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DIREITO AMBIENTAL

CONCEITUAÇÃO BÁSICA – AULA 01

1. O DIREITO AMBIENTAL – CONCEITO, DIVISÃO E HISTÓRIA

O Direito Ambiental é um ramo do direito público que tutela interesses difusos.


Diferentemente dos direitos de primeira dimensão (tutela das liberdades) e de segunda
dimensão (tutela da igualdade), tem-se o direito ambiental como um direito de terceira
dimensão (tutelas coletivas, solidariedade), um direito que alcança para além da geração
atual, das limitações entre fronteiras ou estados, um direito que transcende gerações,
alcançando os seguintes limites:

 Passado – direito de preservação da história, sítios arqueológicos,


tradições, culturas, povos, etc;
 Presente – direito de manutenção do meio ambiente em suas diversas
modalidades (fauna, flora, cidades, águas, ar, genoma, trabalho, etc)
 Futuro – o direito das gerações futuras a usufruírem de um meio
ambiente saudável;

Como se vê, para além dos direitos de primeira e segunda dimensão, o direito
ambiental transcende o conceito de tutela presente, certa e definida, protegendo o que sói
chamar-se de tutela coletiva (difusa, coletiva e individual homogênea), definida legalmente
pelo Código de Defesa do Consumidor em seu art. 81 em seu parágrafo único, vejamos:

“A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:

I — interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os


transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas
indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;

II — interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os


transindividuais de natureza indivisível, de que seja titular grupo, categoria ou classe
de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base;

III — Interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes


de origem comum.”

Exemplificando: (Rodrigues, 2016, p. 40)

Assim, por exemplo, tendo como fato jurídico a poluição emitida por uma fábrica, poderá este
mesmo fato causar danos a direitos enquadráveis em cada uma das espécies de interesse
coletivo:

■ afetação do equilíbrio ecológico: direito difuso de toda a população;

■ más condições de trabalho na fábrica: direito coletivo dos que ali trabalham;

■ danos à saúde de alguns moradores da região: direitos individuais homogêneos de cada um


dos afetados.
O direito ambiental é, neste sentido, um conjunto legislativo que engloba
Tratados Internacionais, a tutela constitucional e as legislações infraconstitucionais que
visam a proteção deste interesse coletivo (lato senso falando), um conjunto normativo que
visa exatamente essa normatização para a proteção do meio ambiente em todos os seus
aspectos.

É um ramo do direito relativamente moderno, a se considerar que as discussões


mundiais de proteção tiveram início e força apenas na década de 1970, sendo que antes o
meio ambiente era considerado apenas como mercadoria a ser consumida, apêndice do
direito econômico, até que surgiram, como veremos, questões relevantes que levaram ao
entendimento da finitude dos recursos naturais e as problemáticas decorrentes do não
cuidado na sociedade de risco.

Legalmente temos algumas definições, em nossa legislação, do que vem a ser


meio ambiente, vejamos:

Em nossa Constituição, em diversos dispositivos é asseverada a proteção ao meio


ambiente, contudo nenhuma definição é dada a ele, de forma sistemática podemos interpretar
o art. 225 da Cf como definidor de alguns aspectos do que vem a ser o meio ambiente:

 Processos ecológicos essenciais;


 Espécies e seus ecossistemas;
 Patrimônio genético;
 Espaços territoriais diversos (sítios arqueológicos, reservas ambientais,
etc.);
 Fauna e flora;
 Animais domésticos e selvagens;
 Recursos minerais (solo);
 Diversos biomas (Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Serra do Mar,
Pantanal, Zona Costeira);
 Ar, águas, ambiente sonoro, etc;

Contudo, a legislação que vem a definir de forma mais específica meio ambiente é
a Lei 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente), da seguinte forma:

Art 3º - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:

I - meio ambiente, o conjunto de condições, leis, influências e interações de


ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as
suas formas;

Doutrinariamente, dentre as diversas definições dos mais variados autores sobre


o que se constitui como meio ambiente, consideramos a seguinte divisão interessante para
estudo:

 Meio ambiente natural – solo, água, ar, fauna, flora, genoma, estando
mais ligado à tutela imediata dada pelo art. 225 da CF;
 Meio ambiente artificial – dado inicialmente na Declaração de Estocolmo
(a ser estudada) quando diz:

“O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que o cerca, o qual lhe dá
sustento material e lhe oferece oportunidade para desenvolver-se intelectual, moral, social e
espiritualmente. Em larga e tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma
etapa em que, graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem adquiriu o poder
de transformar, de inúmeras maneiras e em uma escala sem precedentes, tudo que o cerca. Os
dois aspectos do meio ambiente humano, o natural e o artificial, são essenciais para o bem-estar
do homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, inclusive o direito à vida mesma.”

(Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano – 1972)

 Meio ambiente cultural – trazido pelo art. 216 da Constituição, bem


como a Política de Desenvolvimento urbano (art. 182 e 183 da CF), e suas
leis regulamentadoras (Lei 10.257 de 2001 – ESTATUTO DAS CIDADES).

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial,
tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações
artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
paleontológico, ecológico e científico.

 Meio ambiente do trabalho – a forma de tutelar as relações de trabalho


em seu aspecto mais amplo, em decorrência da necessidade de proteção
do trabalhador frente ao capital, permitindo condições de trabalho
dignas, não desgastantes, humanas, com base nos princípios da
Declaração de Filadélfia, com base no entendimento de que: trabalho
não é mercadoria; liberdade de expressão do trabalhador é direito;
liberdade de associação; pobreza de qualquer pessoa é um risco a saúde
do próprio planeta; dentre outros. No Brasil está determinado nos art. 6 e
7 da CF-1988

 Meio Ambiente genético – com assento constitucional, no art. 255, tem


especial relevo no mundo atual, sendo tratado por um capítulo específico
ligado ao direito ambiental que é o biodireito, que visa então o
preenchimento desta lacuna entre novas fronteiras científicas, antes
desconhecidas pelo homem, e os novos campos de descoberta, que
podem inevitavelmente mudar por completo os rumos da humanidade.
1.1. O DIREITO NAS LEGISLAÇÕES NACIONAIS

A institucionalização da questão ambiental no Brasil surgiu muito antes do


pensamento propriamente ambiental emergir da sociedade brasileira, ou mesmo antes de
toda discussão internacional acerca do assunto, que viria a fomentar-se apenas duas décadas
depois do período que trataremos aqui como a era Vargas. Neste citado período,
compreendido na década de 1930 e 1940, houve uma intensa produção legislativa no que
tange a institucionalização da tutela do meio ambiente, mesmo tendo como foco a reserva de
mercado nacional quanto ao patrimônio ambiental, foi incidentalmente o início da criação de
um aparato normativo para assegurar este importante patrimônio, o meio ambiente.

Este primeiro período no Brasil é chamado de tutela econômica do Meio


Ambiente, marcado pelo conceito liberal, o meio ambiente era apenas uma fonte de recursos
econômicos que deveria ser organizado para exploração, a propriedade privada estava acima
dos interesses coletivos, não havia ainda a noção de função social da propriedade, havia
pouquíssimos limites à propriedade privada, como por exemplo áreas de proteção permanete,
conforme preleciona Solange Solange Silva Sanchez (2000, p. 67) na era Vargas, “o Estado
‘administra’ os recursos naturais, de modo a atender a indústria nascente.”

Vargas em seu governo, após o golpe ditatorial que implantou o Estado Novo,
constituiu, no âmbito do meio ambiente, o arcabouço básico estatal, com foco na
nacionalização e proteção dos recursos nacionais, buscando não a preservação dos recursos
naturais em sim a utilização destes exclusivamente para o fortalecimento da indústria
nacional, tendo criado os códigos das águas, das minas e das florestas por meio de decreto
presidencial em 1934.

Segundo Struminski (2007):

[...] havia um desconhecimento ou desinteresse pelo valor da


biodiversidade. Em 1950, na elaboração de um pioneiro e volumoso ensaio
sobre o direito florestal brasileiro, Osny Duarte Pereira, um juiz de direito do
então Distrito Federal, situado no Rio de Janeiro, admitia implicitamente
que, segundo a visão da época, as florestas brasileiras, muito heterogêneas,
eram de valor reduzido, diante da variedade de espécies, ainda que ele
reconhecesse seu valor ecológico indireto.

Contudo, é inegável a contribuição deste conjunto legislativo da época para o


desenvolvimento da consciência ambiental no Brasil, que veio a se alargar com o passar do
tempo, tanto em no Brasil quanto no mundo. O momento pós-guerra, na década de 1950, o
medo gerado pelas grandes guerras, pelas armas de destruição em massa, aliados com a
expansão da comunicação global, alçaram as velas para uma preocupação globalizada sobre o
meio ambiente. Neste passo, é possível observar que mesmo incidentalmente, o Brasil
conseguiu antecipar-se aos países desenvolvidos, tendo desenvolvido prematuramente este
arcabouço normativo que viria a ser a base para institucionalização da questão ambiental no
país. Neste contexto, importante entender que a nossa sociedade de risco, caracterizada por
tais fatores emergentes no período e ampliados ao largo de nossa história, contribuíram
decisivamente para a consolidação da essencialidade do direito ambiental e de sua tutela
como sendo um direito fundamental, na mudança de uma vertente da natureza como objeto
do homem (antropocêntrica)para a visão de natureza como organismo independente
(biocêntrica).

Em resumo, o fato de marcar uma nova fase do direito ambiental deve-se, basicamente,
aos seguintes aspectos: (RODRIGUES, 2016, p. 62)

 Adotou um novo paradigma ético em relação ao meio ambiente: colocou


em seu eixo central a proteção a todas as formas de vida. Encampou, pois, um conceito
biocêntrico (art. 3º, I).
 Adotou uma visão holística do meio ambiente: o ser humano deixou de
estar ao lado do meio ambiente e passou a estar inserido nele, como parte integrante,
dele não podendo ser dissociado.
 Considerou o meio ambiente um objeto autônomo de tutela jurídica:
deixou este de ser mero apêndice ou simples acessório em benefício particular do
homem, passando a permitir que os bens e componentes ambientais fossem protegidos
independentemente dos benefícios imediatos que poderiam trazer para o ser humano.
 Estabeleceu conceitos gerais: tendo assumido o papel de norma geral
ambiental, suas diretrizes, objetivos, fins e princípios devem ser mantidos e respeitados,
de modo que sirva de parâmetro, verdadeiro piso legislativo para as demais normas
ambientais, seja de caráter nacional, estadual ou municipal.
 Criou uma verdadeira política ambiental: estabeleceu diretrizes, objetivos e
fins para a proteção ambiental.
 Criou um microssistema de proteção ambiental: contém, em seu texto,
mecanismos de tutela civil, administrativa e penal do meio ambiente.