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Nuno

Cobra Jr.

O MÚSCULO DA ALMA:
A CHAVE PARA A SABEDORIA CORPORAL

Editora Voo

2016
O Músculo da Alma: a chave para sabedoria corporal © Nuno Cobra Jr., 2016

Direção Editorial: Claudia Kubrusly

Preparação de texto: Cinthia Dalpino

Revisão: Juliana R. de Queiroz

Priscila Seixas

José Maurício Carneiro

Maria Celeste Padilha

Capa: Alceu Nunes

Projeto gráfico digital: Sofia Myrrha

e-ISBN: 978-85-67886-07-7

Todos os direitos reservados, incluindo o direito de reprodução deste livro ou partes dele,
em qualquer formato. Para mais informações, entre em contato com a Editora Voo.

Editora Doyen Ltda. – ME

Rua Ébano Pereira, 11, conj. 1203, Curitiba/PR, CEP 80.410-901

www.editoravoo.com.br
Dedico este livro às mulheres que fazem parte da minha vida.

À minha mãe, Maria.

À minha amada, Carolina.

Às minhas filhas, Maria e Rosa.

À minha irmã Rosane.

À minha afilhada Maisha.

Às minhas amigas Lú Brites, Gabi Brites e Rafa Brites,

integrantes dessa grande família, os Cobrites.


SUMÁRIO
PREFÁCIO
APRESENTAÇÃO
A PONTA DO ICEBERG
IDENTIDADE CORPORAL
SAÚDE, UM BEM EM EXTINÇÃO
COFFEEHOLIC
MOVIDO A VENTO
ILHA DESERTA
O VISIONÁRIO
DUAS GERAÇÕES
1° PARADIGMA: TREINAMENTO SEM SOFRIMENTO
EUREKA
FAST TRAINING
2° PARADIGMA: A QUALIDADE DO MOVIMENTO QUALIDADE
O MÚSCULO DA ALMA
EFEITO PORTARETRATO
A SOMBRA DO CAMUNDONGO
O SAPO FERVENDO NA PANELA
O TEMPO É EMOCIONAL
TRABALHO SEM DIVERSÃO
NÃO EXISTE PREVENÇÃO
CHECK UP YOUR MENTALITY
VIDA ADIADA
SÍNDROME DE ADÔNIS
O YING YANG DA BELEZA, SAÚDE E VITALIDADE
3° PARADIGMA: ESPORTE NÃO É SAÚDE
CONTO DE FADAS
4° PARADIGMA: CONHECIMENTO COM INTEGRAÇÃO
CORPO SAGRADO
TEORIA DA ESCADA
COMPETIÇÃO E TREINAMENTO
NARCISISMO X CONSCIÊNCIA
5° PARADIGMA: REVOLUÇÃO NO TREINAMENTO
TREINAMENTO SUSTENTÁVEL
DESCONDICIONAMENTO FÍSICO
BREVE HISTÓRIA DO TREINAMENTO
O MOSQUITO DA VIGOREXIA
VIVENDO NA PRISÃO DA APARÊNCIA
AO SEDENTARISMO ESTÍMULO
A OBRIGAÇÃO MATA O PRAZER
O MITO DA AUTOESTIMA
OS CAMPEÕES
A TAL DA FELICIDADE
O “BEM MAIOR”
O DONO DA VOZ
A SUPERFÍCIE DO CORPO
6° PARADIGMA: AMBIÇÃO SEM LIMITES
INCLUSÃO DA OBESIDADE
O VÍCIO DA ADRENALINA
SONHO DO CONSUMO
7° PARADIGMA: VOCÊ NÃO PRECISA DE DISCIPLINA
A NOVIDADE
O MARKETING DO TREINAMENTO
A INDÚSTRIA DO CORPO
OS EMAGRECEDORES
TERAPIA DO INCOSCIENTE
O SEGREDO DO EMAGRECIMENTO
8° PARADIGMA: TREINAMENTO SOB MEDIDA
TREINAMENTO CONSCIENTE
SELF-SE QUEM PUDER
9° PARADIGMA: CRESCIMENTO INSTANTÂNEO
REEDUCAÇÃO FÍSICA
MUSCULAÇÃO NATURAL
CORPO É MÁQUINA
AUTOAJUDA QUE ATRAPALHA
GANHAR NA LOTERIA
ATINGINDO A ILUMINAÇÃO
LINHA DE MONTAGEM OU COMO ADESTRAR PESSOAS
PSICOGRAFADO
QUERO SER GRANDE
AGRADECIMENTOS
GABARITO DA CHAVE 29
PREFÁCIO

Falar de meu filho Nuno é falar da própria vida. Com seu equilíbrio e bom senso, ele é
uma mistura entre a sensibilidade e a praticidade. Com sua leveza e bom humor consegue
tirar de uma ideia cada detalhe que margeia o nível da verdadeira sabedoria. Com sua
forma prática de ver as coisas nos oferece sempre uma visão mais real de nosso
caminho. Ele enxerga os acontecimentos muito mais à frente e, ao mesmo tempo,
também ao lado, mostrando-nos sempre uma nova perspectiva da vida, e, assim,
consegue tocar profundamente pela sua forma singela de ser e de ver as coisas.

Meu filho Nuno sempre foi um artista nato, dotado de uma sensibilidade incomum. Por
esse motivo, sempre foi como que um farol me orientando nos momentos de tomar
decisões importantes. Fui sempre guiado por seus decisivos e inteligentes conselhos. Ele
sempre me trouxe soluções criativas que, muitas vezes, fizeram toda a diferença. Por tudo
isso, tenho por ele muito respeito e admiração, e estou sempre muito atento às suas
sábias palavras.

Vocês irão se deliciar e até mesmo se empolgar com seus relatos sempre muito sutis,
inteligentes, e com uma criatividade que tem a cara dele: corajosa, perto de ser atrevida.
Suave, delicado, decidido e corajoso... Ele mostra toda a sua força neste livro simples,
didático, mas extremamente profundo, e que todo mundo precisa ler, de modo a
compreender, de uma vez por todas, o que seria realmente cuidar bem do próprio corpo.

De forma elegante e austera, Nuno mostra como o mercado tomou a bandeira da


atividade física para a saúde, com fins absolutamente econômicos. No intuito de,
pretensamente, ajudar a população a combater males como o sedentarismo e a
obesidade, esta indústria tem feito opções duvidosas e adotado métodos cada vez mais
radicais. A forma como ele aborda os meandros dessa dinâmica é absolutamente
surpreendente.

Sinto-me muito orgulhoso por vê-lo se envolver tão apaixonadamente, por 12 longos anos,
numa luta contínua, pesquisando e escrevendo centenas de laudas. Ele ficava noites a fio
buscando a melhor e mais clara forma de colocar um assunto tão complexo e delicado de
forma a ficar bem claro para as pessoas as barbaridades a que o nosso corpo é
submetido atualmente, principalmente por se tratar de algo da mais alta seriedade e
importância para o nosso bem estar e saúde. Não deve ter sido fácil, depois de tantos
anos de um envolvimento grandioso, ter que colocar tantos assuntos em poucas páginas,
buscando síntese e praticidade.

Neste “tour de force”, ele desvenda grandes enigmas do treinamento físico.

O universo do conhecimento corporal nunca mais será o mesmo após este livro.

Porém, devo advertir que, ao final, você terá uma surpresa: perceberá que este livro é
muito mais do que uma nova abordagem sobre o corpo e a saúde; na realidade, ele é o
prenúncio de uma nova consciência.

Nuno Cobra
APRESENTAÇÃO
A PONTA DO ICEBERG
Sono, alimentação e movimento. Com essa tríade básica que chamo de a “Santíssima
Trindade”, você preserva um alicerce essencial ao seu equilíbrio integral e à sua saúde.

No entanto, a saúde e o equilíbrio dos quais falo aqui não podem ser atingidos com
qualquer tipo de atividade física, principalmente aquela que você está acostumado a
pensar como uma forma saudável de exercício, ligada à indústria do fitness.

Este livro é um alerta sobre o que a sociedade de consumo fez com o nosso corpo.
Estrategicamente, ele foi transformado em um bem de consumo, uma “roupa” que
usamos como forma de aumentar o poder de sedução e o status social.

Quando vejo alguém dizer que o seu sonho de consumo é ter uma barriga tanquinho,
constato que o corpo se transformou em um produto.

O corpo do qual falamos é de outra ordem: um corpo sagrado, natural, equilibrado e


profundo. Intimamente ligado à mente, às emoções e ao espírito, e que se transforma no
principal agente de liberdade e sabedoria. O corpo é a forma mais simples e genial de se
acalmar a mente, o “eu” responsável por nossos desequilíbrios e angústias.

O “Santo Graal” da felicidade e do equilíbrio estava bem onde você menos esperava: em
seu próprio corpo.

O que seu corpo significa para você? O quão perto você está deste “Santo Graal”?

Como professor e especialista no conhecimento corporal, gosto de brincar dizendo que


nós, professores, é que deveríamos pagar para dar aula. Poder usufruir de um convívio
tão rico de aprendizado e conhecimento é um presente. Afinal, esta troca e convivência
com o outro é o que faz a vida valer a pena. O culto ao ego produz isolamento,
prepotência, infelicidade e desconexão com as leis mais básicas da natureza. Tudo no
universo é sinérgico e colaborativo, nada pode existir de forma isolada. Estar alinhado a
isso é tornar-se um ser integrado, um ser espiritual.

Somos todos frutos da nossa educação, do nosso meio cultural, da nossa herança
emocional e genética, e também de todos os ideais martelados em nossa mente,
diariamente, pela sociedade de consumo. Esses ideais inseridos em nosso HD criam
diversas cortinas e camadas que não nos permitem enxergar a realidade e,
principalmente, criam e alimentam um sentimento específico dentro de nós: o medo, esse
agente silencioso que nos guia constantemente, sem que possamos perceber por que
estamos tomando diversas atitudes com base em seu poder obscuro.

O medo se apega ao que é conhecido e seguro, ao que é comum. A partir daí, passamos a
buscar falsos ideais de felicidade e sucesso que nos são vendidos como um caminho
comum e assertivo.

E, nessa busca, nos perdemos. Nos perdemos de nós mesmos. Então, começamos a
alimentar mais e mais os nossos medos. E eles são muitos.

Temos medo de sermos nós mesmos, medo de errar, de não estar à altura dos desafios,
de mudanças, da escassez, da solidão, entre tantos outros. Tudo colabora para nos
paralisar e nos fazer sentir pequenos frente às nossas idealizações.

“SE NÃO ESTAMOS VIVENDO NOSSOS SONHOS, É PORQUE ESTAMOS VIVENDO OS


NOSSOS MEDOS.”

(Les Brown)

Seguimos um modelo de sucesso focado apenas no resultado, no conceito de “loser”


(perdedor). E aqui, neste livro, que está apenas começando, gostaria de convidá-lo a
redefinir esse conceito e enxergá-lo sob outro ponto de vista.

Nesta nova versão, ser um “loser” é ser capturado e tapeado pelo marketing do consumo
e ter os seus valores, foco e energia vital aprisionados aos bens materiais como forma de
status e sentido de vida. Ser um “loser” é ser escravo de um sistema de trabalho vazio e
massacrante, que só visa o lucro e o acúmulo de riqueza.

Ser um “loser” é perseguir uma ilusão de felicidade que nunca se realiza, através da fama,
do dinheiro e do sucesso.

E quando entendemos isso, finalmente descobrimos porque o mundo está ao contrário.

Vivemos um excesso de atividade cerebral, uma forma mecânica e racional de se


entender o mundo. Somos escravos de uma mente acelerada, que está sempre no
controle. E assim, nos desconectamos do momento presente. A vida passa a ser apenas
uma sequência de tarefas para que possamos atingir determinados resultados. Neste
processo, perdemos o nosso equilíbrio, nos desconectamos de nós mesmos e,
consequentemente, da energia vital do universo, esta energia que dá vida a tudo, a qual
chamamos de Deus.

Já percebeu como nós estamos cegos e alheios às coisas mais básicas e importantes da
nossa vida e da nossa natureza?

O que poucos se deram conta é de que resolveríamos a imensa maioria dos nossos
problemas apenas cuidando do nosso próprio equilíbrio corporal, mental, emocional e
fisiológico. Coisas básicas que todo mundo já conhece e está cansado de escutar. Essa
realidade é a matéria-prima do meu trabalho há muitos anos. Aos cinco anos de idade,
lembro-me de assistir ao meu pai trabalhando e de acompanhar os treinamentos da sua
equipe de atletismo. São minhas primeiras memórias de infância, e alguns desses
ensinamentos eu guardo até hoje.

Meu pai, Nuno Cobra, tornou-se um dos maiores nomes do treinamento físico e mental
no Brasil. Isso se deve à enorme revolução que ele propõe em sua visão do corpo e do
treinamento, como veremos mais adiante. Com esse grande mestre, aprendi toda a base
do meu conhecimento.

Eu costumava ouvir algumas pessoas se consultando com ele. Elas chegavam vomitando
problemas de todas as ordens e eram convincentes em afirmar que a vida estava um
verdadeiro caos. E, para essas pessoas, ele calmamente falava:

“Esses problemas não existem, o único problema é que você não ‘está’ você.
Durante seis meses, vá ao encontro de si mesmo, priorizando-se, habitando seu
corpo e buscando o seu equilíbrio. Daqui a seis meses, você me conta se esses
problemas ainda existem.”

As nossas prioridades e o nosso estilo de vida não colaboram para o nosso equilíbrio
pessoal e saúde, pelo contrário.

Mas será que a busca de equilíbrio e autoconhecimento é um foco importante em nossa


vida? É isso que aprendemos em nosso meio social e cultural, em nossa educação? É isso
que a mídia do consumo nos estimula a fazer? Ou é o contrário? Estimula-nos a sacrificar
tudo, vender a própria alma em busca de dinheiro, sucesso e fama?

A pergunta que não quer calar é: esta busca realmente traz felicidade?

O modelo de treinamento atual chegou ao seu limite, ao seu ponto máximo de


radicalidade, o que demonstra que chegou ao seu esgotamento e que uma nova era no
treinamento se aproxima. Uma grande revolução avança e pede caminho, apoiada pela
integração de todas as ciências que estudam o corpo e a mente.

A competição, o narcisismo, o consumo excessivo e descontrolado, a obsessão pelo


acúmulo, o foco exclusivo na performance e no resultado produziram um reflexo
profundo no ser humano.
Não feliz em destruir e consumir os recursos naturais do planeta, estamos destruindo e
consumindo o que é mais precioso – além de insubstituível – para nós: nosso próprio
corpo.

Podemos notar isso observando as últimas três décadas. O que fizeram com o corpo? Ele
foi artificializado.

O modelo de beleza atual, ligado ao bodybuilding, ao universo da moda e aos


treinamentos de alta intensidade, chegaram a dois extremos: o modelo da anorexia e o
modelo da vigorexia.

O corpo da moda é um corpo extremamente magro, musculoso, rígido ou “bombado”.


Um verdadeiro “corpo armadura”, um corpo narcisista. É só reparar na quantidade de
espelhos existentes numa academia e constatar essa realidade. Quanto mais você olha no
espelho, mais alimenta o “Narciso” que existe dentro de você. Este exercício de massagear
o ego é o que move a indústria do treinamento, infelizmente.

Esse corpo se isola do mundo através de uma camada generosa de músculos, e isso
fortalece ainda mais o sentido de “eu”. Ele se torna artificial, constituído à base de
anabolizantes, treinamentos radicais, uso indiscriminado de suplementos e toda forma de
artifícios.

Um corpo transformado por meio de musculação pesada e anabolizantes perde a sua


naturalidade, funcionalidade, ginga, flexibilidade e movimento.

Tais corpos buscam estar em conformidade com um modelo de beleza criado pela
indústria de consumo. Esses modelos alimentam diversos segmentos, como a indústria
do emagrecimento, das clínicas de estética, dos suplementos, das técnicas cirúrgicas
milagrosas, farmacêutica e a própria indústria do fitness, que, juntas, representam um
grave problema de saúde pública, atualmente.

A obesidade é apenas a ponta do iceberg. E eu o convido a investigar o que se encontra


abaixo da superfície.

IDENTIDADE CORPORAL
Você já pensou que, de certa forma, o seu corpo não lhe pertence? Ele pertence aos
especialistas que o reformam ou lhe dizem o que fazer com ele.

Você aceita exercícios padronizados, de forma obediente, sem questionar se lhe caem
bem, se servem para o seu caso específico. Exercícios que você faz por obrigação, sem
nenhuma consciência do que está fazendo, e, na maioria das vezes, mesmo sem gostar
ou sentir qualquer prazer em realizá-los. O seu corpo pertence à cultura em que você está
inserido, que dispõe dele ao sabor dos modismos e apelos midiáticos.

Possivelmente, você nem desconfia do universo de possibilidades e recursos existentes


em seu próprio corpo. Você apenas o utiliza sem nenhum critério, cuidado e consciência.
Você dá muito pouco a ele, dispõe dele como bem quiser. Na verdade, só se dá conta de
que ele existe quando lhe falta. Já reparou como, muitas vezes, você fica sentado em
posições desastrosas por horas? E depois reclama por não saber o motivo de tanta tensão
muscular.

O seu corpo pede relaxamento, pede alongamento, pede aprofundamento, mas quem diz
que você é capaz de perceber isso? Quando vai ficando mais velho, esse descaso vai
cobrando o seu preço. E você só percebe à medida que começa a envelhecer.E acha
normal. A partir desse ponto, o seu corpo vai estar cada vez mais desgastado, maltratado
e doente.

O seu corpo é resultado de uma pressão cultural dominante, voltada para valores
racionais e materiais que o escraviza. Sendo assim, habitar o próprio corpo é o primeiro
passo para a liberdade.

Como podemos “ser”, por inteiro, sem nos apropriarmos do nosso corpo? Como
podemos ser, em toda nossa potência, sem termos uma identidade corporal? E o que isso
significa? Significa cuidar, alimentar e prover seu corpo com aquilo de que ele necessita.
Desenvolver sua inteligência e seus recursos corporais em toda a sua complexidade. Só
assim ele pode florescer, cheio de vitalidade, personalidade e identidade. E isso não se
relaciona a nenhum modelo ideal de corpo, só não vale abandoná-lo, deixá-lo sem
estímulo. Esta identidade acontece quando a nossa criatividade e aquilo que somos se
manifestam em nosso corpo de uma forma potente.

O seu próprio corpo é um universo insondável. Você pode estudá-lo e explorá-lo através
da Yoga, Tantra, Chi Kung, Medicina Chinesa, Feldenkrais ou outras técnicas, por 60 anos
ou mais, e mesmo assim nunca será suficiente.

Observe as crianças: elas trazem uma escuta afiada de suas necessidades corporais.
Estão atentas aos aspectos fisiológicos como sono, alimentação, afeto, movimento, entre
tantos outros. No adulto, essa escuta é bastante limitada, sendo eclipsada pelas
demandas do dia a dia.

É preciso redescobrir as chaves que abrem o universo que é o corpo. Só assim, ele pode
ser seu novamente. Este livro busca trilhar um caminho para encontrar essa chave.
Porque ela é única. E só você a possui.
MANUAL DO LEITOR

MUNDO DENTRO DE MUNDOS

Este livro tem uma arquitetura muito própria. Quero experimentar, aqui, um novo
desenho: o conceito de “janelas do conhecimento”. Inspirei-me na internet, que traz
janelas à medida que vamos abrindo as pesquisas referentes a cada assunto.

Durante muitos anos, meu pai fez um programa na rádio Eldorado chamado “Minuto
da saúde”. Eu escrevia os textos que deveriam ser condensados em apenas um minuto.
Foi assim que nasceu a paixão pela escrita.

Uma herança muito forte que recebi desde pequeno foi a vontade de fugir do
convencional.

Com este livro, quero testar a teoria de que é possível falar de saúde de uma forma
profunda e complexa, sem que isto seja uma leitura chata. Busco traduzir e simplificar
com absoluta clareza um universo do corpo que não é acessível ao público em geral.

Este livro exige uma participação ativa do leitor, muitas ideias levantadas em um
capítulo só se fecham muitos capítulos depois. Algumas dessas ideias só se fecham,
mesmo, através de pistas e chaves que estão escondidas pelo livro.

Para um pesquisador com uma visão integral (um caçador de tesouros), todos os
conceitos e ideias se comunicam de uma forma complementar e sinérgica. E, assim,
esse nosso manual é um pequeno universo colaborativo que se abre em links que dão
acesso a conteúdos e textos complementares ao conhecimento apresentado.
Acompanhando o conceito de “mundo dentro de mundos”, que desenvolvo mais
adiante, este livro leva a outros textos e livros, que levarão também a outros tantos, e
assim por diante.

Este livro permite ao leitor uma navegação criativa, em que ele pode abrir
aleatoriamente uma página em busca de uma mensagem, na forma de uma consulta a
um oráculo. A magia, que atribuímos a fatores externos, está sempre em nós, não nas
coisas. (Acredite nisso!)

Sempre que você se sentar em silêncio, respirar três vezes com intensa profundidade e
sentir atentamente, com calma, o seu corpo, integrando esta imagem corporal desde o
pé até a cabeça, sentindo o fluxo de seu sangue correndo vigorosamente em suas
veias, e conseguir esvaziar sua mente de qualquer pensamento, você estará pronto
para fazer uma pequena consulta.
Abra cuidadosamente este livro em alguma página sem pensar, e lá você encontrará o
que está procurando. Se você não encontrar o que busca, pelo menos terá feito uma
pequena meditação… (risos)

Ah, e você perceberá aqui, em alguns momentos, doses de humor e ironia, que são
pontuadas com risos, ao final. Quanto mais divertido for o processo de aprendizado,
maiores as chances de fixação desse conhecimento.

Não se esqueça: viver leve é a arte de ser maleável, de não se levar muito a sério! Este
exercício é extremamente recomendável para qualquer profissional. Devemos sempre
relativizar e estar abertos a rever os nossos conceitos, ou mesmo nos contradizer, sem
qualquer receio.

Aqui, por mais que os assuntos mudem a cada capítulo, alternando-se em temas como
saúde, treinamento, comportamento, e bebendo em fontes como a filosofia, sociologia,
psicologia, entre outras, temos um fio condutor costurando todos os temas e provando
que tudo está interligado. É bom avisar que a lógica do encadeamento e ordenação dos
capítulos não é linear, não de uma forma convencional de continuidade, mas de uma
forma intuitiva e integrada.

A ideia é fazer uma investigação informal e abrangente acerca do universo do corpo.


Para que você participe dessa investigação é importante o seu acesso a provas, textos e
fatos que conduzem e complementam este processo. Sempre que você encontrar a
imagem de uma chave e seu respectivo número, acesse o código de barras (QR code)
ao lado para ser direcionado ao seu conteúdo. Os textos servirão como um
complemento ao que foi dito.

Esta pista irá colaborar na solução do enigma e tornar este livro mais abrangente e
divertido. Sugiro que você deguste essas chaves das seguintes maneiras:

1 - Acessá-las em seu celular por meio de um QR code. Veja um manual prático e


resumido de como fazer isso ao final deste livro.

2 - Acessá-las diretamente em meu site: www.nunocobrajr.com.br. As chaves


numeradas estão reunidas em um link com o título deste livro.

Dificultando um pouco o processo passivo de leitura, quero estimular em você um


gosto pelo estudo e pela pesquisa. Esta já é uma forma de combater a estagnação e
estimular o movimento.

Entenda que o marketing do consumo o trata como uma criança, subestimando sua
inteligência e transformando tudo em produtos mais “palatáveis ao gosto do grande
público”. Nesse processo, existe uma pasteurização, esquematização e uniformização
deste conteúdo.

Ao ler este livro, devo adverti-lo de que você estará sujeito a uma certa contaminação,
já que ele não foi pasteurizado. Sendo assim, é de sua inteira responsabilidade
continuar a leitura.

A minha maior preocupação não foi manter um certo “padrão editorial”, e sim a minha
autenticidade. A ideia, aliás, é fugir dos padrões. Pensar fora da “manada” é item
essencial para se destacar em qualquer mercado. Seguir padrões que remontam ao
século 18 não faz mais sentido nos dias atuais, como você verá mais adiante.

Este livro pretende ser fiel ao que ele é, em sua essência: um diário de anotações, uma
colcha de retalhos, sem maquiagem e sem disfarces. O leitor, assim como um voyeur,
vai poder entrar, sorrateiramente, em meu universo particular de ideias, conceitos e
reflexões.

SAÚDE, UM BEM EM EXTINÇÃO


Se pudéssemos voltar apenas 100 anos em nossa história, os pilares essenciais que
sustentam e estruturam a nossa saúde ainda estavam bastante preservados.

Nesta época, as pessoas ainda caminhavam muito, em média de seis a oito quilômetros
por dia, afinal, os veículos eram uma raridade.

Atualmente, o excesso de conforto está destruindo o ser humano.

Você já experimentou fazer um pão em casa? Essa simples atividade de sovar


representaria uma boa forma de fortalecimento, principalmente para o tríceps e peitoral.
E, antigamente, as pessoas realizavam não só essa, mas diversas outras atividades.

Muitas tinham uma pequena horta, onde cuidavam mais da própria terra, subiam
escadas, usavam pilão para fazer farinha, lavavam roupa na mão, entre outras atividades
que as deixavam naturalmente mais ativas.

O mundo contemporâneo trouxe inovação e comodismo.

A partir da década de 1950, com a invenção norte-americana dos eletrodomésticos e do


universo do consumo, acrescido da facilidade oferecida pelas escadas rolantes,
elevadores e popularização dos carros, ficou mais fácil ser sedentário. E, a princípio, não
vimos problema nenhum nessas tais “facilidades”.
Qual a nossa realidade hoje?

Um indivíduo acorda de manhã, depois de passar oito horas deitado, e se senta para
tomar seu café da manhã. Em seguida, ele desce de elevador até a garagem de seu prédio
e senta-se em seu carro para se dirigir ao trabalho. No final da manhã, após ficar outras
cinco horas sentado trabalhando, ele vai de carro até um shopping, sobe algumas escadas
rolantes ou elevador e fica novamente mais alguns minutos sentado para o almoço. Após
passar o dia grudado numa cadeira, em frente ao computador, ele chega em casa e senta-
se para o jantar.

Depois de tudo isso, como ele está muito cansado (afinal, ele ficou sentado o dia inteiro!),
finalmente, liga a TV e fica mais algumas horas nessa mesmíssima posição.

Por que será que ele tem uma hérnia de disco ou está com diabetes, pressão alta e
apresenta diversos desequilíbrios orgânicos? A resposta é que não nascemos para viver
sentados.

Já em relação à alimentação, há 100 anos, havia pouquíssimos alimentos industrializados


e as pessoas consumiam basicamente alimentos naturais e orgânicos, plantados a
poucos metros da sua casa. Faziam compras na mercearia e faziam pães, bolachas, sucos
e outros alimentos em casa.

Ainda não existiam os grandes supermercados e seus milhares de produtos altamente


artificiais e sedutores.

A indústria dos alimentos ainda engatinhava e o fastfood nem dava sinais de vida. Apesar
de consumir alguns alimentos pesados, como a banha de porco, as pessoas almoçavam e
jantavam em casa, pois a maioria delas morava próximo do trabalho. Se não moravam,
carregavam consigo uma marmita caseira, como opção lógica de refeição para o almoço.

Em relação ao sono, elas iam se deitar por volta das oito horas da noite, já que não existia
televisão ou o conceito moderno de vida noturna. Elas iam se deitar com as galinhas e
dormiam em paz, com silêncio e tranquilidade, visto que não havia muitas atividades nas
ruas.

Como podemos perceber, a nossa “Santíssima Trindade”, os pilares essenciais à nossa


saúde – sono, alimentação e movimento –, ainda estavam bastante preservados.

Hoje, com o conceito de gestão de empresas focado em metas e cobranças de resultados,


certificados, controles, bônus e toda forma de se espremer ao máximo os funcionários,
tudo isso mudou.
Esse sistema de gestão alimenta a insônia no mundo. Com o foco apenas na performance
e no resultado, torna-se uma praga que “buga” o sistema orgânico e o deixa cada dia pior.

Sim. O mundo está insone e sem tempo. As pessoas não têm tempo e nem energia para
fazer uma simples caminhada. Elas comem fastfood, bebem refrigerante, consomem
alimentos saturados, químicos e industrializados de uma forma indiscriminada.

O mundo sofre de uma crise crônica de ansiedade, e, sendo assim, come de forma
apressada, sem nem pensar no que está comendo, pois está preso ao celular.

O mundo está doente, obeso, flácido, sem energia e sem tônus, pois se movimenta cada
vez menos. O mundo toma remédios, pois tomar remédios é a opção mais rápida e mais
prática para continuar sobrevivendo.

Resumindo, é isso: nós não estamos mais vivendo, nós estamos apenas sobrevivendo.
Vejo isso diariamente em meu trabalho, em que me encontro com grupos heterogêneos,
que, de certa forma, são até homogêneos, já que quase todos dormem mal, são
sedentários, estão ansiosos, depressivos e sem energia, entre dezenas de outros
desequilíbrios.

Outro dia, num dos grupos que atendo, chegou um rapaz com uma história curiosa e,
infelizmente, bastante comum. Aos 28 anos, ele já tinha quase todos os cabelos brancos,
não dormia, não se movimentava e comia muito mal. Além disso, sofria de ansiedade e
depressão. Trabalhando com tecnologia da informação, ficava no computador até às duas
ou três horas da manhã, pois tinha que levar trabalho para casa, para dar conta dos
prazos e metas que lhe eram impostos. No outro dia, acordava às sete horas da manhã e
começava tudo de novo.

Que sistema de vida é esse que inventamos? Ele, claramente, não estava vivendo, estava
apenas, male e male, sobrevivendo. Aos trancos e barrancos, da forma como lhe era
possível.

Li, recentemente, que a ansiedade já é o terceiro motivo de afastamento do trabalho, no


Brasil, custando 200 milhões de reais aos cofres públicos, anualmente, e que o auxílio
doença para transtornos mentais e emocionais aumentaram (pasmem!) 20 vezes nos
últimos dez anos. (Fonte: Elemídia)

Mas, será que as pessoas sabem que a nossa performance cai 60% quando dormimos
mal? Será que as empresas sabem disso? Será que elas sabem que, agindo da forma
como estão agindo, estão matando a criatividade e a produtividade do seu funcionário? E
eu me pergunto: até quando faremos tudo dessa maneira?
É esse mundo que queremos para os nossos filhos? Será que as pessoas estão
anestesiadas, estão dopadas? Ou é só falta de consciência mesmo? Quando você vai
acordar desse pesadelo? Ou você está achando normal ver tanta gente doente,
desequilibrada, cansada, estressada e deprimida? Quando vai acordar para o fato de que
sem o seu corpo, sem a sua saúde você é alguém pela metade? Que você é apenas um ser
insone que sobrevive, longe da sua verdadeira capacidade, vitalidade e potência?

Dormir mal, por si só, inviabiliza qualquer visão positiva da vida.

O que acontece quando uma pessoa procura um médico? Em primeiro lugar, é provável
que esse profissional vá receitar alguns remédios.

O combo é grande – temos remédio para dormir, para ficar menos ansioso, para tratar a
depressão, para estabilizar a pressão arterial, para o colesterol e até para manter a pessoa
acordada.

A pergunta é: você acha que isso vai realmente resolver o problema ou apenas adiá-lo?
Qual seria a forma de curar esse paciente de uma maneira definitiva? A resposta é:
devemos atacar a verdadeira causa do problema.

E essa causa, na imensa maioria das vezes, está ligada aos desequilíbrios encontrados na
“Santíssima Trindade” do corpo, que são sono, alimentação e movimento equilibrado.

“Poxa, Nuno, mas se é tão simples assim, porque não fazemos nada a respeito?”, você
deve estar se perguntando.

A resposta, para se aproximar da realidade, tem de ser mais abrangente.

Podemos enumerar alguns fatores:

• Estamos aprisionados aos nossos hábitos adquiridos.

• Este não tem sido um foco importante em nossas vidas.

• Culturalmente, vivemos um ideal fantasioso de sucesso e felicidade.

• A maioria das empresas não pensam no longo prazo.

• Fazer atividade física equivale a uma forma de tortura.

• A prevenção não dá ibope.

• O lobby da indústria dos medicamentos é poderoso.


E muitos outros fatores...

Como você pode ver, são vários os motivos.

Dizem que nosso método é mágico, mas eu vou lhe contar um segredo: na realidade, não
existe segredo algum, nós apenas ajudamos as pessoas a saírem dessas prisões
comportamentais em que elas mesmas se inseriram.

Mágica é a própria natureza. Mágica é a vida.

COFFEEHOLIC
Em uma sociedade que glamouriza a performance, somos convencidos de que extrair o
máximo de nós mesmos é uma autoimposição desejável, sendo levados a acreditar que o
sucesso seria resultado de um sacrifício. Todos podem ter sucesso, caso sigam sua mente
positiva e poderosa. É o que nos dizem.

Mas, e o corpo? O que fazemos com o corpo? Esse limitador da performance, esse
empecilho. A fórmula é simples: doses cavalares de cafeína e energéticos acrescidos de
juventude, mais cinco colheres de força de vontade, dão conta do recado. Mesmo que à
custa de um cansaço crônico, esgotamento nervoso, pânico e depressão. Nesse contexto,
os ansiolíticos, antidepressivos e toda forma de anestesiar a consciência são bem-vindos.
Haja Rivotril! Aliás, por mais absurdo que possa parecer, o Brasil é o maior consumidor do
mundo, em volume, de clonazepam, o princípio ativo do remédio. Foram 2,1 toneladas em
2010, o que coloca o Rivotril no topo das paradas farmacêuticas daqui. É o segundo
remédio mais vendido no país, à frente de nomes como Hipoglós e Buscopan. (Fonte:
Revista Superinteressante, ed. 280.)

Como a competitividade é algo que se acentua e se refina, nos tornamos escravos de uma
engrenagem perversa. A competição é algo que pode ficar fora de controle. Um bom
exemplo é a Coreia do Sul. Pesquise no Google: “Coreia do Sul: A República do suicídio”.
Nesse país, aos poucos, criou-se um grande mercado de ensino preparatório para a
faculdade. Alguns pais direcionam quase todo o fruto de seu trabalho para cursos
preparatórios de modo a propiciar ao filho chances nas melhores faculdades. Com o
tempo, o ensino foi se tornando mais sofisticado e subindo o sarrafo da competitividade.
O resultado foi que isso se tornou uma espécie de corrida armamentista. Ou seja, quando
o seu concorrente desenvolve armas mais eficientes, isso o força a criar armas ainda
melhores. Neste processo, entrar em uma boa faculdade passou a exigir, em média,
quinze horas de estudo diário, incluindo os finais de semana. Nesse nível estratosférico de
dedicação, muitos alunos ficam pelo caminho, enlouquecem ou chegam ao cúmulo de
cometer suicídio.
Hoje, ao invés do sonho de economistas como Adam Smith, que previam um cenário em
que, no século 21 as pessoas trabalhariam muito menos e seriam mais felizes, o que
assistimos é exatamente o contrário. A lógica e o ritmo alucinante do mercado de
trabalho atropelam tudo.

Agora, onde eram necessárias duas pessoas para dar conta do recado, colocam apenas
uma. O pior é que, se você não quiser a vaga, a fila de pretendentes é enorme.

A grande verdade é que estamos sempre ativos e trabalhando, seja estudando nas horas
vagas para nos mantermos atualizados e competitivos, seja levando trabalho para casa.
Com o computador, a nossa própria casa virou uma extensão do trabalho. Todos já estão
bem treinados. Explorar a si mesmo e trabalhar além do limite humano tornou-se uma
condição inerente para quem almeja sucesso e felicidade. É o que nos dizem.

Não é necessário o uso de muito convencimento para submeter e escravizar. O


recurso é mais sutil. O que se vende é o auto sacrifício como uma virtude.

Em uma sociedade de super-homens, super empresários e atletas de alta performance,


não fazer parte disso é assumir-se um fraco, a quem falta disciplina e força de vontade.

E aí valem as soluções mais criativas. Um amigo, por exemplo, não tem tempo nem de ir
ao banheiro. Devido a esse péssimo hábito, ele sofre de uma prisão de ventre crônica. E
adivinhem qual solução ele encontrou?

Se engana quem respondeu respirar, fazer meditação e trabalhar menos. Para ele, isso
seria mera perda de tempo. Então, ele resolveu colocar um notebook sobre uma mesa
retrátil em frente ao vaso sanitário. E, hoje, ele se gaba de poder fazer suas necessidades
enquanto assiste ao Jornal Nacional (risos). Quem diria, até esse último santuário está
ameaçado.

O quarto de dormir já foi invadido por TVs e smartphones há muito tempo. Já era. Nesse
mundo 24 horas, em que as pessoas nunca se desligam, o trabalho invade até os nossos
sonhos.

MOVIDO A VENTO
Em nossas férias de final de ano, em Ubatuba, estávamos na casa dos nossos amigos
Cadu e Melissa. Eu estava escrevendo à mão alguns capítulos deste livro e, por sorte,
conheci um simpático italiano chamado Roberto, que nos convidou para passear em seu
veleiro. Um simples passeio me fez pensar em muitas coisas.

Quem já experimentou essa sensação, vai entender o que estou falando: logo que
entramos no canal, ele desligou o motor e começou a içar as velas, o que transformou o
passeio em outra viagem e nos fez vibrar em outra sintonia.

A sensação de deslizar pelo mar de forma natural e silenciosa é maravilhosa. Todos foram
para a parte dianteira do veleiro e, com o vento suave soprando em nossos corpos,
abrimos os braços e nos entregamos ao balanço hipnótico das ondas.

A sensação de liberdade e integração que experimentamos naquele dia foi incrível e, logo,
entregues à velocidade que essa interação permite, outros animais começaram a
participar de nosso passeio. Peixes, golfinhos e tartarugas se aproximaram, e, então,
passamos a nos sentir como parte integrante desta natureza tão exuberante.

De tempos em tempos, o Roberto se envolvia com o manejo dos cabos e velas, o que,
além de ser uma atividade física vigorosa e divertida, requer uma integração profunda
com o mar. Neste meio tempo, algumas lanchas, maiores e mais modernas, passavam
por nós de forma rápida e barulhenta, remexendo todo o mar e estragando a nossa paz e
tranquilidade. Consequentemente, afastando os animais que “curtiam” o passeio ao redor
da nossa embarcação.

Nesse instante, o Roberto fez alguns comentários comparando estas duas formas de
navegar. Quem navega nestas lanchas potentes e rápidas quase não curte a relação com
o mar e a natureza. Só está interessado em chegar o mais rápido possível ao seu destino,
não curte o caminho. Eles quase não conversam, devido ao intenso barulho do motor e,
como viajam com enormes solavancos, não têm paz e tranquilidade para desfrutar a
paisagem.

Para nós, o que aconteceu foi, exatamente, o contrário. Quando terminamos o passeio,
estávamos em estado de graça, calmos e relaxados, embalados por este ritmo envolvente
e meditativo que é ser movido por uma força da natureza: o vento.

Percebi, então, que essa é uma ótima metáfora para explicar a nossa proposta de
treinamento corporal. Uma forma de treinamento totalmente integrada com o ritmo da
natureza, um passeio agradável e meditativo, com um sentido profundo de conexão.

Um treinamento que seja bom antes, durante e depois.

Onde possamos nos sentir motivados e estimulados a repeti-lo, a curtir e aproveitar o


caminho, o processo, e não apenas valorizar o destino final, o resultado. Um treinamento
sem solavancos, sem sustos, sem stress e barulho, ao contrário, uma busca de silêncio
em meio ao caos. Um treinamento que desenvolva o autoconhecimento, as nossas
habilidades corporais e mentais, a nossa escuta e consciência corporal. Que seja lúdico,
divertido e prazeroso.
Comecei a pensar que, durante muito tempo, a atividade física esteve inserida na vida de
forma natural, e que a tecnologia, a exemplo da lancha a motor, veio romper com essa
relação. A tecnologia nos coloca em uma posição totalmente passiva, em que apenas
apertamos um botão. Dessa forma, não tem sido necessário estimular e recrutar todos os
nossos recursos mentais e corporais, o que inibe e atrofia a nossa capacidade de
improvisar e pensar, como também a nossa coordenação motora, memória e outras
habilidades associativas, cognitivas e individuais.

Eu me lembrei dos equívocos do treinamento físico desde os seus primórdios. E não


estamos falando de tanto tempo assim, já que o treinamento em massa para a grande
população se intensificou a partir da década de 1980. Um dos grandes equívocos foi que,
acompanhando as modificações tecnológicas, acreditou-se que investir em máquinas que
tornassem o treinamento mais confortável e prático seria uma boa solução. Não é.

Hoje, sabemos o quanto essas máquinas empobrecem a qualidade do treinamento e, por


colocar o aluno em uma posição muito passiva, desfavorecem a sinergia e um
fortalecimento muscular mais profundo e eficiente. Esse sistema de treinamento já está
ultrapassado. Porém, os alunos e as academias se acostumaram e se apegaram a esse
modelo. Como costumo dizer, o medo de mudanças produz uma resistência que empaca
nossa evolução.

Fico pensando, então, no maior de todos os equívocos, que perdura até os dias de hoje: o
grande enfoque dado ao levantamento de peso. Estrategicamente, tal treinamento não é
estimulante ao aluno. De maneira unânime, ele é considerado uma das atividades mais
chatas e monótonas que existem.

Instintivamente, se você puder evitar levantar algo pesado, você vai evitar. O nosso
cérebro e o nosso organismo buscam a todo custo fugir do desgaste e do stress causados
quando levantamos algo pesado. Não é à toa que o ser humano foi desenvolvendo tantos
aparatos que fazem esse trabalho por nós, como a roda, os elevadores e outros.

Responda sinceramente: qual é a primeira sensação quando alguém lhe pede ajuda para
carregar um móvel pesado, em uma mudança? Você, provavelmente, sente uma enorme
resistência e preguiça, não é?

Por isso, o melhor tipo de atividade física, aquela que podemos chamar de natural e
instintiva, é aquela em que nem percebemos que estamos treinando.

Isso ocorre com atividades lúdicas e desafiadoras, algo que requer um aprendizado e um
desafio motor, como o slackline, a capoeira, o surf ou o tênis. Ou seja, nessas atividades
você brinca e se diverte, podendo, assim, aprimorar e desenvolver a sua técnica e,
consequentemente, as suas habilidades corporais e mentais.
A musculação, ao contrário, não estimula nenhuma evolução mais profunda e
significativa. Ela é um fim em si mesma. Você vai fazer, eternamente, os mesmos
movimentos monótonos e repetitivos, e o seu cérebro nunca vai entender muito bem qual
o sentido de tudo aquilo.

A musculação só faz sentido para um perfil muito específico: os apaixonados pelo


fisiculturismo e pelo bodybuilding (o culto ao fortalecimento muscular). Esse grupo era
uma ínfima parcela da população, em um passado recente. Como essa minoria
encontrou, no ambiente da academia, um meio cultural fértil de desenvolvimento,
proliferou-se de uma forma assustadora e criou os modelos atuais de beleza.

A grande população, que não tem “nada a ver com isso”, é impelida e condicionada,
através do marketing agressivo desta indústria do bodybuilding, a seguir esse modelo de
beleza artificial. Na década de 1990, o cinema de Hollywood assumiu um papel
determinante na fixação desse modelo no inconsciente coletivo, por meio da
glamourização de heróis com corpos extremamente “bombados”, em blockbusters
protagonizados por grandes astros, como Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone.
Esse “modelo” de corpo virou um bem de consumo a ser conquistado. Há, também, um
marketing poderoso inserido de maneira subliminar nos realities shows, nas
propagandas, nas novelas, nas revistas e nos programas de maior audiência da TV.

Hoje, vemos nas academias, rotineiramente, milhões de jovens entre 14 e 35 anos


levantando cargas pesadas, seguindo fórmulas radicais de treinamento, tomando
anabolizantes e destruindo de forma precoce a própria coluna e as articulações. Tudo isso
para estar em conformidade com o padrão vendido por essa indústria.

Seguir este padrão de beleza por meio de um treinamento artificial e radical pode ser, sim,
uma escolha. Mas, deixo aqui o meu alerta de que essa não é, e não deve ser, a única
opção possível.

Aqui, interessa-me discutir as consequências dessas escolhas, mostrando ao leitor uma


nova perspectiva do treinamento. Esse é um dos propósitos deste livro: trazer
informações e questionamentos a respeito de como o corpo é tratado em nossa cultura.

ILHA DESERTA
Imagine a seguinte situação: um grupo de pessoas ficam isoladas durante 30 anos em
uma ilha deserta. Nesse período, elas desenvolvem um outro sistema e uma outra visão
de vida.

Imagine que as informações ligadas aos seus interesses cheguem à ilha pelo correio, em
forma de livros, jornais, revistas e outros meios. Ao voltar para o convívio social, elas
desenvolvem um senso crítico e um olhar externo muito apurado acerca daquela
realidade. Esse é o melhor exemplo do que ocorreu com o método Nuno Cobra.

Eu, meu pai e meus irmãos passamos os últimos 30 anos isolados, em um universo
bastante particular, trabalhando com centenas de atletas e empresários. Nesse período,
desenvolvemos uma metodologia que busca uma integração do conhecimento corporal,
um aprofundamento dos conceitos do treinamento com foco em saúde, assim como uma
individualização radical em relação ao treinamento ideal para cada tipo físico. O know-
how ficou restrito à nossa família, pois não formamos outros professores. Devido ao
número restrito de professores e ao grau de sofisticação do treinamento, ele se tornou
acessível apenas a uma pequena elite.

Apenas há poucos anos, eu e o Renato, meu irmão, voltamos para o mercado do


treinamento. Nós só fomos pensar em expandir e replicar o nosso método em 2013,
organizando a primeira turma de formação para novos professores.

O mercado do fitness, nos últimos 30 anos, percorreu um caminho oposto: o treinamento


físico está cada vez mais comercial e massificado. Pior, os métodos de treinamento
tornaram-se extremamente radicais. O choque entre as duas culturas criou este
manifesto.

Existem duas principais vertentes do treinamento físico, que, devido ao seu foco e
interesse, adotam caminhos opostos em relação à forma de aplicar o treinamento. De um
lado, está a indústria do fitness, direcionada para os resultados estéticos, apoiada em
formas radicais de treinamento, visando resultados a curto prazo. Do lado oposto,
encontramos um pequeno grupo de treinadores que trabalham com grandes atletas, em
que o foco do treinamento são os resultados a médio e longo prazo. A preocupação,
nesse caso, é criar uma forma de treinamento que permita ao atleta atingir o máximo de
sua performance sem se lesionar.

A equação só se fecha através de uma fórmula: o treinamento com equilíbrio e


moderação. Tudo que fugir a essa fórmula produzirá resultados mais lentos e menos
produtivos para o treinamento de um atleta. Qual inovação nós propomos?

Quando, em 1984, meu pai criou sua metodologia voltada para empresários, ele adotou a
mesma forma de treinamento que aplicava em seus atletas. Os resultados foram
surpreendentes. Ele constatou que, por meio desse enfoque, é possível obter o máximo
de produtividade em cada fase do treinamento.

Mais ainda, através do treinamento em equilíbrio, voltado para resultados de médio a


longo prazo, ele podia levar esses empresários hipotônicos e estressados a níveis
inimagináveis de saúde, performance e potência. A partir de então, o método Nuno Cobra
adquiriu um foco intenso em qualidade de vida e mudança de hábito, podendo ser
aplicado em qualquer tipo físico.

O VISIONÁRIO
Meu pai é uma pessoa que pensa fora da “manada”, de uma forma mais livre e profunda.
Aliás, tudo nele é excepcional e diferente. Nós brincamos dizendo que ele veio de outro
planeta, pois é muito romântico, não tem os pés no chão. Ele é uma pessoa
extremamente emotiva e sensitiva. E criou um modo e uma visão de vida muito
particulares.

Aprendi com ele que o pensamento intuitivo está sempre muito à frente da ciência oficial.
Aliás, o pensamento intuitivo ou conhecimento de campo é o disparador inicial que cria a
pesquisa, o motivo de estudo, que, por vezes, leva décadas para ser finalizado.
Decididamente, ele é um visionário. Alguém à frente de seu tempo.

Assisti, ao longo da minha vida, diversas teorias suas serem validadas pela ciência, por
vezes, mais de 50 anos depois. Por exemplo: apenas em 2014, a ciência finalmente
comprovou o que meu pai já dizia há muitas décadas: que o sono é um elemento
primordial na performance de um atleta. Tente imaginar a reação, quando em 1958, o
meu pai defendia junto ao mundo acadêmico da preparação física que o sono era o
elemento mais importante no desempenho de um atleta. Isso, é claro, gerava muitas
risadas e muitos deboches.

Por isso, ele foi sempre taxado de excêntrico e utópico em seu campo de trabalho. E qual
foi seu mérito em relação ao sono? Ele apenas estudou a fundo os benefícios do sono ao
organismo humano e, através do pensamento intuitivo, juntou uma coisa com a outra.

Caso você abra o seu livro A semente da vitória, lançado há mais de duas décadas, vai ler
que o sono é o primeiro pilar e o “A” do nosso Método, como ele sempre diz.

Devido à sua personalidade, o meu pai continua até hoje com um modo artesanal de
trabalho. Ele nunca teve empresário, assessoria de imprensa ou equipe de treinadores.
Continua atendendo sozinho a um grupo pequeno de pessoas, como sempre fez. Optou
pela simplicidade, o que, de certa forma, é bastante inteligente, pois permite a ele manter
a qualidade total do trabalho e gera muito menos stress. Ele, provavelmente, é um dos
maiores treinadores do último século.

Eu não conheço ninguém que tenha treinado atletas campeões em mais de dez esportes,
como tênis, natação, basquete, futebol, atletismo, golfe, vela, motovelocidade e judô,
entre tantos outros, sendo que alguns desses atletas conquistaram títulos mundiais.

Eu, como seu discípulo direto, tomei como uma missão traduzir e atualizar o seu método
para o grande público. A minha missão se tornou explicar da forma mais clara e didática
possível essa metodologia tão simples e, ao mesmo tempo, tão abrangente e filosófica.
Na realidade, o grande mérito do meu pai foi estudar outras áreas da ciência, como a
psicologia, a filosofia, a antropologia, a sociologia e muitas outras. Em vez de se
especializar e se fechar em sua área, como ele é muito curioso, foi buscar em outras áreas
algumas respostas para as suas dúvidas e inquietações.

Ele é um vulcão de energia, uma potência, extremamente dedicado e completamente


apaixonado pelo que faz. Durante décadas, ele estudou cada detalhe do corpo humano e
do treinamento, tornando-se um “rato de biblioteca”, como diziam seus amigos de
faculdade. Participou de todos os congressos olímpicos a partir de 1968, e foi estagiar na
UCLA, a universidade do sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Na década de 1970, foi
para São Paulo estudar na USP, na primeira turma de pós-graduação em educação física
do país. Formou-se como o aluno mais destacado em sua turma, recebendo nota 10, com
louvor, por sua dissertação de mestrado feita com os dez maiores tenistas do ranking
mundial da época, incluindo o número 1, Bjorn Borg.

Ele não criou sua metodologia como quem tira um coelho da cartola. Ele, primeiro,
tornou-se um virtuose em sua área de estudo, para, depois, poder desconstruir e criar a
sua própria visão do treinamento. Uma das suas maiores contribuições foi inaugurar uma
abordagem filosófica e holística do treinamento físico.

Pensando e aprofundando questões ligadas ao treinamento, ele integrou todos as áreas


de seu interesse, principalmente a filosofia, a antropologia, a psicologia e a meditação,
revitalizando a educação física, uma área tão restrita e sectária.

Sendo assim, ele se transformou no fundador da “Filosofia integral do treinamento físico”,


uma área da ciência ainda nova no mundo. É como se, finalmente, a própria educação
física e o treinamento começassem a pensar em si mesmos através de um prisma
humanista, filosófico e transdisciplinar.

Até onde pude pesquisar, não encontrei ou conheci até hoje nenhum preparador físico
que seja um conceitualizador e filósofo, que junte ao treinamento elementos tão diversos
que integrem, realmente, corpo, mente, emoção e espírito.

A preparação física segue como uma ciência muito lógica e pragmática, interessada em
aplicar fórmulas mecânicas de crescimento muscular e performance. Talvez, por isso, ele
não goste quando o chamam de “preparador físico”. Ele sabe que esse rótulo restringe
imensamente a abrangência do seu trabalho.
Nós, brasileiros, com nosso “complexo de vira-lata”, como dizia Nelson Rodrigues,
tendemos a valorizar apenas o que vem de fora, e nos esquecemos de valorizar nossas
descobertas e nossos talentos.

Quando participei de congressos de treinamento físico, qualidade de vida e mental


coaching, fora do país, pude constatar que a nossa metodologia ainda é inédita e se
encontra muito à frente do seu tempo. Ou seja, o Brasil pode colaborar e ser o elemento
catalisador para uma grande revolução na forma de pensar o corpo e o treinamento, no
mundo.

Este conhecimento já está disponível aqui, em solo nacional. Não precisa esperar alguém
de fora escrever um bestseller para trazer credibilidade e comprovar esses conceitos. Um
bom exemplo disso ocorreu recentemente, com o lançamento de um bestseller norte-
americano chamado Mini habits: smaller habits, bigger results, de Stephen Guise, um
grande especialista sobre o assunto. O livro inteiro é feito em cima de uma teoria muito
familiar a mim, e que me fez voltar aos meus 20 anos de idade, em 1986.

Foi a primeira vez que perguntei ao meu pai o porquê de ele começar um treinamento
com alguém sedentário com uma proposta de apenas 20 minutos de caminhada leve e
suave. Ele me respondeu: “Filho, o nosso foco inicial em um treinamento para sedentários
deve ser sempre a mudança de hábitos, não a performance. A estratégia que criei foi
oferecer uma proposta acessível, quase irrecusável de treinamento. Qual a melhor forma
de se introduzir um hábito ligado ao treino cardiovascular? Com uma caminhada leve de
20 minutos ou com uma corrida de 30 minutos? Qual desses treinamentos esse sujeito
específico será realmente capaz de manter? E mais importante, qual ele vai sentir prazer
em realizar? Toda a minha metodologia é baseada nesse conceito. O foco é sempre a
mudança de hábito realizada por meio de um passo a passo, suave e prazeroso”.

Bom, foi assim que eu aprendi que a melhor estratégia para se mudar um hábito é
começar por algo fácil e acessível, exatamente a mesma teoria deste bestseller norte-
americano.

Às vezes, eu tenho a impressão de que cada uma das centenas de ideias e conceitos
desenvolvidas por meu pai renderiam um grande livro nas mãos de um pesquisador mais
organizado e pragmático. Os exemplos são muitos.

O meu pai já falava em inteligência emocional muitas décadas antes desse conceito se
tornar conhecido. Toda a fundamentação do treinamento funcional, que está tão em
moda atualmente, é a base da nossa metodologia desde 1956. Outro exemplo seria o
coaching. Desde a década de 1980, ele já aplicava nosso modelo atual, uma consultoria
em relação ao movimento, sono e alimentação, como também aos hábitos e padrões,
realizando uma forma de coaching em qualidade de vida e alta performance, para a vida.

Ele é um poeta, um romântico, um visionário. Alguém que vive em outra sintonia. Flutua
em um mundo mais imaterial e etéreo. Alguém que derrama sua poesia por onde passa,
lança ao mundo pequenas sementes. Essa é a sua arte, o seu destino e a sua missão.
Como herdeiro desse mistério e conhecimento, ainda artesanal e secreto, a minha missão
é pegar as sementes e fazê-las germinar.

Nuno Cobra, em 1955, ensaiando uma sequência de acrobacias com seu grande parceiro, Pedro “Pexexa” Nogueira.

DUAS GERAÇÕES
Dizem que o bom discípulo supera o mestre. Eu prefiro reformular o conceito: cada
pessoa é única e insubstituível. Os grandes mestres são absolutamente insuperáveis.
Ao meu ver, o conceito correto é que o bom discípulo pode ir além do mestre,
simplesmente porque tem mais tempo e juventude para trilhar e ampliar esse caminho.
Como um processo natural do amadurecimento contínuo de uma ideia ou de uma prática.
Um bom discípulo não pode ser apenas uma cópia, alguém que reproduz de forma
automática o que aprendeu, ou alguém sem individualidade, sem criatividade e sem alma.
O bom discípulo é alguém apaixonado, vivo e criativo.

O conhecimento só pode avançar e tornar-se mais profundo, quando ele tem uma
continuidade através de uma transmissão e uma herança que atravesse gerações. Uma
vida é muito pouco tempo para desenvolver e aprofundar um conhecimento.

Em 2014, meu pai completou 60 anos de trabalho e estudo. Ele nos entregou, e bandeja,
todo um caminho já aberto em uma mata ainda inédita de conhecimento, possibilidades e
descobertas. Sendo assim, acho natural que nós, meus irmãos e eu, cada um com as suas
individualidades e talentos, sigamos explorando e descobrindo novas paisagens e novas
janelas desse conhecimento. Afinal, é importante que cada profissional possa adaptar e
colocar sua identidade e pesquisa naquilo que faz.

A partir das necessidades observadas, nós expandimos nosso método, acrescentando


novos conceitos, exercícios e possibilidades. Atualizações tais como, um enfoque maior
na maleabilidade, nas técnicas circenses, nas atividades lúdicas, nas formas de
meditações ativas, nas técnicas de meditação, no Chi Kung, na integração das técnicas
somáticas e no conceito de flow, entre outras.

Gosto muito do conceito inovador do nosso método, que funciona como uma consultoria.
No processo, iremos ensinar, informar e prover o aluno com o conhecimento sobre o
corpo e a mente, para que, assim, ele desenvolva sua autonomia, consciência e escuta de
si mesmo.

Mais uma vez, de forma visionária, o meu pai criou uma função bem mais profunda e
necessária para o treinador, que se transforma em um terapeuta, uma espécie de
coaching em qualidade de vida e alta performance. Mais do que isso, extrapolando essa
ideia, o treinador se torna um conselheiro, um guru. Qual o grande segredo por trás da
metodologia que meu pai desenvolveu, e que lhe permitiu ter tanto sucesso e operar
verdadeiros milagres na vida de tantas pessoas? O segredo se chama paixão e amor.

A relação terapêutica que estabelecemos com nossos alunos é feita com total parceria e
envolvimento. É um vínculo emocional e afetivo em que as dificuldades, as angústias e os
problemas dos nossos alunos se tornam também nossos problemas.

Qual a nossa maior dificuldade em transpor esse modelo tão afetivo, artesanal e
individual para uma forma mais acessível e replicável de treinamento em grupo? Um dos
maiores desafios é que a forma como a metodologia era aplicada dependia muito de um
canal de troca bem estruturado, um coaching realizado de forma individual, dedicada e
dinâmica.

Além disso, o meu pai construiu toda a sua forma de trabalho em cima da sua própria
personalidade e carisma. Por isso, nunca conseguiu replicá-la. É impossível formar outro
Nuno Cobra. Foi, então, que percebemos que sua proposta teria que ser revista e
adaptada. Nos últimos anos, eu e o Renato, meu irmão, testamos diversos modelos e
chegamos ao formato mais simplificado possível para aplicá-lo em pequenos grupos,
além de diversas possibilidades de desenvolvimento para empresas, atletas e
corporações.

Autonomia é uma grande pedra no sapato para a nossa sociedade. Somos totalmente
dependentes da autoridade do especialista, como você verá mais à frente. Por isso, a
autonomia se torna tão essencial, afinal, você é o maior especialista em relação ao seu
próprio corpo.

Como já falei sobre meu pai, gostaria, agora, de falar um pouco sobre meu irmão. Desde
2013, o Renato é a minha principal referência, afinal, ele enriqueceu e expandiu o universo
do nosso método. Por ser cinco anos mais velho, sempre fui a maior referência e
influência para o meu irmão. Porém, chega um ponto em que o processo se inverte: o
mestre é quem passa a aprender coisas novas com o discípulo. Na verdade, podemos
aprender com todos à nossa volta, somos todos mestres e aprendizes. Meu irmão trouxe
um novo sentido e profundidade ao treinamento físico, que irá resignificar a forma de se
entender o corpo e o treinamento. A sutileza e riqueza do conhecimento corporal vivida
por ele se deve às suas próprias experimentações. Ele é um ex-tenista talentoso, um
surfista completo, um incrível bailarino, um malabarista e mestre circense de mão cheia,
um pesquisador incansável das técnicas corporais somáticas e do movimento, entre
outras nuances.

O valor efetivo de um treinador pode ser medido no treinamento com atletas. É lá que o
nosso trabalho se sobressai e faz realmente diferença na performance esportiva. Em
nossa forma de treinamento integral, não somos apenas preparadores físicos. Somos
treinadores acrescidos a consultores em diversos setores complementares à
performance de um atleta, como o sono, a alimentação, o treinamento mental e
emocional, entre outros.

O que o Renato conseguiu com seus alunos, no hipismo, é surpreendente em relação ao


treinamento de atletas. Ele foi uma peça fundamental na performance de grandes nomes
do hipismo brasileiro, nos últimos dez anos. Alguns competidores que não se
destacavam, como em um milagre, passaram a ganhar diversos torneios importantes e se
tornaram campeões em suas respectivas categorias.
1° PARADIGMA: TREINAMENTO SEM
SOFRIMENTO
Neste livro, você vai entender porque eu me tornei uma espécie de “ativista corporal”,
levantando a bandeira do treinamento sem sofrimento, um treinamento mais
humanizado e consciente.

Devido à moda do treinamento de alta intensidade, treinar se transformou em uma forma


sofisticada de tortura – a sofisticação está no fato de a alta intensidade estar disfarçada
de benefício. Atualmente, é comum o aluno passar mal ou desmaiar durante o
treinamento físico.

Quanto mais forte e intenso for um treinamento, mais resultados vamos ter, certo?
Errado.

A teoria mais fundamental da preparação física é a teoria do estrago e da


supercompensação. Ela funciona da seguinte forma: todo esforço causa um estrago em
nosso organismo; quando somos capazes de compensar esse estrago, o corpo pode
reagir, aumentando o seu limite de adaptação.

Mas, é bom ressaltar que leve desconforto não é dor. Sofrer durante o treinamento quer
dizer que o estrago foi muito além do que o seu organismo é capaz de compensar. Sendo
assim, o resultado do treinamento será muito menor e, além disso, a evolução do aluno
será mais lenta. Surpreso?

Existem duas principais vertentes do treinamento. De um lado, os maiores fisiologistas,


cardiologistas, estudiosos e acadêmicos, apoiados pela ciência do esporte, que defendem
um treinamento com moderação. Do outro, a indústria do fitness, apoiada por alguns
especialistas, que defendem um treinamento de alta intensidade focado em resultados
estéticos no curto prazo.

No entanto, não podemos nos esquecer de que o corpo não é um bem de consumo e não
segue a lógica do mercado de mais resultado no menor tempo possível. Parece óbvio,
mas nem todo mundo pensa desse jeito.

O treinamento radical, de alto impacto, é irmão da dieta radical.

Como assim, Nuno? É que os resultados no curto prazo podem ser satisfatórios, no
entanto, são desastrosos no médio e longo prazo, na imensa maioria dos casos.
Devido ao fenômeno das academias, grande parte do treinamento físico feito no mundo é
o que podemos chamar de um treinamento estético, ou “treinamento cosmético”.

Pouco se fala sobre o impacto que o treinamento de alta intensidade representa ao nosso
organismo. Ele pode ocasionar um stress severo, causando um envenenamento do
sangue, devido ao aumento dos radicais livres e dos resíduos metabólicos do exercício.
Além disso, de forma geral, esse tipo de atividade pode diminuir a vida útil das nossas
articulações e cartilagens.

Uma cartilagem que poderia durar 80 anos ou mais, pode ser consumida em apenas cinco
ou dez anos em provas de corrida contra o relógio, levando a uma artrose definitiva. Aliás,
você sabia que uma leve perda em um disco intervertebral em nossa coluna pode
representar uma incapacidade de se exercitar para o resto da vida?

Para as formas de treinamento da moda, a alta intensidade pode chegar a mais de 60% do
volume de treino. Segundo o fisiologista norte-americano Matt Fitzgerald, ao analisarmos
o treinamento dos maiores atletas, como Mo Farah, bicampeão olímpico dos cinco mil e
dos dez mil metros no atletismo, veremos que a alta intensidade representa apenas 20%
do seu treinamento.

Não é curioso?

Esse padrão se repete na elite dos nadadores, triatletas, ciclistas e outros atletas.
Traduzindo, podemos afirmar: para a elite dos treinadores e para a ciência do esporte,
menos é mais. Ou seja: no treinamento de alta performance desenvolvido para atletas, a
curva evolutiva é mais rápida, eficiente e produtiva quanto mais respeitamos o equilíbrio e
o bom senso no treinamento.

“SE OS MAIORES CAMPEÕES DO MUNDO TREINAM COM MODERAÇÃO, POR QUE


VOCÊ TAMBÉM NÃO DEVERIA TREINAR?”

(Matt Fitzgerald)

Obviamente, existe uma variação do uso da alta intensidade, dependendo de cada


esporte. Essa frase do Fitzgerald é direcionada aos atletas amadores das provas de
corrida por ele estudadas. Comparar atletas a alunos normais é complexo, dá margem a
muita polêmica, mas eu posso afirmar que, em relação ao treinamento de atletas
profissionais, a abordagem geral é feita com muito cuidado e moderação. É um mito
acreditar que a preparação física de um atleta tenha que ser algo extremo. Veja o caso de
um tenista profissional, por exemplo: ele treina a parte técnica por três horas
regularmente e compete quase toda semana. Sendo assim, o treinamento físico desse
atleta deve ser restaurativo e extremamente moderado, na maior parte do tempo. De
qualquer forma, vale dizer, o que é moderado para esse atleta não é o mesmo que
moderado para a maioria das pessoas.

Por tudo isso, é bom os treinadores irem se acostumando, o slogan “menos é mais” veio
para ficar. Eu já treinei diversos corredores amadores que alimentavam a fantasia de que
treinar mais e com mais intensidade iria trazer melhores resultados. Mas, nos últimos
anos, isso tem sido cada vez mais desmistificado, como, por exemplo, no livro Treine
menos, corra mais, escrito por Bill Pierce, Scott Murr e Ray Moss, professores da
Universidade de Furman (EUA), um dos principais centros de pesquisa e treinamento de
corrida no mundo.

Os melhores treinadores têm uma boa base do conhecimento da fisioterapia e de outras


técnicas somáticas. Precisamos integrar ao conhecimento do treinador essas duas
ciências complementares, com urgência.

A eficiência de um treinamento é algo muito mais abrangente do que muitos treinadores


estão acostumados a pensar. O conhecimento corporal vai muito além da educação física.

Certos treinamentos da moda não são as formas mais modernas e eficientes de


treinamento, como podem parecer a princípio. Ao contrário, atualmente, os treinamentos
da moda são as formas mais apelativas. Eles são escolhidos a dedo pelo mercado, quanto
mais sedutores e instantâneos forem, mais venderão.

Em resumo: um lobby da indústria do fitness divulgou uma pesquisa que mudou a forma
de treinamento nas academias.

As novidades do treinamento vão parar na capa das maiores revistas do país e estimulam
uma indústria bilionária, que – adivinhem só – não para de crescer.

O processo funciona da seguinte forma: os norte-americanos inventam uma nova forma


de treinamento de curto prazo, milagrosa e radical; em seguida, começam a vender esse
produto para o mundo todo e, assim, alguém fatura milhões com o copyright do produto.

Esse modelo tem dois furos monumentais em seu conceito:

1. O treinamento de alta intensidade não é indicado a quem esteja acima do peso


(obesidade e sobrepeso), exatamente o público que mais se favoreceria dessa novidade,
ou o equivalente a 52,9% da população brasileira. Correr a 7 km/h equivale a uma carga de
sete a oito vezes o nosso peso corporal agindo sobre a articulação do joelho. E, quanto
maior a velocidade, mais a carga vai agir sobre as articulações.

2. O treinamento de alta intensidade causa um enorme stress ao organismo, provocando


um efeito depressor sobre o sistema imunológico.

Esse modelo não é recomendado para mais de 90% da população, somando os


sedentários, obesos, alunos com sobrepeso, alunos sem regularidade e alunos sem
adaptação a esse treinamento radical.

Para os alunos indicados anteriormente, a combinação entre pouca massa muscular e


falta de adaptação articular ao exercício, resulta em um extremo risco de lesão, diante de
atividades de alto impacto.

A grande verdade é que o modelo atual de treinamento de alta intensidade pode até ser
interessante para treinar o exército americano para combater no Afeganistão, onde o
soldado precisa resistir e se adaptar a uma rotina estressante e radical.

Mas, a pergunta é: como esse modelo, de uma hora para outra, tornou-se um modelo de
treinamento indicado para a maioria da população? E a resposta é: alguém descobriu que
ele traria ganhos estéticos acelerados.

Neste exato momento, milhares de pessoas estão se lesionando em todo o mundo devido
a esse modelo de treinamento.
EUREKA
De maneira alguma, podemos colocar todos os treinadores no mesmo saco. Claro que
existe uma enorme diferença entre cada profissional, e é assim que funciona em todas as
profissões.

Alguns treinadores – os mais estudiosos, conscientes e experientes – aplicam um


treinamento mais cuidadoso que leva em conta uma graduação e intensidade mais
sensata, de acordo com uma análise mais adequada do perfil de cada aluno. No entanto,
todo treinador poderia se beneficiar dessa visão do treinamento integral e consciente,
com foco na saúde, desenvolvido em nosso método. Essa proposta é um grande salto em
direção à consciência, à moderação e à saúde no treinamento.

Durante muito tempo fiquei intrigado – era inexplicável constatar que quase ninguém no
universo do treinamento compartilhava da mesma visão que nós. Eu, meu pai e meus
irmãos desenvolvemos uma forma bastante particular de entender o corpo e o
treinamento, como você viu no item “Ilha deserta” da Apresentação.

Nos últimos anos, conversando com alguns dos maiores especialistas do corpo e do
treinamento (doutores em educação física, fisiologistas, cardiologistas, ortopedistas,
fisioterapeutas, entre outros), pude constatar que eles também, obviamente, defendem
um treinamento com moderação e um foco maior na prevenção e na saúde. Bom, a partir
daí, a minha dúvida só aumentou. Se os especialistas defendem isso, porque é tão raro
encontrar treinadores que adotem, efetivamente, esse modelo em seu dia a dia?

Quando pensamos em um treinamento que seja saudável, é impossível sustentar de uma


forma científica consistente o modelo do treinamento com sofrimento. Isso só é possível
quando descartamos alguns aspectos relevantes, como a saúde do nosso aparelho
locomotor ou do nosso sistema imunológico e orgânico, como um todo. Através de uma
visão mais profunda e integral do corpo, esse modelo passa a não fazer mais sentido. A
falta de uma visão integrada, seria, então, um dos motivos da alta adesão ao modelo
vigente. Porém, a resposta a esse mistério ainda não estava clara.

Um belo dia, entrevistando um amigo, um treinador bastante estudioso e consciente, a


solução para o enigma apareceu.

Eureka! Pude gritar aliviado.

Demorou, mas o que estava velado se revelou logo após suas observações: “Nuno, eu até
tento, ao máximo, recomendar um treinamento mais moderado e cuidadoso. Mas a
batalha é inglória. Fica difícil argumentar e convencer a maioria dos alunos de que um
treinamento mais leve irá trazer melhores resultados no médio e longo prazo. Isso é
quase impossível, é como nadar contra a correnteza. A cultura do treinamento é o oposto
disso. Por exemplo, se eu disser a um aluno que quer correr e está acima do peso, que
caminhar seria mais produtivo e eficiente, ele vai embora. Simples assim. Então, a gente
vai se adaptando, vai abrindo exceções e, de certa forma, vai se moldando ao mercado.
Para os alunos que confiam mais em mim e estão comigo há muito tempo, eu até passo
um treinamento com mais moderação. Só não posso contar isso para eles, né? (risos)”

Fiquei absolutamente chocado com essa revelação. Quer dizer que o mercado e a cultura,
de certa forma, corrompem e fazem o treinador “desaprender” e descartar coisas básicas
e essenciais que ele estudou na faculdade? Isso é muito maluco!

De uma forma velada, alguns treinadores já seguem o modelo do treinamento com


moderação, mas não podem assumir isso publicamente. Senão, vai pegar mal com o
aluno e com o mercado. Ou seja, a coisa é um pouco mais complicada: a dificuldade é
fazer que esses treinadores saiam do armário e assumam a sua moderação.

A partir dessa constatação, vemos que o bullying do treinamento hipermasculino


funciona. Ser chamado de “franguinho” ou de “moça delicada” não é uma opção. A
solução para evitar isso: moldar-se à cultura do fitness. Resumindo: o que sustenta essa
cultura não é a ciência, e sim, o medo infantil que os homens têm de não parecer
suficientemente masculinos perante seus pares.

O modelo de treinamento atual, ligado a vertentes como o treinamento militar, o


bodybuilding e o treinamento de alta intensidade, defende uma forma de treinamento que
batizei como hipermasculino ou “treinamento para macho”.

Adotei esse nome para denominar um tipo de treinamento que, de uma forma infantil,
muitos homens acabam adotando para se exibirem e competirem com seus amigos.
Vemos isso a todo momento nas academias, onde um aluno fica querendo provar ao
outro que consegue treinar mais pesado, eles ficam comparando constantemente o
tamanho dos seus músculos no espelho, ou, ainda, ficam com vergonha de treinar mais
leve diante dos seus amigos.

Para colocar mais pressão e criar uma competição, quem treina com mais consciência e
cuidado é chamado de “franguinho”. A frase a seguir, que escutei outro dia, no parque,
dita por um treinador, é bastante sintomática dentro desse universo do fitness. Ele gritava
com seus alunos no mais alto volume: “Pessoal, vamos colocar mais virilidade neste
treinamento, por favor! Aqui é treinamento para homem, não é para 'mocinha'!"
FAST TRAINING
Uma característica atual do treinamento corporal é o fato de muitos treinadores
praticarem o que eu chamo de “fast training” ou treinamento às cegas.

O fast training se assemelha ao conceito de fastfood, só que aplicado ao treinamento.


Traduzindo: o treinamento foi empacotado e formatado dentro de uma lógica comercial e
vendável de curto prazo.

Quem consome fastfood ingere um alimento vazio, sem qualidade e artificial. Da mesma
forma, quem pratica o fast training faz um treinamento esvaziado de sentido, sem
qualidade e artificial. O princípio é exatamente o mesmo. Ambos são danosos à saúde.

Porque o fast training é esvaziado de sentido? Porque ele é superficial, não é feito com
prazer e profundidade. Não desenvolve a consciência e o autoconhecimento.

Porque é sem qualidade? Porque é um treinamento cosmético.

E, finalmente, porque é artificial? Porque vai contra os princípios da natureza. Tudo na


natureza segue um processo gradativo ligado ao equilíbrio e à homeostase. Não existe
nada que siga uma lógica comercial de curto prazo.

A explicação detalhada das “qualidades” do fast training você irá encontrar nas páginas
deste manual.

Mas, Nuno, por que treinamento às cegas? Porque tal modelo não se importa com o que
acontece ao seu corpo internamente, nem com o impacto provocado pela alta
intensidade. Para piorar, ele não leva em conta sua estrutura morfológica (ossos,
cartilagens, ligamentos, músculos, articulações e seu complexo funcionamento). E essa
estrutura varia imensamente de um indivíduo para o outro. (Veja mais detalhes no 8º
paradigma.)

A experiência prática da maioria dos professores de educação física é vivida nas


academias, que representam o grande mercado do fitness. Nesse ambiente, o
treinamento é formatado, pasteurizado em um modelo prático e simplificado, focado na
demanda do mercado. Isso se traduz em duas demandas estéticas: emagrecimento
rápido e ganho muscular acelerado.

Resumindo, o universo do consumo do corpo inventa uma enorme variação de atividades,


com a desculpa de evitar o tédio. E como o consumo vive da novidade e da moda, esse
mercado lança centenas de novos produtos e métodos, anualmente.

No fast training, com a melhor das intenções, o professor procura motivar e puxar ao
máximo seu aluno para que supere seu próprio limite e faça algo muito além do que o seu
corpo está preparado para fazer. Agindo dessa maneira, o professor comete os dois
maiores equívocos ligados às formas de treinamento atuais:

1. A recomendação de uma alta intensidade e um volume excessivo de exercícios.

2. Uma má avaliação do histórico, da morfologia e das particularidades de cada tipo físico.

Para explicar esses equívocos, temos que analisar a própria história da educação física.

No século 20, o bodybuilding e a musculação localizada começam a se espalhar e a se


estabelecer, desenvolvendo uma forma de treinamento extremamente radical e
masculina. O treinamento físico acaba sendo pensado a partir de uma perspectiva muito
restrita: partindo de um tipo físico apto e saudável, um tipo físico ideal; a educação física
se especializou em selecionar, desenvolver e aplicar movimentos para otimizar o
crescimento muscular e o condicionamento físico. Apenas isso.

Esse é o foco principal, sem que haja, realmente, uma preocupação maior com o impacto
e os efeitos de tais exercícios, já que essa seria uma outra área do conhecimento corporal
(a ortopedia e a fisioterapia).

Percebe a distorção e a falta de integração?

O treinamento se transformou em uma área estética, em que o foco é ganhar músculos e


perder peso, no menor tempo possível. Mesmo que à custa de uma destruição metódica
do corpo, associada ao uso intermitente de anabolizantes e às lesões causadas pela
sobrecarga no treinamento.

Nessa visão, os alunos devem condicionar e acostumar o seu corpo a resistir ao


sofrimento e à dor, para atingirem, em um curto espaço de tempo, mais preparo físico e
mais músculos.

Veja que inversão de valores: no universo do fitness é o aluno que tem de se adaptar e se
moldar às formas de treinamento radicais, e não o modelo de treinamento que tem de se
adaptar a cada aluno. Nesse formato, a maioria dos professores atuam como sargentos.
Quanto mais autoritário, impositivo e exigente for o professor, melhor ele é avaliado na
cultura do fitness.

Para explicar de forma didática, é como se não houvesse um botão de volume. Alguns
professores colocam a intensidade do treinamento no volume máximo, pedindo,
estimulando e exigindo que o aluno dê o máximo de suas forças em cada atividade, sem
considerar o seu histórico, morfologia ou adaptação muscular.

Eles entendem ser essa a forma correta de atuar e estimular o aluno. Alguns treinadores
que ainda tentam dosar a intensidade e têm uma preocupação maior com a adaptação do
aluno ao exercício, acabam fazendo uma transição apressada, com medo de entediar ou
propor um treinamento que pareça muito fraco ou até mesmo ridículo.

É isso que admiro em meu pai: ele não se importa com o que o aluno vai pensar. Com
toda segurança e confiança, ele opta por ser cuidadoso na fase inicial do treinamento. Na
realidade, o discurso do nosso método prepara e conscientiza o aluno sobre a
importância desta adaptação, o que torna muito mais fácil a aceitação desse treinamento
cuidadoso e gradativo. “Eu prefiro errar para menos do que errar para mais. Se eu errar
para menos, o aluno vai atrasar apenas um pouquinho a sua evolução, se eu errar para
mais, ele pode se lesionar e isso atrasará enormemente a sua evolução. Nós vamos
devagar porque temos pressa.” (Nuno Cobra)

Como a maioria dos treinadores inicia a sua formação profissional na academia, já estão
impregnados dessa cultura e dessa maneira formatada e massificada de aplicar o
treinamento. Atualmente, alguns personais são ex-alunos da academia que se
especializaram em musculação localizada e cultuam o bodybuilding.

O mais grave de tudo é que quando fui pesquisar e escrevi a palavra fast training, no
Google, percebi que os treinadores vendem esse conceito como uma grande vantagem. O
que se vende é a praticidade de dizer adeus às horas perdidas na academia, com um
treino de alto impacto, rápido e eficaz. Não existe nenhuma menção ao fato de ele ser a
“fastfood do treinamento”. Vejam só, chegam ao cúmulo de afirmar que ele pode ser
saudável. Espanta-me que ninguém ainda tenha se debruçado sobre seus efeitos
colaterais, igualmente extremos e radicais.

O marketing realmente aceita tudo, não é? Fica difícil resistir à sedução do “fast
consumo”. Como você já percebeu, existe um equívoco enorme nessa propaganda, já que
esse modelo não é recomendado para mais de 90% da população, nem faz bem à saúde.
Como o HIIT (treinamento intervalado de alta intensidade) é a grande novidade do
treinamento, logo, podemos supor que o modelo atual se aproxima de um esgotamento,
atingindo o ponto máximo de sua radicalidade.

Estudando a gênese do nascimento de métodos radicais e milagrosos, infelizmente,


podemos constatar o quão frágeis e apelativos eles são, desde o início. Quem inventou o
modelo do HIIT não foi um fisiologista ou qualquer outro estudioso do corpo, mas, sim,
um investidor do mercado financeiro chamado Timothy Ferris, um escritor que investe em
temas apelativos e comerciais. Esse empresário tornou-se celebridade e bestseller nos
Estados Unidos por fazer experiências extremas com o próprio corpo. Obviamente, sua
teoria teve que ser validada por pesquisadores. Um resumo desse conceito insano é que,
caso você leve seu corpo a um limite extremo de stress e fadiga, isso irá acelerar a queima
de gordura. Pôxa, não diga!

Isso é absolutamente óbvio. Ao exigir do seu organismo um esforço brutal, seu corpo vai
ter de se virar para compensar tal estrago. Os hormônios do stress liberados no processo,
como as catecolaminas, são um sinal de que você levou o organismo a um desgaste
extremo.

Vejam só onde chegamos!

A indústria do fitness glorifica o sofrimento no treinamento. Existem vários slogans que


dão conta disso. Um deles é, para mim, a melhor tradução desse universo: “Train like a
beast look like a beauty” (Treine como uma besta e pareça mais bela).

Uma questão complexa é o fato de a própria faculdade de educação física estar muito
comprometida com essa visão de treinamento, ainda muito ligada ao desempenho físico
e ao esporte de competição.
2° PARADIGMA: A QUALIDADE DO
MOVIMENTO QUALIDADE
Mexa-se.

Vemos essa afirmação por todos os lados. E cada vez que leio isso, me pergunto: faz
sentido uma recomendação tão generalizada?

O que você pensaria caso se deparasse com uma matéria, numa revista bastante
prestigiada, com o seguinte título: “Durma bem, faça atividade física com moderação e
coma qualquer coisa”.

Parece estranho? Esse foi o impacto que o título a seguir causou em mim: “Dormir bem,
comer melhor e mexer o corpo”. Essa frase estava na capa da Scientific American, uma
renomada revista de psicologia e neurociência.

Aposto que, ao ler a frase anterior, você deve ter achado que ela pode fazer sentido, não
é? Veja mais um exemplo: “Penso que o corpo tem seu próprio tripé de sustentação –
alimentação balanceada, prática de exercícios e descanso adequado.” (Robert Wong). Você
reparou que, em todas as constatações apresentadas nessas frases, o movimento (ou
exercício) não está associado a nenhuma qualidade específica?

Quando falamos do sono, sabemos que existem conceitos associados a ele e certos
estudos que defendem um ideal de quantidade e qualidade. Dormir pouco faz mal, da
mesma forma que dormir muito também faz mal. O mesmo ocorre com relação à
alimentação. Quando pensamos em um ideal, ela sempre está associada a dois adjetivos:
moderação e qualidade. É o que nos dizem os nutricionistas, não é?

O movimento, por mais incrível que pareça, acabou se tornando o primo pobre dessa
equação.

Quando propomos um modelo de treinamento natural e integral, não é apenas uma feliz
coincidência perceber que essas qualidades também estejam profundamente associadas
a uma boa alimentação.

Pois bem, posso ser categórico em afirmar que o tripé essencial que sustenta nossa
saúde é similar e segue um mesmo princípio. Como tudo o que é vivo, esse princípio é
baseado na própria natureza: uma busca constante pelo equilíbrio e pela homeostase. O
equilíbrio está no meio, não está nos extremos. Sem dúvida, quando falamos em saúde
no treinamento, a recomendação, assim como na alimentação, deveria ser a seguinte:
faça atividade física com moderação e qualidade.

No entanto, infelizmente, essa recomendação não está na moda. Lendo autores


consagrados, como Tony Schwartz e muitos outros, vejo que eles aderiram ao conceito da
atividade física vigorosa de alta intensidade, como um modelo ideal de treinamento.
Fiquei assustado ao ver essa mesma recomendação ser seguida por alguns sites
alternativos e conscientes. Não me perguntem onde eles colocaram a consciência, nesse
caso. Muitos alunos me relatam ter recebido a recomendação de fazer atividade física de
alta intensidade do seu próprio médico.

Complementando, fiz uma ampla pesquisa e pude constatar que os treinadores mais
famosos e badalados também estão defendendo esse modelo. Até faz algum sentido, já
que, hoje em dia, quanto mais “mainstream” e representante do sistema vigente, mais
visibilidade o profissional acaba adquirindo. Eles embarcam nessas novas tendências e
aproveitam para surfar essa onda.

Será o “vício da novidade” que faz todo mundo aderir a essas modas? A impressão que
fica é a de que, de repente, surge uma pesquisa e todo mundo adere à nova tendência,
sem grandes reflexões e aprofundamentos. Talvez ninguém queira parecer antiquado ou
ultrapassado.

Quero tranquilizar os profissionais que ficam ansiosos em parecerem atualizados: o que


essencialmente define uma atividade física saudável não se alterou nos últimos cinco mil
anos, nem, provavelmente, irá se alterar nos próximos séculos. A menos que haja alguma
alteração significativa em nossa composição física e orgânica.

A pergunta que ninguém se faz ao recomendar o modelo de treinamento de alta


intensidade é: ele é ideal a quem?

Com certeza, ele não é o ideal para a maioria da população, somando os sedentários,
obesos, alunos com sobrepeso e todos os outros alunos sem adaptação a esse modelo
radical, como já demostrei. Tal conceito é tão idealizado que não faz sentido quando
aplicado a uma realidade mais concreta. Ele só faz sentido como uma hipótese ideal.
Contra todas as formas idealizadas de treinamento, devemos adotar o seguinte
paradigma: não são todos os tipos físicos que deveriam se adaptar ao modelo de
treinamento, mas, sim, o modelo de treinamento que deveria se adaptar a cada tipo físico.

Bingo.

Esse novo paradigma só é possível por meio de um modelo de treinamento com


moderação. Todas as formas idealizadas de treinamento esbarram no simples fato de que
o nosso corpo é constituído de cartilagens e articulações. Aliás, os extremos são
equivalentes. A cartilagem é uma prova contundente deste fato: não fazer nada ou treinar
em excesso pode igualmente destruí-la.

“A CORRIDA É COMO O VINHO: SE VOCÊ CONSUMIR EM EXCESSO, ELA SE TORNA


PREJUDICIAL.”

(Paulo Vitiritti)

Hoje, sabemos que provas extremas, como uma maratona, podem trazer danos
irreversíveis ao coração. “Provas extenuantes provocam uma depressão do sistema
imunológico. Os maratonistas ficam vulneráveis a várias infecções após a prova. Uma
delas, a mais grave, inflama o músculo cardíaco e pode provocar fibroses”, afirma o Dr.
Nabil Ghorayeb, um dos maiores especialistas em cardiologia ligada ao esporte.

Pesquisas recentes mostram que não fazer nada ou treinar de forma exagerada pode ser
igualmente prejudicial ao nosso coração e à nossa saúde, de forma geral. É a ciência
chegando ao óbvio ululante (aquilo que está gritando, mas a maioria não consegue
enxergar): os extremos são nocivos à saúde. Ou seja, as pessoas só estão vendo o lado
positivo do treinamento de alta intensidade e do desafio extremo.

Por um lado, enfrentar desafios é realmente uma prova de superação que pode trazer
ganhos mentais e emocionais, mas, por outro, representa ignorar os princípios mais
básicos da saúde e do corpo. Muitas marcas esportivas investem em slogans que
estimulam os consumidores a maltratarem e consumirem o seu corpo, realizando
treinamentos ou desafios extremos, que podem ter como resultado, a médio e longo
prazo, a destruição do seu aparelho locomotor.

Caso isso definitivamente ocorra, você sofrerá com dores crônicas para o resto da sua
vida. Vale realmente a pena apoiar e sustentar esse modelo de treinamento? O marketing
já usou a frase “supere seus limites” à exaustão. Ninguém aguenta mais ser obrigado a
superar seus limites, constantemente. Precisamos fazer o caminho de volta. Voltar à
sanidade.

Eu adoro correr, caminhar, patinar, fazer remo, skate, stand up paddle e outras atividades
cardiovasculares. Existe uma infinidade de variações de movimentos necessárias e
desejáveis para se evitar o esforço repetitivo e o alto risco de lesões. Só não vê quem não
quer. Patinar, por exemplo, pode ser uma atividade tão intensa quanto correr. Além de ser
muito divertida.

A pergunta é: por que poucas pessoas dão bola para esse tipo de atividade? Porque ela
não está na moda. O impacto articular na patinação é mais suave, você desliza pelo chão e
o seu joelho agradece a pausa. Na corrida, você vai aos saltos, colocando todo o peso do
corpo apenas sobre uma perna de cada vez. O que pode representar um alto impacto
articular, dependendo da velocidade em que é praticada.

A natação também poderia ser uma ótima alternativa ou variação à corrida.

Aliás, isso me faz lembrar de uma história curiosa. Certa vez, um aluno me disse que a
natação era uma atividade chata. Perguntei a ele se nadar era chato devido ao sistema de
treinamento que ele seguia em aula, muito focado na performance. Ele reconheceu que o
problema era mesmo seguir os exercícios chatos e o esquema cruel de treinamento que
lhe era imposto pelo professor. Então, lhe propus tentar nadar de uma forma mais livre,
curtindo mais o processo e fazendo da natação uma forma de meditação ativa. Quando
passou a usar a respiração e os movimentos para fluir e relaxar, ele passou a enxergar
tudo de outra forma. Hoje, ele me conta que nadar é o melhor momento em seu dia.
Como o seu ritmo cardíaco é moderado, equilibrado e fluido, a atividade se tornou
extremamente prazerosa.

Porém, a natação deve ser mesclada com outras atividades. Ela não colabora na fixação
do cálcio nos ossos.

Já o treinamento na bicicleta deveria ser praticado com cautela e moderação. Além de


representar um aprisionamento biomecânico, a modalidade provoca um uso excessivo e
encurtamento da cadeia muscular posterior.

Treinar sentado também sobrecarrega a coluna lombar, uma região que já é muito exigida
devido ao tempo que passamos nessa posição diariamente.

Existe uma grande quantidade de mitos quando falamos em treinamento. Um deles é a


fatídica pergunta: correr é melhor do que caminhar?

O que poucos sabem é que, no caso de mais de 90% da população, uma simples
caminhada seria muito mais eficiente como forma de treinamento do que uma corrida,
caso se pense em uma forma de treinamento realmente aeróbia e saudável, como
também numa perda de peso mais eficiente no médio e longo prazo. Caminhar só não vai
ajudar a perder peso se você não fizer mudanças de hábito no outro extremo da balança,
ou seja, na alimentação.

Bem mais tarde, caso a caminhada se torne um estímulo muito leve ao aluno, ou ele
tenha chegado ao seu peso ideal (ou próximo disso), ele poderá migrar para a corrida. O
tempo de migração para a corrida varia imensamente de aluno para aluno.

Este seria um modelo de protocolo e cuidado essencial ao treinamento aeróbio: aguardar


o desenvolvimento cardiovascular e a adaptação muscular e articular, antes de migrar
para treinamentos de alto impacto. E estamos falando de cada aluno específico. O olhar
deve ser individualizado.

Não é o que acontece atualmente; em pouco tempo, qualquer aluno que procure uma
assessoria vai estar correndo, independentemente do seu tipo físico, morfologia e
histórico de atividades. Ninguém percebeu o óbvio: para essa fatia da população, o salto
mais essencial é desenvolver uma relação de prazer com a atividade física.

Como isso seria possível com o sofrimento e desconforto imenso vividos no treinamento
de alta intensidade?

Para manter o peso e a saúde, o mais importante é desenvolver uma rotina física e
alimentar que você possa manter, confortavelmente, pelo resto da vida.

Meu pai criou um dos conceitos mais importantes para o treinamento físico nas últimas
décadas e, realmente, acho uma pena que o conceito ainda não tenha chegado ao grande
público.

O conceito é chamado de corrida intermediária. A proposta é criar um novo estágio entre


caminhar e correr. Dessa forma, a transição seria muito mais saudável e cuidadosa,
diminuindo radicalmente o número de lesões no treinamento. Nesse tipo de corrida, o
movimento feito pelo aluno é similar ao de uma corrida normal, porém, em vez de se
projetar verticalmente, o aluno procura avançar mais horizontalmente e fazer uma
aterrissagem com os pés, amortecendo o impacto da maneira mais leve e suave possível.
Andar ou correr exigem o trabalho de músculos distintos. Sendo assim, não fazer uma
adaptação cuidadosa e realizar a transição “a seco”, implica em um risco articular.

Ao mesmo tempo, ao contrário do que diz meu pai, não recomendo baixar o centro de
gravidade corporal e alterar o que seria um movimento mais natural de corrida. A
alteração pode levar a uma lesão, devido à mecânica artificial. Portanto, o ideal seria
manter a mecânica natural do movimento, porém, com um ritmo e uma aterrissagem na
pisada da forma mais suave que você seja capaz de realizar. Cumprir a etapa da corrida
intermediária, ou mesmo praticar essa forma de corrida como um modelo ideal de
treinamento, resolveria a questão do excesso de lesões nos praticantes de corrida.

Espero que, no futuro, quando o seu médico indicar uma atividade física, ele possa indicar
precisamente o que seria uma atividade física de qualidade. Hoje, o conceito ainda não é
uma unanimidade. Para os maiores especialistas do conhecimento corporal, ele é bem
claro: não é qualquer forma de exercício ou treinamento que colabora para a sua saúde e
integridade corporal. Existe uma qualidade primordial do treinamento: a moderação.
No dicionário, a palavra moderação tem como significados: na medida exata, sem
exagero. É incrível que, em pleno século 21, eu tenha que vir a público resgatar uma das
sabedorias mais antigas da humanidade. Quando um professor de educação física afirma
que a medida exata não funciona, ele está dando um tiro no pé, está assumindo que se
esqueceu de coisas básicas aprendidas na faculdade. Esse é o resultado de mais de três
décadas de domínio do treinamento hipermasculino e dos treinamentos da moda, em
que o exagero é o correto e todo o resto fica sem validade. Na verdade, não existe apenas
uma maneira de treinar, existem várias maneiras para se atingir o mesmo resultado. Por
exemplo, centenas de alunos em nosso método já perderam de 30 a 40 quilos apenas
caminhando. Se pudéssemos reunir os 100 melhores treinadores do mundo, veríamos
que cada um aplica uma fórmula diferente e, mesmo assim, chegam a resultados
parecidos. Todos os métodos têm vantagens e desvantagens. Porém, quanto mais radical
for um método, mais efeitos colaterais poderá provocar.

Precisamos respeitar a individualidade biológica de cada um. Não busco invalidar as


formas de treinamento da moda, mas sim, colocá-las em seu devido lugar. Elas podem
servir a um nicho específico de pessoas. Existem homens com uma estrutura corporal
robusta, hipermasculina e com um nível de testosterona elevado, que sentem prazer em
treinar pesado. O que ocorreu foi que esse perfil de super-homem e supermulher
dominou o ambiente do treinamento e, agora, defende que todos devem seguir o seu
exemplo. Para essa premissa ser verdadeira, você teria que ter três qualidades
específicas: talento para ser um soldado do exército, talento para suportar a dor e, por
fim, gostar de sofrer. Eu não vejo essas qualidades específicas na maioria da população.

A sociedade se organiza a partir de uma autorregulação. Quando alguns setores perdem o


senso de medida, os bons profissionais devem vir a público resgatar a lucidez. A
preparação física é uma ciência nova, não está acostumada a pensar sobre si mesma. Ao
desnudar a indústria do treinamento, eu presto um serviço à ciência e à população.
Porém, muitas pessoas dão risada quando falo de moderação e de treinamento sem
sofrimento. Elas devem pensar: “Se eu não estou vendo o que você está vendo, logo o que
você está vendo é uma miragem”. Esse é o resumo desse incômodo. Mas o fato é que eu
tenho outro entendimento da questão, isto é, para poder ver o que eu estou vendo, é
preciso ter um aprofundamento e uma visão integral do treinamento.
O MÚSCULO DA ALMA
O nosso corpo é um sistema extremamente complexo, totalmente integrado. Tudo o que
fazemos, tudo o que comemos e todos os exercícios e movimentos corporais executados
afetam de forma ampla, complexa e profunda todo o sistema.

Pensar no corpo como uma máquina é uma boa analogia. Imagine que em seu carro um
pequeno defeito ou mau funcionamento de uma peça pode afetar o funcionamento do
carro como um todo. Assim ocorre também em nosso corpo.

Uma das maiores limitações do treinamento atual e da própria educação física está ligada
ao paradigma da integração do conhecimento corporal. Como toda ciência, a educação
física se transforma em uma especialidade, ou seja, coloca um foco intenso e delimitado
sobre uma forma específica de conhecimento.

A questão da especialização é um dos maiores problemas do conhecimento, atualmente,


uma vez que a delimitação das áreas específicas de cada conhecimento se fecha em
guetos e paredes, assim como em uma prisão de alta segurança. Tal modelo limita e inibe
uma integração total do conhecimento, uma visão mais abrangente e profunda do todo.

Imagine a ciência e o conhecimento atual como um corpo. Uma área específica da ciência
estuda o seu pé, outra área o seu tornozelo e outras tantas cada pedacinho do seu corpo,
separadamente.

Agora, eu faço a pergunta mais importante: quem está estudando de forma integral todas
as inter-relações, sinergias e interdependências entre os sistemas? Dou-lhe uma, dou-lhe
duas, dou-lhe três… Cadê? Alguém se apresenta? (risos)

Escrevendo este livro, descobri que áreas tão diversas, como a economia e a antropologia
ajudam imensamente a pensar o conhecimento corporal e a nossa saúde. E isso você vai
descobrindo à medida que mergulha no texto e desvenda cada uma das suas chaves.

O especialista olha o mundo com uma lupa e, assim, focado nesse microssistema, nesse
microcosmo, ele deixa de perceber o todo. Ele tem a nítida impressão de que domina todo
o cenário relativo ao conhecimento e isso gera um sentimento de controle e poder.

Como nós podemos olhar e perceber toda a complexidade de uma paisagem sem
levantar a cabeça? Que tal deixar de usar uma lupa e se dispor a olhar para o lado, a
olhar em todas as direções?
A integração do conhecimento representará um grande salto qualitativo para a
humanidade. Quando isso começar a se efetivar de forma real, e conseguirmos quebrar
as prisões e barreiras erguidas pelos latifúndios e monopólios do conhecimento
especializado, em apenas 20 anos, a humanidade irá evoluir, em relação ao conhecimento
integral, mais do que nos últimos dois mil anos, conquistando, assim, uma visão
realmente mais profunda do mundo em que vivemos e não mais uma visão parcial,
especializada e superficial.

O ideal é que, a exemplo da medicina, em que existe o clínico geral, cada área do
conhecimento possa ter um profissional mais generalista, que, além de dominar todos os
aspectos do seu conhecimento, possa também integrar outras áreas complementares.

“VEJAM, OS TÉCNICOS NÃO SÃO CRIATIVOS, E EXISTEM CADA VEZ MAIS TÉCNICOS NO
MUNDO. PESSOAS QUE SABEM O QUE FAZER E COMO FAZER, MAS NÃO SÃO
CRIADORES.”

(Jiddu Krishnamurti)

Para ilustrar melhor a questão, proponho a seguinte experiência: pergunte a um professor


de educação física para que serve o músculo psoas. A melhor resposta que você
encontrará será bem diferente da resposta que está na chave a seguir. Quando fazemos
essa mesma pergunta a um profissional de fisioterapia, que estuda técnicas somáticas, a
resposta será um pouco mais abrangente. Para quem não sabe, o psoas é o músculo mais
profundo e estabilizador do corpo humano. Ele é conhecido como o “músculo da alma”,
em algumas filosofias orientais, por ser o principal centro de energia do corpo e estar
ligado ao diafragma, influindo diretamente sobre nossas emoções. Quanto mais flexível e
forte ele for, maior será o nosso fluxo de energia vital através dos ossos, músculos e
articulações.

Quando ele está saudável, a coluna vertebral fica estável, e dá suporte aos órgãos
abdominais. No entanto, quando ficamos estressados, acabamos tensionando o tal
músculo da alma. E um psoas tenso interfere no sistema nervoso, na respiração e, até
mesmo, no sistema imunológico.

Existe um estudo aprofundado sobre esse músculo, e recomendo que você abra a chave a
seguir para desvendar o mistério, e, assim, evitar os problemas que possam vir a atrapalhar
sua vida sem que você tenha a mínima consciência disso.

1 A IMPORTÂNCIA DO PSOAS PARA A NOSSA SAÚDE, VITALIDADE E BEM-ESTAR

EMOCIONAL
EFEITO PORTARETRATO
Percebo, em minhas aulas, que algo muito grave ocorre quando falamos de saúde e
qualidade de vida. Como esse assunto é martelado e veiculado na mídia de forma
insistente, ele se saturou.

Sinto como se as pessoas estivessem imunes, cegas e fechadas a isso. Criam uma
barreira, como quem diz: “Está bom! Isso eu já sei!”, jogam o assunto em sua “lixeira
mental” e seguem suas vidas. Quando nos acostumamos às coisas, elas se tornam tão
familiares, que deixamos de percebê-las, realmente. Isso pode ocorrer em relação ao seu
cônjuge, seus problemas, seus hábitos e manias ou em relação a qualquer outro assunto.

O grande escritor Nelson Rodrigues tinha um hábito curioso, bastante interessante: ele
costumava mudar de lugar os porta-retratos das pessoas que amava, com certa
regularidade. A explicação que tinha para o costume inusitado era que, caso ficassem
sempre no mesmo lugar, com o tempo, ele se tornaria incapaz de notá-los. Em sua teoria,
eles deixariam de existir, efetivamente.

Assim ocorre também em nossa vida; a familiaridade com as coisas nos tornam cegos à
beleza e à profundidade daquilo que é cotidiano e aparentemente banal. De maneira
geral, tendemos a valorizar pouco tudo aquilo que já temos, ou que já nos é dado: as
pequenas satisfações e felicidades, o simples fato de estar vivo, de ter saúde, amigos, um
companheiro, um dia de sol, pessoas a quem recorrer em momentos difíceis. Temos a
tendência a valorizar o que nos falta, o que não possuímos, enaltecendo nossas
deficiências sempre em comparação a um padrão externo, que nos é imposto de forma
direta ou subliminar por uma sociedade de consumo que nos quer cada vez mais
insatisfeitos e ansiosos.

São vendidos a nós vários modelos a serem seguidos: um modelo de beleza, um padrão
de sucesso e conforto, como se comportar, como se vestir, como buscar admiração e
respeito. Em busca de uma vida ideal, nos esquecemos de nossa vida real, que é só
nossa e não necessariamente precisa seguir um padrão preestabelecido. É preciso
aprender a relativizar tudo aquilo que nos é imposto e ensinado, tornando-nos, assim,
livres para fazer escolhas e reinventar nosso próprio caminho. Aliás, é preciso relativizar a
própria vida, já que tentar impor uma ordem e um sentido é uma tarefa racional bastante
ingrata. Viver é magia, é mistério.

Eu gosto de brincar dizendo um provérbio que inventei, fruto da mistura de outros


provérbios: “Viver é a arte de fazer uma limonada, dançando na chuva com um pássaro na
mão.” Viver une a habilidade do equilibrista à do malabarista.

“A VIDA NÃO É UM PROBLEMA A SER SOLUCIONADO, MAS UM MISTÉRIO A SER


VIVENCIADO.”

(Joseph Cambell)

O descanso faz parte da nossa evolução? Qual a rotina de um urbanoide comum?

2 SENTAR É O NOVO TABAGISMO?


A SOMBRA DO CAMUNDONGO
Aqui de casa, avisto pela janela um jardim incrivelmente verde, onde descansa uma
generosa árvore, assim como um pequeno oásis cercado de casas por todos os lados.
Diariamente, tal paisagem me serve de descanso e aconchego.

É comum eu convidar alguém que, por ventura, esteja ao meu lado, para apreciar este
quintal tão verde e intenso. Viver é estar diariamente renovando o encanto pela vida, é
estar presente e atento à beleza da natureza, das coisas simples. Meus amigos e
familiares já devem estar cansados do hábito cotidiano que tenho de convidar à reflexão,
de chamar a atenção para a natureza, seja onde eu estiver. Para mim, isso não é uma
repetição, é um sentimento genuíno de encantamento pela vida, que se renova
diariamente. Ver é diferente de enxergar. Enxergar implica em estar realmente presente,
inteiro naquilo que estamos fazendo.

Nesse ritmo tão acelerado, nessa vida tão atribulada, nos esquecemos de pausar, de
respirar, de nos divertir ou parar cinco minutos para tomar sol em uma tarde radiante, de
encontrar os amigos para conversar, enfim, nos esquecemos de viver.

E pior, nos esquecemos de nós mesmos. E eu ressalto que esse cuidado que devemos ter
com nós mesmos é algo essencial, é o que nos permite ser uma influência positiva às
pessoas com as quais convivemos.

Viver em paz não é viver sem conflitos. Viver em paz é aprender a lidar com os conflitos,
com a frustração. Viver em paz é ser resiliente.

A resiliência é a qualidade de aceitar a vida como ela é, de aceitar e assimilar os


acontecimentos de maneira humilde e paciente. Resiliência não é conformismo, já que se
relaciona à aceitação dos fatos que não podemos mudar.

É uma sabedoria que se adquire através da percepção de que o mundo, em sua


complexidade, também é feito de experiências difíceis e dolorosas. Devemos, cada vez
mais, exercitar a flexibilidade de ver o mundo e o outro não só a partir de nossa própria
ótica e julgamento, mas respeitando sua maneira diversa e própria de ser.

“A vida é um jogo que está sempre recomeçando, quem não tem energia necessária
para esse eterno começar, fica de fora. E haja energia... A necessidade que temos de
olhar para frente apesar das forças contrárias é muito grande. Tem dias que parece
que a nossa bola parou de rolar. Ou pior, parece que estamos marcando um gol contra.
Nesse ponto, precisamos ativar a nossa resiliência. O que é isso, afinal?

A física explica: ‘É a propriedade por meio da qual a energia armazenada em um corpo


deformado por um choque é devolvida quando cessa a tensão causadora dessa
deformação.’

Em outras palavras, é a resistência de um corpo a um choque ou impacto. A energia de



um chute numa bola a deforma – mas apenas por um instante, pois logo essa energia é
incorporada pela bola e transformada em deslocamento.

Simples assim. Mas é bom lembrar um detalhe para lá de importante: a bola é


resiliente porque tem uma tensão interna própria, que permite transformar a energia
externa em movimento. Bola murcha não vai longe, pois se deforma e não recupera a
sua forma original. O mesmo ocorre com as pessoas. Os choques que recebemos, e
não são poucos, podem ser transformados em movimento ou podem nos deformar e
nos converter em uma massa amorfa e inerte, incapaz de reagir e ir longe. A diferença
entre estas duas possibilidades vai depender da sua calibragem interna.” (Eugênio
Mussak)

Vamos dar um exemplo do que representa a “calibragem interna” citada pelo Mussak:
vamos imaginar que você dormiu muito mal à noite, aliás, você já está dormindo mal há
vários meses. Há muitos anos, você não cuida do seu corpo e sua pressão está alta. Você
está acima do peso, sentindo uma enorme dificuldade para o mínimo esforço físico. Para
piorar, a sua vida afetiva e emocional também não vai bem. Você mal tem tempo para
estar com a sua família ou seus amigos. Em um determinado dia, você chega ao trabalho
em um nível de potência e energia que podemos chamar de nível 3. Ou seja, você está
apenas com 30% da sua potência original. Caso nesse dia você tenha de enfrentar um
problema que esteja em um nível 6 de dificuldade, qual será o seu esforço para lidar com
a questão? Qual será o risco de você sucumbir e se desesperar com essa dificuldade?

Um empresário, por exemplo, representa aquilo que em nosso método chamamos de


“atleta corporativo”. As qualidades corporais necessárias a um empresário, como controle
emocional, precisão, agilidade, jogo de cintura, maleabilidade e tantas outras, são
requisitadas em um nível tão extremo de performance, que cuidar do próprio corpo exige
uma atenção redobrada, assim como um atleta profissional. Caso contrário, não há corpo
que aguente.

Aliás, não só o corpo, a nossa mente e nosso controle emocional estão diretamente
relacionadas à nossa saúde corporal.

Na maioria das vezes, não são os nossos problemas que são grandes, mas, sim, a
nossa resiliência que é pequena.

Tanto isso é verdade que, quando olhamos de fora o problema de uma outra pessoa, ele
nos parece muito simples de se resolver.

Como temos o distanciamento e a neutralidade emocional para julgá-lo, podemos


observá-lo em seu tamanho original.

Outro exemplo curioso é observar pessoas que, apesar de enfrentarem enormes


dificuldades, como uma pobreza extrema ou deficiências físicas aparentemente
incapacitantes, são criativas, atuantes e felizes. A maior dificuldade em nossa vida não são
os nossos problemas em si, mas, sim, a forma como nós os encaramos. Temos a
tendência de transformar os nossos problemas em verdadeiros monstros, assustadores e
implacáveis.

Frente a esses monstros nos sentimos impotentes e amedrontados. Qual a reação mais
comum ao dar de cara com um monstro? É sair correndo, não é? Como a maioria das
pessoas lidam com questões problemáticas em sua vida? Evitam o enfrentamento e
vivem fugindo, enganando a si mesmas, relegando e adiando qualquer tipo de atitude
mais efetiva. O mais engraçado disso tudo é perceber, posteriormente, ao tomarmos
coragem e enfrentarmos os nossos problemas, que aquele monstro tão assustador era
apenas a sombra bastante aumentada de um simples camundongo.

No fim, é tudo uma questão de resiliência e integridade. É como diz aquele samba:
“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Pense que o corpo também tem a sua própria integridade. Ela está diretamente
relacionada a fatores como stress, sono, libido, relaxamento, movimento e alimentação,
entre outros. De forma mais abrangente, podemos incluir nossa dimensão psíquica,
emocional e espiritual, que constituem o nosso corpo como um todo. A forma como
iremos lidar com as adversidades depende da integridade corporal. Precisamos estar
fortes o bastante para assimilar o enorme stress e pressão aos quais estamos expostos.

O corpo precisa de afeto, de alimento, de amor, de movimento, de repouso, de sol, de


relaxamento, de pausa e de diversão, entre diversos outros elementos. É isso que ele nos
pede. Quando somos crianças, sabemos muito bem atender aos “chamados fisiológicos e
intuitivos”, mas, depois, isso se perde. Quando reaprendemos a escutar e atender às
necessidades básicas do nosso corpo, resgatamos o nosso equilíbrio e integridade. Isso
nos permite aumentar nossa resiliência em relação às dificuldades e acidentes de
percurso.

Podemos comparar o corpo a uma casa: quando uma tempestade vem, uma casa bem
estruturada, firme, que tenha recebido uma boa manutenção e cuidado irá segurar o
tranco. De outra forma, ela poderá ser destruída por essa tempestade.
O SAPO FERVENDO NA PANELA

“A corrida é a minha válvula de escape. Quando eu corro, durmo melhor, como melhor,
o meu dia é muito melhor, de uma forma geral. Até o meu humor. Quando estou de
mau humor, a minha esposa me manda ir ao parque correr.”

(Bryan Cranston, o personagem Walter White da série Breaking Bad.)

A atividade física é o elemento primordial na prevenção da maior parte das doenças


adquiridas, como doenças cardiovasculares, degenerativas, metabólicas ou ligadas ao
sistema imunológico, entre outras.

Hipócrates, considerado o pai da medicina, já dizia que o caminho mais seguro para a
saúde é a atividade corporal. Atualmente, a ciência confirma, através de diversos estudos,
que o nosso organismo é programado geneticamente para o movimento.

Os nossos neurônios, células, fibras musculares, cabelos, ossos, pele, cérebro, enfim,
tudo em nosso corpo só pode atingir uma melhor funcionalidade se houver uma
manutenção orgânica estimulada por meio da atividade corporal.

Nós não passamos os milhares de anos da nossa evolução entre quatro paredes, mas sim
na natureza. Isso é natural ao ser humano – e funciona como mágica para o nosso
equilíbrio orgânico.

É isso que nos faz bem: a sensação de estar fazendo parte da natureza, nosso ambiente
natural e primordial. Não existe, nem tão cedo existirá, um remédio capaz de se igualar ao
benefício de uma simples caminhada ao ar livre, com o sol banhando a nossa pele. E aqui
abro um parêntese para lhe sussurrar um segredinho, que talvez a indústria farmacêutica
não tenha lhe contado: esse é o remédio mais poderoso que existe para restaurar a nossa
vitalidade e o nosso equilíbrio, e é de graça. Não conta para ninguém, tá? A última frase é
só para garantir que você irá contar. (risos)

Vida é movimento e o movimento é essencial em nossa vida.

O homem é um animal, um pouco racional, mas, acima de tudo, bastante emocional, e


como todo animal, depende do movimento para manter o seu equilíbrio orgânico, mental
e emocional, que se encontram profundamente inter-relacionados.
Os mesmos hormônios e nutrientes que alimentam o nosso fígado, alimentam também o
nosso cérebro, que, antes de tudo, também é corpo.

A ciência insiste em dividir o que é indivisível. O corpo, a mente, as emoções, e o espírito


existem como um sistema totalmente integrado. São diversas vias de mão dupla que se
correlacionam.

As pessoas não se dão conta do impacto da falta do movimento. Mais de 80% da


população brasileira pode ser considerada sedentária, o que é gravíssimo e dá uma ideia
do quanto as pessoas estão longe do seu equilíbrio natural.

A vida é feita de escolhas, de caminhos. Ao escolhermos o sedentarismo e a estagnação


corporal e energética, começamos a girar em um círculo vicioso gerado por essa
estagnação.

A falta de movimento gera um desequilíbrio que vai afetar todos os setores da sua vida.
Quer saber alguns detalhes de como isso opera? Pois bem: o seu sono terá menos
qualidade, o que irá diminuir o seu metabolismo e iniciar um processo de acúmulo de
gordura. A falta de atividade física vai impactar brutalmente em sua ansiedade, o que vai
afetar seu sistema nervoso central, que vai levá-lo a se alimentar de coisas mais
gordurosas e doces em maior quantidade.

Assim, o acúmulo de gordura será ainda maior. Isso, consequentemente, irá alterar a
pressão arterial. Mais tarde, esse quadro poderá provocar uma diabete e, assim, seguirá
em efeito cascata.

Quando vivemos em um desequilíbrio orgânico, ele se torna, automaticamente, um


desequilíbrio mental, emocional e espiritual. Alimentamos um círculo vicioso que se
retroalimenta e que nos leva a estar sempre um pouco pior.

Embora isso não fique evidente, o círculo nos leva a um caminho no qual estamos
adoecendo um pouco mais a cada dia. Desta forma, estaremos cada vez menos vivos, o
que afeta o nosso ânimo e a nossa vitalidade. Nada na natureza está parado, tudo está em
constante movimento.

Como costuma dizer meu irmão Renato, citando o poeta William Blake, espere veneno da
água estagnada.

Quando a água fica parada, em pouco tempo se torna uma água envenenada. O corpo
humano é constituído por 70% de água. O sedentarismo é, simplesmente, o maior veneno
que pode existir. Se as pessoas tivessem a mínima noção do que isso pode causar aos
seus ossos, músculos, coluna, pele, cabelo, coração e toda a matéria da qual somos
feitos, elas dariam total prioridade à questão.

A nossa mente cria a ilusão de que estamos ainda saudáveis, mesmo que o nosso
sedentarismo e maus hábitos já perdurem por uma década ou mais.

Essa imagem mental nos convencendo de que estamos iguais, como sempre fomos, é
uma forma de autoengano, um mecanismo mental de autoproteção. Dessa forma,
podemos seguir com os nossos hábitos e com a nossa vida cotidiana, como se nada
estivesse acontecendo, sem grandes preocupações.

Como o processo de adoecimento ainda não se instalou, já que as doenças se


desenvolvem de forma lenta e silenciosa, a poupança negativa que fazemos ao longo do
tempo vai se acumulando aos poucos, até o momento em que emerge de forma súbita,
pois terá atingido o seu processo de maturação.

Escolher o sedentarismo é como escolher uma estrada onde, dia a dia, nos
encaminhamos um pouco mais em direção à perda de vitalidade e à doença.

O poder da natureza é mesmo incrível, a nossa saúde é tão prevalecente, que muitas
pessoas levam décadas para, enfim, conquistarem a sua própria doença, feita à custa de
muito abandono e inconsciência. É como meu pai sempre diz: “Ficar doente é uma
conquista”.

Tem uma metáfora que resume muito bem esse conceito: se você coloca um sapo em
água fria e começa a aquecer a água lentamente, o sapo fica ali esperando, como se nada
estivesse acontecendo. Ele vai cozinhar, lentamente, até a morte.

De outra forma, quando você coloca o sapo em uma água apenas um pouquinho morna,
ele vai saltar de lá no mesmo instante.

Espero que, a exemplo do sapo que saltou, ao ler este livro, você possa escapar da água
quente que vai fervendo aos poucos até cozinhá-lo.

Assim são os efeitos do sedentarismo em nosso corpo. Como o processo de adoecimento


é muito lento e gradativo, nós não o percebemos.
O TEMPO É EMOCIONAL
Eu nunca me esqueço de uma observação feita por um aluno, um empresário bastante
estressado que comia de forma compulsiva, era obeso e não tinha tempo sequer para
treinar. Na época, ele me disse: “Nuno, eu preciso quebrar este padrão em que eu vivo, ou
então, este padrão irá me quebrar.”

Se não tomarmos as rédeas da vida, em relação à forma como utilizamos o nosso tempo,
seremos engolidos pelo trabalho.

Um conceito muito importante neste processo de quebra de padrões e mudança de


hábitos é a “priorização”. Para ser mais exato, gostaria que você respondesse com
sinceridade a seguinte questão: quantas vezes o seu próprio nome aparece na sua
agenda? Pois é, se você não aparece em sua própria agenda, você não existe! O primeiro
passo, então, será “existir”.

“Mas, como posso priorizar a mim mesmo?”, ouço muitas pessoas me perguntando.

Criar uma agenda pessoal de cuidados essenciais é o maior investimento que você pode
fazer. E eu garanto que nada lhe renderá tanto! A valorização na produtividade, humor,
bem-estar e disposição chega, em certos casos, a ser de 300% ao ano ou mais.

Tudo em nossa vida depende do nosso equilíbrio pessoal:

Costumo dizer que, assim como em um avião em turbulência, primeiro, coloque a


máscara de oxigênio em você, para, depois, poder ajudar o outro.

Colocar seu nome em sua agenda e priorizar a si mesmo, transformando este


compromisso em algo sagrado, é o primeiro passo para tudo começar a acontecer.

No entanto, existem certos problemas que enfrentamos quando marcamos um


compromisso com nós mesmos. Nós podemos faltar. De certa forma, ele passa a ser
visto como menos importante. Como a negociação é interna, nós podemos acabar
enganando e negligenciando a nós mesmos. Por exemplo: nós inventamos diversas
desculpas e razões para não nos dedicarmos à atividade física.

A nossa mente – sempre esperta e ligeira – cria formas sorrateiras e eficientes de


autoengano para nos convencer de que carecemos de certas qualidade e recursos ou de
que dependemos de um cenário ideal. Uma situação que acaba nunca se concretizando.
Desta maneira, podemos seguir tranquilos com nossos padrões habituais, o que se torna
muito mais fácil e confortável para as soluções de curto prazo.

Aliás, é exatamente isso o que a nossa mente busca o tempo todo: soluções rápidas para
resolver os problemas.

Basicamente, quando o nosso foco de vida está direcionado para o trabalho e outros
afazeres, a nossa mente procura eliminar os outros focos de “distração”, articulando,
assim, conceitos e teorias para enganar a si mesma.

A falta de tempo aparece como uma desculpa muito comum para a maioria das pessoas,
no entanto, esta é uma péssima desculpa.

O tempo é emocional. E o que isso quer dizer? Quer dizer que sempre arranjamos tempo
para as coisas que são realmente importantes. Caso o seu filho de três anos estivesse
doente, você arranjaria algum tempo para cuidar dele, certo? E se eu lhe disser que você já
está vivendo um processo lento e gradual de adoecimento, você teria tempo para cuidar
de si mesmo?

A verdade é que essa desculpa do tempo denuncia algo muito preocupante. Quer dizer
que você não tem tempo para você? Quer dizer que você não existe para a sua vida? Que
você não é importante? Ou, talvez, você não tenha a mínima noção do que é essencial ao
seu organismo, ao seu bem-estar e felicidade? Você entende a gravidade e a urgência
dessa questão?

Quando você, finalmente, entende a dimensão e o alcance real da estagnação corporal,


você pode despertar e adquirir consciência da importância do movimento, em sua vida.

Quando Deus, ou a natureza, como você queira chamar, projetou o ser humano, criou
uma equação equilibrada e perfeita. Nós precisamos dormir e comer para manter-nos
vivos. Caso contrário, o nosso corpo sofre, reclama e vai nos notificando, enviando
pequenos avisos que, muitas vezes, são ignorados.

Antigamente, éramos obrigados a nos movimentar para providenciar comida. E, assim,


naturalmente refazíamos e alimentávamos todos os nossos processos orgânicos.
A natureza não adivinhou que o homem se tornaria um animal à parte, que ele inventaria
formas de comer sem precisar se movimentar.

Caso ela tivesse previsto esta possibilidade, teria criado um processo em que sentiríamos
um imenso desconforto e sofrimento físico caso parássemos de nos movimentar.

Como a perda é muito lenta e gradativa, e o nosso cérebro é rápido e prático, arranjamos
diversas maneiras de driblar a questão.

Já ouvi muitas pessoas reclamando que chegam em casa tão fatigadas que nem pensam
em “se cansar ainda mais” fazendo exercícios físicos.

Na realidade, o cansaço físico e o cansaço mental podem facilmente ser confundidos um


com o outro, o que dá margem ao uso deste argumento como uma desculpa razoável.
Porém, o cansaço mental causado por horas seguidas de trabalho apenas extenua o
nosso sistema nervoso, produzindo poucas alterações químicas em nossos músculos e
no corpo. Ou seja, embora ficar sentado pareça a melhor coisa a se fazer, se você
experimentar fazer um treino cardiovascular moderado, como uma longa caminhada, por
exemplo, ou mesmo outros exercícios mais intensos, vai observar que, ao final desta
atividade, estará muito mais vitalizado e revigorado.

E sabe o porquê disso? A atividade física funciona como uma catarse, restabelecendo
todo o nosso sistema orgânico e mental.

No entanto, a maioria das pessoas enxergam a atividade física como um fardo, uma
obrigação e um problema em suas vidas, quando, na verdade, ela não é um problema, ela
é a solução.

Muitos alunos reclamam que a sua vida é muito atarefada. Eles passam o dia inteiro
cumprindo suas obrigações e argumentam que é difícil cumprir mais uma. Reclamam que
suas mentes já estão cheias e sobrecarregadas de tantas tarefas e obrigações.
Infelizmente, essa forma de se relacionar com a atividade física é a mais comum na
sociedade atual.

Nós passamos o dia todo sentados usando incessantemente a nossa mente. Na realidade,
a atividade corporal seria o antídoto perfeito para compensar o estresse do dia a dia. Ela
representa um repouso e uma pausa essencial para essa atividade mental sem fim,
resgatando nossa lucidez, nosso equilíbrio e nossa vitalidade. Eu diria até que é uma das
suas maiores motivações.

A atividade corporal é o refresco, a reconexão, e pode se transformar no melhor


momento do seu dia. Principalmente se ela for realizada ao ar livre, de uma forma
equilibrada, lúdica e prazerosa.

Existem mil desculpas e argumentos para não se mexer. Realmente, para a sua mente é
muito mais confortável ficar no sofá, assistindo TV. Enquanto você não estabelecer um
hábito corporal e aguçar sua consciência, reconhecendo, valorizando e escutando estas
prioridades do seu próprio corpo, você vai continuar perdendo o jogo para a sua mente.

Cuidar do corpo torna-se uma tarefa muito ingrata caso você não desenvolva uma relação
de prazer com a atividade física. O melhor exercício não é aquele que queima mais
calorias, mas aquele que você gosta de praticar. Esse sim vai dar resultado.

Jogue no lixo estes condicionamentos antigos aos quais você foi doutrinado, pensando
que você precisa se exercitar apenas para colher os resultados finais desta prática, como
ficar magro, musculoso, bonito e saudável. Esta é uma forma fútil e superficial de se
entender a importância do movimento em sua vida. Isso, na verdade, é o que mais o
atrapalha.

O corpo é o “Santo Graal” do autoconhecimento e do equilíbrio pessoal. O próprio cálice


sagrado nada mais é do que uma simbologia do nosso próprio corpo: um recipiente cheio
de vinho (sangue) que se torna o símbolo maior da nossa potência de vida e divindade.
Quando estiver cansado de pensar, desligue a mente e venha para o corpo. Esse
universo insondável e profundo vai libertá-lo.

Cuidado, se você não doma sua mente, ela pode escravizá-lo.

3 COMO TRANSFORMAR O INATINGÍVEL EM ALGO POSSÍVEL?


TRABALHO SEM DIVERSÃO
Em um dos filmes mais assustadores que já assisti, O iluminado, do genial Stanley
Kubrick, Jack Nicholson tem uma performance memorável como um workaholic que, aos
poucos, enlouquece. No filme, o personagem de Nicholson é um escritor que se retira em
um antigo hotel com a família para conseguir terminar seu livro. Ele, então, passa a
dedicar muitas horas do seu dia a ficar trabalhando em sua máquina de escrever.

O ponto de transição do filme ocorre quando sua esposa – desconfiada de que ele não
está bem – por acaso vai conferir o que ele está escrevendo. O que ela lê são páginas e
páginas escritas com a mesma frase: “Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão.” É
como diz a música do Lobão: “As pessoas enlouquecem calmamente, viciosamente sem
prazer.” Caso você não tenha assistido, vale a pena conferir este clássico do cinema.

Mas, afinal, o stress pode ser tão nocivo assim?

O stress é natural ao organismo. Ele nos faz agir diante de determinada situação,
fabricando hormônios estimulantes em nossa corrente sanguínea. E, acredite ou não,
trabalhar muito não faz mal, e nem trabalhar excessivamente.

O que mina e consome nossa vitalidade e saúde é não respeitar o equilíbrio entre
estímulo (adrenalina) e repouso (relaxamento).

Em nosso método, chamamos isso de teoria do elástico: você pode esticar um elástico de
forma extrema, mas tem que afrouxá-lo para manter a sua integridade. Caso você o
estique indefinidamente, ele fatalmente irá se romper. Quando o stress se torna crônico,
transforma-se em nosso pior inimigo, consumindo nossa saúde e produtividade. Quando
nosso corpo é submetido a períodos prolongados de atividade cerebral intensa, sem
pausas, e a grandes pressões psicológicas, sem que haja uma compensação a este
desgaste, passamos a viver em um estado contínuo de tensão que não se desliga.

O stress permanente afeta nosso sono, nossa lucidez e nossa capacidade de tomar
decisões de forma equilibrada. O stress também é um dos principais fatores no ganho de
peso progressivo, segundo minha própria experiência de campo. Além de impactar muito
o sono, ele causa um fenômeno que podemos chamar de “esgotamento”. Tal fenômeno
ocorre em indivíduos que não sabem fazer pequenas pausas ao longo do dia e trabalham
sem parar, seguidamente, por longos períodos.

Ao chegar em casa à noite, o esgotamento e nível de ansiedade é tão grande que este
workaholic se habitua a compensar tudo isso na comida, como forma de prazer e
satisfação, o que traz alívio e solução a este quadro de fadiga extrema. Este torpor
causado pelo excesso de comida serve como uma estratégia de entorpecimento.
Funciona como o efeito de uma droga, que anestesia e relaxa o corpo e a mente. Este
padrão compulsivo pode ser entendido como um vício, comparável à dependência de
drogas, como a cocaína.

Quando estamos esgotados, perdemos a capacidade de tomar decisões racionais e


assertivas em relação à alimentação. Um aluno me definiu assim a sua situação: “No
trabalho, a gente vai emendando um compromisso no outro e vamos acelerando,
acelerando. Assim, parece que vamos perdendo o nosso eixo e o nosso equilíbrio de
forma progressiva, em uma espiral crescente de aceleração e ansiedade. Vai passando o
dia e sua energia vai diminuindo. No final do dia, o ‘gap’ que existe entre a sua energia e
esta aceleração é muito grande. À noite, quando chego em casa, o desequilíbrio é tão
brutal que eu destruo a geladeira, eu vou por departamentos! (risos). Isso funciona como
uma forma de me acalmar e restabelecer minha energia. Eu poderia tomar um whisky ou
outras drogas, mas o que me acalma mesmo é a comida. Quando eu trabalhava dez vezes
mais que hoje, eu chegava em casa às dez horas da noite, e aí comer era a única forma de
encher o tanque, de restabelecer esta energia que estava lá no pé. Foi nessa época que
criei o hábito, há dez anos. E agora, fiquei refém deste hábito, que acabou se tornando um
vício. No processo, engordei 40 quilos, aos poucos, em um efeito bola de neve, como você
diz. Ano a ano.”

As pessoas não sabem disso, mas um stress constante e intenso, caso seja vivenciado por
um longo período, pode produzir também um estrago em nosso organismo semelhante
aos efeitos de um stress pós-traumático.

A bagunça causada em nosso equilíbrio orgânico, mental e emocional é tão severa, que os
níveis de cortisol entram em pane, causando uma fragilidade e incapacidade de trabalhar.
O pior é que a consequência disso pode ser uma depressão contínua ou quadros de
síndrome do pânico, tão comuns na sociedade moderna.

Ou seja, depois que o elástico arrebentou, o prejuízo será enorme. Qual o grande segredo
para evitar este risco?

Fazer pausas durante o seu dia. Pode ser uma simples caminhada no parque ou adotar
uma agenda pessoal de cuidados básicos com o seu corpo. Um simples alongamento e
relaxamento de 15 minutos, no meio da tarde, já dissolveria todo o seu stress acumulado.
Assim, você voltaria para o trabalho muito mais lúcido e revigorado.

Ter horários de lazer, fazer viagens frequentes para descansar e ter uma vida social
saudável, aparecem como coisas básicas e essenciais para evitar um quadro crônico de
stress. O preço final a se pagar por não agir preventivamente em relação ao stress é
muito alto.

Para mim, um bom exemplo é um aluno que tive, um grande empresário que cuidava de
mais de cinco mil funcionários.

Aos 58 anos, ele sofria, há cinco anos, com um quadro permanente de stress crônico que
o deixava bastante fragilizado. Ele só conseguia trabalhar, no máximo, durante uma ou
duas horas por dia. Isso quando conseguia trabalhar. E, mesmo assim, com grande
dificuldade. Devido ao stress crônico, ele era obrigado a se ausentar do seu trabalho por
longos períodos, muitas vezes durante seis meses ou mais.

A sua equipe tinha que cobrir sua incapacidade de liderar ou tomar decisões, ou seja, ele
tinha apenas uma função decorativa em sua própria empresa. Já se passaram quinze anos
desde que treinei este empresário e a sua situação não mudou. Encontrei-o no ano
passado e ele definiu assim a sua própria condição: “Nuno, eu nunca mais fui o mesmo, é
como se um fusível tivesse se queimado em minha cabeça. Se eu pudesse voltar no
tempo, teria feito tudo diferente. Aqueles anos de excesso me custaram muito caro.”

Ou seja, não adotar ações preventivas em relação ao stress pode ser fatal para sua lucidez
e sanidade.
NÃO EXISTE PREVENÇÃO
O conceito de saúde se alterou profundamente no último século. Um profissional da
saúde no século 21 deveria ser algo como um profissional de coaching, especializado em
qualidade de vida, saúde integral e mudanças comportamentais.

Na realidade, o médico é um profissional que passa uma enorme parte da sua formação
dedicado ao estudo das doenças, patologias e fármacos. O foco não é prevenir, e sim,
remediar. Meu pai brinca dizendo que, na verdade, o que existe é um “Ministério da
Doença”. Ou você acredita que existe um mínimo investimento em prevenção na saúde
pública, em nosso país? Mal damos conta da doença, quem dirá da saúde. Se o governo
investisse, realmente, em saúde e prevenção, economizaria bilhões, anualmente.Por
exemplo, o Brasil gastou, em 2015, cerca de 72 bilhões de reais com a diabetes e suas
complicações. (Fonte: Revista Saúde, ed. 410.)

No entanto, como funciona realmente um atendimento médico para a maioria da


população? O sujeito adoece e marca uma consulta com o médico. Chegando lá, o médico
se detém na análise da doença em questão, para fechar um diagnóstico e escolher o
remédio mais indicado para tratar estes sintomas.

Este profissional dedica pouco tempo da sua consulta a uma análise mais minuciosa,
procurando entender porque este paciente adoeceu, ou as questões relativas aos hábitos,
à saúde e à qualidade de vida deste paciente. O único discurso neste sentido é bastante
superficial: você precisa fazer atividade física, comer melhor, ou repousar.

E, no final das contas, a grande maioria dos profissionais nem toca nesse assunto de
prevenção, apenas prescreve uma receita farmacêutica e “boa tarde”. Chega a ser
assustador perceber como os médicos, em geral, e a indústria farmacêutica andam de
mãos dadas. É quase impossível entrar em um consultório e sair de lá sem uma receita de
algum medicamento. E o uso indiscriminado de antibióticos tem levado a um aumento
perigoso na resistência a bactérias.

Parece que todo mundo se esqueceu de que o sistema orgânico é o sistema mais
poderoso e perfeito no combate a todas as doenças. E quais são os remédios que
fortalecem este sistema?

A atividade física é um dos mais importantes, quando feita de forma equilibrada, assim
como o sono e a alimentação. Podemos citar ainda o sol, a natureza, o equilíbrio entre
trabalho e diversão e um estilo de vida que traga equilíbrio físico, mental, emocional e
espiritual.
Há 60 anos, um médico familiar atendia o paciente em uma longa consulta, investigando
tudo o que estava fragilizando o seu sistema imunológico. Em muitos casos, a indicação
de tratamento era: você está com uma estafa, descanse e se alimente bem, se puder tire
alguns dias de repouso absoluto. Essa era a receita médica passada ao paciente, uma
receita pautada em sabedoria e respeito ao corpo.

Muitas das doenças que são tratadas à base de remédios se resolveriam naturalmente
com repouso, pausa e boa alimentação, ou através de um tratamento a longo prazo que
fortalecesse o sistema orgânico e buscasse entender e tratar realmente o elemento
causador do desequilíbrio físico, mental ou emocional.

O remédio não trata a causa, e sim o sintoma, o efeito causado por este desequilíbrio.
Porém, o sintoma está lá denunciando, claramente, o que precisa ser cuidado.

Qual o sentido de passar uma vida inteira apenas remediando nossos problemas de
saúde, quando podemos resolvê-los de uma vez por todas se atacarmos as verdadeiras
causas destes desequilíbrios?

Acontece que a sociedade produtiva tem pressa, não pode parar. A engrenagem tem que
rodar. Sendo assim, a vida torna-se uma vida remediada, passiva, triste e impotente.

Quero deixar claro que, com esse discurso, não pretendo desvalorizar o médico e a
evolução da ciência. A medicina trouxe uma evolução incrível no tratamento das doenças
e na qualidade de vida do paciente. Antigamente, um paciente morria devido a uma
simples inflamação na garganta, caso seu sistema imunológico estivesse muito
fragilizado.

E também não estou aconselhando-o a não tomar remédios, que é uma forma científica e
comprovada no controle das doenças. Estou aconselhando-o, apenas, a investir em
prevenção e saúde, o que, no fim, é o que vai proteger realmente o seu organismo,
proporcionando um sistema imunológico forte e poderoso. Saúde, de verdade, é entrar
em contato com diversas doenças contagiosas e, mesmo assim, não as contrair.

Eu vou lhe dar um exemplo: recentemente, um aluno meu, extremamente saudável, teve
um mal-estar ao fim do dia, o que é raríssimo, no seu caso. No dia seguinte, por
precaução, ele foi ao médico e o seu diagnóstico foi dengue. Porém, ele não havia
apresentado qualquer mudança mais acentuada e tinha reagido de forma assintomática a
esta doença. Quando analisamos seus hábitos, vemos que ele pratica meditação
diariamente, faz uma hora de corrida e natação cinco vezes por semana, não come
industrializados e, na maioria dos dias, vai para cama às dez horas da noite. Bingo! Ele não
tinha uma simples virose há mais de três anos.
Você sabe qual é o remédio mais poderoso que existe quando nosso sistema imunológico
está baixo e nos sentimos frágeis física, mental e emocionalmente?

Ele se chama Praiox. Porém, é bom alertar que ele não está disponível nas farmácias.

Vou passar a receita desse remédio: explique ao seu chefe que você chegou ao fundo do
poço e que, caso você não descanse por uma semana, vai entrar em colapso e o prejuízo
vai ser muito maior; sendo assim, adiante uma semana de férias e vá para a praia.

O mar é considerado a forma de tratamento mais poderosa e antiga que existe, chama-se
talassoterapia. Na Grécia Antiga, as pessoas que sofriam de questões complexas ligadas à
saúde, como desânimo, depressão e outras doenças que fragilizam o sistema orgânico,
eram levadas à beira mar para tomar sol e repousar. Esta terapia era considerada a forma
mais eficiente de tratamento terapêutico, na época.

A combinação entre banhos de sal grosso, banhos de sol, caminhadas à beira mar, tempo
para não fazer nada e relaxar o corpo e a mente é, realmente, o melhor remédio que
existe. De uma forma geral, estar na natureza é o melhor antídoto a todo o stress que
vivemos, restaurando o nosso equilíbrio integral e vitalidade.

Experimente. Depois, você me conta o resultado.

E eu o convido a um desafio: procure testar na prática algumas dicas e conceitos deste


livro. Só assim, você terá completado o ciclo da fixação do conhecimento e sabedoria.
Envie para mim, por favor, o resultado dessa experiência, isso irá colaborar em minha
pesquisa e será valioso.
CHECK UP YOUR MENTALITY
A enfermidade é um processo lento e silencioso.

Faço check-up anualmente, mas, às vezes, esqueço e o intervalo é um pouco maior. De


qualquer forma, nunca aparece nada nos exames porque o meu estilo de vida colabora
para este quadro. O meu pai é um grande modelo para mim, tem 78 anos e os seus
exames também nunca acusaram qualquer desequilíbrio orgânico.

O check-up é uma ferramenta importante para a saúde pública, mas não concordo que
ele deva ser apenas uma forma de avaliar o quanto você está pior. Ficar esperando a
“água passar do pescoço” para tomar alguma atitude não me parece algo inteligente.
Infelizmente, muitas pessoas só acordam depois que algo muito grave acontece.

Aqui, cabe uma história interessante. Tenho um amigo, mais ou menos da minha idade,
com 51 anos, e a cada ano ele está mais gordo, mais envelhecido, abatido e desvitalizado.
Para quem assiste isso de fora, encontrando-o apenas uma ou duas vezes ao ano, essa
mudança é rápida e brutal, no entanto, ele mal percebe. Como ele se vê diariamente, deve
pensar que este processo é natural, mas não é! Ele é aquele caso típico de alguém que faz
tudo errado em relação à alimentação, bebe, fuma e, ainda por cima, é absolutamente
sedentário há três décadas, pelo menos. Ou seja, está caprichando e se esforçando em
conquistar a sua doença.

O alarme já soou faz tempo, mas ele ignorou. Há mais de uma década, ele sofre
alterações graves na pressão, no colesterol, diabetes e outros desequilíbrios. Eu já tive
dezenas de conversas com ele, tentando argumentar sobre como seria importante que
ele se cuidasse, minimamente.

Ele escuta tudo calado, concordando e prometendo que um dia vai mudar, mas esse dia
nunca chega. Em nossa última conversa, tive uma surpresa; depois do meu usual sermão
paciente e cuidadoso, ele falou: “Nuno, fica tranquilo, eu estou ótimo, cara! Estou
tomando remédios para pressão e outros medicamentos, está tudo sob controle. Agora,
estou fazendo check-up geral a cada seis meses, está tudo tranquilo!” Sua esposa ainda
concordou e disse: “É verdade, ele tem se cuidado, tem ido ao médico regularmente.”

Depois desta resposta, fiquei tão chocado, que não consegui falar mais nada, só
concordei. Meu Deus! Desde quando tomar remédios e tentar controlar os sintomas é
uma forma efetiva de cuidar da saúde?

Eu pensei comigo mesmo: ele vai fazer check-ups semestrais, até o dia em que descobrir
que já tem algo grave, ou mesmo, quem garante que algo grave não possa acontecer a
qualquer momento entre esses check-ups? Em vez de desarmar a “bomba”, ele está
apenas adiando um pouco a hora em que ela vai estourar.

Fiquei bastante espantado com a forma como as pessoas, em geral, veem a questão da
saúde. Elas realmente acreditam que estão fazendo a coisa certa, dependendo apenas de
medicamentos e se apoiando nisso para não mudar nada.
VIDA ADIADA

“Julgue o seu sucesso pelas coisas que você teve que renunciar para consegui-lo.”

(Dalai Lama)

A sociedade criou um modelo de vida baseado na competição e no sacrifício. Segundo


este modelo de vencedor, ser o melhor à custa de sofrimento, dedicação extrema e
trabalho incansável é a única forma de atingir sucesso na vida. Em busca disso, as
pessoas sacrificam todo o resto: sua saúde, seu corpo, seu lazer, sua família, seus amigos,
sua diversão, seu sono, sua alimentação; resumindo, seu equilíbrio corporal, mental,
emocional e espiritual.

O prêmio, a cenoura na frente do cavalo, é o reconhecimento e o dinheiro. O raciocínio é:


vou trabalhar que nem um louco, por dez ou 20 anos, e depois vou curtir a vida.

Acontece que esse estilo de vida se torna um hábito, e um hábito fixado durante dez ou 20
anos é quase uma segunda pele, uma identidade difícil de se alterar. Sendo assim, esse
workaholic inveterado tende a prolongar esse hábito por mais alguns anos, 30 ou 40 anos,
talvez.

Esta vida adiada, esta vida perdida em prol de uma ilusão de sucesso e felicidade, um dia
cobra o seu preço. Pode ser uma doença séria, um susto ao perceber que envelheceu
precocemente ou a constatação de que o corpo chegou ao seu limite. Muitos não têm
uma segunda chance, podem sofrer um ataque cardíaco fulminante, um derrame, um
câncer.

Quando esse workaholic chega na porta do céu, não tem atendente, apenas uma
mensagem automática gravada. Nesta primeira triagem, uma voz preguiçosa de
funcionário público anuncia no sistema de som:

– As pessoas que trabalharam incansavelmente, que sacrificaram toda a sua vida em


busca de sucesso e dinheiro, peguem a fila da direita.

Neste momento, ele pensa:

– Que bom, acho que vou ser recompensado!

Ele, então, ao perceber que a sua fila é a mais longa de todas, uma fila quilométrica, se
impacienta. Quando finalmente é atendido, depois de alguns anos de espera, outra
mensagem automática lhe diz:

– Não existe céu, não existe purgatório ou inferno. As religiões inventaram esta metáfora
para explicar as nossas escolhas. O paraíso, purgatório ou inferno são os cenários
derivados dessas escolhas, vividos em vida a todo momento. Pegue a fila da direita se
você quiser ter mais uma chance de viver. Se estiver cansado de reencarnar, pegue a fila
da esquerda e você dormirá para todo o sempre.

Por fim, a mensagem diz: “Eita vida besta, hein?”

Moral da história: a vida é um sorvete, tome-o antes que derreta.


SÍNDROME DE ADÔNIS
O modelo de beleza estimulado pela indústria do fitness transformou-se em um modelo
quase inatingível, quase virtual, tão exigente e perfeito que pode ser visto como um corpo
de Photoshop.

O rigor deste modelo de beleza funciona como um estímulo à vigorexia, também


conhecida como síndrome de Adônis, uma forma de obsessão com a autoimagem. Ela
implica em um treinamento que exige dez ou 20 anos de extrema dedicação, milhares de
horas de suor e sacrifício e, praticamente, transforma-se em uma forma de sacerdócio.

Ou seja, muitos modelos fotográficos, marombeiros, famosos, blogueiras e outros corpos


perfeitos que você vê na televisão e na revista dedicam muitas horas do seu dia ao
treinamento, de forma compulsiva, porque, de certa forma, se apaixonaram pelo espelho
e sofrem da síndrome de Adônis.

Veja só a gravidade disso: o modelo de beleza atual estimulado pela indústria do


treinamento pode representar um distúrbio em relação à sua própria imagem corporal.
Essa síndrome é um desvio narcisista, que faz a vida da pessoa girar em torno de uma
obsessão com o próprio corpo e uma compulsão com o treinamento físico.

É obvio que existem exceções e muitas pessoas têm um corpo lindo e definido devido ao
fato de terem uma relação saudável com o treinamento e fazerem muita atividade física
desde a infância.

Basicamente, se a sua ficha ainda não caiu, este ideal de beleza que você persegue como
a solução para a sua felicidade, pode se transformar em uma relação doentia com o seu
próprio corpo, categorizado pela psicologia como uma doença psíquica. Esse processo
pode levar a uma vigorexia e desencadear uma grave forma de depressão.

Este é só mais um exemplo do quanto as pessoas vivem a vida de uma forma idealizada,
em todos os aspectos. Colocam um foco enorme naquilo que elas não têm e se esquecem
de valorizar e estimular tudo aquilo que já possuem, todo seu poder, individualidade e
criatividade, que são únicos.

Nós queremos ser ricos, famosos, fortes e bonitos para sermos merecedores de amor.
Mas, esse amor que depende de reconhecimento, que é algo externo a nós mesmos,
representa uma forma superficial e precária de dependência do outro. O verdadeiro amor
é o amor que já está dentro da gente. É o amor que direcionamos a nós mesmos, é o
amor que inunda, transborda e chega a todo mundo, aos amigos, ao carteiro e à moça do
caixa. É o amor que gera gentileza e compaixão por todos os seres vivos.

Quando alimentamos este amor primordial dentro de nós mesmos, automaticamente


tornamo-nos merecedores de todas as formas possíveis de amor. Acima de tudo, o amor
verdadeiro é aquele que nos aceita, exatamente da forma que somos.

Como a maioria das pessoas pensam e consomem o modelo de corpo ideal? Quando eu
tiver um corpo igual àquele da revista, aí sim eu vou ser mais feliz. Isso é uma realidade?

Não, basicamente, essa é a forma como a mídia do consumo quer que você pense.
Quando você tiver um corpo lindo e perfeito você ainda vai ser, essencialmente, a mesma
pessoa, com os seus mesmos defeitos e problemas. Você pode ser mais confiante e ter
melhorado a sua autoestima, mas estas são apenas questões pontuais e específicas em
nossa vida.

A felicidade não é um bem que esteja condicionado a uma conquista específica. Se esta
premissa fosse verdadeira, uma pessoa rica, linda, famosa ou bem-sucedida seria,
automaticamente, uma pessoa feliz.

Pare de colocar a sua felicidade como um ideal a se atingir, sempre em um momento


futuro.

A felicidade é uma caneta, que você procura em todos os lugares, enquanto ela já
está pendurada em sua própria orelha.

Não inveje ninguém, não siga nenhum padrão externo. Não busque uma forma artificial e
midiática de corpo. Proponho a você algo um pouco diferente: quando você parar de ver o
treinamento como uma obrigação, como uma tarefa chata que vai lhe permitir atingir
certo objetivo, você poderá se apaixonar, realmente, pela atividade corporal.

Assim, sem seguir modelos chatos e artificiais de treinamento, vivendo esta nova paixão,
você irá ganhar como brinde um corpo definido, lindo, harmônico e equilibrado, um corpo
só seu, customizado e feito sob encomenda só para você. Isso não tem preço!
O YING YANG DA BELEZA, SAÚDE E
VITALIDADE
O ser humano é seduzido por alimentos energéticos e revigorantes que prometem
aumentar a nossa energia e vitalidade.

As pessoas também se interessam obsessivamente por formas artificiais de retardarem o


processo de envelhecimento. De certa forma, isso se torna engraçado, porque todas as
formas de se obter vitalidade e beleza já inventadas pelo homem não passam de uma
“gota no oceano” perto do poder da combinação equilibrada entre sono, alimentação e
movimento.

Por que a indústria do consumo seduz e ilude com formas menos eficientes e com
paliativos que prometem toda sorte de milagres artificiais?

Porque essas formas artificiais podem ser empacotadas e vendidas mais facilmente e
com uma margem de lucro maior. O consumo vive de uma ilusão, o que se vende é uma
promessa. É sempre a próxima novidade que vai dar resultado e lhe fazer mais feliz.

Esses produtos exploram a passividade da sociedade de consumo diante da vida e do


próprio corpo. Por isso, as fórmulas que prometem resultado no curto prazo são tão
populares e comerciais.

As pessoas não estão interessadas em resolver realmente os seus problemas, elas


querem que alguém os resolva por elas. Com essa deixa, entra o mercado de consumo e
inventa uma pílula para resolver este problema.

Então, eles contratam uma excelente agência de marketing, uma equipe de gestão
incrível, empacotam este produto, financiam pesquisas para comprovar sua eficácia e o
colocam no mercado. Pronto, está em curso uma máquina feroz de se fazer dinheiro, em
cima da passividade, pressa e ignorância da população. Ou seja, quando alguma nova
moda de verão chega à capa de uma revista, prometendo resultados rápidos e
milagrosos, ou quando algumas pesquisas que “discretamente” ou “descaradamente”
apoiam estas fórmulas, ganhando destaque na mídia, isso não é apenas uma feliz
coincidência.

Todas as formas de suplementação alimentar desenvolvidas não passam de meros


figurantes, quando comparados ao ator principal, a combinação mais poderosa já
inventada pela natureza: sono e movimento. Alguns suplementos são bons coadjuvantes,
como a linha de suplementação “in natura” que encontramos em casas de produtos
naturais. Já a linha de suplementação para academia é muito mais polêmica e artificial. O
que é essencial e primordial à nossa saúde são as mesmas coisas das quais sempre
dependemos há milhões de anos, através da nossa herança evolutiva.

Repouso e movimento são os verdadeiros Ying e Yang da saúde e vitalidade,


representados em dois opostos, que são elementos complementares e primordiais ao
nosso equilíbrio corporal, mental, emocional e espiritual. Nessa perfeita interação, um
elemento ajuda e fortalece o outro. Quanto mais investimos em formas de movimento
equilibradas e saudáveis, mais incrementamos a qualidade do nosso sono e vice-versa.

A perda de qualidade no sono é o agente silencioso por trás da baixa vitalidade, do


aumento de peso e do processo de adoecimento lento e gradativo vivido pela imensa
maioria da população. Ao mesmo tempo, este processo provoca um envelhecimento
acelerado, e, ao lado da má alimentação e do sedentarismo, são os principais fatores que
impactam a nossa beleza e vitalidade.

O sono é o assunto do momento da ciência. A cada dia, descobre-se o quanto ele é


primordial na regulação e proteção do nosso organismo. Um exemplo simples:
recentemente, ficou provado que as fases mais profundas do sono influenciam os
hormônios que agem no controle da glicose no sangue. Hoje, sabemos que o sono
participa de quase todos os nossos processos vitais.

A pergunta é: para que simplificar se podemos complicar? Complicar parece ser uma
tendência humana e confere certo poder aos especialistas, que estudaram muitos anos
para dominar tais assuntos. Complicar cria uma dependência do aluno em relação ao
profissional em questão e uma fidelização desejável. Isso permite a criação de novos
métodos e produtos e fomenta esta indústria bilionária do corpo.

Eu conheço pessoas que percorrem caminhos elaboradíssimos de cuidados com o corpo


e a saúde. O mais engraçado é perceber que todo este investimento complexo, caro e
sofisticado tem um resultado muito abaixo, “anos luz” de distância, de um caminho
simples e natural. É uma tal artificialização do processo que chega a ser assustadora.

Tenho uma amiga que lança mão de diversos artifícios para parecer mais bela. Vamos
conferir passo a passo o que ela faz e, em seguida, observar, entre parênteses, minhas
observações sobre as estratégias usadas.

Ela viaja até a França para se tratar com o maior especialista em ortomolecular do mundo
e volta com vitaminas e suplementos caríssimos. (Alimentar-se com mais qualidade seria
mais eficiente do que se entupir de suplementos.)
Ela vai na melhor esteticista e na melhor dermatologista do mercado e volta com cremes
caríssimos para a pele. (Caso se hidratasse mais, parasse de fumar e dormisse melhor,
teria resultados bem maiores.)

Ela tem uma academia caríssima em casa e um personal que lhe custa uma fortuna. O
sujeito a maltrata todo aula, e volta e meia, ela dá um jeito de driblar e fugir desta
obrigação. Ela mesma confessa que não faz nem 30% das aulas. (Nesse caso, se ela
fizesse algo mais divertido e prazeroso, como dançar, jogar tênis e outros, seria bem mais
eficiente.)

Faz cirurgias plásticas e lipoaspirações com certa frequência. (Caso fizesse mudanças de
hábitos alimentares, tivesse uma relação de prazer com a atividade física e praticasse
meditação para controlar a ansiedade, seria muito mais eficaz.)

Frequenta spas caríssimos e faz consultas com as melhores nutricionistas do mercado.


(Mas, nada disso adianta, já que ela não quer mudar os seus hábitos e insiste em fazer
dietas restritivas.)

Ou seja, ela se utiliza de mil recursos para remendar, contornar e artificializar a sua
aparência e, assim, continuar mantendo os mesmos hábitos que a envelhecem e fazem
mal à sua saúde. Lançando mão de soluções desesperadas, ela já fez quatro
lipoaspirações. Uma média de uma a cada dois anos, desde que a conheço. Mas, em
pouco tempo, tudo volta a ser como era antes. Ela também está frequentemente acima
do peso, já que é ansiosa, come em excesso e com péssima qualidade. Afinal, ela tem
“muito” dinheiro e, de que serve ter sucesso e dinheiro, se você não pode cometer
pequenos excessos frequentemente, não é mesmo? Esse é o risco inerente a uma vida
material muito abonada.

Bom, o que eu sei é que o resultado final deste cuidado caríssimo feito por minha amiga
deixa muito a desejar. Apesar disso tudo, a aparência dela é triste e desvitalizada. Mesmo
com as vitaminas, os suplementos, cremes e maquiagem que ela usa, ela está
completamente sem vitalidade e saúde. É fácil observar isso pelos olhos. Os seus olhos
são opacos e cansados, sem vida. Ainda não inventaram uma maquiagem para se passar
dentro dos olhos, que disfarce a perda de vitalidade.

Mesmo que ela se esforce ao máximo em parecer mais nova, a sua aparência é bastante
envelhecida. Aos 62 anos, ela já se move com certa dificuldade, tem perdas ósseas graves
na bacia e perdeu toda a naturalidade em seu corpo, músculos e pele. Ela se esforça ao
máximo para investir em sua saúde, mas está claramente vivendo um processo de
adoecimento e envelhecimento acelerado (já que não cuida do que realmente é essencial).

Como você já deve ter notado, existe um mercado crescente de livros, revistas e toda
forma de métodos que prometem incrementar a beleza e a saúde. O homem, em sua
onipotência, quer igualar e simular o que a natureza faz por si mesma. Já existe uma
fórmula da beleza, inigualável, e o melhor é que não precisamos gastar quase nada por
isso.

Veja só esta foto do mestre taoísta Pai Lin, aos 80 anos, e você vai entender o que falo.
Uma pessoa, que siga seu exemplo, vai exalar beleza e jovialidade, mesmo aos 80 anos
(sem fazer nenhuma cirurgia plástica). Esse grande guru da Medicina Chinesa e do Chi
Kung sempre foi uma referência para a nossa família.

A fórmula é simples: amor, amigos, cabeça fresca, energia vital em alta, Chi Kung, boa
alimentação, atividade física com moderação e sono com qualidade, entre outros fatores.
O grande segredo da beleza é alegria, bom humor e vitalidade. Isso é o que realmente nos
faz parecer mais atraentes. Essas qualidades são totalmente dependentes dos
ingredientes da fórmula anterior.

Posso ser extremamente sincero e transparente com você? A saúde é o óbvio ululante. As
armas mais poderosas na manutenção da nossa beleza e saúde são de graça, como
dormir, caminhar, meditar e amar, entre outras. Pode ter certeza, muitas coisas que estão
disfarçadas de “novidade” já foram escritas por algum autor grego há mais de dois mil
anos.

“A SIMPLICIDADE É O AUGE DA SOFISTICAÇÃO.”

(Leonardo da Vinci)

Outro exemplo interessante é de um amigo meu que ficou obsessivo por superfoods,
alimentos extremamente nutritivos e energéticos. Ele começou a ler e pesquisar tudo
sobre o assunto e, com o tempo, convencido pelas pesquisas e pelos especialistas,
passou a substituir a sua alimentação por uma quantidade enorme de superfoods,
pensando, assim, melhorar a sua saúde e vitalidade.

O resultado não foi dos melhores, como era de se esperar. Hoje, ele está magro e abatido,
e nem parece se dar conta de que aparenta ter muito menos energia e vitalidade.

A grande verdade é que o nosso organismo não está adaptado a estes alimentos
estranhos, potencialmente alergênicos e hiper energéticos, que, se usados na medida
certa, podem ser positivos. Quando o encontro, brinco dizendo que ele ficou “viciado em
pó”. Em vez de comer, ele consome alimentos energéticos em pó o dia todo. Em vez de
ficar mais saudável, ficou “superfood-ido” (exagerou no superfood).

Os alimentos que nos fazem bem (e isso é absolutamente individual) são os alimentos aos
quais estamos bem adaptados desde a nossa infância ou os alimentos aos quais o ser
humano está adaptado devido à sua herança evolutiva.

É necessário que tenhamos muito cuidado com o que está na moda, com aquilo que afeta
a nossa saúde e o nosso corpo. Algumas pessoas são tão consumistas que consomem
tudo o que vira tendência, sem nenhum discernimento.

Um amigo seguiu, nos últimos anos, diversas formas de treinamento da moda. Quando
apareceu a moda da yoga extrema, ele se jogou de cabeça e teve lesões graves por todo o
corpo. Quando surgiu a moda das corridas de longa distância e maratonas, idem. Ele
acabou com as articulações do seu joelho. Resolveu correr uma maratona em menos de
um ano, partindo de um ponto zero de adaptação a este esforço. Quando surgiu a moda
das corridas de aventura, aconteceu a mesma dinâmica.

Resultado: aos 45 anos, ele atualmente está incapacitado de fazer o treinamento mais
básico e simples possível (atividades que uma senhora saudável de 75 anos faria sem
nenhum problema), devido a esse acúmulo de lesões. Recentemente, ele foi fazer uma
aula de CrossFit e não aguentou nem dez minutos, devido a essas lesões antigas. Só,
então, ele percebeu que essa moda não servia para ele e desistiu da opção.

Acreditando que estava abafando, que era atualizado e moderno em relação ao


treinamento, sem perceber, ele serviu de cobaia para novidades radicais, sem que
houvesse, ainda, uma comprovação dos efeitos e da eficácia de tais técnicas em nosso
corpo, no longo prazo.

O consumidor que não pesquisa e não aprofunda o seu conhecimento, torna-se um


boneco na mão do marketing do consumo, gastando o seu tempo e seu dinheiro em
coisas que podem ir contra a sua própria saúde. Cuidado: superficialidade e consumo
estão de mãos dadas no objetivo de emburrecer e manipular o ser humano.

4 COMO PEDALAR NO ROCK’N’ROLL E NÃO CURTIR A VISTA?


3° PARADIGMA: ESPORTE NÃO É SAÚDE
Eu sou apaixonado por esportes.

Acompanho, pela TV, jogos de esportes diversos e vivo a adrenalina, a tensão e a magia da
competição de uma forma bastante intensa. Assistir ao vivo a alguns esportes que adoro,
como tênis, futebol, basquete e vôlei, é, para mim, uma experiência deliciosa.

Pratiquei tênis desde os meus oito anos e quase me tornei um tenista profissional. Jogar
tênis é uma forma de meditação ativa, absolutamente apaixonante e viciante. Funciona
como uma forma de terapia intensa e, ao mesmo tempo, divertida, exigindo um grau
profundo de presença e concentração. Ao jogar, você experimenta um estado alterado de
consciência e um sentimento de “flow” indescritível. Além de ser uma atividade física
intensa que libera altas doses de endorfina.

Vivemos no esporte uma sensação de conexão, de potência e sublimação. É como estar


mais vivo, em ebulição, no mais alto grau das nossas animalidade e naturalidade.

Os atletas modernos realizam o mito do herói, vivendo toda forma de sacrifício e


austeridade para superar e estender os limites humanos. O que está em jogo nas
competições é uma vida inteira de dedicação e abnegação, o que traz uma dose intensa
de adrenalina e emoção.

Porém, não vou me ater aqui ao lado positivo do esporte, que já é bastante conhecido,
como o fato de ele afastar os jovens das drogas, ajudar na disciplina e estimular uma vida
regrada e saudável.

É obvio que o esporte colabora na elevação dos nossos níveis de força, resistência e nos
torna mais vitais e vigorosos, em todos os sentidos.

Porém, como tudo na vida, existe um lado negativo e obscuro dos esportes, que não é
discutido e não vem a público.

O Barão de Coubertin, que resgatou as Olimpíadas em 1896, depois de 16 séculos de


hibernação, tinha um lema em relação ao esporte: “O importante não é vencer, mas
competir, e com dignidade.” Ele lutou a vida toda para manter o caráter amador do
esporte, não permitindo que atletas profissionais participassem das olimpíadas. Parece-
me que ele já intuía o que aconteceria mais de 100 anos depois. Ao invés do ideal
romântico, de se praticar esportes para incrementar a saúde e praticar atividades lúdicas
de uma forma digna, colaborativa e respeitosa, o que se viu foi exatamente o oposto.
O esporte se tornou um grande business, um negócio bilionário em que impera a lei da
competição, do individualismo e do narcisismo, reproduzindo o que o mundo capitalista e
competitivo tem de pior. O esporte se tornou um mundo cão, onde o indivíduo é
massacrado e exigido além do seu limite corporal, mental e emocional. Uma guerra, em
que só os mais fortes sobrevivem e não se pode ser amigo de ninguém. Devido a esse
caráter, os esportes se tornaram cada vez mais agressivos e intensos a cada década. O
sarrafo não para de subir. Como a força física e a potência exigidas aumentam a cada ano,
o que se viu foi o fim do esporte como uma arte de pura habilidade, plasticidade e magia.
Não existe mais espaço para qualidades como respeito, gentileza, solidariedade,
honestidade e companheirismo, como na época do amadorismo.

O esporte se torna cada vez mais bruto, truculento e agressivo. Isso decretou o fim do
“futebol arte”, do “tênis arte” e da beleza e da harmonia nos esportes, de uma forma geral.
Isso ocorreu por volta da década de 1970, uma década decisiva na profissionalização do
esporte.

Vou tomar o tênis como exemplo: fui assistir a uma partida em Roland Garros, em uma
quadra de saibro, entre os tenistas Del Potro e Tsonga. Aquilo, para mim, não era mais
uma partida de tênis, era uma pancadaria, um tiroteio.

O bom do saibro é que ele permite longas disputas e trocas de bola, mas, no caso, os
pontos duravam, em média, apenas poucos segundos (ou eles se definiam no saque, ou
se definiam rapidamente em golpes agressivos e violentos).

Aquilo foi um anticlímax, e eu só consegui assistir ao 1º set e fui embora, frustrado e


decepcionado. O uso da força física, em seu limite extremo, fez com que o esporte
deixasse de ser algo saudável e se transformasse em um verdadeiro massacre ao corpo e
uma ode à competição.

Devido a este fator, os tenistas e os esportistas, em geral, atualmente, sofrem com lesões
graves durante toda a sua carreira. Porém, mais grave do que isso, é que muitos
esportistas, ao se aposentarem, em média, aos 32 anos, vão pagar um preço muito alto
por esse “sacrifício”. O alto impacto articular e a força física exigida fazem muitos ex-
atletas sofrerem com dores crônicas e perda de cartilagem severas, que os
acompanharão pelo resto da vida. A perda de qualidade de vida é gravíssima. Devido ao
dano causado no aparelho locomotor, como graves lesões nos joelhos, por exemplo, eles
serão incapazes de se exercitar e manter a saúde.

Por isso, comparo o treinamento com foco em performance ou o esporte de alto


rendimento a um conto de fadas. Ninguém fica sabendo dos detalhes sórdidos e
perversos que foram abstraídos deste roteiro, tampouco sabem o que vai ocorrer depois,
no fim da história (este ideal fantasioso do “e foram felizes para sempre...”).

Devido a estas exigências modernas, o esporte se torna, muitas vezes, um ambiente de


trapaças, um estímulo à desonestidade. Tudo em prol de prestígio e dinheiro. Nos
esportes contra o relógio as pessoas não perceberam que o ser humano já chegou no seu
limite físico, articular e muscular. Bater um recorde, atualmente, é praticamente um
suicídio para o corpo. É aí que entram as substâncias químicas e o doping, dando “um
jeitinho” na situação. Vide o caso de Lance Armstrong e outras trapaças. Na verdade, o
doping está sempre à frente do antidoping e muitos atletas usam substâncias proibidas,
aplicada por especialistas, que não deixam traços e nunca serão descobertas.

Veja você a que ponto chegamos! Além de tudo, estas substâncias podem causar câncer e
danos orgânicos imprevisíveis. Agora, eu pergunto: isso é saúde?

5 O ESPORTE LEVA MAIS UM DURO GOLPE. DESTA VEZ, BEM NA BOCA DO ESTÔMAGO.

Será o futuro do esporte algo apocalíptico, em que androides anabolizados serão metade
homens, metade robôs, destruindo-se em batalhas que lembrarão um circo romano de
gladiadores?

Só existe uma solução para evitar esse massacre ao corpo e este futuro sombrio no
esporte: reestruturar as regras de todos os esportes, identificando qual o limite físico
aceitável e desejável. Isso tornará os jogos muito mais interessantes e estimulantes para
o público e para os competidores.

Este assunto é sério. Já atingimos os limites da fisiologia humana. Todos os atletas


deveriam se contentar em serem os melhores da sua geração, de uma forma limpa,
honesta e saudável.

Temos de fazer essa reforma em todos os esportes, nas próximas décadas, caso
contrário, devemos parar com essa hipocrisia dizendo que esporte é saúde.

Há mais de quatro décadas, fazer esportes de uma forma profissional se transformou em


algo cada vez mais perigoso. A equação correta para o esporte profissional, atualmente, é:
Isso não inclui, é claro, os esportes de menor impacto articular, como também algumas
formas amadoras de se praticar esporte.

As pessoas desconhecem o stress mental e emocional vividos por um atleta de sucesso,


atualmente. Devido ao alto grau de profissionalização e exigência, este stress equivale ao
de um alto executivo ou empresário.

Os atletas que praticam atividades de alto impacto não têm uma ideia profunda sobre o
que estaria embutido neste contexto. Os jovens não têm essa dimensão e nem pensam
no futuro. Não sabem que o futuro de um ex-atleta pode ser bastante sombrio, feito de
dores crônicas que o acompanharão pelo resto da vida.

Em uma entrevista à Rádio Eldorado, o tenista Gustavo Kuerten confessou que, em


decorrência das lesões do esporte, hoje tem dificuldade até para brincar com seus filhos.
Porém, se você lhe perguntar se repetiria tudo novamente, ele, provavelmente, dirá que
sim. Para muitos atletas a paixão e a emoção vividas no esporte se transformam em um
sentido de vida.

6 POR QUE ALGUÉM DESEJARIA AMPUTAR A PRÓPRIA PERNA?


CONTO DE FADAS

“É uma filosofia que causa lesões e que enchem os consultórios, hoje em dia. A
consequência mais comum ao adotar essa estratégia do ‘no pain, no gain’ é uma lesão
ou a desistência da atividade física.”

(Dr. Diego Leite de Barros, fisiologista do Hospital do Coração)

Essa fórmula do treinamento com sofrimento é seletiva, expulsiva e nada inclusiva.

Ela é seletiva porque serve apenas a uma minoria de tipos físicos, que vão se adaptar bem
a essas rotinas sem. Qual seria esse perfil? Um corpo jovem, com um bom histórico de
fortalecimento e esporte na infância e com uma herança genética que favoreça o corpo a
resistir às atividades de alto impacto, por mais tempo.

Ela é expulsiva porque vai contra um dos preceitos mais básicos do ser humano: fugimos
da dor e do sofrimento. Criei uma teoria para explicar porque as pessoas fogem dessas
atividades radicais: quando vivemos uma experiência agradável e prazerosa queremos
repetir essa experiência. Porém, quando vivemos uma experiência desagradável e
dolorosa, fazemos de tudo, mesmo que de forma inconsciente, para evitar esta
experiência.

Um fenômeno muito comum nas academias são os alunos que pagam e não vão. Ou seja,
parte da receita das academias vem desses alunos que, iludidos por esse modelo de
beleza vendido pela mídia, tentam a qualquer custo se adequar a essa filosofia de
treinamento, buscando este corpo ideal, que nunca se realiza.

A rotatividade é comum em toda área do treinamento, seja no kung fu ou na yoga, mas no


caso da academia, ela é ainda maior. De certa forma, os alunos se revezam na tentativa de
querer se enquadrar a essas formas radicais de treinamento.

Para se desculpar pelo seu insucesso, os próprios alunos arranjam justificativas como
preguiça, falta de disciplina, falta de força de vontade etc., mas penso que não se trata de
nada disso. Resumo tudo em uma só frase: “O boi tem medo de ir para o matadouro.”
Psicologicamente, o que explica esta fuga maciça das academias é, simplesmente, o fato
de as pessoas sofrerem um enorme desconforto ou mesmo dores físicas ao vivenciarem
estas formas de treinamento.
É claro que existe o componente do hábito, e só realizamos aquilo que estamos
habituados a realizar. Sendo assim, pessoas que não construíram uma relação de prazer
com a atividade física encontram mais resistência em mudar seus hábitos.

O fator inercial é realmente o maior obstáculo na mudança de hábito. Caso não sejamos
capazes de ultrapassar esta etapa, essa mudança não será possível. Propor ao aluno uma
atividade dolorosa e desagradável não o ajuda a superar esse fator inercial. Não permite o
desenvolvimento de uma relação de prazer com a atividade corporal.

Por meio de uma análise mais profunda, vemos que este modelo revela uma grande
contradição: de um lado, ele acena com a ilusão de um corpo perfeito e, do outro, garante
com exercícios chatos e dolorosos que a grande maioria não consiga atingir este objetivo.
Percebe como esse modelo não é sustentável nem inclusivo?

O hábito é essencial na manutenção da saúde integral. E, se estamos falando de saúde


integral, temos que falar de corpo, mente, emoção e espírito.

Vamos tomar a corrida como um exemplo. Como diversas atividades, existem três
estágios no processo de correr: o “antes, o “durante” e o “depois”. Eu corro há mais de 30
anos e sei que o “antes” é o maior inimigo do corredor. Vamos dizer que, a cada 20
corridas, de uma a duas vezes, em média, eu sinto certa resistência em superar este fator
inercial, e me pego querendo ceder à lei do menor esforço. O que me salva, nestes casos,
é a capacidade que desenvolvi de me focar no “durante” e no “depois”. Podemos concluir
que o hábito me resguarda em 90% das vezes em que vou correr. Nestes casos, eu não
sinto resistência e nem penso em nada. Quando dou por mim, já estou correndo.

Qual a grande vantagem do treinamento integral? É o que eu chamo de “melhor de três”.

Como a corrida em equilíbrio é agradável e convidativa, o “durante” e o “depois” são muito


satisfatórios. Ou seja, desta forma, você acaba de ganhar de 2x1 do fator inercial. Caso
você adquira o hábito de correr e aprenda a lidar psicologicamente com o “antes”, este
score seria de 3x0. No treinamento com sofrimento, você está sempre perdendo de 2x1, o
“depois” pode ser ainda melhor em relação ao treinamento integral, só porque,
finalmente, a tortura vai terminar. Porém, caso você acorde totalmente destruído e
dolorido no dia seguinte, este score será de 3x0 para o fator inercial e, consequentemente,
para a preguiça. Sendo assim, as suas chances de adquirir um novo hábito serão muito
reduzidas.

O que ninguém conta em relação ao treinamento com sofrimento é o epílogo desse conto
de fadas, deste corpo musculoso, bombado e, supostamente, perfeito. Tenho muitos
amigos fisioterapeutas que me contam coisas estarrecedoras. Eles atendem, diariamente,
a uma avalanche de pessoas com um corpo esteticamente invejável, lindos por fora, mas
já desgastados e destruídos por dentro. Infelizmente, esse pode ser o resultado de um
treinamento realizado às cegas.

Mais dia menos dia, fatalmente, o resultado de todo esse exagero e falta de bom senso no
treinamento irá cobrar a conta. E, pode ter certeza, quando ela vier não será barata.

Sabe aqueles exercícios de leg press pesadíssimos, que você fez durante tantos anos?
Pois então: eles podem se tornar uma lesão irreversível na coluna lombar e você mal vai
poder caminhar sem dor, pelo resto da vida. Todas aquelas repetições malucas contra o
relógio do treinamento de alta intensidade podem acabar com as suas articulações.

As pessoas não sabem, mas muitas lesões decorrentes de atividades físicas de alto
impacto são irreversíveis e não são passíveis de intervenções cirúrgicas. Em alguns casos,
mesmo quando existe a indicação de uma cirurgia, isso não é garantia de um bom
prognóstico.

Por exemplo, aquelas provas de longa distância que você foi estimulado por seu professor
a realizar, você se empolgou e começou a lutar ferozmente contra o relógio buscando
diminuir o seu tempo, podem destruir as suas cartilagens e virar uma lesão gravíssima no
joelho, fazendo com que você sofra com dores crônicas, diariamente. O seu ortopedista,
então, vai gentilmente lhe comunicar que você nunca mais vai poder correr ou fazer
qualquer atividade física. O final desse conto de fadas pode ser o game over.

Como diz um dos mais respeitados fisiologistas brasileiros, Turibio Leite de Barros: “Para
ser eficaz, a atividade física tem de ser incorporada a uma rotina. Mas a preocupação em
obter resultados rápidos tem sido tão maior do que a busca pela saúde que as pessoas
sofrem lesões e não conseguem criar o hábito físico.” (Revista Cidade, setembro de 2015,
Trip Editora.)

Se você quer se aprofundar mais no tema, a chave a seguir é um verdadeiro presente: uma
entrevista com o Dr. Maciel Murari Fernandes , um dos Fisioterapeutas mais estudiosos que já
conheci. O que ele diz é muito precioso.

7 A RESULTANTE DO TREINAMENTO.
4° PARADIGMA: CONHECIMENTO COM
INTEGRAÇÃO
Conversando com diversos fisioterapeutas e ortopedistas, descobri algo chocante: eles
me relataram a dificuldade de conversar, compartilhar conhecimento e interagir com o
professor de educação física. E isso é sério.

Eu, que sou da área do treinamento, sei que realmente este diálogo não existe. Essas
áreas estão totalmente afastadas umas das outras. O discurso é: você cuida da sua área
(as lesões) e eu cuido da minha (o treinamento).

O mais grave disso é que o professor de educação física não tem uma formação e prática
diárias que lhe permita entender exatamente o que o fisioterapeuta está tentando
mostrar a ele.

O estudo aprofundado de cartilagens, ossos e articulações não faz parte do seu dia a dia.
Ele até estudou isso na faculdade, porém, sem o aprofundamento e o enfoque da
ortopedia e da fisioterapia.

Qual o resultado destas formas de aprendizado obrigatórias e sem aplicação? Elas se


apagam. Resumindo, quando o fisioterapeuta tenta conversar com um professor de
educação física, o que ele diz é “grego” (trata-se de um outro olhar para o corpo, um olhar
da fisioterapia e da prevenção), não faz o menor sentido para este profissional, que tende
a ignorar tudo aquilo e seguir com os recursos que ele conhece e domina, que são
exercícios, performance e treinamento.

Para você entender a gravidade deste assunto, até hoje, não conheci nenhum tipo de
treinamento que integre essas duas áreas, realmente.

Muitas academias e espaços de treinamento até colocam isso no seu marketing de venda,
mas simplesmente não sai do papel, não se efetiva de uma forma bem-feita e profunda.
Do modo como está estruturada, essa “integração” não passa de uma maneira de
fortalecer e estimular a indicação e o encaminhamento de clientes entre estes
profissionais. Não existe uma forma de integração transdisciplinar, em que os
profissionais possam interagir e pensar no treinamento de cada aluno por meio de trocas
e cruzamentos de informações.

Se essa troca fosse de fato uma realidade nas academias, o treinamento seria exatamente
o oposto do que é realizado atualmente, uma vez que os ortopedistas e fisioterapeutas
defendem uma política de redução de lesões e de moderação no treinamento. Então,
chegamos ao ponto em que fica evidente porque existe uma resistência da educação
física em integrar este conhecimento: ela teria que mudar radicalmente o seu foco e sua
filosofia de treinamento. Uma grande parte do seu repertório de exercícios e técnicas
seriam descartados, pois não são exercícios positivos e ergonômicos que favoreçam as
articulações, as cartilagens e, o mais importante, a saúde corporal.

Naturalmente, ocorreria uma ressignificação e reformulação no treinamento, se a


educação física permitisse que formas mais aprofundadas e integrativas de pensar o
corpo entrassem neste ambiente que ela domina. Neste contexto, existe uma relação
ditatorial entre o aluno e o professor, o que permite ao treinador fazer o que bem quiser.

Um exercício passa a valer apenas pelo resultado estético que ele possa
proporcionar, independentemente do mal que ele possa causar ao seu corpo no
médio e longo prazo.

Quem sofre com essa visão parcial do corpo é o aluno, já que a imensa maioria das lesões
sofridas no treinamento poderiam ser evitadas.

Como funciona este sistema atual de treinamento? Pensando apenas em performance, o


professor de educação física aplica diversas técnicas e exercícios, com um foco intenso no
ganho de massa muscular e no emagrecimento. Muitos desses exercícios e técnicas
aplicados seguem as novas tendências e a moda.

Se fôssemos avaliar a preocupação desses profissionais com o impacto de tais exercícios


nas articulações, nas cartilagens e na coluna, poderíamos dizer que é apenas superficial.
Isso quem diz não sou eu, é um lugar comum entre os fisioterapeutas e ortopedistas.
Seguindo este modelo de treinamento radical, esse aluno pode, então, se lesionar.

Pois bem, então chegou a hora de o aluno parar. Ele terá que passar por um ortopedista
para ter um diagnóstico. Este, por sua vez, indicará uma fisioterapia e repouso. Nesse
processo, o aluno, completamente desmotivado e abatido, perde massa muscular e
ganha peso, tendo que ficar em repouso de dois a três meses, ou mais, dependendo da
lesão.

Depois que o fisioterapeuta trata e recupera esse aluno, através de um processo bastante
delicado, chato e exaustivo, ele está liberado para voltar aos treinos. E o que este aluno
faz? Muitas vezes, volta a repetir este mesmo processo.

Talvez o aluno até pegue leve com a articulação que foi lesionada, por um certo tempo,
mas, rapidamente, volta a ser tudo igual. Além do detalhe, é claro, que ele continuará a
pegar pesado com todas as demais articulações e estruturas físicas, podendo levá-las ao
desgaste e, finalmente, ao esgotamento.

Neste ponto, você pode estar pensando: “Pôxa, Nuno, eu frequento a academia há tanto
tempo e nunca me machuquei!”

Pois é, ou você representa um grupo de alunos que treina com moderação e seu treinador
é mais cuidadoso, ou você representa outra minoria: um tipo físico que resiste bem a
essas formas radicais de exercícios. Parabéns! A sua morfologia é privilegiada, porém,
isso não quer dizer que a conta não vá chegar um dia. Em muitos casos, esta conta só vai
chegar, realmente, daqui a 20 ou 30 anos.

Existem diferentes grupos treinando na academia. Para alguns grupos, principalmente


aqueles que estão acima dos 40 anos, a academia adota um treinamento moderado,
bastante conservador, até, entendendo que esse aluno não responde bem ao estímulo de
aumentar a carga constantemente e prefere apenas um treinamento de manutenção da
saúde. Porém, de forma geral, o estímulo deste modelo de treinamento é sempre cooptar
o aluno em um discurso de resultados rápidos, emagrecimento e ganho muscular
acelerado baseados no fast training. Essa é a cultura das academias, embora nem todos
que a frequentam participem desta cultura.

Se você adora academia e o seu treinamento está sob medida, essas observações podem
não ser válidas para você. O intuito deste livro é socorrer os alunos que não se adaptam a
esse modelo. Que esta carapuça sirva a quem se identificar.

Você já percebeu que as pessoas de meia idade ou idosos são uma minoria na academia?
Você, raramente, encontrará um “rato de academia” que resista a esse sistema do
bodybuilding por muito tempo. Isso porque, por ordem médica, a maioria pendura as
chuteiras ou se aposenta dos treinos radicais e pesados.

O maior prejudicado sempre é o aluno, que além de ter de lidar com a força de vontade
para estabelecer um novo hábito, ainda sofre com dores e lesões.

A responsabilidade por este quadro é muito mais do mercado do que da própria


faculdade, que até busca ensinar esse conhecimento preventivo. Mas, a meu ver, as
faculdades deveriam colocar este assunto em evidência, já que se trata de um tema sério
da saúde pública atual.

Minha esperança é de que as pessoas, ao lerem este livro, conscientizem-se disso e


negociem um treinamento mais moderado, e que os professores abandonem este
modelo do fast training, embora isso seja algo muito mais difícil e demorado (o meu pai
busca isso há mais de 50 anos), pois se trata de uma cultura muito enraizada no universo
do fitness.
Este conceito do treinamento com sofrimento é algo que é passado cuidadosamente, de
geração em geração. Este modelo militar é mimetizado pelos treinadores e fundou a
própria escola da educação física no mundo.

Porém, seria bom ressaltar que não existem vilões. Somos todos vítimas da própria
cultura do treinamento. Coloque-se no lugar do professor: imagine ele conversando com
um grupo de rapazes que treinam pesado e tentando falar de consciência corporal. Eu
adianto que esta conversa não será produtiva.

Da mesma forma, os donos de academia resistem a sair do lugar comum com medo de
se arriscarem em um terreno ainda não explorado. Nadar contra a correnteza não é
atrativo. Apenas com a união de todos, mercado, professores, faculdades, mídias e
alunos, podemos começar a virar esse jogo. Só através de campanhas consistentes
podemos trazer consciência à população.

Não podemos mais apoiar e sustentar esta cultura que prejudica milhões de pessoas em
todo o mundo.

“O CUIDADO COM O CORPO É UM PROJETO DE LONGO PRAZO, PORQUE, AFINAL,


NINGUÉM QUER VIVER POUCO. NÃO SEREMOS JOVENS ETERNAMENTE.”

(Rafael Mello)

MANUAL DO LEITOR

PENSAMENTO CIRCULAR

Neste livro, em certos capítulos, vou tentar explicar o inexplicável. Como funciona isso?
Existem certas coisas que as palavras não conseguem alcançar, que os recursos da
linguagem buscam a todo o custo explicar e definir, mas, no final, ficam apenas
cercando estas ideias, sem nunca tocá-las, de fato.

Alguns exemplos são a felicidade, Deus, a espiritualidade e outras coisas mais


imateriais que despertam a curiosidade dos poetas e fazem pessoas comuns tentarem
traduzir em palavras aquilo que percebem.

E, talvez, eu vá repetir e revisitar regularmente certas palavras e conceitos. Não pense


que essa repetição seja uma estratégia ou falta de criatividade. A realidade é de que
dispomos de poucas palavras e poucos conceitos que são inteligíveis e passíveis de
entendimento para a maioria das pessoas. Como não sou um intelectual, busco falar
de forma simples, sempre que possível.

Este conceito que chamo de pensamento circular, ou pensamento mântrico, é uma


forma de pensar em que as ideias avançam, avançam e voltam sempre para o início,
para o essencial, como forma de alicerçar e fundamentar este entendimento. A partir
dessa base, o pensamento pode avançar.

Como todos já percebemos, o ser humano moderno é ávido por novidade, que, através
do sistema de recompensa, provoca, em nosso cérebro, um estímulo extremamente
prazeroso.

A maioria das pessoas estão absolutamente cegas em relação a um conhecimento real


e profundo das coisas. Estão condicionadas a pensar o mundo de uma forma
superficial e apressada. Não estão acostumadas a se aprofundar em um pensamento
porque estão apenas consumindo ideias. É o que eu chamo de “vício da novidade”.

As novas gerações já estão doutrinadas nesta forma superficial e rápida de abordagem


do conhecimento e da vida. As pessoas estão tão aceleradas que não conseguem fixar
sua atenção em um vídeo na internet que tenha mais de dois minutos de duração.

As pessoas não têm mais paciência de viver o processo das coisas, o ciclo natural, que
acompanha o ciclo da natureza, o inverno, a primavera, o verão e o outono da alma. E
quando não vivemos este processo de forma integral, não avançamos em nossos
objetivos. A vida é um processo de maturação, gradual e sempre em transformação.
Os jovens não sabem lidar com as dificuldades e frustrações que fazem parte deste
processo. Idealizam chegar rapidamente, aos saltos, no auge do sucesso e da fama,
afinal, esse é o modelo vendido pela mídia. A fama e o sucesso instantâneo.

Tudo que peço é paciência para entender que a repetição e o aprofundamento são
recursos importantes na fixação das ideias. Você acha que sabe, mas ainda não sabe
realmente, porque parou só na primeira camada desta ideia, sem se aprofundar nela.

Às vezes, é necessário ler um texto inúmeras vezes e ficar refletindo sobre ele durante
alguns dias, meses ou anos, como é o caso de Krishnamurti, um grande pensador
indiano, que tenta explicar o inexplicável e usa o pensamento circular como recurso.

A cada leitura, uma nova camada de percepção se abre, e assim, podemos adentrar em
um mundo de conhecimento e estudo, como no caso da Cabala ou da Bíblia, por
exemplo. Na verdade, a grande maioria das coisas você só vai entender, realmente, a
partir do momento em que as experimentar.

Existem coisas que não precisariam ser explicadas, caso nós ainda fôssemos seres
inteiros, seres naturais, que vivessem inseridos na natureza de forma harmônica e
equilibrada. Existem coisas que nós deveríamos saber sem saber, ou seja, certos
conhecimentos estariam incorporados tão instintiva e naturalmente, que não haveria a
necessidade de explicação.

Nós, então, a exemplo da maioria dos animais, saberíamos sem saber que sabemos,
ou sem precisar explicar aos outros, já que não teríamos a linguagem e a inteligência
humana como recursos. Um desses conceitos é a ideia de corpo sagrado.
CORPO SAGRADO
Vida é movimento. Sendo assim, estar em movimento representa estar em sintonia com a
própria vida. O nosso corpo se transforma em um caminho profundo de conexão e
espiritualidade, porque nos integra à energia vital do universo, este mistério que dá vida a
tudo, a que chamamos de Deus.

Como isso ocorre, efetivamente? Sempre que realizamos atividades corporais que exigem
atenção plena, que necessitem de toda a nossa atenção e concentração, desligamos
automaticamente nossa mente, o ego e o sentido de “eu”.

Quando a nossa mente está funcionando a todo vapor, nós nos desconectamos do todo,
entramos em um mundo virtual que nos tira do momento presente. Eu ando pelas ruas e
vejo uma geração de jovens sem corpo. Como o celular e a internet raptaram o seu foco e
a sua atenção, o próprio corpo foi ficando cada vez mais esquecido.

Para entender melhor, é só pensar que a nossa mente é um grande computador. Quando
ela está funcionando, deixamos de interagir e perceber o mundo natural que se encontra
à nossa volta. É claro que continuamos interagindo com o mundo real, senão não
andaríamos ou conversaríamos, mas a mente está no comando e intermedeia todas as
nossas motivações e ações.

Quando você está pensando ativamente, perde a noção de corpo e a percepção do seu
entorno. Você olha para as pessoas e os objetos, mas não os vê, realmente, e nem os
percebe profundamente, pois está em outro mundo e sintonia, o mundo dos
pensamentos.

Tem uma imagem muito boa para explicar isso: pense se as pessoas estivessem morando
dentro da sua própria cabeça. Como seria isso? Seria como se a cabeça delas fosse uma
salinha e, nessa salinha, houvesse diversas imagens sendo projetadas. Essas imagens são
os pensamentos.

As pessoas ficam sentadas na cadeira dessa salinha, que é o interior da mente de cada
uma delas, e os seus olhos funcionam como duas janelas que se abrem para o mundo
exterior. Então, quando tem barulho lá fora, alguma coisa que lhes chama a atenção, elas
vão correndo para a janela e interagem com o mundo externo, com o mundo natural.

Porém, logo na primeira chance, elas retornam e sentam em sua cadeira para observar as
projeções de seus pensamentos, novamente. E, muitas vezes, mesmo quando estão
conversando, os pensamentos lhes chamam mais atenção do que a conversa em si, e elas
voltam a ficar atentas às projeções desta sala interna. Hoje em dia, por causa do
computador e do celular, as pessoas acabam se alternando, constantemente, entre viver
o mundo natural ou prestar atenção a este mundo interno das imagens e dos
pensamentos.

A nossa mente provoca um processo de separação e desintegração com o todo, e o


computador é apenas uma prolongação da nossa mente, a materialização de um mundo
virtual, que veio nos desconectar efetivamente do mundo natural à nossa volta.

Isso representa, atualmente, o maior risco à saúde e à sanidade mental já vivido por
nossa espécie. O celular e o computador prometem nos afastar definitivamente do
mundo natural, representando, para a humanidade, a segunda mordida na maçã, que
será expulsa pela segunda vez do paraíso (mundo natural). Não é incrível pensar que uma
maçã mordida seja o principal símbolo dessa transformação virtual?

O nosso corpo é o nosso refúgio, a nossa materialidade, o que nos mantém conectados e
integrados com o mundo natural. O nosso corpo é sagrado porque ele é a própria
expressão da natureza, ele é a própria materialização do milagre da vida.

Você sabia que somos um universo ambulante? Como assim? Existem, dentro do nosso
corpo, populações imensas de diversas formas de vida, interagindo de forma simbiótica e
integrada para gerar equilíbrio e homeostase. Essas populações se dividem em milhares
de espécies, diferentes seres vivos com diferentes funções. Isso lembra alguma coisa?
Esta não é exatamente a forma como o nosso mundo natural está estruturado aqui fora?

Acontece que esses “bichinhos” que moram em nosso corpo não têm consciência do que
existe além do seu universo conhecido. Assim como nós.

Você percebe porque o nosso universo é infinito? O universo é feito de mundo dentro de
mundos. Todo o nosso universo conhecido pode estar dentro de uma poeira que habita
outro mundo. Ou pode estar dentro de um DNA que está habitando o estômago de algum
outro tipo de ser vivo. Por isso, o nosso corpo é sagrado.

Ele é um mundo feito à imagem e semelhança da natureza, que chamamos de Deus. Você
é o deus, a entidade máxima que comanda toda esta fauna que vive em seu corpo.
Pensando desta forma, você consegue perceber o quanto a maioria de nós são deuses
totalmente inconscientes de seus papéis e de seus poderes? Se fôssemos seres
conscientes, cuidar do nosso corpo (do mundo que mora dentro de nós) seria uma
prioridade em nossa vida. Mas não é.

O homem polui e destrói o ecossistema e a natureza que existe fora dele, e também polui
e destrói a natureza que existe dentro dele. E vou dizer algo ainda mais incrível: quando
você morrer, um universo inteiro terá morrido.

8 VERDADE EM FORMA DE POESIA. ABRA COM DELICADEZA.

Portanto, o que seria o estado de epifania, de júbilo, o sentimento de conexão com o


Todo, tão vivido e propagado nas religiões de todo o mundo?

Efetivamente, isso ocorre porque fazer orações ou entoar mantras são formas de
meditação que desligam a mente, o sentido isolado do “eu”, e nos conecta com o Todo,
com o universo.

No catolicismo, unimos as mãos quando rezamos. O conceito é básico em todas as


formas de meditação, já que perdemos muita energia através das mãos, que
representam, aliás, uma forma de terapia curativa por si só.

O nosso corpo é sagrado porque ele é a nossa antena com o divino.

Os nossos ossos possuem um efeito “piezoelétrico”, isso quer dizer que são incríveis
condutores de eletricidade. Eles funcionam como uma antena, permitindo-nos conectar e
acessar diferentes energias, ondas e formas de vibrações.

Só podemos experimentar a espiritualidade através do corpo. Somente quando entramos


em um modo de funcionamento corporal e mental específico, seja através da respiração,
da meditação, da reza ou da meditação em movimento, ativamos estímulos e hormônios
essenciais, que desligam a nossa mente e nos conectam, automaticamente, à natureza, à
fonte primordial a qual chamamos de Deus.

Aquela história bíblica sobre nossa expulsão do paraíso ao morder a maçã do


conhecimento é uma parábola, uma fábula que tenta resumir a nossa realidade. Não é à
toa que a mente é simbolizada pela cobra, na Bíblia. A cobra é entendida em certas
culturas como um ser perigoso, traiçoeiro, ela nos enreda, enrola-se em torno de nós, nos
domina e paralisa, ela pode nos esmagar.

Porém, em muitas culturas, como no caso dos hindus ou do povo do antigo Egito, a cobra
é vista como um ser divino.

Curioso, já que o método Cobra surge como uma forma efetiva de desligar a mente (a
cobra traiçoeira que nos enreda) e nos reconectar com a nossa própria essência.

A inteligência e o conhecimento nos trouxeram, como um custo adicional, a perda da


nossa inocência e naturalidade. Cada vez mais separados do mundo natural, tentamos
refazer esta ligação através da religião e da espiritualidade.
Os animais não precisam de religião ou espiritualidade porque vivem conectados à sua
natureza de uma forma permanente. Isso porque o significado de religião nada mais é do
que “religar”, refazer a conexão com o divino.

Não devemos lamentar esta perda do paraíso. Essa é a nossa realidade.

E, assim como tudo na vida, existem vários aspectos positivos em torno dessa realidade.
Criamos um mundo novo, cheio de infinitas possibilidades; criamos a música, a dança, o
cinema e todas as formas de arte e expressão.

O homem é um animal extremamente criativo. Criamos um novo universo com o nosso


próprio universo particular. Podemos e temos potencial para criar universos infinitos
durante nossa existência. E cabe a nós determinarmos como faremos uso de todo esse
poder enquanto vivermos.

9 O ESTUDO DO CORPO PRODUZ UMA PÉROLA. EXISTE UMA CASA COM SEU NOME?
TEORIA DA ESCADA
Não trate seu corpo como um produto, como um bem de consumo. O nosso corpo é um
organismo, ele pertence ao mundo natural.

A lógica do consumo sustenta e estimula o uso de anabolizantes e toda sorte de


treinamentos radicais e nocivos à saúde. Como já falamos por aqui, a própria academia e
muitos treinadores compram essa lógica de mercado de modo excessivo, querendo
vender ao aluno formas instantâneas e comerciais de desenvolvimento físico. Eles ainda
não perceberam que, na melhor das intenções, querendo ajudar e estimular seus alunos,
estão prejudicando e impedindo um desenvolvimento gradativo, natural e orgânico do
treinamento.

Essa estratégia não ajuda, em absoluto, o aluno. Ao contrário: ela o força a ultrapassar o
seu limite. E esse é o motor por trás do crescente número de desistências no treinamento.
Você já percebeu que a maioria das pessoas começam e param o treinamento a todo o
momento?

Isso se deve a alguns fatores: expectativa alta, pressa de resultados (a nossa cabeça já foi
formada na lógica deste mercado), não respeitar a graduação, não respeitar a teoria da
super compensação, entre outros. O que ocorre, basicamente, é que a maioria das
pessoas começam a todo vapor, com grande ânimo e com altas expectativas, estimuladas
por uma venda que promete resultados milagrosos e se espelha no modelo de beleza do
mercado do fitness.

Em geral, o processo de desistência do treinamento acontece da seguinte forma: as


pessoas se encontram em um nível iniciante, que podemos chamar de nível 1 ou 2,
porém, de forma apressada, colocam o seu foco e objetivo no nível 9 ou 10, vivendo uma
relação idealizada com a atividade corporal. Isso produz uma intensa insatisfação e
ansiedade em relação ao treinamento. A internet é rápida, o consumo é rápido, o trânsito
é rápido, os prazeres são rápidos e fugazes. O mundo tem pressa. Por que, afinal, o meu
corpo não pode acompanhar essa realidade?

“O CONHECIMENTO É INCOMPATÍVEL COM A PRESSA. O TEMPO DA ALMA É


VAGAROSO. DESDE QUE A PRESSA SE INSTALA, A ALMA SE RECOLHE E SOMOS
PROJETADOS NO VORAZ APETITE DO TEMPO EXTERIOR.”

(Rubem Alves)

A maioria das pessoas sonham em chegar ao nível 7, 8 ou 9 o mais rápido possível, aos
saltos. Devido à pressa, podem se lesionar e parar o treinamento ou se desestimularem e
desistirem. Esta fórmula “expectativa e pressa, falta de graduação no treino e treinamento
chato e com sofrimento” é a grande bomba que detona a desistência coletiva. Mas, como
desarmar essa bomba?

Em primeiro lugar, todo aluno que inicia o nosso treinamento toma um choque de
realidade quando entra em contato com a nossa filosofia simples, didática e intuitiva. Nós
defendemos uma forma orgânica, natural e gradativa de treinamento.

A primeira quebra de paradigma é: acompanhar o ritmo da natureza é uma regra geral em


nosso método. Acompanhar este ritmo evita desistências, frustrações e não causa lesões.
Você não joga uma semente ao solo e dela nasce uma árvore adulta em poucos meses.
Outro recado que martelamos em nossas aulas é: caso você construa uma relação de
prazer com a atividade física, curtindo e vivenciando profundamente essa experiência
corporal (e não como uma obrigação, almejando apenas o resultado final), você estará
finalmente aproveitando o caminho. Sendo assim, os resultados se transformam apenas
em uma consequência natural do treinamento. Somente virando esta “chavinha” mental, o
treinamento adquire outra cor e outro sentido.

Outro paradigma difícil de ser quebrado é o “sem dor, sem ganho”, ou seja, convencer o
aluno de que não é necessário sentir dor e sofrer para obter bons resultados.

Toda a nossa filosofia e nosso discurso é uma tentativa de trazer o aluno para uma forma
natural, prazerosa, equilibrada e lúdica de treinamento. Outra desconstrução importante
é diferenciar performance de saúde, conscientizando o aluno a não adotar este modelo de
beleza artificial ou formas de treinamento que possam ser nocivas à sua saúde.

Pronto, agora que já adquiriu consciência e já entendeu os princípios básicos de um


treinamento integral, equilibrado e saudável, esse aluno já está preparado para vivenciar o
que chamo de “teoria da escada”.

Desenvolvi essa teoria para explicar de forma didática um conceito muito caro ao nosso
método: é possível evoluir e expandir os seus limites de forma suave e prazerosa. Basta
dimensionar o tamanho de cada degrau.

Como isso funciona? A graduação da intensidade do treinamento que propomos aos


nossos alunos é cuidadosa e sensata, é feita de pequenos degraus, que podem ser
vencidos com facilidade. Este processo estimula e resgata a confiança de cada aluno.

“UM PASSO À FRENTE E VOCÊ JÁ NÃO ESTÁ NO MESMO LUGAR.”

(Nuno Cobra)
Essa estratégia funciona em relação a tudo o que propomos, desde mudança de hábitos a
manobras na barra fixa. É como o meu pai sempre diz: nosso trabalho é fazer o difícil se
tornar fácil. Proporcionar ao aluno um caminho fácil e possível permite-lhe chegar a níveis
inimagináveis.

Nosso método proporciona um resgate da confiança e da fé em si mesmo. A cada passo


que damos, nos fortalecemos e passamos a acreditar que podemos ir em frente e além.
Em atletas, podemos perceber isso claramente: a confiança é algo que se autoalimenta.

No treinamento atual, esta graduação é feita aos saltos, ou seja, os degraus são poucos e
muito altos (para a grande maioria, eles se tornam intransponíveis). Sendo assim, exigem
muito esforço e força de vontade para serem vencidos. E força de vontade é uma palavra
que não existe em nosso método. Eu, pelo menos, nunca a pronunciei, durante toda a
minha vida, para nenhum aluno, porque ela é o extremo oposto daquilo que defendemos
como forma de treinamento.

Um dos conceitos fundamentais é de que fazer o que é prazeroso não requer força de
vontade. Ou seja: não deveríamos realizar uma atividade física apenas para se atingir
certo objetivo, e sim porque ela é gratificante por si só.

E como transformar esta atividade em algo prazeroso? Bom, este segredo vamos
desvendar pouco a pouco nos capítulos que virão a seguir.

Eu, particularmente, não gosto do conceito implícito na palavra “força de vontade” porque
ela remete ao conceito de esforço, de sofrimento. Além do mais, se transforma em uma
desculpa, um verdadeiro obstáculo à mudança. Esse conceito, por si só, diminui o nosso
poder, nos fragiliza, e nos coloca como reféns da nossa própria vida e das situações. Ele
nos vitimiza.

Durante a nossa infância, a maioria dos pais reforçam mais os nossos erros do que os
nossos acertos. É muito comum os pais dizerem ao seu filho que ele não tem força de
vontade ou é preguiçoso. O feedback dos pais é muito determinante nesta fase da nossa
vida, funcionando como um espelho que nos mostra quem somos, sendo assim,
crescemos com a absoluta certeza de que não temos força de vontade. Isso fica marcado
fortemente em nosso inconsciente. Como o inconsciente é fundamental no processo de
decisão, ele vai boicotar qualquer iniciativa de mudança. Nós só realizamos aquilo que
acreditamos, conscientemente e inconscientemente, sermos capazes de realizar.

Nossas convicções influenciam diretamente nossas vidas e experiências diárias. Nós


somos aquilo que acreditamos ser, nós mesmos impomos nossos limites e passamos a
vida respeitando este limite autoimposto. O que é o poder da fé, tão citada em todas as
religiões, senão a força e o poder que sentimos quando acreditamos em alguma coisa?
Sempre que temos um desafio e um obstáculo à nossa frente, pensamos: será que sou
capaz, será que vou conseguir?

Henry Ford tem uma frase interessante e muito famosa sobre esta questão: “Se você
pensa que pode, ou pensa que não pode, de qualquer maneira, você vai estar certo.” Ou
seja, a diferença entre aquele que consegue e aquele que não consegue é que um acredita
que pode e o outro, não, e, sendo assim, ele nem tenta.

Depender da força de vontade para treinar e, ao mesmo tempo, acreditar que você não
nasceu com esta qualidade, não ajuda ninguém a evoluir, concorda? O que acontece
quando você olha para uma árvore alta e não acredita que possa subir nela? Você nem se
atreverá a tentar, não é? Pois então, em relação à força de vontade é a mesma coisa:
como, a priori, achamos que não a possuímos, não avançamos em nossas metas.

“O VIÉS OTIMISTA É POSITIVO, PORQUE PARA OBTER QUALQUER TIPO DE


PROGRESSO, PRECISAMOS CONSEGUIR IMAGINAR UMA REALIDADE DIFERENTE DA
QUE VIVEMOS, E ENTÃO, PRECISAMOS ACREDITAR QUE ESTA REALIDADE É POSSÍVEL.”

(Tali Sharot)

Nós não dependemos da força de vontade para evoluir, podemos usar outro caminho
mais natural e fluido. Esse caminho é feito de uma combinação entre foco, consciência,
sabedoria e prazer. A mudança dessa “chavinha mental” passa pelo processo de
incorporar o conceito de “flow” e de presença. Quando realizamos uma atividade física
equilibrada, podemos aprender a curtir e aproveitar o momento presente. Isso muda
tudo, porque ela não se transforma mais em esforço, mas sim em prazer. Quando
estamos vivendo o momento presente, quando estamos nos divertindo, o futuro não tem
importância, o resultado não tem importância, até o erro passa a ter menos importância.
Você consegue subir um simples degrau de uma escada? Pois bem, transforme o
processo de subir esse degrau em algo prazeroso e divertido, e, assim, quando você
menos perceber, estará evoluindo de forma contínua e permanente.

A teoria da escada, que explica a importância da graduação no treinamento, constrói um


caminho real, possível e viável em direção às ambições de cada aluno. Isso serve de
conforto, de norte e horizonte no treinamento, resgatando nossa confiança e poder de
realização. Uma graduação sensata do treinamento é o fator primordial no sucesso do
aluno, sendo o segredo mais bem guardado dos melhores treinadores, porque requer
experiência, sabedoria, intuição e muito estudo.

Esta teoria foi criada em cima do conceito mais óbvio e antigo que existe. Tal conceito
defende que a forma mais sábia e sustentável de atingirmos os nossos objetivos é adotar
um ritmo realista, não idealizado, que nos permita evoluir “step by step” (passo a passo).
Quando você adota essa teoria no treinamento físico, não existe mais parada, o céu é o
limite.

Da forma que a aplicamos em nosso treinamento, é possível a uma senhora sedentária de


70 anos realizar manobras radicais na barra fixa, como uma oitava, por exemplo. No
modelo atual de treinamento, o idoso não tem vez, ele é totalmente subestimado em seu
verdadeiro potencial.

Como em nosso treinamento de fortalecimento criamos 15 graduações, é possível subir


facilmente cada um destes degraus, passo a passo, no tempo que for necessário e
recomendável a cada uma e isso se aplica a qualquer tipo físico. Nós nunca
ultrapassamos o limite de cada aluno, mas sim, empurramos este limite de modo
gradativo a patamares cada vez mais elevados, de forma consciente e cuidadosa.

Respeitando os limites de cada aluno, tudo é possível. É como costumo dizer: “Segundo a
lei da relativa-idade, a idade é algo absolutamente relativo.” Meu pai é um bom exemplo:
aos 78 anos, corre cinco vezes por semana e faz algumas manobras de ginástica olímpica,
na barra fixa, melhor do que eu.

“UMA PESSOA VELHA QUE É FLEXÍVEL, É JOVEM, AO PASSO QUE UMA PESSOA JOVEM
QUE É RÍGIDA, É VELHA.”

(Joseph Pilates)

A regra criada por Pilates se aplica também a outras qualidades corporais, como o
fortalecimento e o sistema cardiovascular. Alguns jovens já têm um coração “velho”. Um
exemplo interessante é o de uma aluna que tive; quando começamos a treinar, ela devia
ter por volta de 22 anos. No primeiro teste cardiovascular que fizemos, ela chegou à
pulsação de 175 bpm (batimentos por minuto) apenas andando em ritmo rápido. Isso é
assustador. Como ela não havia feito nenhum treinamento aeróbico em sua vida, fora o
hipismo, ela tinha uma estrutura cardiovascular semelhante à de um idoso. Mas os jovens
reagem rápido. Devido à nossa filosofia de treinamento, em apenas um ano, ela já corria
com uma pulsação de 140 bpm, sem passar por nenhum sofrimento em todo o processo.

O fator inercial é sempre o maior obstáculo. É como um carro: quando você começa a
empurrá-lo, no início, ele é muito pesado, mas, depois que o carro está em movimento,
este processo se torna muito mais fácil e fluido. No treinamento, acontece o mesmo;
depois que você embala, treinar se torna algo natural e habitual. Lembrando sempre que,
caso o treinamento seja equilibrado e moderado, esse processo será muito mais eficiente,
é claro.

O que ocorre, como no caso das pessoas que estão acima do peso, é que existe rigidez,
autocobrança e pouca amorosidade em relação a si mesmo. Este quadro gera um círculo
vicioso de culpa e autoboicote que, consequentemente, sabota qualquer evolução.
COMPETIÇÃO E TREINAMENTO
É óbvio que a atividade esportiva é mais positiva do que negativa para as crianças e
jovens, na maioria dos casos. Eles têm muita lenha para queimar e, sendo assim,
absorvem melhor estes impactos provocados no corpo pelos esportes de competição.

De qualquer forma, estes desgastes vão fazer parte de uma “poupança”. E o que é essa
poupança? É onde depositamos tudo o que provocamos de impacto e desgaste em nosso
corpo. Com o passar do tempo, isso vai se somando. Esta conta só será fechada em um
momento futuro. Eu vou dar um exemplo: um aluno meu desenvolveu uma grave lesão no
ombro, aos 40 anos, resultado direto da competição de natação que ele praticou na
juventude, a partir dos onze anos.

O problema é quando este conceito de esporte de competição contamina a maneira de se


pensar o treinamento de um adulto. Neste contexto, a fórmula se inverte, sendo mais
negativa do que positiva à nossa saúde, de uma forma geral.

Por que a competição é ruim ao treinamento? Porque a competição estimula um sistema


de comparação em que a referência é o outro. Esta obediência a um padrão externo
(comparação com o outro) não desenvolve a escuta, a autoconsciência e o respeito aos
seus próprios limites.

Estimular a comparação e a insatisfação é uma das bases do consumo. Neste processo,


somos convidados a abandonar e amortecer a nossa própria individualidade e identidade
em prol de um padrão externo, daquilo que é desejado e admirado pelo coletivo.

A competição destrói a capacidade de cada aluno de encontrar o seu ponto ideal (ponto
ótimo) de treinamento, ou seja, uma intensidade que provoque um estímulo um pouco
além do limite de adaptação de cada aluno e o faça evoluir continuamente, de forma
sustentável e segura.

“QUANDO DUAS PESSOAS ESTÃO CORRENDO JUNTAS, PROVAVELMENTE UMA DELAS


ESTÁ CORRENDO FORA DE SEU LIMITE CORRETO.”

(Nuno Cobra)

Por exemplo, outro dia, observei um grupo treinando no Parque Ibirapuera. Eram 12
pessoas, acompanhadas por um treinador, que as estimulava em um formato
competitivo a fazerem o maior número possível de flexões na barra fixa. Nesse grupo,
bastante heterogêneo, havia diversos tipos físicos, de diferentes idades e níveis de
adaptação a este treinamento. Este ambiente competitivo criado por esse treinador fez
praticamente todos os alunos errarem e ignorarem por completo o seu ponto ótimo de
treinamento. Como todos estavam apenas preocupados em fazer o maior número de
repetições (e, assim, não passarem vergonha em relação aos seus pares), o que assisti foi
a um espetáculo cruel de sofrimento e perda de qualidade do movimento.

Neste caso, o resultado final desse modelo de aula pode ser uma contratura muscular
intensa, uma queda brutal do sistema imunológico e um risco maior de lesões devido à
estafa muscular atingida. Apenas um dos alunos estava realmente bem preparado para
este desafio, por isso, conseguiu ganhar a competição realizando 25 subidas na barra. Ou
seja, este massacre ao corpo criado pela competição foi benéfico a apenas um tipo físico
dentre tantos outros, o que, para mim, é um perfeito exemplo do que ocorre atualmente
no treinamento.

Existe uma armadilha muito comum: como algumas pessoas não encontram nenhuma
motivação para fazer atividade física, procuram inventar uma razão por meio do estímulo
criado pela competição. É o famoso efeito “cenoura na frente do cavalo”. Para seguirem
em frente, pessoas com perfil competitivo buscam colocar metas severas para si
mesmas, buscando-as de uma forma pragmática. Essas metas costumam ser ambiciosas
e são entendidas como um desafio positivo, como uma forma de testar o próprio caráter
e determinação.

O que não é levado em conta neste processo é que o corpo, como todo organismo, tem
uma lógica própria – muito mais elaborada e complexa – que não segue,
necessariamente, os devaneios inconsequentes e fantasiosos da nossa mente.

Um bom exemplo disso seria se preparar para correr uma prova de 20 km em apenas um
ano, estando acima do peso ou partindo de um período inativo prolongado e uma total
inadaptação muscular e articular à corrida. O que, à primeira vista, pode parecer uma
forma positiva de treinar mais e emagrecer mais rápido, não passa de uma total
insensatez e ignorância.

O nosso corpo não é uma empresa, em que, quanto mais rápido e mais curto for o prazo
de execução de uma meta, mais positivo será o resultado. Na verdade, o que ocorre é
exatamente o contrário. Quanto mais pensamos no médio e longo prazo, melhor será o
resultado final. Quanto mais aceleramos o processo necessário a uma adaptação natural
e orgânica do nosso corpo, mais ele sofre e mais aumentamos os riscos de nos
lesionarmos.

Quem manda no treinamento não é a nossa cabeça, é o nosso corpo. O corpo é soberano,
ao contrário do que propõem certos slogans ingênuos e idealizados da autoajuda do
treinamento. Não é sábio colocar prazos e metas que são incoerentes com o ritmo e o
tempo de evolução do nosso próprio corpo.

A equação que precisa ser resolvida no treinamento é: como ter o melhor resultado
possível sem colocar em risco a integridade corporal? Quando pensamos com seriedade
nesta problemática, o prazo de execução de uma meta se impõe naturalmente, caso a
caso. Geralmente, quanto mais demorado e conservador for este prazo, melhor será o
resultado final.

A evolução é desejável, é natural no treinamento; ela vai estimular e provocar você a


experimentar novos desafios, e isso é positivo. O que não faz sentido é pular etapas ou
alimentar a ilusão sobre a competição como algo benéfico para sua saúde.

Se eu fosse dar um conselho a quem vive o treinamento com base em uma lógica
intensamente dependente da competição, eu diria: não seja ingênuo, deixe a competição
nesse nível extremamente exigente e desgastante apenas para os atletas profissionais. A
conta final pode não compensar.

Seria incrível se os mais jovens pudessem aprender com a maturidade e a experiência dos
mais velhos. Veja o que Abílio Diniz tem a dizer sobre treinamento e saúde.

“Todo exagero é sempre ruim. É como aquela frase: ‘A virtude está no meio’.

Toda vez que se vai para as pontas, para as extremidades, para os excessos, corre-se o
risco de dar um passo errado e perigoso. (...)

Não podemos esquecer que a principal função da atividade física é promover o bem-
estar clínico e psicológico. Qualquer efeito fora disso pode ser nocivo. Isso foi
comprovado por estudos mais recentes, que analisaram o impacto do treinamento
excessivo ao longo dos anos.

Muitos desses estudos detectaram, por exemplo, a incidência maior de problemas


cardiovasculares crônicos, entre eles a arritmia cardíaca, que me acometeu e tive de
encontrar uma forma de tratá-la. Outros males de curto e médio prazo são os famosos
problemas ortopédicos, principalmente nas articulações de quadril, tornozelo e joelho –
comum entre corredores –, no ombro e no cotovelo – comum entre nadadores e
tenistas.

Outro importante efeito colateral é a queda da resistência imunológica, o que aumenta a


suscetibilidade a diversos tipos de doenças – de pequenas gripes a problemas mais
graves nos sistemas digestivos, nervoso e cardiovascular.
Estou me estendendo sobre os cuidados com o excesso, porque as pessoas que leram
meu primeiro livro devem ter ficado com a impressão de que quanto mais esporte,
melhor, e que a quantidade de horas destinada à prática esportiva forma um atleta de
alto rendimento. Era por aí que eu pensava quando o escrevi, mais de dez anos antes.
Quero deixar claro que estava enganado. (...)

Hoje mais experiente, e após analisar os estudos mais recentes sobre o excesso de
exercícios, abandonei a prática de triatlo e da maratona. Muitas pessoas que conheço
fazem estas atividades de forma amadora em busca de superação pessoal e aumento da
autoestima, o que tem seu valor. Mesmo assim, não deixo de alertá-las sobre os
cuidados a serem tomados. Sempre é possível adequar os nossos objetivos ao que o
conhecimento científico na área de saúde aponta como mais apropriado.

Nunca se deve esquecer que os benefícios psicológicos alcançados por uma superação
pessoal só serão validos se a saúde for mantida. Sem saúde, nada disso faz sentido. (...)

Cometi exageros, é verdade. Por isso, ao escrever novamente sobre este fundamento,
decidi abordar todas as mudanças no meu programa de treinamento nesta nova fase.
Quero que os benefícios dessas descobertas sejam multiplicados e ajudem mais
pessoas a conquistarem ainda mais saúde.

Já cheguei a treinar em três períodos diários e tenho certeza de que boa parte dos
problemas que tive e alguns que ainda tenho estão associados ao exagero na atividade
física. Hoje realizo o meu treino diário em apenas uma sessão, sempre pela manhã, e
vario todos os dias os tipos de exercícios, modalidades e estímulos. (...)

A mensagem que realmente quero deixar é que o exercício regular feito ao longo da vida
proporciona mais saúde por muito mais tempo. Também quero ressaltar que você não
precisa ser obsessivo por exercícios para atingir esses benefícios. A obsessão por
esportes quase me privou dessa minha paixão. Para que isso não acontecesse, tive de
mudar conceitos e pensamentos que me acompanharam por toda a vida. Esse também
foi um novo desafio para mim, diretamente conectado com o meu conceito de aprender
e buscar ser melhor a cada dia.

Por tudo isso, a falta de consciência de algumas pessoas em relação à atividade física me
deixa atônito. Não ter essa consciência é uma injustiça, quase uma desfeita com Deus,
que criou essa máquina tão fantástica que é o nosso corpo. Ele só pede que você faça o
serviço básico de manutenção.
Às vezes – e isso serve para muita gente que se exercita – fazemos atividades sem nem
bem saber para que servem. Em busca do melhor para mim, li muito a respeito. Faço
tantas atividades físicas que meus amigos médicos brincam que, quando precisam de
uma consulta nessa área, vêm me procurar. Por isso tomei a liberdade de compartilhar
com você algumas coisas que aprendi em décadas de estudos.”

(Abilio Diniz, no livro Novos caminhos, novas escolhas, Editora Objetiva, 2016.)

10 A TRANSMISSÃO ORAL DE CONHECIMENTO É PODEROSA. O QUE PODEMOS

APRENDER COM A EXPERIÊNCIA ALHEIA?


NARCISISMO X CONSCIÊNCIA
Ficar magro, forte e bonito é apenas um efeito colateral do treinamento. É apenas uma
consequência natural de um treinamento equilibrado e bem estruturado. Podemos dizer
que é um bônus.

A priori, você pode alcançar esses objetivos através de uma infinidade de técnicas e tipos
de exercícios.

Esses subprodutos da atividade física não deveriam ser o foco principal de uma prática
corporal simplesmente porque essas são as partes mais fúteis e superficiais de um bom
treinamento.

Se pensarmos que a futilidade e a superficialidade são os maiores inimigos da consciência


e da espiritualidade, entendemos porque existe tanta ignorância, sofrimento e falta de
sabedoria no mundo.

O treinamento integral vem restaurar este corpo profundo e totalmente integrado. Um


corpo para ser inteiro precisa equilibrar a saúde do coração, mente, órgãos vitais, ossos,
articulações e tudo mais que se encontra escondido por trás desta superfície muscular.

Tudo o que nos é permitido saber sobre treinamento, que vira notícia, ajuda a vender
revista e pode ser mostrado em livros ou na TV, é o lado bonito desse cenário. O resto é
escondido para debaixo do tapete.

“VIVEMOS UMA CULTURA NARCISISTA, MAS SÓ MOSTRAMOS O QUE QUEREMOS


MOSTRAR. NÃO QUEREMOS FALAR DE NOSSOS FRACASSOS.”

(Karl Ove Knausgard)

Esta frase define a dificuldade que encontrei em fazer este livro. Quando fui realizar
entrevistas com alguns ex-atletas, ao final, eles me pediram para não divulgar o conteúdo.
Como eles viviam um quadro grave de diversas lesões incapacitantes, não queriam expor
isso ao público.

Um deles resumiu bem esta questão: “Nuno, se eu falar isso em público, vou parecer um
tanto quanto decadente e inconsequente.” Ao que respondi: “Não veja dessa forma, expor
isso ao público vai ajudar muito as novas gerações a repensarem as suas escolhas. Você
entende a importância disso?”

Esta cultura narcisista em que vivemos não permite que haja uma transmissão mais
profunda e sincera do conhecimento, da experiência e da sabedoria dos mais velhos. Uma
cultura que não quer falar do fracasso leva a isso. Falar sobre os nossos tombos e
dificuldades é a maior riqueza que podemos transmitir aos mais novos.

Por que as maiores revistas do país, todo verão, colocam, na capa, a última moda de
treinamento (nos últimos tempos, os mais radicais e os mais danosos à nossa saúde), em
vez dos casos clínicos das milhares de pessoas que se lesionaram devido às formas de
treinamento indicadas no último verão? Isso ocorre porque grande parte da mídia está
alinhada ao mercado de consumo. Para ela, interessam as notícias que dão audiência e
ajudam a vender. Temos que nos lembrar de que a nossa sociedade é especialista em
esconder o lado sujo e feio da vida real que se desenrola lá fora. Isso colabora
imensamente para a manutenção da exploração, do abuso, da violência e da infelicidade.

Vamos sacudir a poeira! Vamos começar a expor e denunciar aquilo que se encontra
escondido por baixo do tapete. Só assim podemos avançar e transformar realmente o
mundo em que vivemos. Vejam só onde chegamos: falar a verdade é um ato de extrema
coragem.
5° PARADIGMA: REVOLUÇÃO NO
TREINAMENTO
Praticar atividade física exige esforço e força de vontade, certo? Isso depende do tipo de
atividade que você pratica.

Imagine uma atividade física que faça você despertar motivado e excitado, mesmo às seis
horas da manhã. O seu coração palpitante anseia, incontrolavelmente, por reviver esta
experiência tão gratificante e estimulante.

Na realidade, você está totalmente viciado nesta atividade, devido ao fato de ela ser
intensamente divertida. A dose de adrenalina produzida por tal experiência causa uma
dependência física.

Quem já foi surfista se identifica com o relato anterior. Eu mesmo já acordei às seis horas
da manhã e fui surfar em dias extremamente frios, no sul do país, em que o mar estava
absolutamente congelante. A partir desse relato, faço a seguinte pergunta: essa atividade
requer esforço ou força de vontade? Na realidade, mal posso me conter em relação à
expectativa de surfar novamente.

Então, como a ciência explica a dificuldade de aderirmos à atividade física? Ela defende
que os homens, assim como os animais, têm três estímulos básicos que o fazem se
movimentar: a comida, o sexo e a fuga de predadores.

O nosso corpo busca economizar energia. Sendo assim, uma atividade física que não
inclua os três estímulos citados anteriormente não seria algo natural ou instintivo aos
seres humanos. Isso explicaria porque fugimos dos exercícios. Porém, refletindo com
mais cuidado, onde a teoria falha?

Esqueceram-se de incluir o “brincar”. Mesmo os animais adultos, como os felinos,


primatas, golfinhos e elefantes, gastam horas diárias em brincadeiras diversas, e, nesta
hora, a sua última preocupação é economizar energia.

O ser humano adulto também é carente de atividades lúdicas e prazerosas. Para a maioria
das pessoas, a única atividade divertida e relaxante disponível está ligada ao consumo de
bebidas alcoólicas e à vida noturna. Brincar é essencial ao ser humano, afinal, brincar é
celebrar a vida, é estar vivo da forma mais intensa e natural possível, é estar em “flow”, o
que permite voltar a se reconectar consigo mesmo e com o todo.
Além disso, o brincar, a descoberta do prazer em explorar o corpo e suas possibilidades,
traz um imenso ganho cognitivo. O que se traduz em mais concentração, inteligência,
foco, controle emocional, assertividade, entre outros. O exercício, assim, é o
conhecimento de si, uma exploração, como também um desenvolvimento da criatividade.
O exercício passa a não ser mais um recurso ligado a um prêmio futuro. O brincar já é o
objetivo e o prêmio em si. É assim que treinar pode vir a ser o momento mais divertido do
dia.

Nos dias atuais, crianças e adolescentes passam, em média, de oito a 12 horas por dia em
atividades estáticas, sentados em salas de aula, ou em atividades ligadas à televisão, ao
celular ou computador. Se não criamos um tipo de atividade corporal intensamente
divertida, equilibrada e interessante, que rivalize com o vício dos eletrônicos, o futuro da
humanidade está em risco. O nosso futuro será feito de pessoas cada vez mais obesas e
doentes.

Desenvolver alternativas de treinamento que sejam lúdicas e prazerosas pode ser uma
grande saída para este cenário alarmante, tanto para as crianças como para os adultos.
Sempre que vivemos uma experiência agradável e prazerosa, queremos repeti-la. No
entanto, sempre que vivenciamos algo desagradável e doloroso, tendemos a fugir desta
experiência, mesmo que de forma inconsciente.

Colocar o corpo em movimento através de uma atividade prazerosa deixa de ser uma
obrigação e passa a ser um momento de relaxamento e diversão.

11 COMO UMA CRIANÇA, QUE SE ENTREGA A UMA BRINCADEIRA SEM TER HORA PARA

ACABAR.

Carol, minha esposa, viveu uma experiência interessante e reveladora. Estávamos em um


parque infantil com a nossa filha de quatro anos, Maria, e ela e a Carol subiram em um
daqueles brinquedos clássicos, o trepa-trepa.

Um menino que subiu logo em seguida perguntou, surpreso:

– Por que você subiu aqui?

– Para brincar – ela disse.

– Você brinca? – disse, espantado, o menino.

– Claro que eu brinco, não é legal brincar?

– Eu adoro.
Logo depois, o menino gritou bem alto para a sua irmã de sete anos, que estava ao lado.

– Olha, Isa! Um adulto que brinca!

O meu sonho é que, em um futuro não muito distante, o seu treinador, em vez de lhe
dizer “vamos treinar?”, que é entendido como “vamos sofrer?”, possa, sedutoramente, lhe
propor: “vamos brincar?”.

“O MUNDO É UM PLAYGROUND, NÓS SABEMOS DISSO QUANDO SOMOS CRIANÇAS,


MAS NOS ESQUECEMOS DISSO QUANDO NOS TORNAMOS ADULTOS.”

(Frase da personagem de Zooey Deschanel no filme Sim Senhor!)


TREINAMENTO SUSTENTÁVEL
A nossa sociedade luta, há muitos séculos, por um tratamento mais humanizado para os
animais. Porém, nos esquecemos de que, no modelo de treinamento atual, não existe um
tratamento humanizado ao próprio ser humano. Nem um cavalo adestrado, um touro de
rodeio ou um cão policial sofrem o que um ser humano sofre ao se sujeitar a certas
formas de treinamento de alta intensidade que estão em voga, atualmente.

Essa disciplina no grito, austera e militarizada, é uma forma cruel de subjugar o indivíduo
e inibir sua própria identidade. Esse processo insensibiliza e embrutece o ser humano.
Precisamos nos unir em defesa de todos os animais que sofrem maus tratos. Eduardo
Moreira, nosso emérito aluno, que através do bestseller Encantadores de vidas faz um
depoimento contundente e apaixonado sobre nosso método de treinamento, realiza uma
nobre missão ao defender vigorosamente a doma humanizada para os cavalos por meio
do método de Monthy Roberts. O Dudu é, sem dúvida, o aluno que mais colaborou na
divulgação da nossa metodologia para novos públicos.

Não existe futuro para o treinamento chato ou com sofrimento. Essa frase pode ser
entendida de duas maneiras: como o anúncio de uma grande revolução no treinamento
ou como a constatação de que, caso não se desenvolva um mínimo sentido e prazer na
atividade corporal, ela se tornará uma forma não sustentável de treinamento.

Existem diversas alternativas mais divertidas ao treinamento convencional, como circo,


capoeira, surf, stand up paddle, remo, escalada, wakeboard, parkour, slackline, entre
outras. A dança é também uma ótima opção, como no caso da técnica de improvisação e
contato, que estimula a criatividade e a consciência corporal. A yoga é uma técnica
profunda e bastante completa, mas deve ser praticada com moderação e cuidado devido
aos riscos de lesões, assim como no caso das artes marciais.

A última novidade são as festas matinais em que as pessoas se encontram para dançar e
paquerar, em uma balada regada a suco e brunch, às sete horas da manhã. Assim, elas se
acabam de dançar e, depois, vão para o trabalho relaxadas e revigoradas. Vale tudo na
busca por mais sentido no treinamento e para fugir destes modelos mais radicais.

Não que eu seja contra o treinamento de alta intensidade. Aliás, ser a favor de uma coisa
não quer, necessariamente, dizer que você seja radicalmente contra outra. E isso precisa
estar bem claro.

O recurso do treinamento de alta intensidade é uma forma usual de treinar atletas de


competição ou amadores, mesmo assim, em uma proporção equilibrada, cuidadosa e
bem planejada. Em média, na proporção de 20% a 30% do volume de treinamento. É tudo
uma questão de expertise e medida. De qualquer forma, na minha opinião, este
treinamento só é interessante para os atletas. Neste caso, até faz sentido, já que eles são
obrigados a aumentar o seu limite de adaptação a um ponto extremo.

Talvez você tenha ficado surpreso ao perceber que o treinamento moderado não equivale
a um risco moderado de lesões. Seria o mais previsível, não é? Por que isso ocorre?
Porque ele representa o ponto ótimo do treinamento, em que tudo atinge um nível de
otimização equilibrada e perfeita. Menos do que isso, pode ficar aquém do seu potencial
em relação à sua performance, mesmo que ajude imensamente a sua saúde, como no
caso de uma caminhada leve, de apenas 30 minutos. Lembrando que um treinamento
leve pode ser o ideal para alguns tipos físicos. Em geral, a maior dificuldade da população
é entender a diferença entre performance e saúde, coisas bem distintas.

Existe um amplo espectro de possibilidades entre o treinamento moderado e o de alta


intensidade, ao mesmo tempo em que existe, também, o treinamento de extrema
intensidade.

Quando pensamos no esgotamento do modelo de treinamento com sofrimento, é inevitável


analisarmos o CrossFit. Você sabe o quanto o “no pain, no gain” ganhou uma nova dimensão?

12 O QUE ESTÁ EMBUTIDO NESSAS PRÁTICAS EXTREMAS DE TREINAMENTO?


DESCONDICIONAMENTO FÍSICO
Um corpo que se transforma em uma espécie de uniforme inibe a valorização da própria
identidade. A palavra uniforme entrega o seu sentido: uma só forma. O consumo
massifica e uniformiza o modelo de corpo.

Devido à padronização das técnicas e dos artifícios usados no treinamento, a academia se


transformou em uma fábrica de corpos que seguem uma mesma fôrma e modelo.

Esta produção em série, típica do consumo, faz com que o corpo não seja mais uma
representação autêntica da própria identidade, mas se transforme, efetivamente, em uma
armadura de músculos que a encobre e asfixia.

Um corpo natural, que seja uma forma legítima de identidade, pode ser fruto da
experimentação de diversas práticas, como surf, kung fu, dança e natação, por exemplo. E
essa mistura aleatória de paixões e preferências transformam o corpo em uma perfeita
tradução do seu proprietário, permitindo um enorme repertório de sutilezas, variações e
qualidades corporais.

A uniformização dos corpos é assustadora, transforma os seres humanos em um exército


obediente e subjugado a um padrão de consumo, sem identidade e sem variação. Esse
exército obediente ao consumo e às disciplinas ditas saudáveis está disposto a tudo para
ser valorizado e reconhecido socialmente. Basta dizer que usar anabolizante significa
colocar em risco a própria vida.

Este corpo do bodybuilding foi treinado, estimulado e condicionado a um padrão de


movimento que termina por engessá-lo. Qualidades essenciais ao movimento, como
agilidade, prontidão, reflexo, coordenação, precisão e maleabilidade, entre muitas outras,
ficam atrofiadas e inibidas. Existe um repertório enorme de movimentos que devem ser
estimulados como os de articulação, equilíbrio, estabilização, flexão, extensão, rotação e
potência, o que nos permite explorar todos os planos possíveis dos movimentos (sagital,
transversal e frontal), e diferentes formas de contração (concêntrica, excêntrica e
isométrica).

O maior desafio que encontramos, em nosso trabalho, é descondicionar os alunos que


chegam impregnados dessa mentalidade do treinamento corporal proposto nas
academias. Qualquer pessoa que tenha passado por uma escola, clube ou academia já
está contaminada e, de certa maneira, doutrinada nesse conceito.

Do mesmo modo, quebrar este condicionamento vivido pelos próprios treinadores em


relação ao modelo e à forma de treinamento é um dos maiores desafios atuais. O pior é
que a maioria das pessoas acreditam que esse modelo de treinamento é a única forma de
progredir e obter resultados. É comum vermos pessoas associando a qualidade do
profissional ao rigor excessivo com que ele trata o treinamento.

Outro dia, no parque, pude ouvir uma mulher comentar com sua amiga: “O meu personal
é ótimo! Ele é super rigoroso. Ele nunca me dá moleza, eu saio da aula quase morta.
Menina! Eu fico praticamente destruída depois da aula. No dia seguinte, parece que levei
uma surra! Parece que fui atropelada por um caminhão, eu mal consigo sair da cama!”
(risos). E ela continuava, empolgada: “Eu demoro de dois a três dias para me recuperar.
Mas está valendo a pena o sacrifício. Eu vou te indicar o meu personal, ele é maravilhoso!”

Pois é, esta visão do treinamento com sofrimento, infelizmente, é compartilhada pela


maioria da população. De certa forma, através de depoimentos como esse, constatamos
que ainda vivemos na Idade Média do treinamento corporal. Precisamos, urgentemente,
trazer um pouco de luz ao conhecimento do corpo. Que venha logo o Iluminismo!

O que é a escuta interior? Está preparado?

13 “O TÔNUS DE UM CORPO É A MÚSICA DE UM SER.”


BREVE HISTÓRIA DO TREINAMENTO

As origens mais remotas da educação física remontam à 3.000 a.C., na China. O


imperador guerreiro Hong Ti, “pensando no progresso do seu povo, pregava os
exercícios físicos com finalidades higiênicas e terapêuticas além do caráter guerreiro.”

Na Índia, no começo do primeiro milênio, os exercícios físicos “eram indispensáveis às


necessidades militares, além de possuírem caráter fisiológico.” O budismo atribuía aos
exercícios o caminho da energia física, da pureza dos sentimentos, da bondade e do
conhecimento das ciências para a suprema felicidade do Nirvana.

“O yoga tem suas origens na mesma época, retratando os exercícios ginásticos no livro
‘Yajur Veda’”. Porém, sem dúvida nenhuma, a Grécia foi a civilização que marcou e
desenvolveu a educação física através da sua cultura. Nomes como Sócrates, Platão,

Aristóteles e Hipócrates contribuíram muito para conceitualizar a educação física e a
pedagogia. É de Platão o conceito de equilíbrio entre corpo, mente e espírito. A derrota
militar da Grécia para Roma não impediu a invasão cultural grega na civilização
romana. Porém, “a atividade física volta a ser destinada apenas às práticas militares. A
célebre frase ‘Mens Sana in Corpore Sano’, de Juvenal, vem desse período romano.”

A influência da maioria das formas de ginástica e exercícios que perduram até os dias
de hoje começou a se desenvolver na Idade Contemporânea. “Quatro grandes escolas
foram as responsáveis por isso: a alemã, a nórdica, a francesa e a inglesa.”

(Quadro resumo das informações de Luiz Carlos de Moraes, no artigo História da


Educação Física.)

Na própria cultura grega, já vemos uma divisão do treinamento físico que se mantém até
hoje: de um lado, o corpo bruto, rígido e militar dos espartanos, e do outro, um corpo
sensível, criativo e maleável, ligado à arte e à filosofia, da cidade de Atenas.

Realmente, é incrível constatar o quanto a história se repete. Estudando os conceitos


defendidos em 1862 pelo Dr. Diocletian Lewis, um médico e fisiologista norte-americano,
vemos que esta dicotomia entre o modelo de corpo militar e o conceito de corpo criativo,
já estava presente há muito tempo no universo do treinamento. Acho que o mais sensato
seria admitir que esses dois opostos podem conviver em mútua tolerância e aceitação,
afinal, é apenas uma questão de identidade. Existe gosto para tudo.
Porém, para os estudiosos do treinamento, já em 1862, era claro que este modelo de
corpo rígido e militar não seria um modelo de corpo ligado à saúde e à funcionalidade,
que servisse para a maior parte da população.

Você pode conferir mais sobre isso na chave a seguir com um trecho compilado de uma
dissertação de mestrado que analisa a história do treinamento corporal.

14 QUE TAL VIAJAR NO TEMPO E VOLTAR AO ANO DE 1862? COMO ERA O TREINAMENTO

NAQUELA ÉPOCA?

Depois de estudar a história do treinamento, percebi que este movimento do treinamento


consciente que estou criando não é novo, e sim, é algo que está presente de forma cíclica
em alguns períodos históricos, a fim de combater a influência militar e desportiva na
forma como tratamos nosso corpo.

A vigorexia e a busca de um corpo forte e belo, por exemplo, é algo que está presente no
treinamento desde os primórdios da sua fundação. A diferença é que o grupo que se
atraía por este modelo era apenas uma ínfima minoria. Hoje, com a globalização e o
poder da divulgação em massa das mídias e da internet, esse modelo foi
institucionalizado, explorado comercialmente e se propagou em larga escala.
O MOSQUITO DA VIGOREXIA
Reforçando o conceito de integração do conhecimento, o livro mais importante para se
entender o treinamento físico, atualmente, não é um livro de treinamento, mas, sim, um
livro de antropologia chamado Nu e Vestido - Dez antropólogos revelam a cultura do
corpo carioca, organizado pela talentosa Mirian Goldenberg. Quando finalizei meu livro,
tive acesso ao seu conteúdo e percebi, perplexo, que ele complementava e aprofundava o
meu de uma forma mágica.

Este olhar antropológico destrincha com precisão cirúrgica o universo do culto ao corpo.
Essa autópsia comportamental é feita com sofisticação e detalhamento, como veremos
ao longo deste livro.

15 CONHEÇA O PERSONAL DEALER.

A vigorexia se caracteriza pela compulsão por práticas de exercícios de forma continuada,


em um volume exagerado. Este distúrbio evolui para um quadro obsessivo-compulsivo,
levando ao consumo de anabolizantes. Neste processo, o vigoréxico diminui a sua vida
social e chega a ingerir até cinco mil calorias por dia, entre diversos outros suplementos,
passando a dedicar várias horas diárias ao treinamento.

Ele passa a sofrer de pensamentos persistentes acerca da própria imagem, sempre em


desacordo com um ideal, normalmente acompanhado por rituais de se olhar no espelho
constantemente. Além de sobrecarregar os rins, coração e outros órgãos, o vigoréxico
sofre vários problemas ósseos e articulares, encurtamento dos músculos e tendões,
impotência, diminuição dos testículos e uma grande propensãoao câncer de próstata.

É comum dizer que as mulheres são obcecadas por ilusões de perfeição física e magreza,
mas, atualmente, é cada vez mais comum os homens padecerem do mesmo mal. Existe
um fenômeno entre os jovens, pouco discutido e pouco estudado, mas bastante visível: a
multiplicação exponencial de corpos bombados e malhados por metro quadrado, em
shoppings, academias e casas noturnas. Em uma idade em que o jovem é bastante
suscetível aos padrões sociais, um modelo de corpo cada dia mais exigente provoca todo
tipo de abuso e exagero.

Os pais precisam estar atentos a essa compulsão ao crescimento muscular e à


insatisfação crônica com a própria imagem, que, nos meninos, começam cada vez mais
cedo, já a partir dos dez anos. O grande problema é que este exagero e a falta de medida,
muitas vezes, passam despercebidos, já que um filho comprometido com a própria
“saúde” é algo bastante desejável aos pais. Caso seu filho apresente um crescimento
muscular muito acelerado ou um volume muscular irreal, este é um sinal claro de que ele
está consumindo anabolizantes, o que, infelizmente, é comum neste universo do fitness.
Dentro desse universo paralelo que é a academia, as pessoas acreditam que isso é
normal. O mundo criado ali dentro é um convite irresistível à vigorexia. Todo o ambiente e
a cultura da academia e do bodybuilding colabora para este quadro. O jogo de espelhos, a
exposição e a comparação constante dos corpos e músculos, as conversas, a valorização
do culto ao corpo e o estímulo ao uso de anabolizantes e suplementos, tudo leva à
vigorexia.

É muito difícil frequentar uma academia e não ser mordido pelo mosquito da vigorexia em
algum nível, por mais sutil que ele seja. Como um volume de treinamento muito intenso
limita a energia e a disposição para outras tarefas, com o tempo, o vigoréxico abandona
uma vida social mais saudável e coloca todo o seu foco no treinamento. Este é o sintoma
mais grave de que algo está fora do controle.

Uma questão complicada neste distúrbio, assim como no caso da anorexia, é que o
paciente resiste imensamente em reconhecer que está vivendo uma distorção da
autoimagem, por mais avançado que já esteja este quadro.

Só quando a situação se torna extrema é que o paciente começa a admitir o problema e


pode, enfim, aceitar alguma forma de tratamento.

Veja o depoimento de uma mulher com vigorexia: “Eu estava muito grande, igual a um
homem, estava tomando bomba direto... Hemogenin todo dia, Durateston e Testex
toda semana, e malhava feito louca, no mínimo, três horas por dia de domingo a
domingo. Me enchia de clara de ovo, tomava 280 claras toda semana, quarenta por
dia... Um dia, percebi meu estado. Estava enlouquecendo, só queria malhar, malhar e
malhar, não me preocupava mais com nada a não ser crescer. Só pensava no meu
corpo... Nenhum cara queria nada comigo, e eu não sou sapatão... Todos me olhavam,
porque eu chamava a atenção, mas era porque eu estava estranha, parecendo macho.
A gota d’água foi quando entrei no banheiro de um shopping e as garotas que estavam
lá dentro disseram que ali não era banheiro de homem... Acabaram chamando o
segurança... Ele veio e disse que era 'um absurdo travesti no shopping, ainda mais
querendo ir ao banheiro'. Depois disso, entrei em depressão, já estava percebendo que
alguma coisa não estava certa nessa história... Comecei a fazer terapia, análise, a me
cuidar, a tentar me organizar, meu corpo estava totalmente doido... Não menstruava,
sentia enjoo, não dormia, tive que tomar hormônio, só que, agora, feminino. Quase
morri, porque me dei conta de como estava estranha. Só conseguia me relacionar com
algumas pessoas da academia, meu mundo se resumia a essas paredes aqui, mais
nada.” (Beta, 28 anos, instrutora de musculação em depoimento ao livro Nu e Vestido.)

Um dos efeitos colaterais do uso de anabolizante é o crescimento dos ossos faciais,


principalmente o queixo, que, no caso da mulher, pode ficar bastante masculinizado. O
que explica este fenômeno de algumas mulheres passarem a ser confundidas com um
travesti. Além do fato de a voz ficar muito mais grave devido ao uso de hormônios
masculinos. Eu me lembro de um amigo, que tomava muito anabolizante e que, na época,
além de ficar totalmente careca em apenas dois meses, ficou com a cara igual a de um
cavalo, tamanho foi o crescimento do seu queixo.

Christian Dunker, professor do departamento de psicologia clínica da USP, explica que há


casos em que, tal qual um vício em drogas, o exercício físico se torna a razão e o porquê
da vida. Neste contexto, pessoas são capazes de deixar tudo de lado, família e amigos,
para se dedicar a esta ilusão do corpo perfeito. “Cria-se dependência por esta forma de
vida que acompanha a rotina exagerada de exercícios, com métricas de resultados,
avaliações e competição. É uma situação paradoxal: quanto mais nos esforçamos para
ajustar o corpo ao ideal de boa forma, mais nos sentimos insuficientes e inadequados”,
diz o psicanalista. (Revista Cidade, setembro de 2015, Trip Editora.)

A malhação compulsiva é uma droga muito perigosa. Ela é muito estimulante e


gratificante. Os músculos vão crescendo e você começa a se sentir mais poderoso, mais
bonito, seguro de si e desejado.

Quando as pessoas percebem que o limite natural do crescimento muscular e do


treinamento não vai lhes trazer aquele corpo e volume muscular tão sonhados e
estimulados nas academias, elas, fatalmente, poderão apelar para o uso de anabolizantes.
Ninguém fala muito sobre isso, mas o tráfico de anabolizantes nas academias é uma
grave questão de saúde pública, atualmente. A sedução do crescimento muscular
instantâneo é irresistível a uma grande parte dos jovens. Nesta fase da vida, eles tendem a
ser mais irresponsáveis e inconsequentes. Eles querem consumir a vida a toda velocidade,
não se importam, efetivamente, com o que pode acontecer, em um futuro distante.

Não falo tudo isso como um outsider, eu mesmo fui mordido pelo mosquito da vigorexia
aos 20 anos de idade, e, mais tarde, frequentei a academia como professor particular por
vários anos. Conheço cada detalhe deste universo específico. Em 1986, eu acompanhava
com o meu pai o treinamento do Ayrton Senna, parte do treino era feito na academia
Training Club, como forma de complementar certas exigências de fortalecimento
específicas.
Nessa época, eu era muito tímido com as mulheres, e vislumbrei, no treinamento com
pesos, uma forma bem promissora de ficar muito forte rapidamente. Eu me apeguei a
isso e comecei a treinar com muita determinação e uma dedicação extrema por duas
horas diárias, seis vezes por semana, religiosamente.

Com o tempo, passei a colocar um foco imenso no treinamento. Eu sofria com uma
tensão e rigidez corporal crônica e não tinha energia para sair à noite. Vivi esse processo
de desequilíbrio e exagero durante um ano e meio. Primeiro, tive uma tendinite no ombro,
devido ao excesso de carga, e mais tarde, outra tendinite nos dois cotovelos. Esta
combinação entre excesso de carga e exercício localizado é extremamente perigosa. As
minhas articulações nunca mais foram as mesmas. Eu fiquei realmente muito forte, mas
este exagero, com o tempo, acabou se tornando uma leve depressão. Neste ponto,
acordei desta loucura toda, parei com a musculação com pesos e comecei a meditar e
reequilibrar a minha vida social, que tinha chegado a um limite perigoso. De qualquer
forma, nunca usei anabolizante e não cheguei a atingir um quadro mais grave de
vigorexia.

Analisando um pouco mais a fundo esta questão, podemos observar que toda
propaganda ou programa de televisão que torna glamouroso o modelo de corpo
bombado está, indiretamente, servindo de estímulo ao uso de anabolizantes.

A ex-Big Brother Maria Melilo é um bom exemplo disso. Ela confessou que, logo que foi
selecionada para o programa, voltou a tomar anabolizantes, como forma de se mostrar
mais forte, bonita e definida para as câmeras. Logo após ganhar o prêmio do BBB, ela
descobriu que sofria de câncer no fígado. Maria usou anabolizantes regularmente por sete
anos para conquistar um corpo sarado e definido, e devido ao tratamento do câncer, teve
que retirar 70% do fígado.

Não há limites seguros para o uso de anabolizantes, eles efetivamente podem custar a
sua vida. Todo marombeiro gosta de afirmar que, sabendo tomar, não existem riscos. Não
se engane, ficar muito forte em poucos meses é muito sedutor, mas se expor a este risco
extremo é uma insanidade.

Tomar anabolizante é uma roleta russa, é impossível prever quais serão os efeitos
colaterais para cada pessoa, especificamente. Tem fisiculturista que já toma há 20 anos e
não tem (ainda) grandes alterações, como também há pessoas que tomam apenas
poucas doses e sofrem graves complicações de saúde. A estratégia de criminalizar o seu
uso tem se mostrado uma péssima estratégia, em diversos sentidos. Além de fomentar
um mercado negro e dificultar o controle de qualidade do produto que está sendo usado,
em larga escala, este processo inviabilizou igualmente pesquisas mais concretas sobre o
assunto. Como o tema virou tabu, virou um crime, há muitas décadas não existem
condições para a pesquisa científica.

Esta foi a deixa para o crescimento dos argumentos favoráveis ao seu uso, defendendo
que não existem provas efetivas contra os anabolizantes. Assistimos, então, a uma
explosão e banalização do seu consumo, nas últimas décadas. A situação atual é
gravíssima.

16 AFINAL, O ANABOLIZANTE FAZ O MÚSCULO CRESCER OU SÓ INCHAR? O QUE

ACONTECE QUANDO VOCÊ PARA DE TOMAR?

A que ponto chegamos: o ambiente supostamente saudável da academia pode


representar um risco à saúde pública. Hoje, recomenda-se que pais realizem exames
antidoping regulares em jovens que frequentam a academia. Este temor de expor os
filhos a estes riscos da vigorexia já fazem alguns pais proibirem seus filhos de frequentar
este ambiente.

17 O QUE ESTÁ POR TRÁS DO ESPELHO?

A indústria do bodybuilding é um grande case de marketing. Como um marketing bem


feito consegue vender um modelo de treinamento que pode ser extremamente danoso à
nossa saúde (no caso da vigorexia, com alto risco de lesões, enrijecimento corporal e uso
de anabolizantes) e, mesmo assim, é capaz de empacotar este produto como algo
saudável? Mistérios do marketing e do consumo.

As academias deveriam pensar seriamente em como reduzir e combater o uso de


anabolizantes entre seus alunos, através de ações e campanhas mais consistentes. Afinal,
elas são as mais atingidas pelo impacto negativo provocado pelo consumo de
anabolizantes.

Este processo passa, prioritariamente, por construir uma nova cultura e mentalidade
dentro do universo do fitness.
VIVENDO NA PRISÃO DA APARÊNCIA
Qual modelo de beleza é compartilhado pela maioria das pessoas? Qual modelo tem
realmente um poder de atração e sedução aos nossos pares?

A resposta para essa pergunta é apenas mais uma prova do quanto o consumo e a mídia
nos impedem de enxergarmos a realidade e o quanto ela é artificial e fabricada.

Os modelos de beleza se tornaram artificiais e não correspondem mais ao que é natural e


saudável. Não fazem mais sentido em relação à nossa herança evolutiva e ao que, durante
milhões de anos, nos guiou na escolha de nossos pares.

Quando perguntamos à imensa maioria dos homens qual o modelo de corpo que os atrai,
eles são enfáticos em realçar que preferem mulheres mais volumosas e cheias de curvas.
A maioria não é atraída por mulheres que sejam muito magras ou definidas. Muito menos
pelas modelos de magreza extrema que ilustram as revistas de moda. Isso soa um tanto
estranho, não é? Ao mesmo tempo, esse modelo hiper magro é o mais perseguido pela
maioria das mulheres.

Da mesma forma, quando perguntamos às mulheres qual o modelo de corpo que as atrai,
elas são igualmente enfáticas em afirmar: gostam de um corpo mais atlético, definido e
discreto, sem um volume muscular exagerado. Este modelo mais funcional e flexível se
assemelha ao corpo de um surfista, bailarino, ginasta ou um lutador de artes marciais. A
maioria não se sente atraída por corpos muito volumosos e rígidos. No entanto, por mais
estranho que possa parecer, esse modelo volumoso e bombado é o mais perseguido pela
maioria dos homens nas academias.

Em entrevista para o site do Dr. Drauzio Varella, o médico do Comitê Brasileiro Olímpico
Dr. Bernardino Santi revelou que, por meio de uma pesquisa, descobriu-se que 75% das
garotas entre 15 e 25 anos não gostam de rapazes muito musculosos. Ele disse: “Por
paradoxal que possa parecer, o rapaz procura ter um corpo bonito e se expõe a situações
de risco que, às vezes, não têm volta para conquistar garotas que não se interessam por
rapazes com musculatura excessivamente desenvolvida.”

Aliás, conversando com uma amiga durante um fim de semana na praia, tive um insight
sobre o que leva as mulheres a desenvolverem essa obsessão pela magreza. Ela
reclamava que precisava emagrecer bastante e eu discordei, argumentando que os
homens gostam de mulheres com curvas generosas.

Do meu ponto de vista, ela estava ótima, eu não entendia o porquê desta angústia sem
motivo. Ela estava lendo uma revista Vogue que havia trazido junto com duas outras
revistas de moda e disse: “Pôxa, acho que a gente fica vendo tanto estas modelos
magérrimas das revistas que, com o tempo, a gente assimila mentalmente este modelo.
Depois, fica difícil olhar no espelho e se achar magra.”

Na hora, passei a refletir sobre esta questão. Se isso acontece inconscientemente com
uma pessoa tão culta, madura e esclarecida como ela, imagine o que o modelo de beleza
não pode fazer a uma adolescente. E tal modelo rigoroso de magreza e definição
muscular surge de forma onipresente em todas as mídias.

18 E SE PUDÉSSEMOS LER O DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE COM BULIMIA?

Se você observar durante o carnaval, verá também um outro modelo de beleza artificial. A
moda das pernas extremamente volumosas e masculinizadas entre as mulheres. A
maioria das madrinhas de bateria acabam aderindo a esta nova “tendência”, e o resultado,
em alguns casos, chega a ser assustador. Uma perna torneada de forma natural pode ser
atraente, mas uma perna fabricada à custa de anabolizantes, pode ter o efeito contrário.

Será que as mulheres não se dão conta de que essa moda não corresponde à realidade?
De que aderiram a um modelo artificial de beleza? A fuga da realidade é um dos riscos
embutidos neste estímulo à vigorexia vivido nas academias.

Em paralelo, outra moda recente do fitness, estimulada em todas as revistas, é a tal


barriga negativa. Para se atingir esse objetivo é necessário que o aluno atinja o menor
percentual de gordura corporal possível. Ou seja, exige-se que o aluno se transforme
basicamente em pele e músculos, o que vai contra todos os preceitos mais básicos da
saúde.

Exige-se ainda a adoção de artifícios nocivos à saúde, como fatburns e dietas


extremamente pobres e restritivas durante um longo período, o que é sempre um risco.
Esse indivíduo, achando que está em um estado elevado de saúde e beleza, que está
causando inveja, não percebe que colocou a própria vida no “fio da navalha”. Devido à sua
condição corporal, caso sofra uma emergência médica, por exemplo, o risco de morte se
torna extremo. Ele, simplesmente, não poderá fazer uma operação de emergência devido
ao baixo índice de gordura corporal. Qualquer infecção ou virose mais forte também pode
ter graves consequências.

19 ACHA QUE ESTOU EXAGERANDO? QUE TAL COMER APENAS TRÊS MAÇÃS AO DIA?
Ter uma boa reserva de gordura é tudo o que nossa saúde pede. Estar um pouco acima
do peso, de dois a quatro quilos, seria o cenário ideal para nossa saúde, beleza e
vitalidade. As mulheres, principalmente após os 40 anos, sentem uma enorme dificuldade
em perder peso. O organismo busca a qualquer custo economizar energia e armazenar
gordura, já que isso irá protegê-lo da osteoporose. Depois dos 40 anos, ter um baixo
índice de gordura é fatal aos ossos, pele, músculos e à beleza, de forma geral.

Toda a nossa herança evolutiva, durante milhões de anos, selecionou apenas os


indivíduos que eram capazes de manter esta reserva de gordura. Ir contra isso é ir contra
a nossa natureza, contra a própria vida. Até a década de 1960, o modelo de beleza ainda
era natural, roliço e cheio de curvas. A partir daí, iniciou-se a escalada paranoica contra a
gordura. Ela se transformou em uma vilã da beleza, quando, na realidade, o que ocorre é
exatamente o contrário.

A magreza extrema voluntária vai contra a saúde e a beleza em todos os sentidos. Quem
cai neste “conto do vigário”, acreditando num modelo artificial, está apenas sendo
conduzido de forma cega e obediente ao que lhe impõe o mercado de consumo. Segue
pela vida feito boiada, obedecendo ao que lhe mandam fazer e abdicando da sua própria
identidade. Essa “idiotização” causada pelo consumo é um dos mais graves sintomas da
nossa sociedade.

Pergunto-me quando nos daremos conta de que o bacana não é seguir o que está na
moda. O bacana é ter identidade.

“Segundo um estudo do centro de pesquisa sobre aparência da University of West


England, as meninas já manifestam descontentamento com a forma física aos sete anos
de idade. A partir daí, passam a vida em guerra com a própria aparência”. (Revista Vida
Simples, n. 160.)

Outro dia, fui a uma festa bastante chique, estilo “high society”. Chegando lá, fiquei um
pouco assustado. Todas as mulheres pareciam iguais, com o cabelo loiro, comprido,
alisado e perfeito. Todas usavam o mesmo tipo de roupa, bolsa e “vestiam” também o
mesmo modelo de corpo, extremamente definido e malhado. Saí correndo de lá, na
mesma hora.

“Em um mundo onde a beleza padrão standart, uniformizada e sempre igual é seguida de
forma obediente por toda a população, não serão, exatamente, as nossas diferenças e
imperfeições que nos tornarão pessoas únicas e interessantes?” (Revista Vida Simples, n.
160.)

“ENQUANTO ESTIVER PREOCUPADO COM O QUE OS OUTROS PENSAM SOBRE VOCÊ,


VOCÊ PERTENCE A ELES. SÓ QUANDO DEIXA DE BUSCAR A APROVAÇÃO EXTERNA,
VOCÊ SE TORNA DONO DE SI MESMO.”

(Neale Walsch)

Não deixe que ninguém lhe diga o que vestir, o que fazer, o que pensar. Não se prenda ao
que é superficial e aparente. Desacorrente-se desses grilhões. Chega de padrões, chega
de prisões!

Qual é a sua verdadeira identidade? Conectar-se à sua identidade é conectar-se ao seu


poder.

"QUANDO O HOMEM A SI MESMO NÃO ENCONTRA, NADA MAIS ENCONTRA."

(Goethe)
AO SEDENTARISMO ESTÍMULO
O universo do treinamento é feito de estratégias motivacionais vazias. Um dos
argumentos é a saúde, algo que tem pouca repercussão e resultado efetivo na psique
humana.

Como funciona isso? Na realidade, dizer a uma pessoa que ela precisa se exercitar porque
tem que se preocupar com a sua saúde, tem um efeito motivacional bastante limitado.
Efetivamente, o ser humano só se preocupa com a sua saúde, de forma séria, quando a
situação já é muito grave ou depois de levar um susto. Como sei disso? Já tive muitos
alunos que me procuraram só depois de um ataque cardíaco ou de outros episódios
agudos. É o que eu chamo de efeito “água no pescoço”.

Empresários, que até um dia antes não davam a mínima para a própria saúde, costumam
mudar radicalmente depois de uma situação extrema, que os coloca diante da iminência
da morte.

As pessoas tendem a seguir com os seus hábitos e vícios, e vão, através de


medicamentos, empurrando com a barriga (que cada dia fica maior) e adiando o máximo
possível a hora de encarar mudanças de hábitos necessárias, como no caso da atividade
física.

Outros dois focos motivacionais da indústria do fitness mais atrapalham do que ajudam,
de forma efetiva, a combater o sedentarismo. São eles: a estética e a perda de peso. Ao
investir nestes subprodutos da atividade física, bastante superficiais e narcisistas, esses
argumentos associam e transformam, automaticamente, a própria atividade física em
algo superficial, em uma obrigação; ou seja, em algo chato e necessário que precisamos
fazer para atingirmos certos resultados.

Transformar a atividade física em uma pílula ruim, que deve ser tomada para termos
saúde, beleza e magreza, alimenta o sedentarismo e colabora com ele.

Como a indústria do fitness transformou a atividade física em uma pílula intragável para a
grande maioria da população por meio do treinamento com sofrimento,
automaticamente ela se transformou em uma aliada do sedentarismo, por mais
paradoxal que isso possa parecer.

Pesquisas mostram que a atividade física é a forma mais poderosa de combater a


ansiedade, sendo mais eficaz do que qualquer medicamento existente, na atualidade.
Uma atividade física moderada e equilibrada, feita de forma prazerosa e regular, é
também essencial na melhoria da qualidade do sono. Sendo assim, este binômio sono e
atividade física é fundamental ao nosso equilíbrio mental e emocional e,
consequentemente, torna-se um dos principais fatores na prevenção da ansiedade e da
depressão.

Este modelo de treinamento militar está dificultando e impedindo o acesso da população


a uma atividade física realmente restauradora, mais assertiva e convidativa.

A indústria do fitness, junto com a indústria da moda, sustenta um modelo radical de


beleza que estimula a anorexia e a vigorexia. Isso causa um grande impacto na saúde
pública, estimulando o uso de anabolizantes e criando uma eterna insatisfação com o
próprio corpo que, por fim, serve também como mais um fator de stress e aumento da
ansiedade. Este modelo de treinamento radical pode levar a um over training, além de
impactar negativamente o sistema imunológico e, em muitos casos, desencadear
fisiologicamente uma depressão.

A moda do uso de substâncias estimulantes, como a cafeína, também colabora para este
quadro. Até o próprio resultado do treinamento se torna uma grande fonte de angústia.

Você percebe que é possível identificar dezenas de correlações e associações entre essas
diversas indústrias do corpo? Estes pensamentos, de forma circular, retornam para o
mesmo ponto, e assim seguem. Por exemplo, a indústria do fitness e a indústria dos
emagrecedores são, atualmente, um dos grandes obstáculos no combate à obesidade.
Exatamente porque uma grande parte dessas duas indústrias só estão interessadas em
métodos de curto prazo e resultados rápidos e superficiais. Sendo assim, estimulam e
levam os alunos a seguirem uma receita que está fadada ao insucesso, para a imensa
maioria das pessoas, através de formas radicais de dieta e de treinamento.

A comunidade científica ainda não se deu conta disso, mas a indústria do corpo – da qual
fazem parte a indústria do fitness, do emagrecimento, dos suplementos, das clínicas de
estética, da moda, dos medicamentos, entre outras – é responsável, somando todo o seu
amplo espectro e abrangência, por uma grave questão de saúde pública. Como chegamos
a essa conclusão?

Os cientistas colocam a obesidade como o maior problema da saúde pública atualmente,


e a indústria do corpo é, em parte, responsável por esse quadro, agravado pelo seu longo
alcance e impacto em diversos outros setores da saúde, onde chegamos a números
assustadores. (Confira os tópicos sobre o assunto descritos na chave a seguir).

O intuito e a motivação das minhas críticas e análises não são de destruir a indústria do
fitness. Pelo contrário, eu quero salvá-la do ponto cego, do buraco em que ela se
encontra. Esse olhar externo e as informações e análises que desenvolvo aqui são críticas
e reflexões necessárias. Serão inestimáveis e valiosas para ajudar as academias a
repensarem o seu papel.

Existe um mercado enorme, correspondente a uma grande parcela da população, que


quer aderir às formas de treinamento menos radicais e agressivas, e não consegue. Veja o
pilates, por exemplo: por que ele se expandiu tão depressa e faz tanto sucesso? Porque
ele é uma atividade moderada e acessível a todos.

Está na hora da indústria do fitness repensar seus conceitos e se reinventar, já se


preparando para uma nova era no treinamento físico, que bate à porta, por meio do
conceito de treinamento sustentável e integral. É preciso deixar de dar ouvidos aos
oportunistas e radicais e começar a dar ouvidos aos especialistas e moderados.

20 VOCÊ CONHECE A ÚLTIMA NOVIDADE DO FITNESS? O QUE É O “VALE TUDO”

CORPORAL?
A OBRIGAÇÃO MATA O PRAZER

“Tenho dificuldade em perder peso, há muitos anos. Outro dia, fui fazer uma consulta ao
médico e, ao final, ele me disse: 'O ideal seria você comprar uma esteira. É muito mais
prático. Recomendo que você treine todos os dias. Eu também não gosto, é um sacrifício,
eu sei que é muito chato fazer atividade física, mas é necessário. Eu entro na esteira
xingando e saio chorando.' (risos)"

(Angélica Lopes, 44 anos, dona de casa.)

Já reparou como algo tão prazeroso quanto o sexo pode ficar sem graça, caso o vejamos
como uma obrigação?

Por exemplo: quando um casal está determinado a engravidar, esse processo passa a ser
algo menos natural e intuitivo, vamos dizer assim, e passa a ter uma hora marcada para
acontecer. Caso a dificuldade em engravidar se estenda por um longo período, mesmo
algo tão prazeroso como o sexo pode assumir contornos mais rígidos e tensos. Pronto!
Algo que poderia ser imensamente prazeroso e natural, passou a ser uma obrigação.

Se o sentido de obrigatoriedade faz isso com o sexo, imagine o que ele pode fazer com a
atividade física. Uma das explicações do porquê de muitas pessoas não desenvolverem
uma relação de prazer com a atividade física passa pelo simples fato de que elas a
concebem e a entendem como uma forma de obrigação.

Uma coisa é você ir ao parque porque precisa cuidar da sua saúde ou ficar mais magro e
bonito, ou seja, você se vê obrigado a realizar essa tarefa chata; aí, o tempo não vai passar
e você vai ficar completamente entediado. Outra coisa é você ir ao parque pensando na
caminhada como uma forma de terapia, como uma chance única de estar consigo
mesmo, algo tão raro e tão necessário em nossa rotina. A atividade passa a ser algo muito
especial e prazeroso, um espaço só seu de silêncio e contemplação. Você pode pensar
nesse momento como uma forma de expressão da sua criatividade e potência.

Quando caminhamos, aumentamos em cinco vezes a circulação sanguínea e a


oxigenação em nosso cérebro, fazendo do processo de pensar algo muito mais rico e
intenso.

Isso vai nos trazer mais insights e soluções aos nossos problemas e questões do dia a dia.
Caminhar é a melhor forma de pensar.
Outra forma de curtir este passeio é usar a caminhada para estar realmente vivendo o
momento presente, curtindo as árvores, os pássaros e toda esta interação maravilhosa
com a natureza. Na cidade, nos tornamos imensamente carentes dessa interação tão vital
e necessária à nossa saúde física e mental. Você também pode curtir o sol batendo em
sua pele, o que é vital à sua saúde e imunidade. Pronto! De repente, apenas uma simples
caminhada se tornou uma forma de transcendência, um momento mágico e prazeroso.

Viver é sintonia! Em qual destas duas rádios você quer sintonizar: a do esforço ou a
do prazer?

Você se lembra do que o Tio Patinhas fazia quando estava com problemas? Ele ficava
caminhando em círculos até resolvê-los. Eu tenho uma experiência muito forte com
relação a isso. Algumas vezes, em minha vida, eu me vi diante de situações-limite e
dolorosas. Lembro-me de uma vez quando, aos 18 anos, eu sofria imensamente com uma
situação complexa vivida com minha namorada. Naquele dia, andei por duas horas
seguidas, ao fim das quais eu estava muito mais lúcido, apaziguado e tranquilo. E, ainda
por cima, tinha conseguido resolver toda aquela problemática em minha cabeça.

Por isso, não raro, vemos algumas pessoas com transtornos mentais andarem por horas
ou até dias seguidos. Elas encontram no caminhar uma forma de apaziguar a dor e a
angústia que vivem internamente. Dizem que Nietzsche, por exemplo, formulou todas as
suas teorias durante as suas famosas caminhadas pelas montanhas. Na Escola
peripatética, de Aristóteles, havia uma regra estabelecida de que só era permitido filosofar
durante as caminhadas feitas em grupo.

“DESCONFIE DE PENSAMENTOS QUE NÃO SURJAM AO AR LIVRE, ENQUANTO VOCÊ


ESTÁ CAMINHANDO.”

(Nietzsche)

Na minha opinião, caminhar é uma forma potente de autoconhecimento e


transcendência. Podemos entendê-la como uma forma de iluminação. Quem ainda não
descobriu isso, não sabe o que está perdendo. Grande parte deste livro foi pensado
durante minhas caminhadas.

Em nosso método, vivemos a atividade física e o cuidado de si, não como uma obrigação
ou um esforço, mas, sim, saboreando cada experiência e descoberta vividas através do
corpo.

Lembre-se:
É a tal da chavinha mental que sempre digo: a obrigação e o esforço nos vitimizam, nos
tornam reféns das situações. Já o prazer nos liberta. Podemos tomar a vida em nossas
mãos, assumirmos a responsabilidade pela nossa felicidade, passar a viver através de
outro entendimento da vida e daquilo que fazemos.

Esse processo resgata e reforça a nossa própria identidade. Sendo assim, prosperidade,
sucesso e saúde tornam-se apenas uma consequência natural dessa identidade e não
mais um fim em si mesmo. Viver volta a fazer sentido porque torna-se algo vivo e
prazeroso.

Veja as crianças, por exemplo, por que elas são tão felizes, vivas, potentes e criativas?
Porque vivem através da lógica da brincadeira, da diversão. Porque não estão
preocupadas com o resultado daquilo que fazem; estão inteiras e presentes em tudo o
que realizam.

Podemos trabalhar apenas para ganhar dinheiro, ou podemos viver o trabalho como
forma de expressão da nossa identidade e criatividade.

“MEU MAIOR PRAZER ESTÁ NO TRABALHO QUE ANTECEDE O QUE O MUNDO CHAMA
DE SUCESSO.”

(Thomas Edison)

Pense no que significa realizar algo com prazer ou sem prazer. Por exemplo, um vendedor
ambulante pode ser apenas um vendedor, ou ele pode ser o Sílvio Santos.

Não seja um “funcionário público” da vida (no sentido pejorativo dessa expressão).
Encontre prazer em tudo o que você faz.

“QUEM É MESTRE NA ARTE DE VIVER FAZ POUCA DISTINÇÃO ENTRE TRABALHO E


TEMPO LIVRE, ENTRE A SUA MENTE E O SEU CORPO. PERSEGUE SIMPLESMENTE
PLENITUDE, PRESENÇA E EXCELÊNCIA EM QUALQUER COISA QUE FAÇA, DEIXANDO
QUE OS OUTROS DECIDAM SE ELE ESTÁ TRABALHANDO OU BRINCANDO. ELE SEMPRE
ACHA QUE ESTÁ FAZENDO AS DUAS COISAS.”
(Pensamento Zen)
O MITO DA AUTOESTIMA
A psicologia social já provou, há muito tempo, que o mito da autoestima é um falso
problema. Na verdade, o que ocorre para a imensa maioria da população é exatamente o
contrário: as pessoas tendem a se autoavaliar de uma forma superestimada.

21 SERIA O MITO DA AUTOESTIMA UMA INVENÇÃO QUE AJUDOU A FOMENTAR O

MERCADO DA AUTOAJUDA?

Ao contrário do que propaga a autoajuda ingênua do treinamento, a competição pode ser


negativa à sua estrutura mental e emocional, já que leva a uma infantilização e
necessidade constante de autoafirmação. Este nível primário de consciência fortalece e
hipertrofia ainda mais o sentido de “eu”, o ego, a vaidade e o orgulho. Isso cria mais
angústia e dependência da aprovação alheia, enquanto maturidade seria não depender do
outro para reconhecer seu próprio valor. Competir no treinamento pode se tornar uma
forma infantil de autoafirmação.

Um dia, caminhando no parque, ouvi o seguinte diálogo entre dois corredores:

– Em quando tempo você faz a volta grande, aqui no parque?

– Eu faço em nove minutos. – respondeu o amigo.

– Caraca! – disse o primeiro, nitidamente surpreso.

O corredor elogiado se inflou, orgulhoso pelo seu feito, e seguiu com certo ar de
superioridade. A situação foi tão caricata que o terceiro corredor, mais velho e experiente,
até debochou:

– Caramba, você é bom mesmo, hein? Você é o cara! A gente vai ter que chamar o Usain
Bolt para bater o seu recorde.

Todos riram. Mas só a partir desse momento se deram conta do quão infantil era aquela
situação.

Esse modelo social de sucesso baseado na competição transforma o ser humano adulto
em uma pequena criança, extremamente dependente do olhar e da valorização do outro
para se sentir inteiro e bem-sucedido. O que poucos sabem é que este processo pode
servir de combustível para a angústia e a infelicidade.
Quando vamos acordar para o fato de que o bacana não é “ser melhor que o outro”? Eu
diria que o bacana é “ser melhor com o outro”. Existe um abismo entre esses dois
extremos.

A colaboração, a valorização do outro e a convivência harmônica são a cura do mundo,


enquanto a hipervalorização de si mesmo, do próprio interesse e a lei do mais forte são a
doença. Isso é o que transforma o mundo no mundo cão do qual as pessoas tanto falam.

O meu conselho é: deixe a competição apenas para os atletas. Aí sim, ela fará sentido,
porque, afinal, os esportes deveriam ser, acima de tudo, uma brincadeira, uma diversão.
Pelo menos esta é a sua origem. Você pode perceber que até a expressão “vamos levar na
esportiva!” é usada quando queremos levar uma coisa na brincadeira, embora esse
conceito não descreva mais a realidade do esporte, atualmente.

Esta lógica da competição invade todos os setores da nossa vida: o trabalho, a família, os
relacionamentos e a própria educação. Tudo se transforma em uma constante luta pelo
poder e pela afirmação do mais forte perante o mais fraco. Ou, simplesmente, numa
competição para saber quem tem razão ou quem pode mais. Veja o trânsito, um belo
exemplo do modelo atual de relacionamento: em vez de vermos gentileza e respeito pelo
outro, vemos esperteza e valorização dos próprios interesses, acima de tudo. O trânsito
se torna uma briga por oportunidade e espaço. E, assim como a competição e a lei do
mais forte não caem bem no trânsito, elas não fazem bem à nossa vida, de um modo
geral.

Diga, sinceramente, qual o valor moral e espiritual de subir na vida pisando nas outras
pessoas? O que é o modelo atual de treinamento físico, se não a lei do mais forte
esmagando e discriminando os mais fracos?

Na educação dos filhos também existe essa disputa por poder. Um dos aspectos básicos
dessa educação é a forma como está estabelecida: uma constante luta pelo poder, em
que o patriarca (na figura do pai, da mãe, ou ambos) impõe-se à força, oprimindo,
castigando e reprimindo a autenticidade e a identidade dos pequenos.

Quando vale a lei do mais forte, a competição surge como forma ideal de perpetuação
deste modelo, um modo de condicionamento e formatação do indivíduo nesta lógica da
sociedade de consumo.

A meritocracia sempre existirá e é positiva; o que não é positivo é este culto à competição
de uma forma obsessiva.

Este perfeccionismo baseado apenas em resultados e a cobrança de sempre ser o


melhor em tudo o que fazemos, efetivamente, têm um efeito colateral:
insatisfação, stress e infelicidade.

É isso que nos ensinam desde criança; essa doutrinação fica marcada em nosso hardware
de forma que não conseguimos removê-la com tanta facilidade. Depois que crescemos,
temos que passar a vida inteira tentando reaprender quem somos e qual é o sentido da
vida, por meio de terapia, meditação e busca de autoconhecimento.

Aos cinco anos, minha filha fez uma observação curiosa. Ela me disse, no auge de sua
sabedoria infantil: “Papai, competir não é muito legal, né? Uma pessoa fica feliz, mas a
outra fica triste”.

Você pode não se dar conta disso, mas esses conceitos estimulando a competição e o
sucesso como a fórmula da felicidade estão ocultos de forma subliminar em tudo o que
você consome ou assiste. Eles estão presentes a todo momento e lhe cercam por todos
os lados. A própria cultura, por meio do que nos dizem os nossos pais e amigos, reforça
tais conceitos com frequência.

22 QUEM DISSE QUE A COLABORAÇÃO É UMA UTOPIA DA RAÇA HUMANA?

A solidão entristece o animal humano. Fomos feitos para viver em pequenas tribos,
convivendo e compartilhando experiências, dificuldades e pequenas felicidades. A solitude
voluntária é positiva, assim como desconectar-se do caos e redescobrir o silêncio e a
natureza. Porém, isso não implica em isolamento e solidão.

“Se, em 1950, quatro milhões de americanos viviam sós, hoje já são mais de 30 milhões.
Nas grandes cidades, a tendência é muito mais acentuada – mais da metade da ilha de
Manhattan (...) tem moradias com apenas um habitante. O instituto Euromonitor
identificou, entre 1996 e 2006, um aumento de 33% das pessoas que vivem sós e projetou,
para 2020, um crescimento do índice em adicionais 20%.” (Folha de S.Paulo, 30 de janeiro
de 2016.)

Será que esse isolamento está fazendo bem a todos nós? Veja um vídeo com as
conclusões do mais longo estudo feito sobre saúde e felicidade, que já dura 75 anos.
Procure no Google por “Robert Waldinger: do que é feita a vida boa?”.
OS CAMPEÕES
Eu já conheci diversos campeões do esporte e posso afirmar que muitos deles, vistos de
perto, não possuem tantas qualidades quanto idealizamos. Pelo contrário, são tensos,
obsessivos, egocêntricos e narcisistas, entre diversas outras qualidades menores em um
ser humano. A falta de sabedoria, cultura e experiência de vida, então, podem ser
gritantes em alguns.

Como eles crescem em uma redoma, vivendo e respirando o seu esporte, eles pouco
leem ou têm acesso à vida real que se desenrola lá fora. A dedicação ao esporte de
competição consome toda a energia, o foco e o tempo de um atleta.

A indústria do esporte glamouriza o ideal do campeão. No entanto, na maior parte do


tempo, o campeão é aquele que treina de uma forma insana, toma uma ducha no
vestiário sozinho e vai para casa dormir. No dia seguinte, ele acorda quebrado e tem que
começar tudo de novo. A rotina de um campeão é muito intensa. Poucas coisas no mundo
tem um requinte tão cruel de sacrifício e dedicação.

Alguns são extremamente autorreferentes e metidos, com um ego do tamanho do


Maracanã. Pense: com tantas pessoas à sua volta lhe tratando como um semideus, é
inevitável que você acabe acreditando nisso.

Você pode argumentar que, ao menos, eles ficam milionários, fazem sucesso e muitos
deles se casam com as mulheres (ou homens) mais lindas(os) do mundo (beleza não é
tudo). Mas, será que isso representa, realmente, sucesso e felicidade?

A fama pode se tornar o pior pesadelo de alguém. Se o nosso ego normalmente já nos
traz inúmeros problemas, imagine o que significa ter esse ego inflado ao máximo? Fora
inúmeros outros inconvenientes e desequilíbrios causados pelo sucesso.

Quer um exemplo? Certa vez, fui a um restaurante com uma pessoa extremamente
famosa. Assim que entramos, todo mundo passou a olhar insistente e obsessivamente
para ele o tempo todo. Essa sensação se tornou muito constrangedora e bastante
incômoda. A cada cinco minutos, alguém se aproximava para lhe pedir um autógrafo e
uma foto, e ele, então, tinha que ser simpático e sorrir. Tente imaginar isso acontecendo
com você e, então, entenderá o quanto pode ser um pesadelo bastante assustador.

Nós só damos valor ao nosso anonimato quando o perdemos.

“EU TROCARIA A MINHA VOZ, MEU TALENTO E TUDO O MAIS QUE CONQUISTEI,
APENAS PELA POSSIBILIDADE DE PODER CAMINHAR PELA RUA, TRANQUILA, SEM SER
PERSEGUIDA POR FÃS E PAPARAZZI.”

(Amy Winehouse)

Ser famoso é, de certa forma, deixar de ser humano e passar a viver em um limbo surreal.
Você se transforma em um tipo de mercadoria rara exposta em uma vitrine, ou num
animal exótico exposto em um zoológico. Você não tem mais certeza de quem são seus
verdadeiros amigos e quem são os bajuladores. Para muitos, pode ser difícil saber se o
cônjuge lhe ama, de verdade, ou ama mais o seu dinheiro, o poder ou a representação
que você tem no mundo.

Para as pessoas que colocam o sucesso e o dinheiro como principal foco de vida, o
resultado final, ao alcançar todos os seus sonhos e objetivos, pode ser uma tremenda
crise existencial. Essas pessoas irão, automaticamente, perder aquilo que lhes servia de
norte e motivação.

Foi exatamente isso que ocorreu com um aluno meu, que ficou bilionário aos 40 anos. Ele
acelerou tanto o processo, viveu tamanho stress, que passou os dez anos seguintes
completamente desnorteado, em profunda depressão. Da mesma forma, sucesso
esportivo não é sinônimo de felicidade. Veja o caso de Michael Phelps, o maior atleta
olímpico de todos os tempos, com 23 medalhas de ouro. Ao se afastar das competições,
em 2012, ele teve problemas com álcool e viveu uma profunda depressão. O vazio
existencial vivido por um atleta ao se aposentar, ou mesmo durante o período ativo, pode
ser brutal.

Ser atleta também exige o uso de máscaras, muros e distanciamentos que, por fim, os
afastam de sua verdadeira identidade. Com o tempo, isso pode construir um “buraco na
alma”, devido a esta identidade e à autenticidade perdidas.

O piloto Fernando Alonso, certa vez, deu uma entrevista dizendo que precisava ser ator
para sobreviver ao universo do qual fazia parte. “Sempre haverá situações em que você
vai ter que fingir. Então, definitivamente, você precisa ter as qualidades de um ator. E
também uma boa quantidade de egoísmo.” (Site oficial da Fórmula 1)

Sem dúvidas, praticar um esporte é apaixonante. Treina qualidades como disciplina, foco,
força de vontade, controle emocional e muitas outras. Esse lado bom é o que faz a
competição ser algo tão predominante no mundo. Poder experimentar a sensação de
vitória e conquista, de finalmente provar a si mesmo e aos outros o seu próprio valor, é o
que move a humanidade.

Para nós, que estamos inseridos nesse contexto, é quase impossível imaginar um mundo
com mais colaboração, mais parceria e amorosidade. Um mundo que valorizasse menos
o egocentrismo e o narcisismo, em que não houvesse o culto ao campeão, ao famoso, ao
milionário, enfim, ao homem bem-sucedido como ideal de felicidade.

Se você, ligeiramente, pudesse imaginar a carga emocional que muitos milionários


carregam, devido à enorme pressão que vivem diariamente, você, provavelmente, não
invejaria a sua posição. Os extremos não são saudáveis. Tanto a pobreza quanto a riqueza
podem ser fonte de muita angústia.

Viver para o trabalho e ser um milionário pode ter um custo muito alto para a sua saúde
corporal, mental e espiritual.

Lembrei-me de uma música da Nina Simone chamada “Stars” e que diz mais ou menos
assim, na minha livre tradução e interpretação:

Estrelas vem e vão.

Só se vê a gloria, mas a fama é solitária.

É sempre a mesma história, de pessoas famintas pela fama.

Como atletas em um jogo.

Alguns são coroados, muitos são derrotados.

Alguns se perdem para sempre.


A TAL DA FELICIDADE
Desculpe lhe dizer, mas a busca pela felicidade é uma invenção moderna sem sentido. Ela
pode ser útil para o marketing do consumo, para vender refrigerante ou para fomentar o
mercado editorial de autoajuda, mas tem pouca aplicação no mundo real.

O grande equívoco está no simples fato de que a felicidade em si não é a chave da


questão. Ela é apenas um derivado, uma consequência natural de alguns pilares
essenciais de uma existência plena e com sentido.

Quais são esses pilares? Podemos citar: equilíbrio pessoal, realização, autoconhecimento,
espiritualidade, amizade, amor, altruísmo e simplicidade. Estes deveriam ser o grande
foco de quem almeja uma felicidade realmente duradoura, mais sentido e plenitude em
sua existência.

Caso você invista nestes tópicos primordiais, a busca pela felicidade vai lhe parecer a
coisa mais insignificante que existe, pois você já terá o mais importante, aquilo que
precede a felicidade. Você terá sabedoria. Estes pilares essenciais geram uma quantidade
enorme de subprodutos, como gratidão, satisfação, presença, desapego, compaixão,
empatia, tolerância, fluidez, gentileza, resiliência, não-reatividade e muitos outros.

A “fórmula da felicidade” continua a mesma há mais de cinco mil anos, e só está


disponível àqueles que realmente se dispuserem a trilhar este caminho dia a dia em suas
vidas, por anos e anos, através de uma experiência prática e não apenas teórica.

O mundo está desequilibrado, doente, triste e deprimido porque a verdadeira


“busca pela felicidade” não dá ibope.

É totalmente ignorada e desestimulada pelo sistema em que vivemos, que ocupa todo o
nosso foco, nossa atenção e o nosso tempo produtivo exatamente na direção oposta: no
culto à personalidade (aos famosos), à superficialidade, ao consumo e ao narcisismo. No
culto ao ego, à vaidade, ao vencedor. No culto à competição e ao individualismo.
Pensando que a imensa maioria da população segue, diariamente, na contramão do que
seria uma vida realmente plena e com sentido, não me parece nada estranho que o
mundo sofra uma crise aguda de ansiedade, infelicidade e depressão.

Trata-se apenas de uma lei natural: nós colhemos aquilo que plantamos; ou seja, a nossa
vida é consequência direta da forma como vivemos.

O autoconhecimento e a busca pela felicidade não devem ser um processo artificial, não
devem seguir nenhuma metodologia e esquematização racional externa a nós mesmos.
Este processo não pode ser formatado, massificado e padronizado.

Desculpem-me, mas a fórmula da felicidade não pode ser resumida em 12 passos, como
gostam de dizer os norte-americanos ou a mais nova ciência da felicidade. Acho ótimo
que o tema felicidade seja uma febre entre os pesquisadores, e que a psicologia social
tenha chegado a conclusões importantes e essenciais que alicerçam o conhecimento. Mas
transformar as conclusões deste estudo em um método de autoajuda não faz muito
sentido. O grande equívoco está exatamente em pegar os subprodutos decorrentes da
sabedoria e da espiritualidade, como gratidão, conexão, sentido, compaixão e outros, e
transformá-los em exercícios práticos, em uma meta final no caminho da felicidade ao
alcance de todos.

Ora, o processo de despertar da consciência e da espiritualidade é um caminho individual,


longo e genuíno. É este processo real da busca do autoconhecimento e da espiritualidade
que vai nos levar naturalmente a uma aproximação, sem esforço, destes sentimentos,
como altruísmo, compaixão, solidariedade, gratidão, presença etc., e não o contrário. É a
diferença entre se fazer algo genuíno e autêntico com o coração, ou se fazer algo
autoimposto e artificial através do racional, do sentido de tarefa e do esforço.

O conceito “Mens sana in corpore sano” é um fator altamente determinante à nossa


plenitude. Talvez isso explique por que muitos lixeiros, ao contrário do que se imagina,
são profissionais com um alto grau de felicidade e gratificação. Quem sabe é porque eles
fazem uma atividade física intensa, dinâmica e que representa uma forma de meditação
ativa, e, com isto, ganham uma mente serena, uma boa noite de sono e uma avalanche de
endorfina em suas correntes sanguíneas, diariamente. Isso, por si só, já garante o bom
humor e um sentimento genuíno de felicidade, sem mais explicações.

Abreviando o caminho, poderíamos concluir, a partir de uma pesquisa que mostrou que o
mais alto grau de felicidade já medido cientificamente foi em um monge budista, que a
busca de espiritualidade é totalmente determinante neste processo de acalmar a mente.
A felicidade é, antes de tudo, um estado de espírito.

A minha intenção com este texto é expor mais um ideal fixado em nossa mente pelo
marketing de consumo. O ideal da felicidade é apenas mais um engodo a que estamos
expostos, causando ainda mais angústia e nublando a nossa capacidade de entender e ver
a realidade.

Quando falamos de espiritualidade, as pessoas já imaginam a forma mais radical de


transcendência, aquela em que seria necessário abdicar de todos os valores materiais, ir
para a Índia ou ficar horas meditando, diariamente. Esta é uma visão idealizada da
espiritualidade. Espiritualidade, para mim, é puramente presença, conexão e fluência. Ela
passa por um aprofundamento na forma de pensar o mundo e de uma redefinição dos
nossos valores. Isso ocorre quando libertamos a nossa mente desta forma condicionada
de entender a vida.

Superar estes condicionamentos, por si só, já representa uma grande liberdade,


produzindo um sentido permanente de gratificação, integridade, criatividade e conexão.

Proponho um sentido simples de felicidade ligado a aspectos fisiológicos bastante


primordiais a qualquer ser vivo: o sono, a atividade física e a alimentação, a “Santíssima
Trindade” do equilíbrio pessoal e da vitalidade.

Proponho que a pausa e o equilíbrio mental estejam inseridos em nosso dia a dia por
meio de práticas divertidas e transcendentes; práticas corporais que levem à meditação
ativa, uma forma mais lúdica e acessível de meditação.

Nós somos fruto do nosso estilo de vida, daquilo que fazemos diariamente. Sendo assim,
ao inserirmos em nossa vida os elementos essenciais ao nosso equilíbrio corporal, mental
e emocional, resgatamos o equilíbrio pessoal e, assim, podemos ser uma influência
positiva à nossa comunidade e às pessoas que nos cercam. O mundo retribuirá em dobro
tudo o que você enviar. Sendo assim, preste atenção na informação que você está
mandando.

Podemos assumir a responsabilidade pela nossa vida, afinal, tudo acontece a partir de
nós mesmos. O que ocorre externamente é apenas um reflexo do que somos
internamente.

Esqueça qualquer fórmula da felicidade. A verdade é que você não precisa de muita coisa
para ser feliz, ao contrário do que diz a indústria do consumo.

Cada um precisa descobrir como ser feliz à sua maneira. Existem pessoas que são felizes
apenas através da compaixão e da doação, outras são felizes cantando, outras sendo
atletas profissionais, outras vivendo com quase nada, outras são felizes trabalhando e
realizando os seus sonhos. Efetivamente, não existe uma receita de bolo, porque ser feliz
é apenas ser inteiro. É apenas redescobrir o seu propósito, sua identidade e sua
integridade. Saber que você já é perfeito em toda a sua imperfeição.

“SER FELIZ SEM MOTIVO É A MAIS AUTÊNTICA FORMA DE FELICIDADE.”

(Carlos Drummond de Andrade)


O “BEM MAIOR”

“Eu não gosto de correr na esteira, prefiro correr ao ar livre. O tempo na esteira é
diferente do tempo no mundo real. A esteira é uma fenda no tempo. Quando você acha
que já correu 30 minutos, você olha no relógio e se passou apenas um minuto e meio.”

(Fabio Porchat)

Qual o sentido da vida? O sentido que você dá a ela.

Quando penso em sentido e propósito, sempre me lembro de uma cena. Certa noite,
acompanhando um aluno em uma academia, notei que a noite estava linda lá fora. No
entanto, uma cena surreal se desenrolava à minha frente. Alinhados, um ao lado do outro,
20 pessoas corriam, freneticamente, em 20 esteiras. Nesse momento, eu me dei conta de
que a esteira é uma boa simbologia da nossa sociedade: as pessoas estão correndo,
correndo apressadamente, e não chegam a lugar algum. Aprofundando um pouco mais,
uma imagem ainda melhor para definirmos a nossa sociedade seria a de um ratinho
preso em uma gaiola correndo em uma esteira em forma de roda.

Em geral, estamos engaiolados naquilo que é comum, seguro e conhecido, e apenas


sobrevivemos para comer, trabalhar, dormir e procriar, sem encontrar qualquer sentido
maior em nossas vidas. Quando o bem individual se sobrepõe ao bem coletivo, a força de
vida se esvai, gerando angústia, vazio e falta de sentido. Quando, em vez de um bem
maior coletivo, o foco principal passa a ser um carro “bem maior”, uma casa “bem maior”
ou uma conta bancária “bem maior”, nosso propósito de vida é abandonado.

No entanto, quando você se conecta com seu talento, sua identidade e sua criatividade,
você começa a sonhar. E este sonho passa a alimentar sua vida de forma poderosa e
vibrante.

Antes de encontrar meu propósito, era como se eu estivesse passeando pela vida, dando
voltas por aí sem um rumo definido. A partir do momento em que comecei a viver minha
missão, meu sonho, saber se eu teria sucesso ou seria reconhecido passou a ser o menos
importante.

Quando isso acontece, não existe desânimo, fraqueza ou preguiça. Ao contrário, ocorre
um vulcão de energia que ninguém é capaz de apagar. A partir daí, você se torna
incansável, invencível e inabalável. Neste processo, você terá descoberto a sua essência, a
sua verdade e o seu poder, e estará se nutrindo com uma fonte inesgotável de vida e
amor. Felicidade e abundância passam a ser apenas uma consequência natural deste
alinhamento com a sua criatividade e seu poder. Em busca do seu propósito, a pergunta a
se fazer é muito simples: como posso usar meu talento e conhecimento para transformar
o mundo em um lugar melhor?

Não precisa ser algo grandioso, afinal, são nas menores coisas que mostramos a nossa
grandeza. É no micro que se constrói o macro. Se cada um de nós for amoroso e gentil em
sua pequena comunidade, em seu núcleo familiar, nós acabamos de mudar o mundo.

Quando o “nosso” passa a ser tão importante quanto o “meu”, você terá encontrado o seu
caminho. Porém, encontrar seu propósito não pode ser mais uma pressão e exigência.
Este processo depende de uma maturação e pode demorar. Eu só encontrei o meu,
verdadeiramente, aos 49 anos. Você o está segurando nas mãos, neste exato momento.

Não fique aflito, vá seguindo sua vida, cuidando do seu equilíbrio e, no momento certo, o
seu propósito virá ao seu encontro. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo (risos).
Acho que me distraí e já estava lhe passando uma fórmula pronta, quando, na verdade,
isso pode não servir a você.

Atualmente, existe uma quantidade cada vez maior de pessoas que já estão conscientes,
porém, poucas estão despertas. Estar desperto acontece quando você traz tudo aquilo
que já sabe para a sua vida diária. Em vez de imaginar e idealizar que, certo dia, em um
tempo futuro, você irá acordar desperto e transformado, assim como um milagre, você
começa a praticar e percorrer este caminho de mudança e transformação, de forma
gradativa, em sua vida real. Amar ao próximo é um bom exemplo. Todo mundo está
cansado de ouvir esta lei espiritual, porém, quantas pessoas trazem amor e gentileza, de
forma profunda, para as suas relações ou para tudo aquilo que fazem?

Porém, há um prerrequisito para que essa lei seja mais potente, uma outra lei que a
precede: amar a si mesmo.

Quando cuidamos do nosso próprio equilíbrio, temos o alimento necessário para


amar e cuidar do outro. Nós só podemos dar aquilo que temos.

No fim, a nossa felicidade pode se resumir a estas duas leis, amar a si mesmo e amar ao
outro. Ao vivê-las e aplicá-las, em toda sua profundidade, você trará plenitude, propósito e
sentido à sua vida.

“Não se deixe levar pela ganância, por objetivos menores, que não levem em consideração
o todo, que não defendam os interesses dos outros além dos seus próprios, que não
pensem no coletivo. Enfim, não deixe que a sua vida seja uma vida merda...” (Definição
dada por Oscar Niemeyer, aos 90 anos. A vantagem é que, nessa idade, podemos ser mais
diretos e sinceros. Fonte: Revista Trip, n. 258.)
O DONO DA VOZ

Neste vão trabalho que sigo

Não posso aturar comigo

Nem posso fugir de mim



Que posso eu fazer?

Se trago em mim comigo, tamanho inimigo de mim?

(Versão adaptada de “Cantiga de Sá de Miranda”)

Nós mesmos criamos e alimentamos nossos maiores problemas. Eles são uma extensão
da nossa personalidade, nosso modo de ser e de pensar. Sendo assim, se quisermos
resolver os nossos problemas, devemos falar com o verdadeiro criador dessas angústias:
nós mesmos.

O autoconhecimento é uma grande ferramenta neste processo de nos transformarmos. A


questão é que o ser humano faz de tudo para fugir deste encontro consigo mesmo.
Competimos, medimos forças e nos comparamos com o outro, o tempo inteiro. Como o
outro é a grande referência neste processo, deixamos de olhar e perceber a nós mesmos.
Perder o foco de si é perder a essência de quem somos. É estar à deriva em um mundo
superficial e sem sentido.
A SUPERFÍCIE DO CORPO
Quando olhamos para um espelho, não existe nada atrás dele, por mais que tenhamos
esta ilusão de haver algo. Ele é só uma camada fina, sem profundidade.

O treinamento físico atual só atinge a superfície do corpo. Este sistema não se importa
com aquilo que não é aparente. Não existe mergulho, e assim, evita-se olhar para si
mesmo ou para aquilo que nos limita e enclausura; o que pode, devido a este acúmulo de
disfarces, mentiras e autoenganos, tornar-se uma crise de sentido e identidade. Como as
pessoas costumam esconder seus conflitos debaixo do tapete e evitam se aprofundar em
relação ao autoconhecimento, a qualquer custo, isso pode resultar em um processo
depressivo.

“MENTIR PRA SI MESMO É SEMPRE A PIOR MENTIRA.”

(Renato Russo)

Uma crise pessoal em relação a si, às suas próprias crenças e seus valores é um dos
fatores que desencadeiam a depressão. No entanto, essa crise pode ser nossa maior
aliada, por isso deve ser vivida e entendida em toda a sua profundidade. É a nossa maior
oportunidade para rompermos velhos padrões e nos reinventarmos. Significa que
chegamos ao fundo do poço, e que podemos bater o pé no fundo e voltar a subir.

Quando nos relacionamos com uma crise de forma superficial, ela pode se transformar
em uma depressão. Quando nos relacionamos com uma depressão de maneira
superficial, apenas tomando medicamentos que, na realidade, nos dopam, nos
anestesiam e nos acomodam em um limbo existencial, estamos apenas mantendo e
criando uma nova zona de conforto, por mais desconfortável que ela seja. Como você já
deve ter notado, remediar nunca é um boa solução.

Os medicamentos podem ser aliados no controle e no tratamento da depressão. Porém,


caso não se olhe de frente as verdadeiras causas deste desequilíbrio, este processo não
será construtivo. Como vemos, mais uma vez, a superficialidade aparece como um grande
obstáculo à autotransformação e ao autoconhecimento. Eu diria que, ao lado da
ansiedade, a superficialidade é um dos grandes males da humanidade.

Hoje em dia, neste mundo de aparências em que vivemos, as pessoas não precisam mais
“ser” (imaginando que isso represente uma forma autêntica de identidade), apenas
“parecer” já serve. Devido às técnicas de construção de imagem manipuladas pela mídia,
de forma mágica, as pessoas podem se transformar, aos olhos do grande público, em
algo que elas não são. Tudo é uma grande maquiagem neste universo do “make up
yourself”.

É isso mesmo. Caso você reflita com mais cuidado, verá que vivemos em um mundo de
mentira, um mundo criado e fabricado pelo marketing e que serve aos interesses das
grandes corporações e seus lobbies bilionários. Como o universo do consumo vive de
vendas, tudo é pensado cuidadosamente, através de uma ciência própria, para ser mais
comercial. Tudo segue uma fórmula preestabelecida, o que resulta em produtos
uniformes e pasteurizados.

Veja a maioria das músicas, dos livros, ídolos, atores, filmes e tudo mais que se encontra à
venda, e você poderá confirmar esta realidade. Os produtos são minuciosamente
pensados para agradar. Acompanhando este modelo, as redes sociais também se tornam
um mundo fabricado, em que as pessoas estão em busca de “likes”, de admiração,
mostram só aquilo que querem mostrar. Aliás, já pensou qual o custo que você paga por
corresponder às expectativas de todos e ter sempre que agradar a todo mundo? Acertou
quem disse: a anulação da própria identidade, criatividade e poder. A admiração é a droga
mais poderosa e mais consumida, atualmente. Basta observar as redes sociais. Consuma
com moderação!

Mas, então, como fugir desse mundo de mentiras e autoenganos? Um passo importante é
aprender a ser você mesmo, não se trair, não se vender. Isso requer muita coragem, por
incrível que pareça. Poucas pessoas resistem à sedução do dinheiro e de seus caminhos
aparentemente fáceis. Seguir por um caminho fácil, mesmo que ele vá contra o que
você acredita, significa, na verdade, errar o caminho.

A psicoterapia é uma grande aliado neste processo de se aprofundar e combater a


superficialidade por meio do autoconhecimento. Porém, além de apenas falar e trabalhar
aspectos mentais através da terapia, podemos também usar o corpo como uma potente
ferramenta de autoconhecimento e autotransformação.

“SE VOCÊ QUER PEGAR UM PEIXINHO, PODE FICAR EM ÁGUAS RASAS. MAS SE QUER
UM PEIXE GRANDE, TERÁ QUE ENTRAR EM ÁGUAS PROFUNDAS. QUANTO MAIS VOCÊ
EXPANDE A SUA CONSCIÊNCIA E ATENÇÃO, MAIS FUNDO É O SEU MERGULHO NA
DIREÇÃO DESSA FONTE. MEUS 33 ANOS DE PRÁTICA DE MEDITAÇÃO TÊM SIDO
FUNDAMENTAIS PARA O MEU TRABALHO COM FILMES E PARA TODAS AS ÁREAS DA
MINHA VIDA.”

(David Lynch)
6° PARADIGMA: AMBIÇÃO SEM LIMITES
Você acredita que desafiar a si mesmo no treinamento seja positivo?

Pense com calma, procure analisar esta questão por outro ângulo. Como tudo na vida,
existe o outro lado desta moeda; ou seja, desafiar-se constantemente pode ter um efeito
colateral. Vamos seguir com cuidado este raciocínio.

Certas qualidades que desenvolvemos se transformam em um processo de


empoderamento, uma fonte de poder do indivíduo, mas podem se transformar, também,
em uma grande prisão.

O perigo, nesse processo, é não saber a hora de parar. Quando nos apoiamos apenas
sobre um ponto de sustentação em nossas vidas, criamos um enorme desequilíbrio, já
que acabamos dando pouca atenção aos outros pontos igualmente essenciais.

Vejo muitos treinadores usando o conceito de “challenging yourself”, estimulando o aluno


a desafiar a si mesmo, constantemente. Existe um erro estratégico nesse estímulo sem
fim, instigado pelos treinadores. O que, a princípio, pode parecer positivo, acaba sendo
negativo.

No entanto, este conceito pode ser de fato positivo caso seja utilizada outra estratégia.
Como seria isso?

Por exemplo, a partir do momento em que você já tem um corpo bonito e bastante
musculoso, você poderia parar de criar desafios em relação ao crescimento muscular e
entrar apenas em um processo de manutenção desta massa muscular já construída. Isso
seria o mais saudável. Esse já é seu ponto forte, certo? Qual seria a atitude mais sábia e
equilibrada a se tomar? Começar a investir em seus pontos fracos e, assim, transformá-
los também em possíveis pontos fortes. Um bom exemplo seria adquirir um ótimo
alongamento. Isso também representa uma fonte de poder, vai causar admiração e trazer
um enorme bem-estar a você, além de o tornar uma pessoa mais maleável e flexível, em
todos os aspectos.

Que tal se você aprendesse a meditar e se tornasse uma pessoa muito mais centrada e
equilibrada? Essa, talvez, pudesse ser a maior fonte de poder em sua vida.

Que tal dedicar mais tempo ao seu filho e se tornar um ótimo pai ou uma ótima mãe?
Essa é a forma mais efetiva de contribuir para um mundo melhor, além de ser
imensamente gratificante.
Que tal transformar e trabalhar questões emocionais e psicológicas que atrapalham a sua
vida? Ou, ainda, mudar hábitos e padrões que o fazem ter menos vitalidade e saúde. Isso
me parece muito mais desafiador e essencial do que apenas ganhar músculos, não acha?

O princípio de nosso método é impactar de forma equilibrada os pilares essenciais que


estruturam a nossa vida e que, realmente, fazem diferença em nosso equilíbrio pessoal.

Quando mudamos a nós mesmos, mudamos o mundo.

Existe um paralelo muito forte entre a obsessão pelo acúmulo de músculos (vigorexia) e a
obsessão pelo acúmulo de dinheiro (moneyrexia). Ambos representam formas de status
social e empoderamento, que escravizam e aprisionam o sujeito ao seu objeto de poder e
à autoafirmação.

Muitos milionários são pessoas que estão presas à sua fonte de poder e realização,
abdicando de outros setores de suas vidas e vivendo uma relação de ambição sem fim
com o acúmulo de bens. Essa ganância não se reflete em uma fonte de felicidade real,
afinal, que diferença faz ter no armário dois ternos ou 20 ternos feitos no mais caro
alfaiate? Que diferença faz ter dois ou dez carros fetiches? No entanto, não é só em
relação ao dinheiro que as pessoas querem sempre mais. Essa insatisfação criada pelo
consumo se reflete em todas as áreas.

Denise Gomes, uma amiga que participa de maratonas, alertou-me para o fato de que o
sarrafo não para de subir até mesmo nos desafios de corrida. Segundo ela, há três anos,
as matérias nas capas das revistas de corrida falavam de casos de superação em
maratonas. Agora, só falam de provas extremas, como a ultramaratona de 100 km e
outros desafios ainda mais extremos. “A maratona já não basta, cada vez eles inventam
algo mais radical”, diz ela.

Até onde vai a insanidade atlética ligada aos desafios radicais? O pior é que o universo da
competição invadiu o treinamento. Para os atletas, faz sentido se desafiar
constantemente; essa é a confusão. Como a mídia glamouriza o atleta e seduz você a
seguir este exemplo, muitas pessoas passam a adotar essa fórmula ideal de treinamento.
Porém, a essa altura, você já deve ter percebido que esse conto de fadas pode não acabar
bem.

No universo corporativo, também podemos observar a mesma coisa. As exigências e as


metas são cada vez mais extremas. O consumo realmente está consumindo o ser
humano. Quando você é capturado pela armadilha do consumo, nada é suficiente. Você
sempre vai se sentir incompleto. Pela lógica da competição, sempre vai ter alguém que faz
ou poderá fazer mais ou melhor que você.
O seu status está constantemente ameaçado, o que representa um enorme gasto de
energia e uma fonte permanente de stress e tensão. Nesse estado, não pode haver
integridade, plenitude e, consequentemente, felicidade.

Meu irmão Renato conta uma história que denuncia esse sintoma. É sobre um aluno que
se esforça agressivamente para atingir suas metas. No entanto, quando finalmente
consegue alcançar seus objetivos, ele não esboça nenhuma satisfação, nenhuma
felicidade. Indiferente, apenas diz com frieza: “Legal! Isso eu já consegui, agora qual o
próximo desafio?”. Isso, para mim, representa um caso extremo do racionalismo
pragmático e do consumo da própria experiência.

Existem histórias que nos fazem parar e refletir. Muitas vezes, são bizarras ao ponto de
nos deixar perplexos. Outras, trazem extremos que nos ensinam algumas lições.

Qual o cúmulo da insatisfação crônica gerada pelo consumo?

23 JOVEM PÕE FOGO NA PRÓPRIA FERRARI

Como dizia Lao Tsé, uma das funções da vaidade não é nos tornar maiores e mais
importantes, e sim, nos tornar menores, mais insignificantes e um tanto quanto ridículos.

“NÃO SEREI MAIS UM POBRE DIABO QUE SOFRE DE NOBREZAS.”

(Manoel de Barros)

Muitos não se dão conta de que o vício do consumo é o vício da escassez. Não importa o
que você possua, o foco sempre será aquilo que lhe falta.

Esse sentimento é o contrário da abundância. Vai contra todas as leis naturais, contra a
sabedoria de dar e receber. A natureza é um grande exemplo da colaboração e
interdependência como forma de gerar abundância e riqueza para todas as espécies e
seus semelhantes.

O homem veio romper o equilíbrio natural. É egocêntrico, acumulativo e consumista, cria


um sistema de isolamento do resto do mundo, em todos os aspectos. Basta perceber que
o indivíduo consumista é obrigado a viver em um bunker, que se transforma,
automaticamente, em uma prisão de alta segurança onde ele mesmo se fecha por
vontade própria.

Usando apenas uma via de mão única, o viciado em consumo se entope de objetos que
representam uma fonte de status social. O dinheiro adquirido por quem vende estes
objetos de fetiche possibilita, igualmente, novas trocas em busca de outros objetos de
desejo, egoicos e sempre individuais, e assim segue em cadeia. A maior parte da riqueza
circula livremente, mas só entre uma ridícula porcentagem da população. Essa riqueza é
individualista, visa o status, a ostentação. Ela não é distribuída e não pode gerar
abundância e felicidade, nem ao próprio dono do dinheiro.

A usura e a ganância são o medo da falta, da escassez, medo de perder o que se tem,
apego aos bens materiais. Quando os nossos medos nos dominam, tornamo-nos reféns
daquilo que procuramos fugir e evitar a todo custo. Passamos a viver em uma prisão
mental alimentada e sustentada por nós mesmos. O milionário ganancioso torna-se um
eterno refém da escassez, por mais paradoxal que isso possa parecer. Como o seu foco é
aquilo que falta, ele constantemente se impõe novas metas e novos desafios. O esforço
criado para manter o status, com o tempo, torna-se uma prisão.

A necessidade exagerada de reter para si, de acumular, e a incapacidade em compartilhar,


doar e dividir, podem se transformar em fonte de angústia, isolamento e vazio existencial.
INCLUSÃO DA OBESIDADE
A obesidade é decorrente de dois fatores primordiais: a alimentação e a falta de atividade
física. Oficialmente, ambas têm o mesmo peso, ou seja, cada um é responsável por 50%
dessa estatística. Alguns estudiosos, porém, dão um peso um pouco maior à alimentação,
e outros, à atividade física. Eu prefiro dar um peso semelhante a esses dois elementos,
que agem de forma conjunta e sinérgica no equilíbrio físico.

Eu assisti e recomendo o documentário “FedUp”, que mostra o lobby da indústria


alimentícia e como o excesso de açúcar criou uma epidemia mundial de doenças. Porém,
no documentário, não se dá o devido valor à importância da atividade física na
manutenção do peso corporal, o que considero um erro primário.

A falta de um conhecimento integral, realmente, faz muito mal aos especialistas. O sujeito
analisa meia dúzia de pesquisas e chega a uma conclusão superficial e apressada sobre o
assunto, sem perceber que essas questões devem ser tratadas com profundidade por
serem mais abrangentes.

Evidentemente, a alimentação é o grande vilão quando falamos da obesidade, mas isso


não altera o peso do exercício físico no processo. Por exemplo: um atleta pode consumir
mais de cinco mil calorias por dia e, mesmo assim, não aumentar o seu peso corporal. É
importante denunciar a indústria dos alimentos, que está adoecendo uma imensa parte
da população, mas, para isso, não é necessário defender uma meia verdade e estimular
as pessoas a ficarem sentadas em casa, assistindo à TV.

O maior equívoco está na forma como se busca perder peso através da atividade física.
Um obeso que corre como forma de acelerar a perda de peso, vai, provavelmente,
destruir a articulação do joelho ou desistir da atividade antes de obter bons resultados.

Vamos ser sinceros: emagrecer apenas por meio da redução de calorias é uma forma
ingrata e ineficiente de redução do peso corporal. Sem atividade física, o seu metabolismo
será sempre baixo e a sua ansiedade sempre alta. Desta forma, a tendência será
recuperar todo o peso perdido, novamente.

As pessoas ainda não perceberam isso, mas, uma das motivações que existem em
relação à atividade física é o fato de ela ser o mais eficiente ansiolítico existente no
mercado. Como a ansiedade é considerada o mal do século, sendo a força motriz por trás
de todas as doenças modernas, inclusive a compulsão alimentar, essa motivação é mais
do que convincente, ela é extremamente potente. Caminhe, vá até o parque e tome a sua
dose maciça e diária de ansiolítico, direto na veia. É de graça. O seu humor, saúde e
felicidade agradecem. Sem atividade física, dê adeus à “serotonina nossa de cada dia”, à
sua qualidade de sono e ao equilíbrio integral.

Pesquise no Google: “Quem se movimenta é muito mais feliz”, e veja uma matéria
interessante sobre o assunto.

Mas, então, de que forma o modelo atual de treinamento favorece a obesidade? Isso se
inicia nas escolas, onde as crianças acima do peso, geralmente, são segregadas e
excluídas das aulas de educação física e de outras brincadeiras. O modelo de atividade
física nas escolas públicas tornou-se antigo e ultrapassado. Ele permanece quase o
mesmo, sem grandes alterações, há mais de 50 anos. Esse modelo tem um foco excessivo
nos esportes de competição, como futebol, vôlei ou basquete, atividades que são de alto
impacto e, naturalmente, excluem os mais gordinhos, além de outras modalidades não
pensadas para eles. Como esses alunos não se encaixam ou não se interessam por essas
atividades, simplesmente ficam inativos, o que é compreendido pelo professor como algo
natural.

O professor, então, direciona a sua atenção para os alunos mais ágeis e deixa aqueles
com sobrepeso sentados, sem atividade. Quando isso não ocorre, o resultado final é até
pior, pois se o professor insiste para um aluno acima do peso seguir a mesma forma de
treinamento dos outros, faz ele passar por um sofrimento intenso, traumatizando e
reforçando nesse aluno uma relação negativa com a atividade corporal. Esse primeiro
contato da criança com a atividade física deveria ser feito com toda atenção e cuidado,
principalmente no caso dos mais gordinhos, já que a experiência ficará marcada –
negativamente – para o resto de suas vidas.

Isso segue pela vida afora, em todas as idades. Quando vão para o clube, para a academia
ou quando participam de grupos de corrida, entre outros lugares, os que estão acima do
peso não vão encontrar uma atividade física que seja realmente pensada para eles. São
eles que têm que se adaptar às formas de treinamento recomendadas, e não o contrário.
Muitos acabam tentando seguir o que todos fazem, as recomendações das revistas ou as
atividades da moda, à custa de um grande sofrimento e inadequação.

Agora, eu pergunto: se a obesidade é uma das mais graves questões da saúde pública
atual, por que a demora e o descaso da administração pública, ou mesmo da sociedade
como um todo, em mudar esse cenário? É possível equilibrar a balança, continuar dando
espaço para os esportes de competição, mas também criar e estimular atividades mais
divertidas, amigáveis, convidativas e acessíveis a todos os tipos físicos. Não podemos
mais ignorar as pessoas que estão com sobrepeso. Só no Brasil, atualmente, 52,9% da
população está acima do peso.
24 O QUE AYRTON SENNA DIZIA SOBRE A MODERAÇÃO NO TREINAMENTO?
O VÍCIO DA ADRENALINA
Por que as formas de treinamento radicais são tão atraentes, além do fato de
prometerem resultados rápidos?

A resposta é que o “sem dor, sem ganho” é bastante atrativo, seja em provas de corrida,
de aventura, CrossFit ou outras atividades, porque simula, em nosso cérebro, uma
emoção ancestral de situações limites de risco e perigo. Tais situações aconteciam nos
primórdios da humanidade, quando tínhamos que fugir de um predador ou caçar,
inundando o nosso cérebro de adrenalina e outros hormônios que trazem a sensação de
euforia e poder. Por isso, entendo que essas formas radicais são válidas, pois agradam e
interessam a um perfil específico, que busca aventuras e adrenalina através da atividade
física.

Há pessoas que gostam e atingem bons resultados com essas formas extremas de
treinamento e estão dispostas a pagar o preço pela escolha. Porém, defendo que tais
pessoas devem saber avaliar os riscos que estão correndo e o quanto esse processo pode
ser danoso, e não apenas serem levadas por uma compulsão e um vício. O treinamento
extremo pode se tornar uma forma de dependência, uma droga muito perigosa, que
levará você a consumir a si mesmo de uma forma igualmente extrema.

Devo ressaltar que respeito imensamente os atletas amadores que são apaixonados pela
competição. Eu mesmo, até quando jogo pingue-pongue gosto de competir. Para o atleta
amador, recomendo a competição em sua versão mais saudável: como uma grande
brincadeira que respeite os seus limites físicos e orgânicos. Sem radicalismos, nem para
um lado nem para o outro.

Não devemos cair no extremo de condenar a competição. Ela faz parte da nossa realidade
e não é essa a minha proposta. Eu apenas quero desconstruir o mito da competição como
um cenário ideal e dominante no treinamento. Afinal, competir não serve ou atrai a todo
mundo.

Segundo a psicóloga Roberta Lobato, o prazer proporcionado pelo exercício físico pode
ser viciante: “Pessoas ansiosas ou depressivas tendem a colocar toda a sua disposição no
esporte como uma forma de fuga”. Outro fator que está em jogo nessas formas de
treinamento radicais é o reconhecimento e o status adquiridos, uma vez que igualam o
praticante a uma espécie de super-homem. As pessoas falam com orgulho das suas
maratonas, Ironman e corridas de aventuras extremas, sentindo-se, assim, especiais e
diferenciadas em relação aos seus pares.
Escolher com toda informação e consciência é sempre o melhor cenário possível, já que
as situações extremas representam como resultado final um grande stress ao nosso
organismo, que fica totalmente intoxicado e fragilizado graças aos efeitos desta atividade
excessiva e exagerada. O que deveria acontecer apenas raramente na vida real.

Acontece que a adrenalina é um hormônio que causa dependência física e psicológica, o


que pode levar a uma compulsão. Basta ver o caso dos praticantes de esportes radicais,
que não conseguem viver sem se colocar em situações limítrofes. Quantos esportistas já
perderam a vida colocando a si mesmos em situações de alto risco? O paraquedista que
inventou o wingsuit, por exemplo, se espatifou contra a parede de um rochedo, na flor da
idade.

Já sabemos que a atividade física extrema pode deprimir nosso sistema imunológico. As
provas de aventura são um bom exemplo disso: já existem casos de morte por
hipotermia, infecções oportunistas, infarto fulminante, quedas e outros incidentes. Esse
tipo de atividade é tão estressante, fragiliza tanto o atleta, que qualquer bactéria pode ser
fatal. Eu já ouvi centenas de relatos desse tipo. Alguns atletas exageram nos treinamentos
ou competições e, logo em seguida, ficam à beira da morte, com pneumonias gravíssimas
ou outras infecções. Um simples corte pode se tornar uma infecção perigosa. Para variar,
os incidentes ficam escondidos e ninguém quer falar sobre isso.

25 SENTOU PARA DESCANSAR E CAIU MORTA.

Quando disparamos esse processo de adrenalina em nosso corpo, perdemos


completamente a noção de limite, consciência corporal, equilíbrio e moderação na
atividade física. Até porque essa é a função desse mecanismo de defesa, fazendo-nos
esquecer da dor e do sofrimento corporal para, assim, recrutarmos mais força e potência
para reagir frente a situações de perigo. A atividade física extrema e radical causa um
envenenamento do sangue, consome nossa energia vital e, devido ao fato de aumentar o
número de radicais livres na corrente circulatória, causa, no praticante, um
envelhecimento acelerado de forma brutal e assustadora. Atualmente, esse fenômeno é
amplamente comprovado pela ciência.

A minha experiência prática mostra o quanto o desgaste excessivo pode acelerar o


envelhecimento. Conheço muitos corredores no parque que já estão com os cabelos
brancos, aos 30 anos. O maior impacto que tive em relação a isso foi quando encontrei
um ex-aluno que há três anos estava participando regularmente de provas extremas. Ele
estava tão seco, magro e envelhecido que até levei um susto. Ele havia envelhecido 15
anos em apenas três. Para muitas pessoas, o resultado final desse tipo de atividade
representa um desgaste e um alto risco ao seu organismo, podendo facilmente se
transformar em um over training, consumindo os músculos, articulações e cartilagens,
bem como levar a uma forma de depressão decorrente do excesso de treinamento.

Então, raciocina comigo: quase todo mundo já vive sob um stress intenso no trabalho que,
igualmente, intoxica o sangue com exatamente as mesmas substâncias; ou seja,
diariamente tem em sua corrente sanguínea um excesso de cortisol, adrenalina e outros
resíduos metabólicos do stress, correto?

Ocorre que o mesmo indivíduo, que já está no seu limite orgânico devido ao stress no
trabalho, em vez de tentar desligar o seu sistema autônomo simpático e, de certa forma,
compensar o estresse, vai para a academia, onde é incentivado e levado a repetir o
mesmo processo, novamente. Depois, as pessoas não sabem porque estão irritadas,
desvitalizadas, dormindo mal ou com um stress excessivo. Elas simplesmente estão sob
forte stress no trabalho e no treinamento de cinco a seis vezes na semana, fulltime, sem
pausas. O que poucos sabem é que esse excesso de adrenalina e cortisol vai causar um
impacto profundo na qualidade do sono, dando origem a um círculo vicioso que pode
levar a um perigoso aumento da ansiedade e, consequentemente, a uma depressão.

Outro risco preocupante é quanto às articulações, devido ao fato de essas atividades


levarem a uma estafa muscular. Os músculos são os principais protetores das nossas
articulações, e quando eles entram em fadiga, o que basicamente ocorre a todo instante
nessas atividades, toda a sobrecarga e o impacto sobram para as nossas articulações.
Esse processo aumenta radicalmente o risco de lesões.

Essa forma de treinamento tem como consequência, ainda, mais um fator indesejado: ela
consome nossa massa muscular. Nesse caso, mais é menos, ou seja, ao exagerar no
treinamento, chegando até a estafa, o resultado final em relação ao crescimento muscular
é muito inferior ao que seria caso se interrompesse o exercício antes do ponto de estafa.

Sem contar o fato de que o treinamento de alta intensidade e a musculação pesada


causam uma contratura extrema em todos os nossos músculos. Os músculos
contraturados triplicam o stress e a sensação de tensão corporal, sendo isso, por si só,
uma fonte enorme de mal-estar e irritação.

Ou seja, não contentes com aquele pescoço duro e contraído após o trabalho, as pessoas
fazem questão de contraí-lo e contraturá-lo até o seu limite. Depois, elas não sabem
porque estão à beira de um ataque de nervos! Se olhassem para o próprio corpo – de
verdade –, entenderiam a razão. Um corpo que se transformou em uma massa de
músculo rígida e sem maleabilidade é um corpo eternamente contraturado e tenso, e não
tem massagista ou alongamento que dê jeito.

Lembre-se de que quando você compra o pacote do treinamento extremo, ele será
extremo em relação a tudo: aos riscos, ao custo final e tudo mais.

Porém, há um tipo específico de pessoas às quais essa forma de treinamento pode servir,
como aquelas que são extremamente mentais e ansiosas e precisam de uma dose maciça
de endorfina para não enlouquecer. Elas poderiam também fazer teatro, meditação, Chi
Kung ou outras formas mais brandas e menos agressivas de buscar equilíbrio e combater
a ansiedade, mas, caso se adaptem bem aos treinamentos, não se lesionem com
frequência e sejam apaixonados pelo extremo, a opção deve ser validada. Só lhe dou um
conselho, caso você faça um esporte extremo: seja extremo também em relação aos
cuidados com o treinamento, à dosagem, às pausas, ao alongamento e às compensações
necessárias ao extremo desgaste. Algumas dicas que posso lhe dar são: faça uma
fisioterapia preventiva, um planejamento cuidadoso e massagens regulares, tenha um
sono de extrema qualidade e uma alimentação aos cuidados de um especialista, entre
outras.

Afinal, quem sou eu para lhe dizer o que fazer? Toda forma de escolha é válida e pessoal. É
como diz a sabedoria popular: a verdade existe e cada um tem a sua. Não há verdade
absoluta. O que existe são pontos de vista diferentes, sempre. Tal insight evita os conflitos
e discussões improdutivas, em que queremos provar aos outros que estamos certos.
Respeitar o ponto de vista e a opinião dos outros, mesmo que não estejam de acordo com
os nossos, evita o desamor e a violência. Respeitar e compreender o ponto de vista dos
outros é o segredo da convivência harmoniosa.

“SOMOS DE TAL FORMA LIMITADOS, QUE JULGAMOS SEMPRE TER RAZÃO.”

(Goethe)

Sobre intolerância, pesquise no YouTube por: “John Cleese – extremismo”. Você verá uma
síntese hilária e perspicaz sobre o fenômeno.

Não deixe que ninguém lhe diga o que você deve fazer. A construção da própria verdade,
do que faz sentido para você, deve ser uma construção individual. Só assim você estará
alinhado à sua essência, identidade e criatividade. Um bom exemplo disso é a “ditadura
do saudável”, corrente editorial da autoajuda que impõe regras e normas daquilo que é
saudável no momento, sendo que as dicas mudam a cada semana, ao sabor das
novidades e pesquisas. É como se diz: moderação até na moderação. Se você nasceu para
ser um poeta dionisíaco e viver os prazeres da vida e da carne intensamente, em toda a
sua exuberância, quem sou eu para lhe dizer como viver? O que serve para mim pode não
servir para você. Cada um tem um propósito e uma missão, alinhe-se à sua!
SONHO DO CONSUMO
Imagine só que sonho entrar em uma academia aconchegante, com plantas, uma luz mais
baixa e confortável. Uma academia com música em um volume agradável, tranquila e
relaxante, sem televisão e barulho para tirar a calma e a paz do aluno. Uma academia que
não fosse um ambiente insalubre, extremamente barulhento e que nos deixa atordoados,
em todos os sentidos.

“ESQUECERAM-SE DE UM DIREITO NA DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM: O


DIREITO AO SILÊNCIO. O SILÊNCIO É PARTE DO MEU ESPAÇO FÍSICO. QUALQUER
BARULHO QUE O PERTURBE É UMA INVASÃO À MINHA CASA, UMA AGRESSÃO AO
MEU CORPO.”

(Rubem Alves)

Imagine uma academia onde o aluno fosse estimulado a desenvolver a sua consciência
corporal em todos os exercícios e atividades. Onde o professor, em vez de ser um
sargento, fosse uma espécie de psicólogo, um coach em qualidade de vida e mudança de
hábitos, que escutasse, aconselhasse e pensasse junto com o aluno o melhor treinamento
do dia, tendo em vista a qualidade do seu sono e o estado do seu sistema imunológico.
Em um futuro, não muito distante, esses itens influenciarão diretamente a prescrição
diária do treinamento de cada aluno.

Nessa academia, as atividades seriam lúdicas, desafiadoras, funcionais e naturais. O


aluno faria todas as atividades em equilíbrio, sem sofrimento e sem ultrapassar os seus
limites, mas sim os aumentaria gradativamente, realizando um treinamento restaurador e
eficiente, sem stress e sem tensão. Não precisaríamos utilizar nenhuma das máquinas
usadas atualmente, e não seria necessário que os marombeiros fossem excluídos deste
contexto, já que eles poderiam ter um espaço mais descolado, com pesos livres e uma
nova geração de equipamentos mais funcionais e modernos. Eles agradeceriam o silêncio
e treinariam com foco e concentração.

Enfim, um ambiente que fosse um oásis, um contraponto a todo o barulho, stress e caos
da vida diária, e não o contrário.

Um ambiente assim seria mais inteligente, saudável e convidativo. As pessoas seriam


compelidas, consciente e inconscientemente, a querer voltar e viver todas essas
atividades prazerosas e gratificantes novamente.

Quem vai ser o empresário criativo e inovador que sairá da mesmice?


O modelo de treinamento atual encontra-se em uma encruzilhada. Há muitos anos,
escuto, frequentemente, de amigos e alunos, as mesmas reclamações, que resumo na
lista a seguir:

1- Eu não me adapto à academia.

2- Eu odeio academia.

3- Fazer musculação é muito chato.

4- Ninguém aguenta mais este modelo de treinamento da academia, eu queria fazer algo
diferente.

Para o bem da própria indústria, proponho que ela mesma faça uma pesquisa profunda
para averiguar qual a porcentagem da população que concorda com as firmações
descritas anteriormente. Isso talvez os ajude a repensar estes modelos vigentes.

Eu nunca me esqueço do depoimento de uma aluna chamada Vera Fernandes, que me


disse: “A primeira coisa que pensei quando conheci vocês foi: ‘Eu não estou louca, eu não
estou louca!’ Eu nunca me adaptei ao modelo das academias. Aquilo não fazia o menor
sentido para mim. Mas não achei que existissem outras opções. Quando conheci vocês,
cuidar do meu corpo passou a fazer todo o sentido.”

O consumo massifica e uniformiza o próprio modelo de treinamento. Acho triste


constatar que a grande maioria das pessoas não têm outras referências de treinamento, a
não ser o modelo padronizado, formatado e sempre tão igual, aonde quer que se vá.

As academias não se deram conta de que este modelo atual já caducou, ele tem,
essencialmente, o mesmo formato desde a década de 1980: um foco muito intenso no
levantamento de peso e no treinamento com sofrimento. Se elas não acelerarem o passo,
vão ficar para trás. Aliás, já ficaram. E este abismo aumenta a cada dia.

DETALHE:

“Na academia, o volume da música pode chegar a 110 decibéis, nível considerado
gravíssimo, o equivalente ao som de uma turbina de avião em ação.” (Reportagem do
Jornal Nacional, TV Globo, 23 de março de 2009.)

“Todas as academias de ginástica, quando em aula, apresentaram níveis de ruído muito


elevados, chegando muito próximo ao nível de ruído limite em ambientes industriais 85
dB(A). Este nível estabelece o limiar a partir do qual deve- se utilizar protetor auditivo e
é considerado o nível sonoro de início para a ocorrência de dano auditivo.” (Carolina
Reich Marcon e Paulo Zannin, no estudo Avaliação do Ruído Gerado por Academias de
Ginástica, disponível no site: www.pgedf.ufpr.br)
7° PARADIGMA: VOCÊ NÃO PRECISA DE
DISCIPLINA
Poucos conceitos são tão nocivos à saúde pública como o conceito de disciplina. Por que
eu digo isso?

Quando você pergunta à maioria das pessoas o porquê do seu sedentarismo, uma das
desculpas mais recorrentes é a tal “falta de disciplina”. Desta maneira, a impressão que se
dá é de que a disciplina é algo que se adquire ao nascer, ou seja, um talento nato. Ou você
tem ou não tem.

Quando escuto essa máxima, é como se eu fosse transportado a uma dimensão paralela,
ou como se tivesse regredido ao século 15, uma Idade Média de trevas e ignorância.
Poucos conceitos são tão ultrapassados e arcaicos como esse. Mas, então, eu abro uma
revista de fitness em pleno século 21 e vejo que este conceito ainda é um senso comum
muito disseminado.

O que, então, está embutido na palavra disciplina?

Para um soldado, disciplina quer dizer que você foi domado e condicionado a seguir
ordens superiores, ou seja, a realizar de forma habitual e regular coisas que não são
necessariamente agradáveis e desejáveis a você. Para um aluno do fitness (um soldado do
treinamento), este princípio é o mesmo. Portanto, disciplina se afirma como a capacidade,
renovada diariamente, de seguir convenções e de suportar a dor e o sofrimento
almejando um bem maior.

Será a disciplina uma invenção de adultos que não sabem brincar? Ou você acha que uma
criança precisa de disciplina para brincar e se exercitar?

Chega a ser ridículo dizer isso, mas qualquer pessoa pode adquirir disciplina em apenas
um mês. É só trocar a palavra disciplina por hábito e você entenderá como e porquê.

Eu já fiz esta experiência com alguns alunos que chegaram ao nosso treinamento jurando,
de pés juntos, que não tinham disciplina. Para isso, basta que este treinamento seja
equilibrado, lúdico e prazeroso, fator que será essencial na construção de um novo hábito
e identidade.

Sabe porque a disciplina ainda é um conceito muito usado no treinamento? Porque treinar
ainda equivale a fazer algo que você não quer ou não gosta de fazer.
As qualidades corporais e mentais são treináveis e dependem apenas de foco e dedicação
para se desenvolver. As pessoas se congelam em um modo de ser e com certas
identificações em relação às suas qualidades pessoais que, na realidade, são muito mais
flexíveis e passíveis de mudanças do que imaginamos.

É muito comum ouvir as pessoas afirmarem que não têm alongamento, concentração,
equilíbrio, ou, então, outras qualidades como coordenação, paciência, disciplina e tantas
mais. Como já aceita isso como algo limitante e intransponível, algo que efetivamente
falta, essa pessoa nem tenta ou procura mudar o cenário. Isso já se congelou como a sua
própria identidade.

É uma questão de foco. Pode notar: em tudo aquilo que colocamos foco e energia, se
desenvolve. Essa é uma regra geral em nossas vidas.

Evidentemente, o contrário também é verdadeiro: tudo que carece de atenção e foco, se


atrofia. É como uma planta: se você a nutre com água e carinho, ela se desenvolve e
floresce. Assim também funciona em relação a todas as nossas habilidades e qualidades,
guardadas as devidas diferenças individuais, genéticas e corporais, é claro.

O esforço e a disciplina são a dupla dinâmica do controle militar exercido sobre os corpos.
Eles são a própria “Matrix”, que encaixota e formata a sua mente em um modo artificial de
funcionamento, inibindo a sua potência e a sua criatividade.

Por isso, quando falamos em descondicionamento, vemos que não precisamos apenas
descondicionar o nosso corpo, mas, principalmente, a nossa mente.

Lembre-se sempre dessa máxima: a obrigação mata o prazer. O prazer resgata o


nosso livre arbítrio e nos liberta de nossos condicionamentos.

Quando falo em prazer, foco no aspecto positivo do prazer. Não apenas na visão do
prazer compartilhada pelas religiões, que ressaltam apenas o seu aspecto negativo. Tudo
na vida tem diferentes facetas, tudo é ambíguo e contraditório. A nossa maior qualidade
também se transforma em nosso maior defeito. Sempre existem os dois lados da mesma
moeda; ou seja, este prazer pode, ao mesmo tempo, libertar ou aprisionar.

A palavra disciplina não combina com estes novos tempos. Servir a uma disciplina é
equivalente a abdicar da própria alma, da própria identidade. Disciplina significa, através
do seu uso militar, aceitar um conceito sem nenhuma reflexão, aceitá-lo como uma
verdade já estabelecida, de forma obediente.

A disciplina condiciona a aceitar ordens que são impostas de fora para dentro e de cima
para baixo. A consciência pode libertá-lo, fazendo com que a sua identidade e a sua
verdade se manifestem de dentro para fora. Então, a maior obediência passa a ser em
relação a si mesmo e aos seus próprios caminhos. Dessa forma, a disciplina torna-se o
contrário da consciência, torna-se obediência cega a um método ou conceito.
A NOVIDADE
Eu sigo tentando entender como e por que o corpo virou um produto e passou a seguir a
lógica do mercado de consumo. E você, como leitor atento, já deve ter percebido isso.
Posso me aprofundar um pouquinho nessa vereda? Vem comigo, tem coisas que você
precisa saber, só que ninguém vai se interessar em abrir esse assunto. Nos dois capítulos
a seguir, vou lhe mostrar cenas dos bastidores do treinamento.

Ultimamente, o mercado do fitness passou a se valer de certos argumentos para valorizar


seus produtos. As “tendências”, assim como no mercado da moda, são absorvidas pelas
academias e pelos treinadores, e rapidamente se tornam uma nova exigência. Em todas
as matérias que vejo, existem dois focos do marketing que são vendidos como uma
vantagem, mas que, para um especialista, são, na realidade, uma desvantagem do
treinamento, principalmente se a preocupação for, de fato, a saúde do aluno. Estes
argumentos estão sempre em destaque:

1- “Emagrecimento e ganho muscular no menor tempo possível”. Para um treinador


consciente, isso não é uma vantagem, mas sim, uma insanidade, fábrica de lesões.

2- “Os treinos nunca são iguais, cada dia tem uma novidade”. Aqui, cabe uma reflexão
mais profunda: será que a indústria do fitness enxerga o treinamento físico como algo tão
sacrificante, chato e monótono, que é necessário tapear o aluno com novidades a todo
momento?

É fácil entender por que os alunos precisam de novidades, afinal como a motivação é
sempre superficial, eles acabam se tornando muito dependentes da variação.
Treinamento físico não é show, nem gincana televisiva. Se um treinador trata o aluno
como uma criança de três anos, isso contribui para o seu processo de “idiotização”,
alguém que efetivamente não pensa, mas apenas segue ordens. Se o treinador pedir para
plantar uma bananeira em um braço só e torcer a coluna no ângulo de 60º, o aluno vai
obedecer sem questionar ou pensar.

Não se esqueça de que uma fatia do mercado de consumo trata você como criança e
tenta lhe enganar, procurando seu ponto fraco para vender coisas que tenham um apelo
irresistível. Esse é o trabalho dos especialistas do marketing e suas mensagens
subliminares. Desconfie de tudo que tenha um discurso sedutor ou prometa resultados
milagrosos. Essa é a primeira lei para fugir do “fast consumo”. Qualquer forma de
treinamento que prometa resultados significativos, em um prazo inferior a 12 meses, está
se apoiando em um marketing apelativo.
A pergunta que não quer calar: por que só no verão as revistas e a mídia, em geral,
parecem se lembrar que temos um corpo? Quem ainda cai nas pautas do “projeto verão”?
Quem ainda acredita nessa piada de mau gosto?

Esse conceito cria o treinamento físico enlatado e instantâneo, é só abrir a lata e você vai
estar lindo e maravilhoso. Pode ter certeza de que, nas matérias, em grande destaque, vai
estar escrito “Fique mais saudável”, “Cuide da sua saúde”. Saúde? Como assim?

Somos tão consumistas que acabamos consumindo a própria experiência, e pensamos o


treinamento físico como um produto. Por isso, queremos que a aula seja muito ativa e
produtiva, para que não se perca tempo, já que tempo é dinheiro.

Não existe espaço para a sensibilidade, para a pausa, para a meditação ou para um ritmo
mais orgânico e natural. Não existe espaço para a consciência. Aliás, o que é consciência?
“Isso pode me ajudar a produzir melhor e ganhar mais dinheiro?”, perguntaria a mente
racional e consumista.

Do ponto de vista corporal e fisiológico, variar os exercícios de fortalecimento seria uma


grande vantagem? Na verdade, ao contrário do que ocorre no treinamento cardiovascular,
neste caso, seria uma desvantagem.

O primeiro ponto é que existe um repertório muito pequeno de exercícios que sejam
realmente ergonômicos e que favoreçam as nossas articulações e cartilagens. Criar muita
variação implica em um vale tudo, sem noção e sem critério, que se transforma em um
prato cheio para a produção de lesões. O mercado tenta sustentar que o responsável
pelas lesões é o próprio aluno, mas, na realidade, não é bem assim. Quando elas ocorrem,
o argumento apresentado como defesa é de que o aluno exagerou e não respeitou o seu
limite. Ué, mas não é isso que o treinador lhe pede a cada segundo? Por acaso esse tipo
de treinamento ensina alguém a ter escuta e respeitar os seus limites? Ou é justamente o
contrário?

O segundo ponto é que praticar a mesma sequência de exercícios por um longo período
proporciona aos nossos músculos, articulações e cartilagens uma adaptação cuidadosa e
perfeita. E isso só favorece o nosso corpo. Sendo assim, as chances de lesões e tensões
desnecessárias diminuem drasticamente. Isso porque a repetição e a adaptação ao
exercício de fortalecimento são o melhor cenário possível ao nosso corpo, quando
pensamos em saúde e integração, fazendo com que tenhamos um grande resultado em
relação ao ganho muscular, com um risco infinitamente menor de lesões. Variar a carga e
os exercícios a todo instante não faz sentido, pega o corpo despreparado e de surpresa, já
que ele não teve tempo de se adaptar e criar recursos para enfrentar o novo desafio
proposto.
Esse tipo de treinamento se apoia em pesquisas que comprovaram que variar os
exercícios ocasionalmente (a cada dois ou três meses, não diariamente) traz um ganho
“um pouquinho” mais rápido no crescimento muscular. Isso pode ser verdade, mas quem
disse que o ganho muscular acelerado deve ser a única referência no treinamento? Um
ginasta não varia o tipo de atividade que faz e, mesmo assim, tem uma ótima qualidade
muscular.

Em qualquer forma de treinamento, mesmo com um foco extremo em alta performance


para atletas de competição, a manutenção do aparelho locomotor e a saúde dos ossos,
músculos e articulações deveria ser o principal foco. Evitar que o aluno se machuque para
que possa seguir treinando deveria ser o mantra de um bom treinador.
O MARKETING DO TREINAMENTO
Pesquisando a fundo este assunto, descobri qual realmente seria o motivo dessa nova
forma de marketing da indústria do fitness.

A resposta estava no relatório das estatísticas da IHRSA (International Health, Racquet &
Sportsclub Association), organização que reúne as academias de todo o mundo. Segundo
o material, 50% das pessoas abandonam a academia depois de três meses. A pesquisa
não mostra a porcentagem dos alunos que abandonam o treinamento após seis meses,
mas um item específico é bastante esclarecedor: sabe quais são as principais queixas
reportadas pelos alunos nesta pesquisa? Falta de resultados rápidos e monotonia nos
exercícios.

Bingo! Aí está a explicação para a nova estratégia de marketing do mercado de fitness. Ou


seja, baseada no resultado das pesquisas, o marketing se desdobra para pensar em
estratégias que atendam a essa demanda. Agora, quando eu digo que a estratégia de
treinamento, atualmente, tem uma enorme contribuição do diretor de marketing, você
acredita?

O que a indústria do fitness não entendeu é que ela está correndo atrás do próprio rabo.
Como funciona isso? Como o departamento de marketing entende que atender bem ao
cliente é dar o que ele pede, investe-se em fórmulas radicais de treinamento que aceleram
ainda mais os resultados. Essa é a forma mais cega – para não dizer outra coisa – de se
abordar esta questão.

Deixar o treinamento ainda mais radical vai provocar o efeito oposto ao desejado. Afinal,
se ele já provoca dor e afugenta o aluno, ao se adotar a nova medida, o processo tende a
piorar ainda mais. Mas, como o aluno não tem consciência disso, essas informações não
aparecem nas estatísticas.

Outra questão, ainda mais importante, é que um bom consultor não deve entregar ao
cliente o que ele pede, mas sim, o que é melhor para ele. A indústria do fitness martela na
cabeça das pessoas, há muitas décadas, conceitos que estimulam a busca de resultados
rápidos. Agora, ela está provando do seu próprio veneno. As pessoas estão doutrinadas
no conceito de treinamento estético e instantâneo. A questão é que, tudo o que ela
estimulou e seduziu, através do seu marketing, na realidade não existe, não é possível
entregar. O que isso produz? Frustração e desistência.

No entanto, o que essa indústria faz? Continua investindo na mesma estratégia. Isso é
inteligente? Na verdade, ela está cavando a sua própria cova.
Vou dar de graça uma receita que triplicaria o faturamento das academias em poucos
anos. Em primeiro lugar, deveriam reduzir as formas radicais de treinamento, que
afugentam a imensa maioria dos alunos, lesionam e não trazem bons resultados no
médio e longo prazo. Em segundo lugar, deveriam alterar completamente a sua estratégia
de marketing, conscientizando e explicando ao aluno que estas fórmulas milagrosas de
treinamento são prejudiciais à saúde.

Pronto, problema resolvido! Voltemos à programação normal. Quando os alunos


entenderem que não existem milagres e resultados rápidos, essa reclamação vai
simplesmente sumir das estatísticas.

Em nossa metodologia, a primeira coisa que falamos ao aluno é que, a exemplo da


natureza, tudo na vida segue um ritmo natural e orgânico de evolução. Sendo assim, caso
a nossa meta seja saúde e bons resultados no médio e longo prazo (resultados que sejam
definitivos, e não paliativos), não devemos acelerar esse processo. Já deu para perceber
isso? Perceber que somos seres vivos e certos processos não podem ser acelerados?
Aguenta firme, por favor, mesmo onde houver repetição. Sem paciência não existe
evolução. Se não voltarmos ao ponto de partida, não aprofundaremos e fecharemos um
conceito.

Quanto à queixa a respeito da monotonia, o maior problema é que a motivação do aluno


não está na própria experiência, e sim no resultado. Sendo assim, tudo se torna chato e
monótono. Outra questão é o fato de as academias investirem na musculação com peso,
a forma mais monótona e sem sentido de treinamento. Dá para ter uma vaga ideia de o
porquê as pessoas acharem tão chato treinar?

Tente imaginar a seguinte situação. Você chega para fazer uma aula de tênis com o seu
professor e ele diz: “Hoje a aula vai ser diferente. Em vez de usar a raquete, você vai usar
as mãos. E o objetivo do jogo também vai mudar: perde quem jogar a bola onde o
adversário não for capaz de alcançar”. Você acha que é necessário criar variação em um
esporte como o tênis? Na realidade, quando uma atividade é feita com consciência, é
lúdica e gratificante, a variação torna-se um fator secundário.

Mas você pode ficar surpreso com o que vou dizer agora. Embora pareça que vá
contradizer tudo que eu já falei, este é só um raciocínio complementar. De certa forma, a
monotonia se encontra na nossa cabeça e, muitas vezes, não está relacionada às
atividades que nos dispomos a fazer. Isso acontece porque a nossa cabeça, quase
sempre, não está onde o nosso corpo está. Raramente estamos vivendo o momento
presente, e levamos a vida com um sentido de tarefa.

Por exemplo: uma longa série de alongamentos pode ser a coisa mais chata que existe,
caso você viva e entenda esta experiência como uma tarefa, uma obrigação; ou pode ser a
coisa mais relaxante e deliciosa que existe, caso você mergulhe nesta experiência e curta
os efeitos que cada movimento causa ao seu corpo. Simples assim!

Existem, também, algumas questões adicionais: não estamos mais acostumados ao


silêncio, ao processo de interiorização e a nos encontrarmos conosco de uma forma
profunda. Como nosso mundo tornou-se superficial e vazio, também estamos nos
tornando superficiais e vazios, nos tornando ocos, pois não estimulamos mais o
crescimento e o desenvolvimento do nosso mundo interior. O mundo não permite e não
estimula este encontro. Somos constantemente distraídos por toda parafernália
eletrônica que se encontra à nossa disposição.

Aos 25 anos, fiz aula de Chi Kung e Tai Chi Chuan por dois anos, duas vezes por semana. A
sequência da aula era exatamente igual, todo santo dia. Agora, eu pergunto: fazer uma
aula exatamente igual criava monotonia? Ao contrário, vivenciar essas aulas era
absolutamente gratificante e delicioso, uma experiência profunda em que os mesmos
movimentos ganhavam um sentido novo a cada aula.

Só a repetição, a revisitação, o mergulho e o aprofundamento nos faz conhecer uma


técnica em sua totalidade. Quem vive a ansiedade, a pressa, a impaciência e segue a
lógica do mercado está apenas consumindo experiências. Sendo assim, nunca se
aprofunda naquilo que está vivenciando.

Dinheiro em troca de experiências. Talvez seja por isso que tantas pessoas ricas, quando
perdem um pouco de dinheiro, acabam acreditando que a vida não faz mais sentido. Elas
depositaram, por tanto tempo, o sentido da vida nas experiências que compravam, que,
sem dinheiro, acreditam não haver experiências dignas que lhes tragam alguma
satisfação. A que ponto chegamos na esfera do consumo.

26 QUAL TIPO DE EXERCÍCIO ESTIMULA SUA CONSCIÊNCIA E INTELIGÊNCIA?


A INDÚSTRIA DO CORPO
O ser humano criou uma indústria que se ramifica em diversas atividades, transformando
o corpo em um negócio altamente rentável. Essa indústria se beneficia da fragilidade e do
desconhecimento da população em relação ao próprio corpo, explorando sua passividade
e insatisfação de não estar em conformidade aos modelos de beleza atuais.

O rigor desses modelos de beleza, que se radicalizam ano após ano, alimentam,
potencializam e desenvolvem ainda mais essa indústria. Veja o caso das clínicas de
estética. É assustador notar o quanto essas clínicas evoluíram e passaram a oferecer
soluções para quase tudo. O público se transformou em cobaia de novas técnicas que
ainda estão em processo de desenvolvimento.

Lendo uma revista que se intitulava uma publicação sobre “saúde”, pude ver como essas
clínicas acharam uma forma bem discreta e eficiente de vender os seus produtos. No que
seria, provavelmente, uma matéria jornalística paga, uma ex-modelo famosa contava
sobre os seus hábitos, detalhes da sua vida pessoal e, no final, tecia elogios sem fim a um
tratamento específico de celulite que havia realizado. Na mesma reportagem, ela também
informava todos os detalhes da dieta alimentar restritiva que seguia. Uma receita passada
ao leitor de forma simplista e sem variação.

Ao longo dos anos, adquiri diversas revistas ligadas a atividades físicas, beleza e saúde, e
comprovei que essas táticas são usadas para vender os mais variados métodos e
produtos. Algumas celebridades e famosos, inclusive, emprestam o seu prestígio para
apoiar tais produtos.

Em outra matéria na mesma revista, eles comparavam nove tratamentos para celulite,
todos com nomes incríveis e promessas sedutoras. Ou seja, é muito difícil regular e
fiscalizar a influência dessa indústria, sem contar o mercado negro de novíssimas técnicas
e milagres radicais e instantâneos.

Acho louvável que a ciência corra para desenvolver soluções artificiais para os diversos
males, mas, por incrível que pareça, é difícil imitar a natureza sem produzir reações
adversas e contraindicações. Por não ser muito rentável, ninguém dá bola à prevenção. A
maneira mais eficiente para prevenir a celulite continua sendo uma combinação entre
atividades físicas específicas e alimentação.

Tenho uma história curiosa para contar sobre este assunto. Aos 60 anos, minha mãe
resolveu fazer uma viagem de busca espiritual e percorrer o Caminho de Santiago de
Compostela. Nos primeiros dias, ela percebeu que estava carregando muito peso e teve
que se desfazer de alguns objetos, para então, seguir mais leve, apenas com o essencial.
Essa foi uma das maiores lições que aprendeu na viagem: o quanto carregamos um peso
desnecessário em nosso percurso pela vida.

Voltando dessa viagem, ela teve uma surpresa. Todas as suas celulites haviam
desaparecido e suas pernas e glúteos apresentavam um fortalecimento e um tônus
invejáveis. A receita para este milagre havia sido caminhar 30 quilômetros por dia, durante
várias semanas seguidas.

Veja bem, não estou recomendando aqui uma nova forma radical de tratamento para a
celulite. A minha mãe já tinha um ótimo preparo físico para suportar este ritmo intenso de
caminhada e fez atividade física a vida inteira. Mas, posso comprovar, através da
experiência com minhas alunas, que o treinamento cardiovascular moderado de longa
duração é um excelente componente no tratamento e prevenção da celulite.

Entendo que as “facilidades” são sedutoras, mas o que mais me assusta em toda a
questão é perceber como algumas pessoas estão dispostas a arriscar a própria vida, seja
consumindo anabolizantes ou se submetendo a cirurgias e intervenções estéticas
radicais.

As empresas exploram uma oportunidade, a partir de uma demanda, e fincam o pé nesse


mercado, o qual começa a se expandir, estimulando e criando ainda mais demanda, por
meio de novos produtos e novas fórmulas. Prometendo resultados rápidos, essas
soluções sempre nos colocam em uma postura passiva, estimulando a desapropriação do
corpo e acentuando a falta de conhecimento e consciência em relação a nós mesmos.

Em resumo: como as pessoas terceirizam o próprio corpo, o mercado seduz com


fórmulas milagrosas, seja através de dietas de emagrecimento, seja com técnicas
instantâneas de fortalecimento, saúde e beleza. Cada vez mais passivos e inseguros em
relação à nossa capacidade de nos apropriarmos do próprio corpo, nos tornamos cobaias
dessas fórmulas milagrosas. Ficamos sempre à espera de uma solução externa e
embarcamos nestas ilusões paliativas, mesmo que, invariavelmente, nos levem ao
fracasso ou durem pouco.

27 O QUE É A CULTURA DO NARCISISMO? DEPOIS DE LER ISSO, VOCÊ NUNCA MAIS SERÁ

O MESMO.
OS EMAGRECEDORES
Você sabia que a indústria das dietas é maior do que a indústria dos tênis esportivos nos
Estados Unidos? Considerando que a maioria de nós precisa de um par de tênis para
calçar os pés, o dado é chocante, não?

Na realidade, tanto faz se a base de uma dieta são as proteínas, os carboidratos ou as


gorduras. O maior estudo já feito sobre o assunto, divulgado pela revista Scientific
American (n. 279), concluiu que todas se equivalem no emagrecimento a curto prazo e na
recuperação do peso a longo prazo.

A indústria dos emagrecedores é outro ramo oportunista do mercado do corpo. Caso


você ligue a TV à tarde, assistirá a uma enorme quantidade de programas voltados,
principalmente, às mulheres, usando diversas estratégias de marketing para vender uma
infinidade de produtos.

Eu fico imaginando que certas pessoas, ao experimentarem e misturarem esses produtos,


continuamente, vão provocar em seu próprio organismo uma desordem e um caos tão
intensos, que depois levarão meses para se desintoxicar e se recuperar de toda a química
e interferência maluca que fizeram. É uma variedade extensa, com todo tipo de
combinação, desde os fitoterápicos e termogênicos à base de estimulantes, até os
inibidores de apetite e dietas da moda. É uma mistura maluca das promessas milagrosas
e paliativas.

Esse ramo farmacêutico pega pesado em suas promessas e argumentações. Fica difícil
resistir à sedução dos resultados instantâneos, principalmente quando se usam
depoimentos de personagens convincentes ou dos famosos. Essa indústria lança mão de
todo tipo de argumentação científica e de pesquisas para comprovar a eficácia de tais
produtos. Como diz Michele Simon, advogada norte-americana especializada em saúde
pública e presidente de uma empresa de consultoria sobre política para comidas e
bebidas (Eat Drink Politics), “a indústria sabe muito bem como pegar uma meia verdade e
esticá-la, afinal, eles precisam vender”.

Por incrível que pareça (desculpe a ironia), eles só usam os argumentos favoráveis aos
seus produtos, omitindo todo o resto. Veja o caso dos termogênicos, por exemplo, que
estão muito na moda. Muitos deles são feitos à base de doses maciças de estimulantes,
como a cafeína ou a taurina do chá verde. O problema é que nós não precisamos de mais
estimulantes em nossas vidas. Pelo contrário, precisamos de mais estímulos relaxantes e
desestressantes.
O benefício do termogênico fica pequeno quando comparado ao prejuízo causado na
qualidade do sono, fator que impacta fortemente na perda de peso. Ou seja, esses
produtos artificiais precisam ser sempre estudados a fundo, pois, em sua grande maioria,
são apenas paliativos que não colaboram de forma efetiva para a redução do peso
corporal. O que ocorre, normalmente, é que você ganha de um lado, mas perde do outro.
Todo estimulante provoca em nosso organismo um “efeito rebote”. Como funciona isso?
Em um primeiro momento, ele vai dar energia e disposição, mas, em seguida, provocará
uma grande baixa energética, devido à energia despendida de forma artificial. Assim, com
o tempo, você se torna dependente de uma droga que rouba a sua energia vital de uma
forma brutal. Assim também é o caso da cafeína, uma droga que, em excesso, pode ser
extremamente perigosa. No fim, é tudo uma questão de medida: dois pequenos “shots”
de café, até a uma hora da tarde, não vão alterar o seu sono, na maioria dos casos.

Com a moda dos energéticos, um grande número de pessoas só treina à base de


estimulantes ou anfetaminas. O que parece ser uma vantagem, na realidade, torna-se
algo bastante perigoso. O consumo de doses maciças de cafeína é uma forma de doping e
leva o aluno a exagerar ainda mais nos treinos, perdendo completamente a percepção
dos seus limites. Isso, obviamente, aumenta de forma considerável o risco de lesões. Ou
seja, treinar dopado nunca é uma boa ideia.

Presenciei uma cena bastante sintomática desse novo fenômeno do fitness. Eu estava no
parque e escutei o seguinte diálogo entre um casal, extremamente definido e malhado,
com um amigo. O namorado ultradefinido dizia: “Brother, passei a noite inteira na balada,
tomando energético direto, e nós ainda tomamos dois copos enormes de café bem forte
para poder vir ao parque treinar. Que dormir, que nada! O barato é já emendar no treino.
Já corri 40 minutos, a 12km/h, e agora vou fazer uma série ‘insana’.”

Bota insanidade nisso! Aliás, esse é o termo perfeito para definir esse treinamento. Feliz
com a sua “esperteza”, ele dizia ao amigo, repreendendo-o: “Brother, você não toma
energético para treinar? Fica muito mais fácil, você se sente o super-homem! (risos)”

Acredite se quiser, essa é a realidade deste universo do treinamento: resultado rápido de


qualquer modo, mesmo que à custa de diversas formas de doping. O que ninguém
contou a eles é que essa combinação entre doses cavalares de estimulantes, fadiga,
privação de sono e treinamento insano, pode ser fatal ao coração.

O uso de suplementos diversos e anfetaminas, conhecidas como “fatburners”, é também


bastante comum a muitos frequentadores de academia. A recomendação costuma ser
feita pelo próprio personal, o que configura um desvio de função e uma prática ilegal. Os
termogênicos são especialmente perigosos e não devem ser consumidos sem orientação
médica.
28 CONHEÇA O “DAYAFTER” DOS SUPER-HOMENS E TIRE AS SUAS PRÓPRIAS

CONCLUSÕES.

Podemos consumir os nutrientes necessários ao nosso corpo, se possível, sempre “in


natura”, na forma de frutas, legumes e outros alimentos. Ao contrário do que defende a
indústria dos suplementos, por motivos óbvios.

Como dizia o grande Karl Popper, considerado o maior filósofo da ciência no século 20: “A
coisa mais fácil que existe é maquiar e conduzir uma pesquisa científica para colher os
resultados esperados.” Se você soubesse a quantidade de pesquisas mal elaboradas,
financiadas ou mal conduzidas que existem por aí, teria mais cuidado em acolhê-las como
verdade absoluta.

É necessário um bom conhecimento e olhar clínico para se reconhecer a “má” ciência.


Esse suposto aval científico confunde as pessoas e as leva a acreditar em um milagre.
Tudo isso somado, é claro, à autoilusão, à fragilidade e ao desejo ardente de acreditar que
possa existir um caminho rápido e instantâneo. Como isso se passa, de fato?

Tente imaginar a seguinte situação: uma mulher está sentada no sofá, zapeando de um
canal a outro na TV. Ela está obesa, sedentária há mais de uma década, quando dá de cara
com um canal anunciando “finalmente” uma solução rápida e eficiente para emagrecer.
Este medicamento é “incrível”, eles garantem, e ela fica hipnotizada e tremendamente
seduzida pelos argumentos, alguns deles apoiados em pesquisas e muito bem
estruturados. Afinal, o marketing é a arte da sedução. Mexe com nossos desejos mais
profundos e incontroláveis, e os manipula. Quais as chances de ela ficar apaixonada pela
proposta? Pôxa! Aí é covardia, não é? É como mostrar uma linguiça a um cachorro
faminto. Pois é, quando o dinheiro entra por um lado, a ética sai correndo pelo outro.

29 É POSSÍVEL FABRICAR UMA PESQUISA E ENGANAR JORNALISTAS DO MUNDO TODO?


TERAPIA DO INCOSCIENTE
Meu pai batizou seu método atual de terapia do inconsciente. E explico o porquê.
Realizando um coaching integral gradativo e que estimule a autonomia, conduzimos
nossos alunos em direção aos seus objetivos, através de pequenas vitórias e conquistas.

Quando provamos a nós mesmos que podemos vencer alguns desafios corporais ou
comportamentais, alteramos a maneira inconsciente como nos enxergamos. O
inconsciente é determinante em nossa autoimagem, sendo assim, agir sobre ele é a
forma mais efetiva de nos tornarmos capazes de realizar mudanças em nossas vidas.

Nosso método proporciona um resgate da confiança e da fé em nós mesmos. A cada


passo que damos, nos fortalecemos e passamos a acreditar que podemos ir em frente.
Vemos isso claramente em atletas: a confiança é algo que se autoalimenta.

“QUANDO OS MEUS ATLETAS PASSAM A FAZER ALGO QUE ACHAVAM IMPOSSÍVEL,


ELES SE TORNAM IMPOSSÍVEIS.”

(Nuno Cobra)

Qual o fator mais importante no processo de emagrecimento? O nosso próprio


inconsciente. Ele age em nossa mente sem que tenhamos uma percepção consciente
desse processo. Guardamos e escondemos motivações sobre as quais não temos
controle ou ciência. Comportamentos que parecem totalmente incoerentes e
contraditórios, como ações confusas e autossabotagens, podem não ser casuais, mas
inconscientemente intencionais. Como funciona isso, na prática?

Para uma pessoa que faz dietas frequentemente e já tentou de tudo para perder peso, o
seu inconsciente tem absoluta certeza de que não será capaz de atingir tal objetivo. Qual o
problema disso? Caso não altere esta imagem inconsciente que existe acerca de si
mesma, a pessoa irá boicotar e abortar qualquer tentativa de perda de peso. Lembre-se: é
ele quem manda, quem dá a palavra final em nosso cérebro.

O nosso inconsciente vive de fatos, registrando as experiências que vivemos. Ele opera de
maneira a manter uma autoimagem que foi sendo construída e reforçada através de
inúmeras experiências afetivas e emocionais. São marcas que fazem parte de nós, mas
que não sabemos que existem e, no entanto, atuam diretamente sobre nosso
comportamento. Você só irá mudar sua autoimagem, convencendo seu inconsciente de
que você é capaz de emagrecer de forma definitiva, se adotar um processo moderado,
contínuo e autônomo de emagrecimento. Ou seja, somente quando adotar um passo a
passo comportamental e obter sucesso neste processo.

Conheço alguns empresários que, de fato, conseguiram perder peso através de dietas
radicais e restritivas. Montando uma equipe multidisciplinar de nutricionistas, psicólogos
e grupos terapêuticos, e despendendo uma pequena fortuna nesse processo, eles, porém,
tornaram-se dependentes 24 horas por dia de profissionais que os vigiam e os
monitoram. Nesse processo, eles acabaram presos a uma vigilância ostensiva, tudo para
evitar que houvesse uma recaída.

Isso pode até surtir bons resultados para uma ínfima minoria. Porém, há uma
contraindicação fatal: o inconsciente não irá se alterar significantemente, pois esse
indivíduo não é o agente e o principal responsável por seu próprio sucesso e
transformação. Resultado: a sua autoimagem ainda será muito frágil e, sendo assim, ele
estará sempre prestes a ter uma recaída e ceder ao seu inconsciente. Qual o grande risco?
Assim que se cansar das fórmulas nutricionais pobres e restritas, irá demitir toda a sua
equipe, voltará a se alimentar compulsivamente e seu peso retornará ao patamar
anterior.

Em meus mais de 30 anos de experiência prática, o que mais vejo são pessoas que
conseguem emagrecer até dez ou 30 quilos através de dietas radicais, porém, depois de
um certo tempo, voltam a ganhar peso de forma progressiva. Na maioria dos casos,
ocorre o pior cenário: como seu corpo foi exposto a dietas restritivas por um longo
período, ao voltar a aumentar a ingestão calórica, o corpo reage e estoca gordura de
forma acelerada, como uma forma de defesa. Qual o resultado disso? A tendência será
ele ganhar ainda mais peso do que tinha ao iniciar este processo.

Um dos motivos que fazem esse sistema ser a pior forma de redução de peso existente é
o fato de que, manter uma dieta pobre e radical, obviamente, não é sustentável no longo
prazo. A melhor forma de desenvolver o seu autocontrole e autoconfiança é – pasmem! –
exercitando gradativamente o autocontrole e a autoconfiança. É assumindo a
responsabilidade e a autonomia perante você mesmo. Depender dos outros para ter
autocontrole não é autocontrole, é prisão e policiamento. É sistema carcerário de
emagrecimento. Da mesma maneira, treinar só na base do grito e do chicote, de uma
forma coercitiva, seria um sistema carcerário de treinamento. Quem não se exercita a não
ser sob uma vigilância ostensiva e forte policiamento, ainda não deu o passo mais
importante em relação a um emagrecimento definitivo e libertador. Ainda não descobriu
que a autonomia e o prazer libertam.

“NINGUÉM É SUJEITO DA AUTONOMIA DE NINGUÉM.”

(Paulo Freire)
O SEGREDO DO EMAGRECIMENTO
Durante 12 anos, fui o ghostwriter do meu pai, escrevendo artigos mensais assinados por
ele em uma revista veiculada em Alphaville e região.

Sem perceber, devido às minhas observações pessoais e experiências vividas com meus
alunos, adiantei alguns conceitos que se tornaram muito populares entre alguns
nutricionistas, atualmente.

Grande parte deste livro foi escrito por meio de anotações pessoais, em um processo que
chamo de “tirar de dentro”, sem nenhuma consulta bibliográfica. No enfrentamento com
as palavras e ideias, pude perceber que escrever é uma boa forma de elaborar e
desenvolver tudo aquilo que já sabemos. Quando terminei de escrevê-lo, eis que, na
consulta a alguns livros, notei algo interessante.

Existe uma tendência de valorização do especialista, do acadêmico e PhD, que acaba se


tornando “referência” de livros com mais apelo junto ao público. Lendo um capítulo sobre
o sono em um bestseller recomendado pelo jornal The New York Times, acabei tendo
uma surpresa. As dez páginas do capítulo eram preenchidas por um encadeamento
vertiginoso de informações apenas baseadas em pesquisas. Era uma infinidade de
detalhes e referências, como se o autor tivesse condensado mais de 30 estudos
acadêmicos em um só capítulo, o que pude confirmar ao final do livro, quando li as
referências bibliográficas. Não havia uma só experiência pessoal compartilhada pelo
autor.

Acredito que a experiência científica seja essencial ao conhecimento, porém, não


podemos nos esquecer de que a experiência vivida no dia a dia é também complementar
e igualmente necessária. É o que eu chamo de conhecimento intuitivo ou conhecimento
de campo. Há mais de 30 anos, encaro diariamente algumas dinâmicas de personagens
reais, com questões complexas relacionadas à saúde e à qualidade de vida.

Há aproximadamente dez anos, escrevi pela primeira vez sobre a inutilidade das dietas
restritivas. Na época, o assunto não era muito bem aceito pela maioria dos nutricionistas.
Vamos retomar esta reflexão.

A autocobrança e a obrigação em emagrecer podem se tornar a maior prisão vivida por


quem se torna refém dos seus medos e inseguranças. Na verdade, não é que o obeso
goste de comer; ele sofre por comer, o que é diferente. Já está mais do que provado que a
culpa em comer é um mecanismo que sustenta a obesidade.
A partir daí, o medo em não conseguir emagrecer se torna dominante e se transforma em
uma forma de obsessão. São as armadilhas mentais e seus truques que confundem e
embaralham a nossa consciência. Quanto mais tensa, preocupada e obsessiva for a sua
relação com a comida e o emagrecimento, mais dificuldade você terá neste processo.
Essa é a armadilha.

Quando o assunto “não posso comer” se torna uma obsessão para você, mais focado nele
e mais refém da comida e dos seus medos você estará. Qual a primeira coisa que meu pai
diz a um aluno que está acima do peso, em relação ao conflito alimentar? “Não se
preocupe com isso, tire o seu foco deste assunto. O mais importante é você começar a
existir em sua própria agenda, redescobrir o seu corpo, resgatar o prazer da atividade
física. Busque o seu equilíbrio, combata a sua ansiedade e o seu corpo voltará ao ponto de
equilíbrio naturalmente, pouco a pouco.” Não tenha pressa em emagrecer. Esse é o
segredo do emagrecimento definitivo.

No entanto, o que acontece com quem é obsessivo e sempre tem pressa em emagrecer?
Essa pessoa, fatalmente, vai desistir a todo momento das suas metas e idealizações, caso
elas não correspondam às suas expectativas imediatas. Ou seja, o desespero em
emagrecer, invariavelmente, criará situações de falhas e escorregadas.

Então, qual será a reação desse indivíduo que vive um conflito interno em relação à
comida? Ele estará sempre se balançando entre os extremos, e sendo assim,
frequentemente iniciando ou desistindo de fazer uma dieta ou outros tipos de restrição
alimentar. Quando as coisas não forem conforme o esperado, esse indivíduo acabará
“chutando o pau da barraca” e retornará ao seu padrão compulsivo anterior. Dessa forma,
ele não sairá do mesmo lugar e se manterá nessa prisão, criada e alimentada por ele
mesmo.

Isso funciona para todas as formas de aprisionamento que criamos em nossas vidas e
que alimentamos através dos nossos medos e inseguranças. Mas, então, o que pode
contribuir para sairmos efetivamente dessas prisões? Uma maneira de ajudar a derrubar
esses muros é fazer algumas formas de terapias, técnicas de meditação ou mesmo
conversas em grupo, do tipo “comedores compulsivos anônimos”, dentre outros métodos
terapêuticos que não incluam dietas restritivas.

Costumo dizer que fazer dieta é uma maneira muito eficiente de destruir a sua
autoconfiança. Explico: sempre que fazemos um movimento radical em uma direção, isso
provoca uma reação espontânea na direção oposta. É o famoso efeito gangorra ou “8 ou
80”.

O equilíbrio não está nos extremos, e sim no meio. Ser radical na dieta representa viver de
um extremo a outro, constantemente. O que ocorre com quem segue esse modelo? Com
o tempo, o desequilíbrio se torna cada vez maior. Nesse processo, perdemos a moral com
nós mesmos e, de derrota em derrota, destruímos a nossa autoconfiança por completo.

Quando isso acontece, podemos propor uma reconstrução. Atuando em nossos hábitos e
na ansiedade, podemos trabalhar de forma suave e gradativa a relação que temos com a
comida, criando, através de pequenas conquistas, um ciclo positivo de realizações; é o
que chamo de círculo virtuoso. Ao criar esse mesmo processo com a atividade corporal,
que adquire um sentido profundo de conexão, espiritualidade e prazer, este ciclo se
completa e, desta forma, não voltamos a engordar, pois teremos atingido o nosso
equilíbrio físico, mental e emocional.

Nesta proposta de terapia do inconsciente, o peso corporal volta ao seu ponto de


equilíbrio de forma natural e duradoura, simplesmente porque mudamos, sem
radicalismos e sem pressa, nossa relação com a comida. Isso acontece por meio de
pequenas mudanças comportamentais, realizadas a partir de uma visão integral do corpo.
“Quando você se distrair, começará a emagrecer de forma contínua e permanente”, diz
meu pai. “Se distrair”, nesse caso, diz respeito a tirar o foco dessa questão. Essa é a
atitude mais sábia a se fazer para quem vive uma obsessão.

Porém, não quero ser ingênuo. Após 30 anos de experiência com alunos obesos, sei que
perder peso pode ser um processo extremamente complexo e intrincado. O que abordo
aqui é apenas uma pequena parte deste assunto, que, efetivamente, poderia render outro
livro.

Quem faz dietas e mudanças bruscas na alimentação com frequência pode engordar de
dois a cinco quilos anualmente. Isso funciona como um imenso imã. É a lei da atração
pelo proibido: quanto mais pensamos nossa alimentação de forma obsessiva e restritiva,
quanto mais pensamos sobre o assunto, criando uma proibição a nós mesmos, mais a
comida torna-se algo irresistível e atraente. Como bem sabia Nelson Rodrigues, isso
funciona em relação a tudo. Em suas histórias, o “puritano radical” é sempre aquele que
está prestes a ceder aos apelos do proibido e suas perversões. O medo é uma serpente
que nos enreda e envolve.

O desejo é como uma represa: caso não haja uma mínima vazão, ela se rompe. E, assim,
em vez de comer um pequeno chocolate de vez em quando, o que é saudável e natural, o
desejo represado durante muito tempo fará você consumir uma caixa inteira de doces
com alto teor de açúcar e gordura ou ter outros ataques alimentares compulsivos. Ser
radical e ortodoxo é viver na prisão do proibido e sua forte atração. Quanto mais fujo
daquilo que me amedronta, mais aquilo me atrai.
Quando comer torna-se algo permitido, equilibrado e natural, tudo isso se dissolve e
passa a não fazer mais sentido. Porém, todo esse processo deve ser uma construção
gradativa e real, algo que tenha uma perspectiva de médio e longo prazo, não apenas
artificial e insustentável.

As pessoas que vivem um conflito alimentar crônico funcionam em “modo automático”.


Quem tem o hábito de fazer dietas restritivas com certa frequência, passa a vida inteira
em dieta. Com o tempo, isso se torna uma identidade. Outro dia, escutei uma história
engraçada. Uma amiga me disse que havia sido definida da seguinte maneira, em uma
conversa com outra amiga: “Você, que ‘adora emagrecer’, precisa conhecer esse
produto...” (risos)

Você desperdiçaria energia, tempo e dinheiro, e passaria por frustrações e torturas


indescritíveis, para investir em um recurso que falha em 95% dos casos? Como vemos,
essa escolha não é racional. Fazer dieta restritiva não funciona na imensa maioria dos
casos.

”FIZ UMA DIETA RIGOROSA. CORTEI ÁLCOOL, GORDURAS E AÇÚCAR. EM DUAS


SEMANAS, PERDI 14 DIAS.”

(Tim Maia)

Somente através de uma efetiva mudança em nossos hábitos é que poderemos


conquistar resultados realmente significativos e permanentes. Assim, iremos convencer o
nosso inconsciente, de forma definitiva, de que somos capazes de emagrecer. Tudo que
vem rápido, vai embora rápido. O nosso cérebro e o nosso corpo não se adaptam a
mudanças bruscas e artificiais.

Quer dois exemplos disso?

• O cérebro entende que uma perda de peso rápida é uma ameaça à nossa saúde. Dessa
forma, nosso corpo entra em um processo de economia, como se estivesse em “stand
by”, queimando menos calorias e diminuindo nosso metabolismo.

• O cérebro precisa se reprogramar e se adaptar a um novo peso corporal. Perder peso


rapidamente inviabiliza essa reprogramação. O seu cérebro irá buscar, a todo custo,
retomar a imagem corporal a qual estava adaptado. Isso se traduzirá em boicote e
autossabotagem.

Afinal, você sabe então qual é a fórmula mágica do emagrecimento?

• Combater a compulsão e a ansiedade.


• Comer com qualidade.

• Manter-se razoavelmente ativo através de caminhadas, dança, natação e exercícios mais


lúdicos e funcionais, entre outras atividades de baixo impacto articular.

Bom, mas isso você já sabia, não é? Essa é uma fórmula antiga e manjada. Então, qual é a
novidade? Pois bem, a novidade é que, somente quando você parar de se iludir com
fórmulas milagrosas de emagrecimento, finalmente vai atingir seus objetivos. A novidade
é que sabedoria não é saber, sabedoria é fazer.

Viver eternamente sob restrição alimentar e sentir culpa por comer é um péssimo hábito.
Você não gostaria de nunca mais ter de se preocupar com isso? Poder comer de tudo,
inclusive pães, massas, sorvetes e, mesmo assim, não engordar? Será que, a exemplo do
que ocorre com os remédios, a maioria das pessoas não estariam atacando apenas os
sintomas, e não a verdadeira causa do excesso de peso?

Vamos refletir. Você passou os últimos dez anos sedentário, desenvolvendo,


gradativamente, hábitos negativos em relação à alimentação, e agora quer resolver tudo
em apenas dois ou três meses, de forma artificial. Você até pode conseguir, mas, aos
poucos, tudo voltará a ser como era antes. Essa solução rápida, simplesmente, não é uma
realidade. Porém, a boa notícia é que, depois de passar pelo processo de mudança de
hábitos, você não precisará mais fazer dieta.

Para muitos, isso funciona de forma permanente. Hábitos equilibrados e saudáveis,


adquiridos de forma gradativa, conservam-se por um longo período, sem esforço.

30 COMO FAZER DIETA OU TREINAR PODE SER UMA FONTE DE ANGÚSTIA?


8° PARADIGMA: TREINAMENTO SOB
MEDIDA
Certo dia, treinando um aluno em uma academia bastante sofisticada, cruzei com um
amigo que não via há muito tempo. Como a minha aula já tinha terminado, fiquei
conversando com ele por um longo período. Foi quando ele me perguntou:

– Nuno, eu estou treinando há um tempão, chego em casa destruído e, mesmo assim, não
perco peso. O que pode estar errado? Agora, aconselharam-me a fazer spinning para
acelerar a perda de gordura. O que você acha disso?

A primeira pergunta que fiz a ele foi:

– Você tem alguma lesão?

Quando ele me disse que tinha duas hérnias de disco, quase cai para trás. Quem, em sã
consciência, permitiria que um aluno com hérnia de disco faça spinning? Expliquei
rapidamente que fazer spinning poderia acentuar o problema, criando ainda mais
compressão na coluna lombar. Embora estivesse gostando da ideia do spinning por
acelerar a queima de gordura, ele concordou em desistir da modalidade.

Esse breve exemplo ilustra bem a gravidade da falta de uma avaliação integral de cada
aluno, assim como demonstra o quanto a prescrição do treinamento, atualmente, é
realizada às cegas, sem um estudo mais aprofundado do corpo humano.

Quando estou no parque, observo outras pessoas treinando. E quando vejo grupos de
treinamento atuando, de certa forma, fico abismado. Todos treinam juntos e o gordinho,
que começou o treinamento ontem, é obrigado a seguir o mesmo treinamento de um
cara sarado, que já treina há, pelo menos, 20 anos. Simplesmente, não existe graduação
do treinamento. Depois, ninguém entende por que a desistência é tão brutal em nossa
área.

Qual o meu conselho? Nunca treine coletivamente, caso não exista, ao menos, seis
graduações no treinamento. Dois modelos para os iniciantes, dois para os intermediários
e mais dois para os avançados. Isso seria o mínimo para você não realizar algo totalmente
inadequado ao seu nível de adaptação articular e muscular. Em minha proposta de
treinamento muscular, existem 15 níveis de intensidade do treinamento. É como se fosse
o equivalente às faixas coloridas das artes marciais. O ideal seria respeitar e cumprir cada
etapa de sua evolução e, assim, mudar de faixa progressivamente, sem sofrimento.
Quando pesquiso sobre exercícios na internet, vejo porque o universo on-line é uma terra
de ninguém. Lá, você encontra de tudo, como alguns treinadores norte-americanos,
extremamente populares, cujos vídeos têm mais de um milhão de visualizações,
recomendando através de tutoriais muito bem produzidos certos treinos para iniciantes,
que, na verdade, são uma afronta à nossa saúde corporal, mesmo no caso de alunos em
estágios mais avançados. Tem de tudo e nunca dá para saber qual é a capacitação e
formação de tal professor.

Qual o risco disso? É no mínimo temerário recomendar um exercício assim, de forma tão
genérica, sem fazer, primeiro, uma avaliação minuciosa de cada aluno.

Estamos lançando um novo paradigma do treinamento corporal, um conceito ainda


inédito no mundo, que busca, finalmente, integrar as áreas do conhecimento corporal e
acabar de vez com o treinamento realizado às cegas.

Atualmente, muitos treinadores aplicam um treinamento focado em performance, sem


ter uma ideia clara e profunda de como estão as principais estruturas morfológicas deste
aluno que serão exigidas durante os movimentos.

Estruturas básicas, como a bacia, o encaixe do fêmur no acetábulo, a estrutura do joelho,


os apoios envolvidos na pisada, a saúde da coluna e os espaços intervertebrais, são
informações essenciais para saber como programar o tipo, a intensidade e o volume do
treinamento. Cada aluno tem uma estrutura morfológica diferente, relacionada ao seu
tipo físico e à sua herança genética. Essa estrutura é completamente ignorada no
treinamento atual. Apenas o básico é realizado, ou seja, saber se o aluno está apto para a
atividade física por meio de um exame médico e de um exame ergométrico ou
ergoespirométrico.

31 A CHAVE A SEGUIR NÃO É PARA INICIANTES. ABRA COM CUIDADO.

É interessante analisar, através de exames radiográficos, todas as estruturas ósseas e


articulares antes de se iniciar um treinamento. Deve-se pensar o treino ideal de cada
indivíduo a partir de um estudo mais aprofundado de todas as suas estruturas corporais
ligadas ao movimento, assim como das suas assimetrias e do seu padrão de movimento.

Torna-se imprescindível, ainda, realizar uma entrevista levantando todas as informações


possíveis ligadas ao aluno, como os seus hábitos de sono, alimentação, relaxamento,
stress do dia a dia e tudo que lhe diz respeito. Na entrevista, é traçado um perfil
psicológico e emocional deste aluno, investigando-se ainda o seu histórico de lesões e
atividades físicas desde a infância. Só assim é possível realizar um treinamento realmente
sob medida e customizado para cada pessoa.

Não podemos colocar em risco o nosso aparelho locomotor durante o treinamento. Uma
simples perda em nosso sistema locomotor pode representar uma incapacidade de se
exercitar para o resto da vida. Realizar essa análise minuciosa em um estudo mais
integrado e detalhado sobre o aluno vai, finalmente, trazer um olhar mais cuidadoso e
abrangente ao treinamento.

O ideal seria que performance e saúde andassem de mãos dadas. Só assim


respeitaríamos o ponto de compensação ideal a cada aluno. Dessa forma, a sua evolução
seria rápida e eficiente, porém, sem riscos, sofrimentos e com muito menos esforço.

32 COMO CORRER DESCALÇO POR LONGAS DISTÂNCIAS E NÃO SE LESIONAR?


TREINAMENTO CONSCIENTE
Olhando para o universo do treinamento, lembrei-me de um desenho que vi com minha
filha:

A diretora rigorosa de uma escola infantil diz a uma aluna:

– Para mantermos a ordem, temos sempre que seguir as regras.

Ao que a esperta aluna responde:

– A menos que as regras não saibam para onde ir e queiram nos seguir.

Precisamos, constantemente, repensar, rever e reinventar os paradigmas, pois só assim


as regras continuam a fazer sentido.

A soma de todas as minhas teorias contidas neste livro me levou a criar uma nova forma
de entender o corpo e o treinamento. Esse movimento do treinamento consciente que
estou criando, hoje, agrega o olhar aprofundado de alguns dos maiores especialistas do
conhecimento corporal da atualidade no Brasil, como fisiologistas, doutores em educação
física, fisioterapeutas, ortopedistas, cardiologistas, nutricionistas, endocrinologistas,
neurocientistas, educadores somáticos e outros.

Nessa visão, o corpo se transforma em um caminho para o crescimento e o


aprimoramento mental, emocional e espiritual. Ou seja, um processo completo de
autoconhecimento e autotransformação.

Quando o aluno se torna o proprietário do seu treinamento, torna-se também


responsável por sua própria transformação. Isso o empodera, levando-o a respeitar seus
próprios limites e adquirir consciência corporal. Ele descobre, assim, o prazer e o sentido
da atividade física, e liberta-se de seus medos e inseguranças. Nesse processo, o aluno
renasce, reencontra a sua maior potência e se fortalece ao transformar seu corpo, seus
hábitos e, consequentemente, a si mesmo.

O treinamento consciente vai na direção oposta aos mercados do fast training e do fast
beauty, já que investimos em resgatar a consciência corporal de cada aluno, sua
verdadeira identidade e sua autonomia. E essa nova consciência corporal só pode ser
desenvolvida através da autoescuta, da autorregulação e da auto-observação constantes.

O formato atual do treinamento aponta para o passado, enquanto o treinamento


consciente aponta para o futuro. E a minha missão é fomentar o movimento que abraça
esse novo universo da atividade corporal.

Essa nova abordagem do treinamento segue cinco pilares essenciais:

Gostaria de convidar a todas as pessoas que se motivarem, a fazer parte desse


movimento conosco, como os profissionais de um conhecimento corporal específico, que
podem colaborar e levar à frente essa bandeira, tão necessária e atual. Bem como as
empresas e organizações que apoiam e participam de ações criativas e transformadoras,
com o objetivo final de melhorar o mundo. Esse tipo de apoio é também essencial e nos
permite seguir em frente.

O leitor também pode participar, compartilhando as suas observações e experiências


vividas no treinamento. Quem já vivenciou uma experiência dolorosa e traumática com o
treinamento ou se lesionou pode nos ajudar, enviando o seu depoimento para o e-mail:
contato@nunocobrajr.com.br. Vamos reunir todo esse material, que nos servirá como
estudo e pesquisa.
SELF-SE QUEM PUDER
Muitas vezes, eu me pego refletindo sobre o fenômeno das blogueiras fitness. Acho
engraçado que, no mundo da internet, ser egocêntrico dá ibope. Em sua maioria, esses
blogs são uma constante exposição de si mesmo: “Olha eu tomando meu café da manhã!
Olha a minha barriga tanquinho! Olha eu plantando bananeira! Olha só o que eu consigo
fazer! Olha eu com meus amigos sarados! Olha eu ao lado de alguma celebridade! Olha
eu! Olha eu! Olha eu!”

Percebe como na internet as pessoas buscam constantemente um olhar de aprovação?


Exatamente como quando éramos crianças e lutávamos pela atenção de nossos pais.

Outro dia, encontrei uma das blogueiras, por acaso, enquanto ela estava posando para
algumas fotos no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Ela estava munida de um grande
aparato, com maquiador, refletores e tudo mais. Era visível o seu sofrimento ao posar
para o fotografo. Fazia algumas posturas radicais, que mal conseguia sustentar por alguns
segundos. Mas, é claro que na foto, ela vai aparecer sorrindo, como se estivesse
executando o exercício com a maior facilidade. Ao final da sessão, ela perguntou ao seu
treinador: “Linda essa postura, para que serve?”

Ou seja, o critério de escolha dos exercícios indicados em seu blog é totalmente


superficial, ligado à beleza, às novas tendências. Dessa forma, o treinamento se
transforma em mais um produto exposto em uma loja, uma prateleira de opções diversas
para todos os gostos.

Afinal, qual o sentido disso? Outras mulheres ficarão morrendo de inveja e, se caírem na
bobagem de seguir a série de exercícios proposta, muitas vão parar no hospital com uma
distensão muscular instantânea.

Tais blogs retratam o mundo do consumo. É o “samba do crioulo doido” das propostas de
treinamento: têm um pouco de tudo e estão sempre atrás das novidades, da última moda.
Adotam qualquer tipo de treinamento, por mais ridículo e extravagante que seja. Fico me
perguntando: quando finalmente entenderemos que o treinamento e o corpo não podem
seguir a lógica do consumo?

Acredito que o mais grave disso tudo seja que muitas blogueiras são tão midiáticas, que
acabam sendo vistas como “especialistas do treinamento”. Com o fenômeno da
divulgação e da promoção em massa, acessível a todos na internet, o mundo está ficando
cada vez mais surreal. Elas estão, massivamente, em todas as mídias, indicando ao
grande público diversas formas de treinamento e dieta. Onde estão os órgãos de defesa
do consumidor nessa hora?

Como essas mulheres vivenciaram em seus corpos uma grande transformação, surgem
na mídia como uma voz gabaritada em relação ao conhecimento corporal. O que não se
sabe, porém, são as maluquices a que essas pessoas se expuseram para chegar a tais
resultados e quais são, efetivamente, seu conhecimento sobre esses assuntos.

Na área estética não é diferente. Esse “vale tudo” não tem fim, permitindo o surgimento
de tratamentos, como por exemplo a criolipólise, que usa baixas temperaturas
prometendo acabar com a gordura localizada. O aparelho é colocado na superfície da
pele, fazendo as células de gordura serem congeladas “in loco” a temperaturas negativas
para serem destruídas. Ou seja, agora eles estão congelando as gordurinhas. Apenas por
curiosidade, liguei para uma clínica que realiza o tratamento e me informaram que a fila
de espera era de cinco meses.

Você acha que um tipo de tratamento agressivo como esse pode fazer bem ao seu corpo?
Essa seria realmente uma forma definitiva de resolver o problema? O bombardeio da
mídia perpetuando um modelo de beleza é tão contundente e eficiente que as pessoas
estão dispostas a correr risco de vida para ficarem magras. Veja o exemplo da
lipoaspiração. A pessoa fica magra de forma artificial e, mais tarde, como acaba por voltar
aos velhos hábitos alimentares e manter-se sedentária, ganha novamente toda a gordura
que tinha sido retirada.

33 COMO ESPETAR OITENTA VEZES SEU CORPO COM UM ESPETO DE CHURRASCO DE 30

CENTÍMETROS E FICAR FELIZ?

As pessoas ficam tão desesperadas e alucinadas com a própria imagem, que lançam mão
de qualquer novidade que surja, por mais maluca que possa parecer. Se sair uma matéria
na web amanhã dizendo que pelo de macaco faz emagrecer, em poucas horas essa
“matéria-prima” vai se esgotar no mercado. Algum empresário esperto e ligeiro vai lançar
rapidamente esse produto em diversas opções: cápsulas, creme etc.

34 O QUE VOCÊ PREFERE: TER A BARRIGA ZERADA OU A CONTA BANCÁRIA ZERADA?


9° PARADIGMA: CRESCIMENTO
INSTANTÂNEO
É possível atingir resultados rápidos e ganhar músculos definidos em pouco tempo?

Quando vamos a uma banca de revistas ou pesquisamos na internet, encontramos


inúmeras fórmulas que prometem resultados milagrosos no curto prazo. De forma
ingênua e primária, o nosso mercado se apegou a essa estratégia comercial de seduzir o
aluno.

Se o modelo do fast training já é temerário imagine, então, treinar por conta própria,
seguindo as dicas de treinamento que proliferam nas revistas, na TV e na internet.

Vamos fazer uma pequena experiência. Vá até a banca mais próxima e leia todas as capas
das revistas de fitness e “saúde”. Pode-se resumir quase todos os títulos a: “Fique magro e
tenha um corpo perfeito, no menor tempo possível”. Para vender mais, as revistas lançam
mão de um marketing apelativo para atrair o leitor.

Veja este exemplo: “Como ganhar uma barriga tanquinho em apenas oito semanas”.
Folheando a matéria, vejo que, na realidade, eles deveriam mudar o título para: “Como
ganhar uma hérnia de disco em apenas oito semanas”.

Quando será que estas revistas vão cair em si e perceber a responsabilidade que têm para
com o leitor? Não seria uma irresponsabilidade passar uma dica radical de treinamento,
sem saber nada sobre o aluno ou se preocupar com quem vai ler? Isso sim é um
treinamento totalmente realizado às cegas.

Certa vez, conversando com o meu amigo professor Paulo Vitiritti, tive um insight do que
seria fundamental explicar ao aluno, para que ele nunca mais caísse no “conto do vigário”
do crescimento muscular instantâneo.

Vamos esclarecer isso de uma forma didática. Um treinamento nunca pode ser indicado
como uma fórmula geral que sirva para todos. Por quê? Porque todos nós temos um
corpo diferente, uma morfologia diferente, um histórico de atividade física diferente, uma
genética diferente, um tônus muscular diferente, uma personalidade diferente, e por aí
vai. Somos absolutamente diferentes uns dos outros.

Na prática, isso quer dizer que, se você aplicar em mil pessoas diferentes os mesmos
exercícios que estão lá na revista, prometendo uma barriga tanquinho em oito semanas,
obterá mil resultados distintos.

E, pasmem: apenas pouquíssimas pessoas irão se favorecer dessa promessa e obter uma
barriga um pouco mais definida em oito semanas. Mesmo assim, elas terão desgastado e
prejudicado as suas articulações e cartilagens.

Na realidade, esse perfil de pessoas só vai ter sucesso em treinamentos assim porque
elas já estavam próximas ao seu objetivo. Como funciona isso? Tente observar algumas
crianças na faixa dos cinco anos que você conhece. Você vai notar que algumas delas já
são muito energéticas, fisicamente fortes e tonificadas, e estão se movimentando e
brincando de forma intensa e vigorosa. Outras crianças são mais quietas e introspectivas,
são desajeitadas, sem tônus muscular e não gostam de atividades físicas vigorosas. Pois
bem, aquele corpo extremamente definido, forte e perfeito aos 18 anos de idade, é fruto
de anos e anos de uma relação intensa com a atividade física e esportiva, período em que
se construiu, fibra por fibra, cada um de seus músculos. Do outro lado, aquele corpo
flácido, sem tônus, sem agilidade, desajeitado e recoberto com uma camada generosa de
gordura, é fruto de anos e anos de falta de estímulo, abandono e inadequação à atividade
corporal.

Então, o que você acha que acontece quando esse último perfil chega para um treinador e
fala que deseja ter um corpo perfeito em poucos meses? Qual seria a reação mais
honesta desse professor: cair na risada; pedir para ele rebobinar a fita da sua vida, voltar
aos cinco anos de idade e se movimentar intensamente a partir de então; ou explicar para
ele que o tipo ideal de corpo é fruto da genética, do histórico, da personalidade e da
determinação, o que pode demandar cinco, dez ou 20 anos de treinamento?

O que eu diria a esse aluno? Muita calma nessa hora. Você pode ter um corpo forte e
definido, mas o seu corpo nunca vai ser igual a um modelo específico de corpo. Isso é
impossível, não existe uma cirurgia geral de ossos, músculo e articulações. Você vai ter
apenas o corpo que a natureza lhe deu e suas possibilidades. Desenvolva-se, explore e
viva todo o seu potencial físico. Seja quem você é.

Para uma mente formatada neste sistema de consumo, o corpo é uma camiseta, que
você pode comprar, idêntica à que está na propaganda. Essa mente continuará a ser
seduzida pela indústria do fast training e pelo treinamento radical.

Você sabe qual é o truque utilizado sempre que lhe mostram uma foto com antes e
depois, em que o sujeito, milagrosamente, ficou musculoso em pouco tempo?

Quando isso não acontece pelo uso de anabolizantes, a explicação é simples: algumas
pessoas já têm uma musculatura bem desenvolvida, mas, devido ao excesso de peso,
essa musculatura fica escondida por baixo da camada de gordura. Não é aparente, mas
quando elas emagrecem, abracadabra! Essa musculatura surge, assim como um milagre.

Outra questão importante é que você pode, sim, mudar bastante o seu corpo, mas o
tempo desse processo varia radicalmente de pessoa para pessoa. Nessa hora, o que vai
fazer diferença e pode se transformar em uma grande vantagem, é o seu histórico de
atividade física.

As pessoas que não praticaram esportes e atividades físicas na infância e adolescência


terão uma desvantagem brutal. Da mesma forma, pessoas que estão muito acima do
peso e inativas há cinco ou dez anos, também necessitarão de muito tempo de dedicação
e reestruturação dos seus hábitos.

Por que os jovens que foram ativos têm muita vantagem, mesmo que estejam há muitos
anos inativos? Porque nossa constituição e memória muscular se preservam por toda a
vida. O que isso quer dizer? Nossos músculos são como sacos, uma vez que você os
desenvolva e os constitua, eles estarão sempre, potencialmente, à disposição para serem
preenchidos, ainda que eventualmente fiquem um pouco vazios.

Meu pai sempre me serve de exemplo. Aos 78 anos de idade, ganha músculos com uma
velocidade impressionante. Como foi um ginasta e decatleta durante muito tempo, é só
ele treinar por dois ou três meses que os sacos ficam totalmente preenchidos e os
músculos volumosos e definidos.

Em resumo: partindo-se do ponto zero, é possível ficar com o corpo lindo e definido em
poucos meses? Não, isso é impossível. Seria possível, então, ficar com o corpo forte e
bonito em 18 ou 24 meses? Aí, sim. Quando falamos em anos, e não em poucos meses ou
semanas, nos aproximamos de uma realidade mais concreta. Porém, a velocidade da
evolução vai depender da genética, da dedicação e do histórico de cada aluno. A arte de
acelerar o processo de crescimento muscular, sem prejudicar o corpo, requer um
profissional extremamente experiente, consciente e estudioso.

35 AQUELES TREINAMENTOS MALUCOS E EXCESSIVOS QUE VOCÊ FAZ PARA FICAR


BONITA NO VERÃO, MAIS TARDE PODEM LHE CUSTAR MUITO CARO. ISSO VALE A PENA?
REEDUCAÇÃO FÍSICA
A maioria da população sofre de uma espécie de analfabetismo corporal. Quando visito
academias ou estou no parque, vejo dezenas de absurdos sendo feitos por pessoas que
ignoram completamente as implicações daquilo que estão realizando com seu próprio
corpo. Isso se deve ao fato de o sistema “o professor manda, o aluno executa”, ser um
sistema hegemônico em nosso meio. Poucos treinadores se interessam, de fato, em
trazer mais consciência ou explicar com cuidado os detalhes essenciais do treinamento
para os alunos. Talvez façam isso por pensarem que esse conhecimento seja muito
complexo e deva ser guardado a “sete chaves”, como um segredo exclusivo.

Será que o grande medo dos treinadores é de que os alunos tenham discernimento e
independência? Esse medo é infundado. Quando o aluno entende o porquê e o sentido do
que faz, o treinamento adquire outra dimensão e profundidade. Isso irá ajudar no seu
vínculo com o treinamento. É como eu digo, o aprendizado sobre o seu próprio corpo é
algo extremamente útil, algo que se leva para o resto da vida.

O que poucos percebem é que alunos conscientes e esclarecidos são o melhor cenário
para a indústria do fitness, mesmo que ela ainda não saiba. Alunos conscientes treinam
de forma equilibrada e buscam resultados no longo prazo. Logo, não se machucam, não
desistem do treinamento e são fiéis ao treinador, visto que estabeleceram um vínculo de
confiança e afeto, cenário completamente oposto ao do aluno inconsciente. De forma
efetiva, o modelo de treinamento consciente ajudará não apenas a população a encontrar
sentido e prazer na atividade física, como também levará toda a indústria do treinamento
a triplicar o seu tamanho em poucos anos.

Alunos conscientes atingem ótimos resultados, sem se lesionar, e podem treinar de


forma regular por décadas seguidas. A fidelização e a otimização dos resultados são tudo
o que a indústria do corpo busca, porém, vem fazendo isso de uma forma cega e pouco
esclarecida. A fórmula é bem simples: uma indústria consciente produz treinadores
conscientes, o que, por sua vez, se traduz em alunos conscientes.

É importante realçar que a figura do treinador continuará sendo essencial na


potencialização dos resultados e no melhor aproveitamento dos treinos. Treinar a si
mesmo é uma arte difícil e solitária. Existe uma tendência à acomodação e à falta de uma
visão panorâmica e externa acerca das problemáticas vividas no treinamento. Como em
todas as formas de terapia e de consultoria, um olhar externo é essencial, resultando em
mais colaboração, troca, direcionamento e expertise em relação ao assunto em questão.
Por isso, um papel mais significativo e pertinente ao treinador seria justamente o de um
consultor, e não o de uma babá. O ideal seria o aluno ser o agente da sua própria
transformação, aprendendo e se apropriando desse conhecimento corporal.

Na chave a seguir, pincei mais um trecho da entrevista que fiz com Dr. Maciel que, de forma
impressionante, se encaixou à perfeição com esse assunto. Parece que a providência
providencia tudo mesmo. (risos)

36 NO FINAL, TUDO SE ENCAIXA! NADA COMO UM COMPLEMENTO TRANSDISCIPLINAR

PARA AMPLIAR NOSSO CONHECIMENTO.


MUSCULAÇÃO NATURAL
Se você chegou até aqui, é porque está realmente interessado em conhecer seu corpo.
Nesse ponto, devo adverti-lo de que os dois capítulos a seguir são um pouco mais
específicos e técnicos. Mas tenho certeza de que serão úteis a todos aqueles que querem
fazer boas escolhas em seu treinamento. Eu me desdobrei para torná-los o mais leve e
didático possíveis. Vamos lá!

O conceito de fortalecimento muscular se alterou profundamente nos últimos anos. Em


um passado recente, até o começo do século 21, havia, entre os treinadores de elite, uma
predominância de exercícios de fortalecimento baseados na musculação. Hoje, isso se
inverteu, a predominância são os exercícios funcionais. Em certos esportes, até cabe
ainda, pontualmente, o uso de alguns exercícios com peso. Mas, de forma geral, os
exercícios funcionais de fortalecimento, ou naturais, como nós os chamamos, são muito
mais vantajosos aos atletas e não-atletas.

Por que o treinamento natural é imbatível e muito mais eficiente para um atleta? Porque
um atleta precisa desenvolver inteligência e funcionalidade corporal em toda a sua
complexidade. Um atleta precisa ser ágil, rápido, forte, flexível, coordenado, sensível e
intuitivo. Para ele, é essencial treinar e aguçar todas as suas habilidades corporais.

Por que, então, o treinamento com pesos está caindo em desuso para os atletas de alta
performance? Porque além de não desenvolver e estimular todas as qualidades essenciais
a um atleta, essa forma de treinamento pode inibir e prejudicar a funcionalidade corporal.
O ganho de força e potência é mais eficiente e profundo quando realizado por meio de
exercícios mais dinâmicos, que envolvam instabilidade.

A evolução do treinamento com pesos se desenvolveu de forma gradativa. No início, esse


treinamento era mais próximo de certa “naturalidade” porque era realizado apenas com
pesos livres. Porém, como o homem é um animal muito criativo, surgiram novas
maneiras de se levantar peso, como deitado, por exemplo, dentre outras variações.
Acontece que, levantar um peso isolando a musculatura que irá realizar o esforço, é algo
inexistente na natureza.

Se os nossos ancestrais tivessem que levantar algo pesado, naturalmente e de forma


inteligente, iriam utilizar todos os seus músculos, trabalhando em conjunto, em tais
movimentos.

Por exemplo, levantar 40 quilos usando apenas a força de um músculo, como o bíceps,
não é algo saudável, simplesmente porque nosso corpo não foi projetado para suportar
cargas intensas, agindo apenas sobre uma articulação.

Essa metodologia avançou sobre um modo artificial de treinamento, propondo um grande


número de repetições em um curto espaço de tempo, além de exercícios específicos para
cada músculo do corpo. Nos anos 1970, o cenário começou a piorar, com o surgimento
das máquinas para facilitar e tornar mais confortável o treinamento com pesos.

Por que a estabilidade e o conforto empobrecem o treinamento de fortalecimento?


Porque somente através da instabilidade iremos trabalhar as fibras musculares mais
profundas e estabilizadoras em nosso corpo. Como já foi comprovado, esses músculos
estabilizadores nos protegem de lesões e representam, realmente, um tipo de força mais
efetiva e funcional. Ou seja, a musculação tem uma limitação fatal: ela exige pouco dessas
fibras musculares.

Na academia, existe um vasto repertório de máquinas que podem representar riscos


potenciais à nossa coluna e às articulações. Por exemplo: a carga de um exercício com o
legpress ou com a mesa extensora e flexora, é alavancada em nossa coluna. Nesse
processo, ocorre um cisalhamento, ou seja, as vértebras da coluna se movimentam,
afetando violentamente os discos intervertebrais. Lembre-se de que esta é uma
articulação que resiste ao movimento. Nesse instante, ocorre uma perda e um desgaste
nos discos, o que pode ter graves consequências no futuro. Outra perda importante
relaciona-se à funcionalidade e à sinergia muscular.

Vou dar um exemplo prático que ilustra bem essa questão. Quando pensamos em uma
maneira natural e eficiente de fortalecer a musculatura das costas, dentre outros
músculos, balançar ou levantar o corpo na barra funciona como uma perfeita simulação
do que faziam os nossos ancestrais primatas quando subiam em árvores. Quando
fazemos esse movimento de forma natural, mobilizamos diversos músculos
estabilizadores e profundos em todo o nosso corpo, que se unem para apoiar e sustentar
o movimento. O abdômen se contrai intensamente e aciona a região lombar, o assoalho
pélvico e o esfíncter se unem ao time e vão recrutando internamente cada pequeno
músculo, de forma que até o quadríceps e o dedão do pé participem sinergicamente
desse movimento.

No entanto, o que acontece quando você usa uma máquina como o pulley para simular
esse movimento? Devido ao fato de você estar sentado e ter um apoio em seu joelho
estabilizando toda a musculatura inferior e central do corpo, isso desliga e torna
desnecessário o uso desta musculatura durante o movimento. Quando você puxa com os
braços a barra do pulley em direção ao seu peito, não é você que está subindo em uma
barra, mas sim, ela que está descendo, movimento que faz os blocos de peso subirem ao
lado da máquina, certo? Pois bem, essa forma extremamente artificial de simular o
movimento provoca uma carga excessiva apenas sobre alguns poucos músculos (essa é a
função da musculação localizada). Outro fator indesejável é que – devido à falta de apoio e
sinergia com diversos outros músculos que poderiam contribuir para este movimento –,
os músculos se tencionam e sofrem uma sobrecarga artificial, que agirá de forma
localizada apenas sobre certas articulações. Ou seja, tais formas de treinamento
contraem e recrutam regiões em nosso corpo que não deveriam ser muito estimuladas,
como nosso trapézio, pescoço, mandíbulas e a ATM (articulação temporomandibular).

No final das contas, o corpo que se move em bloco será um corpo que perdeu sua
capacidade de movimento e articulação. Eu me recordo de uma cena emblemática
referente a essa questão: eu estava no vestiário de uma academia, quando vi um
praticante de bodybuilding, com uma massa razoável de músculos ao redor do seu corpo,
ser incapaz de retirar sozinho a sua própria camiseta. Isso mesmo, aquele homem
extremamente forte e musculoso teve que esperar, pacientemente, algum amigo entrar
no vestiário para ajudá-lo a retirar a sua camiseta. O volume e a rigidez dos seus músculos
eram tais, que uma simples tarefa como essa havia se tornado algo praticamente
impossível de ser realizada.

Entendo que a paixão estética e as questões psicológicas envolvidas na vigorexia levem


esses praticantes a uma obsessão com o volume e a qualidade muscular. Porém, será que
realmente vale a pena treinar duro, durante muitos anos, para no fim perder sua
funcionalidade, flexibilidade e agilidade corporal? Esse é um questionamento que todo
bodybuilder deveria fazer a si mesmo.

O excesso de músculos sobrecarrega o funcionamento do coração, o excesso de


suplementos sobrecarrega os rins, e o uso de anabolizante causa diversos desequilíbrios
e pode levar à morte.

Portanto, qual o sentido de todo esse sacrifício? Apenas para estar de acordo com um
modelo de beleza inventado pela indústria bilionária do bodybuilding? Apenas para se
adquirir status social? Isso é realmente saudável? Quando você quiser jogar uma partida
de futebol, vôlei de praia, fazer slackline ou surfar, você acha que todo esse excesso de
musculatura será uma vantagem ou uma desvantagem? Vale a pena abrir mão de tudo
isso, da saúde e da funcionalidade corporal, em prol de um padrão estético? Se a resposta
for sim, você é um bodybuilder convicto e sabe os riscos que está correndo. Só me cabe
compreender as suas escolhas, que devem ser sempre validadas e respeitadas, como
qualquer tipo de escolha em nossas vidas.

Já que o assunto é a estética como prioridade no treinamento, na chave a seguir vamos


analisar como conquistar o mais cobiçado objeto de desejo – a tão sonhada barriga
tanquinho – pode ter um efeito colateral extremamente perigoso para sua coluna.
37 A COLUNA NÃO É UMA DOBRADIÇA
CORPO É MÁQUINA
Todas as máquinas que foram inventadas a partir de 1920 e que ainda são populares nas
academias, como a mesa extensora e flexora, o legpress, o pulley e outras, pouco se
alteraram ao longo do tempo.

O conceito de engenharia mecânica e funcionamento dessas máquinas ainda é o mesmo,


de modo geral, não tem muito para onde fugir. O que mudou ao longo do tempo foram
apenas pequenos detalhes de ergonomia, funcionamento e carenagem (o design). É como
se fosse um carro, que tivesse mantido ao longo dos anos seus conceitos básicos, porém
ficou um pouco mais bonito e funcional.

Conversando com um amigo meu, um gênio da engenharia mecânica, uma espécie de


“Professor Pardal” das invenções, ele me apresentou o problema: não tem sentido as
máquinas serem absurdamente caras e tecnológicas se, mesmo assim, elas ficam aquém
da qualidade de um movimento que você faria sem o auxílio de nenhuma máquina. Talvez
seja mais fácil admitir que precisamos começar a repensá-las gradualmente. Mesmo
assim, o treinamento com pesos e com máquinas de musculação não cairá em desuso
tão cedo por um simples motivo: ele serve à indústria do bodybuilding. O treinamento
com pesos é a própria alma do bodybuilding, desde a sua fundação.

Quando pensamos nos critérios mais importantes da qualidade do fortalecimento


muscular, comparando a musculação localizada com pesos e a musculação natural, a
primeira só tem vantagem em relação a um item específico: a velocidade no aumento do
volume muscular. Em todos os demais itens, ela está em bastante desvantagem. Como na
musculação com pesos você aplica grandes cargas de forma localizada, o resultado é um
ganho de volume muscular um pouco mais acelerado. Mas, veja bem, quantidade não é
qualidade. O músculo, nesse processo de treinamento para hipertrofia muscular, é um
músculo com muito volume e pouca definição.

A musculação com pesos é bastante eficiente para quem quer ficar “bombado” e gosta do
modelo de corpo extremamente volumoso. Porém, nesse processo, para chegar a esse
corpo ideal, o aluno terá que, invariavelmente, consumir algum tipo de “bomba”.

Propomos um modelo de fortalecimento que se utiliza do peso do próprio corpo, com


exercícios como brincar de subir, pendurar ou balançar em barras, ou seja, resgatando os
movimentos naturais do nosso corpo. Ao misturar elementos da ginástica olímpica e do
circo, dentre outros, criamos movimentos corporais estimulantes e desafiadores, que
fortalecem a nossa musculatura profunda, propiciando força útil, resistência e definição
muscular. No fortalecimento natural, realizamos atividades que implicam em dominar,
conhecer e utilizar os próprios recursos corporais, resultando em um corpo harmônico e
bem estruturado.

Esse modelo apresenta inúmeras vantagens em relação ao método convencional de


musculação. Veja alguns:

• Trabalha grandes grupos musculares simultaneamente.

• Trabalha as fibras musculares profundas e estabilizadoras, fibras brancas e vermelhas.

• Estimula e desenvolve a propriocepção muscular, de forma a proteger a articulação e


evitar tensões musculares excessivas.

• Os músculos trabalham em sinergia, de forma integrada, apoiando e preparando o


corpo para o movimento, e diminuindo consideravelmente o risco de lesões.

• O ganho de massa muscular é igualmente eficiente, porém, a qualidade muscular e a


definição atingida são muito superiores.

• Não existe o risco de desequilíbrio corporal e de falta de proporção estética, causado,


muitas vezes, pelo estímulo desproporcional a músculos específicos durante o
treinamento.

• Não prejudica a flexibilidade, a elasticidade e a funcionalidade corporal.

• Desenvolve todas as habilidades corporais, como agilidade, precisão e coordenação


motora, o que representa um ganho cognitivo e cerebral.

• Superar os desafios corporais propostos representa um ganho mental e emocional,


atuando diretamente na autoconfiança. Os exercícios são muito mais estimulantes e
divertidos.

• Possui curta duração, entre 15 a 20 minutos. São treinos rápidos e desafiadores, que
promovem estímulos de superação e estimulam a consciência corporal.

• Os treinos podem ser realizados em praças e parques, em contato direto com a


natureza, sem o uso de equipamentos caros e extravagantes.

• A alavanca do movimento é feita pelos braços, e não pela coluna como no treinamento
com peso, preservando-a assim de possíveis lesões. A coluna é o nosso bem mais
precioso.
• Prepara o corpo para adquirir agilidade, mobilidade e funções em todos os ângulos
possíveis.

• Traz um repertório enorme de possibilidades de movimentos que devem ser


estimulados, como os de articulação, equilíbrio, estabilização, flexão, extensão, rotação e
potência, explorando assim todos os planos possíveis do movimento corporal (sagital,
transversal e frontal), bem como as diferentes formas de contração (concêntrica,
excêntrica e isométrica).

Entre diversas outras vantagens. Como você pode constatar, os benefícios são enormes.
Para quem tem dúvidas em relação ao volume e à qualidade muscular que podem ser
atingidos com essa forma de treinamento, podemos tomar como exemplo o corpo de um
ginasta, uma musculatura de grande qualidade, definição e volume.

Por incrível que pareça, essa forma de treinamento com barras que fazemos desde 1954,
agora se transformou em uma febre chamada street workout ou calistenia, ainda que a
nossa proposta seja bastante diferente dessa prática. Há, porém, um equívoco nesse
método: ele não deveria se chamar “calistenia”, que, originalmente, são exercícios mais
leves e acessíveis a todos, feitos sem nenhum equipamento. Como a barra fixa, as barras
paralelas e outros acessórios são centrais nessa prática, parece-me que a base da
ginástica olímpica é muito mais determinante nesse novo conceito de treinamento.

Porém, como toda moda ligada à indústria do fitness, os riscos são os mesmos do
bodybuilding e outras práticas. Ou seja, caso a performance e o resultado estético
tornem-se uma obsessão, o treinamento pode, igualmente, estimular e hipertrofiar o ego
(e a vaidade), como também levar a um excesso de rigidez muscular. O excesso de
volume e intensidade no treinamento podem ainda representar um risco de lesões
articulares e tendinites.

Na prática, nenhuma técnica é de toda ruim, a princípio. O problema está mais na forma
como ela é utilizada. Tudo vai depender da intensidade e do volume, que deve ser sempre
planejado individualmente para cada aluno. Até o treinamento funcional, tão festejado na
atualidade, pode ser nocivo. Quando usado no formato de circuito de alta intensidade e
treinamento com sofrimento, ele pode se transformar em um risco à saúde.

Por outro lado, mesmo a musculação com pesos pode ser positiva, caso seja feita com
cuidado e moderação. Nunca se esqueça: a diferença entre o veneno e o remédio é
apenas a dosagem.
AUTOAJUDA QUE ATRAPALHA
Chega de fórmulas prontas!

Chega de empacotar e vender o autoconhecimento. Esse caminho deveria ser vivido e


percorrido individualmente. Só assim ele se transforma em uma forma verdadeira e real
de autoconhecimento, não apenas uma fórmula idealizada e externa a nós mesmos. Se
você se sente preenchido e transformado quando acaba de ler um livro com esse tipo de
proposta, talvez seja porque ele criou em você uma ilusão de sabedoria.

Essa ilusão pode ser decorrente do formato comercial da autoajuda, em que os capítulos
se estruturam em receitas, manuais e fórmulas prontas. Embutida nesse conceito, está a
promessa de que, caso você siga essas fórmulas, finalmente estará transformado. Nosso
cérebro é facilmente enganado e seduzido por fórmulas bem estruturadas e
convincentes. Quando termina de ler um desses livros, o leitor tem absoluta certeza de
que já está transformado, antes mesmo de ter dado qualquer passo adiante neste
sentido. Dali a alguns meses, ele já se esqueceu de quase tudo o que leu, uma vez que não
aplicou esse conhecimento. Quem já frequentou a escola, sabe o que acontece com o
conhecimento que não é aplicado na prática: ele se apaga.

O que o leitor faz, então? Compra outro livro e inicia todo esse processo novamente. Tudo
o que busca formatar, doutrinar, enquadrar e criar regras estritas pode ser nocivo ao
espírito, simplesmente, porque mata a criatividade, a autenticidade e a individualidade de
cada um.

Algo muito ingênuo dessa linha editorial da autoajuda é querer criar diretrizes e
promessas fantasiosas, construindo e racionalizando um passo a passo da busca pela
felicidade e pela sabedoria. Esse passo a passo não existe, da mesma forma que não
existem duas pessoas iguais. Todo modelo padronizado e idealizado pode, no fim das
contas, não ser de grande valia. O que serve para você pode não servir para mim.

Desculpe a sinceridade, mas essa busca é um processo individual e solitário. É você


consigo mesmo, e, de preferência, sem apego aos mestres e sem fórmulas prontas.
Afinal, a maior autoridade em relação a tudo o que lhe diz respeito é você mesmo.
“Ninguém pode andar com as pernas dos outros”, diz meu pai.

É obvio que o mestre também tem o seu papel, também pode servir de farol e nortear o
caminho do autoconhecimento. Mas existe uma distância enorme entre encaminhar e
ajudar, ou pegar pela mão e conduzir.
Assim como não existe “Olimpo espiritual”, os lugares retratados nos livros de autoajuda
podem não ser reais. Cada um vai até onde pode, dependendo de sua visão, talento e
aptidão. A espiritualidade não deve ser uma competição, nem um sistema de castas.

Enxergo a iluminação como um processo diferente do que estamos acostumados a


pensar. Todas as pessoas se beneficiam com o processo de despertar e desenvolver a
consciência, mas poucos serão os “xamãs”. O mergulho na senda espiritual requer um
chamado imperativo.

Cada ser humano seguirá por um caminho segundo a sua missão e o seu talento. Você
acredita que um mundo onde todos fossem “xamãs” seria um mundo possível? Quem se
ocuparia com todas as demais funções? Veja, nas tribos primitivas existe um só xamã
para cada tribo. No entanto, esse é o mundo idealizado em muitos livros de autoajuda
espiritual. Faz mais sentido pensar no empresário iluminado, no professor iluminado, e
assim por diante. Mas a espiritualidade não deve ser entendida como um processo de
competição ou de comparação, do tipo “ele é mais do que eu”. Essa é uma visão ocidental
do processo. Daqui a pouco, alguém cria uma “Olimpíada espiritual”, uma competição
para ver quem é o maior iogue (mestre de yoga). Isso não faz sentido.

O nosso verdadeiro mestre não está fora de nós.

Iluminar-se é a coisa mais simples que existe e, ao mesmo tempo, a mais complicada. O
problema é que a iluminação não requer nenhum esforço. Para nós, é complexo conceber
algo que não exija esforço. Porém, talvez essa seja a maior lição a ser aprendida: o esforço
nos afasta daquilo que flui naturalmente em nós, nos afasta da essência da própria vida.

Por isso, a utilidade do esforço se dá nesse contexto de modelagem social e de obediência


aos padrões vigentes. Nós estamos acostumados a ver apenas o lado positivo do esforço.
Fazer força para meditar, por exemplo, atrapalha todo o processo. Buscar um
relaxamento através da tensão e do esforço é incongruente.

Você conhece algum animal que se esforce para ser alguma coisa? Absolutamente não. O
animal é.

Nesse sentido, esforçar-se para ser o que você não é, acaba afastando-o da sua própria
essência. A iluminação passa pelo processo de se reconectar e de, finalmente, acessar a
sua identidade e o seu poder. No entanto, aí que mora a maior dificuldade. Como cada
pessoa é uma esfinge, um ser mental extremamente complexo e intrincado, a maioria se
perde no labirinto de si mesmo. Mas, ao compreender a si, você estará desperto.

Existem milhares de pessoas iluminadas que nem se dão conta disso. Um homem da roça
pode ser mais iluminado do que um reconhecido mestre espiritual. Eu desconfio
imensamente do caráter messiânico e do uso comercial que certas pessoas dão à
iluminação.

Busque no YouTube por “Kumaré Trailer (Documentary 2012)” e você vai entender melhor
essa problemática. Neste documentário, um ator, muito bem preparado, se passa por um
guru e realiza alguns pequenos milagres.

O guru, assim como o terapeuta, não precisa fazer “nada”. Ele precisa ser apenas um
espelho que nos permita enxergarmos a nós mesmos. Nós já nascemos todos
iluminados. Tanto isso é verdade que o processo de parir se chama “dar à luz”. Como o ser
humano vive um processo civilizatório e cultural que inibe sua autenticidade e
naturalidade, ele vai se apagando ao longo do seu crescimento. Ou seja, nós vamos
perdendo a capacidade de escuta e de conexão consigo mesmo.

Na vida real, não existe a ideia de que, ao atingir o equilíbrio perfeito ou o topo do
conhecimento, tudo estará resolvido. A vida é uma busca constante e diária pelo equilíbrio
e pela sabedoria. Essa é a realidade. Não existe jogo ganho. Ninguém nunca está pronto,
ninguém é perfeito, nem o guru. Não existe um ponto de chegada ou um lugar ideal, como
prometido nos livros de autoajuda.

Uma das questões mais nocivas da autoajuda pela busca espiritual é a criação e o
estímulo a um ideal inatingível de espiritualidade. E justamente esse ideal fomenta o
“spiritual shopping”, ou seja, cria mais um mercado imenso de consumo, em busca do
“Santo Graal” ilusório da sabedoria e da espiritualidade.

Todo esse processo que falo aqui apenas desloca o eu, o ego ou a mente, como você
quiser chamar, para outro objetivo, agora não mais materialista, mas sim, espiritual e
elevado. É como se o ego reconhecesse que é interessante e bacana ser consciente,
elevado e espiritualizado, e assim desejasse a todo custo se moldar a esse objetivo. O
extremo disso são aquelas pessoas que viajam pelo mundo atrás dos gurus mais
badalados e famosos, consumindo e descartando diversas técnicas, livros e terapias
alternativas.

O autoconhecimento só é possível através do mergulho e do aprofundamento em si


mesmo. Nesse sentido, qualquer situação, em qualquer cenário, é uma oportunidade para
desvelarmos um pouco mais de nós mesmos e de nossa relação com o outro. A melhor
escola sempre foi e será a vida, o dia a dia. De nada adianta praticar horas de meditação,
vivenciar experiências transcendentais, aprofundar-se no autoconhecimento, passar por
experiências xamânicas ou técnicas neo-reichianas, se você não transpuser tal sabedoria
e aprendizado para a sua vida real.

Existe uma disparidade muito grande entre o que a gente fala e o que a gente faz. Por
exemplo, todo mundo fala da importância de sermos mais solidários e pensarmos mais
no outro, até o momento em que você está atrasado e, para garantir o seu lugar do outro
lado do farol, acaba fechando o cruzamento. Ou mesmo quando você está tomando
banho e acaba de usar o último pedacinho de sabonete, e aí “se esquece” de repô-lo para
quem virá a seguir. É como se diz: “Falar é fácil...”. Uma coisa é a teoria, outra é a prática.

A espiritualidade não pode estimular o ego e a vaidade. Muitas pessoas usam a busca
espiritual como forma de status social. Acho engraçada essa suposta “elite espiritual” que
se acha o suprassumo, a quintessência da altivez espiritual, e olha de cima os “meros
mortais”, com piedade e soberba.

Veja só quantas armadilhas existem por trás da espiritualidade. Uma delas é confiar
cegamente na autoridade ou no mestre. Ou ainda, cultuá-lo e, através da imitação, buscar
ser igual a ele.

Esse é o caminho contrário ao do autoconhecimento, que é exatamente descobrir quem


se é de verdade, sem máscaras, e, assim, trilhar um caminho individual, único e autêntico
de entendimento da vida. Tornar-se uma réplica, uma cópia, não é liberdade, é
aprisionamento.

Muitos gurus, que já nasceram com uma luz especial, percorrem durante décadas o
caminho de iluminação. Depois, passam a vida tentando explicar como se faz para trilhar
esse caminho. Porém, fico pensando: será que esse caminho é, de fato, acessível à grande
parte da população?

Inconformado com essa situação, resolvi inventar um novo conceito de iluminação: um


pouco de luz que seja acessível a todos. Se você praticar algumas das formas de
meditação ativa ou tradicional, apenas uma que seja, durante 15 minutos, já terá uma boa
dose de iluminação em seu dia. Isso é o que eu chamo de “enough illumination” (assim
mesmo, em inglês, para parecer mais sério, chique e, também, um pouco mais ridículo...
risos). O que quero dizer é que, muitas pessoas não precisam de um holofote potente, um
clarão intenso; apenas uma vela já pode fazer bem à função e ser de grande valia.

Gostaria de abrir um parêntese para discutir uma ideia importante sobre isso. Se você é
um ser humano que foi criado nesse conceito de que ambição e esforço são essenciais ao
sucesso, vai achar que a modéstia espiritual que proponho aqui é prejudicial, pois faz as
pessoas se contentarem com pouco. Se ainda não percebeu, a simplicidade é um dos
segredos da felicidade e da fluidez do espírito, e não está amarrada a realizações e
fórmulas que nos encaixotam.

“É de pouquinho em pouquinho que o passarinho enche o bico”, já diz o ditado. Eu tive


uma experiência muito forte em relação a esse conceito, que me transformou
completamente. A partir de um insight, a minha vida começou a fluir e passei a realizar
tudo o que me apaixona, pois, simplesmente, deixei-me envolver com os desafios e
tarefas sem cobranças e sem medo. Assumi um mantra muito repetido por meu pai: “Não
se preocupe, se ocupe”.

Parei de me preocupar com os resultados ou aonde deveria chegar. Parei de idealizar um


caminho ou um destino ideal e foquei apenas em curtir o percurso. A vida, então, se abriu
e esse percurso tem me levado a lugares inimagináveis. É o tal do “deixe a vida me levar”.
Na verdade, esse é aquele segredinho tão martelado nos livros de autoajuda, e que só faz
sentido quando incorporado realmente a uma experiência prática, o eterno desafio de
viver o momento presente.

38 COMO A FARRA DO CONSUMO CRIOU A OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA? AQUI, A

CHAVE PARA A MAIOR REVOLUÇÃO DAS PRÓXIMAS DÉCADAS.


GANHAR NA LOTERIA
A mídia cultua e valoriza os ricos e famosos, pois quer fixar em nosso inconsciente que a
fama, o sucesso e o dinheiro são sinônimos de felicidade. Sabemos que não são, agora de
maneira oficial, segundo as últimas descobertas da ciência que estuda a felicidade.

“Aqui estão dois diferentes futuros que eu lhes convido a contemplar, e vocês podem
tentar imaginar e dizer qual vocês preferem. Um é ganhar a loteria, US$ 314 milhões. O
outro é se tornar paraplégico. Pensem um pouco. Vocês devem achar que não precisam
de um momento de reflexão. O interessante é que existem informações sobre estes dois
grupos, que dizem quão felizes são. [...] Porque o fato é que, um ano depois de perder
controle das pernas, e um ano depois de ganhar a loteria, sortudos e paraplégicos estão
igualmente felizes com suas vidas.” (Trecho da palestra “Por que somos felizes?” de Dan
Gilbert, para o TED Talks 2014.)

Assista ao vídeo dessa palestra na íntegra. Vale a pena assumir o protagonismo em sua
vida e buscar conteúdo de qualidade, que lhe traga reflexões nesse sentido. O trecho
anterior é um bom exemplo da longa distância entre o que acreditamos serem elementos
essenciais à felicidade e o que efetivamente nos torna mais felizes.

Esta chave sobre a busca do prazer o ajudará a decifrar esse enigma.

39 O PRAZER APERFEIÇOA A FELICIDADE?

O ser humano reage de forma parecida ao se decepcionar e perceber que tudo o que ele
idealizou, na verdade, não existe. Ser convencido e enganado pelo marketing do consumo
já faz parte de um inconsciente coletivo e está fortemente impregnado em nossa psique e
em nossa cultura.

O fator principal que explica o porquê da riqueza não se traduzir em satisfação


permanente chama-se “adaptação hedonista”. O ser humano tem uma tendência a se
adaptar rapidamente a qualquer situação, seja para o bem ou para o mal. Já percebeu
isso?

Por exemplo, se você é muito rico e compra a mansão dos seus sonhos, essa sensação
pode lhe trazer satisfação por certo período. Porém, rapidamente, você vai se acostumar
com a mansão e o seu nível de satisfação volta ao patamar anterior. Ou seja, em pouco
tempo, parecerá aos seus olhos que você teve uma mansão a vida inteira. Essa é a
sensação.
Nesse ponto, talvez o autoengano o leve a reformar a mansão, na intenção de retomar o
encanto anterior. Então, você inicia um processo de buscar novos bens e assim por
diante. Com todos eles, ocorrerá esse mesmo processo: prazer momentâneo e
insatisfação permanente.

“QUANDO ESTOU EM NOVA YORK, QUERO ESTAR NA EUROPA E, QUANDO ESTOU NA


EUROPA, QUERO ESTAR EM NOVA YORK.”

(Woody Allen)

40 VOCÊ SÓ SERÁ FELIZ QUANDO ALGO MUDAR EM SUA VIDA? SERÁ QUE ESSA É UMA

PRISÃO MENTAL?

Será que a satisfação e o próprio sentido de felicidade não estão associados à capacidade
de sentir-se bem na própria pele e de sentir-se bem no momento presente?

Quando minha filha de seis anos está insatisfeita, ela pergunta ansiosa e aflita: “Papai, o
que a gente vai fazer agora?” Quando ela está totalmente imersa e entretida na sua
própria ação, no momento presente, ela está satisfeita, está em “flow”. Essa capacidade
de fluir com a vida, em tempo real, e de não querer que a vida caiba em nossas
idealizações, torna-se uma ferramenta essencial na busca de satisfação, sabedoria e
plenitude.

Dizem que “Deus escreve certo por linhas tortas”. A questão é que, na natureza, não existe
a linha reta que imaginamos. O que existe é a realidade e os seus caminhos naturais que,
constantemente, fogem daquilo que idealizamos. Torta não é a vida, e sim a nossa
mente, por querer enquadrá-la em uma lógica linear.

O grande comediante John Cleese tem uma piada interessante nesse sentido: “Quer fazer
Deus rir? Conte a Ele os seus planos”.

Isso não quer dizer que não seja importante fazer planos ou sonhar. Nem significa que
rezar não funcione. Significa apenas que não podemos controlar tudo. É mais sábio
aceitar a vida da maneira como ela é: imprevisível.

“...PRESTE ATENÇÃO, O MUNDO É UM MOINHO, VAI TRITURAR TEUS SONHOS TÃO


MESQUINHOS, VAI REDUZIR AS ILUSÕES A PÓ.”

(Cartola)

Viver é algo que acontece no “agora”. Condicionar a sua felicidade a algo que acontecerá
no futuro é um autoengano. Para alguns, o futuro nunca se concretiza, pois quando o
futuro se torna presente, eles não estão lá para aproveitá-lo. A mente, mais uma vez,
jogou a sua felicidade um pouco mais à frente. Você percebe que esse “um pouco mais à
frente” nunca chega?

Outro dia, uma amiga me mostrou uma frase interessante, que estava assinada pelo Dalai
Lama, mas duvido que seja dele de verdade. Na internet, são comuns frases de autoria
duvidosa. Segue a frase em questão: “Não estrague o presente com um passado que não
tem futuro”.

Entrando na brincadeira, resolvi construir outras versões para esse modelo de frase, que
funciona como um quebra-cabeça remodelável.

1 - “Não estrague o seu futuro com um presente que só tem passado.”

2 - “Não estrague o seu passado com um presente que está preso ao futuro.” (Um
presente não vivido, torna-se um passado vazio.)

Resumindo: ao não viver o agora, você perde tudo: passado, presente e futuro.

“SEGUNDO A MINHA EXPERIÊNCIA, A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DA FELICIDADE


GENUÍNA É A PAZ INTERIOR. O FATO DE A PAZ INTERIOR SER DETERMINANTE
EXPLICA O PARADOXO DE EXISTIR GENTE QUE ESTÁ SEMPRE INSATISFEITA, APESAR
DE DISPOR DE TODAS AS VANTAGENS MATERIAIS, ENQUANTO HÁ OUTROS QUE
ESTÃO FELIZES, A DESPEITO DE TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS MAIS PENOSAS.”

(Essa frase é “realmente” do Dalai Lama)

Somos condicionados a pensar em nossa vulnerabilidade como um defeito. Você já pensou


que a sua fragilidade é uma vantagem evolutiva?

41 FRAGILIDADE É PODER
ATINGINDO A ILUMINAÇÃO
Eu tive uma grande revelação, uma forma de iluminação repentina, assistindo a um filme
com uma mensagem profunda e transcendente. Aliás, recomendo que você veja.

Trata-se de “Frozen”, da Disney. A menos que você tenha vivido em outro planeta nos
últimos anos ou não conviva com crianças, já deve ter ouvido falar dessa febre entre os
pequenos. Mas como esse insight teve início justamente num filme roteirizado, feito e
vendido para ser um mega sucesso comercial? Estaria eu me contradizendo nesse exato
ponto do livro?

Como diz sabiamente o zen budismo, a iluminação aparece repentinamente, da forma


mais inesperada. Brincadeiras à parte, tirando todo o enredo previsível e esquemático
desse tipo de aventura, a mensagem subliminar desse filme teve realmente para mim o
efeito de uma grande revelação.

Trata-se de uma princesa que tem um enorme poder e que, devido a um acidente na sua
infância (que representa a educação e o meio cultural), fica com medo desse poder e se
isola do mundo (o que representa o ego e o sentido de “eu”).

Ela se tranca em seu castelo de gelo (assim como a maioria de nós) e passa a ferir e
machucar exatamente as pessoas que mais a amam e que buscam ajudá-la (assim como
a maioria de nós). O medo existente em seu coração cria um mundo hostil e gelado (cada
um de nós constrói a sua própria realidade), baseado no seu isolamento e no seu ego,
contaminando e deixando o mundo todo frio e hostil.

Por fim, a mensagem mais piegas e batida de todas, e talvez por isso mesmo, tenhamos
ficado cegos e incapazes de percebê-la em toda sua profundidade e beleza: “Só o amor
aquece o coração e nos liberta”. Essa mensagem bíblica, que permeia todas as religiões,
revela a importância do outro, da colaboração e do afeto como elementos estruturais em
nosso equilíbrio físico, mental e emocional. O amor faz o que parece impossível, que é
nos trazer de volta à sanidade, à vida e à comunhão com todos à nossa volta.

Cada um de nós, assim como a princesa do filme, só poderá entender e usar o seu
poder (que é imenso), de forma positiva, se superarmos o medo (o frio que nos
paralisa e congela) através do amor (da troca com o outro, da colaboração e do
afeto).

“MAS, TENDO MEUS AMIGOS POR PERTO (...), ASSIM ACHO QUE DÁ PARA VIVER.”
(Marina Lima)

Como você pode ver, existe no mundo muita sabedoria e conhecimento, até mesmo em
um filme da Disney (risos). O que não nos falta é informação.

Com mais maturidade, você poderá perceber que o conhecimento não tem muito valor se
não for aplicado à vida, se não for vivido de forma prática. O conhecimento só pode se
transformar em sabedoria quando é vivido e experimentado no próprio corpo. Ele, então,
torna-se um conhecimento incorporado, torna-se corpo. Existe um ciclo da sabedoria,
como você verá a seguir.

Só quando fechamos esse ciclo é que o processo da sabedoria se completa.

“O QUE TEMOS QUE APRENDER O APRENDEMOS FAZENDO.”

(Aristóteles)

Você já assistiu ao documentário “A escola proibida”? Esta chave serve de introdução ao


próximo texto.
42 VOCÊ SABE QUANDO, COMO E PARA QUE A ESCOLA FOI INVENTADA?
LINHA DE MONTAGEM OU COMO
ADESTRAR PESSOAS
Durante o processo para dar vida a este livro, descobri que o modelo militar de controle,
rigidez, cerceamento e anulação da individualidade ainda é algo muito presente em nossa
sociedade.

A escola é uma invenção militar, o treinamento físico é uma invenção militar, e a nossa
educação familiar tem como base esses mesmos conceitos de modelagem de conduta e
punição. O ambiente corporativo é um universo de prêmios e castigos; e tudo o mais
parece vir da mesma fonte. Até a religião nos ensina que devemos temer a Deus, assim
como devemos temer, ainda mais, ao demônio. Todas essas instâncias não adotam uma
estratégia positiva, amorosa e construtiva de relacionamento. Elas operam através do
medo e da intimidação. Por que isso acontece?

A estratégia militar de adestrar, amedrontar e subjugar o ser humano é a forma mais


eficiente de manipulação e controle que existe e que utilizamos para tentar modelar as
pessoas. Sendo assim, é natural que as autoridades e entidades que controlam os
processos coletivos e sociais tenham lançado mão desse recurso durante a nossa
história. Se isso não é feito pela direita, é feito pela esquerda. O uso da força, da
doutrinação e da opressão das individualidades e liberdades é sempre o recurso mais
utilizado. A história já nos mostrou que não existe nada mais parecido com uma ditadura
de direita do que uma ditadura de esquerda.

Nesse processo, durante muitos séculos, a máquina doutrinadora e sua tremenda força
opressora têm funcionado a todo vapor. Por isso, encontramos essa barreira, esse muro
monumental, essa dificuldade de evolução e de mudança social. Muito se fala sobre a
falta de amor no mundo, mas como pode haver amor onde existe opressão, violência e
medo?

Nós vivemos em uma sociedade baseada no medo. A essa altura, você já deve ter
percebido isso. E, assim, entendido como é ruim fazer escolhas baseadas no medo. Se
você é uma pessoa observadora, terá reparado que as questões mais importantes deste
livro são permeadas pelo medo. Lembra-se? O obeso tem medo de não emagrecer, o
milionário tem medo da escassez, as pessoas têm medo de perder o emprego e, por isso,
transformam-se em “cowboys corporativos”, as academias têm medo de fugir do
convencional e por aí vai.

Quais são os seus medos? Essa é uma pergunta que você deveria fazer ao seu analista.
Isso pode elucidar muitas questões. Ok! Será que fui muito fundo? Pausa para pensar...
Quer ir tomar uma água e depois retomar o texto?

Veja, por exemplo, o caso do medo de mudanças ou o medo do desconhecido. Durante


muito tempo, acreditou-se que manter a ordem e manter tudo como sempre foi eram as
formas mais corretas e nobres de controlar a população e defender os bons costumes.
Assim, o caos seria evitado. Depois da intensa revolução nos costumes e da forte
transformação social que se desenrolou na década de 1960, ficou provado que isso não
leva ao caos social e à desordem, mas sim, proporciona o surgimento de uma nova
ordem social.

As palavras de ordem dos novos tempos são criatividade, inovação e quebra de


paradigmas. A versão do ser humano como uma “massinha de modelar” não combina
mais com o nosso tempo. Li, em uma pesquisa, que as mentes mais criativas do Vale do
Silício tiveram uma formação e uma educação alternativas, fora dos padrões
estabelecidos. Ou seja, uma criança que tenha sido criada dentro dos padrões e normas
estabelecidos, com um modelo de conduta social que remonta há séculos, está em
desvantagem no mundo atual. A associação é bem óbvia: se você não teve uma infância
livre e criativa, as dificuldades em ser criativo serão muito maiores na fase adulta.

As pessoas que foram encaixotadas, formatadas nesse sistema rígido de educação e


adestramento social, trazem um medo arraigado de mudanças. Sendo assim, defendem
com unhas e dentes certos valores arcaicos e retrógados. Isso é passado de pai para filho,
cuidadosamente, há muitos séculos.

O mundo, então, transforma-se numa oposição entre aqueles que querem manter tudo
como está, ou até resgatar condutas e padrões de um passado longínquo, e aqueles que
querem construir um mundo novo, onde o ser humano seja respeitado em sua liberdade
e individualidade. Alguns radicais e fundamentalistas de esquerda ou de direita querem
impor à força a sua verdade, destruindo todas as liberdades já conquistadas. “O cão ladra,
mas a caravana passa.”

“QUEM ANDA NO TRILHO É TREM DE FERRO. SOU ÁGUA QUE CORRE ENTRE PEDRAS:
LIBERDADE CAÇA JEITO.”

(Manoel de Barros)

Como bem disse Manuel de Barros, a liberdade sempre arranja um jeito de seguir em
frente. Assim como a água.

O mundo vai se ajustando e se remodelando às novas visões e mudanças de uma forma


natural. Isso se deve a forças incontroláveis: a vontade humana de resgatar a sua
liberdade e a paixão que move os seres que lutam diariamente por um mundo mais
criativo, livre e equilibrado. Para a revolução que está em curso, não existe mais volta. O
mundo grita, clama por mudanças. Mesmo sem saber bem o porquê, nem como explicar
ao certo esta sensação, ninguém aguenta mais o sentimento incômodo de viver
encarcerado em uma prisão, de sentir-se dilacerado, incompleto, amedrontado ou
impotente.

Um sistema de controle social que formata, modela e inibe as diferenças não permite ao
ser humano ser quem ele é.

43 COMO SÃO FABRICADOS OS MUROS DA PRISÃO?


PSICOGRAFADO
Um livro é uma entidade.

Não somos nós que escrevemos o livro. É o livro que nos escreve.

Este livro me escreveu. Após realizá-lo, eu havia me tornado outra pessoa.

Eu havia conseguido juntar os pontos de um desenho fragmentado. E o resultado desse


liga-pontos descortinou todo um universo para mim.

Eu brinco dizendo que este livro foi psicografado, que, de certa forma, ele se fez sozinho.
Não fiz qualquer planejamento ou esquematização para realizá-lo. De forma mágica, as
citações, complementos, depoimentos, colaboradores e referências simplesmente vieram
até mim. Sabe quando as coisas surgem no momento exato? Pois é! Elas iam aparecendo
à medida que eu sintonizava com elas. Eu apenas fui colocando-as no livro, montando
uma espécie de quebra-cabeça intuitivo.

Ele é fruto de uma coleção bastante livre, realizada durante muitos anos, em que fui
acumulando insights, pesquisas, rascunhando textos e guardando papeizinhos e
anotações diversas. Foi esculpido com todo cuidado e paciência, à maneira de um ourives
ao manusear uma joia.

Certas vezes, peguei-me num fluxo contínuo ao escrever, numa espécie de transe, como
que conectado a um inconsciente coletivo, a uma força maior que pensava por si mesma.
Quando terminava, o resultado do processo era uma revelação para mim mesmo.

Este livro foi exigente e impositivo. As inspirações e certas revelações me perseguiam nos
lugares mais inesperados, acordavam-me no meio da madrugada ou me forçavam a
correr atrás de um caderno, em um dia chuvoso, próximo à Pinacoteca de São Paulo.

O mais curioso foi que escrevi tudo à mão, consumindo vários cadernos em diversos
formatos. O que, para mim, é um forte indício de que, no fim, ele seja mesmo uma forma
branda de psicografia. (risos)

Nas minhas férias de 2013, por exemplo, escrevi à mão mais de 220 páginas de um
caderno grande, em 15 dias, sem qualquer consulta. Somadas a tudo isso, tenho ainda
mais de 500 horas de reflexões gravadas durante os últimos anos, e que quase não usei
para o livro. Ou seja, esse exercício de caminhar com o pensamento, de seguir em frente e
descobrir novas camadas de um conceito, é algo que me atrai profundamente.
Claro que o ambiente familiar também colabora para esse cenário. Imagine o que significa
viver em uma casa em que o seu pai, a sua mãe e os seus dois irmãos são formados em
educação física, e a sua irmã mais velha é fisioterapeuta. O assunto corpo, treinamento e
qualidade de vida é uma constante entre nós. Só para variar, até hoje, nos finais de
semana, nós nos reunimos e conversamos sobre... Adivinha o quê?

Falar sobre esses assuntos é uma compulsão familiar. É impossível fugir disso, é a nossa
paixão.

44 POR QUE DIZER A VERDADE É UM ATO REVOLUCIONÁRIO?


QUERO SER GRANDE
Por que dependemos tanto assim do reconhecimento e do olhar dos outros para nos
sentirmos grandes e poderosos? Por que assumimos essa tarefa de ter sucesso e de
corresponder às expectativas com tanta seriedade?

Todo mundo está em busca de reconhecimento. Queremos fazer algo grande, queremos
ser grandes, ser importantes. O mundo, para nós, é um espelho. Só nos reconheceremos
grandes e importantes quando tivermos sucesso, e quando o mundo nos enxergar e
divulgar a todos esse acontecimento.

Acontece que você já é especial, único, grande e poderoso por natureza. Nós somos feitos
à imagem e semelhança de Deus (natureza) e, essencialmente, perfeitos em nossa
imperfeição. Você é que ainda não descobriu isso, porque tal conhecimento está
soterrado pelo peso da educação doutrinária e castradora da sociedade, bem como pelos
ideais de sucesso e de felicidade vendidos pela mídia do consumo.

O que é integridade? É perceber que, essencialmente, não há nada que precise ser
melhorado em você.

“NA FORMA, SOMOS E SEREMOS SEMPRE INFERIORES A ALGUMAS PESSOAS E


SUPERIORES A OUTRAS. NA ESSÊNCIA, NÃO SOMOS INFERIORES NEM SUPERIORES A
NINGUÉM.”

(Eckhart Tolle)

De um modo superficial, é obvio que precisamos trabalhar as nossas habilidades, mazelas


e dificuldades. Porém, sob uma perspectiva mais profunda, já somos inteiros e perfeitos,
assim como todos os seres vivos. Quem não conquista essa integridade está à deriva no
mundo selvagem do consumo.

As nossas idealizações e expectativas nos tiram do momento presente, porque nos


prendem a desafios enormes. Nunca parecemos bons o suficiente. Não sabemos por
onde começar, e assim, muitas vezes, simplesmente nem começamos. O mundo, a
sabedoria e o autoconhecimento se descortinam através de pequenas janelas.

Os livros de autoajuda e a indústria da espiritualidade construíram um ideal inatingível de


felicidade e de iluminação, e isso criou, assim como todos os outros ideais abordados
neste livro, uma distância muito grande entre o que somos e onde queremos chegar.
Como você já deve ter entendido, isso cria medo, expectativa e frustração.
Todo caminho é construído passo a passo. Uma pequena janela de experimentação,
consciência e atitude abre outras janelas, e assim por diante. Tudo é uma questão de viver
o processo natural da vida, respeitar o ritmo e o tempo de desenvolvimento de cada nova
semente que desabrocha. Portanto, não se cobre tanto assim. Seja amoroso e
compreensivo com você mesmo. Permita-se percorrer o caminho. Não tenha pressa em
chegar. A pressa é inimiga da perfeição e da diversão. Tudo o que você precisa fazer é
aprender a aproveitar o passeio.

Siga pelo caminho, siga pela vida, mas lembre-se de curtir a paisagem. Pare à beira de
uma sombra, delicie-se com cada milagre da nossa existência, deguste uma fruta (um
pequeno milagre). Enfim, deguste a própria vida, encontre seus amigos, brinque com as
crianças…

Não tenha pressa em chegar. Afinal, o fim do caminho é a morte. E aí pergunto: por que
correr tanto assim? Desacelere! Por que tanta pressa em consumir a vida? Quanto mais
você correr, mais perto estará do fim, em todos os sentidos. Contemple a sua jornada,
antes que ela chegue ao final e você sinta a angústia de não ter vivido tudo o que podia
enquanto corria.

A vida é feita para ser vivida. Não seja você mais um robô produtivo na linha de
montagem do consumo. Não se deixe enganar, não deixe que esmaguem a sua liberdade
e criatividade. Viva a vida segundo os seus próprios termos. Pense fora da caixinha. Jogue
fora todos esses condicionamentos, ideais, expectativas, cobranças, crenças e tudo mais
que aprisiona o seu espírito. Cada ser é um ser divino, um universo. Descubra a potência
que está escondida abaixo das camadas que soterraram a sua verdadeira identidade.

Gosto muito de levar a vida, a atividade física e tudo mais o que fazemos como uma
brincadeira, uma diversão. Assim, a vida se torna muito mais viva, leve e apaixonante. Ter
humor é essencial. E não se levar a sério é mais importante ainda.

“É MUITA IRRESPONSABILIDADE LEVAR A VIDA A SÉRIO.”

(Nuno Cobra)

Vamos nos preocupar menos com o peso das responsabilidades e nos preocupar mais
em nos envolver e nos divertir realmente enquanto vivemos. Assim, poderemos ser
melhores e mais inteiros em tudo o que fizermos.

Esta é uma das ambições mais positivas e essenciais em nossas vidas: sermos
inteiros em tudo o que fazemos. Ou seja, não viver apenas através da lógica do esforço,
da obrigação e da recompensa. Esse é o verdadeiro segredo do sucesso, e não um
sucesso inventado, porque o prêmio não está apenas no final. O prêmio já faz parte de
todo o processo. Viver intensamente é o único prêmio real. Uma vida adiada em nome do
sucesso, da fama e do dinheiro é uma vida perdida.

O mundo se transforma aos poucos, lentamente, através de pequenas aberturas e


mudanças de mentalidade. A fantasia romântica, que prega que todos se tornem seres
elevados e iluminados, para que, assim, o mundo se transforme completamente, parece-
me bastante inatingível e fora da realidade.

O mundo é muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais complexo do que isso.
Devemos nos policiar para não sucumbir a uma visão negativa da vida por influência da
TV e dos noticiários. Existem dois mundos evoluindo simultaneamente em nossa
realidade: um mundo que piora e um mundo que melhora.

Nas últimas décadas, o mundo melhorou em vários aspectos, como por exemplo, as
mudanças nos costumes que ocorreram na década de 1960 e que continuam se
desenrolando, através da queda de preconceitos e do aumento da consciência e das
liberdades individuais.

Quanto mais pessoas estiverem envolvidas com a transformação do mundo, melhor para
o mundo. Precisamos de toda a força para combater aqueles que trabalham diariamente
para um mundo pior, como os políticos corruptos, os empresários de ramos nocivos à
saúde e ao meio ambiente, e tantos outros. Faço um pedido a você que está lendo este
livro: avalie, de forma sincera e sem máscaras, se você colabora realmente para um
mundo melhor, através do seu trabalho. Afinal, de que adianta ficar reclamando e
amaldiçoando os problemas do mundo, de braços cruzados?

45 VAMOS REFLETIR SOBRE SUA A CONTRIBUIÇÃO PARA O MUNDO? DEPOIS, ME CONTA

QUAL VAI SER A SUA ATITUDE APÓS LER ESSE TEXTO.

Não adianta apenas querer e desejar um mundo melhor. É preciso colocar a mão na
massa, fazer a sua parte de forma efetiva. O nosso mundo carece de obstinação, foco e
talento para plantar ideias que germinem em colaboração, potência e construção de um
novo paradigma, representando uma nova era, de verdade, do homem sobre a Terra.

Eu levanto todos os dias estimulado, desperto e motivado a cuidar e a germinar a minha


semente. Então, pergunto a você: qual será a sua semente? Que projeto você vai gerar
para aflorar a sua criatividade e a sua potência, e, assim, transformarmos o mundo de
uma maneira efetivamente positiva?

A mudança do mundo está, literalmente, em suas mãos. O mundo é feito por você, por
mim e por todos nós.
PARA QUE SERVE A UTOPIA?

“Há algum tempo, quando eu estava na universidade fazendo uma espécie de palestra
com um grande amigo, diretor de cinema argentino, Fernando Birri. [...] E fizeram a ele
a mais difícil de todas (as perguntas): um estudante se levantou e perguntou ‘Para que
serve a utopia?’.

Ele disse que a utopia está no horizonte, e disse:



‘Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, que se eu caminhar dez passos, ela ficará dez
passos mais longe. Quanto mais eu buscar, menos a encontrarei porque ela vai se
afastando à medida que eu me aproximo.’

Boa pergunta, não? Para que serve a utopia?

Pois a utopia serve para isso: para caminhar.”

(Relato de Eduardo Galeano, escritor uruguaio.)

Continuando o raciocínio relatado por Galeano, caminhar em direção à nossa utopia nos
faz avançar rumo a uma nova construção de mundo: real, palpável e possível.

A colaboração e o amor não são utópicos, mas sim, representam a maior força e potência
de vida que existe sobre a Terra. A verdadeira revolução não passa por mudar um sistema
político, financeiro ou seguir cegamente novas utopias. Também não está relacionada a
novas batalhas sangrentas, lutas de classes, trocas de líderes ou à busca da destruição
radical do sistema vigente através da violência. Isso seria apenas mais do mesmo que já
estamos vivenciando, há milhares de anos. A verdadeira revolução é interna, acontece
dentro de cada um de nós.

Estas são as únicas condições reais para a mudança do mundo: amor, consciência,
colaboração e integridade.

FIM
AGRADECIMENTOS
Quero agradecer a todos que ajudaram nas transcrições dos textos e que sofreram um
pouco para interpretar a minha letra.

Foram vários cadernos que se espalharam por aí. Agradeço ao Rodolfo Brant, à Caroline
Almeida, ao Gustavo Winther e à Cris Winther, à Roberta Larizza, à Alessandra Dias e à
minha irmã Rosane Cobra.

O caminho de materialização deste livro foi sinuoso e cheio de surpresas. Ainda bem que
grandes editoras não se interessaram por ele. Embora este processo tenha dispendido
uma grande quantidade de tempo e energia, a recusa me fez chegar à Editora Voo, esta
sim feita sob medida e completamente aliada ao meu propósito. E assim, juntos, alçamos
voos criativos e livres de convenções e amarras.

Por fim, quero agradecer à parte mais turbulenta do processo. O embate com as
dificuldades me fez crescer. A história é engraçada (só depois que passou, é claro). Uma
pessoa me levou à outra, foi assim: a Andréa del Fuego me apresentou à Simone Paulino,
e a consequência foi um desencontro brutal, simplesmente, não era para ser. Mas a
Simone me apresentou ao Anderson Cavalcante, um grande editor, cuja grande
colaboração foi me apresentar à Cinthia Dalpino. A Cinthia me acolheu e soube entender
que não tinha sentido reescrever o livro e perder a minha voz. Sendo assim, me deu
liberdade e fez uma edição extremante discreta e criativa, dando mais ritmo e fluxo ao
texto. Até os 45 minutos do segundo tempo, o Anderson iria publicar este livro. No final,
contrariando todas as apostas, nossas visões divergiram. Não era para ser.

Agradeço imensamente à Claudia Kubrusly, da Editora Voo, que conseguiu colocar este
livro de pé em apenas um mês. Não me pergunte como ela conseguiu isso.

A vida é mesmo mágica: as pessoas que precisam se juntar acabam se juntando, não é
incrível isso?
GABARITO DA CHAVE 29

AS PESQUISAS

Existe um fenômeno relativamente novo influenciando a maneira como o grande


público age e pensa. A partir do século 20, a mídia descobriu que divulgar o resultado
de pesquisas trazia visibilidade e tinha um grande apelo junto à população em geral.

Essa forma leviana e ingênua de divulgar conceitos e verdades, pode ser perigosa.
Originalmente, as pesquisas eram usadas e interpretadas apenas por especialistas, que
as analisavam e traduziam.

No entanto, atualmente, quando uma pesquisa chega às mãos de um jornalista,


normalmente, são selecionados os aspectos mais apelativos e rasos do estudo,
resultando em conclusões bastante equivocadas e imprecisas, aos olhos de um
especialista. E, mais imprecisas ainda, aos olhos de um generalista (profissional de
visão integral).

(Texto meu)

Jornalistas são fáceis de enganar, afirma com conhecimento de causa o americano John
Bohannon, doutor em biologia molecular e ele próprio um jornalista.

Bohannon, 41, ficou um pouco mais famoso recentemente por falsificar um estudo
dizendo que chocolate poderia ajudar no emagrecimento, inventando até mesmo um
instituto de pesquisa.

O resultado foi parar na capa do Bild, o principal jornal popular da Alemanha, junto do
acidente com o avião da Germanwings, e apareceu em veículos de mais de 20 países.
[...]

O segredo para fazer a mutreta é uma artimanha estatística que muitos pesquisadores
praticam (mesmo sem querer).

Quando um estudo é planejado, são decididas as variáveis que serão medidas e, com

um teste estatístico (modo matemático de analisar se uma causa pode realmente ser
associada a um efeito), é medida a chance de aquelas variáveis terem sido modificadas
por conta de um tratamento – uma dieta, por exemplo.

É uma loteria de azar. Quanto mais bilhetes (variáveis), mais chances de que a
mudança em alguma delas seja erroneamente associada a uma intervenção (ou dieta,
no nosso exemplo).

Ele apostou e tudo deu certo. O próximo passo foi achar uma revista para publicar o
artigo. Sem problemas: ele mesmo havia confeccionado uma lista de editoras e revistas
supostamente científicas, mas em que basta pagar para se ter estudos publicados.

(Texto extraído da matéria “Enganar jornalistas é fácil, diz cientista”, veiculada no jornal
Folha de S.Paulo de 09 de agosto de 2015.)

É instrutivo considerar uma pesquisa ideal como algo efetivamente impossível. Um


estudo ideal de um medicamento faria duas cópias idênticas de você, sendo que
ambas passariam exatamente pelas mesmas coisas o tempo todo, com uma exceção:
só uma cópia de você receberia o medicamento. Comparar o que aconteceria com suas
duas cópias revelaria as consequências causais do medicamento para você,
especificamente. Claramente, existem algumas complicações no mundo real. Só existe
um de você e não dois. Além disso, você não participou da maioria dos estudos em
questão, se é que já participou de algum. As pessoas que os pesquisadores
examinaram nunca são exatamente como você. Então, como podemos tirar algum
valor dessa imperfeição? [...] Em última análise, nenhum estudo é perfeito. Quer se
trate de um teste aleatório ou de um não experimental, nunca se pode ter certeza
absoluta de que os resultados do estudo são válidos e aplicáveis a você.

(Texto extraído da matéria “Como saber se um estudo médico é confiável ou não”,


publicada no portal UOL Notícias em 23 de agosto de 2015.)

Em relação às pesquisas alimentares, o controle que os pesquisadores têm sobre a


alimentação de voluntários está longe de ser total, e muitas vezes eles dependem de
relatos das pessoas sobre o que elas comem, informações que não são
completamente precisas. Outros fatores não alimentares ainda influem nos resultados,
como atividades físicas, diferenças metabólicas ou até questões emocionais. [...]

Além disso, o público não especializado tem dificuldade para entender que conclusões
científicas abstratas sobre os benefícios de determinado alimento não
necessariamente se aplicam a casos específicos individuais. [...]

Além disso, pesquisas confiáveis exigem acompanhar grupos grandes de pessoas ao


longo de períodos razoáveis de tempo.

Por fim, é bom ter em mente que há gente ganhando dinheiro com modismos
alimentares, diz Lara Natacci. “O marketing da indústria do emagrecimento é mais
rápido do que o estudo científico. Sophie Deram, nutricionista da USP, conta que já
assistiu a uma palestra sobre mitos e verdades do adoçante financiada por uma
indústria do setor. “Havia centenas de nutricionistas lá. É como publicidade. Você tem
que entender que há interesses.”

(Trechos extraídos da matéria “Estudos contraditórios sobre comida confundem o


público”, veiculada no jornal Folha de S.Paulo de 04 de maio de 2015.)

Obviamente, a pesquisa é uma ferramenta essencial ao avanço do conhecimento.


Existem pesquisas bastante sérias e conclusivas. Infelizmente, para termos uma devida
interpretação destes dados dependemos da analise correta de um especialista. Outro
fator complicante, é que esta análise também varia bastante de um especialista para
outro. Isso é natural, cada profissional desenvolve sua linha de atuação e visão
especifica. Não faz sentido jogar um monte de informações desconexas e
contraditórias a um leigo, como quer o marketing descuidado e afoito das mídias.

Coloco a seguir um trecho de uma matéria feito pelo pesquisador Olavo Amaral, que
expõe como funciona o lobby da indústria dos medicamentos, que igualmente lançam
mão das pesquisas como forma de garantir a venda de certos produtos.

“Nestes congressos médicos os estandes estão cheios de “material educativo”. Os mais


óbvios são anúncios com slogan do produto, informações publicitárias e a bula. O que
mais me chama a atenção, porém é a presença de artigos científicos- traduzidos na
integra - sem menção explicita ao patrocinador. Para encontrá-lo, é preciso ler até o fim
e procurar entre as letras miúdas da seção de conflitos de interesse. Apanho a esmo
um dos artigos neste estande: dos sete autores, cinco são funcionários do laboratório.
Os dois outros são psiquiatras acadêmicos, um dos quais recebe fundo de pesquisa de
cinco laboratórios e é consultor de três. O segundo recebe subsidio de 44 laboratórios
diferentes, atua como consultor em 23, como palestrante em 22 e possui ação de
quatro.

Embora tal situação possa assustar um leigo, ela é corriqueira na pesquisa clínica. Por
causa disso, artigos científicos nos estandes me incomodam mais que anúncios
publicitários: eles são a demonstração pratica de quão tênue é a linha entre ciência e
marketing. Os artigos apresentam pesquisas financiadas pela indústria, desenvolvidas
por funcionários e acionistas da indústria, publicadas em revistas que lucram vendendo
exemplares para esta indústria - que os oferece ao lado de lanches e brindes em
congressos pagos pela indústria, para médicos que viajaram a convite da indústria. E é
difícil, até para o mais ingênuo e idealista dos seres, acreditar que uma atividade
educacional como esta possa ser isenta.”

(Trecho extraído de matéria veiculada na Revista Piauí, edição de setembro de 2015.)

AS CHAVES A SEGUIR SÃO UM PRESENTE QUE RECEBI.

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46 IDENTIDADE E COMUNICAÇÃO CORPORAL

47 ÉPOCA DE MUDANÇAS OU MUDANÇA DE ÉPOCA?