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Alternativas para una Iglesia que camina con espíritu y desde los pobres

O PENSAMENTO TEOLÓGICO
DE JOSÉ COMBLIN1

Eduardo Hoornaert*

Em vez de tecer comentários acerca do teólogo José Comblin e


de seu pensamento, pensamos que fosse útil ler textos de sua própria
autoria. São palavras pronunciadas, no calor da hora, num curso na-
cional de formadores de comunidades de base, realizado no Centro de
Formação Paulo Freire em Caruaru (Brasil), numa data desconhecida
–provavelmente no início dos anos 1980, tempos finais da ditadura
militar–. Em seguida apresentamos uma seleção de frases colhidas de
alguns livros de Comblin pelo historiador frei Hugo Fragoso –irmão
do bispo Antônio Fragoso–. Finalmente selecionamos alguns aforis-
mos tirados do livro Vocação para a liberdade2.

1 Temática da oficina (taller) desenvolvida com Marcelo Barros, durante o II Con-


gresso Continental de Teologia, em Belo Horizonte, nos dias 27, 28 y 29 de
octubre, em 2015, sobre o pensamento teológico de José Comblin.
*
Nasceu na Bélgica e reside há vários anos no Brasil. É historiador. Ensinou his-
tória da Igreja nos seminários de João Pessoa, Fortaleza e Recife. Foi professor
do extinto Instituto de Teologia do Recife. Asessor das Comunidades Eclesiais
de Base. É um dos fundadores da Comissão de Estudos da História da Igreja na
América Latina, e autor de vários artigos e livros sobre história do cristianismo.
2 Comblin, J. (1988). Vocação para a liberdade. São Paulo: Paulus.

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1. Os dez mandamentos da militância3

Primeiro mandamento: vencer o medo

A imensa massa vive conformada, humilhada pela situação atual


em que vive a humanidade. Nós militantes não podemos aceitar a ex-
clusão social, não podemos nos conformar. Alguns escravos se revolta-
ram com a situação da escravidão, mais a grande maioria se conformou.
A força dos dominadores está na conformação das grandes massas,
na resignação das grandes massas. Nós não aceitamos a opressão e a
dominação. Daí nasce nossa consciência moral, nasce o ser humano
responsável, nasce o grito da dignidade humana.
O medo é grande: o medo de levantar a voz, o medo das autoridades,
o medo que está dentro da gente. Há de se vencer o medo que está nas
grandes massas. 50 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de mi-
séria: 50 milhões de pessoas que têm medo. A vida moral começa quan-
do se vence o medo. Temos de levar as grandes massas a vencer o medo.

Segundo mandamento: vencer a mentira

Vivemos numa forma exterior de democracia. As leis só favorecem


os dominadores. A democracia é a fachada da mentira dos dominado-
res e governantes. Ela só serve aos interesses dos dominadores.
O sistema foi criado para não haver mudanças, para evitar, impedir
e desestimular qualquer tentativa de mudança. É preciso denunciar a
mentira, é ir construindo o valor ético e moral.

Terceiro mandamento: sentir-se responsável pela sociedade

Temos de nos sentir, como militantes, responsáveis por toda comu-


nidade humana: ‘eu posso fazer alguma coisa. Eu sou capaz de agir, eu

3 Comblin, J. Curso nacional de formadores de comunidades de base. Caruaru, data desco-


nhecida.

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sou capaz de julgar. Eu tenho capacidade’. Sentir-se capaz e assumir a


responsabilidade. Despertar o sentimento de responsabilidade que está
adormecido na grande maioria das massas dominadas. As pessoas cos-
tumam dizer: ’as coisas sempre foram assim, e sempre vão ser assim’.

Quarto mandamento: ficar inserido no povo

Se os militantes não respeitam a força do povo, eles não são povo.


Há de se meter no meio do povo e participar, sentir, ter paciência,
respeitar a consciência das grandes massas. Ter paciência e sempre ter
muito amor ao povo. Para poder despertar a consciência do povo, o mi-
litante tem que contar com uma paciência infinita. Transmitir a men-
sagem a partir da resistência e da paciência, persistindo, persistindo.
É do povo a força, é do povo o poder da mudança. É preciso ter uma
paciência imensa, uma persistência infinita.
Amor ao povo é despertar a vida, a vontade de viver, é despertar a
vontade de servir para despertar as massas deste sentimento de impo-
tência que está no meio do povo. Um grupo voluntarista não consegue
mudança se não estiver unido à grande maioria. É preciso despertar a
consciência adormecida das grandes maiorias e ter cuidado para não
chegar à conclusão que o povo não quer mudança. É preciso despertar
no povo a confiança em si mesmo.

Quinto mandamento: não se isolar

A força dos pobres está no número, na ação comunitária, na ação


do conjunto. Saber juntar as forças sem procurar a própria glória, sem
autovalorizar a sua importância. Não procurar prestígio em detrimento
da ação coletiva, comunitária.
A cultura dominante diz: que cada um defenda a si mesmo, cada
um se salve como puder. Salve-se quem puder, cuide-se de si mesmo.
Esta é uma mensagem que se escuta mil vezes por dia. ‘Eu tanto que
me sacrifiquei, que pensei nos outros, agora quero viver a minha vida.
Quando era jovem, eu era muito ingênuo por isso me sacrifiquei tanto’.

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‘Quem não é socialista aos 20 anos não tem coração. Quem continua
socialista aos 60 anos não tem cabeça’. Eis uma mensagem bastante
difundida nos meios da militância mais antiga e ela provém do isola-
mento do militante. A consciência ética nos orienta a construir juntos,
libertar juntos.

Sexto mandamento: pressionar sem praticar violência

A violência não resolve, ela corrompe. Ela não se desprende, se


acostuma e cria vício. Se é verdade que as leis foram criadas para que
os pobres fiquem calados, então é preciso infringir as leis. É no ato de
desobediência que aparece a consciência. Se uma pessoa isolada des-
obedece, ela vai para a cadeia. Se um milhão de pessoas desobedece, a
lei cede.
A ação coletiva constrói a consciência coletiva. Trata-se de agir
além da lei. Tudo é feito para defender as estruturas estabelecidas. Os
sistemas democráticos jamais levarão às mudanças. É preciso ter outras
estratégias para denunciar o sistema. A consciência moral consiste em
agir além da lei.

Sétimo mandamento: agir com inteligência

É preciso estudar as estratégias dos dominadores. Não existe poder


total e absoluto. Temos de agir nas brechas, nas fraquezas do sistema.
Uma das fraquezas do sistema é a propriedade latifundiária, por exem-
plo. O sistema de propriedade rural no Brasil é um escândalo mundial.
Um governo com sensibilidade social pode aproveitar dessa brecha,
dessa fraqueza do sistema. Infelizmente, até agora, parece que Lula4
não se deu conta disso.

4 Luiz Inácio Lula da Silva, militante e fundador do Partido dos Trabalhadores,


foi presidente do Brasil oito anos, entre o 1º de janeiro de 2003 e o 1º de janeiro
de 2011 (nota dos editores).

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Oitavo mandamento: ter coragem

É preciso perseverar, enfrentar os desânimos, enfrentar a


cumplicidade dos que apostam nas fraquezas. É preciso vencer os
desânimos, o cansaço, a desilusão. Coragem, perseverança, teimosia.
Não se consegue nada sem coragem. Só é derrotado quem se reconhece
derrotado. Quem não se reconhece derrotado não é derrotado. Nunca
se pode declarar-se derrotado.

Nono mandamento: participar da vida dos pobres

Não basta um bom discurso, é preciso participar da vida coletiva.


Ser solidário, estar junto. Não se pode dizer: ‘nós somos os conscientes,
os justos, os verdadeiros. Os outros, o povo, são os inocentes úteis’.
Não se pode dizer: ‘eu fiz um curso, sou superior aos outros’. É preciso
ser semelhante ao outro. De outro modo, não se cria confiança, não se
constrói cumplicidade coletiva.
Quem se acha superior e mais importante, desperta ódio na grande
maioria. Somos militantes participantes na vida dos outros, compa-
nheiros entre companheiros. Assim podemos despertar as energias que
estão adormecidas no meio do povo. Dizia Dom Hélder Câmara: ‘o
nosso maior aliado é o povo’.
Quem tem o privilégio de estudar e depois não volta à sua base, às
suas raízes, se afasta da realidade. Ele já não sabe mais o que acontece
no meio do povo. O pobre tem horror a pobreza. Quando consegue
sair, não quer mais voltar. Ele diz: ‘eu me salvei da pobreza, eu me salvei
da ignorância’, e se esquece de seu irmão.

Décimo mandamento: agir com disciplina

Fundamental é a disciplina voluntária. Não a disciplina do medo


dos quartéis, mas a disciplina voluntária e consciente da militância.
Toda ação coletiva supõe organização e disciplina.

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2. Alguns pensamentos espalhados pelos livros de


José Comblin

Sobre a liberdade:

“A vocação para a liberdade é a novidade do Evangelho de Cristo.


É a conclusão final de toda a história bíblica, o fundamento da nova
existência para a humanidade toda. O Reino de Deus pode ser resumi-
do nas palavras: Reino de Deus significa liberdade”5.

“O erro histórico foi ter inserido Deus e a Bíblia dentro de um


sistema de pensamento racional, segundo os métodos dos filósofos
gregos. Isso resulta em bitolar a ação do Espírito dentro das balizas da
organização eclesiástica”6.

“Cristo, diz Paulo, é o Espírito e o Espírito é a liberdade. O evan-


gelho, portanto, é o anúncio da liberdade”7.

“Segundo a Bíblia, a liberdade é mais que uma qualidade, é um


atributo de ser humano. É a própria razão de ser da humanidade. O
maior obstáculo [ao evangelho da liberdade] foi a teologia escolástica.
Uma vez que essa adotou os conceitos da filosofia grega, não teve mais
lugar para falar em liberdade”8.

“Que Deus é amor e que a vocação humana é a liberdade são as


duas faces da mesma realidade, as duas vertentes do mesmo movimen-
to”9.

5 Op. cit., Comblin. Vocação..., p. 43.


6 Ibíd., p. 163.
7 Comblin, J. (1974). Théologie de la practique révolutionnaire. Paris.
8 Comblin, J. (1996). Cristãos rumo ao século XXI. São Paulo: Paulus, p. 63.
9 Op. cit., Comblin. Vocação…

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Sobre a democracia:

“É impressionante o atual abuso da palavra ‘democracia’ no


discurso dos líderes das grandes potências mundiais. Na realidade, a
democracia é a fachada de mentira dos dominadores e governantes. Só
serve aos interesses dos grandes. O sistema foi criado para não haver
mudanças, para impedir, evitar e desestimular qualquer tentativa de
mudança. Denunciar a mentira é ir construindo o valor ético e moral.
As leis foram criadas para que os pobres fiquem calados. Aplicando
as leis não se consegue nada. É preciso infringir as leis. A vida moral
começa quando se vence o medo. É no ato de desobedecer que aparece
a consciência”10.

Sobre a desobediência:

“A vida moral só começa quando se vence o medo. As leis foram


criadas para que os pobres fiquem calados. Aplicando as leis não se
consegue nada. É preciso infringir as leis. Num só ato, a pessoa des-
cobre a miséria dos outros e de si própria, tem compaixão do outro,
entrega-se ao movimento interior e age”11.

Sobre ordem e desordem:

“O amor não funda a ordem, mas a desordem. Ele funda a liber-


dade e, por conseguinte, a desordem. Pois o pecado é consequência do
amor de Deus que nos faz livres. Que Deus é amor e que a vocação
humana é a liberdade são as duas faces da mesma realidade, as duas
vertentes do mesmo movimento”12.

10 Op. cit., Comblin. Curso…


11 Op. cit., Comblin. Vocação…, pp. 47-48.
12 Ibíd.

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“No mundo grego o mundo é ordem, submissão a leis eternas. So-


mente vale a ordem eterna das coisas, e as pessoas apenas aceitam o seu
lugar nessa ordem. Na Bíblia, todavia, tudo é diferente, porque Deus é
amor. O amor não funda ordem, mas desordem. O amor quebra toda
estrutura de ordem. O amor funda a liberdade e, por conseguinte, a
desordem. O pecado é consequência do amor de Deus”13.

“Sem liberdade humana o pecado seria impossível. No entanto,


Deus criou a possibilidade do pecado e por isso não intervém para
impedir o pecado. Mas a Igreja, querendo impedir o pecado, pode
provocar pecado maior, que é a rejeição da mensagem de amor e de
perdão de Deus”14.

Sobre a história e a passagem das gerações:

“No judaísmo nasceu o conceito de história, pelo qual se dá valor


ao tempo. Em todas as outras civilizações, o tempo não tem valor.
Tempo é fidelidade, paciência, esperança contra toda esperança. Jesus
anuncia a chegada do Reino de deus com sua presença na Galileia”15.

Sobre a Igreja:

“A Igreja não existe a não ser no Espírito e sob a movimentação do


Espírito”16.

“Não é sobre a Igreja que devemos nos apoiar, mas sim sobre o que
constitui o apoio da própria Igreja, única fonte de sua força, o Espírito
de Deus. A liberdade na comunidade eclesial hoje pede sobretudo três
coisas: (1) o poder de cada comunidade elaborar o seu direito; (2) o
direito de escolher os dirigentes: bispo, vigários e demais ministros;
13 Op. cit., Comblin. Cristãos…, p. 88.
14 Ibíd., p. 68.
15 Comblin, J. (2008). A profecia na Igreja. São Paulo: Paulus, p. 70.
16 Comblin, J. (1982). O tempo da ação. Petrópolis: Vozes, p. 15.

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(3) o poder de recorrer a uma instância judicial imparcial em caso de


conflito”17.

Sobre a espiritualidade:

“Não adianta limitar-se a rezar, refletir ou meditar. Deus quer a


liberdade, quer o agir com liberdade”18.

“[Num determinado momento da história do cristianismo] a con-


templação superou a ação: gerou-se o tema da superioridade da vida
contemplativa, tão diferente das doutrinas do Novo Testamento”19.

“Não há tarefa mais urgente que unir de novo o que esteve separa-
do durante tanto tempo: o político e o religioso, o social e o místico”20.

“Há experiências puramente sentimentais, outras puramente extá-


ticas... O mal seria pensar que são experiências do verdadeiro Deus”21.

Sobre a teologia:

“Os místicos ignoraram a teologia e tiveram a impressão de não


terem perdido nada”22.

Sobre o espírito crítico:

“A reserva crítica e a autonomia diante dos melhores movimentos e


das melhores organizações nunca pode ser dispensada”23.

17 Op. cit., Comblin. Vocação…, p. 298.


18 Ibíd., p. 247.
19 Ibíd., p. 90.
20 Op. cit., Comblin. O tempo…, p. 105
21 Op. cit., Comblin. Cristãos…, p. 328.
22 Comblin, J. (1987). O Espírito Santo e a libertação. Petrópolis: Vozes, p. 154.
23 Comblin, J. (1985). Antropologia cristã. Petrópolis: Vozes, p. 229.

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3. Alguns aforismos tirados do livro Vocação para a


liberdade

“É no ato de desobedecer que aparece a consciência”.

“A força dos dominadores está na conformação dos dominados”.

“As leis foram criadas para que os pobres fiquem calados. Aplican-
do as leis não se consegue nada. É preciso infringir as leis”.

“A vida moral começa quando se vence o medo”.

“Agir além da lei”.

“Só é derrotado quem se reconhece como tal”.

“Para poder despertar a consciência do povo, o militante tem que


contar com uma infinita paciência”.

“A democracia é a fachada da mentira dos dominadores e gover-


nantes, ela só serve aos interesses dos grandes”.

“Segundo a Bíblia, a liberdade é mais do que uma qualidade, um


atributo de ser humano: é a própria razão de ser de humanidade”.

“O amor não fundamenta a ordem, mas a desordem”.

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