You are on page 1of 8

17/02/2018 arquitextos 160.

03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius

vitruvius | pt|es|en
receba o informativo | contato | facebook Curtir 39 mil busca em vitruvius ok

pesquisa revistas jornal
guia de livros arquitextos | arquiteturismo | drops | minha cidade | entrevista | projetos | resenhas online notícias
jornal agenda cultural
revistas arquitextos ISSN 1809-6298 rabiscos
em vitruvius eventos
buscar em arquitextos ok concursos
arquivo | expediente | normas seleção
160.03 ano 14, set. 2013

Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos
Laís Bronstein

160.03
sinopses
como citar

idiomas

original: português

compartilhe

160

160.00
Palcos e bastidores
Ainda sobre córregos
ocultos
Vladimir Bartalini

160.01 patrimônio
Teatro Oficina
Defender nosso
patrimônio histórico e
artístico é
alfabetização
Cecília Rodrigues dos
Avenida Icária, Barcelona. Arquiteto Enric Miralles Santos
Foto Andrés Passaro 160.02
1/3 Da integração das artes
ao desenho integral:
interfaces da
arquitetura no Brasil
moderno
Luís Henrique Haas
Luccas
“Una difusa heterogeneidad llena el mundo de objetos
arquitectónicos. Cada obra surge de um cruce de discursos, 160.04
parciales, fragmentários. Más que hallarnos ante una obra parece Seminário de
que lo que se nos presenta es un punto de cruce...” (1) Quitandinha e Q+50:
resultado, avaliação e
Um estudo sobre arquitetura dedicado ao tema “objetos” pode parecer, a desafios atuais
primeira vista, ter como objetivo focar a disciplina por sua atribuição Jorge Guilherme
mais intrínseca, a materialidade da obra. A obra, sua forma, inserção, Francisconi
métodos construtivos, contexto e programa constituiriam pautas de análise 160.05
nas quais o objeto arquitetônico é enredado, oferecendo acessos Ensaio sobre autoria no
inequívocos ao seu entendimento. O conhecimento deste objeto projeto: atualizando o
compreenderia então determinadas “etapas de verificação” em que todos debate
estes aspectos seriam abarcados. Haroldo Gallo

Em um olhar mais atento, porém, tal empreitada revela ser pouco rigorosa,
deixando transbordar tudo aquilo que escapasse, que fosse além da própria
materialidade da obra. Paradoxalmente, a abordagem do objeto
arquitetônico, sua crítica, é ela também uma “construção”, como bem nos
adverte Ignasi de Solà-Morales - e por que não, um “objeto” – produzido
deliberadamente para iluminar aquele ponto em que se produziu alguma
arquitetura. Elaborar um discurso que pretende dar conta, ou ao menos
iluminar determinados “objetos”, revela ser um trabalho que trata de
“construções” sobre “construções”, dando a entender que esta classe de
estudo se edifica também em sólidas - ainda que provisórias - estruturas.

De igual modo, nossas construções teóricas revelam-se intricadas relações
dialéticas nas quais o argumento por vezes confere maior destaque não ao
objeto analisado – obra, edifício, projeto - mas à própria estrutura que
avaliza sua análise. O objeto arquitetônico, a obra de arquitetura como

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.160/4879 1/8

(. superando a proclamada “crise do objeto”. seu viés estruturalista é determinante para enlaçar os objetos. posturas e formas. que poderia parecer a princípio surpreendente se levamos em conta seu livro de 1993 “Depois do Movimento Moderno”.passível de ser relacionada não obstante seus distintos períodos históricos e contextos culturais (8). As estruturas urbanas aí pensadas deveriam ser abertas. o espaço público resultante desta operação não seria mais o entendido como o resíduo do espaço livre entre objetos idealizados e sim ele mesmo um ente de valor próprio.conceito declaradamente inspirado nos estudos do britânico Royston Landau (6). tal como se fazia presente nos círculos da crítica especializada dos anos 70. provisória. deliberadamente projetado para articular a complexidade deste novo modo de ver a cidade. Tampouco há espaço para aquele juízo de valor dissociado de uma rede de relações que dá consistência ao edifício teórico. ao relativizar o protagonismo comumente atribuído ao projeto dos objetos na arquitetura moderna. à contestação deste protagonismo no último Montaner. Josep Maria Montaner lança uma questão polêmica. este artigo pretende apontar para alguns objetos e episódios críticos da arquitetura que iluminam estas questões. Vale aqui a lição proferida por Michel Foucault já em 1970: “Não resolver o discurso num jogo de significações prévias. Ingenuidade pensar que tal empreitada pressupõe a submissão do crítico à obra analisada. sem dúvida.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius “fundo” da “figura” (2). O primeiro passo é dado no texto de 1993. “objeto” e sua respectiva crítica. Intrinsecamente relacionada a este enfoque está. tanto em sua forma como em seu conteúdo. rompe-se de vez a autonomia do objeto insinuada nas abordagens críticas anteriores. ou mesmo às boas intenções do arquiteto-criador. O segundo. a matéria invisível que resta entre as formas dos edifícios e que permite articular a complexidade” (4) Neste caso. ele próprio o sujeito de tantas transformações? Ou terá sido a crítica a este “objeto”..com. Montaner divide as manifestações arquitetônicas da segunda metade do século XX identificando autores a ser ver agrupáveis segundo algumas constantes reguladoras. Neste último livro de 2008.. o crítico-autor dispõe as peças de seu jogo para relativizar a ineludível presença da obra/projeto de arquitetura. Sistemas. configuram hoje a possibilidade mais coerente para reescrever a história da arquitetura contemporânea. se encontra validado por uma distinta aproximação crítica ao objeto. o agente cambiante por excelência? Ou ainda. Diz ele: “Esta investigação parte da premissa de que a arquitetura moderna projetou de maneira sistemática o espaço aberto. esta sim. uma espécie de “núcleo inviolável” de práticas de projeto e convicções teóricas (7). Propõe-se aqui então uma inversão gestáltica do material a ser analisado: não mais objetos arquitetônicos. Sob este enfoque. como uma prática que lhes impomos” (3) Sob esta ótica.br/revistas/read/arquitextos/14. parceiros de uma jornada em que seus papéis são constantemente questionados ao sabor dos ventos que sopram? Desde a “fixação pelo objeto” da arquitetura moderna de Colin Rowe. onde a forma é entendida como “estrutura essencial e interna”– abstrata e atemporal portanto . que tem na noção de “sistemas” o eixo de sua argumentação. a violência do discurso se sobrepõe às mais sedutoras panorâmicas do objeto. “capazes de crescer e hábeis para integrar a natureza” O ponto de vista do autor.160/4879 2/8 . contingente. são estes. ele não é cúmplice do nosso conhecimento. esta sim. De nada serve a mirada condescendente. o “objeto arquitetônico” que permeia os mais distintos estudos constituirá neste artigo aquele material sobre o qual iremos focar. Montaner oferece um olhar mais uma vez diferenciado para a análise de um mesmo material: não mais objetos.17/02/2018 arquitextos 160. em vista de uma maior ênfase no espaço exterior em que estes edifícios se inserem. parece responder a tudo aquilo que hoje se espera da crítica em nosso campo disciplinar. O peso. Atualização crítica Em seu livro “Sistemas arquitetônicos contemporâneos”.vitruvius. Um elenco de criaturas e criadores que pairam sobre a materialidade da obra. A noção de sistemas configura um terceiro passo em sua tentativa de fornecer um diagnóstico do estado da arquitetura de parte do século XX e do XXI (5). mas as práticas discursivas que enredam estes objetos. imaterial. é possível dizer que ainda existe neste seu estudo uma insistência no tratamento individualizado dispensado aos objetos. não imaginar que o mundo nos mostra uma face legível que apenas teríamos de decifrar. não há uma providência pré-discursiva que o volte para nós. Terá sido o “objeto arquitetônico”. enredando todo e qualquer gesto projetual auto- http://www. em todo o caso. certa concepção de autonomia da arquitetura. Por posturas arquitetônicas. e sim sistemas. Ainda que articulado segundo a teoria da complexidade de Edgar Morin. e por que não dizer. “As formas do século XX” de 2002. quando seu referencial teórico se guiava a partir das chamadas “posturas arquitetônicas” . Deliberadamente. que a exemplo de estudos iniciados no campo da biologia e que com a adoção de maiores graus de complexidade se estenderam até o campo da informática.) É necessário conceber o discurso como uma violência que fazemos às coisas.

uma coletânea de artigos). É quantitativo.br/revistas/read/arquitextos/14. Entretanto. onde a obra se resume ao seu mais intrínseco elemento .17/02/2018 arquitextos 160. é abstrato.vitruvius. Neste debate algumas inflexões puderam ser verificadas em relação ao pensamento que subjazia as intervenções promovidas sob a égide do Movimento Moderno. Esta primeira atualização já é anunciada nos títulos dos primeiros livros do autor “Depois do movimento moderno” e “A modernidade superada” (neste caso. desde um marco teórico mais amplo. onde os espaços livres respondiam à necessidade de estabelecer novas relações com a paisagem. “formas” e “sistemas” são apenas alguns dos platôs a partir dos quais é possível traçar uma construção provisória daquele ponto onde se produziu alguma arquitetura (9). no fim das contas. com a transposição da lingüística ao pensamento arquitetônico. é possível apontar alguns episódios que ilustram esta distensão crítica. De fato..a tipologia arquitetônica e a experimentação formal. se dedicou a questionar esta prática tendo por parâmetro a delimitação formal do espaço urbano. Assim. “Formas” e “Sistemas” apontam para a dispersão cada vez mais evidente do marco teórico. “Posturas”. Tampouco escapa desta “armadilha conceitual” muitas das arquiteturas ditas “minimalistas”. sob o ponto de vista da critica empreendida a partir da década de 60. (. posições e relações. O projeto de objetos arquitetônicos dissociados da imagem da cidade decimonônica da rua e do quarteirão. e da ruptura com a linearidade cronológica da narrativa. a mudança na relação entre cidade existente e objeto arquitetônico. o argumento de Rowe se fragiliza. enquanto que ventos que mudam continuamente de direção fazem todo o possível para provocar sua queda. “O espaço moderno se baseia em medidas. a revolucionar-se continuamente buscando os parâmetros adequados a cada momento” (11) Já na década de 60. Se olharmos a chamada “crise do objeto” apontada por Colin Rowe.objeto intransitivo - que dialoga tão somente com ele próprio. a tradução do método estruturalista à disciplina suplanta as interpretações estritamente evolucionistas/deterministas impressas a historiografia mais consolidada do movimento moderno. O espaço da arquitetura moderna. reforça a singularidade e individualidade destes elementos. uma “atualização crítica”. a crítica em arquitetura tem este papel de se reinventar constantemente. como impiedosamente detectou Colin Rowe (10).com. em um olhar mais atento. http://www. à luz da noção de sistemas proposta por Montaner. Também se debilita toda a discussão destes mesmos anos 70 sobre a autonomia formal. e também da cidade moderna. tal entendimento foi ofuscado. desde distintos instrumentos de análise. como a arquitetura. Não só o objeto de trabalho é deslocado para o interior da arquitetura e da cidade existente. Em primeiro lugar. a manter o equilíbrio sobre um fio.160/4879 3/8 . a idéia de projeto urbano. por eleição pessoal. se desprende segundo geometrias tridimensionais. aqui inicialmente focada apenas na síntese de Josep Maria Montaner. situam o objeto da arquitetura moderna a partir de seu destaque e singularidade. A cidade passa a ser vista como um laboratório de experimentação morfológica. quando tão agudamente critica o culto ao objeto ideal perseguido pela arquitetura moderna e as desastrosas conseqüências desta prática no tecido urbano. em contraposição ao modelo e a repetição serial – se confronta com esta idéia mais ampla de sistema. nada mais que uma relativização crítica. em Collage City. As áreas projetadas.) A crítica está obrigada. Uma vez cristalizada esta etapa. é apreendido segundo uma distinta aproximação perceptiva. o protagonismo percebido nos objetos da cidade moderna justifica-se e é redimido pelos espaços livres (não mais “residuais”) que por sua vez avalizam a existência destes como parte de um sistema. Em segundo lugar.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius referente numa teia de relações. A idéia de romper com o modelo da cidade pré-industrial fazia-se coerente. científico. derivado da junção entre a obra de arquitetura e o estudo da cidade. na medida em que era preciso encontrar (ou criar) um contexto onde tais experimentos pudessem ser plenamente ensaiados. é uma construção mental” (12) A crítica estruturalista. Trata-se do desdobramento de um pensamento que arranca da necessidade de reescrever a história da arquitetura. Porém. ainda que compartilhem da idéia mais ampla de “cidade na paisagem”. Uma prática necessária que Manfredo Tafuri já sinalizava em Teorias e História da Arquitetura: “O crítico é aquele que está obrigado. lógico. É fato que os modelos urbanos pautados na lógica do urbanismo moderno já forneciam uma estrutura legível. a noção de sistemas não invalida outras aproximações teóricas que. como a própria escala de atuação é modificada. o que a principio se nos apresenta como uma quebra de certezas revela-se.. e nem é esta a pretensão de Montaner neste seu terceiro estudo. Antecedentes Sobre estas questões. matemático. Não se trata de superação crítica. Ainda quando lança um olhar para episódios historicamente superados. e o espaço urbano desta cidade como “fundo da figura”. as infra-estruturas de transporte faziam parte de um planejamento geometricamente apreensível. de formas pré-determinadas. quando seus mecanismos de concepção de base .

filosofia. Por último. Que la ciudad sea sólo una arquitectura puede ser una afirmación mucho más problemática. para uma distensão dos limites territoriais e uma inflexão na idéia de gênese e evolução formal. também a noção de espaço converge para a valorização daquele da cidade tradicional – delimitado.vitruvius. revelam a emergência de distintas categorias que colocam em questão a relação entre espaço urbano e objeto arquitetônico. é patente a exaustão frente à chamada “fórmula contextualista”: “Tras la pretensión abusiva de que la arquitectura era el instrumento con el que fabricar y controlar la totalidad del ambiente. se sobrepõem. Sin embargo.17/02/2018 arquitextos 160.160/4879 4/8 . e a migração crescente da crítica arquitetônica para o terreno do pensamento pós-estruturalista.com. que reuniu destacados pensadores do urbano desde uma ótica multidisciplinar – artes. identificável. Os congressos anuais da Anyone Corporation. a questão do espaço público. A fruição da arquitetura e do espaço urbano não mais se resume a relação biunívoca entre o objeto que conforma. imaginar. tanto o conceito de platô como o de rizoma.br/revistas/read/arquitextos/14. permanente. derivando em um esgotamento dos argumentos baseados em termos lingüísticos. respectivamente. Já em finais da década de 80 tal pensamento revela-se desgastado. que promove a recuperação de valores da história e da memória. e o espaço configurado formalmente pelas arquiteturas que o encerram. A própria construção crítica se utiliza da idéia de platô – como pontos contingentes de observação . evidenciando uma crítica ao conceito de inovação e à noção de “forma pura”. Verifica-se a reutilização de códigos pertencentes ao repertório disciplinar e autônomo da arquitetura. topografias e paisagens são algumas das novas denominações utilizadas. É verificada a transformação de sua condição anterior como “espaço residual” para uma situação em que a dimensão pública dos espaços da cidade passa a ser priorizada em detrimento do valor do objeto arquitetônico como fato isolado. são vários os indícios de uma redefinição do marco espacial em que transita a arquitetura. Por isto não cabe. A necessidade de um enfoque multidisciplinar para o estudo da cidade coloca a arquitetura como um dentre os vários eixos de discussão. se escondia la necesidad de referirse a modelos urbanos del pasado y la incapacidad de. O binômio “arquitetura/ cidade” torna-se insuficiente para abarcar a complexidade inerente a metrópole e a complexidade de relações que caracterizam o fenômeno urbano em fins do século XX. Tais questões. plataformas. amorfo – da cidade do urbanismo moderno. apontam. ou coexistem em um mesmo plano (18). A idéia de platô sugere uma analogia geográfica que interfere diretamente na delimitação do campo de estudo. em sua auto-reflexão (16)” Nesta mudança de rumo. hoy más que nunca. Também a impossibilidade de traçar argumentos definitivos. constituíram o fórum de debates por excelência para o estabelecimento de novas pautas de análise e perspectivas para a arquitetura em vista do final do milênio (15). comprobamos que la ciudad es muchas más cosas que sus edificios y arquitecturas” (13) Neste encontro. tener una imagen global de lo que realmente está ocurriendo a nuestro alrededor” (14) Vale ressaltar que desde princípios da década de 90 tais argumentos já estavam em pauta. formalmente definido. mas por um conjunto mais complexo de agentes que interpenetram. Tal entendimento é já um fato consolidado por ocasião do congresso da UIA realizado em 1996 na cidade de Barcelona: “Que la arquitectura es consustancial a la ciudad está fuera de duda. Forma parte de ella y materializa una parte de los espacios en los que se desarolla la vida urbana. assim como na perspectiva de análise crítica. Nesta equação não há lugar para os modelos pensados a partir das categorias de fluidez. destaca-se a questão figurativa. A utilização em maior ou menor grau de algum recurso figurativo constitui outro visível ponto de mudança em relação às práticas do Movimento Moderno. quando transpostas ao material da arquitetura. delimita o espaço. movimentos ou fluxos. Geografias urbanas. atributos que conferem distintos perspectivas de enquadramento aos objetos da arquitetura (17). la arquitectura sigue estando en la ciudad.para http://www. quer dizer. qualquer leitura das propostas da cidade moderna como uma estrutura de “espaços” senão que tão somente a de estrutura de “objetos”. literalmente. (…) En la situación contemporánea. Em terceiro lugar. a partir de uma visão unilateral e encadeada dos fatos configura a superação do caminho proposto pelo método estruturalista. inabarcável.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius caracterizado pela fragmentação e particularização no tratamento dos temas urbanos. retirados diretamente dos textos de Gilles Deleuze e Felix Guattari. No âmbito desta crítica. “A crise da modernidade denunciada pelos niilistas e enganosamente superada pelos cultivadores de imagens comunicacionais ou técnicas não tem solução no ensimesmamento do Estruturalismo. territórios. neste momento. sociologia. Como derivação deste ponto é dada ênfase ao conceito de “lugar" para diferenciar da noção de espaço – abstrato. economia -. De fato.

rechaçando qualquer compromisso com uma forma específica. Atestada a insuficiência da arquitetura em responder à totalidade do fenômeno urbano. existe uma nova maneira de entender o urbano. o a idéia de território aponta para a possibilidade de cruzamento de visões advindas não só da arquitetura. O paradigma da compacidade. onde a questão é radicalizada. artificiais e leves. estas aproximações lançam mão de enquadramentos mais “panorâmicos”. ditos projetos traçam topografias alternativas. pautadas numa única crítica. passando pela interpretação da cidade como topografia e lugar que fazem Rafael Moneo. ao mesmo tempo em que é estabelecida uma delimitação subjetiva. Los 90 entre la compacidad y la fragmentación” de 1999. dada a condição problemática da própria idéia de “objeto arquitetônico”. Esta idéia é reforçada em “De la autonomia a lo intempestivo” de 1991. Enric Miralles e Herzog & de Meuron. onde a experiência espaço- temporal é freqüentemente distorcida. O conceito de paisagem (22). verifica-se nesta postura um esvaziamento deliberado do volume. Moneo alinha-se com as interpretações de Solà-Morales. consequentemente. a análise do autor está permeada pela relação fluida e instável que pode ser estabelecida com o espaço urbano (20). convertendo os paradigmas da fragmentação e da compacidade nas duas caras de uma mesma moeda. Território é. sociologia.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius enfatizar a natureza sempre cambiante.160/4879 5/8 . “uma rede conceitual genérica” e “um conceito preliminar a qualquer definição mais precisa” que o autor adota para enquadrar a multiplicidade de enfoques que podem ser atribuídos tanto à arquitetura quanto à cidade. como também da geografia. Caracteriza também uma superfície em que são dados a conhecer os elementos que nos rodeiam. Entretanto.17/02/2018 arquitextos 160. entre outros. desde os objetos singulares de arquitetos como Norman Foster. Também as noções de “bigness”. segundo o olhar de cada indivíduo. uma situação onde somente o valor da “ação” tem sentido. “genérico” e os gestos figurativos pouco convencionais do escritório OMA (Office for Metropolitan Architecture) conferem uma obsolescência imediata a esta prática anterior. Semelhante síntese é feita por Rafael Moneo em “Paradigmas fin de siglo. Mesmo que centrada no objeto arquitetônico. Jean Nouvel. quando sugere a dissolução de um certo “paradigma formal” que norteou a produção arquitetônica das últimas décadas. Pensadores como Gilles Deleuze puseram de manifesto a inexistência de uma plataforma desde a qual seja possível construir uma visão do mundo. caracteriza uma situação de ausência de limites pré-estabelecidos. sugerindo múltiplas conexões entre espaços e elementos do programa. A percepção da obra se dá através de um jogo proposital de reflexos e transparências. O urbano “como um dado específico e característico da situação atual” é o amplo marco teórico que permite a interlocução entre estes vários conhecimentos (21). Através de inúmeros recursos. por sua vez. senão mille plateaux. até os projetos urbanos de Peter Eisenman. por sua vez. estão na realidade. Desde uma operativa rizomática. “O pensamento pós-estruturalista iniciou a tarefa de pensar o mundo desde a ausência de fundamento e desde a decomposição do tempo histórico. Não há uma plataforma. confirmando que as manifestações aparentemente díspares da arquitetura contemporânea. Uma postura de movimento e fluxos. propondo dois conceitos especialmente interessantes: território e paisagem. provisória e parcial da abordagem do objeto arquitetônico.com. muito distinta daquela ancorada na lógica do contextual. uma multiplicidade de velocidades e a justaposição de vários percursos dentro de um mesmo espaço. suprimindo qualquer identidade formal ao volume construído e. em favor da superfície. proporcionando uma experiência de http://www. do envoltório. do trabalho sobre a “pele”. A idéia da fragmentação pode ser atribuída àquelas arquiteturas e intervenções que privilegiam a estratificação do território sobre o qual operam. Um “mundo sem forma” caracterizado pela fluidez. podemos destacar “Arquitectura débil” de 1987 como o primeiro a questionar a atribuição da arquitetura como delimitadora formal de espaços. entre eles o refinado uso da alta tecnologia e a adoção de superfícies refletoras. pela ausência de limites e pela constante mutação é. segundo o autor. proposições teóricas para enredar as produções mais recentes da arquitetura. Entretanto. Toyo Ito. Segundo o autor. uma multiplicidade ilimitada de posições desde as quais somente é possível montar construções provisórias” (19) No pensamento de Ignasi de Solà-Morales (1942-2001) esta percepção diferenciada é presente em diversos textos. que agregam por sua vez. deste “objeto” como delimitador de espaços. economia. refere-se às obras de arquitetura que experimentam as mais variadas nuances da materialidade.vitruvius. e ciente das inúmeras disciplinas que trabalham a cidade a partir de distintas aproximações conceituais. Desdobramentos As sínteses de Moneo e Solà-Morales apresentam hipóteses. na concepção de Ignasi de Solà-Morales.br/revistas/read/arquitextos/14. e cristalizada em “Arquitectura liquida” de 1998. Em sua síntese. antropologia e artes plásticas. No âmbito da arquitetura também é possível vislumbrar mecanismos que estabelecem novas abordagens em relação ao fenômeno metropolitano.

Trata-se. de uma apreensão fragmentária. Tampouco a cidade do Movimento Moderno prescindia de uma definição pré-estabelecida de sua estrutura e zonificações. Entretanto. De especial interesse são as noções de território e paisagem aqui citadas. Natal. passando por Condillac e Hegel.com. quando sugere a noção de sistemas ao lançar um novo olhar para a arquitetura do século XX e princípios do XXI. 53. porém de grande potencial transformador. El orden del discurso. dá margem à incorporação das inúmeras variantes – construção/ destruição. com sua clara ordenação de traçados e estruturas (ruas. Montaner atribui suas referências conceituais a vários autores. aqui entendida como permanência. André Corboz entre outros (26). notas NA Este artigo é parte do texto apresentado no II ENANPARQ (Encontro Nacional da Associação de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura). De volta ao começo Em um primeiro momento parece distante de toda esta discussão a apreciação de Montaner. a produção de um passado mais distante é reestudada a partir de outro mirante. da crítica especializada da qual ele é um dos protagonistas. 2002. na sessão temática “Objetos 2”. no entanto tal complexidade se remetia. e por outro. Como foi dito. J. esta sim parece fazer parte de um movimento menos evidente. as noções de tempo e movimento (23). tal como a legibilidade da cidade decimonônica. Barcelona: Gustavo Gili.M. por outro lado. platô. relativizando-os a partir de algumas possíveis panorâmicas. 19. sobretudo. 2 Aludimos aqui à análise gestaltica que Colin Rowe propõe em Collage City (1981). em seu espaço. Ambos modelos estiveram pautados em formas pré-determinadas pelo planejamento e desenho urbano. A estes aspectos soma-se também a característica de paisagem. I. citando nominalmente desde Kant. Em seu livro.160/4879 6/8 . o aporte que Montaner traz parece incorporar mais amplamente uma inflexão ocorrida já em princípios da década de 1990 no âmbito da teoria da arquitetura. no que tange à essência da mudança do ponto de observação efetuada entre a redação de “Formas” e “Sistemas”.17/02/2018 arquitextos 160. da cidade contemporânea. natural ou urbana. como alguns exemplos de cidades e esquemas do urbanismo moderno. 3 FOUCAULT. impossíveis de serem compreendidas pela ótica formal. subjetiva e cambiante de diversas experiências. p. Barcelona: Gustavo Gili. e porque não dizer. estável. para citar alguns aqui vistos – aplicada à produção arquitetônica dos últimos 100 anos. confirma a impossibilidade de um planejamento prévio. Topografía de la arquitectura contemporánea. a geração da forma entendida como estrutura essencial e interna (25).vitruvius. estabilidade e definição espacial. sobretudo. 5 Este texto se apropria e atualiza algumas questões expostas na resenha “O final http://www. Rafael Moneo. Topografía de la arquitectura contemporánea. avenidas). mutação/obsolescência – que fazem parte da lógica de produção da metrópole contemporânea. nos aproximaremos bastante desta noção de sistemas. Buenos Aires: Fábula Tusquets. In: Diferencias. Zaera Polo. 1995. crescimento/renovação. em um olhar mais atento. Para o autor. A noção de paisagem. 1 SOLÀ-MORALES. A distensão do marco espacial de análise que foi possível ser feita com a transposição de questões da filosofia pós-estruturalista para o diagnóstico da produção arquitetônica e urbana dos últimos anos permite uma ampliação do campo de visão. as relações que extrapolam o objeto . M.br/revistas/read/arquitextos/14.é dado no livro “Sistemas”. setembro de 2012. de incorporar. p. a questão da complexidade foi anteriormente abordada pelo autor em seu livro “As formas do século XX” (24). até Niklas Luhmann. Se aplicadas na sua essência a arquiteturas de diferentes tempos históricos. 2008. já não se fazia mais possível ter uma apreensão objetiva. O passo mais adiante.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius reconhecimento. Sistemas arquitectónicos contemporâneos. Porém. que incorpora forma e espaço público . praças. A hipótese que aqui levantamos é que este último livro cristaliza e “sistematiza” uma perspectiva crítica ensaiada em estudos anteriores de outros autores – Solà-Morales.ou seja. Sua análise parte da crise do objeto isolado. Com isto. Assim como na fotografia. 4 MONTANER. em vista da complexidade de relações que podem ser detectadas no âmbito do espaço público. 14. Em se tratando da aplicação mais literal do conceito de sistemas esta genealogia parece ser bastante fiel. chegando a Jean Baudrillard. p. o enquadramento dos objetos é ampliado. Talcott Parsons.

66. 2001. 1997. F. 17 SOLÀ-MORALES. Barcelona: Gustavo Gili. Lotus. 1999 – “Anymore”. 14. 2002. De la autonomia a lo intempestivo. 15 Totalizando 10 encontros realizados em diferentes cidades do planeta. Barcelona: Gustavo Gili. ao analisar a obra recente de Rem Koolhaas . In: Diferencias. Em: http://www. I. 10. Peter Eisenman. 20 Sobre estes conceitos e a dissolução de um suposto “paradigma formal” que sublinhava a arquitetura dos anos 70 e 80. L. 21 SOLÀ-MORALES. 11. De la autonomia a lo intempestivo. 10 “Ao considerar a cidade moderna desde o ponto de vista da capacidade perceptiva. Desígnio. Annals. 1997. ver: BRONSTEIN.“Anyhow”. 19 SOLÀ-MORALES. só cabe condená-la. p. Topografía de la arquitectura contemporánea. 1995.M. J. 8. 32. p. A. J. p. Arquitectura de La segunda mitad del siglo XX. 1992 - “Anywhere”. M. Rotterdam.” ROWE. A. 2006. nº 110. La modernidad superada. I. nº 1. I.vitruvius. 1999.7. Arquitectura Viva. p. Barcelona: Gustavo Gili. se o reconhecimento de certa classe de campo delimitado de qualquer modo é um pré-requisito de toda experiência perceptiva.vitruvius. R. Topografía de la arquitectura contemporánea. p. Barcelona. 1978. 1998 – “Anytime”. 22 SOLÀ-MORALES. Barcelona: Gustavo Gili. Catálogo do XIX Congresso da UIA. 2003. J. 15.com. I. 11. In: Diferencias. Rem Koolhaas. Topografía de la arquitectura contemporánea. segundo o critério da Gestalt. 9 SOLÀ-MORALES.023/3203 6 MONTANER.. Montreal”. pp.com. 1993 – “Anyway”. 12 MONTANER. Barcelona: Gustavo Gili. 1991. 1991 . n. Seul.07. http://www. Tokyo. 101. 1994 – “Anyplace. Barcelona: Gustavo Gili. Paisajes. Los 90 entre la compacidad y la fragmentación”. forçosamente há de debilitar-se e destruir-se a si mesma. In: SOLÀ-MORALES. 1992. p. 66. 11 TAFURI. 16 SOLÀ-MORALES. “Paradigmas fin de siglo. Diferencias. Buenos Aires. setembro. Topografía de la arquitectura contemporánea.M. BRONSTEIN L.br/revistas/read/arquitextos/14. 2000 – “Anything” – Nova Iorque.17/02/2018 arquitextos 160. ZAERA POLO.. Alejandro Zaera Polo identifica uma experiência de projeto que apenas pode ser entendida como uma “série de geografias ou topografias cujo sentido é fundamentalmente operativo (. Paris. OMA 1986-1991. construída fundamentalmente sobre sua operatividade”. O final da trilogia. Ciudad Colage. 8 MONTANER. Territori. 1995 – “Anywise”. então. Después del movimiento moderno. Diferencias. Barcelona: Gustavo Gili.. nº 6. M. 13 SOLÀ-MORALES. I. 1995. La arquitectura en las ciudades. El Croquis. Ignasi. I. julho. Arata Isozaki. 14 Idem. 7 LANDAU. Barcelona. p. Madrid: Celeste.. I. p.br/revistas/read/resenhasonline/02. In: SOLÀ-MORALES. 101. p. 1993. Notas para um levantamiento topográfico. 1995. 36. Topografía de la arquitectura contemporánea.) uma produção rizomática. 1996 – “Anybody”. 23 Em seu estudo. Rafael Moneo também se refere a uma “arquitetura como paisagem” ao analisar as obras de Rem Koolhaas e seus discípulos holandeses. Os encontros foram organizados por Ignasi de Solà-Morales. Arquitetura e cidade contemporânea: novos parâmetros. 18 Já em 1992. p. n. Teorias e História da Arquitetura. 1995. AA Files. Ankara. quando a figura não está suportada por nenhum marco identificável de referência. PASSARO. C. 1997. Los Angeles.160/4879 7/8 . e se a consciência de campo precede a consciência de figura. Notes on the concept of an architectural position.“Anyone”. Barcelona: Gustavo Gili. n.53. KOETTER. 101. Topografía de la arquitectura contemporánea.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius da trilogia”. p. As formas do século XX. Porque se se supõe que a apreciação ou percepção do objeto ou figura requer a presença de certo tipo de campo ou fundo. os congressos ANY sugeriam temas amplos para a discussão da problemática urbana a partir de um curioso jogo de palavras. 1996. 2001. Presente y futuros. I. novembro.

com. Barcelona: Gustavo Gili. Sistemas arquitectónicos contemporâneos. Plugin de comentários do Facebook © 2000–2018 Vitruvius As informações são sempre responsabilidade da fonte citada Todos os direitos reservados http://www. Mestre (FAU-USP).br/revistas/read/arquitextos/14.vitruvius. sobre a autora Laís Bronstein é Arquiteta (FAU-UFRJ). 2002.. 2008. Doutora (ETSA de Barcelona. Barcelona: Gustavo Gili. As formas do século XX. J. 25 Grifo nosso.M.03: Acerca da crítica aos objetos arquitetônicos | vitruvius 24 MONTANER. UPC) e professora PROARQ/FAU-UFRJ.160/4879 8/8 . M. comentários 0 comentários Classificar por Mais antigos Adicionar um comentário. 26 MONTANER.17/02/2018 arquitextos 160. J. 10-12. pp..