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BION

da Teoria à Prática
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Z71b Zimerman, David E.


Bion [recurso eletrônico] : da teoria à prática : uma leitura
didática / David E. Zimerman. – Dados eletrônicos. – 2. ed. –
Porto Alegre : Artmed, 2008.

Editado também como livro impresso em 2004.


ISBN 978-85-363-1622-2

1. Psicanálise – Bion. I. Título.

CDU 159.964.26 (Bion)

Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto – CRB 10/1023

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BION
da Teoria à Prática
Uma leitura didática
2a edição

DAVID E. ZIMERMAN
Médico psiquiatra.
Membro efetivo e psicanalista didata da
Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).
Psicoterapeuta de Grupo. Ex-presidente da Sociedade
de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

Reimpressão 2008

2004

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© Artmed Editora S.A., 2004

Capa
Gustavo Macri

Preparação do original
Bruno Pommer

Leitura Final
Laura Ávila de Souza

Supervisão editorial
Cláudia Bittencourt

Projeto e editoração
Armazém Digital Editoração Eletrônica – rcmv

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


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Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070

É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,


sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL

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Agradecimentos

A todos – entre familiares, amigos, colegas, colaboradores, editores, prefaciador,


instituições, leitores e pacientes – que estão me apoiando, incentivando
e prestigiando, quero expressar minha profunda e eterna gratidão.

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Sumário

Apresentação ............................................................................................................................. 9
Cláudio Laks Eizirik
Prólogo da 1a edição ............................................................................................................... 11
Prólogo da 2a edição ............................................................................................................... 17

PRIMEIRA PARTE
Aspectos Gerais
1 O Homem Bion: Dados Autobiográficos ..................................................................... 23

2 A Obra: Uma Resenha dos Trabalhos de Bion ............................................................. 31

3 A Utilização de Modelos Psicanalíticos ....................................................................... 48

4 Sobre uma Experiência Pessoal com W. R. Bion ..........................................................55


Luiz Alberto Py

5 Bion e Outros Pensadores ........................................................................................... 66

6 Um Glossário dos Termos de Bion, com um


Roteiro de Leitura de sua Obra ................................................................................... 75

SEGUNDA PARTE
A Obra
7 A Dinâmica de Grupos ............................................................................................. 107

8 Psicanálise, Sociedade e Perversão dos Sistemas Sociais: As Contribuições de Bion ..... 114

9 O Trabalho com Psicóticos ....................................................................................... 121

10 Uma Teoria do Pensamento ..................................................................................... 129

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8 SUMÁRIO

11 A Grade ..................................................................................................................... 138

12 Os Sete Elementos da Psicanálise ............................................................................ 147

13 Uma Teoria do Conhecimento .................................................................................. 156

14 Teoria das Transformações ....................................................................................... 165

15 O Período Religioso-Místico ..................................................................................... 175

16 Bion e o Psiquismo Fetal .......................................................................................... 185

17 Vínculos e Configurações Vinculares ........................................................................ 192

18 Algumas Frases, Metáforas e Reflexões de Bion ....................................................... 198

TERCEIRA PARTE
A Prática
19 Concepções Inovadoras da Contemporânea Prática Psicanalítica ............................ 213

20 As Múltiplas Faces da Verdade ................................................................................. 224

21 A Função de “Continente” do Analista e os “Subcontinentes” ................................. 230

22 “Sem Memória, sem Desejo e sem Ânsia de Compreensão” ..................................... 240

23 A Análise do Consciente ........................................................................................... 244

24 Resistência-Contra-resistência .................................................................................. 256

25 Transferência-Contratransferência ........................................................................... 264

26 A Atividade Interpretativa ........................................................................................ 270

27 Insight, Elaboração, “Cura” ...................................................................................... 280

28 Epistemofilia e Vínculo -K: A Proibição do Conhecer (Uma Ilustração Clínica) ....... 287
Inúbia Duarte

29 Uma Resenha – Comentada – de Seminários Clínicos com Bion .............................. 296

30 Uma Conferência de Bion sobre a Prática Psicanalítica ........................................... 307

31 Condições Necessárias ao Psicanalista ..................................................................... 315

32 O que Mudou na Minha Prática Analítica a Partir de Bion? ..................................... 323

Epílogo .................................................................................................................................. 332


Bibliografia da Obra Completa de W. R. Bion ........................................................................ 339
Referências Bibliográficas ...................................................................................................... 342
Índice Remissivo .................................................................................................................... 345

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Apresentação

Uma das frases mais utilizadas por W. R. profissão), já que estamos todos empenhados
Bion era a citação de Blanchot: “A resposta é a em continuar o diálogo com Freud, repeti-lo,
desgraça da pergunta”. Segundo nos informa recordá-lo e elaborar sua obra, ao mesmo tem-
sua esposa, os problemas estimulavam nele po buscando ampliá-la e desenvolvê-la. Nesse
pensamento e discussão — nunca respostas. processo criativo, raros se comparam a Bion,
Mesmo assim, sucedem-se as tentativas de en- na extensão e profundidade das transforma-
contrar esclarecimentos, compreensões, expli- ções que propôs e empreendeu. Seguindo nes-
cações, enfim, respostas para a instigante, se trabalho interminável de repetir, recordar e
estimuladora e, por vezes, obscura ou até mes- elaborar, vários são os autores contemporâne-
mo aparentemente misteriosa sucessão de os, de diversas latitudes teóricas e geográficas,
questões que Bion legou à psicanálise. que estão envolvidos na reflexão psicanalítica
Com este livro, o Dr. David Epelbaum continuada inspirada por quem nos ensinou a
Zimerman inclui-se no conjunto dos psicana- “aprender com a experiência”.
listas contemporâneos e posteriores a Bion que O Dr. David E. Zimerman formou-se em
passaram a buscar uma melhor apreensão de Medicina, em 1954, pela UFRGS; tornou-se es-
suas inovadoras idéias, bem como o aprofun- pecialista em Psiquiatria, em 1964, pela Clíni-
damento decisivo que ele trouxe ao pensamen- ca Pinel, da qual foi diretor-clínico por vários
to seminal de Freud e às contribuições de anos. Realizou sua formação psicanalítica no
Melanie Klein, daí decorrentes. Saudamos ago- Instituto de Psicanálise da Sociedade Psicana-
ra, oito anos após seu aparecimento, a segun- lítica de Porto Alegre, da qual se tornou mem-
da edição, revista e ampliada, resultado de uma bro associado em 1976 e efetivo em 1987. Des-
longa e frutífera conversação que o nosso au- de 1990, é analista didata.
tor tem mantido com seus leitores e partici- Sua carreira profissional e docente inclui
pantes de seus vários grupos de estudo sobre a intensa participação como psiquiatra (foi pre-
obra de Bion. sidente da Sociedade de Psiquiatria do Rio
Talvez esta seja uma característica pecu- Grande do Sul), psicoterapeuta individual e de
liar da psicanálise, desde que Freud descreveu grupos (presidiu a Sociedade de Psicoterapia
o seu processo terapêutico como um suceder, Analítica de Grupo de Porto Alegre), fundador
em ordem variada, direta, inversa ou simultâ- do Programa de Educação Médica Continuada
nea, de recordar, repetir e elaborar. Esses três da Associação Médica do Rio Grande do Sul,
movimentos, da mesma forma, fazem parte da assíduo participante em congressos nacionais
psicanálise como disciplina (e também como e internacionais, e autor de capítulos de livros

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10 DAVID E. ZIMERMAN

e artigos para periódicos especializados. Nos comentários críticos e uma abordagem conci-
últimos anos, tem nos brindado com uma im- sa, didática e bem articulada aos já acostuma-
pressionante e qualificada produção, através dos aos meandros do pensamento bioniano.
dos livros Fundamentos básicos das grupotera- Mesmo, sem dúvida, partindo de seus própri-
pias (1993), Como trabalhamos com grupos os vértices e de suas necessárias escolhas, o
(1997), Fundamentos psicanalíticos: teoria, téc- presente livro cumpre, terminada a sua leitu-
nica e clínica (1999), Vocabulário contemporâ- ra, as esperanças de seu autor, apontadas no
neo de psicanálise (2001), Aspectos psicológicos Epílogo.
da atividade jurídica (2002) e Manual de técni- Esta segunda edição de Bion: da teoria à
ca analítica (no prelo). prática traz inúmeras transformações, incluin-
A par disso, tem apresentado contribuições do novos capítulos, um glossário ampliado, um
a congressos internacionais de psicanálise e pu- roteiro de leitura da obra de Bion, uma compi-
blicado trabalhos na Revista Brasileira de Psica- lação de suas frases, metáforas e reflexões e
nálise e na Revista de Psicanálise da Sociedade uma ainda mais ampla inclusão das idéias e
Psicanalítica de Porto Alegre. Desde a aparição apreensões que o Dr. David faz do pensamen-
da primeira edição de Bion: da teoria à prática, to bioniano, o que pode ser observado princi-
o Dr. David ampliou suas atividades científicas palmente nos capítulos “A Função de ‘Conti-
relacionadas com o estudo do pensamento bio- nente do Analista e os ‘Subcontinentes’” e “O
niano, não só através de grupos de estudo, como que Mudou na Minha Prática Analítica a partir
também através de conferências, no Brasil, no de Bion?” e em seus conceitos sobre o que de-
Chile e em Portugal, tendo sido convidado es- nomina mapeamento do psiquismo.
pecial do I Seminário Internacional sobre a Obra Munido da paciência e da capacidade de
de Bion, lá realizado. Desenvolve contínua ati- observar e “empatizar”, preconizada por Bion,
vidade como supervisor de psicoterapia e de nosso autor inova ao colocar um bem elabora-
psicanálise e ensina no Instituto de Psicanálise do glossário logo no início do livro; garimpa
de nossa Sociedade, além de sua atividade clí- preciosidades que emergem de suas inúmeras
nica como psicanalista e psicoterapeuta. supervisões e vai nos conduzindo a uma cres-
Todo esse conjunto de atividades, somado cente compreensão das idéias e das preocupa-
aos quase quarenta anos em que o Dr. David E. ções que forjaram o seu pensamento psicana-
Zimerman vem estudando e aplicando as con- lítico. E, se encontramos alguns conceitos ou
tribuições de Bion, conduziram-no naturalmente termos retomados ou repisados aqui e ali, é
a empreender a “leitura didática” que agora nos justamente porque o Dr. David está em pleno
apresenta, em segunda edição. E, com a fran- exercício do já mencionado processo de repe-
queza que lhe é característica, afirma, no capí- tir, recordar e elaborar, agora tendo Bion como
tulo sobre a teoria das transformações: figura central deste renovado trabalho intelec-
tual e afetivo. Assim, ficamos com a certeza de
[...] este capítulo sobre transformações re- que nós, seus inúmeros colegas, amigos e alu-
sulta da transformação particular que o tex- nos, temos motivos para alegrar-nos com a in-
to de Bion provocou em mim, e que certa- sistência em tê-lo estimulado a uma nova ver-
mente não será coincidente com a de ou- são do livro publicado inicialmente em 1995 e
tros, embora conserve a mesma invariância boas razões para reconhecer os frutos colhidos.
essencial. A própria escolha do vértice Dito isso, resta desejar que outros tantos
prioritário de observação já determina uma leitores possam compartilhar desses sentimen-
significativa mudança nas transformações
tos e do estímulo para ler, estudar e pensar
que este texto opera no leitor [...]
Bion, na extensão e abertura que ele trouxe à
teoria e à prática psicanalíticas.
Com isso, quero destacar que, embora não
dispensando obviamente a leitura direta de Cláudio Laks Eizirik
Bion, o livro do Dr. David estimula e desafia o Presidente Eleito da Associação
leitor novato, e refresca a memória e propõe Psicanalítica Internacional

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 11

Prólogo da 1a Edição

Embora incentivado por muita gente, he- tendo e gosto”, porquanto essas exclamações
sitei bastante antes de tomar a decisão de es- acionam a minha dúvida se estou me manten-
crever e publicar este livro. Tal relutância ex- do plenamente fiel ao pensamento psicanalíti-
pressava um conflito entre duas tendências co bioniano como julgo estar.
opostas dentro de mim, e que creio ser útil com- A essas perguntas e dúvidas o meu lado
partir com os leitores. favorável à publicação deste livro contrapunha-
A tendência contrária à feitura do livro se com argumentos que me pareceram mais
se apoiava nos seguintes argumentos: o pri- fortes. Assim, notei que, se não sou exatamen-
meiro, o meu reconhecimento de que não sou te um especialista em Bion, considero-me um
exatamente o que se poderia chamar de um dedicado estudioso de seus textos desde longa
“profundo conhecedor” de Bion, ou um “espe- data. Para ser mais exato, desde o início da
cialista” em Bion, e sequer me considero um década de 60, quando, em busca de conheci-
“bioniano puro”. Em segundo lugar, não tenho mentos sobre dinâmica de grupos, pela primei-
a pretensão de ser o representante do “verda- ra vez tomei contato com o estilo, a forma de
deiro pensamento” de Bion. Aliás, eu me per- pensar e o restante da obra de Bion; desta me
guntava: qual é mesmo o “verdadeiro” pensa- enamorei e nunca mais me separei.
mento psicanalítico de Bion? Não corro um Além de um continuado estudo de todos
sério risco de deturpá-lo com o meu próprio os escritos de Bion, também coordenei (e co-
vértice de entendimento, ou, pelo menos, de ordeno) alguns grupos de estudo, proferi pa-
privilegiar uma parte de sua obra e tomá-la lestras, ministrei seminários no Instituto de
como se fosse o todo? Em terceiro lugar, como Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Por-
o propósito deste livro é o de dar uma aborda- to Alegre e, sobretudo, aliei à minha experiên-
gem de finalidade didática e simplificadora da cia da prática psicanalítica de mais de 30 anos
obra de Bion, não estarei cometendo um ato os ensinamentos que, acredito, consegui extrair
de sacrilégio por tomar uma direção de certa da leitura e da discussão das idéias de Bion.
forma oposta à do autor, que sabidamente pre- Guardo uma absoluta convicção de que as
gava que era contra as verdades acabadas e mesmas provocaram sérias reflexões e deter-
achava importante manter um clima de incer- minaram uma decisiva mudança em minha ati-
teza, de ambigüidade e de um certo mistério? tude psicanalítica interna diante dos meus
Confesso que persiste uma sensação descon- pacientes.
fortável em mim toda vez que algum aluno Com base em tais convicções, comecei a
manifesta que “esse Bion, o do David, eu en- dar crédito a muitos colegas, amigos e alunos,

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12 DAVID E. ZIMERMAN

além do editor, que me consideravam capaz uma obra de evolução muito coerente e de pro-
de transmitir as principais concepções de Bion gressiva consistência e integração entre os di-
de uma forma que, segundo eles, fosse de na- ferentes conceitos. Não obstante isso, a sensa-
tureza didática, isto é, descomplicada, mas sem ção de caos, de labirinto e de aturdimento cos-
perder a substância do essencial. tuma persistir durante prolongado tempo para
Do mesmo modo, o fato de não ser um quem estuda Bion no original. Acrescem-se a
bioniano exclusivo pareceu que me poderia tal sensação desconfortável mais alguns fato-
conferir uma vantagem acessória: a de permi- res, como o fato de que, mercê de uma sólida
tir uma neutralidade conceitual e uma maior erudição, Bion transitava com fluência pelas
isenção para as eventuais reflexões críticas. áreas contíguas da matemática, da biologia, das
Retomando as perguntas que antes for- artes e da filosofia, além da psicanalítica, é cla-
mulei a mim mesmo acerca de se é possível ro, o que propiciou que ele construísse diversi-
simplificar Bion sem afrontar o seu estilo de ficados modelos de observação psicanalítica, a
pensamento propositadamente ambíguo, creio partir de distintos vértices.
ter encontrado uma resposta no próprio Bion, O próprio Bion, em Conferências brasilei-
que, em muitos dos seus textos, advoga a ne- ras 1 (1973, p. 14), reiterava que, ao longo de
cessidade do cumprimento de três aspectos. sua obra, utilizou, no mínimo, três modelos,
O primeiro exige que os seus leitores façam isto é, três vértices distintos entre si: o científi-
sempre uma leitura relacionada com a real co, o estético e o religioso. Permito-me acres-
experiência da prática clínica de cada um; o centar um quarto modelo, que, creio, foi mui-
segundo, que ele não cansou de enfatizar, re- to utilizado por Bion, e que poderíamos deno-
fere-se à liberdade para que cada leitor faça minar como o existencial-pragmático, tal foi a
uma leitura particularizada de seus textos, que sua insistência na importância das experiên-
a elabore a partir dos vértices de suas própri- cias emocionais sofridas nas vivências existen-
as vivências afetivas e que crie os seus própri- ciais e na necessidade pragmática de o psica-
os modelos psicanalíticos; o terceiro aspecto nalista se ater a uma indispensável “atitude
reiterado por Bion é evidenciado quando, ao analítica” na interação da prática clínica, sem-
tratar do vínculo analítico, ele enaltece a ne- pre levando em conta que cada um dos víncu-
cessidade de o psicanalista utilizar uma lin- los sempre tem uma profundeza muito singu-
guagem simples e acessível, e que, antes dis- lar. Aliás, os seminários clínicos (supervisões
so, consiga estabelecer aquilo que ele referiu coletivas) ministrados por Bion no Brasil ates-
como o “fato selecionado”, ou seja, a busca tam claramente o seu espírito clínico e a sua
de uma coerência e uma consistência ao que posição dirigida ao pragmatismo, no sentido
aparenta ser um caos. de que o psicanalista deve estar voltado para o
Consoante com essas posições de Bion, vértice de um existencialismo. Mais ainda, nes-
senti-me autorizado a eleger meu próprio vér- sa mesma conferência, na página 15, Bion as-
tice de como elaborar, utilizar e comunicar as severa que, acima de tudo, o que importa é a
suas concepções psicanalíticas: é um vértice psicanálise prática.
eminentemente de natureza didática, ou seja, Diante de tantos modelos, é justo que,
mais simplificada, que possibilita relacionar a parafraseando Wallerstein (“...uma psicanáli-
teoria com a prática clínica. se ou muitas?”), nos perguntemos: um Bion
Aludi no início que uma primeira leitura ou muitos? Eles convergem ou divergem? Uni-
dos escritos originais de Bion pode induzir o ficam-se em um todo ou se dissociam e se dis-
leitor que ainda não esteja familiarizado com persam?
a sua obra a um estado de aparência caótica. Seria uma tarefa muito difícil para qual-
No entanto, trata-se de não mais que uma apa- quer autor tentar unificar todos os Bions em
rência, pois, descontado o fato de que a maio- um único volume. Assim, optei por uma revi-
ria dos seus textos seja considerada irritante- são sumária dos modelos antes mencionados,
mente difícil, a verdade é que sua contínua com uma ênfase bem maior nos aspectos rela-
releitura evidencia o quanto ele foi tecendo tivos às aplicações na prática clínica, até por-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 13

que os outros modelos estão muito bem ex- os conhecimentos novos aos anteriores com os
postos em outros livros, como o já clássico In- quais estejamos seguramente familiarizados.
trodução às idéias de Bion, de Grinberg e cola- No entanto, a meu juízo, essa nova terminolo-
boradores, cuja tônica é um apanhado das con- gia de Bion pode causar algumas confusões se-
cepções científicas; o excelente Bion e o futuro mânticas. Assim, ele utiliza a letra α do alfabe-
da psicanálise, de Antonio M. Rezende, que to grego tanto para significar a função α e os
consegue alcançar um expressivo nível estéti- elementos α como também para a designação
co; e vários textos de Paulo Cesar Sandler, um de “transformação α” (T α), sendo que se tra-
importante divulgador da obra de Bion no Bra- tam de fenômenos bem diferentes um do ou-
sil, mais notadamente a do período místico, tro. Da mesma forma, o emprego da expressão
que aborda o modelo filosófico. “objeto psicanalítico”, que tem um significado
De certa forma, esses diferentes modelos muito específico no pensamento de Bion,
se contrapõem entre si, porquanto os concei- superpõe-se e confunde-se com o conceito clás-
tos científicos estão em busca de um “fato se- sico de “objeto”. O termo “função” ora é em-
lecionado”, ordenador, enquanto os vértices ar- pregado por ele com um significado de uma
tístico e religioso exigem crescentes aberturas particular originalidade em suas concepções
em direção a um “universo em expansão”, para científicas, ora é empregado no sentido clássi-
empregar um termo utilizado com freqüência co de função do ego. As expressões “personali-
por Bion. dade psicótica”, “parte psicótica da personali-
Dentro desses referenciais, o propósito do dade” ou, ainda, “alucinose” podem fazer su-
presente livro é o de ser uma espécie de “fato por que se tratem de psicoses, tal como as co-
selecionado” – tal como é a concepção inte- nhecemos na psiquiatria clássica; no entanto,
gradora desse conceito, por parte de Bion –, e, não foi essa a intenção de Bion; antes, ele quis
coerente com essa posição de privilegiar um evidenciar que tais fenômenos não se apresen-
vértice didático, deliberadamente não utilizo tam apenas nos quadros clínicos francamente
certos aspectos característicos de algumas das psicóticos, mas sim que essas partes psicóticas
formulações de Bion. Por exemplo, evitarei ao convivem sincronicamente com as persona-
máximo o emprego de signos complexos ou de lidades neuróticas, e assim por diante. Uma
complicadas equações matemáticas, sem me outra fonte geradora da aparência de confu-
ater à discussão de eles serem indispensáveis e são provém do próprio estilo de Bion: tal como
enriquecerem o pensamento bioniano ou se- definiu sua esposa, Francesca, “os problemas
rem unicamente complicadores. A propósito suscitavam nele a reflexão e o debate, nunca
disso, sinto-me amparado na opinião de respostas”; essa autenticidade de atitude cientí-
Meltzer (1978, p. 71), um insuspeito admira- fica levou a uma estilística elíptica, cheia de
dor e seguidor de Bion, quando afirma que paradoxos e de mudanças de vértices, a tal
ponto que o próprio Bion muitas vezes ficava
[...] com este trabalho, perdemos qualquer surpreso com o que havia escrito anterior-
esperança diante da proliferação de nota- mente.
ções de cunho matemático, de pseudo- Pode-se dizer que há uma “escola bionia-
equações seguidas de setas, pontos, linhas, na”, ou, pelo menos, uma “teoria de Bion”?
setas acima das palavras (ou, então, abai- Embora o próprio tenha enfaticamente desau-
xo), e não só letras, mas palavras gregas. torizado a divulgação de suas idéias como sen-
Como suportar tal ataque à nossa mente? do a criação de uma nova escola e se declarasse
como um fiel seguidor de Klein, a verdade é
Aliás, Bion usou de propósito uma nomen- que muitos importantes psicanalistas pós e
clatura muito genuinamente sua, bem diversa neokleinianos o citam com crescente freqüên-
da que todos os psicanalistas estavam habitu- cia e reconhecem-no como o mais original e fe-
ados, e o fez de fato com o objetivo de que o cundo dentre todos eles. Alguns desses autores,
seu leitor não se sentisse tentado a fazer o que como Meltzer, advogam a condição da “escola
sabemos ser muito comum entre nós: reduzir de Bion”, levando em conta que o que caracte-

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14 DAVID E. ZIMERMAN

riza um status de “escola” é a transmissão de da maioria dos seus colegas. A obra de Bion –
idéias originais entre sucessivas gerações de psi- pela nomenclatura codificada, pela erudição,
canalistas. Quanto à categorização de suas idéias pela possibilidade de exercitar especulações
e concepções como um corpo teórico próprio, é abstratas (como na grade, por exemplo) e pela
Bion quem afirma que as suas observações, pen- atmosfera mística – possibilita-nos o aludido
samentos e postulados não se constituem com uso fetichizado, com base na suposição de “[...]
a finalidade de ser uma teoria psicanalítica a se eu domino um Bion complicado que os ou-
mais, e tampouco em negações das teorias psi- tros não entendem, é porque eu sou um ana-
canalíticas já existentes, mas sim em uma for- lista especial e pertenço a uma elite muito di-
ma de como observar e fazer uso destas. ferenciada”.
O mundo psicanalítico não tem uma opi- Este prólogo destina-se primordialmente
nião uniforme sobre as contribuições de Bion: àqueles que desejam se familiarizar com as
muitos o veneram, outros o detestam, e uma concepções de Bion (e todos nós sabemos como
significativa maioria se mostrou inicialmente existe uma propensão da maioria a fugir das
indiferente a ele. Como uma ilustração disso, primeiras dificuldades semânticas e abstrações
vale citar a opinião de Joseph (Revista IDE, n. conceituais). Para os que já dominam as idéias
14, p. 15), psicanalista norte-americano, com bionianas, é possível que este livro não tenha
a autoridade de ter sido presidente da IPA du- muito a acrescentar do ponto de vista das con-
rante o período de 1979 a 1981: “Li Bion. Me cepções teóricas, salvo o estimular reflexões e
parece que não tem nenhuma aplicação clíni- relações com a prática clínica. Além disso, pa-
ca; é interessante filosoficamente”. Da mesma receu-me indispensável expor minhas aspira-
forma, alguns o consideram um gênio, outros, ções, razões, dúvidas e possíveis limitações,
um tautólogo ou um mero místico, e não falta pela singela razão de que não haveria a menor
quem o rotule de psicótico. O que é inegável, coerência em escrever um livro sobre Bion e
no entanto, é que o nome de Bion aparece na não partir do marco inicial de ser rigorosamen-
bibliografia de muitos dos mais diversos tra- te verdadeiro.
balhos atuais, de autores de grupos psicanalí- Este livro divide-se em três partes, num
ticos diferentes, e que as suas idéias estão sen- total de 26 capítulos. A primeira parte,
do estudadas, conhecidas e aplicadas também intitulada “Aspectos Gerais”, apresenta ao lei-
em áreas muito diferentes da psicanalítica. tor a “atmosfera bioniana”. Acompanhar as
Minha impressão é que, conquanto ele vicissitudes biográficas do homem Wilfred
possa ter um pouco de cada um desses aspec- Bion – tal como estão no Capítulo 1 – favore-
tos, o que inegavelmente se sobressai é o fato cerá muito o entendimento e a experiência
de, junto a Freud e Klein, ocupar a condição emocional que os seus textos despertam. Da
de terceiro gênio da psicanálise. Ademais, as mesma forma, os Capítulos 2 – “A Obra: uma
suas contribuições adquiriram uma dimensão Resenha dos Trabalhos de Bion” – e 5 – “Um
revolucionária, em especial no que se refere às Glossário Introdutório” –, respectivamente,
aplicações clínicas, portanto uma opinião fron- objetivam familiarizar o leitor através da evo-
talmente oposta à do ex-presidente da IPA (em- lução linear da obra de Bion, com uma sínte-
preguei o termo “revolucionário” a partir do se das principais idéias de cada um dos seus
seu significado etimológico, composto de “re” textos, e de um glossário esclarecedor dos ter-
e “evolucionário”, ou seja, o de uma nova evo- mos que designam suas concepções e os con-
lução a partir das anteriores). ceitos. O Capítulo 3 aborda os modelos que
Vale mais um registro: assim como há os Bion costumava criar e utilizar tanto para uma
incrédulos e os indiferentes, como Joseph, tam- finalidade epistemológica como clínica. O
bém há o grupo de “adoradores”, com o incon- Capítulo 4 busca dar uma visão compreensi-
veniente de que estes últimos podem se utili- va das influências provindas de diversos im-
zar das idéias de Bion como um fetiche arro- portantes pensadores, não só psicanalíticos,
gante, isto é, como uma prova de que possuem mas também de várias outras áreas do conhe-
um “pensamento iluminado”, além do alcance cimento humano.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 15

A segunda parte desta obra, “A Teoria”, analista. No Capítulo 16, busco reconhecer a
divide-se em sete capítulos e objetiva possibi- validade e profundeza de uma das conceitua-
litar ao leitor acompanhar, de forma simpli- ções mais polêmicas e discutidas na obra de
ficada, a criação, o desenvolvimento e o des- Bion: a que trata do conhecido estado mental
dobramento das concepções fundamentais de do analista de “Sem Memória, sem Desejo e
Bion, acrescidas de alguns eventuais novos vér- sem Compreensão”. O Capítulo 17 enfoca um
tices apontados por outros autores. Em ordem aspecto do processo psicanalítico que nem sem-
seqüencial, os referidos capítulos tratam das pre tem merecido a devida atenção dos auto-
seguintes contribuições essenciais na obra de res em geral, e que Bion enaltece bastante: o
Bion: o trabalho com grupos e com psicóticos, da análise do consciente. Embora Bion não te-
a atividade do pensamento, a grade, a função nha produzido nenhum texto que abordasse
do conhecimento, as transformações, e as suas diretamente o manejo técnico dos fenômenos
últimas especulações, de natureza “psicoem- inerentes ao campo psicanalítico que se esta-
brionária”, acerca do psiquismo fetal. Ao final belece no vínculo analista-analisando, é fácil
de cada um desses capítulos, são tecidos al- perceber e extrair de muitos escritos dispersos
guns comentários críticos, a partir de meu vér- o quanto ele valorizou os referidos fenômenos
tice pessoal de observação e reflexão. e fez recomendações acerca deles. Assim, o
Os capítulos apresentados na segunda Capítulo 18 trata das resistências-contra-resis-
parte deste livro não pretendem substituir a tências; o 19, das transferências-contratransfe-
indispensável leitura dos textos originais de rências; o Capítulo 20 se dedica ao trabalho
Bion; acredito, entretanto, que a facilidade de das interpretações do psicanalista; e o 21 se
um primeiro entendimento e a maior clareza estende em considerações acerca do Insight,
de um escrito tão complexo como o de Bion Elaboração e Cura. Na esteira dos aludidos ca-
são um incentivo a uma posterior leitura apro- pítulos, são destacados muitos dos aspectos que
fundada da legitimidade do autor, no original. emprestam uma originalidade toda especial às
A terceira e última parte deste livro é uma concepções de Bion, tais como os enunciados
espécie de “realização” (para utilizar um ter- referentes ao processo de “reversão da pers-
mo de Bion) das duas anteriores. Intitulada “A pectiva”, de “mudança catastrófica”, a necessi-
Prática”, seu propósito é responder à pergunta dade de “sofrer a dor psíquica”, a importância
que se ouvia com muita freqüência: “É possí- da “mudança de vértices”, o desenvolvimento
vel aplicar a teoria de Bion à prática clínica?” da “função psicanalítica da personalidade”, etc.
Não tenho a menor dúvida em dar uma res- O Capítulo 22 traz uma ilustração clínica
posta afirmativa, e os 13 capítulos que com- de autoria da psicóloga Inubia Duarte, em que
põem esta terceira parte visam justamente a relata a experiência de tratamento analítico
abrir um leque de inegáveis aplicações no exer- com crianças que apresentam problemas liga-
cício cotidiano de nossa prática clínica. Assim, dos a um distúrbio da função do conhecimen-
o Capítulo 13 traça as linhas gerais que relaci- to. No capítulo seguinte, através de algumas
onam as concepções teóricas de Bion com a passagens extraídas de, virtualmente, todos os
nossa prática diária, de tal sorte que ele pode seminários clínicos de Bion já publicados, é
ser considerado como um dos legítimos inova- apresentado algo do estilo e da sua forma de
dores da prática da psicanálise contemporânea. compreensão das distintas situações analíticas.
O Capítulo 14 aborda um dos aspectos mais Ainda dentro do propósito de apresentar
fundamentais para a práxis analítica, que é o um Bion de corpo inteiro, impunha-se incluir
referente à utilização da “Verdade, Falsidade e neste livro uma transcrição integral de algum
Mentira” tanto por parte do paciente como do trabalho seu que fosse relativamente inédito e
psicoterapeuta. O Capítulo 15 trata de uma que enfocasse de forma prioritária aspectos da
concepção considerada, consensualmente, prática clínica. Isso foi possível graças à per-
como sendo de uma extraordinária relevância, missão e à colaboração da Revista Gradiva.
em especial para os pacientes mais regressi- Dessa forma, o Capítulo 24, “Uma Conferên-
vos: a função de continente, da análise e do cia de Bion sobre a Prática Psicanalítica”, é a

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16 DAVID E. ZIMERMAN

transcrição da tradução de uma conferência sig- muito próxima com Bion, a qual ele partilha
nificativa que ele pronunciou em Buenos Aires. de uma forma muito verdadeira, autêntica e
Publicada na Revista Gradiva, em seu n. 49, de corajosa.
1992, reflete de modo consistente como Bion O Capítulo 26 também adquire um inte-
pensa alguns importantes problemas da técni- resse especial, pois resulta de um trabalho de
ca da psicanálise. garimpagem dos atributos exaltados por Bion
O Capítulo 25 é especial, pois preenche nas linhas e entrelinhas de seus diversos tex-
um dos propósitos deste livro: trazer aos leito- tos, atributos esses que são estudados nesse
res uma aproximação, a mais viva possível, com capítulo a partir de vertentes etimológicas, e
Bion como figura humana, autor, conferencis- que podem ser considerados como os necessá-
ta, supervisor e psicanalista que trabalhou rios para a composição de uma “atitude psica-
privadamente no consultório com os seus nalítica interna” e da aquisição de uma plena
analisandos. “Sobre uma Experiência Pessoal identidade de psicanalista.
com W. R. Bion” é de autoria do psicanalista O epílogo procura fazer uma integração
Luiz Alberto Py, que, como os leitores consta- entre o passado, o presente e o futuro das con-
tarão, teve o privilégio de uma convivência tribuições de Bion.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 17

Prólogo da 2a Edição

Em 1995, ousei publicar a primeira edi- jetivos a que me propus, que o entrego aos lei-
ção de Bion: da teoria à prática. Considero ter tores”. Agora, decorridos oito anos desde o seu
sido uma ousadia porque, sabidamente, os tex- lançamento, posso aquilatar melhor que o sen-
tos de Bion, para quem não estiver suficiente- timento de esperança de então atingiu uma gra-
mente familiarizado com eles, não são fáceis tificante realidade e cumpriu os objetivos pro-
de ler no original, e eu estaria correndo o risco postos, ou seja, fazer a divulgação da obra de
de poder simplificar demais o seu pensamento Bion, da forma mais descomplicada possível,
ou, até mesmo, de desvirtuá-lo. Além disso, para motivar os leitores a se aprofundarem em
toda a sua vasta obra permite diversos tipos uma leitura de seus textos no original.
de leitura, e não obstante eu sempre ter sido Assim, freqüentemente sou solicitado
um dedicado estudioso de Bion, reconhecia mi- para formar grupos de estudo e recebo um re-
nhas limitações, pois nunca pretendi ser um torno de muitos cantos do Brasil, com inúme-
“especialista” em Bion, tampouco basear todo ros convites para palestras. Também, não ra-
o meu tempo de estudo e de prática na minha ramente, alguns colegas me informam que este
clínica psicanalítica exclusivamente em Bion. livro abriu as portas para um estudo mais sis-
Assim, considero-me um analista eclético, temático, facilitado e prazeroso de Bion.
porque, de alguma forma, incorporo os conhe- Acredito que essas manifestações sejam
cimentos provindos de distintas correntes psi- sinceras porque, ultrapassando as minhas pró-
canalíticas e de outras afins, como das neuro- prias expectativas, e as dos meus editores, o li-
ciências, porém reconheço que a minha maior vro teve sucessivas reimpressões e, no momen-
inspiração psicanalítica provém de Bion, a cuja to em que escrevo, está totalmente esgotado.
memória rendo, aqui, publicamente, um prei- Julguei que, em vez de simplesmente fazer uma
to de gratidão, não só porque ele mudou fun- nova reimpressão, seria mais adequado ofere-
damentalmente a minha forma de compreen- cer aos leitores uma nova edição, em que fosse
der e praticar a psicanálise, como também por- possível fazer algumas correções, simplificar al-
que promoveu expressivas mudanças em mim, guns textos e acrescentar alguns aspectos no-
como pessoa. vos, especialmente no que diz respeito ao “Glos-
Recordo que, na última frase da primeira sário dos Termos de Bion”, que teve uma boa
edição deste livro, no Epílogo, concluo dizen- acolhida e, estou certo, muita utilidade para os
do: “E é com um sentimento de esperança de leitores. Ademais, esta segunda edição está am-
que este livro possa ter atingido alguns dos ob- pliada com alguns capítulos originais que não

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18 DAVID E. ZIMERMAN

constam na 1a, os quais julgo que vão enrique- zes, levar a uma verdadeira “perversão” da fi-
cer e dar maior consistência aos interessados nalidade inicial para a qual determinada insti-
em Bion. tuição foi criada. Para sanar essa lacuna, enten-
Desse modo, o glossário foi significativa- di ser útil acrescentar um segundo capítulo,
mente ampliado, não só em relação ao núme- novo, abordando especificamente esse aspecto
ro de verbetes, como também num maior deta- de patologia grupal. Tal capítulo aparece na pre-
lhamento de cada um deles; além disso, tanto sente edição com o título de “Psicanálise, Socie-
quanto possível, procuro remeter o leitor para dade e Perversão de Sistemas Sociais”.
os textos originais, de forma que o conceito “Vínculos e Configurações Vinculares” é
contido em cada verbete possa ser localizado o título de um terceiro capítulo, que se impõe
na obra completa de Bion. Por essa última ra- pela incontestável relevância quanto ao lugar
zão, o título desse capítulo foi modificado para que os vínculos e as configurações vinculares
“Um Glossário dos Termos de Bion, com um ocupam na obra de Bion e na psicanálise con-
Roteiro de Leitura da sua Obra”. temporânea.
Nesta nova edição existem muitas mudan- Um quarto capítulo acrescentado é o inti-
ças em relação à primeira, como o acréscimo tulado “Frases, Metáforas e Reflexões de
de novos capítulos, a alteração de alguns títu- Bion”, que, creio, não poderia faltar, tendo em
los da edição anterior e também alguma alte- vista que, ao longo de sua obra, Bion nos brin-
ração na ordenação dos capítulos. Conseqüen- da com verdadeiras pérolas que, expressadas
temente, a numeração dos capítulos tal como numa forma singela, permitem profundas re-
está referida no “Prólogo da 1a edição” não flexões. Grande parte delas foi extraída das
corresponde à atual, e muito menos o “Índice “Conferências de Bion” (tanto as que estão
Remissivo”. Não obstante tudo isso, optei por no livro Conferências brasileiras 1, de 1973,
manter inalterado o prólogo da edição origi- como as de Conversando com Bion, de 1992).
nal com o fim de conservar a autenticidade e, Tive como objetivo fazer um passeio pelas
de certa forma, permitir uma observação da inúmeras conferências que ele, com o seu es-
evolução de uma edição à outra. tilo peculiar, pronunciou em diversas partes
Cabe destacar que, além da antes referi- do mundo, e que possibilitam fazermos uma
da necessária expansão do glossário, com o aproximação mais detida em aspectos de re-
acréscimo de referências que visam a servir levância prática, qual um zoom no campo da
como um “roteiro de leitura” da obra de Bion, fotografia e filmagem, em diversas passagens
também alguns capítulos foram incluídos. O das conferências publicadas.
Capítulo 12, intitulado “Os Sete Elementos de Muitos leitores me alertaram para o fato
Psicanálise”, alude à contribuição de Bion, que, de que, não obstante na primeira edição haver
com o objetivo de simplificação do estudo e da uma ênfase na constatação de que a obra de
prática da psicanálise, propôs reduzir o núme- Bion se desenvolveu ao longo de quatro perío-
ro exagerado de referenciais teóricos a unica- dos distintos – cada um deles, respectivamente,
mente 7 elementos: “relação continente- nas décadas de 40, 50, 60 e 70 – este último
conteúdo”; “posição esquizoparanóide e posi- período, denominado “religioso-místico”, em
ção depressiva”; “vínculos de amor, ódio e co- contraste com os outros três, não obteve um
nhecimento”; “razão e idéia”; “a dor psíquica”; capítulo especial e sequer teve mais que esparsas
“transformações”; “narcisismo e social-ismo”. referências breves. Por essa razão, mergulhei
Cada um desses elementos é estudado separa- demoradamente nos textos em que Bion mais
damente nesse capítulo. se prolonga nos aludidos aspectos em que enfoca
O capítulo sobre grupos, da primeira edi- fenômenos psicanalíticos em uma dimensão re-
ção, ficou algo incompleto, já que Bion também ligiosa e algo mística, de modo a produzir um
deu bastante ênfase aos aspectos patogênicos sexto capítulo extra para o presente livro, de-
que permeiam a dinâmica do campo grupal, no- nominado “O Período Religioso-Místico”.
tadamente os que ocorrem em instituições e sis- Creio que a concepção original de Bion
temas sociais em geral, a ponto de, muitas ve- acerca da relação “continente-conteúdo” é de

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 19

enorme importância tanto na teoria como, prin- 2. Na medida em que aumenta o co-
cipalmente, na prática psicanalítica, além de nhecimento e o reconhecimento das
ter o dom de instigar o analista praticante a concepções de Bion, mais diminuem
fazer reflexões e estabelecer conexões, a partir os costumeiros ataques denegrido-
das experiências emocionais de cada ato ana- res contra ele, como os que o acu-
lítico. Assim, entendi que pudesse ser útil in- sam de ser um psicótico, um tautó-
cluir algumas idéias pessoais que me ocorre- logo ou um mero teórico que esta-
ram a respeito dessa concepção, principalmen- ria confundindo psicanálise com ma-
te, eu me permito destacar, a noção que eu pro- temática e filosofia, etc.
ponho com o nome de “subcontinentes”. Esse 3. Ao mesmo tempo, também foi fican-
sétimo capítulo que acresço, já que ele modifi- do mais reduzido o outro pólo, o de
ca substancialmente o da edição anterior, está uma excessiva idealização, que for-
intitulado como “A Função de ‘Continente’ do mava uma confraria de “iluminados”
Analista e os ‘Subcontinentes’”. em Bion; conquanto estejam aumen-
Igualmente inspirado nos textos de Bion, tando a aplicabilidade de suas idéias
entendi que pudesse ser útil ao leitor o acrésci- na técnica e prática da psicanálise e
mo de considerações pessoais acerca do que eu o reconhecimento de que, de fato,
intitulo “o mapeamento do psiquismo”, o qual Bion é um inovador, especialmente
visa a enaltecer a importância de o analista re- da moderna psicanálise vincular e,
conhecer em si próprio, para então poder tra- portanto, do papel do analista.
balhar com seus pacientes, as diversas e distin- 4. A obra de Bion tem sido estudada,
tas zonas do psiquismo de cada um de nós, de dissecada, sintetizada e divulgada
sorte a poder traçar o “mapa do psiquismo” e por muitos autores, de distintas for-
desenvolver uma “bússola empática” que per- mações e correntes psicanalíticas.
mita navegar nas zonas desconhecidas do ver-
dadeiro “mapa-múndi” que é a nossa mente, Isso representa vantagens e desvantagens.
com repercussões no corpo e na vida exterior. As vantagens são evidentes, porque as sínteses
Também incentivado por leitores e parti- da totalidade das idéias de Bion possibilitam
cipantes de grupos de estudo sobre a obra de uma maior acessibilidade a novos leitores e es-
Bion, que seguidamente demonstram querer tudiosos, como um passo inicial e propiciatório
saber o que, no dia-a-dia da minha prática ana- para um ulterior aprofundamento na comple-
lítica, eu tenha mudado por influência de Bion, xidade de seus textos originais. A aparente des-
decidi acrescentar um oitavo capítulo novo, vantagem consiste no fato de nem sempre os
intitulado “O que Mudou na Minha Prática autores que escrevem sobre as concepções ori-
Analítica a partir de Bion?”. ginais de Bion serem uniformes no entendimen-
Um outro fato que refleti, ao comparar o to daquilo que realmente ele quis transmitir
prólogo da edição original com o da atual, é que, (aliás, seguidamente, ele mesmo se confundia
embora tenha decorrido um espaço de tempo de e se contradizia em alguns conceitos e nomes
apenas oito anos, me parece que não resta dúvi- que propunha, além de gostar de manter uma
da que aconteceram algumas sensíveis mudan- “penumbra de associações”).
ças em relação a como a comunidade psicanalíti- Assim, nos autores que divulgam e des-
ca em geral encara as idéias que estão contidas dobram as idéias de Bion, além do fato de cada
na obra de Bion. Esta última afirmativa pode ser texto seu permitir uma diversificação de leitu-
constatada nas seguintes evidências: ras conforme a dimensão que cada estudioso
privilegia, não raramente também aparece uma
1. É incontestável a maior freqüência atribuição de significados a cada concepção,
com que citações de Bion aparecem com vértices de compreensão bem diferentes,
nos mais distintos trabalhos psica- que às vezes se complementam, porém, em
nalíticos, provindos de distintos au- outras, se mostram algo contraditórios. Em
tores de diferentes latitudes. relação a este último fato, também vejo um

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20 DAVID E. ZIMERMAN

aspecto positivo, porque ele instiga o leitor es- que muitos dos mesmos conceitos aparecem
tudioso a confrontar os diversos vértices de en- em diversos capítulos, embora em contextos
tendimento e, assim, o estimula a procurar os distintos. Apesar de haver o risco de que isso
textos originais de Bion, de modo a refletir mais se torne cansativo para muitos, admito que o
profundamente sobre eles. fiz deliberadamente, porque creio que, para os
No Brasil, temos uma plêiade de psicana- leitores que estão se iniciando em Bion, uma
listas que são profundos conhecedores de Bion alternada e contínua repetição de uma mesma
e escrevem artigos que, partindo de suas idéi- concepção original funciona como um provei-
as, criam novas e ricas concepções originais; toso recurso pedagógico.
no entanto, julgo ser um dever destacar, como Também pretendo, com esta nova edição,
os maiores divulgadores e criativos continua- minimizar uma possível falha da edição ante-
dores de Bion, por meio de excelentes livros, rior, qual seja, a de que, especialmente na par-
os nomes (por ordem alfabética) de Antônio te da “prática”, eu ter feito comentários pes-
Muniz de Rezende, Arnaldo Chuster e Paulo soais, em meio às considerações originais de
César Sandler. Bion, sem esclarecer isso apropriadamente, de
Em relação à edição anterior, esta apre- modo que muitos leitores entendiam que tudo
senta alguma mudança na forma de diagrama- que estava no texto provinha de Bion. Receoso
ção. Assim, muitos capítulos do volume origi- de que pudesse ter sido injusto com o autor,
nal, não obstante algumas modificações que não obstante minha intenção ter sido corrobo-
foram feitas em praticamente todos eles, per- rar com suas idéias, na presente edição, pro-
manecem os mesmos na sua essência. No en- curo discriminar o que é unicamente de minha
tanto, os referidos capítulos podem aparecer responsabilidade, por meio de uma chamada
com outra denominação, que tenha me pare- de comentário, em negrito.
cido mais apropriada. Além disso, coerente com Para finalizar, gostaria que a leitura de
o objetivo do livro – permitir uma leitura didá- cada um dos capítulos, por parte de cada um
tica –, decidi usar e, talvez, abusar do recurso dos leitores em separado, seguisse aquela re-
de, especialmente na parte referente à técni- comendação de Bion, em que ele diz que os
ca, enumerar os distintos tópicos constantes conceitos emitidos pelo autor só têm valor
num dado capítulo, já que a minha experiên- quando o leitor articula aquilo que lê com as
cia com inúmeros grupos de estudo evidenciou experiências emocionais por que passa, ou seja,
que isso facilita bastante as reflexões e o deba- como eu entendo, quando se processa uma rea-
te nos programas de ensino-aprendizagem. lização de uma idéia com um sentimento. As-
Uma outra mudança consiste na tentati- sim, o óbvio direito (e dever!) de o leitor con-
va de localizar mais precisamente onde as con- cordar ou discordar dos conceitos emitidos, em
cepções originais de Bion podem ser encontra- forma parcial ou total, não importa tanto, vis-
das no torvelinho de sua imensa obra. to que o realmente importante é que a leitura
Reconheço que existe uma redundância instigue a um pensamento reflexivo e a uma
no meu esquema de exposição, no sentido de liberdade para a criatividade.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 21

PRIMEIRA PARTE
Aspectos Gerais

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1
O Homem Bion:
Dados Autobiográficos

Os dados da vida de Bion provêm unica- simplificado e traçar umas largas pinceladas,
mente de seus registros autobiográficos, que seguindo uma ordem linear e seqüencial.
estão contidos tanto sob uma forma ficcional e Bion nasceu na cidade de Muttra, na Ín-
metafórica na sua trilogia Uma Memória do Fu- dia, em 1897, filho de um britânico que, na con-
turo (1975-1977-1979) como na publicação, dição de engenheiro do serviço público inglês,
post-mortem, de um manuscrito autobiográfico prestava um serviço de irrigação para o gover-
que ele entregou à sua esposa Francesca, com no indiano. O nome “Bion” provém dos
cartas a ela e a seus filhos. Esse manuscrito ínti- huguenotes – franceses protestantes, calvinis-
mo foi postumamente publicado em dois volu- tas – que colonizaram algumas colônias da
mes e editado por Francesca, que reuniu escri- América do Norte, de onde fugiram por serem
tos esparsos de Bion, aos quais acrescentou fo- perseguidos, encontrando abrigo na Inglaterra.
tos, cartas, pinturas e seus próprios comentári- Bion inicia a sua autobiografia, em The
os pessoais. Os dois volumes são: The long week- long week-end, falando de sua mãe:
end (1982); The other side of the genious: all my
sins remembered. O primeiro volume da autobi- Minha mãe nos botava um pouco de medo.
ografia de Bion, O longo fim de semana, abarca Quando menos não fosse, pelo fato de que
até 1919, ano em que foi desmobilizado do exér- ela podia morrer – ela era muito velha...
cito (aos 18 anos ele deixou os estudos para O colo dela era esquisito; quando ela nos
alistar-se no exército e participar da I Guerra pegava, ficava quentinho, seguro e con-
Mundial) e se confrontou com a vida civil, sem fortável. Então, de repente ele ficava frio
profissão nem qualquer trabalho com o qual pu- e aterrorizador.
desse ganhar o sustento.
A vida de Bion, tal como foi por ele con- Deste trecho, e de tantos outros mais,
tada nas obras mencionadas, é cheia de altos e pode-se depreender que sua mãe foi uma pes-
baixos e vem entremeada de passagens ora pi- soa simples, voltada às lides domésticas, e de
torescas e bem-humoradas, ou reflexivas; ora temperamento instável, com mudanças súbi-
deprimentes, até mesmo trágicas, porém, sem- tas de humor. Parece ter sido uma pessoa com
pre tocantes e emocionantes, que permitiriam fases depressivas, tanto que o menino Wilfred
uma descrição longa e rica. No entanto, para o seguidamente lhe perguntava por que ela es-
propósito deste livro, vamos adotar um estilo tava tão triste e sofria muito com o sofrimento

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24 DAVID E. ZIMERMAN

dela. Em outros trechos, ele descreve a mãe afastando, com um chapéu que parecia uma
como uma pessoa fria. Assim – escreve Bion espécie de bolo flutuando contra a paisagem
com pesar –, quando terminou o período esco- verde, e essa imagem ficou fortemente grava-
lar e se alistou no serviço militar, seus pais fi- da em sua memória. À noite, ao deitar-se, evo-
caram felizes em reencontrá-lo, porém a mãe cou aquela cena, cobriu a cabeça com as co-
o beijou de forma impessoal, como se ele fosse bertas e só então chorou. Bion prossegue di-
um outro rapaz que não o seu filho. zendo que o seu único recurso para superar o
Já o pai é retratado por Bion como uma sofrimento era chorar silenciosamente, até que,
pessoa que impunha uma imagem idealizada aos poucos, foi ficando parecido com a mãe,
dele próprio, ao mesmo tempo que se irritava que “não ria e nem chorava”.
profundamente com tudo o que ameaçasse essa Em suas confidências, Bion expressa, com
sua imagem ilusória. Wilfred tinha uma rela- amargura, as marcas que lhe ficaram do rígido
ção conflituosa com o pai: tanto o admirava e altamente repressor regime escolar da tradi-
muito como recordava de algumas surras; e cional escola pública em que foi matriculado.
conclui dizendo que o pai tinha por princípio Os primeiros anos, especialmente, foram mui-
“introduzir a sabedoria pelo traseiro”. to difíceis, porquanto se sentia muito sozinho,
Tinha uma única irmã, de nome Edna, saudoso dos pais e sofrendo uma certa discri-
nascida pouco tempo depois dele, e com quem minação por parte dos colegas.
brigava muito. Além disso, embora conhecida como sen-
Bion, em algumas oportunidades, referiu- do menos rígida que as demais, sua escola im-
se à sua família – no sentido genérico – como punha hábitos como a obrigação de freqüen-
sendo “um conjunto de amalucados”. tar a igreja todos os domingos, vestido com o
Ele viveu na Índia até a idade de 7 anos, uniforme do colégio, com um barrete e um
acompanhado dos pais e da irmã e sob os cui- pompom dependurado. Também aos domin-
dados de uma velha ama indiana – a sua que- gos havia um obrigatório passeio de cinco qui-
rida Ayah –; esse fato exerceu uma significati- lômetros a pé, e os retardatários eram punidos
va influência em sua vida e obra, porquanto a com uma escala crescente de castigos. Da mes-
cultura indiana lhe ficou impressa de forma ma forma, antes de os alunos poderem dormir,
permanente e construiu uma boa parcela de havia a imposição de que rezassem ajoelhados
sua cultura psicológica inconsciente. Este últi- ao pé da cama.
mo aspecto se manifesta mais claramente du- O púbere Bion sentia-se atormentado pe-
rante os anos 70, quando a sua produção cien- los ditames da religião, que predicava contra a
tífica foi gradativamente adquirindo um cunho prática da masturbação, com ameaças de pu-
de natureza místico-religiosa. Embora Bion nição divina, justamente no período em que
nunca mais tivesse voltado à Índia, ele mante- ele se masturbava intensamente. Além disso, a
ve indeléveis em sua memória os anos lá pas- sua escola mantinha uma espécie de rede de
sados e conservou o misticismo oriental e uma espionagem, cujo alvo principal era a delação
certa veneração por aquele país, de forma tal do crime do onanismo.
que costumava considerar-se como sendo um Bion voltou a recuperar a segurança e a
“anglo-indiano”. integrar-se com os colegas quando se tornou
Perto dos 8 anos, com a finalidade de fa- capitão de equipes desportivas de rugby, de
zer a sua educação escolar na Inglaterra, como natação e de waterpolo, ao mesmo tempo que
era um costume para os filhos de altos funcio- conquistava as primeiras colocações em sua
nários britânicos que vivessem no exterior, o atividade estudantil.
menino Bion mudou-se para lá e morou sozi- Aos 17 anos, manifestou uma séria crise
nho no colégio interno, onde recebia esporá- emocional, que descreveu como apresentando
dicas visitas de seus pais. Quando, em sua au- um certo colorido autístico.
tobiografia, Bion alude à sua separação da mãe, Algum tempo após ter saído do colégio,
por ocasião do seu internamento no colégio, aos 19 anos, Bion, espontaneamente, ingres-
ele relata que não chorou, mas observou-a se sou nas forças armadas, onde se destacou dos

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 25

demais companheiros devido às suas qualida- fazer Medicina e tornar-se psicana-


des desportivas e intelectuais. No exército, ele lista.
prestou serviço no batalhão de carros blinda- – Graduou-se como médico com a ida-
dos de combate. de de 33 anos, e acabou ganhando
Em certa ocasião, durante a I Grande uma medalha de ouro em Cirurgia,
Guerra, Bion entrou em plena ação militar, com além de outros respeitáveis títulos
a tarefa de, com seus tanques, ajudar a elimi- honoríficos em Medicina.
nar os ninhos de metralhadoras inimigas. Nes- – Trabalhou com Wilfred Trotter, notá-
sa perigosa ação bélica, Bion viu a morte de vel especialista e grande figura huma-
perto; porém, ao término dela, acabou consa- na, que também se interessava por psi-
grado como herói e foi condecorado no Palá- cologia individual e grupal e escreve-
cio de Buckingham com uma das mais presti- ra o livro Instintos de horda na paz e
giadas medalhas militares. Igualmente, foi ho- na guerra. Trotter exerceu uma gran-
menageado pelo aliado governo francês, que de influência sobre Bion, e é provável
lhe atribuiu a tão dignificante “Legião de Hon- que a leitura desse livro tenha contri-
ra”. Bion chegou a alcançar a patente de capi- buído para estimular o seu interesse
tão, porém, ao término da guerra, abandonou pela área da psicologia.
o exército, seguindo para a Universidade de – Em pouco tempo, lançou-se à prática
Oxford, optando pelo setor dos historiadores. da psiquiatria, tendo se empregado na
No campo das ciências humanísticas, me- Tavistock Clinic, onde encontrou uma
recem ser registradas as seguintes conquistas maior afinidade com o grupo que se
de Bion: interessava pela psicanálise.

– Estudou História Moderna, em profun- Após uma experiência psicoterápica de


didade. alguns anos de duração, iniciada quando, ain-
– Obteve Licenciatura em Letras, tendo da muito jovem, ele sofrera uma profunda de-
conseguido a distinção B. A. (Bachelar cepção amorosa, Bion começou a sua primeira
of Arts). análise com Rickmann, um ex-analisando de
– Fez estudos sobre Filosofia, mostran- Freud e de Klein. Essa análise perdurou de
do-se particularmente interessado em 1937 a 1939, quando foi interrompida pela II
Kant, que é bastante citado em sua Grande Guerra. Os dois voltaram a se encon-
obra. trar e a trabalhar como colegas em atividades
– Foi um respeitável conhecedor de Teo- pioneiras de psicologia de grupo, em um tra-
logia. balho de readaptação dos militares neuróticos
– Tinha conhecimentos de Lingüística e de guerra, no Hospital Northfield.
das línguas grega e latina. Bion ainda trabalhava na Tavistock quan-
– Foi um amante da literatura, sendo do voltou ao exército, em 1940, em plena vi-
que os seus escritos estão recheados gência da II Grande Guerra, passando, então,
de citações de Shakespeare. a dedicar-se à reabilitação dos pilotos da RAF.
– Desde muito jovem, além de ser bem- Com o término da guerra, Bion voltou a traba-
sucedido na prática de esportes, Bion lhar na Tavistock, dedicando-se a grupos com-
dedicou-se ao magistério, durante 22 postos por pessoas que compunham a cúpula
anos, como professor de História e de diretiva e detinham funções de poder. Todos
Literatura. esses trabalhos com grupos foram de grande
– Revelou um inegável talento para a relevância para Bion, e suas experiências rela-
pintura impressionista, tendo legado tivas a esse período serão detalhadas em capí-
alguns quadros a óleo de reconhecida tulo específico deste livro.
qualidade artística. A partir de 1945, com 48 anos, começou
– Ao entrar em contato com um livro uma segunda análise, dessa vez com Klein –
de Freud, ficou fascinado e decidiu nome que lhe foi sugerido por Rickman –, que

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26 DAVID E. ZIMERMAN

se prolongou por oito anos, ao mesmo tempo (atualmente médico anestesista) e Nicola (atu-
em que retomou a sua formação, no Instituto almente lingüista), nascida quando Bion já ti-
de Psicanálise de Londres. nha 58 anos.
Nesse período, produziram-se relevantes Bion era respeitado pelos colegas e, por
mudanças em sua pessoa e em sua vida. Foi muitos anos, ocupou importantes cargos na
aceito como membro da Sociedade Britânica Sociedade Psicanalítica Britânica, tendo exer-
de Psicanálise e, desde cedo, foi considerado cido a função de diretor da Clínica da Socieda-
pelos seus pares como um brilhante discípulo de Britânica de Psicanálise, de 1956 a 1962, e
de Klein. Em relação a ela, sua analista, mes- de presidente dessa Sociedade, de 1962 a 1965.
tra e amiga, Bion transparecia uma certa am- Não obstante, no final da década de 60, mais
bigüidade: assim como manteve uma eterna precisamente em 1968, apresentava visíveis si-
fidelidade e gratidão a ela, em muitas oportu- nais de desgaste com a maioria de seus pares,
nidades evidenciava críticas e discordâncias, que de uma forma ou outra lhe temiam e, por
como denotam estas passagens na tradução de isso, mostravam uma certa indiferença pelo seu
La otra cara del gênio. Cartas de familia (1999, pensamento psicanalítico. O amargor de Bion
p. 54): em relação a seus colegas está expresso nessa
confidência (1999, p. 174):
Tenho de encontrar uma maneira de dizer
a M. Klein que necessito dormir, e então Nunca discuto as opiniões de outras pes-
aproveitar para escrever! Psicanálise du- soas: 1) não te fazem caso; 2) tomam o
rante o dia, e psicopolítica durante a noi- que dizes para demonstrar que estás equi-
te, preferentemente em peças com as ja- vocado; 3) se aborrecem muito e não te
nelas fechadas, todos fumando e com fogo perdoam nunca; 4) se apossam de tua idéia
aceso, é mais do que minha constituição quando escutam de que se trata, ou 3 e 4
pode suportar. [...] M. Klein é muito exi- de uma só vez.
gente. Suponho que é por ter sofrido tan-
tos ataques e tão poucas autênticas alegri-
Provavelmente devido a esse desgaste,
as em sua vida, porém o caso é que sem-
Bion aceitou o convite de um grupo de psica-
pre sinto que ela me deixa seco; não sei
exatamente como ela faz [...] nalistas da Sociedade Psicanalítica de Los
Angeles para lá se radicar e dedicar-se priori-
tariamente à continuação de seus estudos teó-
O primeiro casamento de Bion foi com
ricos. A origem desse convite é que alguns ana-
Elisabeth Jardine, uma ex-atriz que também
listas de Los Angeles, com o propósito de co-
se dedicava à arte da fotografia e ao estudo de
nhecer a obra de Klein, convidavam alguns dos
línguas. Esse casamento terminou em 1945,
seus mais ilustres seguidores. Bion foi o tercei-
com a morte trágica de sua esposa, devido a
ro, e sua visita despertou tal fascinação que
complicações com o parto de sua filha,
originou o convite para uma permanência de-
Partenope, enquanto Bion estava ausente, en-
finitiva em Los Angeles. No entanto, a aceita-
volvido nos compromissos com as forças mili-
ção de suas idéias nos Estados Unidos ficou
tares na Normandia. Em seus escritos autobio-
restrita a um círculo de poucas pessoas inte-
gráficos, transparece a dor que ele carregou
ressadas em Klein, permanecendo praticamen-
pelo resto da vida e o quanto esse aconteci-
te ignorado pelo restante dos psicanalistas. Um
mento influenciou sua pessoa.
desses fiéis discípulos foi Grotstein, em cujo
Casou-se pela segunda vez, em 1951, com
testemunho, publicado na Revista Gradiva (n.
Francesca, pesquisadora e sua assistente na
43, Nov-Dez, 1988, p. 10), diz:
Tavistock. Ela era moça, também viúva, e ma-
nifestava talento para a música e para o canto.
Francesca Bion tornou-se uma companheira Bion foi muito maltratado aqui em Los
Angeles, como todos os kleinianos, porque
dedicada e inseparável até o fim da vida de
Klein foi muito desrespeitada e descon-
Bion, que com ela gerou mais dois filhos: Julian siderada devido a Anna Freud, sua enorme

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 27

influência em nosso país e também pela in- tos. No entanto, dentre os que o assistiram, a
fluência da Psicologia do Ego. De qualquer ninguém ele foi indiferente ou passou desper-
modo, Bion nunca foi convidado a entrar cebido. Pelo contrário, sempre gerou frutífe-
para o Instituto de L. A. Susan Isaacs che- ras polêmicas.
gou a se candidatar a membro da Socieda-
Para caracterizar melhor o seu jeito de
de Psicanalítica de L. A., mas também foi
ser e de expor suas idéias, vale recordar com
recusada. Estes foram períodos realmente
ruins. Meu próprio treinamento analítico brevidade algumas passagens ilustrativas que
ficou em risco. Eu e mais dois analistas ocorreram de forma algo pitoresca.
kleinianos tivemos que ameaçar processá- Bion, por exemplo, iniciou uma confe-
los, para podermos manter nossas posições, rência dizendo: “estou curioso para saber o
o que acabamos conseguindo. Foram tem- que vou dizer esta noite”. Poderia parecer uma
pos ruins. Eles se acalmaram um pouco, mas brincadeira sua, mas não era; pelo contrário,
Klein não é bem-vinda em nosso país. ele demonstrava como construía o seu pensa-
mento de uma forma livre e sem a saturação
Esses conflitos com seus pares, tanto em de sua mente por conceitos já firmemente es-
Londres como em Los Angeles, estão, como tu- tabelecidos.
do leva a crer, bem expressados nos seus tex- Assim, em mais de uma ocasião, Bion fez
tos sobre o “místico e o establishment”. questão de se posicionar como um cientista
Foi justamente na última década de sua descomprometido com as verdades definitivas
vida que Bion visitou a América Latina. Pri- e que, portanto, postulava o seu direito de mo-
meiramente a Argentina, em 1968, a convite dificar os seus prévios pontos de vista e, até
de Grinberg, tendo realizado uma calorosa pro- mesmo, o direito de cair em eventuais contra-
gramação científica na Associação Psicanalíti- dições.
ca Argentina, a qual resultou na formação de Outra passagem que vale a pena ser men-
um grupo de estudo de psicanalistas liderados cionada é aquela em que Bion começa a sua 5a
por Grinberg, que estudaram Bion em profun- Conferência em São Paulo (1973, p. 73), se-
didade, e cujo fruto mais importante foi a pu- gurando uma xícara na mão e perguntando:
blicação do consagrado Introdução às idéias de “Qual é a interpretação desta xícara que segu-
Bion. Um pouco mais tarde, inicialmente a con- ro em minha mão?”. Após um silêncio de per-
vite de Frank Philips, seu ex-analisando e dis- plexidade geral, o público presente passou a
cípulo, Bion visitou o Brasil em diversas opor- participar ativamente, e daí podemos inferir
tunidades: em 1973 (São Paulo), em 1974 (São algumas particularidades características de
Paulo e Rio de Janeiro), em 1975 (em Brasília, Bion. Assim, em momentos sucessivos, ele as-
por incentivo de Virgínia Bicudo) e em 1978 sinalou, entre outros, os seguintes aspectos: 1)
(São Paulo). No Brasil, ele desenvolveu uma a interação do grupo com ele; 2) os diversos
atividade científica tão intensiva e profícua vértices de cada participante separadamente
como altamente controvertida e polemizadora. (a xícara com o significado de continente; a
Desses debates, gravados e transcritos, sua categorização na grade; as impressões vi-
resultaram excelentes livros, conhecidos co- suais; uma tentativa de “adivinhar” o que Bion
mo Conferências brasileiras, que hoje são re- tinha em mente, etc.); 3) a formulação de con-
conhecidos internacionalmente e ocupam ceitos como o da intuição; 4) a função da ver-
lugar de alta relevância no acervo psicanalí- dade na determinação de quando as respostas
tico de Bion. são verdadeiras ou falsas; e 5) a profunda re-
Através de um porte físico de alta estatu- flexão, à guisa de conclusão, que ele lançou no
ra, uma aparência de forte segurança, uma auditório: “vocês são capazes de ver?”.
certa áurea mística, um jeito algo abrutalhado Pode-se dizer que esse jeito questionador
e com colocações surpreendentes e muito apar- e instigante de Bion data desde sua meninice,
tadas da ortodoxia formal, Bion encantou a e é ele próprio quem confirma isso na sua 1a
muitos e certamente decepcionou a outros tan- Conferência em Nova Iorque (1992, p. 72-73):

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28 DAVID E. ZIMERMAN

Voltando à minha vida privada: quando eu p. 161) – uma importante e respeitada psica-
era pequeno, costumava ser visto pelos nalista brasileira – conheceu-o pessoalmente e
adultos como uma criança ímpar, que es- relata que testemunhou vê-lo
tava sempre fazendo perguntas. Fizeram-
me recitar um poema:
sendo agredido em reuniões da Socieda-
“Eu mantenho seis empregados honestos de Britânica de Psicanálise. Após a apre-
Que me ensinaram tudo que sei; sentação de um de seus trabalhos, seguiu-
Seus nomes são: O que; Por que e Quando se uma discussão em termos fortemente
Como, Onde e Quem agressivos, na qual ele era qualificado de
Enviei-os para Leste e Oeste, esquizofrênico. A reação de Bion foi a de
Enviei-os por terra e mar; permanecer calado e somente retomar a
Mas depois de todo este trabalho para mim, palavra quando um questionamento sobre
Mandei-os descansar.” as suas idéias era colocado.

Bion esclareceu ao auditório que a frase É necessário registrar que as pessoas que
final “mandei-os descansar” deve valer para os o conheceram mais de perto testemunham que
psicanalistas, porque “quando estamos no nos- era de muito bom trato e um profundo respei-
so consultório com um paciente, temos que ter tador das posições e opiniões divergentes da
a ousadia de descansar”. sua, embora manifestasse irritação em alguns
Tudo leva a crer que Bion sentiu-se atraí- momentos.
do e apaixonado pelo Brasil, tanto que teria Particularmente, situo-me entre os que o
confidenciado a alguns dos seus mais íntimos consideram como um gênio, tomando essa pala-
psicanalistas brasileiros que tencionara fixar vra no sentido com o qual ele próprio a definiu:
residência em Brasília, o que só não foi con- “um portador de idéias novas e revolucionárias,
cretizado devido à oposição de sua inseparável que ameaçam a estabilidade do establishment de
Francesca. determinadas épocas e culturas”.
Como já foi referido no Prólogo, os seus A propósito disso, vale a pena comple-
conceitos são muito controvertidos. Alguns de- tar o perfil biográfico de Bion com uma pe-
les são lógicos e de fácil entendimento, enquan- quena história que ele gostava de contar e com
to outros são muito instigantes para que se fa- a qual iniciou seu contato com os psicanalis-
çam reflexões, embora sejam, de início, de di- tas brasileiros na abertura da primeira das oito
fícil assimilação por terem base em paradoxos, palestras que proferiu na sua primeira visita
enigmas e linguagem incomum; também apa- a São Paulo. Trata-se da fábula, disfarçada em
recem outras concepções de natureza mística, relato histórico, acerca dos funerais do rei da
que exigem uma disposição muito especial por cidade de Ur e dos profanadores do cemitério
parte do leitor. real. Nesse conto, o rei morreu e foi enterra-
Tudo isso, somado à sua personalidade do juntamente com todos os membros de sua
invulgar e imprevisível, justifica por que Bion corte, e com todos os tesouros. Somente 400
deixou diversas imagens no mundo psicanalíti- anos mais tarde, os túmulos foram saquea-
co: para muitos, ele é o terceiro gênio da psica- dos. Segundo Bion, foi um ato corajoso dos
nálise, completando a galeria com Freud e Klein. saqueadores, porque a tumba havia sido san-
Para outros, em um extremo oposto, ele não tificada pela morte e pelo enterro do rei. Des-
passa de um tautólogo, algo esquizóide e místi- sa maneira, sem considerar a pilhagem em si,
co, que não teria feito mais do que revestir com ele diz que os profanadores do santuário de-
uma roupagem nova e esquisita os mesmos con- vem ser considerados como os precursores do
ceitos que já estavam bem definidos. método científico, os primeiros que enfrenta-
Essa imagem controvertida, aliás, não é ram e ousaram transpassar as fantasmagóricas
exclusividade do meio psicanalítico brasileiro. sentinelas dos mortos e dos maus espíritos.
Virgínia Bicudo (Revista Alter, n. 1/2/3. 1980, Ele utilizou esse modelo como uma forma de

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 29

enfatizar aos seus ouvintes o quanto é impor- Antes de ser desmobilizado, com a paten-
tante a coragem do psicanalista em se apro- te de capitão, Bion já divulgava algumas de
fundar no santuário do inconsciente, e que suas originais observações sobre as mudanças
essa experiência emocional deveria ser feita sociais, nos homens e nas idéias, ao finalizar o
com algum grau de medo em ambos, no horror da grande guerra.
paciente e no analista. Um outro trecho impactante é aquele em
Como se vê, Bion foi uma personalidade que ele relata a morte de sua esposa, Betty,
invulgar, sendo que a originalidade e o alcan- não se perdoando por não ter estado presente
ce de suas postulações, paradoxos e reflexões nem no nascimento da filha nem na morte da
provocaram um profundo impacto nos psica- esposa. Especialmente comovedor, nesse impla-
nalistas e na psicanálise moderna, de sorte que cável desnudamento de Bion, é o trecho em que
ele pode ser considerado legitimamente como ele admite as terríveis dificuldades de aproxi-
um dos inovadores da moderna prática psica- mação com essa filha; em certa passagem con-
nalítica. tida no último capítulo da primeira parte do
No entanto, nem tudo é laudatório em segundo volume, ele chega a confessar que a
sua vida, e é o próprio Bion que, em sua auto- meninazinha se arrastava em sua direção à es-
biografia, faz questão de se desmistificar e de pera de colo, enquanto ele se mantinha impas-
expor alguns aspectos de sua intimidade que sível, imobilizado. O nome dela, Partenope –
provocam no leitor um misto de perplexidade, recentemente falecida num trágico acidente de
respeito e estado de choque. Transcrever to- automóvel –, foi escolhido por Bion e, em gre-
das essas situações, que são algo chocantes, go, alude à figura mítica de uma das Sereias,
implicaria nos alongarmos em demasia; no meio mulher e meio pássaro, que gostava de
entanto, vale a pena reproduzir umas três ou música. Ela trabalhou como psicanalista na Itá-
quatro delas, muito resumidamente. lia, onde se casou com um músico italiano. Foi
Bion relata ter atravessado uma séria cri- particularmente emocionante para mim quan-
se emocional em sua adolescência, refugian- do, ao estudar o maior número possível de tex-
do-se em uma espécie de autismo e recorren- tos acerca de Bion, me deparei com um artigo
do a uma masturbação intensiva. Ele também de Partenope Bion Talamo na Rivista di Psicana-
surpreende o leitor quando confessa que a lisi (1987, p. 133-135), no qual ela defendia o
medalha D. S. O. (Distinguished Service Order) pai a respeito de uma crítica de Meltzer refe-
que recebeu do governo britânico, como herói rente ao processo da interação oscilatória en-
da I Guerra, lhe teria sido imerecidamente ou- tre a posição esquizoparanóide e a depressiva
torgada, pois o seu ato de bravura não teria formulada por Bion, crítica esta que ela julga-
sido mais do que um erro na condução do seu va improcedente.
tanque blindado, erro este que acabou dando Nos últimos anos, já alquebrado pela ve-
certo e que possibilitou a salvação da vida dele lhice, Bion sofreu uma fratura no fêmur. Quan-
e dos seus companheiros. Além disso, conti- to mais pressentia o término de sua vida, mais
nua Bion, teria feito um uso indevido dessa foi se tornando um místico em busca da “reali-
medalha, para conferir vantagens pessoais, daí dade última”, e os seus escritos, muito centra-
decorrendo um sentimento de culpa e de ver- dos nos problemas relativos ao tempo e à mor-
gonha. Ademais, ele nunca se perdoou por ter te, foram adquirindo um estilo que lembra a
participado dos horrores da guerra e, pior ain- linguagem esquizóide, embora preservem o
da, intimamente assumiu a responsabilidade mesmo fascinante desafio de sempre. Aliás, essa
pela morte de um amigo que, por tentar imitar preocupação com a relação inexorável que há
o seu heroísmo, acabou sendo uma presa fácil entre a passagem do tempo e a morte pode ser
para a força alemã inimiga. Por tudo isso, ele depreendida pelos simples títulos de sua trilogia
desqualificou a medalha D. S. O. e a rotulou ficcional: Uma memória do futuro: O sonho, O
como sendo sua “marca da vergonha”. passado apresentado, A aurora do esquecimento.

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30 DAVID E. ZIMERMAN

É interessante registrar que seu primeiro Em novembro de 1979, em meio a uma


artigo foi publicado em 1940 com o título de viagem de saudosismo à Inglaterra, da qual
“A guerra dos nervos”, enquanto o seu último estava afastado há 11 anos, Bion veio a falecer
trabalho publicado enquanto vivo – Como tor- após algumas poucas semanas de evolução de
nar proveitoso um mau negócio – encerra com uma leucemia mielóide aguda, na cidade de
a frase “essa guerra ainda não terminou”. Oxford, aos 82 anos de idade.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 31

2
A Obra:
Uma Resenha dos Trabalhos de Bion

Não é nada fácil a leitura de Bion; pelo ele sofreu ao longo da vida, como al-
contrário, ela costuma ser a um só tempo irri- gumas das que foram referidas no ca-
tante e instigante, cansativa e fascinante, e, pítulo anterior.
além disso, para ser bem aprendida, exige que – A incorporação harmônica de uma
o leitor retorne um sem número de vezes aos importante dupla parental, isto é, de
mesmos textos já lidos e que estabeleça conti- Freud e de Klein, apesar da direção
nuadas correlações entre eles. diferente, mas nunca excludente, e
A obra de Bion cobre um período de 40 muito menos beligerante, que Bion
anos de intensa produção científica e consta deu a alguns dos postulados daqueles
de um total de aproximadamente 50 títulos, dois gênios da psicanálise.
além de outras contribuições, como a realiza- – O seu trabalho ativo e diversificado
ção de inúmeros seminários clínicos, os quais com grupos dinâmicos e a sua preocu-
permitem o garimpo de verdadeiras preciosi- pação com os problemas da psicolo-
dades. gia social.
Antes de acompanhar mais de perto a – A sua – fundamental – experiência de
obra de Bion, é útil que se conheçam as princi- analisar esquizofrênicos e outros pa-
pais fontes geradoras de sua identidade psica- cientes muito regressivos.
nalítica, que o diferenciaram de todos os de- – Uma formação muldimensional: além
mais psicanalistas importantes. de médico, de uma experiência junto
às forças militares e de sua condição
– A influência da cultura oriental hin- de psicanalista, Bion graduou-se em
duísta, a qual deve ter contribuído algumas áreas das ciências humanís-
para que Bion desenvolvesse e utili- ticas e tinha profundos conhecimen-
zasse um sistema de ensino com base tos de teosofia e de filosofia.
no uso de paradoxos, de contradições – Uma sólida cultura erudita, aliada a um
e de ilógica, com o objetivo de rom- excepcional senso estético-artístico,
per o ciclo unicamente lógico e senso- sem levar em conta uma privilegiada
rial da mente. capacidade para a prática de esportes.
– Um aprendizado emocional às custas – Um forte senso epistemofílico, arrai-
de experiências cruéis e penosas que gado desde a sua meninice e que ele

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32 DAVID E. ZIMERMAN

mesmo recorda através do antes men- que possibilitassem uma abordagem psicana-
cionado poema de Kipling, que abor- lítica.
da os “seis serventes” e que lhe serviu No decênio 60, a partir da análise com
como uma espécie de lema na vida. esses pacientes psicóticos, Bion interessou-se
(Posteriormente, Bion acrescentou um particularmente pelos fenômenos pertinentes
sétimo servente, que considerou como à gênese e à natureza dos pensamentos, tanto
sendo a “sabedoria”.) nos aspectos da normalidade como nos da pa-
tologia. A partir daí, pode-se dizer que essa
Embora os trabalhos de Bion sejam de década foi a mais profícua de sua importante
uma alta abstração, eles só podem ser enten- obra, e a confirmação disso está na data dos
didos a partir do vértice de que toda a sua obra seus trabalhos mais notáveis: Ataque à vincu-
baseia-se na experiência emocional que ocor- lação (1959); O aprender com a experiência
reu na prática da situação psicanalítica, a qual, (1962); Elementos de psicanálise (1963); As
como ele nunca cansou de ressaltar, é sempre transformações (1965). Aliás, pode-se dizer que
de natureza vincular. os últimos três livros constituem uma espécie
Dessa forma, no fundo, a contribuição de trilogia inicial do método científico e filosó-
fundamental de Bion consiste na abertura de fico de sua obra, em contraposição com a
novas formas de pensar as questões da prática trilogia final de Uma memória do futuro, a qual
clínica, independentemente de quais são as guarda um modelo místico-religioso.
correntes teóricas que servem de respaldo a A década de 1970, delimitada pela obra
um psicanalista, embora de modo algum isso Atenção e interpretação (1970), vai progressi-
signifique que essas teorias devam ser dispen- vamente se inclinando por um Bion de crescen-
sadas ou relegadas a um plano secundário. te complexidade, e, a partir da metade desse
Por outro lado, a obra de Bion não segue decênio até a sua morte, em 1979, suas idéias
uma clara evolução linear e seqüencialmente adquirem uma característica marcadamente
continuada; pelo contrário, ela é cheia de avan- místico-transcendental, de difícil compreensão
ços, recuos, superposições, mutações, parado- para a grande maioria dos leitores. É oportuno
xos e, principalmente, profundas mudanças de registrar que a trilogia mencionada, escrita ao
estilo. Apesar disso, ele mantém uma unidade final de sua vida, não é de caráter científico
conceitual, e é possível traçar em um esquema propriamente dito; antes, a sua natureza é a
altamente simplificador a trajetória de suas de uma literatura ficcional. No entanto, uma
idéias nas quatro décadas de sua incessante leitura mais atenta, especialmente nas entreli-
produção científica. nhas, permite reconhecer os seus postulados
Assim, a marca predominante do decê- básicos e estabelecer correlações com seus es-
nio 40 pode ser considerada aquela que resul- critos anteriores e com a prática clínica de cada
tou do seu trabalho prático com diversas mo- leitor.
dalidades de grupos. Esses estudos lhe propi- Uma observação indispensável para quem
ciaram a observação de que a dinâmica grupal vai ingressar na obra original de Bion alude ao
que surge no nível inconsciente do grupo (os fato de que esse autor usa uma terminologia
“supostos básicos”) confirmava as teorias de própria, quase sempre inédita em relação aos
Klein acerca dos primitivos mecanismos defen- mais importantes autores psicanalíticos da épo-
sivos do ego, as ansiedades psicóticas, e as ma- ca. Além das denominações estranhas com as
nifestações inerentes à posição esquizopara- quais ele nominava tanto os fenômenos já su-
nóide. ficientemente bem conhecidos como os recen-
Na década de 1950, inspirado na consta- temente criados pela sua intuição genial, Bion
tação desses fenômenos psicóticos, Bion dedi- utilizou bastante o emprego de signos, letras
cou-se a analisar pacientes esquizofrênicos, do alfabeto grego, mitos, fórmulas matemáti-
embora analisasse somente os não-internados cas, formulações com base em modelos bioló-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 33

gicos, físicos e químicos, além dos artísticos, em conta a etimologia desta palavra, que é
filosóficos e místicos. Tudo isso foi feito com composta pelos radicais gregos Syn (junto de;
uma tríplice intencionalidade. conjunto) e opsis-optis (olhar), ou seja, uma
A primeira intuição era a de utilizar a sua visão abrangente e unificada.
vasta cultura e erudição humanística, não com
uma finalidade obsessiva ou narcisística, mas
sim com o propósito de estabelecer com o lei- 1947. PSIQUIATRIA EM
tor uma leitura de natureza dialética-expan- UM TEMPO DE CRISE
sionista. (Psychiatry at a time of crisis)
A segunda intenção foi a de impedir que
o leitor interessado em suas idéias ficasse ten- Esse trabalho, publicado originalmente no
tado a reverter toda a sua leitura para as pre- British Journal of Medical Psychology, corres-
missas básicas dos conhecimentos teóricos pré- ponde ao discurso que Bion pronunciou ao as-
vios que o psicanalista leitor já domina bem, e sumir a presidência da seção médica da Socie-
que saturam a sua mente, de acordo com um dade Britânica de Psicologia. No início desse
costumeiro hábito de reducionismo que os ana- artigo, Bion diz que, ao visitar o departamento
listas também costumam ter. de terapia ocupacional do Hospital Psiquiátri-
Um terceiro fator que merece ser levado co Militar durante a guerra, se convenceu de
em conta é o fato de que os textos de Bion que os métodos empregados para tratar as neu-
exigem uma leitura muito especial, para que o roses correspondiam a uma espécie de um neu-
leitor possa sintonizar-se com os distintos mo- rótico “equilíbrio de insinceridade” entre os mé-
delos que ele utilizava para fundamentar e ex- dicos, os pacientes e toda a comunidade hos-
por as suas idéias. Assim, como vimos antes, pitalar.
as suas concepções transitam tanto por mode- Mais adiante, ele afirma que o ser huma-
los científico-lógicos, matemáticos e filosóficos no regulou suas relações externas através da
como também por modelos estético-artísticos, lei, porém o fracasso surge quando se trata de
religioso-místicos e pragmático-existencialistas. produzir um método para manejar as tensões
Seguidamente, Bion destacava a importân- emocionais subjacentes a todas as relações
cia de o psicanalista, no consultório, chegar ao humanas, que estão sempre presentes e cor-
“fato selecionado”, isto é, a um fato que dê coe- respondem às emoções inconscientes primiti-
rência e integração ao que parece estar em es- vas. Segundo Bion, os modernos métodos de
tado de caos e dispersão. Levando em conta os comunicação repetem, num nível mais com-
diversos períodos, com conteúdos, modelos e plexo, os problemas da criança que começa a
vértices de conceitualizações distintas entre si, falar, e que os modernos recursos de destrui-
além dos problemas da terminologia semânti- ção não são mais do que a repetição dos primi-
ca, optei por fazer, à guisa de um “fato selecio- tivos aspectos da destrutividade infantil.
nado”, um resumo introdutório de cada um dos A ciência atômica, o ócio resultante dos
principais livros ou artigos de Bion, nos seus avanços tecnológicos e outros aspectos afins
quase 40 anos de ininterrupta produção psica- favorecem a eclosão de conflitos emocionais.
nalítica, que se estende desde a publicação de Um “grupo sem líder”, diz Bion, se dissolverá,
seus primeiros experimentos com grupos, segui- e se pode dizer que
dos, em 1947, de seu trabalho “Psiquiatria em
um tempo de crise”, até os últimos, que resulta- se um homem não consegue ser amigo de
ram de uma compilação de suas idéias esparsas, seus amigos, tampouco conseguirá ser ini-
publicadas após a sua morte. migo de seus inimigos, de modo que um
O propósito deste capítulo é, portanto, grupo que esteja constituído com tais pes-
alcançar uma visão panorâmica e integradora soas, sucumbirá a um subgrupo interno
de sua obra, isto é, fazer uma sinopse, levando hostil.

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34 DAVID E. ZIMERMAN

1948-1960. EXPERIÊNCIAS EM GRUPOS Assim, Bion aprofunda a investigação so-


(Experiences in groups) bre a psicopatologia da “posição esquizopara-
nóide”, enfocando as dissociações e o jogo en-
Vale ressaltar que os primeiros escritos de tre identificações projetivas e introjetivas, pos-
Bion sobre grupos datam de 1943 (“Tensões tulando a correlação entre o desenvolvimento
Intragrupais em Terapias: seu Estudo Como a ocular e o desenvolvimento do conflito edípico.
Tarefa do Grupo”) e 1946 (“O Projeto do Gru-
po sem Líder”), sendo que esses artigos, e ou-
tros mais, foram reunidos em 1948 no livro 1952. DINÂMICA DE GRUPO:
Experiências em grupos. Em 1952, ele publicou UMA REVISÃO
“Dinâmica de Grupo: uma Revisão” e, em 1961, (Group dynamics: a review)
sob a motivação de que “estes artigos desper-
taram um interesse maior do que eu espera- Esses estudos sobre grupos baseiam-se em
va”, tornou a reunir todos esses textos e os experiências vividas em distintos locais e épo-
publicou em um livro também intitulado Expe- cas e com propósitos diferenciados. Assim, no
riências em grupos. Hospital Militar, durante a II Guerra Mundial,
Pode-se dizer que Experiências em grupos Bion descreveu as “tensões intragrupais” com
é o resultado do trabalho realizado em três dé- grupos formados com a finalidade de reabili-
cadas diferentes de sua vida: aos 40 anos, como tação. Ele também descreveu um método ori-
psiquiatra militar; aos 50 anos, como psiquia- ginal, criação sua, de proceder a uma seleção
tra civil, e, aos 60 anos, como psicanalista. de candidatos a oficial da armada, através da
proposição de atividades em “grupo sem líder”.
A experiência grupal de Bion ficou muito
1950. O GÊMEO IMAGINÁRIO (1967) enriquecida, com os seus posteriores experi-
(The imaginary twin) mentos de finalidade psicoterapêutica, na
Tavistock Clinic.
Conquanto só tenha sido publicado em São muitos e originais os fenômenos do
1967, como o primeiro capítulo do livro Second campo grupal que Bion observou e descreveu,
thoughts (traduzido por Volviendo a pensar na e que seguirão, bastante detalhados, no capí-
edição argentina, e por Estudos psicanalíticos tulo correspondente do presente livro.
revisados, na edição brasileira), esse artigo de
Bion foi apresentado na Sociedade Britânica de
Psicanálise, em 1950, e valeu a seu autor a con- 1954. NOTAS SOBRE A TEORIA
dição de psicanalista membro dessa sociedade. DA ESQUIZOFRENIA (1967)
Nesse trabalho, o primeiro de cunho es- (Notes on the theory of schizophrenia)
tritamente psicanalítico, Bion aborda as difi-
culdades de se lidar com pacientes esquizóides Nesse trabalho, Bion esclarece que utili-
e esquizofrênicos. Ele parte do estudo de três zou com os seus pacientes esquizofrênicos a
pacientes (em um caso tratava-se de um gê- mesma técnica analítica que empregava para
meo real, nos outros dois, eram gêmeos imagi- os neuróticos comuns, e destaca os aspectos a
nários) e, com base na teoria de Klein, aventa seguir colocados:
a hipótese de que um gêmeo representaria uma
espécie de “duplo”. Seria, pois, uma personifi- – A patologia da linguagem utilizada
cação, cuja finalidade visaria a negar a incapa- pelos esquizofrênicos. Assim, ele assi-
cidade de um controle absoluto sobre um ou- nala as três maneiras como esses pa-
tro indivíduo e, ao mesmo tempo, a de negar cientes empregam a linguagem: como
que esse outro é uma pessoa autônoma e dife- um modo de atuar; como um método
rente dele. de comunicação primitiva; como uma

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 35

forma de pensamento. Bion destaca o leva esse último nome, no livro Second thoughts
fato de que, às vezes, o atuar substitui (Estudos psicanalíticos revisados, na edição bra-
o pensar, e vice-versa. sileira).
– Esse artigo destaca o fato de que a
presença de ódio e voracidade provo-
ca dissociações que destroem a capa- 1956. DESENVOLVIMENTO DO
cidade para pensar e para unir os ob- PENSAMENTO ESQUIZOFRÊNICO (1967)
jetos e as palavras. (Development of schizophrenic thought)
– Dessa forma, esses pacientes utilizam
as palavras como se fossem coisas, ou Nesse trabalho, Bion propõe-se a discutir
como partes cindidas deles mesmos e até que ponto a personalidade psicótica difere
que tratam de colocar dentro do ana- da não-psicótica, e qual a natureza da diver-
lista. gência entre ambas.
– Há uma marcante dificuldade na uti- Para tanto, ele se fundamenta em Freud
lização dos símbolos e, portanto, dos e em Klein, dando destaque aos seguintes as-
substantivos e verbos. pectos presentes nas psicoses:
– O artigo é enriquecido com excelen-
tes vinhetas clínicas, em que o autor – Predominam os impulsos destrutivos:
enfoca a linguagem do paciente sen- o ódio às realidades interna e exter-
do usada não para comunicar, mas sim na; o medo de uma aniquilação imi-
para atacar a percepção do analista, nente; relações de objetos frágeis.
provocando uma dissociação na men- – Assim, a transferência desses pacien-
te deste. tes se caracteriza pelo fato de as rela-
ções com o analista serem prematuras,
precipitadas e de muita dependência.
1955. LINGUAGEM E ESQUIZOFRENIA (1967)
– Há um excesso de identificações pro-
(Language and the schizophrenic)
jetivas, e é freqüente a presença de uma
sensação de mutilação e de um estado
Bion, apoiado na experiência de análise
confusional.
com seis pacientes, propõe-se a mostrar o uso
– Há uma presença ativa de ataques con-
que o paciente esquizofrênico faz da lingua-
tra a percepção consciente da realida-
gem. Os aspectos mais destacados são:
de, o que provoca um estado mental
no qual o paciente não se sente nem
– A utilização dos conceitos de Klein vivo nem morto.
acerca dos ataques sádico-destrutivos, – As crescentes e múltiplas dissociações
as dissociações, as identificações pro- seguidas de identificações projetivas
jetivas, as posições esquizoparanóide se constituem como “objetos bizarros”.
e depressiva, etc. – Forma-se uma confusão entre o símbo-
– Os três tipos do uso da linguagem (des- lo e o que deve ser simbolizado (equi-
critas no trabalho anterior). vale ao conceito de “equação simbólica”
– As funções egóicas, notadamente o de Segal).
processo de simbolização, o pensa- – Devido a esse estado de confusão e de
mento verbal e os transtornos do pen- onipotência, o paciente esquizofrênico
samento. fica perplexo quando os objetos reais
obedecem às leis da ciência natural e
É útil esclarecer que esse artigo de Bion não às do seu funcionamento mental.
aparece fundido com o anterior – “Notas sobre – O uso excessivo de identificações
a teoria da esquizofrenia” –, num capítulo que projetivas impede a capacidade de in-

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36 DAVID E. ZIMERMAN

tegração dos objetos, e, por isso, esses objetos bizarros; a inter-relação entre
pacientes somente podem aglomerá-los as posições esquizoparanóide e depressi-
e comprimi-los, podem fundi-los mas va; o estado da confusão mental; a
não articulá-los. reificação (das palavras, por exemplo,
– Da mesma forma, eles experimentam que “ficam” como sendo “coisas” [res,
as reintrojeções como se fossem uma em latim], de fato, num processo de
intrusão violenta e invasiva, vinda de alienação); o uso de equações simbó-
fora. licas em vez de símbolos; o pensamen-
– Diferentemente da personalidade neu- to sincrético do psicótico, que se ba-
rótica, na qual há uma prevalência de seia mais em ideogramas e visão do
repressões, na personalidade psicótica que em palavras e audição; a intera-
não há repressões, e sim dissociações ção do pensamento verbal com a po-
com identificações projetivas. sição depressiva.
– O pensamento verbal depende da re- – Bion fundamentou esse trabalho nas
solução da posição depressiva. concepções originais de Freud e de
– Como também as impressões senso- Klein, porém é para o primeiro que ele
riais são projetadas, acontece que, de- reserva longas citações extraídas de
vido às projeções e reintrojeções agu- diferentes trabalhos (principalmente
das, o paciente fica dominado por alu- “Neurose e Psicose” e “A Perda da Rea-
cinações táteis, auditivas e visuais in- lidade na Neurose e na Psicose”, am-
tensamente dolorosas. bos de 1924), notadamente nos aspec-
tos que se referem às funções consci-
entes da mente, à conexão dos pensa-
Bion conclui o artigo considerando que
mentos com o registro mnêmico das
também o paciente neurótico tem uma parte
palavras e à relação da imagem ver-
psicótica e vice-versa, e que um tratamento
bal com o pré-consciente. Um impor-
psicanalítico visa à elaboração de todos os as-
tante aspecto que Bion destaca nesse
pectos que acabamos de mencionar.
artigo é a presença de fantasias oni-
potentes que visam a destruir ou a rea-
lidadade ou a consciência que o pa-
1957. DIFERENCIAÇÃO ENTRE AS ciente psicótico tenha dela e, assim,
PERSONALIDADES PSICÓTICAS atingir um estado que “não é de vida
E NÃO-PSICÓTICAS (1967) e nem de morte”.
(Differentiation of the psychotic from – O trabalho é ilustrado com um escla-
the non-psychotic personalities) recedor caso clínico, em que é possí-
vel constatar como Bion entende e ma-
Esse trabalho de Bion – um dos mais co- neja a linguagem pré-verbal da perso-
nhecidos e citados de toda a sua obra – é pra- nalidade psicótica.
ticamente uma repetição do anterior, de 1956,
que já resumimos, e nele o autor reelabora os
1958. SOBRE ALUCINAÇÃO (1967)
seguintes aspectos da personalidade psicótica:
(On hallucination)

– Prevalecem os impulsos destrutivos; o Bion inicia esclarecendo ao leitor que esse


ódio à realidade; a angústia de ani- trabalho constitui uma aplicação prática das
quilamento; o modo típico da transfe- teorias apresentadas no trabalho anterior. Para
rência psicótica; o excesso de identifi- tanto, ele parte do material clínico da análise
cações projetivas; o ataque aos víncu- com um paciente que “era esquizóide, mas que
los; a fragmentação e a formação de não é mais”.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 37

– Inicialmente, seguindo a Freud, Bion 1958. SOBRE ARROGÂNCIA (1967)


afirma que é importante distinguir (On arrogance)
entre o fenômeno da dissociação (mais
benigna, com objetos totais, presente Esse trabalho baseia-se na experiência clí-
nas histerias) e o da clivagem (mais nica com um paciente que evidenciava todas
primitiva, com objetos parciais, pró- as manifestações descritas na personalidade
pria das psicoses), e se estende em psicótica, inclusive episódios de confusão e des-
considerações acerca das diferenças personalização, embora não fosse um psicótico
entre histeria e psicose. propriamente dito.
– O paciente que ilustra o trabalho fa- No curso dessa análise, formou-se uma
zia um uso evacuatório dos seus sen- reação terapêutica negativa (RTN), manifesta
tidos, e as alucinações eram emprega- sob a forma de uma atitude de arrogância, es-
das a serviço do desejo de cura, o que tupidez e curiosidade por parte do paciente.
as torna passíveis, portanto, de serem
consideradas como atividades criati- – Bion assinala que, quando prevalece
vas. É particularmente interessante a o instinto de vida, forma-se um sadio
descrição de como o uso excessivo de respeito por si mesmo – um orgulho;
identificações projetivas provocava porém, quando a predominância é do
uma confusão e indiscriminação en- instinto de morte, forma-se a arrogân-
tre os órgãos sensoriais da visão e da cia. Neste último caso, a curiosidade,
audição, sendo que o uso desses sen- na base de “saber a verdade a qual-
tidos era feito como se fossem órgãos quer preço”, fica a serviço da destru-
de ingestão digestiva, para a satisfa- tividade e liga-se à estupidez, a qual
ção do apetite. consiste em uma espécie de “emburre-
– É igualmente interessante constatar cimento”, a serviço da negação.
como o paciente associava fortes sen- – Nesse trabalho, ele estuda o mito edí-
timentos persecutórios a qualquer pico sob um vértice ampliado e dife-
aparelho elétrico (Bion exemplifica rente do que conhecemos em Freud,
com um gramofone que ele tinha em ou seja, nesse mito, Bion destaca a
seu consultório e que alguns pacien- presença da tríade constituída pela
tes psicóticos confundiam com um arrogância, pela curiosidade e pela es-
“ouvido”). tupidez dos personagens que partici-
– O próprio Bion era tratado pelo seu pam da tragédia.
paciente não como uma pessoa inde- – Bion se estende em considerações
pendente, mas como uma alucinação, sobre a RTN do paciente, afirmando
de modo que “cada sílaba proferida que, enquanto ele interpretava a in-
por mim era experimentada como veja edípica, o quadro não se altera-
punhalada” (p. 100). va; pelo contrário, piorava. A situação
– Bion também mostra que “para o psi- do impasse somente foi revertida
cótico, o sonho é a evacuação de um quando Bion percebeu que o paciente
material que foi ingerido durante as estava se expressando através de uma
horas de vigília” (p. 100). forma muito primitiva de comunica-
– O artigo conclui com a afirmação de ção e que necessitava de um continen-
que é necessário que o psicanalista te para a projeção tanto dos seus as-
saiba que as alucinações, durante as pectos bons como de seus ataques
sessões clínicas, são mais freqüentes mutiladores.
do que se pensa.

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38 DAVID E. ZIMERMAN

1959. ATAQUES À VINCULAÇÃO (1967) 1962. UMA TEORIA DO PENSAMENTO


(Attacks on linking) (1967) (A theory of thinking)

Esse trabalho é considerado por muitos Bion adverte que nesse trabalho preten-
autores como um dos mais originais e criati- de apresentar um sistema teórico, algo seme-
vos da literatura psicanalítica. Nele, Bion afir- lhante a uma teoria filosófica, e sem a preten-
ma que a parte psicótica da personalidade de são de possuir um maior rigor científico.
um paciente faz ataques destrutivos a qualquer
coisa que ele sinta como tendo a função de vin- – Habitualmente, as teorias consideram
cular um objeto (ou uma idéia, um conheci- o pensamento como um produto do ato
mento) com um outro. Ele considera especial- de pensar. Bion, no entanto, propõe
mente os ataques destrutivos ao pensamento uma teoria contrária: a de que o pen-
verbal propriamente dito. sar é que resulta de um desenvolvimen-
to imposto ao psiquismo pela pressão
– Em meio a seis pormenorizados exem- dos pensamentos preexistentes.
plos clínicos, Bion destaca, entre ou- – Os pensamentos podem ser classifica-
tros, os aspectos seguintes: uso da dos como: preconcepções (algo simi-
gagueira (utilizada por um dos pa- lar ao conceito kantiano de “pensa-
cientes com a finalidade de impedir mento vazio”); concepções (ou pen-
que ele se vinculasse verbalmente samentos); e conceitos (os pensamen-
com o analista); o uso de alucinações tos providos de um nome e um signi-
visuais de objetos invisíveis (repre- ficado).
sentando ataques à parelha criativa – Bion utiliza o modelo de uma disposi-
dos pais); o distúrbio da capacidade ção inata que corresponde à expectati-
de sonhar (nos psicóticos, os sonhos va de um seio (preconcepção), em re-
se compõem de material tão infinita- lação à qual tanto pode haver uma “re-
mente fragmentado que carecem do alização” positiva como uma negativa.
componente visual). – Se o lactante não tolera a frustração
– A falta de progresso desses pacientes de um “não-seio”, ele optará por uma
deve ser em boa parte atribuída aos evasão e um ataque aos vínculos. No
ataques destrutivos aos vínculos, tan- caso de tolerar a dita frustração, pro-
to os da sua curiosidade sadia como curará modificá-la, e isso dará origem
os da percepção da mente do analis- à função de pensar e à de aprender
ta, e também aos vínculos das inter- pela experiência.
relações do paciente com o seu meio – A realização negativa (o “não-seio”)
ambiente, ou entre os distintos aspec- se transforma em um “seio mau pre-
tos de sua própria personalidade. sente”, o qual se presta unicamente
– Nesse artigo, Bion dá um destaque para ser evacuado, através de uma
especial à função “continente” do psi- hipertrofia do aparelho para identifi-
canalista para as excessivas identifica- cações projetivas.
ções desse tipo de paciente. – Neste último caso, decorrem as seguin-
– Os ataques destrutivos provenientes da tes conseqüências: confundem-se o self
parte psicótica da personalidade po- e o mundo externo; a onipotência
dem determinar que os vínculos per- substitui as concepções; a onisciência
durem como perversos, cruéis e esté- substitui a aprendizagem; fica borra-
reis e, assim reintrojetados, constitu- da a discriminação entre o verdadeiro
am-se como um superego da mesma e o falso; a ambigüidade substitui a
natureza. discriminação.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 39

– Nesse importante artigo, Bion intro- c) os processos de evasão, ou de mo-


duz a fundamentação das concepções dificação da dor psíquica;
originais de função, elementos, capa- d) o processo de pensar;
cidade de rêverie e formação de um e) a proposição de uma teoria das
“terror sem nome”. funções, com os seus respectivos fa-
– Do mesmo modo que os sentidos de- tores, com o objetivo de aplicá-los
vem ser modificados e elaborados pela à teoria e à prática psicanalíticas.
função α, também os pensamentos de-
vem ser elaborados, para serem tra- Pela importância desse livro, vale a pena
duzidos no plano da ação, a qual se esmiuçar um pouco mais este resumo. Assim:
expressa sob três formas: a publicação,
a comunicação e o senso comum. – Os primeiros quatro capítulos são in-
– Se a conjunção dos dados for harmô- trodutórios e definitórios.
nica, o indivíduo experimenta uma – Os Capítulos 5 a 15 consistem em uma
sensação de verdade; caso contrário, descrição de fenômenos clínicos, como
haverá um estado mental de debilida- são os relacionados com as formas de
de no paciente, como se a “inanição splitting; a evacuação de elementos β;
da verdade fosse análoga à inanição a função dos sonhos; a “barreira de
alimentar”. contato”; a patologia da contratrans-
– O ponto crucial está na decisão entre ferência e a das interpretações do ana-
“fugir da frustração ou enfrentá-la e lista; a inversão da função α; o em-
modificá-la”. prego da evitação ou, ao contrário, do
enfrentamento e da modificação dian-
te das frustrações.
1962. O APRENDER COM A EXPERIÊNCIA – O Capítulo 12 aborda mais especifica-
(Learning from experience) mente a relação da identificação
projetiva com a gênese do pensamen-
Esse livro é composto de 28 capítulos, al- to, sempre em relação à capacidade
guns muito claros e elucidativos, outros muito de rêverie da mãe.
difíceis de serem logo apreendidos. Aliás, é o – O Capítulo 13 trata dos problemas li-
próprio Bion quem afirma, nas páginas in- gados a como o analista utiliza a sua
trodutórias, que “lamentavelmente, subsistem teoria e como faz o registro de suas
pontos escuros, devido à minha incapacidade sessões, com considerações acerca da
para aclará-los”. Mais adiante, ao se referir ao possibilidade da criação de um méto-
seu emprego de “função e de fatores”, ele ad- do de notação científica.
mite que, embora saiba que esses termos leva- – Nos Capítulos 14 a 16, são introduzi-
rão a uma confusão com a matemática e a filo- dos os signos L, H e K, para designar os
sofia, usou-os deliberadamente para que per- vínculos das experiências emocionais.
sista uma ambigüidade no leitor, e que optou – Os Capítulos 17 e 18 traçam uma evo-
por conservar “uma penumbra de associações lução do pensamento, desde o uso das
na exposição de suas idéias”. palavras como sendo as coisas concre-
tas até o uso de abstrações e generali-
– Os principais pontos estudados nesse zações.
importante livro são os seguintes: – O Capítulo 19 inicia a análise do em-
a) as experiências que dizem respei- prego de modelos psicanalíticos, como
to à teoria do conhecimento; os ligados aos sistemas digestório e res-
b) o estudo vinculado com a experiên- piratório.
cia de aprendizagem;

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40 DAVID E. ZIMERMAN

– O Capítulo de número 20 consiste em nálise abarca todas as situações clí-


uma investigação sobre o processo de nicas. O primeiro elemento é a identi-
abstração. ficação projetiva na relação continen-
– O Capítulo 21 trata do intercâmbio te-conteúdo ( ). O segundo ele-
entre as posições esquizoparanóide e mento é o da inter-relação entre a po-
depressiva. sição esquizoparanóide e a depressiva
– Nos Capítulos 22 e 23, Bion continua (PS  D). É da interação entre esses
analisando a abstração, a construção dois elementos que vai resultar o uso
de modelos no contexto da prática sadio ou patológico do pensamento.
analítica, e dá um destaque ao “fato Ao longo de sua obra, Bion foi descre-
selecionado”. vendo mais outros cinco elementos, tal
– Do Capítulo 24 ao 27, Bion estuda o como descrevo num capítulo específi-
problema da aprendizagem, notada- co da presente segunda edição.
mente o vínculo K, assim como a im- – Compara o bebê esfomeado e angus-
portante noção de “função psicanalí- tiado em inter-relação com a mãe com
tica da personalidade”, e a relação con- o analista e seu paciente. Assim, a mãe
tinente-conteúdo. tanto pode contribuir para um estado
– No último capítulo, o de número 28, de desintegração psíquica como para
Bion faz uma elaboração do mesmo um estado de integração, contendo,
tema, agora centrado na função -K, e metabolizando e transformando os
tece considerações acerca do destino sentimentos angustiantes da criança
das interpretações do psicanalista. em confiança e vitalidade.
Destaca a inveja como um fator impos- – Propõe o uso da grade como um ins-
sibilitador de uma relação comensal e trumento de notação, para o analista,
descreve um “super”ego, que se baseia dos elementos de psicanálise que ocor-
em uma superioridade moral própria, reram no curso de uma sessão.
com desprezo pela verdade. – Introduz o conceito de “objeto psica-
nalítico”, que ele compara a uma mo-
lécula composta por vários átomos. As-
1963. ELEMENTOS DE PSICANÁLISE sim, a combinação dos elementos de
(Elements of psychoanalysis) psicanálise dá lugar à formação do
“objeto psicanalítico”, que é o objeto
Esse livro é considerado um dos mais im- indagado, logo, o que é resistido.
portantes e fundamentais da obra de Bion, não – Considera a dor psíquica inerente ao
somente pelo conteúdo de suas concepções crescimento da personalidade e parte
originais como também pelo fato de que pode, de toda aquisição de conhecimento
por sua clareza, ser recomendado aos que ini- das verdades.
ciam uma familiarização mais íntima com o – Introduz o conceito do fenômeno da
autor. Nesse livro, Bion: “reversão da perspectiva”, como uma
forma de eludir o doloroso processo
– Aborda a origem e a natureza dos pen- de conhecimento das verdades intole-
samentos e da capacidade para pensar. ráveis.
– Aborda a teoria das funções.
– Define os elementos de psicanálise, Outras quatro importantes abordagens de
através de uma comparação com as le- Bion nesse livro se referem aos mitos, aos con-
tras do alfabeto, as quais, combinadas ceitos de intuição e de premonição, à utiliza-
entre si, podem formar milhares de pa- ção de modelos e ao crescimento mental como
lavras diferentes. Da mesma forma, a um processo diferente do conceito clássico de
combinação dos elementos de psica- cura médica.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 41

1963. A GRADE (The grid) – Os elementos presentes em uma aná-


lise estão sempre em uma permanen-
Esse importante artigo de Bion aparece te “conjunção constante” entre si, po-
traduzido – sob a supervisão geral de Frank rém isso não quer dizer que haja uma
Philips – na Revista Brasileira de Psicanálise (v. direta e linear relação de causa-efeito
7, n. 1, 1973). A finalidade desse trabalho iné- entre eles.
dito (publicado e reelaborado, em 1977, no – Bion articula o processo de transfor-
livro Two papers: the grid and caesura) é cons- mação com o dos vínculos, notada-
truir um instrumento que possa ser útil para o mente o do conhecimento (K). Ele afir-
psicanalista pensar acerca dos problemas que ma que a “realidade essencial” não
surgem no decorrer da situação analítica. Não pode ser conhecida; ela tem que ter
se trata de um método de registro das sessões, “sido” ou “vir a ser”.
e muito menos de um método para ser aplica- – Por essa razão, Bion enfatiza que a
do durante a situação psicanalítica. interpretação tem que fazer algo mais
Nesse artigo, Bion retoma alguns dos te- que aumentar o conhecimento, tendo
mas que tratou no livro anterior, introduz os em vista que tanto o paciente como o
modelos dos mitos de Édipo, do Cemitério Real analista podem preferir o “saber” an-
de UR, do Jardim do Éden, da Torre de Babel e tes do “ser”.
da Morte de Palinuro, aborda o problema dos
mentirosos e antecipa outros temas que abor-
dará mais aprofundadamente no livro seguin- 1966. MUDANÇA CATASTRÓFICA
te, As transformações.
(Catastrophic change)
O primeiro registro desse artigo surgiu
numa cópia mimeografada, na Sociedade Bra-
sileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), Utilizando o modelo continente-conteú-
em 1963. do ( ), Bion mostra que, em contextos di-
ferentes (na mente, nos grupos, na socieda-
de, na sessão psicanalítica, etc.), sempre há
uma conjunção constante de fatos específicos.
1965. AS TRANSFORMAÇÕES Sempre que tal conjunção estável se enfrenta
(Transformations) com uma situação de mudança e de cresci-
mento, altera-se e instala-se um clima de ca-
Esse livro – hoje, um clássico – objetiva tástrofe.
esclarecer a cadeia de fenômenos que se passa
entre os enunciados do analista e os do anali- – Essa mudança catastrófica abriga três
sando, para compreender a evolução da expe- características: a violência, a inva-
riência emocional entre ambos. riância e a subversão do sistema.
Bion introduz o conceito de “invariante”, – Bion descreve os três tipos básicos da
afirmando que, da mesma forma que a mate- relação: a comensal, a simbiótica e a
mática, a geometria e a criação artística, tam- parasitária.
bém o processo psicanalítico contém elemen- – Através desse mesmo modelo, ele faz
tos que permanecem inalterados, por maior que considerações muito interessantes re-
tenha sido a transformação. lativas à interação das palavras com
os seus significados. Da mesma forma,
– O ciclo de transformações se inicia a Bion estuda a relação entre o “gênio”
partir de “O”, que representa o incognos- (ou “místico”) – portador de uma idéia
cível, ou seja, a “coisa em si mesma”. nova – e o establishment.
– A transformação se processa tanto na
pessoa do paciente como na do analista.

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42 DAVID E. ZIMERMAN

Nesse artigo, Bion estuda a relação entre renciação entre as Personalidades Psicóticas e
o “pensador” e os “pensamentos”, sob o pris- Não-psicóticas”, “Sobre Alucinação”, “Sobre
ma da verdade, da falsidade e da mentira. Arrogância”, “Ataques à Vínculação” e “Uma
O artigo original foi publicado na Sci Teoria do Pensamento”.
Bull. Brit. Psychoanal. Soc. (5) e na Rev. Psico- O livro finaliza com “Comentários”, uma
anal, (38, 1981). Bion republicou esse impor- interessante abordagem acerca desses seus
tante trabalho no seu outro clássico livro Aten- trabalhos, revistos muitos anos após terem
ção e interpretação, de 1970, no Capítulo XII, sido escritos.
com o título de “Continente e Conteúdo Trans-
formados”.
1970. ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO
(Attention and interpretation)
1967. NOTAS SOBRE
A MEMÓRIA E O DESEJO Esse livro é um novo desenvolvimento das
(Notes on memory and desire) concepções já estudadas em Elementos de psi-
canálise e em As transformações, no qual Bion
Esse artigo está publicado em Melanie tentou mostrar uma analogia e uma conjun-
Klein Hoje (Imago Editora, v. 2, 1990). Nele, ção entre alguns conceitos psicanalíticos, os
Bion parte da posição de que “o único impor- dogmas religiosos e a matemática moderna.
tante em qualquer sessão é o desconhecido, e Pode-se dizer que, com esse texto, Bion inau-
nada deve impedir que o psicanalista o intua”. gura a fase mística de sua obra.
Os seguintes aspectos são destacados:
– A preocupação central consiste em
– O uso, por parte do analista, dos ór- como observar, avaliar, interpretar e
gãos sensoriais constitui-se como um comunicar adequadamente a realida-
obstáculo para a intuição da realida- de psíquica das experiências emocio-
de psíquica. Da mesma forma, o uso nais, já que não podem ser captadas e
da memória (a qual é muito próxima medidas pelos órgãos dos sentidos.
da experiência sensorial) é buscado de Nesse ponto, Bion prefere utilizar o
forma ativa pelo indivíduo, e isso tam- verbo “intuir”, como um modo de
bém obstrui a intuição e o acesso à aproximação à realidade psíquica.
realidade. – Em certos casos, para o analista expe-
– O analista deve suprimir ao máximo rimentar a experiência emocional jun-
sua memória e seus desejos ativos, e to com o seu paciente regressivo, deve
isso pode ser conseguido através de realizar o que Bion chama de “ato de
um treinamento e de exercícios vo- fé” (não tem nenhuma relação com a
luntários. fé própria das religiões).
– Nesse trabalho, Bion volta a estudar a
relação do místico com o establishment
1967. ESTUDOS PSICANALÍTICOS e, para tanto, utiliza alguns aspectos
REVISADOS (Second thoughts) da história de Jesus com os seus se-
guidores e os seus perseguidores. No-
Esse livro, dos mais conhecidos e vendi- vamente ele aborda, em termos de
dos na obra de Bion, consiste em uma coletâ- continente-conteúdo, os vínculos co-
nea dos seguintes trabalhos, já anteriormente mensal, simbiótico e parasitário.
resumidos: “O Gêmeo Imaginário”, “Notas so- – O livro se estende sobre o problema da
bre a Teoria da Esquizofrenia”, “Desenvolvi- mentira e do mentiroso, e retoma uma
mento do Pensamento Esquizofrênico”, “Dife- ênfase no papel da inveja destrutiva.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 43

– Outras relevantes considerações des- também aparece publicado, numa tradução es-
se texto dizem respeito à capacidade panhola, no livro Seminarios clínicos y cuatro
para suportar a dor e a incerteza, à textos (1992), e, na Revista de Psicanálise da
mudança catastrófica, à relação con- SPPA (2000), o artigo vem acompanhado de
tinente-conteúdo, à cegueira artificial comentários de psicanalistas.
do analista para poder ver melhor, aos Nesse trabalho, que se baseia na afirma-
estudos acerca dos estados de paciên- ção de Freud de que os indivíduos sofrem de
cia e de segurança no analista, à lin- amnésias e, a partir daí, inventam paramnésias
guagem de êxito, e aos mitos; e con- para preencher os vazios, Bion aventa a hipó-
clui com uma pergunta muito insti- tese de que a própria teoria psicanalítica po-
gante e atual: que tipo de psicanálise é deria estar funcionando nos moldes de uma
necessária para o consciente? enorme paramnésia para ocupar o vazio da ig-
norância dos psicanalistas. Completa Bion:

1973. CONFERÊNCIAS BRASILEIRAS 1 [...] seria tão bom se apenas os pacientes o


(Bion’s brazilian lectures) fizessem. E tão afortunado seria se nós não
o fizéssemos, e o fazemos para preencher o
Esse livro resulta das transcrições, devi- vazio de nossa aterradora ignorância.
damente revistas por Bion, dos vários deba-
tes que estabeleceu com psicanalistas brasi- Também é nesse trabalho que Bion faz
leiros, em São Paulo, durante sua primeira vi- considerações sobre os problemas da prática
sita ao Brasil. da psicanálise, especialmente acerca dos que
De modo geral, os capítulos começam se referem à comunicação, à linguagem utili-
com uma introdução de um determinado as- zada pelo psicanalista, à importância do esta-
sunto, por parte de Bion, à qual seguem per- do de “turbulência” e à citação de Kant de que
guntas formuladas pelo auditório, com res- “intuições sem conceitos são cegas, e concei-
postas imediatas, às vezes bem curtas e ou- tos sem intuições são vazios”.
tras vezes bastante longas, para cada uma das Bion conclui o artigo fazendo algumas
questões levantadas separadamente. especulações sobre a existência de um psiquis-
A leitura dessas conferências, além de for- mo no embrião fetal.
necer um rico manancial de uma expansão dos
conceitos previamente conhecidos dos seus li-
vros, com novas aberturas e proposições, ain- 1976. ACERCA DE UMA CITAÇÃO DE FREUD
da possibilita ao leitor um contato mais íntimo (On quotation from Freud)
com o estilo de pensamento e de comunicação
de Bion. Esse trabalho foi originalmente publica-
do em Borderline Personalities Disorders.I.U.P.
Nova Iorque. Também está publicado, em tra-
1976. EVIDÊNCIA (Evidence) dução espanhola, em Seminarios clínicos y
cuatro textos (1979), com o título de “Acerca
Esse artigo, publicado na Revista Brasilei- de uma cita de Freud”. Nesse artigo, partindo
ra de Psicanálise (n. 19, v. 1, 1985), com tradu- da frase de Freud (1926): “Há uma continui-
ção e notas de Paulo César Sandler, é a versão dade muito maior entre a primeira infância e a
final, editada por Mrs. Francesca Bion, de uma vida intra-uterina do que a impressionante
palestra proferida na Sociedade Psicanalítica cesura do ato do nascimento nos permite su-
Britânica, em 1976, que encerra a primeira edi- por”, Bion faz interessantes considerações
ção publicada no Bulletin of the British Psycho- acerca do psiquismo embrionário e fetal, cujos
analytical Society (n. 8, 1976). Esse trabalho vestígios exercem uma inaparente, porém re-
levante, influência no psiquismo adulto.

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44 DAVID E. ZIMERMAN

1977. CESURA Mas a cesura, o vínculo, a sinapse, a (con-


(Two papers: the grid and caesura) tratrans)-ferência, o humor transitivo-
intransitivo.
O original, em inglês, desse artigo é
“Caesura”, e aparece publicado em Two papers:
the grid and caesura (Imago Editora, 1977). A 1977. TURBULÊNCIA EMOCIONAL
tradução – sob a supervisão técnica psicanalítica (Emotional turbulence)
de Luciano M. Godói – está publicada na Revista
Brasileira de Psicanálise (n. 15, 1981, p. 123-136). Esse artigo, publicado originalmente em
Bion constrói esse trabalho a partir da ci- Borderline Personalities Disorders, aparece na
tação de Freud de que há muito mais continui- Revista Brasileira de Psicanálise (v. 21, n. 1,
dade entre a vida intra-uterina e a primeira 1987), com tradução de Sandler. Mais recen-
infância do que a impressionante cesura do ato temente, em tradução ao espanhol, foi publi-
do nascimento nos permite acreditar. cado no livro Seminarios clínicos y cuatro tex-
Os temas centrais se referem: tos, e também na Revista de Psicanálise da SPPA,
2000, com comentários de psicanalistas.
Esse texto de Bion se refere a uma pales-
1. à necessidade de o analista ser livre
tra que realizou sobre pacientes borderline. A
e verdadeiro (aqui, Bion tece refle-
turbulência se manifesta quando uma criança
xões acerca de “o que é a verdade?”);
que parecia tranqüila, cooperativa e dócil se
2. aos problemas relativos à interpre-
torna agitada, revoltada e perturbadora; esse
tação (aqui, Bion introduz o seu im-
fato, que costuma ser entendido como uma
portante conceito da necessidade de
patologia, pode estar representando uma ne-
o analista ter a capacidade de fazer
cessária passagem de um estado mental para
uma “clivagem não-patológica”);
outro. A turbulência costuma acompanhar as
3. às especulações de natureza psico-em-
grandes mutações da vida: nascimento, ado-
brionária (as quais ocupam o maior
lescência, velhice, etc. O progresso analítico
espaço do artigo, em torno desta sua
requer uma volta regressiva a um estado men-
pergunta essencial: “há alguma cone-
tal anterior.
xão entre o pensamento da vida emo-
cional pós-natal e a vida pré-natal?
Deveríamos pensar que o feto pensa,
ou sente, ou vê, ou ouve?”); 1980. BION EM NOVA IORQUE
4. a algumas reflexões acerca da con- E EM SÃO PAULO
ceituação de “crescimento mental” (Bion in New York and São Paulo)
(aqui, Bion faz a sua conhecida ana-
logia de que a personalidade não se Esses dois últimos livros estão reunidos
desenvolve como se fosse um peda- em um único volume publicado pela Imago
ço de elástico sendo esticado; antes, Editora, em 1992, sob o título de Conversando
o crescimento mental se dá como se com Bion.
fosse alguma coisa que se desenvol- As “quatro discussões” dizem respeito às
vesse em muitas camadas diferen- conferências que se realizaram em Los Angeles,
tes, como uma cebola). em 1976, e que foram destinadas a residentes
de psiquiatria, psicoterapeutas e psicólogos.
Bion (p. 136) conclui esse importante ar- Em Nova Iorque, as conferências, reali-
tigo com a seguinte afirmação: zadas em 1977, foram em número de cinco.
Em São Paulo, em abril de 1978, foram dez
Investigar a cesura; não o analista; não o as conferências pronunciadas e debatidas.
analisando; não o inconsciente; não o cons- Esse livro é de leitura obrigatória, por-
ciente; não a sanidade; não a insanidade. quanto nos apresenta um Bion abordando to-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 45

dos os aspectos de sua obra e uma forma mui- analista deve aproveitá-la para promover um
to atualizada de seu pensamento analítico, com crescimento mental do seu paciente, pode ser
um estilo coloquial e muito simples. comparada ao brocardo “fazer do limão uma
limonada”.

1979. COMO TORNAR PROVEITOSO


UM MAU NEGÓCIO 1975. UMA MEMÓRIA DO FUTURO I.
(Making the best of a bad job) O SONHO
(A memoir of the future. Book one. “The dream”)
Esse artigo foi publicado originalmente
na edição de março de 1979 do Bulletin e apa- 1977. UMA MEMÓRIA DO FUTURO II.
rece traduzido – sob a revisão técnica psicana- O PASSADO APRESENTADO
lítica de Carlos T. Knijnik – na Revista Brasilei- (The past presented)
ra de Psicanálise (n. 13, 1979). No livro
Seminarios clínicos y cuatro textos, o título des- 1979. UMA MEMÓRIA DO FUTURO III.
se trabalho está traduzido por “Hay que Pasar A AURORA DO ESQUECIMENTO
el Mal Trago”. Mais recentemente, 1979, foi (The dawn of oblivion)
publicado na Revista de Psicanálise da SPPA,
com comentários de dois psicanalistas. Esses três volumes constituem uma mar-
Bion afirma que, quando duas personali- cante trilogia final na obra de Bion, mas não
dades se encontram, se cria uma tempestade têm uma finalidade de natureza formalmen-
emocional; mas, já que elas se encontraram, e te científica; antes, trata-se de uma literatura
uma vez que essa tempestade emocional ocor- na qual, pode-se dizer, predomina um estilo
re, as duas partes devem decidir “como tornar science-fiction. Ao mesmo tempo, o seu estilo
proveitoso um mau negócio”. Ele ilustra essa narrativo adquire um clima poético, em que
idéia com uma situação clínica, na qual o pa- se alternam passagens sérias e documentais
ciente queria que Bion se amoldasse ao seu com outras que são comovedoras, e, inclusi-
estado mental, procurando lhe despertar sen- ve, não faltam trechos que são engraçados.
sações como medo, desapontamento e frustra- Tais relatos guardam um cunho autobiográfi-
ção, para que Bion não pudesse pensar livre- co, embora camuflado nos relatos surrealistas
mente. entre os personagens; entretanto, isso só fica
A partir daí, e com base em citações biblio- mais claro quando a leitura dessa trilogia é
gráficas, em que ele menciona poetas, filóso- completada com a leitura dos dois volumes
fos e cientistas (Milton, Platão, Shakespeare, de A long week-end, livro publicado após a sua
Yeats, Planck), Bion faz interessantes conside- morte, que constitui a sua autobiografia pro-
rações de natureza existencialista. Assim, ele priamente dita.
mostra como a onipotência e o desamparo es- Uma memória do futuro é de leitura mui-
tão inseparavelmente associados; faz uma dis- to difícil, tanto que, em um primeiro momen-
tinção entre a existência e a qualidade da exis- to, as editoras se negaram a publicá-lo, e Bion
tência; diz que prefere entender que a glându- o fez às suas expensas porque tinha uma pre-
la supra-renal não provoca luta, nem fuga, mas, dileção por essa trilogia, por acreditar que es-
sim, “iniciativa”; afirma que o analista neces- tava lançando as sementes da construção do
sita estar apto a ouvir não apenas as palavras futuro da psicanálise.
mas também a música; e assinala o contraste No primeiro volume – O sonho –, Bion
entre o processo de realização e o de desideali- adverte o leitor de que “este é um relatório fic-
zação. tício de uma psicanálise que inclui um sonho
Na situação analítica, a postulação de artificialmente construído”. Cada capítulo re-
Bion de que, diante do surgimento de uma tur- cebe o número da página em que inicia. Nesse
bulência emocional, em vez de fugir dela, o livro, Bion aparece duplicado como A (utor) e

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46 DAVID E. ZIMERMAN

Q (uestionador), sendo que, dentre todos os 1985. BION W. R.


personagens, é Roland quem o representa em (edited by F. Bion)
diversas fases de sua vida.
No segundo volume – O passado apre- Trata-se de um livro póstumo, em dois
sentado –, persiste uma mesma linha de expo- volumes, editado por sua esposa Francesca, a
sição dissociada, como é a do livro anterior, partir de apontamentos esparsos do próprio
isto é, cada capítulo recebe como título ape- Bion, que ela completou com notas, cartas, fo-
nas o número da página em que começa. Os tografias, reprodução de pinturas, etc.
capítulos são longos e numerosos, e são mui- O volume I – The long week-end (traduzi-
tos os personagens, que, às vezes com neolo- do por Sandler como: Um fim de semana esti-
gismos e à moda de parábolas, tratam de pro- cado) – tem como subtítulo Part of life. 1897-
blemas como o da purgação das penas e o da 1919. Esse livro tem em torno de trezentas pá-
morte (Bion já estava com 80 anos) e permi- ginas e é considerado como a legítima autobi-
tem que o personagem denominado “psica- ografia de Bion, no período que se estende
nalista” doutrine os seus pontos de vista acerca desde o seu nascimento até o fim da II Guerra,
da “verdade última”. quando tinha 40 anos. O livro está dividido
O terceiro volume – A aurora do esqueci- em três partes muito distintas entre si: a pri-
mento – adota uma carpintaria de teatro e, num meira, intitulada “A Índia”, a segunda, “A In-
estilo francamente surrealista, visa a uma es- glaterra”, e a terceira, “A Guerra”.
pécie de reconstrução do passado, se abrindo Em 1985, Francesca Bion publicou o vo-
para o futuro. Pode-se dizer que esse volume lume II, dividido em duas partes. A primeira é
seja um ensaio psicoembrionário (por exem- All my Sins Remembered (traduzida por Sandler
plo, um personagem relata o encontro entre Todos os Meus Pecados Rememorados), título
um espermatozóide e um óvulo), como uma esse inspirado no personagem Hamlet, de
tentativa de dar uma forma artística à expe- Shakespeare, relativo ao famoso monólogo re-
riência pré-natal. Tal experiência aparece sob ferente ao momento que intercala a decisão
a forma de uma viagem (dele próprio) que se de Hamlet em partir para a ação justiceira e o
processa desde antes do nascimento até a mor- seu encontro com Ofélia. Pode-se dizer que esse
te, o que nos permite dizer, utilizando os ter- conflito homicida-suicida aludia ao drama so-
mos do próprio Bion: “uma viagem da cesura frido e nunca bem elaborado das circunstânci-
da vida para a cesura da morte”. as trágicas da morte de sua primeira esposa.
Na verdade, uma leitura mais atenta per- Francesca reconheceu que “este testemunho
mite reconhecer que os distintos personagens triste em busca de si mesmo” poderia dar uma
dessa trilogia pronunciam frases que expres- falsa imagem do verdadeiro Bion e, por isso,
sam os mais significativos conceitos originais decidiu apresentá-lo na segunda parte, o “O
que Bion semeou ao longo de toda a sua obra. outro Lado do Gênio. Cartas à Família”.

1981. UMA CHAVE PARA 1990. COGITAÇÕES


“A MEMÓRIA DO FUTURO” (Cogitations)
(A key to a memoir of the future)
Editado pela Karnac Books, de Londres
Editado pela Editora Pertshire Clunie Press, (recentemente, em 2000, a Editora Imago pu-
esse livro se destina a facilitar ao leitor a leitura blicou Cogitações, numa excelente tradução de
com reflexões psicanalíticas acerca dos diálogos Ester Hadassa Sandler e Paulo César Sandler),
entre os múltiplos personagens que aparecem ao esse livro resultou de um trabalho de Francesca
longo dessa clássica trilogia – Uma memória do Bion, que coletou e reuniu anotações esparsas
futuro. Consiste numa espécie de “glossário” que de Bion, algumas datadas e outras não, sob a
Bion organizou junto com sua esposa, a fim de forma de frases, idéias e reflexões. É a última
esclarecer aspectos obscuros dessa obra. publicação póstuma, dirigida a uma platéia

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 47

imaginária, e cobre um período entre feverei- nicos y cuatro textos, da Editora Lugar Editorial.
ro de 1958 e abril de 1979. Nesse livro aparece a transcrição, na íntegra,
O livro contém 406 páginas, ao longo das de 24 seminários clínicos (supervisões coletivas)
quais transparece um Bion que trata de estabe- realizados em Brasília, em 1975, e 28 efetuadas
lecer inter-relações entre a psicanálise e a evo- em São Paulo, que permitem que o leitor sinta
lução das demais ciências e a discussão do mé- como Bion pensa e trabalha a prática analítica
todo científico. Para tanto, ele utiliza a citação cotidiana. Além disso, ao final desse livro, apa-
de literatos, poetas, matemáticos (Poincaré), his- recem quatro significativos trabalhos de Bion:
toriadores e filósofos (Descartes, Russell, Hume). “Turbulência Emocional”, “Acerca de uma Cita-
As anotações de Bion se estendem, com ção de Freud”, “A Evidência” e “Como Tornar
especulações reflexivas, acerca dos mais diver- Proveitoso um Mau Negócio”.
sos temas, como psicanálise e ciência, mate-
Creio ser útil incluir nesta resenha dos
mática e lógica, literatura e semântica, de modo
trabalhos originais de Bion um breve comen-
que algumas reflexões aludem a trabalhos seus,
tário sobre o livro Ousarei perturbar o univer-
anteriores, e outras fundamentam concepções
so? (Do I dare disturb the universe – a memorial
desenvolvidas posteriormente, além de outras
to Wilfred R. Bion), editado em Beverly Hills
cogitações que nunca foram suficientemente
(Califórnia, 1981) por James Grotstein, de Los
desenvolvidas e publicadas.
Angeles, um ex-analisando, supervisionando e
O que é particularmente fascinante nesse
discípulo de Bion.
livro é o fato de que os apontamentos de Bion
Esse livro – uma espécie de homenagem
permitem constatar como suas idéias, em con-
póstuma ao mestre Bion – reúne cerca de 31
junção com as de outros pensadores, foram
trabalhos ao longo de uma edição de 673 pá-
germinando em sua mente, até ganharem a
ginas, de autoria de vários psicanalistas – en-
forma de concepções originais.
tre os quais todos os seus ex-analisandos – além
dos que fizeram supervisão individual ou par-
ticiparam de seus grupos de estudo. Dentre
1994. SEMINÁRIOS CLÍNICOS
todos os colaboradores, vale destacar os no-
E QUATRO TEXTOS
mes de Andre Green, Matte Blanco, Wisdom,
(Clinical seminars and four papers) Money Kyrle, Hans Thorner, Hanna Segal, Elliot
Jacques, Herbert Rosenfeld, Susan Isaacs,
O livro, póstumo, foi originalmente publi- Meltzer, Betty Joseph, Frances Tustin, Isabel
cado pela Karnak Books, de Londres, e tem uma Menzies, Frank Philips e o brasileiro Alcyon
tradução na Argentina, chamada Seminarios clí- Baer Bahia.

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48 DAVID E. ZIMERMAN

3
A Utilização de
Modelos Psicanalíticos

Bion sempre revelou uma preocupação Agora queria começar a referir-me aos mo-
básica em relação à comunicação dos seus es- delos. São apenas estórias imaginárias,
critos, qual seja, a necessidade de que os mes- idealizadas com o propósito de que exer-
mos transcendessem o plano de uma mera çam uma porção de efeitos psicológicos
sobre nós, no sentido de ajudar-nos a ter
sensorialidade e que, ao mesmo tempo, pudes-
uma idéia sobre uma teoria, uma idéia
sem transmitir uma compreensão acompanha-
mais abstrata, porém que, não obstante,
da de emoções. Para tanto, ele propunha a uti- se mantém a uma distância reconhecida
lização de distintos tipos de modelos que pos- com respeito ao que podemos enfrentar
sibilitassem variados vértices de observação e em um consultório.
de entendimento. Da mesma forma, fundamen-
tou as razões de por que considerava conveni- A seguir, nesse mesmo artigo, Bion pro-
ente o uso de modelos, destacando a flexibili- põe um modelo para o destino das identifica-
dade dos mesmos em contraste com a rigidez ções projetivas (conteúdo) de um bebê ansio-
das teorias. so para dentro da sua mãe (continente). Pela
Pode-se dizer que a utilização de mode- importância que esse modelo representa na
los tem vantagens e desvantagens. A principal obra de Bion, e pela freqüência com que ele
vantagem é a de que um modelo é mais flexí- aparece em diversos textos, vale a pena trans-
vel que uma teoria e representa uma ponte crever um trecho maior, com as próprias pala-
entre as abstrações teóricas e a prática clínica; vras de Bion (p. 13):
e a desvantagem é que a sua utilização exage-
rada pode saturar a mente e prejudicar a ob-
Em primeiro lugar, vou propor um mode-
servação, de tal modo que o meio fica sendo lo para uma identificação projetiva falha
um fim. que, segundo sustentam nossas teorias, se-
O próprio Bion nos explica melhor, com gue um certo rumo e é causa de adversi-
palavras pronunciadas em uma conferência dade para o paciente. O lactente experi-
em Buenos Aires, em 1968, intitulada “O Gê- menta o temor de estar morrendo e cho-
nio e o Establishment” (Revista Gradiva, n. 20, ra. A mãe reage com angústia e diz: “Não
1980, p. 13): sei o que é que se passa com esta criança”,

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 49

e tende a pôr distância entre ela mesma e sa um bebê e não creio que alguma pes-
a criança que chora; seja na realidade con- soa a tenha, e a cada um de nós, só nos
creta, seja psicologicamente, ela não está resta imaginar sua própria versão. Porém,
disposta a tranqüilizar a criança. Este é um o importante desses três quadros é o fato
modelo da situação em que a criança de que proporcionam uma gama de ima-
dissocia uma parte de si mesma – seu te- gem visual que permite compreender um
mor de morrer – e, chora para colocá-la pouco mais essa teoria tão abstrata.
em sua mãe, porém, essa parte é recusada
e colocada novamente na criança. Como Entendi ser conveniente reproduzir inte-
já disse, o modelo é: “Não sei o que se pas-
gralmente esse longo trecho, não só pela ra-
sa com esta criança” e também ansiedade
zão de que esse modelo pode ser considerado
e impaciência como resposta.
Agora, como modelo para a identifica- um protótipo dentre os demais, mas também
ção projetiva de êxito, suponhamos um pelo fato de que é o modelo que melhor sinte-
tipo de mulher afetuosa e maternal nor- tiza a ideologia psicanalítica de Bion, alicerçada
mal e uma criança que também chora por nos vínculos – com as respectivas identifica-
temor à morte. A mãe leva a criança ao ções projetivas e introjetivas – que se proces-
colo, sorri afetuosamente e diz: “Bem, sam entre o bebê e a mãe, ou, na situação ana-
bem, não é para tanto” e poucos instantes lítica, entre o analisando e o analista.
depois a criança também sorri e aceita Bion não se cansou de enfatizar essa defi-
voltar novamente para o berço. Segundo nição de modelo, com a recomendação de que
a teoria pela qual suponhamos que isto é
é sempre transitório, e que somente deve ocor-
um modelo, o lactente dissocia seu temor
rer enquanto seu uso for útil para cada psicana-
à morte, como sugeri, e o coloca no seio
de sua mãe, esta o desintoxica, e a criança lista em particular, para depois ser descartado.
recupera um temor, leve. Agora, bem, su- A partir daí, pode-se verificar, ao longo
ponhamos que, por alguma razão, a mãe de toda a sua obra, o quanto Bion utiliza-se de
afetuosa e amorosa não está ali, seja por- modelos biológicos, místicos, matemáticos,
que não ama o filho ou porque sente algu- entre muitos outros, sob a forma de histórias,
ma angústia, ou talvez porque a criança é de metáforas, de equações, etc.
particularmente perturbada e sente temor É útil conhecer como Bion utilizava esses
da mãe, ou seja, o tipo de caso que ocor- múltiplos modelos, porquanto os mesmos re-
reria com um bebê psicótico. No modelo fletem o seu pensamento psicanalítico e a sua
para esta situação, se poderia dizer que a
própria pessoa.
criança experimenta temor porque sente
É no Capítulo 19 de Elementos de psica-
que está morrendo, dissocia esse temor e
o coloca no seio; porém, neste caso, supo- nálise (1963) que Bion se estende nas vanta-
nhamos que haja algum problema de hos- gens da utilização de modelos para favorecer
tilidade, seja no bebê, ou na mãe, que es- a compreensão dos processos de “pensar” e de
traga a fantasia onipotente e impede que “sentir”. Aí, ele emprega modelos extraídos da
o seio desintoxique o temor. Aqui se tem a biologia, como o do sistema digestório (por
sensação de que esse objeto mal despoja exemplo, a introjeção, a absorção e a expulsão
as projeções do bebê, em forma ávida, in- dos elementos psicanalíticos), o do sistema res-
vejosa e hostil do significado que pode ter piratório (como no modelo da asma brônqui-
tido. Assim, o temor de morrer que a crian- ca), o auditivo, o visual, etc. Assim, ao fazer os
ça sente se pode colocar no seio materno,
seus importantes estudos sobre a teoria dos
mas quando o recupera já se trata de um
pensamentos, Bion sugeriu que a mente, isto
temor inefável, em outras palavras, o que
se coloca no seio materno, o temor da mor- é, o aparelho para pensar, constrói-se no mo-
te, foi despojado inclusive do significado delo do sistema gastrintestinal, ou seja, há o
que tinha e se converteu, como disse, sim- pressuposto na criança de que tudo segue uma
plesmente em um terror sem nome. Essas linearidade temporal e espacial, tal como um
são três situações totalmente imaginárias, alimento começa na boca e termina expulso
não tenho a menor idéia do que é que pen- pelo ânus. Aliás, é bastante usada a expressão

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50 DAVID E. ZIMERMAN

de Bion de “evacuação”, referente à expulsão cal, mas sim com os elementos dos quais toda
dos protomentais elementos β, sob a forma de peça musical está composta”. O modelo da gra-
excessivas identificações projetivas. de, por sua vez, lhe foi inspirado pela Tabela
Meltzer (1986, p. 117) utiliza-se do mo- periódica dos elementos químicos, de
delo biológico de Bion e mostra que a mente Mendelaiev.
se constitui como se fosse um sistema digestório O modelo da grade foi uma tentativa de
que digerisse as suas experiências emocionais; situar tanto o psicanalista como cada um de
assim, pode-se falar em “crescimento, atrofia, seus analisandos quanto ao nível genético-
expulsão das fezes, foco da infecção, morte da evolutivo dos pensamentos, assim como tam-
mente, etc.”. Ainda em relação aos modelos bém quanto à forma e à finalidade de como
inspirados na biologia, é interessante observar tais pensamentos estão sendo, ou não, utiliza-
o quanto transparece um modelo sexual no dos fora da situação analítica. Da mesma for-
conceito de “concepção”, como resultante da ma que com os demais modelos, também em
fecundação de uma “preconcepção” por uma relação ao da grade, Bion insiste para que sir-
“realização”. va para o psicanalista apenas como um parâ-
Da mesma forma, os símbolos do gênero metro de reflexão pós-sessão e jamais durante
sexual – e – foram utilizados por Bion para a sessão, porquanto, neste último caso, pode-
designar, respectivamente, as originais concep- ria provocar uma tônica intelectiva, em preju-
ções de continente e de conteúdo. Esse mode- ízo de uma entrega afetiva.
lo é fundamentado por Bion com três submo- Uma outra vertente inspiradora de mo-
delos, também biológicos, que caracterizam as delos psicanalíticos é a da mitologia, tanto os
três modalidades que tipificam a relação con- mitos privados de cada indivíduo como os mi-
tinente-contido (ou conteúdo): a de tipo para- tos públicos universais. Assim, em A grade
sitário (eles se alimentam e se destroem reci- (1964), Bion apoiou as suas investigações so-
procamente), a comensal (não há confronto, bre a normalidade e a patologia do conheci-
porém a relação é estática e estéril) e a sim- mento nos mitos de Édipo, no da Árvore do
biótica (em biologia, esse termo designa uma Conhecimento do Éden e no da Construção da
condição de vantagens recíprocas entre espé- Torre de Babel, além dos relatos míticos dos
cies diferentes de animais). Funerais do Rei de Ur e no da Morte de Palinuro,
Um outro modelo digestório utilizado por entre outros.
Bion é o da “fome”. Nesse caso, a fome é asso-
ciada à imagem visual de um seio que não o Comentários: A meu juízo, é difícil en-
satisfaz, mas que, por ser necessitado, torna- tender por que, entre os modelos que Bion ado-
se um objeto “mau”. Nesse modelo de “fome”, tou para o estudo sobre o conhecimento, ele
todos os objetos que se apresentam como ne- não incluiu o mito de Narciso, no qual, segun-
cessidade são objetos maus, porquanto eles do a profecia de Tirésias, “Narciso morreria
impõem o suplício de Tântalo. Se o indivíduo quando viesse a conhecer-se”.
necessita deles, é porque, na realidade, ele fica O uso dos modelos é indissociável da con-
à mercê de um outro. Igualmente, nesse mo- cepção de “vértices”, tendo em vista que a fina-
delo, a necessidade do alimento leite deve ser lidade precípua é possibilitar uma dimensão
equiparada à necessidade de “amor”, e é im- abstrata dos fenômenos psíquicos, através de
portante que não se confunda a existência de uma determinada perspectiva de visualização
um “seio bom” – nutridor – que esteja ausente, concreta. Ou, devolvendo a palavra a Bion
com a de um “seio mau” – não-nutridor – e (1962, p. 95):
ausente, porque foi “evacuado”.
É também em Elementos de psicanálise que O uso de um modelo é eficaz por devolver o
aparece um conhecido modelo que consiste na sentido do concreto para uma investigação
analogia que Bion traça entre a grade e “a ativi- que pode ter perdido o contato com o seu
dade do músico que pratica escalas e exercícios, background por meio da abstração e dos sis-
que não estão diretamente ligados à peça musi- temas dedutivos teóricos a ela associados.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 51

Como modelo genérico da epistemologia construção na qual se combinam entre si


da psicanálise, Bion gostava de se referir aos imagens concretas, e o vínculo entre estas
três vértices: o científico, o artístico e o religio- últimas produz amiúde o efeito de uma nar-
so, sendo que cada um caracteriza um perío- rativa que implica que alguns de seus ele-
do diferente e singular de sua produção cien- mentos sejam a causa dos outros. O modelo
tífica. é construído com elementos do passado do
Embora comumente o modelo poético indivíduo, enquanto a abstração está, por as-
não coincida com o do pensamento lógico, Bion sim dizer, impregnada com preconcepções do
conseguiu, muitas vezes, emprestar um tom futuro do indivíduo.
poético à linguagem científica. Ele acreditava Na abstração, os elementos reais relacio-
que a linguagem poética, com sua áurea de nados têm menor importância, enquanto o uso
mistério e de transcendência, possibilitaria ao do modelo acentua os elementos reais e as
leitor um acesso mais verdadeiro quando o imagens visuais. Da mesma forma, o modelo
objeto de estudo fosse o registro de fenôme- deve ser diferenciado da teoria, porque, ao
nos protomentais. contrário desta última – que se constitui como
Uma amostragem de como Bion usava um paradigma por um longo período de tem-
uma alternância de modelos diferentes, porém po –, os modelos são efêmeros.
em sincronia, pode ser dada pelo emprego das Qualquer experiência emocional pode
letras L, H e K (iniciais, em inglês, respectiva- ser usada como modelo para alguma experiên-
mente, dos vínculos de amor, ódio e conheci- cia futura, desde que haja suficiente flexibili-
mento), que são designações lógicas e científi- dade para permitir a sua adaptação a expe-
cas, enquanto o signo O (na dupla leitura pos- riências novas, mas que, supõe-se, sejam si-
sível, tanto a letra O como “zero”) designa uma milares.
abstração, a de um ponto de origem no espaço O valor de um modelo, prossegue Bion,
infinito, e tem o propósito de promover no lei- consiste em que os seus dados, já familiares
tor um estímulo estético e a busca de uma ima- para o psicanalista, estão disponíveis para sa-
gem mística, sem, no entanto, perder o rigor tisfazer qualquer necessidade urgente, inter-
do discurso científico. na ou externa. Ao construir o seu próprio mo-
É interessante transcrever o exemplo dado delo, o psicanalista necessita dar-se conta de
por Bion para mostrar como um mesmo fato qual é o modelo usado pelo seu paciente e
pode ser concebido através tanto de um mo- pô-lo a descoberto. Então, poderá comparar
delo científico como de um estético, ou religi- o seu próprio modelo e a sua abstração com
oso, dependendo do vértice que for adotado os do seu analisando, observando, por exem-
pelo observador. Assim, afirma Bion (1973, p. plo, se o modelo que está sendo vivido na si-
57), tomando como exemplo a conceituação tuação analítica é de natureza biológica, de
de tempo: tipo alimentar, excretória, respiratória ou mus-
cular; ou se é de natureza mística, ou, ainda,
pode-se considerar o próprio vértice como a dos mitos privados, a que Bion se referia
uma variável e usar uma medida que indi- como sendo a dimensão do “como se”, e as-
que unidades angstron ou anos-luz (o ci- sim por diante.
entífico). Utilizando uma escala de tem- Vale reiterar que o inconveniente do uso
po, poderíamos citar: “O tempo, como uma do modelo é que ele por si mesmo gera novas
corrente incessante, carrega para longe abstrações. De qualquer forma, Bion enfatiza
todos os seus filhos”; ou “Da eternidade que o uso do modelo deve ser transitório e só
para a eternidade tu és Deus” – como uma
tem validade se estiver em consonância com
escala de tempo religioso.
a real experiência emocional de cada analis-
ta. Além do fato de cada psicanalista ter de
Também é útil consignar que Bion tra- criar e reconhecer os seus próprios modelos –
çava uma distinção entre modelo e abstra- devendo, para tanto, usar menos teorias –, ele
ção. Ele reservou o termo modelo para uma deve ter bem claro que os modelos criados só

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52 DAVID E. ZIMERMAN

servem para si, que são variáveis de paciente Dentre os múltiplos modelos criados por
para paciente e, também, que para cada um Bion, um dos mais conhecidos é o da grade, já
dos analisandos há uma variação de acordo referido, que pode servir como um claro exem-
com o estado mental das diferentes situações plo do quanto uma abstração teórica (funda-
analíticas. A propósito disso, Bion gostava do mentada em um sistema cartesiano composto
modelo de uma “espiral helicoidal”, dizendo de uma coordenada vertical – que é o eixo ge-
que “nas sessões, voltamos constantemente nético da evolução do pensamento –, e de uma
aos mesmos pontos, só que em diferentes ní- coordenada horizontal – que constitui o eixo
veis da hélice”, e seguidamente se referia a da utilização dos diversos níveis de pensamen-
três dimensões dos modelos: a dos sentidos, tos) pode estar a serviço de uma proposta, emi-
a dos mitos e a das paixões. nentemente da prática clínica. Essa afirmativa
Em relação à concepção da natureza do se baseia na possibilidade de, através de uma
processo psicanalítico, Bion asseverava que a posterior notação gráfica dos “elementos da
psicanálise não deve seguir o modelo da me- psicanálise” que ocorreram durante uma ses-
dicina clássica, com a sua tradicional noção são, o analista refletir sobre as vicissitudes desta
de cura médica. Pelo contrário, ele apregoa- e estudar o seu desempenho, notadamente so-
va que o psicanalista deve provocar um esta- bre a questão de estar havendo uma sintonia
do de “turbulência emocional” – que é um entre o nível de pensamento do paciente e o
outro modelo seu muito conhecido – sempre do analista na formulação das interpretações.
que a situação psicanalítica estiver estagna- A grade também permite exemplificar
da. O modelo visual proposto por Bion para como um modelo pode estar embutido dentro
esta última eventualidade é o de uma vara de um outro modelo. Assim, no modelo da gra-
que, interposta no curso das águas plácidas de, o encontro da fileira A (elementos
de um lago, provoca uma turbulência e so- protomentais) com a coluna 6 (da ação), de-
mente assim desperta uma atenção maior e signa um outro submodelo: o da evacuação
pode ser precebida. daqueles primitivos elementos β, sob a forma
de uma atuação. Da mesma forma, a grade tam-
Comentários: Creio que esse modelo ser- bém exemplifica o fato de que cada psicanalis-
ve para mostrar que, muitas vezes, na prática ta tem a liberdade de criar o seu próprio mo-
clínica, o psicanalista deve fazer com que uma delo de utilização particular, dentro das pre-
posição egossintônica na pessoa do paciente missas gerais de um modelo mais amplo, como
seja transformada em egodistônica. Ademais, é o da grade de Bion, que, aliás, deixou muitos
também penso ser válido, para iluminar o con- espaços vazios em seu modelo original para
ceito de “turbulência”, tomar o modelo da físi- que outros analistas os preencham com a sua
ca, da teoria de Einstein relativa ao “movimento própria inventividade.
browniano”, que afirma que os átomos somente
ficam visíveis através de uma elevada oscila-
ção dos movimentos moleculares. MODELO CONTINENTE-CONTEÚDO
Em O aprender com a experiência (1962),
Bion afirma que o modelo é a abstração da Em meio aos inúmeros modelos propos-
experiência emocional, ou a concretização de tos por Bion, aquele que é o mais conhecido,
uma abstração. Assim, o vínculo analítico im- citado, divulgado e de maior aplicabilidade
plica uma forma de modelar as abstrações; prática é, sem a menor dúvida, o da relação
portanto, em alguns casos, o fracasso do pa- de um continente com o conteúdo ( ). Esse
ciente em resolver os seus problemas pode modelo abrange uma multidimensionalidade:
decorrer da possibilidade de que ele esteja tanto ele designa uma mãe contendo as an-
utilizando mal os seus modelos próprios. O gústias do seu bebê como também pode ilus-
mesmo pode ser dito em relação a como o trar um ego contendo uma representação, de
psicanalista esteja utilizando os seus mode- uma palavra contendo um significado, um su-
los privados. jeito criando e contendo uma mentira, um gru-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 53

po contendo um indivíduo (ou vice-versa), tão sempre se alternando em uma mesma aná-
uma instituição contendo um místico ou um lise, e que são os momentos de suspensão tran-
indivíduo contendo as suas próprias dúvidas sitória das identificações que possibilitam os
e aflições; e, dentre tantos outros mais, esse difíceis e disruptivos – porém necessários ao
modelo também designa precipuamente a fun- crescimento mental – fenômenos de desiden-
damental interação do par analítico, em fun- tificações.
ção do interjogo entre as cargas de identifica- Bion descreve uma “cisão não-patológi-
ções projetivas e as introjetivas, de um para o ca” do analista, que é uma condição necessá-
outro. ria para que ele possa passar de um estado de
Como uma ilustração da aplicação práti- mente (dele ou do paciente) para um outro
ca, na situação analítica do modelo continen- estado mental – portanto, alude a uma dimen-
te-Conteúdo, é oportuno transcrever como a são espacial do psiquismo –, tal como aparece
psicanalista argentina E. Bianchedi – uma pro- nos modelos que Bion propõe no trabalho
funda conhecedora e divulgadora de Bion – e “Cesura” (1977c).
seus colaboradores desenvolvem novos mode- Comentários: De minha parte, atenden-
los esclarecedores e instigadores. do a uma sugestão de Bion de que cada psica-
Dessa forma, a partir desse modelo, mais nalista crie um vértice particular de observa-
precisamente da relação do “místico” (o por- ção de modelos, quero crer que o modelo de
tador de uma idéia nova) com o “establishment” um analista como sendo um continente dos
(o aspecto organizado e estável de qualquer conteúdos ansiosos de seu paciente (ou de uma
instituição, a mente inclusive), os autores pro- mãe com o seu filho que está projetando maci-
põem um excelente desdobramento, como uma çamente as suas angústias dentro dela) abri-
forma de entendimento do conceito de “cres- ga, a um só tempo, as três dimensões da vida
cimento mental” (1989). psíquica: a do espaço, a do tempo e a do desejo.
Assim, secundando a Bion, eles mostram A dimensão espacial está suficientemen-
que esse crescimento não se processa de for- te exemplificada no modelo da “cesura”. A di-
ma linear como nas plantas, mas através de mensão temporal transparece claramente no
saltos disruptivos, dentre os quais são de espe- fato de que deve decorrer um tempo dentro
cial importância os momentos das desi- do analista, desde a sua “escuta analítica” até
dentificações. Bianchedi, a partir da relação a formulação final da interpretação. Trata-se
entre a “idéia nova” e o “estabelecido”, formu- de um período que se processa dentro do
la um novo modelo clínico de vínculo analíti- “continente” do analista e que demanda uma
co, propondo três possibilidades de diálogo na certa paciência, tanto para conter o seu pró-
interação paciente – analista: a) o diálogo con- prio “não saber” como para respeitar a veloci-
vencional, em que há uma tendência a evitar dade e o ritmo peculiar de cada paciente em
desacordos, e ambos buscam os familiarizados separado.
“lugares comuns”; b) o diálogo psicanalítico, em Também penso que a dimensão do desejo
que há uma tolerância ao desencontro das pers- pode ser mais bem compreendida através da
pectivas prévias de cada um, e que, portanto, origem etimológica desse vocábulo. Assim, “de-
possibilita o encontro de novos e diversifica- sejo” se forma a partir do prefixo de (privação)
dos vértices; e c) o diálogo suspenso, que cor- e sidus (astro), o que permite dizer que desig-
responde a momentos de “mudanças catastró- na um anelo por uma estrela que está tão per-
ficas”, em que as identificações do paciente e to dos olhos e tão longe do alcance das mãos.
do analista estão em suspenso. Creio que este Portanto, a palavra “desejo” alude à perda de
último tipo de diálogo possivelmente pertence algo, que, por conseguinte, causa a instalação
também ao campo da extra-sensorialidade e de uma falta, acompanhada por um desejo pre-
pode ser concebido como uma experiência pu- mente de preenchê-la. Destarte, quanto mais
ramente emocional. Bianchedi deixa claro que regressivo for o paciente, maior será o seu de-
esses três tipos de diálogos psicanalíticos es- sejo por um continente que lhe faltou no pas-

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54 DAVID E. ZIMERMAN

sado, e, ao mesmo tempo, o continente do ana- mais do que a uma ilustração teórico-clínica, e
lista é o único que pode conter esse desejo. que uma multiplicação infindável de outros
Conforme enfatizava Bion, os modelos tantos excelentes modelos poderia ser aqui uti-
analíticos somente têm validade se encontra- lizada. O que importa, não custa repetir, é que
rem uma aplicabilidade na prática clínica. As- os modelos são muito úteis, porém transitóri-
sim, a aplicação do modelo continente-conteú- os, e que, conforme afirma Meltzer (1975):
do, segundo o vértice da contenção de espaço,
tempo e desejo, tal como esbocei, pode ser en- Todos nós adquirimos, através de nossa
tendida, na prática, da forma que segue. A fa- educação e desenvolvimento, preconcep-
lha da continência espacial, quando se trata do ções maciças de modelos, teorias e idéias
espaço intrapessoal, costuma provocar uma di- das quais temos que gradualmente nos li-
ficuldade de discriminação entre os conteúdos bertar para nos sentirmos livres para re-
mentais; se a falha for no espaço interpessoal – ceber novas impressões, pensar novos pen-
a zona transicional entre o analisando e o ana- samentos e formar novos modelos.
lista –, decorrerá um prejuízo na capacidade de
criatividade. No caso em que a falha de conti- À guisa de resumo, vale repetir que Bion
nência do analista ocorrer em relação ao con- estimulou que cada psicanalista crie os seus
teúdo inerente ao tempo, não só haverá uma próprios modelos, adequados ao seu modo
falta de consideração pelo ritmo e velocidade específico de ser e de trabalhar, e que os em-
de cada analisando em particular, como tam- pregue não para enriquecer a teoria psicana-
bém a atividade interpretativa do analista to- lítica, mas para praticar a construção de mo-
mará uma feição do tipo “pingue-pongue”, sem delos dentro do vértice da observação clínica
que se tenha o tempo necessário para as associa- e, assim, promover novas aberturas e formas
ções e reflexões e para um ensaio de insight de comunicação. Uma vez que o modelo fica
elaborativo. Da mesma forma, se o analista não superado, ele deve ser descartado.
contiver o desejo do paciente por um continen- Assim, o modelo que a mim ocorre para
te – e isso comumente aparece disfarçado sob conceber esta última definição é o dos andai-
uma forma erotizada, ou agressivo-reativa –, a mes de uma obra em construção: eles são úteis
análise estará fadada a uma apatia recíproca. e indispensáveis até que a construção se com-
É claro que a sumária transcrição dos plete, e então são dispensados.
modelos anteriormente mencionados não visa

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 55

4
Sobre uma Experiência
Pessoal com W. R. Bion
Luiz Alberto Py*

Meu primeiro contato com as idéias de estudava, lia muito, prestava atenção nas au-
Bion se deu quando eu ainda estava em for- las, aprendia a evolução do pensamento freu-
mação, no Instituto de Psicanálise da Socieda- diano, construía teoricamente uma razoável
de Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Na- visão das neuroses humanas – sem falar das
quela época, paralelamente ao curso de for- psicoses –, mas isso não me parecia suficiente
mação, para meu sustento, eu trabalhava num quando me encontrava no consultório com
hospital psiquiátrico e montara, juntamente meus clientes.
com alguns colegas, um consultório onde pra- Recorria à proposta de Freud: tornar cons-
ticava psicoterapia. ciente o inconsciente. O trabalho andava, os
À noite, eu ia para a Sociedade de Psica- clientes continuavam a vir às sessões, mas eu
nálise em busca de conhecimentos que me per- me sentia inseguro quanto ao que estava fa-
mitissem trabalhar de forma competente. Du- zendo. Freqüentemente me perguntava o que
rante o dia, eu me encontrava com pessoas que poderia fazer para perceber o que era incons-
confiavam em mim, que iam ao meu consultó- ciente para meus clientes.
rio na esperança de que os ajudasse. E eu que- Costuma me sentir como se estivesse ten-
ria ajudá-los, pois estavam me sustentando, me tando rebater uma bola, como um jogo de tênis
ajudando a pagar a minha análise, os cursos na ou pingue-pongue. O cliente falava, e eu procu-
Sociedade de Psicanálise, a moradia, a alimen- rava responder com uma interpretação. A idéia
tação e tudo o mais. Eu tinha muito interesse era que as interpretações com que retrucáva-
em oferecer um bom serviço a essas pessoas. mos à fala do analisando seriam curativas –
Minhas primeiras lições de psicanálise me como se fossem uma medicação – desde que
levaram à idéia de construir um corpo de co- tornássemos consciente o seu inconsciente, ten-
nhecimentos que me permitisse trabalhar como do como referência sistemática a transferência.
psicanalista. Isso parece óbvio, mas, com o tem- A transferência, eixo de nosso trabalho, era
po, fui descobrindo que não era bem assim. Eu entendida como a possibilidade de referenciar

*
Médico-psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

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56 DAVID E. ZIMERMAN

à pessoa do analista tudo ou quase tudo que o to específico da sessão de análise. Ou seja, em
cliente falasse durante a sessão. Assim, se dis- vez de entender que nosso cliente se sentia rou-
sesse, por exemplo, que se sentia roubado pelo bado por nós pelo mero fato de chegar no con-
guardador de carros que lhe cobrava muito caro, sultório se queixando do carro, tentaríamos
deveríamos responder – interpretar – que esta- entender o que o levava a optar por fazer tal
va se sentindo roubado por nós. Se dissesse que queixa em vez de qualquer outra coisa que
pretendia enganar o guardador, deveríamos en- poderia estar dizendo. A pergunta que passei
tender e interpretar estava querendo nos enga- a me fazer era: “O que será que faz com que
nar. Se dissesse que estava com raiva da namo- esta pessoa saia de sua casa para vir aqui me
rada que não o compreendia, devíamos lhe di- falar de sua irritação com um guardador de
zer que ele estava com raiva do analista porque carros que ela acha que está lhe roubando?”.
achava que não o compreendia. E, principalmen- Quando passei a prestar atenção nesses
te, devíamos interpretar atentamente o que era aspectos, aconteceram coisas surpreendentes
chamado de “transferência negativa”, ou seja, no meu trabalho. Comecei a perceber que eu e
mostrar para nosso analisando que ele estava o meu cliente não sabíamos o que estávamos
com raiva do analista, ou com qualquer outro fazendo; tentávamos “fazer psicanálise”. Ele
sentimento negativo, sempre que algo negativo ficava no papel de analisando e eu no papel de
estivesse contido na sua fala. analista. Ele ia para o meu consultório, pen-
Eu me sentia desconfortável fazendo esse sando: “... eu vou fazer análise lá com o Dr.
tipo de trabalho interpretativo, porque não con- Py”. E eu ia também para o consultório pen-
fiava que tais interpretações correspondessem sando: “... eu vou analisar o meu cliente, Sr.
necessariamente à realidade psíquica de meus Joaquim”. Eu sentava numa cadeira, ele deita-
clientes. O mais difícil era suportar o sentimen- va no divã, ele fazia análise comigo, e eu fazia
to de ridículo que me importunava permanen- análise dele. Mas estávamos principalmente de-
temente, além de sentir, cada vez com mais cla- sempenhando papéis, não nos perguntávamos:
reza, que essa atividade pouco os ajudava. “O que estamos fazendo aqui?” “O que real-
Foi quando se mudou para São Paulo o mente está acontecendo entre nós?”.
psicanalista inglês Frank Philips, discípulo de Descobri que não sabia o que estava fa-
Bion. Sua chegada efetuou uma radical trans- zendo em meu próprio consultório. Percebia
formação em meu desenvolvimento. Após as- que tinha uma influência na vida de meus clien-
sistir a alguns seminários com Philips, procu- tes, que eles, como eu, não sabiam bem qual
rei-o para supervisão, encantado com a abor- era, mas mostravam estar valorizando, pois
dagem, para mim nova e original, que fazia do voltavam às sessões.
trabalho psicanalítico. O trabalho com meus clientes passou a
Philips me deu uma outra idéia do fenô- girar em torno de questões como: “O que a gen-
meno transferencial. Mostrou-me que, de acor- te está fazendo?” “Por que essa coisa que a gen-
do com o pensamento de Bion, sempre havia te está fazendo aqui é saudável?”.
um clima emocional presente entre duas pes- Aprendi que Bion questionava o autori-
soas que se encontravam regularmente sozinhas. tarismo com que nós, analistas daquela épo-
Nossa tarefa como analistas seria perceber os ca, lidávamos com nossos clientes. Nós nos
elementos dessa relação e comunicá-los a nos- colocávamos como donos da verdade do in-
so cliente. Sua proposta era entender o signifi- consciente deles, e nossas interpretações eram
cado do encontro entre o analista e seu anali- formuladas num tom de quase certeza abso-
sando. luta. Estimulado por minha supervisão, pro-
Aprendi com Philips que a observação da pus-me a me despir da postura autoritária e
transferência não era meramente uma trans- inclusive denunciá-la aos meus clientes, ques-
posição direta do discurso do analisando para tionando sua tendência a aceitarem de forma
a relação analítica, mas tentar ouvir as moti- submissa meu pretenso saber sobre seus in-
vações que levariam nosso cliente a dizer cada conscientes. O resultado dessa mudança em
palavra e tomar cada atitude, em cada momen- minha postura trouxe uma dificuldade para

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 57

meus clientes, pois privou-os do recurso de lítico. Ou seja, em vez de passivamente forne-
se entregarem para mim e dizerem para si cer material para minhas elocubrações, passou
mesmos que estavam sendo devidamente cui- a conversar comigo sobre suas reflexões, so-
dados por mim. Passaram a ter também res- bre, enfim, nossa psicanálise. Era uma porta
ponsabilidade de verificar se o que eu estava que seria aberta.
fazendo era algo valioso para eles. Antes, os Esse episódio simboliza toda uma evolu-
analisandos iam para o consultório, ficavam ção que foi lentamente ocorrendo. Situações
ouvindo interpretações e esperando que en- semelhantes aconteceram, eu comecei a for-
trassem dentro deles e os curassem, como mular diferentemente minhas palavras e per-
quando uma pessoa toma um remédio e acre- cebi que podia contar com a colaboração de
dita que aqueles dois comprimidos que o dou- meus clientes. Eles não eram meros fornece-
tor receitou vão fazer com que ele fique bom. dores de material, eventualmente poderiam
O espírito com que os analisandos iam para a desempenhar o papel de psicanalistas. E mais,
análise comigo naquela época era esse, e eu compreendi que a psicanálise só seria bem-su-
praticava uma mágica que funcionava razoa- cedida na medida em que eles fossem capazes
velmente, graças à auto-sugestão dos clien- de desenvolver sua capacidade psicanalítica, a
tes, uma espécie de efeito placebo. Quando capacidade de interpretarem o que sentiam.
comecei a questionar a situação e a indagar a Dito de outra forma: em vez de os clientes ape-
mim e a meus clientes o que realmente ocor- nas contarem seus sonhos, eles, estimulados
ria na análise, ocorreu uma interessante trans- por minha nova postura, passaram a contar o
formação: eles passaram a assumir a respon- sonho e suas interpretações, suas opiniões so-
sabilidade de separar o joio do trigo nas mi- bre ele. Isso certamente era muito útil para
nhas palavras. mim, para nosso trabalho, porque podíamos
Philips colocava constantemente a ques- trocar idéias. Passamos a viver uma situação
tão de como o analista fazia para analisar, qual em que éramos pessoas que trocavam idéias a
o equipamento utilizado por ele e como ele se respeito das coisas que passavam nas suas ca-
posicionava ante seu cliente para trabalhar. E beças. Parece óbvio, mas me custou muito tem-
essa era a indagação que eu procurava. Perce- po de esforço, de trabalho, de sofrimento. Na
bi que era importante para a evolução da qua- Sociedade, ninguém falava dessas questões,
lidade de meu trabalho que eu voltasse minha apenas de sofisticadas teorias, predominante-
atenção para aprimorar meus processos de evo- mente sobre a constituição do aparelho psíqui-
lução em vez de simplesmente me dedicar a co humano ou sobre a patologia dos neuróti-
estudar a mente doente de meus clientes. Data cos e psicóticos.
dessa época minha ojeriza pela idéia de cha- Achei que fazia sentido me dedicar a algo
mar os analisandos de “pacientes” e o trabalho que me ajudasse a funcionar melhor como ana-
analítico de “tratamento”. Descobri que Bion lista, ou seja, em vez de tentar acumular co-
afirmava que a terminologia médica havia con- nhecimento e leitura, na esperança de que isso
taminado negativamente a psicanálise. me tornasse um bom profissional, entendi que
Durante uma sessão com uma paciente, podia ser mais útil dar atenção ao processo de
eu respondi a algo que ela havia acabado de me preparar para estar mais apto internamen-
falar dizendo: “Isto sugere que...”. E segui um te para o trabalho. Um tradicional provérbio
raciocínio qualquer, do qual não me lembro indiano diz: “Quando o discípulo está pronto,
mais. Mas o que eu lembro, e nunca mais es- o mestre aparece”. Tomei para mim a idéia de
queci, foi que, quando eu falei “Isso sugere...”, que meu compromisso devia ser tentar me pre-
ela entendeu: “Você sugere...” e me respondeu parar para ser uma pessoa mais bem capacita-
com surpreendente entusiasmo: “Ah! Eu sugi- da para funcionar como analista, investindo no
ro? Ah! Você acha que eu estou sugerindo? Ah! “ser”, e não no “saber”.
É? Pois é, porque eu até poderia te dizer mais Comecei a buscar esse novo tipo de abor-
coisas...”. Daí em diante ela começou, por as- dagem, e isso foi fascinantemente transforma-
sim dizer, a colaborar com o trabalho psicana- dor na minha vida profissional. O primeiro arti-

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58 DAVID E. ZIMERMAN

go que escrevi sobre psicanálise chamava-se partir de então, de conversar sobre essas ques-
“Observando uma Interpretação” e era sobre tões.
um episódio semelhante aos muitos que então Algo que era um empecilho para o traba-
ocorriam em meu consultório. Uma cliente, ao lho se tornou uma força motivadora, positiva,
chegar para a sessão, havia dito: “A minha mãe pois, ao ver essas coisas todas, ela percebeu
é que me lembra da hora que eu tenho que vir como uma melhor compreensão do que se pas-
para cá. Eu sou uma pessoa muito biruta, eu sava dentro de si mesma lhe trazia alívio. Tam-
me esqueço das coisas, eu ontem até esqueci bém foi um progresso a diminuição de sua pre-
da hora da costureira”. ocupação e tensão em relação às questões se-
Fiquei pensando o que dizer: “... lembra- xuais. Cada vez mais eu percebia que tinha a
va,... lembrar não lembra, ela está precisando capacidade de me deixar abandonar e que cons-
que lembrasse as coisas pra ela, que eu era que truía alguma coisa a partir daquela situação
nem a mãe dela, que ela esperava de mim que de descontração, de relaxamento. Assim, fui
eu fosse...”. Mas nesse momento eu estava já construindo uma postura pessoal como psica-
imbuído da idéia de não me agarrar à primei- nalista. Percebi que estava num bom caminho,
ra interpretação que me ocorresse e me permi- meu trabalho melhorou de qualidade, e os
tia procurar um pouco mais e esperar. Real- clientes reagiram, melhorando também.
mente, após algum tempo, uma outra percep- Eu sabia que, na década de 50, Bion es-
ção me ocorreu: aquela moça – era menina, crevera uma série de artigos sobre análise de
tinha 17 anos e era bastante infantil – ficava psicóticos e desenvolvera idéias bastantes ori-
aflita, angustiada por estar ali comigo. Ela ti- ginais sobre a origem do pensar. Descobri que
nha que me falar qualquer coisa para não ficar nos últimos anos vinha se dedicando a uma
em silêncio, para nós não ficarmos em silên- reflexão sobre a atividade do analista. Era um
cio, e, nesse falar qualquer coisa, o que ela ti- enfoque novo, Bion optava por dar atenção aos
nha dito a respeito de sua mãe significava dar processos mentais do analista em vez de estu-
uma utilidade a ela. Eu lhe disse que achava dar os processos mentais do analisando, como
que ela sentia necessidade de dar uma função, mandava a tradição psicanalítica.
uma utilidade para mim. Aprendi que Bion desenvolvera a idéia de
Ela respondeu: “Ah! Isso é birutice sua.” que, para poder melhor trabalhar, o analista
Respondi: “Quando eu não cumpro a fun- devia tentar ativamente se abster de lançar mão
ção que você quer dar para mim, ou seja, a de de sua memória e procurar evitar quaisquer
interpretar, de ser psicanalista, você fica com desejos em relação à situação analítica, princi-
raiva, diz que eu sou biruta. Para você é uma palmente, dizia ele, o desejo de curar ou en-
coisa ameaçadora, quer dizer, enlouquece. tender seu analisando.
Quando você diz que eu sou louco...” Ele afirmava que nosso desejo obscure-
A partir daí fomos conversando sobre isso, cia nossa capacidade de perceber as sutilezas
e aos poucos ficou claro que aquela situação de significados contidos na comunicação (ver-
psicanalítica era muito difícil para ela supor- bal ou corporal) do analisando, e que livrar-se
tar, porque era uma oportunidade na qual de seus próprios sentimentos libertava o ana-
emergiam emoções sexuais que se sentia na lista para melhor observar a realidade psíqui-
obrigação de reprimir. Não era de bom tom. ca de seu cliente.
Ela era uma menina de 17 anos, de um colégio A experiência de tentar evitar desejo e
de bom nível, e, em 1966, o mundo era com- memória durante o trabalho era fascinante.
pletamente diferente, as jovens deveriam se Meu treinamento tinha sido no sentido de pro-
manter virgens até o casamento. Ela recebera curar lembrar o que acontecia em cada sessão,
todo um aprendizado de que essas emoções o que o cliente contava, e escutá-lo, tentando
sexuais tinham que ser reprimidas. Se elas sur- associar o que estava sendo dito com as coisas
gissem ali, iam ser muito desconfortáveis para ditas anteriormente. A proposta de Bion liber-
ela, ela não deixava surgir. Fomos capazes, a

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 59

tava o analista de tais preocupações. Ele co- líticas eu recomendava, respondi aconselhan-
mentava que a memória tem um caráter de per- do Dostoiévski e Shakespeare.
cepção que dificulta novas percepções, e que Em 1973, Bion veio pela primeira vez ao
nos libertar da memória ajuda a perceber o que Brasil, tendo proferido uma série de oito pa-
ocorre a cada momento na relação emocional lestras em São Paulo. Seu contato inicial com
entre analista e analisando. Ao mesmo tempo, os brasileiros deu-se através de uma fábula,
libertar-se do desejo significa estar livre para disfarçada de relato histórico, acerca do Cemi-
poder apreciar os acontecimentos sem se sen- tério Real de Ur.
tir obrigado a intervir. Deixando a memória (o Ao morrer o rei, nos disse Bion, os minis-
passado) e o desejo (o futuro) de lado, eu po- tros da corte se alojaram junto com seu cadá-
dia me concentrar em viver plenamente a ses- ver numa escavação, desde então conhecida
são analítica (o presente). Bion afirmava que como “O Poço da Morte”, e lá, vestidos com
só podemos nos encontrar com nossos clientes suas melhores roupas e adornados de ricas jói-
no aqui e agora de cada momento de uma ses- as, tomaram uma droga em pequenos copos,
são, pois o passado já não existe, e o futuro que depois foram encontrados junto a cada
ainda não chegou. corpo. Quatrocentos anos depois, sem qualquer
O mais importante para mim, no entan- publicidade, a tumba foi saqueada. Diz Bion
to, foi o fato de que o contato com as idéias de que esse assalto foi um ato de coragem, pois o
Bion me possibilitou compreender que não lugar estava santificado pela morte e pelo en-
eram os conhecimentos do analista o que im- terro de toda a família real. Segundo ele, os
portava para um bom trabalho, mas sua PES- assaltantes foram patronos do método cientí-
SOA. Isso quer dizer que, para sermos analis- fico, por terem ousado irromper através de mal-
tas capazes, temos que nos aprimorar, sermos dições e fantasmas que guardavam a tumba.
mais sadios em todos os sentidos, tanto física Dos variados símbolos dessa pequena his-
quanto mentalmente. Em outras palavras, um tória, que inclui mortes, maldições, drogas,
bom ser humano tem melhores possibilidades religiosidade, etc., Bion utilizou os saqueadores
de ser um bom analista do que um erudito. para enfatizar seu ponto de vista de que os psi-
Nossa meta seria em primeiro lugar a sabedo- canalistas precisam de coragem para se apro-
ria, e não o simples saber. ximarem de seu objetivo, o inconsciente, guar-
Essa preocupação com o ser do analista, dado por múltiplos e terríveis fantasmas.
em vez do seu saber, eu já havia encontrado
antes em um analista argentino. Emilio Rodrigué Para nós, não é necessariamente de gran-
escrevera sobre a “cozinha” da interpretação, de importância aprender o que Freud e
interessado no processo de funcionamento men- outros descobriram; o que importa é que
tal do analista que o torna mais apto para dizer se deveria aprender o valor daquilo que
algo proveitoso para seu cliente. hoje em dia chamamos de atividade psi-
A partir de Bion, o próprio conceito do cológica ou psicanalítica, isto é, psicanáli-
que seria proveitoso de ser dito para meu se PRÁTICA. Esta vasta área necessita de
investigação, não de ossificação. É de im-
cliente passou a ser mais e mais complexo.
portância fundamental que não seja trata-
Aos poucos, fui levado a questionar todos os da como um assunto fechado.
dogmas psicanalíticos. Revi experimental-
mente as questões de freqüência e duração
Adiante, na mesma conferência, Bion
das sessões e a crucial questão da escolha do
prossegue:
que interpretar a cada momento, dentre as
várias possíveis alternativas, e até mesmo a
difícil opção entre formular uma interpreta- Em cada consultório, deveria mais preci-
samente haver duas pessoas amedronta-
ção ou ficar calado. Na época, ao ser indaga-
das, o paciente e o psicanalista. Se não
do por um colega sobre que leituras psicana- estão, então seria o caso de se perguntar

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60 DAVID E. ZIMERMAN

por que estão se incomodando em desco- ram ao poder nas diversas instituições muito
brir o que cada um já sabe. É tentador sem- se assemelham aos que se deixaram morrer na
pre se ocupar com algo familiar. Esta ten- tumba, provavelmente repetindo como um ca-
tação é maior para os psicanalistas do que tecismo as palavras de seus mestres.
para os outros, porque é uma das raras
Bion inquietava-se com a idéia de que pu-
situações em que se podem absorver numa
desse haver algum dia um movimento “bioniano”
ocupação aterradora, mesmo sem terem
que sair de casa. e não se cansava de repetir que conhecia melhor
que ninguém seus próprios defeitos. Falando so-
bre essa questão, ele certa vez comentou comi-
A primeira palestra de Bion nos causou um
go, no tom de ceticismo que lhe era próprio:
profundo estado de estupefação, apesar e por
causa da reverência com que havia sido acolhi-
Você acha que daqui a cem anos, se até lá
do. Após algum tempo, compreendi que Bion me
ainda existir humanidade, alguém ainda
tornara verde um sinal vermelho. Até então, sem-
se dará o trabalho de ler artigos sobre psi-
pre que me sentia atemorizado, ou angustiado, canálise? Certamente, se a civilização ain-
durante uma sessão, acreditava estar seguindo da existir, continuarão a ler Shakespeare.
um caminho perigoso e estancava. Encorajado
pelas idéias desenvolvidas por Bion nessa primei-
Em outro momento, disse: “E quanto a
ra série de conferências, eu me dispus, a partir
Beethoven, você acredita que alguma socieda-
de então, a suportar medo e confusão para po-
de de psicanálise o aceitaria como membro?”.
der me aproximar do que realmente me impor-
Aprendi com Bion a desprezar a possibi-
tava como psicanalista: o desconhecido.
lidade de me enterrar na cova da satisfação
Aqueles que acompanharam o rei de Ur à
com meu sucesso e minha sabedoria, cercado
sua cova e com ele lá se encerraram represen-
de honrarias e reverenciado como um pilar da
tam uma versão mais antiga do diretor do de-
sociedade de psicanálise, sem a necessária vi-
partamento de patentes da França que, em fins
talidade para seguir seu exemplo, preferindo
de século XIX, demitiu-se e propôs a extinção
morrer lutando para aprender, consciente de
de seu corpo, afirmando que nada mais havia
minha ignorância e prosseguindo na árdua tri-
para ser inventado.
lha da investigação da mente humana.
Através dos tempos, temos visto a gran-
Ele dizia que o analista devia tentar se
de maioria das sociedades de psicanálise ter
libertar da prisão representada pelo seu pró-
um comportamento hostil e violento para com
prio desejo. Até porque, se o cliente perceber,
aqueles que ousam sugerir novas idéias e for-
captar, conscientemente ou não, o desejo do
mas de trabalho psicanalítico. Tradição lamen-
analista, ele pode controlá-lo frustrando ou sa-
tavelmente iniciada com o próprio Freud, que
tisfazendo seu desejo. Se o analista quer que o
manifestava enorme dificuldade em conviver
cliente melhore, ele melhora ou piora, e assim
com idéias que divergissem das suas. São
pode manipular o analista, manifestando me-
incontáveis os analistas expulsos das socieda-
lhoras ou pioras.
des pela prática de heresias contra a tradição
Ele tinha, percebia-se, uma consciência
psicanalítica. Esses surtos de dogmatismo es-
muito clara de que só se pode fazer psicanálise
túpido representam uma versão atualizada da-
trabalhando no sentido de tentar aprender o
queles que preferiam se enterrar com o rei a
que não sabemos, para o que é preciso agüen-
viver sem ele. Pior ainda, os ousados pensado-
tar a confusão e o sofrimento da ignorância e
res execrados ontem são transformados pelas
ser capaz de esperar que surja uma luz, às ve-
diferentes instituições psicanalíticas em mons-
zes uma difusa claridade, para que possamos
tros sagrados que, a despeito do que nos ensi-
finalmente descobrir algo que valha a pena ser
nam suas palavras e suas próprias biografias,
apreendido, conhecido. Ao longo dos anos,
não podem mais ser contestados ou mesmo
aprendi que a inspiração – ou a voz de Deus – se
questionados. Os psicoburocratas que se agar-
manifesta sobre a forma de um sussurro, e não

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 61

como um trovão, como costumamos acreditar. portar e a superar seus medos, evitando que
Se não conseguimos agüentar o sofrimento de eles o impeçam de levar seu trabalho avante, e
não saber, estamos condenados a nos iludir, ajudar seu analisando a também conseguir su-
achando que já sabemos. Condenados porque, portar essa situação de temor quando ele se
quando precisamos de um resposta, encontra- dispõe a ficar despido de suas defesas, entre
mos alguma qualquer, mas muito provavelmen- elas a de iludir-se de que já sabe aquilo que
te não a verdadeira. ignora ou que está buscando saber. Costumo
É importante considerar que não fazemos caracterizar essa situação através de uma ane-
psicanálise em busca de respostas ou interpre- dota.
tações, mas para suportar a oportunidade de Conta-se que certa noite, chegando à por-
um encontro em que há a possibilidade de se ta de sua casa, um homem encontra o vizinho
descobrir o que pode acontecer com a mente aflito, abaixado junto a um poste de ilumina-
humana quando duas pessoas se dispõem a real- ção. Curioso, aproxima-se e pergunta o que está
mente se encontrarem. A meu ver, essa investi- acontecendo. O vizinho explica que perdeu o
gação é que merece o nome de psicanálise, seja chaveiro, começam juntos a procurá-lo, o vizi-
ela feita uma ou dez vezes por semana, por 15 nho descreve o chaveiro: dourado, com três
ou 80 minutos, deitado num divã, caminhando chaves, etc. Após algum tempo, o homem per-
pela beira da praia ou no jardim de uma praça gunta ao vizinho: “Mas onde foi exatamente
de Viena. A atividade psicanalítica encarada que caiu esse chaveiro?” Ao que o vizinho res-
dessa forma nos leva inevitavelmente à criativi- ponde: “Foi lá na esquina”, e aponta um lugar
dade, e é só criando que se chega a algo novo, a a uns 20 metros de distância. E, percebendo a
uma descoberta. E assim poderemos oferecer a surpresa do outro, esclarece: “Mas eu vim pro-
nós, analista e analisando, algo que seja real- curar aqui, junto ao poste de luz, porque lá
mente substancial para nossas mentes e contri- está muito escuro.”.
bua para nossos processos de evolução. De volta ao Rio de Janeiro, depois de al-
Voltando a Ur, creio que, quando Bion guns anos de trabalho, eu vivia um período de
menciona o rei sendo enterrado com sua cor- sucesso profissional, mas de excesso de traba-
te, está sendo enterrada toda uma era psica- lho em conseqüência do próprio sucesso. Che-
nalítica, quando trabalhávamos com a ilusão gou o momento em que eu estava intoxicado
de que se sabia o que se estava fazendo. Du- pelo tanto que trabalhava e sem saber o que
rante algum tempo, os analistas sabiam tudo fazer, como administrar o dinheiro que eu ga-
direitinho, o caminho estava todo balizado. nhava. Hoje, olhando retrospectivamente, isso
Quando, hoje, nos perguntamos o que é é muito claro para mim, e posso descrever em
a formação psicanalítica à luz dessas reflexões, poucas frases a minha situação, mas naquela
vemos que ela não é apenas ensinar textos da época eu nada percebia, vivia de casa para o
área, mas formar as pessoas, isto é, ajudá-las a consultório, do consultório para casa, traba-
serem capazes de descobrir por elas mesmas lhando sem parar. Aplicava mal o dinheiro que
as coisas que têm de ser descobertas. Em psi- ganhava, gastava-o sem planejamento e sem
canálise, como em qualquer outro ramo do co- tirar prazer dele. A relação comigo mesmo, com
nhecimento humano, o que não se sabe é mui- meu corpo, era ruim, estava gordo, pesado, pra-
to mais do que o que se sabe, o que deveria ticamente não fazia exercícios, de vez em quan-
nos interessar é exatamente o que ainda não do uma corrida na praia, nada que fosse har-
sabemos. Devemos ir para a fronteira do nos- monioso, nada de novo.
so conhecimento e lá trabalhar com a nossa Criei o hábito de ir à noite para um cine-
ignorância, não com o conhecimento. ma drive-in, qualquer que fosse o filme. Ficava
Tal situação é, todavia, amedrontadora, lá, dentro do carro, vendo o filme passar, ou
pois estaremos lidando com o desconhecido, e talvez nem vendo, e comendo algum sanduí-
isso inevitavelmente nos provoca medo. Assim, che. Hoje, percebo que eu não queria contato
o trabalho do analista envolve aprender a su- com quem quer que fosse. Depois de um dia

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62 DAVID E. ZIMERMAN

de trabalho em que chegava a ver quatro gru- co antes de Bordeaux e peguei um trem no sen-
pos com dez clientes cada, fora alguns clientes tido inverso que me deixou numa cidadezinha
que atendia em sessões individuais, à noite eu onde peguei um ônibus que me levou a Saint-
não suportava nem a proximidade física de se- Cyprien, cidade perto de onde Bion tinha a sua
res humanos que a cadeira de um cinema nos casa. Lá chegando, largaram-me numa praci-
traz. Tinha que ficar no drive-in, protegido de nha. Pus a mala nas costas e saí em busca do
contato pela carroceria de um automóvel. A hotel L’Abbey, que tinha sido reservado de an-
coisa mais sensata que consegui fazer na oca- temão, reserva inclusive confirmada.
sião foi procurar uma nova análise, um novo Chegando ao hotel, encontrei-o super-
analista. Nessa época de dinheiro fácil, dispus- lotado, e não havia reserva nenhuma. Preocu-
me a buscar o melhor, e para mim o melhor pado com meu encontro com Bion, larguei a
analista que havia era Bion. Quando ele veio mala no hotel e me mandei para a estrada. Bion
ao Rio, em 1974, procurei-o e propus que ele havia me enviado um mapa que eu esquecera
me aceitasse para análise nas seguintes condi- de trazer, mas sabia mais ou menos o rumo.
ções: eu tiraria dois meses de férias por ano, Saí pela estrada a pé e, depois de uma ou duas
janeiro e agosto, e quando ele viesse ao Brasil horas de caminhada, acabei dando na casa de
eu estaria com ele para análise. Ele concordou, um vizinho de Bion que me mostrou o cami-
e em janeiro de 1975 fui a Los Angeles para nho, por dentro da mata, descendo um peque-
um primeiro período de cinco semanas de aná- no vale e subindo pelo outro lado. Cerca de
lise com sessões diárias. meia hora depois, rastejando, terminei de su-
O sucesso profissional tinha me trazido bir uma colina e me vi nos fundos da casa de
de volta a questão da minha dúvida sobre mi- Bion. Eu devia estar parecendo um flagelado,
nha vocação, e eu me dizia que o fato de fazer foragido da polícia. À pessoa que me recebeu,
meu trabalho de uma forma bem-sucedida não desconfiada, eu disse que tinha uma hora
me tranqüilizava a respeito de se era o que que- marcada com Bion.
ria fazer. Hoje, sei que o problema era muito Eu havia lhe telefonado de Paris e ele
mais da intensidade, do trabalho em excesso, me dissera que me atenderia a qualquer hora
mas, na época, duvidava um pouco da minha que eu chegasse, acho que já prevendo que
vocação e me questionava sobre isso, dizendo eu teria dificuldades; fui conduzido então para
a mim mesmo que, afinal de contas, eu não uma pequena salinha numa torre, fora da
sabia se estava fazendo o que realmente gos- casa, onde, poucos minutos depois, ele me en-
tava – minha real vocação – ou se estava ape- controu. Atirei-me no seu sofá depois de
nas seguindo a atividade profissional do meu cumprimentá-lo, descrevi da forma mais mi-
pai, que também era analista. Nesse primeiro nuciosa a minha odisséia e terminei comen-
período, em Los Angeles, esse foi um dos as- tando que havia sido difícil chegar lá. Ao que
suntos abordados. ele respondeu, cortante: “Difícil, mas você che-
Em agosto do mesmo ano fui encontrar gou; o que você não está conseguindo mesmo
Bion no interior da França, onde ele tinha uma é fazer análise.”.
casa de campo e passava um ou dois meses do Aquilo foi uma ducha de água fria em todo
verão, em férias. Ele havia concordado em me o meu entusiasmo. Percebi que com meu lon-
atender enquanto estava de férias, e eu rumei go relato estava desperdiçando o “nosso precio-
para lá. Foi curioso, pois, no dia em que che- so tempo”, como ele gostava de dizer toda vez
guei, percorri uma longa jornada até chegar à que eu falava alguma coisa que ele achava que
sala onde ele me receberia. Decolei do Rio não tinha importância.
numa quinta-feira à noite, cheguei a Paris na Nesse período, um dia voltei ao assunto
sexta-feira à tarde. Passei o fim de semana em da minha preocupação com a minha profis-
Paris e, no domingo à noite, tomei um trem são e das dificuldades que eu tinha em sentir
em direção ao sudoeste da França. Saltei pou- segurança sobre a minha vocação. Ao mesmo

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 63

tempo, trazia um certo conformismo e acres- num texto dele uma referência a essa conver-
centei que havia lido em algum lugar que sa, em que ele mencionava que havia conver-
Beethoven, quando menino, não gostava de sado com um cliente sobre a diferença do ori-
estudar música, mas seu pai, que era músico, ginal para a cópia.
o forçava, batia nele, e ele tinha acabado por Bion era muito singelo e objetivo quanto
se tornar quem era. Arrematei dizendo que à valorização de sua pessoa e de seu trabalho.
não precisávamos ter vocação, bastava ter ta- Certa vez comentei com ele que achava estra-
lento para fazer bem feito seja lá o que fosse. nho ver meus clientes me valorizando tanto
“Tenho certeza que se Beethoven tivesse se- quando eu me considerava bem pouco capaz.
guido outra carreira também teria tido suces- Ele respondeu dizendo que eu havia viajado
so”, disse. quase quinze mil milhas para vê-lo. Cheguei a
Bion respondeu: “Bem, Beethoven não ensaiar um protesto dizendo que ele era dife-
está aqui, nem sequer está vivo, portanto não rente, mas me calei, vencido pela clareza de
podemos analisá-lo. Mas não custa lembrar que sua observação.
ele morreu surdo. Talvez, se sua versão é ver- Depois de três anos de um processo ana-
dadeira, ele não estivesse satisfeito com o que lítico intermitente, comecei a perceber que, no
estava fazendo e tenha preferido ficar surdo momento em que minhas sessões começavam
para não ter que ouvir o que compunha”. a se tornar mais e mais produtivas, estava já
Esse comentário foi terrível, porque des- na hora de interrompê-las. Decidi mudar-me
moronou toda a minha reflexão sobre o fato com minha família para Los Angeles e me pro-
de que não teria importância o não ter voca- porcionar um longo período de análise com
ção para analista, e percebi que, mesmo que Bion. Para isso, tive que fechar meu consultó-
não estivesse ficando surdo como Beethoven, rio e interromper meu trabalho como analista,
podia estar ficando louco para não ter que pen- o que vinha a calhar para que eu pudesse me
sar no que estava fazendo. proporcionar uma oportunidade de eventual-
Um belo dia, chegado de um fim de se- mente escolher uma nova profissão, buscando
mana em Paris, comentei com Bion a emoção o que seria minha verdadeira vocação. Decidi
que me havia causado encontrar com os origi- que com o dinheiro que havia juntado em dez
nais de quadros que eu havia visto, tantas e anos de trabalho, ao vender os imóveis que
tantas vezes, em reproduções. Referia-me aos havia adquirido, teria o suficiente para man-
impressionistas do Museu Jeu de Paume: ter a minha família e a mim durante cerca de
Gauguin, Vang Gogh, Degas, mas, principal- três anos. Pensava que esse tempo seria o bas-
mente, Renoir; só ao ver os originais, tive a tante para levar minha análise a um ponto
possibilidade de perceber a poesia, a pureza, a satisfatório. Ao final de 1977, parti para Los
beleza dos quadros de Renoir que até então Angeles, acompanhado de minha mulher e de
havia visto apenas em reproduções e me pare- meus três filhos.
ciam um pouco frágeis e piegas. Conversamos Durante alguns meses, me permiti sabo-
muito sobre a relação do original com a cópia, rear a liberdade de escolher, aos 38 anos de
não só no sentido de que a cópia não reproduz idade, uma nova carreira. Pensei em estudar
fielmente o original, o original é outra coisa, economia ou arquitetura, depois desisti, com-
tem um toque, alguma coisa que a cópia não prei um piano e me dediquei à música, que
tem, mas no sentido oposto também, de que a havia estudado quando jovem. Convivi com
cópia divulga o original e cria um mito em tor- músicos brasileiros que lá moravam e com ou-
no dele. Lembro que foi uma conversa que me tros que por lá apareciam para gravar discos
deu muito prazer, porque nessa troca de idéias nos bem equipados estúdios californianos. Fiz
se clarearam algumas reflexões minhas, e saí grandes amizades que conservo até hoje.
muito contente de seu consultório. Anos mais Depois, pensei em me tornar escritor e
tarde, tive a agradável surpresa de encontrar cheguei a iniciar um curso para aprender a fa-

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64 DAVID E. ZIMERMAN

zer literatura infanto-juvenil. Finalmente pas- A análise com Bion tinha momentos de
sei a me interessar por medicina alternativa e grande sofrimento. Como estar lá com ele era
estudei massagem, acupuntura, medicina um enorme investimento, eu me preocupava
herbal indiana e xamanismo. Estes estudos me em como aproveitar ao máximo cada sessão.
levaram à conclusão de que tanto as doenças Certo dia, reclamei de seu silêncio após cerca
quanto suas curas estavam estreitamente rela- de vinte minutos durante os quais eu falara
cionadas à atividade psíquica. Isso aos poucos quase ininterruptamente. Ele retrucou obser-
foi encaminhando minha curiosidade para o vando que lhe parecia que aquela seria mais
estudo da mente, e daí para a psicanálise. uma sessão de pura perda de tempo. Insatis-
Quando voltei a me interessar por psicanálise, feito, insisti, procurando onde estaria o tema
senti, um dia, subitamente enquanto estava no que nos poderia levar a um trabalho proveito-
chuveiro, um enorme desejo de voltar a traba- so. Os últimos quinze minutos daquele dia fo-
lhar como psicanalista; o que até então jamais ram bastante intensos e produtivos, o que me
me havia ocorrido desde que estava em Los levou a comentar, ao final da sessão, que ele se
Angeles. Compreendi que havia cumprido um equivocara em sua previsão. Bion respondeu
ciclo e decidi que era tempo de voltar a traba- que naquela situação sua observação tinha sido
lhar como psicanalista. a melhor que pudera fazer. E funcionara.
Junto com a minha mulher, tomei a reso- Por diversas vezes ele respondeu a meus
lução de voltar para o Brasil e reabrir meu con- momentos de insatisfação com seu trabalho
sultório, o que me levou a encerrar minha aná- dizendo que, se eu conseguisse suportá-lo e
lise com Bion, em março de 1979. Voltando ao suportar seus defeitos e ineficiências, talvez
Brasil, retomei minha atividade e me dei con- pudesse tirar algum proveito de sua compa-
ta de que havia escolhido por duas vezes a mes- nhia. Acho que tais observações não eram me-
ma profissão... ramente irônicas, mas uma constatação práti-
Foi curioso observar a reação de meus ca e despojada sobre psicanálise.
colegas à experiência que havia atravessado. Para dar uma idéia do quanto me havia
Alguns se mostraram interessados e me convi- causado impacto a análise com Bion, certa vez,
daram para palestras e até se dispuseram a me numa palestra sobre minha análise na Socie-
procurar para análise ou supervisão. Outros me dade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janei-
ignoraram e continuam a ignorar minha rara ro, declarei que não sabia ainda se algum dia
experiência de contato com uma pessoa tão conseguiria me curar da análise que havia fei-
significativa. Registro, como curiosidade, que to. Acho que minha formulação não causou
diversos grupos se organizaram para estudar a muito boa impressão, mas era o sentimento que
obra de Bion, mas nenhum deles teve a menor eu tinha naquela época, recém-vindo de Los
curiosidade de ouvir meu depoimento sobre Angeles. Eu precisava me curar do impacto e
minha experiência com ele. da desestruturação que me causara a convi-
Ter feito análise com Bion foi uma vi- vência diária com a seriedade e a perspicácia
vência extremamente impactante. Para dar com que Bion observava meu funcionamento
uma idéia, lembro-me de estar indo de carro mental e me comentava suas observações.
para uma sessão numa manhã de segunda-fei- Hoje, passados mais quinze anos, lembro
ra e me perguntar, algo assustado: “Quem se- com saudade do interesse e do carinho com
rei eu ao final desta semana?”. Não era mera que Bion me atendia. No dia de nossa última
retórica, mas a expressão íntima de estar atra- sessão, ele se despediu de mim me oferecendo
vessando um período de violentas transforma- um livro seu que havia acabado de ser edita-
ções, estimuladas por um poderoso processo do. Enquanto me estendia o livro, disse, com
psicanalítico que me levava a questionar cada sua habitual formalidade, que talvez eu tives-
elemento de minha personalidade. se dificuldade de encontrar aquele livro no Bra-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 65

sil, como a se desculpar por estar infringindo do altamente positivo de tudo o que aprende-
sua rígida postura analítica que certamente não ra com ele. Dei-me conta então da imensa di-
recomendava que um analista presenteasse seu ferença que existe entre tristeza e infelicidade,
analisando. noção que por diversas vezes me ajudou em
Nesse dia eu havia descoberto que estava minha vida, e que tenho constantemente trans-
sofrendo e que estava muito triste, mas não mitido a analisandos meus. Não tornei a vê-lo;
infeliz, porque estava perdendo-o mas, ao mes- ele morreu naquele mesmo ano. Mas dentro
mo tempo, estava fazendo o que desejava: vol- de mim ficou uma consciência muito forte de
tar para o meu país. Além do que, havia o sal- sua influência na minha vida e um doce senti-
mento de gratidão e amor por ele.

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66 DAVID E. ZIMERMAN

5
Bion e Outros Pensadores

A personalidade psicanalítica de Bion é cionadas entre si, o esquema de exposição que


tão invulgar e de tal envergadura que se im- aqui será adotado é dar um destaque particu-
põe, para quem quer penetrar no espírito de larizado para alguns deles, separadamente,
sua obra, a necessidade de conhecer as pro- sem a menor pretensão, é óbvio, de um apro-
fundas influências sobre a sua pessoa, provin- fundamento nem, muito menos, de abarcar a
das de diversas fontes humanísticas e científi- todos.
cas, a começar pelas marcas da cultura india-
na que lhe foram impressas nos primeiros anos
de vida e restaram indeléveis, sendo que tive- FREUD
ram uma boa parcela na determinação de seu
patrimônio psicológico. Pode-se dizer que, assim como Bion mo-
Na sua formação psicanalítica propria- dificou, e alargou, muitos dos conceitos bási-
mente dita, as maiores influências vieram, fora cos de Freud, também é verdade que muitos
de qualquer dúvida, das leituras de Freud e de dos pensamentos de Bion não nos fariam sen-
Klein, desta última tanto pelo seu corpo teóri- tido se ele não se referisse continuamente às
co como, e principalmente, por ela ter sido sua premissas de Freud. No entanto, fica claro que
analista por quase dez anos. Bion não transgrediu e nem se adonou de ne-
Além disso, no curso da obra de Bion, é nhum de seus conceitos essenciais.
fácil perceber o quanto a sua formação erudita Em termos mais genéricos, pode-se dizer
está alicerçada em filósofos, poetas, teólogos, que a diferença fundamental entre Freud e Bion
matemáticos, historiadores, literatos e artistas, é que o primeiro baseou-se essencialmente na
sem levar em conta os seus consistentes co- teoria pulsional, enquanto o segundo valori-
nhecimentos de línguas, biologia, química, fí- zou sobretudo a teoria cognitiva psicanalítica.
sica, etc. Embora o estilo de ambos seja muito diferen-
O presente capítulo objetiva dar uma vi- te, a verdade é que muitos dos conceitos nu-
são generalizada e sintetizada daquilo que, cleares em psicanálise foram estudados tanto
como se pode depreender dos escritos de Bion, por Freud como por Bion, conquanto o tenham
se constitui como a coluna-mestra de sua iden- feito com diferenças no nível de profundida-
tidade psicanalítica. Embora as diversas in- de, de semântica, de vértice de observação e
fluências provindas de importantes e diferen- de estilo de escrita.
tes pensadores sejam indissociadas, comple- Quanto a esta última, as diferenças são bem
mentares e, muitas vezes, estejam inter-rela- evidentes: enquanto Freud – prêmio Goethe de

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 67

Literatura – tem uma redação enxuta e lógica, rém nunca mais a retomou ao lon-
Bion, como já foi referido, adotou um estilo go de sua obra.
muito variável ao longo de sua obra, de modo 3. A postulação de Bion de que uma
que, se por vezes ele é claro e lógico, em ou- “preconcepção fecundada por uma
tras, é confuso e deliberadamente ambíguo e realização resulta em uma concep-
provocativo. No entanto, há um ponto comum ção” tem uma certa equivalência
entre Freud e Bion, que é o fato de ambos de- com o ensinamento de Freud de que
monstrarem uma sólida cultura erudita, e tan- o “id, em confronto com a realida-
to um como o outro gostavam de utilizar mo- de externa, promove o crescimen-
delos e de instigar a imaginação dos leitores. to do ego”.
Vale a pena uma tentativa de estabelecer, 4. O conceito de “capacidade negati-
entre ambos, algumas das correlações conceituais va”, muito mencionado por Bion, diz
que seguem enumeradas: respeito à capacidade que o psica-
nalista deve possuir para suportar,
1. Bion foi o primeiro autor psicanalí- na situação analítica, um estado de
tico a estudar em profundidade a gê- “não saber” o que está se passando
nese primordial dos pensamentos e entre ele e o analisando. Para refor-
sua interação com o seu pensador. çar a necessidade de obtenção des-
No entanto, ele fundamentou-se for- se estado mental, Bion preconizava
temente nos conceitos emitidos por que o analista deveria abster-se, du-
Freud em Dois princípios do suceder rante a sessão, do uso de sua me-
psíquico, de 1911, acerca dos prin- mória, de desejos, e de uma obriga-
cípios do prazer e da realidade e de ção de compreensão imediata. Para
como tais princípios determinam a tanto, ele citava com freqüência
formação dos pensamentos. Como Freud, na carta que este dirigiu a Lou
Bion também utilizava a teoria klei- Andre Salomé, em que recomenda-
niana, ele desenvolveu as idéias ori- va a necessidade de o analista “ce-
ginais de Freud em uma forma mo- gar-se artificialmente” para poder
dificada. Por exemplo: Freud signi- ver melhor. Destarte, pode-se dizer
ficou o fenômeno alucinatório como que o estado de “sem memória e sem
uma projeção da satisfação do de- desejo” de Bion não difere da reco-
sejo, enquanto Bion o considerou do mendação técnica de Freud relativa
ponto de vista de uma evacuação à “atenção flutuante”, tal como este
dos elementos protomentais. a descreveu em seus escritos sobre
2. Ainda em relação aos estudos so- técnica.
bre formação e funcionamento dos 5. Os estudos de Bion sobre grupos
pensamentos, Bion utilizou bastan- mostram uma nítida influência do
te o conceito de “barreira de conta- texto de Freud “Psicologia das Mas-
to”, que é constituída pelos elemen- sas e Análise do Ego”, de 1921. As-
tos α, como uma membrana perme- sim, Bion parte dos modelos do Exér-
ável e delimitadora entre o cons- cito e da Igreja – que ele considerou
ciente, o pré-consciente e o incons- como “grupos de trabalho” especia-
ciente. Sabemos todos que, embo- lizados –, criados e utilizados por
ra com um sentido algo diferente, Freud como ilustração de seus estu-
em seu sempre atual trabalho de dos sobre os tipos de lideranças. Da
1895, “Projeto de uma Psicologia mesma forma, pode-se dizer que a
Científica para Neurólogos”, Freud concepção de Bion referente aos “su-
criou a denominação e a conceitua- postos básicos” do inconsciente
ção de “barreiras de contato”, po- grupal se refere ao funcionamento
do “processo primário” e, portanto,

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68 DAVID E. ZIMERMAN

equivale à descrição que Freud fez há muito mais continuidade entre a pri-
acerca do “grupo desestruturado, meira infância e a vida intra-uterina do que
inerente às massas”, conforme um a impressionante cesura do ato do nasci-
estudo prévio de Le Bon, bastante mento nos permite supor.
citado por Freud no seu aludido tra-
balho. Por outro lado, é importante Da mesma forma, a busca da “ver-
ressaltar que Bion considerava os dade última”, o “O” incognoscível de
conceitos de processos primário e Bion, lembra muito o “estado de
secundário de Freud como redun- nirvana”, de Freud.
dantes e, por isso, propôs a teoria 9. De certa forma, parece-me que as
das funções, com o objetivo de me- noções de “preconcepção” e o fenô-
lhor explicar o pensamento onírico meno clínico que Bion denomina
e o da vigília. como “terror sem nome” estão bas-
6. Uma outra influência importante no tante ligadas ao que Freud, já no
pensamento de Bion se refere aos Projeto para uma psicologia científi-
conceitos emitidos por Freud nos ca para neurólogos, estudou a res-
trabalhos “Neurose e Psicose”, de peito das primitivas inscrições que as
1924, e “Clivagem do Ego no Pro- arcaicas experiências emocionais
cesso de Defesa”, de 1938. Esses tra- deixam inscritas na mente do indi-
balhos de Freud favoreceram bas- víduo sob a forma de representação-
tante a elaboração da importantís- coisa, logo, antes do surgimento da
sima concepção de Bion relativa à palavra.
“diferenciação entre as personalida-
des psicóticas e as não-psicóticas”, É claro que os exemplos acima citados não
assim como também lhe inspirou a passam de uma amostragem, e que inúmeras
descrição da “cisão não-patológica”, outras alusões, convergências, divergências e
um estado mental que deve estar desdobramentos poderiam ser levantados en-
presente no analista. tre ambos os gênios da psicanálise.
7. A situação edípica, conquanto tenha
sempre sido um referencial freudia-
no de absoluta importância no pen- MELANIE KLEIN
samento de Bion, foi por ele reestu-
dada a partir de muitos outros vér- A influência de Melanie Klein foi decisiva
tices. Assim, no próprio mito de na estruturação psicanalítica de Bion. Após uma
Édipo, Bion faz um estudo porme- curta análise com Rickman, Bion iniciou um tra-
norizado da função de cada um dos tamento analítico com Melanie Klein, em 1945,
personagens. A diferença fundamen- que se prolongou até 1953. Os que o conhece-
tal é que Freud utilizou um modelo ram mais de perto atestam o quanto se produ-
do mito edípico como uma visuali- ziram consideráveis mudanças em sua vida nes-
zação das vivências pulsionais, en- se período. Amadureceu como pessoa, como psi-
quanto Bion o considerou a partir canalista e como autor, casou-se pela segunda
de um vértice da função do vínculo vez e gerou mais dois filhos, resgatou uma boa
do conhecimento. relação com a filha Partenope e começou a es-
8. A incursão de Bion pelo psiquismo crever os primeiros textos profundamente ori-
fetal, descrita em alguns trabalhos da ginais acerca de grupos e das psicoses.
década de 70, como o da “Cesura”, Além disso, as essenciais concepções
está claramente inspirada em uma metapsicológicas de Klein foram plenamente
afirmativa que Freud fez em Inibição, adotadas por Bion, especialmente aquelas re-
sintoma e angústia, de 1926: ferentes aos primitivos mecanismos defensivos
do ego, como o emprego das dissociações e

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 69

identificações projetivas, as posições esqui- que foi muito além do aspecto quanti-
zoparanóide e depressiva, a importância da in- tativo das mesmas, tal como é o seu
veja primária e dos ataques destrutivos, a for- emprego excessivo nas situações
mação de um superego primitivo, a precocida- psicóticas; ele também valorizou o as-
de da influência da mãe real, a formação de pecto qualitativo dessas identificações
símbolos, etc. projetivas, e lhe cabe o reconhecido
Foi a partir dessas conceituações de Klein mérito de ter sido o primeiro autor a
que Bion desenvolveu suas idéias originais so- nos mostrar o quanto elas se consti-
bre os mecanismos psicóticos nos grupos, ma- tuem como um importante meio de
nifestos nos esquizofrênicos, com as respecti- transmissão de uma comunicação em
vas repercussões nas funções egóicas do pen- um nível muito primitivo por parte do
samento, da linguagem e do conhecimento. paciente;
Mais particularmente em relação ao as- e) a utilização do conceito de inveja pri-
pecto do conhecimento, sabemos que Klein – mária, que, gradativamente, foi per-
por sua vez inspirada no trabalho de Ferenczi, dendo relevo na obra de Bion, embo-
sobre os estágios no desenvolvimento do sen- ra ele o tenha retomado no final de
tido da realidade, de 1913 – descreveu em O Atenção e interpretação.
desenvolvimento da criança, de 1921, não so-
mente a luta entre o princípio do prazer e o da Pessoalmente, tenho a impressão de que
realidade, mas também a luta travada entre o fenômeno que Klein descreveu com o nome
uma inata pulsão epistemofílica para conhe- de memory in feelings, isto é, o registro
cer as verdades versus o sentimento de onipo- mnêmico de sensações e sentimentos primiti-
tência da criança. vos, não de fatos propriamente ditos, tem uma
Aos poucos, Bion foi introduzindo suces- similitude com o que antes foi dito a respeito
sivas modificações nas idéias clássicas de Klein, das “inscrições” de Freud.
e me parece ser muito significativo o fato de Bion sempre proclamou uma fidelidade
que, após a morte dela, em 1961, os trabalhos ideológica a Klein, a ponto de se opor tenaz-
de Bion passaram a tomar uma desenvoltura mente a qualquer iniciativa de seus seguido-
originalíssima. Somente para exemplificar algu- res no sentido da homologação de uma “esco-
mas das modificações que ele fez dos conceitos la bioniana”. Não obstante isso, tudo leva a crer
kleinianos, podem-se mencionar cinco fatos: que ele, reservadamente, guardava algumas
impressões negativas a respeito dela. Assim,
a) em relação à passagem da posição na terceira das Conferências pronunciadas em
esquizoparanóide para a depressiva, Nova Iorque, em 1977 (1992a, p. 113), em res-
Bion formulou uma concepção mais de- posta a uma pergunta acerca de Klein, Bion
senvolvida que a de Klein, isto é, mais respondeu que
do que uma simples passagem de uma
posição para outra, ele enfatizou um [...] ela dava um fluxo contínuo de inter-
permanente intercâmbio oscilatório e pretações. Depois, acabei pensando que
interativo entre ambas as posições, re- essas interpretações eram excessivamen-
presentado graficamente por PS  D; te coloridas por um desejo de defender a
b) em relação à natureza e formação de acurácia de suas teorias de tal modo que
símbolos, Bion forneceu um entendi- ela perdeu de vista o fato de que aquilo
mento a partir de um vértice essen- que se supunha que ela fizesse seria inter-
cialmente diferente do de Klein; pretar os fenômenos que se lhe eram apre-
c) em relação ao clássico conceito klei- sentados.
niano de “reparação”, Bion preferia fa-
lar em “reestruturação do ego”; Também Bléandonu (1990, p. 108) des-
d) coube a Bion dar uma dimensão ao taca que a relação de Bion com Klein era um
fenômeno das identificações projetivas misto de gratidão e de muito ressentimento.

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70 DAVID E. ZIMERMAN

Ele a achava firme, o que muito o aliviava du- criou um corpo teórico distinto e ori-
rante a análise, porém, ao mesmo tempo, se ginal.
ressentia com um excesso de autoritarismo e – Ambos tinham um invulgar senso es-
rigidez da parte dela, o que o fazia sentir-se tético artístico, além do fato de terem
“sempre sugado até a medula”. Uma outra sido campeões em provas esportivas.
queixa de Bion é que Klein não era favorável, – Tanto Bion como Winnicott reconhe-
senão completamente hostil, ao seu trabalho ceram e enfatizaram uma precoce e
com grupos, por acreditar que estes o desvia- extraordinária importância à mãe da
riam de um trabalho analítico mais importan- realidade externa, assim como igual-
te. Bion também não concordava que Klein mente destacaram a relevância da in-
somente se interessasse pelas individualida- trojeção das funções dessa mãe.
des e pelos problemas das sociedades psica- – Desse modo, os conceitos de holding e
nalíticas, porquanto o interesse dele também o de “preocupação materna primária”,
pendia muito para os problemas psicossociais, de Winnicott, e os de “continente” e
de forma genérica. Rêverie, de Bion, guardam uma gran-
de semelhança entre si.

WINNICOTT
Comentários
Embora Bion, Winnicott e Lacan tenham
sido contemporâneos em relação aos seus pe-
ríodos mais férteis de produção científica, a – A meu juízo, o conceito de “precon-
verdade é que, aparentemente, um não tomou cepção” de Bion tem uma afinidade
conhecimento do outro. Dessa forma, Bion e com o “espaço de ilusão” de Winnicott,
Winnicott conviveram na mesma Sociedade sendo que ambas as conceituações nos
Britânica de Psicanálise, porém praticamente remetem a um estado de espera por
não fizeram citações entre si, apesar de alguns uma “realização” criativa. Seria uma
importantes assuntos assemelhados terem sido espécie de espaço de transição do
estudados por ambos. protomental para o mental.
No entanto, como aponta Mello Fo (1989, – Winnicott aludia a um estado de break-
p. 248), Winnicott se correspondeu com Bion, down (catástrofe), equivalente ao es-
sempre demonstrando muito respeito pelas tado de “não-integração” ou de “de-
suas idéias, concordando com algumas e apon- sintegração”. Bion refere-se mais exa-
tando dúvidas e discordâncias a respeito de tamente às situações de “mudança
outras. Assim, em uma das cartas, Winnicott catastrófica” que a uma catástrofe pro-
reconhece um paralelismo entre a afirmação priamente dita. No entanto, se tomar-
de Bion de que a parte neurótica da personali- mos o vértice da etimologia da pala-
dade traz a parte psicótica para a análise e suas vra “catástrofe”, perceberemos o quan-
idéias sobre o falso self, que pode proteger o to ambos os autores estão conceitual-
verdadeiro self e trazê-lo para a análise. Além mente próximos. Assim, “catástrofe” se
disso, em uma carta datada de 5/10/59, origina dos étimos gregos kata (abai-
Winnicott escreve a Bion: “Em primeiro lugar, xo de) e strophein (revolta, subversão,
gostaria de dizer que penso em você como o evento, calamidade). Contudo, é in-
grande homem do futuro da Sociedade Britâ- teressante registrar que, no idioma in-
nica de Psicanálise”. Cabe destacar os seguin- glês do passado, como assinala Gadini
tes aspectos de aproximação entre eles: (1982, p. 123), catastrophe significa
uma evolução, uma mudança de um
– Ambos tiveram um convívio íntimo estado a outro.
com Klein, dela receberam uma forte – Tanto Bion como Winnicott se interes-
influência, e, aos poucos, cada um saram pelos problemas relativos à ver-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 71

dade, mentira e falsidade, sendo que, do outro. Nesse mesmo enfoque de intersubje-
em As transformações (1965), Bion se tividade, Bion nos legou a importante noção
refere a um “self real”, muito equiva- de que o primeiro pensamento é o seio ausen-
lente ao “verdadeiro self” de Winnicott, te.
e a mesma equivalência vale para os Um outro ponto de aproximação entre
conceitos de “falsidade” de Bion e de Lacan e Bion é o que diz respeito à importân-
“falso self” de Winnicott. cia do discurso dos pais e da cultura na deter-
minação da personalidade do indivíduo. Os que
conhecem os postulados de Lacan quanto à su-
LACAN jeição do sujeito em ser “o desejo do desejo do
outro” vão encontrar uma clara afinidade com
Em relação a Lacan, o que sobretudo cha-
o pensamento de Bion, tal como está expresso
ma a atenção é sua similitude com Bion no
nas citações que seguem. Assim, na primeira
que diz respeito ao entendimento e à valori-
Conferência em Nova Iorque (1992a, p. 76),
zação das questões pertinentes aos fenôme-
Bion afirma que:
nos da linguagem, em que os significados e
os significantes adquirem um caráter estrutu-
Sempre se pressupõe que estejamos apren-
ral. Assim, da mesma forma que Lacan (o qual, dendo a nos comportar de um modo civi-
nos anos 40, inspirou-se nos trabalhos do an- lizado – desde o momento do nascimento.
tropólogo Claude Lévi-Strauss, que, por sua Em uma idade precoce, nós já aprende-
vez, inspirou-se na lingüística estrutural, de mos não só a não ser nós mesmos, mas
Saussure, nos cursos que este ministrou em quem devemos ser; nós temos um rótulo,
Genebra, por volta de 1910), também nos tra- diagnóstico, interpretação bem estabele-
balhos de Bion transparece claramente o prin- cidos de quem somos.
cípio estruturalista de que os elementos da
linguagem não valem tanto pelo que são iso- E mais adiante: “Gastamos um número
ladamente, mas muito mais pela interação en- excessivo dos nossos anos mais impressioná-
tre eles, dentro de um sistema formado. veis aprendendo como ser igualzinho aos ou-
É justamente essa dimensão estruturalis- tros – não como sermos nós mesmos” (p. 78).
ta da psicanálise que aproxima Bion de Lacan. Também ambos os autores dão um ex-
A propósito, Rezende (1993, p. 46) mostra pressivo destaque ao fenômeno da “negati-
como a noção de Bion de que os “pensamentos vidade” – o “não ser”.
precedem ao pensador” reflete uma filosofia Creio que um outro ponto de aproximação
estrutural, porquanto a estrutura é anterior aos entre Bion e Lacan é o que diz respeito à concep-
modos de realização. Por isso, diz Rezende, “o ção de Lacan alusiva à rede de significantes, com
simbólico é a norma (‘o nome do pai’) que pre- os sucessivos significados e deslizamentos recípro-
side a estruturação da estrutura”. Esse mesmo cos, e as idéias de Bion acerca das sucessivas trans-
autor afirma que “ao falar do caminho de K formações que todos os fatos psíquicos sofrem.
para O, Bion está muito próximo de Lacan, Há um fato curioso, mencionado por
quando este último nos fala da passagem do Bléandonu (1990, p. 72) quando cita Lacan,
registro do real para o simbólico, com trânsito em que este relata um encontro que teve com
para o imaginário”. Bion, em 1945, na Inglaterra. Lacan, que foi o
Da mesma forma, encontramos uma se- primeiro a introduzir, na França, os progres-
melhança entre Bion e Lacan no que se refere sos realizados pela psiquiatria inglesa, teve a
às concepções derivadas da dialética da pre- premonição de que um artigo sobre dinâmica
sença e da ausência. Lacan afirmava que não é de grupo que Bion escrevera juntamente com
precisamente o objeto que dá como sendo o Rickman seria “um marco na história da psi-
provocador do desejo, mas o objeto que não quiatria”. Além disso, Lacan os entrevistou e
dá, o ausente, o que provoca a falta, e, assim, definiu Bion como alguém em quem brilhava
o desejo estrutura-se como um desejo do desejo a chama da criatividade,

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72 DAVID E. ZIMERMAN

como que congelada numa máscara imó- forma de aproximar-se de Deus é através da
vel e lunar, que acentua as finas vírgulas cegueira”; “a personalidade deve sobrepujar o
de um bigode negro, e que são menos que ‘infinito vazio e amorfo’”; “o ser humano deve
a grande estatura e o tórax de nadador observar coisas invisíveis para um mortal”.
que a sustentam, e tudo nos informa es-
Rezende (1993) dá muita ênfase a uma cita-
tarmos frente a um desses seres solitários
ção de Milton que define bem a posição psica-
até mesmo nas suas mais altas dedicações.
nalítica de Bion: “O que você é fala mais alto
do que você diga”. Ou seja: SER é mais impor-
POETAS, LITERATOS, MATEMÁTICOS, tante do que DIZER.
Em Virgílio, poeta grego autor de Eneida,
HISTORIADORES, FILÓSOFOS
Bion recolheu o mito da morte de Palinuro, cujo
modelo utilizou para ilustrar, metaforicamente,
Sem a pretensão de um maior aprofun-
os perigos e as armadilhas a que o psicanalista
damento, pelo contrário, unicamente através
pode estar submetido na situação psicanalítica.
de fragmentos muito breves, creio que vale a
Em São João da Cruz, Bion encontrou
pena darmos uma pálida idéia de como situar
poemas que expressam, em um estilo lírico,
Bion na constelação de importantes pensado-
uma intimidade mística com Deus: “é a alma
res, fora da área psicológica propriamente
que busca uma união divina”. É fácil deduzir
dita, que tiveram uma decisiva importância
que citações como essa e as de Milton coinci-
no seu pensamento psicanalítico.
dem com o período religioso-místico de Bion.
Assim, entre os poetas e os literatos que
De M. Buber, autor de Eu e tu (I and thou),
ele citava com freqüência, em contextos dis-
Bion, no seu trabalho “Cesura”, cita alguns tre-
tintos, estão R. Kipling, Keats, Milton, Virgílio
chos, nos quais aquele autor exalta a pré-nata-
e Shakespeare.
lidade, “o mundo primitivo ainda não forma-
Em Shakespeare, Bion encontrou uma forte
do e nem diferenciado”.
fonte de inspiração e seguidamente fazia cita-
Beckett, autor de Esperando Godot e Fim
ções ou alusões à obra desse importante escritor,
de jogo, Prêmio Nobel de Literatura em 1963,
com a qual demonstrava grande familiaridade.
ocupa um lugar especial na galeria de perso-
De Kipling, Bion reconheceu que uns ver-
nagens importantes na vida de Bion. Por pro-
sos o marcaram de uma forma a se constituir
blemas psicossomáticos, Beckett tratou-se
como uma marca característica de sua perso-
psicoterapicamente com o principiante Bion na
nalidade investigadora. Trata-se de um poema
Tavistock Clinic, em 1933.
(extraído de The Elephant’s Child; Just So Ver-
Autores como Anzieu (1989) e Simon
ses), no qual Kipling fala de “seis empregados
(1988) consideram que entre Bion e Beckett
honestos que são: O Que, Por que, Quando,
estabeleceu-se, ao longo do tempo, uma rela-
Como, Onde e Quem”.
ção do tipo “gêmeo imaginário”. Assim, Beckett
Do poeta Keats, Bion gostava de citar o co-
sempre demonstrou um interesse pela psiquia-
nhecido trecho de uma carta que aquele enviara
tria e pela psicanálise e transpôs para os per-
ao irmão, em 1817, a respeito de Shakespeare,
sonagens de sua obra ficcional as vivências que
para realçar uma “capacidade negativa”
sofrera em sua psicoterapia, enquanto, recipro-
(negative capability) deste último: “[...] quan-
camente, ao final de sua vida e obra, Bion ex-
do um homem consegue permanecer na incer-
travasou a sua veia literária, compondo a
teza, no mistério, na dúvida, sem se irritar de
trilogia Uma memória do futuro, a qual é mui-
modo algum na procura de fatos ou razões”.
to mais de ficção do que de ciência.
Como sabemos, Bion deu um grande destaque
a essa “capacidade negativa”, considerando-a Dentre os historiadores que inspiraram a
um dos principais atributos que um psicanalis- Bion (não vamos esquecer que Bion graduou-
ta deve possuir. se em História Superior), é justo mencionar a
De Milton, autor do clássico Paraíso per- figura de Toynbee, um eminente historiador in-
dido, Bion extraiu pensamentos, como: “uma glês que tinha como tese central o fato de que

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 73

as civilizações nascem como as criações huma- consideração especial por parte de Bion, por-
nas e declinam quando a força da criação dimi- quanto aquele autor procura não enunciar te-
nui. Esse estudo relativo ao (de)crescimento das ses, mas sim clarificar um pensamento que bus-
civilizações influenciou diretamente as idéias de que se livrar das armadilhas da linguagem. A
Bion acerca da dinâmica de grupos. postulação central de Wittgenstein é definir os
limites entre o que pode ser dito (modelo lógi-
Dentre os matemáticos, é indispensável
co-matemático) e o que somente cabe ser “mos-
mencionar o nome de Poincaré, que assumia
trado” (enfoque lingüístico). Rezende (1994)
uma postura de “filosofia científica”, de tal for-
assinala que a postulação de Bion, “ser é mais
ma que situava os seus conhecimentos mate-
importante que entender, dizer ou sentir”, está
máticos na fronteira entre a lógica e a física,
claramente inspirada em Wittgenstein, para
entre a experiência e o espírito puro. Bion fun-
quem “a mística significa antes de tudo a ex-
damentou-se nesse brilhante matemático para
periência de ser”.
postular o seu importante conceito de “fato
Mestre Eckart, dominicano alemão que
selecionado”. Assim, em Science et methodo, ao
viveu no século XIV, influenciou Bion com suas
descrever uma fórmula matemática, Poincaré
idéias de mística cristã. Para Eckart, a unifica-
afirma que, para um novo resultado ter valor,
ção com Deus permite a descoberta da reali-
deve introduzir uma ordem entre elementos
dade das coisas e a consumação do destino.
aparentemente estranhos entre si.
Ele designava por Got o Deus da criação
Muitos filósofos exerceram uma decisiva transcendental, e, por Gotheit, aludia à divin-
influência no pensamento psicanalítico de Bion. dade, à essência divina, à origem das três pes-
O filósofo Kant, autor de Crítica da razão soas da Trindade.
pura, é citado com freqüência, porém vale res- De Hume, seguindo os passos de seu posi-
saltar particularmente a menção ao conceito tivismo lógico, Bion extraiu a concepção de
da “coisa em si mesma”, o qual indica ser ne- “conjunção constante”, a qual alude a uma con-
cessário saber suportar e aceitar que só é pos- figuração de fatos que estão sempre presentes
sível se conhecer a realização da coisa, assim e interagindo. Bion utilizou esse conceito em
como a conjunção e a constelação dos fenô- suas hipóteses acerca do desenvolvimento do
menos manifestos, mas não a coisa em si mes- pensamento e na sua busca das fontes episte-
ma, em sua “realidade última”. mológicas.
Na evolução de seu modo de pensar, Bion Bion encontrou uma forte inspiração no
passou do positivismo lógico para uma “busca Princípio da incerteza, de Heisenberg, segundo
da razão pura” de Kant, que pudesse ser apli- o qual, na tentativa de alcançar a verdade, des-
cada a uma “busca da razão prática”. Na esté- cobrimos que nós, os observadores, perturba-
tica de Kant, há o esvaziamento das qualida- mos a coisa que está sendo observada. Se exis-
des sensoriais peculiares dos objetos percebi- te algo certo, é que a certeza é errada. Assim,
dos, restando nestes as formas relativas ao es- completa Bion (1992a, p. 202), “a incerteza
paço e tempo. Assim, Bion cita com freqüência não tem cor, não tem cheiro, não é palpável,
a concepção de Kant relativa ao “pensamento mas ela existe”.
vazio”, fazendo a equivalência do mesmo com Em Platão, Bion encontrou a inspiração
a preconcepção, isto é, com uma expectativa para um aprofundamento do conceito de “for-
inata do seio, ainda não preenchida. ma”. A conhecida “alegoria da caverna”, de
Uma outra conhecida alusão que Bion faz Platão, dá bem uma dimensão da importância
a Kant encontra-se no trabalho “Evidência” do vértice de observação e de como as lingua-
(1976), em que lembra que o filósofo diz: “in- gens filosóficas e religiosas terminam por se
tuições sem conceitos são cegas, e conceitos confundir, já que “a alma liga o homem ao
sem intuições são vazios”. mundo das formas”. Aliás, é oportuno regis-
As idéias do filósofo austríaco Wittgenstein, trar que o étimo grego eidos tanto alude à for-
autor de Tractatus logico-philosophicus e de ma como à idéia e, assim, estabelece uma con-
Investigations philosophiques, mereceram uma junção entre ambas.

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74 DAVID E. ZIMERMAN

Bion demonstrou um grande interesse Não custa repetir a obviedade de que


pelas idéias do filósofo Descartes e conside- muitos outros nomes de pensadores importan-
rava que seu objetivo de chegar às “idéias” tes, da área psicanalítica ou não, poderiam ser
claras e precisas (atingir o mesmo grau de aqui incluídos, e que, dentre os mencionados,
perfeição das demonstrações matemáticas) muitas outras idéias poderiam ser expandidas;
pode ser aplicado à psicanálise, de sorte a porém prevaleceu o propósito de unicamente
também poder se desiludir devido ao impon- transmitir uma espécie de “conjunção constan-
derável da mente primitiva que subsiste em te” entre as distintas influências na cultura psi-
qualquer sujeito. canalítica de Bion.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 75

6
Um Glossário dos Termos de Bion, com um
Roteiro de Leitura de sua Obra

De regra, quando em um livro científico sente capítulo também funcionará como um ro-
consta um glossário esclarecedor, ele sempre teiro de leitura da obra de Bion.
aparece no fim do volume. Contrariando a essa Ao final do glossário, seguirá uma lista
regra, creio ser mais adequado inseri-lo aqui, dos livros originais de Bion, a maioria deles
praticamente no início. A razão disso é que, em traduções brasileiras, que consultei deti-
para os leitores que estão bem familiarizados damente com o propósito de ser o mais fiel
com os conceitos e os termos de Bion, esse glos- possível ao seu pensamento, não obstante a res-
sário servirá unicamente como uma definição salva de que nem sempre todos os estudiosos
semântica de como eu os entendo e emprego de sua obra fazem um mesmo entendimento
no presente livro. Para os que não estão familia- sobre algum determinado conceito original que
rizados com a original, complexa e, por vezes, ele propôs.
ambígua e confusa terminologia empregada
por Bion, creio que, consoante com a proposi- A (Letra): em muitas traduções latino-
ção didática do livro, a inclusão desse glossá- americanas da obra de Bion, a letra A designa
rio se impõe pela vantagem de preparar e faci- a inicial de Amor (vínculo do). Em muitos ou-
litar a leitura que seguirá nos demais textos de tros escritos (como no presente livro), a inicial
Bion, que, à primeira vista, pode parecer utilizada para designar esse tipo de vínculo é a
esotérica e desalentadora. letra L, inicial do original Love. Por outro lado,
O esquema utilizado abarcará o maior Bion emprega a letra A como constituindo a
número possível dos termos típicos de Bion, primeira fila de sua grade, mais exatamente a
em ordem alfabética, dando um esclarecimen- que designa o estádio da função de pensar, que
to conceitual simplificado, com o recurso de, ainda está no nível dos protopensamentos, ou
muitas vezes, remeter o leitor para um outro seja, dos elementos beta.
termo do glossário, ou para o texto de algum Referências: ver o capítulo “A Grade”, do
capítulo em que determinado conceito é estu- presente livro. Além disso, o leitor pode procu-
dado com maior profundidade. rar as idéias originais de Bion, no seu texto The
Sempre que possível, os termos serão grid, que, traduzido por “A grade”, aparece pu-
acompanhados de referências, para que o lei- blicado na Revista Brasileira de Psicanálise (v. 7,
tor possa estudá-los nos textos originais. As- 1973) e nos livros Elementos de psicanálise e O
sim, mais do que um simples glossário, o pre- aprender com a experiência.

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76 DAVID E. ZIMERMAN

Abstração: esse termo aparece com rela- pela esperança das pessoas do grupo de que
tiva freqüência ao longo da obra de Bion, de- acontecimentos futuros (casamentos, nasci-
notando uma capacidade bem desenvolvida do mentos, entrada de elementos novos no gru-
ego, a de conseguir, mercê da evoluída utiliza- po, etc.) os salvarão das incapacidades neuró-
ção, fazer generalizações e abstrações, diferen- ticas.
temente do pensamento psicótico, que fica mais Referências: a referência de leitura é o li-
radicado em coisas concretas, ao mesmo tem- vro Experiências em grupos, de Bion. O leitor
po que os símbolos são substituídos por equa- também pode consultar o capítulo do presente
ções simbólicas. No eixo vertical da grade, o livro que trata especificamente sobre a dinâ-
chamado eixo genético da formação da capa- mica de grupos conforme Bion.
cidade para pensar os pensamentos, essa
Alfa (α): esse signo é empregado por Bion
capacitação corresponde à fileira F.
tanto no estudo dos “pensamentos”, sob a for-
Referências: na obra de Bion, esse concei-
ma de “elementos α” e de “função α”, como
to aparece mais pormenorizado em O apren-
também designa um tipo de “transformação α”.
der com a experiência, especialmente nos Capí-
Bion emprestou à função alfa um papel de gran-
tulos 17, 18, 20, 22 e 23, em que estuda as
de relevância para possibilitar o funcionamen-
diferentes combinações resultantes das capa-
to amadurecido do ego, como a capacidade de
cidades ou incapacidades de abstração e de
pensar, fazer síntese, abstrair, simbolizar, so-
uma maior, ou menor, aproximação da abstra-
nhar, etc.
ção com a realização. Também no livro Elemen-
Referências: ver os verbetes e capítulos
tos de psicanálise (p. 19), Bion faz considera-
correspondentes deste livro, além de uma con-
ções sobre o conceito de abstração e exem-
sulta direta aos livros de Bion Elementos de psi-
plifica, dizendo que “a palavra linha é uma abs-
canálise e O aprender com a experiência (Capí-
tração, enquanto a linha desenhada no papel
tulo 5).
é uma realização”.
Alucinação: fenômeno bastante conhe-
Ação: refere-se à função do ego que pos-
cido, próprio da clínica psiquiátrica, surge com
sibilita ao sujeito agir no plano motor de sua
grande freqüência nos textos em que Bion
vida, o que pode suceder de forma exitosa ou
enfoca os transtornos psicóticos.
patológica, conforme o estado evolutivo das
Referências: mais especificamente, o lei-
condições psíquicas. Assim, é importante dife-
tor pode ler as páginas 53 e 96 de Estudos psi-
renciar “ação” de “atuação”. Enquanto esta úl-
canalíticos revisados, e a página 11 de Atenção
tima se processa em dois tempos – “o impulso
e interpretação.
e sua efetivação motora” –, a “ação” se desen-
volve em três tempos: o impulso, os pensamen- Alucinose: é um estado psíquico presen-
tos reflexivos e o ato motor conscientemente te na “personalidade psicótica” que consiste em
assumido. Na grade, a ação aparece no eixo um tipo de “transformação” resultante de ex-
horizontal – o da utilização das funções men- cessivas identificações projetivas, que distor-
tais –, em que ocupa o lugar reservado ao al- cem a percepção da realidade. Não deve ser
garismo 6. confundida com o conceito clássico de “aluci-
Referências: o leitor, além de “A grade”, nação”, tal como ensina a psiquiatria, embora
também pode consultar o livro Elementos de eventualmente a alucinose possa chegar a um
psicanálise, em que esse conceito é bastante estado de alucinação.
enfocado por Bion. Referências: Atenção e interpretação (de
Acasalamento (ou pareamento): esse forma mais específica, na página 41).
termo (pairing, no original) designa um dos Amor (Vínculo do): ver L (inicial de Love,
“supostos básicos” do inconsciente grupal, o amor).
que se refere à condição de um grupo que se
alimenta da expectativa, não tanto pela união Antiemoção: quando Bion estuda os vín-
de um casal, como geralmente se supõe, mas culos – que são elos relacionais e emocionais –

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 77

de amor (L), ódio (H) e conhecimento (K), ele experiência (nas páginas 118 e 127 constam
os designa tanto de forma positiva como de detalhes mais específicos).
forma negativa, à moda de uma imagem em
Aprendizagem com a experiência: além
espelho, caso em que as letras vêm precedi-
de aludir ao título de um dos mais importan-
das de um sinal negativo (-L; -H; -K). Com
tes livros de Bion (1962), essa expressão de-
essa concepção, deixando claro que “antie-
signa uma importante condição de que o indi-
moção” não é o mesmo que “não-emoção”,
víduo possa aprender com as experiências emo-
Bion se afasta do clássico modelo do conflito cionais da vida, as boas e, principalmente, as
do amor contra o ódio e enfatiza o conflito más, caso em que irá sofrer a dor das aludidas
que se estabelece, dentro do sujeito, entre as experiências, a qual possibilitará que ele ve-
emoções que estão contidas no amor e as for- nha a crescer mentalmente. Segundo Bion, di-
ças que se opõem a esse mesmo sentimento ante de uma situação difícil, algumas pessoas
de amor, o mesmo valendo para o ódio e para se evadem mediante uma série de recursos de-
o conhecimento. Essa concepção baseia-se no fensivos de fuga, enquanto outras enfrentam a
princípio da negatividade, ou seja, os aspectos dificuldade, sofrendo uma dor mental, porém
contraditórios e opostos é que formam uma desenvolvendo uma capacidade para modifi-
unidade completa. Dessa forma, Bion deixa car a realidade frustradora. Nas pessoas que
claro que “menos amor” (-L) não é o mesmo não conseguem aprender com as experiências
que ódio, e a recíproca (H e -H) também é – e isso depende diretamente de um acesso à
verdadeira. A antiemoção que mereceu mai- “posição depressiva” –, essa capacidade fica
or destaque de Bion é a que se refere às diver- substituída pela onisciência, ou seja, o sujeito
sas formas de ataque ao conhecimento das racionaliza que não precisa aprender porque
verdades (-K). Bion exemplifica o conceito de “já sabe tudo”.
“antiemoção”, nos aludidos três vínculos, com Referências: para ter um conhecimento
as situações de farisaísmo, puritanismo e hi- mais pleno desse assunto, o leitor deve ler o
pocrisia. livro original O aprender com a experiência.
Referências: sugiro que o leitor leia os
Capítulos 14 e 16, e um bom resumo no Capí- Arrogância: é um estado da mente que,
tulo 26, do livro O aprender com a experiência. juntamente com os estados de “estupidez” e
Uma referência mais explícita aparece na pá- de “curiosidade”, compõe uma tríade presente
gina 23 de Atenção e interpretação. nas personalidades psicóticas e que resulta de
uma onipotência e de uma onisciência, com-
Aparelho para pensar os pensamentos: pensadoras de falhas, faltas e de vazios. A ar-
em suas concepções originais sobre origem, de- rogância é a contraparte de um sadio senti-
senvolvimento e utilizações da capacidade para mento de orgulho, ou seja, este último foi trans-
pensar, Bion, com essa expressão, defende a formado em “arrogância” pela predominância
idéia de que os pensamentos (melhor seria di- da pulsão de morte.
zer os “protopensamentos”, que equivalem aos Referências: uma leitura mais aprofunda-
elementos beta) precedem o pensador. Assim, da sobre esse tema pode ser feita no artigo de
as primitivas sensações e emoções necessitam Bion “Sobre Arrogância”, que constitui o Capí-
de um mínimo de condições mentais, uma es- tulo 7 de Estudos psicanalíticos revisados.
pécie de aparelho para que o sujeito efetiva- Ataque à vinculação: é o título de um
mente possa pensá-las, com símbolos, imagens trabalho, publicado originalmente em 1959
e palavras. como Attacks on linking, considerado por
Referências: essas noções estão bastante muitos autores um dos mais originais e criati-
desenvolvidas na maioria dos seus livros, prin- vos da literatura psicanalítica. Nele, Bion afir-
cipalmente em Elementos de psicanálise (espe- ma que a parte psicótica da personalidade de
cialmente no Capítulo 8: “Pensamentos e o apa- um paciente faz ataques destrutivos a qual-
relho para pensá-los”) e em O aprender com a quer coisa que ele sinta como tendo a função

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78 DAVID E. ZIMERMAN

de vincular um objeto (ou idéia, ou conheci- 3. o estudo, em maior profundidade,


mento...) com outro. Considera especialmen- da relação do místico com o esta-
te os ataques destrutivos ao pensamento ver- blishment.
bal propriamente dito, por meio de um ata- 4. os estudos sobre problemas relativos
que ao conhecimento das verdades penosas, à mentira e ao mentiroso, a capaci-
as externas e as internas (-K). Igualmente, dade para suportar a dor e as incer-
afirma Bion, o paciente que necessita evitar o tezas, a mudança catastrófica, a rela-
contato com verdades pode consegui-lo ata- ção continente-conteúdo, a cegueira
cando a capacidade de percepção de seu ana- artificial do analista para poder en-
lista (por exemplo, deixando-o confuso, irri- xergar melhor, os estudos acerca dos
tado, entediado, etc.) ou desvitalizando as estados de paciência e segurança, a
suas interpretações, tal como aparece no fe- linguagem do êxito, os mitos.
nômeno da reversão da perspectiva.
Referências: no livro Estudos psicanalíti- O livro termina com uma pergunta muito
cos revisados, o leitor encontrará um capítulo inteligente e atual: “Que tipo de psicanálise é
específico, “Ataque aos Elos de Ligação”. necessária para o consciente?”.
Atenção: esse conceito ocupa um lugar na Como o leitor pode confirmar, são temas
quarta coluna do eixo horizontal da grade e de- de significativa relevância, que merecem ser
signa, portanto, um estado de evolução e de estudados no livro original.
utilização dos pensamentos. Trata-se de uma Ato de fé: alude a um conceito um tanto
importante função do ego que, indo além do místico de Bion. Assim, ele designa um ato que
que é captado pelos órgãos dos sentidos, tam- se realiza no domínio da ciência e que deve
bém se institui como uma atividade indispensá- ser diferenciado do significado habitual de
vel à relevante função de discriminação. Por conotação religiosa. Sobretudo, não deve ser
outro lado, na situação analítica, essa 4a coluna confundido com crendices mágicas. Refere-se
da grade aproxima-se do conhecido conceito de à necessidade de o sujeito acreditar que há uma
atenção livremente flutuante, estado mental ne- realidade que ele não sabe o que é e que não
cessário para que a mente do analista não fique está a seu alcance. O “ato de fé” pode ser
saturada por excesso de “memória e de desejo”. considerado uma conceituação pertinente à
Referências: o leitor pode fazer uma con- prática analítica, porque consiste numa atitu-
sulta ao capítulo referente à grade e aos livros de que requer a amálgama de ver e crer; ver
Elementos de psicanálise (páginas 29 e 30) e O não com os olhos orgânicos, mas sim com os
aprender com a experiência (mais precisamen- olhos espirituais.
te, na página 23). Referências: esse assunto está muito bem
Atenção e interpretação: é o título do explanado no livro Atenção e interpretação,
livro publicado em 1970, que inaugura, por as- notadamente nas páginas 36, 39 e 46.
sim dizer, a fase mais claramente mística da At-One-Ment: trata-se de uma expressão
produção científica de Bion. Assim, ele tentou inglesa (equivalente a “junto com”), diferente
mostrar uma analogia e uma conjunção entre de atonement (a qual se traduz por sacrifício,
alguns conceitos psicanalíticos, a matemática expiação), que foi utilizada por Bion para de-
moderna e os dogmas religiosos. Alguns dos signar que algumas pessoas, treinadas segun-
mais significativos aspectos abordados nesse do a religião, crêem que “duas pessoas se tor-
livro são: nam uma”. Em um outro nível, esse termo cor-
responde a uma intuição contemplativa em
1. a valorização da intuição do psica- direção à “verdade incognoscível” e se consti-
nalista; tui ao mesmo tempo como uma união mística
2. a valorização de que o psicanalista e como uma admiração silenciosa. Diz Bion:
consiga realizar o que ele chama de “Os místicos, em diferentes épocas e lugares,
ato de fé; têm sustentado ter tido contato direto com a

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 79

deidade; terão conseguido tornar humano o drada na fileira C. Por outro lado, a letra C
divino?”. também aparece nas traduções em português
Referências: o conceito de “atonement”, de da obra de Bion, designando a inicial da pala-
Bion, aparece muito bem descrito em Nueva vra conhecimento (do original knowledge e da
introducción a las ideas de Bion, de Grinberg e correspondente letra K).
colaboradores, a partir da página 131. Referências: como letra, consultar o dese-
nho da grade e os livros Elementos de psicaná-
B (letra): essa letra designa a segunda
lise e O aprender com a experiência. Como ini-
fileira na grade de Bion, correspondente aos
cial de “conhecimento” (= K), consultar este
“elementos alfa”, que são a matéria-prima para
último livro nos Capítulos 14 a 16.
o prosseguimento da formação de pensamen-
tos propriamente ditos. Calma do desespero: essa terminologia
Referências: Elementos de psicanálise. Ver designa o fato de que, muitas vezes, aparen-
o desenho da grade, no capítulo específico deste temente tudo está bem na vida do paciente,
livro. no entanto, isso não passa de uma resigna-
ção, e a perspectiva de que esteja surgindo a
Barreira de contato: resulta do conjunto
possibilidade de uma mudança, de um res-
formado pelos elementos α, que demarcam a
gate de crescimento, pode produzir muitas
fronteira de contacto e de separação entre o
perturbações, com sentimentos “catastrófi-
consciente e o inconsciente, e, qual uma mem-
cos”. Bion ilustra esse conceito com a metá-
brana permeável, impede que a fantasia pre-
fora de náufragos que aparentemente estão
valeça sobre a realidade.
em calma, embora cansados e esfomeados, e
Referências: O aprender com a experiên-
somente quando aparece um barco salvador
cia, especialmente o oitavo capítulo, “A Barrei-
se exaltam.
ra de Contato”. Na página 64 de Elementos de
Referências: essa última metáfora consta
psicanálise, Bion faz um comentário específico
de uma passagem de Seminarios clínicos y
sobre a “barreira de contato” que se estabelece
cuatro textos, na página 233.
entre o paciente e o analista.
Capacidade negativa: trata-se de uma ca-
Beta (β): esse signo designa um tipo de
pacidade indispensável ao psicanalista, para
elemento de pensamento, de natureza proto-
que possa suportar as dúvidas, as incertezas e
mental, que não se presta à função de pensar,
o “não-saber” de uma situação analítica. O ana-
mas sim de ser evacuado (ver verbete Elemen-
lista deve conter dentro de si, no curso da aná-
tos β). Quando predomina a “parte psicótica
lise, a emergência de sentimentos muito difí-
da personalidade”, diz Bion, em vez da barrei-
ceis, principalmente de determinados senti-
ra de contato, com elementos alfa, esse lugar,
mentos contratransferenciais angustiantes que
imaginário, seria ocupado por um aglomerado
nele tenham sido despertados.
de elementos beta, assim constituindo o que
Referências: o leitor poderá encontrar uma
denominou como pantalha (ou tela) beta, a qual
referência mais específica sobre este verbete
não tem condições de estabelecer inter-rela-
no livro Atenção e interpretação, no Capítulo
ções entre si, de modo que não consegue sepa-
13, mais precisamente na página 138.
rar o consciente do inconsciente.
Referências: ver Elementos de psicanálise e Catástrofe: ver Mudança catastrófica.
O aprender com a experiência, especialmente o
Cesura: refere-se à cesura do nascimen-
Capítulo 3 (“Os Elementos-beta”). Ver “A grade”.
to (equivale ao corte do cordão umbilical).
C (letra): na grade, essa letra ocupa a Bion – inspirado em Freud – utilizou esse ter-
terceira fileira, a qual designa a etapa evolu- mo em seus estudos sobre a continuidade que
tiva dos pensamentos que estão no registro existe entre a vida pré-natal e a pós-natal (ver
onírico sob a forma de sonhos, devaneios e capítulo relativo ao “psiquismo fetal”). Assim,
mitos. Dessa forma, a função de rêverie (ver a palavra cesura também designa, na obra de
verbete) do analista também pode ser enqua- Bion, uma espécie de ponte que, na situação

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80 DAVID E. ZIMERMAN

analítica, representa a passagem de um estado xas [...], freqüentemente endereçando-as


mental para outro, muitas vezes acompanha- a uma platéia imaginária. Esses escritos
da de sintomas ruidosos, tal como acontece na não devem ser lidos por neófitos, de modo
mudança catastrófica. (Ver este último verbe- isolado, mas como adendo aos trabalhos
publicados anteriormente [...]. É a última
te). Ao longo de sua obra, Bion empregou ou-
de suas publicações póstumas; tive muito
tras expressões com um significado equivalen-
prazer em prepará-la.
te ao de “cesura”, como: linha divisória,
sinapsis, pantalha beta, barreira de contato, di-
afragma, encruzilhada, etc. Coisa em si mesmo: esse conceito – lite-
Referências: Freud empregou a palavra ralmente extraído do filósofo Kant – designa
“cesura” na frase “Há muito mais continuida- que a realidade psicanalítica não pode ser co-
de entre a primeira infância e a vida intra- nhecida pelos órgãos dos sentidos, mas somen-
uterina do que a impressionante cesura do ato te pelos fenômenos secundários observáveis;
do nascimento nos permite supor”, que consta clinicamente, ela pode se expressar através da
no livro Inibição, sintoma e angústia. A noção evacuação de elementos β. Esse conceito, na
de “cesura” aparece mais explicitamente em obra de Bion, seguidamente aparece com ou-
um artigo publicado em 1977, que leva esse tras denominações, porém com significado
título. No artigo de 1976, “Acerca de uma Cita- equivalente, como “realidade última”, “núme-
ção de Freud” (p. 231), Bion afirma que ro” e a letra O, de “origem”.
Referências: entre outras citações, o lei-
tor pode encontrar uma clara explicitação des-
Picasso pintou um quadro num pedaço de
se conceito em Conferências brasileiras 1, nas
vidro de maneira que pudesse ser visto de
ambos os lados. Sugiro que o mesmo pode páginas 50 a 52. (Ver Númeno.)
se dizer da cesura: depende de que lado se Comensal: é uma das modalidades da re-
mira, para qual lado se está indo. lação “continente-conteúdo” ( ), e consiste
em que ambos, hóspede e hospedeiro, convi-
Cisão não-patológica: esse conceito alu- vam harmonicamente, embora não haja cresci-
de a um atributo necessário ao psicanalista, mento nem prejuízo em nenhum dos dois, e eles
para que ele possa fazer uma dissociação útil pouco se influenciem mutuamente. As outras
do seu ego que lhe possibilite, a um só tempo, duas modalidades são a parasitária e a sim-
estar envolvido em uma situação analítica e biótica. (Ver os respectivos verbetes.)
preservar o lado observador do seu ego Referências: um estudo mais específico
consciente. dessas três modalidades da relação continen-
Referências: Estudos psicanalíticos revisados. te-conteúdo consta no Capítulo 7 de Atenção e
Cogitações: título da edição em português interpretação.
de Cogitations, livro de Bion publicado post- Como tornar proveitoso um mau negó-
mortem. Resultou do labor de Francesca Bion, cio: título de artigo, cujo original é “Making
sua esposa, que coletou e reuniu anotações the Best of a Bad Job”. Nele, Bion afirma que,
esparsas de Bion, algumas datadas e outras quando duas personalidades se encontram,
não, sob a forma de frases, idéias e reflexões, cria-se uma tempestade emocional, mas, ten-
em que o leitor pode sentir o nascedouro de do ocorrido o encontro e a conseqüente tem-
seus principais livros. No prefácio desse livro, pestade emocional, as duas partes devem de-
Francesca diz: cidir “como tornar proveitoso o mau negócio”.
Referências: esse trabalho aparece, tradu-
Ele escrevia lenta e claramente, com pou- zido, na Revista Brasileira de Psicanálise (v. 13,
cas alterações; usava folhas soltas [...]. 1979) e na Revista de Psicanálise da Sociedade
Muitas ficaram sem data [...]. Bion tenta- Psicanalítica de Porto Alegre, acompanhado de
va, com esses escritos esporádicos, disci- comentários críticos de Elisabeth T. Bianchedi
plinar, esclarecer e avaliar idéias comple- e Raul Hartke.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 81

Comunicação: Bion afirma que a teoria e um dos três vínculos básicos (os outros dois
científica representa-se essencialmente por um são o “amor” e o “ódio”). O vínculo “conheci-
dispositivo que lhe facilite a “publicação”, isto mento” vem designado pela letra K (inicial de
é, da comunicação do saber particular do indi- knowledge) e, nos textos latino-americanos, apa-
víduo, consigo mesmo e com seu grupo. Bion rece com as letras C (conhecer) ou S (saber). O
diz que “a primeira pessoa com a qual deverí- vínculo K não está relacionado ao saber intelec-
amos nos comunicar somos nós mesmos”. Pela tual, mas sim à pulsão epistemofílica de busca
comunicação, o paciente é impelido a operar das verdades. Bion ocupa grande parte de sua
soluções de seus problemas de desenvolvimen- obra enfatizando o -K, isto é, o ataque ao co-
to. A comunicação se faz através de identifica- nhecimento, tal como aparece no verbete “não-
ções projetivas realistas. Essas considerações conhecimento”, do presente glossário.
aparecem nas páginas 30 e 104 de Elementos Referências: ver os Capítulos 14 a 16 e 27
em psicanálise. Por outro lado, Bion sempre des- de O aprender com a experiência. Em Cogita-
tacou os fatos de que a comunicação por meio ções, ver página 279.
do discurso verbal nem sempre tem o propósi-
Conjectura: Bion utiliza os termos “conjec-
to de realmente comunicar algo a alguém e de
tura imaginativa” e “conjectura racional”. O
que, na situação analítica, o psicanalista deve
primeiro alude ao exercício de uma imagina-
estar muito atento para as diversas formas de
ção especulativa sem compromisso com o ri-
distorções, falsificações, mentiras e ambigüi-
gor científico, para que melhor possamos es-
dades confusionais que o paciente, inconsci-
cutar aquilo que nunca foi dito e para que me-
entemente, utiliza para não comunicar as ver-
lhor possamos ver o que é imperceptível (como
dades penosas e para impedir que o analista
as conjecturas que ele fez acerca do psiquismo
tenha acesso a elas.
fetal), enquanto o conceito de conjectura ra-
Referências: além de Elementos de psica-
cional exige uma fundamentação em fatos de
nálise, o leitor pode consultar Estudos psicana-
comprovação científica.
líticos revisados, especialmente os Capítulos 8
Referências: ao longo de suas múltiplas
e 10. A passagem da “comunicação privada
“Conferências”, Bion utiliza bastante esses con-
para a pública” aparece mais explicitamente
ceitos.
nas páginas 40 e 41 de As transformações.
Conjunção constante: trata-se de uma
Conceito: esse nível de capacidade para
configuração de fatos que estão sempre pre-
pensar, na grade, ocupa a fileira F, onde desig-
sentes e interagindo em toda relação do tipo
na que já existe condição de estabelecer corre-
continente-conteúdo. Inspirado no matemáti-
lações entre as concepções, de modo a desen-
co Hume, Bion utilizou esse termo para confi-
volver os pensamentos abstratos que possibili-
gurar as suas hipóteses acerca do desenvolvi-
tam a passagem para os níveis G e H.
mento dos pensamentos. Quando a função de
Referências: ver o capítulo sobre a “gra-
“conjunção constante” falha, resulta que os
de” e o livro Elementos de psicanálise, especial-
pensamentos guardam uma seqüência, porém
mente o sexto capítulo.
sem as necessárias conseqüências.
Concepção: resulta de uma “preconcep- Referências: as considerações acerca des-
ção” que venha a ser fecundada por uma “rea- te verbete aparecem descritas em Elementos de
lização” (ver os respectivos verbetes). Na gra- psicanálise e em Atenção e interpretação, mais
de de Bion, ocupa a fileira E, e permite a pas- precisamente nas páginas 69 e 71.
sagem para o nível seguinte da formação do
Consciente (Análise do): seguidamente
pensamento: a de conceito.
Bion fazia alusões à necessidade de os analis-
Referências: as mesmas que foram assina-
tas pensarem na realização de uma “análise
ladas para o verbete Conceito.
do consciente”, tal como podemos observar no
Conhecimento: esse termo designa, ao trecho que segue, extraído de Atenção e inter-
mesmo tempo, uma importante função do ego pretação (p. 74):

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82 DAVID E. ZIMERMAN

A importância do inconsciente não deve nos cidade de fazer correlações entre fatos, idéias,
cegar ao fato de que, além de nossas me- sentimentos, etc.
mórias e desejos inconscientes, tratados psi- Referências: esse conceito é mencionado
canaliticamente, há um problema a resol- em Atenção e interpretação, mais explicitamente
ver no manuseio de nossas memórias e de-
na página 103.
sejos conscientes. Que tipo de “psicanálise”
é necessário para o consciente?”. Crescimento mental: trata-se de uma ex-
pressão muito utilizada por Bion, porquanto ele
Consenso: equivale ao conceito de senso considera que o crescimento mental positivo
comum. Ver este último. Consultar o Capítulo (destaca a possibilidade de um crescimento ne-
17 de O aprender com a experiência. gativo) é o objetivo maior da psicanálise. Ele
representa o “crescimento mental” através de
Continente: é a capacidade de uma mãe uma equação algébrica (Bion emprega a letra
(ou de um psicanalista) em “conter” as angús- grega “Ψ” para representar o crescimento men-
tias e necessidades do seu filho (ou paciente). tal), na qual participam os elementos das ca-
Na psicanálise contemporânea, a noção de con- racterísticas inatas da personalidade em conjun-
tinente adquire uma relevância extraordinária, ção com as experiências emocionais, sendo que
e, por isso, mereceu um capítulo especial no o fator determinante é a qualidade das emo-
presente livro, com o título de “A Função de ções. O termo crescimento mental, em Bion, subs-
‘Continete’ do Analista e os ‘Subcontinentes’”. titui a clássica utilização conceitual de “cura”.
Referências: na obra de Bion, o leitor pode Referências: os leitores que quiserem co-
consultar o Capítulo 7 de Atenção e interpretação. nhecer melhor a noção de “crescimento negati-
Continente-Conteúdo: esse conceito (tam- vo” podem consultar Elementos de psicanálise,
bém conhecido por continente-contido) costu- página 97, e a página 141 de Atenção e interpre-
ma ser representado por e designa um tação, onde Bion compara esse “crescimento ne-
tipo de modelo que se baseia no uso de identi- gativo” com um crescimento canceroso.
ficações projetivas, em que o continente se cons- Criptograma: essa denominação é, por ve-
titui como um lugar onde um objeto é projeta- zes, empregada por Bion com o mesmo signifi-
do, enquanto o conteúdo é o objeto ou a massa cado de ideograma. Ver este último verbete.
de necessidades e angústias que podem ser
projetadas no interior do continente. Essa re- Cultura grupal: esse termo designa a or-
lação é estudada por Bion a partir da teoria ganização de um determinado momento de um
das “identificações projetivas” de Klein. grupo, resultante do interjogo entre a menta-
Referências: o leitor deve consultar o Ca- lidade da totalidade grupal e a de cada indiví-
pítulo 27 de O aprender com a experiência, em duo em particular.
que consta uma excelente súmula, e o Capítu- Referências: Experiências em grupos.
lo 7 de Atenção e interpretação. Cura: para referir o que se costuma cha-
Cooperação: esse termo alude a uma for- mar de “cura analítica”, Bion manifesta que não
ma exitosa de participação dos indivíduos nos gosta dessa expressão, porque a “cura analíti-
“grupos de trabalho”. ca” é significativamente diferente do conceito
Referências: esse termo aparece com re- clássico de “cura médica”. Ele prefere o termo
lativa freqüência nos trabalhos de Bion so- “crescimento mental” (ver verbete).
bre grupos. É mencionado na página 87 de Referências: no livro Atenção e interpreta-
Estudos psicanalíticos revisados, acompanha- ção, na página 110, há uma menção específica
do de uma vinheta clínica. do conceito de “fuga para a cura”.
Correlação: Bion destaca que um dos ele- Curiosidade: embora reconheça a impor-
mentos mais importantes para o exercício da tância essencial da curiosidade na busca de
função de “comunicação” é justamente a capa- conhecimentos, Bion emprega esse termo mais

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 83

notoriamente no sentido negativo, de patolo- tos de psicanálise, com ênfase no Capítulo 6,


gia associada com a arrogância e a estupidez, página 35, e em O aprender com a experiên-
nas personalidades psicóticas. cia, página 98.
Referências: esses últimos conceitos apa-
Deidade (ou Divindade): na mística cris-
recem com freqüência nos textos sobre a parte
tã, Bion privilegiou as idéias de Mestre Eckhart,
psicótica da personalidade, tal como eles estão
dominicano alemão que, no século XIV, em ra-
nos capítulos de Estudos psicanalíticos revisados.
zão dos limites do pensamento humano àquilo
D (Letra): letra da grade de Bion, que que não tem começo nem fim, designava por
ocupa a quarta fileira, correspondente ao está- Deus (Got) o criador da trindade, e por divin-
gio evolutivo de concepção, ou seja, a capaci- dade (gotheit) a essência divina, a origem das
dade de pensar das “preconcepções”, permi- três pessoas da trindade. Deus age via conhe-
tindo a passagem para o estágio da formação cimento (K), enquanto a divindade permane-
de “conceitos”. ce alheia a qualquer ato, não age, de modo que
Referências: ver o desenho da “grade” e se alcança o conhecimento via “O”. Assim, para
os livros Elementos de psicanálise e O aprender Eckhart, Deus e divindade são tão diferentes
com a experiência. quanto céu e terra.
Referências: Capítulo 11 de As transfor-
Decisão: no Capítulo 5 de Elementos de
mações, especialmente páginas 159, 160 e 164.
psicanálise, Bion afirma que a capacidade de
Um bom resumo dessas idéias pode ser con-
decidir implica transmudar pensamentos em
sultado no livro Bion. A vida e a obra (p. 196-
ação, o que se constitui como uma função do
201), de Bléandonu, que refere a “gnose psi-
ego, de especial relevância. Ele destaca bas-
canalítica”.
tante o quanto uma tomada de decisão é im-
portante para o psicanalista, sobretudo no ato Dependência: esse termo designa um dos
de selecionar qual a interpretação que ele es- “supostos básicos” da dinâmica dos grupos e
colherá, em meio a muitas outras possibilida- refere-se à condição de uma grande dependên-
des. A propósito, cabe citar uma frase de Ilya cia do grupo em relação ao seu líder, geral-
Prigogine, Prêmio Nobel de Química, 1977: “As mente de características carismáticas. Os de-
moléculas obedecem a leis, e as decisões hu- mais supostos básicos propostos por Bion são
manas dependem do passado e das expectati- os de luta e fuga e o de acasalamento. Ver os
vas para o futuro”. respectivos verbetes.
Referências: Elementos de psicanálise, mais Referências: Experiências em grupos.
especificamente na página 28.
Desejo: trata-se de um termo que ficou
Dedutivo científico (Sistema): na nota- muito popularizado na obra de Bion, em ra-
ção da grade, esse conceito ocupa a fileira G. zão da sua recomendação de que o psicanalis-
Refere um alto grau evolutivo da capacidade ta deve se manter na situação psicanalítica sem
para pensar, com abstrações e deduções, que a saturação da mente pela “memória, desejo e
implica a condição de o sujeito conseguir esta- ânsia de compreensão”. Ele exemplifica com o
belecer correlações entre as hipóteses e os con- desejo do analista em relação à “cura” do seu
ceitos. Bion considera a expressão “sistema paciente, assim como os seus desejos de que a
dedutivo científico” como “um sistema de hi- sessão termine logo, etc.
póteses no qual certas hipóteses ocupam um Referências: embora essa conceituação
nível superior, um sistema particular, e são usa- compareça bastante nos textos de Bion, é útil
das como premissas, das quais se deduzem as que o leitor leia o trabalho “Notas sobre a Me-
hipóteses de nível inferior”. mória e o Desejo”, que está publicado, tradu-
Referências: essa concepção aparece no zido para o espanhol, na Revista de Psicoanalisis,
livro Cogitações (em que a citação menciona- (v. XXVI, n. 3, 1969). Também existem inte-
da aparece na página 165). No livro Elemen- ressantes considerações sobre a memória e o

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84 DAVID E. ZIMERMAN

desejo, nos Capítulos 3 (p. 37) e 6 (p. 75) de na as preconcepções, e permite a passagem para
Atenção e interpretação. a letra F, que refere a formação de conceitos.
Deus: ver Deidade.
Édipo: o mito de Édipo aparece constan-
Dimensões: a investigação psicanalítica temente na obra de Bion, partindo de um vér-
formula premissas diferentes das da ciência tice de observação em muitos pontos diferen-
comum, como as de filosofia ou teologia. Os tes de Freud.
elementos psicanalíticos e os objetos deles de- Referências: um detalhado estudo do mito
rivados apresentam as seguintes dimensões: de Édipo, sob a ótica bioniana, encontra-se nos
Capítulos 10 e 11 de Elementos de psicanálise.
1. terreno dos sentidos; O leitor também pode ver o subtítulo “O Mito
2. terreno dos mitos; de Édipo e a Grade”, no presente livro, no ca-
3. terreno da paixão. pítulo “A Grade”.
Elementos de psicanálise: é o título de
Referências: essa concepção aparece com um dos mais importantes livros de Bion (1963).
freqüência na obra de Bion, porém o leitor vai Ele também emprega essa expressão para de-
encontrar no livro Elementos de psicanálise uma signar que, da mesma forma que as letras do
explicitação mais completa, notadamente no alfabeto se combinam para compor palavras, e
terceiro capítulo, onde consta, na página 22, a estas, para compor frases, também os elemen-
menção às três dimensões referidas. tos da psicanálise se unem, desunem, combi-
Dor: Bion atribui grande importância à nam e reconstroem sob múltiplas formas entre
dor psíquica, no sentido de que mais que sen- si. Os “elementos” são “funções” da personali-
tir a dor, é necessário sofrê-la, para poder vir a dade. Uma atenta leitura dos textos de Bion per-
“aprender com as experiências emocionais”. Ele mite circunscrever os seguintes sete elementos
frisa que é muito importante que se estabeleça da psicanálise: 1) a relação posição esquizo-
a diferença entre o paciente evadir a dor ou paranóide e posição depressiva. 2) a relação con-
enfrentá-la. É tamanha a importância que Bion tinente-conteúdo; 3) os vínculos de amor, ódio e
empresta à necessidade de sentir a dor (cor- conhecimento; 4) o conceito de transformações;
respondente à entrada na “posição depressi- 5) a relação entre idéia e razão; 6) a relação en-
va”), que ele a considera como um dos sete tre narcisismo e social-ismo e 7) a dor mental.
elementos da psicanálise. Referências: ler Elementos de psicanálise,
Referências: o assunto “dor” aparece bas- além de fazer o acompanhamento dos verbe-
tante bem desenvolvido por Bion no Capítulo tes de cada um dos sete elementos que foram
2 (páginas 11 e 22) de Atenção e interpretação mencionados neste glossário.
e, especialmente, no Capítulo 13 de Elementos Elementos α: são as impressões sensori-
de psicanálise. No livro Conversando com Bion, ais e as experiências emocionais transforma-
o leitor encontrará interessantes alusões à dor das, predominantemente, em imagens visuais
psíquica nas páginas 38, 233 e 240. e utilizadas pela mente para a formação de
sonhos e recordações e para as funções de sim-
“Dor de fome”: expressão seguidamente bolizar e de pensar. Assim, os elementos alfa
utilizada por Bion para apresentar um modelo relacionam-se com o abstrato, enquanto os ele-
que demonstre o sofrimento que a criança sente mentos beta o fazem com o concreto.
quando está privada da presença de um bom Referências: Elementos de psicanálise e O
seio nutridor, o que gera uma ativação de sen- aprender com a experiência, especialmente o Ca-
timentos de ódio, com as respectivas conseqü- pítulo 5 deste último.
ências.
Elementos β: quando as impressões sen-
E (letra): Na grade, essa letra ocupa a fi- soriais e as experiências emocionais não con-
leira que designa o nível de pensamento de con- seguem ser transformadas, ela devem ser ex-
cepção. A concepção segue à letra D, que desig- pulsas e evacuadas para fora, como nos actings,

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 85

por exemplo. Por isso, elas não se prestam para clarecer o uso expulsivo de sentimentos e de
a função de pensar e são vivenciadas como idéias indesejáveis, que geralmente se apresen-
concretas, “coisas em si mesmo”. tam sob a forma de elementos beta, através do
Referências: Elementos de psicanálise. e O uso maciço de identificações projetivas. Assim,
aprender com a experiência, notadamente o Ca- para Bion “o sonho do psicótico representa ser
pítulo 3, intitulado “Os Elementos beta”. a evacuação de um material que foi ingerido
Elos de ligação: ver Vínculo. durante a vigília”.
Referências: Estudos psicanalíticos revisados.
Estados da Mente: ao longo de sua obra,
Bion deu um grande destaque ao estado men- Evidência: é o título de um trabalho de
tal que predomina tanto no psiquismo do ana- Bion, de 1976, no qual ele questiona quais as
lista, no curso das situações analíticas, como evidências de que uma interpretação é a mais
na mente do paciente. Particularmente, são im- eficaz e enfatiza o risco de o psicanalista “pre-
portantes suas considerações acerca de um es- encher o vazio de nossa ignorância com diver-
tado mental de descobrimento, o qual implica o sos artifícios”. Nesse artigo, Bion tece interes-
amor às verdades, de uma superação das resis- santes conjecturas a respeito do psiquismo fetal.
tências, de um processo de sucessivas trans- Referências: o trabalho “Evidência” cons-
formações, de uma disposição para o sofrimen- ta dos “Quatro Textos” que estão presentes, tra-
to e de uma contínua mudança de vértices de duzidos para o espanhol, no livro Seminarios
pensamentos e conhecimentos. O estado men- clínicos y cuatro textos. Sugiro que o leitor leia,
tal proposto por Bion, que é o mais conhecido, na Revista de Psicanálise da Sociedade Psicana-
não obstante geralmente ter sido entendido de lítica de Porto Alegre (v. VII, n. 2, set. 2000), a
forma equivocada (ver “Evolução”), é o de “sem publicação desse artigo em português, segui-
desejo e sem memória”. da de comentários críticos de Antonino Ferro
e David Zimerman.
Establishment: Bion tomou emprestado
esse termo da sociologia e da política para de- Evolução: esse termo, ao longo da obra
signar uma situação constituída de uma forma de Bion, surge com três significações distintas.
consistente e aceita por todos, para uma de- 1) Consiste em um estado mental do psicana-
terminada época e lugar, como uma cultura, lista que permite que utilize, de forma cons-
uma situação de poder político, institucional, trutiva (para uma interpretação, por exemplo),
etc. Bion estudou especialmente a relação en- uma série de fenômenos dispersos, inclusive
tre o establishment e a figura do “místico”, que os de sua memória, desde que não esteja
ameaça a sua estabilidade. saturada e que, antes, provenha mais de uma
Referências: esse termo aparece com muita intuição repentina. Esse conceito é importante
precisão nos Capítulos 7 e 12 de Atenção e in- para diferenciar um equívoco bastante comum,
terpretação. o de atribuírem a Bion uma posição contrária
ao surgimento da memória no curso da sessão
Estupidez: na verdade, trata-se de uma (“sem desejo e sem memória...”). Na verdade,
“estupidificação”, ou seja, de um pseudo ele se posicionava contra um esforço delibera-
“emburrecimento”, como uma decorrência da do do analista de forçar-se a lembrar fatos, mas
patologia do conhecimento. Bion empregava era favorável à presença da memória sempre
esse termo em conjunção com a “arrogância” e que essa surgisse espontaneamente, quer na
a “curiosidade”, nas personalidades psicóticas. mente do analista, quer na do paciente. 2) Em
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- outros momentos, Bion prefere utilizar o ter-
dos, especialmente o Capítulo 8, em que, na mo “evolução”, com o significado de um cres-
página 118, há um subtítulo “Curiosidade, Ar- cimento mental, para diferenciar do significa-
rogância e Estupidez”. do que o vocábulo “cura” tem em medicina. 3)
Evacuação: Bion utiliza com freqüência Bion também usa a denominação de “evolu-
o “modelo digestivo”, com o propósito de es- ções de O”, ou seja, como “O” – que significa o

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86 DAVID E. ZIMERMAN

desconhecido e desconhecível – evolui para “K”, lhor. A melhor analogia é com o céu, que so-
ou “K” para “O”. mente à noite nos permite ver as estrelas, que
Referências: os três significados aludidos já existiam no firmamento mas estavam obs-
aparecem em Atenção e interpretação; a evolu- curas aos nossos olhos durante o dia. No livro
ção referente à memória está no Capítulo 6, mais Conferências brasileiras 1 (p. 45), Bion consi-
precisamente; na página 77 e as evoluções de dera que
“O” estão no Capítulo 3, nas páginas 30 e 37.
Em Cogitações, na página 395, Bion responde ao invés de tentar trazer uma luz brilhan-
às críticas dos debatedores de seu trabalho “No- te, inteligente, compreensível para incidir
tas sobre Memória e Desejo”. sobre problemas obscuros, sugiro empre-
garmos uma diminuição da “luz” – um pe-
Experiência Emocional: essa expressão- netrante facho de escuridão; uma réplica
chave aparece com grande freqüência na obra do holofote.
de Bion e alude ao fato de que as emoções, ex-
plícitas ou implícitas, que impregnam os víncu- Referências: Conferências brasileiras 1.
los das relações estão sempre presentes. Primi-
tivamente sob a forma de “impressões senso- Falsidade: Bion parte do princípio de que
riais”, restam captadas no psiquismo e são sus- todo pensamento, uma vez formulado, é falso
cetíveis de sofrer sucessivas transformações. As- se comparado com a “verdade” do fato origi-
sim, Bion enfatiza que, na situação analítica, há nal que ele está formulando. O que varia é o
uma grande diferença entre o aprender acerca grau de falsidade, e é necessário distinguir en-
das coisas e o aprender emocionalmente com a tre falsidade, falsificações e mentiras. A impor-
experiência das coisas. Dessa forma, na abertu- tância disso, na prática analítica, pode ser evi-
ra do livro O aprender com a experiência, afirma denciada na seguinte afirmativa que aparece
que “este livro terá fracassado se a própria lei- no livro Conferências brasileiras 1, (p. 125):
tura não for uma experiência emocional”. Pode-
se dizer, pois, que “experiência emocional é toda A dificuldade surge quando se é psicanalis-
relação, vincular, que está ativamente presente ta e não se fica satisfeito com a idéia de
na área da aprendizagem, assim como, inversa- que o paciente esteja realmente tentando
mente, toda a aprendizagem se realiza numa enganar, ou se acha que ele está se referin-
experiência emocional”. do a uma das muitas facetas da verdade.
Referências: O aprender com a experiência.
Referências: o conceito do presente ver-
Experiências em Grupos: é o título de bete está muito ligado ao de -K, logo, o leitor
um dos mais conhecidos livros de Bion, em que pode consultar os livros O aprender com a ex-
reúne uma série de escritos originais sobre a periência, principalmente o Capítulo 16, e Aten-
dinâmica de grupos, que tinham sido publica- ção e interpretação, especialmente os Capítu-
dos de 1943 até 1961. Nesses trabalhos, Bion los 5 e 11.
aporta muitas e diversas contribuições originais
e muito fertilizantes acerca da dinâmica incons- Fato selecionado: este importante con-
ciente sempre presente nos campos grupais. ceito – inspirado no matemático Poincaré – se
Referências: Experiências em grupos refere à busca de um fato que dê coerência,
significado e nomeação a fatos já conhecidos
F (Letra): essa letra, na grade de Bion, isoladamente, mas cuja inter-relação ainda não
designa a sexta fileira, alusiva ao nível da ca- foi percebida, e que estão em um estado algo
pacidade de formação de conceitos. caótico, na posição esquizoparanóide, quando
Facho de escuridão: com base em Freud inicia a posição depressiva. Na situação analí-
(“tento amiúde ofuscar-me artificialmente a fim tica, consiste na espera por um tema dominan-
de examinar esses lugares obscuros”), Bion pre- te, entre outros que formam um aparente caos,
conizava que, às vezes, é necessário um facho que permita ao analista exercer a função inter-
de escuridão (“cegar-se”) para poder ver me- pretativa.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 87

Referências: Elementos de psicanálise, no são utilizados na matemática – embora tenha


Capítulo 5. O aprender com a experiência, no se inspirado nesta última –, com o intuito de
Capítulo 26. Cogitações, nas páginas 241 e configurar que se tratam de variáveis em rela-
285. ção com outras variáveis psíquicas, e que essa
Fator: trata-se de um elemento de psica- relação entre duas grandezas exprime uma lei.
nálise, isolado, não-saturado, que, combinado Emprega-se o termo “função” como nome para
com outros, concorre para a construção de uma o grupo de ações, físicas e mentais, reguladas
função. Por exemplo: os elementos α possibili- por determinadas finalidades, e sempre as ten-
tam a função α, a qual, por sua vez, será um do em vista. Função e fatores sempre são estu-
fator da função de sonhar, de pensar, etc. dados conjuntamente, de modo que o valor de
Referências: Capítulo terceiro de Elementos uma função qualquer que se considere vai de-
de psicanálise, O aprender com a experiência, pender da forma de relação entre os fatores.
nos Capítulos 1 e 27 – neste último, há uma Cabe aqui o exemplo da “função sexual”: ela
excelente “súmula” acerca dos conceitos de fa- resulta de fatores físicos (como visão, olfato,
tor, função, continente-contido, vínculo, etc. tato, uma beleza sensual, ereção ou humidifi-
cação, que, por sua vez, implicam outros fato-
Fé (Ato de): é um conceito algo místico; res orgânicos, etc.) e fatores mentais (estado
no entanto, trata-se de um ato que se realiza de excitação, ou de depressão, ou o sabor nar-
no domínio da ciência, que deve ser diferencia- cisista de uma conquista, etc.). Uma determi-
do do significado de conotação religiosa e, prin- nada função pode servir como fator de uma
cipalmente, não deve ser confundido com cren- outra função. Uma das funções mais nobres é
dices. Refere-se a uma necessidade de acredi- a que Bion denominou como “função-alfa” (ver
tar que existe uma realidade incognoscível no
verbete, a seguir).
fundo daquilo que não sabemos o que é e que
Referências: valem as mesmas referências
não está ao nosso alcance.
sugeridas para Fator.
Ver Ato de fé, com as respectivas referên-
cias de leitura. Função α: Bion utiliza esta expressão com
uma vagueza intencional, para evitar que o psi-
Frustração: é um dos termos-chave na
canalista fique saturado com uma única teoria
obra de Bion, que seguidamente o emprega,
do pensamento. Essa área de investigação inclui
destacando três aspectos: 1) positivo e sadio,
os processos de pensamento e as diversas for-
quando empregado adequadamente pelos edu-
mas como se apresentam os produtos finais (ges-
cadores, porque promove o contato com a rea-
lidade e provê a noção de limites e limitações; tos, palavras, ou formulações mais abstratas). Ele
2) negativo e desestruturante, quando exces- destaca a indispensabilidade da função α, por
siva e injustamente empregado, com a forma- parte da mãe, para que o filho também possa
ção de um incremento do ódio e suas respecti- desenvolvê-la. Assim, afirma que “o rêverie da
vas conseqüências daninhas; 3) quando a frus- mãe é fator de função-alfa da mãe”. Bion desta-
tração for demasiadamente escassa, a criança ca alguns aspectos da função-alfa, como:
vai desenvolver onipotência e onisciência. Bion
afirma enfaticamente que, na prática analíti- 1. armazena experiências físicas e emo-
ca, “o que importa ao psicanalista situa-se en- cionais, como caminhar, dirigir, so-
tre os comportamentos destinados a fugir à frer, etc.;
frustração e os que a modificam”. 2. permite fazer as necessárias repres-
Referências: O aprender com a experiên- sões;
cia, nos Capítulos 11 (do qual se extraiu a últi- 3. permite a formação de símbolos;
ma frase citada) e 26. No livro Estudos psica- 4. assim, possibilita pensar e raciocinar;
nalíticos revisados, a importância da frustração 5. igualmente faculta o pensar incons-
aparece praticamente em todos os capítulos. ciente da vigília e a capacidade para
sonhar, ou seja, o “pensamento oní-
Função: Bion emprega os termos “fator”
rico”;
e “função” sem o sentido estrito com o qual

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88 DAVID E. ZIMERMAN

6. forma a “barreira de contato”. outro indivíduo. Desse artigo, derivou o con-


Ver os verbetes dos dois últimos as- ceito de Bion relativo à visão binocular.
pectos assinalados. Referências: esse clássico trabalho está
incluído no livro Estudos psicanalíticos revisa-
Referências: Capítulos 1, 2 e 12 de O apren- dos, Capítulo 2.
der com a experiência. Gênio: Bion usa indistintamente os ter-
Função analítica eficaz: com essa expres- mos “gênio”, “místico”, “herói, “indivíduo ex-
são, Bion quis precisar que, na situação analí- cepcional” ou “messias” para designar aquele
tica, o psicanalista necessita aliar três estados indivíduo (por exemplo, Jesus) que, por ser
da sua mente: ser um líder em busca da verda- possuidor e transmissor de idéias novas, se
de, um místico em permanente estado de fu- constitui em uma ameaça ao establishment em
são com a verdade incognoscível e um artista que está inserido.
para saber comunicá-la eficazmente. Referências: esse conceito está bastante
bem-desenvolvido nos Capítulos 6 e 7 de Aten-
Função psicanalítica da personalidade ção e interpretação.
(FPP): trata-se de um dos conceitos mais sig-
nificativos de Bion e refere-se ao fato de que a Grade: é um modelo criado por Bion para
busca epistemológica é inata em qualquer in- servir como instrumento para que o psicanalista,
divíduo, e que essa pulsão a conhecer as ver- fora da sessão, possa situar em qual nível de evo-
dades deve ser desenvolvida no analisando lução e de utilização de pensamento estão tanto
através da análise e da introjeção dessa fun- ele próprio como o seu paciente. Consiste em um
ção de seu psicanalista. Em suma, a FPP desig- sistema cartesiano, com o entrecruzamento de
na uma atitude mental profunda ante a verda- um eixo vertical (gênese do pensamento) e um
de e o conhecimento de si mesmo. horizontal (utilização dos pensamentos).
Referências: a expressão “Função psicana- Referências: além do próprio trabalho re-
lítica da personalidade” pode ser encontrada ferente à grade, o leitor encontra uma descri-
no Capítulo 26 (p. 123) de O aprender com a ção pormenorizada nos livros Atenção e inter-
experiência. pretação (principalmente no Capítulo 6, “O Mís-
tico e o Grupo”) e Elementos de psicanálise.
Functores: seguidamente, Bion emprega
esse vocábulo, que é uma contração dos con- Grupo: o trabalho prático de Bion com di-
ceitos de função e de fator. O termo pertence à versos tipos de grupos contribuiu fortemente
sintaxe das categorias matemáticas, e Bion o para a construção de seu pensamento psicana-
utiliza quando pretende designar conceitos lítico e para a realização de alguns livros seus,
psicanalíticos que operam segundo uma lógi- específicos e inovadores sobre dinâmica de gru-
ca matemática. po. Nos respectivos verbetes deste glossário,
Referências: uma referência mais explíci- assim como no capítulo sobre grupos, aparecem
ta pode ser encontrada no Capítulo 27 (p. 124) conceitos como os de “grupo de trabalho”, “gru-
de O aprender com a experiência. po de supostos básicos”, “grupos sem líder”,
“grupo de trabalho especializado”, “valência”,
G (letra): na grade de Bion, G ocupa a “mentalidade grupal”, “cultura do grupo”, etc.
sétima fileira, onde designa o sistema dedutivo Referências: Experiências em grupos e o Ca-
científico (ver esse verbete). pítulo 6 (“O Místico e o Grupo”) de Atenção e
Gêmeo imaginário: é o título do seu pri- interpretação.
meiro trabalho rigorosamente psicanalítico, “H”: a letra H aparece com freqüência nos
apresentado em 1950, na Sociedade Britânica textos de Bion, com dois significados distintos:
de Psicanálise, para a obtenção da condição
de membro aderente. A tese central desse tra- 1. na grade, ocupa a oitava fileira, de-
balho recai sobre o uso maciço de identifica- signando a etapa evolutiva da capa-
ções projetivas de um sujeito dentro de um cidade para pensar que atingiu um

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 89

alto grau de abstração, ou seja, a con- Capítulo 22, p. 98, há uma referência explícita
dição de fazer cálculos algébricos; ao conceito de “hipótese definidora”).
2. como signo (letra inicial de Hate), de- Idéia: Bion utiliza a letra “I” para desig-
signa o vínculo de ódio, que, junta- nar o conceito de “idéia”, e a sigla “I-R”, para
mente com L e K, acompanha todas indicar a constante interação que existe entre
as relações objetais. idéia e razão. Segundo o autor, a sigla “I” se
destina a representar os “objetos psicanalíti-
Nos escritos de língua portuguesa, pode cos” compostos de elementos-alfa, produtos da
aparecer como O (de ódio). função-alfa.
Hipérbole: com essa palavra (que nos di- Referências: Elementos de psicanálise (de
cionários correntes significa “figura que en- forma mais específica, na página 13) e O apren-
grandece ou diminui exageradamente”), Bion der com a experiência.
designa um tipo de transformação na qual há Identificação projetiva: embora esse ter-
uma intensa deformação dos fatos originais. mo não seja original na terminologia de Bion,
Na situação clínica, a hipérbole pode se mani- ele consta deste glossário porque Bion foi o pri-
festar como uma tentativa desesperada do pa- meiro autor a lhe emprestar dois significados
ciente de se fazer entender pelo seu analista, de enorme importância no processo psicanalí-
através do exagero dos sintomas, do uso su- tico: o primeiro é o da identificação projetiva
perlativo da linguagem e por meio de identifi- normal (favorece a empatia), e o segundo, o
cações projetivas excessivas. de entender e utilizar as identificações proje-
Referências: esse conceito aparece no Ca- tivas dos pacientes – especialmente os mais
pítulo 9 de Estudos psicanalíticos revisados, em agressivos – como uma primitiva forma de lin-
muitas passagens da obra de Bion em que ele guagem e de comunicação. Bion denomina as
se refere a assuntos da prática clínica, como identificações projetivas como realista (normal)
em Conversando com Bion e Seminarios clíni- e excessiva (patológica).
cos y cuatro textos. Referências: Estudos psicanalíticos revisa-
Hipótese definidora: ocupa a coluna 1 do dos, na página 59, e Capítulo 12 de Elementos
eixo horizontal da grade; consiste em o indiví- de psicanálise.
duo usar o pensamento formulando hipóteses Ideograma: ao se referir aos pensamen-
que se constituem como uma definição da sua tos primitivos de natureza pré-verbal, Bion os
verdade naquele momento da sessão analítica ligava mais à visão e aos ideogramas (tal como
(por exemplo, o analisando começa a sessão na escrita dos chineses) que às palavras e à
dizendo: “tenho certeza de que o sr. está cheio audição. Segundo Bion, o ideograma represen-
de mim”). É útil levar em conta que a etimo- ta só uma palavra, enquanto relativamente
logia do verbo “definir”, do latim de +finis, dá poucas letras formam milhares de vocábulos.
uma clara idéia de que “se chegou ao fim”, ou Essa concepção, também conhecida como
seja, a hipótese definidora alude a que a mente “criptograma”, “holograma”, “fotograma” e
do paciente está saturada com a sua “verdade”. “imagem onírica”, está ganhando uma grande
No entanto, se a mente não estiver totalmente relevância na psicanálise contemporânea, que
saturada, é possível que, com o curso da análi- valoriza o surgimento de idéias e de sentimen-
se, venha a sofrer transformações em direção a tos sob a forma de imagens que brotam espon-
um crescimento, conforme o eixo vertical da taneamente na mente do paciente, do analista
grade, excluindo o sistema dedutivo científico ou em ambas.
e o cálculo algébrico, que não fazem parte da Referências: consultar os seguintes livros:
psicanálise propriamente dita. Estudos psicanalíticos revisados (p. 70) e Ele-
Referências: consultar “A Grade”, Elemen- mentos de psicanálise (referência explícita na
tos de psicanálise (especialmente o Capítulo 5), página 12). Em diversas passagens de Confe-
Atenção e interpretação (referência direta na rências brasileira 1 (referência direta na pági-
página 18) e O aprender com a experiência (no na 83) e de Conversando com Bion.

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90 DAVID E. ZIMERMAN

Indivíduo excepcional: essa expressão mentos de significados, tal como se observa no


sintetiza o mesmo significado que está desig- pensamento das personalidades psicóticas.
nado por outros termos equivalentes, tais como
Investigação: na grade de Bion, a inves-
“gênio”, “herói” e “místico”.
tigação ocupa a coluna 5, designando a utili-
Referências: ver as referências do verbete
zação da função de pensar no que se refere à
Gênio. capacidade de investigar (aludindo a uma “bus-
Intuição: não deve ser confundida com ca de vestígios”) aquilo que o paciente traz nas
adivinhação ou qualquer outra coisa mágica. Tra- suas narrativas, na situação analítica. Para tan-
ta-se tão-somente da capacidade do psicanalista to, Bion propõe o emprego de indagações, tanto
de se ligar a fatos que não são captados através por parte do analista quanto do paciente.
dos órgãos dos sentidos, é essa capacidade que Referências: capítulo quinto de Elementos de
permite o acesso às verdades incognoscíveis. Bion psicanálise, além do artigo original “A Grade”.
afirmou que preferia o termo intuir a “observar”, K e -K: esses signos aparecem com gran-
“escutar” ou “ver”, pois aquele não encerra uma de freqüência em todos os escritos que tratam
“penumbra de associação”. O autor proclama que da normalidade (K) e da patologia (-K) do co-
o analista precisa estar num estado de mente não- nhecimento. Por ser a inicial da palavra ingle-
saturado por memória e desejos, para que, en- sa knowledge, em muitos escritos brasileiros e
tão, possam “intuição, que é cega, e o conceito, de idioma espanhol, aparece como C ou -C (de
que é vazio, se associarem para formar um pen- “conhecer”), e em alguns outros aparece como
samento ou uma interpretação”. S (-S), inicial do verbo “saber”.
Invariante: esse termo designa o fato de Referências: existe uma suficiente explici-
que, por mais profundas e aparentemente tação nos livros O aprender com a experiência,
irreconhecíveis que tenham sido as transfor- especialmente nos Capítulos 1 e 16, este últi-
mações, sempre restam vestígios originais, imu- mo intitulado “O Vínculo K”, e Atenção e inter-
táveis. Por exemplo, quando um pintor pinta pretação.
uma tela, não obstante as transformações im- L: inicial de love, é o signo designador do
postas pelo seu estilo e sua técnica, alguma vínculo de amor. Em textos latino-americanos,
coisa do modelo original permaneceu “invariá- por vezes aparece como A (de “amor”). Por sua
vel”, o que permitirá um “reconhecimento”. vez, a sigla -L representa a antiemoção do amor,
Uma outra analogia pode clarear melhor esse que não deve ser confundida com o ódio.
relevante conceito: a água líquida, um bloco Referências: as mesmas de K.
de gelo e uma nuvem podem parecer totalmen-
Líder: Bion dedica um relevante papel à
te diferentes entre si, mas esses três estados
função de liderança, mas partindo de um
são transformações que conservam um mes- enfoque diferente do descrito por Freud. As-
mo invariante, o H2O. sim, ele postulava que não era o líder que cons-
Referências: Atenção e interpretação, Capítu- tituía e determinava o destino das massas,
lo 2 (p. 15) e Capítulo 10, intitulado “Imagens como postulava Freud, mas, o contrário, ou
Visuais e Invariantes”. No livro As transformações, seja, certas necessidades emergentes de um
a noção de invariante surge com freqüência. grupo social é que determinam o tipo de lide-
Inversão da função alfa: consiste no fato rança adequada para satisfazê-las. Dessa for-
de os elementos alfa – portanto, a serviço de ma, descreveu que existem três tipos de líde-
uma função simbólica – serem reduzidos, par- res básicos:
cial ou totalmente, a escombros e não volta-
rem a ser como os elementos beta iniciais, mas 1. o de características carismáticas, que
sim como elementos beta com vestígios de ego surge nas massas que estão sob o do-
e de superego, ou seja, unicamente com frag- mínio do “suposto básico de depen-
dência”;

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 91

2. o líder tipo caudilho, com caracte- Linguagem de êxito: essa expressão, que
rísticas paranóides e tirânicas, que também aparece traduzida por “linguagem de
preenche o suposto básico de “luta consecução”, no original é Language of Achieve-
e fuga”; ment. Esta última palavra designa aquilo que
3. o líder com perfil de algum misticis- está em jogo no movimento de alguma “reali-
mo, que satisfaça o suposto básico zação”. Com essa terminologia – que se baseia
de “acasalamento”. na crença de que “as emoções falam mais alto
que as palavras” –, Bion designa uma condi-
Bion também descreveu que as lideran-
ção que a linguagem do analista deve possuir
ças podem ser positivas e construtivas ou ne-
para ter mais êxito em alcançar a realidade
gativas e niilistas.
incognoscível do paciente, e assim conseguir
Referências: Experiências em grupos e Aten-
modificações verdadeiras do paciente. Para
ção e interpretação, especialmente os Capítu-
tanto, essa linguagem deve partir mais da in-
los 6 e 7.
tuição, e menos dos órgãos dos sentidos. A lin-
Linguagem: outra palavra-chave na obra guagem do êxito pode se expressar em ação,
de Bion. Ele concede uma importância relevan- pelo discurso, por escritos ou no plano da es-
te às diversas formas de linguagem, de sorte a tética. É algo que não fica limitado ao êxito
enfatizar que a mesma pode designar a aquisi- concreto, mas abrange experiência, habilida-
ção de uma linguagem verbal composta por de, perseverança, empenho e sabedoria.
símbolos, que serve para a nobre função de Referências: Capítulo 2 de Estudos psica-
comunicação; entretanto, também pode acon- nalíticos revisados. A expressão “linguagem do
tecer de essa linguagem verbal vir a ser utili- êxito” comparece com freqüência em muitas
zada para a “não-comunicação”, por meio de passagens de Atenção e interpretação, especial-
distorções, ambigüidade, falsificações, confu- mente na Introdução e nos Capítulos 6 e 13,
são, etc. Bion destaca, principalmente, a lin- este último denominado “Prelúdio ou Substi-
guagem que diz respeito à sua patologia, como tuto ao Êxito”.
é a que acompanha os distúrbios psicóticos,
como a esquizofrenia, que ele estuda com mais Luta e fuga: trata-se de um dos supostos
profundidade e originalidade. básicos do inconsciente grupal e indica a
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- prevalência de mecanismos projetivos, os quais
dos, notadamente no Capítulo 3, “Notas sobre determinam um estado mental de predominân-
a Teoria da Esquizofrenia”. cia paranóide.
Referências: Experiências em grupos.
Linguagem do psicótico: neste caso, Bion
destaca três maneiras de como mais francamen- Memória: Bion distinguiu quando a me-
te esquizofrênicos utilizam a linguagem: mória do psicanalista é usada negativamente,
por estar saturada de concepções prévias (caso
1. como um modo de atuação; do “sem memória, sem desejo...”), ou quando
2. como um método de comunicação a memória brota espontaneamente em sua
primitiva; e mente. Esta última constitui o estado de “evo-
3. como uma forma de pensamento, lução” (ver esse verbete) e é considerada como
caso em que esses pacientes podem bastante positiva quando surge na situação
utilizar as palavras como se fossem analítica. Na grade, a memória corresponde à
coisas, ou como partes cindidas notação, que ocupa a coluna 3.
deles mesmos, as quais tratam de Referências: “Notas sobre a Memória e o
colocar dentro do analista. Desejo”, artigo de 1967, Atenção e interpreta-
ção, Capítulos 3 (p. 37), 6 e 13, Estudos psica-
Referências: as mesmas do verbete anterior. nalíticos revisados (p. 146 e 170) e Cogitações
(p. 392).

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92 DAVID E. ZIMERMAN

Memória do Futuro (Uma): é o nome nominado “místico”; quando o sujeito ou os


de uma obra composta por três volumes (O grupos acreditam cegamente nas crenças mís-
sonho, O passado apresentado, A aurora do es- tico-religiosas, estamos na dimensão do “mis-
quecimento). Uma síntese mais detalhada pode ticismo”; já o vocábulo “mistificação” fica re-
ser lida no presente livro, no Capítulo 2, “A servado para as situações em que alguém se
Obra: Uma Resenha dos Trabalhos de Bion”. aproveita das crendices de outros para fazer
algum tipo de exploração da boa-fé.
Mentalidade grupal: essa expressão de-
Referências: Atenção e interpretação, prin-
signa que um grupo constituído como tal fun-
cipalmente nos Capítulos 6 e 7.
ciona como uma unidade, com uma atividade
mental coletiva própria, que muitas vezes se Mitos: por ser conhecedor da cultura e
conflitua com a mentalidade de cada um dos do idioma grego, além de solidamente erudi-
indivíduos componentes do todo grupal. to, Bion utilizou muitos relatos mitológicos
Referências: Experiências em grupos. para a construção de modelos distintos. O mito
resulta de uma permanente necessidade de sa-
Mente primordial: Bion afirma que o gru-
ber o “porquê” das coisas. Dessa forma, o mito
po funciona em níveis, que ele chama de “pri-
está assentado tanto no plano do imaginário
mitivos”, nos quais o psiquismo grupal prece-
como, ao mesmo tempo, no plano da realida-
de ao individual, tal como se pode observar
de. Os mitos tanto podem ser privados como
nos povos primitivos (clãs, tribos) e no reino
coletivos, universais. Bion definiu a dimensão
animal (rebanhos). Esse atavismo, que vem de
do mito como a dimensão do “como se”, ou
nossos “primórdios”, persiste como uma “mente
seja, no espaço e tempo da pré-história da
primordial” e constitui o que ele denomina sis-
mente. Os mitos mais estudados por Bion fo-
tema protomental (ver esse verbete).
ram o de Édipo, o do Jardim do Éden (o “paraí-
Mentira: significa o oposto da verdade, so”), o da Torre de Babel, o da Morte de
o que não é a mesma coisa que falsidade. Ela Palinurus e o dos Funerais do Rei de Ur.
implica uma certa intencionalidade, e deve- Referências: Elementos de psicanálise, prin-
se levar em conta que, em algum grau, todos cipalmente nos Capítulos 3 (como uma forma
somos mentirosos. O interesse maior de Bion de dimensão analítica) e 14 (o que representa
era verificar como e quanto as mentiras im- a fileira C da grade e alude a alguns dos mitos
pedem os processos associativos, a ponto de mencionados, especialmente o de Édipo), e Co-
ele perguntar: “um mentiroso pode ser psi- gitações, na página 245.
canalisado?”.
Modelos: Bion foi um ferrenho adepto
Referências: Atenção e interpretação, nos
da construção de modelos (mitos, imagens,
Capítulos 1, 5 (em que há um excelente texto
metáforas, analogia com funções fisiológicas,
sobre a mentira, na página 67) e 11, intitulado
etc.), com a finalidade de situar uma inter-
“As Mentiras e o Pensador”.
secção e uma ponte entre os processos de abs-
Místico: na obra de Bion, às vezes essa tração e os de uma concretização sensorial. O
expressão tem o mesmo significado que “indi- autor afirma que “o modelo é a abstração da
víduo excepcional” e “gênio” (ver esses verbe- experiência emocional ou a concretização de
tes). No entanto, outras vezes, o conceito de uma abstração”.
“místico” aparece como uma contrapartida de Referências: Bion utiliza modelos em pra-
gênio, de sorte que é definido como aquele que ticamente toda a sua obra. No livro Elementos
proclama ter tido um acesso à divindade, que de psicanálise, no Capítulo 9, aparecem mo-
desvenda a verdade de algum mistério sem ter delos do paciente, para representar estados
ficado louco. É útil estabelecer uma distinção mentais. No Capítulo 20 de O aprender com a
entre místico e gênio, misticismo e mistifica- experiência, consta um interessante uso do sis-
ção. Esse indivíduo excepcional, que revolucio- tema digestório como modelo para os proces-
na, no campo da ciência, é considerado “gê- sos de pensar. Ver também a página 392 de
nio”; no campo religioso ou metafísico, é de- Cogitações.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 93

Mudança catastrófica: esse conceito co- Narcisismo/Social-ismo: na obra de


meçou a surgir quando Bion formulou a teoria Bion, da mesma forma que na de Klein, a pala-
das “transformações”. O termo “mudança ca- vra “narcisismo” aparece pouquíssimo; no en-
tastrófica” é reservado às situações em que uma tanto, ele dá uma ênfase especial à passagem
mudança determina uma subversão de um sis- de um estado mental de narcisismo – em que
tema ordenado de coisas (como em um esta- predomina a posição esquizoparanóide – para
blishment, ou em uma couraça caracterológica o de um social-ismo (deliberadamente ele usa
de algum analisando, etc.), e que desperta sen- um hífen separador, para que não haja a me-
timentos de desastre iminente nos participan- nor possibilidade de essa palavra ser confun-
tes, porque ela aparece de forma brusca e vio- dida com ideologia política), em que prevale-
lenta. Bion sempre associa o conceito de mu- ce a posição depressiva, com consideração e
dança catastrófica ao de “violência”, ao de “sub- uma interação social com demais pessoas e
versão da ordem” e ao de “invariância”. Na prá- grupos. É tal a importância que Bion dá a esse
tica analítica, esse conceito adquire uma im- conceito que ele o cataloga como um dos “ele-
portância especial, visto que a mudança catas- mentos da psicanálise”.
trófica, acompanhando as verdadeiras mudan- Referências: Estudos psicanalíticos revisa-
ças que se processam no paciente, pode vir dos, no Capítulo 9 (p. 136), em Cogitações, nas
acompanhada por um estado de turbulência páginas 113, 117 e 133 (esta última, em um
emocional, que pode atingir altíssimos graus capítulo denominado “Narcisismo e Social-is-
de ansiedade. Bion destaca três aspectos, com mo”). O aprender com a experiência, Capítulo
características de cada um, que ele denomina 22 (p. 101).
como pré-catastrófica; catastrófica e pós-catas-
Notação: ocupa a coluna três da grade e
trófica.
compreende as categorias empregadas para
Referências: Bion, em 1966, publicou o li-
registrar um determinado fato que cumpra a
vro Mudança catastrófica, que posteriormente
função de notação dos elementos psicanalíti-
foi republicado no Capítulo 12 de Atenção e
cos da sessão e de memória desses elemen-
interpretação, sob o título de “Continente e
tos. Textualmente, Bion afirma que “o siste-
Contido Transformado”.
ma de notação, provavelmente, surge com a
Não-conhecimento: representado por -K, tarefa de armazenar os resultados da ativida-
é um tipo de patologia cognitiva que vem ad- de periódica da consciência – parte do que
quirindo uma progressiva importância na prá- chamamos memória”.
tica psicanalítica. Referências: Elementos de psicanálise e O
Referências: as mesmas do verbete -K. aprender com a experiência, em que, no Capítu-
lo 2 (p. 23), consta a citação anterior.
Não-seio: para Bion, pior do que introjetar
um “seio mau”, que está interiorizado e repre- Númeno: termo que Bion toma empres-
sentado dentro da criança, como presença de tado do filósofo Kant, alude a uma divindade
uma mãe ausente, é não ter representação ne- mitológica e designa a “coisa em si mesmo”,
nhuma do seio-mãe. Trata-se então, segundo por oposição ao fenômeno ou às coisas tais
o autor, de um não-seio, uma não-coisa. A for- como aparecem e são conhecidas pela nossa
mação de uma “não-coisa” pode ficar mais cla- percepção. É um fato concebido pela consci-
ra se utilizarmos um exemplo do próprio Bion. ência mas não confirmado pela experiência,
O autor diz que, diante da ausência prolonga- porquanto a sua existência é abstrata e proble-
da de algo ou de alguém, processa-se uma não mática. “Númeno” também aparece na obra de
(no em inglês) coisa (thing), ou seja, no + thing Bion com os nomes de “coisa em si”, “verdade
forma nothing (nada). absoluta” e “O”. Assim, Bion, numa de suas con-
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- cepções místicas, diz que
dos, especialmente no Capítulo 9 (p. 129 e
130), e O aprender com a experiência, no final recorrendo às religiões, podemos dizer que
do Capítulo 19. o pressuposto é o de haver uma Natureza

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94 DAVID E. ZIMERMAN

Divina (correspondente ao númeno) so- lado “Desenvolvimento do Pensamento Esqui-


bre a qual nada sabemos; mas pensamos zofrênico”. O aprender com a experiência, no
saber algo sobre Deus quando chegamos décimo capítulo, em que consta a última cita-
ao domínio dos fenômenos. ção mencionada.

Referências: Conferências brasileiras, em Objeto psicanalítico: o termo “objeto”,


que, na terceira conferência (p. 51 e 52), consta aqui, não tem o mesmo significado que conhe-
a transcrição anterior. cemos da teoria das relações objetais, com ob-
jetos externos e/ou internos. Antes, alude a
O: esse signo tanto pode ser lido como le- uma atitude, a um estado mental que leva em
tra (inicial de “origem”) ou como “zero”. Em conta uma série de fatores multidimensionais
ambos, Bion designa um ponto de origem de (as dimensões de espaço, tempo, velocidade
uma verdade que não se consegue conhecer a de mudança...) ligados ao “crescimento men-
não ser através de produtos das suas transfor- tal”. Bion diz que
mações. Guarda uma sinonímia com “realidade
última”, “coisa em si mesmo”, “verdade absolu- a experiência emocional, estimulada pela
ta”, “divindade” e “númeno”. Para caracterizar realização, determina o objeto psicanalíti-
a perspectiva mística desse termo, ele gostava co e, assim como nos mitos, dá significa-
de mencionar a expressão do poeta Milton: “O ção aos elementos.
infinito informe, sem nome”. Bion preferia que
“O” fosse lido como a letra, e não como “zero”.
Por outro lado, em muitas traduções da sua obra, O objeto psicanalítico é o mesmo que “ob-
a letra “O” pode aparecer como a inicial para jeto da psicanálise”, ou seja, está mais ligado ao
designar o vínculo de “ódio”. que não é capturado pelos órgãos sensoriais, é
Referências: as mesmas que constam no de natureza mais intuitiva e empática e aponta
verbete Númeno. uma progressão (ou regressão) na direção de
um estado mental de “ser” e de “vir a ser”. Da
Objeto (ou Fragmento, ou Partícula) bi- mesma forma, o “objeto psicanalítico” corres-
zarro: a personalidade psicótica, por defini- ponde ao objeto que é indagado e, portanto, ao
ção, utiliza em demasia os mecanismos de su- que é resistido. Assim, pode-se dizer que essa
cessivas dissociações e projeções de seus obje- concepção também alude às associações e in-
tos internos em tal intensidade que o indiví- terpretações, com uma extensão no domínio dos
duo psicótico sente-se rodeado de fragmentos sentidos, do mito e da paixão, de modo que,
expulsos (dos objetos, das pulsões e do ego) num significado mais genérico, cabe afirmar que
que o ameaçam e o cercam por todos os lados. “objeto psicanalítico” se refere àquilo que é ob-
Segundo Bion, os objetos bizarros (cujo nome jeto de estudo da psicanálise e, de certo modo,
deve ser creditado à imprevisibilidade desses equivale ao “objetivo psicanalítico”.
objetos, que escapam do controle consciente Referências: O aprender com a experiên-
do sujeito) podem ficar alojados em objetos cia, no Capítulo 22, página 101, em Elementos
materiais do mundo exterior, de forma a em- de psicanálise, no Capítulo 20, denominado
prestar-lhes características da natureza huma- “Elementos e Objetos Psicanalíticos”, e em Es-
na. Um exemplo disso é a situação de um pa- tudos psicanalíticos revisados, na página 137 do
ciente psicótico que imaginou que o gramofone Capítulo 9.
que havia na sala de trabalho de Bion fosse
um pavilhão auditivo que estaria escutando a Paciência: Bion utiliza esse termo mais
conversa deles. O autor diferencia “objeto bi- em relação aos analisandos, mas também o faz
zarro” de “elemento beta”, afirmando que o em relação ao psicanalista. No primeiro caso,
primeiro “é elemento beta mais traços de ego “paciência” foi descrita como um estado men-
e superego”. tal em trânsito para um estado de “seguran-
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- ça”, sendo que, no referencial kleiniano, signi-
dos, mais particularmente no Capítulo 4, intitu- fica a transição da posição esquizoparanóide

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 95

para a posição depressiva. Quando se refere Referências: também conhecida com o


ao psicanalista, “paciência” equivale à “capa- nome de “Tela beta” (ver esse verbete), essa
cidade negativa”, enquanto “segurança” cor- original conceituação de Bion aparece no Ca-
responde à descoberta do “fato selecionado” pítulo 9 de O aprender com a experiência.
(ver os respectivos verbetes). Diz Bion:
Parasitária: é uma modalidade da rela-
ção entre o continente e o contido. É um termo
A paciência deve ser retida sem tentativa
irritável de alcançar fato e razão (nota: isso da biologia e, como tal, designa uma condição
equivale à “capacidade negativa”) até que em que somente um desses dois se beneficia,
um modelo evolua. Para esse estado, uso o enquanto o outro corre o risco de vir a ser
termo de “segurança”. Acredito que ne- destruído. Essa relação é despojante não só
nhum analista está autorizado a acreditar quanto à relação existente, como também em
que fez o trabalho requerido para dar uma relação àquela que poderia vir a ser. Na maior
interpretação, a não ser que tenha passado parte das vezes, a relação continente-conteúdo
pelas duas fases “paciência” e “segurança”. é parasitária, quando a união se dá por uma
impregnação de inveja associada à voracidade.
Em resumo: o conceito de “paciência”, na Referências: Atenção e interpretação, Ca-
obra de Bion, tem a significação de tolerância pítulo 7, denominado “Continente e Contido”.
à frustração, à dor psíquica, à necessidade de Parte psicótica da personalidade: outra
que a mente do analista não esteja impregna- expressão-chave na obra de Bion, esse termo
da por memórias e desejos, e que sirva de pas- pode ser tomado como sinônimo de “persona-
sagem para um estado mental de “seguran- lidade psicótica”, aludindo ao fato de que todo
ça”(ver esse verbete). indivíduo neurótico tem enquistado dentro de
Referências: Atenção e interpretação, Ca- si essa “parte psicótica” (não confundir com a
pítulo 12, páginas 136 e 137. psicose clínica, tal como é conhecida em psi-
Paixão: Bion admitia que os elementos do quiatria), e toda personalidade psicótica, mes-
processo psicanalítico se estendem em três di- mo no grau de franca psicose clínica, abriga
mensões: no domínio dos sentidos, no do mito uma parte não-psicótica. Os principais elemen-
e no da paixão. A presença desta última não é tos componentes da “parte psicótica” são: for-
revelada pelos sentidos, somente se revela quan- tes pulsões agressivas, com predomínio da in-
do duas mentes estão em ligação através da veja e da voracidade; baixíssimo limiar de tole-
emoção. A dimensão da “paixão”, segundo Bion, rância às frustrações; uso excessivo de defesas
abarca tudo o que é derivado e que está com- primitivas, como dissociações e identificações
preendido entre os vínculos de amor, ódio e co- projetivas; grande ódio às verdades, tanto as
nhecimento. Ele afirma que a noção psicanalíti- internas como as externas, havendo, conse-
ca do termo paixão representa uma emoção qüentemente, preferência pelo mundo das ilu-
experimentada com intensidade e calidez, ain- sões; ataque aos vínculos de percepção; sensí-
da que sem nenhuma sugestão de violência. vel prejuízo das funções de pensamento, co-
Referências: Capítulo 3 de Elementos de nhecimento e uso da linguagem verbal como
psicanálise. forma de comunicação; e predominância de
onipotência, onisciência, arrogância e confu-
Pantalha β: ao contrário da “barreira de
são entre o verdadeiro e o falso.
contato”, composta por elementos α, que pos-
Referências: Estudos psicanalíticos revisados,
sibilitam uma delimitação entre o consciente e
praticamente em todos os capítulos, com desta-
o inconsciente, a pantalha de elementos β se
que para o quinto – “Dissociação entre a Persona-
constitui desses elementos protomentais que
lidade Psicótica e a Personalidade Não-psicótica”
ficam aglomerados, não sintetizados, portan-
– e para o nono – “Uma Teoria do Pensar”.
to sem capacidade de estabelecer vínculos en-
tre si, e que por isso não delimitam o conscien- Pensamento: possivelmente a gênese, for-
te do inconsciente. Essa pantalha é própria dos mação evolutiva, normalidade e patologia da
estados psicóticos. função de pensar seja a parte da obra de Bion

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96 DAVID E. ZIMERMAN

que mais o consagra, tanto na teoria como nas Se adormecido, o indivíduo converte a ex-
repercussões na prática analítica. Ele parte das periência emocional em elementos alfa, é
concepções pioneiras de Freud (1911) e do capaz de pensamentos oníricos. Está as-
fenômeno das “identificações projetivas”, des- sim apto a ficar consciente (isto é, acor-
dar) e descrevê-la pela narrativa em geral
critas por Klein, e, a partir do seu trabalho com
conhecida como sonho.
pacientes psicóticos, acrescenta, em profundi-
dade e extensão, suas concepções originalís-
simas. Com o termo “pensamento”, Bion alude Assim, os pensamentos oníricos (uma es-
aos protopensamentos, às preconcepções, às pécie de “sonhar acordado”) dependem da exis-
concepções e aos pensamentos propriamente tência de elementos beta e alfa.
ditos, como os conceitos, as abstrações algébri- Referências: em Cogitações, nas páginas
cas e o sistema dedutivo-científico, tal como 187 a 192, em O aprender com a experiência,
constam no eixo vertical – o da gênese dos pen- na página 36, e em Elementos de psicanálise,
samentos – da grade. no sexto capítulo, página 34.
Referências: Estudos psicanalíticos revisados. Pensamento sem pensador: Bion revo-
Pensamento psicótico: Bion enfatiza os lucionou a epistemologia do pensamento com
seguintes elementos que caracterizam o pen- a original concepção de que os pensamentos
samento de pacientes psicóticos: ele é predo- (melhor dizendo: os protopensamentos) pre-
minantemente concreto, com uma grande di- cedem ao pensador. Uma ilustração disso pode
ficuldade para a simbolização, abstração e ge- ser a sexualidade infantil: sempre existiu, no
neralização; o paciente psicótico pode dar se- entanto, só foi descoberta e revelada após ter
qüência aos pensamentos, porém dificilmen- sido “pensada” por Freud.
te avalia as conseqüências; ele não correlaciona Referências: Estudos psicanalíticos revisados.
e sintetiza os pensamentos, pelo contrário, Pensamento vazio: com essa expressão
comprime-os e funde-os, num todo que resta – extraída do filósofo Kant – Bion aludia a um
bloqueado ou confuso. A predominância de estado de pensamento equivalente ao de uma
cisões e de identificações projetivas promove preconcepção que ainda não foi preenchida por
um tipo de pensamento com sérias distorções, uma realização.
podendo atingir proporções de percepções Referências: Estudos psicanalíticos revisados.
alucinatórias e idéias delirantes. O pensamen- Perspectiva reversível: esse conceito não
to psicótico influi diretamente na linguagem, deve ser confundido com o de “reversão de
a ponto de as palavras serem vivenciadas perspectiva”. Bem ao contrário do significado
como coisas concretas. deste último, a expressão “perspectiva reversí-
Referências: na obra de Bion, especialmen- vel” indica que o paciente está sendo capaz de
te no livro Estudos psicanalíticos revisados, exis- mudar o seu vértice de observação, e isso pode
tem muitas vinhetas clínicas que atestam a for- lhe propiciar o estabelecimento de confrontos
ma e o grau de patologia do pensamento e de correlações com outros vértices.
psicótico.
Ponto (.) e Reta (–): especialmente no li-
Pensamento onírico: segundo Bion, con- vro As transformações, Bion empresta uma gran-
siste na transformação das impressões senso- de relevância aos conceitos que ele representa
riais em uma imagem visual, que resulta da pre- pelas imagens de ponto (.) e de reta (–). O pon-
dominância de elementos beta. Isso é diferen- to, numa dimensão espacial, designa um lugar
te do que ele denomina como “trabalho onírico que pertencia a algum objeto (seio, por exem-
alfa”, que é composto por elementos alfa e pro- plo) que não está presente, ou não mais existe.
picia o pensamento normal e os sonhos elabo- A reta, numa dimensão temporal, designa o que
rados. Em O aprender com a experiência, Bion virá a ficar no espaço vazio. Assim, o ponto re-
refere que presenta um “estágio de crescimento”, um pon-
to no meio de um caminho que pode levar para

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 97

algum lugar. A metáfora usada por Bion é a de cos” (ver esse verbete), que, por sua vez, são
uma semente, que é um estágio de crescimento “contidos numa matriz”, chamada de sistema
de uma árvore. protomental. Isso ocorre numa época primiti-
Referências: As transformações. va dos indivíduos e dos grupos, em que o físi-
Preconcepção: esse termo, no curso da co e o psíquico ainda estão inseparados e indi-
obra de Bion, adquire dois significados, fato ferenciados, de sorte que, diz Bion, “quando a
que, muitas vezes, gera alguma confusão con- aflição originária dessa fonte se manifesta, ela
ceitual. São eles: pode manifestar-se tanto sob formas físicas
quanto sob formas psíquicas”. Esse sistema
1. O de uma preconcepção inata, he- protomental, composto pela matriz primordial
reditária. de que fluem as arcaicas emoções pertinentes
2. Na escala evolutiva do pensamento aos supostos básicos, às vezes, também é cha-
que, na grade de Bion, vai desde os mado por Bion de “grupo embrionário”.
protopensamentos (fileira A) até os Referências: Experiências em grupos.
cálculos algébricos (fileira H), as Protopensamento: designa as primitivas
preconcepções ocupam a fileira D. impressões sensoriais e experiências emocio-
Bion utiliza modelos, como, por nais que, como elementos β, não se prestam
exemplo, o de um bebê que tem uma ainda para ser utilizadas como pensamentos
preconcepção inata do seio, que está propriamente ditos (conceitos e abstrações),
à espera de uma “realização” (ver mas sim para serem evacuadas fora (nos actings
esse verbete), a qual pode ser posi- e nos supostos básicos dos grupos) ou dentro
tiva (+) ou negativa (-), gerando do organismo (“estados psicossomáticos”). O
assim uma concepção. Outro mode- termo “protopensamento” pode ser tomado
lo que utiliza é o de um pênis à es- como sinônimo de “elemento beta”, de sorte
pera de uma cavidade (vagina) para que ocupa a fileira A da grade.
penetrar, ou vice-versa. A precon-
cepção, em psicanálise, pode ser Psi (ψ): Na grade, esse signo ocupa a co-
considerada como análoga ao con- luna 2, com o significado de alguma forma de
ceito de “pensamento vazio”, de falsificação das verdades, ou melhor, de que
Kant. forma as mentiras – elemento essencial da psi-
canálise – estavam sendo utilizadas. Assim, o
Referências: Elementos de psicanálise, es- importante é considerar que, na prática clíni-
pecialmente no sexto capítulo. ca, a coluna “psi” está a serviço das resistências.
Nas fórmulas algébricas, que, ao longo de sua
Premonição: designa uma capacidade de obra, Bion utiliza com equações compostas por
antecipação de um acontecimento que está por vários signos, a letra “psi” representa o univer-
ocorrer e que ainda não ganhou forma. so das “preconcepções”.
Pode-se dizer que a premonição é uma Referências: Elementos de psicanálise.
pré-emoção, que adquire na prática um colori-
do de pressentimentos (pré-sentimentos). A Psiquismo fetal: nos últimos pronuncia-
premonição é equivalente à preconcepção, e, mentos e trabalhos de Bion, ele foi progressiva
diz Bion, “os estados emocionais diretamente e convictamente expandindo suas conjecturas
observáveis só significam premonições”. sobre a existência de uma vida psíquica embri-
Referências: Elementos de psicanálise, Ca- onária.
pítulo 16, página 87. Referências: ver o capítulo deste livro re-
ferente ao psiquismo fetal, com as respectivas
Protomental (Sistema): nos seus estu- indicações bibliográficas.
dos sobre grupos, Bion especula sobre as si-
tuações grupais “básicas, comuns e primitivas”, Publicação: esse termo indica que um de-
as quais ele denomina como “supostos bási- terminado enunciado que adquiriu um grau de

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98 DAVID E. ZIMERMAN

abstração pode vir a ser concebido como uma Realização: o conceito de realização se
forma de publicação, ou seja, tornar público refere ao fato de que uma preconcepção (por
um texto, ou uma idéia, que possibilite estabe- exemplo, o conhecimento inato do seio) neces-
lecer uma correlação com o “senso comum” sita de um seio real (logo, uma “realização”)
(ver esse verbete). Isso, diz Bion, não é dife- para satisfazer a necessidade do bebê. A reali-
rente do processo envolvido no indivíduo que zação pode ser “positiva”, caso em que o seio
tem que transmutar pensamento pré-verbal em torna-se, de fato, real e presente, ou “negativa”,
pensamento verbal para tornar explícito o que caso em que o seio necessitado está ausente e
é implícito, ou consciente aquilo que é incons- será introjetado como um seio ausente (ou um
ciente. Em Cogitações, ele afirma que não-seio). A preconcepção, somada a uma rea-
lização positiva, produz uma concepção. A pre-
Publicação é uma essência do método ci- concepção mais uma realização negativa pro-
entífico, e isso quer dizer que o senso co- duz um pensamento. Há uma diferença entre
mum desempenha um papel vital. Se ele, “realização” e “realidade”: o ser humano nunca
por qualquer razão, não está operando, o atinge a essência da realidade, só as realizações.
indivíduo em quem ele não opera não pode Assim, Bion afirma que alguém pode “dizer” uma
publicar, e um trabalho não publicado é frase verdadeira sem “realizar” o significado e o
um trabalho não-científico. sentido em que ela é verdadeira, como é o caso,
por exemplo, de recitar acertadamente alguma
Bion costuma estudar o conceito de “pu- teoria de Freud, sem ter tido a experiência emo-
blicação” conjuntamente com os de “correla- cional a que ela alude.
ção”, “comunicação” e “senso comum”. (Ver os Referências: em Estudos psicanalíticos re-
respectivos verbetes.) visados, no Capítulo 9 – “Uma Teoria Sobre o
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- Pensar” –, página 129.
dos, Capítulo 9, e Cogitações, página 38.
Rêverie: muitos autores acreditam que
Razão: esse conceito, que Bion represen- Bion usou esse termo como sinônimo de “con-
ta com a sigla “R”, significa a função que se tinente”. No entanto, rêverie designa mais es-
destina a servir às paixões, quaisquer que se- pecificamente a capacidade da mãe (ou do psi-
jam elas, orientando-as para o seu domínio no canalista) de permanecer em uma atitude de
mundo da realidade. Afirma Bion (1970, p.1): poder receber, acolher, decodificar, significar,
“A razão é escrava da emoção e existe para ra- nomear as angústias do filho (paciente) e so-
cionalizar a experiência emocional”. Bion cos- mente depois devolvê-las devidamente desinto-
tuma abordar “razão” numa recíproca relação xicadas. Numa passagem de O aprender com a
com “idéia” (ver esse verbete), de sorte que a experiência, Bion assim considera o conceito
representa pela grafia R:I e a considera como de rêverie:
um dos elementos da psicanálise.
Referências: Elementos de psicanálise, nas O termo rêverie aplica-se a todos os con-
páginas 13, 46 e 47, e Atenção e interpretação, no teúdos. Reservo-o entanto apenas àquele
Capítulo 1. que se infunde de amor ou ódio. Nesse
Realidade última: freqüentemente, Bion sentido estrito, a rêverie é estado mental
aberto a receber quaisquer “objetos” do
utiliza essa expressão para designar o mesmo
objeto amado e, portanto, acolher as iden-
significado do signo O, ou seja, trata-se de uma tificações projetivas do bebê, se boas ou
verdade original que é sempre incognoscível. más. Em suma, a rêverie é fator da função
Referências: as mesmas que acompanham alfa da mãe.
o verbete “O”. No livro Elementos de psicaná-
lise consta um capítulo específico sobre esse Referências: O aprender com a experiência, Ca-
tema – o nono – justamente intitulado “Reali- pítulo 12, de que foi extraído a citação anterior.
dade Última”.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 99

Reversão da função α: em certos indiví- Referências: Atenção e interpretação, Ca-


duos, a função simbólica começa, mas enfren- pítulo 12.
ta tal dor psíquica que recua e produz elemen-
Seio bom pensante: com alguma freqüên-
tos β, com traços de ego e superego. Como re-
cia, Bion utiliza essa expressão para designar
sultado, a reversão da função α produz aluci-
o importante fato de que, no desenvolvimento
nações, delírios, fenômenos psicossomáticos e
da capacidade de pensar, a criança (paciente)
a mentalidade do suposto básico dos grupos.
introjetou a figura da mãe (psicanalista), pos-
Referências: Cogitações, página 145, e O suidora de uma boa capacidade para pensar
aprender com a experiência. os pensamentos.
Reversão da perspectiva: trata-se de um Referências: Estudos psicanalíticos revisados.
recurso inconsciente bastante utilizado na prá- Sem memória, sem desejo e sem ânsia
tica analítica por pacientes muito regressivos, de compreensão: essa terminologia é, segura-
como os psicóticos ou os portadores de uma mente, das mais polêmicas e controvertidas
forte “parte psicótica da personalidade”. A “re- entre todas as de Bion. O que ele realmente pre-
versão da perspectiva” consiste no fato de esse tendeu caracterizar é que o psicanalista deve
tipo de paciente reverter às suas próprias pre- evitar ao máximo que a sua mente esteja satura-
missas todo significado das interpretações do da pela memória de situações anteriores, pelos
seu psicanalista, ainda que esteja de pleno acor- seus desejos pessoais e por uma ânsia compul-
do manifesto com ele. sória de compreender de imediato – e tudo – o
Referências: Estudos psicanalíticos revisados. que está se passando durante a sessão. Esse con-
Saturação e Não-Saturação: essa expres- ceito equivale ao de “atenção flutuante”, de
são surge com relativa freqüência na obra de Freud.
Bion, referindo-se ao fato de a mente do analis- Referências: as mesmas mencionadas no
ta (ou do paciente) se manter aberta para a es- verbete Memória.
cuta e a recepção de novos aspectos e valores Senso (Sentido) Comum: essa expressão
(quando não está saturada), ou permanecer cer- também é conhecida pelo termo “consenso”.
rada, impregnada com os prévios valores do in- Enquanto Freud restringiu o universo da com-
divíduo (quando está saturada). Por exemplo, preensão do discurso do paciente às inter-re-
a “Hipótese Definidora”, que ocupa a coluna 1 lações do consciente com o inconsciente, Bion
da grade, indica que a mente está saturada. Um alargou esse universo para as inter-relações do
outro exemplo: a clássica e polêmica afirmação infinito com o finito. Portanto, por nunca per-
de Bion de que, na situação analítica, o analista der de vista a necessidade de o analista esta-
deve trabalhar “sem memória, sem desejo e sem belecer conexões com o finito e o sensorial,
ânsia de compreensão” (ver esse verbete) deve Bion postulava que os enunciados analíticos
ser entendida como uma importante recomen- só se tornam válidos quando são confirmados
dação de que a mente do analista não pode es- por diversos sentidos de uma mesma pessoa,
tar saturada com memórias e desejos. ou por um (ou mais) sentido(s) de pessoas di-
Segurança: como foi dito no verbete Pa- ferentes.
ciência, Bion utiliza o termo “segurança” para Referências: Estudos psicanalíticos revisa-
caracterizar o estado mental do psicanalista dos, Capítulo 9, mais exatamente nas páginas
depois da sua descoberta do “fato selecionado” 135 a 137, e Capítulo 17; Elementos de psica-
em meio ao aparente caos das comunicações nálise, Capítulo 3, página 21; Cogitações, nas
do paciente. Esse estado mental (equivalente à páginas 31, 42 e 43 e 240.
passagem para a posição depressiva) passa a ser Simbiótica: no modelo continente-conti-
de menor ansiedade, livre dos perigos da incer- do, Bion estabeleceu três modalidades – para-
teza, e prepara o analista para o ato da inter- sitária, comensal e simbiótica, sendo que esta
pretação. (Ver Paciência). última designa uma condição, de acordo com

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100 DAVID E. ZIMERMAN

o termo da biologia, de um harmônico e pro- Superego: talvez o nome mais apropria-


dutivo convívio recíproco entre as partes, que do fosse “super” superego, ou “supra-ego”, ten-
se influenciam mutuamente. Exemplo: a mãe do em vista que Bion pretendeu designar uma
(ou o analista) desenvolve a sua aptidão para parte do self do paciente psicótico que vai além
ser mãe em função de seu vínculo com o bebê da noção de certo e errado, do bem e do mal,
(ou paciente), enquanto o bebê desenvolve a os quais são inerentes ao superego como o co-
sua aptidão em ser bebê em contato vivencial nhecemos habitualmente. O “superego” de
com a mãe. Bion se opõe a todo desenvolvimento em ba-
Referências: Atenção e interpretação, Ca- ses científicas e se rege por uma moralidade,
pítulo 7, intitulado “Continente e Contido”, normas e valores próprios que são firmados a
página 86. partir de uma afirmação de superioridade
destrutiva. Por isso, o paciente portador desse
Sistema dedutivo científico: ver o ver-
“superego” se acha no direito de impor as suas
bete Dedutivo científico (Sistema).
leis contra as da natureza e da cultura.
Sonhos: Bion estuda o fenômeno dos so- Referências: em Estudos psicanalíticos re-
nhos de um vértice diferente daquele paradig- visados, no Capítulo 8, página 124, há um sub-
ma clássico de Freud que conhecemos. Ele con- título com o nome de “Superego”.
sidera três tipos de sonhos: 1) elaborativo, que
Suposto básico (SB): também conheci-
resulta da capacidade da “função alfa”, a qual
do por “pressuposto básico”, indica que, ao con-
propicia uma expressão verbal de imagens vi-
trário da cooperação do grupo de trabalho
suais reunidas que conotam experiências emo-
(GT), nos supostos básicos (SB) prevalece um
cionais; 2) evacuativo, que designa o fato de
nível inconsciente em que as fantasias grupais
que, quando falha a função alfa, os elementos
adquirem uma das três formas típicas: de “de-
beta não conseguem ser transformados e ela-
pendência”, de “luta e fuga” e de “acasalamen-
borados em símbolos, de sorte que os restos
to” (ver os respectivos verbetes).
diurnos só conseguem ser evacuados. Nesse
Referências: Experiências em grupos.
caso, o paciente psicótico não consegue sonhar,
portanto, diz Bion, não consegue dormir e Tela beta: também conhecida com o nome
tampouco ficar acordado; 3) mistos, quando a de “Pantalha beta”, é definida pelo próprio Bion
predominância da “parte psicótica da perso- como um aglomerado de elementos beta que,
nalidade” promove a evacuação, enquanto a no lugar do que seria uma saudável “barreira
“parte não-psicótica” faculta certa elaboração de contato” composta por elementos alfa,
onírica.
Referências: Cogitações, nas páginas 238 apresenta a condição de compelir o paci-
a 241. ente a estar sendo apenas infenso aos efei-
tos da análise por deficiência de represen-
Splitting: Bion descreveu duas modali- tação mental, ou, por outro lado, se o ana-
dades de splitting do psiquismo do paciente, o lista não o acompanha, estabelece relação
“estático” e o “forçado”. O primeiro consiste outra que não a analítica; se não o alcan-
em uma forma de proteger-se da dor psíquica ça, a suposta relação analítica colore-se
do insight através de um ativo “ver mal”, “ou- fortemente de contratransferência.
vir mal”, “entender mal”, como é o caso da “re-
versão da perspectiva”. O splitting “forçado”, Referências: O aprender com a experiên-
por sua vez, significa que o paciente pode se cia, principalmente o Capítulo 9, na página 45,
relacionar bem com o analista enquanto este em que aparece a citação anterior.
fornece segurança e alimento, porém, ao mes-
mo tempo, bloqueia toda aproximação afetiva Terror (ou Pavor) sem nome: quando fa-
proveniente dele. lha a função rêverie da mãe, as pulsões e an-
Referências: Estudos psicanalíticos revisados. gústias que a criança projeta dentro dela não

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 101

são devidamente contidas e elaboradas. Por Trilogia: a expressão muito corrente “a


essa razão, tais angústias do filho são reintro- trilogia de Bion” se refere aos três volumes que,
jetadas por ele e retornam acrescidas das an- publicados respectivamente em 1975 (O so-
gústias da mãe, sob a forma de um terror que nho), 1977 (O passado apresentado) e 1979 (A
o ego ainda não tem condições de significar e aurora do esquecimento), constituem o livro
nomear, daí um “terror sem nome”. Em algu- Uma memória do futuro.
mas traduções brasileiras, esse conceito apa-
Turbulência (Estado de): é o título de um
rece com o nome de “terror inonimado”.
trabalho de Bion, de 1977. A expressão “turbu-
Referências: O aprender com a experiên-
lência” designa o fato de que, da mesma forma
cia, Capítulo 28, página 132.
como toda grande mutação da vida (nascimen-
Transferência do psicótico: com base em to, adolescência, velhice e morte), também o
seu trabalho clínico com pacientes psicóticos, progresso psicanalítico requer uma volta a um
principalmente esquizofrênicos, Bion descre- estado anterior, que vem acompanhada por uma
veu algumas características específicas da manifestação clínica de “turbulência” emocio-
transferência que eles desenvolvem, principal- nal, tanto no analisando como, possivelmente,
mente o tripé de que ela é “prematura, preci- no psicanalista. Na prática clínica, criar uma tur-
pitada e intensamente dependente”. bulência equivale ao ato de transformar o esta-
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- do egossintônico do paciente em egodistônico.
dos, Capítulo 4, “Desenvolvimento do Pensa- Na página 51 de Conferências brasileiras 1, Bion
mento Esquizofrênico”. Na página 49 desse ca- esclarece melhor, com o seguinte exemplo:
pítulo, consta um subtítulo: “Transferência”.
Transformações: é o título de um dos Eu não seria capaz de ver um regato com
um fluxo plácido, sem o menor obstáculo
mais importantes livros de Bion, publicado em
que o perturbasse, porque seria muito trans-
1965. O termo “transformação(ões)” refere-se parente. Mas, se eu crio uma turbulência,
ao fenômeno que, consoante a sua etimologia colocando nele uma vara, então posso vê-
(trans+formar, ou seja, “formar para além”), lo. Do mesmo modo, a mente humana pode
consiste na aquisição de novas formas, no pa- organizar uma turbulência, e determinada
ciente, no analista e no processo psicanalítico. mente sensível, intuitiva e bem dotada,
Bion descreve três tipos de transformações: a como aquela que chamamos de Leonardo
de “movimento rígido” (quando é fácil reco- da Vinci, pôde pintar quadros de turbulên-
nhecer a forma do fato original), a das “trans- cia que lembram cabelos e água.
formações projetivas” (em que há um intenso
exagero e deformação das distâncias e das épo- Referências: Conferências brasileiras 1, es-
cas dos fatos originais), e a das “alucinoses” pecialmente a terceira, em que consta a trans-
(na qual a forma original fica praticamente crição anterior. Na Revista de Psicanálise da So-
irreconhecível). Toda e qualquer transforma- ciedade Psicanalítica de Porto Alegre (v. VII, n.
ção conserva algum grau de “invariância”. Além 3, 2000), está publicado o artigo “Turbulência
das formas aludidas, Bion também estuda as Emocional”, acompanhado de comentários crí-
“transformações em K e em –K”, e as “transfor- ticos de James Grotstein e Juarez Cruz.
mações de O e em O”. As transformações abar-
Universo em expansão: com essa expres-
cam várias dimensões, como sociológica, ou an-
são, Bion costumava asseverar que um proces-
tropológica, econômica, psicótica, em pensa-
so psicanalítico não deve procurar verdades
mentos (de elemento beta em elemento alfa)
acabadas nem conclusões definitivas; pelo con-
e, naturalmente, transformações analíticas em
trário, deve constituir-se em novas e progres-
geral, tanto na pessoa do analista quanto na
sivas aberturas, numa constante inter-relação
do paciente e/ou no vínculo entre ambos.
entre o sensorial e o abstrato, entre o finito e o
Referências: livro As transformações. Ca-
infinito, entre “K” e “O”. Afirma Bion: “o finito
pítulo “Mudança Catastrófica”.

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102 DAVID E. ZIMERMAN

não deixa espaço para o desenvolvimento; é uma preciosidade. No livro O aprender com a
estamos aqui preocupados com algo que re- experiência, o Capítulo 19. Em Atenção e inter-
quer espaço para o crescimento”. Um “univer- pretação, consta um importante texto sobre o
so em expansão” implica alterações dos vérti- assunto relativo às verdades e mentiras, no
ces, seguidas de transformações e das respec- Capítulo 11, intitulado “As Mentiras e o Pensa-
tivas mudanças catastróficas, com a perda de dor” (nele, Bion faz a clássica e instigante per-
defesas e máscaras, como as que decorrem das gunta “Um mentiroso pode ser psicanali-
interpretações do psicanalista. Na prática da sado?”).
situação analítica, Bion diz que
Verdade absoluta: sinônimo de “realida-
de última”, com o mesmo significado. Em al-
No consultório, o analista tem que ser uma guns textos, Bion utiliza a palavra “númeno”,
espécie de poeta, artista, ou cientista, ou teó-
que tomou de Kant, significando “um fato que
logo, para ser capaz de chegar a uma inter-
pretação ou a uma construção [...] No
é concebido pela consciência, mas não é con-
interregno, ele deve ser capaz de tolerar esse firmado pela experiência; um objeto cuja exis-
universo em expansão que se expande mais tência é abstrata e problemática”.
rapidamente do que ele pode imaginar. Referências: as mesmas que constam do
verbete Númeno.
Referências: Conferências brasileiras 1, es- Vértice: refere-se a um “ponto de vista”,
pecialmente na segunda, em que essa expres- um “ângulo” ou uma “perspectiva” a partir dos
são aparece nas páginas 34, 37 e 41. quais tanto o analisando como o analista ob-
Valência: é um termo que Bion extraiu servam e comunicam uma determinada expe-
da química para aplicar na dinâmica de gru- riência analítica, a qual, por isso mesmo, pode
pos, a fim de assinalar a maior ou menor dis- ser sentida e descrita de muitas maneiras. Bion
posição do indivíduo para fazer combinações preferiu usar o termo “vértice” em vez dos ou-
com os demais, de acordo com a vigência do tros, com o propósito deliberado de criar uma
suposto básico em atividade. A predominân- dimensão além da sensorial. Quando muda o
cia harmônica das valências é que dá uma for- vértice, qual um caleidoscópio, também muda
ça de coesão grupal. a configuração do processo, embora permane-
Referências: Experiências em grupos. çam os mesmos elementos. Bion afirma que
existem diferentes vértices para a observação
Verdade: Bion sempre deu uma relevân- e descrição das experiências emocionais, de
cia especial à verdade, considerando-a essen- sorte que, diante de uma mesma experiência,
cial para o crescimento mental; ele entendia podemos percebê-la e enunciá-la a partir de
que sem ela o aparelho psíquico não se desen- um vértice familiar, político, institucional, psi-
volve, morre de inanição. A busca da verdade canalítico, etc. Mais especificamente, o próprio
impõe a necessidade de estabelecer confron- vértice psicanalítico também permite vários ou-
tos e correlações, assim como um acesso à po- tros vértices, como os que se fundamentam em
sição depressiva. O estudo das verdades, falsi- distintas correntes de teoria e técnica de psi-
ficações e mentiras ocupa um constante espa- canálise ou em diferentes dimensões do ato
ço ao longo da obra de Bion, e está intima- analítico, assim como, segundo Bion, as dimen-
mente ligado aos vínculos de K e –K. sões do sentido comum, do mito pessoal e da
Referências: Estudos psicanalíticos revisa- paixão. Na situação da comunicação entre os
dos, especialmente nos Capítulos 7 e 9. No li- analistas, é de grande importância, na discus-
vro Cogitações, nos capítulos “Necessidade de são entre colegas, que fique claro a partir de
Verdade e Necessidade de Reajustar constan- qual vértice eles estão operando, caso contrá-
temente os Desajustes” (p. 111 a 113) e “Com- rio, é grande a probabilidade de que surjam
paixão e Verdade” (p. 136), o qual, a meu ver, polêmicas estéreis.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 103

Referências: Atenção e interpretação, no riência, Capítulo 18, página 82. Conferências bra-
Capítulo 8, intitulado “Vértices: Evolução”. sileiras 1, sexta conferência, páginas 102 e 103.
Conversando com Bion, páginas 191 e 211.
Zero (“O”): tem o mesmo significado
Vínculo (ou “Elo de ligação”): designa descrito em “O” como letra (inicial de “ori-
uma experiência emocional na qual duas pes- gem”). Em variados contextos, com o mesmo
soas, ou duas partes de uma mesma pessoa, sentido, Bion utiliza outros termos, como os
estão relacionadas uma com a outra. Bion con- de “realidade última”, “verdade absoluta”,
sidera que pelo menos três emoções básicas são “númeno”, “a divindade”, “a coisa em si mes-
fatores sempre presentes em qualquer víncu- mo”, o “incognoscível”, etc.
lo: as de amor (L), ódio (H) e conhecimento Referências: as mesmas do verbete “O”.
(K). Nos estados psicóticos, há um permanen-
É interessante consignar o fato de que,
te ataque a todo vínculo com o analista, aos
neste despretensioso glossário, foi possível reu-
vínculos entre as partes diferentes do próprio
nir mais de cem termos que denotam concep-
paciente e ao conhecimento das verdades pe-
ções inteiramente originais de Bion, o que, por
nosas que estão contidas tanto na realidade
si só, permite dar uma dimensão da criativida-
externa como na interna.
de de sua obra.
Referências: Atenção e interpretação, Ca-
Uma vez que muitos verbetes as foram
pítulo 8, denominado “Continente e Contido”,
referenciando com o assinalamento das pági-
páginas 86 e 105. Livro O aprender com a expe-
nas em que foram especificamente mencio-
riência, Capítulo 14, intitulado “Os Vínculos
nados nos textos de Bion, impõe-se a necessi-
entre Objetos”.
dade de situar de qual edição publicada me
Visão binocular (ou Visão bifocal): ao vali. Assim, segue uma enumeração dos livros
contrário da “reversão da perspectiva”, que consultados, a editora, a edição e a data de
permite uma única visualização (a das pre- publicação.
missas do paciente), a “visão binocular” alu-
de à capacidade de estabelecer confrontos e 1. Experiências em grupos. Editora
correlações entre distintos vértices e, assim, Imago, 2. ed., 1970.
capacitar o sujeito a passar de um ponto de 2. O aprender com a experiência. Imago,
vista a outro acerca do que sucede em uma 1991.
determinada experiência emocional. Por 3. Elementos de psicanálise. Imago, 1991.
exemplo: um psicanalista que somente inter- 4. As transformações. Imago, 1991.
preta o lado infantil ou psicótico de um paci- 5. Estudos psicanalíticos revisados.
ente, ou, pelo contrário, somente o lado adul- Imago. 3. ed. revisada, 1994.
to, não está tendo uma necessária visão 6. Atenção e interpretação. Imago, 1973.
binocular. Numa das conferências, a sexta, 7. Conferências brasileiras 1. Imago,
Bion afirma: “valendo-me de dois sentidos 1973.
diferentes, o da visão e o da audição, seria 8. Uma memória do futuro. Vol. III. “A
possível conseguir uma visão bi-sensorial, ao aurora do esquecimento”.Imago.
invés de binocular”. A “visão binocular” (ou 1996.
“multifocal”) também alude a um contato do 9. W.R.Bion. La otra cara del genio. Car-
sujeito com as diversas partes de sua perso- tas de familia. Editorial Promolibro,
nalidade, de sorte que está voltada, concomi- Valência, 1999.
tantemente, para fora e para dentro. 10. Seminarios clínicos y cuatro textos.
Referências: Estudos psicanalíticos revisados, 11. Conversando com Bion. Imago.
Capítulo 2, página 28. O aprender com a expe-

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SEGUNDA PARTE
A Obra

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7
A Dinâmica de Grupos

Os trabalhos de Bion com grupos ocupam víduo consiste em comportar-se como se não
um lugar de grande relevância na sua produ- fizesse parte de nenhum grupo.
ção científica por duas razões. Uma é que fo- Em plena vigência da II Grande Guerra, a
ram os grupos que lhe possibilitaram reconhe- psiquiatria e a psicanálise ascenderam a um
cer a presença dos mecanismos psicóticos, e plano de muita importância, porquanto os dis-
isso o alavancou para um aprofundamento no túrbios emocionais se constituíam visivelmen-
trato de pacientes esquizofrênicos e, por con- te como a causa mais importante da inativação
seguinte, dos problemas ligados ao pensamen- dos militares. Por isso, as forças armadas pro-
to, linguagem e conhecimento. A segunda ra- punham programas de reabilitação e de rea-
zão consiste no fato de que Bion tornou-se in- daptação. Bion, ao retornar à atividade mili-
ternacionalmente conhecido através dos seus tar, em 1940, observou que no serviço de tera-
estudos ligados à dinâmica dos grupos, o que pia do hospital em que ele operava existia um
lhe abriu as portas para a divulgação do de- “equilíbrio na insegurança”, uma espécie de
senvolvimento de suas idéias em outras áreas conluio inconsciente entre pacientes, corpo mé-
do campo psicanalítico. Aliás, durante muito dico e instituição hospitalar. Por outro lado, o
tempo, os únicos livros de Bion que conseguiam exército precisava aumentar muito o seu qua-
ser bem vendidos eram os referentes a grupos, dro de oficiais, e era tão grande o número de
e, da mesma forma, essa notoriedade pode ser candidatos que se impunha um método mais
medida pelo fato de que, por ocasião de sua adequado de seleção.
primeira visita ao Brasil, foi saudado pela im- Desse modo, premido por essas duas cir-
prensa unicamente como “o pai da psicotera- cunstâncias, ocorreu a Bion a genial idéia de
pia de grupo”. utilizar o recurso grupal. No tocante ao proje-
Assim como Freud, também Bion não se- to de readaptação dos militares estressados,
parava de forma radical a psicologia individual Bion executou no hospital militar um plano de
da grupal, pelo contrário, ele sempre demons- reuniões coletivas, nas quais se discutiam os
trou uma visão unificadora das duas, transmi- problemas comuns a todos e se estabeleciam
tindo a idéia de que a diferença entre a psico- programas de exercícios e atividades. Assim,
logia grupal e a individual é o fato de o grupo em 1942, no hospital Northfield, que compor-
oferecer um campo de estudo para captar cer- tava com 200 leitos no “pavilhão de tratamen-
tos aspectos da psicologia individual mesmo to” e 400 leitos no “pavilhão de readaptação”,
quando, no grupo, a participação de um indi- Bion iniciou os seus experimentos com grupos.

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108 DAVID E. ZIMERMAN

Ele se reunia diariamente numa sala com 15 capacidade de cada um deles para construir
pacientes e promovia uma discussão grupal, uma ponte, mas sim a aptidão do homem em
com o objetivo precípuo de readaptá-los à vida estabelecer inter-relacionamentos, em enfren-
militar ou de julgar se eram capazes de voltar tar as tensões geradas nele e nos demais pelo
ativamente a essa vida. Um fruto visível desse medo do fracasso da tarefa do grupo, e o dese-
trabalho grupal foi Bion ter conseguido resta- jo do êxito pessoal.
belecer a disciplina e manter uma ocupação A aplicação dessa técnica trouxe quatro
útil dos seus homens; com isso, constituiu-se vantagens que foram reconhecidas por todos:
um verdadeiro “espírito de grupo”. Por razões economia de um tempo que era habitualmen-
que nunca ficaram bem esclarecidas (a mais te despendido na seleção; possibilidade de uma
provável é que a cúpula dos oficiais superiores avaliação compartilhada coletivamente com
teria ficado alarmada com a mudança do cli- outros técnicos selecionadores; observação de
ma do hospital), essa experiência durou ape- como os candidatos interagiam entre si e faci-
nas seis semanas. Uma das sementes que ger- litação da importante observação dos tipos de
minou dessa curta experiência foi o hospital lideranças.
Northfield tornar-se o berço da “comunidade A filosofia dessa seleção grupal era sin-
terapêutica”, cujo modelo, após a guerra, ga- tetizada por Bion com uma frase: “Se um ho-
nhou uma enorme expansão, principalmente mem não consegue ser amigo de seus ami-
nos Estados Unidos. gos, tampouco poderá ser inimigo de seus ini-
A propósito, merece ser transcrito o se- migos”.
guinte trecho, extraído da conferência pronun- Ao fim da guerra, Bion retornou à
ciada por Bion na Sociedade Britânica de Psi- Tavistock Clinic, com o propósito de promover
cologia, em 1947, sob o título “Psiquiatria em mudanças estruturais. Assim, iniciou um gru-
um Tempo de Crise”, na qual ele também abor- po composto por uns dez diretores de serviços
dou os problemas de suas experiências grupais da clínica e trabalhou com eles em um clima
em um hospital militar, anteriormente mencio- de alta tensão grupal, com objetivos algo inde-
nados (Gradiva, n. 13, 1981): finidos, já que esse grupo era, a um só tempo,
tanto de integração institucional como de for-
Quando, alguns anos mais tarde, tive a mação técnica e de finalidade psicoterapêuti-
oportunidade de pôr essa idéia em práti- ca. Essa experiência não durou muito tempo,
ca, o resultado foi a liberação de uma porém teve o dom de mobilizar fortemente os
poderosa emoção que se mostrou, prin- participantes, a ponto de alguns deles procu-
cipalmente, na elevação do moral entre
rarem análise individual.
os pacientes, atos de indisciplina por
parte de dois suboficiais do staff ex-
Após algum tempo, Bion compôs um
officio, personalidades estáveis, e uma novo grupo, com analistas que já tivessem tra-
obstrução ligeira, mas persistente de ori- balhado com grupos. O aspecto inovador é que
gem obscura. A experiência foi encerra- cada um desses participantes poderia funcio-
da pelas autoridades, e já que foi impos- nar como paciente ou como analista dos de-
sível investigar o estado de espírito das mais, em uma forma pela qual todos se bene-
autoridades, não posso aventar uma cau- ficiariam simultaneamente. Essas reuniões
sa para o fracasso. também não tiveram pleno êxito: ao final de
um ano, o grupo se extinguiu por falta de par-
Em relação à seleção de oficiais, Bion dei- ticipantes.
xou de lado o método habitual de priorizar as No início de 1948, Bion organizou os seus
qualidades militares dos postulantes ao ofi- grupos unicamente terapêuticos, a partir dos
cialato e propôs a técnica de “grupo sem lí- quais fez importantes observações e contribui-
der”. Tal técnica consistia na proposição de uma ções que permanecem vigentes e inspiradoras
tarefa coletiva aos candidatos, como, por exem- na atualidade.
plo, a construção de uma ponte, enquanto os Dentre as concepções originais acerca da
observadores especializados avaliavam não a dinâmica do campo grupal, além das que já

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 109

referimos em relação aos grupos de reabilita- embora bem delimitados entre si. Um nível é o
ção e de seleção, aos grupos sem líder e à aber- que ele denomina como “grupo de trabalho”,
tura para a comunidade, vale a pena destacar e o outro é o “grupo de base” (ou de “pressu-
ainda as seguintes, e hoje clássicas, conceitua- postos básicos”).
ções e designações. O “grupo de trabalho” está voltado para
os aspectos conscientes de uma determinada
1. Espírito de grupo: no livro Experiên-
tarefa combinada por todos os membros do
cias em grupos, Bion destacou uma série de ca-
grupo, e, se quisermos comparar com o fun-
racterísticas que legitimam o “espírito” que uni-
cionamento de um indivíduo, equivale às fun-
fica e determina a dinâmica do campo grupal.
ções do ego consciente operando em um nível
Cabe destacar as seguintes oito características:
secundário do pensamento (conforme a con-
um objetivo comum de todos os componentes;
cepção de Freud).
o reconhecimento dos limites do grupo e das
posições e funções do grupo em relação a ou- 7. Grupo de (pré)supostos básicos (SB):
tros grupos; a capacidade para absorver e per- (no original: basic assumption) é, certamente,
der membros; a liberdade e o valor em relação na área grupal, a concepção mais original de
aos subgrupos que se formam; a valorização das Bion e a mais largamente conhecida e difundi-
individualidades dentro do grupo; a capacida- da.
de para enfrentar o descontentamento interno; Os supostos básicos (SB) funcionam nos
a tradição do grupo como possível oposição ao moldes do processo primário do pensamento
surgimento de idéias novas deste grupo; o líder e, portanto, obedecem primordialmente às leis
e o grupo comungando uma mesma “fé”. do inconsciente dinâmico. Assim, os supostos
básicos ignoram a noção de temporalidade, de
2. Mentalidade grupal: alude ao fato de
relação causa-efeito, ou se opõem a todo o pro-
que um grupo adquire uma unanimidade de
cesso de desenvolvimento e conservam as mes-
pensamento e de objetivo, a qual transcende
mas características que as reações defensivas
aos indivíduos e se institui como uma entida-
mobilizadas pelo ego primitivo contra as ansie-
de à parte.
dades psicóticas.
3. Cultura do grupo: resulta do conflito Bion descreveu três modalidades de supos-
de uma oposição entre as necessidades da tos básicos, denominadas, respectivamente: su-
“mentalidade grupal” e as de cada indivíduo postos básicos de “dependência”, de “luta e fuga”
em particular. e de “acasalamento” (ou “pareamento”).
4. Valência: é um termo, extraído da quí- É claro que as emoções básicas, como amor,
mica (o número de combinações que um áto- ódio, medo, ansiedades, etc., estão presentes em
mo estabelece com outros átomos), que desig- qualquer situação. Porém, o que caracteriza par-
na a aptidão de cada indivíduo combinar-se ticularmente cada um dos três supostos básicos
com os demais, em função dos fatores incons- é a forma como esses sentimentos vêm combi-
cientes de cada um. Bion alertava para o fato nados e estruturados; por isso, exigem um tipo
de que “sempre teria que haver algumas de líder específico apropriado para preencher
valências disponíveis para ligar-se a algo que os requisitos do suposto básico predominante e
ainda não aconteceu”. vigente no grupo.
O suposto básico de “dependência” de-
5. Cooperação: designa a combinação signa o fato de que o funcionamento do nível
entre duas ou mais pessoas que interagem sob mais primitivo do todo grupal necessita e ele-
a égide da razão; logo, é própria do funciona- ge um líder de características carismáticas em
mento do que Bion denomina como “grupo de razão da busca do recebimento de proteção,
trabalho”. segurança e de uma alimentação material e es-
6. Grupo de trabalho (GT): Bion afirma piritual. Os vínculos com o líder tendem a ad-
que todo grupo opera sempre em dois níveis quirir uma natureza parasitária ou simbiótica,
que são simultâneos, opostos e interativos, voltados para um mundo ilusório.

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110 DAVID E. ZIMERMAN

O suposto básico de “luta e fuga” alude a cia da espécie estão aí presentes confor-
uma condição em que o inconsciente grupal me descritos por Bion. Existe a expectati-
está dominado por ansiedades paranóides, e, va da emergência do líder místico, aque-
por isso, ou a totalidade grupal mostra-se alta- le que individualmente detém capacida-
des invulgares e que tem condições de li-
mente defensiva e “luta”, com uma franca re-
derar, dirigir o grupo para a sobrevivên-
jeição contra qualquer situação nova de difi-
cia. O instinto de obediência a esse líder
culdade psicológica, ou os componentes do aparece caricaturado no grupo de supos-
grupo “fogem” dela, criando um inimigo ex- to básico de dependência. Como animal
terno a que atribuem todos os males e contra predador e ao mesmo tempo alvo e presa
quem, por isso, ficam unidos. O líder requeri- de outros predadores, o ser humano ne-
do por esse tipo de suposto básico grupal de- cessita estabelecer padrões de comporta-
ver ter características paranóides e tirânicas. mentos grupais que lhe permitam lutar e
O suposto básico de “acasalamento” con- fugir de acordo com as circunstâncias. A
siste no fato de que o grupo espera que, con- liderança necessária para tal se faz pre-
forme a primeira descrição de Bion, um casal sente e a formulação das atitudes grupais
que fazem face a essas necessidades en-
do grupo gerará um filho “Messias”, que será o
contra-se representada no grupo de su-
redentor de todos. Posteriormente, o conceito
posição básica de luta-fuga. O outro ele-
desse suposto básico deixou de levar em conta mento fundamental da sobrevivência da
o sexo dos indivíduos envolvidos (daí a prefe- espécie, a procriação e a criação da pro-
rência pelo termo “pareamento”). Destarte, as le, está expresso no grupo de suposto
esperanças messiânicas do grupo podem estar básico de acasalamento. Assim, vemos
depositadas em uma pessoa, uma idéia, um que as principais necessidades básicas de
acontecimento, etc., que virá salvá-los e fazer manutenção da espécie humana emergem
desaparecer todas as dificuldades. Nesses ca- desta forma primitiva nos agrupamentos
sos, o grupo costuma organizar-se com defe- humanos quando é dada a oportunidade
sas maníacas, e o líder desse tipo de grupo de- para tal.
verá ter características messiânicas e de algum
misticismo. Comentários: essas modalidades de supos-
Pela importância que a concepção dos to básico não se contrapõem entre si; pelo con-
“supostos básicos” representa na obra de Bion, trário, podem coexistir em um mesmo grupo e
é justo transcrever um trecho do trabalho de se alternar no surgimento. Como exemplo,
Py (1986, p. 61) – psicanalista da SBPRJ e pode ser lembrado o surgimento do movimen-
reconhecido grupoanalista – que trata da to nazista e o seu líder, Adolf Hitler, que, a meu
emergência dessas suposições básicas nos in- juízo, preencheu os três supostos básicos em
divíduos e de como eles se interpenetram. Afir- que estava mergulhado o povo alemão da épo-
ma esse autor: ca.
8. Uma dimensão “atávica” de grupo: é
Emerge algo inconsciente, instintivo e ex- interessante registrar que, na década de 70,
tremamente primitivo, impelindo o gru- em meio a seus estudos sobre a “cesura”, Bion,
po a um determinado tipo de comporta- indiretamente, acrescentou uma nova dimen-
mento que parece um padrão da espécie
são à conceituação dos supostos básicos.
humana, tendo em vista o fato de o ho-
mem ser um animal gregário. Talvez pa-
Meltzer (1990, p. 31) se refere a isso dizendo
drões semelhantes sejam característicos que o ser humano tem a tendência inata, her-
do comportamento dos mamíferos gre- dada do seu passado animal, a unir-se em re-
gários. Trata-se de um comportamento de banhos e a formar famílias, tribos e clãs, e que
sobrevivência que então aparece de for- Bion assinalou que as partes pré-natais da per-
ma rudimentar, ineficiente, caricata. Os sonalidade tendem a cindir-se na cesura do nas-
aspectos mais essenciais da sobrevivên- cimento, o que permanece nas organizações

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 111

sociais muito primitivas sob a vigência do riências: a) fica visível que nem sempre uma
psiquismo protomental, representado pelos liderança que é a formalmente designada coin-
supostos básicos. Seria, em outras palavras, cide com a que surge espontaneamente; b) são
uma vida tribal, atávica e profundamente muitos os tipos de lideranças espontâneas, e o
internalizada nos indivíduos. seu surgimento varia com as distintas circuns-
tâncias de cada grupo; c) um grupo sem ne-
9. O grupo de trabalho especializado:
nhuma liderança tende à dissolução.
seguindo Freud, Bion também estudou a dinâ-
mica dos dois grandes grupos – o Exército e a 12. A relação do “gênio” com o esta-
Igreja – aos quais acrescentou o entendimen- blishment: Bion estudava os grupos do ângu-
to, sempre dentro de uma óptica dos supostos lo da psicologia social, isto é, através da inte-
básicos, de um terceiro grande grupo: o da ração entre o indivíduo, o grupo e a socieda-
Aristocracia. de. Um “gênio” (que em outros momentos ele
Dessa forma, Bion assevera que a Igreja nomeia como “herói” ou “místico”) é aquele
funciona sob os moldes do suposto básico de que, por ser portador de uma idéia nova, re-
“dependência”; o Exército, sob os de “luta e presenta uma ameaça de mudança catastrófi-
fuga”, e a aristocracia, sob o suposto básico de ca para a estabilidade do establishment (uma
“acasalamento”. Além dessas, devem ser leva- cultura, uma instituição, um poder político,
das em conta as formas mistas e as formas etc.) que está firmemente constituído e aceito
aberrantes, não tão típicas como as outras, sen- para certa época e lugar. Ele utiliza como exem-
do que o “cisma” religioso pode servir como plo a pregação de Jesus, tão ameaçadora para
exemplo. o establishment do poder romano. Bion nos en-
sina também que, para enfrentar a ameaça do
10. As lideranças: tanto Freud como Bion
“gênio”, o establishment ou o segrega (através
estudaram o fenômeno das lideranças, porém
da configuração do bode expiatório) ou dá um
partiram de perspectivas diferentes. Para Freud
jeito de absorvê-lo e cooptá-lo.
(1921), um grupo se constitui como o emer-
gente de seu líder (por exemplo: Jesus, introje- 13. O grupo e os mecanismos psicóticos:
tado pelos devotos, forma o grupo cristão da outra diferença na visualização dos grupos en-
igreja; um comandante militar encontra uma tre Freud e Bion é que o primeiro os estudou a
ressonância projetiva nos seus subordinados...), partir dos mecanismos neuróticos e da relação
enquanto para Bion, de uma forma bem opos- de objeto total (embora Freud, em Psicologia das
ta, o líder é que é o emergente das necessida- massas, de 1921, tenha chegado próximo dos
des do grupo. mecanismos psicóticos quando esmiuçou os tra-
Comentário: creio que a diferença entre balhos de Le Bon referentes às turbas e grupos
essas duas posições fique mais clara a partir primitivos), e Bion, pelo contrário, conectou o
do exemplo, real, da forte e decisiva liderança entendimento da dinâmica de grupo à psicose
de Churchill, no momento mais difícil para a e à relação de objeto parcial.
população inglesa durante a II Guerra Mundial. 14. A contratransferência do grupotera-
Para Freud, seria a magnitude de Churchill que peuta: a própria natureza dos fenômenos di-
teria dado ânimo e resistência ao povo; Bion nâmicos de um campo grupal propicia que, com
sustentaria o seu vértice a partir das palavras base em Bion, se conclua que é indispensável
que o próprio Churchill dirigiu à nação: “Se que um grupoterapeuta funcione como um con-
vocês me elegerem como seu líder, só me cabe tinente adequado ao incessante e cruzado bom-
fazer o que todos esperam de mim”. bardeio de identificações projetivas de uns nos
11. Grupo sem líder: como já referido, outros. Aliás, Bion foi dos primeiros psicana-
Bion utilizou esse recurso como método de se- listas a reconhecer a contratransferência resul-
leção de candidatos ao oficialato militar e re- tante das identificações projetivas maciças
colheu interessantes observações dessas expe- como uma forma de comunicação primitiva e

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112 DAVID E. ZIMERMAN

a perceber de que forma essa contratransfe- 8. Demonstrou um método de condu-


rência pode servir como uma excelente bússo- ção de debates com um público gran-
la empática. de, posto que freqüentemente pro-
À guisa de sumário, pode-se dizer que os vocava uma dinâmica de grupo com
trabalhos que Bion desenvolveu com grupos o auditório.
contribuíram para o desenvolvimento dos as- 9. Promoveu uma significativa mudan-
pectos a seguir indicados. ça na prática da psicoterapia analí-
tica de grupo.
1. Ele foi o criador pioneiro de uma 10. Todos os escritos de Bion sobre gru-
série de concepções totalmente ori- pos foram reunidos em uma única
ginais acerca de dinâmica de grupo, publicação, em 1961, sob o título
através de experiências realizadas original Experiences in groups and
com grupos em distintos locais e com other papers (na edição argentina,
diferentes objetivos. Da mesma for- de 1963, traduzido por Experiencias
ma, empregou uma terminologia en grupos). As demais publicações
inédita, que, ainda hoje, se mantém que estão contidas nesse livro único
vigente. são: “Tensões Intragrupais em Tera-
2. Propiciou um melhor entendimento pia” (1943), “Experiências em Gru-
da dinâmica inconsciente profunda pos” (1951) e “Dinâmica de Grupo:
dos grupos – os supostos básicos, que uma Revisão” (1952).
se opõem à mudança e ao crescimen-
to e não toleram a frustração – e que Comentários
estão sempre subjacentes em qual-
quer “grupo de trabalho”, o qual Não obstante o conceito relativo aos
opera voltado para uma tarefa co- (pré)supostos básicos de “dependência”, de
mum. “luta e fuga” e de “pareamento” constituir sua
3. Criou uma tradição de terapia de elaboração mais conhecida e muitíssimo cita-
grupo que ficou conhecida pelo da, creio que restringir sua aplicação na práti-
nome de “estilo Tavistock”. ca a uma forma assim tão esquemática empo-
4. Suas descobertas sobre a psicologia brece muito o trabalho clínico com grupote-
social dos grupos abriram as portas rapias. Observa-se, com freqüência, um outro
para a criação e o florescimento das inconveniente: a linguagem referente aos três
comunidades terapêuticas. supostos básicos ficou tão desgastada pelo uso
5. Da mesma forma, seus estudos acer- corrente e excessivo que perdeu o caráter discri-
ca da relação do “místico” (o indiví- minativo. Muitas vezes ela é empregada me-
duo contestador e inovador) com o canicamente, algo dissociada da real experiên-
establishment alargaram o entendi- cia emocional dos grupos.
mento da psicologia dos grandes Na verdade, quem trabalha com grupos
grupos nos planos institucional, so- sabe que o campo grupal é muito caleidos-
cial, político, religioso, psicanalítico, cópico e permite uma gama de pressupostos
etc. Pela importância que represen- inconscientes muito mais complexa e variada.
ta essa dimensão da dinâmica gru- Aliás, essas linhas já estavam escritas quando
pal, ela será mais detalhada no pró- me deparei com as palavras do próprio Bion
ximo capítulo. (Conversando com Bion, 1992, p. 62), ao res-
6. Criou e introduziu um método ori- ponder a uma pergunta que lhe fizeram sobre
ginal e duradouro de seleção de ofi- a utilidade dos três supostos básicos. “São cons-
ciais nas Forças Armadas. truções, generalizações grosseiras [...] se elas
7. Propiciou o desenvolvimento de não me lembram a vida real, não me servem
métodos de ensino em grupos. para nada”.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 113

Além disso, na atualidade, o foco de maior entre si conforme um certo script. Es-
importância no campo grupal se apóia em qua- ses personagens do grupo interno, se-
tro aspectos prioritários que extrapolam os dos guindo o roteiro do aludido enredo,
supostos básicos: determinam uma grande parcela do
comportamento grupal e social de cada
a) a observação da estereotipia do de- sujeito, na escolha de pessoas para con-
sempenho dos distintos papéis, posi- viver e no desempenho de determina-
ções e funções de cada um do grupo; dos papéis (Zimerman, 2000).
b) o assinalamento dos problemas da co-
municação entre os participantes do Sempre que questionado em relação ao
grupo, especialmente os que se refe- seu aparente desinteresse por grupos, Bion ale-
rem aos costumeiros problemas dos gava que somente não retomava o trabalho
“mal-entendidos”; efetivo com grupos porque estava absorvido
c) a singular possibilidade de o grupo- por outra atividade também muito fascinante:
terapeuta observar e interpretar o a da psicanálise individual. Não obstante, Bion
interjogo especular das identificações confidenciara a amigos que a sua analista,
projetivas e introjetivas de uns com os Melanie Klein, nunca vira com bons olhos o
outros, de um modo similar a uma gale- seu trabalho com grupos, e até os hostilizava,
ria de espelhos, o que permite que cada com o argumento de que isso o desviava de
um se reflita no outro, reconhecendo e um “trabalho analítico mais importante”.
sendo reconhecido pelos demais; A propósito disso, pode-se dizer que, em-
d) sempre levar em conta que “todo indi- bora aparentemente haja em Bion uma disso-
víduo é um grupo”, isto é, cada pessoa ciação entre as suas concepções grupais e as
carrega dentro de si um grupo de per- da psicanálise individual, na verdade, ele nun-
sonagens introjetados, que interagem ca deixou de as correlacionar e integrar.

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114 DAVID E. ZIMERMAN

8
Psicanálise, Sociedade e Perversão dos
Sistemas Sociais: As Contribuições de Bion *

Em continuação às concepções referen- duo e a sociedade, postulando que a subjeti-


tes aos fenômenos da dinâmica dos grupos, o vidade humana é gerada no seio de uma cul-
presente capítulo visa a abordar as múltiplas tura e vice-versa. Assim, as postulações de
contribuições de Bion no que se refere à for- Freud relativamente aos fenômenos psicoló-
mação e às inter-relações que se estabelecem gicos que se processam nos grupos, nos siste-
entre a psicanálise, a sociedade e a perversão mas sociais e na formação da cultura estão
dos sistemas sociais. Para tanto, cabe discrimi- presentes em muitos de seus trabalhos, prin-
nar, separadamente, as sete diferentes dimen- cipalmente nos cinco seguintes: As perspecti-
sões em que Bion estuda os referidos fenôme- vas futuras da terapia psicanalítica (1910);
nos sociais, nas vertentes atávica, mítica, Totem e tabu (1913); Psicologia das massas e
metapsicológica, vincular, comunicacional, clí- análise do ego (1921); O futuro de uma ilusão
nica e na dimensão da psicologia social. Por (1927) e Mal-estar da civilização (1930). No
fim, este capítulo tentará descrever as múlti- entanto, foi no aludido trabalho de 1927 que,
plas causas e distintas modalidades pelas quais fundamentado nas concepções de Le Bon,
se manifestam as perversões de certas institui- Freud fez aprofundados estudos sobre os fe-
ções e sistemas sociais em geral. nômenos psicológicos primitivos, inerentes às
Bion sempre evidenciou que grande par- multidões. Nesse mesmo trabalho, apresen-
te de sua obra foi inspirada pelas concepções tou importantes contribuições relativamente
originais de Freud e de Klein, porém, mais res- às lideranças, tanto as que se processam nas
tritamente no campo da dinâmica psíquica que forças militares (projeção dos anseios, do ideal
preside os grupos humanos, ele ficou muito do ego de cada um e de todos os subordina-
mais próximo do primeiro do que da segunda. dos na pessoa do comandante) como também
Freud, embora nunca tenha trabalhado quanto ao tipo de liderança que é própria da
diretamente com grupos, em diversos traba- igreja cristã (todos os seguidores estão fra-
lhos demonstrou interesse pela psicologia das ternalmente identificados, em função da intro-
massas e pelas inter-relações entre o indiví- jeção comum da figura de Jesus Cristo).

*
Trabalho apresentado na mesa-redonda “A Contribuição de Bion: Psicanálise e Sociedade”, no congresso
da FEPAL, em Gramado-RS, em 04/9/2000.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 115

Assim como ele, também Bion, desde os No presente capítulo, vou adotar um es-
seus primeiros passos no campo do psiquismo quema algo didático com vistas a integrar e
humano, trabalhou e valorizou sobremodo es- discriminar, separadamente, as diferentes di-
ses referidos aspectos, como pode ser sinteti- mensões com que Bion, de forma direta ou
zado na frase, em que concorda com Aristó- indireta, abordou as inter-relações da psica-
teles, “o homem é um animal político”, logo, nálise com os fenômenos sociais. Assim, as
não pode realizar-se fora de um grupo, sete dimensões antes referidas seguem enu-
tampouco satisfazer qualquer impulso – não meradas.
só os sexuais e agressivos, mas também os A dimensão atávica alude ao fato de Bion
narcísicos – sem que os respectivos componen- manter a crença de que a evolução histórica
tes emocionais se expressem em relação com do ser humano tem evidenciado a existência
outras pessoas. de uma tendência inata, herdada de seu pas-
Cabe mencionar uma distinção entre sado animal, a unir-se em rebanhos e a formar
Freud e Bion, relativamente ao fenômeno do famílias, tribos e clãs. Ao dar uma dimensão
surgimento das lideranças: Freud considerava atávica aos grupos, Bion postulou que as par-
o grupo social como um emergente do líder tes pré-natais da personalidade tendem a
(isto é, o líder como alguém de quem o grupo cindir-se na “cesura” do nascimento, e isso per-
depende e de cuja personalidade vão derivar manece nas organizações sociais muito primi-
as qualidades dos demais), enquanto Bion fun- tivas, sob a vigência latente do psiquismo
damentou a postulação de que o líder é um protomental. Este último aspecto aparece ma-
emergente do grupo. Creio que esse ponto de nifesto nos grupos através do fenômeno que
vista está bem consubstanciado na afirmação ele conceitua como “supostos (ou pré-supos-
do grande líder Churchill, no curso da II Guer- tos) básicos”, os quais, fundamentalmente,
ra Mundial: “Como me escolheram como líder, descreve com os nomes de “dependência”, “luta
eu devo ser comandado por vocês”. e fuga” e “acasalamento” e que, de alguma for-
Em relação a Klein, de quem foi pacien- ma, reproduzem a essência do que se passa no
te, discípulo e fiel seguidor, e cujas concepções reino animal, ou seja, a busca de sobrevivên-
concernentes aos primitivos mecanismos de- cia do indivíduo e da espécie.
fensivos do ego lhe foram extremamente úteis De fato, toda criatura humana reproduz,
para entender e trabalhar com psicóticos e com nos seus grupos de convívio obrigatórios, os
grupos, Bion diferenciou-se significativamen- mesmos processos que, podemos pressupor,
te, pois, ao contrário dela, sempre evidenciou sejam os básicos para assegurar a sua sobrevi-
um especial interesse pela dimensão social da vência. Destarte, é impossível imaginar um fi-
psicanálise. lhote de qualquer animal, ou um bebê huma-
Mais especificamente em relação a Bion, no, que não tenha uma absoluta “dependên-
antes de destacar alguma contribuição mais ge- cia” dos cuidados maternos. Da mesma forma,
nérica sua, creio que, parodiando Wallerstein diante dos animais predadores, só restava aos
(“...uma psicanálise ou muitas?”), cabe pergun- ameaçados os recursos extremos de enfrentar
tar: “um Bion ou muitos?”, já que tanto pode- o inimigo com o estabelecimento de uma “luta”,
mos enfocar aquele Bion de concepções cientí- ou empreender alguma das inúmeras formas
ficas quanto o das especulações filosóficas, es- de “fuga”. Igualmente, para preservar a conti-
téticas, místicas ou clínicas, além do fato de nuidade da espécie, nossos ancestrais acasa-
que seus textos permitem leituras diferentes lavam, garantindo, assim, a reprodução.
de um leitor para outro. Na verdade, existem Cada grupo elege um tipo específico de
vários Bions unificados por um único, aquele líder, conforme a predominância do suposto
que sempre valoriza a experiência emocional básico, de sorte que no suposto de dependência
que acompanha qualquer uma de suas afirma- a liderança costuma ser do tipo carismática,
tivas ou conjecturas, por mais matemáticas ou enquanto no de luta e fuga predomina a lide-
místicas que elas pareçam ser. rança com características tirânicas, caudilhes-

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116 DAVID E. ZIMERMAN

cas, e no suposto de acasalamento o grupo ele- conjecturas míticas, tendo em vista que basta
ge uma liderança de natureza mais mística, que lembrar o relato da profecia de Tirésias, se-
acene para o nascimento de um messias que gundo a qual Narciso morreria se, e quando,
represente o porvir da realização dos sonhos viesse a conhecer a si próprio. Entendo que esse
de cada um e de todos, de grandeza e felicida- trecho, tal como consta em Metamorfosis, de
de plena. É possível que um mesmo líder pre- Ovídio (1984), ilustra o quanto a sabedoria dos
encha esses três supostos básicos, tal como, me mitos revela a tendência das pessoas e dos gru-
parece, foi a figura de Hitler na época da Ale- pos humanos a desconhecer a verdade (-K, de
manha nazista. Bion) devido ao medo de conhecer as próprias
Para ficar num único exemplo que ilustre debilidades, caso renunciem às ilusões narcisís-
a dimensão atávica, basta citar os grupos ticas. O desfecho desse mito nos mostra que é
fanatizados, nos quais predomina, de longe, o necessário que Narciso morra para que nasça
suposto básico de dependência, em cujo caso, Édipo.
mercê de uma extrema idealização, cada um e Se sintonizarmos esse mito com as con-
todos os liderados esvaziam totalmente as suas cepções e a terminologia de Bion, vale desta-
capacidades próprias e obedecem cegamente car dois aspectos: um, o da estreita relação
ao líder carismático, tal como, há algumas dé- do mito de Narciso com o problema relativo
cadas, o planejado suicídio coletivo de cente- às verdades e às inúmeras formas de falsifica-
nas de pessoas seguidoras do fanático pastor ções das aludidas verdades, quando prevale-
Jones, na Guiana. Dentre os grupos fana- ce o -K. A história nos fornece um excelente
tizados, o melhor exemplo são os chamados exemplo dessa negação coletiva das verdades
“fundamentalistas”, encontrados em distintas que ameaçam a nossa ilusão de grandiosidade
religiões, os quais, a título de defender os “fun- narcisística: refiro-me à manutenção, duran-
damentos” básicos, essenciais, ditados por Deus te séculos, da falsificação científica contida nas
(algo diferente, em cada uma das religiões), teorias de Ptolomeu, de que todo o universo
atacam cegamente qualquer avanço científico, giraria em torno da Terra. Cientistas como
econômico, social ou moral que ameace as suas Copérnico, Galileu Galilei e Giordano Bruno,
crenças atávicas. que, mercê de evidências científicas da física
Em síntese, Bion conjectura que a vida da época, tentaram demonstrar a verdade
tribal atávica possa estar profundamente inter- oposta àquela então vigente – isto é, a teoria
nalizada em todos os indivíduos e grupos, de heliocêntrica, no lugar da geocêntrica –, fo-
forma mais manifesta ou mais oculta, deter- ram condenados como hereges, perseguidos,
minando inconscientemente grande parte de torturados, e alguns pagaram com a própria
seus comportamentos. vida. No fundo, a cruel resistência à tomada
Em relação à dimensão mítica, como for- de conhecimento de uma verdade indigesta
ma de encarar os grupos, Bion considera que não se refere unicamente à ofensa ao narcisis-
os seres humanos também buscam a sua so- mo humano, mas esse exemplo pode ilustrar
brevivência física e psíquica, muitas vezes à que aqui também existe uma influência atá-
custa de uma submissão, ou de rebeldia con- vica, isto é, os representantes da Igreja da
tra Deus, com as devidas recompensas e casti- época, de forma “fundamentalista”, acredita-
gos, além de intrigas invejosas e de um ataque vam estar numa sagrada luta para perpetuar
ao conhecimento das verdades. Tudo isso, de as palavras e profecias divinas que constavam
forma implícita, aparece nos mitos grupais, tais na Bíblia.
como os relatos das agruras de Adão e Eva no Creio que um segundo aspecto pelo qual
mito do Éden, a confusão de línguas no mito o mito de Narciso se ajusta a Bion consiste no
de Babel, o conhecido mito de Édipo e outros fato de que a morte de Narciso, propiciando o
tantos que configuram esse plano transpessoal nascimento de Édipo, ilustra uma importante
do convívio entre os seres humanos. A meu concepção bastante enfatizada por ele, refe-
juízo, é difícil entender as razões pelas quais rente à passagem de um estado de “narcisismo”
Bion não incluiu o mito de Narciso em suas para o de um “social-ismo”.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 117

A dimensão metapsicológica alude ao fato tabelecem entre os indivíduos, grupos e comu-


de que, da mesma forma que o aparelho psí- nidades.
quico de todo e qualquer indivíduo tem zo- A dimensão vincular refere que, indo
nas de funcionamento tanto consciente quan- muito além da existência das pulsões libidinais
to inconsciente, também nos grupos existe um (enfaticamente descritas por Freud) e das
aparelho psíquico grupal que opera no plano agressivas (exaustivamente estudadas por
consciente e, subjacente a este, existe uma Klein), Bion postulou a noção de uma perma-
forma de funcionamento provindo do plano nente interação dessas duas formas de expe-
inconsciente. Ao funcionamento consciente, riência emocional, às quais acrescentou uma
Bion denominou “grupo de trabalho” (todos terceira, ou seja, a que se refere à emociona-
os participantes, deliberadamente, estão vol- lidade mais diretamente conectada ao desejo
tados para uma tarefa de interesse comum), de um indivíduo, ou de um determinado gru-
enquanto o funcionamento inconsciente cor- po, em querer, ou se recusar a, fazer um conta-
responde ao que, tal como foi mencionado an- to consciente com as verdades ameaçadoras.
teriormente, ele conceituou como “supostos A psicanálise contemporânea está gradativa-
básicos”, que costumam interferir na tarefa a mente concedendo uma expressiva importân-
que o grupo se propôs conscientemente, de- cia às múltiplas formas como se estruturam as
vido à pressão oculta de sentimentos como configurações vinculares entre casais, famílias,
inveja, ciúme, rivalidades, disputa pelo poder, grupos, instituições, comunidades, nações e sis-
etc. Um outro aspecto metapsicológico impor- temas sociais em geral.
tante que se observa nos grupos e sociedades Relativamente à dimensão comunica-
consiste na presença dos sete “elementos da cional, não parece ser exagerada a afirmativa
psicanálise”: a relação continente-conteúdo; de que “o maior mal da humanidade consiste
a permanente inter-relação da posição es- no problema dos mal-entendidos da comu-
quizoparanóide com a posição depressiva; os nicação”. Bion dedicou uma significativa parte
vínculos de amor, ódio e conhecimento; a de sua obra ao estudo dos transtornos da
equação que se estabelece entre a razão e a comunicação no seu tríplice aspecto: o da
idéia; o fenômeno das transformações e a dor “transmissão” das mensagens (assinalou, es-
psíquica; e a interação entre um estado de pecialmente, o quanto, muitas vezes, ao con-
narcisismo e um de social-ismo. (No presente trário do que seria de esperar, o discurso ver-
livro, existe um capítulo especial sobre esses bal está mais a serviço de não comunicar e de
elementos.) confundir); o da “recepção” das mensagens
Convém lembrar que Bion se indispunha verbais que provêm dos outros (distorções de-
contra o excesso de teorias existentes na psi- vidas a um estado de uma defensividade
canálise e por isso propôs uma simplificação: paranóide, uma demanda narcisista, etc.); e
a de considerarmos que toda experiência emo- o que se refere aos “canais de comunicação”
cional repousa nas diferentes formas como se (nesse particular, a maior contribuição de Bion
combinam os elementos de psicanálise, à moda se refere à valorização da primitiva comuni-
do que se passa no campo da música a partir cação não-verbal, como pode ser a dos ges-
dos elementos simples, ou seja, das sete notas tos, atitudes, actings, somatizações, efeitos
musicais. Cada um dos elementos de psicaná- contratransferenciais na situação analítica, po-
lise, separadamente ou em formas combina- sições ambíguas; sobretudo, ele enfatizou a
das, dá acesso a fenômenos essenciais do cam- importância, em todos os níveis da comuni-
po dinâmico grupal, como é o caso das identi- cação humana, de algumas formas de ataque
ficações projetivas, das introjetivas (presentes aos vínculos, especialmente os perceptivos, a
na transgeracionalidade), do grupo como con- serviço do -K).
tinente para os conteúdos de necessidades, de- Já no que diz respeito à dimensão clínica,
sejos, demandas e angústias e das inúmeras ao contrário dos autores psicanalíticos mais
formas de configurações vinculares que se es- importantes, Bion praticou ativamente distin-

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118 DAVID E. ZIMERMAN

tas formas de “grupoterapias” e criou um con- necessita do grupo que compõe a instituição
junto de relevantes contribuições originais para a que ele pertence não só para o reconheci-
o entendimento e manejo dos fenômenos da mento de suas idéias, mas também pelo fato
dinâmica do campo grupal, que continuam ple- de que uma das funções de um grupo é servir
namente vigentes na atualidade. Essa afirma- de continente para as partes negadas e disso-
tiva pode ser facilmente comprovada pela lei- ciadas de cada um, que serão projetadas nos
tura dos textos que compõem o seu livro Expe- outros, do que resulta a formação de sub-
riências em grupos (1962). grupos. Igualmente, vai haver a formação de
A sétima dimensão provinda de Bion a uma hierárquica distribuição de papéis a se-
que vou aludir é a da psicologia social. Nesse rem desempenhados, lugares a serem ocupa-
campo, Bion estudou a formação da “cultura dos, com posições e funções a serem defini-
grupal”, como resultante da necessidade de das. A recíproca disso também é verdadeira,
uma adaptação dos interesses do indivíduo em ou seja, o grupo da instituição estabelecida
oposição aos do grupo como uma totalidade. também necessita do sujeito excepcional, caso
É útil lembrar que um grupo não é um simples contrário, ele está fadado a um destino de
somatório de individualidades, ele se constitui esclerosamento e inanição.
como uma nova entidade, com feições e valo- Destarte, toda instituição sempre está es-
res próprios e singulares. truturada como uma organização sistêmica,
Além desses aspectos, a maior contribui- isto é, as partes constituintes do todo são
ção de Bion referentemente à normalidade e indissociáveis entre si, de sorte que cada parte
patogenia dos sistemas sociais, sem qualquer influencia e sofre a influência das demais. Isso
dúvida, consiste em seus estudos, que apare- pode acontecer tanto de uma forma harmôni-
cem mais densamente em Atenção e interpre- ca e saudável como, num outro extremo, o fun-
tação (1970), relativos à vincularidade do em- cionamento da instituição correr riscos, desde
bate que se estabelece entre o “indivíduo ex- uma imperceptível estagnação até uma mani-
cepcional” e o “establishment”. O indivíduo ex- festa adulteração dos objetivos para os quais
cepcional (que, indistintamente, também de- ela foi inicialmente criada, isto é, pode acon-
nomina “gênio”, “herói”, “místico”) é aquela tecer uma perversão da instituição.
pessoa portadora de alguma idéia ou concep-
ção que, por ser nova, representa uma ameaça
para a estabilidade do establishment. Esta últi- PERVERSÃO DOS SISTEMAS SOCIAIS
ma denominação é utilizada por Bion para de-
signar uma casta dirigente numa determinada A terminologia “sistema social”, aqui, de-
época e lugar, tal como pode ser um poder po- signa tanto o campo da microssociologia (por
lítico, uma cultura vigente, instituições em ge- exemplo, qualquer tipo de instituição) quanto
ral, como uma sociedade psicanalítica, segun- o da macrossociologia (por exemplo, o poder
do um exemplo que ele costumava empregar político de uma nação), de modo que, guar-
em seus textos. dando as devidas proporções e respeitando as
Relativamente ao eterno embate entre o óbvias diferenças, pode-se dizer que, de forma
indivíduo excepcional e o establishment, Bion genérica, todos os sistemas sociais estão sujei-
destaca mais dois aspectos: o primeiro deles tos a sofrer predominantes influências de fato-
se refere ao fato de que o indivíduo gênio tan- res patogênicos inconscientes, o que pode de-
to pode ser portador de idéias construtivas, terminar diversas formas de patologia, inclu-
renovadoras, revolucionárias para os paradig- sive a de uma perversão.
mas dominantes (ele exemplifica com o apos- Rastreando as contribuições de Bion, cabe
tolado de Jesus, no campo da religião, Newton, aventar uma série de possibilidades quanto à
no da física, etc.) como funcionar como uma determinação de alguma forma de patologia
liderança niilista, destrutiva; já o segundo as- de um determinado sistema social. Como
pecto considera que o indivíduo excepcional exemplificação, vamos ilustrar com a patolo-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 119

gia de uma hipotética instituição de ensino- Comentário: se houver uma forte emer-
aprendizagem. gência da “parte psicótica do grupo” (adaptei
Caso, nessa instituição, haja um forte essa expressão, inspirado na concepção de
predomínio do suposto básico de “dependên- Bion de “parte psicótica da personalidade”
cia”, acontecerá uma extrema idealização dos [p.p.p.], que atribuiu a cada sujeito em parti-
líderes, às custas de uma infantilização e sub- cular; porém não custa lembrar que esse con-
missão dos liderados, o que concorre para um ceito de p.p.p. não trata necessariamente de
prejuízo da capacidade para pensar e criar, uma psicose clínica), o “grupo de trabalho”
porquanto nessas situações as idéias não são será invadido pelos supostos básicos, fazen-
realmente pensadas, mas sim negadas, deifi- do com que prevaleça uma “posição narcisis-
cadas, dogmatizadas, com a repetição de cha- ta” (Zimerman, 1999). Nesse caso, haverá o
vões familiares. Tudo isso vem aliado a uma primado da inveja destrutiva, ou de indivíduos
conduta de bom comportamento por parte dos separadamente, ou de fortes subgrupos, com
alunos, que vai servir como um passaporte os seus clássicos derivados, como a volúpia
para cair nas boas graças dos mestres venera- por poder, prestígio, riqueza, vantagens pes-
dos. Penso que uma das formas possíveis de soais e palco para brilhaturas, a não-aceita-
embotar a criatividade e uma saudável ca- ção dos limites e limitações, da finitude ine-
pacidade para a contestação, por parte dos vitável, tampouco o reconhecimento das di-
alunos, provém do efeito de “deslumbramen- ferenças entre os confrades.
to” causado pelo discurso de um professor Além disso, na perversão dos sistemas
especialmente brilhante (às vezes trata-se de sociais que estejam sob a égide da “parte
um “falso brilhante”). Convém lembrar que psicótica do grupo”, reinará um clima de oni-
a palavra “deslumbramento” provém dos potência (que substitui a capacidade para pen-
étimos “des” (“retirada de”) e “lumbre” (luz), sar), de onisciência (no lugar de uma capaci-
ou seja, provoca o mesmo efeito de um farol dade para o aprendizado com as experiên-
de luz alta de um carro que, vindo em dire- cias), de prepotência (a qual substitui o con-
ção contrária à nossa, nos ofusca de tão bri- tato verdadeiro com as próprias fragilidades,
lhante que é. ou seja, trata-se de uma “pré-potência”), de
Na hipótese de que a predominância seja, hipocrisia ou cinismo (quando as pulsões sá-
de longe, a do suposto básico de “luta e fuga”, dico-destrutivas ficam dissimuladas e ocultas
acontece a formação de um clima em que a por uma atitude de uma simpatia sedutora),
totalidade do grupo da instituição mantém-se de certa confusão (obscurece a discriminação,
unida, porquanto o “inimigo” está projetado ou seja, a tomada de conhecimento de verda-
em outras instituições congêneres, rivais. Nas des penosas) e de ambigüidade (não há coe-
circunstâncias em que essa paranóia, colocada rência entre o que se diz, o que se faz e o que,
no inimigo externo, diminui de intensidade, é de fato, se é).
bastante freqüente que o desafeto seja coloca- Nessas condições, as conseqüências pa-
do em “bodes expiatórios”, em indivíduos ou togênicas são bem conhecidas, como é o caso
subgrupos dentro do seio da instituição, os de um prolongamento atávico da demarcação
quais passam a ser hostilizados de alguma for- do território exclusivo, de sorte que, tal como
ma ou até mesmo cassados como “inimigos na acontece no reino animal, o grupo dominante
trincheira”. Por essa razão, nesses casos, o de alguma instituição também pode fazer de
maior prejuízo reside no fato de que alguém tudo para perpetuar-se no poder e jamais re-
que pensa diferente da maioria, a qual comun- nunciar à posse do “seu” território. Embora a
ga com a cúpula dirigente, virá a ser reputado aparência seja de uma democracia, uma ob-
como indesejável, de modo que boas cabeças servação mais detida comprova o quanto a
pensantes serão eliminadas por distintas racio- perpetuação no comando ideológico e admi-
nalizações, o que costuma acarretar sucessi- nistrativo da instituição mantém-se por meio
vas dissidências que poderiam ser evitadas. do recurso de um constante rodízio de um

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120 DAVID E. ZIMERMAN

mesmo círculo restrito de pessoas que alter- e interpretação (1970), Bion enfoca mais dire-
nam entre si os cargos diretivos. tamente o problema da patologia dos sistemas
Um outro fator perpetuador do poder sociais. Pode-se dizer que Bion sintetiza a rela-
consiste na formação de uma corte de segui- ção que o establishment estabelece com o ame-
dores e bajuladores em pessoas da próxima açador “indivíduo excepcional” de acordo com
geração, as quais demonstram uma aceitação estes passos:
incondicionalmente adoradora da cúpula diri-
gente, não raramente funcionando de forma 1. simplesmente não aceita a sua fi-
esvaziada, subserviente e mimética. Assim, liação; ou
quando o sistema social aproxima-se de uma 2. aceita, porém cedo o caracteriza
estrutura de natureza perversa, muitas vezes a como bode expiatório;
liderança que compõe o comando da institui- 3. daí decorre que o expulsa, ignora ou
ção apresenta uma aparência democrática e um desqualifica;
bonito discurso demagógico (trata-se de um 4. é freqüente que procure cooptá-lo
discurso “fetichizado”, portanto perverso, que através da atribuição de funções ad-
consiste em usar a teoria como um fetiche ar- ministrativas honrosas (Bion lem-
rogante e dogmático, visando a seduzir e im- bra que um bom epitáfio seria: “co-
por aos demais as suas próprias verdades), os berto de glórias, morreu sem dei-
quais, sutilmente, ocultam uma ideologia au- xar vestígios”);
tocrática, logo, esterilizadora. 5. ou, ainda, existe a possibilidade de
O produto final pode redundar em um que, decorrido algum tempo, mercê
dos dois extremos: uma atmosfera opressiva da progressiva aceitação das idéias
ou um estado de “laisser-faire”, em que cada dele por muitos outros, adote suas
um, de maneira algo oculta e dissimulada, dá idéias, porém as divulgue como se
um jeito de fazer aquilo que bem entende. Um elas tivessem partido dos pró-ho-
outro prejuízo causado pela predominância mens da cúpula diretiva.
de uma “posição narcisista” consiste numa di-
ficuldade para atingir a “posição depressiva” Aliás, essa última afirmativa encontra res-
(a única que possibilitaria a abertura para paldo neste trecho de uma entrevista concedida
novas saídas), porque, tal como a mitológica por Freud, em 1926 (Revista Ide, 1988, p. 55):
figura de Medusa, os detentores do poder (o
establishment) morrem de pavor de ver a pró-
A história, essa velha plagiadora, repete-se
pria imagem. após cada descoberta. Os doutores [creio
Em relação à emergência dos supostos que pode ser lido como “os detentores do
básicos inconscientes, penso ser bastante útil poder”] combatem cada nova verdade no
aduzirmos o fenômeno que Bleger (1987) des- começo. Depois procuram monopolizá-la.
creve no seu trabalho “Grupos Operativos no
Ensino”, em que postula que “toda organiza- Creio ser imprescindível esclarecer que
ção tende a adquirir a mesma estrutura que o estamos enfocando um fenômeno grupal, de
problema que tem que enfrentar e para a qual sorte que a existência de alguma instituição
ela foi criada”. Assim, uma instituição psica- que, por razões inconscientes, resvala para uma
nalítica, por exemplo, pode manifestar cisões, natureza perversa, não refere que os indivíduos
vínculos patogênicos, querelas narcisistas, etc., que compõem a cúpula sejam pessoas perver-
assim reproduzindo em seu seio justamente sas; pelo contrário, na maioria das vezes, são
aquilo que está programada para tratar. sérios, simpáticos, bem-intencionados, tenazes
Nos Capítulos 6 (“O Místico e o Grupo”) e e apaixonados pelo que fazem em favor da ins-
7 (“Continente e Contido”) do seu livro Atenção tituição que dirigem.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 121

9
O Trabalho com Psicóticos

Estimulado pelas suas observações rela- nismos de defesa, como a negação onipotente,
tivas aos mecanismos psicóticos observados em as dissociações, a negação, as identificações
seus diversos grupos, Bion começou a analisar projetivas, as posições esquizoparanóide e
pacientes esquizofrênicos por meio da técnica depressiva e o complexo de Édipo muito pre-
clássica da psicanálise. coce. Além disso, Bion observou um forte con-
É útil esclarecer que é o próprio Bion flito entre as pulsões de vida e de morte em
quem afirma: “só analisei pacientes esquizo- todos os seus pacientes esquizofrênicos, assim
frênicos que podiam vir ao meu consultório” como uma estreita relação entre a “pulsão a
(1973, p. 119; grifo meu). Ademais, Bion não conhecer” (epistemofilia) e o sadismo, a qual
analisava somente esquizofrênicos, mas tam- fica muito exacerbada pelas fantasias ligadas
bém pacientes neuróticos graves e toxicôma- à cena primária edípica. Em relação aos confli-
nos. Ele publicou muitos trabalhos sobre essa tos ligados ao conhecimento, Bion deu muita
experiência com psicóticos, sempre os ilustran- importância ao fato de que a criança se faz as
do com vinhetas clínicas e interessando-se, primeiras perguntas antes da aquisição da lin-
sobretudo, pelos fenômenos das identificações guagem verbal (em meu entender, isso tem
projetivas e o modo como os esquizofrênicos relação com os conceitos de “representação
utilizam a linguagem, o pensamento e a fun- coisa” e “representação palavra” freudianos.
ção do conhecimento. Aliás, Bion propôs uma teoria compreensiva
Esses trabalhos foram produzidos no pe- de esquizofrenia a partir da linguagem utiliza-
ríodo de 1950 a 1962 (o primeiro deles foi “O da pelo esquizofrênico, baseando-se na evidên-
Gêmeo Imaginário”, com o qual obteve o títu- cia de que o pensamento verbal representa o
lo de Membro da Sociedade Britânica de Psi- elemento essencial das funções desenvolvidas
canálise), e praticamente todos foram enfei- pelo ego para entrar em contato com a reali-
xados no seu livro Second thoughts (na edição dade. Bion vai mais adiante, afirmando que o
brasileira, Estudos psicanalíticos revisados). pensamento verbal não só contata com a reali-
Observa-se em todos esses trabalhos ini- dade exterior, mas também com a realidade
ciais de sua obra uma forte influência da teo- psíquica interna, o que se torna intolerável, pois
ria kleiniana, e as interpretações dadas por Bion esse paciente sente uma relação de causa-efei-
atestam claramente que o seu referencial maior to entre o pensamento verbal e a dolorosa po-
eram as relações parciais de objeto, a teoria da sição depressiva.
inveja primária, a primitiva angústia de ani- Dessa forma, na sua teoria sobre a esqui-
quilamento, a utilização dos primitivos meca- zofrenia, Bion parte de Klein (pulsão de morte

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122 DAVID E. ZIMERMAN

agindo dentro do ego e provocando uma sen- 6. Por esta última razão, a onipotência
sação de aniquilamento) e da concepção de um substitui o pensar, a onisciência substitui a
ataque à percepção da realidade interna. Nos aprendizagem com as experiências, a prepo-
esquizofrênicos, segundo Bion, esse ataque tência substitui o reconhecimento da impotên-
ocorre com violência contra os elos que vincu- cia infantil, a confusão substitui a tomada de
lam as diversas fantasias entre si e essas à rea- conhecimento de verdades penosas, e, como
lidade. Trata-se do fenômeno descrito por Bion conseqüência, o pensamento verbal fica com-
com o nome de ataque aos vínculos. prometido.
Resulta daí que o esquizofrênico vive em
um mundo fragmentado, sem conjunção e dis- 7. Forma-se, pois, uma impossibilidade de
criminação das diferentes partes de si mesmo colocar as experiências em pensamentos e os
ou dos objetos diferentes. Esse paciente sente- pensamentos sob forma de palavras, resultan-
se aterrorizado, cercado e ameaçado por frag- do uma linguagem que comumente adquire a
mentos de objetos estranhos e bizarros, o que forma de uma “salada de palavras”.
nos lembra o que Freud, em 1911, no caso 8. Ao contrário do que se passa com as
Schreber, aludiu como sendo a sensação de personalidades neuróticas, nas personalidades
“catástrofe mundial”. psicóticas não se forma a “barreira de conta-
As conseqüências desses ataques aos vín- to”, que, como veremos mais adiante, se com-
culos perceptivos são importantes e várias, po- põe de elementos α e funciona como uma bar-
rém, todos eles são encadeados entre si e levam reira delimitadora entre o consciente, o pré-
a distúrbios do pensamento, da capacidade de consciente e o inconsciente. Pelo contrário, nos
formação de símbolos, de sonhos, da linguagem, psicóticos, essa barreira é substituída pela
da percepção, do conhecimento, etc. “pantalha β”, a qual não consegue delimitar
Utilizarei agora um esquema didático, aquelas três instâncias psíquicas nem os pen-
enumerando as principais causas, conseqüên- samentos, fantasias e afetos que transitam en-
cias e fatores relativos à esquizofrenia que Bion tre elas, razão pela qual se forma uma confu-
postulou a partir de sua experiência com pa- são entre o real e o imaginário.
cientes.
9. Em vez do uso da repressão, como é o
1. Uma causa importante é a disposição habitual nos neuróticos, nos psicóticos há sem-
inata do bebê, com a pulsão de morte e a inve- pre um uso excessivo de splittings (Bion prefe-
ja levando-o a atacar tudo o que o liga ao seio re esse termo ao termo “dissociação”, nos ca-
materno. sos em que esses processos são muito inten-
2. Outra causa importante é o comporta- sos), seguidos de maciças identificações pro-
mento do meio ambiente, notadamente da jetivas, como uma forma de evacuar e descar-
mãe, em relação aos aludidos ataques. regar em um outro tudo o que é intolerável
para si próprio.
3. Bion valorizou muito a precocidade das
A propósito, é importante registrar que
fantasias edípicas ligadas à cena primária, afir-
Bion faz uma distinção entre duas modalida-
mando que o bebê concebe as relações entre
des de emprego da identificação projetiva.
os seus pais parciais nos mesmos moldes de
Uma, a identificação projetiva excessiva, acar-
sua ligação com o seio parcial.
reta sérios prejuízos à capacidade de pensar
4. A íntima relação entre a pulsão episte- os pensamentos, especialmente quando os vín-
mofílica de saber e conhecer, associada com o culos de ligação entre os conteúdos mentais –
sadismo, com uma conseqüente inibição inte- entre si e com a realidade exterior – são ataca-
lectual e, por conseguinte, com uma atrofia da dos com ódio (vínculo H). A outra é a identifi-
sadia curiosidade pelos conhecimentos. cação projetiva realista, que é normal e estru-
5. Um ataque aos elos de ligação (víncu- turante, especialmente porque possibilita que
los) que possibilitariam a passagem da posi- a criança reintrojete a função contenedora da
ção esquizoparanóide para a depressiva. mãe e a função α da mesma, sob a forma de

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 123

um “seio pensante” bom. Na prática psicanalí- trariar a observação clínica de qualquer psi-
tica, também é muito importante discriminar quiatra. Quero crer que essa contradição é so-
a diferença entre ambas as formas de identifi- mente aparente, porquanto os sonhos que os
cação projetiva, tendo em vista que seus desti- pacientes psicóticos graves nos trazem costu-
nos dentro do analista podem se manifestar meiramente não são de uma elaboração sim-
por contra-identificações patológicas ou podem bólica, mas constituídos de restos diurnos que
ser utilizadas a serviço de uma necessária ca- são evacuados, no mais das vezes, sob a forma
pacidade de empatia. de protopensamentos.
10. Os fragmentos de objetos e das de- 14. Como conseqüência do ataque aos
mais partes do aparelho psíquico (id, ego, vínculos e da incapacidade de formação de sím-
superego, etc.) resultantes dos splittings são bolos, o esquizofrênico tem dificuldades em
projetados – sob forma de “objetos bizarros” – articular, integrar e fazer sínteses; ele aglome-
no espaço exterior, onde ameaçam e perseguem ra, comprime e confunde os pensamentos, e
o indivíduo que os projetou. então a linguagem se complica mais ainda,
porque as palavras adquirem uma dimensão
11. A projeção desses temores e ansie-
concreta, como se fossem, realmente, as pró-
dades, principalmente de aniquilamento e
prias coisas que deveriam apenas designar.
morte, deve encontrar um continente adequa-
do por parte da mãe, ou seja, ela deve aco- 15. A “linguagem esquizofrênica” é usa-
lher e devolver esses temores devidamente da de quatro maneiras:
“desintoxicados”, nomeados e significados.
Caso contrário, se não houver um continente 1. como um modo de acting (o esquizo-
adequado, a criança reintrojetará as ansieda- frênico, da mesma forma que os gri-
des projetadas, as quais, muitas vezes acres- tos de um bebê desesperado, troca
cidas com as angústias próprias da mãe, se o pensamento pela ação e vice-ver-
constituem sob a forma de um “terror sem sa, sendo que a ação tem uma fina-
nome”. lidade de descarga de ansiedades
12. O impedimento à passagem para a orais, anais, fálicas, sádicas, maso-
posição depressiva causa uma séria dificulda- quistas, narcisistas, etc.);
de na capacidade de formação e utilização dos 2. como um meio de comunicação pri-
símbolos e, por conseguinte, uma dificuldade mitiva (pode ser captada pela con-
de conceituação e abstração. Nesse caso, o sím- tratransferência);
bolo é substituído pela equação simbólica, e, 3. como um modo de pensamento (a
assim, as coisas que lhes parecem ser, por mais ausência de símbolos acarreta um
imaginárias que sejam, passam a ser como, de prejuízo na utilização dos substan-
fato, sendo. tivos e verbos, e a “salada de pala-
vras e de sentidos” pode estar tra-
13. Bion ligava os pensamentos primi- duzindo como são os seus pensa-
tivos pré-verbais do esquizofrênico ao mo- mentos);
delo de “ideogramas” (como na escrita chi- 4. pode estar a serviço de produzir efei-
nesa), com predominância ao sentido da vi- tos no outro (no caso de uma análi-
são, antes da audição e da percepção das pa- se, pode estar atuando na mente do
lavras. O ataque aos vínculos também atin- psicanalista, de forma a dissociar
ge os elos de ligação que unem os ideogramas seus vínculos associativos).
entre si e cuja união possibilitaria a função
de pensar, a qual fica prejudicada, juntamen-
te com um prejuízo da formação dos sonhos 16. Bion dá um destaque especial a todos
e do ato de fantasiar. os recursos de que o ego do esquizofrênico lan-
Aliás, Bion costumava afirmar que os ça mão com a finalidade de negar o odiado
esquizofrênicos não sonham, e isso parece con- conhecimento (-K) das penosas realidades ex-

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124 DAVID E. ZIMERMAN

ternas e internas. Da mesma maneira, o psicó- nal de Lacan), quando a negação atinge algum
tico cria múltiplas maneiras de se evadir das grau de ruptura com a realidade.
frustrações em vez de enfrentá-las. Toda mu-
dança é vivida com uma sensação de catástro-
fe iminente. PARTE PSICÓTICA E PARTE
NÃO-PSICÓTICA DA PERSONALIDADE
17. Como também os elementos dos ór-
gãos dos sentidos são negados e projetados, a
Um aspecto muito importante que deve
sua reintrojeção provoca penosas alucinações
ser destacado nos escritos de Bion é o que ele
sensoriais.
denomina como “personalidades psicóticas e
18. Os esquizofrênicos apresentam o que não-psicóticas” (1957). Bion não deixou intei-
Bion denomina um “super” superego. Isso quer ramente esclarecido se as características psicó-
dizer que, diferentemente do significado clás- ticas anteriormente descritas existem somente
sico que todos conhecemos de superego, para nos doentes mentais gravemente regredidos ou
Bion, prevalece nesses pacientes uma afirma- se também estão presentes, embora de forma
ção de superioridade destrutiva que vai além oculta, em cada um de nós.
do bem e do mal, de uma aprovação ou conde- Alguns estudiosos de Bion, como Grinberg
nação. Esse “super” superego (talvez seja mais (1973), consideram a denominação “persona-
adequada a denominação de “supra-ego”) se lidade psicótica” como sinônimo de “parte
opõe a todo desenvolvimento e aprendizagem psicótica da personalidade”, portanto, nesse
pela experiência; troca o orgulho pela arrogân- contexto, ela não equivaleria a um diagnósti-
cia, desconhece as leis científicas e impõe as co psiquiátrico, senão a um modo de funcio-
suas próprias leis e valores contra os da natu- namento mental, coexistente com outros mo-
reza e da cultura. dos de funcionamento.
19. Na prática analítica com pacientes Comentários: pessoalmente, creio que é
psicóticos, Bion chama a atenção para os pro- mais útil fazer alguma distinção entre ambas as
blemas contratransferenciais difíceis, que re- denominações, de forma a considerar “perso-
sultam tanto dos ataques invejosos (responsá- nalidade psicótica” como designadora de situa-
veis, em grande, parte pelas freqüentes “rea- ções regressivas – com manifestações clinica-
ções terapêuticas negativas”) como dos efeitos mente psicóticas, tal como conhecemos na psi-
das excessivas identificações projetivas, e dos quiatria – e reservar o termo “parte psicótica da
que provêm de actings perigosos desse pacien- personalidade” para os núcleos primitivos
te. Além disso, os fortes ataques aos vínculos enquistados na personalidade de qualquer in-
podem induzir o paciente psicótico a um esta- divíduo, sem nenhuma conotação psiquiátrica.
do de mente pelo qual ele se mantém “cego, Assim como todo doente psicótico tem
estúpido, curioso, arrogante e suicida”, geran- uma parte de natureza neurótica, todo e qual-
do uma contratransferência dificílima, carac- quer paciente neurótico tem uma “parte
terizada pelo surgimento, no analista, de sen- psicótica” subjacente e oculta. Ademais, pode-
sações de enfado, paralisia e impotência. se afirmar com absoluta convicção que uma
20. Pode-se depreender, ao longo da obra análise que não tenha tratado dessa “parte
de Bion, que, tal como assinala Green (1990, p. psicótica” está inconclusa e corre o risco de ter
80), o fator mais importante na determinação produzido resultados analíticos não mais que
das condições psicóticas de um indivíduo não é superficiais.
tanto a carga das suas pulsões agressivas, po- O que importa é que nesse espectro, que
rém muito mais o grau dos mecanismos de ne- vai desde um extremo de uma inaparente “par-
gação do conhecimento (-K), sendo o grau máxi- te psicótica da personalidade”, absorvida pelo
mo dessa defesa o que, na atualidade, os psica- restante do ego neurótico e sadio, até o outro
nalistas chamam de for(a)clusão (termo origi- extremo de uma franca esquizofrenia clínica,

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 125

o fator quantitativo pesa bastante, porquanto 5. Projeção dos fragmentos resultantes


a dinâmica psíquica tem uma mesma natureza dos intensos e sucessivos splittings
análoga. no mundo exterior, sob a forma de
Juntamente com esse aspecto quantitati- “objetos bizarros”, provocando pen-
vo que determina o grau de sanidade ou de samentos e sentimentos persecu-
insanidade, é necessário frisar que também há tórios. Quando projetados no mun-
uma diferença qualitativa na configuração da do interior, traduzem-se por somati-
severidade da psicose, como se depreende dos zações e queixas hipocondríacas.
estudos de Bion, notadamente em relação aos 6. Reintrojeção de fragmentos senso-
seguintes aspectos, já antes mencionados: riais que tinham sido projetados sob
forma de francas alucinações (nos
1. a qualidade das identificações pro- esquizofrênicos) ou de alucinoses (na
jetivas; “parte psicótica da personalidade”).
2. o emprego da for(a)clusão. 7. Um grande ódio à realidade, tanto à
interna como à externa. Por conse-
Dessa forma, coube a Bion o mérito de guinte, resulta uma nítida preferên-
ter percebido que o psicótico utiliza as excessi- cia pelo “mundo das ilusões”.
vas identificações projetivas não só como uma 8. Como decorrência, há um ataque
descarga de sentimentos e idéias intoleráveis, aos vínculos de percepção e aos do
mas também com a finalidade de servirem juízo crítico.
como uma primitiva linguagem não-verbal, 9. Da mesma forma, resulta um prejuí-
para produzir no analista os efeitos daquilo que zo na capacidade das funções de
o paciente não consegue verbalizar, uma vez pensamento verbal, de formação de
que ele é portador de angústias que ainda não símbolos, do conhecimento e do uso
têm nome nem significação. da linguagem.
O segundo aspecto que tipifica a psicose 10. Em O aprender com a experiência
é o que se refere a um grau máximo de nega- (1962), Bion assevera que o amor
ção das verdades penosas (-K), promovendo materno se expressa pelo rêverie,
uma ruptura com a realidade, como acontece porquanto é a função α da mãe que
nas esquizofrenias. permite desfazer as angústias que
Assim, vale a pena registrar quais são as lhe foram projetadas. É somente
características básicas do estado mental decor- através da introjeção da função α da
rente da personalidade psicótica ou da “parte mãe – função que permite perceber
psicótica da personalidade” e que nos pacien- e pensar a ausência do objeto – que
tes estão respectivamente bem manifestas ou se torna possível a capacidade de
ocultas. simbolizar e, portanto, de sonhar.
Como o psicótico, pela falta de
introjeção de um bom rêverie mater-
1. Fortes pulsões destrutivas, com pre-
no, não desenvolveu a capacidade
domínio da inveja e da voracidade.
de simbolizar, seus sonhos não são
2. Baixíssimo limiar de tolerância às
elaborativos.
frustrações; por isso, esses pacien-
11. A onipotência, a onisciência e a imi-
tes tratam de evitar as frustrações,
tação substituem o penoso proces-
no lugar de buscar modificá-las.
so de aprendizagem pela experiên-
3. As relações mais íntimas caracteri-
cia. Da mesma forma, o orgulho dá
zadas por vínculos de natureza
lugar à arrogância, o desconheci-
sadomasoquista.
mento promove a estupidez, e a cu-
4. Uso excessivo de splittings e de iden-
riosidade se transforma em intru-
tificações projetivas patológicas.
sividade.

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126 DAVID E. ZIMERMAN

12. A perda da capacidade de discrimi- são da perspectiva”, através do qual


nar acarreta uma confusão entre o o paciente desvitaliza toda a ativi-
verdadeiro e o falso, tanto do pró- dade interpretativa do analista.
prio self como de tudo que está fora 18. A “realização da loucura”, segundo
dele. Bion, é o momento mais difícil e, ao
13. A presença de um “super” supere- mesmo tempo, o mais promissor da
go, que dita as suas próprias leis e análise, porquanto a psicose parece
quer impô-las aos outros. O prefixo emergir clinicamente, e o paciente
“super” designa a condição mental apresenta estados de depressão, con-
do psicótico de crer que tudo sabe, fusão, despersonalização, soma-
pode, condena e controla, assim dis- tizações e atuações malignas, sem
pensando e repudiando um apren- contar com a mobilização da preo-
dizado com as experiências. cupação dos familiares, os quais po-
14. Todos esses aspectos, somados, ten- dem vir a pressionar o analista.
dem a levar o paciente psicótico a
um estado que não é “nem de vida e
nem de morte”. Comentários

No curso da análise, transparecem os se- Conquanto a experiência que Bion teve


guintes fenômenos no campo analítico: com as análises com os seus pacientes psicó-
ticos tenha sido riquíssima do ponto de vista
15. A transferência psicótica pode insta- da investigação do psiquismo – tanto da pa-
lar-se de forma precoce, com muita tologia esquizofrênica adulta como da evolu-
dependência, e pode ser tenaz; po- ção psíquica desde o recém-nascido –, creio
rém é frágil e muito instável. É mui- que algumas críticas podem ser feitas no to-
to comum uma oscilação transferen- cante à prática clínica propriamente dita.
cial, de uma forte idealização alter- Uma leitura atenta das passagens clíni-
nada com denegrimento, em que o cas que ilustram seus trabalhos teóricos dos
paciente acusa o analista de ser o anos 50 nos mostra um Bion que, pelo menos
único responsável por todos os seus a meu juízo (e de forma alguma descarto a pos-
males. Nessas condições, tudo será sibilidade de que me tenha faltado alcance ou
motivo para acusações: a tranqüili- sensibilidade), não parece estar muito contata-
dade do analista será tomada como do afetivamente com os seus pacientes. Pelo
uma indiferença hostil, e assim por contrário, as suas interpretações soam como
diante. intelectualizadas e saturadas de conhecimen-
16. A contratransferência é muito difícil tos teóricos prévios.
e penosa, não obstante o fato de que Vou exemplificar com uma breve vinheta
o analista, nessas condições, encon- de Bion (mesmo reconhecendo que pinçar um
tra-se em uma boa posição para ob- trecho isolado do contexto sempre represen-
servar os ataques do paciente con- ta o risco de se cometer injustiças contra o
tra os vínculos que o ligam aos ob- autor) (Estudos psicanalíticos revisados, p. 38):
jetos, já que ele próprio deve se li- “Paciente: Arranquei um pedacinho da pele do
gar ao seu paciente. meu rosto e me sinto bastante vazio. \ Bion: O
17. As resistências aparecem sob três for- pedacinho de pele é seu pênis que o senhor ar-
mas: uma enorme dificuldade em in- rancou fora e todas as suas entranhas vieram
gressar na posição depressiva, a for- junto”. Aliás, o próprio Bion reconhecia que,
mação de impasses, sobretudo a da quando ilustrava seus conceitos com material
tão temível reação terapêutica ne- clínico, o mesmo não era bem aceito pelos con-
gativa, e o uso do recurso da “rever- gressistas.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 127

Por outro lado, em Conversando com Bion. propósito, lembrei-me de um trecho de “Os
Quatro discussões com W.R. Bion (1992, p. 11) – lusíadas”, em que essa terrível angústia sem
conferências pronunciadas em Los Angeles em nome está poeticamente bem expressa nestes
1977 – Bion afirma que belos versos de Camões: “Dias há em que em
minha alma se tem posto \Um... não sei o quê
o paciente psicótico presta pouca atenção \Que nasce...não sei onde \Que surge...não sei
para uma comunicação, a menos que ela quando \E que dói...não sei por quê.”
seja exatamente no comprimento de onda É interessante registrar que na 7a Confe-
correto. Ele é muito preciso, muito exato, rência pronunciada em São Paulo, em 1978,
e não gosta de interpretações que estejam
Bion propôs que é conveniente considerar que
fora do facho; geralmente ignora-as como
se pode também dividir os pacientes psicóticos
se elas nem tivessem sido ditas.
como havendo um psicótico “insano” em con-
traste com um psicótico “são”, utilizando os
Em outras colocações, nessa mesma épo-
termos “são” e “insano” com uma ênfase em
ca, Bion reitera a necessidade de as interpreta-
suas origens latinas “saudável e não-saudável”
ções serem formuladas em uma linguagem a
mais simples possível, para que possam ser en- (1992a, p. 218). Creio que essa colocação de
tendidas e “sentidas” pelo paciente. “Só que Bion indica que a diferença entre o psicótico
[completa Bion] eu não sei que tipo de lingua- são e o insano depende do espaço que a parte
gem deve ser usada” (p. 30). psicótica ocupa no self do paciente e da
A propósito da linguagem, Bion exempli- contraparte disso, ou seja, do quanto da parte
fica com situações em que é difícil o analista não-psicótica está preservada.
entender o paciente psicótico porque nem sem- Essas afirmações mais recentes de Bion
pre a linguagem deste é verbal, tal como en- contrastam com o tipo de interpretações que
tendemos habitualmente. Ele menciona um ele formulava naquela outra época, como mos-
paciente que, ao não se sentir entendido, pro- tram, por exemplo, alguns trechos que podem
testou, como forma de mostrar que o seu meio ser lidos nas ilustrações clínicas utilizadas nos
de comunicação era muito mais primitivo, de artigos constantes de Second thoughts (Estudos
natureza não-verbal: “me dê um piano, e quan- psicanalíticos revisados, 1967).
do eu tocar a música, o senhor me entenderá”. Entendo que deva ter, naturalmente,
Em outra vinheta clínica, Bion relata uma situ- ocorrido com Bion a mesma modificação no-
ação em que outro paciente psicótico descre- tória que se passou com Rosenfeld e Segal,
via uma meia que lhe apertava o pé como “um outros dois importantes psicanalistas kleinia-
monte de vazios presos por um barbante” nos que analisaram pacientes esquizofrênicos.
(1967). As ilustrações clínicas dos primeiros trabalhos
Assim, ainda em relação à linguagem, de ambos mostram uma mesma forma de in-
creio ser importante destacar que, muitas ve- terpretar, voltada estritamente para as pulsões
zes, os analistas insistem para que o paciente destrutivas – a inveja, prioritariamente –, sem-
verbalize determinada angústia que ele, o pa- pre dirigidas a objetos parciais e com cons-
ciente, refere estar sentindo e não consegue truções verbais muito complexas e abstratas,
traduzir com palavras. Não é raro que os com o fito de traduzir, em palavras, as mais
terapeutas não se dêem conta de que, de fato, primitivas fantasias inconscientes do pacien-
o analisando não está negando ou resistindo, te. Esses dois autores foram gradualmente mo-
simplesmente a angústia que ele sente é anti- dificando o seu posicionamento psicanalítico
ga, nunca adquiriu uma “representação pala- a um ponto tal que, se formos ler, por exem-
vra” (conceito de Freud), de modo que se tra- plo, as partes finais de Impasse e interpreta-
ta de uma angústia que Bion denomina como ção (1988), de Rosenfeld, ficaremos com a
terror sem nome; cabe justamente ao analista a nítida impressão de que estamos diante de um
tarefa de tentar decodificá-la e nomeá-la. A outro autor, mais brando, cauteloso, coloquial

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128 DAVID E. ZIMERMAN

e respeitador das deficiências do ego do pa- falam mais alto do que as palavras” e com os
ciente regressivo. seus constantes assinalamentos de que, nas
Tanto Bion como Rosenfeld e Segal reco- condições psicóticas, sempre houve a falta de
nhecem os brilhantes frutos de investigação, uma mãe com boa capacidade de rêverie e que,
em contraste com os questionáveis (para não pelo contrário, nesses casos ou a mãe estava
dizer escassos) resultados psicanalíticos pro- ausente, perdida, evadida, destruída, ou esta-
priamente ditos. No entanto – e esta é a razão va presente, porém sem um amor adequado.
das reflexões que estou aqui tecendo – Bion Outra reflexão que merece ser feita é a
representa um grande avanço na forma mais referente ao fato de que há uma certa impreci-
atualizada como se posicionam os psicanalis- são e ambigüidade semântica em Bion quando
tas que analisam pacientes psicóticos. Sua in- ele se refere aos termos “esquizofrênico”, “psi-
fluência consiste justamente na progressiva ên- cose”, “personalidades psicóticas” e/ou “parte
fase que emprestou à pessoa real do psicana- psicótica da personalidade”. É possível que essa
lista e na sua autêntica atitude interna, espe- impressão se deva a dois fatores: o primeiro, o
cialmente no que se refere aos atributos de fato de que a psiquiatria anglo-saxônia da épo-
amor à verdade e de respeito ao ritmo e às li- ca dava uma conceituação muito expansiva ao
mitações do paciente, como é o caso da esco- diagnóstico de esquizofrenia; o segundo, a in-
lha de uma linguagem apropriada, da impor- fluência de Klein, tanto quando ela descreveu
tância de o psicanalista ser um novo modelo a posição “esquizoparanóide” como quando
de identificação para o seu paciente regressi- denominou de “psicóticas” as angústias primi-
vo, através da introjeção de capacidades do psi- tivas do bebê.
canalista (“o seio bom pensante”), e pela Essas considerações permitem uma outra
postulação da noção de rêverie, ou de conti- reflexão: terá sido uma mera casualidade o fato
nente, por parte do psicanalista, a qual, como de que o início dos trabalhos mais originais,
todos reconhecemos, é fundamental na análi- despojados e criativos de Bion, na década de
se dos pacientes muito regressivos. 60, tenham coincidido com o período que se
Essas afirmativas estão de acordo com as seguiu logo após a morte de Melanie Klein?
reiteradas assertivas de Bion de que “as ações

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 129

10
Uma Teoria do Pensamento

Como vimos, as experiências com grupos dos pensamentos, porque, além de ter sido o
despertaram em Bion o seu interesse por ana- grande inspirador de Bion, foi o primeiro a as-
lisar psicóticos, e, no curso dessas análises, ele sinalar que havia a necessidade de se desen-
ficou fortemente mobilizado para se aprofun- volver um aparelho psíquico para lidar com um
dar nos problemas da linguagem e da origem excesso de estímulos mentais, aparelho esse
e função dos pensamentos. que pudesse elaborar de forma ativa esses es-
Diferentemente dos demais importantes tímulos que não podiam ser simplesmente des-
autores seguidores de Klein, que referiam Freud carregados.
segundo a óptica que ela tinha dos trabalhos Em Dois princípios do suceder psíquico,
dele, Bion estudava diretamente nos textos de Freud afirma:
Freud, como pode ser constatado nos seus arti-
gos concernentes aos pensamentos. Dessa for- a decepção ante a ausência da satisfação
ma, em sua elaboração sobre a teoria do pensa- esperada motivou o abandono de sua ten-
mento, Bion se inspira muito nas conceituações tativa de satisfação por meio de alucina-
que Freud expôs em Dois princípios do suceder ções [como é, no bebê, a “gratificação
psíquico, de 1911, que trata do “princípio do alucinatória do seio”], e, para substituí-lo,
prazer” e do “princípio da realidade”, além de o aparelho psíquico teve que decidir-se a
fazer citações de outras idéias de Freud, como representar intrapsiquicamente as circuns-
tâncias reais do mundo exterior e tender
as presentes nos trabalhos Neurose e psicose, de
à sua modificação real.
1924, e o O ego e o id, de 1923.
Da mesma forma, Bion utiliza as concep-
ções expostas por Klein em “O Desenvolvimento Pode-se verificar, portanto, que Freud to-
da Criança”, de 1921 (ela, por sua vez, muito cou nos pontos essenciais da formação dos pen-
influenciada pelas idéias de Ferenczi, contidas samentos: a ausência (ou privação) do objeto
em Sobre o desenvolvimento do sentido da reali- necessitado, a frustração, a impossibilidade real
dade, de 1913), as quais se referem ao conflito de compensar com uma gratificação alucina-
que se estabelece na criança entre um inato im- tória, a internalização do objeto faltante atra-
pulso epistemofílico que busca o conhecimento vés de representações no ego e a busca de
da verdade versus o sentimento de onipotência. modificações do mundo real, através dos pen-
samentos e, a partir desses, por meio das ações.
Uma breve revisão de Freud. Vale a pena A contribuição mais importante de Freud
fazer uma síntese da teoria de Freud acerca para a teoria das perturbações do pensamento

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130 DAVID E. ZIMERMAN

foi a sua descrição totalmente original do “pro- Para tanto, estabeleceu uma distinção
cesso primário” e do “processo secundário”. O entre elementos do pensamento (elementos α,
primeiro está diretamente ligado às experiên- β, preconcepções, oníricos, etc.) e os pensa-
cias de satisfação imediata das necessidades mentos propriamente ditos. Assim, em Uma
básicas, portanto inerente ao princípio do pra- teoria do pensamento, de 1962, Bion formula a
zer. O “processo secundário”, por sua vez, está hipótese de que “o pensar é um desenvolvi-
ligado ao princípio da realidade, o qual deter- mento forçado sobre o psiquismo, pela pres-
mina a formação do pensamento, porquanto são dos elementos dos pensamentos, e não o
as exigências da realidade promoverão a cria- contrário”. Daí decorrem algumas expressões
ção do pensamento verbal, com a finalidade muito empregadas por Bion e que, nos primei-
de adiar a descarga pulsional e de melhorar os ros tempos, chocavam os leitores, como a do
estados de desamparo que decorrem das frus- “aparelho para pensar os pensamentos”, “pen-
trações. Diante de novas exigências reais, o samento sem pensador”, “todo o pensamento
pensamento verbal da criança fica forçado a é verdadeiro enquanto não for formulado por
se desviar da sua função primitiva de adiamen- um pensador”, “pensamento vazio”, etc.
to da descarga motora e necessita abrir um A conceituação de Bion a respeito de “pen-
novo caminho: o do autoconhecimento. samento sem pensador” pode ser sintetizada
Por conseguinte, o pensamento, as emo- em sua afirmação pronunciada na 4a Confe-
ções e o conhecimento são indissociáveis en- rência de Nova Iorque, em 1977, na qual afir-
tre si, sendo que o pensamento precede o co- ma que se trata “de um pensamento errante
nhecimento, porquanto o indivíduo necessita em busca de algum pensador para se alojar
pensar e criar o que não existe, ou seja, o que nele” (1992a, p. 131) e, a seguir, faz uma com-
ele não conhece. paração analógica do “pensamento sem pen-
Bion utilizou todos esses elementos de sador” com a colocação de Pirandello na sua
Freud e, também enriquecido pela teoria conhecida peça Seis personagens à procura de
kleiniana, fez algumas modificações e novos um autor.
acréscimos, que surgem com mais consistên- O conceito de “pensamento vazio”, por
cia a partir, de 1962, dos trabalhos Uma teoria sua vez, corresponde a uma preconcepção que
do pensamento e Elementos de psicanálise, de usamos sem ser capazes de imaginá-la, tal como
1963. a define Money-Kyrle (1968). Esse autor com-
Assim, Bion introduziu as seguintes con- para o “pensamento vazio” com uma palavra
cepções: esquecida: se apresentam em nossa consciên-
cia várias palavras que rechaçamos imediata-
1. Da mesma forma que para Freud, tam-
mente, até que apareça a palavra verdadeira e
bém a teoria do pensamento de Bion tem como
a reconhecemos logo. Da mesma maneira, o pen-
ponto de partida a frustração das necessidades
samento vazio seria uma forma que está espe-
básicas que é imposta ao lactante.
rando por um conteúdo. Assim, creio que cabe
No entanto, para Bion, o essencial é a
afirmar que “pensamento vazio” equivale a
maior ou menor capacidade do ego do lactante
uma preconcepção que está à espera de uma
de tolerar o ódio resultante dessas frustrações.
realização.
Da mesma forma, considera fundamental,
quando se trata do processo psicanalítico, se 3. Bion fala de “realizações”, que consis-
vai haver uma fuga em relação à frustração ou tem em experiências emocionais, positivas ou
uma modificação dessa frustração. negativas, resultantes de frustrações da onipo-
tência do lactante, o qual, por isso, precisa se
2. Bion introduz a noção de que é neces-
voltar ao mundo real (daí real-ização). No en-
sário estabelecer a diferença que há entre pen-
tanto, é importante não confundir o conceito
samento (como substantivo/adjetivo) e “fun-
de “realização” com o de “realidade”.
ção de pensar” (como verbo).

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 131

Ele toma como modelo o vínculo do bebê – gra as sensações provindas dos órgãos dos sen-
que sempre tem uma preconcepção inata do tidos com as respectivas emoções. Caso con-
seio – com a mãe que o amamenta. Na “reali- trário, se o ódio for excessivo, os protopensa-
zação positiva”, há uma confirmação de que o mentos que se formam, denominados por Bion
objeto necessitado está realmente presente e “elementos β”, não se prestam à função de ser
atende às suas necessidades. No caso de uma pensados, pois são tão abrumadores que pre-
“realização negativa”, o lactante não encontra cisam ser imediatamente aliviados, portanto
um seio disponível para a satisfação, ausência descarregados, pela criança, através de uma
que é vivenciada como a “presença de um seio agitação motora (e, no caso de pacientes, por
ausente e mau” dentro dele. Aliás, para Bion, meio de actings) ou pela via de somatizações,
todo objeto necessitado, em princípio, é senti- mas sempre com um exagerado uso expulsivo
do como sendo mau, porque, se o bebê o ne- de identificações projetivas.
cessita, é porque não tem sua posse; logo, es- Os elementos β são, pois, protopensa-
ses objetos são maus porque a sua privação pro- mentos, ou seja, são experiências sensoriais e
voca muito sofrimento. emocionais muito primitivas e que adquirem
uma natureza de “coisas em si mesmas”, con-
4. Se a inata capacidade para tolerar as
cretas, porquanto não puderam ser pensadas
frustrações for suficiente, a experiência do
até um nível de conceituação ou de abstração,
“não-seio” torna-se um elemento do pensamen-
como é o destino dos elementos α.
to, melhor dizendo, um protopensamento, e
É necessário frisar que, para Bion (1973,
desenvolve-se um aparelho psíquico para
p. 36),
“pensá-lo”. Isso está em sintonia com Freud,
quando postula que o princípio da realidade é
sincrônico com o desenvolvimento de uma ca- não há evidência alguma para acreditar
que os elementos beta e os elementos alfa
pacidade para pensar.
existam, a não ser por uma espécie de me-
No entanto, se a capacidade para tolerar a táfora, tal como chamá-los de átomos psi-
frustração for insuficiente, o “não-seio” – mau –, cológicos, ou elétrons psicológicos.
como assim foi internalizado, deve ser evadido
e expulso, o que é feito através de um excessivo
emprego do aparelho de identificações proje- 6. Em decorrência do bombardeio das
tivas e de uma hipertrofia da onipotência. identificações projetivas, Bion intuiu que de-
No modelo proposto por Bion para ilus- veria haver um “continente” para poder contê-
trar esse tipo de desenvolvimento, ocorre a for- las; a partir daí, introduziu a importantíssima
mação de um psiquismo que opera sob o prin- noção de capacidade de rêverie por parte da
cípio de que a evacuação de um seio mau é mãe real. Assim, a capacidade de tolerância
equivalente à obtenção de um seio bom, e sa- que o bebê tem em relação às frustrações tan-
bemos todos da freqüência e da importância to depende de suas inatas demandas pulsionais
que isso representa na clínica psicanalítica excessivas como também, fundamentalmente,
quando tratamos da “parte psicótica da perso- da mãe real externa, sendo que esses dois fa-
nalidade”. tores são indissociados e constituem o modelo
de Bion de “continente-contido”, representa-
5. Como se vê, as experiências de realiza-
do pelos símbolos .
ção negativa são inerentes e indispensáveis à
vida humana e podem resultar em dois modos 7. Para a formação e a utilização dos pen-
de desenvolvimento: se o ódio resultante da samentos, são necessárias as interações dinâ-
frustração não for excessivo à capacidade do micas desse modelo , como também as que
ego do lactante em suportá-lo, o resultado será se processam entre as posições esquizopara-
uma sadia formação do pensamento, através nóide e depressiva, representadas por Bion com
do que Bion denomina “função α”, a qual inte- as siglas PS  D.

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132 DAVID E. ZIMERMAN

Se os pensamentos serão utilizados de 10. A função α é a primeira que predo-


uma forma integrativa e estruturante ou de minantemente existe no aparelho psíquico
uma forma desintegrativa do ego, vai depen- (daí por que Bion a designou com a primeira
der basicamente do modo da passagem de “PS” letra do alfabeto grego) e é ela que, se for
para “D”. Assim, pode-se depreender que a es- bem-sucedida (e isso vai depender essencial-
sência da formação dos pensamentos úteis de- mente da capacidade inata de tolerar as frus-
pende não só da capacidade de tolerância às trações), vai transformar as impressões sen-
frustrações como também da capacidade de su- soriais (visão, audição, tato, etc.) e as primei-
portar as depressões. ras experiências emocionais (prazer ou dor)
em elementos α.
8. Unicamente através da elaboração exi-
Caso contrário, essas mesmas sensações
tosa da posição depressiva os pensamentos vão
e emoções permanecerão como estavam em seu
sofrendo sucessivas modificações progressivas,
estado nascente bruto, constituindo os elemen-
passando pelas oníricas, pelas preconcepções,
tos β, os quais se prestam unicamente a ser
pelas concepções, pelo conceito e pelo sistema
“evacuados” por meio da hipertrofia das iden-
dedutivo científico, até atingir o alto grau abs-
tificações projetivas.
trativo do cálculo algébrico.
Da mesma forma, é o êxito da posição Comentários: através dessas identificações
depressiva que possibilita a formação de sím- projetivas excessivas, creio, os elementos β
bolos, os quais substituem e representam to- exercem uma certa “função” de comunicação
das as perdas inevitáveis no curso do desen- primitiva, porquanto provocam efeitos nos
volvimento. É essa formação que permite a ca- outros (no caso de uma análise, provocam um
pacidade de generalização, de abstração e de efeito de uma contra-identificação projetiva do
criatividade. analista).
Os elementos α, por sua vez, sendo pro-
9. A fim de reduzir ao máximo o número
cessados pela função α, vão funcionar para as
de teorias existentes para explicar os fenôme-
seguintes finalidades: pensamentos oníricos,
nos mentais, Bion propôs a utilização do con-
pensamentos inconscientes da vigília, produ-
ceito de “função”, termo que extraiu das ciên-
ção de sonhos, memória e funções intelectivas.
cias matemáticas, sem, no entanto, aplicar-lhe
o mesmo significado estrito e específico. O pon- 11. Os elementos α proliferam e se ade-
to de equivalência entre ambos é que, em ma- rem entre si, formando um conjunto que Bion,
temática, função alude a um elemento “variá- inspirado em Freud, denomina “barreira de
vel” que satisfaz os termos de uma equação; contato”, o qual, à moda de uma membrana
do mesmo modo, a função α representaria uma osmótica semipermeável, exerce as importan-
incógnita à espera de uma realização para sa- tes funções de demarcar tanto um contato
tisfazer-se. como a separação e o intercâmbio entre o cons-
Toda função é composta de fatores. As- ciente e o inconsciente e entre o mundo real
sim, por exemplo, pode-se dizer que uma per- externo e o interno, impedindo que um invada
sonalidade funciona “psicoticamente” devido à o outro. Assim, a “barreira de contato” se asse-
conjugação de fatores como uma inveja melha ao ato de sonhar como guardião do sono
destrutiva, identificações projetivas excessivas, e, além disso, propicia a capacidade de o indi-
etc. Bion deixa claro que um fator pode adqui- víduo estar dormindo ou acordado e de ter a
rir a dimensão de uma função, assim como qual- noção do presente discriminado do passado e
quer função pode servir como fator de uma ou- do futuro.
tra função. Ele chegou a propor a possibilidade Comentários: é necessário lembrar que em
de que as diversas teorias psicanalíticas fossem “Projeto de uma Psicologia Científica”, de 1895,
fatores de uma função comum: a observação Freud, ao estudar o aparelho psíquico, incluiu a
da prática psicanalítica. noção do que chamou de “barreira de contato”,

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 133

que, em parte, alude à função da paraexcitação mágico sincrético, pelos quais as coisas pareci-
da mãe em relação às demandas pulsionais do das ficam sendo significadas como se fossem
seu bebê. Freud nunca mais retornou a esse con- iguais. O “pensamento vazio”, que predomina
ceito, que foi retomado por Bion com a mesma nos psicóticos, alude ao fato de que os
denominação, embora com uma conceitualiza- primórdios protomentais do pensamento ain-
ção algo diferente. da não adquiriram um significado, uma
simbolização, um sentido e, muito menos, um
12. Os elementos β, por sua vez, se pro-
nome; ele está vazio e, por isso mesmo, nas
liferam e, sob a forma de uma aglomeração –
situações de angústia, vem acompanhado de
sem integração e vinculação entre si –, cons-
um estado psíquico que Bion denomina como
tituem o que Bion chamou “pantalha (ou tela)
“terror sem nome”. Ademais, nos esquizofrê-
β”, a qual, ao contrário da “barreira de conta-
nicos, a aglomeração e a superposição dos ele-
to”, não possibilita nem uma diferença entre
mentos β costumam gerar a conhecida fala do
o consciente e o inconsciente, entre a fanta-
tipo “salada de palavras”, vazia de sentido e
sia e a realidade, nem a elaboração de sonhos.
de significação.
Clinicamente, isso se manifesta através de es-
De modo genérico, creio que se pode di-
tados mentais confusionais no paciente ou de
zer que, no pensamento predominantemente
um estado de confusão semelhante que ele
psicótico, existe um desvirtuamento de certas
consegue provocar nos outros, acrescido do
funções nobres, com a capacidade para pensar
fato de que nesses casos a linguagem não é
sendo substituída pela onipotência; o aprendi-
utilizada para comunicar, mas sim para pro-
zado com a experiência, pela onisciência; e o
duzir efeitos.
reconhecimento da dependência e da fragilida-
13. Nos pacientes psicóticos, prevalecem de, pela prepotência. No lugar de uma disponi-
a formação de uma pantalha β sobre a de uma bilidade para conhecer as verdades, fica um es-
barreira de contato e a posição esquizopa- tado de certa confusão na mente do paciente,
ranóide sobre a posição depressiva; isso deter- em vez de um superego, instala-se um supra-
mina que não se processe a capacidade de for- ego (ou “super”superego), de modo que esse tipo
mação de símbolos, os quais são substituídos de paciente, partindo da idéia de que tudo sabe,
por “equações simbólicas”, tal como foram des- pode e controla, faz as suas próprias leis e espe-
critos por Segal (1957). Por essas duas razões, ra que o mundo exterior se curve diante delas.
o pensamento de um esquizofrênico não con-
14. Além dessas duas formações, a dos
segue conceituar, generalizar, abstrair ou dis-
elementos α, que determinam uma exitosa evo-
criminar; pelo contrário, os pensamentos ad-
lução e utilização dos pensamentos, e a dos
quirem uma materialização concreta, como se
elementos β, que se prestam unicamente a ser
fossem coisas que podem causar danos reais e
evacuados, Bion postulou uma terceira possi-
que precisem ser expulsas para fora, como uma
bilidade, que veio a denominar como “rever-
evacuação. Da mesma forma, os pensamentos
são (ou inversão) da função α”. Este último
do paciente esquizofrênico não conseguem
conceito alude ao fato de que, em muitos ca-
atingir uma síntese (estacionam ao nível da
sos, a função α já teve início, mas enfrenta tal
síncrese), e restam não mais do que um con-
dor psíquica que recua e produz elementos β,
junto de protopensamentos que, seguindo o
diferentes dos elementos β originais, porquan-
mesmo destino das coisas materiais, só podem
to aqueles guardam vestígios do superego e do
ser aglomerados, prensados, dilacerados,
ego e, por isso, estão mais relacionados com o
entesourados, expulsos, etc.
conceito de “objetos bizarros”.
Além disso, forma-se uma hipertrofia do Nos casos de uma “reversão da função α”,
aparelho psíquico que processa as identifica- os conceitos regridem em uma direção contrá-
ções projetivas, ao mesmo tempo que o pensa- ria à do desenvolvimento normal dos pensa-
mento adquire uma onipotência e um caráter mentos: assim, partindo do pensamento nor-

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134 DAVID E. ZIMERMAN

mal, o indivíduo pode regredir ao pensamento por dois eixos: um vertical, com seis fileiras,
concreto (elementos β) e, daí, regredir ainda denominado eixo genético porque permite a
mais ao nível de linguagem das sensações psí- anotação da evolução seqüencial do pensamen-
quicas corporais, como acontece nos distúrbios to desde os protopensamentos até os da mais
psicossomáticos. Segundo Meltzer (Revista IDE, alta abstração científica, e outro, horizontal,
n. 18, 1989, p. 105), “essa é a melhor das teo- composto por oito colunas, que possibilita o
rias psicossomáticas”. reconhecimento e a notação de como é a utili-
Clinicamente, os elementos β resultantes zação dos distintos níveis do pensamento.
da “reversão da função α” seguem três desti- A despeito das deficiências e dos incon-
nos: ou se descarregam dentro do corpo (como venientes que o modelo da grade representa –
nas somatizações ou nos sintomas das crian- tal como está exposto no próximo capítulo –,
ças hiperativas), ou pelos órgãos dos sentidos não resta dúvida de que ele propiciou ao psi-
(retornam sob a forma de alucinações), ou pela canalista uma atenção mais detida à gênese,
ação (actings ou conversas sem sentido, por ao nível de evolução e ao modo de utilização
exemplo). dos pensamentos, tanto do paciente como dele
próprio. Assim, na prática clínica, de acordo
15. Contra a opinião corrente de que o
com Bion, a transformação da experiência
pensar é que produz o pensamento, Bion con-
emocional intolerável em algo tolerável só é
siderava que os pensamentos (melhor dizen-
possível através do pensamento, e, por essa
do, os protopensamentos), tanto em sua gêne-
razão, é de grande utilidade prática que o ana-
se como epistemologicamente, são anteriores
lista localize em qual subestágio da evolução
à capacidade para pensar. Assim, começou a
está detida a capacidade de pensar do seu pa-
classificar os pensamentos segundo o seu de-
ciente. Se este último aspecto não for levado
senvolvimento cronológico, principiando pela
em conta, as interpretações do analista podem
preconcepção; Bion citava como um modelo dis-
resultar ineficazes, embora estejam corretas do
so a expectativa inata que o bebê tem por um
ponto de vista do entendimento.
seio.
Quando uma preconcepção encontra uma 17. Bion estudou a relação entre o pen-
realização positiva, forma-se uma concepção, sador e os pensamentos sob o modelo conti-
com uma qualidade sensório-perceptiva. Quan- nente-conteúdo ( ), que pode adquirir três
do sofre uma realização negativa, forma-se um formas. A primeira é a parasitária, na qual o
pensamento, como uma sadia solução do “pro- pensador e o pensamento novo se desvitalizam,
blema a resolver”, que surge com a primeira se destroem entre si e se nutrem de mentiras
noção da ausência do objeto necessitado. que funcionam como uma barreira contra a ver-
As concepções e os pensamentos evolu- dade. A segunda é a do tipo comensal, em que
em de uma forma indissociada entre si. A cor- o pensador convive com o seu pensamento sem
relação entre as concepções promove os con- grandes atritos e, se não impede a evolução,
ceitos; a relação entre os conceitos, estabele- também não possibilita grandes avanços. A ter-
cendo as diferenças e tirando as conclusões ceira forma é a simbiótica, pela qual o pensa-
entre o verdadeiro e o falso, forma a capacida- dor e o pensamento se harmonizam e se bene-
de de julgar; e o enlace entre os juízos diferen- ficiam mutuamente.
tes, em que o último deriva do primeiro, facul-
18. É útil retomar aqui a importância fun-
ta a capacidade de raciocinar.
damental que Bion atribui à capacidade de
16. Bion tentou criar um modelo que, a rêverie da mãe externa, real. Se ela for capaz
exemplo dos músicos, permitisse aos psicana- de conter as angústias do bebê e ao mesmo
listas fazer a notação gráfica dos elementos de tempo prover as necessidades que o seu filho
psicanálise, mais especificamente a dos pensa- tem de leite, calor, amor e paz, tanto as reali-
mentos. Para tanto, ele propôs a “grade”, que zações positivas como as negativas serão utili-
consiste em um sistema cartesiano composto zadas para este “aprender com a experiência”

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 135

– o qual requer o enfrentamento e a modifica- ção e complexidade e também de alguma es-


ção da dor – e para promover o crescimento peculação filosófica, que tornam relativamen-
mental. Caso contrário, as fortes cargas emo- te difícil a sua leitura.
cionais resultantes das realizações negativas, Não obstante, a teoria do pensamento de
e que foram projetadas na mãe, não vão en- Bion encontra um campo de aplicação prática,
contrar um continente adequado e serão rein- como ilustram os apontamentos que seguem.
trojetadas pela criança sob a forma de um “ter-
ror sem nome” que leva a uma evitação da dor – Desde esses trabalhos de Bion, os psi-
depressiva, um importante fator de inibição do canalistas estão mais atentos aos ní-
crescimento psíquico. veis de pensamento e de linguagem
Nos casos em que não se forma a “capaci- utilizados não só pelo paciente como
dade de aprender com a experiência”, ela é por eles próprios. A psicanálise fez, en-
substituída pela onipotência e pela onisciên- tão, uma sutil mudança de direção:
cia, e tanto se perdem as diferenças entre o mais do que o objetivo único de tor-
verdadeiro e o falso como também se cria um nar consciente o conflito inconscien-
“super” superego que cria e dita as suas pró- te, o interesse passou a ficar mais
prias leis morais e quer impô-las aos outros. centrado no intercâmbio comunicati-
19. Um importante sinal positivo da evo- vo entre essas duas instâncias psíqui-
lução do pensamento é quando ele se traduz cas e na necessidade de o paciente
numa “ação de pensar”, que, segundo Bion, passar de um modo de funcionamen-
repousa neste quarteto: correlação, senso co- to de processo primário para outro, de
mum, publicação e comunicação. processo secundário.
– Em pacientes mais regressivos, cresce
20. Acima de tudo, o importante é que a de relevância a pessoa do psicanalis-
capacidade de rêverie da mãe será introjetada ta, tanto no que se refere à função de
pela criança como uma importante capacida- ser “continente” como à de “ensinar”
de própria desta, e o contrário disso também é o paciente a pensar com elementos α.
verdade. Para Bion, o pensar é sobretudo uma
Comentários: embora hoje possa parecer função de criar significados e de esta-
uma obviedade, de tão simples, Bion teve a belecer correlações em um mundo de
genial intuição de modificar a concepção linear significados. “Ensinar” a pensar con-
e seqüencial que tiveram tanto Freud (a passa- siste em auxiliar o paciente a mudar a
gem do princípio do prazer para o da realida- necessidade de “evacuar um seio mau”
de) como Klein (a passagem da posição pela presença de um “seio bom
esquizoparanóide para a depressiva). Assim, pensante”, isto é, mudar a identifica-
ele concebeu uma presença sincrônica e ção projetiva excessiva pela capacida-
interativa de todas essas etapas no curso de de de conter e pensar.
toda a vida de qualquer indivíduo. – O pensar consiste em uma visão
Isso lhe possibilitou dividir o psiquismo binocular, ou seja, uma integração de
em uma parte protomental (não-simbólica) e perspectivas diferentes, tal como uma
uma mental (simbólica) ou, da mesma for- imagem, que não se forma a partir do
ma, uma parte psicótica e outra não-psicótica olho direito ou do esquerdo, mas de
da personalidade, e, na época em que estuda- uma conjunção de ambos.
va os processos do pensamento, passou a ad- – A diferença que Bion estabelece en-
mitir uma posição intermediária entre ambas. tre “os diversos tipos dos pensamen-
Essa concepção facilitou bastante a observa- tos” permite estabelecer, na clínica,
ção dos fatos que se passam na prática psica- dois níveis em relação à patologia do
nalítica e que serviram de fundamento clíni- pensamento. O primeiro nível, em
co para Bion, apesar do alto grau de abstra- que predomina a formação e a pre-

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136 DAVID E. ZIMERMAN

sença não integrada dos pensamen- A teoria de Bion a respeito do pensamen-


tos, é mais característico dos pacien- to tem servido como fonte de inspiração para
tes psicóticos. No segundo nível, há a o desenvolvimento de novos trabalhos origi-
integração dos pensamentos, porém nais sobre esse importantíssimo assunto. Um
a patologia da utilização dos pensa- bom exemplo disso se constata na obra do psi-
mentos propriamente ditos pode ser canalista britânico Kyrle, que foi analisando de
encontrada nas neuroses obsessivas Klein e um dos mais brilhantes continuadores
ou nas personalidades narcisistas, por das idéias de Bion. Em alguns artigos constan-
exemplo. tes do livro The collected papers of Roger Money-
– Há um aparente paradoxo na teoria de Kyrle, especialmente no trabalho que, traduzi-
Bion: é a frustração (não excessiva) que do, é intitulado “O Desenvolvimento Cognitivo”
mobiliza a capacidade para pensar, po- (1968), esse autor traça quatro estágios da evo-
rém o pensar somente se desenvolve lução conceitual do pensamento, desde as
mediante uma tolerância às frustra- vivências mais primitivas de uma primeira eta-
ções. O pensamento é doloroso desde pa até o quarto estágio, no qual se formam as
a sua origem mais primitiva, porquan- inconscientes concepções distorcidas (miscon-
to o primeiro pensamento útil (α) sur- ceptions), sendo que Kyrle estabelece inter-re-
ge quando se aceita a dor da frustra- lações entre os processos do pensamento e os
ção, em vez de simplesmente evacuar do conhecimento.
a presença interna do “não-seio” sob a As concepções de Bion acerca das vicissi-
forma de elementos β. tudes do pensamento merecem ser comple-
– Talvez a tarefa mais importante do mentadas com outros vértices de abordagem,
psicanalista seja capacitar o seu pa- como aqueles propostos por Piaget* e por Matte
ciente a não evadir as frustrações, mas Blanco. Piaget é um epistemólogo suíço que
sim tentar modificá-las. Os pacientes estudou a cronologia do desenvolvimento cog-
que usam sistematicamente uma for- nitivo desde os primórdios do pensamento, a
te predominância de evasão das frus- partir de sua concepção de uma evolução
trações e das verdades intoleráveis neurobiológica constante de sucessivas passa-
enfrentarão a análise com arrogância, gens, predeterminadas geneticamente, de uma
onipotência e onisciência. Nos casos estrutura para uma outra, mais desenvolvida.
mais regressivos, o modo de pensar (Sobre esses aspectos, há um excelente artigo
está impregnado com premonições, da psicanalista britânica Anne Marie Sandler
vaticínios antecipatórios e vacilações, [1990] intitulado “Comentários sobre o Signi-
ao mesmo tempo em que eles usam a ficado de Piaget para a Psicanálise”.)
“memória” para explicar o passado, Em relação a Matte Blanco, psicanalista
com o “desejo” procuram antecipar o chileno que fez formação em Londres e atual-
futuro e, com a “compreensão”, pro- mente reside em Roma e que contribuiu com
curam racionalizar o presente. É cla- um artigo para o livro em homenagem a Bion,
ro que no vínculo analítico também o Do I disturb the universe?, é necessário desta-
psicanalista não está imune a apresen- car suas importantes contribuições, que come-
tar algum grau desse prejuízo na uti- çam a ser reconhecidas por todos os psicana-
lização dos pensamentos. listas interessados nos processos do pensamen-
– A teoria dos pensamentos, de Bion, to e do conhecimento. Assim, Matte Blanco
tem uma grande aplicabilidade práti- (1988), através da relação que estabelece en-
ca e favorece bastante o entendimen-
to dos pacientes muito regressivos,
assim como dos problemas ligados às *
Há um bom resumo de Piaget no artigo de Rayner
interpretações do analista e da mani- [1980]: “Experiências Infinitas: Uma Abordagem da
festação de atuações e somatizações. Contribuição de Matte Blanco à Teoria Psicanalítica”.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 137

tre a matemática e a psicanálise – tal como Bion sobre a origem e a função de pensar, também
procedeu muitas vezes –, parte dos princípios eu tenho um trabalho – “Nossos Pacientes Sa-
dos “conjuntos infinitos do inconsciente” e das bem Pensar?” –, publicado na Revista do CEP de
“estruturas bilógicas”, fundamentadas nos pen- PA, edição especial de outubro de 1999, em que
samentos “simétricos e assimétricos”, e chega reviso as contribuições dos principais autores e
aos conceitos de pensar, imaginar, sentir e ser. teço considerações acerca da normalidade e da
Entre tantos outros colegas que, inspira- patologia da forma de os pacientes (e também
dos em Bion, estudaram e publicaram trabalhos nós, analistas) utilizarem os pensamentos.

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138 DAVID E. ZIMERMAN

11
A Grade

Durante a quarta “discussão” que mante- Assim, partindo da idéia de que com umas
ve com um grupo de Los Angeles, ao respon- poucas letras se podem formar milhares de
der a uma pergunta relativa ao modo como palavras, Bion afirmava que (1963, p. 18):
ele fazia as anotações dos seus pacientes, Bion
assim respondeu (1992a, p. 57): Do mesmo modo, os elementos que eu
busco hão de ser tais que com uns poucos
Eu não faço. De tempos em tempos, cos- se expressem, através de variações em suas
tumava manter anotações, mas depois, combinações, quase todas as teorias essen-
quando olhava para elas, o que via? Ter- ciais para o analista em exercício.
ça-feira. Mas sobre que diabo é isto? Não
tenho a menor idéia. Gostaria de tomar Mais adiante, ele complementa essa po-
uma nota que, pelo menos, me lembrasse sição, afirmando que tal exercício imaginativo
algo. Então, a primeira precondição é ser está próximo da atividade do músico que pra-
capaz de ver, ouvir, cheirar, sentir algo que
tica escalas e exercícios, os quais não estão di-
possa ser relembrado, mas não sei qual é
retamente relacionados com uma peça musi-
a notação que devemos usar. Se eu fosse
um arquiteto, poderia desenhar ou pintar cal, mas sim com os elementos dos quais toda
isto. Se eu fosse um músico, poderia com- peça musical está composta.
por uma peça musical. Mas o que os psi- Portanto, antes de nos aprofundarmos na
quiatras têm a fazer a respeito disso? grade, é necessário esclarecer a concepção de
Bion acerca dos “elementos da psicanálise”.
A transcrição desse trecho serve como um
atestado de que Bion nunca se conformou com
o fato de não termos um sistema de notação ELEMENTOS
fiel, como a dos músicos, por exemplo. Da
mesma forma, ele tinha uma determinação É útil começar estabelecendo uma diferen-
obstinada em simplificar a psicanálise, propon- ça conceitual entre “elementos de psicanálise”
do que os analistas tivessem um menor núme- e “objeto psicanalítico”. Para Bion, o conceito
ro de teorias psicanalíticas e que as trocassem de “elemento de psicanálise” é comparável ao
por uma discriminação judiciosa dos estritos de uma molécula composta por vários átomos
elementos isolados que, em combinação, com- ou elementos psicanalíticos simples, isto é, uni-
põem os diferentes fenômenos do processo dades de idéias e sentimentos que se passam no
psicanalítico. vínculo entre analista e paciente e que podem

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 139

estar representadas em uma única categoria da são e coerência aos caóticos mitos privados de
grade. O conceito de “objeto psicanalítico”, por cada um. Trata-se, portanto, de enunciados de
sua vez, alude às associações e interpretações – um mito pessoal, e Bion se refere a esse domínio
com extensões ao domínio dos sentidos, do mito como a dimensão do “como se”, tal como apare-
e da paixão –, que, por serem combinações mais ce em Elementos de psicanálise (1963).
complexas, necessitam de três categorias na gra- A dimensão das paixões abarca tudo o que
de para a sua representação. é derivado e está compreendido entre L, H e K.
A etimologia da palavra “elemento” re- Afirma Bion que o termo “paixão” representa
monta o vocábulo latino elementum, o qual de- uma emoção experimentada com intensidade
signa as letras do alfabeto, que, em combina- e calidez, ainda que sem nenhuma sugestão
ção, formarão palavras, as quais formarão fra- de violência: o sentido de violência não deve
ses, etc., da mesma forma como os elementos ser expressado pelo termo “paixão”, a menos
de psicanálise, em diferentes combinações, qual que esta esteja associada com o sentimento de
um caleidoscópio, formarão múltiplas e varia- voracidade. A evidência da presença da pai-
das situações psíquicas no vínculo analítico. xão que pode ser proporcionada pelos senti-
Em uma forma simplificada, pode-se di- dos não deve ser tomada como a dimensão da
zer que Bion relacionou como essenciais os se- paixão, porquanto esta pertence ao domínio
guintes sete elementos de psicanálise: da extra-sensorialidade; e, mais ainda, a pai-
xão do analista deve ser claramente distinguida
1. a relação continente-conteúdo ( ); da contratransferência. Na verdade, o signifi-
2. a relação entre a posição esquizo- cado da palavra “paixão”, tal como é emprega-
paranóide e a posição depressiva da por Bion, está mais próximo do que está
(PS  D); contido em sua etimologia; “paixão” (como
3. os vínculos L, H e K; também “com-paixão”) deriva de pathos, por-
4. a relação entre a razão (R) e a idéia tanto alude a um estado de sofrimento pro-
(I); fundo, que transcende a sensorialidade (como
5. as emoções, especialmente a dor psí- na “Paixão de Cristo”).
quica; Meltzer (1994, p. 214), ao se referir ao
6. as transformações nos inter-relacio- “estado de paixão” tal como foi descrito por
namentos; Bion, faz a interessante ressalva de que
7. a interação entre narcisismo e social-
ismo. as paixões representam estados de turbulên-
cia que surgem do impacto paradoxal de uma
No Capítulo 3 de Elementos de psicanáli- emoção intensa sobre outra e que produzem
se, Bion propõe estender os elementos psica- uma turbulência em razão do conflito com
nalíticos e os objetos psicanalíticos que deles idéias previamente estabelecidas acerca do
se derivam para as três dimensões: a dos sen- significado das ditas emoções.
tidos, a dos mitos e a das paixões.
O domínio dos órgãos dos sentidos é
obviamente importante, mas não deve ser o GRADE
único, porquanto a captação predominante, por
meio da sensorialidade do psicanalista, preju- Bion se propôs a criar um sistema de no-
dica a sua sensibilidade intuitiva. tação científica a partir dos elementos da psi-
A dimensão dos mitos deve ser entendida canálise, os quais abrangem vários níveis e usos
segundo a visão de todo mito universal como uma dos pensamentos, além das emoções correlatas.
extensão coletiva dos mitos de que cada indiví- A escolha do termo “elemento” não foi casual;
duo, separadamente, é portador. Creio que se antes, ela deve ter raízes na matemática (os
pode dizer que os mitos universais – como o de “elementos” do matemático grego Euclides) e
Édipo, por exemplo – têm, no fundo, a função de na química (a postulação de que os elementos
servir como um “fato selecionado” que dê expres- simples, como os átomos, se combinam para

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140 DAVID E. ZIMERMAN

Hipóteses Investi-
definidoras ψ Notação Atenção gação Ação
1 2 3 4 5 6 ... n

A
Elementos β A1 A2 A6

B
Elementos α B1 B2 B3 B4 B5 B6 ... Bn

C
Pensamentos oníricos, C1 C2 C3 C4 C5 C6 ... Cn
sonhos, mitos
D
D1 D2 D3 D4 D5 D6 ... Dn
Preconcepção

E
Concepção E1 E2 E3 E4 E5 E6 ... En

F
Conceito F1 F2 F3 F4 F5 F6 ... Fn

G
G2
Sistema dedutivo científico

H
Cálculo algébrico

formar as moléculas). E foi justamente inspi- 2. possibilitar uma comunicação se-


rado na matemática – através do uso de um mântica mais precisa dos psicanalis-
sistema cartesiano de coordenadas – e na quí- tas entre si, ou de um autor com os
mica – pela aplicação da tabela periódica dos seus leitores, como Bion empregou
elementos químicos de Mendelaiev – que Bion com freqüência;
criou o modelo da grade. 3. propiciar que o psicanalista seja
Destarte, a grade é composta por uma co- “supervisor” de si mesmo, estimulan-
ordenada vertical e uma outra horizontal, sen- do o exercício da reflexão psicanalí-
do que as respectivas fileiras e as colunas for- tica no sentido de avaliar de forma
mam casas que são ocupadas pelos diferentes mais clara se está havendo um cres-
enunciados. cimento, uma estagnação ou uma
É necessário esclarecer que Bion criou a involução do seu paciente;
grade para uso exclusivo do psicanalista, e para 4. visualizar o nível e a qualidade de
que este a usasse unicamente fora da sessão, utilização dos pensamentos, tanto
com os seguintes propósitos: por parte do paciente como do pró-
prio analista, e, principalmente, da
1. dispor de um método científico de comunicação entre ambos;
notação dos fenômenos que se pas- 5. situar qualquer tipo de manifestação
saram na sessão de análise, assim clínica desde os simples aos mais
substituindo as anotações trabalho- complexos, tanto os que se expres-
sas, que logo perdem o sentido, por sam em linguagem verbal com em
um pensamento criativo; não-verbal (gestos, actings, etc.);

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 141

6. facilitar o entendimento epistemo- ção. Para ilustrar o conceito de “evacuação de


lógico de certos modelos psicanalí- elementos beta”, com a grade, pode-se dizer
ticos, como o das narrativas dos mi- que o encontro de A com 1 – A1– representa
tos; Bion utilizou bastante a grade um estado de atuação do paciente, ou seja, uma
para reestudar aprofundadamente o descarga motora que substitui sua incapacida-
mito de Édipo a partir de vértices de para pensar.
diferentes dos que conhecemos em Particularmente penso que, na situação
Freud, tal como será descrito mais analítica, a evacuação dos elementos beta na
adiante, neste capítulo. mente do analista, se este estiver preparado
para recebê-la, pode exercer, através dos “efei-
Assim, no modelo gráfico da grade, o eixo tos contratransferenciais”, uma importante fun-
vertical, composto por oito fileiras, desde a le- ção – a de uma comunicação primitiva de senti-
tra A até a letra H, é denominado eixo genéti- mentos que o paciente não tem condições de
co, tendo em vista que cada fileira enuncia um expressar com a linguagem verbal.
estágio do desenvolvimento do pensamento. A partir daí, também me ocorre que o
O eixo horizontal é formado por seis colunas, encontro da fileira A com a coluna 3 – A3 –
embora Bion, para não vir a ser acusado de possa ter o importante significado de uma no-
dogmático, tenha acrescentado, após a sexta tação (uma espécie de arquivo de registro de
coluna, a designação “...n”, para assim carac- memórias) de primitivas inscrições de elemen-
terizar a grade como um sistema aberto e per- tos beta.
mitir que cada psicanalista fizesse os seus pró- Fileira B – corresponde aos elementos α,
prios acréscimos e modificações. Esse eixo ho- que se formam como resultado do trabalho efe-
rizontal pode ser denominado como o eixo da tuado pela abstrata função α sobre os dados
utilização (dos pensamentos). das impressões sensoriais (provindas dos ór-
Como se vê, a grade resultante do cruza- gãos dos sentidos) e das precoces experiências
mento das oito fileiras com as seis colunas for- emocionais, e podem ser armazenados como
ma 48 casas, quase todas preenchidas com pensamentos incipientes. Os elementos α pos-
enunciados categóricos; algumas, no entanto, sibilitam que o indivíduo tenha o que Freud
ficaram em aberto (tal como na tabela perió- chamou de “pensamentos oníricos”.
dica do químico Mendelaiev), à espera de um
possível futuro preenchimento. Fileira C – representa os fenômenos com-
No eixo genético, os diferentes estágios do postos pelos pensamentos oníricos com ima-
pensamento são designados pelas oito fileiras, gens visuais, como nos sonhos e nos devanei-
com as letras e respectivos significados a se- os, e pela a construção de mitos, tanto os pri-
guir descritos. vados (tecidos com as constelações das fanta-
sias inconscientes de cada um) como os mitos
Fileira A – compreende os elementos β, universais (o de Édipo, por exemplo). Particu-
ou seja, os protopensamentos, os quais, por não larmente, pergunto-me se a fileira C não equi-
terem a condição para fazer discriminações, vale à “zona da criatividade”, própria do “es-
confundem o animado com o inanimado, o con- paço transicional”, tal como concebido por
creto com o abstrato, o sujeito com o objeto, o Winnicott. Igualmente, creio que o importan-
consciente com o inconsciente, a realidade do te conceito de Bion acerca do surgimento de
mundo externo com a fantasia do mundo inter- ideogramas na situação analítica deve ser en-
no, o símbolo com o simbolizado, o moral com quadrado nessa fileira.
o científico, etc. Assim, a fileira A não contém
elementos que não estejam saturados. Fileira D – corresponde à preconcepção,
Os elementos β servem unicamente para um estado mental de expectativa voltada para
ser evacuados, de forma que, clinicamente, são uma gama restrita de realizações. O protótipo
próprios das psicoses e necessitam do rêverie disso é a expectativa inata de um seio pelo re-
materno para evoluir à condição de elementos cém-nascido, ou, como um outro exemplo, a
α e, assim, ser liberados através da verbaliza- preconcepção edípica que a criança tem de re-

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142 DAVID E. ZIMERMAN

lação entre os seus pais. Na situação analítica, como um positivo. No primeiro caso, o enuncia-
penso que D4 representa o “estado mental do do definidor pode ser rígido e excluir tudo o
analista”, ou seja, antes de interpretar, ele que não estiver incluído na sua designação (no
enfoca uma “atenção” (4) numa “precon- caso do psicanalista, este pode utilizar o seu
cepção” (D). enunciado como se fosse o “dono da verdade”;
no caso do paciente, este pode usar a sua hi-
Fileira E – no caso em que a preconcepção
pótese definitória a serviço de uma “reversão
é “fecundada” por uma realização positiva de
natureza sensorial, gesta-se uma “concepção”. de perspectiva” das interpretações do analis-
ta). A hipótese definitória pode ser positiva na
Fileira F – as concepções, quando adqui- medida em que funciona como um “fato sele-
rem uma dimensão de abstração, caracterizam a cionado” inicial, isto é, dá uma ordem e inte-
formação de conceitos, os quais servem para de- gração a um anterior desordenamento caótico
finir aqueles enunciados que previamente existi- dos pensamentos (Bion exemplifica com uma
am isolados, mas que agora, como conceitos, situação de uma série de manifestações e de
aparecem sob a forma de teorias, por exemplo. sintomas dispersos que o analista define para
Fileira G – está representada pelos siste- o paciente, como prever um estado de “depres-
mas dedutivos científicos, que se formam atra- são”, por exemplo).
vés de uma combinação lógica de conceitos, Coluna 2 – representada pela letra grega
de hipóteses e de teorias. ψ (psi), provavelmente como uma alusão à
Fileira H – reúne os elementos do pensa- “mentira”, que Freud descreveu na psicopato-
mento em um grau de abstração tal que se pres- logia histérica em Projeto para uma psicologia
tam aos cálculos algébricos. científica para neurólogos, de 1895. Assim, a
coluna 2 designa os enunciados mentirosos ou
As fileiras A e B não são propriamente falsos, que podem ocorrer separadamente, por
“elementos” de psicanálise, porquanto os ele- parte do paciente ou do psicanalista, ou, como
mentos α e β não se manifestam diretamente é muito freqüente, por um conluio de falsida-
na clínica e não são mais do que abstratas hi- de existente entre ambos na situação analíti-
póteses teóricas. Ou, nas palavras do próprio ca. As falsidades são utilizadas para fugir das
Bion (1973, p. 36): verdades penosas e do risco de uma mudança
catastrófica, portanto a coluna 2 também sig-
não há evidência alguma para acreditar nifica o uso de resistências.
que os elementos β e os elementos α exis-
tam, a não ser por uma espécie de metáfo- Coluna 3 – representa as categorias em-
ra, tal como chamá-los de átomos psicoló- pregadas para registrar um fato, de forma a
gicos, ou elétrons psicológicos. cumprir a função de notação e de armazena-
mento de dados que possam ser evocados pela
As fileiras G e H não têm maior aplicação memória.
na prática clínica, porém são necessárias aos
Coluna 4 – representa a função de aten-
trabalhos de investigação sobre essa mesma
ção do que se passa no meio ambiente, em um
prática clínica.
nível que vai além da mera sensorialidade, de
Em relação ao eixo horizontal – o da uti- forma que ela se institui como uma atividade
lização – os diferentes usos do pensamento são indispensável à importante função de discri-
designados pelas seis colunas, enumeradas de minação. Essa coluna enuncia também a “aten-
1 a 6, conforme descrito a seguir. ção flutuante”, como foi descrita por Freud, e
permite que o analista seja receptivo ao “fato
Coluna 1 – hipótese definitória, que alude
selecionado”, o qual possibilita dar ordem ao
a uma situação pela qual o pensamento que é
caos e assim preparar as interpretações.
formulado se define como o verdadeiro, tanto
para o paciente como para o analista. A hipó- Coluna 5 – designa a importante utiliza-
tese definitória tem tanto um caráter negativo ção da investigação dirigida para um aspecto

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 143

particular dos fatos acontecidos, através do um modelo que mostra a possibilidade de que,
emprego de indagações por parte do analista e quando uma alta abstração científica – a teo-
do paciente. O protótipo dessa coluna está con- ria de Ptolomeu, por exemplo – está a serviço
tido no mito de Édipo, tanto por aludir à insis- de uma mentira (para assegurar a crença reli-
tência com que este levou a cabo sua investi- giosa de que o planeta Terra era o centro do
gação como pelo fato de que foi através da in- universo), e, para mantê-la, foi necessário
vestigação do mito edípico que Freud abstraiu mover uma perseguição a Copérnico, Galileu
a teoria psicanalítica. e Giordano Bruno.
Coluna 6 – refere-se ao uso dos pensa- É útil esclarecer o fato de que Bion não
mentos através das ações, as quais, conforme preconizou o uso da grade de forma única e
o vértice contextual da situação analítica, se com enunciados bem definidos; pelo contrá-
traduzem como sendo tanto de natureza ne- rio, sempre insistiu que cada psicanalista pode
gativa como positiva. As ações são negativas construir a sua grade particular a partir dos
quando se manifestam, por exemplo, sob a for- seus vértices diferentes de observação. Assim,
ma de actings malignos que expressam tão-so- a grade pode servir para categorizar o estágio
mente uma descarga de elementos β na con- de pensamento em que o paciente apresenta
duta (nesse caso, a categoria da grade é A6). A as suas associações livres, para categorizar o
ação é considerada positiva na análise quan- destino que a interpretação do psicanalista to-
do, por exemplo, a atividade interpretativa do mou dentro do analisando ou para que o psi-
psicanalista logra um êxito no paciente, de canalista descubra qual era o seu estado men-
modo a transformar o seu pensamento em uma tal em uma sessão já transcorrida.
ação adequada e progressiva. Por sua vez, pros-
seguindo num livre exercício, ainda a título de
exemplificação, penso que a “interpretação”,
O mito de Édipo e a Grade
na situação analítica, corresponde a F6, visto
que é uma “ação” (6) que consiste em passar
de um pensamento conceitual (F) para a for- Como vimos, a pretensão de Bion ao criar
mulação verbal. a grade era poder representar graficamente e
de forma abstrata os pensamentos e sentimen-
A evolução de A até H, à luz da relação tos que se passam no campo analítico, para que
continente-contido, revela uma relação mú- pudessem ser mais fácil e fielmente compre-
tua entre as sucessivas categorias, em que cada endidos por todos, da mesma forma que “uma
uma depende das modificações que se pro- linha traçada no papel” representa a palavra
cessam na categoria anterior e predispõe a “linha”.
transformação da categoria seguinte. Por um Bion reconheceu a extraordinária impor-
lado, a interação entre as diversas alternati- tância da aplicação à psicanálise que Freud deu
vas de cada uma das categorias da grade, tanto ao mito de Édipo, porém propôs-se a estudar
as que procedem separadamente do analista outros elementos psicanalíticos contidos na nar-
(ou do paciente) como a de uma inter-rela- rativa que não foram destacados por Freud nas
ção de cada um deles com o outro, permite primeiras investigações, porquanto eles foram
um leque muito amplo de possibilidades, a eclipsados pelo componente sexual do drama.
partir de vértices diferentes. Por outro, mui- A forma narrativa do mito permite ligar
tas casas da grade – nas fileiras A, G, H – não todos os diferentes elementos em um único sis-
foram preenchidas por Bion, pois ainda não tema; logo, nenhum elemento, como o sexual,
comportam um lugar na lógica vigente que por exemplo, pode ser compreendido se não
esse modelo possibilita. estiver em relação com os outros elementos,
A fileira G está preenchida unicamente da mesma forma como as letras estão combi-
na casa G2, e um bom exemplo do seu enun- nadas em uma determinada palavra. Os demais
ciado, como foi dado por um colega de um gru- elementos encontrados e interligados no mito
po de estudos, é o seu entendimento segundo edípico são assim enumerados por Bion:

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144 DAVID E. ZIMERMAN

– O pronunciamento do Oráculo de vemos nas neuroses, entre um grupo de idéias


Delfos: define o tema da história e se e outro, ou um grupo de impulsos e outro, mas
pode considerar como uma definição, sim entre K e -K, ou, para expressar em termos
ou como uma hipótese definitória, na pictóricos, entre Tirésias e Édipo, e não entre
grade. Édipo e Layo.
– A advertência de Tirésias (que foi cas-
tigado com a cegueira por ter atacado
Comentários
as serpentes que ele havia observado
em cópula): representa, na grade, a O modelo da grade é, entre as tantas con-
coluna 2, isto é, a hipótese que se sabe tribuições de Bion, uma das que causou maior
ser falsa e que atua como barreira con- polêmica e reações contraditórias, levando al-
tra um outro conhecimento. guns de seus seguidores a um excitante e conti-
– O enigma da Esfinge: o mito, como uma nuado exercício de suas várias aplicações; po-
totalidade, pode ser considerado como rém, por outro lado, não foram poucos os que
o registro de uma realização, portan- desistiram de se familiarizar com a obra de Bion,
to, cumprindo a função que Freud atri- espantados por um gráfico que, à primeira vis-
bui à notação, coluna 3 da grade. Pode- ta, parece tão difícil de ser apreendido.
se dizer que o enigma que se atribui à Essa contradição nas respostas ao estímu-
esfinge expressa a curiosidade do ho- lo provindo da grade reflete exatamente sua
mem voltada para si próprio. ambigüidade, em um convívio entre muitos as-
– A curiosidade arrogante de Édipo: pectos favoráveis e outros tantos desfavoráveis.
pode representar a função que Freud Quanto à sua utilização pelo psicanalis-
atribuiu à atenção – coluna 4 –, po- ta, os seguintes aspectos da grade podem ser
rém implica uma ameaça contra a cu- considerados favoráveis:
riosidade que a própria esfinge esti-
mula (“decifra-me, ou te devoro”). Por – A primeira vez que Bion propôs o mo-
outro lado, Édipo representa também delo da grade foi em Elementos de psi-
o triunfo de uma decidida curiosida- canálise, de 1962, tomando o mito de
de sobre a intimidação, e pode, por- Édipo como ilustração. Posteriormen-
tanto, ser usado como um símbolo de te, em 1971, ele publicou The grid, no
integridade científica – o instrumento qual, através dos relatos míticos da
investigatório –, o qual corresponde à morte de Palinuro e dos saqueadores
coluna 5 da grade. do cemitério real de Ur, buscava que a
grade pudesse expressar o essencial, a
Os demais elementos, sob forma de tra-
“realidade última”. Assim, ficou enfati-
gédias, que podem representar a Coluna 6 – a
zado, para os psicanalistas, o que pode
das ações –, são:
parecer o óbvio: que há uma hierar-
– a peste que açoita a população de Tebas; quia da organização dos pensamentos
– os suicídios da Esfinge e de Jocasta; (eixo genético) com diferentes utiliza-
– a cegueira e o exílio de Édipo; ções dos mesmos, e que, portanto, os
– o assassinato do Rei. pensamentos amadurecem e se desen-
volvem.
Penso que talvez caiba acrescentar que, – A grade encontra uma útil aplicação
após o exílio, surgiu um novo Édipo, tal como prática quando, no exercício de ser
aparece em Édipo em Colona. “supervisor de si próprio”, o psicanalis-
Ainda utilizando o mito de Édipo, Bion ta pode detectar se há ou não uma
considera que o conflito entre o enfoque do sincronia entre o nível de pensamentos,
paciente e o do analista – e o do paciente con- a linguagem do paciente e o nível de
sigo mesmo – não é um conflito, tal como o suas interpretações. Da mesma forma,

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 145

pode ajudar o analista a detectar possí- – Bion pretendeu incluir os aspectos


veis “focos de infecção” que estejam con- emocionais na notação científica da
duzindo a impasses psicanalíticos. grade, e isso certamente não foi con-
– Por outro lado, a grade pode estimu- seguido.
lar um exercício de imaginação abs- – A possibilidade de um risco – tal como
trativa e o de uma intuição psicanalíti- foi descrito de forma muito convincen-
ca, de acordo com a comparação rea- te por Sandler, na Revista Brasileira
lizada por Bion entre a atividade de de Psicanálise (n. 21, p. 205), porquan-
um músico em relação aos seus exer- to ela foi baseada em sua experiência
cícios com os elementos de uma peça pessoal – diz respeito ao fato de que,
musical.
– Com freqüência, Bion utilizou as cate- como costuma acontecer com qualquer
gorias da grade para facilitar a sua co- inovação, criou-se uma confusão entre
municação com o leitor, e, muitas ve- o método em si e a forma como os ana-
zes, ele foi bem-sucedido nesse pro- listas a utilizavam, a tal ponto que a
grade, antes que um meio auxiliar, aca-
pósito. Assim, em sua segunda Grade,
bou se constituindo em um instrumen-
a de 1971, conceitua uma distinção to confusional.
entre a interpretação, que é exclusiva
da sessão analítica, e a construção, que
– Um outro risco, também apontado por
o analista deve erigir após as sessões,
Sandler, é o de que a grade venha a ser
com o auxílio da grade.
usada concretamente, como se faz com
– Como Bion concedeu a cada leitor a
a tabela periódica dos elementos quí-
liberdade para criar novas interpreta-
micos de Mendelaiev. Isso representa-
ções, significados e conceitos que a gra-
ria um contra-senso com as posições
de propicia, resulta ser um fascinante
de Bion, pois se tornaria um exercício
exercício para o analista procurar en-
permanente da memória daquilo que
quadrar, na grade, sua experiência ana-
já se passou.
lítica privada.
– Um terceiro risco é o de que a grade
– O importante é que o analista esteja
possa funcionar, para algum analista
apto a observar as transformações que
que a domina bem, como uma espé-
se processam entre os distintos ele-
cie de fetiche, isto é, como uma de-
mentos da grade. Para exemplificar:
monstração para si mesmo, e para os
na transformação de beta em alfa (um
outros, de como ele “possui” Bion e
verdadeiro processo de “alfa-betiza-
de como ele é íntimo dos conceitos
ção” emocional) cabe usar uma metá-
bionianos e sabe enquadrá-los perfei-
fora, como a de uma “cana-de-açúcar”
tamente. Assim, o fato de ser um psi-
que, à primeira vista, pode ser con-
canalista não imuniza ninguém con-
fundida com uma mera taquara; no
tra a possibilidade de ser tentado a
entanto, uma vez reconhecida, pode
desvirtuar a proposição original da
ser tratada e levada para uma moenda,
criação da grade e vir a usá-la como
onde sofrerá um processo de transfor-
um mero exercício intelectual ou
mações em sucessivas etapas, até re-
diletante, ou até mesmo de uma for-
sultar alguma forma de açúcar, o qual,
ma exibicionista.
por sua vez, pode originar novos pro-
dutos, com finalidades diferentes (do-
No entanto, as maiores críticas ao uso da
ces, soro glicosado, etc.).
grade provêm do próprio Bion, a quem passo a
palavra, através da transcrição de alguns tre-
Os aspectos da grade que podem ser con- chos de sua quarta conferência em Nova Iorque,
siderados negativos são: em 1977. Diz Bion (1992a, p. 140-141):

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146 DAVID E. ZIMERMAN

Assim que eu tirei o grid do meu sistema, (1987, p. 216-217), através de uma sólida ar-
pude ver o quão inadequado ele é. [...] gumentação, demonstra que denominar o grid
Você é que tem que decidir se serve de al- como grade pode induzir a que se encare esse
gum modo. Se não serve, não perca tem- instrumento delineado por Bion como sendo
po com ele. [...] Para mim, não [é difícil
algo fechado, estático, aprisionador, e que tal-
usar o grid] – é só uma perda de tempo,
vez a melhor tradução fosse “grelha”, porquan-
porque ele não corresponde aos fatos que
provavelmente vou encontrar. to esta última denominação, embora possa fe-
rir os ouvidos, inspira algo mais vivo, semovente,
adaptável e, conforme a situação, imprestável.
Como último comentário, vale destacar
Bion, por sua vez, em uma de suas conferên-
que muitos autores – inclusive o próprio Bion –
cias em São Paulo (1992a, p. 193), considerou
consideram que a palavra grid (no original in-
que o termo grating, muito mais que grid, trans-
glês) – ou grade (na tradução em português) –
mite uma finalidade de filtro e de uma tridi-
é o termo mais apropriado para expressar o ver-
mensionalidade que abarca as noções de espa-
dadeiro significado dinâmico que Bion preten-
ço, tempo e velocidade da mudança.
deu ao criar a grade. Desse modo, Sandler

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 147

12
Os Sete Elementos da Psicanálise

Este capítulo é fundamentado no livro uma molécula, que é composta por vários áto-
Elements of psychoanalysis, que Bion publi- mos, ou seja, são elementos psicanalíticos sim-
cou em 1963 e que é considerado um dos ples que se comportam como unidades de sen-
mais importantes e fundamentais de sua timentos e de idéias que ocorrem no vínculo
obra, não somente pelo conteúdo de suas entre analista e paciente. Isso está de acordo
concepções originais, como também pelo fato com a etimologia da palavra “elemento”, do
de que, por sua clareza, pode ser recomen- étimo latino elementum, o qual designa as le-
dado aos que iniciam uma familiarização tras do alfabeto, que, em combinações, forma-
mais íntima com Bion. Pela inconteste impor- rão milhares de palavras, as quais formarão
tância que essa sua concepção representa frases, orações e uma enorme diversificação de
para a teoria e a prática da psicanálise con- discursos. Da mesma forma, creio que pode-
temporânea, julguei ser útil adicionar um mos fazer uma analogia de que os elementos
capítulo específico, em que pudesse detalhar de psicanálise, em diferentes combinações, qual
mais cada “elemento” em separado, ainda um caleidoscópio (aparelho composto por al-
que de forma muito sintetizada. gumas mesmas pedrinhas coloridas que, po-
O propósito maior de Bion, ao introdu- rém, conforme o giro nele aplicado, adquire
zir a noção de “elementos”, foi simplificar a configurações com desenhos bastante distin-
compreensão dos princípios básicos da psica- tos), formarão múltiplas e variadas situações
nálise, porque considerava que havia teorias psíquicas no vínculo da situação analítica.
em demasia, provindas de diversas correntes A mesma analogia feita entre “elemento
psicanalíticas, com o inconveniente de pro- psicanalítico” e “átomos que compõem a mo-
vocarem uma certa confusão conceitual, com lécula” e “letras do alfabeto”, também pode
superposições e redundâncias de conceitos ser feita com os algarismos simples de 0 a 9
propostos por uma grande diversidade de au- que, conforme o arranjo entre eles, podem
tores. Assim, também a “grade” foi criada por compor desde números fáceis até cálculos nu-
Bion com o objetivo de conter os elementos méricos de extrema complexidade. Ademais,
psicanalíticos simples e suas respectivas e su- ainda cabe propor a metáfora do campo da
cessivas transformações, desde as mais sim- música, em que as sete notas musicais sim-
ples até as mais complexas configurações ana- ples, conforme as combinações do dó, ré, mi,
líticas. fá, sol, lá, si, com as respectivas variações (por
Conceituação. Para Bion, o conceito de exemplo: dó maior ou menor, sustenido, etc.)
“elemento de psicanálise” é comparável ao de e o lugar que ocupam na pauta, tanto podem

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148 DAVID E. ZIMERMAN

produzir simples acordes como complexos e lência não deve ser expressado pelo termo “pai-
belos concertos musicais. Os elementos que xão”, a menos que esteja associado com o sen-
ocupam a pauta da partitura da situação ana- timento de excessiva inveja e voracidade. Creio
lítica também podem sofrer transformações que, na verdade, o significado do termo “pai-
equivalentes. xão”, da forma como é empregado por Bion,
Assim, da mesma forma que uma mesma está mais próximo do que está contido em sua
música pode sofrer arranjos sem perder a sua etimologia: a palavra “paixão” (como também
essência, e permitindo vários ritmos, estilos e “compaixão”) deriva do grego pathos, portan-
várias escutas compondo distintas dimensões, to alude a um estado de sofrimento profundo
também as narrativas verbais e outras formas e que transcende a sensorialidade, tal como
de comunicação não-verbal que o paciente ela está significada na “Paixão de Cristo”. O
aporta na situação analítica merecem uma es- melhor exemplo do que se acabou de afirmar
cuta do analista em no mínimo, três dimen- é que um estado de paixão do analista deve
sões, que, segundo Bion, no Capítulo 3 de Ele- ser diferenciado de um estado mental decor-
mentos em psicanálise, são a dos sentidos, a dos rente de sentimentos contratransferenciais nele
mitos e a da paixão. despertados transitoriamente.
O domínio dos órgãos dos sentidos é obvia- Outras dimensões dos elementos de psi-
mente importante, porém não deve ficar limi- canálise que são aventadas por Bion são aque-
tado unicamente à audição, à visão, etc., por- las em que eles aparecem numa das seguintes
quanto a captação predominante, por meio da três dimensões, no campo analítico:
sensorialidade do psicanalista, prejudica a sen-
sibilidade que poderia provir da sua provável 1. a matemático-científica, em que pre-
capacidade de intuição. Esta última palavra, domina o raciocínio lógico;
vale lembrar, etimologicamente deriva de 2. a estético-artística, em que prevale-
“in”+“tuere”, ou seja, uma capacidade de, com ce algum impacto estético (vale lem-
uma espécie de “terceiro olho”, poder olhar, brar que essa palavra deriva de este-
não de forma sensorial, mas sim de dentro e sis, que não significa necessariamen-
para dentro, fato que enriquece sobremaneira te beleza, como geralmente se su-
a escuta analítica. põe, mas, sim, sensações, como está
A dimensão dos mitos deve ser entendida evidente na palavra “anestesia”, que
através do fato de que todo mito universal é significa a privação [an] da sensa-
uma extensão coletiva dos mitos de que cada ção [estesis] de dor); e
indivíduo, separadamente, é portador. Isso lem- 3. a de natureza místico-religiosa, que
bra a célebre frase de Freud de que “o mito é o atinge zonas muito mais profundas
sonho da humanidade, enquanto o sonho é o do psiquismo, numa comunhão com
mito do indivíduo”. Creio que se pode dizer Deus e a deidade, tal como aparece
que os mitos universais – como o de Édipo, nos textos que Bion produziu na dé-
por exemplo – têm, no fundo, a função de ser- cada de 70.
vir como um “fato selecionado” que dê expres-
são e coerência aos caóticos mitos privados de Bion destaca que essas três dimensões,
cada um em sua própria mente. Trata-se, por- muitas vezes, constituem vértices distintos de
tanto, de enunciados de um mito pessoal, e percepção de um mesmo fato, de forma que
Bion se refere a esse domínio como a dimen- ficam em oposição entre si. No livro Conferên-
são do “como se”. cias brasileiras 1 (1973, p. 43), ele exemplifica:
A dimensão da paixão abarca tudo o que
é derivado dos vínculos de amor, ódio e co- [...] a crença religiosa que o paciente está
nhecimento, de sorte que, segundo Bion, pai- revelando seja um insulto à sua inteligên-
xão representa uma emoção experimentada cia. Conseqüentemente, sua visão cientí-
com intensidade e calidez, ainda que sem ne- fica mostra uma hostilidade à religião, que,
nhuma sugestão de violência. O sentido de vio- por sua vez, é hostil àquela. Os elementos

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 149

fundamentais, básicos, pertencentes ao senvolvia a tese de que era um fracassado crô-


nível primitivo da personalidade humana, nico, veio-me à mente o clássico conto infantil
estão em guerra um com os outros. de “Joãozinho e Mariazinha”, no qual uma bru-
xa cega queria comê-los; antes, porém, queria
Entendo que, além das três menciona- que eles engordassem e, para isso, alimenta-
das, caberia uma quarta dimensão, que pode- va-os bem. Joãozinho, espertamente, engana-
ria ser denominada como existencial-pragmá- va a bruxa cega, fazendo-a apalpar o fino rabo
tica, em que pode ser atribuída uma grande de um camundongo no lugar de seu dedo, já
relevância à transmissão e escuta de sentimen- que estava ficando gordinho e precisava ficar
tos, à forma de comunicação que se expressa oculto. Citei esse exemplo porque se trata de
através dos atos, da conduta existencial de um impacto estético-literário que, à moda de
cada sujeito e do paciente em análise, em par- um “ideograma”, despertou em mim imagens
ticular. visuais do aludido conto, o que me fez sentir
Vou dar um exemplo clínico, procuran- que o paciente me enganava, não permitindo
do abarcar um enfoque nas últimas quatro que eu percebesse o seu crescimento com a
dimensões mencionadas. Trata-se de um pa- análise porque temia que eu, analista, no pa-
ciente de aproximadamente 45 anos, médi- pel transferencial de uma mãe internalizada
co muito competente na sua especialização, como uma bruxa ávida, possessiva e invejosa,
que brilha em congressos internacionais, po- o devorasse, caso ele viesse a crescer bastante
rém que pouco avança em sua vida particu- (é fácil perceber que, nesse ponto, predomina-
lar no que diz respeito à consolidação de sua va na minha mente um paradigma kleiniano).
vida afetiva, econômica, etc. É bastante co- Uma terceira possibilidade, a de uma lin-
mum que sabote importantes possibilidades guagem “mítica” (também poderia ter sido
de crescimento que se abrem para ele: por uma linguagem “mística”), pode ser exempli-
exemplo, não entrega capítulos de livros com ficada com a seguinte situação analítica com
os quais se comprometeu a colaborar; à últi- o mesmo paciente: em uma certa sessão, em
ma hora desistiu de um concurso que, com meio às suas habituais queixas, ele associou
muita probabilidade, o levaria a assumir uma seu relato com a leitura que vinha fazendo
cátedra; já aconteceu ser demitido de algum acerca de Cronos (também conhecido por
importante local de trabalho porque queria Saturno), personagem da mitologia greco-ro-
impor os seus horários e normas à direção; mana que devorava os seus filhos homens à
mantém com as mulheres uma relação do medida que eles nasciam, temeroso de que,
tipo “tantalizante” (em que o sedutor dá mui- no futuro, eles o superassem e o destronas-
tas esperanças para quem seduziu e sistema- sem. No entanto, o mesmo mito também re-
ticamente se afasta, depois reata novamen- fere que posteriormente Saturno ocupou-se
te, e de novo foge, num círculo vicioso qua- em civilizar os povos selvagens da Itália, para
se interminável). onde foi exilado por seu filho Júpiter (na cul-
No modelo “científico”, minha primeira tura grega antiga, Zeus), deu-lhes leis e ensi-
tentativa de compreensão e interpretação me nou-lhes a cultivar a terra, a ponto de o pe-
remeteu a Freud, ao “triunfo edípico” em rela- ríodo de seu reinado, na mitologia, ser cha-
ção ao seu pai, seguido de um evidente “com- mado de “Idade de Ouro”. A narrativa que ele
plexo de castração” (é claro que eu também fazia desse mito despertou em mim uma com-
poderia me respaldar em outros paradigmas, preensão mais profunda dos dois lados do pa-
teóricos e técnicos, provindos de outros auto- ciente (projetados em mim): o de um devora-
res), e assim interpretei durante uns tempos, dor-destruidor e, também, o de alguém que
sem resultados muito expressivos. tem muitos recursos positivos, à espera de
No segundo modelo, o “estético”, eu par- serem descobertos e praticados.
tia de sentimentos contratransferenciais que a É fácil perceber, tanto na dimensão esté-
narrativa do paciente pudesse despertar em tica quanto na mítica, o quanto as imagens que
mim. Assim, no curso de um relato em que de- surgem na mente do analista ou na do pacien-

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150 DAVID E. ZIMERMAN

te (que Bion chama de pictogramas ou ideogra- mensões mencionadas – sensorial, estética,


mas) podem falar mais alto que as idéias e os mítica, científica, mística, passional e pragmá-
conceitos verbais definidos. tica –, existe a presença de “elementos da psi-
Mais especificamente em relação à quar- canálise” em diferentes combinações, tal como
ta dimensão, que denomino “pragmático-exis- foi postulado por Bion, cujo detalhamento ve-
tencial”, ela modificou substancialmente a mi- remos a seguir.
nha forma de psicanalisar na atualidade, de
sorte que mudei o meu comportamento técni-
OS SETE ELEMENTOS DE PSICANÁLISE
co porque, nesse caso, priorizo fazer assinala-
mentos que levem o paciente a pensar e a as- Coincidentemente com as notas musicais
sumir, também conscientemente, o destino que que serviram de metáfora para ilustrar o con-
está dando à sua vida, diante das ações e deci- ceito de elementos de psicanálise, também es-
sões práticas (“pragmáticas”). Da mesma for- tes, na obra de Bion, aparecem como sendo
ma, enfatizo para o paciente que o fato de ele sete; no entanto, os distintos autores que di-
relatar suas desventuras sem maior angústia vulgam as idéias de Bion nem sempre coinci-
e até, inclusive, com um certo jeito divertido, dem na nominação e entendimento dos aludi-
como se fosse um desafio, é uma forma de dos elementos, de sorte que existem (peque-
provar que “ninguém pode com ele” (são ca- nas) divergências. De modo geral, esses sete
racterísticas de um narcisismo, em que o pa- elementos de psicanálise são: 1) a relação con-
ciente pode fazer de sua “fraqueza” um meio tinente-conteúdo; 2) a relação da posição esqui-
de dominar a todos). Essa última abordagem zoparanóide com a posição depressiva; 3) os vín-
permitiu que eu trabalhasse com esse anali- culos de amor, ódio e conhecimento; 4) os con-
sando acerca da diferença fundamental que ceitos de razão e idéia; 5) as emoções, especi-
existe entre aparência (consiste no fato de que almente a dor psíquica; 6) o conceito de trans-
ele costumava funcionar com um “falso self”, formações; 7) a transição de um estado mental
ora como um brilhante intelectual, ora traves- de narcisismo para o de social-ismo. Devido à
tido como um fracassado crônico, em ambos importância dessa temática relativa aos “ele-
enganando os outros e, especialmente, a si mentos”, o objetivo deste capítulo é enfocá-los
próprio) e essência, ou seja, aquilo que ele separadamente.
realmente é, ou quer e pode vir a ser, existir
(daí justifico por que proponho o emprego do
termo “pragmático-existencial”). 1o Elemento: Relação
É claro que as quatro dimensões men- continente-conteúdo
cionadas são indissociáveis e que cada uma
delas complementa a outra, no entanto, creio Noção original e fundamental na obra de
que a “pragmático-existencial”, que demanda Bion, hoje totalmente aceita por todos os ana-
uma significativa utilização de recursos listas, a relação do “conteúdo”, que ele repre-
cognitivos, conscientes, e um estilo mais colo- senta pelo signo da sexualidade masculina
quial, seja pouco empregada pela maioria dos ( ), designa uma massa de necessidades, de-
analistas; porém, pelo menos em minha ex- sejos, demandas e angústias que o bebê (ou o
periência pessoal, quero crer que ela tem-se paciente, na situação analítica) deposita, por
mostrado valiosíssima na prática clínica. Ain- meio de uma penetração de identificações
da dentro dessa visão pragmática, solicitei projetivas, dentro da mente da mãe (ou do ana-
uma avaliação com um colega psiquiatra, com lista). O “continente” materno consiste na
vistas a uma possível medicação antidepres- receptividade da mãe ao conteúdo que lhe foi
siva (o paciente tem familiares com depres- penetrado. Assim, é fácil percebermos que Bion
são endógena), o que em nada alteraria o utiliza o modelo de uma relação sexual.
prosseguimento natural da análise. Creio ser útil traçar uma certa distinção
Uma observação mais atenta dessa vinhe- entre “conteúdo” e “contido”, não obstante am-
ta clínica permitiria constatar que, nas sete di- bos os termos aparecerem na literatura analíti-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 151

ca como sinônimos. Entendo que o conteúdo é ment; e, assim por diante, muitíssimas outras
simplesmente a referida massa de emoções que situações poderiam ser mencionadas.
são projetadas, à espera de um continente que Particularmente, concedi-me o direito de
as acolha, o que nem sempre acontece. Quando propor uma série de outros aspectos que com-
não há acolhida, as projeções das angústias do plementam os que Bion descreveu, de sorte
bebê ou ficam perdidas no espaço exterior (mui- que, no antes aludido capítulo desta segunda
tas vezes se constituindo como “objetos bizar- edição, “A Função de ‘Continente’ do Analista
ros”), ou tomam o caminho de uma somati- e os ‘Subcontinentes’ ”, eu proponho as seguin-
zação, ou de atuações, etc. Já a noção de “con- tes contribuições:
tido” corresponde à idéia de que as projeções
da criança, ou do paciente, estão, de fato, con- 1. Diferença entre continente e reci-
tidas no psiquismo da pessoa cuidadora, tanto piente.
de forma positiva, em que sofrerá um processo 2. Autocontinência.
de acolhimento, decodificação, significação, 3. A existência de subcontinentes (os
nomeação e devolução em doses desintoxicadas quais, a meu juízo, são particularmen-
e mitigadas, como de efeitos negativos, quando te úteis para a prática analítica).
o cuidador sofre uma turbulência emocional de 4. Função delimitadora.
efeitos maléficos. Esta última possibilidade, no 5. Função custódia.
caso da situação analítica, corresponde a efei- 6. Função de sobrevivência.
tos contratransferenciais de natureza patológi- 7. Função de reconhecimento.
ca, ao contrário de uma contratransferência po- 8. Continente abstrato.
sitiva, que pode ser transformada pelo analista
no excelente instrumento técnico que é a capa-
cidade de empatia. 2o Elemento: Posição esquizoparanóide
O modelo “continente-conteúdo” apare- e posição depressiva
ce com bastante freqüência e destaque ao lon-
go da maior parte da obra de Bion, em contex- Todos nós sabemos que essa é uma con-
tos distintos, e, no seu livro Atenção e interpre- cepção de Klein que, na atualidade, é aceita e
tação, existe um capítulo específico, o sétimo, utilizada por todas as correntes psicanalíticas.
intitulado “Continente e Contido” que deve ser Bion utiliza com acentuada freqüência essa
lido junto com os capítulos “O Místico e o Gru- noção kleiniana, mas concebe algumas modi-
po”, que lhe antecede, e também com o Capí- ficações na formulação original. Ele enfatizou,
tulo 12, “Continente e Contido Transformado”, por exemplo, que, indo muito além de uma evo-
levando em conta que eles se complementam. lução linear da posição esquizoparanóide
Um dos modelos que Bion utiliza em rela- (Bion, em seus textos, abreviou com a sigla PS)
ção ao tema que estamos tratando é aquele em para a posição depressiva (representada pela
que considera três tipos de modalidades da re- sigla D), ambas estão numa permanente inte-
lação continente-contido, que denomina como ração que persiste ao longo da vida, não
parasitária, comensal e simbiótica, cada uma com obstante ambas poderem sofrer sucessivas
suas características específicas, tal como apare- transformações. Por essa razão, Bion sinaliza
ce no capítulo do presente livro “A Função de a vinculação dessas duas posições com o sím-
‘Continente’ do Analista e os ‘Subcontinentes’ ”. bolo de flechas apontando simultaneamente
Bion também elaborou o fenômeno da para duas direções opostas. Bion considera que
interação do continente com o conteúdo, com a gradativa consolidação da posição depressiva
a utilização de outros modelos para muitas é o que vai permitir a formação de símbolos e,
outras situações, como nas “relações entre pen- por conseqüência, a formação da linguagem e
samento e pensador”; entre a linguagem (como do pensamento e a transição para uma posi-
continente) e o significado (como contido); e ção de “social-ismo”, isto é, conviver com as
também entre o “gênio” (o sujeito que é porta- demais pessoas com empatia, solidariedade e
dor de idéias novas) e o tradicional establish- consideração por elas.

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152 DAVID E. ZIMERMAN

3o Elemento: Vínculos de amor, um, ora de outro, o que determina com maior
ódio e conhecimento evidência o tipo de funcionamento do psiquis-
mo de cada sujeito e o das configurações vin-
Esses elementos de psicanálise adquiriram culares que se formam em grupos, em institui-
uma importância extraordinária na obra de ções e na sociedade.
Bion, visto que a noção de uma permanente Bion representa esses três vínculos com
“vincularidade” entre analista e paciente, com as iniciais inglesas L (de love, amor), H (de hate,
as vicissitudes específicas e singulares de cada ódio) e K (inicial de knowledge, conhecimen-
situação analítica em particular, determinou, to) e usa a grafia quer com sinal positivo (quan-
a meu critério, a criação de um novo paradigma do não aparece nenhum sinal), quer com sinal
na psicanálise. negativo, como, por exemplo, -K, para desig-
Indo muito além da clássica noção, pro- nar que o sujeito não quer tomar conhecimen-
fessada por Freud e Klein, da existência cons- to das verdades.
tante do conflito “amor x ódio”, Bion conce- Comentário: particularmente, venho pro-
beu a idéia de que o verdadeiro conflito resi- pondo a inclusão de um “vínculo do reconhe-
de em uma “emoção” (qualquer um dos três cimento” (Zimerman, 1999), que, a meu juízo,
tipos de vínculos mencionados) contra uma também não pode ser dissociado dos outros
“antiemoção”. Assim, partindo dessa concep- três, porque se constitui como um elemento
ção, Bion alargou a nossa compreensão acer- que está sempre presente durante a vida de
ca das múltiplas formas da normalidade e da todos nós e determina uma boa parcela do fun-
patologia do amor (L), do ódio (H) e do co- cionamento do psiquismo.
nhecimento (K) em que, sobretudo, empres-
tou uma expressiva relevância ao problema
da “verdade x não-verdade” (K x -K), ou seja, 4o Elemento: Razão e idéia
se, na situação analítica, o paciente tem amor
às verdades e as enfrenta ou se ele procura Entre os demais elementos de psicanáli-
evadi-las através de inúmeras formas defen- se, o relativo à relação entre “razão” e “idéia”
sivas, sob a égide dos mecanismos de nega- é o menos mencionado na literatura psicanalí-
ção. Neste último caso, Bion aborda com pro- tica, embora tenha uma significativa parcela
fundidade o problema das mentiras (que são de importância. Nada melhor do que o pró-
conscientes) e das diversas formas de falsifi- prio autor nos esclarecer, tal como afirma no
cação (de origem inconsciente) das verdades primeiro capítulo de Elementos de psicanálise:
penosas, as internas e as externas.
Da mesma forma, a contrapartida de L é -L Emprego a notação “R”, que se deriva da
(ou seja, o conflito entre “amor” e “menos amor”), palavra “razão”, e da “realização” que se
porém -L não deve ser entendido como equiva- admite que ela representa [...] com a fina-
lente ao vínculo do ódio, e a recíproca é verda- lidade de representar a função que se des-
deira. O mesmo vale para H x -H. tina a servir às paixões, quaisquer que se-
Mais especificamente em relação ao pro- jam, orientando-as quanto à supremacia
blema das mentiras e outras formas de falsifi- do mundo da realidade. Por “paixões”, sig-
cação das verdades, sugiro aos leitores mais nifico tudo que se inclui em L, H e K. [...]
interessados no tema os Capítulos 5 e 11 de Já a sigla “I”, oriunda da palavra “idéia” e
Atenção e interpretação. todas suas respectivas realizações, inclu-
sive as que o pensamento representa, se
As emoções que foram aludidas estão
destina a representar “objetos psicanalíti-
sempre presentes em qualquer vínculo (este cos”, compostos de elementos alfa, que,
último termo, Bion conceitua como sendo “elos por sua vez, são produtos da função alfa,
de ligação emocional que unem duas ou mais e se destinam a serem usados nos sonhos
pessoas, ou duas ou mais partes de uma mes- e em outros pensamentos. [...] A sigla R
ma pessoa”). Os vínculos permanecem indisso- se associa à sigla I na medida em que I se
ciáveis entre si, ora com a predominância de emprega para preencher o hiato entre o

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 153

impulso e sua satisfação, enquanto R as- riências”, de sorte que ele enfatiza a muito sig-
segura que ela alcance outra finalidade que nificativa diferença que existe entre o pacien-
não unicamente a de modificar a frustra- te “evadir” ou “enfrentar” a dor psíquica, esta
ção durante a espera. última se constituindo como a única via que
permite o crescimento mental do paciente.
Em seu entendimento, idéia pertence ao
plano mental que Freud denominou como Comentários: creio que seja bastante útil
“princípio da realidade” e traduz a função de para a prática clínica, em relação à dor psíqui-
pensar as experiências emocionais, de abstra- ca do paciente, a inclusão do conceito que di-
ção e de criação, enquanto razão alude a um ferencia a quantidade do estímulo da frustra-
controle sobre as paixões – que, em boa parte, ção dolorosa da intensidade da reação de dor
são oriundas do “princípio do prazer” – a fim que esse estímulo provoca, visto que muitas
de adaptá-las à realidade. vezes há uma grande desproporção entre
ambas. Por exemplo, se eu pincelar poucas
gotas de tintura de iodo numa pele sadia, o
5o Elemento: A dor psíquica sujeito não vai sentir nada, mas vai urrar de
dor, numa intensidade muito desproporcional
Esse elemento psicanalítico mereceu uma à mesma quantidade, se o pincelamento de
especial relevância por parte de Bion, porque iodo for feito sobre uma ferida aberta.
toda mudança no psiquismo do paciente (e, Para os leitores que desejam conhecer mais
de certa forma, no do analista), durante o pro- detalhadamente as concepções que Bion tece
cesso analítico, vem acompanhada de alguma em relação ao elemento da dor psíquica, sugiro
forma e grau de sofrimento. Esse tipo de dor a leitura do Capítulo 2, “A Medicina Como Mo-
que o paciente sofre é denominado por Bion, delo”, do livro Atenção e interpretação.
no original inglês, como suffering, para dife-
renciar do termo pain, o qual designa mais pre-
cisamente uma dor que surge por outras ra- 6o Elemento: Transformações
zões que não aquelas que estejam diretamente
ligadas às transformações bem-sucedidas, do Esse elemento da psicanálise adquire tal
ponto de vista psicanalítico. importância na obra de Bion que um dos seus
A forma mais dolorosa do suffering, ou mais importantes livros (ainda que de leitura
seja, aquela condição em que, mais do que “sen- muito difícil) leva por título As transformações:
tir” a dor, é necessário “sofrê-la”, é aquela que a mudança do aprender para o crescer. O termo
Bion denomina como “mudança catastrófica”, “transformação”, por si só, já esclarece que todo
em cujo caso o paciente tem uma sensação processo analítico consiste numa sucessão de
muito forte de que está pior, que está a ponto contínuas transformações na mente do pacien-
de psicotizar, comumente entra num estado de te, na do analista e na configuração do curso
confusão, depressão, regressão e sentimentos da análise. A concepção da grade criada por
equivalentes. Nesses casos, o analista deve pos- Bion visa fundamentalmente a fazer um regis-
suir uma boa capacidade de continência e de tro gráfico das transformações que se proces-
paciência, tendo em vista que esse período, sam tanto na evolução dos diversos estágios
muito penoso, pode estar prenunciando o iní- da capacidade de pensar (o eixo vertical da gra-
cio de mudanças psíquicas muito significati- de) como na forma de utilização de cada uma
vas, como, por exemplo, a passagem de um dessas etapas (o eixo horizontal).
estado de PS (posição esquizoparanóide) para Além de múltiplos vértices de abordagem
D (posição depressiva), ou uma gradual renún- do fenômeno da transformação, cabe enfatizar
cia ao mundo das ilusões narcisistas, etc. aqueles que se referem diretamente à prática
Bion também pontua que o elemento dor clínica, ao campo analítico, com a recíproca
é inerente ao essencial princípio que postulou vincularidade do par analítico. Dentre muitos
como sendo o do “aprendizagem com as expe- outros aspectos, vale mencionar os seguintes:

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154 DAVID E. ZIMERMAN

a forma de K (o conhecimento manifesto) ir comprar sorvete”, depois, “não há mais sorve-


gradativamente se transformando em direção te”, “não existe sorvete” e, como transforma-
a O, isto é, à origem dos fatos psíquicos que, ção final, só lhe restava “gritar” (em inglês, to
inspirado no filósofo Kant, Bion chama de “coi- scream), de sorte que a transformação foi a
sa em si mesmo” (ou “incognoscível”, “realida- gradativa sucessão de um ice-cream para um
de última”, etc.), que, de forma absoluta, ja- doloroso I scream, ou seja, ele, por meio de
mais será atingida. Reciprocamente, existe uma uma série de sinais e sintomas, gritava para
transformação em sentido contrário, ou seja, que lhe nutrissem com um leite bom.
partindo de O em direção a K.
Ademais, Bion convencionou denominar
alfa e beta elementos que, de forma abstrata, 7o Elemento: Narcisismo e social-ismo
estariam ocupando a mente do paciente, de
modo que uma das transformações que postu-
la como sendo de máxima relevância é a de Bion, deliberadamente, escreveu este últi-
elementos beta (são os “protopensamentos”, mo termo com um hífen separador, para deixar
cujo destino é serem evacuados) em elemen- claro que ele não tem a mínima conotação com
tos alfa (que permitem a função alfa, logo, a qualquer coisa que lembre um partido ou uma
serviço da elaboração de sonhos, da capacida- ideologia política. O que de fato importa é que
de para pensar, etc.). Essa transformação é tão esse elemento de psicanálise designa que, no
importante que chega a ser considerada uma curso da análise, o paciente deve transitar de
verdadeira “alfa-betização” emocional. um possível estado mental de narcisismo exces-
Outras manifestações na prática da situa- sivo, como está predominantemente presente
ção analítica podem ser sintetizadas nestas afir- na “parte psicótica da personalidade”, sob as for-
mativas de Bion, que aparecem em textos dis- mas de onipotência, onisciência, prepotência,
tintos: “há um ponto em que a mudança quan- confusão entre o que é real e o que é imaginá-
titativa se transforma em mudança qualitati- rio, etc., para um estado de “social-ismo”.
va.” “Certas mudanças são muito dolorosas, O termo “social-ismo” alude a uma con-
porém é o preço que se paga para as transfor- dição em que o paciente, se conseguiu sair de
mações de uma atividade sobre psicanálise, uma predominância da “posição esquizopa-
numa atividade que é psicanálise.” “Todas as ranóide” e tiver passado exitosamente pela “po-
transformações estão associadas a um vértice sição depressiva”, terá adquirido e desenvolvi-
particular.” “A formulação de uma interpreta- do capacidades para relacionar-se com as de-
ção é o produto final de uma transformação mais pessoas de uma forma em que prevaleça
que se passa no psiquismo do analista”. uma atitude interna de reparação, respeito,
Uma vinheta clínica de Bion, particular- consideração, preocupação, empatia e solida-
mente, me causou um grande impacto quanto riedade (o “solidário” substitui o lugar antes
à compreensão e relevância do fenômeno das ocupado pelo “solitário”). Igualmente, a pre-
transformações que, ao longo do tempo, po- dominância da posição depressiva possibilita-
dem ir se processando na mente de uma pes- rá a junção de aspectos opostos, assim desen-
soa, tal como descrito no Capítulo 2 de Aten- volvendo a capacidade de formação de símbo-
ção e interpretação. Nessa vinheta, Bion de- los e, como decorrência, a formação do pensa-
monstra como um paciente seu, partindo da mento criativo, de uma sadia curiosidade pelo
posição de que desejava um ice-cream (sorve- conhecimento e de um desenvolvimento da lin-
te, que pode representar o leite materno), após guagem verbal.
sofrer sucessivas decepções, foi paralelamente Os aspectos que foram mencionados,
fazendo sucessivas transformações cada vez como ingredientes desse elemento da psica-
mais pessimistas, do tipo: “não posso nem com- nálise que refere a passagem de narcisismo
prar sorvete”, seguida de “é tarde demais para para social-ismo, são de uma tal relevância,

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 155

que, não obstante este ser um processo alta- várias combinações, cada um deles sofre con-
mente doloroso, ele se constitui como um dos tinuadas transformações e também se mani-
critérios de avaliação do “crescimento men- festa através de formas derivadas e diversifi-
tal” do paciente. cadas. Em que pese o fato de que existem es-
É desnecessário dizer que os referidos sete sas restrições, não resta dúvida que essa con-
elementos da psicanálise não são estanques, tribuição de Bion relativa aos elementos da psi-
de modo que, além de, em alguma forma, es- canálise representa um grande avanço na sim-
tarem sempre presentes conjuntamente e em plificação teórica e na prática clínica.

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156 DAVID E. ZIMERMAN

13
Uma Teoria do Conhecimento

A experiência da prática psicanalítica dei- dominar, em que o conhecimento seria um


xou claro para Bion que os pensamentos são meio de controlar a ansiedade. Dessa forma,
indissociáveis das emoções e que, da mesma ela estudou a curiosidade inata da criança, uti-
forma, é imprescindível que haja na mente uma lizada para conhecer o mistério do interior do
função vinculadora que dê sentido e significa- corpo da mãe (1921), e a relacionou com as
do às experiências emocionais. funções intelectuais (1931). É interessante re-
Esse vínculo entre os pensamentos e as gistrar que a palavra “mistério” (my-sterion),
emoções – sempre presentes em qualquer re- como assinala de la Puente (1992, p. 344), se
lação humana – foi denominado por Bion como origina do étimo grego myo, que quer dizer
vínculo K (inicial de knowledge), ou seja, o vín- fechado, e ystero, que significa “útero”. Caso
culo do conhecimento. prevaleça uma admiração pelas capacidades
Na verdade, antes dele, tanto Freud como criativas do interior materno, desenvolve-se
Klein já haviam estabelecido essa vinculação, uma progressiva e sadia capacidade epis-
sem, no entanto, terem lhe dado a dimensão e temofílica. Klein, no entanto, estabelece, com
a profundidade com que Bion desenvolveu a maior ênfase, as definidas vinculações entre
sua teoria do conhecimento. as pulsões sádicas da criança, especialmente a
Assim, Freud conectou a função do conhe- curiosidade destrutiva, dirigida ao interior do
cimento da criança com as suas pulsões libidi- corpo da mãe, os distúrbios da aprendizagem
nais escopofílicas ligadas à relação entre os (como no “caso Dick”) e os distúrbios psicóti-
pais, como está claramente ilustrado no histó- cos. A partir dessas premissas, ela ensaiou uma
rico clínico do pequeno Hans (1909). Aliás, já teoria da simbolização (1930).
em 1915 (St. Edit., v. 14), quando trata das Bion apoiou-se na concepção de uma ina-
pesquisas sexuais da infância, Freud refere-se ta “pulsão epistemofílica” descrita por Klein e,
a essas tendências como “instinto do saber ou a partir daí, estabeleceu uma série de linhas
de pesquisa”, e as liga tanto a uma maneira de desenvolvimento acerca da gênese, norma-
sublimada de obter domínio como a uma for- lidade e patologia do conhecimento, que, aqui,
ma de utilizar a energia ligada à curiosidade serão abordadas nos seguintes subtítulos: “Ori-
em torno da sexualidade, especialmente a que gem do Conhecimento”; “Vínculos K e -K”; “For-
se relaciona ao enigma da origem dos bebês. mação de Símbolos”; “Natureza e Utilização
Klein, por sua vez, correlacionou a “pulsão do Conhecimento”; “Mitos”; “Patologia do Co-
de saber” com a pulsão sádica de controlar e nhecimento (-K)”; “Situação Psicanalítica”.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 157

ORIGEM DO CONHECIMENTO 1. o modelo da mãe real quanto à for-


ma como esta utiliza o seu próprio
Bion concebeu a formação do conhecimen- pensar e conhecer e quanto a forma
to de uma forma indissociada da formação dos como contém as angústias do filho;
pensamentos, sendo que ambas se originam, 2. a capacidade da criança quanto à
inicialmente, como uma reação à experiência formação de símbolos, que depen-
emocional primitiva decorrente da ausência do de diretamente do ingresso na posi-
objeto. ção depressiva;
Para Bion, “conhecer” é uma meta defini- 3. o terceiro fator consiste naquilo que
da, porém é uma parte do “pensar”, o qual é Bion estudou acerca do “desejo de
bem mais amplo. O melhor exemplo é o da in- conhecer a respeito dos conteúdos
cógnita, a qual não pode ser conhecida, mas mentais”, como estando intimamen-
pode ser pensada. O conhecimento progride te conectado com as emoções de
em função do pensamento, porquanto, para amor e de ódio.
Bion, “a incógnita é desconhecida e, como tal,
faz pensar e criar”. Da combinação desses três fatores resul-
O eixo central na formação do conheci- tam três possibilidades, como veremos mais
mento, da mesma forma que na do pensamen- adiante: a de que se forme a função de vínculo
to, é a maior ou menor capacidade da criança K; a de que se forme um vínculo -K e a de que
em tolerar as frustrações decorrentes das pri- resulte um “não-K”.
vações. Assim, a criança tanto pode fugir des-
sas frustrações, criando mecanismos que evi-
tem conhecê-las (ela evita o problema, mas não VÍNCULOS K E -K
evita a angústia e impede a solução), como
pode aprender a modificar a realidade, atra- Vimos que a descrição do vínculo emo-
vés da atividade do pensar e do conhecer. cional entre a mãe e o bebê somente em ter-
Os incipientes problemas que o ego da mos de amor (L, de love) e de ódio (H, de hate)
criança não quer conhecer e que, por isso, a le- não era suficiente. Precisávamos ter um ter-
varam a formar estruturas falsas e mentirosas ceiro tipo de vínculo emocional, que era o de-
se referem a conflitos de pares contraditórios: sejo da mãe em compreender o seu bebê (K,
ela ama os objetos proibidos e odeia os ama- de knowledge).
dos; tem uma absoluta dependência da mãe, O termo “vínculo” designa uma experiên-
porém a odeia, e sente inveja de quem lhe aju- cia emocional pela qual duas pessoas, ou duas
da; necessita de amparo e de limites, mas desa- partes de uma mesma pessoa (consciente e in-
fia com ódio os mandatos e proibições. consciente; id e superego; parte psicótica e
A frustração da expectativa de uma pre- parte não-psicótica da personalidade, etc.),
concepção, ou seja, a “realização negativa”, leva estão relacionadas uma com a outra.
à formação do pensamento (caso o ódio não O desdobramento do vínculo K foi con-
tenha sido excessivo), enquanto a “realização ceituado por Bion como sendo aquele que exis-
positiva” da preconcepção leva à formação da te entre um sujeito que busca conhecer um ob-
concepção. As concepções encontram um de- jeto (pode ser ele próprio ou alguém de fora) e
nominador comum nos conceitos, os quais po- um objeto que se presta a ser conhecido. Re-
dem adquirir uma dimensão de generalização e presenta também, portanto, um indivíduo que
de abstração, propiciando a formação de um busca conhecer a verdade acerca de si mesmo.
vocabulário e de uma linguagem verbal. Em muitos textos de língua latina, os vín-
Esse desenvolvimento cognitivo será mais culos de amor estão representados pela inicial
ou menos exitoso, dependendo diretamente “A”; os de ódio, pela letra “O”; e os de conheci-
de no mínimo três fatores intimamente con- mento, pela letra “C” ou pela letra “S”, de sa-
gregados: ber. Não obstante isso, eu preferi conservar a

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158 DAVID E. ZIMERMAN

nomenclatura no idioma original de Bion: L, a um esvaziamento progressivo das


H, K. Esses três vínculos estão intimamente capacidades do ego de perceber,
indissociados entre si e dependem diretamen- pensar e conhecer, como se fragmen-
te tanto da disposição heredoconstitucional de tam em múltiplos pedaços menores
cada criança (maior ou menor inveja, avidez, que são expulsos no ambiente exte-
etc.) como, e principalmente, da capacidade rior sob a forma do que Bion deno-
de rêverie da mãe. Da correlação desses dois mina “objetos (ou fragmentos) bi-
fatores, surgem três possibilidades. zarros”, os quais o ameaçam de for-
ma persecutória e se manifestam sob
1. Se a capacidade de rêverie da mãe a forma de delírios ou de alucina-
for adequada e suficiente, a criança ções. Esta última hipótese é proto-
terá condições de fazer uma apren- típica das psicoses.
dizagem com as experiências das
realizações positivas e negativas Bion ilustra essas três possibilidades com
impostas pelas privações e frustra- o exemplo de uma criança que projeta em sua
ções. Nesse caso, desenvolve uma mãe o seu medo de morrer.
função K, que possibilita enfrentar Nos casos em que não se desenvolve a
novos desafios em um círculo bené- função K, essa será substituída pela onipotên-
fico de aprender com as experiên- cia e onisciência arrogantes, por uma curiosi-
cias, à medida que introjeta a fun- dade intrusiva e sádica, por uma estupidez (no
ção K da mãe. duplo sentido: como uma obstrução da inteli-
2. Caso contrário, se a capacidade de gência e como uma atitude agressiva) e pela
rêverie da mãe para conter a angús- formação de um “super” superego. A partir des-
tia da criança for insuficiente, as pro- te último, que o sujeito com -K cria e impõe
jeções que tenta depositar na mãe aos outros a sua própria moral e ética, ditando
são obrigadas a retornar a ela sob a as leis, partindo da crença de que tudo sabe,
forma de um “terror sem nome”, o tudo pode, tudo controla e tudo condena. Em
qual gera mais angústia e mais ódio, nome dessa falsa moral, são desfechados ata-
que não consegue ser depositado em ques contra a busca da verdade.
um continente acolhedor e, assim, É importante enfatizar que há uma dis-
retorna à própria criança, estabele- tinção entre uma aquisição cumulativa de co-
cendo-se um círculo vicioso malig- nhecimentos e a obtenção de um estado men-
no que impede a introjeção de uma tal de sabedoria, em que os conhecimentos fo-
função K. ram adquiridos mesclados com experiências
3. Assim, em vez de K, forma-se um emocionais e servem para ser pensados, ela-
vínculo -K (a mãe é predominante- borados e correlacionados com os fatos da
mente reintrojetada pela criança vida, privilegiando a condição de ser uma
como uma pessoa que a despoja in- pessoa verdadeira, e valorizando, sobretudo,
vejosamente dos seus elementos va- a essência no lugar da aparência, a qual pre-
liosos e a obriga a ficar com os maus) domina nos casos de -K. Esse meu comentá-
ou um “não-K” (nos casos mais ex- rio está concordante com a linha de pensa-
tremos, em que a mãe externa não mento de Bion (1992b, p. 169), pois ele afir-
contém e não dá significado, senti- ma: “De forma geral, preocupamo-nos mais
do e nome às identificações proje- em adquirir esperteza; somos espertos, mas
tivas do bebê). Esse bebê, em deses- não temos sabedoria”.
pero progressivo, apela para um uso Também cabe esclarecer que a função K
cada vez mais continuado e de for- não se refere à posse de um conhecimento ou
ça crescente das identificações saber, mas sim a um enfrentamento do “não-
projetivas, as quais conduzem tanto saber”, de modo que o saber resulte da difícil

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 159

tarefa do descobrimento e do aprendizado com Acontece que o “com” em português mui-


as experiências da vida, as boas e, principal- tas vezes perde o “m” e fica “co”: coopera-
mente, as más. ção, colaboração. O “b” do grego, passan-
Igualmente, é útil sublinhar que -K não do para o latim e para o português, vira
“p”. Nós temos, por exemplo, em italiano,
significa ausência de conhecimento, senão um
cópola, e em português, cópula. Esta é uma
processo ativo que visa a privar de significado
tradução simbólica da palavra símbolo:
uma relação, como pode ser a do vínculo ana- símbolo é cópula. E a gramática o confir-
lítico. ma, pois a conjunção “e” também é cha-
mada de “copulativa” .
FORMAÇÃO DE SÍMBOLOS
A capacidade de formar símbolos depen-
A função do conhecimento está intima- de, portanto, da capacidade do ego de supor-
mente ligada à da formação de símbolos, por- tar perdas e substituí-las por símbolos. A ca-
quanto são esses que permitem uma evolução pacidade da criança de suportar perdas, por
da criança à condição de poder conceituar, ge- sua vez, depende do fato de ter havido a pas-
neralizar e abstrair, assim expandindo o seu sagem da posição esquizoparanóide para a po-
pensar e o seu conhecer. Além disso, todos os sição depressiva, tal como a conhecemos da
novos conhecimentos são, na verdade, para teoria kleiniana. Se essa passagem não se pro-
Bion, um reconhecimento de verdades e de cessou exitosamente, o indivíduo não tolera
fatos preexistentes e são os símbolos que per- perdas, portanto não forma símbolos, e os tro-
mitem que um todo seja reconhecido nas par- ca por “equações simbólicas”, que são próprias
tes fragmentadas e dispersas, e que, a partir dos estados psicóticos, e nas quais o símbolo
de um todo, se venham a descobrir as partes. é confundido com o simbolizado, isto é, o “pa-
Conforme afirma Bion (1992b, p. 202), “para rece que é” torna-se algo concreto, o que “de
a formação de símbolo são necessários dois fato é”.
para a formação de um terceiro, para benefí- Bion foi além de Klein quando, ao estu-
cio dos três, e isso é propiciado pela função K”. dar os processos criativos inerentes aos do co-
Dito de outra forma, o símbolo é a unida- nhecimento, discordou da crença geralmente
de perdida e refeita, porém esse reencontro aceita de que a criatividade seja um movimen-
unificador não deve se dar nos moldes origi- to progressivo da posição esquizoparanóide
nais (do tipo de uma regressão a uma unidade para a depressiva, sendo que esta última é que
simbiótica fusional mãe-filho), mas sim no re- possibilitaria uma capacidade de síntese e de
encontro de um mesmo com um diferente, vis- reformulação de um novo conjunto de idéias,
to que, na situação psicanalítica, simbolizar valores e posições. Para Bion, antes de ser um
consiste em captar o sentido em um outro ní- movimento progressivo unidirecional, o pro-
vel, a partir de um outro vértice. cesso criativo consiste em um movimento al-
Tudo isso que foi conceituado como sím- ternativo, para lá e para cá, entre as duas refe-
bolo está de acordo com a sua etimologia, a ridas posições, processo que ele representou
qual mostra que a origem do termo vem de pelo símbolo PS  D. É útil lembrar que o in-
symbolon, que, na antiga Grécia, designava o gresso na posição depressiva está intimamen-
reencontro de duas partes que pertenciam a te ligado à capacidade de sentir gratidão pelo
uma mesma unidade e que foram separadas outro, de sorte que, tal como, de uma forma
(Laplanche e Pontalis, 1967, p. 630). Aliás, é muito feliz, nos mostra Muniz de Rezende, o
muito interessante citar a correlação entre os desenvolvimento sadio da capacidade de pen-
termos “símbolo” e “cópula”, tal como aparece
sar (denken, no original alemão) decorre dire-
em Rezende (1993, p. 69), no belo trecho que
tamente do reconhecimento e da gratidão
segue transcrito:
(danken).
“Syn”, em grego, é, em latim, a preposi- Como conclusão, pode-se dizer que é uni-
ção “cum”, que é o “com” em português. camente através da restauração dos vínculos

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160 DAVID E. ZIMERMAN

afetivos que se torna possível a obtenção dos A propósito, creio ser útil transcrever um
vínculos simbólicos. resumo muito interessante do trabalho de de
la Puente (1992, p. 341), no qual ele assinala
que os significados da palavra “conhecimen-
NATUREZA E UTILIZAÇÃO to” estão contidos em sua etimologia derivada
DO CONHECIMENTO do termo latino cognoscere, o qual, por sua vez,
é composto por três étimos: co (junto com) mais
A função “conhecer” (ou “saber”) é, pois, g, raiz do verbo gignomai (gerar), e noscere (en-
uma atividade pela qual o indivíduo chega a tender). É particularmente interessante o ra-
ficar consciente da experiência emocional, tira dical g do verbo gignomai (gerar, vir a ser, nas-
dela uma aprendizagem e consegue abstrair cer), pois ele dá origem a ge (terra), a gei (ge-
uma conceituação e uma formulação dessa nética) e a gig (ter relações sexuais). Deste úl-
experiência. timo significado se depreende por que a Bíblia
Esse processo, advindo originalmente de utiliza o eufemismo “fulano conheceu beltrana”
uma pulsão epistemofílica ao conhecimento das para se referir às relações sexuais. Da mesma
verdades, realiza-se em diferentes planos, como forma, prossegue de la Puente,
o indivíduo conhecer a si mesmo (a sua ori-
gem, o seu corpo, a sua identidade...); conhe- a palavra francesa connaitre, de naitre, nas-
cer os outros e os seus vínculos com os grupos; cer, enfatiza o significado gerador de
os vínculos dos grupos entre si e com a socie- gignomai, gerar... O termo gnosis é um en-
dade, nos três planos: o intrapessoal (entre as tendimento gerado. O contrário de Conhe-
cimento é a Alucinose (hallos + gnose), já
diversas partes, dentro do indivíduo); o inter-
que hallos significa “outro”, “falso”, “não-
pessoal (com outras pessoas do mundo exte- real”).
rior) e o transpessoal (extrapola as individua-
lidades e abarca as nações, a cultura, etc.).
Admitindo-se que a etimologia, muito
Em todos os casos, há uma inter-relação
mais do que um exercício curioso da formação
entre o conhecimento e a verdade, e desta com
das palavras, representa, de certa maneira, a
a liberdade, de modo que o conhecer (K) ou o
sabedoria de um inconsciente coletivo, pode-
não-conhecer (-K) é equivalente ao “ser ou não
se dizer que essa etimologia de “conhecer” alu-
ser” (como em Hamlet, de Shakespeare), ou
de a uma curiosidade primitiva relativa ao mis-
seja, é um determinante fundamental do sen-
tério do nascimento e da relação entre os pais
so de identidade de um indivíduo nos planos
de cada um. Esse exemplo pode, portanto, ser
individual, social e grupal. Na atualidade, coe-
considerado uma universal “preconcepção
rente com o “princípio da negatividade”, seria
edípica”, e, nesse caso, a etimologia tem a mes-
mais adequado se a frase de Hamlet fosse trans-
ma função que a das narrativas dos mitos.
formada em “ser e não ser”.
Por outro lado, a partir da curiosidade do
bebê a respeito do corpo da mãe e do seu pró- MITOS
prio, a permanente busca e a importância da
utilização da pulsão de “conhecer as verdades” Vimos como Bion gostava de utilizar o mo-
expandiram-se para todos os campos da ativi- delo dos mitos, porque representam uma
dade humana, como o científico, o religioso, o intersecção entre o imaginário e o real, o concre-
filosófico (a etimologia de “filosofia” mostra to e o abstrato, e, da mesma forma, entre o co-
um apego – filo – às verdades – sophos; o con- nhecer e o não conhecer as verdades originais.
trário disso é uma fobosofia, ou seja, um hor- Em seus primeiros estudos relativos ao
ror – phobos – às verdades – sophos), o estético conhecimento, ele utilizou os mitos de Édipo,
(como atesta a passagem literária do “ser ou do Éden e da Torre de Babel, e mais tarde, em
não ser” da crise existencial de Hamlet) e, na- sua obra, acrescentou as narrativas míticas das
turalmente, o campo psicanalítico. mortes de Palinuro e do Rei de Ur.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 161

Partindo, portanto, do fato de que a pro- vem, a exemplo dos cortesãos, ao suicídio? Que
dução imaginária coletiva que está contida no forças teriam levado os saqueadores a profanar
mito equivale à fantasia inconsciente como o que era sagrado?”.
uma produção individual, ele estudou os mi-
O Mito da Morte de Palinuro: esse perso-
tos anteriormente referidos à luz dos vínculos
nagem era piloto do navio de Enéias, que apa-
L, H, K (1970).
rece no Livro V de Eneida, de Virgílio. Por deci-
Mito de Édipo: diferentemente de Freud, são de Vênus, ele foi tomado pelo deus do sono
que estudou esse mito sob o enfoque pulsional, enquanto pilotava, sozinho, o navio e, por isso,
Bion o fez sob o enfoque do conhecimento. Des- não pôde evitar que um movimento brusco o
sa forma, entendeu que, em relação ao seu mito atirasse no mar, morrendo afogado sem que
edípico privado, Édipo pagou um alto preço ninguém ouvisse seus gritos. Nos detalhes dessa
por querer, com uma curiosidade arrogante, narrativa, como nas anteriores, também encon-
conhecer a verdade proibida pelos deuses tramos a presença de desafio e deuses, casti-
(pais). Bion aprofundou esse vértice cognitivo gos, etc. Bion utilizava esse mito (1973, p. 39)
do mito de Édipo à luz da categorização na para mostrar que o psicanalista e, logo, o pa-
grade (1971), tal como resumimos no Capítu- ciente correm sérios riscos ao pilotarem uma
lo 11. embarcação em uma viagem analítica por
Mito do Éden: no Gênesis (1,17), Deus águas turbulentas e traiçoeiras que levam ao
adverte Adão: “[...] Porém, da árvore da Ciên- porto da verdade.
cia do Bem e do Mal não comerás, porque o É claro que todas essas narrativas míticas,
dia que a comeres, morrerás”. Da mesma for- mesmo que só relacionadas ao conhecimento,
ma que com Édipo, Bion assinala a mesma cu- comportam diferentes entendimentos, de acor-
riosidade arrogante, severamente punida por do com o vértice utilizado, segundo o próprio
Deus, porque a sua proibição de conhecer foi Bion nos ensinou. Assim, para exemplificar
desobedecida pelo seu casal de “filhos”. unicamente com o mito edípico, creio ser viá-
Mito da Torre de Babel: também nesse vel a hipótese interpretativa de que a cegueira
mito, a curiosidade ligada à arrogância em che- que Édipo se auto-impôs, mais do que um sim-
gar perto e conhecer a intimidade de Deus (che- ples castigo, pode representar uma “cegueira
gar ao céu, à morada de Deus) foi punida com artificial” para poder ver melhor, tal como apa-
a destruição da capacidade de comunicação rece na posterior sabedoria dele, tal como
através de uma confusão de línguas. transparece em Édipo em Colona.
O Mito dos Funerais do Rei de Ur: contado
sob a forma de narrativa histórica, mostra-nos PATOLOGIA DO CONHECIMENTO (-K)
que o rei foi sepultado coletivamente com os
demais membros da corte, por desejo destes, e Os mitos universais citados por Bion dei-
juntamente com todo um tesouro. Bion utili- xam claro o quão dolorosa é a busca do conhe-
zou esse mito para enaltecer os saqueadores do cimento também nos mitos individuais de cada
cemitério real, os quais, aproximadamente 500 pessoa. Por essa razão, forma-se, em graus
anos após o funeral, que teria ocorrido por vol- muito variáveis de um indivíduo para outro,
ta de 3.500 anos antes de Cristo, tiveram a au- uma tendência a evitar o sofrimento que acom-
dácia de profanar a tumba sagrada e, assim, en- panha a pulsão epistemofílica. Como vimos
frentar as proibições e os tabus. Da mesma for- antes, Bion denominou o desvirtuamento do
ma, comparava Bion, também o paciente, em vínculo K como “menos K” (-K), ou, como ocor-
uma tarefa comum com o seu analista, deve ter re no caso das psicoses, “não-K”.
a coragem de profanar o santuário sagrado do Simplificando, pode-se dizer que o -K serve
seu inconsciente e assim conhecer seus mistéri- ou para evitar a dor das verdades intoleráveis,
os. Além disso, esse mito propicia a Bion que ou para não enfrentar o medo do desconhecido,
nos faça perguntas instigantes: “Que forças mo- ou para não transgredir as proibições, etc.

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162 DAVID E. ZIMERMAN

Nesses casos, em que o ego não quer co- Assim, pode-se depreender que, entre
nhecer, ele constrói estruturas falsas, substitui outros aspectos, Bion destaca os descritos a
a busca de K por uma onisciência, onipotência seguir.
e prepotência (“pré-potência”), substitui o
enfoque científico, e culturalmente aceito, pelo – É necessário que haja atitude mental
de uma “moral” de seu “super” superego, que de “descobrimento” do paciente e,
está acima de todos, não desenvolve a capaci- obviamente, do analista.
dade de discriminação entre verdades, falsida- – O psicanalista deve evitar a saturação
des e mentiras e cria uma hipertrofia dos me- da sua mente por “memória, desejo e
canismos defensivos ligados à negação, como necessidade de compreensão imedia-
aparece com nitidez nas situações da prática ta”, para que a abolição parcial da
psicanalítica. sensorialidade dê lugar à intuição.
– Tanto o analista como o paciente têm
os seus próprios “vértices” de obser-
SITUAÇÃO PSICANALÍTICA vação dos fenômenos psíquicos que es-
tão ocorrendo. Cabe ao psicanalista
O objeto de conhecimento de uma deter- propiciar ao paciente vértices alterna-
minada situação na psicanálise clínica foi de- tivos, que lhe estimulem novas inda-
nominado por Bion com o termo “objeto psi- gações.
canalítico” (não é o mesmo que o significado – Em meio a um possível caos associa-
corrente, em psicanálise, do termo “objeto”) e tivo, é importante a descoberta do “fato
alude ao descobrimento da realidade psíquica selecionado” que permite dar alguma
do próprio indivíduo e, por extensão, também ordem e coerência aos conhecimentos
a de outra pessoa ou da ligação entre ambos. que ainda estão dispersos, sem forma
A palavra “descobrimento” confirma que e sem nome. Da mesma forma, é uma
o acesso à realidade psíquica consiste em uma imposição técnica que o psicanalista
retirada (“des”) das “cobertas” que camuflam possa discriminar entre o que é verda-
as verdades preexistentes. De fato, Bion in- de, falsificação ou mentira.
sistia na afirmação de que a realidade origi- – É de absoluta importância que se te-
nal causadora da ansiedade não tem cor, chei- nha bem clara a diferença que há en-
ro, peso, etc., manifestando-se unicamente por tre o paciente querer conhecer a ver-
fragmentos dessa verdade incognoscível, atra- dade e pretender ter uma possessão
vés dos efeitos corporais ou verbais, tais como absoluta da sua verdade. No primei-
transparecem na clínica. Bion fundamentou ro caso, o indivíduo chega ao conhe-
essa posição tomando emprestada do filósofo cimento através de um enfrentamen-
Kant a concepção de “realidade última” (tam- to doloroso, e a aquisição da verdade
bém mencionada como “O”, “coisa em si mes- lhe estimula novas descobertas; no se-
mo” ou “verdade absoluta”), a qual designa gundo, ele a utiliza a serviço de -K.
que a verdadeira origem dos fatos é desco- Esses aspectos têm uma decisiva im-
nhecida e nunca chegará a ser totalmente co- portância em relação tanto ao tipo e
nhecida. ao destino das interpretações e dos
A tarefa do par psicanalista-analisando é insights como a algumas resistências
chegar o mais próximo possível dessa “reali- que podem se manifestar no curso da
dade última”, e, para tal “des-velamento” (quer análise.
dizer: a retirada [“des”] dos “véus”), Bion faz – Entre essas resistências, Bion destaca
uma série de conceituações originais, que aqui particularmente a forma que ele de-
serão abordadas muito esquematicamente, nominou como “reversão da perspec-
uma vez que serão enfocadas mais apro- tiva”, através da qual o paciente
fundadamente na terceira parte deste livro. desvitaliza as interpretações do psica-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 163

nalista, porquanto ele as reverte para “denegação”; no original, Freud a


suas próprias perspectivas prévias. chamou de verneunung), até chegar
Uma outra forma importante de resis- à for (a) clusão (ou “recusa”; no ori-
tência ao conhecimento das verdades ginal, verwerfung), própria dos
intoleráveis consiste em um “ataque psicóticos.
aos vínculos perceptivos” dele próprio A última constitui uma forma extre-
e de seu analista. Igualmente são for- ma de negação e equivale em tudo
mas de resistência os distintos modos a -K, sendo que o termo e a concei-
de negação (graus e formas de -K) e o tuação de “for(a)clusão” foram res-
uso de uma linguagem em que preva- gatados por Lacan, a partir de uma
leça confusão e ambigüidade. releitura dos textos de Freud Neuro-
se e psicose (1924) e Divisão do ego
Mais do que a simples resolução de con- nos processos de defesa (1938).
flitos, a psicanálise deve visar ao crescimento 2. É difícil entender, pelo menos para
mental do paciente, e, para tanto, é primor- mim, por que, entre as diversas nar-
dial o desenvolvimento da capacidade que Bion rativas míticas que Bion utilizou
denomina como “função psicanalítica da per- como modelo da patologia -K, ele não
sonalidade”, de origem inata, que alude a uma tenha incluído o Mito de Narciso,
nunca acabada busca das verdades, indepen- que, além de ser conhecidíssimo em
dentemente do fato de a análise formal ainda psicanálise, por causa de Freud, se
prosseguir ou já ter sido concluída. encaixaria como uma luva em suas
considerações. Não custa lembrar
que, em Metamorfosis, de Ovídio, o
Comentários cego Tirésias profetizara que Narci-
so morreria se viesse a conhecer-se.
Ninguém duvida que os trabalhos de Bion 3. Também causa uma certa estranhe-
sobre a origem, a normalidade e a patologia za que Bion nunca tenha feito a me-
do vínculo K representaram um significativo nor referência aos importantes tra-
acréscimo à psicanálise, notadamente por balhos de Piaget acerca do desen-
atribuirem uma valorização importante às for- volvimento cognitivo, embora os
mas clínicas pelas quais o paciente busca ou estudos desse epistemólogo suíço já
evita os conhecimentos, como os utiliza e co- fossem bem conhecidos na época.
munica. 4. A ênfase que Bion deu, em seus es-
Isso me estimula a fazer alguns comentá- critos, à forma arrogante da curiosi-
rios críticos. dade pode provocar uma subes-
timação do valor altamente estrutu-
1. Quando estudou os pensamentos, rante da curiosidade natural e sadia,
Bion citou exaustivamente Freud, que nem sempre é bem entendida e
principalmente Dois princípios..., valorizada pelos educadores do am-
porém ele não fez o mesmo com re- biente externo real.
ferência aos distúrbios do conheci- 5. Este último aspecto – a violenta re-
mento, embora já fossem suficien- pressão parental (deuses) contra a
temente conhecidos os trabalhos de ânsia por novos conhecimentos por
Freud acerca das várias modalida- parte dos filhos – está claramente
des de negação que o ego pode uti- expresso nos mitos utilizados por
lizar, desde a supressão, passando Bion.
pela repressão dos neuróticos, e
pela renegação dos perversos (tam- No entanto, dois pontos merecem ser in-
bém conhecida por “desmentida”, dagados. O primeiro é que, nesses relatos

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164 DAVID E. ZIMERMAN

míticos, a tônica da violência dos deuses é qua- mencionados, ainda que bem mais civilizados.
se sempre uma réplica vingativa contra algu- Esse estudo de Bion acerca da oposição do
ma forma de transgressão cometida, ou seja, establishment contra o místico (que em outros
seria uma espécie de uma justiça rigorosa, po- momentos ele denomina “gênio” ou “herói”)
rém uma justiça contra o curioso “arrogante”. permite que se abra um leque de outros vérti-
Sabemos que nem sempre é assim, e que não é ces, além do mítico, de observação desse im-
incomum que a repressão, as ameaças e as vi- portante fenômeno.
olências sejam provindas de educadores, pais Para ilustrar isso com um único exemplo,
ou mestres que, às vezes, de uma forma vale lembrar as violentas perseguições, por par-
acintosa, porém de maneira geralmente sutil e te do establishment científico da época, a que
camuflada, cometem uma repressão injusta, foram submetidos tanto Copérnico como, mui-
movidos que são pelos seus inconscientes sen- to tempo depois, Giordano Bruno, pelo “cri-
timentos de medo, inveja, etc. me” de terem desafiado a concepção ptolo-
É claro que podemos entender essa vio- maica de que a Terra era o centro do universo
lência cotidiana (diferente da necessária colo- e tido a “afrontosa ousadia” de propor uma
cação de limites que pais diligentes têm de im- idéia totalmente contrária à vigente, pois, com
por aos filhos para educá-los) a partir de um isso, representavam uma terrível ameaça ao
vértice transgeracional, ou seja, o das sucessi- narcisismo humano.
vas identificações projetivas e introjetivas que Nada disso, no entanto, nem de leve em-
se transmitem de uma geração para a outra. pana o maior mérito de Bion, que consiste em
Destaquei esse aspecto das culpas inde- ter dado, assim como Freud já o fizera em con-
vidas impostas de fora para dentro porque ele textos diferentes, uma extraordinária impor-
adquire uma forte importância clínica se levar- tância à verdade como um vital alimento psí-
mos em conta o sem-número de vezes que o quico, sem o qual a mente morre por inanição
paciente sente culpas porque, quando criança, e os processos psicanalíticos estão destinados
foi injustamente castigado, e não o inverso, isto ao fracasso.
é, que ele procurou o castigo devido às culpas Nesse aspecto, Bion foi mais longe que
primárias decorrentes das pulsões sádicas, Freud; sua obsessão pela busca da “verdade
como habitualmente é trabalhado pelos psica- última” pode ser comprovada não só no estilo
nalistas. místico de sua autobiografia como em relação
O segundo ponto, relacionado à violên- à prática clínica, quando ele preconiza enfati-
cia que o ambiente comete contra a busca camente a necessidade de que, na sessão, se
epistemofílica, está contido nos estudos que passe de um conhecimento prévio em direção
Bion (1970, p. 68) fez acerca da relação entre à realidade incognoscível, isto é, de K a O, e
o “místico”, portador das verdades novas, e o vice-versa, tal como propõe em As transforma-
establishment, que faz de tudo para reprimi- ções (1965).
las, em moldes equivalentes aos dos mitos

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 165

14
Teoria das Transformações

Em 1965, Bion publicou As transforma- ton chamava de “infinito vazio e informe” para
ções, com o subtítulo: “Da aprendizagem ao se aproximar de Deus).
crescimento”, que juntamente com os dois li- Além desses modelos, Bion também ilus-
vros anteriores, O aprender com a experiência, tra esse As transformações com muitas passa-
de 1962, e Elementos de psicanálise, de 1963, gens clínicas, de modo a nunca perder de vis-
constituem uma espécie de trilogia da parte ta que não admitia posições teóricas e consi-
epistemológica de sua obra científica. derações metapsicológicas que não tivessem
Vimos como Bion costumava enfatizar um embasamento e uma correlação com a prá-
que a psicanálise pode ser abordada a partir tica analítica.
de três dimensões: a científica (com funda- Na descrição que segue, há uma omissão
mentos lógico-matemáticos), a estética (artís- deliberada dos detalhes mais profundos dos
tica) e a religioso-mística. Acho interessante o três modelos anteriores, devido ao propósito
título As transformações por “coincidência” de tornar mais claro e fazer sobressair o que,
corresponder a uma época em que Bion co- creio, podemos considerar a quarta dimensão
meçava a dar os primeiros sinais mais claros que Bion empregou em As transformações, que
de transformações em seu pensamento cien- proponho denominar pragmático-clínica.
tífico para um modelo de natureza filosófica
e progressivamente mística.
Dessa forma, esse livro contém uma mes-
cla de elementos da lógica matemática (com a CONCEITO DE “TRANSFORMAÇÃO”
utilização de signos, pontos, linhas e conceitos
extraídos da geometria moderna), da estética O conceito de “transformação” é priori-
(como a visualização que ele faz do caso tariamente clínico e, segundo Bion, objetiva es-
“Dora”, cuja bela descrição literária feita por clarecer a cadeia de fenômenos que se passa
Freud representa para Bion um primeiro elo entre os enunciados do analista e do paciente,
de ligação entre a psicanálise e a arte) e da para compreender a evolução da experiência
filosofia religioso-mística (como as enfáticas emocional entre ambos.
citações de Platão, do poeta Milton e de São Os termos “transformação” e “invariân-
João da Cruz, os quais, cada um com o seu cia” são utilizados em muitas disciplinas, como
vértice e estilo próprio, asseveravam a reen- na geometria projetiva, na teoria dos conjun-
carnação das almas em vidas sucessivas e a ne- tos da matemática, na gramática, na filosofia
cessidade de o homem ultrapassar o que Mil- e, naturalmente, em psicanálise, desde Bion.

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166 DAVID E. ZIMERMAN

De certa forma, lembrando a clássica lei família e na pessoa do psicanalista (a interpre-


de Lavoisier, segundo a qual “na natureza, nada tação verbal é a culminância de um processo
se perde, nada se cria, tudo se transforma”, de transformação dentro dele).
também em psicanálise tudo sofre e, ao mes- Dessa forma, como exemplos de transfor-
mo tempo, é produto de transformações. (Hoje, mação que ocorrem na situação psicanalítica,
pensando melhor, ao revisar para esta segun- podem-se mencionar os sonhos, os sintomas,
da edição, é possível que essa minha analogia a passagem do pensamento para o verbo ou
com a lei de Lavoisier não faça justiça a Bion, para o acting, o fenômeno da transferência, a
visto que seu conceito de que o crescimento formulação da interpretação do analista e o ato
mental se comporta como um universo em ex- de simbolizar, visto que transformar é simboli-
pansão implica a agregação de novos espaços zar e vice-versa. Da mesma maneira, a “grade”
e objetos.) pode ser encarada, tanto no seu vertical eixo
Bion estendeu o conceito de “transforma- genético como no horizontal eixo da utiliza-
ção” utilizado no processo analítico para as ção dos pensamentos, como um grupo de su-
modificações que se processam no meio am- cessivas transformações de uma categoria a
biente fora da análise, tal como exemplificou outra, sendo que Bion frisa que nenhuma trans-
com um paciente psicótico seu que, com sua formação pode ocorrer sem a concomitância
“piora”, mobilizou a preocupação e a interfe- de uma experiência emocional.
rência de familiares e amigos na análise. Assim, em As transformações, para deixar
A palavra “trans-formação” significa “for- claro que as diversas formas de transformação
mar para além de”, de modo que as mudanças sempre ocorrem no curso de uma vivência
da forma de um determinado fenômeno po- emocional, Bion utiliza como modelo prototí-
dem ser múltiplas e adquirir os mais diversos pico o da “violência na encruzilhada de Tebas”,
formatos e significados, porém sempre conser- estabelecendo uma vinculação entre a sua teo-
varão a propriedade de se conectarem entre ria das transformações com uma invariante das
si, devido à permanente manutenção de pelo teorias psicanalíticas: a do Complexo de Édipo.
menos um elemento imutável comum a todas Penso que, a exemplo de um mapa-múndi
as formas, que constitui o que se conhece por geográfico que vai mudando a sua configura-
“invariantes”. ção com o correr das transformações históri-
Para esclarecer a sua conceituação psi- cas, também na análise as sucessivas transfor-
canalítica, Bion utilizou, entre outros, o mo- mações que ocorrem no vínculo analítico vi-
delo da geometria (pode-se submeter as figu- sam a modificar o mapa das capacidades
ras geométricas a todos os tipos de transfor- afetivas e intelectivas do analisando.
mação, como translação, rotação ou projeção,
em que o matemático consegue encontrar o
que há de comum entre o antes e o depois O PROCESSAMENTO
das transformações) e o modelo da arte (uma DA TRANSFORMAÇÃO
mesma paisagem pode ser transposta para a
tela de formas bem diferentes, conforme a Bion postulou que em todo o processo de
escola do pintor). transformação, o qual ele designa por T, tanto
Os elementos presentes em uma análise no paciente (Tp) como no analista (Ta), sem-
estão sempre em uma “conjunção constante” pre vai haver a presença de quatro elementos:
(penso que à moda de uma estrutura reticular) um estado inicial – que ele denomina O –, um
entre si, mas isso não quer dizer que haja uma mecanismo de ação que produz a transforma-
direta e linear relação de causa-efeito entre ção (designado pelo signo alfa), um produto
eles. No entanto, esses elementos sofrem cons- final (designado pelo signo beta) e a perma-
tantes transformações, e o importante a assi- nência de algum grau de invariância. É útil es-
nalar é que estas últimas se processam tanto clarecer que os signos gregos das letras alfa e
na pessoa do paciente (podendo atingir o grau beta, que Bion utiliza em As transformações,
máximo de alucinações sensoriais) como na sua não têm nada a ver com o significado que es-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 167

sas letras representam como “elementos” do passam de transformações de um mesmo fato


pensamento. original, a combinação de átomos de hidrogê-
O signo O necessita ser clarificado, por- nio e de oxigênio que formam a molécula H2O,
quanto tem sido empregado com acepções um que é o “invariante” comum nos três.
pouco distintas pelos autores que têm divulga- Da mesma forma, o significado que cada
do a obra de Bion. Alguns são convictos em pessoa empresta a uma simples menção da
interpretar O como a letra “o” (de “origem”), palavra água, para ficarmos no mesmo exem-
enquanto outros lêem esse signo como “zero”. plo, também vai produzir transformações con-
O próprio Bion nos esclarece melhor, ao res- ceituais. Assim, “água” tanto pode significar um
ponder uma pergunta que lhe foi formulada líquido para matar a sede, uma água para to-
na oitava das Conferências brasileiras 1 (1973, mar banho, um rio para um navio navegar, uma
p. 136), sugerindo que O seja lido como letra queda d’água, etc. Indo mais além, uma queda
“o”, embora deva ser consignado que o idioma d’água tanto pode ser destrutiva e arrasar uma
inglês permite as duas acepções. lavoura como ter o seu curso transformado por
O que importa é que, para Bion, O desig- aquedutos e ser vital e construtiva para essa
na um estado inicial desconhecido (pode ser o plantação, ou, ainda, essa mesma queda d’água
início de uma sessão); no entanto, de uma for- pode ser transformada em energia elétrica e
ma mais consistente, ele emprega O com o sig- esta, por sua vez, em energia luminosa, e as-
nificado de que o ciclo de transformações se sim por diante.
inicia a partir de uma original “realidade A partir dessa analogia, podemos dedu-
incognoscível”. Em outros contextos, ele de- zir que o fenômeno de transformação depen-
nomina O como “coisa em si mesmo” (inspira- de muito do meio no qual ele se processa e da
do em Kant); ou também como “verdade ab- técnica empregada, e, voltando para a situa-
soluta”, “infinito”, “incognoscível”, “númeno”, ção psicanalítica, o meio de transformação
“divindade”, e essa variada nomenclatura pa- pode ser a mente, o corpo, o espírito ou o es-
rece que vai além de uma simples sinonímia e paço exterior, e as técnicas analíticas variam
serve para Bion tanto designar um plano obje- muito de acordo com cada um desses diferen-
tivo, como o de uma sessão, como também pre- tes estados mentais.
tende atingir a um plano místico, sendo que Outro modelo de transformação que me
tudo isso pode nos causar alguma imprecisão, ocorre é aquele em que Freud, ao estudar as
quando não uma certa confusão. paranóias, parte de uma suposta frase de um
Vale lembrar que, inspirado em Kant, Bion homem que tenha em relação a outro homem
afirma que a “coisa em si mesmo” indica que é um inconsciente pensamento carregado com
necessário que o analista saiba suportar e acei- um desejo tipo “eu o amo”. Como esse desejo
tar conhecer somente a realização da coisa, a denotaria um proibido desejo homossexual, a
conjunção, a constelação dos fenômenos que mente do sujeito, mercê do uso de negações e
cercam a original coisa em si mesmo, porquan- projeções, e trocando os lugares do sujeito, ver-
to esta última é impossível de ser conhecida. bo ou complemento, pode fazer uma série de
transformações do tipo: 1) não, eu não o amo,
Comentários: acredito que o conceito de eu o odeio; 2) ele me odeia; 3) ele ama ela (sua
como é e de como se processa o fenômeno da mulher, por exemplo); 4) ela ama ele (pode
“transformação” fique mais claro através de um atingir o grau de um ciúme delirante). Podería-
modelo da física: o da transformação da água mos fazer outros desdobramentos, como: 5)
nos estados líquido, sólido e gasoso e nos di- todas as mulheres me amam (erotomania); 6)
versos usos desses derivados. Assim, se apre- não amo ninguém, e nunca vou amar (fuga para
sentarmos a uma criancinha (ou a um habi- o narcisismo), etc.
tante primitivo, a um psicótico, a alguém que Ainda tomando Freud como referência,
ignora a física) um copo com água, uma barra um exemplo simples de transformação, como
de gelo e uma nuvem no céu, ela não terá con- é, em Bion, o de elementos beta em alfa, equi-
dições de reconhecer que esses três corpos não vale, em Freud, à revelação dos conteúdos la-

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168 DAVID E. ZIMERMAN

tentes do sonho, na sua transformação em con- ções, projeções...), conforme conhecemos da


teúdo manifesto. teoria kleiniana.
Segundo Bion, as verdadeiras transforma-
Comentários: penso que podemos encon-
ções em direção a O, na situação psicanalítica,
trar um bom exemplo de transformação do tipo
podem vir acompanhadas de um estado psí-
projetivo no historial clínico de Freud – “Ho-
quico que ele denomina “mudança catastrófi-
mem dos Ratos”, em que, na sessão inicial com
ca”, nome que titulou um artigo (“Catastrophic
Freud, o paciente falava de seu pai como se
Change”) escrito em 1966.
ambos estivessem convivendo diariamente
Utilizando o modelo continente-conteú-
numa relação muito intensa e viva. Qual não
do ( ), Bion mostra como, em diversos con-
foi a surpresa de Freud quando, ao perguntar
textos diferentes – na mente, nos grupos, na
qual era a atividade do seu pai, o paciente lhe
sociedade, na sessão psicanalítica, etc. –, há
informou que o mesmo já havia falecido há
sempre uma “conjunção constante” de fatos
dezenas de anos. Trata-se, creio, de uma trans-
específicos. No entanto, sempre que essa con-
formação projetiva, oriunda da vivência dis-
junção estável se enfrenta com uma situação
torcida de um fato, devido a uma projeção no
de mudança e crescimento, se altera e se ins-
tempo, provavelmente porque o paciente não
tala um clima de catástrofe.
tinha elaborado a morte do pai, e este continua-
Em relação aos fatos que irrompem a
va morto-vivo dentro dele.
mudança catastrófica, Bion aponta a presença
A transformação em alucinose consiste em
de três características, a violência, a invariância
uma deformação de tal grandeza que se torna
e a subversão do sistema.
uma tarefa dificílima ao analista chegar ao O
da verdade essencial de seu paciente. É preci-
so esclarecer que alucinose não deve ser con-
TIPOS DE TRANSFORMAÇÃO
fundida com o conceito clássico de “alucina-
ção” em psiquiatria, embora, eventualmente,
Inspirado na nomenclatura utilizada pela
possa chegar a esse estado.
geometria moderna, Bion propõe que as trans-
Creio ser oportuno e útil registrar a etimo-
formações psíquicas se processam por três
logia da palavra-conceito “alucinose”. Segun-
modalidades distintas entre si, e que ele cha-
do de la Puente (1992, p. 343), de forma ne-
ma de “transformações de movimento rígido”,
nhuma “alucinar” deriva de a (privação de) e
“transformações projetivas” e “alucinoses”.
lucinare (de lux, lucis – iluminar), isto é, como
A transformação de movimento (ou mo-
o significado de “sem luz” (a-lucinare), equí-
ção) rígido é aquela que pouco distorce o fato
voco muito comum. “Alucinose” resulta dos
original e permite ao analista encontrar o ele-
étimos gregos hallos e gnosis. Hallos significa
mento invariante com alguma facilidade. Es-
“outro”, e seus derivados e correlativos são: di-
sas transformações são mais comuns em pa-
ferente, estrangeiro, falso, não-real, mau.
cientes neuróticos, cujo mecanismo defensivo
Gnosis, por sua vez, se encontra em duas pala-
predominante é o da repressão.
vras especificamente opostas: a cognose e a
A transformação do tipo projetivo defor-
alucinose. Portanto, o conhecimento se opõe
ma mais intensamente o fato original, desvir-
diferencialmente à alucinação. Dessa forma,
tuando as noções de espaço (a distância) e de
prossegue de la Puente, a partir do referencial
tempo (a época dos fatos distorcidos), sem, no
bioniano, quer se trate de alucinose como um
entanto, impedir completamente que o psica-
fenômeno de transformação, ou de uma aluci-
nalista possa reconhecer os invariantes, que
nação clínica como um termo final desse pro-
possibilitam a interpretação. Esse tipo de trans-
cesso transformatório, “alucinar” deve ser en-
formação acontece com pacientes que estão no
carado como um entendimento, uma presen-
limite do analisável, e as deformações dos fa-
ça de luz. Tal entendimento não provém da
tos originais ocorrem por conta do precoce
experiência, apesar de ser expressado com ele-
emprego de defesas muito primitivas (dissocia-
mentos sensoriais.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 169

A transformação em alucinose está corre- enquanto a dama proibida que ele cobiça se-
lacionada à catástrofe primitiva do lactante, xualmente o escuta, embevecida. Aqui a trans-
pela qual as sensações e os protopensamentos formação é de “movimento rígido” e, portanto,
(elementos β), embutidos numa ansiedade de permite uma fácil leitura do desejo sexual re-
aniquilamento primordial, não foram bem con- primido. Em um segundo caso, um paciente
tidos pelo rêverie da mãe, e, por isso, a criança adulto borderline sonha que um menino assus-
os reintrojetou sob a forma de um “terror sem tado olha atentamente para um palco, onde um
nome”, o qual, por sua vez, volta a ser evacua- grande número de músicos utiliza os mais vari-
do por projeções no ambiente exterior pelas ados tipos e tamanhos de violinos, enquanto ele
vias sensoriais; as projeções, então, retornam, está ladeado por duas mulheres, uma negra mal-
por essas vias, sob a forma de alucinoses. encarada e uma moça que lembra uma fada.
Essa transformação em alucinose proces- (No caso, tratava-se de uma transformação
sa-se na área psicótica da personalidade do “projetiva”, de um reconhecimento mais difícil
paciente, e o fato de as fortes ansiedades não para o analista; porém, a análise do simbolismo
serem adequadamente processadas em pensa- do sonho mostrou que a transformação consis-
mentos úteis (falta da função α) compromete tia em que o paciente, homem adulto de hoje,
a capacidade de formação de símbolos; daí a confundia-se com o menino de ontem, aspiran-
dificuldade de o psicanalista decodificar as do a possuir um pênis que fosse igual ou maior
transformações. Essa parte psicótica da perso- do que o de seu pai, sem saber qual a reação
nalidade não opera com símbolos abstratos, que encontraria por parte da mãe, dissociada
mas sim com equações simbólicas, concretas, em uma idealizada e uma denegrida.) Uma ter-
conforme a clássica descrição de Segal (1957). ceira situação é trazida por um exemplo da pró-
Pode-se dizer, portanto, que a transfor- pria Segal (1957, p. 77), criadora do conceito
mação em alucinose resulta essencialmente da da “equação simbólica”: um paciente psicótico
intolerância à ausência do objeto, ou, o que é convidado por ela a tocar seu violino em uma
o mesmo, da dor da privação, da frustração e festa do hospital ficou indignado e respondeu:
da decepção. A transformação em alucinose “a senhora quer que eu me masturbe em públi-
consiste na evacuação projetiva dos estados co?”. (Trata-se de um caso mais extremo de
ocultos da personalidade nos órgãos sensori- alucinose, porém ilustra como, na “equação sim-
ais, de uma forma tal que reverte a função de bólica”, o símbolo ficou confundido com o sim-
algum órgão do sentido, o qual de receptor bolizado, tal como ficou o violino com o pênis.)
passa a efetor. Assim, por exemplo, a visão não O tipo de transformação mais dramática,
recebe as imagens, pelo contrário, emite-as, na situação analítica, é a que Bion denominou
como se observa nas alucinações. como mudança catastrófica, que permite uma
O psicanalista precisa estar atento aos visualização de tipos diferentes, como será
estados de alucinose, porquanto nessa situa- explicitado mais adiante.
ção a linguagem do paciente, seja ela verbal
ou alguma forma não-verbal, não visa tanto à
comunicação, mas a um meio de expressão
RELAÇÃO ENTRE “K” E “O”
da alucinose e a uma tentativa de impô-la aos
demais.
Vimos que K é o signo do conhecer (sa-
Comentários: penso que esses três tipos de ber), que -K indica uma condição de se negar e
transformação podem ser exemplificados a par- de não querer tomar conhecimento de certas
tir da minha prática analítica com três pacien- verdades penosas, e que não-K se refere ao fato
tes diferentes em situações em que um mesmo de que houve uma “for(a)clusão” (termo de
objeto – um violino – apareceu como produto Lacan), ou seja, uma ruptura com a realidade,
de transformações distintas. No primeiro caso, e a substituição das ausências do mundo inter-
um paciente neurótico sonha que executa em no pela criação e presença de um “mundo
seu violino os movimentos para lá e para cá, inexistente”.

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170 DAVID E. ZIMERMAN

Por outro lado, vimos que, em psicanáli- podemos ver em Atenção e interpretação, ele
se, O é tudo aquilo que é desconhecido no pa- considera que esse tipo de mudança, num
ciente, o que ainda não apareceu e não evo- meio em que prevaleça K, constitui um movi-
luiu, enquanto, na pessoa do analista, O é o mento psíquico positivo e evolutivo de cresci-
seu ponto de partida do desconhecido, isto é, mento mental, não obstante, muito sofrido.
o seu vértice psicanalítico. Esse O pode evoluir Segundo Bion, existem três etapas: uma
muito, amparado na sua intuição, até a formu- mudança pré-catastrófica, quando podem pre-
lação da interpretação. dominar distintas formas de resistências – mais
Assim, a transformação de K em O signifi- intensas nas personalidades psicóticas –; o ca-
ca as interpretações transformarem o “saber tastrófico propriamente dito, impregnado de
acerca de algo” (por exemplo, o caso de um fortes emoções, como, por exemplo, o pacien-
insight unicamente intelectivo-cognitivo) em te sentir-se confuso, angustiado, deprimido,
“vir a ser esse algo” (no caso, insight elaborativo hipocondríaco, queixoso de que está pior do
e verdadeiramente transformador). que antes de ter começado a análise e, não ra-
Transformação em O é, portanto, reto- ramente, mostrar-se agressivo, dar indícios de
mando Nietzsche, o mesmo que “um indivíduo uma “reação terapêutica negativa” ou chegar
vir a ser aquilo que, realmente, ele é”. a um extremo de fazer veladas ameaças suici-
Uma leitura mais atenta de Bion permite das. Além disso, indiretamente ele aciona a fa-
supor que a relação entre K e O na situação mília que, então, angustiada, procura interfe-
analítica se opera em três tempos: inicialmen- rir no tratamento analítico. Um terceiro mo-
te, é necessário passar do K trazido pelo pa- mento é o pós-catastrófico, que pode trazer
ciente (a sua realidade racionalizada) para uma grandes benefícios analíticos.
condição de algo desconhecido (O) e, a partir Trata-se, pois, de um estado psíquico que
desse desconhecido O da sessão, chegar ao Bion denomina como “turbulência emocional”,
insight (K), porém esse K deve ser dirigido ao que pode ser tanto mais forte quanto mais
O original dos primórdios do psiquismo. psicótica for a personalidade do paciente. Bion
Assim, pode-se falar de uma “transfor- gostava de comparar essa turbulência com
mação de O” (isto é, a partir do fato desco- obras de Leonardo da Vinci em que, com sen-
nhecido trazido pelo paciente, chegar a K), sibilidade e intuição, esse genial artista pinta
de uma “transformação em O” (ou seja, che- figuras que se assemelham à água em movi-
gar a uma verdade absoluta a partir de K), e mento ou a uma cabeleira algo revolta.
de alcançar um estado mental de “estar de Essa noção de mudança catastrófica ad-
acordo com O”. quire uma importância especial na evolução
da análise, visto que o risco é de que o analista
se amedronte e não consiga tirar os frutos po-
Mudança catastrófica sitivos dessa situação turbulenta.

As transformações em O são caracteri-


zadas pela tríade subversão do sistema, violên- TRANSFORMAÇÃO NA
cia e invariância, de sorte que sempre repre- SITUAÇÃO PSICANALÍTICA
sentam um caráter disruptivo e ameaçador. A
palavra “catástrofe” se forma dos étimos gre- Comentários: como exemplificação des-
gos katos (“para baixo”) + strophos (“virar, ses conceitos, vou figurar com uma situação
voltar”), porém não necessariamente signifi- de minha clínica, de um tipo bastante comum
ca um desastre. Assim, Bion enfatizou que o na experiência de todo psicanalista. Após a in-
vocábulo “catástrofe” não deve ser tomado no terrupção da análise por duas semanas, devi-
sentido literal e concreto (salvo em algumas do a uma viagem do analista, um paciente adul-
situações em que a mudança se faz num meio to começa a primeira sessão do retorno fazen-
mental totalmente ocupado por -K); tal como do um relato minucioso do incrível número de

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 171

mulheres que “havia passado no pau”. Na sua bém vão aumentando as resistências deste, e
forma de falar, ele exibia, a um só tempo, tan- isso se torna muito intensificado nas alucinoses,
to o júbilo de um vencedor em relação ao ana- pois nesses casos o O original se confunde com
lista como uma forma de desprezo pelas mu- as primitivas fantasias inconscientes do paci-
lheres, na sua forma de referir-se a elas. A ses- ente, que o levam ao medo de se transformar
são transitou pelas seguintes transformações: em um louco, um assassino ou em Deus. O que
o O inicial está representado nos actings Bion quer dizer, me parece, é que o paciente
donjuanescos, os quais traduziam uma forte enlouquece (tem delírios, alucinações...) para
necessidade de confirmar a sua condição de não enlouquecer (cometer suicídio, homicídio
homem potente, para evitar o conhecimento ou ter os poderes mágicos e onipotentes, por-
(-K) de que se despertaram nele impulsões de tanto também perigosos, de Deus).
natureza homossexual. Essa homossexualida- Na hipótese de que na mente do analista
de latente, por sua vez, encobria um ódio à predomina um “ponto cego” em relação ao O
figura feminina e um conseqüente desejo de do paciente, ele vai desenvolver um movimen-
um afago masculino, sendo que o despertar to contra-resistencial conjugado com as resis-
desse ódio lhe foi incrementado pelo abando- tências que o paciente opõe às transformações.
no a que foi submetido pelo seu analista. Em Essas resistências adquirem muitas modalida-
outras palavras, um acting de natureza manía- des conhecidas, porém é preciso destacar as
ca o protegia de sentir uma profunda depres- duas que Bion descreve de um modo original
são. Percebe-se que do O inicial da sessão em outros textos: a do “ataque aos vínculos
(donjuanismo) chegou-se a um K (insight); o perceptivos”, dele próprio e do seu analista, e
movimento seguinte do analista foi, a partir a da “reversão da perspectiva”, através da qual
daí, chegar às vivências inanimadas de um O vai impedir as transformações propostas pela
muito primitivo da personalidade do paciente, interpretação do analista e vai retransformá-
que provavelmente correspondiam a uma ter- las, enquadrando-as para as suas próprias pre-
rível ansiedade de aniquilamento decorrente missas imutáveis.
de uma mãe muito ausente ou que, quando Uma transformação adequada no psica-
presente, não o entendia e não o “continha”. nalista consiste em que, partindo de seu vérti-
Na prática analítica, é fundamental a afir- ce de observação do fato analítico, ele utilize a
mativa de Bion de que qualquer O do paciente sua intuição e consiga chegar ao “fato selecio-
que não seja comum ao analista (por exemplo, nado”, que corresponde à descoberta do fato
um “ponto cego” deste último, por uma insufi- que dá ordem e coerência ao que até então
ciência de sua análise pessoal) impossibilita a parecia disperso e caótico. O “fato seleciona-
investigação psicanalítica entre K e O. do” possibilita o pensamento verbal do analis-
Da mesma forma, toda vez que o pacien- ta e, daí, a formulação da interpretação.
te estiver em um estado mental de -K, de nada Bion por vezes chama esse processo de
adiantarão as interpretações centradas nos con- “evolução”, porém, quando utiliza o referen-
flitos, por mais exatas que sejam (o que não é cial kleiniano, se refere a ele como a passa-
o mesmo que eficazes), porquanto o paciente gem, na mente do analista, de um estado de
não quer (ou não pode) tomar conhecimento “paciência” (correspondente à posição esquizo-
delas. Nessas condições, a atividade interpre- paranóide) para um estado de “segurança”
tativa prioritária do analista deve objetivar (correspondente à posição depressiva). Partin-
transformar -K em um K, isto é, um “estado de do daí, e do fato de que “transformar é simbo-
descobrimento”. Dizendo com outras palavras, lizar, e vice-versa”, pode-se dizer que a formu-
tudo isso corresponde à importante passagem lação final de uma interpretação é decorrência
de um estado mental egossintônico do pacien- de uma série de transformações na mente do
te para o de uma egodistonia. analista.
É fácil deduzir que, à medida que a análi- Em relação às transformações que se pas-
se vai se aproximando do O do paciente, tam- sam na mente do paciente, Bion traz uma bela

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172 DAVID E. ZIMERMAN

ilustração no livro Atenção e interpretação enfoques da matemática, geometria, estética,


(1970, p. 15), na qual descreve as transforma- religião, filosofia e o da prática analítica, e cada
ções que o desejo de seu paciente por sorvete uma de suas abordagens permite um desdobra-
(ice-cream) sofreu até se transformar em um mento específico.
grito de dor (I scream). A utilização do modelo da geometria, bas-
tante empregado por Bion, nos levaria a inte-
Comentários: creio que cabe fazer uma
ressantes correlações com as transformações
metáfora das transformações que se processam
psicanalíticas, e para tanto seria imprescindí-
numa análise com as que resultam de uma “aná-
vel reproduzir como se comportam os ângu-
lise química”. Assim, a palavra análise (forma-
los, vértices, movimentos e projeções das figu-
da dos étimos gregos ana+lysis) significa uma
ras geométricas, assim como o emprego gráfi-
dissolução (“lise”) de um todo em partes (“aná”),
co do ponto (.), da linha (–) e do círculo. Estes
de sorte que se pode dizer que o modelo de uma
três últimos sinais, para Bion, representam, res-
análise química é comparável ao acontecimen-
pectivamente, o seio, o pênis e a noção de den-
to psíquico, que pode ser decomposto em seus
tro-fora e poderiam servir para indicar o tem-
elementos componentes, os quais, por sua vez,
po em que o objeto estava antes (.) e o espaço
podem entrar em novas combinações, da mes-
onde o objeto vai ficar (–), que, por sua vez,
ma forma que os elementos musicais.
simbolizam os objetos ausentes e as relações
O modelo utilizado por Bion (1965) para
objetais. Além disso, esses sinais de ponto e
ilustrar o fenômeno da transformação foi o de
linha podem ser precedidos do sinal negativo,
uma analogia com a hipótese de dois pintores
o que designaria que houve um despojamento
de estilos diferentes pintarem uma mesma pai-
da representação e da significação através de
sagem de maneiras aparentemente irreconhe-
um ataque invejoso, tanto ao que ocupa o es-
cíveis entre si, embora conservem uma mesma
paço da mente como ao tempo, o qual fica re-
invariante, que é a paisagem real. Assim, dois
duzido a um instante sem passado nem futu-
analistas que trabalham com diferentes refe-
ro, abolindo, assim, toda significação. Como
renciais teóricos e técnicos, um freudiano e um
se vê, embora tenha o mérito de ser instigante,
kleiniano, por exemplo, poderão sofrer trans-
o modelo geométrico é muito complicado e,
formações diferenciadas e, assim, dar interpre-
do meu ponto de vista, não faz acréscimos ao
tações bem distintas a um mesmo material clí-
entendimento e à aplicação na prática analíti-
nico; o mesmo pode ocorrer entre dois analis-
ca do importante conceito de “transformação”.
tas de mesma orientação teórica, como tam-
Da matemática, além de outros, vale re-
bém com cada psicanalista isoladamente, con-
gistrar – pela importância que representa para
forme forem as particularidades de um deter-
o entendimento do processo de transformação
minado contexto clínico. Uma outra metáfora
no analista até sua interpretação – o conceito
utilizada por Bion, no mesmo livro, é a de que
de “fato selecionado” que Bion extraiu de
a sombra da imagem de uma árvore, por exem-
Poincaré. Segundo esse pensador, que conse-
plo, pode mostrar os contornos dela, mas nun-
guia emprestar um caráter filosófico à sua con-
ca será a mesma coisa que uma visão direta da
dição de matemático, o “fato selecionado”, tal
mesma árvore, ao vivo.
como ele alude em Science and method, des-
Da mesma forma, este capítulo sobre
creve o processo de criação de uma formula-
“transformações” resulta da transformação par-
ção matemática do seguinte modo:
ticular que o texto de Bion provocou em mim e
que certamente não será coincidente com a de
outros, embora conserve a mesma invariância se um novo resultado há de ter algum va-
lor, deve unir elementos conhecidos por
essencial. A própria escolha do vértice prioritário
muito tempo, porém que tenham estado
de observação já determina uma significativa diversos até então, e que tenham sido apa-
mudança nas transformações que esse texto rentemente estranhos entre si, e subita-
opera no leitor, devido à intersecção entre os mente introduzir ordem onde havia a apa-
rência de desordem.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 173

Bion diz que usa o termo “fato seleciona- poderia ter feito uma conexão mais íntima e
do” para descrever aquilo que o analista deve mais clara entre formas e idéias, tal como é
experimentar no processo de síntese, em meio possível perceber nos derivados etimológicos
aos movimentos transformatórios. Trata-se de de eidos, étimo grego que tanto dá origem à
uma experiência emocional, com uma signifi- palavra “idéia” (no sentido de pensamento)
cação essencialmente epistemológica, e não se como designa o surgimento de “formas” (como
deve supor que a relação dos fatos seleciona- na palavra “cal-eidos-scópio”) e ainda dá ori-
dos seja lógica, pois ela é, antes disso, mais gem à palavra “ídolo” (vem de eidolon e alude
intuitiva. a Deus). O conceito de “transformação” de
O enfoque filosófico-religioso-místico tam- Bion, penso, não deixa de ser um constante
bém permitiria tecer interessantes considera- movimento caleidoscópico na análise.
ções acerca da relação da realidade última e Na hipótese de que Bion tivesse utilizado
incognoscível do O com a divindade. Assim, para as “transformações” um modelo mitológi-
entre outros, Bion menciona o Mestre Eckart co, tal como fez com seus estudos sobre o
(o qual considerava a diferença entre Deus e a (des)conhecimento, creio que o mito de Narci-
divindade, e apregoava que a unificação com so poderia se enquadrar muito bem para esse
Deus, que consuma o destino, permite ao mes- propósito de, sem nunca perder de vista a prio-
mo tempo a descoberta da realidade das coi- ridade científica psicanalítica, estabelecer as
sas), São João da Cruz (cujos poemas líricos e conexões entre as idéias e as formas. A começar
místicos expressam a intimidade dos homens pelo título Metamorfose, que o poeta Ovídio deu
com Deus) e o poeta Milton (o qual, numa pas- à sua narrativa. Essa tragédia grega – a partir
sagem do “Paraíso Perdido”, escreveu que a da fala do cego Tirésias, que profetizara que
personalidade deve sobrepujar o “infinito va- Narciso morreria caso, e quando, viesse a co-
zio e amorfo”). nhecer-se – pode bem ilustrar a necessidade de
Entre os filósofos, no entanto, poderia ser um crescimento mental dar-se sobre as ruínas e
muito útil um aprofundamento no conceito de a morte de anteriores estados mentais primiti-
“forma” da teoria platônica, que também ser- vos, que devem sofrer transformações. Assim,
viu de inspiração para as idéias de Bion acerca clinicamente falando, para que se dê o cresci-
das transformações. Vale lembrar que na clás- mento de um paciente regressivo, portador de
sica “alegoria da caverna”, de Platão, os ho- uma “parte psicótica da personalidade”, portan-
mens primitivos estão sentados imóveis na en- to fixado em uma posição narcisista (se usar-
trada de uma caverna, de costas para a entra- mos um referencial atual), é necessário que se
da, observando as formas projetadas pelo fogo processe uma transformação essencial: que o
que arde no fundo da caverna, enquanto des- sujeito atinja uma posição edípica; porém, para
conhecem as formas decorrentes da lumino- atingi-la, é preciso que, antes, o seu Narciso
sidade do sol, que se filtram para dentro da patológico morra, como no mito.
caverna. Essa alegoria situa o mundo sensori- Se partirmos de um modelo grupalista, va-
al no interior iluminado pelo fogo e o mundo mos reconhecer que os enunciados de Bion re-
inteligível fora, à luz do sol. ferentes à “relação do místico com o establish-
Da mesma forma, completa Bion, os ór- ment” têm muito a ver com o medo de uma
gãos dos sentidos bloqueiam o conhecimento mudança catastrófica por parte da estrutura
das verdadeiras realidades e fazem-nos tomar social vigente. O melhor exemplo, dado pelo
como sendo verdades aquilo que não é mais próprio Bion, é o de Jesus, que provocou uma
que uma aparência fragmentária e muitas ve- turbulência na comunidade judaica da época.
zes enganadora das mesmas. Para Platão, a Em relação à aplicação do conceito de
alma aproxima o homem do mundo divino das “transformação” na prática psicanalítica, pode-
idéias e das formas, e a ambas ele designa como se dizer, de forma muito resumida, que pelo
Eidos. É justamente aqui que, a meu juízo, Bion menos três aspectos são relevantes: a desco-

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174 DAVID E. ZIMERMAN

berta do “fato selecionado”, a repercussão clí- mente significativo o fato de esse conceito
nica da “mudança catastrófica” e a busca da enaltecer a necessária discriminação que deve
verdade, representada por O. haver entre o que é verdadeiro, o que é falso e
À importância que o fato selecionado re- o que é uma mentira deliberada. Chegar a O
presenta para a elaboração dentro do analista e significa, como vimos, que o analisando venha
a posterior formulação da sua interpretação, já a ser o que realmente ele é, e isso está muito
aludimos antes. Bion considera, na transforma- bem ilustrado em Ecce homo (“Eis o homem”)
ção que se processa no analista, o estado men- de Nietzsche, em um subtítulo denominado:
tal que chama de “evolução”, o qual inclui a pre- “Como se chegar a ser o que, realmente, se é”.
sença de lembranças que surgem espontanea- Por outro lado, essa conceituação de O, em um
mente no curso da sessão, portanto, bem dife- certo sentido, aproxima Bion dos conhecidos
rentes de memórias que, por antecipação, este- postulados de Winnicott acerca do “verdadei-
jam saturando a mente do analista. ro” e do “falso self”.
A repercussão clínica diante da “mudan- As transformações no processo analítico,
ça catastrófica”, além das manifestações resis- se exitosamente superadas as dores que acom-
tenciais mais gritantes, próprias da área psi- panham os estados derivados de uma mudan-
cótica do paciente, como a “reversão da pers- ça catastrófica, são recompensadas por uma
pectiva” e o “ataque aos vínculos” perceptivos, sensação de autenticidade e liberdade, tal como
adquire uma relevância nas formas mais sutis expressou uma paciente, às vésperas do térmi-
como se manifestam na prática psicanalítica. no de uma análise de sete anos de duração:
Assim, mudanças verdadeiras e significativas
de qualquer paciente costumam vir acompa- [...] pensei muito no que foi a minha aná-
nhadas de sensações catastróficas de um medo lise nestes anos, e comparei-a com as trans-
de enlouquecer, de uma sensação de piora, de formações [a paciente não era da área
sintomas hipocondríacos, de despersonalização “PSI”] que sofre uma larva até chegar à
e de somatizações, de actings preocupantes, condição de borboleta. Eu vim para cá me
além de angustiantes (para o paciente, para o sentindo um bicho cabeludo [termo que
seu entorno familiar e para o psicanalista) sen- particularmente designa o estado larvário
da borboleta], se arrastando viscoso, re-
timentos depressivos e confusionais e amea-
pugnante, e com uma única e monótona
ças de suicídio. É justamente nesse momento cor verde; fui passando por outros estági-
de transformações que a capacidade de rêverie os de transformação, e sinto que posso me
do analista se torna de fundamental importân- considerar uma borboleta, com cores vi-
cia no destino do processo analítico. vas e variadas e acreditando em que eu
Quanto à busca da verdade, representa- possa fazer um vôo livre, porque estou me
da por O, deve ser destacado como particular- sentindo verdadeira.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 175

15
Período Religioso-Místico

Não custa lembrar que, tal como já foi evidente paradoxo, visto que os estudiosos de
dito em outro capítulo, se usarmos um esque- sua obra reconhecem que esse é o ponto alto
ma didático, podemos dividir a obra de Bion de sua originalidade e representa uma espécie
em quatro períodos distintos: o de grupos, na de eixo, um pano de fundo, em torno do qual
década de 40; o de psicóticos, na de 50; o pe- Bion fundamenta os outros dois modelos, o
ríodo epistemológico, na de 60; e o religioso- científico e o estético, assim possibilitando a
místico, na década de 70. Cada um desses pe- abertura de novas concepções psicanalíticas e
ríodos guarda, separadamente, características de novos vértices que norteiam o modo como
mais marcantes e predominantes, de acordo Bion pensa e pratica a psicanálise.
com sua década específica. No entanto, de al- Certamente essa omissão pela maioria dos
guma forma, todos eles se imbricam, forman- autores, entre os quais estou incluído, decorre
do um conjunto único. do fato de tratar-se de um assunto de extrema
Na primeira edição do presente livro, complexidade, que requer conhecimentos alta-
constavam capítulos dirigidos especificamen- mente especializados de Teologia e demais ra-
te para as três primeiras etapas aludidas, en- mos humanísticos ligados à espiritualidade. Até
quanto as idéias próprias do período denomi- onde sei, uma notável exceção é a do psicana-
nado religioso-místico, embora estivessem pre- lista brasileiro Antônio Muniz de Rezende, au-
sentes, apareciam de forma esparsa, não inte- tor de muitos livros e grande divulgador da
gradas num capítulo especial. Da mesma for- obra de Bion. Ele é doutor em Teologia e em
ma, sabemos que Bion enfocou a psicanálise Filosofia e, assim, navega com alta proprieda-
sob o prisma de diversificados vértices de ob- de nessa dimensão místico-religiosa da obra
servação, descrevendo as três dimensões psi- de Bion, tal como pode ser constatado no seu
canalíticas: científico-matemática; estético-artís- livro Bion e o futuro da psicanálise (1993), par-
tica e religioso-mística. Muitos leitores mani- ticularmente nos Capítulos 11 e 12.
festaram sentir falta de uma maior consistên- Segundo Meltzer (1990), de certa forma,
cia dessa última dimensão da obra de Bion, de até o livro As transformações (1965), Bion pro-
sorte que o presente capítulo, nesta nova edi- curava dar uma expressão matemática aos fe-
ção, visa a sanar essa lacuna. nômenos mentais, tentando descrever um
De modo geral, a literatura psicanalítica mundo do psiquismo muito preciso e quantifi-
que se dedica à obra de Bion pouco ou quase cável, porém cuja harmonia interna estaria fun-
nenhum interesse tem demonstrado por esse damentalmente ameaçada por fatores de pa-
modelo religioso-místico, o que representa um tologia psíquica.

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176 DAVID E. ZIMERMAN

O fracasso do uso prioritário do vértice a mística, há uma transformação análoga


matemático-científico para explicar e conter a à do sensório-sensível para o estético-ar-
violência das emoções inerentes à vida mental tístico. Assim como a arte é mais do que o
de todo ser humano determinou uma signifi- sensório, a mística é mais do que a reli-
gião. As religiões separam, a mística reú-
cativa mudança na identidade psicanalítica de
ne. Há várias religiões, mas a mística é uma
Bion: ele abandonou o viés matemático, subs-
só. E a razão epistemológica é que as reli-
tituindo-o por um vértice religioso, tal como giões se distinguem por suas falas enquan-
consta neste trecho do Capítulo 11 de As trans- to os místicos se encontram no silêncio do
formações: “as formulações religiosas preen- seu ser.
chem melhor os requisitos de transformações
em O do que as formulações matemáticas”. Em resumo, quanto ao significado do su-
Uma vez que a terminologia referente aos jeito portador de uma idéia nova que ameaça
aspectos religioso-místicos da psicanálise não o establishment vigente, para Bion, o conceito
é empregada com freqüência, entendi ser útil de “místico” equivale ao de “gênio”, com a res-
fazer uma sinopse das principais concepções salva de que “gênio” alude ao campo da ciên-
de Bion nesse terreno. Assim, bastante inspi- cia, enquanto “místico”, ao da religião. Quan-
rado em grandes pensadores de diferentes épo- do o sujeito acredita de forma radical e cega
cas, como Platão, Immanuel Kant, São João da no religioso, temos o “misticismo”. Nesse caso,
Cruz, Santo Agostinho, Mestre Eckhart, John o místico cria as suas próprias crenças, de sorte
Milton, Hume, Bacon e em trechos do Bhagavad que não tem necessidade de crenças já esta-
Gitá (livro sagrado dos hinduístas), entre ou- belecidas e tampouco tem compromisso com
tros, Bion, num enlace psicanalítico, utilizou as verdades, embora toda a sua meta de vida
expressões como “a mística e os místicos”, “psi- seja a busca das verdades misteriosas. Tam-
canálise e religião”, “Deus e divindade”, “O” bém é útil estabelecer uma distinção entre
ou “realidade última”, “coisa em si mesmo”, misticismo e mistificação, esta última com o
“at-one-ment”, “cesura” e “ato de fé”, que, em significado de “má-fé”, o que não existe na
separado, seguem explicitadas. anterior.
Mística e Místicos. Com base nas referi- Bion pode ser considerado um gênio, um
das colocações de Bion, Meltzer diz que a “rea- místico e um verdadeiro conhecedor de teologia.
lidade última” já não é tanto a busca de O, mas Psicanálise e Religião. Provavelmente
sim “Deus”, e a luta “para vir a se tornar O” bastante influenciado pelas primeiras experiên-
passa a ser considerada agora como a luta para cias vividas na atmosfera do hinduísmo, ou
alcançar um contato direto e a fusão com Deus. seja, do misticismo oriental que reina na Ín-
A pessoa que diz haver conseguido isso é de- dia, onde viveu os seus sete primeiros anos,
nominada por Bion “místico”. A propósito, Bion sobretudo as influências transmitidas por Ayah
(Revista Brasileira de Psiconálise, V. 15, n. 2, – sua velha ama indiana –, Bion sempre de-
p. 127, 1981) afirmou que os místicos se ex- monstrou uma inclinação para conhecer os
pressam em termos que são impressionante- mistérios da mente e do espírito. É útil escla-
mente semelhantes, apesar de algumas vezes recer que há uma diferença entre problema
estarem separados uns dos outros por muitas (esse pode ser resolvido e, logo, acaba) e mis-
centenas de anos. Cabe, ainda, a seguinte trans- tério (continua ainda mais misterioso depois
crição, que aparece em Grinberg (1994): “Os de todas as especulações e nunca acaba). Essa
místicos em diferentes épocas e lugares têm atração pelo misterioso induziu Bion a estu-
sustentado ter tido contato direto com a dei- dar a obra de pensadores, verdadeiros místi-
dade; terão conseguido tornar humano o divi- cos, como Mestre Eckhart, São João da Cruz e
no?”. Rezende (1993) afirma que Santo Agostinho, e também o Bhagavad Gitá.
A partir desse novo vértice, fundamental-
[...] o místico situa-se em contexto religi- mente mais religioso, Bion trocou o aspecto
oso, mas vive outra coisa. Da religião para quantitativo das distintas manifestações da fe-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 177

nomenologia psíquica por uma ênfase nos as- participar da genialidade de um Freud, de
pectos qualitativos, os quais, em sua essência, uma Klein ou de um Bion. [...] Não
não mudam. A partir dessa dimensão religiosa, obstante, este establishment, que confere
Bion nos apresenta a seguinte visão da psicaná- a seus membros o sentido de participação,
o qual lhes permite funcionar com serie-
lise: “no mundo existem grandes idéias que são
dade e convicção como prelados psicana-
descobertas por ‘pensadores’ e são transmitidas
líticos administrando os sacramentos psi-
para ser pensadas por ‘não-pensadores’”. A pro- canalíticos (isso, que constitui o vértice re-
pósito, Meltzer diz que “esse problema, em cer- ligioso, não deve ser tomado literalmen-
to sentido, é similar ao que se dizia dos aviões e te) também impõe uma atitude conserva-
submarinos, que foram inventados por gênios, dora por parte do grupo, lealdade às ve-
para ser operados por idiotas”. lhas idéias-novas e resistência às novas
Seguidamente Bion tentava estabelecer idéias-novas.
conexões entre a psicanálise e a religião, ou o
misticismo, tal como pode ser comprovado por Meltzer prossegue descrevendo que é
algumas afirmativas suas, em que ele dá a en- como se, a partir de um vértice religioso, Bion
tender que os psicanalistas têm-se mostrado preconizasse que o delimitador ditame ditato-
particularmente cegos em relação ao tema da rial do tipo “Abandonai toda recordação, dese-
religião. jo e compreensão” (como diria um inquisidor)
Em outros textos, Bion afirmava que “a devesse ceder lugar a um “Não deverás recor-
psicanálise é a prática de uma determinada fi- dar, não deverás desejar, não deverás compre-
losofia; a psicanálise está para a filosofia as- ender” (como propugnava Bion). Ou seja, um
sim como a matemática aplicada está para a “Novo testamento” e não o “Velho”, a exorta-
matemática pura”. Bion também considerou a ção e não a proibição. Isso é tão diferente como
importância da teologia na prática analítica, são diferentes a atitude que diz “aqueles que
tal como atesta esta frase que aparece numa não estão comigo estão contra mim” daquela
passagem de Conferências brasileiras 1: “No outra que diz “aqueles que não estão contra
consultório, o analista tem que ser como um mim estão comigo”.
cientista, um artista e um teólogo”. Ainda no Capítulo 8 de seu livro, Meltzer,
Como Meltzer (1990) demonstra conhe- de certa forma comparando o sistema religio-
cer a fundo o assunto em pauta, passo a palavra so com o sistema psicanalítico, conclui:
a ele, transcrevendo literalmente alguns trechos
significativos, em que se fundamentou nos tra- [...] Desde o vértice religioso nós, idiotas
balhos de Bion sobre grupos: praticantes, podemos, razoavelmente, nos
contentar em executar os rituais e vender
[...] Bion, então, deseja tratar a psicanáli- nossas medalhinhas religiosas para indu-
se como “coisa em si”, que já existia no zir, em nossos pacientes, a emergência da
mundo antes de ser descoberta pelo gênio Fé em que “seu redentor vive”, dito nos
místico de Freud (grande ou pequeno, não termos poéticos de Klein, os bons objetos
importa) que lhe deu forma em seus escri- internos existem. [...].
tos, em sua prática e em seus ensinos. Essa
“nova coisa” não podia ser contida dentro
O destaque que dei às reflexões de
do “establishment médico”, um novo
Meltzer, inspiradas nas idéias de Bion, se justi-
establishment messiânico, eventualmente
a IPA, cuja função foi evangélica e conser- fica para enfatizar a aproximação e a compa-
vadora. Segundo este modelo da história ração que, nesse quarto período de sua obra,
da psicanálise, cada psicanalista se conver- Bion estabelecia entre a psicanálise e a religião,
te em um idiota que utiliza um equipa- com um certo grau de misticismo, bem como
mento desenhado por um gênio, porém para mostrar as severas críticas feitas, não con-
deve pertencer a uma sociedade estabele- tra a psicanálise, mas contra determinados se-
cida de idiotas que pensam que são geniais tores de psicanalistas que fazem do método psi-
porque a dita sociedade lhes habilita para canalítico um uso extremamente radical. Cabe,

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178 DAVID E. ZIMERMAN

portanto, transcrever mais algumas passagens, Bion se apoiava em muitos pensadores como,
que pincei nos seus últimos livros póstumos, entre outros, Milton, autor do clássico Paraíso
Uma memória do futuro e Cogitações, em que perdido. Do Livro III dessa obra, Bion, recolhe
fica claro o intento de Bion em estabelecer as este trecho (Cogitações, p. 376):
intersecções da psicanálise com a religião. As-
sim, Bion preconizava a importância que re- [...] toda bruma se dissipa, e eu poderia
presentaria uma recíproca aproximação – ver e contar algo invisível ao olho mortal.
integradora – entre a psicanálise e a religião. [...] No entanto, não se pode comprar isso
Dessa forma, em Uma memória do futuro (v. “perdendo-se” a visão mortal; a solução
III, p. 161), o personagem Robin declara: não é ficar cego, inconsciente, sem se dar
conta do mundo visível e audível, quando
você se encontra no estado de mente “yin”.
Será que a “religião” da psicanálise ou a
[...] Yin e Yang, conceito chinês do negati-
investigação da psicanálise, pelos teólogos,
vo, material, e do positivo, metafísico,
não pode ensinar aos psicanalistas algo
constituindo juntos o Cosmos. [...] preci-
valioso, assim como a psicanálise da reli-
sa haver um intercurso – um modo de co-
gião poderia ensinar algo de valioso para
municação “inter”, entre dois estados de
a teologia? Por que deveria haver alguma
mente. Sócrates descreveu a si mesmo
dificuldade?
como uma parteira mental; talvez o psica-
nalista seja uma parteira entre dois esta-
É útil esclarecer o significado que Bion dos de mente do analisando [...].
empresta à expressão “religião da psicanálise”,
conforme o que afirma o personagem Sacer- Deus e Divindade. No curso de suas con-
dote (p. 160): jecturas religiosas, Bion se fundamenta nas
idéias do Mestre Eckhart para estabelecer uma
Vocês têm tantas seitas de psicanalistas diferença entre “divinitas” (divindade, deidade)
quanto as que existem em qualquer reli- e “Deus”. Assim, segundo Rezende (1993, p.
gião que eu conheça, e igual número de 191), Eckhart considerava que
“santos” psicanalíticos, cada qual com sua
respectiva procissão de devotos.
Deus e deidade se distinguem entre si, da
mesma forma como o céu e a terra, como
Igualmente, Bion acreditava que, muitas fazer e o não fazer. A divindade é o fundo
vezes, os rituais psicanalíticos tangenciam, sem obscuro em que todas as coisas formam uma
uma precisa delimitação, os rituais de fundo unidade absoluta, onde nenhuma distinção
mágico, tal como podemos depreender desses é possível. [...] Deus, ao contrário, é ativi-
fragmentos que aparecem no livro Cogitações dade que se exterioriza e atua, se revela
(p. 306-307): em suas criaturas, vive nelas e através de-
las se reconhece e se ama. Deus é criador e
sua obra se renova constantemente.
Ritual ou cerimonial mágico visa contro-
lar o mundo espiritual de vários modos,
desde breves conjurações e amuletos até Eckhart designava por Deus (Got) o deus
cerimônias demoradas e elaboradas, inclu- da trindade, da criação, com a característica
indo rezas e invocações [...] o ritual lem- de agir; e por divindade (gotheit), a essência
brando vagamente o método científico e o divina, a origem das três pessoas da trindade,
método científico traindo com freqüência que se caracteriza por permanecer alheia a
uma curiosa e inquietante semelhança com qualquer ato. A divindade, nas concepções de
o ritual. Bion, corresponde ao conceito de O.
É necessário distinguir a noção de Deus
Nas suas especulações filosóficas e religio- como uma transcendental concepção abstrata,
sas, que atingem uma dimensão algo mística, intrinsicamente ligada à fé, do estado de uma

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 179

extrema idealização de algo ou alguém que as- cível, númeno, etc.), embora com o mesmo sig-
sume características divinas, mas não passa de nificado. Em Conferências brasileiras 1 (p. 50),
um ídolo que exerce a função de defesa a servi- Bion afirma:
ço de um reasseguramento contra uma terrível
angústia de desamparo. [...] é possível contar algo a respeito do
modo como os seres humanos pensam, mas
O (ou Númeno, ou Realidade Última, é duvidoso que lhe contem algo sobre as
ou Coisa em si mesmo). Em Elementos de psi- “coisas-em-si” Se existe uma coisa-em-si,
canálise Bion afirma que “O analista deve con- coisa a que Kant chamaria de “númeno”,
centrar a sua atenção em O, o desconhecido e tudo o que podemos saber se refere a fenô-
o incognoscível”, o que evidencia que tama- menos relacionados à coisa-em-si, que se
nha é a importância que Bion creditou à con- evidenciam quando encontram a mente hu-
mana que tenta conhecer o desconhecido.
cepção de O que, muitas vezes, deu a entender
que só existe a psicanálise se este ponto de vis-
Creio ser útil esclarecer que o étimo nume
ta for mantido.
significa “divindade mitológica”, e, daí, a pala-
Cabe lembrar que, para a formulação des-
vra númeno designa a “coisa em si mesmo” por
sa concepção de natureza mística de O, Bion
oposição ao fenômeno ou às coisas tais como apa-
inspirou-se no filósofo Immanuel Kant, que con-
recem e são conhecidas. Os outros dois significa-
cebera a noção da “coisa em si mesmo”, para
dos de “númeno”, segundo o dicionário Aurélio,
referir algo que deve existir, porém é incog-
são: a) fato que é concebido pela consciência,
noscível e só se evidencia através de outras
mas não confirmado pela experiência; b) objeto
manifestações. Assim, Kant dizia que não pode-
cuja existência é abstrata e problemática.
mos saber como o mundo é “em si”; só pode- Prossegue Bion:
mos saber como o mundo é “para mim” e, por-
tanto, para todos os homens. A diferença que Quando os númenos, as coisas-em-si, avan-
Kant estabelece entre as “coisas em si” e as “coi- çam para frente, até o ponto em que en-
sas para nós” é a sua mais importante contri- contram um objeto que chamamos de
buição para a filosofia e principal inspiração para mente humana, aí então, começa a existir
Bion. Nunca poderemos saber com certeza como o domínio dos fenômenos. Podemos ima-
as coisas são em si, só poderemos saber como ginar, portanto, que, em correspondência
elas se mostram a nós. Em compensação, pode- a esses fenômenos que são algo que co-
nhecemos, porque são nós, há a coisa-em-
mos dizer com certeza como as coisas são per-
si, o númeno. O homem religioso diria:
cebidas pela razão humana. “Existe, em realidade, Deus”. [...] Recor-
Alguns autores entendem que o signo O rendo às religiões, podemos dizer que o
equivale a zero; no entanto, o próprio Bion, pressuposto é o de haver uma Natureza
numa das Conferências brasileiras, confirmou Divina (correspondendo ao númeno) so-
que o O que ele utilizava não era o mesmo que bre o qual nada sabemos; mas pensamos
o zero da matemática, mas que remontava à saber algo sobre Deus quando chegamos
letra inicial de “origem” (origin), palavra que ao domínio dos fenômenos. Em termino-
alude de forma mais clara ao significado de O, logia religiosa, há um númen que pode ser
numinoso [essa palavra alude ao estado
ou seja, o da busca da origem primária dos fe-
religioso da alma inspirado pelas qualida-
nômenos da natureza. Bion também diz que o des transcendentais da divindade], e um
O pode assemelhar-se ao zero, sendo ao mes- ômen [corresponde a “ominoso”, ou seja,
mo tempo bastante diferente, e que deveria abominável] que pode ser ominoso.
existir em psicanálise um vazio análogo ao que
existe na pausa, no silêncio da música. É interessante assinalar que Green (cita-
A letra O aparece na obra de Bion com do por Bléandonu, p. 207) correlacionou a ex-
vários outros nomes (coisa em si mesmo; rea- periência de “união com O” (at-one-ment), de
lidade última; verdade absoluta, o incognos- Bion, ao “narcisismo primário absoluto”, de

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180 DAVID E. ZIMERMAN

Freud, correlação essa que é um pouco arris- “unicidade”, Bion designa o encontro da men-
cada, porque afastaria Bion da escola kleiniana, te humana com o estado de O, o que equivale
para a qual existem estados narcísicos, mas não a uma comunhão com a divindade, consigo
um narcisismo primário. Bion dizia que ele se mesmo ou com a mente de um outro. Bion sem-
colocava na posição filosófica monista, na qual pre enfatizou que o objetivo de uma análise
o corpo e a mente podem reduzir-se à unida- não é o paciente adquirir um conhecimento
de. O analista, a exemplo da frase poética de sobre as coisas, mas que, muito mais do que
Milton, deve observar “coisas invisíveis para saber, o essencial é ele vir a ser (em inglês
um mortal”. Com outras palavras, Bion dizia being). Assim, na concepção psicanalítica de
que “o analista deve saber escutar não só as Bion, ser é at-one-ment; ou seja, é uma condi-
palavras, mas também a música”. ção de estar em concordância com O (é útil lem-
É grande a importância que o conceito brar que dos étimos latinos “com” (junto) +
de O (númeno) representa na prática analíti- “cordar” (vem de “cor, cordis”, que significa
ca, especialmente no que diz respeito à trans- “coração”).
formação de O em K, e vice-versa, como será
descrito mais adiante.
Comentários do autor
O Ato de fé. Em Atenção e interpretação,
Bion pergunta se os estados mentais do analis- As especulações de Bion acerca de aspec-
ta, saturados com memórias e desejos, não são tos filosóficos, religiosos e místicos da condi-
bem-vindos, então qual seria? Ele mesmo res- ção humana em geral, e do vértice psicanalíti-
ponde: “um termo que corresponderia aproxi- co em particular, vão muito além de um exer-
madamente ao que quero expressar é ‘fé’. Fé cício de erudição e abstração ou de meras
na existência de uma realidade e verdade últi- conjecturas imaginativas. Na verdade, da mes-
ma: o desconhecido, o desconhecível, infinito, ma forma como fez ao longo de toda a sua obra,
informe”. também no que se refere aos aludidos aspec-
Rezende esclarece que o “ato de fé” tem tos relativos aos mistérios incognoscíveis, Bion
muito a haver com a “negatividade”, isto é, estabelece conexões com a prática psicanalíti-
diante daquilo que não sabemos, daquilo que ca. Vejamos alguns desses pontos de conexão.
não está ao nosso alcance, mas que cremos que
existe, ou seja, por um ato de fé, nós cremos 1. Da mesma forma que na atual tendên-
na realidade última. Em resumo, segundo Bion, cia da medicina moderna, também a psicaná-
é preciso acreditar na existência de uma reali- lise contemporânea, tal como foi preconizada
dade última e de uma verdade absoluta, caso por Bion, adquire uma visualização holística,
contrário, a realidade última significada por O isto é, deixa de estar localizada única e parcial-
não poderá evoluir até o ponto em que as fun- mente nos sinais e sintomas físicos ou psíqui-
ções mentais ligadas aos sentidos consigam cos referidos pelo paciente e ganha uma di-
apreendê-la. Tão logo o conhecimento, o pen- mensão múltipla e integradora, entre o corpo-
samento e a memória se fazem presentes, o mente-e-espírito.
ato de fé não é mais necessário. 2. A dimensão espiritual raramente é va-
É importante deixar claro que, para Bion, lorizada, não obstante as cotidianas evidências,
a expressão “ato de fé” não tem o mesmo sig- não explicáveis pela lógica, que acontecem no
nificado que correntemente atribuímos exclu- mundo da medicina ou do psiquismo, de que
sivamente no plano religioso; para ele, o ato entre o céu e a terra existe algo que a nossa vã
de fé depende de um estado de espírito cientí- filosofia não alcança. Assim, sabemos que, des-
fico e deve ser desvencilhado de sua habitual de sempre, o homem apelou para mitos e ritos
conotação religiosa. de natureza religiosa como uma tentativa de
At-one-ment. Com essa expressão, que, responder a questões existenciais que conti-
de certa forma, pode ser traduzida como nuam misteriosas: “Como foi que tudo come-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 181

çou no mundo? Por que nascemos? Por que pítulo 6, “O Místico e o Grupo” –, afirma que o
morremos? O que – e quem – sou eu? Existe indivíduo excepcional é chamado de várias for-
algo, ou alguém, como, de fato, sendo Deus? mas: gênio, messias, místico. Seus seguidores
Existe vida depois da morte, reencarnação ou podem ser numerosos ou poucos; são pessoas
transmigração?...” Em função da ânsia em res- possuidoras de um talento especial que os in-
ponder a essas misteriosas questões, tanto divíduos comuns não conseguem entender,
quanto os pesquisadores sabem, não existe pelo menos de imediato. São portadores de
nenhuma raça, tribo ou nação que não tenha idéias novas que representam uma ameaça para
tido algum tipo de religião, mais primitiva ou o establishment vigente. Creio que há um en-
mais sofisticada. trelaçamento entre os dois significados atribu-
ídos ao termo “místico”, como podemos de-
3. Pode-se dizer que “religião” consiste preender da transcrição do trecho em que, li-
numa relação entre a criatura e o criador, o teralmente, Bion (1973a, p. 70) afirma:
homem e o transcendental – Deus –, em três
planos: a) emoções especiais; b) um sistema de Por conveniência, usarei o termo “místi-
crenças; c) ações (cultos, rituais, princípios éti- co” em relação a estes indivíduos excepci-
cos, etc.). Creio também que a própria palavra onais. Incluo cientistas, e Newton é exem-
“religião” é bastante elucidativa, visto que, eti- plo destacado de tal homem: suas preocu-
mologicamente, deriva do verbo latino religare, pações místicas e religiosas foram rejeita-
que alude a um “re-ligar” o homem a Deus, das como uma aberração, quando deviam
numa sagrada comunhão. A noção de “sagra- ter sido consideradas a matriz de onde suas
do” é diametralmente oposta à de “profano”, formulações matemáticas evoluíram. [...]
isto é, o sagrado tem uma conotação religiosa, Será surpreendente se a qualquer altura
com a característica de, a um mesmo tempo, de sua carreira um místico verdadeiro não
for considerado niilista místico por maior
despertar medo e adoração.
ou menor proporção do grupo. [Grifos
4. Importância para a prática analítica. meus.]
Tudo o que foi dito anteriormente está ligado
à formação humanística e psicanalítica de Bion, Por minha conta, penso que, onde Bion
já que, na religião hinduísta, que, de forma escreveu “matemáticas”, podemos ler “psica-
subliminar, o influenciou na infância, um dos nalíticas”, e onde mencionou “Newton”, pode-
objetivos primordiais é atingir a “união com a mos ler “Bion”.
divindade”, tal é a essência do Bhagavad Gitá,
livro sagrado do hinduísmo, um verdadeiro 6. Notadamente, o fenômeno das trans-
poema, que doutrina e catequiza. Daí Bion formações, concebido de forma original por
propugna concepções psicanalíticas, numa di- Bion, por si só já empresta ao tratamento ana-
mensão algo mística, tal como at-one-ment ou lítico uma característica diferente da clássica
a busca de O, que enriquecem significativamen- limitação a uma resolução de conflitos, de ma-
te a prática do ato analítico. neira que possibilite ao terapeuta manter um
especial estado mental diante do seu paciente.
5. É necessário esclarecer que, ao longo Essa nova posição do analista consiste em man-
da maior parte de sua obra, Bion emprega a ter com o seu paciente canais de comunicação
palavra místico com um significado que não é que vão muito além do que é captado e trans-
exatamente o de um misticismo próprio de re- mitido pelos órgãos dos sentidos, ou do que é
ligiões mais primitivas, tal como transparece percebido por um pensamento lógico-científi-
em muitos de seus trabalhos da década de 70. co. Ou seja, os referidos meios de comunica-
Assim, quando Bion estuda os fenômenos ção, num nível mais propriamente pré-verbal,
grupais, mais exatamente a relação do “indiví- se estendem e abrangem os planos do estético-
duo excepcional” com o establishment – tal artístico e do religioso-místico, sem nunca des-
como consta em Atenção e interpretação, no Ca- curar, acrescento eu, da aplicabilidade ao pla-

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182 DAVID E. ZIMERMAN

no pragmático-existencial, ou seja, a consecu- apenas derivados deste. Deve esperar que O se


ção de verdadeiras mudanças que se traduzam torne manifesto por meio de pistas na tomada
na vida real, na conduta exterior, de cada pa- de conhecimento dos acontecimentos, o que
ciente em análise. se processa em meio a diversas formas de re-
sistência que podem se tornar obstáculos à bus-
7. Para atingir esses objetivos, Bion pre-
ca de O. O encontro entre o analista e o pa-
coniza uma série de condições necessárias para
ciente não poderia ocorrer sem os sentidos;
que o analista chegue o mais próximo possível
entretanto, o analista trata apenas das quali-
de um estado de “comunhão” com o paciente.
dades psíquicas que os sentidos não podem
Segundo o meu entendimento, essas condições
apreender. Quanto mais se liga aos aconteci-
seriam: a) uma capacidade de intuição (cor-
mentos atuais, mais a sua atividade se apóia
responde a uma espécie de “terceiro olho”); b)
no pensamento que depende de um substrato
estar com a mente não saturada por memória,
sensorial. Inversamente, quanto mais o analis-
desejos e ânsia de compreensão, caso contrário,
ta é real, mais ele consegue ficar inteiramente
ele pode estar impregnado de preconceitos
uno com a realidade do paciente. Pode-se en-
(“pré-conceitos”), com os conseqüentes prejuí-
tão fazer uma interpretação que favoreça a
zos (“pré-juízos”); c) dar asas à imaginação
transição entre conhecer a realidade e tornar-
(isto é, deixar a imagem-em-ação), assim per-
se realidade.
mitindo que o terapeuta faça conjecturas, não
só as racionais, mas também as imaginativas e 9. Segundo Bion, é necessário um estado
d) desprender-se da obediência a uma exclusi- de ato de fé por parte do analista, isto é, ele
va atenção ao que é captado pelos órgãos dos precisa acreditar na existência de uma realida-
sentidos, permitindo a incidência de um facho de última e de uma verdade absoluta, caso con-
de escuridão em sua mente, que poderá iluminá- trário, a realidade última significada por O não
la – “é na escuridão que as estrelas se tornam poderá evoluir até o ponto em que as funções
visíveis”. Dessa maneira, o analista terá mais mentais ligadas aos sentidos consigam apree-
condições de captar e valorar o surgimento de ndê-la. O ato de fé tem por trás de si algo des-
imagens visuais que brotem na sua mente ou conhecido, pois ninguém sabe o que poderá
na do paciente, e que, tal como imagens oníricas acontecer. Ainda segundo Bion, o ato de fé,
– fenômeno que acontece no campo analítico, assim como o estado de at-one-ment, em suma,
conhecido com os nomes de ideograma, a unificação da mente e do espírito com a ver-
criptograma, holograma, etc. –, representam ser dade absoluta, é tão essencial para a psicanáli-
um excelente instrumento técnico na psicaná- se como para a ciência e a religião, apesar de
lise contemporânea, por serem veículos de uma serem os místicos os que provavelmente mais
comunicação bastante primitiva. Bion também se aproximam dessa vivência.
destaca enfaticamente que o analista deve es-
tar voltado para as transformações que acom-
panham as passagens de K para O, e as de O UMA TENTATIVA DE ENCONTRAR
para K. Com outras palavras, na situação ana- ALGUMAS SEMELHANÇAS DE BION
lítica, existe um importante trânsito de ima- COM O ZEN-BUDISMO
gens, sentimentos, idéias e conhecimentos,
desde a primitiva e desconhecida “coisa em si- Dentre as múltiplas vertentes de inúme-
mesmo” que é a origem (O) de tudo, até uma ras correntes religiosas, de todos os tempos,
tomada de “conhecimento” consciente (K). com os seus respectivos mitos, ritos e crenças,
8. Com outras palavras, de acordo com particularmente pela impossibilidade de, aqui,
Bléandonu (1990, p. 207), pode-se dizer que fazer um estudo mais completo, creio ser bas-
na prática analítica o psicanalista toma conhe- tante interessante estabelecer algumas similitu-
cimento, através dos sentidos, do que o anali- des entre os vértices religioso-místicos de Bion
sando faz ou diz, mas não pode conhecer o O, e os fundamentos do movimento religioso co-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 183

nhecido por zen-budismo. Para tanto, vou me Coréia e Japão, medrou o movimento que no
servir de referências e citações integrais do Li- mundo ocidental ficou conhecido por seu nome
vro das religiões (Hellern, Notaker e Gaarder japonês “Zen” – que significa “meditação” –,
2000, p. 52-75). Após a transcrição de deter- movimento religioso este que, cada vez mais,
minado trecho do livro a que aludi, entre pa- cresce no mundo inteiro com a denominação
rênteses, em itálico, consigno o meu comentá- de “zen-budismo”. (Incluí o termo “invariância”
rio, buscando alguma semelhança com Bion. para acentuar que estamos diante de uma situa-
O fundador do budismo foi Sidarta ção de “transformações”, uma importante con-
Gautama, filho de um rico rajá. Ele viveu no cepção de Bion, aplicada à psicanálise, em que
nordeste da Índia entre os anos 560 e 480 an- ele enfatiza a permanente presença de algum ele-
tes de Cristo, de modo que o budismo nasceu mento original, que se mantém invariável. Tam-
do hinduísmo. Não satisfeito plenamente com bém entendo que o estéril “ciclo de renasci-
o hinduísmo, ele buscava outros caminhos, re- mentos” equivale, em psicanálise, à “compulsão
nunciando à opulência e à família, até que, aos à repetição”, de sorte que cabe ao analista aju-
35 anos, num certo dia em que meditava sob dar o paciente a se livrar desse jugo sofredor e a
uma figueira, alcançou a “iluminação”. A pala- encontrar os caminhos da liberdade interna e,
vra “Buda” quer dizer “iluminado”. Assim, ao logo, da vida externa, conforme a ênfase que Bion
mesmo tempo que conservou muito do hin- concede a esse aspecto analítico.)
duísmo, e também se distanciou dele, Buda Os zen-budistas não valorizam de forma
adotou o “caminho do meio”, buscando a sal- especial os ensinamentos de Buda tal como fo-
vação por meio da “meditação”, de modo a atin- ram passados para os textos escritos, por pre-
gir a compreensão de uma realidade que não é ferirem, muito antes da transmissão de conhe-
transitória, mas absoluta, acima do tempo e cimento pelas palavras, ditas ou escritas, a “vi-
do espaço. No budismo, isso se chama nirvana, são direta”. Por exemplo: diz-se que Buda trou-
palavra que significa “apagar”, uma referência xe a “iluminação” para seu discípulo mais pro-
ao fato de que o desejo “se extingue” quando missor simplesmente segurando uma flor di-
se atinge o nirvana. (O termo “nirvana” foi bas- ante dele, sem nada dizer. Assim, a iluminação
tante utilizado por Freud com o mesmo signifi- vem sendo comunicada de geração em gera-
cado budista. Já a referência à busca de uma ção pela transmissão não-verbal. Ensina o zen
“realidade absoluta, acima do espaço e tempo” que a iluminação deve vir de dentro, deve ter
evoca a Bion, principalmente quanto à concep- sua origem no coração do indivíduo. (Aqui, po-
ção de O, da “verdade absoluta”, tal como está demos reconhecer as postulações de Bion no sen-
descrito ao longo deste capítulo). tido de o analista não ficar restrito à percepção
unicamente provinda dos órgãos dos sentidos e
Zen-budismo. A maior ambição de todos
do pensamento racional, mas sim permitir que
os budistas é atingir algum dia a iluminação;
aflore a sua capacidade de “intuição”, deixar a
no entanto, algum tempo após a morte de
sua imagem-em-ação, ou seja, libertar a “ima-
Buda, ocorreu uma divergência entre seus dis-
ginação”, valorizar os “pictogramas”, isto é, as
cípulos acerca da maneira como seus ensina-
imagens visuais que surgem na mente do analis-
mentos deviam ser interpretados (especialmen-
ta [ou na do paciente] e que podem dizer muito
te quanto ao que implica a “iluminação” de mais do que as palavras e idéias. Com outras
Buda e como chegar a ela; porém conservam a palavras, estamos destacando a forte ênfase que
“invariância” de que o objetivo maior de todos Bion, ao longo de toda a sua obra, concedeu à
os budistas é se redimir do ciclo dos “renasci- “linguagem, à comunicação não-verbal”.)
mentos” no globo terrestre), do que resultou
uma diversidade religiosa (que eles não consi-
Os ensinamentos de Buda só podem nos
deram como fraqueza) dentro do movimento levar até uma parte do caminho. Podem
budista. Entre outros tantos movimentos, de indicar o rumo certo, mas o importante é
origem na China, com desenvolvimento na vislumbrar aquilo para onde apontam, a

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184 DAVID E. ZIMERMAN

iluminação em si. Nós, seres humanos, nos certezas. É claro, me parece, que a pergunta fi-
comportamos como crianças; estamos mais nal do mestre zen-budista “então, por que que-
interessados no dedo que aponta do que res ser libertado?”, na situação analítica, deve-
naquilo que ele mostra. [...] Uma vez que ria ser complementada com um enfoque nos fa-
a iluminação deve vir de dentro, o zen-
tores patológicos do mundo interior do paciente
budismo não tem nenhuma fórmula fixa
que o deixam aprisionado, acorrentado.)
para alcançá-la. Mas ela pode chegar quan-
do menos se espera e atingir a pessoa como
Semelhante a esses diálogos é o uso de
um raio. É como uma piada que de repen-
charadas que parecem absurdas e sem sen-
te se compreende. De súbito, a pessoa “des-
tido. O mestre zen pode fazer a seu discí-
perta” e fica consciente de que faz parte
pulo como perguntas: “Como era seu ros-
do infinito, de uma maneira inteiramente
to antes de você nascer?”, ou “Que som se
nova. (Livro das Religiões, Helleru V;
produz quando se bate palma com uma só
Notaker, H; Gaarduer, J., 2000)
mão?”. Ao ponderar esses enigmas, o dis-
cípulo é levado a experimentar um senti-
(Bion também insistia na diferença entre a mento de dúvida avassalador. E esse sen-
aquisição de um insight intelectual e a de um timento de dúvida é vital para a captação
insight que parta “de dentro” do paciente e pro- direta da realidade [...] A iluminação é per-
duza transformações. Igualmente, o trecho trans- ceber que não existe iluminação. Talvez
crito aponta para o risco de uma análise trans- devêssemos dizer que não há nenhuma
correr num clima de idealização do analista, por- outra maneira de compreender o signifi-
tanto pagando o preço de o analisando ficar cado da vida a não ser vivê-la. Em conse-
infantilizado, mais desejando imitar os valores qüência, muitos zen-budistas destacam
que o trabalho rotineiro pode ser usado
do terapeuta – fixado no seu “dedo” – do que pro-
como meditação.
priamente “encontrar os seus rumos” na vida.)
(Também aqui é fácil reconhecer a impor-
As noções fixas podem ser um obstáculo
tância que Bion concede à instalação permanente
para a iluminação; portanto, um pré-re-
quisito é a mente se esvaziar de palavras e da dúvida – motor gerador do pensamento, não
idéias. O importante no zen é romper com unicamente o racional e lógico. Creio que a ex-
a lógica do discípulo e com seus processos pressão “A iluminação é perceber que não existe
conceituais de pensamento. Isso sempre iluminação” equivale à expressão “facho de escu-
foi feito pelos mestres ao apresentar a seus ridão”, que Bion utilizava com o propósito de,
discípulos perguntas e respostas totalmen- conforme dizia Freud, o analista poder “cegar-se
te surpreendentes. A seguinte conversa artificialmente para poder ver melhor”. Não cus-
entre mestre e discípulo serve de exemplo ta lembrar a metáfora “as estrelas ficam visíveis
dessa técnica: Discípulo: Qual é o cami- quando há escuridão”. O caminho para alcançar
nho para a libertação? \ Mestre: Quem está
uma relativa escuridão na mente do analista, se-
te prendendo? \ Discípulo: Ninguém está
gundo Bion, consiste em o analista, durante a si-
me acorrentando. \ Mestre: Então, por que
queres ser libertado? tuação analítica, não manter a sua mente
saturada por “memória, desejos e ânsia de com-
(Nesse trecho podemos perceber um Bion preensão imediata”.)
que valorizava sobremodo que o analista não Convido o leitor a ler na íntegra não só
deve dar respostas acabadas, mas sim fazer per- as páginas do livro que, aqui, utilizei como re-
guntas a fim de instigar a capacidade do pacien- ferência, mas também outros textos que tra-
te de fazer reflexões; da mesma forma, levantar tem do zen-budismo, ou outras fontes religio-
questões e abrir novos vértices de percepção dos sas, para que cada um possa exercitar refle-
fatos, sempre visando a um incentivo ao exercí- xões acerca de uma possível semelhança com
cio da função de “pensar os pensamentos”, de as concepções de Bion, principalmente aque-
sorte a buscar soluções para suas dúvidas e in- las que tangem ao período religioso-místico.

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 185

16
Bion e o Psiquismo Fetal

Vimos como o pensamento psicanalítico jecturas devem estar sempre juntas e exempli-
de Bion foi sofrendo gradativas transformações ficou isso com a conjectura acerca da vida men-
e que, embora sem nunca ter deixado de tal do feto:
priorizar a situação psicanalítica da prática clí-
nica, suas concepções teóricas e metapsicoló- a especulação imaginativa permite fazer
gicas foram adquirindo um caráter filosófico, várias hipóteses, por mais estapafúrdias
místico e de conjecturas imaginativas sobre a que elas possam parecer ao nosso atual re-
vida psíquica do embrião fetal, muito emba- gistro de compreensão e de aceitação; en-
sadas na crença de uma metempsicose, ou seja, quanto a conjectura racional pode ser com-
a reencarnação das almas em vidas sucessivas. provada a partir de fotografias e ecografias
Aliás, o termo “conjectura imaginativa” que mostram o bebê intra-uterino chupan-
do o polegar, ou protegendo os olhos com
é do próprio Bion, e ele o diferencia concei-
as mãozinhas, de uma possível luminosi-
tualmente de “conjectura racional”, termo em- dade desconfortável.
prestado de Kant. Bion designa que o psica-
nalista investigador tem o direito e o dever Ele próprio explica isso melhor, nessa
de dar livres asas à sua imaginação, procurar mesma Conferência (p. 203):
captar os pensamentos que estão soltos no
espaço e poder pensá-los sem um compromis- O que vou dizer não pode aspirar ao status
so com o rigor científico. Assim, afirma Bion daquilo que ordinariamente se denomina
(Conversando com Bion, 1992, p. 94): “pensamento científico”; o máximo que
posso reivindicar é de que se trata de uma
Encorajo as pessoas a serem indulgentes conjectura imaginativa. A questão central
com a sua imaginação especulativa; há um dela é que mesmo antes do nascimento, o
bocado a ser dito sobre isto antes que se feto – não sei o quão perto do feto estaria
transforme em algo que um cientista po- de ser a termo, ou se poderia se aplicar ao
deria denominar “evidência”. embrião em um estágio mais precoce – se
torna sensível àquilo que poderia ser de-
nominado “ocorrências”, eventos como
A “conjectura racional”, pelo contrário, sentir a pulsação de seu sangue, ou sentir
exige uma fundamentação em fatos de com- a pressão física de um tipo que pode ser
provação científica. comunicado através de um fluido aquoso
Bion, no curso da sua 5a Conferência em tal como o fluido amniótico ou mesmo o
São Paulo (1992), postulou que essas duas con- fluido extracelular.

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186 DAVID E. ZIMERMAN

As conjecturas imaginativas em torno do quiais”? Será que em nosso desenvolvi-


nascimento psíquico centralizaram o interesse mento, nós realmente passamos através
de Bion nos últimos anos de sua produção psi- destes estágios peculiares de ancestra-
canalítica, e ele inspirou-se em Freud como pon- lidade piscosa, ancestralidade anfíbia, e
assim por diante, e eles mostram sinais em
to de partida de seus estudos sobre a vida men-
nossos corpos, então por que não em nos-
tal intra-uterina. Esses trabalhos de Bion estão sas mentes?
particularmente mais desenvolvidos e explici-
tados em “Evidência”, de 1976, “Cesura”, de
Convicto da resposta afirmativa a essa sua
1977, e nas Conferências pronunciadas em 1977,
última pergunta, Bion reiterava que ficava es-
em Nova Iorque, e em 1978, em São Paulo.
pantado com a “impressionante” importância
Como sabemos, Freud deu muito desta-
que se costuma dar ao ato físico do nascimen-
que, no recém-nascido, ao estado de “desam-
to. Diz ele (1992a, p. 39 e 40):
paro mental” (Hilfosigkeit, no original), como
um estado de angústia provocado pelo corte
O ponto de vista do obstetra, o ponto de
biológico do cordão umbilical, que é seguido
vista do ginecologista, o ponto de vista
pela condição humana de neotenia, pela qual
do estatístico são baseados em “Quando
a criança, durante um longo tempo, vai depen- foi que você nasceu? Data? Hora? Com
der, orgânica e psiquicamente, de outras pes- certeza, o fato do nascimento impressio-
soas. Bion retomou essa idéia de Freud e deu- na o indivíduo e o grupo. Mas me parece
lhe um outro desenvolvimento, tanto destacan- que é por demais limitante pressupor que
do a onipotência mental do bebê, que o ajuda o nascimento físico seja tão impressionan-
a liberar-se dessa dependência absoluta da te quanto muita gente o supõe. Na medi-
mãe, como fazendo concepções a partir de um cina física, se reconhece que a história
prisma de matizes místicas, embora estas se pré-natal é de grande importância”[...]
Vocês consideram que a criança nasceu
amparem em algumas conjecturas racionais ci-
no dia do seu aniversário? Será que o feto
entíficas.
a termo não tem nenhum caráter ou per-
Ainda em relação à influência de Freud, sonalidade?
Bion inspirou-se particularmente na frase que
serve como epígrafe ao clássico Inibição, sinto-
Mais adiante (p. 91), ele mesmo responde:
ma e angústia, de 1926: “Há uma continuidade
muito maior entre a primeira infância e a vida
Não vejo razão para duvidar que o feto a
intra-uterina do que a impressionante cesura
termo tenha uma personalidade. Parece-
do ato do nascimento nos permite supor”. La- me gratuito e sem sentido supor que o
mentando que Freud não tenha investigado fato físico do nascimento seja algo que
mais profundamente o contido nessa sua fra- cria uma personalidade que antes não
se, Bion partiu da perspectiva de que o “im- existia. É muito razoável supor que este
pressionante” seria o fato de que deveria ha- feto, ou mesmo o embrião, tenha uma
ver alguma coisa espiritual ou uma vida psí- mente que algum dia possa ser descrita
quica intra-uterina. como muito inteligente.
Bion sustentava essa especulação imagi-
nativa a partir dos estudos científicos dos Ainda apoiado nos embriologistas, Bion
embriologistas que encontraram no corpo adul- afirma que, no terceiro estágio da divisão ce-
to vestígios daquilo que primordialmente eram lular do ovo fecundado, se formam as cavida-
os órgãos sensoriais e fisiológicos do feto. Em des ópticas e auditivas, e que, nesse período, a
relação a esse aspecto, pronunciou-se da se- divisão celular prossegue em um fluido aquo-
guinte maneira (1992a, p. 40): so. Trata-se do fluido amniótico, o qual pode
estar sendo submetido a modificações de pres-
Será que podem existir vestígios daquilo sões, tanto as internas na mãe, a exemplo das
que um cirurgião chamaria “fendas bran- contrações uterinas, como as extrínsecas à mãe

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 187

– podem berrar com ela, podem empurrá-la, do nossa terminologia consciente – se es-
etc. Dessa forma, Bion imaginava um feto, qua- quecer disso, se livrar disso, não ter nada
se a termo, percebendo as desconfortantes os- a ver com isso [...] Suspeito que a expe-
cilações em seu líquido amniótico, as quais, por riência do nascimento seja muito severa;
o que as pessoas fizeram quando eram em-
sua vez, podem estar sendo ocasionadas pelo
briões ou fetos não está mais disponível
desentendimento entre os pais, por exemplo.
ao conhecimento.
Os embriologistas, prossegue Bion, têm
seus pontos de vista a respeito das cavidades
auditivas ou ópticas que vêm a se transformar Bion afirma que essas desprazerosas sen-
em ouvidos ou olhos, e, com base nisso, ele faz sações fetais precisam ser evacuadas; no en-
a especulação imaginativa (1992a, p. 90): tanto, o “evacuado” tem que ser mantido como
expulso e, por isso, jamais foi inconsciente e,
muito menos, consciente. Ele conclui dizendo
Quando é que as covas ópticas e auditivas
que algumas palavras diferentes de “reprimi-
tornam-se funcionantes? Quando começa
algum tipo de visão ou audição primordi- do” ou “suprimido” se fazem necessárias para
ais? À época em que já existe um sistema descrever esses elementos que não chegaram
nervoso autônomo ou simpático – um cé- a ser inconscientes.
rebro “talâmico”–, o embrião pode experi- Dessa forma, Bion afirma que existem
mentar algo que algum dia poderá ser cha- zonas peculiares do corpo que se comportam
mado de “medo” ou “ódio” [...]. [O tálamo como se tivessem uma mente ou um cérebro
e os núcleos límbicos serão algum dia as próprio, e que essas descobertas físicas são fei-
origens do medo e da agressão, da dança tas bem precocemente. Ele faz uma interessan-
e do combate. Em favor da conveniência e te exemplificação (p.19) com uma criança que
da síntese, podemos descrever isto como
‘comportamento “subtalâmico”.]
pode ficar fascinada pelo extraordinário
comportamento de seu pênis que, caso seja
Da mesma forma, Bion diz não ter a me- tocado por si mesmo ou pela babá, ou por
nor dúvida de que o feto pode ouvir e respon- qualquer outra pessoa, torna-se ereto. É
der a sons musicais, tanto os de dentro (como maravilhoso – é uma parte do corpo que
os borborigmos intestinais da mãe) como os parece ter senso de humor, que coopera e
de fora (“será que o feto quase a termo, regis- que é amigável. A criança tem uma opor-
tra uma discussão irada dos pais?”), assim tunidade de estabelecer uma relação ami-
como é certo que ele move-se no útero em res- gável ou funcionante com o seu próprio
posta a determinados ritmos e responde à pres- corpo, que se comporta como se não fosse
seu próprio corpo, pois segue seu próprio
são dos dedos no ventre da mãe.
caminho [...] Se tivermos que ser espertos
Em suma, nas palavras de Bion (p. 98):
sobre isso e colocar em termos anatômicos
ou fisiológicos teríamos que dizer: o
um plasma germinativo é potencialmente parassimpático ganhou um cérebro? O
perceptivo [...]; posso então imaginar que tálamo faz um tipo de pensamento
mesmo no útero esta criança se torna cons- parassimpático?
ciente de certas “coisas” que são “não ele”
[...]. É possível que o feto esteja conscien-
Há situações nas quais um paciente mos-
te de uma “visão” primordial, da luz, e
pode ser que desgoste destas experiências tra grandes sinais de medo inexplicável, em-
que lhe são impingidas, sensações que pa- bora também possa ter aprendido a não de-
recem provir do espaço exterior – sensa- monstrá-lo e a tentar ignorá-lo. Bion acha con-
ção de luz, sensação de barulho – e tam- veniente pensar isso em termos de “medo
bém de algum lugar que possa parecer ser talâmico”.
interno – o batimento cardíaco, o sangue Assim, na prática clínica, em alguns pa-
correndo pelas artérias. Isto poderia ser cientes, ocorrem, às vezes, certas manifesta-
tão intolerável que o feto poderia – usan- ções somatoformes que despertam sentimen-

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188 DAVID E. ZIMERMAN

tos intensos e aparentemente sem uma expli- sadias (ele diferencia os psicóticos “sãos” dos
cação lógica, que a intuição clínica do psicana- “insanos”), e que o comum das pessoas é es-
lista percebe como tendo uma origem muito tarem tão escudadas que não têm coragem
rudimentar. Bion exemplificava a existência de para mostrá-las.
sentimentos “subtalâmicos” ou “parassimpá- Outro ponto importante para a prática
ticos” com a analogia de que, se o globo ocular analítica diz respeito à conjecturação que Bion
for pressionado de modo brusco ou violento, o faz acerca de uma moral de existência extre-
indivíduo “vê estrelas”, tem uma impressão de mamente primitiva. Diz ele (p. 13 e 30):
luz. Essa é uma resposta anômala que clinica-
mente pode aparecer sob a forma de escotomas O impulso moral é extremamente primiti-
ou enxaqueca, mas que pode ser um remanes- vo. A gente precisa apenas olhar para uma
cente das respostas embrionárias da cavidade criança que ainda não conhece nenhuma
óptica ante as pressões no meio aquoso intra- linguagem e dizer, “Ah!” de um modo
uterino. reprovador, e você vai vê-la se retrair
Outro modelo fisiológico bastante utili- culposamente – ou assim alguém poderia
zado por Bion é o referente aos remanescentes pensar. A menos que se reconheça a natu-
reza primitiva do sistema moral, da cons-
das respostas secretórias da supra-renal aos
ciência, este não pode ser devidamente ava-
estresses embrionários. Isso forma uma espé- liado. Infelizmente, somos obrigados a usar
cie de antecipação corpórea, uma preparação termos como “superego”, o qual sugere ime-
para o funcionamento de uma mente que, dian- diatamente algo que está acima de tudo.
te de futuros estresses e pela descarga adrena- Muito mais provavelmente é algo que está
línica, possa preparar-se para a iniciativa e para embaixo de tudo – o mais básico, funda-
a luta. Bion chega à pergunta (p. 171): “quan- mental [...] Realmente, uma das dificulda-
do essas reações químicas se tornam funcio- des com a qual temos que nos haver é uma
nantes, no embrião? quando poder-se-ia dizer moralidade que foi esquecida e da qual, pro-
que o embrião sente medo ou agressão?”. vavelmente, nós jamais estivemos consci-
Dessa forma, alguns sintomas clínicos, entes; nem de sua magnitude.
como o surgimento de turbulências emocionais,
tal como ocorre na adolescência, por exemplo, Bion insistia que a personalidade não cres-
não podem ser entendidos se os encararmos ce em um sentido progressivo puramente li-
unicamente como tendo se desenvolvido após near, e que há um deslizamento progressivo
o nascimento da criança. Para Bion, é necessá- de uma vida mental a outra. Essa concepção
rio que também consideremos as emoções que permite ao analista compreender melhor as si-
nunca se tornaram conscientes e, portanto, tuações nas quais o paciente não consegue tran-
nunca foram “conceitualizadas” ou verbali- sitar positivamente de um estado de espírito a
zadas, como o medo subtalâmico antes aludido. outro, sem misturá-los e confundi-los. Aliás,
As especulações psicoembrionárias de essa mesma capacidade de atravessar uma ca-
Bion mereceram, por parte dele, um interesse mada que separa dois estados de espírito dife-
clínico voltado particularmente para os prema- rentes é essencial para o psicanalista exercer a
turos, as crianças autistas e psicóticas e os pa- sua função interpretativa e constitui a capaci-
cientes somatizadores. dade psicanalítica que Bion denomina de “ci-
Em relação aos prematuros, ele define são não patológica”.
quão importante é a possibilidade de que nas- Dentro desse “modelo de cebola”, Bion
çam antes de estarem mentalmente prontas afirmava que todo progresso requer um retor-
para o nascimento. Nas crianças autistas, ele no a um estado mental anterior, o que pode
especula que persistam capacidades sensori- causar uma turbulência emocional, tal como
ais próprias da esfera animal. Quanto aos se observa nas crises vitais – como as do nasci-
psicóticos, Bion conjectura a possibilidade de mento, da latência, da adolescência, da velhi-
que muitas produções delirantes e alucinató- ce e da morte. Ele incluiu o término de uma
rias sejam manifestações mais verdadeiras e análise entre esses momentos críticos, como

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 189

se constata nesta passagem: “[...] deve haver eclodem do inconsciente e que, de modo
um momento certo para deixar o hospital, ou semelhante, podem ser afetados na dire-
um momento certo para deixar a análise – não ção oposta.
ficando seduzido por um término precoce, nem
tampouco aterrorizado em prosseguir”. Bion E mais adiante ele completa (p. 234):
prossegue (p. 53), fazendo uma analogia
conjectural entre o término de uma análise e o penso que existe uma barreira, uma cesura,
nascimento de um bebê. entre a espécie de animal que eu sou e uma
outra espécie de animal; e entre nós e nós
Isto me faz pensar que o feto a termo tem mesmos. Até o ponto que a situação se re-
algo a ver com a hora da expulsão; ele pode fere a nós, torna-se difícil divisar qualquer
ficar tão aterrorizado em precipitar um padrão pelo fato de estarmos tão perto da
evento catastrófico ou desastroso que não multidão de nós mesmos.
inicia coisa alguma. Posteriormente, o pa-
ciente aprende como ser independente, mas
este medo fundamental se torna um medo Comentários
arcaico, e assim se estabelece algo que é
inconsciente, algo que não é conhecido. Na Este capítulo, diferentemente dos demais,
aparência externa a pessoa é brilhante, es- foi redigido por meio de inúmeras transcrições
perta; tão cheia de sucesso e maravilhosa, literais, algumas bastante longas, de muitas fa-
até que algum dia ocorre uma explosão de- las de Bion, especialmente as pronunciadas em
sastrosa, isto é, incompreensível, pois ale- suas últimas conferências. Esse esquema de ex-
ga-se a respeito do paciente que ele nunca
posição foi deliberado, pois existe sempre um
mostrou o menor sinal de distúrbio. Não
risco inevitável de que se distorça o verdadei-
há explicação para essa explosão extraor-
dinária que é particularmente suscetível de ro significado do pensamento original científi-
tomar lugar, em qualquer uma destas épo- co de algum autor (aliás, é o próprio Bion quem
cas de “tumulto” ou “turbulência”. seguidamente nos adverte a esse respeito). Esse
risco fica muito aumentado quando se trata de
Para finalizar, creio que a melhor forma idéias que, além de serem originais, também
de resumir como Bion conjecturou – imagina- estão prenhes de conjecturas imaginativas, al-
tiva e racionalmente – a vida mental do feto é tamente subjetivas; também pesa o fato de que
voltar a dar-lhe a palavra (p. 216): essa parte da obra de Bion tem sido relativa-
mente pouco divulgada e conhecida.
Conquanto Bion admita que ele tenha se
A criança ou nenê que mostra mecanismos
inconscientes e que se comporta como se
inspirado fortemente em Freud, a partir da
tivesse um inconsciente parece experimen- alusão deste último em relação à impressio-
tar um tipo de cesura que Rank denomi- nante cesura do nascimento, não fica claro se
nou “trauma do nascimento”. Em outras há uma igualdade conceitual entre ambos. Por
palavras, há uma continuidade entre o feto um lado, Freud não aceitava esse nível de
a termo e a criança, ainda que a continui- psiquismo primitivo, e a melhor comprovação
dade seja tanto mantida como quebrada disso está no tipo de censura que, naquele
por aquilo que aparenta ser uma sinapse, mesmo trabalho de 1926, ele faz a Otto Rank,
ou diafragma, ou tela, de tal modo que o acerca do “trauma do nascimento”, dizendo
pensamento primordial do feto é projeta- que é muito inverossímil a hipótese de Rank
do nesta cesura e se reflete, partindo da
de que a criança, na hora do nascimento, te-
criança para seus níveis primordiais de
pensamentos e sentimentos. Através des-
ria recebido impressões sensoriais, determi-
ta membrana permeável, existe um con- nantes no seu psiquismo, principalmente de
tacto em ambas as direções; a cesura é um natureza visceral. Por outro lado, encontra-
espelho transparente. O nenê, ou a crian- mos em certos trabalhos de Freud algumas
ça, pode vivenciar sentimentos que passagens muito significativas quanto a uma

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190 DAVID E. ZIMERMAN

possível crença que ele teria do psiquismo ment faz parte da teoria da técnica, porquanto
fetal. Bion, ao contrário da ambigüidade de designa uma forma de “re-união” entre pacien-
Freud, acreditava convictamente na influên- te e analista, sendo que esse conceito excede
cia dessas impressões sensoriais, tanto durante em muito a idéia de empatia ou de identifica-
o nascimento como na vida intra-uterina, pre- ção. Esses autores lembram que esse estado de
cedente ao nascimento. união poderá ser atingido através do uso disci-
O aprofundamento que Bion fez em rela- plinado da “não-memória”, do “não-desejo” e
ção às impressões sensoriais e neurofisiológicas da “não-compreensão”. Destarte, uma das ra-
está começando a ter um reconhecimento psi- zões que justificam a controvertida recomen-
canalítico, a ponto de o conceituado autor dação de Bion de que o analista deva estar na
Meltzer (1986) ter afirmado que os estudos sessão “sem memória, desejo e compreensão”
de Bion acerca do psiquismo fetal abrem uma é justamente evitar a nossa tendência de ficar-
importante porta para a compreensão dos fe- mos mais ligados ao sensório, assim possibili-
nômenos psicossomáticos. tando que o analista desenvolva a sua intuição
Um outro aspecto digno de ser registra- e a sua sensibilidade para aquelas manifesta-
do é o fato de que, a despeito do alto grau ções do paciente que são inerentes ao arcaís-
especulativo de suas considerações acerca da mo da cesura.
vida mental do feto, escritas e pronunciadas Em relação à linguagem que o analista
em um período notoriamente místico, Bion emprega nas interpretações, Bion reconhece
conectava essas hipóteses com a prática clíni- que ele próprio não sabe qual é a forma mais
ca. Dessa forma, além de abrir uma nova pers- eficaz de atingir o paciente numa dimensão
pectiva de investigação dos distúrbios somá- além da sensorial, tal como os poetas e artistas
ticos e de outros sintomas clínicos, ele ainda conseguem, e que encontrá-la é um desafio que
trouxe duas importantes aplicações práticas: os estudiosos de psicanálise devem encarar; o
uma, que se refere a uma atitude interna do que é certo, no entanto, é que a formulação
psicanalista, e outra, que diz respeito à lingua- verbal habitual do analista, em termos de con-
gem que o analista emprega em suas interpre- ceitos e de símbolos, não consegue atingir os
tações. Em relação à “atitude psicanalítica”, sentimentos arcaicos que podem estar ligados
Bion parte de uma concepção filosófica de que às sensações pré-natais.
a mente e o corpo podem ser reduzidos a uma Por último, impõe-se que os psicanalistas
unidade, e daí decorre que o analista deve ob- reconheçam que muitas das especulações ima-
servar “coisas invisíveis para um mortal” (isso ginativas de Bion estão encontrando uma cer-
me lembra muito O pequeno príncipe, de Saint- ta confirmação nas modernas investigações que
Exupéry, quando ele diz que o “essencial é in- estão sendo levadas a cabo por importantes
visível aos olhos”). Essa atitude que Bion reco- psicanalistas que pesquisam e tratam de crian-
menda pode ser sintetizada na sua sentença ças. Assim, pesquisas recentes, amparadas num
de que o analista deve saber “escutar não só as rigor científico, propiciado por recursos da mo-
palavras e os sons, mas também a música”. derna tecnologia que não existiam na época
A propósito, Bion costumava utilizar a de Bion, comprovam importantes observações
expressão at-one-ment (que não tem o mesmo sobre as sensações cenestésicas fetais, a fisio-
significado de atonement), com a qual desig- logia, a organização motora e as influências
nava uma condição em que há uma espécie de que as experiências pré-natais exercem sobre
fusão harmônica, ou seja, uma comunhão de o desenvolvimento e o comportamento do feto.
um indivíduo consigo mesmo, ou com uma Assim, os pesquisadores atestam aspec-
outra pessoa, tal como pode ocorrer, por exem- tos do desenvolvimento fetal, tais como o fato
plo, no vínculo analítico. Isso parece estar de de as estruturas do ouvido interno do feto es-
acordo com o dito de Bion (1992a, p. 62) de tarem muito próximas em tamanho das do
que “a unidade biológica é dois, e não um”. adulto desde o início do seu desenvolvimento
Assim, Bianchedi e colaboradores (1989) afir- e completamente desenvolvidas até a metade
mam que o conceito contido na palavra at-one- da gestação. Isso talvez explique a capacidade

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 191

e a habilidade do bebê para localizar a origem Especialmente muito interessantes e im-


de um som no espaço e virar-se para olhar. portantes são as suas observações, com o auxí-
Dentre os modernos cientistas pesquisa- lio de ultra-sonografias, acerca de gêmeos, que,
dores, é justo destacar a figura de Alessandra dentro da cavidade uterina, interagem entre
Piontelli, médica e psicanalista italiana que, si, dando uma nítida impressão de que brin-
com publicações que se iniciaram 1986, tem cam, brigam, etc. Segundo a autora, observa-
realizado interessantíssimos estudos, promo- ções posteriores de criancinhas que tinham sido
vendo alterações nas respostas do feto na sua investigadas quando ainda estavam no estado
vida intra-uterina quando submetido a mudan- fetal comprovam uma similaridade de compor-
ças diversas, como alterações de pressão, de tamentos, dentro e fora do útero. Um recente
temperatura, alterações sonoras, etc. Numa de artigo de Piontelli que recomendo ao leitor in-
suas observações, Piontelli diz: teressado no tema é “Observações de Crianças
desde antes do Nascimento” (Em Psicanálise
É possível observar que várias caracterís- hoje: uma revolução do olhar, organizado por
ticas do feto persistem durante toda a gra- Nize Pellanda e Luiz Ernesto C. Pellanda, Vo-
videz e podem inclusive ser sentidas na zes, 1996).
vida pós-natal. [...] com 7,5 semanas, o Tudo isso confere um enorme mérito às
feto começa a responder a estímulos vin- conjecturas imaginativas de Bion e dá mais ra-
dos tanto de fora como de dentro do seu zão à instigante pergunta que, à moda de um
corpo. Ele responde com movimentos vio- puxão de orelhas e de um desafio à nossa es-
lentos e aumenta o batimento cardíaco à
cuta psicanalítica, ele lançou na sua 3a Confe-
punção de uma agulha e à injeção intra-
peritoneal de soluções frias.
rência em Los Angeles, quando abordava a hi-
pótese de que o feto é capaz de “ver”, “ouvir”
ou “sentir” (1992a, p. 42): “Eu queria saber
A autora apresenta a possibilidade de
quando os psiquiatras e os psicanalistas vão
detectar, já no útero, algumas indicações pre-
alcançar o feto. Quando é que eles vão ser ca-
maturas do futuro temperamento da criança.
pazes de ouvir e ver estas coisas?”.

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192 DAVID E. ZIMERMAN

17
Vínculos e Configurações Vinculares

Dentre os sete elementos da psicanálise Freud, em diversos trabalhos, deixou im-


preconizados por Bion, o dos vínculos, sem a plícita a importância que atribuía aos vínculos
menor dúvida, ocupa um papel de alta rele- (embora utilizasse termos correlatos) que se
vância na teoria, na prática e na própria essên- estabelecem entre o indivíduo e seus semelhan-
cia de sua obra. Assim, a psicanálise contem- tes (Projeto..., 1895), entre a criança e a mãe
porânea inclina-se, cada vez mais, para o pa- (Leonardo..., 1910) ou entre os indivíduos e as
radigma da vincularidade, isto é, para a visão massas (Psicologia das massas..., 1921).
do processo psicanalítico sempre em interação
Klein também aludiu diretamente à no-
entre analisando e analista, a partir dos víncu-
ção de vínculo, como podemos observar no seu
los que se estabelecem entre ambos e que cons-
relato acerca da análise do menino Dick, no
tituem o campo psicanalítico.
seguinte trecho (1930, p. 214): “A análise des-
ta criança tinha que começar pelo estabeleci-
O VÍNCULO ANALÍTICO mento de um contato com ele”.
Bowlby, um importante psicanalista bri-
O termo vínculo tem sua origem no étimo
tânico, durante mais de 40 anos estudou, utili-
latino vinculum, que significa uma união, com
zou e divulgou bastante o que, em sua “teoria
as características de uma ligadura, uma ata-
do vínculo”, sob a denominação original de
dura de características duradouras. Da mesma
attachment, conceituou como o vínculo afetivo
forma, vínculo provém da mesma raiz que a
primário da relação mãe-filho. No entanto, seus
palavra “vinco” (com o mesmo significado que
estudos interativos (1969) se fundamentam no
aparece, por exemplo, em “vinco” das calças,
comportamento social, em um contexto
ou de rugas, etc.), ou seja, alude a alguma for-
evolutivo, de modo que ele considera que a
ma de ligação entre as partes, que estão uni-
principal função do vínculo é a de proteger a
das e inseparadas, embora claramente delimi-
sobrevivência do indivíduo contra os agentes
tadas entre si. Trata-se, portanto, de um esta-
predadores externos.
do mental que pode ser expressado através de
distintos modelos e com variados vértices de Bateson e colaboradores (1955), da Esco-
abordagem. la de Palo Alto, Califórnia, no curso de seus
Assim, vale a pena fazermos algumas bre- aprofundados estudos sobre a teoria da comu-
ves menções entre os principais autores que, nicação humana, descreveram a importante
de forma direta ou indireta, trabalharam com conceituação de duplo vínculo (double bind), a
a noção de vínculo. qual consiste em uma patologia da relação en-

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BION – DA TEORIA À PRÁTICA 193

tre pais e filhos, em que, através de mensa- Do ponto de vista psicanalítico, funda-
gens contraditórias (do tipo: “eu te ordeno que mentada em Bion, a conceituação de vínculo
não recebas ordens de ninguém...”) e desqualifi- necessariamente apresenta as seguintes carac-
catórias (do tipo: “me decepcionei contigo, o terísticas:
teu amigo ‘X’ faz muito melhor que tu...”), a
criança, faça o que fizer, nunca pode superar
1. São elos de ligação que unem duas
seus pais, e daí sobrevém um estado mental
ou mais pessoas, ou duas ou mais
de aprisionamento às expectativas deles. É in-
partes de uma pessoa.
teressante acrescentar que o termo bind, usa-
2. Tais elos são sempre de natureza
do no original, na sua essência, tem o signifi-
emocional.
cado de escravidão, o que traduz fielmente a
3. Eles são imanentes (isto é, são ina-
natureza desse vínculo pelo qual as pessoas –
tos, existem sempre como essenciais
um casal, por exemplo – estão atadas de tal
em um dado indivíduo e são inse-
sorte que não conseguem viver juntas nem,
paráveis dele).
muito menos, separadas.
4. Comportam-se como uma estrutura
A Escola Argentina de Psicanálise tem (vários elementos, em combinações
dado uma importante contribuição ao estudo variáveis).
dos vínculos nas interações humanas. Assim, 5. São polissêmicos (contêm vários sig-
o casal Baranger (1961) descreveu com uma nificados).
grande riqueza de vértices psicanalíticos a per- 6. Comumente atingem as dimensões
manente e recíproca interação entre analista inter, intra e transpessoal.
e analisando no espaço que denominaram 7. Um vínculo estável exige que o su-
como campo analítico. Na atualidade, auto- jeito possa pensar as experiências
res como Puget e Berenstein (1994) reservam emocionais, na ausência do outro.
a conceituação de vínculos para o plano da 8. Os vínculos são potencialmente
intersubjetividade, com um enfoque de natu- transformáveis.
reza sistêmica, assim privilegiando uma ên- 9. Devem ser compreendidos através
fase nas distintas configurações vinculares (de do modelo da inter-relação continen-
natureza simbiótica, sadomasoquista, etc.) te-conteúdo.
entre duas ou mais pessoas do mundo real,
embora, é claro, esses importantes psicana-
Assim, partindo da conceituação de que
listas argentinos reconheçam a similaridade
“‘vínculo’ é uma estrutura relacional-emocio-
entre essas configurações vinculares inter-
subjetivas e as intra-subjetivas. nal entre duas ou mais pessoas, ou entre duas
É óbvio que os nomes e conceitos ante- ou mais partes separadas de uma mesma pes-
riormente mencionados não passam de uma soa”, Bion estendeu o conceito de vínculo a
simples amostragem, e que poderíamos nos qualquer função ou órgão que, desde a condi-
estender com outros autores que deram um ção de bebê, esteja encarregado de vincular
grande destaque à vincularidade, como objetos, sentimentos e idéias uns aos outros.
Balint, Winnicott, Mahler, Kohut, Lacan, Dessa forma, descreveu os vínculos de
Aulagnier, Anne Alvarez, Green, etc.; no en- amor (L), ódio (H) e conhecimento (K) de tal
tanto, vamos nos restringir ao psicanalista modo que todos os três podem ser sinalizados
que mais diretamente e enfaticamente apro- tanto de forma positiva (+) como negativa
fundou o estudo sobre os vínculos, o que per- (–), detendo-se mais especificamente no vín-
meia praticamente toda a sua obra, notada- culo -K, ou seja, quando este está a serviço do
mente quando alude à prática psicanalítica: que Bion denominou como ataque aos víncu-
estou me referindo a Bion, cujos conceitos los perceptivos, especialmente no que se refe-
vão merecer, aqui, uma apreciação um pou- re à desvitalização e anulação dos significa-
co mais alongada. dos das experiências emocionais.

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194 DAVID E. ZIMERMAN

Durante muitas décadas, todos os psica- o sujeito não se dê conta dele. Num grau ex-
nalistas basearam os seus esquemas referen- tremo, podem servir como exemplo as atroci-
ciais virtualmente em torno de dois vínculos, dades que, em nome do amor, foram cometi-
o do amor (principalmente com base nos ensi- das pela Inquisição.
namentos de Freud) e o do ódio (fortemente
Comentários: visto por outro ângulo, creio
apoiado nas concepções kleinianas), e coube a
que também pode servir como exemplo uma
Bion, sabidamente um analista de profundas
situação em que o indivíduo está sendo mani-
raízes na escola de Klein e com um sólido
festamente agressivo com os outros, inclusive
embasamento freudiano, propor uma terceira
com uma emoção de ódio, por não estar se sen-
natureza de vínculo: o do conhecimento, dire-
tindo entendido e respeitado, porém, no fun-
tamente ligado à aceitação ou não das verda-
do, sua agressividade, simultaneamente com
des penosas, tanto as externas como as inter-
o ódio, está mais a serviço da pulsão de vida
nas, que dizem respeito mais diretamente aos
que propriamente da pulsão de morte, assim
problemas da auto-estima dos indivíduos.
caracterizando o conflito de uma emoção versus
Em lugar do clássico conflito amor
uma antiemoção. Um exemplo disso encontra-
versus ódio, Bion propôs uma ênfase no con-
mos em muitos adolescentes rotulados como
flito entre as emoções e as antiemoções pre-
rebeldes e agressivos pelos pais, professores e
sentes em um mesmo vínculo. Assim, postu-
sociedade, mas que, em uma análise mais aten-
lou que “menos amor” (-L) não é o mesmo
ta, demonstram que estão exercendo uma con-
que sentir ódio, e que, tampouco, “menos
duta contestatória, com a finalidade precípua
ódio” (-H) significa amor. O vínculo de “me-
de adquirir um sentimento de identidade pró-
nos amor” alude à oposição à emoção do amor,
pria, ou seja, ser eles mesmos, e não quem os
o que pode ser ilustrado com a situação de
outros querem que eles sejam.
puritanismo e a de samaritanismo, ou seja,
em nome do amor o sujeito se opõe à obten- Por sua vez, o simples fato de o vínculo
ção da emoção do prazer. Nesses casos, a do conhecimento (K) estar intimamente liga-
manifestação externa adquire a aparência de do ao mundo das verdades (ou falsidades e
amor, que, no entanto, é falso, o que não sig- mentiras, no caso de -K) permite depreender
nifica que esteja havendo ódio. a enorme importância que isso representa
para a psicopatologia, se levarmos em conta
Comentários: um exemplo de -L que me
que os diversos tipos e graus da patologia psí-
ocorre seria o caso de uma mãe que pode amar
quica dependem justa e diretamente dos ti-
intensamente o seu filho, porém o faz de for-
pos e graus de defesa que o ego utiliza para a
ma simbiótica, possessiva e sufocante, de modo
negação do sofrimento mental. Como exem-
que, embora sem ódio, o seu amor de tipo
plo de “menos conhecimento”, pode servir o
samaritano, cheio de sacrifícios pessoais e com
“ataque às verdades” que comumente é em-
renúncia ao prazer próprio, tem resultados ne-
pregado pela “parte psicótica da personalida-
gativos, pois funciona como culposo e infantili-
de”, de sorte que, nos casos mais exagerados,
zador, já que ela não reconhece e impede o
o sujeito constrói a sua própria verdade, que
necessário processo de diferenciação, separa-
contraria as leis da lógica e da natureza, e a
ção e individuação do filho.
todo custo quer impô-la aos outros como se
O vínculo -H (“menos ódio”) pode ser fosse a verdade definitiva. Dada a importân-
ilustrado com o estado emocional e a condu- cia desse “vínculo do conhecimento” no ato
ta de hipocrisia, pela qual o indivíduo está ten- analítico, ele consta de dois capítulos neste
do uma atitude manifestamente amorosa por livro: “Uma Teoria do Conhecimento” e “As
alguém, ao mesmo tempo que existe um cer- Múltiplas Faces da Verdade”.
to ódio latente (quando o ódio for predomi- Conquanto a contribuição de Bion em
nante, trata-se de cinismo). Portanto, pode-se acrescentar o vínculo do conhecimento aos do
dizer que, no “menos ódio”, está presente uma amor e do ódio tenha trazido uma grande am-
forma de amar que se baseia no ódio, embora pliação e um enriquecimento da compreensão

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