamente, é exagerado; é es
tranho, porém verdade, que os figurões das S.S. se orgulhavam dos extermínios, e
muitas vezes relatavam cifras exageradas para agradar Himmler e Hitler. O pró
prio estatístico de Himmler, dr. Richard Korherr, informou seu chefe, em 23 de
março de 1943, que, na Rússia, 633.300 judeus haviam sido “reajustados” — eufe
mismo para o massacre pelos Einsatzgruppen.51 É surpreendente, porém, que essa
cifra concorde mais ou menos com exaustivos estudos realizados depois por certo
número de peritos. Acrescentem-se outros cem mil assassinados nos dois últimos
anos da guerra, e a cifra talvez seja tão exata quanto se possa calcular.**
Elevada que seja, é pequena comparada com o número de judeus liquidados
nos campos de extermínio de Hitler, quando se processou a “solução final”.
* Em 31 de agosto, Himmler ordenou a um destacamento do Einsatz que executasse cem ocupantes
da prisão de Minsk, a fim de ele poder ver como isso era feito. Segundo Bach-Zelewski, um alto oficial
das S.S. que se achava presente, Himmler quase desmaiou quando verificou o efeito da primeira sarai
vada de balas do pelotão de fuzilamento. Minutos depois, quando os tiros deixaram de matar imedia
tamente duas mulheres judias, o chefe das S.S. tornou-se histérico. Dessa experiência resultou uma
ordem de Himmler no sentido de que, dali por diante, não mais fossem fuziladas as mulheres e as
crianças, e sim liquidadas nos vagões de gás.50 (Ver capítulo "A Nova Ordem" neste livro).
** O número de funcionários do Partido Comunista soviético assassinados pelos Einsatzgruppen nun
ca chegou a ser calculado, pelo que me foi dado saber. A maioria dos relatórios do S.D. incluiu-o no
dos judeus. Num relatório do grupo A, datado de 15 de outubro de 1941, 3.387 comunistas figuram
entre 121.817 executados; os restantes são judeus. O mesmo relatório, porém, menciona às vezes
juntamente comunistas e judeus.
466 O COMEÇO DO FIM
A wsolução final”
Num belo dia de junho de 1946, em Nuremberg, três membros da promotoria
americana interrogavam Oswald Pohl, Obergruppenführer das S.S. que, entre
outras coisas, estivera à frente de projetos de trabalho para os internados nos
campos de concentração nazistas. Pohl, oficial naval antes de passar para as
S.S., escondeu-se depois do colapso da Alemanha e somente um ano depois, em
maio de 1946, foi preso quando o descobriram trabalhando numa granja, dis
farçado de colono.*
Respondendo a uma pergunta, Pohl usou um termo com o qual a promotoria
de Nuremberg começou a familiarizar-se, dados os muitos meses de atividade no
exame de mais de um milhão de palavras dos documentos apreendidos. Declarou
Pohl que certo colega, de nome Hõss, havia sido empregado por Himmler “na
solução final da questão judaica”.
— E o que era isso? — perguntaram a Pohl.
— O extermínio dos judeus — respondeu ele.
Tal expressão surgia com crescente freqüência no vocabulário e nos arquivos
dos chefes nazistas à medida que progredia a guerra, sua aparente inocência como
que poupando a esses homens o sofrimento de lembrar, uns aos outros, o que
significava, e fornecendo também, talvez — possivelmente julgassem — certa
proteção à sua culpa no caso de os documentos incriminadores virem à luz. Real
mente, nos julgamentos realizados em Nuremberg, a maioria dos chefes nazistas
negou conhecer o significado da expressão. Gõring alegou jamais tê-la emprega
do. A alegação, porém, foi logo desmentida. No processo contra o gorducho ma
rechal do Reich, exibiu-se uma diretiva que ele havia enviado a Heydrich, o chefe
do S.D., em 31 de julho de 1941, época em que os Einsatzgruppen já se entregavam
com prazer à tarefa de extermínio na Rússia.
Por meio desta encarrego-vos [Gõring instruiu Heydrich] de fazer to
dos os preparativos para (...) a solução final da questão judaica nos ter
ritórios da Europa que se acham sob a influência alemã (...)
* Pohl foi condenado à morte no então chamado Caso do Campo de Concentração, por um tribunal
americano, em 3 de novembro de 1947, e enforcado na prisão de Landsberg em 8 de junho de 1951,
juntamente com Ohlendorf e outros.
A NOVA ORDEM 467
Encarrego-vos, além disso, de submeter-me, o mais breve possível, um
esboço mostrando as (...) medidas já tomadas para a pretendida execu
ção da solução final da questão judaica.52*
Heydrich sabia muito bem o que Gõring quis dizer com esse termo, pois ele
mesmo o empregara quase um ano antes numa conferência secreta depois da
queda da Polônia, na qual traçou “o primeiro passo a ser dado na solução final”, que
consistia em concentrar todos os judeus nos guetos das grandes cidades, onde
fosse fácil despachá-los ao seu destino final.**
Dado seu efeito, a “solução final” era o que Adolf Hitler, havia muito, tinha em
mente e proclamara publicamente antes mesmo de começar a guerra. Em seu
discurso ao Reichstag, em 30 de janeiro de 1939, disse:
Se os financistas judeus internacionais (...) conseguirem novamente
mergulhar as nações numa guerra mundial, o resultado será (...) o ani
quilamento da raça judaica em toda a Europa.
Era uma profecia, declarou: e repetiu-a cinco vezes, verbatim , em cinco dis
cursos proferidos em público. Não fazia diferença que não fossem os “financistas
judeus internacionais” e sim ele quem mergulhasse o mundo num conflito arma
do. O que importava, para ele, era que havia agora uma guerra mundial que lhe
daria, depois de ter conquistado várias regiões no leste, onde vivia a maioria dos
judeus europeus, oportunidade para levar a efeito o aniquilamento. Ao começar a
invasão da Rússia, deu Hitler as necessárias ordens.
O que se tornou conhecido nos altos círculos nazistas como “Ordem do Führer
sobre a Solução Final”, parece que jamais foi escrito — pelo menos não se encon
trou, ainda, cópia nos documentos apreendidos aos nazistas. Evidencia-se que a
ordem muito provavelmente foi dada verbalmente a Gõring, Himmler e Heydrich,
os quais a transmitiram durante o verão e o outono de 1941. Algumas testemunhas,
* Grifo do autor. Uma tradução errônea da última linha, dando à palavra alemã Endlõsung o significado
"solução desejada" em vez de "solução final", na cópia inglesa do documento, permitiu que o juiz
Jackson, que não sabia alemão, deixasse Gõring, na inquirição, escapar com a alegação de que jamais
usara aquele termo sinistro. (Ver nQ54.) "A primeira vez que eu soube desses horríveis extermínios
foi aqui em Nuremberg!", exclamou Gõring em dado momento.
** Ver capítulo "Sitzkrieg na frente ocidental" neste livro.
468 O COMEÇO DO FIM
depondo em Nuremberg, declararam terem4ouvido falar nela”; nenhuma, porém,
confessou tê-la visto. Assim, Hans Lammers, o impetuoso chefe da chancelaria do
Reich, respondeu após insistentes perguntas do tribunal:
Soube que uma ordem do Führer havia sido transmitida por Gõring a
Heydrich (...) Essa ordem chamava-se Solução Final do Problema Judaico.53
Lammers alegou, porém, como fizeram tantos outros perante o tribunal, que
não sabia do que realmente se tratava, até o momento em que o promotor dos
Aliados lhe revelou em Nuremberg.*
No começo de 1942 vai chegar o tempo, conforme disse Heydrich, “para re
solver o problema fundamental” da “solução final”, a fim de que ela pudesse ser
levada a efeito e concluída. Para esse fim, Heydrich convocou para uma reunião,
em 20 de janeiro de 1942, representantes dos vários ministérios e agências das
S.S.-S.D., em Wannsee, o agradável subúrbio de Berlim; as minutas dessa reunião
exerceram importante papel em alguns dos julgamentos mais tarde realizados em
Nuremberg.54 A despeito das dificuldades que a Wehrmacht sofria na Rússia, os
funcionários nazistas acreditavam que a guerra estava quase ganha e que a Ale
manha estaria logo dominando toda a Europa, incluindo a Inglaterra e a Irlanda.
Portanto, declarou Heydrich aos 15 altos funcionários que participaram da reu
nião, “no decurso desta Solução Final do problema judaico na Europa, acham-se
envolvidos 11 milhões de judeus”. Deu, depois, as cifras para cada país. Havia
apenas 131.800 que tinham ficado no primitivo território do Reich (de um total
de 250 mil em 1939); mas na Rússia, disse, havia cinco milhões, na Ucrânia três
milhões, no governo geral da Polônia 2,25 milhões, na França 750 mil e na Ingla
terra 333 mil. Isso significava que todos eles deviam ser exterminados. Explicou
depois quão considerável era a tarefa a ser executada.
* Lammers foi condenado, em abril de 1949, a vinte anos de prisão pelo tribunal americano, em Nurem
berg, por causa, principalmente, de sua responsabilidade nos decretos contra os judeus. Mas, como no
caso da maioria de outros nazistas condenados — cujas sentenças foram grandemente reduzidas pelas
autoridades americanas — sua pena foi comutada, em 1951, para dez anos; foi-lhe dada a liberdade, da
prisão de Landsberg, ao fim desse ano, após ter cumprido, desde o dia de sua primeira prisão, seis anos
de encarceramento. Podia-se notar aqui que a maioria dos alemães, pelo menos no que diz respeito aos
sentimentos que manifestaram no Parlamento da Alemanha Ocidental, não aprovaram até mesmo as
sentenças relativamente suaves impostas aos cúmplices de Hitler. Certo número desses cúmplices, que
os Aliados passaram para a custódia alemã, não foi sequer levado à barra de um tribunal, mesmo quan
do acusados de assassínio em massa, e alguns encontraram emprego depressa no governo de Bonn.
A NOVA ORDEM 469
Os judeus devem ser agora, no decurso da Solução Final, levados para
leste (...) a fim de serem utilizados como mão-de-obra. Em grandes
grupos, com separação de sexos, os judeus capacitados para o trabalho
serão levados a essas áreas e empregados na construção de estradas,
tarefa na qual se perderá, naturalmente, a maior parte deles.
Os remanescentes, os que puderem sobreviver a tudo isso — inegavel
mente os de maior resistência — devem ser tratados de acordo por
quanto, representantes de uma seleção natural, devem ser considerados
a célula germinativa da nova criação judaica.
Em outras palavras: os judeus da Europa deviam, em primeiro lugar, ser trans
portados para a parte conquistada do leste; trabalhariam ali até que o trabalho os
liquidasse; os poucos fortes que sobrevivessem, seriam simplesmente condenados
à morte. E os judeus, milhões deles, que residiam no leste e já estavam seguros? O
secretário de Estado, dr. Josef Bühler, representando o governador-geral da Polô
nia, tinha uma sugestão para eles. Havia quase 2,5 milhões de judeus na Polônia,
disse, os quais ‘constituem grande perigo”. Eram, explicou, “portadores de molés
tias, negociantes do mercado negro e, além disso, incapacitados para o trabalho”.
Não havia problema de transporte com esses 2,5 milhões. Já estavam lá.
Tenho apenas um pedido a fazer [concluiu o dr. Bühler]: que o proble
ma judaico em meu território seja resolvido o mais depressa possível.
Esse bom secretário de Estado traía uma impaciência partilhada pelos altos
círculos nazistas e até por Hitler. Nenhum deles compreendeu naquele tempo —
de fato até o fim de 1942, quando era demasiado tarde — quão valioso poderiam
ter sido esses milhões de judeus para o Reich, como trabalhadores-escravos.
Àquela época, compreenderam apenas que levariam algum tempo para matá-los
com o trabalho nas estradas da Rússia. Conseqüentemente, muito antes que essas
infelizes criaturas pudessem morrer pela força do trabalho — em muitos casos
não se chegou mesmo a fazer tal tentativa —, Hitler e Himmler decidiram liqui-
dá-los por meios mais rápidos.
Havia dois meios, os principais. Um deles, conforme vimos, teve início logo
depois da invasão da Rússia, no verão de 1941. Era o da matança em massa dos
470 O COMEÇO DO FIM
judeus poloneses e russos pelos pelotões de fuzilamentos dos Einsatzgruppen, os
quais são responsáveis pela morte de, aproximadamente, 750 mil judeus.
Esse era o método de conseguir a “solução final” que Himmler tinha em vista
quando se dirigia aos generais das S.S., em Posen, no dia 4 de outubro de 1943.
(...) Desejo também falar-vos francamente sobre um assunto muito
grave. Deve-se, entre nós, mencioná-lo com franqueza. Cumpre, con
tudo, jamais falarmos sobre isso em público (...)
Refiro-me (...) ao extermínio da raça judaica (...) Muitos, entre vós, de
vem saber o que significa quando cem ou quinhentos ou mil corpos
jazem um ao lado do outro. Tendo suportado isso e ao mesmo tempo
— salvo exceções causadas pela fraqueza humana — permanecermos
criaturas dignas, é o que nos fez fortes. É essa uma página de glória de
nossa história que jamais foi escrita e jamais o será (...)55
Sem dúvida, o míope chefe das S.S., que quase desmaiara ao ver uma centena
de judeus orientais, inclusive mulheres, sendo executados para sua própria satis
fação, teria visto no eficiente trabalho dos oficiais das S.S. nas câmaras de gás dos
campos de extermínio uma página ainda mais gloriosa da história alemã. Pois foi
nesses campos de morte que a “solução final” atingiu seu êxito mais apavorante.
Os campos de extermínio
Todos aqueles principais trinta e tantos campos de concentração dos nazistas
eram campos de morte. Neles morreram milhões de criaturas torturadas e fa
mintas.* Embora as autoridades mantivessem registros — cada campo tinha seu
Totenbuch (livro de óbitos) oficial —, eles eram incompletos e, em muitos casos,
foram destruídos à aproximação das forças aliadas vitoriosas. Parte de um Totenbuch
que escapou à destruição em Nauthausen dava a relação de 35.318 mortes, de
janeiro de 1939 a abril de 1945.** No fim de 1942, quando começou a tornar-se
* Kogon calcula a cifra em 7.125.000, de um total de 7.820.000 ocupantes, mas, indubitavelmente, ela
é muito elevada. (Kogon, The Theoryand PraticeofHell, p. 277.)
** O comandante do campo, Franz Ziereis, deu o total como sendo de 65 mil.56
A NOVA ORDEM 471
aguda a necessidade de trabalhadores-escravos, Himmler ordenou que “se redu
zisse” o índice de morte nos campos de concentração. Dada a falta de mão-de-
obra, causou-lhe desagrado um relatório recebido em seu escritório, comunican
do que de 136.700 pessoas enviadas aos campos de concentração, de junho a
novembro de 1942, 70.610 haviam morrido e que, além disso, 9.267 haviam sido
executadas e 27.846 transferidas.57 Isto é, para as câmaras de gás. Isso não deixava
muita gente para o trabalho.
Mas foi nos campos de extermínio, Vernichtungslager, que se fizeram expressi
vos progressos para a “solução final”. O maior e o mais célebre foi o de Auschwitz,
cujas quatro grandes câmaras de gás e cujos fornos crematórios adjacentes lhe
davam uma capacidade de morte e sepultamento muito além da dos demais: Tre-
blinka, Belzec, Sobibor e Chelmno, todos na Polônia. Havia outros pequenos
campos de concentração nas proximidades de Riga, Vilna, Minsk, Kaunas e Lwów,
que se distinguiam dos principais pelo fato de, neles, serem as pessoas fuziladas
ao invés de envenenadas pelo gás.
Houve, mesmo, em certo período, alguma rivalidade entre os chefes das S.S.
quanto ao gás mais eficiente para acelerar a morte dos judeus. A rapidez consti
tuía fator importante, especialmente em Auschwitz onde, nos últimos tempos, o
campo estabeleceu novos recordes envenenando pelo gás seis mil vítimas por dia.
Um dos comandantes desse campo foi, durante algum tempo, Rudolf Hõss, ex-
convicto que havia sido julgado por crime de morte e que depôs em Nuremberg
sobre a superioridade do gás que empregava.*
A Solução Final da questão judaica significava o extermínio completo
de todos os judeus da Europa. Ordenaram-me em junho de 1941 que
* Nascido em 1900, filho de um pequeno negociante de Baden-Baden, muito católico, que insistia para
que Rudolf fosse padre. Em vez disso Rudolf Hõss ingressou no Partido Nazista em 1922. No ano se
guinte viu-se implicado no assassínio de um professor que, segundo se alega, havia denunciado Leo
Schlageter, sabotador alemão no Ruhr que foi executado pelos franceses tornando-se um mártir nazis
ta. Hõss foi condenado à prisão perpétua.
Em virtude de anistia geral decretada em 1928, foi posto em liberdade. Ingressou nas S.S. dois anos
depois e, em 1934, tornou-se membro do Grupo Central da Morte — das S.S. — , cuja principal tarefa
era manter vigilância nos campos de concentração. Seu primeiro trabalho, nessa unidade, foi em Dachau.
Passou quase toda a vida adulta assim, primeiro como prisioneiro e depois como carcereiro. Depôs li
vremente no julgamento de Nuremberg, até com certo exagero, fazendo além disso declarações escri
tas para a promotoria, sobre as mortes que causou. Entregue posteriormente aos poloneses, foi conde
nado à morte e enforcado em março de 1947, em Auschwitz, cenário de seus maiores crimes.
472 O COM EÇO DO FIM
criasse, em Auschwitz, facilidades para o extermínio. Já havia no gover
no geral da Polônia, nesse tempo, três outros campos de extermínio:
Belzec, Treblinka e Wolzek (...)
Visitei Treblinka para ver como executavam o extermínio. O coman
dante do campo contou-me que havia liquidado oitenta mil pessoas no
decurso de meio ano. Estava muito interessado em liquidar todos os
judeus do gueto de Varsóvia.*
Usava gás de monóxido. Eu não achava que seu método fosse muito efi
ciente. Assim, quando instalei o edifício destinado ao extermínio, em
Auschwitz, empreguei o Zyklon B, ácido prússico, que lançávamos na
câmara da morte por uma pequena abertura. Matava as pessoas, na câ
mara de gás, em três a 15 minutos, dependendo das condições climáticas.
Sabíamos que as pessoas estavam mortas quando seus gritos cessavam.
Esperávamos, geralmente, cerca de meia hora para abrir as portas e re
mover os corpos. Nossos comandos especiais tiravam-lhes os anéis e
extraíam-lhes o ouro dos dentes.
Outra vantagem que tivemos sobre Treblinka foi construirmos nossas
câmaras de gás para acomodar duas mil pessoas de uma só vez, ao pas
so que lá as dez câmaras só acomodavam duzentas pessoas cada uma.
Hõss explicou depois a maneira pela qual as vítimas eram selecionadas para
as câmaras de gás, pois nem todos os prisioneiros que chegavam ao campo eram
liquidados, pelo menos imediatamente. Alguns deles eram necessários como
mão-de-obra nas fábricas de produtos químicos da I. G. Farben e nas Usinas
Krupp, onde permaneciam até se exaurirem; estavam, então, preparados para a
“solução final”.
Tínhamos dois médicos das S.S. em função, em Auschwitz, para examinarem
os prisioneiros que para ali eram transportados. Desfilavam eles diante de um dos
médicos que, ali mesmo, dava sua decisão. Os capacitados para o trabalho eram
enviados para o acampamento; os demais seguiam imediatamente para o local de
extermínio. As crianças eram invariavelmente exterminadas por não poderem
trabalhar devido à pouca idade.
* Tarefa que, dado o grande número de judeus e a resistência encontrada, só pôde ser terminada, con
forme veremos, em 1943.
A N OVA O R D E M 473
Herr Hõss sempre continuou aperfeiçoando a arte da matança em massa:
Outro ponto em que levamos vantagem sobre Treblinka é que lá as ví
timas quase sempre sabiam que iam ser exterminadas, ao passo que em
Auschwitz nos esforçávamos por ludibriá-las, fazendo-as pensar que
iam passar por um processo de limpeza. É claro que, freqüentemente,
elas percebiam nossas verdadeiras intenções e, muitas vezes, ocorriam
desordens e dificuldades. Quase sempre as mulheres ocultavam os fi
lhos sob as vestes; quando descobríamos isso, mandávamos natural
mente exterminá-los.
Éramos obrigados a realizar nossa ação em segredo, mas, evidentemen
te, o cheiro nauseabundo decorrente da cremação dos corpos invadia
toda a área, e todos os que viviam nas comunidades circunvizinhas fi
cavam a par das execuções que se processavam em Auschwitz.
Às vezes, explicou Hõss, alguns “prisioneiros especiais” — ao que parece, pri
sioneiros de guerra russos — eram mortos por meio de simples injeções de ben
zina. “Nossos médicos”, acrescentou, “tinham instruções para assinar atestados de
óbito e podiam declarar qualquer coisa como causa da morte”.58*
À rude descrição de Hõss pode ser acrescentado um ligeiro quadro sobre a
morte e eliminação dos corpos das vítimas em Auschwitz, conforme o depoi
mento de prisioneiros e carcereiros. A seleção, que resolvia quais os judeus que
deviam trabalhar e quais os que deviam morrer imediatamente por envenena
mento pelo gás, realizava-se no desvio ferroviário assim que as vítimas eram
descarregadas dos vagões de carga, nos quais haviam estado encerradas, sem
alimentos e sem água, durante quase uma semana, pois muitas delas vinham de
locais distantes, por exemplo: da França, da Holanda e da Grécia. Embora se
verificassem cenas lancinantes, como a de mulheres arrancadas dos maridos e
as crianças dos pais, nenhum dos prisioneiros, conforme depôs Hõss e com o que
os sobreviventes concordaram, tinha idéia da sorte que os aguardava. De fato,
* Atestava-se, geralmente, "moléstia do coração" O próprio Kogon, que esteve em Buchenwald duran
te oito anos, cita exemplos:" (...) O paciente morreu, após prolongados sofrimentos, em (...) às (...) horas.
Causa da morte: fraqueza cardíaca complicada com pneumonia". (Kogon, The Theory and Practice of
Hell, p. 218). Dispensaram-se tais formalidades, em Auschwitz, quando se iniciou o envenenamento
pelo gás, em massa. Muitas vezes não eram contados os que morriam em cada dia.
474 ° COM EÇO DO FIM
alguns deles recebiam belos cartões postais, marcados Waldsee, para assinarem e
mandarem aos parentes que haviam ficado em seus países. Em tais cartões havia
uma inscrição impressa que dizia.
Estamos passando muito bem aqui. Temos trabalho e estamos sendo bem
tratados. Aguardamos sua vinda.
As próprias câmaras de gás e os fornos crematórios anexos, contemplados
mesmo a pequena distância, não pareciam lugares sinistros; era impossível adivi
nhar o fim a que se destinavam. Estendia-se acima deles um relvado bem cuidado,
bordejado de flores; as tabuletas existentes nas portas diziam: Banhos. Os judeus,
que de nada suspeitavam, julgavam estar sendo simplesmente levados para os
banhos a fim de serem submetidos a limpeza, comum em todos os acampamen
tos. E eram conduzidos ao som de doce música!
Havia música ligeira. Conforme se lembrou um sobrevivente, formara-se, en
tre os ocupantes do campo, uma orquestra composta “de jovens e bonitas rapari
gas, todas vestidas de blusa branca e saia azul-marinho”. Enquanto era feita a sele
ção para as câmaras de gás, o singular conjunto musical executava animados
trechos de A viúva alegre e Contos de Hoffmann. Nada da música solene e sombria
de Beethoven. As marchas fúnebres, em Auschwitz, eram melodias animadas e
alegres, extraídas de operetas vienenses e parisienses.
Ao som dessa música, que lembrava tempos mais felizes e mais frívolos, eram
os homens, as mulheres e as crianças levados para as “casas de banhos”, onde lhes
ordenavam que se despissem, medida preparatória para o “banho de chuveiro”.
Davam-lhes, às vezes, até toalhas. Assim que entravam no “compartimento de
banho de chuveiro” — e talvez só então suspeitassem de que algo não estava certo,
uma vez que cerca de duas mil pessoas ali ficavam comprimidas, o que dificultaria
o banho — a porta maciça deslizava e era hermeticamente fechada a chave e sela
da. No alto, onde o relvado e os canteiros de flores bem cuidados quase ocultavam
as tampas, em forma de cogumelos, dos respiradouros que subiam da câmara de
morte, serventes achavam-se a postos para lançar sobre os prisioneiros cristais
azul-ametista do cianido de hidrogênio ou Zyklon B, que a princípio fora fabrica
do comercialmente como forte desinfetante e para o qual, conforme vimos, Herr
Hõss se orgulhava de haver descoberto uma nova aplicação.
A NOVA ORDEM 475
Os prisioneiros sobreviventes, que contemplavam das adjacências, lembra-
vam-se mais tarde de como foi dado por um sargento chamado Moll, uma vez, o
sinal para que os serventes lançassem os cristais pelos respiradouros: “Na, gib ihnen
schon zufressen ” (Está bem, dê-lhes algo para devorar). O sargento riu-se e os
cristais foram lançados pelas aberturas, as quais foram depois seladas.
Os carrascos podiam observar através do espesso vidro das vigias o que estava
acontecendo. Os prisioneiros nus, em baixo, olhavam para cima, para os chuvei
ros de onde não saía água alguma ou, talvez, para o chão, admirados de não verem
escoadouros. Passavam alguns momentos antes do gás produzir efeito. Logo, po
rém, os infelizes o percebiam saindo de perfurações nos respiradouros. Era então
que, geralmente, se viam presas do pânico; afastavam-se dos encanamentos, com
primindo-se, e, finalmente, corriam para a gigantesca porta de metal onde, se
gundo as palavras de Reitlinger, “se amontoavam qual uma pirâmide salpicada de
sangue escuro e viscoso, agarrando-se e contundindo uns aos outros até mesmo
na morte”.
Vinte ou trinta minutos depois, quando a gigantesca massa de corpos nus ha
via cessado de contorcer-se, bombas extraíam o ar venenoso, a porta abria-se e os
homens do Sonderkommando levavam a efeito sua tarefa. Eram judeus do acam
pamento, aos quais se tinha prometido vida e alimentação adequada em troca
desse serviço, o mais horrível de todos.* Protegidos por máscaras contra gás e
botas de borracha, e manejando mangueiras, começavam a trabalhar. Reitlinger
descreveu a operação.
A primeira tarefa deles era remover o sangue e as fezes antes de sepa
rar e arrastar com cordas e ganchos aqueles corpos agarrados uns aos
outros, prelúdios da busca ao ouro e da remoção dos dentes e cabelos
que eram considerados materiais estratégicos pelos alemães. Depois, o
transporte por elevador ou vagão para os fornos, o moinho que os re
duzia a cinzas muito finas e o caminhão que espalhava as cinzas nas
águas do Sola.**
* Inevitável e sistematicamente eram liquidados depois nas câmaras de gás e substituídos por novos
grupos que tinham o mesmo fim. As S.S. não queriam que sobrevivesse alguém para contar a história.
** Testemunhou-se, nos julgamentos de Nuremberg, que as cinzas eram às vezes vendidas como fertili
zante. Uma firma de Dantzig, segundo um documento apresentado pela promotoria russa, construiu
476 o COMEÇO DO FIM
Mostram os registros que houve competição um tanto intensa entre os nego
ciantes alemães, a fim de conseguirem construir esses engenhos de morte e elimi
nação e para o fornecimento dos letais cristais azuis. A firma I. A. Tropf & Sons,
de Erfurt, fabricante de equipamentos para aquecimento, ganhou a concorrência
aberta para instalação dos fornos crematórios de Auschwitz. Revelou-se a história
dessa empresa comercial numa volumosa correspondência encontrada nos regis
tros do acampamento. Uma carta da firma, datada de 12 de fevereiro de 1943, tem
o seguinte teor:
Ao Escritório Central de Construções das S.S. e da Polícia, Auschwitz:
Assunto: Crematórios 2 e 3 para o acampamento.
Acusamos a recepção de seu pedido de cinco fornos triplos, inclusive
dois elevadores elétricos para transportar os corpos e um elevador de
emergência. Foi também encomendada uma instalação prática para es-
tocagem de carvão, bem como uma para transportar cinzas.60
Tropf & Sons, de Erfurt, não era porém a única firma nesse horrendo negócio.
Surgiram os nomes de duas outras e parte de sua correspondência, nos julga
mentos de Nuremberg. A disposição que se dava aos cadáveres em outros acam
pamentos havia atraído também a competição comercial. Assim, as Usinas
Didier, de Berlim, entraram na concorrência para instalação de um forno num
acampamento nazista de Belgrado, declarando que podiam fornecer um produto
muito superior.
Para a colocação dos corpos nos fornos, sugerimos simplesmente uma
forquilha de metal funcionando sobre cilindros.
Cada forno terá uma divisão, medindo apenas 60cm x 45cm, porque
não serão usados caixões. Para o transporte dos cadáveres, dos pontos
de armazenamento para os fornos, sugerimos o uso de carretas leves
sobre rodas, das quais incluímos diagramas feitos em escala.61
um tanque com aquecimento elétrico para fazer sabão de gordura humana. Sua fórmula era 12 libras
de gordura humana, dez quartos de água e oito onças de soda cáustica por libra (...) fervendo-se tudo
durante duas ou três horas e deixando-se depois esfriar.59
A NOVA ORDEM 477
Outra firma, C. H. Kori, procurou também negociar o acampamento de Bel
grado, salientando sua grande experiência nesse setor, porque já havia construído
quatro fornos para Dachau e cinco para Lublin, os quais, dizia, haviam dado “ple
na satisfação na prática”.
Em prosseguimento às conversações que tivemos relativamente à en
trega de equipamento de construção simples para a cremação de cor
pos, submetemos os projetos de nossos fornos crematórios que operam
com carvão e que, até agora, têm dado plena satisfação.
Sugerimos dois fornos crematórios para o edifício projetado, mas acon
selhamos que façam novos estudos para se assegurarem de que dois
fornos serão suficientes para suas necessidades.
Garantimos a eficácia desses fornos crematórios bem como sua dura
bilidade, dado o excelente material neles empregado e o impecável
acabamento.
Aguardando suas notícias, aqui estamos a seu dispor.
Heil Hitler!
C. H. Kori, G.m.b. H.62
Afinal, mesmo os ingentes esforços das empresas livres alemãs empregando o
melhor material e oferecendo impecável acabamento, provaram serem os fornos
inadequados para a queima de cadáveres. Os bem construídos fornos cremató
rios não davam vazão às exigências em certos acampamentos, especialmente em
Auschwitz, em 1944, quando cerca de seis mil corpos (nas palavras de Hõss cerca
de 16 mil) deviam ser cremados diariamente. Em 46 dias, por exemplo, durante o
verão de 1944, só de judeus húngaros foram liquidados nesse acampamento de
250 mil a 300 mil. Mesmo as câmaras de gás existentes não foram suficientes, re
correndo-se a fuzilamentos em massa no estilo dos Einsatzgruppen. Os corpos
eram simplesmente lançados nas valas e queimados, muitos deles apenas em par
te, e cobriam-nos depois com terra despejada por um bulldozer. Os comandantes
dos acampamentos queixaram-se, nos últimos tempos, de que os fornos crematórios
provaram ser não só inadequados como também antieconômicos.
Os cristais Zyklon B, que matavam as vítimas, foram fornecidos por duas fir
mas alemãs que haviam adquirido a patente de I. G. Farben. Eram elas Tesch &
4 O COM EÇO DO FIM
Stabenow, de Hamburgo, e Degesch, de Dessau, a primeira fornecendo duas tone
ladas de cristais de cianido por mês e a segunda setecentos quilos. Foram exibi
dos, em Nuremberg, os conhecimentos de embarque.
Os diretores de ambas as firmas alegaram que haviam vendido o produto so
mente para fins de fumigação e que ignoravam que fizessem uso letal dele. Essa
alegação em sua defesa não resistiu aos argumentos. Encontraram-se cartas de
Tesch & Stabenow oferecendo-se para fornecer não só os cristais de gás como,
também, equipamento para ventilação e aquecimento das câmaras de extermínio.
Além disso, o inimitável Hõss, quando começou a confessar, falou por paus e por
pedras e declarou que os diretores da companhia Tesch não podiam ignorar o uso
que se fazia de seu produto, porque tinham fornecido o suficiente para extermi
nar dois milhões de pessoas. O tribunal militar britânico convenceu-se disso no
julgamento dos dois sócios, Bruno Tesch e Karl Weinbacher, os quais foram con
denados à morte em 1946 e enforcados. O diretor da segunda firma — a Degesch,
de Dessau —, dr. Gerherd Peters, conseguiu pena mais leve. Um tribunal alemão
condenou-o a cinco anos de prisão.63
Antes dos julgamentos de pós-guerra, na Alemanha, acreditava-se geralmen
te que as matanças em massa eram obra exclusiva de um pequeno número de
chefes nazistas das S.S. Mas os registros dos tribunais não deixam dúvida quanto
à cumplicidade de certo número de homens de negócios alemães, não só da
Krupp e os diretores do truste de produtos químicos I. G. Farben, mas, também,
de diretores de pequenas empresas que, exteriormente, deviam ter parecido ho
mens dos mais prosaicos e decentes pilares — como todos os bons negociantes
— de suas comunidades.
Quantas inocentes e infelizes criaturas — na maioria judias, mas incluindo
número elevado de outras, especialmente prisioneiros de guerra russos — foram
mortas naquele acampamento de Auschwitz? Nunca se saberá o número exato. O
próprio Hõss, em seu depoimento, calculou em “2,5 milhões executadas e exter
minadas, por gás e cremação, e pelo menos mais quinhentas mil que sucumbiram
de fome e moléstias, perfazendo o total de três milhões”. Mais tarde, em seu pró
prio julgamento em Varsóvia, ele reduziu a cifra para 1.135.000. O governo sovié
tico, que investigou o caso depois de invadido o acampamento pelo Exército Ver
melho em janeiro de 1945, deu a cifra de quatro milhões. Reitlinger, baseando-se
em seus exaustivos estudos, duvida que os envenenados pelo gás, em Auschwitz,
A NOVA ORDEM 479
“alcançassem a cifra de 750 mil”; calcula que cerca de seiscentos mil morreram
nas câmaras de gás, número a que acrescenta “a proporção desconhecida” de uns
trezentos mil, ou mais, desaparecidos, fuzilados ou mortos pela fome e moléstias.
Em qualquer das estimativas, no entanto, a cifra é considerável.64
Os corpos eram cremados, mas as incrustações de ouro dos dentes eram reti
radas das cinzas se já não o tivessem sido por grupos especiais que operavam nas
pilhas de cadáveres/ O ouro era fundido e remetido, juntamente com outros bens
de valor apreendidos aos judeus condenados, para o Reichsbank, onde, segundo
um acordo secreto entre Himmler e o presidente do estabelecimento bancário, dr.
Walther Funk, era depositado a crédito das S.S. numa conta a que davam um
nome suposto: “Max Heiliger”. Essa pilhagem valiosa nos campos de extermínio
incluía, além do ouro dos dentes, relógios, brincos, braceletes, anéis e colares de
ouro, e até armações de óculos, pois os judeus haviam sido encorajados a levarem
todos os objetos de valor para o “novo local de colonização” que lhes prometiam.
Havia também grandes estoques de jóias, especialmente diamantes, e muita pra
taria. Havia ainda muito dinheiro em espécie.
O Reichsbank ficou sobrecarregado com os depósitos da conta de “Max
Heiliger”. Com as caixas-fortes abarrotadíssimas mesmo em 1942, os diretores,
com o espírito voltado para os lucros, procuraram transformar aqueles depósitos
em moeda sonante, dispondo deles através das casas de penhores municipais.
Uma carta do Reichsbank à casa de penhores municipal de Berlim, datada de 15
de setembro, fala em uma “segunda remessa” e começa assim: “Submetemos a Vv.
Ss. os seguintes valores para os quais solicitamos a melhor utilização possível.” A
lista é longa e inclui 154 relógios e 1.601 brincos de ouro, 132 anéis de brilhantes,
784 relógios de bolso, de prata, e “160 dentaduras, parte delas de ouro”. Em come
ço de 1944, a mesma casa de penhores de Berlim, abarrotada pelo afluxo desses
valores, informava o Reichsbank que já não podia aceitar novas remessas. Quan
do os Aliados invadiram a Alemanha, descobriram em algumas minas de sal-
gema abandonadas, onde os nazistas haviam ocultado parte de seus documentos
* As incrustações eram às vezes arrancadas antes de as vítimas serem mortas. Um relatório secreto do
administrador alemão de Minsk revelou que, após ter ele requisitado os serviços de um dentista judeu,
"todos os judeus mandaram remover suas pontes, coroas e incrustações de ouro. Isso aconteceu sem
pre dentro de uma ou duas horas antes da ação especial" O administrador anotou que, dos 516 judeus
alemães e russos executados em sua prisão durante um período de seis semanas, na primavera de
1943,336, aproximadamente, mandaram tirar as incrustações de ouro dos dentes.65
480 O COMEÇO DO FIM
e pilhagens, o que sobrara da conta de “Max Heiliger”, o suficiente para encher
três grandes caixas-fortes na filial do Reichsbank em Frankfurt.66
Conheciam os banqueiros a fonte desses “depósitos” singulares? O gerente do
Departamento de Metais Preciosos do Reichsbank depôs, em Nuremberg, que
ele e seus colegas haviam começado a notar que muitas remessas procediam de
Lublin e Auschwitz.
Nós todos sabíamos que nesses lugares estavam localizados campos de
concentração. Foi na décima remessa, em novembro de 1943, que apa
receram as incrustações de ouro. A quantidade delas passou a ser ex
traordinariamente grande.67
Em Nuremberg, o famigerado Oswald Pohl, chefe do Escritório Econômico
das S.S. que fazia as transações para sua organização, salientou que o dr. Funk, os
funcionários e os diretores do Reichsbank conheciam muito bem a origem dos
valores que procuravam empenhar. Explicou, com minúcias, “a transação entre
Funk e a S.S. relativa à remessa dos valores dos judeus mortos, ao Reichsbank”.
Lembrou uma conversa que teve com o dr. Emil Pohl, vice-presidente do banco.
Nessa conversa, não restou dúvida alguma de que os objetos a serem
entregues [vinham de] judeus que haviam sido mortos nos campos de
concentração. Os objetos em questão eram anéis, relógios, óculos,
barras de ouro, alianças, broches, alfinetes, incrustações de ouro e ou
tros bens.
Certa vez, relatou Pohl, após uma visita de inspeção às caixas-fortes do Rei
chsbank, onde os bens “dos judeus mortos” foram examinados, o dr. Funk ofere
ceu ao grupo que fizera a inspeção um excelente jantar durante o qual se conver
sou sobre a origem singular daquelas pilhagens.68*
* O dr. Funk foi condenado, em Nuremberg, à prisão perpétua.
A NOVA ORDEM 48 1
“O gueto de Varsóvia não existe mais”
Mais de uma testemunha ocular teceu comentários sobre o espírito de resig
nação com que tantos judeus enfrentaram a morte nas câmaras de gás dos nazis
tas, ou nas grandes valas onde eram executados pelos grupos do Einsatz. Nem
todos, porém, submeteram-se passivamente ao extermínio. Na primavera de 1943,
cerca de sessenta mil encerrados do gueto de Varsóvia — o que restara de quatro
centos mil que ali foram segregados, como gado, em 1940 — voltaram-se contra
seus algozes e lutaram.
Talvez ninguém tenha feito uma descrição mais tétrica — e mais autorizada
— da rebelião do gueto de Varsóvia do que o orgulhoso oficial das S.S. que a
esmagou.* Esse indivíduo alemão era Jürgen Stroop, chefe de brigada das S.S. e
general de divisão da polícia. Seu eloqüente relatório oficial, encadernado em
couro, profusamente ilustrado e datilografado em 75 páginas de excelente papel,
ainda existe.** Intitula-se O gueto de Varsóvia não existe mais.69
No fim do outono de 1940, um ano depois da conquista da Polônia pelos na
zistas, as S.S. arrebanharam cerca de quatrocentos mil judeus e isolaram-nos do
resto da população de Varsóvia numa área de mais ou menos 3,2 quilômetros de
extensão por 1,6 de largura, limitada pelo paredão do antigo gueto medieval. O
distrito abrigava normalmente 160 mil pessoas; ficou, assim, superpovoado. Dos
males, porém, esse era o menor. O governador Frank recusou-se a conceder man
timentos suficientes para manter vivos até mesmo metade dos quatrocentos mil.
Proibidos de deixar aquela área sob pena de serem fuzilados, os judeus não ti
nham outra ocupação a não ser trabalhar, no gueto, para algumas fábricas de ar
mamentos dirigidas pela Wehrmacht ou por gananciosos industriais alemães que
sabiam como conseguir grandes lucros servindo-se de mão-de-obra escrava. Cem
mil judeus, pelo menos, esforçavam-se por sobreviver com um prato de sopa por
dia, a qual, às vezes, era de palha fervida que recebiam dos outros por caridade.
Tratava-se de uma luta pela vida fadada à derrota.
* O romance de John Hersey, The Wall, baseado nos documentos judaicos, é a história épica dessa
rebelião.
** O mesmo não se dá com Stroop. Foi capturado depois da guerra, condenado à morte pelo tribunal
americano em Dachau em 22 de março de 1947, pelo fuzilamento de reféns na Grécia, e extraditado
depois para a Polônia, onde foi julgado pelo morticínio dos judeus no gueto de Varsóvia. Foi novamen
te condenado à morte e enforcado no palco do crime em 8 de setembro de 1951.
482 O COMEÇO DO FIM
Mas a população do gueto não morreu de fome e de moléstias suficientemente
depressa para satisfazer Himmler, o qual no verão de 1942 ordenou que, “por
motivo de segurança”, se removessem os judeus do gueto de Varsóvia. Em 22 de
julho, instituiu-se uma grande operação de recolonização. Dessa data a 3 de outu
bro, seguiu para a recolonização — segundo Stroop — um total de 310.322 ju
deus, isto é, foram transportados para os campos de extermínio, a maioria para
Treblinka, onde foram mortos nas câmaras de gás.
Isso não satisfez Himmler. Quando fez uma visita de surpresa a Varsóvia, em
janeiro de 1943, e descobriu que sessenta mil judeus estavam ainda vivos no gue
to, ordenou que se terminasse a recolonização até 15 de fevereiro. Era uma tarefa
que provou não ser fácil. O rigoroso inverno e as exigências do exército, cujo de
sastre em Stalingrado e conseqüentes retiradas, no sul da Rússia, davam-lhe prio
ridade nas facilidades de transporte, fizeram com que fosse difícil às S.S. obter os
vagões necessários para levar a efeito a recolonização final. Por outro lado os ju
deus — relatou Stroop — estavam resistindo à liquidação final “de todas as manei
ras possíveis”. Foi somente na primavera que a ordem de Himmler pôde ser exe
cutada. Decidiu-se esvaziar o gueto numa “operação especial” que duraria três
dias. Durou quatro semanas.
A deportação de mais de trezentos mil judeus permitiu aos alemães reduzir o
tamanho daquele gueto cercado. Quando o general Stroop, das S.S., na manhã de
19 de abril de 1943, voltou contra ele seus tanques, sua artilharia, seus lança-
chamas e grupos de dinamitadores, o gueto compreendia uma área de apenas 910
metros por 270. Estava, porém, provida de galerias subterrâneas e adegas que os
desesperados judeus haviam transformado em pontos fortificados. Dispunham
de poucas armas: alguns fuzis e pistolas, uma ou duas metralhadoras que haviam
conseguido receber clandestinamente e granadas comuns; mas estavam decididos
a usá-las naquela manhã de abril — a primeira e última vez, na história do Tercei
ro Reich, em que os judeus resistiram com armas a seus opressores nazistas.
Stroop contava com 2.090 soldados, cerca de metade deles do exército regular
e tropas do Waffen-S.S., e o restante policiais das S.S. reforçados por 335 milicia
nos da Lituânia e por alguns policiais e bombeiros poloneses. No primeiro dia
enfrentaram uma resistência inesperada.
Mal começou a operação [informou Stroop no primeiro de seus muitos
relatórios diários, pelo teletipo] vimo-nos frente a frente a um forte
A NOVA ORDEM 483
fogo bem combinado por parte dos judeus e dos bandidos. O tanque e
dois carros blindados foram cobertos de coquetéis Molotov (...) Dado
esse contra-ataque do inimigo, tivemos que nos retirar.
Os alemães tornaram a atacar, mas continuaram a encontrar fortíssima re
sistência.
Por volta das 17:30h, encontramos fortíssima resistência num bloco de
edifícios, incluindo fogo de metralhadora. Um grupo especial fez uma
incursão e derrotou o inimigo, mas não pôde capturar os que resisti
ram. Os judeus e criminosos resistiam de uma base para outra e esca
pavam no último momento (...) Nossas perdas no primeiro ataque: 12
homens.
E assim prosseguiu durante os primeiros dias; os defensores, fracamente ar
mados, cedendo terreno ante o ataque dos tanques, lança-chamas e artilharia,
mas mantendo viva a resistência. O general Stroop não podia compreender por
que “aquele lixo, aqueles subumanos” — referia-se assim aos judeus sitiados —
preferiam ser liquidados a desistir da luta e render-se.
Em poucos dias [informou ele] tornou-se evidente que os judeus não
mais tinham intenção de mudar-se voluntariamente, decididos que es
tavam a resistir à evacuação (...) Conquanto tivesse sido possível, nos
primeiros dias, capturar considerável número deles, covardes por natu
reza, tornou-se cada vez mais difícil capturá-los durante a segunda par
te da operação, a eles e aos bandidos. Repetidas vezes novos grupos de
combate, formados de vinte a trinta judeus acompanhados de igual nú
mero de mulheres, criavam novo foco de resistência.
As mulheres pertenciam à Chalutzim, observou Stroop, e costumavam “atirar
com revólveres, segurando-os com ambas as mãos”, sabendo manejar granadas de
mão que traziam ocultas em suas saias.
No quinto dia da batalha, Himmler, impaciente e furioso, ordenou a Stroop
que “varresse” o gueto “com maior dureza e implacável tenacidade”.
484 O COMEÇO DO FIM
Resolvi, portanto [declarou Stroop em seu relatório final] destruir toda
a área judaica incendiando todos os quarteirões.
Descreveu depois o que se passou.
Os judeus permaneceram nos edifícios em chamas até que, receosos
de serem queimados vivos, se lançaram dos altos andares (...) Com os
ossos quebrados, arrastavam-se ainda pelas ruas indo procurar abri
go nos edifícios que ainda não estavam incendiados (...) A despeito
do perigo de serem queimados vivos, os judeus e os bandidos prefe
riam muitas vezes voltar para as chamas a arriscar-se a serem captu
rados por nós.
Era simplesmente incompreensível, para um homem do tipo de Stroop, que
homens e mulheres preferissem morrer nas chamas, lutando, a morrer tranqüila
mente nas câmaras de gás, pois ele despachava para Treblinka os que capturava e
não matava. Em 25 de abril, enviou uma mensagem ao quartel-general das S.S.,
pelo teletipo, relatando que 27.464 judeus haviam sido capturados.
Vou procurar conseguir um trem para T2 [Treblinka] amanhã. Se não
o conseguir, a liquidação será feita amanhã mesmo, aqui.
Amiúde, a liquidação era feita no próprio local. No dia seguinte, Stroop infor
mou a seus superiores: “1.330 judeus arrancados dos abrigos e destruídos imediata
mente; 362 judeus mortos na batalha. Apenas trinta prisioneiros foram evacuados”.
Mas ou menos ao fim da rebelião, os defensores abrigaram-se nas galerias de
esgotos. Stroop procurou fazê-los sair inundando-as, mas os judeus conseguiram
deter o fluxo das águas. Certo dia, os alemães lançaram bombas de fumaça nas
galerias, através de 183 entradas de inspeção. Deplorou Stroop, em seu relatório,
que elas não tivessem “proporcionado os resultados desejados”.
Não se podia alimentar dúvidas quanto ao resultado final. Durante todo um
mês os judeus encurralados lutaram com indômita coragem, se bem que Stroop,
num de seus relatórios diários, descrevesse o fato diferentemente, queixando-se
dos “diabólicos métodos de luta e das artimanhas que os judeus e os bandidos
A NOVA ORDEM 485
empregavam”. Em 26 de abril, Stroop informou que muitos dos defensores “esta
vam enlouquecendo com o calor, a fumaça e as explosões”.
Durante o dia, vários outros blocos de casas foram reduzidos a cinzas.
É esse, finalmente, o único método que força esse lixo e gente subuma-
na a vir para a superfície.
O último dia era 16 de maio. À noite, Stroop expediu seu último relatório so
bre a batalha.
Foram exterminados 180 judeus, bandidos e subumanos. Já não existe
mais o antigo bairro judaico de Varsóvia. A operação em larga escala foi
terminada às 20:15h com a dinamitação da sinagoga de Varsóvia (...)
Número total de judeus com que nos houvemos: 56.065, incluindo os
capturados e aqueles cujo extermínio se pode provar.
Uma semana depois, solicitado a explicar essa cifra, respondeu:
Do total de 56.065 capturados, cerca de sete mil foram exterminados
no antigo gueto durante a operação em grande escala; 6.929, ao serem
transportados para Treblinka; a soma total de judeus liquidados é, por
tanto, 13.929. Além dessa cifra, de cinco mil a seis mil judeus foram li
quidados nas explosões ou pereceram nas chamas.
A aritmética do general Stroop não é muito clara, porque o relatório deixa de
fora 36 mil judeus, aproximadamente, a respeito dos quais não dá explicação. Mas
não se pode duvidar de que estivesse dizendo a verdade quando escreveu em seu
relatório final, belamente encadernado, que havia liquidado um total de 56.065
judeus cujo extermínio se podia provar. Encontrar-se-ia, nas câmaras de gás, ex
plicação para os 36 mil.
As perdas alemães, segundo Stroop, foram de 16 mortos e noventa feridos. O
número exato era, provavelmente, muito mais elevado dada a natureza daquela
luta selvagem, de casa em casa, que o próprio general descreveu com tão vividas
minúcias; foi, porém, mantido muito baixo a fim de não ferir a grande sensibilidade
486 O COM EÇO DO FIM
de Himmler. As tropas e a polícia alemãs, concluiu Stroop, ‘cumpriram infatiga
velmente seu dever com lealdade e camaradagem, mantendo-se unidas como sol
dados exemplares”.
Prosseguiu-se na “solução final” até o fim da guerra. Quantos judeus foram
massacrados? Tem-se debatido sobre o número exato. Segundo duas testemunhas
das S.S., em Nuremberg, o total foi calculado entre cinco milhões e seis milhões
por um dos grandes especialistas nazistas nessa questão, Karl Eichmann, chefe do
Escritório de Assuntos Judaicos da Gestapo, que levou a cabo a “solução final” sob
a orientação estimulante de Heydrich, seu iniciador.* A cifra apresentada na acu
sação feita em Nuremberg foi de 5,7 milhões e estava de acordo com os cálculos
do Congresso Mundial Judaico. Reitlinger, em seu prodigioso estudo sobre a So
lução Final, concluiu que a cifra era algo menor — entre 4.194.200 e 4.581.200.71
Havia, em 1939, cerca de dez milhões de judeus nos territórios ocupados pelas
forças de Hitler. Considerando-se as estimativas, é certo que quase metade deles
foi exterminada pelos alemães. Foi essa a conseqüência final e o custo esmagador
da aberração que dominou o ditador nazista em seus dias de jovem das sarjetas de
Viena, e que ele transmitiu a tantos de seus adeptos ou com eles partilhou.
Experiências médicas
Os alemães praticaram, durante a curta existência da Nova Ordem, certos atos
que representam o mais puro sadismo do que intenção de praticar crimes em
massa. Talvez haja, para um psiquiatra, diferença entre os dois sentimentos, se
bem que o resultado final difira apenas no número de mortes.
As experiências médicas dos nazistas constituem um exemplo desse sadismo,
pois a utilização dos prisioneiros ocupantes dos campos de concentração como
cobaias humanas, muito pouco benefício trouxe para a ciência, se é que trouxe. É
uma história de horrores, da qual a classe médica alemã não pode orgulhar-se.
Embora as “experiências” fossem conduzidas por menos de duzentos charlatões
* Eichmann, segundo um de seus sequazes, declarou pouco antes do colapso alemão, que "saltaria de
contentamento para o túmulo, porque a sensação de que tinha cinco milhões de pessoas na cons
ciência seria para ele uma fonte de extraordinário prazer".70Provavelmente nunca saltou para o túmu
lo, contente ou de qualquer outro modo. Escapou de um campo de internamento americano em
1945. (Nota do autor: Ao dar entrada no prelo este livro, o governo de Israel anunciou haver captura
do Eichmann).
A NOVA ORDEM 487
criminosos — ainda que alguns deles ocupassem postos eminentes no mundo
médico —, seu trabalho criminoso era conhecido por milhares de médicos im
portantes no Reich sem que um único deles, tanto quanto demonstram os docu
mentos, jamais fizesse o mais leve protesto público.*
Nos assassínios, nesse setor, não foram os judeus as únicas vítimas. Os médi
cos nazistas serviram-se também de prisioneiros de guerra russos, de poloneses
internados nos campos de concentração, homens e mulheres, e até cidadãos ale
mães. As 4experiências” eram muito variadas. Colocavam-se prisioneiros em câ
maras de pressão, submetendo-os a testes de grande altitude até cessarem de res
pirar. Injetavam-lhe doses letais de bacilos de tifo e icterícia. Submetiam-nos a
experiências de ‘gelar” em água ou expunham-nos nus, em plena neve, até mor
rerem congelados. Experimentavam neles balas envenenadas e gás de mostarda.
No campo de concentração para mulheres, em Ravensbrück, provocaram gan
grena com gás em centenas de polonesas — chamavam-nas “coelhinhas” —, sub
metendo outras a “experiências” com enxerto de ossos. Em Dachau e Buchenwald,
escolheram-se ciganas para verificar quanto tempo, e de que maneira, podiam
viver de água salgada. Executaram-se experiências de esterilização em grande es
cala em diversos campos, por diferentes processos, em homens e mulheres, pois
segundo escreveu o médico das S.S. dr. Adolf Pokorny a Himmler, em certa oca
sião, “o inimigo não só deve ser vencido como, também, exterminado”. Se não se
podia matá-lo — e a necessidade de mão-de-obra escrava, mais ou menos no fim
da guerra, tornou questionável essa prática, conforme vimos —, podia-se então
impedi-lo de reproduzir-se. De fato, o dr. Pokorny informou Himmler de que
julgava ter descoberto o meio certo de provocar esterilidade permanente: a planta
Caladium seguinum.
Só a idéia [escreveu esse bom médico ao chefe das S.S.] de que se podia
esterilizar os três milhões de bolcheviques que se acham prisioneiros na
* Nem mesmo o mais famoso cirurgião da Alemanha, dr. Ferdinand Sauerbruch, embora acabasse
tornando-se antinazista e conspirasse com os elementos da resistência. Sauerbruch assistiu a uma
conferência, na Academia de Medicina Militar de Berlim, em maio de 1943, feita por dois dos mais
notórios médicos-assassinos, Karl Gebhardt e Fritz Fischer, sobre a experiência de gangrena produzida
pelo gás, em prisioneiros. O único argumento de Sauerbruch, nessa ocasião, foi que a cirurgia era me
lhor que o uso da sulfanilamida! O professor Gebhardt foi condenado à morte, no julgamento a que
deram o nome de Julgamento dos Médicos, e enforcado em 2 de junho de 1948.0 dr. Fischer foi con
denado à prisão perpétua.
488 O COMEÇO DO FIM
Alemanha, para que possam ser utilizados como mão-de-obra, impedi
dos, porém, de reproduzir-se, oferece as mais brilhantes perspectivas.72
Outro médico alemão oferecia “perspectivas brilhantes”: o professor August
Hirt, chefe do Instituto Anatômico da Universidade de Estrasburgo. Sua especia
lidade era algo diferente da dos demais. Explicou-a numa carta, por ocasião do
Natal de 1941, ao general Rudolf Brandt, assistente de Himmler.
Temos grandes coleções de crânios de quase todas as raças e povos à
nossa disposição. Da raça judaica, porém, poucos são os espécimes
existentes (...) A guerra, no leste, apresenta-nos agora a oportunidade
para anular essa deficiência. Conseguindo-se os crânios dos comissá
rios bolcheviques judeus, que representam o protótipo dos repulsivos,
embora característicos subumanos, temos agora a chance de obter ma
terial científico.
O professor Hirt não desejava crânios de “comissários bolcheviques judeus” já
mortos. Propôs que se medisse a cabeça dessas pessoas enquanto vivas. Depois...
em seguida à morte que se provocará no judeu, cuja cabeça não deve
ser danificada, o médico separará esta última do corpo e a despachará
(...) numa lata hermeticamente fechada.
Depois disso, o dr. Hirt iria trabalhar, prometeu ele, em novas medições cien
tíficas.73 Himmler ficou satisfeitíssimo. Ordenou que o professor Hirt “recebesse
tudo que fosse necessário a suas pesquisas”.
Ele foi bem suprido. O verdadeiro abastecedor era um interessante nazista de
nome Wolfram Sievers, que despendeu considerável tempo quando depôs no
principal julgamento de Nuremberg e no subseqüente Julgamento dos Médicos,
ocasião em que figurou como réu * Sievers, um antigo livreiro, galgou o posto de
coronel das S.S. e assumiu o cargo de secretário-executivo do Ahnenerbe, Insti
tuto de Pesquisas sobre Hereditariedade, uma das ridículas organizações cultu
rais criadas por Himmler a fim de cultivar uma de suas muitas loucuras. Tinha,
* Foi, depois, condenado à morte e enforcado.
A NOVA ORDEM 489
segundo Sievers, cinqüenta “filiais para pesquisas”, uma das quais era denomina
da Instituto de Pesquisas Científicas Militares, e também dirigida por Sievers.
Era ele um indivíduo de expressão mefistofélica, olhar astuto, barba de azeviche;
apelidaram-no em Nuremberg de “o barba-azul nazista” à imitação do famoso
assassino francês. Como inúmeros outros personagens, nesta história, mantinha
um meticuloso diário. O diário e sua correspondência, que ainda existem, contri
buíram para seu fim na forca.
Em junho de 1943, Sievers havia arrebanhado em Auschwitz os homens e mu
lheres que deveriam fornecer os esqueletos destinados às “medições científicas”
do dr. Hirt, na Universidade de Estrasburgo. “Um total de 115 pessoas, que in
cluíam 79 judeus, trinta judias, quatro asiáticos e dois poloneses foram processa
dos”, informou Sievers ao escritório central das S.S., em Berlim, pedindo trans
porte para eles de Auschwitz para o campo de concentração existente nas
proximidades de Estrasburgo. O promotor britânico em Nuremberg perguntou
qual era o significado de “processar”.
— Medições antropológicas — respondeu Sievers.
— Antes de serem assassinados eram antropologicamente medidos? Era o que
se fazia, não?
— E tiravam-se moldes — acrescentou Sievers.
O que se segue foi narrado por Josef Kramer, capitão das S.S., ele mesmo um
exterminador veterano de Auschwitz, Mauthausen, Dachau e outros campos, e
que gozou de fama passageira como “a Fera de Belsen”. Foi condenado à morte
por um tribunal britânico, em Lüneburg.
O professor Hirt, do Instituto Anatômico de Estrasburgo, informou-me
a respeito do comboio que estava a caminho, procedente de Auschwitz.
Declarou que aquelas pessoas deviam ser mortas por meio de gás vene
noso nas câmaras do campo de Natzweiler, e os corpos seriam enviados
depois para o Instituto Anatômico, onde ficariam à sua disposição.
Deu-me uma garrafa contendo um quartilho de sais — creio que era
um cianureto — e informou-me a dosagem aproximada que eu deveria
usar para envenenar os novos internados de Auschwitz.
Em princípios de agosto de 1943, recebi oitenta, que deviam ser mortos
com o gás que Hirt me havia fornecido. Fui uma noite, num pequeno
490 O COMEÇO DO FIM
carro, à câmara de gás com mais ou menos 15 mulheres, na primeira
vez. Disse-lhes que tinham de entrar na câmara para serem desinfeta
das. Não lhes falei que seriam envenenadas pelo gás.
A esse tempo, os nazistas haviam aperfeiçoado a técnica.
Com o auxílio de alguns soldados das S.S. [continuou Kramer] despi
mos as mulheres e as empurramos para dentro da câmara de gás assim
que ficaram completamente nuas.
Logo que se fechou a porta, elas começaram a gritar. Introduzi certa
quantidade do sal através de um tubo (...) e observei por uma vigia o
que estava acontecendo na câmara. As mulheres respiraram durante
cerca de meio minuto antes de caírem ao chão. Depois que abri a chave
para a ventilação, abri a porta. Encontrei as mulheres estendidas no
chão, sem vida e cobertas de excremento.
O capitão Kramer depôs que repetiu a tarefa até que todos os oitenta interna
dos foram mortos; mandou os corpos para o professor, ‘conforme havia sido pe
dido”. Seu inquiridor perguntou qual fora sua sensação naquela ocasião. Deu Kra
mer uma resposta memorável, que deixa perceber a existência, no Terceiro Reich,
de um fenômeno que parece fugir à compreensão humana.
Eu não tinha sensação alguma ao executar aquelas coisas, porque havia
recebido ordens para matar os oitenta internados da maneira que lhe
contei.
A propósito, foi assim que fui treinado74
Outra testemunha, em seu depoimento, declarou o que aconteceu depois. Foi
Henry Herypierre, um francês que trabalhava no Instituto Anatômico de Estras
burgo, como assistente de laboratório do professor Hirt até a chegada dos Aliados.
A primeira remessa que recebemos foi a dos corpos de trinta mulheres
(...) Esses corpos femininos chegaram ainda quentes. Os olhos estavam
estatelados e brilhantes; estavam congestionados e pareciam saltar das
A NOVA ORDEM 491
órbitas. Havia também traços de sangue em volta do nariz e da boca.
Não havia evidência de rigor mortis.
Herypierre suspeitou que as mulheres tivessem sido assassinadas e, secreta
mente, tomou nota dos números tatuados nos braços que haviam recebido na
prisão. Chegaram mais duas remessas, de homens, disse ele, exatamente nas mes
mas condições. Foram conservados em álcool sob a hábil direção do dr. Hirt. Mas
o professor ficou um pouco nervoso com tudo aquilo. “Peter”, disse ele a Hery
pierre, “se não puder guardar silêncio, você será um deles”.
O professor dr. Hirt, entretanto, entregou-se ao trabalho. Segundo a corres
pondência de Sievers, ele separou as cabeças dos corpos e, conforme escreveu,
“reuniu a coleção de corpos que antes não existia”. Mas havia dificuldade e após o
dr. Hirt descrevê-las — o próprio Sievers não possuía conhecimento de medicina
nem de anatomia — o chefe do Ahnenerbe relatou-as a Himmler em 5 de setem
bro de 1944.
Em virtude das vastas pesquisas envolvidas, não foi ainda terminada a
tarefa de reduzir os cadáveres. Isso requer algum tempo para os oitenta
corpos.
E o tempo passava. As tropas americanas e francesas já se aproximavam de
Estrasburgo. Hirt solicitou “instruções sobre o que se devia fazer com a coleção”.
Pode-se descarnar os cadáveres, impossibilitando assim sua identifica
ção [informou Sievers ao quartel-general em nome do dr. Hirt]. Isso
significaria, no entanto, que, pelo menos, parte de todo o trabalho fora
inútil e que essa singular coleção estaria perdida para a ciência, porque
seria impossível tirar moldes depois.
A coleção de corpos, como tal, era indistinguível. Podia-se declarar que
as partes de carne haviam sido deixadas pelos franceses na ocasião em
que assumimos a direção do Instituto Anatômico* e que elas iam ser cre
madas. Peço informardes qual das três propostas deve ser executada:
* A Alemanha havia anexado a Alsácia a seu território depois da queda da França em 1940, tendo os
alemães assumido a direção da Universidade de Estrasburgo.
492 ° COM EÇO DO FIM
1. Conservar-se toda a coleção como um todo; 2. Dissolver-se a cole
ção, em parte; 3. Dissolver-se completamente a coleção.
— Testemunha, por que razão desejava descarnar os corpos? — inquiriu o
promotor britânico em meio ao silêncio reinante na sala do tribunal. — Por que
sugeria que se lançasse a culpa sobre os franceses?
— Como leigo, eu não podia opinar sobre o caso, declarou o “Barba-Azul”.
Apenas transmiti um pedido de informações do professor Hirt. Eu desempenha
va simplesmente a função de estafeta.
— O senhor era o correio — replicou o promotor. — Outro mais dos ilustres
correios nazistas, não?
Era uma defesa fraca apresentada por muitos nazistas no julgamento, e nessa
ocasião, como nas demais, o promotor não deixou de chamar a atenção sobre ela.75
Os documentos apreendidos às S.S. revelam que, em 26 de outubro de 1944,
Sievers informara que “a coleção de Estrasburgo foi completamente dissolvida, de
acordo com a diretiva. Foi a melhor medida, em vista de toda a situação”.76
Herypierre descreveu depois a tentativa, não completamente bem-sucedida,
feita para apagar todos os traços.
Em setembro de 1944, os Aliados fizeram um ataque contra Belford. O
professor Hirt ordenou a Bong e a Herr Maier que cortassem em peda
ços aqueles corpos e os mandassem queimar no crematório (...) Per
guntei a Herr Maier, no dia seguinte, se havia cortado em pedaços todos
os corpos e ele respondeu: “Não podíamos cortá-los todos. Era um tra
balho imenso. Deixamos alguns corpos no depósito.”
Foram ali descobertos por um grupo de soldados Aliados quando unidades do
7QExército norte-americano, tendo à frente a 2â Divisão blindada francesa entrou
em Estrasburgo um mês depois.77*
Os senhores da Nova Ordem colecionaram não só esqueletos mas, também,
pele humana, se bem que neste último caso não pudessem pretextar que estavam
servindo à causa da pesquisa científica. A pele dos prisioneiros dos campos de
concentração, especialmente os executados para esse fim vampiresco, tinha apenas
* O professor dr. Hirt desapareceu. Quando deixou Estrasburgo, ouviram-no vangloriar-se de que nin
guém o apanharia vivo. Ao que parece, ninguém o apanhou, morto ou vivo.
A NOVA ORDEM 493
valor decorativo. Descobriu-se que ela constituía excelente quebra-luz para lâmpa
das, e muitos deles foram expressamente preparados para frau Ilse Koch, esposa do
comandante de Buchenwald, apelidada Cadela de Buchenwald* pelos internados.
As peles tatuadas parece terem sido as mais procuradas. Um internado alemão,
Andreas Pfaffenberger, depôs a respeito perante o tribunal de Nuremberg.
Ordenou-se a todos os prisioneiros com tatuagens que comparecessem
ao dispensário (...) Depois de examinados, eram mortos por meio de
injeções os que tivessem melhores e mais artísticos desenhos. Os cadá
veres eram depois enviados ao departamento patológico, onde eram
tiradas as áreas desejadas de pele tatuada, que recebia certo tratamento.
Os produtos eram depois de prontos entregues à esposa de Koch, que
com eles mandava fazer abajures e outros ornamentos para casa.78
Uma porção de pele, que parece ter agradado muito à sra. Koch, tinha as pala
vras “Hánsel e Gretel”, tatuadas.
Em outro campo, o de Dachau, a procura de tais peles ultrapassava muitas
vezes a quantidade dos suprimentos. Um médico tcheco prisioneiro, dr. Frank
Blaha, depôs em Nuremberg a esse respeito.
Não tínhamos, às vezes, número suficiente de corpos com boa pele; o
dr. Rascher, então, assegurava que os arranjaria. No dia seguinte, rece
bíamos vinte ou trinta corpos de pessoas jovens. Matavam-nas com um
tiro na nuca ou com uma pancada na cabeça, para não danificar a pele
(...) A pele devia ser de prisioneiros sadios e livres de defeitos.79
Esse dr. Sigmund Rascher parecia ser o responsável pelas mais sádicas expe
riências médicas. O horrível charlatão atraíra a atenção de Himmler — que tinha
* Frau Koch, que tinha poder de vida e morte sobre os prisioneiros de Buchenwald e cujos capri
chos podiam custar-lhes terríveis punições, foi sentenciada à prisão perpétua no "julgam ento
de Buchenwald", mas a sentença foi comutada para quatro anos. Foi logo posta em liberdade. Em
15 de janeiro de 1951, um tribunal alemão condenou-a à prisão perpétua por assassínio. Seu marido
foi condenado à morte por um tribunal das S.S. durante a guerra, por excessos; deram-lhe, porém,
direito à opção para servir na frente russa. Antes de poder fazê-lo, o príncipe Waldeck. chefe das S.S.
no distrito, mandou executá-lo. A princesa Mafalda, filha do rei e da rainha da Itália e esposa do prín
cipe Felipe, de Hesse, figurava entre aqueles que morreram em Buchenwald.
494 ° COM EÇO DO FIM
obsessão, entre muitas coisas, por uma descendência nórdica cada vez mais pura
— com relatórios nos círculos das S.S. de que Frau Rascher havia dado à luz três
filhos depois dos 48 anos de idade, se bem que, na verdade, os Raschers nada mais
fizeram que seqüestrar as três crianças de um orfanato em intervalos regulares.
Na primavera de 1941, o dr. Rascher, que freqüentava um curso médico espe
cial em Munique, dado pela Luftwaffe, teve uma idéia brilhante. Em 15 de maio
de 1941 escreveu a Himmler a respeito dessa idéia. Descobrira, horrorizado, que
as pesquisas sobre os efeitos das grandes altitudes nos aviadores estavam paralisa
das porque “não havia sido possível realizar teste algum com material humano,
pois tais experiências são muito perigosas e ninguém se apresenta como voluntá
rio para esse fim”.
Podereis pôr à nossa disposição dois ou três criminosos profissionais
para as experiências (...) As experiências nas quais os pacientes pode
rão naturalmente morrer, se realizariam com minha cooperação.80
O chefe das S.S. respondeu, na mesma semana, que “os prisioneiros seriam
naturalmente postos à sua disposição, com prazer, para as pesquisas relacionadas
aos vôos em grandes altitudes”.
Assim foi feito, e o dr. Rascher deu início ao trabalho. Os resultados podem ser
verificados em seus relatórios e nos de outros, exibidos em Nuremberg e no julga
mento posterior dos médicos das S.S.
As descobertas do dr. Rascher constituem um modelo de linguagem científi
ca. Para fazer os testes, transferiu a câmara de descompressão da força aérea de
Dachau para o campo de concentração próximo a essa localidade, onde já se acha
vam à sua disposição as cobaias humanas. O ar era retirado por meio de um apa
relho, a fim de que pudesse simular o teor de oxigênio e a pressão das grandes alti
tudes. O dr. Rascher apresentou suas observações, das quais a seguinte é típica:
O terceiro teste foi processado sem oxigênio, eqüivalendo à altitude de
8.820 metros, num judeu de 37 anos de idade, em boas condições. A
respiração continuou durante 30 minutos. Quatro minutos após, a PT
(pessoa do teste) começou a transpirar e a balançar a cabeça.
Depois de cinco minutos apareceram espasmos; entre o sexto e o décimo
minuto a respiração aumentou de freqüência, e a PT perdeu os sentidos.
A NOVA ORDEM 495
Do I P ao 13- minuto, a respiração diminuiu para três inspirações por
minuto, cessando inteiramente só ao fim desse período (...) Procedeu-
se à necropsia cerca de meia hora após cessar a respiração.81
Um prisioneiro austríaco, Anton Pacholegg, que trabalhou na sala do dr. Rascher,
descreveu as “experiências” de modo menos científico:
Vi pessoalmente, pela janela de observação da câmara de descompres-
são, quando o prisioneiro, lá dentro, suportou o vácuo até lhe rebenta
rem os pulmões (...) Os prisioneiros como que ficavam loucos e arran
cavam os cabelos no esforço para libertar-se da pressão. Esmurravam a
cabeça e arranhavam o rosto, como que procurando mutilar-se em sua
loucura. Esmurravam as paredes e nelas batiam com a cabeça e grita
vam, no esforço para livrar-se da pressão nos ouvidos. Esses casos ter
minavam, geralmente, com a morte do indivíduo.82
Uns duzentos prisioneiros foram submetidos a essa experiência antes que o dr.
Rascher tivesse terminado com ela. Deles, segundo os depoimentos tomados no
Julgamento dos Médicos, cerca de oitenta morreram logo; os restantes foram exe
cutados pouco tempo depois, a fim de não contarem a história.
Tais pesquisas foram dadas por terminadas em maio de 1942, ocasião em que
o marechal-de-campo Erhard Milch, da Luftwaffe, transmitiu a Himmler os agra
decimentos de Gõring pelas experiências pioneiras do dr. Rascher. Pouco tempo
depois, em 10 de outubro de 1942, o tenente-general dr. Hippke, inspetor-médico
da força aérea, apresentou a Himmler, “em nome das pesquisas médicas para a
aviação alemã”, sua “obediente gratidão” pelas “experiências de Dachau”. Achou,
entretanto, que houve uma omissão nelas. Não haviam levado em consideração o
frio extremo que um aviador enfrenta nas grandes altitudes. Para retificar a omis
são, relatou ele a Himmler, a Luftwaffe estava construindo uma câmara de des-
compressão “equipada com refrigeração completa e com uma altitude nominal de
30 mil metros. Experiências de congelamento por diferentes meios estão ainda
em processo em Dachau”.83
Estavam, de fato. E novamente o dr. Rascher achava-se na vanguarda. Alguns
de seus colegas médicos, porém, já sentiam remorsos. Seria uma coisa cristã o que
496 o COMEÇO DO FIM
o dr. Rascher estava fazendo? Ao que parece, alguns médicos da Luftwaffe come
çavam a ter suas dúvidas. Quando Himmler soube do fato, enfureceu-se e escre
veu imediatamente ao marechal-de-campo Milch protestando contra as dificul
dades causadas pelos “círculos médicos cristãos” na força aérea. Pediu ao chefe do
Estado-maior da Luftwaffe que desligasse Rascher do corpo médico da organiza
ção a fim de ser transferido para as S.S. Sugeriu que procurassem um “médico
não-cristão que fosse digno como cientista” para aprovar os valiosos trabalhos do
dr. Rascher, Himmler acentuou, entretanto, que ele
(...) assumia pessoalmente a responsabilidade do suprimento de indiví
duos insociáveis e criminosos que mereciam morrer nessas experiências.
As “experiências de gelar” do dr. Rascher eram de dois tipos: primeiro, verifi
car qual a intensidade de frio que um homem pode suportar antes de morrer;
segundo, descobrir a melhor maneira de reanimar uma pessoa que ainda vive
depois de ficar exposta a um frio extremo. Escolheram-se dois métodos para gelar
os indivíduos: lançá-los num tanque de água gelada ou deixá-los fora, na neve,
completamente nus, durante toda uma noite de inverno. Os relatórios de Rascher
a Himmler sobre suas experiências de “gelar” e “reanimar” são em grande núme
ro; um ou dois exemplos darão seu conteúdo. Um dos primeiros foi feito em 10 de
setembro de 1942.
As PTs foram lançadas na água envergando o uniforme completo da
aviação (...) com capacete. Um salva-vidas impedia que fossem para o
fundo. As experiências foram realizadas em água com a temperatura
entre -0,5°C e 12°C. Na primeira série de testes, a parte posterior da
cabeça ficou acima dagua. Noutra série, a nuca e o cerebelo ficaram
submersos. Registraram-se eletricamente temperaturas até 26,39°C
(no estômago) e 26,5°C (no reto). Verificaram-se casos fatais somente
quando a medula e o cerebelo ficaram congelados.
Em tais casos fatais, encontraram-se, nas necropsias, grande quanti
dade de sangue livre, até 0,473 litro, dentro da cavidade craniana. O co
ração mostrava, regularmente, extrema distensão da cavidade direta.
As PTs, em tais testes, morriam invariavelmente quando a temperatura
A NOVA ORDEM 497
do corpo descia a 28°C, apesar de todos os esforços para salvá-las. O
que encontramos, nessas necropsias, prova claramente a importância
de uma cabeça aquecida e de uma proteção para o pescoço na indu
mentária agora em processo de desenvolvimento.84
Um gráfico que o dr. Rascher anexou ao relatório abrange seis ‘casos fatais” e
mostra as temperaturas da água, do corpo ao ser retirado, do corpo já morto, o
tempo de permanência e o tempo que o paciente levou para morrer. O mais resis
tente suportou cem minutos na água gelada; o mais fraco, 53.
Walter Neff, um prisioneiro do campo que serviu de enfermeiro do dr. Ras
cher, fez, por ocasião do Julgamento dos Médicos, como leigo, a descrição de um
teste em água gelada:
Foi a pior experiência que se fez. Trouxeram dos barracões da prisão
dois oficiais russos. Rascher mandou-os despirem-se; eles entraram
nus dentro do tanque. Passou-se uma hora, passaram-se duas, e, embo
ra os pacientes ficassem geralmente inconscientes com o frio gélido
após sessenta minutos, os dois oficiais reagiram perfeitamente, nesse
caso, depois de duas horas e meia. Foram inúteis todos os apelos feitos
a Rascher para que lhes fossem aplicadas injeções soporíferas. Mais ou
menos na terceira hora, um dos russos disse ao outro: “Camarada, peça
por favor ao oficial que nos matem.” O outro respondeu que não espe
rava misericórdia daquele cão fascista. Ambos apertaram-se as mãos
com um “adeus, camarada” (...) Essas palavras foram traduzidas, para
Rascher, por um jovem polonês, se bem que de forma um tanto dife
rente. Rascher dirigiu-se para sua sala. O jovem polonês tentou, ime
diatamente, cloroformizar as duas vítimas; Rascher, porém, voltou logo
e ameaçou-nos com um revólver (...) O teste durou pelo menos cinco
horas antes que sobreviesse a morte.85
O chefe nominal dessas experiências iniciais com água gelada era um tal dr.
Holzlõhner, professor de medicina na Universidade de Kiel, assistido por um
dr. Finke. Após trabalharem com Rascher durante dois meses, acreditavam já
haverem esgotado todas as possibilidades relativamente às experiências. Os três
498 O COM EÇO DO FIM
médicos elaboraram então um relatório secretíssimo de 32 páginas, para a força
aérea, intitulado “Experiências de gelar com seres humanos” e convocaram uma
reunião de cientistas alemães em Nuremberg, em 26-27 de outubro de 1942, para
a transmissão de suas descobertas e debates em torno delas. O assunto da reunião
era “Questões médicas na marinha e emergências de inverno”. Segundo o teste
munho prestado no Julgamento dos Médicos, 95 cientistas alemães, inclusive al
guns dos mais preeminentes nesse campo, participaram da reunião e, embora os
três médicos não tivessem deixado dúvida sobre terem sido assassinadas muitas
criaturas com essas experiências, não se suscitou questão alguma a respeito e não
houve protestos.
O professor Holzlõhner* e o dr. Finke abandonaram as experiências nessa
ocasião, mas o perseverante dr. Rascher prosseguiu nelas sozinho, de outubro de
1942 a maio do ano seguinte. Desejava, entre outras coisas, levar a efeito experiên
cias sobre o que denominou “gelar em seco”.
Auschwitz [escreveu ele a Himmler] adapta-se muito melhor para tais
testes do que Dachau, porque lá é mais frio e, dada a extensão do terre
no, causa menor agitação no campo. (As pessoas submetidas à expe
riência gritam quando começam a sentir os efeitos do frio).
Não se pôde, por uma razão qualquer, conseguir a mudança de localidade. O
dr. Rascher continuou os estudos em Dachau, rezando para que houvesse um
verdadeiro tempo de inverno.
Graças a Deus tivemos outra onda de frio em Dachau [escreveu a
Himmler no início da primavera de 1943]. Algumas pessoas perma
neceram ao ar livre durante 14 horas, a -6°C, atingindo a temperatu
ra interior de 25°C, com ulcerações externas causadas pelo frio (...)86
No Julgamento dos Médicos, a testemunha Neff mais uma vez forneceu, como
leigo, uma descrição sobre as experiências de “gelar em seco” feitas pelo seu chefe.
* O professor Holzlõhner talvez sentisse a consciência culpada. Capturado pelos britânicos, suicidou-se
depois do primeiro interrogatório.
A NOVA ORDEM 499
Colocou-se à noite, fora das barracas e numa padiola, um prisioneiro
nu. Cobriram-no com um lençol e, de hora em hora, derramavam so
bre ele um balde de água fria. O paciente permaneceu assim até o ama
nhecer. Tomaram-lhe a temperatura.
Mais tarde o dr. Rascher declarou que fora um erro cobrir o paciente
com um lençol e encharcá-lo de água (...) As pessoas submetidas ao
teste não mais deveriam, no futuro, ficar cobertas. A experiência se
guinte foi feita com dez prisioneiros que ficaram expostos, também
nus, cada um por sua vez.
À medida que os prisioneiros iam ficando gelados, o dr. Rascher ou seu assis
tente registrava a temperatura, a atividade do coração, a respiração, etc. Os gritos
das vítimas cortavam, muitas vezes, o silêncio da noite.
No princípio [explicou Neff ao tribunal] Rascher proibiu que os testes
fossem realizados em estado de anestesia. Mas os pacientes faziam tal
barulho que se tornou impossível a Rascher continuar as provas sem
anestésicos.87
Deixavam as vítimas morrerem — pois, segundo Himmler, elas mereciam a
morte — em tanques de água gelada ou estendidas nuas no terreno fora das bar
racas, em Dachau, em noite de inverno. Se sobreviviam, eram logo depois exter
minadas. Mas os bravos aviadores e marinheiros alemães, em benefício dos quais
se faziam ostensivamente tais experiências e que, algum dia, poderiam ver-se lan
çados às águas do oceano Ártico ou abandonados em alguma região deserta do
Círculo Ártico, na Noruega, Finlândia ou norte da Rússia, tinham que ser salvos,
se possível. O inimitável dr. Rascher pôs-se, portanto, a executar em suas cobaias
humanas em Dachau o que ele denominava ‘experiências para reanimar”. Deseja
va saber qual era o melhor método para reanimar um homem gelado e, se possí
vel, salvar-lhe a vida.
Heinrich Himmler, que jamais hesitava em oferecer soluções práticas a seu
corpo de ativos cientistas, sugeriu a Rascher que reanimasse os pacientes por meio
do ‘calor animal”. O médico, a princípio, não levou muito em consideração a
idéia. “Reanimar por meio do calor animal os corpos de homens e mulheres é
500 O COM EÇO DO FIM
tarefa demasiado demorada”, escreveu ele ao chefe das S.S., Himmler, porém, in
sistiu na idéia:
Estou muito curioso [escreveu a Rascher] a respeito das experiências
com o calor animal. Creio, pessoalmente, que tais experiências talvez
tragam os melhores e os mais uniformes resultados.
Conquanto cético, o dr. Rascher não era homem que desprezasse uma suges
tão do chefe das S.S. Entregou-se imediatamente a uma série das mais grotescas
experiências, registrando-as todas, para a posteridade, em todos os seus mórbidos
detalhes. Quatro prisioneiras do campo de concentração feminino, em Ravens-
brück, foram-lhe enviadas para Dachau. Havia, entretanto, qualquer coisa numa
delas — classificaram-nas como prostitutas — que perturbou o médico e deu ori
gem a um relatório aos superiores.
Uma das mulheres escaladas demonstrava impecáveis características
de raça nórdica (...) Perguntei-lhe por que se oferecera espontaneamen
te para o serviço de bordel e ela respondeu que fora para sair do campo
de concentração. Quando repliquei que era vergonhoso oferecer-se
para tal função, disse-me: “É melhor passar meio ano num bordel do
que meio ano num campo de concentração (...)”
A consciência que tenho dessa questão de raça deixa-me ultrajado ante
a perspectiva de expor a elementos do campo de concentração, racial
mente inferiores, uma jovem que, aparentemente, é nórdica pura (...)
Por esse motivo, recuso-me a usar essa moça em minhas experiências.88
Usou outras, porém, cujos cabelos eram menos louros e os olhos menos azuis.
Transmitiu suas descobertas a Himmler num relatório marcado “secreto”, em 12
de fevereiro de 1942.89
As pessoas empregadas nos testes foram esfriadas pelo processo conhe
cido, vestidas ou não, em água fria, sob várias temperaturas. A remoção
da água verificou-se com a temperatura, no reto, de 30°C.
A NOVA ORDEM 501
Em oito casos, os pacientes foram colocados entre duas mulheres nuas
numa cama grande. Demos instruções para que elas se aconchegassem o
mais possível à pessoa gelada. Foram depois cobertos com cobertores (...)
Assim que os pacientes readquiriram os sentidos, não mais os perde
ram; compreenderam rapidamente a situação e aninharam-se aos corpos
nus das mulheres. A elevação da temperatura do corpo processou-se
então aproximadamente com a mesma rapidez dos casos em que as
pessoas haviam sido aquecidas por cobertores nelas enrolados (...)
Formou-se uma exceção com quatro pacientes que praticaram rela
ções sexuais entre 30°C e 32°C. Nelas, após o coito, a temperatura su
biu rapidamente, comparável à que se atinge por meio de um banho
de água quente.
O dr. Rascher descobriu, um tanto surpreso, que uma mulher aquecia um ho
mem gelado mais depressa que duas.
Atribuo isso ao fato de, ao aquecer-se por meio de uma só mulher, de
saparecerem as inibições, e a mulher agarra-se mais fortemente ao ho
mem gelado. Também nesse ponto a volta dos sentidos foi notavelmen
te mais rápida. Houve somente um caso em que o paciente deixou de
readquirir os sentidos, registrando-se apenas leve grau de aquecimen
to. Essa pessoa morreu com sintomas de hemorragia cerebral, mais tar
de confirmada pela necropsia.
Resumindo, essa figura criminosa chegou à conclusão de que reanimar um
homem “gelado” por meio de uma mulher é coisa que “se processa muito lenta
mente”, e de que banhos quentes eram mais eficazes.
Somente as pessoas do teste [concluiu] cujo estado físico permitia rela
ções sexuais reanimaram-se com surpreendente rapidez, demonstran
do também rápido retorno ao estado normal do corpo.
Segundo os depoimentos prestados no Julgamento dos Médicos, realizaram-
se cerca de quatrocentas experiências de “gelar” em trezentas pessoas, das quais
502 O COMEÇO DO FIM
oitenta ou noventa morreram em conseqüência delas; as restantes, exceto algu
mas poucas, foram liquidadas depois; algumas ficaram completamente loucas.
Observe-se que o dr. Rascher não chegou a depor perante o tribunal; continuara
em seus labores criminosos em vários novos projetos — muito numerosos para
que se possa citar — até maio de 1944, ocasião em que ele e sua mulher foram
presos pelas S.S., não por causa de suas “experiências”, mas, ao que parece, sob a
acusação de que ambos haviam praticado um ato fraudulento ao relatarem a ma
neira por que “seus filhos” tinham vindo ao mundo. Tal traição, Himmler, com
sua veneração pelas mães alemãs, não podia tolerar: acreditara piamente em que
Frau Rascher começara a gerar as três crianças a partir da idade de 48 anos; re
voltou-se quando soube que ela as havia seqüestrado. Foi então o dr. Rascher
encarcerado no abrigo dos políticos, no campo de Dachau que lhe era familiar,
e sua mulher foi despachada para Ravensbrück, de onde o médico conseguira as
prostitutas para seus testes de “reanimar pacientes”. Nenhum dos dois sobrevi
veu. Acredita-se que o próprio Himmler, num dos últimos atos de sua vida, te
nha ordenado que fossem executados. Talvez ambos viessem a ser incômodas
testemunhas.
Certo número dessas incômodas testemunhas sobreviveu para ser julgado.
Sete delas foram condenadas à morte e enforcadas, defendendo até o fim suas
experiências fatais como atos patrióticos em prol da nação alemã. A dra. Herta
Oberheuser, único réu feminino no Julgamento dos Médicos, foi condenada a
vinte anos de prisão. Confessou ter aplicado injeções letais em “cinco ou seis”
poloneses entre as centenas de pessoas que sofreram as horrendas torturas das
várias experiências realizadas em Ravensbrück. Certo número de médicos, como
o conhecido Pokorny, por exemplo, que desejava esterilizar milhões de criaturas
inimigas, foi absolvido. Alguns mostraram-se arrependidos. Num segundo julga
mento de médicos assistentes, o dr. Edwin Katzenellenbogen, antigo membro da
Escola de Medicina de Harvard, solicitou ao tribunal a pena de morte. “Os senho
res colocaram a marca de Caim em minha testa!” exclamou. “Qualquer médico
que tenha cometido os crimes de que sou acusado merece ser morto.” Condena
ram-no à prisão perpétua.90
A NOVA ORDEM 5 C>3
A morte de Heydrich e o fim de Lidice
Em meio ao curso da guerra, verificou-se um ato de vingança contra os ban
didos e senhores da Nova Ordem pelo morticínio havido nos países conquista
dos. Reinhard Heydrich, chefe da Polícia de Segurança e do S.D., representante-
chefe da Gestapo, oficial de expressão diabólica, narigudo, de olhar frio, com 38
anos, o gênio da “solução final”, o carrasco Heydrich, nome pelo qual tornou-se
conhecido nos países ocupados, teve um fim violento.
Impaciente por conseguir maior força e tecendo, em segredo, intrigas com
objetivo de desalojar Himmler, seu chefe, acabou sendo nomeado Protetor Interi
no da Boêmia e Morávia, além de outros cargos que ocupava. O pobre e velho
Neurath, o Protetor, teve que arrumar as malas e partir em setembro de 1941, por
ordem do Führer, em gozo de licença para tratamento de saúde, substituindo-o
Heydrich na antiga sede do reinado da Boêmia em Praga, no castelo de Hradschin.
Não por muito tempo, porém.
Na manhã de 29 de maio de 1942, quando viajava em seu carro-esporte Mer
cedes, de sua vila campestre para o castelo, em Praga, atiraram-lhe uma bomba de
fabricação inglesa que lhe destruiu o carro e esmagou-lhe a espinha. Fora arre
messada por dois tchecos, Jan Kubis e Josef Gabeik, do exército livre tchecoslova-
co na Inglaterra, que haviam saltado em pára-quedas de um avião da Real Força
Aérea. Bem equipados para a tarefa, conseguiram fugir protegidos por uma cor
tina de fumaça. Os sacerdotes da Igreja de São Carlos Borromeu, em Praga, de
ram-lhe refúgio.
Heydrich expirou em 4 de junho, em virtude dos ferimentos recebidos. Seguiu-
se verdadeira hecatombe; os alemães vingaram selvagemente, à moda dos antigos
ritos teutônicos, a morte de seu herói. Segundo um dos relatórios da Gestapo,
1.331 tchecos, incluindo 201 mulheres, foram imediatamente executados.91 Os
verdadeiros matadores e 120 membros da resistência tcheca, homiziados na Igre
ja São Carlos Borromeu, foram ali sitiados pelas S.S. e mortos até o último ho
mem.* Mas os judeus foram os que mais sofreram por aquele ato de desafio à raça
superior. Três mil deles foram removidos do gueto privilegiado de Theresienstadt
e embarcados para leste, a fim de serem exterminados. No dia do atentado, Goebbels
* Segundo Schellemberg, que lá estava, a Gestapo não sabia que os verdadeiros assassinos figuravam
entre os mortos na igreja. (Schellenberg, The Labyrinth, p. 292).
504 O COMEÇO DO FIM
mandou prender cinqüenta dos judeus restantes que em Berlim se achavam em
liberdade, e, no dia da morte de Heydrich, 152 foram executados “em represália”.
De todas as conseqüências da morte de Heydrich, porém, a que talvez perdu
rará por mais tempo na lembrança do mundo civilizado é a sorte que teve a pe
quena aldeia de Lidice, nas proximidades da cidade mineira de Kladno, não mui
to distante de Praga. Sem razão alguma — salvo servir de exemplo para um povo
conquistado que ousara tirar a vida a um de seus inquisidores — foi levada a efei
to terrível selvageria nessa pacífica e pequena localidade rural.
Na manhã de 9 de junho de 1942, dez caminhões lotados por elementos da
Polícia de Segurança alemã, sob o comando do capitão Max Rostock,* chegaram
à pequena aldeia de Lidice e cercaram-na. Ninguém podia sair de lá, se bem que
pudessem voltar para a aldeia aqueles que lá viviam e que, na ocasião, estavam
ausentes. Um menino de 12 anos, assustado, procurou fugir. Abateram-no a tiros.
Uma aldeã correu para os campos distantes. Atiraram-lhe pelas costas. Toda a
população masculina foi trancada a chave nos celeiros, estábulos e adega de um
fazendeiro chamado Horak, prefeito da localidade.
No dia seguinte, desde o amanhecer até as 16h, foram eles levados para o pomar,
atrás dos celeiros, em grupos de dez, e fuzilados por pelotões da Polícia de Segu
rança. Cento e setenta e dois homens e rapazes acima de 18 anos foram ali executa
dos. Dezenove homens que lá residiam e que durante o massacre estavam traba
lhando nas minas de Kladno, foram capturados mais tarde e liquidados em Praga.
Sete mulheres que haviam sido arrebanhadas em Lidice foram conduzidas a
Praga e ali fuziladas. As restantes, em número de 195, foram transportadas para
o campo de concentração de Ravensbrück, na Alemanha, onde morreram na câ
mara de gás; três “desapareceram” e 42 morreram de maus tratos. Quatro mulhe
res de Lidice, prestes a dar à luz, foram removidas para uma maternidade de
Praga onde os filhos recém-nascidos foram exterminados, sendo elas depois des
pachadas para Ravensbrück.
Permaneceram em Lidice, à disposição dos alemães, as crianças cujos pais es
tavam mortos e cujas mães haviam sido aprisionadas. Cumpre dizer que os ale
mães não as fuzilaram, nem mesmo as do sexo feminino; despacharam-nas para
um campo de concentração em Gneisenau. Ao cabo eram noventa. Destas, sete,
com menos de 1 ano de idade, foram selecionadas pelos nazistas, num exame
* Enforcado em Praga, em agosto de 1951.
A NOVA ORDEM 505
meticuloso dos “peritos raciais” de Himmler, para serem enviadas à Alemanha e
ali educadas como alemães, sob nomes alemães. O mesmo fizeram mais tarde com
as demais.
“Não se descobriu vestígio algum delas”, concluiu o governo tchecoslovaco no
relatório sobre Lidice, apresentado ao tribunal de Nuremberg.
Algumas, felizmente, foram encontradas mais tarde. Lembro-me de ter lido,
no outono de 1945, os dolorosos apelos nos jornais alemães controlados pelos
Aliados, de mães que sobreviveram à tragédia de Lidice e que pediam ao povo
alemão que as auxiliasse a localizar os filhos e os mandassem para sua terra.*
Lidice, na verdade, foi varrida da face da Terra. Assim que os homens foram
massacrados e as mulheres e crianças removidas, a Polícia de Segurança incen
diou a aldeia e dinamitou as ruínas, não deixando pedra sobre pedra.
Essa aldeia, embora se tornasse mundialmente a mais conhecida como exemplo
da selvageria nazista, não foi, porém, a única dos países ocupados pelos alemães que
sofreu tão bárbaro fim. Houve outra na Tchecoslováquia, Lezhaky, e outras mais
na Polônia, na Rússia, na Grécia e na Iugoslávia. Mesmo no Ocidente, onde a Nova
Ordem era relativamente menos sanguinária, os alemães repetiram o que haviam
praticado em Lidice, se bem que em muitos casos, como no de Televaag, na No
ruega, os homens, mulheres e crianças fossem simplesmente deportados para
campos de concentração diferentes após serem arrasadas todas as casas da aldeia.
Em 10 de junho de 1944, porém, dois anos e um dia depois do massacre de
Lidice, cobrou-se um terrível tributo de vidas na aldeia francesa de Oradour-sur-
Glane, nas proximidades de Limoges. Um destacamento das S.S. da divisão Das
ReicK que já havia granjeado renome pelo terror que espalhava, como não com
batente, na Rússia, cercou a localidade e ordenou aos habitantes que se reunissem
na praça central. Lá, o comandante informou-se de que recebera notícia de que
havia explosivos escondidos na aldeia; seria levada a efeito uma busca, assim
como a verificação dos documentos de identidade. Toda a população, composta
de 652 pessoas, ficou presa debaixo de chave. Os homens nos celeiros e as mulhe
res e crianças na igreja. Toda a aldeia foi, depois, incendiada. Em seguida, os sol
dados voltaram-se contra os habitantes. Os homens que não haviam morrido
queimados, nos celeiros, foram metralhados e mortos. As mulheres e crianças,
* A UNRRA informou, em 2 de abril de 1947, que 17 deles haviam sido descobertos na Bolívia e envia
dos a suas mães, na Tchecoslováquia.
506 O COM EÇO DO FIM
que estavam na igreja, foram também metralhadas; as que não morreram, foram quei
madas vivas quando os soldados alemães atearam fogo à igreja. Três dias depois,
o bispo de Limoges encontrou os corpos carbonizados de 15 crianças amontoa
dos atrás do altar destruído pelo fogo.
Nove anos depois, em 1953, o tribunal militar francês demonstrou que 642
habitantes — 245 mulheres, 207 crianças e 190 homens — haviam perecido no
massacre de Oradour. Dez pessoas sobreviveram; embora tivessem sofrido quei
maduras graves, simularam haverem morrido e assim puderam escapar*
À semelhança de Lidice, não se reconstruiu Oradour. Suas ruínas permane
cem como um monumento à Nova Ordem de Hitler, na Europa. A igreja destruí
da destaca-se na pacífica paisagem como lembrança daquele magnífico dia de
junho, pouco tempo antes da colheita, quando a aldeia e seus habitantes deixaram
subitamente de existir. Onde outrora havia uma janela, vê-se uma pequena tabu
leta: “Madame Rouffance, a única sobrevivente da igreja, escapou por esta janela”.
Há em frente uma imagem de Cristo pregada numa cruz de ferro enferrujado.
Tal foi o começo da Nova Ordem de Hitler, conforme esboçado neste capítulo;
tal o começo do império dos bandidos nazistas na Europa. Para felicidade da es
pécie humana, foi destruído na infância, não por qualquer revolta do povo ale
mão contra essa volta ao barbarismo, mas pela derrota das armas alemãs e conse
qüente queda do Terceiro Reich, cuja história resta agora contar.
* Vinte membros do destacamento das S.S. foram sentenciados à morte por esse tribunal, mas só dois
foram executados. Os 18 restantes tiveram suas penas comutadas de cinco a 12 anos de prisão. O
comandante da divisão Das Reich — tenente-general Heinz Lammerding, das S. S., foi condenado à
morte in absentia. Tanto quanto sei, não foi encontrado. O major Otto Dickmann, que comandou o
destacamento em Oradour, foi morto em combate na Normandia, poucos dias depois.
CAPÍTULO 2
A queda de Mussolini
Durante três anos consecutivos de guerra, eram os alemães que, quando vinha
o verão, desencadeavam as grandes ofensivas no continente europeu. Em 1943
inverteram-se as posições.
Com a captura, no princípio de maio daquele ano, das forças do Eixo na Tuní
sia, de tudo que restava do outrora poderoso exército no Norte da África, era evi
dente que os exércitos anglo-americanos comandados pelo general Eisenhower se
voltassem contra a própria Itália. Era esse o pesadelo que atormentava Mussolini
em setembro de 1939, e que o fizera protelar a entrada da Itália na guerra até que
a França, sua vizinha, tivesse sido conquistada pelos alemães e a Força Expedicio
nária Britânica rechaçada para o outro lado do Canal. Voltara agora o pesadelo
que, dessa vez, se transformava rapidamente em realidade.
Mussolini sentia-se doente e desiludido; e estava atemorizado. O derrotismo
reinava entre o povo e nas forças armadas. Houvera greves colossais nas cidades
industriais de Milão e Turim, onde os trabalhadores famintos haviam feito mani
festações pedindo apão, paz e liberdade”. O desacreditado e corrupto regime fas
cista estava se desmoronando rapidamente. Quando o conde Ciano, no começo
do ano, foi substituído no Ministério das Relações Exteriores e enviado ao Vatica
no como embaixador, os alemães suspeitaram que ele tinha ido para ali a fim de
negociar uma paz em separado com os Aliados, como o ditador da Romênia,
Antonescu, já estava aconselhando insistentemente.
Mussolini estivera, durante vários meses, bombardeando Hitler com apelos
no sentido de fazer a paz com Stalin, para que seus exércitos pudessem ser remo
vidos para o Ocidente, e ali, com os italianos, prepararem a defesa contra a cres
cente ameaça das forças anglo-americanas no Mediterrâneo, que ele acreditava
estarem se reunindo na Inglaterra para realizarem a invasão do Canal. Hitler
compreendeu que havia novamente chegado o tempo para uma conferência com
50 8 o c o m e ç o d o fim
Mussolini, a fim de animar o fraco companheiro e colocá-lo na linha. Arranjou-
se a conferência para 7 de abril de 1943, em Salzburgo. Embora o Duce chegasse
decidido a impor sua vontade, ou pelo menos sua opinião, mais uma vez acabou
submetendo-se à torrente de palavras do Führer. Hitler descreveu depois seu êxi
to a Goebbels, que o anotou em seu diário.
Recorrendo a todas as suas forças e energias, ele conseguiu fazer Mus
solini entrar novamente nos eixos (...) O Duce sofreu completa trans
formação (...) Quando desceu do trem, à chegada, pareceu ao Führer
uma figura alquebrada; quando partiu (quatro dias depois), estava em
boa disposição, pronto para qualquer ação.1
Na verdade, porém, Mussolini não se achava preparado para os acontecimen
tos que sobrevieram em rápida sucessão. À conquista da Tunísia pelos Aliados, em
maio, seguiram-se desembarques bem-sucedidos das forças anglo-americanas na
Sicília em 10 de julho. Os italianos tinham pouco ânimo para lutar em sua própria
terra. Logo chegaram notícias a Hitler de que o exército italiano estava “em estado
de colapso”, conforme suas próprias palavras a seus conselheiros do OKW.
Somente medidas bárbaras [declarou Hitler a um conselho de guerra
em 17 de julho] como as aplicadas por Stalin em 1941 e pelos franceses em
1917, poderão salvar o país. Deve-se instalar uma espécie de tribunal ou
corte marcial na Itália, a fim de eliminar os elementos indesejáveis.2
Chamou Mussolini outra vez para discutir a questão, realizando-se a confe
rência em 19 de julho em Feltre, na Itália setentrional. A propósito: foi a décima
terceira conferência dos dois ditadores, e seguiu o padrão das mais recentes. Hi
tler ficou com a palavra, Mussolini ouvindo tudo, e isso durante três horas antes
do almoço e durante duas horas depois. Sem lograr grande êxito, o fanático líder
alemão procurou reanimar o espírito abatido de seu amigo e aliado já doente.
Deviam continuar a lutar em todas as frentes. Não podiam deixar a tarefa para
4outra geração”. A “voz da história” ainda acenava para eles. A Sicília e a própria
Itália poderiam ser mantidas se os italianos combatessem. Haveria mais reforços
alemães para ajudá-los. Um novo submarino alemão estaria logo em operações e
proporcionaria aos britânicos uma nova Stalingrado.
A QUEDA DE MUSSOLINI 509
A despeito das promessas e jactâncias de Hitler, dr. Schmidt achou a atmosfe
ra muito depressiva. Mussolini encontrava-se tão extenuado que não mais podia
seguir a arenga do amigo; no final da conferência, pediu a Schmidt que lhe forne
cesse as anotações. Agravou-se o desespero de Mussolini quando, durante a con
ferência, chegaram notícias do primeiro ataque aéreo dos Aliados contra Roma,
em plena luz do dia.3
Benito Mussolini, cansado e senil, embora ainda na casa dos 60 anos, ele que
se pavoneara tão arrogantemente no palco europeu durante duas décadas, já esta
va próximo do fim. Quando regressou a Roma, encontrou coisa muito pior que as
conseqüências do primeiro bombardeio pesado. Defrontou-se com a revolta de
alguns de seus mais íntimos sequazes na hierarquia do Partido Fascista, até mes
mo de Ciano, seu genro. E atrás dela, num círculo mais amplo que chegava até o
rei, havia um plano para derrubá-lo.
Os líderes fascistas rebeldes, encabeçados por Dino Grandi, Giuseppe Bottai e
Ciano, exigiram a convocação do Grande Conselho Fascista, que não se reunia
desde dezembro de 1939 e que sempre havia sido uma corporação submissa, com
pletamente dominada pelo Duce. Reuniu-se o Conselho na noite de 24 para 25 de
julho de 1943. Pela primeira vez em sua carreira de ditador, viu-se Mussolini alvo
de violentas críticas pelo desastre que ocasionara ao país. Por 19 votos contra oito,
foi aprovada uma resolução exigindo a restauração da monarquia constitucional
com um Parlamento democrático. Determinava, também, que o comando das
forças armadas fosse restituído ao rei.
Os fascistas rebeldes, possivelmente com exceção de Grandi, não tinham, ao
que parece, qualquer intenção de ir mais longe do que isso. Originou-se, porém,
um segundo plano, de maior vulto, da parte dos generais e do rei. Parecia ao pró
prio Mussolini ter amainado a tempestade — as decisões da Itália, afinal de con
tas, não eram dadas por maioria de votos no Grande Conselho, mas pelo Duce
— e ele ficou completamente surpreendido quando, na noite de 25 de julho, foi
chamado ao palácio real pelo rei. Ali, foi sumariamente destituído de seu cargo e
conduzido preso, numa ambulância, para um posto policial.*
* "Eu não tinha qualquer pressentimento" escreveu Mussolini mais tarde, ao descrever seu estado de
espírito quando se dirigiu ao palácio. O rei Vítor Manuel não perdeu tempo em trazê-lo à realidade.
"Meu caro Duce", escreveu Mussolini citando as palavras do rei no início da entrevista,"nada mais adian
ta. A Itália está desmantelada (...) Os soldados não querem mais lutar (...) Neste momento, sois o ho
mem mais odiado da Itália (...)"
5 io O COMEÇO DO FIM
Assim caiu, ignominiosamente, o moderno César romano, o agressivo e beli
coso homem do século X X que soubera aproveitar-se das confusões e do desespe
ro do mundo, mas cuja estampa espalhafatosa era destituída de qualquer consis
tência. Como pessoa, não deixava de ser inteligente; era um estudioso da História
e julgava haver compreendido suas lições. Como ditador, porém, cometeu o erro
fatal de transformar numa grande potência imperial e marcial um país ao qual
faltavam recursos industriais para isso e cujo povo, diferentemente dos alemães,
era por demais civilizado, por demais sofisticado e realista para deixar-se atrair
por tais falsas ambições. Toleraram-no apenas, sabendo que se tratava de uma
fase passageira, e parece que Mussolini, no fim, percebeu isso. Mas, como todos
os ditadores, viu-se empolgado pelo poder, o que, como inevitavelmente aconte
ce, o corrompeu, minou-lhe o espírito e envenenou-lhe o juízo. Isso levou-o a
cometer o segundo erro fatal, o de ligar sua sorte e a da Itália ao Terceiro Reich.
Quando os sinos começaram a dobrar a finados para a Alemanha, fizeram-no
também para a Itália de Mussolini, e o líder italiano ouviu seu tanger ao aproxi
mar-se o verão de 1943. Nada havia, entretanto, que ele pudesse fazer para escapar
à sua sorte. Era agora um prisioneiro de Hitler.
Não se disparou um tiro, nem mesmo por parte da milícia fascista, para sal
vá-lo. Nenhuma voz ergueu-se em sua defesa. Ninguém parecia preocupar-se
com a forma humilhante de sua queda: arrastado da presença do rei para seguir,
numa ambulância, para a prisão. Houve, ao contrário, júbilo geral, e o próprio
fascismo caiu por terra com seu fundador. O marechal Pietro Badoglio formou
um governo apartidário, de generais e civis; o partido fascista foi dissolvido, os
fascistas afastados dos postos-chave e os antifascistas, que se achavam presos,
postos em liberdade.
Pode-se imaginar a reação no quartel-general de Hitler ante a notícia da queda
de Mussolini, se bem que, nesse ponto, sejam abundantes e volumosos os docu
mentos secretos.4Produziu-se um profundo choque. Tornaram-se logo evidentes
certas comparações até mesmo para o espírito dos nazistas, e o perigo de que
pudesse ter sido criado um terrível precedente em Roma perturbou bastante o dr.
Goebbels, que foi chamado urgentemente ao quartel-general de Rastenburg em
"Estais tomando uma decisão extremamente grave" diz Mussolini ter respondido. Mesmo em sua ver
são, porém, pouco se esforçou para fazer o monarca mudar de idéia. Terminou "desejando felicidades"
a seu sucessor. (Mussolini, Memoirs, 1942-1943, p. 80-1).
A QUEDA DE MUSSOLINI 5 11
26 de julho. Pelo que se vê no diário do ministro da Propaganda, seu primeiro
pensamento foi a maneira de explicar ao povo alemão a queda de Mussolini. “Que
deveremos afinal dizer-lhe?”, perguntava a si mesmo. Resolveu que, no momento,
deviam apenas dizer que o Duce havia resignado “por motivos de saúde”.
Podia-se conceber que o conhecimento daqueles acontecimentos
[escreveu ele no diário] talvez encorajasse alguns elementos subver
sivos, na Alemanha, a pensar que podiam realizar o mesmo que Ba-
doglio e seus sequazes haviam feito em Roma. O Führer ordenou a
Himmler que não deixasse de aplicar as mais severas medidas poli
ciais no caso de tal perigo parecer iminente aqui.
Hitler, porém, acrescentou Goebbels, não julgava haver perigo iminente de tal
golpe na Alemanha. O ministro da Propaganda acabou convencendo-se de que o
povo alemão não “considerava a crise em Roma como precedente”.
Conquanto tivesse observado sinais de fraqueza em Mussolini, por ocasião de
sua conferência 15 dias antes, o Führer foi pego de surpresa quando as notícias
procedentes de Roma começaram a chegar ao quartel-general, naquela tarde de
25 de julho. A primeira dizia, simplesmente, que o Grande Conselho Fascista se
reunira; e Hitler perguntou a si mesmo por quê. “Que adiantam Conselhos dessa
espécie?” perguntou. “Que fazem eles senão tagarelar?”
Confirmaram-se nessa noite seus piores temores. “O Duce renunciou”, anun
ciou ele a seus espantados conselheiros militares, numa conferência que começou
às 21:30h. “Badoglio, nosso mais acirrado inimigo, assumiu o governo.”
Numa das últimas vezes, na guerra, Hitler reagiu à notícia com o juízo frio que
manifestara em outros momentos críticos, porém mais felizes. Quando o general
Jodl aconselhou esperarem relatórios mais completos de Roma, Hitler interrom
peu-o bruscamente.
Certamente [disse] mas temos ainda de traçar os planos para o futuro.
Indubitavelmente, em sua traição, eles proclamarão permanecerem
leais a nós, mas é uma traição! Naturalmente não permanecerão leais
(...) Embora esse fulano [Badoglio] declarasse imediatamente que a
guerra continuaria, isso não faria diferença alguma. Eles têm de fazer
512 O COM EÇO DO FIM
essa declaração, mas continuará a ser traição. Faremos o mesmo jogo
enquanto nos preparamos para assumir a direção de tudo, de uma só
vez, e capturar toda aquela canalha.
Foi este o primeiro pensamento de Hitler: capturar aqueles que haviam derru
bado Mussolini e restaurá-lo no poder.
Amanhã [prosseguiu] mandarei um homem para lá, com ordens ao
comandante da 3a Divisão Panzergrenadier para entrar em Roma com
forças especiais e prender, imediatamente, todos os membros do gover
no, o rei e todo o bando. Antes de nada, prender o príncipe herdeiro e
toda aquela súcia, especialmente Badoglio e sua gente. Depois, com a
desmoralização deles, dar-se-á outro golpe.
Hitler voltou-se para o chefe das Operações do OKW.
Hitler. Jodl, prepare as instruções (...) diga-lhes que se dirijam para Roma
com seus carros de assalto (...) e prendam os membros do governo, o rei
e toda aquela gente. Quero, principalmente, o príncipe herdeiro.
Keitel: Ele é mais importante que o velho.
Bodenschatz [um general da Luftwaffe]: É preciso organizar tudo a fim
de que eles possam ser retirados de lá num avião.
Hitler. Sim, devem ser retirados de avião.
Bodenschatz: Nada de deixar o Bambino perder-se pelo aeroporto.
Em outra conferência, logo depois da meia-noite, suscitou-se a questão do que
se fazer com o Vaticano. Hitler respondeu a ela.
Intervirei no Vaticano. Crêem que o Vaticano possa embaraçar-me?
Ocupá-lo-emos logo (...) Todo o corpo diplomático encontra-se lá (...)
Essa canalha (...) Faremos sair de lá esse bando de porcos (...) Mais
tarde poderemos apresentar nossas desculpas (...)
Hitler deu também instruções, nessa noite, para a proteção dos desfiladeiros
dos Alpes, tanto os que ficavam entre a Itália e a Alemanha como os que ficavam
A QUEDA DE MUSSOLINI 5 13
entre a Itália e a França. Reuniram-se às pressas, para esse fim, oito divisões ale
mãs, da França e do sul da Alemanha, as quais passaram a formar o grupo B dos
exércitos, sob o comando do enérgico Rommel. Tivessem os italianos, anotou
Goebbels em seu diário, destruído os túneis e as pontes dos Alpes, as forças ale
mãs na Itália, algumas delas já fortemente empenhadas em combate na Sicília
com os exércitos de Eisenhower, ficariam isoladas de suas fontes de abastecimen
to. Não teriam podido resistir durante muito tempo.
Mas os italianos não poderiam voltar-se assim subitamente, da noite para o
dia, contra os alemães. Badoglio devia, primeiramente, estabelecer contato com
os Aliados, para ver se podia conseguir um armistício e o apoio deles contra as
divisões da Wehrmacht. Hitler não errara ao supor que era exatamente isso que
Badoglio faria, mas não tinha a menor idéia de que as coisas levariam muito tem
po, como aliás aconteceu. Essa suposição dominou, de fato, a discussão que se
travou na conferência sobre a guerra no quartel-general do Führer, em 27 de ju
lho, à qual estiveram presentes muitos dos grandes chefes do governo nazista e
das forças armadas, entre eles Gõring, Goebbels, Himmler, Rommel e o almirante
Karl Dõnitz, novo comandante-em-chefe da marinha que sucedera em janeiro ao
grande almirante Rãder quando este perdeu as boas graças de Hitler.* Muitos dos
generais, dirigidos por Rommel, aconselharam cautela, argumentando que qual
quer medida relativa à Itália devia ser também pensada e meticulosamente prepa
rada. Hitler queria agir imediatamente, mesmo que isso implicasse a retirada de
divisões panzer-c have da frente oriental, onde os russos acabavam de desencadear
(15 de julho) sua primeira ofensiva de verão. Ao menos uma vez, parece que pre
valeceu a opinião dos generais. Conseguiram persuadir Hitler a suspender qual
quer ação; entretanto, seriam mandados à Itália, pelos Alpes, tantos soldados ale
mães quantos pudessem reunir. Goebbels encarou de maneira sombria a hesitação
dos generais.
* Hitler enfurecera-se com Rãder, que comandava a marinha de guerra alemã desde 1928, por não ter
destruído no oceano Ártico os comboios aliados que se dirigiam para a Rússia e por ter ali sofrido
pesadas perdas. Numa explosão de histerismo em 1e de janeiro, no quartel-general, o comandante
supremo ordenou a retirada imediata do serviço ativo da esquadra alemã de alto-mar. Os navios de
viam ser desmantelados e aproveitados como ferro-velho. Em 6 de janeiro, houve um debate tempes
tuoso entre Hitler e Rãder no quartel-general de Wolfsschanze. O Führer acusou a marinha de inação e
falta de vontade para lutar e assumir riscos. Rãder, com isso, pediu que o tirassem do comando. Seu
pedido de resignação foi formal e publicamente aceito em 30 de janeiro. Dõnitz, o novo comandante-
em-chefe, havia sido comandante de submarinos, pouco entendia dos problemas pertinentes às em
barcações de superfície e, desse tempo em diante, concentrou sua atenção na guerra submarina.
514 O COMEÇO DO FIM
Eles não estão levando em conta [escreveu em seu diário depois da rui
dosa conferência sobre a guerra] o que o inimigo fará. Os ingleses, ine
gavelmente, não vão esperar uma semana, enquanto ficamos aqui pen
sando e preparando-nos para agir.
Goebbels e Hitler, entretanto, não precisavam ter-se preocupado. Os Aliados
não esperaram uma semana, porém seis. A esse tempo, Hitler tinha seus planos, e
suas forças já estavam prontas para levá-los a efeito.
De fato, quando se realizou a conferência sobre a situação da guerra, em 27 de
julho, Hitler já concebera rapidamente os planos em seu espírito. Havia quatro: 1)
a Operação Eiche (Carvalho), relativa à libertação de Mussolini pela marinha de
guerra, se ele fosse localizado numa ilha, ou por pára-quedistas da Luftwaffe, se
fosse encontrado no continente; 2) a Operação Student (Estudante), que tratava
da rápida ocupação de Roma e da restauração do governo de Mussolini; 3) a Ope
ração Schwarz (Preta), nome em código para a ocupação militar de toda a Itália;
4) a Operação Achse (Eixo), que compreendia a captura ou a destruição da esqua
dra italiana. As duas últimas operações foram reunidas numa só sob o nome em
código de Achse.
Dois acontecimentos, no princípio de setembro de 1943, puseram os planos de
Hitler a funcionar. Em 3 de setembro, tropas aliadas desembarcaram na parte
meridional da Itália, e no dia 8 anunciou-se publicamente o armistício (assinado
secretamente em 3 de setembro) que havia sido celebrado entre a Itália e as potên
cias ocidentais.
Hitler havia voado para Zaporozhe, na Ucrânia, naquele dia, a fim de restabe
lecer a frente alemã então enfraquecida. Viu-se, entretanto, segundo Goebbels,
presa de ‘estranha inquietação” e voltara para o quartel-general de Rastenburg,
na Prússia Oriental, onde o aguardava a notícia de que seu principal aliado havia
desertado. Embora a esperasse e estivesse preparado para ela, a concretização
desse fato pegou-o de surpresa. Durante várias horas houve grande confusão no
quartel-general. Os alemães receberam a notícia do armistício da Itália numa
irradiação da BBC, de Londres. Quando Jodl fez uma ligação telefônica ao mare-
chal-de-campo Kesselring, de Rastenburg para Frascati, nas proximidades de
Roma, para procurar saber se era verdadeira a notícia, o comandante dos exér
citos alemães na Itália Meridional confessou que aquilo era novidade para ele.
A QUEDA DE MUSSOLINI 515
Kesselring, contudo, cujo quartel-general fora destruído naquela manhã durante
um bombardeio dos Aliados, e que estava ocupado em reunir tropas para enfren
tar novo desembarque inimigo em algum lugar, na costa ocidental, pôde expedir
a palavra em código Achse, que pôs em ação os planos destinados ao desarma
mento do exército italiano e à ocupação do país.
A situação das forças alemãs no centro e no sul da Itália foi, durante um ou dois
dias, extremamente crítica. Cinco divisões italianas enfrentaram duas divisões
alemãs nas vizinhanças de Roma. Se a poderosa esquadra de invasão aliada que
apareceu ao largo da costa de Nápoles em 8 de setembro, seguisse para o norte e
desembarcasse forças perto da capital, e se os invasores fossem reforçados por pára-
quedistas apoderando-se dos aeródromos das adjacências — ações esperadas por
Kesselring e seu Estado-maior, a princípio —, o curso da guerra na Itália teria
tomado outro rumo e o Terceiro Reich teria sofrido um ano antes o desastre final.
Kesselring explicou mais tarde que, na noite do dia 8, Hitler e o OKW haviam
considerado todas as forças das oito divisões como inteiramente perdidas.5 Dois
dias depois, Hitler informou a Goebbels que haviam perdido o sul da Itália e que
precisavam estabelecer nova linha ao norte de Roma, nos Apeninos.
O comando Aliado, no entanto, não se aproveitou de sua completa supremacia
no mar, que lhe permitiria efetuar desembarques quase em qualquer parte de am
bas as costas da Itália, tampouco explorou sua esmagadora supremacia nos ares, o
que os alemães, aliás, temeram. Mais ainda: parece que Eisenhower não fez esfor
ço algum para servir-se das grandes forças italianas em conjunto com as suas,
especialmente das cinco divisões italianas que se achavam nas vizinhanças de
Roma. Tivesse feito isso — foi, pelo menos, a declaração que Kesselring e o chefe
de Estado-maior geral, Siegfried Westphal, fizeram mais tarde — e a situação dos
alemães se teria tornado desesperadora. Estava simplesmente além de suas forças,
disseram, repelir da “bota” o exército de Montgomery que avançava pela penínsu
la, rechaçar a força invasora do general Mark Clark onde quer que desembarcasse
e lutar com as grandes formações italianas no meio e na retaguarda deles.6*
* Segundo o capitão Harry C. Butcher, ajudante naval de Eisenhower, ambos os chefes dos Estados-
maiores americanos e britânicos, general George C. Marshall e marechal-de-campo sir John G. Dill,
queixaram-se de que Eisenhower não estivesse mostrando suficiente iniciativa em sua arremetida na
Itália. Butcher assinala, em defesa de seu chefe, que a insuficiência de barcos para o desembarque limi
tava os planos de Eisenhower e que uma invasão de forças transportadas por mar, até as vizinhanças
de Roma, teria colocado a operação além do raio de ação dos aviões de caça aliados, que decolavam da
5l6 O COMEÇO DO FIM
Ambos os generais sentiram grande alívio quando o 52 Exército americano
desembarcou, não nas proximidades de Roma, porém ao sul de Nápoles, em Sa-
lerno, e quando os pára-quedistas aliados deixaram de aparecer sobre os aeródro
mos de Roma. O alívio foi ainda maior quando as divisões italianas se renderam
quase sem disparar um tiro e foram desarmadas. Significava isso que os alemães
poderiam manter Roma facilmente e, mesmo durante aquele tempo, Nápoles
também. Ficaram, assim, de posse de dois terços da Itália, inclusive o norte indus
trial cujas fábricas foram postas para trabalhar na produção de armamentos para
a Alemanha. Quase milagrosamente, Hitler adquiriu novas esperanças*
A retirada da Itália da guerra, entretanto, exasperara-o. Era, disse ele a Goebbels,
que havia novamente chamado a Rastenburg, “o exemplo de uma grande sujeira”.
A queda de Mussolini, além disso, deixara-o apreensivo quanto à sua própria po
sição. “O Führer”, anotou Goebbels no diário em 11 de setembro, “invocou medi
das finais para impedir, de uma vez por todas, que se desenvolva ação semelhante
aqui, conosco”.
Em sua irradiação ao país, na noite de 10 de setembro, que Goebbels o persua
diu a fazer após muita insistência — “O povo tem direito a uma palavra de enco
rajamento e conforto do Führer nessa crise difícil”, disse-lhe o ministro da Propa
ganda —, Hitler falou um tanto desafiadoramente sobre o assunto:
A esperança de encontrar traidores aqui apóia-se na completa ignorân
cia a respeito do caráter do Estado nacional-socialista; a crença de que
eles podem levar a efeito um 25 de julho, na Alemanha, e alicerça-se
Sicília. O próprio Eisenhower assinalou que, após a captura da Sicília, recebera ordens para mandar de
volta sete divisões — quatro americanas e três britânicas — para a Inglaterra, a fim de se prepararem
para a invasão pelo Canal, o que lamentou, pois deixou-o desfalcado de tropas. Butcher também afirma
que, a princípio, Eisenhower projetava lançar forças aerotransportadas sobre os aeródromos de Roma,
para auxiliarem os italianos na defesa da capital contra os alemães; e que, no último momento, Bado-
glio pediu que se "suspendesse temporariamente"essa operação. O general Maxwell D.Taylor, que com
grande risco pessoal havia ido secretamente a Roma para conferenciar com Badoglio, informou que,
dado o derrotismo dos italianos e o poderio dos alemães, o lançamento ali de uma divisão norte-
americana aerotransportada seria, talvez, um suicídio. (Ver Eisenhower, Crusade in Europe, p. 189, e
Butcher, My Three Years with Eisenhower, p. 407-25).
* O rei, Badoglio e os demais membros do governo, para grande cólera de Hitler, fugiram de Roma e,
pouco tempo depois, estabeleceram-se no sul da Itália que os Aliados haviam libertado. A maior parte
da esquadra italiana também escapou, para Malta, a despeito dos complexos planos do almirante
Dõnitz para capturá-la ou destruí-la.
A QUEDA DE MUSSOLINI 5 17
numa ilusão fundamental quanto à minha posição política, e quanto à
atitude de meus colaboradores políticos, marechais-de-campo, almi
rantes e generais.
Verdadeiramente, conforme veremos, havia alguns generais e um grupo de
antigos colaboradores políticos que começavam, mais uma vez, à medida que
cresciam os reveses militares, a abrigar idéias de traição, as quais, no decurso do
mês de julho do ano seguinte, seriam traduzidas num ato mais violento, porém
menos bem-sucedido que o que fora levado a efeito contra Mussolini.
Uma das medidas de Hitler para sufocar qualquer traição incipiente foi orde
nar a dispensa, da Wehrmacht, de todos os príncipes alemães. O príncipe Felipe,
de Hesse, antigo mensageiro de Hitler junto a Mussolini, que estava servindo no
quartel-general, foi preso e entregue à doce misericórdia da Gestapo. Sua esposa,
princesa Mafalda, filha do rei da Itália, foi também presa e, com o marido, encar
cerada num campo de concentração. O rei da Itália, à semelhança dos reis da
Noruega e da Grécia, havia escapado das garras de Hitler, que se vingou da ma
neira que pôde: prendeu a filha*
Durante várias semanas as conferências diárias do Führer eram dedicadas,
grande parte do tempo, a um problema que lhe pesava no espírito: o salvamento
de Mussolini. Como estamos lembrados, Operação Carvalho era o nome em có
digo para esse plano e, nos registros das conferências no quartel-general, citava-se
sempre Mussolini como “o objeto valioso”. A maioria dos generais e até mesmo
Goebbels duvidavam que o antigo Duce fosse ainda um objeto muito valioso; Hi
tler, porém, ainda o tinha nesse conceito e insistia em sua libertação.
Não só desejava fazer um favor ao velho amigo por quem ainda sentia afeição
pessoal, como, também, tinha em vista colocar Mussolini como chefe de um novo
governo fascista no norte da Itália, para dispensar os alemães da administração do
território e ajudar na proteção de longas vias de abastecimento e comunicações
contra uma população inamistosa, de cujo meio começavam agora a surgir im
portunos guerrilheiros.
* Hitler jamais se interessara pessoalmente pela princesa Mafalda. "Tive de sentar-me ao lado de Mafal
da" declarou ele aos generais no quartel-general, durante uma conferência militar, em maio daquele
ano. "Que me importa Mafalda? (...) Suas qualidades intelectuais não são dessas que possam encantar
a gente (...) sem falar ainda de sua aparência." (Dos registros secretos das conferências militares diárias
de Hitler, em Hitler Directs his War, de Felix Gilbert, p. 37).
518 O COMEÇO DO FIM
Em ls de agosto, o almirante Dõnitz informara Hitler de que a marinha acredi
tava ter localizado Mussolini na ilha de Ventotene. Em meados do mesmo mês, os
agentes de August Himmler declararam estar certos de que o Duce se encontrava
em outra ilha, Maddalena, próxima à extremidade setentrional da Sardenha. Ela-
boraram-se planos para atacar a ilha com destróieres e pára-quedistas; antes, po
rém, de poderem ser levados a efeito, foi Mussolini transferido para outro local.
Segundo uma cláusula secreta do tratado de armistício, ele devia ser entregue aos
Aliados, mas, por uma razão qualquer, Badoglio demorou a fazê-lo. Em princípio
de setembro, o “valioso objeto” foi levado, como que por encanto, para um hotel no
alto do Gran Sasso dTtália, maciço montanhoso dos Abruzzos e ponto culminante
dos Apeninos, que somente poderia ser atingido por uma linha férrea funicular.
Os alemães, logo souberam de seu paradeiro, fizeram um reconhecimento aé
reo da região e acharam que tropas transportadas em planadores poderiam descer
ali, subjugar os carabinieri e escapar com o Duce num pequeno avião Fieseler-
Storch. O plano foi executado em 13 de setembro, sob a direção de outro enge
nhoso rufião intelectual das S.S., um austríaco de nome Otto Skorzeny, que apa
recerá novamente antes do fim desta narrativa em outra arrojada proeza.* Ele
havia praticamente seqüestrado um general italiano e o tinha colocado em seu
aparelho. Desembarcou sua força aerotransportada a cem metros do hotel no alto
da montanha, de onde viu o Duce que, de uma janela do segundo andar, contem
plava a cena cheio de esperanças. A maioria dos carabinieri, ao avistar as tropas
alemãs, fugiram. Os poucos que lá ficaram foram dissuadidos por Skorzeny e
Mussolini a não usar as armas, o chefe das S.S. gritando-lhes para não atirarem
contra um general italiano — ele ia empurrando o oficial prisioneiro à frente de
seus homens — e o Duce bradando da janela, conforme uma testemunha ocular
se lembrou, para que ninguém atirasse para não haver derramamento de sangue.
E, de fato, nenhuma gota de sangue foi derramada.
Minutos depois o líder fascista — que havia jurado preferir matar-se a cair nas
mãos dos Aliados e ser exibido, conforme escreveu mais tarde, no Madison Squa-
re Garden, em Nova York** — foi colocado satisfeitíssimo num pequenino avião
* Skorzeny fora chamado ao quartel-general do Führer, pela primeira vez em sua vida, no dia seguinte
ao da queda de Mussolini, e escalado pessoalmente por Hitler para executar o salvamento.
** Pouco tempo antes da libertação de Mussolini, o capitão Harry Butcber informou que recebera um
cabograma, no quartel-general de Eisenhower, de uma cadeia de teatros da Cidade do Cabo, oferecendo
A QUEDA DE MUSSOLINI 5 19
Fieselés-Storch e, após perigosa decolagem de um pequeno prado semeado de
pedras, abaixo do hotel, voou para Roma e dali, na mesma noite, para Viena, num
aparelho de transporte da Luftwaffe.7
Embora Mussolini se sentisse grato pela sua libertação e abraçasse efusiva
mente Hitler quando ambos se encontraram dois dias depois, em Rastenburg, era
agora um homem alquebrado e nele se extinguira todo o antigo ardor. Para gran
de desapontamento de Hitler, demonstrou pouco interesse em reviver o regime
fascista na Itália ocupada pelos alemães. O Führer não procurou ocultar a desilu
são que teve com seu antigo amigo italiano numa longa conversa com Goebbels,
no fim de setembro.
O Duce [confiou Goebbels a seu diário depois da conversa] não tirou
conclusões morais da catástrofe da Itália, conforme o Führer dele espe
rava (...) O Führer esperava que a primeira coisa que faria era vingar-se
dos que o haviam traído. Ele não é um revolucionário como o Führer e
Stalin. Está tão ligado a seu próprio povo que lhe faltam as grandes
qualidades de um revolucionário e insurreto universal.
Hitler e Goebbels exasperaram-se também com o fato de Mussolini ter-se re
conciliado com Ciano; parecia-lhes que ficara sob a influência de Edda, sua filha
e esposa de Ciano, ambos os quais se haviam refugiado em Munique.* Achavam
que ele devia ter mandado executar Ciano imediatamente e — conforme as pala
vras de Goebbels — dar umas chicotadas em Edda.** Opuseram-se a que Mussoli
ni colocasse Ciano — “esse cogumelo venenoso”, nome pelo qual Goebbels o de
signou — à frente do novo Partido Republicano Fascista.
um donativo de 10 mil libras esterlinas para instituições de caridade,"se arranjardes para que Mussolini
apareça pessoalmente nos palcos dos teatros de nossa Cidade do Cabo. Contrato de três meses"
(Butcher, My Three Years with Eisenhower, p. 423).
* Na verdade, ou pelo menos segundo uma carta que Ciano escreveu depois ao rei Vítor Manuel, foi
induzido, por artimanhas dos alemães, a ir para a Alemanha, pois informaram-no que os filhos estavam
correndo perigo e que o governo alemão se sentiria feliz em transportá-los, a ele e sua família, para a
Espanha, via Alemanha. (The Ciano Diaries, p.v.).
** "Edda Mussolini", escreveu Goebbels em seu diário,"está agindo como gata selvagem em sua vila, na
Baviera. À menor irritação, começa a quebrar louças e móveis". {The Goebbels Diaries, p. 479)
520 O COMEÇO DO FIM
Hitler havia insistido para que o Duce organizasse imediatamente tal partido,
e, em 15 de setembro, instigado pelo Führer, Mussolini proclamou a nova repúbli
ca Socialista italiana.
Não fez diferença alguma. Mussolini não sentia o menor entusiasmo por ela.
Talvez mantivesse bastante senso da realidade para compreender que, agora, era
mero joguete de Hitler, que ele e seu “Governo Fascista Republicano” não tinham
poder algum, exceto o que o Führer lhes dava, no interesse da Alemanha, e que o
povo italiano jamais os aceitaria, a ele e ao fascismo.
Não voltou a Roma. Instalou-se num local isolado no extremo norte — em
Rocca delle Caminate, próximo a Gargnano, às margens do lago Garda, onde era
rigorosamente guardado por um destacamento especial do Leibstandarte das S.S.
Para esse belo recanto do lago, Sepp Dietrich, o veterano rufião das S.S. que, para
esse fim, havia sido desligado de seu vacilante le Corpo blindado das S.S., na Rús
sia — tais eram as extravagâncias no Terceiro Reich —, levou Clara Petacci, a co
nhecida amante de Mussolini. Com seu verdadeiro amor mais uma vez nos bra
ços, o ditador caído parecia interessar-se pouco pelas outras coisas da vida.
Goebbels, que havia tido não uma amante porém muitas, disse que ficara chocado
com o fato:
A conduta pessoal do Duce com sua amiga [anotou em seu diário em 9
de novembro] que Sepp Dietrich teve que levar-lhe, está causando mui
ta apreensão.
Dias antes, Goebbels observara que Hitler começara a “desconsiderar politica
mente o Duce”, não sem primeiro — deve ser acrescentado — o ter forçado a “ce
der” Trieste, Istria e o sul do Tirol à Alemanha e ficar assentado que Veneza seria
anexada mais tarde. Não se poupavam agora humilhações ao tirano outrora tão
orgulhoso. Hitler fez pressão sobre ele para que prendesse Ciano, seu genro, em
novembro, e o mandasse executar na prisão de Verona em 11 de janeiro de 1944.*
* O último registro do diário de Ciano é datado de "23 de dezembro de 1943, cela 27, prisão de Verona"
É um documento comovente. Não sei como ele conseguiu mandar de sua cela de morte ao rei da Itália
essa última anotação, e uma carta no mesmo dia. Observa, entretanto, que havia ocultado o restante
do diário antes de ter sido preso pelos alemães. Edda Ciano, disfarçada de camponesa, conseguiu sair
da Itália ocupada pelos alemães com os documentos ocultos debaixo da saia. Conseguiu atravessar a
fronteira e entrar na Suíça.
A QUEDA DE MUSSOLINI 521
No princípio do outono de 1943, Hitler podia muito bem afirmar que domi
nara as mais graves ameaças contra o Terceiro Reich. A queda de Mussolini e a
rendição incondicional do governo de Badoglio, na Itália, poderiam facilmente
fazer, conforme Hitler e seus generais temeram durante decisivas semanas, com
que as fronteiras do sul da Alemanha viessem a ficar expostas a um ataque direto
dos Aliados e que fosse aberto um caminho, do norte da Itália, para os Bálcãs
fracamente defendidos, na própria retaguarda dos exércitos alemães que lutavam
por sua vida no sul da Rússia. A submissa retirada do Duce da sede do poder, em
Roma, fora um rude golpe contra o prestígio do Führer tanto na Alemanha como
no exterior, como foi, depois, a destruição da aliança do Eixo. Dois meses depois,
entretanto, Hitler, por meio de um golpe ousado, restaurou Mussolini no poder
— pelo menos aos olhos do mundo. As áreas ocupadas pelos italianos nos Bálcãs,
na Grécia, na Iugoslávia e na Albânia, estavam sendo defendidas contra os Alia
dos que o OKW previa para qualquer momento naqueles últimos dias de verão;
as forças italianas ali, constituídas de várias divisões, renderem-se submissamente
e foram feitas prisioneiras. Em vez de ser forçado a considerar perdidas as tropas
de Kesselring, como julgara, e afastá-las para o norte da Itália, o Führer teve a sa
tisfação de ver os exércitos do marechal-de-campo entrincheirarem-se ao sul de
Roma, onde, facilmente, detiveram o avanço dos ingleses, franceses e americanos
pela península. Não se podia contestar que a boa sorte de Hitler se havia restabe
lecido consideravelmente, graças à sua temeridade e seu engenho e à proeza de
suas tropas.
Em outras partes, porém, a sorte continuou a decair.
Em 5 de julho de 1943 ele desencadeou sua grande ofensiva na guerra contra
os russos, a qual provaria ser a última. Lançou a flor do exército alemão, aproxi
madamente quinhentos mil homens com não menos de 17 divisões panzer apare
lhadas com os novos tanques Tigre pesados, contra uma grande saliência russa a
oeste de Kursk. Foi a Operação Cidadela, e Hitler acreditava que ela não só encur
ralaria as melhores forças dos exércitos russos, formadas de um milhão de ho
mens, as próprias forças que haviam desalojado os alemães de Stalingrado e do
Todos os outros chefes fascistas que, na reunião do Grande Conselho, haviam votado contra o Duce e que
puderam ser aprisionados, foram julgados por crime de traição por um tribunal especial e, com exceção
de um, condenados à morte e fuzilados juntamente com Ciano. Entre eles achava-se Emílio de Bono que,
em outros tempos, havia sido um dos mais firmes adeptos de Mussolini e um dos elementos do qua-
drunvirato que dirigiu a marcha sobre Roma em conseqüência da qual Mussolini galgou o poder.
522 O COMEÇO DO FIM
Don no inverno anterior, como o habilitaria a avançar novamente para o Don e,
talvez, também para o Volga, e a atacar do sudoeste para capturar Moscou.
A operação redundou numa derrota decisiva. Os russos achavam-se prepara
dos para ela. Em 22 de julho, tendo as divisões panzer perdido metade de seus
tanques, viram-se os alemães completamente detidos em seu avanço e começa
ram a recuar. Os russos confiavam tanto em seu poderio que, sem esperarem pelo
resultado da ofensiva, lançaram a deles contra a saliência alemã em Orei, ao norte
de Kursk, em meados de julho; penetraram rapidamente no front. Foi a primeira
ofensiva de verão dos russos e, daquele momento em diante, seus exércitos não
mais perderam a iniciativa. Em 4 de agosto, arrancaram os alemães de Orei, o pivô
sul do ataque alemão para a captura de Moscou, em dezembro de 1941.
A ofensiva soviética estendeu-se ao longo de toda a frente. Kharkov caiu em 23
de agosto. Um mês depois (25 de setembro), 480 quilômetros a noroeste, eram os
alemães repelidos de Smolensk, cidade da qual eles, à semelhança da Grande Ar-
mée , haviam partido cheios de confiança rumo a Moscou, nos primeiros meses da
campanha russa. No fim de setembro, os exércitos de Hitler, sob forte pressão
inimiga, recuaram para a linha do Dnieper e para uma linha defensiva que ha
viam estabelecido desde Zaporozhe, na curva do rio, ao sul, até o mar de Azov.
Haviam perdido a bacia do Donets industrial, e o 17a Exército alemão na Criméia
corria o perigo de ficar isolado.
Hitler esperava que seus exércitos pudessem resistir no Dnieper e nas posições
fortificadas de Zaporozhe, que, juntos, formavam a então chamada Linha de In
verno. Mas os russos não fizeram sequer uma pausa para se reagruparem. Na pri
meira semana de outubro atravessaram o Dnieper ao norte e a sudeste de Kiev,
cidade que caiu em 6 de novembro. No fim daquele fatídico ano de 1943, os exér
citos soviéticos aproximaram-se, no sul, das fronteiras polonesas e romenas, pas
sando pelos campos de batalha onde os soldados de Hitler haviam obtido suas pri
meiras vitórias no verão de 1941, quando avançavam pelo interior da terra russa.
Isso não foi tudo.
Houve dois reveses de Hitler naquele ano, os quais também assinalaram a mu
dança da maré; a perda da batalha do Atlântico e a intensificação de uma devasta
dora guerra aérea sobre a própria Alemanha, dia e noite.
Em 1942, conforme vimos, os submarinos alemães afundaram barcos Aliados
com o total de 6.250.000 toneladas, a maioria deles a caminho da Inglaterra e do
A QUEDA DE MUSSOLINI $ 23
Mediterrâneo, tonelagem que ultrapassava a capacidade de produção dos estalei
ros no Ocidente. No começo de 1943, porém, os Aliados levaram a melhor na
guerra submarina, graças a uma técnica que aperfeiçoaram: a utilização de aviões
de grande raio de ação e porta-aviões, e, principalmente, o equipamento de radar
em seus barcos de superfície, que denunciava a presença de submarinos inimigos
antes de ser avistados. Dõnitz, o novo comandante da marinha e a principal figu
ra no setor dos submarinos, suspeitou a princípio de traição, quando tantos de
seus barcos caíam em emboscadas e eram destruídos antes mesmo de se aproxi
mar dos comboios Aliados. Descobriu, porém, rapidamente, que não se tratava de
traição; e que era o radar a causa daquelas desastrosas perdas. Em três meses, fe
vereiro, março e abril, tais perdas foram exatamente de cinqüenta barcos; só em
maio, 37 submarinos foram destruídos. Era uma proporção de perdas que a ma
rinha alemã não podia sustentar; antes do fim de maio, Dõnitz retirou do Atlânti
co Norte, por decisão própria, todos os submarinos.
Voltaram eles a operar em setembro, mas nos últimos quatro meses do ano
destruíram apenas 67 navios Aliados contra a perda de mais 64 submarinos, pro
porção que significava a condenação da guerra submarina e liquidava definitiva
mente a batalha do Atlântico. Em 1917, na Primeira Guerra Mundial, quando
seus exércitos ficaram paralisados, os submarinos da Alemanha quase obrigaram
a Inglaterra a render-se; estavam ameaçando realizar essa façanha também em
1942, quando os exércitos de Hitler, na Rússia e na África do Norte haviam sido
detidos e quando os Estados Unidos e a Inglaterra esforçavam-se não só para de
ter o avanço dos japoneses no sudeste da Ásia como, também, para reunir ho
mens, armamentos e suprimentos destinados à invasão do império europeu de
Hitler, no Ocidente.
O fato de não poderem os submarinos desorganizar as vias de navegação do
Atlântico Norte, durante o ano de 1943, representava um desastre cujo alcance era
ainda maior do que o julgava o quartel-general de Hitler, não obstante serem alar
mantes as notícias então recebidas.* Foi durante os 12 meses daquele ano decisivos
* "Nada de conversa sobre uma pausa na guerra submarina", trovejara Hitler para o almirante Dõnitz
quando, em 31 de maio, ele o informou de que os submarinos haviam sido retirados do Atlântico Nor
te. "O Atlântico é minha primeira linha de defesa no Ocidente", acrescentou.
Foi mais fácil dizer que fazer. Em 12 de novembro, Dõnitz, desesperado, escreveu em seu diário: "O ini
migo está com todos os trunfos, faz a cobertura de todas as áreas com patrulhas aéreas de grande raio
de ação e emprega métodos de localização contra os quais ainda não dispomos de informações (...) O
inimigo conhece todos os nossos segredos e nós não conhecemos nenhum dos deles".8
524 O COMEÇO DO FIM
que os vastos estoques de armamentos e suprimentos foram transportados, quase
sem molestamento, pelo Atlântico; isso tornou possível o assalto à fortaleza euro
péia no ano seguinte.
E foi também durante aquele período que o povo alemão sentiu, em seu pró
prio território, os horrores da guerra moderna. Sentiu-os em seus próprios lares.
A população pouco sabia o que os submarinos estavam fazendo. Conquanto as
notícias procedentes da Rússia, do Mediterrâneo e da Itália se fossem tornando
cada vez piores, giravam, afinal de contas, em torno de acontecimentos que esta
vam ocorrendo a centenas ou milhares de quilômetros longe do país. Mas as bom
bas dos aviões ingleses, à noite, e dos aviões americanos, durante o dia, começa
vam agora a destruir os lares alemães e as salas ou fábricas onde trabalhavam.
O próprio Hitler sempre se recusou a visitar uma cidade bombardeada; era
um dever que lhe parecia demasiado penoso suportar. Goebbels afligia-se muito
com isso; queixava-se de que estava sendo inundado de cartas “perguntando
por que o Führer não visitava as infortunadas áreas que haviam sido atacadas, e por
que não se via Gõring em parte alguma”. O ministro da Propaganda, com a auto
ridade de sua posição, descreveu os crescentes danos infligidos do ar às cidades e
às fábricas alemãs.
16 de maio de 1943. (...) As incursões diurnas dos bombardeiros america
nos estão criando dificuldades extraordinárias. Se isso continuar, teremos
de enfrentar graves conseqüências que, no final, serão insuportáveis (...)
25 de maio. A incursão noturna dos ingleses, sobre Dortmund, foi ex
traordinariamente pesada, provavelmente a pior que se realizou contra
uma cidade alemã (...) Os relatórios recebidos de Dortmund são horrí
veis (...) Indústrias e fábricas de munições foram seriamente atingidas
(...) Uns oitenta mil ou cem mil habitantes ficaram desabrigados (...) O
povo, a oeste, está aos poucos começando a perder a coragem. É difícil
suportar um inferno como este (...) Recebi à noite [novo] relatório sobre
Dortmund. A destruição é praticamente total. Quase nenhuma casa é
habitável (...)
26 de julho. Uma pesada incursão contra Hamburgo, durante a noite
(...) com gravíssimas conseqüências para a população civil e para a pro
dução de armamentos (...) É uma verdadeira catástrofe (...)
A QUEDA DE MUSSOLINI 525
29 de julho. Tivemos, à noite, o ataque aéreo mais pesado que até então
se realizou, contra Hamburgo, de oitocentos a mil bombardeiros (...)
Kaufmann [o Gauleiter local] deu-me o primeiro relatório (...) falou em
uma catástrofe cuja extensão é simplesmente de estarrecer. Uma cidade
de um milhão de habitantes foi destruída de modo sem paralelo na
história. Defrontamo-nos com problemas cuja solução é quase impos
sível. É preciso arranjar mantimentos para essa população de um milhão.
É preciso providenciar abrigos. Cumpre evacuar os habitantes tanto
quanto possível. Cumpre dar-lhes roupas. Em resumo, defrontamo-nos
com problemas, ali, dos quais não tínhamos idéia alguma até há poucas
semanas (...) Kaufmann falou em cerca de oitocentas mil pessoas pe-
rambulando pelas ruas sem saber o que fazer (...)
Embora causassem danos consideráveis a específicas fábricas que na Alemanha
trabalhavam para a guerra, especialmente as que produziam aviões, rolamentos,
navios de guerra, aço e combustível para os novos jatos, e à estação de Peenemunde,
onde eram realizadas experiências vitais com foguetes nos quais Hitler depositava
grandes esperanças,* e embora o transporte por vias férreas e canais ficasse conti
nuamente desorganizado, a produção de armamentos da Alemanha não ficou, em
seu todo, materialmente reduzida durante a intensificação dos bombardeios an
glo-americanos de 1943. Isso, em parte, foi devido à crescente produtividade das
fábricas situadas nas zonas ocupadas, principalmente na Tchecoslováquia, Fran
ça, Bélgica e norte da Itália, que escaparam do bombardeio.
O maior dano infligido pelas forças aéreas anglo-americanas, conforme Goebbels
deixou patente em seu diário, ocorreu nos lares e no moral do povo alemão. Nos
primeiros anos da guerra, o povo havia sido animado, conforme se lembra o autor,
* Em maio de 1943, um avião de reconhecimento da Real Força Aérea havia fotografado as instalações
de Peenemunde em seguida a uma informação do movimento subterrâneo polonês, a Londres, de que
um aparelho impulsionado a jato, sem piloto (mais tarde conhecido por bomba V-1 ou bomba voado
ra) e um foguete (o V-2) estavam sendo preparados ali. Em agosto, bombardeiros ingleses atacaram
Peenemunde, danificando seriamente as instalações e, com isso, fazendo atrasar por vários meses as
pesquisas e as provas. Em novembro, forças aéreas americanas e britânicas localizaram 63 pontos de
lançamento no Canal, para o V-1 e, no período de dezembro a fevereiro, bombardearam e destruíram
73 desses pontos, os quais, a esse tempo, já atingiam o número de 96. As expressões "V-1 "e "V-2" vieram
da palavra alemã Vergeltungswaffen (armas de represália), da qual o dr. Goebbels tanto iria servir-se em
sua propaganda no sombrio ano de 1944.
526 O COMEÇO DO FIM
pelas brilhantes notícias a respeito do que os bombardeios da Luftwaffe causavam
ao inimigo, especialmente aos ingleses. A população alemã estava certa de que isso
contribuiria para que a guerra terminasse logo, e vitoriosamente. Ora, em 1943,
ela mesma começou a sofrer todo o peso da guerra aérea, ainda mais devastador
que o da Luftwaffe sobre outros povos, mesmo sobre a população de Londres em
1940-1941. Os alemães suportaram-no com a bravura e o estoicismo dos ingleses.
Após quatro anos de guerra, porém, passara a ser uma provação crudelíssima, e
não é de surpreender que, ao aproximar-se o fim o ano de 1943, com todas as es
peranças destruídas na Rússia, no norte da África e na Itália, e suas próprias cida
des, de uma extremidade a outra do Reich, sendo pulverizadas do ar, começasse o
povo alemão a desesperar-se e a compreender que isso era o começo do fim e que
só podia ser sua derrota.
“No fim de 1943, tornara-se inegavelmente evidente que a guerra estava mili-
tarmente perdida”, escreveu mais tarde o general Halder, então inativo.9
O general Jodl, numa conferência não oficial para os Gauleiters nazistas, em
Munique no dia 7 de novembro de 1943, véspera do aniversário do Putsch da
cervejaria, não foi tão longe nesse ponto; mas o quadro que descreveu, sobre a
situação no começo do quinto ano da guerra, foi bastante sombrio.
O que hoje pesa mais fortemente na frente interna e, conseqüentemen
te, nas linhas de frente [disse] são as incursões áreas aterrorizadoras do
inimigo sobre nossos lares e, portanto, sobre nossas mulheres e filhos.
A esse respeito (...) a guerra, por culpa exclusiva da Inglaterra, assumiu
formas que eu não acreditava fossem ainda possíveis, desde os dias de
nossas guerras religiosas e raciais.
O efeito psicológico, moral e material, dessas incursões de terror é tal
que se torna necessário mitigá-lo, se não for possível fazê-las cessar
imediatamente.
As condições do moral alemão, em conseqüência das derrotas e dos bombar
deios de 1943, foram vividamente descritas por essa fonte autorizada, que então
falava pelo Führer:
O demônio da subversão movimenta-se pelo país. Todos os covardes
estão procurando uma saída ou, conforme a designam, uma solução
A QUEDA DE MUSSOLINI 527
política. Dizem que precisamos entabular negociações enquanto temos
alguma coisa em mãos (...)*
Não eram, porém, somente os covardes. O próprio dr. Goebbels, o mais leal e
o mais fiel — e o mais fanático — dos adeptos de Hitler procurava, conforme re
vela seu diário, uma solução antes que terminasse aquele ano de 1943, martelando
o cérebro não com o fato de a Alemanha dever negociar a paz, mas com quem
devia negociá-la: se com a Rússia ou com os ocidentais. Não falava por trás de
Hitler acerca da necessidade de serem feitas sondagens de paz, como outros ha
viam começado a fazer. Foi corajoso e bastante franco para confiar seus pensa
mentos diretamente ao chefe. Em 10 de setembro de 1943, quando se encontrava
no quartel-general do Führer em Rastenburg, para onde havia sido chamado ao
ser recebida a notícia da capitulação da Itália, abordou em seu diário, pela primei
ra vez, a questão de possíveis negociações de paz.
O problema que começa a apresentar-se é saber para que lado nos deve
mos virar primeiro: se para os moscovitas ou se para os anglo-america
nos. De um modo ou de outro, devemos compreender claramente que
será muito difícil travar, com êxito, uma guerra contra ambos os lados.
Encontrou Hitler “algo preocupado” com a perspectiva da invasão dos Aliados
no Ocidente, e com a situação crítica na frente russa.
Fato depressivo é não termos a mais leve idéia sobre o que dispõe Stalin
no tocante a reservas. Duvido bastante que, dadas essas condições,
possamos transferir divisões do leste para os outros cenários da guerra
na Europa.
* A conferência de Jodl intitulada "A posição estratégica no quinto ano da guerra" é, talvez, o relato es
pontâneo mais completo que temos sobre a situação desagradável dos alemães no fim de 1943, segun
do a viam Hitler e os generais. Foi mais que uma simples conferência confidencial para os líderes políti
cos nazistas. Acha-se pontilhada de dezenas de memorandos e documentos altamente secretos, com o
carimbo do"Quartel-general do Führer”, aos quais Jodl se referia e que, tomados em conjunto, represen
tam uma clara história da guerra como se afigurava ao Führer, que parece ter supervisionado a prepara
ção dessa conferência. Jodl, que encarava sombriamente o presente, mostrou-se mais desanimado
ainda em relação ao futuro, predizendo com exatidão que a iminente invasão dos anglo-americanos no
Ocidente "decidiria a guerra" e que "as forças à nossa disposição não serão adequadas" para repeli-la.10
528 O COMEÇO DO FIM
Tendo registrado no diário secreto algumas de suas idéias, as quais, meses
antes, consideraria traição e derrotismo, Goebbels abordou então Hitler.
Perguntei ao Führer se poderia fazer alguma coisa com Stalin, cedo ou
tarde. Respondeu-me ele que por enquanto não (...) Seja como for, o
Führer acredita que seria mais fácil negociar com os ingleses que com os
soviéticos. Em dado momento, acredita ele, os ingleses recuperarão seu
bom-senso (...) Sinto-me um tanto inclinado a considerar Stalin mais
abordável, pois é um político mais prático que Churchill, que é um aven
tureiro romântico, com quem não se pode conversar sensatamente.
Foi nesse momento sombrio de seus negócios que Hitler e seus lugares-tenen-
tes começaram a agarrar-se a algumas leves esperanças: que os Aliados abandona
riam a luta, a Inglaterra e os Estados Unidos passariam a ficar assustados com a
perspectiva de o Exército Vermelho invadir a Europa, e acabariam por unir-se à
Alemanha para proteger o Velho Continente contra o bolchevismo. Hitler esten
deu-se um tanto longamente a respeito dessa possibilidade numa conferência com
Dõnitz, em agosto, tendo sobre ela conversado com Goebbels em setembro.
Os ingleses [escreveu Goebbels no diário] não desejarão uma Europa
bolchevista quaisquer que sejam as circunstâncias (...) Uma vez que
compreendam que (...) só têm a escolher entre o bolchevismo ou um
afrouxamento para com o nacional-socialismo, mostrar-se-ão, sem dú
vida, inclinados a entrar em acordo conosco (...) O próprio Churchill é
um antigo antibolchevista, e sua colaboração com Moscou não passa de
mera conveniência.
Hiüer e Goebbels pareciam ter esquecido quem havia em primeiro lugar cola
borado com os russos, e quem forçara a Rússia a entrar na guerra. Resumindo o
debate com Hitler sobre uma possível paz, concluiu Goebbels:
Cedo ou tarde teremos de enfrentar a questão de inclinarmo-nos para
um lado inimigo ou para outro. A Alemanha nunca teve sorte, afinal,
com uma guerra de duas frentes, tampouco poderia suportar esta.
A QUEDA DE MUSSOLINI 529
Mas não era tarde, naquele dia, ponderar sobre isso? Goebbels voltou ao quar
tel-general em 23 de setembro e, no decurso de um passeio matinal com o líder
nazista, achou-o ainda mais pessimista que duas semanas antes no tocante à pos
sibilidade de ser negociada a paz, com um dos adversários, a fim de a Alemanha
fazer face a uma só frente de guerra.
O Führer não acredita que se possa conseguir qualquer coisa presente
mente, por meio de negociações. A Inglaterra ainda não se acha sufi
cientemente abalada (...) No leste, o momento apresenta-se natural
mente muito desfavorável (...) Stalin é quem, atualmente, está com
vantagem.
Naquela noite, Goebbels jantou a sós com Hitler.
Perguntei ao Führer se estaria disposto a negociar com Churchill (...)
Ele não acredita que dessem algum resultado negociações com Chur
chill, porque ele este está profundamente apegado a seu ponto de vista
hostil e, além disso, é guiado pelo ódio e não pela razão. O Führer pre
feria negociar com Stalin, mas não crê que seria bem-sucedido.
Declarei ao Führer que, qualquer que fosse a situação, deveríamos che
gar a um acordo com um lado ou outro. O Reich jamais havia vencido
uma guerra de duas frentes. Devemos, portanto, procurar, de um modo
ou outro, sair desta guerra de duas frentes.
A tarefa era muito mais difícil do que se lhes afigurava, a eles que haviam, tão
levianamente, mergulhado a Alemanha numa guerra de duas frentes. Naquela
noite de setembro de 1943, porém, pelo menos por alguns momentos, o coman
dante supremo nazista deu vazão a seu pessimismo e ruminou sobre como seria
doce a paz. Segundo Goebbels, disse até que “ansiava” por ela.
Declarou que se sentiria feliz tendo novamente contato com os círculos
artísticos, indo ao teatro à noite e visitando o Clube dos Artistas.11
Hitler e Goebbels não eram, na Alemanha, os únicos que, ao entrar a guerra
em seu quinto ano, especulavam sobre a possibilidade e os meios de ser conseguida
530 O COMEÇO DO FIM
a paz. Os loquazes e frustrados conspiradores antinazistas, cujo número aumen
tara mas ainda continuava lamentavelmente pequeno, meditavam novamente a
respeito do problema, agora que viam estar perdida a guerra, se bem que os exér
citos de Hitler estivessem ainda combatendo em solo estrangeiro. A maioria deles
chegara, relutantemente e só depois de vencer os maiores tormentos em sua cons
ciência, à conclusão de que, para obter paz para a Alemanha, deixando a pátria
com alguma perspectiva de sobrevivência decente, teriam eles que matar Hitler e,
ao mesmo tempo, eliminar o nacional-socialismo.
Ao chegar o ano de 1944, com a certeza de que os exércitos anglo-americanos
levariam a efeito uma invasão pelo Canal antes que o ano estivesse muito adiante
em seu curso, e de que o Exército Vermelho estaria mais próximo das fronteiras
do próprio Reich, e que as grandes e antigas cidades da Alemanha logo estariam
reduzidas a ruínas pelo bombardeio dos Aliados,* os conspiradores, em seu deses
pero, prepararam-se para uma última tentativa: matar Hitler e derrubar seu regi
me, antes que arrastasse a Alemanha para o precipício, ocasionando-lhe um desas
tre completo.
* "A obra de um milênio nada mais é que ruínas", escreveu Goerdeler ao marechal-de-campo von
Kluge, em julho de 1943, após visitar as áreas bombardeadas do oeste. Em sua carta, Goerdeler supli
cou ao vacilante general que se unisse aos conspiradores para darem um fim a Hitler e à sua loucura.
CAPÍTULO 3
Invasão da Europa Ocidental pelos Aliados e
tentativas de matar Hitler
Os conspiradores fizeram, durante o ano de 1943, pelo menos meia dúzia de
tentativas para assassinar Hitler, uma das quais malogrou quando uma bomba-
relógio, colocada no avião do Führer por ocasião de vôo que ele fez até a retaguar
da das linhas, deixou de explodir.
Operou-se nesse ano uma grande mudança no movimento de resistência tal
como era. Os conspiradores acabaram renunciando à participação dos marechais-
de-campo. Eram eles demasiado covardes, ou cabeçudos, para servirem-se de suas
posições e poder militar para derrubar o comandante supremo. Numa conferên
cia secreta, realizada em novembro de 1942 na floresta de Smolensk, Goerdeler, o
ativo membro da resistência, solicitou pessoalmente ao marechal-de-campo von
Kluge, comandante do grupo de exércitos do centro, no leste, que tomasse parte
ativa no plano de desembaraçarem-se de Hitler. O volúvel comandante que, fazia
pouco tempo, aceitara um belo presente do Führer* concordou; passados poucos
dias, porém, perdeu a coragem e escreveu ao general Beck, em Berlim, declarando
que não mais contassem com ele.
Algumas semanas depois, os conspiradores procuraram induzir o general
Paulus, cujo 6- Exército estava cercado em Stalingrado, e, presumiam, achava-se
profundamente desiludido com o chefe que tornara possível tal situação, a lançar
um apelo ao exército para que derrubasse o tirano que havia condenado 250 mil
* Em seu sexagésimo aniversário, em 30 de outubro de 1942, Kluge recebeu do Führer um cheque de
250 mil marcos (cem mil dólares à taxa oficial de câmbio) e uma licença especial para gastar metade
da importância com melhoramentos em sua propriedade. Não obstante esse insulto à sua honestida
de e sua honra de oficial alemão, o marechal-de-campo aceitou ambas as coisas. (Schlabrendorff, They
Almost Killed Hitler, p. 40). Mais tarde, quando Kluge se colocou contra Hitler, ele declarou aos oficiais,
no quartel-general: "Eu, pessoalmente, o promovi duas vezes, dei-lhe as mais altas condecorações,
uma grande propriedade (...) e uma grande quantia suplementar a seu soldo de marechal-de-campo
(...)" (Gilbert, Hitler Directs his War, p. 101-2, versão, segundo notas estenografadas, da conferência de
Hitler no quartel-general, em 31 de agosto de 1944).
532 O COMEÇO DO FIM
soldados alemães a um fim tão horrível. Um apelo pessoal do general Beck a
Paulus, para que fizesse isso, foi enviado de avião para a cidade sitiada por inter
médio de um oficial da força aérea. Paulus, conforme vimos, respondeu, pelo
rádio, enviando uma série de mensagens nas quais manifestava sua devoção ao
Führer. Despertou para a realidade somente depois de chegar a Moscou, prisio
neiro dos russos.
Os conspiradores, desapontados com Paulus, durante alguns dias, voltaram
em seguida suas esperanças para Kluge e Manstein, os quais, depois do desastre
de Stalingrado, voaram para Rastenburg para, segundo ficara entendido, exigir
que o Führer lhes entregasse o comando da frente russa. Se fossem bem-sucedi-
dos, essa démarche seria o sinal para um coup detat em Berlim. Mais uma vez os
conspiradores foram vítimas de sua crença, baseada num desejo e não em razões
lógicas. Os dois marechais-de-campo foram realmente de avião ao quartel-gene
ral de Hitler, mas somente para reafirmar sua lealdade ao comandante supremo.
“Fomos abandonados”, queixou-se Beck amargamente.
Tornou-se óbvio, a ele e a seus amigos, que não podiam esperar auxílio prático
dos comandantes superiores, na frente. Desesperados, voltaram-se para a única
fonte de força militar, o Ersatzheer, o Exército Metropolitano ou da Reserva, que
quase não era um exército mas um aglomerado de recrutas em treinamento e
várias tropas de guarnições formadas de homens que passaram o limite de idade
e exerciam função de guardas, no país. Mas, pelo menos, seus componentes eram
homens armados. Com as tropas regulares e as unidades do Waffen-S.S. distantes,
na frente, acreditavam os conspiradores que talvez pudessem ocupar Berlim e
outras cidades no momento do assassinato de Hitler.
Mas quanto à necessidade, ou mesmo ao desejo, desse ato letal, a oposição
ainda não se mostrava inteiramente de acordo.
O Círculo de Kreisau, por exemplo, opunha-se intransigentemente a qualquer
ato de violência. Era um notável e heterogêneo grupo de jovens idealistas, reuni
dos em torno dos rebentos de duas das mais afamadas e aristocráticas famílias da
Alemanha: o conde Helmuth James von Moltke, sobrinho-bisneto do marechal-
de-campo que conduzira, em 1870, o exército prussiano à vitória na guerra contra
a França, e o conde Peter Yorck von Wartenburg, descendente direto do famoso
general da era napoleônica que, juntamente com Clausewitz, assinou a Conven
ção de Tauroggen com o czar Alexandre I, segundo a qual o exército prussiano se
aliou a seus adversários e ajudou a derrotar Bonaparte.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 533
Adotando o nome da propriedade de Moltke em Kreisau, na Silésia, o Círculo
Kreisau não era um grupo de conspiradores, mas um grupo que se reunia para
debates* e cujos membros representavam um amálgama da sociedade alemã,
como havia sido nos tempos pré-nazistas e como esperavam que ela fosse quando
passasse o pesadelo hitlerista. Incluía dois padres jesuítas, dois pastores luteranos,
conservadores, liberais, socialistas, ricos proprietários, antigos líderes de sindica
tos, professores e diplomatas. A despeito da diferença de posições, educação e
idéias, encontraram bases amplas e comuns que os capacitavam a prover a resis
tência a Hitler de idéias intelectuais, espirituais, morais, filosóficas e, até certo
ponto, políticas. Julgando pelos documentos que deixaram (quase todos esses ho
mens foram enforcados antes do término da guerra), que incluíam planos para o
futuro governo e para os fundamentos econômicos, sociais e espirituais da nova
sociedade, o que eles almejavam era uma espécie de socialismo cristão, no qual
todos os homens seriam irmãos e os terríveis males dos tempos modernos, as
perversões do espírito humano, seriam curados. Seus ideais eram nobres e bas
tante elevados, acrescidos de um toque de misticismo alemão.
Esses jovens de espírito nobre eram realmente pacientes. Odiavam Hitler e
toda a degradação que ele trouxe para a Alemanha e Europa. Não estavam, con
tudo, interessados em derrubá-lo. Achavam que a derrota que se avizinhava da
Alemanha se encarregaria disso. Suas atenções voltaram-se exclusivamente para
os dias que a ela se seguiriam. “Para nós (...) o problema da Europa, depois da
guerra, é uma questão de como restaurar no coração de nossos concidadãos a fi
gura do homem”, escreveu Moltke naquela ocasião.
Dorothy Thompson, a ilustre jornalista americana que esteve muitos anos na
Alemanha e a conhecia bem, apelou para Moltke, a quem era ligada por velha
amizade, procurando fazê-lo descer ao mundo da realidade. Numa série de trans
missões em ondas curtas, de Nova York, durante o verão de 1942, dirigidas a
“Hans”, pediu-lhe e a seus amigos que fizessem alguma coisa e se desembaraças
sem do demoníaco ditador. “Não vivemos num mundo de santos, mas de criatu
ras humanas”, procurou lembrar-lhe.
A última vez que nos encontramos, Hans, e bebemos chá juntos naque
le belo terraço defronte ao lago (...) eu disse que algum dia você teria de
* "Vamos ser enforcados por pensarmos juntos" escreveu Moltke à sua esposa pouco tempo antes de
sua execução.
534 O COMEÇO DO FIM
demonstrar por ações, ações drásticas, qual a sua posição (...) e lembro-
me de que lhe perguntei se você e seus amigos teriam então coragem
para agir C..)1
Era uma pergunta muito sutil e parece que a resposta a ela foi Moltkee e seus
amigos terem coragem para falar — e por isso foram executados —, não, porém,
para agir.
Essa falha, mais em seus espíritos que em seus corações, pois todos enfrenta
ram a morte cruel com grande bravura, foi a causa principal da diferença entre o
Círculo de Kreisau e o grupo de conspiradores de Beck, Goerdeler e Hassell, se
bem que divergissem também quanto à natureza e à formação do governo que
devia substituir o regime nazista.
Reuniram-se eles diversas vezes, em seguida a uma conferência muito formal
realizada em 22 de janeiro de 1943 na residência de Peter Yorck, presidida pelo
general Beck, o qual, conforme Hassell relatou em seu diário, “mostrou-se um
tanto fraco e reservado”.2 Surgiu vivo debate entre os “jovens” e os “velhos” — ex
pressões de Hassell — sobre a futura política econômica e social, durante o qual
Moltkee entrou em choque com Goerdeler. Hassell achava o antigo prefeito de
Leipzig muito reacionário, tendo anotado a “tendência pacifista e anglo-saxônica”
de Moltkee. A Gestapo também tomou nota dessa reunião e, nos julgamentos
subseqüentes dos que dela participaram, apresentou um relato dos debates ex
traordinariamente minucioso.
Himmler já se achava mais próximo das pegadas dos conspiradores do que
eles imaginavam. Constitui, porém, uma das ironias desta narrativa o fato de a
essa altura, em 1943, o maneiroso e sanguinário chefe das S.S., o policial-mor do
Terceiro Reich, adquirir um interesse pessoal e não completamente desfavorável
pela resistência, com a qual teve mais de um contato amistoso. E demonstra a
mentalidade dos conspiradores o fato de mais de um deles, Popitz especialmente,
começar a ver em Himmler um possível substituto de Hitler! O próprio chefe das
S.S., aparentemente de uma lealdade fanática, principiou a considerar tal possibi
lidade; quase até o fim, entretanto, fez jogo duplo, no decurso do qual eliminou
muitos valorosos conspiradores.
A resistência trabalhava agora em três campos. O Círculo Kreisau continuava
a manter suas infindáveis conversas para restaurar a obra de um milênio. O grupo
de Beck, mais realista, esforçava-se, de certo modo, para matar Hitler e assumir o
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 535
poder, estabelecendo contato com o Ocidente a fim de manter os Aliados a par do
que se tramava, e saber que espécie de paz negociariam eles com um novo gover
no antinazista.* Tais contatos foram realizados em Estocolmo e na Suíça.
Goerdeler encontrou-se várias vezes, na capital suíça, com os banqueiros Mar-
cus e Jakob Wallenberg, seus amigos de há muito tempo, os quais tinham negócios
e contatos pessoais em Londres. Num encontro em abril de 1942 com Jakob Wal
lenberg, Goerdeler instou com ele para que se comunicasse com Churchill. Os
conspiradores queriam, antecipadamente, uma garantia do primeiro-ministro de
que os Aliados fariam a paz com a Alemanha se eles prendessem Hitler e derru
bassem o regime nazista. Wallenberg respondeu que, pelo que sabia do governo
britânico, tal garantia não seria possível.
Um mês depois, dois clérigos luteranos se comunicaram diretamente com os
ingleses, em Estocolmo. Tratava-se do dr. Hans Schõnfeld, membro do Departa
mento de Relações Exteriores da Igreja Evangélica alemã, e do pastor Dietrich
Bonhõffer, eminente teólogo e ativo conspirador que, ao saber que o dr. George
Bell (bispo anglicano de Chichester) se achava em visita a Estocolmo, apressou-se
a procurá-lo. Bonhõffer estava viajando com passaportes falsos que lhe tinham
sido fornecidos pelo coronel Oster, da Abwehr.
Ambos os pastores informaram o bispo sobre os planos dos conspiradores e,
da mesma maneira que Goerdeler, indagaram se os Aliados ocidentais celebra
riam uma paz decente com um governo não-nazista assim que Hitler tivesse sido
deposto do poder. Pediram uma resposta, por meio de mensagem particular ou
comunicação pública. Com o fim de convencer o bispo de que a conspiração anti
nazista era coisa séria, Bonhõffer forneceu-lhe a relação dos chefes — indiscrição
que mais tarde, lhe custou a vida e contribuiu para a execução de muitos outros.
Era a informação mais autorizada e mais recente que tinham os Aliados sobre
a oposição alemã e seus planos. O bispo Bell entregou-a prontamente a Anthony
Eden, o secretário das Relações Exteriores da Inglaterra, quando regressou a Lon
dres em junho. Eden, porém, que havia resignado ao cargo em 1938, em sinal de
* Diz-se, em alguns livros alemães de memórias, que em 1942 e 1943 os nazistas estiveram em contato
com os russos abordando possíveis negociações de paz; e que até o próprio Stalin se oferecera para
iniciar as conversações para uma paz em separado. Ribbentrop declarou, no julgamento em Nurem
berg, que ele mesmo se esforçou para entrar em contato com os russos e que, realmente, se comunicou
com agentes soviéticos em Estocolmo. Peter Kleist, que representou Ribbentrop em Estocolmo, narrou
esse fato em seu livro.3Tenho a impressão de que talvez venha à luz um capítulo que esclareça esse
episódio, quando todos os documentos secretos tiverem sido classificados.
5y 6 O COMEÇO DO FIM
protesto contra a política conciliatória de Chamberlain relativamente a Hitler,
mostrou-se cético. Informações idênticas tinham sido transmitidas ao governo
inglês por elementos que se diziam conspiradores desde os tempos de Munique, e
delas nada adviera. Não se deu resposta.4
Os contatos secretos dos alemães com os Aliados na Suíça, foram feitos prin
cipalmente por intermédio de Allen Dulles, que ali dirigiu o escritório de Serviços
Estratégicos dos Estados Unidos desde novembro de 1942 até o fim da guerra. Seu
principal visitante foi Hans Gisevius, que freqüentemente viajava de Berlim a Ber
na e era também um ativo membro da conspiração, conforme vimos. Gisevius
trabalhava para a Abwehr e fora colocado no consulado geral, em Zurique, como
vice-cônsul. Sua função era transmitir mensagens de Beck e Goerdeler a Dulles e
mantê-lo a par da marcha dos vários complôs contra Hitler. Outros visitantes
alemães foram o dr. Schõnfeld e Trott zu Solz, membro do Círculo de Kreisau e da
conspiração e, certa vez, quem fez uma viagem à Suíça para prevenir Dulles —
como fizeram muitos outros — de que os conspiradores se entenderiam com a
Rússia soviética se as democracias ocidentais se recusassem a considerar uma paz
decente com um regime alemão antinazista. Dulles, conquanto demonstrasse
pessoalmente sua simpatia pela questão, não pôde dar qualquer garantia.5
É de admirar que esses chefes da resistência alemã insistissem em obter dos
ocidentais um tratado de paz favorável e hesitassem tanto em desembaraçar-se de
Hitler enquanto isso não acontecesse. Seria de julgar que, considerassem eles o
nazismo um mal assim tão monstruoso como constantemente afirmavam — com
sinceridade, sem dúvida —, teriam concentrado todos os esforços no sentido de
derrubá-lo independentemente da maneira que os ocidentais pudessem vir a tra
tar o novo regime. Tem-se a impressão de que muitos daqueles “bons alemães”
caíram facilmente na cilada de culpar o mundo exterior por suas próprias faltas,
como alguns deles fizeram com relação às desventuras da Alemanha depois da
Primeira Guerra Mundial e até mesmo durante o advento do próprio Hitler.
Operação Clarão
Em fevereiro de 1943, Goerdeler informou Jakob Wallenberg, em Estocolmo,
que “eles tinham planos para um golpe em março”.
Tinham.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 537
Os preparativos para a operação Clarão — nome pelo qual foi chamada — ha
viam sido elaborados durante os meses de janeiro e fevereiro pelo general Friedrich
Olbricht, chefe do escritório do Estado-maior geral (Allgemeins Heeresamt), e
pelo general von Tresckow, chefe do Estado-maior do grupo de exércitos do cen
tro, de Kluge, na Rússia. Olbricht, um homem profundamente religioso, adotara
a causa da conspiração fazia pouco tempo e, dado seu novo posto, nela tornou-se
rapidamente uma figura-chave. Como representante do general Friedrich Fromm,
comandante do exército da reserva, estava em condições de reunir as guarnições
de Berlim e de outras cidades do Reich para apoiar os conspiradores. O próprio
Fromm, à semelhança de Kluge, já se achava agora desiludido com o Führer , mas
os conspiradores não o consideravam bastante digno de confiança para participar
dos planos.
“Estamos prontos. É tempo para o Clarão”, comunicou Olbricht, no fim de
fevereiro, ao jovem Fabian von Schlabrendorff, oficial subalterno junto ao Estado-
maior de Tresckow. No princípio de março, os conspiradores se reuniram para
uma última conferência em Smolensk, onde se achava o quartel-general do grupo
de exércitos do centro. Embora não participasse da ação, o almirante Canaris,
chefe da Abwehr, estava a par dela e providenciara a reunião, levando ostensiva
mente consigo, de avião, para uma conferência dos oficiais do Serviço Secreto da
Wehrmacht, Hans von Dohnanyi e o general Erwin Lahousen, de seu Estado-
maior. Lahousen, um antigo oficial do serviço secreto do exército austríaco e o
único conspirador que sobreviveu à guerra, levou algumas bombas.
Schlabrendorff e Tresckow, após muitas experiências, acharam que as bombas
alemãs não eram boas para o que pretendiam. Funcionavam, segundo explicou
mais tarde o jovem oficial,6 com um rastilho que fazia um ruído leve e sibilante
que as denunciava. Descobriram que os ingleses fabricavam uma bomba melhor.
“Elas não faziam ruído algum antes de explodir”, disse Schlabrendorff. A Real Força
Aérea havia lançado certo número desses engenhos sobre a Europa ocupada, para
fins de sabotagem dos agentes dos Aliados — usara-se um para assassinar Heydrich
— e a Abwehr havia colhido vários deles entregando-os aos conspiradores.
O plano traçado na conferência de Smolensk era atrair Hitler ao quartel-general
do Grupo de Exércitos e eliminá-lo ali. Seria esse o sinal para o golpe em Berlim.
Atrair a uma armadilha o comandante supremo, que então suspeitava de
muitos de seus generais, não era coisa fácil. Mas Tresckow convenceu um velho
538 O COMEÇO DO FIM
amigo, o general Schmundt (então nesse posto), assistente de Hitler, a procurar
influenciar seu chefe a ir a Smolensk. Após algumas hesitações e cancelamentos
da viagem, o Führer concordou afinal em ir a Smolensk no dia 13 de março de
1943. O próprio Schmundt nada sabia do complô.
Entrementes, Tresckow renovara os esforços no sentido de conseguir que seu
chefe, Kluge, assumisse a direção na eliminação de Hitler. Sugeriu ao marechal-
de-campo que se permitisse ao tenente-coronel Freiherr von Boeselager,* que
comandou uma unidade de cavalaria, junto ao quartel-general, empregar essa
unidade no extermínio de Hitler e de seu corpo de guardas, quando chegassem.
Boeselager não se fez de rogado. Tudo de que precisava era uma ordem do mare
chal-de-campo. O hesitante comandante, entretanto, não se mostrou inclinado
a dá-la. Tresckow e Schlabrendorff resolveram, então, encarregar-se eles mesmos
da questão.
Colocariam simplesmente uma das bombas feitas na Inglaterra no avião de
Hitler, quando ele regressasse. “Dando a aparência de um acidente”, explicou
Schlabrendorff mais tarde, “se evitariam as desvantagens políticas de um assassi
nato, pois, naqueles dias, Hitler tinha ainda muitos adeptos que, após o aconteci
mento, oporiam forte resistência à revolta”.
Duas vezes naquela tarde e naquela noite de 13 de março, depois da chegada
de Hitler, os dois oficiais antinazistas viram-se tentados a modificar o plano: pri
meiro, resolvendo fazer explodir a bomba no alojamento pessoal de Kluge, onde
Hitler conferenciava com os generais do Grupo de Exércitos; depois, no refeitório
dos oficiais, onde o Führer e seus comandados ceavam.** Isso, porém, seria matar
também alguns dos próprios generais, com cujo auxílio os conspiradores conta
vam para assumir o poder no Reich, uma vez que estariam libertados do juramen
to de fidelidade ao Führer.
Restava então arranjar um meio de colocar a bomba no avião de Hitler, que
devia partir imediatamente depois da ceia. Schlabrendorff montara, segundo sua
designação, “dois pacotes de explosivos” e fez com eles um embrulho com a apa
rência de conter duas garrafas de uísque. Durante o repasto, Tresckow, com ar
* Executado pelos nazistas.
** Naquele primeiro encontro, diz Schlabrendorff que teve oportunidade de examinar o enorme
quepe de Hitler. Admirou-se de seu peso. Examinando-o, verificou ser forrado com uma placa, de aço,
de 1,6 quilo.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 539
inocente, pediu a Heinz Brandt, coronel do Estado-maior geral que fazia parte da
comitiva de Hitler, que lhe fizesse o obséquio de levar consigo duas garrafas de
uísque ao general Helmuth Stieff,* seu velho amigo, chefe da seção de Organiza
ção do Alto-Comando do Exército. Brandt, que de nada suspeitava, respondeu
que teria prazer em levá-las.
No aeródromo, SchlabrendoríF pôs em funcionamento, por uma abertura
no embrulho, o mecanismo da bomba, entregando-o a Brandt no momento em
que embarcava no avião. Tratava-se de um engenho feito com muita habilidade.
Não fazia o ruído de um mecanismo de relógio. Ao ser apertado um botão pelo
jovem oficial, quebrava-se um frasco, que soltava um produto químico que cor
roía o arame que retinha uma mola; corroído o arame, a mola comprimia um
percussor que atingia a espoleta destinada a fazer explodir a bomba.
Diz SchlabrendoríF que a explosão era esperada para logo depois que o avião
de Hitler passasse sobre Minsk, distante de Smolensk cerca de trinta minutos de
vôo. Excitadíssimo, SchlabrendoríF telefonou para Berlim e, por meio de palavras
em código, informou aos conspiradores que a operação Clarão havia começado.
Depois, ele e Tresckow ficaram esperando, com o coração aos saltos, pela grande
notícia. Pensavam ouvir a primeira comunicação pelo rádio, transmitida de um
dos aviões de caça que escoltavam o aparelho do Führer. Contaram os minutos:
vinte, trinta, quarenta, uma hora (...) e a notícia não chegava. Veio depois de duas
horas. Uma mensagem rotineira dizia que Hitler havia descido em Rastenburg.
Ficamos aturdidos e não podíamos atinar com a causa do fracasso [re
latou SchlabrendoríF mais tarde]. Telefonei imediatamente a Berlim e
transmiti a palavra em código que indicava haver falhado a tentativa.
Eu e Tresckow consultamos depois sobre qual seria a medida a ser to
mada. Estávamos profundamente abalados. Era bastante grave o fato de
aquele atentado não ter sido bem-sucedido. Pior, ainda, seria a desco
berta da bomba, que, infalivelmente, nos denunciaria e conduziria à
morte um largo círculo de fiéis colaboradores.
A bomba não foi descoberta. Tresckow telefonou nessa noite ao coronel Brandt.
Perguntou-lhe acidentalmente se tivera tempo para entregar o embrulho ao general
* Executado pelos nazistas.
540 O COMEÇO DO FIM
StieíF. Brandt respondeu que ainda não pudera fazê-lo. Tresckow pediu que guar
dasse o embrulho — dera-se um engano com as garrafas — e informou-o que
Schlabrendorff chegaria ali no dia seguinte, para atender a um assunto oficial, e
levaria o uísque de boa qualidade, que fora sua intenção mandar ao general Stieff.
Com incrível coragem, Schlabrendorff voou até o quartel-general de Hitler e
trocou a bomba pelas garrafas de uísque.
Lembro-me ainda do horror que senti [relatou ele mais tarde] quando
Brandt me entregou a bomba dando-lhe uma sacudidela que me fez
temer uma explosão retardada. Simulando uma calma que não sentia,
peguei a bomba, entrei imediatamente num automóvel e dirigi-me para
a junção ferroviária nas vizinhanças de Korschen.
Ali, Schlabrendorff apanhou o trem noturno para Berlim e no dormitório, só,
desmontou a bomba. Logo descobriu o que havia acontecido — ou antes, a razão
por que nada havia acontecido.
O mecanismo funcionara; o frasco quebrara-se; o líquido corrosivo ha
via consumido o arame; o percussor atingira a espoleta, porém, não
detonara.
Amargamente desapontados, mas não desencorajados, os conspiradores, em
Berlim, decidiram fazer nova tentativa para matar Hiüer. Apresentou-se logo uma
boa ocasião. Hitler, acompanhado de Gõring, Himmler e Keitel, devia estar pre
sente à cerimônia do Dia em Memória dos Heróis (Heidengedenktag), em 21 de
março, na Zeughaus, em Berlim. Como disse mais tarde o coronel Freiherr von
Gersdorff, chefe do serviço secreto do Estado-maior de Kluge, ‘era uma oportu
nidade que jamais se repetiria”. Gersdorff havia sido escolhido por Tresckow para
manejar a bomba; tratava-se, dessa vez, de uma missão suicida. Segundo o plano,
o coronel devia ocultar duas bombas nos bolsos de sua capa, programar o detona-
dor e permanecer o mais perto possível de Hitler e seu séquito bem como a si mes
mo. Com notável bravura, Gersdorff dispôs-se prontamente a sacrificar a vida.
Encontrou-se na noite de 20 de março com Schlabrendorff, em seu quarto no
Eden Hotel, de Berlim. Schlabrendorff entregou-lhe duas bombas cujas espoletas
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 541
levavam dez minutos para provocar a explosão. Devido, entretanto, à temperatura
quase gelada no salão envidraçado da Zeughaus, talvez demorassem de 15 a vinte
minutos para explodir. Era nesse salão que Hitler, após seu discurso, devia, segun
do o que fora programado, permanecer meia hora examinando uma exposição de
troféus de guerra capturados aos russos e que o Estado-maior de Gersdorff havia
arranjado. Era o único lugar onde o coronel poderia aproximar-se bastante de
Hitler para que pudesse matá-lo.
Gersdorff relatou mais tarde o que aconteceu:7
No dia seguinte, levei em cada bolso de minha capa uma bomba com as
espoletas preparadas com dez minutos de prazo para a detonação. Pre
tendia permanecer o mais perto de Hitler possível a fim de que ele, pelo
menos, fosse despedaçado pela explosão. Quando Hitler (...) entrou no
salão da exposição, Schmundt veio ter comigo e disse que somente oito
ou dez minutos seriam gastos na inspeção dos troféus. Deixara, pois, de
existir a possibilidade para levar a efeito o assassínio, pois, mesmo que
a temperatura tivesse sido normal, a espoleta precisaria, no mínimo, de
dez minutos. Aquela mudança de programa, à última hora, típica dos
métodos sutis que Hitler empregava para sua segurança, salvou-lhe
mais uma vez a vida*
Diz Gersdorff que o general von Tresckow estava esperando em Smolensk,
esperançosa e ansiosamente, a irradiação da cerimônia ‘com um cronômetro na
mão”. Quando o rádio anunciou que Hitler havia deixado o salão oito minutos
depois de nele ter entrado, percebeu que outra tentativa falhara.
Houve pelo menos mais três tentativas de “capa” contra a vida de Hitler, con
forme as chamaram os conspiradores, as quais, segundo veremos, também fra
cassaram.
* Uma das dificuldades de reconstituir os atos dos conspiradores está em que as recordações dos pou
cos sobreviventes estão longe de ser perfeitas; suas narrativas, portanto, muitas vezes não só diferem
como também se apresentam contraditórias. Schlabrendorff, por exemplo, que entregou as bombas a
Gersdorff, narra em seu livro que a tentativa em Zeughaus "teve de ser abandonada" devido a não te
rem encontrado uma espoleta com menos tempo para a explosão. Ignorava aparentemente, ou esque
ceu, que Gersdorff havia ido de fato a Zeughaus para tentar levar a cabo sua tarefa, embora o coronel
dissesse que, na véspera, lhe falara que "estava decidido e executá-la" com as espoletas que tinha.
542 O COMEÇO DO FIM
No início de 1943, houve na Alemanha uma revolta espontânea que, embora
de pequenas proporções, contribuiu para reanimar os espíritos da resistência en
tão enfraquecidos, cujas tentativas para afastar Hitler do poder até aquele mo
mento se frustraram. Serviu também como advertência de quão cruéis podiam
ser as autoridades nazistas para eliminar o menor sinal de oposição.
Conforme vimos, os estudantes universitários figuravam na Alemanha entre
os mais fanáticos nazistas na década seguinte a 1930. Dez anos do domínio de
Hitler, porém, haviam trazido desilusões que mais se acentuaram com o fato de a
Alemanha não ganhar a guerra e, especialmente, quando chegou o ano de 1943,
pelo desastre de Stalingrado. A Universidade de Munique, cidade que havia sido
o berço do nazismo, tornou-se o caldeirão da revolta dos estudantes. Dirigiam-na
um acadêmico de medicina de 25 anos, Hans Scholl, e sua irmã de 21 anos, So-
phia, que estudava biologia. O mentor deles era Kurt Huber, professor de filosofia.
Por meio do que se tornou conhecido como Cartas das Rosas Brancas, estende
ram sua propaganda antinazista pelas outras universidades; entraram também em
contato com os conspiradores de Berlim.
Um dia, em fevereiro de 1943, o Gauleiter da Baviera, Paul Giesler, a quem a
Gestapo levou um arquivo das cartas, convocou uma reunião dos estudantes e
anunciou que os fisicamente incapazes do sexo masculino — os fisicamente capa
zes haviam sido chamados para servir no exército — seriam submetidos a uma
espécie de trabalho de guerra mais útil e, com um olhar lúbrico, sugeriu que as
moças estudantes dessem à luz um filho cada ano para o bem da pátria.
“Se a alguma das moças faltar encanto suficiente para encontrar um compa
nheiro, escalarei para cada uma delas um de meus ajudantes (...) e posso prome
ter-lhes uma experiência grandemente deliciosa.”
Os bávaros são conhecidos por seu humor um tanto rude; mas essa vulgarida
de passou da conta para os estudantes. Vaiaram o Gauleiter e puseram-no, junta
mente com os homens da Gestapo e das S.S. que tinham ido para protegê-lo, para
fora do salão. Houve, naquela tarde, demonstrações estudantis contra os nazistas
nas ruas de Munique, a primeira que ocorria no Terceiro Reich. Encabeçados
pelos Scholls, os estudantes começaram a distribuir panfletos convidando aberta
mente a juventude alemã a levantar-se contra o regime. Em 19 de fevereiro, o su
perintendente de um edifício viu Hans e Sophie Scholl lançando panfletos da sa
cada da Universidade e denunciou-os à Gestapo.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 543
O fim deles foi rápido e bárbaro. Levados à força ao temido Tribunal do Povo,
dirigido por Roland Freisler, seu presidente, talvez o mais sinistro e o mais san
guinário nazista no Terceiro Reich, depois de Heydrich (ele aparecerá novamente
nesta narrativa), foram julgados culpados por crime de traição e condenados à
morte. Sophia Scholl foi tão maltratada durante o interrogatório pela Gestapo,
que compareceu ao tribunal com uma perna quebrada. Mas seu espírito não es
moreceu. Às selvagens intimidações de Freisler respondeu calmamente: “Vós sa-
beis, tanto quanto nós, que a guerra está perdida. Por que sois tão covardes a
ponto de não quererdes admiti-lo?”
Claudicando, apoiada em suas muletas, subiu ao cadafalso e morreu com a
mesma sublime coragem do irmão. O professor Huber e vários outros estudantes
foram executados dias depois.8
Isso foi, para os conspiradores de Berlim, uma advertência sobre o perigo
com que se defrontavam numa época em que a indiscrição de alguns líderes se
tornava fonte de constantes preocupações para os demais. O próprio Goerdeler
era demasiado loquaz. Os esforços de Popitz para sondar Himmler e outros altos
oficiais da S.S., no sentido de associá-los à conspiração, foram arriscadíssimos. O
inimitável Weizsácker, que, depois da guerra, insistiu em apresentar-se como
membro constante da resistência, assustou-se tanto que rompeu todos os conta
tos com seu íntimo amigo Hassell, a quem acusou (juntamente com Frau von
Hassell) de ser incrivelmente indiscreto e a quem preveniu de que estava sendo
vigiado pela Gestapo.*
A Gestapo estava vigiando muitos outros, especialmente o vivo e confiante
Goerdeler, mas o golpe que ela desfechou nos conspiradores logo depois de março
de 1943 — durante o qual fracassaram as tentativas para matar Hitler — adveio, até
parece ironia, não tanto de hábeis investigações, mas da rivalidade existente entre
os dois serviços secretos, o da Abwehr da Wehrmacth e o do R.S.H.A., de Himmler
— Escritório Central de Segurança —, que cuidava do serviço secreto das S.S. e
que pretendeu depor o almirante Canaris e assumir a direção da Abwehr.
* Hassell descreve a dolorosa cena em seu diário. "Ele pediu-me que lhe poupasse o embaraço que cau
sava minha presença" escreveu Hassell. "Interrompeu-me bruscamente quando comecei a protestar".
{The von Hassell Diaries, p. 256-7). Somente depois que Weizsácker se viu seguro no Vaticano, para onde
havia sido nomeado depois, como embaixador alemão, foi que ele insistiu para que os conspiradores
agissem."É fácil fazê-lo do Vaticano",comentou Hassell. Weizsácker sobreviveu à guerra e escreveu suas
memórias um tanto desprezíveis. O diário de Hassell foi publicado depois de sua execução.
544 O COMEÇO DO FIM
No outono de 1942, um negociante de Munique de nome Schmidthuber fora
preso por contrabandear moeda estrangeira para a Suíça, pela fronteira. Ele era,
na realidade, um agente da Abwehr; mas o dinheiro, que fazia tempo estava pas
sando pela fronteira, havia ido para um grupo de judeus refugiados na Suíça.
Tratava-se de crime gravíssimo, no Terceiro Reich, principalmente quando come
tido por um alemão, mesmo que se tratasse de um agente da Abwehr. Como Ca-
naris deixou de proteger Schmidthuber, ele começou a informar a Gestapo o que
sabia sobre a Abwehr. Implicou Hans von Dohnanyi que, juntamente com o coro
nel Oster, participara do círculo íntimo dos conspiradores. Informou os homens
de Himmler a respeito da missão do dr. Josef Müller junto ao Vaticano, em 1940,
quando se fizera um contato com os ingleses por intermédio do Papa. Revelou a
visita que o pastor Bonhõffer fizera ao bispo de Chichester, em Estocolmo, em
1942, servindo-se de passaportes falsos expedidos pela Abwehr. Fez insinuações
sobre os vários planos de Oster para desembaraçar-se de Hitler.
A Gestapo começou a agir após alguns meses de investigações. Dohnanyi,
Müller e Bonhõffer foram presos em 5 de abril de 1943 e Oster que, entrementes,
conseguiria destruir a maior parte dos documentos que o comprometiam, foi
obrigado a demitir-se de seu cargo na Abwehr em dezembro, tendo ficado preso
sob palavra em Leipzig.*
Isso foi um golpe estonteante para a conspiração. Oster, “um homem como
Deus queria que fossem todos os homens, lúcido e de espírito sereno, impertur
bável no perigo”, segundo a opinião de Schlabrendorff, foi desde 1938 uma das
figuras-chave nas tentativas para eliminar Hitler, e Dohnanyi, jurisconsulto por
profissão, foi um auxiliar fértil em recursos. Bonhõffer, o protestante, e Müller, o
católico, não só haviam trazido grande força espiritual para a resistência como,
também, deram exemplo de coragem individual em várias missões no exterior,
como demonstrariam ainda negando-se, mesmo depois das torturas que se segui
ram à sua prisão, a trair os companheiros.
Mas o mais grave de tudo: com a desintegração da Abwehr os conspiradores
perderam sua proteção e os principais meios para poderem comunicar-se entre si,
com os hesitantes generais e com os amigos do Ocidente.
* Bonhõffer, Dohnanyi e Oster foram executados pelas S.S. em 9 de abril de 1945, menos de um mês
antes da capitulação da Alemanha. A execução deles parece ter sido um ato de vingança da parte de
Himmler. Somente Müller sobreviveu.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 545
Novas descobertas dos agentes de Himmler puseram completamente fora de
ação, em poucos meses, a Abwehr e seu chefe Canaris.
Originou-se uma delas do que passou a ser chamado uo chá em casa de Frau
Solf”, em 10 de setembro de 1943. Frau Anna Solf, viúva de um antigo ministro das
Colônias no governo de Guilherme II, que fora também embaixador no Japão ao
tempo da República de Weimar, havia muito presidia um salão antinazista em Ber
lim. A ele comparecia, muitas vezes, certo número de hóspedes ilustres entre os quais
se incluíam a condessa Hanna von Bredow, neta de Bismarck, o conde Albrecht von
Bernstorff, sobrinho do embaixador alemão junto aos EUA durante a Primeira
Guerra Mundial, o padre Erxleben, conhecido sacerdote jesuíta, Otto Kiep, alto
funcionário do Ministério das Relações Exteriores, outrora demitido do cargo de
cônsul-geral da Alemanha em Nova York por haver comparecido a um almoço em
honra do professor Einstein, mas que, depois, acabou sendo readmitido no serviço
diplomático, e Elisabeth von Thaden, uma brilhante mulher, profundamente reli
giosa, que dirigia uma escola de moças em Weiblingen, perto de Heidelberg.
Ao chá em casa de Frau Solf, naquele dia 10 de setembro, Fraulein von Thaden
levou consigo um atraente jovem médico suíço chamado Reckse, que clinicava no
Charité Hospital de Berlim sob a direção do professor Sauerbruch. Como a maio
ria dos suíços, o dr. Reckse manifestou amargos sentimentos antinazistas, no que
foi acompanhado pelos demais presentes, especialmente Kiep. Antes de findar a
reunião, o bom médico ofereceu-se para levar quaisquer cartas que Frau Solf e
seus convidados quisessem enviar a seus amigos na Suíça — emigrados alemães
antinazistas e funcionários diplomatas britânicos e americanos —, oferta logo
aceita por alguns dos presentes.
Para infelicidade deles, o dr. Reckse era um agente da Gestapo, à qual entregou
várias cartas comprometedoras bem como um relatório sobre a reunião.
O conde von Moltkee soube do fato por intermédio de um amigo do ministro
da Aeronáutica, que interceptara certo número de conversas telefônicas entre o
médico suíço e a Gestapo. Preveniu imediatamente seu amigo Kiep, que logo pas
sou a informação às demais pessoas do círculo de Frau Solf. Himmler, porém, ti
nha a prova do fato. Esperou quatro meses para agir, talvez na expectativa de
ampliar sua rede. Em 12 de janeiro foram presos, julgados e executados todos os
que haviam estado na reunião, exceto Frau Solf e a filha, condessa Ballestrem.* As
* Himmler, ao que parece, ampliara sua rede durante aqueles quatro meses. Segundo Reitlinger, foram
presas 74 pessoas em conseqüência do ato de espionagem do dr. Reckse. (Reitlinger, The SS., p. 304).
546 O COMEÇO DO FIM
Solf foram encerradas no campo de concentração de Ravensbrück e escaparam
milagrosamente da morte* O conde von Moltke, implicado no caso juntamente
com seu amigo Kiep, foi também preso naquela ocasião. Essa não foi, porém, a
única conseqüência da prisão de Kiep. A repercussão do fato estendeu-se até a
Turquia e preparou caminho para a liquidação total da Abwehr e a transferência
de suas funções para Himmler.
Entre os amigos antinazistas mais chegados a Kiep figuravam Erich Vermehren
e sua esposa, a antiga condessa Elisabeth von Plettenberg, mulher de alucinante
beleza, a qual, à semelhança de outros adversários do regime, ligara-se à Abwehr
e havia sido colocada como agente em Istambul. Ambos foram chamados a Ber
lim pela Gestapo, a fim de serem interrogados sobre o caso Kiep. Sabendo do
destino que lhes estava reservado, recusaram-se a atender ao chamado; entraram
em contato com o serviço secreto inglês, em princípio de fevereiro de 1944, e fo
ram mandados de avião para o Cairo, de onde seguiram para a Inglaterra.
Acreditava-se em Berlim — verificando-se depois não ser verdade — que os
Vermehren fugiram com todos os códigos secretos da Abwehr e os e os entrega
ram aos ingleses. Isso passou dos limites da tolerância de Hitler ao verificar-se em
seguida à prisão de Dohnanyi, na Abwehr, e, ao fato, também, de sua desconfian
ça cada vez maior em relação a Canaris. Em 18 de fevereiro de 1944, ordenou que
a Abwehr fosse dissolvida e suas funções passassem a ser exercidas pela R.S.H.A.
Foi outro motivo de orgulho para Himmler, cuja guerra contra o corpo de oficiais
do exército já datava de 1938, época em que forjou acusações falsas contra o ge
neral von Fritsch. Tal medida privou as forças armadas de manterem seu serviço
secreto próprio. Foi, também, um golpe contra os conspiradores, que se viram
sem qualquer serviço de informações por meio do qual pudessem operar.**
* Primeiro, o embaixador japonês interveio para protelar o julgamento delas. Depois, em 3 de fevereiro
de 1945, uma bomba que caiu durante um ataque diurno da força aérea americana não só matou Ro-
land Freisler — quando ele presidia um de seus tétricos julgamentos de crimes de traição — como
destruiu a documentação relativa às Solf, que se achava nos arquivos do Tribunal do Povo. O tribunal
marcou novo julgamento para 27 de abril; a esse tempo, porém, os russos já estavam em Berlim. As Solf,
na verdade, haviam sido libertadas da prisão de Moabit em 23 de abril, ao que parece por causa de um
engano (Wheeler-Bennett, Nemesis, p. 595n, e Pechel, Deutscher Widerstand, p. 88-93).
** Canaris foi nomeado chefe do escritório para as Operações Comerciais e Econômicas da Guerra. Com
a adoção desse título vazio, o "pequeno almirante"desapareceu da história alemã. Era uma figura de tal
maneira vaga que não se encontrou, entre os escritores, qualquer concordância quanto à espécie de
homem que era ou no tocante às suas crenças, se é que as havia. Cínico e fatalista, odiou a República
de Weimar e trabalhou secretamente contra ela e, do mesmo modo, voltou-se contra o Terceiro Reich.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 547
Eles não cessaram de tentar matar Hitler. No período de setembro de 1943 a
janeiro de 1944, fizeram-se outras seis tentativas. Em agosto, Jacob Wallenberg
fora a Berlim para se encontrar com Goerdeler, que lhe garantiu que haviam sido
feitos todos os preparativos para um golpe em setembro, e que Schlabrendorff
chegaria depois à Suíça para encontrar-se com um representante de Churchill a
fim de discutir a paz.
“Esperei o mês de setembro com grande ansiedade”, contou o banqueiro suíço
a Allen Dulles, mais tarde. “Passou o mês sem nada acontecer.”9
Um mês depois, o general Stieff, o ferino corcunda a quem Tresckow enviara
as duas garrafas de uísque e a quem Himmler, mais tarde, referiu-se chamando de
“anãozinho corrompido”, conseguiu fixar uma bomba de ação retardada que devia
explodir por ocasião de uma conferência militar de Hitler em Rastenburg, ao
meio-dia, mas no último momento faltou-lhe coragem. Dias depois seu estoque
de bombas, que recebera da Abwehr e havia ocultado embaixo de uma torre de
vigia no recinto do quartel-general, explodiu. Foi graças a um coronel da Abwehr,
Werner Schrader, que fazia parte da conspiração e a quem Hitler confiara a inves
tigação do caso, que os conspiradores não foram descobertos.
Em novembro, fez-se outra tentativa de “capa”. Um capitão de infantaria de 24
anos, Axel von dem Bussche, foi escolhido pelos conspiradores para “exibir” uma
nova capa e equipamento de assalto que Hitler mandara confeccionar e desejava
agora inspecionar pessoalmente antes de aprovar a fabricação. Bussche, a fim de
evitar o fracasso que ocorrera com Gerdorff, resolveu levar nos bolsos da capa-
modelo duas bombas alemães que explodiriam poucos segundos depois que se
graduasse a espoleta. Seu plano era agarrar Hitler no momento em que estivessem
inspecionando a nova capa e morrerem os dois com a explosão.
Na véspera da exibição da capa, uma bomba dos Aliados destruiu as capas-
modelos, e Bussche voltou para sua companhia na frente russa. Voltou ao quartel-
general de Hitler em dezembro, para outra tentativa com os novos modelos; nessa
ocasião, porém, o Führer resolveu inesperadamente partir para Berchtesgaden a
fim de passar ali as festas de Natal. Pouco tempo depois, Bussche foi gravemente
ferido na frente. Outro jovem oficial de infantaria da linha de frente foi escalado
para substituí-lo. Tratava-se de Heinrich von Kleist, filho de Ewald von Kleist, um
Seus dias, como os de todos os outros preeminentes homens da Abwehr — salvo um, o general
Lahousen — estavam contados, conforme veremos.
548 O COMEÇO DO FIM
dos mais antigos conspiradores. A demonstração da nova capa foi marcada para
11 de fevereiro de 1944, mas o Führer, por uma razão qualquer, deixou de compa
recer a ela. Diz Dulles que foi por causa de uma incursão aérea.*
A esse tempo, os conspiradores chegaram à conclusão de que a técnica de Hi
tler, mudando constantemente de programa, exigia uma drástica revisão de seus
próprios planos.**
Compreendeu-se que as únicas ocasiões em que se podia realmente contar
com sua presença eram durante suas duas conferências diárias com os generais do
OKW e do OKH. Teria de ser morto por ocasião de uma delas. Em 26 de dezem
bro de 1943, um jovem oficial chamado Stauffenberg, representando o general
Olbricht, apareceu no quartel-general de Rastenburg para a conferência do meio-
dia, na qual devia fazer um relatório sobre substituições no exército. Levava em
sua pasta uma bomba de efeito retardado. A conferência foi cancelada. Hitler ti
vera de partir, para passar o Natal em Obersalzberg.
Fora a primeira tentativa do jovem e simpático tenente-coronel, mas não a
última, pois os conspiradores antinazistas finalmente encontraram seu homem na
pessoa de Klaus Philip Schenk, conde von Stauffenberg. Ele iria, dali por diante,
não só cuidar da tarefa de matar Hitler com as próprias mãos, pela única maneira
que agora parecia possível, como infundir nova vida, nova luz, esperanças e ardor
na conspiração e tornar-se, embora não nominalmente, seu verdadeiro chefe.
* Os Kleist, pai e filho, foram depois presos. O pai foi executado em 16 de abril de 1945; o filho
sobreviveu.
** Hitler discutiu muitas vezes essa técnica com seus antigos companheiros de partido. Há o registro
estenografado de uma declaração sua no quartel-general, em 3 de maio de 1942. "Compreendo perfei
tamente", disse ele, "porque 90% dos assassinatos históricos foram bem-sucedidos. A única medida
preventiva que se pode tomar é viver irregularmente, andar a pé ou de carro e viajar sem horas certas,
mas inesperadamente (...) Tanto quanto possível, sempre que vou a qualquer lugar faço-o inesperada
mente e sem avisar a polícia." {Hitler's Secret Conversations, p. 366).
Hitler sempre percebera, conforme vimos, que podia ser assassinado. Em sua conferência sobre a guer
ra, em 22 de agosto de 1939, na véspera do ataque contra a Polônia, ressaltou aos generais que, embo
ra fosse pessoalmente indispensável, podia "ser eliminado a qualquer momento por um criminoso ou
um idiota".
Em suas divagações sobre o assunto em 3 de maio de 1942, acrescentou: "Nunca se pode ter absoluta
segurança contra fanáticos e idealistas (...) Se algum fanático desejar atirar em mim e ou matar-me com
uma bomba, não estarei seguro quer sentado quer de pé." Achava, entretanto, que o "número de faná
ticos que querem minha vida, baseando-se no idealismo, está se tornando cada vez menor (...) Os úni
cos elementos realmente perigosos são esses fanáticos que sacerdotes poltrões tenham incitado a agir
ou patriotas de espírito nacionalista de um dos países que ocupamos. Meus muitos anos de experiên
cia tornam as coisas mais ou menos difíceis até mesmo para tais elementos". (Ibid, p. 367).
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 549
A missão do conde von StauíFenberg
O conde von StauíFenberg era homem de extraordinários predicados para um
oficial profissional do exército. Nascido em 1907, vinha de uma antiga e ilustre
família do sul da Alemanha. Do lado da mãe, condessa von Uxkull-Gyllenbrand,
era bisneto de Gneisenau, um dos heróis militares da guerra de libertação contra
Napoleão e, juntamente com Scharnhorst, o fundador do Estado-maior geral, e
por intermédio dela também, descendente de York von Wartenburg, outro famo
so general da era de Bonaparte. O pai de Klaus foi camareiro particular do último
rei de Württemberg. Era uma família simpática, muito católica e dotada de eleva
da cultura.
Com essa formação e nessa atmosfera cresceu Klaus. Dotado de belo físico e,
segundo todos que o conheceram bem, de extraordinária simpatia, adquiriu um
espírito brilhante, penetrante, esplendidamente equilibrado. Era apaixonado por
cavalos e pelos esportes, como também pelas artes e pela literatura, nas quais era
muito lido. Em sua mocidade, ficou sob a influência de Stefan George e o misti
cismo romântico desse gênio da poesia. Pensou durante algum tempo em adotar
a música como profissão e mais tarde a literatura; em 1926, porém, à idade de 19
anos, ingressou no exército, como oficial cadete, no 17- Regimento de cavalaria de
Bamberg, o famoso Bamberg Reiter.
Em 1936 ingressou na Academia de Guerra, em Berlim, onde sua figura bri
lhante atraiu a atenção como oficial do Estado-maior geral. Embora fosse, como a
maioria da classe, um sincero monarquista, não era àquele tempo um adversário
do nacional-socialismo. O movimento popular de violências contra os judeus, em
1938, foi aparentemente o motivo das dúvidas que surgiram em seu espírito acer
ca de Hitler. Elas aumentaram quando, no verão de 1939, percebeu que o Führer
estava conduzindo a Alemanha a uma guerra que poderia ser demorada, aterra-
doramente dispendiosa em vidas humanas e, por fim, perdida.
Quando a guerra veio, atirou-se, entretanto, a ela com característica energia,
grangeando um nome para si como oficial do Estado-maior da 6â Divisão panzer ,
do general Hoepner, nas campanhas da Polônia e da França. Ao que parece, foi na
da Rússia que StauíFenberg se desiludiu completamente do Terceiro Reich. Havia
sido transferido para o Alto-Comando do exército (OKH) no princípio de junho
de 1940, pouco antes do assalto contra Dunquerque, e, durante os primeiros 18
meses da campanha russa, passou a maior parte do tempo em território soviético
550 O COMEÇO DO FIM
onde, entre outras coisas, ajudou a organizar unidades de voluntários russos entre
os prisioneiros de guerra. A esse tempo, segundo relatam seus amigos, Stauffen-
berg acreditava que, enquanto os alemães se esforçavam para desembaraçar-se de
Hitler, poder-se-ia utilizar aquelas tropas russas para derrubar a tirania de Stalin.
Talvez fosse esse um exemplo da influência das idéias confusas de Stefan George
sobre o jovem oficial.
A brutalidade das S.S. na Rússia, sem contar a ordem de Hitler para o fuzi
lamento dos comissários russos, abriu os olhos de Stauffenberg no tocante ao
chefe a quem servia. Encontrou na Rússia, por casualidade, dois dos principais
conspiradores que haviam decidido dar fim ao chefe: o general von Tresckow e
Schlabrendorff. Disse Schlabrendorff que, depois, foram necessários apenas pou
cos encontros para se convencerem de que Stauffenberg era o homem de quem
precisavam. Tornou-se um conspirador dos mais ativos.
Mas Stauffenberg era ainda um oficial subalterno. Percebeu, entretanto, que os
marechais-de-campo se mostravam muito confusos — ou demasiado covardes
— para fazerem qualquer coisa e eliminar Hitler, ou para dar paradeiro àquela
horrível matança de judeus, russos e prisioneiros de guerra na retaguarda. O des
necessário desastre em Stalingrado também contristou-o. Assim que terminou a
luta ali, em fevereiro de 1943, pediu que o enviassem para a frente. Foi colocado
como oficial de operações da 10â Divisão panzer, na Tunísia. A ela se reuniu nos
últimos dias da batalha do desfiladeiro de Kassereni, na qual sua unidade recha
çou de suas posições os norte-americanos.
Em 7 de abril, seu carro passou por cima de uma mina, no campo, tendo
Stauffenberg ficado gravemente ferido em conseqüência da explosão. Dizem al
guns que o carro foi atacado por aviões dos Aliados em vôo rasante. Perdeu o olho
esquerdo, a mão direita e dois dedos da outra, sofrendo ainda ferimentos na ore
lha esquerda e num joelho. Durante várias semanas parecia que, se sobrevivesse,
ficaria cego. Sob os hábeis cuidados do professor Sauerbruch, porém, num hospi
tal de Munique, voltou à vida. Podia-se pensar, quase, que qualquer outro homem
teria se retirado do exército e, portanto da conspiração. Já em meados do verão,
contudo, escrevia ele ao general Olbricht — após exercitar-se muito tempo no
manejo da caneta com os três dedos da mão esquerda enfaixada — dizendo que
esperava voltar ao serviço ativo dentro de três meses. Durante a longa convales
cença teve tempo para refletir. Chegou à conclusão de que, mesmo fisicamente
incapaz como se encontrava, tinha uma missão sagrada a cumprir.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 551
“Creio que devo fazer alguma coisa, agora, para salvar a Alemanha”, declarou
à sua mulher, a condessa Nina, mãe de seus quatro filhos pequenos, quando ela o
visitou, no leito, um dia. “Nós, oficiais do Estado-maior geral, devemos todos
aceitar nosso quinhão de responsabilidade.” 10
No fim de setembro de 1943 estava de volta a Berlim como tenente-coronel e
chefe da divisão do general Olbricht, no escritório do exército geral. Começou
logo a praticar com os três dedos de sua mão sã, com duas pinças, a maneira de
fazer explodir uma das bombas de fabricação inglesa, da Abwehr.
Sua ação não parava aí. Sua personalidade dinâmica e sua clareza de espírito,
suas idéias católicas e sua notável inteligência como organizador infundiram
nova vida e determinação nos conspiradores. E também algumas diferenças,
pois Stauffenberg não se sentiu satisfeito com a espécie de regime insípido, con
servador e incolor que os antiquados chefes da conspiração — Beck, Goerdeler e
Hassell — tinham em mente para quando o nacional-socialismo fosse derrubado.
Mais prático que seus amigos do Círculo de Kreisau, desejava uma nova e dinâmi
ca democracia social e insistiu em que se incluísse no gabinete antinazista, que se
propunha instituir, seu novo amigo Julius Leber, brilhante socialista, e Wilhelm
Leuschner, antigo funcionário sindicalista, ambos membros da conspiração e que
exerciam grandes atividades. Houve muitos debates, mas Stauffenberg conseguiu
dominar os chefes políticos do complô.
Foi igualmente bem-sucedido com a maioria dos membros militares. Reco
nhecia o general Beck como o chefe nominal deles. Tinha pelo antigo chefe do
Estado-maior geral grande admiração, mas, ao regressar a Berlim, viu que Beck,
restabelecido de uma séria operação de câncer, já não era o mesmo homem; era
uma figura cansada e um tanto deprimida e, mais ainda, não tinha concepção al
guma de política e, nesse campo, achava-se completamente sob a influência de
Goerdeler. O nome ilustre de Beck seria útil nos círculos militares, e até mesmo
necessário na execução do Putsch; para uma ajuda ativa no abastecimento e no
comando das tropas que seriam necessárias. Mas deveriam mobilizar oficiais mais
jovens que estavam na ativa. Stauffenberg teve, logo, muitos dos homens-chave de
que precisava.
Eram, além de seu chefe Olbricht, os seguintes: o general Stieff, chefe da Seção
de Organização do OKW; o general Eduard Wagner, primeiro chefe do serviço de
Intendência do exército; o general Erich Fellgiebel, chefe de Transmissões no
552 O COMEÇO DO FIM
OKW; o general Fritz Lindemann, chefe da divisão do Material Bélico; o general
Paul von Hase, chefe do Kommandantur de Berlim (que podia fornecer tropas
para a tomada de Berlim); e o coronel Freiherr von Roenne, chefe da Seção de
Exércitos Estrangeiros, com o chefe do pessoal, capitão conde von Matuschka.
Havia dois ou três generais-chave, dos quais o principal era Fritz Fromm, na
ocasião comandante-em-chefe do exército da reserva, o qual, à semelhança de
Kluge, se entusiasmava e esfriava e com quem não se poderia realmente contar.
Os conspiradores não tinham ainda um marechal-de-campo em fimção ativa.
O marechal-de-campo von Witzleben, um dos primeiros integrantes do círculo,
havia sido indicado para comandante-em-chefe das forças armadas, mas ficou na
lista dos inativos e não tinha tropas sob seu comando. O marechal-de-campo von
Rundstedt, que agora comandava todas as tropas no Ocidente, foi abordado mas
declinou voltar atrás no juramento de fidelidade ao Führer — ou foi essa, pelo
menos, sua explicação. Deu-se o mesmo com o brilhante, porém oportunista,
marechal-de-campo von Manstein.
Na articulação, no início de 1944, surgiu à disposição dos conspiradores, a
princípio sem o conhecimento de Stauffenberg, um marechal-de-campo muito
ativo e popular: Rommel. Sua entrada na conspiração contra Hitler constituiu
grande surpresa para os chefes da resistência e não foi aprovada pela maioria de
les. Consideravam a Raposa do Deserto um nazista e oportunista que, espalhafa
tosamente, cortejara os favores de Hitler e agora o abandonava porque sabia que
a guerra estava perdida.
Em janeiro de 1944, Rommel se tornou comandante do grupo B dos exércitos
no Ocidente, principal força com a qual devia ser repelida a esperada invasão dos
anglo-americanos. Na França, começou a visitar com freqüência dois velhos ami
gos, o general Alexander von Falkenhausen, governador militar da Bélgica e do
norte da França, e o general Karl Heinrich von Stülpnager, governador militar da
França. Ambos já se haviam juntado à conspiração contra Hitler e foram, aos
poucos, nela iniciando Rommel. Foram auxiliados por um elemento civil, velho
amigo de Rommel, o dr. Karl Strõlin, Oberbürgermeister de Stuttgart, o qual, à
semelhança de tantos outros personagens desta narrativa, havia sido um nazista
entusiasta e que, depois, com a derrota se delineando no horizonte e nas cidades
da Alemanha, incluindo a sua, transformando-as rapidamente em ruínas com os
bombardeios dos Aliados, começou a pensar diferentemente. Ele, por sua vez,
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 553
havia sido auxiliado nesse ponto pelo dr. Goerdeler, que, em agosto de 1943, o
persuadira a participar da elaboração de um memorando ao Ministério do Inte
rior, agora dirigido por Himmler, no qual exigiam, em conjunto, a cessação das
perseguições aos judeus e às igrejas cristãs, a restauração dos direitos civis e o
restabelecimento de um sistema de justiça divorciado do Partido e da Gestapo-S.S.
Por intermédio de Frau Rommel, Strõlin levou o memorando à atenção do mare
chal-de-campo, em que teve efeito marcante.
No fim de fevereiro de 1944, os dois homens encontraram-se em casa de Rommel,
em Herrlingen, nas proximidades de Ulm, e conversaram com toda a franqueza.
Contei-lhe [declarou mais tarde o prefeito de Stuttgart] que certas altas
patentes do exército, no leste, propuseram aprisionar Hitler e forçá-lo a
anunciar, pelo rádio, que havia renunciado. Rommel aprovou a idéia.
Prosseguindo, disse-lhe que ele era o nosso maior e mais popular gene
ral e mais respeitado que qualquer outro no exterior. “O senhor é o
único que pode impedir a guerra civil na Alemanha. Deve emprestar
seu nome ao movimento.”11
Rommel hesitou e, finalmente, tomou sua decisão:
“Creio”, disse ele a Strõlin, “que é meu dever salvar a Alemanha”.
Nesse encontro e em todos os outros que Rommel teve depois com os conspi
radores, opôs-se ele ao assassínio de Hitler, não por motivos de ordem moral, mas
de ordem prática. Matar o ditador seria transformá-lo em mártir, alegou. Insistiu
em que Hitler fosse preso pelo exército e julgado perante um tribunal alemão pe
los crimes cometidos contra seu próprio povo e contra os dos países ocupados.12
Nesse tempo, o destino trouxe outro elemento, que exerceu influência sobre
Rommel, na pessoa do general Hans Speidel, o qual, em 15 de abril de 1944, foi ele
vado à chefia do Estado-maior de Rommel. Speidel, como Stauffenberg, seu compa
nheiro de conspiração — embora pertencessem a grupos diversos —, era um oficial
fora do comum. Não era apenas soldado mas, também, filósofo, tendo recebido o
grau de doutor em filosofia summa cum laude da Universidade de Tübingen, em
1925. Não perdeu tempo em catequizar seu chefe. Passado um mês, em 15 de maio,
promoveu uma conferência entre Rommel, Stülpnagel e seus chefes de Estado-
maior em sua casa campestre, nas imediações de Paris. O objetivo, diz Speidel, era
554 ° COMEÇO DO FIM
delinear “as necessárias medidas para terminar com a guerra no Ocidente e der
rubar o regime nazista”.13
Era uma grande tarefa e Speidel compreendeu que, para prepará-la, se torna
vam urgentemente necessários contatos mais estreitos com os antinazistas da Ale
manha, especialmente com o grupo de Goerdeler e Beck. Durante alguns meses,
o atilado Goerdeler estivera insistindo numa conferência secreta entre Rommel e
— justamente quem! — Neurath que, tendo participado de toda aquela obra infa
me de Hitler, primeiro como ministro das Relações Exteriores e depois como Pro
tetor do Reich na Boêmia, estava experimentando um rude despertar no momen
to em que uma terrível catástrofe estava prestes a desabar sobre a Alemanha.
Acharam que seria demasiado perigoso para Rommel encontrar-se com Neurath
e Strõlin. O marechal-de-campo, então, confiou a missão ao general Speidel, em
cuja casa, em Freudenstadt, a conferência foi realizada em 27 de maio. Os três
homens ali presentes, Speidel, Neurath e Strõlin, eram, como o próprio Rommel,
sábios; essa afinidade, ao que parece, não só deu feição muito íntima à conferência
como contribuiu para que chegassem a um acordo imediato. Segundo esse acor
do, devia-se derrubar Hitler depressa, e Rommel devia ficar preparado para ser o
chefe interino do Estado e o comandante-em-chefe das forças armadas, postos
que, cumpre dizer, Rommel jamais exigira para si. Discutiram-se muitos detalhes,
incluindo planos para contatos com os Aliados, no sentido de conseguir um ar
mistício, e um código para comunicações entre os conspiradores, na Alemanha, e
o quartel-general de Rommel.
O general Speidel afirma enfaticamente que não só Rommel informou franca
mente seu superior imediato no Ocidente, marechal-de-campo von Rundstedt,
do que se passava, mas, também, que ele estava de “inteiro acordo”. Há uma falha,
porém, no caráter dessa alta patente do exército.
Durante um debate sobre a formulação de exigências a Hilter, em con
junto [escreveu mais tarde Speidel] Rundstedt declarou a Rommel: “O
senhor é jovem. O senhor conhece o povo e ama-o. Faça-o senhor.”14
Após novas conferências no fim da primavera, traçou-se o seguinte plano que
Speidel, quase o único dos conspiradores no Ocidente que sobreviveu, descreveu:
Armistício imediato com os Aliados ocidentais, não, porém, rendição incon
dicional. Retirada dos alemães, no Ocidente, para a Alemanha. Suspensão imediata
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 555
dos bombardeios dos Aliados sobre a Alemanha. Prisão de Hitler para ser julgado
perante um tribunal alemão. Eliminação do regime nazista. Exercício temporário
do poder executivo, na Alemanha, pelas forças da resistência, por elementos de
todas as classes sob a direção do general Beck, de Goerdeler e de um representan
te dos sindicatos, Leuschner. Nenhuma ditadura militar. Preparação de uma “paz
construtiva” dentro da estrutura dos Estados Unidos da Europa. No leste, conti
nuação da guerra. Manutenção de uma linha curta entre a embocadura do Danú
bio, os montes Cárpatos, o rio Vístula e o território de Memel.15
Parece que os generais não alimentavam dúvida alguma de que os exércitos
britânicos e americanos se uniriam depois a eles na guerra contra a Rússia, a fim
de impedir, conforme disseram, que a Europa se tornasse bolchevista.
Em Berlim, o general Beck concordou, até certo ponto, com a continuação da
guerra no leste. Em princípio de maio, enviou, por intermédio de Gisevius, um
memorando a Dulles, na Suíça, traçando um plano fantástico. Os generais ale
mães no Ocidente retirariam suas forças para a fronteira alemã depois da invasão
anglo-americana. Enquanto isso se processasse, Beck aconselharia os Aliados oci
dentais a executar três operações táticas: o desembarque de três divisões aero-
transportadas na área de Berlim, a fim de auxiliar os conspiradores a defender a
capital; desembarques de forças transportadas por mar, em grande escala, na cos
ta alemã, nas proximidades de Hamburgo e Bremen; e considerável número de
outros desembarques pelo Canal, na França. Entrementes, tropas antinazistas
de confiança se apoderariam da área de Munique e cercariam Hitler em Obersalz-
berg, seu retiro da montanha. A guerra contra a Rússia prosseguiria. Diz Dulles
que não perdeu tempo em trazer os conspiradores de Berlim à realidade; foram
eles informados de que não podia haver paz em separado com o Ocidente.16
StauíFenberg, seus amigos do Círculo Kreisau e membros da conspiração
como, por exemplo, Schulenburg, o antigo embaixador em Moscou, já haviam
compreendido isso. De fato, a maioria deles, incluindo StauíFenberg, inclinava-se
para o leste — era pró-Rússia, se bem que antibolchevique. Durante certo tempo,
acreditaram que seria mais fácil obter com a Rússia uma paz melhor — pois, por
meio de declaração do próprio Stalin, acentuava-se na propaganda pelo rádio que
os russos não estavam lutando contra o povo alemão mas com “os hitleristas” —
do que com os Aliados ocidentais que estavam sempre insistindo numa “rendição
556 O COMEÇO DO FIM
incondicional”.* Abandonaram, porém, tais esperanças em outubro de 1943,
quando o governo soviético aderiu formalmente, na conferência dos ministros
das Relações Exteriores Aliados em Moscou, à declaração de Casablanca sobre a
rendição incondicional.
E agora, ao aproximar-se o fatídico verão de 1944, perceberam que, com os
exércitos próximos à fronteira do Reich, os dos americanos e britânicos a postos
para uma invasão em larga escala, pelo Canal, e a resistência dos alemães às forças
aliadas por Alexander, na Itália, desmoronando-se, deviam eles desembaraçar-se
depressa de Hitler e do regime nazista — se devesse haver alguma espécie de paz
que poupasse a Alemanha de ser invadida e aniquilada.
Em Berlim, StaufFenberg e os companheiros de conspiração haviam finalmen
te aperfeiçoado seus planos. Designaram-nos pelo nome em código Valquíria —
termo apropriado, porquanto valquírias eram as donzelas da mitologia nórdico-
germânica, muito belas, porém aterradoras que, supunha-se, rondavam os antigos
campos de batalha e escolhiam aqueles que deviam ser mortos. Nesse caso, era
Adolf Hitler o escolhido. E o que não deixa de ser ironia: o almirante Canaris,
antes de sua queda, conseguira convencer Hitler sobre uma Operação Valquíria,
apresentando-a como um plano para o exército metropolitano chamar a si a segu
rança de Berlim, e de outras grandes cidades, no caso de uma revolta dos milhões
de operários estrangeiros que trabalhavam nesses centros. Tal revolta era muito
improvável, de fato, impossível, pois os trabalhadores estavam desarmados e não
se achavam organizados; mas o Führer suspeitava que houvesse perigo em toda
parte, naquele tempo. Com quase todos os soldados capazes ausentes do país, nas
frentes de combate ou controlando as populações nas longínquas áreas ocupadas,
concordara prontamente com a idéia de que o exército metropolitano devia ter
planos para proteger a segurança interna do Reich contra as hordas dos taciturnos
operários-escravos. Tornou-se, assim, Valquíria uma perfeita cobertura para os
conspiradores militares; capacitava-os a traçar abertamente os planos para o exér
cito metropolitano assenhorear-se da capital e de outras cidades, tais como Viena,
Munique e Colônia, assim que Hitler fosse assassinado.
* Na conferência de Casablanca, Churchill e Roosevelt expediram, em 24 de janeiro de 1943, declara
ção de que se exigiria a rendição da Alemanha. Goebbels, naturalmente, aproveitou-se muito dela para
incitar o povo alemão a resistir; na opinião do autor, porém, seu êxito foi sobremodo exagerado por um
surpreendente número de escritores ocidentais.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 557
Em Berlim, a principal dificuldade estava no fato de contarem com poucas
tropas e de as formações das S.S. as sobrepujarem em número. Havia, também,
considerável número de unidades da Luftwaffe no interior e em torno da cidade,
manobrando as defesas antiaéreas; e essas tropas, a menos que o exército se
movimentasse rapidamente, permaneceriam leais a Gõring e, certamente, luta
riam para manter o regime nazista sob a direção de seu chefe mesmo que Hitler
morresse. Seus canhões antiaéreos poderiam ser utilizados como artilharia con
tra os destacamentos do exército. A força policial de Berlim, por outro lado,
havia aderido por intermédio de seu chefe, o conde von Helldorf, que se uniu
aos conspiradores.
Em vista do poderio das S.S. e das tropas da força aérea, Stauffenberg acentuou
bastante a questão do tempo da operação a fim de dominar a capital. As primeiras
duas horas seriam as mais críticas. Nesse curto espaço de tempo, as tropas do
exército deveriam ocupar e manter a sede da rádio difusora nacional e as duas
estações de rádio da cidade, a central telefônica e telegráfica, a chancelaria do
Reich, os ministérios e o quartel-general da Gestappo-S.S. Goebbels, o único
preeminente nazista que raramente saía de Berlim, devia ser preso juntamente
com os oficiais das S.S. Entrementes, no momento em que Hitler fosse morto, seu
quartel-general em Rastenburg devia ficar isolado da Alemanha a fim de que nem
Gõring nem Himmler, ou qualquer dos generais nazistas, tais como Keitel e Jodl,
pudessem assumir o poder e tentar reunir a polícia ou as tropas, na esperança de
continuação do regime nazista. O general Fellgiebel, chefe das Transmissões, que
tinha seu posto junto ao quartel-general do Führer , havia tomado a si a tarefa de
atender a esse particular.
Só então, depois de tudo isso ter sido realizado nas primeiras duas horas do
golpe, poderiam as mensagens, que haviam sido elaboradas e arquivadas, ser
transmitidas pelo rádio, telefone e telégrafo aos comandantes do exército metro
politano em outras cidades, e aos generais que comandavam tropas nas frentes de
combate e nas zonas ocupadas, anunciando que Hitler estava morto e que um
novo governo antinazista havia sido formado em Berlim. A revolta teria de ficar
terminada dentro de 24 horas, e o novo governo firmemente instalado. Caso
contrário, os vacilantes generais poderiam voltar atrás em suas idéias. Gõring e
Himmler poderiam talvez reuni-los e disso poderia advir uma guerra civil. Nesse
caso, as linhas de frente aluiriam e o próprio caos e o colapso, que os conspirado
res desejavam evitar, tornar-se-iam inevitáveis.
558 o COMEÇO DO FIM
O êxito de tudo dependia, depois de Hitler assassinado, e Stauffenberg pes
soalmente atenderia a essa parte, da capacidade dos conspiradores de utilizar,
para seus objetivos e com a máxima rapidez e energia, as tropas alemãs existentes
dentro e em torno de Berlim. Isso suscitava um problema complicado .
Somente o general Fritz Fromm, comandante-em-chefe do exército metropo
litano (ou da reserva), poderia normalmente dar a ordem para ser executada a
Operação Valquíria. E, até o último momento, ele foi um ponto de interrogação.
Durante todo o ano de 1943 os conspiradores procuraram aliciá-lo para a causa.
Chegaram finalmente à conclusão de que poderiam realmente contar com esse
cauteloso oficial somente depois que ele visse que a revolta fora coroada de êxito.
Estando seguros da vitória, começaram a elaborar uma série de ordens, sob o
nome de Fromm, se bem que à sua revelia. No caso de hesitação dele no momen
to decisivo, seria substituído pelo general Hoepner, o brilhante comandante de
tanques que fora demitido por Hitler depois da batalha pela conquista de Mos
cou, em 1941, e que ficara proibido de envergar seu uniforme.
O problema relacionado a outro general-chave, em Berlim, atormentou tam
bém os conspiradores. Era o general von Kortzfleisch, um nazista na acepção da
palavra que comandava o Wehrkreis III, que incluía Berlim e Brandemburgo.
Decidiu-se que seria preso e substituído pelo general Freiherr von Thüngen. O
general Paul von Hase, comandante de Berlim, figurava na conspiração e se po
deria contar com ele para dirigir as tropas das guarnições locais naquele primeiro
passo importante, o da ocupação da cidade.
Além de traçarem planos detalhados para assumir o controle de Berlim,
Stauffenberg e Tresckow, em colaboração com Goerdeler, Beck, Witzleben e ou
tros, elaboraram documentos dando instruções aos comandantes dos distritos
militares sobre a maneira pela qual deveriam assumir o poder executivo em suas
áreas, dominar as S.S., prender os principais nazistas e ocupar os campos de con
centração. Foram ainda compostas várias declarações vibrantes que, no momento
apropriado, seriam expedidas às forças armadas e ao povo alemão pela imprensa
e pelo rádio. Algumas eram assinadas por Beck, na qualidade de novo chefe de
Estado; outras pelo marechal-de-campo von Witzleben, como comandante-em-
chefe da Wehrmacht; e por Goerdeler, o novo chanceler. Cópias de instruções e
apelos foram datilografados com grande sigilo na Bendlerstrasse a altas horas da
noite, por duas bravas mulheres que participavam da conspiração: Frau Erika von
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 559
Tresckow, mulher do general que tanto havia feito para incentivar a revolta, e
Margarete von Oven, filha de um general aposentado, que, durante muitos anos,
foi a fiel secretária dos dois antigos comandantes-em-chefe do exército, generais
von Hammerstein e von Fritsch. Os documentos foram depois escondidos no
cofre do general Olbricht.
Os planos, portanto, achavam-se prontos. De fato, já no fim de 1943 estavam
aperfeiçoados, mas durante vários meses pouco se fez para pô-los em execução.
Os acontecimentos, porém, não podiam esperar pelos conspiradores. Ao chegar o
mês de junho de 1944, eles perceberam que o tempo estava escasseando para a
ação. Além do mais, a Gestapo começava a dar sinais de si. A prisão dos elementos
que participavam da conspiração, entre os quais o conde von Moltkee, e de com
ponentes do Círculo de Kreisau aumentava cada semana e houve muitas execu
ções. Beck, Goerdeler, Hassell, Witzleben e outros do círculo interior estavam
sendo vigiados tão atentamente pela polícia de Himmler que começaram a sentir
dificuldades cada vez maiores para se reunir. O próprio Himmler havia, na prima
vera, prevenido o decaído Canaris de que sabia muito bem que os generais e seus
amigos civis estavam preparando uma rebelião. Mencionou que estava mantendo
Beck e Goerdeler sob vigilância. Canaris passou a informação a Olbricht.17
A situação militar também se afigurava tétrica para os conspiradores. Acredi-
tava-se que os russos estavam prestes a desencadear uma ofensiva geral no leste.
Roma estava sendo abandonada às forças aliadas (aconteceu em 4 de junho). No
Ocidente a invasão anglo-americana era iminente. O poderio alemão logo su
cumbiria à derrota militar, antes mesmo que se pudesse derrubar o nazismo. Ha
via, de fato, um crescente número de conspiradores, talvez influenciados pelas
idéias do Círculo de Kreisau, que começava a achar que talvez fosse melhor re
nunciar aos planos e deixar Hitler e os nazistas assumirem a responsabilidade
pela catástrofe. Depô-los agora seria, talvez, repetir a história da “punhalada pelas
costas”, que a tantos alemães ludibriou depois da Primeira Guerra Mundial.
A invasão das forças anglo-americanas, 6 de junho de 1944
O próprio Stauffenberg não acreditava que os Aliados ocidentais tentassem
desembarcar na França, naquele verão. Insistia nessa crença mesmo depois de o
coronel George Hansen — um oficial que havia sido transferido da Abwehr para
560 O COMEÇO DO FIM
o escritório do serviço secreto militar de Himmler — tê-lo prevenido, no princí
pio de maio, que a invasão talvez começasse em qualquer dia do mês de junho.
Mesmo o exército via-se assediado pela dúvida, pelo menos quanto à data e ao
local do assalto. Em maio, houve 18 dias em que o tempo, o mar e as marés esti
veram magníficos para um desembarque, e os alemães notaram que o general
Eisenhower não se aproveitara da situação. Em 30 de maio, Rundstedt, coman-
dante-em-chefe no Ocidente, informou Hitler que não havia indicação de que a
invasão fosse “imediatamente iminente”. Em 4 de junho, o meteorologista da for
ça aérea em Paris informou que, dado o tempo inclemente, não era de esperar
uma ação aliada pelo menos durante uma quinzena.
Baseado nisso e nas poucas informações que possuía — a Luftwaffe ficara im
pedida de fazer reconhecimentos aéreos nos portos da costa sul da Inglaterra
onde as tropas de Eisenhower, naquela ocasião, aglomeravam-se a bordo de seus
navios, e a marinha havia retirado do Canal suas embarcações de reconhecimento
em virtude do mar tempestuoso —, Rommel elaborou um relatório sobre a situa
ção na manhã de 5 de junho, informando Rundstedt que a invasão não era imi
nente, partindo imediatamente de automóvel para sua residência, em Herllingen,
a fim de passar a noite com a família e, no dia seguinte, ir a Berchtesgaden para
conferenciar com Hitler.
Cinco de junho “foi um dia calmo”, lembrou-se mais tarde o general Speidel,
chefe do Estado-maior de Rommel. Não parecia haver razão para que Rommel
não pudesse fazer descansadamente uma viagem à Alemanha. Havia os boatos
usuais dos agentes alemães acerca da possibilidade de um desembarque dos Alia
dos, dessa vez entre 6 e 16 de junho, mas sempre houve centenas deles desde abril,
sem que tivessem sido levados a sério. Realmente, no dia 6, o general Friedrich
Dollmann, que comandava o 7fi Exército na Normandia, em cujas praias as forças
aliadas estavam para desembarcar, ordenou um afrouxamento na vigilância per
manente e convocou os oficiais superiores para um exame da situação em Rennes,
cerca de 200 quilômetros ao sul daquelas praias.
Se os alemães ignoravam a data da invasão, ignoravam também onde ela pode
ria realizar-se. Rundstedt e Rommel estavam certos de que seria na área do Passo
de Calais, onde o Canal era mais estreito. Concentraram ali sua força mais pode
rosa, o 152 Exército, cujo número de divisões de infantaria, durante a primavera,
aumentara de dez para 15. No fim de março, porém, a fantástica intuição de Adolf
Hitler dizia-lhe que o Schwerpunkt da invasão seria provavelmente na Normandia,
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 561
e, durante as semanas seguintes, ordenou a ida de consideráveis reforços para a
região situada entre o Sena e o Loire. “Vigiem a Normandia!”, continuou preve
nindo os generais.
Contudo, a parte esmagadora do poderio alemão, tanto em divisões de infan
taria como em divisões panzer , foi retida ao norte do Sena, entre o Havre e Dun
querque. Rundstedt e seus generais vigiavam mais o Passo de Calais que a Nor
mandia, e nisso eram estimulados por certo número de manobras despistadoras
executadas pelo Alto-Comando Aliado durante os meses de abril e maio, as quais
lhes indicavam que seus cálculos eram exatos.
O dia 5 de junho passou, pois, em relativa calma no que dizia respeito aos
alemães. Severos ataques aéreos anglo-americanos continuavam a desorganizar
os depósitos, as estações de radar, os locais de lançamento das bombas V-l, as
comunicações e os transportes dos alemães, mas eram ataques que se vinham
processando dia e noite durante várias semanas, e não pareciam mais intensos
nesse dia que nos outros.
Logo depois do anoitecer, o quartel-general de Rundstedt foi informado de
que a BBC estava irradiando, de Londres, grande número de mensagens — o que
era fora do comum — à resistência francesa, e que as estações de radar alemãs,
entre Cherburgo e o Havre, estavam sofrendo interferência. Às 22h, o 15a Exérci
to interceptou uma mensagem em código da BBC para a resistência francesa, e
acreditou significar que a invasão estava prestes a ter início. O 15a Exército ficou
alerta, mas Rundstedt não julgou necessária esta mesma medida para o 7- Exérci
to, de cujo setor da costa mais a oeste, entre Caen e Cherburgo, as forças aliadas
estavam então, mais ou menos à meia-noite, se aproximando em mil barcos.
Foi somente à l:10h de 6 de junho que o 7a Exército, cujo comandante ainda
não havia voltado da reunião que se realizava em Rennes para estudo da situa
ção, percebeu o que estava acontecendo. Duas divisões norte-americanas e uma
inglesa, aerotransportadas, começaram a saltar em seu meio. Soou o alarme ge
ral à l:30h.
Quarenta e cinco minutos depois o general-de-divisão Max Pemsel, chefe do
Estado-maior do 7a Exército, chamou o general Speidel pelo telefone, no quartel-
general de Rommel, e informou-o da situação, dizendo que parecia tratar-se de
uma “operação em grande escala”. Speidel não acreditou, mas passou a informa
ção a Rundstedt que se mostrou igualmente cético. Acreditavam ambos que o
562 O COMEÇO DO FIM
lançamento de pára-quedistas era, simplesmente, uma simulação dos Aliados
para encobrir suas principais operações de desembarque nas proximidades de
Calais. Às 2:40h, Pemsel foi avisado de que Rundstedt “não acha que se trate de uma
operação importante”.18 Nem mesmo quando começaram a chegar-lhe notícias,
logo depois do alvorecer do dia 6 de junho, de que entre os rios Vire e Orne, na
costa da Normandia, uma gigantesca frota aliada estava desembarcando grande
número de forças sob cobertura de um mortífero fogo dos grandes canhões de be-
lonaves da armada, acreditou o comandante-em-chefe do Ocidente que se tratava
do principal assalto dos Aliados. Isso, diz Speidel, só se tornou evidente na tarde
de 6 de junho. A esse tempo, os norte-americanos já haviam tomado pé em duas
praias e os ingleses em uma terceira, e haviam penetrado terra a dentro numa
distância de 3,2 a 9,6 quilômetros.
Speidel telefonou para a residência de Rommel às 6h, e o marechal-de-campo
apressou-se a voltar de carro deixando de ir encontrar-se com Hitler; mas chegou
ao quartel-general do grupo B de exércitos somente à tarde desse dia.* Entremen-
tes, Speidel, Rundstedt e chefe do Estado-maior, general Blumentritt, estiveram
em comunicação telefônica com o OKW, agora instalado em Berchtesgaden. Dada
uma ordem tola de Hitler, nem mesmo o comandante-em-chefe podia empregar
suas divisões panzer sem permissão específica do Führer. Quando os três gene
rais, nas primeiras horas da manhã do dia 6, pediram permissão para enviar duas
divisões de tanques à Normandia, Jodl respondeu que Hitler desejava ver primei
ro o que estava acontecendo. Com isso, o Führer recolhera-se ao leito e só pôde
ser perturbado em seu sono às 3h da madrugada, dado os chamados frenéticos
dos generais.
Quando ele acordou, as más notícias que haviam chegado fizeram o entrar em
ação. Deu, demasiado tarde, aliás, permissão para as divisões panzer Lehr e a 12â
das S.S. empenharem-se na luta na Normandia. Expediu, além disso, uma ordem
que se tornou célebre e foi conservada para a posteridade no diário do 7- Exército:
16:55h, 6 de junho de 1944.
O chefe do comando do Estado-maior do Ocidente acentua o desejo do
comandante supremo de que, até a meia-noite do dia 6, o inimigo seja
* Hitler proibira seus Altos-Comandantes de viajarem de avião por causa da supremacia aérea dos
Aliados no Ocidente.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 563
aniquilado na cabeça-de-ponte, porque existe o perigo de novos de
sembarques de forças transportadas por mar e pelo, ar para apoiar (...)
A cabeça-de-ponte deve ser eliminada o mais tardar até a noite.
Naquele sombrio ar das montanhas, em Obersalzberg, de onde Hitler estava
agora procurando dirigir a batalha mais decisiva da guerra até o momento — ele
andara dizendo, durante muitos meses, que o destino da Alemanha seria decidi
do no Ocidente —, parece que a ordem fantástica foi expedida com toda a serie
dade, dela participando Jodl e Keitel. Mesmo Rommel, que a retransmitiu por
telefone pouco antes das 17h daquela tarde — uma hora depois de seu regresso à
Alemanha —, parece que a levou a sério, pois ordenou ao quartel-general do 7Q
Exército que desfechasse um ataque com a 21a divisão panzer , a única unidade
blindada alemã na região, “imediatamente, independentemente da chegada ou
não de reforços”.
A divisão já o havia feito, sem esperar pela ordem de Rommel. O general
Pemsel, que se achava na outra extremidade da linha quando Rommel telefonou
ao quartel-general do 7- Exército, deu uma rude resposta à exigência de Hitler no
sentido de eliminar até a noite a cabeça-de-ponte dos Aliados — na verdade, ali
havia agora três.
“Isso é impossível”, respondeu.
A Muralha do Atlântico, de que Hitler fizera tão grande propaganda, foi rom
pida em poucas horas. A Luftwaffe, outrora tão enaltecida, fora completamente
varrida dos ares; a marinha alemã fora varrida do mar, e o exército fora pego de
surpresa. A batalha estava longe de achar-se terminada, mas o resultado dela não
deixava dúvidas. “De 9 de junho em diante, a iniciativa passou para os Aliados”,
diz Speidel.
Rundstedt e Rommel acharam que era tempo de dizer isso a Hitler, face a face,
e exigir que ele aceitasse as conseqüências. Atraíram-no para uma conferência
em Margival, ao norte de Soissons, no dia 17 de junho, no requintado abrigo à
prova de bombas que havia sido construído para servir de quartel-general do
Führer durante a invasão da Inglaterra no verão de 1940, e que não chegara a ser
usado. Agora, quatro verões depois, o comandante supremo nazista ali aparecia
pela primeira vez.
564 O COMEÇO DO FIM
Estava pálido e parecia tresnoitado [escreveu Speidel mais tarde], brin
cava nervosamente com os óculos e com uma série de lápis de cor que
segurava entre os dedos. Sentou-se arqueado num banco; os mare-
chais-de-campo mantiveram-se de pé. Parecia ter enfraquecido sua
força hipnótica. Sua saudação foi rápida e fria. Falou depois em voz
alta, com azedume, de seu desagrado ante o êxito dos desembarques
das forças aliadas, pelos quais procurou responsabilizar os comandan
tes alemães.19
Mas a perspectiva de outra estonteante derrota encorajou os generais, ou pelo
menos Rommel, a quem Rundstedt deixou falar quando Hitler fez uma pausa
momentânea em suas diatribes contra eles. “Com implacável franqueza”, disse
Speidel, que se achava presente, “Rommel assinalou (...) que não havia esperança
naquela luta, ante a superioridade (dos Aliados) nos ares, no mar e em terra.”20*
Bem, não era de todo sem esperanças, se Hitler renunciasse à absurda vontade de
querer defender cada pedaço de terreno e repelir, depois, as forças aliadas para o
mar. Rommel propôs, com o assentimento de Rundstedt, que os alemães se reti
rassem para fora do alcance do mortífero fogo dos canhões navais, levassem suas
unidades para fora das linhas e as reformassem para uma investida mais tarde, a
qual poderia derrotar os Aliados numa batalha que se travaria “fora do alcance da
artilharia naval do inimigo”.
Mas o comandante supremo não quis saber de qualquer proposta de retirada.
Os soldados deviam resistir e lutar. O assunto era-lhe, evidentemente, desagradá
vel. Passou depressa a tratar de outros assuntos. Numa exibição que Speidel qua
lifica de “estranha mistura de cinismo e falsa intuição”, Hitler assegurou aos gene
rais que a nova arma V-1, a bomba voadora, que havia sido lançada no dia anterior
pela primeira vez, contra Londres, “seria decisiva contra a Inglaterra (...) e forçaria
os ingleses a fazerem a paz”. Quando os dois marechais-de-campo chamaram-lhe
* "Se, a despeito da superioridade do inimigo nos ares, conseguirmos pôr em ação uma grande parte
de nossas forças móveis, nos setores de defesa da costa ameaçada, nas primeiras horas, estou conven
cido de que o ataque inimigo será neutralizado completamente no seu primeiro dia", escreveu Rommel
ao general Jodl em 23 de abril, menos de dois meses antes. (The Rommel Papers, org. Liddel Hart, p.
468). As ordens de Hitler, severas, tornaram impossível lançar na luta as divisões blindadas "nas primei
ras horas" ou mesmo nos primeiros dias. Quando elas finalmente chegaram, foram lançadas aos pou
cos e fracassaram.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 565
a atenção para o completo fracasso da Luftwaffe no Ocidente, replicou que “uma
profusão de caças a jato” — os Aliados não possuíam aviões a jato, mas os alemães
acabavam de iniciar sua produção — logo varreriam dos céus os aviões britânicos
e americanos. A Inglaterra entraria depois em colapso, disse. A essa altura, a
aproximação de aparelhos Aliados forçou-os a passarem para o abrigo antiaéreo
do Führer.
Em segurança, no abrigo de concreto subterrâneo, recomeçaram as conver
sações;* Rommel, nessa ocasião, insistiu em levá-las para o terreno político.
Predisse [diz Speidel] que a frente alemã na Normandia sofreria um
colapso e que não se poderia reprimir uma investida aliada contra a
Alemanha (...) Duvidava que pudesse sustentar a frente russa. Ressal
tou o completo isolamento político da Alemanha (...) Concluiu (...) pe
dindo que se pusesse termo à guerra urgentemente.
Hitler, que havia interrompido Rommel várias vezes, finalmente atalhou com
rudeza: “Não se preocupe com o futuro curso da guerra mas com sua própria
frente de invasão.”
Os dois marechais-de-campo perceberam que não iriam para parte alguma
com seus argumentos, quer militares quer políticos. “Hitler não deu atenção a
suas advertências”, lembrou-se Jodl depois, em Nuremberg. Finalmente, os ge
nerais aconselharam o comandante supremo a, pelo menos, visitar o quartel-
general do grupo B dos exércitos de Rommel, para conferenciar com alguns dos
comandantes de operações a respeito do que defrontavam na Normandia. Hitler,
relutantemente, concordou em fazê-lo em 19 de junho — dali a dois dias.
Não foi. Pouco depois de os marechais-de-campo deixarem Margival, em 17
de junho, uma bomba V-l errante, em seu caminho para Londres, mudou de di
reção e caiu no topo do abrigo do Führer. Não houve mortos ou feridos, mas Hi
tler ficou tão abalado que resolveu ir imediatamente para um lugar mais seguro,
só parando quando chegou às montanhas de Berchtesgaden.
* As conversações duraram de 9h às 16h, com um intervalo para o alm oço— "refeição de um só prato"
relata Speidel, "na qual Hitler comeu às pressas um prato cheio de arroz e legumes, depois de ter sido
previamente provado para ele. Em volta de seu lugar havia pílulas e cálices contendo vários remédios,
os quais por sua vez tomou. Dois soldados das S.S. mantinham-se de guarda atrás de sua cadeira".
566 O COMEÇO DO FIM
Outras más notícias chegaram ali logo depois. Em 20 de junho iniciou-se a
ofensiva russa na frente central — há muito esperada —, desenvolvendo-se com
poderio tão esmagador que, em poucos dias, o grupo de exércitos do centro, ale
mão, no qual Hitler havia concentrado suas forças mais poderosas, foi completa
mente destroçado. A frente abriu-se inteiramente e, com ela, a estrada para a Po
lônia. Em 4 de julho, os russos atravessaram a fronteira oriental polonesa de 1939
e convergiram para a Prússia Oriental. Reuniram-se apressadamente todas as re
servas disponíveis do Alto-Comando para serem utilizadas, pela primeira vez na
Segunda Guerra Mundial, na defesa da própria pátria. Esse fato contribuiu para a
condenação dos exércitos alemães no Ocidente. Daquele momento em diante,
não mais podiam eles contar com o envio de qualquer reforço importante.
Mais uma vez, em 29 de junho, Rundstedt e Rommel apelaram a Hitler para
que encarasse a realidade no leste e no oeste, e procurasse dar paradeiro à guerra
enquanto ainda existiam consideráveis parcelas do exército alemão. A conferên
cia realizou-se em Obersalzberg, onde o comandante supremo tratou friamente
os dois marechais-de-campo, repudiando bruscamente seus argumentos e to-
mando depois a palavra, por muito tempo, para dizer como ganharia a guerra
com novas “armas milagrosas”. Seu discurso, diz Speidel,4perdeu-se em fantásti
cas digressões”.
Dois dias depois, Rundstedt foi substituído, em seu posto de comandante-em-
chefe no Ocidente, pelo marechal-de-campo von Kluge.* Rommel escreveu, em 15
de julho, uma longa carta a Hitler, expedindo-a pelo teletipo do exército. w
As tro
pas”, escreveu ele, ‘estão lutando heroicamente em toda parte, mas essa luta desi
gual aproxima-se do fim” Acrescentou, de seu próprio punho, este Postscriptum:
* A demissão de Rundstedt talvez resultasse, em parte, de suas rudes palavras a Keitel na noite anterior.
Este último telefonara-lhe para indagar da situação. Um ataque geral contra as linhas britânicas, por
quatro divisões das S.S., acabara de fracassar; e Rundstedt estava de muito mau humor.
— Que devemos fazer? — perguntou Keitel.
— Fazer a paz, idiotas! — respondera Rundstedt. — Que mais se poderá fazer?
Parece que Keitel, o "mexeriqueiro e bajulador", como muitos marechais-de-campo o chamavam, foi
imediatamente a Hitler com aquela observação. O Führer, na ocasião, conferenciava com Kluge que,
durante os últimos meses estivera licenciado para restabelecer-se de ferimentos sofridos num acidente
de automóvel. Kluge foi imediatamente nomeado para substituir Rundstedt. O chefe nazista costuma
va mudar dessa maneira os Altos-Comandos. O general Blumentritt contou a Wilmot {The Struggle for
Europe, p. 347) e a Liddell Hart {The German Generais Talk, p. 205), a conversação telefônica havida.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 567
Devo pedir-vos que tireis, sem demora, as próprias conclusões. Julgo
meu dever, como comandante-em-chefe de um grupo de exércitos, ma
nifestar isso claramente.21
“Dei-lhe a última chance. Se não aceitá-la, então agiremos”,22 declarou Rommel
a Speidel.
Dois dias depois, na tarde de 17 de julho, quando voltava da frente da Nor-
mandia para seu quartel-general, o carro de Rommel foi alvejado por aviões de
caça Aliados em vôo rasante. Ele ficou tão seriamente ferido que, a princípio, se
julgou que não sobreviveria àquele dia. Foi um desastre para os conspiradores,
pois Rommel havia — Speidel jura-o23 — tomado a decisão irrevogável de fazer
sua parte para livrar a Alemanha do domínio de Hitler (se bem que se opusesse à
prática de um assassínio) nos próximos dias. Os oficiais do exército sentiram
amargamente a falta do espírito enérgico e indômito de Rommel; acabaram, po
rém, quando os exércitos alemães desmoronavam no leste e no Ocidente naquele
mês de julho, fazendo uma última tentativa para derrubar Hitler e o nacional-
socialismo.
Diz Speidel que os conspiradores “se sentiram amargurados ao verem-se pri
vados do pilar que os sustentava”.24*
A conspiração da 1 l â hora
O bem-sucedido desembarque dos Aliados na Normandia causou grande
confusão, em Berlim, entre os conspiradores. Stauffenberg, conforme vimos, não
acreditava que os Aliados tentassem fazê-lo em 1944, e que, se o fizessem, haveria
50% de probabilidade de fracassarem. Ao que parece, desejava que assim fosse,
porque os governos americano e inglês estariam, após um revés sangrento e dis
pendioso, mais dispostos a negociar a paz no Ocidente com o novo governo anti-
nazista formado por ele; e, nesse caso, poderia conseguir melhores condições.
* Speidel cita o escritor Emst Jünger, cujos livros haviam sido outrora muito populares na Alemanha
nazista, mas que acabou renunciando ao nazismo e se unindo aos elementos de Paris que faziam parte
da conspiração: "O golpe que abateu Rommel na estrada de Livarot, em 17 de julho, privou nosso plano
do único homem forte o bastante para suportar o terrível peso da guerra e da guerra civil ao mesmo
tempo" (Speidel, Invasion 1944, p. 119).
568 O COMEÇO DO FIM
Ao ficar evidente que a invasão havia sido coroada de êxito, que a Alemanha
sofrerá nova derrota decisiva e que havia a ameaça de outra, no leste, Stauffenberg,
Beck e Goerdeler conjeturaram se adiantaria prosseguir em seus planos. Se fos
sem bem-sucedidos, culpá-los-iam de terem contribuído para a catástrofe final.
Embora soubessem que era inevitável, tal pormenor não era conhecido da massa
do povo alemão. Beck chegou finalmente à conclusão de que, embora uma revol
ta bem-sucedida contra os nazistas não poupasse a Alemanha da ocupação pelo
inimigo, poderia com ela pôr paradeiro à guerra, evitando, assim, novo derrama
mento de sangue e a destruição da pátria. A paz, nessa ocasião, impediria que os
russos invadissem e bolchevizassem a Alemanha. Mostraria ao mundo que havia
“outra Alemanha” além da dos nazistas. E — quem sabe? — pelo menos, talvez os
Aliados ocidentais, a despeito dos termos de uma rendição incondicional, não
fossem tão implacáveis para com uma Alemanha conquistada. Goerdeler concor
dou com ele e assentou suas esperanças nas democracias ocidentais; sabia quanto
Churchill temia o perigo de “uma vitória total dos russos”.
Os mais jovens, chefiados por Stauffenberg, não se mostraram inteiramente
convencidos. Procuraram ouvir a opinião de Tresckow, então chefe do Estado-
maior do 2fi Exército na frente russa, agora em desmoronamento. Sua resposta
colocou os hesitantes conspiradores no devido lugar.
Deve-se tentar o assassinato a qualquer preço. Mesmo que venha a fa
lhar, deve ser feita uma tentativa para a tomada do poder na capital.
Devemos provar ao mundo, e às futuras gerações, que os homens do
Movimento da Resistência Alemã ousaram dar esse passo decisivo e,
nele, arriscar suas vidas. Comparado a esse objetivo, nada mais tem
importância.25
Essa inspirada resposta resolveu a questão. Reanimou os espíritos e destruiu as
dúvidas de Stauffenberg e seus jovens amigos. O colapso iminente nas frentes da
Rússia, da França, e da Itália impeliu os conspiradores a agir imediatamente. Ou
tro acontecimento contribuiu para acelerar-lhes os movimentos .
O círculo formado por Beck, Goerdeler e Hassell havia, desde o princípio,
manifestado nada ter a ver com o movimento secreto comunista e vice-versa. Para
os comunistas, os conspiradores eram tão reacionários quanto os nazistas, e o
próprio êxito deles talvez pudesse impedir que uma Alemanha comunista viesse a
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 569
tomar o lugar de uma Alemanha nacional-socialista. Beck e seus amigos estavam
a par dessa orientação e sabiam, também, que o movimento secreto comunista era
dirigido de Moscou e, sobretudo, servia de fonte de espionagem para os russos.*
Sabiam, além disso, que nele se haviam infiltrado agentes da Gestapo — aos ho
mens V”, nome pelo qual os designava Heinrich Müller, chefe da organização, e,
ele mesmo, um aluno e admirador do NKVD soviético.
Em junho, os conspiradores, contrariando um conselho de Goerdeler e dos
membros mais velhos, resolveram entrar em contato com os comunistas. Fize
ram-no por sugestão da ala socialista e, especialmente, de Adolf Reichwein, filó
sofo socialista e afamado Wandervogel, então diretor do Museu do Folclore de
Berlim. Reichwein mantivera vagos contatos com os comunistas. Embora o pró
prio Stauffenberg suspeitasse deles, seus amigos socialistas Reichwein e Leber con-
venceram-no de que era recomendável certo contato com eles a fim de observarem
* Isso surgiu no caso Rote Kapelie, em 1942, quando a Abwehr descobriu grande número de alemães
colocados estrategicamente, muitos dos quais filhos de famílias tradicionais e ilustres, dirigindo uma
extensa rede de espionagem em favor dos russos. Em certa ocasião, na Alemanha e nos países ocu
pados do Ocidente, estavam expedindo informações a Moscou por cerca de cem transmissores de
rádio clandestinos. O chefe da Rote Kapelie (Orquestra Vermelha) era Harold Schulze-Boysen, neto do
grande almirante vonTirpitz, um pitoresco líder da "geração desaparecida" depois da Primeira Guerra
Mundial e, naqueles tempos, uma figura boêmia conhecida em Berlim onde seu suéter preto, sua
basta mecha de cabelos louros e sua paixão pela poesia e pela política atraíam a atenção. Naquele
tempo, ele rejeitara o nazismo e o comunismo, embora se considerasse um homem da esquerda. Por
intermédio da mãe ingressou na Luftwaffe, como tenente, ao romper da guerra; e, insinuando-se,
chegou a fazer parte do escritório de pesquisas de Gõring, o Forschungsamt, o qual, conforme vimos
em relação ao Anschluss, tinha por especialidade o serviço de escuta dos telefones. Organizou logo
um vasto serviço de espionagem para Moscou, graças a companheiros fiéis em todos os ministérios
e escritórios militares de Berlim. Entre tais companheiros encontravam-se Arvid Harnack (sobrinho
de um famoso teólogo), jovem economista do Ministério da Economia casado com uma americana,
Mildred Fish, que conhecera na Universidade de Wisconsin; Franz Scheliha, que servia no Ministério
das Relações Exteriores; Horst Hellmann, do Ministério da Propaganda; e a condessa Erika von
Brockdorff, do Ministério do Trabalho.
Dois agentes soviéticos, lançados na Alemanha por meio de pára-quedas e depois presos, traíram a
Rote Kapelie, seguindo-se a isso grande número de prisões.
Dos 75 líderes acusados de traição, cinqüenta foram condenados à morte, incluindo Schulze-Boysen e
Harnacke. Mildred Harnack e a condessa von Brockdorff foram condenadas à prisão, mas Hitler insistiu
em que fossem executadas, e foram. Para impressionar os pseudotraidores, o Führer ordenou que os
condenados fossem enforcados. Não havendo forcas em Berlim — onde a forma tradicional de exe
cução era a decapitação a machado — , as vítimas foram simplesmente estranguladas com uma corda
em volta do pescoço e presas a um gancho (emprestado de um matadouro), que era içado lentamen
te. Esse foi o método empregado dali por diante, como forma especial de crueldade, contra aqueles
que ousaram desafiar o Führer.
570 O COMEÇO DO FIM
o que estavam tramando e o que fariam no caso de o Putsch ser bem-sucedido; e
mais, se possível, utilizarem-se deles no último momento para ser ampliada a base
da resistência antinazista. Relutantemente, Goerdeler concordou em que Leber e
Reichwein conferenciassem com os líderes do movimento secreto comunista em
22 de junho. Recomendou, porém, que falassem o menos possível de seus pró
prios planos.
A conferência realizou-se na parte oriental de Berlim, entre Leber e Reichwein
— representando os socialistas — , e dois indivíduos de nome Franz Jacob e Anton
Saefkow, que alegavam ser — e talvez fossem — líderes do movimento secreto
comunista. Acompanhava-os um terceiro camarada que apresentaram como
“Rambow”. Aconteceu que os comunistas sabiam de muita coisa sobre o complô
contra Hitler. Desejavam saber mais ainda. Pediram para conferenciar com os
chefes militares em 4 de julho. Stauffenberg recusou-se a atendê-los. Reichwein
porém foi autorizado a representá-lo numa nova conferência, naquela data. Quan
do chegou ao local, foi preso juntamente com Jacob e Saefkow, pois “Rambow” era
um agente da Gestapo. Leber, com quem Stauffenberg contava para tornar-se a
força política predominante no novo governo, foi também preso no dia seguinte.*
Stauffenberg não só ficou profundamente abalado com a prisão de Leber, do
qual se tornara grande amigo pessoal e a quem considerava indispensável no novo
governo que se propunha a formar, como também percebeu, imediatamente, que
toda a conspiração corria o grave risco de ir por água abaixo, agora que os homens
de Hitler se achavam tão próximos dos rastros dela. Achava que Leber e Reichwein
eram corajosos e que, mesmo que fossem submetidos a torturas, não revelariam
quaisquer segredos. Ou revelariam? Alguns dos conspiradores não estavam muito
seguros sobre esse ponto. Talvez houvesse um limite além do qual os homens, por
mais corajosos que fossem, não poderiam manter silêncio quando o corpo esti
vesse sendo atormentado por dores insuportáveis.
A prisão de Leber e Reichwein foi um novo incentivo para uma ação imediata.
O golpe de 20 de julho de 1944
No fim de junho os conspiradores foram favorecidos pela sorte. Stauffenberg
foi promovido a coronel e nomeado chefe do Estado-maior do general Fromm,
* Todos os quatro, Leber, Reichwein, Jacob e Saefkow, foram executados.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 571
comandante-em-chefe do exército metropolitano. Esse posto não só o habilitava
a expedir ordens ao exército metropolitano, em nome de Fromm, como lhe dava
acesso direto e freqüente a Hitler. De fato, o Führer começou a chamar o chefe do
exército da reserva, ou seu representante, ao quartel-general, duas ou três vezes
por semana, para solicitar tropas que deviam substituir as que se achavam na
Rússia ou, mesmo, para preencher ali os clarões que se verificavam nas divisões.
Foi intenção de StaufFenberg fazer explodir uma bomba numa dessas reuniões.
Tornara-se ele, agora, o homem-chave da conspiração, e a única probabilidade
de êxito pesava-lhe sobre os ombros. Sendo o único membro do complô que po
dia entrar no quartel-general do Führer , fortemente guardado, era a ele que ca
bia matar Hitler. Na qualidade de chefe do Estado-maior do exército da reserva,
teria que ser deixado a seus cuidados, uma vez que Fromm não aderira comple
tamente e, portanto, não se poderia contar definitivamente com ele, dirigir as
tropas que deviam apoderar-se de Berlim depois de Hitler ter sido eliminado. E
devia alcançar ambos os objetivos no mesmo dia e em dois lugares distantes um
do outro 320 ou 480 quilômetros: o quartel-general do Führer — em Obersalz-
berg ou Rastenburg — e Berlim. Entre o primeiro ato e o segundo, enquanto seu
avião voltava para a capital, devia haver um intervalo de duas ou três horas du
rante o qual ele nada podia fazer senão esperar que seus planos estivessem sen
do rigidamente iniciados pelos companheiros, em Berlim. Isso foi um erro, con
forme veremos.
Houve outros. Um parece ter sido a complicação quase desnecessária que sur
giu no espírito dos conspiradores já então desesperados. Tinham eles chegado à
conclusão de que não bastaria matar Adolf Hitler; achavam que deviam, ao mes
mo tempo, matar Gõring e Himmler, garantindo-se assim que as forças militares
sob o comando desses dois homens não pudessem ser utilizadas contra eles. Eram,
também, de opinião que os generais superiores da frente, que ainda não haviam
aderido à conspiração, se uniriam mais rapidamente a eles se os dois principais
lugares-tenentes de Hitler fossem também eliminados. Como Gõring e Himmler
geralmente compareciam às conferências militares diárias no quartel-general do
Führer, acreditavam que não seria difícil matar os três homens com uma só bom
ba. Essa resolução levou StaufFenberg a perder duas belas oportunidades.
Ele foi chamado a Obersalzberg em 11 de julho, para apresentar ao Führer o
relatório sobre o suprimento de forças substitutas, das quais se tinha grande ne
cessidade. Levou consigo, no avião que o conduzia a Berchtesgaden, uma das
572 O COMEÇO DO FIM
bombas de fabricação inglesa da Abwehr. Decidira-se, numa reunião dos conspi
radores, em Berlim, na véspera, que aquela era a melhor ocasião para matar
Hitler, Himmler e Gõring. Himmler, porém, não se achava presente à conferência
naquele dia, e, quando Stauffenberg, deixando a conferência por um momento, e
telefonou ao general Olbricht (em Berlim) para informá-lo disso, acentuando ao
mesmo tempo que poderia eliminar Hitler e Gõring, o general aconselhou-o a
aguardar mais um dia, quando poderia apanhar os três. Nessa noite, ao regressar
a Berlim, Stauffenberg encontrou-se com Beck e Olbricht e declarou que, na pró
xima vez, tentaria matar Hitler, independentemente de Gõring e Himmler acha
rem-se presentes ou não. Os companheiros concordaram com isso.
A próxima vez não demorou a chegar. Em 14 de julho, Stauffenberg foi chama
do a apresentar-se ao Führer no dia seguinte, a fim de tratar da questão relacionada
à substituição de forças. Todos os recrutas existentes eram necessários para o
preenchimento de clarões na Rússia, onde o grupo de exércitos do centro, tendo
perdido 27 divisões, deixara de existir como força combatente. Nesse dia, Hitler
havia novamente mudado o quartel-general para Wolfsschanze, em Rastenburg,
para cuidar pessoalmente do restabelecimento da frente central onde as tropas do
Exército Vermelho atingiram um ponto que distava apenas 97 quilômetros da
Prússia Oriental.
Na manhã do dia 15 de julho, o coronel Stauffenberg partiu outra vez de avião
para o quartel-general do Führer* levando uma bomba em sua pasta. Desta vez os
conspiradores sentiam-se tão seguros do êxito da empreitada que o primeiro sinal
da Operação Valquíria — para as tropas começarem a marchar em Berlim e para
os tanques da escola dos panzers, em Krampnitz, avançarem em direção à capital
* Há discordância entre os historiadores sobre se Stauffenberg partiu para Rastenburg ou Obersalzberg.
Os dois escritores alemães mais autorizados sobre o assunto, Eberhard Zeller e o professor Gerhard
Ritter, dão versões contraditórias. Zeller acredita que Hitler estivesse ainda em Berchtesgaden; Ritter,
porém, tem certeza de que se trata de um engano, e que o Führer voltara para Berchtesgaden. Infeliz
mente, a agenda de Hitler, que demonstrou ser, até esse ponto, um guia infalível para esse escritor, não
foi apreendida intacta; não cobre esse período. Mas o melhor testemunho, inclusive o relatório dos
movimentos de Stauffenberg elaborado no quartel-general do Führer, em 22 de julho, indica de manei
ra concludente que, em 15 de julho, Hitler se achava em Rastenburg e que foi ali que Stauffenberg pla
nejou matá-lo. Embora os dois locais de onde Hitler procurava dirigir a guerra — raramente estava em
Berlim, que estava sendo impiedosamente bombardeada — fossem mais ou menos equidistantes da
capital, Berchtesgaden, localizada mais no centro e próxima a Munique (onde se acreditava que a guar
nição do exército era leal a Beck), tinha, para os conspiradores, certas vantagens sobre Rastenburg.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 573
— devia ser dado antes de começada a conferência de Hitler, marcada para 13h.
Não podia haver demora na tomada do poder.
Às llh de sábado, 15 de julho, o general Olbricht expediu a ordem para a
Operação Valquíria I e, antes do meio-dia, começaram as tropas a marchar para o
centro de Berlim com ordem de ocupar o distrito de Wilhelmstrasse. Às 13h,
Stauffenberg, sobraçando a pasta, chegou à sala de conferências do Führer , fez o
relatório sobre as tropas de substituição e ausentou-se depois, o tempo suficiente
para telefonar a Olbricht dizendo-lhe — conforme um código preestabelecido
— que Hitler estava presente e que ele tencionava voltar à reunião e fazer explo
dir a bomba. Olbricht informou-o de que as tropas, em Berlim, já estavam a ca
minho. Parecia, afinal, que estava prestes o sucesso daquela grande empreitada.
Quando Stauffenberg voltou à sala, porém, Hitler já saíra e não voltou. Desconso
lado, Stauffenberg apressou-se a telefonar a Olbricht para dar-lhe a notícia. O
general, furioso, cancelou a Operação Valquíria, voltando as tropas para o quartel
o mais depressa possível e sem chamar muito a atenção.
A notícia de mais um fracasso foi um pesado golpe para os conspiradores que se
reuniram, em Berlim, à chegada de Stauffenberg, para deliberarem sobre o que
deveriam fazer em seguida. Goerdeler opinou por que se recorresse ao que eles
chamavam “solução do Ocidente”. Propôs a Beck que ambos voassem para Paris a
fim de conferenciarem com o marechal-de-campo von Kluge sobre a obtenção de
um armistício no Ocidente, pelo qual os Aliados ocidentais concordariam em não
avançar além da fronteira franco-germânica, libertando assim no Ocidente os
exércitos alemães, que seriam desviados para a frente leste e salvariam o Reich dos
russos e do bolchevismo. Beck encarou a situação com mais clareza. Sabia que era
um sonho a idéia de que poderiam agora conseguir uma paz em separado com o
Ocidente. Contudo, a conspiração para matar Hitler e derrubar o nazismo devia
ser levada avante a todo custo, explicou, mesmo que fosse apenas para salvar a
honra da Alemanha. Stauffenberg concordou com ele. Jurou que, na próxima vez,
não fracassaria. O general Olbricht, que havia sido censurado por Keitel por ter
movimentado suas tropas em Berlim, disse que não poderia arriscar-se novamen
te, porque isso denunciaria a conspiração. Declarou que explicaria a Keitel que a
movimentação das tropas representava apenas um exercício, e essa explicação
não lhe fora muito fácil. O temor de pôr novamente as tropas em movimento,
antes de ter plena certeza da morte de Hitler, seria de desastrosas conseqüências
na quinta-feira seguinte.
574 ° COMEÇO DO FIM
No domingo (16 de julho), à noite, Stauffenberg reuniu em sua residência, em
Wannsee, um pequeno círculo de amigos íntimos e parentes: seu irmão Berthold,
um jovem calmo, introspectivo e culto, consultor jurídico sobre direito inter
nacional junto à marinha; tenente-coronel Casar von Hofacker, primo dos
Stauffenberg e seu homem de ligação com os generais, no Ocidente; conde Fritz
von der Schulenburg, antigo nazista que era ainda representante da chefia de po
lícia de Berlim; e Trott zu Solz. Hofacker acabara de regressar do Ocidente, onde
havia conferenciado com alguns generais — Falkenhausen, Stülpnagel, Speidel,
Rommel e Kluge. Fez um relatório sobre a iminente decomposição das forças ale
mãs na frente ocidental e, mais importante ainda, declarou que Rommel apoiaria
a conspiração independentemente da atitude que Kluge assumisse, se bem que
ainda se opusesse ao assassínio de Hitler. Após longos debates, os jovens conspi
radores concordaram em que a morte de Hitler seria agora a única solução. Não
alimentavam ilusões, nessa ocasião, de que seu ato desesperado impediria a Ale
manha de ter que render-se incondicionalmente. Concordaram até em que isso
teria de ser feito com os russos, da mesma maneira que com as democracias do
Ocidente. O importante, disseram, era que os alemães, e não os conquistadores
estrangeiros, libertassem a Alemanha da tirania de Hitler.26
Eles, todavia, estavam muito atrasados. Haviam suportado o despotismo na
zista durante 11 anos, e somente a certeza da derrota total numa guerra que a
Alemanha desencadeara e contra a qual pouca oposição tinham feito — e, em
muitos casos, nenhuma — os despertou para a ação. Antes tarde do que nunca,
porém. Restava, no entanto, pouco tempo. Os generais, na frente, informavam-
nos de que o colapso no leste e no Ocidente era, provavelmente, apenas questão
de semanas.
Aos conspiradores parecia restarem poucos dias para agir. A marcha prematu
ra das tropas em Berlim, no dia 15 de julho, despertara suspeitas no OKW. Che
gou, nesse dia, a notícia de que o general von Falkenhausen, um dos cabeças da
conspiração no Ocidente, fora demitido repentinamente de seu posto de governa
dor militar da Bélgica e do norte da França. Temia-se que alguém os estivesse
traindo. Em 17 de julho souberam que Rommel ficara tão gravemente ferido que
devia ser deixado indefinidamente fora dos planos. Goerdeler, no dia seguinte, foi
avisado pelos amigos, na sede da polícia, que Himmler expedira uma ordem para
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 575
sua prisão. Por insistência de Stauffenberg, Goerdeler, embora protestando, con
cordou em homiziar-se em algum lugar. Nesse mesmo dia um amigo pessoal, da
marinha, o capitão Alfred Kranzfelder, um dos pouquíssimos oficiais navais que
se achavam entre os conspiradores, informou Stauffenberg de que se espalhava,
em Berlim, o boato de que o quartel-general do Führer iria explodir nos próximos
dias. Parecia, mais uma vez, que algum dos conspiradores cometera alguma indis
crição. Tudo indicava que a Gestapo estava na pista da conspiração.
Stauffenberg foi novamente chamado a Rastenburg na tarde de 19 de julho,
para relatar o progresso feito com as novas divisões Volksgrenadier que o exér
cito da reserva estava treinando apressadamente a fim de serem lançadas na
frente oriental já em dissolução. Ele devia fazer o relatório na primeira conferên
cia diária, no quartel-general do Führer , no dia seguinte (20 de julho) às 13h.* O
marechal-de-campo von Witzleben e o general Hoepner, que residia nos arredo
res de Berlim, foram notificados por Stauffenberg de que deviam aparecer na
cidade no devido tempo. O general Beck fez seus preparativos finais para dirigir
o golpe até Stauffenberg e poder voltar de avião após o assassínio. Os oficiais-
chave das guarnições, dentro e fora de Berlim, foram informados de que 20 de
julho seria D er Tag (o dia).
Stauffenberg, em Bendlerstrasse, trabalhou em seu relatório para Hitler até
escurecer; deixou o escritório logo depois das 20h e dirigiu-se para a sua casa, em
Wannsee. Quando a caminho, entrou numa igreja católica, em Dahlem, para uma
prece.** Passou calmamente a noite em casa em companhia de Berthold, seu ir
mão, e recolheu-se cedo. Todos que o viram naquela noite lembravam-se de que
se mostrara amável e calmo, como se nada de extraordinário fosse acontecer em
futuro próximo.
* O general Adolf Heusinger, chefe de operações do Alto-Comando do exército, conta que em 19 de
julho as notícias da frente da Ucrânia eram tão más que perguntou ao OKW se o exército de reserva
possuía tropas em treinamento na Polônia que pudessem ser lançadas na frente oriental. Keitel sugeriu
que Stauffenberg fosse chamado no dia seguinte para informá-los a respeito. (Heusinger, Befehl im
Widerstreit, p. 350).
** Diz Fitzgibbon (20Juíy, p. 150): "Acredita-se que ele havia confessado antes, mas, naturalmente, não
lhe foi dada absolvição."Conta esse autor que Stauffenberg informara o bispo de Berlim, cardeal conde
Preysing, do que pretendia fazer, e que o bispo respondeu respeitar os motivos do jovem e não se
sentir justificado, sob fundamentos de ordem teológica, a impedi-lo de agir. (Ibid., p. 152).
5 76 o COMEÇO DO FIM
20 de julho de 1944
Logo depois das 6h daquela manhã quente e luminosa de verão, de 20 de julho
de 1944, o coronel Stauffenberg, acompanhado de seu assistente, tenente Werner
von Haeften, passou de automóvel pelos edifícios bombardeados de Berlim rumo
ao aeroporto de Rangsdorf. Sua volumosa pasta encerrava os documentos relati
vos às novas divisões Volksgrenadier, sobre as quais devia prestar informações a
Hitler no Covil do Lobo, em Rastenburg, na Prússia Oriental. Entre os documen
tos, embrulhados numa camisa, estava uma bomba de efeito retardado.
Era idêntica à que Tresckow e Schlabrendorff haviam posto no avião do Führer
no ano anterior, e que deixara de explodir. De fabricação inglesa, conforme vi
mos, armava-se quando quebrada uma pequena cápsula de vidro cujo ácido, nela
contido, corroía um pequeno arame, soltando-se o detonador contra a espoleta. A
espessura do arame determinava o tempo previsto para a explosão. Naquela ma
nhã, a bomba estava equipada com o arame mais fino possível, que se dissolveria
em cerca de dez minutos.
No aeroporto, Stauffenberg encontrou-se com o general Stieff, que na véspera
havia entregado a bomba. Encontraram ali o avião que os aguardava, o aparelho
especial do general Eduard Wagner, chefe da intendência geral do exército e um
dos cabeças da conspiração, que conseguira colocá-lo à disposição deles para aque
le vôo importantíssimo. O avião decolou por volta das 7h, aterrisando em Rasten
burg logo depois das lOh. Hõften deu instruções ao piloto para estar preparado
para decolar a qualquer momento, depois do meio-dia, na viagem de volta.
Do aeroporto, um automóvel do Estado-maior levou-os ao quartel-general de
Wolfsschanze, localizado numa área sombria, úmida e coberta de árvores, na
Prússia Oriental. Não era fácil entrar ali e, conforme Stauffenberg sem dúvida
notou, também não era fácil sair. Compreendia três círculos, cada um dos quais
protegido por minas, abrigos para metralhadoras e uma cerca de arame farpado
eletrificada; era patrulhado dia e noite pelos fanáticos soldados das S.S. Para en
trar naquele lugar fortemente guardado onde Hitler vivia e trabalhava, até o mais
importante general devia obter um passe especial, válido para uma única visita, e
passar pela inspeção pessoal de Rattenhuber, Oberführer das S.S. que Himmler
designara para chefe da segurança e do comando da guarda, ou pela de um de
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 577
seus representantes. Como o próprio Hitler, entretanto, ordenara a StaufFenberg
que ali se apresentasse, ele e Haeften, conquanto detidos para exame dos passes, pou
ca dificuldade tiveram de passar pelos três postos de verificação. Após o café com o
capitão von MõllendorfF, assistente do comandante do acampamento, StaufFenberg
procurou o general Fritz Fellgiebel, cheFe das Transmissões, do OKW.
Fellgieber era um dos homens-chave da conspiração. StaufFenberg assegurou-
se de que o general estava pronto para expedir a notícia da explosão da bomba aos
conspiradores em Berlim, a fim de poderem iniciar imediatamente a ação. Cabe
ria a Fellgiebel isolar o quartel-general do Führer, cortando todas as comunicações
telefônicas, telegráficas e de rádio. Ninguém se achava em melhores condições
para fazê-lo do que o chefe da rede de comunicações do OKW. Os conspiradores
julgaram-se afortunados por terem conseguido sua adesão. Era indispensável ao
êxito da empreitada.
Depois de visitar o general Buhle, representante do exército no OKW, a fim de
discutirem sobre a questão do exército da reserva, StaufFenberg dirigiu-se para o
alojamento de Keitel. Dependurou o quepe e o cinturão numa antecâmara e en
trou no escritório do cheFe do OKW. Soube ali que deveria agir com presteza
maior que a planejada. Passavam poucos minutos do meio-dia, e Keitel inFor-
mou-o de que a primeira conferência com o Führer seria realizada às 12:30h em
vez de 13h, porque Mussolini chegaria por via Férrea às 14:30h. O coronel, acon
selhou Keitel, devia Fazer o relatório rapidamente. Hitler desejava terminar cedo
a conFerência.
Antes de a bomba explodir? — devia StaufFenberg ter indagado a si mesmo
mais de uma vez — e naquela tentativa que talvez Fosse a última? Estaria o destino
privando-o do êxito? Ao que parece, esperara também que, desta vez, a conFerên
cia com Hitler Fosse realizada no abrigo subterrâneo, onde a explosão da bomba
seria muitas vezes mais eficaz do que num dos ediFícios, na superfície. Keitel, po
rém, contou-lhe que a conFerência se realizaria no Lagebaracke (quartel),* que
* Certos escritores declararam que as conferências militares diárias de Hitler, em Rastenburg, geral
mente se realizavam em seu abrigo subterrâneo e que, em virtude dos reparos que nele estavam sendo
feitos e, também, por causa da umidade daquele dia, a de 20 de julho teve lugar no pavimento supe
rior. "Essa mudança acidental salvou a vida de Hitler", escreveu Bullock (Hitler, p. 681). É de duvidar que
tenha havido mudança acidental. O Lagebaracke, pelo que o nome indica, era, tanto quanto sei, o local
onde se realizavam em geral as conferências. Somente quando havia ameaça de ataque aéreo passa
vam as conferências a realizar-se no abrigo subterrâneo, o qual, dado o calor abafado daquele dia, seria
um local mais fresco. (Ver Geist der Friheií, de Zeller, p. 360, n. 4).
578 O COMEÇO DO FIM
estava longe de ser o frágil barracão de madeira tantas vezes descrito. No inverno
anterior, Hitler mandara reforçar a estrutura original com paredes de concreto
de 45 centímetros de espessura, como proteção contra bombas incendiárias e
estilhaços de bombas que pudessem cair nas proximidades, lançadas de avião.
Aquelas pesadas paredes dariam ainda maior potência destruidora à bomba de
StauíFenberg.
Ele devia pô-la logo em funcionamento. Expôs brevemente a Keitel o que re
lataria a Hitler e, já no fim da entrevista, notou que o chefe do OKW consultava
impacientemente o relógio. Poucos minutos antes das 12:30h, Keitel declarou que
deviam seguir imediatamente para o local da conferência se não quisessem che
gar atrasados. Saíram do alojamento; mal haviam dados alguns passos, porém,
lembrou-se StauíFenberg que deixara o quepe e o cinturão na antecâmara, e apres-
sou-se a ir buscá-los antes que Keitel sugerisse que seu assistente, o tenente von
John, que caminhava ao lado deles, fosse buscá-los em seu lugar.
Na antecâmara, StauíFenberg abriu rapidamente a pasta, e com uma pinça, que
segurou com os únicos três dedos que tinha, quebrou a cápsula da bomba. Em
apenas dez minutos ela explodiria, a menos que se verificasse outro desarranjo no
mecanismo.
Keitel, tão arrogante para com os subordinados quanto bajulador para com os
superiores, aborreceu-se com a demora de StauíFenberg e voltou para o edifício a
fim de Fazê-lo apressar-se. Estavam atrasados, gritou-lhe. StauíFenberg pediu-lhe
desculpas pela demora. Keitel, sem dúvida, compreendeu que um maneta, como
era o caso do coronel, devia naturalmente levar mais tempo para pôr o cinturão. Ao
dirigirem-se para o ediFício de Hitler, StauíFenberg parecia bem-humorado. O
aborrecimento de Keitel — ele de nada suspeitava ainda — desapareceu.
ConForme Keitel receara, estavam atrasados. A conferência já havia começa
do. Ao entrarem no ediFício, StauíFenberg deteve-se um momento no vestíbulo
para dizer ao sargento-ajudante, encarregado da mesa de ligações telefônicas, que
esperava um chamado urgente de seu escritório em Berlim, com informações de
última hora para seu relatório (isso Foi dito de modo que Keitel ouvisse), e que ele,
StauíFenberg, devia ser imediatamente avisado logo que viesse o chamado. Tam
bém isso, se bem que parecesse muito extraordinário — até um marechal-de-
campo dificilmente ousaria, quando na presença do comandante superior, deixar
a sala antes de para isso ter permissão ou antes de terminada a conferência e o
chefe saísse primeiro —, não despertou suspeitas em Keitel.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 579
Os dois entraram na sala. Passavam-se quatro minutos, aproximadamente,
desde o momento em que Stauffenberg quebrara a cápsula da bomba. Faltavam
seis minutos. A sala era relativamente pequena, cerca de dez metros por cinco.
Tinha dez janelas, que estavam escancaradas para ventilação naquele dia de calor
abafado. Tantas janelas abertas reduziriam, certamente, o efeito de qualquer ex
plosão. Havia no centro uma mesa oblonga, de seis metros por 1,5, feita de grossas
pranchas de carvalho. Era uma mesa de construção fora do comum, o tampo
apoiado em dois grandes e pesados suportes colocados próximos a suas extremi
dades e que se estendiam até quase toda a largura. O aspecto da mesa teria in
fluência na história subseqüente.
Quando Stauffenberg entrou na sala, Hitler achava-se sentado ao centro de
um dos lados maiores da mesa, as costas para a porta. À sua direita estavam o
general Heusinger, chefe das operações e representante do chefe do Estado-maior
do exército, o general Korten, chefe do Estado-maior da força aérea, e o coronel
Heinz Brandt, chefe do Estado-maior de Heusinger. Keitel ocupou seu lugar à
esquerda do Führer ; a seu lado achava-se o general Jodl. Havia 18 outros oficiais
das três armas e das S.S. de pé em torno da mesa. Gõring e Himmler, porém não
se achavam entre eles. Apenas Hitler, que brincava com sua lente de aumento, de
que necessitava para ler as pequeninas letras impressas no mapa estendido diante
dele, e dois estenógrafos estavam sentados.
Heusinger estava em meio a um lúgubre relatório sobre a última brecha na
frente russa e sobre a perigosa situação, conseqüência dela, dos exércitos alemães
não só ali como também nas frentes norte e sul. Keitel interrompeu-o para anun
ciar a presença do coronel von Stauffenberg e seu objetivo. Hitler olhou para o
coronel maneta e que trazia uma venda num dos olhos, cumprimentou-o rispida
mente e declarou que, antes de ouvir seu relatório, desejava que Heusinger termi
nasse sua exposição.
Stauffenberg tomou então lugar junto à mesa, entre Korten e Brandt, a peque
na distância à direita de Hitler. Colocou a pasta no chão, empurrando-a para de
baixo da mesa até encostar na parte interna de um dos pesados suportes de carva
lho. A pasta ficou a dois metros de distância das pernas de Hitler. Eram agora
12:37h. Faltavam ainda cinco minutos. Heusinger continuou a falar, apontando
constantemente para o mapa estendido sobre a mesa. Hitler e os oficiais curva
vam-se muitas vezes sobre ele, para estudá-lo.
580 O COMEÇO DO FIM
Parece que ninguém notou Stauffenberg afastar-se, salvo, talvez, o coronel
Brandt. Este oficial ficou de tal modo absorvido pelo que seu general estava ex
pondo que se inclinou sobre a mesa para ver melhor o mapa; notando que a boju-
da pasta de Stauffenberg o atrapalhava, tentou afastá-la com o pé; não o conse
guindo, abaixou uma das mãos e, agarrando-a colocou-a do outro lado do pesado
suporte da mesa, o qual, agora, se interpunha entre a bomba e Hitler.* Esse gesto
aparentemente insignificante salvou a vida do Führer e custou a de Brandt. Parece
que o destino pregou ali uma de suas peças inexplicáveis: o coronel Brandt, lem-
bramo-nos, fora o inocente oficial que Tresckow induzira a levar duas4garrafas de
uísque” no avião de Hitler, na viagem de Smolensk a Rastenburg, na noite de 13
de março de 1943, o que ele fizera sem a menor desconfiança de que o pacote
contivesse, na realidade, uma bomba, a mesma espécie de bomba que ele havia
naquele momento, sem dar a perceber, empurrado debaixo da mesa para mais
longe do comandante supremo. O líquido químico já havia, a essa altura, quase
terminado de corroer o arame que prendia o detonador.
Keitel, o responsável pela convocação de Stauffenberg, olhou para o lado da
mesa onde supunha estar de pé o coronel. Heusinger estava chegando ao fim de
seu lúgubre relatório, e o chefe do OKW desejava observar a Stauffenberg que ele
devia preparar-se para, logo em seguida, apresentar o seu. Talvez precisasse de
alguém que o auxiliasse a tirar os documentos da pasta. Com grande aborreci
mento Keitel, notou que o jovem coronel não se encontrava no lugar. Lembrando-
se do que Stauffenberg havia dito ao telefonista quando entrara, Keitel afastou-se
da sala para ir buscar o oficial que se conduzia de maneira tão curiosa.
Stauffenberg não se encontrava junto ao telefone. O sargento, que cuidava da
mesa de ligações, declarou que o oficial deixara apressadamente o edifício. Perple
xo, Keitel voltou para a sala de conferência. Heusinger estava terminando o rela
tório sobre a situação catastrófica daquele dia. “Os russos”, dizia, “estão avançando
com poderosas forças a oeste do Duna , em direção ao norte. Suas pontas-de-lança já
se encontram a sudoeste de Dunaburg. Se nosso grupo de exércitos, nas imediações
do lago Peipus, não for retirado imediatamente, uma catástrofe (...)”27
Não terminou a frase.
* Segundo o relato feito aos inquiridores Aliados, em Nuremberg, pelo almirante Kurt Assmann, que se
achava presente, Stauffenberg murmurara a Brandt: "Eu preciso ir ao telefone. Vigie minha pasta. Ela
contém documentos secretos."
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 581
Naquele preciso momento, 12:42h, explodiu a bomba.
Stauffenberg viu o que se seguiu. Estava com o general Fellgiebel diante do es
critório dele, no abrigo 88, a uns duzentos metros de distância, olhando ansiosa
mente para o relógio de pulso, acompanhando o ponteiro dos segundos, e depois
para o local da conferência. Ouviu a explosão e viu o edifício envolver-se em fuma
ça e chamas como se — conforme disse mais tarde — tivesse sido atingido por uma
granada de 155mm. Corpos saíram lançados pelas janelas, destroços voaram para
os ares. Não restou a mais leve dúvida no espírito excitado de Stauffenberg de que
todas as pessoas que se encontravam na sala de conferência haviam morrido ou
estavam agonizantes. Despediu-se apressadamente de Fellgiebel, que devia agora
telefonar aos conspiradores avisando-os que o atentado havia sido bem-sucedido
e cortar depois as comunicações até que os conspiradores, na capital, tivessem
ocupado a cidade e proclamado o novo governo.*
O passo seguinte de Stauffenberg era sair do acampamento do quartel-general
de Rastenburg com vida e depressa. Os guardas, nos postos de verificações, ha
viam visto ou ouvido a explosão na sala de conferências do Fiihrer e fecharam
imediatamente todas as saídas. O carro de Stauffenberg foi detido na primeira
barreira, a poucos metros do abrigo de Fellgiebel. Saltou e pediu para falar com o
oficial de dia, na sala da guarda. Na presença dele telefonou a alguém — ignora-se
a quem —, falou brevemente, desligou o aparelho e, virando-se para o oficial,
disse: “Senhor tenente, eu tenho permissão para passar.”
Foi puro blefe, mas deu resultado e, ao que parece, depois de o tenente anotar
no registro — conforme era seu dever — que o coronel Stauffenberg havia saído às
12:44h , foi dada ordem para deixarem o carro passar no posto seguinte. Foi mais
difícil no terceiro e último. Ali já haviam recebido o alarme, tinham descido a bar
reira e dobrado a guarda, não se permitindo a entrada ou saída de pessoa alguma.
Stauffenberg e seu ajudante, tenente Haeften, viram-se bloqueados por um sar
gento demasiado inflexível, de nome Kolbe. Novamente Stauffenberg pediu para
* Muitos escritores afirmam que, naquele momento, o general Fellgiebel devia fazer explodir o centro
de comunicações e o fato de não ter ele feito isso redundou em desastre para os conspiradores. Nesse
sentido escreve Wheeler-Bennett (Nemesis, p. 643) "o general Fellgiebel fracassou lamentavelmente na
execução de sua tarefa". Uma vez que vários centros de comunicações ficavam abrigados em diferentes
locais subterrâneos e eram fortemente guardados pelas S.S., é muito improvável que os planos de
Stauffenberg exigissem que fossem destruídos — tarefa impossível para o general. O que Fellgiebel
concordou em fazer foi cortar as comunicações com o mundo exterior durante duas ou três horas de
pois de informar Berlim da explosão. Isso, salvo um ou dois lapsos inevitáveis, foi o que fez.
582 O COMEÇO DO FIM
usar o telefone. Ligou para o capitão Mõllendorff, assistente do comandante do
acampamento. Queixou-se de que, “por causa da explosão”, o guarda não queria
deixá-lo passar. “Eu tenho pressa. O general Fromm espera-me no aeroporto.” Era
também um blefe. Stauffenberg sabia muito bem que Fromm se achava em Berlim.
O coronel desligou o telefone e virou-se para o sargento: “Sargento, o senhor
ouviu que tenho permissão para passar.” Mas o sargento não se deixou ludibriar.
Ele mesmo telefonou ao capitão Mõllendorff para obter confirmação. Obteve-a.28
O carro correu depois para o aeroporto, enquanto o tenente Haeften desmon
tava apressadamente uma segunda bomba que havia trazido em sua pasta. Atirou
as peças na estrada, onde foram mais tarde encontradas pela Gestapo. O coman
dante do aeroporto ainda não recebera qualquer sinal de alarme. O piloto já havia
posto os motores em movimento quando os dois homens chegaram ao aeroporto.
Um ou dois minutos depois o avião decolava.
Era agora uma hora e pouco. As três horas seguintes devem ter parecido as
mais longas na vida de Stauffenberg. Nada podia fazer, quando o vagaroso avião
de Heinkel rumou para oeste sobre a planície chata e arenosa da Alemanha, senão
esperar que Fellgiebel tivesse podido transmitir o importante sinal a Berlim, que
os companheiros de conspiração se pusessem, na capital, imediatamente em ação
para a tomada da cidade e que fossem expedidas as mensagens, já preparadas, aos
comandantes militares na Alemanha e no Ocidente, e que seu avião não fosse
obrigado a descer pelos caças da Luftwaffe, porventura alertados, ou pelos aviões
russos que se mostravam cada vez mais ativos na Prússia Oriental. Seu próprio
avião não dispunha de rádio com alcance suficiente para captar Berlim e ouvir as
primeiras irradiações sensacionais que esperava estarem os conspiradores pro
movendo, antes que aterrissasse. Não pôde também, por causa dessa falha, comu
nicar-se com os confederados, na capital, e transmitir-lhes o sinal que o general
Fellgiebel talvez não tivesse podido expedir.
Seu avião prosseguiu na viagem por aquela tarde de princípio do verão. Ater
rissou em Ransdorf às 15:45h. Stauffenberg, animadíssimo, correu para o telefone
mais próximo, no aeroporto, para comunicar-se com o general Olbricht e saber
exatamente o que havia sido conseguido naquelas fatídicas três horas, das quais
tudo dependia. Para grande consternação sua, foi informado de que nada se con
seguira. Chegara de Fellgiebel, logo depois de uma hora, a notícia sobre a explo
são; mas a ligação estava ruim e não ficara claro, aos conspiradores, se Hitler havia
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 583
morrido ou não. Nada havia sido feito, portanto. Retiraram do cofre de Olbricht
as ordens relacionadas à Operação Valquíria, mas não foram elas expedidas. To
dos ficaram inativos na Bendlerstrasse, aguardando o regresso de Stauffenberg. O
general Beck e o marechal-de-campo Witzleben que, como novo chefe de Estado
e comandante-em-chefe da Wehrmacht, respectivamente, deviam ter iniciado, ao
que se supunha, as proclamações e ordens previamente preparadas, e comunicar
imediatamente pelo rádio o alvorecer de um novo dia na Alemanha, ainda não
haviam aparecido.
Hitler, ao contrário da firme crença de Strauffenberg, comunicada a Olbricht
em seu telegrama de Rangsdorf, não havia morrido. O gesto quase inconsciente
de Brandt, empurrando a pasta para o outro lado do suporte da mesa de carvalho,
salvara-lhe a vida. Ficou seriamente abalado mas não seriamente ferido. Seus ca
belos ficaram chamuscados, as pernas queimadas, o braço direito contundido e
temporariamente paralizado, os tímpanos afetados e as costas laceradas pela que
da de uma viga; estava quase irreconhecível quando saiu do edifício em ruínas e
em chamas — conforme se lembrou mais tarde uma testemunha — apoiado no
braço de Keitel, o rosto enegrecido, os cabelos chamuscados e as calças em fran-
galhos. Keitel saiu milagrosamente ileso. Mas a maioria dos que estavam sentados
na extremidade da mesa, perto do local onde a bomba explodiu, estava morta,
moribunda ou gravemente ferida.*
No primeiro momento, em meio à excitação causada pelo fato, fizeram-se vá
rias conjecturas a propósito da explosão. Hitler pensou, a princípio, que tivesse
sido causada por um ataque inesperado de algum caça-bombardeiro inimigo.
Jodl, segurando entre as mãos a cabeça ensangüentada (o candelabro, entre ou
tros objetos, havia caído sobre ele), estava convencido de que alguns operários
que trabalhavam no edifício haviam colocado, sob o assoalho, uma bomba de
efeito retardado. O buraco profundo que a bomba de Stauffenberg fizera no chão
parecia confirmá-lo. Levou algum tempo para as suspeitas recaírem sobre o coro
nel. Himmler, que viera correndo para o local assim que ouviu o ruído da explo
são, estava perplexo. Seu primeiro ato foi telefonar, um ou dois minutos antes de
* Berger, o estenógrafo oficial, foi morto; o coronel Brandt, o general Schmundt, assistente de Hitler,
e o general Korten morreram em conseqüência dos ferimentos recebidos. Todos os demais, incluin
do os generais Jodl, Bodenschatz (chefe do Estado-maior de Gõring) e Heusinger, ficaram seriamen
te feridos.
584 O COMEÇO DO FIM
Fellgiebel haver cortado as comunicações, a Artur Nebe, chefe da polícia criminal
de Berlim, recomendando-lhe que enviasse por via aérea um grupo de detetives
para fazer as necessárias investigações.
Durante a confusão e o choque, ninguém a princípio se lembrou de que
Stauffenberg saíra furtivamente da sala de conferências pouco antes da explosão.
Acreditou-se depois que ficara no edifício e fosse um dos oficiais gravemente fe
ridos levados às pressas para o hospital. Hitler, que ainda não suspeitava dele,
ordenou que se averiguasse no hospital.
Cerca de duas horas após a explosão começaram a surgir os indícios. O sar
gento que trabalhava junto à mesa de ligações telefônicas, no Lagebaracke, decla
rou que “o coronel de um olho só”, que lhe comunicara estar aguardando um
chamado interurbano de Berlim, havia saído da sala de conferências e, sem espe
rar pelo chamado, deixara apressadamente o edifício. Alguns dos participantes da
reunião lembraram-se de que Stauffenberg tinha deixado a pasta debaixo da mesa.
Os guardas, nas barreiras, revelaram que Stauffenberg e seu ajudante haviam pas
sado por elas logo depois da explosão.
Esses fatos despertaram as suspeitas de Hitler. Um telefonema ao aeroporto de
Rastenburg trouxe uma informação interessante: Stauffenberg partira de avião, às
pressas, depois das 13h, dando como ponto de destino o aeroporto de Rangsdorf.
Himmler ordenou imediatamente que o prendessem quando descesse lá, mas sua
ordem não chegou a Berlim em virtude do ato corajoso de Fellgiebel cortando as
comunicações. Até aquele momento, ninguém no quartel-general parecia suspei
tar de que algo extraordinário pudesse estar acontecendo em Berlim. Todos acre
ditavam que Stauffenberg agira sozinho e que não seria difícil capturá-lo, a menos
que — conforme alguns aventaram — tivesse descido na retaguarda das linhas
russas. Hitler, que naquelas circunstâncias parece ter-se conduzido com muita
calma, já cogitava outra coisa. Tinha que cumprimentar Mussolini, que devia che
gar somente às 16h, pois seu trem sofrerá certo atraso.
Há qualquer coisa de fantástico e grotesco nesse último encontro dos dois
ditadores fascistas na tarde de 20 de julho de 1944, ao observarem eles as ruínas
da sala de conferências e ao procurarem enganar-se a si próprios com a idéia de
que o Eixo que haviam forjado, e que devia ter dominado o continente europeu,
estava também a caminho da ruína. O outrora orgulhoso e empertigado Duce
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 585
não passava agora de um Gauleiter da Lombardia, salvo da prisão pelos sicários
nazistas e agora amparado por Hitler e pelas S.S. O Führer , contudo, não falhara
em sua amizade e estima pelo deposto tirano italiano; cumprimentou-o com o
calor que suas condições físicas permitiam, mostrou-lhe os destroços ainda fu-
megantes do Lagebaracke> onde poucas horas antes quase perdera a vida, e pre
disse que a causa de ambos, a despeito de todas as dificuldades, logo triunfaria.
O dr. Schmidt, que se achava presente na qualidade de intérprete, lembrou-se
da cena.29
Mussolini ficou horrorizado. Não compreendia que semelhante coisa
pudesse ter acontecido no quartel-general (...)
“Eu estava aqui de pé, junto a esta mesa”, contou Hitler; “a bomba ex
plodiu bem diante de meus pés (...) É evidente que nada acontecerá
comigo; é meu destino, indubitavelmente, prosseguir em meu caminho
para terminar minha tarefa (...) O que aconteceu hoje aqui é o clímax!
Tendo escapado agora da morte (...) estou mais que convencido de que
a grande causa, à qual estou servindo, atravessará os presentes perigos
e tudo chegará a um belo final.”
Mussolini, empolgado pelas palavras de Hitler, como sempre, concordou —
disse Schmidt.
“Nossa posição é ruim” [falou] “podia-se dizer quase desesperada; mas
o que hoje aconteceu aqui dá-me nova coragem. Depois desse milagre,
é inconcebível que nossa causa seja fadada ao fracasso.”
Os dois ditadores e e seu séquito foram depois tomar chá. Verificou-se ali —
eram mais ou menos 17h — uma cena ridícula que, se não surpreende, pelo me
nos revela o caráter mesquinho dos chefes nazistas num momento de grande
crise do Terceiro Reich. O sistema de comunicações de Rastenburg já estava nes
se momento restabelecido por ordem direta de Hitler, e começavam a chegar as
primeiras notícias de Berlim. Indicavam elas que havia estourado lá uma revolta
e talvez outra na frente ocidental. Irromperam entre os capitães de Hitler recrimi-
nações mútuas, há muito recalcadas, seus gritos ecoando pela sala, se bem que o
586 O COMEÇO DO FIM
próprio Hitler, a princípio, se mantivesse silencioso e pensativo, e Mussolini em-
baraçadíssimo.
O almirante Dõnitz que, ao ter notícia do atentado, se apressara a ir de avião
a Rastenburg, chegando depois de começado o chá, excedeu-se nas palavras ante a
traição do exército. Gõring, falando em nome da força aérea, apoiou-o. Dõnitz
desabou depois sobre Gõring, comentando os fracassos e desastres da LuftwafFe.
O gordo marechal do Reich, após defender-se, atacou o homem de quem tinha
grande ojeriza, Ribbentrop, pelo fracasso da política externa da Alemanha; a cer
ta altura, ameaçou dar uma sova no arrogante ministro do Exterior com seu bas
tão de marechal. aSeu sujo, vendedorzinho de champanha! Feche essa boca dos
diabos!”, gritou ele, mas isso era impossível para Ribbentrop, que exigiu um pou
co de respeito até mesmo do marechal do Reich. “Ainda sou o ministro das Rela
ções Exteriores, e meu nome é von Ribbentrop!”, bradou ele.*
Alguém trouxe depois à baila a questão de uma revolta anterior contra o regi
me nazista, o complô de Rohm, em 30 de junho de 1934. Hitler, que estava senta
do chupando taciturnamente umas pílulas fortemente coloridas fornecidas pelo
seu médico charlatão, dr. Theodor Morrei, enfureceu-se. Testemunhas oculares
dizem que ele saltou da cadeira, os lábios espumejantes, e começou a esbravejar.
O que havia feito com Rohm e seus adeptos nada fora, gritou, comparado com o
que faria aos traidores desse dia. Pegaria todos eles e os exterminaria. “Vou man
dar suas mulheres e filhos para os campos de concentração e não serei condes-
cente com eles!”, vociferou. Nesse caso, como em tantos outros semelhantes,
cumpriu a palavra.
Hitler interrompeu seu monólogo furioso, talvez por causa do cansaço e por
causa dos novos detalhes que começavam a chegar de Berlim, pelo telefone, sobre
o levante militar. Sua cólera, porém, não se amainou. Acompanhou Mussolini até o
trem — era a última vez que se viam — e voltou para seu quartel-general. Quando
o informaram, por volta das 6 horas, que o Putsch ainda não havia sido debelado,
agarrou o telefone e, aos berros, ordenou às S.S., em Berlim, que fuzilassem todos
aqueles de quem suspeitassem. “Onde está Himmler? Por que não está lá?”, gritou,
esquecendo-se de que apenas meia hora antes, ao sentar-se o grupo para o chá,
* Ribbentrop havia sido vendedor de champanha e casara-se com a filha de um importante fabricante
de vinhos da Alemanha. O "von" viera-lhe pela adoção de uma tia, Fraulein Gerthurd von Ribbentrop,
em 1925, quando ele tinha 32 anos.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 587
havia ordenado ao chefe das S.S. que voasse para Berlim e debelasse impiedosa
mente a rebelião, não sendo, portanto, ainda possível que seu chefe de polícia ti
vesse chegado lá.30
Para grande acabrunhamento seu, Stauffenberg veio a saber, às 15:45h, quan
do desceu em Rangsdorf, que a rebelião em Berlim, há muito cuidadosamente
preparada, sofrerá uma demora. Haviam sido perdidas três horas preciosas e vi
tais, durante as quais o quartel-general do Führer permanecera isolado do mundo
exterior.
Stauffenberg, por mais que se esforçasse, não podia compreender a razão da
demora; tampouco poderá compreendê-la o historiador, ao procurar reconsti
tuir os acontecimentos daquele dia fatídico. O tempo estava quente e abafado, e
isso, talvez, tivesse exercido certa influência. Se bem que os principais conspira
dores tivessem sabido que Stauffenberg partira para Rastenburg naquela manhã
“fortemente carregado”, conforme foi informado o general Hoepner, a fim de
comparecer à conferência do Führer às 13h, somente poucos deles, na maioria
oficiais subalternos, começaram a dirigir-se morosamente para o quartel-general
do exército de reserva — e da conspiração — na Bendlerstrasse, por volta do
meio-dia. Na tentativa anterior de Stauffenberg de liquidar Hitler, em 15 de ju
lho, é de lembrar-se que o general Olbricht ordenou às tropas da guarnição de
Berlim que começassem a marcha duas horas antes da hora marcada para a ex
plosão da bomba. Em 20 de julho, porém, talvez pensando no risco que havia
corrido, nâo expediu ordem da mesma natureza. Os comandantes das unidades,
em Berlim e nos centros de treinamento de Dõberitz, Jüterbog Krampnizt e
Wünsdorf, que ficavam próximos, tinham sido advertidos na véspera de que,
muito provavelmente, iriam receber instruções sobre a Operação Valquíria no
dia 20. Olbricht resolveu, no entanto, esperar até receber uma ordem definitiva
de Fellgiebel, que se achava em Rastenburg, antes de pôr suas tropas em movi
mento. O general Hoepner, trazendo na mala o uniforme que Hitler lhe proibi
ra de usar, chegou à Bendlerstrasse às 12:30h — justamente no momento em
que Stauffenberg quebrava a cápsula da bomba — e, juntamente com Olbricht,
foi almoçar; ambos, no almoço, ergueram um brinde, com meia garrafa de vi
nho, pelo êxito da empresa.
Não fazia muito tempo que tinham voltado ao escritório de Olbricht quando
irrompeu na sala o general Franz Thiele, oficial-chefe das transmissões do OKW.
588 O COMEÇO DO FIM
Acabara de falar pelo telefone com Fellgiebel, disse excitadamente, e, embora a
linha estivesse ruim e Fellgiebel se tivesse mostrado muito discreto no que disse
ra, parecia que se havia verificado a explosão: Hitler, porém, não morrera. Thiele
chegou à conclusão de que, dado isso, não devia ser expedida a ordem para a
Operação Valquíria. Olbricht e Hoepner concordaram com ele.
Assim, entre aproximadamente 13:15h e 15:45h, quando Stauffenberg desceu
em Rangsdorf e apressou-se a telefonar, nada havia sido feito. Não se reuniram
tropas, não se expediram ordens aos comandos militares de outras cidades e, tal
vez o mais estranho de tudo, ninguém pensou em apoderar-se das estações de
rádio, da central telefônica e dos telégrafos. Os dois principais chefes militares,
Beck e Witzleben, ainda não haviam aparecido.
A chegada de Stauffenberg fez com que os conspiradores entrassem finalmen
te em ação. Telefonando de Rangsdorf, instou com o general para que não espe
rasse até ele chegar à Bendlerstrasse — o percurso do aeroporto até ali levaria 45
minutos —, mas que começasse imediatamente a Operação Valquíria. Afinal tive
ram os conspiradores alguém para dar ordens — sem o que um oficial alemão
ver-se-ia incapacitado de agir, mesmo um rebelde e até mesmo num momento
decisivo, e começaram a atuar. O coronel Mertz von Quirnheim, chefe do Estado-
maior de Olbricht e amigo íntimo de Stauffenberg, foi buscar as instruções para a
Operação Valquíria e pôs-se a expedi-la pelo teletipo e pelo telefone. A primeira
alertava as tropas, dentro e em torno de Berlim; a segunda, assinada por Witzle
ben como “comandante-em-chefe da Wehrmacht” e contra-assinada pelo conde
von Stauffenberg — haviam sido preparadas alguns meses antes —, anunciava que
o Führer tinha morrido e que Witzleben estava “transferindo o poder executivo”,
no país, aos comandantes distritais do exército e, na frente, aos comandantes-em-
chefe das forças combatentes. O marechal-de-campo von Witzleben não havia
ainda chegado à Bendlerstrasse. Chegara até Zossen, 32 quilômetros a sudeste de
Berlim, onde estava conferenciando com Wagner, chefe do serviço de intendência.
Mandaram buscá-lo, bem como ao general Beck. Os dois generais superiores da
conspiração estavam, nesse dia, se conduzindo com inconcebível morosidade.
Expedidas as ordens, algumas delas assinadas pelo general Fromm — se bem
que sem seu conhecimento —, Olbricht dirigiu-se ao escritório do comandante
do exército da reserva. Informou-o de que Fellgiebel lhe comunicara que Hider
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 589
tinha sido assassinado e instou para que assumisse a direção da Operação Valquí
ria, garantindo a segurança interna do Estado. Os conspiradores sabiam que as
ordens de Fromm seriam automaticamente obedecidas. Fromm, entretanto, à se
melhança de Kluge, era um gênio em matéria de tergiversação; não era homem
para dar um salto no escuro. Quis uma prova insofismável de que Hitler havia
realmente morrido, antes de decidir o que fazer.
A essa altura, Olbricht cometeu outro erro desastroso, dos muitos que os cons
piradores cometeram nesse dia. Estava certo de que Stauffenberg lhe dissera de
Rangsdorff, pelo telefone, que o Führer tinha morrido. Sabia, também, que Fellgiebel
havia sido coroado de êxito ao isolar as linhas telefônicas para Rastenburg, na
quela tarde. Pegou, pois, ousadamente o telefone e pediu ligação imediata com
Keitel. Para sua surpresa — as comunicações, conforme vimos, haviam sido res
tabelecidas, embora Olbricht ignorasse —, Keitel, no mesmo instante, apareceu
na linha.
Fromm: Que aconteceu no quartel-general? Correm boatos assustado
res em Berlim.
Keitel: Que poderia ter acontecido? Não há novidade alguma.
Fromm: Acabei de receber notícia de que o Führer foi assassinado.
Keitel: Não passa de tolice. Houve, na verdade, um atentado, mas fe
lizmente falhou. O Führer está vivo e apenas ligeiramente ferido. A
propósito, onde está o chefe de seu Estado-maior, o coronel conde
Stauffenberg?
Fromm: Stauffenberg ainda não regressou.31
Desse momento em diante, não se ia poder contar com Fromm na conspira
ção; e, nesse ponto, as conseqüências seriam logo catastróficas. Olbricht, momen
taneamente perplexo, retirou-se do escritório sem dizer palavra. Chegou nesse
momento o general Beck envergando um traje civil escuro — talvez fosse para
encobrir a natureza militar da revolta — para assumir a direção. Mas o homem
que realmente estava na direção dela, como todos logo perceberam, era o coronel
von Stauffenberg que, sem quepe e ofegante, subiu correndo as escadas do antigo
Ministério da Guerra às 16:30h. Fez um breve relato sobre a explosão, acentuando
que ele mesmo a presenciara de uma distância de 200 metros. Quando Olbricht
590 O COMEÇO DO FIM
replicou que o próprio Keitel acabara de telefonar e afirmara que Hitler estava
apenas ligeiramente ferido, Stauffenberg respondeu que Keitel estava mentido
para ganhar tempo. No mínimo, retrucou, Hitler deve ter ficado gravemente feri
do. Em todo o caso, acrescentou, havia apenas uma coisa a fazer: aproveitar todos
os minutos para derrubar o regime nazista. Beck concordou com ele. Pouca dife
rença lhe fazia, disse, estar o déspota vivo ou morto. Deviam ir para a frente e
destruir seu nefasto governo.
O embaraço era que, depois daquela demora fatal e dada a confusão do mo
mento, não sabiam, não obstante todos os planos que fizeram, como tocar a coisa
para a frente. Nem mesmo quando o general Thiele veio com a informação de que
logo ia ser irradiada, pela cadeia radiofônica nacional da Alemanha, a notícia da
sobrevivência de Hitler, parece não ter ocorrido aos conspiradores que a primeira
coisa a fazer, e imediatamente, seria apoderarem-se da estação central radiofônica
e impedirem que os nazistas transmitissem suas notícias, e começarem a inundar
o ar com suas próprias proclamações de que havia sido formado um novo gover
no. Se as tropas não se achavam ainda à disposição para realizar isso, a polícia de
Berlim poderia tê-lo feito. O conde von Helldorf, chefe de polícia e participante
da conspiração, estava esperando impacientemente desde o meio-dia para entrar
em ação com suas forças, já de prontidão, as quais eram em número bastante
apreciável. Como até as 16h não recebesse aviso, acabou indo de automóvel à
Bendlerstrasse para ver o que estava acontecendo. Olbricht informou-o de que
sua polícia ficaria sob a direção do exército. Não havia ainda exército rebelde,
apenas oficiais desnorteados que se movimentavam pelo quartel-general sem sol
dados para comandarem.
Em vez de cuidar imediatamente dessa situação, Stauffenberg fez uma ligação
urgente para o tenente-coronel Cáser von Rofacker, seu primo, no quartel-gene
ral do general von Stülpnagel, em Paris, instando para que os conspiradores en
trassem ali em ação. Isso era, decerto, da máxima importância, porque a conspi
ração havia sido melhor organizada na França e era ali apoiada por oficiais do
exército mais importantes do que os de outros lugares, exceto Berlim. Na verda
de, Stülpnagel mostraria mais energia que os generais seus companheiros, no cen
tro da revolta. Antes do anoitecer, havia prendido e encarcerado todos os 1.200
oficiais e soldados das S.S. e do S.D. em Paris, incluindo seu temido comandante,
o general de divisão das S.S. Karl Oberg. Houvesse energia semelhante e similar
direção em Berlim, naquela tarde, e a história teria tomado um rumo diferente.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 591
Tendo alertado Paris, Stauffenberg voltou em seguida a atenção para a figura
obstinada de Fromm, de cujo Estado-maior ele era o chefe e cuja recusa em
acompanhar os rebeldes, depois de Keitel informá-lo que Hitler estava vivo, pre
judicava seriamente o êxito da conspiração. Beck não teve coragem de discutir logo
cedo aquele jogo, desculpando-se por não acompanhar Stauffenberg e Olbricht
que o tinham ido procurar. Olbricht declarou a Fromm que Stauffenberg podia
confirmar a morte de Hitler.
“É impossível”, replicou Fromm. “Keitel garantiu-me o contrário”.
“Keitel mentiu, como de costume”, observou Stauffenberg. “Eu mesmo vi car
regarem para fora o corpo de Hitler.”
Essa informação do chefe de seu Estado-maior e testemunha ocular do fato
deu o que pensar a Fromm. Por um momento guardou silêncio. Mas quando
Olbricht, tentando aproveitar-se de sua indecisão, observou que a mensagem em
código para a Operação Valquíria já havia sido expedida, ergueu-se de um salto e
gritou: “Isso é uma insubordinação! Quem expediu a ordem?” Ao informarem-no
que havia sido o coronel Mertz von Quirnheim, chamou o oficial e disse-lhe que
estava preso.
Stauffenberg fez um último esforço para conseguir a adesão de seu chefe: “Ge
neral, fui eu quem fez explodir a bomba durante a conferência de Hitler. A explo
são foi como se tivesse sido causada por uma granada de 15mm. Ninguém naque
la sala poderá estar vivo.”
Fromm, entretanto, era um oportunista demasiado esperto para se deixar lu
dibriar. “Conde Stauffenberg, o atentado falhou. O senhor deve suicidar-se ime
diatamente.” Stauffenberg recusou calmamente a sugestão. Um instante depois,
Fromm, homem de rosto carnudo e vermelho, declarava estarem presos os três
visitantes: Stauffrenberg, Olbricht e Mertz.
“O senhor está enganado”, respondeu Olbricht. “Somos nós que vamos pren
dê-lo agora.”
Seguiu-se uma luta corpo-a-corpo entre os oficiais, na qual Fromm, segundo
uma versão, feriu no rosto o maneta Stauffenberg. O general foi rapidamente do
minado e detido na sala de seu ajudante, onde o major Ludwig von Leonrod ficou
* Semanas antes, Leonrod perguntou a um capelão do exército, seu amigo, se a Igreja Católica perdoa
ria o tiranicídio. Recebeu resposta negativa. Quando isso veio à baila no julgamento de Leonrod, no
592 O COMEÇO DO FIM
incumbido de vigiá-lo.* Os rebeldes tomaram a precaução de cortar os fios telefô
nicos da sala.
StauíFenberg voltou à sua sala e viu que o Oberführer PifFràder, rufião das S.S.
que se tinha distinguido recentemente dirigindo a exumação e a destruição de
221 mil corpos de judeus assassinados pelos Einsatzgruppen , nas regiões bálticas,
antes da chegada das tropas russas que então avançavam — ali havia chegado para
prendê-lo. PifFràder e seus dois homens à paisana, do S.D., Foram Fechados a cha
ve numa sala adjacente, vazia. Chegou depois o general von Kortzfleisch, que
exercia o comando geral das tropas no distrito Berlim-Brandemburgo ( Wehrkreis
III). Indagou o que estava acontecendo. Esse general, nazista Ferrenho, insistiu em
Falar com Fromm. Conduziram-no, porém, à presença de Olbricht, com o qual
recusou entender-se. Beck recebeu-o depois. Como Kortzfleisch se mostrasse in
flexível em sua atitude, Foi também detido. ConForme Fora planejado, o general
von Thüngen havia sido nomeado para substituí-lo.
A aparição de Piffrãder lembrou StauíFenberg de que os conspiradores haviam
esquecido de colocar guardas em torno do ediFício. Colocou-se então à entrada
um destacamento do batalhão Grossdeutschland, que se supunha estar de serviço.
Assim, pouco depois das 17h ficaram os rebeldes senhores pelo menos de seu pró
prio quartel-general. Era somente esse local, porém, que em Berlim estava sob o
controle deles. Que havia acontecido às tropas do exército que, supunha-se, de
viam ocupar a capital e deFendê-la para o novo governo antinazista?
Pouco depois das 16h, quando os conspiradores haviam finalmente ressusci
tado em seguida à vinda de StauíFenberg, o general von Hase, comandante de
Berlim, teleFonou ao comandante do Batalhão de Guardas Grossdeutschland , em
Dõberitz, dando-lhe instruções para colocar de prontidão sua unidade, e que ele
mesmo comparecesse à Kommandantur , na Unter den Linden. O comandante do
batalhão, então recentemente nomeado, era o major Otto Remer. Exerceria nesse
dia um papel-chave, se bem que não Fosse aquele com quem os conspiradores
contavam. Tinham Feito investigações a seu respeito, porque seu batalhão ficara
encerregado de importantíssima tarefa. Deram-se por satisfeitos ao saberem que
ele era um oficial apolítico e que obedeceria às ordens dos superiores imediatos.
Sua bravura pairava acima de qualquer dúvida. Havia sido Ferido oito vezes e,
Tribunal do Povo, o padre Wehrle foi preso por não ter comunicado o fato às autoridades. Como
Leonrod, foi também executado.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 593
pouco tempo antes, recebera das mãos de Hitler a Cruz de Cavalheiro com Folhas
de Carvalho — uma distinção rara.
Remer colocou o batalhão de prontidão, conforme as instruções, e apressou-se
em ir à cidade a fim de receber ordens especiais de Hase. O general informou-o
do assassínio de Hitler e do Putsch que as S.S. estavam tentando. Instruiu-o para
que isolassem os ministérios, na Wilhelmstrasse, e o escritório central de segu
rança das S.S., no distrito próximo à Estação Anhalt. Por volta das 17:30h, Remer,
agindo com presteza, cumpriu o que lhe haviam ordenado e tornou a voltar à
Unter den Linden a fim de receber novas instruções.
Foi então que outro personagem, secundário, entrou em cena e auxiliou Remer
a tornar-se a Nêmesis da conspiração. O tenente dr. Nans Hagen, jovem vibrátil e
cheio de si, havia sido colocado como oficial orientador do partido nacional-
socialista junto ao batalhão de guardas de Remer. Trabalhava também para o dr.
Goebbels, no Ministério da Propaganda, e, na ocasião, estava servindo em Beiru
te, para onde fora enviado pelo ministro a fim de trabalhar num livro que Martin
Bormann, secretário de Hitler, desejava que fosse escrito: a “História da Cultura
Nacional-Socialista”. Sua presença em Berlim era puramente casual. Tinha vindo
para proferir uma alocução em tributo a um obscuro escritor tombado na frente.
Aproveitara sua visita para pronunciar naquela tarde uma conferência em seu ba
talhão, embora fosse um dia quente e abafado, sobre “Questões relativas à orien
tação nacional-socialista”. Gostava imensamente de falar em público.
A caminho de Dõberitz, o vibrátil tenente teve certeza de que vira o marechal-
de-campo von Brauchitsch passar fardado, num automóvel do exército. Ocorreu-
lhe logo que os velhos generais estariam tramando alguma traição. Brauchitsch,
que havia sido alijado de seu comando por Hitler, fazia já muito tempo, não estava
em Berlim nesse dia, quer de uniforme quer sem ele, mas Hagen jurava tê-lo visto.
Contou suas suspeitas a Remer, com quem conversava por acaso, quando este re
cebia a ordem para ocupar a Wilhelmstrasse. A ordem avivou-lhe mais as suspei
tas. Convenceu Remer a dar-lhe uma motocicleta com side-car , na qual correu
imediatamente para o Ministério da Propaganda a fim de alertar Goebbels.
O ministro acabara de receber o primeiro telefonema de Hitler, que o infor
mou sobre o atentado, dando-lhe instruções para anunciar, pelo rádio, o mais
breve possível, que o atentado havia falhado. Parece ter sido esta a primeira notí
cia que teve o ministro da Propaganda, geralmente sempre alerta, a respeito do que
ocorrera em Rastenburg. Hagen logo o pôs a par do que estava prestes a acontecer
594 O COMEÇO DO FIM
em Berlim. Goebbels, a princípio, mostrou-se cético — considerava Hagen um
tanto importuno — e, segundo uma única versão, esteve a ponto de mandar sair
da sala o visitante quando este lhe sugeriu que fosse à janela e se certificasse com
os próprios olhos. O que Goebbels viu foi mais convincente que as palavras histé
ricas de Hagen: tropas do exército estavam tomando posição em volta do Minis
tério. Goebbels, conquanto fosse um homem estulto, logo adivinhou tudo. Orde
nou a Hagen que mandasse Remer vir falar com ele imediatamente. Foi o que
Hagen fez. Depois disso, deixou de figurar na história.
Assim, enquanto os conspiradores na Bendlerstrasse estavam entrando em
contato com os generais, por toda a Europa, sem suspeitarem de um jovem oficial
como Remer, tão indispensável quanto sua tarefa, Goebbels comunicava-se com
esse homem que, embora de posto inferior, tinha grande importância naquele
momento especial.
O contato era inevitável porque, entrementes, Remer recebera ordem de pren
der o ministro da Propaganda. O major, portanto, tinha instruções para agarrar
Goebbels e, também, uma mensagem dele convidando-o a ir falar com ele. Remer
entrou no Ministério da Propaganda com vinte soldados, aos quais ordenou que
fossem buscá-lo se não voltasse, dentro de poucos minutos, da sala do ministro.
Empunhando pistolas, ele e seu ajudante-de-ordens entraram na sala a fim de
prender o mais importante funcionário nazista que nesse dia se encontrava em
Berlim.
Entre os predicados que possibilitaram a Joseph Goebbels galgar sua posição
eminente no Terceiro Reich, estava o de saber falar com rapidez em situações
críticas — e aquela era a mais crítica e a mais precária de sua vida tempestuosa.
Lembrou ao jovem major seu juramento de fidelidade ao comandante-em-chefe.
Remer retrucou rispidamente, dizendo que Hitler estava morto. Goebbels decla
rou que o Führer estava bem vivo, pois acabara de conversar com ele pelo telefone.
Ia prová-lo. Tomou o telefone e pediu uma ligação urgente com o comandante
supremo em Rastenburg. Mais uma vez o fato de não terem os conspiradores se
apoderado da central telefônica, ou, pelo menos, cortado os fios, contribuiu para
o fracasso da conspiração* Um ou dois minutos depois Hitler estava na linha.
* "Pensar que esses revolucionários não foram bastante espertos para cortar os fios telefônicos!" ex
clamou Goebbels depois, ao que consta. "Minha filhinha teria suspeitado disso." (Curt Riesse, Joseph
Goebbels: The DeviTs Advocate, p. 280).
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 595
Goebbels passou imediatamente o telefone para Remer. O major reconhecia sua
voz? — perguntou o comandante supremo. Quem, na Alemanha, poderia deixar
de reconhecer aquela voz gutural, ouvida centenas de vezes no rádio? Além disso,
Remer ouvira-a diretamente uma semana antes, quando recebera sua condecora
ção das mãos do Führer. Diz-se que o major perfilou-se. Hitler ordenou-lhe que
esmagasse o levante e obedecesse somente às ordens de Goebbels, de Himmler
(que acabara de ser nomeado comandante do exército da reserva e estava a cami
nho, de avião, para Berlim) e do general Reinecke, que, por acaso, estava na capital
e havia recebido instruções para assumir o comando de todas as tropas na cidade.
O Führer, também, promoveu naquele mesmo momento o major a coronel.
Foi o bastante para Remer. Havia recebido ordens do alto. Agiu com energia
para cumpri-las, uma energia que faltara em Bendlerstrasse. Retirou dali o bata
lhão, ocupou a Kom m andantur em Unter den Linden, enviou patrulhas para de
ter qualquer tropa que pudesse estar marchando para a cidade e, ele mesmo, par
tiu para descobrir o quartel-general da conspiração a fim de prender os cabeças.
Por que, afinal, os generais e coronéis confiaram um posto-chave como aquele
a Remer? Por que não o substituíram no último momento por um oficial que es
tivesse mergulhado de corpo e alma na conspiração. Por que, ao menos, não en
viaram um oficial de confiança com o batalhão de guardas para verificar se Remer
estava obedecendo às ordens recebidas? Eis alguns dos muitos enigmas daquele
20 de julho. Por que, também, não prenderam imeditamente Goebbels, o funcio
nário nazista mais importante e mais perigoso que se achava em Berlim? Dois
policiais do conde von Helldorf poderiam ter feito isso em dois minutos, pois o
Ministério da Propaganda estava completamente desprotegido. Por que os cons
piradores não se apoderaram do quartel-general da Gestapo, na Prinz Albrechts-
trasse, e não exterminaram a polícia secreta, libertando nessa ocasião os conspi
radores, seus companheiros, inclusive Leber, que ali se achavam encarcerados? O
quartel-general da Gestapo estava virtualmente desprotegido, o mesmo se dando
com o escritório central do R.S.H.A, o centro nevrálgico do S.D. e das S.S., os
quais — devia-se ter pensado — figuravam entre os primeiros locais a serem ocu
pados. Impossível responder a essas perguntas.
Não se soube durante algum tempo, na Bendlerstrasse, da rápida reviravolta
que se operara em Remer. Ao que parece, um pouco do que estava acontecendo
só veio a ser conhecido muito tarde. Mesmo hoje é difícil esclarecer, pois os relatórios
596 O COMEÇO DO FIM
das testemunhas oculares mostram-se confusos e contraditórios. Onde estavam
os tanques, onde estavam as tropas das estações das redondezas?
Uma breve notícia dada logo depois das 18:30h pela Deutschlandsender, a
estação de rádio de possante transmissor que podia ser ouvida em toda a Europa,
dizendo que houve um atentado contra a vida de Hitler, mas que falhara, foi um
duro golpe naqueles homens atormentados, na Bendlerstrasse. Foi uma advertên
cia de que os destacamentos, que se supunha terem ocupado a Rundfunkhaus,
haviam falhado em sua missão. Goebbels pôde transmitir pelo telefone o texto da
notícia à rádio, enquanto esperava Remer. Às 18:45h Stauffenberg enviou uma
mensagem, pelo teletipo, aos comandantes do exército, dizendo que a notícia ra
diofônica era falsa, e que Hitler havia morrido. Era quase irreparável, contudo, o
dano causado aos conspiradores. Os generais-comandantes de Praga e Viena, que
já haviam tomado providências no sentido de prender os chefes da S.S. e do par
tido nazista, começaram a recuar em seus propósitos. Depois, às 20:20h, Keitel
conseguiu transmitir do quartel-general, pelo teletipo do exército, uma mensa
gem a todos os comandantes das forças, anunciando que Himmler havia sido
nomeado chefe do exército da reserva e que “somente as ordens dele e as minhas
devem ser obedecidas”. Acrescentou: “São declaradas nulas quaisquer ordens
emanadas de Fromm, Witzleben ou Hoepner.” A notícia irradiada pela Deuts
chlandsender, de que Hitler estava vivo, e a mensagem de Keitel, de que somente
deviam ser obedecidas as ordens dele e não as dos conspiradores, haviam, confor
me veremos, causado efeito decisivo sobre o marechal-de-campo von Kluge que,
na França, estava prestes a unir sua sorte à dos conspiradores.*
* São contraditórias as versões sobre a razão por que a rádio de Berlim não foi ocupada. Segundo uma
delas, uma unidade de infantaria, de Dõberitz, havia sido incumbida dessa tarefa, que devia ser levada
a efeito pelo comandante general Hitzfeld, que participava da conspiração. Os conspiradores haviam
deixado, entretanto, de prevenir que 20 de julho era o dia, e ele, nessa ocasião, se encontrava em Ba-
den, aonde fora para assistir ao funeral de um parente. Seu subcomandante, o coronel Müller, achava-
se também ausente; fora incumbido de uma missão militar. Quando Müller finalmente voltou, mais ou
menos às 20h, viu que seu melhor batalhão havia saído para um exercício noturno. Ao reunir suas tro
pas, o que conseguiu somente por volta da meia-noite, era demasiado tarde. Segundo uma versão di
ferente, um major de nome Jacob conseguiu cercar a Rundfunkhaus com tropas da escola de infanta
ria, mas não recebera ordens precisas de Olbritch sobre o que devia fazer. Quando Goebbels telefonou
transmitindo o texto da primeira notícia, Jacob não interveio na irradiação. Mais tarde alegou o major
que, tivesse Olbricht dado as ordens necessárias, teria facilmente impedido que os nazistas se servis
sem da rádio e a teria colocado à disposição dos conspiradores. A primeira versão é dada por Zeller
{Geist der Freiheit, p. 267-68), o historiador alemão mais autorizado sobre a conspiração de 20 de julho;
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 597
Mesmo os tanques, com os quais os oficiais rebeldes tanto contavam, deixa
ram de chegar. Podia-se pensar em Hoepner, um preeminente general dos panzers,
tivesse providenciado a participação deles; o fato, porém, é que não conseguiu
fazê-lo. O comandante da escola de panzers em Krampnitz, que devia fornecer os
tanques, coronel Wolfgang Glásemer, recebera ordens dos conspiradores para
pôr em movimento suas viaturas rumo à cidade e para ele mesmo comparecer à
Bendlerstrasse a fim de receber novas instruções. O coronel, entretanto, não quis
participar de qualquer Putsch militar contra os nazistas, e Olbricht, após apelar
em vão, teve que detê-lo também no edifício. Glásemer pudera, no entanto, dar a
seu ajudante-de-ordens (que não havia sido preso) instruções no sentido de in
formar o quartel-general da Inspetoria das Tropas panzer , em Berlim, que tinha
jurisdição sobre as formações de tanques, do que tinha acontecido, e no sentido
de só serem obedecidas as ordens da Inspetoria.
Aconteceu, pois, que os tanques, dos quais se tinha tão grande necessidade,
embora alguns chegassem à Coluna da Vitória, no Tiergarten, no centro da cida
de, não puderam ser úteis aos rebeldes. O coronel Glásemer, recorrendo a um
estratagema, escapou da prisão; havia declarado aos guardas que resolvera acatar
as ordens de Olbricht e que ele mesmo assumiria o comando dos tanques. Com
isso, fugiu do edifício, e os tanques foram logo retirados da cidade.
O coronel não foi o único oficial a escapar daquele presídio improvisado, onde
se achavam os que não quiseram aderir à conspiração — circunstância que muito
contribuiu para o rápido desfecho da revolta.
O marechal-de-campo von Witzleben, quando finalmente chegou de unifor
me, acenando com o bastão, pouco antes das 20h, para assumir a função de novo
comandante-em-chefe da Wehrmacht, ao que parece, compreendeu imediata
mente que o Putsch fracassara. Enfureceu-se contra Beck e Stauffenberg por te
rem botado tudo a perder em virtude da confusão que fizeram. Em seu julgamen
to, declarou ao tribunal que percebera claramente que a revolta fracassara quando
soube que não haviam ocupado nem mesmo a rádio transmissora. Ele mesmo,
entretanto, nada fez naquela ocasião, quando, com sua autoridade de marechal-
de-campo, poderia ter obtido a adesão de maior número de comandantes de tro
pas em Berlim e no exterior. Quarenta e cinco minutos depois de entrar no edifí
cio da Bendlerstrasse, saiu às pressas, e também da conspiração, agora que ela
a segunda, por Wheeler-Bennett (Nêmesis, p. 654-55n) e Rudolf Sammler (Goebbels: The Man Next to
Hitler, p. 138), declarando que o testemunho acima é de Jacob.
598 O COMEÇO DO FIM
parecia fadada ao fracasso, voltou no seu Mercedes para Zossen, onde passou as
sete horas decisivas daquele dia, informou Wagner, chefe da intendência do exér
cito, de que a revolta havia falhado e dirigiu-se depois de automóvel para sua
propriedade campestre, 48 quilômetros além, onde foi preso no dia seguinte por
um companheiro, um general chamado Linnertz.
Ergueu-se depois a cortina para o último ato.
Logo depois das 21h, os conspiradores fracassados ficaram estarrecidos ao ou
vir a Deutschlandsender anunciar que o Führer falaria ao povo alemão naquela
noite, pelo rádio. Poucos minutos depois, soube-se que o general von Hase, o co
mandante de Berlim, que havia incumbido o major — agora coronel — Remer de
sua fatídica missão, fora preso; e que o general nazista Reinecke, apoiado pelas
S.S., assumira o comando de todas as tropas de Berlim, e se preparava para inva
dir a Bendlerstrasse.
Reuniram-se afinal os homens das S.S., graças principalmente a Otto Skorzeny,
o vigoroso chefe das S.S. que se distinguira na proeza de salvar Mussolini da pri
são. Ignorando do que se tratava nesse dia, Skorzeny havia tomado o trem expres
so para Viena às 18h, mas dele saltou quando parou no subúrbio da Lichterfelde,
atendendo a urgente chamado do general Schellenberg, o segundo homem em
importância no S.D., Skorzeny, encontrou o quartel-general do S.D. agitadíssimo;
sendo, porém, de sangue-frio que era e, além do mais, excelente organizador, reu
niu logo seus bandos armados e pôs mãos à obra. Foi quem persuadiu as forma
ções de tanques da escola a permanecerem leais a Hitler.
As enérgicas contramedidas adotadas em Rastenburg, a idéia instantânea de
Goebbels no sentido de conseguir a adesão de Remer e de utilizar-se de transmis
sões radiofônicas, o reerguimento das S.S. em Berlim e a incrível confusão e ina
ção dos rebelados, na Bendlerstrasse, fizeram refletir melhor muitos dos oficiais
do exército prestes a ligar sua sorte à dos conspiradores ou que já o tinham feito.
Um deles foi o general Otto Herfurth, chefe do Estado-maior de Kortzfletsch —
que tinha sido preso —, o qual, a princípio, cooperara com a Bendlerstrasse pro
curando reunir as tropas e, depois, ao ver as coisas tomarem outro rumo, mudou
de posição e telefonou ao quartel-general de Hitler, por volta das 21:30h, para
dizer que estava dominando o Putsch militar.*
* Sua traição não o impediu de ser preso por cumplicidade no complô e de ser enforcado.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 599
O general Fromm, cuja recusa em participar da revolta a prejudicara desde o
início e que, em conseqüência, chegara a ser detido, começou então a agir. Por
volta das 20h, após quatro de detenção na sala de seu ajudante, pediu que o dei
xassem recolher-se a seus aposentos particulares no andar inferior do edifício.
Empenhou sua palavra de honra de oficial de que não tentaria fugir nem estabe
lecer contato com alguém de fora. O general Hoepner consentiu e, além disso,
como Fromm se queixara de estar não só com fome mas também com sede, man
dou-lhe sanduíches e uma garrafa de vinho. Pouco antes, haviam chegado três
oficiais do Estado-maior de Fromm. Recusaram-se a aderir à rebelião e solicita
ram que os levassem à presença do chefe. Foram, inexplicavelmente, conduzidos
a ele em seus aposentos particulares, se bem que presos. Assim que chegaram,
Fromm informou-os da existência de uma saída nos fundos, pouco usada e por
onde poderiam fugir. Quebrando a palavra dada a Hoepner, ordenou aos oficiais
que, conseguida a liberdade, organizassem um grupo de auxílio, invadissem o
edifício, libertassem-no e extinguissem a revolta. Os oficiais conseguiram sair
do edifício sem chamar a atenção.
Mas um grupo de oficiais subalternos do Estado-maior de Olbricht, que a
princípio haviam acompanhado os rebeldes ou permanecido na Bendlerstrasse
para observar como ia a revolta, já começara a perceber o início do fracasso
dela. Percebeu, também, conforme declarou um deles mais tarde, que seriam
todos enforcados como traidores se a revolta fosse malsucedida e eles não se
voltassem contra ela. Um dos oficiais, o tenente-coronel Franz Herber, antigo
elemento da polícia e nazista convicto, tinha ido buscar, no arsenal de Spandau,
metralhadoras e munição que ocultara no segundo andar. Por volta das 22:30h,
esses oficiais procuraram Olbricht e quiseram saber exatamente o que ele e seus
amigos estavam procurando fazer. O general explicou-lhes o que era. Retiraram-se
eles sem discutir.
Voltaram vinte minutos depois, seis ou oito deles, dirigidos por Herber e o
tenente-coronel Bodo von der Heyde, empunhando suas armas. Exigiram novas
explicações de Olbricht. Stauffenberg entrou na sala para verificar a causa do ruí
do que faziam, e foi preso. Procurando escapar, deu um salto para a porta e correu
pelo corredor. Atiraram-lhe no braço — o único que tinha. Os contra-revolucio-
nários começaram a atirar a esmo, se bem que aparentemente não atingissem
ninguém, salvo Stauffenberg. Percorreram depois a ala que servira de sede à
600 O COMEÇO DO FIM
conspiração e arrebanharam os rebeldes. Beck, Hoepner, Olbricht, Stauffenberg,
Haeften e Mertz foram conduzidos à sala vazia de Fromm que apareceu, logo
depois, empunhando um revólver.
— Bem, senhores, vou tratá-los da mesma maneira que me trataram — disse.
Mas não o fez.
— Deponham as armas — ordenou. Informou depois a seus antigos captores
que estavam presos.
— O senhor não vai exigir isso de mim, seu antigo comandante — declarou
Beck calmamente pegando o revólver. — Eu mesmo arcarei com as conseqüências
desta infeliz situação.
— Está bem. Mantenha-o apontado para o senhor mesmo — preveniu Fromm.
A curiosa falta de vontade para agir desse brilhante e civilizado militar, antigo
chefe do Estado-maior do exército, acarretou finalmente sua queda na prova su
prema de sua vida. Permanecera com ele até o último momento.
— Nesta hora vem-me à lembrança os velhos tempos... — começou a dizer,
mas Fromm interrompeu-o bruscamente.
— Não queremos ouvir essas coisas agora. Peço que pare de falar e faça algo.
Foi o que Beck fez. Puxou o gatilho, mas a bala apenas arranhou-lhe a cabeça.
Afundou-se na cadeira, sangrando ligeiramente.
— Ajudem o velho cavalheiro — ordenou Fromm a dois jovens oficiais. Eles
tentaram tomar a arma de Beck. O velho general, porém, a isso se opôs e pediu
que lhe dessem outra oportunidade. Fromm fez que sim com a cabeça, voltando-
se depois para os demais conspiradores:
— E os senhores, cavalheiros, se têm cartas a escrever dou-lhes mais alguns
minutos. — Olbricht e Hoepner solicitaram papel e sentaram-se para escrever
algumas palavras de despedida a suas mulheres. Stauffenberg, Mertz, Haeften e
outros mantiveram-se de pé, em silêncio. Fromm retirou-se da sala.
Havia decidido eliminar depressa aqueles homens, não só para apagar traços
comprometedores — pois embora tivesse recusado empenhar-se ativamente na
conspiração, dela sabia, fazia meses, protegera os assassinos e não comunicara
seus planos — como também para cair nas boas graças de Hitler como o homem
que dominara a revolta. Naquele mundo de bandidos nazistas era demasiado tar
de para isso; mas Fromm ignorava-o.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 601
Voltou, passados cinco minutos, para anunciar que “em nome do Führer” havia
convocado um “conselho de guerra” (não há prova de que tivesse convocado) que
havia condenado à morte os quatro oficiais: “O coronel Mertz, do Estado-maior, o
general Olbricht, esse coronel cujo nome não sei mais (StaufFenberg) e esse tenen
te (Haeften)”.
Os dois generais, Olbricht e Hoepner, ainda escreviam as cartas. O general
Beck jazia estirado na cadeira, o rosto ensangüentado em virtude do arranhão
causado pela bala. Os quatro oficiais condenados à morte permaneceram de pé,
empertigados e silenciosos.
“Então, cavalheiros? Estão prontos?” perguntou Fromm a Olbricht e Hoepner.
“Devo pedir-lhes que se apressem, para não tornar a coisa muito difícil para os
demais.”
Hoepner terminou a carta e colocou-a sobre a mesa. Olbricht pediu um enve
lope, pôs dentro dele a carta e Fechou-a. Beck, que voltara a si, pediu outra pistola.
StaufFenberg, com a manga de seu único braço encharcado de sangue, e os três
companheiros que haviam sido condenados Foram conduzidos para Fora da sala.
Fromm ordenou a Hoepner que o seguisse.
No pátio, embaixo, à luz dos Faróis de um automóvel do exército, que estava
com uma cobertura apropriada para o blecaute, Foram sumariamente fuzilados
por um pelotão. Testemunhas oculares dizem que houve tumulto e muitos gritos,
principalmente dos guardas que estavam apressados por causa do perigo de um
ataque aéreo, uma vez que os aviões ingleses haviam estado sobre Berlim quase
todas as noites, naquele verão. StaufFenberg morreu gritando: “Viva nossa sagrada
Alemanha!”32
Entrementes, Fromm deu ao general Hoepner uma alternativa. Três semanas
depois, à sombra da Forca, Hoepner contou-a ao Tribunal do Povo:
“Bem, Hoepner” [disse Fromm] “esta questão me aflige realmente.
Sempre Fomos bons amigos e camaradas, como você sabe. Você meteu-
se nessa conspiração e deve arcar com as conseqüências. Quer ter o
mesmo fim de Beck? Caso contrário, devo prendê-lo agora.”
Hoepner respondeu que “não se sentia tão culpado” e achava que podia “jus-
tificar-se”.
602 O COMEÇO DO FIM
“Compreendo perfeitamente”, disse Fromm apertando-lhe a mão. Hoepner foi
levado de carro para a prisão militar, em Moabit.
Quando o conduziam para fora, ouviu a voz cansada de Beck, através da porta,
na sala ao lado: “Se não surtir efeito desta vez, é favor então ajudar-me.” Ecoou um
tiro de pistola. A segunda tentativa de suicídio de Beck, entretanto, falhou. Fromm
olhou pela porta e novamente disse a um oficial: “Ajude o velho cavalheiro.” Esse
oficial desconhecido eximiu-se de dar o tiro de misericórdia, deixando a tarefa
para um sargento, que arrastou Beck — ficara inconsciente com a segunda bala
— para fora da sala, liquidando-o ali com um tiro no pescoço.33
Passava agora um pouco da meia-noite. A revolta, a única que se fez seriamen
te contra Hitler durante os 11 anos e meio da existência do Terceiro Reich, foi
extinta em 11 horas e meia. Skorzeny chegou à Bendlerstrasse com um grupo de
homens das S.S., armados, proibiu outras execuções — como policial, era sufi
cientemente esperto não matando aqueles que, sob torturas, poderiam prestar
valiosos depoimentos a respeito da extensão da conspiração —, algemou os cons
piradores restantes, mandou-os para a prisão da Gestapo, na Prinz Albrechtstras-
se, e pôs detetives em ação a fim de pegar documentos incriminadores que os
conspiradores não tivessem tido tempo de destruir. Himmler, que havia chegado
a Berlim um pouco mais çedo e instalara temporariamente seu quartel-general
no Ministério de Goebbels, agora protegido por uma parte do batalhão de guar
das de Remer, telefonou a Hitler informando-o que a revolta fora esmagada. Na
Prússia Oriental, um carro radiotransmissor corria de Kõnigsberg a Rastenburg a
fim de que o Führer pudesse fazer sua irradiação há muito anunciada, e que a
Deutschlandsender prometia a todo momento desde às 21h.
Pouco antes de lh, a voz gutural de Adolf Hitler rompeu os ares naquela noite
de verão:
Meus camaradas alemães!
Se vos falo hoje é, primeiro, para que possais ouvir minha voz e saber
que não estou ferido e que estou bem; segundo, para que saibais de um
crime sem paralelo na história da Alemanha.
Uma pequena súcia de oficiais ambiciosos, irresponsáveis e, ao mesmo
tempo, insensatos e obtusos, planejou uma conspiração para elimi-
nar-me e, juntamente comigo, o Estado-maior do Alto-Comando da
Wehrmacht.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 603
A bomba colocada pelo coronel conde Stauffenberg explodiu à distância
de dois metros, à minha direita. Feriu gravemente alguns de meus since
ros e leais colaboradores, um dos quais morreu. Saí completamente ileso,
afora algumas escoriações, ferimentos e queimaduras. Considero isso a
confirmação da tarefa que me foi imposta pela Providência (...)
O círculo desses usurpadores é insignificante e nada tem em comum
com o espírito da Wehrmacht alemã e, sobretudo, com o povo alemão.
É um bando de elementos criminosos que serão destruídos sem mercê.
Ordeno agora, portanto, que nenhuma autoridade militar (...) cumpra
as ordens desse bando de usurpadores. Observo, também, que é dever
de cada um prender ou, se resistir, atirar em todo aquele que for visto
dando tais ordens ou cumprindo-as.
Desta vez acertaremos contas com eles da maneira com a qual nós,
nacional-socialistas, estamos acostumados.
Vingança sangrenta
Ainda dessa vez Hitler cumpriu a palavra.
O barbarismo dos nazistas, para com seus próprios companheiros alemães
atingiu o auge. Houve uma verdadeira onda de prisões, seguida de revoltantes
torturas, julgamentos sumários e sentenças de morte executadas, em muitos ca
sos, por meio de estrangulamento lento das vítimas ao serem suspensas com cor
das de aço presas a ganchos tomados de empréstimo a açougues e matadouros.
Parentes e amigos dos suspeitos foram presos aos milhares e enviados aos campos
de concentração, onde muitos morreram. Os poucos bravos que deram abrigo aos
que se escondiam foram sumariamente liquidados.
Hitler, presa de fúria tirânica e de inesgotável sede de vingança, atormentou
Himmler e Kaltenbrunner para que fizessem os maiores esforços no sentido de
deitar mão até a última pessoa que ousara conspirar contra ele. Ele mesmo traçou
o processo para eliminá-las.
“Desta vez”, esbravejou numa de suas primeiras conferências depois da explo
são de Rastenburg, M dar-se-á pouco tempo aos criminosos para penitenciarem-se.
Nada de tribunais militares. Arrastá-lo-emos para o Tribunal do Povo. Nada de
604 Ocomeço DO FIM
discursos extensos deles. O tribunal agirá com a rapidez do relâmpago. Duas ho
ras depois da sentença, será ela executada. Pela forca, sem mercê!”34
Essas instruções do alto foram literalmente executadas por Ronald Freisler,
presidente do Tribunal do Povo (Volksgerichtshof), um maníaco vil e imoral que,
como prisioneiro de guerra na Rússia durante a Primeira Guerra, se havia torna
do um bolchevique fanático e que, mesmo depois de passar a ser um nazista
igualmente fanático, em 1924, continuou ardoroso admirador dos métodos de
terror dos soviéticos, os quais estudava com afinco. Havia feito um estudo espe
cial da técnica de Andrei Vishinsky, nos anos que se seguiram a 1930, quando ele
era o principal promotor nos julgamentos de Moscou, nos quais os velhos bol
cheviques e muitos dos principais generais haviam sido julgados culpados de
traição e liquidados. “Freisler é o nosso Vishinsky”, exclamou Hitler na conferên
cia já mencionada.
O primeiro julgamento dos conspiradores de 20 de julho, perante o Tribunal
do Povo, realizou-se em Berlim nos dias 7 e 8 de agosto; foram réus o marechal-
de-campo von Witzleben, os generais Hoepner, Stieffe e von Hase, e os oficiais de
menor categoria Hagen, Klausing, Bernardis e o conde Peter Yorck von Warten-
burg, que haviam trabalhado intimamente com Stauffenberg, seu ídolo. Estavam
alquebrados em conseqüência do tratamento recebido nas celas da Gestapo.
Como Goebbels ordenara que se filmasse cada minuto do julgamento, para que o
filme pudesse ser exibido às tropas e ao público civil como exemplo e advertência,
lançou-se mão de todos os recursos destinados a parecer o estado dos acusados o
mais miserável possível. Proveram-nos de roupas insignificantes, paletós e suéte-
res velhos. Entraram na sala do tribunal com a barba por fazer, sem colarinho e
sem gravata, privados de suspensórios e cintas que pudessem segurar-lhes as cal
ças. O outrora altivo marechal-de-campo — ele especialmente — parecia um ve
lho sem dentes e completamente alquebrado. Tiraram-lhe a dentadura. De pé, no
julgamento, atormentado impiedosamente pelo ferino juiz, punha-se a segurar as
calças para não as deixar cair.
— Seu velho sujo! Por que está aí a mexer com as calças? — gritou-lhe Freisler.
Embora os acusados soubessem que sua sorte já estava selada, conduziram-se
com dignidade e coragem, não obstante os esforços de Freisler para espezinhá-los
e humilhá-los. O jovem Peter Yorck, primo de Stauffenberg, foi talvez o mais co
rajoso, respondendo com serenidade às perguntas mais insultuosas e não tentan
do ocultar seu desprezo pelo nacional-socialismo.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 605
— Por que não ingressou no partido? — perguntou Freisler.
— Porque não sou e jamais poderia ser um nazista — respondeu o conde.
Quando Freisler se refez do assombro produzido pela resposta e insistiu na
questão, Yorck procurou explicar-se:
— Sr. presidente, já declarei, em meu interrogatório, que a ideologia nazista
era tal que eu...
O juiz interrompeu-o: “(...)Não podia concordar (...) O senhor não concorda
va com a concepção de justiça do nacional-socialismo, por exemplo relativamen
te à extirpação dos judeus?”
— O que é importante, o que reúne todas as questões — respondeu Yorck — é
a exigência do Estado totalitário sobre o indivíduo, forçando-o a renunciar à sua
moral e às obrigações religiosas para com Deus.
— Tolices — bradou Freisler interrompendo o jovem. Essa conversa poderia
prejudicar o filme do dr. Goebbels e enraivecer o Führer, pois Hitler havia reco
mendado que não se devia deixá-los falar muito.
Os defensores dos acusados, designados pelo tribunal, conduziram-se da ma
neira mais absurda. Sua fraqueza — observada pela transcrição do julgamento
— é quase inacreditável. O advogado de Witzleben, por exemplo, um certo dr.
Weissmann, superou o promotor e quase igualou-se a Freisler admitindo que seu
cliente era um criminoso, completo culpado e merecedor do pior castigo.
A punição foi aplicada em 8 de agosto, assim que terminou o julgamento. “To
dos eles devem ser enforcados”, ordenara Hitler. E foram. Os oito condenados,
deixando a prisão de Plõtzensee, foram conduzidos a uma pequena sala de cujo
teto pendiam oito ganchos. Um por um, foram despidos da cintura para cima e
içados com um arame de aço em volta do pescoço, o arame preso a um dos gan
chos. Uma câmara cinematográfica filmava enquanto os homens estrebuchavam;
suas calças, que não estavam presas por cintas, caíram finalmente ante os esforços
que faziam, deixando-os nus em sua agonia de morte.35 O filme foi revelado e, de
acordo com a ordem recebida, enviado imediatamente a Hitler naquela mesma
noite, para que ele pudesse vê-lo, assim como o das cenas do tribunal. Diz-se que
Goebbels cobriu os olhos com as duas mãos para não desmaiar.36*
* O filme do julgamento foi descoberto pelos Aliados (e exibido em Nuremberg, onde o autor assistiu a
ele); o das execuções jamais foi encontrado. Presume-se que tenha sido destruído por ordem de Hitler,
com receio de que caísse em poder do inimigo. Segundo Allen Dulles, os dois filmes, originalmente
6o6 O COMEÇO DO FIM
Durante todo o verão, o outono e o inverno, e, ainda no Ano-Novo de 1945, o
Tribunal do Povo manteve-se em sessão, realizando às pressas seus macabros
julgamentos e expedindo sentenças de condenação à morte, até que, finalmente,
uma bomba americana caiu exatamente sobre o edifício na manhã de 3 de feve
reiro de 1945, no momento em que Schlabrendorff era conduzido para a sala.
Matou o juiz Freisler e destruiu os dossiês relativos à maioria dos acusados ainda
vivos. Schlabrendorff, assim, milagrosamente escapou com vida — um dos pou
cos conspiradores bafejados pela sorte — e acabou sendo libertado, no Tirol, das
garras da Gestapo, pelas tropas norte-americanas.
Cumpre-nos registrar o destino dos demais conspiradores.
Goerdeler, que seria o chanceler do novo regime, ocultara-se três dias antes
de 20 de julho, após ter sido prevenido que a Gestapo havia expedido mandado de
prisão contra ele. Vagueou durante três semanas entre Berlim, Potsdam e Prússia
Oriental, raramente passando duas noites na mesma cidade e sendo sempre abri
gado por amigos ou parentes, que arriscavam a vida dando-lhe guarida, uma vez
que Hitler havia instituído um prêmio de um milhão de marcos pela sua cabeça.
Na manhã de 12 de agosto, exausto e faminto após longa caminhada pela Prússia
Oriental, entrou numa pequena estalagem da aldeia de Konradswalde, nas ime
diações de Marienwerder. Enquanto esperava que lhe servissem café, notou que
uma mulher, em uniforme do corpo feminino da Luftwaffe, o observava atenta
mente. Sem esperar pelo café, saiu e embrenhou-se num bosque das redondezas.
Era, porém, demasiado tarde. A mulher, uma tal Helene Schwárzel, antiga conhe
cida da família Goerdeler, reconhecera-o imediatamente e disso informou aos
homens da força aérea que se achavam sentados ao lado dela.
Goerdeler, preso, foi condenado à morte em 8 de setembro de 1944 pelo Tri
bunal do Povo; mas só foi executado em 2 de fevereiro do ano seguinte, junta
mente com Popitz.* Parece que Himmler protelou a execução da sentença porque
com 48 mil metros de comprimento e reduzido depois a apenas 12 mil metros, foram reunidos por
Goebbels e exibidos a certos grupos do exército como lição e advertência. Os militares, entretanto, re
cusaram-se a ver o filme, exibido na Escola de Cadetes, em Lichterfelde, retirando-se da sala logo no
início da projeção. Foi, em seguida, retirado de circulação. (Dulles, Germany's Underground, p. 83).
* O padre Alfred Delp, membro jesuíta do Círculo de Kreisau, foi executado com eles. O irmão de
Goerdeler, Fritz, foi enforcado alguns dias depois. Verificou-se a execução do conde von Moltke, líder
do Círculo de Kreisau, em 23 de janeiro de 1945, embora não tivesse ele participado do complô para
o assassinato. Trott zu Solz, elemento preeminente no Círculo e na conspiração, foi enforcado em 25
de agosto de 1944.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 607
julgava que os contatos desses homens, especialmente Goerdeler, com os Aliados
ocidentais, por intermédio da Suécia e da Suíça, pudessem ser-lhe útil no caso de
assumir a direção da nau do Estado que afundava — perspectiva que, nessa oca
sião, começava a desenvolver-se em seu espírito.37
O conde Friedrich-Werner von Schulenburg, antigo embaixador em Moscou,
e Hassell, antigo embaixador em Roma, que deviam assumir a direção da política
exterior no regime antinazista, foram executados em 10 de novembro e 8 de se
tembro, respectivamente. O conde Fritz von der Schulenburg morreu na forca em
10 de agosto. O general Fellgiebel, chefe das transmissões no OKW, cujo papel
desempenhado em Rastenburg em 20 de julho já narramos, foi executado naque
le mesmo dia.
É longa a lista dos condenados à morte. Segundo uma fonte, dela constam
4.980 nomes.38 A lista dos registros da Gestapo menciona sete mil prisões. Entre
os chefes da resistência, citados nestas páginas, que foram executados, figuravam:
o general Fritz Lindemann, o coronel von Boeselager, o pastor Dietrich Bonhõffer,
o coronel Georg Hansen (da Abwehr), o conde von Helldorf, o coronel von Hofa-
cker, o dr. Jens Peter Jessen, Otto Kiep, dr. Carl Langbehn, Julius Leber, major von
Leonrod, Wilhelm Leuschner, Artur Nebe (chefe da polícia criminal), professor
Adolf Reichwein, conde Berthold von Stauffenberg (irmão de Klaus), general
Thiele (chefe das Transmissões do OKH) e o general von Ihüngen, que, no dia do
Putsch, Beck nomeara sucessor do general von Kortzfleisch.
Um grupo de vinte condenados, cuja vida Himmler havia prolongado na
crença de poderem ser-lhe útil caso assumisse o poder e tivesse que negociar a
paz, foi fuzilado na noite de 22 para 23 de abril, quando os russos começaram
a forçar seu avanço em direção ao centro da capital. Os prisioneiros estavam
sendo encaminhados da prisão de Lehrterstrasse para o cárcere da Gestapo, em
Prinz Albrechtstrasse — muitos escaparam em ocasiões como aquela, durante
o blecaute, nos últimos dias do Terceiro Reich —, quando encontraram um
destacamento das S.S. que os fez alinharem-se contra um muro e ceifou-os.
Somente dois escaparam para contar a história. Entre os que pereceram esta
vam o conde Albrecht von Bernstorff, Klaus Bonhõffer (irmão do pastor) e Al-
brecht Haushofer, amigo íntimo de Hesse e filho do famoso geopolítico. O pai
suicidou-se logo depois.
O general Fromm não escapou à execução a despeito de sua conduta na fatí
dica noite de 20 de julho. Preso no dia seguinte por ordem de Himmler, que foi
6 08 O COMEÇO DO FIM
seu sucessor na chefia do exército da reserva, foi levado ao Tribunal do Povo em
fevereiro de 1945, sob a acusação de ter agido com covardia, sendo condenado à
morte* Talvez como pequeno reconhecimento pelo serviço vital, auxiliando a
salvar o regime nazista, não foi enforcado, como aconteceu aos que foram presos
na noite de 20 de julho, mas fuzilado por um pelotão, em 19 de março de 1945.
O mistério que cercava a vida do almirante Canaris, o chefe deposto da Abwehr
que tanto fizera para auxiliar os conspiradores, mas que não se envolveu direta
mente nos acontecimentos de 20 de julho, omitiu durante muitos anos as circuns
tâncias de sua morte. Sabia-se que fora preso depois do atentado contra a vida de
Hitler. Keitel, porém, num dos poucos gestos decentes de sua vida, no OKW, con
seguiu impedir que ele fosse entregue ao Tribunal do Povo. O Führer, enfurecido
com a demora, ordenou que Canaris fosse julgado sumariamente por um tribunal
das S.S. Esse processo também sofreu protelação. Canaris, juntamente com o co
ronel Oster, seu antigo assistente, e quatro outros, foi finalmente julgado no cam
po de concentração de Flossenburg em 9 de abril de 1945 (menos de um mês
antes do término da guerra) e condenados à morte. Não se soube, porém, com
certeza, se Canaris foi executado. Levou dez anos para ser solucionado o mistério.
Em 1945, o promotor da Gestapo, no caso, foi julgado; grande número das teste
munhas que depuseram no processo declarou haver visto Canaris enforcado no
dia 9 de abril de 1945. Uma testemunha ocular, o coronel dinamarquês Lunding,
informou que vira quando arrastavam Canaris, completamente nu, de sua cela
para a forca. Oster foi executado na mesma ocasião.
Alguns dos que haviam sido presos escaparam ao julgamento e acabaram sen
do libertados da Gestapo pelas tropas avançadas dos Aliados. Entre eles acha
vam-se o general Halder e o dr. Schacht, que não participaram da revolta de 20 de
julho se bem que, no julgamento em Nuremberg, Schacht alegasse tê-la iniciado.
Halder ficara encerrado numa cela profundamente escura durante vários meses.
Os dois homens, juntamente com um ilustre grupo de prisioneiros alemães e es
trangeiros, incluindo Schuschnigg, Léon Blum, Schlabrendorff e o general von
Falkenhausen, foram libertados pelas tropas americanas em 4 de maio de 1945,
em Niederdorf, no Tirol do Sul, justamente na ocasião em que a guarda da
Gestapo estava prestes a executar a todos. Falkenhausen foi mais tarde julgado,
* "A sentença afetou-o profundamente" contou mais tarde Schlabrendorff, que com ele se encontrou
multas vezes na prisão da Gestapo, na Prinz Albrechtstrasse. "Ele não esperava por ela", acrescen
tou. (Schlabrendorff, They Almost Killed Hitler, p. 121).
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 609
pelos belgas, como criminoso de guerra e condenado, em 9 de março de 1951,
após quatro anos passados numa prisão à espera de julgamento, a 12 anos de tra
balhos forçados. Foi, entretanto, posto em liberdade uma quinzena depois, re
gressando à Alemanha.
Muitos oficiais do exército, implicados na conspiração, preferiram suicidar-se
a ficar à mercê do Tribunal do Povo. Na manhã de 21 de julho, o general Henning
von Tresckow, que havia sido o coração e a alma da conspiração entre os oficiais
da frente oriental, despediu-se de seu amigo e ajudante Schlabrendorff, o qual
recordou-se de suas últimas palavras:
“Todos se voltarão agora contra nós, cobrindo-nos de injúrias. Minha
convicção, contudo, permanece inabalável (...) Fizemos o que era justo.
Hitler não é só o arquiinimigo da Alemanha; é também o arquiinimigo
do mundo. Daqui a poucas horas estarei diante de Deus, respondendo
pelos meus atos e faltas. Creio que poderei sustentar, com a consciência
limpa, tudo o que fiz na luta contra Hitler (...)”
“Todo aquele que aderiu ao movimento de resistência envergou a túni
ca de Nesso. O homem só tem valor quando está preparado para sacri
ficar a vida por suas convicções ”39
Naquela manhã, Tresckow dirigiu-se de automóvel à divisão do 28a Corpo de
Fuzileiros. Desceu furtivamente na terra de ninguém e puxou o pino de uma gra
nada de mão. Os estilhaços da granada arrancaram-lhe a cabeça.
Cinco dias depois suicidava-se Wagner, o chefe da intendência do exército.
Entre as altas patentes, no Ocidente, dois marechais-de-campo e um general
suicidaram-se. Em Paris, conforme vimos, a revolta havia começado bem, quando
o general Heinrich von Stülpnagel, governador militar de França, prendeu toda a
força das S.S. e do S.D.-Gestapo. Tudo dependia então do marechal-de-campo von
Kluge, o novo comandante-em-chefe do Ocidente, junto ao qual Tresckow esforçara-
se durante dois anos, na frente russa, para tornar um conspirador ativo. Kluge
mostrava-se hesitante, mas finalmente concordara — pelo menos foi o que os cons
piradores compreenderam — em apoiar a revolta assim que Hitler fosse morto.
Houve uma trágica conferência por ocasião de um jantar naquela noite de 20
de julho, em La Roche-Guyon, quartel-general do grupo B de exércitos, cuja direção
6 lO O COMEÇO DO FIM
Kluge havia assumido depois do acidente ocorrido com Rommel. Kluge desejava
debater as notícias, então contraditórias, de que Hitler havia ou não morrido, com
seus principais conselheiros: o general Günther Blumentritt, chefe de seu Estado-
maior, o general Speidel, chefe do Estado-maior do grupo B de exército, e o coro
nel von Hofacker, a quem StauíFenberg havia telefonado, no princípio da tarde,
informando da explosão da bomba e do golpe em Berlim. Quando os oficiais se
reuniram para o jantar, pareceu, a alguns deles pelo menos, que o cauteloso
marechal-de-campo resolvera unir sua sorte à da revolta. Beck havia-lhe telefona
do pouco antes do jantar, pleiteando seu apoio — estivesse Hitler morto ou não.
Chegou, depois, a primeira ordem geral assinada pelo marechal-de-campo von
Witzleben, e ela impressionou Kluge.
Ele, entretanto, desejou mais informações sobre a situação e, infortunadamen-
te para os rebeldes, vieram elas do general StiefF que havia viajado até Rastenburg
com StauíFenberg, naquela manhã; desejara-lhe Felicidades, vira a explosão, veri
ficara que não matara Hitler e estava agora, nessa noite, procurando Fazer desapa
recerem os vestígios. Blumentritt chamou StiefF pelo teleFone, e ele contou-lhe a
verdade sobre o que havia acontecido, aliás, sobre o que não havia acontecido.
“Fracassou então”, declarou Kluge a Blumentritt. Pareceu verdadeiramente de
sapontado, pois acrescentou que, tivesse o atentado sido bem-sucedido, não per
deria tempo em entrar em contato com Eisenhower para pedir um armistício.
Durante o jantar — uma reunião tétrica, lembrou-se Speidel mais tarde, “como
se estivessem velando numa casa visitada pela morte” —, Kluge ouviu os argu
mentos apaixonados de Stülpnagel e Hofacker. Achavam eles que se devia levar
avante a revolta mesmo que Hitler tivesse sobrevivido. Blumentritt descreveu o
que se seguiu:
Quando terminaram de falar, Kluge, com evidente desapontamento
para eles, observou: “Bem, senhores, o atentado falhou. Está tudo termi
nado”. Stülpnagel exclamou então: “Marechal-de-campo, pensei que o
senhor estivesse a par dos planos. É preciso que se faça alguma coisa.”40
Kluge negou saber de qualquer plano. Depois de ordenar a Stülpnagel que
pusesse em liberdade os homens da S.S. e do S.D., em Paris, aconselhou-o: “Ouça,
o melhor que tem a fazer é vestir-se à paisana e esconder-se.”
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 6 l 1
Mas não foi essa a solução escolhida por um general altivo, do tipo de Stülp-
nagel. Após a fantástica reunião que durou a noite toda, regada a champanha, no
Hotel Raphael, em Paris, na qual os oficiais das S.S. e do S.D., já então em liberda
de, dirigidos pelo general Oberg, confraternizaram com os chefes do exército que
os tinham prendido, e que muito certamente os teriam fuzilado se a revolta tives
se sido coroada de êxito, Stülpnagel, que recebera ordem para apresentar-se em
Berlim, partiu de automóvel para a Alemanha. Em Verdun, onde comandara um
batalhão na Primeira Guerra Mundial, parou para contemplar aquele célebre
campo de batalha e, também, para levar a efeito uma decisão que tomara. Seu
chofer e um guarda ouviram um tiro de revólver. Encontraram-no debatendo-se
nas águas de um canal. Uma bala arrancara-lhe um olho e prejudicara seriamente
o outro. Foi extraída no hospital militar de Verdun, para onde o levaram.
Isso não o salvou de um fim horrível. Cego e enfraquecido, foi levado para
Berlim por ordem expressa de Hitler, julgado pelo Tribunal do Povo, onde ficou
estendido sobre um catre enquanto Freisler o atormentava com suas invectivas, e,
depois, enforcado no dia 30 de agosto na prisão de Plõtzensee.
O ato decisivo do marechal-de-campo von Kluge, recusando-se a aderir à re
volta, não o salvou, como tampouco salvara Fromm por ter-se conduzido de ma
neira idêntica em Berlim. “O destino”, observou Speidel a propósito desse vacilan
te general, “não poupa os homens cujas convicções não se harmonizam com a
vontade de pô-las em execução”. Há provas de que o coronel von Hofacker, sub
metido a horrível tortura e executado somente em 20 de dezembro, mencionou a
cumplicidade de Kluge, Rommel e Speidel no complô. Diz Blumentritt que Oberg
o informara que Hofacker havia citado Kluge no primeiro interrogatório a que foi
submetido e que, depois de ser informado desse fato pelo próprio Oberg, o mare-
chal-de-campo “começou a ficar cada vez mais preocupado”.41
As notícias que vinham da frente não eram de molde a restabelecer-lhe o ânimo.
Em 26 de julho, as forças americanas do general Bradley romperam a frente
alemã de St. Lô. Quatro dias depois, o 3fi Exército, do general Patton, que havia
sido recentemente formado, alcançou Avranches avançando pela brecha, abrindo
caminho ao sul para a Bretanha e o Loire. Foi o momento decisivo da invasão dos
Aliados. Kluge, em 30 de julho, notificou o quartel-general do Führer: “Toda a
frente ocidental foi rompida (...) O flanco esquerdo desmoronou-se.” Em meados de
agosto, tudo o que restava dos exércitos alemães na Normandia ficou encerrado
6 12 O COMEÇO DO FIM
num estreito bolsão em redor de Falaise, de onde Hitler proibira que se realizasse
qualquer nova retirada. O Führer, a essa altura, já estava enfarado de Kluge, a
quem culpava pelos reveses no Ocidente e de quem suspeitava estar cogitando de
render suas forças a Eisenhower.
Em 17 de agosto, o marechal-de-campo Walther Model chegou à frente para
substituir Kluge. Sua presença inesperada foi o primeiro aviso que teve de sua
demissão. Hitler comunicou a Kluge que devia informar seu endereço na Alema
nha, advertência de que ele se tornara suspeito de participar da revolta de 20 de
julho. Kluge escreveu a Hitler uma longa carta, partindo depois de carro para a
Alemanha. Ao chegar às proximidades de Metz, tomou veneno.
Encontrou-se a carta endereçada ao Führer nos arquivos militares apreendi
dos aos alemães.
Quando receberdes estas linhas não existirei mais (...) A vida nada mais
significa para mim (...) Rommel e eu (...) previmos o presente desenro
lar dos acontecimentos. Não nos deram ouvidos.
Não sei se o marechal-de-campo Model, que se distinguiu em todas
as esferas, dominará a situação (...) Caso isso não se dê e vossas armas, às
quais dispensais tão grande carinho, não forem coroadas de êxito, to
mai então, meu Führer, a decisão de pôr paradeiro a esta guerra. O
povo alemão tem suportado tão incomensurável sofrimento que é tem
po de pôr um ponto final a esse horror (...)
Sempre admirei vossa nobreza (...) Se o destino é mais forte que vossa
vontade e vosso gênio, assim também é a Providência (...) Mostrai-vos
agora, também, bastante magnânimo para terminar uma luta sem espe
rança, quando necessário (...)
Hitler leu a carta em silêncio — segundo declarou Jodl em Nuremberg —
entregando-a a ele sem comentário. Poucos dias depois, na sua conferência mili
tar de 31 de agosto, o senhor supremo da guerra observou: “Há fortes razões para
suspeitarmos que Kluge, de qualquer forma, teria sido preso se não se tivesse
suicidado”.42
Seguiu-se, depois, a vez do marechal-de-campo Rommel, o ídolo do povo alemão.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 613
O general von Stülpnagel, quando jazia cego e inconsciente na mesa de opera
ção no hospital de Verdun, depois de sua malsucedida tentativa de suicídio, dei
xou escapar o nome de Rommel. Mais tarde o coronel von Hofacker, em Berlim,
no cárcere da Gestapo na Prinz Albrechtstrasse, não resistindo às torturas que lhe
infligiam, referiu-se à participação de Rommel na conspiração. “Diga ao povo, em
Berlim, que pode contar comigo”, disse Hofacker que Rommel declarara ao garan
tir-lhes sua participação. Essa frase ficou gravada no espírito de Hitler, quando
dela teve conhecimento, e levou-o a decidir que seu general favorito, que sabia ser
o mais popular da Alemanha, devia morrer.
Rommel, que havia sofrido sérias fraturas no crânio, nas têmporas e nos ma
xilares, além de um grave ferimento no olho esquerdo, cuja cabeça fora esburaca
da por estilhaços de granada, foi em primeiro lugar removido de um hospital de
Bernay para Saint-Germain, a fim de não ser capturado pelas tropas aliadas no
seu avanço; dali, em 8 de agosto, para sua casa em Herrlingen, nas proximidades
de Ulm. Recebeu o primeiro sinal do que o aguardava quando o general Speidel,
antigo chefe de seu Estado-maior, foi preso em 7 de setembro, dia seguinte ao que
lhe fizera uma visita em Herrlingen.
“Esse mentiroso mórbido ficou agora completamente louco”, exclamara Rommel
a Speidel quando a conversa girou sobre Hitler. “Ele está descarregando seu sadis
mo nos conspiradores de 20 de julho. Isso ainda não está terminado !”43
Rommel constatou depois que sua casa estava sendo vigiada pelo S.D. Quando
saía para um passeio pelo bosque da vizinhança, em companhia de seu filho de 15
anos, que obtivera licença temporária para deixar seu posto junto a uma bateria
antiaérea a fim de cuidar do pai, tanto ele como o filho armavam-se de revólve
res. Hitler recebeu, no quartel-general de Rastenburg, cópia do depoimento de
Hofacker incriminando Rommel. Decretou imediatamente sua morte (...) mas
de modo especial. O Führer percebeu, corforme Keitel explicou mais tarde ao ser
interrogado em Nuremberg, “que causaria terrível escândalo na Alemanha ser esse
conhecido marechal-de-campo, o general mais popular que tivemos, preso e leva
do ao Tribunal do Povo”. Hitler arranjou então, com Keitel, para que Rommel
fosse informado das provas que havia contra ele, permitindo-lhe escolher entre o
suicídio e o julgamento, por traição, pelo Tribunal do Povo. Se escolhesse o suicí
dio, o Estado providenciaria funerais com todas as honras militares, e sua família
não seria molestada.
614 O COMEÇO DO FIM
Foi assim que, ao meio-dia de 14 de outubro de 1944, dois generais do quartel-
general do Führer dirigiram-se de automóvel à residência de Rommel, então cer
cada por soldados da S.S. e cinco carros blindados. Os generais eram Wilhelm
Burgdorf, um alcoólatra de rosto corado que rivalizava com Keitel em servilismo
para com Hitler, e seu assistente no escritório do pessoal do exército, Ernst Maisel,
de idêntico caráter. Preveniram Rommel, antes, que iam da parte de Hitler para
conversarem sobre seu “novo emprego”.
“Instigado pelo Führer”, depôs Keitel mais tarde, “mandei Burgdorf com uma
cópia dos depoimentos contra Rommel. Se fosse verdade o que ali se dizia, devia
ele arcar com as conseqüências. Se não fosse, seria absolvido pelo tribunal”.
— E o senhor instruiu Burgdorf que levasse veneno consigo, não? — pergun
taram a Keitel.
— Instruí. Disse a Burgdorf que levasse algum veneno consigo para, se as con
dições o exigissem, pô-lo à disposição de Rommel.
Quando Burgdorf e Maisel chegaram, tornou-se evidente que não tinham ido
para tratar de novas atribuições para Rommel. Pediram para conversar a sós
com o marechal-de-campo, encaminhando-se os três homens para sua sala de
trabalho.
“Minutos depois, ouvi meu pai subir a escada e entrar nos aposentos de minha
mãe”, relatou Manfred Rommel tempos depois. E continuou:
Entramos no meu quarto. “Eu tive, agora mesmo, que dizer à sua mãe”,
começou ele pausadamente, “que estarei morto daqui a 15 minutos (...)
Hitler está me acusando de alta traição. Dados os serviços que prestei
na África, é me dada a chance de morrer tomando veneno. Os dois ge
nerais o trouxeram consigo. É fatal, em três segundos. Se aceitar essa
chance, não se tomarão as medidas usuais contra minha família (...) O
Estado fará meus funerais. Preparou-se tudo em seus mínimos deta
lhes. Daqui a um quarto de hora você receberá um telefonema do hos
pital dizendo que fui acometido de um insulto cerebral quando a cami
nho para uma conferência”.
E foi o que aconteceu.
Rommel, envergando seu velho jaquetão de couro do Afrika Korps e empu
nhando o bastão de marechal-de-campo, entrou no carro com os dois generais.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 615
Foi conduzido à distância de dois ou três quilômetros pela estrada que ladeava
uma floresta, onde o general Maisel e o chofer das S.S. saltaram, deixando Rommel
e o general Burgdorf no assento traseiro. Quando os dois homens voltaram,
Rommel jazia tombado no assento, morto. Burgdorf andava impacientemente de
um lado para outro, como se receasse chegar tarde para o almoço e seus drinques
do meio-dia. Quinze minutos depois de despedir-se do marido, Frau Rommel
recebeu do hospital o esperado telefonema. Informou-a o médico-chefe de que os
dois generais haviam trazido o corpo do marechal-de-campo, que morrera de
embolia cerebral, aparentemente resultado das fraturas que havia anteriormente
sofrido no crânio. Na verdade, Burgdorf proibira rudemente que se procedesse à
necropsia. “Não toquem no cadáver”, bradou. “Já se providenciou tudo em Berlim.”
Haviam, de fato, providenciado.
O marechal-de-campo Model expediu uma retumbante ordem do dia anun
ciando que Rommel havia morrido de “ferimentos recebidos em 17 de julho” e
lamentando a perda “de um dos maiores comandantes de nosso país”.
Hitler telegrafou a Frau Rommel: “Aceitai minhas mais sinceras condolências
pela dura perda que sofrestes com a morte de vosso esposo. O nome do marechal-
de-campo Rommel ficará sempre ligado às heróicas batalhas do norte da África”.
Gõring telegrafou, apresentando “condolências discretas”:
O fato de vosso esposo ter morrido como herói, em conseqüência de
ferimentos, quando nós todos esperávamos que continuasse a viver
para o povo alemão, emocionou-me profundamente.
Hitler ordenou que o funeral fosse realizado com honras devidas a um homem
de Estado, ocasião em que a mais alta patente do exército, o marechal-de-campo
von Rundstedt, fez a oração fúnebre. “Seu coração”, disse Rundstedt diante do
corpo de Rommel coberto pela bandeira suástica, “pertencia ao Führer”*
* Por justiça, cumpre acrescentar que Rundstedt, provavelmente ignorava as circunstâncias da morte
de Rommel, aparentemente sabendo delas só por ocasião do depoimento de Keitel, em Nuremberg.
"Não ouvi esses boatos", declarou Rundstedt no banco dos réus, "caso contrário ter-me-ia recusado a
agir como representante do Führer no funeral feito pelo Estado; isso teria sido uma infâmia sem quali
ficativo".44A família de Rommel, entretanto, notou que esse cavalheiro da velha escola declinou assistir
à cremação após o funeral, e deixou de ir à casa de Rommel para apresentar condolências à viúva,
como o fizeram muitos outros generais.
6 l6 O COMEÇO DO FIM
“O velho soldado [Rundstedt]”, disse Speidel, “parecia aos presentes abatido e
desnorteado (...) O destino havia-lhe dado, ali, a chance singular de desempenhar
o papel de Marco Antônio. Ele ficou mergulhado em sua apatia moral”.45*
Foi grande a humilhação do altivo corpo de exército alemão. Viu três de seus
ilustres marechais-de-campo — Witzleben, Kluge e Rommel — implicados numa
conspiração para destruir o senhor supremo da guerra, sendo um deles enforcado
e os dois outros obrigados a suicidar-se. Viu, sem que nada pudesse fazer, dezenas
de suas mais altas patentes arrastadas para as prisões da Gestapo e assassinadas
depois de submetidas à farsa dos julgamentos pelo Tribunal do Povo. Naquela si
tuação sem precedentes, a despeito de suas orgulhosas tradições, o corpo de ofi
ciais não se uniu. Ao contrário, procurou preservar sua honra assumindo uma
atitude que um observador estranho só poderia, no mínimo, classificar de deson
rosa e degradante. Ante a cólera do antigo cabo austríaco, seus atemorizados líde
res conduziram-se servilmente e aviltaram-se.
Não era de admirar que o marechal-de-campo von Rundstedt parecesse abati
do e desnorteado ao entoar a oração fúnebre diante do corpo de Rommel. Ficara
humilhado, do mesmo modo que os oficiais seus companheiros, aos quais Hitler
forçara a beber o cálice da amargura até as fezes. O próprio Rundstedt aceitara o
cargo de oficial-presidente do denominado Tribunal de Honra dos militares, cria
do por Hitler com o fim de expulsar do exército todos os oficiais suspeitos de
cumplicidade na conspiração contra ele. Seria negado a eles, assim, o julgamento
por um conselho de guerra, e, para ignomínia deles, seriam entregues como civis
* O próprio general Speidel, embora encarcerado numa cela da prisão da Gestapo, na Prinz Albre-
chtstrasse, em Berlim, e submetido a constantes inquirições, não se deixou abater, tampouco ficou
desnorteado. Talvez contribuísse para isso o fato de ser, além de soldado, um filósofo. Burlou seus
algozes do S.D., nada confessando e não traindo pessoa alguma. Passou por maus bocados quando
foi acareado com o coronel von Hofacker, o qual — acredita ele — não só havia sido torturado como
obrigado a tomar uma droga a fim de "falar"; nessa ocasião, porém, Hofacker não o traiu e negou o
que declarara anteriormente.
Embora não tivesse sido levado ao tribunal, Speidel ficou sob a guarda da Gestapo durante sete me
ses. Ao aproximarem-se as tropas norte-americanas da localidade onde o tinham confinado, nas pro
ximidades do lago Constança, no Sul da Alemanha, escapou, por meio de um estratagema, com vinte
outros, refugiando-se em casa de um sacerdote católico que escondeu todo o grupo até a chegada
dos americanos. Speidel omite esse capítulo de sua vida em seu livro, bastante objetivo e escrito na
terceira pessoa. Contou, contudo, essa passagem a Desmond Young, que a cita em seu Rommel— The
DesertFox{p. 251-2, da edição em brochura).
Coroando uma carreira extraordinária, Speidel ocupou importante comando na Otan, no fim dos anos 1950.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 617
ao Tribunal do Povo, que os julgaria sumariamente. Não se permitia ao Tribunal
de Honra ouvir o oficial acusado, para defender-se; a defesa só agia de conformi
dade com as provas fornecidas pela Gestapo. Rundstedt não protestou contra essa
restrição, tampouco outro membro do tribunal, o general Guderian, que, no dia
seguinte ao da explosão da bomba, havia sido nomeado chefe do Estado-maior
geral do exército, se bem que, em suas memórias, confesse que a “tarefa era desa
gradável”, as sessões do tribunal muito tristes, suscitando “os mais difíceis proble
mas de consciência”. Suscitavam, sem dúvida, pois Rundstedt, Guderian e seus
colegas juizes — todos generais — entregaram centenas de camaradas seus à exe
cução certa, depois de degradá-los e lançarem-nos para fora do exército.
Guderian fez mais ainda: com sua capacidade de chefe do Estado-maior geral,
expediu duas vibrantes ordens do dia garantindo ao supremo senhor da guerra a
imorredoura lealdade do corpo de oficiais. A primeira, expedida em 23 de julho,
acusava os conspiradores de serem “poucos oficiais, alguns deles aposentados,
que tinham perdido a coragem e, por covardia e fraqueza, preferiram a estrada da
ignomínia à única estrada aberta para um soldado sincero: a do dever e da honra”.
Empenhou depois ao Führer “a união dos generais, do corpo de oficiais e dos sol
dados do exército”.
Entrementes, o marechal-de-campo von Brauchitsch, demitido, apressou-se a
imprimir uma candente declaração condenando o Putsch , hipotecando renovada
fidelidade ao Führer e acolhendo com prazer a nomeação de Himmler — que
desprezara os generais, incluindo o próprio Brauchitsch — para a chefia do exér
cito da reserva. Outro que foi afastado, o grande almirante Ràder, receoso de po
der ser suspeitado de que simpatizara com a causa dos conspiradores, não demo
rou em sair de seu retiro e correr para Rastenburg a fim de assegurar sua lealdade
a Hitler. Em 24 de julho, a saudação nazista, em vez da antiga continência militar,
tornou-se compulsória “como sinal da inabalável fidelidade do exército ao Führer
e da mais estreita união entre o exército e o Partido”.
Em 29 de julho, Guderian preveniu todos os oficiais do Estado-maior geral de
que, dali por diante, deviam dar o exemplo de bons nazistas, leais e fiéis ao Führer.
Todo oficial do Estado-maior geral deve ser um oficial-líder nacional-
socialista não só (...) pela sua atitude modelo ante as questões políticas
6 i8 O COMEÇO DO FIM
como, também, pela sua cooperação ativa na doutrinação política dos
comandantes mais jovens, segundo os dogmas do Führer (...)
Ao julgarem e selecionarem os oficiais do Estado-maior geral, os supe
riores devem colocar os traços de caráter e espírito acima do intelecto.
Um patife poderá ser sempre engenhoso; mas na hora da necessidade,
não obstante isso, falhará justamente por ser patife.
Espero que todo oficial do Estado-maior geral se declare, imediatamen
te, um converso ou um adepto de meu ponto de vista e faça, de público,
um pronunciamento nesse sentido. Todo aquele que não puder fazê-lo
deve solicitar seu afastamento do Estado-maior geral*
Tanto quanto se sabe, ninguém solicitou afastamento.
Com isso, comenta um historiador militar alemão, t£pode-se dizer que a histó
ria do Estado-maior geral, como entidade autônoma, chegou ao fim”.46 Esse grupo
de elite, fundado por Scharnhorst e Gneisenau e desenvolvido por Moltkee para
ser a coluna mestra do país, que havia governado a Alemanha durante a Primeira
Guerra Mundial, dominado a República de Weimar e forçado, mesmo, Hitler a
destruir o S.A. e assassinar seu líder quando se interpuseram em seu caminho, foi
reduzido, no verão de 1944, a um patético corpo de homens atemorizados e ser
vis. Não mais haveria oposição contra Hitler, nem, mesmo, qualquer crítica.
Aquele exército, outrora poderoso como todas as outras instituições do Terceiro
Reich, cairia com ele. Seus líderes achavam-se agora entorpecidos, completamen
te destituídos de coragem, coragem que somente havia sido demonstrada por um
punhado de conspiradores, para levantar a voz ou mesmo para fazer qualquer
coisa para deter a mão do homem que, percebiam perfeitamente agora, os estava
conduzindo rapidamente, a eles e ao povo alemão, à mais horrível catástrofe na
história de sua amada pátria.
Essa paralisia do espírito e da vontade de homens amadurecidos, educados
como cristãos, que se supunha disciplinados pelas velhas virtudes e que se vanglo
riavam de seu código de honra, corajosos ao enfrentarem a morte hos campos de
batalha, é surpreendente, se bem que, talvez, possa ser compreendida pela lem
brança do curso da história alemã, esboçado num capítulo anterior, que fazia da
* Em suas memórias, Guderian, que constantemente acentua o quanto resistiu a Hitler e o critica acer-
bamente, não menciona essa ordem do dia.
INVASÃO DA EUROPA OCIDENTAL PELOS ALIADOS E TENTATIVAS DE MATAR HITLER 619
obediência cega aos governantes temporais a virtude mais elevada do homem
germânico e premiava o servilismo. Os generais conheciam agora a maldade do
homem diante do qual se arrastavam.
Guderian, mais tarde, lembrou como Hitler se tornou depois do 20 de julho:
No caso dele, o que tinha sido dureza tornou-se crueldade, ao passo
que se tornou plena insinceridade o que era tendência para o blefe.
Mentia muitas vezes sem hesitar e presumia que os outros lhe mentiam.
Não acreditava em mais ninguém. Já havia sido difícil tratar com ele;
tornou-se depois uma tortura, que se agravara de mês para mês. Perdia
freqüentemente o domínio de si mesmo, e sua linguagem tornou-se
cada vez mais violenta. No círculo de seus íntimos, não havia quem
pudesse conter-lhe os ímpetos.47
Foi esse homem meio louco, entretanto, cujo corpo e cujo espírito se desgasta
vam rapidamente, quem agora reuniu os exércitos derrotados e em retirada, da
mesma maneira que o fizera no inverno nevoento de 1941 diante de Moscou e
quem fez brotar novo ânimo naquele povo castigado. Exercendo uma incrível
força de vontade que a todos faltava na Alemanha — no exército, no governo e
entre o povo — pôde, quase só, prolongar a agonia da guerra por quase um ano.
A revolta de 20 de julho de 1944 não falhou apenas por causa da inexplicável
inépcia de alguns dos homens mais capazes, no exército e entre os civis, nem ape
nas por causa da fatal fraqueza de caráter de Fromm e Kluge e da má sorte que
assediou os conspiradores em todas as ocasiões. Falhou porque a maioria dos
homens que mantinham aquele grande país em movimento, generais e civis, e a
massa do povo alemão, em uniforme ou sem ele, não estavam preparados para
uma revolução; de fato, a despeito de sua desgraça e das negras perspectivas de
derrota e de ocupação estrangeira, eles não a queriam. Ainda aceitavam e na rea
lidade apoiavam o nacional-socialismo, não obstante a degradação que trouxera
para a Alemanha e a Europa, e viam ainda, em Adolf Hitler, o salvador da pátria.
Nesse tempo [escreveu Guderian depois] — o fato afigura-se acima de
qualquer contestação —, grande porção do povo alemão ainda acredi
tava em Adolf Hitler e teria ficado convencida de que, com sua morte,
620 O COMEÇO DO FIM
o assassino teria eliminado o único homem que ainda poderia ter con
duzido a guerra a um final favorável.48
Mesmo depois da guerra, o general Blumentritt, que não participou da cons
piração mas que a teria apoiado se Kluge, seu chefe, tivesse sido um homem de
melhor têmpera, achou que pelo menos “metade da população civil se sentiu cho
cada com o fato de os generais alemães terem tomado parte naquela tentativa de
derrubar Hitler, e se ressentiu amargamente com eles em conseqüência disso; esse
mesmo sentimento manifestou-se no próprio exército”.49
Em virtude de um hipnotismo que desafia qualquer explicação — pelo menos
de um não-alemão —, Hitler gozou da obediência e da confiança desse povo ex
traordinário até o fim. Era inevitável que o seguissem cegamente, como carneiros,
e o fizeram com tocante fé e até mesmo com entusiasmo; isso os arrastou para o
precipício que destruiu a nação.
III
A queda do Terceiro Reich
CAPÍTULO 1
A conquista da Alemanha
A guerra aproximava-se agora do solo alemão. Mal Hitler se refizera do cho
que da explosão de 20 de julho, viu-se defrontando a perda da França e da Bélgica
e de suas grandes conquistas no leste. As tropas inimigas, em número esmagador,
convergiam para o Reich.
Em meados de agosto de 1944, as ofensivas de verão dos russos, iniciadas em
junho e que se iam desenvolvendo uma após outra, levaram o Exército Vermelho
até as portas da Prússia Oriental, engarrafando cinqüenta divisões alemãs na re
gião dos Bálticos, penetrando até Vyborg, na Finlândia, destruindo o grupo de
exércitos do centro e efetuando um avanço de 640 quilômetros nessa frente em
seis semanas, até o Vístula, no lado oposto a Varsóvia. Enquanto isso, no sul, um
novo ataque, começado em 20 de agosto, resultou na conquista da Romênia no
fim desse mesmo mês e, com ela, na conquista dos campos petrolíferos de Ploesti,
a única fonte importante de petróleo para os exércitos alemães. Em 26 de agosto,
a Bulgária retirou-se formalmente da guerra, e os alemães começaram e evacuar
o país. Em setembro, a Finlândia rendeu-se e voltou-se contra as tropas alemãs
que se recusavam a evacuar o território.
No Ocidente, a França foi rapidamente libertada. Os americanos haviam en
contrado no general Patton, o comandante do 3QExército norte-americano recen
temente formado, um general de forças blindada dotado de intrepidez e do dis
cernimento instintivo de Rommel, na África. Após a conquista de Avranches em
30 de julho, havia deixado a Bretanha à sua sorte e contornado bastante os exérci
tos alemães na Normandia, movimentando-se a sudeste para Orleans, no Loire, e
depois para leste rumo ao Sena, ao sul de Paris. Em 12 de agosto alcançou o Sena
a sudeste e noroeste da capital, e, dois dias depois, a grande cidade, glória da
França, era libertada após quatro anos de ocupação alemã, quando a 2- Divisão
blindada francesa, do general Jacques Leclerc, e a 4âDivisão de infantaria ameri
cana nela irromperam e perceberam que unidades da resistência francesa já a
624 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
haviam dominado em grande parte. Encontraram as pontes do Sena intactas,
muitas delas verdadeiras obras de arte.*
Os remanescentes dos exércitos alemães acham-se agora em plena retirada.
Montgomery, que vencera Rommel no norte da África e fora promovido a mare-
chal-de-campo em lfi de setembro, conduziu seu Ia Exército canadense e o 22
Exército britânico num percurso de 320 quilômetros, em quatro dias — do Sena
inferior e passando pelos históricos campos de batalha de 1914 a 1918 e 1940 —
para a Bélgica. Bruxelas caiu em seu poder em 3 de setembro e a Antuérpia no dia
seguinte. Foi tão rápido o avanço que os alemães nem tiveram tempo de destruir
as instalações do posto da Antuérpia. Foi um grande golpe de sorte para os Alia
dos, pois esse porto, assim que ficaram desimpedidas suas vias de acesso, tornou-
se a principal base de abastecimento dos exércitos anglo-americanos.
Mais ao sul das forças inglesas e canadenses, o le Exército americano, sob o
comando do general Courtney H. Hodges, avançou com igual rapidez para a
parte sudeste da Bélgica, atingindo o rio Mosa, de onde, em maio de 1940, havia
sido iniciada a devastadora investida alemã. Conquistou as fortalezas de Namur e
Liège, onde os alemães não tiveram tempo de organizar uma defesa. Mais ao sul
ainda, o 3a Exército, do general Patton, conquistou Verdun, atingiu o rio Mosela e,
no desfiladeiro de Belfort, fez junção com o 7fi Exército franco-americano o qual,
sob o comando do general Alexander Patch, havia desembarcado em 15 de agosto
ao sul da França, na Riviera, e que avançara rapidamente pelo vale do Ródano.
Os exércitos alemães haviam perdido no Ocidente, no fim de agosto, quinhen
tos mil homens — metade aprisionada — e quase todos os seus tanques, artilha
ria e caminhões. Pouco restara para defender a pátria. A tão decantada Linha
Siegfried ficou praticamente despovoada e sem canhões. A maioria dos generais
alemães, no Ocidente, acreditava que havia chegado o fim. “Não mais existiam
quaisquer forças terrestres e muito menos forças aéreas”, diz Speidel.1“No que me
dizia respeito, a guerra tinha terminado em setembro”, declarou Rundstedt, que,
* Em 23 de agosto, segundo Speidel, Hitler ordenou a destruição de todas as pontes de Paris e de ou
tras instalações importantes, "mesmo que, com isso, viessem a ser destruídos monumentos artísticos".
Speidel recusou-se a executar a ordem, o mesmo fazendo o general von Choltitz, o novo comandante
da capital parisiense, que se rendeu após alguns tiros para satisfazer sua honra. Em virtude desse ato,
Choltitz foi julgado, in absentia, por traição, em abril de 1945; alguns oficiais, seus amigos, conseguiram
protelar o processo até o fim da guerra. Speidel revela também que, logo que se verificou a queda de
Paris, Hitler ordenou sua destruição por meio de artilharia pesada e bombas voadoras V-1, ordem que
ele também se recusou a executar. (Speidel, Invasion 1944, p. 143-5).
A CONQUISTA DA ALEMANHA 625
em 4 de setembro, havia sido reintegrado no posto de comandante-em-chefe no
Ocidente, aos inquisidores Aliados depois da guerra.2
Não, porém, para Adolf Hitler. No último dia de agosto, fez uma preleção no
quartel-general a alguns de seus generais, tentando injetar-lhes novo sangue nas
veias e, ao mesmo tempo, sustentar uma esperança.
Se necessário, lutaremos no Reno. Isso não faz diferença. Quaisquer
que sejam as circunstâncias, continuaremos esta batalha, como disse
Frederico, o Grande, até que nossos malditos inimigos se cansem de
lutar. Combateremos até conseguir uma paz que assegure a vida da na
ção alemã durante os próximos cinqüenta ou cem anos, e que, acima de
tudo, não macule nossa honra como aconteceu em 1918 (...) Vivo ape
nas para dirigir esta luta, pois sei que ela não poderá ser ganha se não
houver uma vontade de ferro apoiando-a.
Após descompor o Estado-maior geral pela falta dessa vontade férrea, Hitler
revelou aos generais algumas das razões de suas obstinadas esperanças.
Tempo virá em que a tensão entre os Aliados se tornará tão grande que
se verificará um rompimento. Todas as coalizões, na história, cedo ou
tarde se desintegraram. Por mais duro que seja, só nos cabe esperar o
momento exato.3
A Goebbels coube a tarefa de organizar a “mobilização total”. Himmler, o novo
chefe do exército da reserva, pôs-se a trabalhar para levantar 25 divisões Volksgre-
nadier para a defesa do Ocidente. A despeito de todos os planos e de todas as
conversas na Alemanha nazista, referentes à “guerra total”, os recursos do país
estavam longe de se acharem totalmente organizados. Por insistência de Hitler, a
produção de mercadorias para os civis havia sido mantida numa cifra surpreen
dentemente grande durante a guerra — ostensivamente para sustentar o moral.
Ele se esquivara de executar os planos de antes da guerra, de mobilizar as mulhe
res para o trabalho das fábricas. “O sacrifício de nossos mais caros ideais exige um
preço demasiado alto”, disse em março de 1943, quando Speer desejou convo
car mulheres para a indústria.4 A ideologia nazista havia ensinado que o lugar da
mulher alemã era no lar e não na fábrica, e foi no lar que ela ficou. Nos primeiros
626 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
quatro anos da guerra, quando na Inglaterra 2,25 milhões de mulheres haviam
sido colocadas na produção de guerra, na Alemanha somente 182 mil foram em
pregadas em tal mister. O número de empregadas domésticas do tempo de paz
permaneceu inalterado, na Alemanha, durante a guerra: 1,5 milhão.5
Agora, com o inimigo às portas, os líderes nazistas puseram-se em atividade.
Rapazes de 15 a 18 anos de idade e homens de cinqüenta a sessenta foram chama
dos às fileiras. Peneiraram as universidades, os colégios, os escritórios e as fábricas
à cata de recrutas. Em setembro e outubro de 1944, encontrou-se meio milhão de
homens para o exército. Não se fez, entretanto, previsão alguma para substituí-
los, por mulheres, nas fábricas e nos escritórios. Albert Speer, ministro de Arma
mentos e Produção de Guerra, protestou junto a Hitler dizendo que a convocação
de operários peritos estava afetando seriamente a produção de armas.
Desde os tempos napoleônicos não haviam os alemães sido forçados a defen
der o solo sagrado da pátria. Todas as guerras subseqüentes, da Prússia e da Ale
manha, haviam sido travadas em solos de outros povos, solos esses que eram de
vastados. Uma torrente de exortações caiu sobre as tropas fortemente assediadas:
Soldados da frente ocidental!
(...) Espero que defendais o sagrado solo da Alemanha (...) até o fim! (...)
Heil Führer!
von Rundstedt,
marechal-de-campo
Soldados do grupo de exércitos!
(...) Nenhum de nós deverá ceder um palmo do solo alemão enquanto
estiver vivo (...) Todo aquele que recuar, sem travar combate, estará
traindo seu povo (...)
Soldados! Nossa pátria e a vida de nossas esposas e filhos estão em perigo!
Nosso Führer e nossos bem-amados têm confiança em seus soldados! (...)
Viva nossa Alemanha e viva nosso amado Führer!
Model,
marechal-de-campo
Com o desmoronamento que já se processava, cresceu o número de deserções.
Himmler tomou medidas drásticas para desencorajá-las. Em 10 de setembro, afi
xou uma ordem:
A CONQUISTA DA ALEMANHA Ó2 J
Certos elementos indignos de confiança parecem acreditar que a guer
ra terminará assim que se entregarem ao inimigo (...)
Todo desertor (...) será devidamente punido. Mais ainda: sua conduta
ignominiosa acarretará as mais graves conseqüências para sua família
(...) Seus componentes serão sumariamente fuzilados.
Um coronel de nome Hoffmann-Schonforn, da 18â Divisão Grenadier, lançou
uma proclamação à sua unidade:
Traidores desertaram de nossas fileiras para se entregarem ao inimigo
(...) Traíram importantes segredos militares (...) Judeus, com seus insul
tos e mentiras, estão procurando induzi-los a transformarem-se tam
bém em bastardos. Deixemo-los destilarem seus venenos! (...) Quanto
aos desprezíveis traidores que esqueceram sua honra, suas famílias te
rão que expiar sua traição.6
Ocorreu em setembro o que os céticos generais alemães chamaram de milagre.
Para Speidel foi a “variação alemã do milagre do Marne para os franceses, em
1914. Esmoreceu subitamente o furioso avanço dos Aliados”.
A razão do esmorecimento tem sido matéria de debates, até hoje, entre os co
mandantes Aliados, do general Eisenhower para baixo. Para os generais alemães,
foi incompreensível. Na segunda semana de setembro, unidades americanas ha
viam atingido a fronteira alemã defronte Aachen e em Moselle. A Alemanha jazia
aberta para os exércitos Aliados. No princípio de setembro, Montgomery propu
sera a Eisenhower que concedesse todos os seus suprimentos e reservas aos exér
citos ingleses e canadenses, e aos 9- e le Exércitos norte-americanos, para uma
ousada ofensiva ao norte, sob seu comando, a qual penetraria rapidamente no
Ruhr, privaria os alemães de seu principal arsenal, abriria o caminho para Berlim
e poria fim à guerra. Eisenhower rejeitou a proposta* Ele queria avançar em dire
ção ao Reno, numa “larga frente”.
Seus exércitos tinham os suprimentos esgotados. Cada tonelada de gasolina e
de munições tivera que ser trazida para as praias da Normandia ou pelo único
* "Tenho certeza" escreveu Eisenhower em suas memórias (Crusade in Europe, p. 305), "de que o mare-
chal-de-campo Montgomery, à luz dos acontecimentos posteriores, haverá de concordar que esse pla
no estava errado". Isso, porém, está longe de ser o caso, como o sabem todos aqueles que leram as
memórias de Montgomery.
628 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
porto de Cherburgo e transportada em caminhões até as linhas de frente a 480 ou
640 quilômetros de distância. Na segunda semana de setembro, seus exércitos já
se ressentiam da falta de abastecimentos. Estavam também encontrando inespe
rada resistência por parte dos alemães. Concentrando suas forças disponíveis em
dois pontos críticos, pôde Rundstedt, em meados de setembro, deter, pelo menos
temporariamente, o 3a Exército, de Patton, no Mosa, e o l 2 Exército, de Hodges,
em frente de Aachen.
Estimulado por Montgomery, Eisenhower concordou, depois, com o ousado
plano: apoderar-se de uma cabeça-de-ponte no Reno inferior, em Arnhem, e, as
sim, obter uma posição da qual pudesse flanquear a Linha Siegfried no norte. Tal
objetivo estava longe de atender ao sonho de Montgomery, isto é, precipitar-se
sobre o Ruhr e dali para Berlim; prometia, entretanto, uma base estratégica para
uma tentativa mais tarde. O ataque, dirigido por um lançamento maciço de duas
divisões americanas e uma inglesa, aerotransportadas das bases da Inglaterra, co
meçou em 17 de setembro; falhou, porém, devido ao mau tempo e à circunstância
de essas divisões terem caído bem no meio de duas divisões panzer S.S. — cuja
presença ali ignoravam — e, também, à falta de forças terrestres adequadas que
avançassem ao sul. Após dez dias de luta selvagem, os Aliados retiraram-se de
Arnhem. A Ia Divisão inglesa aerotransportada, que havia sido lançada nas ime
diações da cidade, perdeu 2.163 de seus homens, num total de nove mil, mais ou
menos. A Eisenhower esse revés “demonstrou claramente que uma campanha
muito amarga estava por vir”.7
Mal esperara, contudo, que os alemães se refizessem suficientemente para de
sencadear um estonteante ataque de surpresa, contra a frente ocidental, ao apro
ximar-se o Natal nesse inverno.
A última cartada desesperada de Hitler
Na noite de 12 de dezembro de 1944, um grupo de generais alemães, Altos-
Comandantes na frente ocidental, foi chamado ao quartel-general de Rundstedt,
despojado de suas pastas e armas, conduzido depois num ônibus pela estrada
escura e coberta de neve durante meia hora, para não ter noção da direção, depo
sitado à entrada de um profundo abrigo subterrâneo que outro não era senão o
A CONQUISTA DA ALEMANHA 6 29
quartel-general de Hitler em Ziegenberg, próximo a Frankfurt. Souberam ali o
que apenas um grupo das mais altas patentes e comandantes de exércitos sabiam
há mais de um mês: o Führer desfecharia, dentro de quatro dias, uma poderosa
ofensiva no Ocidente.
A idéia vinha-lhe fervendo no cérebro desde meados de setembro, quando
os exércitos de Eisenhower ficaram detidos na fronteira alemã, a oeste do Reno.
Se bem que os 9fi, lfi e 32 Exércitos norte-americanos tratassem de reiniciar sua
ofensiva em outubro — com o objetivo de abrir caminho para o Reno, segundo
Eisenhower —, o avanço processava-se com dificuldade e lentamente. Aachen, a
antiga capital do império de Carlos Magno, rendeu-se ao le Exército em 24 de
outubro, após acirrada batalha — a primeira cidade alemã a cair em poder dos
Aliados. Os americanos, porém, não puderam abrir uma brecha que os conduzis
se ao Reno. Procuravam, contudo, em toda aquela frente — e os ingleses e cana
denses ao norte —, desgastar os enfraquecidos defensores com pequenos comba
tes. Hitler percebeu que, permanecendo na defensiva, estava apenas protelando a
hora do ajuste de contas. Surgiu-lhe no espírito febril um ousado e engenhoso
plano para reconquistar a iniciativa: desfechar um golpe que separasse os 3e e le
Exércitos americanos, penetrar na Antuérpia (privando Eisenhower de seu prin
cipal porto de abastecimento) e envolver os exércitos ingleses e canadenses ao
longo da fronteira belgo-holandesa. Tal ofensiva, pensou ele, não só infligiria es
magadora derrota aos exércitos anglo-americanos, libertando a Alemanha da
ameaça que lhe pesava na fronteira ocidental, como o capacitaria a se voltar con
tra os russos que, se bem que estivessem ainda avançando nos Bálcãs, haviam sido
detidos no Vístula, na Polônia e na Prússia Oriental, desde outubro. A ofensiva
seria desfechada rapidamente através das Ardenas, onde começara a grande in
vestida em 1940 e onde o serviço de informações dos alemães sabia estarem de
fendidas apenas por quatro fracas divisões de infantaria norte-americanas.
Era um plano ousado. Hitler acreditava que certamente pegaria os Aliados de
surpresa e os sobrepujaria antes que eles tivessem oportunidade de refazer-se.*
* Houve um interessante aprimoramento nesse plano, denominado Operação Greif, que parece ter
sido fruto da imaginação de Hitler. Confiou sua direção a Otto Skorzeny que, em seguida à libertação
de Mussolini e à sua resoluta ação em Berlim, na noite de 20 de julho de 1944, se distinguira nova
mente no campo de sua especialidade, seqüestrando o regente da Hungria, almirante Horthy, em
Budapeste, em outubro de 1944, quando ele procurava entregar a Hungria às tropas russas que avan
çavam. A nova tarefa de Skorzeny consistia em organizar uma brigada especial de dois mil soldados
630 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Havia, entretanto, um obstáculo. O exército alemão não só estava mais fraco do
que em 1940, especialmente nos ares, como se via frente a um inimigo muito
cheio de recursos e mais bem armado. Os generais alemães não perderam tempo
em chamar a atenção do Führer para esse ponto.
“Quando recebi esse plano no princípio de novembro”, declarou Rundstedt
mais tarde, “fiquei perplexo. Hitler não se havia dado ao trabalho de consultar-me
(...) Era evidente, para mim, que as forças disponíveis eram poucas para um pla
no extremamente ambicioso como esse”. Percebendo, porém, a inutilidade de dis
cutir com Hitler, Rundstedt e Model resolveram propor, como alternativa, um
plano que pudesse satisfazer a insistência do supremo senhor da guerra numa
ofensiva, mas que se limitaria a atormentar a saliência dos americanos em torno
de Aachen.8 O comandante-em-chefe alemão no Ocidente, porém, tinha tão pou
ca esperança de modificar a idéia de Hitler que deixou de atender a um chamado
para uma conferência militar, em Berlim, no dia 2 de dezembro. Enviou, em seu
lugar, o chefe de seu Estado-maior, Blumentritt. Mas Blumentritt, o marechal-de-
campo Model, o general Hasso von Manteuffel e Sepp Dietrich, general das S.S.
(os dois últimos deviam comandar dois grandes exércitos panzer na investida),
que assistiram à conferência, não puderam modificar a idéia de Hitler. Durante
todo aquele fim de outono, ele estivera lançando mão de tudo, na Alemanha, para
essa última cartada desesperada. Conseguira, em novembro, pegar quase 1.500
tanques e carros de assalto novos ou reformados, e, em dezembro, mais mil. Havia
reunido cerca de 28 divisões, incluindo nove divisões panzer , para a investida nas
Ardenas, juntamente com outras seis divisões escaladas para um ataque na Alsá-
cia em seguida à ofensiva principal. Gõring prometeu três mil aviões de caça.
Era uma força considerável, se bem que mais fraca que o Grupo de Exército de
Rundstedt naquela mesma frente, em 1940. Organizá-la implicava negar, às forças
alemãs no leste, os reforços que seus comandantes julgavam absolutamente neces
sários para repelir o ataque russo que esperavam para janeiro, no inverno. Quando
Guderian, chefe do Estado-maior geral e responsável pela frente oriental, protes
tou, Hitler fez-lhe uma severa preleção:
alemães que falassem inglês, vesti-los com uniformes americanos e infiltrá-los nos tanques e jipes
capturados aos americanos em sua retaguarda, a fim de cortar-lhes os fios de comunicações, matar
seus mensageiros, desorientá-los no tráfego e semear uma confusão geral. Pequenas unidades de
viam, além disso, penetrar nas pontes do Mosa e tentar mantê-las intactas até a chegada das princi
pais tropas panzer alemãs.
A CONQUISTA DA ALEMANHA 631
“Não há necesidade de procurar ensinar-me. Há cinco anos venho co
mandando o exército alemão nos campos de batalha, e durante esse
tempo adquiri mais experiência que qualquer cavalheiro do Estado-
maior geral possa, algum dia, esperar possuir. Estudei Clausewitz e
Moltkee e li todos os trabalhos de SchlieíFen. Conheço o problema me
lhor que o senhor!”
Quando Guderian observou que os russos estavam prestes a atacar com forças
esmagadoras, e citou cifras a respeito das formações soviéticas, Hitler bradou: “É
o maior blefe desde os tempos de Gêngis Khan! Quem é o responsável por essas
tolices?”9
Os generais que se tinham reunido no quartel-general do Führer na noite de
12 de dezembro, em Ziegenberg, sem suas pastas e revólveres, acharam o supremo
senhor da guerra nazista, conforme Manteuffel lembrou mais tarde, “uma figura
alquebrada, o rosto balofo e pálido, curvado na cadeira, as mãos trêmulas, o braço
esquerdo sujeito a violentas contrações que ele se esforçava por ocultar. Um ho
mem doente (...) Quando anda, arrasta uma perna”.10
O espírito de Hitler mostrava-se, contudo, ardente como sempre. Os generais
esperavam ouvir uma exposição sobre a situação militar geral da ofensiva, mas o
supremo senhor da guerra, em vez disso, fez-lhes uma arenga sobre política e
história.
Jamais, na história, houve uma coalizão como essa de nossos inimigos,
composta de elementos heterogêneos com objetivos tão divergentes
(...) De um lado, Estados ultracapitalistas; de outro, Estados ultramar-
xistas. Num, um império agonizante, a Inglaterra; noutro, uma colônia
com a atenção voltada para a herança, os Estados Unidos (...)
Cada parceiro entrou nessa coalizão com esperança de realizar suas
ambições políticas (...) Os Estados Unidos procuram tornar-se herdei
ros da Inglaterra. A Rússia procura conquistar os Bálcãs (...) A Ingla
terra tenta manter as possessões (...) no Mediterrâneo (...) Agora, mes
mo, esses Estados acham-se em desavença, e aquele que, à semelhança
de uma aranha pousada no centro de sua teia, puder observar o desen
volvimento da situação, verá como os antagonismos entre eles se vão
tornando cada vez mais fortes, de hora em hora.
632 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Se pudermos desfechar agora mais alguns golpes, então essa frente co
mum, apoiada em bases artificiais, a qualquer momento poderá cair
repentinamente com o mesmo fragor do raio (...) contanto, sempre, que
não haja enfraquecimento por parte da Alemanha.
É essencial privar o inimigo da crença que ele tem na vitória (...) As
guerras, afinal de contas, são decididas por um ou outro dos adversá
rios que reconheça não poder vencer. Não devemos deixar escapar mo
mento algum de mostrar ao inimigo que, faça ele o que fizer, jamais
poderá contar com [nossa] capitulação. Jamais! Jamais!11
Com essa preleção estimulante ressoando-lhes nos ouvidos, os generais dis
persaram-se, nenhum deles, ou pelo menos foi o que disseram depois, acreditan
do que o golpe nas Ardenas fosse bem-sucedido; estavam, todavia, decididos a
executar as ordens de Hitler da melhor maneira que pudessem.
Foi o que fizeram. A noite de 15 de dezembro estava escura e gélida. Uma es
pessa cerração se estendia sobre o terreno acidentado, coberto de neve, da flores
ta das Ardenas, quando os alemães tomaram suas posições para o assalto numa
frente de 112 quilômetros entre Monschau, ao sul de Aachen, e Echternach, a
noroeste de Trier. Seus meteorologistas haviam previsto vários dias de tal tempo,
durante os quais se calculava que as forças aéreas ficariam imobilizadas, poupan
do, assim, às colunas de abastecimento dos alemães o que haviam sofrido no in
ferno da Normandia. Durante cinco dias o tempo sustentou a sorte de Hitler. Os
alemães, pegando o Alto-Comando dos Aliados de surpresa, conseguiram, depois
de suas penetrações iniciais na manhã de 16 de dezembro, abrir várias brechas nas
linhas inimigas.
Quando um grupo blindado alemão atingiu Stavelot na noite de 17 de dezem
bro, distava apenas 12 quilômetros do quartel-general do lfi Exército americano,
em Spa, que estava sendo evacuado às pressas. Mais importante ainda: achava-se
a apenas 1,6 quilômetro de um gigantesco depósito de abastecimento dos ameri
canos, que continha três milhões de galões de gasolina. Fosse esse depósito capturado
e as divisões blindadas alemãs — que constantemente diminuíam o ritmo do
avanço dada a demora no recebimento de gasolina, de que estavam com grande
falta — teriam ido mais longe e mais depressa do que foram. A chamada Brigada
Panzer 150, de Skorzeny, com seus homens envergando uniformes americanos e
A CONQUISTA DA ALEMANHA 633
guiando tanques, caminhões e jipes capturados, foi a que mais avançou. Cerca de
quarenta jipes atravessaram a frente desmantelada e alguns deles chegaram a atin
gir o rio Mosa.*
A improvisada resistência de unidades espalhadas do l 2 Exército americano,
contudo, depois que as quatro divisões nas Ardenas haviam sido deixadas para trás,
e a firme oposição nas posições norte e sul da brecha, em Monschau e Bastogne,
respectivamente, canalizaram as forças de Hitler para uma estreita saliência. A de
fesa dos americanos em Bastogne selou sua sorte.
A junção dessa estrada era a chave da defesa das Ardenas e, atrás, da do rio
Mosa. Se fosse mantido com firmeza, não só bloquearia as principais estradas ao
longo das quais o 5fí Exército panzer , de Manteuffel, avançava rumo ao rio Mosa,
em Dinant, como, também, deteria consideráveis forças alemãs escolhidas para a
investida mais além. Na manhã de 18 de dezembro, pontas-de-lança blindadas
do exército de Manteuffel estavam a apenas 24 quilômetros da cidade, e os únicos
americanos que nela se encontravam pertenciam a um corpo de comando que se
preparava para abandoná-la. Na noite de 17, contudo, a 101â Divisão aerotrans-
portada — que estivera reequipando-se em Reims — recebeu ordem de avançar
a toda brida para Bastogne, 160 quilômetros distantes. Dirigindo seus caminhões
com holofotes acesos durante a noite, ela alcançou a cidade em 24 horas, pouco
antes dos alemães. Foi uma corrida decisiva, e os alemães a perderam. Embora
cercassem Bastogne, tiveram dificuldade de fazer suas divisões contorná-las para
* No dia 16, um oficial alemão que transportava consigo várias cópias da Operação Greif foi aprisio
nado pelos norte-americanos, os quais então souberam o que fora preparado. Isso, porém, parece
não ter dominado a confusão inicial estabelecida pelos homens de Skorzeny, alguns dos quais, disfar
çados de P. M., assumiram posições nas encruzilhadas e, com indicações falsas, confundiram o tráfego
dos militares norte-americanos. Tampouco impediu que o escritório do serviço de informações do 1Q
Exército acreditasse nas invencionices, de alguns dos alemães capturados em uniforme norte-ameri
cano, segundo as quais elementos desesperados de Skorzeny se achavam a caminho de Paris para
assassinar Eisenhower. Durante vários dias, milhares de soldados norte-americanos foram detidos na
estrada que conduzia a Paris, por elementos da P.M., e tiveram de provar sua nacionalidade dizendo
quem havia vencido o "campeonato nacional de beisebol" e qual a capital do Estado onde afirmavam
ter nascido — se bem que alguns não se lembrassem e outros não soubessem. Muitos alemães apa
nhados envergando uniforme norte-americano foram fuzilados sumariamente; outros foram subme
tidos a conselho de guerra e executados. O próprio Skorzeny foi julgado em Dachau por um tribunal
norte-americano, em 1947, mas acabou sendo absolvido. Mudou-se ele depois para a Espanha e a
América do Sul, onde logo se estabeleceu com um negócio de cimento, que muito prosperou, e onde
escreveu suas memórias.
634 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
avançar rumo ao Mosa. Tiveram de deixar para trás poderosas forças, a fim de
conquistar e manter a junção da estrada.
Em 22 de dezembro, o general Heinrich von Lüttwitz, comandante do 47a
Corpo blindado alemão, enviou uma nota escrita ao general A. C. McAuliffe, que
comandava a 10â Divisão aerotransportada, exigindo a rendição de Bastogne. Re
cebeu a resposta em uma única palavra que se tornou célebre: “Tolice!”
O momento decisivo na cartada de Hitler, nas Ardenas, foi na véspera do Na
tal. Um batalhão de reconhecimento da 2â Divisão panzer alemã havia atingido as
elevações de Dinant, no dia anterior, a 4,8 quilômetros a leste do Mosa, e estava
aguardando a remessa de gasolina para os tanques e a chegada de reforços, antes
de mergulhar nas encostas, rumo ao rio. Não vieram os reforços, nem a gasolina.
A 2- Divisão blindada americana, repentinamente, atacou no norte. Várias divi
sões do 3a Exército, de Patton, já avançavam — procedentes ao sul —, sendo seu
principal objetivo aliviar Bastogne. “Na noite do dia 24”, escreveu Manteuffel mais
tarde, “via-se que o ponto culminante de nossa operação havia sido atingido. Sa
bíamos, agora, que jamais alcançaríamos nosso objetivo”. A pressão nos flancos
sul e norte da profunda e estreita saliência alemã tornara-se demasiado forte. Dois
dias antes do Natal, o tempo, finalmente, tornara-se limpo, e as forças aéreas anglo-
americanas tinham iniciado sua tarefa atacando maciçamente as linhas de abaste
cimento dos alemães e as tropas e tanques que avançavam pelas estreitas e tortuosas
estradas das montanhas. Os alemães empreenderam outra tentativa desesperada
para a conquista de Bastogne. Durante todo o dia do Natal, a partir das 3h, come
çaram a desfechar uma série de ataques; os defensores da cidade, porém, coman
dados por McAuliffe, resistiram a eles. No dia seguinte uma força blindada do 3a
Exército, de Patton, irrompeu do sul e socorreu a cidade. Para os alemães, a tarefa
consistia agora em retirar suas forças daquele estreito corredor, antes que ficassem
isoladas e fossem aniquiladas.
Hitler, entretanto, não queria saber de retiradas. Realizou na noite de 28 de dezem
bro uma conferência militar cerimoniosa. Em vez de dar atenção a Rundstedt e
Manteuffel que aconselhavam a retirada, ainda em tempo, das forças alemãs na
saliência, ordenou que se reiniciasse a ofensiva, que se realizasse o assalto contra
Bastogne e que se avançasse para o Mosa. Insistiu, ainda, que se começasse ime
diatamente uma ofensiva ao sul, na Alsácia, onde as linhas americanas haviam
ficado enfraquecidas com a remessa de várias divisões de Patton para o norte
A CONQUISTA DA ALEMANHA 635
rumo às Ardenas. Ao protestarem os generais, observando que lhes faltavam for
ças suficientes para a continuação da ofensiva nas Ardenas ou para atacar na Al-
sácia, Hitler fez ouvidos de mercador.
Cavalheiros: há 11 anos estou metido nesta questão e (...) nunca ouvi
alguém relatar que tudo estivesse completamente preparado (...) Os
senhores nunca estão inteiramente preparados. Isso é evidente.
Ele continuou a falar o tempo todo.* Devia ter-se tornado claro aos generais,
muito antes de ele ter terminado de falar, que o comandante supremo se tornara
cego à realidade e se perdera no mundo da fantasia.
A questão é a seguinte: (...) ou a Alemanha tem força de vontade para
permanecer existindo ou será destruída (...) A perda desta guerra des
truirá o povo alemão.
Seguiu-se uma longa dissertação sobre a história de Roma e da Prússia na
Guerra dos Sete Anos. Voltou, por fim, a tratar dos problemas imediatos. Embora
admitisse que a ofensiva nas Ardenas não “resultará no êxito decisivo que se espe
rava”, ela havia causado “uma transformação tal, em toda a situação, que ninguém
teria acreditado fosse possível, uma quinzena antes”.
O inimigo teve de abandonar todos os seus planos para o ataque (...)
Teve de lançar unidades fatigadas. Seus planos de operações ficaram
completamente transtornados. Está sendo fortemente criticado em sua
terra. É este um mau momento psicológico para eles. Já têm de admitir
que não há chance de a guerra ser decidida antes de agosto, talvez nem
mesmo antes do fim do próximo ano (...)
Era essa última frase a confissão da derrota final? Hitler procurou logo corrigir
tal impressão.
* Durante várias horas, a julgar pela extensão dos registros taquigrafados dessa conferência, consegui
dos quase intactos. É o Fragmento 27 das conferências do Führer. Gilbert cita o texto completo em Hitler
Directs his War, p. 158-74.
636 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Apresso-me a acrescentar, cavalheiros, que (...) não devem concluir
que, mesmo remotamente, esteja encarando a perda desta guerra. Ja
mais aprendi a conhecer a palavra capitulação (...) A situação, hoje em
dia, não é coisa nova para mim. Atravessei outras muito piores. Men
ciono isso somente porque desejo que os senhores compreendam a ra
zão por que coisa alguma poderá enfraquecer-me. Mesmo que possa
ficar atormentado por preocupações, e até abalado fisicamente por elas,
nada ocasionará a mais leve alteração em minha decisão de continuar a
luta até que o fiel da balança penda para nosso lado.
Apelou, em seguida, aos generais, concitando-os a apoiar os novos ataques
4com todo o ardor”.
Esmagaremos, então, os americanos (...) Veremos depois o que aconte
cerá. Não creio que, no final, o inimigo possa resistir a 45 divisões ale
mãs (...) ainda ficaremos senhores do destino!
Era tarde demais. Faltava à Alemanha força militar para concretizar as pala
vras de Hitler.
No dia do Ano-Novo, Hitler lançou oito divisões num ataque no Sarre, se-
guindo-se uma investida partindo da cabeça-de-ponte no Reno superior, de um
exército sob o comando de — isso foi um mau gracejo para os generais alemães
— Heinrich Himmler. Nem o ataque — nem a investida — foi muito longe. Tam
pouco um assalto total contra Bastogne, que começara em 3 de janeiro, por não
menos de dois corpos de nove divisões e que resultou na mais ferrenha luta na
campanha das Ardenas. Em 5 de janeiro, os alemães abandonaram a esperança de
conquistar essa cidade-chave. Viam-se agora frente à perspectiva de ficarem iso
lados em virtude de uma contra-ofensiva dos anglo-americanos, vindos do norte,
que havia começado em 3 de janeiro. No dia 8, Model, cujos exércitos corriam pe
rigo de ser encurralados em Houffalize, a nordeste de Bastogne, recebeu finalmen
te permissão para retirar-se. No dia 16, um mês apenas após o início da ofensiva na
qual Hitler arriscara suas últimas reservas em homens, canhões e munições, viam-
se novamente as forças alemãs de volta para a linha de onde haviam partido.
Eles tinham perdido 120 mil homens aproximadamente, entre mortos, feridos
e desaparecidos, seiscentos tanques e carros de assalto, 1.600 aviões e seis mil
A CONQUISTA DA ALEMANHA 637
viaturas. As perdas americanas foram também sérias: 8 mil mortos, 48 mil feri
dos, 21 mil capturados ou desaparecidos, e 733 tanques e tank destroyers* Mas os
americanos puderam compensar as perdas, o que não se deu com os alemães, que
haviam disparado seu último cartucho. Foi a última grande ofensiva do exército
alemão na Segunda Guerra Mundial. Seu fracasso não só tornou inevitável a der
rota no Ocidente como também lavrou a condenação final dos exércitos alemães
no leste, onde as conseqüências do ato de Hitler, lançando suas últimas reservas
nas Ardenas, fizeram-se sentir imediatamente.
Em sua longa preleção aos generais no Ocidente, três dias depois do Natal,
Hitler mostrara-se muito otimista acerca da frente russa, onde, embora estives
sem perdendo os Bálcãs, os exércitos alemães mantinham-se firmemente no Vís-
tula, na Polônia, e na Prússia Oriental, desde outubro.
Infelizmente [disse Hitler] somos forçados, por causa da traição de nos
sos caros Aliados, a recuar gradativamente (...) Mas, a despeito de tudo
isso, tem sido possível, no conjunto, sustentar a frente oriental.
Mas por quanto tempo? Na noite de Natal — depois de os russos haverem
cercado Budapeste — e, novamente, na manhã do Ano-Novo, Guderian havia
pleiteado junto a Hitler, em vão, o envio de reforços a fim de enfrentar a ameaça
* Entre os americanos mortos figuravam vários prisioneiros que foram eliminados a sangue-frio pelo
grupo de combate da I a Divisão panzer das forças S.S., de Jochen Peiper, nas imediações de Malmédy,
em 17 de dezembro. Segundo foi testemunhado em Nuremberg, 129 prisioneiros americanos foram
massacrados; no julgamento realizado depois, dos oficiais das S.S. envolvidos na ocorrência, a cifra foi
reduzida para 71. O julgamento perante um tribunal americano em Dachau, na primavera de 1946,
teve um desfecho curioso: 43 oficiais das S.S., inclusive Peiper, foram condenados à morte; 23 à prisão
perpétua; e oito a penas menores. Sepp Dietrich, comandante do 4a Exército panzer das S.S., que lutou
na parte norte da saliência, foi condenado a 25 anos de prisão; Kramer, comandante do 12 Corpo blin
dado das S.S., a dez; e Hermann Priess, comandante da 1a Divisão panzer das S.S., a 18.
Surgiu depois no senado norte-americano um clamor, especialmente por parte do senador McCarthy,
afirmando que os oficiais das forças S.S. haviam sido tratados brutalmente a fim de se lhes arrancar
confissões. Em março de 1948, comutaram-se 31 das sentenças de morte; em abril, o general Lucius D.
Clay reduziu-as de 12 para seis, e, em janeiro de 1951, com uma anistia geral, John J. McCIoy, alto co
missário americano, substituiu as sentenças restantes, de morte por prisão perpétua. Ao tempo em que
escrevi este livro, todos foram postos em liberdade. Quase esquecida ante o clamor que se fez com o
mau tratamento que se alegou ter sido dispensado aos oficiais das S.S. havia a indiscutível prova de,
pelo menos, 71 prisioneiros de guerra americanos, desarmados, terem sido assassinados a sangue-frio
num campo coberto de neve nas imediações de Malmédy, em 17 de dezembro de 1944, por ordem, ou
por incitação, de vários oficiais das S.S.
638 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
russa, na Hungria e a ofensiva na Polônia, que esperava fosse iniciada em meados
de janeiro.
Ressaltei [diz Guderian] que o Ruhr já havia ficado paralisado com os
bombardeios dos Aliados ocidentais (...) e, por outro lado, declarei
que a área industrial da Silésia superior ainda podia operar com todo
o vigor, o centro da indústria de armamentos da Alemanha já se en
contrava no leste e a perda da Silésia superior acarretaria nossa derro
ta em poucas semanas. Tudo isso de nada adiantou. Fui mal acolhido
e, naquele ambiente nada cristão, passei uma lúgubre e trágica noite
de Natal.
Mesmo assim Guderian voltou ao quartel-general de Hitler uma terceira vez,
em 9 de janeiro. Levou consigo o chefe de seu serviço de informações no leste —
general Gehlen — o qual, com mapas e diagramas, procurou explicar ao Führer a
precária situação dos alemães na véspera do esperado reinicio da ofensiva russa
no norte.
Hitler [diz Guderian] perdeu completamente a calma (...) declarando
serem “inteiramente idiotas” os mapas e diagramas e ordenando que se
encerrasse num asilo de loucos o homem que os fizera. Perdi então a
calma e disse (...) “Se desejais que o general Gehlen seja enviado a um
asilo de loucos, faríeis então melhor passando um atestado também
para mim.”
Quando Hitler alegou que a frente oriental “jamais tivera antes uma reserva
tão forte como agora”, Guderian retorquiu: “A frente oriental é como um castelo
de cartas. Se for rompido um ponto na frente, todo o resto se desmoronará”12
E foi o que aconteceu. Em 12 de janeiro de 1945, o grupo de exército russo, de
Konev, irrompeu de sua cabeça-de-ponte em Baranov, no Vístula superior, ao sul
de Varsóvia, e avançou em direção à Silésia. Mais ao norte, os exércitos de Zhukov
atravessaram o Vístula, ao norte e ao sul de Varsóvia, que caiu em 17 de janeiro.
Mais ao norte ainda dois exércitos russos invadiram metade da Prússia Oriental e
avançaram para o golfo de Dantzig.
A CONQUISTA DA ALEMANHA 639
Foi a maior ofensiva russa na guerra. Só na Polônia e na Prússia Oriental Sta-
lin estava lançando 180 divisões e — o que era surpreendente — a maior parte
delas blindada. Nada pôde detê-las.
“Em 27 de janeiro [apenas 15 dias após o início do avanço soviético], a onda
russa”, diz Guderian, “estava assumindo rapidamente, para nós, as proporções de
um completo desastre.”13 Nessa data, a Prússia Oriental e a Ocidental ficaram iso
ladas do Reich. Nesse mesmo dia Zhukov atravessou o Oder, próximo a Lueben,
após um avanço de 352 quilômetros numa quinzena, atingindo o solo alemão a
apenas 160 quilômetros de Berlim. E o que foi ainda mais catastrófico: os russos
haviam invadido a bacia industrial da Silésia.
Albert Speer, a cujo cargo se achava a produção de armamentos, elaborou um
memorando dirigido a Hitler em 30 de janeiro — dia do décimo aniversário da
ascensão de Hitler ao poder —, assinalando a importância da perda da Silésia. “A
guerra está perdida”, começava, prosseguindo em sua maneira fria e objetiva de
explicar as razões. As minas da Silésia, desde os intensos bombardeios do Ruhr,
supriam 60% do carvão de que necessitava a Alemanha; havia agora carvão para
abastecer as estradas de ferro, oficinas de força e fábricas alemãs durante apenas
duas semanas; dali por diante, agora que se perdera a Silésia, declarou ele, poderia
fornecer apenas uma quarta parte do carvão e uma sexta parte do aço que a Ale
manha estivera produzindo em 1944.14Isso vaticinava o desastre para 1945.
Guderian contou mais tarde que o Führer passou uma vista de olhos pelo rela
tório de Speer, leu a primeira frase e, depois, ordenou que arquivassem no cofre.
Recusou-se a receber Speer a sós, dizendo a Guderian:
“(...)Recuso-me a receber qualquer pessoa a sós, daqui por diante (...)
(Ele) tem sempre alguma coisa desagradável para dizer-me. É coisa que
não posso tolerar.”15
Na tarde de 27 de janeiro, dia em que as tropas de Zhukov atravessaram o
Oder a 160 quilômetros de Berlim, houve interessante reação no quartel-general
de Hitler, agora transferido para a chancelaria, em Berlim, e onde o Führer perma
neceria até o fim da guerra. No dia 25, Guderian, desesperado, visitara Ribbentrop
e aconselhara-o a tentar obter imediatamente um armistício no Ocidente, a fim de
que se pudesse concentrar no leste, contra os russos, o que restava dos exércitos
64O A QUEDA DO TERCEIRO REICH
alemães. O ministro das Relações Exteriores apressara-se a revelar o fato ao
Führer que, nessa noite, exprobou o chefe de seu Estado-maior e o acusou de
cometer “alta traição”. Duas noites depois, porém, sob o impacto do desastre no
leste, Hitler, Gõring e Jodl achavam-se em tal estado que julgaram não ser neces
sário solicitar um armistício aos ocidentais. Estavam seguros de que os Aliados
ocidentais viriam correndo para eles, temendo as conseqüências da vitória dos
bolcheviques. Um trecho da conferência do Führer, em 27 de janeiro, revela par
te da cena:
Hitler: Os senhores acham que os ingleses estejam entusiasmados com
o desenvolvimento das operações dos russos?
Gõring: Certamente eles não contam com o fato de os mantermos a
distância enquanto os russos conquistam toda a Alemanha (...) Não
contam com nossa (...) resistência desesperada a eles, enquanto os rus
sos se vão aprofundando cada vez mais na Alemanha e a tenham, agora,
praticamente em seu poder (...)
Jodl: Eles sempre nutriram desconfianças pelos russos.
Gõring. Se isso continuar, dentro de poucos dias receberemos [dos in
gleses] um telegrama.16
Foi com esse frágil fio que os líderes do Terceiro Reich começaram a tecer suas
esperanças. No fim, esses arquitetos do pacto nazi-soviético, contra o Ocidente,
chegariam a um ponto em que não poderiam compreender por que os ingleses e
americanos não se uniriam a eles para repelir os invasores russos.
Colapso dos exércitos alemães
Chegou rapidamente, na primavera de 1945, o fim do Teiceiro Reich.
A agonia começou em março. Em fevereiro, com grande parte do Ruhr em
ruínas e perdida a Silésia superior, a produção de carvão caiu a um quinto do que
havia sido no ano anterior, e muito pouco dela podia ser removida por causa do
deslocamento dos transportes ferroviários e fluviais decorrentes dos bombardeios
dos anglo-americanos. A falta de carvão começou a dominar as conferências de
A CONQUISTA DA ALEMANHA 64 1
Hitler. Dõnitz queixava-se de que muitos de seus navios tinham de ficar inativos
devido à falta de combustível, e Speer explicava, pacientemente, que as oficinas de
força e as fábricas de armamentos se encontravam em idêntica situação pelas
mesmas razões. A perda dos campos petrolíferos da Romênia e da Hungria e o
bombardeio das fábricas de óleo sintético na Alemanha causaram tão aguda falta
de gasolina que boa parte dos aviões, tão desesperadamente necessários, tinha de
ficar imobilizada e foi destruída nos campos pelos Aliados, em seus ataques aé
reos. Muitas divisões panzer não puderam movimentar-se por falta de combustí
vel para seus tanques.
A esperança nas prometidas “armas maravilhosas” — que durante certo tempo
sustentaram a fé da massa popular e dos soldados e, também, de generais teimo
sos como Guderian — foram finalmente abandonadas. Perderam-se quase total
mente os sítios de lançamento das bombas V-l e dos foguetes V-2, que se dirigiam
contra a Inglaterra, quando as forças de Eisenhower reconquistaram as costas
francesas e belgas, se bem que uns poucos ficaram ainda na Holanda. Quase oito
mil dessas bombas V-l foram arremessadas contra Antuérpia e outros alvos mili
tares, depois que os exércitos ingleses e americanos atingiram a fronteira alemã,
mas os danos causados foram insignificantes.
Hitler e Gõring contavam com os novos caças a jato para expulsar dos ares as
forças aéreas aliadas. Bem que poderiam fazê-lo — pois os alemães conseguiram
produzir mais de mil aparelhos —, não tivessem os aviadores anglo-americanos,
aos quais faltavam aparelhos como esses, contra-atacado com êxito. O caça con
vencional aliado não podia competir, no ar, com o jato alemão; poucos deles,
porém, chegaram a decolar. As refinarias que produziam o combustível especial
para eles foram bombardeadas e destruídas; e as pistas extensas que tinham que
ser construídas foram facilmente descobertas, pelos pilotos Aliados, sendo os ja
tos destruídos no solo.
O grande almirante Dõnitz havia prometido ao Führer que os novos submari
nos elétricos operariam milagres no mar, provocando, mais uma vez, a devastação
das linhas vitais anglo-americanas no Atlântico Norte. Em meados de fevereiro de
1945, contudo, somente dois dos 126 novos submarinos encomendados foram
postos ao mar.
Quanto ao projeto da bomba atômica alemã — que tanta preocupação ha
via causado a Londres e Washington —, pouco progresso fizera devido à falta de
642 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
interesse de Hitler por ele e à prática de Himmler de prender cientistas por sus
peitas de deslealdade ou de desviá-los de seu trabalho, para cuidar de algumas de
suas tolas experiências “científicas” que julgava mais importantes. Antes do fim de
1944, os governos americano e inglês souberam, para grande alívio seu, que os
alemães não teriam bombas atômicas nessa guerra*
Em 8 de fevereiro, os exércitos de Eisenhower, já então contando com 85 divi
sões, começaram a circundar o Reno. Esperavam eles que os alemães somente
travariam uma luta de ação protelatória e, conservando seu poderio, se retirariam
para trás da formidável barreira de água do largo e rápido rio. Rundstedt aconse
lharia isso. Mas nesse ponto, como em muitos durante os anos de suas derrotas,
Hitler não quis ouvir falar em retirada. Declarou a Rundstedt que isso significa
ria apenas “mudar a catástrofe de um lugar para outro”. Por insistência dele, os
exércitos lutaram e resistiram, mas não por muito tempo. No fim daquele mês
os ingleses e americanos haviam alcançado o Reno em vários pontos ao norte de
Düsseldorf e, 15 dias depois, apoderaram-se firmemente da margem esquerda
do rio Mosa ao norte. Os alemães perderam mais de 350 mil homens entre mor
tos, feridos e capturados (foi de 293 mil o número de prisioneiros), e a maior
parte de suas armas e equipamentos.
Hitler enfureceu-se. Demitiu Rundstedt pela última vez, em 10 de março,
substituindo-o pelo marechal-de-campo Kesselring, que havia resistido obstina
da e longamente na Itália. Já em fevereiro, o Führer, num acesso de cólera, pensa
ra na denúncia da Convenção de Genebra a fim de “fazer o inimigo compreender
que estamos decididos a lutar, pela nossa existência, com todos os meios a nosso
alcance”, disse numa conferência do dia 19. Tinha sido aconselhado a dar esse
passo pelo dr. Goebbels, o não-combatente sanguinário, que sugeriu a captura e o
fuzilamento sumário de todo aviador, em represália ao terrível bombardeio das
cidades alemãs. Quando alguns dos oficiais presentes levantaram objeções de or
dem legal, Hitler replicou furiosamente:
Pros diabos com isso! (...) Se eu digo claramente que não tenham
consideração pelos prisioneiros, e que trato os prisioneiros inimigos
* A maneira pela qual souberam constitui uma fascinante história, demasiado longa para ser contada
neste livro. O professor Samuel Goudsmit narrou-a em seu livro Alsos. "Alsos"era o nome, em código,
da missão científica americana que ele dirigia e que acompanhou os exércitos de Eisenhower na Euro
pa Ocidental.
A CONQUISTA DA ALEMANHA 643
sem consideração alguma pelos seus direitos e independentemente
de represálias, alguns [alemães] haverão de pensar duas vezes antes de
desertar.17
Foi uma das primeiras indicações, a seus prosélitos, de que Hitler, como con
quistador do mundo que falhara em sua missão, estava decidido a cair, como
Wotan em Valhalla, num holocausto de sangue não só do inimigo mas, tam
bém, de seu próprio povo. Ao término da discussão, pediu ele ao almirante
Dõnitz que considerasse “os prós e os contras dessa medida e o informasse o
mais breve possível”.
Dõnitz voltou com a resposta no dia seguinte. Foi típica desse homem.
As desvantagens sobrepujariam as vantagens (...) Seria, em todo o caso,
preferível manter as aparências, executando-se as medidas julgadas ne
cessárias sem anunciá-las antecipadamente.18
Hitler concordou com relutância, e embora, conforme vimos,* não tivesse
havido massacre geral dos aviadores capturados ou de outros prisioneiros de
guerra (exceto os russos), vários foram mortos, e a população foi incitada a lin
char os tripulantes de aviões Aliados que saltassem de pára-quedas. Mesny, um
general francês prisioneiro, foi deliberadamente assassinado por ordem de Hi
tler. Muitos prisioneiros de guerra Aliados pereceram quando forçados a em
preender longas marchas sem alimento e sem água, pelas estradas metralhadas
por aviadores ingleses, americanos e russos. Nessa ocasião, os alemães condu
ziam-nos para o interior do país para impedir que fossem libertados pelos exér
citos Aliados no seu avanço.
Não era sem fundamento o interesse de Hitler em fazer os soldados alemães
“pensarem duas vezes antes de desertar”. No Ocidente, o número de desertores,
ou, pelo menos, daqueles que se entregaram o mais depressa possível as forças
aliadas que avançavam, foi surpreendente. Em 12 de fevereiro, Keitel expediu uma
ordem “em nome do Führer” declarando: todo soldado “que, por meios ardilosos,
obtiver permissão para gozo de licença, ou viajar com documentos falsos (...) será
punido com a morte”. E em 5 de março o general Blaskowitz, que comandava o
grupo H dos exércitos do Ocidente, expediu esta ordem:
* Ver capítulo "A Nova Ordem" neste livro.
644 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Todo soldado (...) encontrado distante de sua unidade (...) e que de
clarar estar extraviado e à procura dela, será sumariamente julgado e
fuzilado.
Himmler, em 12 de abril, contribuiu também com sua parte decretando: qual
quer comandante que deixe de defender e manter uma cidade ou um centro de
comunicações importante 4está sujeito à pena de morte”. Essa ordem já estava sen
do executada no caso de alguns infelizes comandantes, numa das pontes do Reno.
Nas primeiras horas da tarde de 7 de março, uma ponta-de-lança da 9âDivisão
blindada norte-americana chegou às elevações próximas da cidade de Remagen,
distante de Koblenz, quarenta quilômetros abaixo do Reno. Para grande surpresa
das tripulações dos tanques americanos, viram elas que a ponte ferroviária de
Ludendorff, que atravessava o rio, ainda estava intacta. Desceram as encostas até
a margem. Os engenheiros cortaram imediatamente todos os fios que encontra
ram e que se destinavam a provocar a demolição da ponte. Um pelotão de infan
taria atravessou-a correndo. Ao aproximar-se da margem direita explodiu uma
carga e, em seguida, outra. A ponte estremeceu, mantendo-se, porém, firme. In
significantes forças alemãs, na margem distante, foram rapidamente rechaçadas.
Os tanques por sua vez fizeram a travessia. Ao escurecer, já os americanos manti
nham uma sólida cabeça-de-ponte na margem direita do Reno. Havia sido ultra
passada a última grande barreira natural da Alemanha Ocidental.*
Poucos dias depois, na noite de 22 de março, o 3S Exército, de Patton, após
invadir o triângulo Sarre-Palatinado numa brilhante operação executada em
combinação com o 7- Exército norte-americano e o lfi Exército francês, fez outra
travessia do Reno em Oppenheim, ao sul de Mainz. Em 25 de março os exércitos
anglo-americanos achavam-se de posse de toda a margem ocidental do rio e em
dois lugares da outra, onde estabeleceram sólidas cabeças-de-ponte. Hitler havia
perdido, em sete semanas, mais de um terço de suas forças no Ocidente e a maior
parte das armas para meio milhão de homens.
Às 2:30h de 24 de março ele realizou uma conferência de guerra em seu quar
tel-general, em Berlim, para determinar o que devia ser feito.
* Hitler mandou executar oito oficiais alemães que comandavam as forças na ponte de Ramagen. Fo
ram julgados por um Tribunal Especial Volante, Oeste, criado pelo Führer e presidido por um fanático
general nazista de nome Hübner.
A CONQUISTA DA ALEMANHA 645
Hitler: Considero a segunda cabeça-de-ponte, em Oppenheim, o maior
perigo.
Hewel [representante do Ministério das Relações Exteriores]: O Reno
não é tão largo, ali.
Hitler: É bem uns 250 metros. Basta um homem dormir na barreira de
um rio para acontecer alguma horrível desgraça.
O comandante supremo desejou saber se havia “uma brigada, ou unidade se
melhante, que se pudesse enviar para lá”. Um ajudante-de-ordens respondeu:
Não há, presentemente, uma unidade disponível que possa ser enviada
a Oppenheim. Há apenas cinco tank destroyers no acampamento de
Senne, que ficarão prontos hoje ou amanhã. Poderiam ser lançados nos
próximos dias (...)19
Nos próximos dias! Naquele mesmo momento Patton estabelecia uma cabeça-
de-ponte em Oppenheim, com 11 quilômetros de largura por 9,6 de profundi
dade, e seus tanques avançavam para leste, rumo a Frankfurt. Pode-se, assim,
avaliar a situação desagradável do outrora poderoso exército alemão, cujos van
gloriados corpos de tanques haviam, céleres, atravessado a Europa nos primeiros
anos, ao verificar que, naquele momento de crise, o comandante supremo pensa
va lançar mão de cinco tank destroyers defeituosos — e que só podiam ser “lança
dos na batalha nos próximos dias”, com o propósito de deter o avanço de um po
deroso exército blindado inimigo/
* A transcrição dessa conferência do Führer, de 23 de março, é a última que se salvou das chamas, mais
ou menos intacta. Dá uma boa mostra do desvairado estado de espírito do Führer, e de sua obsessão
por detalhes triviais na ocasião em que suas forças desmoronavam. Durante quase uma hora ele discu
tiu a proposta de Goebbels para que se utilizasse, como pista de aviões, a larga avenida que corta o
Tiergarten, em Berlim. Fez uma preleção sobre a fraqueza do concreto alemão em face dos bombar
deios. Grande parte da conferência girou em torno de tropas que se pudesse arranjar. Um general le
vantou a questão da Legião Indiana.
Hitler. A Legião Indiana não passa de um gracejo. Há indianos que não sabem matar um piolho e que
preferem deixar-se devorar. Não matariam ingleses, tampouco. Considero uma tolice colocá-los na luta
contra os ingleses. Se empregássemos os indianos para movimentarem moinhos, ou coisa semelhante,
eles seriam os mais infatigáveis soldados deste mundo (...)
E assim continuaram a discutir noite adentro. A conferência terminou às 3:43h.
646 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Com os americanos no lado oposto do Reno, na terceira semana de março, e
um poderoso exército formado por forças britânicas, canadenses e americanas,
sob o comando de Montgomery, pronto para atravessar o Reno inferior e lançar-
se pela planície norte da Alemanha e pelo Ruhr — o que foi feito a partir da noite
de 23 de março —, a vingança de Hitler, provocada pela invasão, voltou-se contra
seu próprio povo, que o havia sustentado durante as maiores vitórias de que há
registro na história da Alemanha. Agora, naquele inferno de derrotas, Hitler não
mais considerava o povo digno de sua grandeza.
“Se o povo alemão vier a ser derrotado nesta luta”, declarou aos Gauleiters num
discurso, em agosto de 1944, “deve ter ficado demasiado fraco; terá deixado de
provar seu valor perante a história e estará, apenas, destinado a ser destruído”.20
Ele, o Führer , estava se tornando, fisicamente, uma ruína; e isso contribuía para
envenenar-lhe a compreensão. A tensão pelo fato de conduzir a guerra, o choque
resultante das derrotas, a vida nada saudável, sem ar fresco e sem exercício, nos
abrigos subterrâneos do quartel-general, de onde raramente saía, as explosões de
cólera cada vez mais freqüentes e, mais ainda, as drogas prejudiciais à saúde que
tomava diariamente a conselho do dr. Morell, seu médico charlatão, haviam-lhe
minado o organismo antes mesmo do atentado de 20 de julho de 1944. A explosão
da bomba, nesse dia, rompeu-lhe os tímpanos de ambos os ouvidos, fato que con
tribuiu para suas crises de tontura. Após o atentado, seus médicos o aconselharam
a tirar umas férias prolongadas. Ele recusou-se: “Se eu deixar a Prússia Oriental”,
declarou a Keitel, “ela cairá. Enquanto eu ficar aqui, ela resistirá”.
Em setembro de 1944 sofreu um distúrbio e teve de recolher-se ao leito; resta
beleceu-se em novembro, quando regressou a Berlim. Mas já não dominava os
nervos. À medida que as notícias das frentes de batalha se iam tornando cada vez
piores, em 1945, ia-se agravando sua furia. Era geralmente acompanhada de uma
tremedeira, que ele não podia controlar, das mãos e dos pés. O general Guderian
descreveu-o em vários desses momentos. No fim de janeiro, quando os russos
alcançaram o Oder, a apenas 160 quilômetros de Berlim, e o chefe do Estado-
maior geral começou a exigir a evacuação, por mar, de várias divisões alemãs que
ficaram isoladas na área do Báltico, Hitler voltou-se contra ele.
Postou-se diante de mim sacudindo os punhos, e o meu bom chefe do
Estado-maior, Thomale, viu-se obrigado a segurar-me pela aba do
A CONQUISTA DA ALEMANHA 647
dólmã e puxar-me para trás, receoso que ficara de que eu pudesse ser
vítima de um ataque físico.
Dias depois, em 13 de fevereiro de 1945, os dois discutiram novamente por
causa da situação na Rússia, discussão que, no dizer de Guderian, durou duas
horas.
Os punhos levantados, o rosto em brasa, o corpo todo tremendo, o ho
mem se pusera à minha frente, fora de si, furioso e completamente des
controlado. Após cada explosão, Hitler caminhava de um lado para
outro, na beirada do tapete; detinha-se depois subitamente diante de
mim e lançava-me em rosto suas acusações. Quase gritava. Os olhos
pareciam saltar-lhe das órbitas, e as veias, nas têmporas, davam a im
pressão de que iam estourar.21
Foi nesse estado de espírito e de saúde que o Führer dos alemães tomou uma
das últimas e momentosas decisões de sua vida. Em 19 de março expediu uma or
dem geral: todas as instalações militares e industriais, e as destinadas aos trans
portes e comunicações, bem como todos os armazéns da Alemanha, deviam ser
destruídos a fim de impedir que caíssem nas mãos do inimigo. Tal medida devia
ser executada pelos militares com o auxílio dos Gauleiters nazistas e dos “comis
sários da defesa”. “Todas as diretivas contrárias a esta ficam sem efeito”, concluía
a ordem.22
A Alemanha devia ser transformada num vasto deserto. Nada se devia deixar
para que o povo alemão pudesse, de um modo ou outro, sobreviver à derrota.
Albert Speer, o franco ministro para os Armamentos e Produção de Guerra,
havia se antecipado a essa bárbara ordem após conferências anteriores com o
Führer e, em 15 de março, preparava um memorando em que se opunha forte
mente a essa medida criminosa e reiterava sua opinião de que a guerra já estava
perdida. Apresentou-o pessoalmente ao Führer na noite de 18 de março.
Dentro de quatro ou oito semanas [escreveu Speer] é de esperar, com
certeza, o colapso final da economia alemã (...) Após esse colapso, não se
poderá continuar a guerra nem mesmo militarmente (...) Tudo devemos
648 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
fazer para manter, mesmo que seja apenas de maneira primitiva, uma
base para a existência da nação até o fim (...) Não temos o direito, nesta
fase da guerra, de levar a efeito demolições que possam afetar a vida do
povo. Se nossos inimigos desejarem destruir esta nação, que tem bata
lhado com singular bravura, essa vergonha da história caberá exclusi
vamente a eles. Temos o dever de deixar à nação todos os meios possí
veis de assegurar-lhe a reconstrução em futuro distante (...)23
Hitler, porém, com a própria sorte já selada, não estava interessado na conti
nuação da existência do povo alemão, pelo qual sempre manifestara tão ilimitado
amor. Declarou a Speer:
Se perdermos a guerra, a nação perecerá também. É inevitável esse des
tino. Não há necessidade de levar em consideração as bases de que o
povo alemão terá necessidade para continuar uma existência muito pri
mitiva. Ao contrário, será preferível destruirmos nós mesmos essas coi
sas, porque esta nação terá demonstrado ser a mais fraca; o futuro per
tencerá à nação oriental mais forte [a Rússia]. Além disso, só elementos
inferiores restarão nesta batalha, pois os superiores já estarão mortos.
Com isso, o comandante supremo promulgou a infame diretiva da “terra de
vastada”, no dia seguinte. Seguiu-se, em 23 de março, outra ordem igualmente
monstruosa de Martin Bormann, secretário de Hitler, o homem com feição de
toupeira que havia agora alcançado a posição mais destacada entre os sátrapas
de Hitler. Speer descreveu-o perante o tribunal de Nuremberg:
O decreto de Bormann visava transferir a população para o centro do
Reich, tanto do leste como do oeste; abrangia também os operários es
trangeiros e os prisioneiros de guerra. Esses milhões de pessoas deviam
fazer a jornada a pé. Não se tomaram disposições para prover sua sub
sistência, nem podiam ser executadas, em vista da situação. Isso teria
resultado em uma catástrofe fantástica provocada pela fome.
E, tivessem todas as outras ordens de Hitler e Bormann — houve um número
suplementar de diretivas — sido executadas, milhões de alemães que, até então,
A CONQUISTA DA ALEMANHA 649
haviam conseguido escapar com vida, teriam perecido. Speer fez, para o tribunal
de Nuremberg, um resumo das várias ordens de “terra devastada”: a destruição
abrangia (...)
(...) todas as fábricas, todas as instalações elétricas importantes, usinas
hidráulicas, usinas de gás, depósitos e lojas de roupas; todas as pontes,
todas as instalações ferroviárias e comunicações, todos os canais, bar
cos, vagões de carga e locomotivas.
O ter-se poupado o povo alemão dessa catástrofe final deveu-se — afora o rá
pido avanço das tropas aliadas que tornou impossível a execução de tão gigantes
cas demolições — aos esforços sobre-humanos de Speer e de certos oficiais que,
desobedecendo francamente (até que enfim!) às ordens de Hitler, percorreram o
país para certificar-se de que as comunicações vitais, as fábricas e os depósitos não
seriam destruídos por oficiais zelosos e obedientes e por assalariados do partido.
Aproximava-se o fim do exército alemão.
Enquanto os exércitos britânicos e canadenses, do marechal Montgomery, in
vestiam para o nordeste — rumo a Bremen, Hamburgo e o Báltico, em Lübeck
— após cruzarem o Reno Inferior na última semana de março, o 9 2e o l 2 Exércitos
norte-americanos, sob o comando, respectivamente, dos generais Simpson e
Hodges, avançavam rapidamente pelo Ruhr — o 92 no seu perímetro norte e o l 2
no sul. Fizeram junção em Lippstadt no dia l2 de abril. O grupo B de exércitos, do
marechal-de-campo Model, que era formado pelos 152 e 52 Exércitos panzer —
cerca de 21 divisões — foi envolvido nas ruínas da maior área industrial da Ale
manha. Resistiu durante 18 dias, rendendo-se em 18 de abril. Mas 325 mil ale
mães, inclusive trinta generais, foram capturados. Model, entretanto, não figurava
entre eles. Preferiu suicidar-se a tornar-se prisioneiro.
O envolvimento dos exércitos de Model, no Ruhr, rompeu em grande exten
são a frente alemã no Ocidente, deixando uma brecha de 320 quilômetros de lar
gura por onde os 92 e l2 Exércitos norte-americanos, já então desnecessários à
dominação do Ruhr, investiram para o rio Elba, no coração da Alemanha. A es
trada para Berlim estava aberta, pois entre esses dois exércitos norte-americanos
e a capital alemã havia apenas algumas divisões dispersas e desorganizadas. Na
noite de 11 de abril, após avançar cerca de 96 quilômetros desde o alvorecer, uma
65O A QUEDA DO TERCEIRO REICH
ponta-de-lança do 9- Exército norte-americano atingiu o rio Elba, próximo a
Magdeburgo, e, no dia seguinte, lançou uma cabeça-de-ponte sobre ele. Os ame
ricanos, agora, achavam-se a apenas 96 quilômetros de Berlim.
O objetivo de Eisenhower era dividir a Alemanha em duas partes, fazendo jun
ção com os russos no Elba, entre Magdeburgo e Dresden. Embora fosse acerba-
mente criticado por Churchill e pelos chefes militares ingleses por não se anteci
par aos russos, no avanço contra Berlim — o que ele poderia ter feito facilmente
—, Eisenhower e seu Estado-maior, na Shaef, ficaram, naquela ocasião, obcecados
pela urgência em rumar para sudeste depois da junção com os russos, a fim de
conquistar o então chamado Reduto Nacional, onde se acreditava que Hitler esti
vesse reunindo suas forças remanescentes com o propósito de organizar uma úl
tima resistência nas quase impenetráveis regiões alpinas do sul da Baviera e do
oeste da Áustria.
O Reduto Nacional era uma fantasia. Jamais existira salvo na infernal propa
ganda do dr. Goebbels e no espírito cauteloso dos elementos do quartel-general
de Eisenhower que se deixaram enganar por ela. Já em 11 de março, o serviço de
informações da Shaef havia prevenido Eisenhower de que os nazistas projetavam
construir uma fortaleza inexpugnável nas montanhas e que o próprio Hitler iria
comandar a defesa de seu abrigo em Berchtesgaden. Dizia-se que aqueles penhas
cos de gelo, das montanhas, eram “praticamente impenetráveis”.
Ali [continuava a informação], defendida pela natureza e pelas armas
secretas mais eficientes até então inventadas, as forças que até agora
têm dirigido a Alemanha sobreviverão para organizar sua ressurreição;
ali serão manufaturados armamentos em fábricas à prova de bombas;
mantimentos e equipamentos serão armazenados em vastas cavernas
subterrâneas, e um corpo de jovens soldados, especialmente seleciona
dos, será treinado para levar a efeito guerrilhas, de modo a permitir que
todo um exército subterrâneo seja equipado e dirigido para libertar a
Alemanha das forças de ocupação.24
Parecia, quase, que o serviço de informações do supremo comando dos Alia
dos sofrerá a infiltração de escritores britânicos e americanos especialistas em ro
mances de mistérios. Seja como for, essa fantástica apreciação foi levada a sério
A CONQUISTA DA ALEMANHA 65 1
na Shaef, onde o general Bedell Smith, chefe do Estado-maior de Eisenhower,
ruminava a terrível possibilidade “de uma prolongada campanha na área alpina”,
capaz de cobrar pesado tributo de vidas americanas e protelar indefinidamente
a guerra.*
Foi a última vez que o engenhoso dr. Goebbels conseguiu, por meio de um
blefe de propaganda, exercer influência sobre o curso estratégico da guerra. Adolf
Hitler, na verdade, pretendera a princípio retirar-se para as montanhas austro-
bávaras, próximo às quais havia nascido e onde havia passado a maior parte das
horas de sua vida particular, local que amava e onde tinha a única morada que
podia chamar sua — no Obersalzberg, acima de Berchtesgaden. Hesitara, porém,
em organizar ali sua última resistência, e agora era tarde demais para isso.
Em 16 de abril, dia em que as tropas americanas atingiram Nuremberg — a
cidade dos grandes comícios do Partido Nazista —, os exércitos russos, de Zhukov,
irromperam de suas cabeças-de-ponte, no Oder, e na tarde de 21 de abril alcança
ram as vizinhanças de Berlim. Viena já havia caído em 13 de abril. Às 16:40h de
25 de abril, patrulhas da 69- Divisão de infantaria norte-americana encontraram
elementos da 58â Divisão de guardas, dos russos, em Torgau, no Elba, a, aproxi
madamente, 75 milhas ao sul de Berlim. O norte e o sul da Alemanha ficaram
então divididos, e Adolf Hitler ficou isolado em Berlim. Os últimos dias do Ter
ceiro Reich haviam chegado.
* "Somente depois de terminada a campanha" escreveu mais tarde o general Omar Bradley, "viemos a
saber que esse reduto existia, em grande parte, apenas na imaginação de alguns nazistas fanáticos.
Transformou-se num esquema tão exagerado que me admira pudéssemos ter acreditado nisso tão in
genuamente. Enquanto persistiu essa lenda do reduto, contudo, ela constituiu uma ameaça demasia
do terrível para que a pudéssemos desprezar, tendo ela, por conseguinte, dado nova feição a nossas
idéias táticas durante as últimas semanas da guerra". (Bradley, A Soldier's Story, p. 536).
"Muita coisa foi escrita sobre a fortaleza alpina", comentou perversamente o marechal-de-campo
Kesselring, depois da guerra, "em sua maioria tolices". (Kesselring, A Soldier's Record, p. 276)
CAPÍTULO 2
Gõtterdàmmerung:
Os últimos dias do Terceiro Reich
Hitler projetara deixar Berlim em 20 de abril, dia de seu 56^ aniversário, e
partir para Obersalzberg, ali dirigindo a última resistência do Terceiro Reich na
lendária fortaleza da montanha de Barbarossa. A maioria dos ministérios já havia
sido transferida para o sul, com seus caminhões cheios de documentos de Estado
e de frenéticos funcionários desesperados por saírem da condenada Berlim. O
próprio Führer mandou a maior parte dos membros de sua casa a Berchlesgaden
dez dias antes, para prepararem sua vila na montanha, em Berghof, a fim de ali
se instalar.
Não estava, entretanto, destinado a rever seu amado retiro nos Alpes. O fim
aproximava-se mais depressa do que julgara possível. Os norte-americanos e rus
sos avançavam celeremente e iam fazer junção no Elba. Os ingleses achavam-se às
portas de Hamburgo e Bremen, ameaçando isolar a Alemanha da Dinamarca,
então ocupada. Na Itália, Bolonha caíra e as forças aliadas, sob o comando do
general Alexander, mergulhavam no vale do Pó. Os russos, tendo conquistado
Viena em 13 de abril, avançavam Danúbio acima, e o 3e Exército norte-americano
descia o rio a fim de encontrá-los na terra natal de Hitler, Linz, na Áustria. Nu
remberg, onde o trabalho prosseguira durante toda a guerra no grande auditório
e nos estádios — os quais deviam assinalar a antiga cidade como capital do Parti
do Nazista —, estava cercada, e parte do 7- Exército norte-americano já a deixava
rumo a Munique, o berço do movimento nazista em Berlim, onde podia ouvir-se
o troar da artilharia pesada russa.
“Durante toda a semana”, anotou em seu diário o conde Schwerin von Krosigk,
o pueril ministro das Finanças e antigo erudito de Rhodes que fugira de Berlim,
para o norte, à primeira notícia de que os bolcheviques estavam se aproximando,
“nada mais houve que uma série de mensagens aflitivas. Ao que parece, nosso
povo vê-se face ao mais negro destino”.1
GÕTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 653
Hitler deixou seu quartel-general de Rastenburg, na Prússia Oriental, pela úl
tima vez, em 20 de novembro, quando os russos se aproximavam, e permaneceu
em Berlim, que ele vira poucas vezes desde o início da batalha no leste, até 10 de
dezembro, ocasião em que se dirigiu a seu quartel-general de Ziegenberg, próxi
mo a Bad Nauheim, a fim de comandar sua grande cartada nas Ardenas. Depois
do fracasso, voltou em 16 de janeiro a Berlim, onde permaneceria até o fim, diri
gindo os exércitos destroçados de seu abrigo subterrâneo a 15 metros sob o solo
da chancelaria, cujas grandes salas de mármore estavam agora em ruínas em con
seqüência dos bombardeios dos Aliados.
Agravava-se rapidamente seu estado físico. Um jovem capitão do exército, que
o viu pela primeira vez em fevereiro, lembrou-se depois de sua figura:
Sua cabeça oscilava levemente. Seu braço esquerdo pendia frouxamente
e a mão tremia bastante. Havia um brilho indescritível em seus olhos
trêmulos, o que criava um efeito espantoso e completamente fora do na
tural. O rosto e as regiões circundantes dos olhos davam a impressão de
total exaustão. Todos os seus movimentos eram de um homem senil.2
Desde o atentado de 20 de julho contra sua vida, tornara-se desconfiado de
todos, até mesmo dos antigos baluartes de seu partido. “Mentem-me de todos os
lados”, esbravejou, em Munique, a uma de suas secretárias.
Não posso confiar em ninguém. Todos me traem. Tudo isso me enoja
(...) Se me acontecer alguma coisa, a Alemanha ficará sem um líder.
Não tenho sucessor. Hess é um louco, Gõring perdeu a simpatia do
povo e Himmler seria rejeitado pelo partido (...) ele [Himmler], além
do mais, é tão destituído de gosto artístico (...) Dê tratos à bola e diga-
me quem deveria ser meu sucessor (...)3
Pensar-se-á que, nessa fase da história, a questão relativa à sucessão era acadê
mica. Não era, porém, naquela terra de nazistas malucos. Não era somente o
Führer quem se achava obcecado pela idéia, mas também os principais candida
tos, conforme veremos em pouco.
Embora Hitler fosse uma ruína física, com um fim desastroso à frente, ao
aproximarem-se os russos de Berlim e ao invadirem os Aliados ocidentais o
654 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Reich, ele e alguns de seus mais fanáticos adeptos, Goebbels principalmente, ape-
gavam-se obstinadamente à esperança de serem salvos, no último momento, por
um milagre.
Numa bela noite, no princípio de abril, Goebbels ficara de vigília, lendo para
Hitler um de seus livros favoritos: História de Frederico, o Grande, de Carlyle. O
capítulo que estava lendo narrava os dias mais negros da Guerra dos Sete Anos,
quando o grande rei se sentiu desesperado e declarou aos ministros que, se até 15
de fevereiro não houvesse uma mudança para melhor em sua sorte, renunciaria e
se envenenaria. Essa parte da história era certamente apropriada e indiscutivel
mente Goebbels a lera da maneira mais dramática.
“Bravo rei! [prosseguiu Goebbels na leitura] Aguardai ainda um pouco
de tempo mais, e estarão terminados os dias de vosso sofrimento. Já o
sol de vossa boa fortuna se encontra por trás das nuvens e se levantará
para vós.” Em 2 de fevereiro morria a czarina, e, então, aconteceu o
milagre da Casa de Brandenburgo.
Os olhos do Führer , contou Goebbels a Krosigk, a cujo diário devemos essa
tocante cena, “encheram-se de lágrimas”.4
Com tal estímulo, e de origem britânica, mandaram vir dois mapas astrais con
servados nos arquivos de um dos inúmeros escritórios de “pesquisas” de Himmler.
Um do Führer, tirado em 30 de janeiro de 1933, dia em que assumiu o poder; o
outro, da República de Weimar, composto em 9 de novembro de 1918, dia do
nascimento da república, por algum astrólogo desconhecido. Goebbels comuni
cou a Krosigk o resultado do novo exame feito nesses dois notáveis documentos:
Evidenciou-se um fato extraordinário: ambos os mapas astrais predi
ziam o irrompimento da guerra em 1939, as vitórias até 1941 e a subse
qüente série de reveses, os golpes mais duros, durante os primeiros
meses de 1945. Especialmente na primeira quinzena desse mês, experi
mentaríamos um êxito temporário. Seguir-se-ia uma estagnação até
agosto, sobrevindo a paz nesse mesmo mês. Durante os três anos se
guintes, a Alemanha passaria por tempos difíceis, mas se ergueria no
vamente a partir de 1948.5
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 655
Fortalecido por Carlyle e as extraordinárias predições dos astros, Goebbels
expediu, em 6 abril, um vibrante apelo às tropas em retirada:
Declarou o Führer que se dará uma mudança na sorte ainda neste ano (...)
A verdadeira qualidade do gênio é a percepção e o conhecimento seguro
de uma mudança próxima. O Führer sabe a hora exata em que ela se dará.
O destino enviou-nos esse homem a fim de que nós, neste momento de
grande tensão externa e interna, testemunhemos esse milagre (...)6
Uma semana depois, na noite de 12 de abril, Goebbels se convenceu de que
havia chegado a “hora exata” do milagre. Fora mais um dia de más notícias. Os
americanos surgiram na grande rodovia Dessau-Berlim (e o Alto-Comando apres
sara-se a ordenar a destruição das duas últimas fábricas de pólvora remanescen
tes), nas proximidades. Dali por diante, os soldados alemães deviam contar ape
nas com a munição existente. Goebbels passara o dia no quartel-general do
general Busse na frente do Oder, em Küstrin. O general assegura-lhe ser impossí
vel uma investida dos russos, contra os quais — conforme Goebbels contou no
dia seguinte a Krosigk — estava “resistindo até que os britânicos nos chutem”.
À noite [contou Goebbels] achavam-se reunidos no quartel-general e
ele desenvolveu sua tese de que, segundo a lógica dos fatos históricos
e da justiça, as coisas deviam mudar da mesma maneira que, na Guerra
dos Sete Anos, verificou-se o milagre da Casa de Brandenburgo.
“Qual a czarina que morrerá desta vez?”, perguntou um oficial.
Goebbels não soube dizer; mas respondeu: o destino “tem em suas mãos toda
sorte de possibilidades”.
Quando o ministro da Propaganda voltou a Berlim, tarde daquela noite, o
centro da capital estava em chamas em conseqüência de outro bombardeio da
Real Força Aérea. O que restava da chancelaria e do Adlon Hotel, na Wilhelms-
trasse, estava sendo devorado pelo fogo. Nos degraus do Ministério da Propagan
da, um secretário saudou Goebbels com uma notícia urgente: “Roosevelt mor
reu!”, disse.
O rosto do ministro iluminou-se, visível a todos à luz das chamas que subiam
da chancelaria, do outro lado da Wilhelmstrasse.
656 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
“Tragam-me nossa melhor champanha!” exclamou. “E liguem-me com o
Führerl”
Hitler encontrava-se em seu abrigo subterrâneo, numa das extremidades,
aguardando o fim do bombardeio. Atendeu ao telefone.
“Meu Führer ”, disse Goebbels, “felicito-vos! Roosevelt morreu! Está escrito
nos astros que na segunda quinzena de abril haverá reviravolta para nós. Hoje é
sexta-feira, 13 de abril (Já passava da meia-noite). É a reviravolta”.
Não se registrou a reação de Hitler, se bem que se possa imaginá-la dado o
estímulo que vinha recebendo de Carlyle e dos astros. Mas a de Goebbels foi re
gistrada: “Ele estava extasiado”, disse seu secretário.7
Também a do fátuo conde Schwerin von Krosigk. Quando lhe telefonaram do
Ministério de Goebbels informando que Roosevelt havia morrido, exclamou, pelo
menos em seu fiel diário:
É o anjo da História! Sentimos suas asas baterem pela sala. Não era essa
a reviravolta que tão ansiosamente esperávamos?
Krosigk, na manhã seguinte, telefonou a Goebbels dando-lhe suas felicitações,
declara orgulhosamente em seu diário, e, como se não fosse o bastante, reforçou-as
em uma carta na qual dizia que a morte de Roosevelt era “um castigo divino (...)
uma dádiva de Deus”.
Nessa atmosfera de asilo de loucos, com ministros de Estado há muito tempo
no poder e educados nas antigas universidades da Europa — como o caso de
Krosigk e Goebbels — recorrendo à astrologia e rejubilando-se, em meio às chamas
na capital, com a morte do presidente americano, considerando-a sinal seguro de
que o Todo-Poderoso iria agora, na décima primeira hora, salvar o Terceiro Reich
de uma catástrofe iminente, representava-se, em Berlim, o último ato do drama.
Eva Braun chegara a Berlim em 15 de abril, para fazer companhia a Hitler.
Poucos alemães sabiam de sua existência e, mesmo, poucas pessoas tinham co
nhecimento das relações dela com Adolf Hitler. Durante mais de 12 anos havia
sido sua amante. Chegara ali agora, em abril, conforme diz Trevor-Roper, para o
casamento e a cerimônia da morte.
Ela era interessante, dado seu papel no último capítulo desta narrativa; não
era, porém, interessante quanto à individualidade; não era uma Pompadour ou
g õ t t e r d â m m e r u n g : o s ú l t im o s d ia s d o t e r c e i r o r e i c h 657
uma Lola Montez.* Hitler, conquanto fosse indubitavelmente muito afeiçoado a
Eva Braun e encontrasse doce serenidade em sua discreta companhia, mantivera-
a sempre longe de si, recusando-se a permitir-lhe que fosse a seus vários quartéis-
generais, onde ele passou quase todo o tempo durante a guerra, e raramente per
mitiu-lhe ir a Berlim. Ela permaneceu enclausurada em Berghof, no Obersalzberg,
passando o tempo andando e esquiando, lendo romances vulgares, assistindo a
filmes de qualidade inferior, dançando (o que Hitler desaprovava), enfeitando-se
sempre, e também definhando com a ausência de seu amado.
“Era a mulher mais infeliz da Alemanha. Passou a maior parte da vida espe
rando por Hitler”, disse Erich Kempka, motorista do Führer .8
O marechal-de-campo Keitel descreveu sua figura em Nuremberg, durante
um interrogatório:
Era esbelta, de aparência elegante, pernas bem bonitas [podia-se ver
isso], reticente e acanhada, e pessoa muito simpática, os cabelos de um
louro-escuro. Mantinha-se, sempre, em segundo plano e muito rara
mente era vista.9
Filha de pais bávaros da classe média baixa que, a princípio, se opuseram de
cididamente a suas relações ilícitas com Hitler, muito embora fosse ele ditador,
esteve empregada no ateliê fotográfico de Heinrich Hoffmann que a apresentou
ao Führer. Foi isso um ano ou dois após o suicídio de Geli Raubal, sobrinha de
Hitler, por quem ele, conforme vimos, teve a maior paixão de sua vida. Eva Braun,
ao que parece, também se entregava muitas vezes ao desespero por causa do
amante, se bem que não pelas mesmas razões de Geli Raubal. Embora estivesse
instalada num apartamento, na vila alpina de Hitler, não suportava as longas se
parações e, nos primeiros anos de sua amizade, duas vezes tentara suicidar-se.
Gradualmente, porém, aceitou seu papel ambíguo e frustrado — reconhecia que
não era esposa nem amante —, contentando-se em ser a única companheira de
um grande homem e aproveitando o máximo de seus raros momentos juntos.
Estava agora decidida a partilhar seu fim. À semelhança do dr. Goebbels e sua
mulher, não tinha desejo algum de viver numa Alemanha sem Adolf Hitler. “Berlim
* "Eva Braun vai ser um desapontamento para todos os historiadores", declarou Speer a Trevor-Roper,
ao que o historiador acrescentou:" (...) e também para os que lêem história." (Trevor-Roper, The Last
Days of Hitler, p. 92).
658 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
já não seria a mesma coisa para uma verdadeira alemã”, declarou no abrigo a Hanna
Reitsch, a famosa mulher-piloto de provas, pouco antes do fim.10Se bem que Eva
Braun tivesse um espírito infantil e, intelectualmente, não causasse impressão a
Hitler — talvez fosse essa a única razão de ter preferido sua companhia à de mu
lheres inteligentes —, é evidente que sua influência sobre ela, como sobre tantos
outros, era total.
A última grande decisão de Hitler
O aniversário de Hitler, em 20 de abril, transcorreu sem alarde, embora fosse
um dia de novas catástrofes nas frentes que se desmoronavam rapidamente,
conforme anotou em seu diário o general Karl Koller, chefe do Estado-maior da
força aérea, que se achava presente no abrigo por ocasião das comemorações.
Todos os nazistas da Velha Guarda — Gõring, Goebbels, Himmler, Ribbentrop e
Bormann — lá se achavam, ao lado dos líderes militares sobreviventes: Dõnitz,
Keitel, Jodl e Krebs, este o novo e último chefe do Estado-maior geral. Felicita
ram o Führer pelo seu aniversário.
O senhor supremo da guerra não se mostrava deprimido, a despeito da situa
ção. Estava ainda confiante. Havia declarado a seus generais, três dias antes, que
“os russos sofreriam a mais sangrenta de todas as derrotas diante de Berlim”. Os
generais, porém, não se deixavam enganar; e, durante a costumeira conferência
militar, após a reunião comemorativa do aniversário, instaram junto ao Führer
para que deixasse Berlim e partisse para o sul. Dali a um ou dois dias, explicaram,
os russos cortariam e fechariam a última saída naquela direção. Hitler hesitou;
não quis dizer sim, nem não. Aparentemente, não percebia a terrível realidade de
que a capital do Terceiro Reich estava agora prestes a ser conquistada pelos russos,
cujos exércitos, anunciara ele anos antes, estavam, por assim dizer, destruídos.
Como fazendo uma concessão aos generais, consentiu em estabelecer dois co
mandos separados caso os americanos e os russos fizessem junção no Elba: o al
mirante Dõnitz dirigiria o do norte e, talvez, Kesselring, o do sul. Não se mostrava
muito seguro quanto à nomeação de Kesselring.
Processou-se naquela noite uma fuga geral de Berlim. Dois dos auxiliares ve
teranos de Hitler, nos quais mais confiava, saíram: Gõring e Himmler. Gõring
GÕTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 659
numa caravana cujos caminhões estavam repletos dos produtos de suas pilha
gens, retirados de sua fabulosa propriedade em Karinhall. Cada um desses nazis
tas da Velha Guarda saiu convencido de que seu amado chefe logo estaria morto,
e que seria seu sucessor.
Não mais o reviram. Tampouco o reviu Ribbentrop, que também se apressou
em partir para local mais seguro naquela noite, a altas horas.
Hitler, porém, não havia ainda desistido. No dia seguinte ao de seu aniversário
ordenou um contra-ataque geral contra os russos, nos subúrbios da parte sul de
Berlim, pelas tropas S.S. comandadas pelo general Felix Steiner. Todo soldado que
se encontrasse na área de Berlim deveria ser lançado nesse contra-ataque, incluin
do tropas terrestres da Luftwaffe.
“Todo comandante que detiver suas forças”, bradou Hitler ao general Koller,
que lá permanecera para representar a força aérea, “pagará com a vida daqui a
cinco horas. O senhor mesmo garantirá com sua cabeça que todos os homens, até
o último, serão lançados na peleja”.11
Durante esse dia e grande parte do outro Hitler esperou, impaciente, notícias
do contra-ataque de Steiner. Era mais um exemplo de sua perda de contato com a
realidade. Não houve ataque por parte de Steiner. Jamais foi tentado. Existia ape
nas no espírito febril do desesperado ditador. E desabou a tempestade, ocasião em
que ele, finalmente, foi forçado a reconhecer a situação.
O dia 22 de abril trouxe o momento culminante na estrada que conduzia Hi
tler à ruína. Desde as primeiras horas da manhã até as 15h, estivera ao telefone
— como estivera na véspera — procurando descobrir nos vários postos de co
mando como ia o contra-ataque de Steiner. Ninguém sabia. Os aviões do general
Koller não puderam localizá-lo, tampouco puderam os comandantes terrestres, se
bem que supusessem estar se processando a apenas três ou quatros quilômetros
ao sul da capital. Nem mesmo Steiner — embora ele existisse — pôde ser encon
trado e muito menos o seu exército.
A tempestade ocorreu na conferência que diariamente se realizava no abrigo,
às 15h. Hitler, furiosamente, pediu notícias de Steiner. Ninguém — nem Keitel,
nem Jodl — tinha qualquer notícia dele. Os generais, contudo, tinham outra: a
retirada de tropas do norte de Berlim, para dar apoio a Steiner, havia de tal manei
ra enfraquecido a frente ali, que os russos conseguiram abrir uma brecha e seus
tanques estavam, agora, dentro dos limites da cidade.
660 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Aquilo foi demais para o supremo senhor da guerra. Todas as testemunhas
sobreviventes atestam que ele perdeu completamente o domínio de si mesmo.
Entregou-se à maior cólera de sua vida. Isso era o fim, gritou. Todos o tinham
abandonado. Nada mais havia senão traição, mentiras, corrupção e covardia. Es
tava tudo acabado. Muito bem, ele não abandonaria Berlim. Assumiria pessoal
mente a defesa da capital do Terceiro Reich. Os outros que saíssem, se quisessem.
Ele, naquele local, enfrentaria o fim.
Os presentes protestaram. Havia ainda esperança, disseram, no caso de o Führer
retirar-se para o sul, onde o grupo de exércitos do marechal-de-campo Ferdinand
Schõrner, na Tchecoslováquia, e consideráveis forças de Kesselring ainda se acha
vam intactos. Dõnitz, que partira para o noroeste a fim de assumir o comando
das tropas dali, e Himmler que, conforme veremos, estava fazendo seu próprio
jogo, telefonaram ao chefe instando para que não permanecesse em Berlim. O
próprio Ribbentrop telefonou, para dizer que preparava um golpe diplomático
que salvaria tudo. Hitler, entretanto, não tinha mais fé neles; nem mesmo em seu
“segundo Bismarck” como certa vez, num momento de doidice, havia chamado
seu ministro das Relações Exteriores. Havia tomado sua decisão, disse a todos. E,
para mostrar-lhes que era irrevogável, chamou a secretária. Ditou, na presença
deles, uma proclamação que devia ser irradiada imediatamente. O Führer , dizia a
proclamação, permaneceria em Berlim e defenderia a capital até o fim.
Hitler, depois, mandou chamar Goebbels. Convidou-o — a ele, à mulher e aos
filhos — a deixar sua casa em Wilhelmstrasse, que havia sido atingida por bom
bas, e a mudar-se para o abrigo dele, Führer . Sabia que pelo menos esse fanático e
fiel adepto, e sua família, permaneceriam junto a ele. Voltou-se depois para sua
papelada; separou os documentos que desejava destruir e entregou-os a um de
seus auxiliares, Julius Schaub, que os levou para o jardim e os queimou.
Nessa mesma noite, finalmente, chamou Keitel e Jodl e ordenou-lhes que se
dirigissem para o sul a fim de assumir o comando direto das forças armadas re
manescentes. Ambos os generais, que haviam estado ao lado de Hitler durante
toda a guerra, deixaram vividos relatos daquela separação final.12
Quando Keitel assegurou que não sairia sem ele, Hitler respondeu: “O senhor
seguirá minhas ordens.” Keitel, que nunca em sua vida desobedecera a uma or
dem do Führer — nem mesmo aquelas que o mandavam cometer os crimes de
guerra mais vis —, silenciou. O mesmo, porém, não se deu com Jodl, que era menos
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 66 l
lacaio. A esse soldado que, a despeito de seu fanático devotamento ao Führer — a
quem servira tão bem —, ainda restava certa noção de tradições militares; para
ele, o supremo senhor da guerra estava abandonando o comando de suas tropas e
lançando a responsabilidade sobre eles, num momento de desastre.
— O senhor não poderá dirigir coisa alguma daqui — disse Jodl. — Se não
tem consigo o supremo Estado-maior, como poderá dirigir alguma coisa?
— Bem, nesse caso Gõring poderá, lá, assumir a direção — respondeu Hitler.
Quando um deles observou que soldado algum lutaria pelo marechal do Reich,
Hitler interrompeu-o: “Que quer dizer? Lutar? Pouca é a luta que se terá a fazer!”
Até o louco conquistador começava, finalmente, a enxergar a realidade, ou, pelo
menos, naqueles últimos e torturantes dias de sua vida, os deuses lhe estavam
proporcionando momentos de lucidez.
As explosões de cólera de Hitler, em 22 de abril, e sua decisão final de perma
necer em Berlim tiveram grande repercussão. Quando Himmler, que se achava
em Hohenlychen, a noroeste de Berlim, recebeu a notícia do ocorrido por inter
médio de Hermann Fegelein — seu oficial de ligação das S.S. —, no quartel-gene-
ral, por telefone, exclamou para os que o cercavam: “Todo o mundo em Berlim
está louco! Que devo fazer?”
“Ir imediatamente para Berlim”, respondeu um dos seus principais ajudantes,
o Obergruppenführer Gottlob Berger, chefe do escritório central das S.S. Berger
era um daqueles alemães simples, que acreditavam sinceramente no nacional-
socialismo. Não tinha idéia alguma de que Himmler, seu venerado chefe, incitado
pelo general das S.S. Walter Schellenberg, estava em contato com o conde Folke
Bernadotte, da Suécia, tratando da rendição dos exércitos alemães no Ocidente.
“Eu vou a Berlim”, declarou a Himmler, “e é seu dever ir também”.
Berger foi a Berlim naquela noite — Himmler não seguiu —, e sua visita é de
interesse por causa da descrição que, em primeira mão, fez a Hitler, nessa noite
de sua grande decisão. As granadas russas já explodiam nas imediações da chan
celaria quando Berger chegou. Para sua surpresa, encontrou o Führer “alquebra-
do (...) liquidado”. Quando ousou exprimir sua apreciação sobre a resolução do
Führer de permanecer em Berlim — “não se pode abandonar o povo depois que
resistiu tão lealmente e durante tanto tempo”, disse que ele declarou. Essas pala
vras incitaram novamente o Führer.
662 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Durante todo aquele tempo [contou Berger depois] o Führer não pro
nunciou sequer uma palavra; gritou, depois, repentinamente: “Todos
me enganaram! Ninguém me contou a verdade! As forças armadas
mentiram para mim!” (...) e prosseguiu aos gritos. Depois, o rosto ficou
roxo. Pensei que, a qualquer momento, fosse ter um ataque (...)
Berger era, também, o chefe da administração dos Prisioneiros de Guerra, de
Himmler. Quando o Führer se acalmou, discutiram a sorte de um grupo de proe
minentes prisioneiros ingleses, franceses e americanos, e de outras figuras alemãs
tais como Halder e Schacht e o antigo chanceler austríaco Schuschnigg, que esta
vam sendo transportados para sudeste a fim de ficarem fora do alcance dos ame
ricanos, que avançavam dentro da Alemanha. Berger iria de avião à Baviera, na
quela noite, a fim de encarregar-se deles. Conversaram ainda os dois homens
sobre as notícias de que houvera subversões na Áustria e na Baviera visando o
separatismo. A idéia de que pudesse irromper tal revolta na Áustria, sua terra
natal, e na Baviera, que adotara, abalou Hitler.
Suas mãos, sua cabeça e suas pernas tremiam, e não parava de repetir
[relatou Berger]: “Fuzile-os todos! Fuzile-os todos!”13
Se a ordem era para fuzilar todos os separatistas, ou os proeminentes prisio
neiros, ou ambas as coisas, não ficou claro a Berger. Ao que parece, no entanto,
para o espírito simples de Berger aplicava-se a todos.
Gõring e Himmler tentam assumir o poder
O general Koller se mantivera afastado da conferência militar do Führer em 22
de abril. Devia atender à Luftwaffe e, além disso, diz em seu diário: “Eu não teria
tolerado ser insultado o dia todo.”
O general Eckard Christian, seu oficial de ligação no abrigo, telefonara-lhe
às 18:15h e, com voz ofegante, dissera-lhe: “Estão se verificando aqui aconteci
mentos históricos, os mais decisivos desta guerra!” Duas horas depois, Christian
chegava ao quartel-general da força aérea, em Wildpark-Werder, nas vizinhanças
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 663
de Berlim, para expor pessoalmente a Koller a situação. “O Führer está arrasado!”
Christian, um ardente nazista que se casara com uma das secretárias de Hitler,
arquejava; afora sua declaração de que o Führer resolvera enfrentar o fim em Ber
lim, e que estava queimando seus documentos, tornou-se tão incoerente que o
chefe do Estado-maior da Luftwaffe, a despeito de um pesado bombardeio dos
ingleses iniciado naquela ocasião, saiu para procurar o general Jodl e verificar o
que na verdade acontecera no abrigo, naquele dia.
Encontrou-o em Krampnitz, entre Berlim e Potsdam, onde o OKW, agora sem
o Führer , instalara temporariamente o quartel-general. Jodl contou a seu amigo
da força aérea toda a triste história. Revelou-lhe também uma coisa que ninguém
havia mencionado a Koller e que devia conduzir a certo desfecho durante aqueles
próximos dias tempestuosos.
“Quando chegar a hora de negociar (a paz)”, Hitler havia declarado a Keitel e
Jodl, “Gõring fará melhor do que eu. Ele sabe lidar melhor com essas coisas. Po
derá negociar melhor com os adversários”. Foi o que Jodl repetiu a Koller.14
O general da força aérea julgou seu dever seguir imediatamente de avião até
Gõring. Seria difícil e também perigoso, em virtude da vigilância inimiga, expli
car, numa mensagem pelo rádio, esse novo desenvolvimento da situação. Se
Gõring, que anos antes havia sido nomeado por Hitler seu sucessor, devesse tratar
das negociações de paz, conforme o Führer sugeria, não se devia perder tempo. Às
3:30h de 23 de abril Koller tomou um avião de caça e voou para Munique.
Chegou ao meio-dia em Obersalzberg e transmitiu a notícia ao marechal do
Reich. Gõring que, para dizer delicadamente, aguardava o dia de assumir o po
der, em sucessão a Hitler, mostrou-se mais circunspecto do que se poderia espe
rar. Não queria expor-se, disse, às maquinações de Bormann, seu “mortal inimi
go”, precaução que, conforme se verificou, tinha fundamento. Viu-se em
torturante dilema. “Se eu agir agora”, declarou a seus conselheiros, “talvez me ta
chem de traidor; se não agir, serei acusado de ter deixado de fazer alguma coisa
na hora do desastre”.
Mandou chamar Hans Lammers, secretário de Estado da chancelaria do Reich,
que se achava em Berchtesgaden, para ouvir seu parecer legal, e mandou trazer
de seu cofre uma cópia de um decreto do Führer, de 29 de junho de 1941.0 decre
to era muito claro: estipulava que, se Hitler morresse, Gõring seria seu sucessor;
664 A q u e d a d o t e r c e ir o r e ic h
e que, se o Führer se tornasse incapaz, Gõring deveria agir como seu representan
te. Todos concordaram em que, permanecendo em Berlim para morrer, isolado,
em suas últimas horas, dos comandos militares e dos postos governamentais, Hi
tler estava incapacitado para governar e que, evidentemente, de acordo com o
decreto, era dever de Gõring assumir o poder.
O marechal do Reich, contudo, elaborou muito cautelosamente seu telegrama
para Hitler. Desejava ter certeza de que a autoridade lhe era delegada:
Meu Führer!
Dada vossa decisão de permanecer na fortaleza de Berlim, concordais
em que eu assuma imediatamente a liderança do Reich, com plena li
berdade de ação no país e no exterior, como vosso representante, con
soante vosso decreto de 29 de junho de 1941? Se não receber uma res
posta até as 22h, considerarei haverdes vós perdido a liberdade de agir,
bem como consumadas as condições de vosso decreto; e agirei, então,
em prol dos melhores interesses de nosso país e de nosso povo. Sabeis
de meus sentimentos para convosco nesta hora, a mais grave de minha
vida. Faltam-me palavras para exprimir-me. Que Deus vos proteja e vos
mande depressa para aqui, a despeito de tudo.
Vosso leal
Hermann Gõring
Nessa mesma noite, a várias centenas de quilômetros, Heinrich Himmler con-
ferenciava com o conde Bernadotte em Lübeck, no Báltico, no consulado da Sué
cia. D er treue Heinrich, o leal Heinrich, como Hitler tantas vezes a ele se referia
afetuosamente, não estava solicitando poderes para ser seu sucessor; já os estava
assumindo.
“A grande vida de Hitler aproxima-se do fim”, declarou ao conde sueco. “Daqui
a um ou dois dias ele estará morto.” Com isso, Himmler instou junto a Bernadotte
para que se comunicasse imediatamente com o general Eisenhower, informando-
o da disposição da Alemanha de render-se aos ocidentais. No leste, acrescentou
ele, a guerra continuaria até que as próprias potências ocidentais assumissem a
direção da frente contra os russos — tal foi a simplicidade ou estultice, ou ambas
as coisas, desse líder das S.S. que, agora, arrogava a chefia ditatorial do Terceiro
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 665
Reich. Ao pedir-lhe Bernadotte que pusesse por escrito sua proposta de rendição,
escreveu rapidamente uma carta, à luz de uma vela, pois um bombardeio da Real
Força Aérea havia nessa noite cortado a eletricidade em Lübeck, obrigando-os a
descer a uma adega. Himmler assinou-a depois.15
Gõring e Himmler tinham agido precipitadamente, conforme perceberam
logo depois. Embora Hitler estivesse isolado de todos, exceto uma deficiente co
municação pelo rádio com seus exércitos e ministérios — pois os russos haviam
quase terminado o envolvimento da capital ao anoitecer do dia 23 —, ele demons
traria que ainda podia governar a Alemanha só pela força de sua personalidade
e de seu prestígio, e dominar a “traição”, mesmo a cometida pelos mais eminentes
de seus seguidores, por uma simples mensagem através de seu fanhoso radio-
transmissor que pendia de um balão acima do abrigo.
Albert Speer e uma extraordinária senhora — cuja dramática aparição no úl
timo ato daquele drama em Berlim será dentro em pouco notada — descreveram
a reação de Hitler ante o telegrama de Gõring. Speer havia voado para a capital
sitiada na noite de 23 de abril, descendo num teco-teco na extremidade oriental
do eixo leste-oeste — a larga avenida que atravessava o Tiergarten —, na Porta de
Brandenburgo, a um quarteirão da chancelaria. Tendo sabido que Hitler havia
resolvido permanecer em Berlim até o fim, que não podia estar muito distante,
viera despedir-se do chefe e confessar-lhe que seu 4conflito entre a lealdade pes
soal e o dever público”, segundo suas próprias palavras, forçara-o a sabotar a po
lítica de “terra devastada” de Hitler. Esperava, realmente, ser preso por traição e,
provavelmente, fuzilado. Teria sido assim indiscutivelmente se o ditador soubesse
dos esforços dele, dois meses antes, para matá-lo, a ele e a todos os outros que
haviam escapado da bomba de Stauffenberg.
Esse brilhante arquiteto e ministro dos Armamentos, conquanto sempre se
orgulhasse de ser apolítico, havia, à semelhança de alguns outros alemães, acor
dado tarde (...) demasiado tarde. Quando finalmente percebeu que seu amado
Führer estava decidido, com seus decretos de “terra devastada”, a destruir o povo
alemão, resolveu assassiná-lo. Seu plano consistia em introduzir gás venenoso
no sistema de ventilação do abrigo, em Berlim, durante uma importante confe
rência militar. Como, além dos generais, a elas geralmente compareciam Gõring,
Himmler e Goebbels, Speer esperava eliminar todos os chefes nazistas do Terceiro
Reich e os componentes do Alto-Comando. Conseguiu obter o gás, inspecionou
666 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
o sistema de condicionamento de ar e foi então, disse ele, que descobriu que o
tubo por onde entrava o ar, no jardim, era protegido por uma chaminé de quatro
metros de altura, recentemente instalada por ordem pessoal de Hitler a fim de
desencorajar sabotagens, e que seria impossível injetar o gás sem ser interrom
pido pelos guardas das S.S., no jardim. Foi então que abandonou o projeto, esca
pando Hitler, mais uma vez, de ser assassinado.
Speer, nessa noite de 23 de abril, confessou seu ato de insubordinação ao recu
sar-se a pôr em execução o decreto pelo qual Hitler, impiedosamente, ordenara a
destruição das instalações remanescentes. Para sua surpresa, Hitler não mostrou
qualquer ressentimento nem se enfureceu. Talvez o Führer tivesse ficado comovi
do com a sinceridade e a coragem de seu jovem amigo — Speer acabara de entrar
na casa dos 40 —, pelo qual há muito tempo sentia profunda afeição e que consi
derava um “colega na arte”. Hitler, conforme Keitel observou também, parecia
sereno nessa noite, o que causava estranheza, como se o fato de ter resolvido mor
rer naquele lugar, dentro de poucos dias, lhe houvesse trazido paz de espírito. Não
se tratava, porém, da calma que costuma seguir-se à tempestade, do dia anterior,
porém da que antecede à tempestade.
O telegrama de Gõring havia, entrementes, chegado à chancelaria e, por ter
sido retido por Bormann, que viu finalmente sua possibilidade, foi apresentado ao
Führer por esse intrigante-mor como um “ultimato” e uma tentativa criminosa de
usurpar o poder de Hitler.
“Hitler encolerizou-se bastante”, disse Speer, “e desandou a falar contra Gõring.
Declarou que, há tempos, já sabia que Gõring havia fracassado, que era corrupto
e toxicômano” — declaração que “abalou demais” o jovem arquiteto, que pergun
tou a si mesmo por que Hitler havia colocado tal homem em tão elevada posição
e nela o mantivera durante tanto tempo. Speer surpreendeu-se, também, quando
Hitler serenou e acrescentou: “Bem, deixemos que Gõring faça as negociações
para a capitulação. Qualquer um que o faça, não tem importância.”16Essa disposi
ção de espírito, no entanto, durou poucos instantes.
Antes mesmo de terminada a entrevista, Hitler, instado por Bormann, ditou
um telegrama informando Gõring de que ele havia cometido “alta traição”, para a
qual a pena era a morte; dados os seus longos serviços prestados ao Partido Na
zista e ao Estado, porém, sua vida seria poupada se ele renunciasse imediata
mente a todas as funções. Ordenou-lhe que respondesse com uma palavra apenas:
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 667
sim ou não. Isso não satisfez ao servil Bormann. Expediu por conta própria um
radiograma ao quartel-general das S.S. em Berchtesgaden, ordenando a prisão
imediata de Gõring, dos elementos de seu Estado-maior e de Lammers por “crime
de alta traição”. E, antes do alvorecer do dia seguinte, o segundo homem em im
portância do Terceiro Reich, o mais arrogante, e o mais opulento dos príncipes
nazistas, o único marechal do Reich na história alemã e comandante-em-chefe da
força aérea, viu-se prisioneiro das S.S.
Três dias depois, na noite de 26 de abril, Hitler atacou Gõring ainda mais for
temente do que o fizera na presença de Speer.
Os dois últimos visitantes do abrigo
Entrementes, dois outros visitantes interessantes chegaram àquele hospício
que era o abrigo do Führer: Hanna Reitsch, a mulher piloto de provas que, entre
outras qualidades, possuía incomensurável capacidade para alimentar ódios, es
pecialmente de Gõring, e o general Ritter von Greim. Ambos chamados, em 24 de
abril, de Munique, para comparecer pessoalmente à presença do supremo senhor
da guerra, o que fizeram, não obstante o avião em que realizaram essa última
viagem, na noite de 26, ter sido derrubado sobre o Tiergarten pelo fogo antiaéreo
dos russos e Greim ter ficado com um dos pés esmigalhado.
Hitler entrou na sala de operações, onde um médico estava cuidando
de um ferimento do general.
Hitler: O senhor sabe por que o mandei chamar?
Greim: Não, meu Führer.
Hitler. Porque Hermann Gõring me traiu e abandonou a mim e à pátria.
À minha revelia, estabeleceu contato com o inimigo. Sua atitude foi si
nal de fraqueza. Contra minhas ordens, procurou salvar-se indo para
Berchtesgaden. Mandou-me de lá um telegrama desrespeitoso. Foi (...)
A essa altura, diz Hanna Reitsch que se achava presente, o rosto de Hitler co
meçou a contorcer-se e sua respiração tornou-se ofegante.
668 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Hitler. (...) um ultimato! Um ultimato estúpido! Nada mais resta agora.
Nada me poupam. Não se mantêm os juramentos, não há mais honra,
só tenho sofrido desapontamentos e traições, e agora isso ainda por
cima! Nada mais resta. Já me fizeram todo o mal que podiam fazer.
Mandei imediatamente prender Gõring, como traidor; tirei-lhe todas
as funções e eliminei-o de todas as organizações. É essa a razão por que
mandei chamá-lo.17
E naquele mesmo momento nomeou o general, que jazia ferido no leito, novo
comandante-em-chefe da Luftwaffe — uma promoção que poderia ter sido feita
pelo rádio, poupando a Greim ficar com um pé aleijado e deixando-o permanecer
no quartel-general, o único local de onde poderia dirigir o que restara da força
aérea. Três dias depois, Hitler ordenou a Greim — que agora, à semelhança de
Fraulein Reitsch, esperava e, mesmo, desejava morrer no abrigo ao lado do Führer
— que partisse a fim de tratar de um novo caso de traição. A traição, conforme
vimos, não se limitava apenas a Hermann Gõring.
Durante aqueles três dias, Hanna Reitsch tivera ampla oportunidade de obser
var a vida insana naquele hospício subterrâneo, de que, na verdade, também par
ticipou. Sendo emotivamente instável, tanto quanto seu ilustre anfitrião, a versão
que deixou a respeito dos acontecimentos é lúgubre e melodramática. E, contudo,
em grande parte a verdadeira e, mesmo, a mais exata, pois foi confrontada com
outros relatórios. É de importância para o capítulo final desta história.
Tarde, à noite de sua chegada com o general von Greim em 26 de abril, come
çaram as granadas russas a cair na chancelaria. As explosões e o ruído de paredes
que desmoronavam, em cima, aumentaram a tensão no abrigo. Hitler chamou à
parte a aviadora.
— Meu Führer , por que permanecer aqui? — perguntou ela. — Por que privar
a Alemanha de sua vida? (...) O Führer deve viver para que a Alemanha possa
também viver. O povo exige.
— Não, Hanna — diz ela ter o Führer respondido. — Se eu morrer, será para a
honra de nossa pátria, por ser eu um soldado e dever obedecer à minha própria
ordem de defender Berlim até o fim.
Minha cara jovem [continuou ele]. Não era minha intenção que fosse
assim. Acreditava firmemente que Berlim seria salva às margens do
GÒTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 669
Oder (...) Fiquei horrorizado quando falharam os nossos melhores es
forços. Quando começaram o cerco (...) acreditava que, permanecendo
aqui, todas as tropas do país tomariam como exemplo minha atitude e
viriam salvar a cidade (...) Mas, minha Hanna, ainda nutro esperança.
O exército do general Wenck está avançando do sul. Ele rechaçará, é
preciso, os russos, a tempo de salvar o nosso povo. Recuaremos então
para manter a posição.18
Era essa a disposição de espírito de Hitler naquela noite: ainda alimentava a
esperança de que o general Wenck salvasse Berlim. Poucos momentos depois,
entretanto, ao atingir grande intensidade o bombardeio da chancelaria, desespe-
rou-se novamente. Entregou a Reitsch dois frascos, contendo veneno, um para ela
e o outro destinado a Greim.
— Hanna — disse —, você faz parte daqueles que morrerão comigo (...) Não
quero que nenhum de nós caia vivo nas mãos dos russos, tampouco desejo que
eles encontrem nossos corpos (...) Eva e eu mandaremos que nossos cadáveres
sejam queimados. Você escolherá seu próprio método.
Hanna levou um dos frascos a Greim. Resolveram ambos que, se “chegasse
realmente o fim”, tomariam o veneno, depois, para maior certeza, puxariam o
pino de uma granada, mantendo-a bem junto a seus corpos.
Um dia e meio depois, em 28 de abril, parecia que Hitler se enchera de novas
esperanças ou, pelo menos, de ilusões. Radiografou a Keitel:
“Espero a libertação de Berlim. Que está fazendo o exército de Heinrici? Onde
está Wenck? Que está acontecendo ao 9e Exército? Quando Wenck e o 9 e Exército
farão junção?”19
Reitsch descreveu o supremo comandante da guerra, nesse dia, andando
(...) de um lado para outro no abrigo, brandindo um mapa que se estava
desintegrando pelo suor de suas mãos e traçando os planos da campa
nha de Wenck com qualquer um que, por acaso, o estivesse ouvindo.
Mas a “campanha” de Wenck, como o “ataque” de Steiner uma semana antes,
existia apenas na imaginação do Führer. O exército de Wenck já havia sido liqui
dado, do mesmo modo que o 9e Exército. O exército de Heinrici, ao norte de
67O A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Berlim estava batendo em retirada, e apressadamente, para o oeste, a fim de poder
ser capturado pelos Aliados ocidentais em vez de pelos russos.
Aqueles homens desesperados aguardaram no abrigo, durante todo o dia 28
de abril, notícias dos contra-ataques das três armas, especialmente do contra-
ataque de Wenck. As pontas-de-lança russas já se achavam agora a poucos quar
teirões da chancelaria, avançando vagarosamente, em direção dela, por várias
ruas do leste e do norte e pelo Tiergarten, nas imediações, a oeste. Como não
chegassem notícias das forças libertadoras, Hitler, instigado por Bormann, come
çou a aguardar novas traições. Às 20h, Bormann radiografou a Dõnitz:
Os chefes, em vez de mandarem as tropas avançarem para vir em nosso
socorro, mantêm-se em silêncio. Parece que a traição substituiu a leal
dade! Permaneceremos aqui. A chancelaria já se encontra em ruínas.
Mais tarde, naquela mesma noite, Bormann expediu outra mensagem a Dõnitz.
Schõrner, Wenck e outros devem provar sua lealdade para com o Führer
vindo em seu auxílio o mais depressa possível.20
Bormann, agora, falava por si. Hitler resolvera morrer dali a um ou dois dias;
Bormann, porém, desejava viver. Talvez não pudesse ser seu sucessor, mas queria
continuar a dirigir, por detrás das cortinas, a quem quer que fosse.
Ainda nessa noite, finalmente, o almirante Voss mandou uma mensagem a
Dõnitz, dizendo que todas as ligações pelo rádio com o exército haviam sido in
terrompidas e pedindo que a marinha enviasse, por ondas longas, alguma notícia
sobre o que estava acontecendo no mundo exterior. Logo depois chegaram notí
cias, não da marinha, mas do posto de escuta do Ministério da Propaganda. Fo
ram estarrecedoras para Adolf Hitler.
Além de Bormann, havia no abrigo outro funcionário nazista que desejava
viver. Era Hermann Fegelein, representante de Himmler na corte e o tipo carac
terístico da espécie de alemães que se elevaram a um cargo proeminente no go
verno de Hitler. Antigo encarregado de estábulo e depois jóquei, quase analfabe
to, era um protegido do conhecido Christian Weber, um dos mais antigos
companheiros de Hitler, de seu partido, e, ele mesmo, criador de cavalos que, por
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 671
meios fraudulentos, acumulara fortuna e montara uma coudelaria de cavalos de
corrida depois de 1933. Fegelein, com o auxílio de Weber, galgara alta posição no
Terceiro Reich. Era general na Waffen S.S. e, em 1944, logo depois de ser nomeado
oficial de ligação entre Himmler e o quartel-general do Führer , galgou posição
mais elevada casando-se com Gretl, irmã de Eva Braun. Todos os chefes sobrevi
ventes das S.S. são unânimes em declarar que Fegelein, aliando-se a Bormann,
não perdera tempo em trair Himmler — seu próprio chefe nas S.S. — junto a
Hitler. Embora não passasse de um reles analfabeto e ignorante, Fegelein parece
ter sido dotado de um autêntico instinto de sobrevivência.
Em 26 de abril, deixou silenciosamente o abrigo. Na tarde seguinte, Hitler no
tou seu desaparecimento. Avivaram-se-lhe logo as suspeitas. Mandou um grupo
armado das S.S. procurá-lo. Encontraram-no descansando em sua casa, à paisana,
no distrito de Carlottenburg, que os russos estavam prestes a invadir. Trazido de
volta para a chancelaria, foi destituído de seu posto de Obergruppenführer nas S.S.
e feito prisioneiro. A tentativa de deserção de Fegelein fez com que Hitler logo
suspeitasse de Himmler. Que estaria tramando o chefe das S.S., agora que, delibe
radamente, se ausentara de Berlim? Não havia notícias dele desde que Fegelein,
seu oficial de ligação, deixara o posto. Elas, contudo, chegaram.
Conforme vimos, o dia 28 de abril fora exasperante no abrigo. Os russos apro
ximavam-se. Não havia chegado notícia do contra-ataque de Wenck ou de qual
quer outro. Desesperados, os sitiados pediram, por meio do rádio da marinha,
informações sobre o que se passava fora da cidade cercada.
O posto de escuta de rádio do Ministério da Propaganda captara uma notícia
da BBC, de Londres, sobre o que estava acontecendo fora de Berlim. Tratava-se de
um despacho da agência Reuter, procedente de Estocolmo, tão sensacional, tão
fantástico, que um dos assistentes de Goebbels, Heinz Lorenz, atravessou corren
do, tarde daquela noite de 28 de abril, rumo ao abrigo, na praça bombardeada,
levando cópias para seu ministro e para Hitler.
O despacho, diz Reitsch, desfechou “um golpe de morte em todos os que ali se
achavam reunidos. Homens e mulheres gritaram de raiva, medo e desespero, to
dos fundidos num só espasmo emocional”. O de Hitler foi o pior. “Ele esbravejou
como um louco”, disse a aviadora.
Heinrich Himmler, der treue Himmler, havia também abandonado a nau do
Estado que naufragava. O despacho da agência Reuters noticiava suas negociações
672 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
secretas com o conde Bernadotte e sua proposta de promover a rendição dos exér
citos alemães, no oeste, a Eisenhower.
Para Hitler, que jamais duvidara da absoluta lealdade de Himmler, aquilo foi o
mais pesado dos golpes. “Ficou rubro de ódio, e seu rosto tornou-se virtualmente
irreconhecível (...) Depois dessa demorada explosão, Hitler ficou completamente
largado, e durante certo tempo o silêncio envolveu todo o abrigo.” Gõring havia,
pelo menos, solicitado permissão do líder para assumir as rédeas do governo. Mas
aquele “treué\ chefe das S.S. e Reichführer, nem se dera ao trabalho de pedi-la;
traiçoeiramente, sem dizer palavra, entrara em contato com o inimigo. Isso, de
clarou Hitler a seus seguidores quando se refez um pouco, fora o pior ato de trai
ção de que tivera notícia.
Esse golpe, acrescido da notícia, recebida minutos depois, de que os russos se
aproximavam da Potsdamerplatz, distante apenas um quarteirão, e que invadi
riam a chancelaria na manhã de 30 de abril, dali a trinta horas, foi o sinal do fim.
Forçou Hitler a tomar as últimas decisões de sua vida. Ao alvorecer, já se tinha
casado com Eva Braun, feito suas declarações de vontade mandando Greim e
Hanna Reitsch juntarem-se à Luftwaffe e ordenado que bombardeasse totalmente
as forças russas que se aproximavam da chancelaria. Ordenou-lhe também que
prendessem Himmler por traição.
“Um traidor jamais deve ser meu sucessor como Führer! Você deve sair, para
garantir que ele não o seja”, diz Hanna ter ele falado.
Hitler não esperou para começar sua vingança contra Himmler. Tinha em
suas mãos Fegelein, o agente de ligação do chefe das S.S. Trouxeram da casa da
guarda o antigo jóquei, então general das S.S., interrogaram-no rigorosamente
sobre a traição de Himmler, acusaram-no de cumplicidade e, por ordem de Hitler,
levaram-no ao jardim da chancelaria e fuzilaram-no. O fato de Fegelein ser casa
do com a irmã de Eva Braun não o salvou. Eva não fez esforço algum para poupar
a vida do cunhado.
“Pobre Adolf, abandonado por todos, abandonado por todos. Seria preferível
morrerem dez mil outros a ficar a Alemanha sem ele!” lamentou-se ela a Hanna
Reitsch.
Perdia-o a Alemanha; mas, naquelas últimas horas, Eva Braun o conquistou.
Entre lh e 3h de 29 de abril, como suprema recompensa pela lealdade dela até o
fim, Hitler acedeu ao desejo da amante casando-se formalmente com ela. Sempre
GÕTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 673
dissera que o casamento prejudicaria toda a sua dedicação em conduzir primeiro
o partido e depois o país à glória. Agora, que não mais havia liderança a exercer e
que sua vida estava no fim, podia com segurança entregar-se aos laços de um ca
samento que duraria apenas algumas horas.
Goebbels descobriu um conselheiro municipal, um certo Walter Wagner, que
estava lutando numa unidade da Volkssturm a alguns quarteirões dali; foi esse
funcionário, aliás cheio de surpresa, quem realizou a cerimônia na pequena sala
de conferências do abrigo. O certificado existe e oferece parte da cena daquilo que
uma das secretárias do Führer descreveu como “casamento in extremis”. Hitler
pediu que, “em vista do desenvolvimento da guerra, fosse feita verbalmente a pu
blicação dos banhos, evitando todas as outras demoras”. Os noivos juraram que
eram “de completa descendência ariana” e “não eram portadores de doença here
ditária que os excluísse de um casamento”. Na véspera da morte, o ditador insistia
nessas formalidades. Deixou em branco os espaços nos quais deviam ser declara
dos o nome do pai (nascido Schicklgruber) e o da mãe, e a data do casamento
deles. A noiva começou a assinar “Eva Braun”, mas deteve-se; riscou o “B” e escre
veu “Eva Hitler, née Braun”. Goebbels e Bormann assinaram como testemunhas.
Após a breve cerimônia, houve um macabro festim no apartamento particular
do Führer , em comemoração ao casamento. Trouxeram champanha e até Fraulein
Manzialy, a cozinheira vegetariana de Hitler, foi convidada, juntamente com as
secretárias dele, os generais remanescentes, Krebs e Burgdorf; Bormann e o dr.
e Frau Goebbels. A conversação, durante algum tempo, girou em torno dos bons e
velhos tempos e sobre os companheiros do partido em dias melhores. Hitler falou
carinhosamente a respeito da ocasião em que fora padrinho do casamento de
Goebbels. Como era seu costume, até no último momento o noivo falou o tempo
todo, passando em revista os pontos culminantes de sua vida dramática. Agora ela
terminara, disse, e o mesmo se dava com o nacional-socialismo. Morrer seria para
ele a salvação, uma vez que fora traído pelos mais antigos amigos e adeptos. Uma
atmosfera sombria envolveu aquela festa de casamento. Alguns convidados saí
ram furtivamente com os olhos lacrimejantes. O próprio Hitler acabou retirando-
se. Numa sala adjacente, chamou uma das secretárias, Frau Gertrude Junge, e
começou a ditar-lhe seus dois últimos testamentos.
674 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Os dois testamentos de Hitler
Os dois documentos subsistiram, como era intenção de Hitler, e, do mesmo
modo que outros, são importantes para esta narrativa. Confirmam que o homem
que havia dominado a Alemanha, com mão de ferro, durante mais de 12 anos, e a
maior parte da Europa durante quatro, nada aprendera de sua experiência; nem
mesmo de seus reveses e de seu esmagador fracasso final tirou sequer uma lição.
De fato, nas últimas horas da vida, tornou a ser o jovem dos dias em que vivia nas
sarjetas de Viena e daquele primeiro período barulhento da cervejaria de Muni
que, amaldiçoando os judeus por todos os males do mundo, tecendo suas mal
alinhavadas teorias sobre o universo e queixando-se de que a sorte havia, mais
uma vez, ludibriado a Alemanha privando-a da vitória e das conquistas. Nesse
discurso de despedida à nação alemã e ao mundo, que devia ser também um últi
mo apelo à história, Adolf Hitler esgotou todo o capítulo vazio de Minha luta e
acrescentou suas últimas falsidades. Foi o epitáfio apropriado de um tirano em
briagado pelo poder que o corrompera de maneira absoluta e completa.
O Testamento Político, conforme ele o denominou, dividia-se em duas partes,
consistindo a primeira num apelo à posteridade e a segunda em específicas dire
trizes para o futuro.
Passaram-se mais de trinta anos depois que prestei minha modesta co
laboração como voluntário na Primeira Guerra Mundial, imposta ao
Reich.
Nessas três décadas, somente o amor e a lealdade para com meu povo
me guiaram em todos os pensamentos e ações e na vida. Deram-me
forças para tomar as mais difíceis decisões com que, até então, defron
tou um mortal (...)
Não é verdade que eu ou alguém mais na Alemanha desejasse a guerra
em 1939. Ela foi desejada e provocada exclusivamente por aqueles esta
distas internacionais que eram de origem judaica ou trabalhavam pelos
interesses judaicos.
Fiz inúmeras propostas de paz para a limitação e o controle de arma
mentos, as quais a posteridade não poderá esquecer durante todos os tem
pos e, portanto, não poderá lançar sobre mim a culpa pelo irrompimento
GÕTTERDÃMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 675
desta guerra. Mais ainda: jamais desejei que, depois da horrível Primeira
Guerra Mundial, houvesse uma segunda, quer contra a Inglaterra quer
contra os Estados Unidos. Os séculos passarão, mas das ruínas de nossas
cidades e monumentos surgirá novamente o ódio contra aqueles que,
afinal, foram os responsáveis. São aqueles a quem devemos agradecer
por tudo isso: o judaísmo internacional e seus colaboradores.
Hitler repetiu, depois, a mentira de que três dias antes do ataque à Polônia
havia proposto ao governo inglês uma solução razoável para o problema germa-
no-polonês.
Foi rejeitada somente porque a facção dominante na Inglaterra desejava a
guerra, em parte por motivos comerciais, em parte porque estava in
fluenciada pela propaganda que o judaísmo internacional desencadeava.
Lançou sobre os judeus, em seguida, a responsabilidade não só pelos milhões
de mortes sofridas nos campos de batalha como, também, pelo bombardeamento
de cidades e pelo próprio massacre de judeus que realizara. Explicou depois as
razões por que resolvera permanecer em Berlim até o fim.
Após seis anos de guerra que, a despeito de todos os reveses, passarão
um dia à história como a mais gloriosa e a mais heróica manifestação
da luta pela existência de uma nação, não posso abandonar a cidade
que é a capital deste Estado (...) Desejo partilhar minha sorte com a que
milhões de outros escolheram para si, nela permanecendo. Ademais,
não cairei nas mãos do inimigo, que deseja um novo espetáculo ofere
cido pelos judeus para divertir seus povos histéricos.
Resolvi, portanto, permanecer em Berlim e aqui escolher voluntaria
mente a morte no momento em que acreditar que a posição do Führer
e a da própria chancelaria não mais poderão ser mantidas. Morro com
alegria no coração, cônscio dos incomensuráveis feitos e realizações de
nossos aldeões e operários, e da contribuição, a única na história, da
juventude que traz meu nome.
676 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Segue-se uma exortação a todos os alemães “para que não renunciarem à pe
leja”. Fora, finalmente, forçado a reconhecer que o nacional-socialismo estava pre
sentemente liquidado, mas assegurava a seus companheiros alemães que, do sa
crifício dos soldados e dele mesmo
(...) havia sido lançada uma semente que algum dia brotará (...) para o
renascimento glorioso do movimento nacional-socialista de uma na
ção verdadeiramente unida.
Hitler não podia morrer sem, primeiro, atirar um último insulto ao exército e
especialmente a seu corpo de oficiais, que considerava os principais responsáveis
pelo desastre. Embora confessasse que o nazismo estava morto, pelo menos pre
sentemente, suplicava, entretanto, aos comandantes das três armas
(...) que fortalecessem, por todos os meios possíveis, o espírito de resis
tência de nossos soldados na crença nacional-socialista, com especial
destaque ao fato de eu mesmo, como fundador e criador desse movi
mento, preferir a morte à resignação covarde ou mesmo à capitulação.
Depois, a diatribe contra a casta dos oficiais do exército:
Que seja, no futuro, um ponto de honra para os oficiais do exército
alemão, como já é para nossa marinha, a rendição de um distrito ou de
uma cidade é algo fora de questão e que, acima de tudo, os comandan
tes devem oferecer um brilhante exemplo de fiel devotamento ao dever
até a morte.
Foi a insistência de Hitler no sentido de que “um distrito ou uma cidade” de
vam ser defendidos “até a morte”, como em Stalingrado, que contribuiu para o
desastre militar. Disso, porém, como de outras coisas, não tirou lição alguma.
A segunda parte do Testamento Político tratava da questão da sucessão. Em
bora o Terceiro Reich estivesse sendo envolvido pelas chamas e explosões, Hitler
não podia aceitar a morte sem nomear seu sucessor e ditar a composição exata do
governo que o sucessor deveria estabelecer. Tinha, primeiro, que eliminar os
pseudosucessores.
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 677
Antes de minha morte, expulso do partido o antigo marechal do Reich
Hermann Gõring e retiro todos os direitos que lhe foram conferidos pelo
decreto de 20 de junho de 1941 (...) Em lugar dele, nomeio o almirante
Dõnitz presidente do Reich e comandante supremo das forças armadas.
Antes de minha morte, expulso do partido e de todas as funções estatais o
antigo Reichsführer das S.S. e ministro do Interior Heinrich Himmler.
Os líderes do exército, das força aérea e das S.S., acreditava ele, o tinham traído
e privado da vitória. Assim, somente lhe fora possível escolher para sucessor o
chefe da marinha, que havia sido demasiado pequena para desempenhar um gran
de papel na guerra de conquista de Hitler. Foi um último escárnio para o exército,
que, no entanto, mais lutara na guerra e que perdera a maior parte dos soldados.
Denunciou também, naquela despedida, os dois homens que, com Goebbels, ha
viam sido seus mais íntimos colaboradores desde os primeiros dias do Partido.
Além de toda a deslealdade para comigo, Gõring e Himmler trouxeram
para o país uma vergonha irreparável, negociando secretamente com o
inimigo, sem meu conhecimento e contra minha vontade; e, também,
por tentarem, através de meios ilegais, assumir a direção do Estado.
Tendo expulsado os traidores e nomeado seu sucessor, Hitler prosseguiu dizen
do a Dõnitz com quais pessoas deveria contar em seu novo governo. Eram todos
“homens ilustres”, disse,4que cumprirão a tarefa de continuar a guerra por todos
os meios”. Goebbels devia ser o chanceler e Bormann o “ministro do Partido”, um
novo cargo. Seyss-Inquart, o quisling austríaco e, mais recentemente, o sanguiná
rio governador da Holanda, seria o ministro das Relações Exteriores. Speer, à se
melhança de Ribbentrop, foi posto de parte. Mas o conde Schwerin von Krosigk,
ministro das Finanças desde sua nomeação por Papen em 1932, seria mantido
nesse cargo. Era um parvo, mas deve admitir-se que sabia sobreviver.
Hitler não só nomeou o governo que devia sucedê-lo como traçou uma última
diretriz para ele, aliás típica:
Recomendo ao governo e ao povo, acima de tudo, que sustentem as leis
raciais até o limite e resistam sem piedade contra os envenenadores de
todos os povos, contra o judaísmo internacional.21
678 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Estava com isso liquidado o supremo senhor da guerra. Era então 4h de 29 de
abril, um domingo. Hitler chamou Goebbels, Bormann e os generais Krebs e
Burgdorf para testemunharem a assinatura do documento e aporem, também,
suas próprias assinaturas. Ditou depois, rapidamente, seu testamento pessoal.
Neste, o homem do destino retornou à origem inferior na classe média, na Áus
tria, explicando por que se casara e por que ele e sua esposa iam matar-se; dispôs
de seus bens que, esperava, seriam suficientes para sustentar modestamente os
parentes existentes. Hitler, pelo menos, não se servira do poder para acumular
uma vasta fortuna particular como fizera Gõring.
Embora acreditasse, durante os anos de luta, que não podia arcar com
a responsabilidade de um casamento, agora, antes do fim de minha
vida, resolvi receber como esposa a mulher que, após muitos anos de
verdadeira amizade, chegou a esta cidade, já quase sitiada, de sua livre
e espontânea vontade para partilhar de minha sorte.
Ela caminhará para a morte comigo, de acordo com seu próprio desejo,
como minha esposa. Isso nos compensará, a ambos, pelo que perdemos
durante todo o meu trabalho a serviço do povo.
Meus bens pertencem ao Partido ou, se ele não mais existir, ao Estado.
Se o Estado for também destruído, não haverá necessidade de novas
instruções de minha parte. Os quadros a óleo, que comprei durante
estes anos, não foram colecionados para fins particulares e sim para o
estabelecimento de uma galeria de pinturas em Linz, minha terra natal
às margens do Danúbio.
A Bormann, como testamenteiro, pedia que
(...) entregue a meus parentes tudo que seja de valor, como lembrança
pessoal ou para manter um padrão de vida de pequeno burguês (kleinen
bürgerlichen) (...)*
Minha esposa e eu escolhemos a morte a fim de escaparmos à vergonha
da queda e da capitulação. É nosso desejo que nossos corpos sejam
* Hitler não mencionou quem eram esses parentes, mas, pelo que disse a suas secretárias, tinha em
mente sua irmã Paula e sua sogra.
GÕTTERDÃMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 679
cremados imediatamente no lugar em que executei a maior parte de
minhas tarefas diárias durante os 12 anos a serviço de meu povo.
Esgotado pelo ditado de suas mensagens de despedida, Hitler recolheu-se ao
leito quando a aurora rompia em Berlim naquele último domingo de sua vida.
Um manto de fumaça pairava sobre a cidade. Edifícios tombavam em chamas
quando os russos atiravam com seus canhões em alça zero. Não estavam agora
longe da Wilhelmstrasse e da chancelaria.
Enquanto Hitler dormia, Goebbels e Bormann não perderam tempo. O Führer ,
em seu Testamento Político, ordenara-lhes especificamente que deixassem a capi
tal e fossem reunir-se ao novo governo. Bormann mostrou-se mais que disposto
a obedecer. Por maior que fosse seu devotamento ao Führer , não pretendia parti
lhar de uma morte se pudesse evitar. A única coisa que desejava na vida era uma
posição de mando por trás dos bastidores, e Dõnitz talvez pudesse oferecer. Isto é,
se Gõring, ao saber da morte do Führer , não tentasse usurpar o trono. Para asse
gurar-se de que ele não faria isso, Bormann expediu uma mensagem pelo rádio ao
quartel-general das S.S., em Berchtesgaden.
(...) Se Berlim e nós cairmos, os traidores de 23 de abril deverão ser
exterminados. Soldados, cumpri o vosso dever! Vossas vidas e vossa
honra dependem disso!22
Era a ordem para matar Gõring e os membros do Estado-maior da força aérea
feitos prisioneiros por meio das S.S.
O dr. Goebbels, assim como Eva Braun e ao contrário de Bormann, não dese
java viver numa Alemanha em que não mais existisse seu amado Führer. Unira
sua sorte à de Hitler a quem, exclusivamente, devia a sensacional posição que
galgara na vida. Havia sido o principal profeta e propagandista do movimento
nazista. Depois de Hitler, era quem criara os seus mitos. Para perpetuá-los, não
era só o líder quem devia aceitar o sacrifício da morte; também seu mais leal
adepto, o único da Velha Guarda que o não tinha traído. Devia dar um exemplo
que fosse lembrado pelos tempos afora e, um dia, auxiliar a reavivar as chamas do
nacional-socialísmo.
Parece terem sido esses os pensamentos de Goebbels quando, depois de Hitler
recolher-se, retirou-se para sua pequena sala, no abrigo, a fim de escrever sua
680 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
mensagem de despedida às gerações presentes e futuras. Intitulou-a “Apêndice ao
Testamento Político do Führer”
O Führer ordenou-me que deixasse Berlim (...) e, na qualidade de mem
bro principal, fizesse parte do governo nomeado por ele.
Pela primeira vez em minha vida devo, categoricamente, recusar-me a
obedecer uma ordem do Führer. Minha mulher e meus filhos unem-se
a mim nesta recusa. À parte o fato de sentimentos de humanidade e
lealdade pessoal nos proibirem de abandonar o Führer em sua hora de
maior provação, se o fizéssemos iríamos parecer, para o resto da vida,
pessoas sem honra, traidores e canalhas comuns, perdendo o respeito
próprio e o de nossos concidadãos (...)
Nesse pesadelo da razão, que cerca o Führer nos dias mais críticos da
guerra, deve haver alguém, pelo menos, que permaneça a seu lado in
condicionalmente, até a morte (...)
Creio que, com isso, estarei prestando o melhor serviço para o futuro
do povo alemão. Nos tempos difíceis que virão, os exemplos terão mais
importância que os homens (...)
Por essa razão, juntamente com minha mulher e em nome de meus fi
lhos que são demasiado jovens para poderem falar por si e que, tives
sem idade bastante, concordariam francamente com essa decisão, ex
presso minha imutável resolução de não deixar a capital do Reich
mesmo que ela caia, preferindo, ao lado do Führer, terminar uma vida
que para mim pessoalmente não terá mais valor se a não puder viver
para servir a ele e junto dele.23
O dr. Goebbels terminou de escrever essa mensagem às 5:30h de 29 de abril.
Rompia o dia em Berlim, mas o sol estava obscurecido pela fumaça da batalha.
Muita coisa ficara para ser feita à claridade da luz elétrica do abrigo. A primeira
seria fazer com que os dois testamentos do Führer atravessassem as linhas russas,
nas imediações, a fim de serem entregues a Dõnitz e outros, e conservados para a
posteridade.
Três mensageiros foram escolhidos para levar cópias dos preciosos documen
tos: o major Willi Johannmeier, ajudante militar de Hitler; Wilhelm Zander, oficial
GÒTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 68l
das S.S. e conselheiro de Bormann; e Heinz Lorenz, o funcionário do Ministério
da Propaganda que trouxera, na véspera, a estarrecedora notícia da traição de
Himmler. Johannmeier, oficial cheio de condecorações, devia conduzir o grupo
por entre as linhas do Exército Vermelho. Ele mesmo devia, depois, entregar sua
cópia dos documentos ao marechal-de-campo Ferdinand Schõrner, cujo grupo
de exércitos ainda se mantinha intacto nas montanhas da Boêmia e a quem Hitler
havia nomeado comandante-em-chefe do exército. O general Burgdorf juntou
uma carta informando Schõrner que Hitler havia escrito o testamento “hoje, ante
a estarrecedora notícia da traição de Himmler. Sua decisão é irrevogável”. Zander
e Lorenz deviam levar suas cópias a Dõnitz. Zander recebeu um memorando de
Bormann, anexo ao documento:
Caro grande almirante:
Visto não terem chegado todas as divisões e parecer perdida nossa po
sição, ditou o Führer, ontem à noite, o Testamento Político anexo. Heil
Hitler.
Os três mensageiros partiram ao meio-dia para sua perigosa missão, avançan
do com dificuldade para a parte oeste por entre o Tiergarten e Charlottenburg
rumo a Pichelsdorf, na cabeceira do lago Havei, onde um batalhão da Juventude
Hitlerista defendia a ponte na expectativa da chegada do exército fantasma de
Wenck. Para atingir aquele local, conseguiram atravessar três linhas russas: na
Coluna da Vitória, no centro do Tiergarten; na estação do Jardim Zoológico, do
outro lado do jardim; e nas vias de acesso a Pichelsdorf. Deviam ainda ultrapas
sar outras linhas, e eram muitas as aventuras que teriam à frente.* Embora conse
guissem atravessá-las, chegaram demasiado tarde para que as mensagens pudes
sem ser úteis a Dõnitz e Schõrner, que não as viram.
* Trevor-Roper, em The Last Days of Hitler, faz um relato das aventuras. Não fosse uma indiscrição de
Heinz Lorenz, talvez as mensagens de despedida de Hitler e Goebbels jamais se tornassem conhecidas.
O major Johannmeier, provavelmente, enterrou sua cópia no jardim de sua casa em Iserlohn, na Vestfá-
lia. Zander tinha sua cópia numa mala que deixou na aldeia bávara de Tegernsee. Trocando de nome e
recorrendo a um disfarce, tentou começar vida nova como Wilhelm Pausin. Lorenz, porém, jornalista de
profissão, era demasiado tagarela para guardar seu segredo e, casualmente, numa indiscrição que co
meteu, fez com que sua cópia fosse descoberta, e também as duas outras mensagens.
682 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Os três mensageiros não foram os únicos a deixarem o abrigo naquele dia.
Ao meio-dia de 29 de abril, Hitler que voltara a passar por um período de calma,
realizou sua costumeira conferência de guerra a fim de discutir a situação militar,
como vinha fazendo há quase seis anos diariamente, àquela hora, e como se já não
tivesse chegado ao fim da jornada. O general Krebs relatou que os russos haviam
avançado ainda mais em direção à chancelaria, durante a noite e a madrugada. O
suprimento de munições aos defensores da cidade, pelo que se sabia, estava bai
xando. Não havia notícias da vinda do exército de Wenck para socorrê-los. Três
ajudantes militares, que agora percebiam nada terem a fazer e que não desejavam
unir-se ao Führer na morte voluntária, perguntaram se poderiam deixar o abrigo
a fim de verem se descobriam o que havia acontecido a Wenck. Hitler concedeu-
lhes permissão e instruiu-os no sentido de insistirem junto a Wenck para agir. Os
três oficiais saíram durante a tarde.
A eles logo se uniu um quarto, o coronel Nicolaus von Below, ajudante de Hi
tler na Luftwaffe, que havia sido membro subalterno do círculo íntimo desde o
começo da guerra. Below também não acreditava em suicídio e achou que, no
abrigo da chancelaria, não havia para si ocupação útil. Pediu permissão ao Führer
para sair, obtendo-a. Hitler nesse dia mostrava-se mais razoável. Ocorrera-lhe
também que poderia servir-se desse coronel da força aérea para levar uma última
mensagem. Seria destinada ao general Keitel, que Bormann já suspeitava de trai
ção. Conteria a última carga do supremo senhor da guerra ao exército que, na
opinião dele, o havia desapontado.
Naquela conferência sobre a situação, realizada às 22h, as notícias, sem dú
vida, aumentaram o já muito grande rancor do Führer contra o exército. O gene
ral Weidling, que comandava os corajosos membros da Volkssturm, mas já de
certa idade, e os componentes da Juventude Hitlerista, ainda menores — tropas
que estavam sendo sacrificadas para prolongar por alguns dias a vida de Hitler
—, relatou que os russos haviam avançado ao longo da Saarlandstrasse e da
Wilhelmstrasse quase até o Ministério da Aeronáutica, localizado a curta distân
cia da chancelaria. O inimigo alcançaria a chancelaria, disse ele, o mais tardar até
1- de maio, isto é, dali a um ou dois dias.
Isso era o fim. Até Hitler, que estivera dirigindo exércitos inexistentes, que,
supunha, viriam em auxílio da capital, percebeu-o finalmente. Ditou sua última
mensagem e pediu a Below que a entregasse a Keitel. Informava a seu chefe do
g õ t t e r d à m m e r u n g : o s ú l t i m o s d ia s d o t e r c e i r o r e i c h 683
OKW que a defesa de Berlim estava agora no fim, que se mataria em vez de ren-
der-se, que Gõring e Himmler o haviam traído e que havia nomeado o almirante
Dõnitz seu sucessor.
Teve ainda uma última palavra acerca das forças armadas que, a despeito de
sua chefia, haviam levado a Alemanha à derrota. A Luftwaffe havia combatido
com bravura, e somente Gõring era responsável por haver ela perdido a suprema
cia no início da guerra. Quanto ao exército, disse, os soldados comuns haviam
combatido bem e valentemente, mas os generais os tinham traído, a eles e a ele.
O povo e as forças armadas [continuou] deram tudo nesta longa e ár
dua luta. Foi enorme o sacrifício. Muitas pessoas, porém, aplicaram
mal a confiança que nelas depositei. A deslealdade e a traição minaram
a resistência durante toda a guerra.
Não me foi facultado conduzir o povo à vitória. Não se pode igualar o
Estado-maior geral do exército ao da Primeira Guerra Mundial. Seus
feitos ficaram muito aquém dos da frente de combate.
O supremo senhor da guerra permanecia até o fim fiel a seu caráter. As gran
des vitórias haviam sido devidas a ele. As derrotas e o fracasso final, aos outros
(...) à “deslealdade e traição” deles.
E depois a despedida final, as últimas palavras, de que se tem registro, escritas
por esse gênio louco:
Os esforços e sacrifícios do povo alemão, nesta guerra, foram tão gran
des que não posso acreditar tenham sido em vão. O objetivo deve ser
ainda conquistar um território no leste, para o povo alemão.*
Essa última sentença figura em seu livro Minha luta, Hitler iniciou sua vida
política com a obsessão de que devia conquistar um “território no leste” para o
favorecido povo alemão e terminava sua vida com ela. Todos os alemães mortos,
milhões de casas alemãs destruídas pelas bombas, mesmo a destruição da nação
alemã, não o haviam convencido de que — pondo-se de parte o moral — era um
fütil sonho teutônico roubar aos povos eslavos as terras a leste.
* O coronel Below destruiu a mensagem quando ainda a caminho para os exércitos ocidentais. Recons
tituiu-a de memória. VerTrevor-Roper, op. cit., p. 194-5.
684 A q u e d a d o t e r c e ir o r e ic h
A morte de Hitler e de sua esposa
Durante a tarde de 29 de abril chegou ao abrigo, vinda do mundo exterior,
uma das últimas notícias que ali foram recebidas.
Mussolini, o ditador fascista, companheiro de Hitler e seu parceiro nas agres
sões, havia encontrado seu fim, partilhado pela amante Clara Petacci.
Tinham sido capturados por guerrilheiros italianos em 26 de abril — quando
tentavam fugir de Como para a Suíça — e executados dois dias depois. Na noite
de 28 de abril, um sábado, foram os corpos transportados para Milão, num cami
nhão, e jogados na piazza. No dia seguinte foram dependurados pelos pés, em
postes de iluminação, sendo retirados horas depois e largados na sarjeta onde per
maneceram durante o resto da tarde do domingo e onde os italianos, em sua vin
gança, os ultrajavam. Em lQde maio, Mussolini foi enterrado ao lado de sua aman
te em vala comum, no Cimitero Maggioreyde Milão. Foi nesse clímax macabro de
degradação que II Duce e o fascismo passaram para a História.
Não se sabe quanto dos detalhes do horrendo fim do Duce foi comunicado ao
Führer. Pode-se apenas imaginar que, se ouviu boa parte deles, firmou-se em sua
resolução de não querer servir, tanto ele como sua mulher, de “espetáculo, apre
sentado pelos judeus, para divertir massas histéricas” — conforme acabara de
escrever em seu testamento — quer vivos, quer mortos.
Logo após haver recebido a notícia da morte de Mussolini, Hitler começou os
preparativos finais para a sua própria morte. Mandou envenenar seu cão alsacia-
no favorito, Blondi e matar a tiros os dois outros da casa. Chamou depois as secre
tárias que ali haviam permanecido, entregando-lhes cápsulas de veneno para usa
rem, se quisessem, quando os bárbaros russos irrompessem no abrigo. Sentia,
disse, não lhes poder dar melhor presente de despedida, e manifestou seu reco
nhecimento pelos longos e leais serviços.
Chegou a noite, a última da vida de Hitler. Deu instruções a Frau Junge, uma
das secretárias, para destruir os restantes documentos existentes em seu arquivo e
ordenou que ninguém no abrigo se recolhesse ao leito até novo aviso. Todos inter
pretaram isso como significando que ele julgara ter chegado a ocasião de fazer as
despedidas. Foi, porém, somente depois de meia-noite, mais ou menos às 2:30h
de 30 de abril, segundo se recordam várias testemunhas, que o Führer saiu de seus
aposentos particulares e apareceu na sala de jantar onde cerca de vinte pessoas, na
g õ t t e r d â m m e r u n g : o s ú l t i m o s d ia s d o t e r c e i r o r e i c h 685
maioria membros de sua entourage, se achavam reunidas. Apertou a mão de cada
um dos presentes, murmurando algumas palavras inaudíveis. Seus olhos estavam
úmidos e, segundo relatou Frau Junge, “pareciam olhar ao longe, para além das
paredes do abrigo”.
Aconteceu um fato curioso depois que se retirou. A tensão reinante no abrigo,
que progressivamente atingia um ponto insustentável, rompeu-se e várias pessoas
foram para a cantina... a fim de dançar. A festa fantástica tornou-se tão barulhen
ta que, dos aposentos de Hitler, veio um recado pedindo para ficarem mais sosse
gados. Os russos poderiam chegar dentro de poucas horas e matá-los, a todos —
se bem que a maioria já estivesse pensando em como escapar. Entrementes,
porém, e por breve intervalo, agora que havia terminado o rigoroso domínio do
Führer sobre suas vidas, queriam divertir-se onde pudessem. Parecia que aquelas
pessoas haviam sido tomadas por uma enorme sensação de alívio. Continuaram
a dançar durante toda a noite.
Menos Bormann. Esse homem tenebroso tinha ainda um trabalho a fazer.
Afigurava-se-lhe que as perspectivas de sobreviver estavam diminuindo. Talvez
não houvesse um intervalo suficientemente longo entre a morte do Führer e a
chegada dos russos, durante o qual pudesse fugir e unir-se a Dõnitz. Nesse caso,
enquanto o Führer ainda vivesse e apoiasse suas ordens, ele poderia pelo menos
exigir nova vingança contra os traidores. Despachou, nessa última noite, nova
mensagem a Dõnitz:
Dõnitz!
Acentua-se diariamente nossa impressão de que as divisões, no cenário
de Berlim, têm permanecido inativas durante vários dias. Todas as in
formações que recebemos são controladas, suprimidas ou destorcidas
por Keitel (...) O Führer ordena-vos agir imediatamente e sem contem
plação contra todos os traidores.
Depois, embora sabedor de que a morte de Hitler era questão de poucas horas,
acrescentou um Postscriptum: “O Führer está vivo e comanda a defesa de Berlim.”
Berlim, no entanto, já não era mais defensável. Os russos haviam ocupado qua
se toda a cidade. Tratava-se, agora, apenas da defesa da chancelaria, que também
estava condenada, como souberam Hitler e Bormann por ocasião da conferência
686 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
sobre a situação ao meio-dia de 30 de abril, a última que se realizaria. Os russos
tinham atingido a extremidade leste do Tiergarten e irrompido na Potsdamerplatz.
Achavam-se a apenas um quarteirão. Chegara a hora, para Adolf Hitler, de levar a
efeito sua resolução.
Sua esposa, ao que parece, não sentiu vontade de almoçar naquele dia. Hitler
fez a refeição em companhia de suas duas secretárias e de sua cozinheira vegetaria
na, que talvez ignorasse ter sido essa a última refeição que lhe preparava. Enquan
to a terminavam, por volta das 14:30h, Erich Kempka, motorista do Führer a cuja
direção se achava a garagem da chancelaria, recebeu ordem de levar imediatamen
te duzentos litros de gasolina para o jardim. Kempka sentiu dificuldade em conse
guir tanto combustível, mas arranjou por fim 180 litros, aproximadamente, e, au
xiliado por três homens, levou-os para a saída de emergência do abrigo.24
Enquanto se arranjava a gasolina para atear a fogueira naqueles funerais à ma
neira viking, Hitler tendo terminado sua última refeição, foi buscar Eva Braun
para outra despedida a seus mais íntimos colaboradores: dr. Goebbels, generais
Krebs e Burgdorf, as secretárias e Fraulein Manzialy, a cozinheira. Frau Goebbels
não apareceu. Essa bela e extraordinária loura, à semelhança de Eva Braun, achou
fácil tomar a decisão de morrer juntamente com o esposo, mas a perspectiva de
matar seus seis jovens filhos, que brincavam no abrigo subterrâneo durante aque
les últimos dias sem terem idéia do futuro que os aguardava, afligia-a.
“Minha querida Hanna”, dissera a Fraulein Reitsch duas ou três noites antes,
“quando chegar o fim, você precisará auxiliar-me, se eu fraquejar, com relação às
crianças (...) Elas pertencem ao Terceiro Reich e ao Führer, e se ambos deixarem
de existir, não haverá mais lugar para elas. Meu maior medo é vir a fraquejar no
último momento.” Só, no seu pequeno quarto, ela procurava agora dominar seu
maior medo.*
Hitler e Eva Braun não eram afligidos por esse problema, tinham somente suas
vidas para eliminar. Terminaram as despedidas e retiraram-se para seus aposen
tos. Fora, no corredor, o dr. Goebbels, Bormann e alguns outros ficaram na expec
tativa. Passados uns minutos, ouviu-se um tiro de revólver. Esperaram pelo se
gundo, mas nada ouviram. Após regular intervalo, entraram silenciosamente nos
aposentos do Führer. Encontraram o corpo de Adolf Hitler estirado num sofá,
* Os filhos, com as respectivas idades, eram: Hela, 12; Hilda, 11; Helmut, 9; Holde, 7; Hedda, 5; e Heide, 3.
GÕTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 687
esvaindo-se em sangue. Eva Braun jazia a seu lado. Dois revólveres estavam caí
dos no chão; a esposa não fizera uso do seu. Havia ingerido veneno.
Eram 15:30h de 30 de abril de 1945, segunda-feira, dez dias após o 56- aniver
sário de Hitler e 12 anos, três meses e um dia desde que ele se tomara chanceler da
Alemanha e instituíra o Terceiro Reich - o qual se extinguiria dali a uma semana.
Seguiram-se os funerais à maneira viking. Não houve discursos; o único ruído
era o provocado pelas granadas russas que explodiam, ensurdecedoramente, no
jardim da chancelaria e nos muros destroçados, em torno. O camareiro de Hitler,
o Sturmbann-führer Heinz Linge, das S.S., e um ordenança transportaram para
fora do abrigo o corpo do Führer, envolto num cobertor cinzento de campanha
que lhe ocultava o rosto estraçalhado. Kempka identificou-o, em seu próprio es
pírito, pelas calças e pelos sapatos pretos que apareciam fora do cobertor, e que o
senhor supremo da guerra sempre usara com o casaco curto cinzento, de campa
nha. A morte de Eva Braun havia sido mais limpa: não havia sangue. Bormann
carregou o corpo como estava até o corredor, onde o entregou a Kempka.
Frau Hitler [contou mais tarde o motorista] usava um vestido preto (...)
Não vi ferimento algum em seu corpo.
Os cadáveres foram levados para o jardim e, durante uma pausa no bombar
deio, colocados num buraco aberto pela explosão de uma granada e queimados
com gasolina. Os acompanhantes do enterro, tendo à frente Goebbels e Bormann,
retiraram-se e ergueram a mão direita numa saudação nazista de despedida. A
cerimônia foi breve, pois as granadas russas começaram novamente a cair no jar
dim. Os sobreviventes voltaram para a segurança do abrigo, deixando as chamas,
alimentadas pela gasolina, completarem a obra de erradicar da Terra os restos
mortais de Adolf Hitler e sua mulher.* Quanto a Bormann e Goebbels, havia ain
da para eles tarefas a serem executadas no Terceiro Reich, agora que ficara priva
do de seu fundador e ditador, se bem que não fossem as mesmas.
* Os ossos não foram encontrados, e isso suscitou rumores, depois da guerra, da sobrevivência de Hi
tler. Mas o interrogatório de várias testemunhas pelos oficiais ingleses e americanos do serviço secreto,
separadamente, não deixa dúvida acerca da morte do Führer. Kempka deu uma explicação a respeito
do fato de não terem sido encontrados os ossos carbonizados: "Foram eliminados pelo ininterrupto
fogo de artilharia dos russos", declarou ele aos que o interrogaram.
688 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Não havia tempo de os mensageiros chegarem ao local onde se encontrava
Dõnitz, com o testamento do Führer nomeando-o seu sucessor. O almirante de
veria, agora, ser informado pelo rádio. Mesmo a essa altura, porém, com o poder
a filgir-lhe das mãos, Bormann hesitava. Achava difícil, para quem o saboreava,
renunciar tão bruscamente a ele. Mas acabou expedindo a mensagem.
Grande almirante Dõnitz:
O Führer nomeia-vos seu sucessor em lugar do antigo marechal do
Reich Gõring. Autorização escrita acha-se a caminho. Deveis tomar
imediatamente todas as providências que a situação requeira.
Nenhuma palavra informando que Hitler morrera.
O almirante, que se encontrava no comando de todas as forças alemãs no nor
te e havia transferido seu quartel-general para Plõn, em Schleswig, ficou perplexo
com a notícia. Diferentemente dos líderes do partido, não desejava ser o sucessor
de Hitler; nunca lhe passara pelo espírito de marinheiro esse pensamento. Dois
dias antes, acreditando que Himmler seria o sucessor, fora ao chefe das S.S. e ofe-
recera-lhe seu apoio. Como, porém, nunca lhe ocorrera desobedecer a uma ordem
do Führer, enviou a seguinte resposta na crença de que ele ainda estava vivo:
Meu Führer.
Minha lealdade para convosco será incondicional. Farei todo o possível
para socorrer-vos em Berlim. Se, entretanto, a sorte me obrigar a governar
o Reich como o sucessor nomeado por vós, continuarei esta guerra até um
fim digno do extraordinário heroísmo do povo alemão nesta luta.
Grande almirante Dõnitz
Nessa noite, Bormann e Goebbels tiveram uma nova idéia. Resolveram fazer
uma tentativa de negociação com os russos. O general Krebs, chefe do Estado-
maior geral, que havia permanecido no abrigo, fora, outrora, adido militar assis
tente em Moscou, falava o russo e, numa ocasião muito célebre, havia até sido
abraçado por Stalin na estação ferroviária de Moscou. Talvez pudesse conseguir
alguma coisa dos bolcheviques. O que Goebbels e Bormann na verdade deseja
vam, porém, era um salvo-conduto a fim de poderem assumir os postos para os
GÒTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 689
quais haviam sido nomeados no novo governo de Dõnitz. Em troca, estavam dis
postos a entregar Berlim.
O general Krebs partiu logo depois da meia-noite de 30 de abril para falar com
o general Chuikov, comandante soviético das tropas que lutavam em Berlim.* Um
dos oficiais alemães que o acompanharam registrou a abertura das conversações.
Krebs: Hoje é Ia de maio, Dia do Trabalho, um grande feriado para
nossas duas nações.
Chuikov: Realmente, é um grande feriado para nós. Quanto à situação
com os senhores, é difícil dizer como está.25
O general russo exigiu a rendição incondicional de todos os que se encontra
vam no abrigo do Führer e das tropas alemãs remanescentes, de Berlim.
Levou algum tempo para Krebs levar a cabo sua missão. Como não voltara até
as 1 lh, de lfi de maio, o impaciente Bormann expediu outra mensagem a Dõnitz,
pelo rádio.
O testamento está em vigor. Irei ter convosco o mais breve possível. Até
lá, recomendo-vos manter em suspenso a publicação.
Isso ainda era ambíguo. Bormann, na verdade, não tinha hombridade bastan
te para dizer que o Führer estava morto. Desejava sair para ser o primeiro a dar a
Dõnitz a momentosa notícia, esperando que isso o ajudasse a assegurar as boas
graças do novo comandante-em-chefe. Goebbels, porém, que juntamente com a
mulher e os filhos estava prestes a morrer, não tinha motivo semelhante para não
contar ao almirante a verdade. Às 15:15h enviou sua própria mensagem a Dõnitz,
a última a sair do abrigo sitiado:
Grande almirante Dõnitz:
Secretíssimo.
O Führer morreu ontem às 15:30h. O testamento, de 29 de abril, vos
nomeia presidente do Reich (...) [Seguem-se os nomes dos principais
componentes do Gabinete].
* Não o marechal Zhukov, como consta de muitas versões.
690 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Por ordem do Führer, o testamento vos foi enviado de Berlim (...)
Bormann tenciona procurar-vos hoje para informar-vos da situação. A
hora e a forma da declaração à imprensa e às tropas ficam a vosso crité
rio. Confirmai o recebimento.
Goebbels
Goebbels não julgou necessário informar o novo chefe quais eram suas pró
prias intenções. Levou-as a cabo nas primeiras horas da noite de le de maio. O
primeiro ato consistiu em envenenar os seis filhos. Interrompeu-lhes as brinca
deiras e mandou aplicar-lhes injeções letais aparentemente pelo mesmo médico
que, na véspera, tinha envenenado o cão do Führer. Chamou depois seu ajudante,
o Hauptsturmführer das S.S., Günther Schwâgermann, ordenando-lhe que fosse
buscar gasolina.
“Schwâgermann”, disse-lhe, “essa é a pior traição de todas. Os generais traíram
o Führer. Tudo está perdido. Vou morrer juntamente com minha mulher e a famí
lia”. Não mencionou, mesmo ao ajudante, que acabara de matar os filhos. “Você
queimará nossos corpos. Poderá encarregar-se disso?”
Schwâgermann assegurou-lhe que sim e mandou dois ordenanças arranja
rem gasolina. Minutos depois, por volta de 20:30h, quando a escuridão invadia
o jardim, o dr. e Frau Goebbels atravessaram o corredor do abrigo, despediram-
se de todos os que ali se achavam e, depois, subiram a escada que dava para a
saída. Ali, a seu pedido, um ordenança das S.S. matou-os com dois tiros na nuca.
Derramaram sobre os corpos quatro latas de gasolina e atearam fogo; mas a cre
mação não foi bem-feita.26 Os sobreviventes do abrigo estavam ansiosos por
unir-se à fuga em massa que já se processava, e não havia tempo a perder com a
cremação dos que se achavam mortos. Os russos encontraram os corpos carbo
nizados do ministro da Propaganda e de sua mulher no dia seguinte, identifican
do-os imediatamente.
Às 21h de lfi de maio o abrigo do Führer foi incendiado. Quinhentos ou
seiscentos sobreviventes de sua entourage, a maioria elementos das S.S., agita
vam-se pelo abrigo da nova chancelaria — como frangos desesperados, como
mais tarde contou um deles, alfaiate de Hitler —, preparando-se para a fuga. O
plano era seguir a pé ao longo das linhas do metrô, partindo da estação existente
sob a Wilhelmsplatz, defronte à chancelaria, até a Friedrichstrasse Bahnhof e, dali,
g õ t t e r d â m m e r u n g : o s ú l t i m o s d ia s d o t e r c e i r o r e i c h 691
atravessar o rio Spree e transpor as linhas russas logo ao norte dele. Muitos con
seguiram fazer a travessia; alguns não, entre eles Martin Bormann.
Quando o general Krebs voltou finalmente ao abrigo naquela tarde, com a
exigência do general Chuikov — rendição incondicional —, o secretário do parti
do de Hitler foi de opinião que a única oportunidade de sobreviver era juntar-se
àquele êxodo em massa. Seu grupo tentou seguir um tanque alemão, mas, segun
do Kempka que se achava com ele, o veículo foi diretamente atingido por uma
granada russa. Era mais que certo ter Bormann morrido nessa ocasião. Artur
Axmann, chefe da Juventude Hitlerista, que, para se salvar, havia desertado de seu
batalhão de rapazes na ponte de Pichelsdorf e estava ali presente, declarou, ao
prestar mais tarde seu depoimento, ter visto o corpo de Bormann estendido sob a
ponte onde a Invalidenstrasse atravessa a linha férrea. Seu rosto estava iluminado
pelo luar; disse Axmann, que não viu sinal algum de ferimento. Presume que
Bormann tivesse ingerido o conteúdo de sua cápsula de veneno, ao ver que eram
nulas as possibilidades de atravessar as linhas russas.
Os generais Krebs e Burgdorf não participaram da tentativa de fuga. Acredita-
se que se tenham suicidado na adega da nova chancelaria.
O fim do Terceiro Reich
O Terceiro Reich sobreviveu a seu fundador apenas sete dias.
Pouco depois das 22h de le de maio, enquanto os corpos do dr. e Frau Goeb
bels estavam sendo queimados no jardim da chancelaria e os que habitavam o
abrigo reuniam-se para empreender a fuga pelo túnel do metrô de Berlim, a rádio
de Hamburgo interrompeu a transmissão solene da Sétima Sinfonia de Bruckner,
que estava sendo executada. Ouviu-se o rufar de tambores militares, anunciando
depois o locutor:
Nosso Führer, Adolf Hitler, lutando até o último alento contra o bol-
chevismo, tombou pela Alemanha, esta tarde, em seu quartel-general
de operações na chancelaria do Reich. O Führer nomeou seu sucessor,
em 30 de abril, o grande almirante Dõnitz. O grande almirante e suces
sor do Führer vai agora dirigir a palavra ao povo alemão.
692 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
O Terceiro Reich, da mesma maneira que começara, extinguia-se com uma vil
mentira esfarrapada. Fora o caso de não ter Hitler morrido naquela tarde e sim no
dia anterior — o que aliás não tinha importância —, não tombara ele lutando “até
o último alento”; mas a transmissão dessa mentira era necessária para os herdei
ros de seu manto perpetuarem uma lenda e, também, para serem controladas as
tropas que ainda ofereciam resistência e que, certamente, se sentiriam traídas se
conhecessem a verdade.
O próprio Dõnitz repetiu a mentira quando, às 22:20h, ocupou o microfone e
falou sobre a “morte heróica” do Führer. Na verdade, naquele momento ignorava
qual fora o fim de Hitler. Goebbels apenas o informara que o Führer tinha morri
do na tarde anterior. Isso, porém, não impediu o almirante — quer nesse ponto,
quer em outros — de esforçar-se por confundir ainda mais o espírito do povo
alemão naquela hora de desastre.
Minha primeira tarefa [declarou] é salvar a Alemanha da destruição
pelas forças inimigas que estão avançando. É somente com esse objeti
vo que a luta continua. Até e enquanto a realização desse objetivo for
impedida pelos ingleses e americanos, seremos forçados a prosseguir
em nossa luta defensiva contra eles. Nessas condições, portanto, os an
glo-americanos estão continuando a guerrear não para seus próprios
povos, mas, somente, para a propagação do bolchevismo na Europa.
Após essa tola distorção dos fatos, o almirante, de quem não se tem registro de
haver protestado contra a decisão de Hitler de aliar a Alemanha à nação bolche-
vique, em 1939, para combaterem a Inglaterra e depois os Estados Unidos, garan
tiu ao povo alemão, ao concluir a irradiação: “Deus não nos abandonará após
tantos sofrimentos e sacrifícios.”
Eram palavras vazias. Dõnitz sabia que a resistência alemã chegara ao fim.
Em 29 de abril, o dia anterior ao suicídio de Hitler, os exércitos alemães na Itália
se renderam incondicionalmente, acontecimento cuja notícia, dada a interrup
ção nas comunicações, fora poupada a Hitler, o que devia ter-lhe tornado as últi
mas horas mais toleráveis. Em 4 de maio, o Alto-Comando alemão rendeu-se a
Montgomery com todas as forças do noroeste da Alemanha, da Dinamarca e da
Holanda. No dia seguinte, o grupo G de exércitos, de Kesselring, abrangendo o le
e o 19â Exércitos, capitulou no norte dos Alpes.
GÕTTERDÂMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 693
Nesse dia, 5 de maio, o almirante Hans von Friedeburg, novo comandante-
em-chefe da marinha alemã, chegou ao quartel-general do general Eisenhower, em
Reims, para negociar a rendição. O objetivo dos alemães, conforme demonstram
os últimos documentos do OKW,27 era ganhar tempo a fim de afastar do caminho
dos russos o maior número possível de tropas e refugiados, permitindo-lhes en
tregarem-se aos Aliados ocidentais. O general Jodl chegou a Reims no dia se
guinte para auxiliar seu colega da marinha a elaborar os planos. Foi, porém, inútil.
Eisenhower percebeu o jogo.
Ordenei ao general Smith [contou ele mais tarde] que informasse Jodl
de que, a menos que naquele momento cessassem todas as simulações
e delongas, fecharia toda a frente aliada e, pela força, impediria que
outros refugiados alemães entrassem em nossas linhas. Não mais tole
rarei demoras.28
Na madrugada de 7 de maio, à l:30h, Dõnitz, depois de ser informado por Jodl
a respeito da exigência de Eisenhower, radiografou ao general alemão de seu novo
quartel-general em Flensburg, na fronteira dinamarquesa, dando-lhe amplos pode
res para assinar o documento da rendição incondicional. O jogo terminou assim.
Numa pequena escola de tijolos vermelhos, em Reims, onde Eisenhower ins
talou seu quartel-general, deu-se a capitulação incondicional da Alemanha às
2:41h de 7 de maio de 1945. Foi assinada, em nome dos Aliados, pelo general
Walter Bedell Smith, apondo suas assinaturas como testemunhas o general Ivan
Susloparov, pela Rússia, e o general François Sevez, pela França. O almirante Frie
deburg e o general Jodl assinaram pela Alemanha.
Jodl solicitou permissão para dizer algumas palavras, sendo-lhe concedida.
Com essa assinatura, o povo e as forças armadas da Alemanha são, para
melhor ou pior, entregues às mãos dos vencedores (...) Nesta hora, pos
so apenas exprimir a esperança de que os vencedores os tratem com
generosidade.
Não houve resposta por parte dos Aliados. Jodl, talvez, devia ter-se recordado
de outra ocasião, apenas cinco anos antes, quando os papéis estavam invertidos.
694 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Naquele tempo, um general francês, ao assinar a rendição incondicional da Fran
ça em Compiègne, fizera apelo semelhante. Fizera-o em vão, conforme se verifi
cou depois.
Os canhões cessaram fogo na Europa, e as bombas deixaram de cair, à meia-
noite, de 8 para 9 de maio de 1945. Um estranho, porém bem-vindo silêncio
pairou sobre o continente pela primeira vez, desde lfi de setembro de 1939. Na
queles cinco anos, oito meses e sete dias decorridos, milhões de homens e mulhe
res tinham sido mortos em centenas de campos de batalha e em milhares de ci
dades bombardeadas; milhões de outros tinham encontrado a morte nas câmaras
de gás nazistas e nas valas, vitimados pelos Einsatzgruppen das S.S., na Rússia e
na Polônia, em conseqüência da sede de conquistas de Adolf Hitler para a Ale
manha. Grande parte de muitas das cidades antigas da Europa jazia em ruínas e,
de seus escombros, ao esquentar o tempo, subia o cheiro de incontáveis cadáve
res insepultos.
Não mais ecoaria pelas ruas das cidades alemãs o ruído das botas das tropas de
assalto em passo de ganso, tampouco os brados daquela massa de camisas pardas
ou os gritos do Führer troando dos alto-falantes.
Após 12 anos, quatro meses e oito dias, uma Idade das Trevas para os alemães,
exceto para uma porção deles — e que agora terminava numa noite tenebrosa
também para eles —, chegava ao fim com o Reich de Mil Anos. Conforme vimos,
ele havia erguido essa grande nação e esse povo tão engenhoso, porém tão facil
mente mal orientado, ao auge do poder e das conquistas, como jamais havia expe
rimentado antes, e agora se extinguia de maneira brusca e total, quase sem para
lelo, se é que houve, na história.
Em 1918, após a última derrota, o Kaiser havia fugido, a monarquia caído;
mas as instituições tradicionais que apoiavam o Estado haviam permanecido e
um governo eleito pelo povo continuou a funcionar como o fizera o núcleo de um
exército e um Estado-maior geral alemães. Na primavera de 1945, porém, o Ter
ceiro Reich simplesmente deixou de existir. Não mais havia qualquer autoridade
em qualquer nível na Alemanha. Os milhões de soldados, aviadores e marinhei
ros tornaram-se prisioneiros de guerra em sua própria terra. Os milhões de civis
estavam sendo governados, até nas aldeias, pelas tropas inimigas vencedoras,
das quais dependiam, não só para manutenção das leis e da ordem mas, também
— durante todo aquele verão e amargo inverno de 1945 —, para obtenção de
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 695
mantimentos e combustíveis a fim de se conservarem vivos. Tal foi a situação a
que as loucuras de Adolf Hitler — e sua própria loucura em segui-lo tão cegamen
te e com tanto entusiasmo — os tinham levado, se bem que eu tivesse percebido
pouco ressentimento contra ele quando voltei à Alemanha, no outono.
O povo estava lá e também a terra: o povo, desnorteado, sangrando e faminto
e, quando chegou o inverno, tiritante de frio em trajes esfarrapados, em meio às
ruínas em que os bombardeios haviam transformado suas casas; a terra, um vasto
deserto de destroços. O povo alemão não foi destruído como Hitler, que procura
ra destruir tantos outros povos, perdida a guerra, no fim, desejara que fosse.
Mas, quanto ao Terceiro Reich, passou ele para a História.
Breve epílogo
Voltei naquele outono àquele outrora orgulhoso país, onde passara a maior
parte da breve vida do Terceiro Reich. Foi difícil reconhecê-lo. Descrevi essa volta
em outro livro.29 Resta, aqui, apenas registrar o destino dos demais personagens
que, nestas páginas, figuram de maneira proeminente.
O limitado governo de Dõnitz que havia sido instalado em Flernsburg, na
fronteira dinamarquesa, foi dissolvido pelos Aliados em 23 de maio de 1945, e
todos os seus membros foram presos. Heinrich Himmler dele havia sido demi
tido em 6 de maio, na véspera da rendição em Reims, golpe com o qual o almi
rante pensava granjear as boas graças dos Aliados. O antigo chefe das S.S. que,
durante tanto tempo, enfeixou em suas mãos o poder de vida e morte sobre mi
lhões de pessoas na Europa e que freqüentemente o tinha exercido, vagueou pelas
vizinhanças de Flensburg até 21 de maio, ocasião em que, juntamente com 11 ofi
ciais das S.S., procurou atravessar as linhas inglesas e americanas para alcançar sua
terra natal na Baviera. Himmler — coisa que devia tê-lo humilhado — havia ras
pado o bigode, atado uma venda sobre o olho esquerdo e envergado um uniforme
de soldado raso do exército. O grupo foi detido num ponto controlado pelos in
gleses, entre Hamburgo e Bremerhaven. Após algumas perguntas, Himmler con
fessou sua identidade a um capitão do exército inglês, que o conduziu ao quartel-
general do 2fi Exército, em Lüneburg. Foi ali despido, sendo vasculhadas suas
roupas. Fizeram-no vestir um uniforme do exército inglês para evitar a Himmler
696 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
qualquer possibilidade de servir-se de algum veneno oculto nas vestes. Mas a bus
ca não foi completa; havia ele conservado sua ampola de cianureto de potássio
oculta num dos cantos da boca. Quando um segundo oficial do serviço secreto
inglês chegou do quartel-general de Montgomery, em 23 de maio, e deu instru
ções a um oficial médico para examinar a boca do prisioneiro, ele rompeu a am
pola e morreu dez minutos depois, a despeito dos grandes esforços feitos para
mantê-lo vivo, fazendo-lhe lavagens no estômago e ministrando-lhe vomitórios.
Os remanescentes colaboradores íntimos de Hitler viveram um pouco de
tempo mais. Fui vê-los em Nuremberg. Observara-os, naquela cidade. No recin
to reservado aos réus, perante o Tribunal Militar Internacional, pareciam dife
rentes. Ocorrera completa metamorfose. Envergando roupas grosseiras, derrea-
dos em seus bancos, mexendo nervosamente os dedos, não mais pareciam
aqueles antigos e arrogantes líderes. Semelhavam mais um triste grupo de pes
soas medíocres. Parecia difícil compreender que tais homens, quando vistos en
tão, tivessem manejado tão imenso poder e conquistado uma grande nação e a
maior parte da Europa.
Havia 21 deles no recinto dos réus:* Gõring com 35 quilos a menos do que na
última vez em que eu o vira, metido num desbotado uniforme da Luftwaffe, sem
insígnias e obviamente satisfeito pelo fato de lhe ter sido dado o primeiro lugar no
recinto dos réus, uma espécie de reconhecimento tardio de sua posição na hierar
quia nazista agora que Hitler havia morrido; Rudolf Hess, o terceiro homem de
destaque antes do vôo para a Inglaterra, agora com o rosto esmaecido, os olhos
muito fimdos fitando um ponto qualquer no espaço, fingindo amnésia, mas não
deixando dúvida de que era um homem deprimido; Ribbentrop, finalmente des
pido de sua arrogância e pomposidade, muito pálido, curvado e alquebrado; Kei
tel, que havia perdido toda a sua jactância; Rosenberg, o confuso “filósofo” do
Partido, que os acontecimentos que o haviam levado àquele lugar pareciam ter
despertado à realidade.
Achava-se lá Julius Streicher, o atormentador dos judeus de Nuremberg.
Esse sádico e pornográfico personagem, que certa vez vi andando pelas ruas da
velha cidade brandindo um chicote, parecia ter definhado. Calvo, parecendo um
* O dr. Robert Ley, chefe do Arbeitsfront, que devia ter comparecido como réu, enforcara-se na cela
antes de começar o julgamento. Fez um laço com pedaços de uma toalha e amarrou-o a um cano do
banheiro.
GÕTTERDÀMMERUNG: OS ÚLTIMOS DIAS DO TERCEIRO REICH 697
decrépito, transpirava com abundância e olhava fixamente para os juizes, conven
cido — contou-me um guarda depois — de que eles todos eram judeus. Lá estava
Fritz Sauckel, o chefe dos trabalhos forçados no Terceiro Reich, seus pequenos e
estreitos olhos dando-lhe a aparência de um porco. Parecia nervoso, balançando-
se de um lado para outro. Junto a ele via-se Baldur von Schirach, o primeiro chefe
da Juventude Hitlerista e, tempos depois, Gauleiter de Viena, mais de sangue ame
ricano do que “de sangue alemão e parecendo um colegial arrependido, expulso
da escola por haver cometido uma falta grave”. Vi Walther Funk, uma nulidade, de
olhar velhaco, que fora sucessor de Schacht. E lá estava o próprio dr. Schacht, que
passara os últimos anos do Terceiro Reich como prisioneiro de seu outrora vene
rado Führer , num campo de concentração, temendo ser a qualquer momento exe
cutado; indignava-se agora com o fato de os Aliados submeterem-no a julgamen
to como criminoso de guerra. Franz von Papen, mais responsável que qualquer
outro indivíduo na Alemanha pela ascensão de Hitler ao poder, havia sido captu
rado e levado a julgamento. Ele, que havia escapado de tantas situações difíceis,
parecia muito envelhecido; via-se-lhe, porém, estampada no rosto, a mesma ex
pressão de raposa velha.
Neurath, o primeiro-ministro das Relações Exteriores do governo de Hitler,
alemão da velha escola, com poucas convicções e pouca integridade, parecia com
pletamente alquebrado. Já o mesmo não se dava com Speer, que de todos foi quem
deu impressão de maior coerência e que, durante o longo julgamento, falou com
sinceridade, sem procurar fugir à sua responsabilidade e culpa. Seyss-Inquart, o
quisling da Áustria, estava no banco dos réus, assim como os dois grandes almi
rantes Ráder e Dõnitz, o sucessor de Hitler, que parecia, com sua roupa, um em
pregado de casa de calçados. Via-se ali Kaltenbrunner, o sanguinário sucessor do
carrasco Heydrich, que, no banco dos réus, negou todos os seus crimes. E Hans
Frank, o inquisidor nazista na Polônia, que confessaria alguns de seus crimes e,
por fim, deles se arrependeria; conforme disse, tendo descoberto Deus, pedia-lhe
agora perdão. Frick, tão insípido na soleira da morte como o fora na vida. E, final
mente, Hans Fritsche, que havia feito carreira como comentarista de rádio por
causa de sua voz que se parecia com a de Goebbels, que o fizera funcionário do
Ministério da Propaganda. Ninguém no tribunal — Fritsche inclusive — parecia
saber por que ele estava ali. Era um personagem demasiado insignificante — a
menos que fosse como um espectro de Goebbels. Foi absolvido.
698 A QUEDA DO TERCEIRO REICH
Também o foram Schacht e Papen. Os três, porém, foram depois condenados
pelos tribunais de desnazificação alemães, se bem que, por fim, cumpriram pena
extremamente curta.
Sete réus, em Nuremberg, foram condenados: Hess, Rãder e Funk, à prisão
perpétua; Speer e Schirach, a vinte anos de prisão; Neurath, a 15, e Dõnitz, a dez.
Os outros foram condenados à morte.
À l:15h de 16 de outubro de 1946, Ribbentrop subiu ao cadafalso na câmara de
execução da prisão de Nuremberg, seguindo-se-lhe, em curtos intervalos, Keitel,
Kaltenbrunner, Rosenberg, Frank, Frick, Streicher, Seyss-Inquart, Sauckel e Jodl.
Menos Hermann Gõring, que ludibriou o carrasco. Duas horas antes de che
gar sua vez, engoliu uma ampola contendo veneno que conseguira contrabandear
para sua cela. Como o seu Führer, Adolf Hitler, e seu rival na luta pela sucessão,
Heinrich Himmler, conseguiu à última hora um meio pelo qual deixou esta terra
na qual, como os outros dois, causara tão mortífero impacto.
Notas
Abreviaturas usadas nestas notas
DBRFP — Documentos sobre a Política Exterior da Inglaterra. Arquivos do Ministério das Re
lações Exteriores da Inglaterra.
DDI — Documentos Diplomáticos Italianos. Arquivos do governo italiano.
DGFP — Documentos sobre a Política Exterior da Alemanha. Arquivos do Ministério das Rela
ções Exteriores da Alemanha.
FCNA — Conferências do Führer sobre Questões Navais. Registros sumários das conferências de
Hitler com o comandante-em-chefe da marinha alemã.
NCA — Conspiração e Agressão dos Nazistas. Parte dos documentos de Nuremberg.
N.D.— Documentos de Nuremberg.
NSR — Relações Soviéticas. Arquivos do Ministério das Relações Exteriores do Reich.
TMWC — Julgamento dos Grandes Criminosos de Guerra. Documentos e depoimentos cons
tantes do julgamento em Nuremberg.
TWC — Julgamento dos Criminosos de Guerra perante os Tribunais Militares de Nuremberg.
I. A GUERRA - PRIMEIRAS VITÓRIAS E O 9. Despacho de Schulenburg, ibid., p. 92.
MOMENTO DECISIVO 10. Ibid., p. 103.
i. A queda da Polônia
c a p ítu lo 11. Ibid., p. 105.
1. Texto da resposta russa, DGFP, VIII, p. 4. 12. Ibid., p. 123-4.
Certo número das mensagens trocadas 13. Ibid., p. 130.
entre os nazistas e os soviéticos acha-se 14. Os dois telegramas, ibid., p. 147-8.
impresso em NSR, mas o DGFP faz um 15. Ibid., p. 162.
relato mais amplo. 16. Ibid., Apêndice I.
2. Ibid., p. 33-4. 17. O texto do tratado, incluindo os
3. Felicitações de Molotov, ibid., p. 34. Sua protocolos secretos, a declaração
promessa de ação militar, p. 35. pública e as duas cartas trocadas entre
4. Despacho de Schulenburg em 10 de Molotov e Ribbentrop, ibid., p. 164-8.
dezembro, ibid., p. 44-5.
5. Ibid., p. 60-1. c a p í t u l o 2 . Sitzkrieg na
frente ocidental
6. Ibid., p. 68-70. 1. General de divisão J. F. C. Fuller, The
7. Ibid., p. 76-7. Second World Waryp. 55. Citado em The
8. Ibid., p. 79-80. First Quarter, p. 343.
700 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM (19 39 -1 9 4 5 )
2. Texto da Diretiva ne 3, DGFP, VIII, p. 41. 19. DGFP, VII, p. 414.
3. Namier, op. cit., p. 459-60. Ele cita o 20. Memorando de Hitler, NCA, VII, p. 800-14
texto francês da convenção. (N.D. L-52); Diretiva ne 6, NCA, VI, p.
4. Testemunho de Halder para os réus, no 880-1 (N.D. c-62).
julgamento do “Caso dos Ministros”, em 2 1 . 0 texto figura em TWC. X, p. 864-972
8-9 de setembro de 1948, em (N.D. NOKW-3433).
Nuremberg, TWC, XII, p. 1086. 22. Schlabrendorff, op. cit., p. 25, e Gisevius,
5. Testemunho de Jodl em sua própria op. cit., p. 431, narram essa trama.
defesa em Nuremberg, em 4 de junho de 23. Wheeler-Bennett, em Nemesis, p. 491 n,
1946, TMWC, XV, p. 350. dá as fontes alemãs. Ver, também. Hassell,
6. Testemunho de Keitel em sua própria op. cit., e Thomas, “Gedanken und
defesa em Nuremberg, em 4 de abril de Ereignisse”, loc. cit.
1946, ibid., X, p. 519. 24. Interrogatório de Halder em Nuremberg,
7. Churchill, The Gathering Storm, p. 478. em 26 de fevereiro de 1946, NCA, Supl.
8. FCNA, 1939, p. 16-7. B, p. 1564-70.
9. Memorando de Weizsácker sobre sua 25. Rothfels, The German Opposition to Hitler.
conferência com Kirk, DGFP, VIII, p. 3-4. 26. Figuram em NCA, VI, p. 893-905 (N.D.
Seu testemunho em Nuremberg sobre c-72).
sua conferência com Ráder, TMWC, 27. Bülow-Schwante depôs no Caso dos
XIV, p. 278. Ministros, perante o tribunal militar de
10. Ibid., XXXV, p. 527-29 (N.D. 804-D). O Nuremberg, sobre a mensagem de
documento dá o memorando de Rãder Goerdeler e sua própria audiência
sobre sua conversa e o texto do telegrama particular com o rei Leopoldo. Ver
do adido naval americano a Washington. transcrição, ed. inglesa, p. 9807-11.
11. Declaração de Dõnitz em Nuremberg, Mencionado também em DGFP, VIII, p.
sob juramento, NCA, VII, p. 114-5 (N.D. 384rc. Seu telegrama de advertência a
638-D). Berlim acha-se impresso em DGFP, VIII,
12. Ibid., p. 156-8. p. 386.
13. Testemunho de Rãder em Nuremberg, 28. Quanto aos vários relatos sobre o rapto
TMWC, XIV, p. 78; de Weizsácker, ibid., de Venlo, ver S. Payne Best, The Venlo
p. 277,279,293; de Hans Fritsche, alto incident; Schellenberg. The Labyrinth;
funcionário do Ministério da Propaganda Wheeler-Bennett, Nemesis. Um relato
e réu absolvido pelo tribunal, ibid., XVII, oficial holandês é dado no protesto do
p. 191, 234-5. O artigo do Võlkischer governo da Holanda à Alemanha, DGFP,
Beobachter figura em NCA, V, p. 1008 VIII, p. 395-6. Material adicional foi dado
(N.D. 3260-PS). Quanto à irradiação de no Caso dos Ministros julgado em
Goebbels, ver Berlin Diary p. 238. Nuremberg. Ver TWC, XII.
14. Memorando de Schmidt sobre a 29. TWC, XII, p. 1206-8, e DGFP, VIU, p. 395-6.
conferência, DGFP, VIII, p. 140-5. 30. Quanto aos vários relatos sobre o
15. Depoimento de Brauchitsch em atentado com a bomba, ver Best, op. cit.;
Nuremberg, TMWC, XX, p. 573. Uma Schellenberg, op. cit.; Wheeler-Bennett,
nota no diário de guerra do OKW Nemesis; Reitlinger, The S.S.; Berlin Diary;
confirma a citação. Gisevius, op. cit. Havia, também, algum
16. The Ciano Diaries, p. 154-5. Cianos material em Nuremberg, de que tirei
Diplomatic Papers, p. 309-16. anotações e que empreguei neste livro, se
17. DGFP, VIII, p. 24. bem que não o tenha encontrado em NCA
18. Ibid, p. 197-8. e nos volumes de TMWC.
NOTAS 701
31. As notas textuais são dadas em NCA, III, plano de ataque no Ocidente, recuperado
p. 572-80, e também em DGFP, VIII, p. pelos belgas, é dado em NCA, VIII, p. 423-8
439-46 (N.D. 789-PS). (N.D. TC-58-a). Karl Bartz fez um relato
32. Diário de Halder, 23 de novembro, e sua do incidente em Ais der Himmel Brannte.
anotação acrescentada depois. Testemunho Os comentários de Churchill encontram-
de Brauchitsch em Nuremberg, TMWC, se em The Gathering Storm, p. 556-7. Ele
X X p. 575. enganou-se na data da aterrissagem
33. Interrogatório de Halder em Nuremberg, forçada.
NCA, Supl. B, p. 1569-70. Ver também
Thomas, “Gedanken und Ereignisse”, c a p ítu lo 3. A conquista da Dinamarca e da
loc. cit. Noruega
34. Hassell, op. cit., p. 93-4,172. 1. NCA, IV, p. 104 (N.D. 1546-PS); VI, p.
35. Ibid., p. 79, 94. 891-2 (N.D c-66).
36. Do diário do Almirante Canaris, NCA, 2. Ibid., VI, p. 928 (N.D. c-122), p. 978
V, p. 769 (N.D. 3047-PS). (N.D. c-170).
37. NCA, VI, p. 97-101 (N.D. 3363-PS). 3. Ibid., p. 892 (N.D. c -166); FCNA, 1939,
38. TMWC, I, p. 297. p. 27.
39. Ibid., VII, p. 468-9. 4. Churchill, The Gathering Storm, p. 531-7.
40. Ibid., XXIX, p. 447-8. 5. FCNA, 1939, p. 51.
41. NCA, IV, p. 891 (N.D. 2233-c-PS). 6. Memorando de Rosenberg, NCA, VI, p.
42. Ibid., p. 891-2. 885-87 (N.D. c-64). É dado também em
43. Ibid., p. 553-4. FCNA, 1939, p. 53-5.
44. DGFP, VIII, p. 683n. 7. FCNA, 1939, p. 55-7.
45. texto, ibid., p. 604-9. 8. Ibid., p. 57-8.
46. Ibid., p. 394. 9. DGFP, VIII, p. 515, 546-7.
47. Ibid., p. 213. 10. Diário de Jodi, 12 e 13 de dezembro,
48. Ibid., p. 490. evidentemente mal datado. Diário de
49. NCA, IV, p. 1082. Halder, 14 de dezembro.
50. Ibid., p. 1082 (N .D .... 2353-PS). 11. Memorando de Rosenberg, NCA, III, p.
51. DGFP, VIII, p. 537. 22-5 (N.D. 004-PS).
52. Ibid., p. 591, 753, respectivamente. 12. DGFP, VIII, p. 663-6.
53. Texto do tratado comercial de 11 de 13. Texto da diretiva, NCA, VI, p. 883 (N.D.
fevereiro de 1940 e cifras sobre entregas, c-63).
ibid., p. 762-4. 14. Interrogatório de Falkenhorst em
54. NCA, IV, p. 1081-2 (N.D. 2353-PS). Nuremberg, NCA, Supl. B, p. 1534-47.
55. DGFP, VIII, p. 814-7 (memorando de 15. Texto da diretiva, NCA, VI, p. 1003-5; e
Schnurre, de 26 de fevereiro de 1940). também em DGFP, VIII, p. 831-3.
56. NCA, III, p. 620 (N.D. 864-PS). 16. Diário de Jodl, 10-14 de março de 1940.
57. A tocante carta de Langsdorff figura em 17. DGFP, VIII, p. 910-3.
FCNA, 1939, p. 62. Outro material 18. Ibid., p. 179-81,470-1.
alemão sobre a batalha e suas 19. Ibid., p. 89-91.
conseqüências, p. 59-2. 20. Texto da diretiva de Hitler, ibid., p. 817-9.
58. Servi-me de algumas fontes alemãs para 21. As minutas do dr. Schmidt sobre a
o relato dessa aterrissagem forçada: conferência de Sumner Welles com Hitler,
relatórios do embaixador alemão e adido Gõring e Ribbentrop figuram em DGFP,
da aeronáutica em Bruxelas, a Berlim, VIII; também os dois memorandos de
DGFP, VIII, e diário de Jodl. O texto do Weizsácker sobre sua conferência com
702 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939' 1945)
Welles. O emissário americano avistou-se Scandinavia, do autor, e em Denmark
também com o dr. Schacht, depois que o During the Occupation, ed. por Borge
banqueiro, agora um apóstata, havia sido Outze. A contribuição do tenente-coronel
chamado por Hitler, que lhe determinara Th. Thaulow é muito valiosa. Oficial da
a atitude que devia seguir. Ver Hassell, guarda, acompanhava sempre o rei.
op. cit., p. 121. Welles faz o relato de suas 40. Dos arquivos secretos do exército
conferências em Berlim em The Time for alemão. Citado em NCA, VI, p. 299-308
Decision. (N.D. 3596-PS).
22. DGFP, VIII, p. 865-6. 41. Dos arquivos do Estado norueguês;
23. DGFP, VIII, p. 652-6,683-4. citado em The Challenge of Scandinavia,
24. Texto da carta de Hitler a Mussolini em p. 38, do autor.
8 de março de 1940, ibid., p. 871-80. 42. DGFP, Dí, p. 124.
25. Minutas de Schmidt sobre as conferências, 43. Ibid., p. 129.
ibid., p. 882-93,898-909; versão de Ciano 44. Ibid., p. 186.
figura em Cianos Diplomatic Papers, p. 45. Churchill, The Gathering Storm, p. 601.
339-59. Ver, também, Schmidt, op. cit.,
p. 170-1, e The Ciano Diaries quanto a seus c a p ítu lo 4. Vitória no Ocidente
comentários pessoais sobre as 1. Belgium — The Official Account of what
conferências. Os dois telegramas de Happened, 1939-40, p. 27-9.
Ribbentrop a Hitler, relatando suas 2. NCA, IV, p. 1037 (N.D. 2329-PS)
entrevistas, figuram em DGFP, VIII. 3. Ibid., VI, p. 880 (N.D. c-62).
26. Welles, op. cit., p. 138. 4. Allen Dulles, op. cit., p. 58-61. Dulles diz
27. The Ciano Diaries, p. 220. que, depois da guerra, o coronel Sass
28. Transcrição das notas taquigráficas do confirmou-lhe pessoalmente essa história.
dr. Schmidt sobre a conferência, DGFP, 5. Há um vasto material sobre o
IX, p. 1-16. desenvolvimento dos planos para o
29. Hassell, op. cit., p. 116-8, onde se baseia ataque no Ocidente. Recorri às seguintes
este relato, em grande parte. fontes: diários de Halder e Jodl; opúsculo
30. Allen Dulles, Germanys Underground, p. 59. de Halder, Hitler ais Feldherr, 1949 (a
31. Shirer, The Challenge o f Scandinaviu, p. tradução inglesa, Hitler as War lord, foi
223-5. publicada em Londres, em 1950); trechos
32. Churchill, The Gathering Storm, p. 579. do diário de guerra do OKW, publicados
Os planos britânicos para R-4 são citados nos volumes de NCA e TMWC, dos
por Derry em The Campaign in Norway, documentos de Nuremberg; várias
relato oficial dos britânicos sobre a diretivas de Hitler e do OKW, publicadas
campanha na Noruega. nos volumes de Nuremberg e em DGFP,
33. Texto da diretiva, DGFP, IX, p. 66-8. VIII e IX; Manstein, Verlorene Siege;
34. Texto, ibid., p. 68-73. Goerlitz, History ofthe German General
35. Texto em NCA, VI, p. 914-5 (N.D. Staffe Der Zweite Weltkriege; Jacobsen,
c-115). Dokumente zur Vorgeschichte des
36. TMWC, XIV, p. 99,194. Westfeldzuges, 1939-1940; Guderian,
37. Texto em NCA, VIII, p. 410-4 (N.D. Panzer Leader; Blumentritt, von
TC-55). Também em DGFP, IX, p. 88-93. Rundstedt; Liddell Hart, The German
38. Despacho de Renthe-Fink, de Generais talk; um considerável material
Copenhague, DGFP, IX, p. 102-3; alemão nos documentos de Nuremberg,
despacho de Brauer, de Oslo, ibid., p. 102. da série OKW, exibido nos julgamentos
39. Versão dinamarquesa, sobre a acupação, secundários. Relativamente aos planos
baseia-se em The Challenge of britânicos, ver os dois primeiros volumes
NOTAS 703
das memórias de Ellis. The War in France 20. Telford Taylor, The March o f Conquest, p.
and Flanders, que é o relato oficial 297.
britânico; J. F. C. Fuller, The Second World 21. Texto do telegrama de Guilherme II e
War: Draper, The Six Weeks War. O melhor esboço da resposta de Hitler, DGFP, IX,
e mais completo relato, baseado em todo p. 598.
o material alemão existente, encontra-se 22. Texto das cartas trocadas entre Hitler e
em The March of Conquest, de Telford Mussolini, em maio e junho de 1940,
Taylor. figura em DGFP, IX.
6. Churchill, Their Finest Hour, p. 42-3. 23. The Ciano Diaries, p. 267.
7. DGFP, IX, p. 343-4. 24. DGFP, IX, p. 608-11.
8. Gõring e Kesselring foram inquiridos no 25. The Ciano Diaries, p. 266.
tribunal, em Nuremberg, sobre o 26. Ibid., p. 266.
bombardeio de Roterdã. Ver TMWC, IX, 27. Conquanto não estejam assinadas as
p. 175-7,213-8, 338-40. cópias das minutas encontradas nos
9. TMWC, XXXVI, p. 656. arquivos alemães, o dr. Schmidt, em seu
10. Churchill, Their Finest Hour, p. 40. depoimento, declarou que foi ele mesmo
11. Quanto a relatos mais detalhados, ver quem as elaborou. Dada sua função de
Albert Kanal und Eben-Emael, de Walther intérprete, estava em melhor posição que
Melzer: “Die Einnahme von Eben-Emael”, qualquer outro. Elas acham-se impressas
Wehrkunde, maio de 1954, de Rudolf em DGFP, IX, como se segue:
Witzig (O tenente Witzig dirigiu a negociações de 21 de junho, p. 643-52;
operação, mas, devido a acidente com seu registro das conversações por telefone,
planador, somente chegou quando seus entre o general Huntziger e o general
homens, comandados pelo sargento Weygand (em Bordéus), na noite de 21
Wenzel, quase já haviam terminado a de junho, conforme feito por Schmidt,
missão); Gen. van Overstraeten, Albert que recebeu instruções para ouvi-las, p.
I-Leopold III; Belgium — The Official 652-4; registro da conversação telefônica
Account ofwhat Happened. Telford entre o general Huntziger e o coronel
Taylor, The March of Conquest, p. 210-4, Bourget, assistente do general Weygand
dá um excelente resumo. (em Bordéus), às lOh de 22 de junho, p.
12. Churchill, Their Finest Hour, p. 46-7. 664-71; texto do acordo do armistício
13. Hitler a Mussolini em 18 de maio de franco-germânico, p. 671-6; memorando
1940, DGFP, IX, p. 374-5. das questões suscitadas pelos franceses e
14. Do próprio relato do rei sobre a respostas dos alemães durante as
conferência e do relato do primeiro- negociações em Compiègne, p. 676-9.
ministro. Publicados no Belgian Rapport, Hitler deu instruções para que esse
anexos, p. 69-75, e citados por Paul documento, se bem que não fizesse parte
Reynaud, que foi primeiro-ministro da do acordo, “vigorasse para a Alemanha”.
França naquele tempo, em In the Thick of 28. Os alemães haviam colocado microfones
the Fight, p. 420-6. ocultos no wagonlit, registrando tudo o
15. Despachos de Lord Gort. Supl. de que se falou. Eu mesmo ouvi parte das
Gazette, Londres, 1941. conversações quando estavam sendo
16. Weygand, Rappelé au Service, p. 125-6. registradas no carro de comunicações
17. Churchill, Their Finest Hour, p. 76. alemão. Tanto quanto sei, elas não foram
18. Liddell Hart, The German Generais Talk, publicadas e jamais foram encontrados
p. 114-5. os discos que as registraram ou sua
19. The Ciano Diaries, p. 265-6. transcrição. Minhas próprias anotações
704 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939‘ 1945)
são fragmentárias, salvo a parte referente 2. Registros do OKM (Alto-Comando
ao encerramento daquela dramática Naval), Wheatley, p. 26.
sessão. 3. Diário de guerra do Estado-maior da
29. Churchill, Their Finest Hour, p. 177. marinha, 15 de novembro de 1939,
30. DGFP, X, p. 49-50. Wheatley, p. 4-7.
31. Ibid., IX, p. 550-1. 4. Wheatley, p. 7-13.
32. Ibid., IX, p. 558-9, 585. 5. FCNA, p. 51 (21 de maio de 1940);
33. Ibid., X, p. 125-6. Diário de guerra do Estado-maior da
34. Ibid., p. 39-40. marinha, mesma data, Wheatley, p. 15.
35. Ibid., p. 298. 6. Texto em TMWC, XXVIII, p. 301-3
36. Ibid., p. 424-35. (N.D. 1776-PS). Publicou-se uma
37. Churchill, Their Finest Houn p. 259-60. tradução inglesa não muito boa em NCA,
38. Ibid., p. 261-2. Supl. A, p. 404-6.
39. DGFP, X, p. 82. 7. Revista do serviço secreto do Ministério da
40. Diretiva do OKW, assinada por Keitel, Guerra da Inglaterra, novembro de 1945.
FCNA. 1940, p. 61-2. Citado por Shulman, op. cit., p. 49-50.
41. The Ciano Diaries, p. 274. 8. Liddell Hart, The German Generais Talk,
42. FCNA, 1940, p. 62-6. p. 129.
43. Carta de Hitler a Mussolini, de 13 de 9. Dos documentos do OKW. Citado por
julho de 1940, DGFP, X, p. 209-11. Wheatley, p. 40,152-5,158. Durante as
44. Texto da Diretiva nQ16, NCA, III, p. seis semanas seguintes foram os planos
399-403 (N.D. 442-PS). Publicado constantemente modificados.
também em DGFP, X, p. 226-9. 10. Diário de guerra do Estado-maior da
45. The Ciano Diaries, p. 277-8 (em 19 de marinha, conferência Rãder-Brauchitsch,
julho de 1922). em 17 de julho. Wheatley, p. 40n.
46. Churchill, Their Finest Hour, p. 261. 11. Diário de Halder, 22 de julho; FCNA, p.
47. DGFP, X, p. 79-80. 71-3 (21 de julho).
48. Ibid., p. 148. 12. Diário de guerra do Estado-maior da
marinha, 30 de julho, e memorando de
5. Operação Leão do Mar:
c a p ít u l o 29 de julho. Wheatley, p. 45-6.
a malograda invasão da Inglaterra 13. FCNA, l 2 de agosto de 1940. É o relatório
1. Diário de guerra do Estado-maior da confidencial de Rãder sobre a conferência.
marinha, 18 de junho de 1940. Citado Halder fez, a respeito, um longo registro
em Operation Sea Lion, p. 16, de Ronald em seu diário, em 31 de julho.
Wheatley. O autor, membro do grupo 14. DGFP, X, p. 390-1. Dado também em
britânico encarregado da compilação da N.D. 443-PS, que não foi publicado no
história oficial da guerra, teve livre NCA e nos volumes de TMWC.
acesso aos documentos diplomáticos 15. FCNA, p. 81-2 ( 1 Qde agosto de 1940).
relacionados ao exército, à marinha e à 16. Ibid., p. 73-5.
aeronáutica apreendidos aos alemães, 17. Dos documentos de Jodl e do OKW.
privilégio que, até o momento em que Wheatley, p. 68.
escrevo este livro, não foi dado a 18. FCNA, p. 82-3 (13 de agosto).
qualquer escritor não oficial americano, 19. As duas diretivas, Ibid., p. 81-2 (16 de
pelas autoridades britânicas e americanas agosto).
sob cuja custódia, em conjunto, acham-se 20. Ibid., p. 85-6. Wheatley, p. 161-2, dá
os documentos. Wheatley, como guia para detalhes sobre a Viagem de Outono
essas fontes alemãs sobre a Operação Leão oriundos dos documentos militares
do Mar é, portanto, de grande auxílio. alemães.
NOTAS 705
21. Texto das instruções de Brauchitsch, dos estudo de Wheatley pouco antes de ele
arquivos do OKW. Wheatley, p. 174-82. ser publicado.
22. FCNA, 1940, p. 88. 40. DGFP, X.
23. Ibid., p. 91-7. 41. Schelenberg, The Labyrinth, cap. 2 .
24. Diário de Halder, na mesma data; 42. New York Times, le de agosto de 1937.
Assmann, Deutsche Schcksalsjahre, p.
189-90; diário de guerra do OKW, citado c a p ít u l o 6. “Barbarossa”: a ve z da Rússia
por Wheatley, p. 82. 1. DGFP, IX, p. 108.
25. Relatório de Ráder, FCNA, 1940, p. 2. Ibid., p. 294, 316.
98-101. Diário de Halder, 14 de 3. Ibid., p. 599-600.
setembro. 4. Ibid., X, p. 3-4.
26. FCNA, 1940, p. 100-1. 5. Churchill, Their Finest Hour, p. 135-6
27. Diário de guerra do Estado-maior da (texto de sua carta a Stalin).
marinha, 17 de setembro, p. 88. 6. DGFP, X, p. 207-8.
28. Ibid., 18 de setembro. Citado por 7. Minha luta, p. 654.
Wheatley. 8. Discurso de Jodl em 7 de novembro de
29. FCNA, 1940, p. 101. 1943, NCA, I, p. 795 (N.D. L-172).
30. The Ciano Diaries, p. 298. 9. Depoimento de Warlimont em 21 de
31. FCNA, 1940, p. 103. novembro de 1945, NCA, V, p. 741;
32. Vorstudien zur Luftkriegsgeschichte. Heft interrogatório de Warlimont em 12 de
II. Der Luftkrieggegen England, 1940-1, outubro de 1945, ibid., Supl. B, p. 1635-7.
pelo tenente-coronel von Hesler, citado 10. Diário de Halder, 22 de julho de 1940.
por Wheatley, p. 59. A estimativa de duas Registra o que lhe comunicou
a quatro semanas foi dada a Halder que a Brauchitsch sobre a conferência com
anotou em seu diário em 11 de julho. Hitler em Berlim, no dia anterior.
33. Adolf Galland, The First and the Last, p. 11 . Diário de Halder, 3 de julho de 1940.
26. Também no interrogatório de 12. NCA, IV, p. 1083 (N.D. 2353-PS).
Galland, citado por Wilmot em The 13. Diário de guerra da divisão de operações
Strugglefor Europe, p. 44. do OKW, de 26 de agosto de 1940.
34. Registro do Estado-maior geral da Citado em DGFP, X, p. 549-50.
Luftwaffe das diretivas dadas por Gõring 14. Ver dois depoimentos de Warlimont,
nessa conferência. Wheatley, p. 73. NCA, V, p. 740-1 (N.D. 3031-3032-PS), e
35. The Ciano Diaries, p. 290. seu interrogatório, ibid., Supl. B, p. 1536.
36. Ver T. H. 0 ’Brien, Civil Defence. Volume diretiva de Jodl, de 6 de setembro de
da história oficial britânica da Segunda 1940, é dada em NCA, III, p. 849-50
Guerra Mundial, rev. pelo prof. J.R.M. (N.D. 1229-PS).
Butler e publicado por H. M. Stationery 15. A diretiva de 12 de novembro de 1940,
Office. em NCA, III, p. 403-7. A parte
37. Notas sobre a conferência de Gõring relacionada com a Rússia consta da p. 406.
com os chefes da aeronáutica em 16 de 16. Diário de guerra do OKW, 28 de agosto.
setembro. Cit. por Wheatley, p. 87. Citado em DGFP, X, p. 566-7n.
38. Churchill, Their Finest Hour, p. 279. 17. The Ciano Diaries, p. 289.
39. Peter Fleming, Operation Sea Lion, p. 293. 18. NCA, VI, p. 873 (N.D c-53).
Excelente livro, mas foi negado a Fleming 19. NSR, p. 178-81.
acesso aos documentos, embora diga ele 20. Memorando alemão, ibid., p. 181-3;
que fora permitido passar uma vista memorando soviético em resposta, 21 de
dolhos — durante hora e meia — no setembro, ibid., p. 190-4.
70 6 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939‘ 1945)
21. Ibid., p. 188-9. 44. O texto do Acordo de Montoire figura
22. Ibid., p. 195-6. entre os documentos apreendidos no
23. Ibid., p. 197-9. Ministério das Relações Exteriores da
24. Ibid., p. 201-3. Alemanha, mas não foi dado à publicação
25. Ibid., p. 206-7. pelo Departamento de estado até o
26. Carta de Ribbentrop a Stalin, 13 de momento em que foi escrito este livro.
outubro de 1940, ibid., p. 207-13. William L. Langer, contudo, cita-o em
27. Texto do enérgico telegrama de Our Vichy Gamble (p. 94-5), dos
Ribbentrop, ibid., p. 214. documentos alemães que lhe foram
28. Texto da resposta de Stalin, ibid., p. 216. mostrados pelo Departamento.
29. Ibid., p. 217. 45. The Ciano Diariesyp. 300.
30. Memorando sobre as conferências de 46. Ribbentrop, no julgamento de
Molotov com Ribbentrop e Hitler em Nuremberg, e Schmidt em seu livro, p.
12-3 de novembro de 1940, ibid, p. 217-54. 200, lembraram-se dessas palavras.
31. Schmidt, op. cit., p. 212. 47. Schmidt, op. cit., p. 200.
32. Ibid., p. 214. 48. Diário de Halder, 4 de novembro de
33. Despacho de Schulenburg, de 26 de 1940; relatório de Jodl ao almirante
novembro de 1940, NSR, p. 258-9. Schniewind, 4 de novembro, FCNA,
34. FCNA, 1941, p. 13; diário de Halder, 16 1940, p. 112-7; Diretiva n2 18, de 12 de
de janeiro de 1941. novembro de 1940, NCA, III, p. 403-7
35. Diário de Halder, 5 de dezembro de (N.D. 444-PS).
1940; NCA, IV, p. 374-5 (N.D. 1799-PS). 49. FCNA, 1940, p. 125.
O segundo é uma tradução de parte do 50. Ibid., p. 124.
diário de guerra da divisão de operações 51. The Spanish Government and the Axis, p.
do OKW, dirigida por Jodl. 28-33.
36. Texto alemão completo, TMWC, XXVI, 52. O relatório de Rãder consta de FCNA,
p. 47-52; versão resumida inglesa, NCA, 1941, p. 8-13; Halder só registrou essa
III, p. 407-9 (N.D. 446-PS). conferência de dois dias em seu diário
37. Halder, Hitler ais Feldherr, p. 22. em 16 de janeiro de 1941.
38. FCNA, 1940, p. 135-6 (conferência de 27 53. Texto, da Diretiva ne 20, NCA, IV, p. 101-3
de dezembro de 1940). (N.D. 1541-PS).
39. Ibid., p. 91-7,104-8 (conferências de 6 e 54. Texto da Diretiva n2 22 e ordem
26 de setembro de 1940). Ráder assinou suplementar dando os nomes em código,
ambos os relatórios. NCA, III, p. 413-5 (N.D. 448-Ps).
40. DGFP, IX, p. 620-1. 55. NCA, VI, p. 939-46 (N.D. c-134).
41. Schmidt, op. cit., p. 196. O intérprete faz 56. Halder, Hitler ais Feldherr; p. 22-4.
um relato mais ou menos completo das 57. NCA, III, p. 626-33 (N.D. 872-PS).
conversações. As minutas alemãs em The 58. Cifras alemãs dadas pelo Ministério das
Spanish Government and the Axis, do Relações Exteriores, 21 de fevereiro de
Departamento de Estado dos Estados 1941, NSR, p. 275.
Unidos, estão incompletas. Erich Kordt, 59. Minutas alemãs da conferência, NCA,
que também esteve presente, faz um IV, p. 272-5 (N.D. 1746-PS).
relato mais minucioso em seu 60. NCA, I, p. 783 (N.D. 1450-PS).
memorando não publicado, a que se 61. Texto parcial da Diretiva nfi 25, NCA, VI,
referiu anteriormente. p. 938-9 (N.D. c-127).
42. Cianos Diplomatic Papers, p. 402. 62. Minutas do OKW sobre a conferência,
43. Schmidt, op. cit., p. 197, NCA, IV, p. 275-8 (N.D. 1746-PS, parte II).
NOTAS 707
63. Testemunho de Jodl, TMWC, XV, p. 387. 83. Schmidt, op. cit., p. 233.
Seu plano de operações proposto, NCA, 84. Interrogatório de Keitel, NCA, Supl. B,
IV, p. 278-9 (N.D. 1746-PS, parte V). p. 1271-3.
64. Texto, carta de Hitler a Mussolini, 28 de 85. Relatório pessoal do duque de
março de 1941, NCA, IV, p. 475-7 (N.D. Hamilton, NCA, VIH, p. 38-40 (N.D.
1835-PS). M-116).
65. Quanto aos detalhes, ver o texto da 86. Relatórios de Kirkpatrick sobre suas
diretiva em NCA, III, p. 838-9 (N.D. entrevistas com Hess em 13,14 e 15 de
1195-PS). maio, ibid., p. 40-6 (N.D. M -117,118,119)
66. Churchill, The Grand Alliance, p. 235-6. 87. Churchill, The Grand Alliance, p. 54.
67. Da documentação russa sobre o Alto- 88. TMWC, X, p. 7.
Comando da marinha alemã; registros 89. Ibid., p. 74.
de 30 de maio e 6 de junho, p. 998-1000 90. Douglas M. Kelley, 22 Cells in
(N.D. c-170). Nuremberg, p. 23-4.
68. FCNA, 1941, p. 50-2. 91. NSR, p. 324.
69. TMWC, VII, p. 255-6. 92. Ibid., p. 326.
70. NCA, VI, p. 996 (N.D.c-170). 93. Ibid., p. 325.
71. Cit. por Shulman, op. cit., p. 65.
94. Ibid., p. 318.
72. Diretiva secretíssima de 30 de abril de
95. Ibid., p. 340-1.
1941, NCA, III, p. 633-4 (N.D. 873-PS).
96. Ibid., p. 316-8.
73. Depoimento de Halder em Nuremberg,
97. Ibid., p. 328.
de 22 de novembro de 1945, NCA, VIII,
98. Ibid., p. 338.
p. 645-6.
99. Despachos de Schulenburg de 7 e 12 de
74. TMWC, XX, p. 609.
maio, ibid., p. 335-9.
75. Depoimento de Brauchitsch, em
100. Ibid., p. 334.
Nuremberg, TMWC, XX, p. 581-2, 593.
101. Ibid., p. 334-5.
76. Texto da ordem de Keitel, 23 de julho de
1941, NCA, VI, p. 876 (N.D. c-52); 102. Sumner Welles, The Time for Decision,
ordem de 27 de julho, ibid., p. 875-6 p. 170-1.
(N.D. c-51). 103. The Grand Alliance, Churchill, p.
77. Texto da diretiva do conselho de guerra, 356-61.
NCA, III, p. 637-9 (N.D. 886-PS). Uma 104. NSR, p. 330.
versão inglesa ligeiramente diferente, 105. NCA, VI, p. 997 (N.D. c-170).
encontrada nos arquivos do grupo de 106. NSR, p. 344.
exércitos do sul e datada de um dia 107. Ibid., p. 345-6.
depois (14 de maio), consta de NCA, 108. Ibid., p. 346.
VI, p. 872-5 (N.D. c-50). 109. Texto em NCA, VI, p. 852-67 (N.D.
78. Texto da diretiva, também datada de 13 c-39).
de maio de 1941, NCA, III, p. 409-13 110. As minutas dessa conferência nunca
(N.D. 447-PS). apareceram, tanto quanto sei; mas o
79. Texto das instruções de Rosenberg, diário de Halder, em 14 de junho de
NCA, III, p. 690-3 (N.d. 102 9 ,1030-PS). 1941, a descreve, e Keitel fez um relato
80. Texto em NCA, III, p. 716-7 (N.D. sobre ela no tribunal de Nuremberg
1058-PS). (TMWC, X, p. 531-2). O diário de
81. Texto da diretiva, NCA, VII, p. 300 guerra da marinha também a menciona
(N.D. c-126). sucintamente.
82. Memorando sobre a conferência, NCA, 111 . NSR, p. 355-6.
Ver p. 378 (N.D. 2718-PS). 112. Ibid., p. 347-9.
70 8 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939- 1945)
113. Memorando formal de Schmidt sobre a 2. NCA, IV, p. 469-75 (N.D. 1834-PS).
conferência, ibid., p. 356-7. Também em 3. Texto em NCA, VI, p. 906-8 (N.D.
seu livro, p. 234-5. c-75).
114. Hitler a Mussolini em 21 de junho de 4. Relatório de Ráder sobre a conferência,
1941, NSR, p. 349-53. FCNA, 1941, p. 37. Também em NCA,
115. The Ciano Diaries, p. 369,372. VI, p. 966-7 (N.D. c-152).
116. Ibid., p. 372. 5. Estão publicadas juntamente com as
conferências posteriores, incluindo duas
c a p ít u l o7. A reviravolta com Hitler, em NSR, p. 281-316.
1. NCA, VI, p. 905-6 (N.D. c-74). O texto 6. Schmidt, op. cit., p. 224.
completo em alemão, TMWC, XXXIV, 7. FCNA, 1941, p. 47-8.
p. 298-302. 8. N.D. NG-3437. Livro de Documentos
2. Relatório de Halder (mimeografado, VIII-B, Weizsàcker Case. Citado por H.
Nuremberg). L. Trefousse, Germany and American
3. NCA, VI, p. 929 (N.D. c-123). Neutrality, 1939-41, p. 124.
4. Ibid., p. 931 (N.D. c -124). 9. Texto do telegrama em NCA, VI, p.
5. Artigo do general Blumentritt em The 564-5 (N.D. 2896-PS).
Fatal Decisions, ed. por Seymour 10. Ibid., p. 566 (N.D. 2897-PS).
Freidin & William Richardson, p. 57. 11 . FCNA, 1941. p. 104.
6. Liddell Hart, The German Generais Talk, 12. NCA, VI, p. 545-6 (N.D. 3733-PS).
13. Memorando de Falkenstein, de 29 de
p. 147.
outubro de 1940, em NCA, III, p. 289
7. Ibid., p. 145.
(N.D. 376-PS).
8. Relatório de Halder.
14. FCNA, 1941, p. 57.
9. Heinz Guderian, Panzer Leader, p.
15. Ibid., p. 94.
159-62. As referências das páginas neste
16. Ibid., Anexo I (Relatório de Ráder ao
e nos demais capítulos são da edição em
Führer, 4 de fevereiro de 1941).
brochura de Ballentine.
17. Ibid., p. 32 (18 de março de 1941).
10. Artigo de Blumentritt, loc. cit., p. 66.
18. Ibid., p. 47 (20 de abril de 1941).
11 . Interrogatório de Rundstedt, 1945.
19. Ibid., (22 de maio de 1941).
Citado por Shulman, op. cit., p. 68-9.
20. Ibid., p. 88-90 (21 de junho de 1941).
12. Guderian, op. cit., p. 189-90.
21 . NCA, V, p. 565 (N.D. 2896-PS).
13. Ibid., p. 192.
22. Diário de guerra da marinha alemã
14. Ibid., p. 194.
TMWC, XXXIV, p. 364 (N.D. c-118). A
15. Ibid., p. 191.
tradução inglesa em NCA, VI, p. 916, é
16. Ibid., p. 199. completamente desnorteante.
17. Goerlitz, History ofthe German General 23. FCNA, 17 de setembro de 1941, p.
Staff, p. 403. 108-10.
18. The Goebbels Diaries, p. 135-6. 24. Ibid., 13 de novembro de 1941.
19. Hitler*s Secret Conversations, p. 153. 25. NCA, Supl. B, p. 1200 (interrogatório de
20. Halder, Hitler ais Feldherr, p. 45. Ribbentrop, 10 de setembro de 1945, em
21. Nca, IV, p. 600 (N.D. 1961-PS). Nuremberg).
22. Artigo de Blumentritt, loc. cit., p. 78-9. 26. N.D. NG-4422 E, Livro de Documentos
23. Liddell Hart, The German Generais Talk, IX, Weizsàcker Case, citado por
p. 158. Trefousse, p. 102.
27. Ibid. Numerosos telegramas trocados
c a p ít u l o 8. A vez dos Estados Unidos entre Ribbentrop e Ott, em maio de
1. DGFP, VIII, p. 905-6. 1941, e testemunho de Ott no
NOTAS 709
Julgamento do Extremo Oriente, em 47. Tradução inglesa em NCA, VIII, p. 432-3
Tóquio, citado por Trefousse, p. 103. (N.D. TC-62).
28. Vice-ministro Amau, em 29 de agosto, e 48. FCNA, 1941, p. 128-30 (12 de dezembro).
ministro das Relações Exteriores
almirante Toyoda, em 30 de agosto. c a p ít u l o9. O grande momento decisivo:
Minutas japonesas das duas 1942 — Stalingrado e El Alamein
conferências figuram em NCA, VI, p. 1. TMWC, XX, p. 625.
546-51 (N.D. 3733-PS). 2. Hassell, op. cit., p. 208.
29. Hull, MemoirSy p. 1034. O texto dos 3. Ibid., p. 209.
telegramas de Toyoda a Nomura, em 16 4. Schlabrendorff, op. cit., p. 36.
de outubro de 1941, é dado em Pearl 5. Hassell, op. cit., p. 243.
Harbor Attack, Hearings Before the Joint 6. O texto do primeiro esboço, em janeiro-
Comittee on the Investigations o f the Pearl fevereiro de 1940, Hassell, op. cit., p.
Harbor Attack, XII, p. 71-2. 368-72; texto do segundo esboço, feito no
30. Hull, op. cit., p. 1062-3. fim de 1941, Wheeler-Bennett, Nemesis,
31. Documentos 4070 e 4070-B, Julgamento Apêndice A, p. 705-15.
do Extremo Oriente, citado por 7. Hassell, op. cit., p. 247-8.
Trefousse, p. 140-1. 8. Ibid., p. 247.
32. Hull, op. cit. p. 1056,1074. 9. The German Compaign in Russia —
33. Mensagem de Oshima a Tóquio em 29 Planningand Operations, 1940-1942
de novembro de 1941, interceptada, (Washington: departamento do exército,
NCA, VII, p. 160-3 (N.D. d-656). 1955) p. 120. Este estudo baseia-se, em
34. Pearl Harbor Attack, XII, p. 204. O
grande parte, nos registros e monografias
telegrama de Tóquio, interceptado,
do exército alemão, apreendidos, que
consta também em NCA, VI, p. 308-10
foram preparados por generais alemães
(N.D. 3598-PS).
para a divisão de história do exército dos
35. NCA, V, p. 556-7 (N.D. 2898-PS).
Estados Unidos que, ao tempo da
36. NCA, VI, p. 309 (N.D. 3598-PS).
elaboração deste livro, não se achavam
37. Texto do telegrama, ibid., p. 312-3
ainda acessíveis aos historiadores civis.
(N.D. 3600-PS).
Devo assinalar, contudo, que, na
38. Schmidt, op. cit., p. 236-7.
preparação deste capítulo e dos
39. TMWC, X, p. 297.
subseqüentes, o escritório do chefe de
40. Mensagem interceptada de Oshima a
História Militar, departamento do
Tóquio em 8 de dezembro de 1941.
exército, muito me auxiliou,
NCA, VII, p. 163 (N.D. d-167).
proporcionando-me acesso ao
41. N.D. NG -4424,9 de dezembro de 1941,
documentário dos alemães.
Livro de Documentos IX, Weizsácker case.
42. Juntei aqui o depoimento de Ribbentrop 10. TMWC. VII, p. 260 (testemunho de
no tribunal de Nuremberg, TMWC, X, p. Paulus em Nuremberg). A observação de
297-8, e suas declarações durante o Hitler foi feita em Ia de junho de 1942,
interrogatório, constantes de NCA, Supl. quase um mês antes de começar a
B, p. 1199-200. ofensiva.
43. Hitlers Secret Conversations, p. 396. 11. The Ciano Diaries, op. cit., p. 442-3.
44. NCA, V, p. 603 (N.D. 2932-PS). 12. Ibid., p. 478-9.
45. Schmidt, op. cit., p. 237. 13. Ibid., p. 403-4.
46. Tradução parcial do discurso de Hitler 14. FCNA, 1942, p. 47 (conferência em
foi publicada em Hitlers words, p. 97, Berghof, em 15 de junho). Também p. 42.
367-77, Gordon W. Prange. 15. Halder, Hitler ais Feldherr, p. 50-1.
710 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1939- 1945)
16. FCNA, 1942, p. 53 (conferência de 16 de história oficial do 6a Exército, em
agosto no quartel-general de Hitler). Stalingrado, com base nos documentos
17. Halder, op. cit., p. 50. então em poder do OKW. O dr. Goebbels
18. Ibid., p. 52. proibiu sua publicação. Depois da guerra,
19. As citações de Hitler e Halder são do Schrõter conseguiu salvar o manuscrito e
diário e do livro de Halder e de continuou seus estudos sobre a batalha
Stalingrady de Heinz Schrõter, p. 53. antes de escrever novamente o livro.
20. Citado pelo general Beyerlein, dos 26. The Ciano Diaries, p. 556. As propostas
documentos de Rommel, The Fatal de Mussolini figuram nas p. 555-6, e são
Decision, ed. de Freidin & Richardson, p. confirmadas, no lado alemão, no diário
110. de guerra do OKW (19 de dezembro).
21. Beyerlein cita a ordem. Ibid, p. 120. 27. Felix Gilbert, Hitler Directs his War, p.
22. A fonte para isto e outras coisas mais 17-22. É uma compilação dos registros
neste capítulo, acerca das conferências estenografados das conferências militares
do chamado diário de Guerra do OKW, de Hitler no OKW. Infelizmente só parte
mantido até a primavera de 1943 pelo dr. dos registros foi recuperada.
Helmuth Greiner e, dali por diante, até o 28. Goerlitz, History ofthe German General
fim da guerra, pelo dr. Percy Ernst Staff, p. 431.
Schramm. O diário original foi destruído
no começo de maio de 1945, por ordem II. O COMEÇO DO FIM
do general Winter, representante de Jodl. c a p ít u l o A Nova Ordem
i.
Depois da guerra, Greiner reconstruiu a 1. NCA, IV, p. 559 (N.D. 1919-PS).
parte que havia conservado de suas 2. Ibid., III, p. 618-9 (N.D. 862-PS),
narrações originais e rascunhos e, relatório do general Gotthard Heinrici,
eventualmente, entregou-a à seção de representante geral da Wehrmacht no
História Militar do departamento do Protetorado.
exército, em Washington. Parte do 3. Memorando de Bormann. Citado em
material acha-se publicada no livro de TMWC, VII, p. 224-6 (N.D. URSS-172).
Greiner. Die Oberste 4. NCA, III, p. 798-9 (N.D. 1130-PS).
Wehrmachtfuehrung, 1939-1943. 5. Ibid, VIII, p. 53 (N.D. R-CF).
23. Procès du M. Pètain (Paris 1945), p. 202 6. Memorando do dr. Bràutigam, de 25 de
— Testemunho de Lavai. outubro de 1942. Texto em NCA, III, p.
24. The Ciano Diaries, p. 541-2. 242-51; original alemão em TMWC,
25. Ensaio do General Zeitzler sobre XXV, 331-42 (N.D. 294-PS).
Stalingrado em Freidin (ed.), The Fatal 7. NCA, VII, p. 1086-93 (N.D. L-221).
Decision, a que recorri para esta parte. 8. TMWC, DC, p. 633.
Outras fontes: diário de guerra do OKW 9. Ibid, p. 634.
(ver nota 22, acima), livro de Halder, e 10. TMWC, VIII, p. 9.
Stalingrady de Heinz Schrõter. Schrõter, 11. NCA, VII, p. 420-1 (N.D.S. CE-344-16
correspondente de guerra alemão junto e 17).
ao 6a Exército, teve acesso aos registros, 12. Ibid, p. 469 (N.D. EC-411).
mensagens de rádio e de Celeprinter do 13. Ibid, VIII, p. 66-7 (N.D. R-92).
OKW, dos vários comandos do exército, 14. Ibid, III, p. 850 (N.D. 1233-PS).
ordens de operação, mapas e documentos 15. Ibid, p. 186 (N.D. 138-PS).
particulares de muitos dos que estiveram 16. Ibid, p. 188-9 (N.D. 141-PS).
em Stalingrado. Ele retirou-se antes da 17. Ibid, V, p. 258-62 (N.D. 2523-PS).
rendição e foi incumbido de escrever a 18. Ibid, III, p. 666-70 N.D. 1015-b-PS).
NOTAS 711
19. Ibid., I, p. 1105 (N.D. 090-PS). intitulado “Estados Unidos vs. Otto
20. NCA, VI, p. 456 (N.D. 1720-PS). Ohlendorf e outros
21 . Ibid., VIII, p. 186 (N.D. R-124). 50. Ibid., (N.D. NO-2653).
22. Ibid., III, p. 71-3 (N.D. 031-PS). 51. Citado por Reitlinger em The Final
23. Ibid., IV, p. 80 (N. D. 1526-PS). Solution, p. 499-500. Os estudos de
24. Ibid., III, p. 57 (N.D. 016-PS). Reitlinger, nesse livro e em The S.S., são
25. Ibid., III, p. 144 (N.D. 084-PS). os mais minuciosos que vi sobre o
26. Ibid., VII, p. 2-7 (N.D. d-288). assunto.
27. Ibid., V, p. 744-54 (N.D. 3040-PS). 52. NCA, III, p. 525-6 (N.D. 710-PS). A
28. Ibid., VII, p. 260-4 (N.D. EC-68). tradução inglesa da última linha é falha.
29. Ibid., V, p. 765 (N. D. 3044-B-PS). A palavra alemã Endlôsung (solução
30. Hitlers Secret Conversations, p. 501. final) foi traduzida “solução desejável”.
31. Baseada num estudo exaustivo que Ver a transcrição alemã.
Alexander Dallin fez dos documentos 53. TMWC, XI, p. 141.
alemães, German Rule in Russian, p. 54. TWC, XIII, p. 210-9 (N.D. ng-2586-g).
426-7. Ele empregou cifras compiladas 55. NCA, IV, p. 563 (N.D. 1919-PS).
pelo OKW-AWA em Nachweisungen des 56. Ibid., VI, p. 791 (N.D. 3870-PS).
Verbleibs der Sowjetischen Kr. Gef. Nach 57. Ibid., IV, p. 812, 832-5, (N.D. 2171-PS).
den Stand vom 1.5.1944. AWA é a sigla 58. Declaração de Hõss, NCA, Vr, p. 787-90
de Allgemeines Wehrmachtsamt (N.D. 3868-PS).
(Departamento Geral das Forças 59. N.D. URSS-9, p. 197. Transcrição.
Armadas do OKW). 60. TMWC, VII, p. 584.
32. NCA, III, p. 126-30 (N.D. 081-PS). 61. Ibid., p. 585.
33. Ibid., V, p. 343 (N.D. 2622-PS). 62. Ibid., p. 585 (N.D. URSS 225). Transcrição.
34. Ibid., III, p. 823 (N. D. 1165-PS). 63. Law Reports ofTrials of War Criminais, I,
35. Ibid., IV, p. 558 (N.D. 1919-PS). p. 28, Londres, 1946. Sumário dos 12
36. TMWC, XXXIX, p. 48-9. julgamentos secundários em Nuremberg,
37. Ibid., VI, p. 185-6. constantes dos volumes de TWC.
38. NCA, III, p. 416-7 (N.D. 498-PS). 64. A parte acima, sobre Auschwitz, baseia-
39. Ibid., p. 426-30 (N.D. 503-PS), se, fora as fontes citadas, no depoimento
40. NCA, VII, p. 798-9 (N.D. L-51). de Mme. Vaillant-Couturier (em
41. TMWC, VII, p. 47. Nuremberg), uma francesa que ali fora
42. NCA, VII, p. 873-4 (N.D. 1-90). encerrada; TMWC, VI, p. 203-40; Caso
43. Ibid., p. 871-2 (N.D. 1-90). IV, o chamado Caso do Campo de
44. Harris, Tyranny ofTriaU p- 349-50. Concentração, intitulado “Estados
45. Depoimento de Ohlendorf no tribunal Unidos vs. Pohl e outros”, nos volumes de
de Nuremberg, TMWC, IV, p. 311-23; TWC; The Belsen Trial, Londres, 1949;
suas declarações baseadas no G.M. Gilbert, Nuremberg Diary, op. cit.;
interrogatório de Harris, NCA, V, p. Filip Friedman, This was Oswiecim
341-2 (N.D. 2620-PS). Carta do dr. (Auschwitz); e o brilhante estudo de
Becker, ibid., IH, p. 418-9 (N.D. 501-PS). Reitlinger em The Final Solution e em
46. NCA, VIII, p. 103 (N.D. r-102). The S.S.
47. Ibid., V, p. 696-9 (N.D. 2992-PS). 65. NCA, VIII, p. 208 (N.D. R-135).
48. Ibid., IV, p. 944-9 (N.D. 2273-PS). 66. NCA, Supl. A, p. 675-82 (N.D.S. 3945-
49. Caso IX dos Julgamentos dos Criminosos PS, 3948-PS, 3951-PS).
de Guerra (TWC) (N.D. NO-511). É o 67. Ibid., p. 682 (N.D. 3951-PS).
que se chamou Caso dos Einsatzgruppen, 68. Ibid., p. 805-7 (N.D. 4045-PS).
712 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1939’ 1945)
69. Texto, ibid., III, p. 719-75 (N.D. 1061 -PS). 90. Alexander Mitscherlich, M.D., e Fred
70. TMWC, IV, p. 371. Mielke, Doctors oflnfamy, p. 146-70. É
71. Reitlinger, The Final Solution, p. 489-501. um excelente resumo do Julgamento dos
O autor analisa os extermínios dos Médicos por dois alemães. O dr.
judeus em cada país. Mitscherlich foi chefe da Comissão
72. TMWC, XX, p. 548. Médica Alemã, no julgamento.
73. Ibid., p. 519. 91. Boletim da Biblioteca de Viena, 1951, V,
74. Inquirição de Josef Kramer, Caso I dos p. 1 -2 . Citado por Reitlinger em The S.S.y
Julgamentos dos criminosos de guerra — p. 216.
o chamado Julgamento dos Médicos
intitulado Estados Unidos vs. Brandi e c a p ít u l o 2. A queda de Mussolini
outros. 1. The Goebbels Diaries, p. 352.
75. Depoimento de Sievers, TMWC, XX, p. 2. FCNA, 1943, p. 61.
521-5. 3. As minutas italianas da conferência em
76. Ibid., p. 526. Feltre figuram em Hitler e Mussolini, p.
77. O depoimento de Henry Herypierre 165-90; também o Boletim do
figura na transcrição do Julgamento dos Departamento de Estado, 6 de outubro
de 1946, p. 607-14, 639; o dr. Schmidt
Médicos.
descreve a conferência em seu livro, op.
78. NCA, VI, p. 122-3 (N.D. 3249-PS).
cit., p. 263.
79. Ibid., V, p. 952 (3249-PS).
4. As principais fontes são os registros
80. Ibid., IV, p. 132 (N.D. 1602-PS).
estenografados das conferências de
81. Relatório do dr. Rascher a Himmler, em
Hitler com os auxiliares no seu quartel-
5 de abril de 1942, na transcrição do
general da Prússia Oriental, em 25 e 26
Julgamento dos Médicos. Caso I, Estados
de julho, publicados em Hitler Directs his
Unidos vs. Brandt e outros. O dr. Karl
War, p. 39-71, de Felix Gilbert; também
Brandi foi médico pessoal de Hitler e
The Goebbels Diaries, p. 403-21; e Führer
comissário de higiene do Reich. Foi Conferences on Naval Affairs (FCNA),
julgado culpado pelo tribunal de registros de julho e agosto de 1943 feitos
Nuremberg, condenado à morte e pelo almirante Dõnitz, o novo
enforcado. comandante da marinha alemã.
82. NCA, Supl. A, p. 416-7 (N.D. 2428- PS). 5. The Memoirs ofField Marshal Kesselring
83. Carta do professor dr. Hippke a (Londres, 1953), p. 177,184. Servi-me
Himmler em 10 de outubro de 1942, dessa edição inglesa das memórias de
transcrição, Caso I. Kesselring; foram publicadas nos
84. NCA, IV, p. 135-6 (N.D. 1618-PS). Estados Unidos sob o título A Soldiers
85. Depoimento de Walter Neff, transcrição, Record.
Caso I. 6. Ver Kesselring, op. cit., e The German
86. Carta do dr. Rascher a Himmler em 4 de Army in the West, do General Siegfried
abril de 1943, transcrição, Caso I. Westphal, p. 149-52.
87. Depoimento de Walter NefF, ibid. 7. Os primeiros relatos do salvamento de
88. Carta de Himmler e protesto de Rascher, Mussolini figuram em Skorzenys Secret
ibid. Missions, de Otto Skorzeny, feitos pelo
89. 1616-PS, transcrição, Caso I. O próprio Duce em suas Memórias, p.
documento não se acha impresso em 1942-3, e pelo casal de gerentes do Hotel
TMWC, e a tradução inglesa em NCA é Campo Imperatore num artigo especial
demasiado breve para ser de qualquer que se incluiu na edição inglesa das
auxílio. Memórias.
NOTAS 713
8. Citação de Hitler constante de FCNA, 9. Dulles, op. cit., p. 144-5.
1943, p. 46; a parte do diário de Dõnitz 10. Citado por Constantine FitzGibbon em
acha-se citada por Wilmot, op. cit., p. 152. 20 July, p. 39.
9. Halder, Hitler ais Feldherr, P. 57. 11 . Desmond Young, Rommel, p. 223-4.
10. Citei a conferência com mais detalhes em Strõlin fez a Young um relato pessoal
End o fa Berlim Diary, p. 270-86. O texto sobre a conferência. Ver também o
(em inglês) figura em NCA, VII, p. 920- 75. depoimento de Strõlin em Nuremberg,
11 . As citações do diário de Goebbels são de TMWC, X, p. 56, e seu livro Stuttgart in
The Goebbels Diaries, p. 428-42,468, Endstadium des Krieges.
477-8. A conferência de Hitler com 12. Speidel ressalta esse ponto em seu livro
Dõnitz, em agosto de 1943, foi anotada Invasion 1944, p. 68-73.
pelo almirante em FCNA, 1943, p. 85-6. 13. Ibid., p. 65.
14. Ibid., p. 71.
3. Invasão da Europa Ocidental
c a p ít u l o
15. Ibid., p. 72-4.
pelos Aliados e tentativas de matar 16. Dulles, op. cit., p. 139.
Hitler 17. Schlabrendorff, op. cit., p. 97.
1. Dorothy Thompson, Listen, Hans, p. 18. Registro telefônico do quartel-general do
137-38, 283. 7° Exército. Esse documento esclarecedor
2. Hassell, op. cit., p. 283. foi capturado intacto em agosto de 1944,
3. Zwischen Hitler und Stalinydepoimento e constitui valiosa fonte da versão alemã
sobre o que aconteceu aos exércitos de
de Ribbentrop, TMWC, X, p. 299.
Hitler no Dia D e durante a Batalha da
4. George Bell, The Church and Humanity,
Normandia que se seguiu.
p. 165-176. Também Wheeler-Bennett,
19. Speidel, op. cit., p. 93.
Nemesis, (p. 553-7).
20. Ibid., p. 93-4, sobre a qual se baseia em
5. Allen Dulles, op. cit., págs, 125-46.
grande parte esse relato. O general
Dulles dá o texto do memorando que foi
Blumentritt, chefe do Estado-maior de
escrito para Jakob Wallenberg sobre suas
Rundstedt, deixou também um relato,
conferências com Goerdeler.
existindo ainda material adicional em The
6. O relato de todo esse episódio baseia-se,
Rommel Papersyed. Liddell Hart, p. 479.
em grande parte, no relatório de
2 1 . 0 texto da carta é dado por Speidel, op.
Schlabrendorff, op. cit., p. 51-61.
cit., p. 115-7. Uma versão levemente
7. Rudolf Pechel cita-o em seu livro
diferente figura em The Rommel Papersy
Deutscher Widerstand. p. 486-7.
8. Há inúmeros relatos, alguns em primeira
22. Speidel, op. cit., p. 117.
mão, sobre a revolta dos estudantes: Inge 23. Ibid., p. 104-17.
Scholl, Die Weisse Rose (Francfurt, 1952); 24. Ibid., p. 119.
Karl Vossler, Gedenkrede Fuer Die Opfer 25. Schlabrendorff, op. cit., p. 103. Ele estava
an der Universitãt München (Munique, ainda no Estado-maior de Tresckow.
1947); Ricarda Huch, Die Aktion der 26. As fontes dessas conferências dos
Münchner Studenten Gegen Hitler. Neue conspiradores, em 16 de julho, são as
Schwetzer Rudschau, Zurique, setembro- versões estenografadas de Witzleben,
outubro de 1948; Der 18 Februar: Umriss Hoepner e outros; os relatórios de
einer Deutschen Widersiandsbewegung, Kaltenbrunner sobre a rebelião de 20 de
Die Gegenwart, 30 de outubro de 1940; julho; Eberhard Zeller, Geist der Freiheit,
Pechel, op. cit., p. 96-104; Wheeler- p. 213-4; Gerhard Ritter, Carl Goerdeler
Bennett, Nemesis, p. 539-41; Dulles, op. und die deutsche Widersiandsbewegung,
cit., p. 120 - 2 . ps. 401-3.
714 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939‘ 1945)
27. Heusinger, Befehl im Widerstreit, p. 352, socorreu às p. 381-8. O livro de Gerhard
relata suas últimas palavras nesse dia. Ritter sobre Goerdeler, op. cit., constitui
28. Zeller, op. cit., p. 221. contribuição valiosa, se bem que,
29. Schmidt, op. cit., p. 275-7. naturalmente, se concentre no assunto.
30. Convidados presentes ao chá, italianos e Nemesisy de Wheeler-Bennett, fornece o
alemães, testemunharam o que se passou. melhor relato e serve-se dos memorandos
Eugen Dollmann, um oficial de ligação não publicados de Otto John, como fez
das S.S. com Mussolini, fez uma descrição Zeller. John, que depois da guerra se
completa em seu livro Roma nazista, p. meteu em dificuldades com o governo
393-400, e por ocasião da inquirição de Bonn, foi preso por ele. Esteve
feita pelos investigadores aliados, que presente na Bendlerstrasse, naquele dia,
Dulles resumiu em op. cit., p. 9-11. tendo registrado muita coisa do que
Zeller, op. cit., p. 367, n. 69, e Wheeler- presenciou e do que Stauffenberg lhe
Bennett, Nemesis, p. 644-6, relataram os contou. Constantine Fitzgibbon, op. cit.,
fatos baseados, principalmente, em faz um relato muito interessante baseado,
Dollmannn. principalmente, em fontes alemãs,
31. A transcrição dessa conversa telefônica especialmente em Zeller. Também
foi exibida como prova perante o valiosos, se bem que devam ser lidos
Tribunal do Povo. Schlabrendorff, op. com certa reserva, são os relatórios
cit., citada àpag. 113. diários sobre as investigações levadas a
32. Zeller, op. cit., p. 363. cita duas pessoas efeito pela Gestapo-S.D., relativos à
que assistiram à execução, um motorista conspiração, os quais estão datados de 21
do exército que a presenciou de uma de julho a 15 de dezembro de 1944. Estão
janela, nas imediações, e a secretária de assinados por Kaltenbrunner e eram
Fromm. enviados a Hitler. Foram feitos com tipos
33. O relato sobre o que se passou na muito grandes a fim de que o Führer os
Bendlerstrasse naquela noite é, em pudesse ler sem os óculos. Representam
grande parte, extraído do depoimento os trabalhos da Comissão Especial para
do general Hoepner perante o Tribunal 20 de julho de 1944, que contava com a
do Povo, em seu julgamento, e dos de colaboração de cerca de quatrocentos
seis outros oficiais, em 6 e 7 de agosto de funcionários da Gestapo-S.D., divididos
1944. Os arquivos do Tribunal do Povo em 11 grupos de investigações. Os
foram destruídos por ocasião de um relatórios de Kaltenbrunner figuram entre
bombardeio americano em 3 de fevereiro os documentos apreendidos. Existem
de 1945; um dos estenógrafos, porém, cópias em microfilmes nos Arquivos
surrupiou — com risco da própria vida, Nacionais, em Washington — n2 T-84,
diz ele — os registros estenografados, Série na 39, arquivos 19-21. Ver, também,
antes do bombardeio. Entregou-os, Série nfi 40, arquivo 22.
depois da guerra, ao tribunal de 34. Zeller, op. cit., p. 372 n. 10, cita um
Nuremberg. Foram publicados palavra oficial que se achava presente.
por palavra, em alemão, em TMWC, 35. O relato da execução foi feito mais tarde
XXXIII, p. 299-530. Há muita matéria pelo carcereiro, Hans Hoffman, pelo
sobre o complô de 20 de julho, muita vice-diretor da prisão e pelo fotógrafo;
coisa que dela diverge e muitos pontos foi citado por Wheeler-Bennett em
confusos. A melhor reconstituição que Nemesis, p. 683-4, entre outros.
se fez é de Zeller, op. cit., que dá uma 36. Wilfred von Oven, Mit Goebbels bis zum
extensa relação das fontes onde se Ende, II, p. 118
NOTAS 715
37. Ritter, op. cit., p. 419-29, dá os detalhes 44. TMWC, XXI, p. 47.
dessa interessante faceta do caso. 45. Speidel, op. cit., p. 155-72.
38. Esta cifra é dada num comentário, nos 46. Goerlitz, History ofthe German General
registros das conferências do Führer Staff,; p. 477.
sobre assuntos navais (FCNA, 1944, p. 47. Guderian, op. cit., p. 273.
46) e é aceita por Zeller, op. cit., p. 283. 48. Ibid., p. 276.
Pechel, op. cit., que descobriu o Registro 49. Liddell Hart, The German Generais Talk,
de Execuções oficial, diz, à p. 327, que p. 222-3
havia 3.427 execuções registradas em
1944, se bem que algumas delas não III. A QUEDA DO TERCEIRO REICH
tivessem, provavelmente, ligação com o c a p ít u l o A conquista da Alemanha
1.
complô de 20 de julho. 1. Speidel, op. cit., p. 147.
39. Schlabrendorff, op. cit., p. 119-20. Alterei 2. Interrogatório do Ministério da Guerra
o texto inglês aqui citado para fazê-lo Inglês, citado por Shulman, op. cit., p. 206.
mais conforme ao original alemão. 3. Conferência do Führer, em 31 de agosto
40. O general Blumentritt relatou esse fato a de 1944, Felix Gilbert, op. cit., p. 106.
Liddel Hart (The German Generais Talk, 4. Conferência do Führer, em 13 de março
p. 217-23). de 1943.
41. Ibid., p. 222. Há muitas fontes sobre os 5. United States Strategic Bombing Survey,
elementos da conspiração no setor de Economic Report apêndice, gráfico 15.
Paris, incluindo o relato de Speidel em 6. Dos relatórios G-2 do l 2 Exército norte-
seu livro e numerosos artigos de americano.
testemunhas oculares nas revistas 7. Eisenhower, Crusade in Europe, p. 312.
alemães. O melhor e mais completo 8. Rundstedt a Liddell Hart, The German
relato foi feito por Wilhelm von Generais Talk, p. 229.
Schramm, um arquivista do exército que 9. Guderian, op. cit., p. 305-6, 310.
ocupava esse posto no Ocidente: Der 20 10. Manteuffel, em op. cit., p. 266, Friedin &
Juli in Paris. Richardson (eds.).
42. Felix Gilbert, op. cit., p. 101. 11 . Conferência do Führer em 12 de
43. Speidel, op. cit., p. 152. Meu relato sobre dezembro de 1944.
a morte de Rommel baseia-se além de 12. Guderian, op. cit., p. 315.
em Speidel — que inquiriu Frau 13. Ibid., p. 334.
Rommel e outras testemunhas — nas 14. Albert Speer a Hitler, em 30 de janeiro
seguintes fontes: dois relatórios escritos de 1945, TMWC, XLI.
pelo filho do marechal-de-campo, 15. Guderian, op. cit., p. 336.
Manfred, o primeiro para o serviço 16. Conferência do Führer em 27 de janeiro
secreto britânico, citado por Shulman, de 1945. Citado por Felix Gilbert em op.
op. cit., p. 138-9, e o segundo para The cit., p. 111-32. Alterei ligeiramente a
Rommel Papers, ed. de Liddell Hart, p. seqüência do texto.
495-505; e o interrogatório do general 17. Conferência do Führer, sem data, mas
Keitel pelo coronel John H. Amen, em provavelmente de 19 de janeiro de 1945,
28 de setembro de 1945, em Nuremberg porque o almirante Dõnitz anotou os
(NCA, Supl. B, p. 1256-71). Desmond debates em seus registros, nessa data.
Young, op. cit., fez também um relato Ver FCNA, 1945, p. 49. Gilbert, op. cit.,
completo, baseado em conversações com dá a citação de Hitler à p. 179.
a família Rommel e amigos, e no 18. FCNA, 1945, p. 50-1.
julgamento de desnazificação do general 19. Conferência do Führer em 23 de março
Maisel depois da guerra. de 1945. É a última transcrição que se
716 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939' 1945)
preservou. Gilbert, op. cit., a menciona auprès d’Hitler), Zoller foi um capitão do
inteira p. 141-74. exército francês, colocado como oficial
20. Depoimento de Albert Speer em da comissão de inquérito junto ao 7Q
Nuremberg, TMWC, XVI, p. 492. Exército; nessa qualidade, interrogou
21. Guderian, op. cit., p. 341. uma das quatro secretárias de Hitler;
22. Texto da ordem de Hitler, FCNA, 1945, mais tarde em 1947, colaborou com ela
p. 90. nesse livro de recordações sobre o Führer.
23. Speer, TMWC, XVI, p. 497-8. Essa parte, Ela é, provavelmente, Christa Schrõder,
incluindo as citações de Hitler e Speer, é que foi estenógrafa de Hitler desde 1933
tirada do depoimento de Speer no tribunal até uma semana antes de sua morte.
de Nuremberg em 20 de junho de 1946, 4. Diário de Krosigk.
cujo texto figura em TMWC, XVI; e dos 5. Ibid.
documentos que ele apresentou em sua 6. Citado por Wilmot em op. cit., p. 699.
defesa, que figuram no vol. XLI. 7. Trevor Roper, op. cit., p. 100. O relato foi
24. Sumário do serviço secreto do Shaef, 11 feito por uma das secretárias de
de março de 1945. Citado por Wilmot, Goebbels, Frau Inge Haberzettel.
op. cit., p. 690. 8. Michael A. Musmanno, Ten Days to Die,
p. 92. O juiz Musmanno, oficial do
2. Gõtterdàmmerung: os últimos
c a p ít u l o
serviço secreto da marinha de guerra
dias do Terceiro Reich
americana durante a guerra, interrogou
1. Diário não publicado do conde Lutz
pessoalmente os sobreviventes que
Schwerin von Krosigk. Dei os trechos
haviam estado com Hitler durante seus
essenciais em End o f a Berlin Diary, p.
últimos dias.
190-205. Trevor-Roper, em The Last
9. Interrogatório de Keitel, NCA, Supl. B, p.
Days o f Hitler, também cita trechos dele.
1294.
Trevor-Roper, historiador que foi oficial
10. NCA, VI, p. 561 (N.D. 3734-PS). É um
do serviço secreto inglês durante a guerra,
foi incumbido de investigar as extenso resumo do interrogatório de
circunstâncias que cercaram o fim de Hanna Reitsch, pelo exército norte-
Hitler. O resultado das investigações americano, sobre os últimos dias de
consta de seu brilhante livro, ao qual Hitler no abrigo. Ela negou, depois, certas
muito devem todos aqueles que escreveram passagens de suas declarações, mas as
sobre o último capítulo do Terceiro Reich. autoridades americanas confirmaram a
Aproveitei-me de algumas outras fontes, exatidão substancial do que ela declarara
especialmente dos relatos de testemunhas durante o interrogatório, em 8 de outubro
oculares, tais como Speer, Keitel, Jodl, de 1945. Embora Frl Reitsch seja pessoa
general Karl Koller, Dõnitz, Krosigk, demasiado histérica ou o tenha sido
Hanna Reitsch, capitão Gerhardt Boldt e durante os meses que se seguiram à
capitão Joachim Schultz, e de uma das tormentosa experiência no abrigo, seu
secretárias de Hitler e do motorista dele. relato, comparado com os demais,
2. Gerhardt Boldt, In the Shélter with Hitler, constitui documentação valiosa sobre os
capitão I. O capitão Boldt foi ajudante de últimos dias de Hitler.
ordens de Guderian e, depois, do general 11 . General Karl Koller, Der Letzte Monat, p.
Krebs, o último chefe do Estado-maior 23. É o diário de Koller, que abrange o
geral do exército, e passou os últimos período de 14 de abril a 27 de maio de
dias no abrigo. 1945, constituindo valiosa fonte de
3. Albert Zoller, Hitler Privai p. 203-5. informações sobre os últimos dias do
Segundo a edição francesa (Douze Ans Terceiro Reich.
NOTAS 717
12. Keitel, em seu interrogatório em segunda nos arquivos da marinha,
Nuremberg, NCA, Supl. B, p. 1275-9. O FCNA, 1945, p. 120. A outra mensagem
relatório de Jodl foi entregue ao general do oficial de ligação da marinha com o
Koller na mesma noite e registrado em abrigo, almirante Voss, é também dada
seu diário em 22-23 de abril. Ver Koller, em FCNA, p. 120.
op. cit., p. 30-2. 21 O texto do testamento político e do
13. Trevor-Roper, op. cit., p. 124,126-7. O testamento pessoal de Hitler é dado em
autor dá a versão, diz ele, “com certas N.D. 3569-PS. Foi também apresentada
reservas”. em Nuremberg uma cópia da certidão
14. Keitel lembrou-se da observação em seu do registro de seu casamento. Citei os
interrogatório, loc. cit,. p. 1277. A versão textos de todos os três em End o f a Berlin
de Jodl figura no diário de Koller, op. Diary, p. 177-83n. Uma ligeira tradução
cit., p. 31. inglesa dos testamentos acha-se
15. Bernadotte, The Curtain Falls, p. 114; publicada em NCA, VI, p. 259-63. O
Schellemberg, op. cit., p. 399-400. Eles original alemão consta em TMWC, XLI,
concordam substancialmente em suas sob o título: Documentos de Speer.
versões sobre a conferência. 22. General Koller, op. cit., p. 79. Cita o texto
16. Speer depondo em Nuremberg, TMWC, do radiograma de Bormann.
XVI, p. 554-5. 23. O texto do apêndice de Goebbels foi
17. Interrogatório de Hanna Reitsch, loc. apresentado no julgamento, em
cit., p. 554-5. Nuremberg. Dei-o em End o f Berlin
18. Ibid., p. 556. Todas as citações Diary, p. 183n.
subseqüentes e os acontecimentos 24. A versão de Kempka sobre a morte de
descritos por Hanna Reitsch foram Hitler e sua noiva é dada em duas
extraídos desse interrogatório e declarações juramentadas, publicadas
encontram-se em NCA, VI, p. 551-71 em NCA. VI, p. 571-86 (N.D. 3735-PS).
(N.D. 3734-PS). Não serão, portanto, 25. Jürgen Thorwald, Das End an der Elbe,
citados em cada caso. p. 224.
19. Keitel, em seu interrogatório, loc. cit., p. 26. A história sobre a morte da família de
1281-2, citou de memória a mensagem. Goebbels é dada por Trevor-Roper em
Os documentos navais alemães dão uma op. cit., p. 212-4, e baseia-se, em grande
mensagem com idêntico texto, de Hitler parte, no testemunho posterior de
para Jodl, datada de 19:52h de 29 de abril Schwãgermann, Axmann e Kempka.
(FCNA, 1945, p. 120), e o diário do OKW, 27. Joachim Schultz, Die Letzten 30 Tage, p.
de Schultz (p. 51), que dá o mesmo texto, 81-5. Essas anotações baseiam-se nos
registra-a como tendo sido recebida por diários do OKW durante o último mês
Jodl às 23h de 29 de abril. Trata-se, da guerra. Usei-as em apoio de muitas
provavelmente, de um engano, pois a essa páginas deste capítulo. O livro é um dos
hora daquela noite Hitler, a julgar-se pelos vários que foram publicados sob a
seus atos, não mais se importava em saber direção de Thorwald, sob o título geral
onde estava qualquer fração do exército. de Dokumente zur Zeitgeschichte.
20. Trevor-Roper, op. cit., p. 163, dá a 28. Eisenhower, op. cit., p. 426.
primeira mensagem. Encontrei a 29. End o f a Berlin Diary.
Bibliografia
O presente livro fundamenta-se principalmente em documentos alemães
apreendidos nos interrogatórios e depoimentos de oficiais alemães civis e milita
res, nos diários e memórias deixados por alguns deles e em minha experiência
pessoal no Terceiro Reich.
Milhões de textos dos arquivos alemães foram publicados e outros tantos mi
lhões foram reunidos ou microfilmados e recolhidos em bibliotecas — nos Estados
Unidos principalmente na Biblioteca do Congresso e na Biblioteca Hoover, na Uni
versidade de Stanford — e nos Arquivos Nacionais em Washington. Além disso,
encontra-se em poder do Escritório do Chefe de História Militar, no Departamen
to do Exército, em Washington, uma vasta coleção de registros militares alemães.
Dentre os volumes de documentos publicados, três séries foram de maior uti
lidade aos meus propósitos. A primeira delas, Documents on German Foreign Po-
licy [Documentos sobre a política externa alemã], Série D, consiste numa vasta
coletânea de documentos do Departamento de Relações Exteriores alemão tradu
zidos para o inglês, de 1937 até o verão de 1940. Mediante gentil concessão do
Departamento do Estado, tive acesso a vários outros documentos do Departa
mento de Relações Exteriores alemão, ainda por traduzir ou publicar, que tratam
principalmente da declaração de guerra da Alemanha aos Estados Unidos.
Duas séries de documentos publicados referentes ao principal julgamento em
Nuremberg mostraram-se de valor inestimável para o posicionamento do leitor
no cenário do Terceiro Reich. A primeira é o conjunto de 42 volumes, Trial ofthe
Major War Criminais [Julgamento dos principais criminosos de guerra], cujos
primeiros 23 volumes contêm o texto dos depoimentos durante o julgamento e os
demais, o texto dos documentos aceitos como provas, que aparecem publicados
no idioma original, principalmente em alemão. Outros documentos, inquéritos e
testemunhos sob juramento, reunidos para aquele julgamento e traduzidos de
forma apressada para o inglês, foram publicados na série de três volumes intitula
da Nazi Conspiracy and Agression [Agressão e conspiração nazistas]. Infelizmente,
720 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939- 1945)
o testemunho de valor inestimável apresentado perante os magistrados do Tribu
nal Militar Internacional foi omitido em sua maior parte na última série e acha-se
disponível apenas sob a forma mimeografada e está catalogado em algumas pou
cas bibliotecas de destaque.
Foram 12 os sucessivos julgamentos verificados em Nuremberg conduzidos
por tribunais militares norte-americanos. No entanto, os 15 imensos volumes pu
blicados contendo os testemunhos e os documentos apresentados nesses julga
mentos, intitulados Trials ofW ar Criminais before Nuremberg Military Tribunais
[Julgamentos dos criminosos de guerra perante os tribunais militares em Nurem
berg], representam menos de um décimo do material. O restante, porém, pode
ser encontrado sob a forma de fotocópia ou cópia mimeografada em algumas bi
bliotecas. Sínteses de outros julgamentos que esclareceram bastante acerca do
Terceiro Reich podem ser encontradas nos Law Reports of Trials ofWar Criminais
[Relatórios jurídicos dos julgamentos dos criminosos de guerra], publicados pela
Imprensa Oficial de Sua Majestade, em Londres, 1947-1949.
Dos documentos alemães não publicados, afora as ricas coleções encontradas
na Biblioteca Hoover, na Biblioteca do Congresso e nos Arquivos Nacionais —
que contêm, entre outras coisas, os arquivos de Himmler e vários documentos
particulares de Hitler —, um dos achados mais valiosos foram os chamados “Pa
péis de Alexandria”, boa parte dos quais hoje se encontra microfilmada e guarda
da nos Arquivos Nacionais. Informações adicionais sobre vários outros docu
mentos apreendidos serão encontradas nas notas. Dentre o material alemão não
traduzido, encontra-se o diário do general Halder — sete volumes datilografados,
com anotações à margem acrescentadas pelo próprio general após a guerra, de
modo a esclarecer certas passagens —, o qual julgo ser um dos registros mais va
liosos do Terceiro Reich.
Alguns dos livros que me foram especialmente úteis aparecem listados abaixo.
São de três tipos: o primeiro são memórias e diários de alguns dos principais per
sonagens presentes nesta narrativa; o segundo tipo são livros baseados em mate
rial documental recente, tais como os de John W. Wheeler-Bennett, Alan Bullock,
H. R. Trevor-Roper e Gerald Reitlinger na Inglaterra, os de Telford Taylor na
América e de Eberhard Seller, Gerhard Ritter, Rudolf Pechel e Walter Gõrlitz na
Alemanha; e o terceiro, livros que fornecem informações básicas contextuais.
BIBLIOGRAFIA 721
Foi publicada em Munique uma bibliografia abrangente sobre trabalhos refe
rentes ao Terceiro Reich sob a forma de uma edição especial do Vierteljahrshefte
fü r Zeitgeschichte patrocinada pelo Institut fíir Zeitgschichte. Os catálogos da Bi
blioteca Wiener em Londres apresentam igualmente bibliografias excelentes.
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Witzig, Rudolf. “Die Einnahme von Eben-Emael”. Wehrkunde, maio de 1945.
Agradecimentos
Embora eu mesmo tenha realizado as pesquisas e o planejamento para este livro,
e para todos os outros que escrevi, muito devo a inúmeras pessoas e instituições pelo
seu generoso auxílio durante os cinco anos em que este trabalho foi elaborado.
Ofalecido Jack Goodman, de Simon and Schuster, e Joseph Barnes, meu orien
tador nessa casa editora, animaram-me a escrever este livro. Barnesyum velho ami
go de todas as horas, desde o tempo em que éramos correspondentes na Europa ,
brindou-me sempre com uma crítica construtiva. O dr. Fritz T. Epstein, da Bibliote
ca do Congresso, uma bela inteligência e autoridade na documentação apreendida
aos alemães, orientou-me no exame do acervo de documentos germânicos. Muitas
outras pessoas vieram também em meu auxílio nessa tarefa. Entre elas, Telford
Taylor, consultor-chefe da promotoria nos julgamentos dos crimes de guerra , em
Nuremberg , que já publicou dois volumes sobre a história militar do Terceiro Reich.
Emprestou-me documentos e livros de sua coleção particular e forneceu-me dados
excelentes.
O professor Oron J. Rale, da Universidade de Virgínia, presidente da Comissão
Americana para o Estudo dos Documentos de Guerra , da American Historical
Association, proporcionou-me muito material útil, incluindo os resultados de algu
mas pesquisas suas; ey num dia do verão de 1956, prestou-me relevante serviço ti
rando-me da sala de manuscritos da Biblioteca do Congresso e aconselhando-me
seriamente a voltar a escrever este livro, receoso de que eu passasse o resto da vida
examinando os documentos alemães, coisa que qualquer um podia fazer. O dr. G.
Bernard Noble, chefe da Divisão de História do Departamento de Estado, e Paul R.
Sweet, funcionário do Serviço Estrangeiro no mesmo Departamento — um dos re
visores americanos dos Documentos sobre a Política Exterior da Alemanha — au
xiliaram-me também naquele labirinto de papéis dos nazistas. Na Biblioteca
Hoovery na Universidade de Stanford, a sra. Hildegard R. Boeninger e a sra. Agnes
F. Peterson foram muito generosas em auxiliar-meya primeira por correspondência
e a segunda pessoalmente. No Departamento do Exército, o coronel W. Hoovery
734 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939‘ 1945)
chefe em exercício da Divisão de História Militarye Detmar Finke, da mesma Divi
são, orientaram-me no tocante aos registros militares dos alemães, dos quais essa
Divisão possui extraordinária coleção.
Hamilton Fish Armstrong, orientador editorial de Foreign Affairs, interessou-se
pessoalmente pela elaboração deste livro, o mesmo se dando com WalterH. Mallory,
nessa ocasião diretor executivo do Conselho das Relações Exteriores. A este Conse
lho, a Frank Altschul e à Fundação Overbrook, minha gratidão pela generosa con
cessão que me fizeram, permitindo-me devotar todo o meu tempo a este livro duran
te o último ano de sua preparação. Devo também agradecer aos funcionários da
excelente biblioteca do Conselho pela atenção aos inúmeros pedidos com que os im
portunei. Osfuncionários da Biblioteca da Sociedade de Nova York também passa
ram por essa experiência e, a despeito disso, demonstraram grande paciência e com
preensão.
Lewis Galantière e Herbert Kriedman dignaram-se a ler a maior parte do ma
nuscrito, apresentando valiosa crítica. O coronel Truman Smith, que foi adido mili
tar dos Estados Unidos em Berlim, primeiro quando Adolf Hitler começou sua car
reira política, em mil novecentos e vinte e tantos, e depois quando ele assumiu o
poder, colocou à minha disposição alguns de seus livros de anotações e relatórios, os
quais lançaram muita luz sobre os primórdios do nacional-socialismo e sobre certos
aspectos dele tempos depois. Sam Harris, membro da promotoria norte-americana
em Nuremberg, e, atualmente, advogado em Nova York, pôs à minha disposição os
volumes do TMWC de Nuremberg e inúmeros outros materiais não publicados. O
general Franz Halder, chefe do Estado-maior geral alemão durante os três primeiros
anos da guerra, foi muito generoso em responder a meus pedidos de informações e
em indicar-me também outras fontes alemãs. Mencionei em outro lugar a impor
tância que teve para mim seu diário, que não foi publicado e do qual conservei uma
cópia durante o tempo em que escrevi grande parte deste livro. George Kennan, que
estava servindo na embaixada dos Estados Unidos em Berlim, no começo da guerra,
refrescou-me a memória sobre certos pontos de interesse histórico. Velhos amigos e
colegas de meus dias na Europa, John Gunther, M. W. Fodor, Kay Boyle, Sigrid
Schultz, Dorothy Thompson, Whit Burnett e Newell Rogers, discutiram vários tre
chos deste trabalho comigo — para benefício meu. E Paul R. Reynolds, meu agente
literário, encorajou-me bastante quando disso mais necessitava.
Finalmente, muito devo à minha mulher, cujo conhecimento de línguas estran
geiras e do cenário europeu, e experiência na Alemanha e na Áustria, foram de
AGRADECIMENTOS 735
grande auxílio em minhas pesquisas e na elaboração deste livro. Nossas duas filhas,
Inga e Linda, durante suas férias colegiais, auxiliaram-me em uma dezena de tare
fas necessárias.
A todos esses e a outros que me ajudaram de um modo ou outro, expresso minha
gratidão. A responsabilidade pelas falhas e enganos deste livro é, naturalmente, ex
clusivamente minha.
índice
A letra n, colocada após um número em alga Aliados, Esperanças dos nazistas de uma dissensão
rismo arábico, refere-se à nota de rodapé em entre os 527, 554, 566,624, 632,640
grifo. Aliados, Operações aéreas dos bombardeiros da
Alemanha 221-2, 224-5, 259-60, 262,454,
A 515, 523, 529, 547-52, 555, 561, 562, 567, 632,
Aa, Canal 156,159 633, 637,641,642-3, 653, 655
Aachen 627-30, 632 Aliados, Supremo Conselho de Guerra dos 86«,
Abbeville 142, 1 5 5 ,1 5 6 ,1 5 9 ,1 6 9 ,1 7 3 ,1 8 0 ,1 9 6 114,142
Abissínia, vide Etiópia Alsácia 49Im, 630, 634, 635
Abwehr (Departamento de Informações Militares) Alsácia-Lorena 40,174
vide OKW Altmark (navio auxiliar alemão) 92,93
“Ação AB” 69 Alto-Comando das Forças Armadas, vide OKW
Açores 273, 354, 355, 385 Alto-Comando do exército, vide Exército, Alto-
Adelrangriffe (Operação Águia) 217 Comando do
Adlon, Hotel 50, 260, 655 Amann, Max 197
África 256 vide também Norte, África Amarelo, Caso 96, 133,141,144
África do Sul 457 Amau, vice-ministro 362
Aga Khan 185« Amen, John Harlan 460
Ahnenerbe (Instituto de Pesquisas sobre a América, Primeiro Comitê da 287m, 344
Hereditariedade) 488,491 Amsterdã 140,147
Afrika Korps 3 9 9 ,4 0 0 ,4 0 9 ,4 1 1 ,4 1 7 ,6 1 4 Andalsnes 128,130,131,133
Aisne, Rio 168 Angell, Norman 229
Alanbrooke, marechal-de-campo lorde 159« “Anton” 413,414
Albânia 267, 274,277, 278,279,283, 284, 521 Antonescu, Ion 251«, 507
Albert, Canal 151,152 Antuérpia 142, 151,152, 199, 214, 624, 629, 641
Alemã, força aérea, vide Luftwaffe Arábia 263
Alemã, Igreja Evangélica 535 Arábia, mar da 256
Alemã, marinha vide Marinha alemã Arcangel, URSS 264, 342 n
Alemanha, república da 618,654 Ardenas, floresta das 1 4 2 ,1 4 3 ,428,629,630,
Alemão, exército, vide Exército alemão; Exército 632-637, 653
alemão, unidades: Exército, estado-maior Armistício de 1918 vide Guerra Mundial, Primeira
geral; Exército, Alto-Comando de 1940, vide Franco-Germânico, Armistício
Alemãs, colônias 4 1 ,1 8 0 ,2 9 8 Argélia 268,414
Alexandre I, czar da Rússia 532 Arnhem 628
Alexander, general sir Harold 409, 556, 652 Ásia 257, 345, 347, 361, 363, 367,373, 386,428, 523
Alexandria, Egito 272, 399, 400n, 409 Assmann, almirante Kurt 580«
Alfieri, Dino 186 Associated Press 230«, 456
Alger 414, 416h Atenas 285
Aliados, Comandos 454 Athenia, S.S. 34-7
738 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l9 3 9 - * 9 4 5 )
Atlântico, Batalha do 352», 354-5,359-61,376», na conspiração contra Hitler 52 ,5 4 ,8 0 , 314n,
377-8, 380, 385,400,402, 523, 524,641 389, 391, 394, 531-6, 552, 554-6, 558, 559,
Atlântico, Carta do 389 568-9
Atômica, bomba 641 Becker, dr. 461,462
Attolico, Bernardo 4 3 ,1 0 2 ,186» Beethoven, Ludwig von 474
Aufbau Ost (Construção Leste) 249 Beigbeder y Atienza, coronel Juan 232
Augusto Guilherme, príncipe 393 Beirute 593
Auschwitz 72, 448», 471-474,476-478,480,489, Belga, exército 143,158,159
498 Belga, no exílio, governo, 158
Áustria 243, 369,650,652 Bélgica 30,45, 305
passim 2 8 ,6 2 ,8 8 -9 ,1 0 2 ,1 1 0 ,1 1 1 ,1 3 5 , 389 invasão e batalha da 136,145,149-50, 156-8,
Auxílio de Inverno, Campanha 43 ,222 167»,168,454
Avranches 611,623 libertação da 623-4,642
Axmann, Artur 691 ocupação alemã da 163,196, 392,439, 457,
Azov, mar de 421,522 525, 552, 574
planos alemães para a invasão da 4 5,4 9 ,5 2 -6 ,
B 60,63-4, 73, 78, 81, 8 3 ,112,133,134,
Bach-Zelewski 465» 136-45,170, 241
Baden-Powell, lorde 230 rendição do rei da 157-9
Bad Nauheim 653 Belgrado 2 8 1 -3 ,285,348,350,476
Badoglio, marechal Pietro 510-513,516», 518,521 Bell, dr. George 535
Bagdá 288,289 Below, coronel Nicolaus von 682,683»
Bahamas, Ilhas 232-235,237,238,240 Belsen 72,489
Baku 248,438 “Belsen, “A Fera de vide Kramer, Josef
Bálcãs, Estados dos 1 3 ,1 8 0,241,248,255,257, Belzec 471,472
261,271,272, 275, 280,283,286,287», 289, Benes, Eduard 229
290,301, 309, 351,421, 521,629,631,637 Benghazi 275,411,413
Ballestrem, condessa 545 Berchtesgaden (e Obersalzberg) 12,187, 276,295,
Báltico, Mar 8 5 ,1 1 4 ,1 3 3 ,2 5 8 ,2 6 1 ,2 6 5 ,2 9 4 ,3 0 3 , 311,417, 547, 560, 562, 565, 571, 572», 650,
313, 320, 395,434, 646,649,664 651,663,667,679
Bálticos, Estados 2 5 -6 ,2 8 ,2 4 1 ,2 4 2 ,2 4 6 ,2 4 8 ,2 5 0 , Berghof 1 8 7 ,2 4 7 ,2 5 0 ,2 7 6 ,2 7 8 ,2 8 1 ,2 9 5 ,2 9 6 ,
252, 265, 280», 293, 320 300,356,652,657
Banat 282» conferências diplomáticas em 250,278
Banco da França 439 conferências militares em 66,186-7, 202,
Banco da Noruega 124 247-8,297, 311, 356, 566
Baranov 638 conspiração para eliminar Hitler em 556,
Barbarossa 241,264,265», 275,279-282,288-290, 571-2
300, 310,311, 347, 357,438», 652 Berg, Paal 132»
Bardia 286 Bergen 94,113-116,122,130,146
Baruch, Bemard 230», 379 Berger, Gottlob 661
Bastogne 633, 634,636 Berggrav, bispo Eivind 132»
Batum 263 Berlim:
Bavária apatia do povo com relação à guerra 79
domínio nazista na 542; vide também avanço aliado contra 627-8,639,647,649-50,
Munique 652,652-3
Bayerlein, general Fritz 400», 401,411 bombardeada pelos aliados 221-2,224,260-2,
BBC 191, 514, 561, 671 655
Beck, general Ludwig 407 desordens com os rumores de paz 43»
complô da bomba em julho de 1944 572-5, Berlim, Universidade de 228,395»
582-3, 588-93, 597, 599-602,608,611 Berliner Bõrsenzeitung 117»
morte 600-2 Bemadotte, conde Folke 6 6 1 ,6 6 4,665,672
ÍNDICE 739
Berna 51, 536 Brauchitsch, marechal-de-campo Walter von
Bemstorff, conde Albrecht von 545,607 campanha russa 246-7, 263, 279, 291, 304,
Bessarábia 243, 250, 258 311,323, 325-7
Best, capitão S. Payne 57-60,110 doença e “resignação” 49, 330«-l«, 335, 337,
Bethmann-HoUweg, Theobald von 136 388n
Bialystok 320 Dunquerque e a ordem de parar 156,158,
Biddle, A. J. Drexel 104 159, 160, 161m, 162,163, 165-169,170,181,
Birmingham, Inglaterra 228 201«, 211, 215, 220, 285, 549, 561
Bismarck, Otto, príncipe von 62,545,660 e a brutalidade das S.S. na Polônia 67
Bismarck, Otto Christian, príncipe von 318 e a conspiração contra Hitler 50-4, 64-5, 80,
Bismarck (encouraçado alemão) 76, 77 111-2,617
Blaha, dr. Frank 493 e a ofensiva no ocidente 30-1, 39,44, 49,138,
Blaskowitz, general Johannes 643 142
Blücher (cruzador pesado alemão) 123, 124 e os planos de invasão da Inglaterra 201- 2,
Blum, Léon 608 206, 208, 227
Blumentritt, general Günther 1 6 4 ,1 9 9 ,319«, 322, e os planos de invasão da Polônia 19,22
323, 328-330, 333, 335, 339, 562, 566«, 610, e Weserübung 95
611,620 em Compiègne 173-4
Bock, marechal-de-campo Fedor von 201,320,323, nomeado marechal-de-campo 190«
324, 327, 332-336,341, 388«, 390, 391,403 Bràuer, dr. Curt 91n, 125-128,132
Bodenschatz, general Karl 512, 583 n Braun, Eva 656-658, 671-673, 679, 686, 687
Boêmia 61, 62, 69,101, 503, 554, 681 Braun, Gretl 671
Boêres, Guerra dos 457 Bráutigam, dr. Otto 434-436
Boeselager, coronel Frh. von 538, 607 Breda 148
Bõtticher, general Friedrich von 9 8 ,183«, 184 Bredow, condessa Hanna von 545
Bogorodsk 332 Bremen 208, 555,649,652
Boguchar 420 Bremen, S. S. 208
Bolonha 652 Bremerhaven 695
Bombas V-l, V-2 5 6 1 ,624«, 641 Brenner, Passo de 106,107, 216,270
Bonham Carter, lady 229 Brest 402
Bonhõffer, pastor Dietrich 535, 544,607 Brest Litovski 20, 24, 319,446
Bonhõffer, Klaus 607 Bretanha 611, 623
Bonn, governo de 426«, 448,468 n Brighton 201, 207
Bonnet, Georges 43 Bristol 201, 228
Bono, marechal Emílio de 521 n Britânica, força aérea (RAF) 33, 122, 187, 286, 402,
Bonte, contra-almirante Flitz 121,129 410, 503, 537, 560
Bordéus 169, 177,178,180 bombardeio da Alemanha 221-2,260,428,
Borisov 391 524-5, 527, 602, 642-3, 655, 662-3, 665
Bormann, Martin 12, 3 0 1 ,4 3 2 ,433,436,437, 593, na batalha da França 150,159,171 n
648,658, 663, 6 6 6 ,6 6 7 ,670,671,673, na batalha da Inglaterra 196-9,201,202,206,
677-679, 681, 682, 685-689, 690,691 2 07,211,214,225-6
Borovsk 341 Britânica, marinha 48-9, 78-80, 91-2, 122-3, 129,
Bósforo, Estreito de 255,259-63 150,159, 167,169, 272, 347,412
Bottai, Giuseppe 509 bloqueio da Alemanha 102,121-2,402
Boulogne 156, 1 5 9 ,1 9 9 ,209,211,214 defesa contra a invasão 195-6,199,202,203,
Borracha sintética 303 205, 206,211
Bradley, general Omar N. 611,651 n perdas de navios 1 3 5 ,1 6 7 ,386«
Branco, mar 248 Britânico, almirantado 113-4, 124,159,165, 373
Brandenburgo 558, 5 92,654,655, 665 Britânico, exército 130,166,201,206,246, 399,409
Brandt, coronel Heinz 488,539, 540, 579, 580, 583 defesa contra a invasão 201«, 203, 208
Brandt, tenente-general Rudolf 488 desembarques na Normandia 556,562-3
740 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1939' 1945)
expedição à Noruega 114-5 Carol II, rei da Romênia 251 n
na Alemanha 627-8,629,646,649-50,652,695 Cárpatos, montes 555
na França e na Bélgica 30-1,33,141,142,145, Cartas das Rosas Brancas 542
1 4 9 ,1 5 1 ,1 5 4 ,1 5 6 ,1 58-9,165,168 Casablanca, Conferência de 556n
na Grécia 280,284,285 Casos Verde, Branco, Amarelo, vide Verde,
no norte da África 274«, 275,286,399-400, Branco, etc.
410 Cáspio, Mar 396,403
Britânico, Império 8 7 ,1 6 4 ,1 8 0 ,1 8 1 ,1 8 3 ,1 8 8 , Caucásia (Cáucaso) 293,325, 328,330,336,342,
198«, 2 5 6 ,2 5 8 ,2 5 9 ,2 6 2 ,2 7 0 ,2 8 8 ,2 8 9 , 345 396, 398,399,402-408,421,422,433
Britânico, Serviço de Informações 57-8,234, Caulaincourt, Marquês Armand de 330
236-7, 547 Cavour (encouraçado italiano) 275n
Brockdorff, condessa Erika von 569 Central de Segurança, Escritório, vide R.S.HA.
Bryant, Arthur \59n Cervejaria, Putsch da 121,413,526
Bryans, J. Lonsdale (“Mr. X”) 109 Châlons-sur-Marne 154
Bryansk 328 Chamberlain, Neville 13,43,44,51, 56,61, 86,92,
Buchenwald 446,473«, 487,493 114,140,172, 223, 260, 298, 536
Bucovina 243,250 diz que Hitler perdeu a oportunidade 114
Budapeste 310,396,629«, 637 opõe-se a Hitler na Polônia 298
Budènny, marechal Semén 321,325 política de “Munique” na Tchecoslováquia
Bühler, dr. Josef 469 172,269
Bülow-Schwante, embaixador von 55, 56,136 Charleville 160
Bürgerbráukeller, vide cervejaria, Putsch da Chelmno 471
Buhle, general 577 Cherburgo 201, 211,215, 561, 628
Bulgária 2 5 0 ,251n, 255, 257,259,261, 263, 272, Chicago, Daily News de 230n
277,281, 282», 284, 285«, 301, 302, 313, 623 Chicago, Tribune de 376
Bullitt, William C. 104 Choltitz general Dietrich von 624«
Bullock, Allan 577n Cristiano X, rei da Dinamarca 113,115, 118,120,
Burgdorf, general Wilhelm 614,615,673,678,681, 126«
686,691 Christian, general-de-Brigada Eckard 662,663
Busch, general Ernst 201 Kristiansand 89
Bussche, capitão Axel von dem 547 Chuikov, general Vasili 1 689,691
Busse, general 655 Churchill, Winston S. 31,33, 34», 37,42, 82,159,
Butcher, capitão Harry C. 515 n, 5l6n, 519 n 167, 185h, 191,233,234, 238,255n, 260n,
Buttlar-Brandenfels, coronel Frh. Treusch von 413 262n, 270«, 296-300, 32 ln, 348, 384, 386«,
Bruxelas 81-2 ,1 3 6 ,6 2 4 389, 556w, 650
Bug, Rio 2 0 ,2 5 ,1 8 0 , 319« adverte Stalin do ataque nazista 308
apela para o auxílio dos Estados Unidos 287-9
C contato com os antinazistas 535,547, 568
Cabo Gris-Nez 199 decisão para continuar a luta 167,168,180,
Cabo Verde, ilhas de 273,385 181,183,185
Caen 561 defesa da Inglaterra 201«, 208-9,220, 226,
Calais 1 5 6 ,1 5 9 ,1 9 9 ,2 1 1 ,5 6 2 230,231
Camisas Pardas, vide S.A.; Camisas negras, vide S.S. e a rendição da França e da Bélgica 146,151,
Canadá 36«, 189,402 153,158,177
Canadense, exército 6 2 4 ,6 27,629,646,649 estratégia na Noruega 86,114,129,134
Canaris, almirante Wilhelm 5 8 ,6 5 ,6 7 ,99«, 537, invectivas de Hitler contra 190,233,287,
543,544, 545, 546, 556, 559,608 528-9
Canárias, ilhas 2 6 8,273,354 pela cooperação com a Rússia 244
Caris, almirante Rolf 85 sucessor de Chamberlain 140
Carl, príncipe da Dinamarca, vide Haakon VII, rei Ciano, Edda 520n
da Noruega Ciano, conde Galeazzo 191-2,224,250,254n, 275«,
Carlos XII, rei da Suécia 266,289 310,318, 321«, 369, 370, 374,400, 412,414
ÍNDICE 741
conferências com Hitler 40,106-9, 164,171-3, D
186, 192, 216, 270, 271, 278, 281, 397-8, Dachau 59, 60,407», 471», 477,481», 487,489,
399», 414-5, 421-2 493-495,498, 499, 500, 502, 633», 637 n
destituído do cargo de ministro das Relações Dahlem 575
Exteriores 507 Dahlerus, Birger 38, 39, 102»
e a relutância da Itália em entrar na guerra Daladier, Édouard 1 3,43,96», 172
104-9 Dallin, Alexander 440»
executado 519-20 Danúbio, rio 281, 555, 652, 678
na revolta contra Mussolini 509, 519-20 Dantzig 37
sentimentos antialemães 4 0,7 3 ,3 9 7 Dardanelos 255, 263
termos do armistício da França 172 Darlan, almirante Jean 17I m, 414,416»
Ciliax, vice-almirante 402 Dawes, Plano 439
Cincar-Markovic, Aleksander 281 De Gaulle, general Charles 177,268,273
Cingapura 347-8, 351-2, 361, 363, 374 Degesch de Dessau 478
Cirenaica 274, 286,299 n Dekanozov, Vladimir 242, 314
City ofFlint 48 Delp, padre Alfred 606»
Clark, general Mark 515 Denikin, general Anfon 407»
Clay, general Lucius 63 7n Departamento Federal de Investigações (Estados
Clube dos Artistas 529 Unidos) 307
Cohen, Benjamin, 379 n Derna 400»
Colônia 81,428, 556 Derousseaux general 157
Compiègne 173, 1 7 4 ,1 7 8 ,1 9 5 ,1 9 7 ,2 4 3 ,2 7 8 ,3 1 8 , Desna, rio 327
694 Deutschland (encouraçado-de-bolso alemão, mais
Como 684 tarde chamado Lützow) 3 4 ,4 8 ,1 2 3
Comunistas na Alemanha: Deutschlandsender 596, 598,602
e a conspiração contra Hitler 568-9 Devonshire (cruzador britânico) 131
Comunistas na Tchecoslováquia 477,578 Dickmann, major Otto 506»
Concentração, campos de 13, 58n, 6 0 ,6 9 ,7 1 ,7 2 , Didier, oficinas 476
443, 450,453, 466, 470,471, 480,486, 487, Dieckhoff, Hans 102, 379, 380»
492, 505, 558, 586, 603 Dietl, general-brigadeiro Eduard 121,129,131,
Congressional Record 182 132,134,135, 263
Congresso Mundial Judaico 486 Dietrich, Otto 231
Constança, Lago 616 Dietrich, Sepp 520,630,637»
Conwell, Evans, dr. Philip 51 Dill, marechal-de-campo sir John 515
Cooper, Alfred DufF; vide Duff, Cooper, Alfred Dinamarca
Copenhague 9 4 ,1 1 3 ,1 1 6 -119,126,136 conquista alemã da 112-3,121,126», 134,
Córsega 172,415,416 134»,135,136,241
Cossak (destróier britânico) 92,129 ocupação alemã da 457-8, 652
Courageous (porta-aviões britânico) 48 planos alemães para invasão da 91, 95-7, 186
Coventry 226 rendição dos alemães na 692
Coward, Noel 229 Dinant 149, 150, 633, 634
Cracóvia 20, 70, 72 Djibuti 172
Creta 272, 285,288, 414 D.N.B. 22
Cvetkovic Dragisha 281 Dnieper, rio 2 4 8 ,2 6 5 ,3 2 0 ,3 2 5 ,3 2 8 , 522
Criméia 325, 326, 337,437, 522 Dobrudja 251
Cripps, sir Stafford 2 44,308,309, 313 Dõberitz 587, 592, 593, 596»
Croácia 282,285» Dõnitz, almirante Karl 35, 36, 359, 513, 518,523,
“CromwelT 209 528, 586, 641, 643, 658, 660, 670, 677, 679,
Croydon 218 680,681, 683, 685, 688, 689, 691,-693, 695,
Cruz de Ferro 190» 697,698
Dohnanyi, Hans von 111, 389, 537, 544, 546
742 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1939- 1945)
Dollmann, general Friedrich 560 Ellis, major L. E 161»
Dombas 130 Elser, Georg 58 ,5 9 ,6 0
Don, rio 3 30,404,405,407-409,413,417-419, Elverum 125,126
420-422, 522 Emden (cruzador-ligeiro alemão) 123
Donets, bacia do 265,325, 396,404,522 Enderis, Guido 380
Dordrecht 147,148 Engelbrecht, general Erwin 124
Dortmund 524 Erxleben, padre 545
Dostler, general Anton 456 Escócia 86, 96,296,297, 300,402
Dover, estreito de 193,203 Escoteiros 230
Dresden 650 Eslavos 431-434,448,450,683
Dubno 462 Eslováquia 20, 456
Düsseldorf 57,642 Espanha
DufF Cooper, Alfred 222 Guerra Civil 269
Duilio (encouraçado italiano) 275» Segunda Guerra Mundial 11,12,156, 380,
Dulles, Allen 536,547,548, 555,605», 606» 407,428, 566, 637
Dunquerque 15 6 ,1 5 8 ,1 5 9,160,161», 162,163, Espírito Santo Silva, Ricardo do 237
165-169,170,181, 201», 211,215, 220,285, Essen 447
549, 561 Estados Unidos 98», 1 0 0 ,1 0 4 ,164,168,184,188,
Dyle, rio 140,142,151, 152 209,253, 322,415, 637», 642
a Itália declara guerra aos 369-71,384-5
E ação beligerante no Atlântico 356-61
Eastboume 2 0 3,205,206 assenhoreia-se da Islândia para os britânicos
arremetida russa na 566,573,620,629,637-9, 357-8
647 auxílio de guerra à Inglaterra, França 63, 74,
papel nos desígnios de Hitler com relação à 100, 212,270», 275, 348-9, 355-62, 381-2
Polônia 19 cidadãos dos, no Athenia 35
Prússia Oriental 606 contato com os conspiradores contra Hitler
Ebbutt, Norman 229 567
Eben-Emael, Forte 151,152,269 esforços de paz dos 97
Echtemach 632 guerra com a Alemanha 377,386, 389, 398,
Economia, Ministério da 197 402,451,454-6,692
Éden, Anthony 223, 384,535 ignorância de Hitler a respeito dos 344,350»
Egito 185», 1 9 3 ,2 7 2 ,2 7 4 ,278,286,288,289,316, negociações dos japoneses, guerra aos 361-79,
3 9 9 ,4 0 0 ,4 0 1 ,4 0 2 ,4 0 4 ,4 0 9 ,4 1 0 384-6, 523
Egito, Quediva do 185» perdas de navios no Atlântico 401-2
Eichmann, Karl Adolf 465,486 possível entrada na guerra 46,99-100, 256,
Eidsvold 121 257, 267-8,277,279, 286, 316-7, 348-9,
Eidsvold (nave norueguesa) 127 351-7
Einsatzgruppen 2 2 8,459-61,464-6,470,477, 592, preparativos para a guerra contra a Alemanha
694 320, 346-7, 354-5, 366, 367-81
Einsatzkommando 228 propaganda nazista, sabotagem nos 99-100,
Einsatzstab, Rosenberg 441 181-4, 344, 345-6
Einstein, Albert 545 relações com a Rússia 307-8,528, 555, 640-1
Eisenhower, Dwight D. 414,416,417,507, 513, Estados Unidos, Escritório dos Serviços
515, 516», 560,610, 627,628,629,633», 641, Estratégicos 536
6 4 2 ,6 5 0 ,6 5 1 ,6 6 4 ,6 7 2 ,6 9 3 Estados Unidos, Conselho de Guerra dos 348-9
El Agheila 399» Estados Unidos, Departamento de Estado dos 99,
El Alamein 3 9 9 ,4 0 1 ,4 0 3 ,4 0 9 ,4 1 0 ,4 1 1 » , 412,428 307, 376», 379-80
Elba, rio 649, 650,651, 652,658 Estados Unidos, Strategic Bombing Survey 439
Elbrus, monte 402 Estados Unidos da Europa 555
El Gazala 399» Estados Unidos, marinha dos 345,347,352»,
Elizabeth, rainha (consorte) 234 355-61, 366,372-3, 378,382, 385-6,401-2
ÍNDICE 743
Estados Unidos, Reserva do Corpo Aéreo do retirada da África 409-10,411
Exército 287 retirada desordenada e rendição 649,652,
Estocolmo 114, 308, 535, 536, 544, 671 659, 660, 670, 676, 677, 682, 692, 694
Estônia 26, 242, 294,465 Exército alemão, unidades
Estrasburgo 489,4 9 1 ,4 9 2 Grupos de exércitos:
Estrasburgo, Universidade de 488-90,491 n A (frente oriental) 404,421
Etiópia (Abissínia) 172 A (frente ocidental) 143,154,160, 162, 201
Europa S. S. 208 B (nos Alpes) 652
Europa, objetivos da expansão na 2 43,245,249, B (na frente oriental) 405
294, 298, 302, 683 B (frente ocidental, 1940) 162, 201
acordo pós-guerra 527, 533, 554-6 B (frente ocidental, 1944-45) 405, 513, 552,
divisão nazi-soviética do leste 27, 38,243,261 565, 609, 610
domínio alemão na 179-80,193-4,243, 277, C 48
431-506, 524, 566, 568, 620 Centro 320, 323, 324, 325, 327, 332, 333,
Excalibur S. S. 239 341n, 388/1, 390, 444, 531, 537, 566, 572,
Extermínio, campos de ( Vernichtungslager) 72,471 623
Exército alemão (e Reichswehr) 648-9 Don 419,420, 421
crimes de guerra e violação da Convenção de G 692
Genebra 434, 441-2,444-5,450-1,457-62, H 643
483, 550,629 n, 637n, 642-3 Norte 19, 324, 388/t, 445
Durante a república: Sul 290, 321,324, 336, 388«
conspiração dos generais 50, 54,64,65, Ucrânia do Norte 445
109-10, 388, 392, 531, 532, 537, 538, 540, Grupos Blindados:
547, 558-9, 568, 620 3a Tanques 334
era de Hitler: submissão a Hitler 64, 65, 42Tanques 334, 335, 336
190, 304, 336-7 Exércitos:
expansão e reorganização feitas por Hitler l 2692
338 lfipanzer 327, 334, 405,421
oposição dos generais a Hitler 44,49, 22 568
291-2, 296, 323, 326,403,403-4,405, 22panzer 334,405
418,419, 632 32 19, 66
Planos de invasão e campanhas: 4a 19, 319n, 329, 334, 335, 336, 340-1
Área do Mediterrâneo 274 42panzer 4 0 3 ,4 0 4 ,4 0 5 ,4 0 9 ,4 1 8 ,4 1 9 ,420«
Bálcãs 271,275 5o panzer 633, 649
Bretanha 611, 623 62 148, 151, 152, 153,155,159, 160, 201,
Europa Ocidental 218, 245, 247, 256,421, 207, 331«, 3 9 6 ,4 0 2 ,4 0 3 ,4 0 4 ,4 0 8 ,4 0 9 ,
531, 642n 413, 418,419,420, 4 2 2 ,4 23,424,425,
Norte da África 267, 507 427, 531
Noruega e Dinamarca 85, 95, 96, 112, 7269«, 142, 560, 561, 562, 563
114-5, 120-1, 129,132, 134 92201, 227, 340,444, 669
Polônia 19, 20,23, 2 5 ,30,68,440-1 102 20
Rússia 244, 249,263, 266, 278, 279, 289, 11a 460
293,295, 308, 312, 320, 323, 344, 353, 12a 285
371, 395, 401,411, 413,417,425, 532 142 20
Reveses e derrotas: 15a 560, 561,649
deserções 626, 643, 644 16a 201
frente russa 522, 566, 568, 623, 637, 640, 17a 421,522
646 18a 147, 160, 169
Itália 507,51 3 ,5 1 5 19a 692
mobilização total 625 Exército da Reserva (Metropolitano) 390,
no oeste 559, 567-8, 623,624, 625, 639, 391, 392, 532, 537, 552, 556-8, 571, 575,
643,644, 644 577, 588, 595, 596, 608, 617, 625
744 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939‘ 1945)
Corpos: Falkenstein, major Frh. von 354
3a 334 Fali Gelb, vide Amarelo, Caso
15a Blindado 150 Fali Grün, vide Verde, Caso
19a Blindado 20,150 Fali Rot, vide Vermelho, Caso
39a 148 Fali Weiss, vide Branco, Caso
41a Blindado (tanques) 150 FBI, vide Departamento Federal de Investigações
47a Blindado 634 Feder, Gottfried 197
75a 456 Fegelein, general Hermann 661,670-672
Afrika Korps 3 9 9 ,4 0 0 ,4 0 9 ,4 1 1 ,4 1 7 ,6 1 4 Felipe, príncipe de Hesse 493», 517
Divisões: “Felix” 273,275
2apanzer 155,634
Fellgiebel, general Erich 551,557,577,581, 582,
3a Panzergrenadier 512
584, 587-589,607
4apanzer 20
Feltre 508
6apanzer 549
“Feno, Ação” 445
9apanzer 148
Feuchter, George W. 214»
W panzer 550
Finke, dr. 497,498
18apanzer Grenadier 627
Finkenkrug 144,145
21apanzer 563
23apanzer 497 Finlândia 26, 73,74», 77, 86, 8 8 ,9 3 ,9 6 » , 97,134,
28a Corpo de Fuzileiros 609 248,252-255, 257, 258,262, 263, 265, 310,
112a Infantaria 331 437,499,623 97,13 4 ,2 4 8 ,2 5 2 , ataque
163a Infantaria 124 soviético contra a 7 3 -4 ,7 7 ,8 6 ,8 8 ,9 6 ,9 7
258a Infantaria 334 Fischer, dr. Fritz 487»
Volksgrenadier 575, 576,625 Fischer, Louis 230
Brigadas, Regimentos, Batalhões: Fish, Mildred 569»
17a Regimento de cavalaria Bamberg 549 Fleming, Peter 230
150, Brigada panzer 632 Flensburg 61, 693,695
Batalhão de Guardas Grossdeutschland 592 Florença, Itália 270,271
Distritos Militares fWehrkreisJ: Flossenburg 608
III (Berlim) 558,592 Foch, marechal Ferdinand 173-175
Kommandantur (Berlim) 552,592,595 Fodor, M. W. 230»
WafFen (Armados) unidades S.S. vide S.S. Folclore de Berlim, Museu do 569
Exército, Estado-maior do 5 3 ,6 0 ,6 4 ,8 4 ,1 4 1 , Forbes, sir George Ogilvel 3 8 ,3 9 ,5 0
183», 193,195, 201», 217, 290,307», 323, Força aérea alemã, vide Luftwaffe
324-5, 4 03,408,427, 551, 625,683, 694 Ford, fábrica 393
nomeado Guderian 617,618
Fornebu 124,125
nomeado Krebs 658
Forster, E. M. 229
saída de Halder (nomeado Zeitzler) 407
França 87,138
vide também Beck, Ludwig, Halder, Guderian,
apóia a Polônia contra a Alemanha 31
Krebs, Zeitzler
batalha da 1 4 1 ,1 4 6 ,1 47-8,156,163,168,286,
Exército, Alto-Comando do (Oberkommando des
317, 352
Heeres-OKH) 6 4 ,6 8 ,8 4 ,9 5 ,1 4 1 ,1 5 3 ,1 5 4 ,
193, 200, 202,217, 227,266, 279, 324, 326, colapso 169-73
327, 549, 553, 587,607 correlação da política com a Inglaterra 87
Expurgo sangrento 586-7 em guerra 28-9,31, 33-5 ,4 4 -7 ,5 4 ,6 4 , 75, 81,
vide também Rohm, Ernst 82-3,106
governo de Vichy 268,270», 412,414,415
F invasão aliada e segunda batalha da 559-68,
Falaise 612 569, 574, 611-2, 623, 624,642,694
Falkenhausen, general Alexander von 392, 552, ocupação alemã 196, 218, 278,413,414-5,
574, 608 415-6,439,441-2,457-8,467-8,479, 506,
Falkenhorst, general Nikolaus von 93-95,115, 513, 525, 553, 556, 559, 561, 574, 591, 596,
128»,132» 623
ÍNDICE 745
proposta de “paz” alemães 38-44,163-4 Gamelin. general Maurice 3 1 ,3 2 ,1 4 2 ,1 5 1 ,1 5 3 ,
relações com a Itália antes da guerra 102-3, 155,156
106-9 Garda, lago 520
vide Força aérea francesa; Francês, exército; Gaus, Friedrich 128»
Francesa, marinha. Gebhardt, dr. Karl 487»
Francês, exército 624 Geheimer Kabinettstrat, vide Secreto, Conselho do
Batalha da França 3 0 ,3 3 ,8 2 -3 ,1 4 3 ,1 4 6 , Gabinete
148-9,153-6, 158-9, 160, 166-9 Gehlen, general 638
mobilização 30 Gembloux, desfiladeiro de 151
na Noruega 131 Genebra, Convenção de 456,642
rechaça os italianos 172 General Motors Corp. 102»
Francês, Alto-Comando do Exército 156,179,231 Gênova 171», 456
Francês, exército (franceses livres) 78,207,228, George, Stefan 549, 550
274 Germano-Soviético, Tratado de Amizade e Limites
Francês, exército (Norte da África) 414-5 27, 38
Francesa, África Setentrional 178,289 Gersdorff, coronel Frh. von 540, 541
Francesa, força aérea 168 Gestapo (Geheime Staatspolizel, Polícia Secreta do
Francesa, Legião Estrangeira 131 Estado) 57,60,123,227», 229-30,414,503, 542
Francesa, marinha 1 7 2 ,1 77-8,273,278,415-6 e os conspiradores contra Hitler 314», 392,
Francesas, colônias 209 517, 534, 544-6, 553, 559, 570, 575, 582,
Franceses livres 177 595, 602, 604, 606-9, 613, 616-7
Franco, general Francisco 233,239,267-269,273, Escritório de Assuntos Judaicos 4 65,486
275, 346 execução dos prisioneiros de guerra russos
Franco-alemão, armistício 172-81,195,196,241, 452-3
243, 2 7 8 ,319,416, 693 terror na Polônia 67, 70
Franco-italiano, armistício 173,175-7,179 Gibbs, sir Philip 229
Franco-Polonês, Acordo Militar 32 Gibraltar 1 9 3 ,2 0 9 ,2 6 8 ,2 6 9 ,2 7 3 ,2 7 5 ,4 1 2 ,4 1 4 »
Franco-prussiana, guerra 166 Giesler, Paul 542
Frank, Hans 68, 69, 7 0 ,4 3 3 ,4 4 0 ,4 8 1 ,6 9 7 ,6 9 8 Gilbert, Felix 517», 635»
Frankfurt 480, 629,645 Giraud, general Henri 142,147,414
Frankfurter Felix 379» Gisevius, Hans Bernd 53,60», 536, 555
Frascati, Itália 514 Givet 142
Frederico, o Grande 392,625,654 Glàsemer, coronel Wolfgang 597
Freidin, Seymour 319» Glascow (cruzador britânico) 131
Freisler, Roland 543, 546», 604-6, 611 Glücks, Richard 71
Freud, Sigmund 229 Gneisenau, marechal-de-campo conde August
Frick, Wilhelm 697-8 Neithardt von 549,618
Fricke, contra-almirante Kurt 3 6,196,697,698 Gneisenau, Alemanha 504
Friedeburg, almirante Hans von 693 Gneisenau (cruzador alemão) 135,402
Fritsch, general Frh. Werner von 546,559 Goebbels, Magda 657, 660,674, 686,689, 691
Fritsche, Hans 697 Goebbels, Paul Joseph 299, 337, 397», 508, 510-20,
Fromm, general Friedrich 52, 537, 552,558, 570, 524-5, 527-9, 593-98,625,642, 645», 697
571, 582, 588, 589, 591, 592, 596, 599, 600, Ministro da Propaganda 37,48, 57, 79, 80,
601,602, 607 ,6 1 1 ,6 19 152, 170», 221, 224, 516, 556», 650-1
Fuka 410,411 objetivo dos conspiradores contra Hitler 557,
Fuller, general J. F. C. 30, 31, 274» 593-6, 598, 602-4, 665
Funk, Walther 4 79,4 8 0 ,6 97, 698 perseguição aos judeus 70
Fuschl 2 3 2 ,2 3 7 ,3 4 5 últimos dias 654-60, 671, 673, 677-80, 686-92
Goerdeler, Carl 5 2 ,5 3 ,5 5 ,6 5 ,8 0 ,1 1 1 ,1 3 9 ,312n-3«,
G 389,393-395,530», 531,534-536, 543,547,551,
Gabeik, Josef 503 553-555, 558, 559, 568, 569, 570, 573-575, 606,
Galland, Adolf 219 607
746 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1939- 1945)
Goerdeler, Fritz 606 n Guilhermina, rainha da Holanda 3 9 ,5 5 ,5 6 ,1 4 9 ,
Gõring, Hermann 8 0 ,8 2 ,9 8 ,101-2,267,296,299, 157
344,354,414, 513, 524,615,630,641,677-9 Gunther, John 230
acusação de traição, demitido, ordem de Gustavo V, rei da Suécia 134n, 181,185
prisão 667-8 ,6 7 2 ,6 77-9,683,688 Gutkelch, dr. 445
alvo dos conspiradores 8 0,540,557,571,579, Guzzoni, general Alfred 279
665-6 ciganos, experiências médicas em 487
animosidade para com Ribbentrop 586
atrocidades da “Nova Ordem” 438-9,441-2, H
4 4 3 ,4 5 0 ,4 5 4 ,4 6 7 ,4 6 8 ,4 9 5 Haakon VII, rei da Noruega 126,127,131,157
bombardeio de Belgrado 282,285 Háften, tenente Werner von 576, 577,581,582,
campanha da Noruega 8 4 ,8 8 ,9 6 ,1 1 5 ,1 3 3 600,601
conferência com Mussolini 396,397 Hagelin, Viljan 89,90
invasão e ocupação da Rússia 249,293-5, Hagen, tenente dr. Hans 593,594,604
321«, 4 1 8 ,4 2 4 ,4 3 8 ,439 Haia 56,136,138-140,147,148, 336
negociações com a Rússia 75 Haia, Convenção de 34,291,336,442-444,450
ofensiva do Ocidente e Batalha da Inglaterra Haldane, J. B. S. 229
14 5 ,1 4 8 ,1 6 0 -2 ,1 6 7 ,1 7 4 -5 ,1 9 6 ,2 0 6n, 210, Halder, general Franz 190n, 272-3,276-8,282,
214, 217-21, 225, 228 329, 385, 387,413, 526
posição militar 190m demitido da chefia do Estado-maior geral
réu em Nuremberg 696 403-8
sucessão de Hitler 653 guerra no Ocidente, 1 9 ,3 0 ,3 9 ,4 4 ,4 9 ,5 5 , 82,
últimas conferências sobre a paz com os 141-2,143,153,155,160-4,170,176
britânicos 39 invasão da Polônia 19-20,66-7,71
Goltz, general conde Rüdiger von de 93 invasão da Rússia 245-8,264,266,279-80,
Gorki URSS 342 290, 304,311,319,322-9, 330h-1h, 332,
Gõrlitz, Walter 427 342-3,353, 399,403-4
Gort, lorde 151, 158,160,165 na conspiração contra Hitler 50-4,64-7,
Goudsmit, Prof. Samuel 642 111-29,392
Gràbe, Hermann 462 no campo de concentração 608, 662
Graf, Spee (encouraçado alemão) 3 4 ,4 8 ,7 8 ,7 9 , nomeado chefe do estado-maior 44
91-93 Noruega e Dinamarca 9 1 ,9 4 ,9 6 ,1 3 3
Grand Sasso d’Itália 518 planos de invasão da Inglaterra 180,187,195,
Grandi, Dino 509 202, 206-8,211,212,216
Gravelines 156,159 Halifax, lorde 86
Gravesend 201,208 comunica-se com os conspiradores contra
Graziani, marechal Rodolfo 2 7 2 ,274«, 275 Hitler 110
Grebbe-Peel, Linha 147 rejeita proposta de paz de Hitler 192
Grécia 261, 270-273,277 n, 278,280, 281, 284-287, Hamar 124,125,128,130
289,290, 301, 302, 305, 306, 350,473,481, Hambro, Carl 89
505, 517, 521 Hamburgo 119, 187,478, 524, 525, 555,649, 652,
Greer (destróier americano) 359 691, 695
Greim, general Robert Ritter von 667-669,672 Hamilton, duque de 297,298
Groscurth, coronel Hans 52 Hammerstein, general Kurt von 50,559
Grozny 3 9 6,403,405,421 Hamsun, Knut 132«
Gudbrandsdal 130 Hanfstángel, Ernst (Putzi) 229
Guderian, general Heinz 19,20,141,150,154,156, Hansen, coronel Georg 559,607
159,322,324,326-336,388,617,618 n, 619,630, Hansestadt, Dantzig (transporte de tropas alemãs)
631, 637-639, 6 4 1 ,6 4 6,64 118
Guilherme II, Kaiser 6 4 ,1 1 0 ,1 3 6 ,1 6 9 n, 170,190, Hardenberg, conde Hans von 390
344, 393,545, 694 Harnack, Arvid 569«
Guilherme, príncipe 393 Harris, capitão de Corveta Whitney R. 459
ÍNDICE 747
Harstad 130 extermínio dos judeus 67-9, 7 2 ,4 5 9,463,464,
Hase, general Paul von 552, 558, 592, 593, 598 465-6,468,469-71, 479,482,483, 486
Hassell, Ulrich von 170«, 311«-2«, 314«, 379 n programa de ocupação da Inglaterra 227-9
conspiração contra Hitler 52,65,80,109-111, tenta afastar Hitler 6 06,6 6 4 -5 ,6 7 0 ,6 7 2 ,6 7 7 ,
170n, 311, 312, 314, 379, 388-390, 392, 681, 683
393-395, 534, 543, 551, 559, 568, 607 Hindenburg, Paul von Beneckemdor und von 338,
executado 559 344
Hausberg, Fritz von 99, 100» Hipper (cruzador pesado alemão) 122
Haushofer, Albrecht 607 Hippke, tenente-general dr. 495
Haushofer, general (professor) Karl 300 Hirohito, Imperador do Japão 373
Havei, lago (Berlim) 681 Hirt, professor August 4 8 8 ,4 8 9 ,4 9 0 ,4 9 1 ,4 9 2
Havre 201,214, 561 História de Frederico, o Grande (Carlyle) 654,655,
“Heiliger, Max” 479,480 656
Hellmann, Horst 569 Hitler, Adolf
Heinrich, general 197», 657 casa com Eva Braun 672-3
Heligoland, Baía de 208 definha a saúde 646-8,652
Helldorf, conde Wolf, von 557, 590, 595, 607 sua reação ante o vôo de Hess 296-301
Hencke, Andor 27 n suicídio e cremação 687
Hendaye 269, 271 últimos testamentos 674-9
Herber, tenente coronel Franz 599 Führer e Chanceler do Reich — política interna:
Herbstreise (“Viagem de Outono”) 208 assume poder absoluto no Reich 339
conspiração para a explosão na cervejaria
Herfurth, general Otto 597
55-60
Herrenklub 269, 288
conspirações para depô-lo e matá-lo
Herrlingen 553, 613
531-59, 567-620, vide também Hitler,
Hersey, John 481
conspiração contra pressão na
Herypierre, Henry 490,49 1,492
perseguição aos judeus 431-506, passim
Hess, Rudolf 174, 296-299, 300, 301,441, 653, 696,
Führer e chanceler do Reich — relações
698
exteriores:
vôo à Escócia 296-301
oferece paz à Inglaterra e à França 38-44
Heusinger, general Adolf 575«, 579, 580, 583
conferência com Sumner Wells 97-104
Hewel, Walter 645
sua lealdade para com Mussolini 108-9,
Heyde, tenente-coronel Bodo von der 599
584-5
Heydrich, Reinhardt 60«, 227-8,456,543,697
intervém na Romênia 251,254
assassinado 503, 537
assina pacto militar com a Itália e o Japão
perseguição aos judeus 67-9,459,467,468,
253
486 conferência com Molotov 254-63
Hildesheim 152 última conferência com o Duce 584-5
Hilger, Gustav 260,262 discurso de “paz” 39-43,187-91,198-9
Himer, general Kurt 118,119,120 negócios com os soviéticos 73-9, 242-3, 249
Himmler, Heinrich 57-60, 70, 80, 299-300, 503, convida Mussolini para o Pacto Tríplice
511, 513, 518, 559-60, 642, 653, 658-61,688 261-4
captura e suicídio 695-8 explica a invasão da Rússia ao Duce 315-8
comando do exército 595, 596,607,617, criticado pelo Duce 73-5
625-6,636, 644 negocia tratado de limites com a URSS
e os conspiradores contra Hitler 534,540, 543, 25-9
545, 546, 553, 557, 559-60, 571, 572, 574-6, Senhor Supremo da Guerra:
579, 583-4, 586, 595-6, 602-3, 606-7, 665 apodera-se da França não-ocupada 415-6
e política da ocupação da Rússia 292-5,431-2, aprova, dirige a campanha da Noruega
4 4 9 « ,450,453 84-6, 90-7,112-7,132-5
experiências médicas 486-9,491,493-4, assume a posição de comandante-em-chefe
496-7,498-9, 502 338
ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1939- 1945)
campanha nos Bálcãs 277,280-5,290-1 sua “Ordem dos Comissários” 290-5
campanhas do Norte da África 286-9, sua ordem de não se fazer retirada nem
399-401,409-17 rendição 3 3 0 ,3 3 6 ,339,410-1,423-4
colabora com o Japão 344-53,360-80, sua política de ocupação 431-506, passim
384-5 Hitler, Angela, vide Raubal, Angela Hitler
conferência com o Duce 507-9 Hitler, conspiração contra 5 0 ,6 0 -1 ,6 5 ,6 7 ,1 0 9 ,
confia em um conflito entre os aliados 625, 112,139,144,191, 312,314, 388,394,516, 530,
632-2,640 620
conquista a Polônia 28-9 Hitler, Paula 677 n
declara guerra aos Estados Unidos 373-87 Hitlerista, Juventude 6 8 1 ,682,691,697
demite generais pelas retiradas 330,336-8, Hitzfeld, general 596»
388,407 Hodges, general Courtney H. 624
dirige a campanha russa 318-43,395-9, Hoepner, general Erich 152,334,336,388, 549,
402-9,416-27, 521-2, 639-40 558, 575, 587, 588, 596, 597, 599, 599,600,
dirige a contra-ofensiva nas Ardenas 601, 602,604
629-38 Hõss, Rudolf Franz 72,466,471-474,477,478
dirige a defesa no ocidente 559-66,623-38, Hofacker, coronel Casar von 574,607,610, 611,
640-6,649-51 613,616
especula sobre as possibilidades de paz Hoffmann, Heinrich 197,657
528-30 Hoffmann-Schonforn, coronel 627
estratégia no Mediterrâneo, Norte da Hohenlohe, príncipe Max von 185»
África 266-78 Hohenlychen 661
expede a Diretiva de “terra devastada” Hohenzollern, Os 174,393
647-9 Holanda 3 9 ,1 35,140,144-5,149, 365
invade e conquista a França 153-8,160-78 planos de guerra dos alemães contra a 45, 52-6,
invade os Países Baixos 138-41,146-9, 60 ,6 4 ,7 3 ,7 8 ,8 1 ,8 2 ,1 1 2 ,1 3 3 ,1 3 8 -4 4 ,1 7 0 ,
158-60 241
limita as operações navais 28 conquista da 136,146-9
obtém a promessa do Duce de entrar na ocupação alemã da 196,439,457-8,479,629,
guerra 106-10 642,677,692
oferece a paz à Inglaterra 180-1,184-92 Holandês, exército 148
ordena a mobilização total 626 Holandesa, força aérea 454
ordena o aniquilamento da cabeça-de- Holzlõhner, dr. 497,498
ponte inimiga 563 Hoover, J. Edgar 307
ordens para assumir a direção na Itália, Hopkins, Harry 373
salvação do Duce 512-22 Horak, Prefeito 504
política da ocupação na Polônia 65-72 Hore-Belisha, sir Leslie 89
política para com os Estados Unidos 344-6, Horthy, almirante Miklós 629
350», 354-64, 366-7 Hoth, general Hermann 150, 334,419-421
projeta a guerra contra a Rússia 79 Houffalize 636
projeta a invasão da Inglaterra 185-9,193, Huber, Kurt 542
195-240 Hübner, general 644»
projeta a invasão da Rússia 245-51,263-6, Hull, Cordell 3 0 7 ,3 0 8 ,347,348,352, 362-365,
278-80,290-5,310-9 368,371,373, 376,379
projeta a ofensiva no ocidente 30,44-8, Hungria 250,261, 282, 285, 310
54-5, 60-4, 8 0 ,9 1,141-4 ocupação alemã da 301,306
promove 12 generais a marechais-de-campo unidades do exército na frente russa 342,396,
200 » - 1» 404,409
recusa-se a visitar as cidades bombardeadas matança em massa de judeus da Hungria
524 pelos nazistas 629», 638,641
seus últimos dias, no abrigo de Berlim tomada pelos russos 629», 638,641
652-88 Huntziger, general Charles 175-178
ÍNDICE 749
Hurricanes (aviões britânicos) 218,219 Iraque 288, 289, 305
Huxley, Aldous 229 Irlanda 48, 352«, 468
Irgens, capitão 127
I Iserlohn 681
I. G. Farben 7 2 ,4 7 2 ,4 7 7 ,4 7 8 Islândia 36,354,356-358
Igorka, rio 303 Istambul 546
Igreja da Inglaterra 230 Istria 520
Illustrious (porta-aviões britânico) 48 Italiana, marinha 275« 514, 516«
índia 185«, 249«, 361, 386,457 Italiana, República Socialista 520
Indiana, Legião 645 Italiano, exército 2 72,274,284,285,317,341,396-8,
Índico, Oceano 261, 263, 386,403 399,404,410-1,417,420,422, 508, 514,516,
Indochina 362 521
Informationsheft 230 Itália 250, 254-6, 259, 260, 317, 415, 507, 508
Inglaterra 47-8, 141,1 4 9,153-6,159,167,179, política anterior à guerra para com a
185, 200, 200, 202, 209, 211, 211-9, 225, 266, Inglaterra e França 102
267, 2 7 6 ,4 0 1 ,4 0 2 ,4 5 7 ,4 6 8 , 507, 529, 552, auxílio aos rebeldes espanhóis 269
556, 560, vide Inglês, canal atrito com a Alemanha 73-5, 97,102-3, 217,
aliança com a Rússia 301,313-6, 528, 556,640 270
atitude alemã e estratégia na guerra 64, 78, invasão da Albânia 267
196, 201, 208,210-1, 248, 255,256, 262, aliança militar com o Reich vide também
311, 315-7, 320, 344-9,403-4,454,675 Pacto de Aço
auxílio dos Estados Unidos a 352,356-9, relutância em participar da guerra 4 2 ,4 6 ,6 3 ,
381-2, 385, 386 102-10
contatos com os alemães, contra Hitler 51-4, entra na guerra contra a França 170,171,
109-12, 536, 544, 546, 568 175-7,180, 352 vide também Franco-
em guerra 3 0 ,7 3 ,1 0 6 ,1 1 8 ,1 8 5 ,2 6 0 , 285, italiano, armistício
322«, 389, 507, 560, 625-6, 642,649 guerra contra a Inglaterra no Mediterrâneo
envolvimento da Noruega 88-9,90,112-5 172, 193, 267, 272-80, 298, 385, 399,402,
força expedicionária para a Finlândia 8 7 ,9 6n 411
guerra de Vichy contra a 226, 272,414-5 no Pacto Tríplice 253-61, 369
guerra do Japão contra a 345, 347, 352«, invasão da Grécia 272, 278-81
367-8, 371,376, 377, 523 família real da 509
hipoteca solidariedade à Polônia 31 obtém parte da Iugoslávia 282,285
invasão da 1 8 7 ,188,192,195-231,248,267, guerra contra a URSS 318,247, 396
272, 278, 348, 355, 565 guerra contra os Estados Unidos 344,364,
no Mediterrâneo 266-9,272-6 369-70, 377, 382, 384
operações aéreas contra a Batalha da desembarque dos aliados e Batalha da Itália
Inglaterra 192, 202, 205, 209-10, 262, 285, 411, 507, 514, 515, 521, 524, 525, 556, 560,
315-6, 525, 565, 640 569, 643, 652, 692
perdas de navios 34-7, 47-8, 78-9, 133,167-8, saída do Duce, faz a paz com os aliados
217 507-15, 518
vide também, Atlântico, Batalha do; ocupação alemã 515, 518-20, 525
Britânica, marinha Partido Republicano Fascista 519
planos dos alemães para a ocupação da Iugoslávia 25 \n, 255, 261,271, 281-285, 287-290,
227-31,239 301, 302, 304-306, 349, 350, 505, 521
proposta de paz da Alemanha à 37-43,163-5,
179-94, 231, 238-9, 296, 300, 529-30, 692-4 J
Instituto de Pesquisas Científicas Militares 489 Jackson, Robert H. 467
Interior, Ministério do 553 Jacob, Franz 570, 596, 597
Internacional, Tribunal Militar 696 Jacob, major 596n
Irã (Pérsia) 193,263,403 Jãger, dr. Wilhelm 446,551
750 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939’ 1945)
Jaklincz, coronel 31 Junge, Gertrude 673,684-5
Japão 164, 1 8 8 ,2 4 7 ,2 5 4 ,2 5 6 ,2 5 9 ,2 6 3 ,3 0 2 ,3 1 7 , Jutlândia, Batalha da 118,129
362, 377-8, 545
na estratégia de Hitler 278,374-80 passim 404 K
guerra contra os Estados Unidos, Inglaterra Kaltenbrunner, dr. Ernest 456,603,697-8
522 Kapfund, vide Deutscher Kampfbund
pacto de neutralidade com a URSS 350-2 Kantzow, Carin von, vide Gõring, Carin von
Japonês, exército 352 Kantzow
Japonesa, marinha 345,347, 368,373,377 Karinhall 202,659
Jastrzembski vide Falkenhorst Karlsruhe (cruzador alemão) 123
Jena 427 Kasserine, desfiladeiro de 550
Jeschonnek, general Hans 202,213 Katzenellenbogen, dr. Edwin 502
Jessen, Jens Peter 395,607 Kaufmann, Karl Otto 525
Jodl, general Alfred 79, 8 1 -2 ,272,279,282,284, Kaunas 242,471
337, 347, 398,407/1, 412,413, 526, 557, 640, Kearny (destróier norte-americano) 360
658-61 Keitel, marechal-de-campo Wilhelm 7 5,78,197,
armistício da França 173,176 272,282,310-20, 3 4 7 ,3 9 8 ,407,413,442, 512,
assina a rendição 693,694 566/1, 589,643,646, 657, 663,666, 682
desembarque dos aliados na Normandia e a conspiração contra Hitler 540, 557, 573,
562-5 575«, 577-80, 583, 589-91, 596,608,613-4,
executado em Nuremberg 698 615/1
ferido pela bomba destinada a Hitler 579,583 e os crimes de guerra dos nazistas 67,292,
invasão da Inglaterra 195,197,202,207,211 311,437,451,454,457-8
invasão da Rússia 243,246,323, 326,333,417, frente ocidental 3 2 ,55,145
424 guerra contra a Rússia 2 46,327,337,417
operações na frente ocidental 32,44,143-50, invasão da Noruega 9 0 ,9 2 -3 ,9 5 ,1 3 3
155,161,180 nomeado marechal-de-campo 190»
operações na Noruega 9 0,9 3 ,9 6 -7 ,1 1 5 ,1 3 2 -3 planos de invasão da Inglaterra 202,204-5,
Ordem de Comando de Hitler 456 207-9
rendição da Itália 511-2, 514 rendição da França 174,176-8
Johannmeier, major Willi 680-1 Batalha de Berlim 657-60,669
John, tenente von 578 ordenada a sua morte por Bormann 685
Jorge IV, rei da Inglaterra 234-35,270/1, 297 executado em Nuremberg 696-8
Journal-American, Nova York 182 Kelly, dr. Douglas M. 300
Judeus 4 1 ,98/i 120,626 Kelly, sir David 185n
empregados como escravos 445-8 Kempka, Erich 657,686-7,691
experiências médicas nos 487-90,494 Kennan, George F. 307 n
ódio de Hitler 675,677 Kennedy, Joseph P. 104
perseguição nazista aos 13,6 5 ,6 7 ,6 9 ,7 0 ,8 7 -8 , Kesselring, marechal-de-campo Albert 149, 162,
98 n, 100 190/1,217,400, 514-5, 521, 642, 651/1, 658,
programa de extermínio 65-72,431,440-1, 660,692
4 43-4,452-3,459-75,477-87, 503-4, 550, Kranzfelder, capitão Alfred 575
593 KharKov 428,522
nos Estados Unidos 104,183,346,349,380, Kiel 187
383 Kiel, Universidade de 497
rebelião do gueto de Varsóvia 481-6 Kielce 20
Julgamento dos Médicos 487«, 488,495,497-8, Kiep, Otto 545-6,607
501-2 Kiev 248,265, 320, 325-7,433,462, 522
Jünger, Ernst 567 n Kira, Princesa 393
Jüterbog 587 Kirk, Alexander C. 35
ÍNDICE 751
Kirkpatrick, Ivone 297-300 Kummetz, contra-almirante Oskar 124
Kjõlsen, capitão 113 Kursk 521-2
Kladno 504 Kurusu, Saburo 364-5, 371
Kleist, general Evald von 150», 323, 33 ln, 358, Küstrin 655
369, 403, 405,421, 547, 54Sn
Kleist, Heinrich von 547 L
Kleist, Peter 535« Laborde, almirante 416
Kletskaya 418 Ladoga, Lago 265
Klop, tenente 58 Lahousen, general Erwin 537
Kluge, marechal-de-campo Günther Hans 19, Lammerding, tenente-general Heinz 506«
190/1, 329, 334-6, 340-1, 530«, 531-2, 537-8, Lammers, Hans 436,468, 663, 667
540, 552, 566, 573-4, 589, 596, 609-12, 616, Lempe, Maurice 455
619-20 Landsberg, prisão de 448«, 461 n, 466w, 468»
Koblenz 644 Langbehn, dr. Carl 607
Koch, Erich 433 Langer, William L. 270 n
Koch, Ilse 493 Langsdorff, capitão Hans 79
Kõln (cruzador alemão) 115-6 La Roche-Guyon 609
Kõnigsberg 51, 30 7n, 602 Laski, Harold 229
Kõnigsberg (cruzador alemão) 115,122 Látvia 26-7,242
Kõstring, general Ernst 249 Lavai, Pierre 178-9,415-6
Koht, dr. Halvdan 126-8 Lawrence, juiz lorde 291
Kola, Península 437 “Leão do Mar”, nome em código para a invasão da
Koller, general Karl 658-9,662-3 Inglaterra 188
Konev, marechal Ivan S. 638 Lebensraum 62, 256,437
Konoye, príncipe 362, 363« Leber, Julius 551, 569, 570, 595,607
Konradswalde 606 Leclerc, general Jacques 623
Kordt, Theodor 51 Leeb, marechal-de-campo Wilhelm Ritter von 48,
Korherr, dr. Richard 465 161n, 190n, 320, 328, 388«
Kori 477 Lei para Supressão da Miséria do Povo no Reich
Korschen 540 vide Habilitação, Ato de (23 de março de
Korien, general 5 7 9 , 583n 1933)
Kortzfleisch, general Joachim von 558, 592, 607 Lehndorff, Conte Heinrich von 390
Kotelnikovski 419-20 Lehrterstrasse, prisão de Berlim 607
Krãmer, general Fritz 637n Lemnos 272
Krámer, Josef 72, 489-90 Lemp, Oberleutnant 35, 36n
Krampnitz 572, 597, 663 Leningrado 265, 280, 320-1, 323, 325, 328, 336,
Krancke, almirante Theodor 413 418, 431,437
Krebs, general Hans 302,658,673, 678,682,686, Leonrod, major Ludwig von 591
688-9,691 Leopoldo III, rei dos belgas 157
Kreisau, Círculo de 394,532,533-4, 536, 551, 555, Leuschner, Wilhelm 551, 555, 607
5 5 9 ,606« Lewis, Fulton Jr. 183
Kremlin 21, 76, 255, 301, 302, 310, 312, 334 Ley, dr. Robert 80, 696w
Kristiansand 89,122 Leyden 147
Krupp von Bohlen und Halbach, Alfried 448 m Lezhaky 505
Krupp von Bohlen und Halbach, Gustav 447,448n Líbia 272 -3 ,274«, 277, 279, 280, 2 8 5 -6 ,400«, 401
Krupp, Usinas 446,472 Lichterfelde 5 9 8 ,606«
Kuban 396 Liddell, Hart B. H. 161«, 164,199,200 n, 323,
Kubis, Jan 503 405n,566«
Kübler, general Ludwig 341 Lidice 503-6
Küchler, general Georg von 147 Liège 624
Kuibyshev 328 Liga das Nações 61
752 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 939‘ 1945)
“Lila” 416 148,152,159
Lülehammer 128,130-1 ordens de parar 161,162,166-8
Lillesand 113 batalha da Inglaterra 1 87,193,187,196,199,
Limoges 505-6 204-6,212,214,218-9,223-6
Lindbergh, Charles A. 98,184», 286», 287» frente oriental 2 4 7 ,329,418,525
Lindemann, general Fritz 552,607 na área do Mediterrâneo e Norte da África
Linge, Heinz 687 400-1,413
Linnertz, general 598 experiências médicas para 494-8
Linz 652,678 Batalha de Berlim 658,663,672
Lippstadt 649 demissão de Gõring 668
Lisboa 229, 231,232-4,236-7,239-40 Lunding, coronel 608
List, marechal-de-campo Sigmund Wilhelm 20, Lupescu, Magda 251»
190», 2 8 1 ,2 8 5 ,4 0 3 -4 ,4 07,408» Lusitânia 35
Littorio (encouraçado italiano) 275» Luxemburgo 4 5 ,4 7 ,5 3 ,1 3 8 ,1 4 5
Lituânia 26-7, 2 4 2 ,3 1 4 ,4 6 4 ,482 Lwów (Lemberg), Polônia 23
Loire, Rio 561,611,623 Lyme, Bay 201-3,205-7
Londres medidas de defesa
bombardeio aéreo de 207-10,212,214, M
219-20,224-5,226, 525, 565 Maas (Mosa), rio 147-8
governo holandês em 149 Maastricht 151
nos planos alemães para invasão da Inglaterra Mackensen, Hans Georg von 102,370
201,207-10, 227-9,288 Mackesy, general de Divisão 130
Londres, Times de 402» Madeira 273,578
Lorenz, Heinz 670,681 Madri 231-5,237
Lossberg, coronel Bernhard von 210» Mafalda, princesa 493», 517
Lothian, lorde 185 Magdeburgo 650
Louis-Ferdinand, príncipe 393-4 “Magic” 363,365,368»
Louvain 142,151 Maginot, Linha 48,142,144-5,151
Louvre 442 Maikop 328, 396,402
Lubbe, Merinus von der 59 Mainz 644
Lublin 2 0 ,2 7 ,4 7 7 ,4 8 0 Maisel, general Ernst 614-5
Lucas, Scott 184» Malásia 373,386»
LudendoríF, general Erich 190,344,644 Maldon 201
Ludendorff, ponte (Remagen) 644 Malmédy 454,637»
Lübeck 88,664-5 Maloyaroslavets 340-1
Lüneburg 489,695 Malta 400,401,412,516»
Lüttwitz, general Heinrich von 634 Manila 351
Lützou (cruzador pesado alemão) 76-7 Mannerheim, marechal 96»
Lützou (encouraçado de bolso alemão, antigo Manoilescu, Mihal 251
Deutschland) 123-4 Manstein, general Fritz Erich von (Lewinski)
Luftflotten (frotas aéreas) 217 142-3,153,291», 304, 388», 419,420, 532, 552
Lufthansa 393 ManteufFel, general Hasso von 630-1,633, 634
Luftwaffe (força aérea alemã) 184», 190», 268, Margival 563,565
275«, 2 77,285,286, 317,357,388», 414, Marienwerder 606
518-9, 557,568, 5 8 6,606,677,680, 682 Marinha alemã 1 2 ,1 9 7 ,202,210,214», 272,275,
formação da 320 288, 309, 352», 354, 355, 358, 359,360», 375,
na guerra do ocidente 3 0 ,4 7 ,81-3,154,159, 523, 563, 693
169, 560, 564, 565, 642 submarinos 33-5,48, 75,133,223-9, 377, 386,
campanha norueguesa 84 ,9 5 ,9 6 ,1 1 9 ,1 2 3 , 399,401, 508, 523, 524, 642
1 2 4 ,128,131,135 operações de guerra no Atlântico 33-7,48,
operações na Holanda, Bélgica 143-4,147, 355-61, 377, 386,401, 523, 524, 560, 564
ÍNDICE 753
afundamento de navios 33-5, 36-7,48,401, Mõllendorff, capitão von 577
532 Moerdijk 147
perdas de navios 78-9 ,1 2 9,132,135, 215, 226, Molde 131
513 m Moll, Sarg. 475
invasão da Noruega 8 4 -7 ,9 2 ,9 5 ,1 1 5 -7 ,1 2 2 , Molotov, Vyacheslav M. (nomeado ministro dos
129,132-5 Negócios)
invasão da Inglaterra 186-7,193,195-6,199, negociações com os alemães 21-7, 38, 75,
201-16, 226 241-4,310
aconselhada a ofensiva no Mediterrâneo visita Berlim 250-1, 254-63, 274
272-7, 288-9 substituído no cargo de primeiro-ministro
operações contra a Rússia 311 por Stalin 305-9
negociações para a rendição 694 recebe a declaração de guerra da Alemanha
Marinha de Guerra, Estado-maior da 36,92, 312-4
195-6, 201-3, 206, 209, 211, 214-5, 230, 289 Moltke, marechal-de-campo Helmuth von 62,149,
“Marita” 277,281-2 618
Marne, Rio 154,333,627 Moltke, conde Helmuth James von 394, 533-4,
Marrocos 268,414 545, 559, 60 6n
Marselha 171-2 Monckton, sir Walter 237,239
Marshall, general George C. 515« Monschau 632,633
Masaryk, Ian 229 Montevidéu 78-9
Matsuoka, Yosuke 302, 344, 347-53, 361, 367, 373 Montgomery, general sir Bernard Law 409,410,
Matuschka, capitão conde von 552 411, 515, 624, 627, 628, 646, 649, 692, 696
Mauthausen 445,4 5 5 ,4 5 6 , 489 Monthermé 150
Maydell, barão Konstantin von 100m Montoire 270«, 271
McAuliffe, general A. C. 634 Mooney, James D. 102«
McCarthy, Joseph R. 637« Morávia 6 1,101,503
McCloy, John J. 448«, 63 7n Morell, dr. Theodor 646
Mechelen-sur-Meuse 81 Morgan, J. P. 104
Médicas dos nazistas, Experiências 486,493 Morgenthau, Henry Jr. 379 n
Medina Sidonia, duque de 402« Morison, Samuel Eliot 360«
Mediterrâneo 108,172,193, 261, 267-9, 273-6, 286, Morris, Leland 384
288-9, 4 0 0 ,402,413, 416-7, 507, 523-4,631 Mosa, rio 140, 142, 147, 149-51, 153-4, 624, 628,
Mersa, Matrüh 272 630, 633-4, 642
Mertz von Quirnheim, coronel, von 588, 591 Moscou:
Mesny, general 643 evacuada pelo governo 328-30
Messerschmitt, Wilhelm 296 investida alemã em direção a, e derrota em
Metz 612 320-2, 324-30, 333-43, 371, 390,451, 522,
Mézières 142 619
Miguel, rei da Romênia 251 n planos de guerra dos alemães contra 248,263,
Médio, Oriente 267, 288-9, 399,409 vide também 264, 396
Arábia; Irã; Palestina; Síria rumores de ataque alemão em 306, 309
“Mil Anos, Reich de” 405,694 Moscou, Pacto de, vide Nazi-Soviético, Pacto
Milão 171 m, 507, 684 Mosela, rio 624
Milch, marechal-de-campo Erhard 1 6 2 ,190n, Mozdok 403
444«, 495 “Mr. X ”, vide Bryans, J. Lonsdale
Minha luta (Hitler), citado 245,437,674,683 Müller, Heinrich 452,569
Minsk 322,465», 4 7 1 ,479«, 539 Müller, dr. Josef 51, 544
Mius, rio, 330, 331 n Münster, tratado de 45
Moabit, Prisão de 546«, 602 Münstereifel 145
Model, marechal-de-campo Walther 445,612, 615, Munch, Edvard 118
626, 630, 636,649 Munique 112,414, 652
754 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 ’ 1 9 4 5 )
conferência de Hitler com o Duce em 172 Narew, Rio 25,27
conferência de Hitler e Lavai em 415 Narvik86,88,94,1 1 3 -4 ,1 2 1 ,1 2 9 -3 2 ,1 3 4 » , 135,
Ciano refugia-se em 519 146,186,263,424
planos dos conspiradores 556 Natzweiler 489
vide também Cervejaria, Putsch da Naujocks, Alfred Helmut 58
Munique, Conferência e Pacto 33 Naval, Alto-Comando 34,44 vide também Rãder,
Munique, Universidade de 542 almirante Erich
Munk, Kaj 458 Nazi-Soviético, Pacto 21, 26-7,243,252, 302, 313,
Murmansk 75,114», 265,328 640
Murray, Gilbert 229 Nebe, Arthur 584,607
Mussolini, Benito 40», 4 6 ,6 3 ,1 5 4 ,1 6 4 ,1 8 1 ,2 7 6 , Neff,Walter 497-9
315-8, 345,415», 507 Negro, Mar 7 5 ,2 5 7 ,2 6 5 ,2 8 0 ,3 1 1 ,3 1 3 ,3 2 0 ,3 2 8 ,
encontros e conferências com Hitler 173,216, 395
270-2,278-80, 507-9, 577,584-6 Neuhaus 69»
atitude para com os Estados Unidos 350», Neurath, barão Konstantin 69 ,5 0 3 ,5 5 4 ,6 9 7 ,6 9 8
369-70,373 Niblack (destróier americano) 356
mediação na crise da guerra 40,44 Nidda, Krug von 415
critica a política nazista com a URSS 74-5,98, Niederdorf 407, 608
103,104 Niemen, rio 318
guerra contra a Inglaterra 163,190,267,421 Niemõller, reverendo Martin 60»
relações com o Japão 349-50,269-70,375 Nieuwe Maas, rio 147-8
aconselha Hitler a fazer a paz no leste 421,507 Nikitchenko, general I. T. 460
deposto, preso 509-12, 516-18 Nilo, rio 399,402-3,409,417,428
salvo pelas S.S. 514, 518-20 Nõel, Léon 175
assassinado 684 Nomura, almirante Kichisaburo 347», 348»,
promete entrar na guerra 106-10 361-5, 371, 373
guerra, armistício com a França 179-2,178,180 Nórdica, Sociedade 88
invasão da Grécia 270-2, 274, 284, 285 Normandia 506», 560-2, 565,611, 623,627, 632
em guerra contra a URSS 318,396-9 Norge (nave norueguesa) 121,207, 220, 224, 229
relutância em arriscar-se na guerra contra o Norte-americana, força aérea 524, 546», 565, 606,
Ocidente 73-5,102-10 643
Norte-americanas, unidades:
N Exército:
Nactht und Nebel Erlass (Decreto da Noite e do lfi 6 2 4 ,6 2 8 ,629,632,649
Nevoeiro) 458 3a 611,623, 624, 628, 629,634,644, 652
Nacional, Reduto 650,650» 52 5 16
Nacional Socialista, Movimento (ideologia) 549, 7a 492, 624,644,652
551, 567,604, 619 ,6 7 4,676,679 9a 627, 629,649
Nacional Socialista, Partido dos Trabalhadores Divisões:
(Nazista) ou N.S.D.A.P 70, 295,299, 593, 596, 2a Blindada 634
617 9a Blindada 644
tática de terror 457-65,506,694 4a de Infantaria 623
Nacionalistas, vide Partido do Povo Nacional 69a de Infantaria 651
Alemão 101a Aerotransportada 633
Namsos 130-1 Norte-americano, exército 99,184», 210», 322»,
Namur 142,151-3,624 366
Nansen, Frídjof 87 nas Ardenas 632-3,636
Nantes 457 na Áustria 407», 606,609
Nápoles 515-16 na França 556, 562,611, 617,629
Napoleão 24,197», 209», 266,289,318, 320,328, na Alemanha 6 2 9,646,649-51,655,658,663,
330, 336,340, 532, 549 695
Napoleão I I I 149 na Itália 457,516
ÍNDICE 755
no Norte da África 550 Escritório do) 52, 57, 99,111, 536, 537,
massacre de Malmédy 454,637 n 544, 546, 551, 559-60, 569», 571-2, 606,
Norte da África 172,193, 267, 268, 273, 274, 277, vide também Canaris, Oster Seção de
286, 288, 317, 386, 398-404,409-17, 421-2, Economia e Armamentos 76», 248-9; vide
507, 526, 615 também Thombas, general Georg Olav
desembarque aliado no 411-7,428 Trygverson (Lança-minas norueguês) 123
Norte, Mar do 47, 84,113-4, 145, 203, 208,296 Olbricht, general Friedrich 389, 537, 548, 550, 551,
Noruega 139,257, 330 559, 572, 573, 582, 583, 587-92, 596», 597,
planos de guerra contra a 84-97,106,112-3 599, 600-1
incidente do Altmark 92-3 Olímpicos, Jogos 297
invasão da 117, 121-35, 144-5,147, 241, 285 Operações (nomes em código):
história da monarquia 126» Águia (Adlerangriffe) 217
ocupação alemã da 132», 186, 208, 218, 251, Aída 401
265,4 0 2 ,4 5 7 , 505 Átila 277-8
Norueguês, exército 8 7 -8 ,9 0 ,1 25 Carvalho (Eiche) 514, 517
Nova York 99» Cidadela 521
N.S.D.A.P. vide Nacional Socialista, Partido dos Clarão 536-7-539
Trabalhadores (Nazista) Dínamo 165
Nuremberg 498 ,6 5 1 -2 ,6 5 7 ,6 96-8 Eixo (Achse) 514, 515
Nuremberg, Comícios do Partido em 652 Estudante 514
Nybergsund 126,128 Girassol 278
Greif 629n, 633n
O Hércules 401
Oberg, general de divisão Karl 590,611 Inverno Tempestuoso 419
Oberheuser, dr. Heria 502 Isabella 273
Obersalzberg, vide Berchtesgaden Marita 277
Ochs-Adler, coronel Julius 184» Preta (Schwarz) 514
Ochsner, coronel 341 Punição 285
Oder, rio 6 3 9 ,6 4 6 ,6 5 1 ,6 5 5 ,6 6 9 Tufão 328
Odessa 265 Violetas dos Alpes 278
Ohleendorf, Otto 452,459 Oppenheim 644-5
OKH, vide Exército, Alto-Comando do OKM Oradour-sur-Glane 505
(Oberkommando der Kriegsmarine, Alto- Orã 414
Comando da Marinha) 64, 227,279, 548, 549, “Ordem dos Comandos” 455
607 Ordem dos Comissários 291,295
OKW (Oberkommando der Wehrmacht, Alto- Orei 321,333, 522
Comando das Forças Armadas) 154, 272, 284, Oriente Médio 267
548, 574, 577, 607, 663, 683 Orleans 623
invasão da Polônia 24 ,6 7 Orne, rio 562
frente ocidental 39,44, 55,61, 81,141-6,148, Oshima, general Hiroshi 345,363,366-71,374,375,
149, 152-4,160-5, 562 377-8
campanha da Noruega 8 4 ,9 0 -1 ,9 2 ,9 4 ,1 1 5 Oskar, príncipe da Prússia 393
atividades nos Estados Unidos 98-9,183» Oslo 38, 87-90, 91», 94, 113, 116-7, 122-8,130,
Batalha da Inglaterra 193,195,197,202-8 132-3,136, 146-7, 191»
Barbarossa 246, 248-9,263, 266, 279-80, 288, Ostende 211
292, 320, 323-7,408», 409,416-7,422,427, Oster, coronel Hans 51-4, 56, 58,113, 139,140,
451,452 312», 389, 535, 544, 608
Mediterrâneo e Norte da África 412,413, “Ostland” 293
415-6 Ott, general Eugen 352-3, 354», 362, 364-5, 368,
deserção da Itália 508, 513, 515, 521 375»
rendição 692, vide também Jodl; Keitel “Otto” (nome em código) 264, vide também Caso
Abwehr (Serviço de Informações, Otto
756 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 ‘ 1 9 4 5 )
Oumansky, Constantine 308 Pó, Vale do 652
Oven, Margarete von 559 Pohl, dr. Emil 480
Pohl, Oswald 466,480
P Pokorny, dr. Adolf 487, 502
Pacholegg, Anton 495 Polonês, Corredor 19
Pacífico 7 5 ,3 4 6 ,3 4 9 ,3 5 2 ,3 6 1 ,3 6 3 ,3 6 4 ,3 7 3 , Polonês, exército 19,21, 30-3,131
376-7,385-6 Polonesa, força aérea 19
Paderewski, Ignacio 229 Polonesa, marinha 113
País de Gales 201 Polônia 3 8 -44,62,109,110,133
Países Baixos 3 9 ,5 5 ,5 8 « , 76«, 138,217,298 representação britânica e francesa em apoio
Palácio dos Esportes, Berlim 43,222 da 32
Palatinado 644 invasão alemã e conquista da 19-22,29, 30,
Palestina 268 33,138-9,144,146, 301,675
Pan-Americana, Patrulha de Neutralidade 356 invasão russa da 21-9,38
Papen, Franz von 677 ocupação alemão da 65-72,107, 228, 245,249,
absolvido em Nuremberg 697-8 261,293, 302, 306, 390 431,433,440-1,
Paris 3 3 ,4 3 ,86«, 1 0 4 ,1 0 6 ,141,142,146,153,157, 44 2 ,4 4-6,448,456-9,467-73,481-6,506,
169,173 ,1 9 7 ,2 4 2 ,3 9 2 ,4 4 2 , 553, 5 6 0 ,567«, 694,697-8
5 7 3 ,5 9 0 -1 ,6 0 9 -1 1 ,6 2 3 ,624n, 633 n libertação 523,566,629,637-9
Passo de Calais 201,560,561 Põlzl, Klara, vide Hitler, Klara
Patch, general Alexander 624 Pomerania (Pomorze) 19
Patton, general George S. 611,623-4,628,634,644-5 Popitz, Johannes 65,8 0 ,3 1 2 « , 389,393,394,534,
Paulo, príncipe regente da Iugoslávia 281 543,606
Paulus, marechal-de-campo Friedrich 290,304, Portugal 229,231, 234-5,240, 273
3 9 6 ,4 0 8 ,4 1 8 -9 ,420«, 422-8, 531-2 Posen 2 0 ,6 5 ,4 3 1 -2 ,4 4 1 ,4 5 3 ,4 7 0
Pearl Harbor 3 4 3 ,3 6 5 ,3 6 8 ,3 7 1 ,3 7 3 ,3 7 4 ,3 7 6 , Potsdam 606,663
378, 383, 386« Povo Alemão, Partido do, vide
Pedro, rei da Iugoslávia 282,285) Alemão, Partido do Povo
Peenemunde 525 Povo da Baviera, Partido do, vide
Peiper, coronel Jochen 63 7n Baviera, Partido do Povo
Peipus, lago 580 Povo, Tribunal do ( Volksgericht) 543, 546,592,
Pemsel, general de Divisão Max 561-3 601,603-4,606, 608-9, 611, 613,616-7
Pershing, general John J. 184« Praga 157, 503-4,596
Pérsia, vide Irã Preysing, cardeal conde 575 n
Pérsico, Golfo 256,263, 289,403 Prien, Oberleuthnant Günther 48
Petacci, Clara 520,684 Priess, Hermann 637 n
Pétain, marechal Henri Philippe 43 m, 168-9,173, Priestley, J. B. 229
178-9,181,267-70,415-6 Primeira Guerra Mundial 2 6 ,3 2 ,3 5 ,6 4 ,8 4 , 141,
Peters, D. Gerhard 478 1 5 5 ,190«, 197, 2 4 3 ,2 5 0,280,408,457, 523,
PetersdorfF, capitão von 438 618
Petsamo 265 Hitler nas forças armadas durante a 674-5
Pfaffenberger, Andreas 493 armistício 172,693
Pichelsdorf 681,691 condições da paz vide Versalhes, erros da
Pierlot, Hubert 157 Alemanha na 47
Plettenber, condessa Elisabeth von 546 Primo de Rivera, Miguel 233,235
PifFràder, Oberführer 592 Prince ofWales (encouraçado britânico) 386 n
Pio XII, papa (Eugênio Pacelli) 51,111,181,544 Prinz Eugen (cruzador pesado alemão) 402
Pissa, Rio 25 ,2 7 Pripet, Pantanal de 263,265
Ploesti 623 Prisioneiros de guerra 36«, 9 2 ,1 7 7 ,4 1 4 n, 417,
Plõn 688 4 2 6 ,4 3 5 -6 ,4 4 4 ,4 4 6 -7 ,448n, 450-52, 454-5,
Plõtzensee, Prisão de 395», 605,611 473,478,487, 550, 637, 643,648,662, 694
ÍNDICE 757
Propaganda, Ministério da 34, 569n, 593, 594, 595, Reichenau, marechal-de-campo Walter von 20,
655, 670-1, 681, 697 vide também dr. 151-2, 190», 201, 207, 331», 388»
Goebbels Reichsbank 307», 479-80
Prússia Ocidental 441,639 Reichstag
papel nos desígnios de Hitler com relação à vota poderes absolutos a Hitler 338
Polônia 19 discurso de Hitler no 288,295
arremetida russa na 566, 573,623, 629,637-9, sobre a paz 42 ,1 8 7 -9 ,1 9 8 ,2 0 0
647 sobre a guerra com os Estados Unidos 377-8,
Prússia (reino) 532, 626 384
Pryor, general W. W. 118-9 sobre o aniquilamento dos judeus 467
Puch 279 Reichstag, Incêndio do 56, 59
Reichwein, Adolf 569, 570,607
Q Reims 633, 693,695
Quattara, depressão de 409 Reinberger, major Helmut 81-2
Quisling, major Vidkun Abraham Lauritz 87-97, Reinecke, general 595, 598
121,125-8,132», 191» Reinhardt, general George-Hans 150,159,328
Reitlinger, Gerald 4 75,478,486, 545»
R Reitsch, Hanna 6 5 8 ,667-9,671-2,686
Radar 218-9, 225, 523, 561 Relações Exteriores, Conferência dos Ministros
Rãder, grande almirante Erich 34-7,48, 75-6, 79, das, Moscou 556
174, 347, 351, 354», 402,403,617 Relações Exteriores, Ministério da Alemanha 98»,
campanha da Noruega 85-6, 91, 97,115,116», 100», 144, 181-3, 351, 356, 375, 379, 379»
133 negociações com a URSS 28», 75, 77, 256,
planos de invasão da Inglaterra 186-7,195-7, 260,304
20 1-7,211,213 Remagen 644
aconselha concentração na área do Remer, major Otto 592-5, 598,602
Mediterrâneo 267-8,273-8,2888-9,400-3 Renânia, remilitarização da 3 3 ,6 1 ,1 3 7
aconselha o ataque contra a navegação norte- Rennes 560-1
americana 354-5, 356-7, 359, 377, 385-6 Reno, rio 31-2,48, 150,169,171, 625, 627-9, 636,
demitido da chefia da marinha 513,617 642,644-6, 649
condenado em Nuremberg 697-8 Renthe-Fink, Cecil von 120
Rádio, Estação de (Rundfunkhaus) 596 Reparações alemãs, Primeira Guerra Mundial 439
Ramsgate 201-2, 205, 207 Republicano, Partido 181-2
Rangsdorf 576, 583, 584, 587-8 Repulse (encouraçado britânico) 386»
Rascher, dr. Sigmund 493 Reuben James (destróier norte-americano) 360
Rashid Ali 288, 305 Reuters 671
Rassenkunde vide também “raça superior”, Reynaud, Paul 146, 153,157, 169
conceito Ribbentrop, Gertrud von 586»
Rastenburg, Prússia Oriental 315,333,409,410, Ribbentrop, Joachim 81, 8 8 ,1 7 2 ,1 7 4 ,1 8 6 » , 269,
412, 4 1 7 ,4 2 1 ,4 2 6 ,4 3 6 , 510, 514, 516, 519, 416,454, 639, 658, 660, 677,696, 698
527, 532, 539, 547-8, 557, 589, 593-4, 598, e Gõring, antipatia mútua 586
602, 6 0 3 ,6 1 0 ,6 1 3 ,6 17, 653 conferência com o Duce e Ciano 271,278,
tentativa de assassinar Hitler em 571-87 398,414
Rattenhuber, Oberführer 576 negociações com a URSS 21-2, 24-7, 38, 85,
Rauschning, Hermann 229 241-4, 251-62,312-4
Ravensbrück 487,500, 502,504, 546 relações com os Estados Unidos 35, 98,101,
Rekse, dr. 545 182, 344, 357-79
Reed, Douglas 229 passim 380»
Reich, Escritório Central de Segurança do, vide relações com a Noruega e a Dinamarca 115-7,
R.S.H.A. 125,128
758 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 " 1 9 4 5 )
plano do rapto dos Windsors 409-17 Rosenberg, Alfred 296
questões nos Bálcãs 243-4,250-1,252,281-2 contato com Quisling 88-90
declaração de guerra à URSS 314 e a ocupação alemã da Europa Oriental 293-5,
relações com o Japão 344-6,348-9,357-79 434-8,444,446,451
declaração de guerra aos Estados Unidos 384 pilhagem das obras de arte 442
Riccione 318 julgamento de Nuremberg e execução 698
Richardson, William 319», 400» Rosenman, Samuel 379«
Rickenbacker, Eddie 99 Ross, Colin 98»
Riesse, Curt 594» Rostock, capitão Max 504
Riga 242,471 Rostov 328, 330, 331», 336,405,421,451
Rintelen, general von 283 “Rote Kapelle” 569»
Rio de Janeiro (transporte alemão) 113 Roterdã 103,147-9, 210
Ritter, Gerhard 572 n Rovno 305
Riviera Francesa 171,624 Royal Oak (encouraçado britânico) 48
Robeson, Paul 230» R.S.H.A. (Reichssicherheitshauptamt, Escritório
Robin Moor (navio cargueiro americano) 359 Central de Segurança do Reich) 227,228,230,
Rocca delle Caminate 520 459, 543, 546, 595
Rockefeller, John D. 104 Ruge, coronel 125,130,131
Rodano, Vale do 108,172,624 Ruhr 32-3,47, 241,471», 627, 628,638, 639,640,
Rohm, Ernst 13,109,295 646,649
expurgado 586 Romênia 20,249 ,2 7 2 ,2 8 0 ,2 8 2 ,
Rokossovski, general Konstantin 422 Hungria toma a Transilvânia da 251
Roma 15, 5 1 ,7 3 ,9 7 ,1 0 2 -3 ,1 0 6 ,1 0 9 ,1 4 4 ,1 7 3 , luta dos nazistas e soviéticos para controlar a
179,224,271, 318, 369, 397,412,414, 456», 2 8 ,2 4 3 ,2 4 9 ,2 5 0 -2,254-61,263,265,270,
5 0 9 -1 2 ,514-6,519-21,559,607,635 272, 277,280, 281,301-2, 306,310, 313, 326
Roma-Berlim, Eixo 73 expulsos os nazistas pelo Exército Vermelho
Romana, Igreja Católica 575, 541 n 522,623,641
Rommel, Frau 553,615 Romeno, exército 3 4 2 ,3 9 8 ,4 0 4 ,4 1 8 ,4 2 0 ,4 2 6
Rommel, marechal-de-campo 150,513,623 Rundfunkhaus, vide Rádio, Estação de Rádio
no Norte da África 286-9,386,399-401, Rundstedt, marechal-de-campo Gerd 180,193»
409-11,428 afastado de comandos (quatro vezes) 328,
na conspiração contra Hitler 552-3, 566-7, 330,388»,566,642
574,611-6 na Batalha da França 143,154,160-2
na Normandia 150-7 nomeado marechal-de-campo 190»
aconselha Hitler a procurar obter a paz, é plano de invasão da Inglaterra 199-200
demitido 564-6 e os conspiradores contra Hitler 392,552, 554
ferido num ataque aéreo 566-7, 574 campanha da Rússia 290,320,322,327-30,
suicídio e funerais 614-6 336,388»
Rommel, Manfred 614 comandante-em-chefe no Ocidente 392, 408,
Rõnne, coronel Freiherr von 552 413,414, 560-66, 624, 626,627-30, 634
Roosevelt, Franklin D. 98», 102», 104,270», 287», novamente demitido 642
288, 344, 346,348, 365-6, 367, 376-7, 393 Russa, força aérea 322, 318, 582, 643
esforços de paz 9 8 ,1 0 2 ,138,183 Russell, Bertrand 229
chama o embaixador 100 Rússia Branca 248,26 5 ,2 9 3 ,4 6 4 ,4 6 5
negociações com os japoneses 347»-8«, Russo, exército 247, 264,265,280
362-7,373 invade a Polônia 2 2,24
invectivas dos nazistas contra 350», 380-4 ataca a Finlândia 86 vide também Finlândia;
política naval no Atlântico 352», 356-9 russo-finlandesa guerra; apodera-se dos
objetivos de guerra 3 8 9 ,556n Estados Bálticos 242
morte de, satisfação dos nazistas 655 apodera-se da Bessarábia, Bucovina 243
ÍNDICE 759
em Stalingrado 404,413,418-27 Schleswig 688
guerra contra a Alemanha 319,322, 325, Schmidt, dr. Paul 39,98», 101,104-5,177, 255-7,
327-30, 331-6, 341, 364, 396,404,434, 479, 260,269, 270, 296, 314-5, 348
514, 522, 555, 559, 566, 568-73, 623, 629, nas conferências de Hitler e Mussolini 270,
637, 639, 649, 652, 670 425,427, 509, 585
encontra-se com os americanos no Elba 651, na conferência de Hitler e Matsuoka 350
652,658 na declaração de guerra de Hitler aos Estados
Batalha de Berlim 651, 653, 658, 666, 667, Unidos 378
681,682, 685, 687-90 Schmidt, general Arthur 425
Russo-finlandesa, Guerra 97,264» Schmidthuber, Herr 544
Russo-nipônico, Pacto de neutralidade 351, 352» Schnurre, dr. Julius 76-7,303-4
Rzhev 340 Schmundt, general Rudolf 538, 541,583»
Scholl, Sophie 542-3
S Scholl, Hans 542-3
S.A. (Sturmabteilung, tropas de assalto ou camisas Schõnfeld, dr. Hans 535-6
pardas) 618 Schõrner, marechal-de-campo Ferdinand 660,
Saar 169 670,681
Sacalina 263 Schrader, coronel Werner 547
Sachsenhausen 5 9,60 Schreiber, capitão Richard 88,123
Saefkow, Anton 570» Schulenburg conde Friedrich Werner von der
Salerno 516 21-27,241, 244, 251-2, 255, 302, 304-6, 309,
“Saliência, Batalha da” vide Ardenas, Florestas das 312-5, 351
Salonica 280 na conspiração contra Hitler 555,607
Salzburgo 345, 397,421, 508 Schulenburg, conde Fritz von der 574, 607
Sammler, Rudolf 597» Schulze, capitão Herbert 34»
San, rio 20,25, 27 Schulze-Boysen, Harold 569»
Sandomierz 20 Schuschnigg, Kurt von
Saint-Germain 613 no campo de concentração 407», 608,662
Sarajevo 285 SchutzstafFel, vide S.S. Schwãgermann, Gunther 690
Sardenha 518 Schwárzel, Helene 606
Sas, coronel J. G. 113,139-40 Schwerin, von Krosigk, conde Lutz 439,652, 656,
Sauckel, Fritz 445», 697-8 677
Sauerbruch, dr. Ferdinand 487 S.D. (Sicherheitsdiensty Serviço de Segurança das
Scapa, Flow 48 S.S.) 58, 22», 228 231,451-2, 454,456, 459,
Schacht, dr. Hjalmar H. G. 407/?, 608,662,692, 461-2,465», 468, 503-5, 590-2, 595, 598,
697-8 609-11,613
na conspiração contra Hitler 53, 65, 393 Seção de Economia e Armamentos 248, vide
“Schaemmel, major” 57 também Thomas general George
Scharnhorst, general Gerhardt Johann David von Sedan 142-3,149-51,153-4,175
135, 402, 549, 618 Segurança, Serviço de, vide S. D.
Scharnhorst (cruzador de batalha alemão) 135,402 Segundo Reich, vide Alemanha, Segundo Reich
Schaub, Julius 660 Sena, rio 141, 561, 623-4
Scheidt, Hans Wilhelm 91 Semmering 404,409
Scheliha, Franz 569m Senne 645
Schellenberg, general Walter 57-8,60 n, 229,230, Serafimovich 417
231, 233», 235-7, 239, 503», 598, 561 Serrano, Suner Ramón 233, 269
Schlieffen, Plano de 141 Sérvia 286», 304
Schirach, Baldur von 697 Sete Anos, Guerra dos 635, 654-5
Schlabrendorff, Fabian von 50,390,391, 531», Severn, Rio 201
537-40, 541», 544, 550, 576, 606,608-9 Sevez, general François 693
Schlageter, Leo 471» Seyss-Inquart, dr. Arthur 68, 89,677,697-8
76 o ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( 1 9 3 9 - 1 9 4 5 )
Shaef650-1 ocupação alemã da 290-5, 308,311,318,321,
Shaw, George Bernard 229 404,431-4,435,439-41,444,445-6, 448,
Shawcross, sir Harley 462 4 5 3 -4 ,455,457,459,464-5,469,486-7,
Sherwood, Robert E. 352« 506,550,694
Shetland, Ilhas 84 a Itália declara guerra à 317-8
Shulman, Milton 160n, 161n, 193n vide também Russa, força aérea; Russo, exército
Sibéria 294, 303,347, 353,363-4,426 Spa, Alemanha 632
Sobibor 471 Spaak, Paul-Heri 82,136-7
Sicília 4 0 0 ,5 0 8 ,5 1 3 ,516n Spandau 599
Sidi Barrâni 272 vide também Comunistas na Alemanha
Siegfried, Linha 5 1 5,624,628 Speer, Albert 444«, 625-6,639,641,647-9,657»,
Sievers, Wolfram 488-9,491-2 665-7,677,697-8
Silésia 2 0 ,9 3 ,2 4 7 ,4 4 1 ,5 3 3 ,6 3 8 ,6 3 9 ,6 4 0 Speidel, general Mans 553-4, 560-67, 574,610-1,
Silvertown, Inglaterra 224 613, 616,624,627
Simon, sir John 299 Spender, Stephen 229
Simovic, general Du§an 282 Sperrle, marechal-de-campo Hugo 190«, 217
Sintético, vide Borracha sintética Spiller, capitão 124-5
Six, dr. Franz 227-8 Spitfires (aviões de caça britânicos) 167,218,219,
Smith, general Walter Bedell 651,693 401
Smolensk 32 0 ,3 23-4,327,522,531,537-9,541,580 Sponeck, general conde Hans von 336,388
Snow, C. R 229 Spree, Rio 691
Social-Democratas (Socialistas) Alemanha 570 S.S. (SchutzstafFel) camisas pretas 542,585, 661,
Soissons 563 671,672,677, 679,681,690,695
Sola, Aeródromo, Noruega 122-3 conflito com o exército 80, 544
Sola, rio 475 atrocidades 65-71,428,431-3,445,453,
Solf, Anna 545 468-72,476,480-6,488-90,492-6,503, 550,
“Solução Final” do problema judaico 68,466-7, vide também Concentração, campos de;
470,486 vide também nomes dos países ocupados e
Somme, rio 1 4 3 ,1 5 5 -6,161,168-9,196 a conspiração contra Hitler 80,553, 557,
Sondergericht, vide Especial, Tribunal 558,586,590-3, 595-8,602,608-11, 613
Sonderkommando 475 incidente de Venlo 56-9
Soviética, União 134«, 212 ,228,279,286,288, e o plano de ocupação da Inglaterra 227-31
308, 555,570, 6 0 4,648,664 salva Mussolini 518
objetivos de Hitler na 78,216,231,243-9, prende Gõring 667
263-6,274,278 ,2 7 9 -80,289,290,300-12, St. Lô 611
314-6,344, 347-54 St. Omer 156,159
aproximação com a Alemanha, conferências Stahlecker, Franz 464
sobre comércio e Polônia 21—7,38-41,46, Stalin, Joseph 6 3 ,105,278,296, 309,319», 323,
62-3,74-80, 8 5 ,1 0 6 ,114n, 180,242-5, 434, 550
250-7,261-4, 301-4, 306, 309, vide também pacto alemão, negociações de comércio 25-9,
Nazi-Soviético, Pacto 73, 76-80,249, 249 ny254, 255», 257,262-3,
e os Estados Bálticos 25-9,62,73-5, 77,98, 300-10
180,241-3, 246, 251-2 prevenido pelo Ocidente do ataque alemão
relações com o Japão 350-1,352,364, 370-3, 245,308
377 invasão da Polônia 23-9
invasão da Polônia 21-9,41 operações no Báltico e Bálcãs 73,241-2,246-7
guerra contra a Finlândia 73-4 ,8 8 ,9 7 ,2 5 8 suspeitas dos britânicos 296,300-1
atividades nos Bálcãs 180,250-4,256-60,272, assume o cargo de primeiro-ministro 305-6
302, 305 assina o pacto de neutralidade com o Japão 351
guerra da Alemanha contra a 312-4,320-2, liderança da guerra 396,397,507,508,555,639
325, 327-3, 342,356, 364, 385, 397,432-4, e as propostas de paz da Alemanha 527-8,
535«, 536,694 529, 535», 555,688
ÍNDICE 76I
Stalingrado 290, 325, 328, 331, 336, 388-91, 393, também Sudetos, ocupação alemã dos 62,
396, 3 9 9 ,4 0 2 -9 ,4 1 3 ,4 1 5 ,417-22,424,426-8, 133,434, 503-6, 525,660
482, 508, 521, 531, 532, 542, 550, 676 Tchecoslováquia, no exílio, governo 229
Stauffenberg, conde Berthold von 607 Tegernsee 68 In
Stauffenberg, condessa Nina von 551 Televaag 505
Stauffenberg, tenente-coronel 548-53,555,557-9, Terboven, Josef 132«
567-84, 587-93, 596-7, 599-601, 603,604, 665 Teriberka 75
Stauning, Thorvald 118 Terneuzen 156
Stavanger 89, 9 4 ,1 1 4 ,1 2 2 ,1 3 0 ,1 4 6 Territórios Ocupados do Leste, Ministério para os
Stavelot 632 435
Stein, tenente Walter 69 n Tesch, Bruno 478
Steiner, general Felix 659,669 Tesch & Stabenow 477-8
Steinhardt, Laurence 308 Texas (encouraçado americano) 357
Stevens, major R. H. 57-60,110 Thaden, Elisabeth von 545
Stieff, general Helmuth 53 9 ,5 40,547,551,576,610 Theresienstadt 503
Stohrer, Eberhard von 231-2 Thiele, general Fritz 587, 588,590,607
Storting (Parlamento da Noruega) 89,125,127 Thoma, general Wilhelm Ritter von 411
Strasser, Gregor 109 Thomas, general Georg 4 4 ,5 2 -3 ,6 5 ,7 6«, 111,249
Strauss, general Adolf 201 Thompson, Dorothy 533
Streicher, Julius 696 Thomsen, Hans 9 9 ,lOOn, 102 n 1 8 1 -3 ,184«, 185,
Strõlin, dr. Karl 552-4 3 7 6 « ,379-80
Stroop, Jürgen 481-6 Thorkelson, Congressista 182
Studie England (plano de invasão naval) 196 Thüngen, general Freiherr von 558, 592,607
Stuka (avião alemão) 219 Times, New York 182«, 380«
Stülpnagel, general Karl Heinrich von 44,457,553, Timoshenko, marechal Sêmen K. 321, 324-5,335
574, 590, 609-11,613 Tippelskirch, Werner von 253-4, 302, 340
Stumme, general 410 Tirol 7 3 ,407«, 520, 606,608
Stumpff, general Haris-Jürgen 217 Tirpitz, Grande Almirante Alfred von 569 n
Sturmabteiling, vide S.A. Stuttgart 552 Tobruk 286, 399
Sudetos 6 2 ,1 0 9 ,1 1 0 ,3 8 9 ,3 9 0 Togo, Shigenori 365, 368,3 7 1 ,3 7 3 ,3 7 5
Suécia 1 3 4 ,1 8 1 ,1 8 4 -5 ,2 6 1 ,2 6 4 -6 ,6 0 7 ,6 6 1 ,6 6 4 Tojo, general Hideki 363
Suez, Canal de 209, 2 68,272,286, 288-9,401 Topf, I. A. & Sons 476
Suíça 51, 59, 108-9, 158, 185n, 214«, 233«, 251n, Tóquio 352-3, 354«, 357, 362-4, 366-8, 371-2, 375,
379, 520«, 535-6, 544-5, 547, 555,607, 684 377
Sukhinichi 341 Torgau 651
Sundlo, coronel Konrad 88,121 Toulon 172, 278, 416
Susloparov, general Ivan 693 Toynbee, Arnlod 28 n
Toyoda, almirante 354n, 362, 363
T Trabalhos forçados 4 4 3 -5 ,4 4 7 ,4 4 9 ,4 5 8 ,6 0 9 ,6 9 7
Tailândia 364, 373 Transilvânia 250,251
Tallinn 26,242 Transiberiana, Estrada de Ferro 249«, 353
Tamisa, rio 201, 208, 224 Treblinka 471-3,482,484-5
Tannenberg 197 Tresckow, Erika von 559
Taranto 275 n Tresckow, general de divisão Hening von 390-1,
Tass 309 537-41, 547, 550, 558, 568, 576, 580, 609
Tauroggen, Convenção de 532 Trevor-Roper 656, 657«, 6 8 1«, 683«
Taylor, general Maxwell D. 516« Trier 632
Taylor, Telford 161,169 Trieste 520
Tchecoslováquia 28,4 4 Tríplice, Pacto 253-4, 257, 260, 281, 344, 349,
planos de Hitler contra 138 361-2, 364, 368-70, 375, 384
intervenção da França e Inglaterra vide Trípoli 278, 402,413
762 ASCENSÃO E QUEDA DO TERCEIRO REICH: O COMEÇO DO FIM ( l 9 3 9 ’ 1 9 4 5 )
Tripolitânia 286 Vian, capitão Philip 92
Tromso 131 Vichy 268, 270», 412,414-5
Trondheim 9 4 ,1 1 4 ,1 2 1 ,1 2 9 ,1 3 0 ,1 3 3 ,1 4 6 ,1 8 6 Viena 250-2, 281,519
Tropas de Assalto, vide S. A. planos de golpe antinazistas 556,596
Trott zu Solz, Adam von 536,574,606 n ocupada pelo Exército Vermelho 651,652
Tsaritsyn 40 7n Vilna 471
Tübingen, Universidade de 553 Vinnitsa 405,409
Tula 334-5 Vire, rio 562
Tunísia 172,179,402,415-7, 507-8,550 Vishinsky, Andrei 242,604
Turim 171», 507 Vístula, rio 2 0 ,2 5 ,2 7 , 71,193, 555,623, 629,637-8
Turquia 257,259, 261, 263,268,402, 546 Vítor Manuel III, rei da Itália 509, 512,516», 517,
Turquia, Estreitos da 261 519», 520»
Vladivostok 351-3, 354», 361, 364
U Vòlkischer Beobachter 37 ,4 2 ,5 6
Ucrânia 248,265,280, 293,317, 320, 323, 325-6, Volga, rio 264,328, 3 9 6 ,4 0 2-4,406,408,418,424,
328, 405,407», 40 9 ,4 3 3-4,445,460,462,468, 428,438, 522
514, 575 n Volksdeutsche 2 6 ,7 1 ,7 3 ,
Udet, general Ernst 388» Volksgericht, vide Povo, Tribunal do
Ulm 553, 613 Volkssturm 673,682
Umberto, príncipe herdeiro da Itália 512 Vologda 342
União Germânica do Norte 209 Voronezh 404
United Press 253 Voroshilov, marechal Kliment E. 321
Untermenschen 431 Voss, almirante 670
Urais, montes 437,450 Vyazma 328
Uruguai 79 Vyborg 623
URSS vide Soviética, União
Utrecht 147 W
Uxkull-Gyllenbrand, condessa von 549 Wachenteld vide Berchtesgaden
U-30 (Submarino alemão) 35-6 Wagner, general Eduard 66-7, 551,576, 588,598,
U-47 48 609
U-110 36» Wagner, Walter 673
U-253 357 Waffen S.S. 482, 532,671
Waffen S.S. unidades da:
V lfi Corpo Blindado (panzer) das S.S. 520,63 7n
Vaernes 122 Ia Divisão panzer das S. S. 637 n
Valenciennes 156 6a Exército panzer das S. S. 63 7n
“Valquíria” 556,558, 572-3,583,587-9,591 12a Divisão panzer das S. S. 562
Varsóvia 2 0 -2 ,2 4 -5 ,2 7 ,3 7 -9 ,1 0 4 ,1 4 8 ,2 1 0 ,4 3 1 , Divisão Das Reich 505, 506»
4 4 0 ,4 4 1 ,4 7 2 ,4 7 8 ,4 8 1 -2 ,4 8 5 ,6 2 3 ,6 3 8 Guarda-Costas (Leibstandarte) 71,391, 520,
Vaticano 5 1 ,1 1 1 ,1 3 9 ,1 4 4 ,1 8 4 , 507, 512, 543», 565 n, 576, 579
544 Panzer Lehr, Divisão 562
Veneza 310,520 Waldeck, príncipe 493»
Venlo 57, 58 “Waldsee” 474
“Ventos”, mensagem a Nomura 364 Wallenberg, Jakob 535-6,547
Ventotene 518 Wallenberg, Marcus 535
Verdun 1 5 4 ,2 6 9 ,6 1 1 ,6 1 3 ,624 Wannsee 468, 574-5
Vermehren, Erich 546 Warburton-Lee, capitão B. A. W. 129
Vemichtungslager (campos de extermínio) 72,471 Warlimont, coronel Walter 195, 246, 248-9
Verona 310», 520 Warspite (encouraçado britânico) 129
Versalhes, Tratado de 33,41 Wavre 151
Vestfália Paz de 45 Wavell, general sir Archibald 274»
ÍNDICE 763
Webb, Beatrice 229 Witzleben, marechal-de-campo Erwin 54, 80,
Weber, Christian 670-1 190», 392, 552, 558-9, 575, 583, 588, 597,
Wehrle, padre Herman 592» 604-5, 610, 616
Wehrmacht Wlodawa 20
plano dos conspiradores antinazistas para a Wolfsschanze (Covil do Lobo) 315,343, 357,359,
558, 583, 588-9, 600, 602 409,513», 572, 576
Weidling, general 682 Wolzek 472
Weimar, República de, vide Alemanha, República Woods, Sam E. 307
de Woolf, Virgínia 229
Weinbacher, Karl 478 Woolwich, arsenal de 224
Weissmann, dr. 605 Wõrmann, dr. Ernst 380»
Weizsácker, barão Ernst von 35-7, 43, 51-2, 73», Wünsdorf 587
99», 102, 362 Württemberg 549
e a conspiração contra Hitler 51-2,139, 543
nas negociações russas 75 Y
Welles, Sumner 9 7-8 ,1 0 0 ,1 0 1-3,106, 308 Yorck von Wartenburg, conde Peter 532,604
Wells, H. G. 299 Young, Desmond 619»
Wenck, general 669-71, 681-2 Young, Plano 439
“Werewolf ” 405
Weserübung (“Exercício de Weser”) 84,92-3, 95, Z
101, 113,115 Zander, Wilhelm 680-1
West, Rebecca 229 Zaporozhe 514, 522
Westphal, general Siegfried 515 Zech-Burkersroda, conde Julius von 136
Weygand, general Maxime 155-6,158,168-9, Zehlendorf 139
177-9,414 Zeitzler, general Kurt 4 0 3 ,4 0 8,417,418-9,421,427
Whitworth, vice-almirante W. J. 129 Zeller, Eberhard 572», 596»
Wiegand, Karvon 182 Zeughaus, Berlim 540-1
Wildpark-Werder 662 Zhdanov, Andrei 242
“Wilfred” 114 Zhukov, general Georgi 335, 337, 342, 371, 638-9,
Wilhelmshaven 3 5 ,1 8 7 651,689»
Wilmot, Chester 556» Zichenau 441
Windsor, duque de (Eduardo VIII) 185», 229, 232, Ziegenberg 629, 631, 653
234-7, 239-40 Ziereis, Franz 470»
Windsor, duquesa de (Mrs. Simpson) 231-2, Zola, Émile 166
234-7, 239 Zossen 50, 52, 54, 56, 64, 80, 112, 588, 598
Winkelmann, general H. G. 149 Zurique 536
Wisconsin, Universidade de 569» Zyklon B 472,474,477
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