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Reagregando o Social é um desafio
fundam ental lançado por um dos
te ó ricos sociais m ais im p o rtan tes
do m undo, acerca do m o d o co m o
co m pre e nd em os a sociedade e
o "social".
Bruno Latour argum enta que a
palavra "social", tal qual é utilizada
por cientistas sociais, tornou-se tão
■ carregada de pressupostos a ponto

I
I
de se ter co n ve rtid o em uma palavra
im própria. Q u an d o o adjetivo é
aplicado a um fenôm eno, é usado
I
Í
para indicar um estado de coisas
estabilizado, um feixe de laços que,
em seu devido curso, pode ser
Î utilizad o para explicar um outro

I fenôm eno. Mas Latour tam bém se

I depara com a palavra usada co m o
I se descrevesse um tip o de m aterial,
de uma form a com parável a um
I adjetivo, tais co m o "lenh o so " ou
I "férreo". A o invés de sim plesm en te
indicar o que já está agregado, é
utilizada de um m odo que traz um a
série de pressupostos sobre a
natureza daquilo que é reunido.
Tornou-se um a palavra que designa
duas coisas distintas: um processo
de associação e um tip o de material
d istin to de outros.
Latour m ostra porque "o social" não
pode ser pensado co m o um tip o de
m aterial ou de d o m ín io , e questiona
as tentativas de fornecer

E d ito ra d a U n iv e rs id a d e do S a g ra d o C o ra çã o

E D U F B A

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA CONSELHO F.DITORLAL
Reitora
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Alexandre de Oliveira
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Vice-Peitar
lr, Elvira Milan!
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Ir. lid a Basso
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CONSELHO EDITORIAL
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Dante Eustachio Lucchesi Ramacciõtti
Evelina de Carvalho Sá Hoisel
José Teixeira Cavalcante Filho
Maria Vidal de Negreiros Camargo

R eagregando o social

Uma introdução à
Teoria do Ator-Rede

B r u n o L a to u r

Tradução de
Gilson César Cardoso de Sousa

EDUFBA - EDUSC
Salvador - Bauru
2012

Equipe de Realização

Coordenadora Editorial Prof.a Ms. Carina Nascimento
Assistente Editorial Marili Ferreira Caridade
Projeto gráfico Equipe EDUSC
Revisão Carlos Valero
Iara Maria de Almeida Souza
Revisão técnica
Dário Ribeiro de Sales Júnior
Normatização Angela Moraes Pinheiro
Preparação de textos Rodolpho Camargo
Catalogação Biblioteca Central “Cor Jesu”
Capa Angela Dantas Garcia Rosa
Arte Final Leonardo Lorenzo

L359b Latour, Bruno

Reagregando o social / Bruno Lulour —Salvador: Edufba, 2012;
Bauru, São Paulo; lidusc, 2012.
400 p.i 23 cm

Possui referências,
ISBN 978-85-232-0864-6 (Edufba)
ISBN 978-85-7460-390-2 (Edusc)

1. Ciencias Sociais. 2. Noção de social - redefinição. 3. Dimensão
social. I. Título.

CDD 300

Elaborado por Biblioteca "Cor lesu”

A EDUFBA é uma editora filiada à

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Aos alunos de doutorado que tive a sorte de acom panhar por intermédio de
alguns de seus trabalhos.

No capítulo 6 de Provérbios, lemos: fiz isso... mas a formiga também não sabia
“Procura a formiga, preguiçoso... Olha a resposta!
para os seus caminhos c sé sábio”.

AGRADECIMENTOS

Este livro passou por inúmeros avatares. Começou há cerca de trin­
ta anos, quando tive a oportunidade de aprender sociologia dos prima-
tas com Shirley Strum e seus babuínos no Quênia. Embora o projeto com
Shirley permanecesse no limbo, foi a base de minhas aulas de sociologia a
jovens engenheiros na Escola de Minas em Paris. Quando, em 1996, con­
vidaram-me para dar as palestras Leclerc em Louvain-la-Neuve, resolví
que já era tempo de sintetizar o que aprendera com Michel Callón, John
Law, Madeleine Akrich, Andy Barry, Annemarie Mol, Antoine Menu ion e
muitos outros sobre aquilo que se tornou conhecido como “Teoria Ator-
-Rede”. Vez por outra, percebia que os leitores ficavam perplexos não tanto
com nossas posturas frente à prática científica e alguns outros tópicos, mas
principalmente com o sentido inusitado que dávamos às expressões “so­
cial” e “explicações sociais”. Contudo, essa teoria social alternativa nunca
fora objeto de uma apresentação sistemática. Longe de reclamar que essa
modesta escola de pensamento se tornara um monstro fora do controle de
seus criadores frankensteinianos, julguei mais conveniente introduzir os
leitores interessados à sua arquitetura intelectual.
Só em 1999, quando Barbara Czarniawska me pediu para ministrar
um curso rápido de leoria social “compatível com as necessidades dos es­
tudos organizacionais”, é que pus mãos à obra para elaborar um rascunho

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já então. mas para a qual sempre quis colabo­ rar. Shirley Strum. Benedikte Zitouni e Edgard Whitley. Numa disciplina em que nunca me formei. eles foram meus melhores e mais pacientes mestres. no final de 1999. Fi­ nalmente. François Cooren. devo muito a ela e a seus alunos de Gotemburgo pela organização do material .2000 e 2001. o que resultou nesta nova versão. com conheci­ mento de causa! Quanto a mim. Rcagrcganda o sacia/ completo. porém. as condições sob as quais posso me orgulhar de ser chamado sociólogo. Jean-Toussaint Leca. S . numa segunda rodada de críticas. Didier Debaise. Gerard de Vries.que. Isabelle Sten- gers e Eduardo Vargas. Quando meu velho amigo Steeve Woolgar. Emilie Gornart. é com os alunos de doutorado que ao lon­ go dos anos participaram de meus “seminários de redação de teses”. que des­ de então foi discutido minuciosamente por Andrew Barry. pô-la de lado . Como eu gostaria que os defeitos restâmes fossem culpa deles e não minha! Meu débito maior. com maior probabilidade. Espero que uma gênese tão demorada e idiossincrática consiga de alguma forma explicar a natureza polêmica do presente trabalho. Howie Becker. a Michael Flo­ wer. Noortje Marres.mas. Michael Lynch. preparei outro rascunho. Paolo Qual trone. descobri finalmente. escrevendo este livro. além disso. Fabian Muniesa. solicitou que eu me encarregasse das Palestras Clarendon no outono de 2002. Albena Yaneva. Geof Bowker. sob os auspicios da Saïd Business School. os leitores podem decidir usá-la. Embora o presente texto não ten lia aproveitado a transcrição que Barbara com tanta gentileza propiciou. foi testado na London School of Economics. distorcê-la a ponto de torná-la irreconhecível ou. foi submetido. Agora que essa teoria social alternativa foi apresentada de maneira metódica. Department o f Information Systems.

A penas Fo rm ação de G rupos 71 S egu n d a Fonte de Incerteza: A A ção L A ssum ida 97 Terceira Fonte de Incerteza: Os Objetos Tam bém A gem 129 Q ua rta Fonte de Incerteza: Questão de Fato v.O Social Pode S e r R eagregado? 373 R eferências . Questão de Interesse 179 Q uinta Fonte de Incerteza: E screver Relatos d e Risco 205 D a D ificu ld ad e de S e r um A N T : Interlúdio na Fo rm a d e Diálogo Parte II C omo Tornar as A ssociações Novamente R astreáveis 229 Introdução A Parte II: P o r Q ue É Tão Difícil Rastrear o Social 239 C om o M a n ter o Social Plano 251 P rim eiro M ovim ento: Localizando o Global 2 7 7 S egu n d o M ovim ento: Redistribuindo o Local 315 Terceiro M ovim ento: C onectores 351 C onclusão: D a So cieda de ao Coletivo . SUMARIO 11 A presentação 17 Introdução : C omo Retomar a Tarefa de D escobrir A ssociações Parte I C omo Desdobrar C ontrovérsias sobre o Mundo Social 4 1 Introdução À Parte 1: C om o Se A lim entar de Controvérsias 49 Prim eira Fonte de Incerteza: Não H á G rupos.<.

um texto destinado a apresentar Latour é algo dispensável. pois vários autores consagrados nas ciências sociais possuem uma voz própria. Dito assim.ao invés de usar TAR. usa metáforas pouco usuais. Para fazer sentido iniciar com essa observação é preciso acrescentar que Latour não apenas se distingue de outros cientistas. Por isso na tradução. se compara a uma formiga: míope. essa afirmação é um tanto fraca. vária vezes o chama de “você”. Consideramos mais interessante fazer alguns comentários sobre o livro do qual esse pequeno texto é uma espécie de abertura facul­ tativa ao leitor. APRESENTAÇAO Não nos cabe aqui fazer uma apresentação de Bruno Latour.e apela para sua experiência. farejador de trilhas.Actor-Network-Theory em inglês . todos sabemos que Malinowski já fez isso. Por que não começar o comentário com uma ligeira observação so­ bre o seu estilo da escrita? Latour escreve de modo deveras peculiar. por exemplo. mas dos modos de escrita dos sociólogos contempo­ râneos em geral.claro. Há algumas marcas dessa distinção: ele se dirige direta- mente ao leitor. mas correntemente na sociologia isso istá longe de ser rotineiro . Isso nos leva a crer. viciado em trabalho. solicita a ele que se imagine em alguma posição . seu 11 . ocupava a décima posição entre os autores mais citados na área de ciências humanas na lista divulgada em 2009 pela Thomson Reuters’ ISI Web of Science. Tampouco pretendemos fazer um balanço de suas obras. Autor polêmico. as iniciais da Teoria do Ator-Rede. optou-se por manter o acrônimo ANT .

Mas também é razoável perguntar se é necessário. não lembra nenhum animal. Ao se descrever como formiga o autor brinca e ri de si mesmo.devem ser escritas de tal modo que a sua leitura permanece reservada apenas àqueles mais afeitos a lidar com textos densos e pesados? Bem. mas que em inglês conserva o duplo sen­ tido de “falha”. pode não ter objeções ao seu estilo. Alguém mais familiarizado com Latour.de leitores não-acadêmicos? Mais ainda. que procuram aproxi­ mar o leitor de experiências e acontecimentos . termo traduzido no sentido da informática . menos ainda a sin­ gela formiga. os representantes da sociologia convencional (default. TAR seria a escolha mais precisa. ou seja. principalmente. aqueles a quem Latour se opõe não são poupados. com a qual Latour se identifica várias vezes ao longo do texto. Ê possível colocar as coisas nesses termos.para fazer ciência - adotar propositadamente uma escrita pomposa e difícil? Para fazer teoria é preciso aprofundar o fosso que nos separa . perdido pela tradução). ou seja.a nós da academia . Rmgraganäü ti social correspondente em portugués. É preciso também . entretanto. no original em inglês. com os autores consagrados das ciências sociais? Afinal a crítica nas ciências não deve ser levada a sério? Há quem julgue o estilo de Latour deveras vulgar e deplore o modo como ele trata aqueles a quem critica. mas T AR não evoca nada ao leitor. fiara afir­ mar uma posição que se contrapõe a outras hegemônicas na teoria social. devemos 12 . mas justamente podería desejar interpelar Latour: por que escrever uma introdução teórica à Teoria do Ator Rede? Não é o próprio Latour quem nos aconselha a entrar nas grandes indagações teó­ ricas como se entra em um banho frio em pleno inverno. mas é preferível que o leitor confira por si mesmo e veja se não é possível fazer boa teoria com um punhado de metáforas poucos usuais e piadas espalhadas pelo texto. Mas ele não é sua única vítima de suas brincadeiras. escrever em tom sério e sisudo. particularmente os “sociólogos do social” e os “sociólogos críticos”. a crítica consistente e a teoria .corres­ pondente á configuração padrão.diferente das sedutoras narrativas da antropologia e da história. Não é leviano fazer graça consigo e. nós temos uma posição sobre isso.

do que a uma “grade” mesmo. o social? Qualquer nova perspectiva metodológica que esta obra nos ofereça não é senão um corolário desta questão mais fundamental. Bruñó Latour entrar e sair o mais rápido possível? Seu lema não é: siga os atores e preste atenção ao modo como eles próprios respondem a essas questões? Mudou de posição? Com efeito.um sistema . E. de fato. Mas o que é mesmo que Latour pretende com esse livro. esses últimos talvez até em maior proporção. busca solapá-lo. Sua teoria é. debatido e comentado? Capaz de arreba­ tar tanto seguidores quanto detratores. não nos supreende que novas abordagens metodológicas surjam com certa frequência. ele permanece sustentando no livro a recomen­ dação de que é preciso seguir os atores e afirma que sua grade teórica se assemelha menos a um conjunto de conceitos interligados . Sendo assim. fez com que Latour. portanto. mais abstrata e mais empírica simultaneamente. então. segundo ele mesmo. nas páginas a seguir não encontraremos “apenas” uma nova forma de abordar o social. uma espécie de plano cartesiano em que o mapa das associações que compõem o mundo social é desenhado se seguirmos as marcas feitas pelos atores. O que. nada menos que reti rar da sociologia a segurança da imutabilidade de seu objeto de estudo bem como as fórmulas que se deve empregar para melhor explicá-lo. tenha se tornado este autor tão festejado. Em se tratando de uma ciência cuja concorrência de uma multipli­ cidade de paradigmas a tem caracterizado desde o seu surgimento. Certamente. por isso mesmo. nos últimos anos. a questão que acredito que devemos terem mente ao mergulharmos nesta leitura é: o que é. Seria “Reagregando o Social” o nosso Cavalo de Tróia? Não acreditamos nisso.que explica a realidade social. ao fornecer uma espécie de roteiro de perguntas que devem ser respondidas por aque­ les que querem retraçar as trilhas produzidas pelas associações entre ato­ res? Aparentemente ele não pretende nada mais. 13 . que temos certas vezes a impressão de que coube a Latour o papel do agente que. uma vez infiltrado na base inimiga. o que resta aos sociólogos? Tamañita é a reformulação pela qual passará a sociologia nas páginas que se seguem. pensada como quadrados vazios.

múltipla. proporcionar. dos fatos e sobre o modo de conhecer e escrever sobre o social. Ao optar por falar sobre incertezas Latour não revela apenas sua intenção de tios tragar para fora de nossa zona de conforto intelectual. ou aos cérebros mais preguiçosos (ou seja. encorajar. Mas ele não faz um inventário de respostas e sim uma lista de incertezas às quais devemos atentar se pretendemos fazer ciência social no estilo ANT: incerteza quanto à natureza dos grupos. pois. variada. cientistas. Seu argumento é que ambos. sabem. E embora não se intente descartar de uma vez por todas a sociologia tradicional. das coisas. Latour. que há muito alimentam os debates sociológicos. A ação é um enigma para ambos. sim. elas podem autorizar. isto é. R&igregtwc/o ò suci¿il Porquanto a reformulação a que se pretende submeter a sociologia se deva em grande medida aos estudos em ciência e a etnografía em labo­ ratório. pretende também desestabilizar o cientista social e retirá-lo da posição privilegiada que lhe permite dizer que os atores não sabem o que fazem. su­ gerir. não é afeito a fórmulas ou. 14 . deslocada do que parece se tomamos os conceitos da sociologia convencional como ponto de partida. aos “abra-te Sésamo” sociológicos. as explicações prontas à mão. Certas questões aparentemente insolvíveis. esta terá que se contentar com o estabilizado. ao contrário dos cientistas naturais (e alguns sociais). À so­ ciologia da associação compete o novo. com aquilo que já está dado. coletivo etc. aquilo que não possui qualquer substância a priori e cuja existência precisa ser constantemente reafirmada para que possa continuar a existir. isto porque ela é bem mais distribuída. encontram aqui soluções satisfatórias e assaz ins­ tigantes. participação. dificultar etc. mas eles. bloquear. como ironizava Gabriel Tarde. Sendo assim a ciência social é inútil por que os atores já sabem tudo? Latour não tem como intenção simplesmente inverter a balança. sim as coisas também agem. da ação. tais como a natureza da ação e o embate entre micro e macrossociologia. as configurações default da sociologia). permitir. estão intrigados por questões relativas a identidade. influenciar. atores e cientistas. E seguir os atores nesse caso é segui-los em seu entrelaçamento com as coisas.

a maior contri­ buição de Latour às ciências sociais. Bruno Luto ur Tornar a sociologia menos antropocêntrica é. Trazer os nào-humanos ao centro do debate sociológico. sem dúvida. talvez. entender ainda mais o humano. consequentemente. Iara Maria de Almeida Souza Dário Ribeiro de Sales Júnior 15 . postular que os mesmos são dotados de agência e que. são atores de plenos direitos nos permite.

name. grosso modo. aludem a um estado de coisas estável. Está disponível online em inglês ( Paris the Invisible tiity} em http://bruno. um movimento durante uni processo de agregação. que tenia cobrir muitos dos mesmos temas através de uma sucessão de ensaios fotográficos. no entanto. a bibliografia completa está no final. “biológico”. "mental”. pode ser lido em paralelo ao muito mais leve Bruno Lalour e Emilie Hermanl (1998). 17 . pois ela agora designa duas coisas internamente diversas: primeira. Este livro.Iatour. Surgem problemas. o significado da palavra se perde. segunda. “organizacional” ou “linguístico”. Intodução COMO RETOMAR A TAREFA DE DESCOBRIR ASSOCIAÇÕES1 O argumento deste livro pode ser definido de maneira simples: quando os cientistas sociais acrescentam o adjetivo “social” a um fenôme­ no qualquer. Paris Ville invisible. caso “social” passe a significar um tipo de material. um tanto austero. a um conjunto de asso­ ciações que. Não há nada de errado com esse emprego da palavra se ela designa aquilo que já está agregado. “de aço”. En­ tão. um tipo específico de ingrediente que se supõe diferir de outros materiais. mais tarde. “econômico”. a outros termos como “de madeira”. O que tenciono fazer no presente livro é mostrar por que o social não pode ser construído como uma espécie de material ou domínio e as- 1 Nas notas é usado um formato de referencias abreviado. sem acarretar nenhuma declaração supérflua sobre a natureza do que se agregou. como se o adjetivo fosse comparável. podem ser mobilizadas para explicar outro fenô­ meno.

opõe-se inteiramente à minha maneira de encarar o assunto. Os livros gêmeos . porém.aurent Ihévenot (2004). a ciência era uma necessidade absoluta.os agregados de sociedade após os agre­ gados de natureza . Na fase atual de seu desenvolvimento. Traduzida tanto do latim quanto do gre­ go. Tenciono. pois. Esta me parece a única maneira de permanecer fiel aos venerá­ veis deveres da sociologia. Rengregnntio o social sumir a tarefa de fornecer uma “explicação social” de algum outro esta­ do de coisas. a palavra “socio-logia” significa “ciência do social”. Embora semelhante projeto tenha sido produtivo e talvez necessário no passado. poderemos retomar o objetivo tradicional das ciências sociais. creio ser necessário examinar mais pro­ fundamente o conteúdo exato daquilo que se “agrega” sob a égide de uma sociedade. Na época em que a modernização corria à solta. Então. O que entendiam 2 Essa expressão vem explicada em l.Bruno Latour (1999). a “ciência da vida em comum”. As virtudes que hoje nos dispomos a atribuir aos empreendimentos técni­ cos e científicos têm pouca relação com as intenções dos fundadores das ciências sociais quando inventaram suas disciplinas. deixou inteiramente de sê-lo graças. “Ciência da vida em comum no mundo”. Eles não imaginavam que sua amplitude poderia torná-la pra­ ticamente uma extensão do resto das relações sociais. em parte. Polilics of Nature: How to Bring the Sciences into Democracy . Depois de trabalhar bastante com os “agregados” da natureza. Ela seria excelente se não fossem dois empecilhos: o termo “social” e o termo “ciência”. a ser prolongada indefinidamente.foram escritos muito depois de meus colegas e eu term os desen­ volvido uma teoria social alternativa para solucionar os novos enigmas encontrados ern nosso trabalho de campo nas áreas da ciência e da tecnologia. uma redefinição daquilo que geralmen­ te se entende por essa disciplina.2 Tal projeto acarreta. redefinir a noção de social remontando a seu sig­ nificado primitivo e capacitando-o a rastrear conexões novamente. mas com instrumentos mais bem ajustados à tarefa. Pandora’s Hope: Essays on the Reality of Science Studies. e Bruno Latour (2004). já não é possível precisar os ingredientes que entram na composição do domínio social. 18 . Essa ordem lógica . ao êxito das ciências sociais. sem nenhuma preocupação impedindo seu progresso.

ser modificados. Justamente em virtude das muitas contradições suscitadas por esse subcampo fértil. Quero. pois. em consequência. e continuando fiel. poucos cientistas sociais che­ garam à conclusão extrema de que tanto o objeto quanto a metodologia das ciências sociais devam. a seu apelo tradicional. O social parece diluído por toda parte e por nenhuma em particular. passaram anos e anos às voltas com este paradoxo: “sociologia da ciência”. penso estar na hora de modificar o que se entende por “social”. duas abordagens muito diferentes foram adotadas. “dimensão social” ou “estrutura social”. o que se deve em grande parte à própria multiplicação dos produtos da ciência e da tec­ nologia. assim espero. Que vem a ser uma sociedade? Que significa a palavra “social”? Por que se diz que determinadas atividades apresentam uma “dimensão social”? Como alguém pode demonstrar a presença de “fatores sociais” operando? Quando o estudo da sociedade ou de outro agregado social se revela profícuo? De que modo o rumo de uma sociedade pode ser altera­ do? Para responder a estas perguntas. Nenhum estudioso tem tanta consciência dessa dolorosa hesitação quanto os que. Só uma delas se tornou senso comum . du- 19 . A primeira solução foi postular a existência de um tipo específico de fenômeno chamado por vários nomes: “sociedade”. encontrar uma definição alternativa para “sociologia” sem descartar esse rótulo útil. Já não se sabe ao certo se existem relações específicas o bastante para serem chamadas de “sociais” e agrupadas num domínio especial ca­ paz de funcionar como uma “sociedade”. Após inú­ meras decepções.a outra é objeto do presente livro. como eu. A despeito dessa dupla metamorfose. mas um tanto perverso. des ainda esperam alcançar algum dia a terra prometida de uma ciência verdadeira que explique um mundo social real. “ordem social”. nem ciência nem sociedade permaneceram estáveis o suficiente para cumprir a promessa de uma forte “socio-logia”. No último século. Bruno Latour por “sociedade” sofreu uma mudança não menos radical. além das numerosas mu­ danças na acepção de “ciência”. “práti­ ca social”. Assim.

algumas negativas . era importante distinguir esse domínio da realidade de outras esferas como economia. exprimir. que podem expli­ car alguns traços de suas obras-primas mais famosas. a busca cien­ tífica. por definição. Um dado traço era conside­ rado “social” ou “inerente à sociedade” quando apresentava. linguístico. pode ser usa­ do como um tipo especial de causalidade para explicar os aspectos residuais 20 . com todo o seu ímpeto. sofre tam­ bém a “influência” de “considerações” sociais e políticas. geografia. natural. embora os fatores econômicos se desenvolvam se­ gundo sua própria lógica. ele é uma esfera específica da realidade. ainda que de maneira vaga.não devia ser “puramente” biológico. Muitos outros exemplos podem ser facilmente encontrados. mas alguns aspectos dele seriam mais bem compreendidos se uma “dimensão social” lhe fosse acrescentada. e outras positivas . no entanto. econômico. apresenta algumas características necessa­ riamente “sujeitas” às “limitações sociais” de cientistas “presos ao contexto social da época” embora a arte seja amplamente "autônoma”. reconhece-se a força intrínseca do direito. existem também elementos sociais capazes de explicar o comportamento um tanto errático dos fazedores de cálculos. alguns de seus aspectos mais intrigantes se devem à “influência social”. preservar.devia com­ por. direito. Por exemplo. pois esta versão da teoria social tornou-se a posição padrão de nosso software mental que leva em conta o seguinte: existe um “contexto” social era que ocorrem atividades não sociais. culturais e políticas” à altura de explicar por que certos princípios organizacionais sólidos nunca são postos em prática. um apelo a “fatores sociais” elucidaria os “aspectos sociais” de fenômenos não sociais. podia-se usa­ do para lançar alguma luz sobre fenômenos específicamente sociais . a psicologia. convém-lhe às vezes levar em conta “circunstâncias sociais.e fornecer uma explicação qualquer para aquilo que escapava aos outros domínios. Uma vez definido esse domínio. e embora a ciência da administração tenha lá suas regras. ciência e política. segue impulsos internos. propriedades específicas. reforçar.o so­ cial esclarecendo o social . reproduzir ou subverter a ordem social. biologia. psicologia. Raagregando o social rante o qual foram elaboradas teorias sociais. sem dúvida.

é estu­ dado por especialistas a que se dá o nome de sociólogos ou “socio-(x)” . histórias de amor. direito. quando os dentistas sociais são instados a dar seu parecer sobre engenharia social ou a acompanhar uma mudança social. nenhum “contexto social”. 75 . Como os agentes comuns estão sempre “dentro” de um mundo social que os abrange. economia etc. que manterei vaga por enquanto . cumpre recorrer a métodos alternativos que levem em consideração os aspectos “humanos”. A outra abordagem não admite o pressuposto básico da primeira. Afirma que não há nada de específico na ordem social. “intencionais” ou “hermenêuticos” daqueles domínios. Essa posição padrão tornou-se senso comum não apenas para os cientistas sociais. E.constitui um dos muitos indícios dessa influência. mas também para quem atua em jornais. sem virar as costas ao ethos da ciência. na pior. mas só depois que um conhecimento suficiente tenha sido acumulado. al­ guma consequência política deve seguir-se a esses estudos.ver p. ignorar sua existência. revistas de moda etc. conversas de bar.3 3 A difusão da palavra “ator”. Caso isso não seja possível.' As ciências sociais disseminaram sua definição de sociedade com a mesma eficiência com a qual as empresas de ul il idade pública pres­ tam seus serviços de eletricidade e telefone.). des conseguem até certo ponto imitar o sucesso das ciências naturais quando se mostram tão objetivos quanto as outras disciplinas graças ao emprego de ferramentas quantitativas.atour que escapam a outros domínios (psicologia. 21 .pelo menos no mundo desenvolvido. Bruno ¡.sen­ do “x” a incógnita para qualquer disciplina. nenhuma esfera dis tinta da realidade a que se possa atribuir o rótulo “social” ou “sociedade”. cujo efeito total só é percebido pelos olhos mais disciplinados dos cientistas sociais. Não importa quão difícil seja levar a cabo tais estudos. partidos politicos. educação su­ perior. podem na melhor das hipóteses “dar informações” sobre esse mundo e. que não existe ne­ nhuma dimensão social. Comentar a inevitável “dimen­ são social” daquilo que nós e os outros fazemos “em sociedade” tornou-se tão corriqueiro quanto usar um celular. pedir uma cerveja ou discorrer sobre o complexo de Édipo .

a existência de vínculos so­ ciais distintos que traem a presença oculta de certas forças sociais espe­ cíficas. consideram os agregados sociais como algo a ser explicado por associações específicas fornecidas pela economia. Se provocada. mesmo quando não falam a respeito para satisfação dos curiosos. psicologia. 49. Thatcher proferiu certa feita (mas por razões diferentes): “Sociedade é coisa que não existe". elas seriam incompatíveis. Ver p. longe de repre­ sentar o contexto “no qual” tudo se enquadra.) encaram os agregados sociais como o elemento capaz de lançar luz sobre os aspectos residuais da economia. psicologia. sociolinguis- tas. que os membros sabem muito bem o que estão fazendo. Enquanto os sociólogos (ou socioeconomistas. administração etcd4 4 Empregarei a expressão “sociedade ou outros agregados sociais” para cobrir o le­ que tie soluções dadas àquilo que chamo mais adiante “primeira fonte de incerteza”. essa segunda escola de pensamento alardearia como seu slogan as famosas palavras que a sra. pois a segunda posição toma como enigma a solucionar o que a primeira considera sua solução. como veremos. Na visão alternativa. direito. por isso mesmo. não há sentido em acrescentar “fatores sociais” a outras especialidades cientifi­ cas. “social” não é uma cola que pode fixar tudo. portanto. linguística. ao contrário. Não estou enfatizando aqui as delinições “holísticas" porque. deveria antes ser vista como um dos muitos elementos de ligação que circulam por estreitos canais. que. inclusive o que as outras não fixam. e que a “sociedade”. que os atores nunca estão inseridos num contexto social e são. os outros estudiosos. muito mais que meros "informantes”. é aquilo que outros tipos de conectores amalgamam. ou seja. administração e assim por diante. o título de “sociologia"? Aqui. 22 . como as duas podem declarar serem ciência do social e reivindicar. referente à natureza dos grupos sociais. Reagraganda o uncial que nenhuma “força social” está aí para “explicar” os traços residuais que outros domínios não explicam. uma e outra. psicólogos sociais etc. linguística. Se são tão diferentes. definições "individualistas” ou “biológicas” são igualmente válidas. que a relevância política obtida por meio de uma “ciência da socieda­ de” não é necessariamente desejável.

uma nova lei está sendo votada. À primeira vista. Dado que. essa é na verdade a experiência mais comum que podemos ter face ao aspecto enigmático do social. Mas é exatamente esse o ponto que o ramo alterna­ tivo da teoria social pretende estabelecer: todos os elementos heterogêneos precisam ser reunidos de novo em uma dada circunstância. uma nova catás­ trofe está ocorrendo. Já não sabemos muito bem o que o termo “nós” significa. Uma nova vacina está sendo preparada. um novo sistema planetário está sendo descoberto. quando se tem em mente a etimologia da palavra “social”. precisamos reformular nossas con­ cepções daquilo que estava associado. a palavra tem a mesma origem . o adjetivo “social” não designa uma coisa entre outras. 23 . essa definição soa absurda. mas como a busca de associações. nos dois casos. como um carneiro negro entre carneiros brancos.a raiz latina socius -. e sim um tipo de conexão entre coisas que não são. pois pode forçar a so­ ciologia a significar qualquer tipo de agregado. no entanto. Bruno Latour A semelhança entre as duas abordagens parece niais profunda. de ligações químicas a vín­ culos jurídicos. pois a definição anterior se tornou praticamente irrelevante. Sob este ângulo. podemos permane­ cer fiéis às intuições originais das ciências sociais redefinindo a sociologia não como a “ciência do social”. em si mesmas. um novo movimento político está sendo criado. é perfeitamente lícito designar com o mesmo vocábulo uma sé­ rie de associações entre elementos heterogêneos. é como se estivéssemos atados por “laços” que não lembram em nada os vínculos sociais. de forças atômicas a corporações. uma nova descrição de tarefa está sendo oferecida. sociais. Longe de ser uma hipótese atordoante. A cada instância. Ainda que a maioria dos cientistas sociais prefira chamar “social” a uma coisa ho­ mogênea. de organismos fisiológi­ cos a partidos políticos.

esse empreendimento só veio con­ firmar os piores receios dos cientistas sociais quanto à extensão do sentido do vocábuto. direito. questão social. sequi . Nas diferentes línguas. tecnologia etc. Como bem se pode ver pela evolução da palavra. 1987). árvores. psicologia. esquecendo que a esfera do social é bem mais ampla que isso. assistentes sociais). um sociólogo das planlas (Candolle 1873/1987): para ele. corais. biologia. formigas e baleias também eram “sociais”. Devido à constante restrição do significado (contrato social.o uso da estatística para medir a atividade da ciência. um uso limitado ao que restou depois que a po­ lítica. O vocábulo paralelo “sociável” alude à capacidade que tem o indivíduo de viver polidamente em sociedade. Reagregniulo o social O SIGNIFICADO DE “SOCIAL” CADA VEZ MAIS RESTRITO Existe uma clara tendencia etimológica ñas múltiplas variações semánticas do termo “social” (Strum e Latour. contudo. a genealogia histórica da palavra “social” designa primeiro “seguir alguém” e depois “alistar” e “aliar-se a”. como seu pai. no linguajar comum. para finalmente exprimir “alguma coisa em comum”. babuínos. A raiz é seq-. economia. Outra significação é “ter parte num empreendimento comercial”. De Candolle foi a primeira pessoa a falar em cientometria . nossa tendência é limitar o social aos humanos e às sociedades modernas. A etimologia da palavra “social” ein si é bas­ tante instrutiva. Essa acepção ampliada da palavra “social” teve boa acolhida por parte da socio- biologia (Wilson. o significado de “social” vai se restringindo com o passar do tem­ po. “Social” como em “contrato social” é uma invenção de Rousseau. Infelizmente. administração. “Social” como em "problemas sociais” ou “questão social” é uma inovação do século 19. É perfeitamente possível. aceitar a extensão sem crer 24 . Começando por uma definição coextensiva a todas as associações. e a primeira acepção é “seguir”. um associado. temos hoje. O latim socius denota um companheiro. que vão do mais genérico ao mais restrito. tomaram posse de suas respectivas partes das associações. Foi também. 1975). abelhas.

Este é o motivo pelo qual definirei o social. a duras pe­ nas. o projeto inteiro daquilo que pretendemos fazer juntos se torna duvidoso. como inserir uma matéria “no contexto mais amplo”?5 A ciência não precisa dar lugar ao “quadro social”. qualquer contexto graças aos elementos estranhos que os laboratórios de pesquisa associam de maneira imprevisível. estritamente limitada à busca de novas associações e ao esboço de seus agregados. “associar-se” a parentes e amigos por causa da mutação desse bichinho cuja existência a vasta instituição da epidemiología e da virología revelou ao mundo. o direito. outra noção de social tem de ser descoberta: bem mais ampla do que a usualmente cha­ mada por esse nome e. como antes. não deve ser visto como algo explicável pela “estrutura social" além de sua lógica interna. O senso de integração entrou em colapso. sua lógica interna é que pode explicar alguns traços daquilo que lãz uma associação durar mais e estender-se por um espaço maior. The Common Place o f Law. e a contribuição de Si!bey a bruno Latour e Peter Weibel (2005). Segundo essa visão. Sem os precedentes legais para estabelecer conexões entre um caso e a norma geral. ao mesmo tempo. Making Things Public: Atmospheres o f Democracy. só o retomaremos mais tarde. Silhey (1998). moldado por “forças sociais” tanto quanto por sua própria objetividade.6 A religião não preci- 5 Patricia Ewick e Susan S. Mas para regis­ trar a percepção da crise e acompanhar as novas conexões. Quem está de quarentena por causa do vírus da SARS teve de aprender. dada a organismos em vários cená­ rios sociohiológicos. Assim. não como um domínio especial. ao con­ trário. pois os objetos dela deslocam. 6 Embora o estudo da prática científica tenha sido a principal motivação para essa de­ finição alternativa do social. Bruna Latour muito na definição limitada de função. eles próprios. uma esfera exclusiva ou um objeto particular. quando a quarta incerteza 25 . que não pode mais. por exemplo. mas apenas como um movimento peculiar de reas- sociação e reagregação.

Ver p. Como veremos ao longo deste li­ vro. Ser social já não é uma propriedade segura e simples.direito. Afinal. ketigregmida o soem/ sa ser “justificada” pelas forças sociais. por seu próprio nome . ciência. na segunda versão de sociologia não há nada subjacente a essas atividades.na verdade. F. quem na Bagdá “ocupada" ou “libertada” reconhecería amigos e inimigos? O mesmo se aplica a todos os outros domínios. p. Sem as arengas infindáveis dos partidos em luta no Iraque. que passageiro encontraria o portão do aeroporto aonde se dirigir sem exa­ minar ansiosamente. Organizações não precisam ser inseridas em “contextos sociais mais amplos” porque elas mesmas dão um significado muito prático ao que significa estar dentro de uma rede “maior” de negócios. o número impresso no cartão de embarque e circulado em vermelho pela recepcionista? Seria ocioso re­ velar.is a diferença crucial entre as duas versões. uma vez que sem essa tagarelice boa parte do que entendemos como traços típicos de um grupo se perdería. 26 . religião. uma vez que. administração etc. e repetidamente. aprenderemos a reformular essa oposição de uma ma­ neira mais sutil que a inversão de causa e efeito. política. os defensores da primeira sim- for explicada. . por sua própria defi­ nição . embora elas possam ser agru­ padas de modo a produzir uma sociedade . as “sombrias forças ocultas da sociedade” em ação. Desde os tempos de Antígona. liga entidades que não fazem parte da ordem social.ou não. 129. após prestar bons serviços no passado. a chamada “explicação social” tornou-se uma maneira contraproducente de interromper o movimento de associação. todos sabem o que significa ser motivado por ordens divinas inacessíveis a políticos como Creonte. na primeira abordagem. tecnologia. por trás da tagarelice superficial dos políticos. 7 Somente na Parte II. organiza­ ção.podia relacionar-se e ser explicada pelos mesmos agregados sociais por trás dela..7 Se. em vez de retomá-lo. 340. toda atividade . Nos termos da segunda abordagem. é um movimento que às vezes não consegue traçar uma nova conexão e redesenhar um conjunto bem form ado.

e. alega que essa substituição é inviável para os atores sociais que precisam iludir-se supondo a existência. ao passo que os sociólogos devem ir atrás de quaisquer novas associações heterogêneas. mas terei de ser mais agressivo em relação à sociologia critica e sua “ilusão de uma ilusão”. Para eles. principalmente. aí. as associações são feitas de vínculos não sociais por natureza. chamarei a primeira abordagem de "sociologia do social” e a segunda de “sociologia de associações” (gostaria de empregar “associologia”). aprenderemos a distinguir a sociologia padrão do social de uma subfamilia mais radical que chamarei de sociologia críti­ ca:8 Este último ramo será definido pelos três traços seguintes: ele não só se Umita ao social como substitui um objeto de estudo por outro.e. A fim de esclarecer. Não ignoro que isso é muito injusto para com os inúmeros8 8 Para a distinção entre sociologia crítica e sociologia da critica. Para ajudar os pesquisadores interessados em reagregar o social é que este livro foi escrito. ßnnw Latour plesinente confundiram aquilo que deviam explicar com a explicação. Ao longo da obra. ver l. e julga que as objeçòes dos atores às suas explicações sociais fornecem a melhor prova de que estas são corretas. L’ Amour et la justice comme Compétences. Luc ßoltanski (1990). Em suma. Imaginaram a sociologia limitada a um domínio específico. feito de relações sociais. mas o social não é nunca uma coisa visível ou postulável. de algo “mais” que o social. Luc ßoltanski e Laurent Thévenol (1999). ao contrário. Só se deixa entre­ ver pelos traçou que vai disseminando (experimentalmente) quando uma nova associação se constitui com elementos de modo algum “sociais" por natureza. quando de­ viam acabar por eles. Acho necessário estabelecer uma con­ tinuidade com a sociologia do social. The sociology o f critical capacity. On justification. na verdade. na tarefa de decidir o que de fato nos une. 27 . a segunda escola se propõe retomar a tarefa de co­ nexão e coleção abruptamente interrompida pela primeira.uc ííoltanski e Laurent ThévenoL (no prelo). C o­ meçaram pela sociedade ou outro agregado social qualquer.e nosso futuro político reside. Insistem em que já somos movidos pela força de uma sociedade . o social está sempre à sua disposição. Supuseram que o social é constituído essencialmente de vínculos sociais .

Aratnis or the Love of Technology.. juntamente cum Bruno Latour (1996). Perdoem-me a rudeza. afinal de contas? Ai de mim.o que é social e o que é ciência . mas acontece que existem várias introduções excelentes para a sociologia do social e nenhuma. Governing a Technological Society e Anne- Marie Mol (2003). inclusive o hiten. Se. também sâo uma boa introdução. na época. por exemplo. Andrew Barry (2 0 0 1). Reagregando ô social matizes das ciências sociais que agrupei. “sociologia de inovação” etc. viciado em trabalho. 10 Dcvo me desculpar por assumir aqui uma posição internamente oposta à consignada em Bruno Latour (1999c). Se.. míope. No decorrer do livro. 9 Um guia recente é John Law (2004). certamente não o é para lhe mudar o nome mais comum. a palavra sociologia funcionaria me­ lhor. Uma formiga (ant) escrevendo para outras formigas. The Body Multiple: Ontology in Medical Practice (Science and Cultural Theory). “On recalling ANT”. tão sem sentido que merece ser conservado. eis o que condiz muito bem com meu projeto!111 Idealmente. embora reservando a expressão “sociologia do social” para designar o repertório ao qual outros cientistas sociais. porquanto a sinalização mais fácil é a melhor . se limitam com excessiva condescendência. pretendo usá-la com frequência. mas não pode ser empregada antes que seus dois componentes .afinal. “ontologia actante-rizoma”. Eu estava disposto a trocar esse rótu­ lo por outros mais elaborados como “sociologia de translação”. After Method: Mess iti Social Science Research. de meu conhecimento. agora vou defendê-los - o hífen inclusive! 28 .sejam de algum modo remontados. farejador e gregário. Political Machines. mas parece aceitável numa intro­ dução cujo alvo é ser bastante precisa ao tratar de argumentos que tenciona descrever enquanto demarca o terreno conhecido. mas uma pessoa me observou que o acrônimo ANT (Actor-Network Theory) era perfeitamente adequado para um viajante cego. tão confuso. para este pequeno subcampo da teoria social910que recebeu o nome de. eu criticava lodos os elementos de sua horrenda expressão.. tão deselegante. que nome. o nome histórico é “teoria do ator-rede”. a origem da palavra “América” é ainda mais estapafúrdia. o autor de um guia de viagem é livre para fazer novos comentários sobre o país que resol­ veu apresentar. em minha opinião.

conforme se vê no website de Law. ostras. Conforme explicarei na página 87. Callón. e sim uma mais sistemática. 1981). 1988b. O presente livro não tem por objetivo uma apresentação mais coletiva. pela primeira vez. 29 . Bruno Lttloitr C o m o a b r ir c a m in h o p e l a l it e r a t u r a da T e o r ia Ato r -R ede Boa parte da bibliografia relevante pode ser encontrada no ótimo website “Hie Actor Network Resource”. mantido por John Law. Um é o exato papel atribuído aos não humanos. Os fundamentos filosóficos desse argumento apareceram na segunda parte de Latour. na verdade. Law. essa atividade não deve ser do tipo associado até hoje a coisas concretas ou objetos naturais. Eles precisam ser atores (ver definição na página 64) e não meras projeções simbólicas. 1986.11 A origem dessa abordagem foi a necessidade de uma nova teoria social ajustada aos estudos de ciência e tecnologia (Callón e Latour. foi ao revisar a quarta incerteza que. não há motivo para incluí-lo no corpus da ANT.lancs.uk/FSS/5 0 ciology/css/antres/antres. com três documentos (Latour. se determinado texto emprega um tipo simbólico ou naturalista de causalidade. Desde então a ideia avançou em várias direções.micróbios. 1988a. pedras e car­ neiros . digamos. alguns ad hoc e provisórios podem ser imaginados. embora numa forma di­ fícil de captar. Em­ bora não haja nenhum teste de tornassol eficiente para avaliar a adesão à ANT. Eis alguns dos testes que julguei aplicáveis ao caso. Por outro lado. t986b).se apresentaram à teoria social de uma maneira nova. essa interpretação da ANT representa apenas minha visão pessoal. En­ tretanto. Nem é preciso dizer. Foi nessa altura que os não humanos . ainda que ele reivindique isso. Assim.hLm. compatíveis socialmente. os objetos da ciência e da tecnologia se tornaram para mim. Mas começou.ac. sendo resenhada e criticada por inúmeros periódicos. qualquer estudo que atribua a não humanos um tipo de ação mais aberto que a tra- 11 Ver http://www.

Desse modo. Bem mais importante é descobrir novas instituições. a Social Shaping o f Technology (Bijker. 2000) pode pertencer à ANT em virtude do novo papel ativo consignado ao gene. seria descobrir se um estudo almeja reagregar o social ou continua insistindo na dispersão e na desconstru- ção. mais difícil. não im porta quão esclarecedora tenha sido para todos nós. Reatfreÿtimki o social dicional causalidade natural .pode per- tencer ao nosso corpus. Dispersão. mesmo se outros autores nâo quiserem de modo algum ser associados a essa postura. procedimentos e conceitos capazes de coletar e reagrupar o social (Gallon et al. O mes­ mo se aplicaria ao trabalho no campo da cognição partilhada (Hutchins. todavia. ¡995). uma das visões mais equivocadas. Outro teste é determinar o rumo da explicação. estaria qua­ lificado para inclusão. não é ANT. Por exemplo. Será que. 2004b). A ANT tem sido confundida com a ênfase pós-moderna na crítica das "grandes narrativas” e no ponto de vista “eurocêntrico” ou “hegemônico”. destruição e desconstrução não são objetivos a atingir e sim obstáculos a superar. McNeill (1976). no fina] das contas. explicando ao mesmo tem­ po por que a sociologia da arte tem sido um companheiro fiel. a lista daquilo que se considera social não passa do mesmo repertório limitado usado para explicar (satisfatoriamente) a maioria dos elementos? Se o social permanece estável e consegue justificar um esta­ do de coisas. embora não seja sob nenhum ponto de vista um autor ANT. o livro de Cronon (1991) é certamente uma obra-prima da ANT porque nenhuma força social oculta se faz necessá­ ria para explicar a composição progressiva da própria metrópole. 2001. pois o que deve ser associado se modifica quando se inserem ratos. Porém. sobretudo graças à influência de Hennion (1993). Latour. vírus e micróbios na definição do que será “coletado” numa área. um livro de biologia (Kupiec e Sonigo.e mais eficiente que a simbólica .. 1995) não faria parte de nosso corpus porque o social é mantido estável o tempo todo e explica a forma da mudança tecnológica. Essa é. 30 . Isso é também o que tornou boa parte da história da ciência e da tecnologia importante para nosso programa. Por exemplo. O terceiro teste.

mas também indispensável. como as situações que mudam muito lentamente. Os deveres do cientista social mudam concomitantemente: já não basta restringir os atores ao papel de informantes de casos de tipos bem conhecidos. “classe média baixa”. ou seja. "construção social”. tentar entender suas inovações frequen­ temente bizarras. “contexto político”.um tipo de esfera social. a sociologia do social não consegue mais encontrar novas associa­ ções de atores. recorrer à sociologia do social é não apenas sensato. o tamanho. “motivações inconscientes”. Uma forma mais extrema de relacionar as duas escolas é tomar de empréstimo. “capital social”. a heterogeneidade e a combinação de associações. Para empregar um slogan da ANT. um paralelo da história da física e dizer que a sociologia do social permanece “pré-relativista” enquanto a nossa é “relativista” por inteiro.ainda . em situações nas quais as inovações proliferam. “enxugamento”. pois ela oferece uma for­ ma prática e oportuna de designar todos os elementos já aceitos na esfera coletiva. em limitar o número de en­ tidades aceitáveis. Nessa altura. Na maioria dos casos comuns. “cultura m aori”. É preciso devolver-lhes a capacidade de elaborar suas próprias teorias sobre a constituição do social. A sociologia do social funciona bem quando se trata daquilo que já foi agregado. “pressão do gru­ po” etc. em revelar aos atores o que eles são ou em acrescentar al­ guma lucidez à sua prática cega. o esquema pré-relativista se mos- 31 . em que as fronteiras de grupo são incertas. Mas. A tarefa não consiste mais em impor a ordem. “totalitarismo”. em muitas situações. a última coisa a fazer seria limitar de antemão a forma. que métodos elaboraram para sua adequação. mas nem tanto quando o problema é reunir novamente os participantes naquilo que não é . “agente individual”. a fim de descobrir o que a existência coletiva se tornou em suas mãos. O recurso oportuno do social tem de ser substituído pelo método mais complexo e penoso de suas associações. em que o leque de entidades a considerar flutua. “França”. Bruno Latour Com efeito. cumpre “seguir os próprios atores”. “mobilidade ascendente”. um tanto ardilosamente. Seria tolo e pedante evitar o uso de noções como “IBM ”. quais definições esclareceriam melhor as novas associações que eles se viram forçados a es­ tabelecer.

as inovações proliferam e as entidades se multiplicam. poderão os sociólogos descobrir novas possibili­ dades de deslocamento reconhecendo na noção de substância social uma “hipótese supérflua”? Essa postura é tão marginal e sua chance de sucesso é tão diminuta que não vejo razão para exaltar as alternativas perfeitamen- te razoáveis que poderíam. pode ser usada como ótimo paralelo para as maneiras graças às quais a sociologia de associações reverte e generaliza a sociologia do social.provar que as outras teorias sociais estão erradas . Mas quando a coisa vai muito depressa. a dada altura. Como a teoria da relatividade é um exemplo bem conhecido de mudança contun­ dente etn nosso aparelho mental. É então que a solução relativista se impõe para poder se deslocar entre quadros de referência e readquirir certo grau de comensurabílidade entre traços oriundos de es­ quemas que se movem em diferentes velocidades e acelerações. quando será discutido o problema da relevância política. e se eu tratar com muita petulância a sociologia crítica. serei teimoso e muitas vezes parcial a fim de demonstrar claramente o contraste entre os dois pontos de vista. Se a noção-chave de padrões {Parte II. Rmgreguntlo o social tra favorável e todo quadro de referência fixo pode registrar a ação sem deformá-la demais. temos um quadro absolutista ge­ rando dados que se complicam irremediavelmente. não estou interessado em desmentir .e sim em fazer propostas. Até onde iremos suspendendo a hipótese de senso comum segundo a qual a existên­ cia de uma esfera social oferece um quadro legítimo de referência para as ciências sociais?12 Se os físicos. suscitada por questões básicas. Aprenderemos no devido lempo como aproveitar as boas coisas de suas diluições originais. tentarei ser o mais coerente possível ao extrair as conclusões mais extremas da posição que resolví testar. a Conclusão. no início do século passado. Para compensar essa injustiça. saibam os leitores que essa atitude é provisória. Assim. O leste consistirá em determinar quantas questões no- 12 Se minha maneira de encarar a sociologia do social parecer um tanto dura. receio muito. fazê-la em pedaços. 32 . conseguiram livrar-se da solução de senso comum de um éter absolutamente rígido e indefinidamente plástico. página 318) nos permite fazer justiça à sociologia do social. No que se segue. a sociologia crítica terá de esperar.

13 Tarde sempre se queixou de que Durkheim abandonasse a tarefa de explicar a sociedade ao confundir causa e efeito. Gabriel Tarde and the end of lhe social. fiel a todas as obrigações que esse recomeço nos força a assumir. Aqueles que gostam de fazer remontar uma disciplina a um an­ cestral venerável precisam levar em conta que essa distinção entre duas maneiras diversas de entender os deveres da ciência social não é absolu­ tamente nova. Contra seu jovem adversário. e sim um princípio de conexões. On Communication and Social Influence. que não havia motivo para separar o "so­ cial ” de outras associações como os organismos biológicos ou mesmo os átomos. Como sempre. 33 . é Gabriel larde e Terry C. herdando assim o que as ambições da ciência do social legitimavam. ele sustentou veementemente que o social não era um domínio especial da realidade. substituindo a compreensão do vínculo social por um projeto político vol­ tado para a engenharia social. Uma antiga tradução está disponível online. e mesmo cegamente. E o teste definitivo será averiguar. se a sociologia de associações conseguiu fazer as vezes de sociologia do social perfilhando tipos diferen­ tes de conexões novas e mais atuantes. Clark (1969). e que a economia precisava ser refeita de ponta a ponta. o vencedor. em inglés. Social Laws: An Outline o f Sociology. constituía a área de expansão da teoria social. era necessária para uma disciplina se tornar ciência social. que a sociologia não passava de uma espécie de interpsicologia. em vez de ser usada como metáfora vaga para descrever o cálculo dos juros. ver Ga­ briel Tarde (1895/1999). Para uma visão mais recente. caberá ao leitor decidir se a aventura foi bem sucedida ou não. Bruno Latour vas poderão vir à luz se eu me mantiver firmemente. que nenhuma ruptura corn a filosofia. sobretudo a metafísica. 14 Em oposição à w ir«-psicologia. Já estava apostos durante o nascimento da disciplina (pelo menos na França). no final do livro. Monadologie et Sociologie. ver Bruno Laiour (2002). sobre a qual ele praticamente nada disse. quando ocorreu a disputa entre o velho Gabriel Tarde e Émile Durkheim. Gabriel Tarde (1899/2000).14 que o estudo da inovação. Acima 13 A única introdução substancial a Tarde. especialmente ciência e tecnologia.

Spencer. Durkheim e Weber). e não um tipo específico de organismo. G a b r ie l Ta rde . Ainda tem. 58) define a sociedade: “M as isso significa que tu d o c socied ad e. juiz e criminalista autodidata. ele considerava o social como um fluido circulante que devia ser seguido pelos novos métodos.. em algo que não chamarei de sociedade. com Harold Garfinkel. foi o pre­ cursor de Bergson no Collège de France. como veremos no final do livro. apenas torna o presente livro ainda mais necessário. sem dúvida. um p r e c u r s o r a l t e r n a t iv o para U M A T E O R IA SO C IA L A LTER N A TIV A Gabriel Tarde (1843-1904). tende e s tra n h a m e n te a g en eralizar a n o çã o de socied ad e. fato notável. Eis como Tarde (1999. 34 . Ao con­ trário. Creio bem que. Os fatores reunidos no passado sob o rótulo de um “do­ mínio social” são simplesmente alguns dos elementos a agregar. Reagregando o social de tudo. na galeria de retratos dos predecessores eminentes. no futuro. O fato de Tarde ter sido completamente batido pelos sociólogos do social. ele é um dos poucos que. a ciên cia. E . não prova que ele estivesse errado. se a sociologia houvesse herdado mais coisas de Tarde (para não mencionar Comte. pelo e n ca d e a m e n to ló g ic o de seus p rim eiros m o v im en to s. mas. Não convém aceitarmos todas as idiossincrasias de Tarde . recursos para isso. Umas poucas citações darão ideia do forte contraste entre as duas linhas de pensamento. seria hoje uma disciplina ainda mais importante.e são muitas . em lugar de usar a sociedade para justificar outra coisa ou ajudar a resolver os pro­ blemas políticos da época. a ponto de mergulhar numa existência fantas­ magórica durante um século. pois a segunda apenas retoma a tarefa que a primeira julgava ter concluído de uma vez por todas. mas de coletivo. acreditava na possibilidade de a sociologia tor­ nar-se uma ciência apta a explicar como a sociedade é mantida. que to d as as co isas são s o c ie d a ­ des. p. As duas tradições podem ser facilmente reconciliadas.

quase o extremo oposto da noção unilinear tios evolucionistas e do Sr. mas sem a presença de um Deus. p. em suma. pre­ cisamos desdenhar os detalhes. que o liornem age. p. mas guiado peta lei da evolução. discordava de Durkheim sobre o tipo de quan­ tum que a sociologia devia contemplar. Isso explica a oposição radical de Tarde (1899. Bruno Latour Fala em sociedades celulares . uma geração mais novo que ele: Tal conceito é. Em vez de explicar tudo pela suposta supremacia da lei da evolução. sem justificar os fatos menores pelos maiores e a parte pelo todo.2000. e subir o bastante a fim de obter uma visão panorâmica do efeito geral. os projetos de Tarde (1899. posto que em escala menor.a saber. embora perdendo força. que obriga os fenômenos coletivos a repro- duzír-se e repetir-se indefinidamente numa certa ordem. ainda assim. Num certo sen­ tido. 2000. Generalizando as mónadas de Leibniz. Vejamos: 35 . o de acreditar que. penso exatamente o contrário.por que não em sociedades atômicas? Nem sequer mencionemos sociedades de estrelas. eu dou conta das seme­ lhanças coletivas do todo reunindo atos elementares minúsculos: os maio­ res pelos menores e o todo pela parte. Todas as ci­ ências parecem fadadas a se tornar ramos da sociologia. na verdade. Mais curiosamente ainda. Eis o motivo pelo qual Tarde (1899. da ordem e da lógica nos fenômenos sociais. 35) a Durkheim. Durkheim. que são por natureza irregulares. Essa maneira de ver os fenômenos está destinada a provocar na sociologia uma transform ação semelhante à ocorrida na matemática pela introdução do cálculo infinitesimal. 75) invertem o líame entre micro e macro: Numa multiplicidade de formas. 2000. para assistir ao nas­ cimento da regularidade. p. Tarde foi diretor de unia agência de esta­ tística durante muitos anos. sistemas solares. sempre acreditando em monografías e dados quantitativos. 84-85) pode ser con­ siderado um precursor da ANT: seu melhor exemplo de conexão social é sempre a história e a sociologia da ciência. um mesmo erro vem sempre à baila . que a fonte e o fundamento de toda coordenação social são um falo genérico a partir do qual ela se desdobra em fatos particulares.

fórmula. Tudo aqui se origina do individual. parece evidente que a ciência foi construí­ da dessa maneira. como erroneamente fazem muitas pessoas. e não é menos verdade que a elaboração de todo dogma. débil e brujuleante. aquilo que elas mais têm em comum e que as torna mais típicas. mas tam­ bém o desenho do lodo e até os traços menores. Existir é diferir. jamais começando da identidade. Pre­ cisamos começar dessa diferença e nos abster de tentar explicá-la. indo cada vez mais longe.. o obscuro mistério de um ser simples se dividindo sem motivo. mas inovações. um tipo de diferença. aliás muito raro. p. a princípio com alcance muito limitado e sem deixar de encontrar obstáculos. passou a emitir seus raios. Por isso. por­ quanto a obscuridade de suas origens e a lentidão de suas transformações impedem que as acompanhemos na maior parte de seu percurso. inclusive o que está agora difundido pelas mentes cultas e é ensinado nas escolas primárias. na origem. Reagregando a social No que tange à estrutura da ciência» talvez o mais imponente dos edifícios humanos. ou antes. começou como segredo de uma mente única. Fator de grande importância para a ANT é que Tarde (1895. para depois. não é bastante provável que elas tenham evoluído da mesma forma? As entidades com que Tarde (1895. Caso ainda reste alguma dúvida com respeito á linguagem e à ética. 1999. a partir da qual uma peque­ na chama. lioje. doutrina política surgida em algum canto de um cérebro. quanta de mudanças dotadas de vida própria.. Com efeito. do mesmo modo que o repouso é um tipo de movimento.1999. 73) não indu/. a ciência social a romper com a filosofia ou mesmo com a metafísica. 36 . governo ou regime econômico seguiu os mesmos passos. sonhos como o de conquista do mundo de Alexandre - procura se multiplicar em milhares e milhões de cópias onde quer que existam seres humanos e só parará quando delida por uma produção rival tão ambiciosa quanto ela. não há talvez o que discutir. tornando-se mais e mais brilhante. 96) trabalha não são pes­ soas. Ele loi erguido à pienaiuz da histó­ ria e podemos acompanhar sua evolução praticamente do início até os dias de hoje. fulgir enfim numa iluminação feérica. a identidade é um mínimo e. uma singularidade altamente improvável. não só os materiais. em certo sentido. toda produção social com certas características marcantes pro­ duto industrial. Começar de alguma identidade primordial implica. como tal. é o lado substancial das coi­ sas. e o círculo um tipo de elipse. código jurídico. a diferença. verso. Ilido. p.

limi­ tar o tipo de seres existentes no mundo social. por motivos não mais justificáveis: Como dispor as muitas controvérsias sobre associações sem restrin­ gir. eu diria que a ANT procurou tornar o mundo social o mais achatado possível para garantir a total visibilidade de qualquer vínculo novo. 37 . o social a um dominio específico? Como tornar plenamente rastreáveis os instrumentos que permitem aos atores estabilizar essas controvérsias? Por meio de quais procedimentos é possível reagregar o social não numa sociedade. Na segunda parte. Por fim. mas num coletivo? Na primeira parte. mas só depois de abandonarmos o recurso da sociedade e da “explicação social”. não por acreditar mais em dados qualitativos. concluirei revelando por que a tarefa de reagregar o coletivo se justifica plenamente. de antemão. mostrarei como rastrear conexões sociais acompanhando o trabalho feito para estabilizar as controvérsias suscitadas na primeira. onde este autor designa a fusão île todas as “ciências de gabinete" na al te de governar. Se é certo que as visões de sociedade sugeridas pelos sociólogos do social eram. Bruno Latour Este livro sobre a maneira de usar a ANT para reunir conexões so­ ciais foi organizado em três partes correspondentes aos três deveres que a sociologia do social assumiu. nesle livro. Ver Frédéric Audren (no prelo). As ciências sociais ficaram excessivamente tímidas quanto a revelar a vasta complexidade das associa­ ções com que se depararam. de Emmanuel Joseph Sieyès (1748- 1836). unia maneira de garantir a paz civil durante o primado do modernismo. sobretudo. a questão da sociologia quantitativa. Les juristes et les sociologues. 16 A primeira instância das expressões “sociologia” e “ciências sociais” enconlra-se no famoso panfleto Qu'esl-ce que le Tiers-État?. mostrarei por que não devemos. por assim dizer.15 Argumentarei que é possível alimentar. uma preparação necessária antes de explorar novos territórios.16 que tipo de vida coletiva e que espécie de conhecimen- 15 Deixei de lado. Tomando uma metáfora da cartografia.sem dúvida. de início. as controvérsias e aprender como nos tornarmos bons relati­ vistas . mas porque a própria definição de qual quantum adotar está em jogo nas diferentes definições do vetor social que pretendo seguir aqui.

o livro permanecerá inteiramente opaco. relegado a uma mochila. É endereçado a praticantes como um manual que os ajuda­ rá a encontrar o caminho depois que se perderam nas vizinhanças.o mundo social a que estamos acos­ tumados . Em suma. temo eu. pior ain­ da. Se estudiosos conspicuos não acharem dignificante comparar os prolegómenos de uma ciência a um guia de viagem. dá sugestões em vez de se impor ao leitor. pois os vínculos sociais a traçar nunca poderão ser confundidos com os que eles foram ins­ truídos a seguir. 38 . Reugfeganda o social to deverão reunir os sociólogos de associações quando o modernismo for posto em dúvida e a tarefa de descobrir modos de coabitação se tornar mais importante que nunca? De certo modo. besuntado de manteiga e café. privado de algumas páginas que vão acender o fogo da churrasqueira. tenham a bondade de recordar que “aonde ir" e “o que vale a pena ver ali” nada mais são que um modo de dizer com simplicidade. Isso posto. Para outros. Um guia de viagem pode ser lido ou esquecido. o livro não é um álbum cheio de belas paisagens oferecidas ao visitante preguiçoso demais para sair a passeio. rabiscado. “metodologia” A vantagem do guia de viagem sobre um “discurso do método” é que ele não pode ser confundido com o território ao qual está meramente sobreposto.e completamente exótico: precisamos aprender como ir mais devagar a cada passo. este livro lembra um guia de viagem por um terreno ao mesmo tempo inteiramente banal . o que pomposamente se entendia em grego pela palavra "método” ou. em nossa 1íngua.

Partei COMO DESDOBRAR CONTROVÉRSIAS SOBRE O M UNDO SOCIAL .

e no entanto incrivelmente instável. ao mesmo tempo. distintas. mundano. Argumen­ tarei.” “Essa intrigante mistura de resistência obstinada e complexidade perversa parece inteiramente aberta a indaga­ ções. Introdução à P arte I COMO SE ALIMENTAR DE CONTROVÉRSIAS A semelhança de todas as ciencias. uma distância cada vez maior entre o que provoca esses choques sucessivos e as soluções encontradas para explicá-los.” Seria difícil encontrar um cien­ tista social que não se sinta atordoado com uma ou outra dessas afirmações pert miradoras. então. como se transformam com tamanha rapidez?” “Somos levados a fazer coisas por intermédio de outras agências sobre as quais não exercemos nenhum con­ trole e que parecem absolutamente óbvias. algo mais sólido que o aço. A comoção pode ser registrada de várias maneiras. mas de uma sutileza desconcertante que desencadeia a tentativa apaixonada de domar a fera do social. mas. invisível. contudo. que embora a compreensão da sociologia seja correta. na Parte I. a sociologia começa pela perple­ xidade. mas.” “Pesa sobre nós. mas é sempre a presença paradoxal de algo ao mesmo tempo invisível e tangível. as 41 .” “Há forças estranhamente similares às estudadas pelos cientistas naturais. costumeiras. Tais enigmas não constituirão a fonte de nossa libido seien­ d e O que nos leva a devotar tanta energia à sua decifração? Há. desafia a toda investigação. “Vivemos em grupos que parecem firmemente estabelecidos. aceito mas surpreendente. porém.

métodos e domínios já considerados membros da esfera social. as cinco incertezas devem ser empilhadas umas sobre as outras e cada uma delas torna a anterior ainda mais intrigante até que algum sentido comum seja alcançado . Fiel aos princípios relativistas. Reagregundo a social soluções sugeridas por uma definição restrita do social adulteraram. o social precisa ser reagregado.1718 17 Preferi “incertezas" . primeiro. Acho possível trabalhar com as principais intuições das ciências sociais examinando cinco grandes incertezas:'7 • a natureza dos grupos: há várias fôrmas contraditórias de se atri­ buir identidade aos atores. como muitos manuais de sociologia. tudo quanto era produtivo e científico nelas. • finalmente. A maioria dos usuários da ANT até agora não teve muita paciência para esperar e eu não posso culpá-los por isso.mas só no final. e os atores sabem o que o observador ignora. • a natureza dos objetos: o tipo de agências que participam das inte­ rações permanece. de várias maneiras. o tipo de estudos realizados sob o rótulo de ciência do social. Tor isso. 129. organizei a primeira parte da obra por tipos de controvérsias em torno do que compõe esse universo. faria mais sentido 1er primeiro o Capítulo 4 p. 42 . O que tornou a ANT tão implausívei foi que.e devorar depois as outras fontes de incerteza uma por uma. ao que tudo indica. toda uma variedade de agentes parece imiscuir-se e deslocar os objetivos originais. pois nunca fica claro em que sentido exato se pode dizer que as ciências sociais são empíricas. em uma lista de atores. • a natureza dos fatos: os vínculos das ciências naturais com o res­ tante da sociedade parecem ser constantemente fonte de controvérsias. Conforme veremos. aberto. Por isso ten­ ciono reexaminar e dissecar cada uma dessas questões para renovar nossa definição do que é uma associação.porque não é possível decidir se esta está no observador ou no fenômeno observado. 18 Para os leitores interessados em estudos sobre ciência.mima alusão velada ao "principio de incerteza” . • a natureza das ações: em cada curso de ação. ao invés de dividir o domínio do so­ cial. o analista nunca sabe o que os atores ignoram.

Mas já é tempo de olhar com mais cuidado o tipo de agregados até agora reunidos e os modos como eles se conectam uns com outros. para os pacientes. antigas relações sociais foram apresentadas de modo a parecer que fornecem uma expli­ cação pronta para muitos assuntos intrigantes. das organizações de pacientes. 19 Uma leitora. Considerando os “movimentos sociais” tradicio­ nais. p. por outro lado. nos bastidores. ver por toda parte. há tanta diferença nos dois empregos da palavra “so­ cial” quanto entre aprender a dirigir por uma rodovia já existente e ex­ plorar pela primeira vez o território acidentado em que uma estrada foi planejada contra o desejo de muitas comunidades locais. Para nós. algumas forças ocultas que m ani­ pulam os cordéis. Activism and the Politics of Knowledge. Bruna ÍMttnir O leitor descobrirá aqui uma série de instruções complicadas para tornar o deslocamento mais árduo e penoso. apresentou á guisa de objeção o modo como os doentes de AIDS se mobilizam em grupo. com efeito. o ativismo da AIDS e. Le Pouvoir des Malades. ainda mais exemplos de tipos bem conhecidos e revelar. temos de viajar por outras plagas. Aids. constitui exatamenle o tipo de inovação que exige definições novas do social. Michel Gallon e Vololona Rabeharisoa (1999). nos casos à mão. “fa­ tor social” e “explicação social” a urna súbita aceleração na descrição. Impure Science. Não que estejam errados. E o motivo é que pretendo romper com o hábito de ligar as noções de “sociedade”. “estrutura” e “contexto”. dão em geral um salto adiante para conectar um vasto conjunto de vida e história. munidos de um instrumental bem diferente. Ver Steven Epstein (1996). fazer política cam retrovirus. m obilizar forças gigan­ tescas. perguntando de que modo nossa teoria do social pode se reconciliar com a sociologia “ortodoxa". 205. Quando os sociólogos do social pronunciam as palavras “sociedade”. Conforme veremos. isto porque ela esqueceu completamente quão profun­ damente inovador foi. “poder”. de um modo mais geral.19 Não resta dú- Os já familiarizados com a ANT adiarão mais fácil começar pelo interlúdio. e 43 . pareceu-lhe que as organizações de pacientes se enquadravam nas definições “convencionais* do social. detectar padrões dramáticos a partir de interações confusas. Quando desejamos descobrir os novos e inesperados atores que sur­ giram há pouco e ainda não são membros bona fid e da "sociedade”.

É por isso que para recuperar certo senso de ordem. aos quais acrescentaram depois uma possível justificação Verde. Doméstico. enquadrá-los em nossas categorias.-0 A busca de ordem. A tarefa de definir e ordenar o social deve ser deixada aos próprios atores. Embora esses principios fossem incompatíveis. para que os atores possam desdobrar seus próprios e diversos cosmos. mas a seis princípios completos de justificação (as Cités ou Ordens de Valor: Mercado. por pequenos atalhos. rigor e padrão não é de modo algum abandonada. Rcágreganda a social vida de que a ANT prefere viajar sem pressa. Nessa obra de fôlego. a pé e pagando do próprio bolso o custo do deslocamento. a melhor solução é rastrear conexões entre as próprias controvérsias e não tentar decidir como resolvê-las. Por razões que só mais tarde ficarão claras. 44 . Industrial. envolvidos em polêmicas nas quais precisam justificar suas posições.2021 É esse nível mais alto de abstração na teoria social que torna di- Nicolas Dodier (2003). pouco importa quão irracionais pareçam. não ao analista. É esse magnífico exemplo do poder da relatividade que procuro imitar aqui. apenas reposicionada um passo à frente sob a forma de abstração. os sociólogos. 21 Somente na Parte II trataremos do problema da estabilização de controvérsias. 20 Um exemplo fascinante da riqueza dessa abordagem está no livro de Boltanski e 'Ihévenot. dando um passo rumo à abstração. l eçons Politiques de ¡'Epidemie de Sida. po­ dem recorrer não a um. os sociólogos do social não conseguiram manter os dois movimentos separados. a ANT se con­ sidera mais capaz de vislumbrar ordem depois de deixar os atores desdo­ brarem o leque inteiro de controvérsias nas quais se meteram. em lugar de assumir uma postura sensata e impor de antemão um pouco de ordem. Ver Claudette Lafayee Laurent Ihévenot (1993). deixaremos que se atenham a seus próprios mundos e só então pediremos sua explicação sobre o modo como os estabelece­ ram”. Une justification écologique? Con flits dans l'aménagement de la nature. On Justification. Opinião). O motivo dessa mudança de ritmo é que. inspirado. Cívico. É como se disséssemos aos atores: "Não vamos tentar disciplinar vocês. os autores mostram ser possível encontrar uma ordem bem mais sólida quando se aceita que cidadãos franceses comuns. Esses livros mostram quão rapidamente as pessoas esquecem as novas associações e as incluem em sua definição “convencional” de sociedade. puderam ainda assim torná-los comparáveis.

A sociedade não é mais “apro­ ximadamente” feita de “indivíduos”. Também nós devemos achar nosso terreno firme: sobre 45 . Bruno LtiUtur fícil apreender a ANT num primeiro momento. a ANT alega que encontraremos uma maneira bem mais científica de construir o mundo social. Não há nada de espantoso nisso. Poderia se es­ forçar para dar aos diversos relatórios enviados pelos exploradores um formato geométrico . em “terreno mais firme”? Similarmente. após constatar a tremenda mixórdia criada por esses registros. com a maior paciência. por assim dizer. usará esse esquema vazio para. a ANT sustenta ser possível rastrear relações mais sólidas e descobrir padrões mais reveladores quando se encontra um meio de registrar os vínculos entre quadros de referência instáveis e mutáveis. nenhum dos quais se adapta perfeita mente a formas predeterminadas. desenhando-a na forma tortuosa que a história geológica lhe imprimiu. pois toda disciplina científica é um lento treinamento para se perceber o tipo certo de relativismo a ser aplicado aos dados disponíveis. “culturas” ou “Estados-nações” do que a África é “aproximadamente” um círculo. Por que somente a sociologia estaria proibida de inventar seu próprio cam inho e obrigada a ater-se ao óbvio? Agora que os geólogos aceitaram a noção de platafor­ mas continentais rígidas e frias flutuando livremente sobre o leito quente e pastoso. Contudo. a França um hexágono e a Cornualha um triângulo. Depois. os cabos devem ser triângulos e os continentes devem ser quadrados. ele acatará com gosto qualquer proposição que substitua a busca de rigor geométrico por uma grade cartesiana totalmente abstrata. esboçar a própria costa. os geólogos não se encontram. em vez de tentar estabilizar um deles. caso nos abstenhamos de interromper o fluxo de controvérsias. Mas. De igual modo. que se projeta das profundas fendas oceânicas. Embora possa pa­ recer tolo registrar todos os pontos relatados simplesmente por latitude e longitude. semelhante mudança lembra o que um cartógrafo faz quando procura registrar a forma de uma costa estrangeira num pedaço de papel.as baías devem ser círculos. mais tolo ainda seria insistir em que sejam conservados ape­ nas os dados enquadráveis num formato geométrico predeterminado.

não de mergulhar neles.p. mas também com múltiplas grades de projeção em que cada ponto exigisse suas próprias coordenadas ad hoc. e a de­ finição de “um mundo”. é como se ele tivesse de lidar não apenas com múltiplos relatos de exploradores. como fizeram os físicos. A segunda solução relativista enfrenta situações conturbadas. Ao contrário do que se costuma dizer. comparado àquilo que teremos que renunciar se quisermos deixar os atores livres para desdobrar a plena incomensurabili- dade de suas próprias ações com as quais os mundos são feitos. é possível se decidir por restringir o leque de controvérsias ou levar em conta todas elas. nela implícita. parece em retrospecto um caso muito simples. Voltando ao exemplo do cartógrafo. Essa expressão é. Ways o f World Making). frias. metáforas tomadas de empréstimo à cartografia ou à fí­ sica deixam de funcionar muito rapidamente quando o leque de incertezas a ser assumido pelos sociólogos de associação começa a se desdobrar. Rèagrcgandû o súchil areias movediças. mas pode limitar a sociologia a situações ro­ tineiras. pacíficas. Em algumas situações extremas. o relativismo é um modo de flutuar nos dados. A primeira solução pré-relativista funciona bem. não importa quão profundamente pareçam estar enraizadas no senso comum. pois. e sim aquilo que permite ao social estabelecer-se e às várias ciências sociais contribuírem para sua construção. 351. além de quaisquer outras categorias filosóficas e antropológicas. os atores parecem ter uma capacidade impres­ sionante de discordar de tudo o que os sociólogos supostamente tomam como dado a fim de iniciar seu trabalho. bem depois.p. o que significa compor “um inundo comum” . 130 . Tentar harmonizar as duas posições seria absurdo porque as controvérsias não são um mero aborrecimento a evitar.e. 46 . Entretanto. não fosse pela concepção de “fazer”. mas então temos de permitir que as con­ trovérsias se desdobrem inteiramente. Abandonar o quadro de referên­ cia fixo oferecido pelo éter. provisória ate podermos redefinir o construlivismo . psique. Muitas das dificuldades no de- 22 "Fazedoras de mundos” seria uma boa expressão (ver Nelson Goodman [1988]. tempo e espaço. quentes e radicais. estrutura.22 Estejamos preparados para esquecer função. Frente a tamanha balbúrdia.

enquanto o estudioso da ANT tem de arrastar-se como uma formiga. suspensos e desviados pelos cinco tipos de incerteza. em suas viagens. às ocultas. será penosamente lenta. 47 . No mundo que a ANT tenta per­ correr. meu conselho é levar a menor mala possível. No final do livro. Os movimentos serão a todo instante interrompidos. transportando poder e conexões quase ¡materialmente. A viagem com a ANT. nenhum deslocamento parece possível sem traslados caros e cansa­ tivos. procuraremos resumir o que distingue um bom de um mau trabalho com a ANT . os leitores terão de sobreviver com uma estranha dieta: irão se alimentar de controvérsias sobre a constituição do social. não esquecer de comprar a passagem e estar preparado para os atrasos. Tal é a posição extrema que procurarei sustentar a todo custo. Bruno Latour senvolvimento dessas disciplinas provieram da recusa a teorizar suficien­ temente e da equivocada tentativa de apegar-se ao senso comum mesclada a um anseio inoportuno por relevância política.um teste crucial de qualidade . lamento dizer. Os sociólogos do social parecem pairar como anjos. com uma “ordem social” já existente? Enquanto isso. embaraçados. carregando seu pesado equipamen­ to para estabelecer até o mais insignificante dos vínculos.fazendo três perguntas: todas as dificuldades da viagem foram identificadas? O custo total da jornada de uma conexão a outra foi devidamente pago? O viajante não trapaceou pe­ gando carona. O problema é que.

mas. um o redator deixa um traço de que um grupo está sendo feito ou desfeito. é como uma chuva. o melhor é começar em meio às coisas. temos aí um ponto de partida tão bom quanto qualquer outro. motivo pelo qual este país não partilha a violenta eurofobia dos ingleses. os diversos ramos da firma ainda não estejam plenamente integrados. Pergunta-se como “promover uma cultura empresarial comum”. Na seção de cartas. PRIMEIRA FONTE DE INCERTEZA: NÃO HÁ GRUPOS. Lá está o executivo-chefe de uma grande empresa lamentando que. uma epidemia. uma inundação. uma peste. um escocês lembra aos leitores a “Gloriosa Aliança” en­ tre a França e Maria. um antropó­ logo explica que não existe nenhuma diferença “étnica” entre hutus e tut­ sis em Ruanda. Na seção Música. Um correspondente da França tenta explicar por que as garotas argelinas de segunda geração vão à esco­ la com o véu islâmico e são vistas por seus professores como "fanáticas” que “se excluem” da República Francesa. Na seção Europa. in m edias res. Algumas linhas abaixo. 49 . Que tal a leitura de uni jornal? Sem dúvida. aprendemos que funcionários da UE estão cada vez mais pensando “como europeus” e já não se mostram tão “leais às suas nacionalidades”. Quando o abrimos. A cada duas linhas. de fato. rainha da Escócia. uma “diferença de classe” instrumentalizada pelos colonizadores e depois “naturalizada” como diferença “cultural”. APENAS FORMAÇÃO DE GRUPOS Por onde começarmos? Como sempre. após cinco anos de fusão.

“genes egoístas”. sobreviverá como nação e não se fragmentará de acordo com as velhas linhas divisórias de religião e “zonas de influência” históricas. o principal postu­ lado da sociologia seria que. Relacionar-se com um ou outro grupo é um processo sem fim constituído por laços incertos. No entanto. controvertidos e mutáveis. impessoais ou destituídas de sentido. enquan­ to criticam outras como artificiais. transitórias. parece que a questão mais importante e mais urgente consiste em descobrir com qual grupo é preferível iniciar uma pesquisa social. fantasio­ sas. Devemos enfatizar o nível micro das interações ou consideraremos mais importante o nível macro? Não seria melhor ver nos mercados. a qualquer momento. empresas ou redes os ingre­ dientes essenciais de nossa vida coletiva? Ainda que a nossa experiência mais comum do mundo social é de sermos. “classes”. Outra coluna ironiza a acusação de que os críticos da guerra no Iraque são “antiamericanos”. Embora seja óbvio que somos recrutados para participar de 50 . alvo de diversos apelos possíveis e contraditórios de reagrupa mento. imaginárias. “formas de vida”. Mais adiante. abstratas. comprovadas ou estabelecidas. um colunista prediz que o Iraque. “organizações”. os atores podem ser enquadrados num grupo .às vezes. parece que a decisão mais importante a tomar. quando lemos os teóricos sociais. embora suas fronteiras sejam muito recentes. sólidas. uns acusando os outros de “modernistas”. em mais de um. E por aí vai. simultaneamente. o redator zomba do apego dos usuários de Macintosh às suas máquinas ridiculamente marginais e aventa uma “interpretação cultural” para aquilo que chama de uma for­ ma de “tecnofanatismo”. Na seção Computadores. “trajetórias de vida”. antes de nos tornarmos cientistas sociais. Devemos considerar os agregados sociais como reali­ dades constituídas por “indivíduos". “papéis”. Rutigrcfiundo o sodul unía disputa feroz divide conjuntos barrocos segundo o estilo adotado por cada um. “inimigos da tradi­ ção” e “acadêmicos”. “campos discursivos”. é reconhecer quais ingredientes já existem na sociedade. frágeis. “redes sociais”? Esses teóricos nunca se cansam de designar certas entidades como reais. Não é curioso? Se apenas seguíssemos as pistas dos jornais.

relatórios. ou adotamos os procedimentos dos atores e saímos pelo mundo rastreando as pistas deixadas pelas atividades deles na formação e desmantelamento de grupos. “lá fora”. Portanto. A primeira fonte de incerteza com a qual devemos aprender é que não há grupo relevante ao qual possa ser atribuído o poder de compor 51 . é como se esse inevitável circuito reflexivo impedisse a socio­ logia de se tornar uma ciência. mas os sociólogos do social consideram que a principal característica desse mundo consiste em reconhecer. demonstrações. Bruno Latour um grupo por uma série de intervenções que dão visibilidade àqueles que argumentam em favor da relevância de um agrupamento e da irrelevância de outros. enquanto cientistas sociais. economistas. tudo acontece como se os cientistas sociais tivessem de postular a existência. para as teorias so­ ciais ainda é como se a existência de atores relevantes não dependesse em nada dessa quantidade enorme de trabalho executado pelos profissionais. historiadores. pior ainda. insignificantes ou artificiais.atividade para a qual os cientistas sociais. Mas quem saberia invocar o “inconsciente” sem Freud? Quem denunciaria a “alienação” sem Marx? Quem se considera­ ria de “classe média alta” sem a estatistica social? Quem se senti ria "europeu” sem os editoriais da imprensa liberal? Resumindo: enquanto para os sociólogos. ou. ensina-nos que existem inúmeras formações de grupo e alistamentos em grupo contraditórios . a escolha é clara: ou seguimos os teóricos sociais e iniciamos a jornada determinando de início que tipo de grupo e nível de análise iremos enfatizar. Fato ainda mais estranho. a existência inquestio­ nável das fronteiras. contribuem de maneira decisiva. nossa experiência mais co­ mum. aulas. Bem sabemos que a primeira característica do mundo social é o constante empenho de algumas pessoas em desenhar fron­ teiras que as separem de outras. psicólogos e cientistas políticos se ocupam de suas colunas de jornal. se lhe formos fiéis. o primeiro problema pa­ rece ser determinar um grupo privilegiado. pesquisas. inquestionavelmente. independen­ temente de quem as traça e com quais ferramentas. de um tipo real e de outros conjuntos falsos. obsoletos. comis­ sões e estatísticas para melhor definir e redefinir grupos.

mas ainda vista como provocação nas ciencias sociais. Studies in Etlmomethodology.3' Muita pesquisa sociológica começou de­ terminando um ou mais tipos de agrupamentos. em vez de controvérsias. Preferi um vocabu­ lário mais geral. 52 . à Microsoft e á minha família.inicialmente. Ver Harold Garfinkel (1967). Hm ambos os casos. o tipo de defesa com que os sociólogos de associações desejam começar. “agrupamento” e “ator” não têm sentido. físicos e naturalistas. Estão sempre prontos a produzir termos precisos. incluindo. Esse é um ponto importante do vocabulário da ANT com o qual devo familiarizar o leitor desde já. como muitas vezes se argumenta. O vocábulo “grupo” é tão vazio que não explicita nem o tamanho nem o conteúdo. Foi por isso que o escolhi. Mas esse não é de forma alguma o tipo de determinação. a questão é a mesma: não cabe ao sociólogo decidir a n te s -e e m lugar . Bem ao contrário: seu ponto de partida tem de ser justamente as controvérsias acerca do agrupamento a que alguém pertence. conveniência ou racionalidade .a lista de agrupamentos que compõem o social. Se alguém me dissesse que palavras como “grupo”. ou apelando para a idéia sagaz de “quebra”.do membro aquilo de que o mundo é feito . bem escolhidos e sofisticados para ex-23 23 Os etnométodos de Garfinkel escolheríam os mesmos pontos de partida.ideia corrente entre químicos. a plantas e a babuínos. é claro. o tipo de obrigação. quer seja por uma questão de clare­ za. para que de não confunda a linguagem do presente livro pelo território que iremos percorrer. eu respondería: “Não têm mesmo”. com eçan­ do com relatos rotineiros. as dos cientistas sociais em torno da composição do mundo social. Os soció­ logos do social quase sempre fazem exatamente o contrário. se desculpando profusa­ mente antes por essa limitação um tanto arbitrária . Po­ dería ser aplicado a um planeta ou a um individuo.imposta. O dever deles não é estabilizar . mais banal e mesmo mais vulgar. pois assim não há risco de confundi-lo com o idioma tão prolífico dos próprios atores. que transforma até encontros pacíficos em controvérsias. pela “necessidade de restringir o alcance da investiga­ ção” ou pelo “direito que tem o cientista de definir seu objeto”. RtiHgttgiindo a social agregados sociais. e não há componente estabelecido a ser utilizado como ponto de partida incontroverso.

pois também os atores possuem sua própria metalinguagem elaborada e plenamente reflexiva. A ANT não afirma que um dia saberemos se a sociedade é “real­ mente” feita de pequenos agentes individuais calculistas ou de portentosos macroatores. há o perigo ainda maior de calarem por completo os atores. menos ou tão interessante quanto as expressões e atitudes dos atores? Se é fácil para você passar por estas provas. essa é a melhor maneira de fazer com que o vocabulário dos atores seja ouvido em alto e bom som . A ANT sustenta apenas que. então a ANT não lhe diz respeito.. Se praticam a sociologia crítica. a pessoa pode escolher seu candidato favorito ao acaso. Mas então correm o ris­ co de confundir as duas metalinguagens . Ao contrário. mas difícil: o texto que comenta diversas citações e documentos é mais. isto é.e isso representaria um bom indicador de qualidade . perguntaria: os conceitos dos atores figurariam como mais fortes que o do analista? Ou o próprio analista monopolizaria o discurso? No que toca aos relatos escritos. como vale tudo. eles exigem um julgamento preciso. científica. ele sim. nem afirma que. de que essas controvérsias proporcionam ao analista os recursos necessários piara rastrear as conexões sociais. A ANT prefere usar o que chamaríamos de infralinguagem. chega à conclusão relativista. algo que não possui outro sentido além de permitir o deslocamento de um qua­ dro de referência a outro. U m a LISTA DE TRAÇOS DEIXADOS PELA FORMAÇÃO DE GRUPOS Não há motivo para se chegar à conclusão de que devemos desespe­ rar da ciência social por causa das muitas disputas entre os teóricos sociais e entre os próprios atores sobre o que seria o componente básico da so­ ciedade. desprezado. Se eu tivesse fazer uma lista das características que deve ter uma boa descrição ANT .e em nada me aborrece o fato do jargão dos cientistas sociais estar sendo. uma vez acostumados a esses muitos quadros de referência 53 . Em minha experiência. örunoLatour priniir aquilo que eles dizem que os atores dizem.

. es­ truturas. porquanto a conexão relativista entre quadros de referência permite um julgamento mais objetivo que as posições absolutas (ou seja. Essa segunda lista é sem dúvida mais abstrata. Reagravando o social mutáveis.pela de elementos sempre presentes em controvérsias a respeito de grupos . portanto. à primeira vista. se é visível.24 é muito mais simples aceitar 24 Uni dos motivos dessa perpétua incerteza sobre o ponto de partida . não considera sua função estabilizar o social em nome das pessoas que estuda: este é o dever dos “próprios atores”. pois envolve o trabalho necessário para delinear qualquer agrupamento. pura e simplesmente. Embora. ocorre exatamente o contrário e por boas razões em­ píricas. “membros”. Eis o motivo pelo qual é tão importante não começar por pronunciamentos do tipo: “Os agregados sociais são consti­ tuídos principalmente de (x)” Não faz diferença se (x) representa “agente individual”. não gera nenhuma informação. após cento e cinquenta anos.deve-se à crença de que a sociedade é classificada 54 . “campos” ou seja lá o que for. porém. “raças”. os sociólogos ainda não sabem com clareza o que vem a ser um agregado social “correto”. passível de ser rastreado. As formações de grupos deixam muito mais traços em sua esteira do que as conexões já estabelecidas. ao mesmo tempo. arbitrários) sugeridas pelo senso comum.indivíduo. “pequenos bandos”. o mecanismo de fabricação responsável por mantê-lo vivo se torna visível e. chegaremos a uma boa compreensão de como o social é gerado. por definição. “pes­ soas”.tarefa bem mais simples. está se fazendo e gerará dados novos e interessantes. campos. então é invisível e nada se pode dizer a seu respeito. Se. Se um dado conjunto aí está pura e simplesmen­ te. O conjunto não deixa rastros e. trajetórias etc. “libido”. em vez de mapear as controvérsias em torno da formação de grupos. porque toda vez que um novo agrupamento é mencionado. A solução é substituir a lista de agrupamentos compostos de agregados sociais . “organizações".tarefa impossível . gera muito mais dados. A ANT. “Estados”. possa parecer mais fácil para os sociólo­ gos estabelecer um grupo. as quais. “biografias”. “força de vontade”. devem perma­ necer mudas e invisíveis. portanto. um clichê satanizado que logo examinaremos.

operários. Para estudos empíricos recentes sobre a perspectiva da ANT. e Michel Callón (1998b). 253. adiua- res na Amazônia. e profissionais com sua parafernália altamente especializada são mobilizados. Se você ainda acredita que25 conforme o tamanho. como fica claro pelo exemplo dos jornais. todos necessi­ tam de pessoas definindo quem são. cossovares na ex-Sérvia. para delinear um grupo. Les formules du marché. contadores. é Vincent Lépinay (2003). cajado. antiglobalistas. antigrupos são mapeados.inclusi­ ve.ver p. 25 Gabriel Tarde (1902). bem como as áreas de antropología e economia. mas veja também Albert O. Es­ tão sempre em ação. papelada para obter subsídios da UE. pasta com todos os certificados de vacinação. as disputas acadêmicas . Hii'shmann. Os grupos não são coisas silenciosas. conspirações etc.e. Pense-se na massa de falas e escritos acu­ mulada para delinear este conjunto extraordinário: o Homo oecortomicusd3 Não existe grupo sem oficial de recrutamento. 55 . é claro.com seu cão. The Laws of the Markets. ver Fabian Mimiesa (2004). novos recursos são procurados para consolidar-lhes as fronteiras. Ærciiio Latour que em qualquer controvérsia a respeito da formação de grupos . “chevaliers du tastevin " em minha Borgonha natal. Des marches comme algorithmes: sociologie de la cotation électronique à la Bourse de Paris. egos. justificando a existência do grupo. o que devenant ser e o que foram. Primeiro. cumpre dispor de “porta-vozes” que “falem pela” existência do grupo . Etlmo-Éconontie d ’une innovation financière: les produits à capital garanti. forças de mercado. The Great Transformation. invocando regras e precedentes . sociólogos da ciência.alguns itens sempre estarão presentes: se faz com que os grupos falem. Psychologie Économique. Tue Passions and the Interests. quer seja necessário criá-lo do nada ou simplesmente restaurá-lo. A principal obra ainda é Karl Po lanyi (1944). A origem de semelhante equívoco e os modos de evitá-lo só serão tratados na segunda parte do livro .e eles às vezes são bastante tagarelas. como veremos. Mas não importa o exemplo que se tome. sejam feministas que possuem cães na Califórnia.. trotskystas. ele Pequeno a XXL. mas o produto provisório de um rumor constante feito por milhões de vozes contraditórias sobre o que vem a ser um grupo e quem pertence a ele. Não há rebanho de ovelhas sem seu pastor . opondo uma definição às demais.

mas também a tarefa constante dos próprios atores. Ver o famoso caso de incerte­ za de filiação de gênero de Agnes e sua crítica em Norman K. obsoletos etc. perigosos. Quantas incontáveis recriminações de pais. É pela comparação com outros vínculos concorrentes que se enfatiza um vínculo. Assim. até aprendermos que melhor seria. a ANT não encontra nenhum sem um longo séquito de formadores de grupos. e os sociólogos aprendem deles o que com­ põe seu conjunto de associações. cônjuges e colegas. aparece logo uma lista de antigrupos. profes­ sores. Para eles.27 Por isso é tão importante não definir de antemão que tipo de agregados sociais poderla fornecer o contexto para todos esses mapas. procure lembrar-se de quanto trabalho foi necessário para que você pudesse “tomar as rédeas de sua própria vida”. Embora possa parecer óbvio. lieagrcgiuuio o social grupos como o “indivíduo” existem “por si mesmos”. Isso é muito vantajoso para quem observa. porta- -vozes de grupos e defensores de grupos. ter nosso próprio grupo (o ego)? Mas quáo depressa esquecemos essa lição!26 Embora os grupos pareçam já plenamente1equipados. os atores não captam o quadro inteiro e permanecem como meros “informantes”. arcaicos. 27 Ninguém desenvolveu tanto o tema quanto Garfinkel. sempre que algum trabalho é necessário para traçar ou retraçar as fronteiras de um grupo. Estes fazem sociologia para os sociólogos. semelhante resultado na verdade se opõe à sabedoria básica dos sociólogos críticos. Denzin (1990). Segundo. tal­ vez. ver Gabriel farde ( 1901 [1989]). pois significa que os atores estão sempre mapeando o “contexto social” em que estão inseridos e oferecendo ao analista um arcabouço teórico completo do tipo de sociologia com que pretendem ser estudados. para cada grupo a ser definido. L'Opinion et la Fou­ le. Harold and Agnes: a feminist narrative undoing. 56 . e farde. É por 26 Um grande feito da interpsicologia de farde foi relacionar o grau de influência com o aumento da individualizado. O delineamento de grupos é não apenas uma das ocupações dos cientistas sociais. outros agrupamentos são classificados de vazios. patrões. On Communication and Social Influence.

Ou então associá-las a 2& "Reflexividade" é um termo enganoso que tem um significado interessante quando aplicado a atores e objetos. ao fim e ao cabo. tão segura e finita. A pouca lucidez que os cientistas sociais reúnem é tomada da formação reflexiva de grupos. Pode-se apelar para a tradição ou a lei. confundi-las com costumes ou hábitos. Em geral. pois toda formação de grupo será acompanhada da busca de um amplo leque de características mobilizadas para consolidar as fronteiras desse grupo con­ tra as pressões adversas dos grupos antagônicos que ameaçam dissolvê-lo. P ragm atics o f taste. seu porta- -voz procura desesperadamente maneiras de de-fini. usam como parasitas.los. A justificativa costumeira para essa visão abrangente é: os dentistas fazem “reflexivamente” o que os infor­ mantes fazem “sem saber”. que parece o objeto de uma de­ finição não problemática. que eles. o que passa por reflexividade na maior parte das ciências sociais é a ab­ soluta irrelevância das questões suscitadas pelo analista a respeito de al­ gumas preocupações sérias dos atores. requer um limes [sulco¡ igual ao que. quando grupos são formados ou redistribuidos. Mas até isso é discutível. Podem-se inventar híbridos esquisitos. Fronteiras são de­ marcadas. Bruno Latour isso que é preciso lhes ensinar qual é o contexto “no qual” estão situados e “do qual” só percebem uma pequena parte. enquanto o cientista social. Rômulo cavou à volta da Roma nascente. mas deletério quando tomado como virtude epistemoló­ gica para proteger o sociólogo de uma quebra de objetividade. sempre um passo atrás daqueles que estuda. 57 . pairando no alto. Cada grupo. em termos de reflexividade. Pode-se até mesmo transformá-las em “compo­ sição genética”. fixadas e conservadas. Isso é muito conveniente para o analista. ou atribuir as fronteiras à “natureza”. vê “a coisa toda". como “essencialismo estratégico”. associá-las a “sangue e terra". grande ou pe­ queno. convém estabelecer como postura padrão que o pesquisador está. Terceiro. na mitologia. delineadas. Há inúmeras maneiras de tornar a definição de grupo uma coisa finita e segura.2*28 Regra geral. nessa altura de sua pesquisa. Ver Antoine I Tennion (2004). identificá-las com “tradição folclórica”.

Apenas no fim do livro reve­ laremos as consequências dessa igualdade fundamental. No fim. a colaboração de todos é necessária.. devida ao fato de os sociólogos serem também “membros sociais” e terem difi­ culdade em “romper” os laços com suas próprias “categorias sociais”. não existe sequer um grupo sem pelo menos um instrumento da ciência social a ele ligado. Isso ocorre apenas porque estão lado a lado com aqueles que estudam. emancipação. membro bon afid e do social. decair ou desaparecer. parecerão tão inquestionáveis que serão tomadas conto coisa certa e não mais produzirão nem traços. artificio. embora se tenha tornado. Para os sociólogos de associações. já é pos­ sível aprender como traçar com ela inúmeras conexões sociais. o que possibi­ litará uma descrição até certo ponto independente dos grupos materia­ lizados pelos atores. Essa é uma das diferenças essen­ ciais entre as duas escolas de pensamento. Não se trata de nenhuma “limitação inerente” à disciplina. Contudo. fazendo exatamente o mesmo trabalho e participando da mesma função de tra­ çar vínculos sociais. na primeira escola. embora com ferramentas diferentes e com diferentes vocações profissionais. fica- 58 . a sociologia deve insistir ent tornar-se uma ciência no sentido tradicional e desinteressado de um olhar dirigido ao mundo exterior. nem informações. Para agrupar o social. entre os muitos porta-vozes que possibilitam a definição durável de grupos. Por um lado. durar.no sentido da ANT . formação de grupos. as ciências sociais. a estatística social e o jornalismo social. deixando de insistir teimosamente na tarefa impossível de estabelecer de uma vez por todas qual é a unidade certa de análise que a sociologia deve enfatizar. Se. atores e estudiosos estão em barcos separados. Rengregantio o social liberdade. na segunda permanecem num só o tempo todo e desempenham o mesmo papel. No mundo desenvolvido. Não importa quão tosca e experimental minha lista pareça. ou seja. O conjunto está agora intei­ ramente fora do mundo social . nem fagulhas. Quarto. na acepção corriqueira. devemos incluir os cientistas sociais. esta é uma vantagem apenas parcial da ANT. Para os sociólogos do social. qualquer estudo de qualquer grupo por qualquer cientista integra aquilo que faz o grupo existir. moda ou história.

pois os agrupamentos precisam ser feitos ou refeitos constantemente e. Os sociólogos do social gostam de apelar para a “inércia social”.sem materiais. Não quero sugerir que os grupos são criados por um fiat ou. precisamos agora levar em conta muito mais cartografias contradi­ tórias do social do que gostaríamos . O que perdemos . The Construction of Social Reality. sem grupo A escolha. alargando assim o abismo entre questões de lato e a Ici social. de ordem linguística e metafí­ sica. mas apenas de uma definição performativa. forma­ lismo.. A fim de poupar o naturalismo. durante essa criação ou recriação. e nenhuma questão de fato pode ser definido sem categorias. 59 . como acabamos de ver. The self-vindication o f the labo ratory sciences para explicar o êxito da ciência natural. que podem ser apontados com o indicador . 160. Essa definição. pois seria totalmente impossível preservar algo como o dinheiro .seu exemplo favorito . Ver p. Uma das maneiras de realçar essa diferença é dizer que agregados sociais não são objeto de uma definição ostensiva .uma lista fixa de grupos . que teria reduzido nossa velocidade. São feitos pelos vários modos que lhes dão existência.e isso vai nos retardar ainda mais. não é entre a certeza e a confusão. Searle definiu o mundo social por sua autoconstiluição. como se existisse em algum lugar um estoque de conexões cujo capital pudesse ser 29 Nào no sentido dado à ciência social cm lohn Scarle (1995). pior ain­ da. a começar por medidas. a partir de atos de fala por meras convenções. convenção e tradução. Sem tra ba lh o .29 Vou apenas sublinhar a diferença entre grupos dotados de certa inércia e agrupamentos que preci­ sam ser mantidos o tempo todo por algum esforço de formação de grupos. con­ tudo. tlruno Latour mos livres de uma tarefa inviável.como copos.recuperamos. por outro. gatos e cadeiras. entre a arbitrariedade de uma decisão a priori e o lamaçal de diferenças sem fim. mas antes no proposto em Ian Hacking (1992). acarreta várias dificuldades delicadas. Mas unía rápida pesquisa elimina a distinção. os construtores deixam para trás inúmeros tra­ ços que podem ser usados como dados pelo informante.

Para os sociólogos de associações. ferramentas. alcance. O problema com qualquer definição osten­ siva do social é que nenhum esforço extra parece necessário para preservar a existência dos grupos. frente e fundo se invertessem. Além de tudo. Para a ANT. enquanto a influência do analista não conta para nada . Para os sociólogos do social. isso não pode ser feito sem se procurarem veículos. é qualquer tipo de estabilidade a longo prazo e em larga escala.ou é um mero fator de perturbação que deve ser minimizado a todo custo. a grande virtude do apelo á sociedade é que assim conseguem oferecer essa estabilidade duradoura numa bandeja. compromisso. daquilo que a sociologia do social parece manter em estoque. Reagregando o social erodido somente depois de muito tempo. se você parar de fazer e refazer grupos. Já a grande vantagem de uma definição performativa caminha no sentido contrário: enfatiza tanto os meios imprescindíveis para manter indefinidamente os grupos. A sociologia de associações tem de pagar o preço. Ao apontar os meios práticos necessários para delinear grupos e preservar sua existência. a exceção perturbadora. a ordem é a regra. nossa escola considera a estabilida­ de exatamente aquilo que tem de ser explicado por meios dispendiosos e cansativos. esses instrumentos não podem ser apenas “sociais”.não de chegada! . pois precisam fazer com que o agrupamento vá mais longe e subsista por mais tempo.entre as rodovias dos sociólogos do social e as delicadas trilhas das regiões que que­ 60 . a decadencia. quanto as contribuições cruciais que são dadas pelos próprios recursos do analista. adesão etc. Se. Nenhum reservatório de for­ ças fluindo de “forças sociais” irá ajudá-lo. solidez. e de graça. lealdade. numa quantidade inesgotável. a regra é a performance e aquilo que tem de ser explicado. parará de ter grupos. em notas miúdas. a mudança ou a criação são as exceções. As consequências dessa inversão são enormes. Se inércia. para os sociólogos do social. durabili­ dade. por definição. É como se. nas duas escolas. deparamo-nos com um conflito de atribuições que assinala claramente um ponto de partida . precisam ser ex­ plicados . instrumentos e materiais aptos a proporcionar estabilidade (ver a terceira e a quarta incertezas).

se um informante afirma viver “num inundo ordena­ do por Deus”. por que. Tudo depende do que se entenda por “meios”. Para ele. Uma associação com Deus não é substituível por nenhuma outra. se enfatizarmos “classes” em vez de “indivídu­ os”. essa afirmação não difere da de outro informante que se diz “dominado pelas forças de mercado”. agarrado sucessivamente pela perna. pois o mun­ do social já existe.“Deus” e “mercado” . colocando todo o seu peso no veículo que a puder carregar. os laços sociais têm de ser traçados pela circulação de diferentes veículos não intercambiáveis. a escolha do ponto de partida não é nada importante. pois ambos os termos . já que de certa forma são meios puramente arbitrários de delinear o mesmo animal gigantesco . Os sociólogos do social sempre têm à disposição um terceiro termo estável e absoluto 61 . Para a primeira escola. “trajetórias de vida” em vez de “papéis sociais” ou “redes sociais” em vez de “organizações”. Assim. pelo tronco e pela presa. por sua vez. Os primeiros pesquisadores exclamam: “Sem duvida. é absolutamente específica e não se reconcilia com as compostas por forças de mercado. designam um padrão completa­ mente diferente dos padrões tecidos por vínculos jurídicos. Por exemplo. Contudo. No entanto.tal qual ocorreu com o elefante proverbial. insuperável e in- comensurável. na segunda abordagem. “nações” em vez de “classes”. a sociedade está sempre aí. Precisam ser retraçados por meio de mudanças sutis na conexão de recursos não sociais. as quais. precisamos começar de alguma parte. para o sociólogo da ANT. todos os caminhos se encontrarão no fim. pela orelha.são meras “expressões” do mesmo mundo social. fazem uma diferença enorme. para começar. nem a sociedade nem o social existem. qualquer escolha de ponto de partida nos levará a desenhar um animal inteiramente diverso. então. aos olhos do grupo anterior. Bruno LüUmr remos mapear. tudo se passa de maneira diferente com a ANT porque. sem comparação com nenhum outro. não fazê-lo definindo a sociedade como algo com­ posto de (x)?” Os outros bradam com a mesma veemência: “Que os atores façam o trabalho por nós! Não definamos para eles o que compõe o so­ cial!” O motivo dessa diferença nas atribuições é que.

não dispõem dessa moeda corrente. “naturalmente”. que algumas palmadinhas não fazem mal nenhum à criança pequena. pelo leve deslocamento de outros fenômenos não sociais. Sem dúvida. são todos sociais. pois 62 . Longe. pelo choque. esta é apenas uma fagulha ocasional gerada peta modificação. como um cartão de crédito aceito em todos os lugares. de se mostrar estável e sólida. seria muito difícil “calcular” preços. as festas populares são necessárias para “renovar os laços sociais”. Significará isso que devemos levar a sério as diferenças palpá­ veis e. Os sociólogos da ANT. e que não existe agrupamento capaz de preservar sua existência sem algum tipo de manutenção. que as tradições são “inventadas” que. que a propaganda é indispensável para “aquecer” as paixões das “identidades nacionais”. quando ocorre uma ligeira mudança numa associação mais antiga. sem etique­ tas de preço e códigos de barra. todos concordarão que. e ainda assim de maneira indireta. por exemplo. não expressa nada de maneira mais clara e não pode ser substituído por nada. no entender de todos os cientistas sociais. O mundo social não substitui nada. M e d ia d o r e s v e r su s in t e r m e d iá r io s Poderiamos atenuar as diferenças entre as duas escolas dizendo que. às vezes. um vocabulário padrão que funciona como unia especie de câmara de com ­ pensação das mudanças instantâneas entre bens dotados da mesma qua­ lidade homogênea . estranhamente pequenas entre as muitas maneiras pelas quais as pessoas “realizam o social”? Temo que sim. Ele não é a medida comum de todas as coisas. convém distribuir um jornal a fim de “criar lealdades” que. da qual nasce outra nova e um pouco diferente. os gru­ pos precisam ser feitos e refeitos por outros meios. sob qualquer forma ou disfarce. não sociais. Reagregando o social para o qual podem ser vertidos todos os vocabularios dos informantes. para uma companhia.ou seja. de seu lado. Não passa de um movimento que só pode ser captado.

vista apenas como uma cadeia de intermediários imprescindíveis. Mas o objeto de uma definição performativa desaparece quando não é mais representado .30 30 A palavra “reprodução". Na maioria das vezes.ou. à falta de um totem. Entretanto. “forças sociais” estão sempre presentes nos bastidores. caso permaneça. não importa o que aconteça ao dedo indicador de quem assiste.mas nem tanto. o produto é totalmente previsto pelo progenitor. Se uma dançarina para de dançar. seria di­ fícil para uma tribo “reconhecer-se" membro do mesmo clã. não pode ser o “mundo social”. pois ele próprio fatalmente precisa de renovação. nada é acrescentado pela “re-produção”. simplesmente perderá o agrupamento. mas quase inteiramente passivos. tais termos designam os muitos avalares que a mesma ordem social pode assumir e as variadas ferramentas com que ela “representa” a si própria ou por in­ termédio das quais é “reproduzida”. 63 . A força de inércia não levará o espetáculo adiante. e que. tão usada em expressões como "reprodução social”. nenhum tranquilizador vidro de cola para manter unidos todos esses grupos. de sorte que os meios para concretizar essa presença importam muito . por definição.}UEm sua visão. adeus à dança. fazem toda a diferença do mundo porque não existe uma sociedade por onde começar. Por isso precisei introduzir a distinção entre o ostensi­ vo e o performativo: o objeto de uma definição ostensiva permanece aí. Para os sociólogos do social. Brutu> Lalour assim ela se tornará “responsável”. seu efeito preciso depende de como entendemos os diversos modos de falar alusivos à “formação” de grupos. isso significa que outros atores entraram em cena. Se você não promover a festa hoje ou não imprimir o jornal agora. Esses tipos de expressão saltam sem dificuldade de nossos teclados. E essa cena. nenhuma reserva de vínculos. que não é um edifício à es­ pera de restauração. Para os sociólogos de associações. mas um movimento que precisa continuar. dependendo da relação entre produto e “reprodutor”. assu­ me dois sentidos inteiramente diversos. Assim.

faz grande diferença se os meios de produzir o social são encarados como intermediários ou mediadores. se os movimentos graças aos quais esses sentimentos se exprimem são conectados a algo que perdura. Sem dúvida. revelam-se igualmente necessários para garantir a perpetuidade da consciência. por esse motivo. mas serve também para criar esse sentimento: é um de seus elementos constitutivos.. o uso de símbo­ los emblemáticos deve ter se espalhado rapidamente. os sistemas de emblemas. facilita sua coesão ou é ele o que permite ao grupo existir como tal? Eis como Durkheim (1915/1947. suscitando-os. Expressando a unidade social em forma material. Todavia. a bifurcação parece insignificante.. porém: tal ideia sem dúvida deveria brotar espontaneamente das condições da vida comum. Essas outras coisas estão constantemente tra­ zendo-os à lembrança. o emblema não é apenas um pro­ cesso conveniente para esclarecer o sentimento da sociedade em relação a si própria. devemos nos guardar de ver nos símbolos meros artifícios. Para empregar dois dos poucos termos técnicos a que recorrerei nes­ ta obra introdutória. es­ pécie de rótulos colados a representações já feitas para que fiquem mais manipuláveis: eles são parle integrante delas. O clã é. Portanto. No início. p. O totem expressa o grupo. Com efeito. é como se aquilo que os excitou no princípio continuasse a agir. pois. Há mais. mas por fim nos conduzirá a territórios diferentes. 230-31. nem é preciso dizer. os próprios sentimentos se tornam mais duradouros. sem símbolos. torna-a mais óbvia para todos e. urna reunião de indivíduos que trazem o mesmo nome e se congregam ao redor do mesmo signo.233) responde à pergunta: Que um emblema seja útil como centro aglutinante para qualquer tipo de grupo. Assim.. é bem sutil a diferença entre o mediador e o intermediário. A unidade do grupo torna-se. tal matiz só se tornará plenamente visível no final do livro - 64 . necessários para que a sociedade se conscientize de si mesma. os sentimentos sociais só teriam uma existência precária. Além disso. Elimine-se o nome e o signo que o materializa . uma vez concebido. Reagregumiü o social D u r k h e im num m om en to de Tarde Como mostram as seguintes citações da famosa passagem de Durkheim sobre o papel dos totens na constituição de grupos.. em essência. visível apenas no emblema coletivo que reproduz o objeto designado por esse nome.e o clã já nào é mais representável.

31 Os mediadores transform am . Bnnw l. Os m ediadores. 65 . por nenhuma. ver Isabelle Stengers (2002). isso se aplica a evenlos tanto “naturais” quanto “sociais". é aquilo que transporta sig­ nificado ou força sem transform á-los: definir o que entra já define o que sai. a laguna não era um dos motivos de seu desenvolvimento. No entanto. distorcem e m odificam o signi­ ficado ou os elementos que supostamente veiculam. Um computador em perfeito funcionam ento é ótim o exemplo de um interm ediário com ­ plicado. Sobre essa filosolia da causalidade. Penser avec Whitehead. o com putador se torna um mediador pavorosamente complexo. Um mediador. enquanto uma conversação banal pode se transform ar numa cadeia terrivelm ente complexa de mediadores onde paixões. já se salie. eles podem valer por um. antes que Veneza aprendesse a boiar nas águas. não podem ser contados como apenas um. mas uma caixa-preta que funciona como uma unidade.ou nada. pois é fácil esquecê-lo. sua especificidade precisa ser levada em conta todas as vezes. Não im porta quão com plicado seja um interm ediário. Para todos os propósitos práticos. apesar de sua aparência simples. um interm ediário pode ser considerado não apenas com o uma caixa-preta.titpur caso o leitor lenha a paciência de chegar até lá! Mas convém nos familiari­ zarmos com ele o mais cedo possível. quando quebra. o sol não é a "causa” do lírio. em bora internam ente seja feita de várias partes. por várias ou uma infinidade. por seu turno. Causas c efeitos são apenas tuna m a­ neira retrospectiva de interpretar eventos. traduzem. em meu léxico. Um in term ediário . pode se revelar com plexo e arrastar-nos em muitas direções que m odificarão os relatos contraditórios atribuídos a seu papel. Antes que o lírio aprenda a absorver a energia solar por meio tia fotossintese. pois será nossa senha o tempo todo. opiniões e atitudes se bifurcam a cada instante. ao passo que uma sofisticada discussão em uma mesa redonda em uni encontro acadêm ico às vezes se transform a num interm ediário to- 31 Que as relações entre causas e efeitos elevam de ser alteradas. ser considerado como uma unidade . para todas os propósitos práticos. ele deve. O que entra neles nunca define exatam ente o que sai.

digamos. 66 . foi simplesmente “representada” ou “refletida” por uma peça de roupa que perm aneceu de todo indife­ rente à própria composição. “reproduzido” ou “construído” de várias maneiras e expresso por muitos instrumentos.a fonte de todas as outras incertezas que decidim os acompanhar.elas se com por­ tam como interm ediários ou mediadores? . Uma vez definido isso. por exemplo. O matiz pode parecer irrelevante.12 Como iremos descobrindo aos poucos. a esse respeito. Na verdade. então terá sido inútil o apelo ao detalhe do tecido. “nylon representa cafonice” .que dizer. a discrepância entre sofisticados e cafonas existiría de qualquer forma. é essa constante incerteza quanto à natureza íntim a das entidades . de uma sociedade (ver mais. então. ver Shirley Sirum e Bruno Laiour (1987).. um brilho de seda e não de nylon . vemos que não basta para os sociólogos re­ conhecer que um grupo não é “feito”. R e fr e g a n d o o social talm ente previsível e monótono. na página 88)? A verdadeira diferença entre as duas escolas de pensamento se torna visível quando os “meios” ou “ferramentas” usados na “construção” são encarados como mediadores e não como meros intermediários. diante do que a maioria dos sociólogos chama de “construção”. repetindo uma decisão tomada em outra p arte.“seda representa sofisticação”. ao contrário.for visto como um interm ediário que transm i­ te fielmente algum significado social . mas ocorre porque a pequena diferença no rumo tomado pelas duas sociologías não é maior que a espessura de um fio de cabelo. foi depois de desemaranhar muita cabeleira. mas esse detalhe . as diferenças quím icas e32 32 Para o emprego dessa distinção entre complexidade e complicação. que seja. Mesmo sem a diferença química entre seda e nylon. mas seus efeitos são drásticos. se os físicos puderam desembaraçar-se do éter. Se isso lembra o ato de desemaranhar uma grenha. não sabemos bem se conseguiram levantar uma simples choupana . Se. Se. Foi mobilizado apenas para fins de ilustração. The meanings o f social: from baboons to humans. Afinal. uma diferença social é “expressa em” ou “projetada sobre” um detalhe de moda.

o toque. 34 Essa estabilização de controvérsias por meio das noções chave de formas e padrões será tratada na Parte IJ. não temos aí a regra.33 A distinção infinitesim al entre m e­ diadores e interm ediários é que produzirá. 35 Para o lugar das ciências sociais entre as ciencias de governo. Bruna Ititour de manufatura forem tratadas conto outros tantos mediadores. Já no começo houve uma espécie de confusão de atribuições. Société. Resumamos o con­ traste de uma maneira rudim entar: os sociólogos do social acreditam em um tipo de agregados sociais. todas as diferenças de que precisam os entre os dois tipos de sociologia.35 Um dos possíveis motivos para não se ter reconhecido a paridade intrín­ seca entre atores e cientistas sociais. vor Susannah Handley (2000}. para a ANT. Ver a biografia de Coco Chanel por Axel Madsen {îy y i). no fim .usualmente a mobiliza­ ção de ainda mais mediadores!34 Nunca dois pontos de vista sobre um mesmo objeto foram tão discrepantes! É surpreendente ver uma intuição tão básica não ser compartilhada pela sociologia convencional. Chanel: A Woman of H er Own. ver Paolo Napoli (2003). 67 . o brilho da seda e do nylon. assumiram as atri­ 33 Para a história socioquímica do nylon. essa diferença social não exista absolutam ente. em meados do século 19. Les juristes et les sociologues. existem incontáveis mediadores e. é que a sociologia esteve envolvida desde o início em uma engenharia social. a cor.4 Celebration o f Design from Art Silk to Nylon amt Thinking Fibres. Nylon: the Story of a Fashion Revolution: . todos engajados em controvérsias a respeito de grupos. então pode suceder que. sem os inúmeros matizes materiais indefinidos en­ tre a maciez. poucos mediadores e muitos interme­ diários. quando estes são transformados etn fiéis interm ediários. Naissance de la Police Moderne: Pouvoirs. mas uma exceção rara que deve ser explicada por algum trabalho extra . e Audren. Decidindo que seu trabalho era definir aquilo de que é feito o mundo social. os sociólogos. não há um tipo preferível de agregados sociais. embora eu tenha dito antes que a ANT nada mais é que a reformulação das esperanças mais caras da ciência social. Nonnes.

Tarde é interessante exataincntc porque evitou. pois os cientistas. comprometido com a cruel tarefa da modernização. Os antropólogos. Esse tema. encorajados pelo Es­ tado. Fica claro que qualquer mudança na concepção de ciência alterará também as pretensões e tarefas da ciência social. 37 A epistemología das ciencias sociais ocupou-se obsessivamente do tema do direito que tem o observador de definir o tipo de entidades com as quais devemos lidar. alguns sociólogos. Jean- -Claude Chamboredon e |ean-Claude Passeron (1991 ). Craft o f Sociology: Epistemo­ logical Preliminaries. que distingue entre “legisladores” e “intérpretes”. Atores humanos se viram reduzidos a meros informantes que apenas respondiam às perguntas do sociólogo entronizado como juiz. como fez Garfinkel anos depois. construído quase inteiramente a partir da filosofia da ciência de Bachelard. tal gesto passava por indício de criatividade científica. da interpretação da física por Gaston Bachelard.36 Além disso. 36 Uso aqui o argumento hem mais claro de Zygmunt Bauman (1992) em Intimations of Postmodernity. produzindo assim. como sustento. Se. tinham de “construir seu próprio objeto”. A maneira mais simples de fazer isso foi livrar-se dos parâmetros mais extravagantes e im­ previsíveis pelos quais os próprios atores definiam seu “contexto social”. fartos do período revolucionário. como a composição progressiva da vida coletiva. a ANT é simplesmente uma tentativa de dar tanto espaço aos membros da sociedade contemporânea para defini­ rem a si próprios quanto o oferecido pelos etnógrafos. Ver Pierre Bourdieu. o sociólogo não teria limitado a primeira fonte óbvia de incerteza. ao menos no caso francês. desde Kant. em si. Teóricos sociais começaram a brincar de legisladores. o papel de legislador. Se a política é definida. 68 . rompendo todos os laços com o labor explícito e reflexivo dos métodos dos próprios atores. uma disciplina tão científica quanto a química ou a física. conforme veremos adiante. De várias maneiras. ocupándo­ l e de pré-modernos e não tão pressionados a imitar as ciências naturais. supostamente.37 Sem essa pesada obrigação de bancar o legislador. resolvendo determinar por conta própria quais eram as unidades relevantes da sociedade. encontraram uma maneira de abreviar o len­ to e doloroso processo de composição. é uma estranha filosofia da ciência lomada. foram mais felizes e permitiram que seus atores criassem um mundo bem mais rico. Rmgrcgatida o social buições dos políticos.

estejamos agora preparados para tirar proveito da primeira fonte de incerteza. políticas e mesmo morais. como estudá-lo. Essa é uma lição negativa. Talvez seja tempo de resgatar a famosa frase de Marx: “Os cientistas sociais transformaram o mundo de várias maneiras.38 Acredito que. Mas o que se deve fazer é in­ t e r p r e t á . a fim de interpretar o mundo. 69 . temos de esquecer a estranha ideia de que todas as línguas podem ser vertidas para o idioma já solidamente estabelecido do social. como superá-lo . conforme mostrei em Latour. os agregados sociais não devera ser feitos de laços humanos. como veremos no próximo capítulo. com o equipamento extremamente leve definido aci­ ma. a sociologia pode finalmente tornar-se tão pro­ fícua quanto a antropologia. não convém que os pesquisadores definam antes dos ato­ res. Bruno Laîrmr “jamais lomos modernos”. não há dúvida. 38 Embora eu tenha escrito sobre o modernismo . suprimidos.como defini-lo.sendo que a outra exigência é uma mudança paraiela na concepção de natureza.lo No entanto. Esse adestramento preparatório é im ­ portante porque. Os leitores podem começar a mapear as muitas maneiras con­ traditórias pelas quais os agregados sociais são constantemente evocados. e no lugar deles.em Bruno Latour (iyy3). Por razões científicas. mas também uma maneira vigorosa de reverter a pretensão política que prejudica tantos sociólogos críticos. deixo aqui essa questão de lado para me concentrar na teoria social que uma alternativa ao modernismo exige . o elemento básico de que o mundo social é feito. distribuídos e reinstalados. Politics of Nature. Wc Have Never Been Modera.

Para evitar a confusão entre os dois significados de social. Pela primeira. bem ao modo como as casas dos Três Porquinhos são feitas de palha. designamos uma espécie de substância cuja característica mais notória são suas diferenças em relação a outros tipos de objeto. sem insistir muito na exa­ ta natureza do que foi reunido. biológicos ou econômicos. marcham ju n ­ tas independentemente de o acervo ser composto de tipos de entidades muito diversas. madeira e pedra. exprimimos apenas que estamos às voltas com um caso rotineiro cujos vínculos constituem o aspecto principal. Dei­ xamos implícito que alguns conjuntos são feitos de material social e não de blocos físicos. Quando agimos. Quando dizemos que algo é “social” ou tem “dimensão social”. esta relativa à natureza heterogênea dos in­ gredientes que formam os laços sociais. precisamos recorrer a uma segunda fonte de incerteza. quem mais age? Quantos agentes se apresentam? Por que nunca faço o que quero? Somos dirigidos por forças estranhas? 71 . usamos “social” para significar aquilo que já está reagregado e age como um todo. amarrado e empacotado conjuntamente. m obili­ zamos um acervo de características que. pela segunda. Esse uso simples do termo funciona enquanto não con­ fundimos as frases “O social é um agregado?” e “O social designa um ob­ jeto particular”. por assim dizer. SEGUNDA FONTE DE INCERTEZA: A AÇÃO É ASSUMIDA Na maioria das situações.

seu peso. Então. suas maneiras. por pequena margem de diferença. sem “capital cultural”. seu rosto a lal ponto que você já não se parece com eles. na média das pessoas por quem milhares de outros jovens estão apai- 72 . que nos fascina desde quando multidões. em essência. renda e escolaridade. ainda mais importante e que está no âmago de todas as ciências sociais: a que vê a ação como algo não transparente. No capítulo anterior. uma ligadura. que não pertence a ninguém em particular e não está sob a responsabilidade de pessoa alguma. você imagina estar apaixonado por sua futura esposa. O fato de nunca estarmos sós ao agir exige apenas alguns exem­ plos. talvez um habitus. aprendemos a vislumbrar cone­ xões sociais graças aos traços inesperados que as controvérsias em torno da formação de grupos nos deixaram. para não mencionar os anjos e demônios que até então disputavam nossas pobres almas. começa a se perguntar quem o afastou de seus entes queridos. quem modelou sua voz. se enquadram. descobre que essa é uma experiência comum de toda uma geração de jovens oriundos de famílias de “classe baixa”. Reägregtmdo o social Temos aí a mais antiga e legítima preocupação dessas ciências. o mesmo tipo de questão: sabemos acaso de que o mundo social é feito? Agora precisamos aprender a explorar uma segunda fonte de incerteza. Talvez um animal estranho. um conglomerado de muitos e surpreendentes conjuntos de funções que só podem ser desemaranhados aos poucos. Depois. catervas. meios estatísticos. Cientistas sociais e atores caminhavam juntos e levantaram. mãos invi­ síveis e impulsos inconscientes começaram a substituir paixões e raciocí­ nios. É essa venerável fonte de incerteza que desejamos restaurar com a bizarra expressão ator-rede. antes. Analisa um estudo estatístico sobre os padrões de casamento em que a idade dela. a ação deve ser encarada. que “ascenderam social mente”. Lendo os sociólogos críticos. A ação não ocorre sob o pleno controle da consciência. como um nó. bem como a distância entre as residências de ambos. Digamos que você se adiantou tanto a seus pais por ter obtido um diploma universitário que agora se envergonha da parvoíce deles. Uma força.

Então. a mesma m a­ neira de articu lar as palavras. Cada qual precisou encontrar uma m aneira de coibir os muitos estranhas sempre se introm etendo como convidados indesejáveis em tudo aquilo que fazemos.atanr xonados praticamente na mesma época. äruno í. e m ais perplexos ficaríam os ao perceber. que dez m ilhões de outros acionistas acabaram de vender as mesmas ações. nem boca. sociólogos. age mesmo assim. esse projeto. Quem pôs ali aqueles estabelecim entos? Que força foi exercida? César continua agindo ao longo da paisagem atual? Existe algum agente es­ tranho m unido do duradouro poder subterrâneo de perm itir aos alde­ ões “escolherem livrem ente” o lugar que lhes foi designado? De novo. A ação é assumida ou.funções para fazer frente à complexidade. linguistas. O que nos transform a na mesma coisa ao mesmo tem ­ po? Na longa e acidentada história de suas disciplinas. historiadores. E a ANT deseja mais que tudo herdar essa tradição. perguntam o-nos por que todos os pais se parecem : as mesm as roupas. quem está apaixonado? Outros.como seus colegas das ciências naturais . ficam os perplexos. corno se nossa mente coletiva houvesse sido tocada com firm eza pela mão invisível de um gigante invisível. nem é preciso dizer. Mas como. visitando de m anhã a bolsa de valores. psicólogos e econom istas tiveram de m ultiplicar . nem orelhas e. diversidade e heterogeneidade da ação exigida. sem dúvida. Que esses exemplos foram colhidos do desenvolvimento das ciên­ cias sociais. como um colega sueco traduziu essa perigosa expressão hegeliana. geógrafos. Na festinha da escola. as mesmas am bições alim entadas para seus filhos. no entanto. assumida por outros1 . as mesmas jóias. separados pelo tempo médio de m archa diária das legiões romanas. exatamente? Aldeias parecem pontilhar a paisagem ao acaso até um arque­ ólogo escavar a antiga rede de estradas e perceber que todos os es­ tabelecim entos se alinham perfeitam ente ao lado de velhas trilhas. É levada a cabo de maneira mis- 73 . que não tem olhos. os cientistas sociais. Os outros a açambarcam e a dividem com as massas. uma força estranha que não se parece com você.

É por esse motivo que devemos começar. Je est un autre. Contrariamente ao que muitas “explicações sociais” parecem implicar. o espaço intermediário É como um fantasma ou um sonho mau. O espírito e os instrumentos mortíferos Reúnem-se em conselho. “estrutura”. mediação. se acham em total contradição 39 39 Entre a concepção de um plano lerrivel E o primeiro movimento. cumpre não fundir todas as funções que assumem a ação numa função única de caráter social . A ANT quer herdar a primeira e inibir a segunda. A ação deve permanecer como surpresa. como em geral faríamos.caso contrário não haveria justifi­ cativa para nos considerarmos cientistas “sociais” .e não há. partilhada. um absolu­ to non sequitur. II. das incertezas e controvérsias em torno de quem e o quê está agindo quando “nós” en­ tramos em ação . assume então A natureza de uma insurreição. intransponível entre essa intuição - a ação é assumida .e a conclusão usual de que uma força social passou a agir. também aqui. Qual um pequeno reino. quer mostrar que.“sociedade”. existe um abismo hiante. “in­ divíduos” ou qualquer outro nome que se lhe dê. não bastasse isso. Para que as ciências sociais recuperem a energia inicial. RwgrcgitñUo a saciai teriosa e. como escreveu o poeta Rimbaud. e o estado do homem.19 Mas há um abismo imenso. os dois argumentos não se seguem um ao outro e. . Não estamos sós no mundo. lembra um ninho de vespas. deveremos nos mover bem devagar a fim de expelir o veneno secretado quando essa intuição se transforma em “algo social” que executa a ação. 63-69 74 . não da “determinação da ação pela sociedade”. mas da stíbdeterminação da ação. ao mesmo tempo. “Nós”. como “eu”. Se aceitarmos prontamente a intuição básica das ciências sociais . nenhuma maneira de decidir se essa fonte de incerteza reside no analista ou no ator. i. das “habilidades de cálculo dos indivíduos” ou do “poder do inconsciente”.Fala de Bruto em Shakespeare. acontecimento. entre a premissa e a consequência. Júlio César.. “campos”. “cultura”. é claro.

foi tirada do palco. como “personagem”. a solução mais simples é reativar as metáforas implícitas no vocábulo ator. nunca está sozinho ao atuar. leva em conta o comportamento de outros e por eles se orienta em seu curso”. 41 O famoso episódio está em Jean-IJaul Sartre (1993). The Presentation of Self in Everyday Life. no palco. 88): "A ação é social na medida em que. onde o problema de quem está desempenhando a ação é insolúvel. Como o que nos leva a agir não é feito de material social. Longe de indicar uma fonte pura e singela de ação. como Erwin Goffman demonstrou tantas vezes.'“ Empre­ gar a palavra “ator” significa que jam ais fica claro quem ou o quê está atu­ ando quando as pessoas atuam. na expressão hifenizada “ator-rede”. pois o ator. o que o elenco está fazendo? A mensagem do autor foi transmitida fielmente ou completamen- 40 Esse é o oposto exato da limitação proposta muito sensatamente por Weber (1947. considerando-se o significado subjetivo que lhe atribui o agente (ou agentes). nada mais se sabe ao certo: é real? E falso?42 A reação do público conta para alguma coisa? E quanto à iluminação? Nos bastidores. não é a fonte de um ato e sim o alvo móvel de um amplo conjunto de entidades que enxameiam em sua direção. p. que tenho usado como substituto por mera conveniência. pode ser reagrupado de varias maneiras. que já não sabe a diferença entre seu “eu autêntico” e seu “papel social”. ambas reme­ tem a enigmas tão antigos quanto a própria instituição do teatro . 75 . Tão logo se inicia a peça. Não é por acaso que essa expressão. Being atui Nothingness. lintno Latour entre si. 42 Muitos exemplos ficaram famosos em Erving Goffman (1959). Para apreender sua multiplicidade.como Jean-Paul Sartre mostrou em seu célebre retrato do garçon de café.4041 O ATOR É AQUILO QUE MUITOS OUTROS LEVAM A AGIR O “ator”. Interpretar coloca-nos ¡mediatamente num tremendo imbroglio .

é sempre do ator que de­ vemos dizer: “Pai. É justamente em virtude de o social ainda não estar pronto que os sociólogos de associações deveríam guardar como seu mais precioso tesou­ ro todos os traços das hesitações que os próprios atores sentem em relação43 43 “Não local”. aos “cálculos transparentes do eu”. conforme proposto em François Cooren (2001 ). a própria palavra ator desvia nossa atenção para um total deslocamento da ação. um inconsciente. Como Cristo na cruz. às “paixões íntimas do coração”. seria um meio seguro de reintroduzir esse éter do social que tanto dese­ jam os descartar. caso pretendam reagregá-los. mas porque uns e outros precisam permane­ cer intrigados coin a identidade dos participantes em qualquer curso de ação. às “forças globais da sociedade”. Não é porque hesitemos quanto à fonte da ação que precisamos nos apressar em esclarecer de onde ela provém. The Organizing Proper­ ty o f Communication.4i A ação é tomada de empréstimo. traída. por quem? Que fazem os coadjuvantes? Onde está o ponto? Se qui­ sermos desdobrar a metáfora. advertindo-nos de que esse não é um caso coerente. eles não sabem o que fazem”. os cientistas sociais. dominada. aos “es­ crúpulos corrosivos da consciência moral”. 76 . pois não vamos afirmar pressurosamente que os atores talvez não saibam o que fazem enquanto nós. perdoai-os. traduzida. aos “papéis a nós atribuídos pelas expectativas sociais” ou à “m á-fé”. distribuída. A incerteza deve permanecer como tal o tempo todo. Reagregatuio o social te deturpada? A personagem principal se deixou levar por alguém? Nesse caso. controlado. conhecemos a existência de uma força social capaz de “obrigá-los" a fazer coisas sem querer. Por definição. por exemplo. à “intencionalidade da pessoa”. recorrendo. Conceber um impulso social oculto. sugeri­ da. Se se diz que um ator é um dfor-rede. é em primeiro lugar para esclarecer que ele representa a princi­ pal fonte de incerteza quanto à origem da ação .a vez da palavra “rede” chegará no devido tempo. E isso não porque os atores saibam o que estão fazendo e os cientistas o ignorem. a ação é deslocada. bem acabado e bem delineado. influenciada.

Quando um criminoso diz: “Não tenho culpa.o homem não aludiu sequer a uma “mãe castradora”. seguindo apenas aqueles que são moeda corrente nos bastidores do social. paradoxalmente. Assim como estão sempre envolvi­ dos pior outros na tarefa de formar e dissolver grupos (primeira incerteza). tão logo decidimos tomar essa direção. Mas o criminoso não disse nada disso: disse apenas “meus pais eram cruéis”. Por isso devemos. hesi­ tações. por trivia! que pareça. não se traduz auto­ maticamente em algo mais e decerto não em sociedade . Emilie 77 . replicaríamos “a sociedade fez dele um assassino" ou “está tentando fugir à própria responsabilidade diluindo-a no anonimato da sociedade” .antes que ela se esterilize em argumentos sobre uma ação com elementos sociais. os atores se empenham em fornecer relatos controvertidos de seus atos e dos atos alheios. ü equívoco que não devemos cometer é dar ouvidos a essas produ­ ções complicadas e ignorar os termos bem mais extraordinários. deslocamentos e perplexidades. Ver. a esse respeito. Má criação. Infelizmente. barrocos e idiossincráticos oferecidos pelos alores. se levarmos a coisa a sério.44 Teremos a coragem 44 Um vigoroso exemplo dessa nuance foi dado pelos viciados em drogas quando pas­ saram de “pacientes” nu “delinquenies” para "usuários”. o equívoco é co ­ metido com tanta frequência que piassa pior bom método científico e pro­ duz a maioria dos artefatos das explicações sociais. enriquecerá o analista com um conjunto assombroso de entidades para explicar o curso de uma ação. Thatcher cortamente afirmaria. Os cientistas sociais cairão no sono muito antes de os atores os afogarem num dilúvio de dados. de novo. Aqui.como a sra. Bruno Latour aos “impulsos” responsáveis por seus atos. É preciso combater a ideia de que existe por aí um dicionário do qual todas as palavras dos atores possam ser traduzidas nos poucos verbetes do léxico social. tomar como base todas as incertezas. os traços vão se multiplicando e nenhum estudo ficará interrompido por falta de informações sobre tais controvérsias. narra­ tiva ou comentário. meus pais eram cruéis”. Eis a única maneira de tornar outra vez produtiva a intuição fundamental das ciências sociais . Qualquer entrevista.

Já o sociólogo de asso­ ciações pode dizer: "Não se deve perder a chance oferecida pelo peregri­ no de avaliar a diversidade de motivos que atuam ao mesmo tempo neste mundo”. Methadone: Six Effects in Search of a Substance. muito emotiva. muito reveladora. bem como o argumento em Isabelle Stetiger* (1991). Le Chant Possédé. um milagre. 45 Sigo aqui a maravilhosa lição sobre métodos de Elizabeth Claverie (2003). a qual a induzia a fazer certas coisas. O ser movido. Surprised hy Methadone. no filme de Bruno Monsaingcon. teríamos aí. La mort défaite. politicamente e cientificamente re­ levante entre as duas sociologías. Por quanto tempo con­ teremos o riso. 78 . Rites funéraires du candomblé. Drogues. Gomarl ( 1999). 1998). Fora com as Musas e outros alienígenas desconhecidos! No entanto. direção de Bruno Monsaingeon (Idéale Audience. Se fosse possível constatar hoje que a “Virgem” pode mesmo in ­ duzir peregrinos a embarcar num trem contrariando todos os escrúpulos que os seguram em casa. substituindo imediatamente a intercessão da Virgem pela desilusão “óbvia” de um ator que “encontra pretexto” num ícone religio­ so para “ocultar” sua decisão pessoal? Os sociólogos críticos respondem: “É falta de polidez escarnecer de um informante”. Emilie Gomart (2002). le Défi Hollandais.4546Quando uma famosa soprano explica: “Minha voz me diz quando parar e quando começar”. 46 Julia Varady. a soprano só disse que partilhava sua vida com a voz. porquanto os artistas estão sempre prontos a confundir sua vontade com o fetiche que os induz a fazer coisas?45 Não fica claro se a cantora deve ser ignorada ou “esclarecida” pela corajosa explicação de suas mentiras. sem dúvida. Retigregtmdo o social de não substituir uma expressão desconhecida por uma corriqueira? Nisso consiste a diferença mais moralmente. muito convincente e. Ver também Patrícia de Aquino (1998). Aca­ taremos ou não essa maneira bizarra de falar? Ela é muito precisa. também. Les Guer­ res île la Vierge: une Anthropologie des Apparitions. Tudo se torna mais difícil quando um peregrino declara: “Vim a este mosteiro atendendo ao apelo da Virgem Maria”. o sociólogo não demoraria muito para concluir que a cantora está apresentando um "exemplo típico" de “falsa consciência”. Thèse de Doctorat.

79 . Quando os cientistas naturais in­ vocam entidades invisíveis. o ser posto em movimento pelo informante não é exatamente o que deveríamos dar a entender com uma investigação? A dolorosa lição que temos de aprender é justamente o oposto da que vem sendo ensinada no mundo inteiro com o nome de “explicação social” . as explicações sociais não passam de um acréscimo supérfluo que. concede-se aos analistas unicamente uma m/ralinguagem cujo papel consiste apenas em ajudá-los a ficar atentos à metalinguagem plenamente desenvolvida dos atores. A tarefa de emancipação a que se devotaram exige que diminuam o número das entidades aceitáveis. fazem-no para explicar os detalhes compli­ cados do assunto em apreço. Não devemos presumir que os atores possuam uma linguagem enquanto os analistas dispõem de uma meia linguagem na qual a primeira está “inserida”. Ver p. Eles achavam que seu verdadeiro dever não era exatamente inventariar ações no mundo. povoavam o mundo e mantinham as pessoas em estado de alienação . não para fugir de informações embaraçosas e buscar outras mais maleáveis! Sem dúvida. dissimula o que foi dito. mas antes repri­ mir as muitas forças que. 90. Assim. que já esbocei de passagem: a agenda política de muitos teóricos sociais fazia as vezes de sua libido sciendi. do repertório bem conhecido do social por aquilo que se supõe estar oculto nela. como Garfinkel nunca se cansou de mostrar. embora surpreendente. Bruno Latour ou antes. Conforme já dissemos. em vez de revelar as forças por trás da mensagem. um relato racional daquilo que estão falando. existem razões perfeitamente honestas para essa con­ fusão.47 É inútil pretender que os cientistas naturais também acrescentam entidades ocultas a fim de emprestar sentido aos fenômenos. Na maioria dos ca­ sos. a seu ver.com “virgens” e “fetiches” contando-se entre os principais agressores. não devemos substituir uma expressão precisa.ou seja. resolvem 47 Urn etiiométodo é a descoberta de que membros possuem utn vocabulário comple­ to e uma completa teoria social para entender seu comportamento.

parece óbvio que uma política destinada a eliminar arti­ ficialmente do mundo a maioria das entidades levadas em conta não pode conduzir à emancipação. a sociologia deixa de ser empírica e se torna “vampírica”. 48 Passa a existir quando os limites aceitáveis da teoria social são exagerados a ponto de a existência da sociedade ser considerada mais sólida que a existência de ludo o mais. Conside­ raríamos “científica” uma disciplina que põe de lado a informação precisa oferecida pelo trabalho de campo. ReutfrugunJo u social mudar de ofício. confundir o que obscurece dados com o que é por eles revelado.48 Essa é a única disciplina que se toma por científica não apenas quando ignora certos dados e os substitui por outros. aceitos sem controvérsia e extra­ ídos de forças sociais já arregimentadas. pois assim não se simplifica de antemão a tarefa de reunir o coletivo. Nessa altura. Desse modo. mas até nega­ ram verbalmente? Em verdade. Nesse ponto. substituindo-a por instâncias de outras coisas invisíveis e por aquilo que as pessoas não disseram. 80 . Nesse ponto. Todavia. inclusive a lei. Para eles. a sociologia crítica já não se distingue da teoria da conspiração. começam a resolver por si mesmos qual é a lista aceitável de entidades que formam o mundo social. ou seja. mas também quando aceita as reações indignadas daqueles que são “explicados” como provas da verdade intolerável das interpretações dos críticos. a economia. Foi trágico para as ciências sociais que essa lição não tenha sido aprendida e que os sociólogos críticos ainda considerem seu tesouro aquilo de que deveríam se envergonhar. O que é ainda mais perigoso na aceitação inconsiderada de variáveis ocultas é passar da sociologia do social para a sociologia crítica. os sociólogos de associações é que estão se curvando ao bom senso. a ciência e a tecnologia. as controvérsias em torno da ação devem ser exploradas a fundo. inverte-sc a ordem da explicação e os atores são transformados em outras tantas vítimas de ilusões. a religião. por mais difíceis que sejam. tornando-se um híbrido das duas formas mais extremadas dc ceticis­ mo e credulidade. esquecendo-se de que sua obrigação não é decidir como os atores devem ser levados à ação. mas detectar os diferentes mundos que os atores elaboram uns para os outros.

Foi devido ao êxito das explicações sociais tê-las tornado muito baratas que agora preci­ samos aumentar os custos do controle de qualidade sobre o que se consi­ dera uma força oculta. Logo nos depararemos com outra: Induzir a agir. Bem ao contrário. dos quais bem poucos se parecem com homens. além de simplesmente desdobrar-se a partir de trás e tie fora. encontraremos a figura tio “plasma”. A “sociologia instantânea” é tão inviável quanto a “psicanálise instantânea”. a mais estranha em se tra­ tando de ação. Bruno LiUour Isso não significa que devamos nos abster. Seus relatos se tornaram tão impossí­ veis de provar e consertar quanto as engenhocas eletrônicas. como acabamos de ver. também 49 No final da Parte II. Os etnomelodologistas divulgaram a fórmula “visto. 50 Signiüca também que pode haver muitas outras maneiras de urna ação licar oculta. pois elas povoam incansavelmente o mundo com novos impulsos e. para sempre. de aludir a variáveis ocultas ou que tenhamos de acreditar em atores vivenciando a lucidez primordial de um ego cogito em pleno comando de seus próprios atos. então a metafí­ sica empírica é o ponto de chegada das controvérsias sobre as ações. 81 .49 O motivo pelo qual insisti­ mos em ser cautelosos com qualquer explicação social é que as variáveis ocultas foram empacotadas de tal maneira que não sobrou uma abertura para vermos o que está lá dentro. mas não percebido”. teremos várias ocasiões de observar como os atos são distribuídos entre os agentes. No próximo capítulo. a ideia mais poderosa das ciências sociais é que outros impulsos sobre os quais não temos controle nenhum nos levam a fazer coisas.50 Um estu d o d a m e t a f ís ic a p r á t ic a Se chamarmos de metafísica a disciplina inspirada pela tradição fi­ losófica que procura definir a estrulura básica do mundo.

forte. Como os an­ tropólogos mostraram repetidamente. um Aristóteles. e não 51 Muitos cientistas sociais resistirão tenazmente à ideia de que precisam aceitar a me­ tafísica para definir o social. The Sociology of Philosophies: A Global Theory of Intellectual Change. a questão é: como explorar a metafísica dos próprios atores? Os sociólogos do social respondem abstendo-se totalmente da metafísica e cortando relações com a filosofia. um Dewey ou um Whitehead para ajudá-los? Esses escritores não trabalharam bastante para explicar o que vem a ser uma ação? Não quer dizer que os filósofos sabem mais. ainda assim. Em momento algum ele se dá conta de que os filósofos cujas idéias "explica” têm dezenas dc outros argumentos sobre o que é sociedade. um Nietzsche. especialmente em Monadologie et Sociologie. preparar o terreno para a engenharia social em grande escala e aplainar o caminho para a modernidade. que de modo algum faz justiça à multiplicidade de questões fundamentais suscitadas por atores comuns. Ninguém criticou mais essa atitude que Tarde. Eles limitaram também o volume de ações “realmente influentes” no mundo para libertar os atores da ilusão. essa disciplina fantasiosa e não empírica que representa a pri­ meira infância das agora maduras ciências sociais. uma soprano e um executivo conseguindo. um peregrino. porém. Essa atitude. entender o que expressam sem um Hegel. o que é influência. um escriturário. significa apenas a adesão a uma metafísica geralmente muito frágil. 52 Um bom exemplo dessa confusão nos é oferecido peia “história social" de filóso­ fos em Randall Collins (1998). um criminoso. ousado e flexível o bas­ tante para registrar laboriosamente o que eles têm a dizer. des­ ceram mais fundo ou são mais percucientes que os cientistas sociais. 82 . Rcugregaiitla u¡octal incansavelmente. contestam a existência de outros.51 Assim. redefinindo todos os elementos do mundo.52 Não admira que semelhante programa tenha falhado. o que é grupo. os atores se envolvem sem parar nas construções metafísicas mais abstrusas. Só um pesquisador treinado na ginástica calistênica conceituai ensejada pela tradição filosófica seria rápido. A ação é um dos problemas mais difíceis da filosofia. Como os pesquisadores ouviríam uma dona de casa. Aplicar a mesma melalinguagem empobrecida a todos os filósofos ao longo da história não prova que alguém ofereça uma explicação social de suas filosofias.

traduzindo sem cessar a produção indefinida de atores em seu registro acanhado. temos a extrema dificuldade de acompanhar sua proliferação. menor. ainda assim seria má ciência. conforme veremos . Talvez eu continue parecendo paradoxal. Bruno Latpur quer dizer também que proporcionarão à sociologia seus “alicerces” ou se envolverão com a “metaleoria”. Os atores enchem o mundo de ações. julgo possível propor um conjunto limitado de recur­ sos para acompanhar o modo como os atores abonam ou desabonam uma áção nos relatos sobre aquilo que os leva a agir. não é tarefa fácil pedir aos pesquisadores que aceitem a metafísica empírica e se ponham na pista dos próprios atores. as controvérsias em tomo da ação têm uma maneira toda sua de se organizar. não raro. mas também encararem corno seu dever apegar­ l e à mais limitada das listas de ações. Afora a mania dos teóricos sociais pela emancipação política. Em nada me tranquiliza saber que às vezes fazem isso por razões louváveis. para ser “politicamente corretos” e “críticos” a bem dos atores que desejam “libertar das cadeias dos poderes arcaicos”. como se sabe. 83 . de recursos que permitam ao sociólogo passar de uma formação de grupo à seguinte. Fosse isso excelente política - e não o é. alimentar controvérsias é um meio bem mais seguro que a tarefa implausível de estabelecer a priori. vão além das apresentadas pelos filóso­ fos profissionais. No entanto.as quais. mas parecerei menos à medida que o livro se desenvolver. A situação piorará caso os cientistas sociais não apenas se abstiverem da metafísica. A solução é a mesma que se aplicou à fonte anterior de incerteza: embora haja uma lista indefinida de grupos. Os atores cultivam muitas filosofias. De igual maneira. podemos pressupor uma outra. E. contudo. é claro. Há. enquanto os sociólogos do social lhes ensinam de que tijolos seu mundo é “realmente” edificado. um motivo mais respeitável e prático para limitar de an­ temão a lista de ações que levam os atores a fazer coisas.. mas os sociólogos acham que eles deveríam ater-se somente a umas poucas. se as ações são muitas. Quer dizer apenas que isolar as ciências sociais dos reservatórios das inovações filosóficas é a receita para garantir que ninguém jamais se dará conta das inovações metafísicas propostas por atores comuns .

Em primeiro lugar. tnrnar-se-á um relato textual no ( '.mesmo que force o viajante a ir mais devagar ainda! U m a l is t a p a r a m a p e a r c o n t r o v é r s ia s S O B R E A A ÇÃ O Embora nunca saibamos com certeza quem ou o quê nos leva a agir. a passagem de um quadro de referência a outro faculta maior liberdade de movimento do que qualquer ponto de vista absoluto ou arbitrário. é claro. retomando a metáfora do guia de viagem. e. que deverá falar a seu respeito. E. terá de apresentar um relato sobre ela e. 84 . De novo.53 Sem relatos. a liberdade de movimento se torna crucial . não gere transformação. as ações aparecem sempre num relato como res­ ponsáveis por um feito. transformando As em Bs pela prova dos Cs. sem tentativas. pois a fala é só mais um dos muitos com- 53 O relato é também um aspecto cruciai da etno metodologia. por fim. quais grupos e quais ações terão permissão doravan­ te de preencher o mundo social. opõem-se a outras ações rivais. para tanto. podemos elaborar uma lista de características sempre presentes nos argu­ mentos contraditórios a respeito do que aconteceu: as ações são parte de um relato. Ponto final. Isso não significa. ou seja. nenhum quadro de referência pode ser percebido. precisará tornar mais ou menos explícito quais provas deixaram tais e tais traços observáveis. nenhum argu­ mento significativo pode ser aventado em relação a determinada ação. são acompanhadas por uma teoria explícita da ação. sem transformação num estado de coisas. possuem uma figura qualquer. Reogregamia c social e no lugar dos atores.apítulo 5. Se você mencionar uma ação. Ou faz alguma coisa ou não faz nada. Uma ação invisível. que não faça diferença. como algo que afeta um estado de coisas. não deixe traços e não entre num relato não é uma ação. sem diferenças.

On Justification. Torna-a ideomórfica. Bruna Latour portamentos capazes de engendrar um relato . uma roupagem. em termos de figuração. Até para descobrir Polônio atrás da tapeçaria que se tornou sua mortalha.são tão concretos quanto “meu vizinho rubicundo que morreu sábado passado de um enfarte. Na ANT. a primeira figuração (um anônimo) difere da segunda (minha sogra). 85 . enquanto plantava seus nabos. não teoria social. um corpo à ação que me proíbe ou 54 A noção de prova de força é tratada com mais amplitude em Bruno Latour ( 1988). A presença do social tem de ser repetidamente demonstrada e não simplesmente pos­ tulada. não antropomórfica.épreuve . mas ambas fornecem uma imagem.como tipos A c B na busca das causas das moléstias cardíacas . mas convém apontá-lo àqueles que se intoxicaram com um excesso de forças sociais invisíveis e inexplicáveis. pois é essencial entender que existem muito mais figuras que as exclusivamente antropomórficas. não se pode dizer: “Ninguém mencionou tal (ato.e não o mais frequente. não se moverá um centímetro. Em segundo lugar. Hamlet. sua figuração é outra. precisou ouvir o guincho de um rato. Se não dispuser de um veículo para viajar. não deixará um único traço. não será registrada em nenhum tipo de documento. Não tenho provas. uma voz ou um rosto. se a ação é uma coisa. Sem dúvida. mas sei que há um ator invisível trabalhando nos bastidores” O que temos aí é teoria da conspiração.54 Isso parece suficientemente óbvio. Atribuir a uma ação o anonimato dá-lhe tanta figura quanto dotá-la de um nome. Prova .tornou-se também a noção-chave da sociologia m o­ ral desenvolvida por Luc Boltanski. Agregados estatísticos obtidos de um questionário e rotulados . o mesmo trabalho que confidenciar “minha futura sogra quer que eu despose sua filha”. Dizer “a cultura proíbe ter filhos fora do casamento” exige. o Príncipe da Dinamarca. por ter comido mui­ ta gordura”. Irreductions. Esse é um dos vários casos em que a sociologia tem de concordar em ser mais abstrata. uma forma. “Figuração” é um desses termos técnicos que sou forçado a introduzir para sustar as reações patelares da “explicação social”. um nariz. Ver Boltanski e Thévenot.

Eis quatro maneiras de figurar o mesmo actante: “O imperialismo defende o unilateralismo” “Os Estados Unidos querem sair da ONU”. Quando as pessoas se queixam da “hipostatização” da socieda­ de. bem como a famigerada “Mão Invisível”. indivíduos e agentes calculistas. Para romper com a influência daquilo que se poderia chamar de “so­ ciologia figurativa”. 86 . a ANT emprega o termo técnico actante. “concreta”. originário do estudo da literatura. não devem esquecer-se de que minha sogra também é uma “hipóstase” . No que toca ao problema da figuração. os soci­ ólogos precisam de tanta variedade na “pint ura” de seus atores quantos são os debates sobre figuração na arte moderna e contemporânea. mas não necessariamente à maneira de um retrato adulador. Reugrcgamla o social me exige fazer alguma coisa. “Vários oficiais do Exér­ cito e uma vintena de líderes neocolonialistas querem sair da ONU” Que a primeira seja um traço estrutural. é claro. que a terceira seja um indivíduo e que a quarta seja um agregado solto de pessoas faz sem dúvida grande diferença para o relato. As ações individuais também precisam de figurações abstratas. Por lidarem com ficção. assim. A gran­ de dificuldade da ANT não é ser intimidada pelo tipo de figuração: ideo-.como o são igualmente. aju­ dam a resolver a primeira incerteza quanto à formação de grupos. lecno. ninguém pode afirmar quanta individualidade existe num conjunto de dados estatísticos. “Bush Filho quer sair da ON U”. É exatamente isso o que significam as palavras “ator” e “pessoa”: ninguém sabe quantas pessoas agem simultane­ amente num indivíduo. os teóricos literários se sentiram mais li­ vres em suas pesquisas sobre figuração do que qualquer cientista social. Nenhuma das quatro é mais ou menos “realista”. A figuração lhes atribui uma forma. Elas simplesmente levam ao fortalecimento de diferentes grupos e.ou homorfismos são “morfismos” tanto quanto a encarnação de um actante num único indivíduo. “abstrata” ou “artificial” que as outras. Para fazer seu trabalho. em contrapartida. que a segunda seja uma corporação. não há motivo para dizer que a primeira é uma “abstração estatística” e a outra um “ator concreto”. da lavra de um artista figurativo. mas todas fornecem diferentes figurações para as mesmas ações.

“feito por sua própria força de vontade”.56 Por esse mo­ tivo. Louis Marin (1992). “vencido pelo destino”. Brwrítí Latottr especialmente no uso da semiótica ou das várias ciências narrativas. La Pensée du Roman. Não que a sociologia seja ficção ou que os teóricos literários saibam mais que os sociólogos.55 Romances. exibe a incom- paràvelTiberdade de movimento dos teóricos literários. São apenas formas diferentes de induzir os atores a fa z er coisas. On Representation. como na fábula. oferecem um vasto campo para ensaiarmos relatos daquilo que nos leva a agir. cuja diversidade se patenteia sem necessidade de separar por antecipação as ações “verdadeiras” das “falsas” e sem necessidade de presumir que sejam todas traduzíveis para o idioma repetitivo do social. O trabalho clássico em semiótica está bem resumido cm Algirdas Julien Greimas e Joseph Courtes ( 1982). Thomas Pavel (2003). “chamado por Deus”. peças e filmes. 56 Para alguns ótimos exemplos da liberdade metafísica dos semióticos. não todos os seus raciocínios e seu jargão. Para uma apresentação recente. “vítima da estrutura da sociedade”. Des Pouvoirs de l'Image: Gloses. e Louis Marin (2001). um anão. mas sua liberdade de m o­ vimento. “esmagado pela rotina”. ver Louis Ma­ rin (1989). várias sentenças como “movido por interesse próprio”. “fruto da imitação social”. porque o mesmo actante pode ser levado a agir por intermédio de uma varinha mágica. 87 . sucede apenas que a diversidade dos mundos da ficção inventados no papel permite aos pesquisadores adquirir tanta fle- 55 Seria bastante correto descrever a ANT como metade Garfinkel e metade Greimas: ela simplesmente combinou dois dos mais interessantes movimentos intelectuais de ambos os lados do Atlântico. Sémiotique du Discours. uma vez entendida a diferença entre actante e ação. Opacité de la Peinture: Essais sur la Représentation. Embora inimigo dos semióticos. H pelo mesmo motivo que nos recusamos a romper com a filo­ sofia. Por isso a ANT tomou de empréstimo às teorias da narrativa. Isso se dá. um pensamento na cabe­ ça da fada ou um cavaleiro que mata doze dragões. é claro. encontrando meios de captar a reflexividade interna dos relatos e textos de um e outro autor. ver Jacques Fonta- iiille (1998). “preso pe­ las normas” e “explicado pelo capitalismo” se tornam plenamente com pa­ ráveis. da tragédia clássica à história em quadrinhos. Semiotics and Lan­ guage: An Analytical Dictionary.

Fazer o maior número possível de coisas. Pagar dividendos regular­ mente. Promover o bem -estar geral. 349-350) descreve o executivo de uma grande empresa enquanto se prepara para dar uma palestra edificante à sua equipe: Obter lucro. Dar empregos confiáveis. Fazer coisas da maneira mais econôm ica possí­ vel. descrever e não disciplinar: essas são as Leis e os Profetas. Proporcionar a m aior quantidade de alimento ao maior número de pessoas. Fictional Worlds.xibilidade e alcance quanto aqueles que tem de estudar no mundo real. Obter lucro a longo prazo. Sua linguagem consegue assim ser tão inventiva quanto a dos atores que eles tentam seguir . p. Crescer. Fazer coisas que as pessoas desejam. Aumentar o valor das ações. Fazer coisas que durem muito. Ampliar a quota de to ­ dos os acionistas. Progredir. Dar às pessoas alguma coisa que possam fazer. Ganhar a vida. menos rígidos. Registrar e não filtrar. . 57 Ver Thomas Pavel ( 1986). Fazer as pessoas desejarem coisas. Fazer coisas. R ic h a r d Po w e r s d is c o r r e s o b r e O Q U E É UMA F IR M A Em seu romance Gain . Fazer alguma coisa. Colaborar na defesa com um . Dar empregos que realizem as pessoas.57 Somente graças a uma estreita familiaridade com a literatura é que os so­ ciólogos da ANT podem tornar-se menos empedernidos. em ­ penhados em filtrar tudo quando não pareça desde logo um “ator social” segundo a regra.porque os atores também leem muitos romances e assistem a muita televisão! Só quando comparam sem descanso repertó­ rios complexos de ação é que os sociólogos conseguem registrar dados . Fazer coisas de que as pessoas precisam. Richard Powers (1998.tarefa que sempre parece muito dura para os sociólogos do social. Fazer coisas que durem o m aior tempo possível. Obter lucro duradouro. menos tesos em sua definição do tipo de ações que povoam o mundo. M axim izar o valor líquido da empresa. Expandir. A prim orar o knowhow.

Assim como o desempenho de grupo mapeia a bem do pesquisador os antigrupos que constituem seu mundo social. os imãs falam em Seu lugar". “Você pensa como todos os da sua geração”. Aproveitar o espaço e deter o tempo. os atores costumam criticar outras ações acu­ sando-as de falsas. Com prar por pouco e vender por muito. Examinemos agora as seguintes declarações: “Não aceito ser levado pela opinião geral. Descobrir o que queremos fazer. Perm anecer nos negócios. Em terceiro lugar. EnLender o objetivo dos negócios. de escolher entre esses movimentos aqueles que consideram mais razoáveis. Fazer negócios. Preservar a empresa. pois só existe a ação individual”. Racionalizar a natureza. 89 . caso quei- T>8 Cilado em Christelle Gramaglia (2U05). relatos de ação acrescentam constantemente novas entidades e eliminam outras como ilegítimas. absurdas. arcaicas. D eterm inar o que a raça hum ana deve fazer. irracionais. Bruno ÏMtour Aumentar ganhos e dim inuir gastos. Facilitar o fluxo de capital. Evacuar o local antes que o sol se ponha. “Seu inconsciente se traiu com esse lapso de língua”. No entanto. Produzir a próxima série de inovações tecnológicas. Enriquecer um pouco mais as pessoas. que de qualquer forma não passa de propaganda". Casuistique des affaires de pollution des eaux. artificiais ou ilusórias. Con­ correr com eficiência.58 É como se cada uma dessas sentenças acrescentasse ou subtraísse algo à lista de ações que desempenham um papel legítimo no mundo. A çam barcar as aposentadorias do país. As­ sim. Não quer dizer que os cientistas sociais sejam impoten­ tes. que dependam sempre de seus informantes. Tornar as pessoas um pouco mais felizes. “Deus não fala com você. C onstruir um amanhã melhor. Desen­ volver a habilidade que os homens descobriram. “As forças de mercado são bem mais sábias que os burocratas”. Obter trabalho mais barato. “Estrutura social é um termo vazio. “Prefiro o salmão selvagem à humanidade". Melhorar a paisagem. A única coisa que pode deter a pesquisa é a decisão. La mise en muse environnementale comme principe d'association. Juntar o capital necessário para fazer aquilo que queremos. cada ator mapeara em proveito do analista a metafísica empírica com que ambos se defrontam. Facilitar um pouco mais a vida. tomada pe­ los analistas. Reparar erros.

a grande distinção será decidir se a ação . o que acontece na maio­ ria das vezes é traduzirem as várias expressões de seus informantes para seu próprio vocabulário de forças sociais. “racionais” e “isentos” em presença de um ator “ingênuo”. como de que maneira ela faz sentir sua influência. Em am- 59 E. no sentido da ANT. Assim. em vez de levantadas. conforme veremos ao tratar da quinta incerteza. Reagrcgomífí o social ram propor uma metafísica alternativa. Discutem não apenas qual ação está predominando.sobretudo os sociólogos críticos .segundo a nova postura provisória da ANT . não foram “levados em conta [fafcen into account]". os atores simplesmente ignoram o fato de terem sido mencionados no relato do analista.os analistas . eles não são afores reais e. 90 . não foi reaglutinada e não há como essa sociologia do social ter qualquer relevância política.agem como se fossem pesquisadores “criteriosos”. Muitas vezes os cientistas sociais . “sem critério” e “irracional” Porém. O analista simplesmente repete a descrição do mundo social tal qual é. Ver Laurent lhévenol (2002). Which road to follow? The moral complexity o f an 'equipped’ humanity. Eis a originalidade do empreendimento de lhévenol: rnapear os vários regimes de ação vigentes ao mesmo tempo entre os membros comuns. De novo. os atores . precisarão primeiro participar das atividades de construção do mundo executadas por aqueles que estudam.w Em quarto lugar. literalmente. 60 Até agora. Também não adiantará disfarçar essa espécie de cegueira voluntária como exigência de reflexão. figuração e oponentes - deve ser encarada como um intermediário ou como um mediador.possuem sua própria metateoria sobre como a ação se desenvolve e na maioria das vezes deixam perplexos os metafísicos tra­ dicionais. os cientistas sociais julgaram ser seu dever descobrir qual dessas teorias da ação é a correta e interferir diretamente nas controvérsias. os atores podem também ter suas próprias teorias da ação para explicar como se produzem os efeitos das ações.5960*Bons ra- ciocinadores e habilidosos metafísicos. uma vez que a presença ou a opinião dos atores não fizeram diferença no retalo |account] do analista. Não basta dizer que eles .uma vez dotada de existência.sabem antecipadamente quem são de fato os atores e o que os leva a agir. a sociedade.

islo será a senha da objetividade. ao passo que “Grande Narrativa” pode. doravante. A escolha de uma figura. desde que essa ação seja encarada como um mediador.62 Portanto. em suma. 62 Por exemplo. A intencionalidade. usada para veicular significado como um intermediário. Brunt) Itftnur bos os casos. Confor­ me veremos ao Iratai' da quinta fonte tie incerteza. 63 Para detectar essas discrepancias. gere mais mediadores do que a sentença aparentemente local. De novo. concreta. não importa qual seja sua figuração. às controvérsias. individual.algo como Lomar a temperatura do relato textual. 91 .6' É crucial. suas próprias versões. Pode suceder que uma frase como "o estado das forças produtivas determina o estado das repre­ sentações sociais” se torne mais ativa. Os chamados “trios e anônimos campos de força” entram no relato como mediadores. fará menos que o mais abstrato e global “estado das forças produtivas”.63 61 Com a na primeira incerteza. “quente”. despertar mais vozes atuantes. a densidade relativa de mediadores em relação a intermediários . mas o leque de mediadores que se pode abrir. compreender que essa diferença afeta todas as ações. a conclusão do relato do ator parecerá muitíssimo diferente. não prevê qual teoria da ação será invocada. psicólogos c psicólogos so­ ciais acrescentarão aqui. recaindo assim no papel legislativa e policialesco dos sociólogos do social e abandonando o terreno firme do relativismo. por assim dizer. locali­ dade. “dotada de vida” e consciente não passa de um intermediário. o lema tipicamente pós-modemo "Insisto em especificidade. a pessoa nomea­ da. a diferença não está nas figuras escolhidas. Caso o sejam. o pesquisador se sentirá tentado a privilegiar algumas figurações como “mais concretas” e a descartar outras como “mais abstra­ tas”. no fina! das coutas. O que conta não é o tipo de figura. figuração e teoria da ação são dois itens diferentes na lista. filósofos. peculiaridade” é lào pomposo quanto vazio. teóricos sociais. “vivida” e “existencial”: “A ação humana individual obedece sempre a uma intenção”. precisamos de uma referência de qualidade tex­ tual que nos permita medir. Um bom exemplo são as disputas cm torno da existência de um indivíduo apto a calcular. mas na proporção relativa de mediadores que porventu­ ra existam. Isso é o que confundiu muito os debates entre as várias escolas das ciências sociais: quiseram saber qual ação seria escolhida e não como cada ação se desenvolvería. que não devem ser confundidos um com o outro. isto é.

The Work o f Discovering Science Construed with Materials from the Optically Discovered Pulsar). a situação é outra: as causas não pressupõem os efeitos porque propiciam apenas ocasiões. Essa mudança nos deveres das ciências sociais em virtude do estudo das naturais foi detectada em Isabelle Stengers (2000). mas também etnometodológicos (ver Michael Lynch (1985]. circunstâncias e precedentes. a sociologia se tornará a disciplina que acata o deslocamento inerente a induzir alguém a fa z er alguma coisa.64 Essa distinção afeta todas as ações. Changing Order. Art and Artifact in Laboratory Science: A Study of Shop Work and Shop Talk in a Research Laboratory. e Garfinkel em Harold Garfinkel. Na medida em que elas sejam tratadas como causas simplesmente transportadas por intermediários. loi a prematura constatação da verdadei­ ra complexidade das conexões causais nos conjuntos mais formatados de ciências naturais que tornou absolutamente controvertida a descrição da ação em ciências sociais. o insumo predissesse o produto.ao menos potencialmente. 92 . Se.como “minha amiga Júlia”. onde já teriam acontecido todas as coisas interes­ santes . não existe esse desloca­ mento porque o segundo termo é previsto pelo primeiro: “Dê-me a causa e terei o efeito”. sempre há um problema com essa maneira aparentemente científica de falar. de fato. muitas coisas estranhas po­ dem surgir de permeio. Gravity’s Shadow: The Search fo r Gravitational Waves. Michael Lynch e Eric Liv­ ingston [1981]. Ri’agregandn o social C o m o in d u z ir a l g u é m a f a z e r a l g u m a c o is a Se decidirmos aceitar essa segunda fonte de incerteza. Em se tratando dos intermediários não há misté­ rio algum. pois o que entra prediz perfeitamente o que sai: não estará no efeito nada que já não tenha estado na causa. Na verdade. tanto as de figuração “abstrata” . The Invention o f M odem Science. a começar por Harry Collins (1985). Em muitas teorias da ação. eseu livro mais recente (2004). então melhor seria desconsiderar os efei­ tos e insistir nas causas. nada lhes será 64 Isso é verdadeiro lambem para experimentos divulgados em estudos científicos.como “estado das forças produtivas” . Replication and Induction in Scientific Practice. Mas tal não é o caso quando os dois termos são toma­ dos como mediadores. Para os mediadores. Em resultado. Entretanto.quanto as de figuração “concreta” .

Embora as ma­ rionetes constituam. Brunn Latour acrescentado pelos veículos escolhidos para produzir seus efeitos. como os sopranos. ver François Zourahichvili (2003). 93 . isso não significa que seja uma causa a gerar efeitos. na aparência.como o significado técnico que a palavra “rede" assumirá mais tarde. seguidas por consequências que são meros efeitos. expressões ou reflexos de algo mais. então inúmeras situações novas e imprevistas ocorrem (induzem coisas a fazer outras coisas que não eram esperadas). Causas. enquanto as diferenças no tipo de cartografia são imensas. Para um exame dessa oposição de conceitos. Mas ao que parece os titereiros.apenas obedecem aos cordões . oculta na etimologia latina da palavra “manipular”. Este ponto é pavorosamente difícil. preferida pela ANT. a questão-chave da ciência social é determinar se tenta deduzir de poucas causas o maior número possível de efeitos aii presentes in potentiel. nas quais pode-se dizer que cada ponto age plenamente. Dizem frases engraçadas como “os bonecos nos sugerem coisas que nunca pensamos ser possíveis”.56 Quando uma força manipula outra. é como proceder a distinções miúdas. ou se tenta substituir o maior número possível de causas por uma série de ato­ res .. Le Vocabulaire de Deleuze. pinta um mundo feito de con caten ares de m ediado­ res. nessa teologia estranha e muito arcaica. pode ser também a ocasião para outras coisas começarem a agir. 66 Ver Victoria Nelson (2002). Os sociólogos são às vezes acusa­ dos de tratar os atores como títeres manipulados por forças sociais. lh e Secret Life o f Puppets.656Assim. criam coisas. A primeira solução desenha mapas do mundo compostos de poucas ações. De novo. ex nihilo. a primeira “realiza potenciais” e a segunda “atualiza vir­ tualidades". mas por enquanto pode ser sim­ plificado graças ao uso de uma vinheta. Mas quando os veículos são tratados como mediadores que engen­ dram outros mediadores. A segunda solução. os titereiros raramente se com­ portam como se as controlassem completamente. A mão. é tanto 65 No linguajar de Deleuze. alimentam ¡deias bem dife­ rentes sobre aquilo que induz seus bonecos a Jazer coisas. ao que se supõe. o exemplo mais cabal de causalidade direta .

Então. então não pertence a um lugar específico. quem puxa os cordéis? Os títeres. é disseminada. “evento” mais que “estrutura". Ver Pd win Hutchins (1995). variada. deslocada. “interação” mais que "sociedade” ou. Deve-se sempre ter isso em mente porque a sociologia foi prejudica­ da . verda­ deiro quebra-cabeça tanto para os analistas quanto para os atores. isso deve ser encarado como um cumprimento. sem dúvida. recuperamos a vigoro­ sa intuição que jaz na origem das ciências sociais. quando os soció­ logos são acusados de tratar os atores como títeres. nenhuma dialética fa­ ria a mágica. Lias se separarão apenas quando a quarta e a quinta fontes forem estudadas. mas passar de uma certeza para urna incerteza em relação à ação: determinar o que age e de que maneira. jean Lave ( 1988). “micro” mais que “macro”. Não que eles controlem quem os manipula .a social . “individual" mais que “coletivo”. tteagrtgim da o social um indício de controle quanto de falta dele. “corporação” mais que “pes­ soas" e assim por diante. Nesta altura. Plans and Situated Actions. “classe” mais que “indivíduo”. Enlão. ao longo de uma cadeia de intermedi­ ários. “significado” mais que “força”. “prática” mais que “teoria”. “Tratar pessoas como fantoches” é pejorativo apenas quando essa proliferação de media­ dores se transforma numa ação . 94 . Assim. Cognition in Practice: Mind. A relação entre a A N T e esses estudos será ainda mais forte quando a ter­ ceira incerteza for considerada. M ath­ ematics and Culture in Everyday Life. e Lucy Suchman (1987). a intuição original se perde para sempre.isso invertería a ordem da causalidade . múltipla. sem se deformarem. ao contrário. além dos seus. Cognition in the Wild. do manuseio e da manipulação.pelo preconceito de que existe um locus privilegiado no domínio social em que a ação é “con­ creta”: "parole’’ mais que "langue". c seus resultados se revelaram muito importantes para a ANT.cujos efeitos são simplesmente transportados. desde que eles multipliquem os cordéis e aceitam surpresas vindas da ação. Tão logo desdobramos de novo o espectro total das incertezas relativamente às ações. se a ação não é local. o interessante não é decidir quem está agindo e como.67 Este ponto ajudará a não confundir a ANT com os muitos movi- 67 A questão foi bem estudada pelas disciplinas de cognição "situada” ou “distribuída”.e. Todavia.não nos faltarão ocasiões de ver isso na Parte II .

Parecem criar uma série de confusões estritamente proibidas pela teoria segundo a qual se deve preservar uma diferença ab- 68 A despeito dos muitos esforços. apenas “comportamento”. interação direta . não têm “ação”. Matrix fo r Materiality. urna socio­ logia “interpretativa” é uma “sociologia” do social tanto quanto qualquer versão “objetivista” ou “positivista” que ela pretenda substituir.pessoas. Chasing Technoscience. mas apenas que preci­ samos estendê-lo a entidades "não intencionais”.ou que ignoraram o rico mundo vivido dos seres humanos em troca de uma “ma­ nipulação técnica.trarão autom aticam ente vida. o abismo entre as duas linhas de interesse permanece. 95 . fria e anónima” pela materia. mas convém ouvir o que os próprios joga­ dores diriam a respeito de seus “comportamentos” e da “ação” imprevisível de suas bolas de bilhar. devido à ênfase excessiva dada pelos feuomenologistas às fontes humanas de ação. Não quer dizer que devamos nos privar do rico vocabulário descritivo da fenomenología. Não é isso o que diriam os fenomenolo- gistas e os sociólogos do social. para reconciliar ANT e fenomenolo­ gía. para empregar o termo de Whitehead: um relato prenhe de indivíduos deve ser mais abstrato que outro consistindo apenas de atores coletivos. sentimento. como dizem. Supõe que certos tipos de ação . intenção. participante e intencional contra os efeitos frios. anônimos e abstratos da “determinação pelas estruturas sociais” . Quase sempre inspirados pela fenomenología. riqueza e “humanidade”. E esse abismo mais se alar­ gará quando se considerarem as outras três incertezas.ou. Bruñó Liiiour mentes polémicos que apelaram para a “concretude" do individuo com sua ação significativa. trabalho. Esta crença no “inundo vivido" é um bom exemplo de “concretude deslocada”. Uma bola de bilhar batendo em outra sobre o pano verde age exatamente como uma “pessoa” dirigindo o “olhar” para o “rico mundo humano” de outra “face significativa” no salão enfumaçado de um bote­ quim onde as mesas foram postas. esses movimentos reformistas herdaram todos os seus defeitos: não conseguem imaginar uma metafísica onde haja outras ações reais além das praticadas intencionalmente pelos homens . especialmente em Don Ihdc e Lvan Sdingcr (2003). opõem a ação humana ao mero “efeito material” de objetos naturais que.68 Ora. pior ainda.

A concretude não provém da escolha de uma figuração. Rmgregmiío osocial soluta entre “ação” e “comportamento”. mas do aumento. “Concre­ to” e “abstrato” não designam um tipo especifico de caráter . o que não se deve estabelecer logo de início é a escolha de um locus privilegiado onde a ação porventura seja mais abundante. os dentistas sociais têrn confundido seu papel de analistas com algum tipo de apelo político à dis­ ciplina e à emancipação. Isso nos dirá o que é um bom estudo ANT. da proporção entre mediadores e in­ termediários. As únicas diferenças importantes que deve­ mos considerar por enquanto são: que ações foram invocadas? Quais as suas figurações? Em que tipo se enquadram? Estamos falando de causas e seus intermediários ou de concatenação de mediadores? A ANT é sim­ plesmente a teoria social que decidiu seguir os nativos. nos relatos. 96 .69 De novo. para substituir os atores. caso deseje­ mos estabelecer conexões sociais de maneiras novas e interessantes: ou nos afastamos dos analistas que só dispõem de uma metafísica completa ou “seguimos os próprios atores”. entre muitas. que apelam para muitas. What Human and Machines Can Do. conforme veremos! 69 Isso a despeito da corajosa defesa da distinção em Harry Collins e Martin Kusch ( 1998). Por todos esses motivos. The Shape o f Actions. não importam as confusões metafísicas a que nos arrastem .e não perdem tempo em fazer isso.os suspeitos usuais da sociologia crítica. Nessas situações é que temos de tomar uma decisão.

desde o início. assimetrias e desigualda­ des. Como permaneceremos fiéis a essa intuição sustentando. conforme fiz no caso das duas primeiras fontes de incerteza. ficou marcada pela descoberta de que uma ação é assumida por outras. segundo parece. TERCEIRA FONTE DE INCERTEZA: OS OBJETOS TAMBÉM AGEM Se a sociologia. de que nenhum grau de entusiasmo. de que todas elas pesam tanto quanto pirâmides. que grupos estão sendo "constantemente” formados e ações “incessantemente” debatidas? A escolha desses dois pontos de partida não terá sido inspirada por uma atilude ingê­ nua que transformou o domínio social gritantemente irregular num campo plano onde. e. de que ignorar a assimetria social soa tão ridículo quanto garantir que a gravitaçào newtoniana não existe. embaraçando a ação individual e explicando por que a sociedade deve ser considerada uma entidade sui generis . de que o pensador obstinado cm negar essas desigualdades e diferenças é crédulo ou reacionário. mais marcada ficou pela constatação éti­ ca. livre-arbítrio ou engenhosidade pode eliminar tais assimetrias. de que o mundo social é uma paisagem tão variada quanto um terreno irregular e montanhoso. finalmente. qualquer um tem a mesma chance de conceber sua própria metafísica? Não será a ANT um dos sintomas desse espírito de mercado sempre pronto a assegurar que todos têm a mesma oportunidade 97 . política e empírica de que existem hierarquias.

a flagrante assimetria de recursos não 70 F. os sociólogos de associações devem tomar a mesma decisão radical que tomaram quando insistiram em se nutrir da segunda fonte de incerteza. como a sociedade. and a Crisis in Science Studies. poderes e crueldades são compostos de material social é um argumento totalmente diferente. Reagregando u surial . inércia. feitos.e muito menos transportá-las sem modificação alguma. ao passo que concluir que hierarquias. Performativity.71 Não há como negar que as assimetrias existem. dissimetrias. um estoque ou um capital capaz de fornecer automaticamente uma explicação. constitui o resultado final de um processo e não um reservatório. e John Law (1992). Augmented with Consideration of the FCC Auctions. Foi porque quiseram manter a intuição origi­ nal das ciências sociais que precisaram rejeitar inapelavelmente a solução impossível de que a sociedade é desigual e hierárquica. o explanandum com o explanam. De novo. de que exerce um peso desproporcional em algumas partes. em absoluta contradição com ele. Technology and Domination. 71 Ver lohn Law (1986a). Dominação e poder precisam ser produzidos. Da mesma maneira que a assunção de uma ação por outra não significa que a sociedade esteja se impondo. O segundo ponto não apresenta continuidade lógica com o pri­ meiro e além de tudo está. 98 .e ai dos vencidos?70 “E que foi téito”. os autores explicitaram bem sua crítica à ANT. 7he New Spirit o f Capitalism. Dizer que a dominação viola corpos e almas é uma coi­ sa. Markets Made Flesh: Callón. poderiam resmungar as pessoas. Essays on Power. On Power and lis Tactics: A View front the Sociology o f Sci­ ence. mas de onde vêm e de que são constituídas? Para obter unia resposta. compostos. Teremos de aguardar a Conclusão para abordar o problema da relevancia política e responder a essas criticas. não desejamos confun­ dir a causa com o efeito. “do poder e da dominação?” Mas justamente pelo fato de querermos explicar essas assimetrias é que não iremos simplesmente repeti las . e de que tem todas as caracte­ rísticas da inércia. Por isso é tão importante sustentar que o poder. como veremos. A Sociology o f Monsters. como no mordaz ataque ein Philip Morowski e Edward Nik-Khan (2004).m Luc Roltanski e Eve Chiapello (2005).

Une Sociologie du Packa ging ou l’Á ne de Buridan Face au Marché.porque essas pequenas alterações revelam ao ob­ servador quais combinações novas foram exploradas e que caminhos serão seguidos (aquilo que. nas ciências sociais. com outras alas exibindo conexões “materiais”. É uma associação entre entidades de modo algum reconhecíveis como sociais no sentido corriqueiro. “psicológicas” e “econômicas”. um material como palha. “social” designa um tipo de vínculo: é o nome de um dominio específico.embalá-los. chamaremos de “social” não uma gôndola ou ala específica. uma translação. Retomando a metáfora do supermercado. enfatizei bastante a diferença entre “social”.'2 Assim. mas as várias modificações feitas no lugar para exibir os produtos . barro. um deslocamento. a definição do termo é outra: não designa um domínio da realidade ou um item especial. um registro. já é hora de resgatarmos a explicação social. definiremos como “rede”). e “social” como em "associações” . é antes o nome de um movimento. Mostrei que muitas vezes.tendo em mente que a segunda acepção está mais perto da etimologia original. madeira ou aço. mais tarde. uma transformação. então outros tipos de atores que não os sociais entram no jogo. exceto durante o curto instante em que se confundem. ver Pranck Cochoy (2002). Tal como fez M arx com a dialética de Hegel. colocar-lhes preço . você podería percorrer um supermercado imaginário e estacar diante de uma gôndola cheia de "vínculos sociais”. corda. O NÚMERO DE ATORES EM JOGO DEVE SER AUMENTADO Até agora. “biológicas”. como em “vínculos sociais”. 99 . etiquetá- los. para72 72 Pava a noção de ajustamento. como agora já sabemos. Em princípio. Para a ANT. Este raciocínio leva precisamente à conclusão oposta: se desigualdades são geradas. Brww Lutour quer dizer que eles sejam gerados por assimetrias sociais.

cumpre inserir a primeira definição numa esfera bastante limitada e descartar a segunda. o fenômeno ubíquo das relações diretas. É perfeitamente razoável designar. pois as chamadas habilidades sociais bási­ cas são mesmo difíceis de isolar nas sociedades humanas. por “social”. 100 . Reagregando o social a ANT. usando-a apenas como uma es- 73 O termo “fluido" foi introduzido em Annemarie Mol e fohn Law (1994). Muitas das associações duradouras e de longo alcance são constituídas por algo que não pode sei1 detectado enquanto não se examina a noção de força social. macacos. pois coloca em causa como e por quais meios esse aumento de du­ rabilidade foi obtido na prática. Liquid Modernity. Saltar do reconhecimento das interações para a existência de uma força social é. social é o nome de um tipo de associação momentânea caracteriza­ da pelo modo como se aglutina assumindo novas formas. o outro é uma força específica que se supõe apta a esclarecer como essas mesmas interações temporárias e diretas podem ter tamanho alcan­ ce e ser tão duradouras. uma invocação mágica. as habilidades sociais básicas. uma prestidigitação. uma inferência que não decorre da premissa.73 Urna vez estabelecido esse segundo significado do social como as­ sociação. Como veremos na Parte II ao debater a noção de “interações locais”. Regions. Networks. abelhas) que se torna possível engendrar um mundo social entendido como uma rede de interações. and Fluids: Anaemia and Social Topology. Mas ver também Zygmunt Bauman (2000). despojadas e dinâmi­ cas. mas ainda assim restrito. embora ainda presen­ tes. podemos perceber o que confunde tanto os sociólogos do social. oferecem um repertório constante. No caso da ANT. Nas sociedades humanas. Eles usant o adjetivo para designar dois tipos de fenômeno inteiramente diversos: um são as interações locais. diretas. nuas. repetimos. mas não definir uma força “so­ cial'’ que não passa de uma tautología. Esta distinção é crucial. é sobretudo em so­ ciedades não humanas (formigas. A palavra “fluido” permite aos analistas enfa­ tizarem mais a circulação e a natureza da coisa transportada do que se empregas­ sem "rede”.

Agora já podemos trazer para o primeiro plano os meios práticos de preservar os laços. nenhum gigante é forte o bastante para não ser dominado durante o sono por um anão. isso ocorre porque não é feito de laços sociais. mas isso não é prova de que sejam constituídos de material social .74 Em suma: não se pode afirmar nunca que uni vínculo é durável e consti Luido de material social. A grande vantagem de esquecer a noção de força social e substituí-la por interações breves ou novas associações é a possibilidade de distinguir. Quando o poder é exercido duradouramente. o que pertence à sua duração e o que per­ tence à sua substância. Como ob­ servaram Hobbes e Rousseau há muito tempo. Abandona­ da aos próprios recursos. ver Strum e Latour. pude distinguir a realidade exterior da unidade: as duas coisas não vão juntas. nenhuma coalizão é suficientemente sólida para não ser engolfada por outra ainda maior. O mesmo se aplica à sociedade: o caráter durável nâo se refere à sua materialidade. no conceito misto de sociedade.75 Sim. 75 Na complexa noção de natureza.bem ao contrá­ rio. uma relação de poder que apenas mobilizasse habilidades sociais ficaria limitada a interações muito breves. apesar de tanta filosofia (ver Latour. não podem fornecer um exemplo tão extremo. quando precisa confiar unicamente em laços 74 Para uma antiga apresentação desse argumento. 101 . embora mais próximos do mundo ideal inventado por vários teóricos sociais. The Meanings o f Social. é fácil entender que as conexões tecidas por eles são sempre fracas demais para arcar com o peso atribuído pelos teóricos sociais à sua definição de social. Mas onde já se observou semelhante situação? Mesmo os bandos de babuínos. devem existir vínculos duráveis. a engenhosidade constantemente investida na busca de outras fontes de vínculos e o preço a ser pago pela extensão de uma inte­ ração qualquer. lJolitics of Nature). Bruna Lettnur pécie de recurso taquigráfico para descrever aquilo que já foi aglutinado. muito pas­ sageiras. apenas a seu movimento. Se considerarmos as habilidades sociais básicas.

num gesto leviano. podem enveredar pelo caminho errado e garantir que durabilidade. E argumentam: “sociedade”. Podem até ir além e tomar essa tautología não como a mais absoluta das contradições. sem dúvida. “costumes sociais”. Os sociólogos talvez aleguem que. “norma social”. leva a falácia ain­ da mais longe. en­ treter de maneira durável relações sociais e consolidar desigualdades é que tanto esforço se investe na tarefa de substituir laços frágeis e decadentes por laços de outros tipos. tomando a tautología em si como a base imaginária da sociedade. gerada de si mesma. 102 . quando apelam para a durabilidade dos vínculos sociais. uma vez aceita essa base. No entanto. The Imaginary Institution of Society. solidez e durabilidade da própria sociedade. conservaria certo aspecto provisório. quando os cientistas sociais apelam para os “vínculos sociais”. possuem consistência suficiente para justificar o modo como dominam a todos nós e a paisagem irregular em que labutamos. em suas palavras. “cultura”. Esta é. solidez e inércia se devem à inércia. uma solução conveniente. Se o mundo social fosse constituído de interações locais. mas como aquilo que mais se deve admirar na força miraculosa de uma sociedade. Justamente por ser nmito difícil preservar assimetrias. não dura muito. Os sociólogos. Assim. instável e caótico. Caso a distinção entre habilidades sociais básicas e meios não sociais mobilizados para ampliá-las não seja cuidadosamente preservada. “leis sociais”. pressupõem algo que só com grande dificuldade se desdobra no tempo e no espaço. enfatizam algo que de fato é durável. RaagregaHftû a social sociais. mas não explica de onde vem a “consistência” que reforça as conexões frágeis das habilidades sociais. só­ lido e inerte.76 Ainda que essa maneira de falar seja por demais inócua quando tomada como uma espécie de recurso taquigráfico para descrever o que 76 Cornelius Castoradis (1998). “regras” etc. ¡á não há meio de detectar a composição do social. que não é inerte e deve ser incessantemen­ te renegociado. nunca essa paisagem amplamente diferenciada que o recurso ao poder e à dominação procura explicar.ou seja. “es­ truturas”. sui generis . os analis­ tas correrão o risco de acreditar que a explicação será fornecida pela invoca­ ção de forças sociais.

nun­ ca enfrentam a contradição inerente ao conceito de uma sociedade “au- toproduzida". Bruno Latour já está aglutinado. Seriam os sociólogos do social ingênuos a ponto de não perceber uma tautologia tão óbvia em seu raciocínio? Estariam mesmo apegados à crença mítica num outro mundo por trás do real? Acreditariam realmen­ te nesse estranho tour de force de unia sociedade nascida de si mesma?7778 Claro que não. o que os sociólogos entendem por “poder da sociedade” não é a sociedade em si . Ver Barry Barnes (1983). 78 Na Parte II. O motivo pelo qual jamais percebem a ilogicidade de seu argumento é que o empregam um tanto livremente. volunta­ riamente ou nao. na prática.ver p. Social Life as Bootstrapped Induction. transmitem sua “consistência” à frágil “sociedade”. as consequências de tal argumento são desastrosas. Quando invocam o caráter duradouro de certos agregados sociais. De fato. 2UU..exceto pelo fato de não acenar com nenhuma esperança de redenção. mas algum tipo de generalização para todas as entidades já mobilizadas no intuito de perpetuar as assimetrias. mas perigosamente enganadora porque não existe nenhum meio empírico de saber como todo esse material foi ntobi- 77 O tour de force e tomado como uma característica do social. atribuem sempre. pois nunca transferem isso para a prática e.7* Essa ge­ neralização não é tautológica. São sempre as coisas . Nesta altura. O que começou como mera confusão de adjetivos tornou- -se um projeto bem diferente: a este mundo básico juntou-se um outro tão inabordável quanto o céu da antiga teologia cristã . veremos que essa tautologia é a presença oculta do Corpo Político: a relação paradoxal entre o cidadão e a República contaminou de todo a relação inteiramente diversa entre o aior e o sistema .que. É grande a tentação de agir como se existisse uma torça extraordinaria capaz de enriquecer as assimetrias breves com a duração e a amplitude que as habilidades sociais não podem produzir por seu próprio esforço. todo o peso das outras coisas não sociais aos frágeis laços da sociedade. 103 . portanto.isso seria magia pura . causas e efeitos se invertem e os meios de aglutinar o social desapa­ recem de vista.tomadas no sentido literal .

Ver Barbara Czarniawska (1997). Afinal. sobrecarregando os vínculos sociais para lhes dar um peso que garanta sua durabilidade e extensão. posso ter exagerado as diferenças entre os dois pontos de vista. novo ou desativado? É o que todos perguntam. sempre que o grande animal estiver im ­ plícito tautológicamente. que é outro nome para a metafísica em­ pírica. 104 .7y A ANT insiste em fazer a seguinte pergunta: por qual motivo os sociólogos. Cooren.e. Mesmo a multiplicação de con­ trovérsias não altera radicalmente o tipo de fenômenos que procuram 79 79 importante nos estudos de organizações. a etnometodologia). pior ainda. dos documentos. Até agora. é claro. mas simplesmente multiplicar as oportunidades de per­ ceber rapidamente a contradição em que possam ter incidido. uma espécie de cargueiro gigantesco que não recebe ne­ nhum inspetor a bordo e permite aos cientistas sociais contrabandearem mercadorias através de fronteiras nacionais sem necessidade de controle por parte da alfândega. não há maneira de descobrir se essa carga continua ativa. como perguntam também se existem armas de destruição em massa no Iraque de Saddam Hussein. mais uma vez. fazem isso disfarça damente e não às claras? Seu lema “Siga os atores” se torna “Siga os atores enquanto envere­ dam pelo meio das coisas que acrescentaram às habilidades sociais para tornar mais duráveis as interações em perpétua mudança”. seguro ou perigoso. A solução da ANT não é envolver-se em polêmicas contra os soci­ ólogos do social. James R. É aqui se que torna patente o verdadeiro contraste entre sociologia de associações e sociologia do social. em bom estado ou enferrujado. e. O cargueiro está vazio ou cheio. É a única maneira delicada de forçar os sociólogos a. nas mãos dos “explicadores sociais” de última hora. A Narrative Approach to Organization Studies. A ideia de sociedade tornou-se. Reagregando o social lizado . da circulação de formas. muitas escolas de ciên­ cias sociais aceitam as duas primeiras incertezas como ponto de partida (principalmente a antropologia. esclarecer os meios não sociais que mobilizam quando invocam o poder das explicações sociais. é a busca dos relatos. Rethinking the Theory o f Organizational Communication: How to Read an Organization. Taylor (1993).

ainda.e também no mais sofisticado. As razões são de duas naturezas: a pri­ meira é que as habilidades sociais básicas fornecem apenas um m inús­ culo subconjunto das associações formadoras da sociedade. uma simples tautologia. Pa­ receram-me “melhores”. aceitaremos. porque ao contrário dos humanos nenhum membro da Pumphouse [nome do grupo] era capaz de monopolizar os re­ cursos essenciais: cada babuíno obtinha seu próprio alimento. Ao contrário. Evocando o primeiro seminário sobre estudos de babuínos que organizou em 1978 num castelo perto de Nova York. e a maneira como o criam os faz parecer “melhores” que os homens. cujas características são as estratégias sociais de competição e defesa. faz-se necessária uma incursão pelo estudo dos prima- tas e babuínos. ärufMLatour estudar.. não limitaremos a um pequeno repertório aquilo de que os atores precisara para gerar assime­ trias sociais. O S B A B U ÍN O S DE S H IR L E Y S T R U M Para entender o vínculo entre as habilidades sociais básicas e o con­ ceito de sociedade. 105 . como atores completos. Ao que tudo in­ dica. de antemão. Shirley Strum (1987 p. Minha descoberta chocante loi que os machos não possuem uma hierarquia de comando. entida­ des que foram explícitamente banidas da existência coletiva por mais de um século de explicações sociais. no melhor dos casos. os babuínos têm de trabalhar duro para criar seu mundo social. um recurso conveniente e. que a habilidade e a reciprocidade social vêm antes da agressão. apenas agrava a dificuldade de iistá-los. 157-58) escreveu: Bem sei que minha obra pintou um quadro das sociedades de babuínos que outros acharão difícil de aceitar. a segunda é que o suprimento de força aparentemente implícito na invocação de um vínculo social constitui. Precisam uns dos outros para sobreviver no nível mais básico . cuidando de suas necessidades de sobrevivência elementares. que os babuínos desen­ volvem estratégias sociais. no pior.proteção e vantagem que a vida em grupo oferece ao indivíduo . que a finura triunfa da força. Mas agora o abismo se alargará consideravelmente porque. água e lugar à sombra. Isso é o princípio de uma política sexual em que machos e fêmeas trocam favores.

Ueagngitndo o metal A agressão podia ser usada para a coerçào. para qualquer sociedade animal já descrita. boa vontade social e cooperação constituíam os únicos re­ cursos disponíveis para negociar ou prevalecer sobre outro membro. para a noção-ciiave tie "ferramentas sociais” sobre babuinos sagrados. Documentariam empíricamente o preço da tautología “vínculos sociais feitos de vínculos sociais”. todos. na verdade. Os babuínos eram ''bons*' uns com os outros porque esse comportamento importava tanto para sua sobrevivência quanto a respiração ou a comida. Aventei que a agressão não era uma influência tão comum e decisiva na evolução quanto se pensa­ ra e que as estratégias e a reciprocidade sociais contavam muito. o domínio social sem nada a não ser as habilidades sociais. 106 . E eram. aspectos da “bondade” . mas não humanos. O que des­ cobri foi um quadro novo e revolucionário da sociedade babuína. A sociologia do social não é inútil: apenas pode ser muito boa para estudar babuínos.convívio. In Quest o f the Sticmi Baboon. muitos outros elementos além das compactações sociais precisam ser descobertos. Tão logo você passe a ter dúvidas quanto à capacidade dos vínculos sociais de80 80 Ver Hans Kummer (1995). se os babuínos as possuem.contudo. mas era contida. F a z e r c o m q u e o b je t o s p a r t ic ip e m DO CURSO DA AÇÃO O contraste entre as duas escolas não podería ser mais gritante. Aparência. Os sociólogos. Revolu­ cionário. veriam quão caro se paga quando o trabalho consiste em manter. por exemplo.s0 O poder exercido por intermédio de en­ tidades é que não dorme nunca e as associações sólidas é que permitem ao poder durar e expandir-se mais . para realizar esse feito. então os precursores de nossos remotos ancestrais humanos as possuíam também. caso livessem o privilégio de observar mais cuida­ dosamente os babuínos reparando sua “estrutura social” em constante decomposição. Ora. As im­ plicações podem ser consideradas surpreendentes. proximidade. não agressão.

produz com ferramentas. tautológica da sociedade basta para manter todas as coisas sem nada .literalmente. Não há meio de apressar as coisas porque a ANT é definida. um papel viável para os objetos começa a esboçar-se. uma mudança de paradigma mais radi­ cal. a outros tipos de forças. pela apresentação sucessiva das cinco fontes de incerteza. Esses verbos não designam ações? O que a introdução dessas atividades humildes. a ANT fica ¡mediatamente reduzida a um argumento insignificante so­ bre a ação causal de objetos técnicos.é quase sempre um “ele” . que martelos “preguem” pregos. que cestos “guardem” comida. O motivo pelo qual os objetos não tinham oportu­ nidade de desempenhar papéis antes não se devia unicamente á definição 81 “Objeto” será usado como substituto até o próximo capítulo. neste livro. traz. 82 Não pode ser entendida sem as outras duas incertezas quanto a grupos e ação. Se esse deslocamento passa despercebido. ou seja. 107 .8182 A ação social não apenas é assumida por estranhos como se trans­ fere ou é delegada a diferentes tipos de atores capazes de levá-la adiante graças a outros modos de agir. onde será definido como “assunto de importância”. repor objetos no curso normal de ação pode parecer inócuo. Sem elas. prosaicas e corriqueiras tratá de novo para um cientista social? No entanto. que sabão "lave” sujeira. a ANT logo chamou a atenção.83 À primeira vista. que fechaduras “tranquem” portas para bar­ rar visitantes indesejados. sem dúvida. que etiquetas de preço “ajudem” pessoas a calcular e assim por diante. Afinal de con­ tas. 83 Pava que o verbo “delegar” funcione. o que é sem dúvida um retrocesso ao deter­ minismo técnico. lirutw Latour expandir-se duradourainente.8t Se supuser que os agregados sociais conseguem sustentar seu próprio ser engendrado por “forças sociais”. é preciso ter em mente a teoria ANT da ação. Por esse motivo. os objetos se desvanecem e a força mágica. que grades “impeçam” crianças de cair. É difícil imaginar uma inversão primeiro plano/ segundo plano mais contundente. a delegação se torna outra relação causai e a ressurreição de um Homo /a ber no pleno comando daquilo que d e . o modo como alguém induz alguém a fazer coisas. que horários “determi­ nem” início de aulas. nem se duvida que panelas “fervam” água. que facas “cortem” carne.

segundo nossa definição. Essa inversão no rumo da influência funcionaria apenas como o meio de transform ar os objetos nas causas cujos efeitos seriam conduzidos pela ação humana agora limitada ao papel de mero intermediário. com a maior tranquilidade. Reagregan. Para todos os outros membros da sociedade esses implementos fazem muita diferença e são. é claro. então você está pronto para visitar a Terra Longínqua do Social e desapa­ recer daqui. Ao contrário. que os cestos “provoquem” o transporte de comida ou que os martelos “imponham” a inserção do prego. uma fechadura. um horário ou uma etiqueta possam agir. qualquer coisa que modifique uma situação fazendo diferença é um ator . administrar uma empresa com ou sem a contabilidade são exatamente as mesmas atividades. mais exatamente. transportar comida com ou sem um cesto. Talvez existam no domínio das re­ lações “materiais” e "causais”. um cesto.to asocial cío social usada pelos sociólogos. significa que devem existir inúmeros matizes metafísicos entre a causalidade plena e a inexistência absoluta. fazer um in­ ventário com ou sem uma lista. zapear a televisão com ou sem o controle remoto. Além de “determinar” e servir de “pano de fundo” para a ação 108 . Portanto.ou. parar um carro com ou sem o freio. Isso. uma caneca. Em contrapartida. mas também à própria definição de atores e ações geralmente escolhida.ou. um gato. Se você puder. um tapete. partícipes no curso da ação que aguarda figuração. sustentar que pregar um prego com ou sem um martelo. não se concebe como um martelo. pois. nossas perguntas em relação a um agente são sim­ plesmente estas: ele faz diferença no curso da ação de outro agente ou não? Haverá alguma prova mediante a qual possamos detectar essa diferença? A resposta de senso comum seria um “sim” sonoro. se insistirmos na decisão de partir das controvérsias sobre atores e atos. ferver água com ou sem uma panela. não significa que os partícipes “determinem” a ação. atores . mas não na esfera “reflexiva” ou “simbólica” das relações sociais. andar na rua com ou sem roupas. Se a ação se limita ao que os humanos fa­ zem de maneira “intencional” ou “significativa”. que a introdução desses implementos comuns não muda nada “de importante” na realização de tare­ fas. um actante. caso ainda não tenha figuração.

possibilitar. Não designa um domínio da realidade. interromper. proibir etc. embora isso signifique descartar elementos que. Formulating planes: Seeing as a situated activity. mas tam­ bém como aquilo que explica a paisagem variegada pela qual começamos. mas apenas faz as vezes de outra diferença conceituai. o rude exercí­ cio do poder. Goodwin e M. Gibson (1986). La Nature des Cultures.84 A ANT não alega. esboçando uma maneira de fazê-los agir como um todo durável. Essa expressão. que os objetos fazem coisas “no lugar” dos atores hu­ manos: diz apenas que nenhuma ciencia do social pode existir se a ques­ tão de o quê e quem participa da ação não for logo de início plenamente explorada.érnaravilhosamente captada por Such man. no uso da expressão não humanos. Vie Ecologi­ cal Approach lo Visual Perception. os poderes supremos da sociedade. Goodwin { 1996). mas somente àquilo que o analista estaria preparado para acolher a fim de explicar a durabilidade e a extensão de uma intera­ ção. Politics o f Nature). Nicolas Dodier e Laurent Thé- venol (1993). o que é novo não é a multiplici­ dade de objetos mobilizados por um curso de ação ao longo do caminho .ninguém jamais negou que eles existam aos milhares. influenciar. Para os sociólogos de associações. 109 . à falta de ter­ mo melhor. que a dupla humano/não humano deve ser substitu­ ída pela insuperável dicotomía entre sujeito e objeto (yer Latour. sugerir. estimular. foi julgada tão útil. Brutw Latour humana. De la Maison au Laboratoire. permitir. É dessa surpresa que os sociólogos de associações preferem 8á Por isso a noção de “concessão" introduzida por James G. em detalhe. conceder.Sí O projeto da ANT cifra-se em ampliar a lista e modificar as formas e figuras dos participantes reunidos. Para um panorama completo das relações humanos/não humanos. C. e Bernard Conein. Les Objects dans l'Action.forte e fraca .85 85 Nota-se am a certa tendência anIropocêntrica. en­ sejar. as notórias assimetrias. A multiplicidade dos modos de ação que dizem respeito à tecnologia . como outras escolhidas pela ANT. Não se refere a duendes de gorro vermelho agindo nos níveis atômicos. Nenhuma outra acepção deve ser buscada nesse conceito. chamaríamos de não humanos. não tem significado em si mesma. Novo é o fato de os objetos surgirem de súbito não apenas como atores completos. ver Philippe Descola (20115). Já expliquei algures. Plans and Situated Actions. sem base. que não especifica um domínio onlológíco. as coisas precisam autorizar.

sem dúvida. sempre constituiu uma grande surpresa: como é que. Os elementos que constituem esse meio são de dois tipos: coisas e pessoas. que a questão obviamente está encerrada. como muitos de seus colegas. a sociologia permane­ ça “sem objeto”? Tudo fica ainda mais intrigante quando se considera que essa disciplina surgiu um século depois da Revolução Industrial e passou a evoluir paralelamente aos desenvolvimentos técnicos mais ambiciosos e intensivos desde o Neolítico. São a matéria sobre a qual agem as forças sociais da sociedade. a despeito desse fenômeno formidável e ubíquo. Mas. levá-los em conta nas explicações aventadas. Pode-se. “objetivam” a igualdade e “materializam” relações de gênero. em vez de considerar. que os objetos não fazem coisa alguma sequer comparável ou mesmo conectável à ação social humana e que. para mim. Eles têm aIgum peso na evolução social. por si pró­ prias. “agra­ vam” desigualdades sociais. mas. os impulsos que determinam as transformações sociais não provêm nem do material nem do imaterial. que diz: As origens remotas de qualquer processo social importante devem ser busca­ das na constituição interna do grupo social [grifo no original]. Como fator ativo. “transportam” o poder social. “dimensão simbólica” ent vez de “pura causalidade”? Bem à maneira do sexo na Era Vitoriana. não podem estar na ori­ gem da atividade social. se às vezes “expressam” relações de poder. “simbolizam” hierarquias sociais. só o que permanece é o meio humano. pois nenhum deles possui tor­ ça motriz [puissance motrice]. devem ser considerados os produtos de uma atividade social prévia: leis. os objetos nunca devem ser men- 110 . mas não encerram nada do que é exigido para pô-la em movimento. c claro. f i r t i K 'ï 'î i i i i i i t i n so cia l partir. Podemos ser ainda mais precisos. Isto. Além dos objetos materiais incorpo­ rados à sociedade. então. cuja veloci­ dade e mesmo direção variam de acordo com a natureza desses elementos. E ainda: como explicar que tantos cientis­ tas sociais teimem em considerar "significado social” em vez de “simples” relações materiais. Um bom exemplo de definição assimétrica de atores está em Durkheim (1966: 113). costumes estabelecidos. não liberam nenhuma energia social [aucune force vive]. obras literárias e artísticas etc.

mas sempre sentidos. a balbuciar. começam a espreguiçar-se. Concluíram que.justificando. à primeira vista. Parece não haver meio. a dificuldade de registrar o pa­ pel dos objetos deve-se à suposta incomensurabilidade de seus modos de ação em relação aos laços sociais tradicional mente concebidos. que se escreva uma introdução para ela. Bruno Latour cionados. elas permane­ cem adormecidas como servos de um castelo encantado. Como se uma poderosa maldição houvesse sido lançada sobre as coisas. os modos de ação devem ficar separados dos legítimos laços sociais. sem perceber que caberia concluir exatamente o oposto: por serem incomensuráveis é que nós os invocamos! Se fossem tão fracos quanto as habilidades sociais que têm de reforçar. veículo ou porta de entrada para inseri-los no tecido formado pelos outros laços sociais. Como servos humildes. e nun­ ca são representados como tais. de pensamento social. Seria muito pueril afirmar que a ANT desempenhou o papel do beijo do Príncipe Encantado aflorando os lábios da Bela Adormecida? De qualquer modo. se fossem construídos do mesmo material. por ser uma sociologia do objeto a serviço de humanos voltados para o objeto é que essa escola de pensamento foi primeiramente notada . SÓ DE M A N E IR A IN T E R M IT E N T E O S O B JE T O S A JU D A M A R A S T R E A R C O N E X Õ E S S O C IA IS É bem certo que. Eles existem. que ganharíamos com isso? Sería- 111 . Mas os sociólogos do social confundiram a natureza dessa incomensurabilidade. No entanto. Quanto mais os pensadores radicais insistem em atrair a atenção para os humanos nas margens e na periferia. sendo incomen su níveis. naturalmente. menos citam objetos. assim. uma vez libertas do feitiço. sacudindo os atores humanos para despertá-los de seu sono dogmático. mas não são alvo de pensamento. vivem à margem do social. a es tirar-se. encarregando-se da maior parte do trabalho. Enxameiam então em todas as direções.

a ligação química do cimento com a água. e Bruno Latour e Pierre Lemonnier (1994). Aqui. doravante. co­ nhecida como a “Controvérsia de Rath”. mas. De la Préhistoire aux Missiles Balistiques . Para uma visão mais atualizada. Sociedade será apenas o conjunto de entidades já reunidas que.87* 87 É o que eslava em causa na disputa a respeito do papel exato dos não humanos. segundo os sociólogos do social. que talvez seja bastante razoável instalar entidades materiais e sociais em duas prateleiras separadas. o giro de uma roda em seu eixo. foram feitas de material social. por esse motivo. consultar Pierre l. designará o projeto de juntar novas entidades ainda não reunidas e que. a pressão de um tijolo sobre outro tijolo. 112 . por outro lado. porém absurdo. Technological Choices. mas ainda hela. Epistemological Chicken. a palavra “coletivo" substituirá “sociedade”. uma ação que arregimenta diversos tipos de forças unidas por serem di­ ferentes.se. a divisão aparentemente razoável entre material e social transforma-se naquilo que ofusca a pesquisa sobre como é possível uma ação coletiva . a força de uma alavanca sobre o peso.97 Assim. Dotft Throw the Baby out with the Bath School! A Reply to Collins and Yearley . e Michel Callón e Bruno Latour (1992).eroi- -Gourhan (1993). Reflgregando o social mos babuínos e babuínos permaneceriamos!94 Sem dúvida. Ver Harry Collins c Steven Yearley (1992). todos esses modos de ação parecem pertencer a categorias tão obviamente diversas daquela que um sinal de “pare” exerce sobre o ciclista ou a de um grupo sobre a mente individual. a força de uma polia na corda graças ao movimento da mão. Gesture and Speech. não entendermos por cole­ tivo uma ação encetada por forças sociais homogêneas. o efeito do fogo no fósforo. Coletivo. apresentada em André I. é claro.urn pequeño mareo em nosso pequeno campo. Todo curso de ação traçará uma trajetória em meio a modos de exis- 86 Lis o poder da síntese já superada. a desaceleração promovida por uma polia. o riscar do fósforo para acender um cigarro ofereci­ do por um colega de trabalho etc. Razoável. como por exemplo: a ordem para assentar um tijolo. ao contrário.L‘Intelligence Sociale des Techniques. obviamente não são feitas de material social. Transformation in Material Culta- res since the Neolithic. quando se considera que qualquer curso humano de ação se funde em questão de segundos.emonnier (1993).

Afinal. poderia dominar suficientemente os detalhes técnicos necessários para abordar questões sociológicas. A inércia social e a gravidade física talvez pareçam desconexas. aqui. Essa postura é razoá­ vel. arregimentados por essa heterogeneida- de. não resta dúvida de que estão conec­ tadas. Com base em seu relatório. as habilidades sociais básicas seriam suficientes) ou entre objetos. entre engenharia e sociologia? 89 Os psicólogos já demonstraram que mesmo um bebê de dois meses consegue dis- 113 . 40). com uma imersão suficiente nos materiais e consultas a especialistas técnicos. "Mas eu acreditava que. existe uma relação (dialética) entre as duas coisas”. p. com muito maior probabilidade. Mas. antes de religá-los. a hora do lançamento foi adiada para permitir uma terceira inspeção" (p. Não há relação alguma entre o “mundo material” e o “mundo social” justamente porque essa divisão é um completo artefato. Distinguir vínculos “materiais” e “sociais” a priori.8889 88 Ver Diane Vaughan (1996. que os sociólogos “razoáveis”. Para entender bem a ANT. mas não precisam sê-lo quando uma equipe de trabalhadores constrói uma parede de tijolos: só se separarão de novo depois que a parede estiver ter­ minada. Segundo a ANT. mapas e uniformes . ziguezagueia entre umas e outras. ßmm» l. de posse de uma tremenda para­ fernália . 7 he Challenger Launch Decision: Risky Technology. Como? A pesquisa responderá. fuzis.tanques. de resto. 328). Onde está a separação. tenha-se em mente que ela não pressu­ põe uma “reconciliação” da famosa dicotomía objeto/sujeito. mas.e alegando que. algo a ver com a reu­ nião de novos tipos de atores. muito provavelmente.utmir téncia completamente estranhos. teremos de aceitar isto: a continuidade de um curso de ação raramente consiste de conexões entre humanos (para as quais. durante a construção. mas talvez não a melhor maneira de seguir um curso de ação como este: "Apro­ ximadamente às 7hOÜ. “sem dúvi­ da. se quisermos ser um pou­ quinho mais realistas. A ANT sustenta que não devemos supor encerrada a questão em torno das conexões de atores heterogêneos. faz tanto sen­ tido quanto captar a dinâmica de uma batalha imaginando um pelotão de soldados e oficiais completamente nus. em relação aos vínculos sociais. queria explicar o comportamento humano e fora educado para isso”.8* A resposta seria um sonoro “não”. que o chamado "social” tem. Culture and Deviance at NASA. a equipe inspecionou pela segunda vez a plataforma.

Não se pode falar num caso empírico quando a existência de dois agregados coerentes e homogéneos. ser ignoradas e abandonadas a seus próprios recursos. mas nem : uma dissolução conjunta de ambos os coletores. 90 Por isso abandonei boa parte da metáfora geométrica sobre o “princípio de simetria" ao notar que os leitores concluiríam daí que natureza e sociedade têm de “perma­ necer juntas” para estudarmos “simetricamente” “objetos” e “sujeitos”. é uma interpretação altamente politizada da causalidade. Mas. Conforme veremos ao tratar da próxima fonte de incerteza. Elas precisam. por exemplo tecnologia V sociedade. a “matéria” de muitos pretensos materialistas quase nunca diz respeito ao tipo de força. e Dan Sperber. valores ou sentimentos “subjetivos”. Ver Olivier Houdé (1997). logo o veremos. Os bebês são bem mais racionais que os humanistas: embora percebam as muitas diferenças entre bolas de bilhar e pessoas. No entanto. Reagregando a social Repelir semelhante divisão não é “relacionar” soldados nus “com” elemen­ tos materiais: é redistribuir o conjunto todo de alto a baixo e do começo ao fim. “não huma­ nos" e “humanos”.repito: não é . façam algum sentido. isto sim. Humanos e objetos são nitidamente diferenciados. Rationalité. para nós. superar. Causai Cognition: A Multidisciplinary Debate. Para entender a terceira fonte de incerteza. “Matéria”. 114 . o que eu tinha em mente não era e. A ANT não é . isso não os impede de acompanhar o modo como suas ações se misturam nas mes­ mas histórias. precisamos indagar a respeito da ação de toda sorte de objetos. Obter simetria. causalidade. significa mio impor a priori uma assimetria espúria entre ação humana intencional e mundo material de relações causais. David Premack e Ann James Premack (1996). uma diferença não é uma divisão. símbolos.a criação de uma ab­ surda “simetria entre humanos e não humanos”. dotando-as cie “simetria”. Développe­ ment et Inhibition: Un Nouveau Cadre d ’Anaiyse. A última coisa que desejava era privilegiar natureza e sociedade. No en­ tanto. como estes desempenham um papel modesto e limitado na tinguir claramente movimentos intencionais e não intencionais. eficácia e obstinação que os ac­ hantes não humanos possuem no mundo.90 Esse interesse pelo objeto não tem nada a ver com privilégios conce­ didos a matéria “objetiva” em detrimento de linguagem. Existem divisões que não devemos ultrapassar. como um castelo outrora formidável e hoje em ruínas. reduzir dia Icticamente.

BrtiHo Latour

maioria das ciências sociais, torna-se muito difícil estender sua ativida­
de original a outros tipos de material como documentos, escritos, mapas,
arquivos, grampeadores, listas, recursos organizacionais - em suma, tec­
nologias intelectuais.91 Desde que se devolva a não humanos um pouco de
liberdade de movimento, o leque de agentes aptos a participar do curso da
ação se amplia prodigiosamente e não mais se restringe aos “tecidos de ta­
manho médio” dos filósofos analíticos. A ANT é difícil de entender porque
preenche justamente o espaço deixado vazio pelos sociólogos críticos com
as cáusticas palavras “objetivação” e “reificação”,
Os sociólogos do social, porém, não são bobos. Têm lá seus motivos
para hesitar em seguir o fluxo social aonde ele os quei ra conduzir. Bem di­
fícil de entender, a princípio, é que um estudo da ANT tenha de lidar tan­
to com a continuidade quanto com a descontinuidade entre os modos de
ação. Precisamos ser capazes de seguir a continuidade regular de entidades
heterogêneas e a descontinuidade completa entre participantes que, no fim,
permanecerá incomensurável. O lluxo social não oferece ao analista uma
existência contínua e substancial, mas assume uma aparência provisória
tal qual uma emissão de partículas subatômicas no breve instante em que
goza de existência. Começamos com agregados que parecem vagamente
familiares e terminamos com outros totalmente desconhecidos. É verda­
de que essa oscilação dificulta muito o rastreamento de conexões quando,
bona fide, acrescentamos não humanos à lista de vínculos sociais.
Um pastor e seu cão nos lembram perfeitamente relações sociais;
mas, quando vemos o rebanho por trás de uma cerca de arame farpado,

91 Cognição disseminada, conhecimento localizado, história de tecnologias intelectuais,
estudos científicos, ciências administrativas e relato social multiplicaram, cada qual à
sua maneira, o espectro de objetos empenhados em fazer Interações mais duráveis e
de maior alcance. Lssa tendência a materializar tecnologias não materiais remonta a
Jack Goody (1977), 7he Domestication of the Savage Mind; ver Geoffrey C. Bowker e
Susan Leigh Star (1999), Sorting Things Out: Classification and Its Consequences; Paolo
Quattrone (21)04), "Accounting for God. Accounting and Accountability Practices in
the Society of Jesus (Italy, 16"'-17“' Cenluries)”; e o agora clássico de Michel Foucault
( 1973), The Birth o f the Clinic. An Archaeology o f Medical Perception.

115

R a dragan do o wctul

perguntamo-nos onde estará o cão e o pastor - embora carneiros sejam
mantidos quietos muito mais pelo efeito ameaçador das farpas do arame
do que pelos latidos do cão. Sem dúvida, você se transformou num saco
de batatas diante do aparelho de TV principalmente por causa do controle
remoto, que lhe permite passar pachorrentamente de um canal a outro92 -
no entanto, não há semelhança alguma entre as causas de sua imobilidade
e a parte de sua ação assumida por um sinal infravermelho, muito embora
se saiba que seu comportamento foi permitido pelo aparelhinho.
Entre o motorista que reduz a velocidade perto de uma escola por­
que percebeu o sinal “40 km” e outro que o faz porque não quer ver sua
suspensão destruída por um quebra-molas, a diferença é grande ou pe­
quena? Grande, pois a obediência do primeiro se deveu a valores morais,
símbolos, sinais de trânsito e faixas amarelas, enquanto a do outro, além de
tudo isso, implicou o acréscimo de um elemento concreto cuidadosamen­
te concebido. Mas é pequena porque os dois obedeceram a alguma coisa:
o primeiro, a um altruísmo raramente manifestado: se não diminuísse a
velocidade, a lei moral confrangeria seu coração; o segundo, a um egoísmo
muitíssimo comum: se fosse depressa demais, sua suspensão se quebraria.
Diriamos então que apenas a primeira conexão é social, ética e simbólica,
e que a segunda é objetiva e material? Não. Entretanto, se afirmarmos que
as duas são sociais, como justificaremos a diferença entre conduta moral
e molas de suspensão? Talvez não sejam de todo sociais, mas certamente
estão associadas ou conjugadas pelo trabalho dos projetistas de ruas. Nin­
guém pode se dizer cientista social e perfilhar apenas alguns vínculos - os
morais, legais e simbólicos - e se deter tão logo descubra alguma relação
física com eles. Isso tornaria inviável qualquer investigação.93

92 Experimente você mesmo: esqueça n aparelhinho e marque quanto tempo leva indo
e vindo do sofá ao televisor.

93 Como a ANT é muitas vezes acusada de indiferença à moralidade, vale a pena lem­
brar que há boas razões deonlológicas para 1er pelo menos tanta liberdade de mo­
vimento quanto os atores estudados. O princípio é tão velho quanto a noção de

116

Bruno Latour

Por quanto tempo seguiremos uma conexão sem que objetos se in­
terponham? Um minuto? Uma hora? Um microssegundo? E por quanto
tempo esses objetos ficarão interpostos? Um minuto? Uma hora? Um mi­
crossegundo? Uma coisa é certa: se interrompermos nossa tarefa a cada
ínterposição, enfocando apenas a lista das conexões já reunidas, o mundo
social se tornará ¡mediatamente opaco, mergulhado numa estranha névoa
outonal que só deixará visíveis alguns detalhes minúsculos e imprevisíveis
da paisagem. Mas, por outro lado, se os sociólogos tivessem de ser também
engenheiros, artesãos, mecânicos, projetistas, arquitetos, administradores,
organizadores etc., nunca parariam de seguir seus alores ao longo dessas
muitas existências intermitentes. Assim, só levaremos em conta os não hu­
manos na medida em que forem comensuráveis com os por laços sociais,
aceitando, um instante depois, sua incomensurabilidade básica.'4 Sair por
aí ostentando uma definição ANT do “social" exige nervos fortes. Não ad­
mira, pois, que os sociólogos do social recuem diante de tamanha dificul­
dade! Que tenham bons motivos para não acompanhar essas oscilações
não significa, porém, que estejam certos. Significa apenas que a sociologia
requer muito mais ferramentas.*94

translação. Ver Michel Callón (1981), Struggles and Negotiations to Decide IV/in I Is
Problematic and What h Not: The Sociology of Translation,

94 Isso, sem dúvida, diverge do programa explícitamente assimétrico de Weber ( ISM7,
¡i. 93): “Ser vazio de significado não é o mesmo que não ter vida e não ser humano;
todo artefato, como por exemplo uma máquina, só pode ser entendido em lermos
do significado que sua produção e uso tiveram para a ação humana; significado que
pode derivar de uma relação com propósitos muitíssimo diversos. Sem referência a
esse significado, tal objeto permanece de todo ininteligível” Segue-se uma definição
de meios e fins que nada tem av er com a noção de mediador.

117

Ueagivgãndo o social

L is t a d e s it u a ç õ e s e m q u e a a t iv id a d e d e u m

O B JE T O SE TO RN A F A C IL M E N T E V IS ÍV E L

Ao explorar as novas associações que constituera o social, os es­
tudiosos da ANT precisara atender a duas exigencias contraditórias:
de um lado, não queremos que o sociólogo se lim ite aos laços sociais;
de outro, não pedimos ao pesquisador que se torne um tecnólogo es­
pecializado. Uma das soluções seria apegarm o-nos à nova definição
de social como um fluxo visível apenas quando se fazem novas asso­
ciações. Esse é o “dom ínio” legítim o da ANT, em bora não constitua
uma extensão específica de terra nem um terreno cercado, mas ape­
nas um breve lam pejo que pode ocorrer em qualquer parte como uma
súbita mudança de fase.
Felizmente para os analistas, tais situações não são tão raras quan­
to se poderia supor. Para serem levados em conta, os objetos precisam
ingressar nos relatos. Quando não deixam traços, não fornecem nenhu­
ma informação ao observador e não produzem efeito visível em outros
agentes. Permanecem em silêncio e deixam de ser atores: literalmente,
não são mais levados em conta. Embora a situação se aplique a grupos e
ações - nada de provas, nada de relatos, nada de informação - , ela é sem
dúvida mais difícil para objetos, pois estes são muito bons em transm itir
seus efeitos em silêncio, conforme observou Samuel Butler.95 Uma vez
construído, o muro de tijolos não pronuncia uma palavra - ainda que os
pedreiros continuem tagarelando e os grafites proliferem em sua superfí­
cie. Depois de preenchidos, os questionários impressos permanecem nos
arquivos sem nunca se conectarem com intenções humanas até serem
revividos por um historiador. Os objetos, pela própria natureza de seus
laços com os humanos, logo deixam de ser mediadores para se transfor­
marem em intermediários, assumindo im portância ou não, independen-

95 Samuel Butler (1872), Erewhon.

Bruno Latour

temente de quão complicados possam ser por dentro. Eis por que alguns
truques precisam ser inventados para forçá-los a falar, ou seja, apresentar
descrições de si mesmos, produzir roteiros daquilo que induzem outros -
humanos ou não humanos - a fazer.116
De novo, a situação não é diferente para grupos e ações que consi­
deramos antes, pois também os humanos precisam ser forçados a falar;
e é por isso que situações muito elaboradas e até artificiais têm de ser
concebidas para revelar seus atos e desempenhos (falaremos mais a res­
peito na quinta incerteza). Uma diferença, porém, persiste: quando os
humanos voltam a ser mediadores, já quase não se pode detê-los. Uma
sequência vaga de dados tem início, ao passo que os objetos, por mais
importantes, eficientes, essenciais ou necessários que sejam, tendem a
recuar depressa para os bastidores, interrompendo o fluxo de dados - e,
quanto mais importantes são, mais rapidamente desaparecem. Não é que
deixem de agir; sucede apenas que seu modo de ação já não está mais
visivelmente conectado aos laços sociais costumeiros, pois dependem
de tipos de forças escolhidos justamente por suas diferenças em relação
aos vínculos sociais normais. Atos de fala sempre parecem comparáveis,
compatíveis, contíguos e contínuos com outros atos de fala; textos, com
textos; interação, com interação; mas objetos parecem associar-se uns
com os outros e com laços sociais só m om entaneam ente,9
697 Isso é bastante
normal, pois graças às suas próprias ações heterogêneas é que os laços
sociais foram proporcionados com formas e figuras completamente di­
versas - normal, mas confuso.

96 Madeleine Àkrich (1992), The De-Saiption o f Technical Objects', Madeleine Akricb
(1993), A Gazogene in Costa Rica: An Experiment in Techno-Sociology, e Madeleine
Akricb e Bruno Latour (1992), A Summary o f a Convenient Vocabulary for the Semi­
otics o f Human and Non-Human Assemblies.

97 Ambas as impressões só são verdadeiras superficialmente. O curso de ação tie um
humano nunca é homogêneo e não existe nenhuma tecnologia tão bem organiza­
da a ponto de desenvolver-se automaticamente, No entanto, permanece a dilerença
prática para quem conduz a investigação.

119

Rcagrcguriiiti a saciai

Por sorte, é possível multiplicar as ocasiões em que essa visibilidade
momentânea se intensifica o bastante para gerar bons relatos. Boa parte
do trabalho de campo dos estudiosos da ANT foi dedicada a suscitar essas
ocasiões, de modo que posso ir mais depressa.
A primeira solução é estudar inovações na oficina do artesão, no
departamento de projetos do engenheiro, no laboratório do cientista, no
anfiteatro dos especialistas em marketing, na casa do consumidor e nas
muitas controvérsias sociotécnicas. Nesses lugares, os objetos vivem uma
vida claramente múltipla e complexa por intermédio de reuniões, projetos,
esboços, regulamentos e provas. Surgem totalmente fundidos com outras
ações sociais mais tradicionais. Só quando se instalam é que desaparecem
de vista. Por isso o estudo de inovações e controvérsias constitui um dos
primeiros locais privilegiados onde objetos podem ser mantidos por mais
tempo como mediadores visíveis, disseminados e reconhecidos antes de
ser tornarem intermediários invisíveis, não sociais.
Em segundo lugar, mesmo os implementos mais rotineiros, tradi­
cionais e silenciosos deixam de ser aceitos sem discussão quando na posse
de usuários que a distância tornou ignorantes e canhestros - distância no
tempo como em arqueologia, distância no espaço como em etnologia, dis­
tância na capacidade como em pedagogia. Embora essas associações talvez
não possam, por si mesmas, inovar, a mesma conjuntura de novidade é
produzida, ao menos para o analista, pela irrupção no curso normal de
ação de implementos estranhos, exóticos, arcaicos ou misteriosos. Nesses
encontros, os objetos se transformam em mediadores, ainda que por ins­
tantes, e logo desaparecem de novo graças ao knowhow, ao hábito ou ao
desuso. Quem quer que tenha procurado entender um manual de usuário
sabe quão demorado - e penoso - é 1er aquilo que ironicamente foi chama­
do de “desenho de montagem”.98

98 Ver Donald A. Norman ( J 988), The Psychology o f Everyday Things, Donald Norman
(1993), Things that Make Us Smart, Madeleine Akrich e Dominique Bouillcr (1991),
Le mode d'emploi: genèse et usage, e Capítulo 6 de Garfinkel (2002), Ethnomethodol-
ogy's Program: Working OutDurkheim's Aphorism.

120

Bruno Inf our

O terceiro tipo de ocasião é o oferecido por acidentes, rupturas e
golpes: de súbito, intermediários completamente silenciosos se tornam me­
diadores por inteiro; mesmo objetos, que um minuto antes pareciam auto­
máticos, autônomos e despidos de agentes humanos, agora são constituídos
por multidões de homens que se movem ruidosamente, munidos de equipa­
mento pesado. Quem viu a nave Columbia transformar-se instantaneamente
do mais complexo instrumento humano jamais montado numa chuva de
fragmentos despencando sobre o Texas percebeu quão depressa os objetos
alteram seu modo de existência. Felizmente para a ANT, a atual proliferação
de objetos de “risco” multiplicou as ocasiões de ouvir, ver e sentir o que os
objetos possam estar fazendo quando põem de lado outros atores." Estão em
curso pesquisas oficiais por toda parte a fim de nos informar no que os laços
sociais se tornaram nas mãos de organizações técnicas. Aqui, de novo, não
será a falta de material que interromperá os estudos.1“11
Em quarto lugar, quando os objetos recuam em definitivo para os
bastidores, sempre é possível - mas mais difícil - trazê-los de volta à luz
usando-se arquivos, documentos, lembranças, coleções de museu etc.,
para produzir artificialmente, nos relatos dos historiadores, o estado de
crise em que nasceram máquinas, recursos e implementos.1“1 Por trás de910

99 A multiplicação desses objetos “de risco” é tratada em Ulrich Beck (1992), Risk So
ciety. Towards a New Modernity. P.mbora ele adote uma teoria social inteiramente
diversa, sua atenção às novas formas tie objetividade (que chama dc “modernização
reflexiva”) coloca sua sociologia inovadora bem perto da ANT, sobretudo quanto
aos interesses políticos, ou melhor, "cosmopolitas".

100 Graças à proliferação dos acidentes e á ampliação dos interesses democráticos, essas
fontes de dados se multiplicaram.Ver Michel Callón, Pierre Lascoumes e Yannick
Hardie (2001), Agir dans un Monde Incertain. Essai sur la Démocratie Technique;
Richard Rogers (2005), Information Politic on the Web; e Vaughan, The Challenger
Launch Decision.

101 O encontro com Thomas P. Hugues (1983), Networks o f Power. Electrification in
Western Society, 18S0-I930, foi importante porque Hughes se absleve de dar uma
explicação em termos de modelagem social da tecnologia e cunhou a expressão
“rede inconsútil”. Ver Thomas P. Hugues (1986), The Seamless Web: Technology, Sci­
ence, Etcetera, Etcetera.

121

Já agora. por obra dos paleontólogos. 122 . transformaram-se. Reagregatido a sacia/ cada lâmpada se pode entrever Edson. 102 Aqui. nos verdadeiros mediadores que provocaram a evolução do “homem moderno". o recurso da ficção poderá inserir . a história da tecnologia mudou para sempre as maneiras de apresentar os relatos sociais e culturais.pelo emprego da história contrafactual. o trabalho de campo assu­ mido pelos especialistas da ANT mostrou que os objetos deixam de ser estudados. The Voice o f Things. experimentos mentais e “cienti- ficação" . e sim por falta de vontade. ¡(13 Vai de Prancis Ponge (1972). hoje é possível para os cientistas sociais lidar com aquilo que os paleontólogos chamam de “humanos anatomicamente modernos”. não há diferença enlre história da tecnología e AKT. e por trás de cada microchip apare­ ce a gigantesca e anónima Intel. por exemplo.103 Qualquer que seja a solução escolhida. essa formação sociológica tem tão pou­ ca relação com os casos disponíveis que não se nota nenhuma diferença. que há dezenas de milhares de anos se estabeleceram muito além dos limites a eles prescritos pela ciência social. Também aqui os sociólogos têm muito a aprender com os artistas. quando tudo o mais falhar.2. muitas vezes.objetos sólidos de hoje nos estados fluidos em que suas conexões com humanos talvez façam sentido. Assim. 1995). Enfim. Ficaram para trás as fronteiras intransponíveis assinaladas pelas Colunas de Hércules que im ­ pediam as ciências sociais de ir além dos estreitos confins dos vínculos so­ ciais. aos experimentos mentais enseja­ dos pela ficção cientifica ou pela obra decisiva de Richard Power como romancista dos estudos científicos (em. Vencido o obstáculo conceituai do vaivém entre comensurabilidade e incomensura- bilidade.102 Até as mais humildes e antigas ferramentas de pedra da Garganta Olduvai. na Tanzania. Galatea 2. exceto quando a teoria social se torna explícita . todos os problemas restantes passam a ser assunto de pesquisa empírica: não são mais uma questão de princípio.mas. não por falta de dados.

os casos passionais e as sólidas ligações de primatas com objetos durante o último milhão de anos. transitórias demais para explicar assimetrias. os so­ ciólogos geralmente encaram o mundo social como destituído de objetos. mesmo quando abrem caminho em meio a objetos não sociais. finalmente. Para uma coletânea utilíssima de casos sobre o efeito rios estudos tecnológicos sobre o m a­ terialismo. pode ser difícil por um motivo que nada tem a ver com a teoria. se sintam tanto quanto todos nós perplexos ante o constante companheirismo. Bruna Latour Q uem se e sq u e c e u das rela ç õ es de po d er ? Podemos agora.sem o conseguir. quanto um apelo mágico a forças tau­ tológicas cujo preço exato em termos de carga material eles nunca se dis­ puseram a pagar. Elias e Marx. Aos olhos dos cientistas sociais. pois muitas vezes ficam “sem objeto”. em sua rotina diária. Não será suficiente para nós conside­ rar o poder e a dominação. Seu modo de acesso é que faz toda a diferença. The Social Shaping of Technology. 123 . Daí a necessidade de acrescentar a quarta incerteza (ver o capítulo seguinte). há motivos sérios por trás da necessidade de patrulhar incessantemente a fronteira que se- 104 Embora os objetos pululem nas obras de Simmel. sua presença não basta para preencher o social. As explicações sociais correm o risco de esconder o que deveríam mostrar. ver Donald MacKenzie e Judy Wajcman (1999). temos de ser bastante escrupulosos e cons­ tatar se realmente o poder e a dominação são explicados pela multiplicida­ de de objetos aos quais se atribui um papel capital e que são transportados por veículos empíricamente visíveis. Acompanhar os vínculos sociais. Quando definimos o controle de qualidade dos relatos da ANT. a persistente contiguidade. a contínua intimidade. pur si mesmos. examinar até que potito a ANT abalou a sociologia do social em suas pretensões de explicar as assimetrias a firn de permanecer fiel à intuição básica de sua ciência .104 Em seus estudos. A palavra “social” significa tanto interações locais diretas. como o cofre misterioso onde está encerrado aquilo que movimenta os muitos participantes na ação. embora.

como dizem os projetistas. com os cientistas e engenheiros ficando com a porção maior . “símbolo”. “intenção”. que o curso coletivo da ação não foi seguido de perto. torna-se social porque existe. coisas e objetos a cientistas e enge­ nheiros.e nos territórios por onde já não podiam transitar livremente. qualquer alusão dos estudiosos da AN T ao “poder dos obje­ tos” sobre as relações sociais era um lembrete penoso. mas quando se discutem as cores de um aparelho telefônico.e deixando as migalhas para os especialistas do “social” ou da dimensão “humana”. “linguagem”. Quando uma situa­ ção se fragmenta num componente material a que se junta.quer dizer.sem falar em seus lucros . causalidade. ou seja. conexões materiais . mas quando se cruza a imagem de um martelo com a de uma foice. eles aban­ donaram. isso não é um fato social. polêmicas interdisciplinares não geram bons conceitos. Desse modo.argumento polêmico. A única maneira de pleitear um pouco de autonomia foi abrir mão de vastos territórios e agarrar-se ao lote cada vez menor a eles con­ cedido: “significado". um componente social. uma coisa é certa: trata-se de uma divisão artifi­ cial imposta por disputas disciplinares e não por uma exigência empírica. como apêndice. para os sociólogos do social. já no início do século X IX . mau . Quando uma bicicleta bate numa pedra. da intervenção dos outros departamentos “mais científicos” em sua independência . Cada objeto foi assim dividido em dois. Ser ao mesmo tempo “material e social” não é uma forma de existência para os objetos: é apenas uma forma de acabarem artificialmente isolados e terem sua própria ação específica transformada em algo misterioso. Quando se instala uma nova mesa telefônica. ambas entram na esfera social porque agora pertencem à “ordem simbólica”. apenas barricadas erguidas com o entulho disponível. Contudo. isso não é um fato social. mas quando um ci­ clista ultrapassa um sinal de “pare”. isso não é um fato social. um bom . Significa simplesmente que a maioria dos dados se perdeu. 124 . Quando um martelo golpeia um prego. Reagregutuio n social para o dominio “simbólico” do “natural”. Para obter seu lugarzinho ao sol. é.eficácia. “uma dimensão humana” na escolha do dispositivo.

é grande a tentação de reagir além das medidas e fazer da matéria um mero inter­ mediário que apenas “transporta” ou “reflete” a ação da sociedade. Wiebe E. que por seu turno chega a tais extremos (a máquina a vapor passa a ser. como105 105 Ver exemplos desse cabo de guerra e dos meios de apaziguá-lo em Philippe Descola e Gisli Palsson (1996). Quando a esfera social assume esse papel deplorável. and Bulbs. Perception o f the Environment: Essays in Livelihood. Hugues e Trevor Pinch (1987). Como veremos no próximo capitulo. e Wiebe Bijker ( 1995). Como sempre. Seus “caros colegas” de outros departamentos científicos prestigiosos também insis­ tiam em afirmar que os objetos materiais dispõem de apenas "uma manei­ ra” de agir. 125 . Nature and Society: Anthropological Perspectives.)).1“5 O que compromete tais disputas é o fato da escolha entre essas posi­ ções não ser nada realista. estupidez gera es­ tupidez. Seria inacreditável que milhões de participantes de nossos cursos de ação tivessem acesso aos laços sociais por intermédio de apenas três modos de existência: como “infraestrutura material”.ntOur Cabe dixer que os cientistas sociais nao foram os únicos a adotar polemica mente uma só metafísica entre as muitas disponíveis. como “espelho” pronto a simplesmente “refletir” distinções. e as antigas discussões sobre os volumes de Böker em Wiebe Dijker e John Law (1992). só atribuíam ao social o papel de um intermediário fidedigno encarregado de “transportar” o peso causai da matéria. Shaping Technology-Building Society: Studies in Sociotedmical Change. em se tratando de polêmicas interdisciplinares. Bijker. Ver também Tim Ingold (2001. por exemplo. The Social Construction o f Technological Systems. O f Bicycles. Dwelling and Skill. Gestos como esses só conse­ guem levar até o sociólogo mais contido a insistir com redobrado ardor na importância de uma “dimensão discursiva”. Bakelites. “simples reflexo” do “capitalismo inglês”) que mesmo o engenheiro de mente mais aberta se faz de determinista técnico e esmurra a mesa com exclamações viris sobre o “peso das coações materiais”. A fim de evitar a ameaça do “determinismo técnico”. New Directions in the Sociology and History o f Technology. Towards a Theory o f Sacióte- clinical Change. capaz de “determinar” relações sociais à maneira dos tipos marxistas de materia­ lismo. Thomas P. tenta-se a defender com todas as forças o “determinismo social”. “forçando causalmente” outros objetos materiais a se moverem. Bruno I.

The Problem o f the Fetish. mas constituem apenas meios primitivos de aglutinar os laços que formam a coletividade. configuração ainda menos provável que a de humanos ligados entre si unicamente por vínculos sociais. sua presença mais gene­ ralizada que esses modestos repertórios. pois os ob­ jetos estariam simplesmente unidos um ao outro para formar uma camada homogênea. Reagregímtb a sucia/ sucede nas sociologías críticas de Pierre Bourdieu. Nenhum desses acessos de objetos ao coletivo são absurdos.apenas “refletiríam” valores sociais ou lá ficariam como mera decoração. e os intermediários se tornam mediadores. e William Pietz (1993). mesmo se o fizessem. sua influência mais difusa. 106 Um caso importante i o fetichismo em O Capital. Como quer que seja. Falar em “cultura material” não ajudaria muito nesse caso. 126 . onde o fetiche textual faz mais no texto de M arx do que aquilo que o próprio Marx lhe atribui. Mesmo como entidades textuais. moral e teológica (e até ele deixou aberto o fino conduto da glândula pineal. I. como nos relatos interacionistas de Erving Goffman. Fetishism and Material ism: The Limits of Theory in Marx. A melhor prova de sua multiplici­ dade é fornecida pelo exame meticuloso daquilo que os objetos realmente fazem nos textos dos escritores acima citados: os textos lhes concedem muito mais meios de agir que os a eles consignados pela filosofia da matéria de seus próprios autores.106 Mas. o campo de pesquisa deve se escancarar logo de início. ou como pano de fundo para o palco onde atores sociais humanos desempenham os papéis princi­ pais. Ver William Pietz ( 1985). e isso não acontece quando a diferença entre ação humanae causalidade ma­ terial é mantida com o mesmo rigor com que Descartes distinguía a mente da matéria (res extensa de res cogitaos) em abono de uma virtude científica. que os sociólogos do social também descartaram). seu efeito mais ambíguo. objetos nunca se unem para formar outra entidade e. não seriam nem fortes nem fracos . Suas ações são sem dúvida bem mais variadas. para aprender a lição. os objetos superam seus fabricantes em número. Nenhum basta para descrever os incontáveis entrelaçamentos de humanos e não humanos. naturalmente.

e fundindo esses diferentes meios com o poder nulo da inércia social. durabilidade. Mas.e isto é um crime político. mostra-o de maneira dramática o destino transatlân­ tico de Michel Foucault. tornou sua disciplina inútil e sua política impotente. Temos aí uma ciência racio­ nalista. os sociólogos. 107 Que essa lição ê lácil de esquecer. como reza o ditado. pa­ rece bem mais tentador usar o poder do que explicá-lo.ou. o uso gratuito do conceito de poder por tantos críticos teóricos os corrompeu de todo . camuflam as verdadeiras causas das desigualdades sociais. então. apelar para “dominação social” pode ser útil como recurso provisório. as explicações poderosas têm de ser contrabalançadas e confrontadas. sexo. Como a “virtude dor­ mitiva do ópio”. o que nem importa tanto assim. Bruna Latour Há. A sociologia. como também tenta anes­ tesiar os atores . transformou-se (mediatamente naquele que '‘desmascarou" as relações de poder por tais de cada atividade inócua: loucura. imóvel e homogêneo mundo de poder pelo poder. e este é justamente o problema dos "explicadores do social”: ao buscar explicações poderosas . pelo menos. o “poder” não só põe os ana­ listas a dormir. Mas. porém. história natural. substituiu o dédalo de meios estudados e modificá­ reis de conquista de poderes por um invisível. ad­ ministração etc. um motivo ainda mais importante para rejeitarmos de vez o papel atribuído aos objetos na sociologia do social: ele esvazia o apelo às relações de poder e às desigualdades sociais com algum signilicado real. Pondo de lado os meios práticos . Isso mostra de novo com que energia a noção de explicação social deve ser combatida: nem o gênio de Foucault conseguiu evil ar essa inversão extrema. modernista e positivista que traz no seio o mais arcaico e mágico dos fantasmas: uma sociedade autogerada e autoexplicativa. ao ser traduzido. extensão e domínio são produzidos . especialmente a crítica. o poder absoluto corrompe absolutamente. 127 . o que revelam não é sua própria ânsia de poder? Se. Con­ fundir causa e efeito faz muita diferença aqui. os mediadores graças aos quais inércia. Assim.isto é. Sem dúvida. a acusação de ignorar “relações de poder” e “desigualdades sociais” deve ser depositada às claras na soleira dos sociólogos do social. Ninguém loi mais exato na decomposição analítica dos minús­ culos ingredientes que iormam o poder e ninguém criticou tanto as explicações sociais. quando urge oferecer uma explicação para o vertiginoso efeito do domínio. ridicularizada por Molière. assimetria. quando não se mostram cuidadosos no trato das explicações sociais.107 Em sociologia.

Tudo começou muito mal. ou o que se conhece como “estudos de ciência”. assim como a definição de Karin Knorr-Cetina de agências na ciência (Karin Knorr-Cetina ( 1999). Nessa articulação. se não tomássemos o devido cuidado de preparar os visitantes para desenredar esse nó. A crítica feita por Pi­ ckering às explicações anteriores fornecidas pela Escola de Edimburgo (Andy Pickering. Infelizmente. Uma vez mais. assim como ao seu lugar de nascimento. Haraway (1991 ). Não importa quão surpreendentes eles sejam a princípio. Time. poderiamos enfim reutilizar a palavra positivamente. do termo grego epistemología . as dificuldades com que temos de lidar não param nessas três. Ver Donna J.108 108 U m a prova notável do irnpaclo dos esludos de ciência sobre a teoria social é for­ necida pelo efeito paralelo que ela teve em Haraway. 130 . temos agora de duvidar da sua “logia”. Há que se aceitar uma quarta fonte de incerteza. porém banal. Epistemic Cultures: How the Sciences Mahe Knowledge). os problemas se tornam tão nume­ rosos que todas as nossas viagens cessariam. para conquistar alguma liberdade de movimento temos de aprender a ir ainda mais devagar. Reiigregando o social que pareciam necessárias à primeira vista. e esta nos levará aos pontos espinhosos da sociologia das associações. Todos eles tiveram de dar uma voila similar. sem dema­ siadas apreensões. C O N S T R U T IV 1S M O S O C IA L ANT é a história de uma experiência iniciada tão descuidosamente que foi preciso um quarto de século para reti ficá-la e ajustá-la àquilo que constituía o seu exato significado. C O N S T R U T IV IS M O VS. Simians. No conjunto. Cyborgs. novos hábitos de pensamento poderiam formar-se rapidamente. A sociologia da ciência. com o uso in. é uma tradução conveniente. 1995).I0RApós duvidar do socio na palavra socio-logia. Uma vez completada essa dupla revisão. Agency and Science. and Women: The Reinvention of Nature. The Mangle of Practice. abandonar o éter da sociedade para alimentar-se de controvérsias não parece ser um grande sacrifício.

construto­ res. Smalt. em Tracy Ki­ dder ( 1985). os visitantes são facilmente surpreendidos pelo espetáculo de todos os participantes trabalhando ar­ duamente no momento de sua metamorfose mais radical. evidentemente. Mas por que a introdução da palavra construção deflagrou uma confusão ainda maior? Ao considerar esta difi­ culdade. 1 10 Ver dois exemplos inleilamenle diferentes. Curators and Workers in Art Installation. o que é uma ciência. Ninguém deveria usar a palavra construção sem 1er antes os “construtores" 11 i Ver Albena Yaneva (2001). Ele renovou o significado de todas as palavras. mas igualmente notáveis. Assim que atolam o pé na lama. o que é uma construção e o que é sociat. mas também para todos os outros locais de cons­ trução. casas e edifícios produzidos por arquitetos. 131 . Extra-Large. Em inglês claro. ao criar esta pequena e inócua expressão: o que é um fato. When a Bus Meet a Museum.109110 O mesmo sucede com a prática artística. To Follow Artists. e continua sendo a vantagem cru­ cial de qualquer historicização. e Albena Yaneva (2003). agentes imobiliários e proprietários de casas.1® Isso vale não somente para a ciência. dizer que alguma coisa é construída significa que ela não é um mistério surgido do nada ou que tem uma origem mais hu­ milde. ela confundia dois sentidos inteiramente diferentes: um tipo de material e um movimen­ to para reunir entidades não sociais. Nada mal para um experimento tão temerariamente conduzido. a ideia decisiva de Marx. Médium. Pragmatique comparée de l'art con­ temporain et de l'artisanat. espero em primeiro lugar deixar clara a razão pela qual dou tanta relevância ao minúsculo subcampo dos estudos de ciência. planejadores urbanos. Usualmente. Large. e em Rem Koolhas e Bruce Mau ( 1995). a grande vantagem de visitar locais de construção é que eles oferecem um ponto de observação para se testemunhar a ligação entre seres humanos e seres não humanos. mas também mais visível e mais interessante. Haust: ( 1985). a saber. Bruno Ltilour feliz da expressão “construção social de fatos científicos”. os mais óbvios dos quais são aqueles que constituem a fonte da metáfora.111 A “confecção” (making of) de 109 Essa é. Compreendemos hoje por que a palavra social provoca tantos mal-entendidos. UAJJluence des objets.

haute couture . os aceleradores de partículas. por mais belo ou impressionante que ele possa ser. afigurou-se óbvio para nós . para qualquer coisa. usar o termo construção afigurou-se a princípio idea! para descrever uma versão mais realista daquilo que significa. estilo. na tecnologia. como proporcio­ na um raro vislumbre do que significa. para uma coisa. tais locais seriam os laboratórios.os primeiros estudantes da ciência . os te­ 132 . Ela não apenas nos conduz aos bastidores e nos introduz nas habilidades e talentos dos profissionais. de fato. se existissem locais de construção nos quais a noção usu­ al de construtivismo devesse ser prontamente aplicada. As grandes questões são. perdurar. na engenharia. valor etc.oferece uma visão que é suficiente­ mente distinta da visão oficial.que. uma usina nuclear. antes: Com que habilidade ele é projetado? Com que solidez é construído? Até que ponto ele é duradouro e confiável? Quanto custou o material? Em qualquer domínio. durabilidade. qualidade. Mais importante ainda. Assim. Isso é demasiado óbvio para ser enfatizado. Tanto assim que ninguém se daria ao trabalho de dizer que um arranha-céu. na arquitetura e na arte. a ciência ofereceu os casos mais extremos de completa artificialidade e completa objetividade caminhando em paralelo. Reagregcinda o social qualquer empresa . Mais ainda que na arte. quando somos levados a qualquer local de cons­ trução estamos vivenciando a perturbadora e estimulante sensação de que as coisas poderíam ser diferentes ou pelo menos de que elas ainda poderíam falh a r . arranha-céus. culinária .filmes. dizer que uma coisa é construída sempre esteve associado a uma apreciação de sua robustez. na arquitetura e na engenharia. Não se pode questionar que os laboratórios. emergir da inexis­ tência ao conferir a qualquer entidade existente a sua dimensão temporal. fatos. rituais iniciáticos. uma escultura ou um automóvel é “construído”. reuniões políticas. em todos os domínios. os institutos de pesquisa e o seu imenso aparato de ca­ ríssimos instrumentos científicos.sensação essa que nunca é tão profunda quando nos vemos diante do produto final. E. a construção é de tal modo sinô­ nimo de real que a questão passa a ser imediatamente a seguinte questão interessante: Foi bem ou mal construído? A princípio.

não houve a menor dúvi­ da de que os produtos desses artificiais e caros eram os resultados mais averiguados. que algo não era verdadeiro. as estatísticas nacionais. sentimos como isso era arriscado. a palavra construção significava algo inteiramente distinto daquilo que o senso comum pensara até então. 133 . Assistimos ao fil­ me fabuloso que nossos colegas historiadores da ciência estavam exibindo para nós. não obstante. Foi por isso que. Pareciam 112 Antes das reações anti-whiggistas na história da ciência. a verdade sendo lentamente alcançada em episódios de tirar o fôlego sem estarmos seguros do resultado. para nós. Tornou-se inte­ ressante. tão interessante corno era para seus profissionais envolvidos em sua arriscada produção. até o mais incrível espetáculo. a história da ciência suplantava qualquer trama que Hollywood poderia imaginar. A ciência. E.112 infelizmente. imagem após imagem. No que se referia ao suspense. tornou-se melhor do que a simples objetividade. a excitação declinou rapidamente quando percebemos que para outros colegas. Bruno Latour lescópios. apren­ demos sobre as habilidades dos profissionais. os computadores gigantes e as coleções de espécimes foram lugares artificiais cuja história poderia ser documentada da mesma maneira que a dos edifícios. Dizer que uma coisa era “constru­ ída” significava. vimos inovações tomarem forma. chips de computadores e locomotivas. e testemunhamos a intrigante fusão de atividades humanas e entidades não humanas. com grande entusiasmo. Ademais. em suas mentes. começamos usando a expressão “construção de fatos” para descrever o notável fenômeno da ar­ tificialidade e da realidade caminhando no mesmo passo. tanto das ciências sociais quanto das ciências na­ turais. assim você pode aprendê-la”. era impossível compar­ tilhar o libido sciendi dos praticantes: diante do produto final. o público não tinha outro modo de se interessar pela ciência além da injunção pedagógica: “É verdade. objetivos e corroborados já obtidos pelo engenho humano coletivo. os satélites artificiais. dizer que a ciência também era construída dava a mesma emoção proporcionada por todos os outros “fazeres” (making of): voltamos aos bastidores.

ou era construída e artificial.o que significava mais ou menos a mesma coisa que dizer que os bebês não nasceram do ventre de suas mães . o público não linha outro modo de se interessar pela ciência além da injunção pedagógica: “É verdade.ou pelo menos quanto aquilo em que. Rengregimdü o social operar com a estranha ideia de que temos de nos submeter a esta esco- 1ha altamente improvável: au uma coisa era real e não construída.e contra os nossos “caros colegas” que pareciam insinuar que. como insultava tudo o que estávamos testemunhando nos laboratórios: ser inventado e ser objetivo se equivaliam. era impossível compar­ tilhar o libido sciendi dos praticantes: diante do produto final. se fossem construídos. Não só essa ideia não podia reconciliar-se com o vigoroso significado que se tinha em mente quando se falava sobre uma casa “bem construída”. no entanto.significando que emergiam em situações arti­ ficiais. Todo cientista que estudavamos se orgulhava dessa conexão entre a qualidade de sua construção e a qualidade dos seus dados. isso torna a emergência de qualquer ciência simplesmente incompreensível. a etimologia estava lá para lembrá-lo a todo mundo. ideada e inventada. feriamos de lutar em duas fren­ tes: contra os epistemologistas que continuavam afirmando que os fatos eram “evidentemente” não construídos . Essa forte conexão era na verdade a principal reivindicação à fama de alguém. 113 Antes das reações anli-wliiggistas na história da ciência. um software bem projetado ou uma estátua “bem esculpida”. Se começamos rompendo as narrativas unitárias de fatos dividindo-as em dois ramos. assim você pode aprendê-la”.113 Estávamos preparados para responder à pergunta mais interessante: Um determinado fato da ciência é bem ou mal construído? Mas certamente não estávamos preparados para passar a esta alternativa absurda: “Escolha! Um fato ou é real ou é fabricado!” E. acreditavam eles. os fatos seriam tão fracos quanto os fetiches . Fatos eram fatos . Em­ bora os epistemologistas possam ter esquecido isso. se quiséssemos continuar usando a palavra construção . composta e falsa. tornou-se penosamente claro que. os fetichistas acreditavam. 134 .significando exatidão -p o r q u e eram fabricados .

sobretudo porque a palavra social tinha o mesmo defeito embutido de enlouquecer os nossos leitores tão infalivelmente quanto a capa de um toureiro brandida diante de um touro. Noutras palavras. parecia fácil reivindicar uni significado forte para esse termo tão estigmatizado . queremos dizer simplesmente que explicamos a sólida realidade objetiva mobilizando entidades cuja reunião poderia 114 David Binar (1991). Bruno Latour Nesse ponto. Quando dizemos que um fato é construído. os dois termos tinham uma tradição demasiado honorável para não serem reivindicados como gloriosa bandeira. Siga aqui a obra esclarecedo­ ra de Tan Hacking (1999) The Social Construction o f What? 135 . juntar o adjetivo social ao termo construtivismo per­ verte completamente o seu significado. Assim como uma república socialista ou islâmica é o oposto de uma república. não se deve confundir construtivismo com construtivismo social. 115 Brurm Latour (2003a). poderia ter sido mais seguro abandonar totalmente a pala­ vra construção . era o fundamentalismo. Eis por que julguei mais apropriado fazer com o construtivismo o que fizêra­ mos com o relativismo: lançados à nossa face como insultos. permaneceu crucial não perder de visla aqueles locais de construção mais extraordinários nos quais essa dupla metamorfose estava ocorrendo. se é que as palavras têm algum significado.1141 5E os que nos criticavam por sermos eonstrutivistas pro­ vavelmente não gostariam de reconhecer que a posição oposta. todos os que nos criticavam por sermos relativistas nunca se deram conta de que o contrário do relativismo seria o absolutismo.construção: teríamos simplesmente de usar a nova definição de social que examinamos nos capítulos anteriores deste livro. Especialmente útil era a maneira clara pela qual a “construção” focalizava a cena na qual os seres humanos e os não humanos se fundiam. Knowledge mid Social Imagery. Afinal. Por outro lado."'’ Por outro lado. The Promises of Constructivism. Como toda a ideia da nova teoria social que estávamos inventando consistia em renovar em ambas as direções o que era um ator social e o que era um fato. ele con­ tinuou sendo um excelente termo por todas as razões supramencionadas.

116 Embora o construtivismo fosse para nós um sinônimo de aumento de realismo. as entidades não humanas têm de desempenhar um papel maior. obviamente. a ideia de uma construção feita de matéria social desaparece. por outro lado. as structure). “bachelardiana” ou “canguilhemiana”. Para que ocor­ ra qualquer construção. éramos festejados por nossos colegas de crítica social como tendo mostrado pelo menos que "até mesmo a ciência era uma bobagem”! Precisei de muito tempo para perceber o perigo de uma expressão que. A associação da palavra construção com um ccrla suspeita sobre a realidade da ciência só muito lentamente atravessou nossa mente “duhemiana" (ver Pierre Duhem (1904). Mas. isso foi especialmente difícil para os franceses. construtivismo social significa. basta ver que. Katgregando o sticlul falhar. Uma vez que. e é exatamente isso que queríamos dizer desde o começo com esse termo um tanto inócuo. na Iradição francesa. 136 . para nós. construtivista e racionalista sào sinônimos. essa operação de salvamento não bastou porque o resto das ciências sociais parecia compartilhar uma noção totalmente distinta do mesmo termo. só muito lentamente produzimos anticorpos contra a acusação de que reduzíramos os fatos a “mera cons­ trução”. foram necessários anos para reagirmos de modo equilibrado às teorias absurdas com as quais pa­ recíamos estar associados. significava aparentemente algum tipo de vingança contra a solidez dos fatos científi- 116 Dado que. Ideology and Racionality in the History of the Life Sciences.o social de que ele “realmente” é feito. La Théorie physique. era óbvio que construção social significava prestar uma atenção renovada ao número de realidades heterogêneas que entram na fabricação de certo estado de coisas. como social significa novamente associação. Ver Georges Canguilhem (1968) [1988]. Son objet. Para reconduzir o construtivismo às suas bases. que substituirnos aquilo de que essa realidade é feita por algum outro m aterial . nas mãos dos nossos “melhores amigos”. Como assim? Nosso erro era que. Unia explicação sobre a gênese heterogênea de um edifício é substituída por outra que trata da matéria social homo­ gênea da qual ele é construído. como nunca tínhamos compartilhado a ideia de que a construção podia significar uma redução a um único tipo de material.

contudo. está longe de ser a mesma coisa fazer uma oração a Deus e dizerem que ela está orando apenas para a “personalização da Sociedade”. A substituição do social por outra matéria parece. mas para dispor as associações que tornaram determinado estado de coisas sólido e duradouro. não é a mesma coisa estar ligado à existência de uma divindade e dizerem que ele adora um fetiche feito de madeira. não é a mesma coisa obedecer à Constituição ou ceder a lobbies podero­ sos escondidos atrás da lei. Para uma alma religiosa. para cada ator. está longe de ser a mesma coisa travar comple­ xas controvérsias sobre buracos negros ou ser presenteado. a arte. Não admira que a nossa excitação ao mostrar a “construção social do fato científico” haja deparado com tamanha fúria por parte dos pró­ prios atores! Para os físicos. a palavra social não é usada para substituir uni tipo de coisa por outro. Como podería existir. reduzi-lo a pó ao mostrar a matéria de que era leito. tal divisor de águas nos de­ veres básicos da ciência social? Por isso aos poucos foi ficando evidente para nós que havia algo profundamente falho não só na filosofia da ciên­ cia padrão. mas também nas teorias sociais padrão usadas para explicar 137 . Para um advogado. a lei.e com razão! Se. perguntamo-nos. então ou­ tra teoria social podería tornar-se finalmente inteligível. Para uma costureira da haute couture. a cultura e tudo o mais em que acreditamos. com as “lutas pelo poder entre os físicos”. Bruno Litto nr cos e uma exposição de sua reivindicação à verdade. para não dizer que estavam associando a artificialidade da construção a um déficit na realidade. Para quem nunca fora treinado em sociologia crítica. uma perda catastrófica contra a qual se deve resistir de modo inflexível . Eles pareciam insinu­ ar que estávamos fazendo com a ciência o que se orgulhavam de ter feito com a religião. ou seja. ao contrário. Inadvertidamente. Para o adepto de um culto. era difícil imaginar que as pessoas pu­ dessem usar a explicação causai em sua própria disciplina como prova de que os fenômenos que elas estavam explicando na verdade não existiam. o construtivismo se tornara si­ nônimo de seu número oposto: desconstrução. não é a mesma coisa cortar um veludo grosso e brilhante ou dizerem que ela faz uma visível “distinção social”.

levou os estudiosos da ANT a parecerem demasiado críticos . a princípio. permitir-nos domar os animais selvagens. Após estudar a religião.e isso significa. o que a ANT estava lentando modificar era simplesmente o uso de todo o repertório crítico abandonando simultaneamente o uso da Natureza e o uso da Sociedade. Isso. os cientistas sociais. Reûgregmdo a social outros domínios que não o da ciencia. de início involun­ tariamente. O campo de estudos de ciência costuma ser apresentado como a exten­ são da mesma sociologia normal do social a um novo objeto: as atividades científicas. ao cabo. quando tentávamos explicar sociologicamente a produção da ciência.117 De fato. O A U S P IC IO S O N A U FR Á G IO DA S O C IO L O G IA DA C IÊ N C IA Seja-me permitido. as lutas de classes. as culturas populares. o urbanismo. contudo. a maior parte do mun­ do.ou demasiado ingênuos . não tinham nenhum motivo para 117 A primeira critica foi apresentada durante o episódio da Guerra das Ciências. o direito. Foi isso que.. a se­ gunda pode ser vista cm Collins e Ycarley Epistemological Chicken: Simon Schaffer (1991a). The Eighteenth Brumaire o f Bruno L a t o u r and Steve Waolgar (1991 ). há muita coisa a ser dita em favor das bandeiras verme­ lhas nas mãos de toureiros hábeis na medida em que eles podiam. 138 . o vício em drogas. que haviam sido inventadas para revelar "por trás” dos fenômenos sociais aquilo que estava “efetivamente ocorrendo”. a cultura coletiva etc. a política. em primeiro lugar. Afinal. significava uma total reinterpretação do experimento que realizáramos. receio eu. segundo se diz.foram acusados de atacar “mesmo” os fatos obvios e de não acreditarem na “Natureza” nem na “realidade exterior” .acreditavam nas agên­ cias das "coisas reais” que estavam “lá fora”. descartar um erro frequente­ mente cometido em relação ao nosso subcampo original por pessoas não familiarizadas com ele . The Turn lo Technology in Social Studies o f Sience.

“Estudantes de Ciência e Tecnologia” {EC & T). tenho de mostrar como ela emergiu da sociologia da ciência ao ti­ rar conclusões extremas não só para a ciência mas também para a teoria social. anos atrás. nós concluímos que. Science in Society: An Introduction to the Social Studies of Science'. Enquanto estes últimos se persuadiram de que a teoria social funcio­ na mesmo para a ciência . não tenho problema em dizer que a ANT pertence aos campos da ciência.incluindo a dos nossos colegas com os quais. epor isso 118 Embora nunca tenha usado esses rótulos. da tecnologia e da sociedade.11819 Mas. como estou tentando definir a ANT. The Science Studies Reader. mais vagamente. 119 Existem várias. 139 . os laboratórios e institutos de pesquisa já não eram senão os itens seguintes numa lista de tópicos a serem tratados usando-se os ingredientes normais da metodolo­ gia social que fora empregada "com muito sucesso” em outros domínios. Tal era a opinião quase unânime . Ver Mario Biagioli ( 1999). Massimiatio Bucchi (2004). De acordo com essa visão. exatamente porque eles conservam vivos os diferentes domínios que têm de dissolver. globalmente e nos detalhes. Os estudiosos da ANT são definidos principalmente como aqueles que dos trinta e tantos anos da sociologia da ciência tiraram uma conclusão totalmente diferente das de seus melhores e mais caros co­ legas. o broto) composto por aqueles que haviam ficado totalmente abalados quando tentavam dar uma explicação social dos fatos intricados da ciência. e Dominique Vinck (1995). no domínio da ciência a teoria social falhou tão radicalmente que se pode postular com segurança que ela sempre falhou em qualquer outro domí­ nio. Bruno Latour deter-se naquilo que constitui a marca oficial das sociedades contemporá­ neas: a ciencia e a tecnologia. gostaria de brandir essa bandeira. La Sociologie des sciences. As explicações sociais não podem ser “estendidas” à ciência.'18 Se eu tivesse de escrever uma introdução aos estudos de ciência. começamos as nossas investigações e que são denomi­ nados "sociólogos do conhecimento cientifico’’ (SCC) ou. A ANT não c o ramo da ciência social que conseguiu estender os seus métodos à atividade científica e depois ao resto da sociedade. mas sim o ramo (ou antes.

dema­ siado técnicos. nem a colaboração estreita nem a amizade! De fato. A objetividade científica deve permanecer para sempre como a rocha contra a qual as ambições da sociologia se chocarão.sem abandonar. Ela. Como disse Deleuze (1992): "O relativismo não é a relatividade da verdade. Se a sociologia pretende tornar-se um tipo de ciência .e nós compartilhamos essa pretensão -. quatro conclusões foram tiradas do desenvolvimento da sociologia da ciência . Para verificar se esse argumento não é um paradoxo vazio. paixões políticas. não obstante. o científico é apenas o que escapou aos estreitos constrangimentos da sociedade .com isso provavelmente eles querem dizer ideologia.1211 A primeira posição é perfeitamente previsível: os estudos de ciência Unham de falh a r por completo porque nenhuma explicação social da ciên­ cia objetiva pode ser oferecida: fatos e teorias são demasiado duros. evidentemente. disposição subjetiva e deba­ tes intermináveis e vazios. ela precisa enfrentar esse obstáculo sem hesitar. mas a verdade da relação”. ela não compreende coisa nenhuma relativa à ficção. mas nunca li ninguém que afirmasse efetivamenlc o argumentó. a confusão entre relativismo (vale ludo) e relatividade tem o sen preço. mas pergunto-me se ela sequer existe realmente. Tentar explicar a ciência sociologicamente é uma contradição porque. demasiado eternos e demasiado remotos do interesse humano e social. por definição. da maioria dos cientistas so­ ciais: pode haver uma sociologia do conhecimento. demasiado reais. tenho que explicar por que tivemos que abandonar as posições dos nossos ami­ gos . de qualquer modo. Como costuma acontecer. Refutar uma posição não existente tornou-se. das pseudociências. Tal é a reação majoritária dos filósofos. Reagregando o sucia! não podem ser estendidas a nenhuma outra coisa. 140 . epistemologistas e. concluiu que a ciência é uma “ficção social como todas as demais ficções sociais” porque obvia­ mente já nao está interessada em elaborar uma ciência social e porque. da120 120 Vi a acusação com frequência. estranhamente. a pedra que sempre humilhará seu orgulho. algo como uma indústria de cabanas (ver o livro com titulo bem apropriado tie Noretta Koergte (1998) A House Built on Santi: Exposing Postmodernist Myths about Science).posso ignorar a quinta posição. supostamente.

Theoretical ami Empirical Investiga­ tions. por exemplo. Science. compreensão pública. Bruna Latour crença. Norman Levitt e Martin W. por Ro­ bert K. disputas legais. são perfeitamente estudáveis pelos sociólogos. 123 Bluor. sistemas de recompensa. K. De fato. menos extrema. Knowledge and Social Imagery.123 Para os estudiosos dos SCC e. para repetir o clichê . instituições. The Sociology of Science. pode ser formulada do se­ guinte modo: para ser respeitada e bem-sucedida. atemporais dos resultados incontrovertívcis da ciência. Pierre Bourdieu. a sociologia deve ater-se apenas aos pontos considerados superficiais pela posição anterior. os aspectos cognitivos e técnicos da ciência.122 A terceira conclusão é aquela tirada pela maioria dos nossos cole­ gas de estudos de ciência: a seu ver. Isso requer invenção. dos aspectos superficiais da ciência . Science de la science et réflexivité. dos EC&T. Collins e Trevor Pinch (1982). Frames of Meaning: Tlte Social Construction of Extraordinary Science.“os cientistas também são humanos”. a sociologia da ciência deve limitar-se a padrões de carreira. no seu conjunto. os sociólogos da primeira posição são demasiado tímidos. Lewis (J997). and Democracy. éticas. Aqueles que previram com júbilo o malogro de todas as explicações científicas da ciência. Tal é a posição de uma sociologia dos cientistas (em oposição a uma sociologia da ciência ) proposta. Merlon (1973). adaptação e precaução. ob­ jetivos. abraçaram uma forma de puro obs­ curant ismounca lograram oferecer uma razão pela qual a própria ciência não poderia ser estudada científicamente. forçar demasiado as coisas. 122 R. Ver Pierre Bourdieu (2001). Truth. A segunda conclusão. Merton e.121 Exeunt sociólogos. O livro crepuscular escrito por Bourdieu para "explicar" a diferença entre a sua sociologia dos cientistas e os estudos de ciência testemunha essa distinção. Harry M. mais tarde. assim como no superficial The Flight from Science and Reason de Paul R. porém os instrumentos usuais do ofício 121 Essa posição pode ser encontrada na versão mais engenhosa em Philip Kitcher (2003). mais geralmente. contudo. Gross. e só com grande prudência deve propor-se estabelecer “algumas relações” entre alguns fatores “cognitivos” e algumas dimensões “sociais”. sem. Ill .mas não dos aspectos cognitivos.

o senso comum dos sociólogos da ciência.contra os que querem limitar as ambições da sua disci­ plina ao estudo dos cientistas e que se subtraem voluntariamente ao conteúdo técnico e cognitivo. além de uma lição de ironia. c) a prática científica é demasiado dura para ser decifrada pela te­ oria social comum. sem notar que os estudos de ciência.126 124 Ver Steve Woolgar (1988). o “nós” que uso neste livro se refere àqueles que extraíram as seguintes consequências:124125 a) é perfeitamente possível uma sociologia de toda a ciência . em Paris. 126 O ponto de partida é fácil de localizar nas duas discussões com nossos amigos SCC.embora questões intricadas de reflexividade e realismo possam deixar algumas pessoas perplexas e confusas. Ele assegurou que a distância entre palavras e mundos tornou-se ainda maior.contra os filósofos da ciência e de acordo com o conjunto dos estudos de ciência. Epistemological Chicken. e com boas razões.121 Foi o que se tornou. Ver Collins e Yearley. Mas do mesmíssimo experimento tiramos uma quarta conclusão inteiramente diferente . sem estar certo de que ele se estende muito além do bulevar Saint Michel. e requer uma nova teoria que pode ser usada para lançar uma nova luz também sobre os tópicos mais "brandos” - contra nossos colegas no campo dos estudos de ciência que optaram por não ver a ameaça à sua disciplina original suscitada por seus próprios trabalhos. Woolgar fez um trabalho notável ao tentar tornar os seus colegas ainda mais confusos. ou mesmo de que poderia limitar-se ao andar térreo! Só posso pretender ser uma “amostra representativa” de um grupo não existente. Ver nossa resposta em Gallon e La- 142 . embora nem sempre tenha permanecido segura e prudentemente dentro dos estreitos limites dados pelo re­ pertório antropocéntrico do discurso sobre os objetos da ciência e da tecnologia.ou antes. podiam ser também uma lição de realismo. 62. Science lh e Very Idea. 125 Não gostaria de tentar definir a verdadeira dimensão desse incrivelmente pequeno "nós”. b) tal sociologia não pode limitar-se ao contexto superficial e social da ciência . I Ruagrcgando o social são adequados o bastante .

mas posso afirmar que usar esse malogro como um tram ­ polim . É com a própria noção de uma explicação social que temos de lidar. e minha resposta em Bruno Latour ( 1999b).137 Uma vez que não existem experimenta cruéis (experimentos decisivos) nem em física nem em sociologia. ela está. Ou poderíam dizer.abre um novo caminho para a teoria social. longe de ser frívola. 127 Esta senha podería facilmente dispensar de 1er muita coisa que passa pela ANT porque essa teoria social fui posta em sua cabeça e usada como uma "metodologia” para Lodo propósito e todo terreno. Don't throw the Bain Out with the Bath School! A Reply to Collins and Yearley. não posso demonstrar que esse é o único cam i­ nho a seguir. que se pode “aplicar” a qualquer campo sem que ela mesma passe por qualquer mudança (ver o Interlúdio. não obstante. Se a nossa decisão de tirar aquelas conclusões desse experimento não pode ser provada. mas a teoria social teve de ser refeita. 143 .nenhuma explicação social da ciência é possível . Inversamente. continuemos com eia como sempre”. massas de trabalho na história da ciência e da tecnologia poderíam ser incluídas como ANT. Nossos colegas preferem dizer: “A explicação so­ cial da ciência falhou porque é contraditória”. Não é que a sociologia da ciência estivesse fadada a malograr. pelo contrário. Anti Latour.a Response to David Bhwr's ‘Anti-Latour. ver também David Bloor (1999). p. eu diría que o fracasso de uma explicação social da ciência foi a grande oportunidade para a teoria social. For Bloor and Beyond . o social nunca explicou nada. porque agora ela pode enfim chamar a teoria social à razão”. como *127 tour. Mas a ANT propõe: “É uma grande oportunidade agora que ela falhou tão completamente. “Ela se saiu muito bem. Da mesma sorte que os padres da Igreja celebravam o pecado de Adão como urna felix culpa (uma perda afortunada da graça) porque eia provocou a redenção de Cristo. 205). Bruno Latour Não estou afirmando que esta conclusão da emocionante aventura dos estudos de ciencia é a única e necessária. Estou simplesmente dizen­ do que para serem chamados de “estudiosos da A N T’ é mister transfor­ mar o fracasso em oferecer uma explicação social convincente sobre os fatos científicos duros em uma prova. ele é que tem de ser explicado.

Reagregttmia a social

se o tivéssemos feito apenas por divertimento, simplesmente “pour épater
le bourgeois". Há uma razão excelente, ao menos retrospectivamente, pela
qual o caso especial da ciência deveria fazer a teoria social naufragar tão
completamente: foi a primeira vez que os cientistas sociais estavam real­
mente estudando acima.
Até os laboratórios, as maquinarias e os mercados serem cuidado­
samente escrutados, a Objetividade, a Eficácia c a Lucratividade - as Três
Graças do modernismo - eram simplesmente consideradas como pontos
pacíficos. Os cientistas sociais se deixaram levar pelo perigoso hábito de
estudar apenas as atividades que diferiam daquelas posições padrão: a ir­
racionalidade devia ser explicada; a racionalidade nunca precisou de qual­
quer justificação adicional; o caminho reto da razão não requeria nenhu­
ma explicação social, apenas os seus desvios tortuosos.1-8 Assim, nenhum
teste real foi proposto para ver se uma explicação social de uma coisa qual­
quer efetivamente se sustentava ou não, já que a própria racionalidade
nunca era questionada. Mesmo quando eram magnatas, gênios artísticos,
estrelas de cinema, boxeadores campeões ou estadistas, os informantes dos
sociólogos eram sempre brandidos pelo estigma de serem menos racionais,
menos objetivos, menos reflexivos, menos científicos ou menos acadêmi­
cos do que os que faziam o estudo. Assim, a despeito do que reivindicavam
com frequência, os sociólogos sempre estudaram abaixo, visto que o poder
da ciência permanecia do seu lado e não era esquadrinhado. A religião,
a cultura popular, as cosmologías míticas, os mercados, as corporações -
mesmo as obras de arte - nunca eram tão fortes quanto a ciência do social,
que estava substituindo todas aquelas coisas mais brandas pela matéria
mais dura de alguns agregados sociais ocultos, assim como seus poderes,
sua estrutura e sua inércia. As rodas do explanans sempre foram forjadas
com um aço mais sólido do que as do explanandum. Não admira que eles
tenham obtido facilmente as provas e acionado dados sem esforço.128

128 Essa continua sendo a contribuição duradoura do princípio da simetria de David
tíloor porque era a única maneira romper com a influência da sociologia do conhe­
cimento que se limitava ao irracionalismo.

144

JiruJloLtlluur

Por exemplo, as pessoas religiosas nunca gritaram indignadas quando
foram “explicadas socialmente”. Aliás, quem asteria ouvido? Quando muito,
sua choradeira teria sido mais uma prova de que não puderiam permanecer
testemunhando suas fantasiosas e arcaicas ilusões serem explicadas pelo frio
escrutínio dos fatos sociais. E o mesmo teria acontecido se os políticos, os
pobres, os trabalhadores, os fazendeiros e os artistas tivessem protestado por
serem “colocados num contexto social”. Quem teria ouvido a longa série de
objeções levantadas durante três séculos por adoradores tropicais acusados
de fetichismo? Eles poderíam ter resmungado e encolhido os ombros, mas
nunca confrontado as provas dos sociólogos. Quem, pois, teria averiguado
a eficácia da explicação social? Não, decerto, os sociólogos críticos, sobretu­
do porque as suas “explicações” sempre incidiam sobre questões pelas quais
não tinham lá grande consideração. Assim, não somente a explicação social
nunca encontrou um contra exemplo, como o seu ácido também não teve a
menor dificuldade para dissolver questões com as quais os dentistas sociais
não se preocupavam porque, em seu mais profético impulso para a eman­
cipação, eles tentaram ajudar as pessoas a se libertarem delas! Que aconte­
cimento poderla tê-los despertado de seu sono dogmático? Que tal o suave
zumbido do ar-condicionado do laboratório?
Este era o ponto de apoio arquimediano que a teoria social estava
procurando... A ciência represen taou um desafio inteiramente diferente,
e esta é exatamente a razão pela qual o abordamos em primeiro lugar -
embora, por razões de lógica, eu o coloque em quarto lugar neste livro.
Não apenas os cientistas sociais tratam seriamente a ciência, como ela foi
também seu único tesouro deixado depois que o cruel desencanto do mo­
dernismo derrubou todos os antigos ideais. Para além da objetividade, da
universalidade e da cientificidade, não há nada digno de adesão. A única
esperança deles era tornarem-se cientistas plenamente habilitados. E, não
obstante, pela primeira vez os dentistas sociais tiveram de estudar algo
que era superior, mais sólido e mais forte do que eles. Pela primeira vez o
explanandum resistiu e fez ranger os dentes das engrenagens dos ex p la­
nons. Não só isso, mas os brados dos que estavam sendo estudados podiam

145

Reagregando o social

ser ouvidos em alto e bom som - e eles não provinham de Bali, dos guetos,
de estúdios de televisão, de salas de reunião corporativas ou do Senado
americano, mas de departamentos vizinhos, de colegas dos mesmíssimos
comitês de contratos e concessões cientificas.
Ora, finalmente estava na hora de realizar, nas ciências sociais,
o experimento que nunca se realizara antes: Que prova temos de que a ex­
plicação social é válida quando estudamos acim a ? Quando as reações dos
que são estudados não podem ser ignoradas? Quando o “capital cultural”
dos que são estudados é infinitamente superior ao dos que estão fazendo
o estudo? Quando os objetos a serem substituídos pela “força social” são
obviamente mais fortes, mais variados e mais duradouros do que essa mes­
ma força social que se supõe explicá-los? Quando as verdades a serem ex­
plicadas são igualmente avaliadas pelos que estudam e pelos que são estu­
dados como o único tesouro na terra pelo qual vale a pena lutar? Após dois
séculos em que se explicou facilmente o comportamento e as crenças dos
agricultores, dos pobres, dos fetichistas, dos fanáticos, dos padres, dos ad­
vogados e dos negociantes, cuja ira raramente foi registrada, e se forneceu
explicações que nunca poderíam ser comparadas uma a uma com o que
era explicado, íamos ver, enfim, se o social podia ou não explicar alguma
outra coisa. Os químicos, os cientistas dedicados a fabricação de foguetes
e os físicos estavam acostumados a ver os seus laboratórios explodirem,
mas demorou um pouco para que o gabinete do sociólogo fizesse um ex­
perimento suficientemente arriscado para ter uma possibilidade de falhar!
E, desta vez, ele explodiu. Após uma semana no laboratório de Guille-
min trinta anos atrás, lembro-me de como julguei inevitável a conclusão:
o social não pode substituir o mais ínfimo polipeptídio, a menor rocha,
o mais inócuo elétron, o babuíno mais manso. Os objetos da ciência po­
dem explicar o social, mas o inverso não é verdadeiro. Nenhuma experiên­
cia foi mais notável do que aquela que presenciei com meus próprios olhos:
a explicação social desaparecera no ar.
Naturalmente, muitos ramos da ciência social fizeram o mesmo es­
forço, especialmente os estudos feministas, os estudos queer, alguns estu-

146

Bruno Latour

dos culturais e a maior parte da antropologia. Mas será realmente injusto
dizer que esses trabalhos correram o risco de permanecerem periféricos,
marginais e exóticos, na medida em que contrastavam com a objetividade
científica que se supunha fugir desse tipo de tratamento? O serviço pres­
tado pelos estudos de ciência e ramos similares da ciência social consistiu
em remover o padrão que os tornava, por comparação, marginais ou me­
ramente “especiais”.125 Após os estudos de ciência, toda ciência social pode
estudar “acima”.

N e n h u m a e x p l ic a ç ã o s o c ia l é n e c e s s á r ia

A dificuldade era compreender essa experiência - e isso demandou
muito tempo. Que os cientistas às vezes se zangassem conosco não era, em
si mesmo, tão significativo. Estudar “acima” não significa ser submetido
aos objetivos daqueles que estudamos: o que alguns cientistas desconten­
tes concluíram de nossas pesquisas continua sendo problema deles, não
nosso. Pelo que sei a respeito dos confusos episódios do que se chamou de
"Guerras de Ciências”, eles poderíam ter concluído que a alva pureza da
ciência jam ais deveria ser maculada pelos dedos escuros e engordurados
dos meros sociólogos.**130 Se não aprenderam alguma coisa de seus encon­
tros conosco, isto é muito triste para eles, e não podemos fazer muita coisa
a esse respeito. Mas, ainda que tirassem a conclusão errônea, seu furor
contra aquilo que os sociólogos claramente não conseguiam perceber ao
tentar explicar o seu trabalho foi para mim um sinal crucial. Por mais
equivocadas que fossem suas reações, isso mostrou que sempre que uma

! 29 Tal é a fonte de minha ligação chauvinista ao meu querido pequeno subcatnpo. Do­
ravante a ciência também é "especial", em vez de ser aquilo que torna todas as outras
atividades "especiais”.

130 Ver Baudoin Jurdant (1998), Impostures intellectuelles. Les malentendus de l’affaire
Sokal, e Yves Jeaimeret (1998), L'Affaire Sokal ou la querelle des impostures.

147

Reagiegnmla o nid ,il

explicação social era dada havia algum ardil em jogo. Em vez de estabe­
lecer uma conexão entre duas entidades, muitas vezes acontecia de uma
entidade ser substituída por outra. Nesse ponto a necessária busca de cau­
salidade se tornou um empreendimento inteiramente diferente, perigosa­
mente próxima da prestidigitação.
Como se pode fazer essa prestidigitação? Ela ocorre quando uma
expressão complexa, única, específica, variada, múltipla e original é subs­
tituída por um termo simples, banal, homogêneo e de uso múltiplo, sob o
pretexto de que este pode explicar aquela. Por exemplo, quando se tenta
relacionar a revolução introduzida na medicina por Louis Pasteur a um
pequeno conjunto de termos que resumem o Segundo Império francês; ou
quando se tenta explicar o Chambre à Arles de Van Gogh com um peque­
no número de expressões com propósitos múltiplos que têm a ver com o
mercado de artes. O que principia como uma busca clássica e plenamente
respeitável de explicação acaba substituindo o explanandum pelo expla-
nans. Enquanto outras ciências continuam acrescentando causas aos fenô­
menos, a sociologia poderia ser a única cujas “causas” correm o risco de ter
o estranho efeito de fazer os fenômenos que elas supostamente explicam
desaparecerem por completo.
Tal é a interpretação que resolví dar à “Guerra de Ciências”: os cien­
tistas fizeram-nos compreender que não havia a menor possibilidade de
que o tipo de forças sociais que usamos como causa pudesse ter os fatos
objetivos como seus efeitos.131132Não só porque não temos respeito por eles
- e nesse caso poderiamos ter ignorado suas pretensões ou mesmo nos
orgulhado de desacreditá-las13’ - como porque não poderiamos detectar

131 Uso "Guerras de Ciências* para designar a reação dos cienlislas aos estudos feitos
sobre eles. embora tenha havido um intervalo de vinte anos entre o começo dos ver­
dadeiros estudos de ciência e os penosos episódios desencadeados pelas publicações
dos “guerreiros da ciência".

132 Foi isso que tornou tão perigoso o fazer uma crítica. A ânsia de desmascarar tornou-se
a melhor maneira de proteger o analista, no sentido de sequer ouvir o grito daqueles
que interpretam mal, ao mesmo tempo que assumem o papel de corajosos icono-

148

Bruno Latour

nenhuma continuidade entre as causalidades que estávamos delectando e
os objetos a que se ligavam. Graças às prontas reações dos cientistas, que
não poderíam ser ignoradas porque e!es lidavam com os fatos mais duros
do que os nossos e ocupavam uma posição acadêmica perigosamente pró­
xima da nossa, aos poucos fomos entendendo - desde que o quiséssemos -
que essa substituição escorregadia poderia estar ocorrendo imperceptível-
mente em todos os demais subcampos das ciências sociais, mesmo quan­
do estávamos estudando “abaixo” e não "acima”. Neste caso, ela não era
apenas ciência, mas o conjunto da teoria social que sempre proporcionara
objetos mais “duros” do que as forças sociais usadas para explicá-la - feti­
ches, crenças, religiões, culturas, arte, direito, mercados. Mesmo quando
nenhum ator “gritava”, nenhum alarme rangia, a legislação dos cientistas
sociais parecia funcionar brandamente e, para satisfação de todos, sempre
celebrando um novo sucesso do seu “método científico”.
A ANT não declara que todos os outros domínios da ciência social
estão bem e que somente a ciência e a tecnologia requerem uma estratégia
especial porque são muito mais duras, muito mais importantes e muito
mais respeitáveis. Ela afirma que, como o social falhou tão lamentavel­
mente como a ciência, deve ter falhado em tudo o mais, pois a ciência só
é especial no sentido de que seus praticantes não deixavam os sociólo­
gos atravessar sua seara e destruir seus objetos com “explicações sociais”
sem protestar com veemência. Em outros domínios, os “informantes”
sempre haviam resistido, mas de um modo nem sempre notório devido
ao seu estatuto inferior; ou, quando era notado, seu furor era simples­
mente acrescentado aos dados do teórico crítico como mais uma prova
de que os “atores ingênuos” se aferravam às suas doces ilusões, mesmo
diante das mais gritantes refutações. Os cientistas não oferecem um caso
especial de recalcitrância: nós simplesmente redescobrimos, graças aos

claslas que são os uniros a ‘Verem airavés” dos mistérios a que as pessoas comum se
apegam ingenuamente. Sobre essa antropologia da iconoclastia, ver Bruno Lalour e
Peter Weibel (2002), Icotwclaslu Beyond the Image Wars in Science. Religion and Art.

149

Reagregando o social

estudos de ciência, que tal deveria ser o caso em todas os dom inios , tanto
nas ciências sociais quanto nas ciencias naturais.1,3 Como veremos mais
adiante, nosso trabalho como cientistas sociais consiste em gerar fatos
recalcitrantes duros e objetos passionais que resistem às explicações so­
ciais. Com efeito, os sociólogos sempre estudaram acim a.m Será que isso
poderia levar a uma ciência do social, depois de tantas tentativas de colo­
car a sociologia “no caminho seguro da ciência”, como dissera Kant? Isto
ainda está por ser visto. O que é claro neste ponto é que a ciência, como
atividade, tanto é parte do problem a quanto da solução, e que atualmente
nenhuma ciência social é possível sem uma forte e assertiva sociologia
da ciência em seu âmago para remover a serpente da explicação social
que ela alimentou até agora. Até aqui, o que passa por “epistemología
das ciências sociais” só fez acumular os defeitos embutidos na concepção
tradicional de epistemología e sociologia.
Para usar esse ponto positivamente, e nào apenas como um exem­
plo de que os sociólogos reflexivos estão serrando o galho sobre o qual
estão desconfortavelmente sentados, um pouco mais de trabalho tem de
ser feito. A descoberta - não vejo razão para abster-me desta palavra um
tanto grandiosa - de que dar uma explicação não deve ser confundido com
substituir um fenômeno por um fenômeno social precisa ser plenamente
absorvida, se quisermos continuar as nossas viagens.
A dificuldade reside no termo substituição. Sei muito bem que mes­
mo os sociólogos do social mais positivistas objetarão naturalmente que134

133 Eu nunca teria navegado nessas águas sem o Power and Invention (1997) (1997) e
o Invention of M odem Science (2004a) de Isabelle Stengers. Ver um ensaio que in­
terpreta seu argumento em Bruno l.atour (2004a), How to Talk about the Body? The
Normative Dimension o f Science Studies.

134 Pal era a ideia crucial de Harold Garfinkel desde o inicio. E tal é a atitude correia
de praücamenle todos os que trabalham em ciências sociais, porque na prática é
muito raro acontecer dc bons observadores se aferrarem à sua teoria social. É isso
que torna o Outline o f a 'Theory o f Practice de Pierre Bourdieu (1972) um livro tão
instigante. Essa atitude de pleno respeito está no cerne da Escola de Sociologia de
Chicago e em toda a obra de Howie Becker. Ver Howard Becker (1982), Art Worlds.

150

Não somos. Esses requisitos contraditórios lembram mui­ to o éter do século X IX . O que “re­ almente querem dizer” é que deve existir “por trás” das variedades de ex­ periência religiosa outra força mais profunda. divindades) não terem "existência real”. como os objetos de arte não têm propriedades intrínsecas. Assim. De modo análogo. tão estúpidos assim. o social dos sociólogos é um artefato causado pela mesma falta de relati­ vidade da descrição. que tinha de ser ao mesmo tempo infinitamente rígido e infinitamente elástico. que é “devida à sociedade” e que explica por que o fervor religioso permanece . Pouco importa: como o éter dos físicos. 151 . Bruno Lai our nunca “quiseram realmente” dizer isso quando dão uma explicação so­ cial do. incenso. Portanto. fervor religioso. deve permanecer invisível. a tarefa de explicar só principia depois que uma profunda suspeita foi introduzida com relação à própria existência dos objetos a serem explicados. se­ gundo os atores. as forças sociais desempenham o complicado papel de serem simultaneamente aquilo que deve ser postulado para explicar tudo e aquilo que. mas apenas que essa força é o que lhes confere uma existência duradoura na ausência daquilo que. uma vez que destruiría efetivamente a ilusão necessária que faz a sociedade m an­ ter o seu “véu de falsa consciência”. por diversas razões. dizem eles. constituem a carne sólida e substancial de suas divinda­ des e obras-primas. “a despeito do fato” de as entidades mobilizadas nas preces (deuses. preces e peregrinações “alguma substância” como “coesão social”. Deve-se notar. lágrimas. mais forte. os sociólogos “não querem realmente” dizer que uma força social podería ser tornada visível “no lugar dos" deuses e divinda­ des ou “como acréscimo” às obras de arte. que. segundo eles. digamos. contrariamente ao que sucede usualmente nas ciências naturais. eles “quiseram dizer literalmente” por em lugar de estátuas. Os teóricos críticos acrescen­ tariam que essa revelação da entidade social seria insuportável. as paixões que eles deflagram devem provir de alguma outra fonte que pode explicar o interesse duradouro das pessoas pelas obras-primas. portanto. que estaria escondida “por baixo” das nuvens de fumaça.

Se me afoguei. a dificuldade provém do duplo significado de social que já detectamos: por trás da afirmação epistemológica inócua de que as explicações sociais precisam ser esmiuçadas está a afirmação ontológica de que tais causas têm de mobilizar forças feitas cie matéria social. causas não familiares a fenômenos familia­ res. Por ra­ zões que ficarão mais claras na segunda parte deste livro. como as ciências naturais de que tanto gostam. Será injusto dizer que nas mãos dos “explicadores sociais” mais recentes as alusões ao social podem tornar-se repetições vazias? Que aludir ao mundo por trás da sociedade se tornou até mais supérfluo do que a promessa de uma vida após a morte? Se eles não substituem literalmente um fenômeno por uma força so­ cial. Rcagregamln ú social Este é um ponto difícil. o que os explicadores sociais querem dizer quando afirmam que existe uma força “por trás das aparências ilusórias”. a culpa não é dele. Diriam antes que tentam atribuir causas familiares a fenômenos não familiares ou. Portanto. já que ne­ nhum sociólogo razoável jam ais afirmou que elas poderíam efetivamen­ te substituir o objeto explicado pela sociedade. entretanto. Ótimo. é o próprio social que está sendo gerado. cego ou ob- sessivamente literal. 152 . Assim. em traçar uma rede. ou seja. é porque não quero confundir a reunião do coletivo com a mera revisão das entidades já reunidas ou com um feixe de vínculos sociais homogêneos. mas um empreendimento de construção de mundo muito prático que consiste em ligar entidades a outras entidades. dizem-me para não tomar a existência das forças sociais “literalmente”. explicar não é um feito cognitivo misterioso. Se meu questionamento das explicações sociais parece injusto. que constitui a “matéria real” 135 Agradeço a Gerard de Vries pela ajuda nesses insidiosos estreitos.135 Quando começo a fazer perguntas ingê­ nuas sobre o que se entende realmente por explicação social. Cada vez que se diz que um A está relacionado com um B. a ANT não pode compartir a filosofia da causalidade usada nas ciências sociais. é essencial detectar o mais breve possível qualquer prestidigitação nos modos como o coletivo está sendo composto.

a política.incluindo a Santíssima Trindade! E não me parece justo. então não apenas ele deveria ser capaz de gerar B. Mas eu não! Com minha mente voluntariamente estreitada.13" Com o devido respeito. e que estão demasiado ocupados com questões empíricas ou que as tarefas de emancipação são demasiado prementes. isso parece ainda mais misterioso do que o dogma da Santíssima Trindade. C e D. Se a sociologia adotar subitamente uma postura anti-intelectualista sempre que as coisas se tornam delicadas. nesta época. caso em que as suas diferenças podem ser declaradas sem importância. Que tipo de ausência/presença é essa? Para mini. mas ele optou por não saber. a arte. proponho fazer o mesmo com esse grande mistério do social. Poincaré’s Maps. C e D. in ­ gênuos e míopes. eu diria que. ter alguma coisa ao mesmo tempo “por trás”. direito e sociedade. os físicos só se livraram do éter quando um deles foi sufi­ cientemente tolo para perguntar como o ponteiro pequeno de um relógio podia ser “sobreposto” ao grande. os impérios ou apenas as coi­ sas mais simples . C e D são a mesma coisa. mercado e sociedade. por que ela se autodenomina ciência? É exatamente nessa conexão que temos de optar por ser literais. arte e sociedade. Para um exa­ me dessa rematenaUzaçao. o direito. Todo mundo parece saber o que signi­ fica “relacionar” religião e sociedade. the Special ami the General Theory.Jielattvity. "refor­ çada”. a economia. e não nie tranquilizo quando se supõe que é esse mistério que explica a re­ ligião. a psicologia e as crenças são “realmente” feitos? O que é uma entidade que desempenha o principal papel sent nada fazer*. que teorias são debates. C e D. ver Peter Galison (2003). se se diz que o elemento social A “causa” a existência de B. Negar-se a entender apenas pela metade às vezes é uma virtude. sair pela tangente afirmando que sociologia não é filosofia. todo mundo sabia a resposta. 153 . "invisível” e “negada”. como deveria explicar as diferenças entre B. os mercados. Se lermos atentamente a literatura da história social e136 136 Ver Albert Einstein (W20). Bruno Lütuur da qual os deuses. que os bons cientistas sociais não têm tempo para se perderem em minúcias. o direito. salvo se se puder demonstrar que B. Afinal. Einstein’s Clocks. as artes.

154 . ßeri greganUn o social observarmos o número de coisas que se supõe serem causadas pela “for­ ça da sociedade”. £ tão poderoso que pode explicar tanta coisa! Mas eles devem examinar mais cuidadosamente os modos pelos quais os cientistas naturais eslabelecem ligações entre os fenômenos e suas causalidades. “nunca sustentamos essa estúpida filosofia das causas”. para todos os propósitos práticos. a mão invisível do mercado. com a “ascen­ são da pequena burguesia”. Ds etc. neste caso. apreendo tudo o que existe de pertinente para dizer sobre as interações dos planetas. menos as perturbações m argi­ nais? Em ambos os casos. a reprodução da dominação social. O elemen­ to causador é capaz de explicar as diferenças entre milhões de efeitos - e nesse caso eu posso gerar B. o advento do Estado moderno. res­ ponderá o coro unânime dos teóricos sociais. substituível pelos milhões de Bs. como pode esquadrinhar o futuro desconhecido. Em geral isso significa que o desconhecido não só pode gerar o conhecido.e. será que apreendo realmente o que aconteceu na Inglaterra. bem como sobre o movimen­ to do pêndulo do velho relógio de minha mãe? “Sociedade” e “mercado” contêm in potentia o que se supõe causar ou não? “Claro que não”. na França e na Alemanha do século 15 ao 20? Com a "re- troalimentação automática da mão invisível” eu apreendo efetivamente os milhões de interações do mercado em todo o mundo? Quando defen­ do a lei dos corpos em queda. Mas. Mas então qual é o papel exato que eles realmente atribuem às “forças sociais”? 137 É exatamente isso que os explanadores do social acham tão convincente em sua cau­ salidade e que os torna tão orgulhosos de suas realizações científicas. a causa A é de fato. Cs. o poder dos lobbies in­ dustriais. Ver o nolável exemplo de Bernadette Bensaude-Vincent (1986) em Meddeev's Periodic System of Chemical Elements. então a relação poderia ser apenas uma relação na qual uma única causa tem um milhão de efeitos.137 Mas uma causa é uma causa é uma causa. as interações individuais. C e D como consequências quando susten­ to A como causa? Ou essas diferenças entre m ilhões de acontecimentos são realmente imateriais . a ascensão da pequena burguesia. aderir simplesmente à causa A implica que considero tudo importante.

Bruno Latour Evidentemente.. então a sociedade basta. desde o começo ficou óbvio. tanto para os investigadores quan­ to para os informantes. Por quê? Porque nesse caso. mais vago e mais incerto: “algumas relações” e “correlações” en­ tre diferentes “fatores”. então a sociedade basta. acho que eles diriam que tentaram imaginar um tipo de causalidade mais modesto. Se a sociedade explica a ciência. Se algum “fator social” é transportado através de intermediários. O elemento B. 155 . Se a sociedade explica a religião. porém isso não nos conduz por todo o 138 Essa obstinação será examinada no final desle livro. então. movimentos.. é tratado como um m ediador ou é construído como um intermediário para alguma força simplesmente transportada intacta através da mediação do “fator”? Temos de ser muito práticos uma vez mais e tão míopes quanto possível: não esta­ mos falando aqui de grandiosas questões epistemológicas. Nesse ponto tudo se desmantela.ver p. quando tom arm os possíveis os encontros com os seres que possibilitam a ação. estes podem ser substituídos por aquele sem nenhuma perda de matizes. Sim. Eles admitiríam facilmente que a gravitação social não é como a gravitação newtoniana. encontros que foram Lão protelados pela reunião inoportuna do coleLivo na forma de uma sociedade . mas de veículos. Se a sociedade explica o direito. e só nesse caso.138 Temos de ser tão teimosos quanto possível. deslocamentos e sistemas de transporte. e não nos intermediários. Para todos os propósitos práticos. estou inventando um experimento que jamais ocorreu porque os observadores sociais nunca pretenderam testar suas causalidades de maneira tão rigorosa. então o importante está no falar. cuja emergência é provocada por um fator. Forçados a recuar. Mas este é exatamente o lugar onde não se pode ser vago: Q u alé precisamente a relação imaginada entre um fator social e outro fenômeno qualquer? É aqui que devemos usar novamente a distin­ ção crucial que introduzí anteriormente entre intermediário e mediador. que os “fatores” são incapazes de transportar qual­ quer ação através de qualquer evento reduzido à condição de intermedi­ ário. 333. Einstein teve uma juventude turbulenta e chamou a sua teoria de “revolucionária” e “relativista”.

da religião. hic salta. mas isso não nos leva muito longe na compreensão de sua bacteriologia.139140 Quando precisam transportar as explicações sociais para o santuário da ciência. The Private Science of Louis Pasteur. os fatores têm uma desa­ fortunada tendência a ficar sem gasolina. tra n spo rte Chegamos agora à própria terra natal do que veio a denominar-se “teoria-do-ator-rede” ou. graças às tentativas de explicar social mente os fatos científicos “duros”. Geison ( 1995). Mas antes dos estudos de ciência nunca se notou quão depressa eles che­ garam a um ponto final. O experimento que nunca teve lugar na teoria social sobre o que de fato significava uma explicação social de qualquer coisa está acontecendo em nosso pequeno campo a cada dia que se escre­ vem trabalhos sobre a história e a sociologia das ciências naturais. a ANT é simplesmente a percepção de que algo de inusitado ocorrera na história 139 Um exemplo dássico de tal explicação é oferecido por Lewis S. Como ficou dito. Feuer em Einstein and the Generations o f Science ( 1974). Science. e em Gerald G. mais precisamente. Naturalmente.1*9 sim. da geração espontánea. isso sempre valeu para o transporte de todas as demais entidades para os diversos santuários do direito. 156 . por exemplo. mas apenas à vizi­ nhança delas. Foi isso que tornou os estudos de ciência um crisol perfeito para toda a sociologia: finalmente. ainda que “ela pudesse estar relacionada” com a sua rejeição. and Spontaneous Generation in 19th-century France: The Pasteur-Pouchet Debate. Pasteur era um tanto reacionário e adorava a impe­ ratriz Eugênia. “sociologia da tradução” - infelizmente o rótulo nunca se manteve em inglês. T r a d u ç ã o v s. Politics. dos mercados e das subjetividades. da tecnologia. 140 Ver o caso típico apresentado em John Farley e Gerald L. Geison (1974). vamos saber o que todos eles entendiam antes por “social”. Reapretando o social caminho através do seu uso das equações de Maxwell. Aqui é o lugar para o grande e decisivo salto: Hic Rhodus .

como vimos diversas vezes. satélites e vieiras poderíam ter algumas relações entre si. um mundo “objetivo material”. Bruno Latour e na sociologia dos fatos científicos “duros”. existirá uma coisa na cadeia desdobrada. 157 . oceanógrafos. O social dos sociólogos aparece assim exatamente como ele sempre foi. que eu resumo nesta seção. c. relações de um tipo tal que eles faziam os outros realizarem coisas inesperadas . Nem o funcionamento dos satélites nem os hábitos de vida das vieiras seriam esclarecidos de modo algum adicionando-se alguma coisa social à descrição. o hoje mítico ensaio sobre vieiras Some Elements o f a Sociology of Translation Domestication of the Scaltps and lhe Fishermen o f Si Brieux Bay tie Michel Gallon ( 1986). no sentido de pertencer a um mundo separa­ do de associações . Haverá nessa concatenação um elemento que se possa designar como “social”? Não. Ou the Methods o f Long-Distance Control Vessels Navigation and the Portuguese Route to india.141 Ou eram descartados da teoria social por não parecerem suficien­ temente sociais. pescadores. assim como um camelo não pode passar pelo buraco de uma agulha. Essa segunda solução foi o momento definidor do que mais tarde veio a chamar-se ANT. um mundo por trás puramente redundante que não acrescenta senão charadas artificiais ao mundo real . da qual se poderia dizer que é não social. Les Microbes. John Law (1986b). Por exemplo.tal é a definição de um mediador. Etapa um: o social desapareceu.por exemplo. quando se aceitaram as sucessivas conexões de três objetos anteriormente não sociais (micró­ bios. algo tão inusitado que a teoria social já não podia passar através dele. ou eram acolhidas por ela. As vieiras 141 Ver Bruno Latour (1984).exatamente como o éter antes da te­ oria da relatividade ajudava os físicos a redescrever dinâmicas. claro. um mundo “simbólico subjetivo” ou um reino de “puros pensamentos”? Não. Por outro lado. Mas então o próprio conceito de social teve de ser profundamente alterado. guerre et paix. suivi de Irréductions. a saber. uma superfluida- de. ao menos por mim. O Rubicão foi atravessado. vieiras e recifes) que insistiam em ocupar a estranha posição de esta­ rem associados às entidades anteriormente sociais que tentávamos descre­ ver.

Ainda não sabemos como todos esses atores estão ligados. Quando o fazem. Das três primeiras incertezas. aprendemos que estudar suas relações poderia ser empíricamente difícil. e como os coletores de dados reúnem pescadores e vieiras na oceanografia. são as próprias bactérias de Pasteur que pa­ recem explicar. os pormenores práticos do caso em questão parecem fornecer alguma explicação do contexto que se supunha explicá-lo. para sua grande surpresa. como sendo “socialmente ligado”: pessoas contagiosas e não contaminadas 158 . O social não está em lugar nenhum em particular como uma coisa entre ou­ tras coisas. mas já não é um a priori proibido pelas “objeções óbvias” que “coisas não fa­ lam”. os autores de estudos de ciência estabeleceram conexões entre entidades que são completamente distintas daquilo que antes se considerava ser uma série de explicações so­ ciais.. mas pode circular em qualquer lugar como um movimento que liga coisas não sociais. assim como as redes colocadas no oceano atraem as vieiras. mas po­ demos declarar como a nova posição preestabelecida antes do estudo co­ meçar. mas gerando transformações m ani­ festadas pelos numerosos eventos inesperados desencadeados nos outros mediadores que os seguem por toda parte. Quando começaram a explicar a relatividade de Einstein. e não uma causa seguida por urna série de intermediários. uma grande parte do que se entendia. por meio do novo rastreador de doenças infecciosas. a bacte­ riologia de Pasteur. durante o Segundo Império na França. Foi a isso que chamei “princípio de irredução”. Esses especialistas declaram que um fator é um ator numa concate­ naçâo de atores. De repente. que ficam presas nas redes. Etapa dois: o social voltou como associação. a termodinâmica de Kelvin etc. “redes de pesca não têm paixão” e “só os seres humanos têm intenções”. e tal é o significado filosófico da ANT: a concatenaçâo dos mediadores não traça as mesmas ligações e não requer o mesmo tipo de explicações como um séquito de intermediários transportando uma causa. ReuHTKgmtlo o social fazem o pescador faz er coisas. Isso não se faz trans­ portando-se uma força que permanecería a mesma por todo o percurso como um tipo de intermediário fiel. que todos os atores que vamos desdobrar podem estar associados de tal modo que eles fazem outros fazerem coisas.

os ri­ cos e os pobres. um “associado”. em parte.1'13 É aqui que surge a estranha ideia de que o social devia ser explicado. leriamos economizado muito esforço ou pelo menos não leriamos sido indulgentes com a lota presunção de haver inven­ tado uma teoria social novinha em folha. 159 . Ver Alfred D. Bruna ¡Mtour não estabeleceram a mesma solidariedade que existe entre. The Devil in the Digital Details. Energy and Empire: A Biographical Study o f Lord Kelvin. Chandler (1977). uma durabilidade que ele nunca tería sem os minúsculos cabos colocados sobre o oceano. O Império Britânico não está apenas “por trás” dos experimentos telegráficos de Lord Kelvin. A ciência de Kelvin cria. 144 Se tivéssemos conhecido Gabriel Tarde antes.1'12 Foi essa reversão na causalidade que a ANT tentou registrar. digamos. o uso da palavra social para esse processo é legitimado pela etimologia mais antiga do termo socius: “al­ guém que segue alguém”. história da arte e história do comércio fizeram a mesma coisa. em vez de for­ necer a explicação. antropologia. um "seguidor”. para o modo de respeitar a metafísica de um moleiro. depois para qualquer outro tópico. The Visible Hand: The Managerial Revolution in American Business. que já não está no plano de fundo manipulando-o inconscientemente. Para designar essa coisa que não é nem um ator entre muitos nem uma força por trás de todos os atores transportados por meio de um deles. o Império. mas uma conexão 142 Ver ( Irosbie Smith e Norton Wise ( 1989). The Cheese and the Worms: The Cosmos of a 16th-Century Miller. Todos nós começamos a perguntar-nos: se fôssemos realmente bons para descrever tantos mediadores. compreenderiamos que já não há necessidade de uma sociedade que está “por trás". é também um alcance. 143 Uma vez mais todo mundo em história. primeiro para a ciência e a tecnologia. mas veio a existir graças aos fios telegráficos convertidos em mediadores plenamente desenvolvidos. um tempo de reação mais rápido. Digi­ tal Abstraction and Concrete Reality. A direção da causalidade entre o que deve ser explicado e o que fornece uma explicação não é simplesmente revertida: ela é totalmente subvertida. Ver o notável exemplo em Carlo Ginzburg (1980). O contágio redesenha os mapas sociais. para urn relato do cresci­ mento das empresas que não pressupõe escala.14213144 Como observei na introdução. e Brian Cantwell Smith (2003).

160 .a complicada palavra rede sendo definida no capítulo seguinte como aquilo que é traçado pelas traduções nas explicações dos pesqui­ sadores. La Traduction (Hermès III). usamos a palavra tra- dução . m as existem traduções en­ tre m ediadores que podem gerar associações rastreáveis.'45 Assim. ambos os extremos dessas cadeias. não existe domínio social nem existem vínculos sociais. Posso agora declarar com mais precisão o objetivo dessa sociologia de associações: não existe sociedade. por assim dizer. Se alguma causalidade parece ser trans­ portada de um modo previsível e rotineiro. E. a palavra tradução assume agora um significado algo especializado: uma relação que não transporta causalidade. científica. pre­ cisam ser dissolvidos simultaneamente. mas induz dois mediadores à coexistência. transformações. HÁ MAIS COISA NA EXPERIÊNCIA DO QUE AQUILO QUE NOS CHEGA AOS OLHOS O que pode parecer realmente chocante nessa definição de associa­ ção é não apenas o estranho novo significado que ela confere a “social”. política e empírica dos dois tipos de explicação. Aprender ANT nada mais é que tornar-se sensível às diferenças nas dimensões literária. Com este livro esperamos aprender a ampliar a distância entre uma explicação que faz uso do social tal como ele é tradicionalmente construído e essa outra que visa desdobrar séries de mediadores. o social e o natural. então ela é a prova de que outros mediadores foram mobilizados para tornar esse deslocamento fá­ cil e previsível (ver Parte II).ngregtmth o social que transporta.como se os próprios não humanos não tivessem passado por145 145 Callón refere-se explícitamente a Miche! Serres (1974). Essa simetria raramente é enten­ dida pelos que definem a ANT como uma sociologia “estendida aos não humanos” . no entanto. mas também o lugar incomum reservado aos chamados objetos “naturais”. Rc. moral.

“materiais” e “simbólicos” . E as reações absolutamente perplexas ante a ANT ao longo dos anos é prova suficiente de que isso é muito difícil e de que as chances de sucesso são efetivamente pequenas. é ainda mais difícil mostrar que a “Natureza”. se já é difícil mostrar que o social é um artefato produzido pela aplicação de uma noção de causa­ lidade mal adaptada. Entrementes. que se assemelha estreitamente a uma “sociologia de engenheiros” com todo o seu "determinismo técnico”. não obstan­ te. “objetos” e “sujeitos”. temos de libertar as questões de fato da sua redução à “Natureza” exatamente como devemos libertar os objetos e coi­ sas de sua “explicação” pela sociedade. com todos os seus dados estragados por uma divisão que contradiz a própria prática que tentaram explicar: peixes e pes­ cadores não se fazem frente uns aos outros como “naturais” e “sociais”. A teoria social não deve ser confundida com o kantismo. enquanto os pescadores se reunirão na choupana miserável em cuja entrada está escrito. O modo como elas es­ tão associadas se perderá para sempre: as vieiras tornarão a submergir no fundo do oceano das questões de fato naturais. Bruno Latour uma transformação tão grande quanto a dos atores sociais. objetivas e não intencionais. con­ cebida como a reunião de todas as questões de fato não sociais. nosso argumento nada mais é que uma volta ao materialismo clássico. “Apenas para humanos intencionais”. algumas agências receberão o rótulo de “sociais” e outras o de “naturais”. 161 . Sem esse duplo movimento. Para possibilitar isso. materiais. E. como nos velhos e maus tempos do Apartheid. se ambos não forem postos de lado ao mesmo tempo. O problema é que. deve ser igualmente recusada.e os oceanógrafos ainda menos. será em vão que teremos efetuado o nosso trabalho de campo: por mais conexões novas que tracemos. e a incomensurabílídade entre as duas tornará invisível o dese­ nho daquilo que entendemos por conexões sociais. os sociólogos voltarão do campo de mãos vazias.

Leviathan atui the Air-Pump: Hobbes. Se tivéssemos de aceitar a forma de irracionalismo re­ presentada pelo pragmatismo. Toda a nossa cultura francesa é básica e essencialmente uma cultura racionalista. Isso não é de admirar. 1) Em primeiro lugar. Ver Ulrick Beck. é aqui que a quarta fonte de incerteza nos deve ajudar. ele é de import ância geral. Se o pragmatismo fosse válido. Se concordarmos em aprender também com as controvérsias sobre os não hu­ manos. pois nos m ostra o que lhe está faltando. ele é de importância filosófica. por razões amplamente polêmicas. Anthony Giddens e Scott Lash (1994). 3} Enfim. O vin­ culo entre sociologia e modernização é tão forte que é impossível desenredar um do outro. teríamos de empreender uma completa reversão de toda essa tradição”. O século XV III é um prolongamento do c a r­ tesianismo. logo perceberemos que questões de fato não descrevem que tipos de agências estão povoando o mundo melhor do que as palavras social . pois sub­ vertería a nossa cultura nacional. quando ele se propõe a tarefa de criticar o pragmatismo. 2) Segundo. O pragmatismo está numa posição me­ lhor do que qualquer outra doutrina para nos fazer ver a necessidade de um a reforma do racionalismo tradicional. só posso remeter o leitor a Steven Sliapin e Simon Schaffer (1985). Rcagrçgantlo o socluí Durkheim contra o pragmatismo Ninguém oferece uma prova mais notável tio eslrcito vinculo entre a definição de socie­ dade e a teoria da ciência do que Durkheim. o problema é de tríplice importância. são inspiradas pelo racionalismo. Por consequência. ele é de importância nacional. mas são dois coletores que foram inventados juntos. já que “Sociedade” e “Natureza” não descrevem domínios da realidade. Não só a nossa cultura como toda a tradição filosófica. (Durkheim. no século XVTI. Boyle and the Experimental Life.H6146 146 Sobre essa longa história. então uma nova filosofia. todo o espirito francês teriade ser radicalmente mudado. simbólico e discursivo descrevem o que é um ator humano e os alienígenas que os capturam. Eis como ele abriu a sua primeira aula de 1914: “Testemunhamos atualmente um ataque contra a razão que é verdadeiramente militan­ te e determinado. 1955) Portanto. desde o início da especulação filosófica. Reflexive Moderniza- 162 . Uma negação total do racionalismo constituiría assim um perigo.

Recon­ struction in Philosophy. L’Homme total: Sociologie. 148 Ver o capítulo sobre rochas cm Hacking. 1982). reeditado nas obras completas de 1948. não precisamos abordar essas di­ fíceis questões filosóficas. concebido como urna nítida distinção entre impressões sen- sonáis. e julgamento mental. The Social Construction o f What? 149 Ver Pablo Jensen (2 0 0 1).1*7 Para prosseguir o nosso projeto. Por exemplo. e Bruno Karsenti (1997). Bruna Latour O empirismo. muito mais abertas e desdobrar muito mais tipos de agências do que o estreito papel que lhes é atribuído nas explicações empíristas. e Slengers. mas as rochas em geologia pareciam ser muito mais variadas. Ver William James (1890). The Principles o f Psy­ chology. de um lado. as entidades não humanas foram capazes de aparecer sob uma luz inesperada. as rochas poderiam ser úteis para reconduzir um idealista ao seu juízo. Para nossa grande surpresa. John Dewey (1930. Que o empirismo nunca iralou simplesmente de questões de lato é mostrado magistralmente por Lorraine Daston (1988) cm “lh e Factual Sensibility: Na Essay Review on Artifact and Experi­ ment” por Jessica Riskin (2002) ern Science in the Age of Sensibility: The Sentimental Empiricists of the French Enlightenment. 147 É uma expressão de Wkilehead. mas o aço laminado em metalur­ gia oferece tantos enigmas sobre os modos pelos quais a resistência mate­ rial piode ocorrer que não há praticamente nenhuma relação entre o que os filósofos positivistas e os cientistas materiais denominam “matéria”. Penser avec Whitehead. não pode decerto afir­ mar que é urna completa descrição daquilo para o que “deveríamos estar atentos na experiência”. Tradition and Aesthetics in the M odern Social Order. anthropologie et philosophie citez Marcel Mauss. Entrer eft matière: Les atomes expliquent-ils le monde? 163 . muito mais incertas.14718149 tiam Politics. do outro. urna vez removida a fronteira artificial entre social e natural. Precisamos apenas 1er a mente aberta para a forma na qual os antigos objetos da natureza poderiam apresentar-se ñas novas associações que estamos seguindo. Postmodernity and Its Discontents. a fim de reconduzirem os sociólogos à realidade.l4s As escrivaninhas de aço oferecem uma grande oportunidade para os realistas raivosos baterem na mesa em nome de “condições materiais”. Zygmimt Bauman ( 1997).

152 Não é verdade que se deve combater o reducionismo adicionando algum “aspecto” humano.. simbólico. Et le scientifique tint le monde: Ethnologie d'uni laboratoiore japonais de génétique du comportement. por razões políticas. a multiplicidade empírica das agên­ cias “naturais” anteriores ultrapassa a fronteira das questões de fato. The Triple Helix: Gene.por exemplo. obedecem a tantos sinais opostos. On the Origins of Objects. Essa pobreza. Ver François Mélard (2001). porém os chips em ciência da computação requerem vastas instituições para estarem à altura de sua reputação como “máquinas formais”. O que se poderia denominar o primeiro empirismo con­ seguiu. são “feitos” de tantas influências que. os positivistas assemelham-se mais a proprietários 150 Ver Evelyn Fox-Keller (2000). para a “rica subjetividade hu­ mana” . se há uma coisa que não se pode fazer com eles é silenciar um adversá­ rio. mas os genes em biogenética assumem papéis tão contraditórios. 152 O caso improvável das beterrabas ajudou François Mélard a fornecer uma das me­ lhores aplicações du que acontece à sociedade quando se incorporam coisas. The Century o f the Gene. Não existe nenhuma relação direta entre ser real e ser indiscutível. O empirismo já não aparece como o sólido alicerce sobre o qual se poderia erigir tudo o mais. Rm gregando u social O impulso inflexível da maquiagem genética pode ser excelente para os so- ciobiólogos ridicularizarem o sonho socialista de nutrir uma humanidade melhor. L'autorité des instruments dans la production du lien social: le cas de l’analyse polarimêtrique dans l'industrie sucrière belge. não trata com justiça os fatos objetivos. já que o reducionismo. mas sim como uma interpretação muito pobre da experiência. Sophie Huudart (2000). entretanto.150 Os computadores poderíam oferecer uma propaganda para o melhor exemplo de anúncio exagerado. 164 . não pode ser superada afastando- s e da experiência material . mas aproximando-se daquilo que as variegadas vidas materiais têm para oferecer. obscurecer as numerosas marchas e contra­ marchas da objetividade e reduzir os não humanos a sombras. Organism and Environment. subjetivo ou social à descrição. 151 Brian Cantwell Smith (1997). para começar. Longe de “possuir objetividade”.151 Em toda parte. e Richard Lewontin (2000).

! A própria etimologia deve tê-los feito estremecer: como poderia um fato ser assim tão sólido. 154 Ver Ludwig fleck (1981). mais complexa. os fatos são praticamente a composição o menos primitiva. Bruno Latour absenteístas que não parecem saber o que fazer corn suas propriedades. Agi­ ram como se este fosse o material mais primitivo. que de maneira geral é reconhecida pelos que o leram numa ótica kantiana ou kuhniana:1" 1534 153 Durkheim não teve muito sorte quando propôs tratar “latos sociais como coisas". indiscutível. os laboratórios científicos . Cognition and Fact: Materials on Ludwik Fleck. e Ludwik Fleck. o que é tun lato c o que é uma coisa são provavelmente os três conceitos de filosofia mais controversos. A grande chance da A NT é que as múltiplas dobras da objetividade se tornem visíveis assim que nos aproximamos um pouquinho do lugar onde as agências são incitadas a se expressarem. Cohen e Ihomas Schnelle (1986). Robert S.ou onde os laboratórios são postos num contato mais ínti­ mo com a vida diária. o que é muito frequente atualmente. a saber. sólido. mais elaborada e mais coletiva que existe!^4 Fleck sobre a reação de Wassermann para detectar a sífilis Em seu livro pioneiro. Acontece simplesmente que nós. como se tudo o mais pudesse ser reduzido a ele. 155 A metáfora da lente ou pressuposição é na verdade a usada por Kuhn em seu prefá­ cio ao livro de Fleck. Mas havia mais de uma palha na matéria sólida que escolheram para seu ahcerce. Genesis and Development of a Scientific Fact. 165 . em estudos de ciência. poderiamos saber. e como Ludwik Fleck provou há muito tempo. se ele também é fabricado? Como a mais breve pesqui­ sa no mais primitivo laboratório mostra. Os positivistas não estavam muito inspirados quando escolheram os “fatos” como seus blocos de construção elementares para erigir sua catedral da certeza. o fundador da sociologia da ciência elabora uma descrição muito mais precisa da “gênese” do fato científico.'r. incontrovertível. pois o que é social. mais incertos c mais instáveis.

p. 1981. p. mais realismo existe: Toda teoria ep istem o lóg ica é triv ial e não leva na d evid a co n ta . todas falando ao mesmo tempo e cada qual querendo ser ouvida. E xib em u m resp eito excessivo . p. essa d ep en d ên cia socio ló g ica de tod a c o g n içã o . 39) 166 . permitiu que um consenso se cristalizasse. ou seja. (Fleck . p o r m ais p rod u tivas que sejam suas idéias. co m e te m u m erro c a ­ ra cte rístico . A coletivid ade de p en sam en to fo rn ece assim o co m p o n en te fál­ ta m e . p o ré m . 15) Mas sua definição de social é claramente positiva e não negativa. não obstante. que to c a as raias da rev erên cia pia. Refregando a social Dar um relato histórico preciso de urna disciplina científica é im­ possível. a qual. pelos fatos científicos. de m an eira fu n d am en tal e m in u cio sa. 1981. 43) É isso o que o faz entrar em contenda com sociólogos como Durkheim: T od os esses p en sad o res fo rm ad o s em sociolog ia e em lite ra tu ra clássica. (Fleck . N a verdad e. (Fleck. quanto mais social existe. 1981. assim c o m o p ara o estoque de co n h e cim e n to e nível de c u ltu ra d ad o s. É como querer registrar por escrito o curso natural de urna ani­ mada conversação entre várias pessoas. C h a m a m o s a isso estilo de p en ­ sam en to . M as os qne co n sid eram a d ep en d ên cia so cial um m al n ecessário e u m a d esafo rtu n ad a in ad eq u ação h u m an a a ser sup erad a d eixa de co m p reen d er que sem c o n d icio n am en to social n en h u m a c o g n iç ã o é sequer possível. a p róp ria p alavra co g n iç ã o só ad q u ire sen tid o em c o n e x ã o co m u m a co letiv id ad e de p en sam en to. 4 7 ) Mas a noção ambígua de “coletividade de pensamento” não é de modo algum aparentada com a influência social concebida tradicional­ mente: Se d efin irm o s coletivid ad e de p en sam en to c o m o u m a co m u n id a d e de p e s ­ soas tro ca n d o idéias ou m a n te n d o in te ra çã o c u ltu ra l. p. 1981. verem o s p o r in ferên ­ cia que d a fo rn ece tam b ém u m ‘p o rta d o r' especial p ara o desenvolví m en to h istó rico de q ualq uer c a m p o de p en sam en to. (Fleck .

um evento na história do pensamento. (Fleck. a despeito de muitos erros. por meio de motivos sociopsicológicos e de uma espécie de experiência coletiva. depois uma coação definida do pensamento. uma perspectiva histórica. 95} Essa atitude realista para com o social permite a Fleck passar da noção de prática coletiva à de evento: Podemos resumir como segue a nossa teoria do reconhecimento da rela­ ção entre a de Wassermann e a sífilis. Ela é sempre. o pensamento será ou verdadeiro ou falso para ambos. 1981. Um fato ocorre sempre no con­ texto da história do pensamento e é sempre o resultado de um estilo de pensamento definido. um condicionamento do pensamento estilizado. A reação foi elaborada. 1981. Se A e B pertencem à mesma co­ letividade de pensamento. 97) A noção de evento torna-se o modo de superar os limites simétricos de sociólogos e epistemoiogistas: A verdade nãó é ‘relativa’ nem decerto ‘subjetiva’ no sentido popular do termo. é. ou quase sempre. A descoberta .torna-se um evento na história do pensamento.da reação de Wassermann ocorreu durante um processo histórico único. p. Bruno Latour A coletividade de pensamento não é o que condiciona ou limita a produção do fato.ou a Invenção . a relação entre a reação de Wassermann e a sífilis . e enfim uma forma a ser diretamente percebida. p. Mas se pertencem a coletividades de pensamento diferentes ele não só não será o mesmo pensamento como será obscuro para ou será enten­ dido diversamente por um deles! A verdade não é uma convenção. Primeiro há um sinal de resistência no caótico pensamento inicial. (amais se pode dizer que o mesmo pensa­ mento é verdadeiro para A e falso para B. 100) A ANT está interessada não apenas em libertar os atores humanos da prisão do social. (Fleck.urn fato indubi- tável . que não pode ser reproduzido por experimento nem confirmado por lógica. completamente determinada no âmbito de um estilo de vida. (Fleck. antes (1). mas o que lhe permite emergir: É assim que um fato surge. 1981. mas também em oferecer aos objetos naturais uma ocasião para escaparem da cela estreita dada às questões de fato pelo pri- 167 . (2) no seu contexto contemporâneo. Desse ponto de vista. p.

milenares.156157 A discussão começa a melhorar quando se introduzem. rotineiras. The Mangle o f Practice. mas antes como assembléias. 159 Ver Peter Galison (1997). Um mundo natural feito de questões de fato não pare­ ce exatamente a mesma coisa que um mundo constituído por questões de interesse. so­ ciólogos e cientistas políticos sobre o correto divisor de águas entre “Na­ tureza1’ e “Sociedade" sempre fora ilustrada por questões de fato enfado­ nhas.15* Não se pode fazer com Monte Car­ io cálculos que se fazem com canecas. canecas e martelos que eram basicamente coisas que os neanderthalianos podiam já ter usado. RcagrcganJú osocial meiro empirismo. Capítulo 2. portanto. Ver Pierre Lem onnier. Tais objetos são perfeitamente respeitáveis. sobretudo. é claro.'56 Eis por que sempre achei tão revigorantes os estudos de ciência: até o seu desenvolvimento. não ques­ tões de fato. nas mãos experientes dos arqueólogos e etnógrafos. a conversação entre filósofos. não se pode fazer com organismos geneticamente modificados o que se faz com tapetes.159 Pois é exatamente com isso que a quarta incerteza quer prosperar: o mapeamento das controvér­ sias científicas sobre questões de interesse deve permitir nos renovar de cima a baixo a própria cena do empirismo . como pedras. Embora altamente incertas e acuradamente discutidas. e por isso não pode ser usado com tanta facilidade como imagem 156 Latmir. a divisão entre “natural" e “social”. eles não mais deixam traço. essas agências reais. Sobre a releitura desse argumento.e. Tool-Being: Hei- degger and the Metaphysics o f Objects. Image and Logic: A Materia! Culture of Microphysics. tapetes. Technological Choices. não se pode fazer com quaternions o que se faz com cisnes negros. Politics of Nature. ver Graham Harman (2002). como vimos no capítulo anterior. e assim não há como reaparecerem como mediadores. mas. atípicas e. The Question Concerning Technology and Other Essays. !58 Martin Heidegger (1977). objeti­ vas. e Pickering. interessantes são tomadas não exatamente como objetos. 168 . 157 Salvo. mas o que chamo agora de questões de interesse.

Como poderiamos estar à altura da tarefa e tratar com justiça essa massa crescente de evidencias? U m a l is t a p a r a a j u d a r a d e s d o b r a r as q u e s t õ e s DE INTERESSE A solução. e mais mediatizado do que o outro. A passagem de um mundo para o outro não requer grande engenho. uma vez mais. As questões de fato podem permanecer silen­ ciosas. Todos os dias os cientistas e engenheiros em seus labo­ ratórios estavam tornando a produção de fatos mais visível. mais dispendiosa. pluralista. mais tagarela. A investigação pode prosseguir enquanto aprendemos a extrair o veneno do conceito de natureza. mais arrisca­ da. em vez de decidir de antemão como deve ser a aparência do conjunto de equipamentos do mundo. Ele ainda é real e objetivo. finí no Latour da ordem social “simbólica-humana-intencional”. porém. coragem e originalidade dos pesqui­ sadores da ANT. ativo. mas sim a inundação de informações sobre os diversos modos pelos quais as questões de interesse existem no mundo contemporâneo. mais interessante e mais relevante publicamente. mais discutível. não é o profundo silêncio de uma “Natureza” muda que tornaria suas investigações impossíveis e os forçaria a ater-se ao reino humano “simbólico”. sua política. Eis por que o que se po­ dería chamar de segundo empirismo não se parece em absoluto com o pri­ meiro: sua ciência. podem permitir-se serem simplesmente descartadas. assim como fa- 169 . é aprender a alimentar-se de incertezas. mas é mais vivo. Não existe. sua moralidade são diferentes das do passado. sua estética. mas não vai nos faltar dados sobre as questões de interesse porque hoje os seus traços são encontrados em toda parte. Se há uma coisa desanimadora para os sociólogos de associações. como o mostrava até mesmo a mais superficial olhada em qualquer revista técnica. nada de radical ou revolucionário na passagem do primeiro para o segundo empirismo.

arregimentados e seduzidos por um ovo cuja agência está se tornando tão sutil que pode separar o esperma bom do esperma ruim . Pas­ sive Pernales. lieugrcgandu a social zemos para o conceito gêmeo de sociedade.ou pelo menos é isto que está sendo discutido em primatologia. os espermatozóides costumavam ser machinhos obs­ tinados nadando vigorosamente em direção ao óvulo impotente. p. mas hoje eles parecem ferozmente competitivos.*161162Supunha-se que os chimpanzés eram parceiros bons e sociáveis que ofereciam a imagem de um paraíso de bons selvagens. como qualquer leitura em estudos de ciência mostrará. Foi um erro saltar da ideia de associação para a conclusão de que se trata de fenômenos feitos de m atéria social.que mantivemos . 170 . Chimpanzee Politics: Power and Sex Among Apes. hoje ele enxameia com um 100 Ver o capítulo ein Shirley Strum e Linda Fedigan (2000. Primate En­ counters. de Z. hoje eles são atraídos. arruinando assim a metáfora da transferência de in­ formações . Tang Martinez. 161 Ver Jean-Jacques Kupiec e Pierre Sonigo (2000). Na “sociedade" aprendemos a distinguir entre as associações . 162 Ver Prans De Waal ( 1982).ou pelo menos é o que está sendo discutido em fisiología do desenvolvimen­ to.e uma substância feita de matéria social . De modo análogo.’60 Supunha-se que os genes transportavam codificação de informações para as proteínas. é um erro simétrico concluir de um interesse pelos não humanos que eles se parecerão com questões de fato . mas eles são também considerados como competidores entre si por alimento. Ni Dieu ni gène.'62 Supunha-se que a camada superior do solo fosse um conjunto compacto de matéria inerte disposta em camadas de diferentes cores que os pedólogos aprenderam a mapear. inclinados ao assassínio e a tortuosos conluios maquiavélicos . na “natureza” vamos manter o desdobramento da realidade e rejeitar sua prematura unificação em questões de fato.ou pelo menos é o que está sendo discutido entre alguns gene- ticistas. 260-274). and Prospectives from Other Taxa. Paradigms and Primates: Bateman’s Principles. Por exemplo.que não passam de uma versão simplificada das questões de interesse.que rejeitamos.

NOIse. E isso nada tem a ver com a “fle­ xibilidade interpretativa” facultada por “pontos de vista múltiplos” adota­ dos sobre a “mesma” coisa. do que os filósofos e os cientistas julgavam possível. O ponto ético. Brunti Lataur número tão grande de microrganismos que só os microzoóLogos podem exp licar essa selva miniaturizada . unidade e indiscutibilidade. 164 Adam Lowe e Simon Schaffer (1999). antes de ser possivelmente unificada em alguma etapa posterior. 166 Essa é também alinha divisória entre opós-modernisino. Regards sur le soi.ou pelo menos é o que está sendo discutido entre alguns teóricos da computação. não se chega automaticamente ás duas outras. mas hoje eles parecem estar operando digital­ mente através de um conjunto desconcertante de sinais análogos materiais que não têm nenhuma relação com os cálculos formais . e não dos seres humanos que interpretam as coisas.166 Existem sim­ plesmente mais mediações no pluriverso . a saber. Differences in Medicine: Unraveling Practices. mas sim que os estudos de ciência foram capazes de separar exatamente aquilo que a noção pronta de “questões de fato objetivas naturais” fundiu depressa demais.103 Supunha-se que os computadores eran) máquinas digitais estúpidas. rea­ lidade.ou pelo menos é o que está sendo dis­ cutido entre alguns pedólogos. para usar a expressão de William James. ser apreendida através de diferentes pontos de vista. Ê a própria coisa que se permitiu ser desdobra­ da como múltipla e. 165 lissa é a lição decisiva que tirei de Marc Berg e Anne-Marie Mol ( 1998). portanto. para a qual essa multiplicidade é uma propriedade das coisas. científico e político importante aqui é que. quando passamos do mundo das questões de fato para os mundos das questões de interesse.sso (1993).163164 Essa multiplicidade não significa que os dentistas não sabem o que estão fazendo e que tudo não passa de ficção. Techniques and Bodies. e a ANT. e de Mol. já não podemos ficar satisfeitos nem com a indiferença em 163 Ver Alain Huellan e Mireille Do. The Body Multiple. dependendo das habilidades do coletivo para unificá-los.165 Quando se olha para a primeira. 171 . que acredita ser sua tarefa acrescentar a multiplicidade a tun mundo excessivamente unificado pelas “Grandes Narrativas”.

Na tolerância do pesquisador para com as crenças selvagens poderia estar infiltrada muita condescendência. Ir da metafísica à ontologia é levantar novamente a questão de saber como é realmente o mundo real. mas há apenas uma maneira para que a gravidade exerça as suas forças.lf~ Se a teoria tradicional era contra o aprofundamento da primeira. mostra-se ainda mais hesitante em apro­ fundar-se na segunda. por exemplo. Rcagre. O perigo não pode ser exagerado quando consideramos que a aber­ tura mostrada. Pode haver milhares de maneiras de projetar uma ponte e de decorar sua superfície. afirma- -se. 172 .ou seja. a qual se acrescentou a questão da verdade e da unificação. £ . teremos de aprender a nadar nessas águas turbulentas. é. nem com unificação prematura operada pela “natureza”. que lhe lembra em demasia sua própria infância fi­ losófica. no singular. dada a longa e variável história daquelas palavras. atravessamos outro Rubicão. uma fisiología do desenvolvimento para explicar como os bebês efeti­ vamente crescem no útero. Na sequência. mas há apenas. porque eles podem ser tomados como outras tantas representações daquilo que o mundo.gandn o social relação à realidade que acompanha as representações “simbólicas” múl­ tiplas da “mesma” natureza. aquele que conduz da metafísica à ontologia . A primeira multiplicidade é o domí­ nio dos cientistas sociais. Pode haver milhares de maneiras de imaginar como os parentescos podem gerar filhos. Ao incluir os numerosos resultados das ciências nos zoos das agências que atuam juntas no mundo. não obstante. ao idealismo de Kant. se quisermos viajar. ontologia é a mesma coisa quo metafísica. pelos antropólogos em relação às “outras” cosmologías se deve quase sempre à sua certeza de que essas representa­ ções não têm uma relação séria com o mundo sólido das questões de fato. há sempre o perigo de que o desdobramento dos mundos dos atores con­ tinue sendo dem asiado fácil. Nesse caso não teríamos avançado uma polegada e retrocederiamos à estaca zero da expli­ cação social . Enquanto permanecemos na metafísica. a segunda unidade é a jurisdição dos cientistas167 167 Não tive nenhuma pretensão de seguir definições-padrão.

é aí que as ciên­ cias sociais podem recobrar a relevância política que parecem ter perdido ao abandonar o éter do social e o uso mecanizado do repertório crítico que a tornava possível. enquanto a realidade unificada permanecerá intacta. a solução que a ANT quer tornar insustentável.165 Mesmo depois que a realidade tenha sido plenamente estabelecida. já que o múltiplo continuará seguindo o seu perturbado curso histórico. que se revelaram tão interessantes e controver­ tidas quanto as metafísicas. O mundo comum ainda precisa ser coletado e composto. Não existe um mundo por trás. Cóm essa divisão entre uma realidade e muitas interpretações. As controvérsias em torno das ontologias. sim. a fim de lembrar ao leitor que essa unidade não é o resultado daquilo que o mundo parece a princípio encontrar. inalterada e distante de qualquer história humana. a questão da sua unidade permanece pendente. para ser usado como juiz deste. a arqueologia social e a arqueologia material. a psiquiatria biológica e a psicanálise. não podem ser ignoradas com uma pose blasé ou sim plificadas a priori batendo na mesa ou chutando pedras. exceto que a questão da verdade (daquilo que o mundo realmente é). Como veremos no final deste livro. mas nesse mundo inferior estão à espera muitos mundos168 168 Mantenho o plural para ontologias. 173 . Mas passar dos objetos sociais aos objetos naturais não significa passar de uma mul­ tiplicidade desorientadora a uma unidade acolhedora. O relativismo cultural só é possibilitado pelo sólido absolutismo das ciencias naturais. e assim por diante. por exemplo. Há unidade e objetividade de um lado. mas aquilo que o mundo podería tornatvse desde que seja recolhido e reunido. a conti­ nuidade e a comensurabilidade do que denominamos associações desa­ parecería i mediatamente. multiplicidade e realidade simbólica do outro. exatamente. entre a geografia física e a geografia huma­ na. ¡huno Latour naturais. Temos de passar. Tal é a posição padrão nos intermináveis debates que se travam. É essa. a antropologia física e a antropologia cultural. mas de um repertório empobrecido de intermediários a um conjun­ to de mediadores altamente complexos e controversos.

mais elas tornam os vínculos sociais socialmente rastreáveis. Devemos simplesmente certificar-nos de que a sua diversidade não seja prematuramente fechada por uma versão hege­ mônica de um tipo de questão de fato que reivindique ser o que está pre­ sente na experiência . o treinamento-chave para a prática da ANT é em primeiro lugar negativo. eles são fabricados. Os estudos de ciência oferecem hoje muitos dispositivos para seguir fatos em elabo­ ração e multiplicar os locais onde eles ainda não se tornaram questões de fato frias. aos seus laboratórios e institutos de pesquisa. para “poder” e “Sociedade”. Uma lista de afazeres nos ajudará a conservar a necessária apreen­ são empírica porque as consideráveis dificuldades dessa teoria poderiam extraviar-nos. Reagrçgmuto o w rial que podem aspirar a tornar-se uno . claro. Uma infraestrutura material oferece diariamente mais provas de um seguimento preciso de associa- 174 .e que vale. a grande vantagem de seguir fatos científicos é que. não precisamos resolver essas árduas questões de uma vez por todas a fim de efetuar o nosso trabalho de sociólogos. Estenderam- -se a tal ponto. rotineiras. a saber. Tal é a grande virtude da ciência e da tecnologia contemporâneas. esses locais já não se limitam aos laboratórios. Embora todas essas diferenças estivessem despudoradamente escondidas quando eram usadas como os “blocos de construtores elementares” do “mundo” no singular. assim como para “matéria” e “Natureza". Felizmente.ou não. dependendo do trabalho de composição que formos capazes de realizar. em intimidade tão estreita com a vida diária e os interesses comuns. existem em muitas formas dife­ rentes e em fases de realização. Quanto mais a ciência e a tecnologia se estendem. Não preci­ samos sequer desdobrar um conjunto completo de agências manifestadas por questões de interesse. Segundo. em tantos cenários. que é difícil seguir um curso de ação em qualquer setor das sociedades industriais sem se deparar com seus resul­ tados. como o nome indica. Uma vez mais. elas oferecem quan­ tidades maciças de informação assim que são reconduzidas ás suas “fá­ bricas”. Primeiro.

com o o mostra qualquer olhada na World Wide Web convertida em World Wide Lab. sem abandonar a busca da realidade.oferece ao analista uma fonte contínua de informa­ ções sobre a maneira de formular a questão da ontologia. para as quais a questão da realidade foi simplesmente espremida para fora da existência pelo peso das explicações sociais. publicações.16’ Comparada a outros dominios. Terceiro. congressos. ex­ perimentos em grande escala. quando se travam 169 169 Um caso úiil disso é oferecido por um estudo de religião que torna o Deus cató­ lico como um exemplo de ator-rede. controvérsias. Quando se aprende a respeitar as ontologias mutáveis. sem alguma ajuda dos sociólogos da ciência. os experimentos e controvérsias que des geram propiciam uma espécie de sítio contínuo para averiguar o que a metafísica e a on­ tologia poderíam sign tincar praticamente para os cientistas em atividade. quando se realizam conferências de consenso para estabilizar alguma controvérsia geopolítica. A prática cien­ tifica é a drosófila da teoria social porque oferece uma versão exagerada e ampliada daquilo que depois se pode estudar em domínios mais ina­ cessíveis. Le Religion de près: L'activité religieuse en train de se faire. quando os chefes de Estado tem de tomar decisões sobre fenômenos natu­ rais. Quarto. A própria organização da ciência . explorar teorias de ações alternativas. pode-se lidar com entidades mais difíceis. a ciência é mais fácil porque os debates em torno dos desvios da objetividade são muito mais rastrea veis. Bruno Latour ções. A diferença entre realidade e unidade torna-se palpável quando os tribunais têm de decidir sobre um conhecimento especializado. Ver Albert Piette (1999). a própria di­ ferença entre questões de fato e questões de interesse foi tornada publi­ camente visível pela crescente intensidade das controvérsias em torno das “coisas naturais”. con­ ferências de consenso . 175 . É nas instituições científicas que podemos encontrar o acesso mais fácil para a compreen­ são do que significa aumentar a variedade de agências.mediante aplicações de subsídios. quando os cientistas criticam os seus pares na imprensa por não terem seguido protocolos adequados.

Ao arrolarmos as qualidades de um relatório da ANT. usando a quarta.e os que le­ vam à estabilidade e à unidade. Reagregandû o social discussões públicas sobre o destino da Corrente do Golfo etc. mas sempre como questões de interes­ se. O certo é que o domínio empírico que está aberto é tão vasto. Além disso. os objetos têm hoje de tornar-se coisas novamente: o discutido tópico da assembléia virtual. 176 . estamos se­ guros de que quando as agências são introduzidas elas nunca se apresen­ tam como meras questões de fato. com seu modo de fabricação e seus mecanismos estabilizadores clara­ mente visíveis.171 Como deve estar claro agora. cuja existência foi partilhada com artefatos durante centenas de milhares de anos. Making Things Public. Enquanto antes precisavamos ir e voltar entre a realidade e a ficção como se este fosse o único caminho digno de seguir.atour e Weibel.o conceito de “social” e o con­ ceito de “ciência” -. estaremos especialmente atentos no sentido de nos contrapormos ao ânim o desconstrucionista. tão recompensador. eles poderíam ser meros tigres de papel depois que a quarta fonte de incerteza foi acrescentada às três outras. de alcançar um mundo feito de questões de interesse. mas sim os obstáculos conceptuáis que as transformam em a priori impossível.agora no plural . que iá é difícil lembrar que ele ficara proibido durante tanto tempo para os cientistas sociais. poderia estar na hora. o que limitou as investigações até aqui não foi a falta de traços nem as dificuldades técnicas inerentes à tareia. Embora esses obstáculos se afigurem formidáveis porque lidam com os dois principais defeitos da ciência social . Agir dans un monde incertain. Lascoumes e Barllie. hoje é possível distinguir os procedi­ mentos que levam em conta as realidades .170 Para maximizar o fabuloso poder de sua etimologia. Se a terceira fonte de incerteza permitiu aos soci­ ólogos alcançar os “humanos anatomicamente modernos”. tão va­ riado. certificando-nos de que a multiplicidade não esteja associada à “flexibilidade interpretativa” 170 Ver Callón. 171 Ver l.

pode ser distinguida de sua progressiva unificação . Infelizmente.e espera­ mos que última . se bastam apenas algumas horas para nos livrarmos dos obstáculos da sociologia do social (o tempo requerido para 1er os ca­ pítulos anteriores). os verdadeiros empecilhos tornaram-se visíveis: como escrever um reíalo que possa estar à altura da sociologia das associações. 177 .a metafísica . Finalmente.dificuldade com a qual temos de lidar antes de iniciar as nossas viagens. Bruno Latour ou ao enfraquecimento da apreensão empírica. em seguida temos diante de nós a parte mais árdua da tarefa. estaremos atentos aos procedimentos por meio dos quais a multiplicidade da reali­ dade . Tal é a nova .a ontologia. Justamente quando os obstáculos conceptuáis foram removidos.

Por isso as quatro fontes de incerteza serão encaradas corajosamente desde logo e de uma só vez. "Nunca chegaremos lá! Como absorveriamos tantas controvérsias?” Chegados a este ponto. cada qual exigindo ser levado em conta. todo o projeto vem abaixo. discutir sem cessar o que é . Infelizmente não encon­ trei um meio de agilizar as coisas: este tipo de ciência para aquele tipo de social tem de ser tão lento quanto a multiplicidade de objeçôes e objetos que ele precisa registrar em seu caminho. no fim. cada qual acrescentando suas diferenças às outras. Podemos engolir uma. Precisa registrar dife­ renças. capazes de provar seu sólido senso comum ignorando a maioria das fontes de incerteza anteriores que passei em revista. é grande a tentação de partir em desespero e voltar a teorias sociais mais razoáveis. talvez duas. articulado e idiossincrático quanto os atores que cooperam em sua elaboração. QUINTA FONTE DE INCERTEZA: ESCREVER RELATOS DE RISCO Esta introdução à ANT começa a parecer uma espécie de parado­ xo de Zenão. e tem de ser tão reflexivo. Mas reconheço a dificuldade: não será contraproducente. como se todo segmento fosse rompido por uma horda de mediadores. mas não quatro em sequência. absorver multiplicidade. abandonar a vantagem das explicações sociais. reformular-se a cada novo caso. Se uma faltar. tem de ser tão custoso quanto a necessidade de estabelecer conexões entre os muitos mediadores que pu­ lulam a cada passo.

Quando todas as coisas são iguais. induzir intermediários a comportar-se como media­ dores. existe uma solução para essas dificuldades que. façamos para nosso estudo o que Einstein fez ao decidir abordar . Isso já não é sociologia. a solução para o relativismo é mais relativi­ dade. tão radical. precisaremos considerar uma quinta e última fonte de incerteza. não fic a m o s o lh a n d o ATRAVÉS DA VIDRAÇA DE ALGUMA JANELA Felizmente. Se quisermos ter a chance de resolver todas as con­ trovérsias já mencionadas. A ideia é simplesmente trazer para o primeiro plano o próprio ato de compor relatos. registrar as mais bizarras idiossincrasias dos atores mais humildes. e sim /eníociolo- gia! Os mestres zen podem ruminar os incontáveis enigmas de sua austera disciplina. fazer longas listas de objetos que participam da ação e trocar o paño de fundo construido de material sólido pelo principio de evasivos materiais relacionados? Não será ridículo alegar que os pesquisadores deveríam “se­ guir os próprios atores” quando estes enxameiam em todas as direções como abelhas perturbadas por uma criança traquina? Que ator deve ser es­ colhido? Qual deles deve ser seguido. onde diabos teremos de parar? Bem estúpido é o método que se orgulha de ser tão meticuloso. Ou propõem um projeto viável e manuseável ou os processamos por desinformação. se cada ator é feito de outro enxame de abelhas a voar em todas as direções o tempo todo. é muito prática: só conseguiremos nos levantar de novo se nos apegarmos obstinadamente à nossa decisão de alimentar incertezas. mas não os autores de tratados sociológicos. e por quanto tempo? E. Reiigm)¡anclo » social ou não é um grupo. esta quanto ao estudo em si. Como o lei­ tor já deve saber a esta altura. E s c r ev e m o s t e x t o s . tão abrangente e tão orientado para o objeto que se torna impraticável.em vez das sublimes questões do éter - a questão aparentemente tola e comezinha de como uma pessoa equipada 180 . como todas as soluções dadas até aqui.

força­ dos por bolsas de estudo. mas lazer a pergunta simples: que fazemos quando traçamos conexões sociais? Não estaremos. acrescentamos um relato a todos quantos são lançados simultaneamente no campo que estivermos estudando. compulsando documentação. O que se exige de nós não é a tarefa impossível de pular. atormentados por prazos finais. Pode conter dez mil palavras e ser lido por pouquíssimas pessoas. esmiuçando por todos os lados . ávidos por dinheiro.solicitando entrevistas. dis­ tribuindo questionários. A ação foi iniciada. por mais que privilegiasse a prática. num salto m ortale . na verdade. Uma tese com cinquenta mil palavras será lida por meia dúzia (às vezes. departamentos estatais. “aludir a”. in media res. isso não significa exatamente “entender”.o que em parte explica seu estilo! Após anos ensinando na Inglaterra e América. dire­ torias de empresa. Uni no Latour com uma régua e um relógio captaria uiri sinal enviado por outra igual­ mente equipada com um relógio e uma régua. E quase tudo que estudamos entendemos mal ou simplesmente ig­ noramos. mas antes “folhear”.inclusive a noção capital de “descntîbilidade/justificabilidade” (accountability) . ÜNGs) esperam de nós permanece oculto em mistério. é um texto. pressionados por colegas. de nossa representação mental para as quatro fontes de incerteza anteriores. fui obrigailo a reconhecer que a semiótica não sobrevive às viagens por mar. O que os clientes (centros de pesquisa. continuará quando não estivermos mais por aqui. Esse estudo.172 172 fi aquí que a AN I' cruza os recursos da etnoraetodologia . tomando notas e rabiscando esboços.e quando digo “1er”. até o orientador só lê algumas páginas!) . sem dúvida. projetando filmes. nunca é completo.corn os da semiótica. 181 . talvez dez ou algumas centenas. “lançar os olhos”. Come­ çamos pelo meio das coisas. Na melhor das hipóteses. compondo relatos? Que é um relato?17’ Tipicamente. O que estamos fazendo nesse campo . uma folha de papel com alguns milímetros de espessura escurecida por um raio laser. “citar” ou “arquivar”.fica fora do alcance das pessoas com quem partilhamos apenas um instante fugaz. com um pouco de sorte. A atenção ao texto enquanto texto continua sendo utna obsessão continental. Coisa estranha. Garfinkel jamais se refere à prática da escrita . “pôr em prática” ou “reconhecer”.

Apodrece ali enquanto orientadores. tabelas. o resultado da pesquisa . feito de terra e poeira.173 173 Uso “relato” como termo genérico. reportagens.será sempre um relato preparado sob tremenda pressão. um minuto antes. após alguns meses. escri­ tos por formigas para outras formigas. transcrições. não importa quão astuto seja o orientador. um recital. enquan­ to amantes. Mesmo quando estamos no meio das coisas. já contente consigo mesmo. patrocinadores e clientes esbravejam. eles ocorrem logo adiante. o texto fica por escrever e é sempre adiado. um pôster.171 Mas isso é ótimo porque não há outro meio. um exame oral. esposas e filhos se irritam ao vê-lo chafurdar na lama escura dos dados a fim de trazer luz ao mundo. vemo-nos mergulhados num dilúvio de informações. de olhos e ouvidos bem abertos. a respeito de um tópico exigido por alguns colegas e por razões que permanecerão em grande parte inex­ plicadas. Poderia ser um arligo. do local. depois que fomos embora cansados. 182 . Tomamos co­ nhecimento de fatos cruciais no dia seguinte. do método. nada melhora porque. estatísticas e artigos. não im­ porta quão rigorosas sejam as exigências. tem de sacrificar enorme volume de informação que não caberá no pequeno número de páginas planejado. um arquivo. uma apresentação em PowerPoint. não captamos tudo que aconteceu. com o gravador mudo por falta de batería. Como estudar é frustrante! Mas não será esse o destino da carne? Não importa quão grandiosa seja a perspectiva.em 99% dos casos . Ainda que trabalhemos diligentemente. Como tirar alguma coisa com algum sentido dessa pilha de pastas que se acumula em nossa escrivaninha e desses disquetes cheios de dados? Lamentavelmente. um espaço artístico. Tratados metodo­ lógicos podem sonhar com um mundo melhor: livros sobre a ANT. não importa quão científica seja a abordagem. E quando você se põe a escrever de verdade. um filme documentário. Reugngandn o social tão tortuoso era o caminho que levou à escolha do pesquisador. só têm em mira escavar mi núsculas galerias no nosso. do tópico. um website.

tropismo. não hesitamos em transformar o próprio texto em mediador. são ao mesmo tempo artificiais e acurados: e tanto mais acurados quanto artificiais. anida procura reconciliar os dois opostos da retórica e da refe­ rência sem perceber essa outra diferença crucial. Eles preferem ser como os cientis­ tas “exatos”: tentam entender a existência de determinado fenômeno. Bruna Latmir Trazer a feitura de relatos ao primeiro plano talvez irrite aqueles que alegam conhecer a composição do social. M. Mas nossos textos. adestrados nos estudos científicos. F. F. 175 Num livm fascinante sobre a escrita da história. por essa mesma razão. Obras em inglês: Françoise Bastide (1990). os autores procuram desaceitadamente escrever textos sobre seus assuntos difíceis. A diferença não está entre aqueles que sabem com certeza e aqueles que redigem textos. não precisamos abandonar o alvo tradicional de alcançar a objetivi­ dade simplesmente porque consideramos com muito cuidado a pesada ma­ quinaria textual. Nossos textos. P. Mas nós. entre esprit de géométrie e esprit de finesse. Uma Noite con Saturno: Scritti Semiotici sul Discor- so Scientific». resistência. mutabilidade. 183 . entre mentes “cientificas e mentes “literárias”.174175Como estamos todos cientes de que fabricação e artificialidade não são o oposto de verdade e objetividade. eivados de artefatos. perigos. sem ambiguidades. para uma coletânea de ensaios. mesmo nas ciências exatas. Gallon e J. correm o risco de ser apenas artificiais. Bastide. Cario Ginzburg (1999). Sabemos muito bem que. como os de nossos colegas cientistas. Courlial ( 1989). Bastide o Greg Myers ( 1992). and PmoJ. The Use of Review Articles in the Analysis of a Research Area. Rhetoric. reçu* sando-se a considerai' relatos escritos e confiando apenas no contato direto com a coisa à mão graças ao meio transparente de um idioma técnico claro. A Night with Saturne.1 Podemos fazer as seguintes perguntas: o que é um bom laboratório e o que é um bom 174 Ver Françoise Bastide (2001). Entretanto. History. mas entre quem escreve maus textos e quem escreve textos bons. opacidade. não preci­ samos ignorar a espessura de nenhum texto com suas armadilhas. insistência em fazer-nos dizer coisas que gostaríamos de calar. The Iconography of Scientific Texts: Principle ofAnalysis. ou seja. Não há razão plausível para nossos textos serem mais transparentes e não mediatizados do que os relatórios oriundos dos labo­ ratórios desses autores. como os de nossos colegas cientistas.

é justo indagar por que a literatura da ciência social parece às vezes tão mal-escríta. A objetividade pode. “Science and Literature”. Não importa quão iletrados pretendam ser. os estudiosos tentam imitar a escrita negligente dos cientistas “exatos”. Para colócal­ as coisas em tom provocativo: a boa sociologia tena de ser bem escrita. a biolo­ gia e a história natural obras das mais fascinantes . O problema não consiste em opor textos objetivos a textos subjeti­ vos. Como a ANT procura renovar o significado de ciencia e o significado de social. Embora os cientistas naturais se esforcem para ser aborrecidos ao máximo. fifrígregando n social relato textual? A última questão. a palavra nao tem o sentido tradicional de coisa concreta .embora nem de longe se pretenda paro­ diar o gênero objetivista. segundo. atraente e controverso.176 Mas também os 176 Uma associação erudita.com seu apelo frio e desin­ teressado à “objetificação” . o social não aparece nela. Aqui. 184 .sobretudo os críticos .embora nenhum objeto esteja aí à vista . ser atingida ou por um estilo objetivo . Por outro lado.ou pela presença de muitos objetores .conseguem diluir o vocabulário preciso de seus informantes numa metalinguagem para todos os fins. Ver seu jornal Configurations. devota-se em parte a essa tarefa. os cientistas naturais são forçados a levar em conta algumas das muitas peculiaridades de seus recal­ citrantes objetos. assuntos de grande interesse inundam os escritos científicos de modo a tornar a física. não convocam em seus relatos atores suficientemente recalcitrantes que hesitem para interferir na má escrita. precisa renovar também o que existe num relato objetivo.como os estudiosos da literatura científica já demonstraram tão vigorosamente. Os motivos são dois: primeiro. portanto. e outros que tentam sê-lo rastre­ ando objetos empenhados em objetar ao que se diz deles. Existem textos que se consideram objetivos porque fingem im itar o pretenso segredo das ciencias naturais. é oportuna para a definição do que significa para nós uma ciência do social. Assim. longe de irrelevante e deslocada.e sim o de um assunto de interesse palpitan­ te. senão. contrariamente a eles. parece que apenas os sociólogos do social .

Entretanto. usarei a expressão “relato textual” para signifi­ car um texto em relação ao qual o problema da exatidão e da veracidade não foi posto de lado. de “invencionices” Contra essa atitude blasé. aos olhos de pessoas alheias aos estudos de ciência e semiótica. saber o que é um bom relato tem mais importância para as ciências sociais do que para as naturais. Ao contrário. pois o elo fraco. Omitir a palavra "textual” nos relatos textuais é perigoso porque. uma característica de nosso subcampo é não adotar nenhum jargão. Bruno Latour cientistas sociais conseguem. pois as coisas concretas são uma invenção política. As pessoas têm de ser tratadas com muito maior delicadeza do que os objetos porque suas muitas objeçòes são mais difíceis de registrar. podiam explorar outras maneiras de proteger o objeto em seus relatos textuais. os textos muitas vezes não passam de “histórias” ou. sob pretexto de que eles devem escrever “como” os cientistas. Introduzir as palavras “relato textual” num discurso sobre o método lembra a dinamite. mas humanos. a duras penas e com freqüência. ser uns chatos! Esta talvez constitua a única diferença real entre ciências "exatas” e ciên­ cias "humanas”: não é possível calar não humanos. pior ainda.1771789Por isso. os objetos materiais jamais o fazem. 179 Estou muito satisfeito pelo fato de a palavra ecoar não apenas a descritibilidade/ justificabilidade (accountability) de Garfinkel. mas por que o fariam os não humanos? 178 Isso talvez seja encarado como mais um exemplo do chauvinismo de meus estu­ dos científicos. sim.17* Mas ainda assim a tentação a confundir as duas 177 Isso não surpreende. mas essencial da contabilidade com a economia tem sido um dos 185 . uma espé­ cie de cidadania ideal inventada no século 18 paia convocar a assembléia da nature­ za. Dado que os estudiosos de ciência tiveram inúmeras ocasiões de provar a lenta emergência da objetividade nos escritos científicos. mas não porque elas façam voar pelos ares as reivindicações de objetividade por parte dos cientistas. Os humanos podem curvar-sc a esse papel político. mas também os "livros contábeis”. viram-se livres da obrigação de vestir a roupa ialsa da prosa objetiva. anulam para sempre o direito dos sociólogos à escri­ ta negligente.17* Como não viviam à sombra de uma objetividade emprestada. Se sujeitos podem facilmente se comportar como questões de fato.

Mas uma coisa é dizer que as ciências sociais produzem relatos escritos . teria de submeter-se a uma prova ainda mais rígida do que a das ciências experimentais. Ver Alain Desrosières (2002).deve­ ríam ser tão disciplinados. Transportada para u outro lado do Atlântico. Jo s estudos científicos. todos quantos se dispunham a dene­ grir as ciências sociais aplaudiram em uníssono. humanistas sofisticados passaram a empregar as palavras “narrativa” e “discurso” para dizer que não existe nenhuma es­ crita confiável . Na França. e por isso todas terminam pelos sufixos -logia e -grafia . por um instante sequer. pode-se ser ao mesmo tempo ingenuamente racionalista e grande admirador da desconsiruçâo. mas. Reitgregando o sachU coisas é grande porque existem pesquisadores . ver Qualtrone. Para um caso ainda mais surpreendente.como se a ausência de um Texto absoluto significasse que todos os textos são relativos. “Accounting for God". e Michael Power (1995). ínspiraram-se o mais das vezes na França. Representantes da antropologia. 186 . acreditaram estar aplicando seus argumentos à ciência. esta paixão inocente torna-se lima perigosa arma de dois gumes.*80 À semelhança do jogador de futebol marcando um gol contra.todas as ciências neste mundo fazem o mesmo. Você indagará: “Que é um bom domínios mais produtivos. Já é tempo de que alguns o confessem”. Enemies of Promise: Publishing. Perishing.para quem as ciências sociais geram “apenas” narrativas. Accounting and Science: Natural Inquiry and Commercial Reason. É claro. sem notar que os franceses fieis a Bachelard e Canguilhem nunca. Eles não o percebem.que se gabam de “compor ficção” .se um título tão honro­ so lhes cahe . The Politics o f Large Numbers: A History o f Statistical Reasoning. se a ciência social fosse mesmo “ficção”.IS O ISO Os que foram passados em resista em Lindsay Waters (2004). sociologia e estudos culturais .e bem outra coisa é concluir desse lugar-comum que nós só conseguimos escrever histórias de f icção. Em primeiro lugar. embora improváveis. e acrescentam: “Tal como a ficção”. pois era o que afirmavam sempre: “Os sociólogos não passam de contadores de histórias. afeitos à realidade e obcecados pela qualidade textual quanto os bons romancistas. essa atitude trai uma notável ignorância em re­ lação ao trabalho duro dos Accionistas. and the Eclipse o f Scholarship.

E. se você tem carne. o “nós" majestático e uma plétora de notas de rodapé. todavia. nenhum cientista social pode chamar- -se cientista se evitar o risco de escrever um relato verdadeiro e completo sobre o tópico à mão. De fato. os cientistas sociais acreditam que o “estilo objetivo”. Mas. mas constitui uma extensão do número de precauções que pre­ cisam ser tomadas e das habilidades exigidas dos pesquisadores. tornar a produção de objetividade mais difícil é o nome do jogo. Os relatos textuais são o laboratório do cientista social. gerada pela escrita de seus próprios estudos. fíruua Latour escritor?” E eu responderei: "Que é um bom cientista?” Não há resposta geral para estas duas perguntas. um relato que aceita ser “apenas uma história” é um relato que perdeu sua principal fonte de incerteza: já não faz questão de ser acurado. Muitas vezes. Assim. O molho espesso do “estilo objetivo” não consegue esconder por muito tempo a ausência da carne. Não há motivo para que os sociólogos de associações aban­ donem essa injunção quando abandonam a sociologia do social ou quando acrescentam ao debate uma quinta fonte de incerteza. então 187 . não é o fato de o texto ser insípido e aborrecido que o torna acurado. Se o so­ cial é algo que circula de certa maneira e não um mundo do além a ser descoberto pelo olhar desinteressado de um cientista ultralúcido.ou não. desde que artefatos sejam detectados graças a uma atenção contínua e obsessiva. camuflará milagrosamente a falta de objetos. Porém. Como já deve 1er ficado claro. é em virtude da natureza artificial do lugar que a objetividade consegue ser alcançada. mais importante ainda. ocorre justamente o contrário. Em contrapartida. se a prá­ tica laboratorial pode servir de guia. fiel. no sentido de uns poucos truques gramaticais como a voz passiva. Não é pelo fato de atentar bem para a escrita que você precisa encerrar a busca da verdade. e. encarar um texto de ciência social como relato textual não enfraquece sua pretensão à realidade. interessante ou objetivo. poderá acres­ centar a ela alguns condimentos . Renun­ ciou ao projeto de traduzir as quatro fontes de incerteza que passamos em revista até agora.

Os télalos textuais podem falhar. INI Os mesmos epistemologistas que caíram de amores pela falsificabilidade de Popper andariam bem se estendessem esse conceito ao próprio texto e tornassem explícitas 183 Nesse sentido. então pode ser reunido. Algirdas Julien Greimas (1988). Practical Exercises. um evento ou a origem de uma nova translação. uma descrição ou uma proposição na qual seu relato textual não deu em nada. reportagens. versa portanto sobre quantos atores o textual . -sucedidos. a rede não designa um objeto exterior com a forma . como se semelhante atividade jamais mente a mais confusa das palavras usadas em nossa teoria social alternati­ corresse o risco de fracassar. pois o mundo que desejam captar permanece invisível: as co­ Refiro-me com isso a uma série de ações em que cada participante é ações mediadoras para escrever são ignoradas ou negadas. Ela nada mais é que um indicador da qualidade de um texto sobre os tópicos à mão. faz e o que o texto pode fazer Desse modo. graças a inúmeras invenções textuais.183 Restringe sua objetividade. En f im . Definirei um bom relato como aquele que tece uma rede. basta-nos uma palavra de ordem menos sofisticada. 188 189 . como um telefone. equivale à noção de "adequação única" dos elnomclodologistas. Já os sociólogos do social tentam um todos os atores fazem alguma coisa e não ficam apenas observando. cada um dos uma história ou uma ficção . assim como os experimentos. Ele será transmitido ou longe. pouco importa quanto aprendamos a escrever.não há por que evitar uma palavra tão próxi­ pontos no texto pode se tornar urna encruzilhada. Assim.daí tanta gente torcer as mãos frente a problemas como método. Embora elementos que antes eram vistos como parte da sociedade. escritor consegue encarar como mediadores e sobre até que ponto logra verdade e relevância política . não. Não importa tratado como um mediador completo. dramaturgos e romancistas. de que a noção de reíalo tenha sido enriquecida pela de relato textual. poetas. uma rodovia ou uma “rede” de esgoto. não há como serem bem va. Ver o emprego no estudo de Greimas sobre Mau passant. as habilidades dos escritores.181Ao Por esse motivo. The Semiotics o f Text. Se o social é um traço.182 O texto. Tão logo sejam tratados. en­ tornar de novo uma entidade circulante não mais composta dos velhos tão pode ser retraçado. Em palavras mais simples: um bom quanto tenham se esforçado para ser exatos no curso de suas pesquisas. RenxKgamln n lueln} Brunu Latour cumpre transmiti-lo por meio de uma série de recursos adaptados à tarefa ceremos ineros cientistas sociais e nunca conseguiremos emular. vez de simplesmente transportar efeitos sem transformá-los. não como intermediá­ ma da fabricação de fatos .am pliar a exploração das conexões sociais? As rios. porque. mas como mediadores. nem de .. se é uma reunião.inclusive textos. des­ as condições nas quais sua escrita também pode se encaixar. aproximada de pontos interconectados. O bom texto tece redes de atores quando permite ao escritor estabe­ Mas o que vem a ser um bom texto? Não falamos aqui de bom estilo lecer uma série de relações definidas como outras tantas translações. relato ANT é uma narrativa. Coisa contrário. u m a d e f in iç ã o d e r e d e a capacidade de cada ator para induzir outros atores a fa z er coisas inespe­ radas. isto é. que o social. relatos e circulares. o social pode se corrente é tão fraca quanto seu elo mais fraco.um bom texto. os atores tornam visível ao leitor o movimento carreiras dos mediadores têm de ser seguidas até o relato final porque uma do social. Em experimento bem diferente: poderá a materialidade de um relato no papel. entenda-se. talvez haja continuidade plausível entre o realizar o social. sempre permane­ 182 A isso se chama "objetos de valor”. parece que com frequência os sociólogos do social apenas ten­ espantosa é a busca por essa pedra de toque que nos ajudará a definir final­ tam “fixar um mundo no papel”. no sentido aqui dado à palavra. Sendo esse o caso. em não haja continuidade material entre a sociedade do sociólogo e um relato nossa definição de ciência social.

silên cio o b stin a ­ do. Reagregando a social P r e c is ã o t e r m in o l ó g ic a em rela çã o à red e A palavra “rede” é tão ambígua que já deveriamos tê-la descarta­ do há muito tempo. O p rob lem a persistiu d u ran te v á rio s d ias. No entanto. é a de Dide­ rot. L ev av am -n a e n tão p a ra a c a m a . em sociologia da organi­ zação. Neste caso. a outra tradição. ca n sa d o de su a d o en ça. en fim . risos in vo­ lu n tário s. que inclui nada menos de vinte e sete acepções da palavra réseaux. mercados e países (Boyer. rede é uma maneira informal de associar agentes humanos (Granovetter. co n v u lsõ es. os dois sentidos se misturam porque rede se torna um modo privilegiado de organização graças justa­ mente ao alcance da tecnologia da informação. ecoando Bergson. 2004). eram só lassid ões. do qual De- leuze. a que sempre nos referimos. Q u a n d o a a ç ã o dos fios da rede igu alava a re a çã o de sua o rig em . a tradição dentro da qual a empregamos permanece distinta. q uase sem vid a. im ag in o u p e rc e ­ ber que seu am an te. es­ gotos. internet etc. sobretudo em O Sonho de d'Alembert (1769). Quando Castells (2000) usa o termo. Ali você encontrará um tipo mui­ to especial de materialismo ativo e amplamente disseminado. já co m e ça v a a d a r m o stra s de que iria d ar o fora.eletricidade. 1985). on d e ficava h o ras a fio sem fazer um m o ­ v im en to sequer. e resolveu s a ra r ou m o rre r. in ch aço s de g arg an ta. é o representante mais recente. su fo caçõ es. trens.184 Eis um exemplo: Isto deve satisfazê-la p o r o ra: u m a m u lh er. o u tras vezes. ora os sú d itos. ver Wilda Anderson (1990). para introduzir uma diferença entre empresas. Uma delas é. en tro u n o estad o v ap o ro so m ais assu stad or. E sto u ro u nela u m a g u erra civil na q ual o ra p rev alecia o senhor. ela to m b av a c o m o m o rta . a despeito de sua possível confusão com outras duas linhas. 190 . a rede técnica . Diderot’s Dream. ap ós o p arto . A m a n d o a p a ix o n a d a m e n te . de Diderot. A segunda vem sendo usada. fraq u e- 184 Sobre a filosofia de rede da natureza. tu d o o que se p o ssa im a g in a r de pior. g rito s ag u d o s. É também nesse sentido que Boltanski e Chiapello (2005) se valem da palavra para definir uma nova tendência no modo capitalista de produção. Contudo. obviamente. E ra u m n u n ca a c a b a r de lág rim as.

esg o tam en to que p arecia p restes a levá-la d esta p ara m elh or. subia e d escia escad as. e ela d izia a si m esm a: ‘V en cer ou m o rre r’. nada acontece. 1964) É c la ro . não atuarão. coletivo. Enfim. É aqui que o contraste literário entre ANT e sociologia do social - e. mas não participarão do enredo. anônimo. 2 0 0 2 ) Então como definiremos. o c e n tro de sua red e se retesava. a ANT encarará como relato fraco e impotente que apenas repete e tenta transportar uma força social já composta. ou seja. O ó rg ã o de sua v o n tad e.185 É padronizado. (K ar- sentí. Terão de gesticular para se manterem ocupados como personagens. por ser feito de umas poucas causas globais capazes de gerar inúmeros efeitos. A o p rim e iro sin to m a. Lembremo-nos: um ator que não faz diferença não é um ator. um mau relato textual? Num texto ruim. pois a ação apenas transita por eles. somente um punhado de atores serão apontados como causas dos demais. sem m ostrar do que é feita e sem achar os veículos ex- 185 Dizer que é um ator-rede equivale a dizer que é específico e que os princípios de sua expansão tornam-se visíveis após ser pago o preço de seu desdobramento. cuja função se limitará à de pano de fundo ou substitui­ ção para os fluxos de eficácia causai. A revolta co m e ça v a sem p re pelas fibras e ela sabia q u an d o ia aco n tecer. de T ard e. sem transformá-las.parece maior. (D id ero t. sociologia crítica . Fez das trans- laçoes meros deslocamentos. nele. M as lem ­ bra de p e rto a d efin ição d e “socied ad e” e “raio s im itativ o s”. Nada passa de um para outro. c o m base n essa c ita ç ã o .at mtr za geral. Bruno I. por contraste. levan tava-se. A m u lh er lutou assim d u ran te seis m eses. mais ainda. 191 . que résea u n ad a tem a ver c o m o social n o rm a lm e n te c o n stru íd o e que n ão se lim ita aos laços h u m an o s. simplesmente transportou causalidades através de meros intermediários. O re­ lato não foi produzido de forma ad hue para ser adequado exclusivamente à descrição de atores específicos e aos olhos de determinados leitores. no antigo social. serrava m ad eira e cav av a b u raco s no ch ão . O que muitas vezes é con­ siderado um relato poderoso e convincente. Só há ali clichês surrados sobre o que foi reunido antes. c o rr ia para fora e fazia exercício s violentos.

fluido e não humano. Parece difícil imaginar um contraste mais gritante: ou sociedade ou rede. m o­ vimento e especificidade nossos próprios relatos conseguem incluir. como grupo. não será um pouco perigoso insistir na esquiva palavra “rede” para descrever esse padrão de qualidade literária? Concordo que ela não lembra outras palavras que venho usando. como o princípio de seu agrupamento perma­ nece ignorado e o preço de sua expansão não foi pago. e-mails. Do mesmo modo. não coisa. Em contrapartida. Todavia. Não importa qual seja sua figuração.sem em parte alguma oferecer um relato ator-rede. mas. o mundo social não foi trazido à existência. uma gravura. eles não fazem muita coisa. uma pedra da lua. Rede é conceito. Esta. a comum precisa esfumar-se primeiro. Portanto. apenas ensejaram ao pintor dar a impressão de profundidade antes de serem apagadas. satélites. um código de leis. Por outro lado. Como a reunião de novos agregados não ficou visível no texto. é possível escrever sobre redes técnicas . para a nossa definição de social ser retomada. não algo que esteja sendo descrito. porém. Rmgrvgandn o social tras necessários para ir mais longe. tem significados demais! A confusão se instala . Embora a definição comum de social pareça estar por toda parte.uma sinfonia.televisão. a nossa não apareceu. mas aquilo que prepara o texto para substituir os atores como mediadores. as linhas per­ mitem projetar um objeto tridimensional numa tela plana . de ponto único: traçadas antes. a rede não é aquilo que está representado no texto.por nossa culpa e de ninguém mais .porque alguns objetos antes descri- 192 . Varios agentes sociais podem ter sido invocados no texto. Ê uma ferramenta que nos ajuda a descrever algo. actante. rede é uma expressão para avaliar quanta energia. A consequência é que podemos ela­ borar um relato ator-rede de tópicos que de maneira alguma têm a forma de uma rede . ator. grupo. Mantém com o tópico à mão a mesma relação que uma grade de perspectiva mantém com uma pintura baseada na perspectiva tradicional. à vista de todos. escolhidas de propósito por causa de sua falta de significado. é como se nada houvesse acontecido.mas não são aquilo que será pintado. equipes de vendas .

as segundas como conjunto estabilizado de intermediários. que redefini antes? De qualquer forma. fluxos de transferências causais e coisas concretas. Qualquer que seja a palavra. consagrada e solidamente presa por um hífen à palavra “ator". 188 Bsse ponto se tornará ainda mais imprescindível quando. e as superfícies a exceção.metrologia. porém. 187 Action net. “insti­ tuição”. pronta para ser registrada empíricamente. Assim. 193 . além disso.186 Se eu levasse a sério os jargões e worknet ou action net tivessem alguma chan­ ce de vingar. frequentemente concebidos como super­ fícies. O vazio é a chave para percorrer os raros condutos por onde o social circula. no caso. telefone .lssessa 186 Como mostraram Boltanski e Chiapello em The New Spirit o f Capitalism.nem a Al-Qaeda. a Internet ainda não atacara .18718 Worfc-nets nos permitira avaliar quanto trabalho é necessário para lançar nei-works: as primeiras como mediadores ativos. Elas perderam a acuidade. On Time.. abor­ d arn os a noção de “plasma". “campos” etc. as redes são a regra. portanto. Brunn Latour tos pela ANT eram redes no sentido técnico . b) essa conexão deixa vazia boa parte daquilo que não está conec­ tado. apenas uso sensível.e. precisamos de alguma para designar os fluxos de translações. estas como um meio para os cientistas sociais entenderem aquelas. como todo pescador sabe ao lançar sua rede ao m ar. quando o termo foi introduzido há uns vinte e cinco anos. pode ca­ racterizar também o que há de pior na recente metamorfose dos modos de produ­ ção capitalista. não existe palavra boa. eu as sugeriría como substituto para realçar o contraste entre redes técnicas e worknets. "cultura”. and Action Nets. Hoje. a) uma conexão ponto por ponto se estabelece. a metáfora material original ainda retém os três aspectos importantes que tenciono sublinhar com essa expressão. Por que então não empregar “rede”. no lina] da Pai te II. Space. conforme proposto por Barbara Czarniawska (2004). fisicamente rastreável e. rede era unia novi­ dade que podia ajudar a estabelecer um contraste com “sociedade”. metrô.

No começo. Ver Alberto Cambrosio. Ver seu uso antigo em Geneviève Teil { 1991 ). Mas aqueles gráficos apresentavam a desvantagem de não captar movimentos e se­ rem visualmente pobres. un outil de sociologie assistée par ordinateur pour l’analyse quantitative de Gros corpus de textes. mas não um ator-rede: ele tem de ser traçado de novo pela passagem de outro veículo. Mapping Collaborative Wbrfc and Innova­ tion in Biomedicine. Visto como representação é ingênuo. Ao menos. Para que isso atenda aos nossos fins. exige esforço. Reagregando o social conexão não é gratuita. da disseminação de repre­ sentações visuais um tanto ingênuas. vistas como ramificações em forma de estrela das quais partiam linhas para conectar outros pontos que nada mais eram que novas conexões. porém. em parte. sociedades. Você poderá estender para secar suas redes de pesca. ela é o traço deixado por um agente em movimento. concordo. palavras ou substâncias duráveis. Candi de ". proporcionava uma imagem tosca. mais individualizado era um ponto. mas como teoria é uma ótima ajuda para a abstração. temos hoje vários outros recursos gráficos à disposição. Estas limitações. Peter Keating e Andrei Mogoutov (2004). a representação grá­ fica das redes. 194 .1"9 Ela tinha a vantagem de definir a especificidade. tinham também suas vantagens. mas fiel daquelas as­ sociações. não por um conteúdo substancial qualquer. lohn Law e Arie Rip ( 1986). acrescentemos um quarto as­ pecto que. A fraqueza da noção deriva. No entan­ to. pois a própria fragilidade da representação gráfica permite ao pesquisador não confundir sua infralinguagem com os ricos objetos pin­ tados: o mapa não é o território.189 189 Isso foi mostrado nas primeiras ferramentas Leximappe em Michel Callón. mas por uma lista de associações: quanto mais conectado. inviabiliza até certo ponto a metáfora original: uma rede não é feita de fios de nylon. outra entidade circulante. Mapping the Dynamics of Science and Technology. como todo pescador sabe ao repará-la no convés. não existe risco em acreditar que o mundo é feito de pontos e linhas: os cientistas sociais muitas vezes parecem crer que o mundo se constitui de grupos sociais.

entrevistas e websites. mas porque doravante ludo são dados: do primeiro telefone­ ma à possível entrevista.como veremos na Conclusão. na maioria das vezes . à primeira lista de lacunas a preencher num questionário. Num relato ator-rede. isso já não importa muito. Para traçar um ator-rede. ao primeiro encontro com o consultor. Não faremos isso em nome da reflexão epistêmica nem por indulgência narcisista com nossa própria obra. pela objetificação. temos de acrescentar-lhe os muitos tra­ ços deixados pelo fluido social graças ao qual possam reaparecer. significando que ele pode facilmente falhar . regras ou quaisquer elementos gráficos que tenham imaginado para atribuir sentido a seus dados. Classificarei essa descrição de relato arriscado . talvez seja útil enumerar as diferentes cadernos [notebooks] que é preciso manter .. 195 . ou antes. mesmo aqueles que se referem à própria produção do relato. filmes. ao lançamen­ to de um programa de busca. pois não consegue pôr de lado nem a completa artificialidade do empre­ endimento nem sua reivindicação de exatidão c confiabilidade.e falha. Tudo se resume em descobrir se o evento do social pode ser estendido ao evento da leitura por meio do texto. D e volta ao tem a b á s ic o : u m a l is t a de ca d ern o s A melhor maneira de ir adiante e abordar a quinta fonte de incerteza é simplesmente não perder de vista todos os nossos movimentos. pois d a agora pode incluir arquivos di­ gitais. desde que algo aconteça nele.IW ü primeiro caderno190 190 Uso “caderno'’ [notebook] metaforicamente. às primei­ ras correções feitas pelo cliente numa proposta de concessão. isso é ainda menos automático . Ê o preço a pagar pela objetividade. Fiéis à lógica de nosso interesse por relatos textuais. a proporção de mediadores e intermediários aumenta. Bruno Latour culturas. Quanto à sua relevância para os próprios atores e ao impacto político que possa exer­ cer.manuais ou digitais.

em suma. explicações contundentes. Não é viável reunir dados para um determinado período e só então começar a registrá-los. num laboratório. não é mais fácil escrever relatos textuais do que. o experimento artificial de comparecer ao campo. o movimento de um quadro de referência para outro será grandemente facilitado. Mesmo anos depois. clichês. Esta é a única maneira de nos mostrarmos tão flexiveis e articulados quanto o próprio tema a ser atacado. definições transportáveis. Aquilo que brota espontaneamente do teclado são generalidades. mas criaturas antiquadas como eu já se beneficiaram muito da transferência tediosa de dados para fichas. relatos provisó­ rios. A única adequação que se deve buscar para resolver problemas complicados não pode ser obtida sem a elaboração contínua de desenhos e esboços. tipos ideais. Sem isso. Para se contra­ por a esta tendência são necessários esforços redobrados. simultaneamente. Hoje existem incontáveis softwares que preservam essa especificação contraditória. abstrações. de deparar com um novo estado de coisas logo se perderá. devem ser documentadas o mais regularmente possível. descobrir o plano experimental correto. parágrafos. do contrário não se interrompe a escrita automática. É a única maneira de documentar a transformação sofrida quando se empreende uma viagem. que pessoas foram contata­ das. Reagregandû o social deve ser um diário da própria pesquisa. corremos o risco de incidir na linha que divide pesquisa e relatório. O terceiro caderno deve estar sempre à mão para registros a d libitum. deve ser ainda exequível saber como o estudo foi concebido. e por aí afora. Não importa a solução. em que data. caso o conjunto de dados permaneça intacto e disposto no máximo de arranjos possível. Anotações. reações ao estudo por parte de outros. a que fontes se teve acesso. registrar todos os itens em ordem cronológica e enquadrá-los em categorias que depois se transfor­ marão em arquivos esubarquivos mais precisos. a matéria a partir da qual mais gêneros sociais se registram sem esforço. metáforas e tropos costumam irromper ao acaso no curso dos 196 . Quando elaboramos um texto. O segundo caderno deve ser mantido para reunir informações de tal modo que se torne possível. surpresas ante a novidade do cam­ po etc. Mas idéias.

é imprescindível para averiguar como um relato desempenha seu papel de unir o social. Mas pessoas estudadas não têm o direito de censurar o que foi escrito a seu respeito. eles se perderão ou. mas o experimento continua: o novo relato acrescenta sua ação performativa a todos os outros e isso também produz dados. comprometerão o trabalho árduo de coleta de dados. suas pegadas precisam ser igualmente documentadas.1B1 Como a relevância de um relato de risco pode ocorrer bem mais tarde. Afinal. Mas já adverti o leitor: não há nada mais gratificante que isso e não se pode ir mais depressa. Assim. Esse segundo experimento. ação. embora só as usemos anos mais tarde. pior ainda.ou não. Por que exigiriamos equipamento mais pesado para percorrer finos condutos es-19 191 Veja se quantu tempo passou do longo experimento desde os estudos científicos das primeiras publicações até as Guerras de Ciência. metafísica e ontologia. O estudo pode ter fim. Ao contrário: uma nova negociação se inicia para determi­ nar os ingredientes de que um mundo comum possa ser feito . Arqui- medes só precisava de um ponto de apoio para erguer o mundo. ’talvez seja decepcionante para o leitor constatar que as grandiosas questões da formação de grupos. passadas em revista até agora. Bruno Latour estudos. Einstein só equipou seus observadores com uma régua e um cronômetro. O quarto caderno deve ser mantido cuidadosamente para registrar os efeitos do relato escrito nos atores cujo mundo tenha sido desdobrado ou unificado. têm de ser abordadas com recursos não mais grandiosos que pequenos cadernos mantidas durante todo o procedimento artificial do trabalho de campo e das pesquisas. é sempre boa prática reservar um espaço às muitas idéias que podem nos ocorrer. No entanto. como mostrei no capítulo anterior. Se näo lhes concedemos um lugar e uma válvula de escape. Stun uma documentação cuidadosa o experimento dos estudos científicos teria sido em vão. nem o analista goza do espantoso privilégio de ignorar o que seus “informantes” dizem sobre as forças invisíveis que os levam a agir. misturando a metalinguagem dos atores com a dos analistas. acrescentado ao trabalho de campo. 197 .

198 . D esd o bra m en to . “pelas costas" dos atores ou “forças sociais em ação”. Ontological Choreography: Agency through Objectification in Infertility Clinics. então não se meta corn a sociologia: esse é o único meio de alcançar um pouco mais de objetividade. p. Reagregoridu n social euros escavados por formigas? Se você não quer tomar notas e registrá-las. No máximo. nem a mesma coisa que “desvela- mento”. replicarei que.daí o hífen na palavra composta “ator-rede”. Po­ sicionamento não é “simples descrição”. ainda que esse empreendimento não leve a nada. After Method.192 Mas o que 192 Ver Law. deduzido e comunicado por meio de nossos relatos textuais. cultivado. graças a um recurso artificial. se pelo menos uma fração da energia reservada em ciência social ao comentário de nossos eminentes predecessores fosse convertida em trabalho de campo! Garfinkel nos ensi­ nou: a prática é tudo. Ver também o bonito termo "enactment" usado por Mol e “choreography" cm Charis Ctissins (1996). aqui. A tarefa consiste em desdobrar os atores como redes de mediações . n ã o c r ít ic a Acrescentar algo de maneira desordenada a um relato confuso sobre um mundo complicado não parece atividade das mais gloriosas. é produzir uma ciência do social adaptada à especificidade do social. 112. Ah. Se os relatos textuais não forem considerados “suficientemente científicos”. Mas não es­ tamos em busca de glória: o objetivo. lembra a amplificação RCP de uma pequena amostra de DNA. embora não pareçam cientí­ ficos de acordo com a definição surrada do adjetivo. isso é o que tem de ser reproduzido. Se o social cir­ cula e é visível apenas quando brilha através das concatenações de mediado­ res. estão bem de acordo com aquela que nos interessa aqui: eles tentam captar alguns objetos re­ calcitrantes com muita exatidão. da mesma maneira que todas as outras ciências precisaram inventar meios tortuosos e artificiais para abordar com exatidão os fenômenos específicos que pretendiam entender.

Descrever. Não há nada menos natural do que sair a campo e ficar como uma mosca na pa­ rede. Bruno Latour há de tão errado assim com as “simples descrições”?193194O born texto nun­ ca é um retrato não mediatizado daquilo que descreve . mas não neces­ sariamente para o estilo. “Densidade" deveria significar também: “Juntei o bastan le?” Deveria dar à palavra “reunião” um sentido politico.que.nem sequer é um retrato. inscrever. fazer o papel de observador-participante. 199 . Se você achar os experimentos de Faraday es- tranhamente artificiais. vasculhar arquivos. suspeitamos que. algo que abordaremos na Conclusão. caso insistam os no ato de descre ver. No entanto. é a realização máxima e mais rara. que tal as expedições etnográficas de Pitl-River? Se considerar esquisito o laboratório de Lord Kelvin. distribuir questionários. narrar e redigir relatórios finais é tão pouco natural. muito pelo contrário. que dizer de Marx com­ pilando notas de rodapé na British Library. compilar estatísticas e navegar pela Internet. Mas a oposição entre descrição e explicação é outra des­ sas falsas dicotom ías a serem postas para dormir . 194 Ver Joseph Leo Kuerner (1997). i he Moment of Self-Portraiture in German Renais­ sance Art. de Freud pedindo a seus pacien­ tes para fazer livres-associações em seu divã vienense ou de Howard Becker aprendendo a tocar jazz para tomar notas sobre o modo de executar essa música? O simples ato de registrar alguma coisa no papel já representa uma imensa transformação que requer tanta habilidade e artifício quanto pintar uma paisagem ou provocar uma complicada reação bioquímica.19*1 Sempre táz parte de um experimento artificial para reproduzir e sublinhar os traços gerados por testes em que os atores se tornam media­ dores ou os mediadores são transformados em fiéis intermediários.sobretudo quando 193 A noção útil de '‘descrição densa" chama a atenção para os delalhes. gravar entrevistas. alguma coisa falte por "não lhe termos acrescentado” a chamada “explicação”. complexo e penoso quanto dissecar lagartas ou man­ dar um telescópio ao espaço. desenhar mapas. Nenhum pesquisador deve achar humilhante a tarefa de descrever .

e. Ou as redes que tornam possível um estado de coisas são plenamente desdobradas . Im ­ pério.e. Individualismo. sempre relegada aos bastidores. Segundo a visão geral das sociedades de Tarde. Capitalismo. tudo se torna racional com demasiada rapidez e as explicações começam a fluir muito livremente. p. Normas. Essa nova desconfiança em relação a explicações “acres­ centadas” a descrições é importante porque. as sociedades humanas são lipicas por causa do pequeno número de agenles que m o­ bilizam. nesse caso. Campos etc. contrariamente à biologia ou ã física. de sorte que a descrição avance mais um passo. plenamente “explicados”. Aqui. 92).ou "acrescentamos uma ex­ plicação” declarando que outro ator ou fator deve ser levado em conta. então ela é ruim. em que alguns atores desempenham de fato o papel de intermediários plenamente determinados . justamente quando se invoca uma “estrutura” é que a sociologia do social insinua sua causa redundante. demasiado localizada. Bem à maneira do “sexo seguro”. de novo. 200 . em geral. Social Laws. ao contrário do provérbio escolástico. só existe ciência do particular. Tão logo um lugar é enquadrado numa “estrutura”. porém: quando se refere a um estarlo de coisas bastante estável. versáteis ruins dentais para se ver ou que não suportam ser mostrados. retornamos aos casos mais simples e pré-relativistas. aí. Um bom texto deve provocar 195 Monografias de ciência social são uma das contribuições de Tarde. para assumir as explicações sociais e substituir os objetos a serem explica­ dos por atores “forças sociais” irrelevantes. portan­ to. O perigo é tanto maior quanto esse é o momento o mais das vezes escolhido pela sociologia crítica. está a tentativa de imitar uma visão falsa das ciências naturais que prejudica as sociais: sempre se sente que a descrição é dema­ siado particular. Mas. Ver Tarde ( 1899/2000. Há uma exceção. cumpre recorrer a omis descri­ ções e não apelar para entidades vagas como Sociedade. Caso a descrição precise de explicação. que tratam de bilhões e bilhões de elementos. cultivar a descrição nos protege do contágio das explicações. demasiado idiossincrática. ■Ãifgfigando o social “explicações sociais” é que são tiradas do asilo. estudar o social é descobrir o particular. Mas. Portanto. acrescentar uma explicação seria supérfluo .195 Para se estabelecerem conexões entre lugares.

mas não é nada desprezível.inclusive o Diabo. Isso não parece grande coisa. expandido. Deus está no pormenor. o que não é automático nem se obtém simplesmente rabiscando “PhD” ao pé da assinatura. no relato conclusivo da pes­ quisa. Mas a escolha entre maestria completa e irrelevância absoluta é muito superficial. dependendo da quantidade de trabalho execu­ tado para que suscite interesse. ao contrário.com taxa de êxito igualmente baixa. Desprezam-se por viver empilhan­ do relatórios. parecida com uma “mera descrição”. em vez de intermediários. e John Law (2002). se destaque entre os outros. 201 . Se tivermos sucesso. mas “irreduçào”.156 É isso196 196 Os estados científicos seguirain muitas das estratégias criadoras de relevância nas ciências exatas e registraram inúmeros fracassos. acharão essa tarefa fá­ cil.todos querem ser o Newton da ciência social ou o Lênin da mudança da sociedade . histórias e estatísticas que ninguém lerá. como tudo o mais. para o chefe de um laboratório de química. A relevância. mapeadas. O relato é importante ou não. Desdobrar significa simplesmente que. ou seja. Infelizmen­ te.e o desespero. a cada novo caso em estudo . querer ser importante aos olhos do Institu­ to Nacional de Saúde. é uma conquista. O problema é que os cientistas sociais alternam quase sempre en­ tre a hybris . mais detalhes. La Sci­ ence et Ses Réseaux: Genèse et Circulation des Faits Scientifiques. ßruno UUtiur num bom leitor esta reação: “Por favor. um bom relato realizará o social no mesmo sentido em que alguns partícipes da ação . Como Tarde nunca se cansou de dizer: “Existir é diferir”. ela exige tanta inventividade quanto um experimento de laboratório. Só aqueles que nunca tentaram escre­ ver sobre mediadores. para o autor. como tudo o mais está . quero niais deta­ lhes”. e as controvérsias em torno de questões de interesse. O nome do jogo não é redução.pela controvertida mediação do autor - serão convocados para poderem ser reunidos. o texto escrito não faz mais sentido do que. o número de atores precisa ser aumentado. Para nós. Ver Michel Callón ( 1989). multiplicada. a quantidade de objetos empenhados em estabilizar grupos e agências. o leque de agências que levam os atores a agir.

l’ara a noção tie interesse. Assim. podem revelar: de que é feito o social? O que age quando estamos agindo? A que tipo de agrupamento pertencemos? Que queremos? Que espécie de mundo estamos dispostos a partilhar? Tais perguntas são feitas não apenas pelos estudiosos. nem que os “próprios atores” a conheçam. para determinado público. a questão do mundo comum ao qual pertence. Merece uma chance. a fim de realizá-lo. Para obter essas respostas. Ver. Conclusão.o social a seus participantes. todo artifício novo é bem-vindo.que. inclusive a modesta interpretação do cientista social. Power and Invention. por isso mesmo. o modo como poderemos viver num mesmo mundo. Oferece um lugar artificial (o relato textual) que talvez solucione. as conexões graças às quais estamos agrupados. estabilizadas.197 De um lado. as ciên­ cias sociais são absolutamente indispensáveis para o reagrupamento do so­ cial. . Justamente porque as cinco fontes de incerteza estão encaixadas uma na outra.ou melhor. dar-lhe forma. O fracasso não é mais certo que o êxito. Não é muito. Na verdade. acrescentadas juntas. Aircraft Slones: Decentering the Object in Tethnosáence. Não é que nós. Reunidos à volta do “laboratório” do texto. o relatório escrito por um colega humilde. de outro. tudo não passa de resmas de papel borradas de tinta ou quei­ madas por raios laser. 197 tissas tluas funções integram a definição de política. ver também Stengers. Sem elas ignoramos o que temos em comum. mas também por aqueles que eles estudam. dentistas sociais. saibamos a resposta oculta por trás dos atores. autores e leitores começam a tornar visíveis os dois mecanismos que explicam a pluralidade de associações a serem levadas em conta e a estabilização ou unificação do mundo onde gostariam de viver. Certas “explicações fortes” podem se revelar menos convincentes do que outras mais fracas. Huagngando a social exatamente o que as cinco incertezas. reapresenta . revistas. precisam ser coletivamente encenadas. é uma instituição modesta e preciosa que apresenta . que nem mesmo enverga o jaleco branco. Pode per­ mitir a encenação provisória das conexões que conseguiu desdobrar. mas pedir mais às vezes é conseguir menos. ninguém tem as respostas . pode fazer a diferença.

que a p a rticu la rid a d e d as c iê n c ia s so ciais ex ig e q u e tra b a lh e (c o m o eu fiz n o c a s o do d o m e d o e sfo rço nas m e d ita çõ e s p ascalin as) p a ra erig ir u m a v erd ad e cien tífica c a p a z de in te g ra r a v isã o d o o b s e rv a d o r e a v erd ad e d a visão p rá tica do agen te n u m a p e rs p e c tiv a d e sc o n h e c id a c o m o tal e p o sta à p ro v a n a ilusão d o ab so lu to .mas sua eficácia nunca é superada pelas explicações sociais. n em c o m a v isão ab ran g en te d o o b s e rv a d o r sem id iv in o que pode a lc a n ç a r. sem a colaboração dos arqueólogos e historiadores? Quem navega ria. Essa é talvez a versão mais honesta jamais dada do sonho da socio­ logia crítica. Angustiar-se por causa da eficácia potencial dos textos sociológicos é revelar falta de modéstia ou de ambição. n essa b ase. p ois. sem o contador? Sem dúvida. Pierre Bourdieu (2001) define a possibilidade. deve e m p e n h a r-se em c o n s tr u ir a p ers­ p e ctiv a sem p e rsp e ctiv a da c iê n cia . c o m o q u a lq u e r o u tro c ie n tis ta . escrita poucos meses antes do desaparecimento prematuro de Bourdieu. para o sociólogo. os textos parecem um meio muito pobre de deslocar-se entre os muitos quadros de referência contra­ ditórios . sem o concurso dos ge­ ógrafos? Quem teria um inconsciente. o êxito das ciências sociais em sua disseminação pelo mundo social parece mais impressionante que a expansão das ciências naturais e dos equipamentos tecnológicos. Para dizer o mínimo. mais 203 . delineado pelos textos modestos dos pesquisadores feministas? Quanto saberiamos do “Outro”. /irutio hattuir Na última pagina de seu livru sobre sociologia da ciência. c o m o agen te so cial está tam b ém in s­ talad o d e n tro do o b jeto que to m o u c o m o seu ob jeto e. Ele sab e. tem u m a p e rs p e c tiv a que n ã o co in cid e c o m a dos o u tro s. Conseguiriamos superestimar as mudanças no modo como cada um de nós agora “tem um gênero”. c a s o as e x i­ g ên cias d o c a m p o sejam satisfeitas. sem os psicólogos? Quem sabería que teve lucros. sem os re­ latos dos antropólogos? Quem mensuraria seu passado. de alcançar a cé­ lebre visão panorâmica de Deus após livrar-se de todas as perspectivas por meio de uma extrema aplicação da reílexão crítica: E m b o ra [o so ció lo g o ) d eva a c a u te la r-s e . se ele n ão se e sq u e ce r de que.

não devemos sonhar nem com o céu nem com o inferno. como as formigas. Nós. 204 . numa cela escura.grandiosas e pujantes. pois há muita coisa a ser feita neste mundo. propostas para humilhá-los. cego. que o sociólogo deva ficar preso. Não é por ser incapaz de tornar o lugar do Deus da ciencia social. capaz de tudo abarcar e tudo ver.

Incomodo? Professor: De forma alguma.. Devo dizer que acho meio difícil aplicar a Teoria do Ator-Rede ao meu estudo de caso sobre empresas. P: É não é para menos! Ela não se aplica a coisa alguma. DA DIFICULDADE DE SER UM ANT: INTERLÚDIO NA FORMA DIÁLOGO O professor em seu escritório na London School o f Economics. Parecia uma coisa importan­ te. A: Obrigado. Quero dizer. F.. Avgertm.and. A: Desculpe. Estou em serviço. p. 205 . 2004. Entre e sente-se. Oxford University Press. Então não serve para nada? P: Pode servir.. antes de subir para o B ea­ ver e tomar um drinque. numa tarde escura de terça-feira. editado por C. Um aluno entra. A: Mas nos ensinaram. C Ciborra e F. desde que não se “aplique” a isto ou àquilo.15® Aluno. Ouve-se uma batida suave. é verdade.. em janeiro. mas o senhor está propondo algum tipo de paradoxo Zen aqui? Devo dizer que sou apenas um aluno de doutorado em Estudos I9ti Uma versão deste diáglogo encontra-se em The Social Study of Information and Communication Technology.. mas insistente. P: Você parece. 62-76. l. um pouco confuso? A: Bem..

Na maioria dos casos..mas sobre como estudar as coisas.. Também não conheço muita coisa dos franceses. Queria dizer apenas que a ANT é antes de tudo um argumento negativo. não enten­ dí muito bem. estudos da inform ação. cujos limites são terrivelmente vagos. Qualquer teoria social disponível o faria. ou antes. sobre como não estudá-las. aliás. tente acompanhar a se­ quência dos elementos que pareceríam totalmente incomensuráveis caso você adotasse o procedimento norm al”. estudos de ciência. A ANT não pode lhe dizer positivamente o que seja a sequência. A: Mas meus agentes. Nem para estudos organizacionais. só li um pouco dos Thousand Plateaus que. A: Mas então o que ela pode fazer por mim? P: O melhor que ela pode fazer por você é dizer algo como: “Quando seus informantes misturarem informação. P: Pois esse é justamente o problema! Você não precisa da Teoria do Ator-Rede para afirmar isso. isso é bom. A ANT é necessária para tópicos novos.. não a divida em pedacinhos isolados.. seu repertório deve permanecer limitado. Iteagregtuula o social Organizacionais. uma teoria. 206 . marketing. isto é. A: O senhor quer dizer que outras teorias sociais não fazem isso? P: De certo modo. se não diz nada a respeito das coisas que estudamos? P: F. E por causa de sua própria força: são ó ti­ mas ao afirm ar coisas substantivas sobre a com posição do mundo so­ cial. Melhor ainda: sobre como conceder aos atores espaço para se expressarem.. Estão ligados a muitas outras coisas por toda parte. A: Mas então por que ela é chamada de teoria. formam uma série de redes. portanto não espere. as pessoas que estou estudando na em ­ presa. sim. tecnologia ou adm inis­ tração. os ingredientes são conhecidos.. psicologia e política numa frase. mas não estava querendo ser sutil. e muito sólida. a meu ver . Mas não funcionam quando tudo muda rapidamente. hardware. Não afirma nada de positivo sobre nenhum assunto. P: Lamento. Isso é tudo.

dinheiro. culturas. Recorrendo à Teoria do Ator-Rede. sem dúvida.metrô. uma peça de máquina. A ANT é um método. e daí? A: E daí que posso então estudá-los com base na Teoria do Ator-Rede! P: De novo.daí as palavras "net” [redel e “work” [trabalho]. actantes) fazer. visível e poderosa rede? P: Talvez. o fluxo e as mudan­ ças. A: Mas formam! Formam unia rede! Veja. salas de reuniões empresariais. não diz nada sobre a form a daquilo que é desenhado com ele. aliás quase sempre negativo. você pode descrever algo que de modo algum lembre uma rede . Tudo depende do que você pró­ prio permite a seus atores {ou melhor.não desenhada no estilo Ator-Rede. Na verdade. Ê a mesma coisa com esta palavra ambígua: rede. uma personagem de ficção. os executivos tia minha empresa não formam uma bela. deveriamos dizer "worlcnet” em vez de “network”. Você está simplesmente confundindo o objeto com o método. ao contrário. quer dizer. Estar conectado. O que temos de enfatizar é o trabalho. tudo! Não descrevo assim uma rede.. educação. A: De novo!? P: Você sem dúvida aceitará que rabiscar com um lápis não é o mes­ mo que rabiscar a form a de um lápis. esgotos. firm ui Latour É pura perda de tempo recorrer a um argumento tão bizarro apenas para mostrar que seus informantes “formam uma rede”. Mas. andei traçando suas co­ nexões: chips de computador. Mas você não deve confundir a rede desenhada pela descrição com a rede usada para descrever. o movimento. no sentido que o senhor lhe atribui? P: Não necessariamente.. es­ tar interconectado ou ser heterogêneo não basta.um estado tie espírito indivi­ dual. talvez sim e talvez não. Tudo depende do tipo de ação que flua de um para outro . telefones . pode descrever uma rede . sobretudo por culpa nossa . A: Que confusão! Entretanto. Concordo que isso parece tremendamente confuso. Mas “network ” pegou e as pessoas pensam que estamos falando da World Wide Web ou coisa semelhante! 207 . países. recompensas. padrões.inventamos uma palavra abominá­ vel.

os dois. P: Se quer armazenar mais dados. Esse é o significado de “ator”. entalhados.algo para dar sentido aos dados. Raagregüñiiu o social A: O senhor quer dizer então que. um tema geral. um argumento. quadros são bons para exibição: dourados. ou Y. mas X também. É só o que posso garantir. Trata-se de uma experiência muito comum. o senhor disse que não! P: Porque ela não é uma ferramenta. um conceito . P: Talvez seu supervisor venda pinturas! Sem dúvida. S: Mas quando eu disse que a ANT era uma ferramenta e perguntei se podia ser aplicada. ou melhor. barrocos. bem. P: Não. o nome é mesmo idiota) lhe permite produzir alguns efeitos que você não obteria por meio de alguma outra teoria social. P: Eu ficaria com Y. não? A: O senhor brinca com as palavras. pois X não nos diria nada de novo. que é a variante especial. Isso é sempre necessário. Por “quadro” entendo uma te­ oria. se X é uma simples “variante” de Y. o que vale mais a pena estudar: X. só para se saber se é realmente uma aplicação de. não é! Diga-me.. compre um disco rígido maior. este é que merece ser 208 .. A: Ele sempre diz: “Aluno. você precisa de um quadro de referência”. Mas você já viu algum pintor que inicie sua obra-prima escolhendo primeiro a moldura? Isso seria meio estranho. porque as ferramen­ tas nunca são “meras” ferramentas a serem aplicadas: sempre modificam os objetivos que se tem em mente. não estou realizando um estudo ANT? P: É exatamente o que digo: a ANT lembra mais o nome de um lápis ou pincel do que o nome de uma forma específica a ser desenhada ou pintada. brancos. e assar tortas num forno a gás ou num forno elétrico não é a mesma coisa. ao mostrar meus atores relaciona­ dos na forma de unia rede. Tenle dese­ nhar com um lápis de grafite ou com carvão e verá a diferença. A: Mas não é isso que meu supervisor deseja.. creio eu. de alumínio etc. que é a regra? A: Provavelmente Y. Se algo é apenas uma “instância de” outro estado de coisas.. O Ator- -Rede (sim. Ele quer um quadro onde colocar meus dados.

mas isso não é um pouco ingênuo? Não é exatamente o tipo de empirismo ou realismo contra o qual fomos advertidos? Eu pensava que seu raciocinio era mais sofistica­ do que isso. corno você diz. Certamente pre­ fere a sociologia interpretativa por causa dos pontos de vista. Um estudo de caso que precisa também de um quadro. sempre achei isso muito desgastante. 209 . A: “Contente-se com descrever”. Descrever. Se eu fosse você. P: Por achar que a descrição é fácil? Talvez a esteja confundindo com séries de clichês. Ensinaram-nos que há dois tipos de sociologia.que mais poderíam ser? Elas tratam de objetos. deixaria os tais quadros de lado. condensados. permite a datação da obra . da multiplici­ dade de posturas e por aí afora. acredito firmemente que as ciências sejam objetivas . Contente-se com descrever o estado de coisas que tem diante dos olhos.. observar um estado de coisas concreto. O senhor não quererá dizer que adota o tipo objetivista.. para começarl A: Mas sempre é preciso inserir as coisas num contexto. ou contexto. é justamente a soma de fatores que não faz diferença para os dados. A: O senhor? Mas disseram-nos que era uma espécie de relativista! feria afirmado que nem as ciências natura is são objetivas. Para cada cem livros de comentários e argumentos. atrai o olhar. Bruna Latour estudado. A moldura. não há dúvida. a interpretativa e a objetivisla.mas não acrescenta nada à pintura em si. não altera o que se sabe deles. A moldura faz a pintura parecer mais bonita. aumenta o valor. P: Não simpatizo nada com as tais sociologías interpretativas. foi mal escolhido. Ao contrário. não? P: Adivinhou! Sim. descobrir o único relato adequado a uma situação. Desculpe-me... complexos e intricados do que os “objetivistas”. A: Confesso que rne sinto perdido. Nada. múltiplos. existe um de descrição. gostariam que fossem. não? Eu só disse que os obje­ tos talvez sejam mais complicados. não? P: Nunca entendí bem o que significa contexto.

a coisa. sua linguagem. os astrônomos dispõem de uma perspectiva muito limitada. satélites. sempre alguém dirá: “Mas.. A: Mas o senhor não negará que tem também seu posto de observa­ ção. tornando-o inútil . o hu­ mano. o observatório situado rio abaixo..“interpretação” vira sinônimo de “objetividade” . existem também coisas ‘naturais’. os astrônomos procuraram alterar essa perspectiva recorren­ do a instrumentos. Ou você estende o argumento a tudo. não.. introduzem certa “flexibilida­ de interpretativa” num mundo de objetos inflexíveis. por que eu “negaria” isso? Mas. mas também subjetivas! Daí precisarmos dos dois tipos de teo­ rias sociais. A: Era justamente isso o que eu ia dizer! Não existem só realidades objetivas.. Diria. ‘objetivas’. ou melhor. não. de “puras relações causais” ou de “conexões estritamente materiais”. e daí? O melhor de um posto de observação é que você pode permanecer nele e modificá-lo! Por que eu me “apegaria” a ele? De onde estão. No entanto. Isso não é de modo al­ gum o que estou dizendo. intenções humanas etc. P: Oh.. suas preocupa­ ções. Podem agora desenhar o mapa 210 . a “reunião". Não faz diferença considerar esse outro lado mais rico ou mais pobre. de modo algum! Pias diríam que desejos humanos . este teclado. mas também”. tanto quanto você. uma perspectiva. aí sentado com seu corpo. Reagregancto o social A: Mas é exatamente isso que as sociologías “interpretativas” sus­ tentam. Quando você fala em hermenêutica.ou o limita a um aspecto da realidade. telescópios.. uma vez que a objetividade está sempre do outro lado do muro. aqui na Terra. de qualquer modo. esta tela. Já esteve lá? É um bonito lugar. que a ANT também está situada em algum lugar. que não são interpretadas”’. e então você está perdido. antes. não? P: Oh. É o próprio objeto que acrescenta multiplicidade. são objetos feitos de várias camadas. é claro. por mais precauções que tome. Tomemos por exemplo Gre­ enwich. P: Está vendo? A armadilha de sempre: “Não só.. que o senhor tam ­ bém acrescenta uma camada de interpretação. está fora de alcance. que este computador aqui na minha mesa.. sig­ nificados humanos.

. bem organizada e bela .girar em torno dela. com certeza nada é objetivamente belo. relativos. P: Porque as coisas que as pessoas chamam de “objetivas” são. A melhor prova disso é que. isso será acaso prova de seus "limites subjetivos”? Não. um mercado. gosto e cor. um teorema.objetivamente bela. Como a distinguiríamos das emoções humanas? Portanto. O que o senhor diz não pode estar certo. o vale. segurar. permite . os picos. Uma coisa suporta diversos pontos de vista quando é bastante complexa. A: Todavia. Deixe de lado a hermenêutica e volte ao objeto . Bruno In tour da distribuição das galáxias por todo o universo. Não temos boas descri­ ções de coisa alguma: do que seja um computador. especialmente. “Bella vista” e finalmente chega ao lugar emocionante. o mais das vezes. as estradas é que lhe permitem agarrar. uma organiza­ ção. um software. dois metros abaixo. Não sabemos quase nada sobre o que vem a ser esse negócio que você estuda. “subjetivo”? Quando você vai ao exterior e avista os sinais “Belvedere 1. E também a diferença entre postura “interpretativa” e postura “objetivista”. à coisa. A: Mas sempre estarei limitado por meu posto de observação fixo.5 km ”. Ouça bem: toda essa oposição entre “ponto de vista” e “visão a partir de lugar nenhum” pode ser ignorada sem nenhum problema. um siste­ ma formal. não vê nada por causa do estacionamento. por minha perspectiva. No entanto.sim. você não vê nada por causa das árvores e.ou melhor. Caramba. Ótimo. clichês de elementos concretos. uma empresa. a coisa em si. não? Dê-me um posto de observação e eu lhe mostrarei dezenas de maneiras de deslocá- -lo. dois metros aci ma. P: Sem dúvida! Mas quem lhe disse que "ter um posto de observação” significa “estar limitado” ou. Uma delas consiste em afastar-se do 211 . apreender. estou perdido de novo! Mas então por que perder tanto tempo nesta escola combatendo o objetivismo. A beleza tem de ser subjetiva. continua com sua “subjetividade” limitada e leva consigo exatamente o mesmo “posto de observação”! Você tem vários pontos de vista de uma estátua porque a própria estátua é tridimensional e lhe permite . “Panorama”. por minha subjetividade.. intricada. há duas maneiras de criticar a objetividade.

Boas pesquisas sempre produzem um monte de descrições novas. Sem esses deslocamentos. A: Mas qual é a nossa maneira de alterar pontos de vista? P: Já lhe disse. de um quadro de referência a outro. Mas é sobre a outra direção que estou falando: a volta ao objeto. Por isso me sinto perdido e achei que era boa ideia procurar o senhor. investigações. que mais eu podia ser? Se quero agir como cientista e alcançar a objetividade. sem dúvida. de fato: a isso se chama pesquisa. aprendemos. Todas as ciências inventaram meios de deslocar-se de um ponto de vista a outro. trabalhos de campo. tornamo-nos competentes. A nossa também. A: Então associa objetividade a relativismo? P: A “relatividade”. graças a Deus: a isso se chama relatividade. A: Ainda assim. mudamos de opinião. A: Mas eu já tenho um monte de descrições! Estou me afogando nelas. de um posto de observação a outro. tenho de saber passar de um quadro de referência a outro. Sim. recenseamentos. sou limitado por minha visão. eis o meu problema. seja lá o que for . estamos no negócio de descrições. O segredo é retornar ao empirismo. e daí? Não vá nessa conversa de ficar “limitado” à própria perspectiva. Mas. não? Como vimos em classe ontem. Riutgregamio a social objeto em direção ao ponlo de vista humano subjetivo. Muito simples. pra­ ticamos.nós vamos. de novo. Os positivistas não possuem a objetividade. P: Claro que é. a fábrica de sabão descrita por Richard Powers em Grain parece mais viva do que tudo quanto se lé nos estudos de caso de Harvard. fi­ caria limitado a meu próprio ponto de vista para sempre. Os outros traba­ lham com clichês. Um computador descrito por Alan Turing é bem mais rico e bem mais interessante que os descritos na revista Wired. A: Aí está! Então o senhor se confessa um relativista! P: Mas claro. ouvimos. Todas as ciências fazem o mes­ mo. Pesquisas. arquivos. A ANT poderá me ajudar com essa montanha de dados? Preciso de um quadro de referência! 212 .

o rumo a seguir será. por “explicação social”? O acréscimo de outro ator que transmitirá aos já descritos a energia necessária para agir. de explicar os dados que acumulam? E o senhor ainda se considera um cientista social e um obje- tivista! P: Só o que sustento é que. na prática. Apenas as descrições ruins precisam ser ex­ plicadas. são muito compridas. fantoches. A: Isso é muito angustiante. e sim meros inter­ mediários. no entanto. se sua descrição precisa de uma explica­ ção. Mas já ü centenas de descrições ruins que nada lucraram com o acréscimo de um monte de “explicações”. Eu uão disse isso. jogue-o fora. a ANT não serve para isso. porém. Fala-se em “cultu­ ra empresarial da IBM ”. então a rede não está completa. quase sem­ pre.meus colegas me advertiram para não cutucar a ANT com vara curta. não é uma boa descrição. seus contextos. Eu deveria saber . Bruno Latour P: “Meu reino por um quadro de referência!” Muito comovente. Nesse caso. para elas. A: Discordaria da necessidade. sua metafísica. ou o ator não faz nenhuma diferen­ ça e você estará apenas juntando um elemento irrelevante que não melhora nem a descrição nem a explicação. “isolacionismo britânico”. Mas se você tiver de acrescentar algum. O que se entende. E a ANT não ajudou. suas teorias. até suas ontologias.e. 213 . É tudo muito simples. E agora o senhor vem me dizer que eu não devería sequer tentar explicar coisa alguma! P. acho que entendo seu desespero. inclusive seus quadros de referência. Eu preferiría explicar. assim você terá acrescentado um novo agente à descrição de uma rede mais longa do que pensava -. E se os atores já reunidos não pos­ suírem energia suficiente para agir. Nunca vi uma boa descrição que precisasse de explicação. “pressão do mercado”. Assim. mais descrições. os usam. Mas não. A. P: Está vendo? Por isso discordo de boa parte do ensino em ciências sociais. na verdade. Disse apenas que ou sua explicação é relevante . Não fazem nada e não deveríam constar da descrição. Seu principal postulado é que os próprios atores fazem tudo. bobos. temo eu. A: As descrições. não são “atores”. Todos os meus colegas.

porém. porém. Redigir textos tem tudo a ver com método. P: Por isso. além de “acrescentar uma ex­ plicação” ou “inserir num quadro”. Na pior. 214 . Não pense. nunca me lembro qual é. O senhor fala sempre em “mais descrições”. sendo portanto supérfluas. o contexto. minha tese estará termi­ nada quando estiver completa. que elas explicam alguma coisa. mais uma vez. Grande ajuda. afundam os novos atores interessantes num dilúvio de atores velhos. urna vez que não podem introduzir uma diferença entre eles. A: Esse é justamente o meu problema: interromper. A: Oh. discordo da maneira como são prepa­ rados os doutorandos. em tais e tais documentos. não tem nada a ver com método. mas isso é maravilhoso! Portanto. aplicam-se igualmente a todos os seus atores. Desdobre o conteúdo com todas as suas conexões e terá. em acréscimo. Por que eu me privaria dessas explicações contextuáis? P: Pode mantê-las de reserva ou usá-las para preencher as lacu­ nas de seu quadro que não fazem nenhuma diferença para você. Como não me canso de dizer: “Tese boa é tese feita”. Prática. em longas horas de observação. Só faltam oito meses. Não há outra coisa a fazer. Preciso termi­ nar meu doutorado. A: E qual é? P: Pare depois de escrever suas cinquenta mil palavras ou qualquer que seja a exigência aqui. Na melhor das hipóteses. Ruagregando o social “interesse próprio”. mas isso me lembra as curas do Freud: análise sem fim. É simplesmente uma maneira de interromper a descrição quando se está muito cansado ou enfadado para prosseguir. Mas há outra maneira de parar. Que alívio! P: Muito bom você ter gostado. Como disse Rem Koolhaas. é um limite textual . Você redige um com tantas palavras em tantos meses com base em várias entre­ vistas. Falando sério agora. não acha que qualquer método depende do tipo e do tamanho do texto prometido? A: Isso. Quan­ do parará? Meus atores estão por aí! Aonde devo ir? O que vem a ser uma descrição completa? P: Ótima pergunta. “o contexto lede”. muito obrigado. É tudo.

como nos ensina o senhor. Quem falou em “his­ torinhas bonitas”? Eu. Mas o texto é uma ferramenta. uma “explicação”.“apenas descreve” . no outro. Eles não combinam com o enge­ nheiro que você é. é total­ mente relativista . outra. talvez por alguns de seus infor­ mantes e três ou quatro de seus colegas de doutorado. em relação a esses vários fatores. é acrescentar um texto a um certo estado de coisas - texto que será lido por seus orientadores. P: Não existem ferramentas ou meios. também não acredito nessas coisas. semiótica. Você me pergunta como parar. rabiscar a última palavra no último capítulo da sua bendita tese. como lhe disse. faço mais que isso. Estudo. P: No enLanto. explico.. não sei muita coisa des­ ses assuntos franceses. mas ignoro Der­ rida. como doutorando. para ser franco. uma forma de me expressar. caso haja algum. não? A: É claro. porém.. essas coisas. Bruno Latour A: Não. Acho que esse é o seu problema. Não creio que o mundo seja feito de palavras e tudo isso. A: Fui educado em ciências! Sou engenheiro de sistemas e não me matriculei em estudos organizacionais para abandonar o curso no meio.. Este é um postulado da ANT. um meio.e. Aí não há fantasia: só realismo. talvez mesmo ingenuamente realista . critico. mitologias e psicologia ao que já sei. E. aprendo. pessoas.“conte algumas histórias e pronto”. Num momento é totalmente objetivista. instituições. Só disse que você estava escrevendo uma tese de 215 . Posso escrever em C e até em C++. alcança esses objetivos grandiosos por meio de um texto. Isso não é muito terrivelmente francês? P: Mas por que está tão irritado? Não seja tolo. Uma maneira de parar seria “acrescentar um quadro de referên­ cia”. P: Não me venha com sarcasmos. e eu lhe digo: o melhor que tem a fazer. mas. não.. que praticar ciência é contar historinhas bonitas. O texto é compacto. Quero acrescentar diagramas de fluxo. Estou preparado até para ser “sim étrico”. Não me venha di­ zer. A: Lamento. apenas mediadores. professor.

comparar.o único resultado duradouro de sua permanência entre nós . experimentos e simulações. explicar. em nossa dis­ ciplina. Não pretendo abandonar o ethos da ciência. trans­ portando sem deformá-la alguma informação sobre seu estudo. P: Sucede que esse texto. Mas o que quero saber é em qual sentido ele me ajuda a ser mais científico. Eis o motivo pelo qual hoje em dia já não ensino. observei que essa tese de doutora­ do com tantas palavras . Alguns textos estão mortos e bem mortos. P: Por isso lhe digo: você estão sendo muito mal orientados nos es­ tudos! Não ensinar aos doutorandos em ciência social como escrever seus PhDs é como não ensinar aos químicos como realizar experimentos de la­ boratório.e o que mais? Precisarei ainda inseri-la num quadro. Depen­ dendo do que aconteça ali. 216 . Isso depende inteiramente do modo como é escrito - e cada novo tópico exige um tipo diverso de manuseio pelo texto. Não se con­ tentará com “meras descrições”. Continuo repetindo o mesmo mantra: “Descrevam. dependendo da maneira como for escrito. descrevam. encontrar uma tipologia.é compacta.” Concorda com esse lema da ANT. não em "escrever" sobre ela. apenas escrevo. É lugar para testes. uma história bonita. Assim. A: Ninguém mencionou “texto" em nosso programa. ele se aplica também à sua tese de doutorado. Por isso começo a entrar em pânico. A: E que quis dizer com isso? P: Quis dizer que ela não é apenas uma vidraça transparente. não é uma história. captará ou não o ator-rede que você deseja estudar. A: Há um problema: não é isso o que meu orientador deseja! Ele deseja que meu estudo de caso leve a uma “generalização útil”. F o equivalente funcional de um laboratório. Reagregawio o social doutorado. é claro! A: Talvez. Falamos em “estudar” a organização. não? Ora. Nada acontece neles. O texto. generalizar. Poderá negá-lo? Em seguida. terei uma bela descrição de um estado de coisas . apenas trans-formação. “Não há in-formação. escrevam. tázendo o que o senhor aconselha. haverá ou não um ator e haverá ou não uma rede sendo traçada. escrevam”.

eles também produzem tipologias. negadas. Kles também comparam. nenhuma descrição . 217 . eles também elaboram padrões. Então. Caso contrário. eles também espalham suas máquinas tanto quanto suas organizações. nenhuma informação. comparar e organizar é o que você deve descrever. Entretanto. se meu pessoal não agir. nenhuma conversa. P: Você é demais! Se seus atores não agirem. A. A: Então.. seus estados de espírito. padronizar. deixam pistas. ativamente. sem apresentar a prova de sua existência. pelo menos é mais razoável que a maioria de nossos cole­ gas. Não tente passar da descrição à explicação: apenas vá em frente com a descrição. devo ficar em silêncio? P: Incrível! Você levantaria essa questão em alguma das ciências na­ turais? Isso parecería absolutamente tolo.e. O que você pensa da empresa não interessa nada. não deixarão pistas e você não obterá informação alguma. não havendo pistas. Se elas agem. Brunit Latour P: Deveria entrar em pânico apenas se seus atores não estivessem fa­ zendo a mesma coisa constantemente. Não tente preencher lacunas. claro que não. Essa prova pode ser indireta. por­ tanto. você terá informações e pode­ rá conversar sobre o assunto. relacionar. vaga. Por que você bancará o inteligente enquanto eles agem como um bando de idiotas? Aquilo que fazem para expandir.então. mas quero. deixe-o em branco! Terra incognita . que farei? Nada! Não conseguirei acrescen­ tar nenhuma outra explicação. orga­ nizar e generalizar ativamente. comparar. reflexivamente. suas ideologias. P: Ótimo. Não se trata de outra camada a acrescentar à “mera descrição”. Nenhuma pista. Sobrou para o cientista sociai alegar que continuará explicando. A: Mas. mesmo à falta de qualquer informação! Está realmente preparado para manusear dados? A: Não. E não terá nada a dizer. bico calado! A: E se essas entidades forem reprimidas. por Deus. compa­ rado ao modo como esse pedaço dela conseguiu se expandir. silenciadas? P: Nada no mundo lire dá o direito de dizer que elas existem. É como o mapa de um país no século 16: ninguém foi até lá. e quanto a entidades invisíveis agindo de maneira oculta? P.. ninguém de lá voltou . obsessi- vamente.

O que leva você a pensar que um estudo sempre deve ensinar coisas às pessoas estudadas? A: Mas se esse é o objetivo das ciências sociais! É para isso que estou aqui. Se você estu­ dasse as formigas e não a ANT.. Coisas invisíveis são invisíveis. para desmis­ tificar os inúmeros mitos da tecnologia da informação.. Haverá algo de proveitoso em dizer que certas coi­ sas estão agindo. Você explica a você mesmo o que elas fazem. muita ciência social critica acabe nisso. mas não sabiam por quê. se eu não acrescentar nada.embora. eu ainda estaria no Vale do Silício ganhando muito mais dinheiro . que agem sem deixar pistas e não modificam em nada um estado de coisas? A: Mas preciso induzir os atores a aprender o que não sabem.não em benefício delas. então são visíveis. cientistas sociais! Sempre me confundem. Se fazem outras coisas mover-se e você consegue registrar esses m o­ vimentos.bem. pois a bolita explodiu. Caso contrário. na escola: para criticar a ideologia da administração. apenas repetirei o que os ato­ res dizem. do contrário. Ueagrégantlo n social complicada . para que os estudaria? P: Vocês. Mas. que obviamente não refletiam antes de você aparecer com seu estudo! A: De certa maneira.. Que há de errado nisso? 218 . A: Porém.. que não ligam a mínima para isso. atu­ almente. esperaria que aprendessem alguma coisa de seu estudo? Claro que não.. em seu próprio benefí­ cio ou de outros entomologistas . mas sua existência não pode ser provada? Receio que você esteja confundindo teoria social com teoria da conspiração . talvez não tanto. P: Qual a vantagem de acrescentar entidades invisíveis. não. creia-me.mas você precisa dela. Elas faziam coisas. você é que aprende com elas.. sim. A: Prova? Mas o que é prova? Essa atitude não soa um tanto positivista? P: Creio que sim. de qualquer modo. Ponto final. tenho de proporcionar um pouco de reflexão às pessoas. Elas são os mestres. P: . para censurar os exageros técnicos e a ideologia de mercado. Quer dizer.

apegado ao ob­ jeto -. pois todo mundo já a conhece. Isso é totalmente apolítico. P: Diga-me. criticar e agir como militante.. A: Se eu não tiver nada para acrescentar ao que os atores dizem. o contexto. senhor Desmistificador. como assumirá uma “postura crítica” frente a seus atores? Gostaria muito de ouvir isso. ora quer des- mistificar. não poderei ser crítico. Bom começo. P: Ótimo. são raros. Mas a explicação. a tipologia. Mas não está pretendendo que em seis meses de trabalho de campo conseguirá sozinho. por escrever algumas centenas de páginas. sem dúvida. mas já vejo que a ANT não pode me dar o que quero. Bruno Litfour P: O erro é que semelhante procedimento me soa terrivelmente enfadonho. caso não saiba. Estão ocupados demais para pensar. A: Só o conseguiría se tivesse um quadro de referência. Muito do que os cientistas sociais chamam de “reflexão” é apenas um modo de fazer perguntas totalmente irrelevantes a pessoas que fazem outras perguntas para as quais o analista não tem a mínima resposta! Reflexão não é um dom de nascença que você carrega consigo só porque está na London School o f Economics! Você e seus informantes têm preocupações diversas . produzir mais conhecimento do que aqueles 340 engenheiros e técnicos que vem estudando? 219 . Atrás disso é que vim aqui. Aliás. ora se diz autor de um texto. Seria o valor agregado de meu trabalho. Aj Eu ia dizer: ora o senhor é um realista ingênuo . E milagres. ainda não lhe disse que na em ­ presa eles vão me facilitar o acesso a seus arquivos. que não acrescenta nada. e isso eu posso lhes oferecer..se elas se cruzam. pelo menos mostram interesse no que você faz. não a descrição. apenas segue a pista de seus proverbiais “atores”. sem nenhu­ ma postura crítica à vista. é um milagre. Devo presumir que esse tal quadro não está ao alcan­ ce de seus informantes e é revelado por seu estudo? A: Sim. isso eles não têm tempo de ver. P: Ainda bem. P: Veja só: ora você quer explicar e bancar o cientista.

posso gerar o efeito como consequência. Se bem conheço a lei de Galileu..desde que esqueça as perturbações. Sua modéstia é admirável. P: Sim. conhecida a causa. É um ideal ao quadrado: o ideal de uma explicação ideal. A: Está me gozando? Encontrar esse tipo de quadro de referência me parece fácil.. A lei mantém. Sim. independente­ mente de seus movimentos.menos as perturbações? A: Sim. creio que sim. E tenho certeza de que você não conseguirá estabelecer a lei de seu comportamento para poder deduzir tudo como a realização. A: Menos as perturbações. o mes­ mo modo de explicar as coisas: indo do problema à causa. E. para falar como os filósofos. A: E essa não é uma explicação ideal? P: Aí é que está o problema. P: Naturalmente! Portanto. Não devo me esforçar justamente por isso? Não é por isso que me meti no negócio? P: Não sei bem em que negócio você se meteu. eis a questão. tudo o que se possa saber sobre a condição do pêndulo. um pêndulo não acrescentará nenhuma infor­ mação nova à lei da queda livre dos corpos. Mas por que pergunta? Que há de errado com isso? P: Nada. nem é preciso dizer. Haverá aí algo de errado? É como perguntar o que acontecerá ao pêndulo ao qual se imprimiu movi­ mento para tirá-lo do estado de equilíbrio. Seria ótimo. a “realização do potencial” que já existia. A: O mesmo conhecimento produzido por todas as ciências. O caso concreto é simples­ mente. mas é exequível? Significa que.. in concretos do que já existia lá em potência.. 220 . Duvido um pouco que a subsidiária de sua empresa aja assim. acho que conseguirei. in potent ia . sim. você quer que um quadro de referência explicativo seja para seu estudo de caso o que a lei de Galileu é para o m o­ vimento do pêndulo . mas quão diferente do deles é o conhecimento que você produz. naturalmente. embora com menos precisão científica. não preciso sequer observar um pêndulo de verdade para saber o que acon­ tecerá . Reagreginuln o social A: Não “mais” conhecimento e sim conhecimento “diferente".

Aí está o lado bom do estrutu- ralismo. ainda que fosse. na mes­ ma posição. objetos. A: Mas é para isso que existe a ciência! Só para isso: descobrir a es­ trutura oculta capaz de explicar o comportamento de atores que se julgava fazerem alguma coisa.afora alguns desvios insignifi­ cantes . Bruno Latour P: Mas. não são atores: apenas transmitem a força que passa por eles. seria desejável? Veja: o que está me di­ zendo realmente é que os atores de sua descrição não fazem nenhuma diferença. Mas ainda assim seria necessário um terceiro ator. P: De sorte que um substituto. é plenamente substi­ tuível por oulro? A: Sim. Substitutos não são aquilo que vocês chamam de atores? E quer aplicar a Teoria do Ator-Rede ao mesmo tempo! Isso é levar longe demais o ecletismo. P: Você percebeu que existe a palavra “ator” na expressão “ator-re- de”? Pode me dizer que tipo de ação um substituto pratica na explicação estruturalista? A: É fácil: ele preenche unia função. 221 . portanto. Seu trabalho de campo deu em nada. P: Mas então você é um estruturalista! Finalmente tirou a máscara.exceto se o tornarmos compatível com outro. não redu- tível a nenhum outro . por definição. Então. P: Mas aí temos algo absolutamente implausível e de todo incompa­ tível com a ANT. Constitui um evento único. Eles realizaram um potencial . é o que estou dizendo. A: Por que não posso fazer as duas coisas? Certamente. Um ator. se as palavras têm mesmo algum sentido. pois nada fazem por conta própria. então tem de ser estruturalista. um ator que não faz diferença não é um ator. se é que o entendí corretamente.e. se a ANT possuí algum conteúdo científico. perdeu seu tempo descrevendo pessoas. é justamente aquilo que não se pode substituir. meu caro Aluno. um terceiro evento. lugares que são meros intermediários passivos. me­ diante algum processo de padronização. Em meu vocabulário. teria de fazer o mesmo. Qualquer outro agente. Deveria ter ido diretamente à causa. mas eram meros substitutos de outrem.

Mas eu falava de causalidades reais. antropo­ logia. Você não parece atinar com o abis­ mo que existe entre ele e a ANT. estudos de informática. postura crítica . se fazem alguma coisa. não importa o campo. caso existam. Você está pleiteando uma ciência sem objeto. P: Não! estudos organizacionais. qualquer ciência. Você deseja que seu maço de centenas de folhas faça diferença. tudo apenas se combina. ReagregamU) à social A: Está me dizendo então que a ANT não é ciência! P: Ciência estruturalista não. F.. é isso que quer! Mas eu estou falando de explicação. não podem recorrer por definição a nenhuma explicação estruturalista porque informação é transformação. Uma estrutura é apenas uma rede sobre a qual só possuímos informação escassa. Pode ser útil quando o tempo é cur­ to. jogue-os fora e recomece a descrição. é justamente disso que o estrutura- lismo se ocupa! P: De jeito nenhum.. mas não me diga que é mais científica. conhecimento. sociologia. A: Você e suas histórias! Histórias aqui e ali. A: Dá no mesmo. A: "Sistemas de transformação”. sem dúvida. es­ tudos empresariais. geografia. não ficar no lugar de outros. a isso que chama “postura crítica”? A: Sim. do que não tenho muita certeza.não de escre­ ver roteiros para a novela das 8! P: Eu ia chegar aí. P: Mas elas também não funcionarão porque. estudos de ciência e tecnologia. Se isso não acontecer. Mas concordará que a coisa não funcionará se lhes atribuir um apelo irrelevante a causas que não fazem diferença alguma em suas ações. aos quais você dá os nomes de função. só conseguirão transformar seus informantes em substitutos de outros atores. estru- 222 . pois no estruturalismo nada realmente se transforma. eles precisam fazer coisas. por serem excessiva mente gerais? A: Sem dúvida. Se quero ter atores no meu relato. creio que sim. fazem também alguma diferença. meu caro. não? Então tem de provar que sua descrição sobre as ações das pessoas faz diferença no modo como as praticam. P.

Pelo que sei. você está transformando os atores em nada: no máximo. tratando-os à maneira es- truturalista! Magnífico! Eles já eram atores antes que você aparecesse com sua “explicação”. P: Agora me diga o que há de politicamente tão grandioso em trans­ formar os objetos de seu estudo em substitutos inermes e “sem ação” de funções ocultas que você. e só você. Aluno! Bourdieu não faria melhor.. 223 . A: O senhor talvez não goste muito de Bourdieu. A: Hum!. a ANT não é nada disso. poderão acrescentar algumas perturbações ínfimas como o pên­ dulo concreto. P: Bravo. melhor ainda.. em parte graças a mim. bravíssimo ! Então um ator. portanto. mais um substituto para a função. Não venha me dizer que seu estudo é que os fez assim.se tanto. Bruna Latour tura. eles seriam apenas bonecos. se mostram atores mais dinâmicos. P: Obrigado. os seus trinta anos de estudo não fazem nenhuma diferença para mim. para você. se fi­ cam mais lúcidos. Bom trabalho. simplesmente horrível. pode ver e detectar? A: Como você consegue virar as coisas de cabeça para baixo! Não estou bem certo. Ficam mais pers­ picazes. mais racionais. é um agente plena­ mente determinado. acumula insul­ tos sobre insultos e atribui generosamente a esses coitados a racionalidade que possuíam antes e que você lhes surrupiou. De qualquer modo. mais completos. sua consciência também não se apura? Podem então responsabilizar-se por seu próprio destino. Venho estudando os elos entre ciência e política há cer­ ca de trinta anos. Nesse caso. gramática etc. eu diría que agora. por isso a conversa sobre qual ciência é “politicamente” relevante nao me intimida. Se os atores percebem aquilo que lhes é imposto. não? Desse modo. que só agrega oscilações minúsculas. mas pelo menos ele era um verdadeiro cientista e. A: Aprendí a não ter medo de argumentos de autoridade e. fantoches . mais umas quan­ tas perturbações e mais um pouco de consciência fornecida por cientistas sociais esclarecidos? Horrível. politicamente relevante. E ainda quer aplicar a ANT a essa gente! Após reduzi-los de atores a substitutos.

o linguajar de Deleuze) e exigem textos bastante especí­ ficos. iteagregandü a social P: Touché. penso eu. não são atores. Ser relevante exige outro conjunto de cir­ cunstâncias extraordinárias. A: Justamente aquilo de que preciso. ou descreve atores que concretizam virtualidades (esse é. então não deve ser científico. É simplesmente irrelevante. a perspectiva de mais traba­ lho ainda! P: Nisto se resume tudo: se um argumento é automático. coletivo. Mas sua pergunta era: “Que posso fazer com a ANT?” Eu respondí: nada de explicação estruturalista. você chamaria de “postura crítica” e “relevância política”. Ou você tem atores que realizam potencialidades e. Um estudo verdadeiramente científico é aquele que falhou. algo tão miraculoso quanto Galileu com seu pêndulo ou Pasteur com seus vírus da raiva. que devo fazer? Pedir um milagre? Sacrificar uma galinha? P: Mas por que deseja que seu pequeno texto seja autom atica­ mente mais relevante para aqueles que forem por ele afetados (ou não) do que. talvez. Duzentas páginas de entrevistas. portanto. um evento raro. ótimo ter me lembrado de que minha tese pode fracassar! 224 . Mas de uma coisa estou certo: isso não é automático e quase sempre dá errado. f. A: Mas então em que diferimos? O senhor também deseja assumir uma postura crítica. abrangente. Sua conexão com as pessoas que estuda exige protocolos muito espe­ ciais para funcionar . um amplo laboratório de ciências naturais? Observe como foi difícil para os chips da Intel™ tornarem -se relevantes para os telefones celulares! E você ainda quer que todos exibam o rótulo “C on­ tém London School of Economis™” sem nenhum custo? Relevância exi­ ge trabalho extra. Pressupõe um protocolo incrivelmente imaginativo. As duas coisas são total­ mente incompatíveis. digamos. A: O senhor me tranquiliza muito. por sinal. observações etc.a isso. não farão diferença alguma. P: Sim. A: Então.

de um quadro de referência subjacente . se fosse você. P: Você estava tão preocupado cm acrescentar quadros de referên­ cia. A: Aquilo não foi bem um cumprimento. rompe com todas as regras do aprendizado em ciência social. de que você gosta tanto. Ethnomethadplogy’s Program. Mas adio que. é exatamente o que penso. p.19 199 Ver Garfinkel.”195 Diga-me. deve me ensinar a escrever um. que tendo em vista sua sulilís- sima filosofia da ciência. pode apontar um único tópico ao qual a sociologia crítica de Bourdieu. no fim das contas. A: Não gosta de Luhmann? P: Eu.pois me parece muito promissora com sua “aulopoiese" e tudo o mais. “Ser capaz de ig­ norar o fenômeno é essencial para a prática cientifica. A: Mas o seu tipo de “ciência”. P: Mas eu o encarei assim. 264. obrigado. A: Está bem.. polidamente. pelo que vejo. A: Mas quai é a diferença entre um bom e um mau texto ANT? P: Ótima pergunta. 225 . Resposta: a mesma existente entre um bom e uni mau laboratório. 0 senhor foi muito gentil em conversar co­ migo. Ou talvez acabe usando um pouco das duas.. Bruno Latour P: Você está confundindo ciência com sapiência. A aplicação de alguma coisa é tão rara quanto um bom texto de ciência social. Nem mais. contextos e estruturas às suas “meras descrições” que nem sei como me ouviu. em vez da ANT vou usar a teoria sistêmica de Luhmann.. não se aplica? A: O que não posso é apontar um único tópico ao qual a ANT se aplica! P: Beleza! Você está certo. deixaria de lado todos esses “quadros de refe­ rência subjacentes”. nem menos.. A: Devo então observar. P: Hum mm.

. por que veio falar comigo? Por que pensou em usar a ANT? A: Na última meia hora. um positivista.. Reagregando o social P: Prefiro rompê-las e seguir meus atores. 226 . Já publicou muita coisa. Como vocé bem disse. P: Então. A: Sabe o que deveria fazer? Como ninguém por aqui parece saber o que seja a ANT. a não nos forçar a engoli-la* se é que me entende. sem querer ser rude. sou apenas um aluno de doutorado e o senhor é um mestre. no fundo sou apenas um realista ingenuo. Isso capacitaria nossos professores a entendê-la e. Pode se permitir o que eu não posso. estive me perguntando a mesma coisa. deveria redigir uma introdução a ela. Te­ nho de dar ouvidos ao meu orientador e não devo seguir ao pé da letra os conselhos que o senhor me deu.. P: A ANT é tão ruim assim? A: Veja bem.. devo confessar.

Parte II COMO TORNAR AS ASSOCIAÇÕES NOVAMENTE RASTREÁVEIS .

200 Se você segura a mão 200 Ver o lido experimento com o movimento rápido do olho e sua aplicação em retra­ tos em R. uma razão foi apresentada como explicação. Tomado como um sólido. Por que esses vínculos continuam sendo tão evasivos? Ñas páginas precedentes. Estamos todos confinados às interações sociais. Miall e John Tchatenko (2001). C. ele perde sua capacidade de associar-se. Os fisiologistas mostraram que. todos vivemos numa sociedade. e também um movimento en­ tre elementos não sociais. A Painter’s Eye Movements: A Study of Eye and Hand Movement during Portrait Drawing. o olfato e o tato. são necessários movimentos e ajustamentos contínuos: nenhum mo­ vimento. um tipo de materia. Isso vale para os sentidos da visão e da audi­ ção. o social torna a desaparecer porque só relampeja brevemente no momento fugaz em que novas associações estão reunindo o coletivo juntas. Em ambos os casos. tomado como um fluido. o social desaparece. Ele só é rastreável quando está sendo modificado. boje parece que ocorre exatamente o oposto: não há nada mais difícil de apreender do que os vínculos sociais. para que ocorra uma percep­ ção. Introdução à Parte II POR QUE É TÃO DIFÍCIL RASTREAR O SOCIAL? Devia ser a coisa mais simples tío mundo. O adje­ tivo social designa dois fenômenos inteiramente distintos: ele é ao mesmo tempo uma substância. nenhuma sensação. graças às evidencias maciças e ubíquas da ordem social. Embora à primeira vista se afigurasse que o objeto das ciencias sociais era fácil de localizar. 229 . assim como para o paladar. e todos somos ani­ mais culturais.

sabemos apro­ ximadamente de que é feito o mundo social . nenhum modo de sentir a mão que se segura. Num caso. Assim. no outro. e tentar resolver a “questão 230 . sempre devemos com eçar não sabendo do que ele é feito. Mas como é possível ter dois significados inteiramente opostos para o mesmo adjetivo? Isso pode ser explicado. Em doses pequenas e adequadas. para renovar a sensação de conexões sociais. um mundo que corre o risco de ser rapidamente invadi­ do pelas fadas. eles com eçarão a apodrecer. Se persistirm os em ingeri-los.mesmo que seja a mão da pessoa amada. dependendo da dose e do liming. Aquele a que chamei “socio­ logia do social” tenta manter reunidos. a busca do social torna-se ou um remédio ou um poderoso veneno.ele é feito “do" ou “no” social. heróis e feiticeiras da sociologia crítica. tive de opor dois tipos de métodos diferentes. a meu ver. Mas se deixarm os os elementos que foram enfeixa- dos passarem suas “datas de validade”. eles nos levarão a uma paralisia completa. Entramos num mundo que deixou de ser rastreável. É por isso que. ele permite ao observador detectar as novas associações que precisam ser constantemente rear- ranjadas a fim de reunir uma vez mais um coletivo que se vê desafiado pela irrelevância.tenta entender controvérsias sobre o âmbito de elemen­ tos heterogêneos que podem ser associados. o outro . dragões. estabelecer as controvérsias sobre o social. Com a ausência de movimentos adveio um entorpecimento dos sentidos. Começamos a tomar aquilo que foi conectado por um tipo especial de tecido: o social explica o social. elementos que ele afirm a serem feitos da mesma matéria homogênea. à semelhança d o p h arm akon dos gregos. Rcagregam h o social de alguém e continua a segurá-la. logo não sentira senão um embotamento embaraçoso . porque as ciências sociais cumpriram simultaneamente três tarefas diferentes: documentar os vários modos pelos quais o social é construído por meio da engenhosi- dade de seus membros. O mesmo vale para o “senso do social”: nenhuma nova associação. limitan­ do o âmbito de entidades em ação no mundo. tão firm em ente quanto possível e pelo maior tempo possível.que denominei "sociologia de associações” .

Com a confusão dos três deveres sucessivos da ciência social. ser capaz de mostrar por quais meios essas controvérsias se estabelecem e como elas prosseguem. já não há como de­ cidir se ela se deve a alguma percepção empírica genuína. já que a sociologia. tornando-se interessante para os que foram objeto do estudo. o projeto de emancipação e as enormes dificuldades das investigações empíricas. come­ çamos pensando que nossa principal tarefa é restringir . isso significa que assumimos a tarefa de estreitar o número de agregados sociais possíveis. Embora eu tenha certeza de que essa estratégia intelectual pode ter sido produtiva na época de Comte. Depois desse tratamento. enfim. Durkheim ou Parsons. Mas o que é impossível é tentar cumprir esses deveres simulta­ neamente. Spencer. Começamos a pergun­ tar o que é uma sociedade e em que direção ela é conduzida. por exemplo. começamos a substituir a composição do coletivo pelo ator com nossa própria definição daquilo que os mantém unidos. excluir o maior número de objetos não humanos possível. Bruno Latour social” oferecendo uma prótese para a ação política. conservar uma fé inabalável na sociologia como disciplina científica autônoma. à aplicação de um modelo. Quando se propõe uma explicação social.de antemão e no lugar do ator .o âmbito de incertezas no qual tememos que os atores se percam. lim itar o número dc agências que fazem os atores fazerem coisas. Por razões perfeitamente respei­ táveis que se relacionam com a necessidade de modernização. Não há nada de errado nesses objetivos. sem prestar atenção na sua sucessão. Se confundirmos o segundo com o primeiro.com os outros dois.o de rele­ vância política . e poder ajudar a definir os procedimentos corretos para a composição do coletivo. deve ser capaz de cumprir os três deveres seguintes: ser capaz de desdobrar todo o âmbito de controvérsias sobre quais associações são possíveis. já não é possível rastrear as cinco fontes de incerteza que revisamos. ela agora se tornou desastrosa. . a uma tentativa de atuar sobre a engen liaria social ou à mera preguiça. As coisas pioram ainda mais quando confundimos o terceiro dever . ater-nos a uma estrita divisão de trabalho entre ciência natu­ ral e ciência social e. a “ciência do viver juntos”.

mais geralmente. darei a impressão de ser ainda mais tolo em rela­ ção à “sociologia tradicional”. Direi que o que tornou o social irrastreável foi a própria existência da sociedade ou. se é difícil desdobrar as cinco fontes de incerteza. mas esse é também o trabalho dos próprios atores. mas de uma confusão. a sociedade. Reagregando u social o social tornou-se de todo irrastreável. precisamos superar a con fusão sem abandonar nenhum dos três deveres originais. é uma figura estranha e transitória que confunde o Leviatã do século 18 e o coletivo do século 21. pois isso produz traços empíricos e pode. pode-se restaurar uma ordem que é to­ talmente distinta das próprias tentativas dos investigadores de limitar de antemão as controvérsias. pou­ voir et société: La science sociale selon Bormld. sua própria bagunça. devo agora mostrar que é possível seguir o estabelecimento de controvérsias sem confundir essa investigação com as outras duas. 1975-1976. Para ser fiel ao projeto de uma ciência de um social . ser totalmente documentado. essa invenção do século 19. que torne o coletivo rastreável e desempenhe o 201 Sobre a invenção da noção de sociedade.. e antes de atacar a intricada questão do interesse político.agora que as palavras social e ciência foram renovadas . Autorité. Societies Must Be Defended: Lectures at the College de France. Falando de maneira geral. deve-se mantê-las separadas para que tenham algum sucesso. Sim. Infelizmente. muito embora a explicação social continue proliferando facilmente. 232 . ver Bruno Karsenti (2003). portanto. Embora ambas as operações tenham muita coisa em comum. vai ser ainda mais difícil seguir os meios pelos quais elas são estabilizadas.201 Pedindo à sociedade que cumpra as duas tarefas ao mesmo tempo. Quando deixamos os atores arrumarem. de um reino social. Tendo mostrado na Parte I como poderiamos dispor as capacidades de construção do mundo do ator. Nesta nova investigação. as controvérsias são encerradas e as incertezas estabelecidas. e Michel Foucault (2003). alimentada desde os começos da história da sociologia. entre unir o corpo político e unir o coletivo. ou seja. por assim dizer. Desta vez o problema não provém da ambiguidade da palavra so­ cial .

Nunca se supôs que ele se tornasse uma substância. Ver Dominique Linhardl (2004).202 É o que Walter Lippmann designou com o termo fantasma. total e estivesse sempre aí. como declarou John Dewey em sua resposta a Lippmann. que o corpo político fosse virtual. Estou seguindo aqui a obra de Noorljc Marres sobre as filosofias políticas de Dewey e Lippmann. por um movimento circular contínuo. por cons­ trução. The Phantom Public. Nu Potilics. Bourdieu resume à perfeição essa fragilidade quando define a represenlação política: “Assim a deiega- 233 .204 202 Sobre o necessário “rodeio” <la enunciação política. por trás e além da ação política. um ser. ver Bruno Latour (2003). Laforce de l'Êtat en démocratie: La Republiquefédérale d’AUemagne à Tepreuve de la guérilla urbaine 1967-1982. A suposta existência de unia sociedade impediu a emergência de um coletivo bem unido. Somente a ação política é capaz de rastrear. 204 Embora a considere negativamente ern vez de positivamente. Esse gigante tinha pés de barro. o corpo político sempre foi. além de ter frustrado os esforços para definir o estranho lipo de corpo coletivo que as atividades políticas devem ter a capacidade de formar. um problema. Embora isso só fique claro no final deste livro. um reino sui generis que teria exisiido abaixo. Bruno Latour papel de um substituto da política. o Público Fantasma. Essa é a razão pela qual o Estado c sempre o produto de uma experimentação continua. um fantasma sempre às voltas com o risco de completa dissolução. Ver Noortje Marres (2005). What if We Were Talking Politics a Little? 203 Waller Lippmann (1927) [1993]. sua virtual e total congregação que corre sempre o risco de desaparecer por completo. No issue. O que impres­ sionou todos os leitores no esboço hobbesiarto do Leviatã ó a fragilidade desse "deus m ortal” e a rapidez com que podia dissolver-se. a razão desse víncu­ lo duplo pode ser formulado de maneira simples: supunha-se.203 Do mito do contrato social em diante. A fragilidade das personae políticas é uma das grandes lições tiradas de Ernst Kantorowicz (1997). Não há nada de errado nisso. já que era necessário elucidar o problema impos­ sível da representação política fundindo os muitos em um e fazendo o um ser obedecido pelos muitos. The King’s Two Bodies. ela nunca foi capaz de cumprir nenhu­ m a delas adequadamente.

R&tgregando o social Mas quando deslocamos o modo de existência do público para o de uma sociedade. E. que transcende os corpos biológicos que o compõem (“corpus corporatum in corpore corporate”)”. se é virtual. Intimations of Postmodernity. os meios práticos para compô-lo já não são rastreáveis. Só agora o Fantasma se tornou um espírito ma­ léfico. quer gostemos. 205 Cabe lembrar que optei por seguir a ideia decisiva de Bauman sobre a invenção da sociologia com o um substituto para a política. Pierre Bourdieu (1991. Todas as dificuldades de apreender o social principiam com esta façanha impossível de ficção metalúrgica: a forma móvel do Público Fantasma hoje fundido em bronze. existir na forma de uma pessoa fictí­ cia. visualizá-lo e coletá-lo se perderam de vista. sua fragilidade problemática desaparece. uma série de indivíduos justapostos. The Public and Its Problems. e sua crítica do hegelia­ nismo em política.esse ato originário de constituição nos sentidos filosófico e político da pala­ vra . em vez de verem isso como uma contradição ou uma impossibilidade técnica. 208).-"5 Supõe-se que o corpo político convertido numa sociedade permanece sob sua própria força. 206 Ver John Dewey ( 1927 1954). quer não. os cientistas so­ ciais considerarão essa presença fantasmagórica como a melhor prova de sua misteriosa existência. e por trás da so- ção . um corpo inístico encarnado num corpo social. Enquan­ to detectarmos por trás do coletivo a sombra da sociedade. o Leviatã transformado em beemonte. os meios práticos para compreendê-lo.205206 Embora continue invisível. uma corporatio. a sociedade está aí. Mas não é necessário muito esforço para ver que uma entidade virtual e sempre presente é exatamente o oposto do que se requer para manter o coletivo unido: se ele já está aí. 234 . Enquanto o corpo político era traçado incessantemente pela políti­ ca. Delegation and Political Fetishism. contraditória e árdua tarefa de compô-la através de meios políticos. a fim de poupar-nos a imensa. um corpo. p. Ver Bauman. os meios práticos para totalizá-lo já não são visíveis. se ele é total. afirma-se agora que o gigantesco corpo político tinha os pés solidamente fixados num pedestal inabalável.é um alo de magia que permite ao que era meramente uma coleção de várias pessoas. mesmo na ausência de uma atividade política.

como um leviatã. Logique des phénomènes collectifs.208 To­ dos declararam que a sociedade é uma realidade virtual. The Future of Social Theory. tsso fica claro em Castoria- dis. uma cosa menta­ le. como o horizonte intransitável de todas as discussões em torno do mundo social. a sociedade tornou-se ao mesmo tempo aquilo que sempre foi criticado como ficção e aquilo que. 137. à sua própria maneira. 208 Para uma investigação recente sobre o estarlo da arte. ainda que só para criticá-la. a sociedade e os organismos não transportam as mesmas entidades e não são transportados pelos mesmos veículos.207 Para dizê-lo mais diretamente: ou existe sociedade ou existe sociologia. Autopoiesis and Cognition: The Realization of the Living. Embora possam ter estado traçando circuios. uma ficção. 209 Graças ao ilusório poder da dialética. todos os teóricos sociais sabem muito bem disso. encalhada numa praia onde cientistas sociais liliputianos tentavam escavar para ela uma moradia adequada. 183. envidou esforços para extirpar de suas investigações quaisquer sombras de uma sociedade. Introduction aux sciences sociales. nenhuma ciência do social poderá avançar. Naturalmente. estava sempre aí.209210Seja qual for a solução. 2 10 Mais adiante elucidarei a noção de “panorama" para as razões pelas quais esse modo de resumir o social tem. The Imaginary Institution of Society. ela permaneceu encalhada como uma baleia. não obstante. p. A confusão está profundamente assen­ tada numa noção mística de sociedade”. Maturana e Francisco J. que afirma­ vam não ter existência real. Em Lippmann. Mas. tamanho poder sobre a imaginação. e é por isso que cada um deles. por uma estranha mudança do desti­ no. o corpo político. sim. Ver p. Tratou o público como uni executivo vago e imaturo de todas as coisas. eles nunca conseguiram fazer mais do que esculpir um pequeno nicho para si mesmos dentro do corpo virtual. como Gabriel larde advertia seus lei­ tores quando viu a disciplina tomar essa direção errada. Assim. the Phantom Public. Varda (1980). ver Nicholas Gane (2004). uma hipóstase. e no argumento de Luhmann referente à noção de autopoiesis de Humberto R. ao mantê-la onde ela está. às vezes essa mesma natureza contraditória é tomada como a própria definição circular da sociedade. não obstante. 235 . Não se pode ter ambos ao mesmo tempo.230 207 “O ideai democrático nunca definiu a função do público. Bm no Latour ciedade a sombra do Leviatã. total. mas também na noção de aulolranscendé ri­ d a desenvolvida em Jean-Pierre Dupuy (1992).

tão óbvia é a diferença entre questões de interesse e questões de tato. mais dada como ponto pa­ cífico. a sociedade. mais óbvia. Daí o afortunado sucesso da noção de “construção social” que investiguei anteriormente. O abismo entre o social como associação e o social como substância afigura-se mais difícil de reconhecer. Como mostrei minuciosamente em outro lugar. nos estudos de ciência. Caso contrário. entre nós. permanece mais obstinada. se é relativamente fácil mostrar a composição política da natureza. Devemos des­ dobrar o âmbito total de controvérsia. ambas são monstruosidades geradas para abafar a própria possibilidade de uma composição justa do coletivo.3" Mas. por alguma estranha perversi­ dade. E. é importante lem­ brar que meu argumento não terá sentido se o equilibrio entre natureza e sociedade não for mantido firmemente no seu lugar. em vez de tentar decidir por nós mesmos qual é o melhor ponto de partida para segui-la. Tanto que mesmo os meus próprios esforços para reduzir o poder da natureza foram envidados como um re­ forço do da sociedade! Esta última parece ser capaz de reinar ali onde a pri­ meira se viu forçada a desistir de parte de sua soberania. Após a natureza. Desta vez tomarei como nosso ponto de partida a própria dificuldade que os cientistas sociais parecem ter tido para localizar em suas investigações o lugar certo. Rrngregam b o social Que a sociedade esteja no caminho da sociologia e da política não é tão surpreendente para aqueles. nunca seremos capazes de coletar o coletivo. é a sociedade que tem de ir. todavia. Também aqui devemos ser mais abstratos e mais relativistas do que a princípio se previu. não há como escapar. Como avançar e tornar o social plenamente rastreável mais uma vez? Seguindo a mesma estratégia apresentada na Parte 1. Ao optar por esse caminho indireto. que viram mais cedo como a natureza também permaneceu no caminho. vamos descobrir que os dois coletores por eles escolhidos simplesmente não estão ali porque um21 211 Embora eu não trate a questão da natureza tão cabalmente aqui. Os dois monstros nasceram na mesma estação e pela mesma razão: a natureza reúne os não humanos separados dos humanos. a sociedade separa os hu­ manos dos não humanos. 236 .

tornar o fluido social finalmente rastreável. espera-se. 237 .foi confundido com outro: como compor o coletivo.como resolver as relações políticas dos Muitos e do Um . Bruno ¡ atom problema especifico . Esta descoberta nos permitirá escapar de uma vez por todas à grande sombra que ainda é lançada pelo rápido desaparecimento da sociedade e.

Como o que hoje se acha em jogo é a própria topografia do social. COMO MANTER O SOCIAL PLANO Os usuários da tiénda social parecem considerar que é fácil reunir. Foram forçados a migrar constantemente entre dois tipos de lugares . com sua definição de social.. dispendioso. Quando fazemos essa pergunta. enquanto o social “difícil” é o novo social que ainda está por aparecer ao alinhavar elementos que não pertencem ao reperto­ rio usual. mas sim em gerar uma paisagem inteiramente diferente para podermos viajar através dela. Os praticantes da ciencia social sa­ bem quão penoso. mobilizar e explicar o social. árduo e enigmático é ¿sso. e continuará sendo “lentociologia”. invocar. iniciaremos tipos de viagens muito diferentes. uni vasto domínio que não guarda relação alguma com os mapas que vão ser necessários para a nossa definição do social. com­ preendemos quão árduos ioi o trabalho deles.locais menos apinhados. O social “fácil” é aquele já empacotado. Os sociólogos do social traçaram. É esciisado dizer que isso não vai acelerar as nossa via­ gem: ela era “lentociologia” na Parte I. caminhos menos trilhados . Não estou dizendo que os mapas existentes são incompletos.a interação local e o contexto 239 . não há como decidir o modo de traçar nossos itinerários sem compreender o princípio de projeção usado pelos sociólogos do social para os seus. Só vendo como eles foram desencam in hados é que entenderemos por que tra­ çaram aqueles mapas implausíveis. mas sim que designam territórios com formas tão diferentes que sequer se sobrepõem! A tarefa que temos diante de nós já não consiste em ir a diferentes lugares do mesmo país . Dependendo de qual rastreador decidimos seguir.

foram obrigados e deixar dois lugares de repouso sucessivamente. e que muitos deles foram im­ provisados no local pelos demais participantes.até o lugar para sentar-se já foi pré-inscrito por um encarregado atento. cada qual situado no oposto polar do outro. oscilando entre um e outro. estimulado pelas perguntas de um etnógrafo visitante. coisas que pré-datam o momento de seu acidente. compreende que a maior parte dos seus hábitos de pensamento provém de lugares e agências sobre os quais não tem nenhum controle. Um queixoso intimado a comparecer perante o juiz encontra o edifício da lei firmemente instalado e o edifício Old Bailey tão antigo quanto Londres. Um “informante” local. Como afirmei anteriormente. é perfeitamente lícito dizer que qualquer interação parece superabundar em elementos que já se encontram na situação. traduzi- 240 . E assim por diante. Reagrcgando o social global -. articulada. a ação é sempre deslocada. mas os soció­ logos do social. por uma razão ou outra. de outro lugar e gerados por outra m ediação . É preciso entender a dinâmica dessa jornada infernal para não ter a mesma sorte deles. menos felizes que seus ancestrais. Todo cientista social sabe muito bem que as interações locais não são um bom lugar para descansar. delegada. não tarda a perceber que a maioria dos ingredientes que com­ põem a cena não foi levada para lá por você. Uma pedestre com luxação no tornozelo aprende no consultório médico sobre seu esqueleto e sua fisiología. você vai para o palco. Adão e Eva foram expulsos apenas de um paraíso. na outra extremidade do estabelecimento. Quando. Assim. Um bebê que aprende a falar encontra a sua língua já pronta. Essa poderosa intuição é tão velha quanto as ciências sociais. elementos vindos de outro tempo. Um operário que trabalha o dia inteiro num dos andares de uma fábrica que ex­ plora os empregados não tarda a descobrir que seu destino foi determinado por agentes invisíveis que estão escondidos atrás das paredes do escritório. Interações não são como ura piquenique onde todo o alimento é reunido no local pelos participantes. cada qual tão incômodo que tiveram de fugir deles o mais rápido possível. no uso competente que sua mãe faz dela. mas sim uma recepção dada por alguns patrocinadores des­ conhecidos que prepararam tudo nos mínimos detalhes .

Essa direção esteve tão solidamente entrincheirada durante cento e cinquenta anos de ciência social que hoje ela aparece como uma mi- 241 . Assim. Ali onde a ação política tem de avançar. os pesquisadores acreditam 1er de voltar sua atenção para a “estrutura” na qual as interações estariam aloja­ das . É como se um vento forte impedisse alguém de permanecer no local e soprasse para longe os espectadores. outros tempos e outras agências que parecem tê-la moldado. uma vez mais. como se uma forte corrente estivesse sempre nos forçando a abandonar a cena local. total e sempre pree­ xistente. Começando com o impulso certo . para usarmos o famoso título de Samuel Butler . existe quase sempre uma lacuna entre as intuiçòes corretas das ciências sociais e a solução ím­ par que elas propiciam. se um observador é fiel à direção sugerida por essa superabun dância. essa é exatamente a trilha que não deve ser seguida. ele será afastado de qualquer interação para outros lugares. as interações são levadas a existir por outros atores. quando começam a desviar o olhar dos locais porque obviamente a chave das interações não deve ser encontrada ali . enquanto a segunda nada mais é que um modo de dissimular a tarefa de composição. o caso: eles tenderam a con­ fundir a projeção do Público Fantasma com a preeminencia da sociedade.o que é indubitável . É nesse ponto que a confusão entre corpo político e sociedade está ameaçando desviar nos do melhor caminho.fu­ jam os das interações locais! .em Erewhon. virtual e escura ela é. Embora exista efetivamente. acima da nossa cabeça. em cada interação.. A primeira é um apelo constante para resumir o feito impossível da política. tirano Latour da. Como já testemunhamos em muitas ocasiões. os sociólogos devem temer pisar. uma linha pontilhada que leva a alguma entidade virtual. É verdade que ambos têm apenas uma existência virtual. Tal é. agindo como se ela já estivesse concluída: a socie­ dade está ali. Portanto. e permanecerá virtual e escura. mas.e aqui as coisas saem erradas. O problema é saber para onde ir a partir dali. ao menos por enquanto. os locais não formam um contexto em torno deles.. eles acabam. não. Sim. mas da mesma forma.

Do ato de fala do bebê é realmente possível passar à “estrutura” da linguagem? A partir da causa do queixoso há algum caminho para se ir a um “siste­ ma” de lei? A partir do pavimento da fábrica exploradora há algum canal que leva a um “modo de produção capitalista” ou a um “império”? A par­ tir do tornozelo luxado da paciente há um caminho que leva à “natureza” do corpo? A partir da agenda do etnógrafo é provável que se chegue à “cultura” daquele povo específico? Quando essas questões são levanta­ das.uhman ( 1985). Reagregimdo u ¡acial gração em massa ao longo de grandes rodovias construídas com grandes despesas e guiadas por enormes e brilhantes letreiros onde se lê: “Pró­ xim a Parada: Contexto. m a s é a p a r t i r d ela q u e se g e r a m to d o s o s a to s d e fa la . a e s t r u t u r a d a lin g u a g e m n ã o é fa la d a p o r n in g u é m e m p a r ti c u l a r . Tão automático se tornou o costume de chegar àqueles lugares. ver Alessandro Duranti e Charles Goodwin (1992). sim. Em Contexto não há lugar para estacionar. 15 km”. quando se está insatisfeito com as interações locais. m a s é in v o c a d o d e m a n e i r a n ã o m e n o s m i s te r io s a e m c a d a c a s o e s p e c íf ic o . Rethinking Context: Language as an Interactive Phenomenon. c o n q u a n to se r e c o n h e ç a q u e ele d e v e s e r fe ito de a lg u m a to ta lid a d e ad hoc p a r a c a d a c a s o . talvez”. a resposta é um desconcertante “não. elas desaparecem subitamente no ar. Após um trajeto breve e silencioso.213 O c a p ita l is ­ m o é d e c e r t o o m o d o d e p r o d u ç ã o d o m i n a n t e .212 O s is te m a d e d ir e ito n ã o re sid e ern n e n h u m lu g a r p a r t i c u l a r . E m v e r d a d e . m a s n in g u é m im a g in a q u e e x is t a a lg u m homunculus d ir e t o r -e x e c u tiv o n o c o m a n d o . 213 Ver Niklas J. A Sociological Theory of Law. e m b o ­ ra o s m o d o s p e lo s q u a is a parole e n co n tra a langue te n h a m p e rm a n e c id o t o t a lm e n te m is te r io s o s d e s d e o te m p o d e S a u s s u r e . 242 . que é muito difícil reconhecer que aquelas rodovias não levam a lugar nenhum. a p e s a r d e m u ito s e v e n to s d a r e m a im p r e s s ã o d e q u e eles o b e d e c e m a u m a e s tr a té g ia im p la - 212 Para um dos numerosos exemplos de pragmática corroendo os elementos estrutu­ rais da linguagem.

214215O conhecimento do corpo permite diagnosticar moléstias especí­ ficas. os cientistas sociais são puxados de repente na direção oposta. 215 Ver Stefan Hixschauer ( 1991 ). É por isso que. O que se diz ser a verdadeira fonte de todo “real” e “concreto” que ocorre nas interações não parece oferecer nenhuma morada por muito tempo. embora seja igualmente claro que só a partir do caso à mão é que a maior parte da informação se torna relevante. Property. An Essay on Framing and Overflowing: Economic Externali­ ties Revisited by Sociology. 243 . Um segundo vento. A história recente das ciências sociais não foi. a incômoda resposta que se obtém em relação aos famosos “contextos” é que existe alguma coisa que possibilita a interação. Economics Becomes a Cyborg Science. e Mol. e Michel Callón (1998a). como se tivessem alcançado o limite extremo de uma tira de borracha esticada. Culture in Prac­ tice. The Manufacture of Bodies in Surgery. The Body Multiple. uma abstração completa criada pelo olhar do etnógrafo e o que é gerado no local pela constante inventivi­ dade das interações dos membros. Assim. Machine Dreams. e no entanto demasiado fraca e remota para ter qualquer eficácia. passando dos “aspectos estruturais profundos” para as interações mais “reais” e mais “concretas". mas que essa “al­ guma coisa” ao mesmo tempo est apresente por Iras e é dem asiado abstrata para fazer o que quer que seja. está hoje forçando qualquer visitante a sair do contexto e voltar aos práticos locais. e Maryliti Strathem (1999). Bruno Latour cavei. uma segunda corrente não menos violenta que a primeira. os aspectos estruturais parecem oferecer lugares de repouso tão confortáveis quanto uma hera envenenada. A estrutura é muito poderosa.115 Uma cultura é ao mesmo tempo aquilo que faz as pessoas atuarem. Substance and Effect: Anlliropoligiad Es­ says in Persons and Things. 216 Para a produção dinámica de cultura. 214 Ver Philip Mirowski (2001). ao trazer para a cena a maioria dos seus ingredientes necessários.216 Embora pareçam ser aquilo que qual­ quer busca é obrigada a alcançar para compreender as interações locais. ver Marshall Sahlins (2000).

mas só por pouco tempo e não.. ele é solicitado a trocar o nivel abstrato por locais da “vida real”. alter­ nando-nos abruptamente entre uma estrutura na qual as interações têm de situar-se . Mas quando chega enfim a esse contexto estruturador. Para cada estruturalista nascerá um interacionista. Dividido entre duas direções opostas.na sociedade . 244 . Mas e se. um mais estrutural e outro mais pragmático?217 Infelizmente. Mas. o pes­ quisador se vê numa situação impossível. certamente. Os meneios de uma criança são divertidos.e um violento movimento para acabar com “estruturas abrangentes” que retornam ao cenário local e individual onde as coisas “realmente acontecem” e são “realmente vividas”. Em geral a estratégia consiste em re­ conhecer polidamente o problema. A questão é decidir se o ator está “num” sistema ou se o sistema é composto “de” atores interagentes. do “tamanho humano”. quando executados com tanto ímpeto que seu estômago começa a enjoar. também o é a outra . Se ao menos o meneio vertiginoso cessasse brandamente. um anti Platão nos esti­ vesse levando na direção oposta para descer das idéias abstratas ao mundo local real e material? Ficaríamos divididos por esse cabo de guerra. tentar ater-se à cena local no fim da viagem de regres­ so não é uma solução. do “vi­ vido”. Quando se atém às interações. Isso basta para desorientar qualquer pesquisador.. em declarar que se trata de uma ques­ tão artificial e em seguida prosseguir.o social eni grande parle. Essa alternância abrupta foi denominada dilema do ator/sistema ou debate micro/macro. com razões igualmente boas.o outro polo. interação o é igualmente! Se uma é mais real e concreta. uma penosa oscilação entre dois polos opostos. pois as forças que repeliram os pesquisadores ainda estão ali: continua sendo óbvio que o que é “real” e “concreto” não reside tampouco nessas interações. dividindo em partes um lugar acon- 217 O paradigma dessa alternância é provavelmente Parsons gerando Garfinkel. sempre o outro polo. Platão dizia que se deve ascender das sombras embaraçosas e materiais às idéias reais e ¡materiais. se “estrutura” é uma abstração. Itetigngando. é convidado a sair e a “pôr as coisas em seu contexto mais amplo”.

Os pensadores dialéticos têm a habili­ dade de enterrar artefatos ainda mais fundo. ver Bourdieu. que é que nos assegura que essa terceira posição não tem sequer o direito de reivindicar existência? Devemos tentar estabelecer um compromisso entre atores e sistema ou devemos ir a outro lugar qualquer. pocleria oferecer generosamente a sua profusão de laços para atar e desatar esses compromissos: dir-se-á que os atores são retidos pelo contex­ to ao mesmo tempo em que o retêm. The Constitution o f Society. A tentação é tanto maior quanto a dialética. se descobrirmos um feliz meio termo entre as duas posições inexistentes. ao afirmar que as contradi­ ções foram “superadas” . realizadas ou encarnadas em algum tipo de interação lo­ cal e vivida. Bruno Latour chegante no que se supõe ser uni debate acadêmico mediante o expediente de imaginar um compromisso razoável entre as duas posições.tal é a palavra mágica que eles usam no lugar de “dissimular” e “fazer desaparecer”. Com gestos circulares das duas mãos girando cada vez mais rápido em direções opostas. Le Pouvoir e la règle: Dynamiques de l'action organisée. mobilizadas.218 Mas. é possível dar uma aparência de razão branda a uma conexão entre dois locais. Outline. o “ator-rede” deve ser um bom candidato para um compromisso: a solução preformatada consistiría em considerar ao mesmo tempo o ator e a rede na qual ele está incrustado . não é difícil ver poi­ que eles continuam sendo tão convincentes. cuja existência continua sendo um problema como antes. as próprias estruturas permanecem demasiado abstratas porque não foram convoca­ das. Anthony Giddens (1984).o que explicaria o hífen. apesar de suas mãos ligarem 2 18 Para algumas das numerosas tentativas inteligentes. E. 245 . como as sereias de Ulisses. Diante disso. uma vez mais. enquanto o contexto será ao mesmo tempo aquilo que faz os atores comportarem-se e aquilo que está sendo feito pela resposta do ator. Essa solução morna se acrescentaria às muitas outras que se propuseram com o fim de reconciliar as duas necessidades óbvias das ciências sociais: as interações são inundadas por estruturas que lhes dão forma. e Pr harde l'riedberg (1993).

Ainda aqui. não importa o que fizermos com ela. inteiramente distin­ to do movimento geralmente seguido. Se não há outro modo de permanecer em um dos dois lugares. É verdade que o Público Fantasma só pode ser puxado mediante um movimento de laçada que se assemelha a um círculo dialé­ tico. que outro movimento. ator e sistema . isso significa simplesmente que tais lugares não podem ser alcan­ çados . temos de comportar-nos como boas formigas e ser tão tolos. L'Effet sophistique. nem que o contexto nunca existe efetivamente porque é sempre uma “instância” da prática in­ dividual.seja porque não existem. O dilema ator/sistema é a projeção indesejável. tão relativis­ tas quanto possível. nada tem a ver com a oferta de mais outro compromisso en­ tre micro e macro. estabelecendo um equilíbrio ainda mais sofisticado entre os dois clichês da ciência social. Nossa solução consiste em levar a sério a impossibilidade de permanecer em um dos dois locais durante muito tempo.253 Mas esse “laço" usado para puxar a conexão paradoxal de cidadãos com seus representantes perde toda a sua virtude quando é considerado como a relação de um ator “dentro" de um sistema. das relações paradoxais que os cidadãos mantêm com o seu público. seja porque existem mas não podem ser alcançados com o veículo oferecido pela sociologia. tão literatistas. apesar de seu rótulo um tanto infeliz. ao contrário. tão positivistas. Enquanto o corpo pol i- tico é feito artificialmente e desaparece. Para seguir o nos­ so argumento é essencial. assim que a laçada é interrompida. ver capítulos 7 e 8 de Latour. parece que a sociedade assomará ali. Eis por que a solução explorada pela ANT. Reagregando o social lugares inexistentes. Afirmamos. Não afirmamos que as interações não existem realmente porque elas precisam ser “inseridas” num contexto. 246 . para o plano da teoria so­ cial. se revela mais claramente através da própria dificuldade de ater-se ou a um lugar considerado como local ou a um lugar tomado como o contexto para o primeiro.219 219 Ver Barbara Cassin (1995). Pandora’s Hope. não tentai mostrar-se engenhoso.e menos ainda com forçar o meneio a ponto de girar através de alguns círculos dialéticos. Sobre a noção chave tie “autophuos”. isto sim.

a ANT espera manter-se fiel à tradição enquanto extrai o veneno que tanto a debilitou. detectar-ibes a ecologia. isso não significa que o mundo social tenha o mesmo aspecto etéreo. Bruno Latour Assim como decidimos na Parte I nos alimentar de controvérsias em vez de cortar caminho através delas. não existe ape­ nas um. de um recurso que era. a sociedade é uma reunião prema­ tura: ela deveria ser posta à nossa frente. A política.não é a marca de alguma fraqueza infame por parte de­ les. tendo usado a sociedade para atalhar a política. mas ao menos três “Grandes Animais”: o Corpo Político. Mas para ser capaz de tornar esses diferentes animais visíveis. Uma vez mais.do local ao global e do macro ao micro . rastrear-lhes as diversas etologias. recusar-se a ser inteligen­ te. Como a natureza. mas um sinal muito importante de que esses locais são a imagem vaga de um fenômeno inteiramente distinto. um fantasma. a intuição dos so­ ciólogos deve ser seguida. e não atrás de nós. é apenas um modo de compor o coletivo. os analistas nunca esLão numa boa po­ sição para diferenciar as paisagens desenhadas por aqueles pesquisadores. é preciso. Assim como um cavalo poderia perceber um penhasco antes do cavaleiro que o monta. passou a ser um tópico para resolvê-lo. Embora o corpo político seja uma sombra. mas não a solução que eles ofereceram com sua definição equivocada do social. É necessário permanecer tão míope quanto uma formiga para descons­ truir cuidadosamente o que “social" usualmente significa. ela não pode ofere­ cer o padrão geral para uma sociologia das associações. uma ficção produzida pelo movimento de laçar a ação política. Ela pressupõe que o reflexo de evitação postulado duas vezes pelos sociólogos . Mas. É necessário viajar a pé e ater-se â decisão de não aceitar carona de nenhum veículo 247 . Obsedados pela meta de alcançar o todo. A ANT é apenas aquela teoria social graças à qual o “Grande Problema” da ciência social. Contrariamente ao que Platão afirma na República. distinguir lhes os movimentos. podería ser possível aproveitar essa interminável alternância entre polares opostos para aprender algo so­ bre a verdadeira topografia do social. uma vez mais. como veremos mais adiante. eles tornaram muito mais difícil a tarefa de coletá-lo. a Socie­ dade e o Coletivo.

sim. os cientistas sociais foram depressa demais. Isso explica por que eles fazem um consumo tão exagerado de imagens tridimensionais: es­ feras.. Dando como pacífica essa terceira dimensão . Fiatland: a Romance of Many Dimensions. 248 . vou oferecer uma projeção bidimensional.ainda que se deva criticar sua existência . organismos. É como se os mapas legados a nós pela tradição tivessem sido dobrados num feixe inútil e tivés-20 220 “Terraplenadores" são um subconjunto de ciência marginal. os cien­ tistas sociais acharam que a sociedade propiciava uma terceira dimensão. de outros espaços e de outros agentes. Para resistir a essa tentação. deixar as rodovia e optar por caminhar através de uma minúscula vereda não muito mais larga que uma trilha de burros. organizações. mas temos de nos tornar os “terraplénadores” da teoria social. a fim de encontrar as fontes daqueles di­ versos ingredientes. Rcagregandn o social mais rápido. na qual todas as interações deviam encontrar um lugar. Sim. Ante a necessidade do corpo político. Isso pode parecer estranho a princípio. ou então devemos virar-nos num ângulo reto. devemos ignorar as placas gigantes “rumo a Contexto” ou “rumo a Es­ trutura”. monumentos. É realmente uma questão de cartografia. devemos aceitar a ideia de passar a outros locais. é como se tivéssemos de competir em teoria social com o maravilhoso livro Flatland. devemos seguir a sugestão de que as interações são inun­ dadas por muitos ingredientes que já se encontram no seu lugar e vêm de outros tempos. sistemas.2211 Esta é a única maneira de ver como as dimensões são geradas e mantidas. Mas. que tenta nos tornar ani­ mais tridimensionais vivos dentro de um mundo bidimensional composto apenas de linhas. Conti­ nuando com a metáfora topográfica. pirâmides. mas aqui estou toman­ do a expressão como urna alusão a Hdwin Abbott (1992). tamanho e escala. te­ mos de tentar manter o domínio social completamente plano. assim que trazemos para fora alguma interação. Contra essa forma tridimensional. eles retira­ ram da investigação o principal fenômeno da ciência social: a própria pro­ dução de lugar. Embora se orgulhem de ter aumentado o volume das interações pla­ nas.

sublinhando os vários veículos que compõem a definição do social entendido como associação. finalmente. Paris the invisible City. em razão Je suas numerosas e diferentes ilustrações. discutir a relevância política da sociologia sem confundir a sociedade já feita com o delicado e arriscado laço do pú­ blico. o coletivo terá espaço suficiente para se recompor. ligaremos os locais revelados pelos dois movimentos anteriores. Procederei em três passos: primeiro ressituaremos o global.” 1 Uma vez esboçada essa topografia al­ ternativa.atom sernos dc retirá-los da cesta de papéis. O que está totalmente amassado deve agora ser plenamente alisado. será possível.21 221 Para seguir a Parte II. é o único modo de medir a distância real que qualquer conexão social tem de superar para gerar algum tipo de rastrea mento. enfim. e. e só então. seja útil consultar online Latour e Herman. Mediante uma série de cuidadosas restaurações. a fim de romper o automatismo que leva de “Interação” a "Contexto”. Embora esse alisamento possa parecer contraintuitivo. temos de alisá-los na mão. até eles se tornarem novamente le­ gíveis e utilizáveis. 249 . O objetivo desta segunda parte é praticar uma espécie de ginástica corretiva. redistri­ buiremos então o local para compreender por que a interação é essa abs­ tração. talvez. ßrunn I. Então.

.

Como também vimos nas páginas precedentes. Como avançar em segurança de um mediador a outro. desde que pavimentemos o caminho de um local a outro. Se fizermos isso. isto é. mas pelo menos não se deve esperar grandes obstáculos teóricos. à Estrutura. Infelizmente. Isso significa que temos de seguir o caminho indicado pelo pro­ cesso de delegação ou transferência explicado na Parte I. ao quadro de referência. Ou Chapeuzinho Vermelho consegue chegar à casa da vovó ou é raptada na floresta. isso implica o risco de confundir uma trilha com outra que tenha o mesmo ponto de partida . a história aca­ ba de maneira muito diferente. PRIMEIRO MOVIMENTO: LOCALIZANDO O GLOBAL O primeiro movimento corretivo parece muito simples: temos ape­ nas de estabelecer conexões contínuas entre uma interação local e outros lugares. sem ser engolido pelo Lobo do Contexto? Temos de en­ saiar alguma manobra para fazer com que as duas teorias sociais divirjam. mas com mediadores completos.afastemo-nos das interações locais -. não com intermediários. mas não o mesmo ponto de chegada. torna­ remos visíveis as longas cadeias de atores que ligam os lugares entre si sem perder um único passo. o desdobramento deve tomar a forma de rede sob a condição de que Lodo transporte seja pago com transformações. pois conduz ao Contexto. 251 . Dependendo do caminho escolhido. Talvez isso seja empíricamente difícil. tempos ou agências por meio dos quais um local é levada a fazer coisas.

farei um breve inventário de alguns desses grampos. em vez de permitir que salte por cima dele ou fique às suas costas. mas apenas curvatura. O custo total de cada conexão pode agora ser pago até o último centavo. No que se segue. Se um local pretender influenciar outro. precisaremos sem dú­ vida de um conduto ou um veículo. temos de garantir que nenhuma dimensão extra seja acrescentada. separados por um abismo tão vasto. Para tanto. o contexto e o ator inseridos eram tão incomensuráveis. Para interromper essa mágica. nesse caso. avançar continuamente da interação local para os muitos atores delegados? O ponto de partida e todos os pontos reconhecidos como sua origem permaneceríam então lado a lado . quando a paisagem é mantida obsessivamente plana. Que sucedería se não permitíssemos nenhuma ruptura. Na outra paisagem. Os atores se tornaram justificáveis. para manter a paisa­ gem firmemente plana e forçar. Isto não ocorre. devemos inventar uma série de grampos. estiramento e compressão? Poderia­ mos. mas também no tipo de defor­ mação que permitem: quando inserimos um local “dentro” de um quadro de referência mais amplo. somos forçados a pular. Kctigregamin o social permitindo à sociologia do social seguir seu destino enquanto a sociologia de associações desenha mapas rodoviários mais exatos. que nunca houve maneira de detectar por qual veículo misterioso a ação se realizava. nenhum alargamento. A tirania da distância foi novamente enfatizada. nessa topografia plana. o candidato com papel mais “global” a sentar-se ao lado do “local” que alega explicar. então a terceira dimensão da sociedade é acres­ centada e o castelo inteiro de Merlim aflora do lago. porém. Mas concedendo-se que alguma coisa esteja “dentro" de outra. Não é preciso saber muito de topologia para constatar que ambas não diferem apenas no ponto de chegada. deixando mais visíveis a co­ nexão e o envoltório. precisará encontrar meios para isso. Importante em nosso projeto é que. se uma ação tiver de ser transportada de um local a outro. entre o mais loca! e o mais global. 252 . por assim dizer. Abre-se então um vasto abismo entre o que envolve e o que é envolvido.

“transferência” e “fluido”. instituição. . "Onde estão sendo realmente produzidos os efeitos estruturais?” Bem sei que essa pergunta 222 Ver Jacques Pasteéis e Jean-Louis Deneubourg ( 1987). 253 . Pertencem à nossa /«/ralinguagem. saúde. os termos idios­ sincráticos que ofereço designam apenas alguns truques específicos para podermos resistir à tentação de saltar para o global. Estados nacionais. contá-las uma a uma. Bruno Katñur Os manuais de sociologia são organizados em torno de diversos tópicos . From Individual lo Collective Behavior in Social Insets e Deborah Gordon (1999). negativas. do mesmo modo que os entomologistas aprendem a construir pequenas pontes para. Ants At Work: How An Insect Society Is Organized. como fazê-lo obstinada e coletivamente.que representam o fruto longamente intacto das muitas decisões tomadas pelos cientistas sociais sobre quais devam ser os ingredientes certos do mundo social. Fazem parte do equipamento espalhado sobre a mesa do geógrafo para lhe permitir projetar formas numa folha de papel. como os termos fracos “grupo”. Não apenas podem fazer per­ guntas toscas e idiotas. Bem ao contrário. já de começo. Dada a natureza cor­ retiva desse movimento de ginástica.família. Como a no­ ção de rede. Por isso os termos que vou rever nada dirão de substantivo a respeito da esfera social. não designam o que é mapeado. desvio comportamental etc. mercados. apenas permitirão aos estudiosos da ANT tornar o fluido social outra vez coletável. “mediação”.222 Do Pa n ó p t i c o a o O l i g ó p t i c o Os estudiosos míopes da ANT levam grande vantagem sobre os ob­ servadores de vista aguda. O primei ro tipo de grampo é obtido por esta indagação ingênua. "ator”. que tudo abarcam. as virtudes de tais conceitos são. e sim corno se pode mapear algo pertencente a esse território. sem interferir no vaivém das formigas.

A cultura não age sub-repticiamente pe­ las costas do ator. Anthropology and the Constitution o f the Social: Making Persons and Tilings. ver David N. Observers Observed: Essays on Ethnographic Fikeldwnrk. le language et les normes. no consultório de um médico.--3 Por exemplo. neste ou naquele laboratório do Royal College of Surgeons. La Fabrique droit - Une ethnographie du Conseil d'État. quer sejam os escritórios labirínticos no último andar da casa de Marshal Sahlins no campus da Universidade de Chicago. Stocking (Org. mas sou um pesquisador de ciência e.234 O mesmo se diga dos advogados: o sistema legal é compilado com o uso de pastas. bibliotecas.2234225 Até Karl Marx. Law. 225 Ver Martha Mundy e Alain Pottage (2004). para reunir todos os elementos extraídos de milhares de interações locais e milhões de atos de fala. um escritório. Tanto quanto a linguagem ou a lei. mesmo os linguistas precisam de um espaço. reuniões etc. quer a densa Area Files mantida no Museu Pitts River. 224 Ver Sylvain Auroux (1999). ver as obras clássicas de George W. 254 . Outline. em Oxford. Livings­ tone (2003). um arquivo. Putting Science in Us Place: Geographies o f Scientific Knowledge. depois que uma reunião de consenso modificou o procedimento padrão de cuidar de tornozelos deslocados. pois. te­ nho por hábito fornecer suas indispensáveis condições de produção. precisou de uma escriva­ ninha para arregimentar as forças temíveis do capitalismo. uma gar­ rafa de café.) (1983).226 Outros sociólogos podem considerar esses locais de produção me­ ros intermediários transparentes. Reagregando o social geográfica revela uma terrível falta de maneiras. assim. a fisiología leva uma vida misteriosa e etérea: é sempre produzida em alguma parte. Bourdieu. segundo sua epistemologia. The Domestication o f the Savage Mind. e Goody. 226 Para uma explicação materialista da feitura de antropologia. uma instituição. uma máquina Xerox. um departamento. o papel deles consiste apenas em revelar as “estruturas fundamentais” das ações 223 Para uma tentativa de atualização em ciência espacializadora. com os quais fa­ bricar cuidadosamente uma estrutura linguística. na British Library. num manual recéin-revisto. Essa produção sublime é manufaturada em instituições e locais específicos. La Raison. um lugar para ficar. para cada fragmento de conhecimento científico. c Bruno Latour (2002).

se situava “acima” ou “abaixo”. Sucede apenas que elas oferecem sinalizadores ideais para descobrirmos que tipo de relação exis­ te definitivamente entre micro e macro. permane­ ce lado a lado e inserido firmemente no mesmo plano dos outros locais que tentava superar ou incluir. toda a topografia do mundo social se modifica. O macro já não descreve uni local maior ou mais amplo em que o micro possa ser encaixado como as bonecas Matryoshka russas. porém. quão mais o espaço e o tempo sociais não terão de sê-lo quando cada traço estrutural for reposto firme­ mente em suas condições locais de produção? Sem dúvida. Se a totalidade do espaço e do tempo físicos teve de ser reformulada. Desde que decidimos acompanhar como as questões de interesse são geradas pelas várias disciplinas. Esta é sua força. os historiadores e sociólogos da ciência. mas alguns se beneficiam de conexões bem mais seguras com mais lugares. 255 . meios de transporte e veículos que ligam lugares. Nosso interesse por meios tão singelos não é ditado pela suspeita quanto à verdadeira eficácia daquelas estruturas ou por alguma necessidade reflexiva. fios. mas também. prestam mais atenção. na sociologia pré-relativista. sua fraqueza. la­ boratórios e frágeis cadeias de referência. temos de levar em conta as maneiras práticas pelas quais o conhecimento das ações alheias é produzido diaria­ mente. igualmente micro. Será isso relativismo? Espero que sim. O que agora se ressalta muito mais vividamente são as conexões. The Spectacle of History: Speech. graças à constatação de que dois sinais nunca são emitidos simultaneamente.327 Se você isolar uma27 227 Mesmo as narrai ivas mestras “vastas” podem ser produzidas nesses lugares “locais”. Se nenhum sinal viaja mais rápido que a luz. como veremos. Nenhum iugar é maior que outro. Esse movimento tem o efeito benéfico de manter a paisagem plana. pois o que antes. Bruna Laíotit’ humanas. Ver Michael Lynch c David Bogen (iy % ). nenhum conhecimento se transmite sem cientistas. Text and Memory at the Iran Contra Hearings. conectado a muitos outros por algum meio que transporta tipos de traços específicos. tão logo os locais que manufaturam as estruturas globais são enfatizados. mas outro lugar igualmen­ te local.

o gabinete do linguista pode estar de algum modo ligado ao que se fala “lá fora”. após anos de trabalho. ignorará as ramificações e não conseguirá traçar a nova paisagem. conexão. não tente ser esperto. conectada e associada a todos os atos de fala por m odos que a pesquisa descobrirá. Chegado a este ponto. coletados e classificados de vá­ rias maneiras com o emprego de diferentes meios. ele não mais formará estrutura alguma. 256 . acelerações ou atalhos. É uma paisagem que atravessa. não pule. Você aceitou ser formiga fant]. se você quiser ir de um lugar a outro. Apenas. mas como essa ligação existiría sem conexões. Apenas siga as pistas com olhos míopes. Gramáticas escritas são hoje parte do equipamento de toda mãe ocidentalizada que repreende a filha 228 Ver Simon Winchester (2003). Não é que não haja hierarquia. Significa que a estrutura escrita está relacionada. os milhões de atos de fala que compõem um dicionário. transcritos. mas se desligar um lugar formador de estru­ turas de suas conexões. nada acontecerá: ela continuará ali. Por exemplo. em seu empíreo misterioso. um traço comum daquilo que é. altos e baixos. não troque de veículo: se fizer isso. cumes. você permanecerá ANT! Se teimar na decisão de produzir uma trilha contínua em vez de descontínua. fendas. interagir. deslocamento e informação. Sem dúvida. The Meaning o f Everything: The Story of the Oxford English Dictionary.228 A circunstância de nenhuma estrutura atuar inconscientemente “sob” cada ato de fala não significa que seja feita de brisas por linguistas “locais” metidos em seus gabinetes. sem custo e sem um constante comércio pelos condutos que entram e saem do gabinete? Essas relações de mão dupla são tanto mais fortes quanto a gramática também se tornou. outra cadeia de montanhas começará a se erguer. Não se permitem paradas. vales profun­ dos. Reagregmdû o social estrutura subjacente de sua aplicação local. para os falantes. uma gramática ou uma estru ­ tura de linguagem num departamento de linguística foram extraídos de atos de fala locais registrados. terá de pagar o preço total da relação. cruza e atalha os lugares antigos de “interação local” e de “contexto global”.

o tugurio do antropólogo. mas não essa rede comprida.começa a assumir. Drumj l u tour por falar de modo incorreto. aos olhos do observador. Como já deve ter ficado claro. A resposta dada pelo trabalho de campo dirigirá a atenção de novo para um local e o redescreverá como um emaranhado de conexões pelas quais veículos (transportando documentos. inscrições e materiais) viajam servindo-se de algum tipo de conduto. para o pesquisador. O que era verdadeiro. 257 . para o relato escrito do so­ ciólogo é verdadeiro também para todos os outros formadores de estrutu­ ras: eles lançam pequenas pontes sobre o abismo criado por diferentes qua­ dros de referência. a ANT é antes de tudo um princípio de projeção abstrato para desenhar qualquer forma. todo local de trabalho acadêmico . o mesmo tipo de perguntas pode ser feito. a bi­ blioteca do advogado. o estúdio do arquiteto. O que conta é a possibilidade. Contar uma história de ator-rede é ser capaz de apreender essas muitas conexões. em vez de dividir os dados em duas porções: uma local e outra global. Para cada um dos “macrolugares”. achatada e dobrada na qual ele próprio se enroscaría. não uma decisão arbitrária concreta sobre qual fortna deva estar no mapa. o for­ mato de estrela com o centro no meio de inúmeros raios com todo tipo de pequenos condutos que vão e vêm. sem estragá-las desde o começo com a decisão a priori sobre qual é o “verdadeiro tamanho” de uma intera­ ção ou de um agregado social. Visto desta maneira. a sala do orientador . o gabinete do teórico social. O macro não está “acima” nem “abaixo” das interações. Não há outra maneira conhecida de faz er coisas em escala relativa. alimentando-as e sendo por elas alimentado. no final da Parte I. 0 laboratório do fisiologisla. O Lobo do Contexto pode engolir uma interação. uma nova relação topo­ gráfica se torna visível entre o antigo micro e o antigo macro. A natureza exata dessas entidades móveis não importa aqui: a pesquisa decidirá quais devam ser os veículos e documentos para cada caso. mas unido a elas como ou­ tra de suas conexões. de registrar a forma “em rede” sempre que possível. Se seguirmos essa orientação sem hesitar.

uma variável negligenciada na fórmula de preços. e. Tarde. Psychologie économique. Em ambos os casos. Lépinay. embora com urn século tie idade. a paisagem desenhada por meio dessas duas definições de sinalizadores será totalmente diversa. são devolvidos ao mesmo lugar pelas telas da Reuters ou Bloomberg. que registram todas as transações e se ligam ao “resto do mundo (conectado)” para determinar a networth de alguém. Andrew Leyshon e Nigel Thrift (1996). Les formules du marché. manobra suspeita do concorrente. Frankfurt e Londres .que poderão alterar o balanço de um lucro obsceno para um prejuízo acachapante. pois está “em toda parte”. ver Bruno Latour (1987). como os denominei. talvez seja uma entidade intratável. mudando de marcha e voando para considerações estratosféricas. um escritório na Wall Street se conecta com o “mundo inteiro” pelo finos. um valor inesperado. os quais. Finance Theory and the Making o f Markets. no entanto. Sim. em vez de andar a pé. Not a Câmera. Science in Action: How to Follow Scientist and Engineers through Society. Muniesa. Diga-se o mesmo do espaço reservado para a ação: o capitalismo não tem inimigos declarados. só para ver onde essa decisão nos levará. e nesse caso temos de saltar da constata­ ção do valor de uma empresa para seu “contexto”. a Wall Street está co- 229 Para uina definição do termo. por exemplo. 258 . oferecem essa forma em estrela de um modo intrigante. mas eficientíssimos condutos de milhões de bits de informação por segundo.229230 Se levar­ mos em conta esses condutos. Donald Mackenzie (a sair). dotada de “espírito". Machine Dreams. Mirowski. trocando de veículo no caminho.pane nos computadores. R ea g reg am lo n so cia l Os centros de cálculo. Global Microstructure: The Virtual Societies o f Financial Markets. An Engine. mas um escritó­ rio na Wall Street possui inúmeros concorrentes em Xangai. ou continuar caminhando e estudando lugares como as salas de Wall Street sein trocar de veículo. poderemos escolher entre duas rotas: acredi­ tar ainda que o capitalismo age sub-repticiamente como a “infraestrutura” de todas as transações do mundo. Money/Space: Geographies o f Monetary Transforma lion. um procedimento contábil arriscado . 230 Ver Karin Knorr-Cetina e Urs Bruegger (2002). uma vez digeridos pelos comerciantes.329 O capitalismo. Des marchés comme algorithmes.

Per-231 231 Eslranhamenle.dward Robbins (1994). na Costa do Marfim. 232 Um exemplo notável da fecundidade dessa abordagem é oferecido pelo projeto de aeroporto realizado por Goodwin e Suchman.ela é “maior”. cupins cegos acumulam dados. Ao contrário. “siga os próprios atores”. certo tipo de movimento se transmite por todos eles. Apegar-se ao visível e captável não é a mesma coisa que engolir agências invisíveis. alguns dos quais começam e terminam no escritório do Sr. histórias. Como Bill Gates não é fisicamente maior do que seus empre­ gados da Microsoft. mais poderosa. mais extensa. Scaling Up and Down: Extraction Trials in Architectural Design.só nele .332 Seguir trilhas contínuas não é a mesma coisa que saltar para a estrutura. a própria Microsoft. 259 . apesar da metáfora da estruiura. e nesse sentido . Brutto Liltour nectada com muitos Jugares. Alhena Yaneva (2005). e Goodwin e Goodwin. Uma organização não é sem dúvida “maior” do que aquilo que ela organiza.Você deve apenas farejar pelas galerias que eles abrem. menos interativa. para uma etnografía de esca­ lada. bens e paixões. Ver l. mais abrangente. Não enfatize o capitalismo. rápidas e intensas não significa que ele seja mais vasto. Ver Françoise Brun-Cotlan et alii (1991). me­ nos local. menos intersubjetiva do que o shopping center de Moulins. não importa quão longe precise ir. Formulating Planes. Gates. isso vale para o próprio edifício. O fato de um escritório ser atravessado por conexões mais longas. ou o barulhento e malcheiroso mercado de Bouaké. nenhuma razão superior se mani­ festou. pois nenhum edifício é visível in toto em nenlium ponto de sua construção e uso. e. relatos. The Workplace Project: Designing fo r Diversity and Change. Nenhuma objetificação fria ocorreu aí. como corporação. Por toda parte. não pode ser um vasto edifício onde residam os agentes individuais. não é mais vasta. França. Why Architects Draw. A mesma mudança de topografia ocorre sempre que você substitui uma estrutura misteriosa por locais totalmente visíveis e empíricamente rastreáveis.2’1 Por ser menos sociedade que o corpo político é que a organização se constitui u nicamente de movimentos entretecidos pela circulação constante de papéis. Contudo. mas também não a tela dos escritórios de Wall Street: siga as conexões.

daí o hífen. “Mas isso não é puro senso comum?” resmunga a ANT obsessivamente cega. Não há uma macrossociologia e uma micros- sociología. Reagregtmtfo a saciai manecer coin um tipo de veículo o tempo todo não é a mesma coisa que aceitar uma carona de meios de transporte mais rápidos e extravagantes. abolir a distinção macro/micro. Sem­ pre que se quer um bom exemplo do que possa significar. Eis p>or que a “rede” com hífen não está aí como presença sub-reptícia do Contexto. expelido de dentro de suas estreitas paredes. a segunda (a rede) explica por quais veículos. e sim como aquilo que conecta os atores. no curso de um estudo. As duas partes são essenciais. Não é por acaso que a ANT começou pelo estudo da ciência. traços.233 As ciências 233 O escritório na School of Mines é o berço das primeiras tentativas de detecção de petróleo de Schlumberger. ver Geffrey Bowker (1994). A primeira parte (o ator) revela o minguado espaço em que todos os grandiosos ingredientes do mundo começam a ser incu­ bados. uma vez transformado ali. como o Contexto. Ele não apenas é muito mais fácil de estudar. em vez de inseridos no micro e no macro. isso significa que passa de um lugar a oulro . trilhas e tipos de informação o mundo é colocado dentro desses lugares e depois. no fim. Science on the Run: Information Management and Industrial Geographies at Schlum- 260 . um aspecto “macro” do "mundo inteiro”. Longe de ser. Um ator-rede é rastreado sempre que. outra dimensão que dê volume a uma descrição excessiva mente estreita e plana. como for­ nece os exemplos mais extremos de como pequenas inovações costumam tornar-se. se toma a decisão de substituir atores de qualquer tamanho por sítios e locais e conectados. seguidora de trilhas. não alugar nenhum. ela permite às relações continuarem planas e pagarem toda a conta dos “custos de transação”. para uma teoria social. a segunda desdobra conexões - a pequena se desconexa. a grande encaixa. a grande conecta. Não existe lugar que se possa considerar “não local”. Sobre essa história notável. o panorama científico oferece um excelente modelo. mas sim duas maneiras diferentes de visualizar a relação ma­ cro-micro: a primeira elabora uma série de bonecas Matryoshka russas - a pequena é desconecta. Quando algo é “deslo­ calizado”.

Biomedical Platforms: Realigning the Normal and the Pathological in Late-Twentieth-Century Medicine. sempre que Gabriel Tarde buscava um exemplo perfeito de sua teoria dos "raios imitativos”. p. Se­ ria pueril. no entanto. a h istoria clássica continua sendo Hughes. da parte do observador. calculadoras. nesse caso há apenas uma iniciativa possível. hoje. Social Laws. observando o pôr do sol. para os instrumentos quantitativos. que lhe diz o contrário. a administração e a organização empresarial. passando por seu professor. Não por acaso. mais fácil se torna traçar fisicamente conexões sociais. Ver Peter Keating e Alberto Cambrosio (2003). social na origem. The Tentacles of Progress: Technology Transfer in the Age of Imperialism. Ele insistia que existe uma conexão indireta. sua própria oposição interna. fornecem uma versão exagerada do que ocorre em toda parte de uma maneira menos dara e rastreável.*234235 Mas o que é verdadeiro para laboratórios e gabinetes é verdadeiro também para todos os outros locais conectores e estrutaradores. As disciplinas científicas. mas plenamente rastreável. 235 Isso é ainda mais válido. não sabe se acredita cm seu professor. como se um grande lápis vermelho ligasse os pontos para tornar visíveis linhas que antes mal se percebiam. e aquilo que todo menino de escola aprende quando lhe ensinam a não acreditar nos próprios olhos ao ver o sol se pondo. em potência. 234 “Quando um jovem camponês. nos dão exemplos maravilhosos porque. decidir de antemão e definitamente qua! é o seu tamanho real. 261 . isso basta para tornar sua hesitação. Ver também um excelente exemplo de colonia­ lismo indiano em Daniel R. que. incluindo as “ciendazi- nhas de gabinete™ como a contabilidade. Bruna Latour não têm tamanho. ¡mensamente pequena ou grande. Satélites. entre o gabinete de Galileu. Networks of Power. Com ovimos na Parte I. ou no testemunho de seus sentidos. 1850-1940. o une a Galileu. Headrick (1988). Sobre o poder de expansão das redes. ou melhor. que lhe assegura que o anoitecer se deve ao movimento da Terra e não ao movimento do Sol. na Eloren- ça do século XVI. 51. fluxos de dados e laboratórios constituem o novo equipamento material que sublinha os vínculos. quanto mais a ciência e a tecnologia evoluem. voltava-se para a (en­ tão não existente) sociologia da ciência.2'4 Toda escala de laboratório é. redes de fibra ótica.” Em Tarde. se há uma coisa que não explica seu poder é seu porte diminuto. berger. 1920-1940. como as moscas da fruta dos genetlcistas.

o estudo de arquivos burocratas em Christian Jacot (1992). uma prisão ideal que ensejava total vigi­ lância dos internos. Os oligópticos são lugares assim porque fazem exatamente o oposto dos panópticos: veem muito pouco para alimentar a megalomania do inspe­ tor ou a paranoia do inspecionado. mas o que veem. mas muito estreitas do todo (conectado) se tornam possíveis . Ver Clau­ de Rosental (2ÜÜ3). e sim de lugares reais. e por isso eles são tão amados pelos sociólogos que desejam ocupar o centro da prisão de Bentham. c. imaginada no início do século X IX por Jeremy Ben­ tham. 211 É evidente que o próprio Bentham estava mais do que infectado por ambas as do­ enças. Ver Jérémy Bentham e Michel Foucault ( 1977). o menor inseto pode cegar os oligópticos. o “panóptico”. ao que parece. Suchman usa a expressão “centros de co­ ordenação” para insistir nas praticabilidades do local de trabalho.*21 236 O estudo alento do formalismo permite distinguir entre as duas situações. não estamos atrás de utopias. veem bem .237 Nós. Nada. L'Empire des cartes. É menos evidente no caso do uso irônico que Foucault faz da utopia do panopticon em Michel Foucault (1975). Ver Brun-Cottan. vistas pu­ jantes. porém. The Workplace Project.daí o uso dessa palavra grega para designar um ingrediente ao mesmo tempo indispensável e fornecido em pequenas quantidades (como os “oligoele- mentos” de sua farmácia doméstica). Drawing Theories Apart: The Dispersion o f Feynman Diagrams in Postwar. 262 . David Kaiser (2005).216 Como bem sabe todo leitor de Michel Foucault. cálculos. Le Panopticon précédé de l'oeil du pouvoir: entretien avec Michel Foucault. são exequíveis graças ao formato matemático ou pelo menos aritm ético dos documentos em trânsito. Discipline and Punish: 'Die Birth of Prison. por outro lado. Approche thé- oriquede la cartographie à travers l'histoire. La Trame de l'évidence'. Graças aos oligópticos. e não simplesmente m e­ tafóricos. técnicas de organizações e interações. um mundo de lugar nenhum para nutrir a dupla enfermidade da paranoia total e da total megaloma­ nia.en­ quanto as conexões subsistem. Reagregunda o social Para designar essa primeira categoria de marcos. ou seja. proponho a pa­ lavra oligóptico como termo genérico. consegue ameaçar o olhar absolutista dos panópticos. reservando a expressão “centros de cálculo” para os locias onde cálculos literais. que ela considera uni espaço híbrido de formas. permaneceu como utopia.

sobre empresas. Camille Limoges e Deiiyse Pronovosl (1990).240 Em outros casos. que essa sala bélica sú pode comandar e controlar qualquer coisa . 238 Podem-se encontrar muitos exemplos dessa fragilidade em Barry. a topografia correta. sobre jornais. Representing Biotechnolo­ gy: An Ethnography of Quebec Science Policy. que um centro de comando e controle do exército não é “maior” nem “mais amplo” do que a frente local a milhares de quilô­ metros dali. e Peter Miller (1994). pois o que sai e o que entra não são tão formatados nem tão obrigatórios quanto uma ordem ou despacho militar. Para uma analise de estudos de ciência da burocracia no trabalho. Todavia. o “governo”.238239 Às vezes a oligóptica em forma de estrela poderia ser mais difícil de detectar.2iS É o que eu entendo por alisar a paisagem. por exemplo. a obra-prima literária continua sendo Guerra e Paz de Tolstoi. mas em localizar ambos e ligar por meio de algum tipo de cabos bem alimentados o que em francês se denomina connectique. ver John Keegan (1987). ver Mans Blix (2004). comandante e historiador de batalhas sabe muito bem. não obstante. Public Opinion. 263 . Disarming Iraq. como quando alguém pergunta em qual agência está sendo produzido o “complexo de Édipo”. ßrunt) Latour Äs vezes esses locais são fáceis de localizar porque as conexões fí­ sicas fazem o traçado para nós da mesma maneira como os laboratórios. sobre contabilidade. Assim. é óbvio. ver Walter Lippmann (1922). 239 Para uma demonstração magistral. The Fac­ tory as Laboratory. Political Machi­ nes. onde os soldados estão arriscando a vida. The Visible Hand. mas é evidente. a “reengenharia” ou o “capital social”. ver Alberto Cambrosio. mas só um pouquinho. Chandler. aqui. não obstante. um cubículo de redator de jornal assemelha-se a uma sala de co­ mando e controle. A recente discussão em torno de armas de destruição em massa oferece um ótimo exemplo dos limites de todas as metáforas de "olhar” e “visão”. Que esta não é uma tarefa fácil todo soldado. consiste não em incluir a linha de frente “em” algum poder abrangente. E. 240 Para alguns exemplos clássicos.como o nome indica . as conexões são pouco visíveis.na medida em que permanece ligado ao teatro externo de operação por meio de um incessante transporte de informação. 'The Mask of Command.

241 Como aprendemos com a primeira fonte de incerteza..242 Para concluir sobre esse primeiro tipo de braçadeira: muito embo­ ra a questão pareça efetivamente estranha a princípio . podería ser mais difícil traçar o mapa porque as trilhas poderíam ser mais indistintas. sempre que alguém fala de um “sistema”. “gênero” ou “o princípio de precaução”. elas são transportadas fisicamente para trabalhos de campo.inclusive a ANT. quem eles são e a que tipo de grupo pertencem. agências de estatística. de um “império”. livros didáticos.para não dizer de mau gosto . “redução de custos”. questionários. artigos de jornais. quan­ do eles usam a literatura de administração como guia para entender como as empre­ sas se valem das novas teorias sociais . de uma “economia mundial”. espe­ cialmente seu clássico Laurent Thévenot (1984). “indi­ vidualismo metodológico”. com as conexões frequentemente interrompidas. por exemplo. Ainda que pareçam imateriais. Rules und Implements: Investment in Forms. Mas continua sendo necessá­ rio tentar. an­ tes de regressarem através de editoriais. 264 . polêmicas acadêmicas. O que qualquer um sabe sobre "capital cultural”. ‘l he Making o f a Class: Cadres in French Society. Reagregtmda a social também aqui sc podería seguir as trilhas e traçar um mapa. conversas de botequim e aplicações de subvenções. membros de par­ tidos. de uma “organização”. de uma “sociedade”. em parte. de uma “estrutura”. The New Spirit o f Capitalism. “inércia organizacional”. de um “aspec­ to global”. sem passar primeiro por algum centro de pesquisa? No caso de rastreadores tão frágeis. para dar a impressão de que poderiamos ser colocados “em uma categoria” sem nenhum custo. o primeiro reflexo da ANT deve ser o de perguntar: “Em qual edifício? Em qual agência? Através de qual corredor ele é acessível? Que colegas ele leu? Como foi 2 4 1 Um bom exemplo disso é Boltanski e Chiapcllo. das várias teorias sociais contraditórias que viajam através de Paris.. onde são utilizadas por alguns participantes como um modo de decidir. 242 Ver Luc Boltanski (1987).. e as pri­ meiras obras de Thêvenot sobre a elaboração de categorias socioeconómicas. comitês de greve e centros bélicos. hoje em dia é difícil pertencer a um grupo sem a ajuda de um cientista social.

no entanto. não importa quantos avisos se deem. Ê essa diferença na topografia que ex­ plicará (no último capítulo do livro) por que as duas teorias sociais nào aspiram ao mesmo tipo de relevância política. algo como um imenso cenotáfio. da não produz neles o mesmo sentimento que leríam se lhes pedissem para penetrar em alguma estúpida pirâmide abrangente de poder ou rastrear a paisagem alisada onde circulam numerosas tentativas de estabelecer e assegurar as conexões frágeis. como os viajantes não tardam a notar. é exatamente essa posição padrão que torna impossível desdobrar qualquer sociologia relativista. E. Pa n o r a m a s E. 265 . Things that Talk: News. Sempre que falamos de sociedade. não importa como ela seja construída. Clipping in the Scien­ ces and Arts around 1920. há mais de vinte séculos. é uma reação automática. Paper. imaginamos um monumento ou esfera maciça. A paisagem social começa a mudar com muita rapidez. as­ sim que estas perguntas estão sendo feitas. Assim. não obstante. Há uma hierarquia social de cima para baixo. não há razão para negar que a sombra de uma enor­ me pirâmide social assoma sobre a nossa cabeça. O problema é que os dentistas sociais usam a escala como uma das numerosas variáveis de que necessitam para começar antes de fazer o estu-243 243 Anke le Heesen (2004). tem de ser um pouco grande em es­ cala. Não há como brandir esse preconceito diretamente porque ele tem sido. cada oligopticon usado para manter a paisagem lisa desa­ parecerá ¡mediatamente em algum lugar num contexto social maior tão infalivelmente quanto um pombo em seu buraco no pombal. lintna Lutüur compilado?"213 Os pesquisadores. a posição padrão dos nossos sistemas operacionais: a sociedade. Como o reflexo de Pavlov. Scissors. E. ficarão surpresos com o número de locais e canais que aparecem. se concordarem em seguir esta pista.

se não suavemente. reunida. um pouco infamemente. aqui. “total” e “global” sejam encenados de maneira convincente. pelo menos continuamente. 266 . a tentação de saltar para o “contexto” não será aliviada e a construção de escalas pelos atores nunca terá espaço para ser plenamente desdobrada. um teórico das associações. Uma vez mais. A paisagem social nunca será suficientemente alisada para que o custo dos veículos de ligação se torne plenamente visível. coletada ou preservada. A clativist Account o f Einstein’s Relativity. es­ paçando e contextualizando uns aos outros mediante o transporte era alguns veículos específicos de alguns traços específicos. Novamente. “baixo”. se no final nós lhes negamos um dos seus privilégios mais importantes. As pessoas continuarão acreditando que o grande animal não precisa de nenhuma forragem para se sustentar. Ver Bruno Latour (1988c). que ela está por trás de nós.1 Pouco vale respeitar as realizações dos atores. enquanto a escala é o que os atores realizam representando escalando. 245 Sempre considerei. os deveres do relativismo empírico são aparentados com os da moralidade. 244 Esses traços são especificados no terceiro movimento. Não é tarefa do analista impor uma escala absoluta. isto é. Einstein como um teórico social. frustrando qualquer esperança de sobrepor do­ cumentos em algum formato legível. ou seja.245 Ou o sociólogo é rígido e o mundo se torna uma confusão. que eles são os que definem a escala relativa. as estruturas de referência absolutas só ge­ ram deformações horríveis. Rejigrcgtmdo o social do. a paciência é requerida aqui. Como bem sabe qualquer leitor da teoria da relatividade. em vez de estar à nossa frente como uma tarefa a ser cumprida. Enquanto não mostrarmos os lugares onde “alto”. por assim dizer. que a sociedade é algo que pode perdurar sem ser produzida. enquanto os moles e viscosos “molus­ cos de referência” (termo de Einstein) permitem aos físicos viajarem de uma estrutura para a seguinte.24. É porque o preconceito de viver dentro de uma estrutura abrangente é aparentemente impossível de desarraigar que temos de criar um segundo tipo de braçadeira artificial. ou o sociólogo é flexível o bastante e o mundo se põe em ordem.

um minuto antes. o capitalismo e a razão quando. mas perversamente falacioso. Demasiado investimento. poderíam ter estabelecido um compromisso local. É mais eumenos como o maravilhoso. A escala é a própria realização do ator. não é tarefa do sociólogo decidir no lugar do aLor quais grupos estão construindo o mundo e quais mediações os estão fazendo agir. meso. Embora pareça estranho a princípio.2'16 Diante dessas súbitas mudanças de escala. micro .macro. do que Galileu podería tentar seus “caros e respeitados colegas” a dar uma olhada em seu telescópio provisório. Como mostraram Boltanski e Thévenot.não mais. livro 'lhe Powers o f Ten.246247 nunca encontrei ninguém que pudesse aceitar sequer relancear os olhos para a paisagem as­ sim revelada . decisiva proposição feita pela ANT. A razão é que tendemos a pensar em escala . onde cada página oferece uma imagem. a França. uma história. a meu ver. engenho e energia é despendido pelos participantes para modificar a escala relativa de todos os demais participantes a fim de que os sociólogos decidam sobre um padrão fixo. se há uma coisa que não se pode fazer no lugar dos atores é decidir onde eles se situarão numa escala que vai do pequeno ao gran­ de. uma narrativa .como um zoom bem ordenado. Embora esta seja a mais antiga e. a única solução possível para o analista é tomar a própria mudança como seus dados e ver através de que meios práticos a “medida absoluta” pode aumentar. porque a cada uma de suas numerosas tentativas para justificar seu comportamento eles podem mobilizar subitamente toda a humanidade. Bruno Latour Como vimos na parte anterior deste livro. 267 .no qual essa diversida­ de possa ser desdobrada ao máximo.um relato. 246 Boltanski e Hiévenot. o mesmo vale para a escala: não é tarefa do sociólogo decidir se urna dada interação é “micro” enquanto outra seria “de âmbito médio”. 247 Ver Michel Callón e Bruno Latour (1981). Unscrewing the Big Leviathans. How Do Actors Macrostructure Reality. a mais. Sua tarefa é construir o experimento ar­ tificial . On Justification. uma ordem de magnitude mais próxima do que a anterior. se ouso fazer o paralelo.

com o mapa da França. eles não poderão ir mais longe se ela for excessivamente de encontro a toda reação do senso comum. é um acontecimento muito mais importante do que a experiência que Fabrizio del Dongo tem dela? Embora leitores possant estar prontos para ouvir pacientemente as reivindicações da ANT por uma nova topografia.onde uma câmera seria posicionada para mostrar a galáxia como um todo? Onde o microscópio é capa/. em A Cartuxa de Parma. Como poderia o “emoldurar as coisas” não ser a coisa mais razoável a ser feita? 248 Philip Morrison and Phylis Morrison ( 1982).248 Um micros según do de reflexão basta para perceber que essa montagem é falaciosa . só que neste caso ele é tomado não como um en­ genhoso truque artístico. O mesmo vale para o efeito zoom no reino social. que é muito “maior” do que eu? E. que é maior do que a rua Danton. mas como uma injunção muito natural emergindo do mais inflexível senso comum. de Stendhal. 268 . corn ama foto em algum ponto na distancia média que mostra dois jovens participantes de piquenique num gramado perto do Lago Superior. que é maior do que Paris. de reconhecer com perfeição esta célula de DNA em vez daquela? Que régua poderia ordenar imagens ao longo de uma trilha tão regular? Bela montagem. que é maior do que o meu apartamento? Ou dizer que o século 20 fornece a moldura “na qual” a Segunda Guerra Mun­ dial “aconteceu”? Que a batalha de Waterloo. ReagregmuUt u ¡ocluí em todo o caminho que vai da Via Láctea às fibras de DNA. The Powers o f Tem. na qual as “coisas menores” têm de ser situadas? Não é perfeitamente correto dizer que a Europa é maior do que a França. mas perversamente errada. que faríamos com os gráficos organizacionais da estrutura corporativa da IBM. Não é óbvio que a IBM é “maior” do que a sua força em vendas? Que a França é “maior” do que a Escola de Minas. se imaginarmos a IBM e a França tendo a mesma forma estelar como a sala bélica de comando e controle que men­ cionei mais atrás. com a imagem da Terra inteira? Não estarão elas propiciando obviamente a “estrutura” intensamente maior.

a própria atividade de contextúa li zar. “local” e “global” têm de ser feitos. então faça uma visita ao Universal Studios. reuniões políticas e conversas de botequim. Brunn Lctiuur Admito que o importante é seguir o senso comum. um conjunto de trilhos. mas o que demonstra. os sociólogos do social não são suficientemente abstratos. Os rótulos S. E. Uma vez mais. já que testemunhamos muitos casos nos quais o tamanho relativo foi rever­ tido instantaneamente . Admito também que emoldurar as coisas num contexLo é o que os atores fazem constante­ mente. Acreditam que têm de aderir ao senso comum. Estou apenas afirmando que é a própria atividade de emoldurar. já que o efeito zoom é admiti­ do. Todos o sabemos muito bem. tão obcecados estamos com o gesto de “inserir as coisas em seu contexto mais amplo”. quando é uma viagem de uma moldura para a moldu­ ra seguinte que queremos realizar.por greves. um veículo sobre rodas e todo o complexo trabalho de equipe que tem de ser montado para levar a cabo uma coisa tão simples quanto um travelling. e que não se pode fazer isso. nunca são dados. uma completa falta de razão é imaginar um “zoom social” sem uma câmera. encolhem ou crescem com a velocidade do raio. Os acontecimentos não são como cabides de roupas numa loja. em conferências sociológicas. antes. os gestos com as mãos que as pessoas fazem quan­ do invocam a “Grande Imagem” na qual se oferecem para substituir o que você acaba de dizer para que ele “se ajuste” a entidades fáceis de apreender 269 . eles diminuem e aumentam bem depressa. descobertas. no entanto. Se você duvida disso. crises. esse gesto deve ser também cuidadosamente docu­ mentado! Você já notou. pelo contrário. golpes. confusamente distribuídos. X e XL parecem. “Alto” e “baixo”. Mas nunca parecemos prontos para extrair as consequ­ ências das nossas observações diárias. M. que deveria ser trazida para o pri­ meiro plano. inovações. revoluções. Estabelecer a escala de antemão seria aderir a unia medida e a uma moldura absoluta de referência somente quando ela está medindo aquilo que somos depois. Qualquer zoom de qualquer tipo que tente ordenar as coisas suavemente como o conjunto de câmeras dolly russas é sempre o resultado de um rotei­ ro cuidadosamente planejado por algum diretor de teatro.

Tamanho e zoom não devem ser confundidos com conexi- dade. bem sei. não a quero “emoldurada"! Mas estou pronto para estudar muito cuidadosamente a própria moldura. “mo­ dernidade”. é como se Deus voltasse a morrer . Recigregcmda o social como “Capitalismo Tardio”. “Pos-colonialismo” ou “globalização”? Seu gesto com as mãos nunca é maior do que se estivessem batendo numa abó­ bora! Vou mostrar. “o Ocidente”. Ele é tão poderoso que. testar seu realismo . Estou sendo maldoso.e. seria o ato de tomar uma abóbora de tamanho razoável pela “totalidade da sociedade”. Só parece sê-lo por causa tio grande gesto e do tom profissional com os quais se alude à “Grande Imagem”. que ele afirma “incrustar” interações locais. Se há uma coisa que não é senso comum. fazer com que de um recurso auto­ mático ela passe a ser um tópico novo e fascinante. que acaba tendo um controle tão poderoso sobre a mente de cada ator. quero tocar os canais. se assim for. é forçar-me a acreditar que minha pequena descrição “local” foi “emoldurada” por uma coisa “maior”. Ou essa escala tamanho abóbora está relacionada através de muitas conexões com muitos outros locais. mas às vezes isso pode ser feito de um modo amigável. como quando um cirurgião extirpa rapidamente uma ver­ ruga dolorida. e nesse caso.. verificar sua solidez. a “escalada da civilização”. quando uma teoria social alternativa propõe livrar-se de tal controle. É pela encenação do efeito zoom que o social dos teóricos sociais entra em cena. Pois bem.e na verdade há mais de um aspecto comum entre o Deus mori­ bundo dos velhos tempos e essa posição que o sociólogo semelhante a Deus às vezes sonha ocupar. ou não se relaciona. o tamanho real do “social” em toda a sua gran­ deza: bem. não é tão grande assim. da mesma maneira que um escritório comercial em Wall Street se relaciona com os muitos conjuntos que com­ põem as economias do mundo . a Grande Imagem é apenas isso: uma imagem. E então se 270 . "história humana”. quero estar convencido de que essas conexões existem. De fato. enfim. A meia-noite soou para esse tipo de teoria social e a bela carruagem voltou a se transformar naqui­ lo que sempre devia ter sido: um membro da família das Cucurbitaceae. se há uma coisa que esse gesto ameaçador das mãos pode fazer.

ver |ean-Pliilippe Hennin ( i 999). Contrariamente à oligóptica.1*9 A palavra grega pan . 250 Sobre o. elas cobrem uma parede de uma sala cega. mas sim que. os panoramas. claro. Walter Benjamin (2002). na qual um cenário completamente coerente está sendo projetado numa tela circular de 360". não significa que essas imagens não captam “o todo”. The Panorama-. A metáfora vem da­ quelas primeiras salas inventadas no começo do século X IX . Onde podemos encontrá-los. um arranha-céu. The Arcades Project. quando um cientista famoso resume para benefício do público “o estado atual da ciên­ cia”. Bruno Latour pode formular a pergunta: em que cinema.vínculo entre arquitetura e poder. L’Espace parlementaire: Essais sur les misons du législateur. cujas descen­ dentes podem ser encontradas nas salas de cinema Omnimax construídas perto de centros científicos e shopping centers. agora que tudo dos panoramas reais celebrizados por Walter Benjamin foi destruído? Eles estão em toda parte. 271 . Mas podem também não ver nada. ao contrário. estão sendo pintadas todas as vezes que um editorialista de jornal analisa com autoridade a “situação total”. ein que galeria de arte ela é mostrada? Através de qual óptica ela é projetada ? A que público se dirige? Proponho chamar de panoram as as novas braçadeiras. como a etimologia sugere. quando uma poderosa arquitetura .nos enche de assombro. quando o presidente de uma grande empresa reúne seus acionistas.249250 Às vezes são realizações esplendidas. quando um manual de teoria social proporciona uma visão panorâmica da modernidade. lh e Panorama: History of a i\íass Midiunr.e sua principal fraqueza. fazendo obsessiva- mente tais perguntas. ver Stephan Oettcr- mann (1997). quando um livro reconta as origens do mundo desde o Big Bang até o presidente Bush. que quer dizer “tudo”. e.uma piazza. uma enorme escadaria . já que simplesmente mostram uma imagem pintada (ou projetada) na minúscula parede de uma sala totalmente/ec/iada para o exterior. Bernard Comment (2003). como no Palazzo della Ragione. quando um militante explica aos seus companheiros de cela a “longa história da exploração”. vêem tudo. em Pa­ 249 Sobre a história desse meio de comunicação do século XIX. A coerência é o seu ponto forte .

que é o realista. Mas não o fazem multiplicando conexões bidirecionais com outros locais . Às vezes refazem a história quando propõem uma releitura completa do Zeitgeist. do “meso” e do “macro” um no outro. 272 . Às vezes oferecem programas inteiramente novos. os centros de cálculo e. Flórida.como fazem as salas de comando e controle.251 251 Slotcrdijk ofereceu uma descrição de muitos panoramas sob o nome de “globos” em Peter Sloterdijk (1999). do alojamento do “micro”. Ha g r e g a n d o U s o c ia l dua (isso inesmo. Confundi-los com a oligóptica seria como confundir um episódio de guerra monitorado a partir da sala do Exército americano em Tampa. os panoramas dão a impressão de ter um controle absoluto sobre o que está sendo in­ vestigado. O primeiro relato. da ordenação dos “altos e baixos”. O que é tão poderoso nesses dispositivos é que eles resolvem magní­ ficamente a questão da encenação da totalidade. com o mesmo episódio relatado na Fox News quando um general reformado está comen­ tando o “dia no front".fíd. embora seja parcialmente cego e nada entre ou saia de suas pa­ redes. a oligóptica. juntamente com o calendário de todos os eventos comerciais e cívicos. o “choque das civilizações” ou a “sociedade de risco”. dando ao espectador a forte impressão de estar totalmen­ te imerso no mundo real sem quaisquer mediações artificiais ou custosos fluxos de informação que conduzem do ou para o exterior. sabe muito bem que pode tornar-se irreal tão logo as comunicações sejam interrompidas. Sphären. quando o grande salão da cida­ de está inteiramente coberto por um afresco representando uma visão de toda a mitologia clássica e cristã.151 Eles projetam uma imagem que não tem ne­ nhuma lacuna. como na Fenomenología do Espírito e no Manifesto Comunista.2 Globen. como quando se oferece um novo espetáculo sobre o “fim da história”. Enquanto a oligóptica está constantemente revelando a fragilidade de suas conexões e sua falta de controle sobre o que é deixado entre suas redes. o Palacio da Razão). salvo os espectadores interessados ou desorientados. como nas convolutas tramas conspiratórias de terroristas. Às vezes eles são apenas um tosco amontoado de clichês. mais geralmente.

Mesmo. mais locais e mais parciais. visto que esses re­ latos coerentes e completos podem tornar-se os pontos de vistas mais cegos.252 Longe de serem o lugar onde tudo acontece. esses panoramas devem ser estudados cuidadosamente porque propiciam a única ocasião para ver a “história total” com o um todo. ditada pelo senso comum. o contorno geral da arquitetura da sociedade.mais sobre isso na seção que trata das declarações coletoras. Suas visões totalizadoras não devem ser descarta­ das como um ato de megalomania profissional. elas são locais a serem acrescentados como outros tantos luga­ res novos pontilhando a paisagem que tentamos mapear. Mechanical Romanticism: Engineers o f the Artificial Paradise. seu papel pode tornar-se crucial porque elas permitem aos espectadores. de que as interações ocorrem num contexto “mais amplo”. 273 . O status desses panoramas é estranhamente ambíguo. p. à multiplicidade de locais que queremos desdobrar. de que existem um “alto” e um “baixo”. as narrativas mestras com as quais somos disciplinados. porém. Essa multiplicidade desaparece quando des sào postos dentro de um Zeitgeist coe­ rente. 2 2 1. Ver John Tresch (20(11). em vez de serem seguidos em suas circulações contraditórias . as pai­ xões que supostamente compartilhamos. Embora não devam ser levados muito a sério. aos ouvintes e aos leitores equipar-se com um desejo de totalidade e centralidade. mas tem uma chance menor de dizer-nos se é ou não ficção.uma vez que são 252 John Tresch mostrou quantos desses dispositivos coletores existem muna dada situ­ ação histórica e como des podem produzir o que e!c denomina cosmogramas. É dentro dessas estreitas fronteiras que obtemos a nossa ideia. Bruno Latour o segundo poderia ser igualmente real. e de que poderia haver um Zeitgeist cujo espírito ainda está por ser criado. Quase sempre é esse excesso de coerência que revela a ilusão. após essa redução de tamanho. mas sim acrescentadas. como nos sonhos de seu diretor. de que existe um “local” alojado em um “global”. como tudo o mais. eles são si­ multaneamente aquilo que vacina contia a totalização . É dessas poderosas histó­ rias que obtemos as nossas metáforas para aquilo que “nos une".

eles oferecem uma antevi­ são do coletivo com o qual não podem ser confundidos. fazer política é outra. são a fonte do que se entende por um zoom bem ordenado. a “economia simbólica dos campos” de Bourdieu ou a “modernidade reflexiva” de Beck são exce­ lentes narrativas. ou mesmo belos.25-1 Também aqui. Eles coletam. terminada a exibição do filme. Assim. para assumir as tarefas políticas de composição. o estudioso da ANT voluntariamente cego deve continuar formulando as mesmas questões mesquinhas e to ­ las. Uma das ambições da ANT é manter o anseio profético que sempre esteve associado às ciências sociais. eles nos preparam para a tarefa política que temos pela frente. portanto. classificam. 274 . sempre que uma hierarquia bem ordenada entre escalas foi encena­ da: “Em qual sala? Em qual panorama? Através de que meio? Com qual diretor de teatro? Quanto?” Locais complexos e ativos.imitar-se a ela poderla lambém signifi­ car que a tarefa política de reunir foi abandonada. na pior. á fragmentação e às pequenas narrativas tornam-se discutíveis quando se acrescentam panoramas à pai­ sagem: a multiplicidade não está em baixa. os “sistemas autopoiéticos” de Luhman. Por intermédio de seus numerosos efeitos especiais inteligentes. são falaciosas. A “sociedade sui generis ” de Durkheim. são um substituto muito pobre dessa antevisão. não importa quanto nos enganem. assomarão em cada canto. desde que nos preparem.e aquilo que ofe­ rece um antegozo para o mundo em que vivemos. os panoramas proporcionam uma antevisão profética do coletivo. Assistir aos filmes das teorias sociais nessas salas Omnimax é urna coisa. organizam. I. Como já podemos começar a compreender. há sempre um perigo em tomar o edifício desses panoramas pela tarefa política muito mais árdua de compor progressiva­ mente o mundo comum. Na melhor das hipóte­ ses. mas acompanhar as narrativas mestras seguramente de volta às salas onde elas são exibidas. se tomadas como uma descrição do que é o mundo comum. assim que esta segunda indagação for feita253 253 A critica das Narrativas Mestras e o recurso à multiplicidade. R ea g reg an d a o ¡o c ta l obviamente locais e comprimidos dentro de salas cegas . ordenam. emoldu­ ram.

localizar os lugares. 275 . ihuno Latour de modo obsessivo. a glo­ balização circula por trilhos minúsculos. Patterned Ground: Entanglements of Nature and Cul­ ture. como nm exercício. Se você está em dúvida. as in junções agora são “não salte” e “man­ tenha tudo liso!”. Como um caminhante poderia calcular de antemão o tempo que levará para alcançar um pico de montanha. Os três conselhos se reforçam entre sl. resultantes de alguma forma glorificada de provincianismo. a despeito de tanto estardalhaço. ver especialmente o trabalho de Stephan Harrison.:5‘ Depois de “ir devagar”. Você logo perceberá que. se as distâncias entre pontos de vista incomensuráveis não foram medidas antes?254 254 Sobre a localização do global. uma vez que so­ mente depois que se mediu a longa distância entre diferentes pontos do território é que os custos da plena transação para alcançá-los terão sido avaliados. tente. se as linhas isométricas não foram primeiro traçadas uma a uma? Como poderiamos descobrir a amplitude da tarefa política que temos pela frente. Steve Hide e Nigel Thrift (2004). os teatros. os palcos onde a “globalização” está sendo pintada.

seria bastante insensato perguntar “em que” super-mega-macroestrutura eles residem. Assim. Sempre que se mani­ festou a necessidade de fugir às interações locais. os mesmos efeitos de hierarquia e assimetria antes visí­ veis reaparecerão nas localidades justapostas. Não é preciso dizer que não há nenhum outro lugar onde reunir todos esses locais . os contextos são reunidos.pelo menos até agora. em con­ sequência da instalação de cabos e tubos específicos. em panoramas coerentes que acrescentam seus vários efeitos estruturais contraditórios aos locais a serem “contextu- alizados" e “estruturados”. propus uma lenta caminhada rumo aos muitos lugares em que o global. e em vez de arriscar um sallo mortale ao mundo que está no fundo do contexto social. o estrutural e o total estavam sendo arregimentados e se projetavam para fora. Como eles estão inseridos dentro dos muitos oiigópticos e panoramas.permitimos que eles localizas­ sem o global e o acompanhassem com segurança no interior dos circuitos onde agora se movimentam para a frente e para trás. dentro de recintos específicos. resumidos e transformados. como ônibus. também aqui não há nada de errado em empregar a palavra “contextos”. SEGUNDO MOVIMENTO: REDISTRIBUINDO O LOCAL Equipando as caixas tie ferramentas dos pesquisadores com diferen­ tes instrumentos (oiigópticos e panoramas). De tempos em tempos. Os veículos que transportam seus efeitos têm número de chapa eletreiros muito claros. do mesmo 277 . Se você fizer isso por tempo suficiente.

O reflexo dos cientistas sociais que os afastou das interações . No entanto. dispendiosa e de mão dupla . tudo se perdería se. intencionais e propositais. o escritório de recenseamento. para cima ou para baixo de alguns locais de atividade . Se encararmos o primeiro movimento como exigência para privilegiar "interações locais”. não ganharemos muita coisa. a sala de controle do Coman­ do Aéreo Estratégico. como acabamos de ver. está sem dúvida nenhuma “deslocada”. mas ainda é uma atitude válida. após refazer o antigo “contexto global”. o mapa da poluição atmos­ férica. Se alguém tentar fazer isso . o saguão de Wall Street. neste parágrafo . esse lugar se transformará num panorama. tivéssemos de voltar a este outro sítio preferido da ciência social: o encon­ tro direto de seres humanos individuais. Persiste o problema de entender o motivo de termos dito antes que as interações eram um ponto de partida pouco satisfatório devido ao número de outros ingredientes em cena. estabelecendo com eles uma relação contínua. Ao contrário. Reagregttnda o social modo que se tornou absolutamente irrelevante tentar descobrir. pouco se justifica que o regresso aos locais mire 278 . algum trabalho extra é necessário para que uma mónada reflita a presença vaga das outras. em outro circuito livremente conec­ tado aos demais. sobretudo quando a ação.talvez haja sido mal direcionado. a recontextualização de um contexto é só parte da tare­ fa de se retomar o hábito de caminhar a pé por um terreno plano. Não existe um lugar global e abrangente onde. após a te­ oria da relatividade. que não os "conhece” nem os "abriga”. o vento etérico “no qual” a Terra gira. Mas terá de adqui­ rir cada item da parafernália necessária para atingir os outros lugares que pretender arregimentar. Embora Leibniz nunca o espe­ cificasse. Apegar-se obstinadamente ao lema “Localizem o global” não ex­ plica o que venha a ser “local”. ótimo. por exemplo.. será em outro lugar. conforme tes­ temunhamos muitas vezes antes. Se a viagem dc mão única das interações ao contexto não leva a lugar nenhum. a Coalizão Cristã e as Nações Unidas possam ser reunidos e resumidos.como eu. Se um lugar quiser prevalecer sobre todos os outros para sempre.forçando-os a olhar para trás.se não desembolsar até o último centavo.

pudemos verificar de onde eles não vêm: não brotam de um 255 Impressiona muito ver que mesmo Garfinkel sustenta essa distinção entre formal e informal: “I)e acordo com o movimento mundial das ciências sociais e o acer­ vo de suas bibliografias. precisamos fazer exatamente a mesma pergunta de antes. 95. p. Quando os dois movimentos são executados ao mesmo tempo. assumindo uma forma nova e mais plau­ sível . o locai também carece.. realizados ambos os movimentos corretivos em sucessão.exceto quando levado de volta a seus finos conduites e a suas muitas etapas .o plenum. E acrescenta que a etnometodologia consiste “na evidência do contrário”. As pesquisas desse movimento são desmentidas pela suposta abundância de detalhes desespe­ radamente circunstanciais das atividades diárias . O motivo pelo qual é tão importante praticar essa operação simétri­ ca é que. Garfinkel. o pleni- lunium (sic).forma que nos permite viajar sem percalços. Bruno Latour um alvo mais acurado. a plenitude. e só então. poderão circular livremente sem estacar num local chamado “conlexlo” ou “interação”. outro fenômeno bem diverso aparece na ribalta: nossa atenção passa a concen- trar-se nos “conectores” que então. Longe de chegar finalmente ao terreno concreto de uma "hipóstase social” Leriamos apenas passado de um artefato a outro. forma que conduz ao trabalho posterior de reunião. A r t ic u l a d o r e s e l o c a l iz a d o r e s Dizer que toda interação local é “moldada” por vários elementos já em cena não nos informa nada a respeito da origem desses elementos. coleção e composição. o mundo social começa a transformar-se definitivamente. Etimomethodology’s Program. Assim.255 Se o global carece de existência concreta . Cqmo remédio. as ciências sociais elaboraram políticas e métodos de análise formal que redefiniram os detalhes concretos das atividades corriqueiras como detalhes dos instrumentos analíticos e dos métodos aptos a garantir seu uso”. 279 . o local é que deverá ser reconduzido e redistribuído. mas ao Inverso: de que m odo o próprio local égerado? Agora nâo é o global que será localizado. Ainda assim. não existe ordem na concretude das coisas.

esse resultado desimpede muito bem o caminho. Mas. outro feixe de conexões aparece. 256 Um bom exemplo da importância crucial de não lomar o tamanho relativo das enti­ dades como um dado nos é fornecido. se nenhum rótulo. E.256 A vigorosa ideia de que quase todos os ingredientes da situação “já " estão a postos. código de barras. 280 . tão diferentes das tratadas na seção precedente quanto as veias o são dos circuitos neurais. no caso da política Irancesa da água. Uma vez chega ndo lá. produzido por outrem graças a mudanças sutis ou extremas na maneira como novos tipos de ações não sociais são mobi­ lizados. há aí o que a indústria chama de uma excelente rastreabilidade entre os locais de produção de interações locais. Rationalité et politique dans la gestion de l'eau en France {1964-2(103). de que nós simplesmente “ocupamos" uma posição predeterminada “dentro” de uma ordem anterior deve-se sempre ao transporte de um local a outro num momento diferente. Os meandros pelos quais a maioria dos ingredientes da açào inte­ ragem são traçados pela multiplicação. La publicisation des eaux. Agora estamos livres para rastrear a existência de outra vereda mais contínua e empíricamente mais detectável para alcançar os lugares de onde parecem vir os ingredientes das intera­ ções.d contexto global. em Jean- . de um quadro abrangente. arregimentação.Pierre l e Rourhis (2004). só quando se infiltra em ações não sociais é que o social se torna visível. de uma estrutura profunda. certificado de origem ou logotipo pode nos ajudar a seguir os “próprios atores”. Paradoxalmente. implicação e con­ centração de atores não humanos. tão logo entram em cena agentes não humanos.o que fica­ rá reservado para mais tarde. desde que não olvidemos as lições da Parte 1 e façamos bom uso das fontes de incerteza. todo o problema do local e do global se torna inabordável. Outras ações continuam sendo realizadas a certa distância. só veríamos a som bra do corpo pol ítico . mas por novos tipos de mediadores. Rcagrcgamto o son. Caso o analista não possa exercer o di­ reito de acompanhar múltiplos tipos de ação. sem dúvida. Embora puramente negativo.

para uma interação. De fato. deslocamento e translação nunca é mais claro do que no papel dos objetos materiais . “infraestrutura” e “enquadramento”. 160). não mais representa para nós um obstáculo. pode ser um tanto traiçoeira por­ que é a manifestação de uma multiplicação maior ainda nos padrões que permitem 281 . sem modificar o quadro abrangente da teoria social. Essa heterogeneidade. porém. embora sejam constituidas de muitos tipos di­ ferentes de material. B ru n o LfUOur Esse processo de delegação. no jargão da informática. Sabemos que os objetos têm a estranha capaci­ dade de se fazer imediatamente compatíveis com as habilidades sociais em certos momentos decisivos e depois totalmente estranhos a qualquer repertório humano de ação. pois aprendemos como tornar comparáveis vários materiais que não o são. mas não o suficiente para romper a trama recém-tecida que usamos como nosso fio de Ariadne. da metalurgia e do cinema. Continuaremos a supor que abandonar uma cena local significa realmente encaixar-se num contexto ou que todos os ingredientes das interações locais precisam ser improvisados in loco por meio de habilidades sociais.caso entendamos “matéria” no sentido lato já atribuído à palavra (p.257258Mas. Quando falamos em “quadro abrangente” “pilares”. 258 A palavra "localizador". não lobrigaremos o que po­ dería conectar um lugar a outro segundo um padrão. tão logo ati­ vamos as metáforas técnicas em caráter definitivo. enquadrar. trazidas à cena por outros tantos atores não humanos. as conexões entre os locais se tornam visíveis. Por que não tomar então literalmente aquilo que significa. empregamos livremente termos técnicos tomados da arquitetura. estruturar ou localizar outra? Na medida em que usarmos essas metáforas de outra forma. Às pre­ senças transportadas de uns lugares para outros chamo de articuladores ou localizadoresd 58 257 Essa é urna das soluções encontradas pelos inleracionistas simbólicos para dar al­ gum espaço de manobra ao agente individual intencional. aquilo que foi designado pelo termo “interação local” é o conjunto de todas as outras interações locais distribuídas no tempo e no espaço. Esse vaivém dificulta a pesquisa.

você se sentaria na tribuna. estamos familiarizados com outras etapas ontológicas. por um mi nuto. abra a porta e as janelas para ver se consegue ensinar alguma coisa. tudo quanto lhe permite interagir com seus alunos sem ser interrompido o tempo todo pelo barulho da rua ou as turmas que aguardam no corredor a hora de entrar para outra aula. grosso modo.e quase tudo o que precisa fazer já está ali. ao pisar naquele cenário. é claro.la não tinha uma ideia precisa de que você proferiría ali uma palestra. rodeado por filas bem-organizadas de alunos que o ouvem atentamente. Sem dúvida.você genericamente. Hoje. para recorrer a um exemplo trivial. Tente imaginar. uma grande parte de você.e agora posso em ­ pregar o termo sem qualquer escrúpulo. fora desenhado para você . nenhum aspecto dessa estrutura . espaço ocupado etc. Não admira. você sinta que não fez tudo . o roteiro dessa cena: você seria ouvido ao falar. K eu g reg an d o o m a u l Se. você toma lugar numa sala de conferências. uma arquiteta cujo nome encontrei e cujas maquetes exami­ nei desenhou as especificações daquele anfiteatro centímetro por centím e­ tro. o fato de alguns elementos materiais do lugar nâo “determinarem” uma ação não nos autoriza a concluir que não fazem nada. Caso hesite quanto ao local ser aceito como mera variante de um esquema mais geral. pois nele não há nada oculto ou descontínuo . andar de cá para lá ou fingir ser um profes­ sor rebelde de maio de 1968 juntando as cadeiras para formar um círculo menos “autoritário” . ou seja. O espaço. 282 . Abordaremos o problema da padronização no próximo capítulo.e nada impedirá os ouvintes de cair no sono tão logo você abra a boca. quinze anos antes e a duzentos quilômetros de distância. além dos dois extremos pueris do ser e do nada. mas mesmo assim ela antecipou.“determina” o que você dirá ou mesmo onde irá se sentar. deviam ser levados em conta. Você talvez prefira ficar de pé. F. eu só precisarei de meio dia de trabalho nos arquivos da uni­ versidade para descobrir que. Entretanto. pois. que quinze anos mais tarde. você ficaria de frente para um grupo de alunos cujo número máximo. Se duvidar do poder transportador de todos esses humildes mediadores em fazer daquele um local.

283 . bem ao contrário. aço. especificações. e aquilo que você e seus alunos estiverem fazendo agora localmente.técnicas gráficas e. um após outro. existem padrões estruturantes circulando por canais facilmente materializados por técni­ cas .259 259 Koolhas e Mau. Em outras palavras. graças ao esforço de inúmeros operários e artesãos que já abandonaram a cena deixando objetos dar sequência às suas ações in absentia . miríadcs de pessoas. Os locais são situados . como ponto final de um grande número de ações que enxameiam em sua direção. O resultado é inevitável: se você não estiver totalmente “enquadrado” por outras ações praticadas silenciosamente no palco. tecnologias intelectuais tão im­ portantes quanto engrenagens. por trás das portas. Bruna Latuitr a este ponto. Medium. o que aconteceria se a intersubjetividade fosse obtida definitivamente graças à remoção. Extra-Large. deve-se juntar a interobjetividade. Longe de propiciar uma autoctonía primordial “muito mais concreta” do que os contextos abstratos. face a face. Large. mais geralmente. num lugar diferente . concreto. madeira. e graças à ativi­ dade de alunos cujas façanhas generosas podem ser homenageadas com placas de bronze. Embora não exista nenhuma “estrutura oculta". num outro tempo. Esse sítio local foi feito para ser um lugar. alavancas e ligações químicas. é completamente fácil estabelecer algumas cone­ xões contínuas. verniz e tinta. Small. precisam assumir a responsabilidade de manter você e seus alu nos “seguros” ali den­ tro. de Iodos os traços de interobjetividade ? Em muitos casos. experimente dar sua palestra no meio de um espetáculo de música repleto de jovens barulhentos e apresentadores loquazes anuncian­ do música tecno. por outro locus. as interações diretas devem ser encaradas.’5y E para que permaneçam assim. nem você nem seus alunos conseguirão se concentrar por um instante sequer naquilo que acontecer “localmente”. graças à hoje silenciosa mediação de desenhos. abertas ao escrutínio. À relação intersubjetiva entre você e seus alunos. Os locais são localizados. entre os sonhos e desígnios de al­ guém mais .

284 . mas foi difícil registrá-la porque a circulação do social se confundia com a emergência de uma sociedade - ela própria misturada ao corpo político.:6IJ Não quer dizer que esse sítio longínquo faça parte de algum contexto misterioso. de outro lugar e de outra época. mas plenamente rastreáveis. Ainda mais que depois do primeiro movimento corretivo. que estudavam símios de longe e na abenço­ ada segurança de seus jipes.aplican­ do a babuínos os valores da sociologia humana. ainda está agindo por meio de conexões indiretas. “no meio das coisas”.inclusive. Antigos observadores. Esta é provavelmente a primeira intuição das ciências sociais. é claro. aquela que nos fez exclamar que o social era um fenômeno objetivo. o estúdio da arquiteta que escolhi como origem provisória em meu exemplo. os trajetos. e sim do número e qualidades dos expedidores e articuladores. a intuição estava certa. Que a escala não depende do tamanho absoluto.o estúdio da arquiteta e a sala de aula atual . entre os dois lugares . Lugares não são bons pontos de partida. mas situaram encontros agonísticos "dentro” de estruturas ausentes .. eu aprendí anos atrás. as mudanças e a translação en ire lugares. Ele apenas revela. ela era uma jovem pesquisadora que conseguira acostumar macacos selvagens à sua presença imediata e cons­ tante. já que todos eles estão enquadrados e localiza­ dos por outros . não os lugares em si. ubíquo e sui generis. outro circuito pelo qual massas de enti­ dades começam a viajar. in media res. Dizia-se que as socieda-260 260 Havendo arquivos bem-administrados. a paisagem “onde” padrões e agen­ tes de todos os tipos e cores circulam vem depois. Como sempre. quando tive a oportunidade de acompanhar Shirley Strum e seus babuínos. Agora entendemos por que foi preciso começar. A circulação vem primeiro. transcendente. Quan­ do a encontrei na primeira “conferência sobre babuínos” montada num luxuoso castelo perto de Nova York. agora encontramos em primeiro plano os veículos. Os arqueólogos precisam trabalhar mais para restaurar conexões. segundo a famosa expressão de Horácio. notaram vários aspectos interessantes. R e fr e g a n d o n saciai pois esta deslocou ações a tal ponto que alguém.

Ver Richard Byrne e Andrew Whiten (1988). Agonistic Dominance among Batmans.262263E ambos desco­ briam aos poucos. em verdade. aos quais retirava gentilmente de seu eterno papel de “idiotas culturais” para que. 262 Trala-se do dramático episodio narrado em Shirley Strum (1987). que as fêmeas. os babuínos são espertos. Strum e Fedigan. uma ordem de dominação bastante sólida até então invisível para os observadores (na maioria homens) dis­ tanciados demais para detectar esses gestos sutis. Aqueles pequenos bichos peludos faziam tanto 261 Shirley Strum (1982). Machiavel­ lian Intelligence: Social Expertise and the Evolution o f Intelects in Monkeys. Naissance d ’une Théorie Éthologique. isst' se tornou uma espécie de padrão no caso de muitos outros animais. socialmente espertos. Primate Encounters. pudessem desempenhar novas tarefas reflexivas de mem­ bros competentes. enfim.2®3 Se houvesse um erro em teoria social a não ser cometido seria agir como se os babuínos tivessem encontrado um papel dentro de uma estru­ tura preexistente. Bruno Latour des animais possuíam. Almost Human: A Journey into the World o f Baboons.261 Em suma. Strum procurou demonstrar que a “estrutura” de dominação não é algo que os babuínos machos tentam descobrir. Durante a conferência. 69. e não os machos. Assim. e Vinciane Despret (2002). após uma série de tentativas. Vinciane Despret (1996). Quand le Loup Habitera avec l’A gneau. mas uma questão que todos os animais levan­ tam testando-se uns aos outros por intermédio de encontros agonísticos cuidadosamente conduzidos. tanto Strum quanto os jovens machos deslocando-se em bandos suscitavam as mesmas questões básicas sobre o que significa gerar efeitos sociais estruturardes. um rígido padrão de dominação “no qual3’ os machos deviam entrar. p. em interações diárias. teciam. an Alternative View. Apes and /fumons. ver Insert. 263 Desde seus primeiros trabalhos. Numa palavra. Mas seria também enganoso supor que apenas intera­ gem uns com os outros. por exemplo. 285 . eu acompanhei por aquela bela paisagem queniana uma espécie de prímato- logista no estilo de Garfinkel enquanto ela procurava entender babuínos.

A per­ gunta. lentamente transformados durante anos de cons­ tante sedução. Superficialmente. tabelas estatísticas. com tecnologias materiais e intelectuais. Faria o mesmo trabalho de preservar uma ordem social. isto é. é tentadora: qual a diferença entre macacos e homens. notava-se uma clara diferença de equipamento. realizar e gerar os ingredientes da vida social era feita unicamente com “ferramentas sociais”. instinto e reflexão. embora os machos arreganhem seus formidáveis caninos e as fêmeas exibam seus irresistíveis (para os ma­ chos) e enormes traseiros. A mesma tarefa básica de testar. impres­ sões digitais e recursos visuais de todos os tipos. cadernos de notas. Ou melhor. então. esses precisariam ser “inscritos" em seus próprios corpos por seus próprios cor­ pos. Em certo sentido. mas os babuínos só se servem de suas “ferramentas sociais”. O primatologista sim. quem deslocava quem. a despeito do título de seu livro. Os primatas tinham de decifrar o significado das interações usando apenas as próprias interações como ferramentas: tinham de desco­ brir quem era amigo ou inimigo. poderiamos dizer que a diferença óbvia reside na tecnologia. os babuínos estavam se parecendo perigosamente com os homens. quem mandava em quem e quem estava disposto a entrar numa coalizão usando o recurso básico da educação e da experiência. Os babuínos não estão de modo algum privados de ferra­ mentas estabilizantes. Ainda assim. se já não existe um abismo entre natureza e cultura. Caso mantivessem registros. os ban­ dos de babuínos podem de fato propiciar o experimento natural ideal para 286 . Raagregmdn o socml trabalho social quanto seus observadores. é que devia recorrer a nomes escritos. os babuínos têm de preservar sua força graças a muitas outras habilidades sociais. documentos. tudo dependia do sentido dessa palavrinha “quase”. mas com recursos muito diferentes. de seus corpos. além disso. O problema é que. aprendizado e vida comunitária. vivendo num mundo igualmen­ te complexo. para me con­ siderar “quase” um babuíno. amostras de sangue. “idiotas culturais” e agentes intencionais competentes? Na descrição de Strum. enquanto o obser­ vador humano estava equipado. mas eu não me sentia preparado. Os chimpanzés dispõem de algumas ferramentas.

Os modos pelos quais os babuínos reparam a cada manhã sua ordem social em rápida de­ cadência permanecem visíveis em virtude das poucas ferramentas de que dispõem. para determinar constantemente quem está liderando quem em incursões de pilhagem. Brutto Latour se descobrir o que acontece quando as conexões sociais (kam limitadas estritamente a habilidades sociais. In Quest of the Sacred Baboon. Em ambos os casos a ação é deslocada. ao passo que nós usamos interações um pouco menos sociais de uma maneira menos complexa. É essa interfe- 2M Para a diferença entre complicado e complexo. Os babuínos estreitam o social graças a interações sociais mais complexas. a trajetória de amizades e coalizões. para hu­ manos e macacos. ver Strum e Latour. rcencaminhada e redistribuída. Eles não podem descansar nem se influenciar mutuamente a distância.164 Todavia. a história de cada interação. nenhuma tecnologia está à disposição dos participantes para “construírem” a "superestrutura” de sua “sociedade”. ver Kam mer. sexo. Uma das conclusões que poderiamos extrair é que a interação direta não é um ponto de partida plausível para rastrear conexões sociais. 287 . pode haver outro modo de usar o maravilhoso exemplo dos primatas não humanos como uma espécie de ponto de partida teórico. The Meanings of Social: from Baboons to Hwnnns. Também os babuínos em­ pregam algum tipo de “tecnologia intelectual”: seus renques de abrigos. recorrem ao meio altamente complexo das coalizões intersubjetivas. ainda mais sutis. Para a definição de ferramentas sociais. ou seja. para não dizer que precisa repousar em sucessivas camadas superpostas de mediação. Nesse caso. Como esses termos de arquitetura são completamente metafóricos tanto para des quanto para o observador. composta de mais cam adas. Quando o fazem. difratada. para tixar suas hierar­ quias frágeis. as varia­ ções intrínsecas de tamanho. porque em ambos os casos eles sofrem a interferência de outras fontes de ação. os babuínos pre­ cisam despender uma quantidade aparentemente desordenada de tempo para reparar o “edifício” balouçante da sociedade. traços anatômicos etc. mas que pode ser niais complicada.

para produzir uma 265 A abordagem da tecnologia como segunda natureza é essencial para André Le- roi-Gourhan (1993). 90). se assim me for lícito dizer.A U S ÍV E L DA S IN T E R A Ç Õ E S FACE A PACE Por causa do forte sentimento de que as interações são “mais con­ cretas”. grupos . num grupo de babuí­ nos. A diferença já não é entre babuínos “simples” e hu­ manos altamente “complexos”. a delegação e a articulação são mais visíveis e devenant nos oferecer. The Myth o f the Machine: Technics and Human Development. Embora os caracteres individualizados costumem merecer um pouco mais de plausibilidade em virtude de nosso hábito de 1er histórias. para o leitor.265*Assim como o contexto. expedidores e “deslocadores” que tornam as interações locais ainda menos locais. em vez de interações diretas. e Tom Hughes (2004). o mesmo ac- tante pode receber diversas figurações (ver p.e humanos complicados que se transformaram em entidades mais numero­ sas. mas feito de mais media­ dores. a expedição.paisagem. tão exigente e tão sobrecarregado quanto o constituído por recursos e predadores. talvez. algumas com a grande vantagem de permanecer no lugar e simplificar. ao rever a segunda fonte de incerteza. Como vimos. Human Built World: How to Think about Technology and Culture. pelo menos localmente. as interações diretas são um pon­ to de partida inviável. um ambiente tão seletivo. Lewis Muniord (1967). um excelente ponto de partida. Gesture ami Speech. predadores. Um babuíno sem esperteza social é imediatamente assinalado como aquele que não consegue encontrar ali­ mento nem acasalar-se. a interferência. Nos humanos. mais que nos macacos. eles exigem exatamente o mesmo esforço semiótico. 288 . Os humanos vivem num ambiente tão sobrecarre­ gado. fosse mais fácil livrar-se do global que do local. mas sim entre babuinos complexos que se desdobraram em inúmeras entidades . fit'iiflrtKimiin a want réncia constante de ações alheias que torna a vida. O LO CU S IM P I. a tarefa da organização. exigente e seletivo quanto o dos babuínos.

“ 7 E isso não seria um exercício ocioso. Aircraft Stories. contexto ou sociedade. / Ionio Hierarchicus: Vie Caste System iiini Its Implications. a cognição está de tal forma distribuida que a ideia 289 . Naturels Metropolis. de novo. mas é bom ver a Sequência J de l.267 267 Sigo aqui um exemplo pedagógico simples. Esse é «tatamente o tipo de mapa que Cro- non conseguiu desenhar com seu magistral estudo de Chicago. No entanto. Com efeito. Bruno Latour personagem. com os aviões. Assim. que o utilizado para produzir um conceito ou uma empre­ sa. 266 A iniplausibilidade do indivíduo seria sem dúvida muito mais fácil dc detectar. contrariamente a muitas expectativas. não há motivo para esquecermos que nosso próprio quadro de referên­ cia relativístico pode permanecer indiferente à escala. ein Law. em William Cronon (1991). ao menos no Ocidente. the Invisible City. Aqui. as lições da ANT serão negativas. Ver também o que fez Law.atour e Hennanl.m Desse modo. Esse entrincheiramento do individuo é mais extremo na mito­ logia de escolha racional. Por isso elaborei uma lista das interações diretas que. por exemplo. e que Hutchins moslrou em scu estudo da navegação marítima. pois procuramos desimpedir o cam inho. nenhuma interação pode ser considerada isotópica. que inclui uma psicologia e urna cognição estabilizadas. talvez fosse prudente fazer mais ginástica corretiva para redistribuir o local do que para localizar o global. que o ego tem de permanecer inlato . embora criticando abstrações como estrutura. na índia. algo continua verdadeiro: a fé na existência indiscutível de individuos está tão bem alicerçada. Chicago ami the Great West. digamos. Aqui­ lo que atua ao mesmo tempo em qualquer ponto provém de vários outros lugares. Paris. o zelador que cuida do edifício etc. De início. que as pessoas aceitam sem problemas. se devenios Hear atentos a pequenas diferenças na figuração. a fim de que o social seja desdobrado o suficiente para o re­ montarmos novamente. Se qui­ séssemos projetar num mapa geográfico comum as conexões estabelecidas entre unia sala de conferências e todos os lugares que o afetam ao mesmo tempo. Ver Louis Dumont (1982). a floresta de onde veio a madeira da mesa. o escritório que planejou as salas de aula. de diversos materiais distantes. de muitos atores remotos. teríamos de traçar setas e mais setas para incluir. não funcionam. a gráfica responsável pelo folheio que nos permitiu encontrar o recinto.

Culture uml Time with Bruno Latour. e o teclado em que ele digitou sua palestra acaba de chegar da Apple. a ideia de uma interação sincrónica em que todos os ingredientes tenham a mesma ida­ de e o mesmo lugar não faz sentido . enquanto os neurônios em sua cabeça. A conferencista podería imaginar que é o centro das atenções. A ação sempre foi desempenhada pela transferência do peso da conexão para entidades que duram mais ou menos. algumas. Em terceiro lugar. as interações não são sinóticas. Quanto às palavras empregadas por ele. o conjunto de padrões que o tornaram um local adequado . mas os voos de retórica remontam a Cícero. dando-lhe forma. fabricado há cinco. o tecido da roupa do professor. Em segundo lugar. nenhuma interação é sincrónica. penetraram no inglês há quatro séculos e a gramática pode ser ainda mais antiga. ReagregtUitio o social pois esses locais afastados de algum modo anteciparam e preformataram o recinto transportando. 268 Ver Michel Serres ( 199 5 ). Pouquíssimos participantes num dado curso de ação são simultaneamente visíveis num determinado ponto. faz alguma coisa: é um dos ingredientes que permite o enquadramento da interação.nem sequer para babuínos. acionados há uma fração de segundo (com a parte do cérebro especializada na fala evoluindo há uns bons cem mil anos ou talvez menos. O tempo é múltiplo.apenas não há meio de calcular seu número. A mesa pode ter sido feita de uma árvore semeada na década de 50 e cortada há dois anos. mas isso não significa que outros não estejam agindo também . A mesa de madeira não era parte da palestra antes da conferencista aponta-la como exemplo de design e. enquanto os metais duros que tornaram possível a coordenação de alguns de seus circuitos durarão tanto quanto o universo. já que essa questão é muito controvertida entre os paleontólogos).e ainda o administram. Conversations on Science. no entanto.268 Por isso. por diferentes meios. 290 . Assim foi com o folheto de um indivíduo fazendo cálculos é controversa. de ori­ gem estrangeira. a metáfora que ele escolheu tem apenas seis anos.

aferrados misteriosamente a seus hábitos. Outros. Uni no Latour que anunciava a palestra. Em quarto lugar. mesmo sem citar o tema. não importa quantas vezes calculemos. Contudo. não subjetivos e não locais que se juntam para levar a cabo a ação e conduzi-la ao longo de cariais nada semelhantes a um vinculo social. para a mente de alunos meio sonolentos? O curioso em qualquer interação é exatamente o oposto daquilo que sociólogos apegados a “locais” acham tão importante para fi­ nalmente se promoverem encontros diretos. de alguns técnicos encarregados da manutenção dos aparelhos no cafnpus. ainda. quinze anos atrás. em especial. embora desempenhem seu papel de intermediários eficientes. as interações não são isobáricas . outros agentes se tornarão visíveis enquanto outros se tornarão inoperantes. por se­ rem muitos ou por fazerem parte de mecanismos complicados que neces­ sariamente se ocultam. embora estejam todos associados. Quantas entidades distintas no microfone? No corpo? Na orga­ nização da escola? Nunca chegaremos ao mesmo cómputo. quantos ingredien­ tes diversos e sucessivos são necessários para que a escrita num teclado se torne digitalizada e transformada de novo em sinal analítico antes de transitar. em algum tipo de onda cerebral lenta. Quantas mudanças nas ações tere­ mos de detectar para ir do estúdio do arquiteto. Já vimos isso: os encarregados de levar adiante a ação não apresentam a mesma qualidade material ao longo de todo o percurso. se encalacram em hardwares só conhecidos de engenheiros lá longe na Ásia e. as interações não são homogêneas. pois. se quiséssemos contar todos os ingredientes da cena não o conseguiriamos. Importantes. são as di­ ferentes pressões exercidas por mediadores e intermediários . Alguns partici­ pantes pressionam fortemente. porque não é possível assinalá-los de uma vez. à sala de conferências? Quando slides são projetados na tela.estes acres­ . informando horário e local.se é que pos­ so tomar de empréstimo uma metáfora aos gráficos meteorológicos que analisamos para detectar baixas pressões ou anticiclones. Em quinto lugar. ou seja. a toda hora. enquanto outros são rotineiros. muito vagamente. pedindo para ser ouvidos e considerados. a turba de participan­ tes não humanos.

seria um negócio simples se apenas devéssemos localizar o global. Quer dizer que um número fabuloso de participantes atua ao mesmo tempo nelas. A exceção. ReagregaHíta o social centando. ela se torna relevante só quando o terreno firme do local se desvanece. as ações são afetadas por entidades heterogêneas que não têm a mesma presença local. Nessa forma abreviada de falar. Não é de admirar que as interações dão ao cientista social a nítida im­ pressão de que se multiplicam por todos os lados. por mais solene ou controlado que seja. corre o risco de se tornar imprevisível. aqueles podendo de repente bifurcá-lo de maneiras inesperadas. até o professor! Caso um dos intermediários se transforme num mediador. Em qualquer ponto. não se originam na mesma época. durante a palestra. A relatividade. o cenário todo. bem como a duração de suas in ter-relações. é perfeita- mente lícito falar em “estrutura” e “interação direta”. Uma “interação” é um lugar tão perfeitamente enquadrado por localizadores no papel de intermediários que pode ser visto. 292 . o microfone. o alto-falante. como sabemos. Na maioria das situações. nas ciências sociais. E se multiplicam mesmo! Isso não significa que um contexto amplo e sólido as retenha firmemente por intermédio de uma força estrutural oculta. não são ¡mediatamente visíveis e não as pressionam com o mesmo peso. deslocando suas fron­ teiras de todos os modos possíveis. ela se tornará um ator-rede. como “de ocorrência local”. é se voltamos à conversa fiada e renunciamos à árdua tarefa de acompanhar todas as interferências. A palavra “interação” não foi uma má escolha. uma “estrutura” é simplesmente um ator-rede no qual há pouca informação ou cujos parti­ cipantes são tão silenciosos que nenhuma informação nova é exigida. Mas isto significa que estamos lidando com mais situações rotineiras e usando um quadro de referência pré-relativista. o que se subestimou foram o número e o tipo de “ações”. alguma coisa pode se quebrar. claro. redistribuindo-as e tornando impossível começar no que possa ser chamado de “local". Neste caso. Estendamos uma inter-ação e. com certeza. previsibilidade ao conjunto. sem muito problema.

articuladores . 293 .relativo à meticulosldade com que foi desenhado e ainda é mantido. não quer dizer que sejamos realmente pequenos partícipes “dentro” de uma estrutura. entre os profundos corredores cavados no meio dos perfis maciços de alguns arranha-céus? Sentir-se pequeno depende cm larga medida do modo como muitas outras pessoas. com o maior escrúpulo. porém. um “meio-ter­ mo" mais sutil entre “ator” e “sistema”. Isso. feita ao longo da história das ciências sociais. Semelhantes projetos fazem quase tanto sentido quanto os dos compiladores da Renascença que tentavam. somos tentados a suspeitar dos esforços feitos para enraizar a so- ciologia em interações intersubjetivas. expedidores. combinar as datas da mitologia grega com as da Bíblia. de firmar algum tipo de compromisso entre o chamado contexto global e a chamada interação. perceberemos de onde vem a impressão correta de se estar “enquadra­ do”. é óbvio que a noção de interação local tem tão pouca realidade quanto a estrutura global. The Logic o f Social Action: An Introduction to Sociologi­ cal Analysis. O tamanho. Entretanto. com efeito. digamos. é relativo . Cada local é localizado por uni dilúvio de localizadores. pelas ruas de Nova York. O papel da interob- jetividade consiste em introduzir nas interações locais um deslocamento fundamental.a palavra não importa. Bruni) Latour Percorrendo a lista de traços que a interação direta talvez não possa oferecer. distribuídas no tempo e no espaço.269 269 ii por isso que. o individualismo metodológico parece uma má escolha para começar. O ponto mediano entre duas mitologias é também uma mitologia. prepararam o terreno para o visitante anônimo passear agora. desviadores.261* Bem ao contrário. tendo em mira sobretudo razões metodológicas. Em retrospecto. por exemplo. cálculos individuais ou intenciona* lidade pessoal. a despeito da tentativa em Raymond Boudon ( 19£t I ). de negociar. esse re­ sultado torna ainda mais absurda a tentativa. talvez. se seguirmos os traços deixados por atores não huma­ nos. Qual seria o significado de escala relativa sem interobjetivi- dade? Como descobririamos que somos pequenos partícipes num esque­ ma de coisas “mais amplo” se não perambulássemos.

levam a uma estética. interrompendo desde logo seus itinerários frágeis e às vezes bizarros. a comprida e pujante som­ bra projetada pelas Torres Gêmeas nas ruas estreitas desapareceu no espa­ ço de poucas horas. Se tentarmos usar a interação ou a estrutura local. principalmente. pior o resultado.e quanto mais engenhoso o compromisso. pulverizando edificios de tal maneira que. Na versão costumeira da teoria social. a sociedade é forte e nada pode destruí-la porque ela tem caráter su igene­ ris-. C o n exõ es Nenhum lugar predomina o bastante para ser global. Rea¡¡rtgariíio p social Quantas vezes precisaremos ser lembrados dessa penosa lição? A prova experimental mais triste foi dada há pouco quando um grupo de fanáti­ cos. zelar por ela.ou quando não há ou­ tra forma de construir algo maior. desfizeram o que muitos outros construíram com tanto zelo. desenhados com réguas sociais diferentes. equipados apenas com cortadores de pape!. pois desse modo apenas ampliaríamos a perspectiva de dois lugares inexistentes.o global e o local . a fim de resistir à tentação de separar em dois compartimentos . “repro­ duzir” e “refletir” a onipresente “estrutura social" . Depois de um acontecimento desses. embora a escuridão da morte permaneça. ou algum compromisso entre ambas. firmá-la e. Estes dois mapas do social.aquilo que os atores fazem. Muito ao contrário. parece tão fraca que é preciso edificá-la. procuro ser aqui o mais prudente possível e fixar tantos grampos quanto possa. ética e política completa­ mente diversas . a não ser por meio da arquitetura e da tecnologia tomadas ao pé da letra. nem é sufi­ cientemente autônomo para ser local.além de gerar relatos que em nada se parecem. na outra. começaremos a 294 . Se inserirmos um número suficiente de grampos. não ficaríamos extraordinariamente sensíveis à fragilidade da escala? Elaborar uma escala relativa tem significado completamente diverso quando a tomamos por uma metáfora livre a fim de “expressar”. repará-la. não conseguiremos traçar conexões sociais .

então a paisagem antiga se aplaina definitivamente. tal como no espaço bidimensional imagi­ nado por Edwin Abbott em Flatland. nem mesmo se supunha que circulas­ sem. difíceis de detectar no mapa são os lugares míticos do local e do global. Em verdade. o número de traços aumenta tanto que só um cego os ignoraria. percorrendo-os.fazendo. digamos. Os lugares já não diferem em forma ou tamanho. Se levarmos a sério essas duas formas “em rede”. planos. Onde terão estado essas utopias encantadas? O motivo pelo qual parece tão importante aprender a navegar nesse espaço achatado é que. Oruno Latour pintar outra paisagem através Jo s antigos caminhos que levavam do local ao global e vice-versa. transversal mente como se.em nossa grade de projeção. O mais impressionante nessa mudança de topografia é o fato de tan to o antigo global quanto o antigo local terem assumido agora o mesmo formato de estrela . um rio que corria para oeste seguir o trajeto norte-sul. pois os dois formatos em estrela não podem se sobrepor dentro de uma estrutura tridimensional. graças a uma estranha operação cartográfica. no fim. lo­ calizar o global e redirecionar o local não parece coisa muito difícil. Ficam lado a lado. vínculos etc. em segundo. tinham de ser guardados no santuário interior do sujeito por causa de sua 295 . apenas na direção do movimento para diante e para trás. mas formadores locais também se parecem com as inúmeras encruzilhadas para onde se dirigem padrões e formatos. formatos. bem como na na­ tureza. padrões. Agora. lugares e formas. Movimentos e deslocamentos vêm em primeiro lugar. como veremos. vestígios. antes. por assim dizer. bens. não “na reali­ dade”. Talvez seja possível vislumbrar fenômenos bem mais sutis que. com cada movimento forçando o analista a seguir pelas bordas sem saltar nem se deter. transformássemos aos poucos o mapa hidrológico de algumas represas em outro . é claro. Lugares formadores de contexto passam a lembrar as interseções de diversos trajetos de documentos que vão e vêm. Desse modo. conseguimos perceber muitas outras entidades cujo deslocamento mal era visível antes. quando passamos a focalizar melhor aquilo que circula. Após alguns minutos de acomodação. daquilo que é transportado: informação.

se perdeu tão logo os sociólogos do social substituíram essa saudável intuição pelo ato oculto de uma estrutura in­ visível . Tal sentimento. você cer­ tamente começará a resmungar após mexer durante horas em sua nova câmera digital e de modo algum se sentirá uma delas. que não deixam pistas. sempre há uma enorme distância entre os atores genéricos prefigurados por aqueles movimentos e o curso de ação a cargo de participantes individualizados plenamente envolvidos. Um agente humano vê sentido num mundo de objetos que em si mesmos não têm sentido algum. The Psychology o f Everyday Things.significando que ninguém em particular praticava qualquer ação! Perdeu-se também quando os interacionistas recuperaram o ator intencio­ nal e personalizado. na ramagem espessa da sociologia do social. Todos passamos por essa experiência. seca e poei­ renta revela os traços deixados por todos os animais que a percorreram. ainda que cuidadosamente redigido. podemos detectar entidades móveis. Medindo a distân­ cia entre dar instruções a ninguém em especial e a você próprio. Capítulo 6. e Garfinkel. você se tornou penosamente cônscio daquilo que Don Norman chamou de “abis­ mo de execução”. Ethnomethodology's Program. Aqui. é claro. 270 Ver Norman.270 Seria tolo ignorar o que pareciam interações diretas “concretas” e em “escala real”. Não importa quantos quadros se projetem dos localizadores para formar um cenário. não importa quan­ tos documentos transitem entre esse cenário e os oligópticos. Todavia. precisamos escolher de novo entre significado sem objeto e objeti­ vidade sem significado. bem como o sentimento de que indivíduos executavam a ação. Assim como uma paisagem plana. 296 . Não importa para quantas pessoas genéricas ele tenha sido preparado. sem no entanto romper o quadro “no qual” os mem­ bros supostamente davam asas à sua inteligência. essa vigorosa ideia se perdería também. ao tentar entender um manual do usuário. Especialmente importante é aquilo que permite aos atores interpre­ tarem o cenário onde estão inseridos. Reugrcgandct o sncinl aparente insignificância.

devemos acrescentar alguma coisa . incapazes de interpretar o cenário: tâo alheios a seu significado quanto um gato rondando pelas ruínas da Acropole. Voltemos ao exemplo singelo da sala de conferências. Se a moldagem do social a partir “de fora” não for suficiente para completar a ação. procurando descrever substancial ou positivamente o que vem a ser uma paisagem. a “inten- cionalidade” e a “interioridade”. esta seria a estratégia mais segura. Media and Politics. de Bourdieu: os atores podem juslificar-se muito bem e nem sempre escondem seus motivos reais. mesmo dentro da mais bem elaborada das estruturas. Ver Luc Bollanski (1999). mais fácil e mais razoável. Por melhor que haja sido planejada. graças a técnicas materiais ou intelectuais. apenas buscando meios de não bloquear sua descrição. Distant Suffering: Morality. repito. Para preencher o “abismo de execução”. porém. trabalhar um bocado. já teve o desgosto de perceber: não estou atrás de coisas razoáveis! Conduzo aqui um experimento mental que só valerá a pena se levado às últimas consequências: até onde sustentaremos um ponto de vista que se abstém desde sempre do repertório local/global e ator/sistema? Resistiremos a essa tentação? Não estou.271 Por isso temos de nos mostrar sensíveis a traços menos nítidos que os vistos até agora. caso queiramos seguir até o fim o "acha- tamento” da paisagem: saltar em busca de outro “nível” ou outro “tipo” de recurso. ou ao menos apelar para algum tipo dc “equipamento mental”. Bruno Latour com a mesma rapidez. Assim. Nessa altura. No entanto. Sem a instalação de alguns equipa­ mentos.mas o quê e como? Já sabemos o que não convém fazer. para saber o que hão de fazer lá. se os atores fossem simplesmente localizados pela ação de outros lugares. O leitor. 297 . sem po­ der eles próprios interpretar e compreender as proposições apresentadas pelo cenário. professores e oradores ainda precisam. os atores humanos permaneceríam. o positi- 271 Mudança introduzida por Bollanski e Thévenol na teoria do campo. o melhor é quase sempre mudar de atitude e introduzir abruptamente a “subjetividade”. então os demais recursos devem vir "de dentro” ou do grupo humano localmente reunido.

Thèse et Prothèse. subjetividade. enquanto os sociólogos estruturais se transferem para a sociologia interpretativa. Cussins. com “trânsito livre” no interior de um sistema maior. justificações. seria reativada. Sem diívida. Ontological Choreography. mas inevitável. a trilha contínua que tento seguir desde o começo seria subita­ mente interrompida. sucede às vezes que não aparece nada na tela. face au Handicap mostraram. Le Processus tl'Habilitation cnn nue Fabrication de la Per­ sonne: l'Association Française contre les Myopathies. e Myriam Winance (2001 ). se baixasse a versão ANT 6.o qual. os dois países míticos do local e do global seriam desenhados novamente. Vie Body Multiple. Mas se esse salto no método ocorresse. 298 .indo u soctul visnio cede o passo à hermenéutica e os sociólogos passam o bastão aos psicólogos ou aos cientistas cognitivos. temos de continuar vagando nas trevas em busca de outro grampo. Assim. 273 Às vezes penso que o leitor se queixaria bem menos de meus escritos. instalado em seu sistema. em bits [pedaçosj e bytes. inconscientes e personalidades também circulam ?2722 73 Decerto. literalmente. qual o equipamento necessário para alguém se tornar um sujeito e quãu frágil ele é. Podem ser chamados de subjetivadores. em vez de se aferrar ao beta. mas logo uma mensagem amistosa sugere que talvez “não tenha feito a conexão certa” e aconselha-o a “baixar” um programa . cada um à sua maneira.5. Não se imagina um humano “por atacado” munido 272 Mui. personalizadores ou individualizadores. e sim. mas eu prefiro o termo mais neutro conexão. tomando essa maravilhosa me­ táfora de nossa nova vida na Internet. pessoalidade e interio- ridade? Se pudemos mostrar que lugares badalados como o global e o local são constituídos de entidades circulantes. o planisferio seria retalhado de novo. novos tipos de grampos se apresentam para facilitar nossa pesquisa. tão logo suscitamos essa pergunta bizarra. permitirá ativar o que você não podia ver antes. por que não postular que subjeti­ vidades. Quando você acessa um site no ci­ berespaço. aterrados à nossa obsessão míope pela ANT. a cena de um ator individual subjetivo. e o castelo de Merlim aparecería outra vez. a pergunta que faremos é: onde estão os outros veículos transportadores de individualidade. Ratgreg.’7' A metáfora da conexão é atraente porque a competência não vem inteira.

Para o acompanhamento de um novo quantum. Nos tempos antigos. o resultado provisório de uma rede completa 274 Essa multiplicidade de conexões é claramente visível na lista de regimes de ação de 'Ihévenot. fatos e fantasias. Ver Thévenot. apresentando-se como um humano no palco. Hoje dispomos de ferramentas sem ¡quantitativas para seguir ria m esma maneira rumores. fazendo cálculos racionais. às vezes mesmo uma etiqueta de preço. um circuito. opiniões. Les méthodes d'analyse des grands nombres. tão logo se pôde desmontá-la camada por camada. Which Road to Follow? 275 A maciça digitalização de vários tipos de documentos talvez propicie a Tarde uma vingança atrasada. é preciso compô-los com várias camadas sucessivas. As poucas estatísticas disponíveis no final do século 19 não va­ lidam sua sugerida exigência de unia ‘ epidemiología”. tinha-se de pedi-la. de uma vez só. ela se abriu à pesquisa. trans­ formando-nos em cyborgs formais ou “pós-humanos” fantasmagóricos. sem nenhuma dúvida. ver Michel Callón (2001). se assim nos podemos ex­ primir. um rótulo. Ao contrário. em patches e applets. cuja origem exata podemos buscar no “Google” antes de baixá-los e salvá-los um por um. Ultimi LiHour de intencionalidade.274 Como vimos repetidamente ao longo deste livro. Tão logo passou a ser medida em bauds e bytes por intermédio de moáens e routers. o motivo é exatamente o oposto: tornam visível o que antes só existia virtu­ almente. inspirando-nos no ciberespaço. É interessante considerar a possibilidade que uma sociologia quantitativa tardiana poderia abrir atualmente. a competência era um fato misterioso. as tecnologias da informação nos permitem rastrear associações de um modo antes impen­ sável. era um caso de tudo-ou-nada. Information Politic on the Weh. Não porque subvertam a velha sociedade “humana” concreta. percebe­ -se que. 299 . Ver Rogers. hoje se tor­ nou. para obter atores humanos “completos”. sentindo-se responsável por suas mazelas ou torturando sua alma mortal.275 Se a tecnologia da informação. por essa razão. O ator competente vem agora em minúsculos grãos ou. difícil de rastrear. um veículo. cada qual empíricamente distinta da seguinte. Cada grão deixa após si um traço que ago­ ra tem uma origem.

Mas c provavelmente com teoria Queer que a noção de camadas múltiplas e construção artificial pode ser melhor aplicada.27627* Assim como a divisão do trabalho criada pelas indústrias e a buro­ cracia ajudou Durkheim e Weber a elaborar suas próprias definições dos vínculos sociais. Os encontros Siggraph. que contempla um mundo feito de coisas concretas ao qual deve resistir ou com o qual precisa cozer uma mistura simbólica. dedicam sessões inteiras a isso. Algumas conexões são fáceis de acompanhar. a realidade “virtual” é a materialização necessária para se obter uma realidade “natural”. há por aí todos esses documentos oficiais e legais que chamam “você” de alguém. Como sempre. Performing Sexes and Genders in Medical Practice. uma noite à "reprodução realista” decurlos-circuitos etc. temos de constatar empíricamente como um corpo anônimo e genérico pode ser construído a fim de se tornar uma pessoa: quanto mais subjetividades se oferecem. e sim a realização provisória de um conjunto variado. 300 . Ser um todo realista não constitui um ponto de partida inquestionável. Ao contrário. uma tarde à refração da luz nos cabelos vermelhos. Hnw Like a Leaf: An Interview with Thyrzit Goodeve. as tecnologias da informação nos permitem acompanhar o trabalho de construção do ator. Agora. Reagregundo o social de conexões oriundas de locais muito diferentes. ela oferece um vasto campo em relação ao número de elementos que podem ser destacados e postos em circulação. Se duvidarmos da capacidade dessas humildes técnicas gráficas de gerar 276 Ninguém abordou esse ponto com mais ênfase do i|ue Donna Haraway (2000). Mais adiante. o resultado importará muito para nossa definição de política. Para urna abordagem diferente. Uma manhã é dedicada ao brilho do nylon. Por exemplo. Hoje é bem mais fácil não considerar o ator como um sujeito dotado de inferioridade primordial. enfim. o “ator” é um reagrupa mento to­ talmente artificial e totalmente rastreável: o que antes só se aplicava ao Le- viatã hoje é verdadeiro também para cada um de seus “componentes”. ver Stefan Hirshauer (1998). em Los Angeles.2 Os sujeitos já não são mais autóctones que as interações diretas. 277 Uma esplêndida alegoria desse arranjo em camadas são as imagens geradas por computador. por exemplo. A despeito de algumas ideologias pós-humanas e amontoados de socio­ logía crítica. mais interioridade se obtém. Também eles dependem de um dilúvio de entidades que lhes permitem existir.

tentemos residir numa grande cidade europeia como “es­ trangeiros sem documentos” ou escapar às garras do FBI depois de uma pronúncia equivocada de nossos nomes. pentear o cabelo. The Semiotics o f French Gesture. M ind in Society: The Development o f Higher Cognitive Processes. 278 Ver Jean-Claude Schmitt (1990). 279 Esse é o principal motivo do im pado duradouro de Lev Semenovich Vygotski (1978). aceno de mão. épocas e acontecimentos já esquecidos? Tom de voz. Hniíiu Ltitvin quase-su jeitos. o leque completo daquilo que circula “lá fora” pode ser trazido ao primeiro plano. Se encararmos todos os artigos como mera “expressão” de uma força social tenebrosa. a mesma forma de estrela que o forçaria a visitar inúmeros lugares. defender direitos ou vestir a roupa certa? Também nisso as revistas ajudam muito. modo de andar. um amigo. e Geneviève Calbris (1990). sem absorver constantemente os clichês culturais com que seus companheiros o bombardeiam?279*Sem consultar com avidez inúmeras revistas de culiná­ ria. expressão inusitada. uma postura política? Se você começasse a provar a origem de cada uma de suas idiossincrasias. consolar o amante. antes de conseguir exarar uma opinião sobre um filme. não seria capaz de dispor. Jan Bremmer e Herman Roodenburg ( 1992). A Cultural History of Gesture: From Antiq­ uity to the Present Day. postura - também isso não pode ser rastreado?’7” E há o problema de seus sentimen­ tos mais recônditos. Não foram dados a você? A leitura de romances não o ensinou a amar? Como você identificaria o grupo ao qual pertence. você aprendería a fazer um bolo? E quanto a colocar uma camisinha. 301 . Quantos clichês em circulação teremos de absorver. uma vez mais. que não existe um mundo oculto no social. uma situação. poderemos segui-los da mesma forma. La Raison des Gestes dans VOccident Médiéval-. Mas se sustentarmos nosso ponto de vista. pessoas. Outros veículos deixam traços vagos como se fossem realmente ¡materiais. não será lícito considerá-los parte de nossa cara intimidade? Agora estamos familiarizados com o que já não constitui mais um paradoxo: justamente quando a sociedade como um todo desaparece. sua eficácia se perderá. Mas se reconhecermos que não há nada por trás nem por baixo.

códigos de barra. outra fonte de competência é facilmente localizá- vel: existem conexões em circulação que você pode subscrever e baixar na hora. notará uma quantidade enorme de dispositivos. comprar a Universal Panoramas 280 Por isso a noção de habitus. mas apenas um consumidor genérico. Which road tofollow?281 281 Ver Cochoy. para se tornar local e provisoriamente competente. marcas. Mesmo quando ti­ ver de fazer a trivial escolha do tipo de presunto fatiado que irá levar. Se você considerar os supermercados dessa maneira. preparado homens e mulheres para serem calculadores e otimiza- dores de supermercado . tabelas de pesos e medidas.as almas suplementares . Talvez o tenha internalizado. de Bourdieu. por exemplo. Une Sociologie du Packaging. Mas graças a essa nova topografia que estamos esboçando. você deverá possuir também a capacidade de calcular e escolher.280 O supermercado.ou era moldado como consumidor esperto pela força de uma infraestrutura econômica.como se a evolução darwiniana tivesse. mas até para isso lhe foi preciso baixar outra conexão! Se tentar fazer um cálculo racional sem esse equipamento . outro circuito. ele não é propriedade sua. listas de preços. folhetos. Reagregando o social Isso sob condição de que acrescentemos outro fluxo. você se beneficiará de dezenas de instrumentos de medida prontos para equipá- -lo como consumidor . por exemplo. Não o leva para casa. conversa com outros compradores. uma vez livre de sua teoria social. perma­ nece um conceito excelente.que são necessárias para tornar uma si­ tuação ínterpretável.decidir. Para se trans­ formar num consumidor ativo e consciente. graças ao qual as conexões dotem os atores com as ferramentas suplemen­ tares . Na sociologia do social havia apenas duas fontes para essa competência: ou você nascia com ela na qualidade de humano . desde a aurora dos tempos. moldou você para ser um consumidor. cada qual apto a lhe oferecer a possibi­ lidade de calcular com um pouco mais de competência. 302 . Diga-se o mesmo da noção de equipamento desenvol­ vida em Thévenot.-810 ponto crucial é que você mantém essa competência men­ tal e cognitiva enquanto subscreve o equipamento. anúncios etc.rótulos.

Por exemplo: julgo-me capaz de reconhecer também uma garota educada num convento. em Knorr-Cetina e Bruegger. Ali estava uma ideia que eu podia generalizar. em Knorr-Cetina. ñruufí lu tour a fim de transformar-se ein World Company . outrora. entre seu estudo antigo dos teoremas e seu estudo atual dos mercados. Então descobri que fora no cinema. Epistemic Cultures. Na verdade. A posição dos braços e das mãos enquanto se caminha forma uma idiossin­ crasia social. de novo. An Engine. vira garotas andando como minhas en­ fermeiras andavam. e a "racionalidade” de mercado. também existe uma educação do andar. faz muito mais sentido ir totalmente além dos dois locais: as forças de mercado e o agente individual. e MacKenzie. Tinha tempo para pensar nisso. sem racionalidade. Estava em Nova York. Em geral. Aqui. "Global Microstructures”. Sem equipa­ mento. 303 . principalmente em Paris: garotas francesas também andavam da mesma maneira. sua "macrodecisão” de­ penderá unicamente de estimativas por alto no verso de um envelope: não mais possuirá competência para ser r a c i o n a l . de Karin Knorr. ela anda de punhos cerrados. Mechanizing Proof: Computing. o estilo de caminhar americano chegara por aqui graças ao cinema. E vem-me à lembrança um professor do colégio gritando para mim: ‘Seu idiota! Por que vagueia o tempo todo com as mãos balançando abertas?’ Portanto. M arcel M a u s s d e f in e “h a b it u s ” e a b o r d a o S O C IA L DA M E SM A M A N E IR A Q U E T A R D E : Uma espécie de revelação me ocorreu no hospital. De volta à França.. und Trust. Risk. reparei como eram comuns aqueles trejeitos. Perguntei-me onde.28 282 Como bem mostra a história económica recente. not a Camera. não é mero produto de arranjos e mecanismos individuais. quase totalmente psíquicos. I lá um vínculo direto. na obra de MacKenzie. A mesma tendência c visível no movimento entre o laboratorio de ciencia. as grandes decisões são menos racionais que as pequenas porque seu equipamento é muito menor. Ver Donald MacKen­ zie (2001 ).

entre sociedades. Os dois elementos desta definição são equívocos. conservei essa noção da natureza social tio habitus durante muitos anos. e sobretudo. facilmente compreensível em nossa língua. mas também.atitude totalmente incompatível com os movimentos da corrida. ensinou-me a correr com os punhos colados ao peito . Ela traduz infinitamente melhor que “hábito” ou “costume” a exis. O que se move não é unia coisa. 100-1) As habilidades cognitivas não residem em “você”: estão distribuí­ das por todo o cenário formatado. Por isso. um dos primeiros na lista de formandos de Joinville por volta de 1860. a “habilidade adquirida” e a “faculdade" de Aristóteles (que era psicólogo). a “me­ mória” misteriosa. Não designa os hábitos metafísicos. conveniências e modas ou graus de prestígio. obscurece 304 . 1979. p. mas também de inúmeras proposições suscitadoras de competência. os assuntos de volumes alentados ou de teses curtas e cé­ lebres. Precisei observar os corredores profissionais de 1890 para descobrir a necessidade de correr de outra forma. desenliada com firmeza. ele os apoia na mesa. no sentido corriqueiro. Notem. que emprego a palavra latina . e assim por diante. tipos de educação. seus cotovelos se abrem para os lados. já observamos uma mu­ dança de técnica.habitus -. à mesa. feito não apenas de localizadores.-83 Embora provenham de fora. todos nós. no correr. Um rapazinho francês não sabe o que é sentar-se com as costas retas. você e eu. um garoto mantém os cotovelos junto ao corpo enquanto ainda não está comendo. apenas a alma e suas faculdades repetitivas. Se. Reagregando o social Outro exemplo: existem posições polidas e grosseiras para as mãos em repouso. Esses "hábitos” variam conforme os indivíduos e suas imitações. por favor. de incon­ táveis e pequenas tecnologias intelectuais. (Mauss. você pode ter certeza de que é inglês. Imaginem: meu professor de ginástica. Finalmente. e a fronteira através da qual se opera o movimento é uma linha que. Neles deveríamos ver as técnicas e o trabalho da razão prática coletiva e individual: não.283 283 Ksta propagação é fundamental para o campo da cognição distribuída: "A internali­ z a d o conota há muito tempo alguma coisa que cruza fronteiras.

espiritualizado. The Normal Chaos o f Love. Hutchins.204 Até o amor pode ser construído a partir de fora. Cognition in the Wild. p. faça a experiência. “sem dúvida". para exemplo. e quanto a mim. as tais camadas estão inseridas num “contexto social”. 312 (grifo nosso). desde o clássico de De­ nis De Rougemont (1983). a Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim (1995). ou. o que parecia mtemalizaçâu surge agora como uma propagação gradual de propriedades funcionais organizadas por meio de mídias maleáveis". e Sabino Chalvon-Demersay (1999). as conversas de amor. o “você” primordial . custo e circulação po­ dem ser mapeados . Contudo. o ego? Não sou um “indivíduo” no fundo do coração. cuja forma. Tente viver sem elas por algum tempo e verá que “você” . Bruno Latour não brotam de nenhum contexto misterioso: cada uma delas possui uma história rastreável empíricamente com maior ou menor dificuldade.sim. Mas. Se há uma coisa que não está “no” agente.murchará para sempre. os antropólogos cognitivos e os psicólogos. sem dúvida.mas só por ter sido individu­ alizado. Tome. Se duvidar da eficácia desse tipo de transporte. Eis a vantagem de uma paisagem plana: quando digo isso. se você os procu­ rar. não sustento que devo voltar à outra solução simétrica e reconhecer que. mas cativante conjunto de obras literárias. Love in the Western World.284* 284 Há um pequeno. dão a você a for­ ma de uma psique. nas circunvoluções do cérebro. A Thousand Screenplays: The French Imagination in a Time of Crisis.como mostraram tão enfaticamente os historiadores da literatura. no caso. é às vezes mais difícil de rastrear. Dentro tiesta vasta unidade dc análise. os encontrará por toda parte: dilúvios. A circulação desses “sujetivadores". são as muitas camadas de criadores de compe­ tência que baixamos sem descanso para adquirir certa habilidade durante algum tempo. de nenhum compromisso engenhoso entre ambos. enxames daquilo que chamaríamos de psico-m orfos porque. Ao contrário: afirmar que circulam por seus próprios canais significa que já não provêm nem do contexto nem da subjetividade do ator. interiorizado. na vivacidade do espirito? Decerto que sim . chuvaradas. literalmente. como um nossa compreensão tia natureza da cqgnição humana. no sanctum sanctorum da alma. Mas 305 . Cada pedaço vem com seu próprio veículo.

Para tanto.285 Tão logo fazemos isso. Este exterior. O que estou tentando fazer aqui é simplesmente mostrar que as fron- teiras entre sociologia e psicologia podem ser remanejadas com proveito. afundar-se aos poucos e adentrar um porão bem construído cujas portas serão cuidadosamente aferrolhadas. The Elementary Forms of lhe Religious Life. mergulhada no silêncio da interioridade. não como coação negativa. Toda competência. pessoa. 285 A obra posterior de Foucault é um bom exemplo da riqueza dessa linha de pensa­ mento. é claro. mas como oferta de subjetivação positiva. o debate vazio entre psico­ logia e sócio'logia. porém. Mesmo o amor precisa de seu veículo. para não mencionar o numeroso cortejo de anjos. O meio. agente. embora a construção das psiques interiores humanas fique um tanto ofusca­ da pelo antigo tema da 'm orte do sujeito". exatamente tanto quanto um mercado. foi confundido com urna sociedade. só existe uma solução: fazer cada entidade distinta que povoa o antigo interior vir do exterior.sim. Compare a sociologia da lógica em Gabriel Tarde (1893). apesar tias advertências de Tarde. as duas coisas são paralelas. abrindo. cuja existência objetiva . mas a forma abstrata geral per­ manecerá a mesma .também deve ser levada em conta. como diferente será a coisa transportada. objetiva . “limitadora da subjetividade”. putti e corações atravessados de flechas. querubins. assim. não contraditórias. Apesar de sua própria afirmação. canções e pinturas. seus condutores e equipamentos. o antigo ator (membro. As ninguém removeu as camadas sucessivas de todo o equipamento necessário tão bem quanto M icliel Foucault ( 1990). qualquer que seja seu nome) assume a mesma forma de estrela já observada por nós quando achatamos o global e redirecionamos o local. 306 .286 286 Durkheim mostrou que as categorias lógica e pessoal interiores são de certa maneira a translação e a interiorização do exterior. The Histirry of Sexuality: An Introduction. deve vir primeiro de fora. um quartel ou uma fábrica. será diferente.forma puramente teórica que agora desejo captar. Uma série de outras ações o transforma em indivíduo/sujeito ou entidade não genérica. suas técni­ cas específicas. La Logique Sociale. Reagœgandû a scietal dom de certa forma miraculoso que cria alguma coisa por dentro.2Sí’ Nada disso é um dado. com Émile Durkheim (1915). indivíduo. Este é sem dúvida o modo como foi traçado em poemas.

a surrada disputa entre psicologia e sociologia? Que retrocesso! Estarei mesmo querendo voltar aos tempos em que os atores eram vistos como outros tantos títeres manipulados a contragosto por nu­ merosos fios invisíveis?287 Qual a vantagem de livrar-se da estrutura global e encarar as interações diretas. no fim. o próprio exterior mudou bastante: já não é feito de sociedade . Após o achata mento da paisagem. devolver-lhe o aspecto antigo. o pós-estrulura- lismo conservou a mesma definição de causalidade: umas poucas causas seguidas de longas cadeias de substitutos passivos ou aquilo que chamei de “intermediários". embora seu significado (“Não há nada dentro que não tenha vindo de fora”) seja um pouco diferente. senão afogar a subjetividade mais íntima da pessoa em campos de forças anônimas? Ação sem atores! Subjetividade sem sujeitos! Voltemos aos gloriosos anos 60! Mas que ganharemos com isso? Bem. o pós estruturalismo é a sobrevivência do estrutura lismo depois que a estrutura se foi. Brui io Líiíour interioridades são construídas da mesma maneira complicada com que o foi o santuário de Hórus no centro da pirâmide de Quéops. a oposi­ ção interior/exterior. como a galinha que continua correndo após ter a cabeça cortada. De certo modo. não é esta a mais forte intuição das ciências so­ ciais: “Fomos construídos”? É claro que o significado dessa frase ardilosa depende inteiramente do que se entenda pela inocente palavrinha “fora".nem de natureza. Eliminando am bas como subjetividade inapreensível e estrutura inabordável. ou seja. só pertence o que lhe foi dado. 307 . justamente aí pode estar o lucro da ANT. talvez possamos finalmente colocar em primeiro 287 Conforme este rótulo indica. De a t o r e s a v ín c u l o s Não terei sido desviado de Caribde para Cila? Que significará dizer que os psicomorfos vêm de fora? Lutei tão ferozmente contra a dicotomía global/local para. Embora lenha abandonado a busca de coerência. Ao sujeito. O velho lema empirista não estava tão errado assim: Nihil est in intellectu quod non sit prius in sensu .

criou uma metáfora nova e vigorosa para escapar da dicotomía interior/exterior. In­ felizmente. 290 O mesmo se aplica à minha versão do Roget’s ïhesaurus! F. A relação entre titereiros e marionetes é bem mais inte­ ressante que isso. From the Concept o f Network to the Concept o f Attachment. como eles vêm de fora. Algo acontece ao longo dos cordões que levam as marionetes a se moverem. a firn de nos tornarmos indi­ víduos e adquirirmos alguma inferioridade. Reagregando o social plano o fluxo tie outros condutores mais sutis. Em sua fantasiosa teo­ ria da ação.289290E realmente. "não entidade”. Sphären. Não admira que o debate entre psicologia e sociologia nunca leve a nada! 291 Ver p. aprendemos a corrigir dois juízos falsos: sabemos que os mediadores não são causas e que. com seu livro cm üês volumes sobre diferentes tipos de esferas.isto é. Ver Peter Sloterdijk (2004). Pactures/Fractures. considerando-se o que entendem por “exterior” . por­ que detectamos dois equívocos sucessivos na noção de sociologia do social: a primeira na definição de causa. sua obra ainda não está disponível em inglês. recebendo ou aplicando. 308 . o poder coercitivo do contexto ou a determinação causai da natureza .288 O percalço em seguir esses tipos de “condutores de subjetividade” ou mediadores psicomorfos é que. os sociólogos viram aí a única maneira de forçar os cordéis do titereiro a movimentarem am aionete. “escravo”. alguns pequenos ajustes à margem.!a propõe os seguintes verbetes: “logro". não há a menor possibilidade das conexões deposi­ tarem seja lá o que for de positivo dentro do ator. “imagem”. sem transformações ou translações. As forças sociais têm de fazer a maior parte do trabalho. 289 Ver Anne-Nelly Perret-Clermont (1979).291 Além de tudo. a segunda no veículo que supostamente transporta o efeito. parecem veicular a mesma espécie de coações imaginada pelos sociólogos do social em sua definição de sociedade. La Construction de l'Intelligence dans l’Interaction Sociale. 92 e Bruno Latour (1999a). 288 Peler Sloterdijk. c sua antiga crítica ao vínculo de Piaget entre teoria social e epistemología.299 Mas já não precisamos ter medo dessa estranha maneira de conceber a irrupção de uma força exterior. por intermédio dos indivíduos. 3 tide.. nenhum veículo transportará nenhum efeito.

309 .292 Interiores e exteriores. pois não podiam falar em “força externa” do social.293 292 Esse movimento complementa o que li/. Ou éramos cidadãos livres ou vi­ víamos na mais abjeta sujeição. menos você mesmo agia: o resultado deste procedimento de contabilidade era inevitável. ver Louise Salmon (2004). quanto mais fios você acrescentava de fora. salvaguardar a intenção. Politics of Nature. O exterior não é um contexto “feito de” forças sociais e não “determina” o interior. Não é tarefa do sociólogo fixar antecipadamente suas fronteiras. cortando alguns itens e negando assim o papel daquilo que agora é visto como outros tantos “cativeiros”. como superiores e inferiores. a iniciativa e a criatividade do ator. "cerceamentos de liberdade” etc. Nenhuma destas tem poder determinante . exceto insistindo nos “limites estreitos” impostos pelo “peso anônimo da so­ ciedade” à “autonomia pessoal”. e não causas. e a influência que exerce atua segundo uma teoria da ação totalmente diversa. já não nos deprime. são resultados. O exterior nunca lembra um deserto de Góbi. porém. 293 Sobre a leitura equivocada da psicologia de Tarde por Durkheim. a única maneira seria aumentar a soma total da ação oriunda de dentro. nem é simplesmente povoado por banalidades. La Pensée Politique de Gabriel Tarde. “pressões externas”.T Brunn Ltilntir A inútil divisão de trabalho entre psicologia e sociologia começou a mudar quando a definição de “exterior” se dissolveu e foi substituída pela de circulação de conexões. inventado por soció­ logos do contexto. o interior nunca lembra um sanctum sanctorum envolvido por frias forças sociais à maneira de uma ilha remota cercada por tubarões famintos. com o “exterior” da natureza no Capítulo 5 de Latour. Essa estranha paisagem. por razões morais ou políticas. A pior consequência da noção de contexto foi que nos obrigava a adotar uma contabilidade de entrada dupla: assim. é óbvio. os sociólogos críticos reforçavam semelhante tendência. o que vinha de fora era deduzido da soma total de ações consignada aos agentes “de dentro”. E. Estamos agora em con­ dições de juntar os dois pontos e refazer a noção de exterior: ele não está situado no mesmo local.só o que podem é levar alguém a fazer alguma coisa. Com esse tipo de balanço. E se você desejasse.

sem dúvida. de gerar mfrapsicologia através das muitas mediações ofereci­ das pela /»terpsicologia. Como vimos. mas também na teoria da ação que conecta qualquer um desses vínculos. L’imitation.exatamente como você precisa capturar uma porção de localizadores para ter um local e uma porção de oligópticos de um contexto para “dominar” outros locais.gamtu o saciai A diferença entre as duas teorias não reside apenas no número de vínculos. é multiplicando as conexões com o exterior que conseguimos perceber como o “interior” está sendo mobiliado. The Prin­ cipies o f Psychology. só ganharemos alguma “intrap- 294 A obra clássica sobre essa “exteriorização” é ainda William James (1890). Ele articulou claramente a obrigação. Ao contrário. infelizmente. tinha de contentar-se com a metáfora livre dos “raios imitativos”. não é o número de conexões que precisamos reduzir para. em vez disso. Também no nosso caso. 310 . Knigrc. alcançar o âmago do eu. sendo a primeira concebida como uma espécie de cabeça de ponte para a segunda. como bem demonstrou William James. Retour sur le débat entre Durkheim et Tarde.294 Você precisa de uma porção de subjetivadores piara se tornar sujeito. para o cien­ tista social. o que havia de errado na metáfora das marionetes não era sua ativação pelos vários cordões manuseados pelos titereiros. ver Bruno Karsenti (2002).que o tópico mais importante da sociologia começa a brilhar por trás. não é que para emancipá-las é necessário cortar todos os cordões. “reconciliada” ou “resolvida” . É somente quando a alternativa entre ator e sistema é ignorada - notem que eu não digo “superada”. ele não contava com a alegoria das tecnologias da informação pai a materializar sua rede de conexões e. 295 Mas. É claro que as marionetes estão presas! Mas a consequência. e precisa mover [download] uma porção de indivi- dualizadores para se tornar um indivíduo . Para as limitações de Tarde. As marionetes só são livres na medida em que o titereiro é um bom titereiro. e sim o argumento implausível segundo o qual a dominação simplesmente transitava por eles sem translação. Essa foi a maior contribuição de Tarde no combate ao organismo de Spencer e à sociedade de Durkheim.295 No fim. pelo menos.

iniciativa. um deslocamento.para recorrer a mais uma expressão sobre alma gerando entidades . mais articuladas elas se tornam. Methadone: Six Effects in Search o f a Substance. improvisação. todo o cenário do interior e exterior pode se modificar para sempre. de um media­ dor buscando intermediários passivos que levassem adiante fielmente suas forças. psicotrópicas ou . Bruno Lut our sique” se travarmos relações com diversas “extrapsiques” ou aquilo que se pode chamar de substancias estimuladoras da mente. atividade.já sabemos como superar tais limites . 297 Constate o eieito poderoso. interpretação. justificação. uma translação que modifica 29G Ver Convert.. interação e por aí afora -.psicogênicas. quando a sociologia do social dominava. O ti­ tereiro continua manipulando varios cordões. era importante insistir em atores. mas cada um de seus dedos dói quando a marionete determina o movimento. É cla­ ro que. O que há de errado com essa palavra não é o fato dela quase sempre se limitar a humanos . Isto talvez ofereça uma boa ocasião para dizer adeus à noção de “ator”. Quanto mais cordões as marionetes possuem. a extremidade de um vetor orientado em outra direção. de marionetes comandadas por mani­ puladores visíveis no teatro japonês bunraku. mas de designar sempre uma fonte de iniciativa ou ponto de partida. que venho usando como substituto provisório. “Induzir” não é o mesmo que “causar” ou “fazer”: há em seu âmago uma duplicação. sobre o público. isto é. Surprised by Methadone. Mas este não é o caso da ANT: a própria teoria da ação é diferen­ te. 311 .296 Se você encarar o que vem de fora como um mediador capaz de permitir ao próximo agente comportar-se da mesma maneira. estamos livres de muita discussão a respeito dos “pesos relativos” da “liberdade individual” e da “determinação estrutural”: cada mediador ao longo da cadeia de ação é um acontecimento individualizado porque se prende a vários outros da mesma natureza. pois a cínica atividade possível que o contexto permitia era a de uma causa em busca de consequências.297 Finalmente. pois agora estamos interessados em mediadores que induzam outros a fa z e r coisas. e Gomart.

Monadologie et Sociologie.298 Agora é o ator. no caso da se­ gunda. Mas afirmemos primeiro o postulado ‘eu tenho’ como fato básico e. depois os atores. drug users. Antes. cuja definição lembra uma pedra de Roseta à espera de decitração. 312 . a expressão cheira a “sociologismo”. então. em forma de estrela. uma solução para o dilema ator/sistema que acabamos de rejeitar. Sem dúvida." lard e. ou seja. Por­ tanto. A sociology of at­ tachment: music amateurs. a filosofia se apoiou no verbo ser. mas só enquanto insistimos mais no “ser” do que no “ter”. The Propensity of Things: Toward a History o f Efficacy in China. Pode-se dizer que.. Como chamaremos este elemento recém “achatado”? É algo que é “feito para agir”? Tratar-se-á de algo que se possa “convencer” a agir? Algo “provoca­ do para provocar uma ação”?299 Por que não usar “ator-rede”? Sei que esta expressão continua bizarra porque pode também significar exatamente o contrário. Quanto mais vínculos ele possui. 300 "Até hoje.. de mediadores que entram e saem. tanto tive quanto tendo surgem ao mesmo tempo como identidades inseparáveis. afinal. muitas discussões estéreis. não conhecemos nem os limites nem a direção. Rmgregundo it social simultaneamente todo o argumento. um átomo ou uma fonte. Possuir é também ser possuído. era impossível conectar um ator àquilo que o levava a agir sem acusá-lo de “tirania”. 299 Ver François Jullien (1995). que terá de ser achatado para assumir o formato de estrela. Ver também Emilie Gomart e Antoine Hennion (1998). caso houvesse buscado apoio no verbo ter. seriam evitadas. Isso mudou. um ator-rede consiste naquilo que é induzido a agir por uma vasta rede. 8fi. E quanto mais mediadores houver. “limitação” ou “escravização”. Suas muitas conexões lhe dão a existência: primeiro os vínculos. estar vinculado é manter e ser mantido. melhor será. mais existên­ cia acumula. apesar de todas as sutilezas do mundo. p. ela não é tão ruim. considerado até o momento um ponto. Mas já temos a palavra à mão e. Do princípio eu sou’ é im­ possível deduzir ouira existência que não a minha.300 “Posse” e todos os 298 "Vinculo” é outra palavra para aquilo que tentei captar com a expressão provisória “factiche”. a família do “ter” é bem mais numerosa que a do “ser” porque. Como enfatizou Tarde há muito tempo.

A partir de agora. persista.. Os cordões continuam aí. que Whitehead chama também de organismo. Quanto à emancipação. e até a um evento histórico.desde que esta. Ver Didier Debaise (2003).do universo inteiro. toruna Lalaur seus sinônimos são. é que ela é autossuficien- te: em outras palavras.301 301 "O problema com 'sociedade'. dependendo da maneira como são manipula­ dos. uma solução ainda mais radi­ cal seria considerar esses feixes de atores-redes no sentido que Whitehead atribui à palavra “sociedade”. Process and Reality: An Essay in Cosmology. Apesar das críticas que teci sobre o conceito de sociedade . mobilização. sociedades não são agrupamen­ tos de laços sociais . toda montagem que paga o preço de sua existência na moeda forte do recrutamento e da extensão é. mas da própria mon­ tagem . ao falarmos de ator. 89. Para ele. e sim todos os grupos de entidades compósitas que persistem no tempo e no espaço. poderemos atinar de novo com o que Tarde queria dizer com “tudo é uma sociedade e todas as coisas são sociedade”.'101 Em suas palavras. Isto se aplica a um corpo.em opo­ sição ao que propus chamar de coletivo . p. é claro. pois. constitui sua própria razão de ser. mas fcem-vinculado. uma sociedade precisa de novas associa­ ções para continuar existindo. O sujeito é aquilo que está presen­ te? O objeto é aquilo que esteve presente? Assim. na acepção aqui adotada.” Alfred North Whitehead (1929/1978). A subjetividade não é um atributo das almas humanas. Un empirisme spéculative: Construction. a uma instituição. Processus et Relation chez Whitehead. bons vocábulos para remanejarmuso significado do que seria uma “marionete social”. subjetividade. isto não significa “libertado de laços”. 313 . ou tem. mas veicu­ lam autonomia e escravidão. cadastramento e translação de muitos outros . quem sabe? 0 mais impressionante nessa definição generalizada de sociedade é que os significados respectivos de subjetividade e objetivi­ dade são completamente remodelados. E.como talvez tenham suposto Durkheim e Weber -. é claro. tanto trabalho exige convocação. deveremos sempre acrescentar a vasta rede de vínculos que o levam a atuar. Se tivermos em mente esse sentido amplo da palavra sociedade.

TERCEIRO MOVIMENTO: CONECTORES A fábula da “Tartaruga e a Lebre” não lembra a história da “Formiga e a Lebre”? Uma das personagens pula. Vai adiante. dorme. Por esse motivo. não para nunca de escavar à volta pequenas galerias. E não é lícito dizer que a Formiga. saltita. uma visão do social raramente considerada até o momento? No primeiro capítulo da Parte II. imaginamos duas soluções para anular o estímulo que estava levando o observador da interação local ao contexto ou da estrutura à prática localizada. tão segura está de vencer a corrida e empalmar o prêmio. O primeiro movimento transferia o global. porém. reconhecemos que a alternância abrupta entre micro e macro ou ator e sistema não se devia a nenhum aspecto essencial da sociologia. para grande surpresa da Lebre.embora se soubesse muito bem que deviam existir. Recu- sando-nos a passar ao contexto. vencerá? Apegando- -nos obstinadamente à noção de terreno plano e inserindo grampos toda vez que precisamos nos assegurar de formas tridimensionais. a subscrever o loca! ou a tomar qualquer posição intermediária. acorda e dá cambalhotas. temos es­ clarecido aqui vários tipos de conexões que antes não possuíam existência reconhecível . mascando incansavelmente. não dorme. permitindo-nos identificar através de quais circulações de mão 315 . cujas paredes nada mais são que barro e saliva através dos quais ela avança e recua. o contextual e o estrutural para dentro de lugares mi­ núsculos. em nosso relato. corre. não estaremos registrando agora. A outra. mas sim à sombra projetada sobre a so­ ciedade pelo corpo político.

Sempre que um lugar intenta agil­ em outro. agora transformados defi­ nitivamente em atores-redes. sangue. linfa e hormônios encarregados de manter a existência do organismo. juntos ? Toda vez que uma conexão deve ser estabelecida. o abrigo provisório de muitos desses veículos.. as cone­ xões. transportando alguma coisa duran­ te todo o percurso. O segundo movimento transformava cada lugar no ponto de chegada provisorio de outros locais distribuidos pelo tempo e espaço. mas também acabar no deslumbramento? Espero ter deixado claro que esse achatamento não significa que o próprio mundo dos atores também foi achatado. caso pudesse abarcar simultaneamente todos os circuitos de nervos. Bem ao contrário.it dupla esses lugares poderíam adquirir relevancia para outros. eles ganharam espaço suficiente para desdobrar seus gerundios contraditórios: 316 . precisa preservar algum tipo de conexão mais ou menos durável. Como já adverti o leitor várias vezes. não apenas começar. como disse W hitehe­ ad a propósito da filosofia. “dentro” do tubo é o próprio alo de atribuir uma dimensão a alguma coisa. veículos e vínculos avançam para o primeiro plano. um novo tubo condutor deve ser instalado e um novo tipo de entidade deve viajar por ele. com cada um se tornando o resultado da ação a distancia de outro agente. Rai$regmiio u sod. precisa atravessar um meio.. só depois que os dois movimentos corretivos foram executa­ dos assiduamente aparece um terceiro fenômeno. Os locais. Chegou a hora da Formiga ir buscar seu prêmio. Quão mais miraculoso do que o corpo nos parece agora o social! Poderá a sociologia. por assim dizer. para continuar agindo. Ao contrário. o único que merece os esforços da abstração a que devemos nos entregar. “Redes admiráveis” (de retia mirabilia) é a expressão que os histoiogistas cunharam para registrar algumas dessas formas extraordinárias. a encruzilhada de muitas dessas trilhas. O que acontece quando praticamos os dois gestos. cada lugar é agora o alvo de muitas dessas atividades. localizar o global e distribuir o local. Tão logo fazemos isso. Aquilo que circula. vemo-nos diante da superposição de diversos canais tão intricados e múltiplos quanto os que o anatomista encontraria. são movidos para o segundo plano.

estrutura e interações diretas. Como nunca é substantiva. temos de garantir que cada entidade tenha sido reformulada. de distinguir claramente seu trabalho do trabalho daqueles que os inspiraram. a da contabilidade consegue substituí-la .embora eu talvez atenha usado demasiadas vezes. inserindo. que nos permite não sintetizar os ingredientes do social no lugar do ator. Com a ANT. vazia e relativista. O que estes entendem por teoria é unia visão positiva. das apenas nos ajudam a contrabalançar o peso da inércia social. nunca tem o poder de outros tipos de relatos. permitindo-nos resistir à tentação de que a escala. mais ainda. Só tornan­ do plana a posição padrão do observador é que a atividade necessária para gerar alguma diferença de tamanho pode ser detectada e registrada. Tazem parte de nossa infralingua- gem. elas passaram do prazo de validade - e as explicações críticas. para os observadores da A NT. indivíduo. levamos a teoria um passo adiante no rumo da abstração: é unia grade negativa. Tantos ingredientes penetraram na sociedade. Não importam as metáforas que adotemos.e seus relatos podem ser às vezes muito sugestivos. Se a metáfora geográfica já está um tanto corroída. mercado. desemaranhada e ''dissocializada” 317 . Se o analista quiser decidir de antemão e a priori a escala em que estão inseridos todos os atores. muito automáticas. substantiva e sintética dos ingredientes formadores do social . ampliando. Por isso. setn o estabele­ cimento de conexões muito dispendiosas. individualizando etc. sem o recrutamento de algumas outras entidades. "panoramizando”. Brunt/ Lutow escalando. muito vigorosos. tudo acontece como se a ANT não colocasse a teoria social no mesmo nível que os sociólogos do social. As explicações sociais tornaram-se últimamente muito corriqueiras. que ficou tão impossível arrancá-los de lá quanto 1er as centenas de milhares de linhas codificadas de um sistema operacional comercial . Mas aí é que está o problema. império. A metáfora do Lerreno plano foi apenas um meio. boa parte do trabalho a ser feito para estabelecer conexões simplesmente desaparecerá de vista. conectar e reunir o social podem agora ser pagos até o último centavo. Os custos de transação para mover. a inserção e a ampliação possam ser consideradas nulas sem o gasto de energia. Uma vez mais. redistribuida. cognição.para não falar em reescrevê-las.

mas também em política. de que o social dos sociólogos tenha sido tão mal embalado . para atingir o alto da montanha. se este argumento sobre conexões e conectores é correto. quão vasta é a terra incógnita que teremos de deixar em branco nos nossos mapas? Após nos queixarmos muito. por que esse ponto é tão importante não apenas em ciência. 318 . na Conclusão. façamos um pequeno teste para ver se somos capazes de abordar um tópico em que a escala esteja obviamente envolvi­ da. neste livro. D O S P A D R Õ E S À C O LETA D E E N U N C IA D O S Antes de prosseguir. A segunda. Reagregando o social para que a tarefa de reuni-las de novo possa ser bem feita. teremos de dar um passo de cada vez. parecemos motoristas preguiçosos reconvertidos ao há­ bito de andar. Quando muda* mos para a ANT. precisamos reaprender que. sem extrair nenhuma conclusão quanto às respectivas dimensões de todos os agentes ao longo da cadeia. Isso nos permitirá deduzir quão esper­ tos nos tornamos em evitar tanto o local quanto o global. pé direito depois de pé esquerdo. em perguntar qual é a natureza das ações assim transportadas e atribuir um sentido mais preciso à noção de mediador que venho utilizando. talvez possamos encarar uma con­ sequência lógica que já deve ter intrigado os leitores: o que existe entre as conexões? Até onde vai nossa ignorância a respeito do social? Em outras palavras. pelo caminho todo até o amargo final! Mostrarei. A primeira consiste em detectar o tipo de conexões que possibilitam o transporte de ações a grande distância e compreender por que elas são tão eficazes na formatação do social. sem pular nem correr. Três questões podem agora ser abordadas em nossa discussão.não podemos inspecionar sua composição nem checar seu grau de pureza . Finalmente.. chegou a hora de avaliar de maneira bem mais positiva o trabalho realizado pelas ciências sociais para traduzir o social rastreável.

O mesmo assunto deste jornal foi lido naquele dia por mi­ lhões. um vínculo entre Alice e a França. em que Alice estuda o Le Monde para decidir qual partido escolherá. de onde sai para figurar anonimamente num gráfico cuja soma será transmitida ao escritório central do Ministério do Interior e acrescentada a outras. Heurtin. Na escura cabine de votação. cuja exata rastreabilidade foi sendo aos poucos elaborada durante dois séculos de violenta história política e reformas eleitorais polêmicas. Alice é bombardeada por um dilúvio de clichês. uma vez constatado que nenhuma das imagens sucessivas dessa folomontagem é menor ou maior que qualquer outra. a pretexto de que “a França inteira” está resumida na tela da televi­ são (com a vitória surpreendente da Esquerda). Dentro do apartamento de Alice. Assim. torna fisicamente possível estabele­ cer. Bruno L atour Considere. Paris the Invisible City. Iconoclash. o traço principal de sua conectividade se torna patente . 319 . o gráñco que aparece na tela só tem alguns centímetros de largura. o parecer de Alice se transforma numa cédula que ela assinou e que os mesários colocam em seguida na urna. traçado por esse instrumento. Mas a última imagem. A primeira. também não pode ser considerada global. graças à circulação de tecnologias gráficas. que dá o resultado do pleito. Sobre esse exemplo escolhido pode-se encontrar mais em 1966 em Latour e Hermant. por exemplo. colu­ nas e opiniões com base nos quais tem de tomar sua decisão. Percorra-as da primeira à última e tente descobrir se uma é mais local ou mais global que outra. não pode ser considerada local porque só Alice aparece consultando o periódico à mesa da copa. argumentos. as fotos que mostram Alice votando na França durante uma eleição geral. LEspace Public.303 A lacuna que separa “interação” e “contexto” teria camuflado a maquinaria 302 Esse é o argumento principal sobre manchas de imagem e ßuxos de imagem em Latour e Weibel. 303 Ver Latour e Weibel.embora imperceptível nas fotos individuais!302 Alguma coisa está circulando aqui da primeira à última. Making Things Public. Qual a relação entre a “pequena” Alice e a “França como um todo?” Esse ca­ minho.

305 Em geral.306 Mas. laboratory Life: The Construction o f Scientific Facts. Portanto. Sem dúvida. Ela se torna então um dos tipos de translaçôes mais importantes. um relatório. um documento. ela pode ser um pedaço de papel. contudo. enten­ demos forma no sentido abstrato.. 306 Os irancófonos têm a grande vantagem dc ouvir ainda. um mapa. e não material. Kcugreganda a social complexa responsável por conexões contínuas entre os locais. o formalismo se torna uma descrição adequada de si mesmo: tentamos então dar uma descrição formal do formalismo.304 Poucas palavras são mais ambíguas. sua forma de estrela. muito prático. literalmente. na palavra form e. nenhum dos quais é grande ou pequeno. agora. a palavra assume um sentido muito munda­ no.por isso sua forma de estrela .daí. sendo os queijos. seja o que for que realize o feito incrível de transportar um local para dentro de outro sem deformação através de 304 l embremo-nos de que qualquer sítio será tomado como ator-rede sc for a fonte daquilo que age a distância cm outros . caso esque­ çamos que num mundo plano nenhum salto é permitido. um relato.c o ponto final de todas as transações que levam a ele . Para eles. este é exatamente o tipo de tópico que a mudança na teoria social nos permite ver sob nova luz. que aban­ donamos no capítulo anterior. Tal deslocamento do ideal para o material pode ser estendido à in­ form ação. as primeiras entidades a entrar em foco são form as. Prover uma peça de informação é a ação de colocar algo dentro de uma forma. 305 Introduzí a expressão de recursos de inscrição cm Bruno Latour e Steve Woolgar ( 1986). leite fer mentado vertido numa form e ou fourme. a palavra “local” não deve ser vista como sinônimo de “lugar”. novamente. a mes­ ma etimologia de seus amados fromages.. tão logo percebemos que cada local precisa estabelecer sua conexão com outro por meio de um deslocamento. Assim que nos concentramos naquilo que circula de local em lo­ cal. gastronomia e epistemología andam juntinhas! 320 . e. e Deus sabe que tentativas assim nunca faltaram! Mas. a noção de forma assu­ me um sentido bastante concreto e prático: forma é simplesmente aquilo que permite a alguma coisa ser transportada de um lugar para outro.

Écriture et Iconographie. para descrever não des­ locamento sei» transformação. ver Eric Livingston (1985). La Trame de ¡'Évidence. Artificial Experts: Social Knowledge and Intelligent Machines. 308 Uma expressão que introduzí em Latour. Mechanizing Proof dão bons exemplos da riqueza de uma redescriçâo do formalismo. a expressão “móveis imutáveis”. Science in Action. desde as hu­ mildes e fedorentas tarefas do taxidermista de espécimes animais raros309310 até a mais elevada. Derrida nunca deixou de refletir sobre o estranho tipo de materialidade implícita nos arquivos . 310 Harry Collins (1990). Mechanizing Proof. Masters of Theory: Cambridge and the Rise o f Mathemati­ cal Physics. há muito. Archive Fever: A Freudian Impression.concebidas como viáveis no plano físico . Elizabeth Eisenstein (1979). Ver também o artigo capital de Ihévenot.3. mas igualmente prática. The Printing Press as an Agent o f Change. mas deslocamento por meio de transformações. 309 Susan Leigh Star e ]im Griesemer (1989). Não importa o meio. The Domestication o f the Savage Mind. e Andrew Warwick (2003). 321 . Reading Hawkings Presence: An Interview with a Self-Effacing Man. economização e formatação. OfGrammatol ogy. 1907-1939. enfatizan- do-se a capacidade de conexão das formas . e Goody.0 307 H. agora é possível uma descrição material do formalismo. McKenzie. a atividade científica oferece inúme­ ros casos notórios de transporte por meio de transformações.ver Derrida ( 1995). quantas me­ tamorfoses sua opinião sofreu. Rides and implements: investment in forms. escrita de equações. embora haja sido fielmente registrada . Image and Logic. que associa padronização. Bryan Roturan ( 1993). no caso do voto de Alice. François Dagog net (1974). Rosental. Foi para registrar tais exigências contraditórias do formalismo que propus. Hélène Mialet (2003). como a feita por Gatison.307308Veja.e disseminando-se ainda a ideia segundo a qual os próprios formalismos poderíam ser formalmente descritos.se é que não houve nenhuma fraude pelo caminho. Ad Infinitum: The Ghost in Turing Machine. nrurwI atûur transformações nuissivas. Institutional Ecology. Taking God out o f Mathematics and Putting the Body Back In. através da construção de um aparato estatístico ou a mesma tarefa humilde de gram­ pear e arquivar documentos de todas as nuanças e cores. Para obras recentes sobre formalism. 'Translations' and Boundary Objects: Amateurs and Professionals in Berkeley’s Museum o f Vertebrate Zoology.3(18 Uma vez mais. The Ethno- methodological Foundations o f Mathematical Practice.í uma rica literatura sobre "forma” inclusive Jacques Derrida ( 1998). e MacKenzie.

Rengregamla u social 322 .

Bruno Latour 323 .

esse é exatamente o m oti­ vo pelo qual se mostram tão boas em realizá-la. 324 . ou melhor. 311 Ver Alain Desrosières (2002). “Pensar como um sociólogo implica aderir à crença de que não existe ordem na concretude do cotidiano. ou pelo menos a parte do social que foi estabilizada. em form atar as relações entre local. que embora aquelas sociologías elaborem teorias sociais estranhas porque interrompem a tarefa da reaglutinação social. a sociologia do social tem sido surpreendentemente bem-sucedida. Theodore M. Trust in Numbers: The Pursuit o f Objectiv­ ity in Science and Public Life.31312 Desmerecer as ciências sociais por serem formais seria como criticar um dicionário por dispor os verbetes de A a Z ou um farmacêutico por co­ lar rótulos em todos os seus frascos e caixas. ou seja. por FA (‘‘Formal Analysis”) do “movimento social mundial". The Politics of Large Numbers: A History o f Statistical Reasoning. formatar ou informar o mundo social. “possuir” uma sociedade na qual viver. Porter (1995). Ethnomethodology's Program. The Values of Precision and Exactitude. p. sua força ao es­ tabelecer o social é que lhe dificulta a tarefa de reagrupá-lo. 312 Por isso não há razão para deplorar o primado daquilo que Garfinkel designa. desde o começo.-’" Sei. um tanto ironicamente. A tarefa de estabilizar as cin­ co fontes de incerteza é tão importante quanto a de mantê-las em aberto. para to ­ dos nós. 136. Na ver­ dade. lieagregando o social A primeira consequência notável de se atentar para a rastreabilidade material de móveis imutáveis é podermos definir com mais facilidade o que tem sido tão importante na sociologia do social desde o princípio. Assim. bem pesadas as coisas. Esta será também a ocasião para eu me desculpar pela maneira aparentemente arrogante com que tratei os mais velhos e melhores. e Norton Wise (1995). os críticos da sociologia do social metem os pés pelas mãos quando se esquecem de levar em conta sua extraordinária eficácia na geração de um tipo de vínculos: os sociais.” Garfinkel. Não pode haver nada de errado em formar. Sua fraqueza é sua força. Confesso agora que não foi sem escrúpulos que ao longo do livro critiquei tanto a maneira como as ciências sociais abordaram o problema da formatação. Suas realizações são mesmo de impressionar e tornaram possível.

tem de ser igualmente reconhecida. seria ridículo não abordar a segunda. 314 Um bom exemplo está em Bowker e Star. não convém nos tornarmos tão flexíveis. a disseminação e a manutenção dos móveis imutáveis não nos afastará um minuto sequer das estreitas galerias da prática. Irreductions. Seria “concrétude des- 325 . de suscitar controvérsias sobre o mundo social . a sintonização. Isso ocorre sobre­ tudo agora que já não corremos o risco de confundir semelhante estudo do formalismo com sua descrição formalista. de reforçar frontei­ ras. Uma vez mais. Sim.como fiz na Parte 1 . articulados e habilidosos quanto eles? Se as ciências sociais in -formam o social. Não “ignoraram” nenhuma dimensão humana.314 Uma oposição já incapaz de nos deter 313 Oulra forma do princípio de irreduçâo. B runo Latour Embora confundir as duas constitua um equívoco perigoso. categorias e decisões. vivida. concreta. a importância decisiva da segunda. uma vez assumida por completo a primeira tarefa. assim como aprendemos antes a condená-los por interromperem cedo demais a tarefa de associar e compor. As formas não “perderam” nada. seria tanto ou mais patético não reconhecer o trabalho incansável que fazem para limitar o repertório dos actantes e manter as controvérsias a distância. fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Elas não são nem “frias” nem “empedernidas” .313 Se é um grande equívoco metodológico restringir de antemão e no lugar do ator o alcance das entidades que devem povoar o mundo social. os categorizadores e os numeradores. Sorting things Out. ainda que se tenha tornado um pouco irritante. Ao contrário. mas quem disse que a prática da ciência social é indolor? Se os atores estão sempre ocupados. Acompanhar a feitura.. os classifi- cadores.e não deixam de ter uma “face humana”. Devemos agora aprender a respeitar os formalizadores. sob o pretexto de que a primeira tem de ser abor­ dada da mesma maneira. então essas formas precisam ser seguidas com tanto cuidado quanto as controvérsias. cumpre segui-los quando multiplicam entidades e também quando as reduzem. como definido em Latour. o único lema viável é “seguir os próprios atores”. Reconheço que essa nova ginástica corretiva talvez nos deixe doloridos.

tratarmos do plasma. Uma referência metrológica como o quilograma é local ou global? Local. enveredou pelo caminho errado devido à sua ligação com a fenomenología. o caso da peça de platina de um quilograma preservada no Instituto Internacional de Pesos e Medidas {Bureau Interna­ tional des Poids et Mesures). desprezados. o modelo ideal a que outras cópias inferiores são comparadas em cerimônia solene a cada dois anos? Sim. num nicho profundo dentro do Pavilhão Bre- teuil no parque de Sèvres.no sentido mais lato do termo . como vimos. Suas intuições.315* Para acompanhar a estabilização das controvérsias. por exemplo. Representa a ponta de uma cadeia metrológica. reconsideraremos a grande vantagem da posição de Garfinkel e entenderemos por que. melhor ain­ da. nada mais útil que trazer ao primeiro plano a noção crucial de padrões. usando sinais típicos. sim.se tornam óbvias. Cognition in Practice. depois de cuidadosamente redistribuídas. sim. De uma instituição internacional? Ainda uma vez. não passa de um arLefato. que por outro lado revela uma bem-vinda atenção à prática. Antes dos estudos de ciência. acanhados. pois se acha em alguma parte e circula dentro de caixas próprias. são justamente essas entidades confusas que permitem a todas as redes metro- lógicas do mundo terem uma espécie de “peso comum”. arredores de Paris. Tomemos. que as ciências sociais fazem parte da metrologia. 326 . 315 Quando. Podemos dizer que a sociologia do social circula à maneira dos padrões físicos ou. a suprema importância dos padrões e as imensas vantagens hauridas da metrologia . No entanto. mais tarde. Trata-se de uma convenção? Sim. É o limite de Lave. mostram dois aspectos sucessivos de agrupamentos sociais. a padronização e a metrologia eram peque­ ninos campos especializados. De um objeto material? Sim. em locada" criticar os que formatam como “abstratos”. Quando o local e o global desaparecem. poeirentos. muito provavelmente. Não há dúvida: é um híbrido. Entenda- -se: suas maiores realizações eram obscurecidas pelo abismo entre local e global que. e especialmente da ANT. Reagregnntfa o sunn/ é a que supostamente faria entrarem em choque as sociologías positivista e interpretativa.

Ver também Galison. sem o Système International d ’Unités -. Einstein’s Clocks. os “mesmos” materiais de referência biológicos etc. Les instru­ ments dans la coordination de Faction: pratique technique. que parece intimidar tanta gente: podemos obter algum tipo de acor­ do universal?317 Sem dúvida! Mas desde que encontrássemos uma maneira de ligar o instrumento local a uma das muitas cadeias metrológicas cuja rede física pudesse ser plenamente descrita e cujo custo pudesse ser meti­ culosamente determinado. Alexandre Mallard (1996). Measures fo r Progress: A History o f National Bureau of Standards. -All . instrument sci­ entifique. a “mesma” distância. Victorian Metrology and Its Instru­ mentation. A nossa teoria social tomou a metrologia como exemplo destacado daquilo que significa expandir-se local mente por toda parte. e é justamente disso que a ANT precisa para traçar a topografia social. Astronomers Mark Time: Discipline and lhe Personal Equation. 317 Exemplo impressionante do uso da metrologia no debate da corrida armamentista foi dado por Don MacKenzic (1990). A Manufactory o f OHMS. Não haveria parâmetros. Todos os locais seriam para sempre incomensuráveis. Bruno Uitoiir determinadas ocasiões e de acordo com alguns protocolos. e (1991b). Os padrões e a metrologia resolvem na prática a questão da relativi­ dade. também. não havería pontos de partida. Lautorité des instruments. Inventing Accuracy: A Historical Sociology of Nuclear Missile Guidance. não houvesse nenhuma suspensão. Rerun ond Canning Cochrane. o ampère . As condições práticas para a expansão da universalidade estão 3 16 Existe hoje uma vasta literatura sobre a extensão prática tias redes por meio de pa­ drões. Ver Ken Aider (1995). A Revolution to Measure: Vie Political Economy of the Metric System in France. Mêlard. ultrapassando tanto o local quanto o universal. nenhuma lacuna e nenhuma incerteza em qualquer ponto da transmissão. (1976). desde que. pois nenhum lugar tena a “mesma” hora. o ohm. A obra mais decisiva foi feita em Simon Schalter ( 1988). Metrology: The Creation o f Universality by the Circulation o f Particulars. métrologie. nenhuma ruptura.ou seja. Com efeito.. o “mesmo” peso.31'’ É global? Cla­ ro. a rastreabilidade é o grande negócio da metrologia! Não se aceita a descontinuidade. os "mesmos” reagentes químicos. um a vez que sem padrões como o watt. e Joseph O'Connell ( 1993). F. não existida global de espécie alguma. a “mesma” intensidade de corrente elétrica. o newton.

você passar do formato contábil americano para o da União Européia. 328 . Não é por acaso que tenha sido feito tanto trabalho por historiadores da ciência sobre a extensão localizada e material dos universais. a façanha não é pequena. McLean e Paolo Quattrone (2004). ver o número especial de Organizations e. menos materializadas: boa parte da coordenação entre agentes se faz pela disseminação de sem/padrões. G. No caso de inúme­ ros tipos de traços. C. levá-los em conta acompanhará cada detalhe minúsculo dessa “disputa técnica” porque explicar o que vem a ser lucro. ‘Spacing and Timing’: Introduction to the Special Issue o f Organization on ‘Spacing and Timing'. Inúmeros exemplos contundentes do modo como as “microtécnicas” de contabilidade controlam as “inacroconsequências” do lucro e das teorias econômicas podem ser encontrados no jornal Accounting. The epistemology of macroeconomic reality: The Keynesian Revolution from an accounting point of view. Organizations and Society. Mas quem precisa entender o que sig­ nifica calcular alguma coisa. externalizar alguns elementos e internalizar outros para. Reagreganiio n sovial abertas à pesquisa empírica. Jones. Tão logo você toma o exemplo da metrologia e da padronização científicas como seu ponto de referência para acompanhar a circulação dos universais. quem considera a economia uma infraestrutura não ligará para essa “pequena diferença” na contabilidade. à qual a União Européia delegou parte do trabalho. você também pode usar a mesma operação para outras circu­ lações menos rastreáveís. oferecerá aos investidores diferentes recursos para ajudá-los a fazer seus cálculos: as empresas européias lucrativas in­ cidiríam no vermelho. Sobre “desdobrar-se” no tempo e no espaço “fazendo” espaço e lempo. uma empresa privada com sede em Londres.318 Decerto. 319 Ver Alexandra Minviclle (no prelo). e as outras no preto. exploração ou mais-valia depende inteiramente dessas bagatelas. dirá que ela nada é em comparação com o “impacto real” das forças econômicas em baixa. especialmente. literalmente. Considerando-se quanto os modernizadores investiram na universalidade.319 Se as 318 Considerem-se os padrões da International Accounting Standards Board (ÍASB). a metáfora é muito fácil de entender: como ficaria uma atividade econômica qualquer sem princípios contábeis e manuais das me­ lhores práticas? Se. Ver também Tomo Susu/i (2003). De quoi une enterprise est-elle capable?. digamos.

embora involuntários. Não se trata de combater categorias. cuja “inefável interioridade” fica assim ignorada e mutilada. a circulação de semipadròes permite que atos anônimos e isolados se tornem lentamente. se não para padronizar. da qualidade do que for transferido. Elas resolvem. Não é que pes­ soas poderosas “compartí ment em” arrogantemente outras. podemos agora reconhecer os bons serviços. não na ausência de sujeições. Como você ficaria sabendo qual é a sua “categoria social” sem o enorme trabalho das agências de estatística para definir. Outras circulações de padrões parecem mais vagas. embora sua ras- treabilidade continue boa na medida em que o observador não permita à ingerência da “explicação social” cortar esse fio de Ariadne. umas tantas consultas com especialistas? De que modo o psiquiatra classificaria um doente mental sem recorrer ao Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais?3-0 De nada vale sustentar que essas categorias são arbitrárias. Essa medida comum depende. comparáveis e comensuráveis . 329 . na prática. “de classe média em ascensão” ou “de classe média baixa” se não lesse jornais? Como conhecería seu “perfil psicológico” sem umas tantas pesquisas es­ tatísticas. convencionais e vagas ou. que a sociologia do social pode prestar à nossa pes- 32U Stuart A. o problema de disseminar um padrão por toda parte. graças à circulação de algum documento rastreável .embora a metáfora do documento talvez seja um pouco indistinta. mas de indagar: “A categoria estará sujeitando ou suj edifica rido você?” Como vimos no finai do último capítulo. muito compartimentadas e pouco realistas. ao contrário. Vista desta maneira. ao contrário. Bruno Latour economias são produto da economia. as faixas de renda? Como uma pessoa se identificaria como “de classe média alta”. umas tantas reuniões profissionais. é claro. como afirmou Michel Gallon. locaknente.o que sem tiú vida constitui boa parte daquilo que entendemos por ser humano. as hu­ mildes ferramentas de trabalho que permitem a coordenação afluem ¡me­ diatamente para o primeiro plano. Kirk e Herb Kutchins ( 1991). camada após camada. a liberdade consiste na fuga a uma sujeição perversa. The Selling o f DSM: The Rhetoric o f Science in Psychiatry.

a disseminação de formatos e critérios vêm divulgando o custo de gerar universalidade. a contabilidade de entrada dupla ou a generalização do padrão 1SSO-9000. de que “temos compromissos legais”. de que “somos responsáveis”. as ciências da sociedade não transformaram mais ainda aquilo que significa. o metro.2!321 321 Não é necessária nenhuma façanha heróica de reflexão para aplicar esse principio à sociologia de Tarde e à própria ANT. não sobreviveria um minuto a mais que as cadeias metrológicas responsáveis por sua sustentação. Não se exige posição privilegiada para enten­ der isso. de que “gênero é diferente de sexo”. Se as ciências da natureza. como este. Ela tornou rastreável a porção do social que será armazenada e es­ tabilizada. Rmgrngfintln o ¡neial quisa. no dizer de Tarde. estarem ligados uns aos outros? Os atores po­ dem baixar teorias do social como baixam arquivos MP3.. Por isso as ciências sociais são ao mesmo tempo parte e solução do pro­ blema: elas revolvem constantemente o fermento coletivo. o ohm. Teorias sobre o que a sociedade é ou deveria ser desempenharam importante papel ao ajudar atores a definir onde estão. sem dúvida. Mesmo que uma teoria social se tornasse hegemônica. burocracias e. como a física e a química. de que “perdemos capital social” etc. Cada uma procura se expandir ou. “sonha conquistar o mundo como Alexandre”. E. de que “convém nos preocuparmos com a próxima geração”. Talvez pareçam tênues os padrões que definem para benefício de todos a constituição do social propriamente dito: nem por isso deixam de ser sólidos. mais geralmente. estão o mais das vezes em primeiro plano. 330 . para humanos. transformaram o mundo. quem são. como lhes é possível justificar-se e a que tipo de forças têm de ceder. nunca seria mais universal que o metro e. informação e tecnologia. As teorias sociais não se acham por trás de tudo isso. do mesmo modo como muitas empresas de serviços públicos. quais pessoas precisam levar em conta. a própria ideia de que “agimos como membros de uma sociedade”. nem quadros de referência. circula por meandros que os historiadores intelectuais conseguem reconstituir alcançando quase a mesma precisão com que seus colegas tratam a hora internacional.

vox e rex. Os enunciados abrangentes desempenham papel idêntico. vox Dei ” não “expressa” apenas uma crença popular amplamente disseminada. a distribuição de papéis e poderes entre deus. aprésenla outra maneira de levar a sério o poder de conexão de declarações específicas. Por exemplo. ver Cooren. a expressão medieval “Voxpopuli. Pense no que acontece quando um norte-americano exclama com orgulho “Este é um país livre!” ou um francês observa “On est en République quand même!". The Organizing Property o f Communication. 331 . com a primeira fonte de incerteza. Num tom diferente. embora ligeiramente. ao ser usado.l’interaction et dans le texte. caso não lhes atribuamos a mera função de “representar” ou “distorcer” forças sociais existentes.Chroniques an­ thropologiques d ’une institutionnalisation. fru­ to da eterna sabedoria do povo. Outage Vav Populi. Décrire la ville: La construction des savoirs urbains dans. Vox Dei e ¡’invention tie la nation anglaise (Vllle-Xlle). é possível documentarmos muitas das ocorrências desse ato de fala durante a Idade Média. ¡'invention de l'environnement en France. muito instável. desenhar a forma em rede de seu emprego e concluir que sempre. à semelhança do relevo sutil es­ culpido na superfície de uma pedra preciosa. Langages totalitaires. Jean- Pierre Faye (1972). Enunciados abrangentes não são fatos raros e exóticos. Isso é ainda mais verdadeiro quando o enunciado encerra uma teoria social diferente. Para o uso de ferramentas sociolin- guísticas. podemos usar essa topografia para examinar outros condutos que não são continuamente materializados por aparatos estatais. E vale considerar quantas posições se modificam quando o “princípio de precaução" é invocado por burocratas europeus contra a definição ameri-32 322 Afora Alain Boureau (1992). mas ainda assim geram o mesmo efeito com seus m o­ vimentos. populus. Para uma teoria geral dos maçro-atores. Brtmo Latour Tão logo aprendemos a traçá-la.m Aprendemos. À maneira de Alain Boureau. como sucede à frase acima. ele modificou. que mesmo uma pequenina alteração nos modos de alu­ dir a grupos pode modificar as atitudes deles. ver Lorenza Mondarla (2000). toda uma interpretação rios vínculos entre teologia e política. que implica. uni exemplo atual é dado pela palavra “environnement" ein Florian Charvolin (20(13).

no Ocidente. deixam “medidas” em sua es­ teira. os enunciados abrangentes desempenham um papel tão importante. 332 . sua eficácia se perde. de risco. ver Jim Dratwa (2003). mas. por assim dizer. o poder fonnaiador das tecnologias intelectuais. não apenas percebemos novos vín­ culos como suscitamos teorias novas e altamente elaboradas sobre o que significa abranger. quan­ do falamos em “Eixo do Mal” ou exigimos um "islamismo esclarecido"? Graças aos enunciados abrangentes. Eis o poder das “justificativas” analisadas por Boltansld e Théve- not: não têm tamanho. Quando apenas representam. como coletaríamos o coletivo? 323 lim sua obra sobre a expressão “precautionary principle" nos escritórios europeus. Taking Risks with the Precautionary Principle. 325 Boltanski e Thévenot. A sociologia de Boltanski è meio filosofia kantiana e meio procedimento de coletar e pôr em circulação declarações. On Justification. Ti­ mothy Mitchell (2002). On the Historical Explanation o f Pictures. Patterns o f Intention. Não há dificuldade em repusicionar o segundo e eliminar a primeira. 324 Um beto exempio da capacidade de conexão dos argumentos está cm Michael Ba* xandall (1985). Toda vez que uma expressão é usada para justificar um ato. Techno-Politics.325 Justamente porque a escala não é um traço fixo do social. ela não só dá forma ao social corno fornece uma segunda instru­ ção sobre como os mundos sociais devem ser formatados. pois tais expressões permitem às pessoas posicionar-se tanto quanto aos objetos em disputa.'25 Que sucede ao público. além do postulado “desenvolvi­ mento’’. o contexto social por trás deles). mais clássica. Sem enunciados abrangentes. concretizam ou objetivam uma coisa (por exemplo. Reagregnmio o simal cana. Modernity. Mas tão logo são retomados como padrões em circulação ao longo de finas cadeias metrológicas.323324 Eles dão forma ao social por todos os meios práticos possíveis. Rule o f Experts: Egypt. apresenta um dos melhores casos da utilidade de se esLudar. transformam-se cla­ ramente em fonte daquilo que entendemos por estar em sociedade.

tão difícil quanto lógico. não foi atualizado. Quanto melhor se é ao definir o social “mais antigo”. A descoberta fica mais fácil quando aprendemos a não confundir o social já agrupado com a tarefa de reagrupá-lo e quando não mais subs­ tituímos as entidades procuradas por algo construído de material social. m e d ia d o r e s Agora que sabemos como Davegar pelo terreno plano e reconhecer a energía forrnatadora da sociología do social. O social que constitui a sociedade representa apenas uma parte dos grupos formadores do coletivo. The National System o f Scientific Measurement. Para reagrupar o social. descobrir outras entidades que circulem. abrimos um espaço em que outros tipos de entidade possam começar a circular. assim como a sociologia do social não o é da sociologia. A eficacia metrológica das ciencias sociais é que lhes dificulta encarar o social como associação. ignorem seu conteúdo e inves- 326 Ver Cochrane. produção. Bruno Latour E n f im . Não deveremos dizer: “Frente a ura objeto. expansíveis e valiosos. o surpreendente arligo de P. podemos dar o próximo passo. Localizando a circulação. pior se é ao definir o “novo”. será necessário. se quisermos aproveitar essa pequena “janela de opor­ tunidade”. formatação e metrologia do social dentro de condutos estreitos. Entretanto. afora a circulação e a formatação de laços sociais tradicional­ mente concebidos. 333 . mas não constituem a fonte da maioria das descobertas . Hunter (1980). pelo que sei.326 A metrologia não é a totalidade da ciência. Infelizmente. teremos de modificar o esquema padrão de nossas pesquisas.embora se disponham a utilizar qualquer fato novo para aprimorar a acuidade de seus instrumentos em algumas casas decimais. A situação se repete ponto por ponto com os campos técnicos da metrologia: eles permitem a todos os ou­ tros laboratórios fazerem ciência. justamente porque consegue calibrar e demarcar bem as definições estabilizadas do social é que consi' dera impraticável o dímensionamento de recém-chegados. Measures fo r Progress. sempre prontos a intervir no curso de controvérsias.

tamanha pudicicia é mesmo extraordinária: “Esconda-as. pa­ recia lógico limitar antecipadamente a sociedade a um número reduzido 334 . por favor. mas apenas com as forças sociais que atuam em seu nome. precisamos descobrir por que os sociólogos hesitam tanto em ficar face a face com as entidades não sociais responsáveis pela for­ mação do mundo social. deixando de lado as outras muitas fontes que a valori­ zam? Quando estudamos economia. por qual motivo nossa primeira reação é apontar polidamente seu “viés científico” e não sua objetividade? Como se explica que. nossa tendência é restringir a pesquisa às suas “dimensões sociais” e considerar virtude científica não estudar a própria religião? Quando às voltas com a ciência. Tudo ocorre como se nossa primeira reação fosse acolher somen­ te as associações previamente envolvidas num manto de vínculos sociais. É como se não conseguíssemos encarar os intri­ gantes fenômenos que continuam proliferando quando imaginamos que a vida coletiva está à beira do colapso. faça o favor de cobrir o rosto com o lenço das explicações sociais”. tratando-se de religião. Em ou­ tras palavras. ainda que este maravilhoso encontro seja uma experiência corriqueira. Reugregamlo 0 social tiguem apenas os aspectos sociais que o cercam”. não posso ver essas associações!” ou “Antes de entrar no palácio das ciências sociais. Por que. em si mesmos. não são parte do repertório social. Embora nosso contato mais comum com a sociedade esteja so­ brecarregado com novos elementos que. como se nunca pudéssemos aceitar o convívio com as personagens em si. por qual motivo não vamos direto ao assunto. Num período que não prima pela castidade. por que continuamos apegados à sua magra lista de membros aceitos? Semelhante apego fazia sentido durante o período de modernização. que é o nosso apego aos bens de consumo. pesquisando sobre arte. em vez de postular um “fator sociológico” na “base” de cálculos puramente racionais? E assim por diante. esconda-as. atentem primeiro para as associações de que ele é feito e só depois examinem como ele renovou o repertorio de laços sociais”. nos limitemos ao elemento “social” contido na apreciação de uma obra-prima. Digamos antes: “Frente a um objeto. Para demarcar um rompimento claro com o passado.

Almas piedosas têm uma estranha obsessão em falar como se estivessem em contato com espí­ ritos. divindades. assim. inovadores. Além disso. Movem-se com desenvoltura e. que a sociedade deva aceitar para sempre o papel de disciplina sem objeto. é claro. fantasmas etc. o que faríamos com as coisas que os atores teimam em designar como “seres reais”? Teñamos de cercá-las de pontos de interrogação. Ora. científico ou político. téc­ nicos. mas ainda assim são “tidas” como reais. Todavia. posto de lado o modernismo. Consideremos. Isso não significa. Respeitar o poder formata- dor da sociologia do social é uma coisa. eis um dos aspec­ tos importantes do es ludo do ¡conocí asmo e de todo o repertorio dos gestos críticos. espíritos e vozes levam uma vida meio aper­ tada dentro da esfera individual da pessoa. imaginação e automistificação. Ver Latour e Weibel. mas outra coisa é insistir apenas na metrologia e ignorar a descoberta de novos fenômenos.'27 Uma primeira esfera fantasio­ sa começaria a se formar. Bruno Latour de personae gratae. existência alguma na pauta do observador. esgotam a capacidade individual de invenção. Essas entidades todas não teriam. por exemplo. essa atitude deixa de ter sentido moral. lconoclash. divindades. obviamente. ao pé da letra. os atores insistem em que são induzidos a fazer coisas por entida­ des existentes “fora” deles! As pessoas comuns não querem que elas sejam apenas objetos de crença e. inserir sua existência entre parênteses e encalacrá Ias na cabeça do religioso. Precisa­ ríamos. já que não pertenceríam ao repertório limitado previamente estabelecido de forças atuantes. porém. São por demais precisos. como tais entidades não existem. devem necessariamente brotar do espírito ou do cérebro de alguém. essas entidades precisam vir do mundo327 327 Que essa crença é uma instituição modernista oriunda da critica. inventar um crente. En­ tão. o que sucedería se abordássemos o es­ tudo da religião munidos do velho aparato padrão. vozes. 335 . Como poderiamos chamar de empírica uma disciplina que só aproveita os dados passíveis de "explicações sociais”? Não exige muita coragem ou imaginação concluir que.

começa a se formar a partir de nossos próprios estudos: a matéria social não existente encarregada de manter a existência de entidades que não existem. Aqui. em matéria de religião. talvez até mais científico. porém.o social feito de matéria social. exterior ao individuo. talvez. só contam os seres capazes de levar pessoas a agir. Por que não dizer que. sem dúvi­ da) reza: “Quando o sábio aponta a lua.único fato.. Mas então devemos aceitar sua existencia? De modo algum. Não sou iludido a ponto de achar que a ANT possa fugir ao destino de todas as teorias: pensar não é resolver problemas difíceis. Acho impossível aceitar que as ciências sociais sejam tão degradantes a ponto de criar disciplinas completas para imbecilizar os pesquisadores. mas 32a Claveric. que haverá de tão científico na noção de "crença”? Se esse esquema padrão for aceito . Toda ciência. 336 . sem dúvida. “incontestável” no caso. E tudo isso em nome da ciência honesta e da cultura séria! Seja como for. a sociedade . Qual é a única realidade. como todo crente sempre afirmou?1’8 Isso seria mais empí­ rico. com poder para sustentar a exis­ tencia de fenômenos inexistentes? A resposta é. irreais. uma segunda esfera. ainda maior. mais respeitoso e bem mais econômico do que inventar dois lugares impossíveis. as pessoas comuns continuarão afirmando que são levadas a agir por entidades reais fora delas mesmas. les Guerres de lu Vierge. onde a mente do religioso e a realidade social estivessem ocultas por trás de ilusões que muitas outras geraram. Rewgreguntlo o j nrinl exterior. o imbecil olha para o dedo”. Evitar as fontes de ação que induzem pessoas a fazer coisas não carece obviamente de sentido empírico? Por que não tomar a direção apontada por seu indicador quando designam aquilo que as “faz agir"? Um provérbio chinês (falso. uma vez que não existem . ficaremos às voltas com uma armadilha. precisa inventar artifícios temerários para tor­ nar o observador sensível a novos tipos de conexões.olhe primeiro para o objeto e só depois para o social padronizado . Além disso. mas povoam as mentes estreitas de membros iludidos.

pratos da haute cuisine. Mas os sociólo­ gos do social não se gabam de terem destruído todos esses objetos exó­ ticos? Será mesmo necessário trazer de volta deuses ao discutir religião. na Parte I. Tomemos as obras artísticas para exemplo. Esculturas. Em seguida. a consequência para o estudo da ciência. retrógrada e arcaica possível? É aí que a Formiga ganha ou perde. to­ dos os objetos de fruição acabaram substituídos por marionetes que pro­ jetavam sombras sociais tomadas como a única “realidade verdadeira”329 329 )á mostrei. comparemos isso ao modo como a religião foi descurada no exemplo acima. 337 . como fazem os zoólogos em seus zoológicos e os botânicos em seus herbários? Conseguiremos traçar conexões de um ser não social a outro. em vez de substituir todas as entidades que povoam o mundo por algum ersatz feito “de” material social? Simplificando: terá a ciência social um objeto real para estudar? Antes de responder com um sonoro “não”. músicas eletrônicas e romances foram explicados à saciedade pelos fatores sociais “ocultos por trás" deles. obras-primas ao analisar arte.'29 Afora a religião.itlaur sim deslocá-los. Graças a uma inversão da alegoria platônica da Caverna. Poderiamos prever uma ciência social capaz de levar a sério seres que induzem pessoas a agir7. quadros. outras enti­ dades em circulação precisam garantir-se alguns direitos de cidadania a fim de ter seu assento ao lado dos membros mais velhos. R rttn o í. fatos objetivos ao estudar ciência? Não será justamente esse o obstáculo que a ciência social se orgulha de ter removido? Invocar a existência de entidades não sociais em circulação não é a atitude mais reacionária. consideremos por um momento o que aconteceria à sensibilidade de nossos instrumentos se alterássemos o esquema padrão e examinássemos primeiro os objetos. Para que o encontro com os objetos ocorra. sem sair à cata de explicações sociais. nenhum outro domí­ nio foi mais achincalhado pela sociologia crítica do que a sociologia da arte. Poderá a sociologia se tornar empírica no sentido de respeitar a estranha natureza daquilo que é “dado à existência”.

no novo paradigma estamos diante da situação de ganhar ou ganhar: quanto mais apego. como sempre.331 Não será essa a experiência mais comum? Você contempla uma pintura e o amigo ao lado aponta um traço em que não reparara: você então é levado a ver alguma coisa. No entanto.term i­ namos hesitando entre “internalismo” e “externalism o”.as pessoas são induzidas a iludir se pela pressão “científica” da ciência social: transform am -se ou­ tra vez em crentes! E de novo. mas também nunca se parecem com o “objeto” isolado da estét ica. The Reformation o f the Image. no antigo paradigma. Se. Impossível! Proibido! Ser afetado é mera afetação.se apresentam para defender a “santidade interior” da obra de arte contra os bárbaros. elas sustentarão demoradamente como e por qual motivo ficam atraídas. prata e diamantes em pó.a encosta é escarpada. Reagregnntta n social “subjacente” à apreciação da obra de arte. Le goût du vin: Pour une sociologie de l'attention. era necessário um jogo de soma zero . quem 330 Sigo aqui Antoine Heim ion (1 9 9 3 ). 331 Ver Antoine Hennion e Geneviève Teil (2003). e Joseph Leo Koerner (20(14). melhor. de novo . entre estética e explicação social. como se vê na re­ ligião. 338 . Quem a está vendo? Você. ciência e política .tudo quanto a obra de arte perdia o social ganhava.enfurecidas pela irreverência bárbara das “explicações sociais” . Ern parte alguma a explicação social desempenhou melhor o papel de um rei Midas às avessas. La passion musicale: Une sociologie de la médiation. esse não é um dado empírico porque os seres aos quais estamos ligados por meio das obras de arte nunca lembram o social dos so­ ciólogos. com seu “espaço interior” de “inefável beleza”. se ouvirmos as pessoas. o resultado é inevitável .330 Que faremos então se mantivermos o velho esquema? Bem. Sem dúvida. algumas delas . Mas não reconhece de bom grado que nunca a teria visto sem a ajuda do amigo? Assim. é claro. La­ mentavelmente . trans­ formando ouro. durante todo o percurso de volta ao jardim de infância. tudo quanto era perdido pelo social era ganho pela “qua­ lidade intrínseca” da obra de arte -.como em religião. com ovidas e afetadas pelas obras de arte que as “fazem” sentir coisas.

pois a resposta óbvia é “deixar-se levar". um excelente modelo de tratamento do resto do social. entre muitas outras entidades. o mundo social mais além. ver Svetlana Alpcrs (1988). mesmo para aqueles que. não aceitam nenhuma teoria social explícita. Bruno talpur de fato viu o traço delicado? Você ou o seu amigo? A pergunta é absurda. graças a uma súbita descontinuidade. melhor. os procedimentos do mercado de arte. então a qualidade “intrínseca” da obra não diminuirá . Apenas siga a corrente. 339 . Tal a etiqueta dessa estra­ nha diplomacia. “Eaflluenee des objets”. Para retomar e inverter o símile astronômico um tanto infeliz que Kant infelicitou mais ainda. em vez de objetos girando à volta de agregados sociais. Patrons and Painters: A Study in the Relations Between Italian A rtau d Society in the Age o f the Baroque. como Francis Haskell (1982). E se você puder ir aos poucos influenciando a qualidade do verniz. Nada que não fosse constituído de laços so­ ciais podia fazer contato com os humanos. aquilo que chamaríamos de quase objetos e quase sujeitos. os enigmas dos programas narrativos.3323Quanto mais “afluência”. vários agrega­ dos sociais agora emanam dos inúmeros vínculos que ocupam o centro 332 Para o tratamento das obras-primas por historiadores da arte. Havería alguém suficientemente tolo para deduzir da soma total de ação a influência do ato de apontar alguma coisa? Quanto mais influência. Objeto e sujeito talvez existam. e depois. Siga os atores. ocorre justamente o contrário: os membros humanos e o contexto social foram relegados aos bastidores. como na sociologia pré-copernicana. será reforçada. Rembrandt's Enterprise: The Studio and the Market. 333 Neologismo em Yaneva. as entida­ des em circulação. m e­ lhor.133 Vai contra a intuição tentar distinguir o que vem dos “observadores" do que vem do “objeto". Na nova definição. a luz incide agora sobre todos os mediadores cuja proliferação engendra. os gostos variáveis dos colecionadores que formara um longo cortejo de mediadores.ao contrário. aparecia em primeiro plano o participante humano. aquilo que os faz atuar. Na definição pré-relativista do social. ou antes. mas tudo o que interessa acontece a montante e a jusante.

mas as técnicas dotam de extensão e durabilidade os vínculos sociais. que a primeira apenas confundira o explanans com o explanandum: a sociedade é a consequência. mas os cálculos dos economistas propiciam compe­ tência aos atores para se comportarem de maneira econômica etc. não a causa das associações. tive de dizer. Embora qualquer dessas inversões possa ser correta nos termos da ANT. o membro ou o participante. para usar outra expressão de Kant. apenas substituindo uma pela outra. por exemplo. Agora posso oferecer uma definição mais precisa: há várias outras maneiras de visualizar o mundo social como um todo. mas o con­ teúdo científico explica a forma de seu contexto . Na ocasião. a pessoa. mas a prática legal define o que deve ser com inado . à maneira de Tarde. mas as associações que explicam o social. é essa mu­ dança de perspectiva que a ANT anda procurando. essa diferença marcante talvez não tenha soado muito convincente porque apenas invertia o rumo da eficácia causai. Agora. juntamente com a urgência de uma explicação social que apelasse para as reservas de laços 340 . que as relações sociais não “incorporam” cálculos econômicos. a daquilo que expli­ ca e a daquilo que deve ser explicado. porém. Esta não é uma maneira melhor de. manter o argumento mais simples e sustentar. Coisas. quan­ do precisei definir da maneira mais clara possível a diferença entre sociologia do social e sociologia de associações. quase objetos e vínculos é que constituem o verdadeiro centro do mundo social . Nessa primeira formulação não é o social que explica as associações. Não importa quão frágil seja a metáfora. já nas primeiras páginas deste livro. e muito menos a sociedade com seus avatares. é claro. que o poder social não explica a lei. que a ciência não é explicada por fatores sociais. Reagregando o social do universo social. continua­ rão parciais porque mantive intactas as duas posições.não o agente. as duas posições desapareceram ao mesmo tempo. que a tec­ nologia não é “socialmente moldada”. tornar a sociologia finalmente capaz de “percorrer o cam inho seguro da ciência”? O leitor se lembrará de que. além do conceito restrito proporcionado pelos laços sociais padronizados. Eu poderia. que nos acostumamos a percorrer o novo terreno plano.

mas não seguidas de perto por eles. como retraçai' incansavelmen­ te a forma paradoxal do corpo politico de maneira política. Dado que explicar a política pelo poder e a dominação é atitude controver­ sa. Chegamos agora ao ponto crítico: deslocamento. não significa “conexões feitas de social”. entidades tão completas. onipresentes. religiosas. pois a política almeja objetivos mais sérios. é claro. e sim um movimento provisorio de associações novas. uma coisa.. mas não deve ser usada para explicar os ingredien­ tes das relações sociais. Ela tem coisas mais importantes a fazer. téc­ nicas. mas de maneira religiosa. mas novas associações entre elementos não sociais. também não faria muito sentido simplesmente inverter o argumento. Bruno Latour sociais já estabilizados: o social não é um lugar. Embora fosse inútil explicar a religião como uma personificação fantasiosa da sociedade.expressão que. explicar a sociedade. dizer o con­ trário não seria muito melhor porque a religião também não tenta explicar a forma da sociedade. ser explicada por seu contexto social. um domínio ou um tipo de materia. já o sabemos. Ela também tem mais o que fazer. e sequer é verdadeiro dizer que a lei deve. Essa mudança de topografia permite que o mesmo argumento ANT seja agora apresentado sob uma luz mais interessante. é aqui que a verdadeira ruptura com 341 . pois seus deslocamentos é que traçam as conexões sociais . pois não há sociedade a ser explicada. Não é que a lei. O mesmo se aplicaria a vários outros tipos de conectores ora no centro do palco. pistas de aterrissagem para que outras entidades entrem no coletivo. como juntar as mesmas entidades que a ciência e a lei juntam. sim. por exemplo. como circular por aí ligando entidades de maneira científica. A ciência não pode. científicas. oferecendo. por assim dizer. circular pela paisagem a fim de as­ sociar entidades de maneira legal. por seu turno. econômicas e políticas? E como comparar isso com os traços deixa­ dos pelas definições meticulosas de laços sociais? É aqui que o símile da revolução copernicana não satisfaz.. A lei tem mais o que fazer: por exemplo. mas de quê ? Por que falar em “maneiras” de associar legais. respeitáveis e empíricas quanto o social dos sociólogos. seja inexplicável pela influência das forças sociais a que está sujeita.

seres. finalmente. por que agir como se a crença fosse a única maneira de “explicar” a religião? Amador algum jamais hesi- 334 É aqui também que. Para mim. Mas eu aprendí com Mol que “filosofia empírica” pode ser outro meio de prestar serviço social. talvez?330 Enumerar as diferentes maneiras pelas quais elas agrupam o coletivo exigiría um livro totalmente diferente. 342 . então. Uma vez transformadas as explicações na elaboração e dis­ seminação de padrões. Talvez eu tenha repisado em excesso a metáfora da relatividade. mas. Nesse sentido. mas o paralelo é gritante: abandonar a explicação social é como abandonar o éter. precisamos libertar de suas gaiolas entidades até agora proibidas de pisar o palco e deixá-las perambular no­ vamente pelo mundo. e não relativista. não preciso assinalar o ponto de forma positiva. 71). por sorte.’34 Para entender o que considero o fim último da ANT. objetos. Nenhuma alma piedosa jamais aceitou ser apenas um crente. para quem nunca foi neces­ sário diferenciar os tipos dc fios com que tecia sua definição do mundo social. de sociologia. a maior vantagem do estranho movimento que propus é o fato dele permitir aos cientistas sociais captar de maneira empírica aquilo que os membros real­ mente fazem.335 Que nome lhes dar? Entidades. agora.e é aqui que os poucos leitores que consegui conservar até agora abandonarão a teoria para sempre. coi­ sas invisíveis. 335 Talvez esse movimento esteja além do alcance da ciência social e só leve à filosofia. caso não modifiquemos de vez o significado desse adjetivo .36 336 Fui acusado de positivismo por rejeitar forças ocultas (ver a Segunda Fonte de In­ certeza. Tarde se saiu com urna definição substantiva. exceto um artefato que tornou impossível o desenvol­ vimento de uma ciência. devo me afastar de Tarde. que tudo não passou dc uma impressão momentânea. forçando os observadores a inventar entidades com feições contraditórias e fechar os olhos às reais. p. Reagregando o social todo tipo de ciencias "sociais” vai ocorrer. nada se perde. as outras entidades que reúnem o coletivo a seu próprio modo podem finalmente ser enfatizadas. mas espero que tenha ficado claro. apenas apontar o rumo e dizer por que minimizamos nossas chances de ser “objetivos” quando nos apegamos demasiadamente à sociologia do social.

por que. 338 A tentativa magistral de Luhmann . agir como se a alternativa entre “realismo” e “construtivis- mo” realmente interessasse? Nenhum político se viu jamais às voltas com a mera dominação. limitando-se a uma versão padronizada de agregado. políticas e organizações precisam ter seus próprios modos de existência. 343 .respeilar as diferenças pela noção de esferas autônomas . Lei. assu- 337 É o que torna tão interessante a filosofia de Étienne Suuriau (1943). a sociedade e a natureza. A pluralidade de mundos habitados talvez seja uma hipótese ambiciosa demais. psiques. ciência. fingir que a diferença entre procedimen­ tos normais e forças sociais concretas é importante? Se a palavra “empíri­ co” significa “fiel à experiência”.™ Haverá algum motivo para que a sociologia continue ignorando-o?338 O problema é que as ciências sociais nunca se preocuparam real­ mente em ser empíricas porque supunham dever. suas próprias circulações.infelizmente falhou porque ele insistiu em descrever todas as esferas por meio da metalinguagem comum lirada dc uma versão simplificada de biologia. mas a pluralidade de regimes de existência em nosso próprio mundo é um datum. então. não será esse um pretexto para respeitar o que é dado nos encontros mais comuns com o social? Os mediadores finalmente nos declinaram seus nomes verdadeiros: “Somos seres lá de fora que convocam e reúnem o coletivo na medida da­ quilo que vocês até agora chamaram de social. moralidades. então. que chamo de pesquisa de regimes de enunciação. percebemos que poucos deles estão satisfeitos com o repertório ontológico oferecido pelos coletores antigos. Quando ouvimos atentamente os mediadores. explicar as coisas como se a sociedade e a tecnologia devessem perma­ necer separadas? Nenhum cientista de laboratório jamais confrontou um objeto "exterior” independent emente do trabalho para “torná-lo visível”. sigam-nos também”. en­ tão. religião. Definir e explorar isso é meu próximo projeto. então. Les Différents Modes d'Existence. por que. tentar envolver toda a sociologia da arte nesse dilema artificial? Engenheiro algum jamais distinguai um conjunto de pessoas de um conjunto de peças. ao mesmo lempo. se quiseram seguir os próprios atores. por que. economia. por que. Brwui Latour Lou entre “subjetividade” e “objetividade”.

o passo á frente tão inevitável e 344 . antes de abordar a questão da epistemología política. mas aquilo que “atra­ vessa” tudo. ao mar de nossa ignorância comum.pelo menos sua parte concatenada.não mais do que estamos “na” natureza. Já a questão seguinte é tão simples. Quando aceitamos desenhar a paisagem plana recorrendo à lista que apre­ sentei de acessórios. calibrando conexões e dando a cada entidade que encontra uma chance de comensurabilidade. mais fechado o recinto tem de ser. a sociedade não é onipresente. o sistemático ou estrutural. A sociedade não cobre o todo. P la sm a : a s m a s s a s p e r d id a s É um grande alívio descobrir que não estamos “na” sociedade . Mas. quanto mais vigorosa é a impressão. a terra firm a de pistas e documentos. esforços e canais. à semelhança do velho Deus dos catecismos. ubíqua. O social não é como um vasto hori­ zonte impalpável onde se inserem todos os nossos gestos. mas cuidadosamente situado num dos muitos teatros Omni max que oferecem panoramas completos da sociedade . Por isso é tão importante manter separadas as três tarefas das ciências sociais: o desdobramento de controvérsias. O total. Devemos agora “ligar” os canais so­ ciais como Iigamos os fios de nosso televisor. este romperá a continuidade das redes.e agora sabemos que. parava no meio do caminho devido à necessidade de ganhar relevân­ cia. truques. onisciente. assim como a World Wide Web não é realmente mundial. Reagregfímto <isoc ta! mir a tarefa da modernização. tenho de assinalar outro traço intrigante que é o motivo desta in­ trodução. Contrariamente aos outros “grampos” que inseri. o social . A sociedade não é o todo “onde” todas as coisas estão inseridas. não é esquecido. grades e grampos.passa a circular por finos condutos que só podem se expandir graças a mais instrumentos. isto é. estabilizada e padronizada . a estabilização delas e a busca de influência política. Toda vez que uma pesquisa era iniciada a sério. atenta a cada um de nossos movimentos e pensamentos mais secretos. Irá nos levar de volta ao mar.

uma imensa paisagem nova surge à vista. Como sempre. Se é verdade. que a paisagem social apre- senta uma topografia plana “em rede” e que os ingredientes formadores da sociedade viajam por finos condutos. então o que está entre as malhas desse circuito? É por isso que. é Garfinkel quem oferece a melhor definição do “fora” a que temos de apelar para completar um curso de ação: “A esfera de coisas que escapa à explicação dada pela FA [Formal Analytic] é astronómi­ camente gigantesca em tamanho e alcance”. Ethnomethodolog/s Program. o que sabemos do que se acha lá fo r a 7. Uma rede não é. não importam seus muitos defeitos.339 Embora não capte a verdadei­ ra importância da padronização. uma inversão vertiginosa de primeiro e segundo planos ocorresse. o leitor já antecipou este último aspecto. Depois que todo o mundo social é reposicionado no interior de suas cadeias metrológicas. a metáfora de Garfinkel não é um exagero: a proporção entre o que formatamos e o que ignoramos é de fato astronô- 339 Garfinkel. circuitos e worknets deixam sem conexão aquilo que não conectam.ela própria formal. a m e­ táfora da rede permanece sólida. 345 . £ a grande lição de Wittgenstein: o que segue regras não pode sei. Se ele não fornece uma descrição completa de si mesmo. superfície. Não muito. Se o conhecimento do social fica limitado às galerias de minhocas pelas quais estivemos viajando. por definição. surge a pergunta inevitável: “Que tipo de material não é tocado nern acionado por esses circuitos?” Uma vez levantada esta questão. as redes.descrito por regras. isso significa que para completar qualquer ato formal é necessário acrescentar alguma coisa vinda de outra parte sem ser. como postula a ANT. feita de espaços vazios? Tão logo uma coisa tão grande e abrangente quanto o “contexto social” passa a percorrer a paisagem à maneira de um metrô ou tubulação de gás. é como se. Bruno LtUaur a consequência tão lógica que. antes de tudo. Ao contrário da substância. domínio e esferas que preenchem cada centímetro daquilo que ligam e delineiam. estou certo. 104. essa é a consequência de encarar o formalismo ma­ terialmente. p. De certo modo.

mais lógica numa frase que num discurso. Esse é também o motivo. Outsiders: Studies in the Sociology o f Deviance. em comparação com o número de associações necessárias para completar até o menor dos gestos. 144. são necessários muitos fragmentos ignorados e descoordenados de ação. para nâo dizer o encanto. sem que isso cause surpresa. e Becker. 342 Tarde. pelo qual Thévenot precisou multiplicar os diferentes regimes de ação para simplesmente começar a cobrir o mais simples dos comportamentos. 340 Ver Howard Becker (1991). Psychologie Économique. organizações.341 Mas. para coordenar uma banda. Art Worlds. em geral. mercados) é uma amplificação. é Tarde quem nos apresenta as idéias mais radicais sobre o material necessário para que uma atividade se manifeste. 220. 346 . insiste: “A metafísica alternativa presume que a exterioridade seja dominadora. dos relatos de práticas sociais escritos por Howie Recken Sem dúvida. Reagregando o social mica. O social normalmente construído não é nada. todo pensador se torna outro Zenão. Tão logo uma descrição não formal de formalismo precise ser dada. Só Tarde poderia inverter o senso comum a esse ponto.aw. Essa é a grande virtude.342 É a consequência de sua interpretação dos vínculos en­ tre o grande e o pequeno que já usei nos capítulos precedentes.340 Para acertar um tom. mas também uma simplificação do pequeno. hesitantes. indeterminável”. After Method. 341 I. ficam sempre no meio do caminho e param sem razão aparente. enérgica. p. É por isso também que Law. p. suas descrições são sempre incompletas. em última análise. e sim o resultado de sua extrema atenção aos caprichos da experiência. abertas. excessiva. multiplicando os passos intermediários ad infinitum. um conjunto de potencialidades indeter­ minadas e um fluxo. segundo uma diferente escola de pensamen­ to. mas isso não é uma fraqueza de sua parte. O grande (Estados. Encontramos a mesma perplexidade em diversas escolas de teoria social: a ação não acrescenta nada. num discurso que numa série ou grupo de discursos. ao tentar definir sua perspectiva ANT. declarando: “Assim também há.

coberto. ao todo provisório. 344 Slolerdijk. em algum ponto.344 Chamo a esse material plasm a. da-nos uma vigorosa descrição nova daquilo que sempre falta nos relatos. aquilo que ainda não foi for­ matado. É como se.345 Qual o seu tamanho? Pegue um mapa de Londres e imagine que o mundo social visitado até agora ocupe apenas o espaço do metrô. Ou. mobilizado. Social Laws. o grande pode a qualquer instante mergulhar de novo no pequeno do qual emergiu e ao qual retornará. inserido em cadeias metrológicas. gatos. Depois de avaliar a extensão desse plasma. e sim que o micro é composto de uma pro­ liferação de entidades incomensuráveis . O pequeno sustenta o grande. Qualquer que seja a expressão.embora muito diferente da circulação metafórica da rede . a fim de 343 Tarde. Garfinkel tem razão: “Ë astronómicamente gigantesco em ta­ manho e alcance”. medido. com sua filosofia de explicação dos invólucros de que estamos todos re­ vestidos . Bruna Latour há mais lógica num rito do que numa religião inteira. antes..por ele chamadas de "mónadas” . subjeti ficado. 76. é preciso voltar a atenção para o exterior. uma “fachada de si mesmas”.343 Com esse princípio. 345 Ver Emmanuel Didier (2001). vistoriado. socializado.que simplesmente emprestam um de seus aspectos. parece que ne­ nhum entendimento do social pode ser fornecido se não voltarmos a aten­ ção para outra série de fenômenos não formatados. 347 . climas. habitantes. não deveriamos concluir que o macro abrange o micro. tivéssemos de deixar a terra firme e ir para o mar. e há mais lógica numa peça executada por um artífice do que na soma total de seu desempenho”. p. De l’échantillon à la population: Sociologie de la g é­ néralisation pa r sondage aux États-Unis. Sim. O plasma seria o resto de Londres com todos os seus edifícios. numa teoria científica do que no corpo da ciência. para um notável exemplo de plasma antes deste ser transformado em números. palácios e guardas mon­ tados. num artigo de lei do que no código todo. ou seja. poderemos recolocar em seus devidos lugares as duas inluições opostas das sociologías positivista e interpretativa: sim. plantas.

assim como o campo fornece recursos para os moradores da cidade e as massas perdidas abastecem o cosmólogo em ­ penhado ein avaliar o peso do universo. Entretanto. há uma flexibilidade indefinida na in­ terpretação das ações. agentes individuais e pessoas determinadas forneciam um locus mais realista e dinâmico do que as vãs abstrações da sociedade. Em muitas passagens deste livro critiquei os fenomeno- logistas. o exterior não é constituído de material social . o que não significa. flexibilidade e fluidez é simplesmente uma maneira de registrar o vasto exterior a que todo curso de ação tem de recorrer para ser realizado. por assim dizer. porém. Não está escondido. como eles dizem. A hermenêutica não é privilégio dos humanos. Raigregimclo u social entender um curso de ação. Para interpretar um comportamento. Está no meio e não é feito de material social. Para interpretar um comportamento. pessoas com intenções e almas individuais sejam os únicos agentes interpretativos num mundo de coisas concretas.ao contrário. sim. e talvez também os humanistas. temos. em si mesmo destituído de significado. sem dúvida. Não é que humanos determinados.e a interpretação não é característica de agentes humanos individualizados . temos de acrescentar alguma coisa. Isso é verdadeiro tanto para ações humanas quanto para qual­ quer outra atividade. Tinham ra­ zão em procurar “algo oculto por trás” . confundiram suas fontes.que nem está atrás nem escon­ dido. de estar preparados para diferentes versões. O que se entende por interpretações. Parece um vasto interior que fornece recursos para o cumprimento de uma ação. mas. por acreditarem que interações diretas. uma propriedade do próprio mundo. Embora estivessem certos ao insistir nas incertezas. Sem dúvida. exceto pelo fato deste não lembrar em nada aquilo que esperavam. pois é totalmente destituído de habitantes sociais calibrados.ao contrário . a volta às interações locais. e. é apenas desconhecido. os sociólogos estavam certos ao buscar um “lá fora”. O mundo não se parece com um continente sólido de fatos pontilhado por algumas lagoas 348 . mas isso não significa que precisemos encontrar um quadro de refe­ rência social.

mas que Leviatã e sociedade circulam por canais tão estreitos que. Sabemos tão pouco assim? Menos ainda. Precisamos levar em conta tanto a form i­ dável inércia das estruturas sociais quanto a incrível fluidez que preserva sua existência: esta é o meio reai que permite àquelas circular. pre­ cisamos de uma sociologia cujas intuições contraditórias sejam mantidas: dura e macia ao mesmo tempo. você deve acrescentar um imen­ so repertório de tnassas perdidas. Pois essa é justa­ mente a etimologia de “plasma”. ao receber uma notícia qualquer? Por que um músico académico cede inesperada­ mente à tentação dos ritmos agitados? Generais.3'16 Não quer dizer que a sólida arquitetura da sociedade esteja desabando. A boa notícia é que a parafernália social não346 346 Ver o índice em Gassin. A toda ação que descrevi até agora. obtida por meio de conexões rastreáveis que têm de ser examinadas à luz de uma quantidade bem maior de descontinuidades. saem do vermelho com um lucro espetacular? Por que cidadãos pacatos se transformam em massas revolucionárias. em outras palavras. 349 . administradores. observadores e moralistas costumara dizer que essas mudanças repentinas apresentam uma espécie de qualidade líquida impalpável. que o Grande Leviatã tenha pés de barro. é um vasto oceano de incertezas pintalgado de ilhotas de formas calibradas e estabilizadas. Bruno Latour de incertezas. Por que exércitos temíveis de­ saparecem em questão de semanas? Por que impérios formidáveis como o soviético desabam em poucos meses? Por que empresas multinacionais vão à falência depois do quarto balancete? Por que essas mesmas empresas. editores. para se­ rem ativados. mas estão ausentes. UEffet Sophistique. Paradoxalmente. Ou. em menos de dois semestres. Até agora enfatizei a continuidade. precisam conüar num número desconhecido de ingredientes oriundos do plasma à sua volta. essa ig* norância ‘'astronómica” explica muita coisa. Elas são necessárias para equilibrar os relatos. ou multidões agressivas de repente começam a festejar como cidadãos livres? Por que um indivíduo preguiçoso parte de súbito para a ação.

esse embrulho que não se consegue abrir facilmente para inspeção. Reagregando a social ocupa muito espaço. no fim. a má é que não conhecemos quase nada sobre esse ex­ terior. Compreende-se que haja tentado. não ex­ plicam. Não abarcam. não envolvem. Por que essa disciplina nos impacientaria? A sociologia é uma ciência em bo­ tão. mobilizar essa reserva. existe uma reserva. Não existe sociedade. não agregam. 350 .embora não seja nem território nem exército . Se pedi muito para não se con fundir o social como sociedade com o social como associação foi para podermos. contínua e computável ser realizada.mas depois da ação. o último rebento de uma grande família com muitas irmãs e irmãos mais velhos. Como seria possível uma ação política se não aproveitasse os potenciais de reserva? As leis do mundo social talvez existam. exigem explicação. sociedade não é o nome do terreno todo. Elas não estão por trás da cena. um exército de reserva. ou melhor. Por isso podemos iniciar tudo novamente e começar a explorar a vasta pai­ sagem onde as ciências sociais até agora só lançaram umas poucas cabeças de ponte. Para a sociologia. desde que não nos esqueçamos do lema: "Nada de preencher lacunas". coordenam. padronizam.para cada ação formatada. circulam. formatam. localizada. imitar-lhes os êxitos assumindo sua definição de ciência e social. No entanto. em baixo dos participantes e em primeiro plano. acim a de nossas cabeças e antes da ação . )á se pode en­ tão perceber por que me obstinei tanto em criticar o social dos sociólogos. a era da exploração deve começar novarnente. um territó­ rio imenso . a princípio. mas sua posição é diferente da que supunha a tradição. Leva tempo descobrir o próprio caminho.

Conclusão DA SOCIEDADE AO COLETIVO - O SOCIAL PODE SER REAGREGADO? 351 .

esses movimentos podem ser suspensos ou retomados. suspenso entre a busca do corpo político e a investigação do coletivo. é apenas um momento na lon­ ga história dos agregados. Como a sociologia do social é simplesmente uma ma­ neira de chegar ao coletivo. O vasto projeto que deu impulso à sociologia do social. de maneira explícita. que chamei de um coletivo. ele não é agregado. apenas coerente ao extrair as consequências possíveis desse estranho ponto de partida. desde seu nascimento em meados do século 19 até o final do 20. tão amplo quando o primeiro. o que denotamos como “social" e o que denotamos como “ciência”? Como adverti o leitor desde o início. por fim. desde que modifiquemos. devido ao que aprendemos da socio­ logia da ciência. não pretendo ser justo e equilibrado. a sociologia é mais bem definida como a disciplina em que os participantes. Chegamos agora ao fim de nossa jornada. chamados “atores sociais”. segundo a definição costumeira. que são membros de uma “sociedade”. Reagiert intío a social A alternativa que propus neste livra é tão simples que pode ser resumida numa lista bem curta: a questão do social emerge quando os laços em que estamos enredados começam a se desfazer. não havendo procedimentos para torná-lo comum. o social é depois detectado graças aos surpreendentes movimentos de uma associação a outra. a sociologia de associações assume a missão 352 . mais tarde. isso significa apenas que outro projeto. quando o movimento em direção ao agrupamento é retomado. Ao contrário. entretanto. se em ­ penham em reagrupar o coletivo. Apesar do tom geral adotado aqui. e. está hoje enfraquecido. podem se tornar par­ ticipantes. Mas não há motivo para alarme. desenha o social como associações por meio de inúmeras entidades não sociais que. se conduzido sistematicamente. fá podemos concluir que o social. o social normalmente constituído é agrupado com participantes já aceitos. deve substituí-lo. quan­ do são prematuramente suspensos. esse rastreamento às vezes termina numa definição partilhada de um mundo comum. o objetivo a que me propus logo no início deste livro era bastante restrito: é possível uma ciência do social novamente.

Como agora parece que os coletores não são suficien­ temente abrangentes. voltemos à prancheta. entender por que imaginavam prema­ turamente tê-lo concluído e descobrir de que modo ele poderá ser levado adiante com mais chances de sucesso. Assim. é necessário nos tornarmos novamente sensíveis aos tipos bizarros de conjuntos. Embora eu deva esperar alguma objeção da parte dos sociólogos do social à ideia de que a tarefa de traçar conexões tem de ser retomada 353 . Se pared agir de maneira injusta ou mesmo odiosa em relação às definições mais antigas do social. Mas hoje temos de rever nossa constituição e ampliar o repertório de vínculos e associações para além do que as explicações sociais oferecem. Para retomar o projeto das ciências sociais. Bruno Latour de recolher o que a ideia do social deixou em suspenso. Ao contrário. po­ díamos nos contentar com os conjuntos da sociedade e da natureza. economia. organizações etc. O mesmo repertório que nos equipa tão bem para encontrar nosso caminho na sociedade nos paralisa em tempos de crise. decidir se elas realmente têm os veículos e a energia para avançar até aquilo que pretendem explicar. foi porque recentemente elas parecem ter encontrado maior dificuldade em assumir a tarefa de investigar o mundo comum. justamente por serem tão eficazes ao calibrar o mundo social é que não se mostram adequadas para seguir associações constituídas por muitas entidades não sociais. isso não significa negar o poder formatados' das ciências sociais. exi­ bem fenômenos que temos de considerar novamente intrigantes. religião. Como acabamos de ver no capítulo an­ terior. direito. não há mais como vistoriar seu conteúdo. precisamos retomar seu propósito. Quando acreditavamos ser modernos. Para fazer justiça aos esforços de nossos predecessores e permanecer fiéis à sua tradição. e devolvê-lo à fonte de perple­ xidade de onde proveio. ciência. verificar seu prazo de validade. política. Depois que novas associações são embaladas no pacote das forças sociais. se quiser­ mos entender os tipos de entidades com as quais os coletivos podem ser moldados no futuro. Por toda parte. a tentação é apegar-nos ao repertório já aceito de membros sociais e eliminar do conjunto de dados aqueles que não se enquadram.

as objeções de quem foi “explicado”. O direito talvez seja social­ mente construído. Se o primeiro suscita paixão. A situação muda de figura com a sociologia crítica. e se você bloqueia a única fonte de fal­ sificação. a sociologia crítica não pode ser so­ ciologia . isto é. como as outras escolas se sentem tentadas a fazer. pois não dispõe de meios para reformular-se e seguir elementos não sociais.. daquilo que os antigos cientistas sociais encaravam como parte do repertório oficial. corre o risco de apenas repetir que eles são formados do mesmo repertório exíguo de forças já reconhecidas: poder. Quaisquer que sejam suas pretensões à ciência e à objetividade. deixando para trás os objetos. legitimação. O problema da sociologia crítica é que nunca deixa de estar certa. nesta conclusão. mas como a melhor prova de que não há outro caminho científico a prosseguir.e a raiva também precisa ser respeitada. existe outro ainda mais ardiloso: o da relevância política. Frente a novas situações e novos objetos. reificação. ex­ ploração. economia. fetichização. então não é nada fácil perceber a compatibilidade com a ANT. mas esses sociólogos não devem considerar inconveniente uma retomada daquilo que eles mes­ mos encetaram. moralidade. o segundo provoca raiva . por trás do suposto problema do que venha a ser boa ciência. Talvez haja muita discordância metodológica e alguma queixa. 354 . arte e tudo o mais feito do mesmo material: só muda o nome do “campo”. Essa tendência é tanto mais preocupante quando as reações indignadas dos próprios atores são vistas não como um sinal do perigo dessa redução. mas também insistimos em que esses objetos são constituídas de laços sociais. ou seja. lutar corpo a corpo com semelhante tipo de crítica social. Rei ß regantío o social e redirecionada para os objetos que eles acharam razoável pôr de lado. dominação. mas diga-se o mesmo da religião. Se os objetos de estudo são feitos de laços sociais.na nova acepção que proponho . política. esporte. Todavia devo. Atribuí esse rótulo ao que acontece quando não apenas nos limitamos ao repertório social consagrado. a persistencia da ANT em seu projeto precisa ser bastante clara. uma vez que.

e. Recrimino a sociologia crítica por confundir sociedade e coletivo. ao reposicionar seu formidável poder formatador. Várias vezes. acompanhar o modo como os próprios atores estabilizam aquelas incerte­ zas. Pruna Latour Como sem dúvida já ficou claro pela própria estrutura do livro. mas oferecer uma definição de ambas que só podería falhar. insistindo em que o social consiste de apenas alguns poucos tipos de participantes. neste livro. elaborando formatos. declarei que para permanecermos fiéis à experiência do social temos de assumir três deveres diferentes em sucessão : desdobramento. pois não cuidou de determinar o número de entidades a serem reunidas desde o primeiro instante. Os sociólogos críticos subestimaram a dificuldade de fazer política. calcular o alcance de suas controvérsias e tentar. padrões e metrologías (Parte II). excluir quase todas como 355 . e sim buscá-la na hora errada antes que outras tarefas da sociologia fossem cumpridas. Não repararam que para a política havia uma chance m ínim a para o êxito. Alé agora procurei apenas adiar o momento em que este último dever tem de ser cumprido. Q u e t ip o d e e p is t e m o l o g ía p o l ít ic a ? Depois de fazer acertos no modo como censurei boa parte da so­ ciologia do social. Primeiro convém desdobrar controvérsias para aferir o número de novos participantes num futuro agregado (Parte 1). estabiliza­ ção e composição. mostrei por que não se pode multiplicar o número de entidades. finalmente. seguir sua intricada metafísica. caso a lista de membros bona fid e do mundo social fosse drasticamente reduzida previamente. ao mesmo tempo. descobrir como os grupos assim reunidos podem renovar nosso senso de existência no mesmo coletivo. Seu erro não foi parecer po­ lítica ou m isturar política com ciência. depois. O equívoco não foi desejar ter uma atitude crítica. devo agora rever minha postura frente à sociologia crítica. Mas agora é o momento de encarar o problema daquilo que chamei de epistemología política.

fun­ dindo pressurosamente ciencia e política. Nasci­ da numa época pouco auspiciosa. em última instância. Só quando as forças são constituídas de vínculos menores. simplesmente imaginaram que já tinham a solução ao alcance da mão usando “o social”. elas não devenant suspender o esforço de coletar e organizar as asso­ ciações. fazer algo a respeito do progresso rápido da modernização ou. não importa quão respeitáveis essas razões possam pa­ recer. aplicar as leis de suas ciências à engenharia social. Ver Bauman. Les juristes et les sociologues. então nenhuma política é possível. segundo o t|ual a sociedade foi in­ ventada para substituir a política revolucionária. Por isso. cuja resistência se possa testar um a um. Ou. Postnwdernity and lis Discontents. Conforme já declarei várias vezes. nem gozou de liberdade para elaborar sua própria concepção de ciência. Reagrefiimdo a aoctal fantasiosas. corre sempre o risco de tornar-se 347* 347 Estou generalizando o argumento de Bauman. se tiver de combater uma força invisível. ideológicas e falazes. ao menos. Mas. acabará inerme e inapelavelmente der­ rotado. mas sobretudo “sociedade”. a fim de atender aos apelos urgentes por uma solução do problema social. Os sociólogos não estavam er­ rados nisto. nunca conseguiu explicar de que tipo de material não social o social era feito. e a tese de Frédéric Audren sobre história das ciências sociais.*47 Assim. Você não precisa de muita perspicácia ou habilidade política para constatar que. a sociologia procurou imitar as ciencias naturais no auge do cientificismo e acelerar o processo político. arbitrarias. o grande erro da sociologia crí- lica é nunca deixar de explicar. contrariamente à primeira impressão. arcaicas. existe um violento conflito entre conquistar relevância política e oferecer explica­ ções sociais. insondável. desfragmentado e inspeciona­ do não pode ser reunido novamente. Queriam ter voz nas questões políticas da época. Sejamos diretos: se existe uma sociedade. ubíqua e total. superadas. você tem chance de modificar um estado de coisas. não há garantia de que a sociologia crítica dará automaticamente a você uma postura crítica. para definir o mun­ do comum. Aquilo que não for primeiro aberto. 356 . No entanto.

porém. A epistemo­ logía política descreve a divisão de poderes entre ciência e política. uma vez que aborda novamente a questão de reunir com novos participantes. em vez de se deter nas fron­ teiras do antigo social. Upon Opening. Deixar em aberto a pos­ sibilidade de fracasso é importante porque constitui a única maneira de preservar a qualidade da compreensão científica e o acesso à relevância política. ao passo que a própria epistemología é uma teoria da ciência separada da polilica. elas não são mutuamente excludentes. ver as ciências sociais envolvidas para sempre nos golpes sujos da política. the Black Box and Finding It Empty: Social Constructivism and the Philosophy of Technology. mostrar-se tão indiferente às desigualdades e lutas de poder que não oferece nenhuma ferramenta crítica . Deve recuperar significado político. Signi­ fica apenas que deve ser tentada outra distribuição de papéis entre ciência e política. Langdon Winner (1993). Não “ver em dobro” foi o que aprendemos com o estudo de ciência e sociedade. A definição de ciência social que propus aqui com base na socio­ logia da ciência pode muito bem reivindicar importância empírica porque avança até onde novas associações chegam. os quais haviam sido desenfocados. convém notar que a ANT foi acusada de dois pecados simétri­ cos e contraditórios.Markets Made Flesh. inclusive ao santuário interior da ciência e da tecnologia. Fashionable Nonsense: Postmodern Intel­ lectual's Abuse o f Science.como estender tanto a política e fazer tão pouco nessa área? .349* 349 Ver Alan D. O segundo. Brutto Latour empíricamente vazia e politicamente discutível. pelo abandono do sonho de uma ciência desinteressada.apenas se mostra conivente com os poderosos. e Mirows- kt e Nik-Kltnh. requer uma sintonia entre ciência e política. Sokal e jean Bricmoni (1999). Uma vez que a Esquerda sempre recorreu a alguma ciência para reforçar seu proje- 348 É a expressão usada por Shaptrt e Schaffer..348 A ideia não é excogitar uma ciência puramente objetiva do social nem. 357 .31'3 Em ­ bora uma acusação anule a outra . Ü primeiro é estender a política a tudo. Leviathan and the A ir Pump. Aqui. Isto. A dificuldade está em decidir o que significa estudar alguma coisa sem alternar entre o sonho do desinteresse e o sonho contrário do compromisso e da relevância.

Só as pessoas mais reacionárias se rejubilam com o enfraquecimento da razão. ao contrá­ rio. Reagregando o social to de emancipação. entregando as chaves de uma ciência politizada aos poderosos. politizar a ciencia equivale a privar os explorados da única chance de corrigirem o desequilibrio.. invocando a objetividade e a racionalidade. Além disso. tanto ridículos das “Guerras de Ciência” era sobretudo em nome da Ksquerda que se lutava contra os estudos sobre ciência e.351 A ANT nada mais é que uma forma ampliada de maquiavelismo. que aqueles que se intitulam homens e mulheres progressistas não devem apegar-se ã teoria social que se mostra menos capaz de acomodar seus diversos programas de emancipação. em um grupo de consultores que ensinam os libertos da dis­ ciplina da razão a serem ainda mais maquiavélicos. pior ainda. Parece-me. se estas continuam inexplicáveis e esmagadoras. então resta pouco a fazer. alteia-se a presença esmagadora do mesmo sistema. uma forma pervertida de assegurar 350 Na ocasião dos episódios um. Quando muito.não passam de disfarces das ideologias . torna a conexão demasia­ do tentadora. do mesmo império e da mesma totalidade sempre me pareceu uma atitude de masoquismo radical. especialmen­ te. as puramente científicas constituem o único tribunal de recurso capaz de julgar todas as disputas.e nesse jogo os cordeiros serão devorados muito mais rapidamente que os lobos.350 Embora as falsas ciencias precisem ser denunciadas . The New Spirit of Capitalism. o imperador nu obtém mais roupas “vestíveis”. Em nome da ex­ tensão das redes. Se não há maneira de inspe­ cionar e decompor os conteúdos das forças sociais. 351 A proximidade da noção de redes com o capitalismo do “artista Huido". a ANT. mais maquinadores e até mais indiferentes à diferença entre ciência e ideologia. descrito em Boltanski e Chiapello. por trás de todas as questões. que acusa os estudos sobre ciência de ajudar os fundamentalistas hindus a reprimir a razão. a ANT simplesmente se converte em uma “sociologia de engenheiros” ou. Sempre fiquei intrigado com essas críticas. Ver FVÍeera Nanda (2003). 358 . Insistir em que. os pobres-diabos ficam com “meras” relações de poder . Prophets Facing Backward: Postmodern Criti­ ques o f Science and Hindu Nationalism in India.

precisem recorrer a reservas de potenciali­ dades ocultas. A meu ver. entendendo com isso o cristão . globalização e totalidades circulem por finos condutos e onde. mutual entanglements and the sociologist's role. para cada uma de suas aplicações. As ações só “fazem diferença” num mundo feito de diferenças. de co ­ nexões fabricadas. Não será óbvio. muito mais raras.. Mas não será isso a topografia do social. A proximidade. não há nada a fazer. Ni intellectuel engagé.mas o sociólogo crítico se encaixaria aí exatamente muito bem. Se foi difícil determinar com exatidão onde estava o projeto político da ANT . ni intellectuel dégagé: la double stra­ tégie de rattachement e du détachement. isso ocorreu porque a definição do que significa. se­ gundo Garfinkel. não a distân­ cia crítica. as chances de vencer são muito maiores . que emerge quan­ do empreendemos os três movimentos propostos na Parte 11? Ao falar em “plasma”.352 Política é assunto sério demais 352 Ver Michel Callón ( 1999). identificáveis. então. não deparamos com um exército de reserva cujo tamanho é. para uma ciência social. fínmo Latour a derrota enquanto se degusta o sentimento agridoce da correção políti­ ca superior. Boa parte do argumento contra a figura tradicional do “intellectuel engagé“ francês pode ser encontrada numa co- 359 . estru­ turas. pior ain­ da. Para uns caso extremo de não participação. Nenhuma batalha jamais foi ganha sem que se apelasse para combinações novas e táticas surpreendentes. imaginar assumir o lugar do poder absoluto. artificiais. onde ela errava e devia ser corrigida . "astronómicamente maior” que o inimigo a combater? Pelo menos. plano e derrubado sob medida num espaço onde formatos. Se isso não for possível. que apenas uma trama de fios frágeis. então não existe política. ver Michel Callón e Vololona Rabeliarisoa (2004). exceto ajoelhar-se diante dele ou.portanto. Gino’s lesson on humanity: gene­ tics. seria muito mais seguro aceitar que a ação se torna possível unicamente num território aberto. consignáveis e surpreendentes constitui a única maneira de encarar qualquer tipo de luta? Com respeito ao 'lotai. Nietzsche traçou o retrato im ortal do “homem ressentido”. ter relevância política também precisa ser modificada.e as ocasiões para alimentar o masoquismo. deve ser o nosso objetivo.

as cinco incertezas passadas em revista na Parte I . militante. Mas. nem de impedir os positivistas de "esconder-se por trás da aparência de objetividade”.. p. de modo sistemático. O paralelo com as ciências naturais é inevitável nesta altura porque ambos os tipos de conhecimento precisam fugir à ideia de que o coletivo já movenle entrevista com Michel foucault (1994). a oposição entre uma ciência despojada. U m a d is c ip l in a e n t r e o u t r a s Quando afirmei que a sociologia crítica confundiu ciência com po­ lítica. novos candidatos para formar o mundo. perde sentido quando se considera o formidável poder aliciante de toda disciplina científica . Tarde e Garfinkel.embora meus heróis escolhidos. nós certamente precisamos fazer um esforço comum. as disciplinas sociais precisam simplesmente alcançar a força de agregação das naturais. a mecânica etc. Porém. No máximo. Reagregimdo o social para ficar a cargo dos poucos que parecem ter o direito inato de decidir em que ela consiste. A epistemología política não é uma maneira de evitar a “poluição” da boa ciência. a física. e uma ação engajada. de qualquer maneira.não fazendo nenhuma diferença se ela é “natu­ ral” ou “social”. vinda de um sociólogo da ciência! Longe de mim pretender que alimentar um projeto politico escape às pretensões de uma ciência res­ peitável . Estas. 306. artificial. apai­ xonada. devem ser encaradas da mesma maneira que a química. não sejam conhecidos por seu fervor político.. a última coisa que desejava era reverter à clássica separação entre política e epistemología. objetiva. Como as pessoas não conhecem os vínculos que as unem . contudo. 360 . a afirmação parecería estranha. since­ ro e inventivo que recorra a um conjunto específico de disciplinas. Dits et Écrits: T om ei. ou seja. pelas “considera­ ções políticas sórdidas”. desinteressada. como outras tantas tentativas de agregar.

Bruno Latour

está completo. Conforme mostrei em outra obra, a natureza partilha essa
característica com a sociedade.353 Dentro de uma mesma "realidade exte­
rior”, a noção de natureza funde ao mesmo tempo duas funções diferentes:
por um lado, a multiplicidade dos seres que compõem o mundo; por outro,
a unidade dos que foram reunidos num todo inquestionavelmente único.
Apelar para o realismo nunca é o bastante, pois significa juntar num pa­
cote abstrações múltiplas com concretudes unificadas. Assim, quando as
pessoas duvidam da existência de “natureza” e “realidade exterior”, nunca
sabemos se estão contestando a unificação prematura de abstrações sob
a hegemonia das questões de fato ou negando a multiplicidade dos seres
revelados pelas ciências. A primeira atitude é indispensável, a segunda é
francamente idiota.
Para rasgar o pacote e permitir o escrutínio público, propus sepa­
rar a questão da multiplicidade de seres com os quais vivemos - quantos
somos? - de outra muito diferente, a de decidir se os agregados reunidos
formam um mundo habitável ou não; podemos viver juntos? Semelhante
aventura deve ficar a cargo das diversas habilidades dos cientistas, políti­
cos, artistas, moralistas, economistas, legisladores etc. Esses especialistas
não se distinguem pelas esferas onde trabalham, e sim pelas diferentes ha­
bilidades que aplicam ao mesmo domínio, assim como diferentes profissio­
nais - eletricistas, carpinteiros, pedreiros, arquitetos e encanadores - labu­
tam sucessiva ou paralelamente num único edifício. Enquanto a tradição
distinguía o bem comum (preocupação do moralista) do mundo comum
(naturalmente dado), propus substituir a "política da natureza” pela com­
posição progressiva de um mundo comum. Era, a meu ver, uma maneira
de redefinir ciência e política, levando adiante a tarefa da epistemología
política que nos foi imposta pelas incontáveis crises ecológicas.
Podemos ver agora o que aproxima essas duas forças de agregação,
natureza e sociedade: são, uma e outra, tentativas prematuras de coletar

353 Resumo aqui a solução proposta cm Lalour, Politics of Nature.

361

Reagreganda o social

em dois conjuntos opostos um mundo comum.354 Foi o que chamei de
Constituição Moderna, empregando a metáfora jurídica para descrever as
conquistas conjuntas da epistemología política. Assim, a redefinição de
política como composição progressiva do mundo comum tem de ser apli­
cada tanto aos antigos agregados da sociedade quanto aos antigos agrega­
dos da natureza. A dificuldade é que, nesse ponto, há uma ligeira quebra de
simetria, motivo pelo qual não convém de modo algum confundir a nova
definição de política com a sociologia crítica.
Enquanto objetos recalcitrantes, vindos da antiga esfera natural,
continuam à solta independentemente do que os cientistas naturais dizem
deles, sujeitos recalcitrantes da antiga sociedade podem ser reprimidos
com a maior facilidade porque quase nunca se queixam quando são “igno­
rados” ou, na melhor das hipóteses, só raramente suas queixas são levadas
na devida consideração.355 As ciências sociais tendem com muita frequên­
cia a oferecer uma imitação mais vivida da rigorosa esfera científica (po­
voada de fatos e uma estrita rede de causalidades) do que a maioria das
ciências naturais! Contudo, em ambos os casos, os elementos que devem
ser agregados, isto é, os antigos membros dos velhos conjuntos de natureza
e sociedade, aos quais chamei de mediadores, objetos e seres circulantes,
não lembram nem fatos concretos nem atores sociais.
Para entender este ponto, temos de recordar que ser uma ques­
tão de fato não é um modo “natural” de existência, mas, coisa estranha,
um antropom orfism o .356 Trastes, cadeiras, gatos, tapetes e buracos negros

354 A política da vida selvagem oferece om exemplo maravilhoso da necessidade de
uma abordagem simétrica. Ver Charis Thompson (2002), When Elephants Stand for
Competing Philosophies o f Nature: Amboseli National Park, Kenya.

355 Sobre a recalcitrânciacomparativa de entidades humanas e não humanas, ver Despret,
Naissance d ’une Théorie Éthologique, e Stengers, The Invention o f Modern Science.

356 “Tnanimismo” é figuração, tanto quanto “animismo”. Para a noção de figuração,
ver p. 85. Para uma excelente pesquisa sohre a distribuição dessas várias funções
no mundo, ver Descola, La Nature des Cultures - especialmente o capítulo sohre o
caráter antropomórfico do naturalismo.

362

Bruno Latour

nunca se comportam como questões de fato; os homens o fazem às vezes
por razões políticas, para resistir às investigações. Portanto, ê absurdo
se opor a “tratar pessoas como coisas”, isso, no pior dos casos, apenas
colocaria os humanos lado a lado com outras questões de interesse da
física, biologia, ciência da computação ctc. Complexidade acrescentada
a complexidade, nada mais. Longe de “degradarse”, os “humanos coisi-
ficados” se elevariam ao nível das formigas, macacos, chips e partículas!
Ser “tratado como coisas”, tal como entendemos isso agora, não é ficar
“reduzido“ a questões de fato, e sim viver uma vida tão variada quanto
a das questões de interesse. O reducionismo não é um pecado de que
se deva privar, nem uma virtude que deveria ser praticada firmemente:
é uma impossibilidade prática, pois os elementos aos quais algo de “ní­
vel superior" fica reduzido revelam-se tão complexos quanto os do “nível
inferior”. Se ao menos os humanos fossem tratados pelos sociólogos crí­
ticos tão bem quando as baleias pela zoologia, os genes pela bioquímica,
os babuínos pela primatologia, os solos pela pedología, os tumores pela
cancerologia ou o gás pela termodinâmica! Sua complexa metafísica se­
ria enfim respeitada, sua recalcitrância reconhecida, suas objeções con­
sideradas, sua multiplicidade aceita. Por favor, tratem os humanos como
coisas, ofereçam a eles pelo menos o grau de realismo que vocês já estão
dispostos a conceder aas modestas questões de interesse, materializem
os humanos e, sim, reißquem -nos ao máximo!
O positivismo - em sua forma natural ou social, em sua versão re­
acionária ou progressista - não erra ao ignorar a “consciência humana”
e preferir a “frieza dos dados”. Ele está errado politicamente. Ele reduziu
questões de interesse a questões de fato muito rapidamente esem o devido
processo, confundindo as duas tarefas do realismo: multiplicidade e uni­
ficação. Ele embaçou a distinção entre desdobrar as associações e reuni­
das num coletivo. Foi o que perceberam claramente os defensores de uma
sociologia hermenêutica, mas sem descobrir como escapar à armadilha,
tão bizarras eram suas idéias sobre ciências naturais e mundo material.
Juntamente com os reducionistas que amavam odiar, eles não entenderam

3 6 3

R eagn gan do a social

bem o que significa para uma ciência - social ou natural -, ter um projeto
politico; daí a falsa alternativa entre ser um cientista “desinteressado” ou
“socialmente relevante”. £ por isso que é espantoso ver a sociologia de as­
sociações ser acusada frequentemente de “meramente descritiva” e “sem
nenhum projeto político” quando, pelo contrário, foi a sociologia do social
que sempre alternou febrilmente entre uma ciência desinteressada, jamais
atingida por ela, e uma relevância política que ela nunca atingiría.
Duas outras séries de procedimentos deveríam ser trazidas ao pri­
meiro plano: a primeira torna visível a arregimentação de atores, e a se­
gunda transforma a unificação do coletivo num mundo comum, aceitável
pelos que serão unificados. Graças à primeira, a ANT parece uma ciência
imparcial, em confronto com a insistência da sociologia em impor leis no
lugar do ator. E, graças à segunda, lembra muito um compromisso político,
ao criticar a produção de uma ciência da sociedade supostamente invisível
aos olhos dos informantes e as afirmações dos vanguardistas que alegam
saber tudo. Queremos ser mais desinteressados do que era possível ao pro­
jeto de engenharia social da sociologia ortodoxa, pois levamos bem mais
longe as controvérsias. No entanto, queremos também estar mais compro­
metidos do que o conseguiría o sonho cientificista de um olhar desinte­
ressado. Algo semelhante ao desinteresse, porém, surge na exposição das
quatro fontes de incerteza já passadas em revista, enquanto o compromis­
so brota da possibilidade, oferecida pela quinta fonte, de ajudar a reunir
em parte o coletivo, isto é, fornecer-lhe uma arena, um fórum, um espaço,
uma representação por intermédio do modesto recurso de um relato arris­
cado, que o mais das vezes funciona como frágil intervenção consistente
apenas de texto.
Assim, estudar é sempre fazer política no sentido de reunir ou com­
por aquilo de que é feito o mundo comum. A questão delicada é decidir
que tipo de reunião e que tipo de composição é necessário. É aqui que se
torna mais gritante o contraste entre a ANT e a sociologia do social. Para
nós, as controvérsias quanto aos tipos de substância que formam o mundo
social não devem ser resolvidas por cientistas sociais, cabendo a futuros

364

Bruno Latour

participantes retomá-las, e o “pacote” dos laços sociais existentes tem de
ficar sempre aberto ao escrutínio público. Portanto, as duas tarefas de levar
em canta e pôr em ardem precisam permanecer separadas. O problema,
agora, é descobrir quais ciências sociais conseguirão manter esta distinção.
Todas as disciplinas, da geografia à antropologia, da contabilidade à
ciência política, da linguística à economia, entram em cena como os muitos
meios pelos quais as partes do coletivo são primeiro justapostas e depois
transformadas num Lodo coerente. “Estudar” nunca significa assumir uma
postura desinteressada e depois entrar em ação segundo os princípios húmi­
dos dos resultados da pesquisa. Bem ao contrário, cada disciplina ao mesmo
tempo amplia o alcance de entidades que atuam no mundo e participa ati­
vamente da transformação de algumas delas em intermediários fiéis e está­
veis. Assim, por exemplo, os economistas não se limitam a descrever uma
infraestrutura econômica que esteja por aí desde o começo dos tempos. Eles
também revelam a capacidade de cálculo dos atores que ignoravam possuí-la
e asseguram-se de que algumas destas novas competências caíram no senso
comum através tie muitos instrumentos práticos de contas bancárias, direi­
tos de propriedade, notas de registros em caixa e outras entradas. Os sociólo­
gos do social, como vimos, fizeram bem mais do que “descobrir” a natureza
de uma sociedade. Sempre se empenharam em multiplicar as conexões entre
os atores que ignoravam estar ligados por “forças sociais” e também ensina­
ram a esses atores diversas maneiras de agrupar-se. Os psicólogos estão si­
multaneamente povoando a psique com centenas de novas entidades - neu-
rotransmissores, inconsciente, módulos cognitivos, perversões, hábitos -
e estabilizando algumas delas como partes rotineiras de nosso senso co­
mum, Os geógrafos conseguem representar as idiossincrasias dos rios, mon­
tanhas e cidades, criando um espaço comum habitável por meio de mapas,
conceitos, leis, territórios e redes. As mesmas atividades instrumentais são
vistas na linguagem dos linguistas, na história dos historiadores, na diver­
sidade cultural dos antropólogos etc. Sem ciência econômica não há econo­
mias; sem sociologia não há sociedades; sem psicologia não há psiques; sem
geografia não há espaços, ü que saberiamos do passado, sem historiadores?

365

Reagregarnit) à sitan!

Como a estrutura da linguagem nos seria acessível, sem gramáticos? Assim
como a aranha tece unia teia, a economização é o que é fabricado por econo-
nomistas, a socialização pela sociologia, a psicologização pela psicologia, e a
espacialização pela geografia.
Isso não significa que tais disciplinas são ficções, inventando seu as­
sunto do ar rarefeito. Isso significa que elas são, no rigor da palavra, discipli­
nas: cada uma optou por um tipo de mediador e favoreceu um tipo de estabi­
lização, povoando assim o mundo com uma grande variedade de habitantes
bem-instruídos e totalmente formatados. Seja o que for que uma especialista
faça quando escreve um relato, ela já é parte dessa atividade. Não se trata de
um defeito das ciências sociais, como se elas andassem melhor livrando-se
deste laço. Significa simplesmente que elas são como todas as outras ciên­
cias, envolvidas no trabalho normal de multiplicar mediações e estabilizar
ou disciplinar algumas delas. Nesse sentido, quanto mais desinteressada é
a ciência, mais comprometida e politicamente relevante ela é. As atividades
contínuas das ciências sociais na formação da formação social, na moldagem
do coletivo num todo coerente, formam grande parte do que é “estudar”
o social. Cada relato acrescido a essa massa representa também uma decisão
quanto ao que o social deveria ser, ou melhor, quanto ao que a metafísica
múltipla e a ontologia singular do mundo comum deveríam ser, Atualmente
são raras as formações de grupo que não estão equipadas e instrumentali­
zadas por economistas, geógrafos, antropólogos, historiadores e sociólogos,
todos ávidos por saber como se constituem os grupos, quais são seus limites
e funções, e de que maneira poderíam ser melhor conservados. Não faria
sentido, para uma ciência social, desejar fugir a essa tarefa incessante. Mas
faz sentido, e muito, procurar desempenhá-la bem.

U m a d e f in iç ã o d if e r e n t e d e p o l ít ic a

Mas, afinal, qual é o projeto político da ANT? Uma vez que essa m o­
desta escola não passa de uma maneira complicada de voltar à surpresa de

366

Bruno Latour

ver o desenredar social - experiencia uni tanto empanada pela historia re­
cente das ciências sociais - , a única forma de repetir aquí o que entendemos
por política será nos reaproximarmos ao máximo da experiência originai.
Durante o século X IX , podia-se perceber facilmente que esse senti­
mento era reavivado pela curiosa eclosão de massas, multidões, indústrias,
cidades, impérios, higiene, meios de comunicação e invenções de todos os
tipos. Mas, coisa estranha, um panorama assim deveria ter sido ainda mais
vivido no século seguinte, repleto de catástrofes e inovações, gente cada
vez mais ameaçada e crises ecológicas. Tal não aconteceu por causa das
próprias definições de sociedade e vínculos sociais, que procuraram aliciar
uns poucos elementos enquanto excluíam a maioria dos candidatos, Onde
imperou o naturalismo, quase não se pôde analisar a composição do social
por prazo nenhum e com seriedade alguma.357 O que a ANT tentou fazer
foi tornar-se novamente sensível à enorme dificuldade de reunir coletivos
formadas por tantos membros novos que a natureza e a sociedade haviam
posto de lado.
A sensação de crise que percebo estar no centro das ciências sociais
podería agora ser expressa da seguinte maneira: quando ampliamos o rol
de entidades, as novas associações não formam um conjunto viável, fi aqui
a política entra novamente em cena, caso a definamos como a intuição de
que associações não bastam, de que elas precisam também ser compostas
para delinear um mundo comum. Para bem ou para mal, a sociologia, con­
trariamente à sua irmã antropologia, não se contenta nunca com a plura­
lidade de metafísicas; necessita igualmente enfrentar a questão onlológica
da unidade do mundo comum. Desta vez, porém, não o fará dentro dos
panoramas que apresentei, mas lá fora e para sempre. É, pois, absoluta­
mente verdadeiro afirmar que nenhuma sociologia se limita a “descrever”
associações, simplesmente gozando o espetáculo da vasta multiplicidade
de novos vínculos. Outra tarefa precisa ser executada, a fim de que ela me-

357 tentei captar essa dificuldade em Latour, We Have Never Seen M odem. O modernis­
mo nunca conseguiu dar couta sequer de sua própria época.

367

“Une science de ia vie ensemble dans le monde”. os mesmos perfis de seres e os358 358 'Ihévcnot. Desde que o apelo por envolvimento político não mais se con­ funda com os outros dois deveres. Ê difícil acreditar que ainda temos de inserir os mesmos tipos de atores. desde que o processo de recrutamento de novos candidatos à vida coletiva não se interrompa. o que ela tem a ver com “viver junto”? Se o problema fosse conviver.toda ciência é também um projeto político -. estudos femininos e estudos culturais ansiosos por adquirir utna postura crítica. 368 . A ANT é apenas uma maneira de dizer que a tarefa de formar um mundo comum não pode ser encetada se a outra não for além dos estreitos limites fixados pelo fecha­ mento prematuro da esfera social. “fazer diferença” e tornar o mundo mais habitável. por que preci­ saríamos de ciência? Resposta: por causa do número de novos candidatos e por causa dos estreitos limites dos coletores imaginados para tornar a convivência possível. O equívoco não está em tentar fazer duas coisas ao mesmo tempo .’58 Se a sociologia é uma ciência. a única causa cientifica e política pela qual valha a pena viver. talvez. Reagregtmda o social reça o título de “unía ciencia da vida em comum”. o desejo ardente de detectar. como estão certos todos os membros dos departamentos de ciência política. As palavras “social” e “natureza” costumavam ocultar dois projetos inteiramente distintos para aquelas duas agremiações mal formadas: traçar conexões entre entidades improváveis e torná-las duradouras num todo até certo ponto consistente. para repetir a expressão paradoxal de Laurent Thévenot. estudos de ciência. Suas formulações podem ser ingênuas. O aluno da London School of Economics que ficou intrigado com a ANT no Interlúdio estava certo ao exigir relevância política. acolher e abrigar novas entidades é não apenas um sentimento legítimo como. mas mal se imagina que alguém reivin­ dicasse o título de sociólogo olhando-as como se fossem um mero sonho adolescente. mas em sustar a primeira por causa da urgência da segunda. o mesmo número de entidades.

executivos-chefes. o lema da 369 . temos de ser cuidadosos para não confundir essa formulação com outra que a lembra muito. mas que nos reconduziría a um projeto bem diferente. mas é justamente aí que reside o problema: você participa da expan­ são do poder. mas o que você faz quando tem de lidar com elétrons e eleitores. OGMs e ONGs ao mesmo tempo? Para o novo vinho das novas associações. um frasco velho e empoeirado não serve. por trás de um estado de coisas. Levantar uma questão política às vezes significa revelar. Weber ou Parson. especialmente depois que a ciência e a tec­ nologia multiplicaram grandemente os participantes a serem misturados no caldeirão. Bruno Latour mesmos modos de existencia nos mesmos tipos de coletivos de Comte. Por isso defini o coletivo como uma expansão da natureza. O que faz é simplesmente dar um passo adiante com o mesmo repertório reduzido de forças já padronizadas. e não da re-composição de seu conteúdo. Uma vez realizada a tarefa de explorar a multiplicidade de mediações. e a sociedade e a sociologia de associações como a retomada da sociologia do social. cientistas malucos e patrões. a sociologia é a ciência das massas imigrantes. presidentes. Talvez sinta prazer em dar uma “explicação pode­ rosa”. Sim. o que entendo por busca de relevância política. “Ébrio de poder” não é uma expressão talhada apenas para generais. Pode ser aplicada também aos sociólogos que confundem ampliação de explicações poderosas com composição de coletivos. É isso o que considero ser o projeto político da ANT. outra pergunta pode ser feita: quais são os grupos desses agrupamentos ? Aqui. a presença de forças até então ocultas. Você usa o mesmo velho repertó­ rio de vínculos sociais antes juntados para “explicar” as novas associações. você não fala politicamente. Por isso. Durkheim. Embora isso evoque falas políticas. pois nada faz para agrupar os candidatos num novo agrupamento que responda às necessida­ des específicas deles. Mas então você se arrisca a cair na mesma armadilha de oferecer as explicações so­ ciais que critiquei anteriormente e acabar fazendo exatamente o contrário daquilo que aqui eu entendo por política. nem de longe aborda o esforço político. Embora pareça falar de política.

ele não precisa ser oculta­ do . No fim. ou seja.*5" Portanto. Não deve haver explicações vigorosas sem vistorias e balanços. Cada leitor pode agora decidir que tipo de teoria social é mais capaz de atingir estes objetivos. especialmente a noção crucial de agrupamento. só o frescor dos resultados da ciência social é que pode garantir sua relevância política. no fim. ver Latour e Weibel. a c i­ ência social deve renovar-se . mais especifico: procuramos meios de registrar a novidade das associações e descobrir uma maneira de reuni-las numa forma satisfatória. os modos de existência e a recalcit rancia dos ingre­ dientes agrupados não sejam coibidos cedo demais. F. 370 . caso o tiro saia pela culatra e atinja suas ex­ plicações em vez do alvo pretendido. Volver aos férreos grilhões da necessidade não basta para esgotar a análise do possível. “Não abuse do poder”. Nosso toque distintivo é simplesmente esclarecer os mecanismos es­ tabilizadores para que a transformação prematura de questões de interesse 35SI Para ama abordagem mais completa desses pontos. certifican­ do-se de que o número. a prova do interesse político está agora mais fácil de vencer: devemos praticar a sociologia de tal maneira que os elementos for­ madores do coletivo sejam renovados regularmente. 360 Dewey. com sua definição de “público”. Se concordarmos com a desintoxicação das explicações poderosas da sociologia crítica. Abra caminho para a composição. existe um conflito . Ninguém percebeu melhor isto que John Dewey. coisa estranha.la deveria também ter a habili­ dade de ir dos poucos aos muitos e retornar dos muitos aos poucos . Para ser relevante. Reugregamiü o w ant ANT sempre foi. 'The Public and Its Problems. entre sociedade e coletivo. ser politicamente motiva­ do começa a assumir outro sentido. para que ela percorra a volta completa e a retome.entre praticar sociologia crítica e ser politicamente relevante. Making Things Public. abstenha-se ao máximo de explorar a noção de poder. caso se suponha que a sociedade está “por trás" da ação política.359 Portanto.talento impossível.um processo muitas vezes simplificado em termos de representação do corpo político.

ser mais politicamente relevante e mais científico. Até agora. e não no estoico ou kantiano. Agir dans un Monde Incertain. Pelo menos a meu ver. 362 No sentido desenvolvido por Isabelle Stengers (1996). decidir como se apre sentar ao resto do mundo. de “o Ocidente”. Depois de consignar a repentina e inusitada fraqueza do antigo O ci­ dente. Cosmopolitiques . existe um vínculo entre o fim da moderniza­ ção e a definição de ANT. distinguir as duas tarefas de arregimentação e unificação.'62 361 Gallon. para a ciencia social. e deter­ minar as etapas do devido processo. sua vergonha por ser tão poderoso e tão hegemônico. que implica um cosmo já 371 . no passado recente. para empregar outro termo ambí­ guo. temos de estabelecer conexões com os outros.’61 Nesse sentido. Assim. modificando assim o que significa.inclusive. deveriamos apenas nos engajar na cosmopolítica. Ela só adquirirá interesse se o que era chamado. Lascoumes e Barlhe. A razão é que a sociolo­ gia do social sempre esteve fortemente ligada à superioridade do Ocidente . e tentar imaginar como ele conseguirá sobreviver um pouco mais no futuro para manter seu lugar ao sol. embora a ANT divirja deles no modo de arregimentar e coletar. temos pela política e a ciência o mesmo interesse sério de nossos pre- decessores. promovendo uma ciência de sinteressada e/ou uma política com base científica. Se ainda fôssemos modernos. é claro. se você realmente pensa que o futuro mundo comum possa ser melhor composto usando natureza e sociedade como metalinguagem defi­ nitiva. que possivelmente não podem ser mantidos indefinidamente na esfera de natureza/sociedade. que está se tornando rapidamente mais pode­ roso. a sociologia do social não se interessou muito em propor formas explícitas de distinguir as duas tarefas.Tome I: La Guerre des Sciences. então a ANT não serve para nada. A ANT sustenta que é possível pôr ordem na casa. Poderiamos persistir no antigo empenho em modernizar. poderiamos sim­ plesmente ignorar essa busca da alma e essa distinção sutil. Ou então. Hm mi Lutemr em questões de talo seja frustrada. Nós apenas alegamos maior desenvol­ tura no trato desses dois movimentos oposlos e complementares justamente porque a concepção de ciência e sociedade se modificou devido ao advento de uma sociologia da ciência um tanto “cabeçuda”.

Este livro é apenas uma introdução para ajudar o leitor in­ teressado em extrair as consequências da sociologia da ciência para a teoria social. Bem sei que não disse o suficiente para embasar alguns desses nu­ merosos pontos. não consigo evitar totalmente a impressão de que as atitudes radicais que assumi talvez tenham algumas conexões coin o senso comum. . pelo menos agora. Numa época em que já mal se sabe o significado de “pertencer”. Debating Cosmopolites. Mas. Cumpri o que prometí no início. Muitas outras entidades estão agora batendo à porta de nossos coletivos. a tarefa da convivência não deveria ser simplificada em excesso. ser parcial o bastante para extrair todas as consequências de um ponto de partida dos mais implau- síveis. ou seja. Para um exame desta última Iradição. Eu o fiz voluntariamente como um alvo fácil que não precisa de um atirador exímio para atingi-lo. No entanto. ver Daniele Archibugi (2003). Não cabe a mim dizer se alguém acabará usando estes artifícios em algum negócio. ninguém pode se queixar de que o projeto da teoria-do ator-rede não foi apresentado sistematicamente. É absur­ do querer reformular nossas disciplinas para que se tornem novamente sensíveis ao barulho que elas fazem e tentar encontrar um lugar para elas? unificado.

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duíba Impressão capa e acabamento Cian Gráfica Tiragem 1.000 exemplares . COLO FAO Formato 16 X 23 cm Tipografia Minion Pro desenhada por Robert Slimbach Papel Alcalino 75 g /n r (miolo) Cartão Supremo 300 g /n r (capa) Impressão miolo r.

o p ró p rio sucesso das ciências sociais sugere que elas. B r u n o L a t o u r é professor na Sciences Po Paris. em grande parte. necessárias) no passado. mas usando ferram entas m ais refinadas. e p e rm itir que isso. já não são mais assim. já não é possível designar quais são os co m p o n en te s indispensáveis do d o m ín io social. provavelm ente. A tu alm e n te. Esta abordagem .“ explicações so ciais" de o u tro s estados de coisas. Latour retom a o sig nificad o original de "so cia l" para redefin ir a noção. tornou-se co nh ecid a co m o Teoria do Ato r-R ede. Latour considera necessário exam inar p or co m p le to o co n te ú d o exato do que é reunid o sob a égide da Sociedade. uma “ so cio lo gia das associações”. trace conexões. Só então será possível retom ar a aspiração tradicional das ciências sociais. ou as idéias de um dos seus prop on en tes m ais influentes. Em bora essas tentativas tenham sido produtivas (e. . Baseando-se em seu extenso trabalho de exam inar as assemblages da natureza. m ais um a vez. e este livro é um a in trod u çã o essencial tanto para aqueles que procu ram entender esta Teoria.

cativante.uma fonte de inspiração para saber como escrever um texto em ciências sociais: vivida. eloquentemente.” O rgan ization Studies .