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Antigas profissões de Monchique / artigo no Jornal de monchique

12/12/2014, 19:22

Virgílio Correia - albardeiro

Em tempos idos a sobrevivência de grande parte da população rural, nomeadamente dos camponeses e montanheiros, estava
dependente de vários animais de trabalho, como burros, éguas e cavalos. Para as famílias que moravam longe das principais
vilas ou aldeias, esta era a forma mais barata que encontravam para as suas deslocações, por vezes longas e por caminhos
menos férteis, mas também para os seus afazeres diários. Contudo, a utilização contínua destes animais no quotidiano
acabava por desgastar os seus cascos, o que implicava a necessidade de lhes ser colocada uma nova ferradura. O ferrador
era o homem que desempenhava essa tarefa.

Em Monchique, esta era uma profissão com grande importância, chegando mesmo a funcionar algumas oficinas de ferrador
«que em alturas de feiras, mercados e festas religiosas trabalhavam de dia e noite para dar escoamento à enorme freguesia».
Muitos destes homens, além de colocarem as ferraduras nos burros, ainda os tosquiavam ou, caso fossem aprovados num
exame prático pela Escola Superior de Medicina Veterinária, também podiam capar animais.

De facto, o trabalho de ferrador exigia muita atenção e perícia, pois qualquer distração podia acabar por ferir o animal e este
ficava a coxear ou a sangrar das unhas. Os ferradores começavam por descascar a unha e depois adaptavam a ferradura e
pregavam-na ao casco. Para esta tarefa eram necessários uma série de utensílios, como o martelo de ferrar, o bofe, a turquês,
a grosa, o puxante (no sistema a frio) e a faca de ferrar (no sistema a quente).

Em 1938 havia referência a três oficinas de ferrador, nas quais «deveriam trabalhar pelo menos o dobro dos artífices». Na
década de 1940, os anuários comerciais sugerem as oficinas de António Carneiro, Pedro Palma e Manuel da Palma, e no
final da década seguinte, as mesmas publicações acrescentam, na sua última edição, o nome de Manuel Carneiro, o que
totalizava quatro oficinas de ferrador na vila.

Também nas freguesias do concelho eram conhecidos alguns espaços onde esta profissão era desenvolvida. José Rosa
Sampaio, numa referência ao "Anuário Comercial de Portugal", de 1957, aponta duas oficinas situadas em Marmelete e
pertencentes a José Dias Candeias e a António Joaquim da Luz. De acordo com a mesma fonte, na década de 70, terá
existido no Alferce um artífice de nome Elói.

No Guia comercial e industrial do Algarve (1974-1975) são referenciados apenas dois ferradores, sendo eles António
Carneiro e Manuel Carneiro, aquele que foi o último representante desta arte no concelho de Monchique.
Nascido em 1913, Manuel Carneiro começou como aprendiz desta profissão aos doze anos, com o mestre Francisco Correia
e com o seu irmão António Carneiro, tendo se tornado ferrador com quinze anos de idade, numa altura em que a ferragem e
tosquia dos animais era bem mais frequente. Com o auxílio de uma forja, era o próprio que fabricava as ferraduras que
utilizava no seu trabalho, podendo essa tarefa durar cerca de uma hora e meia, e pelo serviço de colocar as ferraduras
cobrava cerca de 400 escudos.

Se para os animais era crucial possuir bons cascos que lhes permitisse suportar as longas caminhadas, para os homens que
os montavam (ou para os próprios animais, que transportavam grandes cargas), o conforto e segurança também não era
menosprezado. E nesse sentido, o albardeiro era uma figura indispensável em qualquer parte. Tal como o ferrador, esta
profissão pedia semelhante agilidade, uma vez que «o albardeiro tinha de ter a destreza necessária para saber tirar as
medidas ao dorso do animal e também aprová-las depois», pois caso fosse fabricada uma peça «com 1 ou 2 centímetros a
mais, fazia uma grande diferença para o bem-estar do animal, quando o mesmo transportava grandes cargas».

Entre 1946 e 1957, registavam-se em Monchique dois mestres albardeiros, José Leandro Correia e Joaquim Nicolau
Correia. O "Anuário Comercial de Portugal", na edição de 1969 acrescenta o nome de Virgílio Rodrigues Correia, também
conhecido por Virgílio "Albardeiro", que foi o último homem a exercer estas funções no concelho, tendo falecido em 2000.

Com uma larga tradição na sua família, Virgílio tinha onze anos quando começou este ofício como aprendiz na casa de um
tio que também já tinha aprendido a fazer albardas com um familiar. Para além de albardas e selas, este albardeiro também
fabricava arreios, isto é, conjunto de apetrechos que permitiam comandar os animais de carga, de tração ou montaria.

Depois de trinta anos em que «chegava a fazer 6 ou 7 albardas por semana a uma média de 500$00 cada uma», Virgílio viu
a sua profissão entrar em decadência, a tal ponto que muitas fábricas deixaram mesmo de produzir alguns materiais
necessários para a execução das albardas, como era o caso da linhagem. Todavia, além desta eram precisos outros utensílios,
nomeadamente palha, fio, cordas, cabedal, vários tipos de agulhas, tesouras, um ferro especial, faca e lãs coloridas para
ornamentação do aparelho.

No Alvará de 16 de janeiro de 1773 percebe-se que «as uteis e necessárias madeiras de castanho» foi um dos motivos que
levou D. José I a elevar Monchique à categoria de vila, visto apresentarem certas características que são «uma fonte de
riqueza para a região» e têm «desenvolvido uma espécie de indústria que evoluiu e hoje já menos artesanal continua a ser
um dos fatores económicos do concelho».

Antes dos avanços da mecanização, os métodos de trabalhar a madeira eram ainda muito tradicionais, pois o trabalho do
machadeiro consistia «em descascar paus de várias medidas, que vão dos 2,60 m até aos 7 m e tentar prepará-los para serem
aplicados nos telhados pelos pedreiros». Era uma profissão bastante árdua, sendo realizada quase sempre por «um homem
sozinho em cada estaleiro, curvado sobre a madeira, com um machado de alguns quilos de peso, muitas vezes ao sol ou ao
frio, desamparados».

Todavia, o trabalho na madeira não estava completo sem o serrador, profissão que acabou, também ela por se extinguir,
muito em parte devido ao desenvolvimento da serra elétrica. Igualmente dura, a profissão de serrador era realizada por dois
homens e o processo de cortar as madeiras realiza-se através de um fio de nylon molhado em tinta, o qual era preso às
extremidades do tronco, ficando assim marcadas as linhas pelas quais o corte devia ser efetuado utilizando para isso um
grande serrote.

Outros tempos houve em que a moagem era uma atividade muito frequente no concelho de Monchique e havia um grande
número de moinhos, pelo que o moleiro era também uma das figuras mais típicas e antigas da região. Era ele que, depois de
moer o grão, distribuía a farinha de trigo, a cevada ou a aveia à população, transportando no seu burro a mercadoria que
comercializava. As Posturas Municipais de 1793 já se referiam a estes homens, designando-os como «oficiaes mecanicos» e
em 1842 como «acarretadores de moinhos», cuja obrigação na altura passava por «ter fiança idónea perante a Câmara do
valor de quatro mil e oitocentos réis, para com ela, em falta de bens, satisfazer os géneros que lhe forem entregues e o dono
do moinho que consentir acarretador sem fiança pagará mil reís».

Também os artesãos da cantaria foram importantes figuras para o concelho e principalmente para a industrial regional. Tal
como sucedeu com outros ofícios, em que as máquinas vieram simplificar o trabalho, também os canteiros viram a sua
profissão extinguir-se. Existiram alguns canteiros, cujo trabalho artesanal era bastante valorizado, sendo «as mós cónicas e
circulares que se produzem em Monchique as preferidas por muitas fábricas de aparelhos para lagares e moinhos», dado que
era uma pedra muito resistente «ao desgaste, a sua durabilidade, e o seu acabamento granuloso, ideal para moagens».

O Guia Comercial e Industrial do Algarve (1974-1975) dá conta da existência de um mestre nesta arte em Monchique, de
seu nome Salvador Inácio Guerreiro.

Estas são algumas de muitas profissões que existiram no concelho de Monchique, mas que hoje em dia apenas fazem parte
de uma realidade muito longínqua, visto não existirem mais. Do imaginário monchiquense fazem ainda parte profissões
como o latoeiro, o marceneiro, o tanoeiro, o funileiro, o almocreve, o leiteiro ou o amolador. Também os barbeiros, que
podiam ser dentistas, as costureiras, modistas e alfaiates, que transformavam os mais diversos tipos de panos em autênticas
obras de arte foram outras figuras de relevo no nosso concelho, tal como os sapateiros, que fabricavam todo o tipo de
modelos de calçado para homens, mulheres e crianças. Apesar de na vila ainda ser possível encontrar algumas oficinas de
sapateiro, esta é uma profissão que corre o risco de se perder, assim como toda a riqueza cultural a ela associada, caso não
sejam valorizadas e preservadas as memórias de um serviço que, em outros tempos, foi das mais importantes para a
economia local.

Fontes Bibliográficas
GASCON, José António Guerreiro, "Subsídios para a Monografia de Monchique", 2ª edição, Algarve em Foco Editora,
Faro, 1993;
MARREIROS, Glória, "Um Algarve Outro - contado de boca m boca", Livros Horizonte, Lisboa, 2001;
SAMPAIO, José Rosa, "Contributo para a História da Sapataria de Monchique", Monchique, 2007
- "O Tempo das Cavalgaduras: ferradores, tosquiadores, albardeiros e arrieiros no Concelho de Monchique", Coleção
"Estudos de História de Monchique", nº 33, Monchique, 2009;
- "Engenhos Tradicionais de Moagem do Concelho de Monchique", Junta de Freguesia de Monchique/Associação Memo,
2011;
Jornal de Monchique, nºs 8 (Julho de 1986), 10 (Setembro de 1986), 12 (Novembro de 1986), 20 (Julho de 1987).

Autor: Ana Rita Mateus