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Manzini Covre, Maria de Lour- tornaram-se mais complexas.

Assim, Administração que se observou no


des. A Formação e a ideologia as grandes empresas acabam exigindo Estado de São Paulo. Em 1969, havia
mão-de-obra qualificada, em grande cerca de 12 mil alunos matriculados,
do administ;ador de empresa.
parte de nível superior, onde se des- ao passo . que em 1974 as matrículas
Petrópolis, Vozes, 1981. 191 p. tacÇl a necessidade do administrador atingem a casa dos 46 mil. As escolas
Cr$ 350,00. (ao lado do economista}. de Economia, Administração e ciên-
Dessa maneira, "o administrador cias afins, em São Paulo, passam de
expressa o expoente que bem incor- 3, em 1940, para 28 após 1970 -
pora a ideologia neocapitalísta, e perfazendo um total de 66 escolas,
cujos conhecimentos de marketíng, de acordo com um levantamento rea-
finanças, planejamento empresarial, lizado pelo MEC. E entre 1951 e
etc. são imprescindíveis à operação 1968, enquanto as matrículas totais
do empreendimento capitalista, em nos cursos de Medicina e Engenharia
sua fase monopolista" (p. 182). Daí a aumentaram, respectivamente, de
autora procura demonstrar, em pri- 174% e 483%, na área de Economia e
meiro lugar, como o tipo de forma- Administração essa taxa alcançou
ção administrativa, relativa a uma es- 1.118%, continuando a aumentar nos
cola que serve de parr!digma - a Es- primeiros anos da década de 70 (veja
cola de Administração de Empresas tais informações a p. 80-2).
de São Paulo (EAESP), da Fundação Para a autora, esse processo tinha .
Getulio Vargas . . . . está intimamente li- por finalidade atender às empresas
gada aos interesses do capital. E mais: que sofreram o processo de concen-
a análise da formação deste adminis- . tração econômica, maior burocratiza-
trador encontra na EAESP um tipo ção e conseqüente crescimen.to das
de ensino de administração de caráter exigências de administradores profis-
de vanguarda em relação ao interesse sionais.
Os administradores servem à acumu- do capital, refletindo aspectos da Analisando os dados de sua pes-
lação do capital? Qual a formação, ideologia desenvolvimentista, "forma quisa chegou à conclusão de que as
posicionamento e função do adminis- transfigurada da ideologia neocapita- escolas de Administração - e em es-
trador na sociedade brasileira? Por lista na periferia do sistema capita- pecial a EAESP - recrutam alunos
que surgiram escolas de administra- lista". que possuem excelente capital cultu-
ção em número crescente após Em segundo lugar, vai captar os ral, manifestado através do curso co-
1968? Em que contexto histórico- traços ideológicos desses alunos/ legial regular (e, provavelmente, em 79
econômico-social surgiu o administra- administradores, examinando a po- escolas secundárias da rede particular
dor no Brasil? São estas, entre sição e função social que possuem na - colégios de elite); têm seus domicí-
outras, algumas das indagações a que empresa, em relação às suas próprias lios em zonas que possuem todos os
o trabalho de Maria de Lourdes Man- atitudes e valores. Finalmente, pro- equipamentos urbanos; pertencem ao
zini Covre procura responder. cura compor o modelo de desenvolvi- menos às classes média ou média alta
Segundo a autora, o presente Iivro mento veiculado por estes alunos/ da sociedade; possuem grande capital
é o resultado de ", .. reflexões teóri- administradores, que denota o seu de relações sociais que lhes possibi-
cas e de uma pesquisa de natureza comprometimento perante o con- lita, após formados, serem convida-
empírica, realizada em 1976, em texto sócio-econômico atual. dos para administrar empresas, sem
torno da formação, posicionamento e A elaboração do trabalho apóia-se terem de submeter-se a exaustivas e
função do administrador na socieda- numa pesquisa empírica, cujo levan- hum iIh antes baterias de testes de
de brasileira contemporânea ... ", tamento de dados foi realizado a par- conhecimento ou aptidão.
concluído em abril de 1978 (p. 11). tir da aplicação de questionários em Maurício Tragtemberg, em Ideo-
De acordo com sua interpretação, o 224 alunos da EAESP, compreenden- logia e curr!'culo de administração
número crescente de administradores do 'alunos do curso de gmduação dos (material mimeografado, de uso in-
(e também de economistas) despeja- per iodos diurno e noturno, incluindo terno da EAESP), pondera que o cur-
dos pelas escolas no mercado de tra- também alunos do CEAG (Curso de rículo é um meio que serve a fins, e a
balho nos últimos 1O ou 15 anos, Especialização em Administração característica recorrente nas escolas
deve ser diretamente relacionado às para Graduados), além de outras in- de Administração " ... é o predo-
necessidades do processo econômico formações obtidas por intermédio de mínio da óptica patronal que se dá
brasileiro, que vem-se caracterizando entrevistas com alunos e professores, através da existência de inúmeras dis-
pela concentração econômica -mais bem como do manuseio de algumas ciplinas que são ensinadas, sem consi-
acentuada após 1964- evidenciando outras fontes, tais como: currículôs deração da existência da óptica da
um desenvolvimento voltado para a da EAESP; livros informativos publi- mão-de-obra. Urge viabilizar no cur-
grande empresa. Esta, por sua vez, cados pela Escola; leis e decretos rela- rículo escolar, entendido como re-
utiliza-se de tecnologia avançada, dis- tivos às Escolas 'de Administração; flexo do social, em nível de disci·
pensando a mão-de-obra não-qualifi- dados coligi~os de três pesquisas iné- plinas, temas como o sindicalismo, a
cada e absorvendo a qualificada para ditas da própria Fundação. co-gestão na empresa, a história do
as funções de análise, controle e pia" Maria de Lourdes Manzini Covre movimento operário organizado. Isso
nejamento das atividades empresa- indica a brutal expansão do número possibilitaria a existência de um cur-
riais que, pelo nível de tecnologia, de alunos matriculados nas escolas de rículo adequado à conjuntura social

Rev. Adm. Emp., Rio de Janeiro, 21(2}: 79-83 abr./jun. 1981


onde a mão-de-obra organizada pro- A autora conclui que a grande Garcia Durand (Empresas e escola,
cura criar seu espaço de atuação e re- maioria das disciplinas de ciências so- em 18 de dezembro de 1980).
flexão. Desta forma, a estrutura cur- ciais (sociologia, política, direito, psi- Segundo Cláudio Leopoldo Salm,
r[cular seria fiel às contradições do cologia, economia, metodologia da a escola é vista como instituição que
social" (p. 5, grifado no original). pesquisa) veiculadas aos alunos da serve às empresas - no que, ai iás, os
Maria de Lourdes Manzini Covre, EAESP acaba por se revestir de um críticos da educação estão todos de
analisando os currículos da EAESP caráter "técnico", tendo uma impor- acordo. Entretanto, destaca um as-
no período compreendido entre tância capital na formação de profis- pecto decisivo que, em meu enten-
1957-1976, fez as seguintes constata- sionais, transformando seus alunos der, é praticamente irrebatível: o de
ções: · em candidatos " ... com fácil acesso ·que o capital não cria obstáculos à
às cúpulas administrativas, cujo co- sua valorização. "A suposta depen-
• em 1957, o Departamento de nhecimento obtido pelas ciências hu- dência das empresas face a um sis-
Administração Geral e Relações In- manas é imprescindível, desde que o tema educacional que se expande
dustriais (DAG R I), que . detinha homem de cúpula é um 'homem polí- sem cessar vai contra toda a lógica de
24,5% do número total das discipli- tico', no sentido de ser capaz de evolução capitalista. A história do
nas, passa a deter apenas 14 ,O em tomar decisões criativas que envol- mercado de trabalho é outra. É a his-
1976; vem a relação com o governo, com tória de como o capital vai-se liber-
sindicatos, outras empresas, etc." tando dos entraves que o trabalho lhe
• o Departamento de Ciências
· (p. 106). Ou, nas palavras de M. Trag- possa trazer. Se é tão lido e repetido
Sociais, que detinha 22,4% das disci-
temberg .. "o crescimento de matérias que "a produção capitalista é pro-
plinas em 1957, detém 30,2 das mes-
não-técnicas em termos relativos no dução e reprodução das relações de
mas em 1976;
curdculo escolar não significou 'hu- produção especificamente capitalis-
• o Departamento de Mercadologia, manização' curricular, mas sim a con- tas" (Marx, Karl. O Capital. São
no mesmo período, aumentou de versão das ciências humanas em um Paulo, Ciências Humanas, 1978. livro
8,2% para 9,3 o percentual de disci- saber instrumental, como a transfor- I, cap. VI inédito, p. 90), por que a
plinas que detinha; mação da metodologia científica em insistêncía em procurar no sistema
• o Departamento de Contabilidade mera técnica de pesquisa (. .. ). O educacional o locus onde o capital
e Finanças baixou, no mesmo pe- produto final do currículo do ensino vai buscar a reprodução de sua força
ríodo, de 16,3 para 9,3%; de administração é a conversão da so- de trabalho? Essa visão é de fato in-
• o Departamento de Economia, ciologia em técnica de manipulação e trigante. O capital, que se libertou
entre 1957-1976, passou de 8,2%, controle social; da psicologia em das limitações impostas pelo tama-
das disciplinas que detinha, para 11,6 técnica manipulativa de subalternos, nho da população, que internalizou
80 (veja tabela e comentários acerca das (aparecendo) o neoposítivismo (. .. } suas fontes de financiamento resol-
modificações no currículo obrigató- como a ideologia subjacente às várias vendo também os problemas da mo-
rio dos cursos da EAESP a p. 103-4, disciplinas que compõem o currículo bilidade desses recursos, que controla
do livro). nos cursos de Administração, combi- seus mercados, que regula e orienta o
nado com a ideologia neocapitalista fluxo de inovações tecnológicas, en-
Tais variações no peso dos depar- expressa por Berle, Burnham & fim, o capital que vai dominando (e
tamentos na estrutura curricular da Weber" (op. cit. p. 6-7; gritos do ori- destruindo) a própria natureza, de-
Escola visam a responder, basica- ginal). penderia dessa instituição pesada cha-
. mente, às necessidades econômicas Acrescentaria ainda que o livro de mada escola para resolver seus pro-
que orientam tal estrutura. Assim é Maria de Lourdes Manzini Covre blemas com a força de trabalho! Se a
que a predominância inicial do De- apresenta muitos · outros méritos e finalidade da produção capitalista é a
partamen~o de Administração Geral, conclusões pertinentes, além daque- reprodução e ampliação das relações
no currículo da EAESP, tinha por fi- . les que foram aqui expostos e resu- capitalistas de produção, é no seio da
nalidade responder às exigências ini- midos. Entretanto, antes de concluir, produção mesma que devemos buscar
ciais do arranco industrial - estava-se gostaria de realizar algumas conside- a formação das qualificações requeri-
em pleno desenvolvimento, com JK à rações relativas a uma tese que até das e não em uma instituição à mar-
frente da Nação- que demandava di- agora pouco destaque recebeu na lite- gem como é a escola" (p. 25).
retrizes administrativas básicas, ratura crítica da área de educação - Por essa óptica a escola, ao invés
" ... o que se levou a converter a e que contraria em grande medida o de ser uma fábrica de mão-de-obra
Teoria da Burocracia em principal pressuposto básico no qual está ali- qualificada; chega mesmo a desservir
tema dos cursos" (Cf. Tragtemberg, cerçado A formação e a ideologia do ao capital, " . .. na medida que forma
op. cit. p. 6). Por outro lado, o pre- administrador de empresa - qual pessoas mais exigentes e menos dis-
domínio progressivo das ciências so- seja, a de que o capital não precisa da postas a aceitar a rotina da fábrica e
ciais, mercadologia e economia visa a escola, ao menos para formar sua do escritório" (cf. artigo de José C.
atender a " ... um modelo associado mão-de-obra. Esta tese, é importante G. Durand). Mas então, se o capital
de crescimento econômico onde a frisar, recebeu guarida no excelente não precisa da escola para formar sua
multinacional é privilegiada, (pois) trabalho de Cláudio Leopoldo Salm mão-de·obra, onde é que ele adestra-
necessita de um administrador gene- (Escola e trabalho. São Paulo, Brasi- rá seus quadros? A resposta pode ser
ralista que possua condições de com- liense, 1980) e em artigos publicados obtida no primeiro dos artigos de
preender conjunturas econômico-po- na Folha de São Paulo por Paul Sin- Paul Singer, quando afirma que "isso
líticas e sociais para melhor agir" ger (Escola e capital, em 13 e 19 de as firmas mesmas fazem, principal-
(idem, p. 6, grifado no original). novembro de 1980) e José Carlos mente por meio do treinamento no

Revista de Administração de Empresas


trabalho e subsid iariamente medi ante José C. G. Durand) . Ou, em outras Cast les, F. G. ; Murray, D. J.;
escolas p rofissionais por elas cont ro- palavras, o que a escola forn ece às Pollitt, C. J. & Potter, D. C.,
ladas, como as do Senai, no Br asi ~ O empresas são critérios sim ból icos
aparelho educacional geral, •mesm o para o preenchimento dos cargos em
Decisions, organizations and
quando se pretende profissionalizan- sua ~ierarquia ocupa<?ional. socíety: selected readings. 2nd
te, proporciona aos alunos habili- Estas ú ltim as conside rações reali- ed. Harmondsworth, Middlesex,
d ad es de pouco ou nenh um uso no zadas com base no li vro de .Salm e England,· PeAguin . Books, 1976.
exerc ício profissional. Na melhor das nos artigos de Singer e Durand .não se Brochura, 438 p. índice, índice
hipóteses, a esco la p roporc iona cer- encontram incorporadas no t rabalh o
tos conheciment os gerais de códigos por autores e índice remissivo.
de Mar ia de Lourdes Manzin i Covre.
(I ingü (sticos, matemáticos, gráficos) Entretanto, não seria exigir dema is
que facil itam o aprendizado no tra- de uma dissertação de mestrado qu e,
balho. Mas estes conhecimentos não sob muitos aspectos, já. apresenta in-
const ituem mais que uma fração pe- terp retações e conclusqes inegavel-
quena do coniu nto cada vez mais ex- mente originais?
t enso d e coisas que as pessoas são
obrigadas a saber para fa zer jus a um Afrânio Mend es Catani *
di p loma".
A análi se de Cláud io Leopoldo
Prof. do Departamento de Ciências da
Salm mostra que escola e capital pe~­ Educação da Unesp (Ca mpus de Arara-
correm trajet ór ias opostas quanto à q uara)
qual ificação da força de trabalh o.
" Enquanto a p ri meira amplia seu s
currícu los e eleva incessantemente o
tem po de preparação prof issional , o
·segundo utiliza o progresso técnico
,para sistematicamente eli minar da Trata-se de uma coletânea de textos
produção o t rabalhador dotado de selecionados para atender a necessi-
conhecimento ou habilidades espe- dades de leituras gerais sobre a maté-
ciais." O autor ilustra essa afirmação ria e, especificamente, do curso sobre
apresentando dados sobre o emprego Decision Making in Britain oferecido
na indústria paulista, que se expandiu pela Universi dade Aberta, de Lon-
56% entre 1951 e 1963, sendo que 81
dres.
neste período o número de trabalha- O enfoque das leituras apresenta-
dores braçais aumentou 64%, o de das está na área de conhecimento que
trabalhadores semiqualificados, 83%, surge da intersecção dos conceitos de
mas o de trabalhadores qualificados, decisão e poder. Decisão é entendida
apenas 5%. No mesmo período o nú-
como escolha consciente entre dois
mero de técnicos e engenheiros cres-
cursos possíveis de ação; poder,
ceu 199%, ou seja, muito mais que
como um conceito de uso variado,
qualquer outra categoria, sendo que que, de modo geral , se refere àquelas
essa força de trabalho também exerce relações sociais que envolvem o con-
tarefas rotineiras, aprendidas apenas trole de homens e mu lheres. Assim
na prática - e esse é um tipo de co- sendo, as leitu ras foram reunidas, ori-
nhecimento que a escola não pode ginalmente, para dar conta do pro-
transmitir. Sa lm pondera ainda que cesso pelo qu al as múltiplas possibili-
" a grande empresa irá internalizar dades de atividade hum ana são redu ~
toda uma gama de processos, inclu- zidas, por escolha consciente, a um
sive o de tentar moldar o comporta- único curso de ação, trazendo, como
mento dos trabalhadores. Não irá conseqüência, o controle sobre as
confiar na esco la nem pa ra isso" pessoas envo lv idas em uma arena de
{p. 26). relações sociais.
Entretanto , a empresa leva cad a Uma di stinção importante deve
vez mais em co nta a dip lom ação dos ser observada, quanto ao critério de
pretendentes a em prego. Por q uê? seleção do mate rial reu nido : segue a
" Se ass im o faz, é porque se val e da orientação da teoria descrit iva da de-
instituição educac io nal como fo rne- cisão e não da teoria no rm ativa. Se-
cedo ra de c redenciais, simplificando gundo os o rgan izadores, a primeira
o processo de recrutamento pela ex- enfat iza o p rocesso como as decisões
cl usão sumária e prév ia dos postulan- são fei tas, na prática, e, também ,
tes não di plom ad os. Al iás, à em presa como opera a estrutura de tomada de
não sai caro t al exped ie nte , uma vez decisões. Por outro lado, a t eoria no r-
que não é ela qu e arca com os custos mativa diz respe ito ao caminho utili-
do sistema de ensino" (cf. art igo de zado por um t omador de decisão ra-

R esenha bibliográfica