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Os valores dos símbolos.

Roberto Esposito
jornal La Repubblica, 07-05-2012.

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509268-os-valores-dos-simbolos-artigo-de-roberto-
esposito

1. A emancipação das democracias em relação à religião não


significa perda de dimensão mítica.
2. Trata-se daquele fenômeno degenerativo que Zagrebelsky sintetiza com
o termo "dessimbolização". Ao contrário de autores
como Rawls ou Habermas, que veem na política uma atividade guiada
por procedimentos racionais, ele reconhece na dimensão simbólica uma
reserva de sentido fundamental do agir coletivo. Como foi destacado pela
grande cultura sociológica de Weber e Durkheim, mas também pelas
pesquisas históricas fundamentais de Marc Bloch e de Ernst
Kantorowicz, a fenomenologia do poder é inacessível se separada da
função que nela desempenha a esfera do mito.
3. A emancipação da política com relação à ancoragem religiosa,
consequente da secularização, não significa de fato perda de dimensão
mítica, como ingenuamente supôs a tradição iluminista, contrapondo
frontalmente mythos elogos. Segundo o próprio Weber, aliás, é
precisamente da "gaiola de aço" da burocratização que se gerou, por
reação, nas primeiras décadas do século XX, a exigência de uma nova
política carismática, com os resultados, até mesmo trágicos, que
conhecemos.
4. Zagrebelsky intensifica essa linha de raciocínio, reconhecendo no
símbolo uma entidade de dupla face [...]uma vez objetivado em normas e
instituições, se torna um poderoso fator de integração social.
5. Sem o símbolo, se reduzíssemos a experiência humana à abstração da
pura razão calculante, não poderia haver nem sociedade nem política.
Porque, na base de ambas, está aquela capacidade de referência a algo
diferente, aquele impulso projetual, que constitui, ao mesmo tempo, a
condição e o significado da vida coletiva.
6. Symbolon, como contado no Banquete de Platão, é o resultado da
reunião de duas partes desconexas, que, declarando a sua própria
insuficiência, se combinam em um todo que as compreende na forma da
atração recíproca. Mas sem jamais perder a sua tensão constitutiva, sem
jamais repousar em uma paz definitiva. Porque, por trás da face de luz
do symbolon, sempre se assoma a ameaça obscura do diabolon – de uma
nova e mais letal cisão entre diferentes que se interpretam como
absolutos opostos.
7. É por isso que Zagrebelsky recorda, com Simmel, que, para fazer
sociedade, não basta o "dois", dividido entre o amor e inimizade, mas é
preciso o "três", em que os contrastes subjetivos se desfazem na
objetividade de instituições terceiras.
8. Poder do símbolo. De grande sugestão é o exemplo, central na nossa
tradição, da Cruz – passagem sem solução de continuidade de sinal, nu e
despojado, de dor e contrição, a símbolo de triunfo e também de
perseguição contra hereges e infiéis, para depois fluir novamente em uma
espécie de insignificância, miséria posta em jogo de luta política entre
inclinações adversas. Sem falar da sua terrível perversão na cruz gamada
nazista, que também acendeu a chama do entusiasmo em um povo
inteiro, mobilizando-o contra outros mitos contrapostos.
9. Como também lembra Clare Bottici em Filosofia del mito (Ed.
Bollati Boringhieri), se lermos em sobreposição O Mito do Estado,
de Cassirer, e Reflexões sobre a Violência, de Sorel, se capta o
pivô secreto em torno do qual um mesmo símbolo agressivo parece girar
sobre si mesmo, percorrendo de um polo ao outro do quadrante
ideológico do tempo.
10. É de Franz Rosenzweig a aguda observação de que, ao contrário da
monarquia, vinculada à continuidade biológica da sucessão dinástica, o
mecanismo eleitoral da democracia levou a romper o fio entre as
gerações. Zagrebelsky remete esse dado institucional àquele déficit
simbólico que constitui doença mais insidiosa das democracias
contemporâneas.
11. Restrita entre as receitas técnicas de pura administração do existente e as
aspirações de movimentos sem programas e sem perspectivas, a política
continua perdendo terreno. Mas o que pode parecer ser um destino ainda
depende sempre de atitudes e opções que ainda é possível, e necessário,
mudar.