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Bruno Grunig 1

Guia rápido para escrever um livro de ficção 2

Guia rápido para escrever um

Livro de ficção

Bruno Grunig

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Todos os direitos reservados - 2013 - Bruno Grunig


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Índice

Definindo ficção 04
Requisitos para escrever um livro 07
Como escrever 12
Começando seu livro 16
Desenvolvendo a sua história 18
Estrutura da história 21
O universo da sua história 28
Os personagens 30
Cenas e sequelas 32
Quem está narrando a história 39
O conteúdo das cenas 43
Montando o seu livro 48
O manuscrito final 49
Escreva para alguém, não para todo mundo 51
Publicando seu livro 55
Escrever é trabalho duro 60
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Definindo ficção

Não vamos aqui ficar com lero-lero e altas definições. Basta


saber que

Ficção é tudo aquilo que não é um fato real, ou seja,


uma história inventada, com fatos inventados.

Pronto. É isso. Muita gente tem certas dúvidas e vou tentar


esclarecer algumas delas aqui.

 Posso mencionar cidades, locais, ruas,


restaurantes, produtos, etc., reais na minha
história?
o Sim, pode. Mas tome cuidado para não
difamar. Por exemplo, dizer que o
personagem foi a um restaurante e a
comida era péssima. O dono do restaurante
vai querer comer o seu coração caso o livro
seja publicado. E se mencionar um local
real, por exemplo, um bairro, uma rua,
cuidado. Seja fiel à realidade, pesquise. Por
exemplo: se você disser que a Torre Eiffel
fica a dez metros do Arco do Triunfo, que
isso seja mesmo verdade.

 Posso inventar cidades, ruas, países, produtos,


locais, etc.?
o Sim, pode. Mas é preciso passar uma
impressão de que tudo o que você inventar
é real para os personagens.
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 Posso mencionar fatos reais?


o Depende. Você pode, por exemplo,
mencionar um fato público ocorrido à
época de sua história. Uma eleição, por
exemplo. Mas mencionar fatos reais não
públicos é temerário. Por exemplo: um
vizinho seu saiu no tapa com a mulher
porque ela o estava traindo. Mencione isso
e vai arrumar uma enorme confusão.

Cuidado com o que não é ficção

Uma história de ficção não pode conter outra coisa que não seja
ficção. por exemplo: numa determinada cena, você coloca em
algum lugar (com certeza inadequado) um ditado popular,
porque você acha que aquela cena tem a ver com o ditado. Corte
isso fora. O livro de ficção contém a história dos personagens,
não as gracinhas do autor. Eventualmente, um personagem
pode mencionar algo assim, mas é melhor evitar. Porque fica
evidente para o leitor que você é quem pensa assim e não o
personagem. Principalmente se o personagem diz aquilo meio
fora de contexto, fora de hora.

Portanto, é melhor ater-se à história. Tudo o que não pertencer


à história em si, deve ser cortado.

Tipos de ficção

Livros de ficção, conforme concluímos lendo a definição de


ficção, podem ser de tipos diferentes. Por exemplo:

 Ficção científica
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 Ficção romântica
 Ação/aventura

E assim por diante. Seja qual for o assunto, a categoria da sua


história, se for inventada, é ficção.

É bom, antes de escrever seu livro, pesquisar em livrarias em


que tipo de categoria ele se encaixa. Se você quiser vender o
livro, que é o que eu suponho que você queira. Escrever pra
ninguém ler, serve pra que?

Você pode pesquisar em livrarias online. Veja como os livros são


divididos em categorias. Romance, policial, ação, etc. Procure
enquadrar corretamente seu livro. Isso vai ajudar na hora de
vender.
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Requisitos para escrever um livro

É claro que é necessário saber escrever. Escrever bem. Mas o


que é escrever bem? Eu conheço muita gente que escreve
corretamente (até demais), mas não conseguiria escrever um
livrinho de cem páginas.

Escrever bem, em se falando de livros, é conseguir:

 Criar histórias
 Passar estas histórias para o papel
 Transmitir emoção ao leitor

Pense em você mesmo. Se você compra um livro, você quer que


a história seja tão interessante, que você não consiga largar o
livro nem pra comer, certo? Você quer porque quer saber o que
vai acontecer a seguir, e a seguir... até o final. Você quer saber o
que o personagem vai fazer, como vai transpor os obstáculos e
como vai conseguir atingir seu objetivo. E aqui já estamos
falando de como deve ser um livro de ficção.

Então esta é a sua função na hora de escrever seu livro. Engajar


o leitor na história. Ele precisa pensar que é o personagem. Isso
é meio complicado, mas lá no fundo da mente, o leitor vai
caminhando pela história como se fosse ele mesmo que a
estivesse vivendo, apesar de estar explícito no livro que não é.
Lembre-se de algum livro muito bom que você já leu e veja se
não é assim. Você fica lá sofrendo com o personagem. Ri, chora,
torce. E muito mais... a sua mente tenta descobrir soluções para
os problemas que o personagem enfrenta. Você fica com raiva
do vilão, que está ferrando a vida do herói. Fica chateado
quando as coisas não dão certo para o herói. E assim por diante.
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Isso é escrever bem. Passar emoção ao leitor. E, é claro, existem


técnicas para fazer isto. Não adianta nada dizer que o
personagem chorou. É preciso criar uma situação tal, que o
leitor fique com uma bola de futebol entalada na garganta. Isso
se não desandar a chorar mesmo.

Sua função é criar estas situações. Não somente de chôro, é


claro. Situações de perigo, risco, alegria, tristeza, medo,
insegurança e assim por diante. De novo, não adianta dizer que
o personagem está inseguro. É preciso criar uma situação tal,
que o mais firme dos seres humanos ficaria inseguro. E é
preciso fazer com que o leitor acredite que aquele personagem
teria esta ou aquela reação. Se o personagem é corajoso, não
tem medo de nada nem de ninguém, é difícil fazer com que se
acovarde diante de alguma coisa, certo? É claro. O cara enfrenta
trezentos bandidos armados com um canivete e vai correr de
uma mocinha magrela que faz meia dúzia de movimentos de
karatê? O leitor não vai acreditar.

Por estas e outras, você está vendo que... escrever bem não é
colocar o acento e o ponto no lugar certo. É muito mais que isso.

Como você escreve?

Por mais que você aprenda alguma coisa, aqui e ali, com um
livro (como este, por exemplo), precisa adaptar o que aprendeu
ao seu jeito de fazer as coisas. Existem técnicas, maneiras de
fazer as coisas, mas cada um precisa definir o que funciona ou
não para si mesmo.

Vou citar um exemplo. Eu mesmo. Se tem uma coisa na qual sou


débil, é em modificar aquilo que já fiz. Sou muito fraco mesmo.
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Aqui mesmo neste livro, se eu olhar para a página anterior,


posso até achar que faltou alguma coisa. Mas dificilmente vou
modificar um parágrafo inteiro. Muito menos todos eles. Talvez
acrescente algo aqui e ali, mas é só.

Portanto, preciso ter muito cuidado para escrever. E mais ainda


se for ficção. Porque eu não gosto de editar, cortar, modificar.

Outras pessoas não têm o mínimo problema com isso. Vão lá,
eliminam um parágrafo, escrevem outro. Modificam uma frase,
e assim por diante.

Por isso, você precisa definir o que funciona melhor para você.
Se for capaz de editar, cortar, modificar, pode escrever mais
livremente, simplesmente deixar a história fluir. Com certas
restrições, como você verá mais adiante.

Porém, se tiver o mesmo "defeito" que eu, é melhor tomar


cuidado. Porque se você escrever um livro inteiro cheio de
problemas em tudo quanto é lado, não vai querer modificar
tudo. E então vai ter que jogar todo aquele trabalho no lixo.

Eu, além do mais, tenho um segundo defeito. Também não


gosto de coisas muito organizadinhas. Sou complicado, não sou?
Porque, veja só... se eu não gosto de editar, deveria organizar-
me de tal maneira que a coisa saia direito na primeira vez,
certo? Pois é... mas eu... arrrammm... não gosto.

Mas - fique feliz por mim - eu encontrei a solução. Pelo menos


para mim. E é muito simples. Eu sei que se me forçasse a perder
uma baita tempão organizando e arrumando, acabaria
desanimando e não fazendo nada. E se escrevesse direto e reto
como gosto, acabaria criando um monstro que nem o mais
paciente dos seres humanos seria capaz de editar. O que foi que
eu fiz?
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Eu vou alternando um pouco de cada coisa. Organizo um pouco


e depois fico livre, criando. Depois paro, e organizo novamente.
Assim, tenho um pouco de cada coisa: a parte que eu gosto e a
parte que não gosto.

Ou seja, eu tive que obrigar-me a organizar, mas achei uma


maneira que não fica muito pesada, que não me faz desanimar.

É isso que você precisa fazer. Encontrar o jeitinho que se


encaixa na sua personalidade.
Lembre-se porém de uma coisa: escrever um livro de ficção
direto, de cabo a rabo sem organizar nada, é praticamente
impossível. Você precisa de um mínimo de organização, para
não perder-se na história.

Então, seja qual for o seu jeito de escrever, vai precisar


organizar-se. Mesmo que faça como eu. Um pouco de cada
coisa.

Por outro lado, se gosta muito de organização, legal. Mas tome


cuidado, porque no final você pode ter algo muito, muito
organizado e que não tem sabor de nada. Anote isto:

A organização é feita por fora do livro. Dentro do livro é


só felicidade!

Isto significa que você tem um bocado de coisa correndo por


fora da história, que o leitor jamais vai saber. Anotações, perfis,
locais, objetos, descrições, etc. itens que vão ser usados para
orientar a história. Mas que só você sabe. O leitor só sabe a
história em si.
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Enfim... é necessário preparar-se para escrever um livro. E por


mais que você queira mergulhar de cabeça, deve fazer isso.
Preparar-se. Assim, quando mergulhar, vai com mais certeza.
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Como escrever

Os editores americanos têm um "chavão" para dizer aos autores,


que é o seguinte:

"Show. Don't tell"

Que significa:

"Mostre, não conte"

O que isso significa? Significa exatamente o que a frase diz.


Escrever um livro de ficção é mais mostrar do que contar.
Vamos ver como é cada uma destas maneiras de escrever.

Contar

Antonio passou por debaixo da escada e escondeu-se


atrás de uma coluna. Checou o pente de balas de sua
pistola e viu que só tinha nove balas. Então gritou para
Zé Marreta, dizendo que ia arrebentá-lo.

Mostrar

Antonio passou por debaixo da escada e escondeu-se


atrás de uma coluna. Checou o pente de balas de sua
pistola. "Droga... só nove balas...". Então gritou:

- Zé Marreta! Não adianta esconder não, babaca! Eu vou


te arrebentar pelo meio!

Repare na diferença entre as duas maneiras de escrever. A


primeira usa somente a linguagem descritiva. A segunda mostra
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o que a pessoa está fazendo, os seus pensamentos e a sua fala.


Mostrar sempre é melhor do que contar. Mas nem tudo pode ser
"mostrado". Algumas vezes é preciso contar. Então conte, tudo
bem. Mas reduza ao mínima o "contar". Mostre onde puder
mostrar.

Uma história toda contada não contém emoção. Ora, é óbvio


que isso seria uma grande besteira, porque o que um leitor
compra é a emoção. É o principal ingrediente de uma história.

Não vá você também construir um monstro de mil e quinhentas


páginas, porque "mostrou" tudo quanto é pensamento e diálogo.
Use cada coisa com a medida certa.

Assim como muita descrição cansa, muito diálogo e muito


pensamento também.

Separando ações e reações

Em determinadas cenas, você pode ter uma seqüência de ação e


reação. Separe cada coisa numa linha diferente. Isso dá mais
peso à cena. Por exemplo:

"Antonio escondeu-se atrás das caixas, do lado esquerdo


do galpão, caminhando lentamente em direção à parede.
Então viu Zé Marreta.

Apontou a pistola e disparou três vezes.

O pulso de Zé Marreta acelerou-se. Ele virou-se para a


direção de onde vieram os tiros e abaixou-se. "

Veja como a ação de apontar a pistola e atirar está numa linha


separada do parágrafo anterior. E a reação de Zé Marreta está
numa nova linha.
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Isto, além de dar mais emoção à cena, cria uma sensação de


movimento, de ação.

Esta técnica pode ser usada em outros tipos de cena também.


Românticas, cômicas, etc.

Descrevendo Reações

Existe uma técnica para descrever reações, que você pode e deve
usar, caso consiga. Acontece que não é muito simples.

A técnica consiste em descrever uma reação


"milimetricamente", ou seja, descrever tudo o que a pessoa
sentiu naquele momento.

No trecho de exemplo anterior, a reação de Zé Marreta ao ouvir


os tiros foi abaixar-se. Mas o trecho descreve o que veio antes
disso. Frações de segundos antes de abaixar-se, seu pulso
acelerou-se. Um pouquinho depois ele virou-se para a direção
de onde vieram os tiros.

Esta forma de descrever reações cria uma quadro mais vivo na


mente do leitor. Isso porque mostra claramente tudo o que o
personagem sentiu.

Veja como isso é verdade. Quando Zé Marreta ouviu os tiros,


abaixou-se. Mas pense bem. Ele não levou um susto? Se ele não
esperava os tiros, levou. Esta é a primeiríssima reação dele. A
próxima foi virar-se para a direção de onde os tiros vieram, algo
automático. Só depois é que ele abaixou-se. Mas para um
observador visual, ele só teria se abaixado. A aceleração do
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pulso não é visível e virar-se para a direção dos tiros é uma


reação involuntária, rápida.

Randy Ingermanson, um professor de ficção


(http://www.advancedfictionwriting.com), separa as reações
em três partes:

1. Sentimento
2. Reflexo
3. Ação racional

É claro que você não vai ficar usando esta técnica o tempo todo.
Num diálogo, por exemplo, ficaria meio esquisito. Mas em
certos momentos, funciona muito bem, para dar mais
veracidade à cena e transmitir emoção ao leitor.
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Começando seu livro

Um livro começa com uma idéia. Uma idéia não tem cem
páginas, nem quinhentas. Nem sequer uma página. Uma idéia
tem no máximo um parágrafo. Veja esta, por exemplo:

"Uma estudante de literatura vai entrevistador um bem


sucedido empresário e acaba descobrindo que sente uma
forte atração por ele. O empresário também sente a
mesma coisa pela estudante, mas ele tem costumes
estranhos, enquanto que ela é bastante ingênua. Eles
acabam conhecendo-se melhor e se relacionando
intimamente. "

Este parágrafo define mais ou menos a história do livro


"Cinquenta tons de cinza", de E.L. James, sucesso em 2012.

Repare como num só parágrafo já existe uma idéia para o livro.


Qualquer escritor de nível médio poderia desenvolver uma
história a partir desta idéia. E é assim que você deve fazer.
Primeiro ter uma idéia. E veja só que legal... você pode (e deve)
ter não só uma idéia. Pode ter várias!

Coloque suas idéias no papel, com um só parágrafo. Se for uma


só, tudo bem. Mas talvez seja melhor ter várias. Você pode
acabar descobrindo que aquela primeira era fichinha perto de
uma que veio depois.

Vamos dar um exemplo. Suponhamos que você goste de


escrever sobre romance, drama. E já tem uma idéia para uma
história assim:
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Um rapaz de 18 anos tem uma atração irresistível por


uma colega de classe, mas ela não lhe dá a mínima. Ele é
tímido, não consegue expressar-se e dizer a ela o que
sente. Até o dia em que descobre que tem uma terrível
doença, que pode acabar com sua vida em poucos anos.
Então ele decide que fará de tudo para conquistar o amor
daquela moça e, se ela quiser, irá passar o resto dos seus
dias ao lado dela.

Ao invés de apaixonar-se pela idéia logo de cara e meter as mãos


à obra, tente desenvolver outra idéia. Parecida com a primeira
ou não. Por exemplo:

Um rapaz de 18 anos descobre que tem uma doença


incurável, que irá matá-lo em poucos anos. Uma colega
de classe tem uma grande atração por ele, mas nunca lhe
disse nada. Ao descobrir que o rapaz tem aquela doença,
ela decide dizer a ele o que sente. E acaba descobrindo
que ele também sente o mesmo por ela. Mas ele resiste
àquele amor, porque sabe que não poderá durar muito.
Mas a moça não desiste e luta pelo seu amor, mesmo que
dure pouco tempo.

Percebeu a diferença? No primeiro caso, o personagem


principal é o rapaz. No segundo caso, é a moça. A história não é
a mesma, porque na segunda versão a luta é travada por alguém
muito diferente.

Fazendo assim, você acaba descobrindo outras possibilidades


para a mesma história. Ou até mesmo uma história
completamente diferente.

Depois que escolher a idéia que vai desenvolver, é hora de...


desenvolver, claro. Então vamos ver como é isso.
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Desenvolvendo a sua história

Em primeiro lugar, anote aí uma coisa.

Você precisa saber como termina sua história. Não é uma


opção. É uma obrigação. Se não souber como termina a
história, você não tem uma história. Quer um exemplo?
Tente chegar numa roda de amigos e dizer que vai contar
algo que aconteceu. Você conta que um acidente
aconteceu na estrada, bem na sua frente. O carro capotou
uma quinhentas vezes e tal. Qual a pergunta que todos
vão fazer? É claro: "O cara morreu?". Aí você diz: "Sei
lá... eu fui embora...". Pô meu! Zoou a história legal.

Jamais negligencie isto. Se você for escrevendo "pra ver que


bicho dá", vai se enrolar. A determinada altura, você pode estar
contando três histórias diferentes, que vão dar em lugar
nenhum.

Portanto, a partir da primeira idéia, você vai desenvolver a


história. E isso é antes de escrever o livro em si. Agora você vai
pegar aquele parágrafo inicial e expandi-lo, com mais detalhes.

Veja bem, aqui você ainda não vai descrever personagens,


apenas dar um corpo para a história. Você pode dar nomes aos
seus personagens. Criar um pouco da história anterior deles, o
passado. Dar mais detalhes dos acontecimentos no presente. E -
lembre-se do início desta parte - dar um final para a história.

Por exemplo, se fosse a história que usei de exemplo, poderia


ficar assim:
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Tito, um rapaz de 18 anos, está cursando o último ano do


segundo grau. Certo dia passa mal na sala de aula e dois
colegas o levam para casa. Um dos dois é Andréia, que
sente por ele uma forte atração, mas nunca lhe disse
nada. No dia seguinte, a professora anuncia que Tito está
internado. Ao final da aula, alguns alunos vão visitá-lo.
Entre eles está Andréia. Tito fica internado por uma
semana e Andréia passa a visitá-lo todos os dias. Ele
passa por vários exames, e em duas semanas sai o
diagnóstico. Tito tem um tumor cerebral que pode matá-
lo em alguns anos. A vida de Tito muda radicalmente. Ele
continua estudando, mas precisa de cuidados e visitas
constantes ao hospital. Andréia fica cada vez mais ligada
a ele. Passa a ser parte importante da vida de Tito. Ela
acaba confessando seu amor por ele. Mas ele reluta, acha
que não tem o direito de fazer com que ela desperdice sua
vida com alguém que pode morrer tão cedo. Então vem o
segundo golpe. Os pais de Tito morrem num acidente.
Sua vida fica ainda mais complicada. E Andréia não
desiste, permanece ao seu lado. Blá, blá, blá... (a história
vai seguindo...). Para piorar as coisas na vida de Tito (e
dar um final para a história), Andréia é assaltada a mão
armada e leva dois tiros. Agora Andréia está à beira da
morte no hospital. É o golpe final para Tito. Ele já vinha
lutando contra sua doença. Então teve que lutar contra a
doença e a falta dos pais. Agora, a garota que ele ama
pode morrer...

Como você vê, a história foi expandida. Agora já temos um


esqueleto bacana para trabalhar. Só falta o final. E você pode
fazer o que quiser, contanto que o final tenha lógica. Você pode
matar os dois. Você pode salvar os dois. Você pode matar um só,
mas neste caso o final ficaria meio capenga.
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Enfim... desenvolva a história. Mas antes de desenvolver, leia


todo o restante deste livro, para saber como desenvolver.
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Estrutura da história

Você percebeu que no meu exemplo eu tornei a vida de Tito


simplesmente miserável. E isso não foi por acaso. Foi
necessário. Porque as pessoas não tomam grandes atitudes sem
grandes acontecimentos. Grandes desastres. Você precisa fazer
grandes desastres acontecerem na vida dos seus personagens,
para que eles façam alguma coisa. Imagine Tito, bonito, rico,
saudável, com os pais vivos e com as mais lindas garotas do
colégio aos seus pés. Um tédio total. Quem quer ler isso? Quem
vai se emocionar quando Tito convidar a garota mais bonita do
colégio para ir ao cinema? Eu não. Ninguém vai.

É aí que entra a estrutura da sua história. A maioria dos grandes


escritores estrangeiros utiliza uma estrutura simples que
sempre funciona.

A estrutura de três atos

Quando ouvi falar desta estrutura e a conheci em detalhe, a


princípio não acreditei que fosse deste jeito. Sabe porque?
Porque o escritor utiliza a estrutura, mas ela não é transparente
para o leitor. Este é o segredo. O leitor não percebe que as coisas
foram feitas daquela maneira propositalmente.

A estrutura de três atos é muito simples. O livro é dividido em


três partes. Cada uma destas partes tem um desastre. Cada
desastre faz com que o personagem tome uma decisão. Sempre
na intenção de alcançar seu objetivo. Ele nunca desiste. se
desistir, acabou o livro, acabou a história.

Então:
Guia rápido para escrever um livro de ficção 22

 Ato 1 - O início do livro, onde se mostra a vida dos


personagens, até que no final deste ato, ocorre o
primeiro desastre. O Ato 1 geralmente ocupa 1/4 do
livro.
 Ato 2 - É o desenrolar da história, depois do primeiro
desastre. Ocupa 2/4 do livro, inclui mais um desastre no
final do segundo quarto e termina com outro desastre. O
segundo desastre deve ser - de preferência - pior do que
o primeiro. O terceiro pior ainda que o segundo.
Atenção. Pior aqui quer dizer mais complicado, mais
difícil de resolver.
 Ato 3 - Final. Ocupa o último quarto do livro e fecha a
história.

Veja como ficaria o meu exemplo:

 Ato 1 - Mostra a vida normal de Tito, até que ocorre o


primeiro desastre, o tumor no cérebro.
 Ato2 - A história se desenrola, e com mais um quarto do
livro, ocorre o segundo desastre, a morte dos pais de Tito.
No final do terceiro quarto do livro, ocorre o terceiro
desastre, os tiros em Andréia.
 Ato 3 - O final, onde a história chega ao seu clímax (Eu
não dei um final para deixar algo pra você...).

Repare como agora as coisas começaram a tomar forma. Ao


invés de sair escrevendo feito doido, você agora já sabe o que é
preciso escrever. Já tem uma linha de trabalho, sabe para onde
precisa ir.

Em meu exemplo, seria possível mostrar que os pais de Tito são


muito importantes para ele. Que ele tem uma ótima relação com
eles e que precisa muito deles, emocional e financeiramente.
Isso torna a morte dos pais um desastre muito, muito grande. E
Bruno Grunig 23

obriga Tito a lutar com mais garra ainda. Porque é isso que o
leitor quer. Ele não quer um personagem frouxo, que cai por
qualquer coisinha. Quer ver alguém que luta, que nunca desiste.

Indo mais adiante, a história pode e deve mostrar que Andréia


se torna mais importante ainda para Tito, depois da morte dos
pais. Ela cuida dele, ela está sempre ao seu lado, ela é tudo para
ele. Assim, quando ela estiver à beira da morte, Tito precisa ser
mais forte ainda. Ele pode até... tcharrammm! Salvá-la! Iuhúú!!
Aí é mais que dez, certo? Veja só... Tito não é médico nem nada,
mas ele pode fazer a diferença. Pode descobrir de alguma forma
que Andréia só vai sobreviver se for operada por um famoso
cirurgião alemão. E Tito vai atrás do cara. Custe o que custar.
Ele nunca desiste, lembra? Aí... vem a surpresa final... o médico
que Tito conseguiu para salvar Andréia, não só salva Andréia,
como descobre que o tumor de Tito é curável!! Duplo iuhúú!!!
Ele salva a vida de Tito também. Final da história.

A estrutura de três atos é obrigatória?

Não. É claro que não. Você pode escrever seu livro do jeito que
quiser. Pode até mesmo usar a idéia de divisão e colocar quatro
atos. Dois, talvez. Mas... preste atenção:

A grande, imensa maioria dos livros estrangeiros de


ficção que venderam milhões de cópias é escrita desta
maneira.

O que se deduz daí? Eu deduzo o seguinte: alguém, lá atrás,


testou e testou diversos métodos diferentes. E acabou chegando
neste resultado. Outros usaram e abusaram do método,
obtiveram sucesso e o adotaram. Agora eu pergunto a você:
Porque é que você iria bater numa porta que já está aberta? Não
faz sentido. Portanto, a minha sugestão é: Faça o teste. Use o
método.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 24

Para que você tenha uma idéia, livros como Harry Potter e Star
Wars usaram este método! É pouco para você? Para mim já é
mais do que o suficiente.

Porque o método funciona

A estrutura de três atos funciona porque vai "arrastando" o


leitor livro afora. Pense bem: a história começa. O personagem
está lá, quietinho, fazendo as mesmas coisas que todo mundo
faz (um tédio total, certo?). Está na sua, cuidando de sua vida. O
que é preciso para que ele abandone o tédio e faça algo
surpreendente, emocionante? Algo que todos querem saber, que
deixe o leitor curioso? Fácil. É preciso acontecer algo que mude
sua vida. Olhe para você mesmo. Você não levanta uma bela
manhã e resolve chutar o pau da barraca sem mais aquela,
certo? Imagine só... você acorda para trabalhar às seis da
manhã. Se não ocorrer nada de diferente, o que você faz? Escova
os dentes, toma banho, coloca sua roupa, toma café e vai
trabalhar.

Suponhamos agora que você acorde à mesma hora, mas na hora


de dar partida no carro, descobre que a bateria está arriada. Isso
mudou um pouco a sua rotina, certo? Mas não mudou a sua
vida.

Uma terceira suposição. Digamos que você acorde à mesma


hora e descubra que está sozinho. Sua família evaporou-se no
meio da noite. Você procura e procura. Liga nos celulares e
ninguém atende. Liga para os parentes e ninguém sabe de nada.
Liga para tudo quanto é lugar e... nada. Eles sumiram. É claro
que você não vai trabalhar. Continua procurando. Mas não
acha. No dia seguinte, nada também. Agora... sua vida mudou.
Bruno Grunig 25

Algo muito grande aconteceu. Na verdade, este exemplo vem de


um livro mesmo, chamado "No time for goodbye".

Esta é a essência da coisa. Você precisa de algo grande para


mudar a vida do seu personagem. Para que ele tome uma
atitude ousada. E faça coisas que normalmente as pessoas não
fazem. Por isso é que a estrutura de três atos funciona.

E porque o segundo e terceiro desastres? Porque o primeiro


acaba se desgastando e você teria que terminar o livro antes da
hora. Ahá! Viu como é? Já pensou gastar trezentas páginas para
resolver o primeiro problema? Não! Você dá mais outro ao
personagem. Que torna a coisa mais difícil ainda para ele. E
quando ele está quase perto da vitória... lá vem mais outro.

Sabe o que acontece? Isto faz com que o leitor queira ler mais.
Ele quer saber como é que o personagem vai sair de toda aquela
encrenca.

Uma história pode ser interessante sem os desastres?

Huummmm... talvez. Mas é muito difícil. Imagine a história de


um sujeito de classe média que decide, ainda jovem, ser músico.
Ele estuda piano por nove anos. Aos dezenove, ingressa na
faculdade de música. Com vinte e dois anos faz seu primeiro
espetáculo, que é um sucesso. Depois disso vai fazendo cada vez
mais sucesso e ganhando mais dinheiro. Grava dois CDs por ano
e mais um vídeo. Tudo vende que nem banana pra macaco. Ele
se casa e tem três filhos lindos e saudáveis. Final da história.

Agora tente encontrar sequer um mortal na face da terra que


desejaria ler trezentas páginas ( ou mais... credo!) com uma
história enfadonha e entediante como essa. Quando tudo dá
certo logo de cara, não tem a mínima graça.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 26

Portanto, você precisa dar desastres aos seus personagens.


Desastres grandes. Personagens de ficção não ficam famosos
por fazer coisas pequenas. Eles fazem coisas grandes. Então, os
desastres precisam ser igualmente grandes. Grandes desafios.

Tá legal... existem histórias comoventes nas quais não


acontecem desastres enormes. Tipo o pai que teve dez filhos e
trabalhando na lavoura, quase se mata para que os filhos
cheguem à faculdade. É legal, eu acho bacana. Mas não dá um
livro de grande sucesso. Dá um livro. Que vende bem
pouquinho.

Tome cuidado com os desastres

Agora vem o outro lado da moeda. Você precisa mostrar algo


convincente. Um terremoto em São Paulo é algo que ninguém
engoliria. Já um terremoto em São Francisco, EUA, é
perfeitamente viável.

Portanto, não saia por aí inventando coisas absurdas. Na


dúvida, fique com os desastres mais pessoais. Assassinatos,
doenças, acidentes, etc.

Desastre precisa ser algo ruim?

Aí é que está. Não necessariamente. Uma história pode


desenvolver-se com "desastres" bons. Por exemplo: um sujeito
descobre acidentalmente (aí está o desastre) um produto que
realmente devolve os cabelos para pessoas calvas. É um desastre
bom, que muda a vida do sujeito. Ele vende sua invenção e faz
uma boa grana. Mas e o resto? Bom... aí você precisa dar-lhe
mais dois desastres, certo? Fica difícil pensar em dois desastres
bons. Porque aí a história começa a ficar entediante. Tudo dá
certo pro cara, pombas! É muito chato. Como acabo de inventar
Bruno Grunig 27

esse treco agora, só consigo pensar numa coisa para o segundo


desastre. Os cabelos das pessoas crescem, mas tão rapidamente
que o sujeito dorme e acorda com meio metro de cabelo! Um
baita desastre, que obriga o personagem a fazer algo. Veja como
aí o desastre é ruim, mas não morreu ninguém, não é uma
catástrofe. Mas funciona.

Portanto, use a imaginação. Crie seus próprios desastres. Pense


em coisas que mudam as vidas das pessoas. E use na medida
certa.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 28

O universo da sua história

Sua história se passa em algum lugar. Verdadeiro ou fictício. Se


for criar um lugar fictício, um país, um mundo ou sei lá o que,
você precisa ter uma certa habilidade. Para descrever este lugar
sem usar metade do livro. Isto não é muito fácil. E nem me cabe
aqui ensinar como se faz isso. Mesmo porque eu não saberia.
Prefiro usar este mundo mesmo e de preferência locais que eu
conheço.

De qualquer maneira, você precisa dar um local à história. Uma


cidade, um bairro, um país, etc. Mas não pense que o leitor se
incomoda demais com isso. O leitor quer saber o que aconteceu
e não dá muita bola para onde aconteceu. Portanto, localize sua
história, mas não fique gastando preciosas páginas descrevendo
cada bueiro de cada rua. Só descreva aquilo que for importante
para que o leitor compreenda a cena.

Por exemplo. O mocinho está lutando com o bandido num


galpão de uma fábrica. Se você for descrever o galpão em
detalhes, mostrando o que há no galpão, a altura, o mezanino, a
porta de entrada, o pequeno escritório, os dois carros que estão
lá dentro... ufa! O leitor vai mandar você encher o saco de outro.

Ao invés disso, diga que é um galpão, um armazém e comece a


ação. Os demais elementos podem aparecer (ou não) durante a
luta. Por exemplo: "Zé Marreta escorregou e bateu a cabeça no
carro que estava atrás dele...". Pronto. Agora o leitor sabe que
tem pelo menos um carro dentro do galpão. O carro só é
importante porque Zé Marreta bateu a cabeça nele. Senão, nem
precisava existir na história.
Bruno Grunig 29

Portanto, criar o universo da sua história não é gastar dez


páginas para explicar ao leitor como é a cidade de São Paulo.
Isto não é descrever. Isto é encher o saco e entediar o leitor.

Quando, por exemplo, um personagem se move na cidade, não é


preciso mencionar os nomes de todas as ruas em que ele passou.
Você pode mencionar uma ou duas. E faça o sujeito chegar logo
ao seu destino, onde ocorre a ação. A menos que a ação já esteja
acontecendo, é claro.

Conheça o universo da sua história

O leitor não precisa de muitos detalhes do universo da história.


Mas você sim. Se for um local desconhecido para você, ou
inventado, trate de conhecer muito bem este local.

Porque na hora de escrever, você pode passar inverdades e


incoerências. Se você disse que a briga aconteceu num galpão na
Rua Frederico em São Paulo - SP, este galpão precisa continuar
no mesmo endereço, por exemplo. Se mais tarde você
mencionar o galpão e este não estiver no mesmíssimo lugar, vai
confundir o leitor. E se o leitor perceber que você errou... ele vai
te fritar.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 30

Os personagens

A descrição dos personagens deve ser a mais detalhada possível.


Para você. O que você vai liberar para o leitor depende da
história. Mas você deve saber muito sobre o seu personagem.
Muito mesmo. Onde ele nasceu, quem são seus pais, onde
estudou, seus costumes e crenças, seus hobbies, gosto musical e
assim por diante.

Deve saber também o que aconteceu com ele antes da época da


história, para saber porque ele age desta ou daquela maneira
agora.

Assim, você passa um personagem "vivo"para o leitor.

Alguns autores vão mais longe. Escrevem a história toda do


personagem, antes de escrever a primeira linha do livro.
Quando partem para o livro, conhecem tão bem o personagem,
que cada movimento, cada fala, cada gesto, passam uma
imagem quase tridimensional ao leitor.

Você não precisa ir tão longe, mas precisa ter um conhecimento


sólido do personagem. Senão, acaba dizendo que ele fez ou disse
coisas que o leitor acha que ele não faria.

Por exemplo, você gastou cem páginas do livro e não mencionou


nunca, em nenhum lugar que seu personagem era religioso. De
repente, sem mais aquela, ele entra numa igreja, se ajoelha e
reza por duas horas. O leitor não vai acreditar. Durante cem
páginas o cara era ateu. Ou sei lá o que. Depois reza ajoelhado
por duas horas? Mentira...
Bruno Grunig 31

Por isso, descreva bem seu personagem e tenha esta "história


paralela" ao seu alcance, quando escrever o livro. Assim você dá
coerência ao personagem. E credibilidade.

Você pode até mesmo ficar surpreso ao criar o perfil do seu


personagem. Pode acabar descobrindo que ele pode fazer mais
do que você imaginou. Ou que não será capaz de fazer algo. Ou
que ele não fala do jeito que você imaginou.

Naturalmente, você vai fazer um trabalho mais detalhado com


os personagens principais. Os personagens secundários também
precisam de um perfil, mas talvez não tão detalhado.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 32

Cenas e sequelas

Cenas e sequelas. É assim que você vai escrever o livro


propriamente dito. Quando você lê um livro bem escrito, fica
parecendo que o autor escreveu direto e reto. Explicando:
parece que ele começou na primeira página e foi indo em frente,
até o final. Mas não foi. Se assim fosse, ele (ou ela) se enrolaria
todo. Pense bem... um livro de quatrocentas páginas escrito
dessa maneira. Muito difícil.

Então, você primeiro estruturou seu livro em três atos. Cada um


destes atos vai conter cenas e sequelas, que são pequenos
episódios, acontecimentos, que vão compondo a história. Para
ter uma idéia do que é isso, repare num filme qualquer. Ele é
feito em cenas também, não é? O personagem aparece lutando
com um bandido (cena 1). Depois aparece no hospital porque
levou a pior (cena 2). E assim por diante.

No livro é a mesma coisa. E trabalhando com cenas, você está


mexendo apenas com uma parte menor da história. Além de ser
mais fácil, lhe dá a oportunidade de trabalhar melhor os
detalhes.

O que é cena e o que é sequela

 Cena é um acontecimento, onde ocorre algum tipo de


ação.
 Sequela é a consequencia da cena

Veja o exemplo que acabei de dar.

 O sujeito luta com um bandido e perde a briga. = Cena


 O sujeito está no hospital. = Sequela
Bruno Grunig 33

Estrutura de uma cena

 Objetivo - Toda cena tem um objetivo. Seu personagem


quer fazer alguma coisa.
 Conflito - O personagem encontra obstáculos para atingir
o objetivo.
 Desastre - O personagem não consegue atingir o objetivo.

Estrutura de uma sequela

 Reação - Após o desastre (da cena) o personagem reage.


 Dilema - Ele fica em dúvida quanto ao próximo passo.
 Decisão - Ele decide o que fazer a seguir.

Repare como a estruturação lhe dá o caminho das pedras. A


cada cena a história vai evoluindo, e sempre o personagem tenta
alcançar o objetivo final. Mas não consegue. São pequenas
batalhas que ele perde. Após a perda da batalha, ele precisa
reagir e pensar no que fazer a seguir. Então você parte para a
próxima cena. E depois uma sequela. E assim por diante.

Parece simples? Arrrammm... mas não é. É preciso treinar um


bocado para escrever o livro todo assim.

Pessoalmente, eu acho que não é preciso ser tão rígido. Tipo:

 Cena um, sequela um


 Cena dois, sequela dois
 Cena três, sequela três

Fica realmente um bocado difícil escrever assim. Mas você deve


sim, dividir o livro em cenas. Mesmo que algumas (poucas) não
obedeçam ao esquema objetivo, conflito, desastre.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 34

Por exemplo. No início do livro, as cenas são mais leves. Você


ainda não mostrou o primeiro desastre, então o personagem
está lá, vivendo a vidinha dele, sossegado. Mas mesmo assim,
devem existir as cenas. E cada cena precisa ser interessante. E
cada cena deve causar no leitor a vontade de ler a próxima
página.

Quanto às sequelas, elas podem ser cenas separadas. Mais


recentemente, em benefício da história, alguns autores não
criam uma cena separada para todas as sequelas. Colocam a
sequela no final da cena, de forma mais sucinta, resumida. Por
exemplo: no caso do sujeito que foi parar no hospital, não é
necessário toda uma cena enorme. Basta que o leitor saiba que
ele foi para o hospital, pensou no seu dilema e resolveu fazer
isto ou aquilo. Para que o leitor queira então ler as próximas
páginas e saber se ele vai conseguir fazer aquilo ou não.

Tamanho de uma cena

Cenas não têm exatamente o mesmo tamanho. Tudo depende


do que acontece na cena. Você pode ter cenas de duas páginas e
cenas de dez páginas. Não há regra.

Prioridade em cada cena

A principal função de cada cena é fazer com que a história


avance, fazer com que haja uma evolução. Uma cena em que
tudo fica na mesma, é perda de tempo. E pode fazer com que o
leitor pare de ler. Por exemplo: o sujeito brigou foi para o
hospital e tomou uma decisão. Ele vai atacar o bandido de outra
maneira. Isso é evolução. A história segue em frente. Ele resolve
visitar sua mãe lá em João Pessoa. Acabou com a história. Seu
Bruno Grunig 35

personagem não pára o que está fazendo pra visitar a mamãe.


Ele tem um objetivo e é isso que ele tem que fazer.

Quantas cenas?

Você é quem manda. Não há quantidade definida de cenas. Você


precisa de cenas suficientes para contar a história de maneira
interessante. E precisa dar agilidade às cenas. E veracidade.
Uma cena curta demais pode não mostrar o que deveria ser
mostrado. Uma cena muito longa pode entediar o leitor.

Por exemplo. No caso da briga do sujeito com o bandido. Você


precisa dar veracidade à cena. Com detalhes. Se você disser que
o mocinho deu três socos e caiu arrebentado no primeiro sôco
do bandido, lascou. Muito rápido. Por outro lado, se ficar
detalhando cada uma das duzentas e cinquenta porradas que
eles trocaram, dizendo onde pegou cada porrada e a dor que o
cara sentiu a cada sôco, lascou também. Explique o suficiente e
não exagere.

Por outro lado, você pode planejar antecipadamente suas cenas.


Então terá uma noção preliminar de quanto espaço pode dar a
cada uma. E também saberá qual a importancia de cada uma.

Suponhamos que você escreva uma cena inicial, mostrando o


dia-a-dia do seu personagem, antes do primeiro desastre. Não é
preciso gastar páginas e mais páginas com isso.

Já na cena que vai levar ao primeiro desastre, você pode gastar


mais páginas. Porque o leitor (se você fez seu trabalho direito) a
esta altura está pressentindo que vai acontecer algo.

Divisão entre as cenas


Guia rápido para escrever um livro de ficção 36

No produto final, o livro que vai chegar até o leitor, não é


preciso dividir as cenas do jeito que está em seu original. Mas é
preciso guiar o leitor para que ele não se perca.

Quando você passa de uma cena a outra, precisa identificar isso


só se existir uma mudança de cenário, local ou tempo.

Então isso pode ser feito com asteriscos (***) no final da cena e
antes do início da outra.

A NOVA CENA pode começar com maiúsculas, como eu fiz aqui.

Ou a nova cena começa em um novo capítulo.

Se num determinado capítulo uma cena dá seqüência perfeita à


cena anterior, não é preciso identificação. Mas você pode
identificar assim mesmo, se quiser.

Por exemplo. Uma cena termina com o personagem decidindo


que vai para o centro da cidade. Se a próxima cena começa com
ele indo para o estacionamento... é óbvio que não é necessário
orientar o leitor.

Mas se a próxima cena começa com o personagem já no centro


da cidade, é preciso identificar, para deixar ao leitor o trabalho
de imaginar a viagem até o centro.

Sequencia das cenas

Dependendo da sua história, pode ser que haja uma história


paralela, com outros personagens importantes para a história.
Aí é necessário misturar cenas ou capítulos da história paralela
com a principal. Faça isso com muito cuidado. O leitor precisa
Bruno Grunig 37

saber onde está. Se o leitor ficar perdido na história, pode


querer parar de ler. E aí... abraço pra você.

Nestas mudanças você deve deixar claro para o leitor o que está
acontecendo e fazer com que ele continue curioso para saber o
que vai acontecer a seguir.

Além disso, você deve encaminhar de tal maneira as cenas, que


elas levem à mudança naturalmente. Uma mudança brusca
pode causar confusão no leitor.

Por outro lado, não exagere e não use recursos esquisitos. Como
por exemplo colocar um título na cena:

ENQUANTO ISSO, EM OUTRO LUGAR...

Coisas assim só demonstram que você não sabe o que está


fazendo. Se você escrever direito, não é necessário usar recursos
deste tipo. A menos que a história necessite de algo assim. Mas
mesmo neste caso, a coisa deve ser suave, quase imperceptível.

O que você deve fazer é com que as ações, pensamentos e falas


de seus personagens digam ao leitor o que está acontecendo,
onde eles estão e porque.

Imagine que você terminou a cena em que o mocinho está no


hospital, e a nova cena será sobre o bandido. E o bandido está
em outra cidade. Vamos escrever o início da cena de duas
maneiras. Uma errada e outra correta.

 Errado - Zé Marreta havia fugido para Três Lagoas... -


Veja só como fica forçado. Porque não é o personagem
que está dizendo isso. É você.
 Certo - Zé Marreta parou o carro diante do pequeno
hotel, na periferia de Três Lagoas e olhou o letreiro... -
Guia rápido para escrever um livro de ficção 38

Aqui você está mostrando ao leitor o que Zé Marreta está


vendo, percebeu? Imediatamente o leitor saberá que Zé
Marreta saiu de onde estava e foi para esta cidade. Não é
preciso dizer que ele fugiu.

É preciso cuidado para mostrar profissionalismo ao leitor. E não


escrever coisas desnecessárias, como se o leitor fosse um
retardado. Uma boa parte da história, acredite, é imaginada
pelo leitor. E você deve deixar espaço para isso, para que o leitor
sinta-se parte integrante do livro. Se tudo for explicado
minuciosamente, não sobra espaço para a imaginação. E aí, boa
parte da graça da história se foi.
Bruno Grunig 39

Quem está narrando a história

Esta é uma decisão que você precisa tomar antes de começar a


escrever o livro.

Primeira pessoa

Muitos autores preferem a primeira pessoa. O personagem


principal é quem narra a história. Assim:

"Fui andando junto à parede lateral do galpão. Sabia que


Zé Marreta estava lá dentro, mas não sabia onde..."

Para muitos é mais fácil escrever assim, porque possibilita


transmitir mais emoção ao leitor. E a narrativa é mais simples.

A desvantagem é que o personagem principal sendo o narrador,


não pode ler a mente dos outros personagens. Ele só pode
narrar o que vê. Aí você precisa ter habilidade para descrever o
que o personagem principal está vendo nas expressões dos
outros personagens.

Terceira pessoa

Existem duas maneiras de usar a terceira pessoa. Com um só


personagem ou alternando os personagens. Alternar os
personagens dá a vantagem de poder transmitir o pensamento
de mais que um personagem. Aquele que está narrando a cena
pode transmitir ao leitor seus pensamentos. Mas isso pode
causar confusão, se você pular muito de um personagem a
outro. Vamos ver um exemplo:

"Antonio entrou no galpão silenciosamente, passando


por debaixo de uma escada metálica que levava ao
Guia rápido para escrever um livro de ficção 40

mezanino. Havia pilhas de caixas de papelão bloqueando


a passagem para o outro lado do galpão. "Que merda...".

- Zé Marreta! Não adianta esconder não, babaca! Eu vou


te arrebentar pelo meio!

Zé Marreta caminhava sorrateiramente pelo mezanino,


acima de Antonio. Não podia ver onde estava o policial,
mas escutara sua falácia. "mas é um bosta, mesmo... me
arrebentar...".

- Vai te lascar, seu meganha de merda!

Assim que Zé Marreta falou, Antonio correu até o meio


do galpão e disparou três, quatro vezes em direção ao
mezanino. "

Repare como eu mudei de um personagem ao outro e mencionei


os pensamentos dos dois. Desta maneira, está claro para o leitor
quem está falando. E eu pude entrar na mente dos dois
personagens.

Porém, se eu continuar a cena fazendo isso seguidas vezes,


tenho que tomar cuidado. Um pequeno deslize e o leitor já não
sabe quem pensou o que. Se o leitor tiver que parar para
entender quem é que está pensando o que... lascou.

Por isso, é mais fácil usar somente um personagem para narrar


a história. Fica mais difícil para descrever as emoções dos
outros, mas não cria confusão.

Se você acha que domina a coisa, use no máximo dois


personagens e deixe claro quem está narrando e de quem é cada
pensamento.
Bruno Grunig 41

Onisciente

A figura onisciente é um narrador que não é nenhum dos


personagens e sabe de tudo. Ele sabe o que os personagens
pensam, fizeram ou irão fazer. Conhece todos os locais e tudo
mais.

A maioria dos escritores hoje em dia não usa este tipo de


narração, porque acham que se perde boa parte da emoção.
Porque assim, o leitor fica sabendo de coisas que os
personagens não sabem. Por exemplo: Há uma cadeira atrás de
Antonio que ele não vê. Você diz isso ao leitor. Antonio tropeça
na cadeira e cai. Perdeu a graça, porque o leitor já sabia que ele
ia tropeçar.

Se você for usar a figura onisciente, tenha cuidado para não


falar demais e estragar a emoção.

Acredito que a maioria de nós pode dar-se muito bem com a


primeira ou terceira pessoas.

Para decidir-se, pense bem em sua história. Se o personagem


principal está na maioria das cenas, é um boa idéia escrever na
primeira pessoa.

Por outro lado se um outro personagem tem destaque, use a


terceira pessoa, alternando o narrador. Não se esqueça de
deixar claro quem é o narrador.

Usando meu exemplo, se a cena começa:

"Zé Marreta parou o carro diante..."


Guia rápido para escrever um livro de ficção 42

Já fica implícito que o foco é Zé Marreta e você pode explorar a


mente dele.

Quando os dois personagens que você usa para narrar na


terceira pessoa se encontram, você pode, conforme explicado,
alternar. Ou optar por um deles para a cena inteira. Só coloque
os dois se realmente for necessário.
Bruno Grunig 43

O conteúdo das cenas

Esta é a menor parte do seu livro. As partes em que as cenas são


divididas. Suas cenas podem conter:

 Ação - O que os personagens estão fazendo.


 Diálogo - O que os personagens estão falando.
 Emoção - O que os personagens estão sentindo.
 Pensamentos - O que os personagens estão pensando.
 Descrições - O que os personagens estão vendo.

Estes elementos, quando bem combinados, dão a você


poderosas ferramentas para compor suas cenas.

De todos eles, o menos usado deveria ser descrição. Porque uma


descrição não transmite tanta emoção quanto uma fala ou um
pensamento. Mas a descrição é necessária. E bem usada,
transmite informação relevante ao leitor.

Vamos considerar a seguinte cena:

"O galpão industrial era enorme, cheio de caixas de


mercadorias, pallets e prateleiras. Havia uma escada que
conduzia ao mezanino, perto da porta pela qual Antonio
entrara.

Antonio passou por debaixo da escada e escondeu-se


atrás de uma coluna. Checou o pente de balas de sua
pistola "Droga... só nove balas...". Então gritou:

- Zé Marreta! Não adianta esconder não, babaca! Eu vou


te arrebentar pelo meio!
Guia rápido para escrever um livro de ficção 44

Um calafrio percorreu a espinha de Zé Marreta.


Ele caminhava sorrateiramente pelo mezanino,
acima de Antonio. Não podia ver onde estava o
policial, mas escutara sua falácia. "mas é um
bosta, mesmo... me arrebentar...".

- Vai te lascar, seu meganha de merda! "

Esta cena tem todos os elementos mencionados. Usa a


terceira pessoa, alternando entre os dois personagens.
Vamos rever:

"
DESCRIÇÃO -O galpão industrial era enorme,
cheio de caixas de mercadorias, pallets e
prateleiras. Havia uma escada que conduzia ao
mezanino, perto da porta pela qual Antonio
entrara.

AÇÃO E PENSAMENTO - Antonio passou por


debaixo da escada e escondeu-se atrás de uma
coluna. Checou o pente de balas de sua pistola
"Droga... só nove balas...". Então gritou:

DIÁLOGO - Zé Marreta! Não adianta esconder


não, babaca! Eu vou te arrebentar pelo meio!

EMOÇÃO, AÇÃO E PENSAMENTO- Um


calafrio percorreu a espinha de Zé Marreta.
Ele caminhava sorrateiramente pelo
mezanino, acima de Antonio. Não podia ver
onde estava o policial, mas escutara sua
Bruno Grunig 45

falácia. "mas é um bosta, mesmo... me


arrebentar...".

DIÁLOGO - Vai te lascar, seu meganha de merda!

Na penúltima parte "Um calafrio percorreu..." é emoção


interna de Zé Marreta. No caso, entramos na mente, nas
emoções do personagem. Como o trecho está sendo
narrado sob o ponto de vista dele, sabemos o que ele está
sentindo.

Clips

Clips são as pequenas partes da cena. Na cena anterior,


temos:

 Clip 1 - Descrição
 Clip 2 - Ação e pensamento
 Clip 3 Diálogo

E assim por diante. O clip é uma ferramenta que você vai usar o
tempo todo, para descrever ação, pensamento, diálogo, etc.

Procure limitar o tamanho dos clips. Repare como a minha


descrição no exemplo acima foi curta. Se um clip é muito
grande, principalmente descritivo, pode tornar-se monótono. A
minha descrição foi realmente bem curta. Poderia ser um pouco
maior, mas não muito. Talvez mais uma meia dúzia de palavras.

Planejando suas cenas

Você pode planejar suas cenas. Todas elas ou somente parte


delas. É claro que você pode incluir ou excluir cenas no final.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 46

Mas procure planejar as cenas principais ao longo de todos os


três atos.

Dê a cada cena um título e uma breve descrição (que servem


somente como referencia para você). Por exemplo:

Cena 1 - Título - "Antonio chega na cidade" Descrição -


"Nesta cena Antonio chega em São Paulo, após passar
três dias no Rio de Janeiro, em busca de informações
sobre o roubo"

E assim por diante. Desta maneira você cria uma espécie de


"roteiro" para escrever. Além disso, há outra vantagem. Se você
souber exatamente o que deve escrever em cada cena, pode
escrever qualquer uma delas. Suponhamos que uma cena está
meio difícil, travada. Ao invés de parar o trabalho todo, você
pode ir escrevendo outra. Assim o trabalho flui melhor.

Como você acaba de perceber... um livro não é escrito "de cabo a


rabo". Você tem total liberdade para escrever o que quiser.
Apenas o produto final é que precisa ir "de cabo a rabo".

Uma vez que tenha pelo menos as cenas principais planejadas, é


hora de escrever!

Voltando ao passado

Eventualmente, em seu livro, você pode ter que voltar ao


passado de algum personagem, para explicar algo ao leitor. Os
americanos chamam isso de "flashback". Não faça isso a toda
hora, ninguém aguenta. Mas se for preciso, faça da seguinte
maneira:
Bruno Grunig 47

 Não fique narrando o flashback todo num tempo de


verbo diferente. Ao invés disso, avise de alguma forma
que é um flashback e escreva no mesmo tempo verbal das
outras cenas.
 No final, deixe claro que o flashback terminou e a história
continua.
 Se necessário, mude a fonte do flashback para itálico.

O importante é deixar claro para o leitor que aquilo não se passa


no tempo presente.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 48

Montando o seu livro

Bem, você já sabe o que precisa para escrever seu livro. Agora é
hora montar a história e começar a escrever. Veja como:

1. A idéia - você escolheu a "grande idéia"


2. Desenvolva a sua idéia, até ter uma história consistente,
com início, meio e fim. Nesta parte, você não precisa
preocupar-se com diálogos, cenas etc. Apenas escreva a
história, para você mesmo.
3. Estruture sua história em três atos, com os três desastres.
4. Crie o universo da história.
5. Faça a descrição detalhada dos personagens.
6. Planeje suas cenas.
7. Comece a escrever o livro.

Fazendo desta maneira, o risco de errar é menor. E também tem


uma outra grande vantagem. Quando você estiver no item 2,
desenvolvendo a sua idéia, pode ser que descubra que a história
nem é tão boa. Pode ser que descubra que nem compensa
escrever aquilo. Então, é muito melhor jogar fora meia dúzia de
páginas do que trezentas, concorda?
Bruno Grunig 49

O manuscrito final

Chamamos de manuscrito porque não é o livro impresso, mas é


lógico que não foi escrito à mão, com caneta. Pode até ser, mas
dificilmente alguém irá fazer algo assim.

Enfim, o produto final que você tem em mãos antes de


imprimir, ou antes de transformar em ebook, deve ser o mais
próximo possível de uma versão final do livro. Isso no caso de
apresentar a uma editora para apreciação. E porque isso?

Quanto melhor o material que você apresentar for, mais a


editora estará interessada, porque você demonstra saber o que
está fazendo.

Por isso, seu livro deve se parecer com um livro já publicado. E


como fazer isto? Veja só:

Quando der por terminada sua história...

1. Edite - Editar é mais cortar do que outra coisa. É fazer


modificações necessárias para que o livro fique mais ágil,
mais digno de ser lido. É mais cortar, porque você
provavelmente vai achar aqui e ali, coisas que podem e
devem ser retiradas. Frases ou palavras inúteis. Até
mesmo clips ou cenas inteiras que não estão
acrescentando nada. E também é hora de modificar. Uma
fala que não está muito boa. Uma descrição falha e assim
por diante.
2. Revise - Revisar não é editar. É procurar por erros
ortográficos e gramaticais. E corrigi-los. Se você não é
muito bom nisso, peça a alguém que seja. Enviar o livro
com uns poucos erros não é tão mal. Mas recheado de
erros é simplesmente suicídio.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 50

3. Formate o seu livro - Formatar é dar ao livro um


tamanho definido, margens definidas. E números de
páginas. Um formato muito usado é o A5, disponível
como opção no Microsoft Word. Coloque também a
numeração das páginas e cada capítulo iniciando numa
nova página com sua devida numeração.

Após fazer tudo isto, seu livro já está bem legível. Você tem algo
apresentável para mostrar a uma possível editora.
Bruno Grunig 51

Escreva para alguém, não para todo mundo

Na hora de escolher o assunto do seu livro, você deve pensar:


"Quem é que vai ler isso?".

Uma idéia completamente errada é: "Vou escrever um livro que


todo mundo vai querer ler". Sabe porque é um idéia errada?
Porque isso não existe. Ninguém consegue escrever um livro
"que todo mundo vai querer ler". Acredite. Ninguém consegue.
E porque? porque as pessoas são diferentes, têm pensamentos,
culturas, ideologias, histórias de vida, gostos, personalidade,
preferencias... e muito mais... diferentes.

Quer um exemplo? Na época atual (janeiro de 2013), um dos


livros de maior sucesso é "Cinquenta tons de cinza" de E. L.
James. Eu comprei o livro e li - até o presente momento - até
quase a metade. Se a autora do livro fosse basear-se na minha
opinião sobre a história, jamais publicaria o livro. É sério. Para
mim, é uma verdadeira tortura ler aquilo. Eu comprei e estou
lendo só porque eu queria saber qual é o motivo de tanto
sucesso. E acabei ficando na mesma. Porque a história - pelo
menos para mim - é uma belíssima tranqueira.

O livro - é claro - é muito bem escrito, editado, revisado,


carimbado, rotulado e o caramba. Mas só interessa a
determinadas pessoas. Alguém pode até dizer que jamais leu
algo melhor, sei lá. Inclusive assisti um vídeo onde três pessoas
debatiam sobre esse livro. Um dos caras perguntou a uma
mulher que participava, se ela tinha lido. Ela respondeu que
começou a ler mas não passou de uma dezena de páginas
(Assim como eu). Um dos caras estranhou e disse: "mas todo
mundo tá lendo!". Uma frase meio "estragada" - digamos assim.
Todo mundo tá lendo o escambau! Não caia nessa.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 52

Apenas mencionei este livro para dar o exemplo. A escritora e


sua editora sabiam quem desejavam atingir. Qual seria o
público-alvo.

E você deve pensar assim também. Não é possível agradar a


todos. Portanto, escreva para um determinado público.

Existem pessoas que adoram ler romances melosos. Outras


detestam. Tem aqueles que gostam de aventura, de ação. Outros
gostam de sobrenatural. E assim por diante.

Escolha o seu público. Não queira escrever "pra todo mundo".


Porque este é o melhor jeito de não escrever pra ninguém.

E como você acaba de ver através da minha opinião sobre um


livro que vendeu milhões de cópias, não é fácil agradar. É mais
fácil desagradar.

Também não adianta tentar "pegar carona". Muitos fazem isso.


Um livro vendeu um montão, então o "espertinho" vai lá e tenta
fazer algo parecido. Ou pior ainda. Tem muita gente por aí - me
desculpe se você é um deles - que quer "continuar a história" de
algum livro famoso. Não faça isso, de jeito nenhum. Pelo
seguinte: em primeiro lugar, você passa uma imagem muito
negativa. De alguém que não tem idéias próprias e fica tentando
fazer sucesso na esteira dos outros. Em segundo lugar, mesmo
que algum editor desvairado resolvesse publicar uma anomalia
dessas, tanto ele como você arrumariam uma baita encrenca
com o autor do livro original.

Agora, uma coisa muito diferente é basear uma idéia em alguma


história famosa. Aí tudo bem. Se você cria um livro em que o
personagem principal é um bruxo (eu, tou fora...), inspirada no
Harry Potter, beleza. Contanto que a sua história seja original e
Bruno Grunig 53

o seu bruxo não seja irmão gemeo do famoso Harry. Mas


mesmo isso é meio capenga, porque rapidinho as pessoas
pensam: "copiou do Harry Potter". E ninguém gosta de cópia.

Muita gente diz que não consegue ter boas idéias. Tudo bem,
vamos convir... ter uma excelente idéia não é algo muito fácil.
Mas ter idéias em geral, é fácil. É mesmo. Olhe à sua volta. Olhe
o noticiário. A vida das pessoas. Aí estão as idéias.

Por exemplo... Você não sabe de um montão de coisa que


aconteceu? Com seus parentes, amigos. Ou mesmo que você viu
nos noticiários, nos programas de TV? É isso.

O teu amigo chega e diz que levou um pé na bunda, da


namorada. Pronto. Estique a língua do pobre coitado. Ele vai
pensar que você está emprestando o ombro pra ele chorar. Mas
você está é colhendo material para uma idéia. Cruel, mas
funciona.

Na empresa onde você trabalha. Veja lá o chefe. Um sujeito


ranzinza, barrigudo, que bebe feito uma esponja e vai pra boate
quase todos os dias. E tem não sei quantas amantes. Taí uma
idéia.

E não adianta você ficar esperando a grande idéia. Vá fazendo


anotações. Idéia 1, idéia 2, idéia 3... e assim por diante. Vá
estimulando sua mente. Pegue depois as idéias que anotou e
tente desenvolver uma que lhe pareça melhorzinha. Assim você
vai testando as idéias.

Conforme já foi dito lá no começo, uma idéia não tem páginas.


Tem um parágrafo. Portanto, não venha me dizer que não tem
idéias. Escreva várias delas, mesmo que pareçam idéias idiotas.
Na verdade, a maioria será mesmo. Mas no meio delas, de
repente está aquela uma... aquela que arrebenta legal mesmo.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 54

Se for ficção científica então... mais idéias ainda. Você pode


inventar de tudo e muito mais.
Bruno Grunig 55

Publicando seu livro

Esta é a parte... arrrammm... meio difícil. Publicar um livro por


vias normais, ou seja, com uma editora bancando o livro, não é
muito fácil. E isso tem uma certa lógica. Publicar e divulgar um
livro, custa dinheiro. Ou seja, a editora precisa fazer um
investimento. Por isso, as editoras procuram ir mais na certeza.
E um autor novo não é certeza.

Mas isso não quer dizer que você tenha que descartar a
publicação através de uma editora. Nada disso. Entretanto,
antes de tentar este caminho, faça um trabalho decente. E como
é isso? Assim:

 Pesquise antes de escrever. Qual a categoria da história


que você quer escrever? Quais editoras publicam aquela
categoria? Leia livros e mais livros naquela categoria.
 O seu livro deve ficar o mais parecido possível com um
livro comercial, um livro que já faz sucesso. Ou seja, um
trabalho profissional. Uma boa história escrita de forma
amadorística, será recusada pela editora. Porque seria
mais seguro pedir a um escritor tarimbado para escrever
algo parecido. E isso não é copiar. Você é dono do que
escreveu, mas não é dono da idéia. Resumindo: se
alguém escrever um livro parecido com o seu, não há
nada que você possa fazer. O que ninguém pode fazer é
copiar integralmente as suas palavras.
 Não envie seu livro para tudo quanto é editora, achando
que assim as chances são melhores. Não são. Selecione
apenas as editoras que realmente publicam aquele tipo
de livro, analise bem antes de mandar. Há muitas
editoras hoje em dia. Quanto maior a editora, mais
exigencias fará. Procure saber exatamente como a editora
Guia rápido para escrever um livro de ficção 56

exige que você mande seu livro. E tenha paciência. As


editoras demoram a responder.

Não se apaixone perdidamente pelo seu primeiro livro. Se você


escreveu um, pode escrever outros. Seja honesto consigo
mesmo. Aquele primeiro livro é de arrasar mesmo? Tem
certeza? Mesmo que for, nenhum escritor sobrevive com um
livro só. Alguns, é claro, fazem uma grande sucesso com o
primeiro livro. Mas isso é muito, muito raro. Por isso, enquanto
estiver tentando publicar o primeiro livro, vá desenvolvendo
idéias para o segundo, terceiro...

Pense numa coisa. Se você vender cinco livros por mês do seu
único livro... isso é bem pouco, certo? Se você quer saber, a
maioria dos livros vende muito pouco.

Agora, e se você tiver dez títulos e vender cinco de cada um por


mês? Já são cinquenta. E se tiver vinte títulos?

Por estas e outras, não fique eternamente namorando o


primeiro livro. Escreva, edite, revise. Quando estiver pronto,
parta para o próximo. Pode ser até que o terceiro é que seja
"aquele", quem é que sabe?

Apresentando seu trabalho

Na hora de apresentar seu trabalho a alguém (uma editora, um


agente ou lá quem seja), tome cuidado.

Suponhamos que eu seja um editor e você me envie um email,


dizendo que escreveu um livro e deseja publicá-lo. O email
chega assim:
Bruno Grunig 57

"Oi. Eu escrevi um livro e não sei como publicar e queria


que você desse uma lida, pq me disseram que vc sabe
muito disso. onde ps mandar o livro ?"

Se eu fosse mesmo o editor e recebesse um email assim, sequer


me daria ao trabalho de responder. Porque um email destes
mostra claramente algumas coisinhas:

 Quem escreveu não sabe escrever. Então não pode


escrever um livro. Só isso já mata qualquer possibilidade
de ir mais longe.
 A pessoa sequer identificou-se.
 Um escritor que escreve vc, pq, ps... não pode ser sério,
pode?
 A pessoa também não identificou o livro. Sobre o que é?

E assim por diante. Por isso, se enviar cartas, emails, escreva


decentemente. Um email assim é a mesma coisa de um cara que
tenta uma vaga de locutor mas é gago. Ou mudo. Não dá.

Publicando por sua conta

Procure separar o que é uma coisa do que é outra coisa. Tem


gente aí anunciando na internet como se fosse editora. E não é.
São os chamados prestadores de serviço. Eles imprimem seu
livro e você é quem banca tudo. Você é quem faz o investimento.
Aí eles colocam o seu livro junto com outros (muitos outros) no
site deles. Você fica todo entusiasmado, porque agora publicou
seu livro. Pode tirar o cavalinho da chuva. Um livro num site
não vende quase nada. Se você tiver grandes expectativas, vai
decepcionar-se.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 58

Não que este não seja um caminho viável. Mas você precisa
compreender onde está metido. Se fizer a produção por sua
conta, através de um prestador de serviços, pesquise bastante,
para saber qual lhe oferece o melhor serviço, desde a impressão
até a divulgação. Talvez algum deles possa colocar o livro em
outros sites, outras livrarias virtuais, como Submarino, por
exemplo. Aí a exposição é melhor.

Por outro lado, no caso de publicar desta maneira, você é


responsável pela divulgação. Não fique pensando que está todo
mundo lá na editora preocupado em vender seu livro. Eles já
ganharam o dinheiro deles, na impressão.

Você precisa divulgar seu trabalho. Crie um site para o livro.


Crie uma página no Facebook. Divulgue, divulgue, divulgue.
Peça aos amigos que falem sobre o livro aos outros (a maioria
vai dizer que sim e não vai fazer nada, mas é sempre uma
tentativa).

Enfim... você está por sua conta. Trate de trabalhar duro.

Publicando como Ebook

Esta é a maneira mais simples de publicar. Você mesmo faz


tudo. E não gasta dinheiro com impressão.

Existem alguns sites que podem publicar até mesmo de graça o


seu Ebook. Mas não pare por aí. Mais uma vez, divulgue e
divulgue.

Vendendo você mesmo o seu Ebook


Bruno Grunig 59

Você pode vender seu Ebook sozinho. Empresas como MoiP e


Pagseguro podem ajudar a receber pagamentos. Eu mesmo
utilizo este sistema há muito tempo e funciona.

Não sendo um livro que ensina alguma coisa (como este), você
pode vender pelo Mercado Livre também, é mais uma opção.

Para vender seu Ebook, prepare um site, ou um blog. Consiga


links de outros sites, divulgue no Facebook e assim por diante.

A vantagem do Ebook é que você não tem custo, então todo


dinheiro que entra é seu. No máximo você terá um custo de
hospedagem de site, se quiser ter um domínio próprio. Mas isso
é barato.

Como já disse antes, não pare no primeiro livro. Quanto mais


títulos você tiver, mais vendas. E quem já comprou o primeiro
pode comprar o segundo, o terceiro...

Veja o meu caso. Eu tenho vários manuais e apostilas


publicados como Ebook. E vendo um pouco de cada título, todos
os meses. Você pode fazer a mesma coisa.
Guia rápido para escrever um livro de ficção 60

Escrever é trabalho duro

Sabe aquela imagem de filme de Hollywood? O escritor


tranqüilo, numa casa de campo toda rodeada de árvores e com
um lindo riacho de águas cristalinas, que escreve ali os seus
livros que vão virar sucesso da noite para o dia?

Pois bem... isso é só imagem mesmo. Quase uma utopia para


maioria de nós, simples mortais. A realidade é muito diferente.

E aquele escritor que lança o primeiro livro e vende milhões de


cópias em seis meses? Mesma coisa. Sonho. Acontece, mas é tão
raro que nem é bom sonhar.

Escrever é trabalho duro. Leva um tempo lascado. É você diante


da tela branca do computador, nas horas vagas. É um montão
de gente em volta atrapalhando. É ser incompreendido. Pra que
fazer isso? Ninguém vai ler mesmo... Quem você pensa que é?

Acredite... é duro. Eu escrevo há muito tempo. Quando vendi


meu primeiro manualzinho por cinco reais e saí pulando feito
doido de felicidade, minha mulher pensou: "Agora sim é que eu
vou ter que internar esse coitado...". É verdade... ela achava que
eu estava "viajando na maionese". Anos depois e com uma
sólida bagagem de livros vendidos, ela ainda me olha meio
torto. É... não é fácil não.

Ou seja, além de ter um trabalhão enorme para escrever,


reescrever, pesquisar, aprender, editar, revisar... você ainda tem
que lidar com os fatores externos. Pessoas. O mundo. E com um
fator que pode destruir você, chamado rejeição.
Bruno Grunig 61

A rejeição destrói. Mas só se você deixar. Você precisa aprender


a escutar não. A maioria dos grandes escritores já sofreu
rejeição.
E como lidar com a rejeição? Como proceder quando alguém diz
não? Ou pior, quando além de dizer não ainda critica
negativamente o seu trabalho?

É simples. Siga em frente. Muitas vezes a rejeição não quer dizer


que seu trabalho seja ruim. Quer dizer que você mostrou à
pessoa errada. A grande, imensa maioria das pessoas não vai
gostar do seu trabalho. Mas se uma pequena porcentagem
gostar... pronto. É para estas pessoas que você vai escrever.

Por outro lado, você deve ouvir as críticas sérias. Se alguém com
credibilidade lhe diz que você precisa melhorar aqui e ali...
preste atenção. Você precisa aprimorar seu trabalho. Tentar
fazer cada vez melhor. Jamais pense que você é o rei da cocada
preta. Você não é. Seja humilde e tente aprender com quem já
sabe mais que você.

A melhor maneira de mostrar aos que o rejeitaram que você tem


algo de valor, é evoluindo. Criando algo cada vez melhor.

E aí vem mais e mais trabalho. Pesquisar, ler, aprender. Investir


seu tempo em coisas produtivas.

Mas pense bem... Todos nós temos que ir embora deste mundo
algum dia. Isto é inevitável. Se você for embora deixando um só
livro de grande valor, não ficou por aqui à toa, ficou?