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A~rno 1

Lisboa, z 5 de março de I 899

NUMERO 5

r n o 1 Lisboa, z 5 de março de I 899 NUMERO 5 A ARTE

A ARTE MUSICAL

RtvlSTA P~BLICAílA U~INHNAlMLNTE

REDACÇÃO

E

ADMINISTRAÇÃO -

Praça

dos

Restauradores,

43

a

49

DIRECTOR

éJ,fichel'angelo

Lambertini

LISBOA

Instituto, R- Jar dim '"Rggedor, I.3 e 1 S

EDITOR

Ernesto ~ieira

SUMMARIO-T . Dubois-Musica de Camara-Con-

Fernando de

certos -

Sousa coutinho- Not iciario-Caricaturns.

Theatro de

S.

Carlos -D.

O actual director do Conservatorio de

Paris, não é um d'aquelles composi-

tores brilhantes cujo nome illuminado

-ou tenha sido prostitu ido do reclamo on e tantos se

gosto. O seu nome não é apregoado, mas é res- peitado, o que significa mais alguma coisa.

mais graduados

na ignobil feira en ameam co m

d

1

Consideram-no

ull)

dós

na ignobil feira en ameam co m d 1 Consideram-no ull) dós THEODORE DUEOIS mestres da

THEODORE

DUEOIS

mestres da escola franceza, digno successor

tro, se tenha librado nas azas da populari- de Gounod, Ambroise T homas e Cesar

Franck. Conservador da pureza classica,

dade - a qual tambem por vezes se engana

pela luz - algumas yezes ficticia- do thea-

38

A

A RTE MUSICAL

moderno sem extravagancia, distingue-se nas suas obras pela sinceridade artística, no- breza de estylo, esmero de forma; distin- gue-se no ensino pela docura de caracter, imparcialidade no julgamento, exactidão nos deveres. Nasceu Clément Theodore Dubois em Rosnay (Marne), a 24 de agosto de 1837. Cursou, desde muito novo, no estabeleci- mento que agora dirige, os estudos de pia- no, orgao, harmonia e acompanhamento, contraponto e fuga, tendo udo por mestre n'esta ultima disciplina o seu predecessorAm- broise Thomas. Ubteve n'esses estudos dif- fere ntes premios ate akancar, em i8tii, o primeiro grande premio que Íhe valeu a pen-

~áo em Roma.

ta cidade trabalhou activamente, notando- se, entre as suas produccóes d'essa época, uma missa, duas aberturás e uma opera - La Fiancée d'C/lbydos - que nunca toi can- tada no theatro mas da qual teem sido exe- cutados alguns fragmentos nos concertos. Regressando a r ranca dedicou-se ao en- sino e ob1eve ao mesmo tempo o logar de mestre da capella e organista na egreja de ::3anta Clotilde, logar que depois foi occu- pado por Cesar J:<rancic Em 1867 fez can-

tar n'esta egreja uma oratoria - «As sete

que foi considerada

digna de grande estima e lhe valeu credi- tos de bom compositor no genero sacro. ::,eguidamence tez ~xecutar nos grandes con- certos diversas outras composições, entre

ellas um bello côro religioso -«lJeus Abra- h&m» - e um mote te - ·Tu es 'Petrus -para coro, 01 gão, harpa, violoncello e contra- baixo. ~m 1871 obteve a nomeação de profos- sor de harmonia no ConservalOrio, sendo a esse tempo mestre da capella e organista na Magualen<i. Pouco depois cantou-se n'um theatro uma.sua operena em um acto - La GurLa de /'Emir - que muito agradou. t.oncorrendo em 187~ ao premio insti- tuido pelo Concelho iVlunicipal de Paris, obteve-o repartil.lo ex-equa! com Godard que apresentára a sua obra prima, o c<Ta s- ~O~>. A composição. apresentada por Dubois 101 o «Paraiso P~rdido», drama-oratoria em quatro partes, extrahido do poema de Mil- ton. Executou-se pela primeira vez nos con- certo:; de Colonne em 27 de novembro de i878, sendo julgada obra consideravel de uni compositor talentoso e esmerado care- cendo, porem, de originalidade. Outr~ope- rctta n'um acto - Le 'Pain Bis-se cantou em 1079 sem muito eÀito. Uma unica grande opera conseguiu ver representada, e essa mesma teve tambem

palavras de l

.i:.mquanto permaneceu n'es-

hristo»

-

fraco exito, embora o publico encontrasse n'ella trechos qu e applau di r e os criticos notassem paginas dignas de um mestre. Essa opera foi «Aben Hamet», cuja primeira re- pre~entação teve logar no T heatro Italiano em 16 de dezembro de 1884. Confirmada a sua reputacáo de saber pro- fundo e respeito pelo classicismo, f~i esco- lhido para substituir o fallecido Dehbes no logar de professor de contraponto e fu$ª:

Por fallecimento de Gounod, em 1894, 101 tambem eleito para occupar a cadeira que este deixára vaga na Academia de Bellas- Artes, e finalmente, depois de algumas he- sitações sobre a escolha de quem devia suc- ceder ao respeitavel Ambroise Thoma~ na direcção do Conservatorio, teve pu~~is a preferencia com geral applauso, comc1dmdo a sua nomeacão com a conclusão do novo re- gulamento q'ue actualmente visora n'aquelle instituto. O illustre musico tocou este ponto culminante da sua carreira em ma10 de

. ::;ão muito numerosas as suas composi- ções que varios editores teem publicado. Entre ellas notarei: duas collecçóes de doze trechos para orgão e uma c<Messe de mariage»; colleccão ae vinte trechos para

piano ; outra de ct'oze; outra de vin~emelo-

canto; oiten~a e sete hç_ões de

harmonia, além de muitas peças dive~sas para orgão, piano, canto, etc. A sua ultima obra notavei foi a musica para a ode e~­ cripta em latim por Leão Xlll e que o. edi- tor Heugel acaba de publicar com o utulo

- Le Baptême de Clovis.

io96.

dias

para

ERNESTO

VIEIRA.

!

!·-+---- --

iA USICA DE ' AMA.RA

M us1cA de camara todos sabem o que

ouvida em reunião intima, que é pro-

pría para despertar prin.cipalmente s~n.sa­ cóes suaves que tranqu1lhsam o espmto, êaptivando-o unicamente por uma sabia or-

sons, e que, pela vaga ~e':'pres-

denacão dos

seja: é aquella que se de~tina a ser

são éaracteristica da musica pura, deixa ao

pensamento a liberdade de identificar essa expressão com o proprio

julgue ser pouco antiga a deno-

minacão de c<musica de camara» dada a es- ta fórma especial da arte, nem que a ~ua importancia fosse em algum tempo infenor á que lhe compete : o nosso rei D. João III tinha ao seu serviço, além d~ cincoenta. e dois cantores da capella, dezeseis menestre1s, doze trombeteiros e oito atabaleiros, mais

Nã o se

A ARTE M USICAL 3 9 Bomtempo e as demais academias que lhe teem succedido.

A ARTE M USICAL

39

Bomtempo e as demais academias que lhe teem succedido.

.

.

ca.nt<?r~s

(Con tinzía).

ER NESTO V IEIRA.

i~~~~~~1

~?????7fi'i'?V?'i"?77YY'?i*?~~

<l'

in:

.

C OMO dissemos no nosso ultimo nume-

um concerto com que a sr.ª Condessa

de P e nh a Longa fechou a se ri e de fes t as

dadas este inverno no seu sumptuoso pala- cio.

ro , r eali so u-se a 27 do mez passado,

Apresen taram-se

como

pianista~, M. m~s

Pl antier, Schr~te r Pires .e M. el l cs Pmt o J~e i­

te (D. Luiza e D. Angelma), Alto Meanm, Maria Luiza Graça e srs. Rey Colaço e Eduardo Burnay. No canto brilharam M.me Pinto Leite e sua interessante filha, M.clle Saldanha da Gama a sr.• condessa de Alto i\1earim e

e

methodo de canto não podemos

deixar de espe.:.ialisar e foram Uf!lª verda- deira revelacão para quantos tiveram a

de Bemberg, com que

esta distincta amadora figurava na 2.• par- te do programma, foi bisado com enthusias- mo e muito comprimentado o seu profes- sor, o maestro Sarti, que todo~ co_nsideram hoje como um dos nossos primeiros mes-

tres de canto. Tamb em

os

srs. Paulo do Quental e Luiz Coruche, ou- tro discípulo laureado de Sarti. Completavam o prngrammn varios trechos de violino a solo e de ensemble. M.elle Salusse, Cecil Mackee e o in~igne professor Victor Hussla foram os solistas. Grande enthusiasmo acolheu as peças de ensemble, Intermezzo da Cavalleria Rusti- cana ·e Ave .Maria de Gounod, que produ- ziram effeito surprehendente, executadas por nove violinos em unisono, piano e harmo-

nium e admiravelmente ensaiadas por Vi- ctor Hussla. Tiveram ambas as honras de bis.

*

-

M.elle Bettencour t, cu1a voz mav1os1ss1ma

explendido

fortuna de a ouvir.

O Chant Hindou

,

.

.

.

cantaram va rias romanças,

No dia 5, realisou-se no salão do Conser-

vatorio uma bella audicão de alumnos, que

deixou a todos a melhor impressão.

de

ha muito que taes audições se de·

viam effectuar periodi.camen~e n 'aque!le es- tabelecimento de ensrno, pois que alem de representarem um vantajoso estimulo, são

de camara» que eram a flor

oito ~e p o rt ugueza n'aquelle tempo e entre

da ar aes se contavam os celebres composi- os qu Badajoz e Baena . Veem os nomes de to~es elles nas «Provas da Historia Genealo- ~c:daCasa Real» por D. Antonio Caetan o

. Os pri mei r? s ar tistas 1tahanos- · strument1stas - que desde o prmc1p10

e 1 ~einado de D. João V começaram a ser

conde-

com o titulo honorifico de vir-

. mt1tulando-se tambem

. Póde ainda ver-se no l?alac10 de Queluz

a das serenatas», CUJO tecto represen-

ta um concerto de musica

ido pelo infante D. Pedro, filho de. el-rei

~.José, e em .que tomam P.art:, a prmceza D: Maria e as mfantas suas 1rmas, ac?mpa-

nhadas

David Pe r es. Foi nas sessões de musica de camara rea- lisadas nos fins do seculo XVI ~elos acade- micos de Florença, que tev: origem ~ ope- ra apresentada em embrvao por Vicente

G~ileu cantando 1 ao

tações

de Jeremias em «estylo recitatlVO>i.

O soberbo theatro lvrico não deve desde-

nhar a simples musica' de camara, pois d'el-

la nasceu.

s portugue-

• musicos

ae Sou sa.

d~ ma dos para o serviço da Côrte,

c

a ,,

m-se

"

tuosi cora de/la camera dt.

. S

:

M

F

1 .mitaram·nos zes .virtuosos da Real

c

nmaral).

a «

Sal

.

d

.

O

e camara

ao

cravo pelo

mestre co~pos1tor

som da lvra, a~ la~en­

.

E se esta tem essencialmente um caract~r

attrahir o vulgo,

nem po; isso o seu valor é pequeno, antes

muitos espíritos cultos lhe concedem todas

as sua s preferencias. Mode stí ssimo fo i o começo do seu desen-

em Londres: pelos fin s do secu-

lo XVII um simples carvoeiro, T homas Brit-

ton, bibli o,Philo antiquario. e. ~mador de mu-

sica

mes'mo tempo deposito de carvão e biblio-

theca, alguns dos mais nobres lords que tambem cultivavam a arte, e passavam os serões regalando-se com as tocatas de C~­ relli, Gemin ian i, Purc ell e ou tro s composi- tores d'aquella época. D'este pequeno club musical, avô das modernas sociedades de quartetto e academias de amadores, nasceu nada men os que a celebre Philarmon~c existente ainda hoj e, mãe de todas as ph1- larmonicas espalhadas no mundo e torna- das populares entre nós. Sempre dos pequenos regatos derivam as grandes correntes.

dom1cil10, que era ao

modesto

improprio para

volvimento

reuma

no

seu

das intimas reuniões de musica

de camara que Francisco Driesel e outros a~adores r ealisavam frequentemente em Lisboa no primeiro quartel d'este seculo, derivou a «Sociedade Philarmonica» de

Tambem

40

A ARTE M USICAL

o unico meio que os alumnos podem ter

para habituar os nervos a vencer a natural

repugnancia que todos mais ou menos teem, quando se trata de publicas exhibições. O que nos parece é que em vez de se fa- zer um unico concerto com um programma de 18 peças, se poderiam ter feito dois ou mesmo tres, com programmas mais resu- midos e onde podia inclusivamente figurar

a repeticão de algu ns trechos que mais ti-

vessem âgradado ou que mais conviesse fa · zer ouvir de novo. E' nos impossivel reproduzir tão longo prograrnrna na integra, mas devemos dizer que figuram n'elle os nomes mais veneran- dos da musica, desde Bach até Brahms. Quanto á execucão, tendo em vista que se trata de despretenc iosos alumnos, não lhe podemos regatear louvores, antes temos

o maior prazer em registar o brilhante re-

sultado d'esta matinée, e fazer votos para que taes audicões se repitam com a maior frequencia possi vel. Aos illustres professores, os srs. Guilher- me Ribeiro, Freitas Gazul, Rey Colaço, Vi- ctor Hussla e vVagner o nosso incondicio- nal applauso, pela maneira conscienciosa como foram trabalhadas as peças de ensem- ble. Os córos Sansão e 'Dalila de Saint Saens e Psyché de Ambroise Thomas (este ultimo bisado), tiveram uma execução dis- tinctissima e algumas das peças de musica de camara, como as Noi 1 elleten de Gade e outras, tornaram-se dignas de elogio pela maneira correcta como foram executadas,

e pela bella fusão de sonoridade que os es- tudiosos alumnos conseguiram obter.

Aos solistas e seus respectivos mestres, os srs. Colaço, Bahia, Hussla, Augusto Ma- chado e Pereira desejariamos dar aqui es- peciaes louvores, mas já vae longa esta no- ticia e os limites de espaco, n'uma folha como a nossa, são inexoraveis. Não fecharemos porém esta noticia sem alludir a um clarinetista de largo futuro ar- tistico, o sr. Domingos Castanho de ~Iattos, que tocou um solo de Bendel com raros pri- mores de execução, e a uma pianista espe- cialmente dotada, a menina Laura \Vake Marques, que na Aria variada, de Haendel,

e Piece caracteristique, de Mendelssohn, de-

notou urna adrniravel technica e principal- mente detalhou certas phrases com um charme e finura que só estamos habituados

a ouvir aos melhores mestres.

Um bravo tambem á distincta alumna Adéle Heinz, que no seu tão modesto quão difficil papel de acompanhadora ao piano, se desempenhou como artista.

*

No mesmo dia teve lugar, em casa dos no-

bres Condes de Proença a Velha, uma inte- ressante matinée de musica moderna, cujo programma foi o seguinte :

1. 3 PA'l{I'E

Grieg -

pela ex.ma sr.ª condessa de Proença Velha. Schumann - Novelette, pé:tra piano, pela

canto

a

Chanson

de

Solvejg, para

ex."'ª sr.ª D. Joanna Tavora Folque.

L a.ssen - Hirondelle, pa ra can to, pela ex. ma

sr.ª D. Maria Theresa Diniz.

Grieg -Jlarclze hero'ique, para piano, pela

ex.ma sr.ª D. Judith Deslandes. Grieg-Le Printemps, La Rose, para canto, por Madame Sarti.

2.ª PA'R 7E

Chopin-Viardot -Aime· lllOÍ, mazurka para canto, pela ex.ma sr.ª condessa de Proença- a-Velha.

Cbaminade - 'R d'01.mour, para can-

t~, pela ex. 01 ª sr.ª D. Maria Theresa Di-

onde

mz.

Baohmann -

Chanson e

Chopin - Nocturne, para piano, pela ex.ma

sr.ª D. Alice Schroeter Pires.

La come- La Glu, Un bal d'oiseaux, para

canto, por Madame Satti.

Massenet - 'Dans les sentiers, 'Parmi les roses e Gavotte de 1\llanon, para canto,

pela ex . ma sr.ª Yelha.

condess a d e Proença

a

Ao piano, o maestro Sarti, que se houve com a costumada proficiencia, nos acompa- nhamentos. Com tão 1llustres executantes e com um programma tão finamente escolhido não é para extranhar que este concerto tivesse um acolhimento enthusiastico por parte dos nu- merosos amadores que enchiam as salas dos sympathicos fidalgos. De resto, vemos com intimo prazer que os bons concertos particulares, cuja impor- tancia artística não é para desdenhar, se vão multiplicando de dia para dia, o que denota um progressivo e lisongeiro apuramento no gosto publico. São dignos dos mais sinceros emboras to- do s os que se empenham em tão bella cru- zada e, entre elle~, cabem especiaes louvo- res á Senh ora Condess R, a quem se devem felicíssimas iniciativas d'este genero e que tem por si a auctoridade que lhe dá o ta- lento, e a sympathia que lhe dão os dotes gentihssimos do seu elevado espirito.

*

Não foi menos interessante o five o clock

A ARTE Musrc.u.

41

A ARTE Musrc.u. 4 1 dos srs. viscondes de Carnaxide, na passada sexta- fe ira, 1

dos srs. viscondes de Carnaxide, na passada sexta- fe ira, 1 o de março. O principal intuito d'essa festa intima, foi

a apresentação de um violoncellista hespa- nhol, de raro valor, o sr. Pablo Cazals. Poucas vezes temos tido occasião de apre- ciar,no violoncello,um artista tão conscien- cioso e ao mesmo tempo tão cheio de verve

e de brio, com todas as qualidades que se

requerem n'um concertista de cunho. Cazals tem o condão e o talento de at- taca.r o passo, por mais escabroso que seja, com uma tal firmeza e com tão segura afi- nacão, que nos deixa por vezes maravilha- dos; quem mais ou menos conheça as enor- mes difficuldades do violoncello é que póde fazer uma i<léa da ousadia feliz com que certos passos são executados e da maestria q ue n'e ll es se patenteia. Ouvimos já o illustre concertista em casa do nosso amig<;> Rey Colaço, notando c?m magua que o instrumento em que tocara

não parecia corresponder ás aspirações do artista. Hoje, Pablo Cazals, dispõe de um precioso Gallianus, presente regio, em que

se alliam uma potente sonoridade e um de- licioso tim bre. Eis o programma da 111atinee :

L 1lo -

1.ª parle do concerto, para violon-

cello, pelo professor P. Cazals.

Massenet -

R ossini - U11a voce poco fá, para canto, pe- la ex."'ª sr.n condessa de Proenca a Velha. P ergolesi - Nina. Soarlatti-Le violette. Lacome -'73.:il d'oiseaux, para canto, por M.me Sarti.

Be ethoven - 5.ª sonata (em fá), para rebe-

piano, pelas ex."' 08 sr.ª' D. Alice Sil- va e D. Elisa Baptista de Sousa. Massenet - Le Crepuscule, para canto, pe- la ex.ma sr .ª condessa de Proenca. Chopin-Popper - Nocturno. ·

Tarante/la para violoncello pelo

Popper -

L es enfanis

ca e

professor P. Cazals.

O nosso amigo Alberto Sarti acompa- nhou ao piano, com a sua habitual mestria; diante das gentilíssimas senhoras que toma- ram parte tão brilhante n'este concerto, cun•amo-nos reverentes com o mais since- ro dos applausos. *

No

domingo,

12, tivemos o prazer de as-

sistir

a

uma séance de piano, em que o il-

lustre professor Thimoteo da Silveira apre-

sentou uma discipula, que póde bem consi- derar como um dos seus titulos de gloria, a menina Amelia Costa. Esta séance teve lo~ar na sala Sassetti e

chamou-se-lhe E:\·.ercicios de piano, o que

Sassetti e chamou-se-lhe E:\·.ercicios de piano, o que só se comprehende pela grande modestia de T

só se comprehende pela grande modestia de T himoteo, que como sabemos é algo exagerado em tal virtude. Pois foi uma bella audicão de musica de piano, em que M.ellc Costa nos captiYou com uma primorosa cxecucão dos trechos

os mais "ariados, na índole e

obras classicas e modernas, de bra,·ura e

de mimo, tudo emfim com que uma pianis-

no estylo,

ta póde evidenciar o seu merecimento. Se nos fosse licito prcforir, diriamos que

entre as peças classicas, nos causou uma viva admiracão o maneira como foram exe-

cutados os ttllegros inicial e final da Pathe-

tica, essa obra gen ial do maior

cas ; a Berceuse de Grieg foi deliciosamente

estylada pela joven piànista e os dois tre- chos modernos de maior mc.::hanismo que figuravam no programma, um J.;;studo de

Godard e a celebre

Liszt, tão transcendente pelos di!Ticilimos passos de oitavas ~ue contém, foram enle-

vés pela talentosa

de e segurança, e desenvolv~u n'c·llas uma tão extraordi\1aria virtuosidade, que mais nos parecia uma artista lon~amentc expe- rimentada em exhibicões d'esta natureza, do que uma modesta' debutante de quinze annos.

pianista com tal faci lida-

de

dos musi-

.\lelodia hunjfara

Vae em boa maré a epocha das audições musicaes. Para muito breve teremos, ao que nos consta, nada menos de quatro con- certos publicos, dados pelos seguintes pro- fessores: Pablo Cazals. Victor Hussla, Rey Colaco e Teofilo Russell. A Real Academia de Amadores, que não poude dar concerto al~um aos seus associa- dos no mez de fevereiro, vae fazer a sua 3.• audição d'este anno no proximo dia 17.

a sua 3.• audição d'este anno no proximo dia 17. El 'A TE1"1{, IZZl.\'l CA.11 P.

El 'A TE1"1{, IZZl.\'l CA.11 P. I \'/.\' /

Fevereiro, 28.

Realisou se hontcm a festa artística d'es- ta_distincta cantora no nosso theatro lyrico.

O espectaculo constou do t. 0 e 3. 0 actos da

Sapho; 3. 0 acto do André Chenier; cancão

do Salgueiro e Ave-Maria do Othello. ' Não precisamos de encarecer aqui os me- ritos artísticos de Eva Tetrazzini, nem o apreco em que os nossos dilettanti teem a arte 'com que a distincta virtuose conduz a

42

A ARTE ~1:ustCAL

sua voz. Para T etrazzini não ha segredos

de bel canto.

A noite d'hontem deve ter deixado á apre-

ci avel art ista as mais gra ta s impressões, porque foi muito applaudida tanto ao en-

trar em scena como nos finaes dos actos e

fi nal do

3. 0 acto da Sapho vieram á scena uns dez ou doze creados conduzindo uma parte dos numerosos brindes e ramos de ftôres que foram offerecidos a T etrazzini e que não po- demos enumerar aqui porque o pouco espa- ço de que dispomos ·o não permitte.

Março, 1.

Debutou hontcm a nossa já conhecida so- prano dramatico sr.ª Carmen Bonaplata, nos Hug uenottes. T~lvez devido á rapidez da viagem e á má disposição e m qu e ~e ac ha- va, desconhecemos bastante a artista que tão gratas impressões nos deixou na época lyrica de 1896 a 97, em que Bonaplata can- tou em S. Carlos a Irene do nosso laureado maestro Keil. Por isso nos reservamos para fallar mais detidamente depois d'uma se- gunda audição.

Carmen

-8

A Carmen é uma das operas com que os

frequentadores do nosso theatro lyrico são

mai s exigente s. E' de mau aviso fazer

butar entre nós uma cantora n'esta opera. Além d'isso, se os nossos dilettanti não per- doam qualquer insufficiencia da parte da artista, o elemento fe minino que enche o s camarotes tem tambem as suas exigencias

de toilette. Em S. Carlos a artista que des- empenhar a Carmen tem de conhecer mui- to bem a opera; ter volume de voz, princi- palmente no registo grave, cantar com mui- ta correccão, vestir bem e ser andaluza, ou parecer que o é. Nem se lhe dispensa o dan-

çar bem no 2. 0 acto.

Com ta es exigencias, reunidas ás boas im- pressões deixadas pela primeira artista (No-

velli) qne em S. Carlos desempenhou a Car- men, não surprehende que a sr.• Zaira Mon- talcino não agradasse. Durante o primeiro acto, apesar de receosa, cantou d'um modo

acceitavel a Habanera e

applaudida. No resto da opera não satisfez, porque o pouco volume da sua voz, que conduz com facilidade e correcção, lhe não p ermit te mai s. Come çaram a apparec er si·

gnaes de desagrado, que promettem au- gmentar de intensidade e m recitas de as- signatura ordinaria. Com a Carmen fez o t enor Giraud a sua festa artística. Foi muito applaudido e bas- tante brindado pela empreza, pelos seus

até no decorrer do espectacu lo . No

de-

a S eguidilla, sendo

amigos e collegas. O sr. Giraud desempe- nhou regularmente a parte de D. José, em- bora não disponha da envergadura precisa

para cabalmente satisfa zer a todas as exi- gencias. E' no emtanto digno de applauso e o publico assim o comprehendeu, fazendo- lhe algumas chamadas especiaes no final dos actos. Os restantes ar tistas, Martelli, Polese, De- grain, Rossi e Ragni não prejudicaram o desempenho da opera.

r epetiu -se no d ia g com infeliz

resultado.

DE L UC /A

-9

Com a B ohême fez hontem o tenor De Lucia a sua festa artística. Muitos applau- sos, alguns brindes e uma esplendida corôa de flôres artificiaes. No intervallo do 2. 0 pa ra o 3. 0 acto, acom- panhado ao piano pelo maestro Campanini, cantou a serenata de 101·, da lris de Masca-

g ni ,

rep e tiu, e a canção

A Carm en

a

valsa

Suon di bac i, de Baldel li, que

do Rigoletto.

-14.

Se rrana

A falta de espaço e de tempo não nos

permitte hoje alongarmo-nos com conside- racões a respeito d'esta nova opera do màestro portuguez Alfredo Keil. Diremos apenas que é um trabalho de muito valor e

que merece que <l'elle se fa ça um estudo consciencioso e detido, como é de praxe fazer-se e como realmente se tem feito com operas de proveniencia estrangeira de bem menor valia e que teem sido apresentadas · em S. Carlos.

A noite d'hontem foi uma continuada

ovação ao maestro Keil. Do primeiro acto

foram bisados quatro numeros, um no se- gundo e dois no terceiro. Isto basta para

m ostrar o enthusiasmo que a musica cau-

sou no auditorio. O desempenho foi bom. Como é natural, salientaram-se a s r. • Eva Tetrazzini - Ser-

rana; Mario Ancona -Marcello; e De Gra- zia - Nabor. Os seus papeis eram os mais importantes da opera. Cartica- Pedro, tem apenas de cantar na ultima parte do pri- meiro acto e o duetto do segundo. Des- empenhou-se cabalmente do encargo.

Os córos, d'uma grande difficuldade de entoação. foram bem ensaiados por Almi- nana, assim como a orch estra foi conscien- ciosamente dirigida por Campanini, que é digno de louvor pelo interesse que tomou pelo cabal dese mpenho da opera de Keil.

o maestro

offereceu aos principaes artistas os adufes

ricamente ornamentados que estiveram em

No fim do 2. 0 acto, e em scena,

A ARTE MUSICAL

43

A ARTE MUSICAL 43 na mo~tra do . estabelecimento à la vil/e de Paris. A Keil

na mo~tra do . estabelecimento

à la vil/e de Paris. A Keil tambem foram offerecid0s valiosos brindes, uma corôa de folhas aruficiaes de louro e carvalho, bou- quets e corbeilles de flores naturaes e arti- nciaes. A Eva Tetrazzini e a Campanini taoibem Keil offereceu uma salva de prata lavrada e um broche de perolas e brilhan-

tes. El-rei, . que ass1stm . . a todo o espectaculo com as rambas D. Maria Pia e D. Amelia, mandou no fim do 2. 0 acco chamar Keil ao camarote para o comprimentar. Nos finaes dos actos todos os artistas fo- ram chamados repetidas vezes ao prosce- nio, vindo sempre acompanhados de Keil e de Lopes de M~ndonça, no tim do 3. 0 acto. Eis uma rap1da resenha do que honc'em se passou em S. Carlos. No prox1mo nume- ro fallaremos da partitura e suas bellezas.

esposiçao

ESTEV ES L1sao A ( Aristes).

e suas bellezas. esposiçao ESTEV ES L1sao A ( Aristes). D. ~ernando de Sousa Cout inho

D. ~ernando de Sousa Cout inho

ES L1sao A ( Aristes). D. ~ernando de Sousa Cout inho A RTE e nobrera en-

A RTE e nobrera en-

contram-se reu-

nidas no mais es-

treito amplexo, abra-

çadas como se fossem irmãs, unidas como sendo amigas.

A primeira é culti-

vada com amor, a se-

gunda guardada com respeito.

E amb.1s vem assim

n'esta união fraternal desde muito tempo. Nem a espada as separou quando, nas

mãos de gloriosos antepas~ados, foi empu- nhada para servir a patria ou cumprir a honra. Sangue que foi generosamente derramado

na l nrfi'a pelo marechal D.

Fernandp C?uti-

nho, e na A/rica por D. Vasco Coutinho, sangue que fer palpitar o amoroso .coração d 'esse grande artista que no claustro se cha-

mou fr. Luir de Sousa, se hoje não se agita em luctas bellicosas, deve-se-lhe a mesma ve- neração pelo passado que pelo presente. P elo passado, porque honrou a patria.

não perdeu um glo-

bulo da sua generosidade, manifestando-se

P elo presente, porque

pelas qualidades que hoje o caracterisam:

presente, porque pelas qualidades que hoje o caracterisam: bondade e dedicação. Fux. ~~~~~ ·~mm~~~ ~~~~~rv~~~~dl Do

bondade e dedicação.

Fux.

~~~~~ ·~mm~~~

~~~~~rv~~~~dl

Do Paiz

Alfredo Keil teve uma gentilíssima ideia,

obsequiar os interpretes da

Nas nossas provincias ha um iRstrumento popular, adufe, pandeiro quadrado com duas pelles e sem soalhas, hoje quasi de todo desconhecido fóra do nosso paiz ; pois o nosso laureado maestro que é tambem co- mo todos sabem, um talentoso pintor, illus- trou seis d'esses instrumentos com retratos dos principaes artistas que tomam parte na Serrana, trajados como na opera. A ornamentação dos adufes, feita artisti- camente de fitas e flores arcificiaes foi con. fiada á casa Lad1el-ise; florista da rua do Principe, em cuja vitrine estiveram expos· tos até á primeira representação da Ser-

no

intuito

de

sua Serrana.

rana.

#

Parte brevemente para a Belgica o nosso amigo e laureado v10linista-amador, o sr. Cecil Mack.ee, que vae confiar a direccão dos seus trabalhos artísticos ao celebre p'ro- fessor Thomson, do Conservat9rio de Bru· xellas.

Red Academia de Amadores de Mu-

sica effec tuaram ·Se as seguintes ma triculas no presente anno lectivo : rudimentos 77 ; piano, curso geral, 64, curso superior ti;

violino, curso geral 5o; curso superior, 8; flauta, curso geral, 3 ; harmonia, 4.

*

A pequena orchestra (le bandolinistas

portuguezes intitulada Troupe Gounod, que ha pouco mais de dois mezes partiu de Lisboa para S. Petersburgo em aventurosa excursão artistica, tem agradado muito na grande capital russa. Deu-nos esta grata no-

ticia o excellente artista Julio Augusto Ser- gio, que faz parte d'aquella orchestra na qualidade de violoncello e d'alli nos escre- veu. O facto não é insignificante, porque em S. Petersburgo abundam orchestras ca- racteristicas da Hungria e da Romania, e, como Sergio nos affirma: «Üs russos são difficeis de contentar, canstituindo um pu- blico muito especial, caprichoso e oheio de mimos.»

*

Na

O nosso artista travou conhecimente e

fez-se aoreciar pelo violoncellista do impera- dor, Wirbalowitch, mestre muito conside- rado em S. Petersburgo, o qual o tratou

com muita affabilidadê e distincção.

44

A ARTE M USICAL

Do Estrangeiro O abbade Perosi apresentou-se á curiosi- dade parisiense, dmgindo elle mesmo a exe-

cução da sua oratoria "Resurreicão de Chr-is-

realisada no Cirque d'EÚJ em o pri-

meiro dia do corrente mez. A primeira parte da celebrada con: posi- ção foi ouYida friamente, mas a segunda a partir do proprio preludio, despertou nu~e­ rosos e francos applausos.

Lorenzo Perosi ficou acreditado perante

a crmca franceza como um compositor de

verdadeiro e espontaneo talento, sobre tudo Lle largo futuro, attendendo-se aos progres- sos que as obras apresentadas demonstram. Esta é a opinião sensata e geral, que atte- nuo_u ~uitos excessos do patriotismo italia- no incitado pelas astucias do reclamo inte- resseiro. Mas o chauvinisnze cahiu em ex-

cessos contrano~, dan~o rudemente no jo- ven abbade como Santiago nos moiros.

*

to»,

O go_yerno belga vae comprar as valiosas co_llecçoes de hvros, autographos musicaes e. mstrumentos antigos que o fallecido mu• s1co grapho Cesar Snceck reuniu o que se consideram de extrema raridade. Sobretudo a collecção de instrumentos do secu!o XYI é quasi completa. Estas preciosidades archeologicas desti- nam-se ao conserYatorio de Bruxellas, cu- jo museu, já tão rico, ficará sendo sem con- testação o primeiro do mundo na sua es- pecialidade. *

Um facto talvez unico nos annaes da edi-

ç~o music~l: ª·casa editora A.' Noel, de Pa- ns, propnetana do methodo , de piano de

A. Le

gen:i do 1111/lione~simo exemplar d'esta vul- gansada obra. Como o ca:so se deu na mi- careme, os editores tiveram a original lem-

bre:inça de o festejar com um batle de mas- caras, apresentando·se muitos convidados trajando. á época em que aquelle .methodo foi escnpto, ou com costumes de phanta- sia allusivos ao mesmo methodo.

mandou proceder a tira-

<

arpent1er,

NecFoloóia

"='

F .\LLE CEU? l.itterato francez Charles Nuit-

gar que desempenhou com estremado

zelo prestando innumeraYeis servicos aos investigadores, pela ordem com que organi- sou o archivo d 'aqueUe theatro e a desco- berta que foz de documentos preciosos para a historia do theatro lyrico em Franca. Pu- blicou um livro intitular1o Le Nowel Opera, em que descreve minuciosamente a cons-

ter, archl\ 1sta do theatro da Opera, la-

trucção

d'aquelle magestoso theatro, e ou-

tro. d.e

maio~ importancia historica, Les

Ongmes de l opera /rançais, em collabora-

ção com E Thoinon. Escreveu tambem ~uitos h~rettos de operas comicas, vaude- v1lles, bailados, e adaptacões francezas de operas allemãs e italianas." Da sua fortuna, que era consideravel, dei- xou dois terços á Associação dos pintores e esculptores, e o terco restante aos archi- vos da Opera. ·

*

Fal.leceu na idade de 74 annos Joseph 9abnel Gaveau, fundador e proprietario da importante fabrica de pianos estabelecida em Paris e conhecida por aquelle appellido. . ~ .mesma f31brica continua a funccionar, dmgida pelo filho do fallecido.

*

Falleceu em Barcelona o novel composi- tor ca.talão, Luiz ~~nau, cujas pequenas e

melodiosas compos1çoes esp~cialmente para canto teem muita voga na Catalunha. Con- tava apenas 28 annos.

CS:OltitECS:C}:~O

DAS

5 C,t l{ICA'IU'l{.AS DE JOSÉ DJALHÔA

OFFERECIOAS AOS .AMAOORES QUE T OMARAM PARTI!

no

1. 0

concerto

de musica

de

camara

(em 3o de janeiro de 1899) .

- III -

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CECIL .MACKEE