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DIALÉTICA DAS RELAÇÕES R ACIAIS

Dialética das relações raciais
OCTAVIO IANNI

parece um desafio do presente, mas trata-se de algo que

A
QUESTÃO RACIAL
existe desde há muito tempo. Modifica-se ao acaso das situações, das
formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais, mas reitera-se con-
tinuamente, modificada, mas persistente. Esse é o enigma com o qual se defron-
tam uns e outros, intolerantes e tolerantes, discriminados e preconceituosos, segre-
gados e arrogantes, subordinados e dominantes, em todo o mundo. Mais do que
tudo isso, a questão racial revela, de forma particularmente evidente, nuançada e
estridente, como funciona a fábrica da sociedade, compreendendo identidade e al-
teridade, diversidade e desigualdade, cooperação e hierarquização, dominação e
alienação.
Vista assim, em perspectiva ampla, a história do mundo moderno é tam-
bém a história da questão racial, um dos dilemas da modernidade. Ao lado de
outros dilemas, também fundamentais, como as guerras religiosas, as desigualda-
des masculino-feminino, o contraponto natureza e sociedade e as contradições de
classes sociais, a questão racial revela-se um desafio permanente, tanto para indiví-
duos e coletividades como para cientistas sociais, filósofos e artistas. Uns e ou-
tros, com freqüência, são desafiados a viver situações e/ou interpretá-las, sem
alcançar sua explicação ou mesmo resolvê-las. São muitas e recorrentes as ten-
sões e contradições polarizadas em termos de preconceitos, xenofobias, etnicismos,
segregacionismos ou racismos; multiplicadas ou reiteradas no curso dos anos,
décadas e séculos, nos diferentes países.
Esse é o dilema envolvido na polêmica entre Bartolomeu de Las Casas e
Juan Ginés de Sepúlveda, na época da conquista do Novo Mundo, repetindo-se
e desenvolvendo-se nas vivências e ideologias, teorias e utopias de muitos, no
curso dos tempos modernos. Essa é uma história na qual entram Herbert Spencer,
Conde de Gobineau e Georges Lapouge, tanto quanto o evolucionismo e o
darwinimo social, o nazismo e o americanismo1.
Em certa medida, o debate relativo ao “choque de civilizações” implica xe-
nofobia, etnicismo e racismo. Ao hierarquizar as “civilizações”, hierarquizando
também povos, nações, nacionalidades e etnias, é evidente que se promove a
classificação, entre positiva, negativa, neutra ou indefinida, de uns e de outros.
Quando Samuel P. Huntington classifica as “civilizações contemporâneas” em
chinesa, japonesa, hindu, islâmica, ocidental e latino-americana, está, simultanea-
mente, estabelecendo alguma relação entre etnia, ou raça, e cultura, ou civiliza-
ção; uma relação cientificamente insustentável, desde Fraz Boas, mesmo quando
dissimulada. Essa é, obviamente, uma implicação da sua “teoria”, ao priorizar a

ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50), 2004 21

intolerâncias e racismos. com referência ao padrão de civilização capitalista desenvolvida na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América do Norte. “racionalização”. no início do século XXI. as tensões e lutas de classes. Aliás. na constituição do seu mapa do mundo. conquistas e colonizações. pela etnia. demonstrando que o “desencanta- mento do mundo” como metáfora do esclarecimento e da emancipação. em 2002 no Afeganistão. “tecnificação” e outros emblemas ideológicos do “ocidentalismo”2 . qualificáveis ou inqualificáveis. “prosperidade”. a começar pelo ciclo das grandes navegações. do colonialismo. no século XXI continuam a desenvolver-se operações de “limpeza étnica”. compreendendo in- clusive países do “primeiro-mundo”. a metamorfose da etnia em raça. Está empe- nhado em delinear a geopolítica de alcance mundial que está sendo exercida pelas elites governantes e as classes dominantes norte-americanas desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) entrando pelo século XXI. uma prática “oficializada” pelo nazismo nos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). tanto quanto com a intolerância religiosa. a transfiguração da marca ou traço feno- típico em estigma. compreendendo nacionalidades. uma “recomposição da ordem mundial” de conformidade com a geopolítica norte-americana. debatendo-se com a questão racial. ou vice-versa. como exigências da “missão civilizatória” do Oci- 22 ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). “lucratividade”. esse contrabando etnicista. torna a ocorrer no início do século XXI. A guerra de conquista travada pelas elites governantes e classes dominantes norte-america- nas. conti- nua a ser desafiada por preconceitos e superstições. Zbigniew Brzezinski. xenó- fobo ou racista está presente em diferentes pensadores empenhados em “expli- car” o mundo em termos de “modernização”. também ou mesmo principalmente. interesses e ideologias 3. colonizando. desde o início dos tempos modernos. e em 2003 no Iraque. comunistas e outros. por sua escala de “modernização”. muitos se dão conta de que está novamente em curso um vasto processo de racialização do mundo. comba- tendo ou mutilando outras “civilizações”. Sim. ciganos. simultaneamente “ocidentalismo”. Essa é a ideo- logia que informa também o pensamento e a prática de Henry Kissinger. pode perfeitamente fazer parte da longa guerra de conquistas travadas em várias partes do mundo. Toma cada “civilização” como se fosse “essências”. É assim que o mundo ingressa no século XXI. as hierarquias masculino-feminino. 2004 . quando indi- víduos e coletividades. O que ocorreu em outras épocas. São dile- mas que se desenvolvem com a modernidade. são leva- dos a dar-se conta de que se definem. povos e nações. em nome da “civilização ocidental”. do imperialismo ou do capitalismo. outros povos ou etnias. É evidente que Huntington “esquece” a presença e a atuação do mercanti- lismo. irracionalismos e idiossincrasias. “tecnificação”. a contradição natureza e socie- dade. “produ- tividade”. praticadas em diferentes países e colônias.O C T AV I O I A N N I “civilização ocidental”. Mais uma vez. descobrimentos. Condoleezza Rice e outros. atingindo judeus. arro- gando-se como herdeira do “ocidentalismo” como guardião do capitalismo.

• Um segredo da constituição da “raça”. em locais de trabalho. desde o início dos tem- pos modernos. como técnicas de expansão do capita- lismo. chinês. mutilando práxis humana. o que se manifesta na xenofo- bia. e transformação da marca em estigma. dado. Note-se que o estigma não atinge apenas aqueles que pertencem a “ou- tras” etnias. os adeptos de outras religiões. árabe. Cabe refletir. segregação racismo. trama de relações no contraponto e nas tensões “identidade”. dominação e aliena- ção. como “fardo do homem branco” . o comunista. etnicismo. “alteridade”. 2004 23 . visto como modo de produção e processo civilizatório. revela-se inclusive uma técnica política. preconceitos. “diversidade”. cultu- rais. portanto. criada. garantindo a arti- culação sistêmica em que se fundam as estruturas de poder. divisão social do trabalho social. grupos. na medida em que o indivíduo em causa. está em relação com outros. na trama das relações sociais. psicossocial e cultural. das atividades lúdicas às estruturas de poder4 . Sob todos os aspectos. traço. da escola à igreja. Racionalizar uns e outros. japonês. intolerâncias. formas de sociabilidade e jogos de forças sociais. aos poucos é identificado. compreendendo as suas implicações políticas. mas uma con- dição social. • A raça. indivíduos. a “raça” é sempre “racialização”. expresso em ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). Mesmo porque uns e outros. envolvendo jogos de forças sociais e progressos de do- minação e apropriação. in- questionável. hierarquização e alienação. DIALÉTICA DAS RELAÇÕES R ACIAIS dente. reiterando-se recorrentemente em diferentes níveis das rela- ções sociais. famílias e coletividades estão inseridos em processos de coopera- ção. econômicas. Racializar ou estigmatizar o “outro” e os “outros” é também politizar as relações cotidia- nas. Característica ou marca fenotípica por parte de uns e de outros. segregações. judeu. A “raça” não é uma condição biológica como a etnia. indivíduos e coletividades. pela classificação e hierarquização. está na acen- tuação de algum signo. classificado. recorrentes. racismos e ideologias raciais. Estigma esse que se insere e se impregna nos comportamentos e subjetividades. a racialização e o racismo são produzidos na dinâmica das relações sociais. o operário. hierarquizado. como categoria social. hierarquização. acentuando a alienação de uns e outros. hindu. o traço. sobre o enigma ou os enigmas escondidos na ques- tão racial. Simultaneamente. como se fosse “natural”. desde a vizinhança aos locais de trabalho. angolano. Aos poucos. do entretenimento ao esporte. bloqueando relações. índio. Trata-se de elaboração psicossocial e cultural com a qual a “marca” transfigura-se em “estigma”. podendo ser negro. paraguaio ou porto-riquenho. reiterada e desenvolvida na trama das relações sociais. já que atinge também a mulher. em todo o mundo. priorizado ou subalternizado. É a dialética das relações sociais que promove a metamorfose da etnia em raça. possibilidades de participação. a ca- racterística ou a marca fenotípica transfigura-se em estigma. o camponês. como sucessão e multiplicação de xenofobias. estudo e entretenimento. preconceito. compreendendo integração e fragmentação. etnicismos. inibindo aspirações.

São estereótipos. judeu. séculos. através dos meios de comunicação. por diferente. o intolerante. dos que mandam. “ariano”. “justificam”. delimitando. delimita ou subordina o “outro” e a “outra”. o etnocismo. agressão. signos. • A ideologia racial dos que discriminam. Sendo que esses traços. da indústria cultural. décadas. com o qual se assinala. essa ideologia racial é transmitida por gerações e gerações. • É evidente que a personalidade. a competição e o êxito pes- soal. irreconhecíveis.O C T AV I O I A N N I algum signo. Sartre e outros. incômoda. reiterada em diferentes formulas e verbalizações. en- volvendo a individualização e o individualismo. os quais podem ser “brancos” ou outros. símbolos ou emblemas com os quais indivíduos e coletividades “explicam”. é levado a ver-se e a movimentar-se como estigmatizado. exóticos. desqualifica. ou estruturas de personalidade. distinguindo. Sob vários aspectos. des- creve. de controle de instrumentos de poder. o intolerante e a condição de subalternidade em que está jogado. a sensibilidade e a subjetividade do racista desempenha um papel importante ou mesmo decisivo na trama das rela- ções e das formas de sociabilidade. traduzindo-se geralmente em mais lucidez. signos. tomando em conta o estigma e o estigma- tizador. tensões e conflitos raciais. exótico. podendo ser negro. árabe. maior discernimento. estrangeiro. índio chinês. estereótipo. Sem esquecer que aquele que marginalizado ou estigmatizado desenvolve uma consciência social singu- larmente sensível. arguta. fina. judeu. com os quais o “branco”. indivíduo ou coletivo. neuróticas e psicóticas. racionaliza ou naturaliza a sua posição e perspectiva privilegiadas. Este é um aspecto fundamental da ideologia racial: o estigmatizado. tomados como estranhos. “europeu”. segregando ou estranhando o “outro”: negro. egoístas e altruístas. “ocidental” explica. aberta ou veladamente. “dolicocéfalo”. Precisa elaborar e desenvol- ver a sua autoconsciência crítica. árabe. a despeito de saber que se trata de uma mentira. O racista fundamenta em argumentos que parecem consistentes e convin- centes a sua “taxionomia” e “hierarquização”. “norte-ameri- cano”. ódio. sintetiza e dinamiza a intolerância. às vezes exercem um papel decisivo no modo pelo qual o indivíduo em causa se relaciona com o “outro” ou os “outros”. 2004 . legitima. tanto quanto estóicas e apáticas. símbolos mobilizados ao acaso das situações elaboradas no curso de anos. desenvolvendo a meta- morfose da marca em estigma. É a ideologia racial que articula e desenvolve a gama de manifestações. “racionalizam”. qualifica. estranho. ameaça. surpreendente. preconceituoso ou racista. oriental e assim por diante. demarca. o preconceito ou o racismo. Conforme sugerem Adorno. o que é também diferente e surpreendente5 . inventa o objeto de sua intolerância. Na fábrica da sociedade burguesa. Nesse sentido é que essa ideologia é uma técnica de estigmatização recorrente. ameaças. alheio ao “nós”. formam-se personali- dades democráticas e autoritárias. a xenofobia. o status socioeconômico e a classificação social. envolvendo também sistema de ensino. emblema. instituições reli- 24 ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). “naturalizam” ou “ideologizam” desigualdades. diferentes.

definidos de antemão como participantes tolerados da “comunidade nacional”6 . construindo e recons- truindo a sua consciência no contraponto do “eu” e do “outro”. Mais do que isso. na dinâmica das relações. “Cruel” porque implica neutralizar eventuais reações ou protestos. DIALÉTICA DAS RELAÇÕES R ACIAIS giosas e partidos políticos. realiza um entendimento mais amplo e vivo de qual é a sua real situação. administrador. e tem sido. o estigmatizado. do etnicismo ou do racismo. aos poucos. com as quais os que mandam ou desmandam empenham-se em preservar “a lei e a ordem”. ou de repente. um componente nuclear da cultura da modernidade burguesa. uma democracia social. É assim que o estigmatizado ela- bora e reelabora a sua identidade: no contraponto com a alteridade. a ruptura ou a transfiguração. sangue e lágrimas no meio. elabo- rada desde o alpendre da casa-grande. pode ser uma cruel mistificação da desigualdade. da intolerância. Nesse percurso atravessado por vivências. do “nós” e do “eles”. geralmente mas não sempre “branco”. elabora criticamente a própria situação e a do “outro”. colonizador. muito menos. como “argamassas” da ordem social vigente. “desconhecido”. dos “subalternos”. reivindicação. sem ser uma democracia política e. 2004 25 . Esse o percurso em que se desenvolve a consciência crítica. os quais se imaginam “superiores”. Assim. reivindicações ou lutas dos estigmatizados. ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). Um sol bem tropical ardendo forte. Simul- taneamente à estigmatização. o estigmatizado de- senvolve a sua percepção. É claro que essa expressão dissimula uma sofisticada forma de racismo patriarcal. Um navio negreiro como faca: mar de sal. continuando a ser. conquistador. Charqueada Grande Oliveira Silveira Um talho fundo na carne do mapa: Américas e África margeiam. sensibilidade. ventos alíseos no varal dos juncos e sal e o sol e o vento sul no corte de uma ferida que não seca nunca7. reconhecendo que é desde essa auto- consciência crítica que nasce a transformação. a autoconsciência ou a consciência para si. significando que a sociedade brasileira seria uma democracia racial. patrimonial. cria ou engendra “o mito da democracia racial”. capataz. Esse o contexto em que for- mula. quais são os nexos do tecido social no qual está emaranhado. de como essa sua situação implica decisivamente a ideologia e a prática dos que discriminam. membro de setores sociais dominantes. compreensão. • É óbvio que o discriminado. do preconceito. emancipação. o segregado. indignação. desiguais. dos “dominantes”. definido como “estranho”. da lei e da ordem. “civilizadores”. ideologia de protesto. “não confiável” elabora a sua contra-ideolo- gia. processos e estruturas hierarquizadas.

disse o famoso líder negro americano William E. treze. Reviro os bolsos à procura do passe que me permite.. simultaneamente. 2004 . A Princesa esqueceu-se de assinar nossas carteiras de trabalho. a relação das raças mais escuras com as mais claras. em 1900. transitório. ilhas e arquipélagos. à medida que se formam e se trans- formam as castas e as classes sociais. Marx.. O que já se esboçava no século XVI com a polêmica entre Bartolomeu de Las Casas e Juan Ginés de Sepúlveda. dialética essa que res- soa e desenvolve-se em escritos de Rousseau. em todos os continentes. e oitenta e oito. desenvolve-se. oitocentos. Fanon e muitos outros. Desconfio. São Paulo. Foi uma notável profecia. burguesa. • No limite. Engels. políticas. a questão racial. ideológicas. um primeiro momen- to da consciência crítica. mas histórico e. Gramsci. A noite sobressaltada por sirenes me sacode. aprofunda-se e gene- raliza-se no curso dos séculos seguintes. culturais. argúcia e contundência da famosa frase. com a qual Caliban anuncia a sua revolta contra Próspero: “Foi bom que você tivesse me ensinado a sua língua. Daí a excepcional clareza. capitalista. Bughardt Du Bois. que Palmares vivo é necessário8. A longo pra- 26 ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). cruzar ruas em latente paz. dos homens na Ásia e da África. pode ser vista como uma expressão e um desenvolvimento fundamentais do que tem sido a dialética escravo e senhor no curso da história do mundo moderno. na América e nas ilhas do ma. do subalterno contra o conquistador. Assim nasce a rebeldia do colonizado contra o colonizador. da autoconsciência para si. em todas as suas implicações sociais. por- tanto. visto o capitalismo como um modo de produção e processo civilizatório. “O problema do século XX”. pelo impacto do Ocidente ba Ásia e África e pela revolta da Ásia e da África contra o Ocidente. A história do sécu- lo atual foi marcada. ago- ra já sei como amaldiçoá-lo”. sim. Hegel. a propósito dos povos e civilizações do Novo Mundo. Constitui um ângulo par- ticularmente crucial e fecundo do que têm sido os diferentes desenvolvi- mentos da sociedade moderna.O C T AV I O I A N N I Presentinho Paulo Colina Maio. “é o problema da barreira de cor. me soam como um sussurro cósmico. mil. econômicas.

forma-se. todos e cada um visto como criados e recriados. o “branco”. o “senegalês”. classes sociais e nacionalidades. todos se rela- cionando. o “angola- no”. o “bur- guês”. fundamental na filosofia. como a mulher e o homem. grupos sociais. tanto como o “operário”.. o “mexicano”. o que pode transformá-lo e transformá-los. o “paraguaio”. Du Bois (1868-1963) A dialética do escravo e do senhor pode ser tomada como uma das mais im- portantes alegorias do mundo moderno. o “latifundiário”. o norte-americano e o latino-americano. São várias.. no singular e coletivamente. o árabe e o judeu. o ocidental e o oriental.. ciências sociais e artes. considerado estagnadas. com excessiva facilidade. 2004 27 . nas quais se inserem as relações raciais: o indivíduo. o operário e o burguês. daí constituindo-se o “negro”. jogos de forças sociais. Esta é a dialética das relações sociais. um processo em que eles demonstraram ser mais aptos que a maioria dos europeus tinha previsto. tanto como a “mulher”. o jovem e o adulto. os sul-africanos e os bôers ou afriksners. que podiam ser aproveitadas contra as potências ocupantes. formas de sociabilidade. o “árabe”. diferentes coletividades. modificados e transfigurados na trama das relações sociais. mutáveis e contraditórias as determinações que cons- tituem o indivíduo. técnicas e instituições ocidentais. o “homem”. o “camponês”. Está presente em distintos círculos sociais. integrando-se e tensionando-se nos jogos das forças sociais. Foto Agência France Presse W. conforma-se e transforma-se na trama das relações sociais. O primeiro fator foi a assimilação por asiáticos e africanos das idéias. ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). DIALÉTICA DAS RELAÇÕES R ACIAIS zo. o “hindu”. O segundo foi a vitalidade e a capacidade de auto-renovação de sociedades que os europeus tinham.. envolvendo tanto etnias e raças. decrépitas ou moribundas”9. dois fatores foram fundamentais. o “ju- deu”. tomado no singular ou coletivamente.

o “nós” e o “eles”. São enigmas que nascem e se desenvolvem com a modernidade. não em sociedades nacionais. concretizado por várias. A despeito de inegáveis conquistas sociais realizadas no curso dos tempos modernos. e da modernidade-mundo. em síntese. envolvendo sempre processos socioculturais e político-econômicos. diversidade e desigualdade. desenvolve-se e intensifica-se mais um ciclo de racialização do mundo. desdobrando-se em teorias. como também na sociedade mundial. a ideologia e a utopia. ou se- gunda modernidade. assim como de transnacionalização de movimen- tos sociais de todos os tipos. divisão do trabalho social e alienação. distintas e contraditórias determinações. Cortesia Arquivo Florestan Fernandes Em 4 de julho de 1990. ambas conjugando-se e tensionando-se no curso dos tempos e espaços do mapa do mundo. tensões e lutas religiosas implicadas na geopolítica do terrorismo e crescente consciência de que o próprio planeta Terra está ameaçado. o contraponto natureza e sociedade e as contra- dições de classes sociais. se desenvolvem e se transfiguram em diferentes círculos de relações sociais. 28 ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). revelando que a modernidade seria ininteligível sem esses dilemas. Ianni e Florestan participam de Congresso realizado em Coimbra. doutrinas e ideologias. Assim se dá a metamorfose do indivíduo “em geral”. por dentro e por fora do “desencantamento do mundo”. bur- guesa. em indivíduo “em particular”. além de outros problemas com implicações práticas e teóri- cas. uma idéia. compreendendo identidade e alteridade. fabrica contínua e reiteradamente a questão racial. hipótese ou interpretação. De par em par com a globalização da questão social. Esse o clima em que ger- mina o “eu” e o “outro”. capitalista. ou de quando em quando: a sociedade moderna.O C T AV I O I A N N I das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais. esses e outros enigmas se criam e se recriam. reivindicações étnicas. ou primeira modernidade. os quais desafiam a prática e a teoria. com o qual todos se defrontam cotidianamente. Esta é. determinado. lutas sociais e emancipação. cooperação e hierarquização. Esses são os problemas e enigmas da modernidade-nação. Portugal. indeterminado. envolvendo feministas. 2004 . assim como as desigualdades masculino-feminino.

Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. Notas 1 Michael Banton. 1957. Paris. São Paulo. cap. Bernard Lewis. E. 1967.). Zahar. “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem”. trad. ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). pp. “o mundo sem fronteiras”. Soren Hvalkof e Peter Aaby (eds. Panikkar. Race and Culture Contacts in the Modern World. Policial Science Quaterly. com os quais se fermenta a sociedade do futuro. Ronald Segal. 1985. 1993. trad. 1979. Thomas Sowell. The Race War. Rio de Janeiro. 1992-1993. Hobson. encobertas ou latentes. Franklin Frazier. 1994. São Paulo. Cortes. Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. vol. 1986. John McGarry e Bredan O’ Leary (orgs. The Politics of Ethnic Conflict Regulation. Rio de Janeiro.C. 4 Oracy Nogueira. esses problemas ou enigmas podem ser tomados como contradições sociais aber- tas. de Raoul Audouin. Erving Goffman. Boston. Antonio Marques Bessa. outro tipo de sociedade. 2002. Estigma. 2004 29 . Knoupf. 1975. Companhia Editora Americana. Queiroz. da vida. Oxford University Press Oxford. “Racial and Ethnic Conflicts: A Global Perspective”. Richard Hofstadter. Imperalism. DIALÉTICA DAS RELAÇÕES R ACIAIS Seria fácil reconhecer que esses enigmas estão na “natureza” das coisas. Objetiva. Livraria Martins Fon- tes. Pandemonium: Ethnicity in International Politics. 1967. Toronto.. Is God an American! International Work Group for Indigenous Affairs. Mas é possível imaginar que esses problemas ou enigmas podem ser fer- mentos de outras formas de sociabilidade. com os quais se põe em causa a ordem social burguesa prevalecente. Rio de Janeiro. Routledge. Alfred A. trad. nº4. 67-93.de Nemesio Salles. A dominação ocidental na Ásia. “a nova ordem eco- nômico-social mundial”. A maioria das práticas e dos discursos sobre “a lei e a ordem”. Capitalismo e escravidão. Copenhagen. 1977. K. de Carlos Nayfeld. de Wanda Caldeira Brant.M. a prática do neoliberalismo” implica “naturalizar” ou “ideologizar” o status quo: modificar alguma coisa para que nada se transforme. A Banton Book. Rita Jalali e Seymour Martin Lipset. 3 Daniel Patrick Moynihan. revelando-se a sua incapacidade e impossibilidade de resolvê-los. trad. O problema da escravidão na cultura ociden- tal. reduzi-los ou eliminá-los. Eric Williams. David Brion Davis. “o fim da história” ou “a teoria.A. 1997. permeando amplamente o tecido das sociedades na- cionais e da sociedade mundial.H. 585- 606. ainda que manejáveis. Paz e Terra.de M. E é esse o pensamento de muitos. como enigmas insolúveis. Social Darwinism in American Thought. O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial. outros jogos das forças sociais. 1965. Zahar. em diferentes partes do mundo. Rio de Janeiro. trad. New York. Sim. Eric R. outro modo de produção e processo civilizatório. A idéia de raça. Ann Arbor. Europe and the People without History. Berkeley. 2 Samuel P. T. Politique et économie (une approche internationale). 1981. 107. Huntington. ou da sociedade burguesa.A. J. 3ª ed.). Beacon Press. London. 1982. Rio de Janeiro. O que deu errado no Oriente Médio!. Race. University of California Press. moderna. Presses Universitaires de France. Wolf. New York. trad. 1975. trad. pp.

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