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Revista Piauiense de História Social e do Trabalho. Ano III, n. 05. Julho-Dezembro de 2017.

Parnaíba-PI

ISSN 2447-7354
Alcebíades Costa Filho, Antônio Wallyson Silva & Enos Soares da Silva Neto

Sumário
Expediente .................................................................................. 03

Dossiê História Social, Trabalho e Cidade no Piauí:


LAVOURA DE ALIMENTOS EM ÁREA DE PECUÁRIA: mandio-
ca e cana de açúcar no Piauí entre 1900 e 1950.
Alcebíades Costa Filho; Antônio Wallyson Silva &
Enos Soares da Silva Neto ...................................................................... 04

A CONSTITUIÇÃO DA FAMÍLIA ESCRAVA NO PIAUÍ COLO-


NIAL: Escravidão na cidade de Oeiras do Piauí no século XVIII.
Gutiele Gonçalves dos Santos .................................................................. 16

DO TRABALHO FORÇADO AO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO:


reflexões sobre as condições de trabalho no ciclo da cera de carnaúba
no Piauí (1930-1990).
Hamanda Machado de Meneses Fontenele .............................................. 26

2 O JORNAL FRENTE POPULAR e o projeto de uma imprensa con-


tra-hegemônica no Piauí (1964).
Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa............................................. 37

ESPAÇO PRATICADO: desenvolvimento urbano de Teresina.


Matheus França dos Santos .................................................................... 48

O HABITAR POSSÍVEL: Arquitetura popular na “Parnahyba dos Po-


bres” (1900-1920).
Alexandre Wellington dos Santos Silva ................................................... 59

Resenhas:
Abelheiras: Trezentos anos de história.
Márcio Douglas de Carvalho e Silva........................................................ 67

Catingueiros da Borracha: Vida de maniçobeiro no sudeste do Piauí


1900-1960.
Denilson de Castro Pereira Santana ........................................................ 70

Parnaíba e o avesso da belle époque: cotidiano e pobreza (1930-1950).


Messias Araújo Cardozo ......................................................................... 72

ISSN 2447-7354
Revista Piauiense de História Social e do Trabalho. Ano III, n. 05. Julho-Dezembro de 2017. Parnaíba-PI

Expediente
A Revista Piauiense de História Social e do Trabalho é um periódico científico de
acesso livre e gratuito, de edição semestral, vinculado à plataforma Mundos do
Trabalho Piauí, e tem como objetivo facilitar e difundir investigações teóricas, pes-
quisas e resenhas que contenham análises, críticas e reflexões sobre o Mundo do
Trabalho (urbano e rural), com enfoque no Estado do Piauí, nas mais diversas tem-
poralidades e temáticas variadas, como: formação do mercado de trabalho, traba-
lho escravo, diversificação do mundo do trabalho, movimento operário, imprensa
operária, cultura operária, dentre outros, aceitando também colaborações com aná-
lises de outras realidades em localidades distintas.

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3
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Foto de capa:
“Fachada do estabelecimento commercial da Ourivesaria Franco, de Raymundo Pereira
Franco. FLORIANO - PIAUHY”. In: FOLGUEIRA, Manoel Rodrigues (Org.) Ál-
bum artístico comercial do Estado do Piauí. 2ª ed. Teresina: Fundação Cultural
Monsenhor Chaves, 1987. p. 112.

Revista Piauiense de História Social e do Trabalho - Parnaíba-PI


Julho/Dezembro de 2017. Ano 03, n° 05.
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Alcebíades Costa Filho, Antônio Wallyson Silva & Enos Soares da Silva Neto

LAVOURA DE ALIMENTOS EM ÁREA


DE PECUÁRIA: mandioca e cana de
açúcar no Piauí entre 1900 e 1950.
Alcebíades Costa Filho1, Antônio Wallyson Silva2 & Enos Soares da Silva Neto3

Resumo
A historiografia subestimou o papel da lavoura de alimentos no processo de forma-
ção da sociedade piauiense, valorizando a atividade de pecuária com base no reba-
nho de gado bovino. Documentos como o “Almanaque do Cariri” (1952), “Enci-
clopédia dos Municípios Brasileiros” (1959), “O Livro do Centenário de Parnaíba”
(1944), “O Piauí no Centenário de sua Independência: 1832 – 1923” (1923) “Cro-
nologia do Piauí Republicano: 1889- 1930” (1988) foram essenciais para a compo-
sição do texto. Desconstroem a imagem do Piauí vivendo exclusivamente da pecu-
ária, permitindo visualizar o papel do cultivo de alimentos, em especial da mandio-
ca e cana-de-açúcar, no contexto da economia piauiense, na primeira metade do
século XX.
4 Palavras chave: Lavoura de alimentos; Mandioca; Cana-de-açúcar.

Abstract
Historiography underestimated the role of food tillage in the process of formation of
Piauí society, promoting a livestock activity based on the cattle herd. Such docu-
ments as “Cariri Almanac” (1952), “Encyclopedia of Brazilian Municipalities
(1959)”, The Book of Parnaíba Centenary” (1944), “Piauí on the Centenary of its
Independence: 1832 - 1923” (1923) and “Chronology of the Republican Piauí:
1889-1930” (1988) were essential for a composition of the text. Such texts decons-
truct the image of Piauí as state that lives exclusively from livestock, allowing the
visualization of the role of food crops, especially manioc and sugarcane, without
the context of the Piauí economy in the first half of the 20th century.
Keywords: Food crops; Manioc; Sugar cane.

1
Professor Doutor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e da Universidade Estadual do Piauí
(UESPI). alcebiadescf@yahoo.com.br
2
Graduando do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Maranhão (UE-
MA). wallysonpoker@outlook.com
3
Graduando do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI),
aluno PIBIC. enosneto70@gmail.com

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Introdução econômicos, salientando Teresina como


No Piauí, passada a fase mais violen- a capital do Piauí. Os demais municí-
ta da ocupação, a cada curral levantado pios, apesar da menor influência política
correspondia uma roça com produtos e econômica, desenvolveram o cultivo
alimentares que geralmente abasteciam de alimentos.
os roceiros. Na primeira metade do sé- O foco da investigação é o cultivo da
culo XX, as roças de alimentos estavam mandioca e seus derivados, com desta-
bastante difundidas por todos os muni- que para a farinha, base da alimentação,
cípios do Piauí, os produtos mais culti- desde os tempos da colonização até bem
vados eram: mandioca, arroz, feijão, próximo do nosso tempo e, também, a
milho e cana de açúcar. Nosso olhar produção da cana de açúcar, de igual
investigativo se dirige para alguns mu- importância no contexto da alimentar
nicípios das mesorregiões centro-norte piauiense, mas esquecida pela historio-
piauiense e norte piauiense, para utilizar grafia econômica. Chama atenção à
categorias de espaço estabelecidas pelo importância da mandioca e da cana de
Instituto Brasileiro de Geografia e Esta- açúcar no contexto da alimentação pi-
tística-IBGE. As duas mesorregiões cor- auiense até meados do século passado.
respondem à área centro norte do Piauí, Os dois produtos foram cultivados em
considerada menos seca e mais fértil se quase todos os municípios e, até meados
comparada com as mesorregiões sudeste do século XX, parte da atividade indus-
piauiense e sudoeste piauiense mais cas- trial do Piauí estava voltada para o be-
tigadas pelas secas. neficiamento da mandioca e da cana.
A mesorregião centro-norte piauiense
compreende quatro microrregiões de-
No conjunto das fontes consultadas,
a “Enciclopédia dos Municípios Brasi- 5
nominadas: Campo Maior, Médio Pa- leiros” (1959) elaborada pelo IBGE, o
ranaíba Piauiense, Teresina e Valença “Almanaque do Cariri” (1952), edição
do Piauí, perfazendo um total de 60 dedicada ao centenário de Teresina, “O
municípios. Água Branca, Alto Longá, Livro do Centenário de Paranaíba”
Altos, Amarante, Angical do Piauí, Be- (1944), “O Piauí no centenário de sua
neditinos, Campo Maior, José de Frei- independência 1823-1923” (1923), vo-
tas, Luzilândia, Miguel Alves, Pedro II, lume IV, e a “Cronologia do Piauí Re-
Piripiri, Piracuruca, Porto, Regenera- publicano 1889/1930” (1988) foram
ção, São Pedro do Piauí, Teresina e essenciais para composição do texto.
União foram selecionados para observa- Não obstante as críticas negativas que se
ção. faça a esse tipo de fonte e as falhas
A mesorregião norte piauiense apontadas na enciclopédia do IBGE, o
abrange duas microrregiões: Baixo Par- conjunto permite um panorama da la-
naíba Piauiense e Litoral Piauiense, voura de alimentos no Piauí na primeira
totalizando 32 municípios. Foram sele- metade do século XX, bem como da
cionados apenas Barras, Batalha, Buriti atividade industrial, com riqueza de
dos Lopes e Paranaíba. No passado co- detalhes sobre práticas e técnicas de
lonial, Campo Maior e Parnaíba já se produção.
destacavam na vida econômica e políti-
ca do Piauí. Parnaíba se diferencia ain- O espaço
da como o município de maior movi- As mesorregiões centro-norte pi-
mentação econômica no litoral. Barras, auiense e norte piauiense são banhadas
Amarante e Teresina se evidenciam por muitos rios, alguns temporários,
como influentes polos urbanos e outros perenes, a exemplo do Canindé,

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Piauí, Berlengas, Longá, Marathaoan, área centro norte do Piauí, não é mais o
Surubim, Jenipapo, Camurupim, São prolongamento da estiagem, entre um
Miguel e Portinho. Em geral, com nas- período e outro de chuvas, agora são
cente localizada no Piauí, muitos cursos anos de chuvas escassas. A partir da
d’água secam durante os meses de ve- década de 1870 e seguintes, a questão
rão. Rios que tem nascente no vizinho esteve na pauta de debates dos poderes
estado do Ceará como o Poti, Pirangi e administrativos do Império e Republica.
Piracuruca, também atravessam a regi- Nas primeiras décadas do século XX se
ão e de alguma forma se interligam ao evidencia as mazelas da seca de 1915
conjunto das águas do Parnaíba, princi- que além da falta de chuvas, provocou
pal rio perene que atravessa o centro diminuição na produção de alimentos,
norte do Piauí, concorrendo para fertili- uma parcela da população foi atingida
zar a terra. A região possui várias lagoas pela fome e o quadro de miséria se
aproveitadas para a pesca e suas mar- agravou devido à migração dos estados
gens para o cultivo. Em Buriti dos Lo- vizinhos4, faltou água potável para as
pes se destaca a lagoa Grande do Buriti pessoas e animais. Junto com a seca a
que é atravessada pelo rio Longá e, se- perda do cultivo e a crise de abasteci-
gundo o Almanaque do Cariri1, nos mento.
anos de 1950 era possível encontrar às Na primeira metade do século passa-
suas margens “maravilhosos campos de do a região também foi castigada por
cultura” de arroz. enchentes. Na década de 1920, invernos
Períodos de verão e inverno se alter- rigorosos entre 1924 e 19265 ocasiona-

6 nam na região delimitada. Os meses


entre junho e dezembro correspondem
ram a cheia do Poti e do Paranaíba, que
invadiu áreas habitadas e cultivadas,
ao verão; de dezembro a maio equiva- causando danos à lavoura. No inverno,
lem ao período invernoso. Sobre as os rios temporários transbordam, e con-
condições climáticas de Campo Maior tribuem para a fertilização de suas mar-
ficou registrado na Enciclopédia dos gens, preparando a terra para as roças
Municípios Brasileiros2, “é temperado de vazante, predominantes na região
nos meses de maio, junho e julho e centro norte do Piauí. Entre 1900 e
quente e seco nos de agosto, setembro, 1950, é intensa a atividade de pesca nos
outubro e novembro. São igualmente de rios e lagoas. Os habitantes ribeirinhos
inverno os meses de dezembro, janeiro, pescavam com tarrafas, anzóis ou cons-
fevereiro, março e abril, nos quais faz truindo “currais” ao longo do curso dos
frio, ora calor. “ Através da descrição de rios. Pescavam piratinga, surubim, fi-
um técnico do Ministério da Agricultura dalgo, curimatá, branquinho, piranha,
sobre o regime de cultivo e colheita no mandubé, mandi, piau, entre outros,
município de Paranaíba, ficou caracteri- para consumo próprio e, também, para
zado que esse município tinha condi- comercialização6.
ções climáticas semelhantes a Campo Nos dias atuais, no período de inver-
Maior3. no, ainda é possível ver em vários tre-
A partir da segunda metade do sécu- chos desses rios, vegetação nativa, aves
lo XIX períodos de secas devastaram a silvestres e peixes. Como se não bastas-

1 4
Almanaque do Cariri, p. 590. Nascimento, 1988, p.189.
2 5
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, volume Nascimento, 1988, p.202-206.
6
XV, p. 456. O Piauí no centenário de sua independência,
3
O livro do centenário de Parnaíba, 1944, p. 111. 1923, p. 38, 74, 111.

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se a influência do clima alterando a re- dos entornos das vivendas e moradas,


gularidade desses rios, o desmatamento fruteiras de terreiros: mangueiras, tama-
das margens e assoreamento são pro- rineiros, goiabeiras, pitombeiras, umbu-
blemas reais que não sensibilizam as zeiros, laranjeiras, tangerineiras e caju-
autoridades responsáveis por políticas eiros eram os mais comuns. Havia tam-
de proteção ambiental. Os rios que atra- bém as frutas de roça, com destaque
vessam as sedes dos municípios servem para a melancia e melão.
de depósitos para o lixo doméstico; o A região abrange áreas pouco aciden-
Poti e o Paranaíba recebem os dejetos tadas com vegetação rasteira e árvores
da rede de esgoto ameaçando a saúde de pequena e média altura, que ao longo
dos rios e das pessoas que dependem de dos séculos serviu de lenha, principal
suas águas. Na primeira metade do sé- combustível nos domicílios do Piauí,
culo XX o Parnaíba esteve na pauta de também utilizada nas fornalhas de casas
discussão das autoridades do estado do de farinha, engenhos e olarias, o que
Piauí, tratava-se apenas de uma tímida contribuiu de maneira significativa para
política de proteção do rio para servir de a destruição da vegetação nativa. Nes-
via de escoamento de produtos. sas várzeas e chapadas viviam várias
Nas duas mesorregiões a vegetação espécies de insetos como abelhas. Se-
era diversificada; considerável a quanti- gundo o Almanaque do Cariri8, em me-
dade de madeira para construção. Na ados do século passado, no município
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros de Alto Longá predominava a abelha do
(p. 425) ficou registrado que o municí- tipo jandaíra, pelo grande número de
pio de Barras possuía “grandes matos
[...] cujas madeiras, em sua maior parte
enxames e pela quantidade e qualidade
do mel produzido. 7
são cedros e outros paus de constru- Uma rica fauna, cada vez mais pe-
ção”. Informação reforçada pelo Alma- queníssima, sofre com a agressão aos
naque do Cariri7 “quanto à flora [de rios e matas e pelo abate indiscrimina-
Barras] podemos dizer o mesmo com do. Se ao longo do século XIX animais
relação à variedade de produtos pró- dessa fauna foram abatidos para o con-
prios para a construção, marcenaria e sumo humano, através da atividade de
outros fins”. caça9, a partir da primeira metade do
Em Barras e, também, em Campo século passado essa pratica assumiu um
Maior, Batalha, Altos e Alto Longá caráter comercial, ocorrendo matança
predominavam várias espécies de pal- generalizada e desregrada de animais
meiras a exemplo da carnaúba, tucum, silvestres. Vivia na região centro norte
macaúba, babaçu e buriti. Em vários do Piauí várias espécies de gatos, onças,
trechos de “O Piauí no centenário de tatus, veados, porcos do mato (caititu,
sua independência” (1923) ficou regis- queixada) e macacos; também pequenos
trado a variedade de frutas silvestres, animais como pacas, cotias, mocós,
apesar da devastação da vegetação, ain- raposa; quantidade considerável de la-
da era possível encontra na mata: pequi, gartos, o camaleão é o mais conhecido,
jatobá, cajá, caju, cajuí, araticum, jeni- pela comercialização de sua pele; aves
papo, maria-preta, guabiraba, maracujá variadas: marrecas (verdadeira e viuvi-
do mato, puçá e até bacuri. Na primeira nha), garças brancas pequenas, araras,
metade do século passado algumas fru-
teiras estavam domesticadas e era parte 8
Almanaque do Cariri, p. 536.
9
O Piauí no centenário de sua independência,
7
Almanaque do Cariri, p.552. 1923, p. 175.

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papagaios e periquitos, jacus, juritis, XX dois grupos sociais estavam envol-


nambus; uma variedade de cobras, a vidos com o cultivo, os proprietários de
exemplo da jiboia, cuja pele foi larga- terra e o grupo dos lavradores. Os inte-
mente comercializada nesse período. grantes do primeiro grupo detinham a
O Almanaque do Cariri aponta um posse da terra, elemento fundamental
largo e movimentado mercado de peles na produção de víveres, possuíam tam-
silvestres no Piauí, o rio Paranaíba ser- bém os rebanhos de gado vacum. É vi-
viu de via de escoamento e a cidade de sível sua ascendência sobre os integran-
Paranaíba como receptor e distribuidor tes do outro grupo social.
do produto. Em alguns municípios era No segundo grupo se insere os pe-
uma prática comercial lucrativa, uma quenos proprietários de terra e os agre-
vez que a pele era vendida para outros gados ou moradores. No sistema da
estados e, também, para países da Eu- lavoura de alimentos, os pequenos pro-
ropa. Por não haver regulamentação, a prietários de terra, sem condições para
atividade era feita ao máximo, com beneficiamento da produção de suas
números que hoje nos parecem catastró- roças utilizam o “aviamento” e o enge-
ficos, a exemplo do mercado de peles de nho ou moenda do grande proprietário.
jiboia no município de Batalha, onde no Em decorrência da pequena quantidade
ano de 1952 foram vendidos 170 metros de moeda em circulação, pagava o uso
do couro da serpente10. do maquinário com farinha, aguardente
de cana e rapadura, contribuindo para
Lavoura de alimentos que o dono da terra acumulasse percen-

8 Entre os séculos XVIII e XX, a maio-


ria da população do Piauí dispensava
tual considerável em gêneros, muito
além de suas necessidades, com o passar
parte significativa do seu tempo traba- do tempo, esse excedente foi colocado
lhando na lavoura de alimentos. Não para comercialização. O pequeno pro-
obstante a larga experiência, na primei- prietário cultivava o roçado com auxílio
ra metade do século passado era desola- da família, igualmente ao agregado ou
dor o quadro relativo a esse tipo de cul- morador da grande propriedade.
tivo. A figura do morador ou agregado
aproxima-se da definição do verbete
A agricultura de subsistência é predominan- “morador” que consta no “Dicionário
temente é realizada por pequenos proprietá- do Brasil Colonial”: pessoa de condição
rios [sic], que não possuem terras próprias, social inferior, quase sempre habitando
utilizam sistema primitivo de roça, não dis- em terras ou casas “de favor” ou pagan-
põem de créditos ou qualquer mecanismo de do certa quantia ou, ainda, prestando
financiamento da produção e vivem em situ- serviços aos proprietários12. No Piauí, o
ação de extrema pobreza11. agregado ocupava a terra com a autori-
zação do dono. Instalado na área da
Como se observa a atividade de cul- fazenda, construía a moradia e a roça e,
tivo de alimentos era predominante. Em sem ônus, criava aves, bodes, carneiros
relação à afirmação de que o cultivo era e porcos. Cultivava a roça com a famí-
realizado “por pequenos proprietários, lia, que em alguns casos abrangia outras
que não possuem terra própria”, consta- famílias constituídas por filhos, irmãos,
tou-se que na primeira metade do século cunhados, sobrinhos do agregado. Cal-
cula-se que nos limites de uma grande
10
Almanaque do Cariri, 1952, p.563.
11 12
Nascimento, 1988, p. 187. Vainfas, 2000, p.409.

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propriedade havia vários roçados, cada da, até que a vegetação alta não seja mais
morador ou agregado construía sua possível e os arbustos e a vegetação raquítica
própria roça e, dependendo do número proclamem a aridez e esterilidade da terra14.
de pessoas, pagando em produto e ser-
viço o uso da terra. Como se observa, a técnica de cultivo
A roça é a unidade de produção. Na era antiga e habitual utilizavam de ins-
primeira metade do século passado, na trumentos como enxadas, foices, ma-
região centro norte do Piauí, pela quan- chados, facões e outros. Como a técnica
tidade de rios fertilizando a terra, era de cultivo, os produtos cultivados eram
comum as vazantes e as roças de brejo, os mesmos das épocas mais remotas,
aproveitando os “baixios (alagadiços) invariavelmente, repetindo-se entre os
que se prestam admiravelmente à cultu- municípios. Nas mesorregiões centro-
ra do arroz e da cana de açúcar”13. As norte e norte do Piauí, cultivavam fei-
roças tiveram papel fundamental na jão, milho, arroz, mandioca e cana-de-
vida da população piauiense da primei- açúcar, cultivo consorciado. Embora se
ra metade do século XX, era de onde a tenha notícia de roças exclusivamente
população retirava o mantimento neces- de mandioca ou cana. Na década de
sário para a sua subsistência. Há um 1920, na mesorregião centro norte do
depoimento interessante sobre a lavoura Piauí, o pequeno município de São Pe-
de mantimentos, relativo ao município dro do Piauí era considerado o celeiro
de Miguel Alves. da microrregião do médio Paranaíba,
pela abundante produção de arroz, mi-
A agricultura pode dizer-se a principal indús-
tria do município... É ainda a lavoura exten-
lho, mandioca, feijão e fava15. Na déca-
da de 1950, em Barras do Maratahoan 9
siva, da foice, do machado e da enxada, - “a mandioca, o arroz, o feijão, o milho,
serviço muito primitivo, mas, ao que parece, a batata [...] a cana de açúcar e outros
destinado a perdurar ainda por dilatados produtos agrícolas são abundantes, sa-
tempos. tisfazendo plenamente as necessidades
De maquinas agrícolas só conhecemos, no de sua população e dos demais municí-
município, dois arados, um descaroçador, pios do norte do Estado, para onde são
uma grade e uma semeadeira... vendidos em grande partida”16.
O agricultor, sem descortino e atado (...) as Da produção agrícola, só o milho e
suas tradições rotineiras, não compreende feijão eram vendidos “in natura”, embo-
lavoura que não seja pela tremenda devasta- ra se tenha informação da transforma-
ção das derribadas anuais. ção do milho e do arroz em fubá. O ar-
E, assim, a foice, o machado e em seguida o roz antes de ser vendido, passava pelo
fogo, na sucessão dos anos, vão exercendo o processo de despolpamento, que consis-
seu terrível destino destruidor das matas, que te em tirar o grão da casca que o envol-
extinguem pelo empobrecimento das terras ve. A produção de cana-de-açúcar e
repetidamente encapoeiradas. mandioca, geralmente, era processada e
A natureza luxuriante e viçosa desta região comercializada na forma de novos pro-
tropical refaz com rapidez as capoeiras e dutos: farinha, tapioca, aguardente, ra-
queimadas, mas acontece que estas se suce-
dem, sem ordem, sem disciplina, sem previ- 14
dência, nos mesmos lugares mal refeitos ain- O Piauí no centenário de sua independência,
1923, p. 39-40.
15
O Piauí no centenário de sua independência,
13
O Piauí no centenário de sua independência, 1923, p. 39-40.
16
1923, p. 19. Almanaque do Cariri, p. 552.

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padura, mel de cana, entre outros pro- O interesse em investigar sobre a


dutos. produção de cana de açúcar no Piauí,
O cultivo de abóboras e batata doce e área tradicionalmente relacionada à
favas e frutos de roça, também o cultivo pecuária, partiu de alguns estudos sobre
de maxixe e quiabo introduzem itens o produto em regiões fora do circuito da
diferenciados nesse rígido repertorio de grande produção de cana e açúcar, a
gêneros alimentícios, que determinou exemplo do Ceará. Na Paraíba, também
hábitos alimentares dos piauienses até tem estudos sobre pequenos engenhos
bem pouco tempo. Cultivavam também produtores de aguardente de cana e ra-
frutos, a exemplo de Amarante, cidade padura. No caso do Piauí, o cultivo de
que, “abastece [de abacate, abacaxi, cana data do início do século XIX19. Em
banana, laranja, manga, entre outras] meados do século passado este cultivo
aos mercados da margem do Parnaíba e estava disseminado por quase todos os
da própria Teresina”17. Mas, em “O municípios do estado, é o que se obser-
Piauí no centenário de sua independên- va através das fontes consultadas.
cia” ficou registrado o cultivo de frutas Examinando os municípios localiza-
em Piracuruca, Teresina e Valença, a dos na região centro norte do Piauí:
exemplo do mamão, limão, lima e lima Água Branca, Alto Longá, Altos, Ama-
da pérsia. rante, Angical do Piauí, Barras, Batalha,
Na primeira metade do século XX, o Beneditinos, Buriti dos Lopes, Campo
cultivo desses produtos atendia as ne- Maior, José de Freitas, Luzilândia, Mi-
cessidades de consumo do produtor e guel Alves, Paranaíba, Pedro II, Piripiri,

10 ainda gerava excedente que era comer-


cializado. O que incrementou as feiras
Piracuruca, Porto, Regeneração, São
Pedro do Piauí, Teresina e União, ob-
semanais. No dia de feira, a cidade fica- servamos a presença da cana de açúcar
va bastante movimentada, cheia de car- em todos. Para alguns municípios ficou
gas e animais que transportava os pro- registrado o cultivo, para outros o ape-
dutos, em geral utilizavam jumentos ou nas a existência de engenhos sem refe-
burros, animais de grande resistência às rência ao cultivo e ainda outros apenas
intemperes do clima e as longas distân- o registro da produção de rapadura e
cias. No município de Teresina existiam aguardente de cana em dois anos da
duas feiras: década de 1950. Contudo, não restam
dúvidas de que entre 1900 e 1950 a cana
Uma no Periquito e outra na Boquinha, que era largamente cultivada, processada e
atraem, uma vez por semana, aos domingos, seus derivados comercializados no Pi-
muitas pessoas que vão fazer seus negócios e auí.
comprar o necessário para o passadio da se- Os engenhos estão distribuídos pelo
mana. Há também uma grande feira na interior dos municípios. Como se obser-
Nazária, onde são feitos negócios de alguma va no quadro 01, com informações so-
importância de compra e venda de gêneros de bre engenhos instalados, relativas às
exportação18. décadas de 1920 e 1950, nos seguintes
municípios.
Cana de açúcar: engenhos de rapadura e
alambiques de aguardente de cana

17
Almanaque do Cariri p.546.
18
O Piauí no centenário de sua independência,
19
1923, p. 261. Costa, 1974, p. 211.

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Quadro 01: Informações sobre engenhos na região Consideramos que esta informação se
centro norte do Piauí
refere à mesma usina da década de
1920.23
Mas a maior parte da produção de
cana era processada em pequenos enge-
nhos. A técnica de fabricação é também
muito antiga como se observa na cita-
ção abaixo.
Fonte: O Piauí no centenário de sua independência;
Almanaque do Cariri. A fabricação de rapaduras é feita pelos roti-
neiros processos ensinados pelos jesuítas do
No Piauí da primeira metade do sé- século XVI; moída a cana em toscos “enge-
culo passado, engenho é moenda, pe- nhos” de madeira, puxados pelos bois, dei-
quena máquina de madeira ou ferro xando no “bagaço” pelo menos 30% da saca-
para moer a cana, movida à tração ani- rina, vai o caldo para o fogo em tachos de
mal ou a força d’agua, como ficou o cobre, saindo com muitas impurezas, e ainda
registro em oito dos municípios em aná- em estado liquido, para uma gamela d’onde
lise. Embora não conste dados sobre vai para a forma. Para o fabrico da aguar-
engenhos em Parnaíba, ficou registrado dente usam “alambique” de cobre. “A fabri-
que nesse município os gêneros da cul- cação do açúcar não se conhece”24.
tura agrária também são os mesmos dos
outros municípios: cana, arroz, feijão, A produção nos municípios analisa-
milho, mandioca, gergelim, aipim, bata-
ta20. Em “O livro do centenário de Pa-
dos é basicamente de rapadura e aguar-
dente, mas também Regeneração fabri- 11
ranaíba” consta que a cana de açúcar cava açúcar, igualmente a Teresina e
constitui importante lavoura nas ilhas Parnaíba25. Vejamos o quadro 02, sobre
do delta21. E que nessa época havia uma a produção de rapadura e aguardente de
fábrica de açúcar no município. cana no Piauí em meados do século
A ausência de dados sobre Teresina passado.
não implica que não houvesse cultivo e
beneficiamento de cana no município.
Nos anos de 1920 esteva em funciona-
mento uma usina açucareira no sitio
Santa Anna de propriedade de Gil Mar-
tins Gomes Ferreira22. Segundo a “En-
ciclopédia dos municípios brasileiros”,
na década de 1950, no município de
Teresina estava em funcionamento uma
usina de produção de açúcar, “denomi-
nada Usina Santana, situada a 23 qui-
lômetros da capital, recentemente recu-
perada e aumentada consideravelmente
à área de plantio de cana-de-açúcar”.
23
Enciclopédia dos municípios brasileiros, 1959, p.
20
O Piauí no centenário de sua independência, 640.
24
1923, p. 74. O Piauí no centenário de sua independência,
21
O livro do centenário de Parnaíba, 1944, p. 110. 1923, p. 290.
22 25
O Piauí no centenário de sua independência, O Piauí no centenário de sua independência,
1923, p. 26. 1923, verbete Regeneração.

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Alcebíades Costa Filho, Antônio Wallyson Silva & Enos Soares da Silva Neto

Quadro 02 vram nem criam. [...] E não comem


senão deste inhame, de que aqui há
muito, e dessas sementes e frutos que a
terra e as árvores de si deitam”26. A refe-
rência ao “inhame” trata-se da própria
mandioca, já que o inhame propriamen-
te dito é um tubérculo de origem Afri-
cana, que aparentemente lembra a bata-
ta e a mandioca.
Durante séculos, a mandioca e seus
produtos finais, principalmente a fari-
nha, constituíram-se importantes ingre-
dientes da alimentação no Brasil, desta-
cando-se como principal produto ali-
mentício das populações nativas.

Pelas qualidades nutritivas da farinha, adap-


tabilidade da sua cultura a qualquer terreno
Fonte: Almanaque do Cariri; Enciclopédia dos municí-
e excepcional rusticidade, a mandioca, intro-
pios brasileiros duzida pela tradição indígena, foi universal-
mente adotada pela colonização como gênero
Consideramos exagerados alguns da- básico de alimentação; e assim se perpetuou
12 dos do quadro 02, certamente o uso de
fontes seriadas, com números mais con-
até nossos dias. É certamente a maior contri-
buição que nos trouxe a cultura indígena27.
fiáveis, confrontem os dados apresenta-
dos aqui. Contudo, nosso objetivo é Por sua durabilidade, sabor agradável
registrar o cultivo de cana na região cen- e grande poder de satisfazer a fome,
tro norte do Piauí, na primeira metade rapidamente foi incorporada à logística
do século passado, o que ficou caracte- da navegação, sendo o principal alimen-
rizado com os dados do quadro 01 e to nas embarcações, que percorriam a
quadro 02. Estranho é que a partir da América, até mesmo nos porões de na-
década de 1970, o cultivo de cana de vios negreiros, satisfazendo os escravos
açúcar deixou de constar na pauta de que vinham da África para a colônia.
atividade de produção da maioria dos Nesse ponto é possível identificar a di-
municípios do estado, de modo que hoje mensão que a farinha brasileira conquis-
não se fala sobre esses pequenos enge- tou, tornando-se um produto interconti-
nhos produtores de rapadura e aguar- nental, já que transpassava o oceano28.
dente. O que aconteceu com os esses A farinha, segundo adágio popular
pequenos estabelecimentos? “aumenta o que é pouco, esfria o que é
quente e engrossa o que é ralo”, atual-
Mandioca, o pão nosso de cada dia: mente, podemos encontrar o produto de
Casas de farinha várias tipos, cores e sabores, apresen-
As raízes da mandioca constituem tando uma forma diferente de ser con-
uma das bases da alimentação humana sumida em cada região do país. O pe-
e animal no Brasil antes mesmo da co-
lonização, conforme descrito na carta 26
Cortesão, 2003, p.41.
de Pero Vaz de Caminha “eles não la- 27
Prado Jr., 1986, p.165-166
28
Rodrigues, 2017, p. 69-95.

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neiramento é o processo que classifica a admirar. Somente no município de Re-


farinha, a fina é a que passa pelas penei- generação eram 232 casas de farinha e
ras e a grossa a que fica retida. No pro- em Luzilândia eram 136.
cesso de torragem podem ser adiciona- Como forma de conclusão, obser-
dos corantes que define cores diferenci- vando os municípios de maior represen-
adas. tação política e econômica na região
Assim como em todo território brasi- centro norte do Piauí, verificou-se que,
leiro, o Piauí seguia a tendência nacio- na primeira metade do século XX, a
nal do primeiro quartel do século XX no lavoura de alimentos era basicamente
tocante às produções agrícolas, produ- constituída de arroz, feijão, milho,
zindo arroz, feijão, milho, cana de açú- mandioca e cana de açúcar. Inicialmen-
car e mandioca. Segundo o Almanaque te esta produção era para autoconsumo
do Cariri, havia no estado muitas casas dos produtores, posteriormente, parte
destinadas ao beneficiamento da raiz de da produção foi destinada a comerciali-
mandioca, seja para a produção de fari- zação. A mandioca e a cana de açúcar
nhas, seja para o polvilho e outros. No por seus derivados e alta procura no
Piauí, no período entre 1950 e 1952, a mercado ganharam um destaque em
produção dos derivados da mandioca relação aos demais produtos. O cultivo
alcançava números altíssimos, o que desses dois produtos estava disseminado
revela a grande procura e consumo dos por quase todos os municípios do Piauí,
produtos. na primeira metade do século passado.
A pratica da “moagem da cana”
para produção de rapadura e aguardente
13
Quadro 03: Produção de derivados da mandioca no
Piauí 1950/1952
acontecia através de pequenos e rústicos
engenhos, assim como a “desmancha da
mandioca”, usavam o aviamento e as
casa de farinha, essa forma de produção
perdurou para além da década de 1960.
Contudo, nesse início de século XXI
pouco resta dessas atividades. A produ-
ção sumiu quando a lavoura de alimen-
tos foi desativada no meio rural, sufo-
cada pelo agronegócio? A produção
declinou dado o desinteresse do merca-
Fonte: Almanaque do Cariri do por produtos como farinha, rapadura
e aguardente de cana? São respostas que
Dos municípios analisados, Altos li- ainda carecem de investigação.
dera o ranking de maior produção al-
cançando 2.415.200 quilos de farinha Bibliografia
no ano de 195129, outro município que ALMANAQUE DO CARIRI. Edição
também impressiona pela larga produ- especial dedicada ao estado do Piauí,
ção é Piripiri, que no mesmo ano pro- em homenagem a sua capital, pela pas-
duziu 920.855 quilos de farinha30. A sagem do seu primeiro centenário, 1952.
quantidade de casas de farinha, assim ALMANAQUE DA PARNAIBA. Li-
como os números da produção, é de se vro do Centenário de Parnaíba. Parna-
íba, 1944.
29
Almanaque do Cariri, p.540 – 541. AMORIM, Annibal. Viagens pelo Bra-
30
Almanaque do Cariri, p.838 – 839. sil. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, s.d.

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Alcebíades Costa Filho, Antônio Wallyson Silva & Enos Soares da Silva Neto

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ISSN 2447-7354
Gutiele Gonçalves dos Santos

A CONSTITUIÇÃO DA FAMÍLIA
ESCRAVA NO PIAUÍ COLONIAL:
Escravidão na cidade de Oeiras
do Piauí no século XVIII
Gutiele Gonçalves dos Santos1

Resumo
Este artigo busca compreender a escravidão, africana e mestiça, na capitania de São
José do Piauí tendo como base documental os registros de batismos e de casamen-
tos da freguesia de Nossa Senhora da Vitória da cidade de Oeiras durante os anos
de 1760-1800. Para tanto, observaremos aspectos como a demografia escrava, as
etnias africanas, a constituição da família escrava e as dinâmicas e conexões exis-
tentes entre a África e o Maranhão Colonial, espaço jurídico-administrativo portu-
guês no qual se inseria a capitania do Piauí.
Palavras-chave: Escravidão, Fontes paroquiais, Família escrava.

16 Abstract
This article aims understand slavery, African and mestizo, in the captaincy of São
José do Piauí having as evidence base baptisms records and weddings of Our Lady
parish Victory City Oeiras during years of 1760-1800. Therefore, we will see things
like the slave demographics, African ethnic groups, the establishment of a slave
family and the dynamics and connections between Africa and Maranhao Colonial,
legal and administrative space in which Portuguese was part the captaincy of Piaui.
Keywords: Slavery, Parochial sources, Slave Family.

1
Graduanda em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Piauí – Campus Senador Helvídio
Nunes de Barros, e integrante do NUPEDOCH – Núcleo de Pesquisa e Documentação em História e bol-
sista no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC. E-mail: gutielegoncal-
ves12@gmail.com

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Introdução ções, exerciam as mesmas atividades,


Neste artigo busco salientar discus- como as de vaqueiros e desbravador de
sões no que tange às relações escravistas caminhos que conectavam o Piauí aos
no Piauí, apoiada principalmente em mercados de carne da Bahia e Pernam-
novos dados referentes ao contingente buco.
de escravos africanos no interior da ca- Em meio à escravidão, africanos,
pitania de São José do Piauí, durante a mestiços e indígenas construiriam inte-
segunda metade do século XVIII, suge- rações sociais, resultando daí a incorpo-
rindo, com isso, hipóteses investigativas ração e trocas culturais entre as várias
e caminhos a trilhar no campo da histó- Áfricas e os nativos da América. Duran-
ria da escravidão em zonas produtoras te o final do século XVIII e início do
de gado vacum e cavalar1. O diferencial século XIX, o percentual de escravos
do presente trabalho é exatamente em africanos e seus descendentes cresce
dialogar com fontes paroquiais encon- vertiginosamente no Piauí. Entre as do-
tradas no Arquivo da Diocese de Nossa cumentações de batismos e casamentos
Senhora da Vitória, localizado cidade desse mesmo período nas fazendas pú-
de Oeiras do Piauí. blicas e privadas do Piauí foram encon-
Entre os documentos, encontramos trados grupos étnicos de diversas proce-
registros de batismos e de casamentos dências africanas, como Jejes, Minas,
de homens livres, escravos e indígenas, Congo, Ganguela [Benguela], Cacheu,
o que permite ao historiador elucidar Rebolo, Moçambique e Umbaca2.
aspectos importantes daquela sociedade, Quando não eram classificados por tra-
tais como as constituições familiares dos
negros, africanos e mestiços, os laços de
ços étnicos, os registros apenas os de-
nominam como “gentios da Guiné”, 17
compadrio instituído no interior e fora não evidenciando o seu traço étnico,
das fazendas, às origens étnicas dos afri- mas os colocando no rol dos escravos de
canos escravizados e a demografia es- procedência africana.
crava das fazendas, visto que esses regis- Em relação ao número de habitantes,
tros são um dos poucos documentos um documento do Arquivo Público
pelos quais podemos ter acesso ao nú- acerca da capitania do Piauí do ano de
mero aproximado dos moradores das 17623, mostra um resumo de todas as
fazendas publicas e privadas da capita- pessoas livres, cativas, fogos e fazendas
nia do Piauí. das cidades, vilas e sertões da capitania,
Ao consultar a documentação ecle-
siástica da freguesia de Nossa Senhora 2
Sobre o tráfico de escravos para o Norte do Bra-
da Vitória, assim como outros docu- sil, ver BARROSO JUNIOR, Reinaldo. Nas rotas do
mentos do período, percebemos que os Atlântico Equatorial: tráfico de escravos riziculto-
“negros da terra” (índios) e os “negros res da Alta-Guiné para o Maranhão (1770-1800).
da África” dividiram, por muito tempo, Salvador: UFBA, Dissertação de Mestrado, 2009.
ALENCASTRO, Luís Felipe de. O Trato dos viventes.
o mesmo mundo de trabalho no ambi- A formação do Brasil no atlântico Sul. São Paulo:
ente das fazendas e, em muitas situa- Companhia das Letras, 2000. FALCI, M. B. K. ;
MARCONDES, R. L. “ Escravidão e reprodução no
1
Este artigo nasce como parte do projeto de ex- Piauí: Teresina (1875)” . Revista do Instituto Histó-
tensão NUPEDOCH - Núcleo de Pesquisa e Docu- rico e Geográfico Brasileiro, v. 430, p. 53-68, 2006.
3
mentação em História que disponibiliza um espa- Arquivo Público do Estado do Piauí – APEPI.
ço para realização de atividades e pesquisas pos- Série: Município/ Subsérie: Oeiras/ Anos: 1752-59
sibilitando o acesso a documentos eclesiásticos, – 1764-65-66-67-69-70-72-73-74-75-76-77-78-79
contribuindo e incentivando a pesquisa em diver- – 1780-81-82-83-84-85-86-87-88-89 – 1790-1799-
sas áreas do campo historiográfico. 1869. Caixa 97.

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Gutiele Gonçalves dos Santos

feito pela relação de desobriga do dito Mappa das cidades, vilas, lugares e freguezias das capi-
tanias do Maranhão e Piauhy: com o numero em geral
ano. No que se refere à cidade de Oei- os abitantes das ditas capitani-as... [S.l.: s.n.], 1787. 1
ras, o rol de desobriga seria entregue mapa ms., desenho a tinta nanquim, 62 x 48.
pelo vigário Dionísio José de Aguiar
onde informava ter averiguado: 324 fo-
gos; 169 fazendas 1411 pessoas livres e
1084 ditas cativas. A desobriga era o
meio utilizado pelos religiosos para ba-
tizar as pessoas em lugares onde não
havia igrejas e padres residentes, assim
os religiosos saiam em direção aos ser-
tões e batizavam nas casas, fazendas e
capelas. A desobriga, além de possibili-
tar a proximidade dos súbitos e demais
colonos com as regras da cristandade,
funcionava também como um meio efi-
ciente dos religiosos conhecerem os di- Fonte: <goo.gl/kf48JM>. Acesso em: 01 nov. 2016.
versos lugares da colônia.
No final do século XVIII de acordo Pelos registros de batismos e de ca-
com o mapa abaixo, produzido em 1787 samentos também nos é possível traçar
por José Teles da Silva, Governador do genealogias de famílias escravas, obser-
Maranhão e Piauí, tem o intuito de var as regras, as constituições de redes

18 quantificar o número de habitantes de


ambos os sexos entre livres, índios e
familiares entre escravos e perceber a
presença de tradições culturais e
escravos referentes à Capitania do Piauí re/criações étnicas próprias desses es-
e a Capitania do Maranhão com infor- cravos, uma espécie de herança africana
mações sobre as referidas povoações e que veio para o Brasil e que nunca dei-
suas distâncias até a capital, destaca xou de habitá-los4. De acordo com Ro-
ainda a quantidade de homens que são bert Slenes, a família cativa no contexto
capazes de pegar em armas entre estão das zonas produtoras de café foi uma
brancos, escravos, índios e mulatos, incubadora de identidades fortemente
além de notícias sobre os mortos e nas- marcadas por uma cultura centro-
cidos em cada lugar permitindo o co- africana compartilhada.5 Apesar das
nhecimento do aumento da população distâncias geográficas encontradas atra-
desde a data de 13 de fevereiro de 1784
até 17 de dezembro 1787 período em 4
Ver TORNTON, John. A África e os Africanos na
que José Teles da Silva governou. formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro:
No que se refere à capitania do Piauí, Campus, 2001; PRICE, Richard & MINTZ, Sidney. O
na cidade de Oeiras havia um total de nascimento da cultura Afro-Americana. Rio de
Janeiro. Ed. Pallas. 2005. SWEET, James H. Recriar
7.282 habitantes, segundo lugar da capi-
África: cultura, parentesco e religião no mundo
tania do Piauí com o maior número de afro- português (1441-1770). Lisboa, Portugal:
habitantes, perdendo apenas para Cam- EDIÇÕES 70, 2007. SLENES, Robert. Malungo,
po Maior que tinha 9.052 habitantes. N’agona vem!‟: África encoberta e descoberta no
Em toda a capitania do Piauí segundo Brasil. Luanda: Cadernos Museu Escravatu-
os dados do mapa havia 37.044 habitan- ra/Ministério da Cultura, 1995.
5
tes entre escravos, mulatos, índios, pre- SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: espe-
tos forros e homens brancos. ranças e recordações na formação da família es-
crava: Brasil Sudeste, século XIX. Editora Nova
Fronteira, 1999.

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vés do tráfico negreiro, isso não seria escravos e que muitas vezes não eram
um impedimento para que a cultura brancos,9 em um dos registros de batis-
africana se disseminasse no Brasil6. mos a fala de Reis pode ser reafirmada:
Para Paul Gilroy, o “atlântico negro”
seria não só palco das circulações de Aos cinco dias do mês de agosto de mil sete-
mercadorias, de um lado a outro dos centos e noventa e um anos nesta igreja ma-
três continentes, mas também um agen- triz de Nossa Senhora da Vitoria da cidade
te demarcador de uma nova identidade de Oeiras do Piauí bispado do Maranhão
cultural, inscritas por escravos ladinos batizou solenemente e pus os santos óleos de
que preservariam e, em alguns casos, licença minha o padre Mathias da Costa
remodelariam tradições culturais do Pereira a preta Maria de nação umbaca de
sujeito moderno7. Porém essa cultura e idade de vinte anos pouco mais ou menos
costumes africanos não seriam trazidos escrava da preta Antônia Vieira [grifo meu]
intactos para o novo mundo. Para Sid- moradora nesta cidade foram padrinhos Bal-
ney W. Mintz e Richard Price, não há tazar dos Reis Pinto Casado e Liandra e
como afirmar a existência de uma Maria Solteira todos moradores nesta mesma
transposição da cultura africana para as cidade do que para constar fiz esse assento e
Américas sem a mesma fosse contami- assino.10
nada por outras culturas.
Vale ressaltar que relatos como esse
Nenhum grupo, por mais bem equipado que não amenizam as dificuldades que se
esteja, ou por maior que seja sua liberdade de tinha em viver em um sistema escravis-
escolha, é capaz de transmitir de um local
para outro, intactos, o seu estilo de vida e as
ta, apenas devolve ao escravismo sua
historicidade construída por agentes 19
crenças e valores que lhe são concomitantes. sociais múltiplos, entre eles senhores e
As condições dessa transposição, bem como escravos, esclarecendo-nos fontes co-
as características do meio humano e material munitárias de resistência frente à escra-
que a acolhe, restringem, inevitavelmente, a vidão11.
variedade e a força das transposições eficazes.
(MINTZ e PRICE 1992, p.19) Imposição dos Santos Óleos: Batismos de
escravos na cidade de Oeiras.
O universo escravo era bem mais Para Miridan Brito, autora de Escra-
complexo e diversificado do que antigas vos do Sertão, a introdução da escravaria
analises permitem vislumbrar8. A escra- no Piauí foi cercada por rituais de legi-
vidão se disseminou de tal modo que timidade de posse, indo do batismo – o
não só apenas eram donos de escravos tempo de surgir e nascer do escravo - até
os grandes proprietários de terras, onde a sua completa subordinação ao mundo
brancos escravizavam negros. Como do trabalho e dos ditames do senhor.
afirma o historiador João José Reis à Fazendo-nos pensar na importância do
escravidão estava amplamente dissemi-
nada por todo tecido social por que ha- 9
WEB TV UFBA. 721. CONECTA - A escravidão no
via proprietários de um, dois ou três Brasil e seus reflexos, por João José Reis. Disponí-
vel em: <goo.gl/evLq3C>. Acesso em: 01/10/2015.
6 10
DE CASTRO FARIA, Sheila. A colônia em movi- Registros de Batismos 1760-1790. Arquivo da
mento: fortuna e família no cotidiano colonial. Arquidiocese de Oeiras.
11
Editora Nova Fronteira, 1998. SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: espe-
7
GILROY, Paul. Atlântico negro, O. Editora 34, ranças e recordações na formação da família es-
2001. crava: Brasil Sudeste, século XIX. Editora Nova
8
Id.Ibidem. Fronteira, 1999.

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Gutiele Gonçalves dos Santos

“ser escravo no Piauí” e sua relação tural do escravo e dos africanos de dife-
com a estrutura política, econômica e rentes origens/etnias trazidos pelo tráfi-
religiosa local, cabia à igreja católica co, compreendendo sua vida na socie-
registrar tais rituais com o objetivo de dade escravista brasileira. A partir de
sacramentar o parentesco espiritual en- uma analise preliminar realizada em
tre batizados e batizandos. Apesar de vinte registros de batismos, pode-se
existir certa padronização dos registros compreender as principais característi-
de batismos as informações registradas cas e informações contidas nesses do-
nos ajudam juntamente com o auxilio cumentos paroquiais da cidade de Oei-
de outras fontes compreender uma soci- ras do período que vai de 1773-1801.
edade de um determinado período.
Além disso, é perceptível o esforço Gráfico 01: Informações dos registros de batismos,
Oeiras, 1773-1801
empreendido pela igreja católica junta-
mente com a Coroa Portuguesa de
normatizar e controlar a sociedade atra-
vés do batismo visto que visavam afas-
tar os costumes vindo da África consi-
derados inferiores reafirmando o sacra-
mento do batismo como primordial na
vida cristã.
As informações disponibilizadas nos Fonte: Registros de batismos - Arquivo da Arquidiocese
de Oeiras.
registros de batismo da freguesia de
20 Nossa Senhora da Vitória o documento
básico sempre consta local e data da Nos registros analisados consta o
realização do sacramento, nome do ce- nome de quarenta e dois escravos dentre
lebrante, nome do batizando e de seus pais, padrinhos e batizandos, vinte e um
pais e padrinhos, onde moravam e o escravos são do sexo masculino e vinte
nome do proprietário do escravo (a) que e um do sexo feminino, dentre eles pre-
estava sendo batizado. tos, crioulos e africanos. Os escravos
Os registros de batismos eram o úni- africanos são de etnias diversas como
co meio visto pelos senhores de escravos Angola, Mina, Jejes, Gentio da Guiné e
para comprovar que os nascidos em Umbaca. Em relação aos locais dos ba-
seus planteis eram efetivamente seus, tismos a maioria foram realizados em
uma vez que o inocente nascido de uma fazendas, o restante foram realizados na
escrava não havia nem um registro de Matriz de Nossa Senhora da Vitória, e
posse [matricula], pois, não tinha ocor- alguns em capelas da região. Consta o
rido uma transação comercial, além nome de quinze donos de escravos,
disso, segundo Faria o batismo signifi- além daqueles que possuíam a Real Ins-
cava a comprovação de ser a pessoa peção de Nazaré, Canindé e Piauí. Sete
filhos dos pais e da terra alegado12. batizados foram de filhos naturais e on-
Estas novas fontes documentais a ze foi o número de batizados que não
exemplo dos registros de batismos, pos- constam os nomes dos pais. Em um dos
sibilita-nos enxergar a humanidade cul- batismos os padrinhos eram um casal de
índios, e em cinco dos registros os pa-
drinhos eram escravos, os restantes ana-
12
DE CASTRO FARIA, Sheila. A colônia em movi- lisados os padrinhos não possuem ne-
mento: fortuna e família no cotidiano colonial. nhuma denominação, presumindo-se
Editora Nova Fronteira, 1998. p. 307 que fossem todos brancos. Dentre os

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vinte batismos apareceram oito nomes solteiras e o compadrio a ilegitimidade


de padres distintos. de filhos tornou-se algo recorrente entre
Existe um número considerável de os escravos e o compadrio representava
registros de filhos naturais, ou seja, que a estabilidade que a criança necessitava.
não consta o nome do pai, porém parto Os laços de parentesco serviam como
do pressuposto que esses filhos não são um elo de proteção estabelecido entre os
necessariamente sem pais. Segundo Sle- escravos e muitas vezes eram até esten-
nes os filhos naturais muitas vezes ti- dido a outros setores da vida social onde
nham um pai, porém, às vezes o casal muitas vezes o compadrio era por ne-
ainda não tinha uma união formal (re- gros já alforriados ou até mesmo por
conhecido oficialmente pela igreja). brancos.
Além disso, muitos registros tinham a A historiografia negou por algum
expressão “Pai Incógnito” e “Mãe Sol- tempo a existência de família entre os
teira” penso que através dessas expres- escravos afirmando viverem num com-
sões que de fato mostrava que a criança pleto desregramento e que a vida famili-
não tinha um pai. Além dessas denomi- ar na senzala era precária essa produção
nações expressas nos registros de batis- historiográfica vigorou até 1970, porém
mo, podemos ainda destacar os filhos se a promiscuidade tivesse sido tão de-
expostos ou enjeitados prática comum senfreada, os proprietários não teriam
no período colonial. Não eram conside- adotado qualquer tentativa de impor a
rados nem naturais, nem legítimos, seus escravos o casamento na igreja ou
eram filhos abandonados por seus pais que este sacramento fosse desejado até
que os deixavam em Santas casas de
Misericórdia ou em casas particulares13.
mesmo pelos próprios escravos.
Como pôde ser observado na pesqui- 21
sa feita nos registros de casamentos da
Família e Casamento cidade de Oeiras entre os séculos XVIII
A constituição da família entre cati- e XIX possivelmente, os casamentos
vos provavelmente os ajudou a lidarem sejam eles interétnicos (entre etnias dife-
com a escravidão e a reterem suas iden- rentes) ou endógamos (entre a mesma
tidades, foi uma estratégia de forjar re- etnia) funcionavam como ferramentas
des de solidariedades e de sobrevivência de preservação das suas identidades,
dentro do cativeiro14 meio esse que be- uma vez que, era por meio da família
neficiava não só a senzala, mas também que o escravo poderia conquistar certa
era pra casa grande uma forma de con- autonomia e transmitir para gerações
trole senhorial, inclusive a formação de futuras suas heranças culturais.
famílias extensas que é aquela que vai Segundo Gruzinsk, as mestiçagens e
além dos pais e filhos, é formada por as misturas culturais foram processos
parentes ou pessoas próximas a exem- históricos recorrentes na experiência
plo do compadrio, de acordo com Stuart humana15. A documentação referente
Schwartz estas relações de compadrio aos registros de casamentos da cidade
foram importantes na consolidação de de Oeiras nos mostra um número con-
laços de sociabilidades na sociedade siderável de casamentos interétnicos, foi
escravista. uma prática recorrente a união de criou-
Um exemplo de “rede de solidarie- los com africanos, entre africanos de
dade” era a estabelecida entre as mães

13 15
Ver Sheila Castro Faria. GRUZINSKI, Sergio. O pensamento mestiço. São
14
Ver SLENES, Robert. W Paulo: Cia das letras, 2001

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diferentes origens ou até mesmo entre sibilitaria uma estrutura para manter o
negros e índios. escravismo, ou seja, era vista pelos se-
Os registros de casamentos eram na nhores de escravos como um meio ou
sua maioria padronizados e nas infor- uma estratégia de assim garantir a “paz
mações constavam sempre data e local nas senzalas”, pois a família se tornaria
da celebração, nome do celebrante, no- uma espécie de refém do seu senhor
me dos noivos e na grande maioria logo evitando assim revoluções/conflitos
em seguida do nome dos noivos havia a entre a senzala e a casa grande, além
sua origem, qualificação pela cor ou sua disso, também existiam os casamentos
condição social, nome dos pais dos nu- endógamos que serviram como meio de
bentes, o nome das testemunhas que pacificação entre as senzalas uma vez
geralmente eram duas, e o nome do que a união de escravos da mesma ori-
proprietário dos noivos no caso dos ca- gem serviria para se isolarem dos afri-
tivos. canos recém-chegados de origens distin-
De acordo com Manolo Florentino e tas e também como um controle da Ca-
José Roberto Goes, vista as várias pos- sa-Grande17.
sibilidades das estratégias tecidas pelos Robert Slenes não compartilha desse
escravos através da formação da família argumento, pois segundo ele “essa paz”
ou dos casamentos formais (realizados seria apenas uma fachada, uma vez que
pela igreja) é possível observar que os os escravos e os senhores viviam experi-
donos de escravos também visavam al- ências de vida totalmente distintas não
gumas estratégias. Ao contrario do que sendo possível essa harmonia entre am-

22 aconteceu em alguns lugares como


ocorria no sul do Brasil, quando de
bos. E que o compromisso entre os es-
cravos foi uma necessidade e uma estra-
acordo com Robert Slenes os senhores tégia bem mais próxima da realidade
de escravos praticamente proibiam o dos escravos do que dos próprios senho-
casamento formal entre escravos de do- res. Além disso, o fortalecimento dos
nos diferentes ou entre cativos16, pela laços poderiam também trazer insegu-
analise dos registros de casamentos da rança ao sistema escravocrata.
cidade de Oeiras, supõe-se que os se- André João Antonil na sua obra Cul-
nhores de escravos tenham estimulado a tura e opulência no Brasil em 1711, já
legalização das uniões, talvez vendo orientava que os senhores de escravos
nisso um meio de aumentar sua produ- deveriam garantir todos os procedimen-
ção e mão de obra escrava através da tos cristãos aos seus escravos bem como
procriação, além de, verem no casamen- lhes possibilitar a sobrevivência, porém
to uma estabilidade para o escravo, para muitos ainda não o faziam ou apenas
que assim não fugissem. permitia o amancebamento18
Segundo Florentino e Góes, era atra-
vés da constituição da família, que pos- Opõem-se alguns senhores aos casamentos de
escravos e escravas, e não somente não fazem
16
Sobre a ideia de família escrava no Brasil e os caso dos seus amancebamentos, mas quase
debates a ela relacionados, ver SLENES, Robert. claramente os consentem, e lhes dão princí-
Na senzala, uma flor: esperanças e recordações pio, dizendo: Tu, fulano, a seu tempo, casa-
da formação da família escrava, Brasil, Sudeste,
século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999,
17
FLORENTINO, Manolo Garcia e GÓES, José R.A Paz FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A
das Senzalas. Famílias escravas e tráfico atlânti- paz das senzalas. Civilização brasileira, 1997.
18
co. Rio de Janeiro: c. 1790 -c.1850. Rio de Janeiro: ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do
Civilização Brasileira, 1997. Brasil. p. 32.

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rás com fulana; e daí por diante os deixam pedimento algum. Em 1766 os pretos
conversar entre si como seja fossem recebidos forros Francisco de Matos de Franco e
por marido e mulher; e dizem que os não Eugenia ambos da nação jeje assumi-
casam porque temem que, enfadando-se do ram perante o concilio tridentino a con-
casamento, se matem logo com peçonha ou dição de casados. Porém, antes disso,
com feitiços, não faltando entre eles mestres Eugenia teve que apresentar ao vigário
insignes nesta arte. Outros, depois de estarem da freguesia de Nossa Senhora da Vitó-
casados os escravos, os apartam de tal sorte, ria prova de que seu ex-marido o preto
por anos, que ficam como se fossem solteiros, Domingos de Souza havia falecido e
o que não podem fazer em consciência. Ou- que ela estava agora desimpedida e
tros, são tão pouco cuidadosos do que perten- pronta para recomeçar uma nova vida.
ce à salvação dos seus escravos, que os têm O que confirma a hipótese de que a uni-
por muito tempo no canavial ou no engenho, ão formal era valorizada pelos escravos
sem batismo; e, dos batizados, muitos não e consequentemente pelos senhores de
sabem quem é o seu Criador. (ANTO- escravos, uma vez que, ambos visavam
NIL,171, pág. 32) interesses, com os sacramentos da igre-
ja.
Podemos ainda observar as Consti- Ainda com esse mesmo registro po-
tuições Primeiras do Arcebispado da demos fazer outra observação, mesmo
Bahia, documento eclesiástico que regu- os escravos sendo alforriados [livres] a
lava o casamento com orientações que denominação “preto forro” está presen-
servia para todo Brasil colonial. Segun- te, não só nesse registro citado acima
do essa legislação eclesiástica os escra-
vizados podiam unir-se com pessoas
mas, em todos os registros de batismos e
casamentos quando a condição do es- 23
cativas ou livres: cravo já é de liberto, denomina-se como
forro, e em alguns casos encontra-se
Conforme o direito divino e humano os es- registrado ainda o nome do seu antigo
cravos podem casar com outras pessoas cati- proprietário reforçando assim a condi-
vas ou livres e seus senhores lhe não podem ção de que já fora escravo.
impedir o matrimônio, nem o uso dele em Os autores do livro, Provas de liberda-
tempo e lugar conveniente, nem por este res- de: Uma odisseia atlântica na era da eman-
peito os podem tratar pior, nem vender para cipação, Rebecca J. Scott e Jean M. Hé-
outros lugares remotos, para onde o outro, brard pontuam que o termo alforriado
por ser cativo, ou por ter outro justo impedi- embora constatasse um estatuto de livre,
mento o não possa seguir19. (VIDE 1720, poderia ser intencionalmente desrespei-
pág.125) toso, lembrando publicamente que esse
indivíduo tinha sido escravizado em um
Em um registro de casamento da ci- determinado momento20.
dade de Oeiras podemos ver como um Em outro registro de casamento, po-
escravo poderia se casar mais de uma demos perceber o quanto a celebração
vez na igreja comprovando não ter im- do matrimonio era apreciado, sendo um
motivo de festa e alegria. No casamento
19
Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia de um casal de africanos, ambos do
feitas, e ordenadas pelo Ilustríssimo, e Reveren-
díssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide: 20
Provas de liberdade: uma odisséia atlântica na
propostas, e aceitas em o Synodo Diocesano, que era da emancipação. SCOTT, Rebecca J; HÉBRARD,
o dito Senhor celebrou em 12 de junho do ano de Jean M & JOSCELYNE, Vera. (2014). Campinas:
1707. Disponível em: <goo.gl/r843cA>. Acesso Editora da Unicamp, 2014.
em: 26 de Nov.2015.

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Gutiele Gonçalves dos Santos

Gentio da Guiné, está expresso no regis- sobre as fazendas existentes no Piauí em


tro que fora comemorado pro três dias: 172222:

Aos três dias do mês de outubro de mil sete- Um negro da maior fama de Vaqueiro, e que
centos e sessenta nesta matriz, fazendo às enquanto foi vivo fez sempre o papel de Rei
vezes de reverendo vigário, tendo se denunci- nas suas festas, se foi para lá esta vizinhança
ado os contraentes abaixo nomeados em três de seus Parentes para uma Serra, que se
dias festivos [Grifo meu], na missa da * que chama a Cumba, que por comumente seve de
se disse aos fregueses, na forma do sagrado muitas pares do Sertão, e daí saiam já as
concilio tridentino sem terem impedimento Estradas e fazendas a matar os brancos. Da-
algum todos moradores nesta cidade em mi- qui se firma uma razão; pela qual não con-
nha presença se receberam com palavras de vém negro sem amo; ficou porém ainda fugi-
presente, com presença de testemunhas Antô- do um Jozé Negro da Administração, que
nio Carvalho da Cunha, e de Antônio Alves amancebado com uma negra alheia inteirou
também moradores nesta cidade, Christovão dez anos nesses matos, do que tendo Eu noti-
do Rego, preto forro do gentio da guiné, com ciado botei fama compraria a Negra e os
Thereza preta forra do mesmo gentio, logo deixaria casar para se salvarem ao que saí-
lhes dei as benções conforme os ritos e ceri- ram logo eles cumprir a promessa, no que me
monias da santa madre igreja do que para botei apertar, porque diziam os mais haviam
constar, fiz este assento, que assino21. de fugir com Negras para terem semelhante
fortuna. Porém advertindo os males tempo-
Portanto, toda essa analise trazida rais, e também eternos que costumam provir

24 nos serve de fundamental importância


para compreensão e contribuição do
de multiplicar casamentos de Negros no Ser-
tão, quais costumam se ficarem os maridos
debate historiográfico no que tange a embaraçados para o serviço dos longos com
família, as relações escravistas e as es- ausências as vezes de ano, esvaírem-se pelo
tratégias tecidas num contexto sociocul- abuso, e durarem pouco, ficarem soberbos
tural entre igreja/senhores/escravos. com os amos, que não querem mais ter, a-
A documentação encontrada no Ar- cender-se nesses o fogo junto as palhas, have-
quivo da Diocese de Oeiras além de rem ditos contrapõem qualquer líder com a
permitir vislumbrar em detalhes a in- eles, andarem em viagens, a buscar parteiras,
fluência da cristandade na vida dos ha- e curandeiras. (GOMES, 1722)
bitantes do Piauí colonial, demonstra o
quão à escravidão estava disseminada Como mostra no fragmento do do-
naquelas fazendas agropastoris, públicas cumento acima citado, o José negro
e privada da época, entranhada em todo foge com o intuito de forçar o seu casa-
o tecido social. mento com sua parceira, e com isso
Em outros documentos também po- consegui a promessa de que se ele vol-
demos observar as estratégias tecidas tasse comprariam a negra e os deixaria
pelos negros em relação ao casamento casar. Porém com tudo isso ele teme
como no Relato de Domingos Gomes que devido essa sua atitude, outros ne-
gros utilizem da mesma artimanha do
José negro, então ele advertide o males

22
Memória de Domingos Gomes sobre a descrição
21
Registros de Batismos 1760-1790. Arquivo da das fazendas existentes no Piauí. AHU - PIAUÌ - CU
Arquidiocese de Oeiras. - 016, Cx. 7. Doc. 15. 02 de Dezembro de 1722.

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que os casamentos de negros nos sertões tempo da escravidão. Revista Tempo,


podem causar. n. 3, 1997.
Os debates apresentados se tornam SLENES, Robert W. Na senzala, uma
importantes para explorar origem, cul- flor: esperanças e recordações na for-
tura, demografia, ocupação e as heran- mação da família escrava: Brasil Su-
ças deixadas pelos povos africanos no deste, século XIX. Rio de Janeiro: Edi-
Piauí colonial que estavam bastante tora Nova Fronteira, 1999.
vivas entre os escravos, compreendendo
o que foi e como se deu a escravidão em Fontes
solos piauienses e suas variações nas Memória de Domingos Gomes sobre a
comunidades escravas no Piauí e enten- descrição das fazendas existentes no
dermos como se deram as organizações Piauí. AHU- PIAUÌ - CU - 016, Cx. 7.
e relações familiares entre negros, forros Doc. 15. 02 de Dezembro de 1722.
e mestiços. APEPI. Resumo de todas as pessoas,
livres cativas, fogos e fazendas da ci-
Bibliografia dade, vilas e sertões da capitania de S.
GUDEMAN, Stephen; SCHWARTZ, José do Piauí. Capitania do Piauí. Li-
Stuart. Purgando o pecado original: vro II – 1764-1770. SPE// COD. 147.
compadrio e batismo de escravos na ESTN. 02 PRAT. 01.
Bahia no século XVIII. Escravidão e Arquivo Público do Estado do Piauí –
invenção da liberdade. Estudos sobre o APEPI. Série: Município/ Subsérie:
negro no Brasil. São Paulo: Brasiliense, Oeiras/ Anos: 1752-59 – 1764-65-66-67-
1988.
FARIA, Sheila de Castro. A colônia em
69-70-72-73-74-75-76-77-78-79 – 1780-
81-82-83-84-85-86-87-88-89 – 1790-
25
movimento: fortuna e família no coti- 1799-1869. Caixa 97.
diano colonial Rio de Janeiro: Nova Registros de Batismos 1760-1790. Ar-
Fronteira, 1998. quivo da Arquidiocese de Oeiras.
FLORENTINO, Manolo; GÓES, José VIDE, D. Sebastião Monteiro da.
Roberto. A paz das senzalas: famílias Constituições Primeiras do Arcebispa-
escravas e trafico atlântico. Rio de Ja- do da Bahia (1707). São Paulo, Typo-
neiro: Civilização brasileira, 1997. graphia 2 de Dezembro de Antonio
MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. Louzada Antunes, 1853.
Scott, Rebecca J.; Hébrard, Jean M.
Provas de liberdade: uma odisseia
atlântica na era da emancipação. Re-
vista Brasileira de História, n. AHEAD,
p. 0-0, 2016.
MINTZ, Sidney Wilfred; PRICE, Ri-
chard. O nascimento da cultura afro-
americana: uma perspectiva antropo-
lógica. Pallas Editora, 2003.
MOTT, Luiz Roberto de Barros. Piauí
colonial: população, economia e soci-
edade. Projeto Petrônio Portella, 1985.
REIS, João José. Identidade e diversi-
dade étnicas nas irmandades negras no

ISSN 2447-7354
Hamanda Machado de Meneses Fontenele

DO TRABALHO FORÇADO AO ANÁ-


LOGO À ESCRAVIDÃO: reflexões sobre
as condições de trabalho no ciclo da cera de
carnaúba no Piauí (1930-1990)
Hamanda Machado de Meneses Fontenele1

Resumo
A presente pesquisa é desdobramento de uma pesquisa do Programa de Bolsas de
Iniciação Científica - PIBIC. O trabalho escravo no ciclo da cera de carnaúba cons-
titui-se como um problema que ganhou visibilidade após sucessivas denúncias ao
Ministério Público do Trabalho no Piauí. Data da década de 1930 a criação dos
primeiros aparatos legislativos de regulamentação do trabalho, paralelo a essa or-
ganização, destaca-se no Piauí o vulto econômico da produção cera de carnaúba.
Assim objetivamos compreender a aplicação da legislação na cadeia produtiva
através do paralelo entre a literatura sobre o ciclo produtivo da carnaúba e as do-
cumentações encontradas nos arquivos digitais, públicos e por meio de fontes orais,
para constatar que o trabalho escravo, nessa cadeia produtiva caracteriza-se como
contínuo, ocorrendo quando o sujeito perde direitos concedidos pela legislação ela-

26 borada e aplicada pelo Estado.


Palavras-Chave: trabalho; escravidão; carnaúba.

Abstract
The present research is the result of a research of the Program of Scientific Initia-
tion Grants - PIBIC. The slave labor in the carnauba wax cycle constitutes a pro-
blem that gained visibility after successive denunciations to the Public Ministry of
Labor in Piauí. In the 1930s, the creation of the first legislative machinery for labor
regulation, parallel to this organization, stands out in Piauí the economic value of
the production of carnauba wax. Thus we aim to understand the application of le-
gislation in the production chain through the parallel between the literature on the
production cycle of the carnauba and the documentation found in the digital files,
public and through oral sources, to verify that the slave labor, in this productive
chain, is considered to be continuous, occurring when the subject loses rights gran-
ted by the legislation elaborated and applied by the State.
Keywords: work; slavery; carnauba.

1
Graduanda do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI.
Email: hamandafontenele@gmail.com

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Revista Piauiense de História Social e do Trabalho. Ano III, n. 05. Julho-Dezembro de 2017. Parnaíba-PI

Introdução ples figurantes, força sua entrada em


O trabalho degradante caracteriza-se cena.” Assim, pretendemos também
como uma prática continuada que per- analisar os sujeitos marginais envolvi-
petua-se da antiguidade aos dias atuais, dos nesse contexto, a partir de suas vi-
embora com características que tendem vências na prática da produção da cera
a diferenciar a prática ao longo do tem- de carnaúba, sob a ótica da História
po. Assim, o trabalho degradante, prin- Social, partindo do pressuposto de que
cipalmente no meio rural piauiense vem seria insustentável conceber a Lei Áurea
ganhando amplo espaço de debates nos como ponto final da prática escravocra-
órgãos de manutenção do trabalho co- ta. Nesse sentido, os sujeitos da força de
mo o Ministério Público do Trabalho, trabalho serão analisados através da
uma vez que os flagrantes de trabalho “experiência vivida” pensada por
degradante na cadeia produtiva da cera Edward Thompson (1981), ou seja, não
de carnaúba vem se tornando algo fre- somente do ponto de vista econômico,
quente. Essas denúncias atuais possibili- mas da reação dos sujeitos a um sistema
tou-nos questionar as condições da mão produtivo conforme sua cultura constru-
de obra na produção da cera de carnaú- ída a partir da vivência em sociedade.
ba no Piauí no século XX, devido prin- Para isso, foi de suma importância a
cipalmente ao fato de que constitui-se coleta de fontes em arquivos públicos e
como momento de ampla discussão digitais, bem como a Hemeroteca Digi-
sobre trabalho e trabalhadores, levando tal, o Arquivo Público do Piauí - Casa
o Brasil a tornar-se signatário de diver- Anísio Brito, o Instituto Brasileiro de
sos tratados internacionais1 que implica-
ram diretamente na inserção do Brasil
Geografia e Estatística - IBGE entre
outros. Além do conhecimento da lite- 27
na OIT - Organização Internacional do ratura sobre a temática, pois conforme
Trabalho, corroborando também para assinala Umberto Eco (Eco, 1932 p.77)
implantação de órgãos e legislações que “fazer uma bibliografia significa procu-
regulamentam as condições de trabalho, rar aquilo de que não se conhece ainda
paralelo a formulação desse aparato a existência”, tal afirmativa coincide
legislativo, a cera de carnaúba começa a com a escolha do objeto de pesquisa,
se destacar no cenário econômico pi- uma vez que a literatura apresenta a
auiense, recebendo uma ampla mão de cadeia produtiva da cera de carnaúba
obra invisibilizada nos discursos histo- sob um viés economicista, omitindo os
riográficos e oficiais. sujeitos, o que possibilitou hesitações no
Conforme assinala Edward Thomp- que discorre sobre a economia através
son (Thompson, 2001, p.24), “à medida dos atores sociais que a compõe, pois
em que alguns atores principais da his- conforme assinala Edward Thompson
tória – políticos, pensadores, empresá- (Thompson, 1981, p.398) “não são as
rios, generais – retiram-se da nossa estruturas que constroem a história; são
atenção, um imenso elenco de suporte, as pessoas carregadas de experiências”.
que supúnhamos ser composto de sim- Ademais, as fontes orais também foram
de irrevogável importância para essa
1
Tratados internacionais de proteção aos direitos pesquisa, pois o objeto de pesquisa pas-
humanos: Declaração dos Direitos Humanos sa a ser narrado a partir das palavras de
(1948); a Convenção de Genebra sobre a escrava- quem vivenciou a experiência e se pron-
tura (1926) e a Convenção Suplementar sobre a tifica a narrar suas subjetividades sobre
Abolição da escravatura (1956); a Convenção N° tal, apresentando-nos perspectivas não
29 e N° 105 da OIT sobre trabalho forçado; e etc. inclusas em fontes arquivísticas. Sobre o

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Hamanda Machado de Meneses Fontenele

uso das fontes orais, Alessandro Portelli vidão que se mantinham na sociedade
nos diz que: desde o final do século XIX2, nesse con-
texto, começou a vigorar a Consolida-
Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo ção das Leis Trabalhistas, o Ministério
fez, mas o que queria fazer, o que acreditava está do Trabalho, Indústria e Comércio em
fazendo e o que agora pensa que fez. Fontes orais 1930 e da Justiça do Trabalho em 1934
podem não adicionar muito ao que sabemos, por em busca de fiscalizar e amparar a rela-
exemplo, ao custo material de uma greve para os ção trabalho-capital. Com isso, Ângela
trabalhadores envolvidos; mas contam-nos bas-
de Castro Gomes (Gomes 1982 p.151)
tante sobre os seus custos psicológicos. (POR-
TELLI, 1997, p.31) afirma que “os anos 1930 e 1940 são
verdadeiramente revolucionários no que
Compreendendo as objeções que di- diz respeito ao encaminhamento da
recionaram a elaboração desse estudo, é questão do trabalho no Brasil”.
preciso também compreender o contex-
to histórico a qual se insere. Trata-se Do trabalho escravo
inicialmente a primeira metade do sécu- ao trabalho análogo à escravidão
lo XX, momento em que o Brasil viven- Ao tratar dessa temática, é preciso
ciava uma efervescência política e eco- considerar e perceber a singularidade de
nômica em decorrência das eleições cada contexto, pois há um espaço entre
republicanas, bem como o surgimento a experiência vivida e a experiência nar-
de novos ideais políticos voltados espe- rada que permite-se alterar com as no-
cialmente para o âmbito do trabalho e vas concepções que o tempo apresenta,
28 dos trabalhadores. Segundo Nascimen-
to, (1994, p12-13 apud Pereira, 2015,
nesse sentido Edward P. Thompson
(Thompson, 1981, p.17) afirma que
p.50) “no Piauí esse movimento foi “frente a essas experiências, velhos sis-
marcado pela derrota dos “coronéis” temas conceituais podem desmoronar e
donos de latifúndios e pela vitória de novas problemáticas podem insistir em
um grupo que tinha suas atividades impor presença”. Assim, quando fala-se
mais ligadas ao comércio”. No Piauí, a sobre escravidão, tende-se a remeter a
primeira metade do século XX ficou discussões abolicionistas do século XIX,
marcado economicamente pelo declínio porém a abolição da escravidão é deri-
da pecuária e destaque dos ciclos extra- vado de um processo que advém do fi-
tivistas, principalmente da cera de car- nal do século XIX, voltado para uma
naúba, mas também de babaçu, algo- conjuntura de leis que propunham o fim
dão, maniçoba entre outros. Nesse sen- da escravidão negra e caracteriza-se
tido, a produção e exportação represen- como marco inicial no Brasil para liber-
tavam prosperidade para a receita esta- dade no que diz respeito ao trabalho.
dual, ainda que o referido momento No entanto a mentalidade escravocrata
fosse de corte orçamentário em decor- e de cerceamento da liberdade individu-
rência da crise derivada pela Segunda al permeiam nos dias atuais, nesse caso,
Grande Guerra (PIAUÍ, 1938, p.15).
No âmbito da política nacional, Ge- 2
A escravidão contemporânea analisada aqui é
túlio Vargas assumiu a presidência na- diferente da escravidão que se processava antes
cional através de um governo provisório da assinatura da Lei Áurea. Esta primeira não é
estendido de 1930 a 1934 a qual iniciou- caracterizada pela perda da liberdade, isto é, por
se a estruturação de um Novo Estado, ser propriedade, mas sim, pela perda dos direitos
de cidadania e não só de direitos sociais do traba-
onde tornaram-se vigentes políticas que lho (GOMES, 2012).
objetivavam apagar os traços de escra-

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a prática se reinventa e recebe o concei- No Brasil essa terminologia foi subs-


to de escravidão contemporânea ou tra- tituída pelo “trabalho análogo à escra-
balho análogo à escravidão, pois o pon- vidão” com intuito de causar o impacto
to central dessa prática volta-se para da escravidão moderna (séc. XVI-XIX)
tentativa de transgressão de direitos co- como prática com sutis continuidades
muns a todos sujeitos inseridos no mer- históricas. Nessa analogia, o trabalho
cado de trabalho. degradante tende a ofender a dignidade,
É nesse sentido que os conceitos se humilhar, desconsiderar a humanidade,
renovam, pois ao analisarmos o pano- ofender a honra e pôr em risco a inte-
rama histórico da humanidade, perce- gridade do trabalhador. Com isso, tra-
bemos que a escravidão é uma prática tados internacionais foram base para
que permanece imbricado em todos os intervenção internacional no plano de
espaços sociais e se perpetua como con- erradicação do trabalho escravo no Bra-
tinuidade histórica. Desse modo, a es- sil, a exemplo o Tratado de Genebra
cravidão ganha novo significado tanto sobre a escravatura de 1926 e a declara-
enquanto conceito, como em prática, ção de Direitos Humanos de 1948.
configurando-se e reconfigurando-se A OIT3 foi criada em 1919, como
como um mal de raízes extensas e sóli- parte do Tratado de Versalhes, que pôs
das e também, grande mácula da biogra- fim à Primeira Guerra Mundial, sendo
fia humana. As bases bibliográficas que responsável pela formulação e aplicação
discorrem sobre a temática nos apresen- das convenções e recomendações inter-
ta uma pluralidade de conceitos e for- nacionais do trabalho. Nesse sentido,
mas de escravidão que translada da an-
tiguidade ao tempo presente em todos
desempenhou um papel importante na
definição das legislações trabalhistas e 29
os continentes. O que a classifica e atri- na elaboração de políticas econômicas e
bui conceitos que tornam práticas dife- sociais durante boa parte do século XX.
rentes, são as leis, símbolos e indivíduos Em 1950 a OIT se instala no Brasil, que
que a analisam. por sua vez se auto reconhece internaci-
Nesse sentido, Ângela de Castro onalmente como um país escravocrata.
Gomes (2012) nos atém ao fato de que o Com isso, o país firmou o compromisso
século XX foi marcado por um fenôme- de promoção do trabalho decente atra-
no identificado como “trabalho forçado”, vés de convenções, decretos e artigos de
terminologia adotada pela OIT - Orga- leis voltados para o melhor desempenho
nização Internacional do Trabalho para das condições de trabalho
designar as convenções de 1920. Sobre O crescimento desse fenômeno nas
essa terminologia, Cristiana Rocha sociedades e na economia do século XX
afirma que: foi acompanhado da atenção da OIT e
de inúmeras organizações não gover-
O trabalho forçado, referia-se às formas de explo- namentais, especialmente no período
ração impostas por um Estado em época de neo- compreendido entre as duas guerras
colonialismo, em regiões de pequeno desenvolvi- mundiais, devido a massiva imposição
mento industrial, portanto algo distinto do que do trabalho forçado em campos de con-
são as novas formas de trabalho compulsório
identificadas nas últimas décadas do séc. XX, 3
que no caso específico do Brasil, ganhou denomi- Essa instituição tem o papel de promover o “tra-
balho decente” com objetivos voltados para liber-
nação de trabalho análogo à escravidão. (RO-
dade sindical, abolição do trabalho forçado e
CHA, 2015, p.18)
infantil, a proteção social bem como a promoção
de emprego de qualidade.

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centração motivado por conflitos de lho no Piauí, porém no ano de 1934 foi
gênero político e ideológico. São exem- implantado o Serviço de Identificação
plos desses campos, os gulags soviéticos Profissional pelo decreto-lei n. 21.175 a
espalhados na Sibéria e na Ucrânia, os qual o encarregado foi Luiz Gonzaga
campos de concentração Nazista na Menezes. Segundo informações do Cen-
Alemanha, Áustria e Polônia, o campo tenário da Parnaíba:
conhecido como Villa Grimaldi na Amé-
rica do Sul, Crystal City localizado na Em setembro de 1939, esteve em Parnaíba (umas
América do Norte, entre outros espa- das principais cidades produtoras de cera de car-
lhados pelo Globo. naúba) o Dr. Ubirajara Índio do Ceará, então
Segundo Norberto Ferreras (Ferreras, Delegado Regional do Trabalho, no Piauí. Teve
a oportunidade de verificar a vida dos parnaiba-
2016, p.496) ‘para a OIT a escravidão
nos, nos seus múltiplos aspectos do trabalho, e
significava uma forma extrema de de- compreendeu a necessidade da criação de um
gradação do ser humano, e portanto, Posto Permanente de Fiscalização do M.T.I.C.
não dizia respeito às suas condições, (O Livro do centenário da Parnaíba, p. 241)
vinculadas ao trabalho legal”. Desse
modo, o que estava em análise não era à Esse relato nos leva a questionar so-
liberdade, mas sim o trabalho, de modo bre o que foi visto pelo então Delegado
que o indivíduo é analisado através do Regional do Trabalho, principalmente
prisma da liberdade, ou seja, da capaci- os “múltiplos aspectos” levados em
dade de venda da força de trabalho e consideração para implantação de um
não da posse, isto é, do indivíduo en- posto fiscal permanente, pois sabe-se do
30 quanto propriedade de outro.
Em teoria, o trabalhador brasileiro
contraste entre a vida de trabalhadores e
empregados tanto no tempo presente
encontra-se amparado por uma legisla- quanto em décadas passadas sobre isso,
ção que objetiva a proteção da dignida- é inegável a nitidez do fato. Não obstan-
de humana. Esses sujeitos também en- te, somente no ano de 1952 foram insta-
contram-se salvaguardados pela Decla- lados três postos de fiscalização nas ci-
ração Universal dos Direitos Humanos dades de Parnaíba, Campo Maior e Flo-
(1948) a qual dispõe que “todos os ho- riano - até então, as grandes produtoras
mens nascem livres e iguais em dignidade e de cera - visando principalmente a higi-
direitos” e reafirma o princípio a qual ene e segurança do trabalho. (CARIRI,
“ninguém será mantido em escravidão ou 1952). Outro questionamento diz respei-
servidão”. Para além disso, houve a im- to a ação dos postos de trabalho, uma
plantação do Ministério do Trabalho, vez que ainda estava em estado inicial
uma das primeiras medidas trabalhistas de organização e trabalho.
implantada no Brasil no Estado Novo. Em contrariedade aos trabalhadores
Juntamente a esse órgão, foi implantada urbanos que passaram a ser alvo de todo
a Justiça do Trabalho, criada em 1934 aparelhamento legislativo e trabalhista
em decorrência do artigo n°122 da na década de 1930, os trabalhadores
Constituição de 1934, objetivando jul- rurais somente passaram a ser ampara-
gar e conciliar os conflitos surgidos, in- dos legalmente a partir da década de
dividual ou coletivamente, entre empre- 1960, sob a presidência de João Goulart
gados e empregadores, bem como (1961-1964), que junto ao Parlamento
quaisquer controvérsias surgidas no legitimou a lei n°4.214, denominada
âmbito das relações de trabalho. Estatuto do Trabalhador Rural, que dis-
Em 1935 inicia-se a organização do põe de forma sistemática sobre condi-
serviço regular do Ministério do Traba- ções políticas e econômicas do contrato

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do trabalhador rural. Esse Estatuto foi carnaúba se deu durante a década de


revogada pela Lei n° 5.889 de 8 de ju- 1930 e seu declínio em 1950, ainda as-
nho de 1973 ao estender as disposições sim, sua produção e exportação se es-
da Consolidação das Leis Trabalhistas tende até os dias atuais, em menores
(CLT) aos trabalhadores rurais. proporções e significação para a receita
Contudo, na prática, todas essas me- devido a grande concentração de renda.
didas de organização trabalhistas não Como afirma Oscar D’Alva (D’alva,
foram suficientes para erradicar focos de 2004, p.20) “de carnaubais esquecidos e
exploração da mão de obra principal- trabalhadores miseráveis, a cera vai ao
mente no meio rural. Com isso, o Brasil mundo globalizado para virar chip no
firmou compromisso com a Organiza- computador de última geração e batom
ção Internacional do Trabalho – OIT, de marca sofisticada em bocas elegan-
para erradicação total dessa forma de tes”.
trabalho, adotando para esse fim a Con- Inicialmente a produção da cera foi
venção n° 29, vigente no Brasil desde empregada para fabricação de velas,
1958, denominada “Convenção sobre Tra- porém, sua utilização posteriormente foi
balho Forçado de 1930” e discorre sobre empregada na produção de graxa, ver-
obrigatoriedade dos serviços, carga ho- nizes, encerados, isolantes para cabos
rária, pagamento e condições do traba- elétricos e etc., todavia, sua maior nota-
lho, além de estabelecer pena para o não bilidade deu-se na extração de ácido
cumprimento das normas da lei. Para pícrico para feitio de pólvora na Primei-
reafirmar a causa, em 1965 o Brasil ado- ra Grande Guerra. Em relatório do go-
ta a convenção n° 105 que proíbe sob
pena de multa, toda forma de trabalho
verno de Leônidas de Castro Melo (PI-
AUÍ, s/d) descreve-se que “muitas são 31
obrigatório por meio de opressão ou as aplicações desse produto, sobretudo
coerção. Segundo Ângela Maria de Cas- na indústria bélica – o que explica sua
tro Gomes (Gomes, 2012) o ponto de incessante procura na atual emergência,
partida identificado para as investiga- ou seja, durante o período de guerra”.
ções data da década de 1970, onde já se O Piauí representava também o mai-
tem uma base estabelecida para o de- or exportador do gênero em território
senvolvimento investigativo. brasileiro, superando o Ceará e o Rio
Grande do Norte. Os dados estatísticos
A cera de carnaúba históricos do Piauí (Piauí, p.74, 1935) de
Paralelo ao aparato legislativo que 1935 acusa que “os seis municípios pi-
nasce na primeira metade do século XX, auienses produtores de cera de carnaúba
encontra-se o desenvolvimento econô- eram Campo Maior, Piracuruca, Flori-
mico da cera de carnaúba no Piauí. ano, Oeiras, Pedro II e Castelo do Pi-
Como afirma Teresinha Queiroz (Quei- auí, excetuando Parnaíba, que além de
roz, 1998, p.47) “dentre as atividades entreposto comercial, também constitui-
extrativistas desenvolvidas no Piauí, se como cidade produtora” e os princi-
esta foi a que provocou efeitos mais sig- pais países compradores da cera de car-
nificativos sobre a estrutura econômico- naúba piauiense eram Estados Unidos,
social” e segue afirmando que “as modi- Alemanha, França, Holanda, Bélgica e
ficações apenas esboçadas na região da Itália. Como consta no Almanaque da
borracha ganharam toda sua expressão Parnaíba (Parnaíba, 1929, p.37) “do
nas áreas em que houve predomínio da valor da cera de carnaúba, cuja aplica-
cera de carnaúba” (QUEIROZ, 1998, ção cada dia se torna mais desenvolvida
p.47). O auge da produção de cera de em novas indústrias, é índice flagrante o

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interesse que o Europeu e o Norte Ame- pontos iniciais voltado para as finanças
ricano tomam em adquiri-la”. no governo de Leônidas de Castro Melo
Segundo Carlos Eugênio Porto (Por- estava voltado para estimulação da ri-
to, 1974 p.114) “a riqueza dos carnaú- queza para o desenvolvimento da pro-
bas gerou uma multiformidade na estru- dução no Estado. Com isso, o governo
tura econômica do Estado e desequilí- do Estado vinha se empenhando pelo
brio na uniformidade nos padrões soci- plantio e cultivo racional da carnaubei-
ais piauiense”, pois o valor obtido na ra, sendo já apreciáveis os resultados
comercialização da cera da carnaúba alcançados em alguns municípios na
trouxe para a sociedade uma nova clas- década de 1940.
se de ricos que reverteram suas riquezas Devido a seu incentivo às riquezas
em automóveis de luxo e objetos luxuo- estaduais apresentados pelo então inter-
sos e de pouca utilidade. O autor ainda ventor federal Leônidas de Castro Melo,
destaca que essa “nova classe de ricos” a exportação da cera de carnaúba se
é diminuta em relação ao povo, que em sobressaiu nacionalmente. Sua assistên-
sua maioria, não teve ganho significati- cia voltava-se principalmente aos produ-
vo. Porto (Porto, 1974, p.113) segue tores e a melhoramento das vias de
afirmando que “por volta da década de transporte para escoamento da produ-
1940, os trabalhadores eram remunera- ção, através de uma crescente malha
dos por três arrobas com o vencimento rodoviária e ativação do porto de Amar-
de 15 a 20 cruzeiros, sendo Inegavel- ração, bem como utilização do porto de
mente barata”. Passados mais de meio Tutóia no Maranhão, que no mais tar-

32 século, só recentemente os trabalhado-


res tiveram seus direitos trabalhistas
dar, trouxe conflitos para exportação
devido aos altos preços alfandegários.
reconhecidos, com a assinatura da car- Nesse momento, a produção da cera
teira de trabalho temporária e diversos da carnaúba foi a maior conhecida,
direitos que acompanha. Atualmente os atingindo o total de 4.500.000 kg. Rea-
trabalhadores ganham por quinzena ou firmando a valiosidade da cera de car-
semana, esses, em sua maioria depen- naúba para o Piauí Renato Castelo
dem primariamente do plantio de roça e Branco (Castelo Branco, 1970, p.127)
de auxílios do Governo, devido ao fato salienta que “para enfatizar a importân-
que a produção da cera é sazonal. Vale cia da carnaúba, basta dizer que em
ressaltar que essas roças costumam ser 1940, a exportação de sua cera ocupou
plantadas em terrenos arrendados, pois o sexto lugar nas estatísticas nacionais”.
maioria dos trabalhadores não possuem Esses fatores nos leva a refletir sobre a
terras para plantio. proporção de trabalho relativo a produ-
Tal prosperidade econômica é vista ção, entendendo que se a produção
nas mensagens de governo do Interven- atingiu picos até então desconhecidos,
tor federal Leônidas de Castro Melo subentende-se, por consequência, que
(1935-1943) a Getúlio Vargas, onde houve um grande número de mão de
sempre é ressaltada a prosperidade do obra envolvida na atividade. Contingen-
Estado, bem como a multiplicação da te este, costumeiramente escondido pe-
receita. O desempenho favorável das los números de estatísticas econômicas,
exportações dos produtos extrativistas uma vez que números não são capazes
do Estado coincidiu com o governo ge- de revelar por si só uma condição geral
tulista, sendo atribuído aos métodos do do panorama que se deseja apresentar.
Estado a responsabilidade pelo alto ín-
dice de exportação da matéria. Um dos

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através da circularidade cultural e das


Trabalho e trabalhadores na cadeia produ- subjetividades individuais e não por um
tiva da cera de carnaúba coletivo adotado pelo marxismo orto-
Ocorre que a literatura pouco fala doxo.
sobre a classe trabalhadora dos carnau- Analisando a mão de obra formadora
bais, o que ainda é possível encontrar da classe extrativista e o modus operandi
são as divisões da mão de obra. Isso é da produção, nota-se pouca diferença na
justificado pela própria historiografia do experiência vivida e narrada, que por
século XX, construída com base em consequência nos leva a refletir sobre o
fontes oficiais, e que nesse caso, encon- distanciamento pela qual perpassa as
tram-se mais empenhadas em discutir a ações trabalhistas e o nível de informa-
prosperidade do Estado e ocultar as mi- ções nos lugares mais carentes do país.
sérias inclusas no meio social. Partindo Narrando sua trajetória nos carnaubais,
dessa historiografia tradicional forma- o senhor Valdinar Oliveira (58 anos),
dora da narrativa acerca do extrativis- natural do povoado Brandão, localizado
mo, percebe-se que a análise historiográ- no município de Luís Correia, no Piauí
fica das principais atividades extrativas afirma ter trabalhado em carnaubais a
brasileiras são realizadas em “ciclos”, mais de 15 anos junto a seu pai, local
isto é, sob uma perspectiva teleológica, onde também iniciou sua família e so-
à exemplo o ciclo do pau brasil, das bretudo, dentro dos anos vivenciados
drogas do sertão, da borracha e até em carnaubais, segue afirmando que
mesmo da cera de carnaúba. Em outras poucas coisas sofreram alteração ao
palavras, o interesse do estudioso parte
do momento de efervescência econômi-
longo dos anos. Edward Thompson as-
sinala que: 33
ca, e após o final do ciclo, passa a ser
vista como resquício da história. Entre- A experiência passa a ser entendida como
tanto, as análises contemporâneas mos- sentimento, como parte da vida cotidiana,
tram que ainda há muito a ser explora- que é Incorporada na cultura em seu sentido
do nas narrativas históricas do meio mais concreto: normas criadas, obrigações
econômico em questão, seja o trabalho, familiares e de parentesco, organização da
a cultura, ou a própria mentalidade da- vida urbana ou rural. Passa a constituir um
queles que o fazem. conjunto de valores que atuam impercepti-
Nesse sentido, ao nos despir do tradi- velmente nos meandros da vida inteira dos
cionalismo historiográfico, percebemos indivíduos e das classes assim constituídas.
que classe de trabalhadores extrativistas (THOMPSON,1981, p. 126)
é formada por sujeitos históricos dentro
de um tempo e de um espaço, que atu- Nesse sentido, a conjuntura de traba-
almente vivenciam formas de trabalho lho, também passa a confundir-se com a
que por vezes se distinguem de experi- situação familiar do trabalhador. Outra
ências narradas em décadas passadas questão importante a ser ressaltada diz
através da historiografia. Edward P. respeito a exploração da mão de obra
Thompson (Thompson, 1981, p.406) dos trabalhadores, pois ao tornar-se par-
conceitua a classe como “resultado das te do cotidiano, o trabalho escravo pas-
experiências comuns de homens que sa a ser naturalizado no meio social des-
sentem e articulam a identidade de seus ses trabalhadores, que por décadas tra-
interesses entre si, e contra outros ho- balharam em condições sub-humanas,
mens cujos interesses diferem dos seus”. sem conhecer o aparato legislativo que
Assim, a classe passa a ser analisada lhes garante direitos e deveres. Devido a

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essa naturalização, o conhecimento das Quanto às etapas de produção, na


salas de aula costumeiramente ficou primeira etapa de retirada da palha, rea-
para segundo plano para muitos jovens lizada pelo vareiro munido de foice e
habitantes dos interiores do país, pois o escada, ocorre o corte da palha. Em
trabalho braçal tomava o posto princi- seguida, o apanhador conduz a palha
pal. Atualmente, o desejo dos pais tra- até o meio de transporte, que geralmen-
balhadores de carnaubais é que seus te é carroça. Durante dois ou quatro
filhos tomem como plano inicial, os dias, a folhas são expostas ao sol até
estudos, denotando uma mudança de secarem. Nesse estado, a folha é cortada
mentalidade dos mesmos. e entregues ao batedor, que tem por
Quanto ao modus operandi, até chegar função bater a palha até que o pó se
na produção da cera, o processo envolve deposite em lençóis. Após esse proce-
diversas etapas que emprega tanto ho- dimento, o pó é levado a tachos de me-
mens quanto mulheres e apresentaram tal e em seguida é levado ao fogo até
diversos riscos para ambos os sexos entrar em processo de fusão, tornando-
quando realizadas sem materiais de se- se perigosamente inflamável e prejudici-
gurança, além disso, essas etapas per- al ao sistema respiratório.
manecem como continuidades históri- Quando questionado sobre as mu-
cas, sem mecanização, permanecem tão danças no desenvolvimento da ativida-
rústicas quanto a divisão da mão de de, o senhor Valdinar afirmou:
obra no processo de produção. Nesse
sentido, é possível, principalmente per- Naquele tempo num tinha nada, num tinha
34 ceber que o modus operandi da cadeia
produtiva da cera de carnaúba apresenta
problema nenhum, o pessoal ia pro mato do
jeito que dava né. Pegava um saco de roupa,
uma característica que se diferencia de passava uma semana trabalhando fora, na
outros ciclos extrativistas, que consiste mata, todo mundo dormia na mata, já hoje
na reunião tanto do gênero feminino não tem mais isso. Aquele tempo era bebendo
quanto masculino operando dentro do água de cacimba né, água saloba. Hoje não,
mesmo ciclo, em atividades distintas, o a pessoa vai, todo mundo leva as garrafas
que fortalece a tese de que tal atividade d’água. (OLIVEIRA, Valdinar, 2015)
desenvolve-se no âmbito familiar, onde
a produção apresenta-se de forma rudi- Sobre a alimentação, continuou:
mentar, desenvolvida por homens, mu- “[atualmente] leva a comida, naquele
lheres e crianças da mesma família. tempo não, era lata desse tamanho aí,
Quanto ao trabalho infantil - que não é feito arrozão brabo, cunzinhado com
realidade distante dos carnaubais, prin- lenha no meio da mata” (OLIVEIRA,
cipalmente nos primeiros anos de pro- 2015). Além disso, afirma que dormia
dução - o Estado somente passou a re- na mata junto ao grupo de trabalhado-
conhecer após a década de 1990 quando res durante os primeiros anos de traba-
passou criminalizar o trabalho escravo lho. Sobre a Carteira de trabalho, afir-
infantil no artigo n° 149 do Código Pe- mou que somente teve conhecimento
nal brasileiro de 1940, com o agravante desse instrumento legal no ano anterior
introduzida pela lei n° 10.803, de 11 de a entrevista e que a utilização de equi-
Dezembro de 2003 quando amplia o pamentos de segurança também são
conceito de trabalho análogo à escravi- novidades, acrescentou que “Hoje tá
dão de modo a abranger também crian- tudo moderno né! Porque coisa que a
ças e adolescentes e redobrando a pena gente nunca esperava era trabalho em
nesses casos. carnaubal desse jeito.” (OLIVEIRA,

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2015). No entanto, a obrigatoriedade de ração não são tão díspares e que a falta
disposição de equipamentos de proteção de uma consciência sobre o conceito de
individual fornecidos pela empresa tor- exploração, permite que durante os anos
naram-se obrigatórios em 1977, como trabalhadores exerçam atividades em
parte do Artigo 158 da Consolidação condições degradantes tal qual citadas
das Leis Trabalhistas, incluído pela Lei ao longo dessa pesquisa.
n°6.514, de 22 de dezembro de 1977 a Outra questão relevante diz respeito
qual discorre que: ao descaso do Estado em relação ao
meio rural, que por sua vez constitui o
Cabe aos empregados: principal pilar econômico do país. Ao se
I - observar as normas de segurança e medi- colocar como responsável por sanar a
cina do trabalho, inclusive as instruções de escravidão e condicionar dignas condi-
que trata o item II do artigo anterior; ções de trabalho no meio rural, através
Il - colaborar com a empresa na aplicação da elaboração de leis e instituições, o
dos dispositivos deste Capítulo. Estado apresenta um retrocesso, enten-
Parágrafo único - Constitui ato faltoso do dendo que a vigência de uma legislação
empregado a recusa injustificada: vasta e com textos semelhantes em prol
a) à observância das instruções expedidas de uma única causa, sem acompanha-
pelo empregador na forma do item II do arti- mento de uma fiscalização que só pode
go anterior; ser empreendida unicamente pelo esta-
b) ao uso dos equipamentos de proteção indi- do, torna-se ineficaz. E assim como o
vidual fornecidos pela empresa. (LEI Nº ditado brasileiro para leis ou regras con-
6.514, DE 22 DE DEZEMBRO DE 1977) sideradas demagógicas e que não são
cumpridas na prática, a legislação de 35
Como visto, segundo a legislação combate à escravidão torna-se “lei para
trabalhista, desde a década de 1970, inglês ver” bem como as primeiras leis
cabe ao empresário cumprir com a abolicionistas que tinham como função
norma de segurança e medicina do tra- ofuscar a prática escravocrata para o
balho, caso contrário, sofrerá penalida- mercado capitalista internacional.
de, tendo em vista que este torna-se res-
ponsável pelo empregado. Ainda assim, Referências:
a prática se distancia do que a legislação ALMANAQUE DA PARNAÍBA. Edi-
exige, como fica claro na fala do traba- ção do autor: Parnaíba, 1929.
lhador. ALMANAQUE DO CARIRI, 1952.
BRASIL. Decreto-Lei n. 5452, de 1º de
Considerações finais maio de 1943. Aprova a Consolidação
Ao nos depararmos com a fala de um das Leis do Trabalho. Diário Oficial
homem que vivenciou o trabalho em [dos] Estados Unidos do Brasil, Poder
carnaubais em temporalidades distintas, Executivo, Rio de Janeiro, DF, 9 ago.
é possível primeiramente reafirmar o 1943. Secção 1, p. 11937-11984.
esquecimento do trabalhador rural, visto D’ALVA, Oscar Arruda. O extrativis-
que o entrevistado por vezes denota um mo da Carnaúba no Ceará. 2004. Dis-
tom de surpresa em suas palavras refe- sertação (Mestrado em Desenvolvimen-
rentes a medidas trabalhistas e recebe to e Meio Ambiente) - Núcleo de Pós-
como novo o que permeia desde o início Graduação Programa Regional de Pós-
do século XX nos meios do trabalho. É Graduação em Desenvolvimento e
preciso reiterar também que do século Meio Ambiente, Universidade Federal
XX aos dias atuais, as práticas de explo- do Ceará, Fortaleza.

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Hamanda Machado de Meneses Fontenele

ESTATUTO DO TRABALHADOR PORTO, Carlos Eugênio. Roteiro do


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O JORNAL FRENTE POPULAR e o


projeto de uma imprensa contra-
hegemônica no Piauí (1964)
Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa1

Resumo:
O presente artigo se propõe a discutir a emergência do jornal Frente Popular no Piauí
como tentativa de constituição de uma imprensa contra-hegemônica no Piauí. Nes-
ta perspectiva, analisamos a importância da Frente de Mobilização Popular no Pi-
auí como lócus de gestação de estratégias contra-hegemônicas que se traduziram
através de palestras, ações legislativas e publicações impressas como o jornal Frente
Popular que contou com apenas uma edição. As reflexões de Antonio Gramsci
acerca das questões de hegemonia e contra-hegemonia são importantes aportes teó-
ricos que orientam a análise do referido jornal como espaço de construção de um
projeto político e cultural que buscava construir as bases de uma nova sociedade.
Palavras-chave: imprensa; Piauí; Contra-hegemonia.

Abstract:
This article proposes a question from the Popular Front newspaper in Piauí as an
attempt to establish a counter-hegemonic press in Piauí. In this perspective, they
analyze the Factor of Popular Mobilization in Piauí as a locus of gestation of coun-
37
ter-hegemonic structure that were translated in terms of laws, laws and printed pub-
lications like the Popular Front newspaper that had only one edition. As Antonio
Gramsci’s reflections on the issues of hegemony and counter-hegemony are im-
portant theoretical contributions that guide an analysis of the newspaper as a space
for building a political and cultural project that sought to build as a basis for a new
society.
Keywords: press; Piauí; Counter-hegemony.

1
Mestre em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí. Professor do Curso de Direito do Insti-
tuto Camillo Filho. Email: ramsespinheiro@hotmail.com

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Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa

Um jornal diferente: pensando a im- residia na capacidade do povo tomar


prensa como lugar de embates seu destino em suas próprias mãos, for-
Naquela manhã de 31 de março de jando, assim, um novo núcleo de poder.
1964, a população de Teresina prova- Um dos pressupostos que norteiam a
velmente surpreendeu-se quando encon- produção deste artigo é a questão da
trou o jornal Frente Popular circulando hegemonia e da contra-hegemonia pen-
na cidade. Não que os jornais fossem sada a partir de Antonio Gramsci. Se-
estranhos aos teresinenses. Ao contrá- gundo Gramsci, o conceito de hegemo-
rio, havia diversos periódicos nas ban- nia pressupõe a conquista do consenso e
cas da capital, entre eles O Dia, Folha da da liderança político-cultural de uma
Manhã, Jornal do Comércio, Jornal do Pi- classe ou bloco de classes sobre o con-
auí, O Dominical e Cidade de Teresina. No junto da sociedade. Sem abdicar da co-
entanto, o Frente Popular certamente erção direta sobre as classes dominadas,
chamou a atenção dos seus leitores, so- a construção da hegemonia envolve a
bretudo, por seu subtítulo, “o poder pa- direção cultural e o consentimento soci-
ra o povo”, que expressava uma propos- al em torno de conhecimentos, normas
ta editorial radicalmente distinta daque- e crenças interpretados de tal modo que
la dos demais jornais locais. os interesses do bloco dominante tor-
A manchete do aludido jornal nam-se aparentemente naturais, inevitá-
não era menos impactante: “Não fujas veis e indiscutíveis (GRAMSCI, 2002,
mais, camponês. Já tens um destino p. 65).
certo. As beiras dos açudes, as margens A construção da hegemonia é um
38 das estradas, SÃO TUAS”. Logo abai-
xo, o texto referia-se ao “Decreto SU-
processo norteado por embates que per-
passam não apenas questões atinentes à
PRA”, anunciado pelo presidente da organização econômica ou política,
República dias antes. Se cumprido, o mas, também, àquelas relativas ao âm-
decreto representaria um importante bito ético-cultural, à organização dos
passo em direção à reforma agrária saberes e modos de dar sentido ao mun-
através da desapropriação das terras que do. Nesta perspectiva, o Estado, a esco-
ladeavam rodovias, ferrovias e obras de la, a Igreja, a família e a imprensa são
irrigação federais. Tratava-se de uma espaços privilegiados para o exercício de
nítida defesa das reformas de base pro- hegemonia pelas classes dominantes.
postas pelo presidente João Goulart e Tomando como exemplo a imprensa
reafirmadas enfaticamente durante o piauiense do início dos anos 1960, loca-
comício da Central do Brasil no dia 13 lizamos a produção de um discurso he-
de março de 1964. gemônico em torno de uma agenda que
O propósito deste artigo consiste em enfatizava pontos como a defesa intran-
analisar o jornal Frente Popular como sigente da propriedade privada, da famí-
uma tentativa de construção de uma lia e da ordem política e social contra o
imprensa contra-hegemônica no Piauí comunismo.
dos anos 1960. Esta ideia permite loca- Ao mesmo tempo, na esteira de
lizar a imprensa como lugar de disputas Gramsci, ressaltamos que a hegemonia
entre diferentes projetos. Ao mesmo nunca é total, há sempre a possibilidade
tempo, também procuro abordar este de gestação e desenvolvimento de estra-
jornal como um agente histórico que tégias e discursos alternativos, que se
buscou intervir sobre os acontecimentos apresentem em confronto com a ordem
em curso através da constituição de um vigente forjando uma consciência con-
discurso contra-hegemônico cujo centro tra-hegemônica. Os investimentos con-

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tra-hegemônicos buscam redefinir as te do acontecimento” (DARTON; RO-


orientações sobre o mundo vivido, insti- CHE, 1996, p. 15).
tuindo o contraditório e a possibilidade
de construção de uma nova hegemonia. As lutas sociais, as esquerdas e a
É neste sentido que chamamos a aten- Frente de Mobilização Popular
ção para as possibilidades de construção Os leitores que tiveram a curiosidade
de uma imprensa contra-hegemônica no de ler o expediente do jornal Frente Po-
Piauí através da criação do jornal Frente pular descobriram que o mesmo era ór-
Popular cujo enfoque concentrava-se na gão da “Frente de Mobilização Popular
denúncia sobre as condições de vida do – Comitê do Piauí”, mas do que se tra-
povo piauiense e na articulação de um tava esta organização? Tornou-se lugar
processo de conquista de direitos sociais comum na historiografia brasileira con-
e políticos. ceber o governo João Goulart em fun-
Esta proposta enfrenta uma forte ção do Golpe Militar de 1964. Nesta
limitação: o jornal Frente Popular contou perspectiva, os movimentos sociais des-
com apenas uma única edição, o que te período também são interpretados
inviabiliza uma análise mais profunda como parte de um processo histórico
de sua proposta editorial. Após a ascen- que encontra seu clímax no Golpe que
são da Ditadura Militar, ainda na ma- derrubou Goulart. Este é o caso da
drugada daquele mesmo dia 31 de mar- Frente de Mobilização Popular (FMP).
ço de 1964, houve uma intensa perse- A formação da FMP esteve estreita-
guição contra publicações como o Frente mente ligada à emergência das lutas dos
Popular. Contudo, o surgimento deste
jornal, naquele contexto particular, nos
trabalhadores, processo este inseparável
do debate nacionalista que atravessou o
39
faz refletir sobre algo pouco observado Brasil entre os anos 1950 e 1960. O na-
pelos historiadores deste período: o cionalismo, entendido como um campo
Golpe Militar não foi uma fatalidade, de forças onde o Brasil era explicado e
mas apenas uma das alternativas no projetado como país livre do julgo do
horizonte de possibilidades históricas. subdesenvolvimento e das desigualda-
Outra possibilidade inscrita na- des regionais, reforçou a necessidade de
quele período foi à construção de um lutar por um Estado efetivamente inde-
governo nacionalista e popular voltado pendente e soberano. As forças políticas
para a transformação do Brasil em um de esquerda compreendiam que este
país verdadeiramente soberano e livre objetivo deveria ser alcançado através
da miséria. Compreender o referido o de uma transformação profunda do país
Frente Popular como síntese de um tem- através de reformas estruturais, onde a
po de possibilidades ilimitadas, vividas reforma agrária ocupava um lugar cen-
intensamente pelos sujeitos deste perío- tral em razão da forte repercussão al-
do, reafirma nosso entendimento deste cançada pela luta das Ligas Campone-
jornal como um agente histórico que sas no Nordeste.
buscou transformar a realidade onde Entre as forças de esquerda deste pe-
estava inscrito. ríodo, destacava-se o Partido Comunis-
A partir deste entendimento, e na ta Brasileiro (PCB) que pautava sua po-
esteira de Darnton e Roche, a imprensa lítica neste momento pela formação de
deixa de ser percebida pelos historiado- uma frente democrática e nacional co-
res apenas como um registro do aconte- mo suporte para a construção de um
cido, convertendo-se em um “ingredien- governo nacionalista e democrático no
Brasil. De outro lado, o Partido Traba-

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lhista Brasileiro (PTB) compartilhava


com os comunistas a influência entre os Segundo Jorge Ferreira, a FMP tor-
trabalhadores urbanos, posição ainda nou-se gradativamente uma frente única
mais forte na sua facção mais a esquer- de esquerda que pautou sua atuação por
da representada por Leonel Brizola. As um radicalismo exacerbado onde sua
pretensões da esquerda brasileira tam- principal estratégia era o confronto aber-
bém eram partilhadas por grupos que se to com os conservadores, o Congresso e
organizavam em torno do deputado o presidente Goulart. O principal argu-
Francisco Julião, associado às Ligas mento deste historiador pontua que a
Camponesas, e do governador pernam- extrema radicalização política promovi-
bucano Miguel Arraes. da por Brizola/esquerdas,/FMP, cuja
A tentativa de constituição de uma palavra de ordem era reformas de qual-
frente nacionalista no Brasil pode ser quer forma, evidenciou a ausência de
localizada desde a formação da Frente compromisso das esquerdas com a de-
Parlamentar Nacionalista, uma coalizão mocracia, o que contribuiu para a ação
suprapartidária criada em 1956 que reu- das forças golpistas em 1964 (FERREI-
nia parlamentares de diversos partidos RA, 2004, p. 209-210).
em torno de um programa nacionalista Concordamos com a crítica de Caio
que primava pelas reformas nas estrutu- Navarro Toledo a Jorge Ferreira, uma
ras do país (DELGADO, 2007, p. 368). vez que afirmar que setores das esquer-
Contudo, Jorge Ferreira apontou que a das vinculados a Goulart tinham inten-
pretensão de uma frente única naciona- ções ou praticas golpistas – baseado
40 lista tornou-se possível somente sob a
liderança de Leonel Brizola, nome que
apenas nos discursos eloquentes de al-
gumas lideranças – em nada contribui
unificava as esquerdas. No inicio de para o conhecimento deste complexo
1963, Brizola foi o principal ator na período (TOLEDO, 2004, p. 44). Este
constituição da Frente de Mobilização autor argumentou que mais do que a
Popular, onde: preocupação com eventuais discursos
exacerbados da esquerda, as forças que
Estavam representados os estudantes, com a desferiram o golpe em 1964 pretendiam
UNE; os operários urbanos, com o CGT, a evitar a realização das reformas sociais e
Confederação Nacional dos Trabalhadores a transformação da democracia liberal
na Indústria, o Pacto de Unidade e Ação e a clássica em uma democracia ampliada.
Confederação Nacional dos Trabalhadores Diante deste debate, evito abordar a
nas Empresas de Crédito, os subalternos das FMP a partir de uma concepção retros-
Forças Armadas, como sargentos, marinhei- pectiva que aborda a história desta fren-
ros e fuzileiros navais por meio de suas asso- te em função do Golpe de 1964. Consi-
ciações; facções das Ligas Camponesas; gru- derando a história como um campo de
pos de esquerda revolucionária como a AP, a possibilidades ilimitadas, acompanho a
POLOP, o POR-T e segmentos de extrema- FMP “Comitê do Piauí” a partir de suas
esquerda do PCB, bem como políticos do tentativas de aproximar seu projeto na-
Grupo Compacto do PTB e da Frente Par- cionalista do cotidiano dos trabalhado-
lamentar Nacionalista. A penetração da res. Entre as estratégias desenvolvidas
FMP entre os subalternos das Forças Arma- pela FMP no Estado do Piauí, destacou-
das era algo sem precedentes. Cálculos suge- se o jornal Frente Popular publicado nos
rem que, dos 40 mil sargentos na ativa, 22 idos de março de 1964.
mil eram brizolistas. (FERREIRA, 2004, p.
189).

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Um projeto audacioso: o jornal Frente Po- Nacional dos Estudantes, e Severo Sa-
pular no Piauí les, diretor daquela entidade. É possível
Por volta de junho de 1963, membros que estes universitários fossem os aludi-
da “Frente Nacional de Mobilização dos membros da FMP que vieram ao
Popular” procedentes do Estado da Piauí incentivar a organização desta
Guanabara estiveram no Piauí e estabe- entidade no Estado (LOPES, 1963a, p.
leceram contato com as “forças progres- 06).
sistas” deste Estado, sobretudo, com “os Este relato da criação da FMP no Pi-
setores operários, camponeses, estudan- auí foi escrito pelo jornalista Ribamar
tis e parlamentares”. O assunto que es- Lopes e publicado no jornal nacionalista
tes emissários da FMP vieram tratar O Semanário em junho de 1963. É im-
com os piauienses era “a instalação em portante enfatizar que a constituição
Teresina, do Comitê Estadual dessa desta frente no Piauí tornou-se possível
organização política destinada a traba- porque já havia um processo lutas soci-
lhar em favor das reformas de base”. ais em curso no Estado. Em 1961, foi
Tal proposta encontrou pronta recepção organizado o I Congresso Sindical dos
das “forças progressistas” do Piauí Trabalhadores e Camponeses do Piauí.
(LOPES, 1963a, p. 06). No ano seguinte, foi constituído o Con-
Pouco tempo depois, ocorreu a pri- selho Sindical de Teresina. Por sua vez,
meira reunião entre os membros da em 1963 os camponeses do Estado cria-
FMP e “os operários, camponeses, es- ram a União dos Camponeses do Piauí.
tudantes, parlamentares e demais entu- Em meio a este processo de diferentes
siastas da causa” na Câmara Municipal
de Teresina situada na Praça Rio Bran-
experiências organizativas dos trabalha-
dores piauienses, havia um personagem 41
co, no Centro da cidade. Na segunda comum: o Partido Comunista Brasileiro
reunião, promovida no dia 17 de junho (PCB).
no mesmo local, foi formado o Comitê Deste modo, argumento que a influ-
Estadual da FMP no Piauí por represen- encia do PCB foi tão ou mais importan-
tações “dos setores de classe mais nu- te que a influencia de Leonel Brizola no
merosos do Estado, como sejam os de processo de constituição da FMP no
operários, camponeses, estudantes, fun- Piauí. Esta tese se torna mais plausível
cionários públicos, e, ainda, representa- através da atuação do militante comu-
ções de associações de bairro, da im- nista Ribamar Lopes. Sua condição de
prensa e rádio e dois vereadores muni- correspondente de diversos jornais de
cipais de Teresina e dois deputados es- esquerda (Novos Rumos, O Semanário,
taduais” (LOPES, 1963a, p. 06). Terra Livre e Liga), bem como sua forte
A primeira Comissão Diretora da presença no movimento camponês, lhe
FMP no Estado foi constituída pelo conferiu um lugar especial na articula-
deputado Deusdedith Mendes Ribeiro, ção desta frente no Piauí. Em agosto de
como presidente; jornalista Ribamar 1962, a FMP piauiense lançou um
Lopes, como vice-presidente; universitá- “Manifesto pelas Reformas” que expli-
rio Francisco Celso Leitão, secretário- citava suas posições. Alguns trechos
geral; camponês José Esperidião Fer- deste documento foram compilados por
nandes, como tesoureiro-geral; e operá- Ribamar Lopes em matéria publicada
rio Fortunato Batista, como tesoureiro. no jornal Novos Rumos:
Nesta reunião falaram diversos militan-
tes, entre eles os universitários José Car- O manifesto passa a tratar da atuação que
los Brandão, Vice-presidente da União terá a FMP, no Piauí, dizendo que ela “fun-

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cionará no meio do povo, assim como se fosse sonagens, seja no esforço de utilizar
um comício permanente, pondo em descober- uma linguagem que lhes fosse familiar.
to as origens dos problemas e organizando o O esforço da FMP em estabelecer
povo para a batalha de solução, que os me- canais de diálogo com os trabalhadores
lhor informados já sabem qual é. A FMP e a população piauiense foi registrado
está, pouco a pouco, espalhando-se pelo Bra- no texto “Frente de Mobilização Popu-
sil inteiro, formando as forças populares que lar no Piauí”, escrito pelo jornalista Ri-
irão encaminhar as reformar até as últimas bamar Lopes e publicado no jornal Hora
consequências. No Piauí, a sua presença tem do Piauí em outubro de 1963:
o mesmo sentido que terá no Amazonas e no
Rio Grande do Sul, porque o sofrimento esta A FMP-PI reúne-se todas as terças feiras nas
no País inteiro e o desejo de melhoria esta em proximidades da Câmara Municipal de Te-
toda parte”. (LOPES, 1963b, p. 06). resina, em sessões públicas, para abordar os
problemas da política nacional e estadual,
O referido Manifesto ainda pontuava num debate amplo e honesto, com a finali-
que para alcançar seus objetivos, a FMP dade única de esclarecer a opinião pública do
propunha-se “a ensinar o povo o que Estado. Às quintas-feiras, vem promovendo a
são as Reformas e como pode consegui- realização de palestras nas principais ampli-
las”. Deste modo, o Comitê Estadual da ficadoras localizadas nos bairros de Teresina,
FMP demonstrava uma concepção co- oportunidades em que são explicadas ao povo
mum às organizações de esquerda deste as causas de suas dificuldades, de sua misé-
período, em especial do PCB, de colo- ria, indicando os caminhos da redenção na-
42 car-se como vanguarda de um projeto
revolucionário que deveria ser compre-
cional, através das reformas de base. (LO-
PES, 1963c, p. 08).
endido e assumido pelos trabalhadores.
Portanto, a FMP tinha o desafio de ela- É possível imaginar a enorme reper-
borar pedagogias para convencer os tra- cussão das atividades de propaganda
balhadores e a população piauiense so- dos militantes da FMP através das am-
bre a importância das reformas de base. plificadoras situadas nos bairros da capi-
Tal processo era fundamental na gesta- tal, uma vez que a cultura radiofônica
ção de uma nova hegemonia calcada atingia uma parcela gigantesca da popu-
nos interesses do povo. lação de Teresina. Por outro lado, a
Não é preciso ressaltar que a posição referida matéria também discorreu sobre
de vanguarda reivindicada pelas esquer- a importância que a Frente atribuía a
das, portanto pela FMP, tinha como “leitura popular”, o que nos leva a refle-
pressuposto uma evidente subestimação tir sobre o lugar dos jornais na estratégia
da capacidade dos trabalhadores de desta organização em fomentar um dis-
compreender e atuar sobre sua própria curso contra-hegemônico cuja ênfase
realidade através de suas experiências recaia sobre às reformas de base.
cotidianas (THOMPSON, 1987, p. 10). Neste sentido, a FMP nacional tinha
Todavia, é interessante acompanhar um órgão de propaganda próprio, o
como a elaboração de pedagogias pela Panfleto – o jornal do homem da rua perió-
FMP piauiense também implicou na dico que circulou entre os meses de fe-
construção de correspondências com as vereiro e março de 1964. Os militantes
experiências cotidianas dos trabalhado- da FMP no Piauí também constituíram
res piauienses, seja no tocante a aborda- seu próprio órgão de comunicação, tra-
gem de situações vividas por estes per- tava-se do jornal Frente Popular – o poder
para o povo. A única referencia sobre este

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periódico na historiografia local, encon- ou menos homogêneo, de um certo tipo, de


tra-se no livro Movimentos sociais e parti- um certo nível e, particularmente, com uma
cipação política do sociólogo Antonio certa orientação geral; devemos pressupor
José Medeiros: ainda que se pretenda fundar-se em tal agru-
pamento para construir um edifício cultural
Um aspecto novo na conjuntura estadual da completo, autárquico, começando precisa-
época, foi a organização e manifestação das mente pela... língua, isto é, pelo meio de ex-
forças políticas de esquerda, através da Fren- pressão e de contato recíproco. Todo o edifício
te de Mobilização Popular, a partir de maio deveria ser construído de acordo com princí-
de 1963. A Frente torna-se um fórum de de- pios “racionais”, isto é, funcionais, na medi-
bates sobre as reformas de base e, não sem da em que se têm determinadas premissas e
conflitos internos, lidera algumas manifesta- se pretende atingir determinadas consequên-
ções de pressão ao Congresso, em favor das cias (GRAMSCI, 1982, p. 162).
reformas de base. Publicou um único número
do jornal Frente Popular, já em 31 de março A partir das contribuições de
de 1964. Os deputados estaduais Deusdedit Gramsci é possível conceber a imprensa
Ribeiro e Themístocles Sampaio e o vereador como um campo de embates entre dife-
Jesualdo Cavalcanti, todos do PTB, além de rentes versões sobre a realidade. Deste
Ribamar Lopes do PCB, são suas principais modo, o jornal Frente Popular assumia
lideranças. (MEDEIROS, 1996, p. 83). um lugar bem demarcado neste campo
de luta, a defesa das reformas de base tal
O Frente Popular tinham como supe- como expostas através do programa
rintendente o jornalista Ribamar Lopes
e como diretor executivo o bancário
político da Frente de Mobilização Popu-
lar. 43
Armando Lima. O Conselho de redação O jornal contava com oito páginas,
do periódico era formado por sete igualando-se, assim, aos grandes perió-
membros: Pedro Celestino, Samuel dicos do Estado como a Folha da Manhã.
Dourado Guerra, Francisco Leitão, Ra- A linha editorial do Frente Popular re-
imundo Nonato Santos, Deusdedith caiu, sobremaneira, na discussão sobre a
Ribeiro, Themístocles Sampaio e Jesu- urgência das reformas de base no Brasil.
aldo Cavalcanti. Os três últimos nomes Percebemos esta ênfase através, sobre-
eram parlamentares do PTB, o que evi- tudo, da “Página do Camponês”. Nesta
dencia a força deste partido no interior sessão do jornal, o redator (provavel-
da FMP. Por outro lado, Raimundo mente Ribamar Lopes, por sua vincula-
Nonato Santos e Francisco Leitão eram ção com o movimento camponês) apre-
estudantes que militavam nas fileiras senta um texto cujo principal objetivo é
comunistas. estabelecer um diálogo com os campo-
Os estudos do filósofo italiano Anto- neses, convencendo-os da luta política
nio Gramsci possuem grande importân- contra o latifúndio. Deste modo, o arti-
cia no tocante à superação da ideia de culista faz uso de exemplos cotidianos e
imprensa como um campo neutro e im- também de uma linguagem próxima aos
parcial. Ao examinar as formas de jor- lavradores:
nalismo e de atividades publicístico-
editorial em geral, o autor estabelece O latifundiário é a pior saúva do campo.
como pressuposto: Para lhe dar combate só existem dois inseti-
cidas. São as palavras “Sindicato” e “Liga”.
A existência, como ponto de partida, de um EXEMPLO
agrupamento cultural (em sentido lato) mais

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Certa vez, um latifundiário daqui de perto do como um chamado às Ligas Cam-


proibiu os moradores continuassem arran- ponesas (cuja liderança mais conhecida
cando a “sua” mandioca para fazerem fari- era Esperidião) para organizar a resis-
nha de puba. tência dos camponeses. A preparação de
Ora, os camponeses precisavam fazer massa uma assembleia, a deflagração da greve,
de puba para alimentarem seus filhos sempre bem como a recusa em resolver o confli-
famintos. As mulheres pretendiam vender a to pela violência, constituem exemplos
massa de puba no mercado para amenizar de como os camponeses deveriam atuar
um pouco a miséria de seus lares. E a man- para pôr fim aos abusos do latifúndio e
dioca não pertencia ao latifundiário, pois conquistar mais direitos.
eram plantadas nas roças dos moradores. A O redator desta página realiza uma
proibição absurda foi rejeitada. O poderoso interessante operação de bricolagem e
senhor vitima daquele “desrespeito” a sua insere no seu texto um trecho da “Carta
ordem, resolveu “dar lição” aos infratores. de Alforria do Camponês”, escrita por
Reuniu alguns capangas e foi dominar as Francisco Julião, para reforçar o argu-
mulheres quando elas saiam de casa, pelo mento da união dos camponeses como
roçado, para o mercado. caminho para alcançar a liberdade:
As mulheres indefesas, diante da fúria do
proprietário e da presença dos capangas, não OS CAMINHOS
ofereceram resistência. A massa de puba foi Muitos são os caminhos que te levarão à
derramada no chão vermelho da estrada. liberdade. Liberdade quer dizer terra. Quer
Mas a represália não tardou. O líder sindical dizer pão. Quer dizer casa. Quer dizer remé-
44 ESPERIDIÃO foi chamado as pressas para
orientar a luta.
dio. Quer dizer escola. Quer dizer paz. Eu te
apontarei esses caminhos. Mas eu te digo e
ASSEMBLEIA HISTÓRICA repito: não adianta a viagem se tu fores sozi-
Debaixo de um grande e frondoso cedro, qua- nho. Convida seu irmão sem terra ou de pou-
se quinhentos homens e mulheres decidiram, ca terra. E pede que ele convide outro. No
na presença do próprio latifundiário, defla- começo serão dois. Depois, dez. Depois, cem.
grar a greve geral em represália ao ato (ilegí- Depois, mil. E no fim serão todos. Marchan-
vel) e reivindicando ainda outros direitos. O do unidos. Como unidos vão à feira, à festa,
proprietário decidiu dissolver a assembleia, à missa, ao culto, ao enterro, à eleição. Digo
mas alguém gritou no meio da multidão e repito: a união é a mãe da liberdade. (PÁ-
“Pau nele”! E as mulheres, mais ofendidas GINA, 1964, p. 05).
que os homens, teriam dado início ali mesmo
ao linchamento, não fosse a intervenção A historiadora Maria do Socorro
enérgica do líder ESPERIDIÃO, que man- Rangel já chamou a atenção para a im-
chou o caminho para a carreira do latifundi- portância da pedagogia radical dissemi-
ário. (PÁGINA, 1964, p. 05). nada pelo “proselitismo político” de
Julião (RANGEL, 2000, p. 109). As
A referida página tem um forte cará- imagens expostas por Julião pretendem
ter pedagógico na medida em que de- construir um lugar de contraposição ao
marca uma situação de opressão que latifúndio, propósito compartilhado
certamente era compartilhada por inú- pelos militantes da Frente de Mobiliza-
meros camponeses piauienses e, em ção Popular no Piauí. A “Página do
seguida, propõe uma solução para por Camponês” também recorreu ao humor
fim aquele problema. O pedido de auxi- para reforçar a necessidade de construir
lio a José Esperidião Fernandes para um contraponto ao latifúndio:
“orientar a luta”, pode ser compreendi-

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MANDAMENTOS DO LATIFUNDIÁ- tavam vivendo uma “calamidade públi-


RIO ca”, pois o aludido muro represava as
1 – Amar suas terras sobre todas as coisas; águas da chuva que, assim, invadiam as
2 – Não jurar que vai ajudar a nação; “humildes casas” dos moradores daque-
3 – Guardar domingos e festas de guarda. Só le bairro. O texto pontuava que o “muro
o camponês pode trabalhar nesses dias; da vergonha” representava uma síntese
4 – Honrar pais (dinheiro) e mãe (terra); da sociedade piauiense:
5 – Não matar. Apenas mandar...
6 – Não ligar para o camponês; Entretanto ali esta o “muro”, jogando por
7 – Não furtar pouco; terra o sentido desta frase oca! Do lado de
8 – Não levantar casa do camponês; dentro de suas paredes uma minoria privile-
9 – Não desejar a mulher do próximo (ilegí- giada constrói cassinos, piscinas, salões de
vel). dança para confraternizarem suas vidas feli-
10 – Sempre cobiçar as terras alheias; zes e despreocupadas. Enquanto que, do lado
Os dez mandamentos se resumem em dois de fora, bem rente ao “muro”, uma multidão
que são amar a sua terra sobre todas as coisas de infelizes vai caindo aos pedaços, vítimas
e sugar o próximo o quanto puder. (PÁGI- da fome, das doenças, do abandono mais
NA, 1964, p. 05). cruel! E como se não bastasse esse contraste
monstruoso entre a riqueza e a miséria, que
É interessante notar como o redator revela até que ponto progridiu o egoísmo
utiliza a ideia e a forma dos dez man- humano, aquele “muro”, erguido pela cobiça
damentos católicos (talvez por entender sobre os destroços de tantas vidas, ainda se
que eram familiares aos camponeses),
para explicitar os privilégios dos lati-
encarrega de juntar as enxurradas do inver-
no, para atirá-las, de rojo, sobre o que resta 45
fundiários sobre os lavradores. Perce- das palhoças humildes, como a dizer em sua
bemos, assim, que as pedagogias desen- fúria lamacenta: - fora! fora! desgraçados!!!
volvidas na “Página do camponês” (O MURO, 1963, p. 04).
também implicavam a construção de
correspondência com as experiências O tom forte e áspero do texto cons-
cotidianas dos camponeses, trabalho trói um cenário aterrador, onde o acento
este que terminava por aproximar os tônico recai sobre a crueldade das “clas-
militantes da FMP daquele “outro” que ses privilegiadas”. A imagem do “mu-
deveria ser conquistado. Diante da cru- ro” é tomada para significar toda uma
eldade que essas imagens exortavam história de contraste social entre uma
como não criar um contraponto? minoria privilegiada e uma imensa mai-
Outra matéria do Frente Popular tam- oria que padecia cada vez mais cedo. O
bém apresentou um forte conteúdo pe- “muro” funcionava como elemento cen-
dagógico, trata-se do texto “O muro da tral do argumento do manifesto: a ne-
vergonha: manifesto ao povo de Teresi- cessidade de derrubar os muros que er-
na”. O assunto abordado nesta matéria guiam diferenças sociais entre os ho-
era o grande prejuízo que a construção mens. Desta maneira, a luta contra o
do “Iate Clube de Teresina” acarretou “muro da vergonha” seria parte indisso-
para a população do bairro Pirajá. O lúvel da luta pelas reformas de base que
manifesto da FMP aduziu que aquela pretendiam criar um Brasil mais iguali-
construção implicou na derrubada pré- tário na visão dos militantes da FMP.
via de “todas as casas que ali existiam”. Todas as matérias e textos do
Além disso, os moradores do Pirajá es- Frente Popular, produzidos a partir de
diferentes estratégias, convergiam para

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Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa

um único ponto: criar uma opinião pú- Sabemos que a partir do grande Comício da
blica favorável às reformas de base. Tra- Guanabara em que o Presidente João Gou-
tava-se de investimentos em um discur- lart assinou aqueles históricos decretos, agu-
so contra-hegemônico visando gestar çou-se no país inteiro a campanha de agita-
uma nova hegemonia pautada pelos ção golpista dos inimigos das Reformas. Di-
interesses do povo piauiense, sobretudo, ante do gesto de coragem do Presidente da
dos camponeses. Sobre a relação entre a República, e da presença de centenas de mi-
imprensa e a opinião pública, Darnton lhares de brasileiros, aplaudindo em praça
argumentou que: pública os grandes lideres populares, a reação
entrou em pânico. (...)
Os sistemas de comunicação têm uma histó- O Piauí, nesse momento, é testemunha elo-
ria, ainda que raramente os historiadores a quente desse processo único e irreversível de
estudem. O poder dos meios de comunicação unidade e de luta, que estremece o Brasil de
em moldar fatos e dar-lhes cobertura foi um norte a sul. A nossa presença, é bem a prova
fator crucial na Revolução Francesa, quando de que também vivemos a intensidades destas
o jornalismo surgiu pela primeira vez como lutas decisivas para o destino da Pátria. Pois
uma força nos negócios de Estado. Os revolu- daqui, donde o latifúndio erguera a sua pra-
cionários sabiam o que estavam fazendo ça forte, lançamos corajosamente nossa pala-
quando carregavam prelos em seus desfiles vra de ordem, que é de absoluto apoio ao
cívicos, e quando reservavam um dia do ca- Presidente João Goulart e às Reformas por
lendário revolucionário para comemorar a ele iniciadas. (NOSSA, 1964, p. 08).
opinião pública (DARNTON, 1990, p. 16).

46 Em um contexto marcado pelo cres-


Tratava-se não só de se contrapor às
posições da grande imprensa, mas, sim,
cimento das tensões sociais, conquistar de construir uma nova hegemonia. As
a opinião pública era fundamental para proposições de Gramsci nos auxiliam
as forças políticas em conflito. Outros- mais uma vez a refletir sobre esta ques-
sim, a ofensiva desferida pela grande tão. O filósofo italiano pontuou que nas
imprensa contra o presidente João Gou- sociedades onde se consolidou o Estado
lart após suas declarações durante o liberal democrático a dominação social
Comício da Central do Brasil em 13 de não residia apenas na coerção, mas
março de 1964, reforçou ainda mais a também na construção de consensos,
necessidade de fortalecer e ampliar uma processo que ele denomina como hege-
opinião pública favorável as reformas de monia (SECCO, 2006, p. 43-44). Como
base. Em certo sentido, a própria cria- portadores de visões de mundo, os jor-
ção do jornal Frente Popular localiza-se nais são compreendidos por Gramsci
como mais um investimento contra- como “aparelhos privados de hegemo-
hegemônico da FMP piauiense no sen- nia”. Portanto, jornais como o Panfleto
tido de conseguir o apoio da população ou Frente Popular pretendiam se consti-
para as reformas necessárias ao desen- tuir como lugar da construção de uma
volvimento do país. nova hegemonia onde o nacionalismo
Em sua última página, o jornal apre- ocupava um lugar central.
sentava um editorial onde analisava a Os militantes da FMP não tiveram
conjuntura vivida naquele momento e tempo suficiente para avaliar sua auda-
explicitava a posição do jornal, portan- ciosa tentativa de contribuir para a cria-
to, da própria FMP: ção de uma nova hegemonia através do
jornal Frente Popular. Na madrugada
daquele mesmo dia 31 de março de

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1964, as tropas do General Mourão Fi- variantes e índices. Rio de Janeiro: Civi-
lho começaram a marchar rumo ao Rio lização Brasileira, 2002. 495 p. v. 6.
de Janeiro. O Golpe Militar havia inici- LOPES, Ribamar. I Encontro dos
ado. O jornal Frente Popular representou Camponeses e Comitê da Frente de
uma entre muitas tentativas de se cons- Mobilização Popular. O Semanário,
truir um mundo melhor naqueles tor- Rio de Janeiro, p. 06, 06-12 jun. 1963.
mentosos anos. É exatamente neste as- (a)
pecto que reside toda sua riqueza. A LOPES, Ribamar. FMP do Piauí: Ma-
história também é feita de tentativas, nifesto pelas Reformas. Novos Rumos,
ou, como ressaltou Thompson, daqueles Rio de Janeiro, p. 06, 02-08 ago. 1963.
“becos sem saída” (THOMPSON, (b)
1987, p. 13). LOPES, Ribamar. Frente de Mobiliza-
São estes “becos sem saída” que ção Popular no Piauí. Hora do Piauí.
guardam todo um universo de expecta- Rio de Janeiro, p. 08, 01-15 out. 1963.
tivas e sonhos que não se realizaram, (c)
mas que ainda mantém toda importân- MEDEIROS, Antonio José. Movimen-
cia para a compreensão das ações da- tos sociais e participação política. Te-
queles homens e mulheres que lutaram resina-PI: CEPAC, 1996.
por um mundo melhor. NOSSA posição. Frente Popular. Tere-
sina, p. 08, mar. 1964.
Referências bibliográficas O MURO da vergonha: manifesto ao
DARNTON, Robert. O beijo de La- povo de Teresina. Frente Popular. Te-
mourette: mídia, cultura e revolução.
São Paulo: Companhia das Letras,
resina, p. 04, mar. 1964.
PÁGINA do Camponês. Frente Popu-
47
1990. lar. Teresina-PI, p. 05, mar. 1964.
DARTON, Robert; ROCHE, Daniel. RANGEL, M. do Socorro. Medo da
Revolução impressa: a imprensa na morte, esperança de vida: uma história
França 1775-1800. São Paulo: EDUSP, das Ligas Camponesas na Paraíba.
1996. 2000. 387 f. Dissertação (Mestrado em
DELGADO, Lucília de Almeida Ne- História) – Universidade Estadual de
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FERREIRA, Jorge. “A estratégia do Terra, 1987.
confronto: A Frente de Mobilização TOLEDO, Caio Navarro de. As falácias
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ria. São Paulo, Anpuh, vol. 24, n. 47, Paulo). Rio de Janeiro, v. 19, p. 27-48,
Jan-jun de 2004. 2004.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e
a organização da cultura. Rio de Janei-
ro: Civilização Brasileira, 1982.
______. Cadernos do cárcere - Literatu-
ra. Folclore. Gramática. Apêndices:

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Matheus França dos Santos

ESPAÇO PRATICADO:
desenvolvimento urbano de Teresina
Matheus França dos Santos1

Resumo
O objetivo desse trabalho é analisar as práticas espaciais e sua relação com o desen-
volvimento urbano de Teresina, a partir do extrativismo vegetal nos anos 1900 a
1930. Dentro desse estudo, observaremos o surgimento dos discursos e práticas es-
paciais, a partir das Mensagens de Governo do Piauí. Nessa proposta utilizamos e
trabalhamos teoricamente as definições das categorias de espaço e lugar em Michel
de Certeau (1998), caracterizando os relatos oficias do extrativismo com as obras
públicas de desenvolvimento da capital piauiense, dentro do recorte temporal que
marcam as três primeiras décadas do século XX.
Palavras-chave: Extrativismo Vegetal. Desenvolvimento urbano. Teresina.

Abstract
The objective of this work is to analyze the spatial practices and your relationship
with the urban development of Teresina, from the extraction of vegetable in the
years 1900 to 1930. In this study, we will look at the emergence of the speeches and
spatial practices, from the Government of Piauí messages. In this proposal we use
48 and work theoretically the definitions of the categories of space and place in Michel
de Certeau (1998), featuring the official reports of the extraction with the turnkey
development of the capital of Piauí, within the timeframe that mark the first three
decades of the 20th century.
Keywords: Agricultural extrativism. Urban development. Teresina.

1
Graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI, Campus
Poeta Torquato Neto. E-mail: mathewsfranca1110@gmail.com

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Introdução ramos compreender como era o espaço


Ao longo do processo da construção urbano e como se desenvolveu dentro
historiográfica sobre Piauí, um dos pon- das três primeiras décadas do século
tos mais abordados é o seu processo de passado.
colonização e seus aspectos econômi- Alguns conceitos foram utilizados
cos. Entre a segunda metade e o fim do nesse estudo, dentre eles o conceito de
século XX, temos grandes obras em re- espaço e lugar de Michel de Certeau.
lação ao desenvolvimento econômico Segundo o autor, lugar é “a ordem (seja
do Estado, dentre elas, podemos desta- qual for) segundo a qual se distribuem
car as de Odilon Nunes, Raimundo elementos nas relações de coexistência.
Nonato Monteiro Santana e já para o [...] lugar é, portanto, uma configuração
final do século temos Teresinha Queiroz instantânea de posições” (CERTEAU,
com suas obras voltadas para a produ- p. 201. 1998) e espaço “é o cruzamento
ção econômica extrativista vegetal de de móveis. É de certo modo animado
maniçoba. pelo conjunto de movimento que aí se
A maioria das análises e textos escri- desdobram” (CERTEAU, 1998, p.202).
tos sobre o extrativismo vegetal, o des- Nesse texto, que é um fragmento de
crevem como um meio de produção que minha monografia, esses conceitos fo-
proporcionou ao Estado do Piauí uma ram utilizados relacionados ao desen-
saída da crise ao qual o mesmo se en- volvimento urbano de Teresina, com-
contrava desde o início do século XIX, preendendo assim as obras que eram
quando a principal fonte de renda do realizadas na capital como movimentos
Piauí que, nessa época era baseada na
criação e comercialização de gado, en-
que se desdobravam dentro do lugar, o
transformando em um espaço, ou seja, o 49
tra em decadência por conta de inúme- espaço é um lugar onde se estabelecem
ros fatores, dentre eles, o desenvolvi- práticas, movimentos, ou seja, o espaço
mento do mercado pecuarista em outras é lugar praticado.
áreas do país. Tal pesquisa foi embasada em fontes
Alguns autores piauienses, ainda oficias, tais como as Mensagens de Go-
abordam o extrativismo vegetal, com verno dos anos de 1900 a 1930, além de
um dos condicionantes do desenvolvi- outras, as quais aqui não foram menci-
mento urbano de Teresina dentro do onadas, tais como: Almanaque da Par-
contexto das três primeiras décadas do naíba e o Jornal Diario do Piauhy. Esse
século XX, dentre eles podemos desta- texto faz parte de uma pesquisa mono-
car Agenor Martins, que ressalta em sua gráfica composta por três capítulos, e
obra: Piauí: evolução, realidade e desenvol- que fora apresentada no mês de novem-
vimento (2002) a relação do extrativismo bro de 2017, como obtenção do grau de
nesse tal processo. Licenciatura Plena em História.
A partir da análise realizada sobre a
contribuição da exportação dos produ- Emergência do extrativismo vegetal
tos extrativistas aos cofres públicos, re- O desenvolvimento urbano de uma
lacionamos tal progresso econômico, cidade não é algo natural, não acontece
com o desenvolvimento urbano de Te- espontaneamente em um determinado
resina, analisando com isso os discursos momento como se a mesma estivesse
políticos apresentados à Câmara Legis- predestinada ao acontecimento. Tal de-
lativa piauiense pelos governadores do senvolvimento é sempre condicionado a
Estado. Por tanto, a partir de tais dis- um determinado aspecto, seja ele o
curso e das leituras bibliográficas procu- crescimento populacional, necessidades

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Matheus França dos Santos

públicas, como por exemplo, locais de mais já citadas. O Brasil nesse dado re-
lazer ou saneamento básico e até mes- corte temporal se encontrava como o
mo pelo o anseio de modernidade ad- principal fornecedor da borracha como
vinda da implantação de um determi- matéria-prima para o mercado interna-
nado sistema político, como o que ocor- cional, tendo como principal mercado a
reu na Primeira República1 no caso da Inglaterra, “No decênio 1901-10 a ex-
antiga capital brasileira, o Rio de Janei- portação da borracha será em média
ro, no início do século XX2. anual de 34.500 toneladas (...). O que
Dentro do contexto republicano, vem a representar 28% da exportação
mais precisamente entre 1900 e 1930, a total do Brasil.” (JÚNIOR, 1998, p. 236
capital piauiense, aparentemente sofreu - 237). Nesse determinado contexto a
em menor grau - isso comparado com o borracha era o segundo no ranking de
Rio de Janeiro ou São Paulo - com esse exportação brasileira, perdia somente
processo de urbanização. Essas melho- para o café que, desde o Império4 assu-
rias urbanas estavam de certa forma mia o posto, representando mais de cin-
ligados ao principal meio de produção quenta por cento da exportação total do
econômica do Estado do Piauí naquele Brasil.
momento, o extrativismo vegetal. Meio A extração da maniçoba nas décadas
de produção esse, que aliviou a econo- iniciais do século passado liderava a
mia do Estado, desafogando os seus tabela da economia piauiense, era a
cofres que desde o início do século XIX, principal matéria de exportação do Es-
vinha passando por uma profunda crise tado, deixando para traz até mesmo o

50 por conta da estagnação e diminuição


do comércio de seu principal meio de
produto que formara a base da econo-
mia do Piauí até o final do século XIX,
produção, a pecuária extensiva3, que a pecuária:
perdeu sua força de produção e de ex-
portação internacional e nacional. Não fôra a expansão que a industria da ex-
O extrativismo vegetal surge na eco- tracção da borracha de maniçoba tem tido no
nomia piauiense no final do século XIX ultimo triennio e qualificariamos de alar-
com a extração da maniçoba e se esten- mante o nosso estado economico, porque
de até a metade do século XX com a muito se ha reduzido o producto dos impostos
extração da cera de carnaúba e do coco de dizimo e exportação de gado, cuja criação
babaçu, mas nessa pesquisa nos delimi- constituia a mais solida base de riqueza do
taremos somente nas três primeiras dé- Estado. Esta reducção é devida ás sêccas
cadas do século passado, que foi quando constantes que nos tem assolado, e que exer-
o primeiro produto dessa cultura, a ma- cem tambem sua nefasta influencia sobre a
niçoba, esteve em alta e sofreu um de- lavoura [sic] (MENSAGEM DE GOVER-
clínio, perdendo o espaço para as de- NO DO PIAUÍ, 1905, p. 15).

1
A República foi um sistema de governo implan-
Na fala do Governador do Estado
tado no Brasil em 1889. Álvaro de Assis Osorio Mendes, é visí-
2
Para entender tal contexto, indicamos a leitura vel a importância de tal produção para o
da obra de Nicolau Sevcenko: Literatura como Piauí no início do século passado. Álva-
missão tensões sociais e criação cultural na Pri-
meira República. 4
3
Período que vai de 1822 a 1889, nesse contexto
Para mais informação sobre essa crise que aba- o Brasil era comandado pela monarquia. Nesse
lou as estruturas econômicas piauienses, ler a período tivemos D. Pedro I e D. Pedro II como
obra de Agenor Martins, Piauí: evolução, realida- monarcas e governadores do Brasil.
de e desenvolvimento.

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ro Mendes responsabiliza a extração da a abertura de ruas e praças, tanto na Capital


borracha de maniçoba pelo fôlego fi- como nas cidades interioranas, foram possí-
nanceiro que tal atividade dava a eco- veis graças aos benefícios gerados pelo extra-
nomia piauiense, o que era mínimo, tivismo (MARTINS, 2002, p.65, 66.).
pois a mesma não tinha permitido ainda
ao Piauí entra em uma zona de confor- Segundo Agenor Martins, foi esse
to. Apesar de suas condições não serem processo de extração vegetal que condi-
alarmantes, o Estado ainda não vivia cionou o desenvolvimento urbano da
uma tranquilidade como deixa bem cla- capital piauiense e não somente de Te-
ro o relato do Governador. resina, mas também das cidades interio-
A partir do relato governamental, ranas do Piauí.
podemos destacar o caráter transitório
pela qual a economia piauiense passara Urbanização: práticas espaciais
nos anos iniciais do século XX, pois a Como dito anteriormente, para discu-
atividade de extração vegetal agora to- tirmos tal desenvolvimento, utilizare-
mava a frente como o principal produto mos o filósofo e pensador Michel de
de sustentação financeira do Estado, já Certeau e sua concepção de lugar e es-
que, o imposto adquirido com a expor- paço. Podemos nos perguntar, por que
tação do gado e o dízimo, não eram analisar tal ideia, já que a urbanização
mais suficientes para manter a máquina ocorre ao mesmo tempo no lugar e no
administrativa piauiense, o que propor- espaço? Certamente que sim, mas o que
cionou à nova produção econômica viria ser um espaço? E o que seria lugar?
advinda da extração da borracha reali-
zar.
Aparentemente as duas palavras têm o
mesmo significado, são sinônimas e por
51
Dentro desse novo contexto econô- isso quase sempre são utilizadas em um
mico - onde as baixas da exportação do mesmo contexto.
gado perdem seu espaço como condutor Mas apesar de tais nomenclaturas se
e regulador da economia estatal do Pi- completarem, as mesmas possuem sen-
auí e dar lugar a uma nova atividade tidos diferentes. Certeau define lugar
econômica capaz de realizar tal manu- como “a ordem (seja qual for) segundo
tenção – é que as três primeiras décadas a qual se distribuem elementos nas rela-
se desenrolam economicamente. Ou ções de coexistência. [...] lugar é, por-
seja, queda da pecuária, ascensão do tanto, uma configuração instantânea de
extrativismo, principalmente da mani- posições” (CERTEAU, p. 201. 1998).
çoba, carnaúba e babaçu. Portanto, Michel de Certeau define lu-
A partir desse novo cenário econô- gar como ideia de posição, onde se dis-
mico, estaremos realizando a análise do tribuem peças, objetos ou qualquer ou-
desenvolvimento urbano de Teresina tro tipo de coisa, seja em qual ordem
relacionado a essa nova atividade eco- for. No caso de nosso objeto de pesquisa
nômica, pois: o lugar seria a cidade de Teresina, pois
o simples fato dela existir não faz dela
Com o reforço das finanças estaduais, pela um espaço. Um lugar, pelo simples fato
ação das exportações, foi empreendida uma de existir é segundo o autor, uma confi-
serie de melhoramentos urbanos, A instala- guração instantânea de posição, como
ção de luz elétrica e abastecimento d’água na por exemplo, Teresina está posicionada
Capital foi feita com a receita da borracha. A em um lugar mais esse lugar não é um
construção de prédios públicos, como o palá- espaço.
cio do Karnak, ainda hoje sede do Governo,

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Mais já que lugar não é espaço se- seja, as Mensagens de governo, que tal
gundo Certeau, o que viria então a ser a desenvolvimento limitou-se basicamente
definição de espaço? Para o pensador “o a duas obras dentro de um espaço de
espaço é o cruzamento de móveis. É de tempo de vinte anos, o abastecimento
certo modo animado pelo conjunto de de água e de energia elétrica, isto é, Te-
movimento que aí se desdobram” resina, apesar de ser a capital do Estado
(CERTEAU, 1998, p.202), ou seja, o do Piauí continuava praticamente com
espaço é onde ocorre o deslocamento de as mesmas estruturas e configurações do
tais objetos que estão posicionados em período imperial, sofrendo duas “mu-
seu lugar, por exemplo, o deslocamento danças significativas” até o início da
de um móvel dentro de um quarto, es- segunda década:
tabelecendo uma nova configuração
para o mesmo, faz daquele quarto não Com um orçamento que não attinge mil con-
mais um lugar, mas sim um espaço, tos de reis, onerado, além disso, até poucos
“Em suma, o espaço é um lugar praticado. tempos, por uma pesada divida fluctuante, è
Assim a rua geometricamente definida impossivel ao Estado attender aos mais ur-
por um urbanismo é transformado em gentes e inadiáveis trabalhos materiaes, por
espaço pelos pedestres. Do mesmo mo- mais justos e fundados que sejam os reclamos
do, a leitura é o espaço produzido pela da população. Por isso, apenas foram execu-
pratica do lugar constituído por um sis- tadas algumas obras na capital e estas ainda
tema de signos – um escrito” (CERTE- reduzidas a simples concertos nas repartições
AU, 1998, p.202). publicas e a conclusão do palacete contiguo a

52 Por tanto, o espaço nada mais é do


que um lugar praticado, ou seja, é um
assembleia legislativa. [sic] (MENSAGEM
GOVERNAMENTAL, 1903, p. 11).
lugar onde se estabelece práticas de des-
locamento ou construções que propor- As obras públicas realizadas até o
cionam uma mudança de layout, uma ano de 1903 ficavam restritas somente a
mudança na configuração do lugar. reformas de prédios públicos, como po-
Como deixa bem claro a citação do au- demos observar na Mensagem do Go-
tor, quando se refere ao transitar de pe- vernador Arlindo Francisco Nogueira.
destres em uma rua projetada por um O mesmo menciona que a população da
urbanista, o deslocamento é que define capital ansiava por melhorias na estru-
e transforma o lugar (a rua) em um es- tura urbana, ou seja, que o lugar sofres-
paço. Em suma, o espaço é o que ficci- se práticas espaciais significativas, mas
ona o sujeito anônimo, ou seja, é o es- tais práticas ficaram reduzidas somente
paço que dá sentido, visibilidade, ou até a reformas em repartições públicas, isso
podemos dizer que dá existência ao que no início do século XX.
conhecemos por lugar. A partir dessa Após 1903 o governo do Estado do
perspectiva conceitual de espaço em Piauí realiza investimentos em duas
Michel de Certeau, iremos analisar o obras que atingiriam e modificaram as
desenvolvimento urbano de Teresina, configurações da capital piauiense, den-
partindo da ideia de que tais modifica- tre as quais temos o abastecimento de
ções urbanas proporcionaram e deram água: “Em virtude da auctorização
sentidos à capital do Piauí. constante da lei n.º 312, de 28 de Junho
Tendo Teresina como lugar, como do anno passado, iniciei em setembro
sujeito anônimo e as melhorias urbanas ultimo os trabalhos para o abastecimen-
como práticas espaciais, temos a con- to d’agua á Capital, sob a direcção do
cepção a partir dos relatos oficiais, ou intelligente Director da Repartição de

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Obras Publicas, Dr. Antonino Freire da pode ser consideravelmente elevada, desde
Silva” [sic] (MENSAGEM DE GO- que possam ser convenientemente explorados
VERNO, 1904, p. 12). todos os nosso extensos e ricos carnahubaes
[sic] (MENSAGEM DE GOVERNO DO
O Governador Arlindo Nogueira ini- PIAUÍ, 1911, p. 55).
cia no fim de setembro de 1903, o pro-
cesso de instalação do sistema de abas- Já em 1911 ele se torna o segundo
tecimento d’agua, obra essa que em seu item mais exportado do Estado do Pi-
primeiro momento teria o intuito de ser auí. Nesse mesmo ano a borracha de
realizada através de um serviço particu- maniçoba começa a ter uma pequena
lar, o qual o senhor José Martins Teixei- queda no mercado internacional:
ra que, recebera autorização no governo
de Arthur de Vasconcellos pelo Decreto Como sabeis, a exportação da borracha de
nº 163, de 29 de Março de 1900, para maniçoba constitui hoje a nossa mais avul-
realizar as obras de abastecimento tanto tada fonte de renda e o mais importante ob-
de água potável quanto de iluminação jecto do nosso commercio. Os preços desse
da capital do Estado do Piauí, não rea- producto que em 1910 foram, na media, de £
lizou. 0.3.7, por libra, desceram este anno no pri-
Tal processo de abastecimento de meiro trimestre a £ 0.2.8, produzindo já sen-
água, agora daria um novo sentido ao sivel retração nos centros produtores e não
cotidiano e a configuração da cidade de pequenos prejuisos aos exportadores e á recei-
Teresina. Após a implantação de tal ta do Estado [sic] (MENSAGEM DE GO-
melhoria as condições de saúde da po-
pulação iriam melhorar, pois, a água
VERNO DO PIAUÍ, 1911, p.51).
53
deixaria de chegar às casas dos morado- Segundo a mensagem do Governa-
res através de jumentos - a água era car- dor Antonino Freire, há uma diminui-
regada em galões por jumentos – e pas- ção do preço da maniçoba no comércio
saria a chegar através de encanamentos. internacional “De 1901 a 1914, a borra-
De 1904 até o fim da primeira década cha contribuiu no conjunto da receita
do século XX, as obras públicas realiza- das exportações com a média de 48,8%.
das na capital piauiense limitaram-se a Sua participação mais acentuada é no
reformas de prédios públicos, ao início triênio 1909-1911, quando é responsável
da construção do Asylo de Alienados por mais de 60% dessa receita” (QUEI-
em 1908, a continuação do processo de ROZ, 2006, p. 147). Inicia-se, portanto,
abastecimento d’água, o serviço de já em 1911 uma crise no principal gêne-
abastecimento de energia e iluminação ro de exportação do Estado, crise essa
pública da capital que, por sinal foram que se agrava nos anos seguintes. Tal
as principais obras realizadas em Tere- situação se dá, por conta da produção
sina, dentro da primeira década do sécu- dos países do Oriente, que forneciam
lo passado. uma borracha de melhor qualidade e de
Ainda na primeira década, surge em menor preço aos países da Europa.
meio os relatos oficiais outro gênero de A queda da maniçoba no mercado
exportação de peso na economia pi- internacional abala os cofres do Piauí,
auiense: a cera de carnaúba: pois a mesma era a principal fonte de
renda do Estado. Tal crise não se torna
A cêra de carnaúba occupa o segundo lugar tão alarmante por conta da emergência
na ordem de importância dos nossos produtos da cera de carnaúba que surge como
de exportação. A sua produção, porem, ainda “substituta” - junto com a extração do

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Matheus França dos Santos

babaçu – da borracha de maniçoba “A seja, começavam a “trazer às claras” as


partir de 1915, o papel até então desen- noites teresinense.
volvido pela borracha passa a ser ocu- Os cidadãos teresinenses passam
pado pela cera de carnaúba – Cuja valo- agora a exercer atividades noturnas por
rização internacional produziu o incre- algumas ruas da capital, já que a ilumi-
mento das exportações piauienses.” nação pública era restrita, pois esse ser-
(QUEIROZ, 2006, p. 158). A extração viço só poderia ser visto nas principais
da cera de carnaúba foi tão lucrativa vias públicas da cidade, o que nos traz
para os cofres piauienses ao longo da uma ideia de um “desenvolvimento ur-
primeira metade do século XX, que a bano” excludente, minoritário e elitiza-
receita provinda da mesma chegou a do, pois somente uma pequena parte da
ultrapassar a da borracha, já que além sociedade que residia no centro da capi-
de dar mais lucro sua produção se es- tal tinha acesso ao mesmo. Não muito
tendeu por mais tempo. diferente foi o de abastecimento d’agua:
Apesar do surgimento de um novo “O abastecimento d’agua, convem ser
produto no mercado de exportação ain- estendido a outras ruas e bairros de
da na primeira década, a situação das Therezina. Mas já está servida a melhor
obras públicas continuava a mesma. As e mais populosa parte da cidade” [sic]
obras se restringiam às reformas aos (MENSAGEM DE GOVERNO O PI-
prédios públicos, à implanta- AUÍ, 1914, p. 24).
ção/instalação do abastecimento de A canalização e distribuição de água
água encanada, da iluminação pública e potável fora pelo menos em seu início,
54 abastecimento de energia elétrica. Em
1914 o processo de iluminação pública é
um serviço de minorias, pois é deixado
bem claro na passagem assim retirada
inaugurado: da mensagem do Governador Dr. Mi-
guel de Paiva Rosa, que tal processo era
Tenho a satisfação de anunciar-vos para restrito a melhor e mais populosa parte
breves dias a inauguração definitiva do servi- de Teresina, trocando em miúdos, a
ço de luz e força nesta capital. Espero ter o água canalizada servia à região central
prazer de vêr na noite de hoje os principais da capital do Piauí.
pontos de Theresina illuminados (...). Para a Somente com o passar dos anos é que
illuminação publica foram installadas 350 tal serviço se estende a outras localida-
lampadas de 120 volts de 100 velas cada des, diga-se de passagem, que até mes-
uma. Algumas praças e largos serão servidas mo nos dias atuais o serviço de abaste-
por lampadas de arco e Governo, bem cedo cimento de água encanada encontra-se
conta que os princpaes logradouros publicos em estado de precariedade, em algumas
possam receber a iluminação de arcos voltai- zonas de Teresina, digo isso por presen-
cos [sic] (MENSAGEM DE GOVERNO ciar tais situações, como as que ocorrem
DO PIAUÍ, 1914, p.22,23). frequentemente na região onde reside
minha avó, Zona Leste de Teresina, na
Por tanto, a partir da implantação vila Meio Norte. Por quase todo o dia,
desse novo serviço - iluminação pública praticamente todos os dias da semana a
de Teresina – proporcionou-se uma residência dela não é assistida pelo ser-
mudança na configuração da cidade, viço de água encanada oferecida pelo
tanto na parte física, como no cotidiano Governo.
da população. As práticas espaciais A pesar da ascensão e queda no mer-
exercidas em Teresina, passaram a dar cado de exportação da maniçoba e
um sentido às noites da cidade verde, ou emergência da cera de carnaúba como

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sucessor desse gênero, o Estado pi- para tal ano. Sua arrecadação orçamen-
auiense, ainda não se encontrava em tária atingiu assim a quantia de
uma confortável situação financeira, 3.332.614$753 mil contos de reis em um
problema esse que, se estendeu até o ano que, a previsão orçamentária foi de
início da segunda década do século XX. 2.450:000$000 mil reis e em 1925 a ar-
Essa situação agrava-se pela queda da recadação foi ainda maior, chegando a
maniçoba no mercado internacional e 3.961:886$744 mil contos de reis em um
pelas consequências da Primeira Guerra orçamento de 2.655:000$0005. Por tanto
Mundial. no ano posterior a 1924 houve um au-
Tal contexto econômico impossibili- mento na arrecadação em 629:271$991
tou o Estado implantar novas obras, contos de reis.
pois não tinham finanças para isso. Em Com uma “economia em alta”
alguns momentos o desenvolvimento e houve a implantação de novas obras de
reparos do sistema de iluminação e infraestrutura na cidade de Teresina,
abastecimento d’água - que se arrasta- também foram retomadas as obras de
ram por vários anos, assim como cons- desenvolvimento e melhorias no abaste-
truções e reparos de alguns prédios pú- cimento de água e energia. Tal foi a re-
blicos - foram interrompidos como rela- tomada e realização de obras públicas
ta o Governador João Luiz Ferreira em que o Governador Luiz Ferreira afirma
mensagem apresenta à câmera legislati- que, “de meado do anno passado a esta
va no ano de 1923. Na mensagem apre- parte tem sido dada ás obras publicas
sentada em 1924 já encontramos uma estaduaes a maior amplitude. Acredito
melhor desenvoltura financeira: mesmo poder affirmar que nunca o Es-
tado passou por phase tão intensa de 55
Sob o aspecto financeiro acentuou-se no de- progredimento “ [sic] (MENSAGEM
curso do passado exercido a marcha ascensi- DE GOVERNO DO PIAUÍ, 1924, p.
onal da receita publica, que atingiu quase ao 20).
duplo da previsão orçamentaria, sem que Nesse ano de 1924, foi retomado a
para isso tivesse concorrido a creação de no- construção da Escola Normal que teve
vos tributos, ou siquer augmento dos existen- seu início em 1920 e estava parada des-
tes, o que bem traduz o esforço de uma crite- de 1922. Iniciou-se em 16 março a cons-
riosa gestão fazendaria, apoiada em melhor trução do prédio escolar Dr. Demons-
organisação fiscal, e o accrescimo da massa thenes Avellino e deu-se continuidade
tributável nas operações de intercambio, facto ao ajardinamento da praça Marechal
Em que, sobremaneira, focaliza e exalta a Deodoro6. Além dessas obras, foram
capacidade productora do povo piauhyense empreendidas as reformas das reparti-
[sic] (MENSAGEM DE GOVERNO DO ções e prédios públicos, melhoria e de-
PIAUÍ, 1924, p. 17). senvolvimento na rede de canalização e
abastecimento de água, também houve
Em 1924, o Governador Luiz
Ferreira apresenta uma nova situação 5
Essas informações orçamentarias foram retira-
financeira do Estado. Com a economia das do quadro na página 13 da Mensagem de
em ascensão - sendo que grande parte Governo do Piauí, apresentada à Câmara Legisla-
dos lucros adivinham da exportação dos tiva pelo Governador Mathias Olympio de Melo o
gêneros vegetais piauiense, principal- ano de 1928.
6
mente da cera de carnaúba – os cofres A Praça Marechal Deodoro fica localizada no
centro de Teresina em frente à Igreja da Nossa
piauienses chegaram a obter quase cin- Senhora do Amparo. Essa praça também é conhe-
quenta por cento a mais do valor orçado cida por praça da bandeira.

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a substituição de 93 postes de madeira ram mudado do meio das ruas para os


por postes de ferro e a mudança de meios-fios dos passeios, 42 postes de
13.780 metros de fios, além da amplia- ferro e três torres para transformadores,
ção da rede de iluminação elétrica da uma das quaes de madeira, sendo dis-
Rua Eliseu Martins até a Av. Frei Sera- tendidos 9.180 metros de fios.” (sic)
fim, sendo despedido 6.450 metros de (MENSAGEM DE GOVERNO DO
fiação. PIAUÍ, 1927, p. 52) tais mudanças dos
No ano de 1925, as obras públicas fi- postes para o meio-fio proporcionaram
caram restritas a reforma de prédios mobilidade nas vias públicas, esse pro-
públicos e a continuidade das obras do cedimento ocasionou o embelezamento
ano anterior nos prédios escolares e na de tais ruas. No entanto, ocorrera a
Praça da Bandeira. Em 1926 é relatado substituição e ampliação da fiação onde
pelo Governador Mathias Olympio, a se foi utilizado para tal empreendimento
conclusão de algumas das obras inicia- mais de 9 km de fios. Além das mudan-
das em 1924, como a dos prédios esco- ças ocasionadas pela revisão da rede de
lares onde seriam implantadas: a Escola iluminação, houve as reformas do sis-
Normal e a escola Dr. Demonsthenes tema de abastecimento de água. Em
Avellino, além da conclusão do ajardi- setembro de 1928 é inaugurada o siste-
namento da Praça Marechal Deodoro. ma de clarificação da água canalizada.
Também é ressaltado na mensagem de Nos primeiros anos do governo do
1926 o processo de remodelação do Pa- Governador João de Deus Pires Leal
lácio do Karnak (atual sede do governo (1929), não houve indício de novas

56 do Estado do Piauí). Tal empreendi-


mento estava sendo realizado, pois o
obras públicas, valendo-se somente às
reformas de prédios públicos da capital.
prédio que tinha sido recém-adquirido Na mensagem lida à Câmara Legislati-
serviria de moradia para o Governador. va do Estado do Piauí, o Governador
Além das melhorias no Karnak, foi João de Deus trás o seguinte relato:
realizado a demarcação de um terreno
para a construção do campo de aviação No que diz respeito propriamente a Obras
“A pedido do exm. sr. dr. Ministro da Publicas, pouco tem sido possivel realizar,
Viação, mandou o Governo demarcar, (...). Além dos concertos indispensaveis nos
ao norte desta cidade, um terreno de próprios estaduaes e pequenos auxílios a In-
900x900m, destinado ao futuro campo tendencias Municipaes, para reparos de es-
de aviação, despendendo, nesse traba- tradas, estes mandados diretamente pela
lho, Rs. 432$700.” (sic) (MENSAGEM Secretaria da Fazenda, há a registrar apenas
DE GOVERNO DO PIAUÍ, 1926, p. o inicio da construcção da Penintenciaria
83). A marcação do terreno localizado desta capital, em execução do projecto orga-
na região norte da Capital, seria onde se nizados no governo do dr. João Luiz Ferreira
construiria o aeroporto de Teresina no [sic] (MENSAGEM DE GOVERNO DO
bairro conhecido atualmente como Ae- PIAUÍ, 1930, p. 45, 46).
roporto. Para mais, deu-se prossegui-
mento à revisão da rede de energia elé- Dos anos de 1927 a 1930, perce-
trica, onde se realizaram a substituição bemos que não houveram obras públi-
de mais de 117 postes de madeira. cas de grande expressividade, basica-
Em 1927 e 1928 ainda no governo de mente ficaram reduzidas às reformas de
Mathias Olympio as obras se limitaram prédios municipais, revisões nos siste-
às reformas em prédios e melhorias na mas de energia e abastecimento de
rede de iluminação pública, onde “fo- água, que por sinal era precário e limi-

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tado a uma pequena parte da população TEAU, 1998, p. 203), ou seja, os relatos
do centro da cidade, e ao início da cons- ficcionam, dão sentido a um lugar os
trução da Penitenciária, dando conti- transformando em espaço ou vice-versa.
nuidade ao projeto elaborado no gover- Desse modo, as Mensagens de Go-
no de João Luiz Ferreira. verno transformam Teresina em um
espaço praticado ao narrarem às obras
Considerações finais realizadas, isto é, as obras públicas de
Por tanto, percebemos que tanto nos melhorias urbanas ocorridas nesse de-
anos inicias do século XX e nos anos terminado lugar, ou seja, Teresina. Sen-
finais da década de 20 até o ano de do assim, Teresina deixa de ser um lu-
1930, quase não foram registradas obras gar, um sujeito anônimo, e passa a ser
públicas, pelo menos é o que podemos espaço na medida em que as constru-
perceber na análise das Mensagens de ções estão sendo realizadas, modifican-
Governo referente ao determinado re- do as configurações do lugar em que se
corte temporal. Podemos observar tais encontra Teresina, ou seja, a torna um
feitos públicos, a partir de 1904, período lugar praticado.
em que foram realizados os empreen-
dimentos iniciais no tocante ao abaste- REFERÊNCIAS
cimento de água, energia e iluminação CERTEAU, Michel de. Invenção do
pública, obras essas que tomaram quase cotidiano: artes de fazer. 3ª edição –
que exclusivamente, até mais ou menos EDITORA VOZES, São Paulo, Brasil,
a segunda década, o interesse do Esta- 1998.
do.
Somente do início até um pouco
JÚNIOR, Caio Prado. História econô-
mica do Brasil. 45º reimpr. – São Pau-
57
mais da metade da segunda década, é lo: Brasiliense, 1998.
que novas obras são implantas na Capi- MARTINS, Agenor de Sousa. Piauí:
tal, como é o caso da construção de evolução, realidade e desenvolvimen-
prédios escolares, ajardinamento da to. 2. ed. – Teresina: Fundação CE-
praça e remodelação do Karnak. Pelo PRO, 2002. 286 p. (Estudos Diversos,
menos essas são as informações conti- 33).
das nas fontes que analisamos. Algumas PIAUÍ, Governador, 1900 – 1904, (Ar-
outras obras tiveram início nesse perío- lindo Francisco Nogueira). Mensagem:
do, mas elas foram realizadas por parti- apresentada à Câmara Legislativa do
culares e pela União. Piauí pelo governador Arlindo Fran-
Por tanto, ao pensar os relatos de de- cisco Nogueira, em 1 de junho de 1903.
senvolvimento urbano - ou de melhorias Teresina: Tip. do Piauí, 1903.
no espaço urbano da capital – na con- PIAUÍ, Governador, 1900 – 1904, (Ar-
cepção de espaço em Certeau, podemos lindo Francisco Nogueira). Mensagem:
perceber que tais relatos encontrados
apresentada à Câmara Legislativa do
nas Mensagens de Governo deram sen-
Piauí pelo governador Arlindo Fran-
tido à capital, transformando Teresina
cisco Nogueira, em 1 de junho de 1904.
em um espaço de práticas urbanas que
Teresina: Tip. do Piauí, 1904.
modificaram o layout, o design e o coti-
PIAUÍ, Governador, 1904 – 1907, (Ál-
diano da Capital do Estado do Piauí.
varo de Assis Osório Mendes). Mensa-
Segundo Michel de Certeau “Os relatos
gem: apresentada à Câmara Legislativa
efetuam, portanto, um trabalho que,
do Piauí pelo governador Álvaro de
incessantemente, transforma lugares em
espaços ou espaços em lugares” (CER-

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Matheus França dos Santos

Assis Osório Mendes, em 1 de junho de


1905. Teresina: Tip. do Piauí, 1905.
PIAUÍ, Governador, 1910 – 1912, (An-
tonino Freire da Silva). Mensagem:
apresentada à Câmara Legislativa do
Piauí pelo governador Antonino Freire
da Silva, em 1 de junho de 1911. Tere-
sina: Tip. do Piauí, 1911.
PIAUÍ, Governador, 1912 – 1916, (Mi-
guel de Paiva Rosa). Mensagem: apre-
sentada à Câmara Legislativa do Piauí
pelo governador Miguel de Paiva Ro-
sa, em 1 de junho de 1914. Teresina:
Tip. do Piauí, 1914.
PIAUÍ, Governador, 1920 – 1923, (João
Luiz Ferreira). Mensagem: apresentada
à Câmara Legislativa do Piauí pelo
governador João Luiz Ferreira, em 1
de junho de 1924. Teresina: Tip. do
Piauí, 1924.
PIAUÍ, Governador, 1924 – 1928, (Ma-
thias Olympio de Mello). Mensagem:
58 apresentada à Câmara Legislativa do
Piauí pelo governador Mathias Olym-
pio de Mello, em 1 de junho de 1926.
Teresina: Tip. do Piauí, 1926.
PIAUÍ, Governador, 1924 – 1928, (Ma-
thias Olympio de Mello). Mensagem:
apresentada à Câmara Legislativa do
Piauí pelo governador Mathias Olym-
pio de Mello, em 1 de junho de 1927.
Teresina: Tip. do Piauí, 1927.
PIAUÍ, Governador, 1928 – 1930, (João
de Deus Pires Leal). Mensagem: apre-
sentada à Câmara Legislativa do Piauí
pelo governador João de Deus Pires
Leal, em 1 de junho de 1930. Teresina:
Tip. do Piauí, 1930.
QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesqui-
ta. A importância da borracha de ma-
niçoba na economia do Piauí: 1900 –
1920. – 2. ed. – Teresina: FUNDAPI,
2006.

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O HABITAR POSSÍVEL:
Arquitetura popular na “Parnahyba
dos Pobres” (1900-1920)
Alexandre Wellington dos Santos Silva1

Resumo
O presente artigo é parte de pesquisas ainda em desenvolvimento no Programa de
Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará. Objetivamos
aqui contribuir para a discussão do espaço, arquitetura e da habitação dos pobres
em Parnaíba-PI no início do século XX. Nosso intuito é colocar a população que
vivia no entorno da cidade no centro da ação, narrativa e exercício da ocupação
destes locais, onde as técnicas de construção aparecem como práticas possíveis de
luta pela garantia da sobrevivência. O trabalho divide-se em três partes: a primeira
discute a narrativa historiográfica parnaibana sobre o início do século XX. Além
disso, apresenta o conceito de “trabalhador pobre” (LAPA, 1996, 2008; PESA-
VENTO, 1994), utilizado ao longo da pesquisa. A segunda parte examina aspectos
do uso do espaço urbano pelos pobres, seus bairros, tipos de habitação e técnicas de
construção (CARLOS, 2008; CORREA, 1989; DAMATTA, 1997; GÜNTER,
2005). A terceira parte traz a conclusão, apresentando os resultados da pesquisa e
buscando refletir sobre as análises apresentadas.
59
Palavras-chave: Arquitetura popular, Pobreza, Trabalho.

Resumen
El presente artículo es parte de investigaciones aún en desarrollo en el Programa de
Post-Graduación en Historia Social de la Universidad Federal de Ceará. Objetiva-
mos aquí contribuir a la discusión del espacio, la arquitectura y la vivienda de los
pobres en Parnaíba-PI a principios del siglo XX. Nuestra intención es colocar a la
población que vivía en el entorno de la ciudad en el centro de la acción, narrativa y
ejercicio de la ocupación de estos lugares, donde las técnicas de construcción apare-
cen como prácticas posibles de lucha por la garantía de la supervivencia. El trabajo
se divide en tres partes: la primera discute la narrativa historiográfica parnaibana
sobre el inicio del siglo XX. Además, presenta el concepto de “trabajador pobre”
(LAPA, 1996, 2008, PESAVENTO, 1994), utilizado a lo largo de la investigación.
La segunda parte examina aspectos del uso del espacio urbano por los pobres, sus
barrios, tipos de vivienda y técnicas de construcción (CARLOS, 2008, CORREA,
1989; DAMATTA, 1997; GÜNTER, 2005). La tercera parte trae la conclusión,
presentando los resultados de la investigación y buscando reflexionar sobre los aná-
lisis presentados.
Palabras clave: Arquitectura popular, Pobreza, Trabajo.

1
Aluno do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará (UFC). Gra-
duado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Bolsista CA-
PES/CNPq. awss.phb@gmail.com

ISSN 2447-7354
Alexandre Wellington dos Santos Silva

Introdução dencia que “os setores economicamente


A historiografia piauiense em geral, e dominantes da cidade, na primeira me-
a parnaibana em específico aponta co- tade do século XX, no esforço por dis-
mo a “gênese do progresso” em Parnaí- tinguir-se socialmente, utilizavam suas
ba o início do século XX. É nesse perío- residências como símbolos de ascensão
do que o setor de exportação consoli- social”.
dou-se nas principais praças europeias, O que apontamos é que essa ânsia
através da comercialização de matérias pelo progresso e busca por melhoramen-
primas oriundas do extrativismo vege- tos no perímetro urbano, e em especial
tal. Estes superciclos de “exportação de o do Centro da cidade, em uma propor-
maniçoba (1900-1915) e de cera de car- ção ajustada à realidade de Parnaíba, se
naúba e da amêndoa do babaçu (1910- restringia a um punhado de famílias que
1950)” (MEDEIROS, 1995. p. 165), por meio do prestígio comercial, ascen-
permitiram o contato dos comerciantes diam a cargos de poder político no mu-
locais com centros internacionais, assim nicípio, ficando distante desse “desejo”
como a imigração de famílias estrangei- uma massa de dezenas de milhares de
ras para Parnaíba, a fim de administra- pessoas. Ou seja, a narrativa da moder-
rem firmas e facilitar o escoamento de nidade e do progresso jamais ultrapas-
mercadorias para seus países de origem. sou os muros residenciais de arquitetura
A influência internacional durante o eclética, francesa, alemã ou portuguesa.
período é exemplificada pela historio- O resultado disso é a formação de
grafia parnaibana através da riqueza uma oligarquia liberal, isto é, um mo-
60 arquitetônica e econômica vivida pelas
elites da cidade, e a constante busca
mento histórico onde havia “a coexis-
tência de uma Constituição liberal com
desta em forjar no traçado urbano os práticas políticas oligárquicas” (RE-
seus interesses políticos, logísticos e so- ZENDE, 2017. p. 91). No Piauí, Bon-
cioculturais. Vieira (2010, p. 90) aponta fim & Júnior (1995, p. 51) analisam as
essa que configuração sociohistórica relações desenvolvidas através do ciclo
“provocou o florescimento de seu perí- extrativista do começo do século XX e
metro urbano, com calçamentos nas apontam que, “do ponto de vista políti-
principais ruas, construção de casarões e co, esta fase da economia piauiense não
abertura de novos estabelecimentos co- trouxe grandes modificações na estrutu-
merciais”. Na mesma linha de raciocí- ra do poder”. Esses potentados não
nio, Gomes, Terto & Batista (2013. pp. romperam com a ordem de domínio
19-20), discorrem que “a junção de inte- produzida no regime escravagis-
resses estrangeiros, com os dos parnai- ta/colonial, limitando a expansão de
banos, ansiosos pelo progresso, fez sur- um mercado interno e mantendo rela-
gir na cidade de Parnaíba uma socieda- ções de trabalho opressivas, pois “ape-
de que desejava o progresso”. Sobre o sar de abolida a escravidão, as relações
início do século XX, Tajra & Filho de trabalho não assumem caráter de
(1995. p. 145), declara que “Parnaíba, relações contratuais, mas são ao mesmo
que vivia o seu fastígio econômico, além tempo relações de dominação social e
de possuir as principais firmas de expor- política” (MEDEIROS, 1995. p. 165).
tação e importação, passou a contar Por essa configuração, a pobreza era
com indústrias de transformação dos hegemônica na cidade. Em 1920, 3.687
produtos originários das atividades ex- pessoas sobreviviam através da “explo-
trativistas”. Tratando das características ração do solo”, como agricultura, cria-
arquitetônicas, Mello (2012, p. 121) evi- ção, caça e pesca. Acima desse número,

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somente a quantia dos “diversos”, isto (2008, p. 54), quando esta declara que
é, pessoas que vivem ou de suas rendas, “o tipo, local tamanho e forma de mo-
ou do trabalho doméstico e de “profis- radia vão depender e expressar o modo
sões não declaradas ou sem profissão” como cada indivíduo se insere dentro do
(BRASIL, 1930. p. 404-405). São 16.856 processo de produção material geral da
indivíduos que figuram nessa categoria. sociedade”.
Se somados, chegamos a cifra de 20.543 Tal configuração já é suficiente para
pessoas, sem contar com trabalhadores que no início do século XX, esta popu-
portuários, comerciários, operários de lação esmagadoramente maior que a
diversas origens e setores do poder pú- elite local fosse considerada como uma
blico que recebiam pouca ou quase ne- “classe perigosa”, constantemente vigi-
nhum subsídio estadual ou da munici- ada e apreendida pela repressão, higie-
palidade, como o caso dos professores nizada pelas novas práticas de saúde, e
públicos e policiais. A cidade nessa épo- distanciada das instâncias de poder ad-
ca contava com 24.152 habitantes, o ministrativo oficial. É essa população
que nos permite vislumbrar as diferen- que, empurrada cada vez mais para os
ças socioeconômicas e os limites de arrabaldes do município, distantes dos
uma possível Belle Époque em parnaiba- projetos arquitetônicos e higiênicos vin-
na. dos da Europa, desenvolve formas de
Chamaremos de “trabalhadores po- habitação peculiares e correlatas com as
bres” a população livre que vivia do da condições materiais existentes naquelas
própria força de trabalho sem ocupações regiões.
fixas, subsistindo entre um mercado de
trabalho não-oficial e flutuante, a pe- Desenvolvimento 61
quena plantação combinada da criação Para nossa investigação, analisamos
de animais, e os pequenos crimes. É o a arquitetura popular constituída nos
pobre que “trabalha, mantendo-se e aos arrabaldes da cidade de Parnaíba, região
seus, com parcimônia. Não lhe sobra que chamaremos de Parnahyba dos Po-
para aforro (...). Nesses casos, trata-se bres, materializando a existência de uma
de pessoas que nem sempre trabalham dupla cidade: a visível, saneada, embe-
ou que o fazem de maneira esporádica” lezada, e a invisível, o inverso da pri-
(LAPA, 2008. p. 31), ou os que “de- meira e oposta “à cidade racional, civili-
sempenham as tarefas menos qualifica- zada que é proposta pela emergência capi-
das e podem engajar-se ou não no mer- talista” (LAPA, 1996. p. 124). É também
cado formal de trabalho. (...) são ‘avul- conhecida como arquitetura vernacular
sos’, free-lancers, que vivem de ‘expedien- embora o termo tenha sentido pejorati-
tes’, biscates, pequenas tarefas” (PESA- vo, significando etimologicamente “es-
VENTO, 1994. p. 11). Em suas memó- cravo, bobo, patife e velhaco”. Por isso,
rias, Renato Castelo Branco (1981. p. “o qualificativo está sempre mal empre-
20-21) relembra que estes trabalhadores gado quando aplicado à arquitetura”.
pobres em Parnaíba eram “as lavadei- Por conta disso, utilizamos o termo ar-
ras, os meninos de recado, os carrega- quitetura popular, indicando “aquela que
dores de água e de lenha, os catraieiros, é própria do povo e por ele é realizada”
os estivadores, os vareiros, os ladrões de (GÜNTER, 2005. p. XL-XLI).
galinha, os mendigos e as prostitutas”. Essa Parnahyba dos Pobres se construía
Assim, percebemos que no perímetro no traçado “racional” da cidade em
marginal da cidade localizavam-se os quatro bairros, segundo o artigo 04 da
pobres, e concordamos com Carlos lei n. 120 de 1913: “ficam considerados

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como zona suburbana os bairros Corôa, nava-se um igarapé. A canoa vinha até
Tucuns e Campos bem como o restante a esquina da atual Praça Cel. Constan-
do bairro Nova Parnahyba” (DIARIO tino Correia. Era habitada por gente
DO PIAUHY. 09/06/1914. p. 04). pobre, em verdadeiro labirinto de case-
Além destes, É discriminado em 1910 o bres”. A origem do seu nome - Quaren-
bairro “Olaria ou Quarenta” (SEMA- ta - se dá por conta de uma prostituta
NA. 25/09/1910. p. 03). Branco (1981. “mulata, de idade já avançada, gorda e
p. 20) relata em suas memórias que es- baixa”, que oferecia sua filha aos ho-
tes bairros formavam “uma enorme cin- mens que passavam perto por quarenta
ta de palhoças e casebres, onde as ruas reais. Supomos que a outra nomenclatu-
não eram calçadas, não havia jardins ra atribuída ao local – Olaria – se deva a
nem praças arborizadas, e onde os fios empreendimentos cerâmicos situados na
elétricos não chegavam”. Nossa hipóte- região, em decorrência das propriedades
se é que estes espaços foram ocupados oferecidas por um solo argiloso, forma-
historicamente pelas camadas populares do a partir das constantes cheias do Iga-
da sociedade, onde a tomada do territó- raçu.
rio dos arrabaldes se dá pela necessida- Já o bairro da Coroa recebe esse no-
de de garantir mínimas condições para me por conta “das ‘coroas’ do rio, espé-
reprodução da existência, como indica cie de minúsculas ilhas, formadas ao
CORRÊA (1989, p. 30): leito do Igaraçu, quando diminui a sua
correnteza” (idem, p. 25). As enchentes
“a produção deste espaço é, antes de mais eram constantes nessa localidade, sendo

62 nada, uma forma de resistência e, ao mesmo


tempo, uma estratégia de sobrevivência. (...)
as casas arrastadas periodicamente pela
força das águas. O Geógrafo Eliseé
Resistência e sobrevivência que se traduzem Réclus (1900, p.169), navegando pelo
na apropriação de terrenos usualmente ina- Rio Igaraçu, observa que “as casas er-
dequados para os outros agentes de produção guem-se na margem direita d ‘um braço
do espaço (...)”. do delta chamado Iguarassú, num terre-
no humido de alluviões, onde a accli-
Para nossa investigação, analisamos mação não se faz sem perigo”.
a nomenclatura de alguns dos bairros O bairro dos Tucuns é definido por
citados através do livro “Cada Rua – Passos como “um povoamento que nas-
Sua História”, de Caio Passos (1982), cia dentro da mata, em busca de um
onde o autor registra impressões e dados novo horizonte (...). Ali moravam as
históricos da formação dos bairros da famílias que faziam do rio o seu ‘tesou-
cidade. É nele onde verificamos que “as ro encantado’. Eram vareiros, canoeiros
ruas expressam claramente as caracterís- e pescadores”. (idem, p. 45). Em todos
ticas físicas do lugar” (SOUZA, 2001. p. estes casos, o registro dos “casebres” se
138), e os bairros, as particularidades repetem. A utilização deste material
gerais de determinada região. Em Par- para a construção das habitações: “o
naíba, tal realidade se modifica com o homem, este aventureiro audaz, come-
avanço do projeto da modernidade, on- çou a fazer às margens do Igaraçu, as
de os nomes são “saneados”, e passam a suas casas de barro batido, cobertas de
ratificar o poderio ideológico das elites, palhas”. Em Teresina, a mesma situa-
ou de instituições de prestígio social. ção era percebida. Araújo (1995, p. 51)
Sobre o bairro Olaria, também co- aponta que a morada dos pobres “era
nhecido como Quarenta, Passos (idem, feita de taipa, coberta de palhas, com
p. 33) nos informa que “no inverno tor- porta de talos de buriti ou carnaúba.

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Nelas habitavam, dentre outros, os tra- da cidade em 1920, Lima Rebello (1921,
balhadores ambulantes, misturados aos p. 49) destaca parte de sua análise para
ladrões e às vítimas da prostituição”. a casa dos trabalhadores da cidade:
No ano de 1939, uma “casa de cabo- “não ha um movel. Os apparelhos culi-
clo nordestino” é registrada nas páginas narios andam pelo chão, ao alcance dos
da Revista carioca O Malho (08/1939. cães e outros animaes domesticos”. Ro-
p. 17). Nela, percebemos a cobertura berto DaMatta (1997, p. 91-92) lembra
feita de palha, possivelmente das pal- que para o ideário da modernidade, “é
máceas existentes na região, sendo suas um sinal de pobreza (e mesmo de indi-
paredes erigidas com barro batido. Essa gência social) residir em um espaço in-
técnica de construção, conhecida como diferenciado interna ou externamente,
taipa de mão, vinculada a uma estrutura pois quem reside assim está certamente
de pau-a-pique, consiste em “amassar o sujeito a confusões e misturas, sinal de
barro molhado com os pés, as mãos ou alta inferioridade social”, e que “casas
outro meio, como patas de animais, até de um só cômodo podem levar ao que
adquirir a devida consistência, quanto chamamos de ‘bagunça’ ou estado típi-
então o barro é pressionado para dentro co de ‘sujeira’ ou confusão social”.
das frestas com a mão”. (GÜNTER, Outra modalidade de habitação po-
2005. p. 262). pular presente em Parnaíba eram as bal-
sas. Günter (2005, p. 68) indica que
Figura 1: Habitação popular em Parnaíba
“essas barcaças se destinavam ao transporte
de mercadorias entre vilas e cidades ribeiri-
nhas. Por serem de boa resistência (...), as 63
barcaças maiores podiam carregar várias
toneladas de carga ao mesmo tempo em que
serviam de moradia para as famílias dos
barqueiros”.

Fonte: O Malho. Rio de Janeiro-RJ. 08/1939, p. 17. Figura 2: Balsas no Rio Igaraçu

A datação da fotografia, que avança


o recorte temporal em que nos debru-
çamos, tem por função demonstrar a
continuidade das práticas de arquitetura
popular, e trabalhar com mecanismos
de registro que tiveram o uso ampliado
a partir de determinado período, como a
fotografia. Dessa forma, avançamos ou Fonte: BRANCO. 1942, p. 03
retrocedemos nos marcos históricos tra-
balhados “sempre que o esclarecimento
de fatos e ocorrências dependa de seus Na fotografia acima, Renato Castelo
antecedentes e seus desdobramentos” Branco a denomina de “verdadeira pa-
(MARTINS, 1992. p. 19). lhoça fluctuante” (idem), indicando as-
O interior das habitações faz parte, sim seu caráter habitacional. Não há
também, dos debates em torno da arqui- motivos para crer que esta forma de
tetura popular na Parnaíba do início do habitação tenha surgido no ano de edi-
século XX. Discursando aos operários ção do livro, sendo uma prática repas-

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sada historicamente pelos que sobrevi- nidade, onde as construções arquitetô-


viam sob duras condições na cidade de nicas, as medidas de embelezamento do
Parnaíba. Podemos ver ainda na foto- perímetro urbano, a instalação e desen-
grafia uma mulher, três crianças e três volvimento de órgãos públicos ou em-
homens. Atrás da popa, um reboque, preendimentos particulares realizados
possivelmente instalado para carregar as por uma pequena parcela da população
mercadorias. Seu teto de palha protegia significaria automaticamente o “pro-
os embarcadiços do frio e das tempesta- gresso” da cidade.
des, garantindo ínfimas condições de Ao situarmos os pobres em uma po-
trabalho. sição não-passiva, forjando seus espa-
Percebemos a semelhança das balsas ços, costumes e cotidiano, é possível
de Parnaíba, presentes no livro de Rena- vislumbrar as consequências do proces-
to Castelo Branco, e a ilustrada por so de modernização da cidade para os
Weimer Günter. que margeavam geográfica e sociopoli-
ticamente a cidade, processo este que
Figura 3: Ilustração de balsa não levou em consideração os anseios,
as dificuldades e as práticas destas popu-
lações, mas apenas os desejos de orde-
namento urbano das elites locais.
Apesar do ordenamento econômico
que estruturava e era estruturado pelas
classes abastadas em Parnaíba (que so-
64 breviviam por meio de frágeis vínculos
de dependência econômica internacio-
nal), a ação e o repertório de sobrevi-
Fonte: GÜNTER. 2005, p. 68. vência das camadas populares mostra
certa autonomia diante do que se é im-
posto pelo ideário da modernidade, per-
De acordo este autor (idem, p. 67), as cebida dentro de um materialismo socioló-
balsas são confeccionadas com talos de gico, “que se propõe a tomar a própria
buriti, “amarrados com cordas coroá em mudança como elemento constitutivo
varas transversais superiores que manti- da vida material, sendo a noção de ação
nham a integridade da estrutura”. No e de forças agentes as principais”
teto, “a cumeeira tinha pouco mais que (FERREIRA, 2007. p. 45), onde a ar-
a altura de um homem em pé, e as pa- quitetura popular apresenta-se como
redes laterais, em torno de 50 centíme- uma das diversas ferramentas no per-
tros”. Tal configuração mostra o víncu- manente empenho pela manutenção e
lo entre a habitação possível e o traba- reprodução da existência.
lho, realidade que se articula também
com os outros modelos apresentados REFERÊNCIAS
neste trabalho. ARAÚJO, Maria Mafalda Baldoíno de.
Cotidiano e pobreza: a magia da so-
Conclusão brevivência em Teresina (1877-1914).
Tentamos apontar aqui que a tradi- Teresina: Fundação Cultural Monse-
ção historiográfica que constrói a narra- nhor Chaves, 1995.
tiva de Parnaíba do início do século XX BONFIM, Washington Luís de Sousa
dedicou-se a analisar o desenvolvimento & JÚNIOR, Raimundo Batista dos San-
socioeconômico pelo prisma da moder- tos. Formação Política. In: Piauí: Forma-

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Alexandre Wellington dos Santos Silva

TAJRA, Elias de Jesus & FILHO, Elias


de Jesus Tajra. O Comércio e a Indústria
no Piauí. In: Piauí: Formação – Desen-
volvimento – Perspectiva. Teresina:
Halley, 1995.
TAJRA, Elias de Jesus & FILHO, Elias
de Jesus Tajra. O Comércio e a Indústria
no Piauí. In: Piauí: Formação – Desen-
volvimento – Perspectiva. Teresina:
Halley, 1995.
VIEIRA, Lêda Rodrigues. Caminhos
de ferro: a ferrovia e a cidade de Par-
naíba, 1916-1960. Dissertação apresen-
tada ao Programa de Pós-Graduação
em História do Brasil da Universidade
Federal do Piauí. Teresina, 2010.

66

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CASTELO BRANCO, Anfrísio Neto Lo-


bão. Abelheiras: trezentos anos de história.
Teresina: Halley, 2008. 143 pág.
Márcio Douglas de Carvalho e Silva1

“Abelheiras: trezentos anos de história” é uma obra publicada pelo médico e es-
critor Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco no ano de 2008 numa tiragem de 500
exemplares em comemoração aos trezentos anos de existência da fazenda histórica
Abelheiras. O livro enfoca em grande parte a formação histórica, política, econômi-
ca e social da Casa da Torre na Bahia que acabou levando a implantação da fazen-
da Abelheiras na região norte do Estado do Piauí entre 1697 e 1708 por Garcia
D’Ávila Pereira.
O livro está dividido em três partes principais: a primeira intitulada “Casa da
Torre” narra a formação genealógica da família Ávila, e as gerações seguintes,
dando enfoque para o poder concentrado na Casa da Torre na Bahia, o seu proces-
so de expansão sertão adentro, até a implantação da fazenda Abelheiras. Na segun-
da parte “A casa de São Domingos” Anfrísio Lobão, continua mostrando as gera-
ções que deram prosseguimento e desenvolveram Abelheiras, agora subordinada a
Casa de São Domingos. Na última, “Tempos Modernos” o autor aborda a situação 67
atual da fazenda e o seu processo de divisão entre os herdeiros.
No decorrer dos capítulos que na sua maioria são intitulados com o nome dos
descendentes da família Ávila, é perceptível que Anfrísio Lobão faz uso de uma
demanda diversificadas de documentos como fotografias atuais das ruínas da Casa
da Torre e das fazendas que se originaram de Abelheiras, além de fotos que se re-
metem a épocas mais distantes: de lugares, dos proprietários e descendentes que de
alguma forma estiveram envolvidos com Abelheiras. Faz uso também da primeira
Carta geográfica da Capitania do Piauí, onde já aparece a fazenda que é foco de
retrato do livro, além dessas imagens, traz mapas da fazenda e fotografias de suas
dependências internas atuais.
É claro na leitura que o autor fez uso de muitas fontes escritas, entre eles está o
translado de escritura da venda de Abelheiras em 1839 do Visconde de Pirajá, um
dos últimos a governar a Casa da Torre a Jacob Manoel de Almendra. Também é
possível encontrar no interior do livro, a árvore genealógica da família Ávila, assim
como a lista dos descendentes da família Castelo Branco.
O livro não se estende muito em número de páginas, somando 143 no total. As
fotografias em uma grande parte ocupam uma considerada porcentagem do corpo
do livro envolvendo páginas completas. A linguagem usada pelo autor é bem clara,
mesmo com a enorme quantidade de nomes de descendentes, seus idílios e resulta-
dos, não causa maiores conflitos no entendimento da obra.

1
Mestrando em Antropologia-UFPI, Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira e Africana-UESPI,
Licenciado em História UESPI. E-mail: conectadonomarcio@hotmail.com

ISSN 2447-7354
Márcio Douglas de Carvalho e Silva

Na primeira parte do livro, Anfrísio Lobão se remete a apresentar ao leitor a


formação histórica que levou ao surgimento da Casa da Torre na Bahia, tendo co-
mo fonte principal para essa contextualização a família Ávila, desde Garcia
D’Ávila, o pioneiro no processo de centralização do poder e expansão territorial da
Casa da Torre, que para Anfrísio é onde “a história de Abelheiras começa” até o
coronel Joaquim Pires de Albuquerque, o Visconde de Pirajá este herdeiro indireto
do patrimônio que tinha sede na Bahia.
Todos os capítulos dessa primeira parte são intitulados com o nome dos gover-
nantes da Casa da Torre na sucessão hereditária, trazendo em forma de subtítulo o
que mais caracterizava cada um desses personagens, assim como no decorrer do
texto todos os feitos realizados pelos mesmos. São quase dez gerações que o poder
da Casa da Torre esteve nas mãos dos Ávila.
No transcorrer do tempo os governantes dessa família expandiram os limites da
Casa da Torre em praticamente todo o Nordeste do Brasil chegando até o Piauí,
onde além de Abelheiras também foram implantadas outras fazendas. Ao longo
desse período, para expandir e manter os domínios de Casa da Torre, os progenito-
res enfrentaram batalhas contra os nativos, jesuítas e posseiros.
O autor faz uma grande contextualização histórica geral do Brasil, desde a che-
gada da Família Real até as lutas pela consolidação da independência na Bahia e
no Piauí, com o objetivo de relacionar a história dos herdeiros da Casa da Torre à
importância política, econômica e social que a família Ávila exercia na Bahia e em
68 outras regiões do Brasil, e também o declínio da Casa da Torre, causado pela dispu-
ta constante dos seus limites com posseiros e as desavenças internas que ocorrem na
família Ávila.
O translado de escritura da compra de Abelheiras por Jacob Manoel de Almen-
dra abre a segunda parte do livro, que como a primeira, trata logo de detalhar as
gerações que tem relação com a história de Abelheiras. É nesse ambiente que em
1839 a antiga fazenda deixa de ser domínio da Casa da Torre e passa a fazer parte
das posses da Casa de São Domingos, que reunia um grande número de fazendas
no Piauí.
É dentro dessa nova administração que a sede da fazenda, existente até hoje, é
construída, provavelmente em 1842, explica Anfrísio Lobão, baseado em objetos
encontrados no casarão. As demais informações se debruçam a continuidade da
prole dos Almendra, e os seus casos pessoais.
Pouco há de fato sobre a fazenda em si, somente os acontecimentos familiares
que se sucederam ao longo dos anos são relatados, além de fazer uma contextuali-
zação da transferência da capital de Oeiras para Teresina, onde Jacob de Almendra
usando sua força política contribuiu para o feito.
As descrições finais dessa segunda parte se voltam para Lina Leonor de Almen-
dra Freitas, que esteve na administração do patrimônio de sua família, e no seu
testamento final deixou explícito o seu amor por Abelheiras e pediu que a mesma
fosse conservada.
No percurso de 80 anos (1918 a 1998), Anfrisio Lobão traça os grandes aconte-
cimentos que marcaram o trajeto da história de Abelheiras já dentro do seu terceiro
século de existência, os enlaces que levaram a família Almendra à Castelo Branco,

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e a decadência de Abelheiras, que teve seu tamanho original reduzido drasticamen-


te, a divisão entre os herdeiros da família Castelo Branco e o surgimento de novas
fazendas como a Abelheirinha, Alto da Cruz, Santa Alice, entre outras. Poesias
também complementam a descrição de Abelheiras, uma delas da escritora campo-
maiorense Marion Saraiva. Abelheiras por muito tempo, mesmo após ser dividida,
ficou servindo de reduto da família Gayoso Castelo Branco, porém aos poucos foi
sendo esquecida pelos condôminos da mesma, hoje é preservada por Anfrisio Lo-
bão Castelo Branco que procura manter os traços históricos e artísticos da fazenda.
É inegável o valor histórico, cultural, e arqueológico que Abelheiras possui. A
mesma foi fundada antes mesmo do próprio Piauí, e está inserida na contextualiza-
ção da história da colonização, povoamento e desenvolvimento do Piauí e do Bra-
sil.
Ao dedicar a escrever um livro para celebrar os 300 anos de sua fazenda, Anfri-
sio Lobão elegeu talvez um objetivo, que era contar a história de Abelheiras, e faz
isso de forma detalhada. A contextualização é minuciosa assim como a descrição
dos casamentos e da vida pessoal de todos que de alguma forma estiveram sua tra-
jetória entrelaçada com a história de Abelheiras.
Em linhas gerais, o livro traz informações importantes para qualquer pessoa que
seja interessada em conhecer um pouco da história do Piauí, de Abelheiras e prin-
cipalmente das grandes famílias que tiveram posse da fazenda. Leitura fácil, bem
dinamizada com fotografias e bastante contextualizada.
Abelheiras é história viva e deve não ser lembrada apenas na obra do seu propri- 69
etário, mas também ser visitada e mais estudada, pois a mesma é um local que ain-
da guarda muitos segredos que contam não só a sua história, mas também a nossa.

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Denilson de Castro Pereira Santana

OLIVEIRA, Ana Stela de Negreiros. Catin-


gueiros da Borracha: Vida de maniçobeiro
no sudeste do Piauí 1900-1960. São Raimun-
do Nonato-PI: FUMDHAM, 2014. 144 p.
Denilson de Castro Pereira Santana1

Ana Stela de Negreiros Oliveira, nascida e residente em São Raimundo Nonato-


PI, é doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco desde 2007.
Tendo tido o privilégio de nascer em uma região tão rica culturalmente, como o
sertão do Piauí, Ana Stela sabe retratar bem as histórias que ecoam em sua cidade.
Em sua dissertação de mestrado, a historiadora abordou a exploração de maniçoba
na região sudeste do seu estado, abrangendo grande parte do território do atual
Parque Nacional da Serra da Capivara entre os anos 1900 e 1960, dividida assim
em duas fases, sendo a segunda delas iniciada em 1940. Em 2014, Ana Stela lança
o livro “Catingueiros da Borracha: Vida de Maniçobeiro no Sudeste do Piauí 1900-
1960”, como resultado da pesquisa que teria desenvolvido. Contendo três capítulos,
70 o livro é um dos destaques da história de transformação social do sudeste piauiense.
Em meio a períodos de secas prolongadas, os municípios do sudeste do Piauí
conseguiram manter seu desenvolvimento progressivo por meio da extração do lá-
tex de maniçoba, para a produção e comercialização da borracha. Para que tal
constatação seja sustentada, Ana Stela começa o primeiro capítulo se apoiando em
registros fotográficos e escritos dos dois séculos anteriores ao atual para traçar uma
linha, desde a colonização de seus territórios até o estabelecimento dos municípios.
Para isso, ela dá ênfase na substituição do perfil populacional, que acarretou pela
expulsão de grupos étnicos nativos. Nota-se então que a atividade extrativista mol-
dou de maneira gradativa a economia da região. À medida que a atividade ganhava
força, os locais adquiriam ascensão social, tendo sua categoria de lugar elevada, ou,
ao contrário, conforme a atividade se fragmentava, tais categorias sofriam um de-
clínio, ocasionado pela desintegração econômica. Apesar dos maniçobais já se faze-
rem presentes em abundância nessas regiões bem antes da mudança do cenário so-
cial, a autora busca justificar que sua exploração se intensificou a partir do fim do
século XIX devido ao aprimoramento das técnicas de extração do látex. Portanto,
com base nas fontes orais recolhidas por Stela, é possível compreender que a região
sudeste do Piauí conseguiu se destacar na atividade extrativista devido à confluên-
cia que os trabalhadores fizeram entre o aprimoramento das técnicas e o aprovei-
tamento das plantas nativas, que são destacadas no livro por possuírem tanto uma
maior durabilidade como, principalmente, qualidade. O crescente interesse em

1
Graduando do II Período do Curso de Licenciatura Plena em História, da Universidade Estadual do Pi-
auí-UESPI, Campus Prof. Ariston Dias Lima, São Raimundo Nonato-PI. E-mail: denilsoncperei-
ras@gmail.com

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ocupar as áreas devolutas, para a produção de maniçoba, gerou adversidades entre


os maniçobeiros. Com isso, são evidenciados na conclusão do primeiro capítulo os
constantes conflitos ocorridos no cenário econômico da transição para o século XX,
e, em consequência, as medidas governamentais adotadas a respeito.
No capítulo seguinte, intitulado de “Os Caminhos dos Maniçobeiros”, Ana Stela
explica como eram estabelecidos os caminhos de passagem dos trabalhadores. En-
tendese que existia uma concessão clara, estabelecida entre os próprios maniçobei-
ros, de que cada grupo deveria respeitar a área alheia, percorrendo assim, apenas os
caminhos estabelecidos para si. Os relatos orais de pessoas que trabalharam na ati-
vidade de extração no século passado contribuem para um levantamento mais pre-
ciso de como os caminhos eram estipulados, além das diferentes finalidades entre
eles. Relacionando tais relatos com os vestígios arqueológicos coletados em campo,
Stela apresenta ao leitor a visão do cotidiano extrativista existente nas duas fases do
comércio da maniçoba, destacando seus contrastes. Percebe-se então o quão deplo-
rável eram os locais de estabelecimento desses trabalhadores, pois não possuíam as
mínimas condições de infraestrutura, incongruente ao nível de dedicação que os
mesmos atribuíam à atividade.
Ainda em tal análise, a autora, enfocando nas fontes arqueológicas, propicia o
leitor a entender, através da descrição dos utensílios de trabalho, como eram reali-
zadas determinadas técnicas de extração de látex. As estruturas dos caminhos de
comércio também são apresentadas no capítulo dois, demonstrando também as
suas precariedades, bem como as dificuldades externas enfrentadas pelos maniço-
beiros na realização de tal comércio. 71
No último capítulo do livro, Ana Stela discorre, a princípio, acerca das migra-
ções que resultaram no quadro de trabalhadores presentes no sudeste do Piauí, do
início do século XX. Os motivos de migrações, a rotina estabelecida, os conflitos
existentes, entre outros fatores, moldam o perfil maniçobeiro estabelecido ali. É
inequívoco constatar, através dos relatos orais preenchidos por sentimentos mar-
cantes ligados à memória, o quanto a vida daquelas pessoas em todas as faixas etá-
rias era uma constante luta de sobrevivência. Entretanto, nota-se ainda a presença
de manifestações culturais que amenizavam o duro dia a dia de tal povo.
O livro de Ana Stela, ao evidenciar os aspectos mais tocantes do cotidiano dos
maniçobeiros do sudeste piauiense, consegue se destacar de qualquer outra obra
que trate de tal tema. Isso se dá pelo fato de ela se apegar ao aspecto humanitário
desses trabalhadores. Mais do que números, mais do que descrição de técnicas de
trabalho, e mais do que economia, Ana Stela de Negreiros Oliveira retrata a vida de
seres humanos.
São esses seres humanos que, levando vidas maquinárias, construíram boa parte
da história do Piauí. Estudantes, professores e comunidade em geral precisam co-
nhecer a história de vida dessa gente, pois, antes de ser uma história detalhada dos
processos de instalação e produção de maniçoba nessa região, o livro “Catingueiros
da Borracha: Vida de Maniçobeiro no Sudeste do Piauí 1900-1960” é uma história
de coragem.

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Messias Araújo Cardozo

SILVA, Josenias dos Santos. Parnaíba e o


avesso da belle époque: cotidiano e pobreza
(1930-1950). Teresina: Universidade Fede-
ral do Piauí. Dissertação de Mestrado em
História, 2012. 121 págs.
Messias Araújo Cardozo1

A importância do trabalho do professor Josenias para a história social de


Parnaíba-PI é de difícil mensuração. A presente resenha de sua dissertação – ainda
não publicada por motivos desconhecidos – busca instigar o leitor a ir direto à obra,
sem intermediários. Escrita em três capítulos, o autor problematiza o período
(1930-1950) da chamada “bela época”, analisando os discursos sobre este tempo
“áureo”, sobretudo para a elite comercial enriquecida com a abertura econômica do
extrativismo vegetal para exportação internacional, porém, focalizando os pobres
que à margem da bela época, continuavam numa condição temporal sócio-
econômica feia.
72 O capítulo um: “A CIDADE – Parnahyba Norte do Brasil” (SILVA,
2012, p. 17), que busca “[...] contextualizar historicamente a cidade de Parnaíba,
situando mais especificamente o recorte tomado para a pesquisa” (SILVA, 2012, p.
15) é um texto legítimo do que poderíamos inserir dentro de uma história econômi-
ca e social. A marca principal é a mudança da economia pecuarista para o ciclo do
extrativismo vegetal que foi decisivo segundo o autor para a integração econômica
da cidade de Parnaíba (principal centro difusor por causa do uso do Rio Parnaíba),
pois “o extrativismo vegetal deu novo sentido a economia piauiense a partir do uso
efetivo do rio Parnaíba [...]” (SILVA, 2012, p. 19).
Entretanto, mais importante que esta mudança na base econômica
que “[...] propiciou a entrada do Piauí na dinâmica das trocas materiais e simbóli-
cas da modernidade” (SILVA, 2012, p. 25) foram às modificações sociais na supe-
restrutura, como a navegação a vapor e o telégrafo, símbolos da modernização so-
cial e urbana. Era a pax burguesa das elites comerciais emergentes, as principais be-
neficiadas com a integração econômica em curso.
No tempo do progresso as coisas eram assim: “Para a elite econômica
parnaibana, principalmente a partir da segunda década do século XX, as palavras
‘moderno’ e ‘progresso’ se tornaram verdadeiro fetiche [...]” (SILVA, 2012, p. 28).
A modernidade enfeitiçara, entretanto, o autor salienta que a despeito das mudan-
ças em curso desde fins dos oitocentos, “de fato, somente a partir da década de

1
Graduado em Licenciatura Plena em História da UESPI (Campus Alexandre Alves de Oliveira, 2016), foi
bolsista do Programa de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID/CAPES, subprojeto de História). E-mail:
messias.histsocial@gmail.com

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1930 é que Parnaíba sofreria mudanças substanciais em sua configuração urbana e


arquitetônica” (SILVA, 2012, p. 30).
A Rua Grande e a Praça da Graça são símbolos das transformações
arquitetônicas em curso, baseadas no novo ciclo econômico. Os novos hábitos, co-
mo o uso do “summer jacket”, “perfume francês”, a música transitando entre a
“polca e a valsa” davam a tônica dos bailes realizados no Cassino 24 de Janeiro,
onde o “sereno” (espaço de fora do local mas que permitia ver o interior) era uma
“janela para a vida social parnaibana” (SILVA, 2012, p. 38). O carnaval no cassino
também se fazia sob a égide do protagonismo da elite. O cinema também refletia os
espaços demarcados socialmente, com os camarotes para os Campos Veras e Men-
donças Clark2. “Frequentar o cinema era chic” (SILVA, 2012, p. 41).
A despeito da forte influência da cultura britânica (como a presença
da Casa Inglesa pode atestar), do whisky bebido nos sobrados e terraços, o revés da
belle époque logo é desvendado pelo historiador, afinal: “Para o grosso da popula-
ção o ‘espetáculo’ da belle époque praticamente não existiu” (SILVA, 2012, p. 44).
Modernidade para os pobres da cidade “[...] foi muitas vezes apenas uma vaga no-
tícia” (SILVA, 2012, p. 45). Não passou por lá...
Os estivadores e vigiais das casas de taipa dos bairros invadidos pela moder-
nidade como o bairro Nova Parnaíba foram deslocados para as zonas periféricas.
Não é contraditório? Todavia, o historiador diz: “Quero afirmar com isso que a
produção da realidade é (e dever ser) contraditória” (SILVA, 2012, p. 45). Centro e
margem, riqueza e pobreza, o historiador trabalha com maestria esta tensão dialéti-
ca própria do processo histórico analisado.
73
No capítulo dois: “A VIDA - (sobre) vivências no cais e outras artes”
(SILVA, 2012, p. 47), o historiador utilizando fontes variadas, da literatura aos
memorialistas assim como análise iconográfica, narra as condições de vida dos
“trabalhadores do rio” como ele mesmo nomeia a massa de estivadores, vareiros e
etc., “[...] sondando o cotidiano do trabalho e do lazer no esplendor econômico da
belle époque parnaibana; mais especificamente as relações entre o trabalho e a ‘vida
noturna’, entre o movimento do cais e o da cama” (SILVA, 2012, p. 48).
Os trabalhadores do rio são compreendidos para além da dimensão
unicamente material. Os trabalhadores da estiva, os vareiros, carregadores de água,
na faina diária contra o Parnaíba são apreendidos em sua experiência cotidiana
vivida à margem do fausto econômico (SILVA, 2012, p. 60). As meninas trabalha-
doras na lavagem de roupas (muitas vezes para as famílias abastadas) também são
capturadas pelo historiador assim como a algazarra juvenil dos jovens se refrescan-
do no Parnaíba nos dias de calor.
À nossa análise, é na compreensão dos biscates, porcos d´água e ma-
ta-cachorros que reside o grande mérito do capítulo, aquilo que é singular nessa
grande contribuição a história social de Parnaíba. “A paisagem e o barulho caracte-
rístico do cais mudavam drasticamente com a chegada da noite” (SILVA, 2012, p.
66), e a noite do cais, onde os trabalhadores do rio são apreendidos em seu lazer
noturno, afinal “[...] o que nos interessa aqui é a noite enquanto lugar consagrado

2
As famílias abastadas da cidade de Parnaíba-PI do período, que gozavam de prestígio social.

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Messias Araújo Cardozo

do desenrolar de conflitos, de amores tórridos, de práticas efetivamente ligadas ao


lazer, à bebida e ao sexo” (SILVA, 2012, p. 67).
Na noite do cais, a caninha revigorante, o encontro dos biscates,
“porcos d´água” e os “mata-cachorros”, respectivamente os que ganhavam a vida
no cais, trabalhadores, embarcadiços e milicianos, em suas disputas e querelas mar-
cam o texto de um tom de drama histórico cotidiano. O desfile das prostitutas, o
frito de carne-de-porco e as fussuras nos cabarés do Brasília, Bar do Gordo e Mun-
guba engendravam a cena dos conflitos cotidianos noturnos num “[...] quiproquó
dos infernos, onde sobravam além de nomes feios, muitas cabeças quebradas e pre-
juízos para os donos dos estabelecimentos” (SILVA, 2012, p. 71). Os porcos d´água
com seus jucás (pedaços de madeira usados como arma), mesclando-se com os jo-
vens da high society em busca do prazer. A violência é era um aspecto indiscutível da
vida noturna desses trabalhadores (SILVA, 2012, p. 74).
O capítulo três: “A BEIRA – entre o cais e as borboletas” (SILVA, 2012, p.
76) é um ensaio primoroso onde a interpretação do contraste, do revés da belle
époque parnaibana a partir, sobretudo do romance Beira Rio Beira Vida de Assis
Brasil é realizada com uma capacidade singular (e pioneira no âmbito da historio-
grafia parnaibana) de capturar o histórico dentro da escriturística literária. A cidade
partida onde os trabalhadores do rio existem do “lado de fora”, longe dos palacetes
à européia, no lugar da gente pobre de existência minúscula.
Espacialmente a bela época parnaibana era também essencialmente segrega-
74 dora, onde: “A cidade foi urbanizada dentro do perímetro central, sendo gerida
para atender as necessidades de uma pequena elite que enxergou na pobreza um
‘perigo social que ameaçava pela sujeira e imoralidade” (SILVA, 2012, p. 82). Os
pobres deveriam ser mantidos à distância.
Ao tomar como fonte o romance “[...] na tentativa de enxergar como foi re-
presentada a pobreza na belle époque parnaibana a partir do viés literário” (SILVA,
2012, p. 87), Josenias aponta possibilidades de ler o real a partir da ficção, contor-
nando a ausência de arquivos e a restrição de acesso a documentos históricos da
cidade. Analisa a obra-denúncia de Assis, sua literatura de revolta para flagrar os po-
bres, afinal: “Beira Rio Beira Vida reproduz o abismo existente entre os pobres e os
ricos da cidade de Parnaíba na sua belle époque” (SILVA, 2012, p. 94).
Os “ninguéns” que moram no cais (espaço antagônico da cidade dos comer-
ciantes enriquecidos e moralistas, mas que desciam depois das 21 h para o “resto”
enchendo os cabarés) emergem na cena histórica. Ninguéns como Luiza, Mundoca
e Jessé, este último buscando ascensão social acaba morrendo tragicamente. Queria
ser rico o caçador de borboletas. Queria sair da miséria da maioria antagônica e
complementar da opulência da minoria. Sociedade que explorava-o mediante a
violência e segregação espacial e cultural. Afinal, era a “[...] existência daquela gen-
te um verdadeiro tormento” (SILVA, 2012, p. 96).
O movimentado cais, com os estivadores, embarcadiços, vareiros era pura
efervescência. A prostituição que emerge de maneira contundente no romance
(SILVA, 2012, p. 101) associa a noite da região a imagem também da violência.
Até os cabarés tinham sua assimetria onde a “alta” e a “baixa sociedade” frequen-

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tava de acordo com o local e o serviço corresponde ao seu lugar de classe e posição
na hierarquia social da sociedade do período.
A cidade partida, habitada por alteridades negadas (SILVA, 2012, p. 106)
era o símbolo do que a belle époque representou para a maioria. A presença da
prostituta no território do desejo, nos “antros” denuncia as formas de viver de al-
gumas mulheres se equilibrando na tensão entre a miséria e as condições mínimas
de existir. Segregadas duplamente (material e moralmente), as prostitutas como
“Evas Pecadoras”, alimentavam o amor pretensamente ilícito da noite do cais
(SILVA, 2012, p. 109).
O ressentimento com resistência no espaço de revolta buscado pelo historia-
dor foi um exercício singular de construção de uma historiografia que “[...] tentou
minimante dar conta de uma outra cidade que existia em contraste aquela do ‘Nor-
te do Brasil’, e que era marcada pela pobreza, pelo estigma e pelo desequilíbrio nas
relações de poder” (SILVA, 2012, p. 111). O essencial do ensaio como um todo,
acredito, reside quando o autor aponta que: “A pobreza urbana foi pensada aqui
como uma faceta da belle époque, mas em instante algum se buscou reduzir as pos-
sibilidades desses sujeitos de intervirem na sua própria realidade” (SILVA, 2012, p.
114).
Um único ponto falível foi se esquivar do conceito de classe. Mas isso foi
mais, acredito, uma estratégia do que esquiva, afinal este conceito é problemático e
para o objeto em questão até de discutível pertinência. Trabalhadores do rio deu
conta. O conceito de ideologia ausente também poderia compor a crítica da disser-
tação, mas isso são pormenores. Os aspectos de rigor conceitual, manuseio de fon-
75
tes, análise de discurso literário, de contextualizar em termos econômicos e políti-
cos os pobres do cais, das margens nos anos 1930-50 em Parnaíba são os que me-
lhor afirmam o valor da obra e o quanto ela auxilia na compreensão da história
social de Parnaíba.
Uma cidade partida com seus Jessés comprimidos pela Belle Époque segre-
gadora. As prostitutas da “corenta” em uma palavra: Pobreza. O historiador con-
trapõe a bela época com os pobres excluídos, vivendo lá fora da modernidade. Sem
educação e possibilidades de ascensão, ressentidos e resistindo, agenciando suas
artes de viver. Os pobres na obra entram na cena histórica de onde nunca estiveram
ausentes.

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