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UNIVERSIDADE

CATÓLICA DE
BRASÍLIA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO

Mestrado
JUVENTUDE E CIBERESPAÇO:
IMPLICAÇÕES DO USO DA INTERNET NA CONSTITUIÇÃO
DA SOCIABILIDADE JUVENIL

Autor: José Reinaldo Oliveira

Orientador: Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa

Coorientador: Prof. Dr. Candido Alberto Gomes

BRASÍLIA 2012
JOSÉ REINALDO OLIVEIRA

JUVENTUDE E CIBERESPAÇO:
IMPLICAÇÕES DO USO DA INTERNET NA CONSTITUIÇÃO
DA SOCIABILIDADE JUVENIL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação Stricto Sensu em Educação da
Universidade Católica de Brasília, como requisito
parcial para obtenção do Título de Mestre em
Educação.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa

Coorientador: Prof. Dr. Candido Alberto Gomes

Brasília
2012
TERMO DE APROVAÇÃO

Dissertação de autoria de José Reinaldo Oliveira, intitulada “JUVENTUDE E


CIBERESPAÇO: IMPLICAÇÕES DO USO DA INTERNET NA CONSTITUIÇÃO DA
SOCIABILIDADE JUVENIL”, apresentada como requisito parcial para obtenção do
grau de Mestre em Educação da Universidade Católica de Brasília, em 24 de
fevereiro de 2012, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:

______________________________________________________________
Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa
Orientador

____________________________________________________________________
Prof. Dr. Candido Alberto Gomes
Coorientador

____________________________________________________________________
Prof. Dr. Carlos Alberto Lopes de Sousa
Universidade de Brasília – Programa de Pós-graduação em Educação - UnB

____________________________________________________________________
Prof. Dr. Ricardo Spindola Mariz
Programa em Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação - UCB

Brasília
2012
Dedico este trabalho à minha mãe, Maria Glória
de Oliveira, pelo seu amor incondicional e
provedor. Sua Vida é um dom que me abençoa
em todas as circunstâncias. És poesia em mim:

Te contemplo enquanto dormes, envolta em um véu corrompido pelo tempo;


Ele não revela nem de longe o vigor de outrora.
Te contemplo enquanto dormes, frágil, despreocupada;
Hoje tuas mãos não precisam mais me acolher
na escuridão da noite que nos acomete fugaz.
Te contemplo e velo por ti, em amor, por tudo o que és e que fizestes enfim.
Uma porção de ti tenho aqui, por isso, sei que teus sonhos e fervor
Continuam, perduram e se transformam em mim.
Te amo para além da casca de mortalidade,
Da semente que perece,
Do vaso que se quebra junto à fonte.
Permaneces imortal, sempre bela, nas terras de tua habitação, meu coração,
Onde a Graça não fenece, mesmo assim, enquanto dormes.
AGRADECIMENTOS

A Deus, por tamanho cuidado para comigo, mesmo em vista dos meus
constantes descuidos para com Ele. Conhecimento e Sabedoria pertencem àqueles
que o amam.

Ao Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa, pela dedicação no trabalho


de orientação desta dissertação. Foi um caminho árduo e significativo, trilhado em
conjunto. És mais que um professor, és um grande amigo! Das sociabilidades dos
botos da Amazônia ao sentido pessimista de Schopenhauer.

Ao Prof. Dr. Candido Alberto Gomes, pela significativa coorientação neste


trabalho. Sua vida é inspiração para aqueles que desejam dedicar sua formação à
academia.

Ao Colégio Marista de Brasília, Ensino Médio, na pessoa do Prof. MSc.


José Leão da Cunha Filho, pelas oportunidades de crescimento profissional e
pessoal.

A todos os amigos que graciosamente encontrei nas esquinas dessa nova


vida. Sem citar nomes, vos amo fraternalmente.
RESUMO

OLIVEIRA, José Reinaldo. Juventude e Ciberespaço: implicações do uso da


internet na constituição da sociabilidade juvenil. 2012. p. 98. Dissertação do curso de
Mestrado em Educação – Universidade Católica de Brasília, 2012.

Em meio à dinâmica própria criada pela sociedade em rede, na expressão de


Castells, surge uma juventude que descobriu e ressignificou maneiras de relacionar-
se com o Outro no ciberespaço. O presente trabalho investigou a constituição da
sociabilidade juvenil nos ambientes virtuais, como as redes sociais interativas,
espaços onde a juventude tende a se sentir à vontade para expressar ideias,
sentimentos e visões de mundo. A população investigada foi formada por dez jovens
que cursam o Ensino médio privado e a Educação superior privada no Distrito
Federal. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, desenvolvida
como parte de um projeto maior sobre a temática, em andamento, capitaneado pela
cátedra da UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade da Universidade Católica
de Brasília. As técnicas de coleta de dados foram a entrevista semiestruturada, a
análise dos perfis virtuais dos participantes, o grupo de discussão instalado na rede
social Facebook, cujos dados foram submetidos à análise de conteúdo. O referencial
teórico apoiou-se, sobretudo, nas obras de Castells, Lévy, Simmel, Baudrillard, entre
outros. Os resultados revelaram modos de sociabilidade específicos ao ambiente
virtual, como os itinerários e a interação juvenil na rede. A partir disso, pode-se
entender as motivações que levam a juventude a acessar as redes sociais e outros
sítios, numa incessante busca pelo Outro desejado e pela exposição do ser. A
juventude procura o fortalecimento dos círculos sociais presenciais por meio da
interação virtual e a experimentação de atividades multimídia na internet,
reveladoras de modismos e de outras maneiras de jogar a sociedade e suas normas.
Os processos de agrupamento e cooperação na rede não acontecem fora das
contradições e tensões, elementos constituintes da própria dinâmica social,
ganhando contornos particulares no ciberespaço, como a constituição de vínculos
nas redes sociais e o status privilegiado adquirido por causa da quantidade elevada
de contatos ou “amigos”. Outra constatação relevante diz respeito ao lugar cativo
que as novas tecnologias, especialmente a internet, têm ocupado na vida da
juventude por causa dos estudos. Desse fato, resultam novas possibilidades, como a
aprendizagem interativa e desterritorializada. A atuação da juventude no contexto do
ciberespaço é um fenômeno novo, mas que vem revelando seu caráter mutável e
desafiador, principalmente em face da emergência da expansão do campo de
atuação da juventude contemporânea, desejosa por encontrar sentido em novos
territórios.

Palavras-chave: Juventude. Ciberespaço. Sociabilidade. Tecnologias. Redes


Sociais.
ABSTRACT

Amid the dynamics created by the network society, in the words of Castells, there is a
youth who found new meaning and ways of relating with others in cyberspace. The
present study investigated the formation of youth sociability in virtual environments,
such as social networking, interactive spaces where the youth tend to feel free to
express ideas, feelings and world views. The population studied was comprised of
ten young people who attend the private school and private higher education in the
Federal District. This is an exploratory qualitative research, developed as part of a
larger project on the theme, in progress, led by the Chair of the UNESCO Youth,
Education and Society at the Catholic University of Brasilia. The techniques of data
collection were semi-structured interviews, analysis of virtual profiles of the
participants, the discussion group installed on the Facebook social network, whose
data were submitted to content analysis. The theoretical relied mainly on the works of
Castells, Levy, Simmel, Baudrillard, among others. The results were surprising
because they revealed specific modes of sociability virtual environment, such as
juvenile routes in the network and interaction. From this, one can understand the
motivations that lead young people to access social networks and other sites, in a
ceaseless quest for the Other and the desired exposure risk. The Youth seek to
strengthen the social circles presence through virtual interaction and testing of
multimedia activities on the Internet, revealing fashions and other ways to play the
society and its rules. The process of grouping and cooperation in the network does
not happen out of the contradictions and tensions, the constituent elements of social
dynamics, gaining particular contours in cyberspace, such as the establishment of
relationships in social networks and acquired privileged status because of the high
amount of contacts or "friends”. Another important discovery regards the permanent
importance that new technologies, especially the Internet, have taken in the lives of
youth because of their studies. This fact leads to new possibilities, such as interactive
and landless learning. The role of the youth in the context of cyberspace is a new
phenomenon, but it has revealed its changing and challenging character, especially
given the emergence of the expansion of the field of contemporary youth, eager to
find meaning in new territories.

Keywords: Youth. Cyberspace. Sociability. Technologies. Social Networks.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................9
CAPÍTULO I – ELEMENTOS DA PESQUISA ........................................................12
1.1 – O PROBLEMA ...............................................................................................12
1.2 – OBJETIVOS ..................................................................................................14
1.2.1 – Objetivo Geral ............................................................................................14
1.2.2 – Objetivos Específicos .................................................................................14
1.3 – JUSTIFICATIVA................................................................................................14
1.4 – METODOLOGIA ............................................................................................15
1.4.1 – Tipo de pesquisa e Instrumentos ................................................................15
1.4.2 – Participantes da pesquisa....................................... .....................................18
1.4.3 – Procedimentos de coleta e análise de dados .............................................21
CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA .........................................................25
2.1 – “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO”: AS NOVAS TECNOLOGIAS DA
COMUNICAÇÃO E A RECONFIGURAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS ...............25
2.2 – JUVENTUDE NO CIBERESPAÇO: SOCIABILIDADES A PARTIR DAS REDES
SOCIAIS DA INTERNET .........................................................................................30
2.3 – JUVENTUDE E COOPERAÇÃO NA REDE ...................................................38
2.4 – JUVENTUDE E FORMAÇÃO NO CIBERESPAÇO: CONCEPÇÕES DE UMA
NOVA EDUCAÇÃO .................................................................................................41
2.4.1 – Crítica a Educação Tradicional......................................................................42
2.4.2 – Possibilidades da Educação Dialógica ........................................................44
2.4.3 – Educação, Juventude e Ciberespaço............................................................45
CAPÍTULO III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS........................................48
3.1 – ITINERÁRIOS VIRTUAIS E INTERAÇÃO JUVENIL NA INTERNET...............49
3.2 – PROCESSOS DE AGRUPAMENTO E COOPERAÇÃO..................................66
3.3 – PROCESSOS EDUCATIVOS NA REDE..........................................................74
CAPÍTULO IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS E APONTAMENTOS.........................82
REFERÊNCIAS ........................................................................................................88
APÊNDICES...............................................................................................................92
ANEXOS ..................................................................................................................97
INTRODUÇÃO

A juventude, entendida como um segmento social relevante, cuja faixa


etária é definida pela Organização das Nações Unidas dos 15 aos 24 anos (UNICEF,
2010), tem sido objeto de discussões acaloradas no meio acadêmico e fora dele,
resultando em diversos estudos nos últimos anos, principalmente no que se refere à
sua íntima relação com as novas tecnologias da informação e comunicação, no caso
particular da internet. Alguns estudos que versam sobre os chats e os blogs (ALVES,
2002; COSTA, 2003; CASTRO, 2006; SPINOSA, 2005) foram lançados com o intuito
de desvelar a problemática juvenil nos, até então, recentes mecanismos virtuais de
comunicação. Entretanto, essas pesquisas carecem de um maior refinamento
analítico dos dados empíricos e das teorias usadas, além de não apresentarem
apontamentos referentes às redes sociais.
De maneira geral, o que se pretendeu desvelar nessas pesquisas foi a
influência das tecnologias sobre a vida dos jovens e o papel das mesmas na
construção de subjetividades e identidades, tanto individuais quanto coletivas
(SETTON, 2009). No entanto, ainda existem aspectos que não foram abordados
nesses trabalhos, no caso particular da constituição da sociabilidade juvenil, tendo a
internet e as redes sociais como palcos de atuação.
A atual geração de jovens, ao contrário do que afirma o senso comum,
compreende a sociedade a sua volta e a lê ao seu modo. Essa especificidade na
interpretação se apresenta, em muitos casos, pela via das tecnologias e de seu
universo simbólico representado pela internet. Mas isso não é só uma questão de
influência de mão única, como se os jovens fossem meros receptores das
informações acessadas na rede. Pelo contrário, no ciberespaço, as relações
acontecem em rede, fazendo com que todos que acessam o sistema estejam
conectados de algum modo, tornando-se atuantes nessa complexa teia de relações.
Essa é a principal proposição de Castells (2010) quando apresentou o
conceito de sociedade em rede. Não existe a possibilidade de ser um elemento
passivo na rede, uma vez que a mesma é irresistivelmente provocadora de novas
sensações. Assim, a juventude, potencializada pelo domínio das tecnologias, flui
livremente pela rede, produzindo cultura, modos de ser e expressões diversas. Vale
ressaltar mais uma vez que não é somente uma questão de influência ou modismo,

9
é, antes de tudo, uma maneira de existir no e com o ciberespaço como sujeito de
criação e transformação (DEMO, 2004; COELHO; ASSUNÇÃO, 2010), realidade
ainda não levada em consideração por muitos pesquisadores.
Essa sociabilidade virtual pode ser observada em todos os cantos da rede
e de maneiras diversas conforme a cultura circundante. Isso porque a juventude
dominou aquilo que Demo (2004) chama de “outra forma de presença”, que se
revela em forma de decodificações escritas em blogs, em posicionamentos de toda
ordem em sites de relacionamentos, em imagens (fotos do cotidiano) postadas em
álbuns virtuais etc. O que fica patente diante dessas e de outras expressões é a
complexidade dessa nova relação, ainda envolta em tabus e mitos (ALMEIDA,
2006).
Assim como a presença consciente, física e transformadora do sujeito no
mundo revela ações, reflexões e tensões (FREIRE, 1997, 2010), a presença virtual
também tem as suas implicações práticas, com algumas singularidades, é verdade,
mas profundamente reais, uma vez que parte de seres humanos reais. Dessa forma,
a complexidade da vida cotidiana é reproduzida no ciberespaço, mostrando que
todas as expressões ou sociabilidades vivenciadas nesse contexto podem ser
analisadas e investigadas a fim de se desvelar tal problemática. Em muitos casos,
novas complexidades são produzidas em tal contexto, o que vale o esforço para
compreender essas dimensões da existência humana.
É preciso partir do pressuposto de que a formação da juventude atual está
intimamente ligada ao desenvolvimento das novas tecnologias da informação, em
especial da internet (COELHO, 2010). Ao mesmo tempo em que essas ferramentas
servem de meios de comunicação e expressão das singularidades juvenis,
contribuem também para a formação de referenciais relacionados ao trato com o
Outro (MALDONADO, 2000) e envolvem relações de poder, em seu exercício,
democráticos ou não (SOUSA, 2011).
A “Geração @” (SETTON, 2009), é caracterizada pela pressa exagerada,
pela impaciência sempre presente e pela forma diferenciada de tratar as
informações que fluem livremente na rede. Essa juventude presa pela interatividade,
pelo movimento, tanto no cotidiano de suas vidas quanto no ambiente virtual. Eles
são o resultado de um mundo organizado em redes, conectado, onde a informação
percorre longas distâncias em segundos (CASTELLS, 2009, 2010). Esse perfil
juvenil, potencializado pelas novas tecnologias da informação, geram expressões e

10
tensões específicas, por isso, se faz necessário refletir e compreender os
significados de tal problemática.
Este trabalho discorre sobre as implicações do uso da internet e das redes
sociais na constituição da sociabilidade juvenil, sobre as dimensões práticas da
interação da juventude no ambiente virtual, identificando suas peculiaridades na
internet e nas redes sociais interativas, espaços onde essa geração se sente a
vontade para expressar sentimentos e reconstruir percepções subjetivas acerca de
si mesma e do mundo a sua volta. Serão apresentadas algumas temáticas, como:
significados das expressões juvenis nas redes sociais da internet, processos de
agrupamento e cooperação e como acontecem os processos educativos na rede.
Discorre também sobre os itinerários seguidos, a partir de referenciais
metodológicos, como a exploração/análise das redes sociais interativas, aplicação
de entrevistas semiestruturadas e debate dos temas em um grupo de discussão
instalado na rede social Facebook. Na seção que versa sobre a revisão de literatura,
cotejou-se a obra relacionada ao ambiente virtual e suas implicações nas relações
humanas. Para isso, teorias de alguns autores como, Lévy (2010, 2009), Castells
(2010, 2009, 2004) e Baudrillard (1991) foram visitadas. Outras pesquisas e obras
sobre a relação entre juventude e internet foram analisadas, com o intuito de
encontrar uma lacuna para que a partir dela fosse descortinada a problemática e o
resultado da pesquisa que agora se apresentam.

11
CAPÍTULO I – ELEMENTOS DA PESQUISA

1.1 – O PROBLEMA

O processo que conduziu a clarificação acerca do objeto de investigação,


que agora exponho, foi permeado por diversas dúvidas e anseios. Penso que assim
é para todo pesquisador que se lança sobre uma temática ampla para extrair dela
seu problema de pesquisa. Mas quando me refiro a dúvidas e anseios, parto de um
terreno que por muitos motivos não costuma ser levado em consideração pela
ciência de forma geral – pelo menos no discurso –, a dimensão pessoal do
pesquisador. Por causa de alguns enviesados discursos da neutralidade científica,
fortemente criticados por Freire (1997), enraizou-se uma mentalidade de que a
relevância de um determinado tema a ser investigado não pode ser justificado a
partir de desejos e histórias de vida do pesquisador.
Mas, a despeito dessa visão reducionista, exponho que o presente
problema de pesquisa foi gerado a partir de percepções resultantes de minha
experiência como jovem que convive com outros jovens, cidadão de direitos, que em
muitos momentos se rebela para fazer valer a sua voz. Voz essa que se faz ouvir em
diversos meios, começando da família, perpassando a vida religiosa protestante e
culminando na sociedade por meio da ação profissional e acadêmica. Assim, afirmo
que a gênese dessa temática acha seu lugar na observação dos vários quadros que
estão dispostos ao longo do corredor de minha trajetória enquanto jovem, educador
e cidadão.
Enquanto jovem, percebo que esse segmento social se comunica de
várias formas e tem uma afinidade particular pelas novas tecnologias da informação.
Inserido nesse contexto, entendo que essa juventude vive uma época conturbada e,
que por isso, tem reconfigurado suas práticas sociais para melhor adaptar-se a esse
novo tempo. Os afetos, as condutas, as visões de mundo e até as próprias marcas
que trazem tanto no corpo quanto em sua subjetividade expressam o desejo de
novas expressões e modos de vida.
A juventude atual tem se utilizado das novas tecnologias, como
computadores, aparelhos telefônicos móveis, jogos virtuais, entre um sem número
de ferramentas interativas, para construir maneiras de relacionar-se com o Outro e

12
expressar seu protagonismo. A mediação se dá por meio da internet, encarada como
um imenso oceano por onde a juventude pode fluir em direção aos encontros
virtuais, a ressignificação de normas e condutas sociais e a reinvenção da própria
identidade. As chamadas redes sociais da internet também ajudam nesse processo,
como uma plataforma virtual de encontros. O fato é que a juventude tem reinventado
suas sociabilidades e a constituição de seus laços sociais no ciberespaço.
Simmel (2006) recorre ao conceito de sociabilidade para apresentar a
problemática das interações sociais, um terreno onde os indivíduos de uma
determinada sociedade abrem mão de seus condicionamentos objetivos, no caso do
status social, posses e outros bens materiais, e também de características
puramente pessoais, para, a partir desse despojamento, “jogarem a sociedade”.
Esse jogo de “faz de conta” não pode ser encarado como uma mentira, pois
representa um impulso sociável legítimo dos indivíduos que participam de tal
interação. Tanto conversas, olhares e expressões descomprometidas são formas
onde pode ser encontrado o impulso sociável e, consequentemente, a sociabilidade
em sua forma pura (SIMMEL, 2006).
Com o advento das novas tecnologias da comunicação, em especial da
internet, representada como uma imensa rede (CASTELLS, 2009, 2010), onde é
possível potencializar as interações sociais em vários níveis, sociabilidades
específicas surgiram, conferindo complexidade ao terreno das relações humanas.
Dentro desse novo universo, a juventude vem se destacando como um segmento
social que aprendeu a usar os mecanismos da rede e se sente a vontade para
expressar sentimentos, visões de mundo e interações diversas, encarnando, assim,
uma nova maneira de “jogar a sociedade”. A juventude percebeu que é possível
existir com outros para além da rigidez do cotidiano, no ciberespaço (LÉVY, 2009). E
esse novo terreno se apresenta como problemática a ser investigada.
Todo esse contexto ora apresentado gera a seguinte questão primordial:
Quais as implicações do uso da internet e das redes sociais interativas na
constituição da sociabilidade juvenil? Assim, pretende-se investigar as complexas
relações entre a juventude e o ciberespaço, desdobrando-se em temáticas como:
constituição dos laços sociais, grupos de cooperação na rede e formação educativa
no ambiente virtual.

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1.2 – OBJETIVOS

1.2.1 – Objetivo Geral

Investigar as implicações do uso da internet e das redes sociais interativas na


constituição da sociabilidade juvenil.

1.2.2 – Objetivos Específicos

 Identificar os percursos virtuais e os significados das expressões juvenis


encontradas nas redes sociais interativas (Facebook);
 Analisar os processos de agrupamento e cooperação no ambiente virtual;
 Verificar como ocorrem os processos educativos na rede.

1.3 – JUSTIFICATIVA

A relevância da presente proposta de pesquisa encontra-se no fato de seu


caráter particular de análise da relação juventude e redes sociais interativas,
elementos pouco estudados no cenário da educação brasileira. A juventude vem se
afeiçoando nos últimos anos às redes sociais da internet e tem assumido um papel
protagonístico no que se refere a expressões de diversos tipos, de manifestações
político-ideológicas a externalizações de novas identidades. Outro elemento
importante é a análise de questões relacionadas à sociabilidade (SIMMEL, 2006),
categoria sociológica que pode ajudar na clarificação da ação juvenil na internet.
É pretensão dessa proposta investigativa, lançar bases de interpretação
científica a essa conjuntura juvenil, contribuindo tanto para o campo acadêmico
quanto para a formação da chamada “geração @” (SETTON, 2009), numa
perspectiva multimodal de aprendizagem (SANTAELLA; LEMOS, 2010). É
importante também oferecer dados e contribuições interpretativas sobre esse
fenômeno para estudos futuros.
Outro aspecto relevante é a contribuição no campo metodológico, uma vez
que adapta ferramentas de coleta e análise de dados ao ciberespaço. Essa nova
construção metodológica pode ser de grande valia diante da expansão da
problemática social para os ambientes virtuais. Muito tem se falado na riqueza da
14
internet, em face da multidão de dados que precisam ser interpretados, mas ainda
são poucos os trabalhos que apresentam opções metodológicas que respondam a
esse desafio de maneira eficaz. A pesquisa visa contribuir com o aperfeiçoamento
dessas ferramentas investigativas, no caso particular do método qualitativo e
exploratório, além da interpretação de decodificações virtuais nas redes sociais
interativas.
A sociedade atual tem assistido a um levante do segmento jovem no que
diz respeito à luta por maior autonomia e acesso a direitos básicos, como educação
e trabalho. O ciberespaço se converteu em um espaço sui generis de expressão
para esse público, que deseja reconstruir seu mundo social a partir da rede, com
performatividades e expressões singulares. Esse itinerário de pesquisa visa
investigar os processos de constituição e dissolução das sociabilidades juvenis na
internet e nas redes sociais, contribuindo com outras pesquisas que desejam
desvelar o fenômeno da expansão das práticas juvenis para outros territórios, que
nessa problemática apresenta-se como o ciberespaço.

1.4 – METODOLOGIA

1.4.1 – Tipo de pesquisa e Técnicas/Instrumentos de Coleta e Análise de


Dados:

A presente proposta de pesquisa adotou a dimensão qualitativa e


exploratória em seu percurso metodológico, uma vez que desejou apreender as
manifestações e afirmações pessoais dos sujeitos que foram investigados. O
enfoque é na compreensão das representações dos sujeitos, bem como em suas
crenças, experiências e visões de mundo (DENZIN; LINCOLN, 2000).
As técnicas utilizadas na coleta de dados foram: a) a observação do
ambiente virtual, no caso da coleta das informações (escritos, fotos, vídeos) na rede
social interativa Facebook; b) a entrevista individual semiestruturada; c) o grupo de
discussão na rede social Facebook. A entrevista e o grupo de discussão foram
norteados por um roteiro de perguntas que se relacionam aos objetivos específicos
da pesquisa. Para análise dos dados foi utilizada a técnica de d) análise de
conteúdo.

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A – Exploração/Análise da Rede Social Interativa

Atualmente, com a expansão da problemática social para a internet,


alguns pesquisadores têm adaptado ferramentas de coleta de dados para o
ambiente virtual. Entretanto, a despeito dessa inovação metodológica, muitos ainda
apresentam dificuldades ou resistência para conceber novas ferramentas
investigativas adaptadas a esse contexto.
As novas tecnologias da comunicação têm sido palco de complexas
relações, gerando assim novas sociabilidades. Para responder a essa nova
demanda metodológica alguns trabalhos procuraram investigar tal problemática a
partir de adaptações de técnicas de coleta e análise de dados. Avellar (2009), por
meio da sua análise da espiritualidade na internet, mediada pelas mensagens de e-
mail, utilizou-se de uma técnica de reunião e análise dos textos enviados
digitalmente. Da mesma maneira, alguns pesquisadores da Antropologia têm se
referido a uma nova maneira de fazer pesquisas etnográficas no ciberespaço,
denominadas de pesquisas “netnográficas” ou “ciberantropológicas” (MAYANS,
2002; LEMOS, 2003).
Mas as pesquisas relacionadas à área da Educação ainda deixam a
desejar nesse aspecto. Na verdade, são poucas as pesquisas que tomam o
ciberespaço como objeto de investigação, o que tem dificultado a criação ou
adaptação de instrumentos investigativos.
A exploração/análise da rede social interativa Facebook foi a adaptação
metodológica desse trabalho, mesclando observação e leitura de algumas postagens
no ambiente virtual, como textos escritos e expressões multimídia.

B – Entrevista Semiestruturada

O ponto de partida para o uso das entrevistas é a compreensão de que o


mundo não é um dado linear, facilmente desvelado por ser estático. O mundo e suas
relações são construídos constantemente por sujeitos ativos em seu cotidiano.
Assim, o pesquisador, se quiser compreender essa dinâmica, precisa lançar-se na
busca dos significados da vida dos respondentes, interpretando suas narrativas. O
objetivo aqui é a compreensão das crenças, atitudes, valores e motivações, em

16
relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos
(GASKELL, 2000).
É importante esclarecer para os entrevistados o objetivo dos dados
coletadas, o direito ao sigilo profissional e a interrupção da entrevista. Somente ao
término dessas orientações e após o livre consentimento e autorização expressa
(FALCÃO; TÉNIES, 2000) é que as entrevistas são iniciadas.
Nessa pesquisa foi utilizada a entrevista semiestruturada, que se
caracteriza pela elaboração e pelo uso de um roteiro prévio para o bom andamento
da mesma. A partir desse roteiro o entrevistador pôde conduzir a dinâmica de
maneira tranquila. A entrevista foi gravada e transcrita posteriormente.

C – Grupo de Discussão (Facebook)

Para apreender aspectos que não foram revelados nas entrevistadas


semiestruturadas, foi instalado na rede social Facebook um grupo de discussão em
formato de fórum para que os participantes da pesquisa debatessem livremente,
pelo período de uma semana, temáticas referentes à atuação da juventude na
internet. O grupo de discussão foi denominado de Juventude e Sociabilidade Virtual
e foi instalado na página principal da referida rede social, no espaço comumente
conhecido como “mural” de informações do usuário. O perfil utilizado para essa
experiência foi o do próprio pesquisador, que pôde convidar os participantes da
pesquisa por meio de um mecanismo chamado de “citação”, cuja finalidade é
informar que o nome de determinado usuário foi citado em alguma publicação.
Nesse formato, os participantes visitaram a página do pesquisador e
acessaram o fórum de discussão, inserindo suas opiniões a respeito das perguntas
previamente lançadas. Essas questões discorriam sobre os pontos obscuros da
análise de dados ou conceitos que precisaram de maior esclarecimento por parte
dos entrevistados, principalmente com relação à problematização do espaço virtual
que cotidianamente utilizam (o roteiro com as perguntas do grupo de discussão está
nos apêndices). Foram exploradas seis perguntas prontamente respondidas pelos
jovens. Elas foram lançadas no fórum de maneira paulatina, esperando primeiro que
os sujeitos lançassem suas intervenções e discutissem entre si, para que a partir
disso uma nova pergunta fosse postada.

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O grupo de discussão funcionou por uma semana e ajudou na clarificação
de posicionamentos expressos nas entrevistas. Ajudou também a problematizar
posicionamentos sobre a atuação juvenil em questões sociopolíticas e educativas na
rede, compreendendo assim os itinerários virtuais que levam à constituição da
sociabilidade desse segmento social em um território particular. O pouco tempo de
funcionamento do grupo se deve aos prazos apertados para a entrega dos
resultados do presente trabalho. Além disso, o período de uma semana foi o
suficiente para coletar os dados necessários.
De forma geral, a experiência do grupo de discussão serviu para apontar
algumas possibilidades com relação ao engajamento da juventude nas redes sociais
e também atribuir sentido prático às suas intervenções nas entrevistas. Por meio do
grupo foi possível observar também como funcionam as interações juvenis na rede.

D – Análise de Conteúdo

Na análise dos dados foi utilizada a técnica de análise de conteúdo para


interpretar as falas, expressões escritas e imagens dos sujeitos pesquisados. Os
dados foram retirados das entrevistas individuais, dos perfis virtuais dos usuários e
também do grupo de discussão instalado na rede social Facebook.
No que se refere à área de atuação da análise de conteúdo, pode-se dizer
que ela está voltada para tratar e analisar as informações contidas em documentos.
Essa técnica se aplica à análise de textos escritos ou de qualquer comunicação
(oral, visual, gestual) reduzida a um texto ou documento (CHIZZOTTI, 1991). Apesar
do princípio do método estar claro, há divergências quanto à sua conceituação. De
maneira mais ampla, a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise
das comunicações humanas (BARDIN, 1977).

1.4.2 – Participantes da Pesquisa:

Foram investigados dez jovens de classe média na faixa etária de 15 a 24


anos, população que cursa o Ensino médio ou que já o concluiu há pouco tempo.
Foram escolhidos jovens que cursavam o referido nível em diferentes escolas
privadas do Distrito Federal e também que ingressaram na Educação superior. Os
jovens residiam na Região Administrativa de Taguatinga, área urbana que tem se

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destacado pela força do comércio e fluxo constante de pessoas que vêm de outras
regiões para nela trabalhar. Os jovens que participaram da pesquisa faziam parte de
famílias emergentes economicamente, pessoas que desde cedo compreenderam a
importância da mobilidade social a partir de uma escolarização reforçada pelo uso
de computadores e afins. Vale lembrar que, apesar desses jovens terem crescido
perto de tais tecnologias, não abandonaram os círculos de amigos constituídos em
espaços físicos de encontro social, como escolas, igrejas, clubes sociais, bairros etc.
O grupo de jovens que participou da pesquisa é heterogêneo em três
aspectos: idade, sexo e escolarização. Segue a caracterização dos mesmos na
tabela abaixo:

Tabela 1 – Caracterização dos Jovens Pesquisados

Caracterização dos Jovens Pesquisados

Jovens
caracterizados
pelos Idade Sexo Escolarização
símbolos J1 a
J10.

J1 18 Masculino 2º ano do Ensino


Médio

J2 16 Masculino 3º ano do Ensino


Médio

J3 16 Masculino 2º ano do Ensino


Médio

J4 16 Masculino 2º ano do Ensino


Médio

J5 15 Masculino 1º ano do Ensino


Médio

J6 19 Feminino 2º semestre da
faculdade

J7 19 Feminino 2º semestre da
faculdade

19
J8 18 Feminino 2º semestre da
faculdade

J9 19 Masculino 3º semestre da
faculdade

J10 24 Feminino 2º semestre da


faculdade

Por ser uma geração que nasceu e cresceu cercada pelas novas
tecnologias da comunicação, no caso particular da internet, e por apresentar um
maior domínio das mesmas, justifica-se a escolha desse grupo. Além disso, o uso
dessas tecnologias criou uma “cibercultura” (LÉVY, 2010) entre esses jovens, que
expressa padrões de conduta e processos associativos que são particulares a esse
segmento social. A presente amostra é seletiva e intencional.
O grupo investigado, pelo menos os estudantes de ensino médio,
participava de uma instituição religiosa protestante (Igreja Presbiteriana do Brasil)
localizada em Taguatinga-DF, espaço que reúne vários jovens que cursavam o
Ensino médio em algumas escolas particulares dos seus arredores. Esses jovens
reúnem-se semanalmente para participarem de reuniões religiosas, atividades
esportivas e sociais. A escolha dessa instituição justifica-se pela sua dupla
dimensão, agregadora num primeiro momento, pois reúne dentro de si jovens que
apresentam posicionamentos e culturas diversificadas, vindos de vários contextos
educativos (famílias e escolas), mas que convivem de maneira aparentemente
harmônica. Esse lugar constitui-se num núcleo de encontros sociais, para onde aflui
a dinâmica juvenil.
Mas esse contexto é permeado também de constantes tensões, uma vez
que suprime certos desejos individuais que costumam entrar em conflito com as
doutrinas institucionais. Com essa diversidade e complexidade de relações entre os
atores sociais, pôde-se extrair opiniões também diversas e até conflituosas entre os
jovens sobre a relação juventude e internet, características que ajudaram na coleta
de dados tanto nas entrevistas quanto no grupo de discussão, que prima pelo
elemento divergente em seu processo. Da mesma forma, a entrevista individual
semiestruturada pôde revelar aspectos particulares da vida desses sujeitos,
relacionando-os ao ambiente virtual.
20
É importante salientar que o interesse do presente trabalho reside na
constituição da sociabilidade juvenil, tendo a internet como palco de interação entre
os participantes desse segmento. Não foi do interesse desta pesquisa tratar de
questões relacionadas às dimensões religiosas da referida instituição protestante.
Sua citação neste trabalho se deve ao seu aspecto agregador, ou, como sendo um
ponto de encontro para os diversos jovens que nela se reúnem semanalmente. Essa
confluência de pessoas para o mesmo ponto foi o aspecto primordial para a escolha
da instituição e das pessoas que a frequentam.
A outra parte dos jovens, universitários que cursam até o 3º semestre, foi
escolhida a partir de uma experiência de monitoria na disciplina Educação e
Problemas Contemporâneos (CCI2), do curso de Pedagogia da Universidade
Católica de Brasília. A escolha dos mesmos justifica-se pelo uso constante do
computador e da internet em atividades da própria disciplina, tendo a plataforma
Moodle como uma das ferramentas pedagógicas. Os estudantes realizavam várias
atividades de leitura e avaliação por meio dessa plataforma, o que se constitui em
subsídio relevante na elaboração das respostas por parte dos jovens investigados.

1.4.3 – Procedimentos de Coleta e Análise de Dados:

A coleta de dados aconteceu em três frentes. A primeira com a coleta das


expressões juvenis na rede social interativa Facebook. Para isso, foram feitos alguns
percursos virtuais pelos perfis (páginas que contêm os dados) dos dez jovens
participantes da pesquisa, com o intuito de apreender suas opiniões e expressões,
por meio de textos escritos, de fotos e outros materiais postados, ferramentas que as
plataformas virtuais disponibilizam. Esses materiais (expressões virtuais) foram
analisados com o intuito de apreender os significados implicados em suas
entrelinhas e também serviu de material de apoio para revisão e refinamento do
roteiro da entrevista semiestruturada e do grupo de discussão.
Essa incursão exploratória na rede social Facebook aconteceu da seguinte
forma: foram visitados os perfis dos participantes, observando suas fotos, seus
dados pessoais e informações acerca da escolaridade e posicionamentos
ideológicos. No canto superior esquerdo consta a lista de amigos e, ao centro,
informações sucintas acerca do usuário, como é revelado na ilustração abaixo.

21
Ilustração 1

Fonte: <www.facebook.com>. Acesso em: 20 nov. 2011.

Depois foram coletadas as discussões e expressões escritas que são


postadas ao centro da página, num formato de fórum, diariamente alimentado.
Observe a ilustração 2, ela revela a organização dos ícones e das expressões que
identificam o usuário da página.

Ilustração 2

Fonte: <www.facebook.com>. Acesso em: 20 nov. 2011.

22
A página possui também ferramentas onde é possível postar fotos em um
formato de álbum virtual. Esses álbuns foram visitados e suas fotos analisadas.
Segue a ilustração 3, representando o layout da página.

Ilustração 3

Fonte: <www.facebook.com>. Acesso em: 20 nov. 2011.

O segundo momento da pesquisa aconteceu com a entrevista individual


semiestruturada. A intenção dessa conversa personalizada foi contribuir para a
apreensão de opiniões abertas sobre a interação desse jovem com seus pares por
meio da internet e das redes sociais interativas. Sem a pressão do grupo, esse
jovem pôde emitir livremente o que pensa acerca das possibilidades e também dos
limites de tal problemática. O roteiro da entrevista versou sobre os temas dos
objetivos específicos, desdobrando-os: percursos virtuais e expressões juvenis,
processos de agrupamento (manutenção ou dissolução dos grupos), cooperação no
ambiente virtual e também como ocorrem os processos educativos. Foram
entrevistados oito dos dez jovens nessa etapa, escolhidos a partir da riqueza de
material encontrado em seus perfis virtuais, cujas falas foram registradas, com o livre
consentimento dos mesmos (Termo de Livre Consentimento e Esclarecimento).
Num terceiro momento, a coleta de dados continuou por meio de um grupo
de discussão instalado na rede social Facebook, formado pelos dez jovens cujos
perfis virtuais foram analisados na primeira etapa. Os temas discutidos entre os
jovens na rede foram: a atuação no ciberespaço, significado de suas expressões,
formação e manutenção de laços sociais na rede e formação educativa, com

23
acréscimos de outros elementos, a partir de um roteiro específico de perguntas,
constituído por seis questões problematizadoras. Nesse formato, a intenção foi que
todos os participantes contribuíssem com a conversa/debate, propiciando um
confronto entre o que é expresso no ambiente virtual, individual e coletivamente.
Esse instrumento pôde ajudar a apreender aspectos que não foram revelados nas
entrevistas individuais.
Depois de transcritas e analisadas as falas das entrevistas individuais,
houve a comparação entre todas as opiniões expressas, tomando como referencial
os dados coletados no ambiente virtual e depois as intervenções no grupo de
discussão. Essa articulação propiciou a apreensão de significados e visões de
mundo de maneira mais profunda.

24
CAPÍTULO II – REVISÃO DE LITERATURA

2.1 – “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO”: AS NOVAS TECNOLOGIAS DA


COMUNICAÇÃO E A RECONFIGURAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS

Ao longo da história, o ser humano adaptou-se ao meio onde se


estabeleceu, dos nômades errantes da Antiguidade aos grandes centros urbanos
fabris da modernidade. Entretanto, essa adaptação às circunstâncias imediatas foi
acompanhada de atitudes transformadoras com relação a elas. Foi assim diante das
necessidades mais urgentes que a humanidade enfrentou, em cada período
histórico, fixando-se e transformando tanto o meio quanto suas relações com seus
pares. É isso o que Freire (1997) nos explicita quando afirma categoricamente que o
ser humano possui uma dupla característica existencial, sendo ao mesmo tempo um
ser da adaptação (biológico) e da transformação (social).
As últimas três décadas do século XX revelaram um novo momento
histórico, uma vez que a humanidade experimentou mudanças agudas no que se
refere às relações sociais, principalmente no que tange à comunicação (CASTELLS,
2010). O desenvolvimento da informática e das novas tecnologias comunicacionais
inaugurou um novo momento, o início de uma nova sociedade, que nas palavras de
Castells (2009; 2010) pode ser concebida como uma sociedade interconectada,
onde cada nó de uma imensa rede revela as novas dimensões da vida social.
Isso mostra que na atual conjuntura, nesse “admirável mundo novo”, muito
diferente do preconizado por Aldous Huxley (1979), as distâncias diminuíram, a
velocidade da comunicação aumentou e algumas interpretações mais clássicas
quanto aos conceitos de presença, espaço e tempo foram ressignificadas. Não há
como negar o fato de que a sociedade e sua dinâmica tornaram-se mais complexas.
Com o advento da Revolução Industrial, que, a partir da máquina a vapor,
inaugurou um momento industrial e econômico singular, fazendo com que as
grandes cidades da modernidade experimentassem uma explosão demográfica sem
precedentes, percebeu-se uma transformação progressiva nas relações
interpessoais como há séculos não se via. Núcleos urbanos tradicionais foram sendo
substituídos gradativamente por núcleos mais complexos, as cidades industriais.
Nesse contexto emergente, entre os séculos XVIII e XIX, a dinâmica do fluxo social

25
se resumia às cidades ou às grandes metrópoles. Era nesse pedaço de chão que a
vida acontecia em toda a sua plenitude.
Em sua análise da metrópole moderna, Simmel (2006) chama a atenção
para a heterogeneidade da convivência social, onde as diferenças são acolhidas e
relativizadas devido a uma maior autonomia que esse centro urbano gera nos
indivíduos, se comparado aos vilarejos pré-modernos. Esse é um espaço de
movimentação humana caracterizado pelo individualismo do dinheiro, pela liberdade
física (SIMMEL, 2006) e pelo charme da geografia e da arquitetura antiga
(CASTELLS, 2010). O que predominava, e por que não dizer que ainda predomina
em certas populações do globo, é a lógica do “espaço de lugares” (CASTELLS,
2010), cujos referenciais se associam às dimensões tangíveis do território.
A internet e seus desdobramentos tecnológicos trouxeram o surgimento de
outro espaço social, não mais caracterizado pelos limites dos grandes centros
urbanos, das metrópoles, mas identificado pela interconexão da rede mundial de
computadores, fato esse que reconfigura a própria vida social, tanto em sua
dimensão física quanto virtual. Esse ciberespaço, que existe para além do espaço
físico, também influenciou e influencia a vida dinâmica das novas cidades do século
XXI, ou seja, a galáxia da internet (CASTELLS, 2004), além de criar seu mundo
particular, também reconfigura as dimensões e as relações das megacidades atuais,
gerando uma lógica do “espaço de fluxos” (CASTELLS, 2010).
Sobre a urbanização do terceiro milênio, característica de uma sociedade
organizada em redes, Castells (2010) afirma o seguinte:

A nova economia global e a sociedade informacional emergente de fato têm


uma nova forma espacial que se desenvolve em vários contextos
geográficos e sociais: as megacidades. Megacidades são aglomerações
enormes de seres humanos, todas elas com mais de dez milhões de
pessoas em 1992, e quatro projetadas para ultrapassar vinte milhões em
2010. Mas o tamanho não é sua qualidade definidora. São os nós da
economia global que concentram tudo isso: as funções superiores
direcionais, produtivas e administrativas de todo o planeta; o controle da
mídia; a verdadeira política do poder; e a capacidade simbólica de criar e
difundir mensagens [...] (CASTELLS, 2010, p. 493).

É importante entender que essas transformações geradas pelas novas


tecnologias da informação, no caso particular da internet, na verdade somente uma
parte do ciberespaço, não reforçam a extinção dos grandes centros urbanos e da
sua dinâmica específica, pelo contrário, essa nova lógica propõe uma melhor

26
articulação entre as cidades e as cibercidades, entre a realidade territorial e a virtual,
entre a atuação dos sujeitos na rede e a construção de uma rede de colaboração e
participação dentro da sociedade (LÉVY, 2010). Por isso é que Lévy (2010, p.194)
explicita claramente: “O ciberespaço é um potente fator de desconcentração e
deslocalização, mas nem por isso elimina os ‘centros’”. Assim, tanto as megacidades
quanto a vida urbana atual são estruturadas pelos referenciais de mobilidade e
virtualidade, pela comunicação instantânea, pelo fluxo de todos os tipos na rede,
inclusive do dinheiro, fator de autonomia em uma sociedade capitalista.
Diante dessas transformações sociais, há aqueles que enxergam nesse
fato um sinal do fim da história e da própria realidade como dimensão incontestável.
Será que a realidade que hoje conhecemos não seria uma criação fantasiosa,
reforçada pelas novas mídias e pela nova lógica por elas reforçada? Esse é um dos
muitos questionamentos que Baudrillard (1991) sugere a respeito das novas mídias.
Para Baudrillard (1991), tanto a cultura como os símbolos que norteiam a vida social
seriam simulacros criados para confundir a todos. Em sua obra mais famosa,
Simulacros e Simulação, ele analisa de forma crítica a sociedade contemporânea e a
situa no terreno dos simulacros, uma realidade construída por meio de símbolos e
significados que se distanciou do real. Esse é o paradoxo que ele apresenta, pois,
apesar de ser uma realidade artificial, o simulacro é ao mesmo tempo real e
imaginário.
Para explicar esse antagonismo, o autor faz uma releitura da fábula de
Borges, dizendo que um mapa (simulacro) foi produzido tendo as mesmas
dimensões de um reino (realidade). Com o passar do tempo, o mapa foi se
deteriorando, sendo possível encontrar somente pedaços dele nos desertos. Nessa
história, a realidade continuou intacta, as terras do reino não sofreram nenhum tipo
de mudança, ao contrário do mapa, uma representação dessa realidade, que se
esfacelou. No entanto, na época atual, a leitura dessa fábula deve ser feita às
avessas, pois a realidade objetiva são os fragmentos do mapa, ou seja, segundo
Baudrillard (1991), vive-se em uma época em que os simulacros e as simulações
tomaram o lugar da realidade e todos estão imersos nessa representação, sendo
incapazes de perceber as insinuações de uma “realidade” resumida e repartida. Para
ele, os fragmentos do mapa podem ser encontrados nos desertos da realidade.
Baudrillard (1991) mostra que a diferença entre o falso e o verdadeiro
pode ser muito sutil diante do fenômeno das novas tecnologias da informação e da

27
comunicação e os efeitos produzidos por elas. Para alguns, esse posicionamento
pode ser pessimista em demasia, entretanto, é preciso reconhecer que esse
admirável mundo novo possui limites e dimensões obscuras. Mas a principal
contribuição de tal pensamento está no fato de discutir os conceitos de realidade,
virtualidade e falsidade. Hoje, o que acontece na internet, por exemplo, não pode ser
classificado como algo falso, distante e sem nexo com a vida cotidiana das pessoas.
Nesse sentido, o advento das novas tecnologias informacionais trouxe a
ressignificação da própria vida em sociedade e da ideia de presença nesse contexto.
Uma das mudanças mais características dessa época pode ser aplicada à
noção de presença. Mas o que seria estar presente? O que significa estar presente?
Com as novas tecnologias, até a concepção clássica foi modificada, uma vez que o
indivíduo não precisa fixar seu corpo físico, material, em um determinado ambiente
para ser reconhecido como presente. A TV, a internet, por meio dos chats e sites de
relacionamento, o telefone clássico, os aparelhos móveis, podem ajudar na
ressignificação dessa presença.
Para Baudrillard (1991), isso revela o desejo de captar a realidade ao vivo,
mas tem as suas consequências. Quando fala do holograma, que seria um desses
meios de captar a presença em qualquer parte sem estar fixado fisicamente ali, ele
expressa que esse holograma, bem como os seus desdobramentos, são o resultado
do desenvolvimento das ferramentas tecnológicas, consideradas como uma
extensão do corpo humano, e expressa a idéia de passar através da imagem, de
perpassar o corpo espectral.
As relações sociais atuais são afetadas diretamente por essas tecnologias,
não há como negar. Até mesmo as relações afetivas, os vínculos emocionais, são
reconstruídas pelas novas ferramentas da internet. Duas características de tais
vínculos seriam a descartabilidade e a efemeridade, presentes no imaginário coletivo
da população e reforçadas pelas ferramentas interativas, no caso particular do
Mensseger e das salas de bate papo on-line. Para tal fenômeno, Bauman (2004) cria
o termo “relacionamentos de bolso”, que representaria o desejo de deixar todas as
portas abertas para outro parceiro, evitando compromissos a longo prazo.
Diante disso, a seguinte pergunta foi lançada: “Será que o prazer da atual
geração de jovens não está no fato de expelir, ou, descartar as pessoas com quem
se relacionam?” (BAUMAN, 2004). Essa problemática pode ser representada pela
dualidade relacionamento versus conexões. Enquanto os relacionamentos

28
representam as relações antiquadas para os jovens, as conexões seriam a
possibilidade de conhecer parceiros e redes por meio de relações virtuais (BAUMAN,
2004). Eis um retrato não só da juventude atual, mas também de uma coletividade
que aprendeu a fluir pela rede e trazer para a vida cotidiana as implicações de tal
ato.
Esta anseia em devorar e descartar o Outro, referencial reforçado pelas
conexões, representa não só uma concepção restrita a um segmento social, antes
revela uma marca da sociedade atual, em permanente fluxo, tanto nas palavras
representadas no ciberespaço, quanto nos relacionamentos fora dele. Isso por que
“nós pertencemos ao fluxo constante de palavras e sentenças inconclusas.
Pertencemos à conversa, não aquilo sobre o que se conversa” (BAUMAN, 2004, p.
52). As relações sociais acontecem tanto dentro quanto fora do ciberespaço, mas a
diferença de “dentro” e “fora” vai se tornando mais complexa de definir a cada dia.
A despeito das concepções negativas quanto ao impacto da internet na
vida social, existem autores que enxergam nesse advento um momento propício de
reflexão. Essa diferenciação entre aquilo que é real e virtual pode ser melhor
compreendida nas palavras de Lévy (2009), em sua obra O que é o Virtual.
Discordando do senso comum, o autor afirma que o virtual tem uma pequena
afinidade com o falso, o ilusório ou imaginário, porém não se constitui nesses
termos. Ou seja, o virtual não é o oposto do real, pelo contrário, o virtual significa
potência, problematização, possibilidade de uma realidade a ser construída. O real é
da ordem do “tenho”, enquanto o virtual é da ordem do “terás” (LÉVY, 2009). Assim,
as relações que acontecem no ambiente virtual não podem ser encaradas em uma
perspectiva de falsidade e deslegitimação, pelo contrário, o que acontece na rede,
em fluxos constantes, muito representa uma realidade particular, com características
particulares. E é nesse terreno que as relações sociais se encontram no momento.
Outro autor que discute as possibilidades da internet para a reconfiguração
e desenvolvimento das relações e habilidades sociais é Don Tapscott (2010), que
propõe uma análise para além das desconfianças e limites da rede. Em sua análise
das implicações do uso da internet sobre a juventude, ele afirma que a chamada
“Geração Internet” nasceu e cresceu envolta por uma cultura digital, fato inédito
historicamente, e por esse motivo compreende a sociedade por outra perspectiva.
Segundo ele, esses jovens estão provocando mudanças estruturais incríveis, que
passam pelas organizações até os governos. Essa conjuntura digital ou

29
“cibercultural” (LÉVY, 2010) tem sido um eixo fundamental para que as pessoas
dessa época compreendam e vivenciem a realidade de maneira diferente.
O desenvolvimento das novas tecnologias informacionais, no caso
particular da internet, afetou as relações sociais de tal maneira que provocou uma
reestruturação nos modos de relacionar-se com o Outro e de enxergar a realidade. A
sociedade, pela primeira vez na história, pode estender-se para além de si mesma e
dos limites territoriais circundantes, nos domínios do ciberespaço, criando e
recriando cultura. E nessa nova conjuntura há um segmento social que merece ser
analisado de maneira mais profunda, pela sua afinidade com as novas tecnologias
da comunicação: a juventude.

2.2 – JUVENTUDE NO CIBERESPAÇO: SOCIABILIDADES A PARTIR DAS REDES


SOCIAIS DA INTERNET

Na conjuntura atual há um lugar comum onde a juventude se encontra e


se relaciona de maneira dinâmica. Esse lugar ou ethos é chamado por alguns
autores de ciberespaço (LÉVY, 2009, 2010; DEMO, 2004), ou seja, um espaço
dentro da rede de fluxos da internet, um ambiente virtual. Há um incontestável
apreço de muitos jovens pelas ferramentas de comunicação disponibilizadas pela
internet, no caso do Messenger, das salas de bate papo virtuais, dos sites de
relacionamentos e atualmente das redes sociais interativas. Essa gama de
mecanismos que possibilita fluxos cada vez maiores e mais rápidos de comunicação
tem sido encarada como um “lugar” de liberdade pelos jovens, onde se criam e
recriam regras sociais de conduta.
O conceito de sociabilidade enquanto “forma lúdica de sociação”
(SIMMEL, 2006, p. 65), no sentido de uma categoria sociológica, nos possibilita vê-la
engendrada pelas juventudes no espaço virtual como um jogo em que se fazem
presentes interesses diversos, como “sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros,
conscientes, inconscientes, causais ou teleológicos”, perfilando “a base da
sociedade humana”, conforme Simmel (2006, p. 61).
A socialização é “interação” e um “jogo”, isto é, um jogo de “faz de conta”,
não necessariamente mentiroso, em que todos são iguais e “[...] ao mesmo tempo,
faz de conta que cada um é especialmente honrado” (SIMMEL, 2006, p.71 – grifos

30
do autor). “Essas interações revelam e desvelam um jogo social em que os
indivíduos, em sociabilidade, jogam a sociedade.” (SIMMEL, 2006, p.72).
Essa eclosão de mecanismos que possibilitam falas e encontros de
maneira instantânea gera sociabilidades até então desconhecidas. Se fora da rede
precisa-se marcar encontros físicos, em lugares específicos, tangíveis, para haver
uma interação social legítima, com o advento desses mecanismos o mesmo
encontro pode ser feito em qualquer lugar, a qualquer hora, basta estar conectado.
Isso representa bem a ideia de hologramas ou duplicação da presença
sobre a qual discorre Baudrillard (1991). Nas palavras de Lévy (2009), isso se
chama “desterritorialização” da própria presença, e a atual geração de jovens
apresenta essas mesmas características de não pertencimento geográfico. Tanto a
configuração espaço-temporal quanto as concepções de mundo são afetadas pelo
ciberespaço.
Entretanto, é preciso certa cautela ao analisar o fenômeno da virtualização
ou desterritorialização. Além de afirmar a limitação do termo, Eisenberg (2003, p.
495) explicita que os mesmos “não devem ser tomados como vetores de uma
transformação radical perpetrada pela rede, nem como produtores de um novo
espaço desterritorializado”. É arriscado afirmar que a internet e suas implicações
para a vida social são os agentes de transformação da condição humana. Assim,
apesar dos “novos experimentos sobre o uso da nova mídia para fins políticos –
votação via internet, propaganda política na rede, redes virtuais de movimentos
sociais organizados etc. –, o quadro geral ainda permanece obscuro e indefinido”
(EISENBERG, 2003, p. 492).
Mas a novidade e a obscuridade do fenômeno exigem também
reconfigurações de concepções tradicionais com relação ao espaço e ao tempo,
principalmente nos ambientes virtuais. E, por mais que haja afirmações de que “o
ciberespaço não existe”, ou que “a internet não constitui um espaço” (EISENBERG,
2003), não há como negar o fato de que a complexidade das relações humanas se
estende para além da presença física, assim, superando as histórias de ficção
científica e mitos sobre o abandono do corpo.
Sobre essas transformações nas concepções tradicionais de espaço e
tempo, André Lemos (2003) afirma o seguinte:

31
Vivemos uma nova conjuntura espaço-temporal marcada pelas novas
tecnologias digitais-telemáticas, onde o tempo real parece aniquilar, no
sentido inverso à modernidade, o espaço de lugar, criando espaços de
fluxos, redes planetárias pulsando no tempo real, em caminho para a
desmaterialização do espaço [...] (LEMOS, 2003, p. 3).

Essa é a lógica que reina entre os jovens, a da desmaterialização dos


espaços, dos lugares e até das próprias relações que estabelecem com outros de
sua faixa etária ou não. E, com a mesma rapidez que se conectam a outros, se
desconectam também, restringindo suas falas e expressões a determinadas pessoas
ou grupos, num espetáculo sem fim de insinuações, escancaramento do ser e
retiradas off line estratégicas, tudo isso ao mesmo tempo e em tempo presente
(PAIS, 2006).
Concepções de desterritorialização, ou de virtualização, são reforçadas
por uma geração que aprendeu a se locomover em fluxos em detrimento da
navegação lenta idealizada pelos primeiros usuários da internet (SANTAELA;
LEMOS, 2010). Sem dúvida, essa é uma juventude desterritorializada, que não
“curte” a concepção rígida de tempo da modernidade. Modernidade aqui entendida
como os “novos tempos” ou “tempos modernos”, resultado das rupturas de grandes
proporções com a tradição vigente (HABERMAS, 2000; SCALDAFERRO, 2009),
mas ainda ligada à concepção fabril e limitada de sociedade. O tempo rígido, que
limita, é um conceito que faz sentido aos relógios e não a juventude dessa época
digital.
As redes sociais virtuais vêm ganhando espaço considerável entre a
juventude pelo fato de proporcionar maior interatividade com relação às falas e
expressões entre indivíduos. Essas redes sociais da internet, que Santaela e Lemos
(2010) sintetizam na expressão “RSIs”, se manifestam de várias formas por meio de
várias plataformas. Atualmente existem centenas de redes como essas espalhadas
no ciberespaço, uma para cada gosto. O objetivo de tais plataformas é reunir dentro
de si pessoas que compartilham de objetivos aparentemente semelhantes. Assim, se
o interesse de um número considerável de pessoas é por fotos, se reunirão em torno
de uma comunidade virtual de fotógrafos, por exemplo. Essa é a lógica das redes
sociais da internet, que objetiva proporcionar conexão entre as pessoas e
interatividade avançada.
Essa interatividade pode ser percebida no Facebook, uma rede social
concebida com o intuito de reunir amigos que compartilham informações diversas.

32
Nesse ambiente podem ser postadas fotos, vídeos, expressões escritas, sem falar
em um sem número de mecanismos dentro da própria plataforma que possibilita
conexões a muitos jogos e a um “perfil” detalhado do usuário, que vai de gostos
musicais a posicionamentos religiosos e filosóficos. São mais de 550 milhões de
usuários em todo o mundo e algumas pesquisas apontam a tendência de
crescimento em países considerados emergentes (GALILEU, 2011).
O Facebook é a nova onda do momento, principalmente entre os jovens,
segmento que descobriu a possibilidade de conexão e também de superexposição
de sua vida privada. As possibilidades de entretenimento geradas por mais de 550
mil aplicativos fazem com que o número de adeptos aumente progressivamente.
Todo mês, são 30 novos bilhões de links, fotos, mensagens e vídeos. Mais de 225
milhões de usuários entram nele todos os dias e 150 milhões acessam-no por meio
de um smartphone. A quantidade de informações é tanta que se tornou possível
escrever uma reportagem sobre a vida, os hábitos e os gostos de uma pessoa
mesmo sem nunca tê-la encontrado pessoalmente (GALILEU, 2011). A ilustração 1
revela o layout da página principal do Facebook.

Ilustração 1 – O Facebook

Fonte: <http://www.facebook.com> Acesso em 20/11/2011.

33
Entretanto, a despeito dessa expansão do Facebook, já existem estudos
que mostram certa retração, principalmente nos Estados Unidos, país onde a
plataforma foi criada pelo jovem Mark Zuckerberg, entre polêmicas e rompantes de
genialidade (MEZRICH, 2010). Esse declínio ou abandono em massa de usuários foi
de cerca de 5,8 milhões somente no mês de maio deste ano, devido à saturação e
expectativa exageradas sobre a plataforma, ou seja, alguns usuários estão
constatando que o site não é tão espetacular e possui limites (INSIDE, 2011).
Mesmo com percalços desse tipo, não há como negar o fato de que o
Facebook é um fenômeno em constante expansão que tem atraído para seus
serviços milhões de usuários que buscam conexão e entretenimento. Também há
estudiosos que afirmam que a plataforma está caminhando para um período de
maturidade, preparando-se para o crescimento sustentado e lucrativo por meio da
abertura para os negócios (INSIDE, 2011). A tabela um revela esse crescimento em
muitos países.

Tabela 1 – Expansão do Facebook por Países Selecionados

Fonte: <http://www.insidefacebook.com>. Acesso em: 20 nov. 2011.

Boa parte dos jovens que utilizam o Facebook apresenta o termo “estar
perto” para justificar sua atuação cotidiana no site. É uma fixação por parte de tal
segmento desbravar todos os dias o que acontece em sua página, quais foram os
recados deixados, quais as publicações no “mural” de mensagens e se há algum

34
novo “amigo” tentando estabelecer um vínculo virtual. Apesar do desejo pelo
desmantelamento de estruturas rígidas de pertencimento, foi percebido em boa parte
dos jovens que utilizam o Facebook o interesse pela manutenção dos vínculos
sociais estabelecidos anteriormente, no mundo tangível, para configurar a sua conta
em tal ambiente.
A mesma lógica serve para o Orkut, outra rede social interativa de boa
aceitação entre os jovens no Brasil, mas que tem enfrentado problemas de
abandono em massa por parte dos usuários. Isso se deve à expansão de outras
redes sociais e também à maior exigência dos usuários, que desejam maior
interatividade (MARTINS, 2011). Na ilustração 2 é possível perceber a organização
dos amigos e das informações do perfil virtual na página do Orkut.

Ilustração 2 – O Orkut

Fonte: <http://www.orkut.com.br>. Acesso em: 20 nov. 2011.

Assim, percebe-se certo paradoxo, uma vez que a geração


desterritorializada, fã incondicional dos fluxos pela rede, aparentemente sem origem
e sem destino previamente definidos, também preza pela conservação de vínculos
anteriores ao ciberespaço, uma centelha ou fio que liga um mundo ao outro. Isso
mostra a dificuldade em separar o real do virtual. Mas algo fica claro diante dessa

35
problemática, o “espaço estriado”, revelador da ordem, do controle (DELEUZE,
1980), que pode ser entendido numa perspectiva de limitação da realidade tangível,
não é o suficiente para trazer prazer e significado ao jovem desterritorializado. Ele
precisa de um “espaço liso”, que se abre ao caos e ao nomadismo (DELEUZE,
1980), uma realidade virtual, possibilitadora e potencializadora de sua criatividade e
insurgência.
Essas diversas manifestações acabam criando uma cibercultura, que seria
a implicação prática do desenvolvimento do ciberespaço (LÉVY, 2010). Navegar ou
fluir pelo ciberespaço traz consequências tanto para quem se arrisca nessa viagem
como para o contexto virtual que recebe o aventureiro. Isso pode ser percebido na
produção intelectual que acontece dentro da rede, de diversos tipos, diga-se de
passagem. Um exemplo bem claro é o site Wikipédia (uma enciclopédia virtual,
atualizada diariamente por usuários de todo o mundo). Diante disso, a própria
cognição é modificada com os processos interativos, da mesma maneira que a
interatividade se transforma para atender melhor ou desafiar o indíviduo. Essa
produção de cultura ou cibercultura pode ser encontrada nas redes sociais
interativas também.
Outra rede social que merece atenção especial para certas singularidades
de seu funcionamento é o alardeado Twitter, um site configurado com o objetivo de
produzir micro textos de 140 caracteres (microblog). Tem dupla finalidade, funciona
tanto como rede social quanto mídia, onde é possível conversar on-line, como no
caso do MSN. Um aspecto que o diferencia do Facebook é a organização dos laços
sociais por parte dos usuários. A organização ou configuração desses laços no
Twitter altera a concepção de outras redes por algumas características:

[...] a tônica da interação e dos laços sociais não é baseada em vínculos


preexistentes, mas sim na penetração individual em fluxos de ideias, ou
seja, fluxos coletivos abertos de ideias compartilhadas em tempo real, que
estão em movimento contínuo. Essa penetração gera conversações que,
por sua vez, geram laços sociais (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 91).

Com as redes sociais da internet até a ênfase à interatividade sofreu


transformações. É isso o que Santaella e Lemos (2010, p. 90-91) afirmam:
“Passamos da ênfase na interatividade entre o humano e máquina, característica da
cibercultura dos anos 1990, para uma experiência direta de sociabilidade em rede
mediada por computador”. O foco nesse contexto não é na tensão entre o ser

36
humano e as novas tecnologias, antes é na interação que acontece dentro do
ciberespaço, que revela sociabilidades específicas a essa realidade. Na ilustração 3
é possível perceber como as ideias e os textos são organizados no Twitter.

Ilustração 3 – O Twitter

Fonte: <http://twitter.com>. Acesso em: 20 nov. 2011.

A dinâmica juvenil nas redes sociais interativas coloca uma questão


interessante para a sociedade atual: qual seria o papel dessas redes na formação
sócio-política da juventude? Talvez essa resposta demore um pouco à ser dada,
devido a complexidade dessa problemática e pelo fenômeno das RSIs ser recente,
mas um aspecto não pode ser negado nessa construção teórica: as redes sociais
interativas podem converter-se em um núcleo de reestruturação das sociabilidades
urbanas, trazendo o jovem para o centro desse processo.
Sobre a importância das redes de comunicação de forma geral, Lévy
(2010, p. 195) declara o seguinte: “[...] As redes de comunicação deveriam servir
prioritariamente a reconstituição da sociabilidade urbana, à autogestão da cidade por
seus habitantes e ao controle em tempo real dos equipamentos coletivos”. Essa
dimensão abre precedentes para outro campo de atuação da juventude, sua
militância social no ciberespaço.

37
2.3 – JUVENTUDE E COOPERAÇÃO NA REDE

Historicamente, a juventude tem estado envolvida em movimentos de


contestação ao status quo, especialmente depois da década de 1960, quando a
sociedade ocidental foi balançada pelos movimentos insurgentes da juventude
hippie. Esses movimentos marcaram a sociedade profundamente, uma vez que
mexeu com os arranjos familiares da época, resultando em várias liberações, das
sexuais às ideológicas (HOBSBAWN, 2009). Com o advento das novas tecnologias
da comunicação, no caso particular da internet, um novo movimento foi percebido
por parte da juventude no final do século XX, uma insurgência específica,
potencializada pela interatividade da rede.
Segundo Hobsbawn (2009), os vários acontecimentos da segunda metade
do século XX afetaram a própria configuração da organização social da juventude e
também a forma como esse grupo começou a ser percebido. O autor define a
juventude como “um grupo com consciência própria que se estende da puberdade
até a metade da casa dos vinte” e que começou a se destacar como um “agente
social independente” (p. 317) depois dos acontecimentos dramáticos motivados pela
revolução cultural da década de 1960. A verdade é que a juventude passou a ser
encarada como o estágio final do pleno desenvolvimento humano, o contrário do
pensamento anterior, que percebia nessa fase um estágio preparatório para a vida
adulta (HOBSBAWN, 2009).
Esse status de força e protagonismo conquistado pela juventude pode ser
percebido também na atual configuração social por meio das manifestações no
ciberespaço. Hoje em dia é possível organizar comícios políticos, diversas
manifestações sociais e até mesmo encontros de pichadores que desejam deixar
suas marcas nas construções dos grandes centros urbanos. As possibilidades são
infinitas e a juventude vem compreendendo o papel que o ciberespaço tem na sua
formação sócio-política e em suas manifestações sociais. A cooperação está na
rede, mesmo que se manifeste em torno de núcleos frágeis de afinidade entre esses
jovens.
Para Tapscott (2011) é na rede que a inteligência das massas é
desenvolvida por meio de vários mecanismos de atuação. A internet viabiliza a
cooperação entre as pessoas, em especial no caso dos jovens, que buscam mais
autonomia e sentido para a sua atuação. Por meio da rede podem conhecer lugares

38
nunca vistos, pessoas de várias partes do mundo e até idiomas diferentes. Nesse
processo é possível ter uma formação desterritorializada, para além das salas de
aula ou qualquer lugar que tenha a pretensão de represar a força criativa e impulsiva
juvenil. Mas, a despeito dessa transformação, é preciso reconhecer que tanto a
cooperação quanto a alienação (ou o isolamento) representam a dupla face de um
mesmo processo.
Antes do advento da internet as revoluções aconteciam de maneira
vertical, ou seja, era preciso um líder, um símbolo da revolução (talvez um partido
político, detentor dos ideais revolucionários), para concretizar o desejo de mudança
social. Exemplo disso pode ser a Revolução Russa, com Lênin, ou a Revolução
Cubana, com Che Guevara, entre outros. A partir da internet, nas palavras de
Tapscott (2011), foi possível fazer wiki-revoluções, onde todos os agentes
envolvidos, de vários lugares, podem dar a sua contribuição por meio da rede. O
autor afirma que essas revoluções só aconteceram de modo repentino e horizontal
em decorrência das mídias sociais, principalmente do Facebook. Assim, as mídias
sociais não servem somente para encontrar a namorada ou fazer comunidade de
jardinagem, elas mudam a forma como os movimentos de contestação e revolução
acontecem (TAPSCOTT, 2011).
Em seu livro Comunicación y Poder, Castells (2009) trata da mobilização
da resistência por meio de práticas de comunicação na rede. O autor fala da
importância de um dos sentimentos mais antigos da humanidade para a mobilização
coletiva, a ira, e diz que a internet pode fazer com que esse sentimento seja
compartilhado entre aqueles que contestam o sistema. Assim, para que haja um
legítimo movimento de resistência é preciso que sentimentos individuais, no caso da
ira, sejam comunicados aos demais, transformando as noites solitárias de desespero
em dias de cólera compartilhada (CASTELLS, 2009). Dessa forma, escritos, vídeos
e até fotos podem revelar o descontentamento de uma geração que vê na internet
uma porta para um mundo idealizado, contraposto ao modelo social vigente.
Segundo Lévy (2010, p.198 – grifos do autor), “O nervo do ciberespaço
não é o consumo de informações ou de serviços interativos, mas a participação em
um processo social de inteligência coletiva”. Por isso, atualmente se percebe um
movimento cada vez maior de acessos à internet com o objetivo de proporcionar
encontros, falas, criações intelectuais coletivas e não simplesmente para consumir
conteúdos ou para se comprar produtos, apesar dessa prática acontecer

39
cotidianamente por parte de muitos usuários (e essa é uma dimensão que constitui a
rede). Mas o fato é que jovens de diversos lugares, de culturas e realidades
comunitárias diferentes vêm utilizando o ciberespaço em uma perspectiva de
interação social constante, desenvolvimento assim uma inteligência coletiva em prol
das questões mais urgentes da sociedade.
As interações multimodais no presente contínuo, reforçadas pelo Twitter
(SANTAELLA; LEMOS, 2010), por exemplo, facilitam o fluxo de ideias insurgentes
ou de contestação a um determinado tema em discussão. Os chamados trending
topics revelam os temas mais discutidos no Twitter e mostram tanto
posicionamentos positivos quanto negativos, dependendo do que se está discutindo.
Os temas são diversos, podendo ser fúteis ou não, pois são levantados desde
aspectos da vida de celebridades até acontecimentos de relevância social.
As interações multimodais acontecem no ciberespaço, porém afetam
diretamente as práticas sociais e as maneiras de perceber o real. O massacre em
Realengo, Rio de Janeiro, em abril de 2011, suscitou mais do que perplexidade e
desespero entre aqueles que acompanhavam o ocorrido pela rede, despertou
também mobilização em torno dos pedidos coletivos via Twitter para que as pessoas
doassem sangue para ajudar as vítimas do massacre. Outro exemplo emblemático
do engajamento juvenil na rede foi o que aconteceu no Egito, com a derrubada de
Hosni Mubarak do poder em 2011, quando os jovens se organizaram pelas redes
sociais para posicionarem-se de forma estratégica nas ruas da cidade do Cairo.
Sobre a importância do Twitter para mobilizar as massas, Santaela e
Lemos (2010, p. 121) analisam a força de alguns experimentos virtuais, como o
QOTD, uma hashtag “utilizada no Twitter, de forma geral, para se referir à já clássica
“Quote of the Day”, citação diária de alguém famoso na internet e/ou como tag de
indexação em fluxos de perguntas e respostas”. As autoras mostram que
experimentos desse tipo podem converter-se em núcleos de discussão global sobre
algum tema, colocando as ideias expressas em pé de igualdade, sendo
selecionadas e reconhecidas apenas pela sua relevância na discussão. Dessa
forma, pessoas de qualquer lugar podem contribuir com um tópico de discussão e se
destacarem no meio de muitos. É possível perceber também que a própria
compreensão a respeito da problemática social vai sofrendo transformações na
medida em que os tweets vão sendo remodelados para atender melhor aos objetivos
do fórum de discussão.

40
Esse engajamento via Twitter, ou por qualquer rede social digital, pode
suscitar lideranças jovens dispostas a discutir a sociedade com o objetivo de
transformá-la. O fenômeno da desterritorialização, potencializado pelo uso da
internet, atinge também a própria formação de lideranças comunitárias e/ou globais,
provocando um desmantelamento de estruturas rígidas de poder. A lógica piramidal
de organização social (e, por que não dizer, do conhecimento) nas instituições
tradicionais vem sendo substituída gradativamente pela lógica da rede, que permite
aos jovens de vários lugares transitarem em fluxos e participarem de uma
experiência pluridirecional na produção de conhecimento.
Acompanhando essa proposição, Santaela e Lemos (2010) afirmam o
seguinte:

Vivemos a transição de uma experiência bidirecional das mídias digitais


para uma experiência pluridirecional, em que a conversação se torna o
elemento principal da arquitetura informacional das mídias sociais. Essa é
uma evolução significativa, que reposiciona a localização individual de cada
um na hierarquia digital de suas relações sociais [...] (SANTAELA; LEMOS,
2010, p. 127).

Apesar da banalização das ferramentas tecnológicas em muitos momentos


e da alienação de parte da juventude, que não percebe o potencial sócio-político das
mesmas, não é possível negar o fato de que a cooperação e a comunicação em
rede entre jovens é uma das marcas mais fortes desse tempo informacional. Insurgir,
contestar e subverter são termos que ainda estão em alta entre esse segmento
social, que não precisam ser guerrilheiros confinados em uma floresta para derrubar
governos opressores ou ideias retrógradas que violentam o direito individual e
coletivo. As wiki-revoluções se tornaram uma maneira peculiar de manifestação
juvenil, que tendem a sofisticar-se na medida em que as ferramentas de interação
social da internet evoluírem.

2.4 – JUVENTUDE E FORMAÇÃO NO CIBERESPAÇO: CONCEPÇÕES DE UMA


NOVA EDUCAÇÃO

A educação é uma das práticas mais antigas da humanidade e vem


sofrendo transformações cruciais nas últimas décadas. É preciso levar em
consideração que ela é uma prática social em mudança ao longo da história. Devido

41
às complexas relações entre as novas tecnologias da comunicação e seus usuários,
fato que vem alterando progressivamente a cognição humana e as relações sociais
(LÉVY, 2010), questões delicadas estão surgindo acerca da validade e relevância do
atual modelo de educação para a sociedade. A juventude, como segmento social em
processo de formação constante, influenciado diretamente pelo modelo educacional
adotado, vem se relacionando de forma diferente com o saber por meio das novas
tecnologias, o que tem suscitado profundas reflexões acerca da relação juventude-
educação-sociedade.
A seguir, serão apresentados três itinerários de educação, visando
estabelecer o tipo de relação entre o sujeito cognoscente e o conhecimento em cada
uma delas, fato que mostrará as transformações pelas quais a educação vem
passando no seio da sociedade e sua relevância para determinado contexto. O
primeiro itinerário diz respeito à educação tradicional ou clássica, reforçada pelo
paradigma do consenso em Sociologia da Educação; o segundo apresentará um
modelo dialógico ou progressista de educação, reforçado pelo paradigma do conflito,
e o terceiro discorrerá do modelo emergente, que vem ocupando seu lugar depois do
advento das novas tecnologias da comunicação e popularização do ciberespaço por
parte da juventude, uma educação multidialógica que supera as relações duais entre
sujeito e objeto.

2.4.1 Crítica à Educação Tradicional: “bancária”, monomodal e centralizada na


ação do professor

É preciso que se leve em consideração a pertinência de cada modelo


educacional para o contexto específico que o pratica. Por isso, não basta dizer que a
educação tradicional possui somente aspectos negativos ou que sua ação não é
mais exercida sobre as gerações mais novas. Um modelo educacional (ou corrente
pedagógica) não se sobrepõe a outro como se fosse uma linha de sucessão, pelo
contrário, itinerários diferentes podem coexistir em uma determinada comunidade.
Entretanto, um novo paradigma educacional sempre traz adaptações e respostas às
necessidades mais urgentes da sociedade. A educação deve responder aos
desafios do seu tempo e só será bem sucedida em seu intento na medida em que se
adaptar e transformar antigas práticas e relações para o bem da coletividade.

42
Nesse sentido, a grande contribuição do modelo tradicional ou consensual
de educação foi a preocupação em formar o sujeito para a vida social e, mais,
entendeu que o sujeito em formação precisa passar por um processo de apropriação
dos significados culturais e normativos da comunidade da qual faz parte, com vistas
a se tornar um ser social, um cidadão pleno (DURKHEIM, 1978). Esse processo de
socialização deve acontecer em todo ato educativo, independente da cultura e da
época, pois, para Durkheim (1978, p. 41), “a educação é a ação exercida, pelas
gerações adultas sobre as gerações que ainda não se encontram ainda preparadas
para a vida social [...]”.
Contudo, a despeito dessa sinalização positiva, há alguns limites que
precisam ser colocados em questão, como a centralização da ação educativa na
pessoa do adulto, ou seja, do professor. Segundo essa visão, o processo de ensino-
aprendizagem é diretivo e impulsionado pela pessoa do professor, sendo assim, não
são levadas em consideração as contribuições que o educando traz para o
processo. Uma educação desse tipo pode ser encarada numa perspectiva
monomodal, ou seja, onde uma moda ou norma é rigorosamente seguida,
desprezando, assim, outras dimensões da relação entre o sujeito e o conhecimento.
Para Paulo Freire (1997, 2010), esse tipo de itinerário educativo pode ser
chamado de “educação bancária”, pois consiste na prática de depositar um sem
número de conteúdos no educando, exigindo do mesmo, em um momento posterior,
a prova de que aprendeu, por meio de testes. Nesse modelo não é levada em
consideração a autonomia do educando, que se torna objeto na interação com o seu
professor. E essa visão pode ser estendida para a vida em sociedade, pois, se esse
educando é um mero receptor de conteúdos na escola, certamente será um cidadão
que apenas sofre as pressões sociais, sem atuar sobre as mesmas.
Por mais que essa educação seriada, monológica, tradicional ou
consensual apresente seus ideais de formação do cidadão pleno, ela não coloca em
cheque as disparidades da sociedade e entende que a ação política passa longe da
escola e da sua prática. Essa concepção está presente na sociedade, principalmente
quando se observam, por exemplo, os objetivos das escolas de ensino médio desse
país, que focam sua ação no ensino conteudista, para a aprovação nos vestibulares
apenas. Da mesma forma, percebe-se tal mentalidade enraizada nos discursos
elitistas de formação integral, que desprezam as condições precárias das escolas
públicas e as desigualdades reforçadas pela má distribuição de renda e falta de

43
oportunidades para o segmento jovem, “a geração despreparada para a vida social”,
segundo Durkheim (1978).
Como exercer a cidadania quando direitos básicos são retirados de tais
sujeitos? Esta é uma resposta complexa que uma educação comprometida com as
transformações sociais deveria ajudar a responder. Mas o que fica patente para
todos é que deixar o jovem sentado em uma carteira de sala de aula, ouvindo
passivamente um sem número de conteúdos desconexos do seu cotidiano,
desprezando seus saberes e experiências, não formará integralmente esse sujeito e
o deixará à margem do processo de apreensão dos significados culturais e sociais.

2.4.2 Possibilidades da Educação Dialógica: libertadora e centralizada na


relação educador-educando

A educação dialógica é um itinerário defendido por vários educadores no


século XX, principalmente na segunda parte desse período, quando uma visão mais
crítica sobre a relação educação-sociedade foi estabelecida (GOMES, 2005). O
otimismo pedagógico foi duramente criticado por Paulo Freire (1997, 2010), que via
nessa concepção uma demonstração de ingenuidade por parte dos educadores.
Para ele, uma educação relevante para a sociedade é aquela que forma o sujeito
politicamente, preparando-o para uma atuação na problemática social.
Assim, uma educação dialógica é aquela que acontece entre iguais, ou
seja, quando educador e educando, em processo constante de interação, discutem a
realidade e seus antagonismos. Aqui o aprendizado acontece em mão dupla,
fazendo com que o professor aprenda ao ensinar e o educando ensine ao aprender.
O centro desse processo se encontra exatamente na relação dialógica e não em um
sujeito apenas. Para Freire, a educação é resultado da relação, do encontro, da
palavra entre os homens.
Esta visão traz outro tipo de relação entre o sujeito e o conhecimento, pois
afirma que o saber não pertence a uma pessoa ou determinado grupo, pelo
contrário, somente a interação entre os homens poderá fazer com que o
conhecimento seja produzido. A importância desse “lugar nenhum” descentraliza a
ação educativa e assegura maior autonomia à atuação da juventude, que nesse
momento pode trazer para o processo suas contribuições, resultado de suas
experiências de vida.

44
O conhecimento não está preso em um lugar, não está contido em algo ou
alguém, mas flui livremente na relação histórica dos seres sociais. Esse princípio
libertador do conhecimento pode ser muito bem utilizado pela juventude que deseja
engajar-se em movimentos de luta pelos direitos de seu segmento social. Da mesma
forma, esse fato gera outros precedentes: se o conhecimento está na relação, seria
possível aprender para além das dimensões físicas do território? Seria possível
aprender e desenvolver uma inteligência coletiva?
O ciberespaço e todos os desdobramentos que acontecem em seu interior
podem ser a chave de um novo momento para o conhecimento. Uma nova
concepção de educação pode estar surgindo, afetando mais uma vez a maneira
como entendemos a ação educativa e suas implicações para a vida social. E a
juventude está no cerne desse processo.

2.4.3 Educação, Juventude e Ciberespaço: a descentralização do


conhecimento

É consenso entre aqueles que estudam o fenômeno da educação que


mudanças agudas têm acontecido nas últimas décadas nessa área, principalmente
depois do advento das novas tecnologias da comunicação e o uso das mesmas
como ferramentas educativas. A exploração da infraestrutura tecnológica na
educação formal e nos processos sociativos trouxe uma nova mentalidade por parte
daqueles que desejam aprender explorando o ciberespaço.
As mudanças trazidas por esse ponto de mutação (CAPRA, 1982) são
muitas, mas uma em especial tem aberto novas possibilidades com relação à
compreensão do novo status do conhecimento na cultura digital (AQUINO, 2005).
Até algumas décadas atrás, a noção de conhecimento estava intimamente ligada a
um indivíduo, um mestre do saber, detentor de especialidades que poderiam ser
apreendidas somente por meio do seu ensino sistemático e tradicional. Hoje, com a
realidade do ciberespaço, compreende-se que o conhecimento não pertence a um
sujeito e não pode ser sistematizado ou apreendido plenamente.
Esse fato assegura a compreensão de que o Todo, entendido como a
plenitude do conhecimento, não pode ser alcançado. Isso é resultado da expansão
desenfreada das informações no ciberespaço, pois, nas palavras de Lévy (2010, p.
163), “a emergência do ciberespaço não significa de forma alguma que ‘tudo’ enfim

45
pode ser acessado, mas antes que o Todo está definitivamente fora de alcance”.
Isso porque é impossível assimilar o oceano de informações que a rede abriga.
Assim, é melhor fluir por entre suas ondas digitais do que perder-se na pretensão de
apreendê-lo.
O ciberespaço deslocaliza e subverte todo esquema humano de retenção
do saber e o consequente desejo de domínio sobre outros. Nesse itinerário digital de
educação, a construção do conhecimento acontece em um processo multidialógico,
que supera a simples relação homem-máquina. No ciberespaço, em processo
constante de captura e ressignificação de informações, o “ator/actante” (SANTAELA;
LEMOS 2010) vai formando a si mesmo. É importante saber que, nessa relação,
tanto humanos como outros elementos, sejam eles animados ou inanimados, fazem
parte do mesmo processo de formação hibrida (SANTAELA; LEMOS, 2010). O tipo
de sujeito formado nesse ambiente é um ser heterogêneo, híbrido, complexo, que
entende a articulação entre o território físico e o mundo virtual.
Uma nova “comunidade viva” (LÉVY, 2010) tem sido gerada no interior do
ciberespaço, que entende a força do “saber-fluxo” para a manutenção da sociedade
e da sua cultura. Diante dessa perspectiva novas possibilidades se abrem para
aqueles que estão à margem do processo social, entre eles pode-se destacar a
presença dos jovens, grupo que tem lutado por maior reconhecimento na sociedade
contemporânea, isso com relação ao acesso à educação, oportunidades de emprego
e lazer.
Segundo Tapscott (2010), essa geração de jovens, que ele chama de
“geração internet”, ou “geração Y”, cresceu envolta em uma cultura digital, fato
inédito historicamente. Essa realidade leva esses sujeitos a ter maior facilidade para
lidar com a internet e suas tecnologias. Entretanto, a afinidade da juventude com a
internet não diz respeito somente ao domínio técnico, tem profunda relação também
com as novas sociabilidades geradas na rede. O uso das ferramentas tecnológicas e
as sociabilidades geradas pelas relações interativas em rede resultam em processos
cognitivos diferentes, que Lévy (2010) chama de “inteligência coletiva”.
O caos informacional da rede se organiza pelo processo de aprendizagem
coletiva, pela compreensão dos funcionamentos e da lógica do ciberespaço.
Conversações, trocas de experiências, construções intelectuais compartilhadas e um
sem número de recursos podem contribuir para que qualquer jovem, em qualquer
lugar, crie seus nós de conexão e faça parte da imensa teia de relações do

46
ciberespaço, consumindo e produzindo cultura. Daí vem a afinidade da juventude
por esse aspecto descentralizador e subversivo da rede, pois nesse contexto não há
centros ou periferias, mas fluxo constante dos atores/actantes.
Nesse terreno, novos mecanismos são produzidos para que a
aprendizagem aconteça, gerando um desenvolvimento interessante sobre o
aparelho cognitivo humano. Um desses mecanismos é a simulação, que pode
expandir a memória e a cognição humanas para além dos resultados já conhecidos.
A questão aqui não diz respeito à substituição do humano pela “máquina” ou pelo
recurso virtual, mas tem a ver com experimentar novas possibilidades intelectuais e
formativas, utilizando-se dos recursos tecnológicos suscitados pelo ciberespaço
(LÉVY, 2010). Apesar de sua visão pessimista sobre o impacto das mídias sobre a
cultura, Baudrillard (1991) já apontava para as potencialidades do uso de
hologramas e afins, no intuito de duplicar o real.

47
CAPÍTULO III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

Segue-se a análise e a discussão dos dados coletados a partir das


entrevistas semiestruturadas, da exploração dos perfis virtuais dos participantes e do
grupo de discussão instalado na rede social interativa Facebook. As entrevistas
revelaram aspectos peculiares das vivências juvenis tanto na internet, sendo
possível perceber os itinerários virtuais e preferências no que se refere à
constituição/dissolução dos laços sociais na rede. A exploração dos perfis virtuais,
por sua vez, permitiu a aproximação etnográfica (ou “netnográficas”) com relação ao
comportamento juvenil no ciberespaço. Essa incursão virtual possibilitou relacionar
as respostas das entrevistas com a prática social nas redes sociais.
A experiência do grupo de discussão do Facebook, denominado
Juventude e Sociabilidade Virtual, possibilitou alcançar dois objetivos. O primeiro foi
a coleta e análise das intervenções divergentes dos participantes que emergiram das
perguntas lançadas on line, num formato de grupo focal, onde todos os integrantes
do fórum puderam expressar opiniões acerca das temáticas problematizadas. O
segundo objetivo foi utilizar a plataforma como espaço de discussão intencional e
direcionado ao público jovem, analisando assim as possibilidades da ferramenta
interativa. Vale ressaltar que esta experiência foi relevante para atribuir sentido
prático às palavras dos jovens entrevistados, ajudando na compreensão de suas
sociabilidades virtuais.
O público investigado é composto por jovens entre a faixa etária de 15 a
24 anos que cursam o ensino médio ou que já o concluíram e ingressaram há pouco
tempo na Educação Superior. Estes jovens residem na Região Administrativa de
Taguatinga, Distrito Federal, localidade caracterizada pelo fluxo constante de
pessoas devido ao seu potencial comercial. Parte dos jovens pesquisados
participam de uma comunidade presbiteriana e se encontram semanalmente na
mesma para atividades religiosas e sociais, o que contribuiu significativamente para
que eles participassem da pesquisa, já que este ponto de confluência juvenil
possibilitou o encontro para a realização das entrevistas, do grupo de discussão e de
conversas informais nos bastidores da pesquisa. A outra parte cursava a disciplina
Educação e Problemas Contemporâneos (CCI2), do curso de Pedagogia da
Universidade Católica de Brasília.

48
As falas dos participantes serão citadas em muitos momentos da
discussão dos dados. Para que essa apresentação seja feita de maneira organizada,
facilitando a compreensão do leitor, os participantes da pesquisa serão
apresentados por meio dos caracteres “J1” ao “J10” (J = Jovem. Os números se
relacionam a quantidade de participantes da pesquisa) quando forem citados ao
longo do texto.
A análise e discussão dos dados foi dividida em três sessões que estão
relacionadas aos objetivos específicos da pesquisa. Dessa forma, o primeiro tópico
apresentará os itinerários e a interação juvenil na internet e nas redes sociais. Num
segundo momento, a discussão será direcionada aos processos de agrupamento e
cooperação no ambiente virtual. O terceiro e último tópico discorrerá sobre a
presença dos processos educativos na rede.

3.1 – ITINERÁRIOS VIRTUAIS E A INTERAÇÃO JUVENIL NA INTERNET

As opiniões expressas trouxeram um elemento curioso que, num primeiro


momento, mostrava o limite da atuação juvenil no ciberespaço, mas que depois
trouxe novas possibilidades para a análise e discussão dos dados. Foi possível
perceber na fala de todos os jovens entrevistados certa dificuldade para responder
às questões que problematizam a internet e as redes sociais, espaços onde os
mesmos se sentem à vontade para expressar sentimentos e visões de mundo. Esse
público apresentou certa dificuldade em distanciar-se do instrumento interativo que
utiliza cotidianamente para discuti-lo e problematizá-lo, embora esteja familiarizado
com seus mecanismos e usos.
A princípio, isso revelava uma contradição difícil de entender, entretanto, a
partir desse fato, percebeu-se que a juventude não enxerga a internet como um
instrumento apartado de sua realidade, uma “prótese” de sua atuação, um elemento
que merece ser problematizado e discutido (refletido) todos os dias. Os jovens
geralmente não discutem as possibilidades do “meio” internet, antes experienciam
muitas vezes suas dimensões como “finalidade”. O importante aqui não é saber
sobre o que se está conversando nos chats ou nos fóruns de discussão, muito pelo
contrário, o valor está na conversa em si, na navegação curiosa, no acesso pelo
acesso. A facilidade da juventude se encontra em experienciar as múltiplas

49
possibilidades da internet e das redes sociais no encontro com o Outro, ou, no
simples fato de aproveitar o tempo ocioso:

Acredito que seja porque facilita a ampliação das amizades, conhecer novas
pessoas e seja também um meio mais fácil de expressar suas ideias (J8).

Pra manter maior contato com as pessoas... (pausa) ah, não sei por que,
acho que eu não tenho o que fazer em casa e uso meu tempo livre na
internet. (J2).

Acho que eles buscam essa interação com os amigos e com pessoas
desconhecidas. É um meio rápido, prático e basta um ‘clique’ e você pode
conversar com o mundo inteiro, sem contar que é divertido e prazeroso.
(J6).

Essa tendência sociável, que leva o jovem a aproveitar a experiência e


não seus objetivos previamente definidos, encontra ecos nas ideias de Simmel
(2006) sobre a sociabilidade encontrada em seu estado puro. Os jovens
pesquisados preferem a conversação instantânea, interessam-se pelo fluxo de
informações constantes, pela navegação descomprometida, pelo uso da internet e
do computador como extensão natural de sua atuação cotidiana, e para isso,
entendem que não é preciso uma reflexão séria a respeito dos usos de tais
instrumentos e nem a consciência imediata das temáticas discutidas na rede.
Entendem seriedade como uma invenção do “mundo adulto”, que de alguma forma
tenta enquadrar as atividades juvenis em categorias lúdicas de descomprometimento
com a realidade.
Para Simmel (2006), a sociabilidade revela-se como um jogo, onde os
atores jogam a sociedade de maneira descomprometida e natural. O que vale nesse
jogo é a própria sensação de prazer que o ato de jogar traz a cena. Os atores
envolvidos estão mais preocupados com a fruição, com as formas de experienciar as
dimensões da interação e não com os conteúdos previamente estabelecidos. O
prazer do encontro, a alegria na experiência da comunicação, a fruição que cada
descoberta traz, esses são os aspectos principais do jogo social, lúdico, mas
profundamente real. Esse é um “faz de conta” materializado pela realidade dos laços
sociais, que na internet ganha outra conotação.
No ciberespaço os laços sociais são constituídos por meio de muitas
dinâmicas e na maioria das vezes eles são estruturados em relações anteriores ao
contexto virtual. As fotos dos usuários, os textos compartilhados com os amigos e

50
todos os dados pessoais disponíveis oferecem o material adequado para o jogo
social virtual, caracterizado por insinuações, performatividades e, em alguns casos,
pelo escancaramento do ser reprimido no “mundo real”. É necessário entender
também que as relações desenvolvidas na rede, por mais que tenham raízes fora do
ambiente virtual, estão fadadas a se dissolverem por qualquer desentendimento
virtual, desde mal entendidos com materiais postados, até expressões ofensivas
para o Outro que não respeitou o espaço do seu par:

Eu particularmente não estou mais aceitando qualquer um, como eu


aceitava no Orkut. Não é que eu aceitava qualquer um, é que eu aceitava
quem eu conhecia de vista, agora se eu conheço de vista e não sei o nome
não tem por que eu adicionar essa pessoa. Porque eu nunca vou conversar
com ela, nunca vou manter um contato com ela na internet, então não tem
pra que eu lotar de amigos se não vou me comunicar com eles. Eles vão ver
o que estou postando e eu não tenho intimidade com eles. (J2).

A interação social está presente no ser humano e se expressa na


realidade social em que se insere. A atuação no ciberespaço leva as sociabilidades
a outros níveis de complexidade, dando a elas características peculiares,
diferenciado-as em alguns momentos das sociabilidades presenciais. Mas, a
despeito disso, a lógica do jogo social permanece intacta, desenvolvendo-se na
internet por meio de seus usuários. Nesse palco digital são encenados os dramas e
as alegrias da vida que acontecem em qualquer contexto.
Todos os jovens entrevistados possuem computador em casa e acessam
a rede cotidianamente, mesmo no meio de outras atividades que demandam tempo
e concentração, como no caso da escola e de outros cursos que frequentam em
horário oposto ao das aulas. Mesmo não possuindo ainda acesso móvel à internet,
por meio dos aparelhos celulares ultramodernos, eles alimentam o desejo de acesso
instantâneo e a provisão de maior tempo conectados a rede. O fato é que todos,
indistintamente, enxergam a internet como uma extensão do seu cotidiano, não
sendo possível conceber suas atividades separadas do auxílio dos instrumentos
interativos:

Eu utilizo pra me socializar, me comunicar com meus amigos, fazer


pesquisas, baixar músicas, jogar, porque a internet, até então, é o meio
mais prático e rápido pra realizar essas ações. (J6).

51
O grupo de discussão instalado no Facebook revelou alguns
posicionamentos positivos em relação à internet e às redes sociais. Vale ressaltar
que esse público tem uma visão positiva da ferramenta em sua maioria. Sobre a
importância das ferramentas interativas na vida cotidiana dos jovens, J9 respondeu o
seguinte:

A internet tem grande importância, pois vem conquistando um grande


patamar entre os veículos de comunicação, a juventude usa bastante a
internet, principalmente redes sociais para mobilizar jovens [...]

A internet se converteu para eles em um “lugar”, um novo território, onde


podem atuar, locomover-se, conhecer pessoas ou manter os laços sociais que foram
constituídos geralmente fora da rede. Esses laços anteriores ao ambiente virtual é a
base dos amigos que compõem os perfis virtuais dos usuários. Parte significativa
dos amigos nas redes sociais tem certo grau de parentesco ou amizade presencial.
Quando questionados sobre a participação de amigos nas redes sociais
responderam o seguinte:

Participam, tenho primos, tenho tios, tenho um tio meu que está entrando
em contato sempre pelo Facebook, (risos), tá sempre usando. (J1)

Todos os meus amigos participam das mesmas redes sociais que eu


participo. (J3)

E este é um depoimento geral em todas as falas. O círculo social


presencial desses jovens está inserido nas redes sociais, o que possibilita interações
múltiplas entre os usuários. A internet vem convertendo-se em um espaço de
encontros, uma mega avenida com várias vias e mãos.
Essa atribuição espacial da internet encontra fundamento na proposição
de Lévy (2009; 2010), que concebe a internet como um lugar de atuação, um
ciberespaço, que não ostenta a pretensão de substituir as relações humanas
presenciais, mas que almeja articular aquilo que ingenuamente diferenciamos entre
real e virtual. A sociedade pode gerir seus recursos e sua dinâmica por meio da
internet, encarando-a como uma ferramenta que potencializa o encontro e a
resolução de problemas coletivos.
A juventude apresenta essa consciência da realidade do ciberespaço em
outro nível, mais simples talvez, mas que revela o posicionamento desse segmento

52
social. Mesmo não sendo do interesse dos mesmos manter um discurso afinado com
aquilo que os adultos chamam de pauta interessante e elaborada, não há como
negar o fato de que a internet e a sua cibercultura são conceitos e práticas que
fazem parte do cotidiano juvenil. Todos se estendem, ou transcendem, aos conceitos
mais clássicos de presença e de tempo e encaram esse novo cenário interativo
como algo “normal”, parte integrante de suas vidas, que não se assemelha às
concepções mirabolantes de ficção científica, que mistificam o uso das novas
tecnologias da comunicação.
Não há nenhum mistério no fato de que a juventude, de forma geral, se
senta à vontade para usar as novas tecnologias da comunicação. Não são seres
especiais por conseguirem navegar na internet com prazer, curiosidade e
competência técnica. O fato é que essa geração vive em uma conjuntura histórica
que alcançou níveis de desenvolvimento tecnológicos interessantíssimos, por isso, a
mesma vem articulando seu desenvolvimento biológico e cognitivo a essa nova
realidade digital (TAPSCOTT, 2010). Quando a geração digital nasceu, a internet já
era um dado histórico, uma realidade (DEMI, 2011).
Entregue à geração digital uma fita K7 e uma caneta (são familiares a você
esses instrumentos?) e eles terão certa dificuldade em entender a finalidade de tais
objetos, tão comuns aos que passaram da casa dos trinta anos de idade. Entretanto,
se você, um adulto que talvez não domine bem o terreno virtual, pedir para algum
desses jovens uma aula bem rápida de navegação pela internet, ficará surpreso com
a competência técnica e lógica bem apurada desse indivíduo. É provável que essa
aula venha acompanhada de muitas gírias e impaciência, mas essa é a maneira
particular de sua expressão e sociabilidade, e isso de maneira costumeira.
Na ilustração 1 é possível perceber a diferença entre a lógica da geração
digital e a dos adultos, uma representação das muitas postagens feitas na rede
social Facebook.

53
Ilustração 1

Fonte: <www.facebook.com>. Acesso em: 22 nov. 2011.

Quando questionados sobre os motivos que os levam a acessar a internet


e quais os sítios que mais visitam, J1 e J2 responderam respectivamente da
seguinte forma:

Bem, eu uso mais assim pra trabalho de escola, pra pesquisar, pra se
interagir com o meio, é... intelectual da internet, então, acessar as redes
sociais, pesquisar, essas coisas. Ah, Google, o Youtube, Orkut, Facebook,
Hotmail. Ah, geralmente fico no Youtube e no Facebook. E, é, entra nas
redes sociais. Utilizo, utilizo, Geralmente eu faço mais pesquisa sobre o que
não sei, se eu tiver alguma dúvida sobre algum assunto que a professora
passou, vou lá e procuro entender ele, ou então fazer resumo do que eu não
sei.

Gastar o tempo à toa, às vezes pra pesquisa, depende o quê... é...


conversar. Cara, acho que é o Facebook, junto com o Twitter, depois o
Youtube. Conversando. Normalmente eu converso com gente que conheço
mais pessoalmente, mas, em outros momentos, eu conheço a pessoa
fisicamente, mas não tenho contato com ela pessoalmente, como na
internet. Eles são mais as pessoas que converso mesmo.

Nessas falas e na maioria das outras respostas fica claro a importância


que os sítios têm tanto na socialização por meio da internet quanto no processo de
pesquisa da juventude. O desejo pela conversa, pela interação fluída e pela conexão
com outros é um elemento presente nas opiniões expressas, tanto que os sítios que

54
eles mais visitam são redes sociais, onde possuem em média quatrocentos amigos
virtuais por rede social. As ferramentas interativas também os ajudam na elaboração
de trabalhos escolares e pesquisas diversas. Segundo J2, “ninguém hoje em dia
utiliza mais a Barsa quando se tem o Google”.
Aqui é preciso identificar a particularidade das leituras virtuais que a
juventude empreende. De forma geral, o que o senso comum tende a afirmar sobre
a ajuda da internet no desenvolvimento de pesquisas e leituras virtuais é que, se, por
um lado, a ajuda de um site contribui para a elaboração de um trabalho escolar num
curto espaço de tempo, por exemplo, por outro, pode-se perceber a pouca
importância que a juventude dispensa aos livros impressos. É importante perceber
também que as pesquisas na internet têm um caráter de leituras resumidas e
apressadas por parte da juventude. Mas, a despeito dessa visão pessimista, existe o
fato de que a internet e seus hipertextos possibilitam conexões diversas a muitas
referências. Assim, as características de leitura dependem dos objetivos traçados
previamente pelo leitor virtual, o que não tira a efetividade e o valor da ação juvenil.
Na pesquisa de Sousa (2011), desenvolvida com jovens universitários, ele
discorre sobre as visões desse público sobre as novas tecnologias da informação,
no caso especial da internet, e as implicações das mesmas no cotidiano juvenil. Uma
das críticas feitas diz respeito à visão pessimista sobre as leituras juvenis na rede, o
que acaba gerando uma interpretação simplista sobre o ato das leituras juvenis. E
essa é a contradição instalada na fala daqueles que negativam o ato de leitura
enciclopédica que a internet possibilita. As leituras apressadas, que passam por
vários textos e páginas interativas, revelam hábitos e sociabilidades particulares da
juventude no contexto do ciberespaço.
Outro fato importante do acesso às muitas redes sociais é a busca pela
confluência multimídia na elaboração de itinerários virtuais de entretenimento e
interação. Se precisarem pesquisar qualquer tipo de conteúdo, eles utilizam o site de
busca Google, inclusive nos trabalhos escolares de “copiar e colar”, conhecidos
também como Ctrl + C e Ctrl + V. Quando a necessidade é de ouvir músicas ou
assistir a vídeos, recorrem ao Youtube. J3 afirmou que esse é um dos melhores sites
para quem gosta de trabalhar com músicas e instrumentos musicais: “Como eu sou
músico, recorro sempre ao Youtube para me atualizar e me divertir. Gosto de ouvir
músicas e de aprender a partir das músicas”. Quando querem conversar de maneira
instantânea utilizam o Messenger e os chats disponíveis nas redes sociais Facebook

55
e Orkut, que a cada dia criam novos mecanismos para facilitar e tornar a interação
entre os usuários mais interessante, como fotos do perfil do usuário e avisos de que
a pessoa com a qual se deseja falar está on line.
O Twitter também foi citado, e isso na maioria das intervenções dos jovens
pesquisados. Essa rede social possui características particulares que têm atraído a
atenção do público juvenil pela interatividade e rapidez com que as informações
circulam em seu interior, sendo possível acompanhar expressões diversas. Como a
maioria das celebridades ou personalidades políticas possui um perfil no Twitter, o
acesso a essa plataforma tem batido todos os recordes, inclusive no Brasil. A
afinidade dos jovens pesquisados vem da facilidade em ficar sabendo do que
acontece na sociedade antes que essas notícias cheguem aos noticiários televisivos.
J2, J3 e J6 falaram que ficaram sabendo da morte de Bin Laden, da renúncia de
Hosni Mubarak no Egito, do Massacre de Realengo no Rio de Janeiro e de outros
acontecimentos marcantes dos últimos tempos em primeira mão pelo Twitter.
Essa possibilidade de interação multimodal que o Twitter concede ao
usuário (SANTELA; LEMOS, 2010) pode ser percebida na resposta de J3 sobre as
redes sociais que ele mais utiliza:

Eu participo do Facebook, do Twitter e do Google Plus, mas o que mais eu


utilizo é o Twitter, porque é onde eu consigo mais interagir e também falar
meus pensamentos sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar de
mim. Principalmente pra conversar com meus amigos e pra expor um pouco
do que eu penso [...]

Quando questionado sobre a diferença e preferências em se conversar em


grupo presencialmente e/ou pelo Twitter, J3 continuou:

Eu prefiro conversar presencialmente, com pessoas, com o grupo, porque a


gente de certa forma vai ter um assunto fechado para conversar e também a
gente vai criar uma intimidade. Quando você “twitta”, por exemplo, aí você
tá “twitando” pro mundo inteiro, você não se importa o que vão pensar. A
vantagem em discutir algum assunto no Twitter depende do que, né, por
exemplo, se for algo da minha vida prefiro um grupo fechado. Se for algo
realmente que quero expandir para o mundo, sei lá, quero mudar o mundo
em algum aspecto, com certeza é melhor pro mundo inteiro.

Essa ferramenta interativa concede ao usuário a possibilidade de discutir


várias temáticas com pessoas que moram em partes diversas do globo. Essa noção
de conectividade com milhares de pessoas ao redor do mundo encoraja a juventude

56
a expressar seus posicionamentos a respeito de vários assuntos, sejam eles
relevantes ou não à pauta da sociedade adulta. A comunicação em fluxo, que
obedece à hierarquia da relevância da opinião expressa (SANTAELA; LEMOS,
2010), tem encorajado a juventude a expor uma dimensão que tem sido deixada de
lado na atual conjuntura social: a consciência do papel da sua opinião e do
envolvimento com as questões globais mais urgentes. Os jovens sabem que algo
está acontecendo no mundo e tentam expressar opiniões, a partir dos
condicionamentos de sua realidade e é exatamente ai que podemos perceber a
importância da internet e das redes sociais no caminho que oportuniza a consciência
sociopolítica.
A expressão “quero mudar o mundo” vem carregada de anseios de uma
juventude que, mesmo limitada e condicionada pela faixa etária, ainda percebe que
pode fazer algo de impactante na sociedade onde está inserida, e isso da maneira
mais youth possível, sem um roteiro ou planos estratégicos previamente definidos.
Por mais que essa juventude tenha dificuldade em refletir sobre as ferramentas
tecnológicas e suas possibilidades, a mesma entende que pode fazer algo pelo
simples acesso a uma rede social, que a conecta a milhares de pessoas que podem
gostar ou não de suas opiniões.
Entretanto, essa atuação juvenil na rede revela limites conceituais. A
dificuldade em refletir e discutir temáticas atuais, como a política e a cultura, por
exemplo, revelam que a boa vontade juvenil esbarra na falta de embasamento para
conceber e discutir o real. O desejo de “mudar o mundo” se torna incipiente quando
esse mesmo sujeito idealizador não consegue fazer uma análise de sua conjuntura
social, nem consegue explicar a atuação de grupos sociais em sua comunidade. A
consciência política dos entrevistados se resumiu à informação de uma “marcha
contra a corrupção”, que aconteceu em 7 de setembro de 2011, e alguns
acontecimentos pontuais.
As informações sobre o que acontece na sociedade são tiradas da própria
internet e não há uma análise ou depuração dessas informações. O grupo de
discussão revelou que a juventude enxerga as possibilidades das ferramentas
interativas, até mesmo para mobilizar pessoas, entretanto, essas opiniões fazem
parte do senso comum sobre o assunto. Eles sabem que é possível mobilizar, mas
não sabem discutir temáticas mais sérias, ou, simplesmente, dar uma opinião mais
consistente sobre elas.

57
Houve uma diferença significativa entre as opiniões expressas nas
entrevistas e as intervenções do grupo de discussão. Nas primeiras foi possível
perceber certo distanciamento e falta de domínio em discutir assuntos de
mobilização social. Já no segundo momento, as elaborações escritas no fórum de
discussão mostraram certo domínio das ideias expressas. Essa aparente
contradição é um dado importante para entender as particularidades de uma
juventude que vem dominando os símbolos virtuais e suas decodificações em
detrimento de outras habilidades sociais.
Sobre a atuação sociopolítica por meio das redes sociais e da própria
internet, J1 expressou sua dificuldade com a temática e disse que não está
habituado a discutir questões dessa natureza. De forma geral, os jovens
entrevistados tiveram grande dificuldade para conceituar a ação política,
confundindo-a com ações partidaristas e eleitorais:

Eu uso mais como social, porque política interfere muito na questão se...
se... como é que se diz... postando, vamo supor: vote no Lula, não vote no
Lula. Isso fica meio, pô, o cara fica fazendo propaganda no meio da internet
pra ganhar votos.
Entrevistador: O que você entende como política de forma geral?
Bem, meu modo assim, eu não entendo muito por não estar habituada a
estudar política, por isso não sei muita coisa sobre o que, como anda a
democracia no do... ,no meio da política. Mas eu sei que, para mim, a
política ela é... um órgão assim... nos ajuda, né, porque com a política vai
gerar lucros e com isso vai gerar dinheiro, vai gerar outros modos de
trabalho, né, como telemarketing, tá envolvida no meio da internet. É, até a
própria internet mesmo é um modo de trabalho que muita gente usa como
um meio de trabalho.
Encaixa, né, porque muitas vezes a política ela deixa de querer atender,
acaba indo, pra outros caminhos, né... eu não vou me interessar porque é
errado, aí acaba só desinteressando por meio do assunto, nunca querendo
procurar evoluir, porque ele acha que já tá errado, vou deixar por isso
mesmo... se ele não quis melhorar porque vou fazer a diferença?

A resposta de J3 sobre querer mudar o mundo também simboliza o que os


jovens pensam a respeito das sutilezas da diferença entre o real e o virtual, e
também entre o privado e o público. Há uma diferenciação entre a intimidade
presencial e a interação desenvolvida na rede, isso ficou claro em sua fala. E há
uma preocupação em não falar das questões que envolvem “a minha vida”, em
diferenciação às questões relacionadas à “mudança do mundo”. Há assuntos e
assuntos, da mesma forma que há grupos e grupos, e isso é uma informação vital
para compreensão da organização das temáticas discutidas pela juventude na
internet.

58
Apesar de J1 ter citado que acessa o Hotmail, um site de correio eletrônico
muito utilizado por pessoas que ingressaram na Educação Superior e no mercado de
trabalho, a sua fala permaneceu solitária entre os jovens entrevistados, pois a
maioria tem deixado os e-mails de lado, optando pela instantaneidade e
interatividade das redes sociais na comunicação com seus pares ou com pessoas
que conhecem. Isso vem de encontro àquilo que Santaela e Lemos (2010) chamam
de interações multimodais, uma realidade interativa reforçada pelas redes sociais,
onde a velocidade das conexões e interações prevalece. Os e-mails seguem o
formato monomodal de interação, priorizando textos mais longos e com maior tempo
de espera para obter uma resposta, realidade que não é bem vista entre a geração
digital de forma geral, principalmente entre aqueles que ainda não ingressaram na
Educação Superior e no mundo do trabalho.
Todos os jovens pesquisados utilizam as redes sociais e possuem perfis
virtuais que contêm informações pessoais variadas, de fotos que revelam desde
vivências diárias a posicionamentos ideológicos. Na verdade, eles utilizam mais de
uma rede social, as mais acessadas são o Facebook, o Twitter e o Orkut. Essas
plataformas são recentes, apesar de Santaela e Lemos (2010) afirmarem que o
conceito de redes sociais é mais antigo. Todas foram criadas há menos de oito anos,
sofrendo ao longo do tempo transformações em seus mecanismos de
entretenimento. O exemplo mais claro dessas transformações em busca de evolução
é o Facebook, que, desde a sua concepção em 2004, vem desenvolvendo
mecanismos que conduzem a uma comunicação instantânea, capaz de fluir
rapidamente através de sua linha do tempo, mais conhecida como “mural” de
informações dos usuários (MEZRICH, 2010; VICENTIM, 2011).
A primeira metade dos jovens entrevistados, quando questionados sobre
as redes sociais que mais utilizam e as motivações que os levam ao acesso das
mesmas, afirmaram o seguinte:

Do Facebook porque foi outro meio de comunicação que teve, né, porque
antigamente era só o Orkut, então ai veio um criador mais esperto e
inventou o Facebook... então eu uso pra ensinar a amigos, pra falar com a
família, pra entrar, tá no meio novo, do mundo virtual, mundo virtual, pra tá
interagindo mesmo. (J1).

Participo do Facebook... na internet? Do Facebook, do Twitter, do Orkut,


Google mais. O que mais utiliza é o Facebook [...] Eu gostava do Orkut, era
o que eu mais usava, mas ai não tem como falar com todo mundo mais pelo
Orkut porque todo mundo foi pro Facebook. Mas eu considero quase a

59
mesma coisa, mas o Facebook possui umas facilidades a mais. Utilizo
essas redes pra manter maior contato com as pessoas... ah, não sei por
quê, acho que eu não tenho o que fazer em casa e uso meu tempo livre na
internet (J2).

Participo do Facebook, do Twitter, mais do Twitter [...], pra expressar meus


pensamentos. Expor o que eu penso para o mundo (J3).

Participo do Twitter, do Facebook também. Por motivos assim... meus


amigos me chamam e vou lá vê se é bom mesmo. E pra outras coisas
também. Pra conversar com os amigos, pra descolar até umas meninas, né
[...]. (J4)

Participo do Facebook há quatro meses. Eu utilizo porque eu consigo


conhecer novas pessoas, conversar com meus amigos, é... como eu disse,
jogar e também saber de dia de festa. (J5).

A conexão com outras pessoas é o centro das motivações que levam


esses jovens a acessar e passar horas a fio conectados às redes sociais. Eles
desejam conversar, a seu modo, com outros, para além daqueles que estão ao seu
redor fisicamente. Outra informação relevante é o desejo de estar a par dos
acontecimentos, inseridos no “meio novo”, o “mundo virtual”, terreno onde todas as
novidades da vida interativa acontecem. Eles não precisam mais ficar “vidrados” na
televisão, posta na sala de estar, para saberem o que está acontecendo no mundo,
pois a sua janela de ligação aos acontecimentos interessantes e selecionáveis está
no quarto ou num lugar à parte em suas casas. O computador com acesso à
internet, que conduz às redes sociais, plataformas que reúnem milhares de pessoas
que compartilham o desejo por comunicação em tempo real, é a passagem secreta
para um mundo mais interessante.

Eu amo o Facebook! Nem o MSN eu utilizo com tanta frequência, porque o


talk do Facebook o substituiu. Uso pra conversar com as minhas amigas da
faculdade, do ensino médio, com a minha irmã que não mora aqui (Itália).
Pra jogar e eu vejo muitas noticias no Face, eu me atualizo bastante,
passando tempo no Facebook. (J6).

Eu acho que as redes sociais, além de terem um atrativo maior do que a


escola, elas às vezes servem como uma espécie de refugio para jovens que
tem problemas de socialização, timidez, porque aqui a gente expressa tudo
aquilo que não temos coragem de fazer cara a cara. (J7).

[...] eu já vejo amigos casados que falam: ah, compre tal coisa no mercado,
algo do tipo. Comprar alimento mesmo, eles falam no Twitter, tipo no freezer
estava sem sorvete e o pessoal falou compre tal sorvete, entendeu? (J2)

O desejo pelo contato com outras pessoas revela a pulsão sociável do


indivíduo que convive em sociedade e deseja socializar-se com outros “mundos”

60
para além do seu, num processo de apreensão de significados culturais diferentes
dos já conhecidos e da assimilação e criação de novas condutas sociais, incluindo a
criação de novas regras que fazem parte do jogo social. Assim, a interação, a busca
pelo contato, a exposição de ideias, o desejo por “descolar umas meninas” e, se
possível, ficar sabendo das festinhas, são expressões que revelam sociabilidades
específicas da juventude, e que se desenvolvem com certas particulares pelo reforço
da internet e das redes sociais.
Sobre as postagens de materiais nas redes sociais, os jovens disseram
que essa é uma prática constante e varia de acordo com aquilo que se deseja
alcançar. Os materiais postados em sua maioria são fotos, vídeos e textos. Alguns
postam fotos porque querem mostrar o que tem acontecido com eles em festas,
desejam mostrar lugares que diferem da realidade cotidiana, como paisagens
naturais, e também querem partilhar um pouco daquilo que são, dos gostos, das
atividades que realizam etc.

Fotos, vídeos, textos, frases... fotos relacionadas a passeio, eventos, fases


que vemos assim, como uma coisas bonita, sol, lua, essas paisagens...
paisagens. Pra que fique viável pra quem pode estar vendo. Pra um tio ou
alguém que eu conheça, pra ver essa foto e dizer: Ah, nesse dia estava com
você. Ah, muitos pra ficar famosos, muitos pra se valorizar, muitos por
gostar e postar, né? Muitos por ter algo eletrônico pra guardar. (J1).

Frases, às vezes vídeos e algumas fotos. Pra compartilhar com outros...


(pausa) não é algo específico. Bom, hoje acho que o povo posta menos
fotos, postam mais frases... não sei, mas acho que é o momento sabe, as
fotos já ficaram pra trás e as frases seriam uma coisa nova, mais objetiva.
Talvez... a imagem não foi deixada de lado, tem fotos sim, mas eu vejo
também que o povo tá colocando mais coisas mais cômicas, talvez coisas
mais engraçadas... não sei, talvez porque já ficou, sem lá, já passou a
época, sei lá porque foi outro dia, mas o povo tá buscando algo novo
sempre e sempre vai voltar no que é antigo. (J2).

A possibilidade de compartilhar ou publicar na internet um sem número de


materiais que revelam a vida cotidiana do indíviduo jovem vem de encontro aos
anseios por performatividades que caracterizam esse segmento social. Essas
performatividades são compartilhadas de várias formas por meio dos recursos
multimídia e o público pesquisado os utiliza com certa maestria, insinuando ou, na
maioria dos casos, explicitando para todos aqueles conectados à rede sua vida
privada, atividades de que mais gosta e os lugares que frequenta:

61
Eu posto coisas que eu vou fazer ou que eu fiz e que gostei muito.
Pensamentos de filósofos que acho que fazem a pessoa refletir, mesmo que
seja só no momento em que ela leu. Eu e minhas amigas postamos muitos
vídeos e fotos das nossas aulas, a gente acha interessante mostrar a nossa
interação mesmo que em alguns momentos nos mostramos dispersas e
sem nenhum interesse na aula. (J6).

As fotos revelam-se no ciberespaço como verdadeiras janelas que levam o


usuário a contemplar os acontecimentos particulares das pessoas que as postam,
acontecimentos que apontam para uma vida que, na maioria das vezes, é feliz e
prazerosa, daí a preocupação de J2 com a exposição exacerbada por meio de tais
instrumentos: “As pessoas deixaram de postar mais fotos porque ficaram com medo
de expor as suas casas a assaltos”. Mas há aqueles que acreditam que, por meio da
postagem de tais materiais, é possível fazer com que outros os conheçam melhor,
mas com certos cuidados embutidos nessa prática: “[...] A gente mostra um pouco
de nós pra pessoas, do que gostamos de fazer, mas claro, tudo dentro do seu limite,
mais por diversão também”. (J7). E também: “[...] Esse tipo de material permite que
as pessoas conheçam mais umas das outras, por isso acredito que elas postem este
tipo de material”. (J8).
A segunda citação de J2, mais acima, mostra uma tendência dos usuários,
principalmente jovens, de substituir a postagem de fotos pelos textos, as chamadas
mensagens curtas, produto e mentalidade reforçados pela rede social Twitter e que
tem se espalhado pelo Facebook. Postar uma foto demanda tempo, tanto por causa
da escolha da melhor foto que expresse o sentimento do dia quanto pelo tempo que
se gasta ao postá-la. Os textos curtos abrem outra possibilidade, o de expressar em
poucas linhas tanto sentimentos quanto impressões com relação ao seu dia. A
citação abaixo foi retirada de um perfil na rede social que os jovens mais utilizam:

No final o que permanece é uma porção de bondade que costuma faltar


quando a maldade alheia me acomete. Fica também um pouco de doçura,
uma parte de mim que os processos amargos da vida não conseguiram
atingir. Mas, como a doçura é pouca, costumo usá-la somente em
momentos especiais, com pessoas especiais à mesa. (J9).

Há aqueles que postam fotos com conteúdos sociais ou que queiram


expressar a sua opinião sobre algum tema que está na mídia. J4 postou uma foto
sugestiva em seu perfil, explicitando o que pensa a respeito da construção da usina
de Belo Monte. Expressões como a da ilustração 2 são recorrentes nas redes sociais
e espalham-se em uma velocidade incrível, fazendo com que pessoas que não

62
sabem nada a respeito de um determinado tema conheçam pelo menos a linha
introdutória do mesmo.

Ilustração 2

Fonte:<www.facebook.com>. Acesso em: 22 nov. 2011

A finalidade da postagem de materiais sempre vai de encontro ao desejo


por encontrar o Outro, mesmo que seja para mostrar a ele uma vida que talvez não
corresponda com a realmente vivida. Por isso, os usuários jovens têm demonstrado
certo cuidado em face dos relacionamentos virtuais, adicionando em sua maioria
amigos ou pessoas com as quais se relacionam cotidianamente e isso ao nível
presencial. Esse fato pode ser constatado em praticamente todos os perfis visitados
nas redes sociais e também nos depoimentos dos entrevistados.
Sobre esse cuidado com os perigos da rede, J1 e J2 afirmam o seguinte:

[...] Há perigos, né, hoje você pode pegar a foto de uma pessoa e modificá-
la todinha... “ah, eu sou essa pessoa”, sendo que você não é. Então há os
meios errados, há os meios que são perigosos, basta você saber realmente
se conhece essa pessoa, claro que ela vai saber que você é essa pessoa
que está na foto. Então existe muito fake, que é popularmente dito fake, que
é que se usa mais na internet.

Eu antes conhecia pessoas pelo Orkut, hoje não faço mais isso. Quando era
mais novo fazia. Acho que conheci umas quatro pessoas assim. Hoje não
faço mais. Praticamente todos os meus amigos no Facebook são pessoas
que eu mantenho um certo contato.

Essa noção de que “há perigos” no ciberespaço é compartilhada por todos


os jovens pesquisados. Entretanto, certa contradição foi percebida, porque, de um
lado, é possível perceber toda a voracidade juvenil em querer postar o maior número

63
possível de materiais em suas redes sociais, por outro, é possível ver também
discursos que revelam a preocupação em ser vítima de violência virtual ou até
mesmo uma violência física resultada de uma exposição exagerada na rede.
A juventude reconhece a potencialidade da internet, mas também
expressa a preocupação que esse contexto em expansão traz no bojo de suas
relações. J10 expressou no grupo de discussão a dualidade que há entre os limites e
as possibilidades da interação via internet:

A internet nos "aproxima" de vários lugares. Por exemplo, familiares que


moram distante, ela é um meio de comunucação. Quanto às redes sociais,
vejo vantagens e desvantagens. Mobiliza ações sociais, correntes contra
corrupção, maus tratos, enfim, uma série de coisas. E, como pontos
negativos, posso citar a falta de cuidado de algumas pessoas ao exporem
demais suas vidas em redes sociais, passando informações, muitas vezes,
perigosas, para ações de criminosos.

Então, a busca “pra encontrar pessoas que gostam do mesmo estilo que
ela, do mesmo aspecto” (J3), por meio da exposição de materiais nas redes sociais
pode desembocar em perigos diversos, até mesmo em um ciberbullyng e ações de
criminosos especializados no ambiente virtual. Assim, por mais que o discurso do
cuidado com a imagem esteja afinado, o que se percebe com a prática das
postagens é o desejo pela autoexposição descomedida, mesmo que o discurso
revele boas intenções.
Quando indagados sobre em que aspectos a internet facilita ou dificulta a
vidas das pessoas, os entrevistados responderam da seguinte forma:

Facilita né, eles facilita, porque você tá mais viável, você consegue conectar
com outras pessoas, não só do Brasil, mas do exterior, muitas pessoas
estão conectadas a uma rede só, então fica bem mais fácil da comunicação
chegar a outro. (J1)

Facilitam. Em certos pontos facilitam e em outros podem dificultar. Facilitam


porque por causa da comunicação, porque, por exemplo, eu já vejo amigos
casados que falam: ah, compre tal coisa no mercado, algo do tipo. Comprar
alimento mesmo, eles falam no Twitter, tipo no freezer estava sem sorvete e
o pessoal falou, compre tal sorvete, entendeu? E é ruim por causa da
dependência, talvez, do vício sabe, de ter que ficar acessando toda hora. Eu
tenho que me policiar muitas vezes. (J2)

Facilita muito porque une as pessoas pra poder falar com elas, só que
também pode atrapalhar muito a vida de algumas pessoas que não
possuem um autocontrole pra saber se às vezes tem que parar de usar pra
se dedicar, por exemplo, aos estudos e ao trabalho. (J3).

64
Facilita. Porque às vezes, por exemplo, eu moro aqui em Brasília e tenho
parentes em outras cidades, no Maranhão, no Piauí, então algumas vezes
fica mais fácil pra me comunicar com elas, pra saber o que está
acontecendo lá. (J4).

Por um lado, elas facilitam, como pesquisas e tudo mais. Só que, por outro,
elas dificultam porque as pessoas passam muito tempo na internet e com
isso acabam perdendo tempo que poderia ser utilizado para um monte de
coisas. (J5).

A internet torna fácil e prático o acesso a notícias, downloads, pessoas,


empregos, pesquisas e acho que dificulta, porque algumas pessoas usam
para a prática de crimes, ameaças e isso torna o uso da internet perigoso,
principalmente para as crianças. (J6)

Facilita para pesquisas, leitura, e dificulta muito porque as pessoas acabam


si abitolando só naquilo ali e esquecem que a gente precisa de contato
físico. (J7)

Facilita no acesso rápido as informações e na divulgação rápida também de


informações, o problema maior da internet é falta de segurança que nossos
conteúdos privados tem e a falta de segurança a respeito das informações
encontradas para pesquisa. (J8).

Por mais que existam apontamentos negativos com relação ao uso da


internet, o que foi percebido na maioria das falas foram os apontamentos positivos. A
consciência de que há aspectos obscuros em relação à internet não tirou o otimismo
dos jovens entrevistados, que entre outros temas falam da diminuição da distância
entre as pessoas, da possibilidade de conhecer novos amigos e culturas por meio da
rede, a realidade da comunicação instantânea que tem mudado as relações de
comércio e a possibilidade de saber o que está acontecendo no mundo por meio das
web notícias.
Os desafios ou dificuldades que esse segmento enfrenta em suas
atividades virtuais dizem respeito ao que eles chamam de vício ou falta de controle
com relação ao tempo de conexão. Outros apontam a outra extremidade da conexão
instantânea, que seria o isolamento, ou nas palavras de J7, “as pessoas acabam se
abitolando”, esquecendo-se do contato presencial. Outro aspecto negativo que
atinge a juventude de forma particular é a falta de segurança com relação aos dados
expostos na internet.
O fenômeno da internet é relativamente novo se comparado ao
desenvolvimento tecnológico dos últimos três séculos. Por sua vez, as redes sociais,
que estão na pauta das discussões sobre o ciberespaço na atualidade, também são
um aspecto recente dessa problemática. A impressão que se tem é que a dinâmica
social ainda está engatinhando nesse novo contexto, tomando forma por meio da

65
ação de seus usuários. Mas, independente disso, é possível desde já perceber que a
ferramenta possui múltiplos aspectos que devem ser discutidos, para além das
visões de tecnopatia e/ou tecnofobia (RIBEIRO, 2000). É preciso compreender que
há limites, mas também há possibilidades. Assim, tanto a alienação quanto a
sociabilidade em seu estado genuíno podem ser duas de tantas outras faces do
mesmo processo interativo.

3.2 – PROCESSOS DE AGRUPAMENTO E COOPERAÇÃO: ALGUMAS


CONTRADIÇÕES

O ser humano torna-se humano vivendo em sociedade, interagindo com


seus pares num processo de apreensão de significados culturais. Durkheim (1978) já
apontava para a importância da socialização na constituição do ser que apreende os
costumes e condutas da coletividade. As experiências em comunidade reforçam os
traços coletivos na personalidade humana, fazendo com que as pessoas se
organizem em grupos e cooperem com ele.
O advento das novas tecnologias da comunicação trouxe a reconfiguração
das relações sociais, fazendo com que as pessoas estabelecessem um novo tipo de
vínculo, mediado pela comunicação à distância. A internet tem contribuído nesse
processo de reconfiguração, organizando as pessoas em torno de comunidades cujo
centro de gravitação obedece aos interesses individuais que se encontram com as
aspirações coletivas. Por meio das redes ou comunidades virtuais as pessoas
podem discutir as temáticas que se relacionam com o seu universo social.
O contexto do ciberespaço pode converter-se em um lugar de encontro
onde os integrantes de determinado grupo podem cooperar entre si para a
realização de tarefas, desde trabalhos escolares até a organização de movimentos
sociais. Esse segundo tópico da análise de dados visa discorrer sobre os processos
de agrupamento e cooperação na rede a partir das opiniões expressas pelos jovens
pesquisados. Como toda interpretação do fenômeno social, mesmo tendo como
suporte a internet, essa análise não acontece fora da contradição e de pontos
obscuros, o que pode ser uma informação relevante para aqueles que estão a
investigar a problemática social na internet.

66
Os jovens, quando questionados se houve mudanças nas relações sociais
por causa do uso da internet e das redes sociais, responderam da seguinte forma,
com as suas justificativas:

Hoje ficou mais fácil, né, de você ter a proximidade, hoje você quer pagar
uma conta, quer mandar uma mensagem, você fica bem mais próximo do
que você ligar, do que você ir até a pessoa, você tem as redes pra entrar
em contato com outra pessoa.
Oh, no meu ponto de vista aí é onde é que entra o caráter do usuário, você
pode usar a internet pra se comunicar, você usar a internet pra se amostrar,
você pode estar usando a internet pra se distanciar. Ah, eu não tenho
amigo, vou ficar usando o computador dentro de casa. Ah, eu tenho amigos,
eu tenho internet dentro de casa, eu vou usar só pra ficar falando com meus
amigos dentro de casa. Então assim, esse é meu modo de ver, tem pessoas
que usa pra se distanciar e tem pessoas que usar pra se aproximar. (J1)

Sim. Acho que o povo tá muito carente por atenção e são poucas pessoas
que conversam olhando nos olhos, saca, sem querer ser filosófico, acho que
não consegue conversar mais como era antigamente.
Creio eu que sim, porque antes a gente se comunicava por telefone
antecipadamente, agora não, você marca alguma coisa no Facebook, como
foi a entrevista, sem a gente se comunicar, sem a gente se falar um com o
outro, escutar a voz do outro, então acho que isso prejudica, sim. (J2)

Sim. Principalmente na área relacional de pai com filho e de namorados


também. As pessoas acabam se fechando mais e também, se for de um
namorado pra outro, namorado pra namorada, fica mais fácil você falar o
que não querida falar, o que não deveria ter falado se você tivesse falado
pessoalmente.
As mudanças são mais negativas.
Sobre o paradoxo proximidade e isolamento na internet, eu acho, assim,
essa proximidade é mais de nações para nações, eu posso interagir com
pessoas, por exemplo, que mora no Rio sem ter que ir no Rio e isso me
aproxima do mundo. Só que quem já tá próximo de mim faz eu me afastar,
me isolar. (J3).

Sim, pois a globalização foi levada pro computador, encurtando a distância


através das redes sociais e da internet. (J6).

Houve sim, as pessoas se contentam apenas naquilo, conversando através


do Facebook, msn, com isso se abraçam pouco, conversam pessoalmente
pouco, e isso é horrível. (J7).

Acho, sim, o uso da internet tem isolado algumas pessoas com dificuldade
de interação social. Outra mudança ocorreu no comportamento de pessoas
que antes não costumavam falar as coisas na cara e agora usa o mundo
virtual para expressar o que pensa indiscriminadamente. (J8).

De maneira geral, os entrevistados concordam com o fato de que houve


mudanças nas relações sociais com o advento da internet e, mais recentemente, das
redes sociais. Eles colocam que há pontos negativos e positivos nessa mudança, o
67
que tem gerado comportamentos e percepções de realidade bem diferentes
daquelas consideradas tradicionais, situadas em uma era de “antigamente” (J2).
As opiniões do grupo de discussão revelaram também posicionamentos
dicotômicos em relação às possibilidades e limites que a internet trouxe à vida das
pessoas de forma geral. J4 respondeu da seguinte forma à questão das implicações
do advento da internet sobre a vida dos jovens:

Acho q a internet é uma ferramenta a favor de tudo. Porem o uso diário com
ferramentas que nao sao produtivas acabam provocando a inutilidade de
algumas açoes!

Outro dado importante foi a descoberta da quantidade de amigos que os


jovens pesquisados têm em seus perfis virtuais. Todos ultrapassam a casa dos
quatrocentos amigos, o que gera uma rede de conexão muito maior, já que o
indivíduo se comunica com os amigos dos seus amigos, aumentando cada vez mais
sua rede de contatos. Em todo momento há interação, postagens de material,
conversas instantâneas e sociabilidade.
É importante salientar que o termo “amigo” é dado pela própria plataforma,
no sentido de reforçar as relações de encontro nas redes sociais. Ser amigo de
alguém em alguma rede não significa necessariamente que haja instalado nessa
relação um vínculo mais duradouro ou sério. Por mais que as redes sociais possuam
mecanismos de classificação desses amigos, o fato é que todos são chamados
assim, criando a sensação de que todos são bem vindos em uma imensa família
acolhedora, o que nem sempre é verdade. Assim, ao citar o termo amigo, me refiro a
todos os contatos que o usuário estabelece em sua rede de comunicação.
Porém, quando arguidos a respeito da preferência pela qualidade ou
quantidade dos amigos virtuais, houve respostas do tipo:

Eu acho assim, que existe aquela popularidade, tem assim aqueles que
você conhece, tem aqueles que você faz questão de conhecer só pra dizer
que é popular. Então não adianta eu ter mil amigos e falar: pô, o cara tem
amigos pra caramba e ele é o quê, o popularzão. E ter quintentos e pouco e
conhecendo ele e, ah, esse aqui, eu não conheço e não posso adicionar,
entendeu?
Alguns que criaram e mandaram convites, outros que conheci fora da rede e
me pediram me adiciona lá, entendeu... foi assim.
Sim, né, tem uns que tão ali só pra... pra... pra te desvalorizar, outros pra...
é... te... querer se aproximar de você, tem uns que vão só pra te sacanear, é
sempre assim, sempre vai ter um que não vai gostar do seu Orkut, tem um
que vai gostar do seu Orkut ou do seu Facebook

68
Muitos vão colocar outras qualidades, vão colocar outras qualidades do
meio, muitos vão mentir e vão dizer: ah, eu sou moreno, sendo branco. Uns
vão dizer: ah, eu sou bonzinho. Outros: ah, eu sou mal. É sempre assim,
entendeu? Muitos não vão ter a conscientização de dizer eu sou assim e
vou me colocar assim. (J1).

Considero a qualidade importante, porque lá eu, de certa forma, me


exponho, e não posso me expor ou expor a minha vida a qualquer pessoa.
A quantidade não tem tanta importância, tanto que, pra responder esta
pergunta, precisei de ir à minha pagina conferir, pois não me atento para o
numero de pessoas, mas sim, para importância que essas pessoas têm
para mim. (J8).

Todos disseram que a qualidade dos amigos é bem mais importante que a
quantidade, apesar do número dos mesmos ser bem elevado. Na fala de J1 é
possível identificar a importância que a quantidade de amigos tem para certos
indivíduos, fato que gera um status diferenciado para esse sujeito, inflacionado de
admiradores virtuais. É revelada certa preocupação com quem se adiciona, já que
não é possível ter certeza sobre a veracidade das informações do sujeito que manda
um convite de amizade, daí a preocupação de ter em seu contato, pelo menos em
sua maioria, pessoas que já fazem parte do seu círculo de amigos presenciais.
Aceitar os amigos em seu perfil virtual já virou rotina diária para muitos
usuários, o que começa a despertar preocupação com relação às pessoas que
querem estabelecer um vínculo virtual, que em muitos momentos pode implicar em
encontros presenciais. A “importância que as pessoas têm” para o usuário talvez
revele o sentimento de seleção para os futuros amigos.
A internet trouxe novos elementos para a dinâmica das relações sociais,
possibilitando tanto encontros e cooperação quanto receios por parte daqueles que
utilizam essa tecnologia. A constituição dos laços sociais na rede obedece a lógicas
mais efêmeras e instáveis, as amizades costumam ser fortalecidas pela
conversação, mas o contrário também é verdade, falta de contato e dinâmica na
rede com o “amigo” gera a exclusão simbólica de tal indivíduo da lista de contatos,
resultando muitas vezes em uma limpeza que consiste em excluir “amigos inativos”
do perfil pessoal.
Como dito anteriormente, há uma preocupação constante dos
entrevistados em preservar a qualidade dos amigos virtuais e isso implica em ter
uma lista de amigos ou parceiros que de alguma forma estabeleceram um contato,
mesmo que ligeiro, no mundo presencial. A maior parte das pessoas que os jovens
entrevistados têm em suas contas nas redes sociais faz parte do círculo social
69
presencial. Isso se deve à preocupação da exposição dos dados e dos materiais que
revelam muito acerca do usuário a pessoas que ele não conhece, cujas intenções
podem ser duvidosas e escusas:

Eu tenho pessoas da academia, eu tenho pessoas de escola, eu tenho


pessoas da família, que conhecem em viagens, pessoas assim que tão ali
com a gente. Proximidade, né, tá ali, tá sempre te mandando um oi,
tentando entrar em comunicação com você. É o que aproxima, né, o laço.
(J1)

Sim, ou são pessoas da escola ou são pessoas da igreja, ou que eu


conheça por outros amigos.
(Silêncio e pausa)... sim... porque eu acho que muita gente quer conhecer
gente nova pela internet, porque o motivo do Facebook ser criado é você
conhecer gente que você não conhece. Mas eu acho que hoje em dia, por
conta de violência, de manchar a imagem, as pessoas buscam pessoas que
realmente conhecem. (J2).

Sim. São mais pessoas ou da igreja ou do colégio, que a gente sempre tá


construindo assuntos nisso. Por exemplo, se é sobre a igreja, minha equipe
de louvor, a gente fala sobre as músicas do louvor. A gente interage através
da rede social. (J3).

Procuro adicionar apenas as pessoas que conheço, as que eu tenho mais


intimidade e também nem aquelas que vi a primeira vez e já vou me
comunicando, não. Tenho que conhecer mesmo. (J4).

Sim, porque, se você não pode estar com a pessoa todo dia, você pode
conversar com ela todo dia na rede social. (J5).
Eu não adiciono ninguém que não conheço, se eu já tiver conhecido
pessoalmente, eu até posso adicionar, mas, do contrário, não. Então, meus
amigos virtuais são, sim, do meu círculo social, posso não encontrar com
eles todos os dias, mas sei que, quando encontrar, será a mesma festa de
sempre. (J6).

A maior parte sim, alguns fazem anos que não vejo mais, mantenho esse
contato através da internet com eles. (J7).

A maior parte dessas pessoas são pessoas que frequentam o mesmo


círculo social que eu ou que já frequentou o mesmo círculo social. (J8).

Esse receio percebido de aceitar pessoas diferentes ou que os usuários


não conhecem fisicamente esbarra frontalmente com o desejo de conexão e
cooperação que a rede suscita. Como estabelecer contatos e processos de
agrupamento e cooperação entre pessoas diferentes que vivem em lugares
diversos? É preciso que tais pessoas se conheçam presencialmente primeiro para, a
partir daí, começarem um processo de ajuda mútua? Essa é uma contradição a ser
levada em consideração, pois o ciberespaço, por mais que reproduza ou estenda em
certos momentos a vida presencial, não pode ser encarado como uma “muleta” do

70
mundo físico. As relações precisam transcender certos conceitos cristalizados para
que significativos processos de cooperação aconteçam e isso para além do círculo
seguro de amigos presenciais.
É preciso que seja levado em consideração que as opiniões expressas
pelos usuários, opiniões que muitas vezes revelam o desejo de mudar algo na
sociedade, sempre vão alcançar um indivíduo desconhecido na rede, o que pode
gerar dois sentimentos, o da desconfiança e o da possibilidade. A juventude atual
precisa transcender aos grupos fechados e “seguros”, até mesmo os virtuais, e
começar a explorar o desconhecido como possibilidade que pode levá-los a outro
nível de interação social, com vistas a estabelecer grupos cada vez mais
organizados na rede. O desejo de “mudar o mundo” (J3) só pode converter-se em
projeto quando compartilhado com uma ampla rede de comunicação e atuação.
Outro dado relevante se refere à dificuldade dos jovens em enxergar as
redes sociais como um espaço de atuação sociopolítica. Apesar de reconhecerem
experiências sociais relevantes na atualidade, tendo as redes sociais como suportes,
os jovens entrevistados tiverem dificuldades na compreensão de conceitos como os
de política, sociedade e cultura:

Um evento marcado através das redes sociais que me chamou muita


atenção foi a marcha contra a corrupção que aconteceu no dia do
aniversário de Brasília. (J8).

Conheço os movimentos contra corrupção, acho bastante interessante que


se começa nas redes sociais. (J7).

Esses dias eu entrei no Facebook e tinham me chamado para participar da


caminhada contra a corrupção, aqui em Brasília, e eu achei bem legal
porque tinha muitas pessoas que já tinham confirmado que iam e, ao olhar
na TV falando a respeito disso, que realmente tinha muitas pessoas no
local. Achei legal. (J3).

Fiquei sabendo que houve a marcha das vadias esses dias. Das “vadias”,
mulheres que resolveram protestar contra o estupro e a violência sexual.
Não é porque estão com roupas curtas que elas estão pedindo para serem
estupradas. (J5).

A atuação sociopolítica da juventude entrevistada resumiu-se a postar


comentários na internet sobre os acontecimentos da sociedade, atribuindo um
sentido caricato aos movimentos sociais. Eles reconhecem as redes sociais e a
internet de forma geral como um espaço de encontros e organização dos
movimentos sociais, entretanto, essa consciência é limitada pelo hábito de leituras

71
apressadas da realidade e de falta de um conhecimento mais elaborado das causas
sociais:

[...] Cara, no sentido de responsabilidade social? Ah, eu, por exemplo, quero
cursar psicologia, aí eu falo às vezes não algo de psicólogo, porque eu não
sou um psicólogo, mas busco tentar fazer as pessoas refletirem sobre suas
vidas, ou simplesmente... posto besteiras, mas às vezes posto coisas. (J2).

Ah, com certeza, tanto que esses dias mesmo no Facebook criaram um
grupo e me adicionaram, que é a Galera Gospel, então sempre tem gente
postando coisas novas e “taus”. E, de certa forma, é uma forma onde as
pessoas conversarem e conhecerem mais sobre tal aspecto. (J3).

Não utilizo pra isso, porque não gosto de discutir sobre política. Além de ser
um assunto polêmico gera muitos pontos de vista que podem levar a uma
confusão. (J6).

Normalmente, dentro das redes sociais existem divulgações de cunho


social, de manifestações, este tipo de coisa, e, se dentro da rede você
concorda com aquilo, você pode compartilhar e falar a respeito do
movimento. Eu já compartilhei e comentei sobre alguns movimentos sociais,
expressando minha opinião a favor a eles. (J8).

A juventude investigada não tem clareza sobre o uso sociopolítico das


redes sociais, confundido o conceito com temáticas variadas, desde expressões que
ajudam na escolha do curso superior até o total estranhamento do termo e a
consequente fuga de discussões mais acaloradas. Aqui cabe uma indagação: por
que a juventude, competente em assuntos tecnológicos, que navega com liberdade
e facilidade na rede, não consegue discutir uma temática que se relaciona
intimamente com sua atuação enquanto sujeitos sociais? Esta é uma questão que
pode revelar o perfil de uma geração que está formando-se na atualidade. A falta de
domínio no que concerne em discutir assuntos formais e predefinidos pode ser o
“Calcanhar de Aquiles” de uma juventude cheia de potencial, mas que ainda não
sabe como transformá-lo em atitudes de engajamento social.
Os jovens entrevistados também foram questionados sobre o caráter
transitório ou permanente do fenômeno das redes sociais. Eles responderam o
seguinte:

Não, passageiro não, é evolutivo. Antes você tinha só o Orkut, hoje você
tem o Facebook, tem o Twitter, então tá evoluindo. Veja, antes era só um
meio de comunicação, hoje você tem vários, então tá evoluindo. (J1).

72
Não é passageiro, mas algum dia vai acabar. Assim como tinha... não é
rápido, mas algum dia vai acabar, vai ficar ultrapassado tecnologicamente.
Acho que a tecnologia vai evoluir muito, até as pessoas ficarem de saco
cheio do computador e buscarem relações entre, fisicamente... eu creio que
um dia isso vai acontecer. (J2).

Não, vai evoluir muito ainda. Não vai cair, não. Isso aí vai ser aumentado
cada vez mais. (J3).

Eu acho que por enquanto tá legal e tudo mais, mas uma hora vai ficar
monótono, igual aconteceu com o Orkut, ele ficou naquela mesmice e
chegou o Facebook, inovando tudo, e, se não chegar algo que consiga
prender a atenção do público, vai, sim, ser passageiro. (J6)

Acho que não é passageiro, não. Porque vêm aí as novas gerações com
tudo, né, e que a cada dia deixa o futebol, a boneca de lado pra entrar
nesse mundo tão interessante. (J7).

Não considero passageiro, porque as redes sociais já se tornaram uma


forma de socialização, e cada vez mais o acesso as redes estão se
tornando mais fáceis. (J8).

A juventude considera que o conceito das redes sociais e suas


implicações nas relações interpessoais vão evoluir, no sentido de mudar, não
necessariamente para melhor, apesar de expressarem que a plataforma e a
tecnologia podem cair num processo repetitivo e fatigante. A tecnologia em si pode
ficar obsoleta, sendo necessário uma busca, por mecanismos e ideias inovadoras
por parte dos idealizadores de tais plataformas. De qualquer maneira, o que
permanece é a compreensão de que as relações sociais foram afetadas
profundamente por esses mecanismos interativos, possibilitando encontros virtuais e
até mesmo a socialização das novas gerações a partir da rede.
Sobre a existência ou não de movimentos de cooperação entre os jovens
na rede, os entrevistados responderam o seguinte:

Sim, você pode tá postando lá, né, palestras, algum anúncio diferente,
coisas do tipo... Cooperação? Ah, existe, você pode botar um anúncio,
estou precisando de tanto, alguém pode me ajudar? (J1).

Sim. Quando a gente vai fazer um trabalho, a gente manda o site um pro
outro e modifica as palavras pra ficar um pouco diferente. (J2).

Com certeza. É, por exemplo, os próprios vídeos, (...) foram feitos por
jovens que fazem outros jovens pensarem a respeito disso e estudarem
mais, não só em termos de estudo mesmo, mas em termos de religião, em
termos de ideologia ou em qualquer outra coisa do tipo. (J3).

73
Sim! Duas semanas antes do Dia das Crianças, houve uma mobilização que
dizia o seguinte: ‘trocar a imagem do avatar (perfil) por algum personagem
de desenho animado ou quadrinhos e a graça do desafio esta em manter
até o dia 12 de outubro (popularmente conhecido por Dia das Crianças). A
campanha tem como objetivo protestar contra a violência infantil. E foi muito
bom, porque a maioria das pessoas aderiu ao desenho como forma de
protesto! (J6).

Por incrível que pareça, existe sim, não sei explicar o porquê da existência
desta cooperação, mais ela é mutua entre os frequentadores das redes
sociais. (J8).

É consenso entre os entrevistados que existe cooperação entre a


juventude no ambiente virtual, entretanto, as concepções sobre o que seria
cooperação são frágeis e pouco consistentes. Não há uma consciência de segmento
social ou de engajamento com relação às causas da juventude contemporânea, por
exemplo. A impressão que se tem é que essa juventude, apesar de conectada com
vários contextos e pessoas, ainda não compreende plenamente o potencial de
mobilização que a rede pode suscitar. Na verdade, não há uma consciência coletiva,
os jovens estão dispersos, resolvendo suas próprias questões, divertindo-se nas
redes sociais nas horas vagas.

3.3 – PROCESSOS EDUCATIVOS NA REDE: LIMITES E POSSIBILIDADES DE UM


TERRITÓRIO EM EXPANSÃO

A educação como prática humana vem sofrendo transformações ao longo


da história, mas nas últimas três décadas essas mudanças atingiram níveis inéditos,
fazendo com que estudiosos da área se debruçassem sobre essa nova conjuntura
educativa. Não há como negar o fato de as novas tecnologias da comunicação, no
caso particular da internet, contribuíram sobremaneira para essa mudança de
paradigma, apesar de a educação, em muitos contextos, apresentar características
mais tradicionais, sendo resistente a inovações. Nesse quadro de mudanças, a
juventude foi o segmento que mais sentiu essa transição, e ela vem aprendendo a
lidar com as novas tecnologias como instrumentos do seu cotidiano.
A implicação do uso da internet na educação dos jovens na atualidade não
tem precedentes, fazendo com que a própria cognição seja modificada, surgindo
novos modelos para pensar a realidade, “novos estilos de raciocínio e

74
conhecimento” (LEVY, 2010). A interatividade é um desses modelos que pode ser
encontrado na internet e, mais recentemente, nas redes sociais, tecnologias que
possibilitam interação instantânea tanto com outras pessoas quanto com
mecanismos híbridos de aprendizagem e lazer.
Todavia, é preciso entender que este é um território novo, ainda envolto
pela neblina da desconfiança e dos tabus. Mas as perguntas centrais que podem
nortear essa discussão são as seguintes: é possível aprender na rede? Em caso
afirmativo, quais os mecanismos que possibilitam esse processo? A juventude tem
aproveitado todo o potencial da rede? O consenso é que o ser humano pode
aprender em qualquer contexto, inclusive no ambiente virtual. Não é preciso estar
fincado em uma sala de aula para aprender. Esta lógica de descentralização do
conhecimento e da aprendizagem é o que norteia a dinâmica da internet e das redes
sociais.
Nesta última seção da análise dos dados será discutida a presença ou a
ausência de processos educativos na rede, a partir de dois enfoques, o dos limites e
o das possibilidades deste novo território em expansão. Por mais que a juventude
seja um publico “antenado”, que demonstra em muitos momentos competência
técnica e certo engajamento com a internet, o fato é que esse segmento apresenta
limites em face da sua atuação no ciberespaço. Porém, a partir das intervenções dos
jovens pesquisados, é discutido o que realmente eles pensam sobre as relações
entre educação e internet.
Quando questionados sobre as possibilidades de aprendizagem, tendo
como mediadora a internet, os jovens entrevistados responderam o seguinte:

Bem, ela pode, sim. Como eu tinha falado no outro caso, ela melhorou, né,
ela tá deixando a educação mais próxima. (J1).

Sim, mas com os seus riscos. Hoje na aula o professor falou isso, pra nunca
pesquisarmos nada na internet. Eu acho um pouco de exagero, mas você
corre risco, sim, se for uma coisa que você não tem a mínima ideia pode
colocar uma coisa que acha que está certa, como a Wikipédia, que tem
muitas informações que o usuário pode modificar e aí vai enganar os outros
usuários. Então, você pode tá vendo uma coisa que não é verdade. Eu acho
que a internet é uma boa ferramenta quando você sabe utilizar. (J2).

Muito. Porque, imagina, a internet pode ser considerada uma biblioteca


gigante e você não precisa se preocupar muito, tipo, “ai, eu não tenho uma
biblioteca pra ficar pesquisando”. Na internet você procura as coisas e acha
mais facilmente e aprende muito mais rápido. (J3).

75
É possível, sim, porque a internet tem muitas notícias e conteúdos
interessantes e que podem ser aplicados no dia-a-dia, mas deve-se tomar
cuidando com as fontes, pois muitas delas não são seguras. (J6).

Tem sim. Porque tudo na internet é mais divertido e você encontra a


resposta às vezes pra tudo que precisa. (J7).

Acredito que é possível aprender tendo a internet como um lugar de


pesquisa, sendo que se recomende sites confiáveis, mas, como mediador,
acredito que não, esse papel ainda é do professor. (J8).

O que é possível constatar a partir das respostas dos entrevistados é que


de maneira geral, não há preconceitos com relação ao uso da internet como
instrumento mediador da aprendizagem. Pesquisar, estudar e produzir trabalhos
acadêmicos é uma realidade bem aceita por parte dos jovens, mesmo que em
alguns momentos exista o receio de que a informação coletada não seja confiável. A
internet é um território capaz de propiciar rapidez na aquisição de informação, além
de levar o usuário a experienciar visitas a outros sites enquanto estuda. Esta
concepção juvenil desloca a lógica tradicional de ensino-aprendizagem,
possibilitando o encontro de novos espaços onde o conhecimento é compartilhado.
A noção de educação escolar, onde o professor ocupa o centro do
processo de ensino aprendizagem, sendo o principal portador do conhecimento, é
substituída por uma relação multidialógica dos educandos com as informações do
ciberespaço, que tem à sua disposição “uma biblioteca gigante”, disponível 24 horas
por dia. É muito mais rápido, mais interativo e abre possibilidades para uma
juventude que não se sente mais à vontade na sala de aula tradicional. Eis o
surgimento da ciberescola, um ambiente que pode ajudar tanto educadores quanto
educandos na busca de um conhecimento construído em conjunto.
Os jovens entrevistados afirmam que passam por experiências formativas
todas as vezes que acessam a internet, mesmo passando horas a fio divertindo-se
no Messenger ou nas redes sociais. Parte significativa dos entrevistados falou da
importância da rapidez na aquisição de novas informações e também da melhora da
escrita com os corretores de texto e da ajuda de alguns sites para achar palavras
cujas grafias eles têm dificuldade de assimilar:

[...] Aprendemos, a gente (nós) aprendemos, até mesmo a escrever melhor,


né. Se você escreve alguma coisa errada, o Google corrige pra você. Até
mesmo a ler melhor, né, você fica mais viável a isso. (J1).

76
Eu tenho uma antiga professora em uma das redes que participo, ela
costuma postar coisas sobre ortografia e, sempre quando tenho uma
dúvida, eu confiro as postagens dela e isso me ajuda muita, fora o site do
Dicionário Aurélio, que já virou principal acesso do meu computador. (J8).

Sobre a influência das redes sociais e das ferramentas da internet na


aprendizagem da juventude, os entrevistados apresentaram as seguintes respostas:

Sim, pois tudo hoje em dia gira em torno da internet, da tecnologia e quem
não adere às redes sociais ou não interage com a internet acaba sendo
taxado de anti-social e pode até ser excluído do grupo. (J6).

Sim. Pode influenciar tanto negativamente quanto positivamente.


Negativamente, que nem eu disse, se a pessoa não tem um autocontrole,
de saber quando tem que parar e saber quando deve usar, porque, senão,
ela não vai se dedicar aos estudos e vai querer ficar só conversando e
batendo papo. Positivamente, se ela conseguir conciliar os dois pra
benefício dela e poder entrar em uma rede social e conseguir aprender mais
com isso e ela mais, ganhar muito mais. (J3).

Acho que sim. Porque ninguém mais pára pra ler a Barsa, todo mundo vai
no Google, todo mundo copia e cola. Eu já via muita gente se dando mal
copiando e colocando, porque só simplesmente copia e cola sem analisar,
sem dar pelo menos uma lida antes. (J2).

Há consenso entre os jovens de que o uso de tais ferramentas influencia


em sua aprendizagem, todos salientando os grandes benefícios que a internet
engendra em seu meio. Assim, o não uso das novas tecnologias pode causar, como
J6 afirmou, uma exclusão do grupo jovem ao qual o usuário pertence.
Quando questionados sobre o que mudou no processo de ensino-
aprendizagem com o advento da internet, os jovens foram unânimes em expressar
que muitas foram as transformações engendradas por essa nova tecnologia. A
mudança mais significativa foi o deslocamento do “lugar original”, ou pelo menos o
espaço formal da educação, para outro contexto, no caso do ciberespaço. É possível
aprender navegando, aproveitando o tempo ocioso entre sites de entretenimento e
jogos, enfim, as possibilidades aumentaram sobremaneira:

Mudou muita coisa, os jovens preferem está conectado à internet do que


está na escola. (J7).

Os livros, considerados a maior fonte de pesquisa, foram deixados de lado,


por serem considerados desatualizados. (J8).

Outra mudança pertinente, segundo os jovens, é a atualização tecnológica


das instituições de ensino, oferecendo, por sua vez, computadores e outros

77
mecanismos interativos para auxiliar as aulas. Isto revela certo otimismo por parte da
juventude com relação à escola. Por mais que os espaços de aprendizagem estejam
sendo ampliados com a internet, ainda há o reconhecimento de que a escola é uma
instituição social que transmite credibilidade. Não há entre os jovens pesquisados
posicionamentos favoráveis à substituição da escola pelas tecnologias.

Hoje você tem a escola com espaço só pra computadores, laboratório de


informática... a escola disponibiliza isso pra você por causa desse novo
mundo que tá entrando. Então, fica bem mais fácil você aprender culturas
novas. (J1).

Principalmente no meu colégio que, pô, agora a gente tem lousas digitais,
aulas on line, que professores que vieram de São Paulo, pessoas muito
nerds, dando aula pra gente, sabe. Outra coisa, outro nível. (J3).

Tudo se tornou mais prático. Desde o ensino até a realização de provas, de


expor o conteúdo, ficou mais dinâmico, didático, o que prende a atenção do
estudante, pois a internet em si chama a atenção com tantas novidades e
canais os quais você pode adentrar. (J6).

Assim como a escola é reconhecida como o espaço legítimo e tradicional


de aprendizagem, a posição do professor continua a mesma, ou seja, ele continua
sendo o sujeito do processo de ensino, ele é o “instrutor” (J2), responsável por
apontar o caminho a ser seguido pelos educandos:

Acho que o professor é o educador, ele que vai mandar o que você deve
fazer e você vai atrás, né, é uma espécie de instrutor. A função continua a
mesma, ele vai ter o conhecimento e vai te passar esse conhecimento. (J2).

O papel e o protagonismo do professor são aspectos que os entrevistados


levaram em consideração na análise do fenômeno educativo nas escolas. Apesar do
professorado em muitos momentos apresentar certo receio em face das novas
tecnologias e sentirem-se pressionados pelo ambiente escolar, resultando em
dificuldades na compreensão dos novos comportamentos juvenis, como apontam
algumas pesquisas (ABREU, 2006; NEVES, 2006), foi notada uma fala positiva com
relação à ação desse profissional, visto como um “instrutor”, um mediador do
conhecimento. Entretanto, foi percebida também a cristalização da consciência de
que o professor é o sujeito do processo de ensino-aprendizagem, o detentor do
conhecimento, por assim dizer. Há aqui uma manutenção do status quo educativo,
que aponta para uma educação bancária, cuja relação resume-se na tarefa de “ter o
conhecimento e te passar esse conhecimento” (J2).

78
Os jovens entrevistados demonstram um posicionamento conservador se
comparado ao que as pesquisas apontam sobre o protagonismo juvenil nas escolas,
principalmente com relação à sua mentalidade digital (ABREU, 2006). Eles ainda
não conseguem perceber que podem ser mais autônomos no que concerne aos
assuntos educacionais: esperam a última palavra do professor, até mesmo no
norteamento das pesquisas on line (J2).
A potencialidade educativa do ciberespaço ainda é pouco explorada pelos
jovens, que resumem sua apreensão de conhecimento a informações corriqueiras,
em sites de notícias ou acontecimentos de grande porte, pelas redes sociais. Até
mesmo as pesquisas escolares não são aprofundadas na rede. A tendência é
sempre “copiar” e “colar” as informações encontradas no primeiro site que o Google
disponibiliza. Por isso, os grupos de estudos, as redes de cooperação, o
engajamento coletivo e protagonista, são dimensões que ainda precisam ser
trabalhadas pela juventude atual, mesmo que haja o discurso reducionista de que
esse segmento social não precisa aprender mais nada sobre a internet e seus usos.
Apesar dos apontamentos positivos com relação à escola e ao
professorado, ainda fica a incerteza sobre o adequado preparo das instituições de
ensino. Isto foi revelado por alguns jovens quando questionados se a escola está
preparada para responder às novas demandas interativas da aprendizagem.

Não preparada, mas aí é onde entra o meio político, né? Essas escolas não
têm uma tecnologia que está favorecendo a aprendizagem. Você vê escolas
hoje com precariedades, né, escolas só com três computadores e sem
internet. Então, você acaba não deixando que o aluno se evolua com a
evolução do meio tecnológico. (J1).

Depende muito, depende do contexto. Uma escola de classe média é


diferente de uma escola pública. Eles [os alunos] podem até utilizar como
meio de pesquisa, mas o acesso dessas pessoas é um pouco mais
complicado, do que [o de] uma família rica ou de classe média. (J2).

A escola nem está preparada pra a acessibilidade e inclusão social, quanto


mais para a demanda interativa. (J8).

Ao final, foi perguntado aos jovens se seria possível transformar a escola


em um espaço mais interativo e prazeroso e o que poderia ser feito:

Sim, se ela não tiver limites. Tipo um exemplo, como eu estudava na escola
X, eles utilizavam a internet só pra fazer trabalhos e pesquisas, muitas
vezes as redes sociais ficavam trancadas por certas imoralidades, porque
os alunos ficavam matando aula pra passar o tempo ali e não entrar em

79
sala. Muitas vezes a escola ficava com medo de liberar as redes sociais
para os alunos.Ter um horário maior, ter conscientização e horário, né?
“Vou liberar, sim, as redes sociais, mas não vai ser admitido fotos
indecentes”; [é preciso] saber manipular essa nova rede. (J1).

Acho que, principalmente, respeitando a opinião de cada um e fazendo


projetos pra cada grupo de pessoas. Por exemplo, na escola, um grupo de
nerds, pô, na qual os nerds possam se adaptar a pessoas que não são tão
nerds, com brincadeiras ou uma aula mais interativa, coisas desse tipo. (J3).

Sim, levando atividades lúdicas que envolvam conteúdo de acordo com a


idade dos alunos. Chamando suas atenções para a finalidade da atividade,
ou passeio, mostrar que eles estão ali para se interagirem, se divertirem,
mas que o foco é realmente o aprendizado. (J6).

É possível, sim, sem dúvida existe esta possibilidade, mas isto demanda
tempo e muitas mudanças, primeiro no próprio espaço escolar e, depois, na
formação de docentes capacitados para atenderem esta necessidade de
interatividade. (J8).

O que fica patente nas falas é a realidade incontestável de que o ambiente


escolar precisa passar por mudanças estruturais e metodológicas, a fim de
converter-se em um espaço mais interativo de aprendizagem. Por mais que haja
outros territórios onde esse público possa transitar em busca de conhecimento e
formação, o olhar analítico lançado sobre a escola é de uma relevância ímpar.
Nas falas acima é expresso o desejo por laboratórios de informática
adequados, utilizados de forma correta pelos educadores. A juventude deseja maior
liberdade de acesso e também confiança por parte dos adultos. É preciso que sejam
levadas em consideração as particularidades dos alunos e “tribos urbanas” dentro da
escola, reforçando o respeito à diversidade de forma ampla e não apenas integrando
os nerds ou quem quer que seja ao grupo dominante. O caminho da adequação às
novas demandas interativas deve passar primeiro pelo respeito à diversidade das
formas de expressão das necessidades humanas.
É importante deixar claro que não são os computadores de última geração
ou o acesso ilimitado à internet capazes de trazer as mudanças qualitativas
desejadas à educação de modo geral. As escolas têm um papel fundamental na
formação da juventude e precisam encarar esta realidade em uma perspectiva de
formação integral do sujeito, tornando esses jovens protagonistas em um contexto
tradicional que limita a ação dos mesmos. Não basta ter acesso, é preciso
consciência e intencionalidade na rede, principalmente para aprender.
Daí a necessidade da formação continuada dos professores para
atenderem as novas demandas informacionais. Não é necessário que eles sejam

80
especialistas das ferramentas interativas, pelo contrário, o que se deseja de tais
profissionais é que cumpram seu papel de mediação entre o educando e o
conhecimento, até mesmo em territórios virtuais de aprendizagem.

81
CAPÍTULO IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS E APONTAMENTOS

A internet e suas implicações para a vida social são uma realidade


inconteste e a juventude está inserida no cerne dessa problemática. Não há como
negar a afinidade deste segmento social pelas novas tecnologias da comunicação e
da informação, constatação que gera inúmeros questionamentos sobre a dinâmica
juvenil neste contexto digital. Um aspecto relevante que deve ser levado em
consideração nas investigações atuais concerne à constituição e às configurações
da sociabilidade juvenil na internet, território que a cada dia ganha notoriedade entre
os jovens, que buscam maior liberdade de expressão, novas possibilidades de
interação e aprendizado e também de novos desempenhos e condutas.
A juventude da atualidade vem se familiarizando com a internet e com
seus mecanismos que possibilitam comunicação instantânea. Exemplos disso são o
crescimento acelerado e a boa aceitação das redes sociais, plataformas utilizadas
para estabelecer uma imensa rede de contatos. Por mais que o ciberespaço levante
questões diversas, o fato é que este novo contexto converteu-se em ponto de
encontro para os jovens, possibilitando a criação de novas condutas sociais e de
uma cultura específica, caracterizada pela velocidade acelerada do fluxo de
informações. Nessas “esquinas digitais” conectadas a tantas outras esquinas, num
esquema em rede, a juventude tem apresentado seus anseios e tensões aos seus
pares e aos adultos.
Na rede a juventude aprendeu a se expressar por meio das várias
ferramentas multimídia, estabelecendo, assim, uma teia de conexões cada vez
maior, onde podem postar fotos, expressões escritas e vídeos. O encontro com o
Outro na internet vem ganhando novos contornos com o surgimento das redes
sociais, que possibilitam, entre outras atividades, a comunicação e a exposição
instantânea do ser, num jogo social (real e suposto) de interação que acontece em
um palco sustentado por perfis virtuais, com nicknames e uma ficha contendo todo o
tipo de informação a respeito do usuário.
Essa exposição do ser caracteriza-se como um jogo ou uma dramatização
da vida social, mostrando que a juventude preocupa-se com as relações
interpessoais, mas num outro nível. Não basta juntar-se com os Outros por meio da
rede, é preciso recriar normas, condutas e até outra concepção de espaço-tempo.

82
Nesse ambiente, profundamente relacional e ao mesmo tempo privado e solitário, o
indivíduo encontra a satisfação pelo jogo social e o sentido no encontro com aqueles
que partilham das suas necessidades e desejos. A identificação e o sentido criado e
recriado a partir dos conteúdos sociais são os alvos, mesmo que inconscientes, da
juventude que interage por meio da internet. Daí a preocupação sempre presente em
adicionar novos “amigos” que possuam um mínimo de pré-requisitos adequados as
normas de certos grupos formados nas redes sociais.
A emergência desse contexto virtual de atuação vem confirmar o anseio
da juventude pelo encontro com o usuário ou com o “amigo” que está do lado de lá,
mas que se pode fazer presente em um click. Esta nova lógica, imperante na
juventude, desloca o significado da palavra presença e também subverte as noções
mais clássicas de tempo e espaço. Hoje em dia não é preciso fixar o corpo físico em
um determinado ponto para ser prontamente reconhecido como presente. Esta nova
realidade, fortalecida pela internet e pelas redes sociais, faz suscitar problemáticas
distintas nas relações humanas, desafios que afetam diretamente adolescentes e
jovens.
Os laços sociais constituídos nos ambientes virtuais têm sido encarados
de forma positiva, apesar de haver certa preocupação entre a juventude sobre a
expansão do círculo de contatos na rede, que chamam de “amigos”. A tendência é
que a juventude estabeleça uma rede de comunicação mais extensa e superficial,
mesmo que atualmente a maioria dos adolescentes tenha cadastrado em seus
contatos pessoas que conhecem ou que mantêm um contato razoável fora do
ambiente virtual. Assim, a movimentação e a dinâmica dos perfis nas redes sociais
podem ser o núcleo a partir do qual a vida social na internet é impulsionada. Todos
os que estão conectados à rede, em qualquer parte do mundo, podem transitar por
essa freeway e aproveitar as benesses do encontro e das experiências interativas.
Apesar da simpatia juvenil pela conversação e encontros virtuais, o que foi
percebido num primeiro momento diz respeito à dificuldade desse público em refletir
a respeito das ferramentas interativas que utilizam cotidianamente, falta-lhes
criticidade e embasamento para discutirem o objeto para onde afluem seus esforços
diários. Os encontros com o Outro acontecem por meio de caminhos virtuais que a
juventude tomou para si por meio da construção de um itinerário composto por sites
que revelam suas preferências. Dos sítios de games às alardeadas redes sociais, o
que foi constatado entre a juventude é a preferência pelo entretenimento, pela

83
conversação e encontro com o Outro e pelo fortalecimento de laços sociais formados
fora do ambiente virtual. Essa opção pelo fluxo de informações e experiências
acontece, na maioria das vezes, fora do ato de refletir e discutir a rede, o que revela
um traço alienador nas sociabilidades juvenis que acontecem na internet.
Há uma tendência de perceber as possibilidades da internet em detrimento
dos seus limites, uma visão reforçada principalmente entre os jovens que dominam
as ferramentas interativas do ciberespaço. Mesmo com receios em face da
autoexposição exagerada e da aceitação de “amigos” ou o estabelecimento de
contatos com pessoas desconhecidas, identifica-se neste segmento social um
discurso que reconhece as potencialidades da internet. Diante deste quadro, é
possível afirmar que os usos da internet com a finalidade de interação social é um
caminho que tende a ser seguido e melhorado por um número crescente de jovens.
É possível afirmar que a interação na rede é uma experiência irreversível.
Essa interação vem acompanhada de alguns limites, principalmente em
relação ao desenvolvimento de grupos, nas próprias redes sociais, que estejam
dispostos a discutir a sociedade de forma mais embasada, em termos críticos e
emancipatórios. A internet converteu-se, para a maioria dos jovens, numa imensa
janela por onde é possível enxergar o mundo e suas relações tanto de forma
superficial e apressada, quanto de forma aprofundada. Olhar pela janela representa
o primeiro passo na formação de jovens comprometidos com sua sociedade, é
somente o início e não o fim do processo. A ausência de grupos, formados por
pessoas desconhecidas, heterogêneos, multiculturais, empobrece a atuação juvenil
no ciberespaço, criando “bolhas cibernéticas”, “desconectadas” da rede.
Outro ponto importante a ser discutido é a contradição entre o discurso
positivo sobre as potencialidades da internet e a falta de uma visão crítica e reflexiva
de parte da juventude sobre esse mesmo “universo” que domina. Quase tudo está
ao alcance de um click, as temáticas mais diversas estão dispostas como num self-
service multimídia, entretanto, falta aos jovens da atualidade, pelo menos na boa
parte daqueles que utilizam a internet e as redes sociais cotidianamente, uma visão
mais engajada da relação entre sociedade e internet. Essa mentalidade reduzida
sobre o alcance sociopolítico da rede e da própria atuação desses sujeitos na
sociedade tem sido um entrave na experiência formativa integral do cidadão jovem.
Eles reconhecem o poder transformador e até revolucionário das novas
ferramentas comunicacionais, mas tendem a resumir sua atuação sociopolítica a

84
frases de efeito e fotos que revelam os lugares onde têm passado as férias. Foi
percebido um aspecto de descomprometimento da parte dos jovens em relação a
temáticas mais amplas da sociedade e do uso da internet como plataforma de
discussão. Alguns passam parte do tempo em um ócio digital, apartados de
experiências mais profundas de reflexão. Mesmo que o espírito de cooperação e de
ajuda mútua, com finalidades sociais, seja historicamente uma realidade entre a
juventude, o fato é que as atuações utilizando a internet como suporte são bem
pontuais e resumidas atualmente, mesmo que os noticiários e alguns autores falem
dos movimentos de contestação que utilizaram as redes sociais no Oriente Médio,
por exemplo.
Mas a despeito desses limites, essa juventude “desterritorializada” vem
mostrando que é possível ressignificar conceitos clássicos, como os de presença,
tempo, espaço e até de aprendizagem. É possível lançar-se no fluxo constante do
ciberespaço e aprender novas maneiras de compreender a realidade e também os
conteúdos escolares, isso em outra perspectiva, potencializada pela interatividade.
Esse desmantelamento da presença física faz suscitar alguns questionamentos
acerca da relevância da escola atual, fruto da modernidade, idealizada a partir de
conceitos fabris. Cabe aos educadores se apossarem do potencial educativo da rede
para transcenderem a limitação da sala de aula e darem um novo aspecto ao espaço
escolar, que pode ir para além das concepções geográficas ortodoxas, convertendo
o ciberespaço em uma “hiperescola”, a partir de um enfoque multimodal.
Mesmo constatando os limites da atuação juvenil na rede em face de uma
consciência crítica, não se pode negar que essas sociabilidades revelam também
uma maneira peculiar de expressão desse segmento. O desejo de mudar a
sociedade, expresso nas redes sociais, revela um modo de pensar a realidade, por
vezes ingênuo, mas profundamente legítimo. As postagens na internet mostram
esse olhar particular da juventude, incompreendido muitas vezes pelo mundo adulto.
Um exemplo dessa tensão revela-se nas relações que a juventude da atualidade
estabelece com o sistema formal de ensino. A escola segue um itinerário antiquado
se comparado a maneira como a juventude pensa e concebe a realidade. Uma
escola interativa, preocupada com as novas demandas do conhecimento, poderia
ajudar a juventude em sua busca por sentido e criticidade.
Os posicionamentos dos jovens revelaram um discurso em favor da escola
e de seu esforço para adaptar-se às novas demandas da interatividade, inclusive

85
situando o professor como um mediador importante nesse processo. Mas a despeito
disso, a juventude está desejosa de transcender ao tratamento resumido que a
própria escola concede a relação entre os educandos e a internet. Ter laboratórios
de informática ou mecanismos interativos em sala de aula não são o suficiente para
atender as novas necessidades cognitivas da juventude, isso porque a presença das
ferramentas tecnológicas não elimina o modelo pedagógico retrógrado que a maioria
das escola possui, que focaliza seus esforços na aprovação dos vestibulares
apenas.
A tendência em se fazer pesquisas utilizando a internet, a maneira
particular das leituras desenvolvidas nas redes sociais e o modo inquieto e veloz
com que a juventude trata as informações, revelam traços cognitivos diferenciados
se comparados aos da juventude de quinze ou vinte anos atrás. A juventude que
chega às escolas e faculdades apresenta um novo perfil, que está em sintonia com
as dinâmicas interativas da atualidade. Esse quadro deve desafiar as instituições
formais de ensino à reflexão e reinvenção de seus métodos e técnicas, caso queiram
contribuir eficazmente na formação desse segmento social.
Assumir uma nova postura frente ao fluxo constante da rede pode trazer
tanto novas possibilidades criativas quanto riscos para a juventude. Nessa balança,
é necessário compreender que protagonismo e alienação representam a dupla face
do mesmo processo informacional. Essa dualidade pode ser percebida nos
movimentos de insurgência pela rede, que vão de manifestações de curto alcance
até grandes mobilizações juvenis pelas redes sociais. Entretanto, a despeito de
movimentos de luta pela autonomia juvenil, é possível detectar também modismos
que esvaziam o significado das expressões.
Este é o antagonismo das sociabilidades reveladas no ciberespaço: em
meio a um sem número de pessoas conectadas é possível isolar-se e construir uma
“bolha cibernética”. Nesta conjuntura, até o conceito de solidão é reconfigurado,
fazendo com o que o jovem usuário da rede abdique da relevância de sua conexão.
Apesar de conectado, esse indivíduo perde a riqueza dos fluxos e se auto-exclui da
rede, tornando-se um nó solitário, solto e sem interatividade com outros.
Apesar de esses aspectos negativos apresentarem-se como barreiras à
interação juvenil, as redes sociais vêm destacando-se pelo seu potencial interativo,
fazendo com que grupos e mais grupos se organizem em torno das mesmas. Esse
desejo de ter um perfil virtual, de ser percebido pelo Outro, com face e “nickname”

86
ou sem face e sem nome, revela a necessidade de reproduzir no ciberespaço os
laços sociais do cotidiano estabelecidos fora da rede. Nesse processo é possível
perceber outro tipo de socialização, que merece a atenção dos pesquisadores
quanto aos seus mecanismos de estruturação. Não haveria novos elementos no
processo de socialização? A sociedade em rede traz novos processos e demanda
novos olhares sobre as tradicionais formas de interação e sociabilidade. Aqui fica o
questionamento para futuras pesquisas.
É preciso compreender o potencial de interação social da juventude, que
tenta construir no ciberespaço outro mundo possível, espectro de seus sonhos e
anseios. Este talvez seja o grande desafio do pesquisador dos fenômenos interativos
da juventude, compreender as reais motivações das diversas expressões juvenis
nas redes sociais da internet e o que este outro mundo significa para esse sujeito.
Por hora, é possível afirmar que os fluxos na rede representam o desejo
juvenil de existir para além do cotidiano rígido, o que torna os “ciberjovens” seres
híbridos, com atuação tanto no mundo “real” quanto em seu mundo espectral,
podendo ser compartilhado ou não com os pares. Essa sociabilidade híbrida, por
vezes confusa para os padrões mais ortodoxos de interação, revela a face de uma
juventude que busca sentido e novos territórios de atuação. No ciberespaço, o
desejo pela juventude eterna, a filosofia Forever Young (TUCHERMAN, 2004), vem
reconfigurando as relações sociais e apontando novas problemáticas a serem
investigadas no campo de estudos que envolvem as juventudes.

87
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SOUSA, Carlos Ângelo de Meneses. Novas linguagens e sociabilidades: como uma


juventude vê novas tecnologias. Revista Interacções, Santarém, Portugal, v. 7, n.
17, p. 170-188, jan. 2011. Disponível em: <
http://nonio.eses.pt/interaccoes/artigos/Q10_Sousa.pdf>. Acesso em: 12 jul. 2011.

TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital: como os jovens que cresceram


usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro:
Agir Negócios, 2010.

TAPSCOTT, Don. A Inteligência está na Rede. In: PETRY, André. Revista Veja. São
Paulo, 13 abr. 2011.

TUCHERMAN, Ieda. A juventude como valor contemporâneo: forever young. Logos:


Comunicação & Universidade, Rio de Janeiro, n. 21, p.134-150, 2004. Disponível
em: <http://www.logos.uerj.br/PDFS/anteriores/logos21.pdf>. Acesso em: 12 jul.
2011.

UNICEF. ONU celebra o Ano Internacional da Juventude 2010-2011. Disponível


em: <http://www.unicef.org/brazil/pt/media_18637.htm>. Acesso em: 11 fev. 2012.

VICENTIN, Carolina. A Reinvenção do Facebook. In: Correio Braziliense. Caderno


de Tecnologia. Brasília, 23 de set. 2011. p. 18.

91
APÊNDICES

APÊNDICE 1 – RELAÇÃO ENTRE OS OBJETIVOS ESPECÍFICOS E OS


INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

Técnicas/Instrumentos de Justificativa da Escolha Objetivos Específicos


Levantamento de Dados

 Levantamento  Apreende os • Identificar os percursos virtuais e os


exploratório e análise das significados subjetivos significados das expressões juvenis
postagens na rede social de expressões no encontradas nas redes sociais
interativa Facebook ambiente virtual; interativas.
(textos, fotos, vídeos etc);  Norteia e organiza os
 Roteiro da exploração e itinerários virtuais.
análise dos perfis.
 Ajuda na apreensão de  Identificar os processos
opiniões individuais, associativos de agrupamento
 Entrevista crenças e visões de e cooperação no ambiente
semiestruturada; mundo. O aspecto virtual;
 Roteiro da Entrevista. personalizado desse  Verificar como ocorrem os
instrumento permite processos formativos na
apreender opiniões rede.
relativamente livres dos
condicionamentos do
grupo;
 Norteia e organiza o
processo de entrevista
individual.

92
 Propicia um ambiente  Identificar os processos
para conversa/debate associativos de agrupamento
em grupo, fazendo com e cooperação no ambiente
que as intervenções virtual;
 Grupo de Discussão individuais sejam  Verificar como ocorrem os
(Facebook) relacionadas ao processos formativos na
 Roteiro do grupo de posicionamento do rede.
discussão grupo. As possíveis
divergências de ideias
entre os participantes
podem gerar
informações importantes
para a pesquisa. Esse
grupo de discussão foi
instalado na rede social
Facebook.
 Norteia e organiza a
discussão no fórum da
rede social.

 Analisa as informações  Identificar os processos


e conteúdos das associativos de agrupamento
 Análise de Conteúdo
entrevistas e das e cooperação no ambiente
intervenções na rede virtual;
(comunicações  Verificar como ocorrem os
diversas). processos formativos na
rede.

93
APÊNDICE 2
ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA

Aspectos pessoais
 Qual é o seu nome?
 Qual a sua idade?
 Qual seu sexo (masculino / feminino)?
 Participa de algum grupo social (igreja, seita, clube etc.)?
 Possui computador em casa?
 Possui internet em casa?
 Você utiliza algum aparelho móvel para acessar a internet?
Uso da internet e das redes sociais e suas motivações

1. Por que e para que você utiliza a internet?


2. Quais os sites que você mais visita?
3. Você participa de alguma rede social? Quais?
4. Há quanto tempo participa dessa rede social?
5. Por que e para que você participa dessa rede social?
6. Por que tantos jovens participam das redes sociais?
7. Seus amigos participam de alguma rede social?
8. Que tipo de material você costuma postar na internet / rede social? Por
que você disponibiliza esse material?
9. Por que as pessoas postam tanto material na rede (textos, fotos, vídeos
etc.)?
10. Em que o uso da internet facilita ou dificulta a vida das pessoas?

Processos de interação social a partir das redes sociais

11. Você acha que houve mudanças nas relações sociais por causa do uso
da internet e das redes sociais? Por quê?
12. Quantos amigos você possui na rede social que mais utiliza?
13. Você considera importante a quantidade ou qualidade dos amigos na
rede? Por quê?

94
14. A maior parte dos seus amigos virtuais são pessoas do seu círculo
social? Fale a respeito.
15. Você costuma utilizar as redes sociais para marcar encontros
presenciais? Fale a respeito.
16. Você utiliza as redes sociais com finalidades sociopolíticas? Em caso
afirmativo, fale um pouco desta experiência.
17. Você utiliza as redes sociais com finalidades educativas? Em caso
afirmativo, fale um pouco desta experiência.
18. Você conhece alguma experiência com as redes sociais na atualidade
que achou interessante? Quais e por quê?
19. Você acha que o fenômeno das redes sociais da internet é passageiro
ou o contrário? Por quê?
20. Você acha que é possível organizar movimentos sociais pela rede
(passeatas, marchas, organização de grupos insurgentes etc)? Por quê?
21. Existe cooperação entre os jovens na rede? Fale a respeito disso.

Processos educativos na rede

22. É possível aprender tendo como suporte/mediador a internet? Por quê?


23. Fale de alguma experiência educativa que você teve na rede.
24. As redes sociais e as ferramentas da internet influenciam a
aprendizagem da juventude? Por quê?
25. O que mudou no processo de ensino-aprendizagem com o advento da
internet?
26. Você acha que a escola atual está preparada para responder a essa
nova demanda interativa da aprendizagem? Justifique.
27. É possível transformar a escola em um espaço mais interativo? Como?

95
APÊNDICE 3
ROTEIRO DO GRUPO DE DISCUSSÃO INSTALADO
NA REDE SOCIAL FACEBOOK

Juventude e Sociabilidade Virtual

1. Historicamente, a juventude vem desempenhando um papel protagonístico


na mudança dos quadros sociais, desembocando muitas vezes em
movimentos de contestação ao status quo (governos, valores e sociedade
instituída). Qual a contribuição da juventude da atualidade para a mudança
da sociedade?

2. A internet tem alguma relação com essa contribuição? Justifique.

3. Quais os motivos que levam a juventude a se sentir tão à vontade na internet


e, mais recentemente, nas redes sociais?

4. Em que aspectos a internet e as redes sociais ajudam ou atrapalham a


interação entre as pessoas?

5. Se pudesse, você trocaria a escola tradicional pela internet? Por quê?

6. Se você pudesse mudar algo no mundo, o que mudaria? Seria possível


utilizar a internet para esse objetivo? Justifique.

96
ANEXOS

Juventude e Ciberespaço:
Implicações do uso da internet na
Constituição da sociabilidade juvenil

Termo de Livre Consentimento do Entrevistado

Você está sendo convidado a participar de uma pesquisa vinculada ao


Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica
de Brasília (UCB)/ Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade, sobre
“Juventude e Ciberespaço: implicações do uso da internet na constituição da
sociabilidade juvenil”. Leia cuidadosamente o que se segue e quaisquer dúvidas
serão respondidas prontamente. Este estudo será conduzido por um
aluno/pesquisador do Mestrado em Educação da UCB.
A pesquisa tem como objetivo geral investigar as implicações do uso da
internet e das redes sociais interativas na constituição da sociabilidade juvenil,
desdobrando-se em temáticas como: sentido dos percursos e expressões virtuais
dos jovens, constituição/dissolução e cooperação dos grupos sociais e processos
formativos na rede.
A sua participação é voluntária, e será documentada através do Termo de
Livre Consentimento assinado. Não participarão desse estudo pessoas sem
participação voluntária, indivíduos que não atendam aos critérios técnicos
estipulados pelo pesquisador.
Se você concordar em participar do estudo, seu nome e identidade serão
mantidos em sigilo. Somente o pesquisador, terá acesso a suas informações para
verificar dados do estudo. Vale ressaltar que todas as informações colhidas pelo
pesquisador não terão utilidade para processos e para fins judiciais.
Sua participação no estudo é voluntária. Você pode escolher não fazer
parte dele, ou, desistir a qualquer momento. Você poderá ser solicitado a sair do

97
estudo se não cumprir os procedimentos previstos ou atender as exigências
estipuladas. Você receberá uma via assinada deste termo de consentimento.
Declaro que li e entendi o formulário de consentimento, sendo minhas
dúvidas esclarecidas e que sou voluntário a tomar parte neste estudo.

____________________, ____de ____________ de 2011.

_________________________________
Assinatura do aluno
_________________________________
Assinatura do responsável
_________________________________
Assinatura do pesquisador

Tipo de participação:
Entrevista ( ) Grupo de Discussão – Facebook ( )

98