You are on page 1of 13

Maneirismo

Giambologna: O rapto da sabina, 1582. Loggia dei Lanzi, Florença

O Maneirismo foi um estilo e um movimento artístico europeu que se desenvolveu


aproximadamente entre 1515 e 1600 na Itália - com um início e término mais tardio na
maioria dos outros países europeus [1] - como uma revisão dos valores clássicos e
naturalistas prestigiados pelo Humanismo renascentista e cristalizados na Alta
Renascença. O Maneirismo é mais estudado em suas manifestações nas artes plásticas e
arquitetura italianas, mas teve impacto também sobre as outras artes e influenciou a
cultura de praticamente todas as nações européias, deixando traços até na América e no
Oriente. Tem um perfil de difícil definição; caracterizou-se em linhas gerais pela
sofisticação intelectualista, pelo dinamismo e complexidade de suas formas e pelo
artificialismo no tratamento dos seus temas, a fim de se conseguir maior emoção,
elegância, poder ou tensão [2]. É marcado pela contradição e o conflito e assumiu na
vasta área em que se manifestou variadas feições, sendo considerado pela crítica
moderna ora como a fase final do grande ciclo renascentista, ora como uma entidade
independente, em vista de suas características peculiares muitas vezes opostas aos
princípios puramente clássicos, já apontando para a arte moderna.

Origens e definição do termo


A palavra deriva do termo italiano maniera, "maneira", indicando o estilo pessoal de
determinado autor, e em sua origem no século XVI foi usado por Giorgio Vasari com
conotações positivas, significando graça, leveza e sofisticação, e Raffaello Borghini o
emprega para definir se um artista possui ou não um talento superior e individual. No
século seguinte escritores como Pietro Bellori e Luigi Lanzi alteram o conceito e ele
passa a significar artificialidade e virtuosismo excessivo, o que iria repercutir
negativamente em todos os estudos posteriores até o século XX, quando o estilo
começou a ser revisto e apreciado com mais equilíbrio e justeza [3] [4], mas ainda nos dias
de hoje a palavra é ocasionalmente usada para designar afetação e exagero.

Rafael: As núpcias da Virgem Maria, 1504. Uma obra típica da Alta Renascença.
Pinacoteca de Brera

A definição de Maneirismo ainda é objeto de debate entre os historiadores da arte, e em


suas primeiras análises sistemáticas no século XIX, por críticos como Heinrich Wölfflin
e Jacob Burckhardt, esta fase era carregada com um juízo depreciativo, sendo
maneirista e amaneirada qualificativos usados para designar uma arte que era vista
como decadente, repulsiva e afetada, que se afastava dos cânones de equilíbrio,
harmonia, racionalidade, moderação e clareza consumados na Alta Renascença pela
obra de artistas como Rafael Sanzio e na primeira fase de Michelangelo [5] [6]. Somente
em anos recentes a crítica começou a compreender o Maneirismo a partir de suas razões
internas e características únicas, dentro de uma apreciação mais abrangente, e
percebendo que os seus alegados excessos e distorções dos padrões clássicos eram um
esforço para romper-se a regularidade e harmonia excessivas e no fundo artificiais e
simplistas do Renascimento, introduzindo uma prática que era mais verdadeira em
relação ao tumultuado contexto social e cultural daquele tempo e que espelhava melhor
suas angústias e incertezas, substituindo aquele idealismo impessoal que tendia a pairar
acima do humano por visões mais pessoais, subjetivas e sugestivas.

Por outro lado, o período não foi de negação completa dos referenciais clássicos, já que
muito das suas feições ansiosas e dinâmicas refletem justamente uma aguda consciência
da perda e ausência daquela harmonia, mesmo que ideal e fictícia, e boa parte dos
recursos técnicos e formais e das temáticas abordadas ainda olham para o classicismo
em busca de inspiração, e considerando que os problemas culturais do século e as
contradições entre a tradição e a inovação deveriam ser resolvidos dentro de uma esfera
racional, assim como pregavam os renascentistas, ainda que hoje se perceba que esse
seu racionalismo estava cheio de subjetividade [7]. Segundo Hauser,

"É impossível compreender o Maneirismo se não se compreende o fato de que a


sua imitação dos modelos clássicos é uma fuga do caos ameaçador, e que o
grande esforço subjetivo das suas formas é a expressão do medo de que a forma
venha a cair na luta com a vida, e de que a arte venha a se desvanecer numa
beleza sem conteúdo" [8].
Contudo, é necessário lembrar que uma delimitação meramente cronológica do
Maneirismo, que comumente se considera estender entre as primeiras duas décadas do
século XVI e o início do seguinte, e a classificação de todos os artistas deste período
como maneiristas, são inadequadas. Elementos que mais tarde seriam chamados
maneiristas já são visíveis na obra por exemplo de Donatello e Mantegna, no século XV
[9]
; ao longo de todo o século XVI artistas tipicamente maneiristas iriam conviver com
outros ainda bastante fiéis ao programa clássico, como o arquiteto Andrea Palladio, o
músico Giovanni da Palestrina e alguns representantes da escola veneziana de pintura, e
por fim sua fase derradeira já se confunde tanto com o Barroco [10], que faz sua definição
ser considerada por alguns como uma batalha perdida [11].

Parmigianino: Madonna do pescoço longo, 1534-40. Uffizi

Pontormo: José no Egito, 1517-1518. National Gallery of London

Características gerais
A arte maneirista mostra tipicamente figuras com proporções alongadas e em posições
dinâmicas, contorcidas ou em escorço, em grupos cheios de movimento e tensão, muitas
vezes de paralelo impossível com a realidade, e daí seu caráter ser considerado
artificialista e intelectualista, em oposição à gravitas [12] tão prezada no Alto
Renascimento. Nota-se um senso de experimentalismo no tratamento de temas
tradicionais, com a intensificação do drama, e fazendo uso de muitas referências
literárias e citações visuais de outros autores, o que tornava as obras de difícil
compreensão pelo espectador inculto [13]. O estilo é fortemente palaciano em suas
origens e difusão e seus principais expoentes participavam dos círculos ilustrados das
cortes e eram eles mesmos muitas vezes perfeitos intelectuais [14].

O Maneirismo foi uma tendência marcada pela heterogeneidade, tanto mais que o estilo
não se limitou à Itália onde apareceu primeiro, e se espalhou por quase toda a Europa
absorvendo diferentes históricos artísticos e estilos regionais. São encontrados até
mesmo numa mesma região artistas que trabalham em estilos mais naturalistas, e outros
que extrapolam todo o naturalismo e chegam a construir atmosferas de intenso
misticismo, como é o caso típico de El Greco, ou de pesadelo, como em Brueghel. O
formalismo anda a passo com o informalismo, o concreto com o abstrato, o lógico com
o emotivo e o irracional, numa mescla sintomática da fragmentação da unidade clássica
conquistada no Alto Renascimento e logo perdida. De certa forma o Maneirismo foi
uma tentativa de conciliar a espiritualidade da Idade Média com o realismo da
Renascença [15].

Talvez o aspecto mais característico do Maneirismo seja a transformação da noção de


espaço. O Renascimento conseguiu construir a representação visual do espaço de modo
notavelmente homogêneo, coerente e lógico, baseando-se na perspectiva clássica,
colocando os personagens contra um cenário uniforme e contínuo e de acordo com uma
hierarquia de proporções que simulava com grande sucesso o recuo gradual do primeiro
plano para o horizonte ao fundo. O Maneirismo rompe essa unidade com diferentes
pontos de vista coexistindo em um mesmo quadro, e com a ausência de uma hierarquia
lógica nas proporções relativas das figuras entre si, onde muitas vezes a cena principal é
posta à distância e elementos secundários são privilegiados no primeiro plano, ou
cercando o protagonista de uma profusão de elementos decorativos que adquirem
grande importância por si mesmos. Assim as relações naturalistas são abolidas e o
resultado é uma atmosfera de sonho e irrealidade, onde os relacionamentos formais e
temáticos são arbitrários

Contexto e desenvolvimento
O ambiente que deu origem ao Maneirismo foi marcado por profundas mudanças na
economia, na política, na cultura e na religião. Na política a invasão da Itália pela
França, Alemanha e Espanha entre o fim do século XV e o início do século XVI levou a
uma radical alteração no equilíbrio de forças do continente, culminando no Saque de
Roma de 1527, que foi um imenso choque, causando uma devastação que causou
espanto mesmo para os padrões da época e levando a uma fuga de artistas e intelectuais
para outras paragens. Neste período Maquiavel sintetiza em seu O Príncipe, publicado
em 1532, as práticas políticas correntes, legitimando o uso da força para controle dos
súditos e pregando uma moral dupla e um pragmatismo frio e inescrupuloso na
administração pública, obra que teve enorme repercussão em sua época e cujo realismo
político influiu até mesmo na condução do Concílio de Trento.
A agitação da Reforma Protestante pôs um fim à primazia do Catolicismo e do Papado,
mas logo em seguida nasceu a Contra-Reforma, numa tentativa de refrear a evasão de
fiéis para o lado protestante e a perda de influência política da Igreja, ao mesmo tempo
tentando moralizar os hábitos corruptos e materialistas do clero e alterando a atmosfera
de relativa liberdade de pensamento da fase anterior para uma de dúvida, ceticismo,
austeridade e medo, com o aparecimento de várias seitas de revivalismo religioso e
filosofias contestadoras, e a eclosão de guerras religiosas.

Na economia a abertura de novas rotas comerciais em vista das grandes navegações


deixou a Itália fora do centro do comércio internacional, deslocando o eixo econômico
para as nações do oeste europeu. Portugal e Espanha se erguiam como as novas
potências navais, acompanhados pela França, Inglaterra e Países Baixos, e o ouro e
outras riquezas das colônias americanas, africanas e asiáticas afluía para eles em uma
quantidade inaudita, e sustentava a sua ascensão política. Nos meios de produção surge
a industrialização em larga escala, e as oficinas e manufaturas se fundem em
companhias cada vez mais poderosas que auferem lucros fantásticos e são dirigidas por
capitalistas que separam o comércio e a produção das operações financeiras puramente
especulativas, para onde se desloca o peso maior da economia. As atividades primárias
declinam em prestígio, as classes mais baixas perdem toda a segurança e, como esse
contexto é instável, ocorrem bancarrotas nacionais na França (1557) e Espanha (1557 e
1575), com conseqüências sérias para grandes massas da população.

Michelangelo: O Juízo Final, 1534-41. Capela Sistina

Em face a tantas e tão drásticas mudanças, a cultura italiana não obstante conseguiu
manter seu prestígio internacional, e o espoliamento de bens que a Itália sofreu pelas
grandes potências no fundo serviu também para disseminar sua influência para os mais
afastados recantos do continente. Mas a atmosfera reinante já era completamente outra.
A convocação do Concilio de Trento (1545 a 1563) levou ao fim a liberdade nas
relações entre Igreja e arte, a teologia assume o controle e desde então tudo devia ser
submetido de antemão ao crivo dos censores, desde o tema, a forma de tratamento e até
mesmo a escolha das cores e dos gestos dos personagens. Veronese é chamado pela
Inquisição para justificar a presença de atores e bufões em sua Ceia em casa de Levi, os
nus do Juízo Final de Michelangelo têm suas partes pudendas repintadas e cobertas de
panos, e Vasari já se sente inseguro de trabalhar sem a presença de um dominicano ao
seu lado. Apesar disso, a arte em si não foi posta em questão, e as novas regras se
dirigiam mormente ao campo sacro, deixando o profano relativamente livre. De fato,
antes do que suprimir a arte, a Igreja Católica a usou maciçamente para propagar a fé
em sua nova formulação, e ainda mais como um sinal distintivo em relação aos
protestantes, já que Lutero não via qualquer arte com bons olhos e condenava as
representações sagradas como idolatria. Variantes do Luteranismo como o Calvinismo
foram ainda mais rigorosas em sua aversão à arte sacra, dando origem a episódios de
iconoclastia.

O resultado disso tudo foi um grande conflito espiritual e estético, tão bem expresso
pela arte ambivalente, polimorfa e agitada do período: se por um lado a tradição
clássica, secular e pagã, não podia ser ignorada e continuava viva, por outro a nova idéia
de religião e suas conseqüências para a sociedade como um todo destruíram o prestígio
dos artistas como criadores independentes e autoconscientes, que fora conquistado a
duras penas há tão pouco tempo, e também revolucionaram toda a estrutura antiga de
relações entre o artista e os seus patronos e o seu público, sem haver ainda um substituto
consolidado, tranqüilo e consensual. A saída para uns foi se encaminharem para o puro
esteticismo, para outros foi a fuga e o abandono da arte, para outros foi a aceitação
simples do conflito como não resolvido, deixando-o visível em sua produção, e é nesse
conflito entre a consciência individual do artista e as forças externas que demandam
atitudes pré-estabelecidas que o Maneirismo aparece como o primeiro estilo de arte
moderna e o primeiro a levantar a questão epistemológica na arte. A pressão deve ter
sido imensa, pois, como diz novamente Hauser,

"Despedaçados por um lado pela força e, por outro, pela liberdade, (os artistas)
ficaram sem defesa contra o caos que ameaçava destruir toda ordem do mundo
intelectual. Neles encontramos, pela primeira vez, o artista moderno, com o seu
interior, o seu gosto pela vida e pela fuga, o seu tradicionalismo e a sua
rebelião, o seu subjetivismo exibicionista e a reserva com que tenta readquirir o
último segredo de sua personalidade. De então em diante, o número dos
maníacos, dos excêntricos e dos psicopatas, entre os artistas, aumenta de dia
para dia" [18].

Teoria e ensino da arte


Giorgio Vasari: Perseu liberta Andrômeda, 1570. Palazzo Vecchio, Florença

O artista da Renascença tinha a natureza como fonte de inspiração, era ela quem
fornecia os padrões que o artista deveria buscar imitar, e seu sucesso se media na
proporção em que essa imitação era fiel e sua representação verossímil. O Maneirismo,
em contraste, rejeita a cópia servil da natureza e a ela equipara a arte como a fonte da
criação e dos padrões, e teóricos como Giovanni Lomazzo e Federico Zuccari
acreditavam que a arte tinha um nascimento espontâneo no espírito do artista. Lomazzo
considerava que o artista criava sua arte assim como o gênio divino criava a natureza, e
Zuccari via a elaboração artística interna, mental, o disegno interno, como uma
manifestação do divino na alma do artista. Contudo, ao mesmo tempo se patenteava o
problema de onde essa arte autônoma buscava sua verdade, e se essa "verdade" era
crível e aceitável. A solução encontrada foi a reafirmação do conceito das idéias inatas,
encontrado já em Platão e atualizado pelos maneiristas, e assim a verdade do artista é
verdadeira e deriva de sua participação no espírito divino. Os maneiristas, porém,
davam uma maior ênfase à espontaneidade do gênio criador, e Giordano Bruno afirmou
que "as regras não são a única fonte da poesia, mas a poesia é que é a fonte das
regras, e há tantas regras quantos há poetas verdadeiros". Nascia uma noção
individualista e subjetiva de que arte não se ensina e não se aprende, e de que o artista
nasce pronto e não se faz [19].

Esses conceitos ocasionaram uma reformulação nos propósitos e estrutura das


academias de arte. As antigas guildas ou corporações de ofícios preparavam o artista
para que dominasse cabalmente o seu métier e o capacitavam para que transmitisse seu
conhecimento a outros discípulos, com uma estrutura de ensino informal e nascida
organicamente da necessidade, ainda que as relações entre mestre e discípulo fossem
bem definidas e a autoridade do mestre incontestável, mas o artista era socialmente
apenas um artesão qualificado. Com o evoluir da Renascença o artista iniciou um
caminho de independência, adquiriu uma cultura mais vasta e completa, buscando uma
emancipação liberal do sistema anti-progressista das guildas para elevá-lo acima do
mero artesão. Com a estruturação e oficialização das academias em meados do século
XVI foi introduzido um desejo de normatização do ensino, e sua organização passou a
ser mais estrita e feita de cima para baixo, resultando em uma arte mais formalista. A
primeira academia fundada nestes moldes, a Accademia del Disegno, foi estabelecida
em Florença por Cosimo I de' Medici em 1561, sob incentivo de Giorgio Vasari, pintor,
teórico e biógrafo dos artistas do Renascimento. Essa academia, porém, não tinha fins
somente educativos, e tinha antes um caráter de distinção pública, somente artistas já
consagrados e de grande cultura podiam ser admitidos. Paralelamente, eles deveriam
ensinar um grupo de alunos selecionados. Foi apenas no fim do século que Zuccari
conseguiu estabelecer a idéia de academia como uma aula pública estável e com
currículo definido, onde o debate teórico tinha um papel proeminente, embora esse
modelo só viesse a florescer de fato entre o século XVII e o século XIX, pois a tradição
artesanal ainda estava por demais arraigada [20].

Fases do Maneirismo

O período é comumente dividido em duas (ou três, conforme o autor) grandes etapas
principais. A primeira vai de c. 1515 a c. 1530 (ou segundo outros até c. 1550 [21] [22]),
aparece primeiro em Florença, e logo em Roma, e é chamado de fase anti-clássica do
Maneirismo. Seus principais representantes haviam amadurecido ainda sob a influência
da Alta Renascença, e a obra que desenvolveram forma por isso um contraste mais
nítido em relação ao classicismo anterior. Jacopo da Pontormo e Rosso Fiorentino são
os nomes principais em Florença, donos de um estilo brilhante, nitidamente cortesão,
com formas elegantes e cores arrojadas, inspirados na fase madura de Michelangelo, a
esta altura considerado o maior gênio vivo nas artes. Em Roma atuavam Parmigianino e
Giulio Romano, e apesar da presença do próprio Michelangelo, a influência maior era
de Rafael, tornando o estilo um pouco mais austero e equilibrado [23] [24], e em Siena a
escola local tinha em Beccafumi um precursor. Esta primeira fase também é marcada
pelo êxodo de artistas de Roma após o saque de 1527, fortalecendo por toda a Europa a
influência do Renascimento italiano que já se notava em alguns pontos desde o século
XV, fundando novos centros regionais e estimulando o trabalho de maior número de
artistas. Em grande parte desses países o elemento italiano vai encontrar forte tradição
tardo-gótica ainda viva, dando origem a singulares estilos híbridos que definem o
Maneirismo nesses locais [25].

O período seguinte, às vezes chamado de Alto Maneirismo, acentua o intelectualismo e


a virtuosidade como elementos essenciais à boa arte, e a originalidade e maniera
pessoais encontram terreno livre para pesquisas ainda mais extravagantes na forma,
dentro da arte profana. O período coincide, porém, com as reformas do Concílio de
Trento, como já foi mencionado antes, introduzindo alterações drásticas no modo de
representação sacra. Na Itália são figuras centrais Agnolo Bronzino, Alessandro Allori,
Federico Barocci, Jacopo Tintoretto, Ticiano, Veronese, Benvenuto Cellini e
Giambologna. Aqui o Maneirismo já era o estilo dominante em toda a Europa, e se
destacam artistas como François Clouet, Jean Clouet, Jean Goujon, Germain Pilon e
Pierre Lescot na França; Pieter Brueghel o velho, Adriaen de Vries, Pieter Aertsen,
Maarten van Heemskerck, Frans Floris, Adriaen Isenbrandt e Joos van Cleve nos Países
Baixos; William Segar e Nicholas Hilliard na Inglaterra, onde se confunde com a Era
Elisabetana; Hans Holbein, o Jovem na Alemanha; Alonso Berruguete, Diego de Siloé,
El Greco, Pedro Machuca e Juan de Herrera na Espanha, onde assumiu o nome de
plateresco, e o Grão Vasco, Tomé Velho e Francisco de Arruda em Portugal,
configurando o estilo manuelino.
O declínio do Maneirismo na Itália começa por volta de 1580 ou 1590, com uma
recuperação dos valores do naturalismo Rafaelesco, como se nota na obra de Annibale
Carracci, enquanto o estilo progride em outros países até bem dentro do século XVII [26],
e centros da Renascença tardia se fortalecem em especial na França, Países Baixos e na
Alemanha [27], até o estilo fundir-se gradualmente no Barroco e extinguir-se em todas as
partes.

Outras artes
Até agora foram abordados aspectos do Maneirismo principalmente no que toca à
pintura e escultura, mas o estilo teve repercussão também em outras áreas artísticas,
como a arquitetura, a literatura e, com menor evidência, a música.

Arquitetura [28]

A arquitetura maneirista nasce da tradição estabelecida por arquitetos renascentistas


como Alberti, Brunelleschi e Bramante no século XV e início do XVI, que retiraram sua
inspiração mormente de tratadistas antigos como Vitrúvio e da herança romana em suas
ruínas, muitas das quais permanecem visíveis para os italianos desde a antigüidade e
servem de memento perene do grandioso passado clássico, cuja influência jamais se
perdera de todo para eles. A perspectiva desenvolvida no século XV e a crescente
importância do desenho como auxiliar do conhecimento foram elementos fundamentais
para o desenvolvimento do estilo arquitetônico classicista, que atingiu um ponto alto em
obras como a Capela Pazzi e o Tempietto de Bramante, que consagraram o sistema de
proporções e a organização dos espaços típicas do Alto Renascimento.

Juan de Álava, Rodrigo Gil de Hontañón e Martín de Santiago: Igreja de Santo Estêvão,
Salamanca
Michele Sanmicheli, Giovanni Rusconi e Alessandro Vittoria: Palazzo Grimani, Veneza

Estando o classicismo estabelecido com grande homogeneidade no início do século


XVI, sua revisão introduzida pelo Maneirismo afetou também o estilo construtivo. A
tradição do tratadismo declina e surge uma nova geração de arquitetos fortemente
individualistas que se permitiram grandes liberdades formais e realizaram a transição do
Renascimento para o Barroco. Dentre eles se destacaram na Itália Andrea Palladio,
Giulio Romano, Antonio Sangallo, Giacomo della Porta e Jacopo Vignola. De todos
eles Palladio, o mais influente arquiteto da Renascença [29], foi talvez também o mais
classicista dentre os maneiristas, como se percebe em sua obra-prima, a Villa Rotonda,
mas não obstante em outros prédios introduziu variações significativas no cânone
clássico, e junto com os outros abandonaram o rigor anterior para desconstruir o cânone,
jogando com ilusões de perspectiva, alteração nos ritmos estruturais, desvirtuação da
funcionalidade de certos elementos e sensível flexibilização nas proporções da
volumetria. Della Porta é lembrado também pela autoria da célebre fachada da Igreja de
Jesus em Roma, que foi o protótipo da construção eclesiástica barroca.

Nos outros países da Europa a tradição clássica misturou-se a raízes locais, derivadas do
Gótico e do Românico, dando origem em Portugal, por exemplo, ao manuelino, com seu
monumento máximo no Mosteiro dos Jerónimos, onde o Gótico ainda é a influência
mais importante, e deixando marcas também nas suas colônias do Brasil e da Índia, e na
Espanha, ao plateresco, um caso único de mescla entre influências clássicas, góticas e
mouriscas, com exemplos significativos na Universidade Sancti Spiritus de Oñate, na
Universidade de Salamanca, na Igreja e Convento de Santo Estêvão também em
Salamanca, na Universidade de Alcalá de Henares e nas colônias americanas do México
e Peru. O final do século veria na Espanha uma retomada do classicismo, com abandono
dos excessos decorativos e adoção de maior austeridade.

Na França o Renascimento foi logo acolhido com entusiasmo desde fins do século XV,
produzindo muitos monumentos arquitetônicos de grande valor como o Castelo de
Chambord, o Castelo de Fontainebleau, e partes do Palácio do Louvre, que realizam
uma síntese maneirista associando traços medievais aos da Renascença. Da mesma
forma nos Países Baixos formou-se um estilo de construção palaciana bastante peculiar,
compacta, muito decorada e com um frontispício elevado, onde a Prefeitura de
Antuérpia é um exemplo típico. Em outros países são significativos o Palácio de
Frederiksborg na Dinamarca; na Polônia a Prefeitura de Poznań e o Palácio dos Tecidos
em Cracóvia; partes do Castelo de Heidelberg na Alemanha; o Hardwick Hall, a
Burghley House e a Longleat House na Inglaterra, apenas para citarmos um punhado.
Música

A música maneirista em linhas gerais mostra, conforme a descrição de Claude Palisca,


uma tensão "entre o desejo de preservar um elevado nível de habilidade
contrapontística e o impulso de acompanhar as imagens, idéias e sentimentos" [30]
descritos no texto. Contudo, o impacto do Maneirismo sobre as artes musicais é menos
abrangente do que em outros campos. Compositores como Giovanni da Palestrina e
Orlande de Lassus dominam a cena no âmbito sacro ao longo de quase todo o século
XVI e são o padrão para todo o continente, e seu estilo na maior parte das vezes em
nada evidencia a agitação e instabilidade que tipificam o Maneirismo nas outras artes,
ao contrário, revelam uma harmonia, dignidade e contenção que têm paralelo muito
mais nas obras plásticas do Alto Renascimento.

El Greco: Detalhe da Anunciação do Colégio Doña Maria de Aragão, hoje no Museu do


Prado

Características maneiristas são perceptíveis na produção sacra em casos específicos,


como é o da escola veneziana de música policoral, com um senso de orquestração rico e
suntuoso, usando recursos antifonais de efeito eletrizante e que tiveram grande
influência. Os seus maiores representantes foram Andrea Gabrieli e Giovanni Gabrieli
[31]
.

No terreno da música profana cortesã houve maior receptividade às sutilezas subjetivas


do Maneirismo especialmente entre os compositores de madrigais, um gênero vocal
polifônico que ressuscitara transformado depois de quase um século de esquecimento e
conheceu larga difusão. Desenvolveu-se mostrando grande expressividade,
incorporando os princípios da Musica reservata e sua preocupação com a ilustração
sonora de cada nuance do texto, chegando a altos níveis de complexidade e refinamento
pelas mãos de Cipriano de Rore, Luzzasco Luzzaschi e Luca Marenzio, célebres pelo
seu experimentalismo harmônico, embora não tenham chegado aos extremos de Carlo
Gesualdo, o mais intensamente dramático dentre todos, cujos cromatismos avançados
são um caso único em sua época e prefiguram em alguns momentos a música moderna.
Os próprios Lassus e Palestrina deixaram belos exemplos de madrigais [32][33][34].

Literatura
Na literatura o Maneirismo se caracteriza, como nas artes visuais, principalmente pela
perda da unidade clássica, que reflete de fato a consciência dramática de que todo um
ciclo cultural e civilizatório, que deixara uma impressão de grandeza e estabilidade,
estava encerrando. Tornam-se comuns na produção dos maiores autores da época
sentimentos de dúvida, fracasso, ambigüidade, duplicidade e ironia, e o fantasioso surge
como uma fuga dos tumultos da realidade concreta, elementos que denunciam um
desejo intenso de ordem e paz, ou atestam que sua conquista é inexeqüível. Três nomes
notáveis, na poesia, prosa e teatro, podem ser tomados como paradigmas da literatura
maneirista: Tasso, Cervantes e Shakespeare. Torquato Tasso, em sua Gerusalemme
liberata (1575) longo poema épico de grande difusão, mostra seu herói Godofredo de
Bulhões enfrentando a nulidade de seus ideais diante do testemunho dos fatos, e sofre
grande pesar vendo que seu desejo de construir uma comunidade de homens valorosos e
leais se torna impossibilitado pela mesquinhez, ambição e hedonismo das pessoas, que
são levadas mais pelas pulsões da paixão e do materialismo do que pelos princípios
éticos [35].

Ilustração de Gustave Doré para o Dom Quixote, na cena em que o Cavaleiro da Triste
Figura embate contra moinhos de vento imaginando que são gigantes

O protagonista de Cervantes em Dom Quixote (1605-15), passa a maior parte do tempo


num mundo ilusório só seu, que, embora possua altos e belos ideais e uma ética
cavaleiresca imaculada, não corresponde à verdade de sua época, e disso deriva o efeito
ora burlesco, ora patético, ora onírico, ora sublime e poético, e ora trágico, do romance.
Uma diferença essencial entre a literatura clássica e a maneirista é que aquela tinha
personagens com caracteres claramente definidos, eram bons ou maus, eram ladrões ou
heróis, e se resumiam basicamente a tipos relativamente impessoais, com feições
imutáveis e cujo comportamento era até certo ponto previsível. Mas agora um único
personagem podia incorporar os opostos em si, e todos os estados intermédios. Além da
personalidade dos personagens ter sofrido uma complexificação inédita, a própria forma
e estrutura da narrativa se modifica. O Quixote é cheio de cortes abruptos, desfechos
imprevistos, distrações do foco principal, tem uma estrutura frouxa e informal, e faz
extenso uso do linguajar cotidiano ao lado de alusões eruditas, num resultado cuja
variedade e falta de uma uniformidade, que já são modernas, também concorrem para
ele permanecer atual e vivo até os dias de hoje [36].
Reconstrução moderna do teatro The Globe, onde atuou Shakespeare, com a
representação da peça A Comédia dos Erros

A outra grande figura da literatura maneirista, que nos auxilia a compreender o estilo, é
o polimorfo e prolífico Shakespeare, cuja obra sofre uma transformação ao longo do
tempo que ilustra bem a passagem da atmosfera renascentista humanista, idílica e
classicista, para o maneirismo e sua melancolia, desencanto, complexidade e pathos, e
já apontando para os contrastes do Barroco. Sua dramaturgia reflete sua experiência de
que "a idéia pura não pode se realizar na terra, e que ou a pureza da idéia tem de ser
sacrificada à realidade, ou se deve manter a realidade não afetada pela idéia", um
conceito que em si não era novo, mas acrescentando uma dimensão trágica nova a esse
casamento impossível, pelo fato de que a vitória moral do herói se dá muitas vezes em
virtude de sua derrocada, numa visão sobre o destino que diverge da clássica [37]. Em
termos de forma suas peças se realizam, como em Cervantes na prosa, com quebras de
continuidade, com um tratamento livre e desigual do espaço e do tempo, na recusa da
economia, ordem e linearidade clássicas, na contínua e extravagante expansão e
variação do seu material, na caracterização psicológica inconsistente, ambígua e
imprevisível dos seus personagens, na justaposição de recursos altamente formalistas e
convencionais com outros tirados do prosaico, do improvisado e do vulgar. É também
um típico maneirista quando se vale de metáforas obscuras e sobrecarregadas, do
mágico e do fantástico, de antíteses, assonâncias e trocadilhos, do intrincado e do
enigmático, e quando põe em crua evidência os pontos fracos dos heróis, que podem ser
muitos e profundos, e que por isso mesmo os tornam aos olhos modernos tão reais,
vivos e verdadeiros [38].