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Revista de difusão e discussão da produção intelectual marxista
em sua diversidade, bem como de intervenção no debate
e na luta teórica em curso.

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Copyright © Andréia Galvão, Armando Boito Jr.,
Caio Navarro de Toledo, Isabel Loureiro,
João Quartim de Moraes, Jorge Grespan, Patrícia Trópia, 2009

Crítica Marxista no 30 – 2010

Capa: Andreia Yanaguita


Revisão: Lucas Puntel Carrasco
Editoração eletrônica: Eduardo Seiji Seki

ISSN 0104-9321-30

Periodicidade semestral

Todos os direitos reservados.


É vedada, nos termos da lei, a reprodução de qualquer parte
desta publicação sem a expressa autorização da editora.

1a edição 2010

Indexada em Worldwide Political Science Abstracts,


Sociological Abstracts e Social Services Abstracts

Distribuição
FUNDAÇÃO EDITORA UNESP
Praça da Sé, 108 – Centro
CEP 01001-900 – São Paulo – SP
Tel.: + 55 11 3242-7171
Fax: + 55 11 3242-7172
www.editoraunesp.com.br
www.livrariaunesp.com.br
feu@editora.unesp.br

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Comitê editorial
Andréia Galvão – Universidade Estadual de Campinas / Armando Boito Jr. – Universidade Estadual
de Campinas / Caio Navarro de Toledo – Universidade Estadual de Campinas / Décio Saes – Uni-
versidade Metodista de São Paulo / Isabel Maria Loureiro – Universidade Estadual Paulista / João
Quartim de Moraes – Universidade Estadual de Campinas / Jorge Grespan – Universidade de São
Paulo / Luciano Cavini Martorano – Cientista Político / Patrícia Vieira Trópia – Universidade Federal
de Uberlândia (MG) / Sérgio Lessa – Universidade Federal de Alagoas / Virgínia Fontes – Universi-
dade Federal Fluminense

Conselho editorial
Adalberto Paranhos – Universidade Federal de Florestan Fernandes – in memoriam / Francis
Uberlândia / Adriana Doyle Portugal – Socióloga / Guimarães Nogueira – Unioeste (PR) / Francisco
Adriano N. Codato – Universidade Federal do Hardman – Universidade Estadual de Campinas /
Paraná / Altamiro Borges – Jornalista / Aldo Du- Francisco Farias – Universidade Federal do Piauí
rán Gil – Universidade Federal de Uberlândia / / Francisco Teixeira – Universidade Estadual do
Amarilio Ferreira Junior – Universidade Federal Ceará / Gabriel Vitullo – Universidade Federal do
de São Carlos / Ana Lúcia Goulart de Faria – Rio Grande do Norte / Gilberto Luis Alves – Uni-
Universidade Estadual de Campinas / Andriei versidade Federal do Mato Grosso do Sul / Gon-
Gutierrez – Cientista Político / Ângela Lazagna zalo Rojas – Universidade Federal de Campina
– Cientista Política / Anita Handfas – Universidade Grande (PB) / Hector Saint-Pierre – Universidade
Federal do Rio de Janeiro / Antônio Andrioli – Uni- Estadual Paulista / Henrique Amorim – Sociólogo
versidade de Ijuí (RS) / Arlete Moisés Rodrigues / Hermenegildo Bastos – Universidade Nacional
– Universidade Estadual de Campinas / Augusto de Brasília / Homero Costa – Universidade
Buonicore – Historiador / Carlos César Almendra Federal do Rio Grande do Norte / Iná Camargo
– Fundação Santo André (SP) / Carlos Zacarias – Universidade de São Paulo / Isaac Akcelrud
de Sena Júnior – Universidade Estadual da Bahia – in memoriam / Jacob Gorender – Historiador
/ Ciro Flamarion Cardoso – Universidade Fede- / João Francisco Tidei de Lima – Universidade
ral Fluminense / Claudinei Coletti – Sociólogo / Estadual Paulista / João Roberto Martins Filho
Claus Germer – Universidade Federal do Paraná – Universidade Federal de São Carlos / Jorge
/ Clóvis Moura – in memoriam / Cristiano Ferraz Miglioli – Universidade Estadual de Campinas
– Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia / José Carlos Ruy – Jornalista / José Corrêa
/ Danilo Martuscelli – Cientista Político / Diorge Leite – Jornalista / José dos Santos Souza –
Konrad – Universidade Federal de Santa Maria Universidade Federal Rural (RJ) / José Claudinei
(RS) / Edgard Carone – in memoriam / Edilson Lombardi – Universidade Estadual de Campinas
Graciolli – Universidade Federal de Uberlândia / / José Roberto Cabrera – Cientista Político / José
Emir Sader – Universidade de São Paulo / Emma- Roberto Zan – Universidade Estadual de Cam-
nuel Appel – Universidade Federal do Paraná / pinas / Leandro José Galastri – cientista político
Eurelino Coelho – Universidade Estadual de Feira / Leda Maria de Oliveira Rodrigues – Pontifícia
de Santana (BA) / Ester Vaisman – Universidade Universidade Católica de São Paulo / Lígia Maria
Federal de Minas Gerais / Fernando Novais – Osório – Universidade Estadual de Campinas /
Universidade Estadual de Campinas / Fernando Luiz Eduardo Motta – Universidade Federal do
Ponte de Souza – Universidade Federal de Santa Rio de Janeiro / Luziano Mendes de Lima – Uni-
Catarina / Flávio de Castro – Cientista Político / versidade Estadual de Alagoas / Marcelo Ridenti

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– Universidade Estadual de Campinas / Marco Paulo Cunha – Universidade Estadual Paulista
Antonio dos Santos – Centro Cultural Antonio / Paulo Denisar Fraga – Universidade Federal
Carlos Carvalho (RJ) / Marcos Del Roio – Univer- de Alfenas (MG) / Paulo H. Martinez – Univer-
sidade Estadual Paulista / Maria Elisa Cevasco sidade Estadual Paulista / Pedro Leão Costa
– Universidade de São Paulo / Maria Lucia Frizon Neto – Universidade Tuiuti (PR) / Pedro Paulo
Rizzotto – Unioeste (PR) / Mario Lima (in memo- Funari – Universidade Estadual de Campinas /
riam) / Marly Vianna – Universidade Salgado de Regina Maneschy – Socióloga / Reinaldo Carca-
Oliveira (RJ) / Mauro Iasi – Faculdade de Direito nholo – Universidade Federal do Espírito Santo
de São Bernardo / Maurício Tragtenberg – in me- / Renato Perissinotto – Universidade Federal do
moriam / Maurício Vieira Martins – Universidade Paraná / Sandra Zarpelon – Cientista Política /
Federal Fluminense / Mauro C. B. de Moura – Sérgio Braga – Universidade Federal do Paraná
Universidade Federal da Bahia / Muniz Ferreira / Sérgio Prieb – Universidade Federal de Santa
– Universidade Federal da Bahia / Nelson Prado Maria (RS) / Silvio Costa – Universidade Católica
Alves Pinto – Universidade Estadual de Campinas de Goiás / Silvio Frank Alem – in memoriam /
/ Nelson Werneck Sodré – in memoriam / Osvaldo Tânia Pellegrini – Universidade Federal de São
Coggiola – Universidade de São Paulo / Paula Carlos / Valério Arcary – Historiador / Wolfgang
Marcelino – Universidade Federal da Bahia / Leo Maar – Universidade Federal de São Carlos

Colaboradores internacionais
Alfredo Saad Filho – Inglaterra / Ângelo Novo – Portugal / Atílio Borón – Argentina / Domenico Losur-
do – Itália / Ellen Wood – Canadá / Fredric Jameson – Estados Unidos / Gérard Duménil – França /
Guido Oldrini – Itália / Guillermo Foladori – Uruguai / István Mészáros – Inglaterra / Jacques Bidet
– França / James Green – Estados Unidos / James Petras – Estados Unidos / Joachim Hirsch –
Alemanha / Marco Vanzulli – Itália / Maria Turchetto – Itália / Michael Löwy – França / Michel Ralle
– França / Nicolas Tertulian – França / René Mouriaux – França / Ronald Chilcote – Estados Unidos /
Serge Wolikow – França / Victor Wallis – Estados Unidos / Vittorio Morfino – Itália

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA:

REVISTA CRÍTICA MARXISTA


Armando Boito Jr.
Cemarx, IFCH, Unicamp
Caixa Postal 6110
13083-970 Campinas, SP

Endereço na Internet:
www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista

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Sumário

APRESENTAÇÃO ............................................................................................. 9

ARTIGOS

A atualidade da Economia Política marxista .................................................... 11


Alfredo Saad Filho

A crise geral do capitalismo: possibilidades e limites de sua superação ........... 21


Luiz Filgueiras

A burguesia mundial em questão ..................................................................... 29


Danilo Enrico Martuscelli

Notas introdutórias sobre a publicação das obras de Marx e Engels ................. 49


Pedro Leão da Costa Neto

Filmar O capital? ............................................................................................. 67


Fredric Jameson

ENTREVISTAS

Marx, Joyce e Eisenstein: a abstração mata ...................................................... 75


Entrevista com Alexander Kluge

Sobre Darwin .................................................................................................. 79


Entrevista com Patrick Tort,
por Alain Bascoulergue

Teoria do valor, trabalho e classes sociais ........................................................ 89


Entrevista com Daniel Bensaïd,
por Henrique Amorim

DOCUMENTO

O método da economia política. Karl Marx ..................................................... 103


Apresentação de João Quartim de Moraes e tradução de Fausto Castilho

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COMENTÁRIO

Entender Nietzsche.......................................................................................... 127


Jan Rehmann

RESENHAS

Che Guevara: uma chama que continua ardendo [Michael Löwy.................... 135
& Olivier Besancenot]
Fabio Mascaro Querido

Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica [Maria


Orlanda Pinassi] ............................................................................................. 138
Marcos Del Roio

Atuação crítica: entrevistas da Vintém e outras conversas [Sérgio


de Carvalho et al.] ........................................................................................... 142
Kátia Rodrigues Paranhos

Nelson Werneck Sodré: entre o sabre e a pena [Paulo Ribeiro


da Cunha, Fátima Cabral (orgs.)] ..................................................................... 146
José Ricardo Figueiredo

Marx: intérprete da contemporaneidade [Milton Pinheiro, Muniz Ferreira


e Ricardo Moreno (orgs.)] ................................................................................ 150
Pedro Leão da Costa Neto

Crítica da Igualdade Jurídica [Celso Kashiura Jr.] ............................................. 153


Joelton Nascimento

Descaminhos da esquerda: da centralidade do trabalho à centralidade


da política [Ivo Tonet e Adriano Nascimento] .................................................. 157
Sergio Lessa

Força Sindical: política e ideologia no sindicalismo brasileiro [Patrícia


Vieira Trópia] ................................................................................................... 160
Davisson C. C. de Souza

RESUMOS/ABSTRACTS .................................................................................. 163

NORMAS PARA COLABORAÇÃO .................................................................. 167

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CRÍTICA
marxista

APRESENTAÇÃO
Em 2009, Crítica Marxista completou quinze anos de existência, durante os
quais ocorreram mudanças em seu trabalho editorial: na composição do comitê
e do conselho editorial, no projeto gráfico e de editoras que nos publicavam. No
entanto, fundamentalmente, a revista permaneceu coerente com os objetivos que
justificaram sua criação, de tal modo que o Manifesto publicado no número 1 da
revista, em suas linhas básicas, continua válido e ainda orienta nossa atividade
editorial.*
Por conta desta data especial, realizamos um levantamento sistemático e ela-
boramos um breve estudo da produção editorial da revista. Durante este período
Crítica Marxista publicou 29 números que contêm 447 matérias, assim divididas:
171 Artigos, 68 Debates/Dossiês, 11 Entrevistas, 35 Comentários, 3 Apresenta-
ções de artigos, 6 Documentos e, finalmente, 153 Resenhas. A média de matérias
publicadas é de 15,4 por número, embora, nos últimos anos, deva ser destacado
o crescimento do número de textos publicados.
Procuramos, também, classificar as matérias publicadas por temas, cujo resul-
tado é o seguinte: 41% tratam da “teoria marxista”, 32% são de “crítica política
e ideológica; 15% têm como tema “questões do socialismo”, 10% versam sobre
“cultura política” e 2% sobre “ecologia”.** Outra informação relevante refere-se
à origem dos autores: 70% deles são nacionais e 30% estrangeiros; por sua vez,

* www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/historico.html.
** Os dados completos de nossa produção editorial nestes 15 anos podem ser acessados na página
da revista: www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista.

Apresentação • 9

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do total de matérias 76% são de autoria de acadêmicos, pesquisadores e ensaístas
que não pertencem ao Comitê Editorial da revista.
Finalmente, cabe destacar que a participação do Conselho Editorial tem sido
decisiva na consolidação de nosso projeto intelectual e político: quase 50 colegas
do Conselho colaboram regularmente na qualidade de autores de artigos e rese-
nhas, bem como por meio do imprescindível trabalho de divulgação e venda da
revista em todo o país.
Não obstante as limitações, as dificuldades e as adversidades enfrentadas
pelo comitê editorial, acreditamos que temos motivos para comemorar estes 15
anos de existência. Não apenas resistimos num contexto ideológico e político
adverso à existência de publicações marxistas e de esquerda; por seu efetivo
trabalho editorial – artigos, ensaios, produção de dossiês e debates, entrevistas
etc. –, Crítica Marxista conquistou um lugar privilegiado na cultura política da
esquerda brasileira. Nossa revista é, hoje, uma importante referência para os
acadêmicos e intelectuais que, no Brasil, se reconhecem no campo do marxismo
crítico e revolucionário.
***
Por último, esclarecemos que, por um equívoco do comitê e da Editora, o texto
“A crise geral do capitalismo: possibilidades e limites de sua superação” deixou
de integrar o Dossiê “A crise atual do capitalismo”, editado no número anterior
de CM. Lamentando o fato, o artigo de Luiz Filgueiras, professor da UFBa, é
publicado no presente número.

10 • Crítica Marxista, n.30, p.9-10, 2010.

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CRÍTICA
marxista

ARTIGOS
A atualidade da
Economia Política
marxista*
ALFREDO SAAD FILHO**

Quando comecei a ler O capital pela primeira vez, há muitos anos, esperava
que o livro me revelasse os segredos do capitalismo mostrando coisas que, a
princípio, não poderia nem imaginar. Implicitamente, eu estava tratando O capital
como um livro de profecias.
Claro que isso é errado. A Economia Política marxista não oferece segredos
aos seus iniciados. O que ela oferece são conexões entre aspectos da realidade
que outras teorias sociais tendem a analisar separadamente. Usando a Economia
Política Marxista é possível perceber relações sistêmicas entre as sociedades,
dentro de cada sociedade e, através da história, tal utilização permite a explicação
da existência das classes, da exploração, do progresso técnico, do imperialismo,
do neoliberalismo e de toda uma série de estruturas, processos e relações que
não são imediatamente evidentes. Em contraste, teorias ortodoxas (por exemplo,
a economia neoclássica) utilizam modelos discretos construídos com conceitos
intercambiáveis, como “bloquinhos de lego”, como se a realidade fosse uma
aglomeração de elementos ligados apenas externamente e de forma contingente.
Isso limita analiticamente essas teorias, tornando-as pouco interessantes.

* Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada no VI Colóquio Internacional Marx-Engels,
organizado pelo Cemarx/Unicamp em novembro de 2009.
** Departamento de Estudos do Desenvolvimento (SOAS), Universidade de Londres (e-mail: as59@
soas.ac.uk).

A atualidade da Economia Política marxista • 11

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Método
O potencial superior da teoria marxista deve-se ao fato de ela reconhecer que a
realidade é um todo concreto que determina os seus momentos, enquanto a maioria
das teorias sociais presume o contrário. Na teoria marxista, entender a realidade é
o processo de reconstruir no pensamento – ou apropriar-se conceitualmente de –
as estruturas e relações reais de determinação entre o concreto e seus momentos.
Essa análise sistemática, procedendo em níveis sucessivamente mais complexos
e concretos, permite iluminar as relações entre diferentes aspectos da realidade
através da introdução ordenada de conceitos que expressam essas relações.
Esse procedimento é típico da dialética materialista desenvolvida por Evald
Ilyenkov (1977, 1982).1 A dialética materialista supera as oposições artificiais na
textura do concreto e ajuda a identificar as relações sistêmicas (a unidade) que
sustentam os momentos da realidade. Ela também permite identificar conexões
estruturadas e historicamente específicas onde elas não são evidentes, o que po-
deria sugerir às teorias não dialéticas que análises separadas seriam suficientes.
Isso é muito útil do ponto de vista das ciências sociais, mas evidentemente esse
procedimento é incompatível com as profecias.
Apesar de a dialética ter um papel central na crítica da Economia Política,
Marx nunca escreveu em detalhe sobre seu método. E. P. Thompson estava certo
ao comentar que isso não se deveu a negligência de Marx – o fato é que o seu
método não existe no plano do abstrato, como um conjunto de regras formais de
pensamento ou apresentação.2 O método de Marx só existe como uma prática
concreta, e através da análise de problemas específicos. Evidentemente, é possível
extrair regularidades a partir de uma leitura metodológica de O capital ou dos
Grundrisse, o que a dialética sistemática busca rigorosamente fazer (Arthur, 1997,
2000; Smith, 1990). Entretanto, isso não é a mesma coisa que derivar um conjun-
to de princípios filosóficos rígidos (que não existem em Marx), e esse esforço é
intrinsecamente limitado porque os métodos de investigação e de exposição de
Marx eram, na prática, muito flexíveis (Saad Filho, 2002).
Essa conclusão é importante porque o marxismo, como qualquer teoria social,
não tem acesso imediato ou privilegiado à verdade e não oferece respostas prontas
para os problemas da atualidade. A análise marxista oferece um instrumental de
estudo e espera-se que ela seja um guia para a ação, mas o marxismo não basta
para construir a realidade. Esperar o contrário seria um hegelianismo não per-

1 Cf. também Fine e Saad Filho (2010) e Saad Filho (2002).


2 “Frequentemente nos disseram que Marx tinha um ´método´ (…) e que este constitui a essência
do marxismo. Portanto, é estranho que (…) Marx nunca tenha escrito sobre essa essência. Marx
deixou muitos cadernos de notas. Marx era acima de tudo um trabalhador intelectual consciente
e responsável. Se ele tivesse achado a chave do universo, ele teria separado um dia ou dois para
escrever sobre isso. Podemos concluir que se ele não o fez foi porque ela não pode ser escrita,
não mais que Shakespeare ou Stendhal poderia ter reduzido sua arte a uma dica. Pois não se trata
de um método, mas de uma prática, e uma prática aprendida ao praticar. Portanto, nesse sentido,
a dialética nunca pode ser formalizada, nem aprendida de cor”. (Thompson, 1978, p.306)

12 • Crítica Marxista, n.30, p.11-19, 2010.

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mitido para uma teoria materialista. Entretanto, essa flexibilidade metodológica
não implica que a Economia Política marxista seja desestruturada. Ao contrário,
ela é articulada de maneira firme e rigorosa, não por categorias hegelianas, mas
por categorias do valor.
Valor
O valor não é um conceito simples, e a teoria marxista do valor é discutida
não apenas entre defensores e críticos de Marx, mas também em torno de inter-
pretações divergentes do que Marx realmente quis dizer.3
A teoria do valor não se baseia na noção economicista e a-histórica do trabalho
embutido, como aparece na maior parte da literatura anglo-saxã. Ao contrário, a
teoria do valor liga a Economia Política a noções fundamentais: que as classes
do capital e do trabalho dividem-se em torno de conflitos na produção, os quais
antecedem as considerações distributivas; que a acumulação é um imperativo no
capitalismo e que ela procede por caminhos definidos. Essas noções fundamentais
indicam que não se pode aplicar ou desenvolver a Economia Política marxista
senão a partir da teoria do valor e constantemente verificando o progresso da
análise frente às suas categorias, mesmo que apenas implicitamente.
Isso garante a integridade e o poder analítico da Economia Política marxista,
além do potencial para explicar aspectos sistêmicos do capitalismo que outras
escolas de pensamento têm dificuldade em analisar. Isso inclui não apenas gran-
des categorias históricas, como o capitalismo ou o neoliberalismo, mas também
a natureza do progresso técnico, o crescimento da classe assalariada, a dinâmica
da desigualdade, o desenvolvimento desigual e combinado, as crises, e assim
por diante.
Uma teoria de classe
O argumento desenvolvido até aqui pode ser resumido em quatro princípios.
Primeiro, em contraste com o idealismo hegeliano, o método de Marx não se
baseia em derivações conceituais. A limitação básica do raciocínio conceitual é
que é impossível demonstrar porque as relações evoluindo na cabeça do analista
devem existir no mundo real. Colocado de outra forma: a realidade é formada
pela estrutura social e por tendências e contratendências que podem ser derivadas
dialeticamente, e por contingências determinadas historicamente que não podem
ser derivadas. Não é possível antecipar o resultado da interação entre elas. O re-
conhecimento de que as contingências históricas pertencem ao método de estudo
– ou seja, de que a lógica e a história são inseparáveis – não é uma concessão ao
empirismo. É apenas a constatação de que a realidade não pode ser reduzida a
um sistema de conceitos.

3 Para resenhas críticas da literatura, ver Fine e Saad Filho (2010; 2002). A análise seguinte baseia-se
nas conclusões desses estudos.

A atualidade da Economia Política marxista • 13

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Segundo, a análise marxista é estruturada pelas relações entre teoria e história
– permitindo o estudo das condições materiais da reprodução social, incluindo o
que é produzido e como – e as estruturas sociais, econômicas e políticas, susten-
tando o modo de produção, especialmente as modalidades de exploração. Essa
é a definição de Economia Política oferecida por Engels no Anti-Dühring, que
naturalmente transcende a compartimentalização das ciências sociais:

A Economia Política (…) é a ciência das leis governando a produção e a troca dos
meios materiais de subsistência na sociedade humana… As condições nas quais
as pessoas produzem e trocam variam entre os países e, em cada um deles, entre
as gerações. A Economia Política (…) não pode ser idêntica para todos os países
e épocas históricas (…) A Economia Política é, portanto, uma ciência histórica.
(Engels, 1998)

Terceiro, os fenômenos sociais existem apenas em seu contexto histórico – e


somente assim podem ser entendidos. Generalizações trans-históricas são nor-
malmente vazias ou inválidas. Os conceitos devem ser identificados a partir de
sociedades específicas e perdem a validade, ou pelo menos a vitalidade, se forem
empurrados para além de seus limites sociais e históricos.
Quarto, a Economia Política marxista explica a estrutura e a dinâmica do ca-
pitalismo, e ela pode ajudar a identificar os pontos de tensão no tecido histórico.
Isso apoia tanto estudos empíricos quanto conclusões políticas, sugerindo onde a
pressão política pode facilitar as transformações sociais.
Nada disso implica que a análise marxista oferece uma chave mágica para a
análise ou a ação. O marxismo foi usado desde o final do século XIX por movimen-
tos sociais e políticos que alcançaram sucessos muito importantes, frequentemente
a um custo elevadíssimo. Ele também foi usado como justificativa para crimes
terríveis. Essa herança ambivalente é o destino de todas as teorias influentes. Mas,
em contraste com outras teorias sociais, o marxismo oferece um aparato conceitual
e teórico que pode ser usado para avaliar as suas próprias experiências, informar a
sua renovação e apoiar movimentos progressistas e transformadores no século XXI.
Essa interpretação de classe da Economia Política marxista conecta formas com-
plexas, como preços, lucros, capital portador de juros, neoliberalismo e assim por
diante a determinantes abstratos e analiticamente simples, especialmente as formas
sociais do trabalho e da exploração, permitindo a análise da dialética da reprodução
e das mudanças sociais em níveis de complexidade crescentes. Essa interpretação
é ortodoxa no sentido de Lukács, porque ela segue o método de Marx, mas ela
não presume que cada rabisco de Marx esteja certo ou que cada silêncio seja uma
condenação. Nesse sentido, Agnes Heller estava certa ao enfatizar que “não existe
uma interpretação de Marx que não possa ser contradita por citações do próprio
Marx. O que me interessa é a tendência principal do seu pensamento” (1976, p.22).

14 • Crítica Marxista, n.30, p.11-19, 2010.

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O valor em nível mais complexo
Retornemos à teoria do valor. O seu desenvolvimento em níveis de comple-
xidade crescente permite a incorporação de diferenças na classe capitalista (por
setor, produtividade e por frações industriais, mercantis e portadoras de juros),
bem como na classe trabalhadora (por qualificações, entre empregados ou não,
e por gênero, etnia, nacionalidade e assim por diante). Refinamentos analíticos
como esses são essenciais porque a relação capital-trabalho não pode nos informar
diretamente sobre a realidade concreta. Entretanto, as relações de classe oferecem
a base analítica para o exame das estruturas e processos da reprodução social,
das formas políticas, ideológicas, socioeconômicas e estatais através das quais
operam esses processos capitalistas.
Além dessas relações verticais, a teoria do valor também permite analisar três
tipos de relações horizontais entre os capitais. Primeiro, as de concorrência, que
podem ser de três tipos. A concorrência dentro de cada setor explica o progresso
técnico, o poder de mercado e as forças que levam à diferenciação das taxas de
lucro individuais. No nível do capital em geral, o progresso técnico é impul-
sionado pelos imperativos da exploração de classe e do controle social, e esses
determinantes sociais e individuais podem entrar em conflito, desestabilizando
a acumulação. A concorrência entre os setores explica a migração dos capitais,
a financeirização e a tendência à igualação das taxas de lucro na economia. Por
fim, a concorrência internacional explica o comércio exterior, o imperialismo e
o desenvolvimento desigual e combinado.
Nesse ponto, vale fazer uma breve digressão. A análise feita sugere um equí-
voco na seguinte passagem do Manifesto comunista:

A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção,


pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações (…) para a
civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com
que deita por terra todas as muralhas da China (…) [Ela] compele todas as nações
a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se;
compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se
burguesas. Em uma palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.
(Marx e Engels, 1977)

A noção de que a difusão do capitalismo deve-se ao fato de a produção capita-


lista ter derrotado competitivamente as formas pré-capitalistas é inadequada porque
essa difusão foi primariamente um processo político e militar (e não econômico-
-competitivo), no qual Estados e classes dominantes não capitalistas tiveram que
inventar estratégias de adaptação e reprodução para defender sua existência num
contexto de desvantagem militar frente aos Estados capitalistas, inicialmente o
Reino Unido e, depois, principalmente os Estados Unidos.

A atualidade da Economia Política marxista • 15

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Essas estratégias alternativas à colonização e ao “livre-comércio” forçado
incluíram a intensificação das relações domésticas de exploração e a construção
de um aparato repressivo para a mobilização fiscal e militar, como na Rússia
imperial, a adoção de políticas neomercantilistas e imperialistas no Japão ou,
alternativamente, o socialismo soviético que, retrospectivamente, pode ser visto
como uma estratégia radical de acumulação primitiva e modernização de choque.
Essa abordagem sugere que o fator mais importante na transição capitalista
não é o crescimento econômico, mas a reorganização das relações sociais; que o
progresso técnico não depende da adoção de métodos capitalistas; e, num plano
mais amplo, que o desenvolvimento capitalista não é uma condição necessária
para o progresso social. Em outras palavras, a questão central para os marxistas
não é como usar o desenvolvimento capitalista para alavancar a transformação
social – o que facilmente poderia deslizar rumo ao elogio da burguesia nacional
ou à subordinação ao imperialismo.4 O problema principal é entender o desenvol-
vimento como um processo político e como direcioná-lo num rumo democrático
enquanto, ao mesmo tempo, se buscam formas de impor mudanças fundamentais
nas relações de classe.
Fechando esta digressão, os três tipos de concorrência mencionados (em cada
setor, entre setores rivais e entre as nações) não podem ser somados linearmente
para atingir resultados estáticos, do tipo equalização das taxas de lucro ou concen-
tração total do capital. Esses tipos de concorrência pertencem a níveis de abstração
distintos, e sua interação e as pressões dos trabalhadores permitem explicar a
dinâmica do capitalismo, inclusive a tendência para a redução da quantidade de
trabalho na produção, que Marx representou como a lei da tendência decrescente
da taxa de lucro, e que ele analisou simultaneamente com as contratendências
(Fine e Saad Filho, 2010).
O segundo tipo de relação horizontal entre os capitais é capturado pela teoria
da globalização. A teoria marxista pode contribuir nessa área transcendendo a
oposição entre as esferas locais, nacionais e globais que estrutura a maioria das
análises convencionais. Essa oposição é errada porque essas esferas não se ex-
cluem. Ao contrário, o local, o nacional e o global constituem-se mutuamente e
só podem ser entendidos através dessas relações (Saad Filho, 2002).
Dissolvendo essas oposições artificiais, a análise marxista pode sugerir que a
produção e as finanças capitalistas sempre foram “internacionais”, que o comércio
de longa distância frequentemente foi mais importante para o desenvolvimento
econômico e social que as trocas entre vizinhos e que o capitalismo originalmente
desenvolveu-se em nível local, regional e internacional ao mesmo tempo. Por fim,
na chamada “era da globalização” o Estado nacional permanece central, não só
por razões históricas, mas também porque nenhuma outra instituição pode impor

4 O exemplo clássico desse deslize é oferecido por Warren (1980). Para uma crítica, ver Kiely (1995).

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a ordem social, as relações de propriedade, os contratos e a estabilidade política,
essenciais que são para a acumulação (Wood, 2003). Tudo isso reforça a noção
marxista de que o capital não é nem nacional nem internacional. Ele é uma relação
entre pessoas e não há nada intrinsecamente nacional ou global nas instituições,
na produção ou nas práticas capitalistas.
O terceiro tipo de relação horizontal a ser mencionado é entre o capital in-
dustrial e o capital portador de juros (ou entre o capital produtivo e as finanças).
Aqui, a análise marxista indica que a acumulação de capital envolve a interação
entre diferentes tipos de concorrência, apoiada pelo sistema financeiro. O conflito
entre as forças de extração, realização e acumulação de mais-valia é a principal
alavanca da socialização da produção, e a maior causa da instabilidade sistêmica.
Dessa forma, o marxismo demonstra, em contraste com as outras teorias sociais,
que o capitalismo é o modo de produção mais eficiente até hoje e, ao mesmo
tempo, o modo de produção mais instável e destrutivo da história.
Tendencialmente, Marx argumenta que a concorrência, o aumento da pro-
dutividade e a socialização da produção destroem a base social da produção
capitalista. Por exemplo, elas permitem a redução radical da jornada de trabalho
e a automação das tarefas perigosas ou repetitivas. Entretanto, esse potencial é
irrelevante para o capitalismo, que perpetua o trabalho alienado para maximizar a
extração de mais-valia. Nesse sentido, as barreiras para a emancipação social são
humanas, e não tecnológicas. Marx espera que, em algum momento, a maioria
rejeite esses limites sociais à realização do seu potencial individual e coletivo,
mas isso pertence ao futuro.
O marxismo e a atualidade
Até agora, a Economia Política marxista é a única teoria do capitalismo com
uma avaliação sistemática da dinâmica das crises. Isso não sugere que o marxismo
tenha uma teoria geral da crise – algo impossível, porque as crises são complexas
demais, concretas demais e historicamente específicas demais para caber numa
fôrma. Na prática, a crise explode quando a produção desenvolve-se além das
possibilidades de lucro. Isso pode ocorrer pelas mais diversas razões e o que
importa para a explicação das crises individuais é como essa causa subjacente, a
subordinação da produção de valores de uso à produção de mais-valia, se manifesta
através das desproporções, superprodução, subconsumo e queda da taxa de lucro
(Clarke, 1994). Essas últimas, ao invés de teorias rivais da crise, podem ser mais
bem apreciadas como aspectos da análise marxista das crises.
Outro aspecto estrutural do capitalismo é a degradação ambiental. Aqui o
marxismo é frequentemente acusado de privilegiar o social à custa da natureza, de
subestimar o potencial das reformas no capitalismo, ou até de rejeitar a análise da
natureza devido ao seu suposto economicismo. Ignora-se que Marx falou bastante
sobre temas ambientais, embora raramente de forma direta (Bellamy Foster, 2002;
2009; Benton, 1996; Burkett, 1999; 2003).

A atualidade da Economia Política marxista • 17

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O ambiente deve ser entendido primariamente em termos das relações am-
bientais típicas do capitalismo. Essa abordagem rejeita a noção de um conflito
trans-histórico entre sistemas ecológicos e sociais, ou entre “a economia” e “o
ambiente”. No capitalismo, a busca do lucro e o aumento da composição orgânica
do capital geram uma tendência de processamento de quantidades cada vez maio-
res de insumos, necessidades crescentes de recursos energéticos e minerais e de
produção de resíduos sem consideração pelo seu impacto ambiental. Entretanto, o
sistema de produção também gera contratendências, através do progresso técnico
e da regulamentação estatal, que permitem limitar e reverter parcialmente essa
degradação. Para entender esses processos e seus limites em cada caso é preciso
fazer uma análise detalhada, setorial e histórica, e não essencialista, dos diferentes
aspectos da crise ambiental.
Conclusão
A Economia Política marxista pode ser extremamente relevante para a época
atual, especialmente se ela for desenvolvida em bases metodológicas sólidas. Para
isso, ela deve partir das relações de classe que constituem o capitalismo, para
reconstruir o sistema analiticamente, em níveis de complexidade crescentes, incor-
porando produção, distribuição e troca, e os campos socioeconômicos e culturais,
de modo a revelar como as estruturas e práticas socioeconômicas e políticas se
reproduzem e transformam em cada contexto histórico. Essa abordagem teórica
é necessariamente dinâmica, e ela naturalmente busca identificar as tendências
(forças) subjacentes, e examinar a sua interação com as contratendências em termos
de resultados complexos, ao invés de impor um equilíbrio ideal entre elas. Por fim,
os limites da análise abstrata devem ser reconhecidos e o material historicamente
específico incorporado, refletindo resultados históricos, como os estágios do capita-
lismo, e aspectos mais concretos, como as relações nacionais entre a indústria e as
finanças, as relações de classe, o papel dos movimentos sociais, e assim por diante.
Ao fazer isso, a Economia Política marxista pode ajudar a superar a fragmen-
tação das experiências de exploração, e demonstrar que a produção capitalista
necessariamente envolve conflitos sociais na produção e na distribuição. Ela
também pode informar ações práticas para superar esse modo de produção, não
apenas através do trabalho teórico consistente, mas especialmente, e de forma
urgente, para articular a possibilidade da liberdade humana e da sobrevivência
biológica frente à catastrófica degradação ambiental promovida pelo capitalismo.
A remoção dessas limitações permitirá que a humanidade saia da pré-história
(Marx, 1987), porque ficaremos livres da ditadura da riqueza, da pobreza devido
à grande propriedade, e da desigualdade gerada pelo privilégio econômico. A
igualdade econômica é necessária para a construção da igualdade política. Essa
é uma condição para que todos possam ser igualmente membros da sociedade, e
possam aspirar à realização do seu potencial. Em todos esses sentidos, não existe
teoria mais atual do que a marxista.

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A atualidade da Economia Política marxista • 19

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A crise geral
do capitalismo:
possibilidades
e limites de sua
superação
LUIZ FILGUEIRAS*

Determinantes gerais da crise


A atual crise econômica geral do capitalismo tem, como todas as anteriores,
determinantes gerais (comuns a todas elas) e históricos (próprios de cada uma). Os
primeiros estão relacionados às características intrínsecas desse modo de produção
e derivam internamente da sua estrutura e dinâmica de funcionamento – em que
pese a existência de distintos momentos históricos de seu desenvolvimento, que
conformam padrões de acumulação e formas político-institucionais singulares. O
fundamental aqui é o reconhecimento da existência de leis imanentes ao capital,
que governam o seu movimento e que sempre atuarão e serão válidas enquanto
o regime de produção capitalista existir.
Isso significa dizer que, nesse âmbito mais geral, a crise é um fenômeno
objetivo do próprio movimento do capital, constituindo-se em momento neces-
sário do seu processo de valorização. Portanto, a crise se caracteriza, antes de
tudo, por ser um fenômeno endógeno ao capitalismo e que, ao mesmo tempo,
explicita e sintetiza as suas contradições, mas também se apresenta como solução
momentânea das mesmas – ao reconstituir as bases e condições necessárias para
a retomada da acumulação.
Em suma, as barreiras que levam à desaceleração e, no limite, ao estancamento
do processo de acumulação (a crise), são levantadas e ultrapassadas, em cada mo-
mento, pelo próprio movimento do capital, no seu afã desmedido de valorização

* Professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia.

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e acumulação. Por isso, a crise é um fenômeno cíclico, necessário ao regime de
produção capitalista, determinada pela lei da mais-valia como fundamentalmente
de valorização do capital e por todas as demais que dela derivam – que se impõem
aos capitais individuais através da concorrência, de forma coercitiva e inexorável,
explicitando-se como tendências que evidenciam a natureza contraditória desse
regime de produção.
Na essência, as crises gerais capitalistas sempre se definem como crises de
superacumulação de capital, expressando-se, ao mesmo tempo, em superprodução
generalizada, subconsumo das massas e desproporções e assimetrias intersetoriais.
O capital, nas suas mais diversas formas – capital-dinheiro, capital-mercadoria,
capital-produtivo e capital-financeiro, torna-se excessivo. A crise explicita também
que o capital financeiro ultrapassou a sua função específica, que é, na divisão so-
cial do trabalho, de financiar o processo de produção e consumo (na condição de
“capital portador de juros”), dando origem ao “capital fictício”, na forma de papéis
e títulos dos mais variados tipos, cujos valores não têm correspondência com a
riqueza real existente. O movimento desse capital tende a se descolar do processo
de produção, criando um circuito autônomo de valorização, embora tenha, em
última instância, que retirar suas rendas do processo produtivo de criação do valor,
do qual não participa. Em síntese, o crédito, que de início é poderosa alavanca
do processo de acumulação, se transforma, em sua expansão desmesurada, em
um dos elementos fundamentais do surgimento e desenvolvimento da crise geral.
Finalmente, a crise, como solução momentânea das contradições do processo
de acumulação capitalista, desencadeia um movimento de desvalorização e, no
limite, de destruição dos capitais excedentes (produtivos e fictícios). A crise não
tem a capacidade de superar essas contradições; mas, ao deslocá-las momenta-
neamente, recria as condições imprescindíveis para a retomada da acumulação.
O Estado capitalista também é elemento essencial da engrenagem da acu-
mulação, tanto nos momentos de aceleração quanto nas crises. Na expansão,
cumprindo o papel de criar e manter as condições necessárias para viabilizar o
processo de expropriação do trabalho e valorização dos capitais – através da ga-
rantia da propriedade privada dos meios de produção; da regulação política dos
mercados de trabalho e dinheiro; da demarcação das relações internacionais do
país; da reorientação da mais-valia social e da ampliação das fronteiras da acu-
mulação, com o crescimento da dívida pública. Nas crises, por sua vez, o Estado
é chamado a arbitrar o processo de desvalorização dos capitais, socializando os
prejuízos com toda a sociedade e coordenando a disputa intercapitalista pelas
novas frentes de expansão.
Determinantes históricos da crise
Por sua vez, os determinantes históricos, específicos de cada crise, dizem
respeito às características do padrão de acumulação – e ao seu respectivo arca-
bouço institucional –, existentes em cada período do desenvolvimento capitalista,

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o que envolve os seguintes aspectos: a forma de capital dominante, que detém a
hegemonia do processo de acumulação; as condições político-institucionais que
condicionam e delimitam a relação capital-trabalho, no interior das quais se de-
senvolve a luta de classes; a extensão e o grau de internacionalização do regime
de produção capitalista e as características institucionais da ordem internacional
prevalecente; e a forma e amplitude da regulação política da acumulação, a partir
do Estado e das relações estabelecidas entre as distintas frações do capital.
Assim, a atual crise geral do capitalismo expressa tanto as contradições
imanentes do capitalismo em geral, derivadas das próprias leis de movimento
do capital, quanto as que são produto de um padrão de acumulação particular,
construído, a partir da década de 1970, sob o comando e a hegemonia do capital
financeiro. Este submeteu à lógica da financeirização todas as outras formas de
capital, o modo de estruturação e intervenção do Estado e, no limite, as próprias
relações sociais e políticas.
Esse padrão de acumulação tem, entre outras, as seguintes principais caracterís-
ticas estruturais: 1. aprofundamento da assimetria de poder, entre capital e trabalho,
a favor do primeiro; 2. adoção de novas formas de organização da produção e do
processo de trabalho, que potencializam a apropriação de mais-valia relativa; 3.
recuperação de velhos modos de exploração do trabalho, que ampliam a capaci-
dade de extração de mais-valia absoluta; 4. adaptação operacional das empresas
produtivas à lógica rentista; 5. desregulamentação e liberalização dos mercados
em geral, e dos financeiros em especial – com permissão de livre movimentação
e valorização dos fluxos de produção e financeiros; 6. aceleração vertiginosa da
velocidade desses fluxos, através do uso de novas tecnologias da informação e
das redes produtivas internacionais das grandes corporações; 7. integração estreita
desses mercados, em particular dos mercados financeiros, com a radicalização da
tendência de autonomização da criação de riqueza financeira; e, 8. apropriação
direta do Estado pelo grande capital, através da despolitização da economia e da
criação de mecanismos e instrumentos que passam ao largo do controle da socie-
dade – que reduz a capacidade da política institucional de intervir nos assuntos
que são caros ao capital financeiro.
Do ponto de vista político, esse padrão de acumulação afirmou-se e foi cons-
truído por sobre os escombros da ordem internacional resultante da Segunda
Guerra mundial e da Guerra Fria. A crise capitalista nos países desenvolvidos, na
virada dos anos 1960 para 1970, jogou por terra o Acordo de Bretton Woods e
abriu caminho para a construção da hegemonia do capital financeiro – ancorada
ideológica e politicamente na vitória do neoliberalismo e na falência e transformis-
mo da social-democracia. A derrocada do “socialismo real”, no final da década de
1980, consolidou, no plano mundial, a hegemonia militar, econômico-financeira
e política dos EUA.
O resultado dessa dupla hegemonia global, respectivamente no âmbito ma-
terial e político-ideológico-militar, expressou-se no superdimensionamento da

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esfera financeira e na afirmação da chamada “via única”. Com isso, elevaram-se
as desigualdades sociais e aprofundou-se a instabilidade congênita e estrutural
do regime do capital, aumentando as possibilidades de crises, bem como sua
extensão e gravidade.
Nos anos 1990, os mercados financeiros e os estados dos países da periferia
(através da dívida pública) foram incorporados à ordem financeira internacional
e, nos anos 2000, a total integração da China ao circuito internacional de valori-
zação do capital abriu uma nova e ampla fronteira de acumulação – que permitiu
o crescimento da produção, do comércio e dos fluxos internacionais de capital.
Em contrapartida, assistiu-se a um enorme e acelerado endividamento do Estado,
das corporações e das famílias nos EUA, o que se tornou evidente com a eclosão
da presente crise geral.
Surgimento e evolução da crise
O surgimento desse novo ciclo de acumulação nos anos 2000, cuja fase
ascendente perdurou até meados de 2007, foi suficiente para que os apologistas
políticos do capital decretassem o fim das contradições, dos ciclos e das crises
gerais do capitalismo.
No entanto, a crise atual veio desfazer as ilusões. Ela é uma crise geral do
capital e, em particular, do atual padrão global de acumulação capitalista; sin-
tetiza o conjunto de suas contradições e não pode ser resolvida como se fosse
uma mera crise conjuntural. Esse padrão de acumulação carrega em si, além de
todas as contradições e tendências imanentes do capital, características próprias
que as radicalizam, tornando-o profundamente instável econômica, social e po-
liticamente. A crise produzida em suas entranhas é tão ou mais grave que a crise
de 1929 e está exigindo dos Estados capitalistas uma socialização dos prejuízos
nunca vista na história do capitalismo – tendo em conta o montante absurdo de
capital a ser desvalorizado.
Com ela, todos os mitos criados pela ideologia neoliberal e pelo pensamento
econômico hegemônico das últimas décadas – variantes do pensamento neoclás-
sico – foram, um a um, sendo desmistificados. Mais do que imobiliária, financeira
e localizada nos EUA e países desenvolvidos, ela é uma crise econômica global
e sistêmica.
A sua origem mais remota pode ser localizada em 2000, quando, nos EUA,
a queda da taxa de juros e o relaxamento nas condições de financiamento esti-
mularam a expansão do mercado imobiliário, impulsionada por empréstimos
bancários sob a forma de hipotecas. Esse movimento, ao ampliar a capacidade
de gasto através do acelerado endividamento das empresas e famílias, levou ao
crescimento da economia norte-americana, dando origem a um novo ciclo de
consumo e valorização de ativos financeiros.
Esse processo impactou a dinâmica das demais economias e implicou em
crescentes déficits na conta de transações correntes do balanço de pagamentos

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dos EUA, financiados pelos países com grandes superávits nas suas relações
econômicas internacionais, sobretudo China e Japão.
Entre 2002/2003 e o terceiro trimestre de 2007, assistiu-se a um crescimento
global da produção, do comércio e dos fluxos internacionais de capital. A queda
da taxa de juros e a maior liquidez estabeleceram um típico processo especulativo
no mercado imobiliário dos Estados Unidos. Os créditos hipotecários daí decor-
rentes foram securitizados (transformados em títulos financeiros e negociados
em mercados secundários) e vendidos para bancos de investimento e, no final da
linha, comprados por fundos de pensão e fundos de investimentos globais – dos
EUA, da Europa e do Japão. Assim, os canais da acumulação fictícia se ampliaram,
dando origem a uma gigantesca “bolha especulativa”.
Os limites da fase expansiva do novo ciclo de acumulação começaram a ser
anunciados em 2004, quando do aumento das taxas de juros pelo Banco Central
dos EUA; e os primeiros sinais da crise apareceram no ano de 2006, quando a
inadimplência no cumprimento dos contratos hipotecários nos EUA começou
a crescer. Com isso, a oferta de crédito imobiliário se contraiu e os preços dos
imóveis começaram a cair, ampliando ainda mais a incapacidade de pagamento
dos empréstimos contraídos.
Em meados de 2007 apareceram os primeiros sinais de que as instituições
financeiras faziam parte do núcleo do problema, em razão de sua atuação no
financiamento da especulação imobiliária e na securitização das dívidas. A
crise, ao atingir os bancos e os mercados secundários de títulos, contaminou e
infligiu pesadas perdas aos fundos de pensão e de investimentos, portadores de
papéis derivados das dívidas hipotecárias. No segundo semestre de 2008 a crise
se generalizou, atingindo todos os tipos de instituições financeiras e os sistemas
financeiros de todos os países desenvolvidos.
A crise no Brasil
No Brasil, apesar da subestimação por parte do Governo, a crise também
se iniciou pelo mercado financeiro. A existência de livre mobilidade de capitais
provocou, imediatamente, uma grande saída de capitais e forte desvalorização do
real a partir de outubro de 2008, em virtude da venda de papéis brasileiros (ações,
títulos públicos e outros papéis de empresas) pelos fundos de investimentos, mo-
tivados pela necessidade de compensar perdas em outros mercados.
Em seguida, os impactos se fizeram sentir no fim do financiamento internacio-
nal às grandes empresas brasileiras, o que afetou as exportações e obrigou-as a re-
correr ao mercado interno de crédito e pressionar o Governo por maior liquidez. Na
sequência, afetou o balanço de pagamentos do país, com redução das exportações
e do superávit da balança comercial em razão da queda da demanda e dos preços
internacionais das commodities (agrícolas e industriais), que representam parte
majoritária da pauta de exportações do país. Por fim, a crise chegou às atividades
produtivas, com redução da produção e do emprego, fechamento de empresas e

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redução das receitas do Estado em todos os seus níveis – o PIB, no último trimestre
de 2008 e no primeiro de 2009, caiu, respectivamente, 3,6% e 0,8%, caracterizando,
mais do que uma desaceleração da economia, uma trajetória recessiva.
Apesar disso, a resposta do Governo, através da flexibilização da política
monetária e fiscal, tem conseguido reduzir o impacto da crise, especialmente em
virtude da demanda da China por produtos brasileiros e, no início deste ano, do
aumento da especulação nos mercados financeiros – ambas circunstâncias que
inflaram de novo os preços das commodities. No entanto, essa resposta se limita
a reagir aos efeitos mais dramáticos da crise, à espera de uma melhora no quadro
internacional. Não há qualquer iniciativa – como ocorreu durante a crise de 1929
– na direção de mudanças estruturais, que reorientem a estrutura e a dinâmica
da economia brasileira para outro padrão de desenvolvimento capitalista. Nem
pode haver, uma vez que o atual bloco de poder dominante – sob hegemonia do
capital financeiro (nacional e internacional), dos grandes grupos econômicos
financeirizados e do capital exportador – é inteiramente sintonizado, econômica
e politicamente, com o atual padrão mundial de acumulação capitalista, no qual
o país se articula de forma subordinada.
Possibilidades e limites de superação
No plano mundial, a superação da crise pelo capital não é trivial. Ela deman-
da mudanças estruturais no padrão de acumulação; a socialização dos prejuízos
e a adoção de políticas monetárias e fiscais expansionistas como as que já vêm
sendo utilizadas são condições necessárias, mas não suficientes. Embora, num
primeiro momento, elas possam reduzir os estragos da crise e reativar a demanda
efetiva, não alterarão fundamentalmente as características básicas do padrão de
acumulação – que o tornam radicalmente instável e que levaram à atual crise.
Além disso, o enorme endividamento dos estados dos países desenvolvidos,
decorrente dessas políticas, terá fortes e duradouras repercussões no ritmo de
acumulação e desenvolvimento capitalista. Particularmente importantes serão
os seus efeitos sobre a capacidade de o dólar continuar mantendo o seu papel de
moeda-reserva internacional. Além disso, a relação China-EUA, aparentemente
“virtuosa” e complementar até a eclosão da crise, tenderá a ser questionada, cada
vez mais, pela disputa de mercados e fontes de recursos naturais – condição fun-
damental para a manutenção/superação da hegemonia dos EUA.
O mesmo se pode dizer de uma maior regulação dos mercados e dos fluxos
financeiros. Ela tem limites claros: além das dificuldades, praticamente intranspo-
níveis, de “enjaular” o capital financeiro, não poderá retroceder a mundialização
das finanças nem a internacionalização já alcançada palas forças produtivas. Por
outro lado, a nova fronteira de expansão da acumulação – sobretudo a China e a
Índia – não permite que a superexploração e a precarização do trabalho, em escala
global, sejam revertidas por iniciativa do próprio capital, a ponto de permitir a
redistribuição dos ganhos de produtividade.

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A essas dificuldades adiciona-se a impossibilidade de globalização do padrão
de consumo dos países desenvolvidos, em especial dos EUA; a expansão da acu-
mulação, com base nesse padrão, se defronta, cada vez mais, com poderosos limites
externos ao capital: o rápido esgotamento dos recursos naturais e a deterioração,
incrivelmente acelerada, do ambiente. Por fim, o capital financeiro não abrirá mão,
voluntariamente, da apropriação direta do Estado – que lhe permite conduzir seus
interesses à margem do controle das instituições clássicas da democracia liberal:
partidos políticos e parlamentos.
Na ausência de um forte movimento socialista internacional da classe traba-
lhadora, a tendência é de que o capital caminhe pela linha de menor resistência e
tente superar a crise mantendo, no fundamental, o atual padrão de acumulação.
Caso isso ocorra, as flutuações econômicas se tornarão mais intensas, com a
reiteração de crises periódicas em intervalos mais curtos, intercaladas por surtos
efêmeros de crescimento e tendência à estagnação prolongada. Por isso, nenhuma
política de conciliação e negociação entre capital e trabalho conseguirá reduzir os
efeitos mais dramáticos da crise sobre os trabalhadores e tampouco lhes permitirá
uma solução menos prejudicial. Portanto, aos seus segmentos organizados e às
suas lideranças só resta o caminho da contestação à ordem do capital, através da
luta e da resistência política, reunindo forças na direção de um projeto socialista.

A crise geral do capitalismo: possibilidades e limites de sua superação • 27

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A burguesia mundial
em questão*
DANILO ENRICO MARTUSCELLI**

Introdução
O processo de internacionalização do capital, ocorrido nas últimas décadas,
tem suscitado uma série de questionamentos sobre a operacionalidade e a validade
de certos conceitos, noções e categorias utilizados na explicação dos fenômenos
sociais contemporâneos. Esses questionamentos são fruto de um novo modismo
teórico-político: o modismo neoliberal e suas variações específicas. Por meio
da apologia do livre mercado, da livre iniciativa individual e do Estado mínimo,
o modismo neoliberal procura difundir as “teorias” que engendra – do fim das
ideologias, da história, das classes sociais, do imperialismo e do Estado nacional
– e refutar enfaticamente as análises críticas do capitalismo, em especial as do
capitalismo neoliberal.
O que nos chama a atenção é que esse modismo influenciou, inclusive, o
“espectro anticapitalista”, tendo levado algumas análises críticas do capitalismo
a assimilar – mesmo a contragosto – elementos centrais da ideologia da globali-
zação ou da “teoria neoliberal da globalização”1 ao caracterizarem o capitalismo
contemporâneo.

* Agradecemos a Andréia Galvão, Patrícia Trópia, Sonia Martuscelli e Tatiana Berringer pelos co-
mentários e críticas que fizeram às primeiras versões deste texto.
** Professor da Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS) e doutorando em Ciência Política pela
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (e-mail: daniloenrico@yahoo.com.br).
1 A expressão “teoria neoliberal da globalização” foi empregada por Borón (2002).

A burguesia mundial em questão • 29

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Em linhas gerais, a ideologia da globalização sustenta a ideia de uma crise
irreversível do Estado-nação, exagera a novidade e o alcance da integração do es-
paço econômico internacional, apresentando-o como tendencialmente homogêneo
e livre da intervenção estatal, e procura defender que esse espaço estaria sendo
governado pelas grandes empresas ditas globais ou transnacionais, sem qualquer
vínculo com uma base nacional específica.
Cabe lembrar, no entanto, que, como ideologia, a teoria da globalização, ao
mesmo tempo em que faz alusão à realidade social, produz uma série de efeitos
ilusórios.2 Hirst e Thompson (1998), contestando os pressupostos principais dessa
ideologia, salientam que, no período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial,
alguns países atingiram taxas de abertura econômica semelhantes às apresentadas
no início dos anos 1990. Esses autores também criticam a tese segundo a qual as
empresas caracterizadas como transnacionais ou globais estariam dominando o
mercado mundial, pois o que se observa é que a maioria das empresas que con-
trolam o mercado mundial centra-se num espaço econômico nacional, remetendo
seus lucros ao estado onde está localizada a matriz.
Um exemplo de assimilação da ideologia da globalização pelo “espectro
anticapitalista” pode ser encontrado nas análises que defendem a existência de
uma burguesia mundial (global ou transnacional) no capitalismo contemporâneo,
isto é, nos estudos que apontam para um processo de unificação e integração da
burguesia em escala mundial.
Tendo em vista que os enfoques teóricos para sustentar a tese da burguesia
mundial são variados, o objetivo desta análise é identificar e explicar as principais
variantes dessa tese, apontar seus limites e apresentar, por fim, uma abordagem
alternativa para o estudo das relações intraburguesas no plano internacional.
As variantes explicativas da tese da burguesia mundial
Em linhas gerais, é possível identificar três variantes explicativas principais
do processo de unificação e integração da burguesia em escala mundial. A pri-
meira variante destaca o processo de internacionalização dos altos quadros e sua
relação com a difusão das grandes empresas transnacionais. A segunda variante
releva o papel das grandes corporações transnacionais no ordenamento econômico
e político do capitalismo contemporâneo. A terceira variante procura ressaltar a
financeirização como elemento fundamental da dissolução das clivagens e fra-
cionamentos no interior das classes dominantes.
Salientamos, desde já, que a distinção dessas três variantes explicativas deve
ser entendida como meramente metodológica, uma vez que é possível encontrar
entrecruzamentos ou justaposições de argumentos entre uma e outra variante
explicativa, bem como subdivisões em cada uma delas, como veremos a seguir.

2 Tomamos emprestada de Althusser (1999) a concepção de ideologia como alusão e ilusão.

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Sociologia da burguesia ou dos altos quadros?
De início, chamamos a atenção para o fato de que o empreendimento realizado
pela primeira variante na tentativa de compreender o que une e integra a burgue-
sia em âmbito internacional está mais propriamente voltado para a análise dos
altos quadros das empresas ditas “transnacionais” do que da classe burguesa. Ao
centrar-se na análise dos aspectos simbólicos, ideológicos e culturais que unem
e integram a “burguesia mundial”, os estudos pertencentes à primeira variante
explicativa tendem a omitir ou ocultar a discussão sobre o lugar que os agentes
ocupam no processo de produção. Para tais estudos, os aspectos simbólicos,
ideológicos e culturais que caracterizam a unidade da burguesia (ou seja, dos
altos quadros) parecem conformar uma realidade fora do processo de produção.
Nessa perspectiva, os altos quadros são identificados como parte da burguesia por
assimilarem aspectos fundamentais de uma cultura burguesa dita “transnacional”.
A obra The Transnational Capitalist Class (2001), de Leslie Sklair, pode ser
concebida como um primeiro exemplo dessa variante explicativa. Ao analisar as
mudanças em curso nas últimas décadas, Sklair salienta que, se o nível global é
concebido como meta principal para as grandes empresas, o nível transnacional
é a realidade na qual elas se encontram. No argumento de Sklair, fica evidente
uma distinção fundamental entre o nível global – futura forma de estruturação das
grandes empresas – e o nível transnacional – forma atual de atuação das grandes
empresas.
Para esse autor, as mais importantes forças transnacionais são as corporações
transnacionais, a classe capitalista transnacional e a cultura-ideologia do consumis-
mo. De acordo com ele, em décadas recentes, o poder e a autoridade dos grupos
transnacionais deixaram de derivar exclusivamente do Estado e tenderam cada
vez mais a se articular num espaço transnacional onde imperam os investimentos
externos diretos e a globalização da produção, ainda que esta esteja localizada
em alguns setores. Nessa perspectiva, há espaço para conflitos entre os interes-
ses pró-globalização e os antiglobalização, que constituiriam um dos obstáculos
fundamentais para a formação de um espaço econômico verdadeiramente global.
Para caracterizar a classe capitalista transnacional, Sklair (2001) procura
desmembrá-la em quatro frações principais, a saber: 1. a fração corporativa,
formada pelos executivos das corporações transnacionais e suas filiais locais; 2.
a fração estatal, formada pelos burocratas e políticos globais; 3. a fração técnica,
formada pelos profissionais globais; e 4. a fração consumidora, formada pelos
negociantes e pela mídia. Em seguida, apresenta cinco aspectos que justificariam
o caráter transnacional dessa classe capitalista. Resumidamente, eles seriam os
seguintes: 1. os interesses econômicos de seus membros estariam associados a
um plano global e não nacional ou local; 2. os membros dessa classe exerceriam
controle econômico no local de trabalho, controle político na política doméstica e
internacional, e controle total da cultura-ideologia da vida cotidiana; 3. os mem-
bros da classe capitalista transnacional compartilhariam estilos de vida similares,

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advindos dos padrões escolares aos quais estariam submetidos e ao consumo de
luxo de bens e serviços; 4. esses membros da classe capitalista transnacional se
projetariam como cidadãos do mundo no cenário mundial.
Como se depreende aqui, tanto no que se refere à caracterização das frações
da classe capitalista transnacional quanto na definição de seu caráter transnacio-
nal, Sklair (2001) alude aos altos quadros das grandes empresas e do aparelho
estatal. Ao mesmo tempo, sobreleva a ideologia dessa categoria social, uma vez
que seriam esses altos quadros administrativos que teriam assimilado mais forte-
mente a cultura cosmopolita dos grandes negócios – o que os levaria a dar mais
importância à dimensão global do que à nacional. A despeito de falar em classe
capitalista, Sklair (2001) parece estar muito mais próximo da elaboração de uma
sociologia dos altos quadros executivos, uma vez que a análise dos acionistas que
controlam efetivamente as grandes empresas não é concebida como problema
fundamental de sua investigação.
Outra reflexão que também se enquadra nessa perspectiva analítica é a desen-
volvida por Kees Van der Pijl (1998). Para esse autor, conformou-se, nos últimos
anos, uma “unidade atlântica” entre as burguesias europeias e estadunidenses. O
que teria propiciado a coesão de interesses dessas burguesias seria a instauração de
fóruns internacionais, como, por exemplo, os casos do Fórum Econômico Mundial
e do Clube de Bilderberg, abrigando grandes acionistas e dirigentes de grandes
corporações privadas, bem como membros da alta cúpula estatal das principais
metrópoles capitalistas que constituem a “unidade atlântica”. Pijl (1998) chama
a atenção para o fato de que o processo de unificação das burguesias em nível
transnacional não é inusitado, já que era visível desde a formação das organizações
maçônicas. No entanto, o autor procura destacar as características específicas do
período mais recente, que concretizam a referida “unidade atlântica”.
Na análise de Pijl (1998) está presente a ideia de que a constituição desses fó-
runs de discussão internacional das burguesias atlânticas é de extrema importância
para reduzir as dissensões intraburguesas e conformar ações coesas e planejadas
entre essas burguesias. Ocorre que, em sua análise, o autor não esclarece se tais
ações podem realmente se efetivar, ou melhor, Pijl não considera se há espaço para
o planejamento no capitalismo e se é possível dirimir a importância da política im-
plementada pelos diferentes Estados nacionais que compõem a “unidade atlântica”.
Entendemos que, se é importante detectar essas iniciativas de integração da
burguesia em escala mundial, é também relevante analisar os resultados dessas
iniciativas para verificar se apontam ou não na direção dessa integração ou uni-
ficação da burguesia. A inexistência de consenso e o fracasso das negociações
das rodadas do Uruguai, do antigo GATT, e de Doha, da OMC, são alguns dos
indícios de que tais iniciativas têm sido malsucedidas, uma vez que a lógica do
protecionismo para alguns e da abertura econômica para a maioria dos países não
tem agradado certos partícipes dessas reuniões, nem mesmo promovido concórdia
entre as partes envolvidas.

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As análises influenciadas pela obra de Pierre Bourdieu também se incluem
nessa primeira variante explicativa. Tratamos aqui dos trabalhos de Anne-Catherine
Wagner (2003) e dos pesquisadores Michel Pinçon e Monique Charlot-Pinçon
(2000). É consenso entre esses autores a ideia de que a chamada mundialização
financeira fomentou o surgimento de uma fração dos altos quadros e dirigentes
de empresas, os quais se relacionam num espaço profissional social e simbólico
internacional. Dado o crescimento dos investimentos externos diretos, em detri-
mento do comércio de mercadorias, as ligações internacionais têm-se intensificado
e os critérios de recrutamento e de promoção dos altos quadros têm-se tornado
internacionais, constituindo o que Wagner (2003) chamou de “estilo de vida in-
ternacional”. Para essa autora, o que caracterizaria o estilo de vida internacional
dos altos quadros seriam basicamente os seguintes elementos: plurilinguismo,
experiência de vida e de trabalho em vários países, inserção no círculo de negócios
internacionais e possibilidade de gerar uma carreira em escala internacional. Esses
grupos constituiriam relações que transbordam a esfera do trabalho, tais como
casamentos mistos, dispersão geográfica da família e das relações, cosmopolitismo
das amizades, entre outras.
Cabe observar, no entanto, como faz Wagner (2003), que, com o surgimento
dos altos quadros internacionais, a posição do patronato nacional dos países
avançados não chegou a ser ameaçada, embora esse grupo tenha sido levado a se
adequar à dinâmica da ordem social inaugurada pela mundialização financeira.
Outra observação importante que essa autora faz é a de que, em países como França
e Alemanha, os altos cargos nas grandes empresas têm sido ocupados geralmente
por profissionais naturais do próprio país. A combinação dessas duas constatações
nos leva a crer que o chamado processo de internacionalização dos altos quadros é
menos consistente do que sugerem os autores sob influência da obra de Bourdieu.
Isso, na verdade, parece indicar que não ocorreram grandes rupturas em direção a
uma internacionalização efetiva dos altos quadros e do patronato – rupturas que
teriam tornado a questão nacional totalmente anacrônica.
É interessante observar que esses autores inspirados nas reflexões de Bour-
dieu superestimam a dimensão simbólica, ideológica e cultural na constituição
das classes sociais – o que os leva a aproximar a posição dos altos executivos das
grandes empresas à dos grandes acionistas. Sugerem não somente que os altos
quadros também estão se tornando acionistas – o que indicaria uma possível soli-
dariedade entre os agentes (executivos e acionistas) no nível econômico –, como
também sustentam que o status de burguês não pode ser reduzido à propriedade
dos meios de produção, uma vez que esse status inclui também a adoção de um
estilo de vida marcado pela busca da distinção e pelas estratégias de reprodução
dos privilégios sociais, com forte apelo para o cultivo do cosmopolitismo, da
multiterritorialidade, enfim, para o reforço do habitus cosmopolita que privilegia
sempre a dimensão internacional em detrimento da nacional.

A burguesia mundial em questão • 33

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Essa sociologia inspirada na obra de Bourdieu concebe, portanto, a burguesia
como uma classe formada pelos grandes acionistas e pelos altos executivos. Ape-
sar de haver uma permanência do patronato nacional na ocupação das posições
dominantes das sociedades capitalistas avançadas, essa sociologia procura apontar
para o fato de que os mecanismos que fundam e legitimam essas posições têm-se
alterado com a mundialização financeira, o que tem propiciado a formação de
uma burguesia internacional. Em resumo, se, no plano estrutural, essas análises
ignoram ou subestimam o aspecto econômico da determinação de classe – pois
relevam o elemento simbólico –, no plano conjuntural essa abordagem teórica não
nos permite indicar qual posição política a burguesia internacional tem assumido
frente à chamada mundialização financeira. Ou melhor, ao fazerem a crítica do
economicismo, essas análises superestimam a dimensão simbólica da determina-
ção de classe da burguesia, o que as leva a difundir outro tipo de reducionismo:
o determinismo simbólico. Com isso, os autores informados por essa perspectiva
analítica não nos esclarecem o lugar ocupado pela dimensão política na defini-
ção da classe burguesa, nem mesmo dão importância à relação existente entre as
dimensões política e econômica nessa definição.
Grandes firmas transnacionais versus Estado nacional?
Os autores vinculados à segunda variante explicativa – Michalet (1996), Ver-
non (1996) e Dicken (1998) – não fazem referência à intervenção estatal na eco-
nomia e sua relação com os interesses das grandes empresas multinacionais. Tais
análises tendem a superestimar o papel das grandes corporações transnacionais,
juntamente com suas subsidiárias, naquilo que denominam inusitada integração
internacional dos mercados. O argumento central dessas análises é que, nas déca-
das recentes, conformou-se um sistema econômico mundial coordenado e regido
estritamente de acordo com os interesses das grandes corporações transnacionais,
as quais supostamente teriam tomado o lugar dos Estados nacionais na articulação
das diretrizes econômicas e políticas internacionais.
Essa segunda variante explicativa sugere a ideia de que o espaço econômico
internacional é praticamente uma emanação da vontade e dos interesses das grandes
firmas transnacionais, sem vínculos com qualquer base nacional, daí advindo a
imagem dos novos Leviatãs, que estariam livres de limites para agir e sobrepostos
aos conflitos de classe – pois, como afirma Hobbes, a possibilidade de superar a
condição de guerra de todos contra todos é instaurar um poder soberano que seja
absoluto, isto é, que se conserve fora de quaisquer compromissos recíprocos ou
obrigações.
Numa posição menos apologética do lugar ocupado pelas empresas transna-
cionais frente ao Estado no capitalismo contemporâneo encontram-se as análises
de Hardt e Negri (2003). Na conhecida obra Império, esses autores sustentam
que o período atual não é marcado pela “vitória das empresas capitalistas sobre o
Estado”. Defendem que as funções de Estado – tais como a captação e distribuição

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de riqueza, a disciplina de suas populações – e aspectos constitucionais foram
deslocados para níveis supranacionais. Ou, como asseveram:

O reconhecimento de que as corporações transnacionais cresceram acima e além


do comando constitucional dos Estados-nação não deveria, entretanto, levar-nos
a pensar que mecanismos e controles constitucionais declinaram, que as empresas
transnacionais, relativamente livres dos Estados-nação, tendem a competir livre-
mente e a se autogerenciarem. (Hardt e Negri, 2003, p.330)

Para aprofundar a discussão da relação Estado e capital, e para definir o que


significa esse poder global, os autores afirmam a existência de uma “pirâmide
da constituição global”. O cume seria representado prioritariamente pelos EUA,
incluindo-se também Estados-nação vinculados ao G-7, aos Clubes de Londres e
de Paris, Davos, entre outros. Logo abaixo, numa segunda camada do poder global,
encontrar-se-iam as redes formadas pelas empresas capitalistas transnacionais no
mercado mundial e, de maneira subordinada a essas empresas, “o conjunto geral
de Estados-nação que agora consiste essencialmente em organizações locais,
territorializadas” (Hardt e Negri, 2003, p.331-2). Na última camada, localizar-
-se-iam os grupos que representariam os interesses populares.
Assim, Hardt e Negri (2003) procuram demonstrar como o poder global
está distribuído. Isso os leva implicitamente a definir a política como um jogo
de soma-zero, no qual as empresas transnacionais passam a ser mais fortes que
determinados Estados-nação, embora o mesmo não suceda em relação a outros
Estados. Ao apresentarem uma concepção imprecisa de Estado – segundo a qual
este representa os interesses do capital coletivo –, os autores não atentam à análise
concreta do conteúdo das políticas implementadas pelos Estados nacionais. Desse
ponto de vista, chega-se à inferência de que as empresas transnacionais podem
desempenhar até mesmo a função de Estado.
Vinculados à segunda variante, há autores que enfatizam o processo de forma-
ção dessas grandes empresas transnacionais no espaço econômico mundial. Outros
procuram dar relevância também à nova institucionalidade política engendrada
por esse fenômeno, assim como tematizar tais questões a partir da análise das
classes sociais – e não propriamente da categoria empresa, como é o caso dos
autores supracitados. Fazemos referência aqui às análises de Robinson e Harris
(2000). Estes defendem estar em curso um processo de formação de uma classe
capitalista cuja acumulação não mais estaria fundada num espaço nacional. Essa
nova classe dispensaria as ligações com os Estados nacionais de origem para pro-
mover seus interesses que, inicialmente, passariam a ser transnacionais, podendo
vir a se constituir em interesses globais num futuro não muito distante, quando a
questão nacional tiver sido completamente superada.
Robinson e Harris (2000) salientam o total anacronismo da questão nacional
na fase da chamada globalização. Assim, defendem a tese da constituição de uma

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classe capitalista transnacional, não identificada com nenhum país particular e
nem mesmo sediada em quaisquer dos países existentes. Para esses autores, os
indicadores empíricos da integração transnacional dos capitalistas seriam os
seguintes: o crescimento das corporações transnacionais, o aumento do investi-
mento externo direto, a proliferação de fusões e aquisições para além dos limites
nacionais, o crescimento de um sistema financeiro global e de inter-relações de
posições dentro da estrutura corporativa global. Sob tal perspectiva, os conflitos
no interior das classes dominantes basicamente se dariam entre frações nacionais
descendentes e frações transnacionais ascendentes. O poder econômico das clas-
ses transnacionais estaria se concretizando aos poucos no plano político, com a
formação de um Estado transnacional que se materializaria em instituições como
o FMI, o Banco Mundial e a OMC.
É importante ressaltar que os autores mencionados oscilam entre a ideia de
que a classe transnacional está em processo de constituição – o que os obriga a
reconhecer os conflitos entre grupos transnacionais e nacionais – e a concepção de
que uma classe capitalista global já está plenamente constituída – o que os leva a
supor uma ordem em que não existe de fato Estado-nação, nem interesse nacional;
sob essa ordem, o conflito entre uma classe capitalista global e um proletariado
global estaria, em breve, na ordem do dia.
Financeirização e fim dos fracionamentos de classe?
A terceira variante afirma que os processos de financeirização, de concentra-
ção e de centralização do capital tornaram possível a unificação dos interesses
da burguesia em escala global, vindo a constituir a chamada “burguesia global”.
Essa variante tende a diminuir o papel do Estado no capitalismo contemporâneo
e a sobrelevar a existência de conglomerados econômicos multifuncionais ou de
empresas transnacionais, bem como a sugerir a abolição das diferenças entre as
frações do capital na atualidade. Ou seja, os autores vinculados a essa variante
explicativa buscam sustentar a ideia de que as burguesias vêm-se unificando em
dois sentidos:

Primeiro, a burguesia perde seu caráter setorial: ela deixa de ser industrial ou co-
mercial ou bancária etc. para converter-se em burguesia “global”, cuja característica
principal é o fato de ela manter seu capital sob a forma financeira e investido em
múltiplas atividades. Segundo, a burguesia também aplica (especialmente através
do mercado de títulos) seu capital em diferentes países e assim se internacionaliza.
(Miglioli, 1996, p.142)

Em outro artigo, Miglioli (1998) passa a considerar a existência da concorrên-


cia capitalista e, pois, dos conflitos intraburgueses no capitalismo contemporâneo,
ao afirmar que: “Esse processo de unificação da burguesia – através da financei-

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rização do capital e de sua concentração e centralização – não elimina todas as
contradições internas dessa classe” (p.43). Conquanto Miglioli faça tal asseveração,
esses conflitos são secundários frente ao processo de unificação, já que

diferentemente dos capitalistas dos velhos tempos, que eram proprietários diretos
de suas empresas [...], os atuais capitalistas (principalmente médios e grandes)
diversificam a aplicação de seus capitais em ações de sociedades anônimas em
diferentes setores ao mesmo tempo, de modo que deixam de ser rurais, comerciais
etc. e se tornam capitalistas multissetoriais; cria-se assim uma burguesia unificada,
isto é, não fracionada setorialmente, em que todos seus membros têm interesses
em todos os setores ao mesmo tempo. (Miglioli, 2006, p.18)

As análises vinculadas à terceira variante explicativa novamente trouxeram à


tona o prognóstico feito por Kautsky (2008) momentos antes da Primeira Guerra
Mundial, ao sustentarem que, entre as formações sociais imperialistas, têm-se
articulado uma “santa aliança” entre as burguesias desses países. Isso demonstraria
a atualidade da tese do chamado “ultraimperialismo”.
Odile Castel (1999) faz até mesmo a distinção entre a fase do capitalismo
marcada pela lógica geopolítica – quando se manifestam os conflitos políticos
entre as grandes potências (iniciada em 1880 e encerrada em 1970) – e a fase que
a autora chama de geoeconômica (iniciada a partir dos anos 1970). Castel afirma,
ainda, que: “Essa ruptura na lógica das relações internacionais mostra que hoje os
Estados estão submetidos aos imperativos econômicos dos oligopólios mundiais em
formação no processo de mundialização” (Castel, 1999, p.125). A autora sintetiza
os traços fundamentais desse processo da seguinte forma: 1. a concentração de
capital criou os oligopólios mundiais, que têm um papel decisivo na vida econômica
das nações; 2. a fusão das instituições financeiras e do capital produtivo ocorreu
em escala mundial; 3. o comércio intrafirmas tornou-se decisivo no comércio
internacional; 4. houve uma partilha do mundo entre os oligopólios mundiais; 5.
deu-se “a passagem de uma lógica geopolítica para uma lógica geoeconômica a
serviço dos oligopólios mundiais nas relações internacionais” (Castel, 1999, p.131).
Para os autores ligados à terceira variante explicativa, à medida que o pro-
cesso de mundialização do capital avança, mais se efetiva uma fusão da esfera
financeira com a esfera produtiva, possibilitando a cooperação e as alianças entre
os oligopólios mundiais, já que estariam em condições de superar os conflitos
setoriais. Sob essa perspectiva, o Estado passa a ser visto como mero facilitador
das atividades das grandes firmas transnacionais, quando intervém na economia
para implementar as políticas de desregulamentação, privatização e liberalização
das trocas comerciais. Ou melhor, para esses autores, a própria legitimidade do
Estado só pode ser assegurada se este garantir o desenvolvimento contínuo das
atividades das grandes firmas. Consequentemente, difundem a ideia de que os

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chamados oligopólios mundiais nunca perdem no capitalismo contemporâneo, uma
vez que o Estado sempre estará pronto para defender cabalmente – e não apenas
prioritariamente – os interesses dessa classe. Trata-se, aqui, da retomada da famosa
ideia instrumental do Estado, entendido como vontade de uma única classe. Ou,
em outras palavras, é a problemática dos teóricos do capitalismo monopolista de
Estado que fundamenta essa concepção de Estado.
É notório que os autores vinculados à terceira variante explicativa operam
num plano de abstração muito grande quando tendem a generalizar a ocorrência
da financeirização. Isso os conduz a eclipsar as características da constituição do
processo de financeirização nas formações sociais capitalistas. Estão sempre preo-
cupados com a dimensão global ou mundial, como se a financeirização fosse um
fenômeno universal que atinge, indiferenciadamente, todas as formações sociais.
Além disso, tendem a apontar o fim das divisões setoriais entre capitalistas como
fenômeno recente e inédito do capitalismo, como se o grande e o médio capital
se transformassem em multifuncionais ou multissetoriais apenas na conjuntura
mais recente. Apresentando uma visão imprecisa de Estado, essas análises também
não logram destacar os efeitos produzidos pela política estatal sobre o bloco no
poder.3 Isso leva os autores a ignorar o fato de que o Estado burguês não atende
plenamente o interesse de classe ou de fração de classe alguma, e que, por priorizar
os interesses de determinadas frações de classe em detrimento de outras, o próprio
processo de implementação da política estatal promove a criação e a dissolução
de agregados sociais.
Ademais, como crítica à recuperação da tese do ultraimperialismo contida em
tais análises, destacaríamos, como já o fez Lênin em O imperialismo, fase superior
do capitalismo, que: “Substituir a questão do conteúdo das lutas e transações entre
grupos capitalistas pela questão da forma destas lutas e destas transações (hoje pa-
cífica, amanhã não pacífica, depois de amanhã de novo não pacífica) é rebaixar-se
à tarefa de sofista” (p.74). Lênin adjetivava como sofista o argumento apresentado
pelos defensores da tese do ultraimperialismo entendendo que, ao descurarem da
análise do conteúdo da política estatal e ao sugerirem de modo genérico e vago a
ideia de um oligopólio mundial, Kautsky e seus discípulos acabariam sustentando,
no limite, a tese de que o processo de consolidação dos monopólios elimina ou
dá pouca vazão à concorrência entre capitais. No nosso entender, isso equivaleria
a afirmar que o capitalismo supostamente poderia oferecer condições para uma
repartição igualitária da mais-valia global.

3 O conceito de bloco no poder foi elaborado por Poulantzas (1972) para designar a unidade
contraditória dos interesses das frações burguesas sob a dominância de uma das frações (a fração
hegemônica). Sob essa perspectiva, o Estado burguês não pode atender igualmente aos interes-
ses de todas as frações burguesas. A implementação da política estatal favorece os interesses de
determinadas frações em detrimento de outras. Ademais, observamos que, ainda que Poulantzas
restrinja a aplicação do conceito de bloco no poder às formações sociais capitalistas, concordamos
com Saes (1985, p.93-5) quanto à possibilidade de se aproveitar esse conceito para a análise dos
processos políticos nas formações sociais pré-capitalistas.

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Os principais limites da tese da burguesia mundial
Ao longo do texto, indicamos alguns dos limites das análises que defendem
a existência de uma burguesia mundial no capitalismo contemporâneo. O passo
seguinte será apontar de maneira aprofundada aquilo que entendemos como limites,
ou melhor, como equívocos da tese da burguesia mundial.
No tocante à primeira variante explicativa, salientamos que, a despeito de
indicarem que seu objeto de análise fundamental é a classe capitalista ou a burgue-
sia, na prática realizam uma sociologia dos altos quadros. Ou seja, essas análises
pautam-se por explicar como se reproduz simbolicamente a categoria dos altos
quadros. Elas não levam a cabo uma discussão mais sistemática sobre a inserção
dos agentes no processo de produção, ou ainda, a investigação sobre a relação
existente entre os altos quadros e os grandes acionistas e a relação de ambos com
os meios de produção. Na verdade, ao dar centralidade aos aspectos simbólicos,
ideológicos e culturais que conferem unidade à classe capitalista transnacional
(Sklair e Pijl) ou à burguesia mundial (Wagner e Pinçon-Charlot; Pinçon), esses
estudos assimilam, direta e indiretamente, elementos importantes da ideologia da
globalização. Como isso ocorre?
Em primeiro lugar, observamos que a discussão sobre o Estado não ocupa um
lugar relevante na elaboração dessa sociologia dos altos quadros. Isso de modo
algum coloca essas análises em conexão, mesmo que indireta, com a problemá-
tica da crise do Estado-nação. A ausência de uma reflexão da relação do Estado
com os altos quadros ou com o que chamam de burguesia parece indicar a ideia
de que a política estatal não desempenha um papel importante na constituição
desses aglomerados sociais.
Em segundo lugar, tais análises apontam para um processo de homogeneização
dos componentes simbólico, ideológico e cultural da inserção social dos altos
quadros, o que as conduz a apresentar de maneira vaga e abstrata as noções de
estilo de vida internacional ou habitus cosmopolita como caução de uma suposta
unidade da classe capitalista transnacional ou da burguesia mundial.
Em terceiro lugar, os sociólogos dos altos quadros indicam como tendência
a conformação de uma unidade de interesses dos altos quadros integral ou par-
cialmente desvinculados dos nexos nacionais, mas não logram demonstrar clara-
mente como isso se manifesta, por exemplo, na ação política dos altos quadros.
Um aspecto que nos chama atenção nas análises dos autores vinculados a essa
variante é a inclusão dos altos quadros executivos no interior da classe capitalista.
A propósito, é importante salientar que tais análises atêm-se, única e exclusiva-
mente, aos aspectos formais de constituição dessa categoria, na medida em que
não demonstram – ou não podem demonstrar – o conteúdo político dessa unidade
que conformaria a classe capitalista transnacional. O que conhecemos através
dessas análises são apenas os aspectos mais gerais e abstratos dessa classe. Uma
análise de conteúdo necessitaria da explicitação de determinados elementos para
que a dimensão mais concreta ganhasse relevância. Assim, por exemplo, frente

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à implementação do neoliberalismo em escala mundial, que medidas específicas
seriam matéria de consenso e quais delas integrariam politicamente a classe ca-
pitalista transnacional? Provavelmente não encontraremos, nessas análises dos
altos quadros, qualquer resposta para tais questionamentos.
No que se refere à segunda variante explicativa, é visível a forma como as-
similam a tese da crise ou do fim do Estado-nação. Para tais análises, a política
operaria segundo a lógica de que quanto mais se ampliasse o poder das grandes
firmas transnacionais, menos relevante se tornaria o poder do Estado nacional.
Ocorre aqui o mesmo equívoco cometido pela primeira variante: não há nenhuma
discussão sobre o conteúdo das políticas e sobre a forma como as grandes firmas
transnacionais lograram obter um relativo protagonismo na conjuntura atual.
Tudo se passa como se o Estado nacional não atendesse de modo desigual os
diferentes interesses de classe e funcionasse apenas como uma espécie de caixa
preta, na medida em que se projeta efetivamente como uma instituição acima das
classes sociais. Na melhor das hipóteses, ter-se-ia a constituição de um Estado
transnacional para atender às demandas das classes transnacionais (Robinson,
2004) ou, numa outra versão, a constituição de um Estado que dividiria poderes
com as grandes firmas. O argumento é circular, pois descura do fato de que um
dos aspectos fundamentais de qualquer processo de implementação da política
estatal é que o Estado, salvo as conjunturas de crise de hegemonia, priorizará
sempre os interesses de determinadas frações de classe em detrimento de outras.
A forma de intervenção do Estado pode variar, mas a ideia de que ele possui
poder próprio desloca toda a problemática central, que é a de entendê-lo como
um aparelho que organiza politicamente a burguesia e prioriza, nessa unidade, os
interesses de certas frações em detrimento de outras.4
Outro equívoco dessa segunda variante tem relação com a definição genérica
de classe capitalista transnacional. Os argumentos apresentados sugerem que as
burguesias não possuem uma base de acumulação nacional e que não repatriam
seus lucros para suas matrizes localizadas, invariavelmente, nas metrópoles im-
perialistas.
Quanto à terceira variante, três aspectos fundamentais podem ser questionados.
Em primeiro lugar, entendemos que a ideia dos grupos multifuncionais como fenô-
meno novo e típico do capitalismo contemporâneo parece ser bastante imprecisa.

4 A concepção de Estado capitalista como organizador dos interesses políticos das frações burguesas
encontra-se desenvolvida sistematicamente em Poulantzas (1972). Nessa obra, Poulantzas emprega
o conceito de fração hegemônica, já aludido antes (ver nota 3), para designar a fração burguesa
que teria seus interesses priorizados pela política estatal. O autor também faz alusão à existência
de uma única fração de classe que exerceria hegemonia no bloco no poder. Consideramos, no
entanto, imprecisa a ideia de uma única fração exercendo hegemonia. Entendemos que a hege-
monia política possui um caráter compósito, podendo combinar uma diferenciação interna da
classe ou fração hegemônica, em termos de escala do capital (grande, médio e pequeno), e uma
diferenciação segundo a função do capital (industrial, comercial e bancário), formando, assim, um
“sistema hegemônico” (Saes, 2001) ou um “núcleo hegemônico” (Farias, 2009).

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Ao tomarmos como exemplo os clássicos do imperialismo – tais como Hilferding,
Bukharin e Lênin, que analisaram o processo de formação do capital financeiro –,
notaremos que o processo de interpenetração de capitais já era algo que se de-
senvolvia fortemente nas metrópoles capitalistas do início do século XX. Esse
processo resultou, inclusive, na passagem do capitalismo da livre-concorrência
para o capitalismo monopolista. Nesse sentido, é possível indicar que a multi-
funcionalidade não é característica da fase atual, pois já no princípio do século
passado assistíamos a um processo avançado de interpenetração entre o capital
bancário e o capital industrial, com a dominância do primeiro sobre o segundo.
Ao analisarmos uma formação social dependente, também poderemos chegar à
conclusão de que a multifuncionalidade não é um fenômeno novo do capitalismo.
Vejamos, por exemplo, o caso da burguesia agroexportadora no Brasil da República
Velha. Essa fração de classe não investia apenas na atividade de exportação de
produtos agrícolas, mas era nessa atividade que os investimentos aplicados e os
rendimentos obtidos se concentravam (Perissinotto, 1994). O mesmo fenômeno
ocorreu na formação dos principais bancos brasileiros, quando uma determinada
família priorizava a atividade bancária, mas realizava investimentos em outras
atividades econômicas (Costa, 2002). Sob esse enfoque, talvez seja mais adequado
afirmar que a multifuncionalidade é uma característica própria de alguns setores
do capital, os quais, por sua própria composição, possuem a capacidade de investir
em mais de uma atividade, mas nunca deixando de priorizar aquela que lhes é
mais rentável. Isso quer dizer que, a despeito de poder investir e obter rendimentos
em mais de uma atividade, um grupo capitalista multifuncional haverá de fazer a
escolha na conjuntura política da atividade que considere principal ou dominante.
Na conjuntura política, portanto, um grupo capitalista multifuncional particular tem
necessidade de optar por aquela atividade que lhe ofereça maiores condições para
a ampliação dos seus rendimentos, já que, como afirmamos, o modo de produção
capitalista não permite, como sugerem os neoliberais, uma “ótima alocação de
recursos”, isto é, uma repartição igualitária da mais-valia global.5
Outro aspecto a ser questionado e que tem relação direta com a tese da multi-
funcionalidade é a própria caracterização do processo de financeirização, entendido
como um fenômeno de alcance universal. Mais uma vez constatamos uma visão
simplista e imprecisa no argumento das análises vinculadas à terceira variante
explicativa. Como já indicamos, essas análises, quando se referem ao processo
de financeirização, não esclarecem o plano mais concreto em que esse processo
se efetiva, ou seja, ignoram a análise das formações sociais e apelam para uma

5 É curioso notar que não são poucos os autores atualmente afetados pela síndrome da novidade:
enquanto muitos sustentam a tese segundo a qual a multifuncionalidade do capital é um fenôme-
no novo no capitalismo, no campo dos estudos da classe trabalhadora não são raras as análises
que defendem o argumento de que a heterogeneidade da classe trabalhadora seria supostamente
um fenômeno típico do capitalismo contemporâneo, quando, na verdade, trata-se de um aspecto
estrutural da constituição dessa classe.

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análise geral do capitalismo, vindo a sugerir que a financeirização atinge todos
os países do globo indistintamente.
Quando, por exemplo, caracteriza o que vem a ser o capital financeiro, Mi-
glioli afirma:

É a este capital, materialmente constituído de papéis, que representam um direito


de receber dividendos (lucros distribuídos) e um direito de votar nas assembleias
de acionistas (quando se é possuidor de ações ordinárias) e que podem ser rapi-
damente convertidos em dinheiro através de suas vendas nas bolsas, que se dá o
nome de capital financeiro. (Miglioli, 1998, p.40)

Ora, essa definição de capital financeiro opera com a ideia da dissociação


completa existente entre a esfera financeira e a esfera da produção. Miglioli ex-
plicita a existência dessa dissociação ao definir o caráter da burguesia financeira:
“em lugar de possuir capital real (prédios, máquinas, equipamentos etc.) ela se
converte em proprietária de capital financeiro, que compreende o dinheiro e papéis
facilmente conversíveis em dinheiro (como as ações, os títulos de crédito etc.)”
(Miglioli, 2006, p.18). Encontramos uma análise mais satisfatória do conceito de
capital financeiro na obra de Lênin (1985), que aborda a interpenetração do capital
industrial com o capital bancário sob a dominância deste último. Sob esse enfoque,
embora constituam atividades distintas, o capital bancário e o capital industrial
não são concebidos como atividades separadas, já que podem ser controlados por
um mesmo grupo de capitalistas, no decorrer do processo de intensificação da
concentração e centralização de capitais. Com isso, queremos sugerir que a ideia
de um processo de financeirização universal é imprecisa, pois não atenta para a
particularidade histórica de constituição do capital financeiro em cada formação
social capitalista.
O terceiro aspecto dessa variante explicativa a ser questionado diz respeito
à ideia de internacionalização da burguesia. O argumento defendido por essas
análises é o de que, na medida em que realiza aplicações em títulos e empresas
de outros países, a burguesia se internacionaliza, perdendo, assim, os laços com
seu Estado nacional de origem. Nesse caso, tal interpretação tende a ignorar, no
limite, as relações de dominação e de dependência entre os Estados nacionais,
sugerindo que o capital circula livremente pelo mercado mundial e que não se
concentra em nenhum espaço nacional específico, já que as burguesias perderam
seus laços sociais nacionais. Contrariando esse tipo de análise, Borón (2002)
caracteriza a crença na livre mobilidade dos fatores produtivos como um mito,
pois entende que a força de trabalho, o dinheiro, a tecnologia, as fábricas e os
equipamentos estão todos sujeitos a certas restrições que impedem a sua livre
mobilidade. Em relação à suposta existência de empresas globais e transnacionais,
Borón é contundente ao afirmar que:

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A retórica dos ideólogos da globalização neoliberal não consegue dissimular o
fato de que 96% dessas duzentas empresas globais e transnacionais têm suas casas
matrizes em oito países, estão legalmente inscritas nos registros de sociedades anô-
nimas de oito países, e suas diretorias têm sua sede em oito países do capitalismo
metropolitano [...] Seu alcance é global, mas sua propriedade e seus proprietários
têm uma clara base nacional. (Borón, 2002, p.51)

Diante do exposto, só podemos concluir que a tese da existência de uma


burguesia unificada e integrada mundialmente no capitalismo contemporâneo é
parte componente da ideologia da globalização. Diferentemente do que prega essa
ideologia, entendemos que o desenvolvimento desigual do capitalismo, a existência
de diferentes Estados nacionais e a impossibilidade de ocorrência de um processo
de repartição igualitária da mais-valia global são obstáculos estruturais à formação
de uma classe dominante mundial ou global nos marcos do modo de produção
capitalista. Se, por um lado, há um movimento expansivo do capital, que faz com
que, no dizer de Marx e Engels (1977, p.24), “a burguesia invad[a] todo o globo”,
por outro lado, esse movimento ou processo não ocorre sem contradições – o que
leva “a burguesia a vive[r] em guerra perpétua; primeiro, contra a aristocracia;
depois, contra as frações da própria burguesia cujos interesses se encontram em
conflito com os progressos da indústria; e sempre contra a burguesia dos países
estrangeiros” (Marx e Engels, 1977, p.29).
A referência aqui feita ao Manifesto comunista não é casual, nem pretende
reforçar acriticamente qualquer discurso de autoridade, mas visa tão somente a
contestar a ideia defendida por Ianni de que seria possível encontrar no pensa-
mento de Marx e na tradição marxista “recursos metodológicos e teóricos funda-
mentais para a inteligência da globalização” (Ianni, 1998, p.161). Ao contrário,
consideramos que é mais adequado extrair, do pensamento de Marx e da tradição
marxista, uma série de elaborações teóricas que nos afastam da problemática da
globalização e também da visão essencialista das classes sociais. Isso nos leva a
propor, de modo indicativo, uma abordagem alternativa para o estudo das relações
intraburguesas no plano internacional.

Por uma abordagem alternativa das relações


intraburguesas no capitalismo contemporâneo
Nas primeiras décadas do século XX, os conceitos de burguesia nacional e
de burguesia compradora foram elaborados e difundidos pela tradição marxista
para compreender o posicionamento das classes dominantes das formações sociais
dependentes e semicoloniais frente à dominação das potências imperialistas.
O conceito de burguesia nacional foi elaborado para se referir a uma fração
de classe da burguesia dos países dependentes e semicoloniais, a qual possuía
uma base própria de acumulação, agia interessada em ampliar o mercado interno,

A burguesia mundial em questão • 43

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redistribuía renda visando à constituição de um mercado de massas e aceitava, sob
pressão dos trabalhadores, a ampliação de alguns direitos sociais e trabalhistas.
Em algumas situações históricas particulares, essa fração de classe chegou até
mesmo a participar de frentes anti-imperialistas juntamente com setores populares
– o que resultou, por exemplo, nas lutas de libertação nacional e nas revoluções
democráticas do Pós-Segunda Guerra Mundial.
Nos dias atuais, mesmo com a forte ampliação do processo de internacionaliza-
ção do capital, não se exclui a possibilidade de formação de burguesias nacionais
em economias de enclave, caracterizadas por uma indústria pouco diversificada e
um débil sistema bancário, como são os casos de Venezuela, Bolívia e Equador.
Esses Estados distinguem-se das demais formações sociais latino-americanas pelo
fato de seus governos avançarem significativamente numa política de naciona-
lização e estatização de recursos naturais e de empresas e serviços estratégicos,
adotando medidas voltadas para uma maior redistribuição da renda, e, desse modo,
chocando-se diretamente com os interesses imperialistas e com as burguesias locais
que dão sustentação política a tais interesses. A propósito, demonstramos aqui
a nossa discordância em relação à tese fatalista de que as burguesias dos países
dependentes estão fadadas à integração total e irrestrita ao capital imperialista.
Cabe ressaltar, ainda, que a aplicação do conceito de burguesia nacional, ao
contrário do que supunha certa leitura mecanicista das classes sociais, não tem um
alcance universal, isto é, o conceito de burguesia nacional não pode ser atribuído
indistintamente ao estudo de todas as formações sociais dependentes e semico-
loniais. Defender tal universalidade da aplicação desse conceito nos conduziria
a assimilar acriticamente uma visão essencialista das classes sociais, em vez de
recorrermos à “análise concreta da situação concreta”. Equívoco similar seria
afirmar a inexistência da burguesia nacional como fenômeno histórico.
Já o conceito de burguesia compradora foi formulado para referir-se à fração de
classe burguesa que apoia integralmente os interesses imperialistas, não podendo,
assim, ser incluída numa frente anti-imperialista. Além de ser uma mera extensão
do capital imperialista nos países dependentes e semicoloniais, essa burguesia não
possui uma base de acumulação própria.
É importante ressaltar também que o emprego do qualificativo “compradora”
para designar um setor da burguesia totalmente atrelado ao capital imperialista
estava diretamente vinculado a uma fase do capitalismo em que as principais
diretrizes macroeconômicas da economia mundial eram ditadas pelo comércio
de mercadorias (importação/exportação). Como afirmam Hirst e Thompson
(1998), se entre 1945 e 1973 a economia mundial era dirigida pelo crescimento
do comércio internacional, a partir dos anos 1980, o crescimento do investimento
externo direto é que ditaria as regras do mercado mundial. Assim, num período em
que o capital monopolista se estabelece em nível mundial e em que a exportação
de capitais assume o lugar do comércio de mercadorias, passando a subordiná-
-lo às suas diretrizes, parece-nos ser mais adequado evitar o uso do conceito de

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“compradora”, substituindo-o pelos conceitos de “burguesia integrada” ou de
“burguesia associada”. Eles indicam, de modo mais preciso, essa nova realidade
de setores das burguesias de alguns países dependentes, tornados simples “cor-
reias de transmissão” dos investimentos externos diretos provindos das potências
imperialistas.
Se, ao longo do século XX, o debate acerca das relações intraburguesas no
plano internacional tendeu a dar prioridade aos nexos existentes entre as potên-
cias imperialistas e às formações dependentes e semicoloniais – daí advindo os
conceitos de burguesia nacional e burguesia compradora –, a partir dos anos
1970, Nicos Poulantzas procurou deter-se no estudo das relações existentes entre
as burguesias das potências imperialistas, mais precisamente, da relação entre o
capital imperialista hegemônico (dos EUA) e as burguesias europeias.
Para tratar de tal tema, Poulantzas (1974; 1975) desenvolveu, de maneira
original, o conceito de burguesia interna (ou interior), identificando, desse modo,
uma fração burguesa que ocuparia uma posição intermediária entre a burguesia
nacional e a burguesia compradora.
Para esse autor, a burguesia interna possuiria uma base de acumulação própria,
estando conectada ao capital imperialista hegemônico; mas seria refratária a algu-
mas das políticas de interesse desse capital. Essa fração se comportaria de maneira
ambígua frente ao capital ou núcleo imperialista hegemônico, dada a sua própria
situação contraditória de dependência e de autonomia em relação a esse capital.
O exemplo histórico a que Poulantzas recorre como referência é o das bur-
guesias europeias dos anos 1970, formadas como resultado do forte processo
de internacionalização do capital naquele período. Devido à criação do Plano
Marshall, financiado pelos EUA, visando reestruturar a economia dos países
europeus afetados pela Segunda Guerra Mundial, o capital que passa a se conso-
lidar na Europa estrutura-se numa relação de forte dependência frente ao capital
estadunidense. No entanto, como observa Poulantzas, as burguesias europeias
aos poucos buscariam construir uma relativa autonomia em relação a esse capital.
Um exemplo disso foi a própria criação da Comunidade Econômica Europeia em
meados dos anos 1950, tendo como objetivo declarado a organização do livre
comércio no continente europeu, mas visando, de fato, articular certa autonomia
em relação ao capital estadunidense. O resultado desse processo culminou com
o surgimento das burguesias internas na Europa.
Ao sintetizar a análise de Poulantzas, Farias indica três formas de presença
do capital estrangeiro na formação social:

(...) o capital estrangeiro totalmente externo, mas com interesses internos (ação
externa/interna); o capital estrangeiro internalizado (atua como capital local, mas
envia dinheiro para a matriz); e o capital associado (nativo e estrangeiro, como no
modelo joint ventures). (Farias, 2009, p.89)

A burguesia mundial em questão • 45

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E conclui que, face a cada uma dessas presenças, a burguesia interna pode
ter um tipo de reação, sendo “mais resistente com um e menos com outro desses
tipos de capital estrangeiro”.
Ocorre que, embora as resistências em relação ao capital estrangeiro possam
ser variáveis, dada a própria variabilidade da presença desse capital na formação
social, para Poulantzas (1974; 1975) há uma característica comum a todas as
burguesias internas: sua fragilidade político-ideológica perante o capital imperia-
lista hegemônico – o que tendencialmente as impede de romper com esse capital
ou exercer, a longo prazo, a hegemonia no bloco do poder, principalmente nas
formações sociais que ocupam uma posição marginal no núcleo das metrópoles
imperialistas, como são os casos da Grécia, Espanha e Portugal, analisadas por
Poulantzas (1975).
Outra característica da burguesia interna é o seu interesse no desenvolvimento
econômico mas, ao contrário da burguesia nacional, a burguesia interna defende
o desenvolvimento econômico voltado para a conquista do mercado externo. Não
se trata, assim, de uma “burguesia fechada no espaço nacional”. Além disso, a
burguesia interna é socialmente conservadora, pois não visa ampliar os direitos
sociais e trabalhistas, visto que, para essa fração de classe, tais direitos implicariam
o aumento dos custos de produção e a redução da competitividade dos produtos
nacionais no mercado externo (Saes, 2007).
Caberia indagar ainda se o conceito de burguesia interna seria operacional
para explicar o comportamento de certas frações burguesas das formações sociais
dependentes. Embora não tenha desenvolvido tal hipótese, o próprio Poulantzas
aponta essa possibilidade ao afirmar que:

(...) pela “industrialização periférica”, núcleos de burguesia interna podem igual-


mente aparecer nas formações periféricas: se essas burguesias já não constituem mais
as burguesias nacionais das fases precedentes do imperialismo, elas não se reduzem
forçosamente ao que G. Frank designa como Lumpen-burguesias. (1974, p.72)

A aplicação do conceito de burguesia interna na análise das formações so-


ciais dependentes indica, assim, uma terceira possibilidade de interpretação das
relações intraburguesas no plano internacional, uma vez que o comportamento
ambíguo dessa fração, ora de apoio, ora de resistência ao capital estrangeiro,
assume nesse caso uma feição particular. Nas formações sociais dependentes, o
capital imperialista tende a assumir um caráter compósito, já que um conjunto
de capitais estrangeiros pode formar o núcleo hegemônico – e não apenas o ca-
pital imperialista hegemônico (por exemplo, os EUA). Isso produz efeitos sobre
o próprio alcance das possíveis reações que esse tipo de burguesia interna pode
articular frente ao capital estrangeiro, em especial ao capital imperialista, o que
nos leva a denominá-la burguesia interna dependente, justamente para qualificar

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sua particularidade frente a outras burguesias internas, como, por exemplo, as
europeias.
Em decorrência da subordinação ao capital imperialista, a burguesia interna
dependente tem muito mais dificuldades para se opor aos interesses desse capital.
Tal situação pode ser atenuada, ou parcialmente neutralizada, de dois modos,
fundamentalmente:
1. Por via da exploração, em seu proveito, das contradições interimperialistas,
derivadas do agravamento de conflitos político-militares, da emergência
de crises econômicas, da dificuldade das burguesias imperialistas para
encontrar consenso nas negociações de comércio exterior (de mercadorias
e de capitais), entre outros motivos. Isso significa que as contradições
interimperialistas abrem brechas para que a burguesia interna dependente
possa ampliar o seu poder de barganha nas negociações com o capital
imperialista.
2. Por via da expansão do capital dessas burguesias internas sobre outras
formações sociais. O exemplo mais recente desse processo é a forte in-
fluência que as empresas brasileiras passaram a ter sobre a economia dos
países sul-americanos, o que tem resultado, até o presente, num crescente
processo de internacionalização do capital das burguesias brasileiras.
Enfim, as indicações que apresentamos acima nos levam a concluir que urge
ao pensamento crítico desvencilhar-se das armadilhas produzidas pela cantilena
da globalização. Caso isso não ocorra, seremos convidados a assimilar a ideia
de que o processo de internacionalização do capital está em vias de suprimir o
desenvolvimento desigual do capitalismo e tende a projetar um tipo de capitalismo
em que é possível a repartição igualitária da mais-valia global – o que significaria
a ausência dos conflitos intraburgueses e a emergência efetiva de uma burguesia
mundial. Supor tal ideia nos parece tão irracional quanto um “logaritmo amarelo”.
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Notas introdutórias
sobre a publicação
das obras de Marx e
Engels
PEDRO LEÃO DA COSTA NETO*

O objetivo do presente artigo é expor, em linhas gerais, a história das sucessivas


edições das obras de Karl Marx e Friedrich Engels, tentando revelar os diferentes
obstáculos com os quais se depararam e os problemas teóricos que suscitaram.
A reconstrução dessa trajetória nos permitirá problematizar importantes aspectos
associados à difusão e ao destino da obra dos dois autores.
Para compreendermos essa história, é necessário observar que ela esteve
marcada desde o seu início por duas diferentes questões: a primeira associada
aos seus efeitos práticos na história social e política dos séculos XIX e XX, e a
segunda aos problemas teóricos por ela suscitadas no interior da reflexão marxista.

Escritos de Karl Marx e Friedrich Engels publicados durante sua vida


A publicação das obras de Marx
No caso do legado de Marx, é importante destacar que a grande maioria das
suas obras permaneceu inédita durante sua vida e, mesmo uma parte daqueles es-
critos que exerceram significativa influência para a formação da tradição marxista,
foi publicada apenas postumamente (Hobsbawm, 1980, p.424ss.).

* Doutor em Filosofia pela Universidade de Varsóvia e professor da UTP. Gostaria de agradecer a


Armando Boito Júnior e Ruy Gomes Braga Neto, coordenadores do GT Marxismo e Ciências Sociais,
e as observações críticas de Marcelo Ridenti por ocasião da apresentação do trabalho na XXXIII
ANPOCS. Agradeço igualmente a leitura atenta e as sugestões de Claus Magno Germer e Erivan
Cassiano Karvat. O artigo é de inteira responsabilidade do autor.

Notas introdutórias sobre a publicação das obras de Marx e Engels • 49

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Podemos destacar os seguintes livros publicados durante a vida de Marx:
1845 – A sagrada família (redigido em conjunto com Engels)
1847 – Miséria da filosofia
1848 – Manifesto do Partido Comunista
1852 – Dezoito Brumário de Luis Bonaparte
1859 – Contribuição à crítica da economia política
1860 – Herr Vogt
1867 – O capital, Livro I
1871 – A guerra civil na França
1873 – O capital, Livro I (2.ed.)
1872-1875 – O capital, Livro I (tradução francesa em fascículos).
Ao lado dessas obras, Marx – durante toda sua vida – publicou, igualmente,
um grande número de artigos em jornais e revistas. Destes, é importante destacar
os textos resultantes de sua participação, no início de sua carreira, em 1842-1843,
na Gazeta Renana e a edição em conjunto com Arnold Ruge dos Anais franco-
-alemães, em 1844.
Nos anos iniciados com as revoluções europeias de 1848, desenvolveu uma
intensa atividade jornalística, sendo que em 1848-1849 publicou com Engels a
Nova Gazeta Renana e em 1850 a Nova Gazeta Renana – Revista econômica-
-política. Em 1855, colaborou com o jornal alemão Neue Oder Zeitung e, por
fim, entre os anos 1851 e 1862, foi correspondente do jornal norte-americano
New York Daily Tribune.1
Uma parte significativa desta obra jornalística foi reunida e publicada postu-
mamente, sob a forma de livro, por Engels, e dela podemos destacar:
• Trabalho assalariado e capital, publicado em 1891, que reunia conferências
de Marx de 1847 e publicadas sob a forma de artigos de Marx na Nova
Gazeta Renana em 1849;
• A luta de classes na França, série de artigos reunidos em livro em 1895 e
publicados originariamente em Nova Gazeta Renana – Revista econômica-
-política.
O período compreendido entre 1864 e 1872 foi marcado por uma série de arti-
gos que refletem a sua militância na Associação Internacional dos Trabalhadores,
a I Internacional, entre os quais se destacam o Manifesto inaugural da Associação
Internacional dos Trabalhadores, Estatutos provisórios da Associação Interna-
cional dos Trabalhadores (ambos de 1864) e o Manifesto do conselho geral da

1 É importante destacar que uma parcela dos artigos jornalísticos publicados originariamente com
o nome de Marx, foi, na verdade, escrita por Engels. Entre estes podemos enumerar o conjunto
publicado em 1851-1852 no jornal New York Daily Tribune e publicado sob o nome de Revolução
e contra revolução na Alemanha por Eleanor Marx Aveling, em 1896.

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Associação Internacional dos Trabalhadores, de 1871, dedicado à Comuna de
Paris e publicado, posteriormente, com o nome A guerra civil na França em 1871.
Este último escrito foi, sem dúvida, a obra de Marx de maior difusão até então
e deu a ele certa notoriedade (Hobsbawm, 1980, p.425). Afora este conjunto de
escritos e de uma extensa e rica correspondência, em particular com Engels e
numerosos personagens do Movimento Operário Internacional e intelectuais de
diferentes países,2 Marx igualmente nos deixou um grande número de manuscritos
em diferentes graus de elaboração, desde apontamentos de leitura – entre os quais
as Notas etnológicas de Karl Marx –, publicados em 1974 por Lawrence Krader,
até diferentes rascunhos em estado avançado de redação, entre os quais se desta-
cam os materiais preparatórios para O capital, Contribuição à história da questão
polonesa, Manuscritos de 1863-1864 e A guerra civil na França em 18713 etc.
A publicação das obras de Engels
Por sua vez, Friedrich Engels publicou durante a sua vida as seguintes obras:
1845 – A situação da classe operária na Inglaterra
1878 – Anti-Dühring4
1880 – Do socialismo utópico ao científico5
1884 – A origem da família, da propriedade privada e do Estado6
1886 – Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã7

2 Como veremos na sequência, desde o início do século XX foi desenvolvida uma intensa atividade
editorial de publicação da correspondência de Marx e Engels. É necessário destacar a particular
importância, manifestada em diferentes momentos de sua obra, atribuída por Lênin a essa correspon-
dência. Para mais informações, consultar os comentários de V. I. Lênin (1976), a correspondência
entre Marx e Engels e a introdução de V. Adoratsky à sua edição da correspondência. (Marx e
Engels, 1977, p.7-10)
3 Particularmente importantes para compreender o “laboratório teórico” de Marx são os diferentes
manuscritos que constituem a Contribuição à história da questão polonesa, Manuscritos de 1863-
-1864 e A guerra civil na França em 1871, visto que neles aparecem materiais que revelam as
diferentes etapas de seu trabalho intelectual. Desde as anotações de jornais, revistas e livros até as
sucessivas redações, expressando diferentes momentos de elaboração do mesmo estudo. Cf., por
exemplo, a edição completa dos manuscritos de Marx dedicados à Questão Polonesa: Przyczynki
do historii kwestii polskiej. R kopisy z lat 1863-1864; Beiträge zur Geschichte der polnischen Frage
Manuskripte aus den Jahren 1863-1864. (Marx, 1986)
4 É importante lembrar, como observa o marxista inglês Gareth Stedman Jones (1980, p.381), que
foi um livro polêmico de Engels, decisivo para a formação da tradição marxista: “A difusão em
escala mundial do marxismo com o caráter de socialismo sistemático e científico não se iniciou,
realmente, nem com o Manifesto do Partido Comunista nem com O capital, e sim com a publicação
do Anti-Dühring, de Engels”.
5 A brochura de Engels, Do socialismo utópico ao científico, é resultado da reelaboração de três
capítulos de Anti-Dühring, com o objetivo de desenvolver uma exposição mais popular dos fun-
damentos do marxismo.
6 Para a sua redação, Engels se utilizou amplamente dos extratos de leitura, já referidos anteriormente,
de A sociedade antiga, de L. H. Morgan, escritos por Marx e publicados postumamente.
7 Engels observa, no Prefácio, que antes da publicação ele voltou a consultar os manuscritos, que
seriam publicados postumamente, da primeira parte da Ideologia alemã, de Feuerbach, e das Teses
sobre Feuerbach, que seriam reproduzidas em apêndice.

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Como no caso de Marx, Engels igualmente redigiu um grande número de arti-
gos para a imprensa – alguns editados com o nome de Marx – e escritos políticos
e militares, entre os quais podemos destacar:
• Guerra camponesa na Alemanha, série de artigos reunidos em livro em
1870 e publicados originariamente na Nova Gazeta Renana – Revista
econômica-política em 1850;
• Sobre o problema da moradia, publicado em 1887, que reunia artigos pu-
blicados em Volkstaat em 1872.
Entre os escritos de Engels que permaneceram inéditos, é importante destacar,
entre outros, Dialética da natureza, manuscrito publicado postumamente por
Riazanov em 1927 e reeditado em 1935 no interior da Mega.
Podemos afirmar que, desde o início, a publicação das obras de Marx (e de
Engels) esteve associada à importância da figura de Marx e à posterior difusão do
marxismo no interior do movimento operário e socialista. As primeiras tentativas
de publicação das obras de Marx remontam ainda à vida dele (Marks e Engels,
1976, p.VIss.; Rubel, 1956; Bongiovanni, 1998, p.174-175). A primeira delas,
Gesammelte Aufsätze von Karl Marx, por iniciativa de Hermann Becker – mem-
bro do Comitê Central da Liga dos Comunistas –, ainda no início dos anos 1850
projetava a publicação em dois volumes – de 25 cadernos cada um –, dos quais
apareceu apenas o primeiro caderno, contendo dois artigos da Gazeta Renana. É
provável que essa edição, por motivos políticos, nem mesmo tenha sido comer-
cializada. Novamente, após a publicação de O capital, em 1867, houve tentativas
de publicar os escritos de Marx, porém, por diferentes motivos elas não tiveram
igual sucesso.8
Foi, contudo, apenas após sua morte, em 1883, que se iniciou a publicação, de
forma sistemática, da obra de Marx. Esboçamos a seguir os principais momentos
dessa história.9
Engels como editor de Marx (1883-1895)
Após a morte de Marx, sua longa amizade e colaboração teórica com Engels
transformou o segundo automaticamente no herdeiro de seu legado. A partir de
então, Engels dedicou a maior parte de seu tempo à organização e publicação dos
escritos de Marx. Destes, sem dúvida, o de maior importância e que lhe custou
extraordinários esforços foi a decifração dos manuscritos, seleção e preparação
para a publicação dos Livros II e III de O capital.

8 Uma vez interrogado por Kautski se não desejava publicar suas obras completas, Marx teria res-
pondido ironicamente: “Estas obras teriam de ser primeiramente escritas” (Rubel, 1956, p.21).
9 Para o período entre 1883 e 1935, baseamo-nos nas seguintes obras: Rubel, 1956, p.21-5; Zapata,
1985, p.31-40; Marx e Engels. Dziela, 1976, p.VIII-XII; Hobsbawm, 1980, p.425-7; Moulfi, 1997,
p.341-8.

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As principais etapas dessa empreitada foram:
1883 – Publicação da terceira edição do Livro I de O capital
1885 – Publicação do Livro II de O capital
1887 – Colaboração na tradução inglesa do Livro I de O capital
1890 – Publicação da quarta edição do Livro I de O capital
1894 – Publicação do Livro III de O capital
É importante destacar que o trabalho editorial de Engels, independentemente
de sua decisiva importância histórica para o desenvolvimento posterior da teoria
marxista, foi objeto de sucessivas apreciações e críticas. Já no início dos anos
1920, o incansável editor das obras de Marx e Engels, David Riazanov, perguntava:

Dos manuscritos que formavam o esboço do Livro II de O capital, ou seja, oito,


somente dois foram utilizados plenamente por Engels. (...) Nós chegamos, por-
tanto, a uma questão de grande importância. Todos os marxistas russos que se
ocupavam do Livro II de O capital não podiam abandonar a seguinte ideia: não
seria possível obter este Livro II sob a forma original, tal qual foi estabelecida por
Marx? (Riazanov, 1968, p.262)10

Essa intrigante questão continuou sendo retomada desde então. Em 1968, o


marxólogo Maximilien Rubel retornaria a ela por ocasião da publicação do segundo
tomo da sua organização das obras de Marx, publicando uma versão ligeiramente
diferente dos Livros II e III. Rubel afirmava:

Nós podemos dizer que Engels fez, ao mesmo tempo, muito, dando a aparência
de uma obra definitiva, e muito pouco, afastando de sua seleção os manuscritos
cuja publicação integral revelaria aspectos importantes da empresa científica de
Marx, na medida que ela melhor indicaria as razões de seu inacabamento. (Marx,
1968, p.502)

Esta questão só seria definitivamente solucionada, como veremos, com a


publicação definitiva do conjunto dos manuscritos de Marx, na Marx – Engels
Gesamtausgabe (Mega 2).11
Independentemente do caráter polêmico da edição engelsniana de O capital,
é importante lembrar alguns aspectos fundamentais dessa empreitada: ao lado de
sua importância para a constituição do corpus da obra de Marx, não sem impor-

10 O artigo de Riazanov (1968, p.255-68) é um importante testemunho sobre o destino dos arquivos
de Marx e Engels após a morte deste último, em 1895.
11 Cf. a este respeito: Hecker, R. 1998, p.312-23; Caire, 1997, p.349-62.

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tância foi a sua contribuição no terreno filológico, assim como a decifração da
grafia quase ilegível de Marx, “fornecendo desta maneira diretamente para amigos
e companheiros, e indiretamente às gerações sucessivas, modelos e técnicas de
leitura e transcrição” (Bongiovanni, 1998, p.176).
Ao lado desse imenso trabalho dedicado à publicação de O capital, Engels
reuniu e publicou, como já observamos anteriormente, um conjunto de obras de
Marx: a primeira edição alemã de A miséria da filosofia, a segunda edição de O
18 Brumário de Luis Bonaparte e as edições de Crítica ao programa de Gotha,
Trabalho assalariado e capital e Luta de classes na França (os dois últimos
acompanhados de importantes introduções). Particularmente importante para a
história posterior do marxismo seria a Introdução às lutas de classes na França
1848-1850, na qual Engels (2005) discute o envelhecimento da tática da luta de
barricadas, típicas da primeira metade do século XIX, e, partindo da experiência
da social-democracia alemã, destaca a importância do sufrágio e da luta eleitoral
na transição ao socialismo.12
Após a morte de Engels, em 1895, o legado e a biblioteca de Karl Marx e Frie-
drich Engels deveriam ser transmitidos à social-democracia alemã; entretanto, uma
vez que a legislação alemã não permitia a transmissão a instituições partidárias,
eles foram transmitidos à filha mais nova de Marx, Eleanor Marx, e a duas grandes
personagens da social-democracia alemã, August Bebel e Eduard Bernstein (que
nos anos seguintes se transformaria no “pai do revisionismo”). Dessa maneira
iniciava-se um segundo período da história da publicação do legado de Marx e
Engels, que se prolongou até a vitória da Revolução Russa.13
Edições de Marx e Engels entre 1895-1917
Se, por um lado, os problemas hereditários e de reunião do legado de Marx
e Engels apresentaram uma série de dificuldades, foram, sem dúvida alguma,
questões de ordem política e ideológica que levaram a um certo abandono e
representaram as maiores dificuldades à organização e publicação dos escritos
dos dois autores. Aliás, como veremos ao longo deste escrito, problemas dessa
natureza acompanharam a realização da publicação do corpus de Marx e Engels
praticamente até as últimas décadas do século XX.
O marxista italiano Antonio Labriola destacava, já em 1897, de forma clara,
as inúmeras dificuldades em conseguir os escritos há muito esgotados e as poucas
ações realizadas pela social-democracia alemã para a publicação das obras de
Marx e Engels:

12 ENGELS, F. Introducción a la edición de 1895. In: MARX, K. Las luchas de clases en Francia de
1848 a 1850. Buenos Aires: Luxemburg, 2005, p.99-121.
13 Para a reconstrução das questões referentes à publicação da obra de Marx e Engels entre 1895-1917
foi particularmente importante a consulta dos seguintes artigos: Riazanov, 1968; Zapata, 1985;
Lefebvre, 1985, p.25-6.

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Os escritos de Marx e de Engels – somente para voltarmos a eles, que estão prin-
cipalmente em questão – foram esses alguma vez lidos por inteiro por alguém,
que se encontrasse fora do círculo dos amigos próximos e adeptos, e, portanto,
dos seguidores e os intérpretes diretos dos autores mesmos? Jamais foram aqueles
escritos tornados, em seu conjunto, objeto de comentário e ilustração de indivíduos
que se encontrassem fora do campo que se formou ao redor da tradição da deutsche
Sozialdemokratie; que projeto de trabalho aplicativo e explicativo por dois anos
foi empreendido sobretudo pela Neue Zeit, revista indispensável da doutrina do
partido? Entorno a quais escritos, em poucas palavras, se formou, fora da Alemanha,
e mesmo aí muito parcialmente, e muitas vezes de forma não plenamente crítica,
isto que os neologistas chamam ambiente de trabalho?
E depois a raridade de muitos desses escritos, e mesmo a impossibilidade de al-
cançar alguns deles! São muitas pessoas no mundo, que tiveram a paciência de se
por durante anos, como ocorreu comigo, à procura de um exemplar da Misère de
la philosophie, que foi apenas recentemente republicada em Paris, ou daquele livro
singular que é a Heilige Familie; e quem está disposto a aturar maior fatiga para
ter à sua disposição um exemplar da Neue Rheinische Zeitung. (...) Para mim, que
entretanto tenho uma certa prática um tanto notável em livros e da maneira de do
modo de procurá-los, não encontrei nunca uma luta mais fastidiosa de consegui-los.
Ler todos os escritos dos fundadores do socialismo científico apareceu até agora
como um privilégio de iniciados. (Labriola, 1977, p.178-9)

E, ainda, acrescentava, referindo-se aos problemas e dificuldades originadas


desse desconhecimento dos escritos de Marx e Engels:

Não é de se estranhar, então, se fora da Alemanha, e também, pois na França, no-


tadamente, muitos e muitos escritores, especialmente entre os publicistas, tivessem
tido a tentação de extrair, ou das críticas dos adversários, ou a partir de citações
incidentais, ou a partir de rápidas ilações extraídas de passagens escolhidas, ou
de vagas lembranças, os elementos para forjar um Marxismo de sua invenção e
maneira? (Labriola, 1977, p.179)

Problemas dessa natureza iniciaram-se já com os debates que envolveram


a social-democracia alemã, desde o final dos anos 1890. O debate sobre o re-
visionismo, aberto com a publicação do livro de Bernstein, Os pressupostos
do socialismo e as tarefas da social-democracia, publicado em 1899, é um dos
primeiros exemplos de como os debates teóricos influenciaram uma utilização
instrumental desse legado.
Hobsbawm observa, sobre a publicação das obras de Marx e Engels pela
social-democracia alemã:

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O Partido Social-Democrata Alemão, que possuía o Nachlass dos fundadores, não
fez nenhuma tentativa de publicar suas obras completas; e é mesmo possível que
julgasse contraproducente a publicação ou a reedição de algumas de suas obser-
vações mais virulentas e ofensivas, ou de escritos políticos que conservavam um
interesse puramente contingente. (Hobsbawm, 1980, p.428-9)

Ao lado da publicação da célebre Introdução à contribuição a crítica da


economia política (editado por Kautski em 1903 na revista teórica da social-
-democracia alemã Die Neue Zeit), de fragmentos de A ideologia alemã (publicado
por Bernstein em 1902-1903 na revista de teoria e de bibliografia socialistas criada
pelo mesmo Bernstein, Dokumente des Sozialismus) e de diferentes fragmentos
da correspondência, foram realizadas as seguintes edições naquele período:
1902 – Franz Mehring publica, em quatro volumes, Gesammelte Schriften K.
Marx’s und F. Engels 1841 bis 1850 – Aus dem Literarischen Nachlass von K.
Marx, F. Engels und F. Lassale, os três primeiros tomos dedicados às obras do
período entre 1841-1848 – incluindo a tese de doutorado de Marx –, e o quarto
volume dedicado à correspondência de Marx e Engels com Lassale.14
1905-1910 – Kautski publicava Teorias da mais-valia, o Livro IV de
O capital.15
1913 – Bebel e Bernstein publicam, em quatro volumes, a correspondência
entre Marx e Engels: Der Briefwechsel Zwischen F. Engels und K. Marx 1844
bis 1883.16
Era esta, em linhas gerais, a situação da edição das obras de Marx e Engels
até as vésperas da Primeira Guerra Mundial – conflito que marcaria a história da
Europa e também do marxismo no século XX.
Referindo-se à disponibilidade dos escritos de Marx e Engels naquele mo-
mento, Hobsbawm observa:

Em 1914, talvez seja indicada do melhor modo possível pela bibliografia colocada
como apêndice ao artigo Karl Marx do Dicionário Enciclopédio Granat, escrito por
Lênin naquele ano. Se um texto de Marx e Engels não era conhecido pelos marxistas
russos, os mais assíduos estudiosos dos escritos dos clássicos, pode-se deduzir que
ele não estava à disposição do movimento internacional. (Hobsbawm,1980, p.429)17

14 É importante lembrar que Lassale era considerado um dos pais da social-democracia alemã, ao
lado de Marx e Engels.
15 Como é sabido, esta edição de Kautski das Teorias da mais-valia apresentava, devido a uma organi-
zação arbitrária dos Cadernos de Marx, uma série de problemas. Em 1956, na RDA, foi publicada
uma nova edição, mais rigorosa, das Teorias da mais-valia (Badia, 1974, p.14-7).
16 Esta edição de mais de 1380 cartas apresenta, entretanto, inúmeras lacunas, muitas vezes devido
à censura associada a questões políticas e pessoais vinculadas à social-semocracia alemã.
17 Para consultar a referida bibliografia, cf. Lênin, 1976, p.75-80.

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Por sua vez, Maximilien Rubel sintetiza da seguinte forma a situação da pu-
blicação das obras de Marx e Engels antes de 1914:

Procurando caracterizar o conjunto das pesquisas e das publicações marxológicas


às vésperas da Primeira Guerra Mundial, nos deparamos com uma série de esforços
isolados, conduzidos individualmente por pesquisadores que trabalhavam sem plano
preciso, sem um fim comum, ao sabor das circunstâncias e das ocasiões, com a
colaboração de diversos periódicos e de diferentes editoras. (Rubel, 1956, p.28)

Podemos considerar como conclusão da história da publicação das obras de


Marx e Engels no período 1915-1917 a edição do volume organizado por David
Riazanov, e com traduções do inglês por Louise Kautski: Gesammelte Schriften von
Karl Marx und Friedrich Engels, 1852 bis 1862, publicado em 1917 em Stuttgart
e que reunia grande parte dos escritos dos dois autores sobre acontecimentos da
história da Europa entre 1852-1857.
É importante destacar que esse estado de publicação das obras de Marx e
Engels era ainda mais agravado por uma conjuntura marcada pela hegemonia
teórica do positivismo, do materialismo mecanicista e do evolucionismo que
tiveram uma importante influência para a formação e consolidação do marxismo.
Gareth Stedman Jones sublinha o papel decisivo da obra de Engels, Anti-
-Dühring, para a formação da tradição marxista da II Internacional:

Esse livro serviu de base à formação dos mais autorizados expoentes da Segunda
Internacional: Bebel, Bernstein, Kautsky, Plekhanov, Axelrod e Labriola. [...] En-
gels, na condição de profeta do materialismo dialético, sobrepujou completamente
a figura do fundador e elaborador do materialismo histórico. (Jones, 1980, p.381-2)

O mesmo G. S. Jones, em outro escrito dedicado a Engels, observa no mesmo


sentido:

Não é necessário dizer que a formulação de Engels do materialismo histórico e


a filosofia que elaborou para acompanhá-lo tiveram importantes consequências.
Com ambos marcou a transição, por assim dizer, de Marx ao marxismo, e iniciou
o caminho que depois seguiriam todos os principais intérpretes do marxismo da
Segunda Internacional e muitos líderes da Terceira. (Jones, s.d. p.43)18

Por fim, cabe lembrar que entre os grandes teóricos do marxismo que viveram
entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, entre os quais

18 Sobre os diferentes aspectos do marxismo da II Internacional, cf. Andreucci, 1982, p.15-73.

Notas introdutórias sobre a publicação das obras de Marx e Engels • 57

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Labriola, Rosa Luxemburg, Plekhanov, Lênin e Mehring, nenhum deles conheceu
os inéditos de Marx e Engels que serão publicados somente a partir dos anos 1920.
Este período se encerra com a vitória da Revolução Russa, em outubro de
1917, evento que abriu um novo capítulo na história da publicação das obras de
Marx e Engels.
Edições de Marx e Engels entre 1917-1939/1941
A Revolução de Outubro promoveu uma profunda transformação na história
da publicação das obras de Marx e Engels que representou, além de um simples
deslocamento geográfico – da passagem da Alemanha para a Rússia –, uma mu-
dança política: a possibilidade de, a partir de então, contar com o apoio de uma
estrutura estatal; por fim, a responsabilidade pela sua publicação passou para “uma
geração de responsáveis que jamais tivera relações pessoais com Marx, nem –
como frequentemente ocorrera – com o velho Engels” (Hobsbawm, 1980, p.430).
O grande personagem desse período foi David Borisovitch Riazanov.19 Desde
a consolidação da vitória da revolução foi criada, em 1921, em nível institucional,
uma comissão especial para a publicação e difusão das obras de Marx. No mes-
mo ano era criado o Instituto Marx-Engels (IME) que, dirigido por Riazanov, a
partir de 1923 fotocopiou grande parte do “Arquivo Marx Engels”, de posse da
social-democracia alemã. A partir de 1924, o IME, dirigido por Riazanov e com o
apoio do Partido Social-Democrata Alemão, além da participação do Instituto de
Pesquisas Sociais de Frankfurt20 concretiza a ideia da publicação da Marx Engels
Gesamtausgabe – Mega (Lefebvre, 1985).
O plano de Riazanov estabelecia a publicação de 42 volumes e estava dividido
em três partes: a primeira parte previa a publicação do conjunto dos escritos de
Marx e Engels em 17 volumes; na segunda parte, seria publicado o conjunto dos
manuscritos de Marx, desde 1857, associados ao projeto de Crítica da Economia
Política, em um total de 13 volumes; e, por fim, a terceira parte reuniria o conjunto
da correspondência de Marx e Engels em um total dez volumes. Riazanov dirigiu
a publicação até fevereiro de 1931, quando foi preso e substituído por Vladimir

19 Destacado intelectual e militante comunista russo, foi, desde o início do século XX, um importante
pesquisador da obra de Marx e de Engels e da história da Internacional. De passado menchevique,
aderiu à revolução e tornou-se o diretor do Instituto Marx-Engels de Moscou e responsável pela
publicação das Obras Completas. Seria preso em 1931 e fuzilado em 1938, por ocasião dos grandes
expurgos. Possuindo uma extensa rede de contatos e relações que incluía membros da social-
-democracia alemã e até exilados mencheviques (entre os quais Boris Nicolaievski, autor de uma
importante biografia sobre a vida de Marx e que se tornaria representante, na Europa Ocidental,
do Instituto Marx-Engels e, anos após, se envolveria no episódio da venda dos “Arquivos Marx e
Engels”). Riazanov também se destacou na organização e publicação de inúmeras obras da tradição
marxista, do pensamento materialista francês do século XVIII e de Hegel.
20 Sobre a participação do Institut für Sozialforschung, fundado em 1924, na publicação da Mega, cf.
Wiggershaus, 1993, p.33-4; Malinowski, 1979, p.28-30. É importante lembrar que o artigo citado
de Riazanov foi publicado originalmente em 1925, na então revista do instituto, Archiv für die
Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung.

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Adoratski na direção da Mega (Zapata, 1985, p.37-8). Da totalidade dos volumes
previstos, foram publicados somente sete da primeira parte (o primeiro em dois
tomos), que reuniam as obras escritas entre 1843 e 1848, entre as quais cabe
destacar os importantes manuscritos da juventude de Marx (Introdução á crítica
do direito de Hegel e Manuscritos econômico-filosóficos de 1844) e a Ideologia
alemã, de Marx e Engels; destes, foram publicados por Riazanov os volumes I e
II e os restantes por Adoratski.21 Da terceira parte foram publicados apenas quatro
volumes, que reuniam a correspondência entre Marx e Engels (os três primeiros
por Riazanov e o último por Adoratski). Por fim, em 1935, seria publicado um
volume dedicado às obras de Engels, reunindo o Anti-Dühring e os seus manus-
critos científicos sob o título Dialética da natureza.
A consolidação de Stalin no poder, a consequente cristalização do “marxismo-
-leninismo” como filosofia oficial do Estado e do Partido,22 a prisão de Riazanov
e, por fim, a ascensão de Hitler selaram definitivamente o fim dessa primeira
tentativa de publicação da Mega. Além de sua importância como editor das obras
de Marx e Engels, Riazanov foi também, nos anos 1920, redator dos dois números
da revista do IME, Marx Engels Archiv, na qual apareceram escritos inéditos de
Marx e Engels e outros inúmeros textos. De grande importância, igualmente, é
o conjunto de introduções que escreveu para os volumes por ele publicados da
Mega, que constituem uma rica fonte de informações para os estudos da obra dos
dois autores.23
Ao lado desse empreendimento teórico é importante ainda destacar algumas
edições que apareceram no período e que exerceram significativa influência na
posterior história do pensamento marxista.

21 É importante lembrar que tanto os Manuscritos econômico-filosóficos como a Ideologia alemã não
foram publicados de acordo com os manuscritos originais, e sim organizados para oferecer uma
maior sistematicidade. Cf. Rojahn, 1983, p.393-431; Marx e Engels, 2007, p.17-9.
22 A elaboração da filosofia “marxista-leninista” colocou um fim ao intenso debate filosófico travado
entre “mecanicistas” e “dialéticos” nos anos 1924 e 1929 e que acabou com uma breve vitória
dos últimos, dirigidos por Deborin. Entretanto, na sequência, os mesmos dialéticos serão objeto de
críticas pelos futuros sistematizadores da futura filosofia (Labica, 1992). Como observa R. Zapata
(1985, p.39) em seu artigo citado, a partir de 1931, o estudo de O capital, que entre 1925 e 1930
ocupava um lugar de destaque no ensino do Instituto dos Professores Vermelhos, seria substituído por
textos políticos, sendo que a partir de 1934/1935 o lugar central no ensino passaria a ser ocupado
pelos diferentes manuais de materialismo dialético, materialismo histórico e economia política.
23 É importante destacar a publicação, por Riazanov, dos escritos dedicados à questão russa, à qual
Marx dedicou uma grande atenção durante a sua vida. Esses escritos tiveram uma curiosa sorte;
por exemplo, a importante correspondência do Marx tardio, em particular a carta à redação de
Otietchestviennie Zapiski e os rascunhos e carta a Vera Zasulitch, que trazem importantes conse-
quências para uma leitura não determinista e não linear da concepção materialista da história, foi
silenciada por Plekhanov e Zasulitch, uma vez que poderia apresentar obstáculos à crítica que eles
vinham desenvolvendo contra os populistas (Marx e Engels, 1980b). Outro exemplo é a publicação
dos escritos de Marx contendo críticas à Rússia czarista que, depois de editados por Riazanov, não
seriam publicados nas obras completas de Marx em língua russa durante o período stalinista (Marx
e Engels, 1980a).

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No ano de 1932 foi publicada, pelas edições Kröner, em Leipzig, em dois
volumes, a coletânea de escritos de Karl Marx Der Historische Materialismus.
Die Frühschriften, organizada por S. Landshut e J-P Mayer, que reunia textos de
Marx de 1937 até a publicação do Manifesto comunista, em 1848. Esta edição
das “obras de juventude” de Marx vinha acompanhada de uma introdução em que
os organizadores sublinhavam a importância decisiva desse período da obra de
Marx (Landshut e Mayer, 1981, p.347-68).
Em 1939/1941, coincidindo, portanto, com o início da Segunda Guerra Mun-
dial, foram publicados, em Moscou, pelo Instituto Marx-Engels e Lenin – IMEL
(resultado da fusão do IME e do Instituto Lenin, em 1931, após a expulsão de
Riazanov da sua direção), os Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie.
Rohentwurf, 1857-1858, de Karl Marx. Entretanto, entre 1935 e 1951, o maior
esforço do IMEL foi a publicação das obras de Marx e Engels em língua russa
(Sotchinenia), sob a organização inicial do mesmo Riazanov (nos anos 1929-30),
depois substituído por V. Adoratski, das quais foram publicados 28 volumes entre
1931 e 1951.
À ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha, no final de janeiro de 1933,
esteve associado outro importante episódio, o de salvar os manuscritos de Marx
e Engels que se encontravam, até então, em posse da social-democracia alemã.
Primeiramente o arquivo, ainda na primeira metade do mesmo ano, foi enviado
a Copenhague, onde seria posto em um lugar seguro. Por fim, entre 1934 e 1938
desenvolveu-se um período de intensas negociações para a compra dos arquivos,
que envolvia, além da delegação exterior da social-democracia alemã, a União
Soviética e o Internationaal Instituut voor Sociale Geschiedenis (IISG), criado
em Amsterdam em 1933, que enfim se tornaria o proprietário dos arquivos.24
A publicação das obras de Marx entre 1950-1989/1991
O final da Segunda Guerra Mundial e a expansão do socialismo para o conjunto
de países do leste europeu, incluindo a República Democrática Alemã, trouxe uma
série de mudanças à questão da publicação das obras de Marx e Engels. O IMEL
de Moscou seria acrescido, a partir de então, do Instituto Marxismo-Leninismo
de Berlim, nos trabalhos que envolviam a publicação das obras completas dos
dois autores.
Em 1956, os institutos de Moscou e Berlim iniciaram a publicação das obras
reunidas de Marx e Engels, nas chamadas Marx Engels Werke (MEW) e Marx
Engels Sotchinenia,25 embora não reunindo a integralidade das obras e escritos
dos dois autores – inclusive alguns textos foram omitidos por motivos políticos
– e fortemente marcadas por introduções e notas que espelhavam a concepção

24 Para uma informação detalhada do destino dos manuscritos de Marx e Engels depois da chegada
de Hitler ao poder, e a posterior venda dos arquivos ao IISG, cf. Hunink, 1988, p.52-70.
25 Маркс, К. и Энгельс, Ф., Сочинения, 2 изд., Москва, Политиздат 1955-73.

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do marxismo-leninismo então em voga nos países do leste europeu. Entre 1956
e 1968 seriam publicados 39 volumes, mais apêndices e índices. Apesar dessas
deficiências, a MEW constituiu-se num importante instrumento de referência e
trabalho para os estudos especializados, como serviu também de base para as
futuras traduções das obras de Marx e Engels para diferentes línguas da Europa
Oriental,26 para o chinês27 e para as edições italiana,28 inglesa e japonesa.29
Outro importante acontecimento na história das edições da obra de Marx foi
o projeto de edição dirigido pelo destacado marxólogo Maximilien Rubel (1905-
-1996)30 para a prestigiosa coleção Bibliothèque de La Pléiade,31 publicada pelas
edições Gallimard. Rubel publicou quatro grossos volumes de mais de 1800
páginas cada um, acompanhados de introduções e notas. São, respectivamente:
Oeuvres Economie I (1965): que reúne os escritos econômicos de Marx pu-
blicados durante a sua vida.
Oeuvres Economie II (1968): reunindo as obras econômicas de Marx que per-
maneceram inéditas durante a sua vida. Cabe aqui destacar que Rubel proporia uma
edição que difere das organizadas por Engels para os livros II e III de O capital.
Oeuvres Philosophie (1982): reunindo sob esse título grande parte dos escritos
de Marx dos anos 1835-1847.
Oeuvres Politique I (1994): que reúne um grande número de escritos políticos
das décadas de 1840-1850.
A edição de Rubel se distinguia das publicadas na URSS e na RDA por res-
tringir a publicação das obras unicamente aos escritos de Marx e por se opor à
tradição ideológica do marxismo – que atribuía a Engels a sua fundação – e à
tradição marxista-leninista. Novamente, entrecruzavam-se as opções ideológicas
e as tarefas do organizador.
É importante igualmente destacar que, a partir das décadas de 1960-1970,
foram publicados diferentes manuscritos de Marx. Entre estes, cabe lembrar a
edição de The Ethnological Notebooks of Karl Marx, organizado por Lawrence
Krader, e que reproduz os importantes extratos de leituras de obras etnográficas
realizadas por Marx no último período da sua vida, em particular do livro A So-
ciedade Antiga, de Lewis Morgan, nas quais Engels baseou-se para escrever seu
conhecido livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado.

26 A partir da segunda metade dos anos 1950 seriam publicadas, nos países socialistas, diferentes
traduções das obras completas de Marx e Engels.
27 A primeira edição chinesa em 50 volumes a partir da Sotchinenia russa foi publicada entre 1956
e 1985 pela Casa Editora Popular de Pequim (Xiaoping, 2005).
28 Da Marx Engels Opere foram publicados 32 volumes até a sua interrupção.
29 A partir da Marx Engels Werke, a editora Otsuki concluiu a publicação das Obras Completas de
Marx e Engels em 1975 (Omura, 2005, p.73).
30 Sobre a obra de Rubel e a sua importante atividade como marxólogo, cf. Ragona, 2003.
31 O livro citado de G. Ragona dedica amplo espaço à edição e às polêmicas suscitadas pela edição
das obras de Marx por M. Rubel, na Bibliothèque de La Pléiade. Cf. Ragona, 2003. p.121-31, 157-68,
169-72 e 177-84.

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Entretanto, talvez o mais ambicioso empreendimento editorial do período e
de toda a história da publicação das obras de Marx e Engels tenha sido o grande
projeto de uma nova publicação, iniciado na década de 70, sob a responsabilida-
de dos institutos de marxismo-leninismo de Moscou e Berlim, da Marx Engels
Gesamtausgabe, que passará a ser conhecida como Mega 2.32 Esta nova edição
previa, originariamente, a publicação inicial de mais de 160 volumes, e cada
volume viria acompanhado de um volume de aparelho crítico.
A Marx Engels Gesamtausgabe, Mega 2, estava organizada e dividida da
seguinte maneira:
Seção I: incluía obras, artigos e manuscritos;
Seção II: obras econômicas relacionadas ao projeto de Crítica da Economia
Política, a partir de 1857, reunindo as diferentes versões e manuscritos relacio-
nados a O capital;
Seção III: correspondência;
Seção IV: materiais diversos que incluíam, entre outros, as notas de leitura
dos dois autores.
Após a publicação, em 1972, de um Probeband, aparece, em 1975, o pri-
meiro volume da nova Mega, tendo sido publicados, até 1990, dos 164 volumes
previstos, apenas 36.
Entretanto, novos acontecimentos políticos interferiram na publicação das
obras de Marx e Engels. A “queda do muro”, em 1989, seguida da anexação da
RDA pela RFA e a posterior dissolução da URSS, levou ao desaparecimento dos
institutos de marxismo-leninismo em Moscou e Berlim e das grandes estruturas
estatais que financiavam a publicação das obras de Marx e Engels.
O retorno da publicação da Mega 2
Já em 1990, o Instituto de História Social de Amsterdam (IISG), o Instituto
de Marxismo-Leninismo de Moscou, a Academia de Ciências de Berlim e a Karl-
-Marx-Haus, de Trier, fundaram a Internationale Marx Engels Stiftung (IMES),
que a partir de então assumiu a tarefa de organizar a continuação da publicação da
Mega 2 (Fineschi, 1999; Marx-Engels Gesamtausgabe, 2009). A partir de 1991, o
IMEL de Moscou foi substituído pelo Instituto de Pesquisa dos Problemas Sociais
e Nacionais e o seu arquivo destinado ao Centro para a Conservação e o Estudo
dos Documentos para a História Recente.
Hoje, a publicação da Mega 2 envolve, além das citadas instituições da Ale-
manha, Holanda e Rússia, um grupo de pesquisadores de outros países (Itália,
França, Dinamarca, EUA e Japão).

32 Sobre a publicação da Mega 2, além dos já citados, cf. Lefebvre, 1985, p.21-5; Bongiovanni, p.186ss;
Fineschi, 1999, p.199-239.

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A nova edição está organizada da seguinte forma:
Seção I: obras, artigos e manuscritos – 31 volumes;
Seção II: O capital e trabalhos preparatórios – 15 volumes;
Seção III: correspondência – 35 volumes;
Seção IV: extratos, notas e marginália – 32 volumes.
Esta nova edição representa, por um lado, uma organização baseada em cri-
térios científicos, que procuram superar as influências ideológicas presentes em
maior ou menor grau na organização da MEW e na publicação da Mega 2 até 1990;
por outro lado, está baseada em rigorosos critérios filológicos e nos princípios
da integralidade, fidelidade ao original, apresentação da evolução dos textos e
comentário minucioso (Marx-Engels Gesamtausgabe, 2009).
Esta nova edição, ao mesmo tempo que oferece novas perspectivas ao estudo
da obra de Marx e Engels, vem contribuindo de maneira significativa para uma
retomada dos estudos marxianos, isenta das determinações políticas e ideológicas
que marcaram a sua recepção e edição.
Por fim, é importante destacar outras iniciativas internacionais que se juntaram
à publicação da Mega 2: primeiro a retomada da publicação da edição italiana
das Obras Completas (Marx Engels Opere Complete);33 segundo, o projeto Geme
(Grande édition Marx e Engels), que pretende “ser uma nova tradução francesa e,
a partir de 2010, uma coleção eletrônica do conjunto das obras, dos artigos, dos
manuscritos e da correspondência de Karl Marx e Friedrich Engels”.34
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33 Em 2008 foi publicado o primeiro volume organizado por Marco Vanzulli: Marx, K. e Engels, F.
Opere Complete. v.XXII. Nápoles: La Città del Sole, 2008.
34 Em 2008 foi publicado o primeiro volume do projeto Geme: Marx, K. Critique du Programme
de Gotha. Paris: Editions Sociales, 2008. Sobre o projeto Geme, consultar o anexo: “Ce qu’est la
Geme” (Marx, 2008).

Notas introdutórias sobre a publicação das obras de Marx e Engels • 63

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Notas introdutórias sobre a publicação das obras de Marx e Engels • 65

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Filmar O capital?*
FREDRIC JAMESON**

O lançamento de um novo Kluge é sempre uma boa notícia, desde que o espec-
tador tenha noção do que o aguarda. Seu filme mais recente, Nachrichten aus der
ideologischen Antike (Notícias da Antiguidade ideológica), com aproximadamente
nove horas de duração, é dividido em três partes: I. Marx e Eisenstein na mesma
casa; II. Todas as coisas são pessoas enfeitiçadas; e III. Paradoxos da sociedade
da troca (Kluge, 2008). Segundo rumores, Kluge teria retomado o antigo projeto
de Eisenstein (1927-28) de fazer uma adaptação cinematográfica de O capital, de
Marx, mas na verdade apenas a primeira parte indica essa intenção. Os rumores
foram espalhados pelas mesmas pessoas que acreditam que Eisenstein chegou
a escrever um roteiro preliminar do filme sobre O capital. Na verdade ele ape-
nas rabiscou cerca de vinte páginas de anotações em um período de seis meses
(Eisenstein, 1987, p.115-38). Pelo menos algumas dessas pessoas sabem que ele
estava muito entusiasmado com o Ulisses, de Joyce, mais ou menos na mesma
época e “planejou” um filme sobre o livro, fato que relativiza suas fantasias sobre
o projeto de O capital. Entretanto, se os planos de Eisenstein tinham a forma de
anotações, até que alguns deles fossem transformados em filmes (ficcionais ou
narrativos), é bom prevenir os espectadores que os filmes “reais” de Kluge se
parecem mais com as anotações de Eisenstein.

* Texto publicado originalmente com o título Marx and Montage, em New Left Review, n.58, jul/
ago 2009. Tradução de Marcos Soares.
** Ensaísta e crítico literário norte-americano, autor de vários livros traduzidos para o português, entre
os quais Pós-modernismo, Modernidade singular, As marcas do visível etc. Membro do conselho
de colaboradores estrangeiros de Crítica Marxista desde sua criação.

Filmar O capital? • 67

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Diversos intelectuais importantes acabaram – mesmo que postumamente – por
endossar o marxismo: podemos pensar nos Espectros de Marx, de Derrida, ou no
inacabado A grandeza de Marx, de Deleuze, assim como em inúmeras testemunhas
contemporâneas da crise mundial (“somos todos socialistas agora” etc.). Seria o
novo filme de Kluge uma retomada desse tipo? Ele ainda é marxista? Chegou a
ser marxista? E o que significaria “ser marxista” hoje? O leitor pode até se indagar
sobre a maneira como os alemães em geral se relacionam atualmente com seu
grande clássico nacional, agora que há rumores de centenas de grupos de estudo
sobre O capital surgindo aqui e ali sob os auspícios da ala estudantil do Linkspartei.
Kluge afirma no texto que acompanha o DVD do filme: “A possibilidade de
revolução europeia parece ter desaparecido; e com ela se foi a crença na ideia
de um processo histórico que possa ser diretamente moldado pela consciência
humana” (Kluge, 2008, p.4). No entanto, fica evidente que Kluge acredita numa
pedagogia coletiva e na reapropriação de processos de aprendizado, no que se
poderia chamar de uma reorientação da experiência através da reconstrução de
“sentimentos” (um termo técnico chave para ele). O fato fica evidente não apenas
em seus comentários interpretativos sobre seus diversos filmes e histórias, mas
também em enormes volumes teóricos, como em seu Geschichte und Eigensinn
(História e obstinação), escrito em colaboração com Oskar Negt.
Todos esses trabalhos refletem sobre a história. Poucos países tiveram uma
história tão variada quanto a Alemanha. A obra de Balzac teria sido impossível sem
a extraordinária variedade da experiência histórica dos franceses, da revolução ao
império mundial, da ocupação estrangeira à reconstrução econômica, sem falar
sobre as mais diversas formas de sofrimento, crimes de guerra e atrocidades. As
histórias (ou anedotas, ou faits divers) de Kluge, que somam milhares de páginas,
contam com uma massa de matéria histórica de proporções semelhantes.
Mas a história é algo que deve ser escavado: como no caso da protagonista
Gabi Teichert, em Die Patriotin, de Kluge, que literalmente tira a pá da bolsa e
começa a escavar freneticamente em busca de pistas sobre o passado em ossos e
pedaços de vasos antigos. E não necessariamente em vão: em outro filme, o joelho
do esqueleto de um soldado alemão relata algumas histórias de guerra “úteis”. Na
verdade, o novo filme também tem seus momentos amalucados ou mesmo idiotas:
dois atores lendo a prosa incompreensível de Marx em uníssono um para o outro;
um professor da antiga Alemanha oriental explicando o que é “liquidez” para um
aluno recalcitrante; e até um tipo de peça sátira na qual o (cansativo) comediante
Helge Schneider atua em uma variedade de papéis inspirados por Marx, equipado
com perucas, barbas falsas e todo tipo de parafernália circense. Pois, como nos
lembra Kluge, “devemos deixar que Till Eulenspiegel passe por Marx e Eisenstein,
com a intenção de criar uma confusão que permita que conhecimento e emoção
sejam combinados de uma nova maneira” (Kluge, 2008, p.16).
Enquanto isso, num nível menos jocoso, assistimos a uma série interminável
de entrevistas – Enzensberger, Sloterdijk, Dietmar Dath, Negt e outras autoridades

68 • Crítica Marxista, n.30, p.67-74, 2010.

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– nas quais as testemunhas respondem às provocações, perguntas e comentários
de Kluge. Assistimos a um trecho curto do estranho projeto de Werner Schroeter,
no qual Tristão e Isolda de Wagner é encenado como uma retomada da cena do
conflito na ponte de Encouraçado Potemkin (“o renascimento de Tristão a partir
do espírito de Potemkin”), além de passagens de óperas de Luigi Nono e Max
Brand, para não falar dos clássicos. Vemos um curta-metragem de Tom Tykwer
sobre a humanização de objetos, sequências sobre o assassinato de Rosa Luxem-
burgo e, num tom mais ameno, uma noite com Marx e Wilhelm Liebknecht. Tudo
isso entrecortado por diversos trechos de filmes e fotografias, a maioria delas do
período do cinema mudo, enquanto efeitos tipográficos dramáticos e coloridos
com textos de Marx e Eisenstein deixam claro que os intertítulos do cinema mudo
podiam ser eletrizantes. Trata-se da versão de Kluge da “montagem de atrações” de
Eisenstein (ou talvez Kluge preferisse chamá-la de montagem de “sentimentos”).
Espectadores desacostumados com esse tipo de prática podem muito bem ver nisso
tudo uma inacreditável miscelânea. Mas também podem acabar por aprender a
navegar nesse prodigioso local de escavação: não se trata ainda de um verdadeiro
museu, organizado profissionalmente, mas de uma incrível confusão, com todos
os tipos de pessoas, amadores e especialistas, perambulando em diversos estados
e atividades, alguns enxugando a testa ou comendo um sanduíche, outros deitados
no chão, enquanto outros ainda organizam diversos itens em caixas sobre mesas
protegidas por uma tenda, ou cochilando, talvez conversando, todos passando por
uma trilha estreita, tomando cuidado para não pisar nas provas do crime. É nosso
primeiro contato com a Antiguidade ideológica.
A versão de Eisenstein
Entre os fragmentos mais reconhecíveis está, é claro, o “novo trabalho ba-
seado num libreto de Karl Marx”, o “tratado cinematográfico” que supostamente
seria o próximo projeto de Eisenstein depois de Outubro, o filme sobre O capital.
Caracteristicamente, as anotações de Eisenstein são reflexões sobre suas próprias
práticas, passadas e futuras, assim como releituras de seu próprio trabalho como
uma progressão de formas, num movimento semelhante ao progresso no campo
das experiências científicas. Esse narcisismo é a origem de grande parte do entu-
siasmo pedagógico e didático de seus escritos, mas não é preciso que aceitemos
as avaliações que ele fez de sua própria carreira, especialmente pelo fato de que
elas variaram enormemente durante sua vida.
Neste caso, por exemplo, ela lerá seu trabalho nos termos da abstração, como
uma conquista gradual da abstração desde Potemkin, passando por Outubro até
chegar ao projeto atual (talvez fosse preferível que ele tivesse caracterizado esse
caminho como a ampliação de sua conquista do concreto que inclui a abstração,
mas tudo bem). Como era de esperar, partimos dos leões que se levantam em
Potemkin para aquele “tratado sobre as deidades” que é a sequência dos ícones/
ídolos em Outubro (Eisenstein, 1987, p.116). Tais momentos são vistos como

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interrupções verticais, que se aproximam da forma do ensaio, da narrativa hori-
zontal, e é precisamente por esse motivo que a discussão sobre Eisenstein e Joyce
é irrelevante neste caso.
Diversos comentadores – e não apenas o próprio Kluge – enfatizaram a fórmula
“um dia na vida de um homem” como prova de que Eisenstein imaginou um enredo
da ordem do “um dia na vida de Bloom”, de Joyce (Eisenstein, 1987, p.127). Mais
adiante, eles apontam a adição de um segundo “enredo”, o da reprodução social e
“das ‘virtudes domésticas’ da mulher de um trabalhador alemão”, à qual se soma
um lembrete: “durante todo o filme a esposa cozinha uma sopa para o marido que
retorna”, de modo a transformar o “homem” não específico da sequência anterior
num trabalhador. Essas intercalações – às quais devemos adicionar um dia na vida
de um capitalista ou comerciante – estão sendo ruminadas precisamente no mesmo
momento histórico em que, como lembra Annette Michelson, Dziga Vertov está
filmando O homem com a câmara na mão (Eisenstein, 1987, nota 19).
É verdade: “Joyce pode ser útil para meus propósitos”, aponta Eisenstein.
Mas o que se segue é completamente diferente da fórmula “um dia na vida de”,
pois Eisenstein adiciona: “de um prato de sopa aos navios britânicos afundados
pela Inglaterra” (Eisenstein, 1987, p.127).1 O que aconteceu é que esquecemos da
presença, em Ulisses, de capítulos estilisticamente bem diferentes do formato da
descrição da rotina de um dia. Mas Eisenstein não esqueceu: “No Ulisses de Joyce
há um capítulo notável desse tipo, escrito à maneira de um catecismo escolástico.
Perguntas são feitas e respostas são dadas” (Eisenstein, 1987, p.119). Mas a que
ele está se referindo quando diz “desse tipo”?
Fica claro que Kluge sabe a resposta, pois em sua discussão cinematográfica
das anotações a panela de sopa se transformou numa chaleira que ferve a água e
apita: a imagem reaparece em diversos momentos na exposição (as anotações de
Eisenstein aparecem projetadas em legendas), de modo que esse objeto simples é
“abstraído” num símbolo típico de energia. Ela ferve impacientemente, veemen-
temente exige ser utilizada, controlada, e pode ser o sinal que inicia o período
de trabalho, o final do período de trabalho, o chamado para a greve, ou o motor
de toda a fábrica, uma máquina da produção futura... Ao mesmo tempo, essa é
a própria essência da linguagem do filme mudo, sua repetição e insistência em
transformar seus objetos em símbolos maiores, num procedimento intimamente
relacionado ao “close up”. Mas é exatamente isso que Joyce faz no capítulo do
catecismo: a primeira grande afirmação de Ulisses, o primeiro estrondoso “sim”,
aparece aqui e não nas últimas palavras de Molly: trata-se da força primitiva da
água jorrando do reservatório em Dublin até encontrar seu caminho até a torneira
de Bloom (Jameson, 2007). (Em Eisenstein, o equivalente seria a máquina de
separar leite de A linha geral.)

1 Esta referência enigmática é retomada na citação maior da p.129 mencionada adiante.

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A esposa do trabalhador alemão
É nesse ponto que descobrimos o que Eisenstein realmente tem em mente: algo
como uma versão marxista da livre-associação de Freud – a cadeia de ligações
escondidas que leva da superfície da vida e da experiência cotidianas à própria
origem da produção. Como em Freud, este é um mergulho vertical no abismo
ontológico, o que ele chamava de “umbigo do sonho”, que interrompe a banalidade
da narrativa horizontal para montar um conjunto de associações investidas de afeto.
Vale a pena citar a anotação completa de Eisenstein (1987, p.129) nesse ponto:

Durante todo o filme a esposa prepara a sopa para o marido que retorna. NB Po-
deria haver dois temas associados: a esposa que cozinha e o marido que retorna.
Completamente idiota (útil nos primeiros estágios de uma hipótese de trabalho); na
terceira parte (por exemplo), a associação parte da pimenta com que ela tempera
a comida. Pimenta. As ilhas Cayenne. A ilha do Diabo. Dreyfus. O chauvinismo
francês. O Figaro nas mãos de Krupp. A guerra. Os navios afundados no porto. (Não
em quantidades tão grandes, é claro!!). NB Bom em sua não banalidade – transição:
pimenta-Dreyfus-Figaro. Seria bom cobrir os navios ingleses afundados (de acordo
com Kushner, 103 DIAS NO EXTERIOR) com a tampa da frigideira. Poderia
até não ser pimenta – mas querosene para o forno e a transição para o petróleo.2

Eisenstein se propõe a fazer aqui aquilo que Brecht tentou fazer na sequência
do debate sobre o café no metrô, em Kuhle Wampe: traçar o caminho que leva dos
sintomas visíveis às suas causas ausentes (ou não totalizáveis). Mas a tentativa do
dramaturgo é frustrada pela nossa inevitável atenção aos personagens que discutem,
enquanto Eisenstein pretende, ainda que cruamente (“completamente idiota”, mas
é apenas um primeiro rascunho) desenhar e trazer à tona toda uma rede complexa
na forma de uma montagem de imagens. (As referências mais apropriadas sempre
foram a omissão de comentários nas constelações das Passagens de Benjamin,
ou mesmo os ideogramas de Pound – ambos também projetos de um tipo de
representação histórica sincrônica.) A teorização de Eisenstein do que ele chama
de “filme discursivo” se centra na “de-anedotalização” como processo central e
encontra sua analogia na “teoria dos sobretons” (Eisenstein, 1987, p.116-17), que
ele viria a desenvolver um ano mais tarde em seu ensaio “A quarta dimensão do
filme”, no qual uma formulação nos termos de “estímulos fisiológicos” procurará

2 Sobre a parte da sopa, Eisenstein (1987, p.128) anotou: “as ‘virtudes domésticas’ da esposa do
trabalhador alemão representam o maior mal, o mais forte obstáculo a um levante revolucionário.
A esposa de um trabalhador alemão sempre terá algo quente para o marido, nunca o deixará ficar
completamente com fome. Também é preciso observar a raiz de seu papel negativo que desacelera
o ritmo do desenvolvimento social. No enredo, isso poderia tomar a forma de uma ‘sopa rala’ e
seu significado em ‘escala mundial’”.

Filmar O capital? • 71

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substituir a doutrina amplamente aceita do formalismo russo da renovação da
percepção, da ostranenie estética, do “tornar estranho”. Neste caso, haveria não
apenas um conflito entre a temporalidade do filme (montagem) e a simultaneidade
das relações e associações causais, mas também uma tensão entre o afetivo e o
cognitivo. Assim, ele escreve sobre A linha geral:

Esta montagem não é construída sobre dominantes específicos, mas toma como sua
linha mestra o estímulo total através de todos os estímulos. Esta é a rede original
de montagem dentro da tomada, surgindo da colisão e combinação de estímulos
individuais inerentes a ela (Eisenstein, 1949, p.67).

A teoria dos “sobretons” tende não apenas a enfatizar a natureza corpórea do


sentimento puro – “a qualidade fisiológica de Debussy e Scriabin” – mas também,
através de termos técnicos musicais como “dominante” e “contraponto”, assim
como sobretons e subtons “visuais”, tende a precisar toda a complexidade dessa
“quarta dimensão”, que inspirou uma enorme atividade contemporânea na chamada
teoria do afeto. É provável que o velho mito da “persistência da visão” – a imagem
anterior subsistindo brevemente na retina enquanto a nova percepção se sobrepõe
a ela e a substitui, uma concepção que tem seu análogo musical – sugira uma
síntese possível entre a sucessão temporal do cinema e os conteúdos das imagens
individuais. Mas não resolve a tensão que os modelos de afeto mais altamente
desenvolvidos estabelecem com o conteúdo cognitivo desses complexos; ou, em
outras palavras, a ênfase marxista na produção, distribuição e consumo por trás
da superfície fenomenológica da vida cotidiana e da experiência – a tentativa de
investigar os bastidores da cena, como diz Marx em O capital. O antigo problema
da arte didática não é resolvido aqui, a não ser que pensemos que há uma conver-
gência entre o conhecimento sobre o capitalismo e a raiva (Potemkin) ou entre a
construção do socialismo e uma alegria sublime, como na visão transcendental
do separador de leite em A linha geral.
Kluge não tenta reproduzir a sequência da pimenta, mas elabora outro motivo
de Eisenstein (1987, p.129):

as meias das mulheres cheias de buracos e uma meia de seda num anúncio de
jornal. Tudo começa com um movimento brusco, que se multiplica em 50 pares
de pernas – Revista, Seda, Arte. A luta pelo centímetro da meia de seda. Os estetas
são a favor dela. Os bispos e a moralidade são contra.

Mas a tentativa decorativa de Kluge de mostrar esse objeto social multidi-


mensional – ele poderia ter incluído o “ornamento de massa” de Kracauer – mal
dá conta das complexidades alegóricas que Eisenstein (1987, p.137) vislumbrou:

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Nesse nível, pode-se imaginar a seguinte solução:
Ein Paar seidene Strumpfe* – arte.
Ein Paar seidene Strumpfe – moralidade.
Ein Paar seidene Strumpfe – comércio e competição.
Ein Paar seidene Strumpfe – índias forçadas a incubar o casulo de seda
carregando-os debaixo do braço!
Este último detalhe nos leva de volta ao nível anedótico, que havia sido su-
postamente neutralizado por essa nova linguagem cinematográfica “discursiva”.
Entretanto, é o elemento que radicaliza essa montagem vertical, do mesmo modo
que a relação entre a Ilha do Diabo e Dreyfus faz com a sequência da pimenta. Na
verdade, as anotações estão repletas de detalhes anedóticos, de faits divers que nos
levam ao coração do capital. Gosto desta: “Em algum lugar do oeste. Uma fábrica
onde é possível roubar peças e ferramentas. Os trabalhadores não são revistados.
Em vez disso, há um ímã no portão de saída” (Eisenstein, 1987, p.121). Chaplin
teria adorado o espetáculo dos parafusos, martelos e alicates voando dos bolsos
dos trabalhadores.
Antiguidades
Afinidades eletivas: o trabalho de Kluge é bastante anedótico nesse sentido,
a dupla visada narrativa, o punctum inesperado no centro daquilo que parecia à
primeira vista uma ocorrência banal, um gosto pela incongruência que é abstraída
na lida com as grandes ideias. A fórmula extraordinária de Deleuze – “um Marx
imberbe, um Hegel barbudo” – não seria estranha a Kluge, que incansavelmente
sugere novas reformulações da tradição e dos estereótipos: a futura reconstrução
da experiência, unindo afetos e conhecimento de novas maneiras.
Trata-se de um futuro que exige a constituição de uma Antiguidade que lhe seja
apropriada. Entretanto, essa “Antiguidade ideológica” não seria apenas outro modo
de dizer que Marx, e com ele o marxismo, está superado? As sequências cômicas
do filme de Kluge, o jovem casal em diversos momentos da história atormentando
um ao outro com a récita repetitiva das abstrações de Marx, poderia nos levar a
essa conclusão. Nem mesmo Eisenstein estaria livre de estar fora de moda, com
sua bagagem de melodrama antiquado, os paradigmas do filme mudo antiquado,
os métodos de montagem antiquados. Lênin e intertítulos! Aparentemente uma
perspectiva desinteressante para a pós-modernidade digital...
No entanto, podemos lembrar dos próprios sentimentos de Marx pela Anti-
guidade: a teoria do valor de Prometeu e Aristóteles, as reflexões de Epicuro e
Hegel sobre Homero. Também há a questão com a qual a grande introdução de
1857 inicia os Grundrisse: “a dificuldade não está em entender que a arte grega e a
poesia épica estão ligadas a certas formas de desenvolvimento social. A dificuldade

* Um par de meias de seda. (N.E.)

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é que elas ainda nos dão prazer estético e são em certos aspectos consideradas
como um padrão e um modelo inatingíveis” (Marx e Engels, 1986, p.47). Marx
não era nostálgico e compreendeu que a pólis era uma formação social limitada e
por isso contraditória à qual não se podia retornar e que também qualquer futuro
socialista seria bem mais complexo que o próprio capitalismo, como observou
Raymond Williams.
O conceito de Antiguidade pode ter a função de nos colocar numa nova relação
com a tradição marxista e com o próprio Marx – assim como com Eisenstein. Marx
não é nem contemporâneo nem antiquado: ele é um clássico, e toda a tradição
marxista e comunista, mais ou menos igual em duração à era de ouro de Atenas,
é justamente a era de ouro da esquerda europeia, para a qual se retorna constan-
temente, com resultados espantosamente complexos, produtivos e contraditórios.3
E para quem levantar a objeção de que seria abominável glorificar uma era que
criou as execuções stalinistas e a morte por fome de milhões de camponeses, um
lembrete da truculência da história grega pode ser útil – a eterna vergonha de Me-
gara, para não falar das abomináveis práticas ligadas à sociedade escravocrata. A
Grécia incluiu tanto Esparta quanto Atenas e a União Soviética também marcou
a queda do nazismo e o primeiro sputnik, assim como a República Popular da
China representou o despertar de inúmeros milhões de novos sujeitos históricos. A
categoria da Antiguidade clássica pode ser uma perspectiva produtiva a partir da
qual uma esquerda global pode reinventar um passado energizante para si mesma.
Referências bibliográficas
EISENSTEIN, Sergei. The Filmic Fourth Dimension. In: Film Form. Nova York, 1949.
EISENSTEIN, Sergei. Notes for a Film of Capital. In: October: The First Decade.
Cambridge, MA, 1987. Tradução inglesa de Maciej Sliwowski, Jay Leda e Annette
Michelson.
JAMESON, Fredric. Ulysses in History. In: The Modernist Papers. Londres e Nova
York, 2007.
KLUGE, Alexander. Nachrichten aus der ideologischen Antike. 3 DVDs. Frankfurt:
Suhrkamp, 2008.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. v.28, Nova York, 1986.

3 Pode-se dizer que é o que o livro de Peter Weiss, Aesthetics of Resistance, procura fazer.

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CRÍTICA
marxista

ENTREVISTAS
Marx, Joyce e
Eisenstein: a
abstração mata
ENTREVISTA COM ALEXANDER KLUGE*

Deutsche Welle: O senhor não filmou O capital, nem fez um filme sobre O
capital, mas deixou-se guiar pela própria curiosidade a respeito do material. É
isso mesmo?
Alexander Kluge: Não só pela curiosidade, mas também pelo respeito pelo
diretor Serguei Eisenstein, um dos grandes cineastas modernos. Ele assumiu essa
tarefa, que muito lhe parecia ser uma aventura, como um desafio ao cinema.

* Alexander Kluge, influente pensador marxista alemão, tem formação em Teoria do Direito, é ensaísta
político e escritor de romances. Atualmente na Alemanha, é um dos principais diretores do chamado
“Novo Cinema Alemão”; aluno e amigo de Theodor Adorno, foi apresentado a Fritz Lang do qual, em
1958, com a idade de 26 anos, tornou-se seu assistente de direção no filme O tigre de Bengala. Seu
crescente envolvimento com a atividade cinematográfica permitiu que fosse eleito, em 1962, diretor
do Institut für Filmgestaltung em Ulm. Desde o seu primeiro filme, Kluge é um dos protagonistas da
renovação do Festival de Veneza, onde apresentou trabalhos premiados (Leão de Prata em 1966 com
o filme Despedida de ontem e Leão de Ouro, em 1968, com Artistas na cúpula do circo: perplexos).
Dirigiu, entre outros, os longa-metragens Alemanha no outono, Guerra e Paz, O poder dos senti-
mentos, Trabalho ocasional de uma escrava, O grande caos, Willi Tobler e a queda da 6a frota, Fatos
diversos e vários outros. Além de curtas, tem uma vasta produção documental em vídeos para TV.
Escreveu romances e ensaios políticos e filosóficos: O que há de político na política (com Oskar
Negt, 1999), Esfera pública e experiência (1993), Der Unterschätzte Mensch (2001); Chronik der
Gefühle (2000), Die Lücke, die der Teufel lässt (2003), Tür an Tür mit anderem Leben (2006). Seu
último livro, Histórias do Cinema (Geschichten vom Kino), foi lançado pela editora Suhrkamp; em
2007, foi lançado em português o livro Alexander Kluge: o quinto ato, org. por Jane de Almeida,
contendo ensaios de seu último livro e estudos de pesquisadores brasileiros.
Em novembro de 2009, pela sua ampla e diversificada produção intelectual recebeu o prêmio T. W.
Adorno; em 2003, ganhou o prêmio Georg-Büchner-Preis, o mais renomado prêmio literário alemão.
Em 1990 recebeu o prêmio Lessing, ocasião em que foi homenageado por Jurgen Habermas cujo
texto pode ser consultado em http://www.goethe.de/ins/br/sab/pro/seminare/htm/semin1/haber.htm,
Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal Deutsche Welle (janeiro de 2009).

Entrevista com Alexander Kluge • 75

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DW: Como Eisenstein teria podido filmar O capital?
AK: Ele tinha uma determinada ideia. Isso aconteceu, em Paris, quando visitou
James Joyce, autor de Ulysses. Ele queria fazer seu filme da mesma forma como
James Joyce escreveu Ulysses. O romance descreve uma pessoa, durante um dia
inteiro em Dublin, e resgata, para isso, toda a história até Troia. Daí a figura de
Ulisses, ou seja, Odisseu. De forma semelhante, Eisenstein queria mostrar aqui,
através de duas pessoas, o que está, na realidade, dentro de O capital: as imagens
contidas nessa obra..
DW: De que forma, então, o senhor se aproximou de Eisenstein? No caso do
seu filme, o dia tem a duração de nove horas.
AK: Provavelmente não acabei ainda. Conversei com as pessoas que traba-
lharam comigo no projeto e com Tom Tykwer, e elas vão continuar. Na verdade,
seria possível dedicar ao projeto o dobro do tempo, pois, tanto no livro quanto
no projeto de um filme de Eisenstein, há muita coisa relacionada ao ser humano
vivo. De fato, a economia não tem efeitos sobre as pessoas apenas na forma de
uma “crise”, como a financeira que vivemos agora, mas os séculos de desenvol-
vimento econômico determinam a essência do ser humano.
DW: No ano de 1929, o plano de filmar O capital parecia urgente para Eisens-
tein. Seu filme foi feito hoje, em tempos de crise econômica mundial. Seria pro-
fano demais denominar os dois projetos de “atuais” em seus respectivos tempos?
AK: Não há como negar que seja atual. Mas quando começamos a desenvolver
o projeto não contávamos com a crise financeira. Pensamos na “Quinta-feira Negra”,
de 1929 (24/10), há 80 anos. Não seria algo atual, mas a atualidade nos alcançou.
DW: Seu filme se chama Notícias da Antiguidade ideológica, ou seja, tem
muito a ver com a história.
AK: E também com orientação. O navegador se orientava pelas estrelas.
Navegar é algo imortal e muito antigo. Este é, digamos, um pensamento antigo:
acreditar que há algo, uma orientação, que é tão velha que não há necessidade
de ser revista.
DW: Como, por exemplo? Para o senhor conceitos-chave como mercadoria,
fetiche, valor de troca foram pontos de orientação?
AK: Sim, e isso é absolutamente prático, aquilo que as pessoas têm de melhor
em suas vidas elas embutem em seus trabalhos. De certa forma, isso está embutido
no maquinário, na indústria, nos objetos que foram produzidos e que chamamos
de mercadoria. De fato, há sempre uma luz humana nessas mercadorias, o que
acaba sendo esquecido. Uma pessoa reflete-se na outra, na produção, na força de
trabalho; isto foi escrito por Marx. E corresponde à nossa realidade atual.

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A maior realidade que conheço é a produção. E isso é o que, de certa forma,
sempre me interessaria como ponto de partida para um romance: o ser humano
é, na verdade, o produtor de sua vida. Ou pelo menos poderia ser. Na realidade,
contudo, vai se desenrolando uma história que ele não quer, que se desenvolve
de forma paralela a ele.
Tenho, por exemplo, 14 anos de idade aqui na Alemanha no ano de 1946. Não
tenho capitalismo, não tenho um governo próprio, mas mesmo assim as pessoas
demonstram confiabilidade nessa situação de emergência. As mulheres e irmãs
mais velhas cuidam das empresas familiares. Elas cuidam para que haja comida
na mesa.
A economia de meios de subsistência e até o mercado negro unem as pessoas
através de relações de confiança. Uma pessoa reflete-se na outra. E em nosso
mundo, hoje, no mundo dos derivados, não é possível que uma pessoa se reflita
na outra. Estamos muito distantes dessa esfera pragmática, desse período emer-
gencial. Mas, mesmo assim, encontramo-nos num tempo emergencial. E pensar
sobre isso é, para cineastas, algo absolutamente elementar. E para isso há imagens.
DW: Há essa segunda realidade dos “derivados” ou de outros exemplos que
se poderia tomar aqui. O que há de errado com ela? O que Marx diria que há de
errado hoje?
AK: Ele diria que tudo leva à abstração e a abstração mata. Até em tempos de
guerra a abstração mata. Marx é um excelente observador dessas coisas. Não sei
se gostaria de obter dele conselhos sobre a solução para a crise financeira. Esse
tipo de coisa ele nem conheceu.
DW: Mas foi um bom analista.
AK: Certamente. Ele analisou os conceitos elementares a respeito do que
acontece dentro do ser humano, a respeito daquilo que distingue o ser humano, um
ser social, de um lobo, mesmo quando este ser humano comete uma atrocidade.
Todas as relações na “segunda natureza”, como ele chama, ou seja, na natureza
social, são distintas [daquelas da natureza em si]. E as imagens se transformam,
como no caso de Picasso. Suas imagens não se assemelham às de uma fotografia.
Essa é, na verdade, a mensagem de Marx e, acima de tudo, de Eisenstein. E
com isso exercitamos. Mas, devo confessar, sinto-me especialmente orgulhoso
a respeito dos 12 minutos de Tom Tykwer,** que filmou maravilhosamente esse
fetiche verdadeiro, ou seja, essa humanidade que se oculta dentro de todas as
coisas. E utilizou um recurso cinematográfico inédito.
Ele rodou em 35 mm uma rua na parte oriental de Berlim: ali está um chiclete
caído na calçada, uma maçaneta de porta, um encanamento de gás, o calçamento.

** Uma parte do filme de Tom Tykwer, Der Mensch im Ding, pode ser vista no vídeo acessível em:
www.youtube.com/watch?v=zG6zPopy5Qw

Entrevista com Alexander Kluge • 77

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Ali está tudo o que representa uma rua sem gente. E ele expõe o processo de
fabricação de todas essas coisas, gravando muito bem as imagens 3D, com um
procedimento de última geração.
Quando ele cria relações entre essas coisas, é possível ver como as pessoas
trabalharam para que tudo aquilo fosse construído. E de repente há 80 mil pessoas
nessa rua antes deserta. Essas pessoas colaboraram na fabricação dos objetos
que estão ali. É o que se chama de fetiche da mercadoria. Isso volta em forma de
respeito pelo ser humano, refletindo tudo aquilo de que ele é capaz.
Tom Tykwer, para voltar talvez também a Eisenstein, caracteriza-se por um
estilo que se pode chamar de “montagem das atrações”.
“Montagem das atrações”: esse é o grande circo da sensibilidade, é isso o que
o cinema sabe fazer.

78 • Crítica Marxista, n.30, p.75-78, 2010.

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Sobre Darwin*
ENTREVISTA COM PATRICK TORT

A. Bascoulergue: O senhor é quem mais escreveu no mundo sobre Darwin,


tanto para explicar quanto para desenvolver sua teoria e, além disso, é o diretor
do Instituto Charles Darwin Internacional, fundado pelo senhor em 1998, que
empreendeu, sob sua supervisão, a tradução completa e a edição crítica das
obras de Darwin em 35 volumes, publicados pela Editora Slaktine. O senhor é,
também, o diretor do imenso Dicionário do darwinismo e da evolução (1999),
única enciclopédia histórica e contemporânea sobre os estudos darwinistas que
existe hoje, publicada pela Presses Universitaires de France (PUF) em 1996. O
senhor é, enfim, o autor de numerosos livros, dentre os quais aquele famoso da
Gallimard- Découvertes consagrado a Darwin (Tort, 2004) e, mais recentemen-
te, a obra O efeito Darwin (2008) publicada pela Seuil, e a Exposição Darwin,
em 45 painéis disponíveis em CD-r, que constituem o eixo da grande exposição
consagrada pela cidade de Paris ao grande naturalista por ocasião do bicentenário
de seu nascimento. Patrick Tort, o senhor deve, certamente, ter explicado a teoria
de Darwin centenas de vezes ao longo de sua vida. Poderia refazer esse exercício
hoje, para nós?
P. Tort: Bem..., a quem deseja explicar razoavelmente Darwin basta, às vezes,
seguir a ordem de exposição que ele mesmo desenvolveu nas suas diferentes obras.
De fato, tudo começa pela variação.

* Entrevista de Patrick Tort, Diretor do Instituto Charles Darwin Internacional, concedida a Alain Bas-
coulergue. Tradução de Mônica Zoppi, professora do Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp.

Patrick Tort: sobre Darwin • 79

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Os seres vivos variam. Essa constatação é comum a numerosos naturalistas
que, de Buffon a Lamarck, observaram a variação dos animais e das plantas sob
a influência das “circunstâncias” e a ação do meio. Ela é particularmente sensível
nas condições da domesticação, que sempre foi para Darwin um observatório
privilegiado da mudança morfológica, comportamental e instintiva. De manei-
ra geral, os organismos domesticados variam mais que aqueles que vivem em
condições naturais. Se Darwin ignorava, ainda, as causas profundas da variação,
ele atribuía, contudo, sua causa direta a uma afecção do sistema reprodutor. A
variação parece sobrevir “por acaso”, mas Darwin destaca que o “acaso” não é
mais do que uma rede de cadeias causais muito complexas para serem desveladas
e conhecidas. A variação procede mais do organismo do que do ambiente, embora
ela possa ser ativada por uma mudança deste último (a domesticação é uma forma
acentuada desse tipo de mudança). A questão da amplitude da variação possível
em um organismo é evidentemente crucial no debate histórico entre o fixismo e o
transformismo. Darwin rejeita, obviamente, apontar qualquer limite para a plas-
ticidade (ou variabilidade) dos seres vivos, dado que toda variação de um órgão
é acompanhada de correlações visíveis ou invisíveis nos outros órgãos (variação
denominada “correlativa”). A variação hereditária – orgânica e instintiva – cons-
titui, assim, a matéria de base sobre a qual se exerce a seleção, seja ela artificial
(horticultura, criação) ou natural.
A.B.: Então, Patrick Tort, como caracterizar essa seleção artificial que parece
ter desempenhado um papel analógico indiscutivelmente importante na elaboração
da ideia central da seleção natural?
P.T.: A seleção artificial é a praticada pelos horticultores e pelos criadores de
animais com o fim de melhorar, para sua própria vantagem, os organismos dos
quais eles controlam a reprodução. Por exemplo, algumas ovelhas nasceram em um
rebanho com as patas curtas e curvadas. Essa variação, que teria sido desvantajosa
na natureza, interessou aos criadores de Massachussets porque ela impedia que
os animais pulassem as cercas. Os criadores decidiram, então, propagá-la quase
monstruosamente para formar uma nova raça com patas tortas, descartando a re-
produção dos indivíduos que não apresentavam essa característica desejada. Assim
nasceu a raça das ovelhas “Ancon”. A seleção artificial – que também é chamada de
“racional” ou “metódica” – aperfeiçoa, dessa maneira, os organismos, por razões de
vantagem técnica e econômica ou para a simples satisfação do criador: vacas para
leite ou para abate, cavalos de corrida ou de trabalho, cães anões de companhia etc.
A.B.: E Darwin veria, portanto, nessa seleção orientada pelo homem, a prova
de que uma seleção é possível na natureza?
P.T.: Possível, esta é a palavra, e isso não é uma hipótese ocasional, mas uma
indução a partir da domesticação. A prática dos horticultores e dos criadores de-
monstra, efetivamente, que os organismos domesticados, além de serem variáveis,

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são igualmente selecionáveis. Como esses organismos permanecem naturais,
a selecionabilidade se mostra, então, como uma capacidade dos animais e das
plantas. Uma propriedade de sua natureza. Ao transferir o princípio de Malthus
ao domínio das populações animais e vegetais, Darwin refletiu, também, sobre
o fato de que, não havendo impedimento, uma só espécie poderia, unicamente
por sua faculdade de reprodução, ocupar por si só rapidamente todo o território
disponível. Porém, esse fenômeno não é, em lugar nenhum, observado na natu-
reza, que oferece, ao contrário, por toda parte, equilíbrios pluriespecíficos em
perpétuo remanejamento. Existe, portanto, um mecanismo regulador da natureza
que tem por característica ser eliminatório, freando essa superpopulação, gerando
uma luta sem misericórdia pela sobrevivência entre organismos que se tornaram
demasiado numerosos em relação à espécie e aos recursos. Ora, os organismos
que sobrevivem a esse confronto são necessariamente os mais bem adaptados
às condições da luta. E essa melhor adaptação somente pode ser explicada por
uma variação que, consideradas as condições do meio e do momento, revela-se
vantajosa para os organismos. A seleção natural, assim logicamente deduzida,
será, portanto, um mecanismo pelo qual as variações transmissíveis vantajosas
num meio determinado permitirá aos indivíduos por elas afetados levar a melhor
na luta pela vida, em detrimento dos indivíduos que não se beneficiaram delas. O
correlato da vitória dos mais aptos é a eliminação dos menos aptos. A acumulação
por transmissão hereditária das variações vantajosas aos organismos em um meio
estável explica a transformação adaptativa das espécies. É o que fica estabelecido
em A origem das espécies (1985), em 1859.
A.B.: Desta maneira, Patrick Tort, chegamos à célebre Struggle for life,1 que
será o motor da seleção natural, assegurando aos mais bem adaptados a sobrevi-
vência e a transmissão de suas vantagens?
P.T.: Exato. A tendência a um aumento numérico ilimitado em um espaço limi-
tado pelas suas dimensões físicas e seus recursos é uma constante dos organismos
vivos. A luta resultante dessas condições implica, então, uma competição inevitável
entre indivíduos e entre populações específicas em um meio dado. A luta pela vida
(struggle for life) abarca, assim, a competição intra e interespécies (concorrência
vital entre organismos, entre variedades e entre espécies para obter os elementos
indispensáveis à síntese e à manutenção de sua matéria viva) e o confronto com
as condições físicas e climáticas do meio. A vitória de um indivíduo, de uma
variedade ou de uma espécie nessa luta generalizada se traduz em um número
maior de descendentes, providos de uma melhor adaptação às condições da luta.
O resultado da luta pela vida é, então, a promoção de organismos que variaram de
forma vantajosa no interior de um meio determinado: é a isto que Darwin chama
de seleção natural e é ela que explica a transformação contínua dos organismos.

1 Em inglês no original. [N. T.]

Patrick Tort: sobre Darwin • 81

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A.B.: Patrick Tort, poderíamos dizer que sua maior contribuição aos estudos
darwinistas contemporâneos foi revelar a natureza propriamente inesperada da
antropologia de Darwin. Durante muito tempo acreditou-se, de maneira precipi-
tada e pouco instruída, que o discurso de Darwin sobre o homem e as sociedades
humanas se estabelecia como uma continuação homogênea e mecânica de seu
discurso sobre o conjunto dos organismos, e que a lei seletiva se aplicava igual-
mente ao homem, com todas as suas consequências eliminatórias. Ora, o senhor
tem demonstrado que as coisas são, na verdade, bem diferentes.

P.T.: Com efeito; e para compreender isto, basta ler com todo o cuidado
necessário a grande obra antropológica de Darwin, A origem do homem (2004),
que afirmou em 1871 a ligação genealógica do homem à série animal. Os “dar-
winistas” de todo tipo baseavam-se nesse fato para esperar que este livro fosse
a extensão, ao homem e às sociedades humanas, da teoria da sobrevivência dos
mais aptos (e, portanto, da eliminação dos menos aptos). Ocorre, na realidade, o
contrário. Em A origem do homem, Darwin explica que a seleção natural, pelo
fato de favorecer na evolução humana o desenvolvimento de instintos sociais e
o aumento correlato das faculdades racionais, deixou de ser o fator dominante
da evolução, sendo ela mesma relegada por aquilo que ela produziu: a extensão
indefinida da simpatia, dos sentimentos afetivos, do altruísmo, da solidariedade,
da educação, da moral, do sacrifício. Ela permitiu, assim, progressivamente, que o
antigo funcionamento eliminatório fosse substituído por condutas antieliminatórias
de proteção e de salvaguarda em favor dos mais fracos: cuidados aos doentes e
aos minusválidos, assistência aos pobres e aos fracos de espírito, reabilitação de
todos os indivíduos que sofrem desvantagens físicas ou sociais. Darwin denomina
civilização ao conjunto de princípios, leis e instituições que derivam dessa seleção
de instintos sociais. Assim, pela operação da seleção dos instintos sociais e de
toda sua constelação de correlatos racionais e afetivos, a seleção natural seleciona
a civilização, que se opõe à seleção natural. A vantagem selecionada se torna,
então, social. Sem rupturas, a seleção natural, aplicando a si mesma sua própria
lei de perecimento das formas antigas, produziu, assim, um efeito de ruptura que
legitima a existência distinta de ciências do homem e da sociedade sem recortá-las,
à maneira teológica, de suas raízes naturalistas. Foi esse efeito que denominei,
em 1983, o efeito reversivo da evolução.
Em 1871, Darwin afirma, portanto, contra a expectativa majoritária daqueles
que tinham lido A origem das espécies e pensavam encontrar nela a chave única
da compreensão de todos os problemas humanos, que, na espécie humana, as ca-
pacidades racionais e os instintos sociais foram a fonte de vantagens adaptativas
maiores e, nessa medida, conjuntamente e poderosamente selecionadas.
A seleção dos instintos sociais, explica Darwin, alarga a simpatia, que reco-
nhece o outro como semelhante, socorre-o quando sofre, e esvazia progressiva-
mente os comportamentos individuais de rivalidade e de conflito em benefício de

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condutas cooperativas, solidárias e altruístas. A sociedade se torna mais unida e
forte. Tratam-se os doentes, reabilitam-se os desvalidos, socorrem-se os deserda-
dos. As relações sociais se tornam mais complexas, favorecendo, como resultado,
o desenvolvimento de uma educação racional. O direito e a moral dominam o
individualismo egoísta. Onde a seleção natural eliminava, a civilização começa
a proteger. Ao selecionar os instintos sociais, a seleção natural seleciona a civili-
zação, que se opõe a suas antigas consequências eliminatórias. O efeito reversivo
da evolução é, precisamente, essa eliminação tendencial da eliminação. E esse
alicerce naturalista, materialista e laico para a moral é, justamente, a segunda
revolução darwinista. É também por isso que Darwin se opôs, de fato, tanto ao
malthusianismo, ao “darwinismo social” – assim chamado muito infelizmente
pelos teóricos posteriores –, quanto ao eugenismo e a toda forma de dominação
brutal, inferiorizante e destruidora exercida contra os representantes da humanida-
de. Seu ódio à escravidão é hoje célebre, mas foram necessários vários anos para
que fossem conhecidos os textos nos quais esse ódio aparecia inscrito.

A.B.: Patrick Tort, ao escutar o que o senhor diz, não podemos deixar de
lembrar a relação provavelmente difícil entre Darwin e os defensores da religião
revelada. Eu sei que o senhor é crítico em relação aos discursos, majoritariamente
anglo-saxões, que defendem hoje, ainda, a imagem de um Darwin “trabalhado”
pelo cristianismo, que não ultrapassava fundamentalmente uma posição agnóstica.
Qual era, de fato, a posição de Darwin face à religião e à crença?

P.T.: Já explicamos que, ao assegurar por meios naturais o progresso das


formas vivas, a seleção retirava qualquer necessidade de um governo divino e
providencial da economia da natureza. A teoria das causas finais tornou-se inútil.
Não somente o dogma da criação do mundo e dos seres vivos em seis dias se
tornou uma fábula contradita pela evidência dos tempos longos necessários para
o processo de transformação das espécies; a evolução dos instintos sociais e da
inteligência dava uma chave laica para uma genealogia da moral desembaraçada
do tema da obrigação transcendental. Para a teologia natural, a natureza viva ofe-
rece a imagem de uma harmonia sorridente na qual cada ser vivo é perfeitamente
adaptado às suas condições de existência e cada detalhe da criatura possui uma
utilidade ao serviço do plano divino. Darwin, ao contrário, estuda tudo o que
testemunha no universo vivo, uma imperfeição, uma desordem, uma gratuidade,
uma confusão ou um transtorno: dentes rudimentares do boi que nunca chegam a
perfurar a gengiva, glândulas mamárias em quadrúpedes machos, asas de certos
Coleópteros recobertas de élitros completamente soldados, vestígios de pistilos
etc. A natureza não é perfeita, como mostra a seleção incessante de novos carac-
teres adaptativos, a crueldade das relações entre os seres e a inutilidade, às vezes
nociva, de partes anatômicas (apêndice). A imagem da criação perfeita, definitiva
e separada das espécies se apaga em benefício de uma explicação genealógica.

Patrick Tort: sobre Darwin • 83

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Darwin declarava publicamente ser agnóstico, visando, com isso, simplesmente
evitar ser desafiado a provar a inexistência de Deus. Na realidade, como o teste-
munha sua Autobiografia, apesar de uma inegável prudência tática que o afastou
constantemente de qualquer declaração pública nesse sentido, ele era profunda-
mente ateu e relativista, e considerava vários aspectos do cristianismo tão falsos
e imorais quanto as religiões que o próprio cristianismo tinha combatido.

A.B.: Patrick Tort, na sua obra O efeito Darwin, publicada pela Seuil, o senhor
consagra uma reflexão apaixonante ao que Darwin chama “seleção sexual”. Em
que consiste essa seleção sexual e como ela chega a engendrar efeitos que, mesmo
subordinados aos efeitos gerais da seleção natural, são, às vezes, suscetíveis –
como o senhor explica – de contrariar seu curso?

P.T.: Em A origem do homem e a seleção sexual (1871), Darwin define a


seleção sexual como dependente “da vantagem que certos indivíduos possuem
sobre outros do mesmo sexo e da mesma espécie, exclusivamente em relação à
reprodução”. É basicamente uma luta entre machos para a conquista das fêmeas.
Para os vencidos, ela pode ser temporariamente desqualificante, porém, raramen-
te é mortal. Quando chega o período do acasalamento, certos animais machos
(principalmente mamíferos e aves) têm acentuados seus caracteres sexuais se-
cundários (galhadas no veado, plumagem ornamental da Ave do Paraíso, todos
caracteres transmissíveis somente à descendência masculina) que têm um estatuto
indeciso entre arma e charme. Os chifres hipertrofiados do veado podem servir
nos combates, mas são, em princípio, um ornamento que constitui uma pesada
desvantagem nas regiões densas da floresta, colocando o animal em perigo de
morte quando tenta escapar de um predador. O ornamento de núpcias da Ave do
Paraíso deixa seu voo quase impossível e a coloca mais ao alcance de eventuais
predadores. Isso significa que sendo a escolha das fêmeas mais vivas sempre em
favor dos machos melhor armados, o risco da morte e a eventualidade do sacri-
fício de si estão ligados à conquista amorosa. E as fêmeas escolhem sempre os
machos que, pela visibilidade dos seus charmes, são os mais claramente dispostos
a morrer por elas. Portanto, a seleção sexual, parte necessariamente integrante
da seleção natural, pode, em realidade, vir a produzir efeitos que contrariam o
curso desta.

A.B.: Mas então, Patrick Tort, se eu compreendi bem, segundo o senhor,


Darwin teria descoberto os fundamentos zoológicos da psicanálise?

P.T.: Sim, na medida em que ele reconheceu a eventual proximidade do


desejo e da morte e o fato de que a beleza pode ser fatal. O reproche de “antro-
pomorfismo” correntemente direcionado a Darwin pelo uso do termo beleza para
qualificar a acentuação de certos caracteres sexuais secundários dos machos no
período pré-nupcial é evidentemente ligado à ideia de que somente o homem é

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emocional e intelectualmente capaz de apreciar essa culminação particular de uma
qualidade sensível. Darwin responde a este reproche em algumas linhas límpidas
do capítulo 13 de A origem do homem e a seleção sexual: “O faisão Argus não
possui cores vivas, de modo que seu sucesso no amor parece depender do grande
tamanho de suas penas e dos desenhos altamente elaborados que as enfeitam.
Muitos acreditam que é totalmente incrível que um pássaro fêmea seja capaz
de apreciar a beleza do jogo de nuances e a elegância desses desenhos. É, sem
dúvida, um fato maravilhoso que ela possua esse grau de gosto quase humano.
Quem pretenda que pode, sem se enganar, julgar as capacidades de discernimento
e o gosto dos animais inferiores, poderá negar, talvez, ao faisão Argus fêmea, a
aptidão de apreciar uma beleza tão refinada, mas, então, será obrigado, também,
a admitir que as posturas extraordinárias adotadas pelo macho no ato do cortejo
nupcial, que lhe permitem exibir em toda sua plenitude a admirável beleza de
sua plumagem, não têm nenhum objetivo. Eu, da minha parte, nunca aceitarei
esta conclusão”.
Percebe-se a ingenuidade dessa acusação de antropomorfismo ao mesmo tempo
em que se compreende sua raiz inconscientemente teológica. Segundo Darwin,
para quem o Homem não foi dotado ab origine de nenhum privilégio de nature-
za, mas desenvolveu em grau inédito certas qualidades como a sociabilidade, a
inteligência e a simpatia, existe necessariamente, para o sentimento humano da
beleza, um antecedente animal do qual é possível encontrar – como acabamos
de confirmar – um traço impactante nos mamíferos e aves. Falar, portanto, de
“sentimento da beleza” nos animais não é mais do que sinalizar, pela identidade
de um termo, a identidade de natureza subjacente na sensibilidade particular, cujo
caráter comum – embora em graus diversos – aos homens evoluídos e aos animais
esta designação única procura precisamente traduzir. Darwin fará o mesmo para
todos os outros traços comportamentais, faculdades ou qualidades que os teólo-
gos ou seus intérpretes naturalistas quiseram reservar estritamente ao Homem: a
inteligência racional, a consciência moral ou os sentimentos religiosos.
Um dos maiores ensinamentos produzidos pela análise da teoria da seleção
sexual em Darwin é, então, aquele sobre o risco de morte e a propensão autossa-
crificial, quiçá semiconscientemente ligados à situação da busca amorosa. Como
se a procura de um objeto ao qual se unir – que é a manifestação primeira de um
“altruísmo” entendido como movimento para a alteridade – envolvesse quase de
forma irremediável uma renúncia consentida à preferência de si, renúncia esta
que Darwin define, aliás, como condição mesma da civilização e como o ideal
moral humano, segundo o kantismo.
Se a seleção natural desenvolveu estruturas e instintos que permitem evitar
a morte, a seleção sexual desenvolve, ao contrário, anexos físicos e comporta-
mentos suscetíveis de expor a vida, estabelecendo uma equação entre a beleza,
a sedução e o risco. Essa inversão, no entanto, é interna à seleção natural, pois a
seleção sexual, como já vimos, se subordina finalmente à determinação neces-

Patrick Tort: sobre Darwin • 85

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sária da vantagem vital, enquanto determinante em última instância. Ao mesmo
tempo, a seleção sexual, complemento ou coadjuvante da seleção natural, se
apresenta como acréscimo adventício, como uma rejeição divergente, como um
prolongamento por vezes turbulento e contraditório. Ela contém as premissas do
sacrifício altruísta antes que este ganhe a expressão consciente e voluntária que
o caracteriza no seio da lei moral, que contém o primordium2 da ação consciente
e voluntária ela própria. Enquanto a seleção natural obedece globalmente a uma
lógica da carência (e, portanto, exclusivamente, da sobrevivência), a seleção
sexual, que se integra a ela prolongando-a, obedece a uma lógica que nasce no
desejo, que a inverte parcialmente, na exata medida em que ela faz coincidir a
primeira emergência fenomenal do altruísmo (o esforço por conquistar o par-
ceiro da procriação) com a possibilidade do sacrifício individual e da morte. O
que também caracteriza, eminentemente, e é necessário insistir neste ponto, a
obediência voluntária à lei moral e ao seu ideal heroico (morrer por uma causa,
sob o olhar dos outros). O macho arrisca sua vida no combate ou na exibição;
a fêmea a arrisca de uma maneira mais discreta e mais constante no cuidado,
defesa e criação de sua prole, função que se combina com o apagamento relativo
de suas cores, geralmente mais fracas que as do macho e, desta maneira, menos
expostas. Virtudes guerreiras e virtudes domésticas encontram aí a origem de
sua distribuição sexual nas civilizações humanas. Fundadas sobre o imperativo
prático da proteção, elas são a fonte evidente e, ao mesmo tempo, o objeto de
todas as prescrições morais. A proteção é, soberanamente, altruísta: quem protege
se expõe. O macho assegura esta função no nível do grupo familiar, como, por
exemplo, no caso dos macacos, caro a Darwin pela sua proximidade filogenética
com o Homem, em um nível mais elevado. Mas a fêmea a assegura, no mínimo,
em relação à prole, o que a leva, às vezes, a se expor, ela também, de uma maneira
“heroica”. Aristóteles, na sua História dos animais [IX (8)], descreve o caso da
perdiz que simula estar ferida com o fim de desviar de si a atenção e a perseguição
do caçador, afastando-o, assim, do ninho e de sua prole. La Fontaine não deixou
de destacar, ele mesmo, o interesse prodigioso de um comportamento desse tipo.
O animal pensa – e pode mesmo calcular – seu sacrifício: é isto que tenta ilustrar,
contra Descartes, com este exemplo, que aparece no Discurso a madame de la
Sablière (1678, livro IX, fábula 20):

Quando a perdiz
Vê seus pequenos
Em perigo e com penas novas somente
Que lhes impedem, ainda, fugir pelos ares,
Ela se faz de ferida e anda arrastando uma asa,
Atraindo o caçador e o cão sobre seus passos.

2 Em latim no original. [N. T.]

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Desviado o perigo, salva assim sua família,
E depois, quando o caçador acredita que seu cão a pega,
Ela lhe diz adeus, empreende o voo e ri,
Do homem que, confuso, com os olhos a segue em vão.

A.B.: Patrick Tort, as manifestações da seleção sexual são, então, na história


dos animais, aquilo que prepara, de muito longe, a história humana?
P.T.: De muito longe, com efeito, mas sem ruptura e sem irrupção de trans-
cendência. Retomemos o exemplo do ornamento. O macho, para seduzir a fêmea,
reveste-se de enfeites efêmeros: o veado perderá seus chifres, como a Ave do
Paraíso se desfará de seu opulento ornamento de núpcias. O ornamento destinado
a seduzir é biologicamente descartável. Nessa capacidade biológica é necessário
reconhecer o começo evolutivo do uso ocasional e excepcional de enfeites, que
caracterizará o comportamento humano, seja cerimonial ou sedutor. Outra verdade
se mostra nesse primeiro uso do ornamento simbólico: ele significa a força de uma
maneira hiperbólica, dissimulando, dessa maneira, o que pode ser a própria ocasião
do fracasso e da morte; ele é, por excelência, a máscara brilhante da fraqueza.
Referências bibliográficas
DARWIN, Charles. Origem das espécies. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Unesp, 1985.
DARWIN, Charles. A origem do homem e a seleção sexual. Belo Horizonte: Itatiaia, 2004.
TORT, Patrick. Dictionnaire du darwinisme et de l’évolution. 3v. Paris: PUF, 1999.
TORT, Patrick. Darwin e a ciência da evolução. São Paulo: Objetiva, 2004. (coleção
Descobertas)
TORT, Patrick. L’Effet Darwin. Sélection naturelle et naissance de la civilisation. Paris:
Seuil, 2008. (coleção Science Ouverte)

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Teoria do valor,
trabalho e classes
sociais
Entrevista com
Daniel Bensaïd
Apresentação
HENRIQUE AMORIM*
LEANDRO DE OLIVEIRA GALASTRI**

“Para entrar na luta, não é necessário possuir


as chaves do paraíso ou da cidade perfeita. É
resistindo ao que parece irresistível que nos
tornamos revolucionários, sem o saber.”

Daniel Bensaïd morreu em combate no último dia 12 de janeiro. Participava


de uma avançada frente de batalha da guerra contra o capital, sendo figura proe-
minente dos esforços de construção do Novo Partido Anticapitalista na França,
criado oficialmente em janeiro de 2009. Foi também um dos fundadores das
mais recentes versões impressa e eletrônica da revista Contretemps, que procura
ser atualmente instrumento intelectual da tentativa de renovação das estratégias
da esquerda revolucionária francesa. Tais foram os últimos movimentos de uma
vida inteiramente balizada pela convicção na militância socialista, desde fins da
década de 1960, quando Bensaïd já se encontrava entre os agudos críticos juvenis
do status quo na vaga contestatória do maio de 68 francês.
Importante filósofo marxista da contemporaneidade, uma de suas elaborações
teóricas recentes mais interessantes foi a da “discordância dos tempos”, ou das
diferentes temporalidades históricas. Propunha uma nova escrita da história, que

* Professor de sociologia do Departamento de Ciências Sociais da Unifesp e autor do livro: Trabalho


imaterial: Marx e o debate contemporâneo (São Paulo: Annablume, 2009) (e-mail: henriqueamorim@
hotmail.com).
** Doutorando em Ciência Política pela Unicamp.

Teoria do valor, trabalho e classes sociais • 89

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seria simultaneamente uma nova “escrita e uma nova escuta do tempo”. Para ele,
o tempo se concretizaria na existência dos espaços sociais. Sem a separação dico-
tômica entre tempo e espaço, sustenta, citando Hegel, que o “tempo é a verdade do
espaço”. Assim, a existência dos diversos espaços sociais representaria a ocorrência
das diferentes temporalidades concomitantes da história, um conjunto repleto de
fraturas pelas quais escaparia “um turbilhão de ciclos e espirais, de revoluções e
restaurações”. Ora, tratar a história como o conjunto de suas diversas temporalida-
des seria, de certa forma, tratar sempre do presente. E qual o lugar da política? Se
o que está em causa são os desfechos possíveis do presente, a história é superada
pela política. O presente deixaria, portanto, de ser um momento da continuidade
temporal e tornar-se-ia um embate pela seleção de possibilidades; deste modo, a
ação revolucionária converte-se numa luta de resultados imprevisíveis.
Pode-se então considerar a luta anticapitalista defendida por Bensaïd como
inserida na disputa pela definição dessas possibilidades históricas contra o sistema
de dominação vigente. Para ele, a dominação na sociedade capitalista se cons-
truiria – e, quando necessário, se regeneraria – através de um “círculo vicioso”,
expressão tomada de empréstimo a Marcuse. O autor alemão formula a noção de
“círculo vicioso da dominação” a partir de sua análise da sociedade de consumo
de massa na década de 60, o que considera ser a “sociedade tecnológica”. Esta
sociedade forneceria a satisfação virtualmente plena das necessidades e desejos
dos indivíduos porque conseguiria forjar ela mesma essas necessidades e dese-
jos. Em suma, ela criaria as necessidades adequadas a serem satisfeitas e assim
consolidaria a dominação por meio do consenso, numa aparência de mais ampla
liberdade possível. Não necessitaria, assim, reprimir com força física os desejos
que ela mesma cria, controla e satisfaz. Os indivíduos mover-se-iam, aqui, no
interior de um círculo de dominação totalitária, unidimensional.
Como complemento desse círculo vicioso hegemônico, Bensaïd aponta a
divisão capitalista do trabalho, que oporia os dominados uns aos outros: desem-
pregados contra aqueles que têm emprego, nacionais contra imigrantes, homens
contra mulheres, jovens contra velhos. Enfim, uma hegemonia que se consolida-
ria também pela reprodução cotidiana e impositiva do discurso unificado, pelo
enquadramento ideológico das perspectivas de mudança nos limites do horizonte
burguês, ou seja, da propriedade privada e do individualismo competitivo. Discurso
unificado que aprofundaria as raízes da dominação nos costumes aprendidos em
família, na escola, no trabalho, que ensejam a submissão.
Eis, portanto, a função estratégica do partido político – revolucionário, bem
entendido: romper aquele “círculo vicioso da dominação”. Partido compreendido
como organização portadora de uma memória coletiva, feita de experiências de
luta, de assimilações de vitórias e derrotas, que saiba agir e tomar as decisões
necessárias nos momentos de crise aguda do capital e de revolta social. É para
essa tarefa que Bensaïd esperava que se voltasse o NPA, porta-voz que seria de
um anticapitalismo de novo tipo, não mais como crítica romântica à sociedade

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burguesa, mas como palavra de ordem com vistas a agregar todos aqueles que,
de alguma forma, estivessem dispostos a oferecer resistência às forças do capital.
Ele acreditava que a luta contra o círculo vicioso da dominação se daria passo
a passo, dia a dia, contra os preconceitos, a desinformação, evitando as armadilhas
do “discurso dos outros”. Uma luta desigual, por certo, mas com a tenacidade
que permitisse superar os limites materiais dos meios à disposição, que permitisse
construir um discurso próprio. Afinal, “as palavras têm sua importância. Pen-
samos por palavras. Representamos o mundo através de palavras. E quando as
palavras estão enviesadas, acabamos por pensar de forma enviesada”. O autor
relembra, no entanto, que é nas condições mesmas da produção que se enraíza a
subordinação às ideias dominantes. E seria contra essas condições que se deve-
ria centrar a estratégia de toda a resistência. A resistência, porém, não é tudo, e
Bensaïd o sabia claramente. O anticapitalismo era para ele, no entanto, ao menos
a designação clara do inimigo contra o qual se bater. Tratar-se-ia de uma alterna-
tiva à qual cumpriria ainda conferir um conteúdo revolucionário propositivo, que
incorporasse em linhas gerais a igualdade, a solidariedade, o questionamento das
relações de produção, o internacionalismo. Ou seja, uma tomada de posição pela
superação do sistema capitalista, contra o novo discurso unidimensional defensor
de sua “recuperação ou moralização”.
A entrevista que se segue tratou de alguns elementos centrais para a análise
do capitalismo atual, como a teoria do valor, a teoria das classes sociais, as novas
formas de exploração do trabalho e suas consequências para os trabalhadores.
Realizada no dia 5 de maio de 2009, nela Bensaïd falou sobre questões relevan-
tes também para a literatura marxista, sociológica e filosófica contemporânea. A
entrevista, registrada em vídeo com quase duas horas de duração, foi realizada
na livraria La Brèche, em Paris.
Um dos momentos de destaque é a questão da constituição das classes sociais.
Elaborador de uma análise profunda sobre o tema em suas obras, nessa entrevista
o autor confirmou sua perspectiva crítica indicando a impossibilidade de definir,
como a tradição positivista o faria, as classes sociais a priori. Reiterando a im-
portância relativa dos dados históricos e estatísticos para a avaliação dos conflitos
sociais hoje, Bensaïd faz uma interessante separação entre uma concepção de
classe que se funda em critérios sociológicos e uma outra, a sua, fundada em uma
perspectiva estratégica das classes sociais em luta. Indica, assim, que: “A noção de
classe, segundo Marx, não é redutível nem a um atributo de que seriam portadoras
as unidades individuais que a compõem, nem à soma dessas unidades. Ela é algo
diferente. É uma totalidade relacional e não uma simples soma”. A perspectiva
sociológica tentaria situar, a qualquer preço, um grupo de indivíduos em critérios
arbitrariamente escolhidos. Lembra as tentativas do Partido Comunista Francês
nessa empreitada. Critica, dessa forma, uma concepção de classe que teria por
finalidade realizar o que chamou de “autolegitimação” de sua condição de repre-
sentante dos “verdadeiros” trabalhadores.

Teoria do valor, trabalho e classes sociais • 91

Rev_Critica_Marxista-30_(FINAL).indd 91 15/04/2010 13:23:45


Ao retomar Marx, Bensaïd sustenta a impossibilidade de indicar critérios
sociológicos como renda, qualificação profissional etc. como elementos que com-
poriam uma definição a priori da classe trabalhadora, por exemplo. Segundo ele,
Marx não compartilharia desse procedimento teórico. Seguiria, contrariamente, a
lógica da determinação conceitual, fundada na tradição filosófica alemã, e não a
tradição positivista francesa que teria inspirado muitos intelectuais pelo mundo,
inclusive brasileiros. Nesse sentido, “Marx [...] não procede quase por definição
(por enumeração de critérios), mas por ‘determinação’ de conceitos (produtivo/
improdutivo, mais-valia/lucro, produção/circulação), que tendem ao concreto
articulando-se no seio da totalidade”.
Daniel Bensaïd e suas obras são o exemplo fecundo de uma perspectiva que
não deixa espaço para a imposição das teorias quantitativas e estatísticas. Seu
trabalho é, entre outras tantas coisas, uma forma de combate político e teórico
àqueles que tentam reduzir a obra de Marx, a saber, a teoria do valor, das crises,
das classes etc., a números e fórmulas matemáticas. A tradição teórica e filosófica
que Bensaïd desenvolve – que nutre, por exemplo, suas perspectivas em relação
ao tempo, ao espaço, à questão das classes sociais, ao dinamismo e fluidez das
condições de luta – corre o risco de ser ofuscada em uma sociedade tão presa aos
cânones da objetividade cientificista.

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Entrevista com
Daniel Bensaïd*

Henrique Amorim: O pensamento de Marx precisa ser atualizado? Como é


possível ir além de Marx?
Daniel Bensaïd: O pensamento de Marx não precisa ser atualizado. Ele é atual.
Sua atualidade é a atualidade do capital, que é o objeto crítico de Marx. À época
de Marx, as relações capitalistas de produção dominavam apenas uma parte do
mundo. Hoje essas relações se generalizaram e aí está sua atualidade fundamental.
Ela se exemplifica também na questão da mundialização. Marx não se contentou
apenas em descrever a mundialização, como faz a maior parte dos jornalistas. Ele
explica, primeiramente, a sua lógica, a saber, a acumulação ampliada e a aceleração
de rotação do capital. Em segundo lugar, constatamos que há em Marx uma teoria
das crises, ou, mais corretamente, os elementos de uma teoria das crises como
separação da esfera de produção e consumo, a esquizofrenia geral que caracteriza
a sociedade capitalista que tinha raízes na manifestação da superprodução e na
crise financeira. E em terceiro lugar, se pegarmos hoje a grande característica da
crise social, isto é, de um lado os fenômenos de exclusão e precarização e, de
outro, a crise ecológica, são duas grandes manifestações da crise do valor e da lei
do valor. A atualidade de Marx é, então, bem evidente.
Bem, se devemos ir além de Marx? Eu penso que sempre devemos ir além.
Não se deve retornar a Marx para permanecer onde ele parou, mas tomá-lo como

* Esta entrevista, realizada por Henrique Amorim em 5 de maio de 2009, teve o apoio da Fapesp. A
revisão técnica da tradução foi realizada por Leandro Galastri.

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um ponto de partida para ir mais longe. Por exemplo, ir mais longe para analisar
fenômenos que ultrapassam a questão ecológica tal como é conhecida hoje, em
relação ao desenvolvimento do produtivismo capitalista, mas não se pode dizer
que há uma teoria da ecologia em Marx. No entanto, há elementos que podem
nos auxiliar.
H.A.: Quais são os elementos conceituais que Marx não desenvolveu em O
capital? Seria possível concluí-lo?
D.B.: Concluir O capital é uma tarefa contraditória em relação à forma de
pensar de Marx. Marx o pensou em um movimento que acompanha o movimento
de seu objeto. Como o movimento do capital é permanente e ilimitado, podemos
afirmar que a crítica do capital é uma crítica que não pode ser finalizada. Não
penso que, por conta de uma questão biográfica, do fim de sua vida, O capital
permaneceu uma obra inacabada, aberta. Não podemos dizer, por exemplo, que
Marx tenha desenvolvido uma teoria de relações de exploração e dominação e nem
como estas se articulariam. Acredito que, nesse caso, é preciso procurar recursos
entre os sociólogos. Como a obra de Marx é contemporânea de um crescimento
da colonização, mas anterior à estrutura do imperialismo contemporâneo – não
é por acaso que o grande debate sobre o imperialismo data do começo do século
XX, com Hilferding, Bukharin, Lênin etc. – isto nos remete a pensar o imperia-
lismo hoje, nos remete à ausência do livro anunciado por Marx sobre o mercado
mundial. Enfim, há todo um campo de trabalho sobre esse tema. Há uma questão,
por exemplo, apenas enunciada, sobretudo nos textos de juventude de Marx, que
é a relação entre o Estado e a burocracia, a burocracia de Estado em particular.
É possível reconhecer elementos dessa leitura na Crítica da filosofia do direito
de Hegel. Essa questão reaparece no momento em que o fenômeno burocrático
torna-se um tema maior das sociedades contemporâneas.
H.A.: Os Grundrisse de Marx foram revisitados por vários autores, como Jean-
-Marie Vincent, André Gorz e Antonio Negri. Como o senhor pensa a apropriação
contemporânea dessa obra?
D.B.: Há uma riqueza de elementos críticos que são expressos com vigor,
talvez por conta do contexto da redação dos Grundrisse que, como Marx expri-
me na correspondência que redigiu em um momento de exaltação e fragilidade
diante da crise econômica de 1875-58 nos Estados Unidos, talvez tenham dado a
esse texto uma força subversiva em sua escrita e, sobre certas questões, superior
àquela encontrada de forma mais rigorosa e mais “científica” n’O capital. Por
exemplo, a passagem que indica que a lei do valor pode se tornar uma lei cada
vez mais miserável para dar conta da produção, da troca e da organização social.
Há momentos nos Grundrisse que não se encontram de maneira tão percuciente e
subversiva em O capital. Em segundo lugar, a descoberta dos Grundrisse – você

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evocou André Gorz, Antonio Negri e Jean-Marie Vincent e podemos somar a esses
autores Ernest Mandel – traz abordagens diferentes. Em Gorz, Vincent e Mandel,
a utilização dos Grundrisse é feita de maneira polêmica no momento em que o
livro é traduzido, tardiamente (1967-68). Nesse momento, os Grundrisse foram
retomados para demonstrar, contrariamente à posição de Althusser, que haveria
uma continuidade, ou seja, que o tema da alienação não havia sido abandonado.
Não haveria, assim, uma oposição entre o jovem Marx, teórico da alienação, e o
Marx de O capital, teórico crítico da reificação. Haveria, sim, uma transformação,
mas com um fio condutor que evitaria dividir em dois: o jovem Marx humanista
contra o velho Marx positivista. Eu penso que essa questão foi muito útil para
melhor compreender finalmente a lógica íntima do pensamento de Marx. Já em
Negri, trata-se de opor um Marx revolucionário e subversivo, como um teórico
da subjetividade operária, ao Marx cientificista e positivista que teorizou, através
do esquema de reprodução do livro II de O capital, uma espécie de eternidade
lógica do capital, já que nos encontraríamos em um sistema que cientificamente
tenderia ao equilíbrio. Para Negri, o único fator dinâmico seria o proletariado
por ele mesmo e o capital não seria senão uma resposta reativa à criatividade do
proletariado. Isso leva a uma posição muito subjetivista que, em certa medida,
tem consequências hoje. Se a mundialização não é senão uma resposta reativa do
capital à inventividade e à criatividade do proletariado, tudo que vai no sentido de
uma abertura é positivo, seja o tratado constitucional europeu ou a política liberal,
que têm um papel progressista comparável ao que Marx dizia do capitalismo no
Manifesto comunista. Desenvolvo mais profundamente essa questão em um artigo
sobre Negri no livro La discordance des temps.
H.A.: Como avaliar o debate sobre a centralidade do trabalho?
D.B.: O problema é o que se entende por trabalho. É comum em Marx en-
contrar uma dupla acepção, uma dupla utilização do termo. Isso é verdade para o
trabalho, como também para a classe ou para o trabalho produtivo. O que Marx
entende por trabalho é a troca, portanto, o metabolismo entre os organismos vivos
dos quais fazem parte a espécie humana e suas condições naturais de reprodução.
Nesse sentido, o trabalho é um conversor de energia, e a ideia de uma sociedade
sem trabalho é um absurdo. Seria dizer que não haveria mais troca, transforma-
ção de energia natural em energia cerebral, muscular etc. Desse ponto de vista,
enquanto pudermos imaginar a existência da espécie humana haverá uma forma
de trabalho e, portanto, uma forma de organização social do trabalho. Outra coisa
é o trabalho assalariado capitalista, que é uma forma historicamente determinada
de trabalho que não existiu sempre. Agora, em relação ao debate dos últimos
anos, veem-se sociólogos que indicam o fim do trabalho. Hoje certos indivíduos
trabalham a mais, e para outros, afetados pelo desemprego, falta trabalho. Des-
sa forma, é preciso distinguir os dois tipos de trabalho. O trabalho no sentido

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antropológico é um elemento constitutivo da humanidade que faz com que ela
pense e se desenvolva como ela se desenvolve. Por outro lado, o definhamento do
trabalho como trabalho assalariado, ou seja, como trabalho forçado, poderíamos
dizer, está evidentemente ligado ao socialismo e à crítica socialista do trabalho. É
preciso, então, retomar a tradição de crítica ao trabalho alienado que foi recoberta
ou esquecida por uma espécie de culto stakanovista durante a época stalinista, ou
mesmo do culto protestante do trabalho, que Walter Benjamim critica em uma
das teses sobre o conceito de história.
H.A.: O que é uma classe? Ela é um conjunto de indivíduos ou um conjunto de
relações sociais? Falta ao marxismo uma definição satisfatória de frações de classe?
D.B.: Bom, o que é uma classe? Não é por acaso que não se encontra uma
definição descritiva ou aproximativa de classe social em Marx e Engels. Não há
definição pois, de início, Marx não trabalha com esse tipo de procedimento de
“definição”. Definição é um gênero lógico muito presente na tradição positivista
francesa que não está presente na grande lógica alemã de Hegel e de Marx, que é
uma lógica da determinação – Bestimmung. Portanto, não é por acaso que não se
encontra uma definição satisfatória de classe que seja normativa ou então um tipo
de classificação sociológica que tenda a situar, de fato, uma série de indivíduos em
categorias socioprofissionais como fazem os estatísticos acadêmicos hoje. Nesse
sentido, há uma relação conflituosa, as classes se determinam mutuamente umas em
relação às outras com base em uma relação de conflito. No entanto, se eu procuro
uma definição a qualquer preço, é possível encontrá-la de maneira pedagógica
sobretudo em Lênin, em um texto que se chama La grande initiative. Ele definiu,
mas através de critérios muito complexos, pois há o lugar da divisão do trabalho,
o lugar da relação de propriedade, há a forma e o montante da renda... Bom, isso
permite uma aproximação para se fazer uma ligação com uma concepção estra-
tégica de classe, que para mim seria a questão fundamental, pois, em Marx, não
há uma concepção sociológica classificatória de classe. Há, sim, uma concepção
estratégica de classe realizada a partir da sua luta. Os elementos fornecidos por
Lênin podem ajudar a esclarecer ou enriquecer de maneira pedagógica essa forma
de aproximação. Se falta ao marxismo uma teoria de fração de classes? Pode-se
sempre fazer melhor, mas ela não está de modo algum ausente. Sobretudo nos
textos políticos de Marx, como, por exemplo, o Dezoito Brumário de Luís Bona-
parte, há uma análise brilhante das frações de classe e de sua expressão política.
Não penso que seja necessário desenvolver uma teoria especificamente marxista
da estratificação de classes. Podemos utilizar, para isso, fontes estatísticas para
tentar colocar à prova uma concepção do mundo, uma visão de mundo nos termos
da luta de classe.
H.A.: Nesse sentido, como interpretar a teoria de Jacques Bidet e Gérard
Duménil que indica a existência de uma classe de cadres?

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H.A.: Eles (Bidet e Duménil) fazem uma sistematização de uma classe de ca-
dres1 como consequência de sua análise estrutural, em especial Bidet, da sociedade
capitalista como uma combinação de relações de exploração e de organização.
Coloca-se no mesmo pé de equivalência dois tipos de relações, sendo que as de
exploração determinam as classes tradicionais, enquanto as de organização podem
determinar as outras formas de classes: os cadres, a burocracia etc. Entretanto,
depende do que queremos fazer. Depende da utilização que fazemos da catego-
ria, do conceito de classe. Se fazemos o uso sociológico, estamos na ordem da
convenção do vocabulário, da convenção terminológica. Poderíamos dizer que
existe uma classe de cadres. Agora, ela é também muito heterogênea, isto é, onde
ela começa, onde termina? Haveria uma diferenciação muito acentuada entre os
cadres superiores e entre um estágio de enquadramento que está mais do lado do
trabalho explorado. Não é um conceito que resulta em grande coisa. Na realidade,
essa categoria de cadres está fragmentada entre as classes fundamentais. Contra-
riamente, se tomamos a utilização de classe no sentido estratégico, o interessante
é a polarização fundamental de classe. Isso não elimina que existam estratos, cate-
gorias chamadas intermediárias, mas que são puxadas e polarizadas pelas classes
fundamentais que formam as relações de classe estrutural. Essa teoria pode trazer
inconvenientes, fazendo da classe de cadres uma nova classe histórica em ascensão,
portadora de um novo modo de produção etc. Cairíamos, com isso, novamente nas
teorias da classe gerencial, que não são tão novas assim. Há efetivamente aportes
da sociologia de Max Weber que poderia ser interessante colocar em diálogo ou
em tensão com a conceituação marxista. Porém, o problema interessante é como
se articulam ou, mais exatamente, a meu ver, como se imbricam as relações de
exploração e de organização e, finalmente, verificar como tudo isso é um conjunto
de relações coerentes e não dois tipos de relações que determinariam dois tipos
de relação de classe mais ou menos paralelos e equivalentes.
H.A.: E a noção de multidão, quais os elementos positivos e negativos dela
em relação à teoria das classes de Marx?
D.B.: Eu penso que a noção de multidão é inútil e nociva. Ela tem um valor
descritivo, mas descritivo em relação a uma imagem estereotipada que se pode
ter da classe operária, o tipo operário da indústria. Talvez o termo “proletariado”
seja mais conveniente. Ele é mais abrangente e mais antigo. Porém, finalmente,
ele descreve uma realidade mais vasta e mais complexa. Um certo tipo de proleta-
riado não desapareceu, estamos longe disso; nós o vemos através da crise hoje. Os
sociólogos Beaud e Pialoux, em um livro de investigação sobre a região industrial
francesa de Montbéliard, onde estão as fábricas da Peugeot, dizem que a classe
operária não desapareceu. Na verdade, ela ter-se-ia tornado invisível, porque talvez

1 Em francês, “cadres”, assalariados superiores, responsáveis pela administração das empresas e


aparelhos do Estado.

Teoria do valor, trabalho e classes sociais • 97

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haja menos luta, porque interesse menos aos sociólogos, preocupados mais com
a exclusão durante os anos 1980 etc. Com a crise, quando se vê o fechamento
de indústrias lembra-se, mesmo assim, que a classe operária diminuiu, mas não
desapareceu. Em relação a essa desestruturação de relações sociais sob o choque
da crise e da transformação técnica, eu compreendo que o conceito de multidão
pode ser um pouco sedutor, pois ele parece descrever uma realidade de maneira
cômoda. Pessoas que são pequenos vendedores ambulantes etc., que não vivem
como os operários, tudo isso é claro. Agora, como conceito estratégico, há um
ponto que não está totalmente claro para mim. Negri opõe o conceito de multidão
não ao de classe, mas sim ao de povo, sendo o povo a homogeneidade e a multidão
a diversidade. Isso já seria discutível. Bom, qual seria a relação entre multidão e
classe? Seria preciso reler os textos, mas parece ser relativamente obscuro. Em
Negri, as novas tecnologias e as novas formas de organização do trabalho desen-
volvem a multidão e, finalmente, a lógica da história se resume a uma confrontação
quase direta e clara entre o império e a multidão sem diferenciação. Finalmente,
a multidão torna-se o grande sujeito de transformação. Em vez de se trabalhar a
questão complexa de saber quais são os componentes atuais do bloco hegemônico
em torno das relações de classe, essa complexidade é reduzida pelo conceito de
multidão como um tipo de magma que é um novo sujeito, muito hipotético, da
história. Portanto, eu vejo muitos inconvenientes e poucas vantagens.
H.A.: Seria possível compreender as novas clivagens entre os trabalhadores
com base na tese da revolução informacional?
D.B.: Francamente, eu duvido. Seria correr o risco de um determinismo tecno-
lógico, de dizer que, de fato, as clivagens sociais resultam diretamente, mecanica-
mente da organização técnica do trabalho. Isso me parece uma pressuposição teórica
discutível. Evidentemente, nas formas e, sobretudo, na capacidade de organização
social, seja sindical ou política, essas diferenças têm um papel. Na medida em que
as novas tecnologias podem desempenhar uma forma de autonomização crescente
do trabalho, uma desconcentração no local de trabalho, tudo isso traz consequências
em sua capacidade de organização. Isso introduz clivagens fundamentais? Vemos
com a crise que uma parte das novas profissões sofre os efeitos da pauperização,
assim como as outras, e talvez pior em certos casos, em que há demissões ou
pressões sobre o salário. É sempre interessante estar atento a essas diferenciações
para pensar a questão das reivindicações sindicais e políticas. Agora, em fazer um
inventário teórico fundamental ou clivagens fundamentais eu não acredito. Não
concordo em dar à tecnologia um papel predominante nos fenômenos de formação
social, os quais compreendem, sobretudo, lutas e fenômenos culturais.
H.A.: Qual é a relação entre trabalho material/imaterial e trabalho concreto
e abstrato? Como a produtividade pode ser analisada em face das formas do
trabalho cognitivo?

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D.B.: Eu creio que não há relação alguma entre a noção de trabalho material e
imaterial e a noção de trabalho abstrato e concreto. Trabalho material e imaterial
nos remete ao conteúdo de uma atividade; o trabalho concreto é todo aquele que
produz bens úteis; já o abstrato é reduzido à sua medida pelo tempo, portanto, à
sua medida abstrata. Nesse sentido, não vejo relação. Há, sim, uma confusão que
tenta sobrepor a noção de trabalho material e imaterial à noção de trabalho con-
creto e abstrato. Em relação à produtividade do trabalho, o trabalho imaterial pode
ser tão produtivo quanto o material. Se a produção do trabalho é a produção de
mais-valia, um trabalho imaterial explorado produz mais-valia como um trabalho
material. Alguém que produz programas de computador é uma fonte de lucro para
a Microsoft. Se você tem um grupo de pesquisadores assalariados que produzem
programas para a Microsoft, você tem produção de mais-valia. Portanto, desse pon-
to de vista, essa história do trabalho imaterial, desde o momento em que começou
a ser utilizada, trouxe muitas confusões. Na realidade, o debate sobre o trabalho
produtivo e improdutivo frequentemente é muito mal compreendido. Não é apenas
produtivo aquele trabalho que produz bens materiais. O exemplo mais chocante,
mais surpreendente e mais conhecido está no Capítulo inédito de O capital, em
que Marx utiliza o exemplo da cantora assalariada e, se ela é assalariada, seu tra-
balho é produtivo. Seu trabalho é totalmente imaterial. Seu canto desaparece assim
que ela canta. Exceto hoje, depois de Marx, em que se desenvolveu a indústria
do disco e agora a de telecarregamento. A ideia é que mesmo o emprego da voz
pode ser considerado um trabalho produtivo se existe uma relação salarial entre
empregado e empregador. Portanto, em primeiro lugar, não, isto não tem nada a
ver com a materialidade do trabalho. Em segundo, a noção de trabalho produtivo
em Marx é delicada, pois é considerada por ele de forma contraditória. O trans-
porte das mercadorias é considerado um trabalho produtivo, pois se não se leva o
produto ao seu ponto de venda, a mais-valia não pode se realizar. Nesse sentido,
a divisão entre produtivo e improdutivo é um tanto quanto arbitrária. Deveríamos
parar no momento em que o trabalhador leva mercadoria ao ponto de venda ou
considerar que se não há o trabalhador que coloca as mercadorias nas prateleiras
elas também não poderão ser vendidas? Trata-se, assim, de um ponto delicado de
se lidar, que não remete à materialidade ou imaterialidade do trabalho e que não
permite determinar as classes sociais. Já houve tentativas de se fazer uma teoria
das classes sociais a partir do livro II de O capital, baseando-se exclusivamente na
relação entre trabalho produtivo e improdutivo. Isso me parece um absurdo. Não
é por acaso que o capítulo sobre as classes, se Engels soube interpretar o plano
de Marx, vem muito tarde, no livro III de O capital, integrando as diferenças de
renda e o conjunto do circuito de reprodução social. Não compreendo, então, como
poderíamos parar no livro II e nos conceitos de trabalho produtivo e improdutivo
para determinar quem faz parte da classe operária ou não. A consequência é que
com frequência essas noções de trabalho produtivo e improdutivo foram utili-
zadas política e ideologicamente para compor uma definição restritiva de classe

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operária, que o Partido Comunista utilizava claramente na França para designar
somente os operários da indústria, excluindo os employés,2 os empregados do co-
mércio, as enfermeiras, os empregados dos correios etc. Eu tinha primos que eram
operários da indústria, mas que não trabalhavam diretamente na produção, eles
faziam manutenção das máquinas, que, inclusive, estavam no Partido Comunista
e na CGT. Diziam que não eram verdadeiros operários, verdadeiros proletários
porque cuidavam da manutenção para a produção. Aqui temos uma definição do
movimento operário tipicamente obreirista e restritiva que tem o papel de autole-
gitimar, sobretudo, o Partido Comunista como representante da classe operária,
sendo todo o resto pequena burguesia etc.
H.A.: As novas formas de produção colocam em xeque a teoria do valor de
Marx. Trata-se de uma teoria analiticamente válida?
D.B.: Eu creio que sim. Toda a crise atual ilustra isso, tanto quanto a teoria
do valor. Com relação à medida de toda a riqueza e de toda troca pelo tempo de
trabalho socialmente necessário, pode-se verificar uma obsessão da medida pelo
tempo, quer se trate de fixar o horário semanal de trabalho, a idade para a apo-
sentadoria, a caça ao tempo morto dentro da empresa, a organização dos horários,
a flexibilidade etc., que tende a reduzir a diferença entre o tempo de trabalho
real e o tempo de trabalho legal. Tudo isso já estava em O capital. Finalmente,
a rentabilidade capitalista tem por critério a lei do valor. Agora, esta lei torna-se
cada vez mais contraditória, isto que Marx trabalhou nos Grundrisse com, por um
lado, a incorporação no processo de produção de formas de trabalho intelectual
favorecidas por uma nova tecnologia, mas, por outro, socializadas. Isto é, qual
trabalho seria preciso para produzir um programa de computador em um labora-
tório de pesquisa? É um trabalho altamente cooperativo e socializado. Portanto,
quanto mais o trabalho é cooperativo, tanto mais ele incorpora o saber acumulado,
mais dificilmente quantificável e mensurável pela medida do tempo de trabalho
abstrato ele é. Isso me parece ser um dos fatores-chave da crise social atual, que
faz com que os ganhos de produtividade não sejam convertidos em tempo livre,
traduzindo-se, pelo contrário, em exclusão social. Para mim, as formas da crise
financeira, por exemplo, são muito mais a confirmação do estrago que faz a apli-
cação instantânea da lei do valor pela medida instantânea de flutuações da bolsa.
Eu sei que se trata de um ponto muito discutível, mas ao mesmo tempo em que há
a confirmação da validade da lei do valor, há uma confirmação do agravamento
das contradições sociais.
H.A.: Como pensar a redução do tempo de trabalho? No capitalismo há tempo
livre ou tempo liberado?

2 Em francês, “employés”: trabalhadores assalariados excluindo-se quadros e operários, como em-


pregados comerciais ou pequenos funcionários de escritórios. Os quadros concentram a iniciativa
e a autoridade; os operários produzem no sentido estrito.

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D.B.: Há toda uma luta histórica pela redução do tempo de trabalho. Mesmo
que o tempo liberado permaneça alienado é, ainda assim, um limite à exploração
da força de trabalho; é uma liberdade inconformada. Há outros mecanismos de
alienação, que podem ser a mídia, a difusão da cultura, a organização da cidade
e do espaço urbano etc. Mas, ao menos formalmente, para recorrermos à fórmula
de Marx, durante esse tempo livre o trabalhador tem a possibilidade de consumir
programas de televisão, de ajudar no sindicato, ou ler O capital. Portanto, não é
uma questão secundária que a luta pela redução do tempo de trabalho seja perma-
nente, inclusive no âmbito do capitalismo. Agora, no âmbito do capitalismo, creio
que há uma relação estreita entre um trabalho alienado e um lazer alienado, ou
seja, não se pode ser realmente livre fora do trabalho se se permanece dominado
no trabalho. Portanto, não é suficiente reduzir o tempo de trabalho forçado, é
necessário também transformar o conteúdo e a organização do próprio trabalho,
construir a emancipação do trabalho e fora do trabalho. Há uma grande diferença
aí. O desemprego promove um tempo liberado, mas um tempo sem liberdade.
E há também a conquista de um tempo livre pela redução do tempo de trabalho,
mas que pode continuar sendo utilizado de forma completamente alienada. Isso
coloca um problema também para o socialismo. É a ideia que encontramos em
Gorz, em “Adeus ao proletariado” e em seus livros posteriores, de que haverá
sempre trabalhos duros e alienantes, nunca será muito criativo varrer as calçadas
ou recolher o lixo e, portanto, será sempre necessário que a sociedade dedique
um tempo de trabalho que nunca será criativo e a vida estará além desse tempo
de trabalho. Já que não temos robôs para tudo, isso é de fato um problema. Por
outro lado, creio que se pode fazer um trabalho alienado e, ao mesmo tempo,
desenvolver-se, desabrochar fora dele. O problema para uma sociedade socialista
é como distribuir esses tipos de trabalho, como modificar sua organização. Claro
que há tarefas que não são agradáveis ou estimulantes, mas isso aponta para uma
necessidade de transformação radical da divisão do trabalho como condição mesma
de uma sociedade socialista tal como podemos imaginar.
H.A.: Para encerrar, gostaria de saber como seria possível rompermos com
a visão de um proletariado como um sujeito mítico da emancipação humana?
D.B.: Não creio que seja o caso de se romper com a ideia de proletariado como
sujeito revolucionário. Devemos romper com uma visão que está estreitamente
ligada e que reproduz, através dos fenômenos sociais, um tipo de psicologia do
sujeito, do indivíduo sujeito, da consciência do sujeito que tem a ver com a psi-
cologia clássica do final do século XIX, começo do XX. De início, imagina-se
um proletariado como um grande indivíduo que, como tal, deve passar pela in-
fância, por um aprendizado, chegar à idade adulta com uma espécie de metafísica
da consciência do “em si” e do “para si” etc. que encontramos pouco em Marx,
talvez apenas uma fórmula na Miséria da filosofia, mas muito mais claramente
em Lukács. Tudo isso se nutre de uma má fonte psicanalítica sobre o consciente

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e o inconsciente. Tudo isso projeta sobre os fenômenos sociais mecanismos que
assumem o lugar da psicologia individual e que parecem ser muito discutíveis.
Eu creio que seria melhor pensar a constituição de uma força de transformação
social. Dizer força não pressupõe a ideia de consciência. Trata-se de uma força
de transformação que é de construção permanente, uma combinação de formas
organizadas plurais. Todo o problema é justamente o que permite pensar ou ajudar
a pensar o conceito de hegemonia, como construir e combinar essas diferentes
formas de confrontação com o sistema. O proletariado é ainda um sujeito? Se
nós aceitamos a categoria de sujeito, sim. Ou, seria a partir do proletariado que
se poderiam combinar diferentes formas de contestação ao sistema capitalista,
respeitando a autonomia dos diferentes movimentos? Por exemplo, nada garante
que a opressão das mulheres vai acabar com o fim da propriedade privada. Isso
justifica a autonomia do movimento de mulheres por um tempo indeterminado,
e para além da superação do capitalismo. Hoje, aqui e agora, a luta contra a
opressão das mulheres está estreitamente ligada à luta do movimento operário,
às reivindicações sobre o tempo de trabalho, ao serviço público etc. E, portanto,
trata-se de alguma coisa que é organicamente articulada. O que permite unificar
essa luta não é um apriorismo moral, mas o fato de que o capital cria condições,
embora não mecanicamente, que permitem pensar como isso é possível.

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CRÍTICA

O método da marxista

DOCUMENTO
economia política.
Karl Marx
Apresentação de João
Quartim de Moraes e
tradução de Fausto
Castilho

Apresentação
Poucos textos de Marx ocupam posição tão singular em sua obra quanto
“O método da economia política”, terceiro dos quatro tópicos da “Introdução à
crítica da economia política” (Einleitung zur Kritik der Politischen Ökonomie),
conhecida mais simplesmente por Introdução de 1857, o mais notável, ao lado
do estudo sobre as “Formas que precederam a produção capitalista”, dos escritos
incluídos nos Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie, conjunto de ma-
nuscritos econômicos redigidos por Marx em Londres durante o biênio 1857-58
e publicados pela primeira vez em Moscou em 1939.
A singularidade do texto que apresentamos no original, acompanhado da sólida
e elegante tradução preparada por Fausto Castilho em 1996, está em que é a mais
longa, densa e sistemática discussão sobre o método na obra de Marx. Ele também
tratou do tema no Posfácio à 2a edição alemã de O capital,1 mas principalmente
para comentar resenhas sobre a 1a edição. Cita uma longa passagem de uma de-
las, publicada no Correio Europeu de São Petersburgo, em que o autor expõe o
que chama o método efetivo (wirkliche) de O capital. Ora, nota Marx, o que essa
exposição, “acertada” e “benevolente”, descreve é o “método dialético”. Mas, por
mais pertinente que tivesse sido a caracterização de seu método pelo resenhista
russo, ele julgou útil consagrar à questão os cinco parágrafos restantes do Posfá-
cio, principalmente para esclarecer as relações entre sua dialética e a hegeliana.

1 Datado de Londres, 24 de janeiro de 1873.

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Declara primeiro que seu método “é a antítese” do hegeliano, mas, defendendo
Hegel contra os que pretenderam enterrar-lhe a obra, enuncia o célebre tema da
inversão materialista da dialética, que separa o núcleo racional do envoltório
místico. É evidente a importância desse Posfácio para o debate sobre a postura de
Marx perante a dialética e a herança hegeliana, porém é no texto sobre o método
da economia política que ele mostra como seu método funciona.
Para os que já estão convencidos da importância de beber na fonte o legado
teórico de Marx, a decisão de apresentar, ao lado de uma tradução confiável, o texto
original do “método da economia política” não carece de justificações. Mas essa
edição bilíngue não se dirige apenas ao pequeno grupo de marxistas brasileiros
que conhecem razoavelmente o alemão. Ela talvez interesse mais ainda aos que só
conseguem entender a frase original amparando-se numa tradução. Uns e outros
tirarão proveito da possibilidade de comparar o texto traduzido com o texto escrito
por Marx. Mesmo porque o que torna intelectualmente confiável uma tradução é
a avaliação daqueles que estão preparados para efetuar essa comparação.
Em 1974, a Abril Cultural publicou Manuscritos econômico-filosóficos e
outros textos escolhidos de Karl Marx (volume XXXV da coleção Os Pensado-
res). J. A. Giannotti, que escolheu os textos, incluiu no volume, sob o título geral
de Para a crítica da economia política, não somente o livro que leva esse nome
(também conhecido por Contribuição à crítica da economia política), composto
entre agosto de 1858 e janeiro de 1859, mas ainda a Introdução de 1857. Embora
não seja arbitrário, já que efetivamente o projeto de Marx ao redigir a Introdução
era colocá-la na abertura da obra maior que seria a Crítica da economia política, o
procedimento não é feliz. Oferece ao leitor uma introdução que, além de terminar
abruptamente, não apresenta continuidade com o livro que ela deveria introduzir.
Tanto é assim que no prefácio de Para a crítica da economia política, datado de
janeiro de 1859, Marx se refere, em quatro linhas, à “Introdução geral” de 1857,
explicando que decidira deixá-la de lado porque “toda antecipação perturbaria os
resultados ainda por provar”.2 Esta decisão reflete sobretudo a tensão intelectual
e as dificuldades materiais daqueles anos de gestação de sua obra fundamental.3

2 Na edição da Abril, cf. p.134.


3 O marxólogo Ruy Fausto descobriu um sentido profundo na não inclusão da Introdução de 1857
do texto da Crítica. Segundo ele, ao perceber o risco de que a introdução fosse interpretada como
“simplesmente[...] positiva”, Marx “decidiu finalmente eliminá-la”. Vimos que não é essa a razão
que o próprio Marx alega. Mas R. Fausto pontifica: “A anti-introdução acaba assim por devorar a si
mesma: não há apresentação fora da apresentação”. (Cf. R. Fausto. Marx: logique et politique. Paris:
Publisud, 1986. p.95, nota 58). Descontada a metáfora autofágica, sobra, além da impertinência,
um curioso paradoxo. Se fosse lícito descartar tão tranquilamente todos os escritos que Marx não
publicou, não deveríamos, por exemplo, perder tempo com muitos outros escritos notáveis, como a
Ideologia alemã, que ele abandonou, com a modéstia de sua imensa estatura intelectual, “à crítica
roedora das ratazanas”. Empenhado na inglória tarefa de suprimir o que as ratazanas não corroeram,
o audaz marxólogo apresenta outra razão para rejeitar aquele notável texto: Marx nele emprega
várias vezes o termo “determinado”. A implicância terminológica de R. Fausto é espicaçada pelo fato

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Sabemos, com efeito, que a própria elaboração de Para a crítica foi interrompida,
por força de dura e longa enfermidade, após a entrega ao editor do primeiro volume,
que contém os dois primeiros capítulos do Livro I (intitulado “Sobre o capital”),
que acabou sendo o único. Não é mera cláusula retórica a célebre comparação
entre o limiar da ciência e a porta do inferno que encerra o prefácio de Para a
crítica. Só dez anos depois da redação da Introdução seria publicado, em 1867,
o primeiro volume de O capital. Esses dez anos correspondem, pois, ao período
mais decisivo da produção teórica de Marx.
Como Fausto Castilho explica na nota que abre sua tradução, ele a empreen-
deu com o objetivo de oferecer um texto confiável aos que iriam acompanhar sua
exposição. Sua sólida cultura filosófica e, em especial, seu denso conhecimento
da obra de Hegel conferiram à exposição, que marcou o início das atividades do
Cemarx, uma notável qualidade acadêmica e um excelente estímulo ao sempre
aberto debate sobre a conexão hegelianismo/marxismo.
Vale, enfim, assinalar que, além das traduções já referidas (além das de Fausto
Castilho e da Abril), o Arquivo Marxista na Internet apresenta uma versão portu-
guesa da “Introdução à crítica da economia política”. É um trabalho útil, mas com
muitos defeitos, que vão da mera falta de cuidado na revisão até simplificações
que banalizam a dimensão filosófica do texto de Marx.4

João Quartim de Moraes, janeiro de 2010

de que Althusser (de quem ele não gosta) e seu epígono Balibar recorrem à “repetição compulsiva
do termo ‘determinado’[...]”, que lhes permite “dar a ilusão de um setzen” (isto é, de um “pôr”, no
sentido ontologicamente forte), revelando, assim, “a exasperação do teórico diante da armadilha
que lhe estende a linguagem, armadilha da qual, por razões que remontam ao coração mesmo de
seu ideal de ciência, ele é impotente para escapar”. Novamente esquece que não só na Introdução
de 1857, mas em outros textos, Marx também manifestou a mesma compulsão. O que certamente
não podemos, ou melhor, já que o papel suporta todas as possibilidades, não devemos, é jogar
nas costas de Althusser um pretenso “tique” que está presente no próprio Marx. Cf. p.92, nota 53.
Cf. também p.93-4.
4 Assim, por exemplo, escrevem “consistência” em vez de “consciência” filosófica. Mero lapso, sem
dúvida, mas é preciso prestar atenção no que publicamos. Mas traduzir Voraussetzung, categoria
fundamental da filosofia clássica alemã (= pressuposição), por “ponto de partida” (que em alemão
se diz Ausgangspunkt) é um erro puro e simples.

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O método da economia política. Terceira parte da
“Introdução à crítica da economia política” (1857)

Nota do tradutor
A Introdução [à crítica da economia política], composta decerto entre o final
de agosto e a metade de setembro de 1857, permanece inédita até quando, achada
em 1902 entre os papéis de Marx, Die Neue Zeit a publica em 1903. Ao aceitar o
convite do professor João Quartim de Moraes para realizar, no quadro das ativida-
des do Cemarx, que então se inauguravam, um seminário sobre a Terceira Parte,
intitulada O método da economia política, logo me dei conta de que uma tradução
do texto se impunha. A francesa, de autoria de Husson e Badia, frequentemente
utilizada entre nós e, por via de consequência, as que no Brasil e em Portugal a
partir dela se fizeram, padece de flagrante impropriedade no trato da terminologia
e da conceituação de proveniência hegeliana. Ora, quando algumas páginas atrás
(cf. supra, p.625)5 Marx se diz hegeliano (“ein Hegelianer”), há que se tomar ao
pé da letra a declaração de identidade, como fica de resto amplamente corroborado
ao longo do texto que nos ocupa.6 Se é verdade que Marx retoma e redefine muitas
noções de origem hegeliana, ao fazê-lo, converte-as, porém, necessariamente, em
pontos de amarração que o leitor não pode deixar de ter presentes.
Dado em cópia xerográfica, o texto alemão guarda a paginação de Karl Marx-
-Friedrich Engels: Einleitung [Zur Kritik der Politischen Ökonomie] 3. Die
Methode der Politischen Ökonomie (1857). In: Werke, v.13, Berlin: Dietz Verlag,
1969, p.631-9. O tradutor espera, dessa maneira, facilitar a consulta do original
durante o seminário.

Fausto Castilho,
Campinas, outubro de 1996

5 Fausto Castilho se refere à p.625 dos Grundrisse. O texto sobre o método começa na p.631.
6 Divergimos totalmente dessa afirmação. O termo “ein Hegelianer”, mencionado por Castilho,
aparece na primeira parte da Einleitung (1. Produktion, Konsumtion, Distribution, Austausch
[Zirkulation]), num contexto em que, longe de uma “declaração de identidade”, Marx ironiza
a identificação da produção ao consumo. “Hiernach für einen Hegelianer nichts einfacher, als
Produktion und Konsumtion identisch zu setzen. Und das ist geschehn nicht nur von sozialistischen
Belletristen, sondern von prosaischen Ökonomen selbst, z.B. Say [...]”. A ironia é explícita: não
só letrados socialistas, mas também prosaicos economistas identificam abstrata e superficialmente
as duas categorias. O pressuposto deles é “considerar a sociedade como um sujeito único” (“Die
Gesellschaft als ein einziges Subjekt”), ponto de vista que Marx classifica de “falso, especulativo”.
(Nota de João Quartim de Moraes.)

O método da economia política. Karl Marx • 107

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Die Methode der Politischen Ökonomie
/p.631/
Wenn wir ein gegebnes Land politisch-ökonomisch betrachten, so beginnen
wir mit seiner Bevölkerung, ihrer Verteilung in Klassen, Stadt, Land, See, den
verschiednen Produktionszweigen, Aus- und Einfuhr, jährlicher Produktion und
Konsumtion, Warenpreisen etc.
Es scheint das richtige zu sein, mit dem Realen und Konkreten, der wirklichen
Voraussetzung zu beginnen, also z.B. in der Ökonomie mit der Bevölkerung, die
die Grundlage und das Subjekt des ganzen gesellschaftlichen Produktionsakts ist.
Indes zeigt sich dies bei näherer Betrachtung [als] falsch. Die Bevölkerung ist eine
Abstraktion, wenn ich z.B. die Klassen, aus denen sie besteht, weglasse. Diese
Klassen sind wieder ein leeres Wort, wenn ich die Elemente nicht kenne, auf denen
sie beruhn, z.B. Lohnarbeit, Kapital etc. Diese unterstellen Austausch, Teilung der
Arbeit, Preise etc. Kapital z.B. ohne Lohnarbeit ist nichts, ohne Wert, Geld, Preis
etc. Finge ich also mit der Bevölkerung an, so wäre das eine chaotische Vorstellung
des Ganzen, und durch nähere Bestimmung würde ich analytisch immer mehr auf
einfachere Begriffe kommen; von dem vorgestellten Konkreten auf immer dünnere
Abstrakta, bis ich bei den einfachsten Bestimmungen angelangt wäre. Von da,
wäre nun die Reise wieder rückwärts anzutreten, bis ich endlich wieder bei der
Bevölkerung anlangte, diesmal aber nicht als bei einer chaotischen Vorstellung
eines Ganzen, sondern als einer reichen Totalität von vielen Bestimmungen und
Beziehungen.
Der erste Weg ist (...)

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O método da economia política
/p.631/
Ao considerar a economia política de um dado país, começamos por sua po-
pulação, sua divisão em classes, distribuída pela cidade, campo e mar; os diversos
ramos da produção, a exportação e a importação, a produção anual e o consumo
anual, os preços das mercadorias etc.
É que parece correto começar pelo real e pelo concreto, pela pressuposição
efetivamente real e, assim, em economia, por exemplo, pela população: funda-
mento e sujeito do ato todo da produção social (die Grundlage und das Subjekt
des ganzen gesellschaftlichen Produktionsakts). A uma consideração mais precisa,
contudo, isto se revela falso. A população, por exemplo, se omito as classes que
a constituem, é uma mera abstração. Estas últimas, por sua vez, são uma expres-
são vazia se não conheço os elementos sobre que repousam, a saber, o trabalho
assalariado, o capital etc. E esses pressupõem a troca, a divisão do trabalho, os
preços etc., de sorte que o capital, por exemplo, nada é, sem o valor, o dinheiro,
o preço etc. Se começasse pela população, haveria de início uma representação
(Vorstellung) caótica do todo, e só através de determinação mais precisa (durch
nähere Bestimmung) eu chegaria analiticamente (analytisch), cada vez mais, a
conceitos (Begriffe) mais simples. Partindo do concreto representado (von dem
vorgestellten Konkreten), chegaria a abstratos sempre mais tênues, até alcançar,
por fim, as determinações mais simples (die einfachsten Bestimmumgen). Dali,
a viagem recomeçaria pelo caminho de volta, até que reencontrasse finalmente a
população, não já como a representação caótica de um todo (eines Ganzen), e sim
como uma rica totalidade de muitas determinações e relações (als einer reichen
Totalität von vielen Bestimmungen und Beziehungen). O primeiro caminho é (...)

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Die Methode der politischen Ökonomie
/p.632/
(…) der, den die Ökonomie in ihrer Entstehung geschichtlich genommen
hat. Die Ökonomen des 17. Jahrhunderts z.B. fangen immer mit dem lebendigen
Ganzen, der Bevölkerung, der Nation, Staat, mehren Staaten etc., an; sie enden
aber immer damit, daß sie durch Analyse einige bestimmende abstrakte, allgemeine
Beziehungen, wie Teilung der Arbeit, Geld, Wert etc., herausfinden. Sobald diese
einzelnen Momente mehr oder weniger fixiert und abstrahiert waren, begannen die
ökonomischen Systeme, die von dem Einfachen, wie Arbeit, Teilung der Arbeit,
Bedürfnis, Tauschwert, auf stiegen bis zum Staat, Austausch der Nationen und
Weltmarkt. Das letztre ist offenbar die wissenschaftlich richtige Methode.
Das Konkrete ist konkret, weil es die Zusammenfassung vieler Bestimmungen
ist, also Einheit des Mannigfaltigen. Im Denken erscheint es daher als Prozeß
der Zusammenfassung, als Resultat, nicht als Ausgangspunkt, obgleich es der
wirkliche Ausgangspunkt und daher auch der Ausgangspunkt der Anschauung
und der Vorstellung ist.
Im ersten Weg wurde die volle Vorstellung zu abstrakter Bestimmung
verflüchtigt; im zweiten führen die abstrakten Bestimmungen zur Reproduktion
des Konkreten im Weg des Denkens. Hegel geriet daher Einleitung zu
den “Grundrissen” auf die Illusion, das Reale als Resultat des sich in sich
zusammenfassenden, in sich vertiefenden und aus sich selbst sich bewegenden
Denkens zu fassen, während die Methode, vom Abstrakten zum Konkreten
aufzusteigen, nur die Art für das Denken ist, sich das Konkrete anzueignen, es als
ein geistig Konkretes zu reproduzieren. Keineswegs aber der Entstehungsprozeß
des Konkreten selbst. z.B. die einfachste ökonomische Kategorie, sage z.B.
Tauschwert, unterstellt Bevölkerung, Bevölkerung produzierend in bestimmten
Verhältnissen; auch gewisse Sorte von Familien- oder Gemeinde- oder Staatswesen
etc. Er kann nie existieren außer als abstrakte, einseitige Beziehung eines schon
gegebnen konkreten, lebendigen Ganzen.
Als Kategorie führt dagegen der Tauschwert ein Antediluvianisches Dasein.
Für das Bewußtsein daher –und das philosophische Bewußtsein ist so bestimmt –,
dem das begreifende Denken, der wirkliche Mensch und die begriffne Welt als
solche erst die wirkliche ist – erscheint daher die Bewegung der Kategorien
als der wirkliche Produktionsakt – der leider nur einen Anstoß von außen
erhält –, dessen Resultat die Welt ist; und dies ist- dies ist aber wieder eine
Tautologie – soweit richtig, als die konkrete Totalität als Gedankentotalität, als
ein Gedankenkonkretum, in fact ein Produkt des Denkens, des Begreifens ist;
keineswegs aber des außer oder über der Anschauung und Vorstellung denkenden
und sich selbst gebärenden Begriffs, sondern der Verarbeitung von Anschauung
und Vorstellung in Begriffe. Das Ganze, wie es im Kopfe (...)

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O método da economia política
/p.632/
(...) aquele que a Economia percorreu em sua gênese histórica. Exemplo: os eco-
nomistas do século XVII que sempre começam por um todo vivo (dem lebendigen
Ganzen) – população, nação, Estado, vários estados etc. –, mas sempre terminam
por algumas relações gerais, abstratas, determinantes (einige bestimmende abstrakte,
allgemeine Beziehungen) – divisão do trabalho, dinheiro, valor etc. – que eles des-
cobriram por análise. Tão logo esses aspectos individuais isolados (diese einzelnen
Momente) achavam-se mais ou menos abstraídos e fixados, os sistemas econômicos
começavam a elevar-se (aufsteigen) a partir dos elementos simples – o trabalho, a
divisão do trabalho, as necessidades (Bedürfnis), o valor de troca, até o Estado, o
intercâmbio entre as nações e o mercado mundial. É manifesto que este último cami-
nho é o método cientificamente correto.
O concreto é concreto por ser uma concentração (Zusammenfassung = concentra-
ção, síntese) de muitas determinações, logo, uma unidade do múltiplo. Eis a razão por
que aparece no pensamento (im Denken) como processo de concentração (síntese),
como um resultado e não como um ponto de partida, embora ele seja o ponto de partida
efetivamente real e, assim, também, o ponto de partida da intuição e da representação
(der Ausgangspunkt der Anschauung und der Vorstellung).
No primeiro caminho, toda a representação se desvanece em determinação abstrata,
ao passo que, no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do con-
creto no plano (im Weg) do pensamento. Foi o que levou Hegel a extraviar-se na ilusão
de conceber o real (das Reale) como resultado de um pensamento que, em si mesmo
se concentra, em si se aprofunda e por si se move (das Reale als Resultat des sich in
sich zusammenfassenden, in sich vertiefenden und aus sich selbst sich bewegenden
Denkens zu fassen), enquanto o método de se elevar do abstrato ao concreto é apenas
a maneira de o pensamento apropriar-se do concreto e o reproduzir como concreto
espiritual (als ein geistig Konkretes), mas de maneira nenhuma se trata do processo
da gênese (der Entstehungsprozeß) do próprio concreto. Por exemplo, a categoria
econômica mais simples, digamos o valor de troca: ele já pressupõe a população, uma
população que produz sob relações determinadas; pressupõe igualmente certa espécie
de família ou de comuna ou de Estado etc. Ele jamais pode existir a não ser como
uma relação abstrata, unilateral de um todo vivo, concreto, já dado. E, sem embargo,
como categoria (als Kategorie), o valor de troca tem, ao contrário, uma existência
antediluviana. Por isso, para a consciência – e isto determina a consciência filosófica
–, para a consciência, só o pensamento conceitual é o homem efetivamente real e
somente o mundo conceituado possui, como tal, efetiva realidade. De sorte que, para
a consciência, o movimento das categorias (die Bewegung der Kategorien) assume
a aparência de um ato efetivamente real de produção – recebendo de fora apenas um
empurrão, aliás, deplorável –, cujo resultado é o Mundo. Isto é correto – trata-se,
porém, novamente de uma tautologia –, mas correto somente na medida em que a
totalidade concreta é tomada como totalidade pensada, como um concreto pensado,
in fact, como um produto do pensamento, do conceito. De modo algum, porém, como
produto de um pensamento alheio à intuição e à representação ou que se lhes sobrepo-
nha, como produto de um conceito que, pensando, a si mesmo se gera (ein Produkt...
des... denkenden sich selbst gebärenden Begriffs), mas como produto da elaboração
conceitual da intuição e da representação (der Verarbeitung von Anschauung und
Vorstellung in Begriffe). O todo, tal como ele na cabeça (...)

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Die Methode der politischen Ökonomie
/p.633/
(...) als Gedankenganzes erscheint, ist ein Produkt des denkenden Kopfes,
der sich die Welt in der ihm einzig möglichen Weise aneignet, einer Weise, die
verschieden ist von der künstlerisch-, religiös-, praktisch-geistigen Aneignung
dieser Welt. Das reale Subjekt bleibt nach wie vor außerhalb des Kopfes in seiner
Selbständigkeit bestehn; solange sich der Kopf nämlich nur spekulativ verhält,
nur theoretisch. Auch bei der theoretischen Methode daher muß das Subjekt, die
Gesellschaft, als Voraussetzung stets der Vorstellung vorschwebe.
Aber haben diese einfachen Kategorien nicht auch eine unabhängige
historische oder natürliche Existenz vor den konkretern? Ça dépend. Z.B. Hegel
fängt die Rechtsphilosophie richtig mit dem Besitz an, als der einfachsten
rechtlichen Beziehung des Subjekts. Es existiert aber kein Besitz vor der Familie
oder Herrschafts- und Knechtsverhältnissen, die viel konkretere Verhältnisse sind.
Dagegen wäre es richtig, zu sagen, daß Familien, Stammesganze existieren, die
nur noch besitzen, nicht Eigentum haben. Die einfachere Kategorie erscheint also
als Verhältnis einfacher Familien-oder Stammgenossenschaften im Verhältnis zum
Eigentum. In der höheren Gesellschaft erscheint sie als das einfachere Verhältnis
einer entwickelteren Organisation. Das konkretere Substrat, dessen Beziehung
der Besitz ist, ist aber immer vorausgesetzt. Man kann sich einen einzelnen
Wilden besitzend vorstellen. Dann ist aber der Besitz kein Rechtsverhältnis. Es
ist unrichtig, daß der Besitz sich historisch zur Familie entwickelt. Er unterstellt
vielmehr immer diese “konkretere Rechtskategorie”. Indes bliebe dann immer
soviel, daß die einfachen Kategorien Ausdruck von Verhältnissen sind, in denen
das unentwickelte Konkrete sich realisiert haben mag, ohne noch die vielseitigere
Beziehung oder Verhältnis, das in der konkretern Kategorie geistig ausgedrückt
ist, gesetzt zu haben; während das entwickeltere Konkrete dieselbe Kategorie als
ein untergeordnetes Verhältnis beibehält. Geld kann existieren und hat historisch
existiert, ehe Kapital existierte, ehe Banken existierten, ehe Lohnarbeit existierte
etc. Nach dieser Seite hin kann also gesagt werden, daß die einfachre Kategorie
herrschende Verhältnisse eines unentwickeltern Ganzen oder untergeordnete
Verhältnisse eines entwickeltern Ganzen ausdrücken kann, die historisch schon
Existenz hatten, ehe das Ganze sich nach der Seite entwickelte, die in einer
konkretern Kategorie ausgedrückt ist. Insofern entspräche der Gang des abstrakten
Denkens, das vom Einfachsten zum Kombinierten aufsteigt, dem wirklichen
historischen Prozeß.

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O método da economia política
/p.633/
(...) aparece – um todo de pensamento –, é o produto de uma cabeça pensan-
te, que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível e que difere dos
modos de apropriação do mundo que são o artístico, o religioso ou o do espírito
prático. Enquanto a cabeça procede de modo somente especulativo, isto é, teo-
ricamente, o sujeito real (das reale Subjekt), tanto antes como depois, subsiste,
em sua independência, fora dela. Assim, no método teórico também, é preciso
que o sujeito, a Sociedade (das Subjekt, die Gesellschaft), esteja sempre presente
enquanto pressuposição.
Mas, acaso essas categorias simples não têm também uma existência inde-
pendente, seja histórica, seja natural, anterior à existência das mais concretas?
Ça dépend. Por exemplo, Hegel começa de modo correto a Filosofia do Direito
(die Rechtsphilosophie) pela posse, que é a relação juridicamente mais simples
de um sujeito de direito (als der einfachsten rechtlichen Beziehung des Subjekts),
embora não haja posse antes da família e das relações de domínio e servidão, muito
mais concretas do que ela. Seria, assim, correto dizer, pelo contrário, que existem
famílias, grupos tribais que ainda só possuem e não têm propriedade. No que
se refere à propriedade, a categoria mais simples aparece, então, como relação
entre comunidades simples de famílias ou de tribos. Na sociedade superior, ela
aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida. O
substrato mais concreto, cuja relação é a posse, está, porém, sempre pressuposto.
Podemos nos representar um indivíduo silvícola isolado que possui. Mas a posse,
no caso, não seria uma relação jurídica. É incorreto dizer que a posse desenvolve-
-se historicamente até a família, quando, ao contrário, ela sempre pressupõe esta
“categoria jurídica mais concreta”. Continua, no entanto, a ser sempre uma verdade
que as categorias simples são uma expressão de relações sob as quais o concreto
não desenvolvido pode realizar-se, sem ainda ter posto (ohne noch... gesetzt zu
haben) a relação mais multilateral (die vielseitigere Beziehung oder Verhältnis),
que é expressa espiritualmente (geistig) na categoria mais concreta, ao passo que
o concreto mais desenvolvido conserva a mesma categoria como uma relação
subordinada. O dinheiro pode existir e existiu historicamente, antes de existirem
o capital, os bancos, o trabalho assalariado etc. Por esse lado, é também lícito
dizer que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo
não desenvolvido ou relações subordinadas de um todo mais desenvolvido que já
existiam historicamente antes de esse todo se desenvolver por esse lado expresso
numa categoria mais concreta. Em tal medida, a marcha do pensamento abstrato,
ao se elevar do mais simples ao complexo (zum Kombinierten), corresponderia
ao processo histórico efetivamente real.

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Die Methode der politischen Ökonomie
/p.634/
Andrerseits kann gesagt werden, daß es sehr entwickelte, aber doch historisch
unreifere Gesellschaftsformen gibt, in denen die höchsten Formen der Ökonomie,
z.B.Kooperation, entwickelte Teilung der Arbeit etc., stattfinden, ohne daß
irgendein Geld existiert, z.B. Peru. Auch bei den slawischen Gemeinwesen
tritt das Geld und der es bedingende Austausch nicht oder wenig innerhalb der
einzelnen Gemeinwesen hervor, sondern an ihrer Grenze, im Verkehr mit andren,
wie es denn überhaupt falsch ist, den Austausch mitten in die Gemeinwesen zu
setzen als das ursprünglich konstituierende Element. Er tritt vielmehr im Anfang
eher in der Beziehung der verschiednen Gemeinwesen aufeinander, als für die
Mitglieder innerhalb eines und desselben hervor. Ferner: Obgleich das Geld sehr
früh und allseitig eine Rolle spielt, so ist es im Altertum doch als herrschendes
Element nur einseitig bestimmten Nationen, Handelsnationen, zugewiesen. Und
selbst im gebildetsten Altertum, bei Griechen und Römern, erscheint seine völlige
Entwicklung, die in der modernen bürgerlichen Gesellschaft vorausgesetzt ist,
nur in der Periode ihrer Auflösung. Also diese ganz einfache Kategorie erscheint
in ihrer Intensivität nicht historisch als in den entwickeltsten Zuständen der
Gesellschaft. Keineswegs alle ökonomischen Verhältnisse durchwatend. Z.B.
im Römischen Reich, in seiner größten Entwicklung, blieb Naturalsteuer und
Naturallieferung Grundlage. Das Geldwesen eigentlich nur vollständig dort
entwickelt in der Armee. Es ergriff auch nie das Ganze der Arbeit. So, obgleich
die einfachre Kategorie historisch existiert haben mag vor der konkretern, kann sie
in ihrer völligen intensiven und extensiven Entwicklung grade einer kombinierten
Gesellschaftsform angehören, während die konkretere in einer wenig entwickeltern
Gesellschaftsform völliger entwickelt war.
Arbeit scheint eine ganz einfache Kategorie. Auch die Vorstellung derselben
in dieser Allgemeinheit – als Arbeit überhaupt – ist uralt. Dennoch, ökonomisch
in dieser Einfachheit gefaßt, ist “Arbeit” eine ebenso moderne Kategorie wie die
Verhältnisse, die diese einfache Abstraktion erzeugen. Das Monetarsystem z.B.
setzt den Reichtum noch ganz objektiv, als Sache außer sich im Geld. Gegenüber
diesem Standpunkt war es ein großer Fortschritt, wenn das Manufaktur- oder
kommerzielle System aus dem Gegenstand in die subjektive Tätigkeit – die
kommerzielle und Manufakturarbeit – die Quelle des Reichtums setzt, aber immer
noch bloß diese Tätigkeit selbst in der Begrenztheit als geldmachend auffaßt.
Diesem System gegenüber das physiokratische, das eine bestimmte Form der
Arbeit – die Agrikultur – als die Reichtum schaffende setzt, und das Objekt selbst
nicht mehr in der Verkleidung des Geldes, sondern als Produkt überhaupt, als (...)

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O método da economia política
/p.634/
Por outro lado, pode-se dizer que há formas de sociedade muito desenvolvidas
e que são, no entanto, historicamente imaturas (historisch unreifere), como o Peru,
por exemplo, onde ocorrem formas superiores de economia – cooperação, divisão
do trabalho etc. –, mas onde não há nenhuma forma de dinheiro. Nas comunidades
eslavas, do mesmo modo, o dinheiro e a troca por ele condicionada não aparecem ou
aparecem pouco dentro de cada comunidade isoladamente, e sim em suas fronteiras,
nas relações de uma comunidade com as outras, de sorte que é falsa, em geral, a
tese que faz da troca no interior da comunidade individual, o elemento que origina-
riamente a constitui (das ursprünglich konstituierende Element). Ao contrário, ela
surge inicialmente na relação entre as comunidades diversas antes que entre seus
membros, no interior de uma única e mesma comunidade. E mais: embora o dinheiro
exerça desde muito cedo um papel multilateral, na Antiguidade ele só tem o papel de
elemento dominante em nações unilateralmente determinadas, a saber, nas nações
comerciantes. E, mesmo na parte mais adiantada (gebildetsten) da Antiguidade,
entre os gregos e os romanos, o seu pleno desenvolvimento – um pressuposto da
moderna sociedade burguesa – só se manifesta no período de sua desagregação.
Assim, essa categoria totalmente simples, no que diz respeito à sua intensidade,
não aparece historicamente, mas nos estádios mais desenvolvidos da sociedade.
De modo nenhum, porém, ela atravessa facilmente todas as relações econômicas,
e o exemplo é ainda o Império Romano que, mesmo depois de alcançar seu maior
desenvolvimento, continua a ter no imposto in natura e na prestação in natura o
seu fundamento. O dinheiro propriamente dito só se desenvolve completamente no
exército e nunca se apoderou da totalidade do trabalho. Embora a categoria mais
simples possa ter existido historicamente antes da mais concreta, em seu pleno
desenvolvimento intensivo e extensivo, ela pode pertencer precisamente a uma
forma de sociedade complexa (kombinierten), enquanto a categoria mais concreta
se havia desenvolvido plenamente em uma forma de sociedade pouco desenvolvida.
O trabalho parece ser uma categoria de todo simples; além disso, sua represen-
tação, na universalidade do trabalho como tal (als Arbeit überhaupt), é, também
ela, antiquíssima. Entretanto, concebido economicamente nessa simplicidade, o
“trabalho” é uma categoria tão moderna quanto as relações que produzem essa
abstração simples. Por exemplo, o sistema monetário ainda põe a riqueza, de modo
inteiramente objetivo (ganz objektiv), como coisa fora de si (als Sache außer sich),
no dinheiro. Em face desse ponto de vista, há um grande progresso na transposição
da fonte da riqueza do objeto para a atividade subjetiva (aus dem Gegenstand in
die subjektive Tätigkeit), feita pelo sistema comercial ou manufatureiro, se bem
que uma atividade ainda sempre concebida como limitada a fazer dinheiro. A
esse sistema, o fisiocrático opõe uma forma determinada de trabalho – a agri-
cultura – como criadora de riqueza, deixando, assim, o objeto de ser um disfarce
do dinheiro, para se tornar produto enquanto tal (Produkt überhaupt), como (...)

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(...) allgemeines Resultat der Arbeit. Dieses Produkt noch der Begrenztheit der
Tätigkeit gemäß als immer noch naturbestimmtes Produkt – Agrikulturprodukt,
Erdprodukt par excellence.
Es war ein ungeheurer Fortschritt von Adam Smith, jede Bestimmtheit
der Reichtum zeugenden Tätigkeit fortzuwerfen – Arbeit schlechthin, weder
Manufaktur, noch kommerzielle, noch Agrikulturarbeit, aber sowohl die eine wie
die andre. Mit der abstrakten Allgemeinheit der Reichtum schaffenden Tätigkeit
nun auch die Allgemeinheit des als Reichtum bestimmten Gegenstandes, Produkt
überhaupt, oder wieder Arbeit überhaupt, aber als vergangne, vergegenständlichte
Arbeit. Wie schwer und groß dieser Übergang, geht daraus hervor, wie Adam Smith
selbst noch von Zeit zu Zeit wieder in das physiokratische System zurückfällt.
Nun konnte es scheinen, als ob damit nur der abstrakte Ausdruck für die einfachste
und urälteste Beziehung gefunden, worin die Menschen – sei es in welcher
Gesellschaftsform immer – als produzierend auftreten. Das ist nach einer Seite
hin richtig. Nach der andren nicht. Die Gleichgültigkeit gegen eine bestimmte
Art der Arbeit setzt eine sehr entwickelte Totalität wirklicher Arbeitsarten voraus,
von denen keine mehr die alles beherrschende ist. So entstehn die allgemeinsten
Abstraktionen überhaupt nur bei der reichsten konkreten Entwicklung, wo eines
vielen gemeinsam erscheint, allen gemein. Dann hört es auf, nur in besondrer Form
gedacht werden zu können. Andrerseits ist diese Abstraktion der Arbeit überhaupt
nicht nur das geistige Resultat einer konkreten Totalität von Arbeiten. Die
Gleichgültigkeit gegen die bestimmte Arbeit entspricht einer Gesellschaftsform,
worin die Individuen mit Leichtigkeit aus einer Arbeit in die andre übergehn und
die bestimmte Art der Arbeit ihnen zufällig, daher gleichgültig ist.
Die Arbeit ist hier nicht nur in der Kategorie, sondern in der Wirklichkeit
als Mittel zum Schaffen des Reichtums überhaupt geworden und hat aufgehört,
als Bestimmung mit den Individuen in einer Besonderheit verwachsen zu sein.
Ein solcher Zustand ist am entwickeltsten in der modernsten Daseinsform
der bürgerlichen Gesellschaften – den Vereinigten Staaten. Hier also wird die
Abstraktion der Kategorie ‟Arbeit”, ‟Arbeit überhaupt”, Arbeit sans phrase, der
Ausgangspunkt der modernen Ökonomie, erst praktisch wahr. Die einfachste
Abstraktion also, welche die moderne Ökonomie an die Spitze stellt und die eine
uralte und für alle Gesellschaftsformen gültige Beziehung ausdrückt, erscheint
doch nur in dieser Abstraktion praktisch wahr als Kategorie der modernsten
Gesellschaft. Man könnte sagen, was in den Vereinigten Staaten als historisches
Produkt, erscheine bei den Russen z.B. – diese Gleichgültigkeit gegen die
bestimmte Arbeit – als naturwüchsige

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(...) resultado geral do trabalho. Esse produto, dados os limites dessa atividade,
é ainda sempre um produto determinado da Natureza: produto agrícola, produto
da terra par excellence.
Houve um imenso progresso, quando Adam Smith afastou todo determinismo
(Bestimmtheit) da atividade criadora da riqueza: o trabalho pura e simplesmente
e não já o manufatureiro ou o comercial ou o agrícola, mas tanto um quanto o
outro. Paralela a essa universalidade da atividade criadora da riqueza aparece
agora também a universalidade do objeto da riqueza, determinado como produto
como tal ou, de igual modo, como trabalho enquanto tal, só que trabalho passado,
trabalho objetivado (aber als vergangne, vergegenständlichte Arbeit). Um pas-
so difícil e importante, pois o próprio Adam Smith às vezes regride ao sistema
fisiocrático, como se o que foi encontrado fosse apenas a expressão abstrata da
relação mais simples e mais antiga em que os homens sempre ingressam enquanto
produtores, qualquer que seja a forma de sociedade. Isto é, de um lado, correto,
de outro, não. A indiferença em relação a uma espécie determinada de trabalho
pressupõe a existência efetiva de uma totalidade muito desenvolvida de espécies
de trabalho, onde já nenhuma delas predomina sobre todas as outras. Assim, as
abstrações mais gerais só surgem como tais no desenvolvimento concreto mais
rico, onde o que é comum a muitos aparece como comum a todos. Desaparece,
então, a possibilidade de se pensar em uma forma particular. Por outro lado, essa
abstração do trabalho como tal não é apenas o resultado espiritual de uma totali-
dade concreta de trabalhos. A indiferença em relação a uma forma determinada
de trabalho corresponde a uma forma de sociedade em que os indivíduos passam
facilmente de um trabalho a outro, tornando-se-lhes fortuita e, portanto, indiferente
a espécie determinada de trabalho.
O trabalho, aqui, não está somente na categoria, tornou-se uma realidade
efetiva como meio de criação da riqueza em geral e deixou de ser uma determi-
nação vinculada ao que os indivíduos têm de peculiar. Estado de coisas que se
encontra mais desenvolvido, na mais moderna forma de existência das sociedades
burguesas, nos Estados Unidos. Apenas ali, a abstração da categoria “trabalho”,
“trabalho em geral”, trabalho sans phrase, ponto de partida da economia moderna,
torna-se praticamente verdadeira. Assim, a abstração mais simples – que a Eco-
nomia moderna coloca acima de todas e que exprime uma relação antiquíssima,
válida para todas as formas de sociedade – somente se manifesta, porém, nessa
abstração praticamente verdadeira, como categoria da mais moderna sociedade.
Dir-se-ia que o que se manifesta nos Estados Unidos como um produto histórico
– a indiferença em relação ao trabalho determinado – aparece, por exemplo, entre
os russos, como uma disposição (...)

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Die Methode der politischen Ökonomie
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Anlage. Allein einmal verteufelter Unterschied, ob Barbaren Anlage haben, zu
allem verwandt zu werden, oder ob Zivilisierte sich selbst zu allem verwenden.
Und dann entspricht praktisch bei den Russen dieser Gleichgültigkeit gegen die
Bestimmtheit der Arbeit das traditionelle Festgerittensein in eine ganz bestimmte
Arbeit, woraus sie nur durch Einflüsse von außen herausgeschleudert werden.
Dies Beispiel der Arbeit zeigt schlagend, wie selbst die abstraktesten
Kategorien, trotz ihrer Gültigkeit – eben wegen ihrer Abstraktion – für alle
Epochen, doch in der Bestimmtheit dieser Abstraktion selbst ebensosehr das
Produkt historischer Verhältnisse sind und ihre Vollgültigkeit nur für und innerhalb
dieser Verhältnisse besitzen.
Die bürgerliche Gesellschaft ist die entwickeltste und mannigfaltigste
historische Organisation der Produktion. Die Kategorien, die ihre Verhältnisse
ausdrücken, das Verständnis ihrer Gliederung, gewährt daher zugleich Einsicht
in die Gliederung und die Produktionsverhältnisse aller der untergegangnen
Gesellschaftsformen, mit deren Trümmern und Elementen sie sich aufgebaut, von
denen teils noch unüberwundne Reste sich in ihr fortschleppen, bloße Andeutungen
sich zu ausgebildeten Bedeutungen entwickelt haben etc. Anatomie des Menschen
ist ein Schlüssel zur Anatomie des Affen. Die Andeutungen auf Höhres in den
untergeordneten Tierarten können dagegen nur verstanden werden, wenn das
Höhere selbst schon bekannt ist. Die bürgerliche Ökonomie liefert so den Schlüssel
zur antiken etc. Keineswegs aber in der Art der Ökonomen, die alle historischen
Unterschiede verwischen und in allen Gesellschaftsformen die bürgerlichen sehen.
Man kann Tribut, Zehnten etc. verstehn, wenn man die Grundrente kennt. Man
muß sie aber nicht identifizieren. Da ferner die bürgerliche Gesellschaft selbst
nur eine gegensätzliche Form der Entwicklung, so werden Verhältnisse frührer
Formen oft nur ganz verkümmert in ihr anzutreffen sein, oder gar travestiert. Z.B.
Gemeindeeigentum. Wenn daher wahr ist, daß die Kategorien der bürgerlichen
Ökonomie eine Wahrheit für alle andren Gesellschaftsformen besitzen, so ist das
nur cum grano salis zu nehmen. Sie können dieselben entwickelt, verkümmert,
karikiert etc. enthalten, immer in wesentlichem Unterschied. Die sogenannte
historische Entwicklung beruht überhaupt darauf, daß die letzte Form die
vergangnen als Stufen zu sich selbst betrachtet und, da sie selten und nur unter
ganz bestimmten Bedingungen fähig ist, sich selbst zu kritisieren – es ist hier
natürlich nicht von solchen historischen Perioden die Rede, die sich (...)

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(...) natural. Só que há uma diferença dos diabos entre, de um lado, bárbaros
dispostos a aceitar que os empreguem em tudo e, do outro, civilizados que em tudo
se empregam por si mesmos. Essa indiferença dos russos diante da determinabili-
dade do trabalho corresponde, na prática, à sua tradicional sujeição a um trabalho
totalmente determinado, de onde só são retirados por uma influência externa.
O exemplo do trabalho mostra, de modo convincente, que, embora possuam
validade em todas as épocas – em virtude justamente de sua abstração –, mesmo
as categorias mais abstratas, na determinidade de sua abstração, são um produto
de relações históricas e só possuem plena validade (ihre Vollgültigkeit) para tais
relações e no seu interior.
A sociedade burguesa é a organização histórica da produção mais desenvolvida
e a mais múltipla (mannigfaltigste). As categorias que exprimem suas relações
e a compreensão de sua articulação garantem, ao mesmo tempo, uma percepção
que penetra na estrutura e nas relações de produção de todas as formas de socie-
dade desaparecidas, com cujas ruínas e cujos elementos a sociedade burguesa
foi edificada e que nela em parte subsistem, como restos invictos, meros sinais
que se desenvolveram para constituir significações completas etc. A anatomia do
homem é uma chave para a do macaco. Os indícios que, nas espécies animais
inferiores, apontam para o que é superior a elas, só podem ser entendidos quando
a própria espécie superior já é conhecida. Assim, a economia burguesa fornece a
chave da Antiguidade etc. Mas, de maneira nenhuma, à maneira dos economistas,
que cancelam todas as diferenças históricas e em todas as formas de sociedade
enxergam a forma burguesa. Pode-se entender o tributo, o dízimo, quando se
conhece a renda fundiária. Mas não há que identificar uns com os outros. Além
disso, a sociedade burguesa, ela mesma, não é senão uma forma antagônica de
desenvolvimento, as relações de formas de sociedade anteriores com frequên-
cia nela se encontram, ou já de todo estioladas ou mesmo travestidas, caso da
propriedade comunal (Gemeindeeigentum), por exemplo. Por isso, se é verdade
que as categorias da Economia burguesa possuem uma validade para todas as
outras formas de sociedade, trata-se de uma verdade que deve ser aceita só cum
grano salis. Elas podem conter as outras formas ou desenvolvidas ou estioladas
ou caricaturadas etc., mas sempre segundo uma diferença essencial. O chamado
desenvolvimento histórico repousa em geral sobre o fato de que a última forma
considera as formas passadas como degraus que a ela conduzem. E, sendo raro e
só sob condições bem determinadas que ela seja capaz de criticar-se a si mesma
(da sie [...], fähig ist, sich selbst zu kritisieren) – não falamos naturalmente dos
períodos históricos que a si (...)

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Die Methode der politischen Ökonomie
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(...) selbst als Verfallzeit vorkommen –, sie immer einseitig auffaßt. Die
christliche Religion war erst fähig, zum objektiven Verständnis der frühern
Mythologien zu verhelfen, sobald ihre Selbstkritik zu einem gewissen Grad
sozusagen dynamei fertig war. So kam die bürgerliche Ökonomie erst zum
Verständnis der feudalen, antiken, Orientalen, sobald die Selbstkritik der
bürgerlichen Gesellschaft begonnen. Soweit die bürgerliche Ökonomie nicht
mythologisierend sich rein identifiziert mit dem Vergangnen, glich ihre Kritik
der frühern, namentlich der feudalen, mit der sie noch direkt zu kämpfen hatte,
der Kritik, die das Christentum am Heidentum, oder auch der Protestantismus am
Katholizismus ausübte.
Wie überhaupt bei jeder historischen, sozialen Wissenschaft, ist bei dem Gange
der ökonomischen Kategorien immer festzuhalten, daß, wie in der Wirklichkeit,
so im Kopf, das Subjekt, hier die moderne bürgerliche Gesellschaft, gegeben ist,
und daß die Kategorien daher Daseinsformen, Existenzbestimmungen, oft nur
einzelne Seiten dieser bestimmten Gesellschaft, dieses Subjekts, ausdrücken, und
daß sie daher auch wissenschaftlich keineswegs da erst anfängt, wo nun von ihr
als solcher die Rede ist. Dies ist festzuhalten, weil es gleich über die Einteilung
Entscheidendes zur Hand gibt. Z.B. nichts scheint naturgemäßer, als mit der
Grundrente zu beginnen, dem Grundeigentum, da es an die Erde, die Quelle aller
Produktion und allen Daseins, gebunden ist, und an die erste Produktionsform
aller einigermaßen befestigten Gesellschaften – die Agrikultur. Aber nichts wäre
falscher. In allen Gesellschaftsformen ist es eine bestimmte Produktion, die allen
übrigen, und deren Verhältnisse daher auch allen übrigen, Rang und Einfluß
anweist. Es ist eine allgemeine Beleuchtung, worin alle übrigen Farben getaucht
sind und [die] sie in ihrer Besonderheit modifiziert. Es ist ein besondrer Äther, der
das spezifische Gewicht alles in ihm hervorstehenden Daseins bestimmt. Z.B. bei
Hirtenvölkern. (Bloße Jäger- und Fischervölker liegen außer dem Punkt, wo die
wirkliche Entwicklung beginnt.) Bei ihnen kommt gewisse Form des Ackerbaus
vor, sporadische. Das Grundeigentum ist dadurch bestimmt. Es ist gemeinsames
und hält diese Form mehr oder minder bei, je nachdem, ob diese Völker mehr oder
minder noch an ihrer Tradition festhalten, z.B. das Gemeindeeigentum der Slawen.
Bei Völkern von festsitzendem Ackerbau – dies Festsitzen schon große Stufe –,
wo dieser vorherrscht wie bei den Antiken und Feudalen, hat selbst die Industrie
und ihre Organisation und die Formen des Eigentums, die ihr entsprechen, mehr
oder minder grund (...)

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(...) mesmos se consideram épocas de decadência – sua percepção é sempre
unilateral. A religião cristã só foi capaz de contribuir para uma compreensão ob-
jetiva das mitologias anteriores quando terminou, em certo grau, por assim dizer,
dynamei (potencialmente) sua autocrítica (ihre Selbstkritik). De igual maneira, a
Economia (Ökonomie) burguesa só chegou a compreender a feudal, a antiga, a
oriental assim que se iniciou a autocrítica da sociedade burguesa. Na medida em
que a Economia burguesa não mitologizou (mythologisierend), identificando-se
com o passado, sua crítica das sociedades anteriores – nomeadamente da feudal,
contra a qual ainda tinha de lutar diretamente – foi comparável à crítica do cris-
tianismo ao paganismo ou mesmo do protestantismo ao catolicismo.
Do mesmo modo que em toda ciência histórica ou social, em geral também
no que se refere à marcha das categorias econômicas, é preciso ter presente e de
modo firme que o sujeito, a saber, a moderna sociedade burguesa, é dado tanto
na realidade efetiva como na cabeça; que as categorias são, assim, formas de
existir, determinações de existência (Daseinsformen, Existenzbestimmungen), e
com frequência só exprimem aspectos particulares e isolados (einzelne Seiten)
dessa sociedade determinada, desse sujeito (dieser bestimmten Gesellschaft, dieses
Subjekts); e que, também do ponto de vista científico, de maneira nenhuma ela
só começa no momento em que se trata dela como tal. É preciso ter isto presente,
porque põe de imediato em nossas mãos o que há de decisivo na divisão da matéria.
Por exemplo, nada parece mais natural do que começar pela renda fundiária, pela
propriedade do solo, dada a sua ligação com a terra, fonte de toda produção e de
toda existência e, pois, com a primeira forma de produção de todas as sociedades
que, de alguma maneira, tornaram-se estáveis – a agricultura. Entretanto, nada seria
mais falso. Em todas as formas de sociedade há uma determinada produção que
designa a posição respectiva e a influência de todas as outras e de suas relações. É
como que uma iluminação geral a banhar todas as cores, modificando-as em sua
particularidade, um éter particular determinando o peso específico de toda existên-
cia que ganhe relevo. Por exemplo, entre os povos pastores (os meros caçadores e
pescadores ficam fora do ponto em que principia o desenvolvimento), ocorre certa
forma esporádica de agricultura e a propriedade fundiária é por ela determinada: ela
é comum e conserva mais ou menos essa forma, dependendo de que esses povos
mantenham mais ou menos a sua tradição, por exemplo, a propriedade comunal
dos eslavos. Entre povos de agricultura firmemente assentada – o assentamento
já constitui uma fase de grande importância – onde ela predomina, como entre os
antigos e os feudais, a própria indústria, sua organização e as formas respectivas
de propriedade têm, mais ou menos, o caráter de propriedade (...)

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(...) -eigentümlichen Charakter, ist entweder ganz von ihm abhängig wie bei
den ältern Römern oder, wie im Mittelalter, ahmt die Organisation des Landes
in der Stadt und in ihren Verhältnissen nach. Das Kapital selbst im Mittelalter –
soweit es nicht reines Geldkapital ist – als traditionelles Handwerkszeug etc. etc.
hat diesen grundeigentümlichen Charakter. In der bürgerlichen Gesellschaft ist
es umgekehrt. Die Agrikultur wird mehr und mehr ein bloßer Industriezweig und
ist ganz vom Kapital beherrscht. Ebenso die Grundrente. In allen Formen, worin
das Grundeigentum herrscht, die Naturbeziehung noch vorherrschend. In denen,
wo das Kapital herrscht, das gesellschaftlich, historisch geschaffne Element. Die
Grundrente kann nicht verstanden werden ohne das Kapital. Das Kapital aber wohl
ohne die Grundrente. Das Kapital ist die alles beherrschende ökonomische Macht
der bürgerlichen Gesellschaft. Es muß Ausgangspunkt wie Endpunkt bilden und
vor dem Grundeigentum entwickelt werden. Nachdem beide besonders betrachtet
sind, muß ihre Wechselbeziehung betrachtet werden.
Es wäre also untubar und falsch, die ökonomischen Kategorien in der Folge
aufeinander folgen zu lassen, in der sie historisch die bestimmenden waren.
Vielmehr ist ihre Reihenfolge bestimmt durch die Beziehung, die sie in der
modernen bürgerlichen Gesellschaft aufeinander haben, und die genau das
umgekehrte von dem ist, was als ihre naturgemäße erscheint oder der Reihe der
historischen Entwicklung entspricht. Es handelt sich nicht um das Verhältnis,
das die ökonomischen Verhältnisse in der Aufeinanderfolge verschiedener
Gesellschaftsformen historisch einnehmen. Noch weniger um ihre Reihenfolge
“in der Idee” (Proudhon) (einer verschwimmelten Vorstellung der historischen
Bewegung). Sondern um ihre Gliederung innerhalb der modernen bürgerlichen
Gesellschaft.
Die Reinheit (abstrakte Bestimmtheit), in der die Handelsvölker – Phönizier,
Karthaginienser – in der alten Welt erschienen, ist eben durch das Vorherrschen
der Agrikulturvölker selbst gegeben. Das Kapital als Handels- oder Geldkapital
erscheint eben in dieser Abstraktion, wo das Kapital noch nicht das beherrschende
Element der Gesellschaften ist. Lombarden, Juden nehmen dieselbe Stellung
gegenüber den Agrikultur treibenden mittelaltrigen Gesellschaften ein.
Als weitres Beispiel der verschiednen Stellung, die dieselben Kategorien
in verschiednen Gesellschaftsstufen einnehmen: Eine der letzten Formen der
bürgerlichen Gesellschaft: joint-stock-companies. Erscheinen aber auch (...)

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O método da economia política
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(...) fundiária. A indústria depende totalmente da agricultura, como entre os
romanos antigos, ou imita nas cidades e nas relações urbanas a organização do
campo, como na Idade Média. Na Idade Média, o próprio capital – na medida em
que não é puro capital em dinheiro – como instrumento do artesanato tradicional
etc., possui caráter de propriedade fundiária. Na sociedade burguesa ocorre o in-
verso: cada vez mais a agricultura se torna mero ramo da indústria e é dominada
inteiramente pelo capital. O mesmo com a renda fundiária: em todas as formas
em que a renda fundiária domina, predomina ainda a relação com a natureza, e
onde o capital domina, prevalece o elemento social e historicamente criado. Sem
o capital, a renda fundiária não pode ser compreendida, ao passo que, sem ela, o
capital pode sê-lo muito bem. O capital é a força que tudo domina na sociedade
burguesa. Deve constituir tanto o ponto de partida como o de chegada e sua expo-
sição deve ser desenvolvida antes da propriedade fundiária. Após a consideração
particular de um e outra, é preciso considerar a relação recíproca de ambos.
Seria, além de impossível, falso ordenar as categorias econômicas na sucessão
em que foram historicamente determinantes. Sua ordem é antes determinada pela
relação que elas mantêm entre si, na sociedade burguesa moderna, precisamente
o inverso do que parece ser a sua ordem natural ou a correspondente sucessão do
desenvolvimento histórico. Não se trata da relação que se estabelece historicamen-
te entre as relações econômicas na sucessão das diversas formas de sociedade e
menos ainda da sua ordem “na ideia” (Proudhon) (uma representação confusa do
movimento histórico), e sim de sua articulação no interior da sociedade burguesa
moderna.
A pureza (a determinidade abstrata) (abstrakte Bestimmtheit) com que os
povos comerciantes – fenícios, cartagineses – surgem no Mundo Antigo ocorre,
também ela, mediante (durch) o predomínio (das Vorherrschen) dos povos agri-
cultores. Como capital comercial ou capital em dinheiro, o capital manifesta-se
precisamente nessa abstração, onde ele ainda não é o elemento dominante da
sociedade. Os lombardos, os judeus, ocupam a mesma situação diante das socie-
dades agrícolas medievais.
É mais um exemplo da situação diversa que as mesmas categorias assumem
em etapas diversas da sociedade (Gesellschaftsstufen): uma das últimas formas
da sociedade burguesa, a forma das sociedades por ações ( joint-stock-companies)
aparece, no entanto, também (...)

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im Beginn derselben in den großen privilegierten und mit Monopol versehnen
Handelskompanien.
Der Begriff des Nationalreichtums selbst schleicht sich bei den Ökonomen des
17. Jahrhunderts so ein – eine Vorstellung, die noch zum Teil bei denen des 18.
fortgeht –, daß bloß für den Staat der Reichtum geschaffen wird, seine Macht aber
im Verhältnis zu diesem Reichtum steht. Es war dies noch unbewußt heuchlerische
Form, worin sich der Reichtum selbst und die Produktion desselben als Zweck
der modernen Staaten ankündigt und sie nur noch als Mittel zur Produktion des
Reichtums betrachtet.
Die Einteilung offenbar so zu machen, daß 1. die allgemein abstrakten
Bestimmungen, die daher mehr oder minder allen Gesellschaftsformen zukommen,
aber im oben auseinandergesetzten Sinn. 2. die Kategorien, die die innre Gliederung
der bürgerlichen Gesellschaft ausmachen und worauf die fundamentalen Klassen
beruhn. Kapital, Lohnarbeit, Grundeigentum. ihre Beziehung zueinander. Stadt und
Land. Die drei großen gesellschaftlichen Klassen. Austausch zwischen denselben.
Zirkulation. Kreditwesen (privat). 3. Zusammenfassung der bürgerlichen
Gesellschaft in der Form des Staats. In Beziehung zu sich selbst betrachtet.
Die “unproduktiven” Klassen. Steuern. Staatsschuld. Öffentlicher Kredit. Die
Bevölkerung. Die Kolonien. Auswanderung. 4. internationales Verhältnis der
Produktion. Internationale Teilung der Arbeit. Internationaler Austausch. Aus- und
Einfuhr. Wechselkurs. 5. Der Weltmarkt und die Krisen.

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O método da economia política
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(...) no início da sociedade burguesa, nas grandes companhias comerciais,
privilegiadas e monopolistas.
O próprio conceito de riqueza nacional só lentamente penetra na ciência econô-
mica do século XVII – representação que subsiste, em parte, entre os economistas
do século XVIII –; a riqueza é produzida meramente para o Estado e seu poderio
(Macht) é proporcional a ela. Era a fórmula, ainda inconscientemente hipócrita,
em que se anunciava que a própria riqueza e sua produção são a meta dos Estados
modernos, considerados exclusivamente como meios de produzir riqueza.
É manifesto que a matéria deve ser dividida como segue: 1. As determinações
gerais abstratas que convêm, por isso, mais ou menos, a todas as formas de socie-
dade, porém no sentido exposto anteriormente. 2. As categorias constitutivas da
articulação interna da sociedade burguesa, sobre as quais as classes fundamentais
repousam. O capital, o trabalho assalariado, a propriedade fundiária. Suas relações
recíprocas. A cidade e o campo. As três grandes classes sociais. O intercâmbio
entre elas. A circulação. O crédito (privado). 3. A concentração da sociedade bur-
guesa na forma do Estado. Considerado na sua relação consigo próprio. As classes
“improdutivas”. O imposto. A dívida do Estado. O crédito público. A população.
As colônias. A emigração. 4. A relação internacional de produção. A divisão
internacional do trabalho. A troca internacional. A exportação e a importação. O
curso do câmbio. 5. O mercado mundial e as crises.

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CRÍTICA
marxista

COMENTÁRIO
Entender Nietzsche*
JAN REHMANN**

O filósofo italiano Domenico Losurdo escreveu uma obra fundamental


para a renovação da pesquisa marxista sobre Nietzsche
As controvérsias em torno da filosofia de Nietzsche, sobretudo na Alemanha,
continuam sendo determinadas por um posicionamento infrutífero. De um lado,
há uma “hermenêutica da inocência”, inclusive com sinais pós-modernos, que
quer entender mesmo as tomadas de posição mais brutais do filósofo – tais como
o apoio à escravidão até a eliminação dos fracos – como sendo apenas uma pro-
funda metáfora. É o que faz, por exemplo, o pós-moderno italiano Gianni Vattimo,
que apresenta a sua celebração da guerra como sendo a “negação da unidade do
ser”. Por outro lado, continua predominando em muitos da esquerda o paradigma
demarcado por Georg Lukács que coloca Nietzsche junto ao “irracionalismo”,
tratando-o como precursor espiritual direto do Estado nazista. A abrangente “bio-
grafia intelectual” de Domenico Losurdo supera esse bloqueio.
Olhar para o Fin de siècle
A afirmação sobre uma continuidade intelectual e histórica é uma “deformação
da história”, argumenta Losurdo (2004, p.657). Ela não apenas passaria por cima
da distância histórica entre o período de Nietzsche e a formação dos movimentos
fascistas depois da Primeira Guerra Mundial, como também não levaria em conta

* Publicado originalmente em Junge Welt, em 30 out. 2006. Tradução de Luciano C. Martorano.


** Professor no Union Theological Seminary, em Nova York, e no Instituto de Filosofia da Universidade
Livre de Berlim, autor de Einführung in die Ideologietheorie [Introdução à teoria da ideologia].

Entender Nietzsche • 127

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o divisor de épocas representado pela Revolução de Outubro e as diferenças entre
o “radicalismo aristocrático” de Nietzsche e o populismo fascista da direita. Ape-
nas quando se reconstrói o contexto histórico do final do século XIX se poderia
colocar a questão envolvendo as continuidades e descontinuidades ideológicas
com o fascismo alemão. Desse modo, Losurdo supera uma dicotomia que obriga
os adversários na interpretação de Nietzsche ou a atribuir à sua filosofia a “res-
ponsabilidade” espiritual pelo fascismo e o holocausto, o que sempre implica
retirar os componentes não nietzschianos do fascismo; ou então a “absolvê-lo”
dessa responsabilidade, como buscam fazer os hermeneutas da inocência, desde
Walter A. Kaufmann, passando por Henning Ottmann até Gilles Deleuze e Mi-
chel Foucault. Somente quando se quebra o encanto de tal contraposição torna-se
visível o entrelaçamento ideológico que permite ver Nietzsche como parte de um
movimento, em toda a Europa, de resistência à Revolução Francesa e por sua
superação, bem como do ciclo revolucionário por ela iniciado.
A “análise comparativa dos processos ideológicos”, empreendida por Losurdo
(p.661), elucida um tema como o da justificatição da escravidão feita por Nietszche.
Em vez de minimizá-la como se fossem alegorias inocentes, ou de interpretá-la
como a antecipação da escravização nazista do Leste Europeu, ele a analisa no
contexto das confrontações pelo fim da escravidão nos Estados Unidos. Quando
o jovem Nietzsche, em 1864, no seu trabalho sobre o escritor da Antiguidade
Theogonis von Megara, entusiasma-se por uma aristocracia escravocrata dório-
-ariana, a guerra civil americana está ainda em curso e a escravidão só é proibi-
da oficialmente em 1865. Quando invoca o significado cultural do escravismo
antigo, ele merece ser incluído entre os patrocinadores da escravidão. E o fato
de que o Nietzsche maduro trate o cristianismo, a Revolução Francesa e o socia-
lismo como três etapas de uma “rebelião dos escravos” de caráter moral pode ser
compreendido pela elaboração de uma constelação que predominava em grande
medida na época: o movimento pela proibição da escravidão vem do programa
dos jacobinos na França do século XIX; ele foi impulsionado, entre outros, pelos
primeiros socialistas; já na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, são as igrejas que
desempenham um papel dirigente (p.405-ss.).
As fases do pensamento de Nietzsche
Em geral, Losurdo segue a tradicional divisão do pensamento nietzschiano
em três fases: uma fase inicial sob a influência de Arthur Schopenhauer e Richard
Wagner, em cujo centro se encontra o Nascimento da tragédia, de 1872; uma
fase intermediária, “esclarecida”, na qual Nietzsche elaborou principalmente a
obra Humano, demasiadamente humano, de 1876; e uma fase tardia, na qual se
incluem, entre outros trabalhos, Zaratustra, de 1883, A genealogia da moral, de
1887, e o Anti-Cristo, de 1888-89. Entretanto, ele modifica essa classificação na
medida em que subdivide a primeira fase em um período wagneriano e “popular”,
e um outro de distanciamento desiludido: enquanto no período da instauração do

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Império alemão Nietzsche se apresenta como desejando a hegemonia do “espí-
rito alemão”, que ele pretende renovar com as fontes da Grécia pré-socrática, a
partir de 1874 ele desempenha o papel de “rebelde solitário”, que rompeu com
a “comunidade” (Volksgemeinschaft), preparando, assim, a passagem para a sua
fase “esclarecida” (p.228ss.).
Um ponto forte da investigação é a diferenciação estabelecida entre as diversas
fases do pensamento nietzschiano. De fato, na fase “esclarecida” encontram-se
posicionamentos da fase anterior quase que inteiramente reformulados: Nietzsche
rompe com o germanismo e volta-se, assim, também contra a reforma luterana,
que ele substitui por uma orientação voltada para a cultura renascentista (p.239ss.);
contra o nacionalismo ele se coloca a favor de um cosmopolitismo europeu, em
que a “Europa”, como conceito cultural, deve abranger também a “pátria filha”
(Tochterland)1 América, mas não a Rússia (p.334ss.); no interior da Europa, a
França novamente desempenha o papel principal, cuja natureza deve estar bem
mais próxima dos gregos que a natureza dos alemães (p.248). Entre outras coisas,
o novo é a avaliação positiva dos judeus, a quem Nietzsche atribui um papel de
vanguarda na criação da Europa. Eles defenderiam a Europa perante a Ásia, e
assim contribuiriam – contra o cristianismo “orientalizante” – para “ocidentalizar
sempre o Ocidente”; ou seja, para tornar “a missão e a história da Europa uma
continuação da grega” (KSA 2, p.310ss.).
Naturalmente, nem tudo aqui retrocedeu. A virada de Nietzsche para o Re-
nascimento se deu com a intenção de libertá-lo das suas ligações históricas com a
Revolução Francesa. Nisso ele se alia com o “sentimento antirrevolucionário” de
Voltaire contra Jean-Jacques Rousseau, cujo mito do homem bom fundamentava
o “fanatismo moral” dos revolucionários (Losurdo, 2004, p.291). Através de um
cuidadoso estudo de texto e contexto, Losurdo mostra que o “esclarecimento
moral” do Nietzsche da fase intermediária volta-se principalmente contra duas
posições complementares: em primeiro lugar, contra as exigências de justiça das
classes subalternas; em segundo lugar, contra a “religião da compaixão” como
resposta correspondente das camadas superiores (cf. p.285ss.). A crítica do dis-
curso popular da justiça baseia-se não apenas em Rousseau e nos jacobinos, mas
também no socialismo, que “[mete] a palavra ‘justiça’ como um prego na cabeça
das massas semialfabetizadas” (KSA 2, p.307ss.). Quando Nietzsche submete as
representações do cotidiano a uma “dissecação psicológica”, isso é constantemente
louvado pelos seus admiradores como mostra de refinada crítica metafísica e mo-
ral. Pois, na maioria das vezes, isso leva até a posição banal do egoísmo privado
burguês: o que aparece espontaneamente para os não esclarecidos como sendo
justiça, virtude, altruísmo e compaixão é apenas a manifestação de amor-próprio,
de egoísmo, de vaidade e do “desejo de possuir”.

1 Em alemão, o substantivo pátria é Vaterland, resultado da união de duas palavras, Vater (pai) e Land
(país).

Entender Nietzsche • 129

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Diferentemente de outros estudiosos de Nietzsche, Losurdo situa a passagem
para a última fase não apenas na época de preparação do Zaratustra (1883),
mas já durante a redação da Gaia ciência, isto é, antes de 1882. A esse recorte
histórico antecipado poder-se-ia contrapor o fato de que o rompimento com Lou
Andreas-Salomé e Paul Rée, pleno de consequências biográficas, bem como o
abandono de Spinoza, relacionado com isso, só ocorreram por volta do final de
1882. Para fundamentar a sua posição, Losurdo (p.346ss.) menciona o discurso
de Guilherme I, de 17 de novembro de 1881, no Reichstag,2 em que ele anuncia,
em nome da “dignidade” do trabalho e do trabalhador, leis sociais drásticas. Em
face das concessões sociopolíticas do governo Bismarck, Nietzsche teria reagido
então com o projeto reacionário-aristocrático para “cultivar” uma nova elite “re-
forçada militarmente” na época industrial (p.350ss., 367ss., 375ss.), caracterizada
pelas formas nobres de uma “raça superior”. A novidade seria a inclinação para
uma solução cesarista que se livraria de suas amarras parlamentares (p.384ss.).
“Dirigente partidário” da elite
Aos poucos, Losurdo vê Nietzsche falar como um “dirigente partidário”
que, a exemplo dos jesuítas na contrarreforma, quer fundar um “partido de luta”
(p.377). Proclama-se um novo “partido da vida”, “forte o suficiente para praticar
a grande política”, que colocaria em suas mãos o “cultivo superior” da vida, bem
como a “desapiedada eliminação de tudo o que fosse degenerado e parasitário”.
Ele se coloca frontalmente não apenas contra o socialismo e a democracia, como
também rompe com o liberalismo e o conservadorismo, na medida em que pro-
fessa um anticonformismo decidido e a dessacralização das tradições religiosas
e políticas vigentes. Nisso, Nietzsche tem que se demarcar do “espírito livre” por
ele proclamado e de qualquer “liberalidade” que, na Alemanha, era reivindicada
pela esquerda. De fato, na crítica às ideologias dominantes ocorrem pontos de
contato entre a “direita” e a “esquerda”, o que induziu, por exemplo, Jürgen Ha-
bermas (1985, p.121) a condenar tanto Nietzsche quanto Theodor Adorno e Max
Horkheimer como radicais “críticos da ideologia” que colocavam em questão as
“conquistas da racionalização ocidental”. Perante tais associações superficiais,
Losurdo logra novamente um trabalho indispensável de esclarecimento ao con-
frontar a crítica à ideologia feita por Nietzsche com a do jovem Marx: Nietzsche
esmiuça as “flores imaginárias da corrente” não para que o homem se livre delas,
mas para que ele “carregue a corrente sem fantasia e sem consolo” (MEW 1,
p.379; citada em Losurdo, p.455ss., e p.460). Dito de outra maneira: Nietzsche
exerce com sagacidade própria uma radical “crítica da ideologia afirmativa da
dominação” (Haug, 1993, p.18).
Losurdo lembra ainda a distinção feita por Antonio Gramsci entre um sarcasmo
progressivo, “criador”, que procura conferir uma nova forma ao “núcleo vivo” da

2 Órgão de representação do Império alemão na época. [N. T.]

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ideologia criticada, e um sarcasmo “de direita” que “sempre é ‘negativo’, cético e
destrutivo, não apenas em relação à ‘forma’ contingente, como também a qualquer
conteúdo ‘humano’ de todo sentimento e das representações envolvendo crença”
(citação in Losurdo, 2004, p.536). Quando Nietzsche representa o “aristocratismo
radical” com o gesto de um “anarquismo” radical, a questão que estaria em jogo
é a de, para poder destruir o movimento revolucionário, arrancar-lhe a bandeira
da liberdade e da “falta de escrúpulo do espírito” (p.373ss.).
Opinião de classe…
A recusa em tratar Nietzsche como precursor direto de Hitler não implica, de
modo algum, minimizar o significado de sua filosofia para a ascensão do fascismo.
Losurdo revê diferentes estratégias de isenção e mostra as suas incongruências. A
lenda mais conhecida é a da irmã “má” de Nietzsche, que, na biografia e na edição
de A vontade de poder (1901), teria retocado a filosofia de Nietzsche no sentido
do fascismo alemão. Losurdo examina a questão e mostra que Elisabeth de modo
algum deixa de mencionar o rompimento de Nietzsche com o antissemitismo de
Wagner, como, por exemplo, ainda é afirmado por Ottmann (1999, p.249ss.). Ao
contrário, a sua manipulação consiste em retirar da imagem de Nietzsche as “incon-
venientes” passagens antissemitas e brutais, apresentando-o como um bom europeu
(Losurdo 2004, p.767ss.). É claro que o seu procedimento não é nada parecido
com o da acusadora interpetração liberal de Nietzsche. A tese de Nietzsche como
“homem da cultura” apolítico que não teria nada a ver com o fascismo alemão
fracassa já pelo fato de que mesmo Mussolini e Hitler cultivavam um “pathos anti-
político” e pretendiam dirigir as massas como se fossem “artistas”. Para a “estética
da política” (Walter Benjamin), o gênio cultural de Nietzsche é uma rica fonte de
inspiração (p.795ss.). Nas “Conversas à mesa”, de Hitler, encontram-se reunidos
quase todos os temas relevantes de Nietzsche, e também uma elogiosa menção ao
Nietzsche “esclarecido” (p.882). Chama a atenção ainda a naturalidade com que
são retomadas e aplicadas pelos círculos dirigentes do regime nazista as tomadas
de posição de Nietzsche contra a revolução, o “homem bom”, contra Paulo como
iniciador de uma rebelião “comunista” dos escravos etc. (p.875, 880ss.).
Porém, o “esquema continuísta” não é mais convincente que a hermenêutica
da inocência, afirma Losurdo (p.861), não apenas por conta do grave recorte entre
a Primeira Guerra Mundial e a Revolução de Outubro, mas em razão de uma dife-
rença social no interior da direita: Nietzsche faria parte da reação aristocrática que
penetrou nas altas esferas das instituições políticas entre 1890 e 1914; o choque
com os movimentos socialista e democrático produziria uma “falta de compaixão
da elite”, a quem Nietzsche oferecia expressão ideológica com a sua polêmica
contra a compaixão e a docilidade frente aos subalternos (p.785). Concorrendo
com isso, formava-se um “populismo autoritário” que queria integrar as classes
em uma ‘comunidade’ orgânica (Volksgemeinschaft), que se define por oposição
a outros povos e raças (p.834).

Entender Nietzsche • 131

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… pela discriminação racial
O Nietzsche da fase intermediária, bem como o da fase tardia, é contrário a
esse projeto porque a seus olhos ele leva ao confronto mortal entre as classes do-
minantes da Europa e à formação de blocos “patrióticos”, o que apaga a diferença
de posição entre senhores e escravos (p.835).
Essa distinção é relevante também para o bloqueado debate em torno do antis-
semitismo ou do contra-antissemitismo de Nietzsche, que se esgota amplamente
no balanço de citações contra e a favor dos judeus. Losurdo diferencia três figuras
antissemitas, ou seja: o trabalhador emigrante do Leste; o intelectual “subversivo”
judeu – que é responsabilizado por grande parte da intelligentsia europeia pelo
ciclo revolucionário; e o “capital financeiro judaico” (p.603ss.). Deve-se observar
que, após o rompimento com Paul Rée, Nietzsche intensifica as suas manifestações
de aversão aos judeus, seja contra os judeus proletários do Leste, seja contra os
intelectuais “subversivos” (a exemplo de Paulo). O posicionamento corresponde
ao das publicações antissemitas, cujos redatores e adpetos passam a ver em Niet-
zsche um aliado após a publicação de Zaratustra (p.605, 608ss.). Mas, ao mesmo
tempo, Nietzsche pretende cooptar a terceira figura antissemita, a dos círculos
financeiros e das camadas superiores bem formadas, para constituir uma nova
“casta dirigente europeia”, a ser “cultivada”, e precisamente de forma eugênica
para que seja irreversível (por exemplo, parágrafo 251 em Para além do bem e
do mal). Isso deve possibilitar uma ofensiva de toda Europa contra a “rebelião
dos escravos”, entre os quais Nietzsche inclui em igual medida os inimigos e
antissemitas populistas dos dois primeiros tipos de judeus, como Eugen Dühring
– eles representariam o protesto da “gentalha”, que August Bebel caracterizou
como o “socialismo dos tontos” (p.613ss; p.617ss.).
Analiticamente, Losurdo distingue uma “discriminação racial horizontal” e
outra “transversal”. Enquanto a primeira se apoia na diferença étnica entre povos
e nações, a segunda se refere diretamente ao antagonismo social das sociedades
de classe antigas e modernas. Nietzsche empreende uma “discriminação racial das
classes subalternas”, que corresponde a uma teoria da guerra civil internacional
(p.823ss.). De fato, não apenas no Anti-Cristo, nota-se que “judeu” (no sentido
do “instinto judeu”) caracteriza imediatamente uma posição social, servindo para
classificar uma classe subalterna internacional. Um tal amálgama “transversal”
entre racismo e questão de classe devia entrar em oposição com as principais
correntes do antissemitismo já nos finais do século XIX. A conquista da hegemo-
nia pelo fascismo e a mobilização da “comunidade” (Volksgemeinschaft) para a
guerra exigia, sobretudo, um racismo “horizontal”: por que os soldados deveriam
arriscar a vida se são chamados de chandala,3 de inferiores, de “subhumanos”?

3 No hinduísmo, alguém que não pertence a nenhuma das castas principais e realiza um trabalho
considerado desonroso. [N. T.]

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Naturalmente, o material apresentado por Losurdo mostra que a contraposição
das duas variantes do racismo é uma construção de tipo ideal. Assim, por exemplo,
uma “discriminação racial” pode se voltar primeiro “transversalmente” contra os
colonizados e o subproletariado local, para depois ser transmitida para os povos
vizinhos. Ou então ela avança da figura do judeu “subversivo” para a da “raça
judia”. Na realidade da luta ideológica, ambos os aspectos se entrecruzam e se
atravessam. Assim analisou o Projeto da teoria da ideologia o caso dos discursos
de Hitler, ou seja, vendo como o discurso passa do nível semântico de uma revo-
lução socialista ameaçadora para o nível da “conquista do mundo pelos judeus”.
Provavelmente, essa oscilação entre articulação “transversal” e “horizontal” é uma
condição básica direta para a eficácia ideológica dos apelos rascistas.
Um filósofo totus politicus?
A obra de Losurdo, de mais de mil páginas, é não apenas a mais abrangente,
como também a mais minuciosa investigação sobre as ligações entre a filosofia e
a política em Nietzsche. Caso se dê uma olhada no livro de Ottmann – Philosophie
und Politik bei Nietzsche –, onde desde o início se assegura que, consciente e soli-
citamente, partido, décadence, guerra e eliminação não poderiam “ser considerados
em sentido literal” porque o filósofo estaria tratando de “justiça” (1999, p.440ss.),
aprende-se a valorizar a visão precisa de Losurdo ao desenvolver pacientemente
os nexos entre os textos e os contextos, analisando o material do ponto de vista
da teoria social em vez de se perder na corrente das avaliações ligeiras.
Claro que também aqui a tomada de posição leva, às vezes, a uma seletiva
colocação do ponto essencial. Com razão, Losurdo se volta contra uma pesqui-
sa que para salvar Nietzsche enquanto “filósofo” o transforma em um “idiota”
despolitizado, como ele próprio fez com Jesus. Para preservar Nietzsche desse
salvamento de honra, Losurdo, por vezes, força na direção contrária. Cada fase
do desenvolvimento do pensamento nietzschiano parece ser muito coerente em
si para se poder analisar a constelação política de forma clarividente e à altura
da época. Mas já naquele período, uma estratégia de apartheid social segundo
o antigo modelo se mostrava, exatamente do ponto de vista político, como algo
que não estava à altura de seu tempo, mas anacrônico. Logo depois, Max Weber,
junto com outros “reformadores sociais” liberais, defende um compromisso de
classe com a “aristocracia operária”, tal como ocorre mais tarde no fordismo. Essa
decisão de método em analisar Nietzsche enquanto “filósofo totus politicus” e a
classificação das fases segundo um recorte político seguramente abre importan-
tes possibilidades explicativas, mas também pode levar a uma sobrepolitização,
tornando invisíveis os determinantes filosóficos e psicológicos. Por exemplo, elas
desconsideram tanto a influência da crítica da moral de Spinoza sobre o Nietzsche
“intermediário” como também o significado de seu incisivo distanciamento do
“tuberculoso” e “rancoroso” Spinoza para o conceito de poder senhorial da fase
tardia, que Nietzsche sempre coloca em campo contra o princípio da autopreser-

Entender Nietzsche • 133

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vação de Spinoza. Que Losurdo (por exemplo, p.281ss., p.981ss.) se delimite em
relação a um reducionismo psicológico faz pleno sentido, mas que ele desconsidere
completamente os recortes biográficos – do amor fracassado por Lou Andreas-
-Salomé até o desencadeamento das doenças –, prejudica a própria análise polí-
tica. Desaparece a enorme tensão entre o sofrimento existencial de Nietzsche e o
ódio destruidor em face da aflição e dos aflitos, e isso dificulta o entendimento de
por que Nietzsche tornou-se atrativo para as elites reacionárias da Europa, como
também para muitos dos “menos favorecidos” – desprezados por ele. Adorno
deixa entrever uma parte dessa tensão quando descreve o adorador do destino
como um prisioneiro que “não é capaz de nada além de amar a cela na qual está
preso”. Uma crítica marxista de Nietzsche não deve se afastar de sua psicologia,
mas pode incluí-la em uma análise das estruturas ideológicas alienadoras.
Entretanto, Losurdo tem inteira razão quando afirma que, sem considerar a
posição política de Nietzsche no contexto ideológico do século XIX, tampouco se
pode entender o excedente teórico de sua filosofia (p.935ss.). A experiência de um
“nietzschianismo de esquerda” pós-moderno – que volatiza as mais claras toma-
das de posição do “mestre”, tomando-as como alegorias de alta profundidade –,
deveria, entrementes, ter demonstrado isso.
Referências bibliográficas
HABERMAS, Jürgen. Der Philosophische Diskurs der Moderne. Frankfurt am Main, 1985.
HAUG, Wolfgang Fritz. Elemente einer Theorie des Ideologischen. Hamburgo/Berlim,
1993.
LOSURDO, Domenico. Nietzsche, il ribelle aristocratico. Biografia intelletuale e bilancio
critico. Turim, 2004.
NIETZSCHE, Friedrich. Kritische Studienausgabe (KSA). In: COLLI, Giorgio; MONTI-
NARI, Mazino (orgs.). Munique, 1999.
OTTMANN, Henning. Philosophie und Politik bei Nietzsche. 2.ed. Berlim/Nova York,
1999.
PROJEKT Ideologietheorie (Org.) Die Camera obscura der Ideologie. Philosophie – Öko-
nomie – Wissenschaft. Drei Bereichsstudien von Stuart Hall, Wolfgang Fritz Haug
und Veikko Pietilä. Berlim: Argument, v.70, 1984.
REHMANN, Jan. Postmoderner Links-Nietzscheanismus. Deleuze & Foucault. Eine
Deskonstruktion. Hamburgo, 2004.
. “Nietzsches Umarbeitung des Kulturprotestantischen Antijudaismus – das Beispiel
Wellhausen”. In: Das Argument, 255, p.278-91.

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CRÍTICA
marxista

RESENHAS
Che Guevara: uma
chama que continua
ardendo
MICHAEL LÖWY & OLIVIER BESANCENOT
Editora UNESP, 2009, 150p.

Fabio Mascaro Querido*

Nas teses sobre o conceito de história, Walter Benjamin nos ensinou que a
memória do passado – a tradição dos oprimidos – constitui uma fonte de ins-
piração inesgotável para as lutas revolucionárias do presente, concentradas no
“tempo-de-agora”. Não há luta pelo futuro sem memória do passado. Pois bem:
encontra-se precisamente aí uma das principais razões da importância e da vitali-
dade do mais recente livro de Michael Löwy (redigido em companhia de Olivier
Besancenot, um dos principais dirigentes do Nouveau Parti Anticapitaliste, na
França), dedicado à complexa tarefa de resgatar “a contribuição de Ernesto Che
Guevara para o socialismo do século XXI” (p.8), este “vencido da história” que,
após sua captura e morte pela ditadura boliviana (apoiada pela CIA) em 1967,
transformou-se em uma das principais referências política e moral da esquerda
revolucionária na América Latina.
Em Che Guevara: uma chama que continua ardendo, Michael Löwy e Oli-
vier Besancenot acentuam a dimensão radicalmente humanista do marxismo de
Che, especialmente a “imagem que tinha do socialismo, do ‘homem novo’ [e] da
sociedade enfim emancipada do pesadelo capitalista” (p.7). Em linguagem clara
e concisa, os autores nos apresentam um Che que vive, que resistiu à débâcle da

* Mestrando em Sociologia. UNESP – Araraquara.

Che Guevara: uma chama que continua ardendo • 135

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ortodoxia stalinista e que, por isso mesmo, fornece elementos indispensáveis
para a “refundação cultural e política” de uma perspectiva socialista para o
século XXI.
Desde suas primeiras viagens pela América Latina, ao final da década de 1940,
Che Guevara alimentou uma forte consciência humanista, revestida por uma sensi-
bilidade anti-imperialista radical, “primeira mola propulsora de seu engajamento”,
segundo assinala Daniel Bensaïd em um texto anexado ao livro. Desde então, até
seu assassinato na Bolívia em 1967, a revolta e a indignação contra as desigual-
dades e contra os conquistadores – passados e contemporâneos – transformou-se
progressivamente em desejo de revolução social, como se pode ver no primeiro
capítulo do livro (denominado Uma noite, em algum lugar, na Bolívia).
Não por acaso, como bem destacam os autores no segundo capítulo (intitulado
Um marxista humanista ou o combate por um comunismo de feições humanas, e
talvez o mais interessante do livro), o marxismo de Che Guevara construiu-se como
um pensamento aberto, como um canteiro de obras sempre inacabado, tal como o
próprio projeto revolucionário. “Libertar a humanidade de suas correntes lutando
contra a alienação individual, defendendo valores éticos, eis o aporte original
de Che ao marxismo” (p.32). O socialismo, para ele, como uma “paisagem-de-
-desejo” utópica (Ernst Bloch), significava antes de tudo o combate por um outro
projeto de civilização.
Lutando ao mesmo tempo contra a miséria e contra a alienação, a revolução
social expressa, em Che, um processo de autoemancipação das classes subalternas.
As revoluções “são o resultado da intervenção da humanidade sobre seu próprio
destino. Intervenção consciente, individual e coletiva” (p.36). Elas implicam,
portanto, a práxis revolucionária das classes oprimidas, em um processo no
qual – como já afirmara Marx na terceira tese sobre Feuerbach – a mudança das
circunstâncias objetivas coincide com a transformação da consciência coletiva
e individual dos homens, com a gestação histórica de um “homem novo”. Para
Che, como para Rosa Luxemburgo décadas atrás, trata-se de “mudar o homem
para mudar a sociedade, e vice-versa” (p.41).
Na obra e na vida de Che Guevara – conforme observam os autores no ter-
ceiro capítulo –, a defesa apaixonada de uma ética revolucionária combinava-se
com uma apreciação concreta da situação econômico-social, política e militar
da América Latina de seu tempo. Desta “análise concreta da situação concreta”
latino-americana decorreu, por exemplo, a sua aposta na guerra de guerrilhas ( fo-
quismo) não como um modelo universal abstratamente pressuposto, e sim como
o instrumento de luta mais adequado para as condições específicas da América
Latina. Emergiu daí, do mesmo modo, a sua insistência no caráter socialista da
revolução latino-americana (“ou revolução socialista ou caricatura de revolução”,
dizia Che, p.71), assim como a consequente recusa da possibilidade de existência
concreta de “burguesias revolucionárias” nos países periféricos (“elos débeis da
cadeia imperialista”), tal como sustentavam os partidos comunistas da região.

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Todavia, o socialismo latino-americano preconizado por Che não poderia ser
“nem imitação nem cópia” do modelo e da ideologia burocrática da URSS. Como
José Carlos Mariátegui, Che Guevara defendia a necessidade de um novo socia-
lismo, isto é, “de um tipo de socialismo diferente, sob vários aspectos radicalmente
oposto à caricatura burocrática ‘realmente existente’” (p.74). Essa postura crítica
para com o socialismo vigente na URSS manifestou-se principalmente desde os
anos 1963-64, em sua polêmica – apoiada por Ernest Mandel – com os partidá-
rios do modelo econômico soviético, aprofundando-se nos anos de 1965-66 em
suas Notas críticas ao Manual de economia política da Academia de Ciências da
URSS, publicadas somente em 2006. Nessas “notas”, segundo nos revelam Löwy e
Besancenot no quarto capítulo, Che Guevara defende o planejamento democrático
como uma ferramenta voltada para a superação das relações – fetichizadas – de
mercado e do predomínio da lei do valor, consideradas insuperáveis e indepen-
dentes da vontade humana pela ortodoxia stalinista.
Qual a atualidade desse legado para as lutas sociais do presente e para a cons-
tituição teórica e política de uma perspectiva socialista para o século XXI? É o
que se propõem a responder os autores nos dois últimos capítulos (quinto e sexto).
Para Michael Löwy e Olivier Besancenot, após sua influência direta nas lutas
contra as ditaduras militares latino-americanas, o humanismo internacionalista de
Che Guevara manteve-se como um dos ingredientes do “novo internacionalismo
do século XXI” que, desde o Encontro internacional pela humanidade e contra o
neoliberalismo nas montanhas de Chiapas, no México (em 1996), espalhou-se por
todo o movimento “altermundialista”, dos zapatistas ao MST, da Via Campesina
ao Fórum Social Mundial, na luta contra a mercantilização do conjunto da vida
social (“o mundo não é uma mercadoria”).
Muito embora façam algumas críticas ao pensamento político de Che Guevara
(“o pensamento de Guevara conhece limites. Ele é em parte incompleto e inacaba-
do”, p.48), os autores destacam aqueles elementos que, na obra do revolucionário
argentino, podem dialogar com o presente, com a modernidade capitalista ainda
existente. Para além do seu vanguardismo – consequência do caráter necessaria-
mente clandestino da luta contra as ditaduras militares daquele período –, o que
os interessa na figura de Che é, sobretudo, seu compromisso apaixonado com a
perspectiva anticapitalista, sua recusa radical de toda forma de reconciliação com
a realidade, temas ainda candentes para o movimento socialista do século XXI.
Para alguns (especialmente aqueles para os quais a história – dos vencedores – é
um conjunto bruto de fatos “objetivos”), tal procedimento “seletivo” pode parecer
um tanto arbitrário. No entanto, ele revela, por parte dos autores, uma leitura do
passado que, como não poderia deixar de ser, é orientada explicitamente pelas lutas
do presente e por uma aposta no futuro. É por isso que, para Löwy e Besancenot,
“a mensagem de Che, 40 anos mais tarde, contém um núcleo incandescente que
continua a arder” (p.98).

Che Guevara: uma chama que continua ardendo • 137

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Da miséria
ideológica à crise
do capital: uma
reconciliação
histórica
MARIA ORLANDA PINASSI
São Paulo: Boitempo editorial, 2009, 140p.

Marcos Del Roio*

O livro de Maria Orlanda Pinassi é parte da tese de livre-docência em Socio-


logia, que apresentou na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, campus de
Araraquara. Composto por um feixe de 11 pequenos ensaios, que articulam um
leque de problemas essenciais para a crítica do mundo existente, usa uma lin-
guagem apaixonada, expressiva e acessível, mas sem fazer concessões ao senso
comum e à vulgarização. Na sua trajetória, Pinassi se faz acompanhar de Marx,
Lukács e Mészáros, autores que oferecem toda coerência da análise proposta no
livro. Com esses autores, Pinassi analisa a visão de mundo da burguesia desde
a sua fase ascensional, como classe vitoriosa, em condições de organizar o con-
junto da vida social segundo seus interesses e concepções até a gravíssima crise
estrutural em que o capital está hoje embrenhado.
Nessa avaliação de longo prazo do mundo burguês, Pinassi mostra como
civilização e barbárie convivem contraditoriamente no processo social de acumu-
lação do capital, e como as representações ideológicas expressam essa dialética.
A burguesia foi a grande beneficiária do pensamento liberal, da laicização da vida
política e econômica. Com isso, apareceu como classe revolucionária, vencedora
do obscurantismo clerical-feudal. No entanto, consolidado o seu poder, a burgue-
sia se garante ideológica e culturalmente com a reprodução da ordem segundo

* Professor na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, campus de Marília.

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seus interesses, segundo os interesses da acumulação. Assim é que se apresenta
a decadência ideológica, ou seja, a incapacidade de criticar o seu próprio mundo,
cujo resultado é então uma ciência e ideologia apologéticas da ordem existente e
condescendente com a barbárie que o movimento do capital engendra e potencia-
liza. O instrumento metodológico possível para seguir esse caminho a burguesia
e seus intelectuais encontram no ecletismo.
A alternativa que se apresenta ao poder burguês, mormente nos períodos de
crise, é a exacerbação do irracionalismo, quando o senso comum e os intelectuais
se rendem a formas alienadas e fetichizadas de pensamento e de ser. A análise de
Lukács conduz a autora na demonstração do fascismo como expressão funda do
irracionalismo. Mais ainda, na conjuntura da Guerra Fria, Lukács indica como
nos EUA, no ponto forte da riqueza acumulada do capital, aparece uma sorte de
fascismo democrático.
A tese forte e polêmica, nesse contexto, é que o mundo atual coloca em cor-
relação a decadência ideológica com a decadência estrutural, material, do capital
em processo. Com isso, além de formas de pensamento, de ideologias, alienadas e
alienantes, a própria materialidade do mundo se faz bárbara e irracional, devasta-
dora do mundo dos homens e do processo de humanização. Decadência ideológica
e decadência histórica enfim se encontram, se reconciliam na regressão do pro-
cesso de humanização. A contradição entre civilização e barbárie se radicaliza. A
civilização só é possível agora no rumo do socialismo e da liberdade, a barbárie
é certa e profunda com a universalização do capital em crise.
Como se chegou a essa situação? Pinassi recorda passagens cruciais no proces-
so de humanização, de civilização, a começar pela luta pela emancipação política
(pela liberdade de cidade) e pela liberdade de comércio. Do Renascimento, com a
luta pela liberdade de pesquisa e de expressão, passando pela Revolução Francesa,
a liberdade liberal veio a se mostrar, mas também a sua contradição intrínseca de
encontrar no semelhante o limite da liberdade, porquanto liberdade fundada na
propriedade privada. Dessa contradição em processo é que surgem as explosões
de barbárie e irracionalismo.
A universalização do capital em crise, por sua própria lógica, tende a universa-
lizar a barbárie. Mas também da sua contradição constitutiva surgem movimentos
sociais com potencial de negação radical da ordem. Seguindo a argumentação
desenvolvida por Istvan Meszaros em sua vasta e profícua obra, Pinassi se debruça
sobre alguns desses movimentos para buscar elementos e possibilidades de uma
negatividade radical. Recorda que aquilo que hoje se entende por movimentos
sociais são formas de luta coletiva que surgiram nos anos 1970, envolvendo vários
segmentos.
O surgimento dos movimentos sociais ocorre em concomitância com a crise
estrutural do capital e a correlata crise do movimento operário de caráter fordista.
O desemprego estrutural crescente é característica da crise do capital e elemento
de dissolução do movimento operário tradicional, que dramaticamente cede lu-

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gar, não mais a um exército industrial de reserva, mas a um gigantesco exército
de trabalhadores expropriados da condição de trabalho. O viés economicista do
movimento operário se manifestava na sua institucionalidade dupla articulada
em sindicato e partido. Ambos os fenômenos – o desemprego estrutural e a crise
institucional e ideológica do movimento operário clássico –, partes da mesma
totalidade contraditória, são semeadores de terreno fértil para o surgimento de
movimentos sociais.
Nesse começo de século XXI, são precisamente os movimentos sociais, com
sua formação compósita, fluida e diversificada, os depositários das esperanças de
continuidade e refundação das lutas pela emancipação humana. Os movimentos
sociais podem ser de caráter específico, ou seja, lutar por uma questão específica,
ou podem ter um caráter marcadamente identitário, ou ainda lutar estritamente
dentro da ordem ao enfatizar o tema do direito. Assim, os movimentos podem
lutar pela emancipação feminina, pelo resgate de uma identidade cultural, pelo
acesso a água etc. Mas há movimentos que contemplam a universalidade do gênero
humano, momento em que se apresenta como parcela de uma classe de caráter
internacional, franja de um proletariado global em construção.
Maria Orlanda Pinassi toma o caso do MST como objeto de estudo de um caso
no qual está presente, ao menos em embrião, a radicalidade negativa da ordem
sociometabólica do capital, para usar expressão consagrada por Mészáros. O MST
pode ser um bom exemplo de movimento social que dilui o dualismo sindicato/
partido, próprio do movimento operário, mantém-se afastado da esfera da repre-
sentação política e contrasta o direito burguês de propriedade privada. Mesmo
partindo de uma articulação particular, qual seja a luta pela terra, contempla a
perspectiva universal ao propor a aliança dos povos dominados. A força do MST
e o seu potencial de se realizar como franja de um proletariado global em luta
está precisamente em preservar a centralidade do trabalho na sua organização e
nas suas formas de luta.
Um ponto de destaque dentro do MST é a luta das mulheres contra o patriar-
calismo e pela defesa do meio ambiente, no que se insere a luta contra a mono-
cultura, que teima em reviver no Brasil. No empenho pela transformação social,
o papel das mulheres é essencial não só no MST, mas cria condições também de
ampliar a luta para outras mulheres trabalhadoras, ocupadas em outras atividades.
Ainda que fazendo tesouro de sua autonomia e de seu potencial antagônico à
ordem do capital, o MST precisa se relacionar com o Estado e com a classe domi-
nante. A tendência a “criminalizar” os movimentos sociais tem-se acentuado no
Brasil e a vítima principal de ações judiciais e campanhas ideológicas dos meios
de comunicação é o MST. Pinassi mostra como a criminalização em verdade
surge com a época burguesa, a sua louvação ao trabalho perpétuo e à propriedade
privada. Exatamente na época da acumulação primitiva do capital, quando o rou-
bo e a espoliação foram a regra, forjou-se a noção de crime e de direito a fim de
encobrir a ascensão e consolidação de uma nova classe no poder político e social.

140 • Crítica Marxista, n.30, p.138-141, 2010.

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A igualdade jurídica diante do Estado, as leis sociais e as leis de defesa da pro-
priedade foram cruciais para legitimar o domínio burguês. Acontece, porém, que na
época da decadência estrutural do capital, da sua correlata decadência ideológica,
o capital, a exemplo dos tempos da acumulação primitiva, se reconcilia com o
crime, como mostram as inúmeras associações criminosas envolvendo empresas,
burocracias e governos, além da difusa criminalidade postada na sociedade civil, a
única a concentrar seletivas ações de repressão estatal. O crime é uma questão de
classe e é essencial ao capital: eis a tese defendida por Pinassi em ensaio saboroso.
Por fim, a autora, sempre inspirada em Mészáros e referindo-se a Hegel e Marx,
aborda o complexo problema da educação, da prática pedagógica, em tempos de
crise dos sujeitos coletivos e de crise da universidade. Estimula, então, a autoa-
tividade dos estudantes, como aprecia uma prática pedagógica que seja nítida do
ponto de vista ideológico, a fim de que possa cumprir com clareza o trabalho de
desmistificar o aparato conceitual apologético e vazio do discurso dominante. O
sucesso desse trabalho educativo ocorre quando o educando contorna o possível
niilismo e se coloca socialmente de modo crítico e ativo.
Temos, então, nesse pequeno livro de Maria Orlanda Pinassi, uma quantidade
significativa de problemas que devem ainda ser aprofundados e desenvolvidos.
Essa percepção é oferecida pelas interrogações que restam ao leitor depois de cada
capítulo, mas a razão de um livro composto por ensaios não é exatamente o de
instigar, de propor problemas e de fazer pensar? Trata-se de um livro militante,
produto de uma experiência militante e que ajudará na reflexão e autoeducação
de militantes de todos os tipos, desde que postados à esquerda.

Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica • 141

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Atuação crítica:
entrevistas da Vintém
e outras conversas
SÉRGIO DE CARVALHO E COLABORADORES
Expressão Popular, 2009, 222p.

Kátia Rodrigues Paranhos*

Por vezes condenada como escapista, noutras vezes incensada como ferra-
menta de libertação revolucionária, a arte, de modo geral, continua sendo um tema
candente tanto na academia como fora dela. Não é à toa que Sérgio de Carvalho,
diretor da Companhia do Latão, criada em 1997, e professor do curso de Artes
Cênicas da Universidade de São Paulo, levanta, logo no início desse livro, uma
questão fundamental: “Qual a função da arte dentro do aparelho cultural capita-
lista?” (p.12).
A partir dessa indagação de caráter mais geral, está relacionada nesse trabalho
uma série de entrevistas organizadas em quatro eixos temáticos: economia políti-
ca, cinema, teatro e outras conversas. Algumas dessas conversas foram editadas
na revista Vintém, publicação editorial surgida em 1998, concebida como uma
produção de militância e engajamento do Latão, e que alia, de modo exemplar,
crítica e reflexão sobre a sociedade atual. Para o grupo, esses diálogos têm um
“sentido pedagógico”, qual seja: “aprender com o entrevistado”. Teoria e prática
estão entrelaçadas, num movimento que objetiva a “construção de uma arte dia-
lética” e de “uma ação cultural desalienante” (p.11).

* Professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia; pesquisadora do CNPq


e da Fapemig (e-mail: akparanhos@triang.com.br).

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Aliás, não é demais relembrar que diferentes grupos teatrais, desde o final
do século XIX, (re)colocam em cena movimentos a contrapelo ou, se quiser,
exercícios de experimentação, marcas de outro tipo de teatralidade, de uma outra
estética e – por que não dizer? – de uma outra forma de intervenção no campo
social. Voltando a atenção para o teatro norte-americano da primeira metade do
século XX, podem-se recontar várias histórias. Basta retomar o movimento teatral
dos trabalhadores norte-americanos, atirados ao esquecimento pela tradição que
concebeu a história e a estética oficiais do teatro. Grupos teatrais como o Artef
(1925), Workers Drama League (1926), Workers Laboratory Theatre (1930) e
Group Theatre (1931) mostravam não apenas as suas ligações com os anarquistas,
socialistas e comunistas como também registravam as influências das propostas
do teatro político de Piscator.
No Brasil, é interessante assinalar as experiências do teatro operário, do Arena,
dos Centros Populares de Cultura (CPCs), do Oficina e do Opinião, em busca do
político e do popular que carrearam um amplo movimento cultural que envolveu
grupos, diretores, autores e elencos, conjunto este que sofreu um violento revés
com o golpe militar e particularmente após o AI-5, em 1968.
Desse modo, os grupos de teatro do pós-1964, que combatiam tanto a ditadura
como a censura imposta, atuavam frequentemente nas franjas do circuito cultural.
Fazer teatro engajado naquele período era buscar outros lugares de encenação,
assim como outros olhares sobre os anos de chumbo. Várias dessas companhias
uniam arte e rebeldia política. Em Santo André foi fundado, em 1968, o Grupo
de Teatro da Cidade (GTC), junto com outros grupos teatrais montados na pe-
riferia paulistana, tais como Núcleo Expressão de Osasco, Teatro-Circo Alegria
dos Pobres, Núcleo Independente, Teatro União e Olho Vivo, Grupo de Teatro
Forja e Engenho Teatral. Noutras regiões do país também surgiram experimentos
importantes com o Teatro de Arena de Porto Alegre/TAPA (RS), o Grita (CE), o
Oi Nóis Aqui Traveiz (RS), o Tá na Rua (RJ) e o Galpão (MG).
Iná Camargo Costa, na orelha do livro, adverte que mesmo em “tempos de
total colonização da sensibilidade e do imaginário pela indústria cultural; desafios
práticos e teóricos [são] postos desde sempre aos que se dispõem a fazer teatro
ou qualquer modalidade de arte consequente no Brasil”. Felizmente, apesar dos
tempos modernos e das dificuldades advindas deles, as experiências teatrais na
contramão do pensamento dominante continuam em pauta e na ordem do dia com
incrível tenacidade. Fazer teatro em meio às pressões comerciais é, sem dúvida,
uma forma de provocação, de insubordinação ao mercado das “paradas de sucesso”,
da qual ainda se valem tanto o Teatro União e Olho Vivo (SP), o Engenho Teatral
(SP), o Oi Nóis Aqui Traveiz (RS), o Tá na Rua (RJ) e o Galpão (MG) como, a
partir dos anos 1990, os paulistas Folias D’Arte, Companhia do Latão, Vertigem
e Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.
Cabe então salientar que as entrevistas aqui reunidas, que vão desde o exame
do caráter global da economia, passando aos sentidos atuais do cinema, do teatro

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e da televisão, têm como foco aglutinador a intenção de mapear a importância do
questionamento formal dos modos de produção. Nesse sentido, para entrevistados
e entrevistadores, a relevância política de determinados temas é tão necessária
quanto a produção e divisão coletiva do trabalho e a sua vinculação aos movi-
mentos sociais.
Assim sendo, no capítulo I, intitulado “Economia política”, Francisco de
Oliveira e Jorge Grespan abordam os contraditórios processos da racionalidade
burguesa no país, motivando reflexões que, como afirma Sérgio de Carvalho, são
profundamente inspiradoras para a dramaturgia da Companhia do Latão.
Tal abordagem insinua um questionamento: o que fazer diante da engrenagem
destrutiva do neoliberalismo na qual “existe gente que está destinada, desde que
nasceu, a não se integrar nunca mais”? É nesse cenário que “a exclusão no campo
simbólico ameaça direitos humanos, direitos civis, direitos políticos e direitos so-
ciais” (p.24). Corroborando a afirmação de Francisco de Oliveira, Jorge Grespan
emenda: “o que a gente tem é a situação que a Rosa Luxemburgo descreveu tão
bem, de socialismo ou barbárie” (p.44).
No capítulo II, “Cinema”, chama a atenção, entre outras coisas, a expressão
“estética do iceberg”, usada por Jean-Claude Bernardet ao relacionar a escolha do
tema e a busca de forma. Essa expressão, que considero uma síntese de procedi-
mentos artísticos, demonstra o quanto os artistas, de um modo geral, têm de levar
em consideração “que a preocupação de dialogar com a sociedade não é temática,
mas formal. É a estrutura que dialoga com a sociedade” (p.60).
De que adianta tomar, como objeto, determinado tema social e enquadrá-lo
numa perspectiva pragmática e/ou de resultados? É só lembrar, nessa direção,
do filme de ação Cidade de Deus. O que interessa também é como alcançar esse
destinatário, desconstruindo formatos consagrados. Ismail Xavier reelabora ainda
mais essa afirmação ao destacar que “os cineastas que estão conseguindo ser mais
inventivos na forma são aqueles que tentam novas recusas do padrão hegemônico
de dramaturgia. Procuram vincular forma e situação histórica” (p.79).
No capítulo III, “Teatro”, Iná Camargo Costa adverte que “o modo de produção
tem a ver com a visibilidade do que você faz. Mas o problema surge quando o
questionamento do modo de produção não está vinculado a um movimento social
relevante. (...) Quando não se participa de um movimento coletivo, o importante
é tentar entender o que se passa” (p.98-9). Essa ideia de certa tradição de resis-
tência contra uma ordem existente, de perturbação moral e política, está presente
nas falas de outros personagens muito distintos entre si, como Gerd Bornheim,
Ariano Suassuna e Matthias Langhoff.
No capítulo IV, “Outras conversas”, Sérgio de Carvalho reúne algumas
entrevistas feitas por ele como jornalista em outros veículos de comunicação.
As estrelas escolhidas foram Décio de Almeida Prado, Gianni Ratto – autor da
frase “eu quero um teatro de ideias” (p.168) –, Ariane Mnouchkine, Jean-Claude
Carrière, João Pedro Stedile, Ademar Bogo e Martelo.

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Apesar das dificuldades cotidianas, ainda podemos respirar outros ares. Por
isso mesmo, parafraseando Bertolt Brecht, apesar de tudo, mesmo quando somos
derrotados, ainda temos a alternativa da lucidez. Dito de outra maneira, apesar do
capitalismo selvagem – perdoe-me a redundância –, o que importa é continuar
lutando para “entender o que se passa”.

Atuação crítica: entrevistas da Vintém e outras conversas • 145

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Nelson Werneck
Sodré: entre o sabre
e a pena
PAULO RIBEIRO DA CUNHA, FÁTIMA CABRAL (ORGS.)
São Paulo: Editora da UNESP, 2006. 357p.

José Ricardo Figueiredo*

Merece registro e saudação a coletânea Nelson Werneck Sodré: entre o sa-


bre e a pena, organizada por Paulo Cunha e Fátima Cabral, que consolida os
depoimentos e análises da VIII Jornada de Ciências Sociais da FFC da UNESP,
em Marília, São Paulo. Foi iniciativa pioneira no reconhecimento acadêmico da
importância da obra de Sodré, computada em 56 livros e 3 mil artigos, de den-
sidade e valor amplamente reconhecidos, de conteúdo intensamente polêmico,
mas à qual a universidade brasileira vinha sendo em grande parte indiferente, em
parte crítica unilateral.
As intervenções, assinadas por 19 acadêmicos e dois militares, externando
tanto pontos de vista apreciativos como críticos de sua atuação e de sua obra,
abrangem as múltiplas dimensões de Sodré.
Na parte I, “Depoimentos”, contribuem o general Octávio Costa e Ivan Alves
Filho, que conviveram com Sodré, Geraldo Lesbat Cavagnari Filho, que o entre-
vistou, e Leandro Konder, que o biografa.
As partes II, “Fundamentos para uma leitura do Brasil”, e III, “Nacionalismo
e revolução no Brasil” mesclam-se. O coronel Luís de Alencar Araripe e Paulo
Ribeiro da Cunha, Regina Hipólito, Virgílio Roma de Oliveira Filho e José Antônio
Segatto participam na discussão do nacionalismo, em que Sodré aparece como

* Professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp.

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teórico, em sua historiografia, e como ator, em sua memorialística. No tema da
formação histórica brasileira contribuem Lígia Osório Silva, Jorge Grespan, João
Quartim de Moraes, Marcos Del Roio, Maria de Annunciação Madureira e Marly
de Almeida Gomes Vianna.
Na parte IV, “Cultura, crítica literária e experiências editoriais”, Joel Rufino dos
Santos fala do crítico literário e historiador da literatura Sodré com a familiaridade
de quem conhecia os seus gostos e seus valores. Carlos Eduardo Ornelas Berriel
destaca a contribuição pioneira de Sodré na interpretação marxista do fenômeno
literário brasileiro, mas, pontualmente, critica sua interpretação do arcadismo.
Norma Côrtes compara as trajetórias dos isebianos Nelson Werneck Sodré e Álvaro
Vieira Pinto. Produtos do Iseb, os Cadernos do povo brasileiro são apreciados por
Angélica Lovatto e o projeto da História nova motivou as intervenções de Sueli
Guadalupe de Lima Mendonça, que destaca seu pioneirismo na renovação do ensino
de história, e de João Alberto da Costa Pinto, que avalia seu significado político.
Comento mais detalhadamente a discussão da formação histórica brasileira em
Sodré. Jorge Grespan, Maria de Annunciação Madureira e Marly Vianna recusam
liminarmente a hipótese feudal, e aventam ou adotam a tese de que a referência
de Sodré ao feudalismo no Brasil decorreria da adequação à linha política adotada
pelo PCB em 1958. Não haveria razão para isso: o Congresso de 1958 representou
uma inflexão política, não teórica. Nem Sodré se prestaria a isso, justo ele quem,
em 1960, incorporou ao estudo da literatura brasileira G.. Lukács, no ostracismo
político desde a intervenção soviética na Hungria em 1956. Toda sua obra subse-
quente demonstra que Sodré mudou porque se convenceu da nova interpretação,
que utilizou de maneira fértil para analisar nossa história social, econômica, polí-
tica, militar, a história da nossa imprensa, de nossa literatura, de nossa burguesia.
Há outras críticas. Sodré dissera que “a empresa açucareira ultramarina só será
viável à base da ajuda naval holandesa”, em decorrência da “progressiva trans-
ferência do capital comercial português à Holanda”. Grespan vê aí um exagero,
cuja função seria “minimizar a importância dos mercadores portugueses” para
evitar “os embaraços de afirmar uma convivência no reino entre o feudalismo
e o capital comercial”. Ora, não há exagero: Sodré está se referindo à expulsão
dos judeus na contrarreforma. E nem haveria “embaraços” na convivência entre
feudalismo e capital comercial, que não são incompatíveis para Sodré.
Em abrangente descrição do debate do feudalismo, Marcos Del Roio situa
Sodré como seguidor de uma tradição dos comunistas brasileiros e apresenta duas
outras vertentes interpretativas da formação histórica brasileira, representadas
por Caio Prado Jr. e Jacob Gorender, entre outros. Relaciona, ainda, o debate
brasileiro àquele iniciado por Paul Sweezy e Maurice Dobb acerca da transição
do feudalismo para o capitalismo. Predomina a descrição objetiva, sendo difícil
entender em que se funda o diagnóstico de que os “limites intrínsecos da leitura
de Sodré (...) repercutem para enfraquecer os fundamentos dos seus argumentos
sobre a natureza da forma social brasileira”.

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Em contrapartida, João Quartim de Moraes posiciona-se explícita e enfati-
camente em favor de Sodré. Sintetiza que o equívoco de Caio Prado Jr. estaria
em confundir “o caráter mercantil da produção, isto é, o predomínio da produção
para a troca, com o caráter capitalista das relações de produção, que se baseiam
no intercâmbio do trabalho vivo com o salário”. Também refuta Gorender, que
“deixa (...) sem resposta aceitável a caracterização das relações de produção que
substituíram a escravidão, não resolvendo ele próprio a questão que considera mal
resolvida nos estudos de Sodré”. E defende o uso “claro e coerente” da categoria
feudalismo por Sodré: “denota as relações de produção baseadas no latifúndio
e na dependência pessoal do trabalhador (colonato, parceria e demais formas de
produção não baseadas no trabalho vivo por salário)”.
Os argumentos de Quartim encontram apoio discreto em outros articulistas.
Ligia Osório Silva endossa Sodré e Dobb citando Marx, para quem o desenvol-
vimento do capital mercantil não explica por si só o surgimento do capitalismo,
o que depende também do modo de produção local.
Vários outros articulistas referem-se ao significado da categoria “modo de
produção feudal” como abrangendo as relações de produção baseadas no latifún-
dio e na dependência pessoal do trabalhador. José Antonio Segatto refere-se a
esse sentido em uma nota. Ivan Alves Filho o menciona. Paulo Ribeiro da Cunha
encontra a substância desse conceito na práxis de Sodré, particularmente na sua
estada no Mato Grosso. Até mesmo Marcos Del Roio, discreto crítico de Sodré, diz:

Na definição da relação feudal, o mais importante para Sodré, além da forma da


extração da renda, é o laço de dependência pessoal. Por meio de uma citação de
Marx, Sodré considera que, no feudalismo, “a dependência pessoal caracteriza
tanto as relações de produção material quanto as outras esferas da vida baseadas
nessa produção”.

Não apenas esta citação. No Prólogo da Contribuição à crítica da economia


política, Marx estabelece que as relações de produção constituem a base real so-
bre a qual se alça o edifício jurídico e político de uma sociedade. Por isso, Sodré
insere-se rigorosamente nos fundamentos do marxismo, ao considerar que o mais
importante está nas relações de produção – as formas de extração de renda da
terra e o laço pessoal, no caso do feudalismo.
Essa constatação é desenvolvida por mim em Modos de ver a produção do
Brasil, com apoio na historiografia clássica brasileira e nos clássicos do marxismo:
equivocaram-se os que tentaram negar a interpretação feudal de nosso corone-
lismo com base em Marx. Sodré superou seu mestre, Caio Prado Jr., e jamais foi
superado por seu crítico obsessivo, Gorender.
As conclusões desse estudo coincidem não integralmente com as de Sodré.
Em particular, desconhecer o modo de produção asiático empobrece sua análise

148 • Crítica Marxista, n.30, p.146-149, 2010.

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das missões guaranis. Assim, reconheço, tal como o conjunto de seus críticos, e
como o próprio Sodré, que o trabalho desse mestre possa merecer críticas. Não
obstante, afirmo que o pensamento maduro de Nelson Werneck Sodré apresenta,
sem competidor que se lhe tenha aproximado, a mais rigorosa e abrangente in-
terpretação marxista da história da formação social brasileira.

Nelson Werneck Sodré: entre o sabre e a pena • 149

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Marx: intérprete da
contemporaneidade
MILTON PINHEIRO, MUNIZ FERREIRA E RICARDO MORENO (ORGS.)
Salvador: Quarteto Editora, 2009, 232p.

Pedro Leão da Costa Neto*

A presente coletânea é resultado de um seminário realizado pelo Cemarx da


Universidade do Estado da Bahia, em novembro de 2006, na cidade de Alagoinhas,
e reúne um conjunto de dez contribuições, que procuram destacar a eminente
atualidade da obra de Marx em um momento marcado por uma ofensiva conser-
vadora que procura mais uma vez impingir um “atestado de óbito” ao marxismo.
Mauro Castelo Branco de Moura, em seu texto, procura identificar, no pro-
jeto de Crítica da economia política, a contribuição específica de Marx à filo-
sofia. O autor desenvolve, primeiramente, um conjunto de críticas às diferentes
interpretações da tradição marxista, em particular ao marxismo soviético, para
depois analisar a contribuição marxiana propriamente dita, o “projeto de crítica
da economia política, que acompanhou Marx desde 1844, até a morte, em 1883”
(p.17), dedicando uma particular atenção à dialética da mercadoria e ao conceito
de fetichismo como aspectos centrais da reflexão do autor de O capital.
Em seu artigo, Carlos Zacarias F. de Sena Jr. desenvolve uma análise da Fi-
losofia da História em Marx. Partindo dos conceitos de liberdade e necessidade,
procura mostrar como ao longo da história do marxismo (Marx, socialdemocracia
alemã e marxismo russo) foram dadas diferentes respostas a esse problema, ora
acentuando o papel da vontade, ora destacando a necessidade expressa no processo

* Professor do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.

150 • Crítica Marxista, n.30, p.150-152, 2010.

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histórico. O autor se detém no significado da contribuição russa (Lênin e Trotsky),
identificando, na questão da organização “que representou uma das contribuições
mais originais ao marxismo” (p.39) e na teoria da revolução permanente, “a se-
gunda grande contribuição do marxismo russo ao materialismo histórico” (p.40-1),
avanços que permitiram a elaboração de uma nova síntese, na qual “a liberdade
pôde se insurgir” (p.43). Entretanto, o enunciado a respeito do “Programa de
Transição” de Trotsky mereceria maior problematização, pois ali o autor observa:
“fundado na expectativa de que os revolucionários deveriam sempre e em todas as
circunstâncias seguir lutando pela revolução e pelo socialismo, inclusive evitando
a dicotomia entre o programa mínimo e o programa máximo” (p.43).
A terceira contribuição, a mais longa da coletânea, é de Muniz Ferreira, que
procura reconstruir, de forma exaustiva, a análise de Marx e Engels das relações
internacionais nas décadas de 1840-50. O autor afirma que, após realizarem um
“ajuste de contas com as tendências românticas que criticavam a modernidade
capitalista e a objetividade histórica da emersão do mercado, Marx e Engels foram
adquirindo uma nova percepção da realidade social de seu tempo” (p.62), que se
manifestou em uma concepção dialética “na qual os movimentos de constituição
da modernidade econômica internacional e (...), a formação da história universal,
eram interpretadas como importantes avanços e arcabouço material para a transi-
ção da humanidade em direção a formas mais elevadas de sociabilidade” (p.63).
Tais passagens permitem situar as críticas endereçadas ao romantismo hegeliano
e sua influência nos jovens Marx e Engels, assim como “a adesão apaixonada aos
valores avançados pela modernidade ocidental” (p.56). Poderíamos, entretanto,
interrogar a parcialidade da reconstrução proposta, dada a total ausência de refe-
rência aos textos tardios de Marx (1875-83), nos quais os efeitos perniciosos da
modernidade são analisados de forma contundente e indicam um distanciamento
decisivo do otimismo anterior.
O trabalho de José Carlos Ruy é uma análise do materialismo moderno e a
tradição marxista, desenvolvido a partir das obras de Marx, Engels e Lênin, estabe-
lecendo um diálogo com a ciência do século XX, em particular Niels Bohr, Werner
Heisenberg e Erwin Schrödinger, e procurando “superar uma visão do reflexo me-
cânico” (p.94). É curioso destacar, igualmente, na contribuição de Ruy, a referência
e a reprodução de um soneto de Camões, que seria uma antecipação genial a Hegel.
Ricardo Moreira investiga, em estrita relação com as análises surgidas no
interior do marxismo, as sucessivas etapas da internacionalização do capital,
desde a acumulação primitiva até a sua forma contemporânea, a globalização,
“a versão moderna do velho imperialismo”. Poder-se-ia, entretanto, perguntar
sobre o acerto da afirmação de que “Kautsky foi, de fato, o principal dirigente da
internacional comunista, até ser superado por Lênin, e passou a ser considerado
um renegado” (p.100, nota 3).
O texto de Eurelino Coelho é dedicado a interrogar a própria historicidade
do marxismo, concebido como visão de mundo crítica e sistemática do proleta-

Marx: intérprete da contemporaneidade • 151

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riado (p.113). Em sua leitura atenta das obras de Marx, Engels, Gramsci, Mandel
e Hobsbawm o autor realiza uma reconstrução da constituição do socialismo
científico, compreendido como uma ruptura teórica e política com as diferentes
manifestações do socialismo pré-marxista.
O trabalho de Sérgio Lessa é uma tentativa de pensar a atualidade de Marx
a partir da ideia da possibilidade da revolução, relacionando-a com a solução
inovadora, dada por Marx, para o problema da relação entre essência, fenômeno
e continuidade. Lessa, depois de reconstruir as diferentes soluções oferecidas ao
longo da história da filosofia, defende que a ruptura operada por Marx, retomada
e desenvolvida pelo último Lukács, residiria em “conceber a essência humana
como radicalmente social e histórica” (p.154). A atualidade de Marx residiria na
“demonstração de como os homens são os demiurgos de seus destinos através
da sua descoberta da historicidade da essência: este é o fundamento último da
possibilidade ontológica da revolução comunista” (p.161).
Antonio Carlos Mazzeo, igualmente influenciado pela tradição lukacsiana,
procura mostrar o duplo caráter da reprodução social da vida cotidiana, por um lado,
como reprodução circular e tautológica do capital e, por outro, como possibilidade da
criação de condições para a superação dessa circularidade (p.167). No interior dessa
dialética, o autor desenvolve um conjunto de observações sobre “o partido como
mediador entre o espontâneo e teleológico” (p.174-8), procurando problematizar
as inúmeras simplificações pelas quais passou esta questão após a vitória de 1917.
A contribuição de Milton B. de Almeida Filho é dedicada à “Visão de mundo
e método de conhecimento no materialismo de Karl Marx”, na qual, em estreito
diálogo com a reflexão contemporânea, analisa a concepção de Marx e Engels
como uma “abordagem materialista da natureza, da sociedade e do ser humano”.
Merece ser destacada a discussão do conceito de “modo de vida”, desenvolvida
a partir das diferentes contribuições de antropólogos soviéticos e de estudiosos
marxistas do campo da saúde de origem cubana e latino-americana.
Por fim, Milton Pinheiro, em sua análise da concepção marxista da crise do
capital, parte da afirmação segundo a qual “o capitalismo tem passado por etapas
de crise e expansão cada vez mais curtas e constantes. Crises locais, em função da
universalização do capital, têm efeitos globais, colocando em risco de solvência os
mercados financeiros, com repercussão na produção e no consumo de mercadorias”
(p.222) e identifica em particular em sua análise da crise capitalista pós-1987, um
provável retorno do capitalismo para o Estado como forma de “solucionar o seu
problema orgânico” (p.228).
Um dos traços característicos da coletânea é a sua marcada pluralidade, ma-
nifesta nas diferentes concepções teóricas representadas, que, antes de expressar
uma contradição, são exemplos de uma positiva diversificação e diálogo entre os
investigadores marxistas no Brasil. Pode-se lamentar, entretanto, que em um livro
dedicado à atualidade de Marx esteja ausente uma contribuição dedicada ao atual
renascimento dos estudos marxistas, a chamada “Marx-renaissance”.

152 • Crítica Marxista, n.30, p.150-152, 2010.

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Crítica da
Igualdade Jurídica.
Contribuição ao
Pensamento Jurídico
Marxista.
CELSO NAOTO KASHIURA JÚNIOR
São Paulo: Quartier Latin, 2009. 248p.

Joelton Nascimento*

No formidável livro recentemente publicado por Celso Naoto Kashiura Jú-


nior, trata-se de encarar de frente a oposição existente entre a ordem jurídica e a
reivindicação profunda de justiça social do presente.
O livro é dividido em três partes, que o autor chama de “movimentos”. No pri-
meiro movimento Kashiura Júnior trata das “bases da crítica marxista do direito”.
Com um cuidado e uma clareza notáveis o autor colocará o leitor a par dos mais
importantes e significativos temas da crítica marxista do direito. Tomando como
seu guia aquele que ainda é o mais importante jurista marxista, Evgeni Pachuka-
nis, Kashiura Júnior faz um trajeto que tem ao mesmo tempo um caráter didático
e desmistificador. Didático, pois sua discussão acerca do “sujeito de direito”, da
“relação jurídica” e do “Estado” resulta em uma oportuna e rica introdução aos
mais importantes temas da crítica marxista do direito. E desmistificador, pois seu
esmero e precisão podem desanuviar muitos preconceitos surgidos entre juristas
e não juristas em torno da crítica marxista do direito.
Analisando as categorias centrais da teoria geral do direito, o autor buscará
desnaturalizá-las e situá-las na concretude sócio-histórica contemporânea. Mais
do que tão-somente demonstrar as consequências injustas da aplicação desses
princípios e categorias sociais e jurídicas a partir de dados empíricos – trabalho

* Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela Universidade Federal de Mato Grosso.

Crítica da Igualdade Jurídica. Contribuição ao Pensamento Jurídico Marxista. • 153

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de pouca valia, uma vez que os dilaceramentos sociais da modernidade capitalista
periférica estão escancarados à luz do dia –, o autor busca desenvolver o caráter
essencialmente contraditório e injusto das formas jurídicas mesmas.
Esse método adotado pelo autor tem um caráter desmistificador, assim, pois
a partir dele não se trata de apenas apresentar a não realização das pretensões
jurídicas e constitucionais das sociedades capitalistas contra uma massa de dados
que atestam cabalmente sua não concretização. Antes, trata-se de demonstrar que
a realidade de injustiça e desigualdade abissais e as obscuras perspectivas sociais,
ambientais e culturais de futuro da modernidade capitalista são, elas mesmas, a
realização dessas categorias de base e que, portanto, não podem ser superadas
aquelas sem que superemos estas.
Jungir a relação jurídica à forma da mercadoria, como o faz o autor, não sig-
nifica – e o autor o demonstra fartamente neste livro – encontrar um aspecto da
realidade social e imputar a este uma determinação causal sobre o direito, como
se a existência de uma relação jurídica fosse apenas um epifenômeno de outra
realidade dada sem possuir qualquer autonomia. Antes, e mais bem posto: a “norma
jurídica é determinada pelas relações econômicas – de modo direto em sua forma
e não necessariamente de modo direito em seu conteúdo – e não concentra em si
a juridicidade, mas apenas confirma e confere segurança à forma jurídica que já
tinha se desenvolvido antes dela” (p.82).
Com esse movimento teórico, Kashiura Júnior pode muito bem se colocar no
encalço de sua pesquisa acerca da igualdade jurídica sem, por um lado, recair em
qualquer economicismo, já que não defende a determinação causal de um conteúdo
“econômico” qualquer por sobre o fenômeno da juridicidade e seus conteúdos,
mas também não cai no feitiço de naturalizar a forma jurídica como prius social.
A seguir, em sua análise do Estado, o autor esboça uma crítica da forma Estado
como crítica de seu caráter de preenchimento da cisão estrutural entre público e
privado, cisão própria e inafastável da formação social capitalista.
Desse modo, os ordenamentos jurídicos modernos, ao tomarem a cisão pú-
blico/privado como tão-somente uma divisão de ramos e, portanto, uma unidade
ideal e teorética, terminam por servir de “dobradiça” ideológica e prática para o
vazio constituinte instalado na cisão entre política e economia. “Encarada pela
teoria jurídica tradicional como a mais basilar das dicotomias jurídicas”, diz-nos
Kashiura Júnior, “a oposição entre direito público e direito privado é a expressão,
especificamente no terreno jurídico, da rachadura que perpassa a ordem social
capitalista como um todo” (p.97).
No segundo “movimento”, Kashiura Júnior faz três incursões em temas ne-
vrálgicos e polêmicos e que giram em torno do tema da igualdade jurídica: os
direitos humanos, os direitos sociais e, em especial, o direito do consumidor e o
problema da discriminação. A tese central desse autor é a de que as novas movi-
mentações sociais e estatais na direção de incrementar a subjetividade jurídica
liberal clássica – mormente negativa e vazia de diferenciações e especificações

154 • Crítica Marxista, n.30, p.153-156, 2010.

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– não são uma “alternativa” à igualdade jurídica própria do capitalismo. Antes,
são variações que buscam assegurar, mesmo em espaços e nichos onde esta se
mostre ameaçada, a igualdade jurídica como tal.
As proteções especiais dadas a certos “tipos” de sujeitos de direito, como o
sujeito “consumidor” ou o sujeito “trabalhador” fazem, ao fim e ao cabo, apenas
acertar os modos pelos quais essas relações podem existir de modo mais resoluto
como relações mercantis de troca de equivalentes. As chamadas “especificações”
seriam, assim, diferenças juridicamente postas a serviço da igualdade jurídica e
que, portanto, não são capazes de superar a desigualdade social ocasionada pelo
funcionamento da lei férrea do valor e da mercadoria.
Acerca dos direitos humanos, o autor debaterá com seus defensores e ques-
tionará o suposto caráter “anticapitalista” ou de superação dos limites do indi-
vidualismo e do liberalismo político e econômico. Ele defenderá ardorosamente
que os direitos sociais de segunda “geração” ou “dimensão” (como o direito do
trabalho) e os de terceira (em especial o hoje tão em voga direito ambiental)
foram desdobramentos do direito privado clássico em face das profundas crises
estruturais que a sociedade capitalista enfrenta e que evidentemente o impedia
de permanecer tal e qual: conteúdos que vão muitíssimo além da igualdade for-
mal e da não intervenção do Estado na economia, mas que são paradoxalmente
enfiados no cada vez mais estreito espaço dado pela e na forma jurídica e pela
forma Estado (p.138).
No caso do direito do consumidor trata-se, segundo o autor, de manter a
igualdade jurídica a salvo (p.151), pois o poder das corporações em controlar
dados, contratos e todo o processo de produção e circulação de suas mercadorias
é tamanho que a mínima igualdade jurídica aceitável entre o consumidor e o
fornecedor só pode se realizar por intermédio de uma diferenciação significativa
entre ambos diante de suas normas e parâmetros regulatórios, com uma série de
concessões benéficas àqueles e algumas outras a estes.
No último “movimento” do livro, Kashiura Júnior avança na direção de sua
crítica da igualdade jurídica em especial. A igualdade jurídica ali é captada em sua
relação com a abstração própria da circulação mercantil (p.218) e, nesse sentido,
destaco a referência feita pelo autor ao conceito de fetichismo da mercadoria de
Marx (p.225).
Com efeito, para o autor, o “feitiço” do sujeito de direito é o avesso do feti-
chismo da mercadoria. Se este faz-nos ver as relações sociais como que plasmadas
nos objetos, o fetiche do sujeito de direito (e, consequentemente, da igualdade
jurídica) faz-nos ver nos objetos (e no próprio trabalhador e sua força de trabalho
objetivada) relações oriundas inteiramente da vontade livre (p.230). Um fetichismo
é o complemento adequado e necessário do outro. Não poderia ser mais claro o
autor do que quando conclui que “... a igualdade jurídica é, na realidade, o ‘outro
lado’ da lei do valor” (p.238).

Crítica da Igualdade Jurídica. Contribuição ao Pensamento Jurídico Marxista. • 155

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Contra a crença fetichista de que a única forma de justiça possível é a igualdade
jurídica formal e suas variações, o livro de Kashiura Júnior acrescenta importan-
tes e oportunas páginas na literatura crítica contemporânea brasileira e sua obra
merece uma leitura e reflexão aprofundadas.

156 • Crítica Marxista, n.30, p.153-156, 2010.

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Descaminhos
da esquerda:
da centralidade
do trabalho à
centralidade da
política
IVO TONET E ADRIANO NASCIMENTO
Rio de Janeiro: Ed. Alfa-ômega, 2009. 124p.

Sergio Lessa*

É sabido que a Ontologia, de Lukács, conheceu uma estranha trajetória:


redigida na década de 1960, apenas duas décadas depois e graças aos estudos
sistemáticos de uns poucos indivíduos na Europa seu conteúdo passou a ser menos
desconhecido. Já então um dos seus aspectos mais polêmicos veio à tona: sua
avaliação da experiência soviética. Segundo Lukács (e isto em 1960), a URSS
já teria realizado a transição para o socialismo na esfera da produção, faltando
completar a transição na esfera da política e do Estado. Ainda que uma afirmação
dessa forma tão taxativa não possa ser encontrada no texto da Ontologia (está
presente em um opúsculo que redigiu em 1968 e que recentemente foi publicado
em nosso país sob o título de Socialismo e democratização), nela são encontradas
várias passagens em que o caráter socialista na URSS é afirmado inequivocamente.
Desconsiderando as críticas que não merecem crédito, feito as de trânsfugas como
Agnes Heller, as considerações mais ricas e mais articuladas nesse sentido vieram
sempre de Ístván Mészáros. Este grande pensador, nunca é demais recordar, foi
assistente de Lukács na Universidade de Budapeste e manteve com o autor da
Ontologia um rico e intenso contato até a morte deste, em 1971.
Ainda que alguns aspectos da crítica das concepções de Lukács por Mészáros
mereçam ser melhor examinados – em especial suas ponderações acerca da perma-

* Professor da Universidade Federal de Alagoas.

Descaminhos da esquerda: da centralidade do trabalho à centralidade da política • 157

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nência de traços de idealismo hegeliano no Lukács dos anos 1960 –, o fundamental
de seus argumentos tem revelado um enorme poder. Sendo muito conciso: se o
trabalho é a categoria fundante, como é possível que não se tenha completado na
esfera ideológico-política, após tantas décadas, a transição ao socialismo que se
teria realizado na esfera produtiva?
Em Para além do capital, esta certeira argumentação de Mészáros ganhou
sua forma mais madura: a estrutura conceitual da Ontologia estaria marcada por
equívocos decorrentes da adesão de Lukács às teses do socialismo em um só país.
O principal deles: um acento exagerado nos complexos valorativos que conferiria
aos processos de transição ao socialismo um quê de moralismo e eticismo.
Há um enorme conjunto de problemas a serem ainda examinados tanto na On-
tologia quanto em Para além do capital para nos satisfazermos com simplificações
como a que acabamos de fazer. Todavia, ela poderá ser útil para indicar a inserção
do livro de Ivo Tonet e Adriano Nascimento nesse debate: partem do argumento
de Mészáros e o radicalizam para analisar os “descaminhos da esquerda”. Se
Mészáros postula que a transição tem no trabalho a sua categoria fundante, como
tudo mais no mundo dos homens, Tonet e Nascimento levam às últimas conse-
quências tal argumento: a transição ao comunismo (e não apenas ao socialismo)
teria que ser a transição de uma forma particular de trabalho (o trabalho proletário
do capitalismo) a outro (o trabalho associado da “livre organização dos produtores
associados” do comunismo). A pedra de toque para a avaliação das experiências
revolucionárias deveria ser sua capacidade em superar o trabalho proletário em
direção ao trabalho associado. Frente a esse aspecto decisivo, todas as outras ques-
tões ficariam subordinadas e retirariam dele seu significado histórico. Assentado
este pilar, Tonet e Nascimento avançam seu segundo argumento de peso: como
as esquerdas em geral perderam esse referencial, terminaram sem um guia seguro
para avaliar o que ocorria (e o que ocorreu) nas esferas da organização da vida
social, da vida política e ideológica das sociedades que conheceram revoluções
no século XX. Sem tal guia, perderam-se nas esferas da política e da ideologia de
uma maneira geral: a discussão entre elas passou a ser entre diferentes experiên-
cias de organização do Estado ou da vida ideológica, assumindo que nesta esfera
seria decidido o destino da transição ao socialismo. O que ocorreria na esfera
da produção seria, então, secundário na determinação dos rumos da revolução,
frente ao que se dava nas esferas da organização partidária, estatal etc. Os autores
argumentam que o reconhecimento do fato de que o trabalho, sendo a categoria
fundante da sociedade, seria também a esfera decisiva na transição de um modo
de produção a outro, é substituído por outra concepção, inteiramente distinta e,
no fundo, idealista: a transição seria decidida na esfera da política. Transitou-se,
segundo os autores, da esfera do trabalho para a esfera da política.
Essa transição, na história do movimento revolucionário, teria ocorrido em
dois grandes eixos. De um lado, a socialdemocracia – que, na passagem do século
XIX ao XX, continha ainda pulsões revolucionárias – converter-se-ia, com o tem-

158 • Crítica Marxista, n.30, p.157-159, 2010.

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po, em agremiações inteiramente convertidas ao Partido da Ordem. Ainda mais
cedo que no restante da esquerda, a socialdemocracia adotou a nova perspectiva
politicista que legitimava seu legalismo e seu reformismo. Por outro lado, desde
muito cedo a Revolução Russa, com a direção bolchevique, se convence de que
a manutenção do poder de Estado nas mãos dos revolucionários possibilitaria,
mais tarde e em melhores condições históricas, a transição para o socialismo. O
poder político passou a ser, com o tempo, o critério decisivo de suas ações, até
que, com o apogeu do estalinismo, tal concepção passou a ter, na manutenção do
Estado Soviético, seu objetivo único e supremo. Ao final de algumas décadas, essa
concepção terminou conduzindo os soviéticos a proporem a convivência pacífica
com os Estados capitalistas: a transição seria conseguida, não mais pela luta de
classes, mas sim pelo exemplo das massas socialistas!
Os resultados foram funestos. Por um lado, a esquerda perdeu a capacidade de
aprender com seus próprios erros, com suas experiências derrotadas do passado.
Por outro lado, converteu-se em uma esquerda que apenas é capaz de conceber
a luta revolucionária como uma luta eleitoral, que ocorre dentro dos marcos da
legalidade burguesa – único espaço para a “grande política” pela qual reclama o
insensato realismo desta esquerda que se perdeu na história. E, tal descaminho da
esquerda, ao coincidir com a ofensiva do capital sob a forma do neoliberalismo e
da reestruturação produtiva (para sermos breves), aumentou as dificuldades histó-
ricas de os proletários reagirem às novas condições históricas como antagonistas
do capital que de fato são. Tonet e Nascimento propõem, então, uma completa
reviravolta para a esquerda: recuperar a centralidade do trabalho para a transição ao
socialismo. A partir dessa recuperação, defendem uma reavaliação da história das
revoluções que possibilite recuperar as lições que elas permitem – para promover
uma radical crítica das posturas legalistas e eleitorais a que se tem restringido a
esquerda dos nossos dias.
Um ensaio com tal horizonte e uma tal ambição não pode ser, e certamente
não é considerado pelos autores, algo concluído. Há várias questões históricas e
filosóficas que reclamam por análises mais aprofundadas (por exemplo, a vasta
bibliografia mais recente sobre a experiência soviética e chinesa pouco é mencio-
nada; um exame mais detalhado das teses de Mészáros também seria importante,
um exame mais acurado das determinações materiais da persistência da paralisia
operária nas últimas décadas ajudaria na compreensão do atual momento etc.), bem
como algumas passagens exibem um conteúdo que poderia receber uma forma
mais madura e melhor acabada. E, por fim, uma editora que facilite o acesso do
leitor ao livro é imprescindível.
Isto, todavia, não tira o impacto e a força do texto: é a melhor e mais instigante
análise da trajetória da esquerda desde que foi publicado entre nós Para além do
capital, de Mészáros. Um texto que vale a pena ser lido!

Descaminhos da esquerda: da centralidade do trabalho à centralidade da política • 159

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Força Sindical:
política e ideologia
no sindicalismo
brasileiro
PATRÍCIA VIEIRA TRÓPIA
São Paulo: Expressão Popular, 2009, 232p.

Davisson C. C. de Souza*

A publicação de Força Sindical: política e ideologia no sindicalismo brasi-


leiro, de Patrícia Trópia, contribui para preencher uma dupla lacuna na bibliografia
brasileira sobre sindicalismo das últimas décadas. Primeiramente, o livro tem
o mérito da originalidade por tratar de uma central que, embora seja a segunda
entidade sindical mais importante do Brasil há quase 20 anos, carece de estudos
nas Ciências Sociais. Em segundo lugar, o trabalho de Trópria fortalece o campo
das análises sindicais marxistas, que perderam terreno a partir da década de 90
para as abordagens inspiradas nas noções de crise e declínio histórico do sindi-
calismo. Não é casual, porém, que, justamente na década de 90, tal central e tais
teses tenham ganhado “força”, já que ambas defendem o pragmatismo político e
apegam-se à tese da “inevitabilidade da globalização” e do fim do socialismo. É
nesse terreno que a Força Sindical (doravante: FS) desponta no cenário sindical
brasileiro como a maior central do setor privado.
O livro de Trópia contribui para explicar, de maneira sistemática, as múltiplas
facetas da adesão da FS ao neoliberalismo. Sua leitura, no entanto, suscita uma
questão mais ampla, já tratada por vários estudiosos: o apoio de um setor sindical
foi uma condição para a implantação das políticas neoliberais? Uma compara-
ção com o caso argentino é esclarecedora nesse sentido. No Brasil, as principais

* Doutorando em Sociologia e pesquisador do Cemarx (e-mail: davissonhistoria@yahoo.com.br).

160 • Crítica Marxista, n.30, p.160-162, 2010.

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entidades que fundaram a FS, em 1991, defendiam a abertura às importações, as
privatizações e a “modernização” das relações de trabalho, como ficou explícito
em sua defesa da flexibilização da CLT. Na Argentina, a Central General del
Trabajo (CGT), sob a justificativa de seu vínculo histórico com o peronismo, em
linhas gerais, apoiou as medidas neoliberais levadas a cabo por Carlos Menem.
Alguns dirigentes e sindicatos dessa central participaram diretamente das priva-
tizações, caso dos ferroviários, que adquiriram uma linha de trem. Embora tanto
na Argentina quanto no Brasil a relação entre o sindicalismo e neoliberalismo
seja revestida de descontinuidades, é possível afirmar que o apoio da FS, no caso
brasileiro, e da CGT, no caso argentino, foi fundamental para a consolidação de
uma relação de forças favorável à implantação das políticas neoliberais.
Porém, o livro de Trópia não se restringe à demonstração da ligação da FS
com o neoliberalismo. É nesse sentido que seu trabalho supera duas importantes
referências bibliográficas anteriores sobre a central: Força Sindical: uma análise
sociopolítica (Paz e Terra, 1993), de Adalberto Moreira Cardoso e Leôncio Martins
Rodrigues, e Força Sindical: a central neoliberal de Medeiros a Paulinho (Mauad,
2002), de Vito Giannotti. Cardoso e Rodrigues tratam de maneira meramente des-
critiva o perfil “sociopolítico” dos delegados do congresso que fundou a central,
mas não analisam teoricamente suas raízes políticas e ideológicas. Giannotti tem
o mérito de elucidar o caráter neoliberal da ideologia política defendida pelos
dirigentes da FS, mas não apresenta uma análise empírica das ações da central.
O estudo de Trópia abarca esse conjunto de questões. O livro é claramente
refratário aos pressupostos neoliberais. Porém, a autora logra combinar sua tomada
de partido com o rigor metodológico na apresentação dos dados empíricos, que
a afasta dos apriorismos que cercam a abordagem da temática. Sendo assim, um
dos méritos de Trópia está na maneira como enfrenta os dados construídos na
pesquisa de campo. Por um lado, não apela a um discurso dicotômico entre um
sindicalismo “moderno” e “arcaico” para fazer apologia à central, nem se oculta
sob o manto da neutralidade e do objetivismo científico para, ao final, aceitar
o pretenso caráter plural e apartidário da central. Por outro lado, não analisa as
ações e representações da entidade sem um trabalho de pesquisa de campo sis-
tematizado. Essa postura, como pesquisadora, é o que lhe permite atestar (mas
também contextualizar) o caráter reivindicativo e ativista da FS, o que surpreende
aquele que conhece a central apenas pelos discursos de seus dirigentes. Ademais,
é a partir desse procedimento que a autora chega à conclusão de que a adesão da
central ao neoliberalismo não foi incondicional, nem se deu na base com a mesma
amplitude que teve na cúpula.
Outra contribuição do livro é o questionamento das raízes históricas do sin-
dicalismo praticado pela FS que, segundo a autora, possui suas matrizes político-
-ideológicas no (novo) “sindicalismo de resultados” e no (velho) “sindicalismo
pelego”, como atesta a trajetória de seu principal sindicato, o dos metalúrgicos
de São Paulo. Valem alguns comentários a respeito do tema. A utilização do ter-

Força Sindical: política e ideologia no sindicalismo brasileiro • 161

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mo “peleguismo” para explicar a prática da FS não se restringe à sua conotação
“nativa” normativa, mas está fundamentada em uma “análise estrutural do sindi-
calismo”, tal como a própria autora chama a atenção na primeira nota de rodapé
do livro (p.15). A política de parceria com os “patrões”, o assistencialismo, a
defesa da estrutura sindical e o governismo, tal como Trópia expõe, constituem
os elementos fundantes da prática da FS. Assim, a autora conecta os dois últimos
fatores: “O que diferencia estes sindicatos é o fato de estarem sempre prontos a
apoiar os governos, sejam eles populistas, ditatoriais ou neoliberais. Este apoio
tem como contrapartida a expectativa de que os governos garantirão a existência
do sindicato oficial e impedirão o avanço das correntes reformistas ou revolucio-
nárias no interior do sindicalismo”.
Sobre esse ponto, vale destacar que a defesa dos sindicatos oficiais corporativos
não se restringe às entidades “pelegas”, mas também está presente no interior do
chamado sindicalismo combativo e classista. O que fundamenta, então, o gover-
nismo, ou seja, o apoio a governos de naturezas distintas, por parte dessa corrente
do sindicalismo? Ainda que nessa passagem a autora não ressalte esse fator, de
sua leitura se depreende que o elemento irredutível da FS é a política de aliança
de classe entre capital e trabalho, sustentada pela busca da participação direta na
gestão do aparelho estatal e justificada pela noção de que o Estado é o árbitro
desse “pacto social”. Essa aliança é condição para a existência de um empresariado
forte no país, o que por sua vez constitui o ponto de partida para que os sindicatos
possam negociar melhorias para a classe trabalhadora. Porém, essa fórmula guarda
ainda outra faceta do sindicalismo da FS. Nessa central, a negociação torna-se “um
fim em si mesmo”. Isso explica porque, em momentos de crise, a central defende
concessões dos trabalhadores aos empresários e porque, quando as perdas afetam
significativamente a própria entidade, os dirigentes assumem uma postura mais
ativista. Ora, a natureza das reivindicações do sindicalismo propositivo não é a
mesma das do sindicalismo combativo. O sindicalismo combativo se mobiliza para
pressionar os capitalistas a ceder às reivindicações dos trabalhadores. O sindica-
lismo propositivo se mobiliza para pressionar a negociação e buscar o consenso.
Por fim, cumpre destacar que a perspectiva teórica de Trópia se inspira,
fundamentalmente, na abordagem poulantziana. Com base nessa perspectiva a
autora aposta na análise da correlação de forças para analisar as práticas da FS.
Essa perspectiva é o que lhe permite superar o economicismo tão presente nos
estudos sindicais no Brasil, ainda que a referência de fatores econômicos seja
crucial em seu texto. Pelo procedimento analítico e marco teórico que adota, assim
como pelo debate que suscita, o estudo de Trópia supera a abordagem do “perfil
sociopolítico” e da caracterização da FS como uma “central neoliberal”. Trata-se
de uma rica contribuição sobre “ideologia e política no sindicalismo brasileiro”.

162 • Crítica Marxista, n.30, p.160-162, 2010.

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CRÍTICA
marxista

RESUMOS/ABSTRACTS
A atualidade da Economia
Política Marxista
ALFREDO SAAD FILHO

Resumo: O artigo sugere uma interpretação de classe da Economia Política Marxista


(EPM). Ele examina quatro aspectos principais da EPM: método, valor, classe e as im-
plicações da teoria do valor para a análise de aspectos selecionados do capitalismo atual,
incluindo a concorrência, a difusão internacional do capitalismo, a globalização, a teoria
das crises, a análise das classes sociais e o ambiente. Esse artigo conclui que a EPM pode
ser extremamente relevante, especialmente quando ela enfoca a identificação e a análise
das tendências, contratendências e contingências históricas, cuja interação configura o
concreto.
Palavras-chave: método; economia política; teoria do valor; classes sociais.
Abstract: The article outlines a class interpretation of Marxist political economy (MPE).
It examines four key aspects of MPE: method, value, class, and the implications of value
theory for the analysis of selected aspects of contemporary capitalism, including compe-
tition, the international diffusion of capitalism, globalisation, crisis theory, the analysis
of social classes, and the environment. The article argues that MPE can be extremely re-
levant, especially when it focuses on the identification and the analysis of the tendencies,
counter-tendencies and historical contingencies, whose interaction shapes the concrete.
Keywords: method; political economy; value theory; social classes.

Crítica Marxista, n.30 • 163

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A crise geral do capitalismo:
possibilidades e limites de sua
superação
LUIZ FILGUEIRAS

Resumo: Este artigo trata da natureza da atual crise econômica mundial, caracterizando-a
como uma crise geral do capital e, em particular, do atual padrão global de acumulação
capitalista. Como corolário, defende que, em virtude de a mesma sintetizar o conjunto
das contradições estruturais deste padrão, ela não pode ser superada como se fosse uma
mera crise conjuntural de demanda efetiva.
Palavras-chave: crise geral do capital; acumulação capitalista.
Abstract: This article is concerned with the nature of the current global economic crisis,
characterizing it as a general crisis of capital and, in particular, of the current global stan-
dard of capitalist accumulation. As corollary, it defends that, by virtue of the same one to
synthesizer the set of the structural contradictions of this standard, it cannot be surpassed
as if it was a simple conjunctural crisis of effective demand.
Keywords: general crisis of capital; capitalist accumulation.

A burguesia mundial
em questão
DANILO MARTUSCELLI

Resumo: Três variantes explicativas principais têm enfatizado a ideia de que viveríamos
nos últimos anos um processo inusitado de unificação e integração da burguesia em nível
mundial. A primeira variante destaca o processo de internacionalização dos altos quadros
e sua relação com a difusão das grandes empresas transnacionais. A segunda acentua o
papel das grandes corporações transnacionais no ordenamento econômico e político do
capitalismo de hoje. A terceira procura ressaltar a financeirização como elemento funda-
mental para a dissolução dos fracionamentos das classes dominantes. O objetivo deste
artigo é discutir o alcance e os limites dessas três variantes, desenvolver a hipótese de
que há pontos em comum entre a tese da burguesia mundial e a ideologia da globalização
e, por fim, apresentar uma análise alternativa para caracterizar as frações burguesas no
capitalismo contemporâneo.
Palavras-chave: burguesia mundial; globalização; capitalismo contemporâneo; classes
sociais; burguesia interna.

164 • Crítica Marxista, n.30

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Abstract: Three main variant ways of approach have emphasized that we would be under-
going in the last years an unusual process of unification and integration of the bourgeoisie
in a world wide scale. The first of them points the process of internationalization of the
managers and its relation with the big transnational corporations’ diffusion. The second
underscore the role of those big transnational corporations concerning the political and
economic organization of the contemporary capitalism. The third one searches to throw
in to relief the financialization process as a basic element to overcome the ruling class
fractioning. The aim of this work is to discuss the range and the limits of these three ways
of approach; to develop the hypothesis that there is some common characteristics between
the global bourgeoisie concept and the globalization ideology; and finally, to present an
alternative analysis to characterize the bourgeois fractions in the contemporary capitalism.
Keywords: global bourgeoisie; globalization; contemporary capitalism; social classes;
inner bourgeoisie.

Filmar O capital?
FREDRIC JAMESON

Resumo: Neste artigo o autor desenterra fragmentos da “antiguidade ideológica” no recente


filme de Alexander Kluge sobre O capital. Encontros com o equivalente não realizado
de Eisenstein, à procura de uma transposição cinematográfica do fetiche da mercadoria.
Palavras-chave: Marx; Eisenstein; O capital; fetiche da mercadoria.
Abstract: In Marx and Montage the author unearths fragments from ‘ideological antiquity’
in Alexander Kluge’s recent film on Capital. Encounters with Eisenstein’s unrealized
equivalent, seeking a cinematic transposition of the commodity fetish.
Key-words: Marx; Eisenstein; Capital; commodity fetish.

Notas introdutórias sobre a


publicação das obras de Marx
e Engels
PEDRO LEÃO DA COSTA NETO

Resumo: O objetivo do presente artigo é discutir a história das sucessivas publicações


das Obras completas de Karl Marx e Friedrich Engels (Mega, MEW, Mega 2), tentando
identificar os diferentes obstáculos teóricos e políticos encontrados para a sua realização.

Crítica Marxista, n.30 • 165

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A reconstrução desta história permite problematizar importantes questões associadas à
difusão, recepção e diferentes interpretações que as obras de Marx e Engels receberam.
Palavras-chave: Marx; Engels; Obras Completas.
Abstract: The aim of this article is to discuss the history of the many publications of Karl
Marx’s and Friedrich Engels’ Complete Works (MEGA, MEW, MEGA 2), by trying to
identify the different theoretical and political obstacles to their realization. The recons-
truction of that history allows one to deal with important questions related to the diffusion,
reception, and the diverse interpretations which Marx’s and Engels’ works received.
Keywords: Marx; Engels; complete works.

166 • Crítica Marxista, n.30

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NORMAS PARA COLABORAÇÃO

Apresentamos abaixo as normas técnicas de citação e referência.

I – Textos para publicação


1. Crítica Marxista aceita textos e propostas de material, inéditos no Brasil, para todas
as seções da revista – artigos, comentários, resenhas, entrevistas, documentos etc.
2. Crítica Marxista tem interesse em uma ampla gama de temas teóricos, históricos
e contemporâneos. Privilegia dois tipos de textos: a) textos teóricos que apresentam
teses originais e contribuem para o desenvolvimento da teoria marxista, e b) textos
de análise concreta que, partindo do campo amplo e diversificado da teoria marxista,
tomem por objeto de análise e de crítica as características e as transformações da
economia, da política e da cultura no capitalismo contemporâneo e a situação atual
da luta pelo socialismo.
3. Crítica Marxista valoriza os textos polêmicos, que apresentam suas ideias contrapon-
do-as às ideias divergentes ou contraditórias.
4. Todos os textos e matérias propostos serão encaminhados para pareceres dos editores,
conselheiros ou colaboradores da revista, cujos nomes serão mantidos em sigilo. A de-
cisão final sobre a publicação do material recebido será tomada pelo Comitê Editorial,
com base no programa editorial da revista, e comunicada ao interessado.
5. Os textos devem ser enviados dentro dos novos padrões de citação e referência.
6. Os textos devem ser enviados para o seguinte endereço:

Caio Navarro de Toledo


Departamento de Ciência Política
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Caixa Postal 6110
Campinas, São Paulo
13081-970

II – Artigos, comentários e resenhas


1. O artigo é um texto autônomo que possui objeto de análise e de crítica claramente
definido, apresenta tese original e leva em consideração o estado do conhecimento e

Crítica Marxista, n.30 • 167

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as ideias existentes sobre o tema na bibliografia pertinente e no movimento operário e
socialista.
A seção Comentário comporta dois tipos de trabalho: 1) textos que discutem parte de
um livro, ou de um conjunto integrado de livros e, eventualmente, de um acontecimento
político-cultural, para desenvolver avaliações livres sobre um ou outro aspecto desse
material; 2) textos que discutem autores e correntes teóricas exteriores ao marxismo que
teriam a seguinte estrutura: a) exposição introdutória e geral dos principais elementos
da teoria em debate; b) elaboração de críticas e questões que, de uma perspectiva mar-
xista, podem ser feitas a essa teoria; e c) reflexão sobre os possíveis pontos positivos
de contato entre tais teorias e o marxismo (em alguma de suas versões).
A resenha apresenta de modo descritivo o conteúdo de um livro ou de um conjunto
integrado de livros e desenvolve considerações sobre tal conteúdo.
2. O título de artigo ou comentário deve anunciar claramente o conteúdo abordado.
3. Os artigos e comentários devem conter intertítulos que facilitem ao leitor a per-
cepção das ideias e temas tratados ao longo do texto.
4. Os artigos e comentários devem usar as notas de rodapé apenas para esclarecimentos
e explicações. Notas de rodapé contendo longas explicações, esclarecimentos ou res-
salvas sobre as ideias contidas no corpo do texto truncam a exposição e prejudicam
a fluência da leitura. Pede-se que os autores sejam comedidos no uso desse recurso.
5. As resenhas bibliográficas não devem conter título, intertítulos nem notas de
rodapé. Se precisar subdividir o texto de uma resenha, o autor poderá recorrer à nu-
meração em algarismos romanos. O cabeçalho da resenha deve trazer as informações
técnicas sobre o livro resenhado – autor ou autores, título e subtítulo, local da edição,
editora e número de páginas.
6. O autor de um artigo, comentário ou resenha deve informar, em nota de rodapé in-
serida após o seu nome, o principal vínculo profissional. Se quiser, poderá informar
também seu endereço eletrônico.
7. O tamanho dos textos propostos pode variar. A revista estabelece, contudo, um limite
máximo de caracteres para cada tipo de texto.
Os artigos poderão ter, no máximo, 60 mil caracteres (contando espaços, notas,
resumo e abstract etc.);
Os comentários poderão ter, no máximo, 20 mil caracteres (contando espaços, notas);
As resenhas poderão ter, no máximo, 8 mil caracteres (contando espaços).
8. Os textos (artigos e comentários) devem apresentar TÍTULO, RESUMO – de apro-
ximadamente 150 palavras – e 4 PALAVRAS-CHAVE, todos em português e inglês.
Solicita-se também que seja enviada uma página de rosto contendo as seguintes in-
formações: autoria, filiação institucional, qualificação acadêmica, endereço, telefone/
fax e endereço eletrônico.
9. Os textos devem ser enviados em meio digital (CD ou DVD) e acompanhados de
uma cópia impressa idêntica ao original.
10. Os textos propostos para publicação devem seguir rigorosamente as normas técnicas
estabelecidas no próximo item deste documento.
11. A fonte utilizada é a Times New Roman, tamanho 12.

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III – Normas técnicas
1. Transcrição de trechos de obras
Trechos de até três linhas devem ser colocados entre aspas na sequência da frase.
Trechos de mais de três linhas devem vir sem aspas, destacados com um recuo e com
corpo 11.
Exemplos:
Numa bela passagem, Marx deixa isso claro, com uma metáfora poderosa: “o capital
é trabalho morto que só se vivifiva vampirescamente, sugando trabalho vivo”.1
Numa bela passagem, Marx deixa isso claro, com uma metáfora poderosa:
O capital tem um impulso vital peculiar, o impulso a se valorizar, a criar mais-
-valia, a sugar a maior massa possível de mais-trabalho com sua parte constante, os
meios de produção. O capital é trabalho morto que só se vivifiva vampirescamente,
sugando trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais deste sugar.2
2. Citação pelo sistema AUTOR-DATA
Crítica Marxista passou a adotar, a partir do número 30, um novo sistema de chamada
de citação e de referência. O sistema adotado é o AUTOR-DATA, por sua simplicidade
e economia de espaço. Além disso, este sistema tem sido o mais usual na área editorial.
O sistema autor-data consiste da indicação, no corpo do texto, do sobrenome do autor,
seguido da data da publicação do texto citado e/ou do número da página (se for citação
literal). As referências passam a ser relacionadas, em ordem alfabética, no final do
artigo. As notas de rodapé, indicadas por algarismos arábicos em ordem alfabética,
têm caráter explicativo.
A localização da citação no corpo do texto pode variar.
2.1 Quando o sobrenome do autor está inserido no texto, a data – entre parênteses,
seguida ou não do número de página – é inserida logo após o sobrenome.
Exemplo:
“Em sua enfática locução (Discurso sobre o livre comércio) proferida diante da
Associação Democrática de Bruxelas (entidade que aglutinava os liberais de
esquerda e os democratas europeus), Marx (1966) celebrou a revogação das Leis
dos Cereais (Corn Laws)”.
2.2 Quando não estiver inserido no texto, o sobrenome do autor, grafado em caixa alta,
e a data (e/ou do número da página) são colocados entre parênteses no final da frase.
Exemplo:
Ao enfocarmos esta concepção, perceberemos que a mesma época histórica, ca-
racterizada pela emergência das modernas relações contratuais, pela afirmação da
burguesia e pelo advento do Estado nacional, foi também responsável pelo nasci-
mento do proletariado, primeira classe da história “empiricamente universal, que
procede da história universal”, composta de “indivíduos diretamente vinculados
à história universal” (MARX e ENGELS, 1976, p.24).
2.3 Diferentes títulos do mesmo autor publicados no mesmo ano serão identificados
por uma letra após a data.

Crítica Marxista, n.30 • 169

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2.4 No caso de citações recuadas, o ponto final é colocado no final do texto citado,
antes da indicação da referência.
Exemplo:
O anexo A marca foi redigido com a intenção de difundir no partido socialista
alemão alguns conhecimentos básicos sobre a história do desenvolvimento da
propriedade da terra na Alemanha. Isto nos pareceu particularmente necessário
numa época em que extensas camadas de operários urbanos já estavam incorpo-
radas ao Partido e em que era preciso ganhar para a causa os operários agrícolas
e os camponeses. (ENGELS, 1954, p.9)
2.5 Para citações inseridas na sentença, o ponto deve ser colocado após a indicação
da referência.
Exemplo:
“O escritor Ernst Toller (ala esquerda do USPD), membro da República conselhista
da Baviera, disse com razão que com essa decisão ‘A República pronunciara sua
própria sentença de morte’ ” (TOLLER, 1990, p.83).

3. Referências bibliográficas
As referências bibliográficas devem ser completas e apresentadas no final do texto.
3.1 Referência de livros:
Indicar primeiro o SOBRENOME DO AUTOR, em caixa alta, depois o nome,
tudo por extenso, o título completo do livro em itálico e com maiúscula apenas na
primeira letra do título. Para o título de livros estrangeiros, usam-se as maiúsculas
de acordo com o original. Número da edição (caso não seja a primeira). Local da
publicação, nome da editora, ano da publicação. Se a edição não trouxer o ano
da publicação, usar a sigla SD. No caso de indicação de número de página, tal
deve vir depois do ano de publicação, usando apenas a letra p. como abreviação
de página ou de páginas.
Exemplo:
SAES, Décio. República do capital – capitalismo e processo político no Brasil.
São Paulo: Boitempo, 1999, 135p.
3.2 Referência de artigos:
3.2.1 Em coletânea: Indicar primeiro o SOBRENOME DO AUTOR, em caixa
alta, depois o nome, tudo por extenso, o título completo do artigo entre as-
pas e com maiúscula apenas na primeira letra. In: Nome e sobrenome do(s)
organizador(es) da coletânea, título completo da coletânea em itálico e com
maiúscula apenas na primeira letra. Número da edição (caso não seja a pri-
meira). Local da publicação, nome da editora, ano da publicação.
Exemplo:
GORENDER, Jacob. “Gênese e desenvolvimento do capitalismo no campo
brasileiro”. In: João Pedro Stédile (org.), A questão agrária hoje. 2.ed. Porto
Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1994.

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3.2.2 Em periódicos: Indicar primeiro o SOBRENOME DO AUTOR, em caixa alta,
depois o nome, tudo por extenso, o título completo do artigo entre aspas e
com maiúscula apenas na primeira letra. Nome do periódico em itálico, local
da publicação, editora, número do periódico, ano da publicação.
Exemplo:
JAMESON, Fredric. “Reificação e utopia na cultura de massa”. Crítica
Marxista, São Paulo, Brasiliense, n.1, 1994, p.1-25.

4. Notas de rodapé
As chamadas de notas no corpo do texto devem ser numeradas, inseridas dentro da
frase antes da pontuação e em sobrescrito. As notas de rodapé têm, como já afirmamos,
caráter explicativo. Não obstante, nas notas também poderão aparecer citações, as quais
deverão seguir o sistema AUTOR-DATA.

Crítica Marxista, n.30 • 171

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Assine a Revista Outubro!
A revista Outubro é publicada ininterruptamente desde 1998, ocupando
um lugar de destaque no pensamento marxista brasileiro. Suas principais ca-
racterísticas são a ênfase na reflexão crítica e inovadora acerca de problemá-
ticas atuais, o pluralismo no campo da pesquisa e uma abertura às diferentes
vertentes do marxismo.
Esse caráter permitiu que importantes intelectuais críticos, brasileiros e
estrangeiros, contribuíssem com a revista, tais como Álvaro Bianchi, Bob Jes-
sop, Daniel Bensaïd, Edmundo Fernandes Dias, Edward Said, François Ches-
nais, Guglielmo Carchedi, Hector Benoit, István Mészáros, John Holloway,
Marcelo Badaró Mattos, Michael Burawoy, Michael Löwy, Ricardo Antunes,
Riccardo Bellofiore, Robert Brenner, Roberto Leher, Ruy Braga e Virgínia
Fontes, dentre outros.

Os artigos publicados na revista Outubro são


indexados em Citas Latinoamericanas en Ciencias
Sociales y Humanidades (Clase), Sociological
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172 • Crítica Marxista, n.30

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Revista Outubro n.18 traz dossiê sobre a crise econômica mundial
A financeirização do capital e a crise (John Bellamy Foster)
A crise atual: uma perspectiva socialista (Leo Panitch e Sam Gindin)
Por que o setor bélico estadunidense tende a agravar os problemas da econo-
mia? (Gilson Dantas)
Crise e recomposição do sistema de dominação global dos Estados Unidos:
a nova ordem pan-americana (Luis Suárez Salazar)
Falsas promessas: neoliberalismo e reforma da habitação pública na América
do Norte, 1997-2007 (Sean Purdy)
(Neo)liberalismo: da ordem natural à ordem moral (Eleutério Prado)
A reconfiguração do movimento sindical no governo Lula (Andréia Galvão)
Intelectuais e política: observações acerca do transformismo nos escritos de
Antonio Gramsci (Anita Schlesener)

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NEW LEFT REVIEW, N. 61 JAN/FEB 2010

http://www.newleftreview.org/

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