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novas dire,ões

poder político! ..
e classes sociais
fiA, característica, própria do
Estado capitalista, de representar o interesse
geral de um conjunto nacional-popular ndo
constitui uma simples mistificaçaõ
<enganadora, no sentido de que esse Estado Nicos Poulantzas
pode efetivamente satisfazer, abaixo desses limites,
certos interesses econômicos de certas
classes dominadas; ainda mais: pode fazê-Ia;
sem que, noentanto, o poder político seja
atingido. É de resto evidente que não é
possível traçar, de uma vez por todas, esse
limite de dominaçaõ hegemônica: ele
depende tanto da relaçdo das forças de luta'
como das formas de Estado, da articulaçdo
das suas funções, das relações entre
o poder econômico e o poder político,
do funcionamento do aparelho
de Estado. "

Nicos Poulantzas Martins Fontes


/
Série Novas Direções NICOS POULANTZAS

As Palavras e as Coisas -
Estruturalismo
Irrupção
Michel Foucault
- Ant. de Textos Teóricos - M. Foucault
da Moral Sexual Repressiva - W. Reich
A Política da Família - R. D. Laing
Introdução à Economia Política - Rosa Luxemburgo
e outros
-:
Do Feudalismo ao Capitalismo - Mauríce Dobb e outros
Poder Político e Classes Sociais - N. Poulantzas
Contribuição à Crítica da Economia Política - K. Marx
Obras Escolhidas - Antonio Gramsci
A Decadência da Família - David Cooper
História e Consciência de Classe - Georg Lukács

E ~ S~'sOCIAIS
-~«)'''

Tradução de
Francisco Silva

Revisão de
Carlos Roberto F. Nogueira
Título Original: ÍNDICE
Pouvoir Politique ei Classes Sociales, François Maspero, Paris.
França, 1968.

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte INTRODUÇÃO . 9


Câmara Brasileira do Livro, SP I. QUESTõES GERAIS . 33

1. Sobre o conceito de político 35


Poulantzas, Nicos. I. Política e história - o político e a política . 35
P894p Poder político e classes SOCIaIS;tradução de lI. A função geral do Estado . 42
Francisco Silva; revisão de Carlos Roberto F.
IlI. Modalidades da função do Estado . 48
Nogueira. São Paulo, Martins Fontes, 1977.
2. Política e classes sociais . 55
1. Capitalismo 2. Classes sociais 3. O Estado
4. Poder (Ciências sociais) I. Título. I. O problema do estatuto teórico das classes . 56
lI. As classes num modo de produção e numa formação social 68
IlI. O papel da luta política de classes na sua definição . 71
17. e 18. CDD-301.44 IV. As classes distintas e as frações autônomas de classe . 74
17. e 18. -320.1 V. Frações - categorias - camadas . 81
17. -330.15 VI. Estruturas e práticas de classe: a luta de classes 83
18. -330.122 VII. Conjuntura - forças sociais - previsão política . 90
77-1150
3. Sobre o conceito de poder . 95
I.O problema . 95
11. O poder, as classes e os interesses de classe . 100
IlI. Poder de Estado, aparelho de Estado, centros de poder .. 111
Índices para catálogo sistemático:
IV. A concepção do poder como "soma-zero" . 113
1. Capitalismo: Economia 330.15 (17.) 330.122 (18.)
2. Cla~ses sociais : Sociologia 301. 44 (17. e 18.)
II. O ESTADO CAPITALISTA 117
3. Estado: Poder político 320.1 (17. e 18.)
4. Poder político do Estado 320.1 (17. e 18.)
1. O problema . 119
'L O Estado capitalista e as relações de produção 121
lI. O Estado capitalista e a luta de classes . 126
l.a edição brasileira: novembro de 1977.
IlI. Sobre o conceito de hegemonia . 133

2. Tipologia e tipo de Estado capitalista ..................... 138


r. A tipologia de M. Weber :................. 141
lI. Tipos de Estado, formas de Estado e periodízação de uma
formação social ..................................... 143
III. Formas de regime e periodização do político 149

3. O Estado absolutista, Estado de transição . 153


Direitos adquiridos para o Brasil por I. Tipo de Estado e problemas de transição . 153
(;
LIVRARIA MARTINS FONTES EDITORA LTDA. II. O Estado absolutista, Estado capitalista . 157
01325 Rua Conselheiro Ramalho, 330/340
Fones: 35-3373, 34-6643 4. Sobre os modelos da revolução burguesa . 164
São Paulo - SP - Brasil I. O caso inglês . 164
5. O problema nas [ormae de Estado e nas formas de regime: o
H, O caso francês ...................................... 169 executivo e o legislativo 305
IlI. O caso alemão ...................................... 176 I. Formas de Estado, formas de legitimidade 305
lI. Formas de regime, partidos políticos 314
IlI. TRAÇOS FUNDAMENTAIS DO ESTADO CAPITALISTA 183

1. o Estado capitolieta. e os interesses das classes dominadas .... 185


V. SOBRE A BUROCRACIA E AS ELITES 319
2. o Estado capitalista e as ideologias 189 1. O problema e as teorias das elites 321

11.
I. A concepção historicista da ideologia
Ideologia dominante, classe dominante e formação
.
social .
189 .~ 2. A posição 'ilta1'xista. e a questão da a,tl"ibuição de classe do apa-
195 relho de Estado . 327
IlI. A concepção Marxista das Ideologias . 200
IV. A ideologia política burguesa e a luta de classes . 204-
3. Estado capitalista - burocratismo - buroc1'acia 337
V. O problema da legitimidade . 216

3. o Estado capiialieta e a [orça .220


4. A bU1'ocracia e a luta de classes 347

4. O Estado capitalista e as classes dominantes . . . . . .. 224


I. O bloco no poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 224
lI. Bloco no poder, hegemonia e periodização de uma forma-
ção: as análises políticas de lVIarx 229
IlI. Bloco no poder, alianças, classes - apoios 235
IV. Periodização política - cena política - classes reinantes
- classes detentoras do Estado 240

IV. A UNIDADE DO PODER E A AUTONOMIA RELATIVA


DO ESTADO CAPITALISTA 249

1. O problema e a sua enunciação teórica pelos clássicos do mar-


xismo 251

2. Alguns erros de interpretação e as suas conseqüências 259


I. A teoria política geral . 259
lI. A teoria política marxista . 265

3. O Estado Capitalista e o ca,rnpo da, luta de classes . 271


I. O problema geral . 271
lI. As análises de Marx . 275
lU. O chamado fenômeno totalitário . 286
I
4. O Estado Capitalista e as classes dominantes . 293
I. O bloco no poder ...•................................. 293
lI. A separação dos poderes . 300
1

I 7°
I

I. >

INTRODUÇÃO

!
r

( INTRODUÇÃO
I
I

1) O marxismo é constituído por duas disciplinas unidas mas


distintas, e cuja disti:nção se fundamenta na diferença do seu objeto:
9 materialismo dialético e o materialismo histórico. 1
O materialismo histórico - ou ciência da história - tem como
objeto o conceito de história, atrâvés do estudo dos diversos modos
de rodução e formação sociais, da sua estrutura, da sua constitui-
ção e do seu funcionamento, em como as ormas e translçao
de uma formação social para outra.
O materialismo dialético - ou filosofia marxista - tem como
objetivo próprio a produção dos conhecimentos, quer dizer a es-
trutura e o funcionamento do processo de pensamento. A rigor, o
materialismo dialético tem como objeto a teoria da história da pro-
dução científica. Com efeito, se o materialismo histórico estabele-
ceu, em um mesmo movimento teórico, o materialismo dialético como
disciplina distinta, é porque a constituição de uma ciência da histó-
ria, quer dizer de uma ciência que define o seu objeto como cons-
tituição do conceito de história - materialismo histórico -, con-
duziu à definição de uma teoria da ciência que compreende a his-
tória como parte constituinte de seu objeto próprio.
Estas duas disciplinas são distintas: é que existem, na verdade,
interpretações do marxismo que reduzem uma disciplina à outra.
Quer o materialismo dialético ao materialismo histórico - é o caso
típico das interpretações históricas, tais como as do jovem Lukács,
de Korsch, etc., para os quais o marxismo é uma antropologia histó-
rica, sendo a história uma categoria originária e fundadora e não
um conceito a construir; a reflexão das estruturas, a "tomada de
.consciência do seu sentido", é função, por meio de uma interioriza-
ção medidora, dessas próprias estruturas. Quer o materialismo his-
tórico ao materialismo dialético: é o caso das interpretações posi-
tivistas-empiricistas que diluem o objeto próprio do materialismo his-
tórico, submetendo todo o objeto histórico na mesma lei "abstrata",
universalmente válida, "modelo" regulador de toda a "concretização"
histórica.
O materialismo histórico, como Marx demonstrou na Introdu-
ção de 57, no Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Po-

1. Acerca destas questões, ver Althusser in Pour Ma1'X e também Lire


le Capital, t. II; "Matérialisme historique et matérialisme dialectique",
Cahiers Marxistes-Leninistes, n. 11; e "Sur le travail théorique. Difficul-
tés et ressources", La Pensée, abril 1967.

11

..
litica e em O Capital - contém uma teoria geral definindo conceitos termos de "síntese de uma multiplicidade de determinações". Por
que comandam todo o seu campo de investigação (conceitos de modo outro lado, o processo de pensamento - se é verdade que tem como
de produção, de formação social, de apropriação real e de proprie- objetivo final e como razão de ser o conhecimento dos objetos reais-
dade, de combinação, de ideologia, de política, de conjuntura, de -concretos - nem sempre se relaciona a esses objetos: pode de igual
transição) . Estes conceitos permitem-lhe definir o conceito do seu modo reportar-se a objetos que podemos designar como abstratos-
objeto: o conceito de história. O objeto do materialismo histórico -formais, os quais não existem no sentido rigoroso do termo, mas
é o estudo das diversas estruturas e práticas ligadas e distintas (eco- que são a condição do conhecimento dos objetos reais-concretos: é
nomia, política e ideologia), cuja combinação constitui um modo o caso, por exemplo, do modo de produção.
de produção e uma formação social: podemos caracterizar estas De acordo com o lugar rigoroso que ocupam no processo de
teorias como teorias regionais. O materialismo histórico compreen- pensamento e com o objeto de pensamento a que se referem 2, po-
de, de igual modo, teorias particulares (teorias dos modos de pro- demos distinguir os diversos conceitos segundo o respectivo grau de
dução escravagista, feudal, capitalista, etc.), cuja legitimidade está abstração, desde os mais pobres em determinações teóricas, até aos
bas.eada na diversidade de combinações das estruturas e práticas, que mais elaborados e aos mais ricos. Os conceitos mais concretos, aque-
definem modos de produção e formações sociais distintas. Esta 01'- les que conduzem ao conhecimento de uma formação social em um
dem, que, por enquanto, é apenas a de uma enumeração, será mo- momento determinado do seu desenvolvimento, não são, tampouco
dificada e fundamentada a seguir. quanto aos objetos reais-concretos, a matéria-prima do processo de
pensamento: nem são sequer deduzidos dos conceitos mais abstra-
tos, ou submetidos nestes últimos, juntando à sua generalidade
Sabemos que as duas proposições fundamentais do materialismo uma simples particularidade. São antes o resultado de um trabalho
(dialético e histórico) são as seguintes: de elaboração teórica que, operando sobre informações, noções, etc.,
por intermédio dos conceitos mais abstratos, tem como efeito a pro-
1) A distinção entre os processos reais e os processos de dução dos conceitos mais concretos, que conduzem ao conhecimento
pensamento, entre o ser e o conhecimento. dos objetos reais, concretos e singulares.
2) O primado do ser sobre o pensamento, do real sobre o co-
nhecimento que dele se tem. Tomemos como exemplo dois conceitos fundamentais do ma-
Se a segunda proposição é bastante conhecida, é necessário in- terialismo histórico que ilustram bem a distinção entre objetos for-
sistir na primeira: a unidade dos dois processos - do processo do mais-abstratos e objetos reais-concretos: os de modo de produção
real e do processo do pensamento - está baseada na sua distinção. e de formação social.
Assim, o trabalho teórico - qualquer que seja o grau da sua Por modo de produção designaremos, não o que geralmente se
abstração - é sempre um trabalho referente aos processos reais. indica como o econômico, as relações de produção em sentido es-
No entanto, este trabalho, que produz conhecimentos, situa-se in- trito, mas uma combinação específica de diversas estruturas e prá-
teiramente no processo de pensamento: não existem conceitos mais ticas que, na sua combinação, aparecem como outras tantas instân-
reais que outros. O trabalho teórico parte de uma matéria-prima cias ou níveis, em suma, como outras tantas estruturas regionais
composta, não do real-concreto, mas antes de informações, noções, desse modo. Um modo de produção, como de forma esquemática
etc., sobre este real, e trata-a utilizando certos instrumentos con- o disse Engels, compreende diversos níveis ou instâncias, o econô-
ceituais, trabalho cujo resultado é o conhecimento de um objeto. mico, o político, o ideológico e o teórico, subentendendo-se que não
Pode-se dizer que, no sentido rigoroso do termo, apenas exis- trata senão de um esquema indicativo e que é possível operar-se
tem os objetos reais, concretos e s.ngulares, O processo de pensa- uma divisão mais exaustiva. O tipo de unidade que caracteriza um
mento tem como fim último o conhecimento destes objetos: a França modo de produção é o de um todo complexo com dominância,
ou a Inglaterra em um momento determinado do seu desenvolvi- em última instância, do econômico: dominância em última ins-
mento. Por conseguinte, o conhecimento destes objetos parte da tância para a qual reservaremos o termo de determinação.
suposição de que estejam determinados na matéria-prima visto se-
rem precisamente ~ como conhecimento concreto de um objeto 2. Convém precisá-lo, a fim de não cairmos no velho equívoco da "abs-
concreto - o resultado de um processo que Marx designa pelos tração-concretização" positivista,

12 13
Este tipo de relações entre as instâncias distingue-se do que é apre- dado momento da sua existência histórica: a França de Louis Bo-
sentado por certas interpretações do marxismo. Não se trata, por naparte, a Inglaterra da revolução industrial. Contudo, uma forma-
exemplo, de uma totalidade circular e expressiva, baseada sobre ção social, objeto real-concreto, sempre original porque singular,
uma instância central-sujeito, categoria fundadora das origens e apresenta, como Lenin demonstrou no Desenvolvimento do capita-
princípios de gênese, de que as outras instâncias - partes totais - lismo na Rúss.a, uma combinação particular, uma superposição es-
não constituiriam senão a expressão fenomenal. Não se trata sequer pecífica de vários modos de produção "puros". :É assim que a Ale-
de relações de simples analogia ou de correlação de instâncias ex- manha de Bismarck se caracteriza pela combinação específica dos
ternas uma em relação à outra. Em poucas palavras, não se trata modos de produção capitalista, feudal e patriarcal, dos quais só a
nem de uma causalidade linear, nem de uma medicação expressiva, combinação existe no sentido rigoroso do termo; existe apenas uma
nem tampouco de uma correlação analógica. Trata-se, sim, de um formação social historicamente determinada com objeto singular.
tipo de relação, no interior do qual a estrutura com determinação
do todo comanda a própria constituição - a natureza - das estru- A própria .formação social constitui uma unidade complexa
turas regionais, atribuindo-Ihes o lugar respectivo e distxbuindo-lhes com dominância de um certo modo de produção sobre os outros
funções: por conseguinte, as relações que constituem cada nível nun- gue a compõem. Tomemos, como exemplo, uma formação social
ca são simples, mas antes sobredeterminadas pelas relações dos ou- historicamente determinada por um dado modo de produção: a Ale-
tros níveis. manha de Bismarck é uma formação social capitalista, quer dizer,
Ainda mais: a determinação, em última instância, da estrutura dominada pelo modo de produção capitalista. A dominância de um
do todo pelo econômico não significa que o econômico aí detenha modo de produção sobre os outros, em uma formação social, faz
sempre o papel dominante. Se é verdade que a unidade, representada com que a matriz desse modo de produção, a saber, a reflexão par-
pela estrutura com dominante, implica que todo o modo de produ- ticular da determinação (em última instância pelo econômico) que
ção possui um nível ou instância dominante, de fato o econômico só a especifica, marque o conjunto desta formação. Neste sentido, uma
é determinante na medida em que atribui a esta ou aquela instância formação social historicamente determinada éespecificada por uma
o papel dominante, isto é, na medida em que regula o deslocamento articulação particular - por um índice de dominância e de sobre-
de dominância devido à descentralização das instâncias. :É assim que determinação - dos seus diversos níveis ou instâncias (econômico,
Marx nos indica de que maneira, no modo de produção feudal, é a político, ideológico e teórico), a qual é, regra geral, tendo em conta
ideologia - na sua forma religiosa - que desempenha o papel do- as defasagens que iremos encontrar, o modo de produção dominante.
minante, o que é rigorosamente determinado pelo funcionamento do Por exemplo, em uma forma ão social dominada elo modo de ro-
econômico neste modo de produção. O que, portanto, distingue um dução capitalista, o papel dominante é desempenhado regra geral
modo de produção de outro (e que por conseguinte especifica um pelo econômico, o que não é mais que o efeito da dominância, nesta
modo de produção) é esta forma particular de articulação que os formação social, desse modo de produção, este caracterizado, na
seus níveis apresentam entre si: é o que doravante designaremos pelo sua "pureza", pelo papel dominante que o econômico desempenha.
termo de matriz de um modo de produção. Por outras palavras, de-
finir rigorosamente um modo de produção consiste em descobrir a
forma particular como se reflete, no interior deste, a sua determi-
nação em última instância pelo econômico, reflexão essa que deli-
mita o índice de dominância e de sobredeterminação desse modo de
produção.
O modo de produção constitui um objeto abstrato-formal que,
no sentido rigoroso do termo, não existe na realidade. ,os modos de
produção capitalista, feudal, escravagista constituem igualmente ob-
jetos abstratos-formais, visto também não possuírem essa existência.
De fato, existe apenas uma formação social historicamente determi-
nada, isto é, um todo social - no sentido mais vasto - em um

14
A teoria geral do materialismo histórico 3 define um tipo geral do político, e teorias particulares, isto é, as teorias dos diversos mo-
de relações entre instâncias distintas e unidas - o econômico, o po- dos de produção. Esta junção não é um efeito do acaso, antes se
lítico e o ideológico; define assim, ao seu próprio nível, e em relação opera de acordo com uma ordem legítima que é a do processo do
necessária com os seus conceitos de modo de produção, de forma- pensamento: a teoria regional do político no modo de produção
ção social, de estrutura com dominante, etc., conceitos relativamente capitalista pressupõe a teoria particular deste modo de produção. O
abstratos destas instâncias. Falando com propriedade, trata-se de lugar atribuído ao político no modo de produção capitalista depende
conceitos circunscrevendo lugares formais atribuídos a toda a estru- da teoria particular deste modo - do seu tipo específico de arti-
tura social possível. Trata-se, por exemplo, do conceito mais abstrato culação, do Seu índice de dominância e de sobredeterminação -
de político, funcionando em todo o campo de investigação da teoria tal como foi exposto por Marx em O Capital. A teoria particular
geral do materialismo histórico, a saber, nos modos de produção e do modo de produção capitalista possui os seus conceitos próprios,
formação sociais em geral, em particular divididos em classes. :e os quais funcionam no conjunto do campo da sua investigação, e CQ-
aqui que encontra o seu justo lugar teórico o problema da relação do mandam assim a produção dos conceitos próprios da teoria regional
político com a história, conceito cuja construção é o objeto próprio do político deste modo de produção.
do materialismo histórico.
No entanto, quer o modo de produção capitalista, quer o polí-
No entanto, a teoria regional do político só pode ascender aos tico neste modo, por exemplo, o Estado capitalista ou as formas
conceitos mais ricos em determinações teóricas, localizando o seu políticas de luta de classe neste modo, constituem objetos abstratos-
objeto em um modo de produção dado. De acordo com os princí- -formais, pois que em sentido rigoroso apenas existem os Estados de
pios que nos conduziram à construção do conceito de modo de pro- formações capitalisttas historicamente determinadas. Finalizando, a
dução, uma instância regional - neste caso, o político - pode
constituir um objeto de teoria regional, na medida em que é "re-
cortado" de um modo de produção determinado. A sua constituição
em objeto de ciência, quer dizer a construção do seu próprio con- g.3
ceito, depende não da sua natureza, mas do seu lugar e da sua fun- (Conhecimentos já obtidos, pelo processo depen-
samento, sobre o materialismo histórico: teoria
ção em uma combinação particular que especifica esse modo de geral de que faz parte o conceito mais abstrato
produção. Pode-se dizer que esta instância, assim localizada, ocupa do político como instância de toda a estrutura)
o lugar atribuído formalmente ao político pelo seu conceito abstrato,
dependente da teoria geral. Em particular, é a articulação das ins-
tâncias, próprias deste modo de produção, que define a extensão e
os limites desta instância regional, atribuindo o seu domínio à teoria
g.l --.
(Informações, no-
ções, etc., sobre o
I

g.2 -. g.3
(Conhecimentos da teoria particular
do modo de produção capitalista)
regional correspondente. O econômico, o político, o ideológico, não modo de produção
constituem essências prévias que entrem em seguida em relações
externas de acordo com o es ueml;l ambí uo - se tomado à letra -
ca pltalista)

g.l -. g.2
I g.3
a base e da superestrutura. A articulação, própria à estrutura do (Conhecimento da teo-
(Informações, noções,
todo de um modo de produção, comanda a constituição das instân:- etc., sobre o Estado ria regional do políti-
das regionais. Em suma, construir o conceito de objeto da ciência capitalista, sobre a co no modo capitalista
política, passando das determinações teóricas mais pobres às de- luta de classes no de produção).
terminações teóricas mais ricas, supõe a definição rigorosa do polí- modo de produção ca-
pitalista, etc:)
tico como nível, instância ou região de um modo de produção de- ~
terminado. g.l -. g.2 -. g.3·
É aqui que se opera a junção, no materialismo histórico, entre (Análise concreta ( Informações (Conheci-
o que foi definido como teorias regionais, de que faz parte a teoria de uma conjuntura sobre uma for- mento do polí-
política concreta). mação social tico nesta for-
capitalista e o mação socíal.)
3. Teoria geral que é preciso não confundir com o materialismo dialético, seu nível políti-
visto este último não ser a simples epistemologia do materialismo histórico. co em particular)

16 ·17
razão de ser do processo de pensamento -é a produção dos conceitos contêm por vezes, no estado de elementos científicos em um dis-
mais concretos, isto é, mais ricos em determinações teóricas, os quais curso ideológico, conceitos teóricos autênticos que esse trabalho crí-
permitem o conhecimento dos objetos reais, concretos e singulares, tico nos permitiu depurar.
constitutivos de cada formação social sempre original. Esta ordem
lógica que, dos conceitos mais abstratos, conduz aos conceitos mais Quanto aos textos dos clássicos do marxismo, do ponto de vista
concretos, transita dos conceitos da teoria geral do materialismo his- do seu trat~m~nto c0!ll? informações concernentes em particular ao
tórico para os que permitem proceder, segundo a expressão de Le- Estado capitalista, fOI Igualmente necessário completá-Ias e subme-
nin, à análise concreta de uma situação concreta. 4 tê-Ias a um trabalho crítico particular. Devido ao caráter não siste-
3) Convém tomar igualmente em consideração os problemas mático ~e~tes textos, as. informaç?es que contêm revelam-se por ve-
relativos às informações, noções, etc., que constituem a matéria- zes parcrais, ou mesmo inexatas, a luz das informações - históricas
-prima dos diversos escalões do processo teórico seguido neste tex- políticas - que estamos à 'altura de dispor atualmente. '
to, por um lado; e relativos ao estatuto dos textos dos clássicos do . A segunda série de problemas diz respeito aos textos dos clás-
marxismo concernentes ao político, por outro. SICOS do n::arxismo, inclusivamente aos textos de Marx, Engels, Lenin
No que diz respeito à matéria-prima, somo!' levados a procurá- ~ Gramsci referentes ao tratamento propriamente teórico do polí-
-Ia onde se encontra: nos textos dos clássicos do marxismo, nos tico. Com efeito, é necessário constatar antes de tudo - e isto é
textos políticos do movimento operário, e nas obras contemporâneas uma observação de caráter geral - que eles não trataram a região
de ciência política. Fizemos, neste último caso, uma primeira esco- do político ao ?Í:el ?a sistematicidade teórica. Por outras palavras:
lha, de acordo com o grau de seriedade destas obras; e, digamo-Io pres?~ ao exercicto direto da sua própria prática política, não fizeram
francamente, o caráter marxista ou não-marxista dessas obras de exphcItan~ente a respectiva teoria no sentido rigoroso do termo. O
modo algum constitui - no estado atual da investigação e no que que, no fim de. contas, se encontra nas suas obras é um corpo orde-
diz respeito à sua tomada em consideração como riatéria-prima de nado de con.ceItos no "estado prático", quer dizer, presentes no dis-
investigação - um critério pertinente da sua seriedade ou não-serie- cur~? e destinados, p~la sua função, a dirigir diretamente a prática
dade. Obras de ciência política, concernentes em particular ao Es- política em uma conjuntura concreta, mas não teoricamente elabo-
tado capitalista, em primeiro lugar em língua francesa; dado que r,a?os; ou ainda elementos de conhecimento teórico da prática po-
esta ciência está relativamente pouco desenvolvida na França, re- Iítica e da superestrutura do Estado, isto é, conceitos elaborados
corremos com freqüência a obras em língua inglesa - inglesas e mas não inseridos em um discurso teórico sistemático; quer, final-
americanas - e em língua alemã. Obras relativamente desconheci- ~lente, UI~a concepção implícita do político em geral na problemá-
das na França; é conhecido o provincianismo característico da vida tica marxista, concepção que sustenta a produção dos seus conceitos
intelectual francesa, da qual uma das características - e não a me- com grande rigor, é verdade, mas também de forma certamente alea-
nor - consiste muitas vezes em arrombar portas abertas, isto é, em tória, característica de todo o pensamento que não é contemporâneo
acreditar serenamente na originalidade de uma _produção teórica, de. si, n:esmo, isto é, que não é sistematicamente explícito nos seus
quando esta já se encontra muito mais elaborada em autores es- prmcipios.
trangeiros. No entanto, tomamos essas obras em consideração atra-
vés de um trabalho crítico acerca do seu método e sobre a teoria - Este, estado de coisas, que aqui se trata apenas de constatar,
muitas vezes implícita - que as sustenta. Além disso, estas obras refere-se a ordem real do desenvolvimento - de fato - do materia-
lism~ h!stórico, que rião deve ,ser confundida com a ordem lógica _
4. Adotando a terminologia de Althusser (in Pour Marx), e designando de direito - do processo teorico que acaba de ser exposto. Esse
por g.l (generalidades l) a matéria-prima do processo do pensamento, estado de coisas acarreta grandes dificuldades referentes à organiza-
por g.2 (generalidades II) os instrumentos ou meios de trabalho teórico, ção dos textos que iremos tomar em consideração.
e por g.3 (generalidades lJI) os conhecimentos, pode esquematizar-se a
ordem lógica que vai dos conceitos mais abstratos - relacionados a obje-
tos forma.s-abetratos -" aos conceitos mais concretos - relacionados a a) A primeira dificuldade diz respeito à localização da pro-
objetos reais-concretos e singulares - , e, em poucas palavras, os diver-
sos escalões necessários do discurso _teórico, do modo seguinte:
blemática original do marxismo nas obras de Marx e de Engels.
Tomemos, como objeto, a teoria do político no modo de produção capita- Esta problemática, que representa uma cesura em relação à proble-
lista. mática das obras de juventude de Marx, desenha-se a partir da

18
19
Ideologia Alemã, texto de cesura que comporta ainda numerosas pretender esse título - não se encontra nele uma teoria do político ..
ambigüidades. Essa cesura significa precisamente que Marx se tor- Esta presença indireta do político em O Capital ser-nos-á muito útil
nou então marxista. Por conseqüência, não tomaremos de modo mas não nos poderá levar muito longe. Encontramo-Ia tanto nos
algum em consideração, assinalemo-Io desde já, aquilo a que se desenvolvimentos teóricos propriamente ditos de O Capital, como nos
conveio chamar as obras de juventude de Marx, a não ser a título de exemplos concretos que Marx neles invoca a título de ilustração
comparação crítica, isto é, como ponto de referência, sobretudo para desses desenvolvimentos: por exemplo, as passagens concernentes ao
descobrir a pista das "sobrevivências" ideológicas da problemática papel do Estado na acumulação primitiva do Capital ou na legisla-
de juventude nas obras de maturidade. Isto é particularmente im- ção sobre manufaturas na Inglaterra. Estas observações são ilus-
portante para a ciência política marxista, dado que, como se sabe, trações da presença indireta do político no econômico - quer dizer,
as obras de juventude estão particularmente orientadas no sentido da teoria particular do M.P.C. * - e não se destinam a produzir
da teoria política. "Sobrevivências", dissemos, mas o termo é fala- conceitos mais concretos destinados, por sua vez, a conhecimentos
cioso. De fato, as noções das obras de juventude que encontramos das formações sociais - como é o caso do 18 Brumârio.
nas obras de maturidade tomam, neste novo contexto, um sentido
diferente, quer como pontos de referência indicativos de problemas c) Dispomos em seguida de uma série de textos que se re-
novos, quer como simples palavras encobrindo abusivamente uma portam, parcial ou inteiramente, ao objeto da ciência política na sua
forma nova de colocar as questões, quer como obstáculos à pro- forma abstrata-formal - quer o Estado em geral, quer a luta de
dução de conceitos novos: funcionamento este que trataremos de classes em geral, quer o Estado capitalista em geral -, tais como
elucidar. Além disso, a referenciação da problemática assume igual- a Crítica do Programa de Gotha ou A Guerra Civil na França de
mente importância para outros autores, nomeadamente para Gramsci, Marx, o Anti-Dühring de Engels, O Estado e a Revolução de Lenin,
cujas obras, a despeito das cesuras que nelas se encontram, mani- as Notas sobre Maquiavel de Gramsci. Estes textos são, não obs-
festam uma permanência particular da problemática historicista. tante, textos de luta ideológica; foram concebidos como respostas
urgentes a ataques ou a deformações da teoria marxista, e os seus
b) Consideremos agora a obra teórica maior do marxismo, .autores foram, por isso mesmo, obrigados a colocar-se freqüente-
que é O Capital. Que podemos extrair dele no que concerne em mente no terreno ideológico dos textos a refutar. Apesar disso, estes
particular ao estudo do político, nomeadamente do Estado capita- textos contêm com freqüência conceitos autênticos, obliterados em-
lista? O Capital contém, com efeito, entre outras coisas - mas "OU bora pela sua inserção na ideologia, e que só através de todo um
limitar-me ao que principalmente nos interessa aqui -, por um lado trabalho crítico podem ser descobertos.
um tratamento científico do modo de produção capitalista, da arti-
culação e da combinação - da matriz - das instâncias que o es- d) Debrucemo-nos, enfim, sobre os textos políticos propria-
pecifica; por outro lado, um tratamento teórico sistemático da região mente ditos. Como ressalta do que precede, a sua organização é
econômica deste modo de produção. E isto não porque, como du- muito complexa. Reportam-se em princípio a objetos reais-concre-
rante muito tempo se pensou, nada de importante se passe nas ou- tos, quer dizer, a formações sociais, historicamente determinadas,
tras regiões ou fosse secundário o seu exame, mas porque - como por exemplo a França, a Alemanha e a Inglaterra em Marx e Engels,
veremos imediatamente - este modo de produção é especificado por a Rússia em Lenin, a Itália em Gramsci, em um momento determi-
uma autonomia característica das suas instâncias, passíveis de um nado do seu desenvolvimento. Em particular, estes textos compor-
tratamento científico particular, e porque o econômico desempenha tam uma "análise concreta de uma situação concreta", nomeada-
neste modo de produção, além da determinação em última instância, mente da conjuntura dessas formações. Neste sentido, contêm efe-
o papel dominante. Assim, as outras instâncias - o político, o ideo- tivamente toda uma série de conceitos mais concretos concernentes
lógico - estão sem nenhuma dúvida presentes em O Capital - o ao conhecimento dessa conjuntura. Isto, no entanto, não é tudo:
qual, neste sentido, não é uma obra "exclusivamente econômica" -, devido à ausência de obras teóricas sistemáticas neste domínio, es-
mas de algum modo indiretamente, isto é, pelos seus efeitos na re- ses textos reportam-se ao mesmo tempo, em uma mesma exposição
gião do econômico. Do mesmo modo que, em O Capital, não se discursiva não explicitada e analisada, a objetos abstratos-formais,
encontra uma teoria sistemática da ideologia no modo de produção
capitalista - não podendo as notas sobre o fetichismo capitalista * Modo de Produção Capitalista (N. T.).

20 21
e relevam de uma concepção do político na teoria geral e de uma mas que de fato apenas podem servir como indicadores de proble-
teoria regional do político no modo de produção capitalista. Este mas; quer também - e forçosamente - como noções ideológicas.
fato indiscutível é muito importante. Com efeito, estas obras polí- 4) Algumas notas breves com respeito à ordem de exposição.
ticas contêm inclusive os conceitos mais abstratos, mas quer no "es- De fato, como Marx sublinhou, a ordem de exposição dos conceitos
tado prático" isto é, sob uma forma que não está teoricamente ela- é parte integrante de todo o discurso científico. A ciência é um
borada, quer sob uma forma mais ou menos elaborada, embora discurso demonstrativo, no interior do qual a ordem de exposição
em estado elementar, isto é, inseridos em uma ordem discursiva de e de apresentação dos conceitos depende das suas relações neces-
exposição, que não é a sua na ordem lógica da investigação. sárias, as quais é necessário evidenciar - é essa ordem que liga os
conceitos e atribui à discursividade científica o seu caráter sistemá-
Damo-nos conta, assim, dos difíceis problemas colocados por tico. Esta ordem de exposição distingue-se, por um lado, da ordem
estes textos em virtude da sua organização. Sendo assim, é neces- de investigação e de pesquisa mas também, por outro lado,e é o
sário, ao lê-Ios, colocar as questões pertinentes na ordem teórica do que importa, da ordem lógica - de direito - do processo de pen-
processo de pensamento acima definido. Por outras palavras, trata- samento. Por outras palavras, se a sistemática da ordem de exposi-
-se de remeter - através de uma elaboração, e não de uma mera ção se relaciona à ligação e às relações dos conceitos no processo
extração - os diversos conceitos contidos 'nesses textos para o lugar de pensamento, esta primeira ordem não constitui nem o percurso
que, de direito, lhes cabe no processo de pensamento, processo este nem a simples repetição da segunda - o que é, de resto, nítido no
que permite definir rigorosamente o grau de abstração respectivo, plano de exposição de Marx para O Capital. A defasagem entre as
isto é, a sua extensão e os seus limites precisos: veremos assim que, duas ordens depende, no nosso caso, sobretudo do fato do sistema
por vezes, o seu campo não é de modo nenhum aquele que os seus do processo de pensamento - que é o objeto próprio do materia-
autores pensavam atribuir-lhes. E, aliás, evidente que, através deste lismo dialético - não poder estar explicitamente presente na expo-
trabalho, estes conceitos sofrerão transformações necessárias. Em sição de um texto que se refere ao materialismo histórico, devido à
suma, e exemplificando, tratar-se-á de descobrir em que medida distinção entre as duas disciplinas. 5
certos conceitos, que aparecem no estudo do político de uma for- Se é possível, assim, descobrir no nosso texto uma ordem geral
mação social capitalista concreta, funcionam de fato - devidamente de exposição, a concepção do político em geral, a teoria particular
transformados ou não - no campo do político no modo de pro- do modo de produção capitalista, a teoria regional do político neste
dução capitalista, e valem assim para as formações sociais capita- modo de produção, o exame de formações sociais capitalistas con-
listas em geral - rigorosamente, para todas as formações capitalis- cretas, a sua sistematicidade deverá ser considerada segundo a sua
tas possíveis - (assim, o conceito de "bonapartismo", produzido a própria necessidade, e não segundo o seu grau de reprodução do
propósito da França de Louis Bonaparte e cujo campo é o tipo ca- processo de pensamento. Manifestar-se-ão defasagens entre as duas,
nomeadamente no que se refere à teoria geral do materialismo his-
pitalista de Estado); ou em que medida certos conceitos, expostos
tórico, cujos conceitos serão introduzidos de acordo com e à ,medi~a
nos textos concementes a formações sociais diferentes, se aplicam
da necessidade da ordem de exposição de um texto referente a teona
ao modo de produção capitalista e às formações sociais capitalistas regional do político no modo de produção capitalista. Igualmente
(assim como o problema colocado pelos textos de Lenin sobre a se manifestarão defasagens na apresentação da teoria particular deste
frente única ou o burocratismo na U. R. S .S. durante o período de modo de produção, a qual, dado o objeto deste texto, deverá já
transição para o socialismo); ou, ainda, em que medida alguns des- estar presente no exame da concepção geral do político. Aliás; é
ses conceitos têm como campo o político em geral; ou mesmo, final- preciso não ignorar o fato de que estas defasagens são igualmente
mente, em que medida certos conceitos, a que os seus autores atri- decorrentes do estado atual das investigações, quer dizer, da conjun-
buíram como campo o político em geral, apenas têm de fato como tura teórica do materialismo histórico, o qual, pelo menos no que
campo o político no modo de produção capitalista (assim como o conceme à teoria geral e às teorias particulares, está ainda longe de
conceito de hegemonia de Gramsci, etc.). uma elaboração sistemática satisfatória.
É de resto inútil insistir no fato de que, neste estado de coisas,
nos defrontamos muitas vezes, quer com conceitos contraditórios; 5. Ver também, neste sentido, A. Badiou : "Le recommencement du ma-
quer com simples palavras tomadas por conceitos pelos seus autores, térialisme dialectique", in C?'itique, maio, 1967.

22
5) Estas dificuldades levaram-me a tomar, neste texto, algu- 6) Necessitamos, por fim, de definir certos conceitos suple-
mas precauções indispensáveis. Em particular, as análises referentes mentares da teoria geral do materialismo histórico e situar o quadro
ao político na teoria geral não aspiram senão a uma sistematicidade da teoria particular do modo de produção capitalista (que doravante
relativa e de modo algum poderiam ser consideradas exaustivas. In- designaremos pelas iniciais M.P.C.). Estas definições e notas serão
,.I
sisto, com efeito, em marcar as minhas reservas a respeito de uma a seguir justificadas no próprio corpo do texto.
tendência demasiado em voga atualmente, e acerca da qual se pode Assinalamos acima que a matriz de um modo de produção, a
dizer que "põe o carro à frente dos bois", na medida em que con- articulação das instâncias que o especifica, é determinada em última
funde a ordem de pesquisa e de investigação com a ordem lógica do instância pelo econômico. Ora, como é que esta determinação fun-
processo de pensamento, e em que sistematiza - no vazio - a teoria ciona em geral, e no M.P.C. em particular?
geral, antes de proceder a suficientes pesquisas concretas, justamente
,.
j
Tal como toda a instância, o econômico em geral é constituído
aquilo contra o que Marx nos preveniu. Nesta ocorrência, pareceu-
por certos elementos - invariantes - 9.ue, de f~~o, só existem na
-me particularmente ilusório e perigoso - teoricamente, entenda-se
sua combinação - variável. Marx assinala-o nitidamente quando
- avançar mais 'na sistematização do político na teoria geral, na
diz: 6 "Quaisquer que sejam as formas socia~s da produçã~, os seus
medida em que atualmente há falta de suficientes teorias sistemáticas
fatores são sempre os trabalhadores e os meios de produçao (Marx
regionais do político nos diversos modos de produção, ou mesmo
acrescenta seguidamente o não-trabalhador). Mas, tanto uns como
de suficientes teorias sistemáticas particulares dos diversos modos
outros apenas o são virtualmente, e?quanto / Rermanecerem ~epa:a-
de produção.
dos. Para uma produção qualquer, e necessana a sua com~m~çao.
Se é verdade que nos concentramos aqui sobre a teoria regional :É a forma especial como esta combinação se opera que distingue
do político no modo de produção capitalista, igualmente tomamos as diferentes épocas econômicas por que passou a est~tur~ socia~'.
em consideração, não apenas na pesquisa mas também na exposição, Se, por conseguinte, se trata realmente de uma combinação e nao
formações sociais capitalistas concretas. Esta "tomada em conside- de uma combinatória, é porque as relações entre os elementos deter-
ração" na exposição operou-se a dois títulos distintos: quer a título minam a sua própria natureza, a qual é modificada conforme a
de ilustração da teoria regional, quer a título de produção de con- combinação. 7
ceitos concretos, que conduzem a conhecimentos da conjuntura po- Os elementos invariantes do econômico em geral são os se-
lítica destas formações. Se é de um ou de outro que se trata, isso guintes:
ressaltará nitidamente do contexto. 1 - O trabalhador - o "produtor direto" - isto é, a força
De igual modo, e com conhecimento de causa, deixamos pro- de trabalho;
blemas em aberto: assim, tendo embora fixado ou estabelecido os 2 - Os meios de produção, isto é, o objeto e os meios de
conceitos que funcionam no campo do político do modo de produção trabalho;
capitalista, e conseqüentemente, das formações sociais capitalistas, 3 - O não trabalhador, que se apropria do excedente de tra-
ou ainda, do político de formações capitalistas concretas, não quise- balho, isto é, do produto.
mos entrar no exame das possibilidades do deslocamento, ou das Estes elementos existem em uma combinação específica, a qual
torsões e transformações destes conceitos em outros modos de pro- constitui o econômico em um dado modo de produção, combinação
dução e formações sociais, nomeadamente em uma formação em esta que é por sua vez composta por uma dupla relação desses
transição para o socialismo, ou no modo de produção e em uma for- elementos.
mação socialista. Por outras palavras, se tentamos situar exatamen-
te os conceitos na ordem do processo de pensamento, isso foi feito 6. Le Capital (Editions Sociales), L. 1, t. I, pág. 38.
sempre em função dos limites do objeto do texto. Mas, deixar o 7. Ver, a este respeito, Balibar, in Lire le Capital, t. II e Ch. Bettelheim,
problema em aberto não é apenas uma precaução decorrente do es- La transition vers l'économie socialiste, 1967. Devo assinalar, entretanto,
tado da pesquisa; decorre também da tomada de posição teórica que que me limito a expor aqui as relações econômicas e a sua combinação na
consiste na referenciação de uma dificuldade - teórica - que mui- sua forma ma1'Ssimples. Bettelheim, no seu curso intitulado Le Cal~ul éco-
tas vezes se tende a escamotear: a da especificidade da região do nomique social, 1967 (redigido mas ainda inédito) que teve a gentileza de
me comunicar e que é de uma importância deciswa, demonstra de for:na
político consoante os modos de produção e as formações sociais pertinente a complexidade (o duplo aspecto) que revestem estas relações
consideradas. e a sua combinação.

24 25
1) Uma relação de apropriação real (às vezes designada por textos seguintes de O Capital: "A forma economica específica, na
Marx pelo termo de "posse"): aplica-se à relação entre o trabalha- qual é extorquido excedente de trabalho não-remunerado aos pro-
dor e os meios de produção (isto é, ao processo de trabalho), ou dutores diretos, determina a relação de dependência (política) tal
ainda ao sistema das forças produtivas. como decorre diretamente da própria produção, e reage por sua vez
2) Uma relação de propriedade: relação distinta da primeira, sobre ela de forma determinante; é a base de toda a forma de co-
uma vez que implica a intervenção do não-trabalhador como pro- munidade econômica saída diretamente das relações de produção, e,
prietário, quer dos meios de produção, quer da força de trabalho, ao mesmo tempo, a base da sua forma política específica. É sempre
quer de ambos, e conseqüentemente do produto. É esta relação que na relação imediata entre o proprietário dos meios de produção e o
define as relações de produção propriamente ditas. produtor direto que é preciso procurar o segredo mais profundo, o
Estas duas relações (de apropriação real e de propriedade) são fundamento oculto do edifício social e, conseqüentemente, da forma
distintas, e podem, consoante a sua combinação, tomar formas di- política assumida pela relação de soberania e de dependência, em
ferentes. No que concerne à relação de propriedade, notemos que suma a base da forma específica que o Estado reveste em um dado
pertence estritamente à região do econômico e que é preciso distin- período ... ". 9 Esta combinação - o econômico - determina igual-
gui-la nitidamente das formas iurid.cas que reveste - da propriedade mente a instância que, em um modo de produção, assume o papel
jurídica. Nas sociedades divididas em classes, esta relação de pro- dominante. Vejamos como Marx responde às objeções que lhe fo-
priedade instaura sempre uma "separação" entre o trabalhador e os ram feitas: "Segundo estas objeções, a minha opinião de que o mo-
meios de trabalho - propriedade do não-trabalhador, o qual, como do de produção da vida material domina em geral o desenvolvi-
proprietário, se apropria do excedente de trabalho. mento da vida social, política, intelectual, é justa para o mundo
Em contrapartida, no que concerne à relação de apropriação moderno, dominado pelos interesses materiais, mas não para a Idade
real, ela pode instaurar, nas sociedades divididas em classes, quer Média, onde reinava o catolicismo, nem para Atenas ou Roma, onde
uma união do trabalhador e dos meios de produção - é o caso dos reinava a política ... O que é claro é que nem a primeira poderia viver
modos de produção "pré-capita1istas"; quer uma separação entre os do catolicismo nem a segunda da política. As condições econômicas
trabalhadores e esses meios - caso do M.P.C. -, separação essa de então explicam, pelo contrário, por que razão em uma o cato-
que intervém no estágio da grande indústria, e que Marx designa licismo, em outra a política desempenhavam o papel principal ... " 10.
pela expressão de "separação entre o produtor direto e as suas con- Ora, se é verdade que Marx faz nas suas obras uma análise
dições naturais de trabalho". específica dos efeitos da combinação que caracteriza o econômico
do M.P.C. - homologia das duas relações, uma vez que existe se-
Estas duas relações pertencem, pois, a uma combinação única
paração nas duas - sobre a matriz deste modo, se constitui assim
- variável - que constitui o econômico em um modo de produção:
uma teoria particular ,do M.P.,C., não faz contudo, a teoria daquilo
a combinação entre o sistema das forças produtivas e o sistema das
que designa como modos de produção "pré-capitalistas" ou "formas
relações de produção. A combinação característica do M.P.C. con-
que precedem a produção capitalista". Por outras palavras, Marx
siste em uma homologia das duas relações: a separação na relação
não constitui teorias particulares destes outros modos de produção,
de propriedade coincide com a separação na relação de apropriação
. especificados - segundo ele - por formas diferenciais de uma
real; a dos modos "pré-capitalistas" de produção consiste em uma
combinação de não-homologia entre as duas relações - separação
não-homologia das duas relações: separação na relação de proprie-
na relação de propriedade, mas união na relação de apropriação
dade, união na relação de apropriação real. 8
real. Só examina esses outros modos de produção segundo duas
A determinação, em última instância pelo econômico, de um óticas precisas: por um lado, enquanto simples ilustrações da sua
modo de produçao, da artIculaçao e do índIce de dommâncIa das tese geral, segundo a qual todo o edifício social repousa sobre for-
suas instâncIas, depende precIsamente das formas que a combinação mas diferenciais desta combinação (deste ponto de vista, as suas
assinalada assume. Marx indica-o, de uma forma geral, nos dois análises apenas contêm indicações teóricas); por outro lado, enquan-
8. Homologia/não-homologia: não confundir com correeporuiênciaf não- metafórico de homologia (que emprego à falta de melhor e que fui busca!'
-correepondência (que encontraremos no caso da transição), uma vez que a Balibar), ver Bettelheim, op. cito
uma combinação de não-homologia pode perfeitamente consistir em uma 9. Le Capital, L. 3, t. III, p. 171.
correspondência das duas relações. Sobre o que está recoberto pelo termo 10. Le Capital, L. 1, t. I, p. 93 (nota).

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to pontos de comparação descritivos com o M.P.C., isto é, com a Esta autonomia tem conseqüências teóricas no objeto do nosso
finalidade de mostrar as analogias formais dos modos de produção trabalho: toma possível uma teoria regional - em sentido rigoroso
("pré-capitalistas") que repousam sobre uma combinação de não- - de uma instância deste modo de produção, por exemplo, do
-homologia e estão situados em relação a um modo (capitalista) Estado capitalista; permite a constituição do político como objeto
que repousa sobre uma combinação radicalmente diferente - de de ciência autônoma e específica - como sabemos, Marx mostrou-o
homologia. Havemos de voltar a esta importante questão; notemos, em O Capital a propósito do econômico e da ciência econômica.
no entanto, desde já, que este tratamento - por Marx, ---< dos outros A rigor, esta autonomia legitima a ausência - em uma exposição
modos de produção, se por um lado contribui para evidenciar com discursiva concernente a uma instância do M.P.C. - das teorias
nitidez os traços particulares do M.P.C., contém por outro graves concernentes às suas outras instâncias.
ambigüidades: não só porque este tratamento foi muitas vezes con- Consideremos resumidamente os textos de Marx, tendo em con-
siderado como o que ele não é (quer dizer, como um exame siste- ta estas observações. Que se passa nos modos de produção - "pré
mático das teorias particulares dos outros modos de produção), mas -capitalistas" - em que a relação de apropriação real é caracteri-
também porque, através deste tratamento analógico não explicitado, zada pela união entre o produtor direto e os meios de produção?
Marx chegou por vezes a fazer idéias realmente "míticas" acerca "Em todas as formas em que o trabalhador imediato permanece
destes modos de produção. "possuidor" dos meios de produção e dos meios de trabalho ... , a
relação de propriedade vai fatalmente manifestar-se simultaneamente
7) Vejamos o problema mais de perto, tomando esquematica- como uma relação (política) entre senhor e servo; o produtor ame-
mente em consideração apenas as instâncias econômica e política diato não é portanto livre: mas esta servidão pode atenuar-se, desde
(particularmente as do Estado), e deixando provisoriamente de lado a servidão com obrigação de corvéia até ao pagamento de um sim-
a instância do ideológico, Marx estabelece, tanto nos Fundamentos ples foro. .. Nestas condições, são necessárias razões extra-econô-
da Crítica da Economia Política (os Grundrisse zur Kritik der politi- micas, qualquer que seja a sua natureza, para os obrigar a efetuar
schen Oekonomie) - em particular na parte intitulada "Formas que trabalho por conta do proprietário titular das terras... São, por-
precedem a produção capitalista" - como em O Capital, as ca- tanto, absolutamente necessárias relações pessoais de dependência,
racterísticas seguintes da matriz do M.P.C.: uma privação de liberdade pessoal. .. em suma, é necessária a ser-
1) A articulação do econômico e do político neste modo de vidãona plena acepção da palavra ... ". 11 Marx irá até mesmo di-
produção é caracterizada por uma autonomia (relativa) específica zer que, nestes casos, "a relação política" entre senhor e servo, é
destas duas instâncias. uma parte essencial da relação de apropriação" 12 - relação esta
2) O econômico desempenha, neste modo, não apenas a de- pertencente à combinação econômica.
terminação em última instância, mas igualmente o papel dominante. Nos Fundamentos da Crítica da Economia Política - e no
Marx deduz a primeira característica pela oposição do M.P.C. Capital, no que concerne ao modo de produção feudal - Marx vai
aos modos "pré-capitalistas": estes apresentariam, em relação ao ainda mais longe, fornecendo-nos indicações acerca do político nos
M.P.C., o que ele designa C01?10 "miscigenação", ou relações "or- diversos modos de produção "pré-capitalistas". As suas análises são
gânicas" e "naturais" (expressas por vezes pelo termo de "SImul- interessantes por duas razões:
tâneas"), entre o econômico e o político. É preciso, repitamo-lo a) Marx relaciona as diferentes formas políticas destes modos
mais uma vez, não tomar estas observações à letra, o que muitas com a combinação que especifica o econômico em cada modo. No
vezes se fez e que conduziu a toda uma mitologia marxista, a res- entanto, estes modos têm em comum o fato de que a relação de
peito, por exemplo, do modo de produção feudal. Podemos em apropriação real reveste essencialmente uma forma invariante: união
compensação estabelecer, no plano científico, que o M.P.C. é espe- entre o produtor direto e os meios de produção. As formas especí-
cificado por uma autonomia característica do econômico e do polí- ficas que o processo de trabalho reveste nestes modos, e que deter-
. tico, a qual estabelece uma diferença radical das suas relações, em minam as formas específicas de propriedade (econômica) , são
comparação com as que mantêm nos outros modos de produção (o apreendidas como variações nos limites desta invariante.
que, de fato, não quer dizer que, nos outros modos, estas instâncias
11. Le Capital, L. 3, t. lIl, pp. 171-172.
não possuam uma autonomia relativa, mas antes que esta reveste 12. F'ondements ..., p. 154. Cito este texto a partir da edição alemã de
formas diferentes) . Rowohlt: Karl Marx, Texte zur Meihode und Praxie, t. lIl.

28 29
b) Marx atribui a analogia das relações entre o economico No que Marx designa como forma germamca de produção e
e o político nestes modos a esta característica comum das suas com- de propriedade, trata-se de uma coexistência de propriedade comu-
binações econômicas. Esta analogia é particularmente apreendida da nal e de propriedade privada: "Entre os Germanos, em que famílias
seguinte maneira: ao contrário do M.P.C., a inserção do trabalhador isoladas se instalam nas florestas, separadas por longas distâncias,
e do não-trabalhador em uma comunidade (entendida esta, no caso de um ponto de vista externo a comunidade existe simplesmente em
das sociedades divididas em classes, no sentido de comunidade polí- virtude de cada ato de união dos seus membros, se bem que a unidade
tica, de forma de relações políticas) é um pressuposto da sua inser- destes exista em si, instaurada pela hereditariedade... A comuni-
ção nas relações de apropriação real - ou de "posse" - e de dade aparece assim como uma associação, e não como união; como
propriedade. A suposta "miscigenação" do econômico e do político um acordo, cujos sujeitos independentes são os proprietários da ter-
é catalogada enquanto "político "pressuposto" do econômico". As- ra, e não como unidade. Efetivamente, a comunidade não tem por
sim, no caso dos modos "pré-capitalistas", "a atitude face à terra isso diretamente uma existência como Estado, como entidade polí-
como propriedade do indivíduo ... , significa que um homem aparece tica, tal como acontecia entre os antigos... Para que as comuni-
desde o início como algo mais que a abstração do "indivíduo tra- dades adquiram uma existência real, os proprietários da terra têm
balhador"; que ele tem um modo objetivo de existência na sua pro- de realizar uma assembléia, ao passo que a comunidade existente em
priedade da terra que constitui o pressuposto da sua atividade e não Roma é independente destas assembléias ... ". 16
surge como mera conseqüência dela: é um pressuposto da sua ativi- Finalmente, no que diz respeito ao modo de produção feudal:
dade do mesmo modo que a sua pele, os seus sentidos. .. Aquilo "Em vez do homem independente, encontramos aqui toda a gente
que constitui a mediação desta atitude é. .. a existência do indiví- dependente, servos e senhores, vassalos e suzeranos, laicos e clé-
duo como membro de uma comunidade". 13. rigos. Esta dependência caracteriza tanto as relações de produção
No caso do modo de produção asiático, em que de fato se trata materiais quanto todas as outras esferas da vida, às quais serve de
de uma propriedade da terra por parte de pequenas comunidades - fundamento". 17
relação de propriedade -, mas que assume a forma de posse here- No M.P.C., em contrapartida, assistimos a uma combinação de
ditária da terra por estas comunidades - relação de apropriação homologia entre a relação de propriedade e a relação de apropria-
real -: "a unidade que compreende as outras (as pequenas comu- ção real. Esta homologia instaura-se graças à separação entre pro-
nidades), e que se encontra acima de todos estes pequenos organis- dutor direto e meios de produção na segunda relação - o que
mos comunais, pode surgir com os seus possuidores hereditários ... Marx 'designa como separação entre o produtor direto e as suas
Por isso é perfeitamente possível que esta unidade surja como algo condições naturais de trabalho - e que intervém no estágio da gran-
de superior e separado das numerosas comunidades particulares ... de indústria. É nomeadamente desta separação, a qual faz do próprio
Uma parte do excedente de trabalho pertence à comunidade superior, trabalhador um elemento do capital e do trabalho uma mercadoria,
que, em última análise, surge como uma pessoa. .. O déspota surge
aqui como o pai de todas as numerosas comunidades particulares, 16. Ibid., p. 130.
como realizando a unidade comum de todas". 14 17. Le Capital, L. 1, t. I, p. 85. Se tivermos em conta o fato de que:
No modo de produção antigo, * trata-se de uma coexistência a) O modo de produção é um conceito que implica na presença de todas
de propriedade de Estado e de propriedade privada: "Ser membro as instâncias sociais; b) o modo de produção feudal não apresenta a
mesma autonomia de instâncias que o M.P.C.; e c) O político assume
da comunidade continua a ser um pressuposto para a apropriação muitas vezes o papel dominante no modo de produção feudal; podemos
da terra, mas na sua capacidade como membro da comunidade o fundamentar a legitimidade da designação por Marx deste modo de
indivíduo é um proprietário privado.... O fato de lhe pertencerem produção como feudal. Efetivamente - como já muitas vezes fizemos
as condições naturais do seu trabalho é mediatizado pela sua exis- notar -, esta designação refere-se sobretudo às relações políticas deste
modo "feudal". (Sobre este assunto, J. Marquet, "Une Hypothêse pour
tência como membro do Estado, pela existência do Estado como um l'étude des sociétés africanes", in Cahiers d'Études Afr:'cains, 6, 1961;
pressuposto considerado como divino ... " 15 M. Rodinson, Islam et capitalisme, 1966, p. 66 e segs., etc.) O que, em
contrapartida, cria problema, é a "representação" que Marx fazia des-
13. F'ondemente ..., op. cit., p. 138. tas relações políticas feudais: tomada ao pé da letra, ela conduziria
14. Ibid., p. 132. a excluir do modo de produção feudal formações sociais com base na
* Isto é, da Antigüidade Clássica (N. T.). servidão, mas cujas relações políticas não cor respondem a essa repre-
15. Ibid., p. 133. sentação.

30 31
que decorre o caráter do econOIDICOdeste modo como processo de
produção da mais-valia. Esta combinação determina uma autonomia
específica do político e do econômico, que Marx apreende nas suas
duas manifestações. Por um lado, nos seus efeitos sobre o econô-
mico: por exemplo, o processo de produção no M.P.C. funciona de
forma relativamente autônoma, não havendo necessidade de inter-
venção, característica para os outros modos de produção, de "ra-
zões extra-econômicas"; o processo de reprodução alargada - .como
Rosa Luxemburgo o fez justamente notar - é principalmente deter-
minado pela "razão econômica" de produção da mais-valia; as crises
puramente econômicas surgem, etc. Por outro lado, Marx apreende
essa autonomia nos seus efeitos sobre o Estado capitalista.
Esta combinação específica do econômico do M.P.C. - como
determinação em última instância -, atribui igualmente ao econômico
o papel dominante neste modo de produção. Isto - como sabemos
- foi estabelecido tanto pelas análises de Marx em O Capital a
respeito deste modo como pelas suas observações comparativas a
respeito de outros modos de produção em que o papel dominante
incumbe ao político ou ao ideológico.
I
Esta introdução permitiu-nos definir o objeto e o método deste
ensaio, assim como a teoria que sustenta a pesquisa e a exposição.
Permitiu-nos igualmente definir certos conceitos fundamentais e es- QUESTõES GERAIS
tabelecer assim o quadro teórico do texto que se segue. Estas ob-
servações introdutórias encontrarão aí a sua justificação.

32 , I
I
1. SOBRE O CONCEITO DE POLlTICO

I. Política e História - O Político e a Política

Já dispomos de um número suficiente de elementos para tentar


descrever o conceito de político em Marx, Engels e Lenin, e as suas
relações com a problemática do Estado. :É, contudo, necessário fazer
duas observações prévias:
1) Tentaremos, neste capítulo, enunciar os problemas da
teoria marxista geral acerca do Estado e da luta política de alasses.
Este capítulo, que diz sobretudo respeito ao problema geral do Es-
tado, precede na ordem da exposição o capítulo sobre as classes
sociais e a luta de classes. E não fazemos isto por acaso: não
porque, evidentemente, se possa compreender, na ordem lógica, um
exame do Estado sem referência direta e conjunta à luta de classes,
ou que esta ordem de apresentação corresponda a uma ordem histó-
rica de existência do Estado antes da divisão da sociedade em clas-
ses, mas porque as classes sociais constituem o efeito, veremos em
que sentido, exatamente, de certos níveis de estruturas, das quais o
Estado faz parte.
2) Já introduzimos a distinção entre a superestrutura jurídico-
-política do Estado, aquilo que podemos designar como o político,
e as práticas políticas de classe - luta política de classe - aquilo
que podemos designar como a política. Devemos contudo ter em
vista que esta distinção será esclarecida no capítulo seguinte acerca
das classes sociais, onde será possível fundamentar a distinção e a
relação entre as estruturas, por um lado, e as práticas de classe, ou
seja, o campo da luta de classe, por outro.

O problema do político e da política está ligado, em Marx,


Engels e Lenin, ao problema da história. Com efeito, a posição
marxista a este respeito decorre das duas proposições fundamentais
de Marx e Engels no Manifesto Comunista, segundo as quais: a)
1fT oda a luta de classes é uma luta política" e b) "A luta de classes
é o motor da história". Torna-se nítido que podemos fazer uma
primeira leitura, de tipo historicista, da relação entre estas duas pro-
posições. Esta leitura pressupõe, no fim de contas, o tipo hegeliano
de "totalidade" e de "história": trata-se, em primeiro lugar, de um
tipo de totalidade simples e circular, composta de elementos equi-
valentes, que se distingue radicalmente da estrutura complexa com

35
valor de dominante que especifica o tipo marxista de unidade; tra-
tão a colocar e a resolver em uma exposição sobre Maquiavel é a
ta-se, em segundo lugar, de um tipo linear de historicidade, cuja
questão do p,o!ítico como ciência autônoma, quer dizer, do lugar que
evolução está desde logo contida na origem do conceito, sendo o
a CIenCIa política ocupa ou deve ocupar em uma concepção do mun-
processo histórico identificado como o devir do autodesenvolvimento
do sistemáti~a ... , em uma filosofia da práxis. O progresso, a que,
da Idéia. Nesta "totalidade", a especificidade dos diversos elemen-
a e~~e r.espelt~,. Croce o?rigou aos estudos sobre Maquiavel e sobre
tos em questão é reduzida a este princípio de unidade simples que
a ciencra política, consiste sobretudo... no fato de ter dissipado
é o Conceito, de que eles constituem a objetivação; a história é re-
duzida a um devir simples, cujo princípio de desenvolvimento é a uma série de falsos problemas, inexistentes ou mal formulados. Croce
baseou-se na distinção entre os momentos do espírito e na afirma-
passagem "dialética" da essência à existência do conceito.
ção de um momento da prática, de um espírito prático, autônomo
Portanto, pode efetivamente fazer-se uma leitura historicista das e independente, embora ligado circularmente a toda a realidade pela
proposições marxistas que acabamos de citar. Qual seria o resul- dialética dos distintos. Em uma filosofia da práxis, a distinção não
tado? Ficariam então compreendidos no domínio do político não será certamente entre os momentos do Espírito absoluto, mas antes
um nível estrutural particular e uma prática específica, mas em geral entre os graus da superestrutura e tratar-se-á assim de estabelecer
o aspecto "dinâmico"-"diacrônico" de todo o elemento pertencente a posição dialética da atividade política (e da ciência corresponden-
a qualquer nível de estruturas ou práticas de uma formação social. te) como grau determinado da superestrutura: podemos dizer, a tí-
Sendo o marxismo, para o historicismo, uma ciência "genética" do tulo de primeira indicação e de aproximação, que a atividade política
devir em geral, sendo a política o motor da história, aquele ficaria é precisamente o primeiro momento ou primeiro grau, o momento
sendo em última análise uma ciência da política - ou seja, uma em que a superestrutura está ainda na fase de simples afirmação
"ciência da revolução" - identificada com este devir unilinear sim- voluntária, indistinta e elementar. Em que sentido se poderá esta-
ples, do que decorrem várias conseqüências: a) uma identificação belecer uma identidade entre a política e a histôria, e, por conse-
da política e da história; b) o que se pode designar como a sobre- guinte, entre o conjunto da vida e a política? Como se poderá con-
politização dos diversos níveis das estruturas e das práticas sociais, ceber, neste caso, todo o sistema de superestruturas como distin-
cuja especificidade, autonomia relativa e eficácia própria seriam re- ções da política, e como se justificará então a introdução do conceito
duzidas ao seu aspecto dinâmico-histórico-político. O político cons- em uma filosofia da práxis? .. Conceito de "bloco histórico", isto
tituiria aqui o centro, ou o denominador comum e simples, tanto da é, unidade entre estrutura e superestrutura, unidade dos contrários
sua unidade (totalidade) como do seu desenvolvimento: exemplo e dos distintos ... ". 1
particularmente manifesto deste resultado, a famosa sobrepolitização Vemos desde já manifestarem-se, nesta citação de Gramsci,
do nível teórico que conduz ao esquema "ciência burguesa - ciência as conseqüências assinaladas do historicismo, que aqui conduzem _
proletária"; c) uma abolição da própria especificidade do político, como foi, de resto, o caso do esquerdismo teórico dos anos vinte
a sua decomposição em todo o elemento indistinto que viesse rom- (Lukács, Korsch,etc.) - a uma sobrepolitização de caráter volun-
per o equilíbrio da relação de forças de uma formação. Estas con- tarista, que corresponde simetricamente ao economismo na mesma
seqüências têm como resultado tornar supérfluo o estudo teórico das problemática. 2
estruturas do político e da prática política, o que conduz à inva- A minha segunda citação é extraída de T. Parsons, mestre da
riante ideológica voluntarismo-economicismo, às diversas formas de tendência "funcionalista" da sociologia atual, tendência a que volta-
revisionismo, de reformismo, de espontaneísmo, etc. remos demoradamente, na medida em que, influenciada pelo histo-
Resumindo, o político, em uma concepção historicista do mar- ricismo de Max Weber, ela orienta as análises da ciência política
xismo, desempenha o papel que, afinal de contas, assume o Con- moderna 3, e acerca da qual é interessante constatar que, devido
ceito em Hegel, Não me ocuparei aqui das formas concretas que
esta problemática reveste. Apresentarei apenas duas citações, a fim 1. Este texto é citado conforme às Oeuvres choisies, das Ed. Sociales
(p. 1967 e segs.). Acerca da identificação, em Gramsci, da "ciência" e
de situar o problema. da "filosofia da práxis" com a política, ver Il materialismo storico e 10,
Uma é extraída de Gramsci, cujas análises políticas, ainda va- filosofia di B. Croce, Einaudi, p. 117 e segs., e Note sul Mach/aoeíli, sul-
Ia politica e sullo Stato moderno, Einaudi, p. 79 e segs., 142 e segs.
liosas, são muitas vezes afetadas pelo historicismo de Croce e La- 2. Sobre este assunto, remeto para as análises de Althusser em Lire le
briola. Esta ilustra as conseqüências assinaladas: "A primeira ques- Capital, 1965, t. lI.
8. The Social System, Glencoe, 1951, p. 126 e segs.
36
37
precisamente aos seus princípios teóricos comuns com o historicismo terminada, uma especificidade própria, uma autonomia relativa e
marxista, conduz a resultados análogos a respeito do político e da uma eficácia particular, apresentam também temporalidades com
política: " ... não poderíamos abordar o estudo da política apoian- ritmos e escansões diferenciais. 5 Os diversos níveis de uma forma-
do-nos numa concepção teórica restrita a este problema, pela sim- ção social são caracterizados por um desenvolvimento desigual, traço
ples razão de que a política constitui um centro de integração de essencial da relação destas temporalidades diferenciais na estrutura,
todos os elementos analíticos do sistema social, e porque ela própria por defasagens que são o fundamento da inteligibilidade de uma for-
não poderia ser reconhecida como um desses elementos parti- mação e do seu desenvolvimento. Nesta medida, as transformações
culares". 4 de uma formação e a transição são apreendidas pelo conceito de
Veremos seguidamente que Q funcionalismo constitui, de fato, uma história com temporalidades diferenciais.
no plano epistemológico, a continuidade direta da concepção histo- Tentemos determinar o lugar que cabe, neste contexto, ao po-
ricista geral; é evidente a redução do político gue daí decorre, tor- lítico, e particularmente à prática política. O conceito de prática
nando-se este, aliás, enquanto princípio simples da totalidade social, assume aqui o sentido de um trabalho de transformação sobre um
o princípio do seu desenvolvimento, na perspectiva sincronia-diacro- objeto (matéria-prima) determinado, cujo resultado é a produção
nia gue caracteriza o funcionalismo. de algo de novo (o produto) que constitui freqüentemente, ou pelo
menos pode constituir, uma cesura com os elementos já determinados
Em uma concepção anti-historicista da problemática original do do objeto. Ora, qual é, a este respeito, a especificidade da prática
marxismo, devemos situar o político na estrutura de uma formação política? Esta prática tem por objeto especii.co o "momento
social, por um lado, enquanto nível específico, por outro, contudo, atual" 6, como dizia Lenin, isto é, o ponto nodal onde se condensam
enquanto nível crucial em que se refletem e se condensam as con- as contradições dos diversos níveis de uma formação nas relações
tradições de uma formação, a fim de compreender exatamente o complexas regidas pela sobredeterminação, pelas suas defasagens e
caráter anti-historicista da proposição segundo a qual é a luta po- desenvolvimento desigual. Este momento atual é assim uma con-
lítica de classes que constitui o motor da história. juntura, o ponto estratégico onde se fundem as diversas contradições
Comecemos por este último ponto, posto em evidência por AI- enquanto reflexos da articulação que especifica uma estrutura com
thusser. Althusser demonstrou - como nos lembramos - que, para valor de dominante. O objeto da prática política, tal como aparece
o marxismo, não é um tipo universal e ontológico de história, um no desenvolvimento do marxismo por Lenin - é o lugar onde, em
princípio de gênese, referido e a um sujeito, que constitui o princípio. última análise, se fundem as relações entre as diversas contradições,
de inteligibilidade do processo de transformação das sociedades, mas relações que especificam a unidade da estrutura; o lugar a partir
antes o conceito teoricamente construído de um dado modo de pro- do qual se pode, em uma situação concreta, decifrar a unidade da
dução enquanto todo-complexo-com-dominante. .É a partir deste estrutura e agir sobre ela com vista à sua transformação. Queremos
conceito, que nos é determinado pelo materialismo histórico, que dizer com isto que o objeto a que se refere a prática política está
se pode construir o conceito de história, em nada se referindo a um dependendo dos diversos níveis sociais - a prática política tem
devir linear simples. Os níveis de estruturas e de práticas, exata- como objeto simultaneamente o econômico, o ideológico, o teórico e
mente do mesmo modo que apresentam, no interior da unidade de "o" político em sentido estrito - na sua relação, a qual constitui
um modo de produção e de uma formação social historicamente de- uma conjuntura.
Decorre disto uma segunda conseqüência no que diz respeito
4. Com efeito, esta corrente não só diretamente se filia no historicismo,
à política nas suas relações com a história. A prática política é o
como também se apresenta - através da importância que assume- "motor da história" na medida em que o seu produto constitui afinal
como a "alternativa" ao marxismo, tal como W. Runciman o assinala no a transformação da unidade de uma formação social, nos seus di-
seu excelente livro Social Science and Political Theory, 1965, (p. 109): versos estágios e fases. Isto, porém, não em um sentido historicista:
"...Em ciência política só existe, de fato à exceção do marxismo, um úni-
co candidato sério a uma teoria geral da sociedade... Os seus partidá-
rios declaram que existe uma série alternativa de proposições gerais 6. Para a distinção entre modo de produção e formação social - essen-
que fornecem uma melhor explicação do comportamento político que o cial para o problema do conceito de história - ver a Introdução.
marxismo ... Trata-se do funcionalismo": ou ainda (p. 122): "Subsiste o 6. "La dialectique matérialiste", in Pour Mar», É conveniente assina-
fato de que certa espécie de funcionalismo é a única alternativa corren- lar, no entanto, que este conceito de prática não é ainda, no estado atual
te ao marxismo como base de uma teoria geral em ciência política". das pesquisas, senão um conceito prático (técnico).

38 39
a prática política é quem transforma a unidade, na medida em que de um modo preciso, da concepção indicada da prática política: esta
o seu objeto constitui o ponto nodal de condensação das contradi- tem por objeto o momento atual, produz as transformações - ou,
ções entre os diversos níveis, com historicidades próprias e desen- por outro lado, a manutenção - da unidade de uma formação, na
volvimento desigual. única medida, contudo exata, em que tem como ponto de impacto,
Estas análises são importantes para situar o conceito do polí- como "objetivo" estratégico específico, as estruturas políticas do
tico, e, em particular, da prática política, na problemática original Estado. 8
do marxismo. É preciso contudo completá-Ias em um ponto. Com Neste sentido Marx diz: "O political movement da classe ope-
efeito, estas análises respeitantes ao objeto e ao produto da prática rária tem ... como objetivo final - Endzweck - a tomada do po-
política, não bastam para situar exatamente a especiiicidade do po- litical power",» É também precisamente neste sentido que devemos
lítico: devem ser completadas por uma concepção adequada da su- entender a frase de Lenin: "Não basta dizer que a luta de classes
perestrutura política. 7 Pois que, de fato, se nos contentarmos em só se torna uma luta verdadeira, conseqüente, aberta, no dia em que
definir o político apenas como prática com objeto e produto defini- abrange o domínio da política. .. Para o marxismo, a luta de clas-
dos, corremos sempre o risco de diluir a sua especificidade, de iden- ses só se torna uma luta inteiramente aberta ao conjunto da nação
tificar afinal como político tudo o que "transforma" uma unidade no dia em que, não apenas abrange a política mas também se prende
determinada. Se negligenciarmos o exame teórico das estruturas po- ao essencial neste domínio: a estrutura do poder de Estado".10 O
líticas, arriscamo-nos também a não acertar com o momento atual que de fato ressalta desta citação é que este objetivo do poder de
da conjuntura e a fracassar nesse "momento" de que Gramsci fala- Estado é a condição da especificidade da prática política. A este
va, enunciando o problema com nitidez. Em suma, se quisermos respeito, assinalemos ainda a posição de Lenin nos seus textos de
superar definitivamente um certo historicismo na concepção do polí- 1917 relativos ao problema da "dualidade do poder", do Estado e
tico, não basta limitarmo-nos à análise teórica do objeto da prática dos Sovietes. De fato, a palavra de ordem "todo o poder aos So-
política; é preciso também situar, no interior de uma formação so- vietes" está ligada, no pensamento de Lenin ao fato de considerar
cial, o lugar e a função específicos do nível das estruturas políticas os Sovietes como um "segundo Estado". Veremos a distinção entre
que constituem o seu objetivo: somente nesta medida a sobredeter- poder de Estado e aparelho de Estado; o que aqui nos interessa é
minação pelo político poderá aparecer nas suas relações com uma que esta palavra de ordem não decorre do fato de os Sovietes esta-
história diferencial. rem sob o controle dos bolcheviques - na ocorrência, os sovietes,
Entremos no âmago da questão. As estruturas políticas - o no momento desta palavra de ordem, estavam sob o controle dos
que se designa como superestrutura política - de um modo de mencheviques -, mas do fato de os Sovietes constituírem um apa-
produção e de uma formação social consistem no poder institucio- relho de Estado assumindo funções do Estado oficial, do fato de cons-
nalizado do Estado. Com efeito, sempre que Marx, Engels, Lenin tituírem o Estado real. Donde, a conclusão: é necessário fortalecer
ou Gramsci falam de luta (prática) política distinguindo-a da luta este segundo Estado e ter como objetivo conquistá-lo enquanto Esta-
econômica, consideram expressamente a sua especiiicidade relativa do: " ... A essência verdadeira da Comuna não está onde em geral a
ao seu objetivo particular, que é o Estado enquanto nível específico procuram os burgueses, mas na criação de um tipo particular de Es-
de uma formação social. Neste sentido encontramos de fato, nos tado. Ora, um Estado deste gênero já nasceu na Rússia: são os So-
clássicos do marxismo, uma definição geral da política. Trata-se, vietes ... ". 11 Estas análises de Lenin decorrem da sua posição teórica
a respeito da distinção - e da relação - entre a luta econômica e a
7. Trata-se daquilo que podemos designar como "superestrutura jurí- luta política, tal como o havia essencialmente definido no Que Fazer?:
dico-politica do Estado", na condição de assinalarmos que este termo en-
globa, muito esquematicamente, duas realidades distintas, dois níveis 8. Podemos assim subscrever perfeitamente a definição que M. Verret
relativamente autônomos, a sa-ber: as estruturas jurídicas - o direito dá da política: "Prática política é a prática de direção da luta de clas-
- e ai> estruturae políticas - o Estado. O seu emprego é legítimo na ses no Estado e por ele" (Théorie et politique, Ed. Sociales, 1967,
medida em que os clássicos do marxismo estabeleceram efetivamente a p. 1944). Abordaremos a seguir a questão da relação entre a política e
relação estreita entre estes dois níveis: este emprego não nos deve fazer o Estado, tal como é formulada pela antropologia política atual.
esquecer entretanto que este termo recobre dois níveis relativamente dis-
9. Carta a Bolte, de 29 de novembro de 1871.
tintos cuja combinação concreta depende do modo de produção e da for-
mação social considerados. Devemos ter em conta esta observação sem- 10. Lenin, Oeuvres completes, Ed. Sociales, t. 19.
pre que empregarmos este termo. 11. Thêsee d'Avril, "Lettre sur Ia tactique".

40 41
"A social-democracia dirige a luta da classe operária ... nas suas rela- nutenção da unidade de uma formação, de um dos seus estágios ou
ções não apenas com um grupo de patrões, mas também com ... fases, isto é, a sua não-transformação visto que, no equilíbrio ins-
o Estado como força política organizada. Donde se segue que os tável de correspondência / não-correspondência de níveis defasados
sociais-democratas não podem limitar-se à luta econômica ... ", ou por temporalidades próprias, este equilíbrio jamais é realizado en-
ainda "as denúncias políticas são uma declaração de guerra ao go- quanto tal pelo econômico, antes é mantido pelo Estado (neste caso,
verno da mesma maneira que as denúncias econômicas são uma de- a prática política tem como objetivo o Estado enquanto fator de ma-
claração de guerra aos industriais". 12 nutenção da coesão desta unidade); ou então a prática política pro-
duz transformações tendo como objetivo o Estado como estrutura
11. A Função Geral do Estado nodal de ruptura desta unidade, na medida em que ele é o seu fator
de coesão: neste contexto, o Estado poderá além disso ser encarado
Esta tese coloca, contudo, tantos problemas quantos os que como fator de produção de uma nova unidade, de novas relações
resolve. Com efeito, por que razão uma prática que tem como de produção.
objeto o "momento atual" e produz transformações da unidade apre-
senta de específico o fato do seu resultado não poder ser produzido Com efeito, já podemos descobrir um índice desta função do
senão quando tem como objetivo o poder do Estado? Esta questão Estado no fato de que, para além de fator de coesão da unidade de
de maneira alguma parece evidente, como o mostra por um lado a uma formação, é também a estrutura na qual se condensam as con-
tendência economicista - trade-unionista - (esse objetivo seria o tradições entre os diversos níveis de uma formação. O Estado é
econômico), por outro lado a tendência utópica - idealista (esse assim o lugar no qual se reflete o índice de dominância e de sobre-
objetivo seria o ideológico). Formulando o problema em termos determinação que caracteriza uma formação, um dos seus estágios
diferentes, por que razão a concepção fundamental de Marx, Engels, ou fases. Por isso o Estado aparece como o lugar que permite a
Lenin e Gramsci relativa à passagem ao socialismo se distingue de decifração da unidade e da articulação das estruturas de uma forma-
uma concepção reformista na medida em que exige que o Estado ção. Isto não será esclarecido no momento em que analisarmos a
seja radicalmente transformado e o antigo aparelho de Estado des- relação entre as estruturas e o campo das práticas de classe, e si-
truído, isto é, pela teoria da ditadura do proletariado? Em suma, tuarmos a relação particular entre o Estado e a conjuntura que cons-
por que razão, segundo os termos exatos de Lenin, o problema fun- titui o lugar de decifração da relação entre as estruturas e o campo
damental de uma revolução é o poder do Estado? das práticas. :É a partir da relação entre o Estado, fator de coesão
da unidade de uma formação, e o Estado, lugar de condensação das
Para resolver o problema, é necessário regressar à concepção diversas contradições entre as instâncias, que podemos assim decifrar
marxista científica da superestrutura do Estado e mostrar como, no o problema política - história. Esta relação designa a estrutura do
interior da estrutura de vários níveis defasados por desenvolvimento político, simultaneamente como nível específico de uma formação e
desigual, o Estado possui a função particular de constituir o fator como lugar das suas transformações, e a luta política como o "motor
de coesão dos niveis de uma formação social. :É precisamente o que da história" tendo como objetivo o Estado, lugar de condensação
o marxismo exprimiu, concebendo o Estado como fator da "ordem", das contradições entre instâncias defasadas por temporalidades pró-
como "princípio de organização", de uma formação, não no sentido prias.
corrente dos níveis de uma unidade complexa, e como fator regula-
dor do seu equilíbrio global enquanto sistema. Pode ver-se assim É contudo necessano precisar alguns pontos. Esta enunciação
por que razão a prática política, que tem como objetivo o Estado, do problema do Estado permite resolver um problema capital da
produz as transformações da unidade e é assim o "motor da histó- teoria marxista do político. De acordo com toda uma tradição mar-
ria": é precisamente por intermédio da análise deste papel do Es- xista, tal fundamentação, em teoria, da relação entre a luta política
tado que se pode estabelecer o sentido anti-historicista dessa pro- e o Estado seria cair em uma concepção "maquiavélica" do político.
posição. De fato, ou a prática política tem como resultado a ma- Não condenou Marx, nas suas obras de juventude, a concepção do
"exclusivamente político", a concepção que reduz a política à sua re-
12. Em particular sobre a relação luta econômica-luta política, ver lação com o Estado? Não deveria a prática política ter como ob-
adiante págs. 86 e 92.
jetivo, não o Estado, mas a transformação da "sociedade civil", as
42 43
relações,' digamos, de produção? 13 A resposta errada a este pro- é gue, mesmo guando um dest~s modos de produção ~ons~ê:l:e ~~ta-
blema mal enunciado chama-se economicismo, o qual atribui à luta belecer a sua dominância, marcando assim o início Ea.Jase de repro.
política as relações sociais econômicas como objetivo específico. É dução alar ada de uma formação e o fim da fase propjjamente _tran-
no interior deste esquema que precisamente se situa a concepção re- sitória, assiste-se a uma verdadeira relaç:ão de jorç:as entre os diver-
formista. Ora, dirigindo-nos à problemática original do Estado de sos modos de rodu ão resentes, a ermanentes--aefãSagens entre
Marx da maturidade, apreendemos a relação entre a luta política as instâncias de uma formação. O a el do Estado comõfator de
e o Estado, por um lado, e a relação entre estes e o conjunto dos coesão desta su er osfãõCõm-lexa nos diversos mQd.Qs~E!0duçªo,
níveis da formação social, por outro. 14 reconhece-se a ui como decisivo· é articularmente nítido, na ver-
Vamos um pouco mais longe: esta definição do político como dade durante o eríodo de transi ão caracterizado por uma não-
relação entre a prática política e o Estado é ainda demasiado ge- -~ ondência articular entre ro riedade e a ro riação real dos
nérica. Se, em geral, é válida para as formações sociais divididas meios de 12rodul!o. Como com exatidão o diz, neste caso Bette-
em class~s? é evidente em contrapartida que esta relação só poderá lheim: "Tal defasagem acarreta importantes conseqüências do pon-
ser especificada no quadro de um dado modo de produção e de uma to de vista da articulação entre os diferentes níveis da estrutura
formação social historicamente determinada. Em particular no que social. Esta não-correspondência implica, com efeito, em uma eficá-
.diz respeito à função do Estado, como fator de coesão da unidade cia específica do nível político". 15 Entretanto, esta eficácia es cí-
de uma formação, é nítido que assume formas diferentes conforme r do Estado~ o entendermo~,precisamente como fJ!nç,ªo g~rJ!l <,

o modo de produção e a formação social considerados. O lugar do de coesão da unidade de EmaJQrm~ção, existe perm,ª-n~nte1!le.!11e3IIL
Estado na unidade, na medida em que atribui à sua estrutura regio- toda a formaç~~nd~ se s_uperponham diversos modos_d~-Rrodução.
nal os limites que a especificam ao mesmo tempo que a constituem, Ela é articularml!.nt§..lmportante na formação capitalista, em. que o
depende precisamente das formas que reveste esta função do Estado. M.P.C. do~inante imRrime_aQs divers.Qs modos de prQ.duç㺠a do;-
A natureza precisa destes limites - o que é o Estado? -, assim minação da sua~~trutura_ e, ~m particular, a autonomifLrelativª das
como de resto a sua extensão ou retração - quais as estruturas e in~tânciasl-dada~ ~ defasag~~ ue d~ª resultam. ~6
instituições que fazem parte do Estado? -, estão em estreita relação
com as formas diferenciais desta função, de acordo com o modo de 15. Bettelhei'm: "Problématique de Ia période de transition", in Études
de planification socialiste n. 3, p. 147.
produção e a formação social considerados. Esta função do Estado
toma-se uma função específica, e que o especifica enquanto tal, nas 16. Antes de entrar nos textos dos clássicos do marxismo concernentes
a este problema, quero referir que certas obras importantes da ciência
formações dominadas pelo M.P.C., caracterizado pela autonomia es· política atual começam pondo a tônica no papel do político como fator de
peciiica das instâncias e pelo lugar particular que nele cabe à região manutenção da unidade de uma formação; e isto, em um ensaio de "defi-
do Estado. Esta autonomia característica inaugura precisamente a nição" do político, de algum modo, em reação contra Weber que define o
especificidade do político, determinando a função particular do Es- Estado exclusivamente pelo fato de possuir o "monopólio da força legí-
tima". Assim, por exemplo, Apter define o político como uma estrutura
tado como fator de coesão dos níveis automatizados. que "tem responsabilidades determinadas da manutenção do sistema de
A função do Estado, fator de coesão da unidade de uma forma- que faz parte" ("A comparative method for the study of politics", in
Political Behaviour, ed. por Êulau, p. 82 e segs.); Almond insiste no
ção, que dele faz o lugar onde se condensam as contradições entre fato de que as estruturas regionais de um sistema são constituídas pelos
as instâncias, é aliás ainda mais nítida se repararmos que uma for- seus limites, tendo o político precisamente a "função crucial de manu-
ma ão social historicamente determinada é caracterizada por uma tenção dos limites no interior do sistema" (Almond e Coleman, The poli-
sUj>~sição de vários modos de rodução. O ue vamos a ui reter tics o] developing are as, 1960, p. 12 e segs.; ver igualmente G. Balandier,
Anthropologie politique, 1967, p. 43); é aliás também o caso de vários
investigadores que seguem, nas suas análises, um modelo cibernético,
13. Assim, por exemplo, Marx Adler, Die Staatsauffassung des Mar- tais como, por exemplo, D. Easton (A Frcaneuiorlc for political analysis,
xismus, Darmstadt, 1964, p. 49 e segs. Ê contudo lamentável que a obra 1965) e K. Deutsch (The Neroes of government, 1966), etc. Não posso
de Adler tenha permanecido tão pouco conhecida dado que é indiscuti- entrar aqui na discussão deste modelo cibernético, que aliás de modo al-
velmente um dos espíritos mais vivos e aguçados da história do pensa- gum devia ser confundido com o modelo funcionalista. Contento-me em
mento marxista. . indicar que este critério de estrutura que tem o papel de fator de coe-
14. Deixo, no momento, de lado os problemas da relação entre o Estado são do sistema, combinado,- como veremos - com o do monopólio da
(objetivo da prática política) e o "momento atual" (objeto da prática força legítima, parece de fato pertinente para delimitar a estrutura do
política) . Estado, mas no modo de produção capitalista, quer dizer no caso do Es-

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Sobre estas questões, encontramos numerosas indicações nas o lugar onde s~ reflete a articulação destes níveis e o onto de c0l!.-
obras dos clássicos do marxismo. Sabemos que a teoria marxista densação das suas contradições, ele é o testemunho d~ "contradição.
estabeleceu a relação entre o Estado e a luta de classes, e até mesmo da sociedade consigo ró ria".
a dominação política de classe. O que é necessário assinalar antes
de tentarmos localizar a relação entre o campo da luta de classes e O Estado - diz-nos ainda Engels - é o "resumo oficial" 16
em particular, da luta política de classe, e as estruturas de uma for- da sociedade. Esta concepção do Estado-í'resumo" das contradi-
mação, é que, para a teoria marxista, esta relação entre o Estado ções no sentido de condensação ou de fusão, fora expressa por Marx,
e a luta política de classe implica a relação entre o Estado e o em uma perspectiva hegeliana, bem entendido, em uma carta a Ruge,
conjunto dos níveis de estruturas: de um modo mais preciso, a re- de setembro de 1843. Se me refiro aqui a este texto, é porque Lenin
laçao entre o Estado e a articulação das instâncias que caracteriza o cita integralmente em O que são os amigos do pOVO.19 É conve-
uma formação. niente ter em conta a atenção que Lenin presta a esta concepção do
Estado como condensação das contradições. Marx nos diz (citado
Isto ressalta das análises de Engels, que estabeleceu - em ter- por Lenin): "O Estado é. .. o sumário dos combates práticos da
mos por vezes bastante paradoxais - as relações entre o Estado humanidade. Assim, o Estado político exprime nos limites da sua
e o "conjunto da sociedade". Engels diz-nos que: "(O Estado) é forma sub specie rei publicae (sob o ângulo político) todos os com-
antes de tudo um produto da sociedade em um estágio determinado bates, necessidades e interesses sociais". Lenin dirá, de uma forma
do seu desenvolvimento: é o testemunho de que esta sociedade está lapidar, que o político - compreendendo aqui o Estado e a luta
envolvida em uma insolúvel contradição consigo mesma, encontran- política de classe - é o "econômico condensado't.w
?o-se cindida em oposições inconciliáveis que é impotente para con-
Jurar. Mas, para que os antagonistas, as classes com interesses eco- Neste sentido, o Estado surge, para Lenin, tanto como lugar
nômic?s opostos, não se aniquilem, a si e à sociedade, impõe-se a de decifração da unidade das estruturas, quanto como lugar onde
necessIdade-de um poder que, aparentemente colocado acima da se pode extrair o conhecimento da unidade: "O único domínio onde
sociedade, irá dissimular o conflito, mantê-Io nos limites da "or- se poderia extrair este conhecimento é o da relação de todas as
dem"; este poder, saido da sociedade, mas que se coloca acima dela classes e camadas da população com o Estado e o Governo, o do-
e se lhe torna cada vez mais estranho, é o Estado". 17 mínio da relação de todas as classes entre si". 21 Isto tinha aliás
Vamos contentar-nos com este texto, a fim de não multiplicar sido assinalado por Engels na sua expressão do Estado como "re-
as citações. O que "diz" Engels é, por um lado, a relação entre o presentante oficial" da sociedade, representante tomado aqui no sen-
Estado e a dominação política de classe, a luta política de classes. tido de lugar onde se decifra a unidade de uma formação. Enfim,
Por outro lado, entretanto, põe em evidência que a relação entre e sempre neste sentido, o Estado é igualmente °lugar onde se de-
o Estado e a dominação política de classe reflete - e até mesmo cifra a situação de ruptura desta unidade: trata-se da característica
condensa, no sentido que demos a este termo - o conjunto das de duplo poder das estruturas estatais, a qual constitui, como Lenin
contradições da sociedade. O que significa aqui este termo socie- mostrou, um dos elementos essenciais da situação revolucionária.
dade? Pois que, se os termos não são colocados no contexto da Ora, esta relação entre o Estado e a articulação que especifica
problemática original do marxismo, corremos o risco de nos atolar- uma formação decorre precisamente do fato do Estado nela possuir
mos em uma perspectiva humanista que ponha em relação a insti- uma função de "ordem", de ordem política, é claro, "nos conflitos
tuição do Estado com a "totalidade" das "necessidades vitais" de políticos de classe, mas também de ordem global - de organização
uma sociedade. De fato, este termo parece aqui reportar-se - pois, em sentido lato - enquanto fator de coesão da unidade. O Estado
em outros lugares, pode revestir sentidos diferentes - ao conceito impede, digamos, a explosão do conflito político, de classe na medida
rigoroso de formação social, enquanto unidade complexa das ins-
t~ncias. ~ E.stado está em relação com as contradições Q!{>priasdos
18. Anm-Dühring, Ed. Sociales, p. 157 e segs.
diversos lllveIS de uma formação mas na medida em que representª
L
1.9. Oeuvres, t. I, El. 178.
tado capitalista. Por outro lado, a propósito do problema das relações 20. A nouveau les syndicats: la situation actuel et les erreurs de Trots-
nestes autores entre o político e o Estado, ver adiante p. 50, nota 27. ky et de Boukharin,
17. Origine de la famille ..., Ed. Sociales, p. 156 e segs. 21. Que faire?

46 47
em que este conflito reflete - e não em uma relação entre fenômeno ãO ideológica e uma função" olítica" do Es~do:~xige antes. um~
e essência - a unidade de uma formação. O Estado impede que ~unção global de coesão, qu~ lhe é atribuída pelo seu lugar, e ..moda·
se aniquilem as classes e a "sociedade", o que não é senão uma for- lidades desta função sobredeterminadas pela modalidade especifica-
ma de dizer que impede a destruição de uma formação social. Se mente política. Neste sentido diz Engels: "O que aqui importa é
é verdade que os clássicos do marxismo não elaboram teoricamente apenas constatar que uma função social está sempre na base da do-
esta concepção do Estado, não é menos verdade que encontramos minação política; e que a dominação política só tem subsistido no
nas suas obras numerosas indicações a este respeito. Neste sentido, tempo enquanto preenche esta função social que lhe foi confiada". 24
Engels precisa esta função de "ordem" do Estado como "organização Esta tese foi igualmente desenvolvida pelos clássicos do mar-
de que se dota a sociedade burguesa para manter as condições exte- xismo em numerosos textos. Não obstante, sempre que eles falam
riores da produção ... ".22 Não devemos aqui perder tempo com o de uma modalidade particular que não se refere diretamente à luta
termo "exteriores", o qual parece implicar em uma concepção meca- política de classe, com freqüência apareceram teóricos interpretando
nicista das relações entre a "base" e a "superestrutura", mas reter esta tese, como uma por assim dizer relação do Estado com a "so:-
antes o interesse da formulação do Estado como organização para ciedade", independente da luta de classes. Trata-se de uma tese já
a manutenção das condições da produção e, assim, das condições antiga, cara à social-democracia e presente já em H. Cunow 25 e K.
de existência e do funcionamento da unidade de um modo de pro- Renner 26, é que opõe as "funções sociais" do Estado à sua função
dução e de uma formação. Igualmente encontramos uma formulação política, que seria a única ligada à luta e à opressão de classe. Tese
admirável nesse espantoso teórico marxista que é Boukharim:' na que, aliás, se encontra na maior parte das análises da corrente so-
sua Teoria do materialismo histórico, formula a concepção de uma cial-democrata atual acerca do Welfare State *, e está igualmente de-
formação social como sistema em equilíbrio instável no interior do senhada em filigrana em certas análises sobre o Estado despótico do
qual o Estado desempenha um papel de "regulador". 23 Por fim, modo asiático de produção. Estado cuja existência estaria relacio-
esta concepção está na base da noção de organização sob a qual nada com diversas funções técnico-econômicas - hidráulicas e ou-
Gramsci apreende a função do Estado. .~ tras - em um 'modo de produção de que as classes sociais, no sen-
tido marxista, estariam ausentes.
IH. Modalidades da Função do Estado \

Esta fun ão de ordem, ou de or anização do Estado-2ge1.e!lta Vejamos, mais de perto, o problema destas diversas funções do
diversas modalidades. ue se referem aos níveis sobre os uais ela Estado, Não procederei ainda ao seu exame sistemático, antes me
se exerce em articular: fun ão técnico-econômica - nivel econô-" contentarei em indicar simplesmente a sua relação com a função po-
"mico; fun ão ro riamente Q91iti.gt - nível da luta política de clas~ lítica a fim de elucidar o problema que nos ocupa.
ses' fUllÇão ideológica - nível ideolóaico. A função técnico-econô- A descrição das formas que reveste este papel global do Es-
mica e a fun ão ideológica do Estado são entl'etan!!2,~obredeterlJ1i:.
na4gs pela sua fun ão 12l'o12riamente120lítica - a_que diz res12eito
luta política de classes -, na medida em ue constituem.1!!odal~é!,-
ª tado nos é apresentada por vezes, é verdade, pelos clássicos do
marxismo, de um modo histórico-genético, através do qual as rela-
ções entre o Estado e os diversos níveis são expostas como outros
des d~.I~a el global do Estado fator de coesão da .JInjQad~-ºe uma tantos fatores de engendramento e de nascimento histórico do Es-
formação: este l!!!'p.elglobal do Estado é um apsl P.2líti0Z;. O Es- tado - e, além disso, das classes sociais. Ora, é conveniente notar
tado está em rela ão com uma "sociedade dividida el!.1classes", e que este problema do nascimento histórico do Estado, importante,
com a dominaçã2..J~..o1íticade classe, na medida recisamente em u~ é um problema à parte. Dispomos, na verdade, de esboços de res-
ocuRa .!~t"!Egar--=- uesem enha ~~ el - em~m ~Q!ü~n!9 de. postas em Marx e Engels, mas devemos ter em consideração o ca-
estruturas _que têm como ef.!!ito,Ba sua unidade, a sIivisão de uma_ ráter necessariamente limitado das informações históricas de que
formação em classes e a dominação olítica de classe_o Rigorosa-
mente fala!1do,_não existe uma função técnico-efonômica, uma fun- 24. Anti-Dühring, p. 212.
25. Cunow, Die Marxiste Geechich.ts, Geeselschafts, und Staatstheorie,
22. Anti-Dühring, pp. 318-319. 1920-21, t. II, p. 309 e segs.
23. Theorie des Historischen Mo.terialismus, Hamburgo, 1922, t. II, 26. K. Renner, Marxismus, Krieg und Internationale, 1917, p. 28 e segs.
p. 162 e segs. * Estado do Bem-Estar social (N. T.).
48 49
dispunham. 27 Podemos contudo ter em conta estas análises, na me- a fundação da arte e da ciência não eram possíveis senão graças a
dida em que põem em evidência as funções do Estado que acom- uma divisão reforçada do trabalho, que forçosamente tinha que ter
panham o lugar deste no todo complexo de uma dada formação como fundamento a grande divisão do trabalho entre as massas, que
dividida em classes. A função do Estado diz respeito, em primeiro se encarregam do trabalho manual simples, e alguns privilegiados
lugar, ao nível econômico, e, em particular, ao processo de trabalho, que se dedicam à direção do trabalho, ao comércio, aos negócios do
à produtividade do trabalho. Podemos reportar-nos, a este respeito, Estado, e mais tarde às ocupações artísticas e científicas". 28 Rete-
às análises de Marx acerca do Estado despótico do modo de pro- nhamos, quanto a este ponto, a relação entre o Estado, enquanto
dução asiático, à necessidade de um poder centralizado para os fins intérprete dos interesses da classe dominante, e a direção geral do
de execução de trabalhos hidráulicos necessários ao aumento da pro- processo de trabalho, particularmente no que diz respeito à produ-
dutividade do trabalho. Neste contexto, Engels fala-nos a propósito tividade do trabalho. Encontramos este problema a propósito da
da relação entre a classe dominante e a divisão social do trabalho: divisão do trabalho nas formações capitalistas, em que este papel
"O problema é simples: enquanto o trabalho humano era ainda tão do Estado corresponde aliás ao duplo papel do capitalista: papel de
pouco produtivo que pouco excedente fornecia para além dos meios exploração e papel de organização-vigilância do processo de traba-
de subsistência necessários, o crescimento das forças produtivas, a lho. Conhecemos, de resto, a importância atribuída por Lenin à sua
extensão do comércio, o desenvolvimento do Estado e do direito, função técnico-econômica do Estado - incluindo a sua função de
contabilidade - nos seus textos de 1917-20.
27. Não deixa de ser útil mencionar aqui alguns problemas de definição Esta função do Estado, como organizador do processo de tra-
formulados pela antropologia política, a qual se encontra ainda nos seus
inícios. Certos autores - entre os quais Apter, Easton, NadeI, G. Ba- balho, não é aliás senão um aspecto ;da sua função relativo ao eco-
landier (Anthropologie politique, 1967), J. Pouillon, etc. - questiona- nômico. Mencionemos aqui, também de passagem, a função do sis-
ram as relações estabelecidas pelo marxismo entre o político e o Estado, tema jurídico, do conjunto das regras organizadoras das trocas ca-
E' isto, quer questionando uma distinção radical entre "sociedades segmen- pitalistas, verdadeiro quadro de coesão das relações de troca. A fun-
tárias" - sem Estado - e "sociedades com Estado", quer insistindo
na possibilidade de existência do político independentemente da existên- ção do Estado relativamente ao ideológico consiste, digamo-lo de uma
cia do Estado em sentido estrito. Contudo, trata-se aqui de esclarecer forma ainda só indicativa, no seu papel na educação, no ensino, etc.
as definições. As críticas destes autores são justas se admitindo - como Ao nível propriamente político, o da luta política de classe, esta
eles (', fazem - uma concepção estreita - juridicista -, durante muito função do Estado consiste na manutenção da ordem política no con-
tempo preponderante, do Estado. Com efeito, a maior parte destes auto-
res - como o assinalei acima, p. 48, nota 16 - admitem uma definição
flito político de classe.
do político análoga à que acabo de expor, mas precisam que o político Estas observações conduzem-nos, por conseguinte, a dois re-
pode existir independentemente do Estado, para o qual reservam uma sultados:
definição juridicista-formal (admitindo, por exemplo, o critério weberiano 1) O a el
do ''monopólio da força legítima" ou o do "centralismo"): o Estado iden-
tifica-se assim, de algum modo, com o Estado moderno (vide Easton: formação social ode en uanto tal,_ dl!erenciar-se em modalidades
The political euetem. e, ainda, Balandier). Contudo, o problema desapa- particulares com re~E.eito aos diversos níveis de formação, quer dizer
rece desde que se sublinhe, na linha de Marx e Engels, que o político em funções ~onômica, ideológica, política no sentido estrito do ter-
coincide com a emergência de um grupo especializado e privilegiado que mo - p~el no conflito político de classe,
monopoliza a gestão estatal. Neste sentido, podemos estabelecer que:
a) a distinção radical "sociedades segmentárias" - "sociedades com Es- 2) Estas diversas funções particulares jío Estado, mesmo as
tado", fundada em uma concepção juridicista de Estado, torna-se efetiva- que não concernem diretamente ao nível político em sentido estrito
mente caduca; - o conflito de classes -, não podem ser teoricamente apreendidas.
b) o político, como "1'egião" particular, coincide com a emergência mí-
nima de certas formas estatais, mesmo "embrionárias - Engels: é o senão na sua relação, quer dizer, inseridas no papel político global
caso, por exemplo, dos "Estados segmentários"; . . do Estado-:--Com efeito, este a el reveste -um caráter político, no
c) o político e o Estado cor-respondem à f?rmaçã? das classes s0c:-u:s sentidode que mãntém a unidade de uma formação no interior da
- é aí que está o nó da questão! -, revestmdo aliás o processo histó- qual as contradições entre os diversos níveis se condensam em uma
rico formas extraordinariamente complexas, que as análises de Marx
acerca do modo asiático de produção não bastam para inventa ri ar. Em dominação política de classe. Não odemos de fato, estabelecer c0ll!.
particular, a oposição marxista tradicional "laços de parentesco" - nitidez o caráter olítico da função técnico-econômica do Estado,
"relações de classe", que de resto decalcava .a de "sociedade s~gmentá-
ria" - sociedade com Estado", deve ser revista (ver R. Bastide, For-
28. Anti-Düh1-ing, p. 213.
mes elémentaires de lu stratification sociale, 1965).

50 51
ou da sua função de atrib..!lição da justiça., referindo-as diretamente Entretanto, a possibilidade de ler corretamente a articulação de
à sua função olítica em sentido estrito, a saber,~ sua função parti- uma formação na articulação das funções do Estado supõe previa-
cular ,no conflito Olítico de classe. Essas funções constituem fun- mente um princípio de leitura: este consiste precisamente no papel
ções olíticas na medida ~m que visam, em primeiro lugar, a ma- do Estado, fator de coesão de unidade de uma formação. Neste
nuten ão da unidade de uma formação social, baseada em última sentido, a dominância, no papel global do Estado, da sua função
allillSe na dõffiina ão olítica de classe. econômica indica, regra geral, que o papel dominante na articulação
das instâncias de uma formação cabe ao político; e isto não apenas
:É neste contexto preciso que se pode estabelecer a sobredeter-
no sentido estrito da função direta do Estado na luta de classe pro-
minação das funções econômicas e ideológicas pela função política,
priamente política, mas no sentido indicado. Neste caso, a domi-
em sentido estrito, do Estado no conflito político de classe. Por
nância da função econômica do Estado sobre as outras funções é
exemplo, as funções econômica ou ideológica do Estado correspon-
conjugada com o papel dominante do Estado, na medida em que a
dem aos interesses políticos da classe dominante, constituem funções
função de fator de coesão exige a sua intervenção específica na ins-
políticas, não simplesmente nos casos em que areia ão entre a or-
tância que precisamente assume o papel determinante de uma for-
ganização do trabalho e o ensino, por um lado, e a dominação polí-
mação - o econômico. Este caso é nítido, por exemplo, no Estado
tica de uma classe, por outro, é direta e evidente, mas pelo fato de
despótico do modo asiático de produção - dorninância do político
que estas funções têm como objetivo a manuten~ão da unida~e. de
refletida em uma dominância da função econômica do Estado -;
uma formação, no interior da qual esta classe e a classe pohtIca-
ou ainda, nas formações capitalistas, no caso do capitalismo mono-
mente dominante. Melhor ainda: é ,na medida em que essas funções
polista de Estado e da forma "intervencionista" do Estado capitalis-
têm como objetivo primordial a manutenção desta unidade que elas
correspondem aos interesses políticos da classe dominante, e é este, ta. Em contrapartida, no caso de Estado capitalista que é o "Estado
liberal" do capitalismo privado, o papel dominante assumido pelo
precisamente, o sentido da passagem citada de Engels, para quem.
econômico reflete-se pela dominância da função propriamente polí-
uma "função social" está sempre na base de uma "função política".
tica do Estado - "Estado polícia" -, e por uma não-intervenção
Este conceito de sobredetermina ão, a !icado a ui às fnn ões do Es-
específica do Estado no econômico. Isto de modo algum quer dizer,
I
tado indica ortanto duas coisas: ue as diversas funções do Es-
no caso concreto, que o Estado não tenha uma função econômica -
tado constituem funções olíticas elo a el obal do Estado como
que o próprio Marx nos indica em O Capital a propósito da legis-
fator de coesão de uma formação dividida em classes; e que estas
lação sobre as manufaturas -, mas simplesmente que ela não as-
funções correspondem assim aos interesses políticos da classe do-
sume o papel dominante. Com efeito, veremos seguidamente que é
minante.
falso considerar, como por vezes se faz, que a forma do Estado libe-
ral não tenha revestido funções econômicas importantes. De fato, o
Ora, o deslocamento do índice de dominância nas estruturas ue permite considerar estas funções do Estado liberal como não:
de uma formação, das quais o Estado, lugar de condensação· das -intervenção especI ica no economlco e preCIsamente, por um a o,
contradi ões constitui o lugar de decifração, reflete-se, regra geral, ~ não-dominância da função econômIca do Estado hberal sobre as
na articulação concreta das diversas funções do Estado no interior outras funções, em relação às outras formas e sta o, em parti:
do seu papel político global. Modelo de análise cujos princípios cu ar a que correspon e ao caplta lsmO monopo iSfadeEStaCIõ;-por
Lenin nos dá nos seus textos de 1917 acerca do aparelho de Estado, outro lado, que aqUl e corre atlvo, a não- ommância da instancia
neles distinguindo a função política em sentido estrito e a função do Estado, fator de coesão, no conjunto das instâncias de uma for-
"técnica" da administração estatal - de que faz parte a função de mação social de capitalismo privado.
contabilidade -, mostrando a subordinação, referida à articulação
específica dos diversos níveis da formação social russa, desta função Assim é preciso fazer aqui duas observações suplementares.
técnico-econômica à função política em sentido estrito. 29 Em primeiro lugar, o papel do Estado, como fator de coesão, não
se reduz a uma "intervenção", rigorosamente falando, do Estado nos
29. Em particular, Une des questione fondamentales de la Révol~ti?n, diversos níveis, particularmente no nível econômico. Por exemplo,
in Oeuvres, t. 25, p. 298. Convém contudo assinalar que Lenin dístin-
gue etapas e viragens da transição, marcadas precisamente por permu- a não-intervenção do Estado no caso do capitalismo privado não
tações de dominância das funções política e econômica do Estado. significa de modo algum que o Estado não assuma essa função de

52 53
coesão: ela manifesta-se, neste caso, por uma não-intervenção espe- 2. POLlTICA E CLASSES SOCIAIS
cíficano econômico. Mais, não temos que mencionar aqui senão o
caso do sistema do direito que é - Marx e Engels mostraram-no -
uma condição de funcionamento econômico, simultaneamente na
medida em que fixa as relações de produção como relações de pro-
priedade formal, e na medida em que constitui um quadro de coesão Estamos agora de posse de suficientes elementos que permitem
das relações de troca, inclusive da compra e da venda da força de examinar o conceito marxista de classe social e de luta de classe e
trabalho. Em segundo lugar, convém atentar em que a função global as suas incidências no domínio do político: ter-se-á sobretudo em
do Estado, fator de coesão da unidade, não significa de modo algum consideração as obras políticas de Marx, Engels e Lenin. A refe-
que por isso conserve sempre o papel dominante em uma formação rência específica a estas obras, a propósito deste problema, decorre
nem, aliás, que, quando este papel dominante cabe ao econômico, simultaneamente de um princípio de leitura relativamente à sua or-
o Estado já tenha função de fator de coesão. ganização teórica, e da posição que adoto relativamente ao conceito
de classe social.
Com efeito, torna-se necessário lembrar que o modo capitalista
de produção "puro", que, aliás, já foi discriminado de uma forma-
ção social capitalista, e que é composto, na sua pureza, por diversas
instâncias _. econômico, político, ideológico -, é caracterizado, se-
gundo Marx, por uma autonomia específica das suas instâncias e
pelo papel dominante que nele assume o econômico. Daqui resul-
tam incidências importantes do ponto de vista teórico. Estas diver-
sas instâncias, como objetos de pesquisa teórica, são passíveis de
um tratamento científico específico. Essas incidências são claras no
que diz respeito ao estatuto teórico de O Capital. O Capital com-
porta um tratamento do M.P.C.; no entanto, dada a emancipação
das instâncias que o caracteriza e dado o lugar dominante que nele
ocupa o econômico, este tratamento centraliza-se na instância regio-
nal do econômico deste modo. O que de maneira nenhuma quer di-
zer que as outras instâncias estejam ausentes: elas estão presentes
mas, de algum modo, indiretamente, pelos seus efeitos na região do
econômico. Por sua vez, este elemento tem a sua importância no
que se refere ao problema das classes sociais: se são encontrados,
em O Capital, elementos necessários à construção do conceito de
classe, é necessário não perder de vista que este problema está cen-
tralizado na determinação econômica das classes sociais. Não se
deverá, de maneira nenhuma, concluir que esta determinação eco-
nômica é suficiente para a construção do conceito marxista de classe
social, exatamente do mesmo modo que o tratamento específico do
econômico do M.P.C. em O Capital não minimiza a importância das
outras instâncias para o exame científico deste modo.
Daí, a importância que, sob este ponto de vista, revestem as
obras políticas de Marx e Engels. Uma observação a propósito da
sua organização teórica: a maior parte destas obras tem por objeto
o estudo de transformações sociais capitalistas historicamente deter-
minadas, em particular, da sua conjuntura política. A problemática

54 55
das classes SOCIaISreporta-se nelas principalmente à sua presença ráter de colisões entre "duas classes". Entretanto, poder-se-á distin-
nestas formações. No entanto, em conjunto, estes textos contêm, guir em Marx o que aparece como um segundo nível de luta econô-
no estado prático, a enunciação do problema teórico das classes so- mica, de interesses econômicos, que, por um lado, já não se coloca
ciais em um modo de produção, no caso concreto, o M. P . C., na ao nível dos indivíduos-agentes de produção, mas que, por outro
medida em que evidenciam a importância da determinação política lado, também não exprime relações de classe propriamente ditas,
e ideológica na construção do conceito de classe. Isto é, aliás, bas- embora Marx nos diga por vezes que existe aqui uma classe-em-si
tante claro nas obras políticas de Lenin. distinta da classe-para-si. É o caso dos textos de Marx relativos à
É importante reter as datas destes textos: admitindo a cesura luta sindical, à organização sindical da classe operária, por contra-
na obra de Marx, só tomarei em consideração os que vão da Mi..J, posição à sua organização propriamente política. "Na sua luta con-
séria da Filosofia, texto de 1847, até a Guerra Civil na França. Não tra o poder coletivo das classes dominantes, o proletariado só poderá
há dúvida de que a enunciação do problema das classes ainda sofre agir como classe constituindo-se ele próprio em partido político dis-
aqui flutuações à medida que a problemática original de Marx se tinto. .. A coligação das forças operárias, já conseguida pela luta
consolida. No entanto, poderá decifrar-se nestes textos a perma- econômica, deve também servir de alavanca nas mãos desta classe
nência de uma questão, precisamente referente à importância da de- na sua luta contra o poder político". 1 É aliás inútil multiplicar as
terminação política e ideológica para a construção do conceito de citações bastante conhecidas de Marx, segundo as quais o proleta-
classe. Por isso, não surpreende que estes textos, contendo fórmulas riado só existe como classe na sua organização em partido distinto. 2
que nem sempre são transparentes, tenham dado lugar a numerosos Estes níveis de luta - os dois níveis de luta econômica e o
erros de interpretação. Abordemos, pois, o problema das classes nas nível de luta política de classe - são nítidos no texto seguinte de
obras políticas de Marx, e tentemos compreender as suas relações Marx, em Miséria da Filosofia: "As condições econômicas tinham,
com o problema das classes em O Capital. de início, transformado a massa do país em trabalhadores. A domi-
nação do capital criou a esta massa uma situação comum, interesses
comuns. Assim, esta massa já é uma classe face ao capital, mas
L O Problema do Estatuto Teórico das Classes ainda não para si mesma. Na luta, da qual só assinalamos algumas
fases, esta massa reune-se, constitui-se em classe para si. Os inte-
resses que ela defende tornam-se interesses de classe. Mas a luta
Partamos de alguns textos de Marx relativos à distinção entre de classe contra classe é uma luta política". 3
luta econômica e luta política, entre "interesses econômicos" de clas- Conhece-se a importância destes textos na elaboração da teoria
se e "interesses políticos" de classe. Constata-se, em primeiro lugar, marxista das classes sociais. O que se deve, de fato, assinalar é que
que Marx parece distinguir, nas suas análises relativas a este aspecto estas análises foram, muitas vezes, interpretadas de uma maneira
da relação do político com o econômico, três níveis ou três momen- errada, sem ter em conta as exigências de uma enunciação científica
tos. Os dois primeiros níveis reportam-se à "luta econômica" e aos do problema das classes sociais.
"interesses econômicos". No primeiro destes dois níveis do econô-
mico, existe uma luta econômica entre o capitalista e o operário, Com efeito, há uma leitura destes textos que deve ser afastada
entre "indivíduos-agentes da produção", luta que, no entanto, não desde o início, pois que, em última análise, se liga à problemática
manifesta, de acordo com os termos destas citações, relações de clas- do "grupo social" que não se encontra em Marx: é a leitura histó-
se. No Manifesto Comunista, Marx nos diz: "O proletariado passa rico-genética. Esta leitura, tomando os textos de Marx ao pé da
por diferentes fases de desenvolvimento. A sua luta contra a bur- letra, tal como se apresentam diretamente, veria neles uma historio-
guesia começa com a sua própria existência. No início, a luta é em- grafia do processo de "gênese" da classe social. Estes diversos ní-
preendida por operários isolados; depois, são os operários de uma
fábrica, por fim, os operários de um ramo de indústria em um mes- 1. Artigo 7 dos estatutos da Primeira Internacional (1866).
mo centro que combatem contra determinado burguês que os ex- 2. Elas vão, como veremos, desde o Manifesto comunista à carta a
plora diretamente... neste estágio, os trabalhadores formam uma Bolte de 1871.
3. Notemos que esta concepção se encontra igualmente nos Grundrisse ...
massa disseminada ... ". Progressivamente, estes "choques indivi- onde Marx nos fala de "massa" dos "trabalhadores livres-indivíduos
duais" entre os operários e os burgueses tomam cada vez mais o ca- nus" que se constituem progressivamente em classe.

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veis teóricos de análise de Marx constituiriam etapas históricas da R. Dahrendorf e, ultimamente, na França, a de Bourdieu. 5 Esta in-
formação de uma classe: massa indiferenciada de indivíduos no iní- terpretação tem a vantagem sobre a primeira de pôr em evidência
cio, ela organizar-se-ia em seguida em uma classe-em-si, para acabar, a problema de uma formação social enquanto sistema de estruturas,
finalmente, na classe-para-si. Esta leitura destas análises de Marx problema que não é imediatamente aqui reportado à sua gênese. No
reporta-se aliás a uma problemática historicista: será conveniente entanto, o dualismo sincronia-diacronia adotado pela corrente fun-
assinalar aqui que é precisamente na teoria das classes que mais cionalista decorre, em última análise, da problemática historicista.
claramente se manifesta o seu caráter inadequado. Poder-se-á nela Esta interpretação funcionalista não define a formação social en-
distinguir duas correntes, embora os seus pressupostos sejam comuns. quanto sistema de estruturas senão como quadro referencial, objeto
Trata-se, em ambas, de uma importação para o interior do mar- de um exame estático, estando representado o elemento dinâmico-
xismo do esquema ontológico-genético da história, no sentido hege- diacrônico deste sistema pela "luta de classe". O estatuto próprio
liano do termo, e que se desenvolve sobre o tema "são os homens do "grupo" em Marx seria con.stituir o elemento dinâmico das estru-
que fazem a sua própria história". turas, tendo o grupo por função ser o princípio e a condição da sua
transformação. Estruturas sociais e classes sociais seriam aqui con-
a) Na primeira corrente da problemática hístoricista, reatan- sideradas em uma relação de estrutura a função, de sincronia a dia-
do diretamente com a problemática hegeliana, concebe-se a classe cronia, exprimindo esta diacronia apenas a concepção historicista
como sujeito da história, como fator de criação genética das estru- dos "homens que fazem a sua própria história", de uma história
turas de uma formação social e como fator das suas transformações: fundada sobre os atores sociais, sendo "as forças capazes de mudar
Lukács é o representante típico desta interpretação historicista da os elementos da estrutura" 6 representadas pelas classes-funções. Não
classe e da consciência de classe. Nesta perspectiva, o problema será, assim, surpresa alguma ver as relações profundas entre a con-
teórico das estruturas de uma formação social reduz-se à proble- cepção da história em Lukács e a concepção da diacronia nas teorias
mática da sua origem, reportada esta ao autodesenvolvimento da funcionalistas, manifestando ambas a influência expressa do histori-
classe-sujeita da história. O processo de organização da classe-su- cismo de Max Weber. Esta concepção conduz, portanto, à cisão
jeito em classe política, para si, corresponde aqui exatamente ao teórica de um duplo estatuto da classe social: a situação de classe -
tipo hegeliano de historicidade do Conceito. Esta concepção das classe em si, determinada pelo seu lugar na estrutura econômica, -
classes encontra-se em autores como Lucien Goldmann e Herbert e a função de classe - classes para si, luta de classes ~ como fator
Marcuse.f diacrônico de transformação da estrutura. 7

5. Th. Geiger: Die Klassengesellschaft int Sch/melztieçel, 1949, p. 37


b) A segunda corrente historicista encontra-se em certas in- e segs.
terpretações "funcionalistas" de Marx como as de Th. Geiger, de R. Dahrendorf : Class Conflict in Industrial Society, 1965, passim.
Bourdieu: "Situation et position de classe" curso policopiado, e
4. Segundo esta concepção, a ordem das estruturas e a regulamenta- Travail et travailleurs en Algérie, 1964. '
ção da sua relação reduzem-se à sua "totalidade significativa" consti- Falamos aqui de uma interpretação funcionalista de Marx, e não do
tuída por este centro que é a "concepção do mundo" da classe-para-si; problema das "classes" ou do "grupo" na corrente funcionalista em geral.
sujeito, que as produz. Como o exprime Lukács: "A vocação de uma clas-
6. A citação é de Dahrendorf, para quem as classes são os "elementos
se para a dominação significa que é possível, a partir dos seus interes- dinâmicos variáveis" que, como "função", operam as transformações
ses de classe, a partir da sua consciência de classe, organizar o conjun- das "estruturas" sincrônicas (op. cit., p. 121 e segs.).
to da sociedade de acordo com estes interesses... E a questão que decide,
em última análise, de toda a luta das classes é esta ... Até que ponto a 7.. As análises de Weber encontram-se em numerosos capítulos do
classe em questão cumpre conscientemente, inconscientemente ou com Wirtschaft und Gesellechaft, Tübingen, 1947, seco III embora os seus
res~lt.ados apareçam de modo mais claro em Geeammelte Aufsaetze zur
falsa consciência as tarefas que lhe são impostas pela História?" Histoi-
Rel~gwnssozwlogw e nas suas análises políticas de Gesammelte politis-
re et conscience de classe, Paris, p. 76 e segs. Posição ainda mais clara che Schriften, Tübingen, 1958. O ponto importante da sua teoria das
do problema em H. Marcuse em Kuliur und Gesellschaft, 1965, t.I, p.34, classes é a distinção entre a situação de "classe" - "chamo classe a
e em One Dimensional Man. 1964, p. 55 e segs. Mais próximo a nós, en- todo o grupo de pessoas que se encontram em uma comum situação de
contram-se todos os temas provindos desta mitologia em Touraine na classe", - definida principalmente pelos seus proventos, e o "grupo
sua assim chamada Socieloçie de L'action, 1966. estatutário", de algum modo, a função: esta distinção conduz à sua pro-

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o que, aqui, poderá ser retido é que a concepção historicista, teoria economica pré-marxista, não é menos verdade, no entanto,
implícita nas análises desta corrente, conduz afinal ao estabeleci- que o problema da exclusividade ou não da determinação econômica
mento de uma relação ideológica entre os indivíduos-agentes da pro- das classes continua a existir, mesmo em uma concepção autêntica
dução, os "homens" e as classes sociais: esta relação é estabelecida das relações de produção e do modo de produção.
teoricamente pelo estatuto sujeito. Os agentes da produção são to- Com efeito, o modo de produção "puro" - o qual distingui-
mados como os atores-produtores, como os sujeitos criadores das mos de uma formação social - define o econômico pelo seu lugar
estruturas, as classes sociais como os sujeitos da história. A própria e pela sua função no todo complexo das instâncias recoberto pelo
distribuição dos agentes por classes sociais é reportada ao processo, conceito de modo de produção. Isto, no entanto, não reduz o pro-
de concepção historicista, de criação-transformação das estruturas blema da especificidade do econômico no interior deste modo. No
sociais pelos "homens". Ora, esta concepção ignora dois fatos es- caso do modo de produção "puro", trata-se sempre de uma coexis-
senciais: em primeiro lugar, que os agentes da produção, por exem- tência de níveis específicos, muito esquematicamente, o econômico
plo o operário assalariado e o capitalista, enquanto "personificações" - relações de produção -, o político, o ideológico, que aparecem
do Trabalho assalariado e do Capital, são considerados por Marx como outras tantas estruturas regionais do modo de produção "puro",
como os suportes ou os portadores de um conjunto de estruturas; N a medida, pois, em que o conceito do modo de produção não só
em segundo lugar, que as classes sociais nunca foram teoricamente não reduz a específicidade das instâncias, mas permite localizá-Ias
concebidas por Marx como a origem genética das estruturas, por- enquanto regiões na sua relação com a região do econômico, o pro-
quanto o problema diz respeito à definição do conce.to de classe. blema assinalado das classes sociais não pode ser escamoteado, antes
Veremos porquê. continua a existir: são estas definidas pela sua mera relação com
Entretanto, existe uma outra deformação da teoria marxista das o econômico? A resposta a esta questão orientará a solução ao
classes sociais: a interpretação "economicista" que constitui de fato problema das classes em uma formação social.
o correspondente invariável da corrente representada pelo "volun- De fato, podemos constatar que as análises de Marx relativas
tarismo" do jovem Lukács. A classe social estaria localizada só ao às classes sociais reportam-se sempre não apenas à estrutura eco-
nível das relações de produção concebidas de uma maneira econo- nômica - relações de produção -, mas ao conjunto das estruturas
micista, isto é, reduzida à condição dos agentes no processo de tra- de um modo de produção e de uma formação social, e às relações
balho e às suas relações com os meios de produção. Ora, se é ver- que neles mantêm os diversos níveis. Digamos, antecipadamente,
dade que os próprios conceitos de relações de produção e de modo que tudo se passa como se as classes sociais fossem o efeito de um
de produção foram interpretados por esta corrente de uma maneira conjunto de estruturas e das suas relações, no caso concreto 1.0) do
economicista, freqüentemente por meio de conceitos importados da nível econômico, 2.0) do nível político, e 3.0) do nível ideológico. 8
Uma classe social pode ser identificada quer ao nível econômico,
blemática da classe política e da burocracia. Voltarei a este ponto em quer ao nível político, quer ao nível ideológico, e pode pois ser lo-
Weber, pois parece-me ser, sem dúvida alguma, o ponto essencial da re-
lação entre o historicismo marxista e o "funcionalismo" da ciência po- calizada em relação a uma instância particular. No entanto, a de-
lítica atual, duas correntes cujos princípios teóricos são rigorosamente finição de uma classe enquanto tal e a sua conceitualização reporta-
idênticos não diferindo freqüentemente senão pela oposição das suas -se ao conjunto dos níveis dos quais ela constitui o efeito.
conseqüências. Ansinalo somente aqui que o duplo estatuto ideológico,
que esta problemática atribui ao "grupo social", será por vezes, em Estas considerações continuam ainda vagas, pois, se de fato
conseqüência direta, conceptualrnente demarcado: foi o caso de Weber uma classe social se apresenta como um efeito de um conjunto de
e de a sua demarcação entre a "classe" - situação de classe - e
o "grupo estatutárío" - função. 'I'ratar-se-á aqui de delimitar, por
um lado, "classes" sociais reduzidas à situação-econômica-de-classe, por 8. A delimitação das classes em relação ao "econômico" ~ tal co~o se
outro, "grupos" diferentes, cuja relação com as classes continua a ser encontra em O Capital, compreende, por exemplo, as relaçoes seg~m~e~:
misteriosa, grupos que participam nas relações política-função (estando _ relações de produção em sentido estrito: produtor jpropnetarlO
as classes sociais limitadas à sua situação econômica de classe). É o dos meios de produção.
problema da corrente "marxizante" das elntes políticas, grupos-funções _ relações de repartição do trabalho social: produtor jprodutor.
paralelos, aqui, às classes-situações. O problema é colocado, da forma _ relações de transferência do produto social: produtor (pr?dutor.
mais clara possível, por esse fundador moderno das teorias das elites Estas relações decorrem da combinação das duas relaçoes economl~as :-
políticas que é R. Michels - Les partis polit/quee - discípulo histori- apropriação real e propriedade -, e remetem assim para a orgamzaçao
cista "marxizante" de Weber. do processo de trabalho e para a divisão do trabalho.

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estruturas, será ainda necessano delimitar exatamente o domínio p-rodu ão conotam não a enas relações dos agentes _da produção
particular sobre o qual os. efeitos deste conjunto se refletem, toman- entre si, mas também essas relações em combinaç!jf!§..fi.sl1efÍticas
d? a forma da c~~sse SOCIal. A.s classes so~iais não se apresentam, destes agentes e das condições materiais e técnicas do trabalho. Por
digamo-lodesde ja, como o efeito de um UIVel estrutural particular óutro lado, as relações sociais da roduçãOSãõ reIãÇõesd~entes
- por exemplo, a estrutura econômica - sobre outro nível estru- de rodu ão distribuídos em classes sociais relações de classe. Por
tural - a estrutura política ou a estrutura ideológica, no interior outras alavras, as relações "sociais" _d~J}roduçãq, as relações _d~
portanto da estrutura, mas, antes, como o efeito global das estruturas classe, a resentam-se, ao nível econômico, como um efeito dessa
no domínio das relações sociais, os quais conotam, nas sociedades combinação es ecífTca _agentes de prod:yção-condições materiais , e.
?e classe, a. distribuição dos agentes-suportes por classes sociais: e técnicas do trabalho que são as relações de produção.
isto na medida em que as classes sociais determinam o lugar dos - Pãi:ece põis que só se poderá fazer a crítica radical de qual-
age~tes-suportes relativa_mente. às estruturas de um modo de pro- quer "antropologismo", sob a sua forma historicista ou sob a sua
duçao e de uma formaçao SOCIal. Confundir estes domínios tem um forma humanista, distinguindo claramente as estruturas e as relações
nome na história do pensamento marxista: é o "antropologismo do sociais (gesellschaitliche Verhaeltnisse), estas últimas designando a
sujeito". distribuição dos suportes em classes sociais. Estes dois domínios são
Trata-se, em primeiro lugar, de situar exatamente o que são as respectivamente expressos, ao nível econômico, pelo conceito de re-
"relações sociais" na sua relação com as estruturas de um modo de lações de produção (Produktions-veraeltnisse) e pelo de relações so-
produção e de uma formação social. É, em particular, a confusão ciais de produção (Gesellschaftliche Produktions-verhaeltnisse). Com
e~tr~ as estruturas e as relações sociais, operada aqui ao nível eco- efeito, ao contrário de uma concepção economicista das classes so-
normco, que conduziu o economicismo à mera redução das classes ciais, que confunde estes dois domínios e reduz um conceito ao ou-
soc~ais ao e~onômico. É também por este intermédio que se poderá tro,o econômico, recoberto na estrutura pelo conceito de relações
decifrar o Impacto do antropologismo na tendência economicista. de produção, de maneira alguma constitui ponto privilegiado de
Com efeito, ~sta re?ução resulta da sua confusão, operada aqui pelo emergência do social. As relações de produção correspondem, nas
emprego lndlferencwdo dos termos "relações de produção" e "rela- relações sociais, às relações sociais de produção: mas também se
ções sociais de produção", quando, de fato, estes dois tennos reco- ~oderá falar com todo o rigor de relações "sociais" políticas e rela:-
brem realidades diferentes. As classes sociais, enquanto relação social ções "sociais" ideológicas. 9 Estas relações sociais, enquanto rela-
d~ p;odução, ~ram reduzidas às meras relações de produção, a emer- ções de classes, isoladas aqui em relação à instância do político e do
gencia do SOCIalna própria estrutura, e no ponto privilegiado que ideológico, apresentam-se como o efeito das estruturas políticas e
as "relações de produção-relações sociais de produção" constitui- ideológicas sobre as relações sociais. As diversas instâncias marcam,
riam. Aliás, é verdade ue o ró rio Marx emprega de uma maneira portanto, níveis e escalões simultaneamente nas estruturas e nas re-
indiferenciada os termos de relações e pro ução e e re açoes sociazs lações sociais. No que diz respeito ao econômico, consideremos, nas
de produção, e só por uma leitura atenta dos seus textos se poderá estruturas, o caso das relações de produção, as guais consistem em
de.scobrir a diferença entre as realidades recobertas por estes con- formas específicas de combinação dos agentes de produção e dos
ceítos. meios de produção. Esta estrutura das relações de produção "de-
Vejamos mais de perto. A conce ção científica marxista das
relações so.ciais de produção traz em si a crítica radical de qualquer 9. ~or um outro lado, no quadro da concepção "funcional:ilSta" que assi-
nalei, e que conduz também à confusão entre as estruturas e as relações
antropologia econômica que refira o econômico em geral às "neces- "social" não redutível ao "econômico". Tomemos, por exemplo, o caso de
sidades" dos "sujeitos" humanos,- ~or conseguinte a cntica radlcal "social" não redutível ao "econômico". Tememos, por exemplo, o caso de
d~5oncepção ~as relações sociais coilloreIãÇõés intersubjetivas. E Bourdieu: "A oposição weberiana (que Bourdieu aceita) implica pois
isto em dois sentidos: por um lado, a instância do econôlliCO- con- no reconhecimento de uma ordem propriamente social que deve a sua
relativa autonomia pela relação à ordem econômica ..." (Situation et po-
siste na unidade do processo de trabalho (relativo às condições ma- sition de claese, op. cit., p. 5). Ora, o problema, assim formulado não
teri~is e técnicas do trabalho, e em particular, aos meios de pro- tem estritamente qualquer sentido: como se o econômico não se situasse
duçao, de um modo geral, às relações "homem-natureza") e das também nas relações sociais-relações sociais-econômicas, e até mesmo na
rela~ões de pro~ução (relativas às relações entre os agentes de pro- luta econômica de classe. De fato, esta distinção "econômico-social" é
operada através de uma problemática ideológica, remontando precisa-
duçao e os meIOS de trabalho). Daqui resulta que as relações de mente a Weber, como o mostra o próprio título da sua obra principal,
Économie et societé.
62 63
termina lugares e funções que são ocupados e assumidos pelos agen- SOCtalS, as classes SOCIaIS,isto é, definir o estatuto teórico da classe
tes da produção, que não são senão os ocupantes destes lugares na social. Em primeiro lugar, de maneira nenhuma se trata de relações
medida em que são os portadores Traeger destas funções". 10 As re- de estática com dinâmica - tomadas por vezes como relações entre
lações de produção têm como efeito, sobre as relações sociais, e no estrutura sincrônica e função diacrônica, de acordo com um erro
que respeita ao econômico, uma distribuição dos agentes de produ- corrente que consiste em considerar as estruturas consoante o seu
ção em classes sociais que são, a este nível, as relações sociais de grau de permanência ou, por outras palavras, de relações historicist~s
produção. de origem entre o sujeito-produtor e o seu produto. Também nao
Rigorosamente falando, as relações de produção, enquanto es- se trata de uma relação epistemológica simples entre o "grupo" (a
trutura, não são assim classes sociais; e de maneira alguma me refiro classe), o "concreto empírico" - no sentido em que Lévi-Strauss
aqui à realidade empírica dó "grupo", mas sim ao conceito de classe, nos diz que as "relações sociais" são a "matéria-prima" das estru-
querendo com isto dizer que o conceito de classe não pode recobrir turas 12 - e o seu "modelo teórico", na ocorrência as estruturas -
a estrutura das relações de produção. Estas consistem em formas de decorrendo a teoria do modelo que identifica estrutura e conceito de
combinação, sendo a relação entre as categorias do Capital e do uma teoria empirista do conhecimento. As classes sociais não são,
Trabalho assalariado expressa por um conceito particular, o da mais- de fato, uma "coisa empírica" cujas estruturas seriam o conceito:
-valia. Nesta perspectiva, o Capital e o Trabalho assalariado não elas conotam relações sociais, conjuntos sociais, mas são o seu con-
são, evidentemente, as realidades empíricas dos "capitalistas" e dos ceito ao mesmo título ue os conceitos de Ca ital, de Trabalho
"operários", mas também não podem ser designados por um conceito assalariado, de mais-valia constituem conceitos de estruturas, de re-
- as classes sociais - que de fato recobre relações sociais. Estas lações de produção. 13
observações são, aliás, igualmente válidas para as outras instâncias: De modo preciso, a classe social é um conceito que indica os
as estruturas do político, nomeadamente a superestrutura jurídico-
-política do Estado, não são classes sociais, aliás como as estruturas efeitos do conjunto das estruturas, da matriz de um '!!:...oc!!> de produ-
ção ou de uma formação social sobre os agentes que constituem os
do ideológico. Elas têm contudo como efeito, nas relações sociais,
seus suportes; esse conceito indica poisos efeitos da estrutura glõbCil
e ao seu nível - relações sociais jurídico-políticas e relações sociais
no domínio das relações sociais. Neste sentido, se aclasse éde fato
ideológicas -, a distribuição dos agentes que são seus portadores em
, um conceito: não dêsigrlã-contüdo uma realidade que possa estar si-
classes sociais. Em particular, no caso do direito, sabemos que este
tuada nas estruturas: designa, sim, o efeito de um conjunto de estru-
efeito depende da propriedade jurídica formal dos meios de produ-
turas dadas, conjunto esse que determina as relações sociais como
ção. Aperceber-nos-emos da importância destas observações se con-
relações de classe. 14 O que quer dizer que a classe social não ode
siderarmos as confusões a que estes problemas não resolvidos con-
duziram, ultimamente, M. Godelier. 11
Podemos assim tentar exprimir as relações entre as estruturas {; homogênea nem sequer depende do mesmo sistema, pois diz respeito às
relações soci~is: aliás, neste sentido, caracteriza todos os níveis das re-
de um modo de produção ou de uma formação social e as relações lações sociais, da luta de classes, e não simplesmente as relações sociais
de produção. Poder-se-á assim subscrever inteiramente, neste .aspec.to, as
10. Althusser, in LÚ'e le Capital, t. II, p. 11>7. considerações de L. Sêve que respondeu corretamente a G~d~her, dl~e~~O
11. É neste ponto, efetivamente, que aparece o erro fundamental das que as contradições de classe estão presentes em todos os mveis do edifício
suas análises em Rationalité et irrationalité économique, 1966, e em social (in La Pensée, outubro de 1967).
"Systeme, structure et contradition dans le Capital", in Les Temps Mo- 12. Anthropologie structurale, p. 305 e segs.
dernes, novembro de 1966. Segundo Godelier, o M. P. C. seria caracteriza- 13. Não deixa de ser útil assinalar este problema. Com efeito, neste pon-
do por duas contradições situadas nas estruturas, funcionando a primei- to apareceram numerosas confusões na teoria sociológica atual que estão
ra - fundamental - entre duas estruturas difm'entes, de um lado, as ce~tralizadas na questão de saber se as "classes" sociais são um "Real-
relações de produção - propriedade privada dos meios de produção -, phaenomen" - concreto empírico - ou um "Ordnungsphaenomen" - um
do outro, as forças produtivas, e funcionando a segunda, a das classes conceito no sentido de "modelo". Ver entre outros: Lenski, "American
capitalistas - operários assalariados, no seio de uma mesma estrutura, Social Classes - Statistical Strata or Social Groups?" in Arnerican Jour-
a das relações de produção. Duplo erro: a) As relações de produção e as nal o] Sociology, voI. LVIII, 1952; Lipset and Bendix, "Social Status and
forças produtivas pertencem à mesma combinação-estrutura do econômi- Social Structure" in Britieh. Journal of Sociology, voI. II, 1951, etc. .
co, pertencendo a propriedade "privada" - jurídica - dos meios de pro- 14. Não será, n~cessário bem entendido, tomar aqui o termo e~e~tos em
dução à superestrutura; b) - o que sobretudo aqui nos 71nteressa - um sentido cronológico, o que seria fazer uma gênese ao contrár-io. En-
a contradição das classes não é localizável no próprio interior das estru- tendo por efeitos a existência da determ/mação das estruturas nas classes
ras e ass~ ao simples nível das relações de produção. Antes de tudo, não sociais.

65
ser teoricamente considerada como uma estrutura regional ou parcial Quais as consequencias concretas que podem decorrer destas
da estrutura global, do mesmo modo, por exemplo~ que as relações considerações no que concerne à constituição das classes sociais?
de rodução, o Estado ou-a-ideolõgia constituem-efetivamente es- Em primeiro lugar, a constitui ão das classes não diz res eito só ao
truturas regionais. E isto, não porque °
efeitooas estruturas ã -= nível econômico, antes consiste em um efeito do conjunto dos níveis
classe - não possa constituir uma estrutura, ou porque a classe de um modo de jJ~düÇão ou deuma l'õrmação social. A organiza-
seja o "concreto empírico" - o grupo - enquanto que as estrutu- ção das instâncias em níveis econômico, político,-ídeológico refle-
ras são o conceito; mas porque, entre o conceito de classe conotando te-se, nas relações sociais, em prática econômica, política e ideol6-
relações sociais e os conceitos conotando estruturas, não há homo ... gíca de classe e_em "l~ das 'práticas das 'versas classes:- Sendo
geneidade teórica. 15 as relações sociais um "domínio-efeito" estruturado do sistema das
No entanto, se é verdade que as classes SOCiaISnão podem ser estruturas, então os escalões da luta de classe mantêm o mesmo tipo
consideradas como uma estrutura no primeiro domínio designado, de relações que as instâncias da matriz. A determinação em última
constituem, enquanto efeito estrutural, uma estrutura no quadro re- instância da luta econômica de classe - relação com as relações de
ferencial particular das relações sociais. Este quadro é estrutura do produção -, no domínio das relações sociais, pode refletir-se por
na medida em que é circunscrito pelos limites fixados pelas estru- um deslocamento do papel dominante para um outro nível da luta
turas, limites esses que se refletem como efeitos do conjunto de um de classe - luta política, luta ideológica. O papel determinante, na
domínio sobre outro. Isto tornar-se-á mais claro quando examinar- constituição das classes sociais, da sua relação com as relações de
mos o recobrimento da diferenciação estruturas-relações sociais pela produção, com a estrutura econômica, indica de fato, com muita
diferenciação estruturas- ráticas, isto é, ráticas de classes. 16 exatidão, a constante determinação-em-última-instância do econômi-
Esta diferença de domínios é aliás indicada, em Marx e Engels, co nas estruturas refletida nas relações sociais. 17
pelo emprego (habitual nas suas obras, e a fim de designar um "to- Melhor; a articula ão das estruturas, ue es ecifica um dado
do" social historicamente determinado) de dois termos, o de for- modo de rodução ou uma formação social, é regra geral a das m-
mação social - precisamente "formação econômico-social" - e o k ões sociais dos níveis de luta de classes. Tomemos por exemplo
de "sociedade" em particular na expressão "sociedade dividida em o caso do modo de produção feudal: ele é especificado por uma ar-
classes". Neste sentido, o termo, no Marx da maturidade, de "Bür- ticulação particular do econômico, do político e do ideológico, re-
gerliche Gesellschait" significa quase sempre não "sociedade civil" fletindo-se a determinação em última instância do econômico, mais
mas "sociedade burguesa", a fim de especificar a "sociedade" capita- freqüentemente, pelo papel dominante do político, definido de acor-
lista. O emprego por Marx do termo sociedade em vez de formação do com o seu lugar e com a sua função neste modo, e mesmo, por
social não constitui um mero deslize teórico ou uma simples hesita- vezes, do ideológico. Tomemos agora o caso das relações sociais:
ção de terminologia, antes indica o problema de uma diferenciação as classes sociais deste modo de produção, fixadas pelo seu estatuto
entre as estruturas e as relações sociais. O termo formação social "público-político", mostram que a determinação em última instância
rep-orta-se rigorosamente aos níveis estruturais; o de sociedade in- da organização econômica de classe se traduz aqui pelo papel domi-
dica, fre üentemente,de uma maneira descritiva, o domínio das re- nante da sua organização política. Estas classes são em primeiro
lações sociais. lugar determinadas pelo estatuto público dos agentes da produção,
pela sua organização jurídico-política definida de acordo com o lu-
15. Encontramos vários textos de Lenin, relativos às classes sociais que gar e a função do político nas estruturas. Marx, em numerosos tex-
apontam no mesmo sentido: "a classe burguesa ... é o produto e a expres-
são da "vida" social representante de uma formação social capitalista ..." tos, particularmente nos Grundrisse assinalará, como já vimos, de
(Oeuvres, t. I, p. 378), ou ainda: "Notemos que Marx fala aqui da crítica
materialista, a única que considera científica, isto é, a que aproxima os 17. E, para os que ainda possam se surpreender com esta concepção
fatos político-jurídicos, sociais, morais, etc., do econômico, do sistema das das relações de produção, na constituição das classes sociais, como "luta
relações de produção, dos interesses das classes que se constituem forr;o- econômica" cito esta frase reveladora de Lenin que vai inclusive longe
samente no terreno de todas as relações sociais antagônicas" (lbid., p. demais: "É a luta econômica de classe ... que constitui a base da "socie-
355). dade" e do Estado". Oeuvres completes, ed. sociales, t. I, p. 419. Digo que
16. O problema é muito importante e eu assinalo-o desde já: as classes Lenin vai demasiado longe, contudo no sentido inverso da confusão que
conotam sempre práticas de classe, e estas práticas não são estruturas - até aqui constatamos: em vez de absorver a "luta econômica" de classe
a prática política não é superestrutura do Estado, nem a prática econô- - relação entre as classes nas relações de produção - nestas relações,
mica as relações de produção. Lenin, anui, absorve ae relações de produção na "luta econômica".

66 67
classes não se deve a qualquer variação na utilização dos seus cri-
uma maneira descritiva, esta especificidade das "castas" e dos "es- térios de distinção, antes está rigorosamente relacionada com: a) os
tados" a respeito das classes sociais modernas. modos de produção presentes nesta formação; e b) as formas con-
cretas que revestem a sua combinação. Convém, todavia, notar aqui
que, nem por isso se deve concluir que a análise das classes no exame
11. As Classes em um Modo de Produção e numa Formação Social de um mO'do "puro" de produção se contente com a sua relação
apenas ao nível econômico das relações de produção, só entrando
Finalmente, uma última observação a propósito das classes so- em consideração a sua relação com os outros níveis de estruturas
ciais em relação a um dado modo de produção e relativo a uma no exame de uma formação social. Tanto assim que um modo de
formação social historicamente determinada: trata-se do problema produção "puro" consiste em uma articulação das diversas instân-
do "número" das classes sociais nas análises de Marx e Engels rela- cias, apresentando-se as diversas classes, no exame deste modo "pu-
tivas a uma formação social. Sabemos que as variações na enume- ro", como o efeito da sua matriz sobre os seus suportes: por exem-
ração das classes foram muitas vezes imputadas - por R. Aron, plo, no exame teórico do modo de produção feudal "puro", as
por exemplo 18 - ao fato de que Marx e Engels teriam implicita- classes deste modo apresentam-se já como "castas" econômico-polí-
mente admitido uma pluralidade de critérios de distinção das clas- ticas particulares.
ses, diferentes dos que dizem rigorosamente respeito às estruturas
das instâncias. 19 É evidente que tal interpretação é errônea uma Isto é também válido para o M.P.C. "puro", tal como é estu-
vez que nos reportemos à distinção entre modo de produção e for- dado em O Capital. Vamos agora recordar as observações feitas até
mação social. No exame teórico de um modo de produção "puro", aqui sobre este assunto. Dada a autonomia específica das instâncias,
do M. P. C. "puro", por exemplo, tal como se apresenta em O Ca- característica do M.P.C., as instâncias jurídico-política e ideológica
pital, pode ver-se que o seu efeito sob os suportes se refletem em não são analisadas aí no mesmo título que a instância econômica,
uma distinção entre duas classes: a dos capitalistas e a dos operá- que nele constitui o centro da pesquisa. A presença imanente destas
rios assalariados. Entretanto, uma formação social consiste em uma instâncias nas relações de produção capitalistas é, contudo, marcada:
1illl2erosição de vários modos de produção, um· dos quais detém~ o efeito da estrutura jurídico-política ou ideológica sobre os supor-
a el dominante: estamos aí, portanto, em presença de mais classes tes na sua distribuição em capitalistas e operários assalariados apa-
que no modõel'e produção "puro". Esta extensão do número de rece desenhado, de certo modo, indiretamente. Esta presença, con-
tudo, existe, bastando mencionar o exemplo mais patente - o das
18. Em particular, La luiie des classes, 1965, op, cito O mesmo para relações jurídicas formais de propriedade, condições de compra e da
Gurvitch: Le concept: des classes sociales, curso policopiado, 1962. venda da força de trabalho. Esta transação está estritamente de-
19. Este problema da multiplicidade dos critérios utilizados para a de- pendente da instância regional do modo de produção "puro" cons-
finição das classes merece atenção. Se por isso se entende que as classes tituída pelo sistema jurídico que, por sua vez, supõe a existência do
são definidas, não apenas pela sua relação com o econômico, mas também
na sua relação com o político e o ideológico, esta observação é exata. Não Estado. Vários textos de Marx e Engels são formais a este respei-
se trata, contudo, neste caso, de uma pluralidade qualquer de critérios to. 20 É, por outro lado, claro que, em O Capital, se encontram
- estes não são 6, 8 ou 14 - ; trata-se de um critério perfeitamente numerosas referências - fetichismo mercantil, fetichismo capitalista
definido, que é uma relação complexa com níveis de estruturas, níveis - à presença indireta do ideológico nas relações de produção (no
estes que são perfeitamente definidos. Enumerar, por exemplo, ao nível
ideológico, qualquer "pluralidade" de critérios (nível de instrução, cons- econômico) e ao seu efeito sobre as classes deste modo.
ciência de classe, atitude "racionalizante" ou não face ao trabalho, etc.)
_ refiro-me nomeadamente aos trabalhos bastante conhecidos de Bour- Desde logo, é errôneo pretender que, no M.P.C. - ou em qual-
dieu - constitui um erro na medida em que a relação global com o ideo- quer outro -, as meras relações de produção bastem para definir
lógico n~s suas diversas manifestações concretas, é estritamente defini-
da CO~10 relação com as estruturas da ideologia. Isto é também válido, 20. O economícísmo tentou esquivar-se a este problema considerando as
aliás, para o problema dos rendimentos relativamen~e às relaçõe~ .d~ pro- relações jurídicas formais de propriedade como relações "econômicas":
dução. Por isso, rejeitar a concepção de uma plurali'dade dos crítértos de isto é claramente nítido em Pashukanis, Allgemeine Rechtslehre und der
classe não significa reduzir as classes à sua definição puramente econô- Marxismus. Nem vale a pena observar que isto torna teoricamente impos-
mica, mas reter na sua distinção os efeitos pertinentes das estruturas, na sível a distinção capital entre apropriação real, propriedade econômica e
medida em que o marxismo nos dá a possibilidade de decifrar estas estru- propriedade jurídica formal no modo de produção "puro".
turas.
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as classes sociais: e isto, não apenas no sentido de que seria preciso desde já que é destas considerações que depende, por exemplo, a
referirmo-nos também às relações de repartição,--aos rendimentos - solução do problema capital dos grandes proprietários de terras de
o ue é exato mas ue continua a dizer res eito ao econômico -, renda agrária que o próprio Marx por vezes indicou abusivamente
mas também na medida em ue o modo de rodu ão ca italista " u- como classe pertencente ao M.P.C. "puro".22 Voltaremos a seguir
ro" localiza as relações de produção como estrutura re ional eço- a este ponto, o qual se revelará decisivo na problemática política
nômica), situando-as na sua relação com as outras estruturas regio- das classes sociais, a da sua existência ou não enquanto classes dis-
nais, sendo as classes deste modo de produção o efeito dessa matriz. tintas ou frações autônomas de outras classes, em suma, enquanto
A autonomia es ecífica das instâncias ró ria do M.P.C. não tem forças sociais de uma formação. A enunciação do problema era
pois, de modo algum, como efeito que as classes possam nele ser_ necessária para servir de introdução a uma leitura apropriada dos
definidas pelas meras relações de produção. A diferença entre as textos políticos de Marx, por nós citados, acerca das classes sociais.
classes feudais e as classes capitalistas - dos modos de produção
"puros" respectivos - não consiste em que estas últimas, contra-
riamente às classes do modo feudal, relevem apenas de uma definição IH. O Papel da Luta Política de Classes na sua Definição
exclusivamente econômica, mas em que os efeitos das outras ins-
tâncias sobre os suportes capitalistas se manifestam na sua relação Com efeito, estes textos de Marx contêm, a uma leitura ime-
específica com as relações de produção no interior deste modo. 21 diata, ambigüidades decorrentes da sua dupla organização teórica:
Vemos, assim, que, tanto na análise do modo de produção, como por um lado, dizem respeito a formações sociais; por outro, contudo,
na de uma formação social, as classes sociais apresentam-se como parece claro que constituem paralelamente um esforço em colocar
o efeito de uma articulação das estruturas, quer do modo de pro- a problemática das classes sociais em relação ao modo de produção
dução quer da formação social. Sucede, contudo, que, no exame "puro". .
das classes sociais no interior de uma formação social, se descobre Consideremos em primeiro lugar estes textos já citados do ponto
toda uma série de efeitos secundários, que são os efeitos sobre os de vista da posição do problema das classes no quadro do exame
suportes desta formação, da combinação concreta e sempre original de um modo de produção "puro": de qualquer maneira, a interpre-
dos diversos modos de produção que constituem esta formação. Seja, tação historicista destes textos como gênese de uma classe deve ser
por exemplo, o caso de uma formação social composta por um excluída. No entanto, continua a existir um ponto que surpreende:
certo número de classes: isto não quer dizer que estas classes se Marx, e isto é evidente, distingue a luta econômica - aparecendo
encontrem, como tais, na individualidade histórica desta formação. ela própria cindida em dois níveis - da luta política de classe, e
Os efeitos da combinação concreta das instâncias respectivas não parece admitir a existência das classes plenamente constituídas,
dos modos de produção, efeitos de combinação que estão presentes senão ao nível da luta política. No que diz respeito à luta econô-
nos efeitos das estruturas de uma formação social sobre os seus su- mica dos agentes da produção, entre capitalistas e operários, Marx
portes - nas classes sociais de uma formação -, originam toda nos diz que não se trata, neste caso, de luta de classes; no que diz
uma série de fenômenos (de fracionamento de classes, de dissolução respeito à luta econômica sindical, falará de "classe em si", pare-
de classes, de fusão de classes, em suma de sobredeterminação ou de cendo reservar o estatuto de classe para si, de classe "enquanto tal",
subdeterminação de classes, de aparecimento de categorias especí- unicamente à luta política.
ficas, etc.), que nem sempre podem ser localizados pelo exame dos O primeiro ponto, com respeito à luta econômica dos "indiví-
modos de produção puros que entram na combinação. Mencionemos duos" agentes da produção, pode ser facilmente explicado. É em
obras políticas anteriores a O Capital - nomeadamente a Miséria
21. De fato, toda uma série de pensadores que atríbui a Marx uma con- da Filosofia e o Manifesto - que Marx considera a sua luta como
cepção "econômica" das classes sociais, aceita que as classes do modo ca-
pitalista de produção se prestam efetivamente a uma definição exclusi-
não decorrendo de relações de classe. Trata-se pois de um período
vamente econômica, chegando portanto através de um duplo erro teórico em que Marx não tinha ainda elaborado inteiramente a sua proble-
a isto: admitem a validade da teoria marxista, assim concebida, das clas- mática original, e onde as seqüelas da antropologia econômica da
ses sociais apenas para as classes do modo capitalista de produção e rejei- sua juventude se faziam ainda sentir. Ora, sabemos com proprie-
tam-na para os outros, em que a definição exclusivamente econômica é
insuficiente de uma forma particularmente nítida (ver, entre outros, T.
Bottomore, Classes in Modern Societü, 1966, pág. 16 e segs., etc). 22. Sobre este assunto particular, ver adiante, p. 222 e segs.

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dade pelo Capital, em particular pelo Terceiro Livro, que as relações Mas uma segunda operação intervém aqui: Marx "isola" ao
entre os indivíduos - agentes da produção, as relações capitalista- mesmo tempo os níveis de luta de classe a fim de os examinar na
-operário assalariado tais como aparecem no primeiro livro, ou nas sua especificidade, na medida em que se trata do M.P.C., caracte-
obras políticas em questão, são desde logo relações de classe: os rizado por uma emancipação dos níveis de estruturas e dos níveis
agentes da produção são suportes de estruturas. de práticas de classe. O que não é somente lícito mas necessário,
No entanto, o problema torna-se mais difícil no que diz respeito com uma condição: que se tenha previamente delimitado a unidade
à distinção entre a luta econômica sindical e a luta política. A dis- do domínio no qual se fará tal recorte. Nas estruturas, por exemplo,
tinção que Marx estabelecia, em uma terminologia hegeliana e na qualquer análise teórica "isolada" da instância regional do econô-
Miséria da Filosofia de 1847, entre a "classe em si" e a "classe para mico ou do político supõe o conceito de modo de produção, que lhe
si", continua a ser um problema constante nas suas obras políticas. atribui um lugar. Neste sentido, o exame isolado da prática eco-
Por que razão ele parece constantemente admitir a existência de uma nômica, política, ideológica de classe pressupõe o conceito de classe
classe "enquanto tal" só no plano político, o que é claro nas suas como recobrindo a unidade destas práticas - "luta" de classes -,
análises políticas ulteriores sobre o proletariado, não existindo como em suma, do domínio das relações sociais. Ora, Marx faz aqui este
classe senão quando se encontra organizado em partido distinto, 23 recorte introduzindo-o, diretamente, de algum modo, no processo
e nas suas análises sobre os camponeses parcelares? É o que se de construção teórica do conceito de classe. Resultado: o que, em
torna necessário agora explicar. Marx, é. a expressão de uma impossibilidade de construção do con-
Se não perdermos de vista que estes textos políticos, que se ceito de classe unicamente ao nível das relações com as relações
estendem até 1881, constituem também uma reflexão sobre as clas- de produção, aparece ao mesmo tempo como um recorte no vazio,
ses em um modo de produção "puro", veremos que os div.ersos ní- uma luta econômica que não seria uma luta de classe. 24
veis de análise das relações sociais, dados por Marx como momen- É neste contexto que se deve situar a importância particular
tos de gênese histórica, devem aqui ser considerados como um pro- que Marx atribui à luta política de classe como nível particular
cesso teórico de construção do conceito de classe. Isto quer dizer das relações sociais, consistindo em luta econômica, política e ideo-
que se trata de delimitar a unidade teórica do domínio que será re- lógica de classe. Segundo uma tendência "sobrepolitizante" do
coberto pelo conceito de classe: este domínio é o dos efeitos da marxismo, ligada à problemática historicista que aqui se apresenta
unidade da estrutura sobre as relações sociais ou ainda, voltaremos como o contrapeso do economicismo, a classe social, enquanto
a isso, sobre as práticas sociais - lutas de classe. Assim, quando "ator-sujeito" da história, não existiria efetivamente senão ao nível
Marx parece dizer-nos que a existência de uma classe ao nível da político em que teria adquirido uma consciência de classe própria,
luta econômica é problemática, o que se deve ler é que o conceito etc.: Lukács, Korsch e o esquerdismo teórico da lU Internacional
de classe não pode ser constituído unicamente a partir da relação constituem a sua corrente representativa. O esquema típico desta
entre as relações sociais e as estruturas econômicas: o conceito de tendência é o seguinte: o nível econômico em geral consiste em
classe recobre a unidade das práticas de classe - "luta" de classe -, estruturas. Dado que as classes sociais, atores-sujeitos, estão au-
das relações sociais como efeitos da unidade dos níveis de estrutu- sentes, a análise teórica deste nível não requer, por conseguinte, o
ras. Em poucas palavras, o que em Marx é formulado como uma conceito de classe - tratar-se-ia das famosas "leis inconscientes"
problematicidade de existência histórica não é senão uma impos- da economia. Em compensação, a efetiva emergência das classes
sibilidade teórica. sociais teria lugar nos níveis político e ideológico, não podendo
estes níveis ser analisados em termos de estruturas, mas unicamente
23. Para só considerar um exemplo entre varros, citemos o primeiro em termos de luta de classes. O processo histórico consistiria, de
parágrafo do artigo 7 dos estatutos da primeira Internacional, redigidos algum modo, em estruturas econômicas "acionadas" por uma luta
por Marx em 1886: "Na sua luta contra o poder coletivo das classes pos- político-ideológica das classes. Trata-se precisamente da concepção
suidoras, o proletariado não pode agir corno classe senão constituindo-se
em partido político distinto ...", ass.m como esta passagem de uma carta que Leninatacou, indicando que ela atribui à política o papel de
a Bolte, de 29 de novembro de 1871: "Por outro lado, todo o movimento "sacudir de cima" o econômico. 25 Esta confusão das estruturas e
pelo qual a classe operária se opõe, enquanto claese, (é Marx que subli-
nha) às classes dominantes, é um movimento político". É aliás neste con-
texto que se pode elucidar a ambigü.dade da fórmula constante de Marx, 24. Voltarei às implicações destas fórmulas de Marx enquanto dizendo
respeito às formações sociais, e a uma definição mais precisa das prá-
segundo a qual toda a luta de classe - das classes enquanto tais - é
ticas de classe e da "luta" de classes.
uma luta política.
25. A nOUV6au les syndicats ...
72 73
das relações sociais, isto é, da luta de classes, teve conseqüências por outras palavras, como decifrar. os. efeitos da combina~ão con-
que ainda se fazem sentir. De fato, do mesmo modo que existe creta dos modos de produção, constitutivos de uma formaçao, sobre
uma luta econômica ou uma ação econômica de classe - relações os suportes desta formação? Porque a complexidade destes efeitos
sociais econômicas -, também existem estruturas políticas e ideo- não permite concluir imediatamente, da presença das clas~e~ no
lógicas. Que Marx tenha insistido na luta política de classe, isso exame "puro", a sua existência concreta enquanto. classes distintas
A

de maneira nenhuma indica que as classes emerjam historicamente em uma determinada conjuntura. O fenomeno capital, deste ponto
a nível político, em um processo de essência a existência e para de vista, é que certas classes distintas, concebíveis na ar:álise dos
"acionar" as estruturas econômicas: deste ponto de vista, as suas modos de produção "puros" que compõem. uma form?çao,. apre-
fórmulas de "classe em si" e de "classe para si" de 1847 não pas- sentam-se freqüentem ente na formaçã~ SOCIal c?mo dlssolvl~as e
sam de uma reminiscência hegeliana. Não só, estritamente, nada fundidas com outras classes, como fraçoes - autonomas ou nao
explicam, como induziram em erro, durante anos, os teóricos mar- de outras classes ou mesmo como categorias sociais específicas. 26
xistas das classes sociais. A dominância de' um modo de produção sobre os outros, no interior
Em particular, elas têm assumido o papel de parapeito do es- de uma formação social, tem freqüente~ente c?mo efeito uma sub-
quema historicista, permitindo a concepção de uma estrutura eco- -determinação das classes dos modos nao-domm~ntes: C~n.hecemos
nômica "acionada" pela luta político-ideológica das classes, estru- a enunciação deste problema segundo a perspectiva ~~tor:clsta, q.ue,
tura no interior da qual as classes estariam apesar de tudo inseridas aliás, e com todo o rigor, não pode operar uma distinção teor~ca
sob o aspecto misterioso da "classe em si". De fato, o papel que entre modo de produção e formação social: uma classe não eXls~e
Marx atribui à luta política de classe nas relações sociais é análogo enquanto tal, enquanto classe distinta e autônoma, senão a par~lf
ao atribuído ao Estado nas estruturas, e reporta-se ao próprio esta- do momento em que possui uma ."c?nsciência de. ,classe" própna,
tuto do "político". Na medida em que a superestrutura política é em que se organiza em partido dlstmto, .etc. Aliás, .os textos de
o nível sobredeterminante dos níveis da estrutura, concentrando as Marx se os considerarmos como textos dizendo respeito a forma-
suas contradições e refletindo a sua relação, a luta política de classe ções 'sociais determinadas, apresentam freqüentemente a existência
é o nível sobredeterminante do domínio das lutas de classe - das de uma classe, enquanto classe distinta em uma formação, como
relações sociais -, concentrando as suas contradições e refletindo estando ligada à sua organização política "própria". 27 De fato,
as relações dos outros níveis de luta de classe. E isto na medida. o problema específico, que os text?s p~líticos de .MAarx.'concernen-
em que a superestrutura política do Estado tem como função ser tes a uma formação social, enunciam e o da existência nesta for-
o fator de coesão de uma formação, em que a luta política de mação de uma classe distinta. Contudo, a resposta dada por vezes
classe tem como objetivo esse Estado. :É neste contexto que se a este problema se ressente das ambigüidades acima assinaladas, e
pode situar exatamente o sentido da fórmula "a luta política de que dizem respeito à construção teóric? do concei;o de ~lasse. :\pa-
classe é o motor da história". Portanto, as fórmulas de Marx que recendo a classe como existindo efetivamente so a nível pohb~O,
parecem só admitir a existência efetiva das classes ao nível da luta uma classe em uma formação social parece existir, como classe dIS-
política, reportam-se, para além das razões assinaladas, ao caráter tinta, logo que se organize politicamente em partido "distinto", etc.
particular deste nível nas suas relações com a superestrutura deste De fato, o problema real que desta vez Marx coloca a prop~-
nível nas suas relações com a superestrutura política. A luta po- silo de uma formação social é que uma classe não pode ser const-
lítica de classes é o ponto nodal do processo de transformação,
processo este que nada tem a ver com um processo historicista 26. De fato, o problema das "frações" de classe é mais complicado, .mas
diacrônico - "agido" por um autor, a classe-sujeito. apenas considero aqui o caso de certas classes que se t~rnam! em VIrtu-
de da combinação, frações de ouirae classes. Na formação soc,~l. pode-se,
além disso descobrir como efeitos próprios das eetruturoe pohtwas con-
IV. As Classes Distintas e as Frações Autônomas de Classe cretas dessa formação, o aparecimento de frações no seio de unta me~a
classe: darei exemplos de Marx no capítulo sobre o bloco no poder. Aliás,
o fracionamento de uma classe pode estar já presente no modo "pur?" de
Ora, o problema importante que aqui se coloca é o de deter: produção, e no nível econôn~lÍcodesse modo: por exemplo, a burguesia co-
mercial industrial, financeira.
minar o modo de presença das classes no interior de uma formação
27. Par-ticularmente, os seus textos que tratam da organização da classe
social. Como determinar as classes em uma formação social, ou,· operária em partido autônomo.

74 7S
derad~ como classe distinta e autônoma - como força social 28 _
no sela :!e uma [armação social senão quando a sua relação com eles. .. qualquer organização política". No entanto, bastará refe-
as relaçoes de produção, a sua existência econômica, se reflete so- rirmo-nos ao conjunto do 18 Brumário e de Lutas de classes na
bre os outros níveis por uma presença específica. Isto é aliás a França para ver que Marx admite expressamente, e por várias vezes,
conseqüência do fato de que uma classe social já indica 'no modo na conjuntura concreta do bonapartismo, a existência dos campo-
de produção "puro", o efeito do conjunto das estruturas sobre os neses parcelares enquanto classe distinta, embora não possuam, no
su~ortes. Co~ efeito, rigorosamente falando, não se poderia con- Segundo Império, nem organização política "própria", nem ideologia
cluir a necessidade de se referir, a propósito das classes em uma "própria". Eles constituem, precisamente, uma classe distinta, na
formação social, ao político e ao ideológico, se tal não fosse o caso medida em que o seu lugar no processo de produção se reflete, nesta
r:o modo de produ.ção _"puro:': É esta presença que Marx aqui con- conjuntura concreta, e ao nível das estruturas políticas, pelo fenô-
sidera como orgarnzaçao política de uma classe em partido distinto. meno histórico do bonapartismo, que não teria existido sem os cam-
poneses parcelares. Louis Bonaparte considera-se o representante
. Qra, como delimitar esta presença aos níveis político e ideoló- dos camponeses parcelares embora seja, na realidade, o "represen-
co a ual constitui a distin ão entre as classes - e também o tante" dos interesses da burguesia. Não é menos evidente que a
caráter de. f?rmação. ~u~ônoma de uma classe em uma formação? existência econômica dos camponeses parcelares se reflete, a nível
Como defIllIr um cnteno que nos possa levar a decifrar a existência político, por. "efeitos pertinentes" que são a forma particular de Es-
de uma classe, ou de uma fração, enquanto força social em uma tado do bonapartismo como fenômeno histórico. Trata-se aqui de
f~rmação d~terminada, cri~ério que não Rode em caso algum é um novo elemento, facilmente perceptível, que é a forma particular
patente a9Ul . ser exclUSIvamente forneCIdo pelo nível econômico? de Estado do Segundo Império, e que não pode inserir-se no quadro
Poder-se-a dIzer que esta presença existe sempre que a relação do Estado parlamentar que a precedia. Neste sentido, é o bonapar-
com as relações de produção, o lugar no processo de produção, se tismo que, paradoxalmente, constitui os camponeses parcelares en-
reflete sobre os outros níveis por efeitos pertinentes. Estes "efeitos quanto classe distinta, enquanto força social nesta formação.
~ertinen~es" , ~dem, aliás, ser referenciados tanto nas estruturas polí- Tomemos agora o caso hipotético em que a existência econô-
tIcas e IdeologI~as como nas relações sociais políticas e ideológicas mica dos camponeses parcelares não se refletiria através do bona-
de cl~sse. DesIgnar-se-á por "efeitos pertinentes" o fato de que a partismo: o seu lugar particular no processo de produção ter-se-ia
~·efle~ao. do lugar no processo de produção sobre os outros níveis seguramente manifestado, de qualquer modo, por uma certa pre-
c,O~StItUl um elemlfnt<;> novo, que não pode ser inserido no quadro sença ao nível político, ainda que pelo simples fato de que a orga-
tJpICO que estes lllveIS apresentariam sem este elemento. Este ele- nização política das outras classes, assim como as instituições do
mento transforma assim os limites dos níveis (.de estruturas ou de Estado teriam de levar em conta a existência dos camponeses par-
lut~ de cl~sse nos qu~is e!e se reflete at:avés de "efeitos pertinen- celares - por exemplo, no caso do sufrágio.29 No entanto, neste
tes , e nao ode ser msendo em uma SIm les varia ão desses li. caso, esta presença não teria constituído um elemento novo, não
nutes. teria tido "efeitos pertinentes", mas ter-se-ia unicamente inserido,
como variação, nos limites circunscritos pelos efeitos pertinentes de
Vou tomar um exemplo, e um dos mais complexos, o dos cam- outros elementos, por exemplo, no quadro da democracia constitu-
poneses parcelares do 18 Brumário. Na conjuntura concreta exami- cional. É claro que, neste caso, os camponeses parcelares não cons-
~ada por Marx, constituem ou não uma classe social distinta? Ve- tituem uma classe distinta. Com efeito, unicamente a nível econô-
jamos o que ~arx diz: "Na medida em que ... milhões de famílias mico, pela subdeterminação específica na formação social francesa
camponesas vIV:m em condições econômicas que as separam uma do modo de produção patriarcal, o processo de proletarização dos
das outras e opoem o seu gênero de vida, os seus interesses e a sua camponeses parcelares já encontrava-se muito avançado, e Marx in-
cu~úra aos das outras classes da sociedade, elas constituem uma siste neste ponto: 30 o que no entanto os faz funcionar concreta-
classe. Mas n?o constituem uma classe na medida em que. .. a se-
melhança de interesses dos camponeses parcelares não cria entre 29. Vê-se aqui que a ausência de "efeitos pertinentes" a nível polít.co
não significa uma ausência de prática política: o sufrágio é, por exem-
28. Ali~, ist~ tamb~m é válido para a existência de uma fração de clas- plo, uma prática política para o que o exerce.
se como fraçao autonoma", como "força social". 30. Le 18 Brumaire ... , ed, Pauvert, p. 393 e segs, Aliás, este funciona-
mento dos camponeses parcelares na França como força social diz res-
76 peito também às estruturas do ideológico: Marx mostra-nos como Louis
77
mente como classe distinta, como força social, é o fenômeno histó- seguida em classe distinta da nobreza feudal, embora lhe faltem
rico do bonapartismo. Em contrapartida, os pequenos camponeses simultaneamente organização política e ideológica "próprias": as
da Alemanha - os camponeses parcelares libertos da corvéia, os suas análises são orientadas na perspectiva que acabo de expor. 32
rendeiros feudais, e os operários agrícolas -, não funcionaram co- Este processo cumpre-se através da sua "representação" pelos Whigs,
mo força social, como classe distinta precisamente em virtude da que são de fato o partido de uma formação dos proprietários de
superestrutura do Estado e do bismarckismo. O problema é visível terras.
em Engels, que tem tendência a explicar o bonapartismo na França
pelo "equilíbrio" não entre a nobreza fundiária e a burguesia _ E claro que a caracterização dos "efeitos pertinentes" e da
Estado absolutista -, mas entre estas duas classes, de um lado, e sua novidade em relação à tipicidade dos níveis depende sempre
a classe operária, de outro. Insistirei na insuficiência desta noção da conjuntura concreta de uma situação histórica concreta. Só atra-
de equilíbrio para situar o bonapartismo nas relações burguesia- vés do seu estudo se poderá circunscrever as relações dos limites
-proletariado, mas poder-se-á notar que, além disso, Engels tem e das variações, e assim caracterizar os "efeitos pertinentes". Esta
tendência, ao contrário de Marx, a subestimar o papel. dos campo- pertinência pode refletir-se tanto em modificações importantes das
neses. Neste sentido, fala-nos do fenômeno bonapartista prussiano estruturas políticas e ideológicas como em modificações do campo da
(Bismarck), tentando distingui-Io do Segundo Império. O que aqui luta política e ideológica de classe. Ela pode manifestar-se por uma
nos interessa é que os pequenos camponeses da Alemanha, sofrendo importante modificação das relações de "representação" de classe, re-
a nível econômico a dominação do M. P . C. sobre o modo patriar- fletindo-se a existência econômica de uma classe através de mudan-
cal e feudal, não funcionam no bismarckismo enquanto força social ças importantes de estrutura ou de estratégia do partido de uma
- ao contrário do bonapartismo -, em virtude das estruturas feu- outra classe, de tal modo que este possa também apresentar-se co>-
dais do Estado, defasada em relação ao econômico. 31 mo representante da primeira, no caso em que este partido tem um
Aliás, o caso dos camponeses parcelares não é senão um exem- papel importante na luta política de classes - caso mencionado
plo entre os numerosos que Marx nos dá. Menciono aqui somente dos whigs -; ou ainda através de um deslocamento da contradição
as suas análises com respeito ao período de transição do feudalismo no quadro da luta política das outras classes, etc. O que importa
para o capitalismo na Grã-Bretanha. O objeto central das análises ver bem é que a existência de uma classe em uma formação supõe
políticas de Marx sobre este período é o de determinar a partir de a sua presença a nível político por "efeitos pertinentes", que, no
quando, dadas as particularidades desta transição na Grã-Bretanha, entanto, não têm necessidade de se desenvolver até a organização
a classe burguesa se constitui, primeiro em fração autônoma, e em política "própria", estritamente falando, ou à constituição de uma
Ldeologia "própria" desta classe. Çom efeito, a dominação, em uma
Bonaparte é levado a considerar-se como "representante" dos campone- formação social, das classes do modo de produção dominante, por
ses parcelares, fenômeno que, sem dúvida, remonta a essa ideologia políti-
ca profundamente ambígua que foi o jacobimismo francês (ver, neste sen- um lado, e a relação entre as estruturas políticas e ideológicas de
tido E. Hobsbawn, The Age 01 Revolution, 1789-1848, 1962, p. 109 e segs., uma formação e a classe ou as classes dominantes do modo de
149 e segs.), produção dominante, por outro, explicam a subdeterminação fre-
31. Ver o problema em Engels: A questão do alojamento, 1872, 2a parte, qüente das outras classes. 33 Estas estruturas, exercendo os seus
2.a seção, e no prefácio de 1874 da Guerra dos camponeses, Ed. Sociales,
pp. 15-23, em particular p. 20 (o bonapartismo de Bismarck). A análise
efeitos sobre o conjunto do campo da luta de classes, impede fre-
dos camponeses é mais profunda em Revolução e contra-revolução na Ale- qüentemente a organização política e ideoló .ca inde endente das
manha (lbid., pp. 203-211); Engels distingue os camponeses parcelares, classes dos modos de produção não dominantes, e têm recisamente
os operários agrícolas e os rendeiros feudais. Notemos que o fato de
grande parte dos camponeses alemães serem, do ponto de vista econômico, como conseqüência a sua polarização em torno das classes do modo
rendeiros feudais, não implica o não funcionamento destas três classes de de produção dominante. Os "efeitos ertinentes" ermitem contudo
camponeses enquanto classes distintas no bismarckismo: os rendeiros feu- ,localizar de forma precisa o limiar a artir do ual uma claisse
dais teriam podido funcionar com os camponeses parcelares e os operá-
rios agrícolas como força social precisamente para a abolição dos privi- subdeterminada existe isto é, funciona, em uma formação, como
légios feudais: mas contudo havia o Estado e Bismarck. ..
32. Cf. o meu artigo: "A teoria política marxista na Grã-Bretanha", em 33. No meu artigo assinalado, fiz a crítica ao emprego por P. Anderson,
Lee Temps Modernes, março 1966, e as minhas referências detalhadas às para designar o problema da subdeterminação de classe, do conceito de
análises de Marx. "totalidade destotalizada" de Sartre.
r-

78 79
classe distinta, como força social - o caso é análo o ara as fra~ enquanto "efeitos pertinentes", do nível da luta política. Isto po~
cões autônomas de uma classe. derá simplesmente significar que, na organização complexa de uma
Conhecemos as grandes linhas deste processo de sobredetermi- classe, é, neste caso, o econômico que assume, além da determina-
nação, pelas classes do modo de produção dominante, das classes ção em última instância, o papel dominante.
dos modos de produção dominados em uma formação social. Este Assim, por exemplo, Lenin, em Que [azerr, quando distingue
processo depende das formas concretas desta dominância: transfor- claramente a luta econômica e a luta política, descrevendo -, e
mação da nobreza feudal em fração da burguesia - capitalização criticando-o - o estágio "trade-unionista" da classe operária
da renda fundiária -, dos pequeno-burgueses - camponeses, arte- distinto do estágio político partido distinto, etc. -, não
sãos - em frações, quer da burguesia - pequenos capitalistas - entende por isso a ausência da classe operária da luta política
quer da classe operária, camponeses parcelares em operários assa- c a sua limitação à mera luta econômica: considera claramen-
lariados; enfim, de toda a gama de decomposição das classes sub- te que neste caso, é a luta econômica que detém, no campo
determinadas e da resistência a esta decomposição, que comanda dos níveis de luta e de organização de classe, o papel dominan-
precisamente a existência ou não de uma classe ou fração enquanto te. Esta dominância da luta eoonômica reflete-se aqui, não por
força social, enquanto classe distinta ou fração autônoma, 34 uma ausência de "efeitos pertinentes" ao nível da luta política, mas
Estas observações têm a sua importância no plano político. por uma certa forma de luta política, que Lenin critica consideran-
Com efeito, o caráter de um grupo social como classe distinta ou do-a ineficaz. A importância do problema é assinalada em uma
fração autônoma tem conseqüências muito importantes no que iz nota: "O "trade-unionismo" de maneira nenhuma exclui toda a "po-
respeito, por um lado, ao papel desta classe enquanto força social lítica", como por vezes se pensa. As trade-unions alimentaram
na conjuntura, por outro, ao seu papel na "ação declarada" das sempre uma certa agitação e uma certa luta política (mas não so-
forças sociais, e que não se identifica com a prática política das cial-democrata). No capítulo seguinte, exporemos a diferença en-
classes. Por outras palavras, a presença de uma classe através de tre a política "trade-unionista" e a política social-democrata". 35
"efeitos pertinentes" ao nível da luta política tem conseqüências no Isto aplica-se, aliás, mutatis mutandis, à luta ideológica de classe.
modo da sua representação na "cena política", nas modalidades da Vemos começar a aparecer aqui a distinção entre a organização de
sua "ação declarada", na constituição das alianças, etc, uma classe como condição da sua presença através de efeitos perti-
Além disso, teremos, dentro de instantes, de aprofundar a dis- nentes ao nível político, como condição, pois, da sua existência en-
tinção entre luta econômica e luta política de classe, entre os níveis quanto classe distinta, e a sua organização específica como condição
econômico e político na organização de uma classe. Ora, quando do seu poder político de classe, distinção que fundamenta a teona
falarmos de uma dominância do nível de organização econômica leninista da organização.
de uma classe, distinguindo-o do nível da sua organização propria-
mente política, isso não quer dizer que essa classe esteja 'ausente, V. Frações - Categorias - Camadas

34. Este problema foi sistematicamente tratadopor Lenin em O desen- Vou retomar finalmente, após esta análise, uma questão de ter-
volvi?nento do capitalismo na Rúseia. A propósito da enunciação do pro- minologia que pode agora ser esclarecida e diz respeito aos termos
blema das classes nesta obra capital, é necassário notar que Lenin, já no
prefácio da primeira edição, sublinha que foi obrigado a limitar-se "só
categoria, fração, camada, que designam partes de classe.
ao aspecto econômico dos processos". A relação entre este aspecto econô- a) Por categorias sociais, poderemos entender, particularmen-
mico e o aspecto político é, entretanto, assinalado no prefácio à segunda te, conjuntos sociais com "efeitos pertinentes" - que podem tor-
edição, embora sob o termo de "confirmação": "a análise do regime econô- nar-se, como Lenin mostrou, forças sociais - cujo traço distintivo
mico e social e, portanto, a da estrutura de classe da Rússia que apresen-
tamos nesta obra, baseando-nos em pesquisas econômicas e em um exame repousa na sua relação específica e sobredeterminante com outras
crítico das informações estatísticas, encontra-se atualmente confirmada estruturas além das econômicas: é nomeadamente o caso da buro-
no curso da Revolução pela ação política direta de todas as classes". No cracia, nas suas relações com o Estado, e dos "intelectuais", nas
entanto, se se referir o conjunto das análises de Lenin sobre as classes
sociais, poder-se-á ver de fato que a ação aberta e direta não constitui a
suas relações com o ideológico. Será necessário voltar às relações
confirmação, ao nível político, da existência econômica das classes: a ação
direta, aberta ou declarada é, segundo Lenin, o reflexo na conjuntu?'a de 35. Oeu'lwes choieies, em três volumes, Moscou, t. I, p. 159. Ver também
uma força social. adiante, p. 97 e segs.

80 81
'destas categorias com as classes ou frações de classes às quais per- modos de produção, certas franjas-limites das classes, categorias e
tencem. frações que podem, sem serem forças sociais, influir na prática polí-
b) Designamos por frações autônomas de classe as que cons- tica daquelas. :E: por exemplo o caso da "aristocracia operária" que
tituem o substrato de eventuais forças sociais, por frações, os con- Lenin designa em O Imperialismo ... como camada social: ela não
juntos sociais suscetíveis de se tomarem frações autônomas: e isto pode, em virtude do seu caráter de franja intermediária, constituir
segundo o critério dos "efeitos pertinentes". uma força social, mas influir na prática política da classe operária,
c) Poderemos reservar o termo camadas sociais para indicar funcionando politicamente como "agente" operário da burguesia.
os efeitos secundários da combinação dos modos de produção, em
uma formação social, nas classes - é o caso da "aristocracia ope- VI. Estruturas e Práticas de Classe: a Luta de Classes
I rária" de Lenin -, nas categorias - por exemplo, as "cúpulas" da
burocracia e da administração de que fala Lenin - e nas frações. As análises anteriores estabeleceram a' distinção e a relação
Facilmente se admitirá que a teoria marxista empregou em geral entre dois sistemas de relações, o das estruturas e o das relações
sociais: o conceito de classe recobre a produção das relações sociais
indistinttamente os termos de categoria, camada e fração: é impor-
tante no entanto assentar na terminologia. b-. propósito da distinção como efeito das estruturas. Possuímos neste momento os elementos
necessários para avançar as duas proposições seguintes:
entre cat gQrias e fraç.õ.es- particularmente as frações autônomas -,
é ne~essário notar qu~ ambãS são suscetív~s de ....fQ~t~ for<a§. l.a) Esta distinção recobre a das estruturas e das práticas, isto
SOCIaIS.O roblema nao ~presenta_ dificuld.ades lillI-a aLfrações re-, é, das práticas de classe;
erencIáveis ~9 !1ível i!as relações de produção - por exemplo, f0:
çoes comercial, industrial~fi'nariêeiiã da burguesia: e o ue ás dis- 2.a) As relações sociais consistem em práticas de classe, en-
fingue, nestecaSõ-dãSCãtegoiíãs, referenciáveis ao nível de ~; ç,ontrando-se as classes sociais aí situadas em oposições: as classes
~ru~ras alél!!.1.a:::eSQ!.!.Ôtillca:-
·T.9,_91~-se,
,no entanto, mais compl~ sociais não odem ser concebidas senão como ráticas de classe,
no caso-de certas frações de que Marx fala e gue sao r"éi"erenciáveis existindo estas ráticas em o osições na sua unidade, consti-
só ao mverpolíflco, 36~ O que as ãistiÕgÜe,~neste caso, das catego- tuem o campo da luta de classes.
íiãs, é precisãiiíênte a relação sobredeterminante das categorias com Não posso, nos limites deste ensaio, fornecer senão algumas
estruturas políticas e ideológicas de que constituem o efeito especí-: indicações. A primeira proposição resume as análises precedentes
fico: no que respeita por exemplo ao político, trata-se de relação colocando um problema novo. As classes sociais não abrangem as
entre a burocracia e o aparelho de Estado no sentido estrito do instâncias estruturais mas as relações sociais: estas relações sociais
termo. consistem em práticas de classe, o que guer dizer gue as classes
I A pro ósito da distinção entre camadas' e frações, ela é sobre- sociais não são concebíveis senão em termos de práticas de classe.
tudo ertinente no ue conceme ao seu reflexo a mvel POlítICO: as Por conseguinte, vou insistir, no que se segue, sobre a nova forma
frãções a medida em ue se tomam autônomas, sã;Suscetíveis, âo- que reveste a distinção dos domínios assinalados, e que aqui se
contrário das camadas, de se constituírem em fõrças sociais. Isto dé torna uma distinção entre estruturas e práticas.
II riíâiieira nenhuma signiliêa quea-distinção frações-camadas recubra A segunda proposição indica que as classes sociais não são
~ exatamente a dos efeitos respectivos do econômico e do político-
colocadas senão na sua oposição: as práticas de classe não são
1\ -ideológico. Poderemos efetivamente decifrar, de um lado, frações
analisáveis senão como práticas conflitantes no campo da "luta" de
\ dependentes contudo só do político, de outro, simples camadas no
classe, composto por relações de oposição, relações de contradição
entanto já perceptíveis no econômico - é o caso da aristocracia
no sentido mais simples do termo. A relação conflitante, a todos
operária. Além disso, conviria não pensar que a localização de ca-
os níveis, das práticas das diversas classes, a "luta" de classes, a
i\ madas - distintas das frações - implica um hiper-empirismo aca- existência mesmo das próprias classes, são o efeito das relações
1,1' dêmico "estratificado". Ela é importante, na medida em que de- entre as estruturas, a forma que as contradições entre as estruturas
j signa como produtos dos efeitos secundários da combinação dos
revestem nas relações sociais: elas definem, a todos OS níveis, rela-
36. É o caso da "fração burguesa republicana" da Assembléia Nacional
ç es fundamentais de denominação e de subordinação das classes -
Constituinte na França (18 Brumário, p. 233 e seg.). das práticas de classe - que. existem como contradições particula-

82 83
designado, e onde entretanto se faz sentir a ambigüidade desta con-
res. 37 Trata-se, por exemplo, da contradição entre as práticas que fusão. Em primeiro lugar, Balibar enuncia o problema enquanto
visam à realização do lucro e as que visam ao aumento dos salários duas formas de articulação dos diversos níveis, sem no entanto dis-
_ luta econômica -, entre as que visam a manutenção das rela- tinguir que se trata, de fato, de articulações recobrindo dois domí-
ções sociais existentes e as que visam a sua transformação - luta nios diferentes. Ele nos diz, a propósito da articulação dos diversos
política - etc. Da mesma maneira que o tratamento científico das níveis da estrutura social: "Já encontramos anteriormente esta ar-
contradições nas relações da estrutura requer conceitos apropriados, ticulação sob duas formas: por um lado, na determinação da "últi-
o das relações conflitantes das práticas das diversas classes, do cam- ma instância" determinante da estrutura social, que depende da
po da "luta" de classes, reclama, quer se trate das relações sociais combinação própria do modo de produção considerado; por outro
econômicas - luta econômica -, das relações sociais políticas - lado. .. como a determinação dos limites nos quais o efeito de
luta política -, ou das relações sociais ideológicas - luta ideoló- uma prática pode modificar uma outra da qual é relativamente au-
gica -, conceitos próprios - isto é, não importáveis para o exame tônoma. .. A forma particular da correspondência depende da es-
das estruturas -, nomeadamente os de "interesses" (te classe e de trutura das duas práticas". De fato estas duas formas de articulação
"poder". Não entrarei aqui no problema, mas tentarei abordar de encontram-se ao mesmo tempo nas estruturas e práticas. Elas não
mais perto a distinção e a relação entre as estruturas e as práticas. se reportam de maneira nenhuma à uma confusão das duas, pare-
Esta distinção, operada na problemática historicista, conduziu cendo as estruturas e as práticas corresponder, de algum modo a
a uma importante confusão: ela consiste em ver nas estruturas uma simples formas diferentes de articulação na mesma série de rela-
"práxis fossilizada", estando as estruturas no fim de contas locali- ções. Vejamos as conseqüências na seqüência do texto de Balibar:
zadas em relação ao grau de permanência da prática que a origina. "Podemos generalizar este tipo de relações entre duas instâncias re-
Sabemos que Althusser criticou esta concepção, mostrando a rela- lativamente autônomas que se encontra por exemplo na relação
ção entre uma instância estrutural e uma prática específica: e isto entre a prática econômica e a prática política, sob as formas da
pensando a prática como uma produção - trabalho de transfor- luta de classes, do direito e do Estado. .. Também aqui, a corres-
mação. Ora, é importante ver que, neste sentido, uma instância pondência é analisada como o modo de intervenção de uma prática
estrutural nem por isso constitui diretamente uma prática: trata-se nos limites determinados por urna outra. O mesmo acontece com
de dois sistemas - ou séries de relações reguladas - particulares, a intervenção da "luta de classes" nos limites determinados pela
possuindo as suas estruturas próprias, mas cuja relação é entre es- estrutura econômica. .. Assim como com a intervenção do direito
truturas e práticas estruturadas relativas a estas estruturas. Repitâ- e do Estado na prática econômica. .. Não encontramos pois tam-
mo-lo, as rela ões de rodução não são a luta econômica de classe pouco neste caso uma relação de transposição, de tradução ou de
_ estas rela ões não são classes - assim como a superestrutura expressão simples entre as diversas instâncias da estrutura social.
jurídico- olítica do Estado ou as estruturas ideológicas nao saoa A sua "correspondência" não pode ser pensada senão na base da
luta olítica ou a luta ideológica de classes -=o aarelho de ES-" sua autonomia relativa, da sua estrutura própria, como o sistema
tado ou a ling1!agem ideológica não são classes com~ taml'ém não das intervenções deste tipo de prática em uma outra (não faço aqui,
são as relações <k. rodução. E parece-me muito importante insistir evidentemente, mais do que designar o lugar de um problema teóri-
neste ponto, visto que nem sempre é muito claro. Uma redução das co, e não produzir um conhecimento)".
estruturas às práticas pode conduzir a conseqüências importantes:
As conseqüências que resultam da não-distinção das estruturas
não conseguir situar corretamente as relações entre os diversos ní-
e das práticas são, aqui, claras: em primeiro lugar, identificação,
veis de estruturas e os diversos níveis de práticas, e, por conse-
ao nível político, da superestrutura jurídico-política do Estado - o
guinte, as relações entre os dois sistemas de relações que são, de
Estado, o direito - e da prática política de classe. O modo de
um lado, as estruturas e, do outro, as práticas de classe.
intervenção do Estado e do direito - estruturas - na estrutura
Vou considerar um texto, característico a este respeito, de E.
econômica é pensado como intervenção da prática política - luta
Balibar em Lire le Capital 38 onde o problema é ao mesmo tempo
política de classe - na prática econômica - luta econômica de
37. Sobre as contradições das classes, Mao Tse-Tung. Da contradição, e
classe. Esta redução parece aqui ser operada através de um expe-
Da justa solução das contradições no seio do povo. diente, o termo "intervenção", que, em sentido metafórico, recebe
38. T. lI, p. 319 e segs.
85
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o nome de "prática". A prática, sob o termo de intervenção, seria práticas de classes na medida em ue as .Rráticas de classes consti-
uma forma de articulação das estruturas. tuem igualmente um sistema estruturado, refletindo as relações das
Em segundo lugar, e isto é ainda mais grave, o econômico é instâncias sobre os su ortes. 40 O que, pois, importa ver aqui é que
considerado como estrutura sobre a qual teria "agido" a luta de se trata de dois sistemas de relações.
classes, instalada unicamente nos níveis político e ideológico: "O As relações entre estas duas séries de relações são, também elas,
mesmo acontece com a intervenção da "luta de classes" nos limites relações de defasagem caracterizadas por uma não-correspondência
determinados pela estrutura econômica ... ". A confusão estrutu- unívoca, termo a termo, dos níveis respectivos destes sistemas. To-
ras-práticas parece aqui justificar em extremo o velho equívoco, que memos o caso das análises de Marx com respeito à Grã-Bretanha
consiste em ver as classes sociais, e a luta das classes, emergir aos após 1860. Nas rela ões entre os níveis de estruturas, constata-se
níveis do político e do ideológico para "acionar" as leis inconscien- uma-º.efas-ªgem entre o econômico, o político e o ideológico: mes-
tes da economia. O político e o ideológico são a luta de classes, a mJLquando ~P. C.. eStireni vias de alcançar a dõminação, o Es-
prática - evanescência da estrutura jurídico-política do Estado e tado e a ideologia a resentam ainda estruturas feudais dominan-
do ideológico -; o econômico é a estrutura - evanescência da tei. 41 Consideremos, por outro lado, os níveis de luta da classe
luta econômica de classe. burguesa deixando aqui de lado as suas próprias defasagens, a fim
Se acentuo esta ambigüidade, é em virtude das suas conse- de ver as suas defasagens com os níveis da estrutura. Constata-
qüências: na sua segunda conseqüência assinalada, conduziria, no mos que, no mesmo período, a organização política, a luta política
limite, a uma impossibilidade de pensar o conceito leninista de da classe burguesa aumenta bastante, não sendo a classe da nobreza
conjuntura. 39 Vou contudo ocupar-me neste momento do primeiro fundiária, a qual é a "detentora" do Estado feudal, na realidade,
ponto, portanto das articulações dos níveis nas estruturas e nas senão o "representante" dos interesses políticos da burguesia.w Ve-
práticas de classe. No que concerne à articulação da superestru-
tura jurídico-política do Estado, ou da estrutura ideológica com a 40. Uma nota, aqui, a fim de afastar qualquer risco de confusão. Dizer
que as práticas recobrem os suportes não significa de maneira nenhuma
estrutura econômica; enfim, à intervenção de um nível das estrutu- regressar a uma problemática do sujeito, "homens concretos" ou classes
ras nos limites fixados por um outro, ela não pode de maneira ne- sociais - sujeitos das práticas. A pergunta quem pratica, quem luta,
nhuma ser considerada como uma intervenção da prática política quem trabalha poder-se-á responder que são os suportes distribuídos
ou ideológica na prática econômica. A relação, por exemplo, do em classes sociais, sem para tanto nos reportarmos a um sujeito. Por
outras palavras, se não podendo reportar as práticas a um sujeito ori-
contrato - do direito - e da troca é uma relação de estruturas. ginário, não é porque sejam as estruturas que praticam - a luta econô-
O mesmo acontece no que diz respeito à intervenção do Estado no mica não é mais "ação" das relações de produção que a luta política a
econômico: intervenção não significa, aqui, prática, antes indica um do Estado ou a luta ideológica a do ideológico -, mas porque os su-
tipo de articulação das estruturas. portes distribuídos em classes não podem ser teoricamente concebidos
Ora, os níveis estruturais, apresentando um ritmo específico e
caracterizados pelo seu desenvolvimento desigual, mantêm, em uma
I como sujeitos.
41. Aliás, esta dominância das estruturas feudais do Estado persistirá
~ I
mesmo até 1853, quando Marx nos diz a propósito de Palmrston : "à
formação, relações de defasagem específica. O mesmo acontece no aristocracia, ele afirmava que a constituição não perderia o seu caráter
que respeita às relações dos diversos níveis de práticas no campo feudal. ..". Oeuvres politiques, Gostes, t. L p. 139 e todo o conjunto dos
seus textos sobre a Grâ-Bretanha.
da luta de classes. Do mesmo modo gue se odem constatar defasa- 42. A propósito destas análises de Marx sobre os problemas políticos
gens entre as estruturas econômicas, políticas, ideológicas de uma, na Grã-Bretanha, refiro-me à recolha de textos: K. Marx e Fr. Engels On
formação,--20dere~os constatar defasagens entre os níveis de prá- Britain, Moscou 1953, e às ed. Costes, trad. Molitor, K. Marx: Obras po-
!ica e de organização - econômica, política, ideológicª--==- de uma líticas. A concepção de Marx da aristocracia fundiária como "represen-
tante" ou "encarregada" da burguesia é clara: a) nas suas análises sobre
classe nas suas relações, nos diversos níveis de luta, com as das os "Tories", partido declarado da nobreza fundiária que, no poder, faz
.outras classes: luta política de uma classe defasada em relação ~ na realidade a política da burguesia. Diz-nos, a propósito dos "Tories": Em
sua luta econômica, luta ideológica derasadaem jelação à sua luta suma toda a aristocracia está convencida que é necessário governar no
interesse da burguesia; mas, ao mesmo tempo, ela está decidida a não
,política, etc. Enfim, a descentralização _qu.!.caracteriza as relaçõe,~ deixar tomar as rédeas". (Obras, op. cito t. IU, p. 106 e sego b) nas
entre QS píveis das estruturas, caracteriza iguahp,ente as relações das suas análises sobre os Whigs, que representam a nobreza fundiária como
"detentora" do Estado, mas que funcionam de fato como "representantes
39. Não falo aqui, é claro, de Balibar. da burguesia para a aristocracia".

86 87
mos claramente, neste exemplo, que a superestrutura jJrídico-polí- aos capitalistas" e... que é chamada luta proríssional e sindical";
tica do Estado está defasada não simplesmente em relação às ou- b) por luta política a luta que tem por objetivo específico o poder
tras estruturas, mas também em relação ao nível da luta política de Estado. A distinção destas lutas fundamenta a diferença entre
da burguesia no campo da luta de classe: não se trata de um Es- as suas formas de organização: sindicatos - partidos.
tado feudal, defasado em relação ao econômico, mas corresponden- 2) Esta distinção implica em uma relação entre a luta eco-
do a uma classe de aristocracia fundiária politicamente dominante, nômica e a luta política: o caráter essencial desta relação consiste
ela própria defasada de uma burguesia economilcamente dominante. em que a luta política é o nível sobredeterminante da luta de clas-
Trata-se aqui claramente de relações de defasagem entre dois siste- ses, na medida em que concentra os níveis de luta de classe. Se-
mas de relações de defasagem. É precisamente esta relação entre gue-se:
dois sistemas que faz com que, na conjuntura concreta em questão, A - Opondo-se a uma concepção evolucionista de "estágios"
a forma de reflexão da dominância do M. P . C . em um Estado de luta - primeiro econômico, em seguida político -, a luta polí-
feudal tenha como efeito a dominação política da burguesia no tica deve deter sempre o primado sobre a luta econômica - é o
campo da luta de classes. papel do partido -: "A política não pode deixar de ter o primado
Aliás isto é igualmente claro no caso do índice de dominância sobre o econômico ... : sem uma posição política justa, uma deter-
nas estruturas e nas práticas. Por exemplo, a dominância, nas estru- minada classe não pode manter a sua dominação e, por conseguin-
turas, do político - consideremos o caso do capitalismo monopo- te, não pode desempenhar a sua tarefa na produção"; ou ainda:
lista de Estado e do Estado intervencionista - não corresponde "Do fato dos interesses econômicos deterem um papel decisivo, não
necessariamente à dominância, no campo das práticas, da luta po- se conclui de maneira alguma que a luta econômica seja de um
lítica de classes, etc. Não queremos multiplicar os exemplos: é vi- interesse primordial, pois os interesses mais "decisivos" e essenciais
sível, contudo, a importância destas observações para uma análise das classes não podem ser satisfeitos, em geral, senão por transfor-
política de uma conjuntura concreta. mações políticas radicais ... ". 44
B - Uma intervenção constante da luta política nos outros
Poder-se-á agora, à luz destas considerações, aprofundar a níveis de luta, particularmente na luta econômica, e vice-versa. Por
questão das formas de intervenção da luta política na luta econô- exemplo: a) Uma ausência de luta política de classe de modo al-
mica, e da luta econômica na luta política, e elucidar a posição gum significa que a luta econômica desta classe se não reflita, atra-
teórica de Lenin com respeito à distinção e à relação entre a luta vés de "efeitos pertinentes", ao nível político: limitar-se à luta eco-
econômica e a luta política: posição que vai do texto fundamental nômica estrita pode produzir "efeitos pertinentes" absolutamente
Que fazer? até à sua controvérsia com Trotsky e Boukharin sobre positivos, os quais consistem em deixar fazer a política do adver-
a questão dos sindicatos na U.RS.S (1921). Esta posição é ca- sário. b) Poder-se-á fazer uma política em sentido' próprio, mas
racterizada pelos seguintes pontos: que atribua o primado ao econômico: trata-se da política que, se-
1) Distinção entre luta econômica e luta política: ressalta gundo os termos irônicos de Lenin, quer fazer "a luta econômica
claramente das críticas feitas por Lenin a posições contrárias. Em contra o governo!!... A luta econômica contra o governo, é a
Que fazer? critica os economicistas que pensam que "a luta política política "trade-unionista". .. é precisamente a política burguesa da
não é senão a forma mais desenvolvida, mais ampla e mais efetiva classe operária" 45.
da luta econômica"; justamente, diz Lenin, ela não passa disso. 3) A luta política, que tem como objetivo o poder de Es-
Critica igualmente a tese economicista segundo a qual "é necessário tado, tem como objetivo a conjuntura: ela reflete-se, assim, sobre:
dar à própria luta econômica um caráter político". Nos textos so- a) o econômico. Lenin diz-nos que " ... A tática dos "políticos"
.\ e dos revolucionários, longe de ignorar as tarefas "trade-unionistas"
bre a questão sindical, critica Boukharin que, "defendendo a reu-
nião dos pontos de vista econômico e político, caiu no ecletismo é a única capaz de assegurar o seu cumprimento metódico; b) o
teórico". 43 Ora, sabemos que Lenin entende: a) por luta econô- político em sentido estrito; c) o ideológico. Estes problemas per-
mica "a luta econômica prática que Engels chamou "resistência tencem ao exame do conceito de conjuntura.

43. De novo os sindicatos. A situação atual e os e1'1'OSde Troielcu e 14. De novo os sindicatos.
Boukha1'in. 45. Que fazej'?

88 89
VII. Conjuntura - Forças Sociais - Previsão Política enquanto forças SOCHllS,precisando que não são classes. Portanto,
se quisermos delimitar os elementos da conjuntura, poderemos di-
:B nesta linha teórica que se situam as análises políticas de Le- zer: a) São em primeiro lugar classes distintas e frações autônomas
nino Lenin restaurou, contra os desvios da II Internacional, o pen- que se refletem ao nível da prática política por "efeitos pertinen-
samento autêntico de Marx introduzindo o conceito de coniuntura, tes", e isto caracteriza-se precisamente como forças sociais. b) Além
equivalente ao de "momento atual" que é o abjeta específico da disso, podem constituir forças sociais, categorias específicas, que
prática política. 46 Com efeito, se a prática política tem como ab- chegam, em um momento concreto, a ter "efeitos pertinentes", como
[etivo específico o Estado, o poder político institucionalizado, fator foram definidos, 48, ao nível da prática política, sem no entanto se-
de coesão de uma formação social determinada e ponto nodal das rem classes nem frações de classe.
suas transformações, tem por objeto o "momento atual", que reflete Assim a con'untura objeto da prática política e lugar privile-
a individualidade histórica, sempre original porque singular, de uma giado onde se reflete a individualidade histórica sempre singular de
formação. A enunciação rigorosa deste problema permite elucidar uma formação, é a situa ão concreta da luta política de classe. Por
toda uma série de questões: nomeadamente, as concernentes à outras palavras, a articulação e o índice de domínância que carac-
"ação" da prática política sobre as estruturas, o inventário das pos- terizam a estrutura e uma formação SOCla reI ete,!!!-se, enquantõ
sibilidades que as estruturas oferecem à prática política, a previsão conjuntura ao nível da luta política de classe. Ora, como é que se
estratégica na prática política, etc. opera esta reflexão ou, o que não e senãoo outro aspecto da ques-
O conceito de conjuntura está situado, em Lenin, no campo tão, como age a prática política sobre a estrutura, porquanto a con-
das práticas e de luta de classes. A originalidade historicamente in- juntura não é uma simples expressão da estrutura, mas circunscreve
dividualizada de uma formação social que é o objeto da prática po- precisamente a ação da prática política sobre a estrutura? Qual é
lítica, é constituída em primeiro lugar pela "ação combinada das o modo de determinação pela estrutura da prática política que age
[orças sociais", A homogeneidade de campo da conjuntura consiste sobre ela?
na consideração das práticas de classe - em particular das práticas Esta questão pode obter uma resposta tomando-se em conta
políticas de classe -, relativas à sua "ação" sobre a estrutura, co- que as relações entre elas, as estruturas e as práticas de classe, de-
mo [orças sociais 47. Com efeito, nos textos de 1917 (fevereiro-ou- pendem do mesmo tipo que as relações de cada um destes domí-
tubro), Lenin procede a uma análise das forças sociais essenciais que mos. No ue diz res eito às relações das instâncias a3ua assim
constituem a atualidade e a originalidade da situação concreta na chamada "interação" , que é, de fato, o_modo de jntervenção de
Rússia: são a monarquia czarista, a burguesia monárquica, o pro- um nível sobre o outro, consjste nos limites no interior dos quais
letariado e as classes camponesas. 48 Entre estas forças sociais que um nível ode modificar o outro. Estes limites são o efeito simul-
são classes distintas, Lenin introduz um elemento, a monarquia cza- taneamente da matriz concreta de urUãfOrmação e das re~ctivas
rista, que parece, à primeira vista, designar a superestrutura polí- estruturas es ecíficas de cada nível elas ró rias determinac!E~ pelo
tica do Estado czarista, portanto um. elemento da estrutura. No en- seu lu ar e ela sua função nesta matriz. Neste sentido, a determi-
tanto, não se trata, de fato, de importação direta na conjuntura, e nação de uma estrutura por uma outra, nas relações entre estr~tu_-
enquanto força social, de um elemento da estrutura. Lenin entende ras, indica os limites das varia ões de uma estruj:ura regional ~ di-
aqui por monarquia czarista "os proprietários fundiários feudais e gamos, o Estado - em relação a uma outra - digamos, o econô-
o velho corpo dos funcionários e dos generais", designados pelo mico -=; limites <}!1esão, eles róprios, os efeitos da matriz, Este
termo de monarquia czarista enquanto [orças sociais. Ora, nestas é, aliás, também o caso das práticas de classe, das relações dos ní-
forças sociais, se os proprietários fundiários designam uma classe veis da luta de classes entre si.
distinta, o "velho corpo dos fundiários e dos generais" constitui uma As relações das estruturas e das práticas de classe, relações
categoria: Lenin falará freqüentemente da burocracia ou da polícia assinaladas entre estes dois sistemas de relações, são do mesmo ti-
po. A determinação das práticas pela estrutura e a intervenção das
46. A propósito da conjuntura ver Althusser, em Lire le Capital, t. 11,
~ igualmente Cahiers Marxistes-Léninistes, n. 9-10. 48. "Duas táticas da social-democracia na revolução democrática".
47. Os elementos deste campo são em primeiro lugar classes porquanto 49. Estas categorias chegam pois a ter uma existência "autônoma" que
a determinação de classe não é de modo algum, em Lenin, uma determina- não pode ser absorvida pelos efeitos pertinentes das classes distintas e
ção exclusivamente econômica. frações autônomas.

90 91
práticas na estrutura, consistem na produção pela estrutura dos
limites de variações da ação das forças seriam constituídos unica-
lim.ites de variações da luta de classes: são estes limites que são os
mente pela "estrutura econômica", recoberta pelo conceito de "for-
efeitos da estrutura. Isto, no entanto, ainda não circunscreve exa-
mação econômico-social". 50 Este conceito indicaria, em Lenin só
tamente a relação da prática política com a estrutura: de fato a
o nível da "estrutura econômica", no qual "agem" as classes' so-
este nível, os limites são complexos. ~. rática olítica rática .so-
ciais, o nível político da luta de classes. Este conceito seria: "Um
br~determinante ue co.!!.centra em si as contradições dos outros ~í~
modelo que (como é, em geral, o caso para todo O< modelo cientí-
veis de luta de classe, está inscrita _em limites, gue são os efeitos do
t~c~) teria uma função interpretativa em relação ao campo que de-
cam o global da luta de classes e dos diversos níveis desta luta
limita ... No caso concreto, esta função interpretativa permite refe-
.sobre a ráticaJolítica. No entanto, estes limites são limites de
renciar tendências objetivas de desenvolvimento, e operar previsões
segundo grau, na medida em que o campo das práticas está tam-
ne~te . sentido. Trata-se do tipo de previsão que se relaciona aos
bém circunscrito pelos efeitos das estruturas enquanto limites. Nes-
se sentido, a prática política é exercida, por um lado, nos limites prop~lOs. car~cter~s do _campo econômico e das suas leis. .. e que
permite msenr ai a açao concreta: a de uma força política ou de
fixados pelas outras práticas e pelo campo global de práticas de
um grupo social consciente". 51 Interpretação que, aqui, não é de
classe - luta econômica, política, ideológica -, enquanto que,
fato senão a expressão da concepção historicista das classes sociais,
por outro, este campo está também circunscrito pelos efeitos da es-
e que vê nestas classes o nível político e ideológico - luta de clas-
trutura como limites: a distinção desta série de limites tornar-se-á
ses. - em ação sobre a "estrutura" econômica. De fato, nada de
~ seguir, mais clara. Retenhamos aqui que, neste contexto, a con.
~ais estran~o ao pensamento de Lenin. Sabe-se que, quando Lenin
J~ntura aparece como os efeitos das estruturas no campo das prá-
Via na .conJuntura' russa o elo mais fraco da cadeia imperialista,
ticas concentradas, na sua unidade, ao nível da luta política de elas-
s;. .Estes limites re~~am, enquanto tais, um jogo de variações pos-
ap~rcebIa, c~mo limites da prática política concreta da classe ope-
rana, os efeitos, no campo da luta de classes, de um conjunto de
slvel~ das forças SOCIal~,em suma, a intervenção da prática política,
estruturas na sua unidade: ao mesmo tempo da estrutura econômi-
que e aqUi a intervenção concentrada do campo das práticas, sobre
ca, da superestrutura do Estado czarista e das estruturas ideológi-
~s ~struturas. .A eficácia da estrutura no campo das práticas é pois
cas refletidas na conjuntura. Sem isso, Lenin teria ficado pela in-
limitada pela intervenção, sobre a estrutura, da prática política.
terpretação economicista de Marx da Segunda Internacional, inter-
Importa portanto ver aqui que a con'untura o "momento pretação que é afinal uma teoria economicista do elo mais forte.
atual" que é o objeto da prática política é roduzida pela reflexão Vou recapitular rapidamente. A prática política de uma classe
~o re as ráticas do conjunto dos níveis da e;trutura na sua uni- ou fração não se identifica com a reflexão de uma classe ou fração
ade. Se a superestrutura política do Esta o é um lugarprivilegiado ~o nível,?a prática política. por "efeitos pertinentes": só uma prá-
que. cor:centra as contradições dos níveis da estrutura e permite a tíca política que tenha efeitos semelhantes caracteriza o funciona-
decifração concreta da sua articulação, a conjuntura permite deci-
mento concreto de uma classe ou fração de classe, em uma forma-
frar a individualidade histórica do conjunto de uma formação, em
suma, a relação da individualidade concreta das estruturas e da con-
50. Trata-se de certas formulações em Ce que sont les amis du peúple,
figuração concreta da luta de classes. Neste sentido, a superestrutu- (Oeum'es, t I, p. 155 e seg.), onde efetivamente Lenin parece identificar
r~ polthca. do Estado: que é o objetivo da prática política, é tam- "formação ec?nômico-:social" e "relações de produção" - econômica. No
bem, :efletlda na conjuntura, um elemento do objeto desta prática: entanto, considerando o conjunto da obra de Lenin, vê-se claramente que
conquistar o poder de Estado destruindo a máquina de Estado di- esta formulação é uma indecisão de terminologia. Aliás neste texto lê-se
que a possibilidade de previsão política é devida a um processo de ,lregu_
zia Lenin, e é dizer tudo. ' laridade de repetição" que se pode regular na "formação econômica-social"
Assi~, 'não se poderá ver, em caso algum, na prática política ~.omada ~~mo"a estrutu.ra econômica .. Não é por acaso que esta definiçã~
e n~ conJu~tura um campo de variações cujos limites seriam pro- ?COn~~lcIsta .d~ Lenin parece aqui redobrada por uma concepção de
'I historícismo umlmear. De fato, Lenin "maduro", se possível dizê-lo viu
duzidos umcamente pela estrutura econômica: esta interpretação sempre na previsão política uma leitura da conjuntura como reflexão da
"economicista-voluntarista" de Lenin reporta-se precisamente à con- originalida.de de uma formação social no sent do leninista autêntico do
cepção errada das classes sociais que não distingue as estruturas e t rmo : neste sentido, a concepção leninista da previsão não só não é baseá-
o campo da luta de classes. Ela está ainda viva, e encontra-se mes- du em uma qualquer "regularidade de repetição", mas baseia-se exata-
fi nte na originalidade e na novidade constantes do momento atual.
mo teoricamente formulada por um autor como C. Luporini: os li I. "Realtà e storicità", in Critica Marxista, janeiro-fevereiro, 1966,
11. 63.
92 93
ção, como classe distinta ou fração autônoma. Só estas classes dis- SOBRE O CONCEITO DE PODER
tintas ou frações autônomas constituem forças sociais. Entretanto,
Lenin introduz ainda um critério da ação concreta das forças sociais
na conjuntura, que é o da sua ação aberta ou declarada; freqüente-
mente nos diz que o único critério real das alianças é a ação aberta I. O Problema
das classes sociais, a sua "participação efetiva na luta". 52. Com
efeito, por que este critério suplementar, quando nós sabemos que
as forças sociais não são simplesmente as classes na sua determi- As considerações precedentes conduzem-nos a colocar o pro-
nação econômica, mas as classes já ao nível político? De fato, blema, capital para a teoria política, do poder. Este problema é
Lenin entende por ação aberta ou declarada, em primeiro lugar, tanto mais importante quanto Marx, Engels, Lenin e Gramsci não
uma organização específica, política e ideológica de uma força so- produziram teoricamente um conceito de poder. Por outro lado, na
cial, que ultrapassa a sua simples reflexão ao nível político por teoria política, o conceito de poder é atualmente um dos mais con-
"efeitos pertinentes". Trata-se da organização de poder de uma troversos.
classe que será analisada no capítulo seguinte. Uma classe ou fra- Podemos começar por delimitar o campo deste conceito: será
ção podem existirJnguanto forças sociais, sem por ISSO p~nclle- necessário, para isso, referirmo-nos às análises efetuadas acima, con-
em as condições de organização que podem fazê-Ias - entrar nasre- cernentes à distinção entre níveis estruturais de uma formação social
lãÇôescI"epoder político: em regra geral, a ação abertaSignífica e níveis de luta - de prática - de classes, em resumo, à distinção
um po er polífico "próprio" "dê" uma .fórça social, e, também em entre estruturas e relações sociais. O conceito de poder tem como
reg-rn geral, marcha pafãlelamente com uma organização -em partido lugar de constituição o campo das práticas de classe. Com efeito,
disfffito[ãutônolno. Se tais são as condições da ação declãrâdà, todas as vezes que Marx ou Engels se referem aos conceitos de
esta=reporta-se ao campo da indeterminação da conjuntura, da "ação poder ou de autoridade, assim como aos conceitos aparentados,
combinada das forças sociais". O único critério que pode mostrar tais como o de dominação, etc., situam-nos no campo das relações
qual a forma concreta que, em um dado momento, toma esta com- dc classe: o caso é ainda mais nítido em Lenin, para quem o campo
binação, entre todo um inventário de variações possíveis no interior da "ação das forças sociais", das "relações de força" ou das rela-
da série de limites assinalados, é a participação efetiva na luta de ções de poder aparece circunscrito como o campo da luta de classes.
uma classe que preenche condições particUlares de organizaçãõ-.- Podemos, assim, já tirar certas conclusões no que diz respeito
uo problema das relações entre o poder e as classes sociais. As re-
lações entre as classes são relações de oder. Os conceitos de elas-
se e de poâer são aparentados, na medida em que têm como lugar
de constituição o campo circunscrito pelas relações sociais. O pa-
rentesco entre estes dois conceitos não indica no entanto uma rela-
ção de instituição de um conceito pelo outro, mas a homogeneidade
do campo: as relações de classe não são mais o fundamento das
r {ações de poder do que as relações de poder o fundamento das
r slações de classe. Da mesma maneira que o conceito de classe
indica os efeitos do conjunto dos níveis da estrutura sobre os su-
portes, o conceito de poder especifica os efeitos do conjunto destes
níveis sobre as relações existentes entre classes sociais em luta:
Indica os efeitos da estrutura sobre as relações conflitantes entre
(1.\' práticas das diversas classes em "luta". Por outras palavras,-º-
poder não está situado nos níveis de egruturas; é _um_ efeito do
xmjuntç destes níveis, caracterizando contudo cada um dos níveis
52. Deu» iactiques, ed. Moscou, p. 47 e sego e Oeuvres completes, t. 8, li I luta de classes. O conceito de poder não pode assim ser apli-
p. 68 e sego .ud a um nível de estrutura: quando se fala, por exemplo, de

94 95

,
I
poder de Estado, não se pode indicar com isso o modo de arti- produção são O fundamento exclusivo das classes SOCIaIS,não sendo
culação e de intervenção do Estado nos outros níveis da estrutura, os outros níveis de luta de classes, por exemplo, o poder político
mas sim o poder de uma classe determinada, a cujos interesses o ou o poder ideológico, senão o simples fenômeno do econômico.
Estado corresponde, sobre outras classes sociais. As relações de poder apareceriam estabelecidas, em uma relação
Estas considerações preliminares têm a sua importância. Com de fenômeno a essência, nas relações de produção consideradas di-
efeito, a confusão das estruturas e das relações entre as práticas - retamente como relações de poder. Inversamente, quais seriam as
luta - de classe (das relações de poder) pode dar origem a diver- co~seqüências que implicaria a resposta das relações de produção,
sas interpretações erradas do marxismo. Consideremos aqui uma aSSIm como a propriedade formal dos meios de produção, serem
das mais importantes atualmente: é representada por pensadores um caso especial das relações de poder? Tratar-se-ia aqui também
expressamente influenciados pelo marxismo, como, por exemplo, K. de reduzir as relações de produção e o sistema jurídico a relações
Renner 1, J. Shumpeter 2, R. Dahrendorf 3, e até Rizzi, Burnham, de poder. As relações de produção e, aliás, as de propriedade for-
M. Djilas, etc., assim como por numerosos "teóricos" da classe mal dos meios de produção, não seriam tomadas como estruturas,
dirigente, cujo exame será retomado mais adiante. O objetivo cen- como formas de combinação entre agentes de produção e meios de
tral destas teorias é tentar superar uma concepção "economicista" produção, mas originariamente como relações de poder entre "ca-
das classes sociais segundo a qual estas seriam exclusivamente de- pitalistas" impondo, por um "controle" exclusivo destes meios, as
finidas ao nível econômico das relações de produção, e nomeada- suas "decisões" aos "operários", tanto no quadro de cada unidade
mente em função da sua relação com a propriedade dos meios de de produção como à escala social.
produção: estas teorias vêem na propriedade formal dos meios de
produção a expressão imediata do econômico. Segundo os autores o que importa aqui sublinhar, do ponto de vista do método,
citados, as classes e o conflito de classe, longe de se criarem nas é a confusão implicada, pela questão levantada, entre estruturas e
relações de produção, seriam instituídos na distribuição global, em níveis de luta de classes. De fato, as relações de classe são reei-
todos os níveis, do poder no interior das sociedades "autoritárias": samente, em todos os níveis, relações de oder não sendo entre-
a saber, das sociedades caracterizadas por uma organização global tanto o poder~~ão um conceito indicando o efeito do co!!j~nto da~
de dominação-subordinação consistindo em uma distribuição "não- estruturas sobre as rêlações entre as práticas das diversas classes
-igualitária", a todos os níveis desse poder. em luta. Neste senti o, ja podemos eliminar uma tentativa de sair
Deste modo, o problema da relação entre, por um lado, as re- do di ema ideológico colocado acima, a qual implicaria no entanto
lações de produção - reduzidas aqui à propriedade formal dos fi mesma confusão. Consistiria esta em recusar as relações de poder
meios de produção -, e as relações de poder e a luta de classes, ao nível das relações de produção, com o risco de as introduzir aos
por outro, será formulado por esta tendência ideológica nos termos outros níveis da estrutura, por exemplo, ao nível político. Dir-se-ia
seguintes: ou as relações de produção (isto é, segundo ela, a pro- issim que as relações de produção não podem constituir um caso
priedade dos meios de produção) são um caso especial de poder, spccial das relações de poder, na medida em que o nível econô-
ou então o poder é um caso especial das relações de produção. 4 mico - objeto das "leis" econômicas - não consiste em relações
Problema mal colocado, na medida em que implica em uma con- de poder. As classes definidas "em si" ao nível econômico seriam
fusão entre as estruturas e as práticas de classe, e que encerra as- ndependentes, a este nível, das relações de poder. As relações de
sim a resposta da ciência marxista em um dilema ideológico. Com poder não existiriam senão ao nível do político ou do ideológico,
efeito, se tentando responder que as relações de poder, as relações 10S níveis em que se situaria afinal a "luta de classes", enquanto
de classe, são um caso especial das relações de produção, o que é lasses para si. No entanto, esta resposta decorre precisamente de
que isso exprimiria? Entender-se-ia com isso que as relações de uma perspectiva errada, que teria definido a "situação de classe"
\( nível das estruturas econômicas - relações de produção - e
1. Mensch und Gesellechaf t, Viena, 1952; Wandlungen der modernen , "luta de classes", as relações de poder, ao nível das estruturas
Geeellschaf t, Viena, 1953. pollticas. O econômico tornar-se-ia assim o campo no qual "age"
2. Capitalisme, socialisme et démocratie, op, cito p lítíca, a luta de classes. Paralelamente, os outros níveis acima
3. Op. cito
) conômico, por exemplo as estruturas do Estado, seriam redu-
4. Ver, a este respeito, a exposição sintética da questão em Dahrendorf,
op. C1·,t., p. 21. d . a relações de poder, ou seja unicamente ao poder de Estado.

96 97
o que é exato é que a estrutura das relações de rodução, do 11 prática política de classe; o mesmo acontece no que diz respeito
mesmo modo que UO político ou do ideológico, não pode ser di- 110 ideológico.
retamente tomada como relações de classe ou relações de poder. Assim, pois, afirmar que as relações de classe são a todos os
Por outro lado, todavia, é igualmente exato que as relações de classe níveis, relações de poder, não é de maneira alguma ad'mitir que as
constituem, a todos os níveis das práticas, relações de poder. Se as classes sociais estejam estabelecidas em relações de poder ou que
relações de produção não são um caso especial de relações de poder, delas possam ser derivadas. As relações do poder, tendo como cam-
não é que o "econômico", ao contrário do político, não possa consis- po as relações sociais, são relações de classe e as relações de classe
tir em relações de poder: é que nenhum nível estrutural pode ser são relações de poder, na medida em que o conceito de classe social
teoricamente tomado como relações de poder. Em contrapartida, o indica os efeitos da estrutura sobre as práticas, o de poder os efei-
econômico, enquanto nível de organização de classe ou nível es- tos da estrutura sobre as relações entre práticas das classes em "luta".
pecífico da prática econômica de uma classe em relação à das outras
classes, localizada portanto no campo acima definido da "luta" - Seria difícil subestimar a importância destas observações. Com
relação entre as práticas - das classes, consiste inteiramente em efeito 6, a corrente marxizante das teorias das elites políticas e da
relações de poderes. c:asse politica foi criada sobre a acepção de uma pretensa concep-
çao marxista, segundo a qual, precisamente, o econômico não pode-
Trata-se aqui do problema do "poder econômico" e das suas ria, propriamente falando, consistir em relações de poder: con-
relações com as "leis econômicas", assunto suficientemente tratado, cepção esta que não é senão o correspondente da concepção eco-
e cujas soluções propostas apresentam contradições insolúveis, pois nomicista das classes sociais. Assim, sendo por um lado a classe
que se identificam os dois domínios assinalados. 5 Pode uma pers- definida unicamente do ponto de vista econômico, consistindo, por
pectiva científica das leis econômicas conciliar-se com a perspectiva outro, as relações políticas em relações de poder, a conclusão desta
de um poder econômico? Ora, sem querer entrar na discussão, vê-se corrente das elites e da classe política está à vista: os grupos que
bem que, na relação estruturas-relações sociais, as leis econômicas participam nas relações políticas - relações de poder - diferem,
de econômico-estrutura de modo algum impedem as relações de po- 110 seu estatuto teórico, das classes sociais econômicas, das quais,
der ao nível da luta econômica de classes, que indica os efeitos da por outro lado, se admite a existência. A diferença consiste em que
estrutura deste nível sobre os suportes. Neste sentido, o poder eco- estes grupos se delimitam por relações de poder - político -, e
nômico, situado ao nível da luta econômica de classe, é um concei- de acordo com a definição que cada autor dá a este termo, mas
to freqüentemente utilizado por Marx, que muitas vezes nos fala uja relação com o econômico não recebe - e não pode receber
do poder econômico da classe capitalista, e é aliás neste contexto que um estatuto científico. Trata-se aqui, precisamente, do próprio
se situa o termo que muitas vezes emprega de dominação econômica núcleo da problemática dos grupos estatutârios de Weber, da classe
- e que se distingue, aliás, da dominação política e da dominação fJ()lf~ica de R. Michels, das elites do poder de Wright Mills. etc.,
ideológica. Poder econômico este, que pode ser apreendido em nu- teóricos estes que admitem a existência paralela das classes sociais
merosas manifestações, que é um efeito sobredeterminado das rela- onômicas em um sentido marxista deformado - "situação de
ções de produção: autoridade do capitalismo no processo de produ- .lusse" econômica não implicando relações de poder. 7 A tentativa
ção - simultaneamente divisão técnica e divisão social do traba- Ideológica mencionada, que consistia em superar uma definição eco-
nomicista das classes sociais descobrindo um conceito de classe ba-
lho -, na negociação preliminar do contrato de trabalho, etc. Por
ldo nas relações, em todos os níveis, de poder, mas que conduzia
outro lado, poder-se-ão apreender nas relações entre as práticas po- onfusão das estruturas e do campo das práticas - de poder _,
líticas de classe, na luta política de classe, relações de poder político,
de dominação política, efeitos da estrutura regional do político sobre 11. Ver adiante, p. 314.
7, O problema é colocado com nitidez por Wrigth Mills na sua crítica do
5. Sobre o alcance do problema, ver entre outros: J. Lhomme, Pouvoir 1'lIl1t'(1itomarxista de "classe dominante" onde explica por que razão o
et société économique, Paris 1965, p. 70 e segs.; F. Perroux, Esquisse II"hlltltui pelo termo "elites do poder": "Classe dominante" é um termo
d'une théorie de l'économie dominante, in E. A., 1948, p. 243 e segs.; Mor- ubrecnrregado. "Classe" é um termo econômico; "dominação" é um ter-
genstern, The Limits of Economics, 1937, p. 37 e segs.; Bôhm-Bawerk in 11111 /lulftico. A expressão "classe dominante" implica assim na concepção
Gesammelte Schriften, 1924, p. 100 e segs.; etc. li, li" uma classe econômica domina politicamente ...".

98 99
que baseia precisamente a concepção weberiana da "probabilidade"
difere desta: neste último caso, tratar-se-á, precisamente, de uma
e do "comando específico". Este comando é concebido como sen-
ruptura de estatuto entre os "grupos" econômicos - as classes -
do exercido no interior de uma "associação autoritária" cristaliza-
e os "grupos" políticos,e é aliás o resultado conseqüente da pers-
ão dos valores-fins destes agentes, reduzindo-se assim o conceito de
pectiva da "classe-em-si" e da "classe-para-si". Os vícios desta
poder na problemática weberiana da legitimidade.
corrente tornam-se manifestos nas confusões que resultam no mo-
mento em que tenta estabelecer as relações entre estas "classes eco- 3) A defi~i?,ãO prop?sta distingue-se da de T. Parsons 10, para
nômicas" e os "grupos políticos". quem o. poder e .a capac!dade de exercer certas funções em provei-
to do SIstema social considerado no seu conjunto". Tal definição é
com efeito expressamente solidária da concepção "funcionalista-
lI. O Poder, as Classes e os Interesses de Classe -integracionista" do sistema social.
Não podemos, é claro, empreender aqui uma crítica detalhada
A partir destas observações, vamos tentar propor um conceito ~os numerosos conceitos de poder que se encontram na ciência polí-
de poder: desi naremos or oder a ca acidade de uma classe social tica: estas poucas referências visavam apenas indicar a complexidade
de realizar os seus interesses ob 'etivos específicos. Este conceito do problema. Se aceitarmos o conceito de poder proposto, veremos
não se apresenta sem dificuldades, em particular na medida em que que ele pode levar em conta o conjunto das análises marxista rela-
introduz o conceito de "interesses": sabemos contudo a importância tivas ao problema.
que, em Marx e Lenin, assume este conceito, encontrando-se a con-
cepção marxista das classes e do poder ligado à dos "interesses de . .A - Este conceito relaciona-se precisamente ao campo das
classes". Importa entretanto situar com brevidade esta definição prátlcas de "classe" e das relações entre as práticas de classe, isto é
do poder em relação a algumas outras, que têm tido uma importante ao campo da luta de classe: tem como quadro de referência a luta
repercussão na teoria política. de classe de uma sociedade dividida em classes. Isso indica que,
1) Ela distingue-se da definição de Lasswell ", para quem o nestas sociedades, os efeitos da estrutura concentram-se nas práticas
poder é "o fato de participar na tomada das decisões": esta é uma desses conjuntos particulares que são as classes sociais. :É necessário
definição corrente para toda a série de teorias de decision-making fazer aqui um primeiro esclarecimento: o conceito de poder reporta-
processo O vício fundamental desta concepção, pelo menos no qua- -se ao tipo preciso de relações sociais que é caraterizado pelo "con-
dro de uma sociedade caracterizada por um conflito de classe, é, jlito':, pela luta, de ~la~se,.isto é, a um campo no interior do gual,
por um lado, o de uma concepção voluntarista do processo das "de- preCIsamente pela eXlstencla de classes, a capacidade de uma delas
cisões", menosprezando a eficácia das estruturas, e o de não poder I alizar pela sua prática os seus interesses próprios encontra-se em
localizar exatamente, por detrás das aparências, os centros efetivos oposição com a capacidade - e os interesses - de outras classes.
de decisão no interior dos quais funciona a distribuição do poder; por Isto det~rmina uma relação específica de dominação e subordinação
outro lado, o de tomar como princípio a concepção "integracionista" dns prátIcas de classes, que é precisamente caracterizada como re-
da sociedade, donde deriva o conceito de "participação" nas decisões. Inção de poder. A relação de poder implica pois na possibilidade de
d marcação de. uma linha nítida, a partir desta oposição, entre os
2) A definição do poder que adianto distingue-se da de Weber 9,
lugares de dominação e de subordinação. No quadro de sociedades
para quem o poder (Herrschait) é "a probabilidade de um certo
.m que esta divisão em classes é inexistente - e seria interessante
comando com um conteúdo específico ser obedecido por um grupo
sxaminar em que medida isto é aplicável também a relações não-
determinado"; e isto, na medida em que esta definição está situada nntagônicas de classe na transição do socialismo para a comunismo
na perspectiva historicista de uma sociedade-sujeito, produto dos , c em que, portanto, estas relações não podem ser especificadas
comportamentos norma tivos dos sujeitos-agentes, perspectiva esta por esta luta como relações de dominação e subordinação de classes,
8. Lasswell e Kaplan, Power and Society, a Framework for Social En-
quiry, 1950, p. 70 e segs.: Lasswell, Politics: Who gets what, when, how, lü, St?'ucture and Process in Modern Societiee, Glencoe, 1960, p. 199 e
I' ". "On the concept of Power", in Proceedings of the American Philo-
1936, p. 40 e segs.
""llhI/1nl ociety, uol: 107, n. 3, 1963.
9. Wirtschaf t und Geeellechafi, Tübingen, 1947, p. 28 e segs.
101
100
diz respeito ao quadro referencia1 no interior do qual se situam estes
- dever-se-ia empregar um conceito diferente, que seria eventualmente fenômenos: ~ do poder. situa-se no quadro da luta de classes, que
1 o de autoridade. 11
reflete os efeitos da umdade das estruturas de uma formação sobre
Por outro lado, o conceito de poder não pode aplicar-se às re-
os s~p.ortes. Neste sentido,. podemos dizer que o poder é um fenôme-
lações "inter-individuais" 12 ou às relações cuja constituição se apre-
11.0 hpICO, PAodendoser del~neado a partir das estruturas, o de pode-
senta, de acordo com circunstâncias determinadas, independente
no um fenomeno caractenzado por uma amorfia sociológica.
do seu lugar no processo de produção, isto é, nas sociedades dividi-
das em classes, da luta de classes: por exemplo, relações de amiza- B - Este conceito de poder reporta-se à capacidade de uma
de, ou relações entre os membros de uma associação desportiva, etc. classe para realizar interesses objetivos específicos. Este elemento
Podemos empregar neste caso o conceito de poderio": este concei- do conceito refere-se, em particular, às análises de Marx e Lenin
to foi sobretudo empregado na ciência política a fim de indicar o relativas à organização de classe.
elemento de "força", sendo o conceito de poder empregado no caso O problema é importante e será necessário nele nos determos
de uma força legitimada, isto é, exercida em um quadro referencial
introdu~indo aqui distinções que impeçam confusões. Assinalamos:
com um mínimo de "consentimento" da parte daqueles sobre quem no cap~tulo s~bre as classes, que uma classe pode existir, em uma
este poder é exercido. 13 No entanto esta distinção, que aliás pode
formaçao . SOCIal, como classe distinta, mesmo no caso em que é
ser muito útil, é de fato uma distinção relativa às formas de poder,
subdeterntinada, mesmo quando não possui o que se conveio desig.•
às formas da dominação-subordinação implicada nas relações de
nar como organização política e ideológica própria e isto desde
poder. Fixemos, por agora, que a distinção entre poder e poderio
que a sua existência ao nível econômico se traduza aos níveis das
suas práti~,as políticas ~ ideol~gicas por uma presença específica que
11. Dever-se-ia notar aqui que a problemática do conceito de "poder",
reportada à de uma relação específica caracterizada por uma demarca-
é a de efeitos pertinentes", Ora, esta presença de existência de
ção dos lugares de subordinação e de dominação em condições particula- uma classe, enquanto [orça social, supõe efetivamente de um certo
res de um "conflito", foi assinalada por Weber (Wirtschaft und Gesells- limiar organizacional no sentido lato do termo. No caso, por exem-
chaft, op. cit., p. 50 e segs.) ; designa esta relação como uma "Herrechaite- plo, dos camponeses parcelares, Marx recusa-se a atribuir-Ihes em
verband", produtora de legitimidade própria para engendrar relações de
"poder", e distingue-a da relação geral "dirigentes-dirigidos", relação que geral o. c~~áter de classe d~stinta, dado o seu isolamento que exclui
é possível encontrar em toda a organização social e que não pode, por as possibilidades de orgamzação enquanto condições de existência
isso, ser expressa pelo mesmo conceito que a relação específica de domi- de classe distinta. Esta organização, no sentido amplo do termo -
nação-subordinação, mas antes pelo conceito de "Macht". O que importa lhes é atril;mída no caso do Segundo Império, por Louis Bonaparte.
acrescentar aqui é que, o que traça a demarcação da relação dominação-
-subordinação, e situa o "conflito", encontra-se de fato, originariamente, Nest~ ~entIdo amplo, ,0. termo organização encerra simplesmente as
em um lugar exterior a esta própria relação: este conflito é delimitado condições de uma pratica de classe com "efeitos pertinentes". No
pela estrutura. Neste sentido, nem toda a relação "dirigentes-dirigidos" ntanto, a teoria da organização, no sentido estrito do termo, em
implica, pela sua própria natureza intrínseca, em um "conflito", ou, em Marx e sobretudo em Lenin, não abrange simplesmente as práticas
termos marxistas, em uma "luta" de classe: por outro lado, só um con-
flito delineado a partir das estruturas - em termos marxistas, uma luta do classe, as condições de existência de classe enquanto classe dis-
-de classe - é suscetível de criar uma relação particular de dominação- tinta - força social -, mas antes as condições de poder de classe,
-subordinação, expressa pelo conceito de poder. isto é, as condições de uma prática que conduz a um poder de classe.
12. É inútil assinalar aqui o erro capital das diversas ideologias que Por exemplo, em Marx, os textos relativos à organização política e
situam o poder como fenômeno "interpessoal", de R. Dahl a K. Lewin, I joo~6gica "próprias" de uma classe não se reportam de fato ao seu
passando pelo conjunto de definições de sabor psicossociológico do tipo
"O poder de uma pessoa A sobre uma pessoa B é a capacidade de A con-
funcionamento enquanto classe distinta. Conservam, no entanto, o
seguir que B faça alguma coisa que não teria feito sem a intervenção de u valor no que diz respeito ao poder de classe, à organização en-
A" (R. Dahl : "The Concept of Power" in Behavioral Science, 2, 1957, quanto condição deste poder, o que Marx exprime dizendo: "Assim
pp. 201-215). Parece-nos que se deve situar Fr. Bourricaud na mesma li- um movimento político. .. é um movimento da classe com vista ~
nhagem teórica. r alizar os seus interesses sob uma forma geral, sob uma forma que
* Puissomce, no original (N. T.) possui uma força social coercitiva universal". 14
13. Entre outros, R. Aron: "Macht, Power, Puissance: prose démocrati-
que ou poésie démoniaque?", in A. E. S. n.? 1,1964; G. Lavau: "La dis-
sociation du pouvoir" in Esprit, junho de 1953, número consagrado à J. Ourta a Bolte de novembro ed. 1871, a propósito do programa de
questão "Poder político e poder econômico". uU, (os grifos são meus).
103
102
É claro que esta linha teórica rege as análises leninistas sobre a do mesmo nível das outras classes, nos limites que cada prática de
organização, particularmente sobre a organização do partido da clas- classe impõe à das outras. Este sentido preciso dos limites é aliás
se operária. Que a prática política e ideológica de classe não encerra particularmente importante, e tem conseqüências em outros proble-
uma prática organizada como condição do poder de classe, Lenin mas além do poder; por exemplo, no que respeita ao nível polí-
assinalou-o pelo conceito de ação aberta ou ação declarada, o qual tico e ao problema da estratégia, manifesta-se nos efeitos específi-
não intercepta o de prática. A organização do poder de uma classe cos que exerce, sobre a prática política de uma classe, a de uma ou-
aparece freqüentemente, em Lenin, como condição da sua ação tra classe, em suma a estratégia do adversário.
aberta - não sendo o inverso necessariamente verdadeiro, poden-
do uma organização de poder de classe não conduzir a uma ação de- c - Abordemos agora a questão dos "interesses" e dos "inte-
clarada, quando o seu poder depende da sua dissimulada política de resses objetivos" de classe. É claro que este problema é muito vasto,
classes: por exemplo, a burguesia sob o Segundo Império. Deste e darei aqui somente algumas indicações. Centralizarei a questão em
modo constatamos uma diferença essencial e importantes defasagens torno do tema seguinte: quais são as relações dos "interesses" de
entre a organização de classe em sentido amplo, que intercepta o classe com as estruturas e com as práticas? Qual é o sentido do
conceito de prática com "efeitos pertinentes", e a organização de termo "interesses objetivos" de classe? E isto, a fim de chegarmos a
I I .poder; por exemplo, os camponeses parcelares do 18 Brumário pos-
suem uma organização, com Louis Bonaparte, de existência de clas-
se distinta, sem no entanto possuírem poder algum, não satisfazen-
um conceito adequado de interesse.
É necessário, no momento, proceder à eliminação de certas in-
do Bonaparte qualquer interesse desta classe. terpretações errôneas. Em primeiro lugar, os interesses de classe
estão situados no campo das práticas, no campo da luta de classes.
Com efeito, com o risco de cairmos em uma interpretação antro-
I Por outro lado, no entanto, se esta organização específica de
uma classe é a condição necessária do seu poder, nem por isso é a pológica do marxismo, não apenas na dos indivíduos-sujeitos, mas
sua condição suficiente. Esta observação permite-nos ver melhor as mesmo na das classes-sujeitos, não podemos localizar os interesses
razões da distinção entre prática com "efeitos pertinentes" de uma nas estruturas. De fato, os interesses, embora não sendo por isso
classe e a sua organização de poder. A organização de poder de uma lima no ão " sicológica", não podem ser localizados senão no cam-
classe não é suficiente para o seu poder, pois em primeiro lugar este )20 próprio das práticas e das classes. Nas estruturas, por exemp o,
poder obtém-se dentro dos limites, enquanto efeitos, das estruturas o salário ou o lucro não exprimem o interesse do capitalista - por
no campo das práticas: ao contrário de uma concepção "voluntaris- exemplo, o "incentivo do ganho" - ou do operário, antes consti-
ta", podemos ver que a realização efetiva dos interesses depende tuem categorias econômicas relacionadas a formas de combinação.
destes limites. Existe contudo, também, uma outra razão que nos Dizer, no entanto, que os interesses não podem ser concebidos senão
revela, por outro lado, o fundamento da distinção entre a prática por referência teórica a uma prática, nem por isso significa atribuir
com "efeitos pertinentes" e a organização de poder: o conceito de aos interesses uma relação com o "comportamento individual": em
poder especifica os efeitos, como limites, da estrutura nas relações uma primeira análise, significa excluir que os interesses estejam lo-
entre as diversas práticas das classes em luta. Neste sentido, o poder calizados nas estruturas.
indica relações não diretamente determinadas pela estrutura;eae:. Esta exclusão é importante. Com efeito, encontramos, por ve-
pende da relação exata das forças sociais presentes na luta de classes. zes, análises dos clássicos do marxismo que, a uma primeira lei-
A capacidade de uma classe para realizar os seus interesses, de que a tura parecem situar os interesses de classe nas relações de produção.
organização do poder é a condição necessária, depende da capaci- . este tipo de leitura que identifica as estruturas e as práticas, e que
dade das outras classes para realizar os seus. O grau de poder ,efe- vê nas relações de produção a classe-em-si - interesses de classes -,
. tivo de uma classe depende diretamente do grau de poder das ou- , contrário dos níveis políticos e ideológicos que consistiriam na
tras classes, no quadro da determinação das práticas de classe nos prática - a organização - da classe-para-si. Marx chega mesmo
limites fixados pelas práticas das outras classes. Estntamente fa· 1\ dizer que os interesses de classe, na luta de classe, preexistem de
lando, o poder recobre estes limites em segundo grau e indica o modo 111 um modo à própria formação, à prática de uma classe. A pro-
de intervenção da prática de um nível de uma classe, não diretamen- 11 slto dos interesses do proletariado diz-nos, na Ideologia Alemã,
te sobre as práticas de outros níveis da mesma classe, mas sobre as .orrcto, que: "Assim, a burguesia alemã encontra-se em oposição

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com o proletariado antes mesmo que este se encontre organizado mente aos mesmos resultados que a perspectiva economicista-histori-
enquanto classe". eista do marxismo: a que vê na estrutura econômica os interesses
No entanto, poderíamos, referindo-nos às análises citadas, ver econômicos - a "situação" da classe em-si. Resultado homólogo,
que de fato os interesses de classes não são - no que conceme à aqui também ao da cisão da "classe" social em um duplo estatuto
sua relação com as ráticas - a luta de classes, em uma relação de conceitualme~te demarcado: por um lado, classe em-si, situação de
estruturas com práticas. O que nos con uz a colocar o pro ema das classe, interesses latentes - quase-grupos -; por outro lado, outr~s
relações entre os interesses e as estruturas. Não seria inútil assinalar grupos para-si, grupos estatutários, elites políticas, interesses mam-
aqui que esta preocupação foi primordial na corrente "funcionalis- festos - grupos de interesses.
ta" da sociologia atual, e ter colocado o problema é um dos seus mé- É desde logo evidente que estas tentativas de localizar os inte-
ritos. Sabemos que esta corrente, remontando em última análise, a resses de classe nas estruturas não podem ser compatíveis com uma
uma problemática historicista do sujeito, e conduzindo por isso a concepção científica. Q. conceito de int~resses não pod~ relacionar-~e
uma perspectiva que define a prática como comportamento-conduta senão ao campo das práticas, na medIda em que os 1llteresses sao
dos agentes, colocou o problema da seguinte maneira: o lugar dos sempre interesses de uma classe, d~s su~orte~ distribuí~os em classes
agentes em relação à estrutura seria determinado por interesses obje- sociais. Entretanto isto nem or ISSOSIgnifIca ue o mteresses con-
tivos, os quais constituem o papel dos agentes. 15 O conceito de in- sistam em motivações de com ortamento, da mesma maneira que o
teresse é assim, à primeira vista, depurado de conotações psicológi- fato de situar as práticas nas relações sociais não q':ler dizer que. se
cas. Entretanto, sendo a estrutura concebida aqui como o substra- regresse a uma problemática do sujeito. Se o conceIto, de classe 11~-
to e o produto da conduta-comportamento dos agentes, os interesses- dica os efeitos da estrutura sobre os suportes, se tambem, o concei-
-estruturas, o papel-situação, consiste em expectativas - probabi- to de prática não encerra comportamentos mas ~tes um t.ra~alho
lidades - de certas condutas por parte dos agentes, em função do exercido nos limites impostos pela estrutura, os interesses indicam
seu papel estrutural. O que aqui sobretudo nos importa é que esta justamente estes limites, porém como extenção..-: campo, a um nível
localização dos interesses objetivos nas estruturas - a "situação" particular, da prática de uma classe em relaçao a das ~utras classes,
- decorre globalmente de uma problemática do sujeito, que vê nas em suma a extensão da "ação" das classes nas relaçoes de poder.
estruturas o produto dos agentes. Estes interesses são "objetivos" Isto aliás não constitui de modo algum um jogo metafórico sob~e os
na medida em que estão localizados nas estruturas, sendo as práticas termos de limites e de campo, antes um resultado da complexidade
reduzidas a condutas-comportamentos. das relações que estes termos encerram.
Esta colocação do problema dos interesses conduziu a corren- O problema nos é aliás indicado a propósito. da conjunt~ra po-
te funcionalista a impasses, logo que tentou colocar de uma maneira lítica, pelas análises de Lenin. O que, co~. efelÍ~,. caracte,r~za em
rigorosa o problema das estruturas. Não podendo os interesses ser Lenin o momento atual são: a) classes SOCWIS, práticas políticas de
efetivamente considerados senão no campo dos suportes - dos agen- classe - as forças sociais -, e b) relações de interesses, o que
tes -, introduz-se naturalmente a noção de "interesses latentes", considerado do lado da prática política da classe operária, se expri-
determinando o papel estrutural dos agentes, e de "interesses ma- me como os "interesses a longo prazo do proletariado". 18 Estes dois
nifestos", os quais se localizam, digamos, no campo das práticas. 16
termos - forças sociais e interesses - embora situando-se no, ~am-
No concernente ao estatuto teórico do "grupo", os interesses latentes
po das práticas políticas de classe, não são por es~~ fato tautolágicos.
teriam levado ao aparecimento de "quase-grupos" - grupos-em-si
S forças sociais dizem respeito à presença, e.specíflc,a.de uma classe,
-, os interesses - grupos-para-si. 17 Esta perspectiva, pondo de
por "efeitos pertinentes", no plano da prática política das classes.
lado o emprego do termo grupo em lugar de classe, conduz exata-
or outras palavras, os efeitos das estruturas no campo da luta de
15. Esta linha geral encontra-se em Parsons. Merton, Dahrendorf, etc.
lasses refletem-se aqui como um limiar de existência de uma elas-
16. Isto é particularmente nítido na aplicação dos conceitos de "funções
como classe distinta, como força social. Estes efeitos refletem-
manifestas" e "funções latentes" por R. Merton na análise dos "boss- • c entretanto também como extensão do terreno que esta classe
-polrtics" nos Estados Unidos. Ver Social Theoru and Social Structures, pode cobrir segundo os graus de organização específica que pode
1957, p. 73 e segs.
17. Em particular M. Ginsberg: Sociology, 1953, p. 40 e segs. 18. "Lettres de loin", Oeuvres, t. 23, p. 330 e segs.

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atingir - organização de poder -: este terreno estende-se mes- tação destes limites aos agentes - não pode ser apreendida sob a
mo aos seus interesses objetivos. Se nos referirmos assim a este du- categoria do "subjetivo". A este respeito, o emprego do termo "ob-
plo limite de campo - tendo todo o campo um aquém e um além jetivo"pode de fato ser considerado como supérfluo, e só é aqui em-
-, os interesses objetivos de classe aparecem, não diretamente pregado a fim de acentuar bem o fato de que o conceito de interesses
como o limiar da sua existência enquanto classe distinta - uma Rode e deve ser despojado de qualquer conotação psicológica. Não
qualquer "situação" de classe "em-si" -, mas como o horizonte da existe contudo dúvida alguma de que no terreno dos interesses a
sua ação como força social. Isto é aliás válido para todos os níveis função da ideologia pode dar lugar a numerosas formas de ilusão.
particulares de práticas do campo da luta de classes. Por isso, do Retenhamos simplesmente que o poder, enquanto capacidade de rea-
mesmo modo que os interesses econômicos não constituem a "situa- lizar interesses, reporta-se não aos interesses representados - no
ção" de uma classe em-si ao nfvel econômico - antes o horizonte caso em que, em virtude da ideologia, estão defasados dos interesses-
da sua ação econômica -, os interesses políticos não podem ser -limites - mas sim a estes últimos.
considerados como a "finalidade" da "práxis" de uma classe para-si:
eles são, ao nível da prática política, o horizonte que delimita o ter- D - O último elemento do conceito de poder é o da especiii-
reno da prática política de uma classe. cidade dos interesses de classe a serem realizados. Com efeito, se os
Os interesses de classe, como limites de extensão de uma prá- interesses não estão localizados nas estruturas com a "situação" de
tica es ecífica de classe, deslocam-se de acordo com os rnteresses classe nas relações de produção, mas como limites dos níveis do cam-
as outras classes presentes. Trata-se ainda aqui de relações, a ri- po das práticas, podemos perfeitamente conceber que se possa falar
gor, de oposições estratégicas de interesses de classe; é nesta pers- de interesses relativamente autônomos de uma classe no econômICO,
pectiva que se situa a distinção estratégica - no sentido próprio do no político e no ideológico. O poder situa-se ao nível das diversas
termo - entre interesses a longo e a curto prazo. Por outras pala- práticas de classe, na medida em que existem interesses de classe re-
vras, estes limites de extensão constituem simultaneamente limites- lativos ao econômico, ao político e ao ideológico. Em partIcular em
-efeitos da estrutura e limites-efeitos em segundo grau, impostos lima forma ão ca italista caracterizada pela autonomia especi ica dos
pela intervenção das práticas das diversas classes - luta de classe níveis de estrutura e de ráticas, e dos respectivos·interesses de classe,
- a um nível particular de práticas. Neste sentido, é também a podemos ver nitidamente a distinçãO entre- o poder econô!!}Íco, opo-
medida ou o grau no qual uma prática de classe recobre efetivamen- der olítico, o poder ideológico, etc., consoante a capacidade de uma
te o terreno delineado pelos seus interesses de classe que depende classe ara realizar os seusllteresses relativãmente autônomos-em
desta medida ou deste grau no adversário: a capacidade de uma clas- ada nível. 19 Em outras alavras, as relaçõeS<Iepoder não se situam
se para realizar os seus interesses objetivos, portanto o seu poder de unicãiiieil.te ao nível olítico, da mesma maneira qüe os interesses de
classe, depende da capacidade do adversário, portanto do poder do lasse não se situam unicamente ao-nível econômico. -As relações
adversário. ntre estes diversos aderes - o seu índice de- eficácia, etc. - re-
r rem-se à articulação das diversas práticas - interesses - de elas-
Mencionou-se aqui que os interesses de classe são interesses que refletem, de um modo defasado, a articulação das diversas es-
"objetivos", a fim de acentuar que não se trata de motivações de truturas de uma formação social, de um dos seus estágios ou fa~es.
comportamentos. Neste sentido, Marx diz-nos na Ideologia Alemã Resumindo, do mesmo modo que as estruturas ou as práticas, as
que "os interesses comuns ... de uma classe ... existem não só na ima- laçõe3 de poder não constituem uma totalidade expressiva simples,
ginação, como uma generalidade, mas sobretudo na realidade como mas sim relações complexas e defasadas determinadas, em últIma
dependência mútua de indivíduos entre os quais se divide o traba- Ilstância, pelo poder econômico: os poderes político ou ideológico não
lho social". f: no entanto evidente que, no campo das práticas, estes o a simples expressão do poder econômico. Podemos citar numero-
interesses como limites podem deferir, dado o funcionamento da os exemplos em que uma classe pode ser economicamente dominan-
ideologia a este respeito, da representação que os agentes ou mesmo
as classes fazem dos seus interesses. Isto não quer dizer que os inte- 10. ll: inútil insistir aqui na distinção nítida em Marx, Lenin, Gramsci,
resses representados ou vividos, na sua eventual defasagem com os ntr , por um lado, os interesses econômicos (Lenin, os interesses econô-
interesses-limites, sejam interesses "subjetivos": isto é tanto mais ilco-corporativos (Gramsci), os interesses econômicos privados (Marx),
verdade quanto a eficácia do ideológico - concretamente, a ocul- llur outro lado, os interesse •. políticos; essa distinção corresponde à dis-
/ 1Ie; O assinalada entre luta econômica e luta política.

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te sem o ser politicamente; 20 ideologicamente dominante sem o ser ta" - entendendo por isso a dominação política
I' é que o eco-
economicamente ou politicamente, etc. Por outro lado, uma classe nômico aparece, no caso concreto da Grã-Bretanha, como detendo o
pode possuir a capacidade de realizar interesses econômicos - ro- papel dominante. Em contrapartida, na dissociação dos lugares de
ema o Slll IC lsmo operario - sem possuir a capacidade de rea- d minação na Prússia no fim do regime de Bismarck, é a nobreza
lizar interesses políticos: pode possuir um poder econômico sem os- Iundiária - dominância política - que é, regra geral, considera-
suir um po er po 1Í1CO 'correspo'ildente" ou ain a um poder político da como a classe dominante: o político parece deter aí o papel do-
sem possuir um poder ideológico "correspondente", etc .. mlnante.F'
Uma última observação a propósito do problema da descentra-
lização dos lugares de dominação aos diversos níveis, podendo estes
ser ocupados por classes diferentes. Isto não quer dizer que não possa lU. Poder de Estado - Aparelho de Estado - Centros de poder
definir rigorosamente quais são a ou as classes dominantes em uma
formação, ou por outras palavras, qual o lugar de dominação que
possui a dominãncia sobre os outros. Se tivermos em conta o conjun- . Poderemos assim, admitindo este conceito de poder, elucidar o
to destas relações complexas, veremos que, no caso de uma descentra- ntido _de expressões tais c~m~ "poder de Estado", etc., em resumo,
lização semelhante, a classe ou as classes dominantes em uma forma- p;e~s<:es que parecem atribuir o poder a instituições. As diversas
ção são, em última análise, a ou as que ocupam os lugares dominan- Instituições so.clals e, particularmente, a instituição do Estado não
tes do nível de luta de classe, os quais detêm, ,no todo complexo desta " ssuem p.ropnamente poder. As instituições, consideradas sob o
formação, o papel dominante: ~ão pois a ou as classes que detêm o ponto de ylsta do poder, não podem ser relacionadas senão às classes
poder dominante. Por exemplo, na dissociação dos lugares de domi- sociais que detêm o r;~der. E~te po~e: das cla~ses sociais está orga-
nação na Grã-Bretanha antes de 1688, a burguesia, que possui o lugar nlzado, no seu exercicio, em mstituições especfficas, em centros de
economicamente dominante, é freqüentemente considerada por Marx poder, se~~o o Estado, neste contexto, o centro do exercício do
como a "classe dominante", ainda que não possua a "dominação di- /1 d~r politico, .Is~o_não quer ~izer, contudo, que os centros de poder,
diversas instituições de carater econômico, político, militar cultu-
20. Caso clássico da burguesia na Inglaterra antes de 1688, que é a I' I, etc., sejam simplesmente instrumentos, órgãos ou apêndices do
classe econômicamente dominante, continuando a aristocracia fundiária a I odcr das classes sociais. Elas posuem a sua autonomia e especifi-
ser a classe politicamente dominante, a despeito da revolução de 1640_ '1llude estrutural que, enquanto tal, não pode ser imediatamente re-
Em 1688, a burguesia inglesa, não se tornando embora a classe hegemô-
nica - voltaremos a isto -, entra contudo no bloco no poder, afirman- dutívcl a uma análise em termo de poder. 22
do-se mais tarde a sua hegemonia. Este caso particular da Inglaterra
tratado por Marx, mas também por Engels sobretudo no prefácio de 1892
Ver os textos de Marx e de Engels já assinalados.
à primeira edição inglesa do Socialismo utópico e socialis11Wcientífico -
citado de acordo com a edição Dietz, Engels: Die Entwicklung des Sozia- • Eetrutura-Inetituição ; estes conceitos têm que ser bem discrimina-
lismus von Utopie zur Wissenschaft, 1966, p. 20 e segs. Por outro lado, cJ li.Entenderemos por Instituição um sistema de normas ou de regras
sobre este assunto em geral, temos os numerosos textos de Engels sobre ulmente sancionado, O conceito de instituição não deve ser por isso
o Estado absolutista em geral como refletindo o "equilíbrio" entre as duas • rvado, conforme um sentido corrente e, aliás, muitas vezes admitido
classes, a nobreza agrária e a burguesia. Marx precisa, quanto a este lu marxismo instituições superestruturais - apenas para as institui-
ponto, que no caso da Inglaterra, no período em questão, não se trata jurídicas-políticas: a empresa, a escola, a Igreja, etc., constituem
de um equilíbrio político entre estas duas classes - como na França II'U lmcnte instituições. Em contrapartida, o conceito de estrutura encer-
no período que precede a Revolução - mas sim do fato de que o "poderio matriz organizadora das instituições. Através do funcionamento do
político e a força política não estão reunidas nas mesmas mãos" (Oeuvres 111 olôgieo, a estrutura permanece sempre oculta no - e pelo - sistema
poliiiques, op, Clit., t. II, p. 18). Temos ainda o caso da Prússia nos finais t1tucional que ela organiza. Devemos, a partir de agora, ter em conta
do Estado bismarckiano: a este respeito, ver Engels, A questão do aloja- t " observações no emprego que fizermos desses conceitos. Convém, não
mento (1872), 2.a parte, 2.a seção - dominação econômica da burguesia, t nt , acrescentar que a estrutura não é simplesmente o princípio de
dominação política da nobreza agrária - (Não me refiro aqui aos seus I1nnilllaçãoexterior à instituição: a estrutura está presente, sob forma
artigos 1851-1852 de Neui York Daily Tribune; conhecido sob o título I IVIl e invertida, na própria instituição, e é na reiteração destas pre-
de Revolução e Contra-revolução na Alemanha, visto dizerem respeito a " - mascaradas - sucessivas que é possível descrever o princípio
um fenômeno diferente). Ver também, a este respeito, as observações de lu iídação das instituições. Isto deverá ser tido igualmente em con-
R. Miliband, "Marx and the State", in Socialist Register, 1964, p. 283 e o quando do emprego do conceito de estrutura para a designação
e segs. JUIt11.1·CS instituclonais.

110 111
Por outro lado, contudo, no quadro de um exame das diversas
instituições sociais em relação ao poder, estas devem ser consideradas É neste sentido que podemos interpretar precisamente a distin-
de acordo com o seu impacto no campo da luta de classes, sendo o ção que Lenin faz entre poder de Estado e aparelho de Estado= Por
poder concentrado em uma instituição, um poder de classe. Em outras aparelho de Estado, Lenin indica duas coisas: a) o lugar do Estado
palavras, a autonomia relativa das diversas instituições - centros de no conjunto das estruturas de uma formação social, ou seja as diver-
poder - em relação às classes sociais não decorre do fato de possuí- sas funções técnico-econômica, política em sentido estrito, ideológica,
rem um poder próprio distinto do poder de classe, mas sim da sua re- etc., do Estado; b) o pessoal do Estado, os quadros da administração,
lação com as estruturas. :É neste sentido que as diversas instituições da burocracia, do exercito, etc. Por poder de Estado, Lenin indica
não constituem, em termos de poder, "órgãos de poder", instrumentos em contrapartida, a classe social ou fração de classe que detém o po~
de exercício de um poder de classe que lhes preexista e que as crie der.
para fins do seu cumprimento eficaz, mas sim centros de poder. Na
medida em que podemos distinguir entre várias formas de poder, po- Na primeira acepção de aparelho de Estado, o deslocamento dó
demos por isso proceder a um exame concreto, de acordo com as si- poder real de um centro de poder para um outro (no caso concreto
tuações concretas, da pluralidade existente de centros de poder.- do Estado oficial para o Estado-Sovietes) indica precisamente o des~
instituições em um dado momento, e das suas relações: por exemplo, l~camento do lugar que concentra as relações efetivas de poder polí-
empresas, Estado, instituições culturais, etc.. É evidente que, em vir- tíco das classes. Isto, contudo, na medida em que corresponde a um
tude da defasagem que caracteriza os diversos níveis da luta de clas- d~slocamento das funções da superestrutura política de uma institui-
ses e os diversos domínios do poder, as relações de poder das classes Ç?Opara uma outra 25, em que corresponde portanto a uma reorga-
em um centro de poder dependente de um nível determinado não po- mzaçao ~o. ~tado .~o conjunto das estruturas, a um certo lugar da
dem traduzir-se de uma maneira simples, tal e qual, em centros de nov? instituição de poder real" entre os outros centros de poder. Os
poder depententes de outras instâncias. f: igualmente claro que a or- Sovlete.s são o "poder real" na medida em que são um Estado _
ganização hierárquica destes centros de poder (ver, por exemplo, as p~nto importante n? .qual Lenin insiste -, para o qual certas fun-
variações características da combinação Estado-Igreja-Escola ou Es- çoes do aparelho oficlal de Estado são transferidas, e na medida em
que as relações efetivas de poder das classes são assim concentradas
tado-Escola-Igreja) depende simultaneamente da articulação das ins-
nos ~o~ietes. O conceito de aparelho de Estado, no seu segundo senti-
tâncias e da relação de forças na luta de classes. do, Indicando o pessoal do Estado, relaciona-se simultaneamente ao
É neste quadro que podemos estabelecer distinções tais como problema da relação entre a classe que detém o poder e este pessoal
poder formal ou poder real, reportadas às instituições - centros de "detentor" do Estado e ao da relação entre este pessoal e o Estado,
poder, e das quais Lenin nos dá um modelo de análise, a propósito do Voltaremos mais detalhadamente a este ponto; o que se trata portan-
poder político, nos seus textos relativos à "dualidade do poder" - do to .de reter é que a expressão leninista de aparelho de Estado de ma-
Estado burguês e dos Sovietes - na Rússia. 23 Esta distinção não neira nenhuma se reduz a uma concepção "instrumentalista" do Esta-
recobre uma distinção entre instituições possuidoras do poder, possuin- do como órgão ou instrumento do poder, antes situa em primeiro lu-
g~r a superestrutura política de acordo com o seu lugar, e a sua fun-
do uma, ao contrário da outra, o poder efetivo. Esta distinção indica çao, em um conjunto de estruturas.
que as relações de poder das classes podem provocar um deslocamen-
to de gravidade entre os "centros" que concentram este poder, no IV. A Concepção do Poder como "Soma-Zero"
sentido de que as relações reais de poder das classes se refletem mais
em um centro do que noutro. Este deslocamento real depende tanto
Podemos também, a partir destas observações, tentar penetrar
do lugar de um centro de poder em relação às estruturas de uma for- m ~~ dos mai~ importantes pressupostos errôneos, freqüentemente
mação social, como das relações de poder no campo da luta de Implícito, da maior parte das atuais teorias do poder: isto ser-nos-á
classes. útil, na medida em que numerosas teorias que tratam dos problemas

23. Oeuvres, t. 25, sobretudo "Une des questions fondamentales de Ia 4. Oeuvres, t. 33, p. 284 e segs., 440 e segs., 501 e segs.
Révolution", p. 398 e segs.; e "A propos des mots d'ordre", p. 198 e segs. G. Contrariamente a urna antiga confusão que designa as funções do
.atado sob o termo de poder.
112
113
das saciedades capitalistas atuais, as teorias das classes "dirigentes", b) Esta concepção da poder coma sarna-zero, aplicada à escala
das "paderes-cantrapaderes", das poderes campensadares", etc., im- global de uma formação social, menospreza a especificidade das di-
I plicam neste pressuposto. Foi claramente formulado por Wright versas formas de poderes aos diversas níveis, bem coma a sua defa-
Mills 26, e consiste na concepção da poder como soma-zero. Tra- sag~m. A perda de poder ao nível econômica, uma redução da ca-
ta-se de considerar a poder de algum modo uma quantidade de- pacidade de uma classe para realizar os seus interesses econômicos
terminada no interior de uma sociedade. Toda a classe, 'Ougrupo e~specífie?s, n~~ se traduz diretamente em uma perda de poder polí-
social, teria assim a quantidade de poder que urna outra não tivesse, tíco ou l~e~lagIcô e vice-versa. Por 'Outro lado, um aumento do po-
traduzindo-se, digamos, toda a redução do poder de um grupo deter- der economico de uma classe não significa diretamente um aumento
minada diretamente de um aumenta da poder de um 'Ou 'Outra grupo do seu poder pal5t~ca ou ideológico. Portanto, se a concepção da
e assim por diante, de tal modo que, mesma que varie a repartição P??er-soma ze~o e inexata no que concerne mesma a um nível espe-
da poder, este mantém-se sempre uma quantidade invariante. Esta ~lfl~Ode r~laçaes de poder - econômica, político, ideológico -, a
concepção que sustenta várias formas atuais da reíormismo 27, remon- e all~da m~ls no que concerne aa poder à escala global de uma for-
ta, vê-Io-emos com maior precisão, aos pressupostas idealógicas de maçao social, dado a defasagem característica das diversos níveis de
certas análises relativas ao poder, que nas limitamos a enumerar. poder.
Remonta a uma concepção "funcianalista" da toda social, composto c) Independentemente destas abjeções à concepção do poder
par elementos equivalentes que mantém relações de um equilíbrio de cama sarna-zero que se relacionam ao problema da reflexão das es-
integraçãa 28, e a um menasprezo do problema das estruturas de uma truturas como limites da campa das práticas, devemos reparar que
formação. Estas são incorporadas na conduta-comportamento dos gru- esta remonta a uma concepção da distinção dos grupos 'Ou classes
os sociais concebidos corno "agentes" do processo social, sendo-o baseadas nas relações de poder. Trata-se da concepção assinalada de
paralelogramo de forças das relações de poder baseado na mútua Web~r ,d~ uma di~otomia das sociedades ou das 'Organizações da tipo
limitação destas condutas. ú'utonta~lO em dOISgrupos fundamentais: a grupo dominante e 'Ogru-
, Vejamos por que razão esta concepção do poder como soma- po dominado, Em uma adaptação funcionalista desta teoria, encon-
-zero não pode ser sustentada. tramos a concepção ~~ ~ic'Otomia dos dois "papéis" de poder, a de
comando e .0 de ~bedlencla. É: ~s~a perspectiva que rege a maior par-
a) Se considerarmos a poder como efeito das estruturas no cam-
te das atuais teonas da classe dirigente. Neste sentida, e na interior
pa da luta de classes, poderemos ver que a capacidade de uma classe
de 'Organizações ou sociedades da tipo autoritária a deslocamento
para realizar os seus interesses, a qual depende da l~ta de. uma 'Outra da poder consistiria em uma permuta de poder-soma zero entre dois
classe, depende assim das estruturas de uma formaçao social enquan- grupos, significando qualquer perda de poder de um grupo o aumenta
to limites do campo das práticas de classe. Uma redução desta capa- da poder da _outro .grupo. Ora, nós sabemos que se trata sempre, em
cidade de uma classe não se traduz automaticamente em um aumento uma formaçao social complexa, não de duas mas de várias classes
de capacidade de uma outra classe, dependenda. sim das estruturas a soci~is, relacianad~s co~ a sobreposição de vários modos de pro-
eventual redistribuição da poder: uma perda, digamos, de poder d.a duçao. Neste sentido, nao podemos estabelecer a nível algum uma
classe burguesa não significa que este poder se vá por este fato adi-
cionar ao poder da classe 'Operária. É: a que implica o frase de Marx
dicotomia de relações de poder-sarna zero. A perda de poder de
lima classe, 'Oufração de classe, pode 'Ounão indicar um aumento de
em A Guerra Civil na França, que reporta a fenômena do bonapar- poder, não do 'Outro única "grupo" existente, da grupo subordinado,
tismo ao tato de que. .. "era a única forma passível de governo na mas de uma classe ou fração de classe estre as numerosas classes ou
momento em que a burguesia tinha perdido, e a classe 'Operária não frações em luta a todos as níveis. Uma perda de poder de uma classe
tinha ainda adquirido, a capacidade de dirigir a nação". ou frações de classe dominante pode ou não corresponder a uma con-
quista de poder não só da classe operária, mas também de uma 'Outra
26. The Pourer Elite, 1956, lntroduction; Power, Politios, und people, lasse dominada, ou não apenas das diversas classes dominadas mas
p. 23 e segs., 72 e segs. também, eventualmente, das 'Outras classes ou frações dominantes.
27. Ver adiante, p. 260.
28. Nada mais significativo a este respeito que a crítica de Mills PO! Por outras palavras, a linha de demarcação da relação conflitante es-
Parsons: "The distribution of Power in American Society". world Pofti.. pecífica entre dominação e subordinação, caracterizando efetivamen-
tics, n.? 1, out. 1957.
115
114
te as relações de poder, nem por isso significa, de qualquer modo, e
a qualquer nível, uma dicotomia de dois grupos-sujeitos permutando
poder-soma zero.
d) Finalmente, esta concepção, aplicada em particular ao nível
do poder político, negligencia o problema da unidade deste poder nas
suas relações com o Estado, fator de coesão da unidade de uma for-
mação. O poder político é concebido como um conjunto de "parce-
las" autônomas, significando a conquista de uma destas parcelas pela
classe operária que ela foi arrancada ao poder da classe burguesa e
adicionada ao da classe operária. Problema este de que nos ocupa-
mos na quarta parte deste ensaio.

II

O ESTADO CAPITALISTA

116
1. O Problema

Possuímos, a partir de agora, elementos suficientes para em-


preender o exame do Estado capitalista. O traço distintivo funda-
mental, a este respeito, parece consistir, com efeito, no fato de estar
ausente a determinação de sujeitos (fixados, neste Estado, como "in-
divíduos", "cidadãos", "pessoas políticas") esquanto agentes da pro-
dução, o que não acontecia com os outros tipos de Estados. Este Es-
tado de classe apresenta de específico o fato da dominação política
de classe estar constantemente ausente das instituições. Este Estado
apresenta-se como um Estado-popular-de-classe. As suas instituições
estão organizadas em torno dos príncipios da liberdade e da igualda-
de dos "índivíduos" ou "pessoas políticas". A legitimidade deste Es-
tado está agora baseada, não na vontade divina implicada no princí-
pio monárquico, mas no conjunto dos indivíduos-cidadãos formal-
mente livres e iguais, na soberania popular e na responsabilidade lai-
ca do Estado para com o povo. O próprio "povo" é erigido em prin-
cípio de determinação do Estado, não enquanto composto por agen-
tes da produção distribuídos em classes sociais, mas enquanto massa
de indivíduos-cidadãos, cujo modo de participação em uma comuni-
dade política nacional se manifesta no sufrágio universal, expressão
da "vontade geral". O sistema jurídico moderno, distinto da regula-
mentação feudal baseada nos privilégios, reveste um caráter "norma-
Ilvo", expresso em um conjunto de leis sistematizadas a partir dos
princípios de liberdade e igualdade: é o reino da "lei". A igualdade e
H liberdade dos indivíduos-cidadãos residem na sua relação com as leis
IIb tratas e formais, as quais são tidas como enunciando essa vontade
g ral no interior de um "Estado de direito". O Estado capitalista mo-
l! rno apresenta-se, assim, como encarnando o interesse geral de toda
1\ sociedade como substancializando a vontade desse "corpo político"
que seria a "nação".
Estas características fundamentais do Estado capitalista não po-
li m ser reduzidas ao ideológico: dizem, antes, respeito àquele nível
I' i nal do M.P.C. que é a instância jurídico-político do Estado, cons-
thuída por instituições tais como a representatividade parlamentar,
1\ liberdades políticas, o sufrágio universal, a soberania popular, etc.
N () quer isto dizer que o ideológico não desempenhe aí um papel
'lIpital; contudo, é um papel muito mais complexo e que, em caso
111 um, se pode identificar com o funcionamento das estruturas do
1', lado capitalista.

119
A questão dos princípios de explicação do Estado capitalista a) Impossibilita a compreensão da relação do Estado com
colocou numerosos problemas à ciência marxista do Estado. Esses a luta de classes. Com efeito, sendo por um lado os agentes da pro-
problemas estão centralizados em torno do tema: quais são as carac- dução concebidos originariamente como indivíduos-sujeitos e não
terísticas reais da economia que implicam nesse Estado capitalista? como suportes de estruturas, ~ impossível constituir a partir deles as
Em toda a série de resposta dadas, podemos na maior parte dos casos classes sociais; sendo, por outro lado, o Estado relacionado origina-
descobrir, através das variantes, uma invariante: a referência ao con- riamente com estes indivíduos-agentes econômicos, é impossível rela-
ceito de "sociedade civil" e à sua separação em relação ao Estado. cioná-Ia com as classes e a luta de classe.
E isto, quer não se admita cesura entre as obras de juventude e as b) Conduz a mascarar toda uma série de problemas reais postos
obras de maturidade de Marx - é o caso, por exemplo, de Leíêbvre, pelo Estado capitalista, ocultando-os sob a problemática ideológica da
de Rubel, de Marcuse, em suma da tendência historicista típica; quer separação entre sociedade civil e o Estado; nomeadamente, torna-se
se situe a cesura ao nível da Crítica da Filosofia do Estado de Hegel impossível pensar a autonomia específica, no M. P. C., do econômico
- e é o caso da corrente marxista italiana de Galv. della Volpe, de e do político, os efeitos do ideológico sobre estas instâncias, a inci-
Umb. Cerroni, de M. Rossi. dência dessa relação entre estruturas no campo da luta de classes, etc.
A invariante destas respostas consiste nisto: a emergência, no Vamos tentar estabelecer a originalidade das relações do Esta-
econômico do M. P. C. isto é, nas relações capitalistas de produção, do capitalista com as estruturas das relações de produção, por um
dos agentes da produção enquanto indivíduos. Com efeito, são havia lado, e com o campo da luta de classes, por outro.
Marx insistido particularmente nos Grundrisse ..., no aparecimento dos
indivíduos-agentes ,da produção - indivíduos nus - como carac-
terística real, tanto do produtor direto, "trabalhador livre", como do L O Estado Capitalista e as Relações de Produção
não-produtor proprietário, em resumo, como forma particular dos
dois elementos que, com os meios de produção, entram em combina-
ção naquele tipo de relações que são as relações de produção? Esta No primeiro caso, examinemos o que Marx entende, nos Grun-
individualização dos agentes de produção, tomada precisamente como drisse ... - (precisamente, no capítulo: Formas que precedem a pro-
característica real das relações capitalistas de produção, constituiria dução capitalista 1, por "indivíduo nu" como pressuposto teórico
o substrato das estruturas estatais modernas: o conjunto destes indiví- (Voraussetzung) e como condição histórica (historische Bedingug)
duos-agentes constituiria a sociedade civil, quer dizer, de algum modo, do M.P.C.
o econômico nas relações sociais. A separação entre a sociedade civil
e o Estado indicaria assim o papel de uma superestrutura propriamen- Não deixa de ser útil assinalar, antes de mais, que, contraria-
te política com relação a esses indivíduos econômicos, sujeitos da mente a uma concepção historicista, este "indivíduo nu", considerado
sociedade mercantil e concorrencial. como condição histórica do M.P.C., não indica para Marx a história
da gênese de este modo, mas antes a genealogia de alguns dos seus
Ora, o conceito de sociedade civil, importado de Hegel e da teo- elementos. É, com efeito, necessário distinguir entre pré-história e
ria política do século XVIII, envia com exatidão para o "mundo das estrutura de um modo de produção, pois que existem diferentes pro-
necessidades" e implica no correlato da problemática historicista cons- cessos efetivos de constituição dos elementos, mas, uma vez consti-
tituído pela perspectiva antropológica do "indivíduo concreto" e do tuídos estes, da sua combinação resulta sempre a mesma estrutura.
"homem genérico", concebido como sujeitos da economia. O con-
A - Que significa, segundo Marx, o aparecimento do "indiví-
seqüente exame do Estado moderno, iniciado a partir do problema
de uma separação entre a sociedade civil e o Estado, é moldado sobre
duo nu" - nacktes Individuum - como condição histórica do
M.P.C., termo esse que emparelha no texto dos Grundrisse ..., a propó-
o esquema da alienação, isto é, sobre o esquema de uma relação entre
sito do produtor direto, com o de "trabalhador livre" - freie Arbei-
c sujeito (indivíduos concretos) com a sua essência objetivada (o
ler?
Estado).
Sem nos alongarmos na crítica desta concepção, contentemo-nos
J. Ver, sobre estes assuntos, Grumdrssee ZU1' Kritik dei' politischen. Oeko-
em observar aue ela conduz a conseqüências muito graves que levam lIQmie, na ed. Rowohlt, 1966, p. 47 e segs., 65 e segs., 127 e segs., em par-
à impossibilidade de um exame científico do Estado capitalista. ti ular 132, 138, 150, 154, 157, 167.

120 121
Ê evidente que esse termo de modo algum significa o apareci-
o aos meios de produção, a qual intervém no estágio histórico da
mento efetivo, na realidade histórica, de agentes de produção enquanto grande i.n~ústria. ~ marca o início da reprodução alargada do M.P .C.,
indivíduo, no sentido literal do termo. Ele é empregado de forma que_aqui e descritivamente tomada como "nudez" dos agentes da pro-
descritiva, a fim de indicar a dissolução de uma certa relação de estru- duçao.
turas, do modo de produção feudal. Este modo de produção é na o-
corrência, apresentado abusivamente por Marx, até mesmo em Capital, Não é minha intenção abordar as causas destas flutuações da
e em oposição com o M. P. C., como sendo caracterizado por uma termin?,~ogi.a,de Mar,~' O que aqui interessa examinar bem é que o
miscigenação das suas instâncias, miscigenação essa ligada a uma termo indivíduo nu , nessa segunda acepção que encerra os pressu-
I concepção propriamente mítica da relação "orgânica" entre elas. Já
sabemos o que devemos pensar desta representação que Marx tinha
postos teóricos do M. P. C., de modo algum indica a emergência real
de agentes da produção como "indivíduos". De fato, sabemos rigoro-
do modo de produção feudal. 2 O que importa é que o "indivíduo nu" amente que o que é realmente expresso aqui por este termo, a sepa-
e o "trabalhador livre" não passam aqui de simples palavras, descre- ração entre o produtor direto e os seus meios de produção, tem resul-
vendo precisamente a libertação dos agentes da produção dos "laços tados completamente diferentes. Ê essa separação que precisamente
de dependência pessoal" (persõnliche Herrshaits-und Knechtschaits- onduz à coletivização do processo de trabalho, quer dizer ao traba-
verhaeltnisse) - ou seja, "naturais" (Naturwüchsige Gesellschaft) lhador enqua~to órgão de um mecanismo coletivo de produção, o
- feudais, concebidos como entraves econômicos-políticos "mistos" que Marx define como socialização das forças produtivas, enquanto
do processo de produção. A dissolução das estruturas é descritiva- que, do lado dos proprietários dos meios de produção, conduz ao pro-
mente tomada como despojamento dos agentes da produção, o que essa de concentração do capital.
não é senão um modo de assinalar uma transformação estrutural,
apreendendo-a, de forma meramente descritiva, pelos seus efeitos. /, . Des.te ~?do, nã~ podemos de forma alguma admitir, na proble-
O termo "indivíduo nu" como condição histórica não indica, pois, de mática científica marxista, essa famosa existência real de "indivíduos"-
forma alguma, que certos agentes, anteriormente integrados "orgâ- -sujeitos, a qual é, no fim de contas, o fundamento da problemática
nicamente" em unidades, apareçam na realidade como indivíduos ato- da "sociedade civil" e da sua separação em relação ao Estado. Em
ontrapartida, considerando o Estado capitalista como instância re-
I mizados - os quais, em seguida, se teriam inseridos nas combina-
ções das relações de produção capitalistas, ou que teriam, em seguida ional do M. P, C., portanto, na sua relação complexa com as rela-
e progressivamente constituído classes sociais: 3 o que esse termo in- es de produção, é possível estabelecer a sua autonomia específica
dica é que certas relações se desintegram - sicli auiloesen -, o m relação ao econômico. Aliás, não há qualquer dúvida de que,
I' que, nos seus efeitos, aparece como uma "nudez" e uma "libertação", para a escola marxista italiana, este esquema ideológico da separação
e mesmo uma "individualização" - V ereinzelung - dos agentes. ntre a sociedade civil e o Estado recobre abusivamente o problema
al da autonomia respectiva, no M.P.C., das estruturas políticas e
B - Entretanto, o termo "indivíduo nu" é também empregado conômicas. Esta autonomia específica do político e do econômico
na acepção de pressuposto teórico do M. P. C. Neste sentido, ele ex- 10 M. P. C. - descritivamente oposta por Marx a uma pretensa
pressa, de forma igualmente descritiva, uma realidade completamente "miscigenação" das instâncias do modo de produção feudal - rela-
diferente, e por conseguinte muito precisa; conota, simultaneamente lona-se finalmente à separação entre o produtor direto e os seus
nas formas que precedem... e em O Capital, a relação de apropria-
ias ?e yrodução; relaciona-se à combinação própria da relação de
ção real, característica teórica do M.P.C., a qual é especificada pela
propnaçao real e da relação de propriedade, na qual reside, segun-
separação entre o produtor direto e as suas condições "naturais" de
trabalho. Ê precisamente esta separação do produtor direto em reia- ( Marx, o "segredo" da constituição das superestruturas. Esta sepa-
o entre o produtor direto e os meios de produção na combinação
2. yer a este respeito, bem como sobre o 'assunto que se segue a Intro- regula e distribui os lugares específicos do econômico e do polí-
dução. o, e que impõe os limites à intervenção de uma das estruturas re-
3. É contudo o que Marx efetivamente diz nos Grumdrisee, a propósito nais na outra, não tem rigorosamente nada a ver com o apareci-
da "massa" do~ "trabalha~ores livres" que se constituem progressivamen- nto real, nas relações de produção, dos agentes enquanto "indiví-
te em classe: VImos no capitulo sobre as classes sociais o que isto significa. u( s"; antes, pelo contrário, revela estes agentes como suportes das
122
123
estruturas e abre assim o caminho para um exame científico da rela-
ção entre o Estado e o campo da luta de classes. Ora, se a separação entre o produtor direto e os meios de pro-
Se considerarmos, assim, a função que revestiu, para a teoria dução na relação de apropriação real processo de trabalho separação
marxista do Estado, o conceito de sociedade civil, facilmente vemos ta que origina a autonomia específica do político e do econômico
que, na melhor das hipóteses, terá sido negativa ou diacritica. A so- - determina a instauração dos agentes na qualidade de "sujeitos"
ciedade civil constituiu uma noção que, negativamente, indica a au- jurídico-político, isto sucede na medida em que ela imprime ao proces-
tonomia específica do político, mas de modo algum um conceito capaz o de trabalho uma estrutura determinada. É o que Marx demonstra
de abranger a estrutura do econômico, as relações de produção. nas suas análises sobre a mercadoria e a lei do valor: " ... Objetos de
utilidade só se tornam mercadorias na medida em que constituem o
Além disso, a superestrutura jurídico-política do Estado está re-
produto de trabalhos privados executados independentemente uns dos
lacionada com essa estrutura das relações de produção, o que se torna
utros'v " Trata-se aqui, propriamente, de um modo de articulação
claro desde que nos reportamos ao direito capitalista. A separação
objetivos dos processos de trabalho, no qual a dependência real dos
entre o produtor direto e os meios de produção reflete-se aí através
produtores, introduzida pela socialização do trabalho - trabalho
da fixação institucionalizada dos agentes da produção como sujeitos cial -, está dissimulada: estes trabalhos são, dentro de certos li-
jurídicos, isto é, como indivíduos-pessoas políticos. Isto é tanto ver- mites objetivos, executados independentemente uns dos outros - tra-
dade, no que diz respeito a essa transação particular que é o contrai- balhos privados -, isto é, sem que as produtores tenham que pre-
to de trabalho, a compra e a venda da força de trabalho, como no viamente organizar a sua cooperação. É então que domina a lei do
que concerne à relação de propriedade jurídica formal dos meios de valor. Esta o posição "dependência/independência" dos produtores
produção ou às relações institucionalizadas públicas-políticas. Isto - e não dos "proprietários privados" - na relação de apropriação
quer dizer que, de fato, os agentes de produção não aparecem como r ai, a qual recobre a separação entre "produtores" e meios de pro-
"indivíduos" a não ser nessas relações superestruturais que são as re- dução, indica assim que a dependência dos produtores impõe limites
lações jurídicas. É destas relações jurídicas, e não das relações da n cessários à independência relativa dos processos de trabalho. Não
produção em sentido estrito, que decorrem o contrato de traba!ho e podendo aqui insistir mais sobre esta questão capital, é necessário
a propriedade formal dos meios de produção. Que este aparecimen- ontudo sublinhar bem que:
to do "indivíduo" ao nível da realidade jurídica seja devido à separa-
ção entre o produtor direto e os seus meios de produção, não signifi- a) trata-se
de uma estrutura objetiva do processo de trabalho.
ca portanto que esta separação engendre "indivíduos-agentes de pro- por um lado, a relação de propriedade da combina-
sta determina,
dução" nas próprias relações de produção. Muito pelo contrário, o o econômica, e por isso mesmo, a contradição específica do econô-
que se trata de explicar é como é que essa separação, que engendra ico do M. P. C. entre socialização das forças produtivas e proprie-
no econômico a concentração do capital e a socialização do processo de privada dos meios de produção; e determina, assim, por outro
de trabalho, instaura, conjuntamente, ao nível jurídico-político, os a- 1 do, a instauração dos agentes - trabalhos independentes - na
gentes da produção na qualidade de "indivíduos-sujeitos", políticos ualidade de sujeitos na superestrutura jurídico-política.
e jurídicos, despojados da sua determinação econômica e portanto,
b) Os agentes aparecem aqui, não como "sujeitos-indivíduos", mas
da sua inserção em uma classe.
nt s como suportes de uma estrutura do processo de trabalho, quer
Quase não há necessidade de insistir, aqui, no fato de que a este lzcr enquanto agentes-produtores mantendo relações determinadas
estatuto particular da instância jurídico-política corresponde uma m os meios de trabalho.
ideologia jurídica e política, a qual decorre da instância ideológica.
Esta estrutura do processo de trabalho é sobredeterminada pelo
Essa ideologia jurídica-política detém um lugar dominante na ideo-
rídlco-politico: através da sua reflexão no jurídico-político, e atra-
logia dominante deste modo de produção, substituindo-se ao lugar aná-
da intervenção deste último no econômico, ela conduz a toda
logo da ideologia religiosa na ideologia dominante do modo de produ-
série de efeitos sobredeierminados nas relações sociais, no campo
cão feudal. Aqui, a separação entre o produtor direto e os seus meios
luta de classes.
de produção exprime-se, no discurso ideológico, sob formas aliás ex-
traordinàriamente complexas de personalismo individualista, pela
I 1,6 Capital, T. I, p. 85. Sobre este assunto, Ch. Bettelheim, Le contenu
instauração dos agentes na qualidade de "sujeitos". 1l1l1ouléconomique social, curso inédito que o autor teve a gentileza de
eumunícar.
124
125
lI. O Estado Capitalista e a Luta de Classes da produção, na sua luta econormca, as suas relações de classe.
Não há, aliás, qualquer dúvida de que esta é uma das razões por
A elucidação dos princípios de explicação do Estado capitalista que Marx localiza constantemente a constituição das classes -
está longe de ter sido esgotada. A relação entre as estruturas polí- do M. P . C. - enquanto tais, ao nível da luta política de classe.
ticas e as relações de produção com efeito abre o acesso ao problema Não é que só na luta política "indivíduos-agentes da produção" se
da relação entre o Estado e o campo da luta de classes. onstituam em classes; sabemos, nomeadamente pelo 3.0 livro de
O Capital, que os agentes da produção, já na transação do contrato
Esta autonomia específica das estruturas políticas e econômicas
de trabalho do 1.o livro, estão distribuídos em classes sociais. É,
do M. P. C. reflete-se, no campo da luta de classes, isto é, no domí-
m razão dos efeitos do jurídico e do ideológico sobre as relações
nio das relações sociais, quer por uma emancipação das relações so-
ociais econômicas, sobre a luta econômica, que esta última não é
ciais econômicas e das relações sociais políticas, quer por uma eman- vivida como luta de classe.
cipação, sublinhada por Marx, Engels, Lenín e Gramsci, da luta eco-
nômica e da luta propriamente política de classe. Abstraindo provi- De resto, este "efeito de isolamento" sobre as relações sociais
soriamente do ideológico, a relação entre o Estado e o campo da luta conômicas não se manifesta só ao nível de cada agente da pro-
de classes pode pois, ser dividida em relação do Estado com a luta dução, ou seja como efeito de "individualização" destes agentes;
econômica de classe, por um lado, e com a luta política de classe, por le se manifesta em toda uma série de relações que vai, por exem-
outro. plo, das relações entre operário assalariado e capitalista proprie-
tário privado, entre operário assalariado e operário assalariado, e
Ora se, para começar, examinarmos a ·luta econômica de classe,
ntre capitalista privado e capitalista privado, às relações entre um
as relações sociais econômicas do M. P. C., constatamos uma carac-
operário de uma fábrica, de um ramo da indústria, de uma locali-
terística fundamental e original que, doravante, passarei a definir
dade com os outros, de capitalistas de um ramo de indústria e de
como "efeito de isolamento"; Consiste ela no fato de que as estrutu-
uma fração do capital com os outros. Este efeito de isolamento,
ras jurídicas e ideológicas, as quais, determinadas em última instância
que designamos pelo termo de concorrência, abrange todo o con-
pela estrutra do processo de trabalho, instauram, ao nível os agentes
[unto das relações econômicas.
de produção distribuídos em classes sociais, na qualidade de "sujei-
tos" jurídicos e ideológicos, têm como efeito, sobre a luta econômica Por outro lado, podemos referenciar um isolamento, no inte-
de classe, a ocultação, de forma particular, aos agentes, das suas re- lor das relações sociais econômicas, em certas classes de uma for-
lações enquanto relações de classe. As relações sociais econômicas mação capitalista, as quais decorrem de outros modos de produção
são efetivamente vividas pelos suportes através de um fracionamento ioe istindo nessa formação: é o caso dos camponeses parcelares.
e uma atomização específicos. Várias vezes o indicaram os clássicos preciso, contudo, notar que, nesse caso, esse isolamento decorre
do marxismo, opondo a luta econômica "individual", "local", "parcial", suas condições de vida econômica, a saber, precisamente da
"isolada", etc., à luta política, a qual tende a apresentar um caráter não-separação em relação aos meios de produção, ao passo
de unidade, isto é, de unidade de classe. Este isolamento constitui , no caso dos proprietários capitalistas e dos operários assa-
assim o efeito, sobre as relações sociais econômicas, 1) do jurídico; dos, o isolamento é um efeito do jurídico e do ideológico. Não
2) do ideológico jurídico-político; 3) do ideológico em geral. Este t nte, este "efeito de isolamento" específico do M. P. C. im-
efeito de isolamento é terrivelmente real, e tem um nome: a concor- na também, de forma sobredeterminada, as classes dos modos
rência entre os operários assalariados e entre os capitalistas proprie- produção não-dominantes de uma formação capitalista, acres-
tários privados. É, de fato, uma concepção ideológica a que con- ntando-se, na sua relação com o Estado capitalista, ao isola-
cebe as relações capitalistas de produção como relações de troca, nto próprio das respectivas condições de vida econômica.
no mercado, entre indivíduos-agentes da produção. Porém, a con-
Que estas características da luta econômica do M. P . C. cons-
corrência, longe de designar a estrutura das relações capitalistas
U m os efeitos do jurídico e do ideológico, nada talvez indique
de produção, consiste precisamente no efeito do jurídico e do ideo-
Ihor que o fato seguinte; quando Marx quer designar este iso-
lógico sobre as relações sociais econômicas. nto da luta econômica, opondo-a à luta propriamente política,
Esse efeito de isolamento não deixa de ser de uma impor- pr ga com freqüência o termo privado opondo-o a público,
tância capital, notadamente na medida em que oculta aos agentes n endo este o campo da luta política. Esta distinção entre o

126 127
privado e o público decorre do jurídico-político, na medida em que nômic~. Esta prática não é de modo algum "pura", antes sobre-
se opõem os agentes, instaurados na qualidade de indivíduos-sujei- de~erml~ada.' sempre,. na sua realidade concreta. O Estado capi-
tos jurídicos e políticos (privado), às instituições políticas "repre- talista e pOIS determinado pela sua função relativa à luta econô-
sentativas" da unidade destes sujeitos (público). O fato de Marx mica de classe tal como esta se apresenta devido ao efeito de iso-
aplicar a categoria de privado para designar o isolamento da luta lamento anteriormente indicado.
econômica de modo algum significa portanto uma distinção entre Deste modo, este Estado apresenta-se constantemente como a
os indivíduos-sujeitos econômicos (privado) e o político, antes in- unidade propriamente política de uma luta econômica, a qual ma-
dica o isolamento de toda a série das relações sociais econômicas nifesta, na sua natureza, esse isolamento. Apresenta-se como re-
com efeito do jurídico e do ideológico. Ê neste sentido que deve- presentativo do "interesse geral" de interesses econômicos concor-
mos entender as suas observações: "Seja como for, não se poderia renciais e divergentes que ocultam aos agentes, tal como por eles
atingir este fim (a limitação da jornada de trabalho) através de são vividos, o seu caráter de classe. Por via de conseqüência di-
um acordo privado entre operários e capitalistas. A própria ne- reta, e por intermédio de todo um funcionamento complexo do ideo-
cessidade de uma ação política geral prova bem que, na sua ação lógico, o Estado capitalista oculta sistematicamente, ao nível das
puramente econômica, o capital é o mais forte". 5 . "Essa derrota suas instituições políticas, o seu caráter político de classe: trata-se,
lançou o proletariado para o último plano da cena revolucioná- no sentido mais autêntico, de um Estado popular-nacional-de-classe.
ria. .. Este lança-se... em um movimento em que renuncia a Este Estado apresenta-se como a encarnação da vontade popular
transformar o velho mundo através dos grandes meios que lhe são do povo-nação, sendo o povo-nação institucionalmente fixado co-
próprios, antes procura, pelo contrário, realizar a sua libertação ... mo conjunto de "cidadãos", "indivíduos", cuja unidade o Estado
de forma privada, nos limites restritos das suas condições de exis- capitalista representa, e que tem precisamente como substrato real
tência, e, por conseguinte, fracassa necessariamente". 6 A propó- esse efeito de isolamento que as relações sociais econômicas do
sito da classe burguesa: "a luta pela defesa dos seus interesses M .P . C . manifestam.
públicos, dos seus próprios interesses de classe, do seu poder po- :a certo que, nessa função do Estado a respeito da luta eco-
lítico, apenas conseguiu indispô-Ia e importuná-Ia, como incomo- nômica de classe, intervém toda uma série de operações propria-
dando os seus negócios privados". "Esta burguesia que, a cada mente ideológicas. Não se poderia, contudo, em caso algum, redu-
instante, sacrificava o seu próprio interesse geral de classe, o seu zir as estruturas deste Estado, que dependem da sua função a res-
interesse político, aos seus interesses particulares e privados, os pito das relações sociais econômicas, ao ideológico: elas dão ori-
mais limitados, os mais impróprios ... ". 7 m a instituições reais que fazem parte da instância regional do
Estas observações são importantes para situar exatamente a stado. O ideológico intervém aqui simultaneamente através do
relação do Estado capitalista com a luta econômica de classe. Re- u próprio efeito de isolamento sobre as relações sociais econô-
petimos que 'esta relação não abrange a relação entre as estruturas micas, e no funcionamento concreto do Estado em relação a este
do Estado capitalista e as relações de produção, na medida em fito. Essa intervenção não pode de modo algum reduzir insti-
que esta última relação fixa os limites da relação entre o Estado tuições tão reais como a representatividade parlamentar, a sobera-
e o campo da luta de classes. O Estado capitalista estiá efetivamen- ni popular, o sufrágio universal, etc. À superestrutura jurídico-
te em relação com as relações sociais econômicas tal como se apre- -política do Estado cabe portanto aqui uma dupla função que é
sentam no seu isolamento, efeito do ideológico e do jurídico, e isto possível elucidar precisamente a partir destas observações.
na medida em que as relações sociais econômicas consistem em 1) Em particular sob o seu aspecto de sistema jurídico nor-
práticas de classe, ou seja em ação efetiva, desde logo sobredeter- ativo, de realidade jurídica, instaurando na qualidade de sujeitos
minada, dos agentes distribuídos em classes sociais ao nível do eco- Jurídico-políticos os agentes da produção distribuídos em classes,
I m como efeito o isolamento nas relações sociais econômicas.
5. Estatuto da primeira Internacional. Ver também as Resoluções do
pr-imeiro Congresso da Primeira Internacional, § 5, acerca dos Sindicatos, 2) Na sua relação com as relações sociais econômicas, as
bem como, al.ás, o conjunto dos textos de Marx relativos à luta sindical. uuls manifestam esse efeito de isolamento, tem por função repre-
6. Le 18 Brumaire, Éd. Sociales, pp. 20-21. mar a unidade de relações isoladas instituídas nesse corpo polí-
7. Op. cit., p. 88 e segs. I '0 que é o povo-nação. O que, por outras palavras, quer dizer

128 129
que o Estado representa a unidade de um isolamento o qual, em li, , " a, ~sseI?~léia nac~on?l, ao perder o direito de dispor dos
grande parte - dado o papel que o ideológico aí desempenha - lu r s mmísteríaís, perdena Igualmente toda a influência real se .
é o seu próprio efeito. Dupla função esta - isolar e representar /I () permitisse, finalmente, à sociedade civil e à opinião pública
a unidade - que se reflete em contradições internas nas estruturas r os seus próprios órgãos ... " 10; "Cada interesse comum foi
do Estado. Revestem estas a forma de existência de contradições diatament~ destacado da sociedade, oposto a ela, a título de in-
entre o privado e o público, entre os indivíduos-pessoas políticas t !lRC supenor, geral, arrancado à iniciativa dos membros da so-
e as instituições representativas da unidade do povo-nação, e até I dudc, transformado em objeto da atividade governamental. .. g
mesmo entre o direito privado e o direito público, entre as liber- m nte sob o segundo Bonaparte que o Estado parece ter-se tor-
dades políticas e o interesse geral, etc. o completamente independente ... " 11; "Mas a paródia do im-
Não obstante, a minha intenção não será principalmente, nem J Ilsmo era necessária para libertar a massa da nação francesa
a de analisar a organização dessas estruturas estatais a partir das peso da tradição e libertar em toda a sua pureza o antagonismo
relações de produção, nem a de elucidar as suas contradições in- I t ntc entre o Estado e a Sociedade," Ficamos por estas cita-
ternas, o que estaria principalmente dependente de um aprofunda- mbora pudéssemos referir muitas outras extraídas de Lutas
mento da relação assinalada entre o sistema jurídico e a estrutura ilasses na França, A Guerra civil na França, Crítica do Progra-
do processo de trabalho; antes será, sobretudo, a de as considerar de Gotha, etc.
na sua função relativa ao campo da luta de classes. O que implica nos reportarm?~ às observações precedentes veremos, por
em que consideremos aqui, de alguma maneira, o seu efeito de lud , que estas anahses de Marx não são meros ecos reminis-
isolamento nas relações sociais econômicas como determinado, a /I lus vazias de uma antiga problemática; por outro lado, que
fim de elucidar o papel propriamente político do Estado a seu res- I lumpouco se referem ao esquema da separação entre a socie-
peito e, por conseguinte, a respeito da luta política de classes. lvil e o Estado. Recobrem, efetivamente, um problema novo,
A relação do Estado capitalista com as relações sociais eco- ora sob termo~ importados de uma antiga problemática, em
nômicas, ou seja com a luta econômica de classe, apresenta tal im- () quadro recobnam uma problemática diferente. Aqui, o "anta-
portância que Marx teve de sublinhá-Ia. Contudo, emprega fre- 11 mo",·a separação ou a "independência" do Estado e da socie-
qüentemente termos quer descritivos - tal como o de sociedade -, 'ivil -. ou, simplesmente, da sociedade - designam precisa-
quer dependentes da sua problemática de juventude - tal como o seguínte: a autonomia específica do Estado capitalista e
o de sociedade civil -, o que induziu os erros de interpretação lações de produção do M. P . C. reflete-se, no campo da luta
assinalados. Com efeito, nas suas obras políticas, e no 18 Brumá- 'InsRcs,,em uma. autonomia da luta econômica e da luta explícita
rio, Marx emprega o termo "sociedade" (o qual aliás indica glo- 'Inssc; Isto exprime-se através do efeito de isolamento nas rela-
balmente as relações sociais, o campo das relações de classe) para (lei ais econômicas, revestindo o Estado, a seu respeito uma
designar as relações sociais econômicas, a luta econômica de classe, te n unia esp~cífica na medida em que se apresenta como o ~epre-
manifestação do efeito de isolamento. Chegará mesmo, por vezes, I t /lI da unidade do povo-nação, corpo político estabelecido so-
a retomar o termo "sociedade civil", reatando aparentemente com o Isolamento das relações sociais econômicas. Só negligencian-
a problemática de uma separação entre a sociedade civil e o Es- 1\ transformação da problemática na obra de Marx e através de
tado: "Em vez de ser a própria sociedade a dotar-se de U'U novo lolto d palavras, é possível interpretar essa autonomia das es-
conteúdo, parece ter sido apenas o Estado a regressar à sua forma 1111 \11 C das práticas, no Marx da maturidade, como uma separa-
primitiva ... " 8; "o bigode e o uniforme, que periodicamente eram ntrc a sociedade civil e o Estado. 12
celebrados com a sabedoria suprema da sociedade não acabariam
, l1()t~damente, o caso da escola marxista italiana, cujos mé-
por ver que mais valia. .. libertar completamente a sociedade civil
.onvlria abertamente reconhecer. Procedendo, na seqüência de
do cuidado de governar a si própria?" 9; "Dá-se imediatamente con-
ta de que, em um país como a França ... , em que o Estado en-
cerra, controla, regulamenta e mantém sob tutela a sociedade ci-
0/" I"'., p. 52
l/I, elt., pp. 102-103.
8. Le 18 Brumaire, Ed. Soe., p. 16. I~III H(I, por exemplo, o caso, na França, de H. Lefebvre: La socio-
" 1II11/'~', Paris, 1966, capo "La théorie de L'État"; e de M. Rubel :
9. Op, cit., p. 27. ,1 l'tI 1// te bonapa?·tisme, Paris-La Haye, 1960, etc.

130 131
í

zuda da luta economica, consiste efetivamente no fato, constan-


Galvano della Volpe, a um esforço deelucidação do pensamento t ntc sublinhado pelos clássicos do marxismo, da tendência a
111
de Marx, em importantes obras concernentes principalmente ~os xmstruir a unidade de classe a partir do isolamento da luta econô-
problemas da ciência política marxista, exerceu uma função crítica 1111 n. Isso assume uma importância particular na relação entre a
importante. Contestou de forma radical a concepção vulgariz~da do prâtica ..luta-política das classes dominantes e o Estado capitalista,
Estado como simples utensílio ou instrumento da classe dominante- n m dida em que essa prática é especificada pelo fato de ter como
-sujeito. Esta escola enunciou sem dúvida também problemas ori- j tivo a conservação desse Estado e visar, através dele, a manu-
ginais que efetivamente se referem à questão da autonom~a especí- nc o das relações sociais existentes. Desse modo, essa prática
fica das estruturas e das práticas de classe no M. P . C. Situa, con- 1tica das classes dominantes deverá, não só constituir a unidade
tudo, a novidade de Marx, em relação a Hegel, na crítica (nas I lasse ou das classes dominantes a partir do isolamento da sua
obras relativas à teoria hegeliana do Estado) da invariável "espe- t conômica, mas constituir também, através de todo um fun-
culação-empirismo" que caracteriza a problemática de Hegel. 13 Ora, narnento político-ideológico particular, os seus interesses propria-
esta crítica não é de fato mais que a simples retomada por Marx nt políticos como representativos do interesse geral do povo-
da crítica de Hegel feita por Feuerbach. Desse modo, esta escola o. Isso torna-se necessário, devido às estruturas particulares
escamoteia os problemas sob o tema da separação entre a socie- stado capitalista, na sua relação com a luta econômica de elas-
dade civil e o Estado, o que conduz a toda uma série de resultados possível devido precisamente ao isolamento da luta econômica
errados, aos quais voltaremos a propósito de problemas concretos. 14 lasses dominadas. É pela análise de todo esse complexo fun-
A importância destas observações diz igualmente respeito à r~- namento que é possível estabelecer a relação entre esse Estado
lação do Estado capitalista com a luta política de classe. Esse efei- lonal-popular-de-classe e as classes politicamente dominantes em
to de isolamento na luta econômica tem incidências no funciona- 11 formação capitalista.
mentoespecífico da luta política da classe em uma formação ca-
pitalista. Uma das características dessa luta, relativamente autono-
11. Sobre o Conceito de Hegemonia
13. Notadamente, Galvano della Volpe, Rousseau e Marx: 1964, p. 22 e
segs., 46 e segs.; Umanesimo positivo e emanzipazione marxista, 1964,
p. 27 e segs., 57 e segs.; Umberto Cerroni, Mar« e il diritto moderno, 1963 n neste contexto preciso que irei empregar o conceito de hege-
passim; Mario Rossi, Marx e la dialettica heaeliama, 1961, t. lI, passím. m mia. Este conceito tem como campo a luta política de classes
14. Por exemplo, para della Volpe - Roueeeaa e Mar», p. 27 e segs.,
etc. - o problema da autonomia do econômico e do político, bem como da lima formação capitalista, recobrindo particularmente as práti-
sua relação, será referido à crítica do "empi rismo-especulação" de Hegel políticas das classes dominantes nessas formações. Poder-se-á
pelo jovem Marx. Marx censurava a Hegel levar a uma confusão, que sim dizer, localizando a relação entre o Estado capitalista e as
se pretendia uma síntese, entre o econômico e o político na medida em que I politicamente dominantes, que esse Estado é um Estado com
.I',\'('S
a sua concepção "especulativa" - notadamente a sua concepção do Es-
tado - corresponde à irrupção do empirismo imediato, "tal qual", no I ·ao
hegemônica de classe.
conceito: o econômico era considerado em Marx como a "empiria-vulgar ,stc conceito foi produzido por Gramsci. É certo que, nele,
de que seria necessário descobrir as "mediações" que, na sociedade
burguesa, o constituem propriamente em político. Enquanto que Hegel, se-
um lado, permanece no estado prático, e que, por outro lado,
gundo Marx, chega na sua concepção do Estado a uma coexistência para- mando um campo de aplicação muito vasto, acaba por ficar
lela, nos estados que compõem o seu Estado-modelo, do econômico B âo muslndo vago. Convém portanto apresentar aqui, antes de mais
político, tratar-se-ia, antes, de descobrir a sua separaç.ão _moderna no c~- Iu, toda uma série de esclarecimentos e de restrições. Dada a re-
ráter "universal" abstrato da classe burguesa - mediação -, e, depois,
a superação dessa separação - a abolição do político - no caráter "uni-
I particular de Gramsci com a problemática leninista, ele julgou
()

versal concreto" do proletariado, sendo este conceito de "universalidade" pr ter encontrado esse conceito em Lenin, em particular nos
decalcado do modelo antropológico do "homem genérico". A concepção da t tos com respeito à organização ideológica da classe operária
relação entre o econômico e o político, decalca da da relação do empiria-con- u papel de direção na luta política das classes dominadas.
ereto, por um lado, e da abstração-especulação pelo outro, no I?odelo a~-
'01 ntc, trata-se de um conceito novo que permite dar conta das
tropológico essência-objetivação-alienação, continua a ser, porem, a crr-
tica de Hegel pelo jovem Marx: o político é, para o jovem Marx, o eco- II ias políticas das classes dominantes nas formações capitalistas
nômico "mediatizado" em uma superação "antropológica" do "empi rismo- nvolvldas. B igualmente nesse. caso que Gramsci o emprega,
-especulação" de Hegel.

132 •. 133
estendendo abusivamente o seu âmbito, o qual acaba por recobrir to. Esta problemática, transplantada para o marxismo conduz à
as estruturas do Estado capitalista. Não obstante, as suas análises xmccpção da classe-sujeito da história, princípio genético totalíza-
a este respeito, se delimitarmos com rigor o campo de aplicação LI r, por intern:édio des.sa consci~nci~ d.e classe que aqui reveste o
e de constituição do conceito de hegemonia, são muito interessan- p pcl do conceito hegehano, das instâncias de uma formação social.
tes: têm como objeto a situação concreta dessas formações aplican- N ste co.n!exto, é ~ ':i~eologia-consciência-concepção do mundo" da
do-lhes os princípios descobertos por Lenin quando da análise de I .sse-suJelto da história, da classe hegemônica, que fundamenta a
um objeto concreto diferente: a situação na Rússia. nldade de uma formação, na medida em que determina a adesão
Estas análises de Gramsci colocam contudo um problema ca- li classes dominadas em um sistema de dominação determinado. 19
pital, na medida em que o seu pensamento se encontra fortemente ~ interessante, por isso, notar que Gramsci, nesse emprego do
influenciado pelo historicismo de Croce e Labriola. 15 Esse proble- n~elto de hegemonia, oculta precisamente os problemas reais que
ma é demasiado vasto para que possamos entrar no fundo do de- nalisa sob o tema da separação entre a sociedade civil e o Estado.
bate. Limito-me a indicar que é possível localizar em Gramsci uma ses ~roblemas, que de fato implicam na autonomia específica das
cesura nítida entre as suas obras de juventude - entre outras, os n tâncias do M. P . C. e o efeito de isolamento no econômico en-
artigos do Ordine Nuovo até a Il materialismo storico e ia filosofia ntram-se mascarados. Essa "separação" está justaposta em
di Benedetto Croce inclusive -, de concepção tipicamente histo- ro~sci, com? de resto. também no jovem Marx, à concepção de
ricista, e as suas obras de maturidade, de teoria política, os Qua- luçoes feudais caractenzadas por uma "miscigenação" das instân-
derni di cracere - entre eles, Maquiavel, etc. - nos quais elabora, I S, o que aqui se processa através do tema gramsciano de "eco-
11 mico-corporativo". O conceito de hegemonia é assim empregado
precisamente, o conceito de hegemonia. 16 Essa cesura, que se torna
nítida através de uma leitura sintomatológica dos textos onde apa- 1or Gramsci com a finalidade de distinguir a formação social capi-
rece a problemática leninista de Gramsci, foi aliás escamoteada I lista da formação feudal "econômico-corporativa". 20 O econô-
I ico-corporativo designa notadamente as relações sociais feudais
pelas leituras que tentaram descobrir as relações teóricas entre
Gramsci e Lenin, e que, a maior parte das vezes, constituíram lei- irncterizadas por uma imbricação estreita do político e do econô-
turas historicistas. 11 No entanto, mesmo nas obras de maturidade mico, "política enxertada na economia", como Gramsci diz. É no
de Gramsci continuam a ser numerosas as seqüelas do historicismo. quadro da transição do feudalismo para o capitalismo, nos diversos
Desse modo, a uma primeira leitura das suas obras, o conceito de stados da Renascença Italiana, que se situam as análises de
hegemonia parece indicar uma situação histórica na qual a domi- rurnsci relativas ao Estado moderno "nacional-popular". É esse
nação de classe não se reduz à simples dominação pela força e pela quadro que lhe permite ::.nalisar a função hegem~nica de unidade
violência, antes comporta uma função de direção e uma função do Estado moderno, funçao esta refenda a "atomização" da socie-
ideológica particular, por intermédio das quais a relação dominan- Ind civil, su?st:,ato, do povo-nação. O que, em Maquiavel, lmpres-
tes-dominados se baseia em um "consentimento ativo" das classes lona Gramsci nao e apenas o fato daquele ter sido um dos primei-
dominadas. 18 Concepção bastante vaga esta, e que parece, à pri- o teóricos da prática política, mas sobretudo o de ter entrevisto
11 função de unidade que o Estado moderno assume a respeito
meira vista, assemelhar-se à da consciência de classe-concepção do
11 "massas populares", consideradas aqui como produtos da dis-
mundo de Lukács, situada esta na problemática hegeliana do sujei-
lu 'fio. das ~elações feudais: .I.sso é particularmente nítido quando
rumsci anahsa o fracasso inicial das tentativas de formação desse
15. Acerca do "historicismo" de Gramsci, ver Althusser, Lire le Capi-
tal, t. 11. tudo na Itália: "A razão por que fracassaram sucessivamente as
16. Ver, neste sentido, L. Paggi: "Studi e interpretazioni recenti di ntntivas para a criação de uma vontade coletiva nacional-popular
Gramsci", in Critica marxista, maio-junho 1966, p. 151 e segs. V procurar-se na existência de grupos determinados (caracteres
17. Entre outros, 'I'ojliatti "II leninismo nel pensiero e nell'azione di A. unções de Comunas da Idade Média) ... A posição que daí de-
Gramsci" e "Gramsci e il leninismo" in Studi Gramscíani" Roma, 1958,
ou ainda M. Spinella e a sua introdução em A. Gramsci: Elementi di • 1'01' outro lado, este conceito de hegemonia foi igualmente utilizado
política, Roma, 1964, para não falar da interpretação historicista típica Gramsci no domínio da prática política das classes dominadas em
de Gramsci por J. Texier: A. Gramsei, Seghers, 1967. I tI('ulnl' da classe operária. Voltaremos a este ponto. '
18. Note sul Mcohiauelli e lo Stato moderno, Einaudi, op. cit., pp. 87 e • ,1~:IIL!'eoutl;'as, .Lettres de prision, Ed. Soe., p. 212 e segs, Gli intellet-
segs., 125 e segs. &I. o J orgamsazwne della cultu1'a, Einaudi, p. 8 e segs,

134 135
corre determina uma situação interior que podemos chamar "econô- Ias, ?u uma combinação, tende a levar a melhor, a impor-se,
mico-corporativa", ou seja, politicamente a pior das formas de so- 11 xpandir-se em toda a área social, determinando... também a
ciedade feudal ... ". 21 unldade intel~ctual e moral, enunciando todos os problemas em
Este termo "econômico-corporativo" tem, contudo, uma se-- 'mil dos quars a luta se intensifica, não no plano corporativo mas
gunda acepção em Gramsci. Indica, não apenas as relações "mis- 111um plano "universal", e criando assim a hegemonia de um isrupo
tas", econômicas e políticas, mas também o "econômico", distinto .ocia! fundamental sobre os grupos subordinados. O Estado é cer-
do político, das formações capitalistas. Flutuação significativa de , 1111nte concebido como o organismo próprio de um grupo desti-
terminologia que, precisamente, pode ser compreendida a partir das 11 Ido a criar condições favoráveis à maior expansão possível do
influências historicistas que marcam com freqüência as análises de pr prl~ grupo; contudo, este desenvolvimento e esta expansão são
Gramsci. O caráter comum que Gramsci encontra nas relações eco- '011cbidos e apresentados como a força motriz de uma expansão
nômico-corporativas "mistas" das formações feudais e nas relações IIl1ivcrs.al,de um desenvolvimento de todas as energias "nacionais",
"econômicas", distintas das relações políticas, das formações capi- qu r dizer que o grupo dominante está coordenado concretamente
talistas, é que ambas se distinguem das relações "propriamente po- .om os interesses gerais dos grupos subordinados e que a vida do
líticas" das formações capitalistas. It Indo é concebida com uma formação contínua e uma contínua
11 r. ração de equilíbrios instáveis (dentro dos limites da lei) entre
Vemos, assim, as seqüelas do historicismo nessas análises de I ~nte~esses do grupo fundamental e os dos grupos subordinados,
Gramsci. Podemos contudo tentar extirpá-Ias. Poderá ver-se que [uilfbrios esses em que os interesses do grupo dominante preva-
os problemas reais que formulam de modo algum se referem a qual- I ' m mas só até um certo ponto, isto é, não até ao mesquinho in-
quer separação entre o Estado capitalista e a sociedade civil, con- "r ssc econômico-corporativo".22
siderada atomizada na medida em que é encarada como resultado
da dissolução de relações feudais mistas ou orgânicas. Estes pro- 2) O conceito de hegemonia reveste igualmente uma outra
blemas reais referem-se, sim, à autonomia específica das instâncias 1 pção, a qual não é de fato indicada por Gramsci. Veremos, com
do M. P . C., ao efeito de isolamento nas relações sociais econômi- ito, que o Estado capitalista e as características específicas da
cas deste modo, e à relação do Estado e das práticas políticas das 111' I de classes em uma formação capitalista tomam possível o fun-
classes dominantes com esse isolamento. lonamento de um "bloco no poder", composto de várias classes
1111 r.rações politicamente dominante. Entre essas classes e frações
Ora, o conceito de hegemonia, que apenas aplicaremos às prá-
ticas políticas das classes dominantes - e não ao Estado - de uma ruminantes, uma .delas detém um papel dominante particular, o qual
formação capitalista, reveste dois sentidos. pod ser caractenzado como papel hegemônico. Neste segundo sen-
Il 111, O conceito de hegemonia exprime a dominação particular de
1) Indica a constituição dos interesses políticos dessas clas- 11 I das classes ou frações dominantes em relação às outras elas-
ses, 'na sua relação com o Estado capitalista, como representativos ou frações dominantes de uma formação social capitalista.
do "interesse geral" desse oorpo político que é o "povo-nação" e
conceito de hegemonia permite precisamente decifrar a re-
que tem como substrato o efeito de isolamento no econômico. Este
primeiro sentido está, por exemplo, implicado na seguinte citação
I '() entre estas duas características do tipo de dominação política
I 'Iusses que as formações capitalistas apresentam. A classe he-
de Gramsci que devemos agora considerar tendo em conta as ob-
m nica é aquela que em si concentra, ao nível político, a dupla
servações referidas: "Um terceiro momento é aquele em que atin-
ge a consciência de que os seus próprios interesses corporativos, no
flmr o de representar o interesse geral do povo-nação e de manter
UIIII d minância específica entre as classes e frações dominantes;
seu desenvolvimento atual e futuro, ultrapassam os limites da cor-
10, na sua relação particular com o Estado capitalista.
poração, de um grupo puramente econômico, e podem e devem tor-
nar-se nos interesses de outros grupos subordinados. É a fase em
que as ideologias, que até então germinaram, se tornam "partidos",
se avaliam e entram em luta até ao momento em que só uma den-

21. II Rieorçianento ..., Einaudi, p. 35 e segs., e passim. Mlt hiavelli ..., p. 40 e segs.

136
137
2. TIPOLOGIA E TIPO DE ESTADO CAPIT ALISTA tonomia específica desse Estado em relação ao econonuco: é ela
[ue regula, particularmente como invariante constante, as variações
li intervenção e não intervenção do político no econômico, e do
conômico no político. 1
As observações precedentes propicram a especificação do "ti- No entanto, e isto é de uma importância capital, estas consi-
po" capitalista de Estado. A ciência marxista do político operou rações não permitem por si só estabelecer o conceito de Estado
a distinção entre certos "tipos" de Estado, despótico, escravagista, pitalista, na medida em que as suas estruturas típicas têm de ser
feudal, capitalista, correspondentes a outros tantos modos de pro- onjuntamente referenciadas na sua relação, ou seja na sua função,
dução determinados. Por outro lado Marx, Engels e Lenin delimi- a respeito do campo da luta de classes desse modo de produção.
taram, no interior desses tipos específicos de Estado, "formas de om efeito, o lugar do Estado no conjunto das estruturas fornece,
Estado" e "formas de governo". O problema tipológico da deter- final, um simples esquema que não pode ser erigido em conceito
minação da superestrutura do Estado visa portanto duas coisas: ntes de ter sido examinada a relação desse Estado com a luta
onômica de classe, por um lado, e com a luta política de classe,
a) Trata-se de constituir em objeto de pesquisa teórica uma por outro. Significa isto que esse lugar do Estado deve ser refe-
instância regional de um modo de produção determinado - no ca- nciado, para constituir um conceito adequado do tipo capitalista
so concreto, a superestrutura jurídico-política do Estado. Do ponto d Estado, nos efeitos que produz ao fixar os limites da relação
de vista da ciência marxista, isto significa que, antes de tudo, se desse Estado com o campo da luta de classes.
trata de apreender a unidade e a especiiicidade desse "objeto", cons- Assim, o tipo capitalista de Estado começa por referir-se à
tituindo-o em objeto teórico, de modo que as suas estruturas típicas utonomia específica das suas estruturas e da luta econômica de
assim definidas permitam decifrar o seu lugar e a sua função na tosse, na relação desse Estado com o efeito de isolamento nas re-
unidade complexa desse modo de produção. I ções sociais econômicas do M. P . C . Para ser claro acerca deste
b) Trata-se de constituir esse objeto típico a partir de prin- ponto, passarei a designar esta relação como relação do Estado com
cípios teórioos tais, que a sua constituição permita dar conta da- o isolamento do econômico ou das relações sociais econômicas. Es-
quilo que, provisoriamente, podemos designar como as suas. trans- t tipo de Estado deve ser finalmente confrontado com a sua rela-
formações. Em que sentido, por exemplo, pertencem ao tipo de 'locam a luta política de classe, em particular com as práticas
Estado capitalista as formas de Estado capitalista, em que medida políticas das classes dominantes nesse modo; o que, nesse caso, im-
referem-se a "fases" ou "estágios" de uma formação social domi- porta é a relação do Estado com a hegemonia de classe, isto é, com
nada pelo M.P.C.? O problema tipológico cruza-se aqui com o constituição de uma classe como hegemônica em relação ao "po-
problema da perlodização. vo-nação" e relativa ao bloco no poder, cuja formação corresponde
Uma observação preliminar se impõe: esse problema da tipo- o tipo capitalista de Estado.
logia de uma instância de um modo de produção não pode ser re- Que relações existem entre este tipo de Estado e um determi-
ferido a uma temática da gênese histórica dessa instância; não se nado Estado de uma formação social? Sabemos que uma formação
trata da gênese do Estado capitalista moderno. O problema, aqui, cial historicamente determinada decorre da coexistência de vários
é o mesmo, no caso presente, de uma instância regional de um
modo de produção, que em outro já encontrado, e referente a uma 1. Vimos, anteriormente no capo 1, que a construção do conceito de Esta-
formação social e à sua transição para outra. nos diversos modos de produção, isto é, a delimitação dos tipos de Es-
do, depende das formas diferenciais que reveste, nestes diversos modos,
Ora, para captar a especificidade das estruturas regionais de função geral do Estado como fator de coesão da unidade é uma forma-
um modo de produção determinado, por exemplo, do Estado ca- o. Sublinhamos precisamente, então, que essas formas diferenciadas
pitalista do M. P . C., é necessário determinar o seu lugar no inte- p ndem do lugar do Estado nos diversos modos de produção, e estabele-
rior da matriz que especifica esse modo; somente a partir daí se mos assim que essa função torna-se específica para o Estado capitalis-
devido precisamente à autonomia respectiva do econômico e do político
poderá construir o conceito dessa instância. racterística do M.P.C. Vou, portanto, abordar o problema tipológíco
truvés da análise dessa autonomia, reservando para a terceira parte as
A autonomia específica das instâncias do M. P . C ., atribuindo UIlK incidências nas formas concretas que reveste a função do Estado ca-
ao Estado o seu lugar neste modo "puro", é precisamente uma au- vltnllsta como fator de coesão da unidade de uma formação capitalista,

138 139
modos de produção. Neste sentido, o Estado de uma formação se-
melhante resulta de uma combinação de vários tipos de Estado, pro- I. A Tipologia de Max Weber
cedentes dos diversos modos de produção que entram em combina-
ção nessa formação. Em particular, no caso de uma formação social As análises precedentes já nos permitem concluir que nada há
concreta dominada pelo M.P.C., o Estado capitalista real pode apre- de mais estranho à problemática tipológica marxista, visando pro-
sentar várias características relevantes dos tipos de Estado corres- duzir ? con~eito de uma instância de um modo de produção, que
pondentes aos outros modos de produção coexistindo nessas forma- uma tipologia estabelecida sobre os "esquemas", os "modelos" ou
ções. Essas características não são meros "resíduos impuros" desse os "tipos ideais". Para esta última, os modelos ou tipos ideais resi-
Estado, antes são parte constituinte deste em uma determinada for- diriam em uma relação "abstrata-real" que decorre de uma proble-
mação. Falar-se-á, não obstante, de Estado capitalista, e é inclu- mática empirista do conhecimento. No caso, por exemplo, do tipo
sive esse o caso de uma formação capitalista sempre que o tipo Ideal de Weber, a sua produção consiste em uma referenciação dos
capitalista se torna dominante nesse Estado. desvios diferenciais entre vários fenômenos "reais" pertencentes ao
É necessário, contudo, sublinhar o seguinte: devido às defa-
mesmo tipo "abstrato't.> O valor operatório desse tipo é assegura-
sagens das diversas instâncias, e à complexidade de uma formação do pela sua capacidade em elucidar o real concreto, fenômenos que
social, se o M .P . C . for dominante nessa formação, daí não se e apresentam como outros tantos desvios desse tipo abstrato. 3 Es-
segue necessariamente que, ao nível de superestrutura política, o a concepção da tipologia como esquematização do real, no fim de
tipo capitalista seja o tipo dominante do Estado respectivo. Pode contas, como generalização e abstração, decorre precisamente de
com rigor falar-se de formação capitalista, de formação dominada uma concepção empirista do conhecimento incapaz de reconhecer
pelo M. P . C., cujo Estado seja um Estado de caráter feudal, com autonomia própria da teoria; implica o postulado de uma harmo-
dominância portanto do tipo feudal de Estado. É este o próprio nia preestabelecidaentre "abstrato" e "real", residindo a abstração
sentido dos escritos de Marx e de Engels acerca do bismarckismo, tipológica na sua adequação assimptótica com o real concreto de
os quais analisam a existência de um Estado dominado pelo tipo feu- que seria extraída. Para a problemática marxista da teoria, trata-se
dal em uma formação capitalista. Deve-se isto, neste caso, ao fato de m contrapartida de produzir o conceito de uma instância regional
que o M.P.C., dominante, devido à autonomia das instâncias que o de um modo de produção, não através de uma abstração a partir
caracteriza e que ele imprime à formação capitalista, permite a exis- dos fenômenos reais concretos de uma formação social, mas sim
tência, ao nível da instância política, de um Estado dominado por través do processo de construção teórica do conceito desse modo
um tipo diferente daquele que caracteriza o Estado desse modo. O de produção e da articulação das instâncias que o especifica. A
M . P . C. dominante impregna todo o sistema e modifica as condi- lência dos modelos ou dos esquemas conduz a noções que não
ções de funcionamento dos outros modos de produção subordina- p rmitem dar conta do objetivo específico de uma ciência parti-
dos. Nesse caso, esse Estado feudal pode importar, a despeito das ular: efetivamente, esse objeto não pode ser o real concreto esque-
matizado, mas antes um conceito teoricamente constituído.
suas estruturas feudais, junções análogas às que cabem a um Es-
tado capitalista, importação essa devida à dominância, na forma-
. No que concerne a Weber, cuja obra é ainda muito pouco conhecida
ção, do M. P . C. e ao lugar atribuído por esta dominância a um n França, convém referirmo-nos aos artigos fundamentais de J. M. Vin-
Estado feudal. Esta pode, nomeadamente, funcionar, a despeito dos nt, principalmente em L'homme et la societé, ns. 3 e 4, assim como à
seus caracteres feudais, com a autonomia relativa característica do bra de JI. Freund, La sociologie de Ma» Webm', 1966. A respeito de uma
tipo capitalista de Estado, a qual torna possível, no caso concreto celente crítica dos tipos ideais, R. Establet, in Lire le CapiAtal, T. II,
do bismarckismo, a "revolução de cima" operada por Bismarck. p, 838.
. Este problema capital é de fato o problema-chave nas discussões
Este funcionamento do bismarckismo pode, de fato, ser caracteriza- tuaís a respeito dos métodos das ciências sociais. Uma vez que são bas-
do como uma importação, na medida em que não pode ser referido t nte rudimentares na França as discussões a este respeito, refiro uma
à coexistência, no Estado bismarckiano, de características do tipo bra excelente para a apresentação dessas discussões: Logik der Sozial-
feudal de Estado e de características do tipo de Estado capitalista: wlHB6nschaften, Kõln/Berlin, 1965, editada por E. Topitsch. Encontra-
011 ai os textos da famosa confrontação, a este respeito, entre K. Popper
estas últimas são quase inexistentes no Estado bismarckiano. É to- Th. Adorno (ibid., p. 113 e segs. e 311 e segs.) e um texto luminoso,
davia evidente que esta ruptura da relação entre estruturas e fun- ra o enunciado do problema em ciência política, de H. Lasswell: Das
ções de uma instância é um caso inteiramente excepcional. qualitative und das quantitative in Polstik- urul Rechtswissenschaftlichen
lhl/,6/'8uchungen (p. 464 e segs.).
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141
o caso da tipologia weberiana é particularmente interessante, ntre a relação epistemológica dos tipos ideais com o real concreto
uma vez que revela sem qualquer ambigüidade as relações entre a por um lado, e com a problemática historicista por outro, que a
concepção empirista do conhecimento e os seus pressupostos, que xmcepção expressamente formulada por Weber dos tipos ideais como
são os da problemática historicista. Estes são manifestos na con- squemas abstratos suscetíveis de ser realizados no real-concreto
cepção weberiana da "compreensão", a qual implica a identidade - histórico. Esses modelos abstratos não são senão os valores dos
parcial? - do sujeito e do objeto do conhecimento. Os princípios sujeitos da história - dentre os quais o sábio - que produzem
epistemológicos que em Weber permitem a divisão em tipos ideais concreto, o que quer dizer que se reduzem à objetivação da es-
são os valores próprios do investigador na medida em que ele pró- sência-sujeito. Para chegar aos tipos ideais de autoridade e de Es-
prio deve fazer parte da sociedade e da história, do objeto das tado, não se levam em conta estruturas no sentido estrito do termo,
"ciências humanas" que por seu turno ajuda a "fazer". O real con- mas, em última análise, motivações de conduta e de comportamen-
creto, objeto de ciência, é o produto da conduta do investigador - to dos "atores". Esta problemática weberiana é manifesta, por ou-
inserida em uma práxis coletiva - a partir de certos valores, eles tro lado, tanto na sua concepção do poder como na do "ethos ca-
próprios princípios de esquematização desse real concreto: a ade- pitalista" - conduta "racional" dos atores -, ou da burocracia -
quação ontológica entre o esquema e a realidade é referida aqui a sujeito da racionalidade e do tipo racional de Estado - etc.
esse sujeito central, sujeito da sociedade e da história e sujeito da Não significa tudo isto que as diferenças, estabelecidas por
ciência, que é o sábio. 4 Esta concepção, cujas relações com a Weber, entre autoridade tradicional, carismática racional, não re-
problemática hegeliana encontraremos incidentalmente, é particular- cubram características diferenciais efetivas dos tipos de Estado. Cla-
mente interessante se nos lembrarmos da sua influência na obra de ramente se verá que o tipo de Estado capitalista apresenta efetiva-
Lukács História e consciência de classe, onde encontramos a con- mente, em certa medida, características descritas por Weber sob a
cepção da classe-sujeito da sociedade e da história e sujeito do co- noção de tipo "racional-legal" de autoridade: essas características
nhecimento. poderão então ser consideradas como traços constitutivos do con-
Weber procede, em substância, a uma tipologia das superes- coito desse Estado. 6
truturas jurídico-políticas segundo as diversas combinações (depen-
dentes da ordem da legitimidade) de misticismo e de racionalidade
que manifestam, e distingue, entre os tipos de autoridade, os tipos 11. Tipos de Estado, Formas de Estado e Periodização de uma
racional-legal, tradicional e carismático. 5 Estes tipos-objetos de Formação Social
ciência serão delineados de acordo com os valores, ideais, proje-
tos, ou seja motivação de conduta da práxis dos homens-sujeitos
que os produzem, e por outro lado avaliados à luz dos valores pró- Tratemos agora do problema decisivo das relações entre tipos
prios do investigador. Nada é mais nítido, a propósito das relações ti Estado, formas de Estado e formas de governo, para continuar
11 mpregar as expressões de Marx, Engels e Lenin. Antes de tudo,
um problema de terminologia: as expressões formas de Estado e
4. Além das reflexões metodológicas gerais de Weber acerca do "tipo
ideal" disseminadas na sua obra, ver no que diz respeito à relação entre
r umas de governo são, regra geral, empregadas pelos clássicos do
a concepção das "variáveis" e o "tipo ideal", Gesammelte Aufsatze zur marxismo com um sentido idêntico para designar, por exemplo, a
Religionssoziologie, Tübingen, 1922-23, t. I, p. 21 e segs., 37 e segs, 233 "r pública parlamentar", a "monarquia constitucional", etc.",
e segs. A relação entre o "hiJstoricismo dos valores" e o "modelo" é níti- Comecemos por enunciar o problema: em que medida é pos-
da nas análises políticas de T. Parsons, entre outras: "Voting and the vel distinguir entre diversas formas de Estado de um mesmo tipo
equilibrium of the american politícal system", in Amer'ican Voting Beha-
viour, 1959, editado por Burdick e Broudbeck, p. 115 e segs. Ver também d Estado? O que é análogo ao problema teórico colocado pelo
as críticas a este respeito, de N agel: Logic without Metaphys,ic8, já em
1956, 1.a parte, capo 10 '''A Formalisation of Functionalism" Esta ten- Esta concepção empirista e positiva do conhecimento, nas suas rela-
dência de Parsons não é, de resto, senão o resultado da filiação direta com a problemática historicista, encontramo-Ia, sob uma outra forma,
1\
entre a corrente funcionalista e Weber. m deIla Volpe e no seu conceito-modelo "abstrato-determinado". Ver
5. Wiriechaft und Geeellechaf t, op. cit 2.a parte, cap VII; e a compi- /,ogioa, come scienzaposit1iva, 1947.
lação dos textos de Weber: Rechtesoziôloçie, editada por J. Winckelmann, 7. Jt este o caso do conjunto dos textos políticos de Marx e de Engels,
Berlin/N euwíed, 1960, passim. 11 O Renegado Kautsky. O Estado e a Revolução. O Estado, de Lenin, etc.

142 143
tipo de Estado. Trata-se de estabelecer uma tipologia de formas Ora, o problema das transformações de uma instância de uma
de Estado que as apreenda de tal forma que possam simultanea- formação, no caso concreto, das formas do Estado capitalista, deve
mente ser localizadas nas relações entre as instâncias e o campo da ser referido ao problema das fases e dos estágios do conjunto de uma
luta de classe de uma formação social, e aparecer como formas de formação. Como bem o assinalou Bettelheim: "Parece justificado re-
um mesmo tipo de Estado. Dupla tarefa, portanto: a) estabelecer servar o termo "fases" para designar os dois grandes momentos do
um tipo de Estado que permita dar conta da diferenciação das for- desenvolvimento de uma formação social, a saber: 1) o do seu início
mas de Estado enquanto formas diferenciadas desse tipo, diferen- quer dizer, a fase de transição no sentido estrito. " 2) a fase da
ciação estabelecida a partir de modificações das relações constitu- reprodução alargada da estrutura. .. Cada uma dessas fases é ca-
tivas desse tipo de Estado; b) estabelecer que as modificações não racterizada por uma articulação específica dos níveis da formação
atinjam a própria matriz das relações, antes constituam formas dife- social e. das suas ~ontradições, e, portanto, por um certo tipo de de-
renciadas dessas relações. senvolvimenro desigual dessas contradições. Ao longo de uma mes-
Se o tipo de Estado capitalista conota, em primeiro lugar, uma m~ f?se, o que, em um determinado momento, é uma contradição
autonomia específica das estruturas econômicas e políticas, reíeren- principal, torna-se uma contradição secundária, ou, ainda, um as-
ciável na autonomia do Estado e das relações sociais econômicas, pecto secundário da contradição torna-se um aspecto principal. Es-
as formas de Estado deste tipo deverão ser consideradas segundo ses deslocamentos de contradições conferem o ritmo aos diferentes
uma modificação da relação entre o Estado e essas relações. Esta estágios de uma determinada fase. .. são marcados por modifica-
modificação, contudo, situa-se no quadro típico da sua autonomia ções nas relações entre as classes ou entre as diferentes camadas de
respectiva e não colooa assim fundamentalmente em questão os uma mesma classe". Irá tratar-se aqui dos "estágios típicos" de
termos desta relação: no caso concreto, as estruturas do Estado e uma fase. 8
o efeito de isolamento do econômico. Estas formas de Estado serão
Podemos manter esta terminologia de fases e de estágios, acres-
apreendidas segundo o grau e as formas específicas desta autonomia.
centando não obstante algumas precisões. Os estágios e as fases
Ê assim que se torna possível constituir uma teoria desse tipo de
Não, aqui, os de uma formação social: os estágios da fase de re-
Estado e das formas desse tipo, nas suas relações com a luta eco- produção alargada de uma formação são, no nosso caso, os de
nômica de classe. O problema é o mesmo no que concerne à rela- lima formação dominada por um modo de produção, concretamen-
ção entre o Estado e a luta política de classe, nomeadamente entre
te uma formação capitalista dominada pelo M. P. C. Os estágios
a hegemonia de classe e o bloco no poder. reportam-se contudo à coexistência real de certas formas diferen-
O que, de imediato, vai criar aqui um problema são as trans- 'luis e específicas do modo de produção capitalista "puro". Essas
formações da instância regional de uma formação social. Como armas recobrem "realidades econômicas profundamente diferen-
deverão ser consideradas as transformações do Estado capitalista t 5, pois que se estendem da produção mercantil simples ao capita-
a fim de que continuem a ser transformações da mesma instância? lismo monopolista de Estado, passando pela produção capitalista
Isto relaciona-se com o problema capital da periodização ao nível privada, a produção capitalista social e o capitalismo monopolis-
das estruturas e das práticas políticas. Será possível definir "pe- t ".9 Estas formas do capitalismo são formas do M.P.C. "puro" na
ríodos" típicos de uma formação social, com ritmo de escansão ópria acepção em que Lenin dizia no Imperialismo ... : "O im-
própria, períodos a que corresponda, ao nível político, uma forma p rialismo e o capitalismo financeiro são superestruturas do anti-
particular de Estado? capitalismo. Demoli a parte superior e o antigo capitalismo apa-
E necessário afastar, antes de tudo, a concepção evolucionista ccrá ... ". Estas formas do modo de produção capitalista são
e historicista, que supõe uma temporalidade unilinear de sucessão, mbém caracterizadas em teoria por certas formas de articulação
quer dos modos de produção, quer das "etapas" de uma formação
social, quer das formas de uma instância regional de uma forma- • In Cahiers de la Planification eocialiete n. 3, 1966, p. 141 e segs.
ção, conduzindo de fato a essa divisão cronológica que continua a I textos citados de Bettelheim estão atualmente reduzidos em La transi-
UO'll vers l' économie socialiete, Maspéro, 1968.
causar danos no domínio das ciências sociais. No caso das formas
de Estado, acaba por nele encontrar tantas etapas sucessivas de • Betelheim: "La construction du soeíalisme ...", in La Pensée, n. 126
brll 1966, p. 58 e segs. Bettelheim fala aqui simultaneamente da fase
transformação do Estado capitalista quantas as que correspondem d transição e da fase de reprodução alargada, em suma do conjunto dos
às etapas de evoluções simples das formações capitalistas. "dlf rentes estágios do capitalismo".

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I) i.I relação do Estado com o isolamento das relações sociais
das diversas instâncias, formas que se situam no quadro da matriz
deste modo de produção, e que igualmente conotam combinações
mõmicas - luta econômica -, saldando-se, aqui em uma série
&I Imitados concretos concernentes às transformações de legitimi-
tendenciais do M. P. C. como os outros modos em uma formação
lud , às relações diferenciais do executivo e do legislativo, etc.;
capitalista. Essas formas têm em comum o fato de que implicam na
mesma matriz e de diferente que as modificações que os caracte- ) à relação do Estado com a hegemonia de classe e o bloco
rizam assentam precisamente nas articulações das instâncias que ti poder - luta política. Uma forma de Estado, localizada em um
essa matriz delimita. No caso concreto, o M.P.C. implica na auto- I 10 de uma formação social, corresponde a uma configuração
nomia específica do Estado e do econômico, o que indica um tipo I plc desse bloco no poder: esses diversos estágios, caracterizados
de articulação do político e do econômico, um tipo de efeitos de formas diferentes de Estado, serão escandidos por modificações
uma instância nos limites fixados pela outra. Não obstante, se to- bloco. 10
das as formas do M. P. C. "puro" implicam teoricamente em um Acrescentemos, por fim, uma última palavra acerca das rela-
político relativamente autônomo do econômico: ~ evident,e 9-ue o ntre o econômico e o político que marcam as diversas formas
capitalismo privado implica em um Estado. nao-lllt~rv~nclOmsta ,e stado, e acerca das diversas formas de intervenção, nos estágios
o capitalismo monopolista em um Estado llltervenclOr:lsta. As di- lima formação capitalista, de uma dessas estruturas na outra.
ferenças entre essas formas de Estado repousam precisamente nas será útil, a fim de dissipar certos mal-entendidos. Existe com
formas específicas que assume a relação entre um econômico e um to, toda uma tradição da teoria política que, partindo de uma
político relativamente autônomos, constituindo (essas relações) va- I mitação ideológica da autonomia do político e do econômico,
riáveis de uma invariante específica. I ,da tradição teórica do séc. XIX, e implicando precisamente
t ma da separação entre a sociedade civil e o Estado, confunde
Voltemos ao problema dos estágios de uma formação social do- autonomia com a não-intervenção específica do político no
minada pelo M. P. c.. Além da coexistência de divers~s modos ~e '011 ~ico, característica da forma de Estado liberal e do capitalis-
produção diferentes, podemos encontrar nessa formaçao a coexis- 11I0 privado. O estado atual do capitalismo monopolista de Estado,
tência de várias formas "puras" do M. P. c.: simultaneamente, do I 10 fato da sua marcada intervenção no econômico, implicaria as-
capitalismo privado, do capitalismo monopolista, do capitalismo
monopolista de Estado, etc. Contudo, do mesmo mod? que. a fa~e
11I :m uma abolição da autonomia respectiva dessas regiões, carac-
A
I sücas do M. P. C. e de uma formação capitalista. Conseqüência:
de reprodução alargada de uma formação se refere a dominância
de um modo de produção ~ no caso concreto, do M. P. C. -, os
10, Na medida em que voltarei analiticamente a estes pontos, vou agora.
estágios dessa fase de uma formação referem-se à dominância de In I til' apenas no fato de que as modificações dessas formas de Estado
uma forma desse modo de produção "puro" sobre as outras formas, I' (·tt,l'izada por articulações específicas da.s estruturas econômica;
o que implica uma certa combinação concreta do M.P.C. com. os Jl()lfttclls .no quadro da mesI?a invariante, e portanto por formas espe-
outros modos de produção. Nesse sentido, pode falar-se com ngor Ifle K de intervenção e não-intervenção do econômico no político e do
11ti ('O ~o econômico, só podem ser localizadas de um modo pertinente
de um estágio de capitalismo privado, de um estágio de capitalismo """ r laçõee entre o Estado e o campo da luta de classes. Tome-se o exem-
social, de um estágio de capitalismo monopolista, de um estágio de I1 dali relações entre o legislativo e o executivo as quais segundo Marx
capitalismo monopolista de Estado. As formas de Estado dos dife- uctcrlaam, na sua modificação, as formas do' tipo capitalista de Esta:
e11. pcrtinência do critério das modificações da relação legislativo/ exe-
rentes estágios de uma formação capitalista, dominada por uma utívo n~o pode ser simplesmente determinada pelas formas de interven-
dessas formas do M. P. C., remetem às formas de Estado corres- 0, no ,mterIor das estruturas, de uma estrutura regional dentro dos li-
I1 t " fixados por outra. Dizer, por exemplo que uma forma de Estado
pondentes a essas formas do M.P .C. Int rvém de um modo marcante no econômico só pode ser um Estado
111 JlI'cdominâ~cia _do executivo, seda não só tomar uma mera correlação
Deste modo, essas formas de Estado de uma formação são ca- uma explicação, mas também é, além do mais muitas vezes falso
racterizadas por uma modificação específica da relação entre o po- t problema é muito mais complexo: a pertinência deste critério da~
lítico e o econômico. Contudo, essa modificação das relações entre I ( 11 lcgisla~i,:o/e::cecutivo só pode ser explicado como veremos, pelo
me das modificações da relação do Estado com o isolamento das re-
as estruturas é aqui pertinente, na medida em que é localizável na sociais econômicas - tratar-se-á então do problema das transfor-
sua reflexão sobre o campo da luta de classes. Deste ponto de vista, I' das formas de legitimidade - e da relação entre o Estado e a
monia de classe no bloco no poder.
ela diz respeito precisamente:
147
i46
a forma de Estado do capitalismo monopolista de Estado seria uma ncontra nele um estudo dos efeitos da unidade sobre as outras
forma de transição na medida em que implicava precisamente nes- t uturas regionais - mas sim a matriz invariante da sua autono-
sa abolição. I specífica - nem, com maior razão, um estudo dos efeitos de
u estrutura regional sobre outra estrutura regional, as suas inter-
Não será demais insistir na inexatidão dessa concepção, de tal n es respectivas no quadro da unidade - mas sim o delinea-
modo é certo que as formas de intervenção ou não-intervenção do nto indireto dessas intervenções no econômico.
Estado capitalista no econômico, formas que marcam as formas
Contudo, concluir, desta análise, em O Capital, da matriz do
desse Estado, pressupõem a autonomia específica do político e do
. P. e do delineamento indireto da intervenção do Estado no
econômico. São as modificações das suas relações, no quadro in- nômico, uma por assim dizer, descrição de um modo de produ-
variante dessa autonomia, que regulam precisamente as modificações o m que o Estado não interviria no econômico, é aí que reside
das suas intervenções respectivas, fixando os respectivos limites. rro capital. Isso conduz a ver em O Capital quer a descrição de um
O Estado íntervencionista, por exemplo, exerce a sua intervenção
Imples estágio de uma formação capitalista, o capitalismo privado,
precisamente através das formas particulares que reveste a. sua au-
II r a ver nele o estudo de um modo de produção "ultrapassado"
tonomia relativa ao econômico. Por outras palavras, essa ínterven-
lus transformações atuais, às quais se atribui assim o estatuto de
ção exerce-se no quadro invariante da matriz do M.P.C. I nsição. Efetivamente, os limites, e até o lugar respectivo do eco-
Isso ressalta, aliás, com nitidez, de uma leitura adequada de O 11 mico e do político, que Marx apresenta em O Capital como carac-
Capital. Muitas vezes se viu nele um estudo do estágio do capitalis- I lzando o M.P.C., incluem tanto a não-intervenção específica
mo privado, ao se ler a sua descrição da não-intervenção especí- I I forma de Estado liberal - não-intervenção essa, cujo sentido
fica do Estado liberal no econômico. N a realidade, o que nos dá alo já indiquei 11 - como as intervenções das outras formas do
O Capital são as chaves de uma construção do conceito de Estado ílpo de Estado capitalista, até mesmo do Estado no estágio do ca-
capitalista; o que nele podemos encontrar é, não a não-intervenção pltulismo monopolista de Estado.
específica da forma de Estado liberal no econômico do estágio do
capitalismo privado, mas sim a autonomia respectiva do econômico
e do político que especifica o M.P.C. O que freqüentem ente foi in- 111. Formas de Regime e Periodiração do Político
terpretado como uma descrição da não-intervenção do Estado -
liberal - no capitalismo privado não é assim senão a análise da
autonomia do tipo de Estado capitalista e do econômico, prévia a Essas formas de Estado devem contudo ser diferenciadas das
toda a forma de intervenção de uma forma de Estado de um estágio rmas de regime, termo este que utilizaremos em vez de outro, am-
nos limites desse modo de produção. UO, que é o de formas de governo, o que não foi feito pelos clás-
I os do marxismo. Essas diversas formas de Estado podem apre-
Dito isto, um segundo mal-entendido pode surgir: essa inter-
nt Ir-se sob diferentes formas de regime, constituindo o ponto co-
venção do tipo de Estado capitalista no econômico seria inexistente
I um entre essas diversas formas de regime o fato de pertencerem
em O Capital, o que é completamente inexato. Ela encontra-se
m sma forma de Estado. Por exemplo, o Estado liberal pode
delineada, indiretamente, salvo na passagem referente à legislação
p li ntar tanto a forma de regime da monarquia constitucional _
sobre manufaturas. Em outras palavras, Marx atribui-lhe um lugar
perfeitamente circunscrito mas que não é explicitamente estudado r -Bretanha - como a de república parlamentar - França. O
em O Capital. E isto porque, devido precisamente à autonomia es- Indo intervencionista pode apresentar-se sob várias formas de
pecífica das instâncias do M.P.C. e ao papel dominante que nele ím - regime presidencial americano, regime parlamentar bi-
assume o econômico, as intervenções das outras instâncias no eco- irtldário inglês, regime parlamentar multipartidário continental.
nômico estão delineadas indiretamente. Do mesmo modo que não I I. diferenças entre as formas de regime não podem referir-se di-
se encontra em O Capital um estudo do tipo de Estado capitalista, 111m nte à periodização de uma formação social, periodização esta
nele não encontramos um estudo das suas intervenções no econô- 11 respeito às relações do conjunto das instâncias" antes decorrem da
mico. Rigorosamente falando, encontra-se em O Capital um estudo I mporalidade particular - e, portanto, das estruturas específicas -
da unidade da estrutura do conjunto do M.P.C. e um estudo dos
efeitos dessa unidade sobre a estrutura regional do econômico. Não Vt\l" p. 49.

148 149
do nível político. Este nível relativamente autônomo possui, com irte", sem um estágio intermediário de capitalismo monopolista e
efeito, uma temporalidade, um ritmo próprio que, articulado com a LI stado intervencionista, sucedendo na França o caso contrário.
temporalidade das outras instâncias, constitui um estágio histórico de m terceiro lugar, podem ser feitas a propósito das formas de Estado,
uma formação social. O estudo concreto de uma conjuntura política mesmas observações que a propósito dos tipos de Estado: um Es-
concreta está precisamente dependente da fusão desta dupla perio- I do determinado apresenta as características de várias formas de Es-
dização, concernente respectivamente ao nível político e ao con- do, devido precisamente à coexistência, neste estágio da formação,
junto de um estágio típico. A divisão dos regimes políticos, no várias formas do M. P . C. Uma forma de Estado apresenta,
interior de uma forma de Estado, sobressai em primeiro lugar das ontudo, a dominância na unidade complexa de um determinado Es-
coordenadas próprias do nível político, por exemplo, no que diz t do. a qual lhe atribui assim os seus traços distintivos concretos.
respeito ao "bloco no poder", das relativas à situação concreta da
representação das classes e das frações de classe por partidos polí- 2) Deveríamos igualmente sublinhar, a propósito das formas
ticos na "cena política". Os regimes políticos apresentam-se aqui d Estado, os fenômenos de defasagem constatados a propósito das
como variáveis no interior dos limites fixados pela forma de Estado I ções entre as estruturas - superestrutura jurídico-política - e
de um estágio típico; as relações e o funcionamento concreto dos campo das práticas de classe - luta de classes. Essas defasagens
partidos, em relação com um regime, como variáveis no interior dos zem com que, por exemplo no primeiro caso, um estágio de ca-
limites fixados pelo bloco no poder, correspondendo à forma de pitalismo monopolista de uma formação social possa por vezes apre-
Estado desse estágio. ntar um Estado dominado pela forma de Estado liberal: é que, a
despeito da forma de Estado que entretanto continua a constituir
um dos elementos de divisão de um estágio, os elementos e as suas
Podemos assim tirar, desde já, algumas conclusões relativas ao r rações apresentam em tal grau as características do estágio típico
problema da periodização.
do capitalismo monopolista que este basta para a caracterização des-
oa formação. Essa defasagem pode chegar a provocar uma torsão
1) Essa divisão de uma formação em estágios não pode ope- du relação entre estruturas e funções desse Estado, sendo um Estado
rar-se de acordo com um modelo cronológico evolucionista: não se tipicamente liberal chamado a desempenhar funções de um Estado
trata de estágios sucedendo-se cronologicamente, ou de formas de inlcrvencionista. Essa torsão pode vir mesmo até uma ruptura e
Estado existindo segundo um traçado unilinear de sucessão. Pelo u uma "importação", por certas estruturas, de funções "correspon-
fato da coexistência em uma formação capitalista de vários modos
dentes" tipicamente a outras estruturas: fenômeno este que encon-
de produção e de várias formas do M. P. C., pelo fato da articula-
tramos a propósito dos tipos de Estado no bismarckismo.
ção complexa de instâncias com temporalidades próprias, a domi-
nância em uma formação capitalista de uma forma do M. P. C. so- É aqui que podemos constatar, do modo mais patente, as
bre outra não se traduz em um desenvolvimento simples. Em uma diferenças entre o que se pode designar por defasagem funcional e
formação social, pode encontrar-se um estágio dominado pelo ca- ti r[asagem de ruptura. No primeiro caso, e contrariamente a uma
pitalismo monopolista e pelo Estado intervencionista antes de um oncepção "funcionalista", a defasagem entre estruturas - a "dis-
estágio dominado pelo capitalismo privado e pelo Estado liberal: função" - é, para o marxismo, um elemento constitutivo da uni-
veja-se, após a primeira guerra mundial, nos países ocidentais, o d de, no caso concreto, de um estágio típico de uma formação so-
período que se seguiu à "economia de guerra". Este período é se- lul: trata-se aqui da defasagem funcional que vai da homologia à
guido por um outro, relativamente breve, correspondendo a um t rsão entre estrutura e função. Não obstante, essa pode entretanto
estágio dominado pelo capitalismo privado e pelo Estado liberal. Em tingir um certo limiar além do qual uma instância regional passa
segundo lugar, podemos constatar com freqüência a passagem de apresentar uma defasagem de ruptura com a unidade de que faz
um estágio a outro sem passar por um outro estágio que, se procurar- rte. Esta defasagem não pode contudo ser pensada sob o termo
mos na lei teórica de sucessão tendencial uma via de sucessão unilinear •• obrevivência", muitas vezes utilizado nas vulgarizações marxistas:
histórica, deveria ter sido um estágio intermediário: passagem, por 88 instância defasada além do limiar de ruptura não passa a cons-
exemplo, na Grã-Bretanha, após a segunda guerra mundial, de um tituir um ramo morto, uma excrescência parasitária da unidade. Ela
estágio de capitalismo privado e de Estado liberal de antes da guer- ntinua a desempenhar funções e por isso a constituir um dos ele-
ra para um capitalismo monopolista de Estado e para um "Estado m ntos que entram em conta na divisão de uma formação em está-

150 151
gios; e, o que é mais, passa de fato a preencher funções novas que o ESTADO ABSOLUTISTA,
estão contudo em ruptura com suas estruturas. Por outras palavras, ESTADO DE TRANSIÇÃO
uma defasagem além desse limiar circunscrito pela unidade continua
a funcionar no quadro dessa unidade, embora em defasagem de rup-
tura, o que implica em que a ruptura é sempre determinada no in-
terior de uma unidade. 12 Por outro lado, essas defasagens podem
estar presentes, em um estágio, entre as estruturas e o campo das I. Tipo de Estado e Problemas de Transição
práticas de classes: trata-se aqui de defasagem entre as formas de
Estado e a configuração concreta dos blocos no poder no interior Podemos fazer agora algumas observações com relação à transi-
dos estágios de uma formação social. O do tipo feudal de Estado para o tipo capitalista de Estado. Sem
1I0S alargarmos sobre os períodos de transição em geral, basta lembrar

Não vou insistir aqui mais nos problemas concretos de uma IUC eles decorrem de uma problemática específica que não pode ser
tipologia das formas de Estado capitalista e das formas de regime. I duzida, de maneira historicista, à gênese de um modo de produ-
Voltarei a este ponto quando possuirmos todos os elementos neces- . o. A teoria dos períodos de transição não é a de uma genealogia
sários e quando tivermos estabelecido, na linha teórica que preci- dos elementos, a das origens, mas a do início de uma nova estru-
samente tracei, as características do tipo capitalista de Estado. No tura. Os períodos de transição apresentam uma tipicidade própria,
momento era necessário enunciar com nitidez o problema da rela- lima articulação específica das instâncias devida a uma coexistên-
ção do conceito de Estado capitalista com as formas de Estado e 'ia complexa, em uma formação em transição, dos diversos modos
as formas de regime, na problemática da periodização. do produção, e a um deslocamento contínuo, muitas vezes oculto,
do índice de dominância de um modo de produção para o outro.
Ora, o Estado absolutista, considerado aqui como o estado de
Irunsição do feudalismo para o capitalismo na área da Europa Oci-
dental, apresenta problemas particulares. Com efeito, a grande
maioria dos historiadores está de acordo quanto ao fato de a cesura
nure o Estado feudal e o Estado capitalista não ter lugar no mo-
monto em que aparece o Estado correspondente à consolidação da
dominação política da classe burguesa, da qual o Estado saído da
I evolução Francesa ofereceria o exemplo característico, mas à rigor
110 momento em que aparece o Estado absolutista. O problema
ria pois o seguinte: durante o período de transição do feudalismo
pura o capitalismo na área da Europa Ocidental, o Estado já apre-
nta características que permitem considerá-Io, do ponto de vista
tlpológico, como pertencente ao tipo capitalista de Estado -.em-
12.. Refiro-me realmente, aqui, a uma defasagem de ruptura, o qual se I ora apresentando ainda numerosas características do tipo feudal
aphca. a um elemento, d.a estru.tura global ou a uma estrutura regional I Estado -, enquanto que o período de transição é caracterizado
da unidade. É ne~essarIo, p~ecIsamente, não, o confundir com a situação Jl Ia não-domínância "consolidada" do M. P . C. Segue-se que a
de ruptura do conjunto da unidade de uma formação a qual constitui nes-
se caso uma "unidade de ruptura" que é a situação' revolucionária. Neste 1IIII1siçãodo feudalismo para o capitalismo parece ser aqui carac-
último ~aso, é o co.njunto das contradições de uma formação que, pelo de- I rizada, na sua especificidade, por uma não-correspondência entre
senvolvimento desigual das estruturas regionais, fundem em certo mo- 1\ superestrutura política e a instância econômica.
mento reclamando a transformação do conjunto da unidade. (Ver L. Al-
thusser: "Contradiction et surdétermination" in Pour MaTx). Em con- Isto revela, por outro lado, a complexidade de um problema
trapartida, no caso de uma defasagem de ruptura concernente a uma es- m que existe demasiada tendência para simplificar. De acordo
trutura regional, a unidade continua a funcionar em sua tipicidade. om a concepção que vê no Estado o apêndice e o produto da
P_or outras palavras, a situação revolucionária de uma unidade de ruptura
nao surge de uma simples contradição entre a "base" e uma superes- -llIlIso dominante, foi freqüentemente defendido que a transição
trutura que "já não lhe corresponde". 11I ncionada é caracterizada pelo fato da classe burguesa se tomar

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primeiro uma classe economicamente dominante, e depois, pela 11 manufatura não é de modo algum caracterizada pela separação
posterior instituição do Estado burguês - como, por e~~mplo, o ntre o trabalhador e os meios de produção, mas pela sua união;
Estado saído da Revolução Francesa -, uma classe politicamente sta separação introduzir-se-á na apropriação real com a grande in-
dominante. Ora, estas constatações são exatas no que diz respeito tlústria que instaura a homologia entre a propriedade e a apropria-
à defasagem entre o estado de transição e o campo da luta de , O real.
classes; não são, contudo, exatas' no que diz respeito à superes- Essa não-correspondência, que especifica a transição, manifes-
trutura do Estado nas estruturas, porquanto levam a considerar o ta-se na passagem do feudalismo para o capitalismo na Europa Oci-
Estado absolutista como uma forma de Estado feudal. Ora, o Es- d ntal, através de uma defasagem cronológica entre, por um lado,
tado absolutista de transição apresenta, regra geral, características tanto as formas do direito como a superestrutura política do Es-
importantes do tipo capitalista de Estado, indicativas de cesura com tudo, e por outro, a estrutura econômica. Esta defasagem cronoló-
o Estado feudal, no momento em que a classe burguesa não é ainda, gica entre o jurídico-político e o econômico intercepta de fato neste
em termos exatos, uma classe politicamente dominante. Insisto ~es- ponto a defasagem cronológica, no interior da combinação econô-
te ponto: essa presença específica no Estado absolutista do tipo mica, entre a relação de propriedade - distinta da sua expressão
capitalista de Estado não é devida sequer a uma aliança políti~a jurídica -e a relação de apropriação real. O Capital, como rela-
entre a nobreza fundiária politicamente dominante e a burguesia .ão de propriedade - econômica -, existe na realidade antes da
economicamente dominante. Durante esta fase, a contradição prin- "subsunção real" do trabalhador no capital, 4 a qual implica na se-
cipal situa-se precisamente ent~e a nobreza e a burguesia. 1 • paração entre o trabalhador e os meios de produção: este é tam-
Ora a estrutura da transição em geral - da passagem ideal, bém o caso, tanto para as relações jurídicas formais da propriedade
para retomar o termo de Bettelheim - é especificada por _uma privada como para o Estado de transição. A forma jurídica de pro-
não-correspondência entre a relação de propriedade e a relaçao de priedade do período de transição é uma forma capitalista de proprie-
apropriação real. 2 Transição do feudalismo para o capitalismo, es- dade; a fórma institucional de dominação política, o Estado absolu-
ta não-correspondência caracteriza a manufatura,. qu~ é a f~rma es- tista de transição, é uma forma de Estado capitalista anterior à
pecífica da transição do feudalis~o para o .capItah~mo: E o que realização da separação entre o produtor direto e os seus meios de
Marx formula, dizendo: "O Capital apropria-se pnmeiro do tra- produção que é o pressuposto teórico das relações de produção ca-
balho nas condições técnicas dadas pelo desenvolvimento histórico. pitalista. De fato, no curso dessa transição, encontramos certos
Não modifica imediatamente o modo de produção". 3 A manufa- lementos próprios das relações de produção capitalista, em ligação
tura é caracterizada precisamente pelo fato do modo de propriedade com a formação do Estado absolutista, mas sempre enquanto con-
já ser a forma capitalista de propriedade: essa relação d~ proprie- dições históricas do M. P . C . É nessa medida, por exemplo, que
dade institui a "subsunção formal" do trabalhador no capital, e ex- podemos igualmente encontrar manufatura, se fizermos uma análise
prime-se por uma nova forma - capitalista - de organização do das origens do M. P . C ., as "condições" que Marx assinala nos
trabalho no próprio interior da manufatura. Em contrapartida, ,?O Grundrisse. .. sob o termo indicativo de "indivíduo nu" ou de
processo de trabalho, na apropriação real da natureza pela produçao, "trabalhador livre". No entanto, na medida em que uma teoria
da transição não é uma genealogia dos elementos, mas uma teoria
1. Por outro lado, e dado o caráter limitado destas ob~e::vações não ~o- das origens, as estruturas capitalistas do Estado absolutista, tanto
deremos distinguir entre os diversos estágios da transição do feudalis-
mo para o capitalismo, Para tanto, Isel'l~ neceSSarl? empreender uma c mo a propriedade formal capitalista, não podem ser referidas
análise concreta das situações concretas a fim de localizar a cesura entre, em teoria à existência real destas condições históricas. Elas não
por um lado, uma unidade em uma situação de t7'ansição, que, apresent~ podem ser consideradas senão no interior da especificidade do pe-
certas condições históricas da transição e decorre de uma ~eorIa das or:- ríodo de transição: a não-correspondência já assinalada,
gens de um modo de produção, e, por outro, a de um perwdo de tramei-
ção em sentido estrito (a da seqüência de u~a ceSU7'a e que decorre de .É, no entanto, necessário fazer aqui uma observação suple-
uma teoria dos inícios de um modo de produção), (Acerca destes proble- mentar, que nos conduz a um distinção importante, A não-cor-
mas, Bettelheim, op. cit.).
respondência que especifica a transição conduz de fato a uma ca-
2. Balibar in Lire le Capital, t. 11, p. 207 e segs. e sobretudo Bettelheim,
op. cito o que Marx havia notado em O Capital, no capítulo acerca da gênese
3. Le Capital, r, p. 303. da renda,

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racterística comum da transição em geral, que consiste na defasa-
11 O é precisamente a de operar nos limites fixados por um modo
gem cronológica entre a relação de propriedade e a relação de apro-
I produção já determinado, mas a de produzir relações ainda não
priação real. Devemos aqui distinguir sempre entre a relação eco-
determinadas de produção - as relações capitalistas -, e liqui-
nômica de propriedade e a propriedade jurídica, a fim de podermos
dar as relações feudais de produção: a sua função é a de trans-
elucidar as formas complexas que revestem essa defasagem 'Da
formar e fixar os limites do modo de produção. A função desse
transição concreta de uma formação social para outra, e demar-
tado de transição na acumulação primitiva decorre da eficácia
car assim os diversos estágios da transição. O que especifica a
specífíca do político no estágio inicial da transição. Os graus e
transição do feudalismo para o capitalismo na área da Europa Oci-
s formas desta intervenção do Estado absolutista dependem assim,
dental é que o avanço da propriedade sobre o processo de trabalho
rincipalmente, da existência concreta das condições históricas do
diz respeito tanto à propriedade econômica - organização do tra-
apitalismo nas diversas formações sociais.
balho da manufatura - como à sua expressão jurídica institucio-
nalizada. Por outras palavras, assiste-se a uma certa correspondên-
cia - variável segundo os estágios - entre as duas relações de
propriedade, defasadas, na sua relação, do processo de trabalho. Em 11. O Estado Absolutista, Estado Capitalista
contrapartida, na transição do capitalismo para o socialismo, a não-
-correspondência e a defasagem revestem formas diferentes. Isto Na área da Europa ocidental, o nascimento do Estado absolu-
se relaciona, em última análise, a essa diferença capital entre a tista varia de acordo com o desenvolvimento desigual dos diversos
transição do feudalismo para o capitalismo e a do capitalismo para onjuntos nacionais, mas situa-se, de acordo com a periodização
o socialismo, que os clássicos do marxismo, sem aprofundar a ques- da feudalidade admitida pelos historiadores, durante o período de
tão, sublinharam: o M. P . c. desenvolve-se no terreno da proprie- "crise maior" do feudalismo nos séculos XIV e XV. Este período
dade privada já estabelecida no seio do modo de produção feudal, é marcado pela derrocada, em larga escala, da agricultura feudal,
propriedade privada essa que se transforma em propriedade privada pelo aparecimento das manufauras e pelo desenvolvimento do co-
capitalista, enquanto que o socialismo estabelece a apropriação dos mércio internacional, por um declínio da população, etc. Esse Estado
meios de produção pelos próprios produtores, o que de modo algum consolida-se durante o novo período de expansão, que se estende de
se pode introduzir no seio do M. P . C. meados do séc. XV a meados do séc. XVII, originando uma "crise
de conjunto" das relações de produção feudais e marcando, segun-
Deste modo, essa não-correspondência é importante a fim de do Marx, o "início da era capitalista" 6. Esse Estado, que podemos
explicar a presença característica de estruturas capitalistas neste assinalar em forma embrionária nos principados italianos do Quattro-
Estado transitório, comportando ainda vários traços feudais: es- cento, encontrámo-Io na França, com o reinado de Luiz XIII e de
tes impregnam efetivamente este Estado. Em particular, este apre- Richelieu, na Espanha com os reis católicos, Fernando e Isabel. 7 Na
senta características de um Estado que possui, na ligação com Inglaterra, sendo diferente a situação concreta, a transição do Esta-
as relações de produção, a autonomia específica do Estado capita- do feudal para o Estado capitalista parece de fato, ao mesmo tempo,
lista, embora os pressupostos teóricos desta autonomia - separa-
ção entre o produtor direto e os meios de produção - não este- (l. A este respeito, M. Dobb e E. Hobsbawn: "Du féodalisme au capita-
jem ainda efetivamente realizados. Em conjunto, este Estado apre- liame", in Recherches Internationales à la lumiere du marxisme: Le [éo-
senta, na sua ligação com as relações sociais de produção, carac- dalisme; e The transition from Feudalism to Capitalism, a Symposium
by P. Sweezy, H. Takahashi, M. Dobb, R. Hilton, Chr. Hill-London, Fore
terísticas de um Estado em ligação com o isolamento capitalista Publications.
dessas relações, embora os pressupostos deste efeito de isolamen- 7. O caso da Alemanha é particular: com efeito, nunca passou pelo Es-
to, sob a forma capitalista, não existam ainda na realidade. tado absolutista tal como o analiso aqui, a despeito das aparências. Até
mesmo no Estado bismarckiano, têm as eetruiurae feudais a dominãnc.a
Por outro lado, essa não-correspondência pode ser decifrada (entre outras, ausência de poder central, disseminação do poder, etc.). É
rto que Engels nos apresenta por vezes o bísmarckismo simultânea-
a partir da função deste Estado de transição: trata-se agora das \ mente como "Estado absolutista" e como forma de "bonapartismo" (A
análises de Marx relativas à acumulação primitiva do capital, cujo questão do alojamento, capo lI, § 2). Isto explica-se - como veremos -
objetivo não é, no entanto, apresentar uma teoria da transição, mas na medida em que Engels não concebe a autonomia relativa do Estado
uma genealogia dos elementos. A função do Estado absolutista não ser segundo o modelo de um equilíbrio das forças sociais pre-
entes.

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mais tardia e mais direta, não tendo tido aí o Estado abso- ques, cujas relações consistem em uma hierarquia de poderes exclu-
lutista senão uma existência precária; caso, aliás, semelhante ao dos Ivos lInsdõSõID ros e so reposto~
Países Baixos. 8
O Estado absolutista a resenta ~,-Y.ID,,ª- autonomia e).!L
O Estado absolutista é caracterizado pelo fato de ue o titu r I' lação à instância econômiçg, Os laços feudais, estabelecidos no
oderIo estatal em geral um mo aKa.-!dl:U.ǧtrar nas suas mãos tado frocdrrt egun õ o modelo do sagrado, são substituídos por
l!..~_.p'o er inson~ pe as outra~"ps!it~ç~es ....§~E1i9-Yf(ercíci2 1 os "propriamente políticos". O poder central, ~ujo caráter pú.bli-
não é contido por nenhuma lei limitativa, seja esta lei de ordem 0- 'o se dissocia do domínio do privado, aparece liberto dos limites
~ ou na ":' hdi:õ @a Q.J~~.}!r e êii us so~. Ãõ li xtra-políticos", religiosos e morais, e exerce-se de maneira "abso-
contrário do tipo de Estado feudal em que o poder e Estado é li- luta" sobre um conjunto "nacional-popular": é a derrocada dos
mitado simultaneamente pela lei divina - sendo o Estado conside- bstáculos que os estados medievais constituíram para o poder cen-
rado como a manifestação da ordem cósmica-divina - e pelos pri- tral. Assiste-se à forfuação dos conceitos de "povo" e de "nação"
vilégios dos diversos estados medievais, na medida em que os laços 'orno princípios constitutivos de um Estado que é tido como repre-
de feudalidade estabeleciam uma hierarquia de poderes exclusivos scntante do "interesse geral".
dos senhores feudais sobre a terra de que eram proprietários e sobre
os homens que a ela estavam ligados, o Estado absolutista aparece Por outro lado, assiste-se a um processo de fixação institucio-
como um Estado iQ.l.tem;elltecentralizai1ii: Enquanto periclitam as nul dos agentes, segundo o modelo do privado, enquanto "súditos
diversas assembléias realizadas por estes estados, assembléias cuja do Estado". Se é verdade que o poder central e soberano não é
atividade limitava o exercício do poder central - estados gerais, .onsiderado como sendo limitado por qualquer "lei", na acepção
dietas, etc. - o Estado aparece-nos como instituição centralizada, I' udal do termo, não é menos verdade que se constata, desde a sua
fonte de todo o poder "político" no interior de um domínio territo- nuergência, uma substituição dos privilégios medievais - escritos
rial-nacional, É assim que progressivamente se forma a noção de • consuetudinários - por um sistema jurídico escrito: trata-se de
soberania do Estado: exprime a dominação institucionalizada exclu- regras de direito "público", apresentando já os caráteres de abstra-
siva e única, propriamente pública, sobre um conjunto territorial- '! o, de generalidade e de formalidade do sistema jurídico moderno
-nacional e o exercício efetivo do poder central sem as restrições que regulamentam as relações dos súditos do Estado com o poder
"extra-políticas" de ordem .jurídica, eclesiástica, ou moral que ca- . ntral. Estes súditos são fixados, nas instituições políticas do Es-
racterizavam o Estado feudal. Essa soberania do Estado manifesta- I do, segundo o modelo do privado, respeitando .0 poder central fre-
-se, aliás, também no exterior e autoriza o monarca a ser nas rela- 1Uentemente estas leis e não procedendo senão com circunspecção
ções inter-nacionais, o seu único árbitro; fato novo este, se nos lem- I uma intervenção no domínio privado.
brarmos do papel que, por exemplo, a Igreja desempenhava nas re- A soberania do Estado, de acordo com Bodin, aparece ligada
lações entre Estado feudais. Em resumo, o caráter fundamental do I ) problema da unidade do poder "propriamente político": este pa-
Estado aQ§olutista_~~ reséntar a unidade'-;:~- política de U r representaria a unidade dos súditos do Estado no domínio do
um poder centralizado em um conjunto nacional, ao colltráriõde 1úblico. O Estado é tido como a ~ncarr:ação ~o ,inter~ss~ .geral
uma fragmenta' ao e e uma part1Iía o po er em omínios terri- público - tema novo na ordem do dia: 9. e o pro~no pnnCIpI? do
toriais, constituido paralel~é1ut s ClJllÔlntco-poItíêàs estan- .onceíto da razão do Estado. 10 Este designa precisamente a inde-
-- ------- 1cndência de um poder de Estado, livre de todo. o limite extra-polí-
8. Sobre do nascimento do Estado moderno em geral e acerca do Esta- ti o na medida em que esse poder representa o interesse geral. As-
do absolutista em particular: O. Hintze, Staat und Verfassung, 1962, pp. siste-se à primeira formação das teorias do contrato social, concep-
470-496. R. M. Mac1ver, The Modern State, 1926, F. Oppenheimer, The
States its History and Development Viewed Sociologically, 1914. Kienast : ,° que pode ser considerada, sob a sua forma ulterior e elaborada
"Die Anfaenge des europaischen Staats-systems im spaeteren Mittelelter", 10 séc, XVIII, como a expressão teórica da emancipação das ins-
in Hietorieche Zeitschrift, 153 (1936) p. 229 e segs. R. Mousnier: Le
XVI ei XVIII eiêcles, 1954 R. Mousnier, "Quelques problemes concernant
Ia monarchie absolute", comunicação ao X Conarêe international des O. Ver, a este respeito, entre outros, J. Ritter, Die Neugestaltung Euro-
8ciences historiques, vol. 4 G. Lefebvre: "Le despot.sme éc1airé", in A nna- 1)(J,8 in XVI Jahrhundert, p. 19 e segs.
les hist, de la Révolution Française n. 21, 1949. É necessário mencionar 10. A este respeito, ver F. Meinecke, Die Idee der Staatsraeson in der
também aqui os artigos da New Cambridge Modern. History. n,ouoren Geschichte. 1924.

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tâncias políticas e econômicas. Na altura do seu primeiro apare- tudo determinado pelas estruturas capitalistas do Estado absolutista:
cimento, o terreno teórico do contrato social remonta aos juriscon- assiste-se aqui ao nascimento da burocracia na moderna acepção do
sultos, formados nas Universidades fundadas a partir do séc. XIII: termo. 13 Os diversos cargos públicos já não estão diretamente liga-
estes, inspirando-se nas fontes da teoria do contrato público - lex dos à qualidade dos seus titulares enquanto membros de classes
regiae - do Baixo Império Romano, nos textos dos padres da Igre- "castas", antes revestem progressivamente o caráter de funções po-
ja e em certos capítulos do direito canônico, lançam os fundamentos lutcas do Estado. O conteúdo da competência destes verdadeiros
da teoria do pacto de dominação política. O poder absoluto é fun- órgãos do poder já não decorre dos seus laços "econômico-políticos"
dado sobre o contrato pelo qual os "governados", no seu "isolamen- com uma parte do território, antes reside no exercício do poder es-
to" privado, se unem para formar um corpo político submetendo- tatizado. O exercício dessas funções não surge assim como uma
-se, por este mesmo ato, ao poder público do "governo". Paralela- r alização dos interesses, econômicos e políticos, dos seus titulares,
mente, o problema da nação parece ocupar um lugar central na for- mas como um exercício das funções do Estado representando o inte-
mação do Estado absolutista, Estado soberano tanto no interior resse geral. De fato, como acontece com a nobreza de toga, é
como no exterior das suas "fronteiras nacionais". 11 igualmente essa função que irá conferir ao seu titular uma atribui-
ão de classe. 14 A relação entre esta burocracia-função e a emer-
Conhecemos, por outro lado, o im ortante papel que assumi- gência do "interesse geral" representado pelo Estado absolutista, foi
ram o exército e a burocracia na forma ão do--ªp-ªre o e -':;YJã(1õ
ábsolutista: numerosas forãID. as' tentativas para apresentar esse
18. Entre outros: Santoro, Gli oflici del dominio eforzesoo (1450-1500)
papel como um desmentido à concepção marxista do Estado, a qual 948; R. Mousnier; La vénalité des oflices eoue Henri IV et Louis XIII:
estabelece as suas relações com um modo de produção determina- 1946; K. W. Swart Sale 01 officee in Seventeenth Century, 1949. Volta-
do. Ora, esse papel deve ser analisado a partir das funções parti- mos, aliás, no capítulo reservado à burocracia, às análises de Weber a
IIte respeito.
culares do exército e da burocracia no período de transição do feu-
dalismo para o capitalismo: são as estruturas do Estado absolutista, 1. Uma observação aqui: a defasagem entre o Estado absolutista e a
Instância ecanômica coloca o problema do funcionamento do Estado abso-
em relação com as mesmas coordenadas que delimitam a função do lutista em proveito do modo capitalista de produção - ainda não domi-
exército e da burocracia, que atribuem a estes o seu papel no apa- ante. Este problema, do mesmo modo que não pode ser explicado dire-
relho do Estado absolutista. O lugar do exército do Estado absolu- tllmente por uma co-dominação "política" ou aliança entre a burguesia
a nobreza fundiár~a, não pode ser diretamente explicado pela tomada' em
tista no aparelho é determinado pelo poder central: este poder man- os, pela burguesia, do aparelho de Estado absolutista. Se é verdade
tém um exército próprio, não se encontrando agora o serviço mili- ue os '~cumes" .da administração e da burocracia são mantidos na França
tar baseado nos laços de feudalidade, mas em um exército mercená- Antigo Regime pela "nobreza de toga", é preciso não esquecer que
rio ao serviço de um poder político relativamente liberado dos limi- ata ap:esenta, como Mathiez mostrou, um funcionamento de classe que
próxima da nobreza fundiária. Quanto à Grã-Bretanha, Marx nos seus
tes dos laços feudais. 12 Esse exército de mercenários, no qual a tI"os do New.York Daily Tribune (Oeuvres politiques, Costes, t. I, n, V,
infantaria, composta por numerosas classes sociais, desempenha - I, etc.), particularmente nos seus textos acerca dos Whigs mostra-nos
ao contrário da cavalaria de nobreza - um papel principal, pode mais nitidamente possível, que esses lugares proeminentes do aparelhn
revestir, por vezes, o caráter do exército popular de um Estado que Estado eram mantidos por uma fração da nobreza fundiária. O mesmo
o, segundo Marx, se dá na Espanha (Oeuvres politiques, t. VIII, "La
representa a unidade do povo: este é um elemento importante das • volutíon espagnole", p. 131 e segs.). Assim pois, o funcionamento do Es-
análises de Maquiavel. do absolutista em proveito do modo de produção capitalista não se deve
O caso torna-se mais patente no que concerne à burocracia: a d,," temente nem ao lugar político da burguesia no campo da luta de elas-
sua função pode ser delineada a partir de numerosas coordenadas a nem à natureza de classe do aparelho de Estado. Devemos igualmen-
t r em conta as estruturas do Estado absolutista e o seu papel no pe-
do período de transição. O seu papel no aparelho de Estado é con- do de transição. Ainda mais: é a autonomia relativa do Estado absolu-
ta .em relação à instância econômica, referida às suas estruturas, que
11. A este respeito, H. Hauser, La modernité du XVI siecle, Paris, rmíte ao aparelho de Estado ter de fato um funcionamento "autôno-
1930; e E. Chabod, Contribuição às Actes du Coloque sur Ia Rene~ssance " - ou seja inverso - da sua natureza de classe. Resumindo, a re-
organisé pa;r Ia Societé d'histoire moderne, 1958: "Y a-t-il un Etat -de Ia Iço entre a dominação econômica ainda não consolidada da burguesia
Renaissance ?" refiro-me exclusivamente de dominação econômica e ainda não conso-
12. Sobre esta questão: J. Van Doorn, "The Officer Corps: A fusion of lidada - e o funcionamento do Estado absolutista não pode ser estabe-
profession and organisation", in European Journal 01 Sociology, VI, I Ido senão pela elucidaçâo de toda uma série de defasagem entre as ins-
1965, p. 262 e segs. n ias, por um lado, e entre estas e o campo da luta de classes. .'

160 161
inclusive assinalada por Weber, nas suas análises do tipo de auto- . o pril1cil?al~se desloca e não funciona entre a burguesia e a no-
ridade racional-legal que caracterizaria o Estado moderno.
za f~ndlár:a, .ma.s entre est~s e os pequenos produtores indepen-
Esta defasagem cronológica entre o Estado absolutista e a instân- I1t S, Isto nao indica automatlcamenjs um equilíbrio de forças entre
cia econômica do período de transição do feudalismo para o capi- t \Ii duas.. classes. A aliança de classe nobreza-burguesia é, neste
talismo, relacionado à não-correspondência assinalada, pode ser , ,frequentemente marcada por uma predominância bastante ní-
explicado pelas funções do Estado na acumulação primitiva do ca- t da nobreza. A "autonomia relativa" do Estado absolutista é
pital. De fato, essas funções do Estado - expropriação dos pe- vida, por um .Ia_do, ao seu ca::áter capitalista e à sua função no
quenos proprietários, fiscalização, fornecimento dos. fundos para o lodo de transição, por outro, a sua relação complexa 'Com o cam-
início da industrialização, ataque ao poder senhorial, ruptura das da luta de classes.
barreiras comerciais no interior do território nacional, etc. - só
podem ser preenchidas por um Estado com caráter capitalista, por Assim, do ponto de vista do Estado, o estágio inicial da tran-
um poder público centralizado com caráter propriamente político. do feudalismo para o capitalismo consiste no fato de com-
I 1 r um Estado com traços marcadamente capitalistas, em um
São precisamente as duas instituições "nacionais-populares" que, 10m nto em que a burguesia não é a classe politicamente dominan-
em uma larga medida, lhe permitem funcionar contra o interesse da t ,mesmo freqüentem ente, não é a classe econômicamente domi-
nobreza, em um momento em que ainda não se pode apoiar clara- J \111 : ess~, es!ágio inicial não corresponde, a maior parte das vezes,
mente na burguesia. Esse papel da "força" do Estado em favor da um. cquílíbrío de forças entre a burguesia e a nobreza. Após a
"burguesia nascente", como nos descreve Marx, não pode ser anali- I vuç o da burgueSia ao poder ohtico - o que não implica ne::
sado senão como intervenção do Estado absolutista de transição. Por rlamente a sua egemoma ,Política -, a ranslçao on mua-
outras palavras, não poderia ter sido um Estado qualquer a desem- 1 à consolí açao o M.P.C. e até ao início a ase e re md _
penhar esse papel de "força" na fixação dos limites de um modo de ( ulargada:. o .I>tiliieiro . est~gio desta co~ onde, sempre através
produção ainda-não-determinado. A transição atribuindo estas fun- ti senvol~mentos de Jg'u.als,--ao_EstadQ.liberal ue encontram
ções ao Estado, faz que estas só possam ser preenchidas por um uropa OCI entaI na segunda metade do século XIX. 16
Estado com caráter capitalista.
Finalmente uma última observação sobre a relação deste Es-
tado de transição com a luta de classes. A autonomia característica
do Estado absolutistà relativa simultaneamente à instância econômi-
ca e ao campo da luta de classes, que precisamente lhe permitiu fun-
cionar no sentido da acumulação primitiva do Capital, poderá ser
relacionada, de maneira exaustiva, a um equilíbrio de forças, como
Engels diz, entre a nobreza e a burguesia? Veremos que o esque-
ma explicativo geral da autonomia relativa d~ Estado reportad~ a
n cessário, portanto, distinguir bem entre o "bonapartismo" (que
um "equilíbrio" das forças sociais presentes nao pode ser exaustivo «li corre da fase de transição propriamente dita) e a monarquia abso-
para um Estado apresentando traços capitalistas marcados. Em par- h.t , Faço notar isto, na medida que Engels tem por vezes tendên-
ticular, o Estado absolutista de transição não corresponde, pelo me- 'P(i,. .em c~rto-circuito! em termos históricos, a diferença teórica
nos em todos os estágios da transição, a um equilíbrio de forças en- li . dOIS !enomenos (mais particularmente, na Questão do Alajamen-
11, "lI, OIt" 2, parte, § II), vendo de algum modo no bonapartismo a con-
tre a nobreza politicamente dominante e a burguesia economicamen- "tUdndo do Estado absolutista. Resulta isto dos dois fatos que assina-
te dominante: essa dominância econômica da burguesia só progressi- r ) mngels tem tendência para ver no bismarckismo um fenômeno bo-
vamente se vai estabelecendo, e só excepcionalmente chega a medir 1't1"tU. b) Vê no bismarckismo uma função análoga à do Estado
forças com a dominância política da nobreza - por exemplo, na • IlutlHtll e, assim, assimila-o a este Estado. Dupla inexatidão: o bona-
LI mo não é uma forma transitória de Estado - se mantivermos todo
França no final do Antigo regime. 15 Se, por vezes, durante esses e~- I C/I' no t rmo transição -, e os inícios do bismarckismo são' caracteri-
tágios, o aspecto principal da contradição, até mesmo a contradi- 11li 1 01' um "tipo" feudal de Estado que, no entanto _ e é aí que está
'
1 C/ probloma - apresenta uma face análoga à do Estado capitalista
I' 11 11,;1O. Ess~ dupla. inexatidão permite-lhe ver no bonapartismo
15. Sobre este assunto, ver também M. Dobb: Studies in the Develop-
ment o] Capitoliem, 1963, p. 83 e segs. 1mlindo ao bDsmarcklsmo - uma continuidade com o Estado abso-
<hlHmarckismo = Estado absolutista).

162
163
4. SOBRE OS MODELOS DA REVOLUÇÃO BURGUESA a' o da renda [undiária: 1 trata-se aqui do caso característico em
lU se constata o funcionamento concreto dos proprietários de ter-
I d renda fundiária. A revolução de 1640, e a sua viragem de
1 88, marcam precisamente o princípio da transformação de uma
Acabo de expor alguns traços tendenciais gerais da transição I da classe da nobreza feudal em classe capitalista. Por isso
do feudalismo para o capitalismo na área da Europa Ocidental, indi- Ia revolução, que é uma revolução burguesa na verdadeira acepção
cando ao mesmo tempo que esta transição apresenta particularida- t rmo, apresenta aparentemente um caráter ambíguo: reveste a
des de acordo com os conjuntos nacionais considerados: estes co- mu de uma contradição principal entre frações da nobreza feudal,
meçam a identificar-se, aqui, com as formações sociais concretas. r sentando a burguesia comercial, já existente, um papel mera-
Um importante problema se coloca: poder-se-á falar de um modelo nt secundário. A ambigüidade decorre, neste caso do caráter
típico de "revolução burguesa"? Tentarei mostrar, ao contrário de I~sse que dirige o processo revolucionário, a qual' se encontra
uma concepção bastante difundida que considera a Revolução Fran- vias de passar da nobreza feudal para a burguesia. No segui-
cesa como o exemplo de revolução burguesa, e examinando o caso nto do processo de capitalização da renda fundiária, ela tornar-se-
() núcleo da burguesia industrial.
da Grã-Bretanha, da França, e da Prússia, que esse "modelo" não
existe. Com efeito, se a transição em geral - a passagem ideal sta Revolução, considerada de um ponto de vista exc1usiva-
- apresenta traços comuns, relacionados a uma tendencialidade nt~ po~ítico: pode parecer precoce, uma vez que a burguesia co-
rcial, insuficientemente desenvolvida, e a burguesia industrial
teórica, o problema da revolução burguesa, referido à forma concre- . .
se ínexistente, não podem tomar a direção do processo. No en-
'
ta que reveste a transição, depende da conjuntura de uma formação
enquanto individualidade histórica sempre original. Por outro lado, nto, se considerarmos o conjunto das relações da formação ingle-
a problemática dos modelos da revolução burguesa só pode ser si- Ia chega precisamente a tempo: permite liquidar definitiva-
tuada na perspectiva das defasagens e dos desenvolvimentos desi- m ntc o problema da dominância do M.P.C. sobre os outros modos
11 agricultura, em resumo, acertar definitivamente as contas com a
guais assinalados entre os dois sistemas de relações de defasagens,
o das estruturas e o do campo da luta de classes. I qucna produção. Em termos exatos, a revolução inglesa imprime
I) processo de dominância do M.P.C. no campo, isto é, ao pro-
Seguirei daqui em diante completando, as linhas que se pro- • se> de dissolução e destruição do modo de produção patriar-
vém das análises políticas de Marx e de Engels. Não darei aqui as • 11. um ritmo particularmente rápido e formas particularmente ra-
referências, porquanto faço uma síntese das suas observações preci- o is. Este processo parece só poder ser resolvido desta forma, pela
sas de que me ocupo analiticamente nas várias partes deste ensaio: I nsição do feudalismo para o capitalismo na área que nos ocupa,
por meio do início, aparentemente impuro, do processo revolu-
unário sob a direção de uma fração burguesa de renda fundiária
1. O Caso Inglês III vias de constituição a partir da nobreza feudal, isto é, no plano
I nlítico, sob a direção de uma fração que continua a ser ainda, poli-
11' mente, uma fração da nobreza. 2 Na Prússia de Bismarck, o
No caso da Grã-Bretanha, a revolução burguesa situa-se no
séc. XVII, em 1640 mas também em 1688, aparecendo 1688 como 1. V r M. Dobb: Studies in the Development o] Capitalism, 1963, p. 177
uma viragem do mesmo processo revolucionário. Este processo, na I{H.; P. Anderson, "Les origines de Ia crise présente" in Temps Mo-
Grã-Bretanha, coloca de uma maneira nítida o problema das rela- ri Mt6H, agosto-setembro de 1964; E. P. Thompson: The Making of ih.e
110lish Working Class, 1963.
ções entre a indústria e a agricultura: problema este que foi em geral • Trata-se aqui daquilo que Lenin designava como uma das vias para
subestimado, em virtude da má interpretação das análises teóricas tub lecimento do M. P. C. nos campos sob direção política aristocráti-
de Marx em O Capital sobre a gênese da renda fundiária, e da sua ou burguesa: é a via de uma transição do feudalismo para o capitalis-
"li que é iniciada principalmente através da grande propriedade de
consideração como simples análises históricas. A característica de ndu fundiária. A segunda via é a via americana em que, devido à au-
classe deste processo revolucionário, e em particular da revolução n IR de feudalismo, o processo foi iniciado através da pequena a média
de 1640, consiste em marcar, de maneira clara, o início do processo pricdade independente (Programa agrário da social-democracia na
de estabelecimento da dominância do M.P.C. por meio da capitali- , 1m \"0, revolução russa). Acerca da questão teórica dos grandes pro-
I tnl'ios de terras, ver adiante vol. lI, p. 59.

164 165
processo de esta~elecimento da dominância do M.P.C. inicia-se igual- b u hegemonia da nobreza; depois, após o Reiorm act de 1832 1
mente em proveito de m~a fração da nobreza, o que, formalmente, nde à hegemonia do bloco no poder. No entanto, em virtude do
o aparenta. ao caso da Gra-Bretanha, fração essa que, no entanto, não xinjunto do processo, a presença da burguesia na cena política tem
sofreu a viragem da sua transformação através da renda fundiária. Fi- lu ar no início, quando da sua elevação ao poder, por intermédio da
nal~e?~e, enqua~to na Grã-Bretanha a grande propriedade de renda I obrcza que representa os proprietários de renda fundiária e a bur-
fundiária se reahza por uma fração da nobreza que constituirá o nú- u aia comercial. Em conseqüência, quando do acesso da burguesia
~}eo da .b~rguesia industri.al, _na França ela realiza-se pela burguesia h gemonia e da predominância da burguesia industrial e financeira,
Ja constituída - expropnaçao da anstocracia. sua representação tem lugar por intermédio dos proprietários de ren-
ti fundiária - os Whigs - funcionando, durante muito tempo,
O _resul:ado pri~o~d~al da Revolução Inglesa, nas relações de l s proprietários, em virtude desse processo, como fração autônoma
produçao, f?l a cons.t~t~Içao de uma agricultura capitalista, caracteri- ti burguesia, como força social. A própria hegemonia da burguesia
zada pelo SIstema triádico dos grandes proprietários fundiários ínfi- ndustrial e ~inanceira permanece assim mascarada na cena política,
ma minoria monopolizando a propriedade da terra dos rendeiros e que não deIXOUde colocar problemas aos historiadores da formação
de uma imensa maioria de operários agrícolas. Constata-se doravan- cial britânica.
te, a ausência de rendeiros feudais - cujos traços tardios' se encon-
tram .n~ ~rússia Oriental -, e de médios e, sobretudo, pequenos
No plano da instância jurídico-política, as particularidades não
pro~netanos _da terra, ou sej~ ~amponeses parcelares da pequena pro-
o menores: a Revolução de 1640, embora transformando o estatu-
duçao, que sao um produto típico da Revolução Francesa e que mar-
to Jurídico de propriedade e o funcionamento da monarquia, deixa
cam todo o desenvolvimento político posterior da França. O "cam-
no Estado a dominância do tipo feudal sobre o tipo capitalista -
pesinato" inglês estará, doravante, ausente, como força social, do de-
Importância da Câmara dos Lords, importância dos Juízes de distri-
s~nvolvimento P?l~tic~ do país. Esse processo particular de estabele- 10 como centros de poder local, etc. Encontramo-nos aqui na presen-
CImento da dominância do M.P.C. pela destruição das possibilidades
'li de uma defasagem entre o sistema jurídico e o Estado, caso bas-
da peql!-ena produção na ~gricultura deu lugar a um excepcional de-
tnntc freqüente na transição do feudalismo para o capitalismo, que se
se~volvIme~to da burguesia comercial e industrial e, depois, finan-
manifesta, nessa anterioridade do direito (capitalista) em relação ao
cerra: por ISSO,estes resultados não se manifestam simplesmente no stado, pelo fato do direito inglês, ao contrário daqueles do conti-
campo. A pequena produção em geral perdeu definitivamente as suas
11 ntc, continuar ainda a ser um direito não escrito, não codificado.
oportunidades na Grã-Bretanha, e o mesmo aconteceu também com
~1l1 conseqüência, a dominância no Estado do tipo feudal persistirá
a pequena burguesia: é importante assinalar que esta não constitui
inda após a elevação da burguesia ao poder político, exemplo
I

regra ~~ral, na Grã-B~~tanha, u:na força social, e nunca se apresen~ racterístico de defasagem entre as estruturas do Estado e o poder
tou, aliás, na cena política atraves de uma ação aberta por exemplo
d Estado. Esta defasagem estará presente na permanência de
através de um partido próprio. "
mracterfsticas feudais mesmo após a elevação da burguesia in-
I sa à hegemonia, o que aliás se combina com a permanên-
No entanto, o estabelecimento desta dominância franca e Ia do funcionamento dos proprietários de renda fundiária como
particularmente. bem sucedida do M.P.C. refletiu-se, ao nível político, força social, e com a hegemonia mascarada da burguesia na cena
de uma maneira que pode parecer paradoxal, se não tivermos em política. O próprio aparelho de Estado - exército, administra-
conta a particularidade do processo na Grã-Bretanha e as defasagens , o -, ao contrário da França, terá nas suas "cúpulas" um atributo
que daí resultam. Se a Revolução de 1640 lançou as bases da domi- d classe da nobreza. Uma renovação relativa terá lugar, seguida-
nação política da burguesia, ela não lhe trouxe, no entanto, o poder m nte, em proveito dos proprietários de renda fundiária.
político. A dominação econômica da burguesia - não só da bur- Quanto às próprias funções do Estado, 3 é necessário consi-
guesia comercial mas também dos proprietários de renda fundiária d rar que, em virtude deste processo particular, o seu papel na
- desenvolveu-se, no início, sob a dominação política da nobreza umulação primitiva em proveito dos grandes proprietários de ter-
agrária, tal como, deste ponto de vista, aconteceu na França antes da
Revolu~ão. Em conseqüência, e segundo diversas etapas e viragem, a 11. Ver, sobre este assunto, E. Hobsbawn, The Age 01 Revolution, 1962,
burguesia - comercial e de renda fundiária -ascende ao poder p. 176 e segs; M. Dobb, op. cit., p. 25 e segs.

i66 167
ras pode ser precisamente preenchido sem passagem pelo estágio do Indo, com a instância econonnca, por outro, com o campo da luta
Estado absolutista, isto é, por meio da dominância de estruturas 11 classe, isto é, com o poder de Estado. Tudo isto faz com que
feudais. Poder-se-á mesmo dizer que, ao contrário da França, o (. sucesso característico desta revolução tome o aspecto de um
essencial desta acumulação se faz após a revolução. Por outro lado, "h irto no campo político.
R sua função econômica limitou-se à sua função geral de acumula-
ção. O processo de transição não necessitou de uma intervenção
posterior do Estado no processo de industrialização, o que, em con- li, O Caso Francês
trapartida, aconteceu na França sob o Estado absolutista e na Prús-
sia sob Bismarck. O Estado inglês do último estágio da transição, Consideremos agora o caso da França: a Revolução Francesa
Com estruturas feudais e capitalistas equilibradas, é substituído pela roi, com efeito, freqüentemente apresentada como o exemplo de
forma de Estado liberal, cuja não-intervenção no econômico é par- III1lU revolução burguesa "tipicamente" conseguida. Sobrevinda no
ticularmente marcada; isso permitiu, por um lado, a permanência momento em que a burguesia comercial e individual, em virtude da
tardia, nesta forma liberal de Estado inglês, de características feu- trunsição particular por meio do Estado absolutista, estaria prepa-
dais. Na França, em contrapartida, o Estado liberal empreenderá I lida para tomar nas suas mãos a direção do processo, isto é, no
intervenções bem mais importantes no econômico em proveito da momento em que a sociedade feudal teria tranqüilamente "amadu-
burguesia, intervenções estas que seguem as pisadas das realizadas I 'ido" no seu seio todas as suas "possibilidades", teria tido os se-
no Estado absolutista. Aliás, este funcionamento particular do Es- uintes resultados: a elevação franca da burguesia ao poder; a
tado, combinado com o esmagamento da pequena produção, do I' ulical transformação das estruturas do Estado em proveito da bur-
pequeno campesinato e da pequena burguesia, faz com que o apa- ucsía, sendo o Estado saído da Revolução o Estado capitalista
relho de Estado - o exército e a burocracia administrativa - "111'0"; a dominância na formação francesa de uma ideologia política
nunca tenha assumido na Grã-Bretanha o papel que deveria, em burguesa "típica", o jacobinismo. Em resumo, a burguesia-sujeito
seguida, ter na França ou na Alemanha, e isto a despeito da sua du história expandiria plenamente, no plano político na França, a
natureza de classe. 1111 essência: interpretação de que Gramsci não é, na teoria marxista,
o último dos responsáveis e cujo sucesso na teoria do movimento
Podemos já tirar algumas conclusões: a revolução inglesa é operário é, como veremos, dos mais suspeitos. 4
particularmente bem sucedida, no sentido em que permitiu a franca
Ora, sendo o assunto evidentemente muito vasto, contentar-
dominância do M.P.C. sobre os outros na formação social inglesa.
me-ci em dar aqui algumas indicações, que, contudo, bastarão talvez
Esta dominância franca faz que a matriz deste modo impregne esta
11 Ira mostrar que essa interpretação é um mito.
formação de uma maneira decisiva. Isso traduz-se, na individuali-
dade histórica desta formação, no fato da instância econômica de-
ter quase que constantemente, até ao estágio do capitalismo mono- 1) Que acontece, em primeiro lugar, com o estabelecimento
polista de Estado, não simplesmente a determinação em última ins- 11 dominância do M. P. C. sobre os outros? De fato, aquela foi,
tância mas também o papel dominante. O que se traduz por sua lobalmente bastante menos franca e decisiva que na Grã-Bretanha
vez na dominância do poder econômico sobre o poder político: nos ou que na Alemanha, com a revolução prussiana levada a cabo a
casos de descentralização dos lugares de dominação econômica e de partir de cima sob Bismarck. Esta dominância não pôde, sobretudo,
dominação política, detidos por classes ou frações diferentes, são as 'orla r radicalmente o nó onde se concentra, nessa transição, a rela-
que ocupam o lugar de dominação econômica que são, em última , O entre o modo capitalista e os outros modos de produção nas
análise, as classes ou frações hegemônicas. No plano político, o I' lações de produção; não pôde, na França, cortar as asas à pequena

triunfo deste processo revolucionário na conjuntura desta formação, I rodução. Ainda mais: a Revolução Francesa confirmou definitiva-
faz, no entanto, que ele haja, no início em proveito da pobreza: o
acesso da burguesia ao poder político e, depois, à hegemonia do , IiI aliás interessante ver as interpretações da Revolução Francesa
dudns pelas diversas correntes políticas do movimento operário. Entre as
bloco no poder, é tardia e opera-se de uma maneira dissimulada, A mlllH reveladoras está sem dúvida a de Trotsky. Para o que vai seguir-se,
mesma característica a propósito das transformações das estruturas 1'1 m to, além das obras clássicas como as de Mathiez e de Lefebvre, para
do Estado e do aparelho de Estado, nas suas defasagens, por um 11 ompêndio de A. Soboul, Histoire de la Révolution [romçaise.

168 169
mente os fundamentos da pequena produção. Por um lado, no do- 2) Que acontece com o poder político? De fato, a burguesia
mínio da agricultura. Em virtude do Estado absolutista e do papel francesa, ao contrário da burguesia inglesa de 1640 e 1648, ascendeu
da nobreza, portanto, se assim se pode dizer, em virtude da ausência I' almente ao poder político, mas por que preço! Ela só o pôde fazer
de revolução precoce durante a fase de acumulação primitiva, o poiando-se amplamente no pequeno campesinato e na pequena bur-
processo de estabelecimento do M. P. C., no conjunto da formação,
II iniciou-se, não pela propriedade agrária de renda fundiária, mas,
por meio do Estado, em primeiro lugar pela burguesia comercial e
u sia e mesmo, ocasionalmente, nos operários de manufatura pre-
ntes sobretudo nos sans-cullotes parisienses. 7 Acesso franco da bur-
uesia ao poder político, desta vez, mas somente na medida em que
I1 industrial. Esta procurou no "campesinato" apoio contra a nobreza, IImina, de maneira relativamente clara, a nobreza. Tudo se passa,
a fim de se apropriar da grande propriedade fundiária - expropria- m efeito, como se a Revolução Francesa nunca tivesse coincidido
ção da nobreza. Assim, paralelamente, o resultado decisivo da Re- nsigo própria, como se estivesse simultaneamente em avanço e em
volução na agricultura não é a expropriação dos produtores agríco- atraso sobre si própria: em atraso por não ter conseguido bloquear
las, mas, o que foi confirmado pela ditadura jacobina após a revolta 1111 origem a pequena produção e em avanço por ter tido, desde o
camponesa contra as estruturas feudais da agricultura, a atribuição nícío, de se antecipar para recuperar a pequena produção, polari-
de um estatuto de propriedade à pequena exploração da terra, e a zada pelo proletariado em vias de constituição. A pequena burgue-
sua extensão. 5 É o caso tipicamente francês dos camponeses parce- 111 e o campesinato parcelar, cujas relações com a burguesia passam
lares que terão doravante, e por muito tempo, um papel bastante por toda uma gradação, desde a contradição antagônica ao apoio ou
importante na cena política. Este triunfo excepcional da pequena mesmo à aliança, interditam, aliás, à burguesia francesa, as possibi-
produção manifesta-se igualmente no caso da pequena burguesia que, lidades de uma estável aliança com a nobreza, tal como a vemos na
desenvolvida ao lado da progressão silenciosa da burguesia comercial Inglaterra e, mais tarde, na Prússia. Toda a aliança desta espécie,
e industrial no Estado absolutista da nobreza, estabelecerá definiti- tomando em consideração a presença dessas classes, só teria podido
vamente as suas bases pela política da Convenção. Essa pequena lgnifícar um profundo recuo - de fato tentado sob Carlos X -:
burguesia, mesmo que não esteja, como na Alemanha, desde o início to não só contestaria os interesses mais elementares da burguesia,
presa ao capital - se, em 1848, optou pela burguesia, tomou, du- mas, além disso, teria sido não ter em conta as classes que impediam
rante a Comuna de Paris, o partido do proletariado -, não deixa sse recuo em proveito do status quo. Por outro lado, as formas
de ser uma força social muito importante na França - ver o fenô- particulares que revestiu a contradição entre a burguesia e essas
meno do "radicalismo". 'Iasses conduziram preciosamente aos fenômenos históricos do pri-
meiro e, sobretudo, do segundo império de Louis Bonaparte. Trata-
o resultado de tudo isto é que o desenvolvimento econômico -/I aí de formas particulares de Estado capitalista, em que a burguesia
na Europa do século XIX, como o faz notar E. Hosbawn: 6 " ••• con- urece demitir-se do seu poder político, em proveito de um aparelho
tém um paradoxo gigantesco: a França. No papel, não há outro de Estado que dirige os seus negócios públicos apoiando-se nos cam-
país que pudesse avançar mais ràpidamente. Possuía instituições poneses parcelares e na pequena burguesia.
idealmente adaptadas ao desenvolvimento capitalista... No entanto,
de fato, na França, o desenvolvimento econômico era nitidamente Assim, esta revolução "exemplar" ao nível polítioo criou uma
mais baixo que o dos outros países... É que a parte capitalista da ltuação quase constante de crise do poder político da burguesia:
economia francesa era uma superestrutura erigida na base irredutível
originou, até 1848, um constante desiquilíbrio desta, entre, por um
do campesinato e da pequena burguesia ..." Esta situação, em seguida,
Indo, a nobreza, por outro, a pequena produção, e uma particular
prolongou-se sob formas diversas: o ritmo de desenvolvimento tecno-
lógico, do processo de concentração do capital, etc., será muito mais ncapacidade em consolidar a sua hegemonia. Desembaraçando-se
lento na França que na Inglaterra e na Alemanha - persistência definitivamente, em 1848, da nobreza, inclinando-se para a pequena
produção, tenta estabilizar-se após a queda de Louis Bonaparte, mas
particular das pequenas e médias empresas, etc.

5. Neste sentido, G. Lefebvre, Questions agraires au temps de la terreur, 7. Sabemos que Labrousse e Soboul demonstraram, contra Mathiez, de
1932. que modo Robespierre foi levado a "apoiar-se" na pequena produção e,
ontra D. Guêr.n, que o proletariado industrial não funcionou durante a
6. Op. eit., p. 177 e segs. R volução como força social.

170 171
uma vez mais, demasiado tarde. O proletariado industrial que des- hlica: serão muito mais importantes que no caso do Estado liberal
pontava em 1848 esperava-a na esquina da Comuna, o que obrigou nu Grã-Bretanha. Em segundo lugar, a função propriamente política
a consolidar, através da sua política agrícola após 1870, o seu apoio ti Estado na luta de classes será muito mais importante que na
no pequeno campesinato. Grã-Bretanha, dado o papel de forças sociais desempenhado pelo
iurnpesinato e pela pequena burguesia e, em seguida, pela classe ope-
3) Onde se encontra, agora, essa exemplaridade da Revolução rária que se instaura de uma maneira particular na cena política.
Francesa no plano da instância jurídico-política do Estado? Dever- ste último fenômeno relaciona-se, também, de algum modo, à crise
-se-ia apreciar o seu triunfo político pelo seu sucesso, ao contrário da política constante que assume, para a burguesia francesa, a sua con-
revoluç~o inglesa, na instauração de um Estado capitalista típico? tradição com o campesinato e com a pequena burguesia: a classe
Nada diSSO. E verdade que o Estado saído da 'Revolução Francesa operária abre um caminho em um terreno propício por entre estes
conseguiu libertar-se, mais que o Estado inglês, das características últimos, o que explica as relações ambíguas que sempre manteve
feudais: mas há o reverso da medalha. Esta concepção do Estado iom elas e também o perigo original que sempre espreitou, como
capitalista "típico" reporta-se, de fato, a observações superficiais V remos, o movimento operário francês.
sobre a instauração do sufrágio universal após a insurreição de
Agosto de 1927, e à política institucional da Convenção da Monta- É precisamente esse papel dominante da instância estatal na
nha, considerada como prefiguração do Estado capitalista. Ver as- França, conjugado com a presença particular das diversas classes
sim as coisas, é cometer o erro que consiste em negligenciar a na cena política, que, de fato, implica a concepção de Engels, no
escansáo de uma formação em fases e em estágios, e a distinção prefácio da terceira edição do 18 Brumârio, segundo a qual a França
entre o tipo capitalista de Estado e as formas de Estado que lhes o país mais representativo, do ponto de vista político, da Europa.
correspondem: é considerar o Estado capitalista, que é um conceito Isto não diz respeito precisamente - como o pensava Engels - ao
teórico, como diretamente identificável, enquanto essência histórica fato da revolução "política" burguesa ter sido aí tipicamente bem
com a realidade social. De fato, esse Estado preciso que se encontra sucedida. Esta concepção de Engels, pelo contrário, com todo o
em questão, está em avanço em relação ao estágio de transição em rigor, reporta-se ao fato dela ter sido mal sucedida: o papel domi-
q~e s,e situa. Nesse sentido, e com todo o rigor, podemos dizer que nante que daí resulta para a instância jurídico-política, faz da França
nao e, de ~odo algum, o Estado de uma revolução burguesa politi- um país particularmente propício para estudar o funcionamento dessa
camente tnunfante nesse momento e nessa conjuntura, mas o de instância relativamente às diversas classes lançadas na cena política.
uma revolução burguesa politicamente posta em cheque: é, de fato, Finalmente, esse papel particular do Estado, conjugado com o fre-
nesse momento preciso, não o Estado de uma burguesia que detém qücnte funcionamento do campesinato parcelar e da pequena bur-
a hegemonia, _ mas o do campesinato e de pequena burguesia, e guesia como forças sociais, explica, simultaneamente, a importância
Tocqueville nao se enganou. Este Estado, aliás, não durou muito. P lítica, na França, do aparelho de Estado, do exército e da buro-
De fato, é o Estado do primeiro e do segundo Império que é o de cracia administrativa, e a sua atribuição de classe- burguesa e
uma burguesia ofegante tentando recuperar o seu atraso em relação pequeno-burguesa. Nunca será demais dizer que este aparelho de
ao c~mpesinato e à pequena burguesia, dar marcha-à-ré face ao pro- stado francês, freqüentemente considerado como a última palavra
letariado que se desenvolve; esse Estado continua a trazer a marca do Estado capitalista "tipo", é devido mais às derrotas do que aos
do apoio ambíguo da pequena produção. sucessos políticos da burguesia francesa.
Por outro lado, esta situação arrasta aqui uma reflexão fre-
qüente e durável da dominância do M. P. C. no papel dominante da 4) Que se passa, finalmente, com a ideologia política da
burguesia francesa, que freqüentem ente se opõe à impureza da bur-
ins:ância estatal, e isto, ainda, ao contrário do caso inglês. Em pri-
guesia inglesa - manchada efetivamente de numerosas características
meiro lugar, as funções econômicas do Estado, já presentes no Es- aristocráticas -, e que se apresenta como a ideologia "típica", em-
tado absolutista e que' se não limitam de maneira alguma à acumu- bora contraditória, da burguesia em uma palavra, do jacobinismo?
lação primitiva, revigoradas durante a ditadura jacobina e retomadas sta interpretação insere-se em uma concepção historicista sobrepo-
~urante os dois impérios - sobretudo por Louis Bonaparte -, con- lltizante das ideologias, que reporta a unidade da ideologia dominante
tinuarão mesmo no quadro do Estado liberal francês da Ilf Repú- m uma formação à sua pureza de produto da classe-sujeito domi-

172 173
nante. Ora, entendamo-nos bem: é verdade que a ideologia política o princípios da democracia socialista da ditadura do proletariado. 9
burguesa consiste em um universo pregando a liberdade e a igual- e fato, o jacobinismo, tem realmente ~m cO;l1eúdo social, _mas um
dade políticas formais dos cidadãos em relação a um Estado esta- xmteúdo social particular: encontra-se ligado as representações e as-
belecido no interesse geral do povo-nação. Se este é o caso da I irações do pequeno campesinato e da pequena burguesia, em suma,
ideologia política burguesa, não é exato que tal se passe com o essencialmente, no seu conteúdo "social", a ideologia da pequena
jacobinismo, embora este aspecto esteja contido, de Robespierre a propriedade. O ideal social do jacobinismo era uma sociedade de
Saint-Just, na ideologia jacobina: é, se assim se pode dizer, o aspecto p quenos produtores independentes, camponeses e artesãos, onde
burguês do jacobinismo. Seria, no entanto, equivocarmo-nos radi- °
• da um possui seu campo, a sua loja e a sua barraca e onde cada
calmente sobre o jacobinismo não lhe reconhecer um conteúdo social um é capaz de alimentar a sua família sem recorrer ao trabalho assa-
particular, aliás conjugado com o fenômeno ideológico do "sans-culo- I riado e sem ser explorado pela "grande riqueza". Em particular, o
ttisme". Esse conteúdo social está presente, por exemplo, de uma "sans-culottismo" corresponde à velha utopia dos operários de ma-
forma vaga, em Saint-Just, na sua reclamação da igualdade social, nufatura de uma sociedade corporativista harmoniosa de guildas e
pela igualdade de oportunidade, nos seus ataques contra a "riqueza" d associações de operários da mesma profissão. O conteúdo social
e nas suas declamações sobre a "felicidade" social dos cidadãos. do jacobinismo encontra-se em contradição com a democracia polí-
tica burguesa - o que pode ser tematizado muito esquematic~mente
Esse conteúdo social do jacobinismo foi muitas vezes assinalado,
, mo contradição entre a ideologia de Rousseau e a ideología po-
na verdade, pelos autores marxistas, notadamente por Gramsci: foi
lítica de Montesquieu e de B. Constant -, mas na medida em que
no entanto muitas vezes interpretado, em uma perspectiva historicis-
sto conteúdo social decorre da inserção, na ideologia política bur-
ta, como a contradição de algum modo imanente à ideologia política
uesa de elementos ideológioos referidos a classes diferentes, cujos
"típica" da burguesia-sujeito. Esse conteúdo social do jacobinismo
Intere'sses se encontram em contradição com os da burguesia - às
seria o verme escondido no fruto da ideologia política "pura" da
da pequena produção. 10 Nada ,mais significa~vo a. e~te resp~ito 'l:ue
burguesia, a sua outra face, o verdadeiro gérmen, mas dissimulado
.
universalismo social que o proletariado realizará, depondo o jacobi-
' I maneira profundamente ambígua como o jacobinismo fOI aceito
no resto da Europa, como foi apropriado pelos dois Bonaparte
nismo sobre os seus pés. Não se devem esconder as incidências desta
upoiando-se na pequena produção, e como foi diretamente prolon-
interpretação: ela considera que a democracia política da burguesia
já comporta em si a democracia social proletária, que, se tirarmos as lido pelo "radicalismo" francês .. É tam~éI? verdade que o ~acobi-
nlsmo sob diversas formas ultenores, Ioi inoculado no movimento
conclusões extremas e conseqüentes dos próprios princípios da demo-
cracia social, a qual, além disso, sob a forma do conteúdo social do
\I O m smo se diga, aliás, da concepção jacobina-"enragiste' da ditadu~
jacobinismo, seria a vocação autêntica da classe operária. Sabemos 111 /'/wo/IM;onária. Tal como aparece delineada em Marat, Babeuf, Blanqui,
que é esta a concepção do jovem Marx, mas encontramo-Ia, mais I 1IIlIIIIh'I-fI mais ao cesarismo social conjugado com as aspirações "anar-
elaborada, na escola marxista italiana, particularmente em della Volpe 1\"1 \" li _ vide Proudhon - de "democracia direta" d.a pequena. pro-
e no seu famoso estudo sobre Rousseau e Marx, onde considera, I 11 11 '1111 I 'oncepção marxista da ditadura do proletar'iado : ver Igual-
// /\ 1\1I(\('(IIIÇãodos "conselhos operários" em Adler.
aliás como Max Adler, o "jacobino" Rousseau como o apóstolo
da democracia socialista. 8 l JllII'to social do [acobínismo influi, d~ resto, no seu asp~ct?
I, 11 11'"11 ('nrr sponde ao seu carater b.urgues de classe: d~ste Ul~l-
Nada mais falso que estas interpretações: por mais que se fira / /\11 11 vi t.n O jacobinismo em nada difere, no ~undo, da Ideolo~la
até brotar sangue a ideologia da democracia política burguesa e o 11I111'/'1'1 \1111U('fi preconizada por Montesquíeu, nao sendo Robespier-
/ ri 11\ 1\1\\h 11 1\1110 um representante da burguesia. Contudo, este
oonteúdo social do jacobinismo, nunca se conseguirá fazer-Ihes criar
11\1 l'lll 1/111 tll'll Ifhlll'j(UÔS" do jacobinismo é por sua vez mascarado pelo
III 111 1111111 \11I IInj(uagem é uma linguagem ética e não política. Em
8. Os limites deste ensaio não permitem aprofundar o exame da influên- 1111I11, ,,,..til
li 111' 1\ 11I.('to burguês do jacobinismo exprime:se s.ob a forma
cia do jacobinismo no movimento operário: o que em todo o caso é no- 1'1 h'l 1\,11-11 MC I(undo a qual a pequena produção VIVe as suas
tável - mas não deve espantar - é a junção das interpretações' do ja- Jlh'nc;o( M pul tlI'IIM, lIíLo torna-se particularmente nítido se compa:armos
cobinismo pelo "esquerdismo teórico" dos anos vinte - Gramsci e a "in- li unttdo IlU 1'(V( I'IL( 11 110ÇÜO de "virtude" em Montesquíeu - sentl<;io po-
versão" proletária do jacobismo - por um lado e pela corrente social-de- 1Ii1(\() qu 11 uprox lmu da "virtus" de Maquiavel - e em Robesplerr~:
mocrata por outro: vide Jaurés para quem "O socialismo sai do movi- 1111 ntldud 11 noção qu d corre,. em última anális~, do aspecto burguês
mento republicano... O socialismo será, pois, não uma ruptura com a 11<1ju binlsmo, dif r nça do sentido que nos permite assinalar o disfar-
Revolução francesa, mas antes uma consumação dessa Revolução ... " l' p qu no-burguês d as aspecto.

174 175
operário francês, principalmente pelo socialismo utópico: é o socia- terizam, na época, as infiltrações da ideologia nas formações nacio-
lismo de Lou Blanc e de Proudhon, do qual, como Marx no-los nais de desenvolvimento desigual, a burguesia alemã, obsedada pela
mostra no 18 Brumário, Louis Bonaparte cortava, e com razão, a recordação do jacobinismo da Grande Revolução e pela Revolução
erva sob os pés. Em resumo, para não nos estendermos mais, a rancesa de 48, não pôde decidir-se a romper com a nobreza: deixa
profunda ambigüidade do jacobinismo decorre não da sua pureza ao Estado o cuidado de estabelecer a sua própria dominação política.
contraditória enquanto ideologia política típica da burguesia, mas do Isto fica consolidado: a) por uma permanência de estruturas feudais
caráter particular da revolução burguesa na França. quase até à primeira guerra mundial e por uma permanência hege-
mônica característica da nobreza no poder político, hegemonia esta,
contudo, contrariada pela autonomia própria do Estado bismar-
IH. O Caso Alemão ckiano; b) por um papel particularmente importante do Estado, após
a fase de acumulação primitiva e no processo de industrialização,
papel bem mais importante que na Grã-Bretanha e, mesmo, na
Consideremos, finalmente, o caso da Alemanha, em particular rança: ele prefigura, deste ponto de vista, o Estado do capitalismo
da Prússia 11: serei breve, pois terei de voltar a este caso, na medida do guerra da Primeira Guerra Mundial, ou até mesmo a intervenção
em que revestiu uma importância capital no movimento reformista particular do Estado nazi no econômico entre as duas guerras.
moderno. O que se constata, é que a Revolução burguesa na Prússia,
e mesmo mais em geral na Alemanha, simplesmente não teve lugar: Por outro lado, este processo de transição manifesta-se também
o movimento de 1848 e a concessão pelo monarca da Prússia de por um" defasagem característica, que encontramos já sob outras
uma constituição não marcaram uma importante viragem no processo formas, na Grã-Bretanha, entre o sistema jurídico e as instituições
de transformação das relações de produção, e não mudaram em nada do Estado. O sistema jurídico contém, já na primeira metade do
a superestrutura do Estado e os detentores do poder político. A c. XIX, as formas de propriedade formal capitalista, a despeito
nobreza fundiária continua ainda a deter o poder político e o Estado lns estruturas feudais do Estado, mas de maneira larvar: a saber,
prussiano, a despeito do Zollverein já completado no momento deste 10 contrário do Código Napoleão, sob a capa de uma ressurreição
movimento, conservará, durante muito tempo, uma dominância de 10 direito romano, cuja marca continuará decisiva mesmo após a
estruturas feudais. E de fato esse Estado, sob Bismarck, que levará I romulgação do código civil no começo deste século.
a burguesia a alcançar a dominação política, o que Marx e Engels
ual é agora a dominância do M. P. C. sobre os outros modos
caracterizaram precisamente como a revolução "a partir de cima".
no domínio da agricultura? Essa dominância estabelece-se pela ex-
Assim, sob Bismarck, este Estado transforma-se, de algum modo a
I ruprlnção dos pequenos produtores, pela concentração da proprie-
partir do interior, no sentido do Estado capitalista. rhul 11 rária nas mãos dos fidalgos e pela transformação maciça
É que a burguesia alemã tardou demasiado em tentar a sua re- tio . uuponcses em operários agrícolas. No entanto, por um lado,
volução. E verdade que o seu desenvolvimento econômico, o pro- I 1'11I' IiO é muito lento e os traços de servidão subsistem ainda
cesso de industrialização, se tinha iniciado no princípio do século , 11 10 I mpo na Prússia Oriental; por outro lado, ao contrário
XIX; contudo, organizou-se, como na França, fora da capitalização I' tunha, os fidalgos, os junkers prussianos, conservam du-
da renda fundiária mas, ao contrário do caso francês, ao lado de I lU 'li I mp , em virtude de particularidades do conjunto
uma dominação política, de modo algum contestada, da nobreza e I I ,. O, 11 sua característica de nobreza fundiária, sem ex-
no quadro de um Estado que não sofreu a viragem do Estado abso- 11 111111' , I 1111'0 a viragem decisiva da capitalização da renda
lutista. Isto fez com que a transição adotasse um ritmo particular- und riu.' s stabelecimento da dominância do modo capita-
mente lento durante o estágio inicial e que a burguesia acordasse, I I 11 o p rmlt 11 pequena propriedade agrícola, faz-se por outro
enfim, politicamente para se encontrar frente a frente com a orga- I do, ti 111 um modo, em proveito da nobreza. Isto influi bastante
nização nascente da classe operária: foi um traumatismo de que ela obr o 1\ V I pol ti o e ideológico do campesinato alemão, que
já não se poderia restabelecer. Por um desses quiproquos que cara c- n o onstltul lIl1111 força social como na França, mas cujo funcio-
num nto difere do da Grã-Bretanha. Impregnado pelas reminis-
11. Para o que vai seguir-se, ver, entre outros, A. Rosenberg, Sozialis- nelas das "lacqu ri s" do tipo muentzeriano, aterrorizado pela sua
mus und Demokrabie, 1966, reedição. r lctarização ambígua que não pode ideologicamente assimilar, foi

176 177
incontestavelmente, sobretudo nas províncias orientais, um elemento \111 ( 111 lldadc conjuntural, das diversas revoluções burguesas:
de apoio para o nazismo. 1\ r" 'I 111 I política que tanto impressionou Marx, Engels e Lenin.
Por outro lado, o desenvolvimento discreto da burguesia atra- I I ortunt
ainda notar que as particularidades da tradição
vés de uma forte dominância do Estado e sobretudo no interior de ( 111I 1 ' assim como as particularidades das revoluções bur-
I

enclaves em uma formação feudal, permite a existência e o desen- p tlv , tiveram importantes incidências sobre os movi-
volvimento da pequena burguesia; esta reveste contudo um papel I r rios desses países. O que é aqui capital é a influência
diferente que na França. Ela originalmente está ligada à burguesia: modelos dessas revoluções sobre os movimentos ope-
ela é constantemente a sua aliada na luta contra a hegemonia polí- n própria medida em que a classe operária não pode
tica permanente da nobreza. A contradição entre elas raramente s apar ao fato de viver, mesmo a sua revolta contra o
passa à ação aberta. Assim esta pequena burguesia, não sendo atin- t nte, sob o modo imposto pela ideologia dominante.
gida pela ideologia jacobina, partilha da atitude da burguesia em nt , esses modelos de revolução burguesa e as formas
relação à classe operária, o que se manifesta pela desconfiança I I 11, que os acompanham manifestam-se, nos seus efeitos sobre
constante da pequena burguesia alemã em relação ao proletariado: uln i I da classe operária, como outros tantos perigos de deior-
essa relação entre a burguesia e a pequena burguesia alemã terá, ,r '.I'fJcdficas que espreitam a teoria revolucionária, como outras
como bem sabemos, uma importância capital no nazismo. , ntações, de algum modo, de mimetismo para a classe operá-
111 I' rvoluçõcs da sua burguesia nacional. Com efeito, se tiver-
Esse papel do Estado, esse crescimento da burguesia e essa 111 xmta a' análises acima, podemos explicar os perigos carac-
presença da pequena burguesia explicam também a importância do I I I 'O. li este respeito, que espreitam permanentemente! os
aparelho de Estado, do exército e da burocracia, no desenvolvi- 11I ivlm nlns operários inglês, francês e alemão.
mento político na Alemanha. Esse aparelho de Estado não decorre
aqu:i, como na França, do avanço constante da burguesia em rela- I) Para o movimento
operário inglês, trata-se do perigo
ção a si própria, mas sim do seu constante atraso. No caso con- ",,1 IIIIIt",is/CI. já manifestado
nas concepções corporativistas dos
creto, de atribuição de classe nobre, burguesa e pequeno-burguesa, , 1'11 111 d Robert Owen. Consiste em atribuir o primado da
ele está ao serviço, obliterado pela nobreza, da relação particular 1111 I '1lIssc ao nível econômico, à luta sindical, e em negligenciar
entre a burguesia e a pequeno-burguesia, o que permite o seu funcio- 111111 pollti 'U para a tomada do poder de Estado.

namento no quadro do nazismo e que é radicalmente diferente do ) Para o movimento operário francês, trata-se do perigo de
boõapartismo. J " obl"I,I'II/(), já presente no socialismo utópico. Consiste este, na'
1111 Iunnu genérica, em uma contaminação da ideologia operária e
111 I 1111 1 r volucionária pela ideologia específica da pequena pro-
111 11, 1111 .nmpcsinato parcelar francês e da pequena burguesia, sob
Para concluir, podemos ver que, se a transição do feudalismo Jl 10 VII 'o de um radicalismo democrático, no sentido ambíguo
para o capitalismo na área da Europa Ocidental apresenta caracte- 11 JII .oblnisrno revestiu. Se é evidente que o jacobinismo
rísticas tendenciais comuns, não é possível encontrar um modelo 110" p rmito no seu seio toda uma série de variações, que
exemplar da Revolução Burguesa. Contudo, podemos talvez reter 111111 do blanquismo ao social-reformismo clássico passando
um detalhe comum, impressionante: a ausência de capacidade polí- 111I [ul mo, o importante é que ele diz respeito a uma defor-
tica, pela sua constituição de classe, da burguesia conduzir o bom li du 11I01 gia e da teoria revolucionária da classe operária
termo, numa ação aberta, a sua própria revolução. O que caracteriza 1111 r lnç s com a pequena produção.
as revoluções burguesas que acabamos de examinar é precisamente ) 1)111'1I o movimento operário alemão, trata-se do lassalismo.
a ausência da sua organização política, capaz de produzir uma dire- I 11111 nrlnm nto no rcformismo economicista, consiste em conside-
ção conseqüente do processo revolucionário. Resumindo, constata- I tudo .om fator de uma revolução socialista "a partir de
mos a incapacidade característica da burguesia em dirigir politica- JI tudo ·sso acerca do qual não se trataria de destruir o apa-
mente a sua revolução de democracia política, a revolução democrá- 11 1I'llluI'HS e tomar o poder, mas antes de o pressionar
tico-burguesa, e é esse o fator primordial da não-tipicidade, através UIII I 1" i1'0, mediador entre as classes em luta.

178 179
Vamos, agora, tentar apreender algumas características funda-
I, lutu de classes tem efeitos fundamentais sobre esse Es-
mentais do Estado capitalista. E: conveniente formular de novo lto r ulizados nos limites colocados pelas suas estruturas,
ti 111 m que estas regulam uma série de variações.
aqui algumas observações indispensáveis para o que vai seguir-se.

A) As características do tipo de Estado capitalista estão im-


11111111 de demarcação entre a relação do Estado com as
plicadas no conceito desse Estado, o qual pode ser construído a
( mlnuntcs e a sua relação com as classes dominadas pode
partir do M. P . C . "puro", tal como se encontra exposto em O
m fio condutor no estudo desse Estado. O Estado ca-
Capital. No entanto, dada a autonomia específica das instâncias I 11I pr , nta o fato particular de que a dominação propria-
I I I" I 11 fi de classe não está nunca presente, sob a forma de
própria desse modo de produção, essas características do Estado
I r luc o política: classes dominantes-classes dominadas, nas suas
capitalista aparecem delineadas no Capital de uma forma indireta.
Instituições. Tudo se passa nas suas instituições, como se
Por isso, vou-me referir sobretudo às obras políticas de Marx,
Engels, Gramsci e Lenin, porquanto já indiquei, particularmente a
I
•• 11111"li lasse não existisse. Esse Estado apresenta-se organizado
IlIO unidade política de uma sociedade com interesses econômicos
propósito das obras de Marx e de Engels, a sua dupla organização:
11 I' ntes, não interesses de classes, mas interesses de "indivíduos
contêm simultaneamente o estudo de Estados capitalistas historica-
mente determinados e, ainda, a teoria do tipo capitalista de Estado.
I vndo ", sujeitos econômicos. Isto relaciona-se à relação do Es-
I II 'um o isolamento das relações sociais econômicas, o qual é,
Ao mesmo tempo, e indicando essa construção teórica do tipo ca-
11I1'"1'1 , o seu próprio efeito. A partir desse isolamento, a função
pitalista de Estado, vou-me reportar a formações dominadas pelo
I ( I I 'li do 'stado apresenta uma ambivalência característica, con-
M. P. C., a fim de estudar o Estado capitalista na prática.
1111111di 11 respeito às classes dominantes ou às classes dominadas.

B) O Estado, no seu papel de coesão da unidade de uma I ) A respeito das classes dominadas, a função do Estado ca-
formação, papel particularmente importante na formação capitalista, 1111111 impedir a sua organização política, a qual sobrepujaria o
comporta várias funções: econômica, ideológica, política. Essas 11 I olumcnto econômico, mantendo-as nesse isolamento que é em
funções são modalidades particulares do papel globalmente político I 1I (I seu pr prio efeito. Essa função é assumida de uma forma
do Estado: Estão sobredeterminadas pela - e condensadas na - 11111 111 purticular, e que permite distinguir radicalmente esse Estado
sua função propriamente política, a sua função em relação ao dll 1I111!'OsEstados, por exemplo dos Estados escravagista ou feu-
campo da luta política de classes. E: em torno dessa função e dessa dnl, E/lI s últimos limitavam a organização política das classes
relação que irão ordenar-se as análises subseqüentes. rhuulnudus, fixando institucionalmente as classes dos escravos ou
dll I vos, na suas próprias estruturas, através de estatutos públi-
C) A natureza da relação do Estado com o campo da luta ,,1 . '1" r dizer, institucionalizando a subordinação política de classe
de classes pertence ao tipo de relação entre as estruturas e esse " t mlos 'as tas" . Em contrapartida, o Estado capitalista man-
campo. O Estado capitalista, cuja relação com as relações de pro- 11 organização política das classes dominadas, por um lado,
dução localiza a autonomia específica, fixa os limites que circuns- 110 eu feito de isolamento sobre as relações sociais econô-
crevem a relação do campo da luta de classes às suas próprias 111111, 1'11I'outro lado, graças ao partido que tira desse efeito, apre-
estruturas regionais. Em outras palavras, essas estruturas do Es- 11111111 '01110 a unidade do povo - nação, composto de pessoas
tado, tal como aparecem na relação entre as instâncias, trazem I ( I I 11 ndivíduos privados. Essa função é, portanto, preenchida
inscritas em si uma série de variações que simultaneamente delimi- 111I111111 umentc através da dissimulação, aos olhos das classes do-
tam a luta de classes e se realizam concretamente de acordo com a 11111 11111 • do seu caráter de classe, e através da sua exclusão especí-
ação dessa luta sobre o Estado, nos limites assim fixados. Quando, I 11 dn lustituicõcs do Estado enquanto classes dominadas.
doravante, dissermos que certas características da luta de classes,
) 11/111 contrapartida, a respeito das classes dominantes, o
em uma formação capitalista, se referem ao Estado capitalista, é
Indll 'lIpltllllsta trabalha permanentemente para a sua organização
necessário jamais entender por isso que essas características sejam
um simples fenômeno derivado das suas estruturas ou sejam deter-
I 11111111'11
IIIHULuição: ver p. 111, nota 22,
minadas exaustivamente por elas. Deve ser entendido, sim, que o

181
180
a nível político, anulando o seu isolamente economico, o qual é
também seu próprio efeito assim como do ideológico.

Poderíamos descrever essa contradição principal do Estado


capitalista "popular-de-classe", que é o aspecto efetivo (de classe)
da sua contradição interna "privado-público", da forma seguinte: o
Estado capitalista tem por função desorganizar politicamente as clas-
ses dominadas, enquanto organiza politicamente as classes dominan-
tes; de excluir do seu seio a presença, enquanto classes, das classes
I dominadas, enquanto nele introduz enquanto classes, as classes domi-
I nantes; de fixar a sua relação com as classes dominadas como repre-
sentação da unidade do povo-nação, enquato fixa a sua relação com
as classes dominantes como relação com classes politicamente orga-
nizadas; em suma, esse Estado existe como Estado das classes do-
minantes, ao mesmo tempo que exclui do seu seio a "luta" de clas-
ses. A contradição principal desse Estado não consiste no fato de
se "dizer" um Estado de todo o povo quando é um Estado de classe,
mas, precisamente, no fato de se apresentar, nas suas próprias lU
instituições, como um Estado "de classe" (das classes dominantes
que contribui para organizar politicamente) de uma sociedade insti- TRAÇOS FUNDAMENTAIS
tucionalmente fixada como não-dividida-em-classes; no fato de se
apresentar como um Estado da classe burguesa, subentendendo que DO ESTADO CAPITALISTA
todo o "povo" faz parte dessa classe.

182
I,( TADO CAPITALISTA E OS INTERESSES
DAS CLASSES DOMINADAS.

Esta primeira característica do Estado capitalista decorre da


urtonornia específica, nas formações capitalistas, da luta política e
du luta econômica, do poder político e do poder econômico, dos
lnrcrcs es econômicos de classe e dos interesses políticos de classe.
() Estado capitalista, com direção hegemônica de classe, representa,
11 o diretamente os interesses econômicos das classes dominantes,
IlIllS os seus interesses políticos: ele é o centro do poder político das
'l/lIme dominantes na medida em que é o fator de organização da
IIl1 luta política. Gramsci exprimia-o admiravelmente ao constatar
que: " ...a vida do Estado é concebida como uma formação contí-
nuu e uma superação de equilíbrios instáveis... entre os interesses
do grupo fundamental e os dos grupos subordinados, equilíbrios em
que os interesses do grupo dominante levam a melhor, mas só até
11111 certo ponto, ou seja, não até ao mesquinho interesse econô-
mico-corporativo". Neste sentido, o Estado capitalista comporta,
Inscrito nas suas próprias estruturas, um jogo que permite, dentro
dOA limites do sistema, uma certa garantia de interesses econômicos
do certas classes dominadas. Isto faz parte da sua própria função,
111\ medida em que essa garantia é conforme à dominação hegemô-
nlcu das classes dominantes, quer dizer, à constituição política das
clusses dominantes, na relação com esse Estado, como representa-
11va de um interesse geral do povo. :É certo que o conceito de Es-
Indo capitalista implica em uma função específica da ideologia
politica, uma forma de poder que se baseia em um "consentimento"
particularmente organizado e dirigido das classes dominadas; con-
I lido, o caráter do Estado capitalista, que aqui nos ocupa, não se
limita apenas ao condicionamento ideológico. A noção de interesse
, ral do "povo", noção ideológica mas que recobre um jogo insti-
tucional do Estado capitalista, denota um fato real: esse Estado
permite, pela sua própria estrutura, as garantias de interesses eco-
uômicos de certas classes dominadas, - 'lf:iM'!ti' !i8iiM~
"';/;eJi&5i&e§~~~-=rs=:m==~i!!!iÀ!lE~!àJ~ __ rs., eventualmente
umtrárias aos interesses econômicos a curto prazo das classes do-
mlnantes, mas compatíveis com os seus interesses políticos, com a
1111 dominação hegemônica.

O que nos leva a uma conclusão simples, mas que nunca será
li mais repetir. Essa garantia de interesses econômicos de certas

185
classes dominadas, da parte do Estado capitalista, não pode ser t d a conjuntura concreta, o poder político emancipado das classes
concebida, apressadamente, como limitação do poder político das ominantes apresenta, nas suas relações com o Estado capitalista,
classes dominantes. É certo que ela é imposta ao Estado pela luta, um limite abaixo do qual uma restrição do poder econômico dessas
política e econômica das classes dominadas: isto apenas significa, Iasses não tem efeitos sobre ele.
contudo, que o Estado não é um utensílio de classe, que ele é o A característica, própria do Estado capitalista, de representar
Estado de uma sociedade dividida em classes. A luta de classes nas interesse geral de um conjunto nacional-popular não constitui
formações capitalistas implica em que essa garantia, por parte do sim uma simples mistificação enganadora, no sentido de que esse
Estado, de interesses econômicos de certas classes dominadas está tado pode efetivamente satisfazer, abaixo desses limites, certos
inscrita, como possibilidade, nos próprios limites que ele impõe à nteresses econômicos de certas classes dominadas; ainda mais: pode
luta com direção hegemônica de classe. Essa garantia visa precisa- r Iz6-10, sem que, no entanto, o poder político seja atingido. É de
mente a desorganização política das classes dominadas, e é o meio r slo evidente que não é possível traçar, de uma vez por todas, esse
por vezes indispensável para a hegemonia das classes dominantes I ite de dominação hegemônica: ele depende tanto da relação das
em uma formação em que a luta propriamente política das classes orças em luta como das formas de Estado, da articulação das suas
dominadas é possível. Por outras palavras, é sempre possível traçar, funções, das relações entre o poder econômico e o poder político,
de acordo com a conjuntura concreta, uma linha de demarcação, do funcionamento do aparelho de Estado.
abaixo da qual essa garantia de interesses econômicos de classes O poder político parece assim basear-se nesse Estado, em um
dominadas por parte do Estado capitalista não só não põe direta- qullibrio instável de compromisso. Precisemos:
mente em questão a relação política ãe dominação de classe,. mas
constitui mesmo um elemento dessa relação. 1) Compromisso, na medida em que esse poder, correspon-
dente a uma dominação hegemônica de classes, pode dar conta de
Esta é de fato uma característica particular do Estado capita-
Interesses econômicos de certas classes dominadas, eventualmente
lista, dada a autonomia específica da superestrutura política e da
ontrários ao interesse econômico a curto prazo das classes domi-
instância econômica, do poder político e do poder econômico. Nas
nnntes, sem que isto atinja o plano dos interesses políticos;
formações "precedentes" *, nas quais a relação entre as instâncias
não assumia essa forma, uma reivindicação "econômica" da parte 2) Equilíbrio, na medida em que esses "sacrifícios" econô-
das classes dominadas - digamos, a revogação de um estatuto, de micos, embora reais e criando assim o campo de um equilíbrio, não
um encargo ou de um privilégio - constituía quase sempre uma rei- p em, enquanto tais, em questão o poder político, que fixa precisa-
vindicação política, pondo diretamente em questão o sistema de I ente os limites desse equilíbrio;
"poder público": Rosa Luxemburgo fez notar com exatidão que a 3) Instável, na medida em que esses limites do equilíbrio são
luta econômica era, de algum modo, uma luta diretamente política, fixados pela conjuntura política.
segundo o conteúdo desses conceitos nessas formações. 2 Essas rei- B, por conseguinte, nítido que este equilíbrio de modo nenhum
vindicações das classes dominadas não podiam ser satisfeitas senão Indica, segundo a imagem da balança, qualquer equivalência de po-
no interior da fraca proporção em que eram compatíveis com os d r entre as forças presentes: é preciso não confundir este sentido
interesses econômico-políticos precisos das classes dominantes, em do equilíbrio com o que lhe atribuem Marx e Engels ao falarem da
que não questionavam o poder do Estado. No caso do Estado ca- utonomia do Estado no caso em que as classes se encontram, na
pitalista, a autonomia do político pode permitir a satisfação de in- luta política, ou na relação entre a luta política e a luta econômica,
teresses econômicos de certas classes dominadas, limitando mesmo, p rto de se equilibrarem. O equilíbrio de que aqui se trata indica
eventualmente o poder econômico das classes dominantes, refreando 1\ complexidade e a defasagem das relações de poder no quadro do
em caso de necessidade a sua capacidade de realizar os seus inte- stado capitalista, as relações de força do campo da luta econômica
resses econômicos a curto prazo, na única condição porém - tor- d ntro dos limites fixados pelo poder político. Neste sentido,
nada possível nos casos do Estado capitalista -, de que o seu poder rarnsci diz-nos.ê "O fato da hegemonia supõe indubitavelmente
político e o aparelho de Estado permanecem intactos. Assim, em [u se dê conta dos interesses e das tendências dos grupos sobre
) quaís a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilí-
* Isto é, que precedem a formação capitalista (N. T.).
2. R. Luxemburgo, Greves de masse, parti et syndicats, 1964, p. 61. 11. "Análise das situações" in Maquiavel .... , loco cito

186 187
brio de compromisso, isto é que o grupo dirigente faça sacrifícios
ESTADO CAPITALISTA E AS IDEOLOGIAS
de ordem econômico-corporativa, mas é também indubitável que tal
compromisso e tais sacrifícios não podem dizer respeito ao essen-
cial.;." .
Dupla característica, portanto, do Estado capitalista: por um
lado, a sua autonomia relativa ao econômico implica a possibilida- I. A Concepção Historicista da Ideologia
de, segundo a relação de forças concreta, de uma política "social",
de sacrifícios econômicos em proveito de certas classes dominadas; A relação particular do tipo capitalista de Estado com as elas-
por outro lado, é esta própria autonomia do poder político institu- dominadas manifesta-se também ao nível ideológico. Com
cionalizado que permite cercear por vezes o poder econômico das feito, a dominação hegemônica de classe, enquanto tipo particular
classes dominantes, sem jamais ameaçar o seu poder político. E d dominação de classe, indica aqui o lugar e a função particulares
aqui que reside, por exemplo, todo o problema do chamado Welfare d ideologia, nas suas relações com o político, nas formações capi-
State, que de fato não é senão um termo que mascara a forma da I li tas: em uma palavra, indica o funcionamento político particular
"política social" de um Estado capitalista no estágio do capitalismo daquilo que podemos designar como a ideologia burguesa. Esse
monopolista de Estado. A estratégia política da classe operária de- aráter particular da ideologia burguesa não é, de fato, senão °
pende da decifração adequada na conjuntura concreta, desse limite aspecto político, relativo ao Estado, desse funcionamento específico
que fixa o equilíbrio dos compromissos, e que constitui a linha de da ideologia que Marx enxergava em O Capital, como condição de
demarcação entre o poder econômico e o poder político. istência do modo capitalista de produção. A questão reveste uma
Ora, essa "política social" do Estado capitalista aparece deli- importância tanto maior quanto diz respeito a um dos problemas
neada de forma indireta em O Capital, particularmente nos textos ruciais da ciência política, o da legitimidade.
do I.0 livro relativos à legislação sobre as manufaturas, se bem que As análises de Gramsci relativas à hegemonia de classe são
apenas se tratasse, nesse caso, de falsos sacrifícios correspondentes, rcveladoras a este respeito; sobretudo nisto: por um lado, Gramsci
de fato, ao estrito interesse econômico do capital. Encontrâmo-la apercebeu-se, com uma acuidade excepcional, dos problemas colo-
exposta com maior nitidez em Lutas de classes na França a propó- 'lidos pelo funcionamento político da ideologia burguesa em uma
sito da República de Fevereiro, exemplo histórico de Estado capita- formação capitalista; por outro lado, embora distintas da concepção
lista que teve de apresentar-se como uma "República rodeada de hlstoricista típica das ideologias, tal como se apresenta, por exem-
instituições sociais", e no 18 Brumârio, a propósito do "cesarismo plo, em Lukács, as suas análises, em virtude da problemática his-
social" de Bonaparte.s Aliás, é claro que esta "política social" do Es- toricista que essencialmente dirige a sua obra, demonstram, de uma
tado nada tem a ver com uma intervenção do Estado nas relações de forma particularmente nítida, os impasses e os erros a que conduz
produção no sentido exato do termo - isso é outro problema; o ssa problemática da ideologia. Quero com isto dizer quão impor-
que quero aqui dizer é que o tipo de Estado capitalista, tal como tante se revela a crítica radical da concepção historicista das ideo-
aparece delineado indiretamente em O Capital, implica na possibili- logias, como preliminar à enunciação científica das questões.
dade, inscrita nos limites das suas estruturas, de uma "política so- Para isto, precisamos mencionar sumariamente a problemática
cial", cuja realização e modalidades - as variações - dependem, da ideologia no jovem Marx. Esta estava centralizada sobre o su-
como é evidente, da relação concreta de forças na luta de classes. j ito, concebendo Marx a ideologia, assim como as superestruturas
Deste modo, essa "política' social", embora eventualmente se c~rac- m geral, a partir do modelo "sujeito-real-alienação". O sujeito é
terize por sacrifícios econômicos reais impostos às classes dominan- d sapossado da sua essência concreta "real" - sendo esse conceito
tes pela luta das classes dominadas, não pode em caso algum, ope- d "real" construído teoricamente a partir da objetivação ontológica
rada nesses limites, questionar as estruturas do tipo capitalista do do sujeito -, e a ideologia constitui uma projeção, em um mundo
Estado. maginária, da sua essência mistificada, em suma, a reconstituição
4. A este respeito, ver Sweezy: The Theory 01 Capitalist Developmeni,
"ideal" alienante da sua essência, objetivada-alienada no real econô-
1962, p, 239 e segs. mico-social. A ideologia, decalcada sobre o esquema da abstração-
alienação, identifica-se com a "falsa consciência". Encontram-se,
5. Ed. Pauvert, p. 67 e segs. slrn, na constituição do conceito de ideologia no jovem Marx
188
189
aquele~ pares ~e. opostos da problemática historicista que são Esta- n, realidade'", em uma palavra, a de uma pretensa desideologiza-
d.?-s?cIedade civil, superestruturas-base, ideologia-real, alienação-es- I até mesmo despolítização das formações capitalistas atuais.
sencia, abstrato-concreto.
Essa concepção da ideologia permaneceu viva na corrente his- Não obstante, a concepção historicista das ideologias é ainda
to~i~ista do marxismo, cuja problemática está centralizada sobre o 1 nítida no exemplo de Lukács e da sua teoria da "consciência
su~eIt~. Comportou numerosas conseqüências, dentre as quais, em lasse" e da "concepção do mundo". É conveniente determo-nos
pnmeiro . lu~ar, uma análise inadequada das ideologias nas forma- n I visto que formula claramente o problema dos pressupostos
I

çoes capitalistas e das suas transformações atuais. Com efeito essa I t mol6gicos de uma perspectiva historicista das ideologias.
problemática - quer o sujeito seja considerado como a classe so- Indu mais: dado o historicismo de Gramsci, manifesto nas suas
~i~l, o indivíduo concreto, o trabalho social, a práxis, etc. - iden- une peões relativas ao materialismo dialético, em particular no seu
lI\' lto de "bloco histórico", a maior parte dos teóricos marxistas
tifica ne~essariamente ideologia e alienação, e resulta em um
estatuto inadequado das ideologias: estas são consideradas como tlllzam o conceito de hegemonia em um sentido que o restitui à
"produtos" de uma consciência - de classe - ou de uma liberdade Icmática lukacsiana. O que principalmente importará nas aná-
- da práxis. - ~lienadas do sujeito. Esse estatuto das ideologias f subseqüentes é a relação errada, estabelecida por esta proble-
pressupoe aSSIm, simultaneamente, uma alienação de uma não-total- 11 11, entre a classe politicamente dominante, e a ideologia domi-
I nl em uma formação, e, por conseguinte, a relação entre a
a!ienação do "~ujeito" no "real". No caso, por exemplo, da so-
ciedade c~mumst~, em .que s~ considera que o sujeito recupera a
A
, ologlu dominante e as classes politicamente dominadas: é, parti-
sua essencia, as ideologias teriam desaparecido e cedido o lugar a rlurrncnte, neste último contexto que se situam as conseqüências
~ma transferência "científica" da consciência à sua existência obje- t mamente contestáveis das análises de Gramsci.
tivada, O que, porém, se revela mais interessante aqui é o fato de Para a problemática lukacsiana do sujeito, a unidade que ca-
111 -\ rlza um modo de produção e uma formação social não é a de
que essa per~pe~tiva preside ao tema atual do "fim das ideologias"
11111 .onjunto complexo, com vários níveis específicos, com deter-
que caractenzana, segundo certos ideólogos inspirados no marxis-
mo, as "sociedades i1l:dustriais" atuais. Com efeito, no caso, por mlnuct , em última instância pelo econômico. Essa unidade é re-
?utro lado, d~ uma alienação total do sujeito no real, as próprias '"Z da a uma totalidade do tipo funcionalista, com interações ges-
ideologias tenam tombado "na realidade", precisamente na medida 11111. tas, de que o conceito concreto-universal de Hegel nos oferece
~m .que, estando. a consciência totalmente amortecida e o sujeito 1111 emplo característico: trata-se, por outras palavras, de uma
inteiramente perdido, no real, toda a possibilidade de uma projeção I, talldade expressiva. Neste caso, a unidade de uma formação será
"alienant~". -:- ou "libertadora" no caso único do proletariado, r kln a uma instância central, doadora originária do sentido dessa
11I dude. Essa instância "totalizante" é representada, em Lukács,
classe privilegiada no real - e relativamente coerente da essência
em_um. mu~do "i?,~al" te~a desaparecido. É precisamente essa re- ,I .lnssc-sujeito da história: a unidade de uma formação social é
laçao mvanante ideologia-real-alienação" que comanda o tema rldn à organização política dessa classe, ela própria reduzida à
li. tituição de uma "concepção do mundo", que a erigiria em prin-
muitas vezes implícito, do "fim das ideologias" em numerosos au-
tore~, de Marcuse! a Adorno- e a Goldmannê, interpretando estes, pio cntral de unidade de uma determinada formação. Essa con-
precisamente, as evoluções atuais da formação capitalista de acordo P~ o do mundo, englobando ao mesmo tempo a ideologia e a
com o esquema de uma reificação-alíenação total do sujeito no real I1 "da,5 exprime a unidade de uma formação no interior da totali-
da ~ociedade índustrial-tecnológica. Embora existam diferenças no- Ind .írcular e linear, na medida em que ela se refere ao princípio
táveis entre estes autores, a conclusão comum a que conduzem é ntrul de unidade que é a classe-sujeito; esta constitui, pela sua
segundo uma frase de Marcuse, a de uma "absorção da ideologia III/d. p, 151. Note-se que Marcuse nega, explicitamente, ter chegado
ClIl1'luH 10 do "fim das ideologias".
1. One Dimensional Man, 1964 e "Uber das Ideologie-problem in der
Hochentwickelten Industriegessl;chaft", in Kurt Lenk, Ideoloçie, 1964, flllL lei ntificação da ideologia e da ,ciência, ou seja a concepção da
p. 334 e segs, I I ('om? englobando a ciência, remonta às relações entre o subje-
(I ohlcttvo no quadro de uma problemática do sujeito. Com efeito
~. Prismen Kuliur-Kritilc und Geeellechaft, 1955, p. 24 e segs. I f' "ubjetivo da ideologia como expressão do sujeito engloba ~
o. Pour une Sociologie du roman, 1964. I lei I1 da ciência no caso da consciência subjetiva do mundo de uma

190 191
concepção do mundo, a vontade-consciência da "totalidade" dos os tipos de legitimidade, constituídos precisamente a partir dos va-
homens "que fazem a sua própria história" - a práxis. Por inter- leres dos agentes-atores. A criação desses valores ou fins sociais é,
médio da classe-sujeito, o papel atribuído à ideologia é assim o de inclusive freqüentemente referida, em Weber, à ação de grupos so-
princípio de totalização de uma formação: é, de resto, precisamente, lais - os famosos "grupos estatutários", distintos, nele, das elas-
a posição do jovem Marx para quem, sendo as idéias que conduzem R-situações, ou seja classes em si -, sujeitos da sociedade e da
o mundo, são as armas da crítica que o podem transformar. história: essas considerações estão na base da sua concepção da
Esta relação da ideologia com a unidade de uma formação so- urocracia. A teoria da consciência de classe de Lukács, cujas reIa-
cial é tanto mais interessante quanto rege a problemática atual da es explícitas com Weber são conhecidas, aparece no entanto como
corrente sociológica "funcionalista", implícita, como veremos a pro- imu tentativa de marxização grosseira de Weber: embora pressu-
pósito da legitimidade, em grande parte das análises da ciência po- ondo uma totalidade expressiva, no interior da qual o papel de
lítica moderna. Basta referirmo-nos, a fim de revelar as relações r itor dominante não é, de fato, de modo algum exigido - e Weber
entre a totalidade de concepção hegeliana de Lukács e a totalidade m nada se enganou a este respeito 8 -, do todo social. 9
funcionalista, à filiação direta entre Lukács e Weber. O que apro- Ora, a concepção historicista de Gramsci relativa ao materia-
xima as teorias de Weber e as do funcionalismo é, como Parsons 11mo dialético, por um lado, e a ambigüidade das suas fórmulas,
notou bem, que a estrutura social global é, em última análise, consi- I r outro, induziram vários teóricos a reduzir as suas análises da
derada como o produto de uma sociedade-sujeito, criadora, no seu h monia de classe à problemática lukacsiana. 10 Uma classe he-
devir finalista, de certos valores ou fins sociais. Estes fixam, para o mônica torna-se assim a classe-sujeito da história, a qual, pela
funcionalismo, o quadro formal de uma integração das diversas es- u concepção do mundo, consegue impregnar uma formação so-
truturas particulares e "equivalentes" no "todo" social. Essa inte- I I da sua unidade e dirigir, mais do que dominar, provocando o
gração é relacionada a um "equilíbrio", baseado em certos proces- ••'ons ntimento ativo" das classe dominadas. Esta interpretação
sos regulados e recorrentes dos elementos normativos - por exem- I Iramsci é, por exemplo, particularmente nítida na corrente
plo, motivações de conduta" - que regem a "ação" social. Em ur ista da New Left Review, corrente cuja crítica já tive a oca-
Weber", esses valores sociais, cristalizações dos projetos dos atores
sociais, constituem os princípios de formação dos seus tipos ideais: l rlrllltn "típica". Acerca das relações entre o "tipo ideal" de Weber e o
no caso do Estado, isto conduz nele a uma tipologia segundo apenas c'n lIre íto "concreto-universal" de Hegel, ver em particular K. Larenz Me-
tll/lIl 111 lure der Rechtswissenschaft, 1960.
"classe ascendente" abarcar a totalidade de uma formação social. Conhe- 'I', IIIb~m, o historicismo weberiano acompanha a concepção de uma
cemos o aspecto deste argumento que Lukács, Korsch, etc., aplicaram ao Ildlld( pressiva, sem dominante, do conjunto social, o que é nítido
proletariado e à "ciência proletária": sendo o proletariado, por essência, bur na sua teoria dos "fatores" e das "variáveis". Encontrâmo-Ia
uma classe universal, a sua subjetividade é universal, mas uma subjeti- 11 scrltos sobre a ética protestante e o capitalismo, mas sobretudo
vidade universal tem que ser objetiva, ou seja, científica. Conhecemos, u Ge8ammelte Aufsaeize zur Religions-soziologie.
também, a conseqüência desta concepção: o "espontaneísmo".
6. Motivações de conduta, no sentido rigoroso do termo; isto conduzirá, N C) poderíamos dar melhor exemplo desta perspectiva-aplicada à anã-
precisamente, ao 'esclarecimento por Adorno da. noção de "tem~eramento \I 1101 tlcn, mas chegando a outras conclusões - que Marcuse. Este
político": Adorno e Horkheimer, The Authorttanan Personalitu, 1950. 111.11111IIIllrllllin explicitamente, tempos atrás (1935), que a unidade de
7. Sobre as relações, que quase passaram despercebidas na França, III11A r"I"IIlUC:1 o fi cial, contrariamente a uma concepção puramente "fun-
entre as teorias das classes de Weber e de Lukács, ver Weber, Gesammelte 10111111111", n\Hltlil\ na "dominância" de um certo elemento dessa formação
politischen. Schrif ten. 1958 pp. 294-431 (em particular o seu texto intitu- ubri I. UII t,.UI~: (11i!; I mento era, no entanto, representado pela "cons-
lado "Parlament uncÍ. Regierung im neugeordneten Detuschland", escrito ul lIr1n.('(JII('(\JlC: Cl cio mundo" de uma "'classe" ideologicamente dominante
em 1918). A propósito das relações entre Weber e Parsons, não há dúv~da 11111\ fo,.mll\;t o (/('lGltnr und Geeellechaf t, 1965, p. 34 e segs.) Atualmente
de que Parsons interpreta mal, em certos pontos, a obra de Weber (vide III'CU!iO ch gou, em n m de uma desideologização global que, segundo ele,
The Social System, 1964, p. 100 e segs., 519 e segs., etc.) : contudo, a r~- racterizarta as i ídades industriais, à concepção de uma formação
lação que estabelece entre Weber e o funcion.alis~~ permanece, em ulti- nquunto "totalidade" h g llana-funcíonalista integrada: e isto, devido
ma análise exata. Quanto ao problema do hístorícísmo de Weber, note- ausência de uma classe ideologicamente dominante e à ausência de
se que este' empreendeu explicitamente a crítica da "totalidade" histori- ma "consciência de classe" do proletariado "capaz de se opor ao todo"
cista, particularmente nas suas análises da obra de Ed. Meyer, n?s seus (One dimensional man, p. 51 e segs.).
Geeamanelte Aúfsaetee zur Wiseenechajtslehre, Contudo, a despeito das
10. Exemplo característico: L. Magri, "Problemi della teoria marxista
suas prevenções, a sua teoria pode ser considerada como uma teoria his-
d 1 partido revoluzionario". in Critica Ma?'xista, n. 5-6, 1963, p. 61 e segs.

192 193
SIaO de fazer noutro lugar. 11 Percebemos seu aparecimento na se- bu tunte ambígua, no contexto em que a utiliza, da ideo-
guinte definição que Perry Anderson, um dos representantes mais
II importantes desta corrente, nos dá da classe hegemônica: "Se uma
" imento:' de uma formação:, "Por outras palavras, o
d ld 010g1a que se formula e de conservar a unidade
classe hegemônica pode ser definida como impondo os seus próprios n bl.oco so.cial, ,~ue é .cimentado e unificado precisa-
objetivos e as suas próprias perspectivas a toda a sociedade, uma ideologia .... Ou a~nda: " ... uma "ideologia", po-
classe corporativa é, pelo contrário, a que persegue os seus próprios I', se ao termo Ideologia dermos justamente o sentido
objetivos no interior de uma totalidade social cuja determinação de uma co.nc~pção do .~undo, que se manifesta impli-
global se situa fora dela" 12. :É evidente aqui que a unidade de uma rtc, no direito, 'na atividade econômica em todas as
formação social, a "totalidade" social, é referida a uma classe he- da vida individual e coletiva", 15 '
gemônica: a sua hegemonia corresponderia à constituição de uma bstante, é igualmente verdade que a obra de Gramsci
concepção do mundo que a erigiria em princípio de unidade de uma v irias rupturas teóricas, particularmente no que concer-
II formação determinada: "Uma classe hegemônica procura transformar 111Ils s relativas ao materialismo dialético e às análises rela-
a sociedade à sua imagem, reinventando o sistema econômico, as io mutcrialismo histórico. Através de uma leitura sintomato-
instituições políticas, os valores culturais de uma sociedade, todo o
I u d Gramsci, que. não entra no quadro deste trabalho, pode-
seu "modo de inserção" no mundo". 13 I li • rto descobrir os traços científicos e originais que com-
:É, de resto, inegável que Gramsci dá margem à interpretação I I ob u cobertura polêmica do seu "historicismo absoluto" a
errada das suas análises relativas ao materialismo histórico, em par- 1111' pç O de ideologia. Podemos desde já evocá-los: '
ticular das relativas à dominação política, que é a dominação he-
a) • ob a metáfora da ideologia-"cimento" de uma sociedade
gemônica de classe, devido à sua concepção historicista do mate-
11 I nuncia de uma forma original o problema capital da re~
rialismo dialético. Isto é manifesto, a propósito do estatuto do
o ntre a ideologia dominante e a unidade de uma formação
ideológico, no seu conceito de "bloco histórico". Em Gramsci, este I;
conceito destina-se a conceber a unidade da teoria e da prática, da
ideologia - englobando a ciência ("intelectuais orgânicos") - b) Oram ci é o primeiro, na história do pensamento marxista,
e da estrutura, em uma palavra, a unidade de uma formação social mp r c m a concepção da ideologia como sistema conceitual,
no seu conjunto em um determinado momento histórico. Essa uni- " ntldo rigoroso desses dois termos.
dade é, contudo, precisamente, a totalidade expressiva do tipo his-
toricista, reduzindo a instância do ideológico e do teórico no con-
11 lei olugla Dominante, Classe Dominante e Formação Social
junto da estrutura social: " ... necessidade de reforçar a concepção
do "bloco histórico", em que precisamente as forças materiais são
uul 11 explicação que a problemática lukacsiana pode dar ao
o conteúdo e as ideologias a forma, distinção puramente didática
entre a forma e o conteúdo ... 14) Neste contexto, o bloco históri- I 111, para o marxismo, a ideologia dominante em uma for-
co não é senão a formulação teórica do "presente"
concepção hegeliana, a co-presença das instâncias na totalidade ex-
histórico de
"I
I
11 o 'Iul é, regra geral, a ideologia da classe dominante?
1lIllIvrlls, como explica o fato de que a ideologia dominante,
uln 1111111111 unidade própria, refletindo portanto em um univer-
Por

pressiva do devir linear, tornando-se a ideologia a mera expressão


da história. Este papel de princípio central de unidade de uma for- 11I vum nto coerente o conjunto da formação social que im-
I I 11 da classe dominante? Deparam-se-nos de fato, aqui
mação atribuído à ideologia-concepção do mundo é manifesto na
• rie» li questões com respeito à relação da ideologia dominan-
1111 u unidade de uma formação:
11. "La théorie politique en Grande-Bretagne", in Les Temps Modernes,
março de 1966, publicado na New Left Review, maio de 1967. Assinala-se, I) 1"11' I unidade
própria, a coerência relativa, àquilo que a
contudo, que as concepções teóricas desta corrente evoluíram consideravel- I 11I I1'li lukacsiana designará de bom grado como "totalidade
mente desde então.
12. "Les origines de Ia crise présente", in Les Temps Modernes, agosto- nl 10", do universo ideológico, da ideologia dominante de
-setembro de 1964, p. 425. 1111111'() enquanto estrutura regional das instâncias.
13. o». cit., p. 428.
14. Il materialismo stonco e la filosofia di B. Croce, 1948, p. 49 1/ /fI'" 1/11/1111111I etorico e la filosofia di B. Croce, 1948, p. 7.

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I I I 11 constituição de uma concepção do mundo própria que
2) Face ao fato de que esse universo coerente é precisamen- " II lrin e":1classe si, sujeito da história - identificação da cons-
te uma ideologia dominante na medida em que impregna também 11 'I, política de classe com a função assumida pela concepção do
as classes dominadas, em que é também a. sua concepção do mun- III111Hlo, Nenhuma autonomia específica pode, por conseguinte ser
do, em uma palavra, na medida em que a sua coerência interna se I xinhccída à ~~stância ide.ológica. Em particular, esta concepção
relaciona com o conjunto das classes em luta em uma formação. 11 ( podo permitir uma decifração da relação concreta entre a ideo-
3) Face ao fato de que essa ideologia dominante é a da classe II 11 dominante e a classe ou fração politicamente dominante: an-
dominante. I onduz a erros no que concerne à localização precisa da classe
Desmembrar estas três séries de questões é útil, visto que a expli- ou rl'UÇ~o dominante em uma situação historicamente determinada.
cação lukacsiana reside precisamente em que elas são encobertas, '011I feito, um dos índices que permitem essa localização reside
por referência ao princípio genérico da classe-sujeito da sociedade I I 'I uncnte na relação entre essa classe ou fração e as estruturas
e da história. A partir do momento em que a unidade de uma for- I. Ideologia dominante; essa relação não poderá contudo admitir-
mação é atribuída à classe-sujeito, e assim à "consciência" desta ,li acordo com a problemática lukacsiana, senão em casos bas-
classe, o papel de instância determinante e central do todo social 1 111 raros em que a ideologia dominante aparece na "pureza" da
1111 r Inção com a classe ou a fração dominante. Ora, de fato, a
será atribuído à concepção global do mundo de que essa classe
seria a produtora imediata. A resposta àquelas questões residirá I 010 lu dominante não reflete apenas as condições de vida da
assim na relação genética entre a ideologia dominante e a classe 111 dominante, sujeito "puro e simples", mas também a relação
1'01111 'li concreta, em uma formação social, entre as classes domi-
"para-si", sujeito da história. Como diz Lukács: "A vocação de
uma classe para a dominação significa que é possível, a partir dos 111111 o as classes dominadas. Ela encontra-se freqüentem ente
1I11"'t' uiada de elementos decorrentes do "modo de vida" de outras
seus interesses de classe, a partir da sua consciência de classe, orga-
nizar o conjunto da sociedade conforme os seus interesses ... E a 111 s u frações que não a classe ou fração dominante: é o caso
questão que decide, em última análise, de toda a luta de classes é II 1'O, por exemplo, de recepção, na ideologia burguesa domi-
1111111 das formações capitalistas, de "elementos" da ideologia pe-
esta: qual é a classe que dispõe, em um dado momento, dessa ca-
pacidade e dessa consciência de classe? Até que ponto a classe em Ijll -no-burguesa (o "jacobinismo" e o seu sucessor, o "radicalis-
questão cumpre conscientemente, até que ponto inconscientemente, 11I0" ) • até mesmo da ideologia da classe operária (é o caso do
e até que ponto com uma consciência falsa, as tarefas que lhe são •• m' 1I11~moburguês" de que fala Engels: por exemplo, o saint-
impostas pela História?". 16 A ideologia dominante apresenta si- monlsmo durante o Segundo Império na França). 17
multaneamente uma unidade e constitui uma concepção do mundo P(~r outro lado, dada a autonomia específica da instância
carasterística do conjunto de uma formação, na medida em que está 11 %p;lca dado o próprio estatuto do ideológico nas estruturas, as
geneticamente relacionada com a classe dominante - ou antes, r I" 11 entre a ideologia dominante e a classe ou fração domi-
classe ascendente. Esta, sujeito de uma historicidade-devir, pro- 111111 C~l< o sempre dissimuladas. Essa ideologia, ocultando, como
gredindo através de totalizações cada vez mais vastas até à coin- lodll 11 ideologia, a si os seus próprios princípios, pode parecer, na
cidência final da objetivação e da essência, está sempre grávida do nll tltulcão complexa do ideológico, mais próxima do modo como
sentido da história e encarna concretamente a totalidade de senti- v IS suas condições de existência uma outra classe ou fração
do, a unidade, de uma formação social. '111 I 'Ia' e ou fração dominante. Em uma palavra, podemos es-
Esta concepção da ideologia conduz a toda uma série de re- tnh I ' r a possibilidade de toda uma série de defasagem entre a
sultados errados, de que passo a assinalar os mais importantes. I % ia d minante e a classe ou fração politicamente dominante.
"111 podem dever-se a diversos fatores, por exemplo ao funcio-
A. - Em regra geral, conduz ao que podemos designar 1111111 ntu .oncreto da casta dos "intelectuais"; ou ainda ao desen-
como uma sobrepolitização das ideologias, sendo estas considera- I I illlt'lIlo desigual dos diversos níveis das estruturas, devido ao
das de algum modo como chapas distintas de matrícula política 11 I 111I0 específico e à sua defasagem com o campo das práticas
que as classes sociais trariam às costas: a estrutura ideológica é
reduzida à organização política de uma classe, essa organização , 1\ tI J' speito, CI. Willard, Socialisme et communisme français,
1I11f, I' IH t 1\ gs.
16. Histoire ete conscience de classe, 1960, p. 76 e segs.
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196
li ologia dominante antes da conquista do poder político ". Essa
de classe: por exemplo, uma ideologia dominante, profundamente 11 c de Lenin está na base dos seus textos acerca da necessidade
impregnada pelo modo de vida de uma classe ou fração, pode con- rganização ideológica da classe operá?~ p~lo seu pa;t~do. Ora,
tinuar a ser a ideologia dominante mesmo que essa classe ou fra- t s de Gramsci é aparentemente contrana a problemática .lukac-
ção já não seja dominante. Nesse caso, ela não é uma simples "so- nu na medida em que preconiza uma defasagem entre a Ideol~-
brevivência", antes sofre toda uma série de modificações quanto li dominante - que poderia ser, em Gramsci, a da classe domi-
ao seu funcionamento político concreto, as quais, no entanto, só nudu - e a classe politicamente dominante; contudo, decorre dos
podem ser decifradas na condição de se romper com a problemá- m mos princípios: o problema da organização política de uma
tica historicista da ideologia. Dispomos do exemplo típico desse 1 se parece estar relacionado com a constituição de um~ concep-
último caso na Grã-Bretanha, onde o deslocamento do índice de , o do mundo própria, que vai impor ao conjunto da sociedade.
dominância política da aristocracia para a burguesia é caracteriza-
do pela permanência de uma ideologia dominante - modificada -
Nesse caso , de fato , uma classe não só não pode ser uma elas- .
politicamente dominante, mas nem pode sequer ~er um~ orga~-
de concepção aristocrática. Para a problemática lukacsiana, a per-
, O propriamente política sem obter o. lug_ar ?a I~e~logra ?O~ll-
mutação desse índice ficará oculta, na medida em que irá deduzir, 11 ntc na medida em que a sua orgamzaçao ideológica coincide
sem mais, dessa permanência, a continuidade da dominação da iom ; sua emergência como classe-sujeito da sociedade e da histó-
classe feudal. 18 Em uma palavra, essa problemática não permite
. Reconhecemos aí as análises de Lukács, decalcadas sobre o
estabelecer uma relação adequada entre a série de questões assinala-
t ma geral da "classe ascendente", acerca da consciência de clas~e
das, formuladas pela relação entre a ideologia dominante e a classe
do proletariado, portador do sentido da história. É por este meio
politicamente dominante.
(U podemos ver na tese de Gramsci a conseqüência lógica da tese
B - Ela pode, além disso, induzir em erros no que concerne lukacsíana, A defasagem introduzida por Gramsci, entre a classe
às relações entre a ideologia dominante e as classes dominadas. li ologicamente dominante - o proletariad~ hegemônico - e a
De fato, é isto que revela uma das teses próprias de Gramsci, ,.na '111 se politicamente dominante - a burguesia -, em uma pala-
qual procede a uma extensão inaceitável do conceito de hegemo- v de uma defasagem histórica (que, em Gramsci, reveste o aspec-
nia à estratégia da classe operária.
rentemente contrária
Se bem que essa tese seja apa-
aos resultados explícitos dessa problemática,
t de uma defasagem teórica) entre hegemonia e domi_nação, a~-
11 lhe serve em contradição aparente com a concepçao lukacsia-
decorre contudo dos mesmos princípios teóricos e tem largamente I1n: para expÚcar os fatos por uma teori~ !nadequada. Aliás, isto
contribuído para falsear o conteúdo científico do conceito de he- plica igualmente por que razão ~ramscI Julgou .sempre .en~o~tr?r
gemonia, na medida em que a hegemonia já não é considerada como m Lcnin essa utilização do conceito de hegemonia: Lenin insistiu
um tipo de dominação de classe. Gramsci introduz aqui uma rup- multo na necessidade da organização ideológica autônoma da classe
tura teórica entre hegemonia e dominação. Segundo ele, uma clas- op rária, a qual não é, de resto, mai~ do que u~ dos ~spec~os da
se pode e deve tornar-se uma classe dirigente antes de ser uma UIl organização política; com esta diferença caplta~: nao so essa
classe politicamente dominante, pode conquistar a hegemonia antes o unlzação ideológica nada tem a ver com a conquista pelo prole-
da conquista do poder político. Neste contexto, o conceito de he- tn I d do lugar da ideologia dominante antes da toma~a d? P?der,
gemonia indica efetivamente o fato de uma classe impor à uma for- I também é sistematicamente pensada como orgamzaçao ideo-
mação a sua própria concepção do mundo, conquistar portanto I leu contra a ideologia dominante: esta, mesmo após a tomada
nesse sentido o lugar da ideologia dominante, e isto antes da con- ti poder, continua a ser, durante muito tempo, a ideologia burgue-
quista do poder político. Análise teórica esta, que Gramsci aplicou pequeno-burguesa.
no quadro da estratégia da classe operária, e que está em oposição
com as teses leninistas. Lenin insistiu repetidamente no fato de
. - Finalmente, se as ideologias forem conce?idas, segun-
que,no caso da conjuntura concreta da transição do capitalismo
r presentação historicista, como chapas de matncu!as que as
para o socialismo, contrariamente a certos casos da transição do
-sujcitos trariam às costas, da mesma forma que nao se pode
feudalismo para o capitalismo - caso da classe burguesa na Fran-
11 stabelecer a existência, na ideologia dominante, de elemen-
ça, por exemplo -, a classe operária não pode conquistar o lugar t I iorrcntes de ideologias de outras classes que não a classe po-
II 1111I nte dominante, não se pode estabelecer a possibilidade per-
18. Sobre este assunto, ver o meu artigo já citado.
199
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manente de contaminação da ideologia da classe operária pela ideo- lurmação, participam em uma atividade economica e política, parti-
logia dominante e pela ideologia pequeno-burguesa. De acordo ,,,11m também em atividades religiosas, morais, estéticas, filosó-
com essa concepção da ideologia, não pode haver mundo exteribr 1'1' . 20 A ideologia diz respeito ao mundo no qual vivem os ho-
à ideologia de cada classe, a qual funcionaria de algum modo em m n , às suas relações com a natureza, com a sociedade, com os
um compartimento estanque. Não é possível assim reconhecer os outros homens, com a sua própria atividade, inclusivamente a sua
, I efeitos de dominação da ideologia da classe operária pela ideolo- utlvidade econômica e política. O estatuto do ideológico decorre
I gia dominante. Isto conduz diretamente às diversas formas do es- do Iuto de refletir a maneira pela qual os agentes de uma formação,
pontaneismo e às suas conseqüências práticas: a ideologia operá- I ortadores das suas estruturas, vivem as suas condições de existên-
ria é considerada, pelo mero fato de ser a ideologia do proletariado- 'I , a relação "vivida" dos agentes com estas condições. A ideo-
-classe universal, como possuindo as chaves da ciência marxista. 10 ia encontra-se a tal ponto presente em todas as atividades dos
Ora, sabemos com propriedade por numerosos textos de Marx, 11 ntes, que não é discernível da sua experiência vivida. Nesta
Engels e Lenin, que a ideologia "espontânea" da classe operária 11I dida, as ideologias fixam em um universo relativamente coeren-
foi no inicío o anarco-sindicalismo, seguidamente o trade-unionis- t , n o simplesmente uma relação real, mas também uma relação
mo e o reformismo: isto não é mais que o efeito da dominação Imaginária, uma relação real dos homens com as suas condições de
permanente da ideologia da classe operária pela ideologia burguesa ist neia investida em uma relação imaginária. O que quer dizer
dominante e pela ideologia pequeno-burguesa. Igualmente sabe- qu as ideologias se reportam, em última análise, ao vivido huma-
mos que essa concepção está na base da aceitação por Lenin da no, sem se encontrarem, por isso reduzidas a uma problemática
famosa tese kautskysta, segundo a qual a ideologia revolucioná- do sujeito-consciência. Este imaginário social, com função prático-
ria tem de ser importada do exterior para a classe operária, ao pas- o iial real, não é de modo algum, redutível à problemática da alie-
so que constatamos, nos representantes da concepção historicista do 1111 '1 0, à da falsa consciência.
esquerdismo dos anos vinte, tais como Lukács, Korsch, etc., a tese
da rejeição dos intelectuais (o proletariado sendo o seu próprio in- cgue-se, por um lado, que a ideologia, constitutivamente im-
telectual), o menosprezo do papel ideológico do partido (R. Lu- hrl .ada no funcionamento deste imaginário, social, é necessaria-
xemburgo), etc. Em uma palavra, a ideologia revolucionária da mente falseada. A sua função social não é oferecer aos agentes um
classe operária não pode existir senão na base de uma crítica per- vrrdaâeiro conhecimento da estrutura social, mas simplesmente
11 rl-los de algum modo nas suas atividades práticas que supor-
manente da sua ideologia espontânea pela ciência marxista. Essa
11111 esta estrutura. Precisamente em virtude da sua determinação
crítica pressupõe a distinção radical entre ideologia e ciência que
não é possível fundamentar na concepção historicista. 19 I' lu ua estrutura, o todo social mantém-se ao nível do vivido
"11i/("() para os agentes, opacidade esta sobredeterminada nas socie-
dlld 11 divididas em classes, pela exploração de classe e pelas for-
1111 que esta exploração assume a fim de poder funcionar no todo
IIl. A Concepção Marxista das Ideologias. o .lnl. Assim, a ideologia, mesmo compreendendo elementos de
·lIl1h cimento, manifesta necessariamente uma adequação-inade-
A fim de poder esclarecer a função política particular das
ideologias no caso de uma dominação hegemônica de classe, será
'I"U '1 o relativamente ao real, o que Marx considera sob o termo
I "Inversão". Segue-se, por outro lado, que a ideologia não é vi-
necessário estabelecer uma relação científica entre as três séries de tv I para os agentes na sua disposição interna: como todo o nível
questões assinaladas, a propósito da relação ideologia dominante- I, r nlidade social, a ideologia é determinada pela sua própria es-
-classe politicamente dominante. É necessário para isso voltarmos 11111111"1I que se mantém opaca para os agentes nas relações vividas.
ao estatuto do ideológico.
A ideologia consiste, de fato, em um nível objetivo específico, Isl aproxima-nos do problema da unidade própria do ideo-
em um conjunto com coerência relativa de representações, valores, 11 'u, isl é, da sua estrutura e da sua relação com a classe domi-
crenças: da mesma maneira que os "homens", os agentes em uma 11/1111. Essa unidade do ideológico não decorre em nada de que

19. É verdade que Gramsci sempre combateu o "espontaneísmo", o que 11 '''', obre este assunto, Althusser, "Marxisme et humanisme", in
pode ser explicado pelas rupturas teóricas da sua própria obra. ""'H ',1/'011.

200 201
ela seria geneticamente relacionada a uma classe-sujeito e à sua ntc implícita no investimento imaginário do "vivido" dos agentes,
consciência de classe. Ela está ligada originariamente à relação en- nu seja na sua função de ocultar as contradições reais à investiga-
tre a ideologia e o vivido humano em uma formação e ao seu !nves- · o científica, não acarreta, antes implica, na descentralização do
timento imaginário. A ideologia tem precisamente por funçao, ao uJ ito ao nível dos suportes. Com efeito, as precedentes consí-
contrário da ciência, ocultar as contradições reais, reconstituir, em U rações, demostraram a necessidade de coerência do discurso ideo-
um plano imaginário, um discurso relativamente coerente que serve I glco relacionada à sua função social, mas ainda não determinaram
de horizonte ao "vivido" dos agentes, moldando as suas represen- 8 princípios desta coerência, ou seja, os princípios da estrutura
tações nas relações reais e inseri~d?-as na u~idade ?as relações de iulta da ideologia dominante. Ora, a ideologia, enquanto instân-
uma formação. Reside aí sem dúvida o se~tIdo mais profund? da I específica de um modo de produção e de uma formação social,
metáfora ambígua de "cimento" que Gramscí empr~ga para designar nstitui-se, dentro dos limites fixados por este modo e por esta for-
a função social da ideologia. A ideologia, introd~zmdo-se em ~odos mação, no oferecer de uma coerência imaginária à unidade que rege
os andares do edifício social, possui a função particular .de coesao es- contradições reais do conjunto de uma formação. A estrutura do
tabelecendo ao nível do vivido dos agentes relações evidentes-falsas, 11I o16gico depende do fato de refletir a unidade de uma formação
que permitem o funcionamento das suas atividades práticas - di- iclal, Deste ponto de vista, o seu papel específico e real de unida-
visão do trabalho, etc. - na unidade de uma formação. Deste ti não é constituir a unidade de uma formação - como o dese-
modo, esta coesão própria do ideológico nã? é, de forma a!guma, [nrta a concepção historicista -, mas refletir esta unidade reconsti-
a mesma que a da ciência, precisamente em .vIrtude d~s s~as ~.feren- tulndo-a em um plano imaginário. Assim, a ideologia dominante de
tes funções sociais. A ideologia, ao contrár~o _da noçao CIentIÍ1ca" de IIIl1U formação social engloba realmente a "totalidade" desta forma-
sistema, não admite no seu seio a contradIçao, ela tenta res?lve::ra • 0, não na medida em que constituiria a "consciência de classe" de
~,ª sua ausência 21. ~.g2_gu~r. dize~ que a estrutura do dI.scurso um sujeito histórico-social, mas na medida em que reflete, com os
igeológico e a do discurso cientIfIco sao fundamentalmente diferen- pcctos de inversão e de dissimulação que lhe são próprios, o índi-
tes. · de articulação das instâncias que especifica a unidade dessa for-
- Neste sentido, se abandonarmos a concepção de ideologia como Il1U O. Do mesmo modo que qualquer outra instância, a região do
sistema conceitual - no sentido rigoroso destes dois termos - li ológico é fixada, nos seus limites, pela estrutura global de um
esta engloba o que freqüentemente se designa como a "cultura" de modo de produção e de uma formação social.
uma formação: com a condição, bem entendido, de não se cair nas
tortuosidades do culturalismo etnológico que conota, em geral, sob Podemos, assim, determinar exatamente o sentido da relação,
este termo , uma "formação social" no seu conjunto.V
a ideologia compreende, como muito bem o notou Gramsci, nao
-
Deste .modo, nu sociedades divididas em classe, entre a ideologia dominante e a
1111180, politicamente dominante. A função original da ideologia
simplesmente elementos dispersos de conhecimento, noções, etc., obredeterminada, nestas sociedades, pelas relações de classe
mas também o processo de simbolização, a transposição mítica, o 111 que as estruturas distribuem os agentes. A correspondência en-
"gosto", o "estilo", a "moda", em suma, o "modo de vida" em I u ideologia dominante e a classe politicamente dominante em
geral. ,11 da se deve, do mesmo modo que a coerência interna própria desta
:É contudo necessário assinalar os limites desta metáfora ambí- I ologia, a qualquer relação histórico-genética. Ela é d~vida ~o
gua d; "cimento", De fato, ela não deve, de modo algum, aplicar- rll[u da constituição do ideológico - desta ou daquela ideologia
-se aos agentes de uma formação, porta~ores das estruturas, "c~rr:o ,~ , mquanto instância regional, ter lugar na unidade da estrutura
origem e o sujeito central destas, ou seja, aos homens no VIVIdo u [em como efeito, no campo da luta de classes, esta ou aquela
como produtores da unidade da ideologia. Tanto assim que a coe-
rência própria - a unidade - do discurso ideológico, necessaria-
l nmlnação da classe, a dominação desta ou daquela classe. A ideo-
I 111 dominante, ao assegurar aqui a inserção prática dos agentes
trutura social, visa a manutenção - a coesão - desta es-
21. Ver neste sentido, Macherey, "Lénine critique de Tolstoi", in Pour turn, o que quer dizer, antes de tudo, a exploração e a dominação
une ihéorie de la production littéraire, 1966. 111 .:g precisamente nesse sentido que a ideologia é dominada,
22. Ver, neste sentido, R. Establet in Démocratie nouvelle, junho de umu formação social, pelo conjunto de representações, valores,
1966. , 'ranças, etc., por meio dos quais se perpetua a dominação

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de classe; ela é pois dominada por aquilo que se pode, por isso, de-
signar como a ideologia da classe dominante. dica e política, religiosa, econômica, filosófica, estética, etc. Sem
ntrar mais a fundo neste problema, é necessário assinalar igual-
Podemos compreender, neste sentido, que a estrutura - a uni-
m nte que podemos decifrar, em geral, na ideologia dominante de
dade - da ideologia dominante não pode ser decifrada a partir
uma formação social, a dominância de uma região da ideologia so-
das suas relações com uma consciência de classe-concepção do mun-
bre as outras regiões. Essa dominância é muito complexa, maniíes-
do, em um compartimento estanque mas sim a partir da unidade do
t -se até no fato das outras regiões da ideologia, no seu funciona-
campo da luta de classes, isto é, a partir da relação concreta das di-
ento, importarem da região dominante as suas próprias noções e
versas classes em luta no interior da qual funciona a dominação de
preesentações, ou, até, dos inícios de ciência se constituírem, eles
classe. Assim, podemos compreender por que razão, se é verdade
mesmos, a partir de aquisições deste gênero.
que as classes dominadas vivem necessariamente a sua relação com
as suas condições de existência no discurso da idelogia dominante, Ora, não é de modo algum por acaso que uma região ideológi-
não é menos verdade, por outro lado, que este discurso apresenta domina as outras dentro dos limites da ideologia dominante. A
freqüentem ente elementos importados de modos de vida diferentes erência própria da ideologia dominante que é, deste ponto de vista,
do da classe dominante. Lenin assinala-o de uma maneira luminosa: rantida pela dominação de uma região ideológgica sobre as outras
"Cada cultura nacional comporta elementos, ainda que não desen- giões, decorre do fato de refletir, com a inversão e a dessimulação
volvidos, de uma cultura democrática e socialista. Mas em cada na- que caracterizam o ideológico, a unidade da estrutura, isto é, o seu
ção, existe igualmente uma cultura burguesa ..., não somente no es- ndice de dominação e de sobredeterminação. Poderíamos dizer que
tado de "elementos", mas sob a forma de cu1tura dominante" 23. d certo modo o papel da ideologia consiste aqui, não simplesmente'
Aliás, não só a ideologia dominante comporta, no estado de m ocultar o nível econômico sempre determinante, mas em ocultar
"elementos" incorporados na sua própria estrutura, traços prove- o nível que assume o papel dominante, e sobretudo o próprio fato,
nientes de outras ideologias além da classe dominante, como tam- da sua dominância. A região dominante da ideologia é aquela que
bém é possível encontrar em uma formação capitalista verdadeiros precisamente melhor preenche, por numerosas razões, essa função
sub-coniuntos ideológicos, funcionando em unidade com uma auto- p rticular de máscara.
nomia relativa em relação à ideologia dominante: por exemplo, sub- Junto alguns breves exemplos: na formação feudal, o papel
-conjuntos feudal, pequeno-burguês, etc. Estes são dominados pelas dominante cabe freqüentemente ao político. Ora, constatamos que a
ideologias das classes correspondentes - feudal, pequeno-burguesa gião dominante do ideológico não é a ideologia jurídico-política,
-, na medida, contudo, em que essas ideologias que dominam os mas a ideologia religiosa. Mais ainda: o papel dominante é freqüen-
sub-conjuntos ideológicos são elas próprias dominadas pela ideolo- I mente mantido, sublinha-o Marx, pelo próprio nível ideológico.
gia dominante, veremos mais à frente de que forma. Esses sub- I oderíamos sem dúvida mostrar que a ideologia religiosa é precisa-
conjuntos ideológicos comportam também, aliás, elementos prove- mente a região da ideologia que melhor permite, graças sua estru-
nientes de ideologias diferentes das que dominam, ou da ideologia tura própria, ocultar o papel dominante do próprio ideológico, isto
dominante de uma formação: é o caso característico das relações , a sua própria função direta de classe. A função particularmente
constantes entre a ideologia pequeno-burguesa e a ideologia operária. "rnítica", "obscurantista" e "mistificadora", que revestiu a ideolo-
ia religiosa do catolicismo medieval, decorre em grande parte do
Iato de ter freqüentemente mantido o papel dominante e de então
IV. A Ideologia Política Burguesa e a Luta de Classes d ver ocultar, a si própria, a sua verdadeira função. No M.P.C., e
m uma formação capitalista, em que o econômico detém, regra
Antes de avançarmos no exame das ideologias políticas nas for- ral, o papel dominante, constata-se a dominância no ideológico
mações capitalistas, é ainda necessário assinalar um fato importante. d região jurídico-política: em particular, no entanto, no estágio do
A própria ideologia está relativamente dividida em diversas regiões, pitalismo monopolista de Estado, em que o papel dominante é
que podemos, por exemplo, caracterizar como ideologias moral, ju- sumido pelo político, é a ideologia econômica - de que o "tec-
n cratismo" é só um dos aspectos - que tende a tornar-se a re-
23. Notes critiques sur la question nationale, Oeuvres, T. 20, pp. 16-17. I o dominante da ideologia dominante. Em suma, tudo se passa
'orno se a ideologia dominante se concentrasse sempre em um lugar
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diferente daquele onde se deve procurar o verdadeiro conhecimen- du ideologia jurídico-política sobre o protestantismo, nas suas re-
to, como se operasse o seu papel de dessimulação permutando b fi com o que designa como legitimidade "racional-legal". A
lugar, isto é, deformando o objeto, da ciência. logla moral: basta mencionar a transformação, dominada pela
Antes de nos interrogarmos acerca das razões pelas quais a logia jurídico-política, das noções de "indivíduos" e de "pessoa",
ideologia jurídico-política preenche melhor o papel de dissimulação "direito" e de "dever", de "virtude" - lembremo-nos de Ma-
do papel dominante do econômico, no modo de produção e na for- luv 1 e de Montesquieu -, de "amor" - verdadeiro "contrato"
mação capitalista, convém apresentar alguns exemplos que põem em onhecimento: - não se trata, aliás, aqui de uma simples su-
evidência a dominância dessa região. Dominância direta em primeiro dina fio da moral à política, mas sobretudo de uma constituição
lugar: a forma dominante através da qual a classe burguesa viveu no no ões morais que toma como ponto de referência, freqüente-
início os seus protestos contra a ordem feudal, através da qual, em I l de referência de oposição, a política, etc. Mas ainda: a ciên-
seguida, viveu as suas condições de existência, e que impregnou o que se constitui formula-se muitas vezes através de _noções de-
conjunto das formações capitalistas, foi o discurso jurídico-político. nl s da ideologia jurídico-política, tal como a noçao moderna
Liberdade, igualdade, direitos, deveres, reino da lei, Estado de direi- "I I" que encontramos em Montesquieu, ou é por ela fortemente
to, nação, indivíduos-pessoas, vontade geral, em suma, as palavras lu nclada: é o caso clássico da ciência econômica, de que Marx
de ordem sob as quais a exploração burguesa de classe entrou e rei- li 'O a própria designação de economia "política". Finalmente, o ,
àI' ." boMI 1IlbJ'lt:6
nou na história, foram diretamente importadas do sentido jurídico- I 'urso privilegiado, no qual as classes lUilEEJ vlv,em e.spon- ..
-político dessas noções, formadas pela primeira vez pelos juriscon- I 11 mente" a sua revolta contra a classe burguesa, e dominado
sultos do contrato social da Baixa Idade Média nas universidades I 111 r glão jurídico-política da ideologia dominante: a "justiça so-
italianas. Ninguém estudou melhor essa dominância da região jurí- l", 1\ igualdade, etc.25•
dico-política na ideologia capitalista que Max Weber,que mostrou, st s exemplos, voluntariamente simples e muito esquemáticos,
além disso, a sua relação com a formação de uma casta de "juristas t m outro propósito que o de indicar o problema. Em contra-
especializados". Podemos efetivamente dizer que se, na Europa tldn, alongar-nos-emos mais sobre as razões da d?mi~açã~ da
Ocidental, a ideologia dominante da classe escravagista foi uma I o jurídico-política da ide.ologia dominante,. em ltgaçao direta
ideologia moral e filosófica, a da classe feudal uma ideologia reli- um o problema da particulandade do seu funcionamento no qua-
giosa, a ideologia da classe burguesa é uma ideologia jurídico-polí- I I I uma dominação hegemônica de classe.
-tica: não é por acaso que esta região ideológica constitui para Marx,
Engels e Lenin particularmente para Marx em A Ideologia Aiemã,
J 111' , evidente que, se a ideologia jurídico-política é a região
A Miséria da Filosofia, O Manifesto Comunista, O 18 Brumârio e
11111I 1111111 da Ideologia burguesa, é porque se encontra à altura de
O Capital, o centro de referência e o objeto privilegiado das suas
11 11 I 111 -Ih r o papel particular da ideologia no M.P.C. e em
críticas.
fl1111111 - o capitalista: isto está, aliás, em relação estreita com
A dominância da região jurídico-política sobre as outras ma-
I p - 1'1'() que cabe ao nível jurídico-político real, ao Estado
nifesta-se além disso, não só através da sua distinção da ideologia
I 111. A Id ologia "cimento" introduz-se em todos os anda-
filosófica, moral e religiosa, mas também através de noções que estas
1\ • 11 o '1111, inclusive na prática econômica e na prát!ca
últimas importam da primeira, noções sob as quais elas se pensam,
, N 1111 liz respeito à. prática econômica, tínhamos VIsto
ou que utilizam como ponto de referência para estabelecer as suas.
\11 nlu 111 \li se manifesta, no M.P,C. e e~ uma forn;a-
A ideologia filosófica: basta mencionar o lugar particular da "filo-
I 11111 111, pOl' Ate efeito absolutamente particular que e o
sofia do direito" e da "filosofia política" em Spinoza, Kant, Hegel,
etc., a formação das noções filosóficas - as de "natureza" ou de
• Vlrll"lh 11111 I "Lu d minância da região jurídico-política na ideo-
"liberdade", por exemplo - nos teóricos franceses do contrato so- IUIlIII hUl'lllHlHII dumluunt, r veste formas diferenciais consoante as for-
cial e também em Locke, Mills, Bentham, etc. 24 A ideologia reli- 1111I0 11 lIoc';a,;H ('Olltillllll'udnH: O que Marx entende quando diz A"O~ Ale-
giosa: basta mencionar as análises de Weber concernentes ao impac- I 1\ pOHIlUl.l1Y\ o (HP I'!LO rIIoa6fico, os Ingleses o espírito eCOnOIY\ICO,os
n '1.18a o oaptdLu puIlU'o", Esta considera.ção de Marx ind!c~, ~o
ntunto ígualm nt no qu aqui nos diz respeito, que essa domiriância
24, Sobre este assunto, M. Villey, Cours d'histoire de Ia philosophie li r gÚlo jUl'ídico-poUtl 'U <lu ideologia não ~assa ~e ';1ma regra ~eral,
du droit, Cours de droit, fase, 3 e 4. que pode ser questionada IY\ uma formação capitalista determmada.

206 207
ejeito de isolamento, efeito este que se manifesta por outro lado DO I) Ideológico, e do papel de coesão que lhe cabe a partir deste iso-
Impacto do nível jurídico político sobre as relações sociais econômi- I m nto, o qual constitui em grande parte - pois o nível jurídico-
cas.. ~ste. ef~ito d~ isolamen.to é, nos seus diversos aspectos, uma
A
político desempenha aí um papel -, o seu próprio efeito. O papel
condição indispensável de existência e de funcionamento do M.P.C. p 1tico da ideologia dominante burguesa, dominada pela região ju-
e de uma formação capitalista. :É o próprio sentido das análises de Idlco-política, consiste no fato de tentar impor, ao conjunto da so-
Marx relativ~s ao fetichismo capitalista, distinto do simples fetichis- dade, um "modo de vida" através do qual o Estado será vivido
mo mercantil, no M.P.C. "puro". Os fenômenos apreendidos sob mo representante do "interesse geral" da sociedade, como detentor
o termo do fetichismo, assim como a generalização das trocas, a con- n haves do universal, face a "indivíduos privados". Estes, criação
corrência, etc., supõem precisamente, como condição de possibili- Ideologia dominante, são apresentados como unificados através
da~e, esse efeito part~cular de isolamento que remonta à ideologia: uma "igual" e "livre" participação na comunidade "nacional"
efeito que ~arx considera de uma maneira descritiva, por oposição b a égide das classes dominantes, que são consideradas como
ao que designa como "laços naturais" das formações sociais pré- 11 amando a "vontade popular".
capitalistas. om efeito, um dos caracteres particulares da ideologia bur-
Ora, constatamos que esse efeito de isolamento constitui no u sa dominante consiste no fato de esconder, de uma maneira abso-
caso do capitalismo, o produto privilegiado da ideologia jurídico- utumente específica, a exploração de classe, na medida em que
-política, em particular da ideologia jurídica. Podemos dizer que, qualquer traço da dominação de classe está sistematicamente ausente
Ia sua linguagem própria. :É verdade que, em virtude do seu próprio
se. o ~agrado ~ a religião ligam, a ideologia jurídico-política, em um
tutut , nenhuma ideologia se apresenta como ideologia de domi-
pnmeiro movimento, separa, desliga, no sentido em que Marx nos
1111' o de classe. No entanto, no caso das ideologias "pré-capita-
diz que ela "liberta", os agentes dos "laços naturais". Trata-se,
11til ", funcionamento de classe encontra-se sempre presente nos
entre outras coisas, da constituição dos "indivíduos-pessoas" políti-
LI principios, sendo embora justificado como "natural" ou "sa-
cos, dos "sujeitos do direito" "livres", "iguais" entre si, etc., que
udo", J;: o caso típico da ideologia religiosa feudal, onde a "dife-
tornam possíveis o funcionamento das estruturas jurídico-políticas,
I 11 'li" intrc os "homens" está presente na sua estrutura, sendo em-
as quais permitem o contrato de trabalho - compra e venda da 01'1I [usüflcada segundo o modelo do "sagrado".26 O mesmo se
força de trabalho -, a propriedade privada capitalista (o papel des-
I 11 nu ideologia moral ou filosófica das formações sociais escra-
sa ideologia como condição de possibilidade da relação jurídica de
11 11M, onde essa diferença é justificada segundo o modelo do "na-
propriedade é particularmente importante), a generalização das tro-
1111111". Podemos dizer, em contrapartida, que a dominância da re-
cas, a concorrência, etc. Paralelamente, constatamos de igual modo li [ur dlco-política na ideologia dominante burguesa corresponde
que esse efeito de isolamento, sob as suas diversas formas na reali- 11 l' umcnt a essa dissimulação particular da dominação de classe.
dade econômica, e pelos seus efeitos inversos sobre o ideológico, I 11 li ológíca esta que se encontra assim absolutamente indicada
constitui a própria base da dissimulação, aos agentes, das estruturas
I 11 11·11 r este papel, se tivermos em conta, por outro lado,
verdadeiras do econômico, da sua dominância no M.P.C., das es-
" 111 1111lloga da dominação de classe nas instituições do Es-
truturas de classes, etc. Trata-se do próprio sentido das análises de
,1111' til no direito moderno. O impacto desta região sobre
Marx relativas ao fetichismo, ao papel da concorrência nas relações
do ideológico, e, além disso, o papel político da
de classe, ao impacto da ideologia na economia "política" clássica, etc.
11 dominante, consiste assim, não somente em jus-
No entanto, não reside aí senão um aspecto da função da ideo- 11 c nômicos diretos das classes dominantes, mas
logia na formação capitalista: tanto assim que, por um lado, ela "por, compor ou impor a representação de uma
detém igualmente o papel de coesão e de ligação que cabe à ideo- "Indivíduos privados", "idênticos", "diferentes" e
logia em geral, e, por outro lado, esse papel da ideologia ao nível
dos agentes é aqui particularmente importante. Isso é devido, em JOIll ttr ilto, ('nll"tltuição das classes como "estado-castas" deve
primeiro lugar, à autonomia específica que as instâncias revestem I' r 111('OIl/uln "ll/lullll'IHJ(l/lrIonte à dominância do ideológico e à domi-
em um M.P.C. e em uma formação capitalista, o que se reflete em n 111,nu Id(\ol()ltln, du I'(\ltiilo da ideologia religiosa. Sobre este assun-
,llsHlm 01110 ohru o IIHHunto da "dessacralizaçâo" do político no "Es-
uma autonomia específica das práticas econômica, política e ideoló- do mod mo", v I' lto Hulandier, Anthropologie poliiique, 1967, p. 103
gica. Esta importância resulta igualmente do efeito de isolamento Ioga. 191 e sega.

208 209
\ (
"isolados", unificados na universalidade política do Estado-Nação: I du ideologia encontra-se igualmente presente no
reconheceremos aí, por exemplo, o teor político das ideologias da II I r to desse espaço particular do Estado capitalis-
"sociedade de massa", da "sociedade de consumo", etc. É precisa- fia polftl a, e que é o lugar da representação política
mente através desta dissimulação específica da dominação de classe ntcmente considerado por Marx, Engels e Lenin
que a ideologia jurídico-política preenche o papel particular de ntativo moderno: apresentação do Parlamento
coesão, que cabe ao ideológico no M.P.C. e em uma formação ca- 'r.lt"••• nl nt " da vontade popular, dos partidos como "re-
pitalista. Em suma, tudo se passa aqui como, se. a região da ideol~- ItrI••• II'. plnião pública, etc. A ideologia intervém aqui
gia, que é a melhor colocada para ocultar o índice real de determi- nto do Estado, a fim de cobrir os atores de classe
nação e de dominância da estrutura, seja também a melhor colocada d r presentação graças ao qual se poderão inserir
para cimentar a coesão das relações sociais, reconstituindo a unidade InlltltlulçOoN do stado-popular-de-classe, e sob a capa do qual
em um plano imaginário. •• •• Irlll It r os Inevitáveis desvios, no quadro do Estado capita-
r prcsentação destes atores e as classes que eles re-
t papel da ideologia é posto em vigor pelas análises
Esta dissimulação específica da dominação de classe, conjugada d t rnuturldade relativas às relações entre os partidos e as
com o papel particular da coesão que cabe à ideologia burguesa, 11 Indu as relações entre o Estado e as classes dotadas de
sob a dominância da região jurídico-política da ideologia, reflete-se UII' o pnrtlcular no Estado capitalista que são as "classes-
precisamente na estreita relação entre a ideologia e o Estado capi- dlstlntas das classes dominantes: papel da ideologia no
talista. Trata-se aqui daquilo que Gramsci designava por funç~o lu poder da pequena-burguesia, do campesinato par-
"ético-política" do Estado, e que constatamos na tomada das re-
deas do ensino, na regimentação pelo Estado capitalista do domínio
da "cultura" em geral. O papel, em particular, do Estado capitalista
em relação à ideologia apresenta-se como papel de "organização": 11 ologius jurídico-políticas burguesas ocultam portanto o
isso nada mais é que o resultado do investimento do papel próprio 1111 lido político de classe de uma maneira particular. Isto
de unidade, que cabe ao Estado capitalista, no discurso da ideologia 1\ li 11111 característica absolutamente notável: essa ocultação
dominante, discurso esse desenvolvido a partir do papel particular 111 Jl lu fato dessas ideologias se apresentarem explicitamente
da ideologia burguesa dominante. 'I 11 ·111, Ao contrário de análises superficiais sobre este as-
Assim, a eficácia específica dessa ideologia encontra-se cons- pod \1II0S ver que, de fato, o tema do "fim das ideologias" -
tantemente presente no funcionamento do próprio Estado capitalis- 11 11111111 é o terreno teórico de qualquer ideologia seme-
ta. Consideremos o caso da burocracia do aparelho de Estado, sem 111 I 10 torna-se claro na constituição das categorias políticas
contudo nos anteciparmos em relação ao problema próprio da bur- 1IIIIno JI/lbI/ctl e do consenso: estas referem-se à maneira par-
guesia que em seguida nos ocupará. Nas suas obras da maturidade, I 11I I 11 classes dominadas aceitam estas ideologias. Com
nomeadamente no 18 Brumârio, Marx assinala esse papel da ideo- I I( r spccífico dessas ideologias não é de modo algum,
logia no aparelho burocrático moderno. Este apresenta-se não dire- 11I 'I p usava, provocar um "consentimento" mais ou me-
tamente como um aparelho de dominação de classe, mas como a II '1IINHes dominadas em relação à dominação política:
"unidade", o princípio de organização e a encarnação do "interesse
111 .nrn 'I rístlca geral de toda a ideologia dominante. O
geral" da sociedade, o que, aliás, tem incidências capitais no fun-
I 11'1 11 nfol ldcologias em questão, é que elas não visam ser
cionamento concreto do aparelho burocrático: ocultação permanente
'11111 (I ,111 .lusscs dominadas à maneira da participação no
do saber no seio desse aparelho por intermédio de regras hierárquicas
e formais de competência, o que só se torna possível pelo apareci- 111 npr sentam explicitamente, e são recebidas, como
mento da ideologia jurídico-política burguesa. A "racionalidade for- I ntíf ·'HI. ,com efeito, nas formações capitalistas que
mal" do aparelho burocrático não é, com efeito, possível senão na
medida em que a dominação política de classe aí se encontra parti- nU,lu 'til podemos conservar as relações, estabelecidas por
"I'/tC'lollnlldade" burocrática e o tipo de autoridade "ra-
cularmente ausente, sendo reforçada pela ideologia da organização. 27 li I ncl Hobl·Oo "interesse geral" da nação.

210 211
ob que forma, presente. Podemos, aliás, situar clara-
aparece a categoria política de opmiao pública 28 e a categoria apa- m linha as ideologias atuais da "sociedade de massa",
rentada de consenso - das quais os primeiros a falar foram os d comunicação", etc., que criaram o mito ideológico
fisiocratas: elas se encontram ligadas à conceitualização, no discurso li id ologias" - sendo o termo de ideologia tomado por
da ideologia dominante, da autonomia relativa do político e do eco- ntld de "utopia". Na realidade, a ideologia burguesa apre-
nômico em uma formação capitalista. Elas reportam-se assim a toda mpre, no seu funcionamento político, como técnica cien-
uma revolução teórica relativa ao conceito do político que, até aí, , I il ulndo a este termo um sentido: saber, designando um
se mantinha fiel à tradição da ética aristotélica. 29 li 11nt a que chamou utopia.

A cesura, aparecida em Maquiavel e Th. More, prolonga-se


fun 'I O particular da ideologia burguesa, dominada pela re-
na corrente que constitui a política segundo o modelo das episteme
li 11 o-política, pode, aliás, justificar o que foi impropria-
apodíticas, manifesto no conceito de opinião pública. Este, reco- li I nado como o seu caráter "totalitário". De fato, a ciência
brindo o campo do propriamente político - do público na sua dis- li mod rna empregou este termo para designar as ideologias
tinção do privado -, indica, através das suas evoluções, a neces- luais, na sua oposição com as ideologias políticas "libe-
sidade de um "conhecimento racional" das leis de funcionamento ideologias políticas totalitárias seriam assim caracteriza-
da ordem política, ordem "artificial" segundo Hobbes, da parte dos prlm iro lugar, pelo fato de destruírem as barreiras entre
"cidadãos". Trata-se do conhecimento das condições da sua "prá- luo Estado admitidas pela ideologia liberal, ao preconi-
tica" - techne - específica que passa, então, a ser prática ~!O- ntralização diretiva "total" do indivíduo no Estado; em
priamente política. A ideologia política, sob a forma de opinião 11 h lu ur, pelo fato de atualmente invadirem todos os níveis
pública, apresenta-se como um corpo de regras práticas, co~o ~m p t 'IUI sociais, ao contrário da ideologia liberal que compor-
conhecimento técnico, como "consciência iluminada" dos cidadãos , li R io os seus próprios limites: por exemplo, reconhecendo

de uma prática específica, e como "Razão" dessa prática. Concep- 'li 'lu lhe são exteriores - o econômico -, insistindo na
ção subjacente a toda a série de liberdades políticas relativas à liber-
Ir I V nç O do Estado no econômico e no ideológico.
mOR de voltar à crítica destas teorias do totalitarismo, na
dade de opinião, à liberdade de imprensa, etc. A opinião pública,
m 'lu dizem igualmente respeito ao atual funcionamento
fator necessário ao funcionamento do Estado capitalista e forma
() npitalista. 31 Notemos, por agora, que estas teorias apre-
moderna do consentimento político - do consenso -, só pode, ul uma forma ideológica, certos problemas reais colocados
de fato, funcionar na medida em que consegue apresentar-se - e lI lu iu política burguesa: estes relacionam-se, contudo, à
ser aceita - à maneira do técnico científico "racional", na medida 11 pnrtl .ular das ideologias em uma formação capitalista, em
em que se constitui, nos seus principios, contra o que designa, atri- 1I ti 0(10 a ideologia política liberal constituir uma exceção.
buindo-lhe um lugar, como utopia. 30 A utopia é para ela, neste
sentido, toda a representação em que a luta das classes se encontra, função particular de isolamento e de coesão da ideolo-
I ti 11 burguesa conduz a uma contradição interna absoluta-
28. Ver, sobre este assunto, J. Habernas, Strukturwandel der õffentli- I v I, que foi por vezes tematizada, nas teorias do con-
chkeit, 1965, p. 65 e segs. I I, ntrnvés da distinção e da relação entre o pacto de as-
29. Em particular no que diz respeito ao conceito do político e da po- ""I o pacto de dominação política. Esta ideologia ins-
lítica na tradição da filosofia grega, ver F. Chatelet, Platon, 1966; li nnl! na qualidade de indivíduos-sujeitos, livres e iguais,
J-P. Vernant, Mythe et pensée chez les Grece, 1966.
prc: nta, de algum modo, no estado pré-social, determi-
30. A relação entre este funcionamento da opinião pública e a ideo- 1111 isolamento específico sobre as relações sociais.
logia específica em que a dominação de classe se encontra presente '111, qu f i designado como "individualismo burguês", é
pela sua ausência, é deste modo descrita por Habernas: "O interesse
de classe é o fundamento da opinião pública. Esse interesse deve, con- 111 111 xmhccido. O que importa assinalar é o reverso, ou
tudo corresponder durante uma certa fase, ao interesse geral no sen-
tido " de que esta opinião deve poder valer como " pu'bl' ica-;
" como me- til nt«, p. 286, onde indico a bibliografia relativa ao "tota-
diatizada pela argumentação em público e, assim, como racional:', ~p,
cit., p. 100. Ver igualmente, sobre este assunto, J. Touchard, Histoire
des idén politiques, 1967, t. I.
213
212
talvez a anverso, da medalha. Esses indivíduos-pessoas, assim indi- Instância política na econômico ou na ideológico. É a que,
li 1
vidualizadas, parecem poder, em um mesma movimento teórica, ser r I, se descreve, dizendo que essa ideologia não reconhece
unificados e ceder à sua existência social, somente por intermédio UII IUIll ntulmente senão um única plana de existência, a plano po-
da sua existência política na Estada. Resultada: essa liberdade da I I o, (lIO ela estende a domínio da política ao conjunto da vida
indivíduo privada parece, de repente, dissipar-se perante a autoridade I UIIll11U, que ela considera que todo a pensamento e toda a ação
da Estada que encarna a vontade geral. Podemos realmente dizer I 1 uma significação política e que estes caem, par conseqüência,
que, para a ideologia política burguesa, não pode existir nenhum 1\ rbltu da ação política.
limite de direito e de princípio à atividade e às invasões do Estado
na chamada esfera do individual-privada. Esta esfera parece, afinal,
não ter outra função senão a de constituir um ponto de referência,
que é exato, por um lado, é que a ideologia política bur-
que é também um ponto de fuga, à onipresença e à onisciência da , região dominante da ideal agia dominante, não reconhece mun-
instância política, Tanta assim que Hobbes aparece cama a ver- teriores de direito às intervenções - a distinguir do lugar de
dade antecipada das teorias da contrato social e, no fim de cantas, n tltulção - da político: a que, mutatis mutandis, não era abso-
Hegel cama a seu ponto de chegada - senda, sem dúvida, com- uun ntc o caso para a ideologia filosófica e moral escravagista e
plexa a seu casa, mas todos as casas teóricas o são. Lembremo-nos rn 1 ideologia religiosa feudal. Basta assinalar aqui a preconiza-
da casa característica de Rousseau, para quem "a homem deve ser I intervenções do Estado no econômico, não simplesmente nas
a mais independente passível de todos as outros homens, e a mais
I ' pç es dos técnicos da revolução francesa, mas também na dos
dependente possível da Estada". O casa é ainda mais claro no
exemplo clássica das fisiocratas, partidárias fanáticos da não-inter- 1 os liberais clássicos, de Locke aos utilitaristas - o que, evi-
venção na econômico e igualmente fanáticas da autoritarismo polí- I t m nte, é necessário distinguir do funcionamento real do Es-
tica, a qual precisamente implica na monarca absoluto encarnando do, .Jste aspecto da ideologia jurídico-política burguesa, diz, de
a interesse e a vontade geral. Tudo isto é, aliás, igualmente carac- h r spcito ao papel particular de fator de unidade que, cabe ~o
I

terística da ideologia política liberal: 32 nada mais exemplar a este f Indo capitalista, papel aqui investido no discurso da ideologia
respeita que a influência claríssima, e quantas vezes desconhecida, lomlnnntc.
de Hobbesem Locke, na corrente clássica do liberalismo político
inglês que é o "utilitarismo", em Bentham, Mill e, sobretudo, Stuart contrapartida, se é verdade, assim, que o discurso da ideo-
111
Mil!.
I! 11 burguesa penetra e invade todas as atividades
11rídíco-política
Em suma, para empregar dois termos igualmente ideológicos,
111 inclusive a atividade econômica, não é exata considerar este
o individualismo da ideologia política burguesa marcha ao lado de, e
( 11 'U ximo especificando esta ideologia: este traço é, de fato, válido
só tem par em, seu totalitarismo. 33 Trata-se da contradição própria
I toda a região dominante de uma ideologia dominante, Por
da próprio tipo de ideologia política burguesa - e não de uma
1 pio, a atividade econômica é, aqui, tão invadida pela ideologia
destas formas, a atual -, e que decorre da caráter particular da
sua função. Tudo se passa, com efeito, como se essa ideologia ju- 'o-política quanto o era pelo discurso filosófico e moral nas
rídico-política, que instaura a isolamento específico que é a indivi- rnemncoes escravagistas, ou pelo discurso religioso nas formações
dualização, tivesse assumido, ao mesma tempo, as meias de uma nl,
coesão específica, graças ao papel que atribui à instância política.

B - A ídeología jurídica-política burguesa não comporta, na 011 luindo: o conceito de hegemonia, aplicado à dominação
sua própria estrutura, limites de princípio e de direito às interven- 11" hegemônica de classe das formações capitalistas, conota
• O
11 .nracterístícas específicas mencionadas da ideologia capita-
32. Neste sentido, a obra capital de C. B. Macpherson, The Political lnmlnnntc, por meio da qual uma classe ou fração consegue
'I'heoru of possessive individualism, 1964. ntur fi como encarnando o interesse geral do povo-nação, e
33. Apesar da sua linha teórica geral e das suas conclusões bastante
discutíveis, ver neste sentido J. L. Talmon, Les Origines de la démo- '''IUJII~ItIl'J1r,por isso mesmo, uma aceitação política específica da
craiie totalitaire, 1966. 1111111111' o por parte das classes dominadas.

214 215
V. o Problema da Legitimidade t m político será especificado como "a distribuição autoritária dos
I r s para o conjunto social", e o estudo do político será o dos
Estas considerações sobre as ideologias constituem o preâmb~lo r c sos de legitimação das relações de um sistema social. 36
indispensável à questão da legitimidade de um sistema político, ques- Não tenciono detalhar as conseqüências que daí decorrem: li-
tão capital para a ciência política moderna. Podemos, com efeito, to-rne a indicar as mais importantes que coincidem, aliás, fre-
designar por legitimidade das estruturas e instituições políticas a sua ntemente, com as da concepção historicista das ideologias:
relação com a ideologia dominante em uma [ormação: em parti- a) Superestimação do ideológico, ou mesmo da função pró-
cular, a legitimidade recobre o impacto especificamente politico da Ia da legitimidade: no caso concreto, a defasagem entre as estru-
ideologia dominante. lu s políticas e a ideologia dominante não pode receber estatuto
ntíüco, mas é compreendida sob a categoria, que, com toda a
Isto tem a sua importância, se nos reportarmos ao sentido que V d ncia, não tem sentido algum no contexto teórico do funciona-
a ciência política moderna atribui a esta noção. A legitimidade - I mo, de disfuncionalidade. 37 No entanto, essa defasagem, isto é,
ou a "cultura política" - indica, para ela, regra geral, o modo possibilidade de funcionamento de estruturas políticas ilegítimas,
segundo o qual as estruturas políticas são aceitas pelos agentes de de ser perfeitamente explicada pela teoria marxista que é a de
um sistema. Esta noção, após Weber, foi contudo inserida na pro- unidade a níveis defasados até ao ponto de ruptura. É que,
blemática funcionalista, a qual, presa à concepção do sujeito histó- I' r um lado, essa defasagem entre o ideológico e o político não re-
rico, descobre na linguagem ideológica de uma formação os obje- ti I necessariamente uma defasagem entre o político e o econômico
tivos ou finalidades da prática dos atores sociais. Neste contexto, nu, na sua complexidade, uma situação de ruptura do conjunto da
o que se indica como ideológico, isto é, os valores, símbolos, estilos mação: por outro lado, em virtude do aparelho de força e de
predominantes de uma formação, assume o sentido e a função teó- pressão do Estado.
rica da instância central de um sistema social; reconhece-se aí a b) Esta concepção tem como conseqüência uma tipologia das
concepção do culturalismo antropológico. Os modelos norma tivos truturas políticas baseada principalmente nos tipos de legitimidade,
políticos constituirão o quadro de integração, que especifica a forma uma tipologia não-operatória desses tipos: este foi o caso dos tipos
expressiva e circular de relações entre os elementos de um sistema, li utoridade de Weber.
na acepção funcionalista do termo. A legitimidade das estruturas
c) Ela conduz a uma impossibilidade de pensar, de uma ma-
políticas significará assim a sua inserção na funcionalidade do siste- 1\ Ir rigorosa, a coexistência, em uma formação, de vários tipos
ma regida pelos fins, objetivos e valores sociais; ela indicará a acei- I 1 gitimidade e a participação das estruturas institucionais concre-
tação destes por parte dos atores integrados, por meio dessa acei- I m vários tipos semelhantes.
tação, em um conjunto social. 34 No caso em que as estruturas po-
líticas não coincidem com os modelos normativos de uma sociedade, Dito isto, resta dizer que a diferenciação das estruturas e ins-
aquelas serão apreendidas segundo o modelo de disfuncionalidade titui cs políticas segundo os tipos de legitimidade é posta em evi-
de um conjunto mal-integrado, o que especificaria a sua legitimi- n ia pela teoria marxista, se nos referirmos às relações entre o
dade. 35 Se nos referirmos, agora, à concepção funcionalista geral I lítíco e a ideologia dominante. É, efetivamente, exato que a do-
do sistema político, como fator central de um sistema social, o sis- minação política encontra, regra geral, um modo particular de acei-
tu o c de consentimento da parte da unidade de uma formação,
incluslve da parte das classes dominadas, o que é posto bem em
34. Ver, entre outros, G. Almond e S. Verba, The Civic Culture,
1963, pp. 3-78, onde a legitimidade é definida como "orientação da ação
política"; e também, a introdução da obra importante de Almond e lU. Hobrctudo D. Easton nas suas importantíssimas obras já assina-
Coleman, The Poli6cs of Developing Areas, 1960, pp. 3-66; Mitchell, I cI : A Framework for Political Analysis, 1965, e A Systems Ana-
The Amm-ican Polity, 1962; Shils, Political Development in New Sia- 1/111111 /11 l'olitical úife, 1965. Indiquei, além disso a relação, em Weber,
tes, 1962 e Touiards a General Theory of Action, 1951; Kautsky, Po- "tr- 011 onceitos de autoridade e legitimidade.
litical Chançe in Underdeveloped Countries, 1962, etc.
, Blndcr, por exemplo, que está bastante consciente dessas difi-
35. Por exemplo, L. Binder,
no seu importante estudo: Iran: Politi- 111.1.h", Introduzirá paralelamente à noção de legitimidade, a de efi-
cal Deuelopment. in a changing Society, 1962, p. 7 e segs. ••• 1•• IIU d cfctividade das estruturas políticas.

216 217
evidência pelas relações assinaladas entre a ideologia dominante e a Podemos assim ver que, do mesmo modo que as estruturas do
unidade de uma formação. Isso não quer dizer, como é evidente, do de uma formação concreta apresentam, sob a dominância de
que aquelas classes estejam, de algum modo, integradas nesta for- I tipo de Estado, estruturas dependentes de outros tipos, essas
mação - ausência de luta de classe -: este fato relaciona-se ao truturas participam freqüentemente, sob a dominância de um tipo
próprio estatuto do ideológico e à forma complexa de dominação, I I gitimidade, em tipos de legitimidade diferentes: 39 na ocorrên-
em uma formação, dos subconjuntos ideológicos pela ideologia do- m ideologias dominantes anteriores, correspondentes a classes
minante. já não são as classes politicamente dominantes. Sabe-se, por
Sabemos que a dominância desta ideologia se manifesta no fato mplo, que a legitimidade feudal caracterizou freqüentemente não
~~s classes dominadas ~iverem as suas condições de existência po- nte, o que é simples, estruturas feudais coexistentes nos Estados
lítica ?as formas de discurso político dominante: o que significa ipltulistas, mas mesmo estruturas típicas desses Estados: é o caso
que VIvem, freqüentemente, a sua própria revolta contra o sistema xecutivo moderno que participou freqüentemente na legitimidade
de dominação no quadro referencial da legitimidade dominante. Es- n rquica. Apercebemo-nos de que a relação da coexistência, em
tas ob.servações podem ter um grande alcance, porquanto não indi- stado concreto, entre estruturas dependentes de vários tipos,
cam SImplesmente a possibilidade de uma ausência de "consciência legitimidades dependentes de vários tipos, origina toda uma
de classe" por parte das classes dominadas; elas implicam em que 1 complexa de combinação das suas relações. Finalmente, será
a ideologia política "própria" destas classes seja, freqüentemente, ssário não subestimar a existência, a propósito de um Estado
decalcada do discurso da legitimidade dominante. Essa dominância pltuLista concreto, de legitimidade que dependem principalmente
da ideologia dominante pode apresentar-se sob várias formas: 39 ideologias particulares de classes tais como a pequena burguesia
freqüent~mente, não ,se .manifest~ pelo simples fato de impor às elas- I o campesinato parcelar.
s~s donunada.s o propno conteúdo do seu discurso, mas por este Não há dúvida que a análise poderia ser mais desenvolvida.
discurso dominante se apresentar para estas últimas como uma re- No ntanto, as observações precedentes sobre as ideologias políticas
f~rência de oposição, como um ausente que, no entanto, define a bur uesas, correspondentes a uma dominação de direção hegemô-
diferença entre a sua ideologia e a ideologia dominante. Por exem- I I de classe, bastam para apreender aquilo que se pode designar
plo, a atitude das classes dominadas em relação à "democracia po- mo o tipo burguês de legitimidade, característico do M.P .C. e de
lítica" é freqüentemente a de reivindicação oposta de "outras formas 1\ formação dominada por este modo. Voltarei somente à questão
d.e democra~i~ I?oIítica". ~sto continua a ser uma maneira de parti- distinção das diversas formas de legitimidade deste tipo, segundo
CIpar na legitimidade dominante que, neste caso, é precisamente do- formas do tipo capitalista de Estado.
mmante por constituir o modelo reierenciai da oposição contra ela.
O~ ain?a, a oposição manifesta-se, às vezes, por uma simples ma-
netra diferente de comportamento em relação aos sinais e símbolos
impostos pela legitimidade dominante. Deste modo, em nada SUf-
preend.e cons~at?r, P?r vezes, na classe operária, não uma ideologia
reformista clássica simplesmente, que aceita francamente a legitimi-
dade dominante, mas mesmo uma coexistência de uma ideologia
revolucionária fortemente articulada e de uma ideologia submetida
aos quadros fundamentais da legitimidade dominante. É, aliás, inú-
til insistir no fato de, mesmo quando a ideologia revolucionária da
classe operária se estende às classes que constituem, por vezes, I. Hohr ate assunto, ver também M. Duverger, Institutíons politiques,
111M, )I. 112 segs. Por outro lado, a defasagem entre um tipo de Esta-
apoios do Estado, que são, por exemplo, as classes da pequena du I 1\ hlldtimidade dominante em uma formação - correspondendo a
produção, ela não é recebida senão em uma relação complexa com "11"\ polítícas diferentes - é particularmente evidente no caso dos
a ideologia dominante. I 11\ vlus de descolonização e desenvolvimento - na África por exem-
I nu!!" a instauração de Estados "modernos" é constantemente do-
38. Basta assinalar aqui as conhecidas obras de Bourdieu, as quais, le- I \)(H' ld ologias tradicionais: sobre este assunto, entre outros, D.
vando em conta as reservas que indique a propósito da sua concepção I '/1111 Politice 01 Modernieation, 1955, e R. Balandier, L'Anthro-
das classes sociais, são de uma importância capital. '"/11 /lIllillttt>te, 1967, p. 186 e segs.

218 219
3. O ESTADO CAPITALISTA E A FORÇA
t , permite o funcionamento da repressão física organizada. O
fr qüentemente se designa como Estado policial e que indica a
particularmente intensa, em certas conjunturas, das instituições
O lugar e a função particulares do Estado capitalista permite, p ivas, não constitui, de fato, um tipo de dominação distinto
igualmente, determinar o funcionamento da "força", da "repressão" tipo que corresponde à dominação hegemônica de classe: no
ou da "violência" no quadro deste Estado. Com efeito, não pode- m que essa ação aparece neste quadro, relaciona-se ao seu
mos, de modo algum, reduzir o Estado a um mero aparelho ou ins- U/l lonamento historicamente determinado.
trumento de força nas mãos da classe dominante. Este elemento de ssas observações de Gramsci remontam, além disso, a uma
força aparece como um caráter geral do funcionamento do Estado I tuação conceitual freqüente nas suas análises. A hegemonia não
de classe. É contudo inútil insistir no fato das instituições de domi- n tltui um conceito, mesmo no estado prático, localizando um
nação de classe, longe de derivarem de qualquer relação de força, J 10 teórico específico, na sua unidade, nem sequer um tipo de
de concepção psíco-social, serem as que atribuem a esta força de mlnação política de classe; serve-lhe, antes, para isolar o "mo-
repressão o seu funcionamento concreto em uma formação deter- nt " de consentimento da "direção intelectual e moral" e da "or-
minada. nlzação", do momento da "força" e da "coerção", noções que, em
Ora, o que se deve entender por força de repressão, noção bas- umscí, permanecem sempre vagas e imprecisas. A relação entre
tante vaga, tal como, inclusive, a noção de violência e que só pode I 11 dois "momentos" é apreendida sob o termo significativo de
ser útil desde que a especifiquemos? Ela indica, de fato, o funciona- • mpiementaridade. Donde resulta uma confusão, freqüente em
mento de certas instituições de repressão física organizada, tais como nmsci, entre os lugares onde se exercia a hegemonia: a força se-
o exército, a policia, o sistema penitenciário, etc. Socialmente orga- xcrcida pelo Estado na "sociedade política", a hegemonia na
nizada, essa repressão constitui uma das características de toda a li o i dade civil" por meio de organizações habitualmente conside-
relação de poder. A noção de força não pode assim nem ser teori- dus como "privadas" - a Igreja, as instituições culturais, etc. Ora,
camente isolada das relações de poder - sobre a noção de poderio, tatuto da distinção entre a hegemonia e a força, enquanto reco-
por exemplo 1 -, nem ser alargada de forma a indicar de uma ndo respectivamente os espaços do econômico e do político, de-
maneira geral - sob a noção de violência, por exemplo - os lu- r da concepção historicista da sua relação. É possível decifrar,
gares de dominação e de subordinação que as classes sociais ocupam Il distinção, o modelo segundo o qual a concepção historicista
nas relações de dominação de classe .. ptu as relações entre o econômico e o político, aparecendo aí o
( I tlco - a luta de classes - como o motor - a força - das
'I I conômicas" concebidas de uma forma mecanicista; por outras
Importa, pois, apreender o funcionamento concreto da repres-
são física organizada, no caso do Estado correspondente a uma I I vrus, a política é concebida como o motor do "automatismo"
dominação hegemônica de classe. Gramsci assinalou o problema mômico - automatismo que é aqui indicado pelo "momento de
considerando este funcionamento como um "consentimento encou- n ntimento".
raçado de coerção", vendo na hegemonia - o consentimento na
"direção" do Estado - um "complemento" do Estado-força - tendo De fato, o exame científico do Estado capitalista pode designar
em conta o fato do conceito de hegemonia recobrir abusivamente, lu ar ocupado por este elemento de "força", especificado como
em Gramsci, as estruturas do Estado. Estas observações localizam s O física organizada. A característica, a este respeito, desse
uma questão, mas estão longe de esboçar uma resposta: com efeito, do, é possuir o monopólio da repressão física organizada, e isto
esse "consentimento encouraçado de coerção" é uma característica ontrário de outras formações sociais em que instituições como
geral das relações de poder. Em virtude do lugar do Estado em r [a, o poder senhorial, etc., tinham, paralelamente ao Estado,
uma formação - função ideológica, etc. -, as relações políticas vil gio do seu exercício. A repressão física organizada assume
de dominação apresentam um caráter de legitimidade que, precisa- um caráter propriamente político. Torna-se o apanágio ex-
do poder político, a sua legitimidade passa a participar da
1. Ver p. 96. I••
~tlrnldude do Estado: apresenta-se como uma "violência consti-
IIznda" e é submetida à regulamentação normativa do "Es-
220
221
tado de direito". Neste sentido, o Estado capitalista possui o mo- n ionarncnto deste modo de produção "puro" só parece
nopólio da força legítima, tendo em conta as transformações da le- medida em que a repressão física organizada não é di-
gitimidade. 2 crcida pelos agentes no domínio das relações sociais
Esta concentração da força nas mãos do Estado parece cor- , mas é reservada ao Estado. fi este o sentido principal
responder assim à autonomia das instâncias no M.P.C., à atribuição um m estas análises de Marx sobre o M.P.C. - nomeada-
do caráter de público às instituições políticas do Estado e à atribui- •• usência de violência" no econômico desse modo - e
ção, pelo próprio Estado, do caráter de privado às instituições que muitas vezes se pensou, o sentido de uma não-intervenção
exerciam essa força em outras formações. O exercício da repressão °
11 estatal nas relações sociais de produção desse modo,
física passa a ser legitimado pelo fato de se apresentar como corres- "1'''lullo que aí se encontra, de fato, constantemente presente - e
pondendo ao interesse geral do povo-nação: a legitimidade rela- uu vez, não deve ser confundida com a intervenção ou a
ciona-se, aqui, exclusivamente ao Estado. A organização repressiva v nção do Estado na estrutura das relações de produção.
é .consider~da como estando submetida ao controle da opinião pú- ta característica do Estado capitalista não indica, em si,
blica - vide, por exemplo, a instituição dos tribunais de jurados, duc o qualquer da repressão, mas o fato real, e importante,
etc. -, e não é por acaso que os primeiros tratados teóricos rela- I do, no exercício monopolístico daquela, tentar constante-
tivos à organização da polícia são os que forjam o conceito de "Es- I r sentá-Ia como de conformidade ao interesse geral do
tado de direitov.P Em suma, no que diz respeito ao Estado capi- I.to, na medida em que seria, como, aliás, freqüentemente
talista, a repressão física organizada aparece nele, como dizia Marx, r 'ida nos limites constitucionais e jurídicos, na acepção
no estado "nu", por um lado, na medida em que se encontra despo- do termo.
jada das suas justificações extra-políticas, pelo outro, na medida em
que se encontra inserida nas instituições do Estado-popular-de-
-classe.f
Deste modo, esta detenção pelo Estado capitalista do monopó-
lio legítimo da repressão física organizada aparece ligada à autono-
mia específica das instâncias características de uma formação do-
minada pelo M.P.C., que atribui ao Estado o seu lugar. Ainda
mais: esta característica do Estado capitalista está implícita no pró-
prio funcionamento do modo capitalista de produção tal como Marx
o descreve em O Capital. Digo implícita, visto que esta caracterís-
tica do Estado encontra-se aí igualmente delineada de forma indi-

2. Poder-se-â, assim subscrever perfeitamente a tese de Weber, segun-


do a q,u~l o Estado é ,e~tre outras coisas, caracterizado pela posse do
monopólio da força legitima, com a condição de lhe atribuir como obje-
to o Estado capitalista.
3. Em particular, a obra de R. Mohl, apareci da em 1832 com este títu-
lo de sonho: Polizeiuriesenschaft nach dem Grumdeaeizen de~ Rechtsstaates.
4. Não me alongo mais acerca da relação entre as estruturas políticas
e a força, visto que, na concepção marxista do político, essa relação se
encontra bem realçada. Pareceu-me mais importante atacar a deforma-
ção "soreliana", que vê na força, no sentido vago de violência, o fator
de criação das estruturas políticas. É, contudo, útil assinalar que a
ciência política atual admite, na sua grande maioria, que a caracterís-
tica de repressão física organizada e legítima é um traço constitutivo
das estruturas políticas em geral. (Ver neste sentido, além de M. Weber,
R. Dahl: ModeTn Political Analysis, 1963, p. e segs.; assim como Eas-
ton, Coleman, Apter, Balandier, op. cit p. 32 e segs., 144 e segs., etc.)

222 223
As razões de aparecimento do bloco no poder podem
4. O ESTADO CAPITALISTA E AS CLASSES DOMINANTES 1,", ti lineadas na estrutura do Estado capitalista: esta apresenta
1'11I11 iular o fato de ter como efeito uma coexistência de domi-
111'111política de várias classes e frações de classes. Em termos
li" 10 , o Estado capitalista, através do jogo interno das suas ins-
I. O Bloco no Poder 11I11' ,torna possível, na sua relação com o campo da luta polí-
I 11 11 .lasse, relação esta concebida como fixação de limites, a
• I tulcão do bloco no poder.
O Estado capitalista apresenta igualmente, em virtude da sua
Mur assinala-o constantemente. Consideremos um exemplo
estrutura específica, e nas suas relações com as classes e frações
111 instituições, o sufrágio universal, instituição típica de um
dominantes, uma particularidade em relação aos outros tipos de
1 10 mancipado em relação ao econômico e que se apresenta
Estado. Trata-se do problema do "bloco no poder": o conceito de
11 ncarnação do interesse geral do povo: "A monarquia bur-
hegemonia poderá ser útil aqui a fim de estudar o funcionamento das
I Louis Filipe só poderá suceder a república burguesa. Isto
práticas políticas das classes ou frações dominantes no bloco no
Ilz r que, enquanto que, sob a monarquia, era uma parte
poder, e a fim de situar as relações entre o Estado e este bloco.
, tt« da burguesia que reinava em nome do rei, será, doravante,
Constata-se, efetivamente, no caso deste tipo de Estado, uma "Jllnto da burguesia que irá reinar em nome do povo". 1 O su-
relação específica entre as classes ou frações a cujos interesses po- universal apresenta-se, em Marx, como uma instituição que
líticos este Estado responde. Isto permite precisamente situar as 1\ 11relação do Estado capitalista com a coexistência particular
relações entre as formas de Estado desse tipo e a configuração tí- I mlnução de várias classes e frações de classes dominantes:
pica que esta relação apresenta entre classes e frações dominantes n icssário que. .. a República sobre a base do sufrágio uni-
em um estágio de uma formação capitalista. I, .. concluisse, em primeiro lugar, a dominação da burguesia,
Em primeiro lugar, devemos ainda recordar-nos que a linha 1\10 ntrar, ao lado da aristocracia financeira, todas as classes
uldorus na esfera do poder político. A maioria dos grandes
de demarcação política de dominação-subordinação não pode ser
1I Ilrios fundiários. .. foram retirados do nada político a que
traçada, como o desejaria uma concepção instrumentalista e histori- 1\1I1'tIUi<1de Julho os tinha condenado't.f Se a função do su-
cista do Estado, segundo a perspectiva de uma luta "dualista" das I universal é também, segundo Marx, circunscrever um espaço
classes - dominantes/dominada -, isto é, a partir de uma relação II1 11111" que ele designa como cena, esfera ou órbita política ~
entre o Estado e uma classe dominante. Sabemos que uma formação 111uludo-sc a presença de uma classe nesta cena da sua partíci-
social é constituída por uma superposição de vários modos de pro- no bloco no poder -, não é menos verdade que o sufrágio
dução, implicando assim a coexistência, no campo da luta de classe, ""IValrlllll constantemente pensado, paralelamente, como localizan-
de várias classes e frações de classe, portanto, eventualmente, de 111\ r II 'fio particular entre, por um lado, o Estado, por outro,
várias classes e frações dominantes. 11' 11 xistentes entre várias classes ou frações no poder. Re-
Todavia, esta característica não basta para explicar o fenômeno 111que Marx considera freqüentemente sob a expressão de
do bloco no poder, que parece realmente ser um fenômeno parti- 1111'( o" no poder político ou de "posse" deste poder, distin-
cular das formações capitalistas. Com efeito, se essa coexistência 11 im este tipo de Estado daquele que consagra a "domina-
de várias classes constitui um caráter geral de toda a formação so- 'lu lvn" de uma classe ou fração. Nesse sentido, o sufrágio
cial, ela assume, contudo, formas específicas nas formações capita- UnlY,rlllll xmstitui um exemplo entre muitos, mas que ilustra, de uma
1111'11,
as características do Estado capitalista que permitem
listas. Podemos estabelecer, nestas formações, a relação entre, por
II no do bloco no poder.
um lado, um jogo institucional particular inscrito na estrutura do Es-
tado capitalista, jogo que funciona no sentido de uma unidade espe-
"/'I/II/M/'e, p. 229. Refiro-me aqui à edição Pauvert que apre-
cificamente política do poder de Estado, e, por outro lado, uma con- Lu" cio Luttes des classes en [rance e do 18 Brumaire reuni-
figuração particular das relações entre as classes dominantes: essas I Il citar por Lt. o primeiro texto, por Br. o segundo.
I, relações, na sua relação com o Estado, funcionam no seio de uma
unidade política específica recoberta pelo conceito do bloco no poder.
225
224
II B - Este fenômeno reporta-se assim ao campo das práticas IIta\O,com a classe dos grandes proprietários
políticas das classes dominantes em uma formação capitalista: de- [u Marx abusivamente considera como classe
pende da "pluralidade" característica das classes (e frações) domi- I uro? De fato, as determinações político-ideo-
nantes nesta formação. Isto está dependente, por sua vez, do fato 11lui decisivas. Funcionando como classe distinta
geral da coexistência, em qualquer formação, de vários modos de I r ul ilismo para o capitalismo, ela pertence ao modo
produção e da conseqüente presença de várias classes (e frações). 11111I 1I como este se transforma pelo estabelecimen-
Este fato geral reveste, contudo, nas formações capitalistas de que , &Ido M.P.C.: é o caso da Prússia. Ela pode, igual-
nos ocupamos, um aspecto absolutamente particular e que remonta 111 10, funcionar como fração da nobreza: é o caso
ao estabelecimento específico da dominação do M.P.C. na agricul- UI'I.llIrlllla, 1111, 'ontudo, na seqüência do processo, precisamente
tura: trata-se do problema da grande propriedade de renda [undiária. Illall ,ar(/() da renda [undiâria, essa classe é absorvida
Marx considera por vezes, em O Capital, a grande propriedade
de renda fundiária como classe distinta pertencendo ao M.P.C. "pu-
ro". De fato, esta consideração de Marx indica o lugar de um
I=~"~~rl~!~~~~~~ li '111faz parte, sob a forma de fração autônoma,
I tI t IIIpO. O eu caráter de fração autônoma depende,
,) d razões político-ideológicas que remontam à sua
problema específico, não sendo exato em sua designação própria. I II 11.cr à nobreza feudal; b) de razões econômicas,
Lenin demonstrou perfeitamente que a propriedade fundiária, a pro- " I I dn renda fundiária como modo particular de transfe-
priedade privada da terra, não pertence às relações de combinação I 111luto SII .ial e de repartição da mais-valia. É esta úl-
do M.P.C. "puro": "A hipótese da organização capitalista da agri- I 111 pr .vulcce sempre que, como na França, a grande
cultura implica necessariamente na hipótese de toda a terra ser I IlIlIdiIria f i realizada pela burguesia - expropriação
ocupada por explorações distintas, mas de modo algum implica na ~II que levou Marx a considerar a grande propriedade
hipótese de toda a terra ser propriedade privada desses explorado- 'Ullldl~lrlll 111\11 'IIINS do M.P.C. puro foi, por um lado, esta transi-
res, ou de outras pessoas, ou propriedade privada em geral". 3 ""1'"'141111,op iruda sob a direção política ou ideológica da no-
Não obstante, podemos constatar, no estabelecimento do M.P.C. I 111I 111uesia, por meio da grande propriedade fundiária,
na agricultura sob direção política de classe "nobre" ou "burguesa" 11110,11 iutonornia daquela uma vez absorvida pela burguesia.
do processo, as características seguintes: I IIhIlIllO. Issinalado a importância decisiva da propriedade
a) Esse estabelecimento da dominância do M.P.C. opera-se, I 1111111 irlu, 'Ia e distinta ou fração autônoma, nas forma-
de fato, e por razões principalmente políticas e ideológicas, por meio 111 11111.. bisa importância relaciona-se, pois, ao aspecto
da propriedade privada da terra.
I I 111 11,.umc, na formação capitalista, o fato geral da coexis-
, I" 11,em uma formação, de vários modos de produção:
b) Esse estabelecimento opera-se através da concentração da I 110, "sim, à pluralidade das classes ou frações dorninan-
grande propriedade fundiária. Lenin distingue aqui duas vias. No , I '011111111 11m fator característico do fenômeno do bloco
caso de uma transição do feudalismo para o capitalismo, acima das I, I (111 pluralidade corresponde às estruturas do Estado
diferenças notáveis, a grande propriedade fundiária intervém de al- .:11111.11-1 111 P rmitcm uma "participação" característica no poder,
gum modo no início do processo de capitalização da agricultura: e 11 dominantes dos modos de produção dominados, quer
isto por razões políticas concernentes à classe feudal de propriedade 111'111. sc burguesa cuja autonomia depende da sua relação
fundiária do modo de produção feudal e às suas relações com a modo ,
burguesia. No caso de uma ausência de feudalismo, no sentido es-
trito, prévio, é o "modo americano" que prevalece: °
processo ini- hHII mais: a classe burguesa apresenta-se, no M.P.C.,
cia-se através da média e pequena propriedade independente da ter- IIIIIIIUh,lt, 111 dividida em frações de classe. O problema das Ira-
ra, mal'; conduz igualmente, em seguida, à grande propriedade fun- I 111I ,dc f'ato, bastante complicada em Marx: importa
diária. 4 I I 111 1'1111,Iru .õcs da classe burguesa, tais como as frações
••• 11"","',1"" I lndustrlaí e financeira, não se reportam simplesmente,
3. A questão agrária e os críticos de Marx. II 111111 '1I1l'acontece com as frações de classe de uma for-
4. Proçrama ag1'ário da social-democracia na primeú"a revolução russa 011I111111'ilo .oncreta dos diversos modos de produção, ou
de 1905 a 1907. 1'11111
·"IIII'I'Sda mera instância política. Neste último caso,

226 227
I
os efeitos da instância do político - resultando as classes dos efei- III uma formação dominada pelo M.P.C., da
tos do conjunto das instâncias nas relações sociais - podem pro- fundiária e da burguesia, e de várias frações da
duzir frações de classe no mero campo da prática política de classe. importante como uma das causas do bloco no
Marx nos diz, por exemplo, no 18 Brumârio, a propósito da fração 1I ud das estruturas do Estado capitalista, em virtude
burguesa republicana: "Não era uma fração da burguesia unida por I lu .lusecs e das frações mencionadas, isto é, em vir-
grandes interesses comuns, e separada das outras por condições de I srtlcipução particular na dominação política de várias elas-
produção particulares. Era simplesmente um conventículo de bur- " tlt' classe, constata-se a relação entre esse Estado e a
gueses, escritores, advogados... cuja influência assentava na anti- "11."hl"I~Au I 01 li li dessas classes ou frações em bloco no poder. 9
patia que o país sentia por Louis- Philippe, nas recordações da an-
tiga república. .. e, sobretudo, no nacionalismo francês ... ". 5 I "0 Poder, J-Jegemonia e Periodização de uma Formação:
As frações comercial, industrial e financeira estão relacionadas; " /1."(',1' Políücas de Marx
contudo, com a própria constituição do capital, no processo de re- 'I 11' 110 de bloco no poder, que não é utilizado expressa-
produção alargada, enquanto relação de produção. :É certo que, em M II'X ou Engels, indica assim a unidade contraditória
O Capital, Marx não emprega expressamente o termo da fração para da» class S ou frações de classe politicamente dominantes,
designar o capital comercial, industrial e financeiro. Estes são con- 'u' o cO/U. uma forma particular do Estado capitalista. O
siderados como "formas de existência", mas "separadas", do mesmo I d I' relaciona-se à p_eQodi~aç-ª9da formação capitalista
capital: "A existência do capital, enquanto capital mercadoria (o t picos. 10 Recobre" ã cÔllf@iração concreta da unidade
capital comercial) ... constitui uma fase do processo de reprodução ou frações em estágios, caracterizados por um modo
do capital industrial, e, portanto, do seu processo total de produ- nrticulação, e por um ritmo próprio de escansão, do
ção. .. trata-se de duas formas de existência separadas, diferentes, 111 tâncias. Neste sentido, o conceito de bloco no poder
do mesmo capital";" O capital comercial, produzindo mais-valia- I 110 nível político, recobre o campo das práticas politi-
-juro, não constitui assim uma forma "autônoma" do capital indus- I I lldu III que este campo concentra em si, e reflete, a arti-
trial, produzindo mais-valia-lucro. Entretanto: "que o capitalista
industrial trabalhe com o seu próprio capital ou capital emprestado,
,,,I"V'lu dI ionjunto das instâncias e dos níveis de luta de classe
I 10 determinado. O conceito de bloco no poder assume
em nada altera o fato da classe dos capitalistas financeiros a ele se 1111'I I) análoga à do conceito de forma de Estado no que
opor como uma categoria particular de capitalistas, o capital finan- lIJl restrutura jurídico-política.
ceiro como uma espécie de capital autônomo e, finalmente, o juro
como forma independente da mais-valia correspondente a este capi- 111ti 11('1'(ve-nos as conseqüências concretas desta situação nos
tal específico". 7 Em uma palavra, esse fracionamento da classe bur- L 111I0 : "Parece que é uma lei do desenvolvimento histórico a
guesa já encontra-se relacionado com o lugar ocupado por essas 1t\Í1~".,,"1 11 11 (I' possível, em nenhum país da Europa, conquistar o
I' 111 IIlu p 10 menos por um tempo bastante prolongado - da
frações no processo de produção; é válido para elas o que também , IJ' uxcl usiva que a aristocracia feudal na Idade Média".
é válido para a grande propriedade fundiária, uma vez tornada li."" IIIrlJlÍ/lO e socialismo científico, Prefácio à edição inglesa,
fração da classe burguesa. "O que dividia entre si estas frações (a 11 Intlll, no prefácio a La Guerre des parysans (1850): "O que
11 hlll'l(U slu de todas as classes que até agora reinaram, é a
grande propriedade fundiária e o capital), não eram pretensos prin- I lei 11 d«, no seu desenvolvimento, haver uma reviravolta a
cípios, eram as suas condições materiais de existência ... , o velho eI 1111111 11 num nto dos seus meios de poderio... não faz senão
antagonismo entre a cidade e o campo, a rivalidade entre o capital Ílllhllllllt 11" I tornar cada vez menos apta à dominação política ...
11 11 IIt 1I\()IY\Onto, ela perde a força de manter exclusivamente a
e a propriedade fundiária". 8
I I ç" pol LI 1\; procura aliados com os quais partilha o poder
I 11 I (I ('I 111 com pletamente, segundo as circunstâncias ... " Vere-
111 nl.o, IIUI' um lado, que este termo de aliança é inadequado
5. Br. 134.
"'ulllu I' VII' (11lHIl particularidade da burguesia (contraindo tam-
6. Capital, 3, II, 280. I r 11I1 I ullança), como Engels muitas vezes constatou, por
I til, 111 trutu precisamente de um bloco no poder no interior
7. Ibid. 3, II, 42. I hlll' 11 IJt li O "partilha", de fato, o poder, nem o "cede com-
8. Br. 256.
It.~n,.ht."
148,

228 229
Esta periodização é conduta distinta da periodização concer- I 'I 11 11 virtude da qual ele é levado a falar freqüentemente
nente ao ritmo específico de escansão do nível político, na medida 11111II "111m 11 icuo xclusiva" ou de um "monopólio do poder"
que esta última se relaciona, particularmente, às coordenadas da , 1111111 111 IIU írução, quando as suas análises demonstram cons-
representação das classes pelos partidos políticos. Esta representação I 111 11I 111 11 lorulnação política de várias classes e frações.
reflete, através de toda uma série de defasagens, os deslocamentos '1111 I I r I11WI os casos da Restauração dos Bourbons, da mo-
das contradições de classes - principal e secundária, aspectos das 1111 11\ t tuclonal de Louis-Philippe, e da República parlamen-
contradições, etc. -, deslocamentos esses situados contudo nos limites 111 111 du de Louis-Philippe ao golpe de Estado bonapartista
do bloco no poder característico .de um estágio. Esta segunda periodi- I I' IIIUI11para Marx - feitas todas as reservas - for-
zação é recoberta, no que diz respeito ao Estado, pelo conceito de I '1IIIIr 11 do Estado capitalista. A Restauração é conside-
forma de regime; no que concerne à luta política de classes, ela é mil 11 "dominação exclusiva" ou o "monopólio do poder"
recoberta por uma série de conceitos indicando as relações partidá- 11 I H proprietários fundiários 12, a monarquia constitucional
rias de classe, situadas no espaço particular que Marx designa, re- 111 urtstocracia financeira. 13 Porém, a propósito desta mo-
gra geral, como cena política ou ação direta das classes. Este espaço n"'Qull", Murx nos diz, em outro lugar, que ela constitui a "domi-
permite precisamente circunscrever a defasagem entre, por um lado, '111 IVIl" ou o "monopólio do poder" de duas frações, si-
o campo de práticas políticas de classe - bloco no poder - em I 11111 111 da burguesia financeira e da burguesia industrial ts
uma forma de Estado, e por outro, a sua representação por partidos I 111. li sua unidade política particular que corresponde à
em uma forma de regime. 11111 xmstltucíonal, considerada aqui como forma de Estado.
Estes problemas foram estudados por Marx e Engels nas suas n.lhrllllll!lIIl1 nlll! ugora sobre a República parlamentar: esta corres-
obras políticas, particularmente por Marx em Lutas de classes na I, 1111111 Iormu de Estado, à unidade particular das frações dos
França e no 18 Brumârio de Louis Bonaparte. Ê certo que, em vir- I 1'10j111 I irios de terras - legitimistas -, da burguesia fi-
tude do período limitado que constitui o objeto destas obras, os II I I hu rguesia industrial: "Eles tinham encontrado na
problemas de periodização e as distinções dos conceitos em que im- I '"1 li NU ... a forma de Estado na qual podiam reinar em
plicam nem sempre são claros. Mas, nem por isso convirá esquecer lU.nUlln . " I : h A República parlamentar era algo mais que o ter-
o caráter particular, que Lenin assinala, do período estudado por 1111 ond ufI duas frações da burguesia francesa, legitimista
Marx; este período apresenta, de maneira concentrada, os estágios I "111. rnndo propriedade fundiária e industrial (frações in-
de transformação da formação capitalista: "Não há dúvida nenhuma II r nun "ira) podiam coexistir uma ao lado da outra, com
de que estão presentes, aí, os traços comuns a toda a evolução mo- dlrlllllll' III1IH. <Ia era a condição indispensável da sua dominação
derna dos Estados capitalistas em geral. Em três anos, de 1848 a tml1LllII, ún] 'a Iorma de Estado na qual o seu interesse geral de
1851, a França mostrou, de forma nítida e condensada na sua rá- o I 11 ubordinar simultaneamente as pretensões destas dife-
pida sucessão, esses mesmos processos de desenvolvimento próprios de todas as outras classes da sociedade". 16
ao conjunto do mundo capitalista". 11 Ê precisamente nesse sentido \11 qu os problemas se colocam. Marx constata de fato a
que podemos extrair dessas obras indicações gerais e certos concei- ntr uma forma de Estado e a configuração concreta da
tos científicos que, embora refratados pelo objeto limitado das suas \ v lrl IS frações dominantes. Embora não dispondo, para
análises, são preciosos para o estudo destes problemas. I 11I1 '111111m te esta unidade, do conceito de bloco no poder,
Com efeito, as análises de Marx relativas à primeira das duas ••• lnul.lh xmtudo um lugar particular: emprega em vez da expres-
periodizações, a periodização em estágios, denotam a seguinte cons- ,11 /ti '11, 11.\' (' tpr ssões "coalizão" e "união", mas sobretudo "fu-
tante: a unidade contraditória particular de várias classes ou frações • 111I Iclto, por um lado, a ausência desse conceito impede,
de classes dominantes, unidade que corresponde a uma forma parti- '/, • I li S .obcrta dessa coexistência de várias frações na do-
cular de Estado. No entanto, o que falta em Marx, a fim de se I pnlftlc I. íuzcndo aparecer uma delas como a fração "ex-

poder apreender teoricamente essa unidade, é precisamente o con- 1111.


ceito de bloco no poder e o de hegemonia aplicada a este bloco. :B li,

11. L'État et ia Révolution, obras em três volumes, vol. lI, ed. Mos-
cou, p. 358.

230 231
/
cIusivamente dominante" quando, na realidade, se trata de unia uni-
dade de várias frações dominantes. E, por outro lado, quando essa
unidade é localizada e recebe um nome, é pensada sob o teimo de
"fusão", que é absolutamente inadequado. Este termo, importação
explícita, e aliás, freqüente, em Marx e Engels, da ciênci{ físico-
.-química, pode indicar, não se tomando cuidado, uma totalidade
expressiva composta de elementos "equivalentes". Este tenho pode
assim implicar simultaneamente na concepção de uma repartição,
entre esses elementos, do poder de Estado, ou seja, numa negação
da unidade do poder de Estado capitalista, e concepção de uma uni-
dade circular, sem dominante, desses elementos, no interior da qual
estes perdem a sua autonomia específica: " ... o reinado anônimo
da República era o único sob o qual as duas frações podiam manter,
com igualdade de poder, o seu interesse de classe comum sem re-
nunciar à sua rivalidade recíproca. Se a República burguesa não
podia ser outra coisa senão a dominação acabada, claramente ma-
nifestada, de toda a classe burguesa, que poderia ela ser além da
dominação dos legitimistas completados pelos orleanistas, a síntese
da Restauração e da Monarquia de Julho ... ? Eles não compreen-
diam que, se cada uma das suas frações considerada à parte era
realista, o produto da sua combinação química deveria necessaria-
mente ser republicano ... ". 17 Notar-se-á aqui os termos de com-
plementaridade e de síntese, típicos da problemática de uma totali-
-dade expressiva. 18
Ora, a noção de fusão não pode permitir pensar o fenômeno do
-bloco no poder. Este constitui de fato não um totalidade expres-
siva com elementos e uivalentes mas uma um a e contra I onã
com ex ominante É aqui que o conceito- e egemoma
pude er a: fíc'li1lo a uma class ou fra ão no llltenor do bloco nO
poder. ssa classe gemônica constltUI com efeito, o
m"emênto 'dommante um a e ontra itória das classes ou frações
que fazem parte do bloco no poder.
Goando Marx nos fala da fração "exclusjvamente dominante", ad-
mitindo entretanto a domírraçãn pohtlca de vánas fraçoes, tenta re-
cisamente localizN, no inJerior do bloco no poder, a fração ege-
I.'., lal
17. Lt., 131-132. I.'., 1 nn.
18. Uma observação a este respeito: no capítulo sobre as classes so- lrllJlllclIÇ( s e as conseqüências do emprego da noção de fusão
ciais, falei, a propósito da subdeterminação das classes, dos modos de ,,,li' 'li "I, nllás, em várias obras atuais da ciência política marxista:
produção não-dominantes, de sua dissolução e fusão nas classes do modo c"lIlc'n dClHt sonceito, empregado por autores tais como P. Anderson
de produção dominante. No entanto, este termo de fusão indicava, então, ,. N "'11, 1111/I suaa análises relativas à evolução do capitalismo na
precisamente o fato de certas classes ou frações não funcionarem em 'li I 1111 , um "La thêorie politique marxiste en Grande-Bretagne",
I .,11 du, lndlc o, nesse artigo, as análises concretas de Marx e En-
uma formação, como "classes distintas" ou "frações autônomas", com
efeitos pertinentes ao nível do político, em resumo, como "forças so- I t Iv nu "bloco no poder" na Grã-Bretanha, e que seguem as
ciais". Aqui, trata-se pelo contrário, de apreender um tipo de unidade ~:::~~~ 111111 , tIl'ÍllltH que as análises de Marx sobre o caso francês.
entre forças sociais. C u III nto, notar de passagem, que a particularidade hist6rica
'UII I lc, 11 ate respeito, na quase constante hegemonia, a

232 233
~ ~~ ..,~.()'~ "'-
~:~03TZ:.'t~~(""
l..Ç'"
a e classe, a rivalidade do' inte-
n re essas orças sociais, encontra-se nele constantemente
til f r1I'10 representa em relação ao conjunto da sociedade,
I ' o. portanto, às classes dominadas, depende da função ideo-
presente, conservando esses interesses a sua especificidade ántagô- I frllçt O hegemônica. Podemos contudo constatar g!le a
nica: duas razões pelas quais a noção de "fusão" é incapaz de ex- LI h emonia bloco no I1oder-e- egemonia
plicar essa unidade. A pró ria h~gemonia, no interior deste bloco, I" o t S classes dominadas se concentr ~egra g,grg,l,_em
de uma classe ou fração, não ê=aeyida ao ãcaso: ela tornou-se pos- ", una classe O!:!.j!E.Ç.§:Q. --ª,ta erige-se ao lugar hegemônico do
SI, remos a r --õ'fia <Io o er ms 1 u- \ ••••••••• ""'r--'I'...rJ...., ao -con 1 uir-se politicamente em classe ou fração
cionalizado do Estado ca italista. Esta, correspondendo à unidade "111.n11(\111 11do conjunto da sociedade. A propósito da República
particular das classes ou frações dominantes, isto é, estando em re- pllrlllnlcnt Ir da hegemonia da aristocracia financeira do bloco no
lação com o fenômeno do bloco no poder, faz precisamente com IIr diz-nos que aquela era a única forma de Estado" ... na
que as relações entre essas classes ou frações dominantes não possam u interesse geral de classe podia subordinar simultanea-
consistir, como acontecia com outros tipos de Estado, em uma "re- p" tensões destas diferentes frações e de todas as outras
partição" do poder de Estado - "igualdade de poder" daquelas. A da sociedade" 23; ou ainda: "as antigas forças sociais tinham-
relação entre o Estado capitalista e as cl.asses ou fra ões d ina -e- rupado, reunido, concentrado, e encontravam um apoio ines-
funciona no sentido da sua unidade política sob a égide de uma I, na grande massa da nação: os camponeses e os pequeno-
Classe ou fração-hegemônica... A classe ou fração hegemônica polariza I , ..".24 Marx fornece-nos igualmente toda uma série de
os mteresses confradIfonos es edficos das diversas classes ou fra- oncretas, que ilustram o processo de constituição da_bur-
çoes o bloco no poder, constituindo os seus interesses eco,nÔrnicQ8 ll' '. m fra ão he ônica simultaneamente, do '6i'õfo
emlii1'eresses polítIcos, representando o~se-ge,t:al-cümllm das r do con unto a socie ade.
- sses raçoes o loco no od : interesse geral ue co Iste I ivlu, essa concentração da dupla função de hegemonia em
I11rexptn açao econômica e na domina a Iítica. Marx, em uma 111 ou fração, inscrita no jogo das instituições do Estado
agem ummosa re a rva a egemonia da fração financeira na Re- \I I I. n O é senão uma regra geral cuja realização depende da
pública parlamentar, expõe-nos deste modo a constituição desta he- I tUI'I dus forças sociais. Constataremos, por isso, as possibili-
gemonia: "Em um país como a França... é necessário que uma defasagem, de dissociação e de deslocamento dessas fun-
massa inumerável de pessoas de todas as classes burguesas. .. par- h emonia em classes ou frações diferentes - uma, repre-
ticipem na dívida pública, no jogo da Bolsa, na finança. Todos esses li I fração hegemônica do conjunto da sociedade, outra, a
participantes subalternos não encontrarão o seu apoio e os seus che- h mônica, específica, do bloco no poder -, que tem con-
fes naturais na fração que representa esses interesses nas proporções I .apitais ao nível político.
mais formidáveis, na fração que os representa na sua totalidade?". 22
É necessário ainda assinalar um fato importante. O processo Classes-Apoios
de constituição da hegemonia de uma classe ou fração difere, con-
soante essa hegemonia se exerce sobre as outras classes e frações 011.eito de bloco no poder distingue-se daquele de alian-
dominantes - bloco no poder -, ou sobre o conjunto de uma for- implica também em uma unidade e em umacon-
mação, inclusive, portanto, sobre as classes dominadas. Esta dife-
rença intercepta a linha de demarcação dos lugares de dominação e
/I, "
de subordinação que ocupam as classes sociais em uma formação.
/I, '. "H,
O interesse geral, que a fração hegemônica representa em relação 1111." 11 1'(Hl('üito de aliança, ver também Linhart: "La Nep. Quel-
às classes dominantes, repousa, em última análise, no lugar de ex- • • ,'1 1'1 L1q\lÜfl de Ia transition soviétique", op. cito Assinalo aqui
ploração que elas detêm no processo de produção. O interesse geral nln, 111I como Mao, sublinham freqüentemente os limites do con-
.\ 11 "11", procurando demarcá-lo de conceitos especificados, tais
I 1\ ". 11111 /lI/ida.. Se não me refiro às suas análises, é porque elas
partir de Louis-Philippe do capital financeitro: em contra partida, na Grã- • 11,(11 dltudura do proletariado e à transição do capitalismo
-Bretanha e na Alemanha,
mercial e industrial. Sobre
peux, La Soeieié [ramçaise,
esse lugar cabe freqüentem ente ao capital co-
as razões desta: situação na França: G. Du-
1789 - 1960, 1964, p. 39 e segs., 132 e segs.
,"'III"~!
I 111 I 11 1111I, ( não podem ser diretamente aplicadas à formação ca-
NII ntanto, n necessidade, em que se encontraram, de empregar
I II r,','nl,1unida, demarcado do de aliança, legitima o meu re-
22. Lit., 161. 1111, 1111 ti hlo 'o no poder.

234 235
r
'~~r?
ríodo da República parlamentar, e que, de modo al-
tradição entre os interesses das classes ou frações de classes aliadas. luziu a uma substituição dessa forma de Estado por uma
A distinção relaciona-se: ,nste caso preciso, a uma transformação de forma de
1) A natureza desta contradição relativa a uma "forma" do
Estado capitalista no interior de um estágio. No caso do bloco no
poder, podemos decifrar um limiar a partir do qual se distinguem
com nitidez as contradições entre as classes e frações que o com-
põem, em relação a uma forma de Estado e em um estágio parti-
cular, das contradições existentes entre aquelas e as outras classes
ou frações aliadas. A aliança pode funcionar entre as classes ou
frações do bloco no poder, ou entre uma delas, por um lado, e uma
/ outra classe ou fração, por outro: um caso freqüente dessa aliança
".~é, por exemplo, a relação da peguena burguesia com o bloco no
X'3~d~
~~~ 2) A natureza das contradições entre os membros do bloco
no poder e entre os membros da aliança determina igualmente o
caráter diferencial da sua unidade: a aliança não funciona, regra
geral, senão a um nível determinado do campo da luta de classes
e combina-se freqüentemente com uma luta intensa aos outros ní-
veis. Uma aliança política, por exemplo, do bloco no poder com
a pequena burguesia combina-se freqüentemente com uma luta eco-
nômica intensa contra esta, ou ainda, uma aliança econômica com
ela combina-se com uma luta política intensa contra a sua represen-
tação política 26. Em contrapartida, no caso do bloco no poder, cons-
tata-se uma extensão relativa da unidade - portanto, sacrifícios
mútuos - a todos os níveis da luta de classe: unidade econômica,
unidade política e, além disso, freqüentemente, unidade ideológica.
Isso não impede, certamente, as contradições entre os membros do
bloco no poder: constata-se simplesmente uma homogeneidade rela-
tiva das suas relações a todos os níveis.
Essas diferenças, aliás, são nítidas no caso de uma inversão
importante das relações de força ou da dissolução do bloco no poder,
por um lado, e da aliança, por outro: estes fenômenos, no quadro
do bloco no poder, correspondem, regra geral, a uma transforma-
ção da forma de Estado. A esse respeito, Marx mostra-nos as trans-
formações do bloco no poder da República parlamentar na sua re-
lação com a ascensão de Louis Bonaparte. 27 Em contrapartida, es-
ses fenômenos, no quadro das alianças, não correspondem a uma
transformação da forma do Estado: a este respeito, Marx mostra-
no poder pode assim permitir si-
-nos a dissolução da aliança com a pequena burguesia'" - passando
aliança. Com efeito, a sua confi-
esta do estatuto de aliada ao estatuto de satélite -, situa a no im

26. Lt., 93.


.om exemplos concretos.
27. Br., 316 e segs.
237
236
guração típica, corresponde a uma forma de Estado, permite uma
série de variações que se manifestam, entre outras coisas, por deslo-
camentos do limiar de demarcação da aliança e do bloco no poder
nos próprios limites da sua configuração típica. Uma classe aliada
pode, por exemplo, segundo estes deslocamentos, transpor esse li-
miar e fazer parte do bloco no poder, ou, inversamente, um mem-
bro do bloco no poder mudar de estatuto e tornar-se uma classe ou
fração aliada. Sempre que os deslocamentos deste limiar se situam
nos limites mencionados, não acarretam, regra geral, uma transfor-
mação da forma de Estado. Em contrapartida, quando estes deslo-
camentos são devidos a uma transformação combinada dos fatores
do bloco no poder, acarretam tal transformação.

~",~'ç-..
~~
Esses conceitos de bloco no poder e de aliança são completados
~~~ em Marx, sempre no que diz respeito às variações nos limites de
\Ç'ç, uma forma de Estado e de um bloco no poder de um estágio deter-
/:; minado, por um outro conceito, o qual recobre uma categoria par-
~~Qs ticular de relações entre as classes do bloco no poder e outras elas-
tA>""'\ ses: trata-se das classes em que se "apóia" uma forma do Estado
,. J7~ \. capitalisfà~ Casos típicos destas classes-apoios: os camponeses pár-
~~\\ celareR 110 quadro do bonapartismo; a pequena burguesia no fim
~~, l'\' ,do primeiro período da República parlamentar; o "Lumpenproleta-
t'V" lríat" do bonapartismo.
, ~ ~~~ O apoio distingue-se do bloco no poder, do mesmo modo que
~'" ~~ a aliança, pela natureza das contradições entre o bloco no poder e
as classes aliadas, por um lado, e as classes-apoios, por outro, e,

V
~

St:P.
'/
por conseqüência, pela natureza da unidade entre, por um lado, o
bloco no poder e as classes aliadas, e por outro as classes-apoios.
Podemos caracterizar o estatuto articular das classes ou fra ões de
~ 1"~lasses-a oios dizen o:
~~ 1) Que o seu a oio uma domina ão de classe determinada
y\\J'"' não é em geral baseado em qualquer çacrifício polític.o....u:aLdos..in:
cP' teresses do bloco no oder e das classes
apoio, indispensável a essa dominaç,-ag.-wil-\~S!iI:'-J~'
gar, baseado' em um processo de illlsões ideoló icas. demonstra-
ção é feita por Marx no caso dos camponeses parce ares, cujo apoio,
indispensável ao Estado bonapartista, se baseia em todo um con-
texto ideológico relativo à "tradição" e às origens de Louis Bona-
parte. O Estado bonapartista, ao apoiar-se nesses camponeses, não
toma de fato qualquer medida politicamente apreciável em favor dos
seus interesses próprios. Limita-se a tomar certas medidas da ordem
do compromisso a fim de continuar a alimentar a ilusão ideológica
que se encontra na base desse apoio político.

238
vernamental absoluta, que os proteja contra as outras classes, e que •••• ~luh'l.il ) I 29 de maio de 1849 a 2 de dezembro de 1851,
lhes envie a chuva e o bom tempo". 111I pública Constitucional ou da Assembléia Nacional
••••• 111111 u" 11I 'l'rutu-sc precisamente da periodização recoberta, nas
É possível, assim, constatar entre as classes e frações do bloco 11111\11l' 10 xmc lto de forma de Estado, e no campo das prá-
no poder as classes e fra ões r as c ---- es--a· -tel dll 1111 dominantes pelo conceito de bloco no poder.
o a uma sene e relações comp exas, de acordo com a conjuntura
I 1o lI~uçl geral distingue-se, contudo, de uma outra,
concreta. As modificações das alianças e dos apoios não corres-
I ,ussim, a propósito do período da República Cons-
pondem, contudo, regra geral, a uma modificação da forma de Es- "'I divide-se em três períodos principais: de 29 de maio
tado no quadro da periodização em estágios, a não ser quando se 11I1 u d 1849, luta entre a democracia e a burguesia, der-
combinam com modificações dos fatores constitutivos da configu- II o p qucno-burguês ou democrata; de 13 de junho de
ração do bloco no poder. I d 11I1110 de 1850, ditadura parlamentar da burguesia, isto
I 11 t IN C dos legitimistas coligados, ou do partido da or-
IV. Periodização Política - Cena Política - Classes Reinantes - um 'monda pela supressão do sufrágio universal; de 31
Classes Detentoras do Estado IK () 1\ 2 de dezembro de 1851, luta entre a burguesia
:".nl.l'"rt I rrocada da dominação burguesa, queda da República
I

É evidente que estas indicações de Marx são de uma impor- .IMlluulul I ou Parlamentar". 31 Esta periodização é recoberta,
tância capital para qualquer estudo concreto das relações entre a tI, P 10 conceito de formas de regime, cujas transfor-
superestrutura política do Estado e o campo da luta de classes. Con- I od m ser diretamente referidas a modificações da re-
tudo, os conceitos que acabamos de esclarecer têm de ser comple- o pol tlco e o econômico, as quais marcam as transfor-
tados por uma série de outros, os quais se relacionam a uma perio-
dização e a um espaço diferentes: a importância do conceito de
"~~~:~~!~~M
i
llI'III11S
de Estado; elas relacionam-se, antes, às estrutu-
10 Estado capitalista, às coordenadas da representati-
bloco no poder ressaltará com maior nitidez. I 1111,( instituição do sufrágio, etc.
Com efeito, este conceito relaciona-se à periodização geral de 1111
orla, contudo, aqui, são os conceitos que Marx
uma formação em estágios. Recobre, do mesmo modo que o con- 11110 da pcríodização especificamente política no campo
ceito de forma de Estado, o nível político nas suas relações com o lu classes dominantes. Note-se que Marx circunscreve
conjunto das instâncias de uma formação em um estágio determi- p "ti -ular do campo que atribui a essa segunda periodiza-
nado caracterizado por uma articulação particular dessas instâncias. I I 'o designado pela expressão €ena vg;,lítica. Esta re-
Essa periodização, escondida pela relação entre as temporalidades 1" 'U particular do nível das ráhcas pclíticas de classe
próprias de cada nível, distingue-se da relativa à temporalidade pró- • as 01' arx: o estu o o conjun o os seus
pria do nível político. Se a primeira periodização marca os limites I e e que esse espaço contém preci-
de um estágio, fixados a um nível determinado de estruturas e de lut« das forças sociais organizadas em partidos políticos.
práticas, a segunda esconde o ritmo particular deste nível no interior .'I"rUnlll d presença na cena política, do lugar de uma classe
desses limites. Ora, a temporalidade de um nível depende das frente ou ao fundo da cena, etc. - relacionam-se
suas estruturas próprias: essa segunda periodização, própria do ní- ff, til (h' modalidades da representação partidária de elas-
vel político, depende das estruturas específicas desse nível em uma I ntre os partidos políticos. A entrada de uma classe
formação determinada. 1II 'I 11sua saída dependem da conjuntura concreta que
O próprio Marx assinala de uma maneira clara, no 18 Bru- UIl organização de poder e as suas relações com os
I I .ontcxto preciso que se devem situar as relações
mârio, a distinção entre essas duas periodizações. Diz-nos da pri-
meira: "Devemos distinguir três períodos principais: 1) o período I I entre a cena política e o sufrágio universal.
de fevereiro; 2) de 4 de maio de 1848 a 29 de maio de 1849, o I 'trila numerosas classes para a cena política, preci-
período da constituição da República ou da Assembléia Nacional t d const1t1Iir, nas circunstâncias concretas estu-

30. Br., 227.

240 241
dadas or Marx, um dos fatores de organiza ão de certas classes
em parti os.
~. Não obstante, a delimitação deste novo espaço da cena política••
coloca certos problemas teóricos, nomeadamente o da ~ua relac~o
com o es aço das ráticas olíticas em. Com efeIto, a exis-
as raçao enquanto classe distinta ou fração
autônoma, isto é, enquanto força social, supõe a sua l'resença ~Q
nív~ ..Q9lí~.E..0_
através, _~e "efei!~s pe~ti,!entes". Todavia, essa pre-
s nça ao nível das praticas polltlcas dlstmgue-se da resença na cena
{Jo ica: es a u ma supoe a organzzaçao e poder e uma clasr~
chshnta oa sua prática política. Tlfinamos encontr'tclo esta ~lStinçaO
em Lemn hxada no seu conceito de ação aberta ou de açao decla-
rada, conceito que existe em Marx no estado prático sob o termo
de ação verdadeira. Ora, na medida em que a ação aberta das for-
ças sociais não coincide com o conceito de prática política, pode-
mos dizer que a cena política é um lugar rivile' ado, nas fôrma-
ções capitalistas, a a ao a er a sociais atraves a
presentação partidária~
-stL O espaço da cena política tem, pois, em Marx, uma função bem
precisa: é o lugar onde é possível rejerenciar uma série de defasa- 7
gens entre os interesses políticos e as práticas políticas das classes, o
por um lado, e a sua repres a tio-- artidâria, os próprios partidos
politicos, por outro. cena polític , como cam o articular de
ação dos partidos políticos, encon ra-se fre üentemente_wasad e
- re ação as praticas po 1 lcas e ao terreno dos interesses políticos das
c asses, representa as pelos partidos na cena política: essa defa-
sagem é pensada por arx atraves dá sua problemática da "repre-
senta ão". I Voltaremos com amplitude a análises concretas relativas a esta re-
A delimitação olítica, que constitui o campo entre a cena política - lugar de representação partidária - e a
IlolCia dos regimes políticos. Esta relação, indicada por Marx, foi
da segunda periodização, tem conseqüências. Permite, Unhada por Gramsci, nas suas análises com respeito ao 18 Brumário,
por exemplo, estabelecer as relações fundamentais entre as. formas b tudo no seu texto Observations sur quelques aspects de la etruc-
de re ime e o Cãinpo da ação artidária. Veremos, com efeito, que d 1/ partis politiques en période de crise organique, onde, em vez do
o li cena política, emprega o de terreno dos partidos: Em um certo
o ator pnncipa de uma tipologia das formas de regime, assim nto da sua vida histórica, os grupos sociais separam-se dos seus par"
como o puseram em evidência certos teóricos atuais 32, consiste em 11 I trudicionais, o que quer dizer que os partidos tradicionais, na forma
urganisação que apresentam, com os homens bem determinados que os
sua relação com a ação concreta dos partidos políticos no campo tltu m, os representam e os dirigem, já não são reconhecidos como
da cena política. Do mesmo modo que nas relações entre as formas 111'( !lstio da sua classe ou fração de classe ... Como se formam estas
"" I 6/1 de oposição entre "representados e representantes" que, do ter·
de Estado e o bloco no poder, as formas de regime, conceito rela-
11 elO/l partidos ... se refletem em todo o organismo de Estado? ...", Ten-
tivo à periodização específica das estruturas políticas, encontram-se m conta o fato de Gramsci não examinar aqui senão o caso de uma
em relação com uma configuração concreta das relações entre par- d cena política, o que importa reter é a relação indica da entre
I 01' uníamo do Estado" e o funcionamento concreto de representação
lu riu. (Cito o texto de Gramsci a partir da tradução francesa das
32. Em particular Duverger. Ver adiante, p. 313 e segs. o -lais, op. cit., p. 246 e segs.).

242 243
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riodização da ~a política, uma classe ou fração se encontra au-
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nvolvimentos sociais e políticos. .. Os interesses e os princípios


~ sente, embora continue a estar presente na periodização relativa ao , entretanto, eles defendem, aqui e ali, não são, propriamente
bloco no poder. Os exem los abundam na ras olíticas de Marx, ndo, os seus, antes lhe são impostos pela evolução da bur-
e basta assinala o caso, ar.acterístico, a urgueSIa m us n sob ia". 34
LOUlS- Pliih pe.
:.. Este caso apresenta uma tal importância, obri-
gado a indicá-lo distinguindo nitidame~~~~~~~~~:d~o~li~tL~'-
camente . tes participando d bloco
""'rã reinantes ujos parti os po ltlC
ugares po IC-ª:- ssa e asagem entre o lugar
de uma classe ou fraçao no campo das práticas políticas e o seu
lugar na cena política é acompanhado, evidentemente, por uma série
de transformações relativas à representação partidária; estas repor-
tam-se à composição dos partidos, às suas relações, ao seu con-
teúdo representativo - sendo os interesses políticos dessa classe ou
fração representados, de uma maneira obliterada, é certo, pelos par-
tidos de outras classes ou frações reinantes, etc. -, e só poderão
ser reveladas a partir da elucidação das defasagens, entre a prática
política e a cena política. Nessa defasa em, o a el da ideologia
revela-se decisivo. Por outro a o, os deslocamentos, no intenor o
campo das pohhcãs, não coincidem também com os da cena política. A combinação concreta, que não é uma simples combinatória,
Um deslocamento do índice de hegemonia de uma classe ou fração ir até uma descentralização completa destes três lugares, cada
para uma outra no bloco no poder, não coincide necessariamente do quais podendo ser ocupado por uma classe ou fração diíe-
com os deslocamentos de representação partidária na cena política, I , A classe ou fração reinante, e isso é ainda mais válido para
e não corresponde, por exemplo, necessariamente a passagens do [u são detentoras, pode, além disso, não só não ser hegemônica,
fundo para a boca da cena. E mais: pode acontecer que a classe até, por vezes, não fazer parte do bloco no poder: uma classe
ou fração hegemônica do bloco no poder esteJa ausente da c 0- I m simplesmente o estatuto de classe aliada deste bloco, pode,
r'. e asagem entre c asses ou raçoes po iticamente dominan- nt um breve período, ser a classe reinante. Este caso encon-
tes, por um lado, e reinantes, por outro, traduz-se aqui por uma di~- particularmente patente na França, durante os governos radi-
tinção entre a classe ou fração hegemônica e a classe ou fração rei- ti I lira República, antes da guerra de 14: é a fração, financeira
nante: exemplo, o caso da burguesia no fim do regime de Bismarck, h gemônica, partilhando, com a fração industrial, o lugar de
111m, enquanto que é a pequena-burguesia a a arece - em
s<?: a> llança complexa com a me Ia urgue - como a classe rei-
.llf')"~
'w'-Y ue em u'1'tima anarl::>""",~e~m~go.,J;:,~7.~~~~~;!;!...~E~m:=:=~
áliser-dcté I , a Este caso encontra-se por vezes, com respeito sempre à
~(r!r que constitui o "detentor' a '1lr.e de Estado. Esta última é,
.Jli_~

,~ em arx, a classe ou fração em que se recruta o _essoa ~ ltlCO ) '''1/'01/politliques, t. II, pp. 10-11 e os textos sobre Palmerston, t. I
~~il'/lnrr<YCrático, militar, e c., que ocupa as "cuRulas" do Estado. En- nútlses capitais de Engels sobre este assunto encontram-se no
~\J> ~ contramos esta análise, em forma sumána, nos textos de .Marx sobre lu du 1892 à primeira edição inglesa do Socialismo utóp~co e socia-
l/ /la/ico onde encontramos considerações penetrantes sobre a pe-
..)<6 a aristocracia fundiária na Grã-Bretanha. Ê. neste sentido que e~e • (J do "bloco no poder" na Grã-Bretanha.
, O declara: "Os Whigs são os representantes anstocratas da burguesia
politiques, op. cii., t. VI, p. 19 e segs.
,,-(; .'IQ0i\P comercial e industrial. Sob condição da bur~uesia abandonar a uma ''''/'111/

~~~ oligarquia de famílias aristocrat~s o monopólio d~ governo e a posse 11111'1 ClHt assunto, G. Dupleux, La Société française, 1789-1960,
lI, 1M' 80gS. Notemos contudo que Dupeux, não operando as dis-
t)'<l, exclusiva dos cargos. .. eles ajudam-na a conquistar todas as con- Inaladas, considera - com reserva - esta situação como
'if V cessões que se mostraram inevitáveis e prementes no processo dos tlu pod r político" por parte da grande burguesia.

244 245
pequena burguesia, em certos casos - sobretudo na França - de I r do estágio de uma formação no qual essa etapa se situa. Inver-
governos social-democratas. Nestes casos, encontramos, regra geral, imente, um acordo partidário pode ocultar uma luta intensa no
uma defasagem característica entre essa classe e a sua representação .ampo das práticas políticas, basta mencionar o caso freqüente de
partidária, assumindo assim o seu partido o papel de "agente" da rtos acordos exclusivamente eleitorais.
classe ou fração hegemônica ou, mesmo, de uma outra classe ou
Finalmente, uma última observação a propósito, desta vez, das
fração do bloco no poder. O mesmo se passa com a classe-deten- I' lações entre as duas periodizações recobrindo, respectivam~nte, o
tora do Estado. I olítico e a cena política. A sua distinção não pode ser relacionada
Voltaremos, de maneira mais aprofundada, aos numerosos pro- uma questão cronológica, que faria, por exemplo, da periodização
blemas que esta defasagem, entre a prática e a cena política, coloca. do político uma periodização de longa duração e da cena po-
Resumamos aqui as análises precedentes, assinalando que é indis- lítica uma periodização de duração mais curta. Esta distinção de-
pensável, contrariamente a uma ~upla confusão, consta~te na ciência mrre de uma diferença de campo, e é, efetivamente, a partir da
política atual, que reduz as relaçoes de classe as relaçoes entre par- distinção teórica dessas periodizações que devemos compreender os
tidos, e as relações entre partidos às relações de classe,. indicar os I svios cronológicos: por exemplo, um acordo partidário pode durar
limites das práticas políticas de classe e os da cena política. :É ne- mais tempo que uma aliança de classe, na medida em que uma
cessário por conseqüência, especificar sempre os conceitos aplicá- .lusse continua a entender-se com outra por intermédio do seu ou
veis a Íim de designar as relações entre os elementos nestes dois dos seus partidos na cena política, a despeito de uma ruptura efetiva
terrenos. O conceito de bloco no·poder ..•.tendo por objeto - como lu aliança no campo da luta de classes. :É igualmente claro no que
acontece com o conceito Cle hegem"5nia - o terreno 9flcsJ!ráticas xuiccrne às estruturas políticas: uma forma de regime - por exem-
l2.0lítkas das classes, serve assi~ ~ara elucidar as ljga!;~es d~- plo, o bipartidarismo na Grã-Bretanha - pode ter uma duração
ses aomlllante subJacentes - limites -. com as relacoes entrrr. os tf tiva maior que uma forma de Estado.
parhd~ - efeitos - na cena políti~~, :elacões de FIasse f~~.Y:en-
temente ocultas elas numer a y e da as.
cer o que, por vezes, dispomos de conceitos específicos reco-
brindo respectivamente os dois terrenos: é o casCLdLclaS.Se-ou fra-
..Çãoreinante que recobre, mas - / regra geral, o papel da cla.§.Se
oU fra ao fie embmca n ce a olítIca encionemos ainda o caso
do bloco os par I os que ente recobre as relações, na
cena política, entre os partidos das classes e frações do bloco no
poder. Por vezes, contudo, deparam/o~ com_ concei.tos não especifi-
cados tais como o de aliança. :É útil entao precisar, no seu em-
prego: em se tratando de aliança de classes ou de aliança de partidos,
a menos que convenha utilizar termos diferentes: por exemplo, po-
de-se nesse caso reservar o termo de aliança para as relações de
classe e falar de "acordo" * para designar as relações entre parti-
dos. Tanto é verdade que a defasagem destes dois terrenos se ma-
nifesta constantemente em todas as relações concretas dos seus ele-
mentos. Por exemplo, o bloco no pode:~ go~e* par lugar, .na cena
olítica a um bloco de artldos, a uma aIlança TIos art!uos, ou
<;m""'· '-
e~s~m~o'" a u a a ert ec ara a os art! os. Basta
nci nar o caso bastante freqüente de um parti o~ a oposição
parlamentar - durante uma etapa da periodização da cena políti-
ca -, que representa de fato uma classe ou fração do bloco no po-

* enienie, no original (N. T.)

246 247
IV

A UNIDADE DO PODER E A AUTONOMIA


RELATIVA DO ESTADO CAPITALISTA
I 1111 liMA E A SUA ENUNCIAÇAO TEóRICA
I1II ('I, SSI OS DO MARXISMO

I I. 1111111 1111' I, nesta parte, de uma das características mais im-


111111 IIpo apitalista de Estado, e que tem dado lugar a
dll
I I 111 11 'IIIIII'OV rsias e erros de interpretação. Trata-se da uni-
I" I 1,,111 do poder político institucionalizado e da sua autono-
, {"(/"II,
t 1\ já, que estas noções de unidade própria e de
,dllHd'
I 11111 I lutlvu
parecem, de imediato, apresentar todo o ri-
n10
V I PIII'/1 O tratamento científico dos problemas: habitual-
1111'1 '/.\lIdos pela teoria marxista, a sua função limitou-se,
qll IIl'1l1, 11 dispensar uma análise aprofundada dessas ques-
'1111I 11' 110 a sua utilização só é legítima caso seja precisado
I 111 11 'li sentido: é isto que irei tentar fazer ao longo deste
111 No uínnto, a fim de fixar as idéias, passo agora a for-
I 1111I11 pr ci ões, indicando sobretudo os problemas que elas
.1111.,'"1 1111 I oriu marxista. 1
1'111 unldade própria do poder político institucionalizado,
I 11 '111 II 'f particular do Estado capitalista que faz com que
111111' d poder de Estado, relativamente emancipadas do
I 1i li, IIpl' 11'Ilt Jl1 uma coesão interna específica: a qual pode
II 1111 rlu nOR seus efeitos. De uma forma aproximada, poder-
II I til de já que ela impede as relações entre as classes ou
1111 1110'0 110 poder, e, com maior razão, entre estas e as
1111 1'111<,' CH aliadas ou apoios, de serem estabelecidas em uma
1111 111 IIIHII fragmentação ou em uma repartição do poder
.llttlllUltlllllll~,lIdo do Estado. Este caráter aparece como próprio do
11(1111111 tu: com efeito, os tipos "precedentes" de Estado,
I .1 WIlI o econômico é radicalmente diferente daquela do
111/1 11111 111, não apresentavam essa coerência específica de
1111111111 1111' dica-política emancipada: as suas instituições COl1-

1111 !Iul I OHt s termos, uma vez que são termos já estabelecidos
ti,
I I 11 1'lv.11'
I .' m conta. A este respeito, não posso resistir à ten-
,I .1111,'" "( Hposta de Lenín a Parvus que lhe reprovava o empre-
I 111111 "ri '111'11<1 " de "boicote ativo": "Parvus pode, certamente,
11" /I 11 1,(\ li I 1) I: obrigatório o uso de termos figurados. Esta
1111 .111 t,lrl 'nda quanto à forma, mas nada valerá quanto ao
I1 1111'" n t, ,,'10 saber do que se fala. Não discutamos as pala-
1I I, 11111 (11j4'l\l'l'lOS simplesmente que os termos políticos aceitos na
1111 1,,"11'11 dl\H O);) rações, pertencem ao domínio dos fatos e exigem
I 1/1 ""1 1'011 til .•. ". OeuV?'es, t. IX, p. 275.

251
sistiam em uma pluralidade compartimentada de centros de poder omia alguma. O Estado, unificado pela vontade umca de
de caráter econômico-político, sendo as relações de classe freqüen- dominação desta classe, não passa, para ela, de um utensílio inerte.
temente estabelecidas em uma repartição desses centros. I to implica imediatamente na seguinte conclusão: por pouco que
b) Por autonomia relativa deste tipo de Estado, entendo, aqui, admita uma autonomia relativa do Estado face à classe dominan-
não diretamente a relação das suas estruturas com as relações de te, isso é imediatamente interpretado como uma ruptura da
produção, mas a relação do Estado com o campo da luta de classes, unidade do poder político institucionalizado, como uma fragmenta-
em particular a sua autonomia relativa em relação às classes ou o e uma partilha desse poder, do qual a classe operária poderia
frações de bloco no poder e, por extensão, aos seus aliados ou su- onquistar uma "parte" autônoma. Ou ainda, através de uma fla-
portes. Esta expressão encontra-se nos clássicos do marxismo de- rante inconseqüência teórica, o Estado capitalista será simultanea-
.
signando o funcionamento do Estado em geral no caso em que ' as mente considerado como simples "agente" da classe dominante, e
forças políticas presentes estão "prontas a equilibrar-se". Empre- om um amontoado de parcelas, destinadas a tornar-se presa da
go-o, aqui, em um sentido simultaneamente mais amplo e mais es- lasse operária.

II ~ treito, para designar um funcionamento específico do Estado capi-


talista. Espero, por isso mesmo, marcar nitidamente a distância que
separa esta concepção do Estado de uma concepção simplista e vul-
Uma observação suplementar: já indiquei a relação do
stado capitalista com o conjunto dos níveis de estruturas do
M. P. c., ao assinar a função particular de fator de unidade de
I garizada, que vê no Estado o utensílio ou o instrumento da classe uma formação capitalista, composta de níveis específicos e relati-
dominante. Trata-se pois de apreender o funcionamento específico vamente autônomos, que cabe a este Estado. Contudo, abordarei
do tipo capitalista do Estado relativa aos tipos de Estado preceden- aqui o problema, examinando, não diretamente a relação entre o
I ~ tes, e demonstrar que a concepção do Estado em geral como sim- stado e as outras instâncias, mas a do Estado com o campo da
ples utensílio ou instrumento da classe dominante, errônea na sua luta de classes, particularmente, da luta política de classe. Dever-se-á,
própria generalidade, se revela particularmente inapta para apreen- pois, ter constantemente em vista que esta última relação reflete
der o funcionamento do Estado capitalista. de fato a relação entre as instâncias, pois, dela é o efeito, e que a
Acrescentarei igualmente, e isto é importante, que é possível relação do Estado com a luta política de classe concentra em si
constatar, no que se segue, uma correlação entre essas duas caracte- a relação entre os níveis das estruturas e o campo das práticas de
rísticas do tipo capitalista de Estado. Se este apresenta uma auto- classe. Por outras palavras, o caráter de unidade do poder de Es-
nomia relativa em relação às classes e frações dominantes, isso su- tado, relacionado ao seu papel na luta de classe, é o reflexo do seu
cede na medida exata em que possui uma unidade própria - uni- papel de unidade em relação às instâncias; a sua autonomia relativa
dade de poder de classe -, enquanto nível específico do M.P.C. face às classes ou frações politicamente dominantes o reflexo da
e de uma formação capitalista. Ao mesmo tempo, possui essa uni- autonomia relativa das instâncias de uma formação capitalista.
dade institucional na medida em que é relativamente autônomo em m suma, essa unidade e autonomia do tipo capitalista de Estado
relação a estas classes e frações, isto é, em última análise, em vir- reporta-se à especiiicidade das suas estruturas - relativamente
tude da função que lhe cabe em relação a estas. autônoma face ao econômico - na sua ligação com a luta política
de classe - relativamente autônoma face à luta econômica de
Estas considerações são tanto mais importantes quanto é certo
que toda a tendência historicista do marxismo, com o seu invariável classe.
"voluntarismo-economicista", estabeleceu realmente essa relação en-
tre a unidade do poder político institucionalizado e a sua função As características em questão do Estado capitalista foram, de
em relação às classes e frações de classes dominantes, mas enga- fato, estudadas e analisadas por Marx, bem como por Engels, nas
nou-se acerca do seu sentido. Esta tendência vê, no fim de contas, uas obras políticas. E, no entanto, necessário fazer aqui duas
no Estado o produto de um sujeito, a maior parte das vezes, da bservações:
classe dominante-sujeito, de que constitui um simples utensílio de a) No que diz respeito pelo menos a estes problemas, esses
dominação, manipulável à sua vontade. A unidade desse Estado é t xtos nem sempre são explícitos. Ainda mais, como sucedeu a
assim relacionada a uma unidade pressuposta da "vontade" da propósito do bloco no poder, Marx e Engels analisam freqüente-
classe dominante, em relação à qual o Estado não apresenta auto- mente as realidades históricas referindo-se explicitamente a noções

252 253
que não bastam para as explicar. Esses textos contêm indicações necessário) , mas não lhe deixa parte alguma na dominação".
preciosas, com a condição de se decifrarem os conceitos científicos gels volta a este ponto no famoso prefácio à terceira edição do
exigidos para o seu tratamento, conceitos que, ou faltam, ou, mais Brumârio, no qual considera a França tão representativa do
freqüentemente, se encontram aí no estado prático; .P.C., no que diz respeito às formas políticas, como o é a Grã-
b) Convém recordar aqui as ambigüidades desses textos: tanha, no que diz respeito ao econômico. Finalmente, essa
de fato, a despeito das aparências, não constituem meras análises ncepção está contida implicitamente no Prefácio, de 1886, de
históricas de fenômenos concretos de uma formação determinada, rx ao 18 Brumârio, no qual opõe o bonapartismo, como forma
mas também, em um desdobramento complexo de decifrar, uma olitica da luta moderna de classes em geral, às formas políticas de
reflexão teórica sobre as formas políticas do M.P.C. rmações dominadas por modos de produção diferentes do modo
ipítalista: "Afinal de contas, espero que esta obra contribua para
Reportemo-nos, por exemplo, aos textos de Marx relativos ao fustar o termo, correntemente empregado hoje, particularmente na
período 1848-1852 na França: Lenin já se considerava como Icmanha, de cesarismo. Nesta analogia histórica superficial, esque-
apresentando, de uma forma concentrada, as transformações que -se o principal, a saber que, na Roma Antiga, a luta de classes só
afetaram o Estado capitalista. Lenin entende por tal que os textos de desenrolava no interior de uma minoria privilegiada, entre os
Marx representam um esforço de construção teórica do conceito do ildadãos livres ricos e os cidadãos livres pobres, enquanto que a
Estado capitalista. Sob esse ângulo de leitura, é possível decifrar, rande massa produtiva da população, os escravos, só serviam de
sob as formas históricas concretas que Marx estuda na formação p destal passivo aos combatentes... Dada à completa diferença
social na França, sob as diversas "etapas" de transformação das ntre as condições materiais, econômicas, da luta de classes na anti-
formar. políticas, traços constitutivos do conceito do Estado capita- Uidade e nos tempos modernos, as formas políticas que delas
lista. Não se trata, portanto, nesta leitura, de construir qualquer tipo d correm não poderão ser mais semelhantes entre elas que o arce-
de Estado através de uma generalização a partir dos dados históricos, lspo de Canterbury com o profeta Samuel".
isto é, a partir das formas políticas concretas descritas por Marx.
Trata-se, antes, de nos reportarmos ao conceito de Estado capitalista, Por isso, torna-se claro que, quando nos reportamos a estes
o que é uma coisa completamente diferente. :E: esse conceito que nos 1 xtos, é sempre necessário distinguir as duas leituras possíveis, e,
permite compreender as transformações históricas, analisadas de uma sslm, distinguir o que diz respeito ao fenômeno histórico, concreto
forma "concentrada" por Marx. E isto, sem nunca se perder de vista do bonapartismo na França, e o que respeita ao bonapartismo como
o caráter fragmentário e esquemático dessas análises, que só nos nracterística constitutiva do tipo capitalista de Estado.
oferecem indicações teóricas. Em resumo, se O Capital nos oferece Ora, uma das características essenciais do bonapartismo na
indiretamente os traços conceituais do Estado capitalista precedente- gunda acepção ré a autonomia relativa do Estado face às classes
mente analisados, as obras políticas oferecem-nos os da unidade e da ou frações dominantes, e é precisamente sob esse ângulo que Marx
autonomia relativa desse tipo de Estado. Engels o consideraram.
Dito isto, podemos abordar o problema, capital a este respeito, Qual é, no entanto, o esquema através do qual explicam o
do bonapartismo, O que encontramos, em primeiro lugar, nos textos bonapartismo? Recorreram, na maior parte das vezes à explicação
de Marx e Engels relativos ao bonapartismo, é a análise de um ral de uma autonomia relativa do Estado sempre que as classes
fenômeno político concreto de uma formação determinada. Contudo, m luta se encontram "prestes a equilibrar-se". Marx nos diz, neste
o bonapartismo é, paralelamente, sistematicamente pensado por ntido, na Guerra Civil na França, que o bonapartismo se explica
Marx e Eogels, não simplesmente- como uma forma concreta de p 10 momento em que a "burguesia já tinha perdido, e a classe
Estado capitalista, mas como um traço teórico constitutivo do próprio perária ainda não adquirido, a faculdade de governar a nação".
tipo capitalista de Estado. :E: o que foi expresso por Engels, em uma Isto é ainda mais nítido em Engels, que recorre a propósito do
carta a Marx, de 13-4-1866: " ... o bonapartismo é" a verdadeira onapartismo, à explicação geral que o marxismo admite da autono-
religião da burguesia moderna. Vejo cada vez mais que a burguesia mia relativa do Estado no caso de um equilíbrio das forças sociais
não foi feita para reinar diretamente; por conseqüência ... , uma presentes, e tem tendência, por isso mesmo, a assimilar fenômenos
semi-ditadura bonapartista torna-se a forma normal; ela toma nas t O diferentes como o Estado absolutista, o bismarckismo e o
suas mãos. . . os grandes interesses da burguesia (contra a burguesia, onapartismo. Importa, contudo, assinalar que o bonapartismo,

254 255
enquanto. fenômeno. histórica, diz respeita ao. Estada de uma forma- relacionado por Gramsci, não. a qualquer equilíbrio. das forças sociais
ção social cam dominância já consolidada da M.P.C. Trata-se, pais, presentes, mas sim a um equilíbrio particular apreendido pela seu
ao. contrário da Estada absolutista da período de transição, de uma conceito de "equilíbrio catastrófico", originador de crise política:
forma política pertencente à sua fase de reprodução alargada - trata-se de um equilíbrio. "de tal espécie que a prosseguimento da luta
constituindo ainda o bismarckismo um fenômeno. diferente. Aliás, não pade ter outra conclusão senão. a destruição recíproca. .. e que
é par este motiva que Marx, a propósito. do seu estuda concreto da oferece uma perspectiva de catãstroíev.> Considerações capitais,
bonapartismo, inicia uma reflexão. sobre o tipo. capitalista de Estada. próximas das de Marx, que relaciona o bonapartismo francês ao.
Ora, é clara que a explicação. da autonomia relativa da Estada equilíbrio. de forças particular que faz com que "a burguesia tenha
bonapartista, considerado como "religião. da burguesia", cama traça já perdida, e a classe operária ainda não. adquirida, a faculdade de
constitutivo da tipo. de Estada capitalista, par referência a uma dirigir a nação."
situação. de equilíbrio. entre as forças sociais em luta, não é de modo Na entanto, se é verdade que esse equilíbrio. catastrófica parti-
algum suficiente. Ainda mais: não. basta sequer para explicar a cular, que se deve, par isso, distinguir, corno a faz Gramsci, do
fenômeno concreto do bonapartismo na França. Tudo. se passa, equilíbrio. geral, - manifesto na caso da Estada absalutista-
de algum modo, cama se Marx e Engels se referissem à mera con- conduz a esse fenômeno específica que é o cesarismo, não é menos
cepção da autonomia relativa da Estada que teoricamente elabora- verdade que não. pode, da mesmo modo que a equilíbrio. geral,
ram, a fim de explicar fatos para as quais aquela se mostra explicar a fenômeno histórico concreto do bonapartismo jrancés,
insuficiente. Com efeito, através de uma leitura aprofundada das Gramsci está, de resta consciente disso, e isso é nítida nas precau-
textos de Marx, podemos verificar que este não. admite de fato, no ções que torna para explicar a bonapartismo francês, em nada
casa da bonapartismo na França, qualquer equilíbrio. entre a classe redutível a essa crise política de equilíbrio. catastrófica: " ... a fase
burguesa e a classe operária - na acepção, par exemplo, em que catastrófica pode apresentar-se cama conseqüência de uma deficiência
se pode falar de um equilíbrio entre a classe feudal e a classe bur- política "momentânea" da força dominante tradicional, e não. em
guesa apenas na último período do Antiga Regime -: a classe virtude de uma deficiência orgânica necessariamente insuperável.
I operária, desorganizada pelos acontecimentos de 48, não. só se Foi a que se passou na caso de Napoleão lU. .. a forma social
encontra em uma situação de equilíbrio de forças com a burguesia, existente não. tinha ainda esgotado as suas possibilidades de desen-
cama "desaparece mesma da cena". A contradição principal des- volvimento, cama a seqüência das acontecimentos amplamente a
laca-se e concentra-se entre a burguesia de um lado, a pequena-bur- demonstrou. Napoleão Ill representa. .. essas possibilidades latentes
guesia e a campesinato da outro, sem que também se passa falar imanentes: a seu cesarismo tem pois uma cor particular. .. no
de um equilíbrio. entre estas forças. 'a a da cesarismo de Napoleão ... não. houve passagem de um tipo.
de Estada para um outro tipo, mas somente "evolução" da mesma
Lenin segue igualmente, nas seus textos sobre a bonapartismo tipo segunda uma linha ininterrupta ... ".
francês, este esquema de explicação. 2 Só a posição de Gramsci Ora, essa autonomia relativa da Estada bonapartista francês
sobre este ponto se revela mais avançada, sem contudo atingir a m relação. às classes ou frações dominantes só pode ser compreen-
I
funda da problema. Na seu texto. capital sobre a "Cesarismo", tenta dida através da atribuição. dessa forma concreta ao. tipo. capitalista
apreender esse fenômeno. político específica situando-o em relação. de Estada. Esse Estado apresenta efetivamente essa autonomia re-
, aos diversos tipos de Estado. Desse modo, vê no bonapartismo lativa cama traça consecutivo da seu conceito, Este traça remonta,
francês de Napoleão lU uma forma particular de cesarismo, situada portanto, à sua relação. com as características específicas da luta de
na quadro da Estada capitalista. Não. procura considerar a bona- lasses no M. P. C. e em uma formação capitalista, relação. essa que
partismo, da ponta de vista teórico, cama característico- da tipo. de fixa as limites que circunscrevem a ação. concreta dessa luta sobre
Estado capitalista: a atribuição. da bonapartismo a esse Estada serve o Estada. Essa autonomia existe mesmo na casa em que não. se
aqui para concretizar este fenômeno cama norma particular da trata nem de um equilíbrio. na sentida geral, nem de um equilíbrio
cesarismo. Ora, o cesarismo, cama fenômeno. político específica, é atastrófico das forças sociais, sede da contradição principal.

2. Nomeadamente nas OeuV1'es, t. 25, pp. 93-96, e 240-244: "Les débuts . Cito aqui de acordo com a tradução das ed. Sociales, op. cit., pp. 256
du bonapartisme". 258.

256 257
o mesmo é dizer que essa autonomia, inscrita como possibilidade no 2. ALGUNS ERROS DE INTERPRETAÇÃO E AS SUAS CON-
jogo institucional do Estado capitalista, e cujas variações e modalida- SEQtmNCIAS
des de realização dependem da conjuntura concreta das forças sociais,
não pode ser reduzida nem ao esquema geral de equilíbrio dessas
forças, nem ao do equilíbrio catastrófico, que sustenta o fenômeno
particular do cesarismo. 1. A Teoria Geral
Examinarei, neste capítulo, as razões, e o sentido exato, dessa
automonia acerca da qual Marx nos dá indicações nas suas obras
políticas. Contudo, essa autonomia do tipo capitalista de Estado Se~ia útil, antes. de en!ra~mos no âmago do problema e a fim
não elimina a possibilidade de funcionamento, em uma forma his- de subhnhar a sua importância, apontar as confusões que podem
tórica desse tipo, da autonomia devida ao equilíbrio, geral ou ca- decorrer de certas concepções modernas do Estado e do poder po-
tastrófico, das forças presentes. O que é necessário notar bem é lítico. Essas corrent~s formaram-se, sobretudo, fora ou à margem
que essas autonomias, na relação entre o Estado e o campo da luta do pensamento marxista, tendo, contudo, por intermédio da social
de classes, não são da mesma ordem. No caso de um equilíbrio das -democr~cia europé.ia, influenciado a estratégia operária nesses paí-
forças presentes, o Estado pode funcionar efetivamente, como diz ses; ~ tiveram, muitas vezes, repercussões implícitas sobre a teoria
Engels, no sentido objetivo de uma arbitragem entre essas forças. marxista do Estado. Iremos, por outro lado, assinalar certas defor-
Em contrapartida, a autonomiaconstitutiva do tipo capitalista de Es- mações desta teoria que, tomando o sentido oposto a essas corren-
tado, na sua relação - de limites - com os caracteres específicos tes mas admitindo os mesmos princípios teóricos se afastam do
da luta de classe do M.P.C., não pode, em sentido algum, ser conteúdo científico da teoria marxista do Estado,' sempre no que
apreendida segundo o modelo de uma arbitragem. Se esses modos se refere ao problema da sua unidade própria e da sua autonomia
de autonomia relativa podem ser conjugados em uma forma con- relativa.
creta do Estado capitalista, podem igualmente ser contraditórios. A Se parece. difícil classificar, de maneira sistemática, teorias apa-
autonomia relativa de uma forma deste Estado, devida a um equilí- r~nte~ente m?I.to diversas e que, atualmente, se apresentam em um
brio das forças sociais presentes, pode pôr em questão, como vere- smc:e~Ismo edificante, podemos, 'pelo menos, estabelecer desde já uma
mos, a sua função relativa às classes e frações dominantes e, por- temática comum. Basta para ISSO ler, através das variantes uma
tanto, o modo de autonomia relativa que lhe cabe em virtude da série de correlações altamente reveladoras. Essas correlações' pare-
sua atribuição ao tipo capitalista de Estado. cem ser:
a) A depreciação do político: este perde a sua especificidade
en~u?nto nível relativamente autônomo de estruturas e de práticas
SOCIaIS.Por outras palavras, constata-se a ausência de uma concep-
ção ~ie~tífic~ da relação entre o econômico e o político que, como
ma~nz mvanante do M.P.C. e de uma formação capitalista, rege as
vanações desta relação nos diversos estágios e fases dessa formação.
O desconhecimento desta relação apresenta-se teoricamente sob
duas formas: por um lado, dissolução do político no econômico; por
outro, absorção do econômico no político.
b) A ausência de uma concepção da unidade do poder de Es-
tado e do poder político em geral: série de concepções de uma par-
tilha do poder político institucionalizado em proveito de um "plu-
ralismo" de poderes - contra-poderes, veto-grupos, centros de de-
cisão, etc.
c) A ausência de uma concepção da autonomia relativa do
poder político, o qual se torna presa partilhada pela "pluralidade"
dos portadores - grupos, conjuntos, etc. - destes poderes parce-

258 259
lizados, ou a interpretação errada dessa autonomia - concepção autonomia relativa do Estado capitalista, essas correntes, reportan-
do Estado forte-árbitro, ou de um Estado passível de uma revolução do-se, afinal de contas, à problemática do sujeito central, não po-
a partir de cima em direção ao socialismo. dem admitir a estruturação de um conjunto social em níveis especí-
d) A ausência da concepção da luta de classes ou a interpre- ficos com eficácia própria. Toda a unidade, seja a de um nível par-
tação errada da teoria da luta política de classes. ticular ou a do conjunto do sistema social, é relacionada a uma to-
talidade do tipo gestaltista, isto é, simples e circular, constituída por
Em segundo lugar, podemos referir-nos aos princípios episte- elementos homogêneos e equivalentes. A unidade e a relação entre
mológicos destas teorias que, na aparência, têm origens bastante esses elementos aparecem baseadas no sujeito originário, centro de
diversas. Elas remontam, no que se refere à sua formulação sob totalização.
uma forma moderna, às primeiras concepções do "institucionalismo"
de Veblen e de Commons e às concepções "neo-corporativistas" do Nesta problemática, encontramos, sob as formas diversas que
essas teorias, em seguida, assumiram, a série das correlações men-
Estado, que ganharam corpo na Alemanha após a República de cionadas:
Weimar. :É certo que, em seguida, revestiram formas bastante di-
versificadas, e de certo modo se modernizaram, canalizando-se para a) Uma ausência no conceito científico da luta de classes.
várias correntes teóricas e políticas. Inseriram-se, a maior parte das Tratar-se-á das relações de "integração" entre certos "grupos", "con-
vezes, nas diversas concepções atuais das chamadas transformações juntos", "constelações de interesses", etc., em um sistema social-
da sociedade capitalista. As suas origens, assim, ocultaram-se com o -sujeito.
tempo. Ora, se me refiro aqui a essas origens relativamente precisas,
é pelas duas seguintes razões. Por um lado, para mostrar que, sob b) Neste contexto, o poder político institucionalizado do Es-
a sua forma "moderna", decorrente das chamadas transformações tado não pode ser apreendido no seu estatuto de nível específico do
atuais - evidentemente - da sociedade, se esconde uma função sistema social: o que é nítido na noção, admitida por essas corren-
ideológica bem antiga: a que consiste em mascarar as características tes, de instituição. Esta noção apresenta, aliás, uma confusão carac-
de classe do poder político institucionalizado. Assim, não é por terística, e é substituída indiferentemente pelos termos de estrutura,
acaso que essas formas teóricas e políticas "atuais" interceptam os de organização, de associação ou de corporação; recobre simulta-
princípios e as conclusões das suas vetustas origens. Essas formas neamente o domínio do econômico - designando com isto os "gru-
antigas tiveram as mesmas repercussões na corrente da social-demo- pos" ou "conjuntos" como as grandes empresas, os sindicatos, os
cracia européia antes da segunda guerra mundial, que as formas atuais tobbies, os grupos de pressão, etc. - e as estruturas próprias do
na corrente social-democrática moderna. Por outro lado, se escolho poder político. O Estado-instituição é considerado como um ele-
aqui as suas fontes precisas, é também por elas colocarem os pro- mento, homogêneo e equivalente aos outros, do sistema social de
blemas da unidade própria e da autonomia relativa do Estado ca- conjunto, como um produto do sujeito primitivo, integrado no seu
pitalista com uma particular nitidez. equilíbrio circular; participará nessa função difusa e indistinta de
coesão do todo social que cabe a todas as suas partes totais -
:É possível traçar os pontos comuns desses princípios teóricos
vimos, a este respeito, a concepção típica do político em Parsons.
desde a origem hegeliana das concepções neo-corporativistas alemãs, c) O próprio Estado, como elemento particular do sistema
prolongadas pela corrente corporativista atual, até às repercussões social de conjunto, não apresentará unidade interna em sentido pró-
profundas do institucionalismo americano sobre a corrente do "fun- prio; o poder político institucionalizado será concebido como com-
cionalismo" - o que é patente na maior parte das teorias atuais do posto de uma "totalidade" de "poderes-contra poderes", de "pode-
Weliare State 1. Não me demorarei muito neste ponto: basta lem- res compensadores", de "veto-grupos", em resumo, de partes equi-
brarmo-nos simplesmente da relação entre a problemática historicis- valentes. Estas partes serão, por seu turno, partilhadas entre os di-
ta e o funcionalismo. A propósito do problema da unidade e da versos conjuntos ou grupos equilibrados nesse sistema circular: equi-
líbrio circular portanto, e que rege simultaneamente o conjunto social
1. Sobre os pressupostos funcionalistas das concepções do "Welfare Sta- c todos os seus elementos particulares, seja o nível econômico ou
te" e o seu impacto decisivo sobre a concepção de poder dos trabalhistas
ingleses, ver o artigo de D. Weddeburn, "Facts and Theories of the O nível político. O equilíbrio e a partilha do poder político são
Welfare State", in The Socialiet Register, 1965, p. 127 e segs. aqui calcados sobre o equilíbrio calculado, no domínio econômico,

260 261
entre os "conjuntos-grupos" que o compõem: esses conjuntos par- "controle respectivo" no processo social de conjunto. 4 Segundo
tilham entre si o poder político, e, como é evidente, a luta de classe sta corrente, ao contrário do liberalismo na sua forma clássica, o
encontra-se, aqui, ausente. equilíbrio "automático" natural do mercado, que supõe um poder
político autônomo sem intervenção no processo econômico, trans-
Estas linhas muito gerais tornar-se-ão precisas se considerarmos forma-se aqui em equilíbrio de poderes "mistos" na sociedade "tec-
concretamente, sob as suas formas atuais, as duas conseqüências que nológica-industrial". Este equilíbrio "planificado" será realizado pela
acarreta a ausência de especificidade do nível político, por um lado, harmonização de forças econômico-políticas, cujos "poderes de de-
a dissolução do político no econômico, por outro, a absorção do cisão" partilham entre si o poder político institucionalizado. 5
econômico no político. Neste contexto, em conjunto com o problema da unidade desse
a) A primeira tendência é atualmente manifesta na corrente poder, o problema da sua autonomia em relação a esses "grupos-
do "neo-liberalismo", ligada às concepções clássicas do "equilíbrio" -forças" não se pode colocar, precisamente na medida em que não
e de "pluralismo" do liberalismo 2. Neste contexto, o Estado, con- possui especificidade própria. Esse poder assume uma função "téc-
siderado como "instituição", não constitui um nível particular, um nica" de "organização", fornecendo a essa sociedade "pluralista",
poder político institucionalizado como unidade e especificidade pró- já institucionalizada-integrada, um quadro de coesão formal. O seu
prias. Esse poder político estaria diluído em uma multiplicidade "plu- papel, definido pelo princípio de "subsidiaridade", limita-se ao de
ralista" de novos centros de decisão, entre os quais o equilíbrio imples executante das decisões harmonizadas dos diversos "pode-
estaria " automaticamente" realizado pela "harmonização" dos di- res" econômico-políticos que partilham o poder de Estado, ao passo
versos "agrupamentos de forças", "grupos de pressão" ou "poderes que o equilíbrio destes poderes se encontra principalmente fundado
de fato" - empresas, sindicatos, organizações de consumidores -, no domínio do processo ecor ômico. A autonomia do Estado será,
representando as "forças econômicas" de uma sociedade integrada 3. rigor, admitida, de uma forma excepcional, segundo o modelo da
A unidade do poder político institucionalizado parece desintegrada dlsiunção do Estado-instituição relativa à sociedade-sujeito.
em proveito destas instituições. A sua especificidade dilui-se - atra- Deixemos, contudo, de lado as transformações supostas do pro-
vés de diversos "elementos", poderes-contra-poderes, poderes com- esso capitalista de produção admitidas por esta corrente atual. Re-
pensadores, vetos-grupos, etc., em proveito dessas forças cujo equi- t nhamos simplesmente a ausência de especificidade do nível político,
líbrio se realiza através de uma "limitação mútua", através de um diluído ao nível econômico.
b) A tendência inversa encontra-se atualmente nos prolonga-
2. A literatura, relativa a este assunto, é bastante vasta. Embora as mentos da concepção institucionalista "neo-corporativista" do Es-
duas correntes teóricas que admitem uma confusão entre o político e tndo. Neste caso, embora supondo teoricamente a mesma relação
o econômico, freqüentemente, se sobreponham, a tendência "neo-liberal"
domina, por exemplo, em A. P. Berle (The 20th Century Capitalist Revo- Integracionista entre os diversos "conjuntos" ou "constelações de
lution, 1961; "Corporatíons and the Modern State", in The [uture of De- Interesses" do nível econômico, admitir-se-á a existência perturba-
mocrat/c Capitalism, ed. por Arnold, 1961; e, em colaboração com G. dora de certos antagonismos entre eles, sem por isso se falar - é
Means, The Motlern. Corporation. and Priuate properiuv ; em autores do
início da corrente Trend of Economias, sobretudo, J. M. Clark; em Gal-
Iaro - de luta de classes. Ter-se-á recorrido, portanto, a um poder
braith (notadamente: 'I'he affluent Societu, e também: Der o/mer'kamieche p lítico institucionalizado, que poderia ter funcionado como fator
Kapitalismus im Gleichewicht de?' Wirtschafte-Kro.ite, 1956); em Hoover ntral de "dirigismo esclarecido" na harmonização "dinâmica" des-
(The Economu, Libeyty and ihe State), etc .
•_;:\1fI;;'~
3. Ver neste sentido, H. Laski: "The pluralistic State", in Foundat/on. • Ver, por exemplo, H. Pross, "Zum Begriff der pluralistischen Gessels-
I of Sovereignty, 1931; e Grammar o] Politics, 1948; e também H. J. Kai- haft", in Zeugnisse Th. Adorno, 1963, p. 441 e segs. Estes conceitos de
ser, Die Repraesentation organisierter Iniereesen, 1965. A propósito deste •• ontrole", de "equilíbrio" e de "pluralismo", sob a sua forma "neo-libe-
conceito de "pluralismo", convém notar que ele não serve aqui simples- I", sustentam, a!iás, as análises de Shumpeter em "Capitalisme, socia-
mente para designar um sistema político de pluYipartidarismo, ao con- liame et démocratie", cuja influência sobre a social-democracia européia
trário de um sistema de partido único, mas antes que se estende a toda onhecida.
uma concepção "integracionista" do sistema social no seu conjunto. Para '
o aprimoramento do leitor francês, não deixa de ser útil a referência às • Ver a crítica deste ponto em Macpherson, autor da excelente obra
vulgarizações de Aron (por exemplo, Démocratie et Totaliuirisme, p. 26 ho political Theory of possessiv individualism, no seu artigo: "Post-
e segs., 111 e segs., etc.). lIb ral democracy?", in New Lef t Review, set.-out. 1963.

262 263
ses conjuntos. 6 De modo algum se coloca a questão de abandonar Ora, essas duas correntes encontram-se em correlação, na me-
as concepções gerais do institucionalismo funcionalista: o plura- dida em que conduzem a uma ausência de delimitação rigorosa do
lismo harmonizado de elementos equivalentes continua a ser exigido. econômico e do político. A autonomia do Estado levanta efetiva-
Contudo, se os diversos poderes-contra poderes, etc., se apresentam, mente problemas na segunda corrente corporativista, pois a instân-
nesta segunda versão, como "institucionalizados", já não é na me- cia política é reconhecida na sua necessidade de arbitragem "diri-
dida em que constituem instituições "econômico-sociais" exteriores gida"; contudo, ela é relacionada à concepção clássica da burocracia:
ao Estado-fantasma, mas na medida em que são diretamente instí- a teoria das elites e da classe dirigente não é senão o seu último
tucionalizados pelo Estado-forte. Esses diversos grupos de interes- produto.
ses e grupos de pressão são considerados como recebendo direta-
mente um estatuto público, e como sendo oficialmente reconhecidos lI. A Teoria Política Marxista
.e diretamente centralizados pelo Estado que realiza a sua unidade.
A instância do Estado-instituição reaparece: trata-se da criação de Estas correntes teóricas têm repercussões, muitas vezes implí-
centros de poder político, de diversas comissões ou organismos pú- citas, na teoria atual do movimento operário. Nunca se apercebe
blicos estatizados nos quais esses grupos "institucionalizados" teriam suficientemente a contaminação da teoria marxista do poder político
cooperado, sob a direção e a arbitragem neutra da administração por estas correntes ideológicas. E realmente necessário repetir que
técnico-burocrática, com vista a uma "harmonização" da sociedade. essas concepções sob a sua forma atual, mas fiéis à sua velha função
E a concepção atualmente conhecida, na sua forma moderna, sob ideológica, sem falta das chamadas transformações do modo capita-
o termo de "institucionalização da luta de classes". 7 lista "clássico" de produção. De fato, face às flutuações da teoria
Esta concepção neo-corporativista do Estado enuncia, eviden- marxista do capitalismo monopolista de Estado, face a uma ausência
temente, o problema da unidade própria do poder político e da sua de teoria científica dessas transformações, o seu impacto faz-se sentir
autonomia. No entanto, essa unidade apresenta-se, precisamente, pesadamente. Basta ver, por exemplo, a importância concedida, pela
como desintegrada em proveito desses poderes institucionalizados. atual corrente social-democrata, às concepções dos contra-poderes,
A teorização, pelo neo-liberalismo, de uma dissolução global do ní- dos poderes compensadores, etc. Encontra-se, por isso mesmo, na
'vel político em proveito de um pluralismo de poderes "econômico- linha própria de todo o reforrnismo: esta linha relaciona-se precisa-
sociais de fato", em uma palavra, a teorização de uma dissolução mente com os problemas da unidade de classe e com a autonomia
do nível político específico em uma sociedade praticamente auto- relativa do poder de Estado capitalista. 8 Desse modo, e a fim de
gerida, apresenta-se aqui sob uma forma invertida. Tratar-se-á de indicar a permanência da função ideológica dessas teorias, não é
uma disseminação multicentralista, no interior do Estado-instituição, inútil relembrar a sua influência na história do movimento operário.
do poder político em proveito dos diversos conjuntos de interesses Consideremos notadamente dois exemplos característicos:
pluralistas politicamente institucionalizados. A dissolução do poder
A - O exemplo mais convincente que, sem dúvida, se pode
político no domínio econômico traduz-se aqui por uma absorção do
dar é o das influências nefastas da concepção "institucionalista-cor-
econômico no político.
6. Os precursores da confusão entre o político e o econômico, e da con- 8. Estes temas da concepção social-democrata ideológica do poder encon-
cepção neo-corporativista do Estado, são os teóricos alemães tais como tram-se, em uma confusão exemplar, na pena de vários socialistas fran-
C. Schmitt, O. Spann, K. Lerentz, sendo seu precursor O. Gierke. Ela é oeses. Ver, por exemplo, o prefácio de L. Blum à edição francesa da
característica da doutrina católica, tal como se exprime nas encíclicas Révolution des techniciens de Burnham; o livro de L. Laurat, Problêmes
"Quadragesimo anno", do papa Pio XI, e ultimamente "Mater et Magis- uotuels du socialisme, 1955; o prefácio de G. Mollet - onde retoma à
tra" - a propósito desta última, a crítica de U. Cerroni, em Política sua conta os temas de Shumpeter - à obra de Weille - Raynall, Dé-
eâ Economia, Ag.-Set. 1961. A viragem, na teoria americana, do neo-libe- olin et succession du capitalisme, 1944; A. Philip, Le Socialisme irahi;
ralismo para uma concepção neo-corporativista, é clara nos relatórios 1957. etc. Ver a crítica a estas concepções por A. Gorz, Stratégie Ouvrie-
ao 66.0 Congresso da Associação econômica americana, em 1953. Encon- re et néocapitalisme, 1964, p. 5 e segs.
tra-se atualmente em Ehrmann, Intereet groups on Four Continentes,
1959; Eshenburg, Herrschaf i der Verbaende?, 1965, W. Weber, Spannun- 9. Isto tinha sido assinalado na époc~-por Fr. Neumann, em um artigo
gen und Kraefte im westdeutschen Verfassungssystem, 1951, etc. reproduzido em The Democratic and Authoritarian State, p. 65 e segs., e
por H. Marcuse no seu artigo: "Der Kampf gegen den Liberalismus in
7. Tematizada por R. Dahendorf, op. cit., mas que é possível encontrar der totalitaeren Staatsanfassung", reproduzido em Kultur und Geesels-
também em T. Parsons : The Social System, op cito p. 127 e segs. ohaft, 1963, p. 34 e segs.

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porativista" do Estado sobre a corrente da social-democracia alemã 9, teorias tiveram, por intermédio, sobretudo, da corrente que insiste
Estas teorias cristalizaram-se após a constituição da República de no "dirigismo esclarecido" por parte do Estado e no papel, a este
Weimar, e o seu caráter "pluralista" fez correr muita tinta aos teó- respeito, da administração, uma influência decisiva nas formas mo-
ricos políticos da época: 10 elas já tinham tido repercussões diretas dernas da velha corrente da revolução a partir de cima, ligada ao
nos escritos de Kautsky e de Bernstein 11. O poder político unitário lassalismo. 12 :É bem verdade que esta corrente atual não se apresenta
do Estado aparecia diluído em proveito de conjuntos "corporativos" explicitamente, tal como a sua predecessora, como partidária da con-
diretamente institucionalizados no Estado. Isto aparece na teoria cepção de um Estado árbitro e conciliador neutro entre as classes:
política ideológica através de uma crítica das teorias liberais clássi- esta questão é mais complicada, porquanto se ressente nomeada-
cas da unidade e da soberania do Estado, baseado na sua "perso- mente das análises de Marx e, sobretudo, de Engels sobre o bis-
nalidade moral" e na sua "vontade superior" - o que, de fato, era marckismo. Esta corrente é particularmente interessante, na medida
a explicação ideológica direta da unidade do Estado de classe. Essa em que se concentra sobre a questão da autonomia relativa do Es-
soberania passaria a basear-se em uma "constelação de interesses", tado capitalista.
em corporações institucionalizadas, equilibradas e harmonizadas no O problema é o seguinte: pode o Estado ter uma autonomia tal,
seio do Estado, através de uma confusão entre o econômico e o polí- em relação às classes dominantes, que possa realizar a passagem
tico, tema na ordem do dia após o Estado do capitalismo de guerra. para o socialismo, sem que o aparelho de Estado seja destruído
O poder de Estado parecia assim disseminado e partilhado entre pela conquista de um poder de classe pela classe operária? Recor-
esses conjuntos corporativos: é fácil adivinhar as conseqüências que demos as características do bismarckismo: no período particular de
daí resultam. A classe operária parecia poder constituir um desses transição, na Prússia, do modo de produção feudal para o modo
conjuntos e, através da sua integração na instituição do Estado, de- capitalista de produção, o Estado bismarckiano reveste uma autono-
ter uma "parcela" autônoma do poder político pluralista. mia absolutamente particular. E isto, lembremo-nos, em virtude das
Conhecemos o que se seguiu: essas teorias "pluralistas", exal- defasagens entre, por um lado, as instâncias, e por outro, entre estas
tadas por vários teóricos liberais e social-democratas da época, evo- instâncias e o campo da luta de classes, introduzidas pela super-
luíram diretamente com C. Schmitt e K. Larenz, para a concepção posição complexa desses modos nessa formação. A autonomia das
"corporativista-institucionalista" do Estado nazi (e aconselho aqui ao suas estruturas permitiu-lhe realizar a passagem do feudalismo para
leitor as excelentes análises, sobre o conjunto do problema do "Es- o capitalismo contra a classe feudal politicamente dominante, conso-
tado corporativista", de D. Guérin em Fascisme et grand capital). lidando a dominação econômica nascente da classe burguesa e ele-
A "institucionalização" da classe operária teve, aliás, efetivamente vando-a à dominação política. Autonomia, por conseguinte, do Es-
lugar no Estado nazi mas, como era de esperar, sem partilha do po- tado prussiano em relação à classe-feudal-politicamente dominante
der com as classes dominantes. Este exemplo é patente e caracterís- que, de resto, não pode ser reduzida a um equilíbrio de força
tico do ponto de vista teórico: manifesta, com efeito, essa relação, entre a nobreza fundiária e a burguesia.
à primeira vista perturbadora, entre certas concepções social-demo- Ora, quais são os pressupostos admitidos pela forma atual da
cratas do Estado e as concepções corporativistas do Estado fascista. teoria de uma revolução a partir de cima? Esta descobre na situação
Essa corrente prolongou, aliás, a sua influência até às evoluções da atual uma analogia histórica com o fenômeno bismarckiano. Encon-
teoria fabiana dos trabalhistas ingleses dos anos vinte. trar-nos-íamos, atualmente, em um período de transição do capita-
B - O problema da autonomia relativa do tipo capitalista de lismo para o socialismo, que consistiria na face do capitalismo mo-
Estado não é, aliás, menos importante. As atuais formas dessas nopolista de Estado. Esta transição seria caracterizada por uma
não-correspondência específica entre a superestrutura jurídico-polí-
10. o caso é particularmente significativo visto que, dado o equilíbrio
relativo de força das classes capitalista e operária no momento da Cons- 12. Refiro-me aqui a Lassale uma vez que foi o primeiro a formular
tituição da República de Weimar, esta oferecia efetivamente a aparência t oricamente esta corrente em termos marxistas. Será, no entanto ne-
de um pluralismo. Sobre este assunto, P. Sweezy: The Theory 01 Capi.ta- easârio não esquecer que o cesarismo social tem tradições tenazes no mo-
list Development, op. cit., p. 329 e segs. vimento operário francês onde assumiu formas absolutamente originais:
r monta a L. Blanc e Proudhon - recordemos a atitude deste último em
11. Caso particularmente nítido em Bernstein: "La théorie marxiste r lação a L. Bonaparte - e mergulha sem dúvida as suas raizes na
de l'évolution social", trad. em Êtudes de marxoloçie, n,? 6, Paris, 1962. orrente jacobina.

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tica do Estado e o econômico, na medida em que (exatamente como senão a forma concreta que atualmente reveste a autonomia relativa
na passagem do feudalismo para o capitalismo) a superestrutura ju- constitutiva do tipo capitalista de Estado. Este modo preciso de
rídico-política - nacionalizações, planificação, etc. - se encon- autonomia relativa distingue-se radicalmente da autonomia da su-
traria de algum modo em avanço em relação ao econômico, e já perestrutura de uma formação em transição ou, ainda, da autonomia
apresentaria os traços de um Estado socialista. Em virtude dessa devida a um equilíbrio entre as forças sociais presentes: ela não
característica fundamental, assistir-se-ia a uma emancipação parti- pode, em caso algum, funcionar no sentido de uma revolução a
cular do Estado atual relativa ao econômico. Esta refletir-se-ia em partir de cima.
uma emancipação particular do aparelho de Estado em relação à
burguesia monopolista - assumindo a atual categoria tecno-buro- Face a estas concepções, a teoria marxista, embora deixando-se
crática, analogicamente, o papel da burocracia bismarckiana. A isto por vezes invadir sub-repticiamente por essas concepções ideológicas,
soma-se, a maior parte das vezes, a hipótese de um equilíbrio atual repetiu, regra geral, o esquema do Estado como utensílio ou instru-
de forças entre a burguesia e a classe operária, hipótese que mani- mento da classe dominante. Este esquema, embora tomando apa-
festa aqui o impacto das concepções de um pretenso equilíbrio entre rentemente o sentido oposto ao dessas concepções, não o faz senão
poderes oficiais e contra-poderes detidos pela classe operária. Este admitindo os mesmos princípios teóricos. Não surpreende em nada,
equilíbrio suposto das forças sociais presentes é considerado como por isso, que essa fraseologia esquemática, que só na aparência é
fornecendo mais uma analogia com o fenômeno bismarckiano, que radical, precisamente permita, sob a sua capa, a contaminação da
se explica por meio de um equilíbrio suposto entre a nobreza feudal teoria marxista pela ideologia. Em particular, na sua continuidade
e a burguesia no bismarckismo. teórica, este esquema conduz à concepção do Estado-agente dos mo-
Não há dúvida que estas concepções são radicalmente falsas, nopólios no capitalismo monopolista de Estado. Ora, não há dú-
tanto nas suas análises do fenômeno bismarckiano como na sua ex- vida de que as transformações do M.P.C. conotam, pelo desenvolvi-
plicação das transformações do M.P.C. segundo o modelo de uma mento do imperialismo, toda uma articulação específica e complexa
transição do capitalismo para o socialismo. De fato, trata-se apenas do econômico e do político. No entanto, o esquema Estado-agente
da repetição de uma forma típica de revisionismo, a do "socialismo dos monopólios implica, sem razão, em uma confusão entre o eco-
de Estado", que aparece invariavelmente todas as !vezes que o Estado nômico e o político - aproximando-se por isso mesmo das ideolo-
capitalista compreende intervenções maciças, a fim de adaptar e gias atuais do Estado já assinaladas - e não passa, por outro lado,
ajustar o sistema face à socialização das forças produtivas: "lassa- de um termo cobrindo uma ausência de teoria científica nesse do-
lismo" - Bismarck; Proudhon e o "cesarismo social" - Louis mínio.
J
Bonaparte: "capitalismo social" - New Deal rooseveltiano; "Wel- Isto manifesta-se através de numerosas contradições: em parti-
[are State" - capitalismo de Estado sob o imperialismo. Mas não cular, encontraremos sem qualquer crítica enxertada neste esquema
é minha intenção entrar no debate. É outro o ponto que aqui nos a concepção de uma autonomia do Estado semelhante à que admitem
deve interessar: o problema real da autonomia relativa do Estado os defensores da revolução a partir de cima. A sua relação de
capitalista em relação às classes e frações dominantes, colocado por "agente-utensílio" com a fração monopolista é compreendida como
estas concepções atuais. Essa autonomia, que elas efetivamente cons- uma conspiração que, através de laços pessoais, coloca o Estado -
tatam, não lhe parece poder ser explicada senão a partir do modelo embora apto a conduzir uma revolução a partir de cima - nas
de um equilíbrio das forças sociais, conjugado com a emancipação mãos de um punhado de monopolistas. Que todo o povo expulse
de estruturas não-correspondentes de uma fase transitória no sentido estes usurpadores, e o Estado fará o resto! 14 Mas o problema é
estrito do termo 13 - o que conduz à interpretação errada dessa
autonomia do Estado sob o imperialismo. Esta, no entanto, não é 14. É com efeito, a conclusão que se arriscaria a extrair da tese da
reunião do domínio dos monopólios e do Estado em um "mecanismo úni-
13. O problema é evidente no artigo, embora muito perspicaz de L. o" para salvar a sociedade capitalista, e que dominou o colóquio de
Barca: "Sviluppo dell'analisi teorica sul capitalismo monopolístico di hoisy-Ie-Roy, sobre o "capitalismo monopolista de Estado". Essa tese,
Stato" (in Critica MarX76ta, set-dez, de 1966, pp. 55 e 62), onde ele se parentemente ultra-revolucionária, admite contudo que esse famoso
refere precisamente a esta explicação a fim de criticar a concepçãoes- "mecanismo único" em nada afeta as estruturas do Estado. É possível
quemática do Estado-agente dos monopólios, do Estado e dos monopólios ver isso no relatório, a este mesmo colóquio, de Fr. Lazard, segundo o
como "mecanismo único". qual esse mecanismo único, proclamado em voz alta, não afetaria senão

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ain~a n,tais complicado do que p~rece: se esta concepção pode con- 3. O ESTADO CAPITALISTA E O CAMPO DA LUTA DE
duzir diretamente a um oportunismo de direita, ela conduziu igual- CLASSES
mente, sob ~o.rmas diferentes, a um extremismo de esquerda, mani-
festo nas análises da 3.a Internacional relativas ao Estado das social-
-delll:0cracias -:-: o "social-f~scismo" agente dos monopólios -, ex-
tremísmo corrigido, em seguida, no VII Congresso da Internacional.ts
. . Não tra~ar~i das conseqüências desta concepção do Estado. I. O Problema Geral
Limito-me a indicar que a autonomia relativa do Estado atual face
às classes ou frações dominantes não é senão a forma concreta que A unidade própria e a autonomia relativa do tipo capitalista
assume. essa autonomia, constitutiva do tipo capitalista de Estado, de Estado a respeito das classes e frações dominantes resultam do
na medida em que reflete, nas relações entre as estruturas e o campo seu lugar nas estruturas do M.P.C. e da sua relação particular com
da luta de classes, uma nova articulação do político e do econômico. o campo da luta de classe deste modo. Convirá, por isso, relembrar
Essa articulação supõe, no entanto, o tipo de relações entre o polí- aqui, rapidamente, análises feitas a este propósito. 1
. tico e o econômico do M.P.C., constituindo uma variável no interior 1) As relações de produção capitalistas - separação, no qua-
de limites invariantes, Essa autonomia relativa nada tem a ver com dro da relação de apropriação real, entre o produtor direto e os
a de um Estado de transição, nem com a de um equilíbrio de for- meios de produção - conferem à superestrutura jurídico-política
ças; por outras palavras, não coloca de modo algum em questão do Estado uma autonomia específica face às relações de produção.
as relações profundas entre o Estado atual e a fração hegemônica sta emancipação das instâncias reflete-se, no campo da luta de
dos monopólios: muito pelo contrário, pressupõe-nos. classes, em uma autonomia da luta econômica - relações sociais
econômicas - de .classe e da luta política - relações sociais po-
líticas - de classe. Ora, as estruturas jurídicas do Estado capi-
talista, combinadas com a ideologia jurídica e com a ideologia em
geral desse modo de produção, têm como efeito, na luta eco-
mica de classe, nas relações sociais econômicas, o isolamento
dos agentes de um modo de produção no interior da qual, no en-
tanto, a estrutura real das relações de produção - separação
entre o produtor direto e os meios de produção - conduz a uma
prodigiosa socialização do processo do trabalho. Esse isolamento -
efeito sobredeterminado mas real - é vivido pelos agentes segundo
o modelo da concorrência e conduz à ocultação, para esses agentes,
das suas relações como relações de classe. Esse isolamento é, in-
.lusive, válido tanto para os capitalistas-proprietários privados como
para os operários assalariados, ainda que não se manifeste, sem