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Resumo Psicologia e Ideologia Cap 1 e 4

PATTO, M. H. S. Psicologia e Ideologia: uma introdução à psicologia escolar. São Paulo: T.A.
Queiroz, 1984.

Cap. 1 Raízes: A relação Escola-sociedade

A principal motivação do trabalho, de seu cunho sociológico, é proporcionar uma
abordagem da psicologia que considere o sistema escolar em relação com o sistema
sócioeconômico vigente.

Existem duas concepções opostas quanto a essa relação (Escola x Estrutura) que
predominam no âmbito acadêmico: 1. Escola como meio de ascenção social, tendo como
principal expoente na sociologia Durkheim: “[...] os resultados do processo educacional,
especialmente os cognitivos (valores e atitudes), são humanamente positivos e politicamente
neutros [...]”; 2. Escola como aparelho ideológico das classes dominantes, tendo como principal
referência Karl Marx: para esta vertente “a escola cumpre um papel ideologizante [...]” (p. 16)
Cabe agora, detalhar um pouco mais cada uma dessas noções, além de alguns de seus
desdobramentos.

Sociedade e educação em Durkheim: um esboço

Durkheim (1858-1917) foi um sociólogo francês. Considerado um dos gigantes da
sociologia até hoje, é um dos ditos pais do funcionalismo. Sua contribuição vem tanto em
termos metodológicos, quanto em termos de criação de uma nova ferramenta de análise
social.

Quanto aos aspectos metodológicos, seu viés é absolutamente positivista. Defendia
uma abordagem das ciências sociais que se assemelhasse às ciências físicas e biológicas, ou
seja, “a investigação das leis que regem os fatos, enquanto expressões precisas das relações
estabelecidas empiricamente.” (p. 17)

A influência das ciências biológicas aparece em sua obra a partir do conceito de
solidariedade, que versa sobre dois tipos de agrupamentos sociais. De acordo com Durkheim,
há uma forma de integração desses agrupamentos, e essa integração pode ocorrer de duas
formas:

1. Solidariedade mecânica entre as partes: caracterizada por maior coesão entre os
participantes desse grupo pela pouca diferenciação entre os mesmos. Exemplos: horda e clã;

2. Solidariedade orgânica entre as partes: características das sociedades ditas complexas, aqui
a sociedade funciona como um todo complexo, em que “órgãos ou conjuntos especializados

Ela torna as relações morais homogêneas. o autor que dizer: 1. No caso da solidariedade mecânica predomina. Neste sentido. é agora o da solidariedade orgânica (p. Aumento da frequência da relação entre indivíduos que compõe determinada sociedade. é a ausência de um controle institucional da sociedade que não acompanha a complexificação atingida pela sociedade. XIX e começo do séc. Deste modo. é necessário educar seus componentes de modo a construir uma sociedade solidários entre suas partes. 20) A teoria Durkheimiana é colocada em questão por seu autor em seu choque com a realidade. o autor entende que há mais liberdade individual no sentido de que a divisão social de trabalho mais complexa implica maior diferenciação entre seus componentes para que a sociedade se desenvolva.de células” dividem funções de modo a relacionarem-se entre si garantindo o bom funcionamento do sistema como um todo. Quanto maior o progresso de uma sociedade complexa. pela consciência coletiva altamente desenvolvida. O termo aqui utilizado é solidariedade orgânica exatamente porque o princípio norteador da sociedade. Aumento da densidade demográfica. A sociedade complexa com a qual lida. XX. XIX é tida por ele. por conta da complexa divisão social do trabalho. da instituição Escola. enquanto uma sociedade doente. (p. 18) O que mais caracteriza a diferenças entre essas duas formas de integração social é o nível de desenvolvimento das forças produtivas e. diz Durkheim. 2. possibilitando que todos vivam na sociedade ao mesmo tempo em que garante o pleno desenvolvimento de cada indivíduo. previamente estabelecido em comum acordo entre seus integrantes. das diferentes aptidões e funções de cada indivíduo e grupo social gerando uma necessidade mútua entre os envolvidos. Para o autor o ser humano é movido pelo egoísmo. Devido à maior liberdade individual promovida pela solidariedade orgânica. mas depois se desenvolve como um direito imperativo sobre todos. segundo ele. na teoria de Durkheim. O termo funcionalismo designa a teoria de Durkheim exatamente por entender que a divisão social de trabalho funciona via instituições que tem funções definidas a partir de uma necessidade a ser suprida dentro do organismo social gerada a partir do aumento das densidades material e moral. a origem dessa divisão social de trabalho mais complexa é fruto de uma maior densidade material e moral em algumas localidades. o direito repressivo. não estão legislando e fazendo cumprir as leis que criam de modo . 21) Os conceitos de normalidade e patologia social em Durkheim surgem exatamente a partir do estudo da sociedade capitalista do fim do séc. é absolutamente positivo um sadio desenvolvimento da divisão social do trabalho. Daí o papel da educação. intrínseca e implicitamente. pelo seu alto grau de desigualdade social. Suas instituições não estão executando suas funções corretamente. assim há um problema para que a solidariedade orgânica ou mecânica se desenvolva. Ela homogeneíza ao mesmo tempo em que diferencia. consequentemente. maior sua desintegração moral (aumento de suicídios e crimes de qualquer natureza). A raiz do problema. como um dos pilares do funcionalismo Durkheimiano. Quanto à solidariedade orgânica. passa a ser necessário um organismo que regule as ações de todos os indivíduos. que desenvolva tanto as forças produtivas quanto as singularidades (cada trabalhador). (p. Com isso. da divisão social do trabalho. a sociedades industrializadas do séc. Para Durkheim. por mais distintas que sejam.

gratuita e obrigatória. Para tratar disso.1. Em suma. está presente a ideia de promover a igualdade de oportunidades por meio de uma educação pública. (p. sendo a função da escola . sendo esse o maior remédios para as patologias sociais. Democracia e educação: o pensamento de John Dewey O filósofo da democracia. A principal diferença destes para o primeiro é o foco na educação escolar como instituição capaz de transformar a sociedade a partir de seus indivíduos. Esse estado de falência jurídica de uma sociedade é denominado por Durkheim de anomia. famoso por seus trabalhos relacionando filosofia. John Dewey. Essas seriam instituições públicas voltadas não para a questão econômica. como um sindicato.efetivo. Essa anomia se expressa. mas na mesma linha do autor quanto à necessidade de reforma da sociedade capitalista estão John Dewey e Karl Mannheim. acaba por explicar a não concretização do ideário liberal a partir de atitudes individuais daqueles que compõem o sistema. mas para a moral e de regulamentar as relações sociais amenizando seus conflitos. é “nitidamente influenciado pelo pensamento sociológico de Durkheim”. 23) 2. Crença na possibilidade de criação de uma sociedade de classes onde a liberdade e o desenvolvimento individual estejam garantidos a todos. XIX. Em ambos os casos. tanto na débil capacidade estatal de conter crimes. (p. Após a revolução francesa consolida-se o ideário liberal. Dentre os intelectuais que traduzem os avanços do ideário liberal para a educação podemos citar Condorcet e Lepelletier. quanto na ausência de regulação efetiva para a exploração da força de trabalho. Patto começa essa seção explicando alguns aspectos centrais da doutrina liberal: 1. 2. em que não é capaz de sair do binômio “certo-errado”. Valorização do individualismo enquanto sinônimo de liberdade. De acordo com Patto. Liberalismo e ensino Diferentemente de Durkheim quanto à solução do problema. Para Dewey a escola deve desenvolver os indivíduos plenamente. 4 apud pp. mantendo-se no âmbito dos próprios valores morais. como meio de regulação da exploração da força de trabalho corporações profissionais com poder legal e regulamentar para tornar a relação entre os “mais fortes e mais fracos” mais igual. 2. 22) Durkheim propõe. autores dos projetos de instrução pública para a França na segunda metade do séc. o autor entende que não basta o uso da força para regular a sociedade: “As paixões humanas não cessam senão diante de uma potência moral que respeitem” (p. daí sua análise da função da escola na sociedade. 25) Patto aponta fraqueza nos argumentos de Dewey quanto á análise da sociedade de classes. pedagogia e educação em geral é um dos maiores exemplos do ideário liberal direcionado à educação. para o autor.

Aí estão inclusas desde técnicas voltada às necessidade sociais mais básicas (alimentação. Mannheim e o papel da educação numa sociedade democrática planificada Mannheim. cabe ressaltar que.então educar esses indivíduos. (p. Para Patto. diferentemente de Durkheim. do consenso e dos laços religiosos. 28) 2. Ou seja. higiene. contudo. Quanto ao “antagonismo de classe”. 29) Por técnicas sociais Mannheim quer dizer técnicas desenvolvidas dentro dos organismos sociais com o objetivo de promover a integração social. bem como os controles grupais tradicionais. com isto. a visão de Dewey sobre a superação das contradições da sociedade de classes é ambígua. transporte).] novas técnicas sociais estão favorecendo a concentração de poder nas mãos de um minoria. para Mannheim. se mantenha no poder. As técnicas sociais. Patto assim resume o dignóstico donde parte o autor: [. detentora dos monopólios.. há indícios claros de que os pequenos grupos auto-reguladores estão em decadência. Para ele. . conclui a autora: Em última instância. da mesma forma que Dewey. só a educação pode promover a transformação social. tendo o mesmo peso da perda dos costumes. Para Mannheim. esta é a única forma de combate às patologias da sociedade de classes. propagandísticas etc. o que resulta em fracasso na coordenação social em larga escala e na desintegração dos controles cooperativos. a partir da influência do comportamento humano. a educação é uma dessas técnicas sociais. Em linhas gerais. em especial em seu trabalho Democracia e educação. assiste-se a uma desintegração a nível da personalidade. ocorre a superação da economia de livre mercado pelo capitalismo monopolista. Com o aumento populacional.. assim. entende que “regulação” moral da sociedade seja tarefa essencial da instituição escola. por exemplo. (p. é bastante influenciado pela teoria funcionalista Durkheimiana e também envereda pela linha de defender a função da instituição escola de diminuir as barreiras e desigualdades impostas pela sociedade de classes. o antagonismo entre as classes sociais tem efeitos nitidamente desintegradores.2. de modo a tornar maus justa a ascensão social e mais rico o intercâmbio entre as classes. Cabe ainda dizer que para Dewey a educação deve ser incumbência do Estado e. foram e são instrumentos para que uma minoria. até técnicas de cunho político. este só mais um dos fatores que determinam a desintegração social. O diagnóstico do autor quanto à sociedade capitalista parte do que chama de Desintegração social e Desajustamente (crise) do sistema. a mudança social que defende e pela qual luta através do detalhamento de um modelo educacional alternativo parece consistir numa maior permeabilidade nas barreiras que separam rigidamente as classes.

seu estado de anomia. 5. 4. De acordo com o entendimento de Patto da teoria social marxista. 3. Assim. na relação entre consciências. Como solução terapêutica ao atual estado de coisas da sociedade capitalistas o autor propõe a “planificação democrática”. da superação da natureza pelo desenvolvimento do trabalho humano. (p. A história é a história do desenvolvimento das forças produtivas. As condições concretas determinam as subjetivas. a desvencilhando do rótulo banal de teoria “economiscista”. parte da utilização da escola (medula dorsal de sua teoria) como meio de combater a anomia do atual sistema. sua moral e desenvolvimento técnico às necessidades de uma saudável sociedade de classes e. na relação com o outro. ou mesmo a superação de uma sociedade baseada no capital. combater a desigualdade social pela promoção de reformas de “educar o capital”. é na verdade efeito intrínseco do capital. claramente não visa a superação das desigualdades sociais em absoluto. somente defende uma sociedade em que essas desigualdades e interesses dos capitalistas não atinjam níveis que coloquem em risco a “saúde” da sociedade como um todo. assim. Sua degradação. Ela descreve com bastante cuidado a teoria marxista. a “luta de classes” em geral. Sociedade e Educação em Althusser: a escola como aparelho ideológico do Estado Para entendermos a noção de escola como aparelho ideológico do Estado (AIE) Patto começa explicando alguns pressupostos básicos do materialismo dialético. 31) 3. Para adequar o ser humano. A explicação de Patto aponta os seguintes fatores para a compreensão do materialismo histórico-dialético: 1. São as instituições do Estado as responsáveis pelo processo de inculcação da ideologia dominante. seu comportamento. longe de concordar com a perspectiva Durkheimiana. a perspectiva marxista vê como utópica a saída pelas reformas das instituições estatais. o desenvolvimento das forças produtivas influi a consciência antes desta influenciá- lo. burgueses x proletários. Althusser contribui com a perspectiva marxista ao propor os conceitos de AIE (Aparelhos Ideológicos do Estado) e ARE (Aparelhos Repressivos do Estado). o que se dá de modo mais efetivo quanto mais sútil for o processo de imposição ideológica. O autor considera vazia a contradição capitalismo x socialismo. o que significa dizer que o modo de produção. Assim. O autor. 2. As sociedades fundam-se na contradição. A ideologia predominante em uma sociedade é a ideologia da classe dominante desta sociedade. a sociedade é dividida em Estrutura . Mannheim vê na escola a melhor saída.

As principais instituições elencadas por Althusser como AIE são: Escola. Família. como conclui Patto a seção: “Os mecanismo que reproduzem este resultado são dissimulados por uma representação ideológica universal da escola como uma instituição neutra. além do conteúdo ideologizante. a veiculação da Escola como instituição politicamente neutra potencializa seu efeito ideologizante. Establet e a análise da escola capitalista na França Establet e Baudelot formam uma dupla de pesquisadores francesas bastante focados na análise da escola na frança capitalista do séc. mas bastante eficiente em termos de dissimular a realidade e promover uma barreira contra o acesso à ideologia proletária. sendo a primeira sempre determinante da segunda. daí o duo Escola-Família como principais AIE. . Igreja. 41) Apontam ainda que é nas práticas ritualísticas mais sutis quando essas transmissão da ideologia dominante é mais eficiente. Althusser propõe um aprofundamento da análise do Estado Capitalista e seu processo de dominação.2. desprovida de ideologia. (p. Após vários trabalhos na década de 60 sobre as condições sócioeconômicas dos operários argelinos. 40) Além do dito acima. enquanto o AIE por sutis. a partir de 1964 começa o trabalho voltado para a educação.Econômica (relações de produção) e Superestrutura (estrutura jurídico-político e ideológica Estatal). Pierre Bourdieu: o papel da escola na economia das trocas simbólicas Pierre Bourdieu é um famoso sociólogo Francês. sendo o primeiro sempre mais sutil que o segundo. mas extremamente eficazes métodos de inculcação e dominação ideológica.” (p. a forma como o conteúdo é ensinado em sala de aula já é ideologizante. A razão principal para essa categorização de Althusser é que essas Instituições atuam “diariamente sobre os indivíduos. Contudo. XX. visto que o ARE é mais facilmente caracterizado pelo uso da coerção física. nos livros de história a expressão “classe operária” é substituída por povo. De acordo com Patto eles demonstram a necessidade de “ir além e atentar para as práticas rituais escolares”.1.” (p. A contribuição desses autores vem exatamente da análise de como a ideologia dominante permeia o contexto escolar. A principal distinção entre AIE e ARE é a forma como operam. Em suma. Algo sutil. 3. Outro aspecto salientado por Patto no trabalho desses autores é a análise do conteúdo em que se evidencia como o mesmo esconde a ideologia proletária. 40) 3. Um exemplo disso é que. para ele o AIE dominante é a Escola unido à família. numa idade em que estão mais ‘vulneráveis’ às influências formadoras externas. Concordam com Althusser quanto á função política e ideológica da instituição escola e ao analisar o contexto francês colocam a teoria à prova. É partir disso que os conceitos de AIE e ARE são desenvolvidos. Comunicação Sociais e Instituições culturais.

o arbitrário cultural colocado como dominante é o da classe dominante desta sociedade. resultante da interiorização dos princípios de um arbitrário cultural capaz de perpetuar-se após a cessação da ação pedagógica e. à dimensão da mediação subjetiva. um sistema simbólico de relações entre indivíduos de um contexto. é visto como um arbitrário. envolve todas as formas de ações para inculcação simbólica dos valores da classe dominante. Violência simbólica: trata-se do primeiro axioma de sua teoria. (p. por mais contraditório que isso possa parecer: Marx. 50-51) 5.” além de evitar a linha de pensamento que aponta o indivíduo como mera reprodução da estrutura e superestrutura. Essa última pressupõe a primeira. a discussão do autor gira em torno da “passagem do fato social. à sua apreensão pelo sujeito ou à sua incidência na consciência individual. enquanto fenômeno objetivo. bastante claro em seus diferentes escritos é “a busca de um método de análise aplicável às várias linguagens simbólicas. (p. 50) 4. 1984. Uma importante contribuição de Bourdieu é o entendimento da cultura enquanto uma categoria realidade própria. 47) Ou seja. Weber e Durkheim. Ou seja. recorrendo. (p. 48-49) 3. portanto.” (p. inserido num referencial teórico que tenha possibilidade de evidenciar os vínculos existentes entre os sistemas simbólicos e a estrutura social na qual estes se produzem e se manifestam. 48-49) 2. é voltado para a esfera microssocial. Assim. por isso. Este arbitrário não é uma escolha gratuita. de acordo com Patto: 1. Alguns conceitos chaves para a compreensão inicial do trabalho do autor são. Trabalho pedagógico: dentro da concepção de Bourdieu. E quanto mais sutil. em uma sociedade de classes. porém. Todos os contingentes sociais de uma sociedade complexa são arbitrários culturais. embora considere os fatores macrossociais. Bourdieu passa pelos “três porquinhos” da sociologia. Patto aponta que o objetivo básico do autor. Autoridade pedagógica: é aquela que detém o poder da ação pedagógica.” (PATTO. se desenvolve a partir das necessidades geradas das relações sociais concretas. ou autor tenta explicar a “interiorização da exterioridade e [a] exteriorização da interioridade” a partir dos fatos sociais escolares e da forma como se movimento socialmente em nível simbólico. 45) Em sua análise. escola e meios de comunicação de massa. p. à imposição de um sistema simbólico. Porém. Refere-se à imposição de um arbitrário cultural. Patto assim explica esse conceito: “trabalho de inculcação duradouro e suficiente para produzir um habitus. isso não significa dizer que tem uma realidade completamente independente de sua realidade concreta. O trabalho do autor. mais desconhecida esta for dos indivíduos simbolicamente subjugados mais eficiente ela será. Arbitrário cultural: para Bourdieu o fato social. de perpetuar na ação . análise “estrutural das relações entre os fatos simbólicos e a estrutura social até encontrar o indivíduo. (p. Ação pedagógica: exercida pela família.

175 apud p. por serem tudo isso. sem supor a visada consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-las e. todo um campo dentro da psicologia foi desenvolvido de modo a tentar “explicar” as razões centrais da exclusão social dessas minorias políticas. trabalho de inculcação. Esse campo é chamado de Teoria da carência cultural. de acordo com Patto. 52) Ou seja. 6. que cria o habitus e as condições para um reprodução independente e voluntária do indivíduo vítima do processo de inculcação. trabalho este que quanto mais distante do objeto consagrado. é inegável sua contribuição para o entendimento da “microfísica do poder na instituição escolar. sejam produto da obediência a regras. Na verdade. é uma forma de comportamento que reproduz e recria o arbitrário cultural dominante sem necessariamente o indivíduo que o reproduz saber disso. as principais suposições da Teoria da Carência Cultural são: . A psicologia da carência cultural: psicologia da pobreza ou pobreza da psicologia? Patto explica que após uma explosão de manifestações e movimento das chamadas minorias políticas nos EUA na década de 60. coletivamente orquestradas sem o serem o produto da ação combinada de um maestro” (Bourdieu. mais efetivo o será. objetivamente adaptadas a seu objetivo. Em linhas gerais. social do receptor os princípios do arbitrário interiorizado. Por fim.” (p. IV – Psicologia e classes subalternas 1. quanto maior seu desconhecimento do mesmo. o habitus é produção a partir do trabalho pedagógico. Habitus: é definido por Bourdieu como “sistemas de disposições duráveis. enquanto princípio de geração e de estruturação de práticas e de representação que podem ser objetivamente ‘reguladas’ e ‘regulares’ sem que.” (p. por isso. de acordo com Patto. p. estruturas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes. que dizer. embora possamos promover uma série de crítica à abordagem de Bourdieu. esta forma de comportamento é atingida por meio de um duradouro trabalho de inculcação. 1972. 53) CAP. 51) Ou seja. programas educacionais de pesquisa de financiamento público são ampliados em esfera nacional. De modo a encobrir os aspectos sócioeconômicos que embasam a explicação dessa questão.

seu fracasso escolar e social. c) a carência de um padrão no mundo vivencial. motoras. consequentemente. de modo a permitir-lhe adquirir uma compreensão das relações entre os elementos do mundo experiencial. mas de organização da estimulação que lhe é apresentada pelos adultos. os resultados das pesquisas que englobam o campo da Teoria da carência cultural chegam à seguinte constatação: “os integrantes das ‘camadas desfavorecidas’ são portadores de deficiências perceptivas. os adultos organizam o ambiente de tal forma que os comportamentos desejados não são adequadamente encorajados através de esquemas de reforçamento adequado. sequência ou associações entre os eventos. a oportunidade de apreender relações de causa e efeito. (sic) a falta de dinheiro.” (p. ou seja. não esclarecido enquanto efeito de um sistema produtivo específico. a competição supostamente aberta e igualitária pela ascensão social e pelo sucesso na vida. 113-14) De acordo Patto. a falta de contato com artefatos e experiências culturais de vários tipos. 2) para que esta inserção seja possível é preciso que atingjam um mínimo de escolaridade. afetivo-emocionais e de linguagem suficientes para explicar seu baixo rendimento nos testes de inteligência e. e) carência como resultado de interação entre necessidades evolutivas e falta de estimulação. 3) portanto. Segundo os defensores desta explicação a privação não é de estímulos. b) carência de exposição a estímulos benéficos. por exemplo. tais como a não aprendizagem. dos conceitos e do vocabulário necessários a um funcionamento eficiente na sociedade contemporânea. 114) Quanto às razões que explicam o fracasso escolar dos jovens das classes subalternas. d) carência de contingências no ambiente: os ambientes carenciados. em condições de igualdade com os demais membros da sociedade. é tomada como causa de todas as deficiências psicossociais. para que esses cidadãos enfrentem. a armazenagem deficiente de informações sobre o mundo. Ora. Patto aponta cinco explicações predominantes nos trabalhos sobre a teoria da carência cultural aponta: “a) carência de recursos econômicos. importantes para a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo . é preciso criar condições para que se escolarizem. em casa. faltar-lhe-ia. 4) mas primeiramente é preciso responder à questão chave da teoria da carência cultural: por que as crianças e adolescentes provenientes desses grupos apresentam dificuldades de redimento escolar?” (p. as experiências dessa crianças não incluíram um conjunto adequado de padrões. o nível de escolaridade e de sucesso escolar entre os membros desses é baixo: levantamentos estatísticos imediatamente o evidenciam. na medida em que impede que o pobre compre bens e serviços de vários tipos. “1) as minorias raciais estão à margem da sociedade porque não conseguem inserir-se de forma estável no mercado de trabalho. a afirmação básica entre os defensores desta concepção é a de que determinadas atividades cognitivas desempenham um papel estimulante na maturação de estruturas neurais.

sendo o psicólogo responsável por desenvolver de “desmarginalização”. 118) A ideia camuflada por detrás dos idealizadores desse projeto. ou na sistema político- econômico vigente. e sim no indivíduo. a razão central para o fracasso escolar seria a disparidade cultural entre a cultura das classes baixas e a das classes dominantes. hábitos de pensamento. não está no contexto. nos EUA foram desenvolvidos os programas de educação compensatória. seja por questões cultural. Ou seja. enquanto qualificador de mão-de- obra. 116- 117) 2. 1118) De acordo com Patto o projeto pretendia “num espaço de oito semanas. pois aqui Patto torna transparente vários princípios norteadores da teoria da carência cultural. mas na criança.” (p. tem sido implementado em especial na educação pré-escolar.” (p. segundo essa perspectiva (teoria da marginalização cultural) é a aculturação das classes baixas por meio de programas de educação compensatória que possibilitaria a igualdade de oportunidades às diferentes classes sociais da sociedade. posteriores. A solução. na proporção exigida pelo atual modelo econômico de internacionalização do mercado interno. valores. quer sejam conscientes ou não por parte daqueles que desenvolvem esse campo de estudo. Um dos mais proeminentes foi o Projeto Head Start. 118) Quanto aos conteúdos e abordagen pedagógicas desenvolvidas por este projeto. 115) Foi necessário citar essa longa passagem. preparar as crianças marginalizadas para que iniciassem a escolarização primária com uma possibilidade maior de sucesso do que acontecia até então. [2] disseminam a crença de que todos os esforços estão sendo empenhados no sentido de escolarizar os filhos da pobreza e de sanar suas deficiências. Os programas de educação compensatória A partir do “diagnóstico” que aponta a existência de uma imensa parcela da população sem condições de um desenvolvimento digno seja por questões nutricionais. No Brasil esse tipo de programa. a autora salienta os seguinte objetivos: “leva-las a adquirir atitudes. Novamente a existência das classes sociais não é sequer questionada nesta perspectiva. de acordo com Patto é que “a única possibilidade que uma pessoa pobre tem de deixar de pertencer às camadas pauperizadas da população é a substituição. devidamente monitorada por psicólogos e educadores. .” (p. Este projeto necessitou o maior orçamento não-bélico da história americana. de sua visão de mundo e de sua ação pela visão de mundo e pela ação típicas da chamada classe média. comprovadamente fracassado nos EUA. em nosso país ele apresenta pelo menos mais dois resultados em termos de difusão ideológica: [1] aumentam a rentabilidade do sistema de ensino. estruturas intelectuais. (p. nesta perspectiva tomadas como algo absolutamente natural. tal como o comprovam experimentos de privação estimuladora levados a efeito com animais. Contudo. (p. habilidades perceptivo-motoras.” (p. 118) O problema não está na escola. A justificativa “nutricional” anteriormente citada é acompanhada de outra de cunho “cultural”.

pelo país satelitizado. 3. São parte integrante do mesmo. Somente considera-se que o grupo é marginalizado em relação a essa entidade ahistórica denominada sociedade.] com a racionalidade da ação na sociedade moderna. A linha geral que unifica todos as linhas de pesquisa que atuam dentro dessa perspectiva é de que existe um grupo marginalizado socialmente. dentro dessa perspectiva teórica (cita Cardoso e Faletto. 122) Além disso. Confirmando a incapacidade dos estudantes. mas dentro do sistema. isolado porque em descompasso [.” (p. A sociologia da “marginalização” social: do princípio da integração ao princípio da contradição A teoria da marginalização cultural conta com todo um suporte teórica da antropologia. 1970). ficando os fracassos que ainda houver – e certamente serão muitos. Como bem coloca Patto “a questão da relação entre o Estado e a estrutura de dominação.] a situação de dependência dos países capitalistas periféricos em relação aos países capitalistas centrais não se resume à mera repetição. apesar (ou por causa?) dos programas de educação compensatória – por conta da incapacidade da criança e de seus pais. sociologia e psicologia que embasam direta ou indiretamente suas proposições. das condições de existência social e cultural vigentes no país dominante. a relação de dependência entre os países e como isso influi na produção da marginalização: [. Patto explica como é. que tem uma cultura específica que precisa ser difundida às camadas marginalizadas da população. entende que os “marginalizados” não estão fora.. diretamente oposta à teoria da marginalização cultural. pais e até mesmo estudantes que quando confrontados com o fracasso escolar culpabilizar a família dos estudantes. 121) Outra perspectiva. como que naturalizando seu problema e o reduzindo à esfera individual. no momento histórico em que se constitui a marginalidade. sem qualquer questionamento sobre a base do que é ensinado. ao contrário.. a ..” (p. longe de estar à margem. Em suma. seus pais. Desenvolvendo métodos de eficiência de ensino. Trata-se aqui da teoria da dependência: Desta perspectiva. o marginal é considerado um doente. o que coloca outra perspectiva completamente distinta de enxergar a questão. de professores. 119) Isso é evidente nos comentários frequentes e. (p. Não se pergunta que sociedade é essa. não é sequer levantada.. a quem “pertence”. em sua maioria inconscientes. 2. Patto aponta duas formas principais da utilização da psicologia a partir da teoria da Carência Cultural: 1. propõem-se explicar a origem e a natureza do fenômeno da marginalidade e a maneira pela qual o chamado “marginalizado”. integra-se à lógica histórica das formações capitalistas dependentes.

implica um profundo desconhecimento da dinâmica do sistema social. viabilizado pela aquisição de um maior nível de escolaridade. é importante assinalar. o referencial teórico materialista histórico nos permite ir além das aparências e entender que a marginalidade. para baixar o custo da força de trabalho. (p. não passa de um mito. estado esse que abrange o fenômeno da marginalidade. Assim. situação da dependência gera um estado de coisas econômico. contudo. que identificar classe média com classe dominante constitui um grosseiro engano. após a análise até aqui desenvolvida. Assim. deixa claro que utilizará a partir de então os termos “classes subalternas” ou “classes oprimidas” para deixar clara desde o início a relação de dominação e exploração da sociedade de classes.]”. a exclusão é parte inerente ao capitalismo. é o que gera as populações “marginais”. (p. no sentido de exclusão do sistema social que este termo assume em determinados contextos teóricos. De acordo com o levantamento de Patto. Patto termina o texto dissertando sobre o termo que utilizará quanto às chamadas “classes baixas”. Ela entende que esse termo ajuda a camuflar as relações sócio- econômicas existentes de dominação. o segundo. operar com uma tecnologia complexa e altos índices de produtividade. 122) A caracterização dos países periféricos na teoria da dependência é envolve ser controlada “por grandes grupos multinacionais. explorar o trabalho já incorporado [.. sejam elas pesquisas desenvolvidas em campo (escola) ou em laboratórios o que apontam são deficiências de linguagem das populações marginalizadas. (p. são partes dele. 124) Por fim. esses são efeitos inerentes ao sistema.. a fragilidade das demais abordagens torna-se evidente. de modo bastante preciso. deixa transparente os limites da teoria da marginalização cultural e de outras relacionadas ou dela derivadas e da necessidade de superar essas estreitas perspectivas a partir de uma abordagem que nos possibilite ir além das aparências: Quando pensamos a situação “marginal” no marco dos processos históricos do capitalismo periférico. . O primeiro é algo necessário ao sistema capitalista como um todo. social e político específico no interior de cada país dependente. (p. através do acesso a melhores empregos. 124) 4. 123) Patto. não estão excluídas. Alguns autores como Bereiter e Engelmann chegam a conclusões inquietantes. que deter a análise das causas do processo de marginalização de mão-de-obra a nível de questões étnicas ou raciais deixa intacto o cerne econômico do problema. Esses fatores culminam de acordo Patto em um “exército de reserva” e em “excedente do exército de reserva” nos países periféricos barateando ainda mais a mão de obra. O mito da deficiência da linguagem Patto aqui demonstra como as deficiências de linguagem das classes subalternas tem sido estudadas a partir da perspectiva da teoria da carência cultural. pois é desnecessário ao sistema. que as propostas de possibilitar a todos oportunidades iguais de ascensão social.

não gerar um ambiente que estimulasse mais o jovem. a busca do entendimento de como a reprodução ideológico ocorre no contexto micro social. A título de ilustração. o português formal as mesmas. 134). também aqui com muitas variações na forma de ocorrerem (p. Patto cita dois programas brasileiros. trabalhando em função da ideologia dominante como formas de amordaçar a cultura das classes oprimidas: O que estamos tentando dizer é que as instituições de que estamos tratando neste trabalho – a escola e a psicologia – têm participado cada vez mais ativamente do processo de cassação da palavra do oprimido. de um lado. de alguma forma. com adição ou não de deficiências sintáticas e gramaticais. raciocínio e de transição do período de pensamento concreto ao abstrato. 126) Alguns pesquisadores dessa linha. Nidelcoff dentre outros tem apresentado uma importante linha de pesquisa na atualidade. de impingir-lhe uma forma de falar. (p. respectivamente. (p. 131) A solução. em termos piagetianos. seria. o que a autora chama de “microfísica do poder no sistemade ensino”. Neste sentido.Essas implicariam uma série de dificuldades aos jovens desse contingente cultural e sócio- econômico como dificuldade de comunicação. e os serviços psicológicos. Trabalho de Witter sobre modificação do comportamento verbal. acabam. por parte de autores como Bourdieu & Passerón. Patto identifica nessa literatura a pobreza de vocabulário. dos AIE. mas proporcionar a vivência com adultos que possibilitassem os estímulos de linguagem necessários ao ulterior desenvolvimento de pensamento e de raciocínio lógico-matemático necessários. assim. como Basil Bernstein. (p. 5. Mordaças Sonoras Patto entende que a escola e a psicologia. de pensar e de agir que dificulta a voz afinada com a vivência da degradação e da opressão e o torna porta-voz de um discurso que não é o seu. para identificar de modo mais claro como esses processos de amordaçamento ocorrem não basta uma análise superestrutural. Programa básico para creches da cidade de São Paulo. 2. Os programas educacionais. comunicação e raciocínio lógico por conta da convivência com adultos que advém de seu contexto cultural supostamente menos favorecido. sendo o papel da escola ensinar a “segunda-língua”. Em linhas gerais. . 132). Patto afirma que esses exemplos apresenta boa parte do que foi até aqui exposto quanto às concepções liberais da função da educação e das crianças oriunda de uma classe subalterna como falante de um dialeto distinto (p. enquanto instituição e campo do conhecimento. de outro. 136) A busca pelo entendimento da “dimensão interpessoal ou intersubjetiva” pode promover resposta muito importante com respeito às formas como a reprodução ideológica ocorre. 135-36) A autora entende que. agindo no sentido de amordaçá-lo. que podem ser enquadrados dentro dessa perspectiva: 1. chegam a desenvolver pesquisa que demonstra que a convivência dos jovens das classes oprimidas tem deficiências de linguagem. frases curtas e monossilábicas. Quanto às formas de se apresentarem essas deficiências. (p.

textos que o desvalorizam. ou “conjunto de significações culturais. tem ficado cada vez mais clara a função deste de encobrir a real relação das coisas na atual sociedade e de desenvolver um ponto de vista naturalizante sobre o atual estado de coisas. valorizando positivamente a classe e o aluno que não dão trabalho e que acatam ordens. estimulando a competição e o individualismo. seja Bourdieu quanto à França. valores e atitudes). 138-39) Como forma de tentar superar essas contradição entre cultura dominante e cultura dominada. neste contexto. a escola parece ser desenvolvida para fazer fracassar os representantes das classes subalternas. 137) Assim. (p. (p. enfim. passa a uma ferramenta mais aprimorada de aculturação. 140) 6. como essa reprodução ocorre. pesquisadores tem tentado desenvolver metodologias de ensino que conseguiam melhor dialogar com a cultura dominada. Em termos de currículo. 2. ainda com o objetivo de melhor integrá-la na dominante. o que é culto e o que é inculto. de caráter particular e arbitrário” é o Professor. o que aparecerá como incompetência individual. dando mais importância ao fator intelectual. quem impõe o arbitrário cultural. o que significa aceitar a mordaça sobre sua cultura. Do caráter de partir da cultura do oprimido e construir o conhecimento e cidadão crítico. desvalorizando o trabalho manual produtivo. o que é certo e errado em matéria de hábitos. por inadequação aos valores dominantes expressa por repetidas reprovações. Aceitar a aculturação e conquistar o sucesso escolar. desvinculando a ação de vivência. (p. na medida em que aceita. supervalorizando o livro e a palavra impressa como fonte única de verdade e do saber. separando a linguagem escrita da expressão pessoal. A imposição de uma linguagem dominante sobre todos os contingentes culturais que compõe a sociedade promove. Na visão da autora isso se trata de deturpações da abordagem Freiriana. sem crítica. ou ao menos seu principal representante. 137) Em termos de “sucesso escolar”. como bem expressam as propostas pedagógicas do MOBRAL e a Cartilha Amazônica.. inevitavelmente. a maior possibilidade de o trabalho pedagógico ser mais produtivo junto a esta classe é inquestionável. Abandonar o sistema de ensino. Porém. só restam duas possibilidades para as crianças de acordo com a autora: 1. ou Nicodelff sobre a Argentina. a exclusão social sistêmica da população oriunda das classes subalternas. a cultura dominante (em termos da avaliação constante do que é civilizado e o que é primitivo. limitando a expressão à verbalização. Autoridade Pedagógica e psicologia Quem exerce a autoridade pedagógica. a memorização. ex. Esses autores têm demonstrado em vários contextos. portanto. como explica Patto: Na medida em que o habitus que o trabalho pedagógico desenvolvido no âmbito escolar está mais próximo do habitus inculcado pelas famílias burguesas. do significado do que foi aprendido e enfatizando. p. (p. universalizando. (p. 141) . Patto identifica no trabalho de Nidelcoff a seguinte caracterização do trabalha do professor em sala quanto à forma como exerce sua autoridade pedagógica: Mantendo a disciplina repressivamente.

em que entende as formas de expressão de estudantes enquanto “escolar” e “não-escolar”. em que o preconceito do professor em relação a bons ou maus alunos. embora uma assertiva definitiva ou mesmo razoável sobre a questão ainda esteja distante dos atuais avanços nesse campo. De acordo com Houston. que coloca em questão alguns dos resultados da teoria da carência cultural. 7. “desenvolvimento harmonioso da personalidade”. Houston. De acordo com os referenciais teórico utilizados pela autora a relação professor-aluno é de longe o principal fator que culmina no fracasso escolar da rede estadual paulista de ensino. o fracasso escolar. Patto promove ainda uma reflexão sobre o papel do psicólogo neste contexto. Na perspectiva da autora.1. na atual sociedade de classes. o que existe é outra forma de expressao. a partir do conceito de “registro”. O que a autora aponta aqui é a necessidade de reflexão de como este desenvolve um papel de agente pedagógica. coletado quando a criaança se encontra perante algum tipo de autoridade. Houston demonstra que. Dentro da escola. Patto aponta uma forte incongruência entre o espírito do currículo. quando observadas em contexto informal. a autora não promove uma simplista culpabilização dos professores. Contudo. não é razoavel aceitar que as amostras dos pesquisadores da teoria da carencia cultural se restrinjam a momentos nos quais a criança só expressa o registro “escolar”. classes boas ou ruins. . 142) Alguns fatos sociais são determinantes neste processo como a “profecia autorrealizadora”. influi em suas expectativas sobre e resultados dos mesmos. os pesquisadores da teoria da carência cultural trabalham na perspectiva de que os problemas linguísticos da criança influem em sua capacidade de raciocínio e no desenvolvimento geral do pensamento abstrato. de comunicação. está suficientemente claro que não é possível conectar aprendizado da língua formal. que se mostra muito mais fluente e vívido. promove critica arrasadora contra a teoria da carência cultural. tornando-se. Ainda de acordo com essa autora. com desenvolvimento do raciocinio logico- matematico e do pensamento abstrato em geral. “desenvolvimento das qualidades básicas de um bom cidadão”. pautado por “formação integral da personalidade”. mas no processo de ideologização e mesmo repressão por vias não pedagógicas dentro da escola. é quanto à suposta predominância do uso de linguagem não verbal nas classes subalternas.Com respeito à relação currículo x sala de aula e seu produto. (144- 45) Outro ponto que Houston questiona é quanto ao pensamento abstrato e concreto das crianças carenciadas. Desmistificando a crença na deficiência da linguagem Nesta seção Patto utiliza o trabalho de Susan Houston. Como já demonstrado. somente reproduzir a ideologia dominante da área e contribuir não no processo de ajuda. possibilitam o registro não escolar. mas tambem por Eclea Bosi. ele poderia no geral. (p. com o que ocorre em sala de aula. transmissor dos valores dominante. o que Nidelcoff chama de professor-policial. Características psicológicas do oprimido: algumas versões alternativas 7. dita culta. Seu primeiro questionamento ]é de ordem epistemologica. Para Bosi. as criançaas. por vezes. (146-47) Outro ponto questionado não só por Houston.

de o pobre vir a inserir-se estavelmente no sistema. como a conclusão de que a cultura rural proporciona estruturas cognitivas vazias. 7. ou seja.tentar inculcar a linguagem erudita trata-se de amordaçar a forma de comunicação das classes subalternas a partir da premissa de que as mesmas são menos desenvolvidas. analisando tanto sua anterior vida rural como a posterior urbana. apesar do importante esforço da autora. por conta das condições débeis de vida dos operários. o desenvolvimento das estruturas cognitivas dos mesmos são ainda limitados. questiona se devemos ocultar os problemas do desenvolvimento cognitivo gerados pela exploração do sistema capitalista. A autora apresenta resultados que Patto entende levar às perspectivas da teoria da carência cultura. Tendo colocado esses questionamentos.2. Em primeiro lugar porque utilizar categorias euro-ocidentais para analisar o que seria uma família bem estruturada apresenta em si problemas. Patto também não está convencida com essa perspectiva. em ambiente brutalizador. há um grau maior de complexidade na estrutura cognitiva dos mesmos indivíduos quando operários e em contexto urbano. Arakcy conclui que. Essa pesquisadora desenvolve pesquisa com 20 operários paulistanos. caminha mais pela linha da psicanálise. Patto conclui que: 1. de modo a entender que. de um momento para o outro. não complexas. Por outro lado.3 A sociologia e a caracterização do marginalizado Cerne da dominação de acordo com Patto a partir dos estudos de Paoli: Encontramos ai o cerna da dominação: a afirmação da possibilidade. o que é adquirido a partir das vivências de cada um. o que equivale a afirmar que a . Apesar disso. a não ser que passemos a considerar nuâncias linguistas como sotaques. porém. Por estrutura cognitiva a autora se refere às estruturação da capacidade cognitiva de modo a proporcionar uma maior adaptabilidade do indivíduo. Patto. quanto ao ambiente precarizado das classes subalternas promover sua ddegenração cognitiva. apesar da ressalva da própria autora. ex. 7. contudo. a observação de caráter mais etnográfico. Ela é consciente das críticas que pode receber. Arakcy deixa- se cair dentro dos marcos da teoria da carência cultural. O perfil psicologico do oprimido: notas sobre duas tentativas de superar o empirismo Uma das autoras que Patto apresenta como tentativa de superação do empirismo é Arakcy. Ele concorda com as conclusões de Arakcy. Outro pesquisador abordado por Patto é Roberto Harari. sempre em dificuldades financeiras e mais frágeis a quaisquer problemas acidentais da vida..nas relações de cunho familial a partirdo contexto de pobreza. ressaltando somente os aspectos positivos da cultura popular. e 2. p. ou seja. Não ha como afirmar que a linguagem dos indivíduos oriundos das classes subalternas propiciam um ser humano com menos capacidade de desenvolvimento do pensamento abstrato. inócua. tende a negar algumas hipóteses quanto à degeneração cognitiva das classes subalternas. do indivíduo estudado no contexto de sua atuação. dialetos. não em um laboratório. Além disso. É bastante perigoso e equivocado afirmar que as classes populares detém um dialeto distinto. discorda de sua caracterização da cultura rural.

(p. Apesar dos sociologos aqui apresentados por Patto desmistificarem a “marginalidade”. quando é sua consequência necessária. prevalecendo a busca por instituições religiosas e de recreação. mas exploração e sofrimento por parte das classes subalternas. não é possível falar em uma cultura da pobreza se partirmos do fato de que as classes subalternas reproduzem em grande parte a ideologia da classe dominante (a constituição familiar p. demonstrando que não há uma cultura do pobre. 157) Ainda de acordo com a leitura de Patto de Paoli. que essas condições de degradação social promovem a dificuldade do proletário de organizar-se em organizações que luta por seus interesses. pois isso leva a buscar resolver o problema como se o mesmo fosse uma doença da sociedade.). 159) . (p. eles enfatizam. ex. Assim. ex. A impossibilidade objetiva transforma-se em possibilidade subjetiva.dominação tem como ponto de partida a impossibilidade objetiva da passagem a um estilo de vida mais satisfatório. alimentando continuamente o projeto dessa possibilidade. porém em um contexto concretamente mais hostil de exploração de sua força de trabalho em níveis alarmantes. contudo.. a questão não é buscar a “cultura do pobre”. p.