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LUAM GABRIEL CLARINDO NUNES

GRR20143551

Memorial de composição: Pandeiro espectral, rotinas de


improvisação controlada para pandeiro solo

Memorial de composição apresentado(a) à


disciplina OA027-Trabalho de Conclusão de
Curso Bacharelado como requisito parcial à
conclusão do Curso de Bacharelado em Música -
Departamento de Artes, Setor de Artes,
Comunicação e Design da Universidade Federal
do Paraná.

Orientador: Indioney Rodrigues

CURITIBA
2017
AGRADECIMENTOS

A meu pai Américo Nunes e à minha mãe Lucélia Clarindo por estarem sempre ao meu
lado e por terem me apresentado, através de suas trajetórias, a possibilidade de vivenciar
experiências felizes e positivas provenientes de momentos artísticos de brincadeira e imaginação.
À minha irmã Amelu Clarindo e a meu irmão Iam Clarindo por serem meus eternos companheiros
nesta jornada artística.
A Indioney Rodrigues, orientador desta pesquisa, pelas dicas que foram fundamentais
para a arquitetura deste trabalho e pelas conversas filosóficas sempre muito inspiradoras.
A Vina Lacerda, grande mestre da percussão, que me ensinou os primeiros toques de
pandeiro no Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba. A Marcos Suzano, por ser
sempre uma grande influência e referência para o mundo do pandeiro. A Bernardo Aguiar, pela
gentileza em compartilhar suas ideias sobre pandeiro moderno comigo. A Túlio Araújo e Leonardo
Gorosito, por terem me ajudado com questões técnicas sobre notação para pandeiro.
A todos os pandeiristas e estudiosos do assunto que acabei conhecendo pessoalmente ou
através da internet ao longo desta pesquisa, que acabaram me incentivando através de suas histórias
e de seus talentos, que têm alegria ao tocar pandeiro e reconhecem o potencial que esse instrumento
tem de sintetizar ideias rítmicas que acabam surgindo a partir das nossas mais profundas emoções.
Aos membros da banca de defesa, professor José Gava e professor Leandro Gaertner,
pelas dicas fundamentais para uma melhor organização deste trabalho.
A meus amigos Luimar Mendes, Joaquim Lima e Alisson Santos por terem acreditado no
meu progresso com o pandeiro e terem sempre dedicado um pouco do seu tempo para fazer música
comigo, mas principalmente por serem grandes amigos.
A meu tio e grande amigo Adrian Lincoln por sempre me fazer acreditar que longe é um
lugar que não existe e por ter contribuído com a epígrafe deste trabalho.
A Deus por me dar a capacidade de ouvir música, criar música e me emocionar com
música, atividades que ampliam o significado da minha existência.
“Das mãos um eco do que se movimentava dentro de todos nós”.
(Adrian Clarindo)
RESUMO

Neste memorial de composição descrevo o processo composicional de um solo de improvisação


controlada para pandeiro que chamei de Pandeiro espectral no qual utilizo técnicas do pandeiro
moderno brasileiro com destaque para uma delas que permite que a nota do instrumento seja
alterada e que chamo aqui de técnica do pandeiro melódico. Ao longo do texto comento técnicas
avançadas de execução do pandeiro com foco maior naquelas difundidas pelo músico Marcos
Suzano e teço um panorama sobre novas abordagens para pandeiro brasileiro, que surgem no
mundo contemporâneo, citando alguns dos responsáveis por elas. No intuito de registrar em
partitura alguns trechos de Pandeiro espectral, pesquisei alternativas de notação para a técnica do
pandeiro melódico e desenvolvi uma grafia particular para ela.

Palavras-chave: pandeiro, pandeiro moderno, Marcos Suzano

ABSTRACT

In this undergraduate thesis I describe the compositional process of a controlled improvisational


solo for pandeiro which I named Pandeiro espectral in which I use Brazilian pandeiro modern
techniques giving special attention to one which enables the player to modulate the instrument’s
pitch which is presented here as the melodic-pandeiro technique. Throughout the text I make
comments about advanced pandeiro techniques giving more emphasis to the ones spreaded by
musician Marcos Suzano and I write about new perspectives for the brazilian pandeiro that have
been emerging in the contemporary world and I name some of the ones responsible for them. In
order to notate parts of Pandeiro espectral in the score I researched alternative ways to represent
the melodic pandeiro technique and I developed my own for the task.

Key words: pandeiro, modern pandeiro, Marcos Suzano


LISTA DE FIGURAS, EXEMPLOS E TABELAS

Figuras:

Figura 1 - Parte de cima e parte de baixo do instrumento por Eduardo Vidili 3


Figura 2 - Rotação da mão que sustenta o instrumento 4
Figura 3 - Posição do polegar da mão que sustenta o pandeiro 15
Figura 4 - Representação de efeito de glissando por Anunciação e Stasi 15
Figura 5 - Transcrição de Eduardo Vidili para efeito de glissando 16
Figura 6 - Representação da modulação do som da pele por Brian Potts 17
Figura 7 - Seta representando elevação do tom da pele através do polegar 17
Figura 8 - Alternativa de notação para o efeito do pandeiro melódico 18
Figura 9 - Exemplo de glissando utilizado por Leonardo Gorosito e Rafael Alberto 19
Figura 10 - Legenda para os movimentos da técnica do pandeiro melódico 19
Figura.11 – Maneira utilizada para prender o microfone no pandeiro 25

Exemplos:

Exemplo 1 - Ritmo do samba repetindo o polegar 5


Exemplo 2 - Ritmo do samba alternando os graves entre ponta dos dedos e polegar 5
Exemplo 3 - Ritmo do maculelê ou funk carioca utilizando o tapa com o polegar 6
Exemplo 4 - Tapa nas articulações 2 e 4 6
Exemplo 5 - Variação do ritmo do maracatu de baque virado utilizando a técnica invertida 7
Exemplo 6 - Ritmo de baião utilizando a técnica invertida 8
Exemplo 7 - Ritmo de baião iniciado com o polegar 8
Exemplo 8 - Notação para a técnica do pandeiro melódico 19
Exemplo 9 - Diferentes estruturas rítmicas com a mesma melodia 22
Exemplo 10 - Transcrição do início do solo, ritmo alternando punho e polegar 23
Exemplo 11 - Pressão 2 da técnica do pandeiro melódico realizada junto com o tapa 23
Exemplo 12 - Ritmo utilizado para aceleração e desaleração da rotação da mão 23

Tabelas:

Tabela 1 - Legenda dos movimento a partir do sistema notacional de Carlos Stasi 3


Tabela 2 – Lista de pandeiristas 13
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 1

1. TÉCNICAS DO PANDEIRO MODERNO


1.1 Técnicas tradicionais e técnicas do pandeiro moderno 2
1.2 Rotação da mão que sustenta o pandeiro 4
1.3 Tapa com o polegar e som grave com a ponta dos dedos 5
1.4 A técnica invertida 7
1.5 Marcos Suzano 8

2. O PANDEIRO BRASILEIRO NA CONTEMPORANEIDADE


2.1 Novas possibilidades para o pandeiro 11
2.2 A técnica do pandeiro melódico 13
2.3 Notação para a técnica do pandeiro melódico 15

3. PANDEIRO ESPECTRAL
3.1 Processo de composição 21
3.2 Processo de registro audiovisual 23

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 25

REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO

Neste memorial de composição demonstro o processo composicional de um solo de


improvisação controlada utilizando um pandeiro de couro de 10 polegadas que chamei de
Pandeiro espectral. Neste solo emprego técnicas do pandeiro moderno que se influenciam na
maneira de tocar do músico Marcos Suzano, como por exemplo, a técnica do pandeiro melódico,
que permite a modulação da nota do instrumento. A fim de tornar claro o processo composicional
deste solo, comento características que se encontram no estilo de toque de Marcos Suzano e vários
outros pandeiristas da atualidade.
A minha paixão pelo pandeiro, instrumento que venho estudando ao longo dos últimos
anos, aliada à oportunidade de formalizar meu entendimento sobre técnicas do pandeiro moderno,
foram minhas grandes motivações para a escolha desse assunto neste trabalho. A partir de aulas
de pandeiro com Vina Lacerda e Bernardo Aguiar e assistindo a vídeo-aulas de pandeiro de Marcos
Suzano na internet, fui introduzido a maneiras não convencionais de toque do instrumento. Estas
maneiras influenciaram diretamente o meu modo de tocar, então, eu vi na circunstância, a
possibilidade de divulgar a pesquisa de novas soluções rítmicas e de timbre que venho adquirindo
graças aos ensinamentos destes grandes mestres.
No intuito de fundamentar meu trabalho e definir uma notação adequada para a técnica
do pandeiro melódico entrei em contato com diversos estudiosos do assunto. Além disso, pesquisei
métodos escritos para pandeiro como o de Luiz Almeida D’anunciação (1990), o de Luiz Roberto
Sampaio e Victor Camargo Bub (2007) e o de Vina Lacerda (2007). Consultei também, dentre
outros textos, um artigo sobre sistemas de notação para pandeiro de Eduardo Gianesella (2012), a
tese de doutorado de Brian Potts sobre Marcos Suzano e a dissertação de mestrado sobre as
técnicas de Jorginho do Pandeiro e Marcos Suzano de Eduardo Vidili (2017).
No primeiro capítulo descrevo algumas das técnicas do pandeiro moderno e comento
contribuições de Marcos Suzano para este universo. No segundo capítulo discorro acerca de novas
propostas de execução desse instrumento, destacando entre elas, a técnica do pandeiro melódico.
Ainda no segundo capítulo, analiso possíveis maneiras de notação em partitura para a técnica do
pandeiro melódico e no terceiro capítulo, descrevo o processo de composição, gravação e registro
audiovisual de Pandeiro espectral.
Espero que este trabalho seja útil para futuras pesquisas em torno do pandeiro moderno e
que músicos sintam-se instigados a continuar este caminho de colaboração para que esse assunto
possa ser frutificado mundo afora. Espero também que o leitor encontre algum valor nesta minha
singela contribuição ao assunto e vejo a possibilidade de que o material produzido nesta pesquisa
possa ser apresentado em festivais e encontros dentro do mundo da percussão.
2

1. TÉCNICAS DO PANDEIRO MODERNO

1.1 Técnicas tradicionais e técnicas do pandeiro moderno

O pandeiro é culturalmente utilizado em diversos ritmos dentro da música popular


brasileira. Existem diferentes tipos de pandeiro, assim como diferentes maneiras de se tocar
pandeiro, além de que essas maneiras podem variar conforme o instrumentista ou o ritmo tocado.
No entanto, há similaridades entre algumas dessas maneiras, especialmente entre aquelas do
samba e do pagode, por exemplo. Nesses estilos, o primeiro toque é comumente feito com o
polegar, que é também, de maneira geral, o dedo responsável pelos sons graves do instrumento.
Além disso, em ritmos como o da polca e o da capoeira, há pouca movimentação da mão que
sustenta o instrumento. Essas características são classificadas neste trabalho como pertencentes
às técnicas tradicionais de pandeiro.
Ao longo das últimas décadas, no entanto, surge uma crescente população de
pandeiristas que compartilha características específicas de toque que são conhecidas nesse
âmbito musical como técnicas do pandeiro moderno ou técnicas avançadas de pandeiro. Dentre
algumas delas, destaco aqui a rotação da mão que sustenta o pandeiro, a técnica invertida, o tapa
com o polegar e o som grave com a ponta dos dedos.
Algumas destas técnicas surgiram ainda na primeira metade do século XX com grandes
pandeiristas de choro (gênero da música popular e instrumental brasileira) como Jorginho do
Pandeiro, Russo do Pandeiro e João da Baiana. No entanto, essas técnicas foram mais
popularizadas através das gravações e apresentações do percussionista Marcos Suzano a partir de
meados da década de 80. Suzano segundo Vina Lacerda, “partindo do estilo de Jorginho do
Pandeiro, foi responsável por importantes rupturas de padrões tradicionais, excitando diferentes
perspectivas, instituindo novas sonoridades e incorporando o pandeiro brasileiro à música pop”
(2007, p.14).
Utilizo, ao longo da pesquisa, alguns exemplos em partitura a fim de exemplificar
características das técnicas do pandeiro moderno e também compará-las com técnicas
tradicionais. Para um melhor entendimento desses exemplos apresento mais adiante uma legenda
contendo a descrição de cada movimento utilizado. O sistema notacional em que me baseei é o
mesmo criado por Carlos Stasi, utilizado nos métodos Pandeiro Brasileiro (2004) de Luiz
Roberto Sampaio e Victor Bub e Pandeirada Brasileira (2007) de Vina Lacerda.
3

Tabela 1 – Legenda dos movimentos do pandeiro adaptadas a


partir do sistema notacional de Carlos Stasi (produção minha).

O abafamento citado na legenda pode ser realizado com o dedo médio da mão que
sustenta o instrumento pressionado contra a pele por baixo do instrumento (estilo de Jorginho do
Pandeiro) assim como com o toque do polegar ou ponta dos dedos no centro da pele com a mão
que percute o instrumento (estilo de Marcos Suzano). Para distinção mais clara do que é a parte
de cima e parte de baixo do instrumento, uma vez que o pandeiro da pesquisa é sustentado na
posição horizontal, paralelo ao chão, utilizo esta figura encontrada na dissertação de Eduardo
Vidili:

Fig. 1 – Ilustração de parte de cima e parte de baixo


do instrumento por Eduardo Vidili (2017, p.68).
4

1.2 Rotação da mão que sustenta o pandeiro

Em parte das técnicas tradicionais de se tocar pandeiro, a mão que sustenta o


instrumento, geralmente esquerda para canhotos e direita para destros, salvo exceções, apresenta
menor atividade quando comparada à rotação contínua utilizada por Marcos Suzano e outros
pandeiristas contemporâneos. Um exemplo desta pouca atividade é a maneira tradicional de se
tocar o ritmo do choro. Nela, há somente um movimento sutil da mão que sustenta o instrumento
no segundo toque de cada sequência para valorizar o balanço. Nas palavras de Brian Potts, “ao
golpear o instrumento na posição vertical, o pandeirista deixa o som das platinelas soar um
pouco mais, dando ênfase maior ao segundo toque” (2012, p.29, tradução minha1).
De maneira diferente às técnicas tradicionais, um dos artifícios dentro da técnica do
pandeiro moderno é a rotação contínua da mão que segura o instrumento. Este movimento de
vai-e-vem dá mais liberdade para a essa mão que percute, uma vez que o pandeiro é que passa a
ir ao seu encontro. Para realização dela, o instrumentista gira o pandeiro com a mão que sustenta
o instrumento de modo que o eixo superior do instrumento vá de encontro com a parte superior
da mão que percute e então realiza o movimento contrário, fazendo com que o eixo inferior do
instrumento encontre a parte inferior dessa mesma mão.

Fig. 2 – Rotação da mão que sustenta o


instrumento (produção e fotos minhas).

A alternância de eixos através da rotação gera soluções alternativas de ritmo e timbre


nos toques de pandeiro. Isso se dá também porque, na concepção formada por Suzano, os sons
médio, grave e agudo podem ser extraídos tanto com a parte superior quanto com a parte inferior
da mão que percute o instrumento, como explica Eduardo Vidili neste trecho:

Quanto a aspectos técnicos, Suzano dividiu conceitualmente a mão direita (a que efetivamente
percute o pandeiro) em duas metades: a) a inferior, a cargo do polegar e base da mão, próxima ao
punho; b) a superior, constituída pelas pontas dos demais dedos. Ambas são capazes de extrair
basicamente os mesmos sons do instrumento, que, para o músico, se constituem em graves,
médios (tapas) e agudos (platinelas). A mão esquerda, responsável pela sustentação do
instrumento, passou a ter um papel mais ativo, com a incorporação sistemática, quando
necessário, dos movimentos de rotação do pandeiro (2016, p.3).

1
[...] by striking the drum in a vertical position, the performer adds a small amount of sustain to the sound of the
platinelas, giving the second stroke a slight emphasis.
5

1.3 Tapa com o polegar e som grave com as pontas dos dedos

Na maneira habitual de se tocar pandeiro é natural que o som médio do tapa seja
realizado com a mão aberta percutida no centro do instrumento assim como que o som grave seja
realizado com o polegar percutido na borda. No entanto, recentemente, um número cada vez
maior de pandeiristas tem buscado extrair o som grave também com a ponta dos dedos e o som
do tapa com o polegar percutido no centro do instrumento. Essas técnicas, no entanto, requerem
prática, pois pode haver uma variação de timbre, especialmente entre o tapa com o polegar e o
tapa de mão aberta que dificilmente produzem sons exatamente iguais.
Neste novo contexto, ao realizar uma sucessão de toques graves no pandeiro, o
pandeirista passa a ter duas opções e cada uma delas tem um timbre característico. A primeira
delas consiste em realizar os golpes repetindo o toque do polegar (movimento bastante utilizado
em levadas de samba). Essa opção, no entanto, pode se tornar cansativa quando há a necessidade
de vários sons graves em sequência ou quando a música é muita rápida. A segunda opção é a de
extrair o som grave de maneira alternada entre o polegar e a ponta dos dedos. Essa opção, aliada
à rotação da mão que sustenta o instrumento, gera maior fluidez na execução de uma sequência
de sons graves.

Exemplo 1 – ritmo do samba repetindo o polegar (produção minha).

Exemplo 2 – ritmo do samba alternando os graves entre ponta dos dedos e


polegar (produção minha).

Outro artifício interessante entre as técnicas do pandeiro moderno é utilizar o dedo


polegar para realizar o som médio do tapa. O tapa com o polegar é um movimento que requer
prática para que possa soar de maneira semelhante ao tapa com a mão aberta. Muito utilizada por
6

pandeiristas da atualidade como Sergio Krakowski e Túlio Araújo, essa técnica possibilita a
realização do som médio em diferentes posições dentro das células rítmicas o que contribui para
a construção de uma maior variedade de estruturas rítmicas. Essas estruturas podem ser
realizadas sem que seja preciso repetir um mesmo movimento e sem interromper a rotação da
mão que sustenta o instrumento. Um bom exemplo disso é a figura rítmica do maculelê ou funk
carioca.

Exemplo 3 – ritmo do maculelê ou funk carioca utilizando o tapa com o


polegar (produção minha).

1.4 A técnica invertida

Nas técnicas tradicionais de pandeiro espalhadas pelo Brasil, o primeiro toque no


instrumento é, em grande maioria, realizado com o polegar, enfatizando o primeiro tempo do
compasso. A ideia de se começar o toque com a parte de cima da mão foi criada por Marcos
Suzano e chama-se técnica invertida ou técnica moderna (Vidili, 2017, p.69). Esta pequena
alteração no modo de tocar amplia as possibilidades rítmicas do instrumento.
Uma das características da técnica invertida é reproduzir, com mais fidelidade, ritmos
de bateria no pandeiro. Suzano teve como influência para esta técnica os toques de grandes
bateristas como Sly Dunbar, ícone do reggae e John Bonham do grupo de rock Led Zeppelin.
Começar o toque com a ponta dos dedos permite, dentre outra coisas, que o tapa com a mão
aberta seja posicionado nas articulações dois e quatro de um compasso quaternário exercendo a
função da caixa da bateria de ritmos como pop, rock e funk. A inclusão do pandeiro nestes estilos
é outro fenômeno do pandeiro moderno. “Suzano incorporou conceitos musicais da bateria da
música pop/rock para ampliar esta capacidade de síntese e conceber um novo papel para o
pandeiro brasileiro, expandindo seu âmbito de aplicações em gêneros musicais” (Vidili, 2016,
p.2).

Exemplo 4 - tapa nas articulações dois e quatro (produção minha).


7

Outra característica da técnica invertida é que ela propicia que o som grave com o
polegar seja executado no quarto tempo do compasso, o que caracteriza muitos ritmos da música
afro-brasileira como bem resume Eduardo Vidili neste trecho de sua dissertação:

Constatando que em vários padrões rítmicos, tanto da música do candomblé quanto em alguns
gêneros de música pop, ocorre a predominância de sons graves nas posições contramétricas dos
tempos do compasso, Suzano percebeu que, ao inverter a lógica dos toques tradicionais de
pandeiro e iniciando o toque por cima, estes sons graves em posições contramétricas passariam a
ser automaticamente obtidos pelo polegar, resultando em condição de execução mais confortável
(2017, p.163).

Segundo Marcos Suzano, a técnica invertida possibilita que o pandeiro exerça a função
do rum, o tambor mais grave e solista do candomblé. As características da música afro-brasileira
influenciaram Suzano a usar a técnica invertida e pandeiros com o som mais grave. “Como ele
via o candomblé como o coração de todos os ritmos afro-brasileiros, ele começou a usar a sua
técnica invertida em todos os gêneros brasileiros, incluindo samba, choro, baião e maracatu,
enfatizando as síncopes em baixa frequência em cada um destes estilos” (Potts, 2012, p.34,
tradução minha2).
Um bom exemplo de funcionamento da técnica invertida está na realização de uma das
variações do ritmo do maracatu de baque virado (manifestação folclórica do estado de
Pernambuco). Com essa técnica, os sons graves característicos desse ritmo podem ser realizados
com o polegar:

Exemplo 5 – variação do ritmo do maracatu de baque virado utilizando a


técnica invertida (produção minha).

Outro exemplo prático da lógica por trás da técnica invertida pode ser observado em
uma das variações do ritmo do baião. Iniciar a batida pelo eixo superior do instrumento permite
que o dedo polegar seja posicionado no quarto tempo dos compassos e que o som médio do tapa
seja feito com a mão aberta. Isso gera uma solução técnica que, em minha opinião, dá mais

2
As he viewed candomblé as the heart of all Afro-Brazilian rhythms, he began to use his inverted technique across
all Brazilian genres, including samba, choro, baião, and maracatu, emphasizing the low-frequency syncopations in
each of these styles.
8

fluidez para a execução desse ritmo, uma vez que é mais confortável para o pandeirista realizar o
som grave com o polegar e o som médio com a mão aberta.

Exemplo 6 - ritmo de baião utilizando a técnica invertida (produção


minha).

Esse mesmo ritmo, quando iniciado com o polegar, faz com que o pandeirista necessite
realizar o som grave do quarto tempo com a ponta dos dedos e o som do tapa com o polegar.

Exemplo 7 – ritmo de baião iniciado com o polegar (produção minha).

1.4 Marcos Suzano

As informações contidas nesse subcapítulo foram obtidas ao longo da pesquisa de


outros trabalhos sobre Marcos Suzano e também em oficinas de pandeiro que este tem
publicadas na internet. Os endereços eletrônicos referentes a estas oficinas se encontram
disponíveis nas referências. Além disso, realizei uma entrevista por e-mail com Marcos Suzano,
que se encontra disponível nos anexos deste trabalho.
Marcos Suzano nasceu no Rio de Janeiro em 1963 e teve seus primeiros contatos com o
mundo da percussão ainda na adolescência assistindo a ensaios de blocos de samba em
Copacabana. Suzano se dedicou a vários instrumentos associados ao samba e o último deles foi o
pandeiro, instrumento que posteriormente acabou lhe rendendo reconhecimento mundial.
Suzano é um dos principais responsáveis pela concepção da técnica do pandeiro
moderno e um dos pioneiros na difusão dela. Hoje em dia, esta técnica é conhecida e empregada
por pandeiristas do mundo todo e há artesãos de pandeiro brasileiro em diversos países como
Japão, Estados Unidos, Alemanha e Argentina. Nas palavras de Eduardo Vidili, “Suzano
desenvolveu uma série de modificações que envolvem timbragem, técnicas de amplificação,
maneiras de tocar e, sobretudo, a inserção do instrumento em novos âmbitos de atuação” (2016,
p.2). Para tal, Suzano opta pelo pandeiro do choro que tem 10 polegadas de diâmetro e é feito
com pele animal, geralmente, couro de cabra.
9

Em entrevista que realizou com Nelson Faria, disponível no Youtube, Suzano explica os
fundamentos de muitas das técnicas avançadas apresentadas neste trabalho e também fala que
uma de suas maiores contribuições para o universo do pandeiro é a técnica invertida. O processo
pelo qual Suzano passou até chegar a esta técnica é bem explicado neste trecho retirado da
dissertação de Eduardo Vidili.

Sua grande atração pelo instrumento foi despertada em uma ocasião em que assistiu, pela TV, a
uma performance de Jorginho do Pandeiro acompanhando a cantora Clementina de Jesus. Suzano
tentou imitar os toques de Jorginho e, curiosamente, em suas primeiras tentativas, tocou “ao
contrário”, ou seja, iniciando a batida pela parte superior da mão direita, ao invés da inferior.
Percebendo o que lhe parecia um equívoco, Suzano o corrigiu e passou a tocar o pandeiro de
choro da maneira tradicional, iniciando o toque por baixo. Porém, anos mais tarde ele retomaria e
desenvolveria esta forma de tocar, que chamaria de técnica invertida (Vidili, 2017, p.153/154).

É difícil indicar quem inventou uma ou outra técnica de pandeiro devido à escassez de
registros escritos neste meio. Suzano comentou, em entrevista concedida por e-mail, que há uma
possibilidade de João da Baiana ter utilizado a técnica invertida anteriormente. Sobre o som
grave extraído com a ponta dos dedos, Suzano escreveu que essa prática surgiu com pandeiristas
de choro e que também verificou a utilização dela por parte de Jackson do Pandeiro nas vezes
que o viu tocar. Contudo, a maneira como Suzano utiliza esta técnica, alternando os sons graves
entre a ponta dos dedos e o polegar, aliada ao uso de timbres mais graves, gera um efeito muito
pessoal. É possível perceber isso com clareza nos discos que gravou com o grupo Aquarela
Carioca no fim da década de 80 e começo da década de 90, no disco Olho de peixe (1993), que
gravou em parceria com o músico Lenine, em seus álbuns solo Sambatown (1996), Flash (2000)
e Atarashii (2007) e também em diversas apresentações suas disponíveis na internet.
Uma grande contribuição de Marcos Suzano para o mundo do pandeiro foi a utilização
de um microfone preso ao corpo do instrumento em vez de preso a um pedestal. Isso dá mais
liberdade para os movimentos do pandeirista e valoriza a pressão dos sons graves por causa da
proximidade entre o microfone e o instrumento (Potts, 2012, p.44). Marcos Suzano relatou por e-
mail que passou a utilizar microfones dessa maneira com a ajuda do engenheiro de som Denílson
Campos em apresentações com o grupo Aquarela Carioca.
Em entrevista publicada na tese de Brian Potts (2012, p.45), Suzano comenta que, na
música afro-brasileira, o som grave é o que realiza os solos e gera diálogos com a melodia, como
é o caso do tambor rum do candomblé. Suzano também faz analogias dessa mesma
funcionalidade do som grave com as linhas de contrabaixo do reggae, com o grave do violão de
7 cordas do choro e com o som do bumbo da bateria do funk. Sendo assim, concluo que Suzano
valoriza o som dos graves do pandeiro e utiliza a técnica invertida para incluir o pandeiro no
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contexto rítmico e de timbre de ritmos de origem africana como o do candomblé, do reggae


jamaicano e do funk norte-americano.
Pessoalmente, em minha ainda recente trajetória como pandeirista, já posso dizer que
Marcos Suzano é uma das minhas maiores referências. A paixão por tocar pandeiro que este
demonstra em entrevistas suas às quais assisti na internet é, pra mim, um grande incentivo, por
exemplo, quando este relata que ao viajar para o Japão realiza apresentações em que permanece
improvisando por horas com o baterista Takashi Numazawa. Também chamam muito a minha
atenção vídeos de longos solos que Suzano realiza com o pandeiro sem nenhum outro
acompanhamento, uma vez que instrumentos de percussão são popularmente atrelados à função
de manter o ritmo dentro de um conjunto. Finalmente, admiro o trabalho de Marcos Suzano não
só com o pandeiro, mas também como percussionista, tanto nas suas ideias rítmicas geniais,
utilizando os mais diversos instrumentos, quanto na ousadia em incluir equipamentos e efeitos
eletrônicos em meio ao seu kit de percussão. Alguns bons exemplos dessa mistura podem ser
percebidos em seu trabalho com o músico Vitor Ramil no álbum Satolep sambatown (2007) e em
seu último álbum solo, Atarashii (2007), este último foi gravado integralmente em sua casa e tem
um intenso trabalho de processamento de sons com o computador.
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2. O PANDEIRO BRASILEIRO NA CONTEMPORANEIDADE

2.1 Novas possibilidades para o pandeiro

O pandeiro brasileiro vem ganhando cada vez mais adeptos e mais notoriedade no
mundo da percussão. Além disso, novas maneiras de se tocar o instrumento e novas opções de
timbre estão sendo experimentadas como, por exemplo, a amplificação do instrumento com
microfones e a utilização de efeitos eletrônicos que geram uma infinidade de novos sons. Diante
dessa mudança de paradigma é importante que se aprofunde a discussão sobre essas novas
formas de execução desse instrumento. Sendo assim, neste capítulo, comento diferentes técnicas
de pandeiro, cito diferentes modelos de pandeiro e nomeio músicos de destaque nesse universo e
que merecem uma atenção especial quanto às inovações técnicas que realizam.
Instrumentos similares ao pandeiro brasileiro existem há milhares de anos em diversas
partes do mundo. Eles são pertencentes a uma família de instrumentos conhecida como frame
drums, tambores que em sua estrutura física possuem uma membrana ou pele esticada presa a
um aro, com um corpo ressonador de profundidade menor que o raio de sua membrana (Vidili,
2017, p.53). Exemplos desses instrumentos são o daf no Irã, o tamburello na Itália, a kanjira na
Índia, o adufe de Portugal, o riq no Oriente Médio etc. Um vasto estudo sobre a história dos
frame drums até a sua chegada no Brasil foi realizado por Valeria Rodrigues em sua dissertação:
Pandeiros: entre a Península Ibérica e o Novo Mundo, a trajetória dos pandeiros ao Brasil
(2014). Cada frame drum tem maneiras próprias de serem tocados e muitos percussionistas, hoje
em dia, misturam técnicas e ritmos de culturas diferentes que, somados a seus estilos pessoais,
geram resultados muito interessantes.
Um exemplo desse intercâmbio de técnicas é a utilização das técnicas do tamburello
italiano no pandeiro brasileiro por parte de percussionistas como Caito Marcondes e Vina
Lacerda. A técnica do tamburello é muito diferente das técnicas do pandeiro brasileiro. Por
exemplo, nela, o instrumento é tocado na vertical e pode ser percutido com as duas mãos. Um
italiano de destaque no tamburello é Carlo Rizzo que, além de demonstrar grande habilidade
técnica, desenvolveu complexas adaptações em um de seus instrumentos com mecanismos que
lhe permitem, dentre outras coisas, controlar a tensão exercida sobre a pele.
Assim como no tamburello e outros frame drums orientais, em alguns ritmos
tradicionais da cultura brasileira como o do cavalo-marinho pernambucano e o do fandango
paranaense, o pandeiro é também sustentado na posição vertical. No entanto, estes ritmos tem
12

técnicas complexas e peculiares que são transmitidos oralmente de geração em geração e que
acabam sendo utilizadas exclusivamente dentro das manifestações folclóricas de que fazem
parte.
O pandeiro brasileiro tem se difundido de tal maneira que hoje em dia existem
construtores de pandeiros com características diferentes em diversas partes do mundo. Um
exemplo disso é o pandeiro que Marcos Suzano utiliza, feito pelo japonês Teruhiko Toda. Ele
tem, dentre algumas de suas características, a vantagem de ser extremamente leve. Outro músico
que possui pandeiros diferenciados é Caito Marcondes. Um de seus pandeiros foi construído pela
empresa alemã Anklang e tem uma chave que permite ajustar a quantidade de som emitido pelas
platinelas. Caito Marcondes também possui um pandeirão, instrumento típico do folclore
maranhense, cuja pele pode ser afinada por uma câmara de ar posicionada sob a borda da mesma
ou desinflada por meio de um bico similar ao dos pneus de uma bicicleta para que o som fique
mais agudo ou grave.
Além de técnicas de toque e instrumentos diferentes, alguns percussionistas utilizam
efeitos eletrônicos no pandeiro. Marcos Suzano, por exemplo, costuma alterar o som do pandeiro
utilizando pedais de guitarra como: pedais de volume, pedais de delay, filtros de frequência,
oitavadores etc. Além destes efeitos, Suzano obteve resultados interessantes em seu novo disco
Atarashii utilizando um aparelho chamado Sherman Filterbank V2 que modifica bastante o
timbre do instrumento. Túlio Araújo também é um pandeirista que explora a adição de efeitos
eletrônicos ao pandeiro como pude perceber num vídeo disponível na internet3 em que ele
aparece modificando o som do instrumento com um equipamento chamado Korg Wave Drum
Mini. Outro interessante projeto utilizando pandeiro e aparelhos eletrônicos é o Talking Drums,
criado por Sergio Krakowski. Nesse projeto Krakowski utiliza o pandeiro para controlar efeitos e
trechos de vídeos ao vivo através de técnicas de programação adquiridas no seu PhD em música
de computador.
Outra proposta interessante de utilização do pandeiro é a peça Jogo de pandeiro (2013)
do curitibano Leonardo Gorosito. Nessa peça, que foi feita para dois pandeiros, os intérpretes
devem realizar coreografias enquanto tocam o que dá a ela um caráter totalmente teatral. Além
dessa peça, Gorosito compôs outras que contêm propostas diferenciadas de execução. Na peça
Ao léu (2005), que criou ao lado de Rafael Alberto (seu parceiro no duo de percussão Desvio), os
intérpretes devem executar ritmos utilizando somente as platinelas do instrumento além de que
ao final da obra os instrumentistas lançam o instrumento para o ar a fim de gerar um timbre
específico. Já em Folhagens (2012), Leonardo e Rafael desenvolveram um mecanismo que abafa

3
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=i54MteuQROk>
13

o som das platinelas do instrumento em momentos específicos da peça. Ambos também


compuseram a obra Concerto para dois pandeiros e orquestra de cordas (2016). Uma
abordagem semelhante a essa já havia sido realizada por Tim Rescala em 1992 em Concerto
para dois pandeiros e orquestra de cordas, no entanto, diferentemente da peça de Leonardo e
Rafael que foi feita para cordas de orquestra, a composição de Rescala foi feita para cordas da
formação tradicional de choro.
O pandeiro brasileiro tem sido explorado das mais diversas maneiras por uma
quantidade cada vez maior de percussionistas, ao ponto de motivar o australiano Daniel Allen a
entrevistar 75 pandeiristas e coletar informações gerais sobre esse assunto que foram publicadas
no livro The philosophy of... pandeiro (2015). De qualquer maneira, resolvi fazer uma
compilação de alguns dos pandeiristas cujos nomes cruzaram meu caminho ao longo desta
pesquisa. Desde os grandes mestres que surgiram com o choro, como é o caso de Jorginho do
Pandeiro que faleceu no ano em que escrevo este trabalho até pandeiristas mais contemporâneos.
A data de falecimento de Gilberto D’ávila não foi encontrada.

Tabela 2 – Lista de pandeiristas (produção minha)


14

2.2 A técnica do pandeiro melódico

Apesar da infinidade de técnicas avançadas disponíveis para pandeiro, decidi utilizar no


solo Pandeiro espectral uma específica que intitulo aqui de técnica do pandeiro melódico pelo
fato de que a utilizo bastante em minhas práticas com o instrumento. A técnica do pandeiro
melódico teve como base a maneira como Marcos Suzano altera a afinação da pele com o
polegar fazendo possível que melodias sejam realizadas em conjunção com o ritmo tocado. É
importante ressaltar que a utilização de pandeiros de couro com a afinação mais grave possibilita
uma distinção mais clara entre os sons provenientes desta técnica.
O efeito de modular a afinação da pele pelo ajuste da pressão dos dedos é possível em
muitos instrumentos da categoria frame drum. Quanto maior a pressão exercida contra a pele do
instrumento, mais agudo é o som resultante. No caso do pandeiro brasileiro, para gerar um som
mais agudo, o pandeirista tem a opção de pressionar a pele com o polegar da mão que sustenta o
pandeiro. “Como a nota emitida é diretamente proporcional à tensão da pele, o pandeirista pode
emular notas diferentes ajustando a quantidade de pressão empregada” (Potts, 2012, p.70/71,
tradução minha4).
Assistindo a vídeos de Marcos Suzano na internet e ouvindo seus álbuns percebi que
este utiliza esta técnica com bastante frequência o que gera, por vezes, efeito semelhante aos dos
tambores agudo médio e grave da bateria (tom-tom, surdo e bumbo) assim como também pode
nos levar à impressão de que há uma melodia de contrabaixo sendo executada juntamente com o
ritmo. A razão pela qual passei a chamar essa técnica de técnica do pandeiro melódico foi o fato
de ela possibilitar uma clara distinção de notas fazendo com que o pandeiro soe também como
um instrumento rítmico e também melódico.
Ao participar de uma oficina de pandeiro no ano de 2016, em Curitiba, com Bernardo
Aguiar, pandeirista ex-aluno de Marcos Suzano, percebi que este levou essa técnica a outros
níveis de complexidade. Bernardo Aguiar utiliza um pandeiro da empresa Cooperman Frame
Drums que tem a pele feita com um material especial possibilitando a realização de um intervalo
grande entre seu som mais grave e seu som mais agudo. Esse tipo de pandeiro, aliado à
habilidade técnica de Bernardo, permite que melodias simples sejam realizadas, como, por
exemplo, a melodia de Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Isso se dá através da
administração da quantidade de pressão do polegar contra a pele.

4
In order to increase the pitch of the drumhead, the pandeirista squeezes the head with the left thumb. As this pitch
is directly proportional to the tension of the drumhead, the pandeirista can emulate multiple toms by adjusting the
amount of pressure admnistered.
15

Pelo motivo que, nos pandeiros que costumo tocar, obtenho a distinção clara de somente
três notas diferentes, resolvi limitar a transcrição de alguns trechos do solo à indicação destas
três notas. Para uma melhor indicar a modulação da pele na minha execução, relacionei esses três
sons possíveis aos números zero, um e dois. O som número zero é o som grave, natural da pele
do pandeiro, o som número um é o som médio, resultante da pele sendo pressionada levemente
pelo polegar esquerdo e o som número dois é o som agudo. Nesse último, a pressão do polegar
contra a pele é acentuada. A posição do polegar nesses três sons pode ser visualizada nesta
imagem:
Fig. 3 – Posição do polegar da mão que sustenta o pandeiro na técnica do pandeiro melódico
(fotografias e produção minha).

2.3 Notação para a técnica do pandeiro melódico

Durante esta pesquisa encontrei algumas possíveis maneiras de se notar em partitura a


técnica do pandeiro melódico, no entanto, acabei desenvolvendo uma grafia particular que
considerei ser a mais apropriada para as minhas transcrições. Neste subcapítulo, apresento as
opções de notação encontradas e também essa que concebi ao longo da pesquisa e que se tornou
definitiva para a notação de trechos de Pandeiro espectral. É importante esclarecer que a técnica
que chamo aqui de pandeiro melódico é conhecida por outros pandeiristas por outros nomes
como: glissando, pitch bend, pitch shifter, portamento, modulação da afinação do grave, entre
outros.
Os sistemas notacionais para pandeiro de Luiz D’Anunciação e Carlos Stasi utilizam o
símbolo padrão de glissando para representar essa modulação com a diferença que Anunciação
utiliza três linhas na pauta enquanto Stasi utiliza apenas uma. Pude constatar isso através da
legenda que consta no artigo O uso idiomático dos instrumentos de percussão brasileiros:
principais sistemas notacionais para o pandeiro brasileiro de Eduardo F. Gianesella publicado
na Revista Música Hodie pela Universidade Federal de Goiânia. No entanto, não encontrei a
16

utilização deste recurso nos métodos para pandeiro de Vina Lacerda e Luiz Sampaio, métodos
que utilizam o sistema de Carlos Stasi.

Fig 4 – Representação de efeito de glissando por Anunciação e Stasi retirado do artigo de Gianesella
(2012, p.196).

Eduardo Vidili, ao transcrever execuções de Marcos Suzano em sua dissertação,


também adota o símbolo tradicional de glissando utilizado por Stasi para representar a
modulação da afinação do pandeiro. Para a realização deste efeito a pele deve ser pressionada
pelo polegar da mão que sustenta, ao mesmo tempo em que a outra mão a percute (Vidili, 2017,
p.183).
A partir de uma das transcrições do toque de Suzano, extraída de sua dissertação, Vidili
representa a modulação da afinação do pandeiro com o símbolo de glissando que se extende
abaixo das notas que devem ser alteradas, indicando o gesto que deve ser realizado, no exemplo
em questão, uma progressão do grave para o agudo. Sobre este trecho Vidili comenta: “o final de
cada frase de dois compassos é marcado pela realização de glissando ascendente nos graves,
realizado por meio de gradativo aumento de aplicação de pressão, na pele, pelo polegar da mão
de sustentação (2017, p.205).”

Fig. 5 – Transcrição de Eduardo Vidili para efeito de glissando realizado por Marcos Suzano em
trecho da música Mais além (1993) de Lenine, Bráulio Tavares, Lula Queiroga e Ivan Santos.

Diferentemente de Vidili, Brian Potts sugere uma maneira alternativa de notação para o
efeito do pandeiro melódico ao transcrever ritmos de bateria para o pandeiro na sua tese de
doutorado. Potts indica a modulação do som da pele com o polegar da mão que sustenta o
instrumento usando uma seta apontada para cima logo abaixo da nota alterada. Segundo Potts,
17

esse tipo de efeito permite a simulação de múltiplos tom-toms da bateria através do ajuste da
pressão exercida contra a pele a partir do polegar (2012, p.71). Essa maneira de se enxergar o
pandeiro explica o porquê de muitos percussionistas o chamarem de “bateria de bolso”, aludindo
à sua grande portabilidade e capacidade de síntese rítmica, entendida como análoga ao de uma
bateria (Vidili, 2017, p.151). As setas representando esse efeito podem ser observadas na
transcrição da música África do cantor e compositor D’Angelo retirada da tese de doutorado de
Potts.

Fig. 6 – Representação da modulação do som da pele do pandeiro através de setas de Brian


Potts (2012, p.70).

De acordo com a legenda extraída da tese de Brian Potts, a seta representa o polegar
grave com tom elevado. O efeito resultante equivale aos sons 1 ou 2 que constam na concepção
da técnica do pandeiro melódico representada na figura 3.

Fig. 7 – Legenda extraída da tese de Brian Potts com seta representando elevação do tom da pele
através do polegar (2012, p.67).

Em conversa com Bernardo Aguiar, este me disse que também pretende utilizar essa
seta no método de pandeiro moderno que está desenvolvendo juntamente com Brian Potts no
intuito de fixar uma escrita padrão para pandeiro. Esse tipo de notação me pareceu interessante
para minhas transcrições, no entanto, senti falta da distinção entre a pressão leve e a pressão
acentuada uma vez que a seta limita-se a representar um único movimento do polegar. Cogitei a
18

possibilidade de utilizar setas de tamanhos diferentes para representar a distinção dos sons, mas
acabei achando outra solução que apresento mais adiante.
Outra opção de notação para o pandeiro melódico foi apresentada a mim pelo
pandeirista Túlio Araújo e envolve a utilização do pentagrama (sistema de cinco linhas). Túlio
acredita que o sistema notacional para pandeiro de uma linha só, criado por Carlos Stasi, pode
não ser algo familiar para músicos de outras nacionalidades habituados ao sistema universal do
pentagrama. A alternativa de representação que Túlio me apresentou foi desenvolvida a partir de
seus estudos com o percussionista cubano Santhiago Reyther e parte do pressuposto de que deve
haver na partitura, representações independentes para cada mão utilizada, assim como já
acontece em outros instrumentos. No exemplo que me enviou é possível perceber que a linha
superior representa os toques da mão que percute o instrumento, em que utiliza o mesmo sistema
de Stasi, e a linha inferior indica o gesto que deve ser realizado através do ajuste da pressão do
polegar da mão que sustenta o instrumento, no caso do exemplo a seguir, uma variação do agudo
para o grave:

Fig. 8 – Exemplo cedido por Túlio Araújo que apresenta uma alternativa de notação
para o efeito do pandeiro melódico.

Dentre as maneiras encontradas para notar a técnica do pandeiro melódico, aquela de


Túlio Araújo é que indica com mais precisão a melodia gerada. Considero que, para pandeiros
capazes de gerar uma variação maior de tons, como o pandeiro de Bernardo Aguiar, citado
acima, esta técnica seria a mais recomendada. No entanto, achei que essa maneira apresenta
muita informação visual e, portanto, busquei algo mais simplificado para minhas transcrições.
Ao cogitar a utilização do efeito glissando, na maneira como Vidili o utiliza, percebi que essa
não indica com precisão as alturas dos sons e limita-se a indicar gestos ascendentes ou
descendentes a serem realizados, assim como também acontece neste trecho do Concerto para
dois pandeiros e orquestra de cordas de Leonardo Gorosito e Rafael Alberto.
19

Fig. 9 – Exemplo de glissando utilizado por Leonardo


Gorosito e Rafael Alberto em Concerto para dos
pandeiros orquestra de cordas (2016).

Na maneira como aplico a técnica do pandeiro melódico em Pandeiro espectral, no


entanto, utilizo uma maior variedade de alternância entre os sons 0, 1 e 2 descritos na figura 3 e
procuro distinguir claramente um som do outro tentando evitar o efeito de glissando. Sendo
assim, acabei criando uma alternativa inédita para transcrição da técnica do pandeiro melódico
que descrevo melhor no parágrafo seguinte.
Após verificar todas as possibilidades de notação expostas neste capítulo, acabei
desenvolvendo, com auxílio de meu orientador, Indioney Rodrigues, uma solução gráfica própria
para representação da técnica do pandeiro melódico. Resolvi utilizar uma seta para baixo acima
da nota para indicar a realização de uma pressão leve do polegar contra a pele (som 1 da figura
3) e duas setas para indicar pressão acentuada (som 2 da figura 3). O resultado dessa concepção
torna-se divertido e mais aberto ao intérprete, pois a ideia é que não haja notas definidas para os
sons 1 e 2. A única definição existente é a de que o som 1 (nível de pressão intermediário do
polegar) seja mais agudo que o som 0 (nenhuma pressão do polegar) e que o som 2 (nível de
pressão mais acentuado) seja mais agudo do que o som 1. No próximo subcapítulo apresento
alguns exemplos simples da aplicação destes novos símbolos que foram chamados de exercícios
preliminares.

Fig. 10 – Legenda para os movimentos da técnica do pandeiro meódico (produção minha).


20

Um exemplo prático da utilização da notação criada nesta pesquisa para a técnica do


pandeiro melódico pode ser visto no exemplo que criei e que se encontra disponível para
visualização online5:

Exemplo 8 – notação para a técnica do pandeiro melódico (produção minha).

Aproveito este espaço para levantar aqui uma discussão interessante sobre notação para
pandeiro em geral que surgiu durante esta pesquisa, especialmente na leitura da monografia A
funcionalidade do sistema notacional para pandeiro de Carlos Stasi de Helvio Monteiro
Mendes. Segundo esse trabalho, alguns percussionistas defendem a instituição de um único
sistema notacional para pandeiro. Por outro lado, o próprio Carlos Stasi, criador do sistema
notacional de pandeiro mais utilizado nesse meio, afirma ser contrário a essa padronização
(Mendes, 2010, p.25). Stasi concorda com Vina Lacerda quando este afirma que “o surgimento
de novos virtuoses do instrumento, bem como mais peças solo poderá levar à necessidade de
novas criações agregadas às já existentes”. Stasi também diz que “ao desenvolver a notação
deixou em aberto um espaço para essas futuras criações, mas sempre com a tentativa de expor o
menor uso possível de elementos na notação original” (Mendes, 2010, p. 23).
Sobre esse assunto, concordo com a opinião de Vina Lacerda descrita no trabalho de
Helvio Mendes de que “a partir do momento que se entra num consenso sobre a forma de
reprodução, a compreensão globaliza-se e permite que os ritmos brasileiros e o pandeiro se
difundam com maior fluidez” (2010, p.28/29). Sendo assim, considerei que o sistema notacional
criado por Carlos Stasi era o que poderia me auxiliar na representação das composições deste
trabalho com mais clareza. No entanto, acredito que, assim como ocorre na grafia de técnicas
extendidas para outros instrumentos, novos símbolos devem ser inventados no intuito de
representar as múltiplas possibilidades de movimentos que esse instrumento oferece.

5
Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=UxkSRU1-_Dc>.
21

3. PANDEIRO ESPECTRAL

3.1 Processo de composição

Antes de descrever o processo composicional de Pandeiro espectral, eu gostaria de


convidar o leitor a assistir ao registro de Pandeiro espectral que se encontra disponível online6.
No início do vídeo eu inseri a partitura de trechos da execução que estão explicados nos
próximos parágrafos. O processo de gravação e edição do áudio e do vídeo serão descritos no
próximo subcapítulo.
Foram várias as versões gravadas de Pandeiro espectral e ao longo deste processo
percebi que, por se tratar de uma composição improvisada, os resultados variavam de acordo
com vários aspectos, sendo alguns deles, o local da gravação, o tipo de pandeiro utilizado e o
estado emocional em que eu me encontrava. Um dos preceitos principais que eu tenho para
Pandeiro espectral é de que ele não seja muito curto, mas ao mesmo tempo, não especifico uma
duração específica. As execuções costumam ter entre dez e 15 minutos. Outro preceito que
costumo levar em consideração é que se eu falhar na execução de uma ideia musical durante o
solo é mais interessante começar uma nova ideia do que continuar a anterior.
A minha ideia inicial para Pandeiro espectral era realizar um improviso totalmente livre
de pandeiro, mas percebi, durante minhas práticas, que costumava aplicar técnicas similares
entre uma e outra execução. Sendo assim, resolvi especificar no título deste trabalho que o solo
envolve rotinas de improvisação controlada, pois embora a decisão da ordem dos movimentos
aconteça intuitivamente, já tenho um catálogo de ideias musicais possíveis que trago na mente
antes da execução.
Na primeira versão que gravei, meus impulsos criativos foram mais na direção de
explorar a fundo a técnica do pandeiro melódico. O solo ficou com mais de 15 minutos de
duração e acabei sentindo falta de outras técnicas que poderiam ser exploradas, por exemplo,
tocar o pandeiro na posição vertical e também criar um trecho só com rulos. Na segunda e
terceira versão selecionei trechos da primeira e me concentrei em intensificar aspectos de
expressividade como a variação da aceleração e da dinâmica. Mesmo assim, resolvi gravar o solo
pela quarta vez, tentando compilar as ideias que mais me agradaram das versões anteriores e
aplicar todas elas com mais intensidade nesta que acabou sendo a versão definitiva presente
neste trabalho.

6
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=gB5pLudu3Os>.
22

Há movimentações específicas que faço questão de incluir ao longo de Pandeiro


espectral. Algumas delas são: tocar o pandeiro na posição vertical (também chamada de posição
oriental), o que pode ser percebido no minuto 7:41 do vídeo; explorar mais enfaticamente o
efeito do rulo, o que pode ser percebido entre o minuto 6:50 e o minuto 7:19 do vídeo; realizar
acelerações e desacelerações do movimento de rotação da mão que sustenta o pandeiro, algo que
acontece do minuto 3:44 até o minuto 3:56, por exemplo, e também realizar melodias diversas
alternando as pressões 0, 1 e 2 da técnica do pandeiro melódico, o que acontece em vários
momentos, assim como logo no início do vídeo no minuto 0:10.
Sobre a realização de melodias alternando as pressões 0, 1 e 2 da técnica do pandeiro
melódico, posso dizer que este tipo de movimentação foi a base para a criação de Pandeiro
espectral. Esta técnica me possibilita realizar diferentes progressões rítmicas utilizando a mesma
melodia e me instiga a brincar variando estas estruturas ao longo da execução, portanto resolvi
criar um pequeno vídeo7 para ilustrar a maneira como eu realizo estas estruturas rítmicas
mantendo a mesma melodia. No vídeo eu realizo duas vezes cada linha representada abaixo. O
vídeo pode ser acessado através do endereço e os exemplos que toco nele podem ser visualizados
a seguir:

Exemplo 9 – Diferentes estruturas rítmicas com a mesma melodia (produção


minha).

7
Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=HT_YgpuDto8&feature=youtu.be>
23

Ao analisar o vídeo de Pandeiro espectral percebi que apliquei nele algumas estruturas
rítmicas que desenvolvi ao longo do tempo e que costumo utilizar bastante em minhas práticas
com o instrumento. Uma delas envolve criar ritmos alternando os sons do punho e do polegar
como é o que acontece logo nos primeiros instantes do vídeo e que pode ser melhor visualizado
na seguinte transcrição:

Exemplo 10 – transcrição do início do solo, ritmo alternando punho e polegar (produção minha).

Outra característica pessoal que desenvolvi e utilizei em Pandeiro espectral é aplicar a


pressão 2 da técnica do pandeiro melódico na hora do tapa, movimento que realizo logo no
minuto 0:20 do vídeo e pode ser melhor visualizado na transcrição seguinte:

Exemplo 11 – pressão 2 da técnica do pandeiro melódico realizada


junto com o tapa (produção minha).

Para que este efeito seja ouvido com clareza é necessário que ele seja executado com o
couro do pandeiro bem frouxo. A captação do som com bons microfones juntamente com o
processamento do áudio é capaz de atenuar os timbres da técnica do pandeiro melódico e a
utilização de fones de ouvido ou caixas de som de boa qualidade ajudam para melhor distinção
destes sons.
Além destes movimentos, outra característica pessoal que pus em prática no vídeo foi a
utilização de uma estrutura rítmica que me possibilita ganhar maior velocidade na rotação da
mão que sustenta o instrumento e que gera um efeito sonoro similar ao de uma engrenagem. Esse
ritmo acontece no minuto 3:34 do vídeo e pode ser visualizado nesta transcrição:

Exemplo 12 – ritmo utilizado para aceleração e desaleração da


rotação da mão que sustenta o instrumento (produção minha).
24

Finalmente, percebi também que em alguns trechos do vídeo Pandeiro espectral, como
é o caso dos minutos 0:33, 4:08, 5:20 e 5:50, eu crio alguns temas melódicos que me direcionam
durante trechos da execução.

3.2 Processo de registro audiovisual

A partir do momento que adquiri certa prática com o pandeiro, eu passei a registrar em
vídeo alguns dos solos que realizo. Como tratam-se de execuções improvisadas, cada vídeo tem
uma execução única e original e desde então passei a publicar parte deste material na internet.
Algo que incentivou esta minha iniciativa foram vídeos de Marcos Suzano realizando longos
solos de improviso com pandeiro aos quais assisti na internet. A liberdade da invenção
momentânea de material musical que a música improvisada possibilita é um assunto que tem
ganhado meu apreço recentemente, assim como o uso do pandeiro como instrumento solista,
algo que desatrela este instrumento da função de somente manter o ritmo das músicas dentro de
um conjunto, função popularmente atribuída a instrumentos de percussão.
Todas as filmagens que já realizei foram feitas de forma caseira, em minha casa com
meu computador pessoal e minha placa de som. Ao longo destas filmagens, fui aprimorando o
processo de captação da imagem e do som, embora o processo de registro costuma acontecer da
seguinte maneira. Eu capto a imagem com a câmera do meu próprio celular e simultaneamente
capto o áudio com microfones que são enviados a um programa de edição no computador através
de uma interface de áudio. Então, faço alguns ajustes no áudio dentro do programa no
computador como: ajuste de volume, compressão de som, eliminação de ruídos, delimitação de
frequência etc. Finalmente, utilizando um programa de edição de vídeo, eu sincronizo o vídeo
captado pelo celular com o som aprimorado e crio um novo vídeo.
No caso de Pandeiro espectral não foi muito diferente. Eu captei a imagem em minha
casa com a câmera frontal do meu celular da marca Motorola, modelo G4 Plus, o que me rendeu
uma qualidade de vídeo em alta definição. O áudio foi captado com um microfone de lapela
simples da marca Leson que anexo ao corpo do pandeiro com um prendedor de papéis de
maneira que o microfone permaneça bem próximo à pele. Tive essa ideia ao ver na tese de Brian
Potts uma foto mostrando como Marcos Suzano costumava prender o microfone diretamente no
corpo do pandeiro.
25

Fig. 11 – Maneira utilizada para prender o


microfone no pandeiro (produção e fotos
minhas).

Além deste microfone, utilizei também um microfone condensador da marca Behringer,


modelo C1. Minha ideia foi que as frequências sonoras geradas pelo instrumento fossem
distribuídas entre os dois microfones. Desta forma, optei pela utilização do microfone de lapela
para captar melhor a batida dos sons graves por causa da proximidade que este fica do pandeiro e
optei pelo microfone condensador para captar mais os sons das platinelas. Por isso, posicionei-o
logo acima do instrumento como é possível ser observado no vídeo. O som captado pelos
microfones foi enviado para o meu computador da marca Toshiba, modelo Sattelite através de
uma interface de áudio da marca M-audio, modelo Fast track.
Tanto a captação quanto a edição do áudio foram realizadas no programa Ableton Live,
versão 9 suite. A princípio eu havia pensado em alterar mais drasticamente os sons do pandeiro,
principalmente para acentuar o efeito da técnica do pandeiro melódico, porém, depois de refletir
um pouco mais, decidi manter o som mais próximo do original do pandeiro para que o solo
tivesse um aspecto mais natural. Mesmo assim, apliquei efeitos de equalização e compressão
para aprimorar a qualidade do áudio. A sincronização do vídeo do celular com o som resultante
foi realizada no programa Vegas Pro, versão 13, da empresa Sony. Também neste programa, eu
incluí os trechos das partituras que foram todos criados no programa Sibelius, versão 8.2, da
empresa Avid.
Todo este procedimento se deu em minha casa e durou em torno de duas horas. No total
acabei realizando em torno de três a quatro versões até chegar à versão definitiva de Pandeiro
espectral. Compreendo que por se tratar de uma peça musical de improviso ela tem a chance de
ser transformada e aprimorada em futuras execuções. Finalmente, considero importante entender
que Pandeiro espectral é o resultado de anos de exploração de diferentes técnicas que venho
estudando desde que comecei a tocar pandeiro e que a versão registrada no vídeo gravado para
este trabalho representa apenas uma entre infinitas possibilidade de execução da peça.
26

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considero que este trabalho possa somar-se ao conjunto de fontes sobre características
técnicas e de timbre que permeiam o cenário do pandeiro brasileiro atual a partir de Marcos
Suzano. Assim como apresentadas na tese de doutorado de Brian Potts e na dissertação de
Eduardo Vidili, também apresentei aqui algumas técnicas utilizadas no pandeiro moderno, tais
como: a rotação da mão que sustenta o instrumento, o tapa com o polegar e o som grave com a
ponta dos dedos, a técnica invertida e também a maneira com que Marcos Suzano capta o som
do pandeiro com um microfone preso direto ao corpo do instrumento. Além disso, o principal
resultado da pesquisa foi a criação de um solo com rotinas de improvisação controlada que
chamei de Pandeiro espectral, em que utilizo as técnicas do pandeiro moderno mencionadas
acima bem como a captação do som de maneira similar à de Marcos Suzano.
O principal impulso criativo que me ajudou a desenvolver a composição de Pandeiro
espectral baseia-se na técnica utilizada por Suzano de modular o som da pele do pandeiro
utilizando o polegar da mão que sustenta o instrumento. Esta técnica, também chamada por
alguns autores de glissando e que recebeu neste trabalho o nome de técnica do pandeiro
melódico, viabiliza uma infinidade de novas possibilidades para a prática do pandeiro. A técnica
do pandeiro melódico possibilita que o pandeirista realize linhas melódicas no instrumento,
efeito que com amplificação adequada faz com que este instrumento pareça estar realizando uma
linha de contrabaixo juntamente com o ritmo. Este tipo de técnica, juntamente com outras
técnicas modernas, aliadas à possibilidade de alteração dos sons do pandeiro com pedais e
recursos eletrônicos, insere o instrumento em outros meios de atuação como o da música pop e o
da música contemporânea.
Na intenção de representar de forma mais fiel os efeitos do pandeiro melódico na
partitura, eu pesquisei métodos de pandeiro e outros trabalhos sobre o tema a fim de encontrar
uma notação adequada. Finalmente, com base nessa pesquisa, criei uma notação bastante
funcional que distingue três níveis de pressão na pele do pandeiro de maneira que sejam
claramente diferenciados os três sons disponíveis na técnica do pandeiro melódico. Acredito que
outros pandeiristas poderão usufruir desta mesma notação para transcrever suas ideias e também
que os símbolos que escolhi são de fácil compreensão por parte de qualquer músico que tenha
um conhecimento básico da escrita musical tradicional.
Para concluir, afirmo que o processo de criação deste trabalho foi imensamente
gratificante. Ao longo deste processo, mergulhei profundamente no universo do pandeiro, estive
em contato com pandeiristas de diversos lugares e pude explorar e praticar o instrumento das
27

mais diversas maneiras. O processo da leitura de outros trabalhos sobre as técnicas do pandeiro
moderno e a comunicação com grandes pandeiristas foram significativos para o processo de
criação e execução de Pandeiro espectral.
Esse processo, que contou com a exploração de diversas rotinas de improvisação
controlada, utilizadas como geradoras de seguimentos rítmicos, foi fortemente influenciado pelas
ideias de Marcos Suzano. O fluxo de execução e a acuidade da captação que acentua as
frequências graves do instrumento aliados à técnica do pandeiro melódico resultam não só dessa
influência de Marcos Suzano, mas também recebem uma base significativa na contemplação e
leitura da obra e estilo de diversos outros pandeiristas, entre os quais cito principalmente Vina
Lacerda e Bernardo Aguiar. Meu trabalho criativo busca integrar todas essas influências
consolidando-as numa peça original.
Finalmente, considero que o contato com as técnicas do pandeiro moderno contribuiu
para que as qualidades de timbre e de ritmo presentes nas técnicas tradicionais dos ritmos
brasileiros, que estão presentes nas manifestações culturais ao redor do país e que são a origem
de tudo que o pandeiro veio a se tornar, fossem valorizadas aos meus olhos. Considero também
que este trabalho possa servir como uma fonte de reflexão e prática em torno de uma técnica
ainda muito recente entre os pandeiristas, e que futuras pesquisas possam se valer das
informações e dos processos criativos aqui descritos de maneira que o estudo e a prática do
pandeiro continuem sendo aprofundados.
28

REFERÊNCIAS

ALLEN, Daniel. The philosophy of... pandeiro. San Bernardino: edição do autor, 2015.
D’ANUNCIAÇÃO, Luiz Almeida. A percussão dos ritmos brasileiros – sua técnica e sua
escrita. Caderno 2: pandeiro estilo brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: edição do autor, 2009.
DOCUMENTÁRIO - Brasileirinho. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=Tsj9LJcNQls>. Acesso em 24/09/2017.
GIANESELLA, Eduardo Flores. O Uso Idiomático dos Instrumentos de Percussão Brasileiros:
principais sistemas notacionais para o pandeiro brasileiro. Revista Música Hodie. Goiânia,
v.12, n.2, p. 188-200, 2012.
LACERDA, Vina. Pandeirada brasiliera. Curitiba: edição do autor, 2007.
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RODRIGUES, Valeria Zeidan. Pandeiros: entre a Península Ibérica e o Novo Mundo, a
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SAMPAIO, Luiz Roberto Cioce; BUB, Victor Camargo. Pandeiro brasileiro Vol. 1. São Paulo:
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UM café lá em casa com Marcos Suzano e Nelson Faria. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=dZWhAEs82ac&t=520s>. Acesso em 24/09/2017.
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Olho de Peixe. Trabalho apresentado no XXVI Congresso da Associação Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduação em Música, Belo Horizonte, 2016.
WORKSHOP Marcos Suzano parte 1. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=-NUF65Ie0sQ>. Acesso em 24/09/2017.
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ANEXOS:

Entrevista concendida por Marcos Suzano através de e-mail no dia 30 de Junho de 2017:

Luam: No meu trabalho eu chamo de técnica do pandeiro moderno, ou técnica moderna


de pandeiro, um conjunto de técnicas que são utilizadas por pandeiristas da atualidade e que
usam, também, pandeiros de couro de 10 polegadas. Eu divido estas técnicas em: A início do
toque com a ponta dos dedos (técnica invertida), B som grave com a ponta dos dedos e tapa com
o polegar e C rotação contínua da mão esquerda. Eu conversei com o Bernardo e pensei em
colocar no trabalho que você foi o "criador" da técnica moderna. No entanto, eu sei que você
baseou suas ideias a partir da ideia de outros pandeiristas como Jorginho do Pandeiro. Quão
familiar você é com o termo técnica moderna, ou técnica do pandeiro moderno e qual o grau de
responsabilidade você teria neste fenômeno?

Marcos Suzano: Sou familiarizado e acho uma boa definição, me considero um dos
pioneiros na difusão dessa técnica. O resultado mais objetivo se vê na quantidade de pandeiretas
de todas as partes do mundo empregando essa técnica, assim como o surgimento de construtores
de pandeiro em lugares até bem pouco tempo atrás, improváveis, como Japão, Estados Unidos ,
Alemanha, Argentina... meus pandeiros são feitos pelo Teruhiko toda, de Tokyo.

Luam: Das técnicas A, B, C, citadas acima. Quais seriam de autoria sua? Sei que a
técnica invertida foi você que inventou. A rotação da mão esquerda, sei que se baseou no
Jorginho do Pandeiro, no entanto, a maneira como você rotaciona a mão me parece ter sido
invenção sua também, correto (ou seria uma tendência que já estava acontecendo)? O grave com
a ponta dos dedos, alguns pandeiristas do choro já utilizavam, correto? E o tapa com o polegar,
você viu alguém fazer, você utiliza com frequência este movimento?

Marcos Suzano: Acho que a técnica invertida é de minha autoria...mas penso que há uma
possibilidade do João da Baiana utilizá-la também...mas a falta de registros é cruel nessas horas.
As outras citadas, uso todas ! O tapa com o polegar muita gente usa. O Krakowski usa muito
bem. O grave com o dedo médio vem dos pandeiretas de choro. O Jorginho e o Gilberto D`Ávila
são meus ídolos ! A dinastia Silva tem um toque lindo! Como tive a chance de ver o Jackson do
Pandeiro várias vezes, ele também usava o dedo médio pra gerar o grave e , se não me engano,
também usava a mão esquerda em rotação.
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Luam: A ideia da inclusão de um microfone no corpo do instrumento é de autoria sua?

Marcos Suzano: Acho que sim. Comecei a usar em shows do Aquarela Carioca, onde
tinha que ter mais pressão sonora. O apoio técnico do engenheiro de som Denílson Campos foi
fundamental.

Luam: Conheço alguns pandeiristas que seguem o seu estilo, o qual eu chamo de técnica
moderna, dentre eles Bernardo Aguiar, Brian Potts, Scott Feiner, Segio Krakowski, Tulio
Araujo. Você saberia nomear alguns outros pandeiristas que seguem esta mesma escola?

Marcos Suzano: Vina Lacerda, Fernando Schmidt, Yago Avelar, Clarice, Tadeu ,
Tigoko(Adriano), se lembrar de mais gente, aviso...

Luam: Estou em um capítulo do trabalho em que comento diferentes usos do pandeiro,


sei que você já trabalhou colocando efeitos no instrumento. Além disso, que outras experiências,
técnicas e tímbricas você já tentou fazer no pandeiro? Que outras técnicas ou maneiras
inovadoras você já viu por parte de outros pandeiristas? Poderia citar alguns nomes?

Marcos Suzano: Ganhei um pandeiro de um aluno meu que tinha um ganzá no lugar das
platinelas... hahaha! Mas soa bem!
Eu gosto de usar filtros lowpass, delays e pedais que alteram a afinação, tipo Whammy.
Mas tenho um Sherman 2 no meu estúdio que é bem radical... obtive resultados bem legais com
ele no meu disco Atarashii.
Às vezes uso o pandeiro no colo, tocando com as duas mãos... fica legal também. Ainda
não "triguei"o pandeiro... acho que será bem complexo o processo pra brigar o som grave quando
se quer só o grave e os outros também separadamente... mas se eu conseguisse separar pelo
menos o grave e o tapa, já ficaria feliz. Assim como usar um "gate", ao vivo...só em palcos muito
grandes e distantes do público , onde acusticamente seria impossível de haver vazamento dos
sons agudos das platinelas.
Quanto às técnicas diferentes , o Yago Avelar e os irmãos Emerson e Enio Taquari
merecem um capítulo à parte. Assim como Adriano Tigoko !!! São demais!!! Os italianos
Andrea Piccioni e Carlo Rizzo são geniais nos pandeiros italianos. Selva Ganesh na kanjira , o
pandeiro indiano, é inspiração total!
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Luam: No meu trabalho, vou criar algumas brincadeiras alterando o pitch com o polegar
da mão esquerda, pensei em chamar este efeito de pandeiro melódico. Alguns chamam de
glissando, porém estou utilizando 3 notas distintas, pele solta, um pouco apertada, e mais
apertada. Como você costuma chamar este efeito?

Marcos Suzano: Acho que glissando ou portamento pode ser uma definição legal!
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Entrevista concedida por Bernardo Aguiar transcrita a partir de mensagens de áudio em


Maio de 2017

Luam: A técnica do pandeiro moderno, com este nome, foi inventada por Marcos
Suzano? Teria data?

Bernardo Aguiar: Primeiro eu vou conceituar a maneira como eu vejo o pandeiro


moderno, né. Assim como a bateria surgiu no contexto do jazz. Um músico tocava caixa, outro
tocava bumbo e outro tocava prato e alguém começou ter a ideia de um cara tocar tudo e aí foi
desenvolvendo, mas nasceu no contexto do jazz, mas hoje a bateria serve pra tocar qualquer tipo
de música. É uma história parecida com do violão, do piano, que são instrumentos síntese, são
instrumentos que são utilizados para você sintetizar uma ideia. Eu entendo que o pandeiro está
indo pela mesma via. Tá se tornando um instrumento assim, universal, um instrumento para
traduzir ideias, quais que sejam, que não seja apenas relacionadas a um contexto musical, a um
regionalismo. Pandeiro passa a ser um instrumento pra tocar qualquer tipo de música. O pandeiro
é da família do frame drums que é uma família de instrumentos milenar, tem registro de frame
drums, supostamente há 5 mil anos antes de Cristo e por aí vai, mas eu acho que agora o
pandeiro, que é um instrumento da família do frame drums e que surgiu no Brasil, ganha esse
caráter universal. Entendeu, isso muda tudo. Eu considero, assim, como é uma coisa muito
recente mesmo, imagina que o cara inventou a bateria na década de 20 e tá começando ainda, eu
penso isso, que o pandeiro universal moderno tá surgindo ainda. É importante que haja trabalhos
como o teu e outros que eu já vi que rolam pra justamente estudar isso né, esse fenômeno. A
minha visão, particularmente é que o Suzano fundou a técnica moderna do jeito que eu entendo,
a visão que eu te passei. Agora, ele vem da linhagem do choro, assim como eu fiz essa analogia
da bateria do jazz, o pandeiro moderno vem da linguagem do choro, na minha opinião. Tem um
vídeo ótimo no Youtube que tem Jorginho do Pandeiro mostrando a linha evolutiva do pandeiro,
desde João da Baiana, aí também as inovações de muitos pandeiristas anônimos. Pandeiristas de
quem não sem tem nem foto, nem nome sabe-se direito, que foram trazendo inovações, um
inventa isso, outra inventa aquilo. A presença do grave no dedão, alguém inventou isso e isso foi
inovador, sem isso, não existiria a técnica moderna do jeito que a gente conhece hoje. Então,
vem de uma linhagem, não tá solta no tempo, mas eu entendo que Marcos Suzano foi o cara que
inventou a técnica moderna. Agora, precisar um ano, não sei, talvez seja muito simbólico o disco
Olho de Peixe com Lenine mas se você pegar os discos do Aquarela Carioca você vê que o
Suzano já estava desenvolvendo, que não foi uma coisa da noite pro dia. Você ouve os primeiros
discos ainda da década de oitenta, você que a afinação ainda não é super grave. Ele realmente
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vai vindo dessa linhagem do choro, mas eu tenho relatos de pessoas que conviveram com ele
nessa época, eu sou aqui do Rio de Janeiro e alguns amigos dos meus pais tem amigos em
comum. Meu pai, minha mãe, frequentavam a mesma galera do Suzano então viram todo o
surgimento do Suzano como músico. Ele também tinha a cabeça muito aberta pra rock’n roll,
pop, pra ritmos ímpares, essa coisa toda e ele levou o pandeiro até as últimas consequências né,
realmente desenvolveu. Pega Aquarela Carioca, os dois primeiros discos, você vê o processo
evolutivo e tem coisas como, o álbum que ele gravou com a Zizi Possi que é anterior ao Olho de
Peixe, talvez aquele do Gil seja anterior ou bem próximo, mas eu entendo que ali no Olho de
Peixe o som tá formado, o que é o pandeiro modermo. Entendeu, o que é o pandeiro moderno
com grave, a técnica, eu não sei dizer se já estava formado antes mas posso dizer que o Olho de
Peixe é um marco, além de que é um disco belíssimo, ainda têm isso.

Luam: Quais seriam as grandes inovações apresentadas nesta técnica? Rotação da mão
esquerda? Início do toque com a ponta dos dedos? Mudança do "pitch" do instrumento com a
mão esquerda? O que mais?

Bernardo Aguiar: Essa é uma pergunta bem técnica né, essa coisa de começar uma
levada, que é o seguinte né, a ideia de você dividir a mão em dois e ter grave, médio e agudo nas
duas partes da mão, faz com que você possa trabalhar com movimentos alternados, tudo isso não
é pra ser levado ao pé da letra porque, movimentos alternados é uma maneira de tocar, mas uma
maneira inovadora, no sentido que você não precisa repetir o eixo, não tem um som que só existe
em um eixo da mão, né, por exemplo, polegar faz o grave, tem o grave ali em cima, no choro já
existia esse grave. Não é todo mundo que usa, nas técnicas tradicionais espalhadas pelo Brasil,
mas o choro já rolava, mas ninguém começava a levada, qualquer técnica que você pegar, de
capoeira, de partido alto, de samba tradicional, de sei lá, fandango, de frevo, todo mundo começa
pela parte de baixo da mão, é natural, o som do grave e o do tapa são sons naturais. Então é
muito normal nestas técnicas você repetir eixos da mão. Mas o Suzano, ele entendeu, eu já fiz
essa música diretamente pra ele, ele falou que quando pegou o pandeiro pela primeira vez ele já,
intuitivamente começou com a parte de cima da mão, e esse foi um detalhezinho que fez toda a
diferença porque quando você começa a levada pela parte de cima da mão, com o grave em
cima, você coloca o tapa, pra tocar música pop por exemplo, o tapa fica no dois e no quatro e o
tapa da parte de cima da mão, ele é mais confortável, o dedão também é mais confortável, ele
fica na parte de baixo da mão, então por exemplo, você começa a levada pela parte de cima da
mão, dentro da lógica afro-brasileira, o grave, o polegar né, fica nas síncopes e fica dentro da
lógica afro brasileira. Ele fala isso no DVD Brasileirinho, tem uma cena com Jorginho e com
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Celsinho, tem essa cena ele falando. Essa técnica fez sentido tanto pra tocar pop, porque esse
tapa mais confortável de ser dado, que é esse tapa com a parte de cima da mão, cai no dois e no
quatro, usando movimentos alternados e os graves caem nas síncopes e tem tudo a ver com o
trabalho que o rum faz, na cultura afro brasileira, tem muito essa coisa do grave fazer o solo,
interagir com a dança, fazer o transe, né, e isso tem muita coisa de síncope, então você
começando por cima, você ganha em todos os sentidos, e aí a ideia, eu dou aula e tal, eu passo a
ideia de que a gente tem que procurar fazer as levadas começando por cima e por baixo, mesmo
que você vá escolher uma maneira melhor, que seja mais confortável, na hora de decidir se
começa por cima e por baixo, o conforto é um critério. Levadas com o tapa da parte de cima são
mais confortáveis de serem dadas do que com o tapa na parte de baixo, isso assim, de uma
maneira bem natural, então, mas a ideia é que você consiga tocar qualquer ritmo tanto
começando por cima quanto começando por baixo, essa é a ideia, entendeu, da técnica, a
filosofia da técnica. Então, isso muda tudo, esse ponto aí. E aí, vocÊ perguntou, rotação da mão
esquerda, tem haver com movimentos alternados, que também é inovador, é uma máquina né, eu
chamo de máquina, esse é um nome que eu dei junto com Brian Potts, que tá me ajudando a
escrever meu método, a gente usa essa ideia de rotação da mão esquerda. Aí com essa ideia de
movimentos alternados você acaba dando mais trabalho pra mão esquerda e a mão direita fica
confortável tocando. Depois de um tempo você não pensa mais, é que nem andar. E é assim com
a mão esquerda também, aí gera um conforto né, fica bem intuitivo. Isso é uma inovação forte..
Mudança do pitch, com certeza, aí é uma coisa, no meu método eu chamo de técnica avançada,
que aí é uma coisa mais que torna o pandeiro delicioso, você poder mexer com o pitch né, fazer
melodias, eu exploro muito isso no Pandeiro e Repique Duo. São coisas inovadoras.

Luam: Estes tempos li no seu site que você estaria lançando um livro sobre este tema.
Existe previsão de lançamento? Como é esta ideia? Você usará algumas das técnicas citadas
acima?

Bernardo Aguiar: Pois então, não é um livro exatamente é um método, muito focado no
áudio visual, já tá tudo gravado essa parte áudio visual, eu tenho trabalhado diariamente nisso,
agora que tô no Rio, e agora to aproveitando o tempo para prosseguir no método. É um método
da técnica moderna e uso essas técnicas que a gente falou claro, pretendo lançar esse ano, corro
pra isso e é um método que eu dividi em adaptações, tradições e criações. Acontece que eu só
gravei adaptações porque eu entendo que noventa porcento do método é adaptações e o étodo eu
entendo que vai ser uma coisa em construção. Na verdade eu trabalhei muito escrevendo e na
hora de gravar o áudio visual eu gravei só alguns então tem muito trabalho escrito que ainda não
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tá publicado mas eu tô focado nesse material áudio visual, eu pretendendo lançar em streaming
pras pessoas que estejam espalhadas no mundo poderem acessar. E aí, essa coisa de você pegar
um ritmo que já existe no mundo e adaptar pro pandeiro, então por exemplo, você pega um
maracatu, maracatu não tem pandeiro tocado tradicionalmente, nada te impede de ouvir o
maracatu e adaptar algum elemento, pegar o desenho da alfaia e transpor mas pensando na caixa
e botar um gonguê, você pega a somatória de tudo e adapta. Seja ritmos de raiz como o maracatu
ou ritmos eletrônicos como drum n bass, essa é a ideia. E adaptações também diz respeito a
ritmos que tem o pandeiro sendo tocado tradicionalmente, por exemplo samba, samba tem a
maneira tradicional de tocar, mas também nada te impede de você adaptar outra coisas, outros
elementos do samba, você ouvir um repique de mão, um repique de anel e adaptar essa
linguagem, duas atabaques tocando juntom, ou uma levada de tamborim, uma levada de caixa,
então você pode adaptar isso pro pandeiro. A gente tá falando de um gênero, samba, que existe o
pandeiro sendo tocado tradicionalmente mas a minha abordagem no caso é utilizar a maneira
tradicional para adaptar alguma coisa a mais que não seja tradição. Adaptação é uma coisa muito
genérico e diz respeito a ritmos consolidados no mundo, sei lá o reggae, o funk americano, o
funk carioca e por aí vai. Aí eu tô divindo assim, adaptações, aí tem tradições que é essa coisa da
inspiração, da raiz, mas é importante dizer dentro da filosofia da técnica moderna, não importa se
você toca tradição ou não, o instrumento é feito para você colocar ideias, o cara pode estar na
Austrália, no Japão, na China e tocar pandeiro sem nunca ter tocado um samba, ou ritmos
brasileiros, essa é uma filosofia da técnica, você não precisa tocar ritmos de raiz pra poder tocar
pandeiro porque é um instrumento de síntese, agora, eu pessoalmente tenho uma pesquisa com
ritmos de raiz, e tudo mais, então, acho interessante, pra mim funciona como uma coisa de
inspiração, de trazer ideias, um manancial de ideias e tal, então eu vou incluir mais pra frente
essa parte mas não vai ser uma coisa muito aprofundada não, só pra deixar claro essa diferença
da tradição para adaptação. E criação são ritmos originais que eu criei na minha trajetória,
técnicas originais que eu vou criando, descobrindo, a filosofia da técnica é a certeza de que o
pandeiro é um instrumento infinito, é o frame drum né, isso não tem fim. Então é muito legal
pensar o pandeiro daqui vinte anos, vinte anos é amanhã em perspectiva histórica, como vai tá o
pandeiro daqui vinte anos, vai ter muita coisa acontecendo nestes vinte anos, então é isso,
pandeiro moderno é infinito.

Luam: Você poderia nomear alguns pandeiristas que se apropriam da técnica do pandeiro
moderno?
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Bernardo Aguiar: Rapaz, tem muita gente né, eu fico até com medo de esquecer de
pessoas, tem muita gente no mundo, nesse momento to recebendo aqui, tá me ajudando a
concluir meu método, Brian Potts, que fez até um doutorado sobre pandeiro na universidade de
Miami, você já deve ter cruzado com o nome dele. Sergio Krakowski, tem um cara do Uruguai,
Nacho Delgado, tem Scott Feiner, Vina Lacerda, tem Sebastian Notini, sueco que mora na
banheiro, tem Tikogo, baiano, tá morando em Berlim, toca pra caramba. Tem um livro que um
cara da Austrália fez com esse levantamento, uma porrada de pandeirista, ele me entrevistou na
época.

Luam: Você por acaso já encontrou notação específica para a técnica de mudar o pitch
do pandeiro?

Bernardo Aguiar: Rapaz, nunca tinha encontrado, aí eu e o Brian, a gente desenvolveu


isso. A gente tá botando uma setinha pra cima, a gente tá tentando tornar o mais universal
possível, claro que a gente não tá utilizando aquela notação que o Suzano inventou, G, Gdm,
nada disso. A gente tá utilizando uma notação próxima à notação que o Vina Lacerda pegou, até
quando eu comecei o trabalho eu tava com essa busca de criar uma notação mais universal
possível, a gente começou a desenvolver de uma maneira diferente, depois a gente chegou a
conclusão que a gente não precisa inventar a roda, que já inventaram né. Então essa notação que
o Vina usou no livro dele é a notação que a gente partiu e tem coisas que não foram ainda
adaptadas, aí a gente inventou, e o pitch é uma delas, aí tem o sinal de glissando, tipo uma
escadinha, também estamos usando isso.