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Iglesia que camina con Espíritu y desde los pobres

TEOLOGIA, AÇÕES AFIRMATIVAS E


NEGRITUDE: DIÁLOGOS POSSÍVEIS NO
CONTEXTO BRASILEIRO1

Caio César Sousa Marçal*

Ao longo dos últimos anos, o Brasil começou tardiamente a dis-


cutir e implementar ações afirmativas para o povo afrodescendente.
Depois de muita luta dos movimentos sociais, a Lei 12.711/2012,
que garante a reserva de vagas para afrodescendentes em universidades
públicas federais e a e Lei 12.990/2014, que destina para eles 20%
dos cargos em concursos federais, apontam para um novo momento na
vida brasileira. Porém essa discussão traz a tona uma série de questões
em torno do racismo que ainda é presente em nossa sociedade.
Nosso trabalho, de caráter qualitativo, aponta quais as abordagens
teológicas possíveis que dialogam com a implementação de políticas
de ações afirmativas para negros, a partir do contexto brasileiro e do
necessário enfrentamento ao racismo nas diversas esferas da sociedade,
além de mostrar algumas iniciativas importantes de alguns movimentos
cristãos nas demandas étnicos raciais.

1 Comunicação científica apresentada no II Congresso Continental de Teologia,


em Belo Horizonte, em 27 de outubro de 2015.
*
Graduado em teologia pelo Centro Universitário Izabela Hendrix e graduando
em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. É secretário de
mobilização da rede FALE, um movimento cristão de defesa de direitos. Atua
também como missionário na ocupação Rosa Leão, em Belo Horizonte (Minas
Gerais, Brasil).

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1. Introdução

Uma das questões mais relevantes na promoção dos direitos huma-


nos no Brasil tem sido a luta contra racismo estrutural, que ainda está
presente em diversas expressões dentro do país. Com muita luta dos
movimentos negros, nos últimos anos o Brasil tem experimentado um
novo momento em relação a esse enfrentamento com a implementação
de políticas de ação afirmativa.
O papel dessas políticas é de promover ação reparatória que visa
corrigir as situações de discriminação e desigualdade que prejudicou
certos grupos em algum momento da história. Tais compensações po-
dem ser por meio da valorização de ordem sócio-econômica, política
ou mesmo de âmbito cultural; tais políticas devem ocorrer num deter-
minado período de tempo.
É no debate internacional promovido pela III Conferência mundial
contra racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata,
realizada em Durban (África do Sul), no ano de 2001, que se fortaleceu
ainda mais a discussão sobre o imperativo de implementação de políti-
cas focadas na população negra, afirma Ronaldo Adriano dos Santos2.
Em 21 de março de 2013, foi criada pelo então presidente Luiz Inácio
Lula a secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial.
Tais políticas afirmativas progrediram no país quando a presidenta
da república, Dilma Rousseff sancionou, no dia 29 de agosto de 2012,
a Lei 12.711 que estabelece cotas para universidades federais e para
os institutos técnicos federais de todo o país. A Lei assegura que as
universidades públicas federais e os institutos técnicos federais de nível
médio reservem, no mínimo, 50% das vagas para estudantes que te-
nham concluído o ensino médio em colégios da rede pública. As vagas
são distribuídas entre negros (pretos e pardos) e indígenas, baseado nas
estatísticas mais atuais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).

2 Santos, R.A. (2014). “Ações afirmativas para negros no ensino superior através
das políticas de cotas”. Em: Revista Jurídica Cesumar, v. 14, n. 1, p. 38.

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Em 9 de junho de 2014, Rousseff sancionou a Lei 12.990, que


reserva aos negros 20% das vagas ofertadas nos concursos públicos
para provisão de cargos efetivos e empregos públicos na esfera da ad-
ministração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das
empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela
União3.
Ante esse novo momento que tem trazido um amplo debate sobre
as relações étnico raciais no Brasil, nosso trabalho deseja relacionar o
tema das políticas de ação afirmativa para afrodescendentes com a teo-
logia como parte necessária para o combate a toda forma de exclusão
que os negros tem ainda enfrentado.

2. Jubileu, ética social bíblica e políticas de ação


afirmativa

Segundo Vinoth Ramachandra e Howard Peskett, a missão cristã


não está preocupada apenas com os indivíduos, pois a preocupação de
Deus envolve também o ambiente físico e biológico que mantém suas
vidas, assim como as estruturas sociais, econômicas, políticas e intelec-
tuais que determinam as formas de sua existência4.
O motor que move a ação missionária da fé cristocêntrica não é um
movimento que se exime das questões relacionadas aos direitos huma-
nos. Para David Eduardo Lara Corredor, Corredor, a peleja em torno
dos direitos humanos deve ser “parte da espiritualidade, do agir como
Deus age, de ir até onde vai o próprio Deus, até dar a vida para gerar
vida, com entranhas de misericórdia”5.

3 Em 18 de março de 2015, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tri-


bunal Federal (STF), assinou uma resolução que estabelece cotas para negros
nos concursos para o STF e para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
4 Ramachandra, V. e Peskett, H. (2005). A mensagem da missão. São Paulo: ABU
Editora, p. 26.
5 Corredor, D. (2015). “Fundamentação teológica dos direitos humanos”. Em:
Cadernos de Teologia Pública, v. 1, n. 1, p. 13.

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James Cone6 indica que não pode ter teologia cristã que não tenha
perspectiva sociopolítica, pois o discurso teológico é discorrer acerca
do Deus de Jesus que se desponta na luta dos oprimidos pela liberda-
de. Então a teologia deve também tornar-se política, falando a favor
do Deus dos oprimidos. Cone entende que a ênfase bíblica sobre o
contínuo ato de libertação operado por Deus no presente e no futuro,
expressa que a teologia não pode simplesmente reproduzir o que a
Bíblia narra, pois a teologia deve ser profética, caso contrário, perde a
razão de ser. Para tanto, o papel do teólogo, deve ser o de correr o risco
de ser proféticos para promover uma reflexão bíblica que traga luz em
favor daqueles que são desfavorecidos e sem voz na sociedade.

A teologia é sempre uma palavra sobre a libertação dos


oprimidos e dos humilhados. É uma palavra de julgamento para os
opressores e os governantes. Todas as vezes que os teólogos falharem
em tornar esse ponto inquestionavelmente claro, eles não estarão
fazendo teologia cristã, mas a teologia do Anticristo7.

Na dialética entre teologia cristã e os direitos humanos, é inegável


no ensino das escrituras bíblicas que o ser humano é especial, pois todo
homem e mulher são criados a ‘imagem e semelhança’ do Criador. Nes-
se sentido, toda e qualquer relação baseada em dominação que geram
desigualdades entre os seres humanos é inaceitável. Tal ensinamento
indica que qualquer forma de desrespeito e violência ao próximo é um
insulto ao próprio Deus, pois “o que oprime ao pobre insulta ao seu
Criador“ (Pv 14, 31).
É nesse paradigma essencial que se dá o projeto redentor de Javé
para toda humanidade: o Deus libertador que socorre o aflito, o mar-
ginalizado e o espoliado, promotor de restauração da dignidade do ne-
cessitado e do aflito. Enquanto faraó, uma divindade pagã que chancela

6 Cf. Cone, J. (1985). O Deus dos oprimidos. São Paulo: Paulinas.


7 Ibíd., p. 94.

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uma ordem social estratificada e que produz desigualdades, Javé sub-


verte a ordem ao ouvir as orações de um povo escravo, além de planejar
e convocar Moisés na participação de seu ato revolucionário.
A narrativa bíblica da libertação dos judeus das garras opressoras
de faraó, revela que, enquanto livra o povo de Israel do jugo de um
tirano, Javé os reorientam para que cumpram seu chamado de ser uma
nação que, nas suas relações sociais, sejam um exemplo para todos os
povos, ao sinalizar os valores do Deus da vida a partir das leis do jubi-
leu na terra prometida.
O jubileu é marcado por várias medidas ou ações de caráter social,
sendo que algumas valem também para o ano sabático. Tais normas
incidem sobres questões como repouso da terra –dimensão ecológi-
ca–, perdão de dívidas –dimensão econômica–, devolução e partilha de
propriedade –dimensão do acesso a moradia e a terra como modo de
subsistência–, libertação dos escravos –dimensão trabalhista–. O ‘ano
da graça do Senhor’ não é outra coisa senão o Ano do jubileu do livro
do Levítico no capítulo 5.
A ação de Jesus, portanto, que o situa como continuador da obra
dos grandes profetas do Antigo Testamento, é apresentada como sendo
a instalação do Ano do jubileu, e para isso o Espírito do Senhor está
sobre ele e o consagra com a unção, isto é, o faz Messias, Cristo. A ideia
do Ano do jubileu, não é difícil perceber, privilegia os pobres e fracos
dentro da sociedade do antigo Israel, em detrimento dos poderosos.
Jesus, ao retomar essa ideia há muito esquecida, mostra-se parcialmente
situado ao lado dos pobres e explorados de sua época.
Quando Cristo expressa que a ‘boa notícia’ do Reino de Deus é para
os pobres, que opera com a agenda de libertar os oprimidos e anunciar
o ano aceitável do Senhor –Ano do jubileu–, causa enorme desconfor-
to. Essa revelação faz os líderes mancomunados com os césares desse
mundo bufarem de raiva em seus templos palacianos e desejarem pre-
cipitar o Messias do topo de uma colina, como bem narra são Lucas
em seu Evangelho. Nessa passagem, é colocado uma séria implicação
política para seus seguidores: os cristãos são chamados a colaborar com
o projeto cósmico de redenção de toda ordem criada. São convocados

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para perceberem os clamores daqueles que estão em situação de mar-


ginalidade e opressão, tomando partido em favor desses e a indicar o
horizonte ético do jubileu bíblico como uma utopia possível.
Assim é fundamental a compreensão que todo o Evangelho indica
ao imperativo do ‘princípio da igualdade’, que é uma das bases para a
promoção das leis de ação afirmativa para negros no Brasil. Porém, a
busca desse princípio quando reconhecemos as desigualdades causadas
pela maldade humana.
Não há como se considerar que o negro, após ser liberto da escra-
vidão, teria condições de competir em pé de igualdade com os brancos,
que passaram séculos se beneficiando da força de trabalho dos afrodes-
cendentes. No Brasil, tanto a economia como as relações sociais perdu-
raram por mais de três séculos, determinadas no regime da escravidão
negra. O mito de que éramos uma ‘democracia racial’ apenas mascarou
a condição de subalternidade em que afrodescendentes estão enquadra-
dos: pobres, alvo da violência institucional.
Dalmo Dallari nos adverte que a ideia de democracia obriga a su-
peração de concepção mecânica e tacanha da igualdade8. Tal concepção
via como um ‘direito’, porém sem cogitar que não se pode tratar grupos
discriminados historicamente de forma igual a outros grupos que sem-
pre estiveram em situação de privilégio. É preciso fazer com que ações
corretivas que façam com que a igualdade seja uma possibilidade real.

O que não se admite é a desigualdade no ponto de partida,


que assegura tudo a alguns, desde a melhor condição econômica até
o melhor preparo intelectual, negando tudo a outros, mantendo os
primeiros em situação de privilégio, mesmo que sejam socialmente
inúteis ou negativos9.

Visto pelos opositores das políticas de ação afirmativa para afro-

8 Cf. Dallari, D. (2005). Elementos da teoria geral do Estado. 25. ed. São Paulo: Saraiva.
9 Ibíd., p. 308.

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descendentes como ‘tratamento desigual’, tais leis já são bastante co-


rriqueiras no nosso ordenamento jurídico, que garante leis que benefi-
ciam idosos, porcentagem mínima para candidaturas de mulheres em
eleições proporcionais, proteção processual do trabalhador frente ao
empregador, por exemplo, entre muitas outras. O Estado é autoriza-
do a criar distinções de maneira de promover a igualdade em grupos
historicamente desiguais. Dessa forma, a adoção de ações afirmativas é
uma decorrência natural e lógica do princípio da igualdade que orienta
nossa Constituição.
Quanto a questão do trabalho e libertação do escravo, as normas
do jubileu são peremptórias:

Quando um teu irmão hebreu, homem ou mulher, se tiver


vendido a ti, ele te servirá seis anos, mas no sétimo ano deixá-lo-ás ir
livre de tua casa. Não o deixarás partir com as mãos vazias quando
o despedires, mas dar-lhe-ás alguma coisa dos teus rebanhos, da tua
eira e do teu lagar, uma parte dos bens com, que o Senhor, teu Deus,
te cumulou. Lembra-te de que estiveste em servidão no Egito, de
onde foste resgatado pelo Senhor, teu Deus; é por isso que hoje te
imponho este mandamento (Dt 15, 12-15).

É importante advertir que a prática do trabalho escravo no contexto


da saga do hebreu libertária contada no Pentateuco, nos mostra que
isso acontecia por conta de dívidas não pagas.
Em segundo lugar, vemos que na lógica do jubileu está colocada
uma das bandeiras fundamentais da luta dos movimentos sociais na
promoção de políticas de ações afirmativas, que é a noção de reparação
histórica. Na Lei áurea assinada pela princesa Isabel, “não houve nen-
hum sinal de garantia legal ao negro do ponto de vista jurídico que lhe
desse qualquer tipo de indenização ou direito de propriedade”, lembra
Ronaldo dos Santos10.

10 Op. cit., Santos, p. 277.

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Não há como se considerar que o negro, após ser liberto da escra-


vidão, teria condições de competir em pé de igualdade com os brancos,
que passaram séculos se beneficiando da força de trabalho dos afrodes-
cendentes. No Brasil, tanto a economia como as relações sociais perdu-
raram por mais de três séculos, determinadas no regime da escravidão
negra.
O preço desse longuíssimo trabalho não remunerado só agora co-
meça a pagar tamanha dívida histórica. Há uma dívida história, fato
inegável e que precisa ainda ser corrigida. Esse lamentável passado es-
cravagista deixou profundos estigmas que até hoje nos fazem tratar
com naturalidade a situação de inferioridade dos afrodescendentes.

3. Mobilização cristã em torno das políticas de ação


afirmativas para negros

Nos tempos da escravidão negra no Brasil, os cristãos de diversas


confissões tiveram uma postura lamentável. Institucionalmente nenhu-
ma das igrejas teve uma posição radical contra a escravidão. Se na Igreja
católica não houve nenhuma ruptura concreta com o modelo escravo-
crata, as poucas igrejas protestantes não manifestaram nenhum tipo de
postura mais ferrenha.
Apesar de que não se tenha havido qualquer manifesto em bene-
fício dos escravos negros e em favor da abolição, podemos mencionar
casos isolados de protestantes que tiveram documentadas suas atuações
em favor do negro.
Um deles é de Robert Kalley, missionário escocês que fundou
a Igreja evangélica fluminense. Segundo José Carlos Barbosa, Kalley
expulsou de sua igreja Bernardino de Oliveira, que se negava a li-
bertar seus escravos. O missionário, que também se ocupava em dar
aulas para negros, frequentemente pregava contra essa vil prática11.

11 Barbosa, J. (2002). Negro não entra na igreja: espia da banda de fora. Piracicaba: Uni-
mep, p. 11.

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Embora tenha havido vergonhoso hiato entre as igrejas cristãs no Brasil


sobre a temática da negritude em grande parte do século XX, é preciso
também reconhecer que há esforços por parte de alguns atores para que
reverter esse procedimento.
No campo católico, é preciso se destacar a pastoral afro-brasileira,
que conta com a coordenação do padre Jurandyr Azevedo de Araújo.
Para Araújo, “a abolição da escravatura é uma obra inconclusa devido
às precárias condições de vida da população negra”12.
A história dessa pastoral tem como acontecimento chave a Cam-
panha da Fraternidade de 1988, cujo assunto foi “a fraternidade e o
negro”. Criada oficialmente em 2002 pela Confederação dos Bispos
do Brasil (CNBB), cumpre um papel aglutinador entre os diversos mo-
vimentos católicos articulados em torno da negritude.
É preciso mencionar outras iniciativas cristãs como o Comissão
Ecumênica de Combate ao Racismo (CENACORA), a Aliança de Ne-
gras e Negros Evangélicos (ANNEB), a Sociedade Cultural Missões
Quilombo e Ministério de Ações Afirmativas Afrodescendentes da
Igreja Metodista. Essas entidades promovem juntas o Encontro afro-
cristão, que convida diversas organizações cristãs com militância em
direitos humanos, como a rede Fale (movimento evangélico que tem
como lema “levante sua voz contra a injustiça”) e a Rede Ecumênica
de Juventude (REJU).
Na mobilização no enfrentamento para sensibilizar para as políti-
cas de ação afirmativas para afrodescendentes, em 2004, a Educafro13 e
a rede Fale promoveram a campanha “fale pela diversidade brasileira”,
que pressionava as autoridades para adoção de políticas de ação afirma-
tiva nas universidades, em favor de afrodescendentes. No entendimento

12 Cf. “Pastoral afro diz que abolição da escravatura é obra inacabada” Dispo-
nível em: http://br.radiovaticana.va/news/2015/05/13/pastoral_afro_recor-
da_aboli%C3%A7%C3%A3o_da_escravatura_como_%E2%80%9Cobra_
ina/1143667. Acesso em 20 de agosto de 2015.
13 O objetivo da Educafro, que é ligada historicamente ao catolicismo, é promover
a inclusão da população negra nas universidades públicas e particulares do Brasil
através de cursos e parcerias.

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da campanha,

a sociedade brasileira precisa saldar uma dívida histórica com 45,6%


de sua população. A Constituição Federal assegura a todos uma série
de garantias como a educação, a saúde e o direito ao trabalho –o
desafio é fazer a lei sair do papel e promover a inclusão dos grupos
discriminados em nossa sociedade–. Os números da desigualdade
no Brasil são alarmantes quando analisados em relação à cor da pele
–esta injustiça pode ser corrigida a partir de ações específicas–14.

Frei David dos Santos, que tem sido uma voz profética em torno
da implementação das políticas de ação afirmativa no Brasil, afirma:
“as cotas colocam a questão da coexistência das etnias como um desa-
fio a ser trabalhado”15. Para ele, o “direito de ingressar em uma uni-
versidade pública não pode ser privilégio de uma etnia. Coexistência é
também dividir as oportunidades”16.
A coexistência provocada pela adoção dessas leis é ainda um grande
desafio para os negros que acessaram as políticas de ação afirmativa.
Cada vez mais tem sido frequentes atos racistas em universidades. Há
ainda forte resistência de setores da sociedade civil em torno da ques-
tão17.

14 Cf. “Fale pela Diversidade Brasileira”. Disponível em: http://formacaoredefale.


pbworks.com/w/file/99635175/cartao_fale_pela_diversidade_brasileira.doc.
Acesso em 10 de agosto de 2015.
15 Comissão editorial (2007). “Debate. Políticas de ação afirmativa: inclusão no
ensino superior”. Em: Cadernos de Campo, v. 16, n. 16, mar. 2007. São Paulo,
pp. 239-251. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/
article/view/50092. Acesso em: 23 agosto de 2015.
16 Ibíd.
17 Em abril de 2015 jovens negros universitários cotistas da Universidade de Bra-
sília fizeram uma campanha chamada “ah, branco, dá um tempo”, como ato
de denúncia contra ofensas raciais que costumam ouvir de alguns colegas não
negros.

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4. Conclusão

As políticas de ação afirmativa não são um ato de benemerência,


apenas uma justiça, que é um dos valores centrais da mensagem cristã.
O desafio para a promoção dessas políticas se dá no enfrentamento
contra a naturalização produzida pelo racismo à brasileira. Para tanto,
compete aos cristãos engajados na luta pela dignidade humana, tomar
partido em favor daqueles que foram silenciados e negados a terem seus
direitos reconhecidos.
Não são episódicos atos de discriminação contra cotistas por não
entender as demandas referentes a busca da equidade e da justa repa-
ração de quem sofreu dano. Calar-se também é tomar partido. Nesse
caso, ficar ao lado da opressão. Se posicionar em favor dessas políti-
cas, é também uma ação educativa em favor nossas comunidades de fé,
que precisam ainda ser acordadas frente a dura realidade do negro. É
também um ato educativo em relação ao não negro, que terá enfim a
possibilidade de coexistir com a diversidade, fruto da graça criadora
de Deus.
Em tempos de individualismos e discursos meramente exclusivistas
no campo da religião, precisamos resgatar o conceito de evangelização
que não faz discursos rotos ou justificativas que isentam a Igreja de seu
papel no mundo. Para aqueles que se calam, resta dizer que esse silêncio
é fruto de uma fé morta e inoperante. Em tempos de tantos racismos,
violências, divisões e classismos, cruzar os braços é apenas e tão somen-
te ao trair a causa do Reino de Deus manifestado em Jesus de Nazaré.

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