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O reino esquecido

NOVA COLEÇÃO BÍBLICA


• As parábolas de Jesus, J. Jeremias
• História de Israel, J. Bright
• Introdução aos livros apócrifos e pseudepígrafos do AT e aos manuscritos de Qumrã, L. Rost
• Introdução ao Novo Testamento, W. G. Kümmel
• A comunidade do discípulo amado, R. Brown
• A Bíblia, a arqueologia e a história de Israel e Judá, José Ademar Kaefer
• O reino esquecido – Arqueologia e história de Israel Norte, Israel Finkelstein
israel finkelstein

O reino esquecido
Arqueologia e história de Israel Norte
Título Original: Le royaume biblique oublié – Archéologie et historie d’Israël
Copyright © Éditions Odile Jacob, 2013
Isbn 978-2-7381-2947-5

Esta obra foi elaborada a partir de conferências proferidas pelo autor no Collège de France.

Tradução: Silas Klein Cardoso


Élcio Valmiro Sales de Mendonça
Direção editorial: Claudiano Avelino dos Santos
Assessoria bíblica: Paulo Bazaglia
Assistente editorial: Jacqueline Mendes Fontes
Coordenador de revisão: Tiago José Risi Leme
Revisão: Tiago José Risi Leme
Caio Pereira
Diagramação: Ana Lúcia Perfoncio
Capa: Marcelo Campanhã
Impressão e acabamento: PAULUS

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Finkelstein, Israel
O reino esquecido – Arqueologia e história de Israel Norte / [tradução Silas Klein Cardoso]. – São
Paulo: Paulus, 2015. – (Coleção Bíblica)

Título original: The forgotten kingdom: the archaeology and history of Northern Israel.
Bibliografia.
ISBN 978-85-349-4239-3

1. Arqueologia 2. Bíblia - Antiguidades 3. Bíblia - Autoridade, testemunhas etc. 4. Bíblia - História


5. Israel - História 6. Judeus - História I. Título. II. Série.

15-07864 CDD-220.95

Índices para catálogo sistemático:


1. Bíblia: Arqueologia: Historicidade 220.95

1ª edição, 2015

© PAULUS – 2015
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 São Paulo (Brasil)
Fax (11) 5579-3627 • Tel. (11) 5087-3700
www.paulus.com.br • editorial@paulus.com.br
ISBN 978-85-349-4239-3
Apresentação à edição brasileira
José Ademar Kaefer

A arqueologia teve e tem um papel determinante na pesquisa


bíblica, principalmente no que tange à história de Israel e Judá. Ela
ajuda a conhecer melhor o modo como as pessoas do mundo da Bíblia
viviam, como se organizavam em comunidades, o que produziam e o
que comiam. Ajuda a conhecer melhor a cultura do povo do campo
e da cidade, suas festas e sua religião. Ajuda a conhecer a geografia,
o clima, o comércio local e internacional, a importância das rotas co-
merciais e a organização político-econômica. Ajuda a conhecer melhor
os Deuses e Deusas cultuados pelo povo da Bíblia, o que por sua vez
amplia a compreensão do Deus Javé, que acabou prevalecendo sobre
os demais. Assim, apoiando-se na arqueologia, o estudo bíblico auxi-
lia na percepção mais humana de Deus que age na história ontem e
hoje. Pois a Bíblia é um espelho para as pessoas se verem e avaliarem
sua conduta em todos os tempos e se sentirem amparadas na labuta
cotidiana pela vida.
Evidentemente as novas descobertas podem causar certo descon-
forto na forma pela qual interpretamos os fatos narrados na Bíblia, pois
somos pessoas de fé e gostamos de portos seguros para navegar. Mas,
quando se estuda, é preciso estar aberto ao novo, ao desconhecido e
ao diferente, pois assim é a dinâmica da investigação: quanto mais se
busca, mais se acha e maior fica o panorama interpretativo. Foi assim,
por exemplo, quando se descobriu que os relatos da criação e do dilú-
vio narrados no Gênesis têm paralelos em outras culturas, muito mais
antigos, e que foram inspirados neles. Ou que as narrativas sobre os
patriarcas e matriarcas são tradições independentes, que só mais tarde
foram unidas sob um único patriarca. E que, na realidade, a tradição
de Jacó é muito mais antiga que a de Abraão. Ou ainda, que Israel,
enquanto povo, não se formou fora de Canaã, mas é essencialmente
6 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

cananeu, e que, portanto, a conquista da terra prometida não pode


ter sido factual. A partir disso, se deve perguntar a respeito do Êxodo;
é ele também uma tradição que surgiu dentro de Israel? Como fica,
então, a caminhada pelo deserto, é ela uma tradição independente e
que só mais tarde foi juntada à tradição do Êxodo?
Nos últimos anos, a teoria que vem tendo grande revés é a da
Monarquia Unida sob os reinados de Davi e Salomão. A arqueologia
tem comprovado que aquilo que se atribuía nas décadas de 1960 a
1980 a Salomão pertencia, na verdade, aos reis de Israel Norte: Omri,
Acab e Jeroboão II. E que a primeira monarquia desenvolvida em Israel
não foi estabelecida por Davi e Salomão, mas pela dinastia omrida de
Israel Norte. Ou seja, se de um lado a grandeza do reinado de Davi
e Salomão está desmoronando ou já desmoronou, por outro se está
descobrindo ou se está “desenterrando” uma nova grandeza: Israel
Norte, “o Reino esquecido”.

Israel Finkelstein

Nesse despertar de novos tempos da arqueologia em todo o


Levante e nos novos resultados por ela alcançados, tem um papel
preponderante o arqueólogo Israel Finkelstein. Professor do Depar-
tamento de Arqueologia e Civilizações do Antigo Oriente Próximo
da Universidade de Tel Aviv e diretor da expedição Meguido, Israel
Finkelstein é um dos arqueólogos mais proeminentes da atualidade.
Inicialmente se dedicou às escavações e estudos dos sítios arqueológi-
cos do Planalto Central de Israel, como Gibeon, Silo, Siquém e Tersa.
Um dos frutos desse estudo, além de diversos artigos, é o seu livro
The Archaeology of the Israelite Settlement, publicado em 1988. A
esse, seguiram-se dezenas de artigos e outros livros, entre eles o State
Formation in Israel and Judah, publicado em 1999, onde Finkelstein
avança na pesquisa dos sítios arqueológicos de Meguido, Samaria e
Jezreel, para provar sua teoria de que, anteriormente a Judá, houve um
maior desenvolvimento em Israel Norte, onde o clima é mais propício
à agricultura e a planície é mais fértil que as montanhas e o deserto
de Judá. Fatores esses que foram determinantes para o povoamento
primeiro e maior no Norte.
apresentação à edição brasileira 7

O livro que se tornou um marco e que fez pender de vez o pêndulo


para o lado oposto da teoria da Monarquia Unida foi escrito em 2001
em conjunto com Neil Asher Silberman: The Bible Unearthed. Nesse
livro, que foi traduzido em várias línguas, também ao português, sob o
lamentável título A Bíblia não tinha razão, Finkelstein reúne o essencial
dos seus escritos de anos de escavações e de estudos e de uma maneira
muito clara mostra como a arqueologia ajuda a entender o que está
por trás dos livros históricos da Bíblia e como eles precisam ser relidos
e reinterpretados. Fica evidente também nesse livro que Finkelstein,
juntamente com uma nova geração de arqueólogos, inaugura uma
nova forma de fazer arqueologia, não só com novos métodos, mas,
sobretudo, com uma nova postura. Supera-se a atitude do arqueólogo
que se dirige ao sítio arqueológico tendo em uma mão a picareta e
noutra a Bíblia, já sabendo a priori o que vai escavar. Na nova postura,
deixa-se a Bíblia de lado e se faz simplesmente arqueologia. Uma vez
concluídas as escavações, se apresentam os resultados à comunidade
científica. Cabe aos biblistas compará-los com o texto bíblico e fazer
sua leitura a partir dos novos dados.
Depois desse livro, que consagrou Israel Finkelstein, seguiram-se
outros dois, que ampliam o debate, principalmente em torno do Davi
e Salomão históricos, de como a arqueologia tem investido esforços
na busca por sinais deixados pelos reinados desses dois reis e de co-
mo os resultados têm sido frustrantes. Buscava-se por Davi e Sa-
lomão e se encontrou Omri, Acab e Jeroboão II. Os dois livros a
que nos referimos são: David and Salomon (2006), também em
conjunto com Neil Silberman, e The Quest for the Historical Israel
(2007), este organizado por Brian Schmidt e que traz vários textos em
debate com o arqueólogo Amihai Mazar da Universidade Hebraica
de Jerusalém.
A grande base para as pesquisas de Israel Finkelstein tem sido
Meguido, onde ele coordena as escavações desde a década de 1990.
Esse Tel [sítio arqueológico] é o que melhor representa a história da
arqueologia em Israel e por isso um dos mais cobiçados pelos arqueó-
logos. Finkelstein fez de Meguido uma espécie de laboratório para os
novos métodos de se fazer arqueologia, pois a estratigrafia nesse sítio
é muito bem definida. De 2010 a 2014, coordenou o projeto “Expedi-
8 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

ção Meguido”, financiado pela Comunidade Comum Europeia, com a


participação de grande número de pesquisadores. O fator que iniciou
toda a revolução da arqueologia na compreensão da história de Israel e
Judá são as novas datações que estão sendo estabelecidas com o auxílio
de várias ciências, como a física, a biologia e a matemática em vários
sítios arqueológicos do Levante, mas particularmente em Meguido.
O maior avanço da arqueologia nos últimos anos foi no sistema de
datação. Esse avanço se deve principalmente à introdução do uso do
radiocarbono na análise de amostras. Há 25 anos se utilizava como
referência a cronologia egípcia e assíria, e hoje se estabelece a datação
a partir da análise de amostras em laboratório pelo radiocarbono.
Para aprimorar os resultados do estudo das datações, Finkelstein e sua
equipe abandonaram o estudo integral das camadas e se concentraram
somente nos períodos da Era do Bronze e do Ferro. Outra diferença
considerada foi a diminuição do espaço cronológico dos períodos
estudados. O normal na análise de amostras na arqueologia é fazer a
contagem a cada duzentos anos, Finkelstein e sua equipe, no intuito
de alcançar maior precisão, tomaram amostras de cada 25 anos. Evi-
dentemente isso aumenta o trabalho, mas diminui o risco de erro de
se atribuir a um rei aquilo que pertencia a outro. Foi o que aconteceu
nos anos de 1960 a 1980, quando se atribuiu a Salomão as obras que
eram do rei Acab.
Os resultados das escavações de Meguido estão publicados numa
série de vários volumes organizados em cinco seções. As seções coor-
denadas por Israel Finkelstein e David Ussishkin são as duas últimas:
Meguido IV, que compreende as temporadas de escavações de 1998-
2002, publicada em 2006; e Meguido V, que compreende as tempora-
das de 2004-2008, publicada em 2013. Atualmente Israel Finkelstein
coordena vários projetos de pesquisa, tanto em Israel Norte, como no
sul, no deserto do Neguev, mas a base continua sendo Meguido.

O Reino Esquecido

Com o panorama apresentado acima sobre as escavações e publi-


cações de Israel Finkelstein, é possível ter uma ideia da importância do
material que está sendo colocado em suas mãos, caro leitor e leitora,
apresentação à edição brasileira 9

ou seja, o histórico de pesquisas que precedem os resultados apresen-


tados no presente livro.
A obra se divide em sete capítulos e tem como tese principal a
importância de Israel Norte, o Reino esquecido. No primeiro capítulo,
Finkelstein apresenta sua pesquisa sobre os assentamentos das terras
altas e baixas de Israel Norte, entre as Eras do Bronze Tardio e Ferro I,
e o fim das cidades-Estado cananeias. Ele toma como referência prin-
cipal as escavações feitas nos sítios arqueológicos de Siquém e de Silo.
No segundo capítulo, Finkelstein parte dos vários sítios escavados no
Planalto Central de Israel Norte e identifica ali a primeira entidade isra-
elita surgida por volta do século X a.C. Por trás desta entidade estaria
a casa de Saul, que tinha as cidades de Gibeón e Betel como centro do
seu reinado. Alguns textos do Primeiro Livro de Samuel guardariam
memória desse reino, que teria sido destruído pela campanha do faraó
egípcio Sheshong I. Khirbet Qeiyafa, um sítio escavado recentemente
a sudoeste de Jerusalém, teria sido um posto avançado de Saul para o
controle da fronteira sul do território.
O terceiro capítulo trata dos primeiros dias do reino de Israel
Norte, após a derrocada para Sheshong. O centro agora já é a capital
Tersa ou Tirza (Tell el-Fa‘rah), onde reina Jeroboão I, possivelmente
colocado ali por Sheshong I. Com o capítulo quatro, o livro entra no
seu tema central, que é o reino de Israel Norte sob a dinastia dos omri-
das. Finkelstein toma como base principal as construções omridas de
Samaria, Jezreel, Hazor, Jahaz e Atarot, entre outros, para mostrar que,
nesse reinado de quarenta e dois anos (884-842), Israel Norte atingiu
um desenvolvimento sem precedentes. A dinastia omrida impôs seu
domínio em boa parte do território arameu e alargou suas fronteiras
até Dã, Norte, Negev, no sul de Judá, e grande parte do território da
Transjordânia. Sua importância internacional se encontra citada em
três estelas: a de Samanassar III, de Mesha e de Dã.
No quinto capítulo, o livro aborda a derrocada da dinastia omrida
e a perda de boa parte do seu território para Hazael, rei de Damasco.
Depois de um longo período de submissão ao domínio arameu, que
amplia e investe no desenvolvimento de pequenos reinos no sul da
Jordânia, Israel Norte renasce com Jeroboão II. Isso é possível graças
ao avanço do Império Assírio, que derrota Damasco e concede privi-
10 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

légios ao rei de Israel. É um novo florescimento em que Israel Norte


retoma suas antigas fronteiras. Uma prova dessa nova expansão são
os achados de Kuntilet Ajrud, um grande entreposto no deserto do
Sinai, que revelam a presença do domínio de Jeroboão II nessa região.
No capítulo sexto, Finkelstein trata dos mitos ou tradições que
deram origem a Israel: o ciclo de Jacó e o Êxodo. O de Jacó é mais
antigo, mas ambos se formaram primeiro como tradição oral nos san-
tuários centrais de Siquém, Betel e Fanuel, para depois serem postos
por escrito. No capítulo sétimo, o autor aborda o “fim” de Israel Norte,
com a captura da capital Samaria pelos assírios e a deportação de sua
população. Mostra também como nesse período Judá, com sua capital
Jerusalém, passa por um grande aumento populacional, resultante da
migração do Norte, e um consequente desenvolvimento econômico.
Começa, então, uma nova história de Israel, agora integrada a Judá; é
o início da redação deuteronomista. É nesse momento que as tradições
do Norte são incorporadas na história de Judá e contadas como suas.
Temos em mãos, portanto, uma produção bíblico-arqueológica
consistente, escrita por quem é autoridade no assunto. Uma obra que
analisa a história dos povos da Bíblia a partir de Israel Norte, o reino
que foi ocultado e desconsiderado pelos redatores jerosolimitas, e
como tal tem sido lido pelo mundo acadêmico. O Reino esquecido
prima pelo novo e abre a porta para temas que orientarão o futuro
da pesquisa bíblica.
Reconhecimentos

As sementes que deram origem a este livro foram semeadas


numa série de palestras que proferi no Collège de France em fevereiro
de 2012. A série, fruto do convite do meu colega e amigo Prof. Thomas
Römer, foi intitulada: “O surgimento do Reino do Norte em Israel”
[The Emergence of the Northern Kingdom of Israel]. Gostaria de agra-
decer Thomas por seu gentil convite, por sua hospitalidade enquanto
estive em Paris e por iniciar o processo de publicação deste livro. O
livro foi publicado originalmente em francês, sob o título Le Royaume
Biblique oublié (Paris, 2013), por Odile Jacob, para o Collège de France.
O livro é também baseado em muitos artigos que escrevi no
decorrer de muitos anos, alguns deles com colaboração de outros
colegas. Sou devedor a quatro deles, que me garantiram a permissão
para sumarizar partes de artigos neste livro: Alexandre Fantalkin
(artigo sobre Khirbet Qeiyafa, publicado em Tel Aviv, 2012), Oded
Lipschits (artigo sobre Jaza e Atarot, publicado em ZDPV, 2010),
Nadav Na’aman (artigo sobre Siquém da Idade do Bronze Posterior
e o Reino do Norte, publicado em IEJ, 2005) e Benjamin Sass (artigo
sobre a disseminação da atividade escribal no Levante no Ferro I-IIA,
a ser publicado em Hebrew Bible and Ancient Israel).
A preparação deste livro foi apoiada pelo Chaim Katzman
Archaeology Fund da Universidade de Tel Aviv. Sou grato a Myrna
Pollak por seu grande profissionalismo ao editar o manuscrito, e a
Alexander Pechuro e minha aluna Maayan Mor, pela preparação das
figuras.
Abreviaturas

AB Anchor Bible
ABD Anchor Bible Dictionary. Editado por D. N. Freedman. 6 vols.
New York: Doubleday, 1992.
ABS Archaeology and Biblical Studies
AJA American Journal of Archaeology
AASOR Annual of the American Schools of Oriental Research
AOAT Alter Orient und Altes Testament
BA Biblical Archaeologist
BASOR Bulletin of the American Schools of Oriental Research
Bib Biblica
BJS Brown Judaic Studies
BN Biblische Notizen
CBQ Catholic Biblical Quarterly
EI Eretz-Israel: Archaeological, Historical and Geographical Studies
HBAI Hebrew Bible and Ancient Israel
IEJ Israel Exploration Journal
JAS Journal of Archaeological Science
JBL Journal of Biblical Literature
JHS Journal of Hebrew Scriptures
JNES Journal of Near Eastern Studies
JNSL Journal of Northwest Semitic Languages
JSJ Journal for the Study of Judaism
JSOT Journal for the Study of the Old Testament
JSOTSup Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series
NEA Near Eastern Archaeology
NEAEHL The New Encyclopedia of Archaeological Excavations in the Holy
Land. Editado por E. Stern. 4 vols. Jerusalem: Israel Exploration
Society and Carta; New York: Simon & Schuster, 1993.
OBO Orbis biblicus et orientalis
14 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

OLA Orientalia Lovaniensia Analecta


OTL Old Testament Library
PEQ Palestine Exploration Quarterly
PJb Palastinajahrbuch des deutschen evangelischen Instituts fur Al-
tertumswissenschaft des Heiligen Landes zu Jerusalem
RB Revue Biblique
SBLABS Society of Biblical Literature Archaeology and Biblical Studies
SBLMS Society of Biblical Literature Monograph Series
SBLSBL Society of Biblical Literature Studies in Biblical Literature
SBLSymS Society of Biblical Literature Symposium Series
SHANE Studies in the History of the Ancient Near East
SJOT Scandinavian Journal of Old Testament
UF Ugarit-Forschungen
VT Vetus Testamentum
VTSup Supplements to Vetus Testamentum
ZAW Zeitschrift fur die Alttestamentliche Wiessenschaft
ZDPV Zeitschrift des Deutschen Palastina-Vereins
Introdução:
Por que um livro
sobre o Reino do Norte?

Na primeira metade do século VIII a.C., Israel governou sobre


a maior parte do território dos dois reinos hebreus (fig. 1) e sua popu-
lação representava três quartos dos povos de Israel e Judá combinados
(Broshi e Finkelstein, 1992). Israel foi mais forte do que Judá tanto
militar quanto economicamente e, na primeira metade do século IX e
primeira metade do século VIII – quase metade do tempo em que os
dois reinos coexistiram – Israel dominou o Reino do Sul. Ainda assim,
Israel ocultou-se sob as sombras de Judá, tanto na histórica contada na
Bíblia Hebraica, quanto na atenção prestada pela academia moderna.

1. Historiografia e memória histórica


A história do Antigo Israel na Bíblia Hebraica foi escrita por
autores judaítas1 em Jerusalém, a capital do Reino do Sul e eixo da
dinastia davídica. Dessa forma, ela transmite ideias judaítas no to-
cante a território, realeza, templo e culto. Além do mais, mesmo o
que alguns acadêmicos entendem como as mais antigas camadas da
história do Israel Antigo, como os livros de Samuel (p. ex., McCarter,
1994; Halpern, 2001; Römer e De Pury, 200, 123-28; Hutton, 2009),
foram escritas após o Reino do Norte ter sido subjugado pela Assíria
e após sua elite ter sido deportada. No final do século VII, quando a
primeira camada da História Deuteronomista foi compilada (Cross,
1973, 274-88; Na’aman, 2002b; Römer, 2007), o Reino do Norte já

1
Neste livro, “judaíta” é utilizado como adjetivo para termos relacionados ao Reino de Judá (também descrito
aqui como “Reino do Sul”), como cerâmica judaíta. “Da Judeia” é utilizado para referir-se a regiões geográficas,
como o deserto da Judeia. “Israel” geralmente refere-se ao Reino do Norte, enquanto “Antigo Israel” refere-se ao
povo do Idade do Ferro – Norte e Sul combinados. Em “Dois Reinos Hebreus”, eu adiro ostensivamente à ideologia
dos autores judaítas-judeanos tardios, mas, ao mesmo tempo, reconheço as proximidades e diferenças em sua
cultura material e mundo cognitivo (veja mais em Finkelstein, 1999a).
16 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

Tiro

ícia
F en Dã

Aram
Damasco
Hasor

Mar
da
Galileia

Meguido
Mar
Dor
Mediterrâneo

Samaria

rdão

Israel
Rio Jo

Rabbah
Gezer

Amon

Jerusalém
Ashdod

Laquis
Mar
Judá Morto
ia
íst

Dibon
Fil

Moab
Bersabeia

Quilômetros

FIGURA 1: Mapa de Israel e Judá no século VIII a.C.


introdução: por que um livro sobre o reino do norte? 17

era uma memória vaga e remota, com quase um século de idade, e isso
num período sem continuidade da atividade escribal. É verdade que
tradições israelitas foram incorporadas na Bíblia Hebraica. Refiro-me
a blocos como o Ciclo de Jacó em Gênesis (De Pury, 1991), a tradição
do Êxodo (Van Der Toorn, 1996, 287-315), o que é conhecido como
“Livro dos Salvadores” em Juízes (Richter, 1966), tradições positivas
concernentes ao rei Saul em Samuel, as histórias proféticas de Elias-
-Eliseu em Reis e os dois profetas do norte Oseias e Amós (para o
impacto dos textos do Norte na Bíblia Hebraica, veja Schiedewind,
2004; Fleming, 2012). Essas tradições podem ter impactado Judá na
forma oral ou escrita.
Os textos originais do Norte – ou ao menos alguns deles – podem
ter sido escritos tão cedo como na primeira metade do século VIII a.C.
na capital Samaria ou no templo de YHWH em Betel, localizado na
fronteira norte de Judá (também Fleming, 2012, 314-21; para uma data
posterior de compilação em Betel, veja Knauf, 2006; Davies, 2007a,
2007b; para a arqueologia de Betel, veja Finkelstein e Singer-Avitz,
2009). Ambos, textos escritos e tradições orais, foram provavelmente
trazidos para Judá por fugitivos israelitas depois da queda de Israel
em 720 a.C. (Schniedewind, 2004; Finkelstein e Silberman, 2006b);
estimativas do crescimento demográfico de Judá do Ferro IIA ao Ferro
IIB (século IX ao final do VIII/início do século VII a.C.) indicam que,
em períodos posteriores da monarquia, grupos israelitas formaram
uma significativa parte da população do Reino do Sul (Finkelstein e
Silberman, 2006b). As tradições do Norte foram incorporadas ao cânon
judaíta tanto por suportarem a ideologia judaíta ou por necessidades
políticas de Judá, ao absorverem uma significante parte da população
israelita no reino. No último caso, tradições originalmente israelitas
foram submetidas à necessidade e ideologia judaíta, como no caso do
livro de Samuel, que incorporou tradições negativas do Norte sobre o
fundador da dinastia davídica, mas as distorceu para limpar Davi de
todas as suas transgressões (McCarter, 1980a; Halpern, 2001). Assim,
mesmo aqui, as vozes genuínas e originais de Israel mal podem ser
ouvidas na Bíblia Hebraica.
A ideologia política da História Deuteronomista na Bíblia re-
presenta uma realidade posterior à queda do Reino do Norte. Ela é
18 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

“judá-cêntrica”, argumentando que todos os territórios que certa vez


pertenceram a Israel devem ser governados por um rei davídico, que
todos os hebreus devem aceitar o governo da dinastia davídica e que
todos os hebreus devem cultuar ao Deus de Israel no templo em Jeru-
salém. A história do Reino do Norte é, portanto, mais curta e de tom
negativo;2 enquanto os indivíduos hebreus podem juntar-se à nação
se aceitarem a centralidade do templo e da dinastia de Jerusalém, seu
reino e seus reis são vistos como ilegítimos.
Somente a Jeroboão I e Acab são destinadas relativamente
grandes porções de texto, mas, não é necessário repetir, o tom de
tais textos é negativo. Por exemplo, Jeroboão I, o fundador do Rei-
no do Norte, é descrito como o apóstata primordial, o indivíduo
cujos pecados condenaram o Norte desde o princípio (Cross, 1973,
274-88). O reinado de outros reis israelitas do Norte é resumido
em poucas sentenças. Somente seis versículos são dados a Amri,
o fundador da mais celebrada dinastia do Norte, o rei pelo qual o
nome de Israel é conhecido nos registros assírios. Somente um desses
versículos é informativo, isto é, não formulado por natureza. Sete
versículos são destinados a Jeroboão II, um dos reis mais importantes
da história dos dois reinos hebreus, que governou por aproximada-
mente 40 anos (788-747 a.C.) e conquistou amplos territórios. Muito
pouco é dito sobre a capital Samaria, e se conhece relativamente pouco
sobre cidades interioranas e vilarejos. Isso se dá pela sua distância
de Jerusalém e a falta de conhecimentos diretos do autor sobre a
paisagem. Um bom exemplo do último caso é o território israelita
da Transjordânia. Somente algumas cidades são mencionadas nessa
área, sendo que seu tamanho equivale ao planalto do território de
Judá, do qual a Bíblia menciona o nome de aproximadamente cin-
quenta cidades.
A situação é amplificada pelo fato de que estudos bíblicos, ar-
queológicos e históricos do Antigo Israel têm sido dominados pela
tradição histórica judaico-cristã, que foi formatada, por sua vez, pela
Bíblia Hebraica, isto é, pelo texto judaíta. A Bíblia é o que é, e por isso

2
No livro de Crônicas, que foi escrito muito tempo depois do livro de Reis, provavelmente não antes do século
III a.C., e que representa a teologia e ideologia política do Segundo Templo, a história do Reino do Norte é quase
evitada em sua totalidade.
introdução: por que um livro sobre o reino do norte? 19

os estudos acadêmicos basicamente lidam com Judá sob a perspectiva


judaíta de Israel, que foi formulada aproximadamente um século após
o colapso do Reino do Norte.
A pesquisa arqueológica pouco equilibra esse panorama. A Judá
da Idade do Ferro foi exaustivamente estudada. Jerusalém é uma das
cidades mais escavadas do mundo, especialmente nos últimos cinquen-
ta anos, e praticamente todos os maiores sítios do campo têm sido
escavados: Masfa e Hebron, nas montanhas; Laquis e Bet-Sames, na
Sefelá; e Bersabeia e Arad, no vale de Bersabeia. Israel não foi privada
de investigações. A capital Samaria foi exaustivamente escavada duas
vezes no passado e a maioria dos sítios do interior também foram
explorados. Refiro-me a Betel, Siquém e Tell el-Far‘ah (Tersa), na
região montanhosa, Gazer no sudoeste, Dor no litoral e Meguido,
Jezrael, Hasor e Dã, nos vales do Norte. Em adição, o interior do
Reino do Norte – nas terras altas e terras baixas igualmente – tem
sido meticulosamente investigado em expedições arqueológicas que
permitiram o desenho dos mapas de assentamento no período. É a
pesquisa de campo, então, que possibilita a alguém escrever uma
história de Israel baseada na arqueologia, sem a ideologia judaíta
e, no final, que permite alcançar uma reconstrução mais balanceada
da história do Antigo Israel no geral, e dos dois reinos hebreus em
particular.
Este livro conta a história do Reino do Norte, principalmente em
seus estágios formativos. A narrativa principal é a da arqueologia –
resultado de escavações e expedições do gênero. Então a história da
arqueologia é combinada com o pouco que sabemos sobre textos do
Antigo Oriente Próximo e com textos bíblicos que julgamos prover
informações genuínas, e não propagandísticas – mesmo memórias
vagas – do Reino do Norte.
Em referência a materiais bíblicos que não provêm do círculo do
Norte – por exemplo, informações fornecidas pelo livro dos Reis –, a
questão, certamente, é como o(s) autor(es) judaíta(s) da monarquia
tardia que vivia em Jerusalém sabia sobre eventos que aconteceram
séculos antes de sua própria época, em locais distantes de Jerusalém.
A resposta é que o(s) autor(es) judaíta(s) devia ter tido acesso a
uma lista de reis israelitas com especificações sobre os anos de seus
20 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

reinados e alguns fragmentos de informação sobre suas origens


e mortes. Essa lista deve ter lhe fornecido conhecimento que pos-
sibilitou correlações entre as monarquias israelita e judaíta. A infor-
mação que foi incluída nos pequenos versos bíblicos é geralmente
acurada, como é assegurado por textos assírios extrabíblicos. Deve
ser lembrado que fontes nortistas – se, de fato, postas por escrito
em Samaria ou Betel no início do oitavo século – eram muito mais
próximas da data dos estágios formativos na história de Israel e Judá
no décimo século a.C. que os autores judaítas da monarquia tardia
ou tempos posteriores. Tais autores do Norte estavam a mais de um
século de distância dessa fase formativa, se comparados aos três sé-
culos para os primeiros autores judaítas do final do século VII a.C.
Uma importante fonte de informações podem ter sido os refugiados
israelitas que se alocaram em Judá e que podem ter provido materiais
escritos ao(s) autor(es) judaíta(s), assim como tradições orais refe-
rentes a diferentes locais do território do Reino do Norte, nos dois
lados do rio Jordão.
Minha intenção neste livro não é fornecer um completo relato da
cultura material e história do Norte na Idade do Ferro. Meu objetivo
é lidar principalmente com a situação geopolítica no Sul do Levante,
com a história territorial de Israel e o que é descrito na literatu-
ra antropológica como “estado formativo”, isto é, o desenvolvi-
mento de entidades territoriais com aparatos e instituições buro-
cráticas. Ênfase especial será dada ao impacto do desenvolvimento
histórico do ambiente e aos processos de longa duração que ditaram
a história do Norte no término do segundo e início do primeiro
milênio a.C.
O escopo cronológico deste livro vai do Bronze Posterior II
até o Ferro IIB. Em termos cronológicos, esse é o período de tempo
entre os anos 1350 e 700 a.C. Entretanto, a discussão principal se
concentrará num curto período de tempo: a ascensão do governo
territorial nas terras altas de Israel entre 1000 e 850 a.C. A Idade do
Bronze Posterior é discutida principalmente enquanto modelo pelo
qual obtivemos razoavelmente boas matérias históricas e arqueológi-
cas. O último século na história do Norte é mencionado somente de
passagem, no final do livro. O capítulo final lidará com a população
introdução: por que um livro sobre o reino do norte? 21

em Judá depois de 720 a.C., um fenômeno crucial para a formatação


da Bíblia Hebraica.

2. Avanços recentes na Arqueologia


Um esclarecimento sobre a cronologia tem lugar aqui. Nos-
so conhecimento sobre a cronologia – tanto absoluta quanto rela-
tiva – dos estratos da Idade do Ferro e monumentos no Levante
tem sido verdadeiramente revolucionado. Em termos de cronolo-
gia relativa, a intensificação do estudo da recomposição de cerâmi-
cas de contextos estratigráficos seguros em sítios como Meguido
e Tel Rehov, no Norte, e Laquis, no Sul, abriram caminho para o
estabelecimento de uma divisão segura da Idade do Bronze em seis
fases tipológicas na cerâmica: Ferro I Antigo e Tardio (Arie, 2006;
Finkelstein e Piasetzky, 2006), Ferro IIA Antigo e Tardio (Herzog e
Singer-Avitz, 2004, 2006; Zimhoni, 2004a; A. Mazar et al., 2005;
Arie, 2013), Ferro IIB e Ferro IIC (Zimhoni, 2004b). Em termos de
cronologia absoluta, estudos intensivos de radiocarbono possibilita-
ram uma datação precisa destas fases numa resolução de cinquenta
anos ou menos. Isso agora pode ser feito livre de antigos argumentos,
que eram baseados numa leitura acrítica do texto bíblico (p. ex.,
Yadin, 1970; Dever, 1997). Neste livro usarei datas resultantes de
dois estudos:
(1) Um modelo estatístico baseado num grande número de
determinações de radiocarbono: 229 resultados de 143 amostras
vindas de 38 estratos em 18 sítios localizados no Sul e Norte de Is-
rael (Finkelstein e Piasetzky, 2010, baseados em Sharon et al., 2007,
e outros estudos; tabela 1 aqui).3 Os resultados de radiocarbono
de Israel são os mais intensivos num período tão curto de tempo e
num pedaço tão pequeno de terra já apresentado na arqueologia do
Antigo Oriente Próximo.

3
O modelo divide o período discutido neste livro com leve diferença das seis fases de cerâmica mencionadas
acima. Ele adiciona o Bronze Tardio II, divide o Ferro I em três, em vez de duas fases, e termina com o Ferro Tardio
IIA. A razão para isso é a curva de calibração de radiocarbono Hallstatt Plateau, que previne fornecer datas acuradas
que venham do contexto do Ferro IIB e Ferro IIC.
22 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

Tabela 1: Data das fases de cerâmica no Levante e transição entre elas de acordo
com resultados recentes de radiocarbono (baseadas no modelo Bayesiano, com
63 por cento de concordância entre o modelo e a data).

Data da Fase Transição entre fases


Fase Cerâmica
[a.C.]* [a.C.]
Bronze Tardio III -1098
1125-1071
Ferro Antigo I 1109-1047
1082-1037
Ferro Médio I 1055-1028
1045-1021
Ferro Tardio I 1037-913
960-899
Ferro Antigo II A 920-883
902-866
Ferro Tardio IIA 886-760
785-748
Ferro Transicional IIA/B 757-
* O início da primeira fase e final da última fase não podem ser determinados pelos dados
colhidos.

(2) Um modelo estatístico de um único sítio – Meguido: cerca de


100 determinações de radiocarbono de aproximadamente 60 amos-
tras de 10 camadas em Meguido, que cobrem cerca de 600 anos entre
cerca de 1400 e 800 a.C. (Toffolo et al., em breve; demonstração na
figura 2). Meguido é especialmente confiável para tal modelo porque
o intervalo de tempo em questão apresenta quatro grandes camadas
de destruição que produziram muitas amostras orgânicas de contex-
tos confiáveis. Isto também não tem precedentes: nenhum outro sítio
jamais produziu tamanho número de resultados para uma sequência
estratigráfica tão densa.
O modelo geral (tabela 1) representa uma abordagem conserva-
dora de determinação de datas. Ela cria algumas sobreposições nas
datas das fases e uma gama bastante ampla para a transição entre os
períodos. Quando este modelo é adaptado a um arrazoado histórico
introdução: por que um livro sobre o reino do norte? 23

(p. ex., o final do domínio egípcio no Bronze Posterior III), consegui-


mos as seguintes datas, que serão usadas neste livro (Finkelstein e
Piasetzky, 2011):
Bronze Tardio III: século XII até cerca de 1130 a.C.
Ferro Antigo I: final do século XII e primeira metade do século
XI a.C.
Ferro Tardio I: segunda metade do século XI e primeira metade
do século X a.C.
Ferro Antigo II: últimas décadas do século X e início do século
IX a.C.
Ferro Tardio IIA: restante do século IX e início do século VIII
a.C.
Ferro IIB: restante do século VIII e início do século VII a.C.

H-1: ca. 700 a.C.

H-3: fins de séc. VIII a.C.

H-5
: sé
c. I
H-7 Xa
: ca .C.
. 90
0a
.C.
00 a.C.
a. 10
H-9: c
.C.
c. XI a
H-10: sé

H-11: ca. 1100 a.C.

FIGURA 2: Os obstáculos ocidentais e orientais da Área H em Meguido,


demonstrando as diferentes camadas e suas datas absolutas e relativas.

Diversos desenvolvimentos adicionais na arqueologia do Levante


nos últimos anos facilitaram a compilação de uma história baseada na
arqueologia do Reino do Norte de Israel:
(1) A despedida do conceito de uma grande monarquia unida
nos dias dos fundadores da dinastia davídica. De acordo com a Bíblia
Hebraica e a visão tradicional na erudição bíblica e arqueológica,
24 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

que fundou-se sobre uma leitura acrítica da história bíblica, a mo-


narquia unida foi governada desde Jerusalém e expandiu-se sobre to-
da a terra de Israel. De acordo com algumas referências bíblicas, pro-
vavelmente retratando realidades da Idade do Ferro, ela estendeu-se
de Dã até Bersabeia (2Sm 3,10; 1Rs 5,5). De acordo com outra versão,
provavelmente inserida no período persa, ela estendeu-se sobre um
território muito mais amplo (1Rs 5,4). Do lado da erudição bíblica,
é evidente hoje que a ideia bíblica de uma grande monarquia unida
é uma construção literária que representa uma ideologia territorial,
conceitos monárquicos e ideias teológicas da monarquia tardia e au-
tores judaítas (p. ex., Van Seters, 1983, 307-12; Knauf, 1991, 1997;
Miller, 1997; Niemann, 1997; Finkelstein e Silberman, 2006a). Do
lado da arqueologia, ficou evidente, entre outras razões graças aos
estudos de radiocarbono demonstrados acima, que os monumen-
tos tradicionalmente percebidos como representações da grande
monarquia unida do século X a.C. foram de fato construídos du-
rante o governo da dinastia omrida em Israel no século IX a.C. (resu-
mo em Finkelstein, 2010). Esse desenvolvimento na pesquisa trouxe
um novo entendimento sobre os dias dos reis omridas – especial-
mente suas edificações e a estrutura demográfica de seu reino. A
morte da monarquia unida enquanto realidade histórica significa
que os dois reinos hebreus emergiram paralelamente um a outro,
enquanto entidades independentes uma da outra, em consonância
com a história de longa duração das terras altas na Idade do Bronze
e Ferro.
(2) Os avanços no estudo da cronologia absoluta e relativa
no estrato do Ferro II no Levante, como descritos acima, estão
por detrás do reconhecimento de que, nos vales do Norte, o Ferro I
ainda apresenta cultura material e disposição territorial “canaanita”
(cap. 1).
(3) As pesquisas em grande escala nas terras altas, incluindo a
área central do Reino do Norte, tornaram possível a produção de
um mapa dos assentamentos das diferentes fases da Idade do Ferro e,
portanto, abriram caminho para um entendimento de maiores nuances
da demografia, economia e mudanças sociais envolvidas na ascensão
das entidades norte-israelitas.
introdução: por que um livro sobre o reino do norte? 25

3. Perspectiva pessoal

Meu envolvimento no estudo do Reino do Norte deriva de di-


versos estágios de minha carreira como arqueólogo de campo. A
intensa pesquisa que conduzi na região montanhosa do norte de
Jerusalém nos anos 1980 trouxe à minha atenção a natureza espe-
cial das terras altas de uma perspectiva social e econômica (para
um pano de fundo, veja Alt, 1925b; Marfoe, 1979). Isso também
chamou minha atenção à intensidade da atividade de assentamentos
nas áreas norte de Jerusalém na Idade do Ferro relativas ao terri-
tório sul e à natureza cíclica e de longa-duração dos processos de
assentamento nas terras altas (Finkelstein, 1995). Não é necessário
dizer que o entendimento da história de assentamentos das terras
altas nos termos da história cíclica permanece contrastando com
um conceito principal de autores bíblicos (seguidos por muitos
estudiosos modernos), nomeadamente, que o Antigo Israel foi um
fenômeno único e que a história israelita foi naturalmente linear,
da conquista à sedentarização, a um período de líderes carismáticos
(juízes), à monarquia e à ascensão de reinos territoriais. Perceber
isso também chamou minha atenção aos historiadores franceses dos
Annales (p. ex., Bloch, 1952; Braudel, 1958), de acordo com quem
processos de longa duração e desenvolvimentos interioranos não
são menos influenciadores que acontecimentos importantes como
campanhas militares ou assuntos nos corredores de poder no palácio
e templo. Em suma, as pesquisas nas terras altas iluminaram proces-
sos históricos importantes, assim como a escassez de assentamentos
na Idade do Bronze Posterior, a natureza da onda de assentamentos
do Ferro I, a estabilidade da atividade de assentamentos na maior
parte das áreas durante a Idade do Ferro opostamente a processos
de abandono em uma área (no platô de Gabaon) no início do Ferro
IIA e o declínio de assentamentos no sul da Samaria, depois da queda
do Reino do Norte em 720 a.C.
Minhas escavações no sítio de Silo, no início dos anos 1980, me
ajudaram a compreender a cultura material nas terras altas e a natu-
reza do Ferro I – período do surgimento do Antigo Israel (Finkelstein,
1988). Em adição, os resultados das pesquisas e a escavação de Silo
26 O reino esquecido: arqueologia e história dE Israel Norte

gradualmente intensificaram minha atenção à complexidade das fontes


bíblicas na história antiga de Israel.
Começando nos anos 1990, voltei-me às terras baixas e especial-
mente ao Vale de Jezrael. As escavações que conduzi durante os últimos
vinte anos, juntamente aos colegas e alunos em Meguido, abriram ca-
minho para um melhor entendimento da Idade do Ferro nos vales do
Norte.4 Primeiro e mais importante, preparando-me para a escavação
em Meguido, notei os problemas da datação tradicional do estrato e
monumentos da Idade do Ferro e do Levante. Isso me levou a propor
a “cronologia baixa” para a Idade do Ferro (Finkelstein, 1996a), um
sistema cronológico que agora é apoiado por estudos de radiocarbono
e que ajudaram a revolucionar o que sabíamos do Reino do Norte. A
escavação em Meguido facilitou meu entendimento de outras questões
que são discutidas neste livro. Uma delas é o estudo da fase final da
Idade do Bronze Posterior nos vales do Norte. Outra é a excepcional – e
até recentemente não totalmente compreendida – prosperidade do final
do Ferro I, especialmente no vale de Jezrael. Eu nomeei esse “canto do
cisne” de cultura material canaanita e disposição territorial de “Nova
Canaã”, um termo que agora prevalece na academia. A escavação em
Meguido também chamou a uma renovada investigação dos traços da
cultura material do norte na transição do segundo ao primeiro milênios
(do canaanita ao israelita, como alguns estudiosos referem-se a esse
processo). Paralelamente às escavações de Meguido, conduzi – também
com membros da Expedição Meguido – duas temporadas de pesquisa
arqueológica no vale de Jezrael, com o objetivo de entender o sistema
de assentamento que correspondeu às principais fases de ocupação no
centro do sítio de Meguido. Os resultados deste trabalho demonstraram
dramáticas diferenças entre a história de assentamentos nos vales do
norte e nas terras altas centrais.
Em suma, trinta anos de trabalho de campo nas terras altas
e baixas do Israel Norte pavimentaram o caminho para um novo
entendimento da arqueologia e história do Antigo Israel. Esse novo

4
Para tópicos discutidos neste livro, sou especialmente grato aos seguintes membros da Expedição Meguido (do
passado e presente): codiretores David Ussishkin, Eric H. Cline e Baruch Halpern; e membros sêniores da equipe
Matthew J. Adams, Eran Arie, Norma Franklin, Yuval Gadot e Mario A. S. Martin.
introdução: por que um livro sobre o reino do norte? 27

entendimento resultou em uma série de artigos que lidaram com mui-


tos aspectos da cultura material, transformações nos assentamentos e
história territorial da Idade do Ferro, os quais foram todos incorpo-
rados (e citados) neste livro.