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JÉSSICA SCIPIONI

Guia da
Gestação ao
Puerpério
Como viver cada fase com mais leveza
A todas aquelas que viveram antes
de mim, que resistiram e abriram
o caminho, mesmo em meio a tanta
opressão;

Às que comigo compartilham essa

existência e me ensinam todos os dias


sobre o poder da vida.

Às que virão depois de mim, que


encontrem os frutos e as flores do que

estamos plantando hoje

Em nome da força que nos une desde

sempre e para sempre.


Sumário
1. Introdução 4
1.1. DECIDINDO A VIA DE PARTO 7
1.2 PARTO HUMANIZADO 9

2. Gestação 13
2.1. SINTOMAS DA GESTAÇÃO 14
2.2. FASES DA GESTAÇÃO 15

3. Parto 23
3.1. GRUPOS DE APOIO 24
3.2. PROFISSIONAIS DO PARTO 25
3.3. PLANO DE PARTO 32
3.4. DATA PROVÁVEL DO PARTO 35
3.5. INDUÇÃO DO TRABALHO DE PARTO 37
3.6. BOLSA ROTA FORA DE TRABALHO DE PARTO 44
3.7. TRABALHO DE PARTO 45
3.8. MITOS 78
3.9. INTERVENÇÕES 88
3.10. PARTO IDEAL E PARTO REAL 94

4. Pós-Parto 97
4.1. QUESTÕES FÍSICAS 99
4.2. QUESTÕES EMOCIONAIS 102
4.3. AMAMENTAÇÃO 104

5. Papel do Pai 109


6. Anexos 112
6.1. PLANO DE PARTO 113
6.2. LEI DO ACOMPANHANTE 122
6.3. RECOMENDAÇÕES DA OMS 123
1. Introdução
GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

Nascer é o que nos torna iguais, todo ser humano já esteve dentro de uma mulher e dela

nasceu. Por isso acredito que cada concepção, cada gestação e cada nascimento importam.

Por isso acredito que cuidar dessa mulher, desse bebê, dessa simbiose entre esses dois seres

e dessa nova família deve ser uma preocupação de todos e um fator essencial para mudar o

mundo. Afinal, o mundo de cada um de nós começa assim, então que esse início da vida seja

repleto de amor e respeito.

“Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer.”


(Michel Odent)

Para isso se tornar realidade, precisamos

de um novo modelo de assistência à gestação,

ao parto e ao nascimento, baseado no respeito

e na proteção, em que possamos retomar a

essência e a importância do nascer como uma

experiência do feminino e um evento familiar

único e especial.

Um modelo que seja capaz de equilibrar o

antigo e o contemporâneo, o social e o científico/

tecnológico, respeitando a importância de cada

um na assistência ao parto, possibilitando a Nascimento da mãe Raquel, do pai Guilherme e do Augusto.

coexistência sadia e estabelecendo uma relação de

complementaridade entre os saberes técnicos baseados em evidências cientificas e a sabedoria

popular e individual, todos a serviço da mulher e do bebê, que são os verdadeiros protagonistas

e condutores desse processo natural de nascimento.

E tudo isso é possível por meio da informação!

Meu nome é Jéssica Scipioni, sou doula, e o meu objetivo é te ajudar nessa fase da sua

vida que pode gerar muitas dúvidas, inseguranças e medos.

Quando comecei a mergulhar nesse mundo do feminino, nesse universo da experiência

feminina única de criar e gerar vida, eu queria mudar tudo, queria mudar o mundo, queria mudar

a assistência ao parto, queria mudar a forma de nascer! Tinha sede de mudança.

Hoje acredito em uma mudança serena e tranquila. Uma mudança que começa silenciosa,

de baixo para cima.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

Hoje, como boa pisciana e sonhadora que sou, ainda desejo mudar o mundo!

Mas sei que a mudança é lenta e acontece principalmente no plano individual, depende

de uma transformação de paradigmas, de uma metamorfose de consciência. Não é tão simples

quanto eu pensava! Mas é possível...

Então hoje concentro minhas forças no que, para mim, é essencial: tocar as mulheres, na

sua individualidade! Tocar você. Porque, se tem uma coisa que aprendi sendo doula, é que não

existe certo e errado, e que cada mulher é um universo rico e, muitas vezes, inexplorado!

Estou aqui para te ajudar a desvendar a força e o poder que existem dentro de você, para

que você saiba que tudo o que

precisa para parir, está dentro de

você! Quando descobrimos isso,

começamos a exigir mudanças,

começamos a exigir que o sistema

nos enxergue e nos trate como

indivíduos, não como mais uma.

Primeiro, precisamos

acreditar e confiar na nossa


Essas somos Patricia (no seu segundo parto) e eu. Estive com ela também no primeiro própria sabedoria.
parto, foi a primeira vez dela, minha, nossa.
Foi a primeira mulher que vi tornar-se mãe e aquela que me despertou para as forças
do feminino, para o nosso poder. Com ela, renasci! Claro que a realidade para

nós não será tão simples de ser

enfrentada, mas esse movimento serve também para as que virão depois de nós, para o futuro,
para as nossas filhas e netas, para que elas tenham o respeito ao seu feminino, ao seu corpo, ao

seu parto, à sua vida! Eu trabalho por mim, por vocês, por nós e por elas!

Acreditando nisso, escrevi esse guia, com muitos medos, inseguranças, dificuldades, mas

também com muita confiança, carinho e muito amor... Como um filho que eu imaginei, gestei e

pari.

Esse guia faz parte da minha missão de vida, e nele você vai encontrar informações

atualizadas, baseadas em evidências científicas, e na minha experiência prática sobre gestação,

parto e pós-parto, para que você possa se sentir mais segura, forte e preparada para percorrer

essa linda jornada da vida e seja a dona da sua própria história.

Feche os olhos, respire fundo, relaxe e seja bem-vinda! Estou muito feliz pelo nosso

encontro.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

1.1. DECIDINDO A VIA DE PARTO

Quando pensamos em parto, várias ideias e

imagens aparecem na nossa cabeça. Isso depende

muito da história de cada uma, mas a maioria está

ligada a dor e sofrimento. Isso não é à toa, não é

só coisa da nossa cabeça: a maioria das histórias

de parto que ouvimos é assim, algo ruim, muito

sofrido. Nas novelas, o parto é retratado como um evento doloroso, traumático e primitivo.

Quando você fala que quer um parto normal,

te chamam de louca, de corajosa, te contam

histórias horríveis, tragédias.

Naturalmente, tudo isso vai criando, no

nosso imaginário e na sociedade, a ideia de

que o parto normal é, na verdade, anormal,

perigoso, um sofrimento desnecessário, uma

coisa muito difícil de se conseguir.

Daí você descobre que está grávida, ou

até mesmo antes disso, e pensa: “Por que eu

escolheria passar por isso?”

Porque pode ser diferente! O primeiro passo para mudar isso é transformar a forma

como você enxerga e entende o parto.

1.1.1. Realidade obstétrica brasileira

Primeiro, então, vamos falar sobre a nossa realidade, e no Brasil a verdade inconveniente

é que, para parir, não basta querer.

O que pesa para as mulheres na hora da escolha pela via de parto?

Em 2010, foi feita uma grande pesquisa no Brasil sobre parto e nascimento, intitulada

Nascer no Brasil1, e foi constatado que, na primeira gestação, a maioria das mulheres quer
um parto normal quando descobre que está grávida (84,6% no setor público e 63,9% no

setor privado). Mas 44,8% no setor público e 89,9% no setor privado acabam fazendo

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

cesárea.

O Brasil é o líder mundial de cesarianas, com mais da metade dos

nascimentos realizados por via cirúrgica. Em contrapartida, desde 1985,

a Organização Mundial da Saúde considera que a taxa ideal de cesárea

está entre 10% e 15%2 .

Por que grande parte das mulheres acaba fazendo cesárea sem desejar e, muitas vezes,

sem precisar, já que apenas uma pequena taxa realmente precisaria da cirurgia? O que acontece

no meio do caminho que faz com que as mulheres desistam do parto ou sejam levadas a uma

cesariana desnecessária?

Vários fatores influenciam para que isso aconteça, desde questões mais abrangentes,

sociais, culturais e econômicas, até questões pessoais, tanto da própria gestante, quanto dos

familiares e dos profissionais da área. O buraco é muito mais embaixo, mas não vamos fazer

uma escavação.

O objetivo aqui é falar diretamente com você que está grávida ou se preparando para isso,

então vou focar nas questões pessoais: o que leva uma mulher a ter medo, a desistir do parto

normal ou a nem pensar nele como uma opção?

Segundo o obstetra Braulio Zorzella, três “Ds” influenciam nessa decisão3 :

• Desinformação, o que sabemos de parto é o que ouvimos falar;

• Desconfiança, do próprio corpo e da capacidade de parir, crença de que isso é algo

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

muito difícil e para poucos;

• Dor, medo da dor.

E ainda poderíamos acrescentar mais um “D”:

• Dinheiro, a maioria das pessoas pensa que parto humanizado é só para quem tem

dinheiro, “é coisa de Gisele Bündchen”.

A boa notícia é que basta resolver um desses “Ds” – desinformação – para que todos os

outros se resolvam ou, pelo menos, não pesem mais na escolha. As mulheres que decidem pelo

parto normal eventualmente também desconfiam da sua capacidade e têm medo da dor, mas o

medo e a desconfiança não mais as impedem de seguir.

Lembre-se sempre de que “É normal ter medo. Apenas não se esqueça de também ter

coragem”4.

A principal causa, logo, é a

desinformação. Como assim?

Você provavelmente conhece dois

modelos de assistência ao parto: parto do

século XX (hospitalização, medicalização e

aceleração do parto e mulher/bebê como

objeto da assistência e vítimas de violências)

e cesárea eletiva (agendada). Mas existe

outro modelo de assistência: o parto

humanizado ou parto do século XXI.

1.2 PARTO HUMANIZADO

Afinal, o que é parto humanizado?

Parto humanizado é muito mais do que um tipo de parto (parto na água, parto sem

dor, etc.) ou uma via de nascimento (vaginal ou cirúrgico), é um conceito, um novo modelo de

assistência ao parto e ao nascimento que vem sendo proposto no século XXI no mundo

todo. Ou seja, não é só uma modinha. O Brasil vem sendo pressionado internacionalmente para

promover ações que diminuam as taxas de cesárea, pois isso está diretamente relacionado à

saúde do binômio mãe-bebê.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

“Desde 1985, a comunidade médica internacional considera que a taxa

ideal de cesárea seria entre 10% e 15%. Porém as cesáreas vêm se tornando

cada vez mais frequentes, tanto nos países desenvolvidos como naqueles em

desenvolvimento. Quando realizadas por motivos médicos, as cesarianas

podem reduzir a mortalidade e morbidade materna e perinatal. Porém não

existem evidências de que fazer cesáreas em mulheres ou bebês que

não necessitem dessa cirurgia traga benefícios. Assim como qualquer

cirurgia, uma cesárea acarreta riscos imediatos e a longo prazo.

Esses riscos podem se estender muitos anos depois de o parto ter

ocorrido e afetar a saúde da mulher e do seu filho, podendo também

comprometer futuras gestações.5 ”

Esse novo modelo tem como base o protagonismo da mulher, a individualização da

conduta e o atendimento por equipes transdisciplinares e horizontais.

Parto humanizado significa devolução do parto para a mulher e atendimento

individualizado, com respeito à realidade, às escolhas, às particularidades e ao momento de

cada uma. Quanto mais acompanho partos, mais tenho convicção de que não existe um parto

igual ao outro, então não tem como seguir um padrão de vontades (todas as mulheres vão

querer isso) ou de tempo. O que vai guiar esse processo serão os desejos da mulher, seu bem-

estar físico e emocional e a vitalidade do bebê.

Parto humanizado é atendimento por equipes transdisciplinares e horizontais, ou

seja, equipes compostas por profissionais de diversas áreas (médicos, enfermeiras, doulas, etc.),

sem hierarquia, cada um desenvolvendo o seu papel e respeitando as funções do outro, sempre

em benefício da mulher, que deve participar ativamente do processo decisório, sabendo o que

esta acontecendo em cada etapa e confiando nas pessoas que estão lhe auxiliando.

Parto humanizado é respeito e proteção!

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

Aline e eu, no parto do seu segundo filho, Benjamin, depois de uma cesariana.

“Humanizar é acreditar na fisiologia da gestação e do parto.

Humanizar é respeitar esta fisiologia, e apenas acompanhá-la.

Humanizar é perceber, refletir e respeitar os diversos aspectos culturais, individuais, psíquicos e

emocionais da mulher e de sua família.

Humanizar é devolver o protagonismo do parto à mulher.

É garantir-lhe o direito de conhecimento e escolha.”

(Eleonora de Moraes)

1.2.1 Pilares do parto humanizado6

Respeito ao tempo da mãe e do bebê e ao protagonismo feminino: deixar o parto

iniciar e evoluir naturalmente, não acelerar o parto ou agendar uma cesárea sem necessidade.

Todas as intervenções devem estar à disposição da mulher para serem usadas quando necessário

e, se estiver tudo bem, a mulher tem o direito de decidir como deseja parir.

Compartilhamento de responsabilidades: quando a mulher ou o casal não participam

das decisões, toda a carga de responsabilidade recai sobre os médicos; no parto humanizado,

todos os riscos e benefícios de cada opção são informados, e a decisão é feita em conjunto, não

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

é só um dos lados que decide e arca com as responsabilidades.

Uso das melhores e mais recentes evidências: nada disso é feito sem respaldo técnico

ou implicando riscos desnecessários, todas as opções colocadas à disposição da gestante devem

ser baseadas nas melhores e mais recentes evidências cientificas, por isso o profissional precisa

sempre estar atualizado. A medicina evolui, coisas que fazíamos há alguns anos hoje sabemos

que não devem ser feitas (p.ex. o lado que o bebê dorme, coisas que comemos), isso não é

diferente com o parto (p.ex. episio, kristeller, etc.). O atendimento ao parto também evolui.

Respeitando todos esses pontos, o parto pode ser, sim, uma experiência cheia de dúvidas,

medos, inseguranças e dores, mas também repleta de amor, respeito, confiança e transformação.

Além de tudo isso, na esfera individual, parto humanizado tem a ver com um caminho

a ser percorrido por cada uma, de acordo com seus desejos e a sua história de vida,

afinal, só você sabe o que é melhor para você, a escolha será sempre sua. Mas, para

escolher, é preciso conhecer, a escolha informada e consciente só acontece quando você

conhece todas as opções à sua disposição e todos os riscos e benefícios que envolvem cada

uma delas.

O conhecimento liberta!

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza INTRODUÇÃO

2. Gestação

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza GESTAÇÃO

A maternidade é uma das transições mais importantes na vida de uma mulher, e a

concepção é o início de tudo. Concepção é o ato de gerar um ser vivo.

Com a concepção de um bebê acontece

também a concepção de uma mãe. Essa

mãe, que antes só existia no imaginário, será

gestada, nascerá e se desenvolverá com o

bebê. Mãe e bebê, juntos.

A gestação é a força da vida se

manifestando por meio do corpo da mulher,

é uma oportunidade de autoconhecimento

e renovação. E tudo isso pode ser, também,

muito assustador. Esse é o paradoxo que a

acompanhará a partir de agora. Só você sabe

as dores e as delícias de carregar um ser em

seu ventre. Desfrute-as com intensidade e

permita-se ser por inteiro.

2.1. SINTOMAS DA GESTAÇÃO

Se você fizer uma busca na internet, ou mesmo perguntar para mulheres que já estiveram

grávidas, vai encontrar uma lista de sintomas para identificar a gravidez. A verdade é que existe

um único sintoma certeiro: o atraso menstrual.

Dor nos seios, dor de cabeça, náuseas, tonturas, queda de pressão, salivação, falta ou

excesso de apetite, dor no baixo ventre, cólicas, sonolência, aversão a cheiros: todos esses

sintomas podem indicar uma gestação, desde que a sua menstruação esteja atrasada. Se você

sente qualquer um ou vários desses sintomas, mas continua menstruando, você não está

grávida. Mulher grávida não menstrua.

“Mas e aquelas histórias de mulheres que estavam grávidas e continuaram menstruando?”

Existe uma diferença entre menstruação e sangramento, mulher grávida não menstrua, mas

pode sangrar.

Então, você está em dúvida se está grávida? O primeiro passo é esperar o início do próximo

ciclo menstrual. Caso sua menstruação atrase (espere pelo menos uns cinco dias, é normal que

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o ciclo varie durante o ano) e você esteja com algum outro sintoma, faça o teste de gravidez.

Deu positivo? Parabéns! Agora você deve procurar o sistema de saúde público ou privado

para iniciar o seu pré-natal e acompanhar o desenvolvimento da sua gestação. Vamos entender

em seguida o que vai acontecer com você e com o bebê nos próximos meses.

2.2. FASES DA GESTAÇÃO

2.2.1. Contagem da idade gestacional

Primeiro, precisamos entender que a gestação humana é considerada a termo, ou seja,

“normal”, até as 42 semanas, mas desde sempre ouvimos que são nove meses. Vamos entender

melhor isso?

Os meses são muito variáveis – entre 28 e 31 dias –, já as semanas são períodos fixos de

sete dias, por isso padronizou-se a contagem por semanas.

Se fôssemos falar em meses, a gestação humana duraria aproximadamente dez meses e

meio. A confusão acontece porque, quando pensamos em nove meses completos, esquecemos

que o dia seguinte já é o início do décimo mês da gestação.

Exemplificando:

01/01 + 9 meses completos = 01/10

01/01 + 42 semanas = 22/10 (metade do 10º mês)

Mas para ajudar com tantos números, segue uma tabela de meses X semanas de gestação7:

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E essas semanas são contadas a partir de quando?

Como na maioria das vezes não é possível precisar em que dia ocorreu o encontro do óvulo

com o espermatozoide, padronizou-se a contagem a partir da data em que se iniciou o

seu último ciclo menstrual, isto é, o primeiro dia da sua última menstruação.

Então, se o seu último ciclo menstrual iniciou-se no dia 01/01, conte 42 semanas a partir

dessa data: 01/01 + 42 semanas = 22/10. Somente a partir de 22/10 sua gestação poderá ser

considerada pós-termo.

Outra forma de contar a idade gestacional é a partir da data estabelecida no primeiro

ultrassom. No ultrassom é possível estimar as semanas por meio de algumas medidas do bebê,

por isso quanto mais cedo é feito o exame (antes das 12 semanas), mais preciso ele é.

Como você pode ver, a contagem da idade gestacional não é tão precisa quanto

imaginamos, logo é comum dar diferença de datas entre um exame de ultrassom e outro, entre

um profissional e outro. Fique tranquila, o mais importante é ter uma noção da fase gestacional

e acompanhar o desenvolvimento e a vitalidade do bebê.

Dica! Tente não se apegar a datas fixas, pois a medição e a divisão do

tempo em horas, dias, semanas, etc. são uma invenção humana, o seu

bebê ainda nem sabe da existência disso tudo. Ele vive e funciona em

outro tempo: o tempo biológico.

2.2.2. Primeiro trimestre

O primeiro trimestre da gestação vai da concepção até a 13ª semana. É a fase de formação.

Essa fase é marcada pela nidação (implantação na parede do útero) e pelo início do

desenvolvimento do embrião. O sistema circulatório se forma, e o coração começa a bater. Na

nona semana, o bebê já tem braços, pernas, dedos, boca, nariz, olhos e o princípio das orelhas.

No final do primeiro trimestre, quase todos os órgãos já estão formados.

Seu bebê é mais ou menos assim:

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E a mãe?

Para a mulher, essa é uma fase de entendimento e aceitação. As mudanças físicas e

emocionais começam cedo, não tem para onde correr. Nesse período, a gestação é frágil, e

o turbilhão de hormônios já diz a que veio, pois os principais incômodos (náuseas, vômitos e

cansaço) são causados pelas alterações hormonais.

Independentemente de ser uma gravidez desejada ou não, os sentimentos para a mãe são

ambivalentes, afinal, estar em total simbiose com outro ser é muito raro (só vivemos isso com

nossas próprias mães) e, naturalmente, gera um milhão de sentimentos contraditórios. Está

tudo bem, simplesmente acolha-os. Você não precisa estar feliz o tempo todo.

Um dos medos mais comuns durante essa fase é o de perder o bebê.

Dicas!– Alimente-se bem. Coma alimentos mais naturais possíveis, com

menos conservantes e corantes. Faça pequenas refeições a cada duas

horas, pois a maior causa de enjoos é ficar muito tempo sem comer.

– Use gengibre. O gengibre é muito eficaz para enjoos, você pode

colocar um pedaço pequeno na boca e ficar mordendo.

– Beba água. Se você ainda não tem esse costume, separe uma

garrafa de água para você e ande sempre com ela. O ideal é que uma

mulher grávida ingira pelo menos três litros de água por dia. Parece

muito, mas se você estiver sempre com uma garrafinha e for bebendo

aos poucos, nem vai perceber. Seu corpo e seu bebê agradecem.

– Ouça e respeite seu corpo. Seu corpo é o seu melhor guia.

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Ao sentir-se cansada, descanse. Ao sentir-se com vitalidade e vontade de

se mexer, movimente-se. Você está gerando uma vida, e isso demanda

uma enorme quantidade da sua energia vital, seu corpo está totalmente

transformado e focado em fazer com que esse bebê se desenvolva

sadiamente. Trabalhe a favor do seu corpo.

– Conheça-se e cuide-se. A gestação é um momento de “egoísmo”

sem culpa, é hora de voltar-se para si, de se ver e se rever em todos os

âmbitos. E de se aceitar. Todas essas transformações estão acontecendo

dentro de você e, por mais bem intencionadas que sejam as pessoas,

só você e mais ninguém sabe o que é melhor para você. Cerque-se de

pessoas que fazem você se sentir bem. E aceite ser também cuidada por

essas pessoas.

– Converse com o seu bebê. A partir de agora, você não está

mais sozinha. Você e seu bebê estarão sempre juntos. Isso pode parecer

assustador e gerar um caminhão de culpas. “Meu bebê sente tudo o que

eu sinto, e agora?” Primeiro, nunca se esqueça de que você é um ser

humano, e que todo ser humano tem emoções e sentimentos. Não se

culpe por isso. Se você não gostaria de passar algum tipo de sentimento

para seu bebê, converse com ele, explique a situação, explique o que está

sentindo. Ele vai entender e ficar feliz por estar com você. Nunca duvide

da sabedoria desses pequenos seres. E se você ainda não consegue se


sentir vinculada ao bebê, não consegue conversar com ele, tudo bem

também. Cada mulher tem seu tempo, respeite o seu. Quando se fala

em gestação, parto e maternidade, não há regras, não há certo e errado.

- Vai passar. Desde o início, já vou te ensinar um mantra: “Vai

passar, vai passar, vai passar...”. Sempre que estiver em uma fase difícil da

maternidade, repita essas palavras. Essa é a única verdade: VAI PASSAR!

2.2.3. Segundo trimestre

O segundo trimestre da gestação vai da 14ª semana até a 27ª semana. É a fase de

desenvolvimento e maturação.

Nessa fase, o embrião já é considerado feto, tem impressões digitais e começa a engolir

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o líquido amniótico e urinar. Isso pode causar soluços, que são absolutamente normais. Essa é

também a tão esperada fase em que você vai começar a sentir o seu bebê e poderá descobrir

o sexo (se desejar).

Durante as primeiras semanas desse trimestre, o bebê praticamente dobra de tamanho, e

com aproximadamente 20 semanas você já vai conseguir sentir os primeiros chutes. O sistema

sensorial também se desenvolve rapidamente, seu bebê já pode te ouvir!

No final desse trimestre, o bebê já começa a treinar a respiração (coloca líquido para

dentro e para fora dos pulmões) e é capaz de sobreviver fora do útero, mas com muita ajuda.

Seu bebê é mais ou menos assim8 :

E a mãe?

Ufa, o primeiro trimestre acabou e, com ele, os incômodos e preocupações do início da

gestação. Você já está na metade do caminho, e a barriga já está mais aparente. Normalmente,

para a mulher, essa é uma fase de aproveitamento e bem-estar, de se sentir bonita e poderosa.

Seu bebê já esta tomando forma e identidade, você já sabe o sexo (ou não) e o sente mexendo-

se dentro de você. É chegada a hora de assumir o papel de mãe e deixar a posição de filha. Agora

você é a mãe e sabe o que é melhor para o seu bebê. Confie em você!

Nessa fase, você já pode começar a sentir algumas contrações de treinamento, também

conhecidas como contrações de Braxton-Hicks. Fique tranquila, elas são normais e saudáveis.

Também é normal não sentir ou não perceber essas contrações, pois em alguns casos elas

podem acontecer só no último trimestre, com a proximidade do parto.

Contrações de Treinamento:

– durante uma contração, sua barriga fica dura por alguns segundos;

– normalmente ,essas contrações são indolores, de curta duração, irregulares e desritmadas;

– essas contrações servem para fortalecer os músculos do útero para o trabalho de parto.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza GESTAÇÃO

É comum sentir uma explosão de energia e vitalidade e maior necessidade de afeto,

cuidado e proteção. Aproveite!

Um dos medos mais comuns nessa fase é o bebê nasça antes da hora (prematuro).

Dicas!
– Aproveite o dia.

– Sinta-se poderosa. Sinta a potência de gerar, gestar e nutrir um ser

humano. Você é maravilhosa, a vida se expressa através de você e da sua

existência. Faça tudo que tiver vontade e aproveite para se curtir.

– Continue se alimentando bem.

– Continue bebendo água.

– Movimente-se. Qualquer tipo de movimento, desde uma caminhada

até uma prática regular e acompanhada de algum exercício físico, vai te fazer

muito bem nessa fase e te ajudar a se preparar para o final da gestação,

quando os incômodos pelo aumento de peso da mãe e do bebê causam muitos

desconfortos. Ou seja, seu corpo vai lidar melhor com as mudanças ao longo

da gestação. Além disso, é uma ótima ferramenta para você ter uma melhor

consciência corporal e entender os sinais que seu corpo te dá.

– Selecione suas companhias e o ambiente. Essa é uma fase em que

você precisa receber mais do que dar, é hora de receber afeto, de ser mimada.

Fuja de ambientes e pessoas hostis e que te deixam mal.

2.2.4. Terceiro trimestre

O terceiro trimestre da gestação vai da 28ª semana até ao nascimento. É a fase da

preparação.

O bebê já consegue abrir os olhos e enxergar certa luminosidade. Durante essa fase, o

peso praticamente triplica, e ele se prepara para nascer.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza GESTAÇÃO

Seu bebê é mais ou menos assim:

E a mãe?

Chegou o final da gestação e, como todo final, parece que não vai acabar nunca. Mas a

grande notícia é: você não vai ficar grávida para sempre.

Essa é uma fase de desconfortos físicos: o bebê e a barriga já estão maiores, e o peso

gera uma mudança no centro de equilíbrio do corpo da mulher, causando dor nas costas e

dificuldade para andar, dormir e respirar. O cansaço de toda a gestação começa a acumular, e a

mulher se sente mais limitada.

Além disso, assim como o bebê, a mulher também começa a se preparar para o parto. O

parto não acontece de um dia para o outro, durante o final da gestação o corpo feminino sinaliza

que o momento está cada vez mais perto.

O que você pode sentir?

– Sensação de peso na virilha e pontadas no colo do útero.

– Pródromos (falso trabalho de parto): contrações com ou sem dor, curtas, ritmadas e

irregulares. Seu corpo está se preparando, o parto se aproxima, mas ainda não está na hora. Os

pródromos podem durar dias ou semanas.

– Perda do tampão mucoso.

– Intestino funcionando melhor.

– Ansiedade.

– Explosão de energia (preparar o ninho).

Com a chegada da 37ª semana, um dos maiores medos fica para trás – a prematuridade –,

mas outro toma o seu lugar: o medo do parto e da separação (fim da simbiose).

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza GESTAÇÃO

Dicas!– Faça o que você gosta. Aproveite os últimos momentos de

gestação para fazer tudo aquilo que não conseguirá mais fazer durante

os primeiros meses do bebê, como assistir uma série, tomar um banho

demorado, ler um livro, ir ao cinema, passear sozinha, curtir os filhos (se

tiver outros), curtir o(a) companheiro(a). Faça uma lista com as coisas que

mais gosta de fazer e tire um tempo para colocá-las em prática. Nesse

link você vai encontrar uma lista com 101 coisas para fazer no final da

gestação: https://www.doulaslondrina.com.br/?p=71

– Proteja-se. A gestação e o parto são momentos de abertura, não

só física, mas também emocional. Você está vulnerável e exposta a muitas

exigências externas e internas. É como se você estivesse em carne viva,

muito sensível, então qualquer palavra hostil vai entrar com mais facilidade

e vai ficar pairando aí dentro. Essa reta final é o momento de entrar numa

bolha e se proteger. Você já tem seus próprios medos, inseguranças e

dúvidas, não deixe que outras pessoas passem os medos, inseguranças

e dúvidas delas para você. Pouquíssimas pessoas conseguem entender

e respeitar o seu momento. Aproxime-se de pessoas que transmitem

calma, tranquilidade e segurança.

– Confie no seu corpo e no seu bebê. Esteja atenta aos sinais, mas

tente, na medida do possível, tratar os sinais do parto com naturalidade e

paciência. Não precisa ficar como uma galinha chocando o ovo, siga sua

vida e suas atividades normais.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza GESTAÇÃO

3. Parto

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PARTO

Você descobriu que está grávida, e uma das primeiras preocupações é começar o pré-

natal. Certamente você já está fazendo o acompanhamento da sua gestação desde o início

com algum profissional de saúde, tudo corre bem, você está sendo bem cuidada. O tempo vai

passando e você percebe que, nas consultas, quase nada se fala sobre o parto, como se você

não precisasse pensar sobre isso, afinal, já existem profissionais cuidando de tudo. Como então

você pode se informar, decidir e se preparar para o parto?

A maioria das pessoas no Brasil tem uma falsa crença de que a cesariana é a opção mais

segura para o nascimento. Nesse cenário, se você deseja ter um parto normal, o primeiro

empecilho que você vai encontrar provavelmente será a falta de apoio. Durante a gestação, você

terá seus próprios medos, dúvidas e inseguranças, e percorrer sozinha esse caminho em busca

de um parto respeitoso pode ser muito difícil.

Se esse é o seu caso, você se sente perdida e não sabe por onde começar, tenho uma dica:

procure grupos de apoio ao parto e à maternidade.

3.1. GRUPOS DE APOIO

Ao descobrir a gravidez, é como se um novo mundo surgisse à sua frente, e, com ele,

vêm as dúvidas. Na sociedade em que vivemos, a maioria das mulheres vive a gestação de

forma muito solitária, e as únicas fontes de informação são o médico e a internet. É muito difícil

encontrar pessoas com as quais você pode dividir e trocar experiências.

O ser humano é um ser social, que busca identificação, pertencimento e acolhimento, e na

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gestação essa necessidade é ainda mais forte. Nos grupos de apoio você pode encontrar esse

suporte emocional e informacional que ainda é muito deficiente no acompanhamento regular

do pré-natal.

Quando falamos de parto, sentir-se segura e confiante é ainda mais importante. Estar

inserida em um meio que favoreça aquilo que você acredita e deseja faz toda a diferença, pois

ao longo da gestação você vai fortalecendo a sua escolha e se sentindo mais capaz.

Os grupos de apoio têm o poder de unir duas coisas essenciais: informações de qualidade

e pessoas que buscam o mesmo que você.

As informações, ao longo do tempo, vão te dar a segurança necessária para que você

possa fazer suas próprias escolhas em relação ao nascimento do seu filho.

As pessoas vão proporcionar um meio seguro para que você possa se abrir e trocar

experiências, afinal, estão todas passando pela mesma situação, e você terá sempre um lugar

para recorrer e se sentir acolhida.

Além disso, nos grupos de apoio você pode ter uma noção mais ampla sobre a realidade

obstétrica da sua cidade e sobre quais profissionais e estabelecimentos de saúde se alinham

melhor com os seus desejos.

Essa rede de apoio criada na gestação ainda pode ser muito útil no pós-parto, que é um

período de muita solidão e desafios para a mulher.

Onde encontrar?
No site “Parto do Princípio”9 você encontra uma lista de grupos de

apoio presenciais em várias partes do Brasil, com encontros periódicos,

aberto e gratuitos. Se a sua cidade não está nessa lista, você pode

procurar por grupos de apoio virtuais no Facebook.

3.2. PROFISSIONAIS DO PARTO

Um dos pilares do parto humanizado é o atendimento por equipes transdisciplinares e

horizontais, ou seja, equipes compostas por profissionais de diferentes áreas de conhecimento,

trabalhando juntos e desempenhando a sua função em benefício da mulher e do bebê, que são

os protagonistas desse momento.

O parto vai acontecer com você, no seu corpo, só você sabe tudo o que sente e tudo o que

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te faz bem ou mal, é você quem deve ter as rédeas do parto, e os profissionais que te auxiliarão

nesse momento têm de estar com o olhar voltado para você, para o seu bem-estar físico e

emocional.

Durante o trabalho de parto, a mulher entra em um estado alterado de consciência, é

difícil – e nem é o esperado – tomar decisões, é um período de muita vulnerabilidade. Por isso

é importante confiar e sentir segurança nas pessoas que estarão ao seu lado, para que você

possa verdadeiramente se entregar para essa experiência, sem ter que ficar pensando “Mas

será que vão fazer isso comigo?”, “Será que vou sofrer alguma intervenção que não quero?”,

“Preciso decidir o que fazer agora”, “Será que eu realmente preciso fazer isso?”.

Não dá. O parto acontece na parte mais primitiva do nosso cérebro (sistema límbico), e

aquela parte mais desenvolvida (neocórtex), que pensa, raciocina e decide, mais atrapalha do

que ajuda. No parto, você precisa de pessoas que cuidem de tudo para você e que te protejam

desses inibidores.

E para que isso aconteça, primeiro você precisa se informar e construir o que é importante

PARA VOCÊ no parto, dentro da sua realidade. Depois, precisa encontrar as pessoas que se

alinhem com os seus desejos, que falem a mesma língua que você.

Ainda que seu parto seja pelo SUS, procure fazer o que for possível, informe-se, informe-

se, informe-se... Entenda o que vai acontecer com você, com o seu corpo. E pesquise sobre

como funciona a assistência ao parto pelo SUS na sua cidade. Sabemos que a realidade do

nosso Sistema Único de Saúde está longe de ser perfeita, e que a assistência é precária na

maioria dos lugares (mais um motivo para você se informar e fazer o que estiver ao seu alcance
para ser a protagonista desse momento). Mas não podemos ignorar que existe um “SUS que dá

certo ”10, e que em alguns lugares, inclusive, é mais fácil ter um parto respeitoso pelo SUS do
que no particular11 .

Dica!
Vai parir no SUS? Não desanime, não se apegue às histórias horríveis que

você conhece, cada história é única. Faça a sua parte, faça o que está ao

seu alcance, prepare-se para o parto, busque informações, agende uma

visita à sua maternidade de referência. Foque na sua preparação, e se o

pré-natal não te dá informações suficientes nem te deixa segura, busque

seus próprios caminhos. Quanto mais preparada você estiver, menos

ficará nas mãos do sistema. Se esta lendo isso, já é um ótimo começo...

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continue!

Afinal, quais são os profissionais que estão ligados ao atendimento da gestação e do parto

e qual a função de cada um deles?12

Obstetra13

No Brasil, o médico obstetra é o profissional mais conhecido quando se fala em atendimento

à gestação e ao parto – 94% dos partos são assistidos por eles. O obstetra, então, acompanha

a mulher durante toda a gestação, parto e pós-parto e é o responsável pelo pré-natal clínico.

Cesarianas, procedimentos cirúrgicos e técnicas de indução só podem ser realizados por ele.

No sistema privado, a mulher escolhe o médico que acompanhará o pré-natal e o parto.

Geralmente, ele chega somente quando o trabalho de parto está mais evoluído, antes disso, o

acompanhamento é feito pelas enfermeiras obstetras.

No sistema público, o médico que acompanhará o parto será conhecido no dia, uma vez

que eles trabalham em esquema de plantão.

A função do médico é cuidar da parte técnica, ou seja, estar disponível e atento para

qualquer intercorrência durante a gestação, o parto e o pós-parto e oferecer à mulher o cuidado

mais atual e baseado em evidências cientificas.

Curiosidade..
Em outros países (Inglaterra, França, Holanda etc.), a assistência ao

parto centra-se na figura da midwife (parteira), e os médicos obstetras

concentram-se no atendimento de gestações e partos de risco e eventuais

intercorrências.

Pediatra Neonatologista14

Poucas pessoas pensam sobre o pediatra no momento do parto. Quando falamos neles,

já imaginamos aquele cuidado com a criança depois do nascimento, como vacinas, exames etc.

Mas te convido a pensar que esse é o profissional que primeiro vai cuidar do seu bebê. Que tipo

de recepção você deseja para o seu filho?

O neonatologista é o profissional responsável por cuidar do recém-nascido (do nascimento

até os 28 dias de vida), e sua presença é obrigatória nos partos hospitalares. A maioria das

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instituições, tanto públicas quanto privadas, dispõe de pediatras de plantão, mas, no sistema

privado, você também pode escolher um pediatra de sua confiança para compor a equipe.

A função do pediatra neonatal é observar a vitalidade do bebê – isso pode ser feito no colo

da mãe durante o pós-parto imediato – e fazer os procedimentos que julgar necessários, como

aspiração, administração do colírio de nitrato de prata, primeiras vacinas e manutenção em

incubadora ou UCI/UTI em casos específicos.

Você sabia?
A Organização Mundial da Saúde, desde

1989, reforça a importância do contato

pele a pele entre mãe e bebê. O contato

pele a pele pressupõe que o bebê seja

colocado diretamente sobre o peito da

mãe imediatamente após o nascimento

(independentemente da via de parto –

vaginal ou cirúrgico).

No Brasil, a Portaria n º 371/2014 do Ministério da Saúde também

garante o contato pele a pele: Art. 4º Para o RN a termo com ritmo

respiratório normal, tônus normal e sem líquido meconial, recomenda-

se: I - assegurar o contato pele a pele imediato e contínuo, colocando o

RN sobre o abdômen ou tórax da mãe de acordo com sua vontade, de

bruços e cobri-lo com uma coberta seca e aquecida.

Anestesista

O anestesista é responsável pela anestesia peridural ou raquidiana para parto normal

e cesariana. Geralmente, esse profissional faz parte do quadro de plantonistas do hospital.

No parto normal, sua atuação depende do desejo da mulher, já na cesariana a presença do

anestesista é obrigatória.

No sistema público, a disponibilidade de anestesia para o parto normal varia de lugar para

lugar (entre em contato com a maternidade ou pergunte para o profissional que acompanha o

seu pré-natal para saber como é na sua cidade).

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Enfermeiras Obstetras

Enfermeiras obstetras são enfermeiras com especialização em obstetrícia, habilitadas para

realizar partos normais hospitalares e domiciliares de baixo risco (a maioria das gestações e dos

partos são considerados de baixo risco).

No sistema privado, as enfermeiras obstetras são contratadas pelos hospitais para fazer

o acompanhamento do trabalho de parto. No sistema público, são responsáveis também pelo

pré-natal.

Atualmente, existem enfermeiras obstetras que atendem de forma particular, ou seja, você

pode escolher uma enfermeira para te acompanhar no parto hospitalar ou no parto domiciliar.

O papel da enfermeira é fazer o pré-natal clínico e acompanhar a parte técnica do trabalho

de parto e pós-parto, avaliando o bem-estar físico e a vitalidade da mãe e do bebê (aferir pressão,

medir a temperatura, auscultar os batimentos cardíacos do bebê).

Obstetrizes

As obstetrizes são profissionais formadas em obstetrícia – curso superior específico,

oferecido pela USP, se assemelha à formação das midwifes em outros países –, e suas funções

são semelhantes às das enfermeiras obstetras. São profissionais habilitadas para acompanhar

partos hospitalares e domiciliares de baixo risco.

As obstetrizes e as enfermeiras obstetras são consideradas parteiras profissionais ou com

formação acadêmica.

Parteiras

As parteiras tradicionais aprenderam seu ofício na prática e, em alguns lugares do Brasil

onde o acesso ao hospital é difícil, são as únicas profissionais que atendem o parto.

Doulas

Doulas são profissionais especializadas no cuidado da mulher durante a gestação, o parto

e o pós-parto. Sua função é proporcionar apoio físico e emocional durante essas fases. Quando

se fala em gestação e parto, a mulher tem à sua disposição diversos profissionais que cuidarão

da parte técnica, e a doula aparece nesse cenário para cuidar de uma outra parte que também é

essencial: a emocional. Não compete à doula fazer nenhum procedimento técnico, como exames

de toque, medir pressão, auscultar os batimentos do bebê etc.

A doula é a única profissional de assistência ao parto que ficará o tempo todo ao seu lado,

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dando suporte de 1 para 1. A doula pode ser contratada diretamente pela mulher. Existem

alguns hospitais públicos que possuem doulas voluntárias à disposição da parturiente.

Curiosidade..
A palavra doula vem do grego e significa "aquela que serve". Apesar

de esse nome ser usado apenas recentemente (primeira vez em 1975 em

um livro sobre amamentação), é uma função muito antiga, encontrando-

se registros da época antes de Cristo.

Escultura romana de nascimento, 1 AD, Ostia Antica

Parto humanizado, 2016, Michelle

É importante que você conheça o papel de cada profissional durante o trabalho de parto

e que, se possível, escolha a equipe que deseja ter ao seu lado nesse momento. Mas, acima de

tudo, saiba que você vai parir com, sem ou apesar deles. O parto é um evento fisiológico e

natural, que acontece sozinho, guiado pelo seu próprio corpo. Sendo assim, tudo que

você precisa para parir esta dentro de você, as pessoas de fora apenas te assistirão e

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te auxiliarão nesse processo como coadjuvantes e protetores dos seus desejos, da sua

integridade e da integridade do seu bebê.

DICAS PARA SABER SE O SEU OBSTETRA É A FAVOR DO PARTO NORMAL:

A primeira dica que tenho para te dar é: confie no seu sexto sentido, sua intuição, aquela

pulga atrás da orelha, seja lá o nome que você dá para aquela sensação de que tem algo te

incomodando, de que tem algo errado.

Para mim, a grande função de todos os profissionais que atendem a gestação e o parto é

ser verdadeiro e transmitir tranquilidade e segurança. Se você vai ao médico e sai do consultório

com mais medo e insegura do que quando entrou, ligue as antenas.

A outra dica é uma lista de perguntas15 elaborada pela obstetriz Ana Cristina Duarte e pelo
Obstetra Jorge Khun, que pode te ajudar a descobrir se seu médico é realmente a favor do parto

normal:

1) Doutor, quais as chances de eu ter um parto normal?

Resposta certa: 90%, pelo menos;

Resposta errada: Ainda não dá para saber, depende de como o parto vai caminhando,

porque, se der algum problema, não posso deixar você e seu filho morrerem, a gente só sabe

na hora mesmo...

2) Doutor, quanto tempo dá para esperar depois da bolsa romper?

Resposta certa: Até 96 horas (4 dias), de acordo com o protocolo inglês, ou até 24 horas de

acordo com os protocolos mais conservadores, desde que o seu bebê esteja bem. Talvez a gente

tenha que administrar um antibiótico se, depois de algumas horas de bolsa rompida, você não

tiver entrado em trabalho de parto. E se você não entrar em trabalho de parto espontaneamente

após esse prazo, a gente tem que induzir.

Resposta errada: 4 horas, 6 horas no máximo, senão o bebê pode pegar uma infecção

mortal!!! E nem adianta induzir. Não nasceu em 6 horas, não nasce mais, pode fazer cesárea!

3) Doutor, a anestesia não dá problema no parto?

Resposta certa: Ela pode atrasar um pouco o parto e aumentar a chance do uso de fórceps.

Eu prefiro que a gente deixe essa decisão para o mais tarde possível. E se o parto puder ser sem

anestesia, melhor ainda!

Resposta errada: Não! Hoje em dia a anestesia é supersegura, feita bem embaixo para

você poder ter todas as sensações, mas não sentir a dor. Eu mesmo só faço parto normal com

anestesia, porque não gosto de ver paciente minha sofrendo...

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4) Doutor, e se passar de 40 semanas?

Resposta certa: A gente vai esperando e monitorando o bem-estar do bebê, pois nunca

aconteceu de um bebê ficar na barriga até a infância. Uma hora tem que nascer. Se a gente

perceber que lá dentro não está tão seguro, então a gente induz (estimula as contrações

uterinas). Mas isso dificilmente acontece antes de entrar na 42ª semana.

Resposta errada: A gente induz quando completar 40 semanas, porque depois disso o

bebê pode morrer dentro da sua barriga... Ou pior... Bom, se não entrou em trabalho de parto

até 40 semanas é porque não vai mais entrar. Tem que ser por cesárea mesmo.

5) Doutor, a cesárea é arriscada?

Resposta certa: Veja bem, a cesárea é uma cirurgia e tem os riscos de uma cirurgia. O

parto vaginal não corta seu abdômen, não implica grandes perdas sanguíneas, é um processo

fisiológico e de rápida recuperação. A cesárea é uma cirurgia cada vez mais segura, mas ainda

assim tem taxa de mortalidade quatro vezes maior do que um parto normal.

Resposta errada: Não, hoje em dia a cesárea está superdesenvolvida e, quando acontece

alguma coisa, é muito simples corrigir. Geralmente essas histórias que a gente ouve de cesáreas

que deram problema foi por imperícia de alguém. Eu mesmo nunca tive um problema mais sério

fazendo cesárea. Mesmo as hemorragias, choques e convulsões foram resolvidos com alguns

procedimentos.

Essas perguntas podem ser feitas de maneira informal. Além da resposta em si, observe a

reação do profissional quando questionado, e se ele disser que é muito cedo para falar de parto,
também fique atenta.

Depois de fazer as perguntas, avalie se vale a pena ficar com esse profissional ou se é

melhor procurar outro, que se alinhe mais com o que você espera para o momento do parto.

De qualquer forma, a escolha do médico é uma decisão muito pessoal e subjetiva. Confie

em você e nos seus sentimentos, se você sente que tem algo errado, se fica com aquela pulga

atrás da orelha, se confia desconfiando, não ignore, talvez seja interessante buscar uma segunda

opinião.

3.3. PLANO DE PARTO

O Plano de parto é um documento elaborado pela gestante no qual ela expressa os seus

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desejos em relação ao parto e à recepção do bebê.

O plano de parto tem três funções básicas: individualização da conduta, roteiro de estudos

e educação social.

Por meio do plano de parto, a equipe que irá te assistir poderá conhecer melhor os seus

desejos, e só assim eles poderá te atender individualmente, respeitando as suas particularidades.

Cada profissional tem o seu jeito de atuar, e se você não demonstrar, de alguma forma, o que

é importante para você no momento do parto, ele simplesmente vai agir de acordo com o seu

padrão próprio. Lembre-se de que, por mais sensível que o profissional seja, ninguém tem o

poder de ler a sua mente e saber exatamente o que você quer ou deixa de querer.

Mas, afinal, o que é importante para você? O plano de parto também é um ótimo guia para

você fazer suas próprias buscas, informar-se, refletir e construir o que você deseja para esse

momento único da sua vida. É importante que o seu acompanhante (pessoa que estará com

você no momento do parto) participe da elaboração desse documento, pois, no dia, ele será o

guardião dos seus desejos.

Você sabia?
É um direito seu, garantido por

lei16, ter um acompanhante DA

SUA ESCOLHA durante o trabalho

de parto, parto e pós-parto

imediato (até 10 dias após o parto).

Nenhuma instituição pode privar

você disso. Conheça seu direito e

busque se informar antes sobre

como funciona essa questão no

local em que você vai parir. Se já

encontrar dificuldades17 em exigir

o seu direito, busque o Ministério Público ou a Defensoria Pública da sua

cidade. Imprima a lei e peça para o seu acompanhante estar com ela no

dia do parto, caso seja necessário.

O plano de parto é a primeira de uma série de Recomendações da Organização Mundial

da Saúde no Atendimento ao Parto Normal18 :

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PARTO

“A) Condutas que são claramente úteis e que deveriam ser encorajadas

1. Plano individual determinando onde e por quem o parto será realizado, feito em conjunto

com a mulher durante a gestação, e comunicado a seu marido/companheiro e, se aplicável, a sua

família.”

Apesar de recomendado desde 1996, a realidade é que o plano de parto ainda é pouco

conhecido e utilizado. Justamente por isso ele também tem seu papel social: quanto mais

mulheres elaborarem e entregarem seus planos de parto, mais ele será conhecido, e, assim,

vamos ajudando e abrindo caminho para as mulheres que parirão depois de nós, inclusive

nossas filhas. Para que, quando for a vez delas, seja diferente, seja tudo mais fácil e acessível.

Para quem deve ser entregue?

Você deve entregar seu plano de parto para todos os profissionais que te assistirão: obstetra,

enfermeiras, doulas, pediatra etc. Separe uma cópia para cada um e, de preferência, destaque a

parte que lhes cabe (sublinhe ou selecione e coloque na primeira página), principalmente para

aqueles que você conhecerá na hora e que não terão tempo de se sentar para ler um plano de

parto inteiro (p. ex. equipe de enfermagem da maternidade). Se você tem uma boa relação com

esses profissionais, cada ponto do plano de parto pode ser discutido verbalmente entre vocês

durante as consultas.

Apesar de seu um direito seu, seja cuidadosa. O plano de parto não é para ser uma afronta

aos profissionais, mas simplesmente um documento que fará com que eles te conheçam melhor.
Deixe isso claro nas consultas e no próprio plano de parto.

O plano de parto é para ser uma ferramenta que te auxiliará no processo, nada mais do

que isso. A grande protagonista é você, e o parto é algo natural e incontrolável. Se prepare, mas

não se apegue a ideias fixas sobre como as coisas devem acontecer.

Não esqueça que ele não é uma carta de exigências, mas sim manifestações dos seus

desejos.

Não esqueça de que ele é um plano, não uma garantia.

Não esqueça de que o parto é o descontrole, o desconhecido, e essa é também a sua

beleza.

Lembre-se de que não podemos controlar como as coisas vão acontecer, mas podemos

controlar os contornos dessa experiência, e é isso que o plano de parto vai fazer: te ajudar a

conhecer e controlar os contornos. Mas o parto nunca deixará de ser uma surpresa.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PARTO

Vou deixar para você um modelo de plano de parto disponibilizado pela OMS19, e nos
anexos deste guia você também vai encontrar um modelo completo de plano de parto.

3.4. DATA PROVÁVEL DO PARTO

É importante que você saiba que a data provável do parto é apenas uma estimativa, não

um ultimato do tipo “Se não nascer espontaneamente até essa data, não nasce mais”.

Lembre-se SEMPRE de que o seu bebê não sabe que dia é hoje, ele vive em outro tempo –

o tempo fisiológico – e, para ele, o que importa é nascer quando estiver pronto, maduro. Só ele e

o seu corpo sabem quando isso vai acontecer. Exame nenhum no mundo, profissional nenhum

no mundo tem capacidade para te dizer exatamente quando o seu bebê está pronto.

Esse é um dos principais pontos de descontrole da gestação e do parto: é impossível

controlar quando o seu bebê vai nascer. Nesse quesito, ele é o rei, ele esta no comando. Dê um

voto de confiança para a sua cria.

Você sabia?
Apenas 5% dos bebes nascem exatamente no dia da DPP.

Mas então, porque existe essa DPP? Primeiro, porque a maioria dos bebês nasce uns dias

antes ou uns dias depois desse marco. Segundo, porque é um marco para os profissionais que

te acompanham ficarem mais atentos aos cuidados que precisam despender com você e seu

bebê nesse final de gestação.

A gestação é considerada a termo entre 37 e 42 semanas, e 95% dos bebês vão nascer

nesse período de cinco semanas.

Antes das 37 semanas, a gestação é considerada pré-termo, apenas 2,5% dos bebês vão

nascer nessa fase, e depois das 42 semanas, a gestação é considerada pós-termo, sendo que

apenas 2,5% dos bebês vão nascer nessa fase.

A grande maioria dos bebês nasce entre as 39 e 41 semanas, ou seja, é normal e até

esperado que sua gestação passe das 40 semanas, que é a data provável de parto.

Então, respire fundo e relaxe! Está tudo certo, tudo perfeito.

Atualmente, foi feita uma subclassificação da gestação a termo20. Ela continua sendo
considerada a termo entre 37 e 42 semanas, mas entre 37 e 38,6 é gestação a termo inicial,

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entre 39 e 40,6 é gestação a termo (a maioria das mulheres vai entrar em trabalho de parto

nesse período), e entre 41 e 41,6 é gestação a termo tardio.

E A GESTAÇÃO PROLONGADA 21?


A gestação que passa das 42 semanas é rara e, na maioria dos casos, o que ocorre é um

erro no cálculo da idade gestacional, até porque biologia não é uma ciência exata, logo esses

cálculos também não são exatos, mas estimativas que servem de norte para os profissionais da

saúde.

É muito difícil precisar o dia exato da fecundação, porque o óvulo, após liberado pelos

ovários, começa a se deteriorar após 24h, já o espermatozoide consegue sobreviver, em média,

três dias no corpo da mulher (em alguns casos eles vivem até sete dias). Ou seja, você pode ter

tido uma relação sexual hoje, e a ovulação e subsequente fecundação ocorrer dias depois.

Por isso existe uma margem de erro nos cálculos, de duas semanas para mais ou para

menos.

Além disso, ainda que os cálculos estejam certos, pode ser que determinado bebê precise

de mais tempo para ficar maduro, ou que determinada mãe ainda não se sinta preparada para

o parto, e isso iniba a liberação de hormônios. São muitas questões envolvidas.

Sendo assim, não da para ser levada em conta a idade gestacional isoladamente, outros

fatores precisam ser considerados, sobretudo a vitalidade e o desenvolvimento do bebê.

As gestações que se estendem além de 41 semanas também são poucas, em torno de

10%.

Entendi, Jéssica, mas e se chegarem as 41 semanas e eu não entrar em trabalho de parto?

Primeiro, é bom deixar claro que não há indicação de cesariana por gravidez prolongada.

Se sua gestação passar das 41 semanas, você tem a opção de induzir o trabalho de parto ou

esperar ele acontecer naturalmente.

Tente, na medida do possível, não se preocupar antes da hora e confiar no seu corpo e no

seu bebê.

Se as 41 semanas chegarem, converse com o profissional que está acompanhando o seu

pré-natal sobre os riscos e benefícios da atitude expectante (esperar mais um pouco) e da atitude

ativa (indução do trabalho de parto). Nesse momento, é bem importante o compartilhamento

de responsabilidade, vocês precisam entrar em um acordo, e você precisa pensar no que irá te

deixar mais segura e com o coração mais tranquilo. Só quem já passou por isso sabe a dificuldade

de tomar essa decisão, portanto respeite os seus limites, respeite o que você sente.

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3.5. INDUÇÃO DO TRABALHO DE PARTO

Os estudos mais recentes nos dizem que as induções feitas a partir das 41 semanas

diminuem os riscos para o bebê e a chance de se precisar de uma cesariana, mas esses dados

são insuficientes para indicação de indução de rotina a partir dessa idade gestacional. Isso será

algo que precisará ser conversado e acordado entre você e o profissional responsável pela sua

assistência.

O único ponto de concordância entre todos os estudos disponíveis é que, optando-se pela

conduta de esperar o início do trabalho de parto espontâneo, devem ser feitas a monitoração

fetal (de duas a três vezes por semana) e a avaliação da quantidade de líquido amniótico.

Mas, afinal, o que é indução do trabalho de parto? É a utilização de métodos naturais ou

artificiais (mecânicos ou farmacológicos) para preparar o colo do útero e estimular as contrações

uterinas, porque o parto só tem início com as contrações constantes, ritmadas e efetivas.

A gestação prolongada é o único caso em que a indução é indicada? Não, ela também

pode ser indicada em casos de necessidade de interrupção da gestação, como diabetes, pré-

eclâmpsia grave e restrição de crescimento fetal22 . No ocidente, uma a cada quatro mulheres
tem seu parto induzido por um desses fatores23 .

Qualquer mulher pode induzir o parto? Também não, existem algumas contraindicações
24
, entre elas: placenta prévia total (quando a placenta está na frente do bebê, na parte inferior

do útero, obstruindo o orifício colo do útero), apresentação transversa (quando o bebê está

atravessado na barriga, como se estivesse deitado), tumores prévios e herpes genital ativo.

3.5.1. Estímulos naturais

Muitos fatores influenciam o início do trabalho de parto, e até hoje os cientistas continuam

descobrindo novas informações. É importante, portanto, que você saiba que uma combinação

de fatores precisa estar no lugar antes do parto começar. E um dos fatores mais importantes é:

você estar relaxada.

Antes de te dar dicas sobre induções naturais, quero que saiba que tudo tem seu tempo

certo para acontecer, e que tudo que você tentar fazer para induzir naturalmente o parto só vai

funcionar se você já estiver pronta e, principalmente, se seu bebê já estiver maduro para o parto.

Como nós não sabemos quando isso vai acontecer, não custa tentar, afinal são métodos

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naturais, mal não vão fazer.

Saiba que seu corpo é perfeito e que tudo acontecerá no momento certo, mas muitas

vezes é difícil lidar com os pensamentos, com os sentimentos, com a pressão da família e da

sociedade, e é mais do que natural a ansiedade bater forte nessa fase. Essas dicas podem te

ajudar também com essas questões emocionais.

Então, vamos às dicas...

Relaxe

Tente relaxar e ocupar sua cabeça e seu tempo com outras coisas. O trabalho de parto

acontece pela liberação de uma série de hormônios, dentre eles a ocitocina. A ocitocina e a

adrenalina brigam pelo mesmo espaço, se você está muito nervosa, a adrenalina está em alta e

não vai dar espaço para a ocitocina agir.

Faça uma lista de coisas que você adora fazer: assistir um filme inteiro, uma série, ir ao

cinema, ler um livro, fazer uma hidratação no cabelo, tomar um banho bem demorado, namorar,

aproveitar os outros filhos (se tiver)... Enfim, aproveite para se despedir da sua vida de não mãe

ou de mãe de um, dois, três... De uma forma ou de outra, tudo vai mudar depois que seu bebê

nascer.

Os três HOTS: banho quente e demorado, comida apimentada e relação sexual

prazerosa.

Tudo que é frio faz a gente se encolher, se contrair, e isso é exatamente o contrário do que

seu corpo precisa nesse momento. Você precisa de calor, seu corpo precisa de calor, tudo que é

quente faz com que a gente relaxe e ajuda na circulação da energia. É como se você precisasse
acender uma fogueira aí dentro. Por isso a indicação desses três hots.

No banho, cuidado com a água muito quente, que pode causar um estresse no bebê.

Adicione duas gotas de óleo essencial de lavanda (direto na banheira ou no chão do box) para

ajudar no relaxamento. Um banho a dois também pode ser muito prazeroso.

Em relação ao sexo, foco no “prazeroso”, não adianta ir fazer sexo só porque leu que é bom,

você precisa desejar, estar envolvida com o momento, só assim os hormônios serão liberados. E

a notícia maravilhosa é que os hormônios liberados durante o orgasmo (ou qualquer outra coisa

que te dê muito prazer) são os mesmos que desencadeiam e comandam o trabalho de parto,

principalmente a ocitocina! Você sempre pode fazer isso sozinha também, experimente! Ahh, se

sua bolsa já tiver rompido, não pode ter penetração.

Estimulação dos mamilos

Os nossos mamilos são muito sensíveis, e a estimulação ajuda na liberação de ocitocina.

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A estimulação pode ser feita de diversas maneiras: você pode pedir para seu parceiro ajudá-la,

usar uma bomba de mama para simular a sucção do bebê no peito, ou usar seus dedos para

acariciá-los suavemente. Faça a estimulação dos mamilos por pelo menos cinco minutos e repita

algumas vezes durante o dia.

Movimente-se

Caminhar, subir e descer escadas, rebolar, dançar... Qualquer movimento com os quadris

ajuda a desencadear o trabalho de parto. Mas, por favor, sem exageros. Respeite o seu corpo e

não se canse demais. Lembre-se de que o trabalho de parto pode ser longo, e você precisa estar

com vitalidade. O ideal é alternar períodos de descanso e de movimento, sempre respeitando o

que seu corpo esta te pedindo: se está cansada, descanse; se está ativa, entediada, movimente-

se.

Nesse vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=n43FJxTjBuQ) dá para entender o porquê

dos movimentos com a pelve serem tão benéficos para o parto, é como se a cada movimento

você ajudasse o seu bebê a descer e se encaixar melhor!

Alimentação25
Beba muita água e coma alimentos com fibra (frutas, verduras e legumes) para evitar a

prisão de ventre.

Frutas como kiwi, manga e mamão contêm uma enzima que pode causar contrações leves.

O abacaxi fresco é rico em bromelina, uma enzima que ajuda amadurecer e afinar o colo do

útero.

O alho também é um ótimo aliado para induções naturais, pois estimula seus intestinos, e

isso pode causar contrações. Quando seu intestino está vazio, o bebê tem mais espaço para se

mover e encaixar.

Chás

Todos os chás que você não podia tomar durante a gestação porque poderiam causar

contrações e, por consequência, um aborto agora estão liberados.

Chá de canela é um ótimo indutor, e o chá de folha de framboesa, um tônico uterino

natural, que auxilia tanto na contração quanto no relaxamento do útero (além de ser rico em

ferro – pode ser ingerido a partir das 24 semanas de gestação).

Vou deixar aqui uma receita de chá da parteira mexicana Naoli Vinaver:

Ferva 1 litro de água e adicione os seguintes ingredientes, deixando tudo abafar por

15 minutos:

• 02/03 paus de canela,

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• Um bom pedaço de chocolate, o mais puro possível,

• 5-10 bolas de pimenta negra (do reino) inteiras,

• 3 folhas de abacate, secas ou frescas,

• 1-2 raminhos de alecrim, de preferência fresco, mas pode ser seco,

• açúcar mascavo a gosto ou mel para a taça antes de beber.

Ingredientes opcionais para melhorar o efeito das contrações:

• fatias de gengibre fresco,

• 1-2 colheres de chá de páprica,

• orégano, manjericão e tomilho em quantidades de meia colher de chá.

Acupuntura

A acupuntura é um método seguro e praticamente sem efeitos colaterais. Procure algum

acupunturista que tenha experiência em indução do trabalho de parto. Estudos demonstram

que a indução por meio da acupuntura reduz o número de partos por cesariana de emergência,

aumenta os partos vaginais e diminui a necessidade de indução com métodos farmacológicos26


.

Osteopatia

A osteopatia tem uma abordagem global e é capaz de identificar as causas dos problemas.

No caso da indução, pode ser muito útil para ajudar a descobrir possíveis travas fisiológicas e

psicológicas. A osteopatia é muito benéfica durante a gestação, parto e pós-parto. Procure um

profissional que tenha prática nesse tipo de tratamento.

Homeopatia

Procure um homeopata para te receitar a homeopatia mais indicada para você. A pulsatilla,

caulophyllum thalictroides e actaea racemosa são ótimas opções, pois estimulam as contrações

uterinas.

Muitos desses métodos, por serem naturais e benéficos não só para induzir o parto, mas

também para manter o equilíbrio e a saúde do seu corpo, que está despendendo uma energia

imensa para gerar uma vida, podem ser utilizados antes das 40 semanas. Podem, inclusive,

diminuir as chances de você precisar deles para induzir o parto, principalmente manter uma boa

alimentação, hidratar-se, movimentar-se, descansar, relaxar, divertir-se e sentir prazer.

Lembre-se que o parto é um movimento harmônico e saudável do corpo, portanto

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tudo que você fizer para ajudar esse movimento só trará benefícios e se refletirá no parto!

3.5.2. Estímulos mecânicos e farmacológicos

Se você já tentou os métodos naturais e ainda assim não entrou em trabalho de parto,

e/ou se você e o profissional que te acompanha decidiram induzir o trabalho de parto usando

métodos mecânicos (descolamento de membranas e sonda de Foley) ou farmacológicos

(misoprostol e ocitocina), entenda e converse sobre todas as opções disponíveis.

O objetivo desses métodos é promover o parto vaginal através da preparação do colo

do útero e da estimulação do início das contrações uterinas, e só podem ser realizados por

profissionais habilitados.

Lembrando que a escolha do método e o consequente sucesso da indução dependem das

condições do colo (apagamento, dilatação, consistência e posição) e do posicionamento do bebê

(descida e apresentação), por isso é importante que seja feita uma avaliação antes.

Por que isso faz diferença? Por exemplo, se o seu colo já está preparado, é indicado um

método de indução que promova as contrações, mas se o colo ainda não está maduro, primeiro

precisa ser utilizado um método que prepare esse colo (com prostaglandinas – misoprostol, p.

ex.).

Quais são os principais riscos da indução? Não funcionar e você precisar de uma cesariana,

hiperestimulação uterina e sofrimento fetal. Como eu disse, é importante conhecer todas as

opções e colocar na balança os riscos de induzir e os riscos de esperar.


Alguns estudos demonstram que os métodos mecânicos são mais eficazes do que indução

com ocitocina e apresentam menos riscos de hiperestimulação uterina27 .


É muito importante também que você saiba que uma indução mecânica ou farmacológica

não é um processo natural do seu corpo, portanto só na prática para saber como ele vai

responder a esse estímulo.

Saiba que induções podem ser bem demoradas, podem durar dias, e está tudo bem, é

assim mesmo. Não pense que você vai começar a indução hoje e hoje mesmo seu bebê vai

nascer. Pode ser que sim, pode ser que seu corpo responda rápido, mas na maioria dos casos

não é tão rápido assim.

Se essa for a sua escolha, prepare-se para isso. Indução exige muita paciência e também

o descontrole natural do parto: a indução pode ser controlada apenas no método e condução

(quantidade e velocidade de administração dos fármacos), mas a resposta do seu corpo será

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única e não seguirá padrões.

Até quando pode se continuar tentando? Assim como no parto espontâneo, não existe um

limite fixo de horas ou dias, os limites serão sempre os seus e os do bebê. Ou seja, enquanto

você e ele estiverem bem é possível continuar, por isso a monitorização fetal frequente é

imprescindível.

Descolamento de membranas

O descolamento de membranas pode ser feito a partir das 41 semanas e reduz em 40% a

necessidade de outra forma de indução. Essa porcentagem chega a 72% quando o descolamento

é feito com 42 semanas28 .

Como funciona?

Para que o procedimento seja

feito, é necessário que você já tenha

alguma dilatação (1 a 2cm), assim o

médico poderá introduzir o dedo na

sua vagina (como se fosse um exame

de toque) e tentar separar as membranas que conectam a bolsa amniótica no colo do útero.

Essa manobra ajuda na produção e liberação de prostaglandinas, hormônios que estimulam o

início natural do trabalho de parto.

O descolamento pode causar desconforto (dor), um pequeno sangramento, contrações

irregulares e a ruptura prematura da bolsa.

Após o descolamento das membranas, ainda pode demorar alguns dias para você entrar

em trabalho de parto, por isso ela pode ser feita no próprio consultório ou no hospital, e você

volta para casa para esperar o início espontâneo das contrações.

Sonda de Foley

É introduzido, no colo do útero, um cateter com uma espécie de balão, que é preenchido

com água destilada ou soro fisiológico, isso simula a pressão da cabeça do bebê

no colo do útero e ajuda na liberação de hormônios que

vão prepará-lo para o parto.

Esse método de indução pode ser usado em casos

de cesariana anterior e quando o colo está desfavorável.

Quando a dilatação começar a acontecer, essa sonda

pode ser retirada ou cai sozinha.

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A utilização da sonda, assim como o descolamento de membranas, não ocasiona o trabalho

de parto imediatamente, pode demorar alguns dias, por isso você pode fazer o procedimento e

voltar para casa para esperar o início espontâneo das contrações.

Amniotomia (ruptura artificial da bolsa)

Quando a bolsa se rompe, são liberados hormônios que estimulam as contrações, além da

cabeça do bebê descer e exercer maior pressão sobre o colo do útero, facilitando o progresso

do trabalho de parto.
No entanto, esse método não é indicado para

induzir o início do trabalho de parto, pois aumenta

os riscos para a mãe e para o bebê (infecção,

prolapso de cordão). Essa alternativa só pode ser

utilizada durante o trabalho de parto, quando

a dilatação já está mais avançada (mais do que 6

cm pelo menos), para resolver casos de parada de

progressão.

O profissional introduz uma espécie de agulha de crochê na sua vagina e rompe a

membrana da bolsa, esse procedimento é indolor.

Indução com Misoprostol (Cytotec)

A indução com Misoprostol pode ser feita quando o colo está desfavorável, mas é

contraindicado em casos de cesariana anterior.

Como funciona? É introduzido no seu canal vaginal um comprimido composto por

prostaglandina, que irá preparar o colo do útero (amolecer) e desencadear o trabalho de parto

(liberação de ocitocina). A forma de administração do medicamento deve ser discutida com o

obstetra. Geralmente são colocados vários comprimidos em intervalos de tempo determinados

(4 em 4 horas; 6 em 6 horas), por isso esse método só pode ser feito em ambiente hospitalar,

com acompanhamento frequente da vitalidade do bebê e da progressão do parto.

Essa é uma indução farmacológica menos invasiva, porque com ela a ocitocina (que

causa as contrações) é produzida pelo seu próprio corpo, mas, por outro lado, tende a ser mais

demorada.

Estudos descobriram que doses maiores de misoprostol são mais eficazes, e a ocitocina

é utilizada com menor frequência. No entanto, isso aumenta o risco de hiperestimulação do

útero29.

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Indução com ocitocina

É o método mais utilizado para induzir o parto. A ocitocina sintética é um fármaco que

estimula a contração uterina e é indicada, portanto, para casos em que o colo já está favorável.

Ela pode ser utilizada em conjunto com outro método de indução que prepare o colo do útero

ou isoladamente, durante o trabalho de parto, em casos de parada de progressão.

Ela é administrada via intravenosa, como um soro, ou por meio de uma bomba de infusão,

com controle mecânico ou eletrônico. Esse último mecanismo é mais indicado para os casos de

indução, pois é possível controlar a quantidade e a velocidade em que a ocitocina esta sendo

infundida.

A indução com ocitocina tende a ser mais dolorosa para a mulher, porque é um hormônio

sintético, não aquele produzido pelo seu corpo nas quantidades e velocidades adequadas para

você. Sem contar que, tanto no caso do misoprostol como da ocitocina, a tendência é que as

contrações venham de uma vez, em uma intensidade forte, porque não há toda a progressão

lenta da força das contrações e da dor como aconteceria em um parto natural.

A indução com ocitocina pode aumentar a taxa de intervenções no trabalho de parto, e a

chance de se precisar de analgesia é maior.

3.6. BOLSA ROTA FORA DE TRABALHO DE PARTO

O mais comum é que a bolsa rompa-se na fase ativa do trabalho de parto, perto dos 7/8

cm de dilatação, devido à pressão da cabeça do bebê sobre as membranas. Mas pode acontecer

de sua bolsa se romper antes do trabalho de parto começar, e aí, o que fazer?

Apesar de não ser o mais comum, isso é totalmente natural, e desde que o líquido esteja

clarinho (parecido com água de coco), seu strepto seja negativo (exame do cotonete) e seu bebê

esteja se movimentando bem, não há motivos para correria, pânico ou maiores alardes. A hora

de conhecer o seu bebê está muito próxima, e, antes de qualquer coisa, respire fundo!

Sinais de alerta!
Se sua bolsa se romper e o líquido estiver esverdeado (parecido com uma

sopa de ervilhas) ou com muito sangue (como se fosse uma hemorragia),

ligue para o seu médico e vá para o hospital fazer uma avaliação.

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É importante você saber que, quando isso acontece, não quer dizer que seu trabalho de

parto já começou, é apenas um sinal de que ele está próximo. O trabalho de parto só começa

com as contrações e, quando a bolsa se rompe antes, é normal que elas venham, em média,

depois de umas 10/12 horas da ruptura.

Segundo os últimos estudos, 77-79% das mulheres vão entrar em trabalho de parto em 12

horas, e 95%, em 24-28 horas.

Então, Jéssica, se minha bolsa se romper antes, o que eu tenho que fazer é esperar as

contrações começarem? EXATAMENTE! Avise seu médico, coloque um absorvente e espere.

Tente, na medida do possível, seguir a vida normal, pois logo as contrações virão e, em breve,

seu bebê vai nascer! Ah, não se esqueça de tomar muita, muita, MUITAAAA água durante esse

tempo, porque o líquido da bolsa se repõe, seu bebê não vai ficar "no seco"!

Sabendo que isso é normal, e que é possível esperar com segurança, converse com o

profissional que está te acompanhando no pré-natal sobre qual a conduta indicada se a bolsa

se romper fora do trabalho de parto. Dependendo da resposta, você já pode sacar se ele anda

se atualizando ou não, e então escolha o que é melhor para você.

As evidências científicas mais recentes (fev. 2017) recomendam que se espere o trabalho

de parto começar (contrações constantes e ritmadas) se sua bolsa se romper30 .


E nunca se esqueça: parto exige paciência!

3.7. TRABALHO DE PARTO

Enfim, chegamos no trabalho de parto!

O trabalho de parto envolve uma série de fatores físicos, químicos, biológicos, hormonais,

emocionais, psicológicos, sociais, culturais... Enfim, envolve você, por inteiro! Pense de forma

global, tudo influencia tudo, por isso é muito importante entender e se preparar para esse

momento, para que você se sinta segura e tenha uma experiência única e plena, que deixará

saudades!

Vários profissionais estarão te acompanhando, mas nunca se esqueça de que é você que

vivenciará essa experiência no seu corpo (e na sua alma), portanto agarre seu parto com unhas

e dentes, porque ele é seu!

Entenda como tudo acontece, isso te deixará mais tranquila e segura para se entregar ao

momento quando ele chegar! Quanto menos desconhecido tudo isso for para você, mais fácil

será encarar o que virá pela frente.

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Mas é importante que você não confunda “conhecer com acumular informações, mantendo

o neocórtex (o pensamento) tão ativado durante o trabalho de parto que dificulta a entrega e a

introversão necessárias”.

Conheça todo o processo, mas quando for vivenciá-lo, apenas vivencie, dedique-se

“inteiramente à experiência corporal e emocional do processo que leva ao nascimento31” .

3.7.1. Fases

Saiba que o trabalho de parto não acontece de uma hora para outra, como se fosse um

despertador te acordando para um dia de trabalho. Enquanto você lê este guia, muitas coisas

estão acontecendo aí dentro de seu corpo.

Pare um minuto. Feche os olhos, inspire profundamente, expire lentamente. Continue

fazendo essa respiração enquanto observa o seu corpo, observe as sensações internas e

externas, observe as tensões, as dores, os medos. Acolha cada sensação e cada sentimento.

Sinta os movimentos do seu bebê.

Aprenda a enxergar além do que seus olhos podem ver.

Durante o terceiro trimestre da gestação, conhecida como fase da preparação, o seu corpo

e o do seu bebê começam a se preparar para o parto, todo dia é uma preparação para vocês

dois.

Seu eixo de gravidade muda, o bebê já está bem desenvolvido e tem cada vez menos

espaço (o que antes era uma piscina olímpica agora é uma banheira para ele), o útero cresceu

bastante. Você se sente mais cansada, afinal está carregando um ser humano em completo

desenvolvimento e continua com todos os seus afazeres diários. Nessa fase, é bem comum

sentimentos contraditórios, do tipo: quero que o bebê nasça logo, não aguento mais estar

grávida e, ao mesmo tempo, não quero que ele nasça, tenho medo do parto e da maternidade

que está por vir.

O peso do útero e do bebê também pressionam a bexiga, aumentando vontade de urinar.

As dores e incômodos aumentam conforme a gestação avança, é comum sentir agulhadas,

fisgadas na vagina (devido à movimentação da cabeça do bebê, que está cada vez mais baixa) e

dores nos quadris e costas (devido ao estiramento dos ligamentos).

Imagine que seu útero é composto por um conjunto de músculos e que, fora da gestação,

tem o tamanho aproximado de uma maçã ou pera. Durante a gestação, o útero cresce e se

expande em tamanho e peso. Os ligamentos que seguram o útero no abdômen alongam-se e

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ficam cada vez mais finos. Esse processo todo pode causar dores em um ou ambos os lados do

abdômen.

Dicas!
Para aliviar essas dores, comuns no fim da gestação, você pode mudar de

posição, alongar-se, deitar-se do lado oposto da dor com um travesseiro

entre as pernas, movimentar-se lentamente (evitar movimentos bruscos),

repousar bastante, aplicar calor sobre a área (banhos quentes ou bolsa

de água quente), receber massagem e evitar ficar em pé ou sentada por

longos períodos. Se exercitar também ajuda muito nessas sensações

dolorosas (caminhadas, pilates, yoga, hidroginástica).

Além disso, você já pode estar sentindo as contrações de treinamento ou contrações de

Braxton-Hicks, que geralmente começam no segundo trimestre e se intensificam no terceiro.

Essas contrações servem para fortalecer seu útero e prepará-lo para o trabalho de parto. É

como se o seu útero estivesse fazendo musculação. Normalmente, essas contrações são

irregulares, desritmadas, curtas e sem dor. É comum também confundir essas contrações com

os movimentos do bebê. Também é comum que elas passem despercebidas. É claro que, quanto

mais consciência corporal você tem, mais fácil de perceber todas essas mudanças.

Como diferenciar as contrações de treinamento dos movimentos do bebê? Quando o útero

de contrai, ele se contrai por inteiro, começando no fundo do útero (parte mais alta, próxima as

costelas). Quando o bebê se movimenta, é normal o útero se contrair também, pois o útero é

um órgão muito reativo e responde a qualquer estímulo, mas nesse caso ele se contrai apenas

em uma parte, próximo de onde o bebê se mexeu.

De qualquer forma, isso tudo é só para você saber o que significam essas sensações e ficar

tranquila de que é normal. Não há muito que fazer, a não ser seguir a vida normal e tentar não

focar nas contrações e nas dores. Deixe seu corpo trabalhar.

Tente olhar para tudo isso como algo natural e saudável. Aproveite cada sensação, cada

desconforto para já ir “treinando” para o parto, encare tudo isso como uma oportunidade para

perceber e conhecer melhor o seu corpo e ir descobrindo como ele funciona e o que você pode

fazer para ajudá-lo nesse processo.

Jéssica, e quando devo ficar mais atenta? Se o parto ainda está longe, antes das 36 semanas,

e você perceber que essas contrações estão vindo em um ritmo mais regular, por um período

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considerável (p. ex. várias contrações por várias horas seguidas) e com dores tipo cólicas no pé

da barriga, avise seu médico ou procure o posto de saúde ou maternidade onde faz seu pré-

natal.

Pródromos

As mudanças mais significativas acontecem no final do terceiro trimestre, com a proximidade

do parto. O colo do seu útero está fechado, posterior (virado para trás), grosso e tampado pelo

tampão mucoso. Conforme as semanas vão avançando, o bebê começa a descer e fazer mais

pressão sobre o colo do útero. Então começa a dança dos hormônios que vão preparar o colo

do útero e dar início às contrações do trabalho de parto.

A relaxina (hormônio produzido pela placenta) encontra seu pico e atua no relaxamento

dos seus ligamentos, principalmente da pelve. Esse mesmo hormônio, junto a outros, vai

amadurecer o colo do seu útero.

Devido a essas mudanças hormonais, as contrações de treinamento mudam um pouco

de padrão (agora são relacionadas aos pródromos ou falso trabalho de parto) e ajudam no

gradual amolecimento e suavização do colo do útero (amadurecimento). Posteriormente, essas

contrações também ajudam a trazer o colo para cima pouco a pouco, e ele então muda de forma

gradualmente, até ficar pronto para se abrir (dilatação).

A palavra pródromo significa aquilo que antecede algo, o precursor, os primeiros indícios

de algo que está por vir. Nesse caso, o que esta por vir é o trabalho de parto.

Lembrando que esse “está por vir” é muito relativo e depende de vários fatores, portanto

para cada mulher vai ser de um jeito. Pode demorar dias, semanas, até meses. Cada corpo tem
seu próprio tempo, e o tempo do corpo exige paciência.

De novo, tente encarar isso como algo natural e saudável, é a última fase de preparação

para o parto. Tente pensar que nada disso é em vão, muito pelo contrário: tudo isso é necessário,

inclusive para tornar o trabalho de parto mais fácil e tranquilo. Aproveite para treinar técnicas

de alívio da dor (respiração, movimentos com a pelve, banho quente, mudança de posições) e

de controle da ansiedade (respiração lenta e profunda, exercícios físicos e atividades que te dão

prazer).

O que você pode sentir nessa fase? Contrações com ou sem dor (normalmente a cólica

vem antes ou depois da contração e pode atingir o pé da barriga e a região da lombar), curtas

(em média 20 segundos de duração), ritmadas (várias durante o dia) e irregulares (sem padrão

de tempo entre elas); perda do tampão mucoso; melhora no funcionamento do intestino;

ansiedade; e aumento da energia (vontade de fazer as coisas, de preparar o ninho).

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PARTO

Você sabia?
O tampão mucoso é tipo uma secreção espessa (ele é meio gosmento,

parecido com um catarro, e pode ser transparente, amarelado,

amarronzado ou com um pouco de sangue) que veda o colo do útero e

protege o bebê (como se fosse uma rolha). Conforme o colo do útero

começa a amadurecer e sofrer alterações, esse tampão pode se soltar.

Mas saiba que ele se recompõe, ou

seja, ele pode sair hoje, se recompor,

depois de uns dias sair de novo, e

assim vai. Algumas mulheres passam

semanas perdendo o tampão. É

normal também que você não

perceba ele saindo ou que ele

realmente não saia antes, pode ser

que isso aconteça somente durante o trabalho de parto e tudo bem!

Pode ser também que nessa fase você já tenha um pouco de dilatação (entre 1 e

3 centímetros). Você pode ficar assim por dias ou semanas, mas o trabalho de parto ainda

não começou, ele só tem início com as contrações efetivas, regulares e ritmadas que dilatam

efetivamente o colo do útero.

O que você pode fazer? Seguir a vida normal.

“É obviamente mais agradável se seu corpo estiver trabalhando por você enquanto

você está fazendo suas tarefas, comendo, dormindo e visitando seus amigos. Você não tem

possibilidades de ficar tensa e brigar com seu corpo quando estiver ocupada com todas essas

coisas, deixando seu útero trabalhar sossegado e sem interferências. Portanto, continue sua

vida normal enquanto isso lhe for confortável”32.

E então, começa o trabalho de parto... Mas, afinal, como ele começa? Como saber se estou

em trabalho de parto?

Primeiro, tenha em mente que, se você estiver com dúvida, ainda não chegou a hora.

Quando o trabalho de parto começar mesmo, você terá certeza sobre o que está acontecendo.

O trabalho de parto é basicamente dividido em três fases: fase da dilatação (fase latente e

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fase ativa), fase do expulsivo e fase da dequitação da placenta. Vamos falar sobre elas.

Fase da dilatação

Nessa fase, as contrações efetivas fazem com que o colo do seu útero seja puxado para

cima, fazendo uma força contrária à descida da cabeça do bebê (é como se o colo do útero fosse

uma gola bem apertada que precisa ser vestida na cabeça do bebê) e se abrindo.

Apesar de ser conhecida como fase da dilatação, por esse fenômeno ser o mais conhecido

por todos, não é só a dilatação que precisa acontecer. O trabalho de parto é um processo natural

e complexo, que envolve diversos mecanismos. Para o bebê nascer, o colo, que já está maduro

(amolecido e suavizado) precisa vir para frente (centralizar para formar o canal de parto), afinar

e se abrir (dilatação), e o bebê precisa descer.


A descida do bebê, inclusive, auxilia no processo de dilatação, pois a cabeça dele vai

exercendo pressão sobre o colo e forçando a abertura. Sem contar que os picos de ocitocina

são atingidos na descida do bebê, por meio da estimulação dos receptores desse hormônio que

se encontram na parte baixa da vagina. Normalmente, isso coincide com a fase ativa do trabalho

de parto.

Então, quero dizer que você não deve se apegar tanto à dilatação, pois ela não é o único

fator avaliado para saber se o parto está progredindo. Pode ser que você fique horas com

o mesmo tanto de dilatação, mas, nesse tempo, o colo já tenha mudado bastante, e o bebê,

descido. Isso também é progresso.

Outra coisa que quero que saiba é que essas fases não são bem definidas e variam de

mulher para mulher. Até porque o parto não é só uma questão de fisiologia, mas depende

muito do seu estado emocional, do ambiente e de fatores culturais. Às vezes essas fases podem

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se sobrepor... Enfim, cada uma vai viver essa experiência de uma forma diferente e única. Nas

palavras de Sheila Kitzinger, “não há nenhum toque de trombetas anunciando o desenrolar do

primeiro estágio ou o começo do segundo”.

Ou seja, tudo que você ler daqui para frente é para que conheça os mecanismos do corpo,

mas esteja aberta para vivenciá-los de forma inédita quando chegar a sua hora.

Essa fase de dilatação se subdivide em três estágios: fase latente, fase ativa e fase de

transição.

FASE LATENTE

Segundo o dicionário, latente é aquilo que está oculto, disfarçado, que não se manifesta

exteriormente. O que isso quer dizer no parto?

Esse é o estágio em que seu corpo está começando a movimentar as engrenagens e

tentando achar o encaixe perfeito. As contrações são diferentes das que você vinha sentindo

antes, agora elas têm um ritmo diferente, são um pouco mais dolorosas e duram um pouco

mais. No entanto, está no começo do processo, que é progressivo e, na maioria dos casos, lento.

Esse costuma ser o estágio mais longo do trabalho de parto, podendo durar horas ou dias,

inclusive tudo pode parar e voltar um tempo depois.

É bem comum que essa fase fique mais intensa durante a noite (quando acontecem os

picos de liberação de ocitocina e melatonina) e se amenize com o nascer do dia. O maior desafio

é lidar com o cansaço que isso tudo pode gerar. Por isso a importância de descansar o máximo

possível no fim cda gestação: a ideia é que você possa guardar energia.

Assim como a etimologia da palavra (aquilo que não se manifesta exteriormente), nessa
fase você ainda consegue seguir a vida normal, e as pessoas que não conhecem sobre o parto

possivelmente nem percebam que já tem algo acontecendo. Apesar das dores, que nesse início

tendem a ser mais leves, você se sente bem.

Juliana em trabalho de parto latente

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Você ainda está bem aberta ao mundo exterior (aqui você atingiu o máximo de abertura

emocional e psicológica), por isso essa é também é uma fase frágil.

O que isso significa? Qualquer coisa pode te atrapalhar e atrapalhar o funcionamento do

seu corpo. Não esqueça que a orquestra do parto é comandada por hormônios, e a liberação

de hormônios está diretamente relacionada ao nosso estado emocional (emoções específicas

geram liberação de hormônios específicos). Portanto, proteja-se de lugares e pessoas que

podem te atrapalhar.

Você sabia?
Quatro dos nossos maiores sistemas hormonais estão ativos durante o

trabalho e o parto. Esse produto resulta, durante o trabalho de parto e o

parto, em picos de ocitocina, hormônio do amor; endorfinas, hormônios

do prazer e da transcendência; epinefrina e norepinefrina, hormônios da

excitação; e prolactina, hormônio da maternidade. Esses sistemas são os

mesmos para todos os mamíferos e se originam na estrutura primitiva do

cérebro – o sistema límbico. Para que o parto proceda de forma ótima,

essa parte do cérebro deve ter precedência sobre o neocórtex, ou cérebro

racional. Tal mudança de funcionamento cerebral pode ser ajudada por

uma atmosfera de silêncio e privacidade, com, por exemplo, luz fraca

e pouca conversa, e sem expectativas de racionalidade da mulher em

trabalho de parto. Sob tais condições, a mulher intuitivamente escolherá

os movimentos, sons, respiração e posições que ajudarão a parir seu

bebê da maneira mais fácil. Esse é seu modelo hormonal e genético33 .

O que você pode sentir?

Contrações regulares, com ritmo de intervalo variável (20 em 20 minutos, 8 minutos, 10

minutos, 15 minutos) e duração entre 30 e 40 segundos.

Cólica na parte baixa da barriga (pé da barriga) e dor na lombar.

Perda de secreções (muco e sangue – não se assuste, é um sinal de que seu colo está

dilatando).

Fique atenta: se sair muito sangue (como se fosse uma hemorragia) e se o seu bebê ficar

por muito tempo (mais de 1 hora) sem se movimentar.

<< voltar 52
GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PARTO

Dicas!
– Tome um banho quente e demorado. Esse é um ótimo teste para

saber se é trabalho de parto mesmo ou se ainda são os pródromos. Se

você sair do banho e as contrações continuarem ou até aumentarem

de intensidade, é bem provável que você esteja iniciando o trabalho de

parto.

– Siga a vida normal e não fique chocando o ovo. Quanto mais você

der liberdade para o seu corpo trabalhar sozinho, melhor.

– Descanse, alimente-se bem e hidrate-se. A exigência física do

trabalho de parto é comparada com os níveis energéticos exigidos de

atletas de alta performance. Tenha isso em mente. Essa é uma fase para

você guardar energias.

– Observe como seu corpo reage.

– Respire lenta e profundamente durante as contrações.

– Adote posições verticais.

– Movimente-se.

E assim o trabalho de parto vai evoluindo... As contrações começam a ficar mais intensas,

o intervalo entre elas vai ficando cada vez menor, e a duração delas, cada vez maior. Até chegar

à fase ativa.

A fase latente serve, então, para preparar e fazer os últimos ajustes no colo do útero,

para iniciar a dilatação e para o bebê descer. Agora já está tudo pronto, e só faltam os últimos

centímetros de abertura.

Os últimos estudos nos dizem que essa fase costuma ir até uns 6cm de dilatação, você já

percorreu mais da metade do caminho e está muito perto de conhecer o seu bebê.

Este é seu primeiro parto?

Lembre-se..
É a primeira vez que o seu corpo e o do seu bebê passam por isso, é

natural que eles precisem de um tempo para se preparar e “aquecer os

motores”. O parto é um evento natural e complexo. Confie no seu corpo

e tenha paciência.

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O maior desafio e o maior aprendizado nessa fase se resumem a uma palavra: PACIÊNCIA.

Tente encarar tudo isso como uma preparação intensiva para a maternidade que se

aproxima!

FASE ATIVA

A fase ativa se caracteriza basicamente por contrações efetivas, regulares e ritmadas (em

média três contrações a cada 10 minutos) e pelo final da dilatação. Agora engrenou! Seu bebê

vai nascer em algumas horas.

Ao contrário da fase latente, que era frágil e que podia começar e parar, agora o trabalho

de parto está definitivamente instaurado, você já dilatou boa parte dos 10cm, e a cabeça do

bebê irá ajudar nos centímetros que faltam, ou seja, o bebê já está mais baixo, e a pressão que a

cabeça dele exerce sobre o colo faz com que a dilatação se complete. Nesse momento, também

acontecem os picos de ocitocina, fazendo com que as contrações fiquem mais próximas e mais

duradouras.

Agora você já não está mais tão aberta ao mundo exterior, pelo contrário: nessa fase você

começa um mergulho para dentro de si mesma, do qual emergirá apenas com o seu bebê nos

braços.

É preciso se concentrar nas sensações do seu corpo, que já tomam conta de você, para

lidar melhor com tudo que está acontecendo. As ondas arrebatadoras (contrações) fazem com

que seu cérebro racional se desligue um pouco e dê espaço para o cérebro primitivo (sistema

límbico – parte primitiva do cérebro, comum a todos os mamíferos).

É hora de deixar seu bicho aparecer! Sem medo, é ele que vai te ajudar, são seus instintos.
Confie, você sabe o que fazer. Escute seu corpo, ele te mostra o caminho.

O que você pode sentir nessa fase:

– dores mais fortes na lombar (devido à descida do bebê);

– náusea e vômito;

– vontade de fazer cocô;

– sensação de que está fora do corpo;

– sensibilidade a barulhos e conversas; e

– necessidade de vocalização (pode ajudar muito a lidar com a dor).

Quando perceber esses sinais, com o ritmo constante das contrações (baixe um aplicativo

no seu celular para monitorar: Contraction Timer para Android ou Contrações para IOS), é

interessante se preparar para ir ao hospital, pois a fase ativa do parto exige a monitorização por

um profissional competente (obstetra ou enfermeira obstetra/obstetriz). Mas fique tranquila,

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não precisa sair correndo, desesperada. Quando perceber esse ritmo diferente e as sensações

corporais mais intensas por pelo menos uma hora, aí, sim, pegue suas coisas com calma e vá à

maternidade.

A boa notícia, além de estar próximo do final, é que a dor não aumentará mais!

Você sabia?
“Os seres humanos têm mais propensão para partos difíceis, em

comparação com outros mamíferos e outros primatas. Uma das razões

da dificuldade humana no período do trabalho de parto advém do nosso

grande neocórtex, o cérebro novo, o cérebro do intelecto. Nós humanos

somos chipanzés com grandes neocórtex. Mas por que o grande

neocórtex é uma deficiência durante o processo de parto? Porque

durante o processo de parto, ou de uma experiência sexual, as inibições

vêm do neocórtex.

Se olharmos uma mulher em trabalho de parto do ponto de vista

fisiológico, nós vamos ver que a parte primitiva do cérebro, uma estrutura

arcaica chamada hipotálamo, é a mais ativa. O fluxo de hormônios que

a mulher tem que liberar para o trabalho de parto vem dessa parte

profunda e primitiva do cérebro. Ao mesmo tempo, vamos conseguir

visualizar as inibições vindo do neocórtex. MAS A NATUREZA ACHOU

UMA SOLUÇÃO PARA SUPERAR ESSA DEFICIÊNCIA: DURANTE O PARTO O

NEOCÓRTEX DEVE PARAR DE FUNCIONAR.

O nascimento é um processo primitivo e, durante esse processo,

o neocórtex deve estar desligado. Quando a mulher está em trabalho

de parto sozinha, ela se desconecta do nosso mundo e esquece o que

está acontecendo à sua volta. Seu comportamento pode, inclusive, ser

considerado inaceitável para uma mulher “civilizada”: ela grita, xinga, é

pouco polida, assume diferentes posições. Ela fica em outro planeta. Isso

significa que o neocórtex reduziu sua atividade, o que é ESSENCIAL

na fisiologia do parto. Uma mulher em trabalho de parto precisa, em

primeiro lugar, ser protegida contra qualquer estímulo do neocórtex. Na

prática, isso significa que temos que lembrar quais são os estimulantes

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do neocórtex para evitá-los. Um desses estimulantes é a linguagem,

que é processada no neocórtex. Se utilizarmos a perspectiva fisiológica,

vamos reconhecer que é preciso cautela para usar a linguagem durante

o trabalho de parto e vamos REDESCOBRIR O SILÊNCIO. (...)

O neocórtex também é estimulado pela luz, é muito sensível ao

estímulo visual em geral. É interessante observar como uma mulher em

trabalho de parto que não é guiada, não é observada e não é orientada

por nenhum plano pré-concebido geralmente encontra, por conta

própria, uma posição tal, na qual ela elimina os estímulos visuais. Ela se

acocora, se inclina para frente, deixa os cabelos caírem sobre o rosto e

assim não enxerga nada e pode esquecer o resto do mundo”. (Michel

Odent)34

FASE DE TRANSIÇÃO

A partolândia chegou! Agora você está em outra dimensão, outro tempo. É a hora que

você se despede da mulher que foi e dá espaço para o novo, para a mãe que vai nascer com o

seu bebê, por isso essa também é a hora do desespero. É como se você estivesse à beira de um

abismo e precisasse se jogar no vazio para encontrar seu bebê lá embaixo.

Nesse momento, é comum que você ache que não vai conseguir, que você ache que vai

morrer (de certa forma, vai), que você queira desistir, que você ache tudo isso uma loucura, que

você questione suas escolhas, que você queira acabar logo com o parto, que você peça analgesia

ou mesmo uma cesariana. Tudo isso é bem comum, praticamente todas as mulheres que eu já

vi parindo passaram por isso. E, com base nisso, posso te dizer que essa fase passa e logo chega

o expulsivo.

Michel Odent chama esses medos de “medos fisiológicos”, e até eles tem um papel no

trabalho de parto: aumentar os níveis de adrenalina (hormônio da emergência – liberado em

situações de susto, medo ou frio). A adrenalina será essencial para a próxima fase do parto, o

expulsivo.

Você sabia?
O aumento da adrenalina faz com que suas pupilas se dilatem e que você

sinta muita sede.

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É importante que o seu acompanhante tenha ciência sobre essa fase de transição, para

que possa te apoiar de maneira eficiente e sutil, te lembrar por que você escolheu passar por

isso e te dar a força que você acha que não tem mais! Você está completamente vulnerável,

portanto o apoio emocional é essencial.

Aline na fase de transição

Essa talvez seja a parte mais difícil do parto. Não tem um momento específico para

acontecer, mas, normalmente, acontece no final da dilatação (entre 8 e 10cm) e antecede o início

do expulsivo. A transição pode durar desde alguns segundos até algumas horas. Mas lembre-se:
está muito perto do fim.

“Esse momento é muito delicado (...). Semelhante ao momento do orgasmo, não pode haver

nada que a atrapalhe ou que a distraia, para deixar acontecer os impulsos involuntários que vão

trazer seu filho ao mundo.”35

As contrações são intensas, e o intervalo entre elas é pequeno. A cabeça do bebê já começa

a adentrar o canal da vagina, e isso faz com você sinta uma pressão no reto, bem semelhante

a uma vontade de fazer cocô (pode ser que seja cocô, mas na maioria das vezes é apenas a

sensação – você pode tentar ir ao banheiro para verificar).

As dores podem começar a irradiar para as pernas, e você também começa a sentir muita

pressão na vagina e no períneo. Aí você encara outro desafio: lidar com essa sensação inédita do

volume do bebê entre as suas pernas sem contrair a pelve.

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“Num primeiro momento, a sensação inédita do volume do bebê durante a contração gera

contenção da pelve, que contrai os músculos do períneo (...). Trata-se de uma reação muscular à

emoção gerada pela iminência da saída do bebê, pela dimensão da sensação genital e pelo medo de

uma situação desconhecida.”36

Esse é o momento de entrega total, é o momento de se agarrar ao seu poder feminino,

ao poder do seu corpo. Quanto mais você perceber as sensações do seu corpo e se entregar à

sabedoria dele, melhor. Seu corpo vai te mostrar o caminho.

Instintivamente, você fará movimentos para ajudar o seu bebê nessa passagem, lembre-se

de que esse é um momento difícil para ele também, e que vocês estão juntos. Quanto mais você

relaxa a pelve e joga o seu bumbum para cima (nutação do sacro37), mais fácil para o seu bebê

passar pelos ossos, pois você aumenta o espaço para ele.

É uma fase de sensações fortíssimas e de certa confusão, as contrações do final da dilatação

começam a dar espaço às contrações de expulsão. Mas essa confusão logo acaba quando as

contrações do expulsivo finalmente se estabelecem e vêm os puxos (vontade de fazer força).

Fase do expulsivo

O expulsivo tem início com os puxos (vontade de fazer força). É uma vontade incontrolável

de empurrar que pode, ou não, coincidir com a dilatação total.

Algumas mulheres vão sentir vontade de fazer força antes da dilatação total, e tudo bem.

O importante é respeitar as sensações do seu corpo. Se seu corpo pede para fazer força, faça.

Lembra-se do que falei ali em cima? As fases do trabalho de parto podem se sobrepor,

elas não são tão delimitadas assim, ou seja, às vezes você está com 8 centímetros e já vem a

vontade de fazer força. Provavelmente, a força fará com que você dilate o que falta e seu bebê

nasça. Mas...

Cuidado!
Não é bom que você faça força antes de sentir uma vontade

INCONTROLÁVEL. Pode ser que você sinta vontade de fazer força antes

da dilatação total, mas se for uma vontade que consegue controlar, ainda

não é o momento de fazê-la. Espere a vontade tomar conta do seu corpo

e aí, sim, empurre. Fazer força antes da hora só vai te cansar e não vai

ajudar na dilatação, pelo contrário, pode até prejudicá-la, porque o colo

do seu útero pode ficar inchado.

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Outras mulheres vão atingir a dilatação total e, em seguida, já vão começar a empurrar. E

outras vão dilatar tudo e, só depois de algum tempo, vão sentir a vontade de fazer força. Esse

possível intervalo é conhecido como fase de descanso.

Não esqueça: seu corpo é muito sábio!

A fase de descanso pode

anteceder o expulsivo, nesse

momento as contrações podem

desacelerar um pouco (isso é

normal, não é preciso acelerar

o processo, basta monitorar

o bebê e aguardar), e você

pode sentir-se fraca, como se

fosse desmaiar ou com muito

sono. Tudo isso é normal. Não


Michelle na fase de descanso
se preocupe, você não vai

desmaiar. E se conseguir dormir, faça isso, será importante para repor energias para o expulsivo.

E o que acontece nesse segundo estágio do trabalho de parto?

Seu bebê já está adentrando o canal de parto, chegou a hora de você literalmente expulsar

o seu bebê – não é à toa que o nome é expulsivo –, e para te ajudar nisso, seu corpo te envia um

reflexo de ejeção causado pelos altos níveis de ocitocina. São os famosos puxos, uma vontade

incontrolável – instintiva – de fazer força. Você não consegue não fazer.

As contrações já estão diferentes, se antes elas puxavam as fibras musculares do colo do

seu útero para cima no processo de dilatação, agora as fibras musculares saíram da porção

inferior do útero e se concentraram na parte de cima, a contração vem e empurra o seu bebê

para baixo. Essa vontade de fazer força, não passa de um reflexo natural para ajudar o seu corpo.

Assim você deve encarar o expulsivo, ninguém melhor do que você para saber quando e

de que forma fazer a força, seu corpo te diz. Mas primeiro você precisa saber que isso é possível

e acreditar na sua capacidade, e depois você precisa de concentração e silêncio para conseguir

ouvir o que seu corpo está pedindo. Por isso muitas falas e direcionamentos mais atrapalham

do que ajudam nessa hora.

Eu costumo dizer que o expulsivo é o momento final do parto, aquele momento em que a

mãe que está prestes a nascer precisa ultrapassar o medo, o cansaço, a dor e encontrar dentro

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de si as forças necessárias para colocar seu bebê no mundo.

Só você pode fazer isso. É hora de bater no peito, soltar aquele grito (interna ou

externamente) e fazer o seu parto! Sem segurar nada, agora você precisa soltar tudo, se soltar,

relaxar e soltar o seu bebê.

Miriele no expulsivo

Na fase anterior (dilatação), seu corpo praticamente trabalha sozinho, não tem muito que

você possa fazer para ajudá-lo, apenas se concentrar nos comandos dele e deixar a coisa fluir

com as ondas que tomam conta de você. Essa fase pode ser comparada aos elementos mais

fluidos e etéreos – água e ar –, você sai do corpo, entra em contato com outras ondas cerebrais.

O expulsivo é o momento do parto ativo, é o momento em que você precisa estar presente

no corpo, você toma as rédeas do corpo e conduz seu bebê para fora. Por isso acontece a

liberação de adrenalina em nível ótimo (hormônio da luta ou da fuga – não fuja, é hora de lutar

pelo seu filho), para te ajudar nesse processo de fazer a coisa acontecer. Essa fase pode ser

comparada a elementos de mais força, foco, energia e coragem – terra e fogo –, você precisa

aterrar, jogar a sua força para baixo e não mais para cima!

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Você sabia?
Altos níveis de adrenalina, nesse momento, dificultam a abertura dos

esfíncteres (ânus, uretra, colo do útero e vagina). Imagine que você está

fazendo cocô tranquila na sua casa e, de repente, alguém abre a porta, o

que acontece? Você toma um susto e, instintivamente, contrai o esfíncter.

Todos os processos fisiológicos do corpo (defecar, relação sexual) exigem

privacidade, intimidade. É um momento seu com você mesma. No parto

é a mesma coisa.

Esse é o momento de maior conexão entre você – seu corpo – e seu bebê – o corpo dele.

Vocês estão juntos, você precisa ajudá-lo a nascer e confiar que ele também vai te ajudar.

Mas, afinal, como fazer essa força? Será que eu vou saber?

Como eu já disse, primeiro você precisa confiar que pode e que, no momento, vai saber.

Não é um processo racional, do tipo “Ah, agora estou com 10 cm... Ah, já estou sentindo vontade

de empurrar, vou empurrar... Vou prender a respiração assim e vou fazer força assim lá embaixo”.

Você não pensa tudo isso, ou, pelo menos, não deveria pensar, você simplesmente faz.

Tá bom, Jéssica, mas e se eu não tiver essa conexão toda com o corpo e, na hora, não

conseguir fazer?

Vou te dar algumas dicas sobre a força do expulsivo, você pode praticá-las desde já (exceto

se estiver no primeiro trimestre de gestação). Aproveite a gestação (independente da fase que

você esteja – nunca é tarde) para observar mais, entender e ouvir o seu corpo. Nele estão todas

as respostas e, por isso, elas são originais, inéditas, não há comparação, seu corpo é único.

Geralmente, a primeira força a mulher faz e nem percebe (justamente porque é um

processo instintivo – não racional). A partir da segunda/terceira força, ela fala: "Que vontade de

fazer força". Mas, no fundo, já está fazendo, e esta é a força certa para você.

Os últimos estudos perceberam que, quando a mulher tem puxos espontâneos, ou seja,

faz força sem ser conduzida pelos profissionais, ela abre a glote, faz de três a cinco forças em

uma contração enquanto expira (solta o ar) e prende a respiração apenas por curtos intervalos.

No entanto, é muito comum a prática dos puxos dirigidos, ou seja, os profissionais que

assistem o parto costumam conduzir a força da mulher da seguinte forma: “Quando vier a

contração, encha o pulmão de ar, prenda a respiração, encoste o queixo no peito e faça força

comprida, até acabar o ar.... Força, força, força”.

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Isso também é conhecido como manobra de Valsalva, e sua prática é desestimulada

pela Organização Mundial da Saúde38, uma vez que não traz benefícios para mulher (não há
diferenças na duração do expulsivo ou nas taxas de cesariana, laceração ou episiotomia39), nem

para o bebê. Pode, inclusive, ser prejudicial, aumentando as chances de lacerações perineais

e de disfunção urodinâmica e diminuindo o aporte de oxigênio para o bebê em um momento

crucial para ele.

Todos os estudos, portanto, chegam à mesma conclusão: deve ser feito o que for da

preferência da mulher. Mas como você vai preferir algo que nem sabe que pode fazer?

Então, teste você mesma:

1. coloque uma mão sobre o diafragma (logo abaixo das costelas) e outra na vagina (se

você introduzir o seu dedo na sua vagina é melhor ainda – você pode fazer isso durante

o banho);

2. inspire profundamente (preencha o abdômen, costelas e peito);

3. sinta o movimento que a inspiração causa no seu assoalho pélvico;

4. faça uma expiração forçada (como se o seu ar estivesse empurrando a sua barriga para

baixo, como se você fosse soltar o ar lá pela vagina);

5. sinta o movimento que a expiração forçada causa no seu assoalho pélvico.

Essa é uma simulação de um puxo espontâneo, você inspira antes da contração e faz

força na expiração (glote/garganta aberta – enquanto solta o ar). Quando faz isso, você relaxa

a garganta e o pescoço, o que gera um reflexo de relaxamento na sua pelve, e você consegue

concentrar toda a força lá embaixo.

Agora faça outro teste:

1. coloque uma mão sobre o diafragma (logo abaixo das costelas) e outra na vagina (se

você introduzir o seu dedo na sua vagina é melhor ainda – você pode fazer isso durante

o banho);

2. inspire profundamente (preencha o abdômen, costelas e peito);

3. prenda a respiração e faça força para baixo até acabar o fôlego;

4. perceba o movimento que isso causa no seu assoalho pélvico;

5. agora repita todo o processo, mas coloque uma mão sobre o diafragma e a outra

sobre a garganta;

6. perceba como sua garganta se contrai, e como a força que era para ser direcionada

para baixo também se concentra nessa região.

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Essa é uma simulação de um puxo dirigido (manobra de Valsalva): você inspira antes da

contração, prende a respiração e faz força. Quando faz isso, você contrai seu diafragma, sua

garganta e sua pelve, e a força se divide (pescoço e vagina). Esse modo de fazer força também

funciona, durante o exercício você pode perceber que seu assoalho pélvico se movimenta para

baixo, mas repare como a força parece menos eficiente do que no teste anterior (repita se achar

necessário).

Agora você já conhece as duas formas de fazer força, sendo que a primeira é mais fisiológica,

e a segunda, mais mecânica. As duas vão te ajudar a fazer o seu bebê nascer, descubra qual

funciona melhor para você.

Quando o parto acontece naturalmente e sem muitas intervenções e direcionamentos

nessa fase, você instintivamente vai fazer a força que precisa.

Pode ser que essa não seja a realidade em que você encontre, pode ser que você precise

de alguma intervenção (que pode interferir nesse processo mais natural do corpo), que a equipe

que assistirá o seu parto não respeite o seu puxo espontâneo ou, talvez, que você precise fazer

os puxos dirigidos. Não tem problema. Cada parto é único.

O importante é que você saiba que você é capaz de fazer isso, que você sabe fazer a força

necessária para colocar o seu filho no mundo! O importante é você confiar na sua sabedoria.

E o expulsivo pode durar quanto tempo?

Muita gente pensa que, depois da dilatação total, o bebê nasce rapidamente. Bom, pode

ser que sim, mas na maioria dos casos o expulsivo não é um período tão rápido quanto a gente

imagina.
Não existe um limite de horas definido para a duração segura desse segundo estágio

do trabalho de parto, os últimos estudos40 consideram normal um expulsivo de 3 horas para


primeiro parto com analgesia, 2 horas para primeiro parto sem analgesia, 2 horas para segundo

(ou mais) parto com analgesia e 1 hora para segundo (ou mais) parto sem analgesia.

Ah, Jéssica, então não é possível prosseguir com o parto depois desses limites? É possível,

sim, desde que mãe e bebê estejam bem. No expulsivo, é indicado que o monitoramento fetal

(ausculta dos batimentos cardíacos) seja feito de 15 em 15 minutos.

E a dor?

A dor é um processo subjetivo, ou seja, cada uma vai sentir de uma forma.

O fato é que, fisiologicamente, o expulsivo não é a parte mais dolorida do parto. Isso

mesmo, muita gente imagina que essa é a fase mais difícil, mas a dor mais intensa já passou

(período de transição).

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Porque essa dor é menos intensa agora? Porque antes você só tinha a sensação das

ondas que tomavam conta do seu corpo e causavam dor, agora a contração é diferente, e a dor

também. Agora existe outra sensação que toma conta do seu corpo: a vontade de empurrar. É

como se os puxos tomassem a frente, e a dor ficasse em segundo plano.

Mas, como a dor é subjetiva, muitos fatores podem influenciar nessa sensação, inclusive,

questões emocionais. Se você tem muito medo do expulsivo, provavelmente, quando ele chegar,

você vai se contrair inteira, dificultar o relaxamento e a descida do bebê, e a dor pode ser maior.

Além disso, no final do expulsivo, você vai sentir outra sensação inédita: o círculo de fogo

(uma sensação de queimação e ardência). Isso acontece quando a cabeça do seu bebê já está

saindo, e o períneo está distendido ao máximo. Mas calma, essa sensação é a mais rápida de

todas, depois dela é só a alegria de segurar seu bebê pela primeira vez!

Você sabia?
A descida do bebê não é um processo contínuo, ele vai descendo e

girando ao mesmo tempo. A cada contração ele desce e, quando o útero

relaxa, ele sobe um pouquinho (movimento de vai e vem). Isso é normal

e muito benéfico para você, uma decida suave evita lacerações, porque a

cabeça do seu bebê vai descendo e massageando o seu períneo. E fique

tranquila, ele nunca sobe mais do que desce, é como se ele andasse dois

passos para frente e um para trás.

E as posições?

Todos os estudos recentes concordam em um ponto: evitar a posição supina, ou seja,

deitada de barriga para cima. Essa é a posição menos fisiológica e que dificulta o parto tanto

para a mãe quanto para o bebê.

Prefira sempre posições mais verticalizadas, assim você usa também a força da gravidade

a seu favor e aumenta os diâmetros da pelve, facilitando a passagem para o seu bebê. Escolha o

que for melhor e mais confortável PARA VOCÊ!

Se na maternidade em que você vai ter seu bebê isso não for possível (infelizmente

acontece), faça o que der dentro da sua realidade e tente abstrair as vozes e direcionamentos

externos, agora é você e o seu bebê que vão fazer isso! Confie em você, mesmo quando ninguém

mais o fizer!

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Seu bebê nasceu, aproveite esse primeiro

contato com a sua cria. Agora acabou, né? Ainda

não...

Fase da dequitação

O bebê já nasceu, mas agora a placenta –

aquele órgão que durante quase 10 meses ajudou

o seu bebê a se desenvolver – precisa nascer

também, ou seja, o trabalho de parto ainda não

acabou, e o seu sistema hormonal continua a todo

vapor. Por isso é importante que o ambiente do

parto seja mantido (tranquilidade e silêncio) e que

você tenha o seu bebê nos seus braços (contato

pele a pele).
Ana Keren recebendo sua filha nos braços pela primeira vez

“Quem olha acha que parto natural significa parto domiciliar ou na banheira,

e deixam de perceber o que era importante: a ocitocina é um hormônio tímido. Isto

é algo que precisamos redescobrir em todas as fases do parto, mas particularmente

na fase logo após o nascimento do bebê. Este é o momento quando a mãe tem a

capacidade de liberar os níveis mais altos de ocitocina, mais do que durante o parto,

mais do que durante o orgasmo, mais do que em qualquer outra situação. Esse pico

de ocitocina é vital e necessário para que haja um pós-parto sem sangramento.

Além disso, por ser a ocitocina o hormônio do amor, é importante saber que o maior

pico de sua liberação ocorre imediatamente após o nascimento do bebê. Uma vez

que a ocitocina é um hormônio tímido, é preciso pensar: o que torna possível esse

pico de ocitocina? Hoje esse pico é praticamente impossível de acontecer, porque a

condição para ele ocorrer é o contato pele-a-pele com o bebê, que a mãe pudesse

olhar nos seus olhos, sentir seu cheiro, sem qualquer distração. Mas os cientistas

tornaram isso impossível com as crenças e práticas de separar o bebê da mãe após

o parto. Isso é prejudicial. Da mesma forma, o colostro, que o bebê busca quase

imediatamente após o parto, mas que para achá-lo precisa estar nos braços da

<< voltar 65
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mãe. (...) Estamos, sempre, introduzindo rituais e crenças com o efeito de separar a

mãe do bebê, e temos que redescobrir na ciência que o bebê recém-nascido precisa,

em primeiro lugar, da sua mãe, e a mãe precisa do bebê recém-nascido. Vai levar

tempo redescobrir esta verdade.” (Michel Odent)

A dor acaba assim que o bebê nasce, mas preciso te dizer que, durante a dequitação da

placenta, você ainda pode sentir algumas cólicas (parecidas com as do início do trabalho de

parto). É o seu útero se contraindo para voltar ao tamanho normal e para expelir a placenta.

Colocar o bebê no seu peito nesse momento ajuda muito, porque aumenta a liberação de

ocitocina, que fará com que todo esse processo seja mais rápido e tranquilo.

“A natureza programou esse processo para acontecer de maneira totalmente

automática. Assim que o bebê encosta no seu seio ou suga o mamilo, acontece a

secreção de hormônios que levam a uma contração uterina intensa.” (Janet Balaskas)

A contração uterina faz com que as aberturas nas quais os vasos sanguíneos da placenta

estavam ligados fechem-se (evitando sangramentos excessivos), e assim a placenta vai se

descolando do útero. Você, então, vai sentir uma coisa mole e escorregadia saindo, agora sim o

parto terminou.

Mas ainda restam alguns procedimentos a serem feitos: depois da saída da placenta, o

obstetra ou enfermeira obstetra vai examinar o órgão para ver se não ficou nenhum pedaço
lá dentro (restos da placenta podem gerar sangramentos desnecessários, dores e infecção) e

examinar a sua vagina e períneo para ver se houve alguma laceração que necessitará de sutura.

Em caso afirmativo, os pontos serão feitos com aplicação de uma anestesia local.

A dequitação da placenta pode demorar entre 30 minutos a 1 hora (às vezes até mais). O

ideal é que ela saia espontaneamente (o ambiente influenciará muito nesse momento – lembre-

se de que a ocitocina é um hormônio tímido e precisa de condições ideais para ser liberado),

puxar o cordão para acelerar esse processo pode ser muito perigoso para a mãe.

Lembre-se ainda de que, embora o parto tenha terminado, esse é um momento importante

para você, seu companheiro e seu bebê: é o primeiro encontro de vocês. O bebê estará atento

a tudo, seus sentidos estarão supersensíveis, ele olha, escuta e sente tudo pela primeira vez –

mais um motivo para manter o ambiente calmo e tranquilo. Esse é um momento de vocês, todo

o resto pode esperar!

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E o bebê, como ele fica logo após o nascimento?

Os bebês nascem roxos (na verdade, um tom entre o azulado e o acinzentado) devido

à diferença de oxigenação dentro e fora do útero. Conforme ele vai fazendo a transição da

respiração pelo cordão para a respiração com os próprios pulmões, a cor vai aparecendo, e ele

vai ficando rosinha. Coisa mais linda do mundo!

Eles nascem escorregadios, úmidos e, dependendo da idade gestacional, podem nascer

cobertos de vérnix (quanto mais maduro o bebê, menos vérnix ele terá).

Você sabia?
O vérnix é muito importante para a proteção da pele do seu bebê, por

isso não pode ser removido. O vérnix tem a aparência de um requeijão

mais grudento, é composto por diversas substancias nutritivas que serão

absorvidas pelo corpo do bebê e também o protegem das mudanças de

temperatura. Esse vérnix é absorvido naturalmente horas após o parto.

Lembra-se de que nosso corpo é perfeito? O corpo do seu bebê também,

tudo está ali por um motivo e tem uma função específica.

Ele também pode nascer todo enrugadinho, inchado e com algumas penugens, mas com

o passar dos dias vai ficando macio e menos inchado, e os pelos vão caindo.

Dependendo de como for o parto, ele também pode nascer com a cabeça pontuda. Isso

acontece porque a cabeça do bebê se molda para passar no canal de parto. Fique tranquila, em

poucos dias a cabeça volta ao normal e fica redondinha.

Lembre-se de que essa transição da vida intrauterina para a vida extrauterina é muito

delicada para o bebê, quanto mais tranquila for, melhor para ele. Tudo aqui fora será novo, e os

seus sentidos estarão muito sensíveis, por isso o mais importante nesse momento é que ele

fique perto de você, esse é o único lugar que ele reconhece e onde se sente seguro.

E o pós-parto imediato?

Logo após o parto, você pode se sentir muito cansada, exausta, afinal você acabou de trazer

uma vida ao mundo, isso é uma tarefa e tanto, seu corpo despendeu quantidades enormes de

energia para fazer tudo isso acontecer. Você pode, inclusive, ter quedas de pressão e desmaiar,

isso é bem comum.

Por isso é importante fazer tudo com calma. Mesmo que esteja se sentindo super bem,

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sempre levante-se devagar (primeiro sente-se, fique assim por um tempo e depois se levante) e

com alguém por perto.

Alimente-se bem – alimentos nutritivos e que vão repor suas energias. Quanto mais

naturais, melhor, principalmente proteínas, verduras, frutas. Evite alimentos processados, que

vão te dar a sensação de saciedade, mas não vão te nutrir o suficiente (na maioria dos casos, a

comida do hospital não supre essa necessidade, por isso, se precisar, não deixe de pedir que

alguém leve uma comida de verdade para você).

E descanse o máximo que conseguir!

Você pode sentir cólicas toda vez que o bebê mamar, isso é normal e saudável. Sinal de que

seu útero está se contraindo e voltando ao seu tamanho original. A maior causa de mortalidade

materna é a hemorragia pós-parto, que acontece quando o útero não se contrai o suficiente e

continua sangrando além do normal. Para ajudar nesse processo, você pode fazer massagens

no útero e sempre observar a quantidade do sangramento.

Você vai sangrar por alguns dias ainda – na verdade, isso depende muito de mulher para

mulher. Para algumas, o sangramento vai durar dias, para outras, pode durar semanas. Esse

sangramento, também conhecido como lóquios, é semelhante a uma menstruação com fluxo

intenso. Absorventes pós-parto ou calcinhas descartáveis serão muito úteis para esse momento.

Lembre-se sempre: agora você e seu bebê estão juntos nessa jornada da vida que se inicia.

Tudo é novo para você e para ele, e vocês vão se conhecer e aprender tudo juntos. Seja paciente

e compreensiva com você mesma. Tudo que começamos a fazer é mais difícil no início, mas, com

o tempo, as coisas vão entrando nos eixos.


Nesses primeiros dias após o parto, você ainda não tem leite, apenas colostro, e é

exatamente disso que seu bebê precisa, pois o colostro fará com que seu bebê desenvolva uma

imunidade de ferro!

Para o seu bebê, tudo é uma novidade, inclusive as sensações do próprio corpo, e a única

forma de comunicação dele é através do choro. É natural que ele chore bastante nos primeiros

dias, e ele vai chorar por tudo, não só por fome. Quanto mais vocês ficarem juntos, melhor. A

regra é: colo, colo, colo... Colo nunca é demais, principalmente nesse começo. Seu bebê precisa

de tempo para se acostumar ao mundo aqui fora, no seu colo é onde ele se sentirá seguro e

preparado para, aos poucos, ir descobrindo as coisas.

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RECAPITULANDO...

3.7.2. Dor do parto

Chegamos à tão temida dor do parto! Então, peço que você feche os olhos, inspire

profundamente, observando tudo que vem à sua mente e o que sente em relação à dor do

parto, e expire lentamente, jogando tudo isso para fora. Se necessário, repita esse processo até

sentir-se aberta para receber um novo olhar sobre essa “dor”.

A partir de agora, vou falar sobre as SENSAÇÕES causadas pelo parto, as quais podem ou
não causar dor. As sensações são fisiológicas e muito semelhantes para todas, já a forma como

lidamos com essas sensações será diferente e única para cada mulher.

Não existe a “dor do parto”, existem as sensações do parto, e existe a forma como você irá

lidar com elas.

Dor é aquilo que você sente quando está doente, quando sofre um ferimento, quando

quebra algum osso, e todas essas dores estão associadas a algum tipo de sofrimento ou

desequilíbrio. São sensações geradas por fatores externos, de fora para dentro.

As sensações durante o trabalho de parto são causadas por um movimento rítmico,

saudável e harmônico do seu próprio corpo. São sensações geradas de dentro para fora.

Não estou dizendo que é fácil, com certeza essas sensações (que podem incluir a sensação

de dor) são intensas e desafiadoras, mas elas têm um propósito.

O propósito da dor é te mostrar que o seu corpo não está bem, que o seu corpo está, de

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alguma forma, desequilibrado.

Já o propósito das sensações do parto é trazer vida (dar à luz), é abrir o seu corpo para que

o seu bebê possa nascer, é atuar no seu cérebro desligando o neocórtex (parte responsável pelo

raciocínio) e deixando as funções primitivas atuarem (sistema límbico) – esta última, talvez, seja

a tarefa mais árdua e a que torna o parto dos seres humanos mais difícil do que o dos outros

mamíferos.

Existe propósito mais nobre do que esse? Percebe a diferença?

“A dor – tão desprestigiada nos tempos modernos – é necessária no resguardo.

Para se conectar com as partes muito escondidas de nosso ser, para investigar bem

lá dentro e sair do tempo e do espaço reais. Para entrar em um nível de consciência

intermediário, um pouco fora da realidade. A dor permite que nos desliguemos

do mundo pensante, percamos o controle, esqueçamos a forma, o correto. A dor

é nossa amiga, nos leva pela mão até um mundo sutil, ali onde o bebê reside e

se conecta conosco. Perdemos a noção de tempo e espaço. Para entrar no túnel

da ruptura, é indispensável abandonar mentalmente o mundo concreto. Porque

parir é passar de um estágio a outro. É um rompimento espiritual. E, como todo

rompimento, provoca dor. O parto não é uma enfermidade a ser curada. É uma

passagem para outra dimensão.” (Laura Gutman)

Beleza, Jéssica, entendi a diferença, mas como são essas sensações?


Segundo Sheila Kitzinger41, elas geralmente envolvem uma combinação de sensações,
apertos bem fortes, a abertura dos tecidos e a pressão firme da cabeça do bebê através de

uma passagem que está progressivamente forçada a se alargar. Nos filmes, você vê uma grávida

repentinamente dobrar-se com as mãos cruzadas sobre o topo do abdômen. É o diretor avisando

aos espectadores que o trabalho de parto começou. Isso, porém, nunca acontece na vida real.

Ao contrário, você sente como se estivesse sendo comprimida por poderosos músculosm no

baixo ventre ou na porção mais baixa das costas. Todos os sintomas ocorrem no nível do

quadril. Têm a forma de ondas, crescendo para formar a crista e depois diminuindo e

desaparecendo até a próxima contração. Sempre há um período de pausa entre cada

contração. Conforme elas se tornam mais fortes, longas e frequentes, a sensação de aperto

pode estender-se através de todo o corpo, como se houvesse um círculo de elástico grosso

e largo ao redor da pelve que a segura, aperta e depois solta novamente. Você pode estar

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consciente da expansão durante as contrações e entender porque o topo do útero se alarga e

sobe, contraindo-se para frente em seu abdômen, enquanto o grande músculo aperta sua parte

inferior para abri-la, deixando uma passagem livre para o bebê.

Por que o parto e o relato dessas sensações são tão diferentes de mulher para mulher?

Por que algumas mulheres vivem partos difíceis e dolorosos, enquanto outras praticamente não

sentem dor?

Porque o que muda não é a sensação dolorosa em si, mas a forma como reagimos a

ela, e isso é influenciado por diversos fatores, que acabam tornando a “dor do parto” única e

incomparável.

O que pode influenciar na forma como você vai sentir e lidar com a “dor”?

1. Contexto (fatores externos)

Alguns estudos comprovam que, quando estamos tranquilas e felizes sentimos menos

dor, ou seja, o conforto e harmonia do ambiente externo influenciam diretamente no seu

grau de tolerância à dor.

2. Significado (fatores internos)

O que essa sensação dolorosa significa para você? Mais do que isso, o que todo o contexto

no qual essa sensação dolorosa ocorre significa para você?

Saiba que a “dor do parto” é também um produto da sociedade na qual você foi criada.

Tente não pensar na dor do parto como uma maldição por ser mulher, como algo inevitável a

que você é obrigada a se submeter. A frase “Parirás com dor”, que é tão forte na nossa cultura,

pode ser também limitante e tirar de você a possibilidade de vivenciar essas sensações com
prazer e regozijo.

Rotular essa dor como “a pior dor do mundo” ou compará-la com “não sei quantos ossos

quebrando ao mesmo tempo”, além de irreal, impede que você a sinta de uma maneira única,

da sua maneira.

Afinal, como lidar com a sensação de dor do parto?

Já que a sensação de dor possivelmente causada pelo parto não é só fisiológica, mas sofre

influência de outros fatores, principalmente emocionais e sócio-culturais, pense sobre que tipo

de auxílio você vai desejar para se sentir mais confortável – quem te dará apoio físico e emocional

e quais métodos não farmacológicos e farmacológicos de alívio da dor você tem à sua disposição

– e prepare-se mentalmente para essas sensações.

Durante a gestação, procure limpar sua mente de referencias negativas, para que possa

encarar a dor como sua aliada e trabalhar com ela para trazer o seu filho ao mundo.

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Tentar lutar contra ou domar as sensações do corpo pode aumentar significativamente a

sua sensação de dor, pois te jogará para dentro de um ciclo vicioso de tensão-medo-dor.

Vem a sensação que toma conta de todo o seu corpo, você luta contra ela, gerando tensão,

todos seus músculos ficam tensos, sua respiração muda, sua frequência cardíaca acelera, e

você contrai a pelve, fazendo um movimento totalmente contrário ao de abertura. A dor fica

mais intensa. A contração passa, mas você não consegue relaxar, porque já está com medo da

próxima contração. Ela vem, seu corpo já está tenso, a dor aumenta. E assim você entra nesse

ciclo, que fica cada vez mais forte, até que você se desconecta do seu corpo e não consegue

mais ajudá-lo.

Por isso todos os métodos não farmacológicos de alívio da dor vão girar em torno do seu

relaxamento.

“Reconhecer o medo no corpo e na alma e explicar o sentimento

ajuda a desconstruir no corpo a tensão muscular que cria situações de

dor; reconhecer a sensação de dor e nomear suas características ajuda a

soltar tensões musculares associadas e libertar o medo; perceber as tensões

musculares orienta posições e movimentos que auxiliam no melhor uso do

corpo.” (Eliane Bio)

Você pode conhecer e dominar diversos tipos de técnicas para lidar com a dor, mas nunca

se esqueça de que as suas armas mais poderosas estão dentro de você, porque o corpo que

gera as sensações dolorosas é o mesmo que te dá ferramentas para lidar com elas.

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Métodos não farmacológicos de alivio da dor

AMBIENTE

O ambiente exerce influência direta sobre a sua sensação de dor. Como assim? Durante

o parto, o seu corpo libera hormônios que funcionam como analgésicos naturais. A liberação

desses hormônios, no entanto, é influenciada pelas suas emoções.

Por isso, para lidar melhor com as sensações que vão tomar conta do seu corpo, é essencial

que você tenha privacidade e se sinta segura, protegida, relaxada e livre.

Um ambiente com pouca luz, silencioso e aconchegante pode fazer toda a diferença. Se

você for ter seu bebê em uma maternidade em que isso seja impossível, em que você não tenha

controle sobre esse ambiente, pelo menos tente controlar o que está ao seu alcance. Talvez

levar uma máscara para os olhos, ou mesmo usar uma toalha ou lençol no rosto para diminuir

a luminosidade. Você pode também usar fones de ouvido com uma música que te tranquilize,

para conseguir se distanciar um pouco de um ambiente hostil. Converse sobre isso com a pessoa

que você escolheu para ser seu acompanhante durante o parto, para que ela também possa te

ajudar com isso e te proteger. O chuveiro também pode ser um ótimo lugar de refúgio.

RESPIRAÇÃO

Assim como a contração, a respiração também é uma onda – ela começa, atinge seu

máximo e depois termina. Durante o parto, preste atenção às sensações do seu corpo e à sua

respiração. Uma respiração lenta e profunda te ajudará a se manter focada e relaxada. Aproveite

o final da gestação e a proximidade do parto para testar e treinar essa respiração.


MASSAGEM

Massagens na lombar durante as contrações e no pescoço e ombro fora das contrações

podem te ajudar a se manter relaxada e aliviar a dor nas costas.

Pode ser que você fique intocável durante o parto. Tudo bem, somente na hora para saber

o que vai te ajudar ou não.

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Karine e eu

Marinna e eu

POSIÇÕES

Prefira posições verticais, assim você usa a forca da gravidade a seu favor e não comprime

os ossos do sacro e cóccix. Se você permanecer deitada durante as contrações, sua dor será

muito maior, porque o seu útero precisa fazer mais força para lutar contra a gravidade.

Alternar posições também ajuda a lidar com as sensações do parto, além de contribuir

para o seu progresso.

Caminhe, fique em pé, rebole, mexa o quadril, sente-se, fique de quatro, apoie-se no seu

acompanhante, deite-se sobre uma pilha de travesseiros, fique de joelhos. Vá experimentando

as posições até encontrar alguma que te deixe mais confortável.

ÁGUA QUENTE

A água quente é um poderoso analgésico natural e costuma aliviar muito a sensação de

dor. Use a água como sua última cartada, quando as sensações estiverem muito intensas. Além

de te ajudar no alivio da dor, fará com que você consiga relaxar os músculos. Se for no chuveiro,

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deixe a água bem quentinha caindo sobre as costas; se for em uma banheira ou piscina inflável,

encha o suficiente para ficar com a barriga submersa.

Juliana e eu no chuveiro

APOIO EMOCIONAL

Ter alguém ao seu lado que te apoie e não minimize as suas sensações é muito importante

e pode ser crucial para que você não desista em momentos mais difíceis. O seu acompanhante

deve se preparar para o parto tanto quanto você, pois nós só conseguimos dar apoio a alguém

quando entendemos o que está acontecendo. Se o seu acompanhante estiver com medo e

assustado, dificilmente conseguirá te passar segurança e te dar apoio.

Michele e eu Guilherme e Ana

AFIRMAÇÕES

A cada nova contração, afirme mentalmente ou em voz alta: “Vem, contração, ajude-me a

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trazer meu bebe ao mundo!”, “Que maravilha, uma contração a menos, meu bebe está cada vez

mais próximo!” e “Nossa, essa foi boa!”. Essas simples afirmações fazem com que você evite a

tensão gerada pela dor.

Lembre-se de que a dor do parto é uma espécie de dor funcional, ou seja, é causada pelo

esforço muscular intenso. É uma dor parecida com a sentida pelos atletas de alta performance:

se um atleta pensasse na dor ao invés de pensar na vitória da corrida, ele desistiria.

Métodos farmacológicos de alívio da dor

O método farmacológico mais conhecido é a analgesia de parto.

O parto é uma aventura desconhecida, intensa e desafiante, portanto mantenha a mente

aberta para o que acontecer, não existe certo ou errado, a sua experiencia é única, e somente

você sabe e conhece os seus limites, então não se culpe se por acaso você precisar de uma

analgesia.

A analgesia, quando bem indicada e bem-feita, pode salvar a sua experiência de parto.

Então, se mesmo usando todas as ferramentas que estão ao seu dispor para lidar com as

sensações do parto você chegar num ponto insustentável, em que o trabalho de parto passa a

ser penoso, desprazeroso ou triste, você ainda pode dispor da analgesia. A ideia é que o parto

seja uma experiência plena, com momentos de contentamento e outros de mais dificuldade,

assim como a vida, mas que no final você possa dizer: valeu a pena!

Quando e como utilizar a analgesia farmacológica?


As melhores evidências científicas concordam que ela só deve ser utilizada depois de se

esgotarem todos os outros métodos não farmacológicos e a pedido da mulher.

É claro que, se você estiver com dor e alguém te oferecer algo para acabar com ela, você

aceitará prontamente, mas pode ser que você nem precisasse, por isso a decisão sempre tem

que partir de você.

Preciso te dizer uma coisa sobre analgesia, para que você possa tomar uma decisão

informada: o uso da analgesia está associado a um aumento do uso de fórceps ou vácuo extrator,

aumento do uso de ocitocina e aumento da duração do trabalho de parto.

A analgesia é uma intervenção e altera, portanto, a fisiologia do processo. No entanto, uma

dor sem controle também não é benéfica nem para mãe, nem para o bebê. Por isso é necessário

colocar na balança os prós e contras e tomar a decisão que seja melhor para você.

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3.7.3. Quando ir para o hospital

Beleza, Jéssica, já entendi tudo sobre o trabalho de parto. Mas ainda tenho uma dúvida, em qual

momento devo ir ao hospital?

As evidências científicas mais recentes recomendam que a mulher seja internada somente

quando estiver em trabalho de parto ativo, ou seja, com contrações a cada 3 minutos ou pelo

menos três contrações a cada 10 minutos.

Um dos maiores equívocos das mulheres é ir muito cedo para o hospital, pois o parto é

um processo lento e progressivo. Estar em um ambiente hospitalar muito cedo só irá atrapalhar

a fisiologia natural do seu corpo. Além disso, quando você é internada precocemente, os

profissionais tendem a querer acelerar o trabalho, e aí começam as intervenções, que na maioria

dos casos são desnecessárias e se baseiam apenas na falta de paciência.

No entanto, você precisa se sentir segura onde estiver. Não adianta ficar em casa se estiver

muito preocupada, não conseguindo relaxar, por isso a importância do preparo anterior. Você

só conseguirá ficar tranquila em casa se entender o que está acontecendo com o seu corpo e

souber identificar o que é normal e o que não é.

Lembre-se de que você não precisa sair correndo para o hospital se sua bolsa se romper

fora do trabalho de parto, pois isso pode te prejudicar muito. Dê um tempo para o seu corpo.

Em quais casos você deve avisar seu médico ou ir ao hospital imediatamente?

O líquido da bolsa é transparente, meio turvo, parecido com uma água de coco. Se sua

bolsa se romper e sair muito sangue (como uma hemorragia – você vai fazer xixi e sai tanto
sangue que você não consegue ver o fundo do vaso). Muito sangue é muito sangue mesmo, um

pouco de sangue é normal sair, inclusive é um bom sinal, quer dizer que o seu colo do útero está

dilatando.

Se sua bolsa se romper e você perceber um líquido esverdeado (parecido com uma sopa

de ervilhas), avise seu médico ou vá direto à maternidade fazer uma avaliação.

Se você perceber que seu bebê está sem se movimentar por mais de 1 hora e isso não

melhorar mesmo depois de você se alimentar e se deitar do lado esquerdo. Nesse caso, é bom

avisar o seu médico ou ir ao hospital para fazer uma avaliação

3.8. MITOS

Falar de parto hoje em dia é como falar sobre a novela das 8 ou sobre política, todo mundo

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tem uma opinião e uma história para contar (na maioria das vezes trágica), mas a verdade é

que poucas pessoas realmente conhecem o processo do trabalho de parto e sabem sobre

seus reais riscos e benefícios, inclusive alguns profissionais da área de saúde que baseiam sua

atuação em informações desatualizadas, em um conhecimento que evoluiu apenas técnica e

não fisiologicamente.

Ah, Jéssica, então você quer me dizer que você sabe mais do que um médico obstetra ou do que

uma enfermeira que estudaram anos sobre isso?

Nem pensar, longe de mim achar que sei mais do que alguém, mas uma coisa eu posso

te garantir: a forma como uma pessoa enxerga o parto é tão importante quanto o domínio do

conhecimento técnico.

Hoje temos acesso a uma ciência altamente desenvolvida, a conhecimentos precisos sobre

o funcionamento do nosso corpo, e esses saberes precisam andar de mãos dadas com a técnica.

A técnica precisa estar a serviço do corpo, não o contrário.

Existe uma frase que eu gosto muito e que serve como uma luva para esse tópico: “Quem

acha, não sabe”.

Portanto, quando for buscar informações sobre gestação, parto, amamentação,

maternidade, etc., busque em lugares ou com pessoas que realmente sabem do que estão

falando, o resto não passa de achismo. Além disso, lembre-se sempre de que, quando se fala

em parto e maternidade, estamos falando da vida, e para a vida não existem modelos certos a

serem seguidos, existe apenas aquilo que é melhor para você, dentro da sua realidade, aquilo

que deixa o seu coração em paz. Confie na sua própria sabedoria, na sabedoria do seu próprio
corpo.

Então respire fundo, abra seu coração e sua mente. Nesse tópico, pode ser que você

descubra que coisas que sempre acreditou serem verdades absolutas não o são.

PARTO NORMAL É PERIGOSO

O primeiro e talvez maior mito é sobre o próprio parto normal, como se parir fosse algo de

outro mundo, muito difícil e perigoso, que coloca mãe e bebê em risco desnecessário.

A verdade é que o parto normal ou parto natural, como o próprio nome já diz, é normal, é

natural, e, graças a ele, a espécie humana se perpetuou até aqui. A mudança no modo de nascer

é muito recente, se olharmos para toda a história da humanidade.

Se o parto normal fosse tão perigoso assim, nós nem estaríamos aqui para contar história.

Sabe o que pode realmente ser perigoso? Não o parto em si, mas a assistência dada ao

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parto. Todo o processo de hospitalização e medicalização do parto foi para tornar a assistência

mais segura, no entanto o próprio parto se perdeu no meio do caminho, como se ele fosse o

vilão.

O que eu posso te dizer é que, quanto mais eu trabalho, mais percebo que o perigo está

nos olhos de quem vê, que acaba gerando mais perigo para fugir do perigo ou do seu próprio

medo do perigo. Ao desnaturalizar o parto, nós o tornamos cada vez mais arriscado. Na ânsia de

controlar, nós geramos os riscos. Nós mesmos, não a natureza.

Pare para pensar... Os medos que você tem em relação ao parto dizem respeito ao

processo do parto ou à assistência que você vai receber no momento do parto?

O parto envolve riscos? Claro que sim, o processo de nascer envolve riscos,

independentemente da via de parto – normal ou cirúrgico. Por isso existe a assistência, para

administrar os riscos e agir quando necessário.

Então, o que se sabe hoje – não sou eu que estou dizendo, é a ciência42 43 –, é

que o parto normal é o mais seguro para a mãe e para o bebê: os índices de bebês

prematuros e com dificuldades respiratórias são menores, a recuperação da mulher é

mais rápida e com menos complicações (hemorragia, infecção e dor), e o aleitamento

materno é favorecido.

Você sabia?
O parto natural beneficia a saúde da flora intestinal do bebê, diminui os

riscos de doenças na fase adulta, favorece o desenvolvimento cerebral,

beneficia o desenvolvimento motor e as habilidades sociais44.

Isso para falar apenas dos benefícios físicos. O parto normal, no entanto, traz benefícios

amplamente significativos, duradouros e de longo prazo45, que englobam tanto o aspecto físico

quanto os aspectos emocional, espiritual, social, cultural e individual.

CESÁREA É MELHOR PARA MÃE E PARA O BEBÊ E É INDOLOR

Esse é um mito que decorre do anterior. Se o parto normal é perigoso, e esse bebê precisa

nascer de alguma forma, então temos a cesariana, que é mais segura e indolor. Eis um grande

mito.

A cesariana é uma cirurgia maravilhosa, que salva vidas e que evoluiu muito nas últimas

décadas, tornando-se cada vez rápida e segura, desde que feita quando necessário.

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Isso mesmo: uma cesariana feita sem uma indicação precisa acarreta três vezes mais

risco de mortalidade materna e duas vezes mais risco de mortalidade neonatal do que o parto

normal. Sem contar que a cesariana envolve mais riscos de hemorragia, infecções e complicações

em gestações futuras para a mãe e para o bebê, mais riscos de desconforto respiratório,

prematuridade, necessidade de precisar de UTI e de desenvolver alergias e outros problemas

crônicos no futuro.

Sobre ela ser indolor, no momento da cirurgia realmente não existe dor, mas o pós-parto

não é bem assim. Imagine que a cesariana é a única cirurgia de médio/grande porte em que a

paciente não tem tempo de recuperação e resguardo pós-cirúrgico, muito pelo contrário, ainda

terá que cuidar de outra pessoa totalmente dependente.

Apesar da facilidade com que é feita, a cesariana é uma cirurgia complexa (considerada

de médio a grande porte), que corta sete camadas do seu corpo até chegar no bebê. Não tem

como isso ser indolor.

Mas, Jéssica, em quais casos a cesariana é realmente necessária?

Existem poucos casos em que a cesariana é uma indicação absoluta46 e, ainda assim, a

maioria deles só poderá ser diagnosticada durante o trabalho de parto.

INDICAÇÕES REAIS E ABSOLUTAS:

– prolapso de cordão (quando o cordão umbilical sai antes do bebê) com dilatação não

completa;

– descolamento prematuro da placenta com feto vivo e fora do período expulsivo;

– placenta prévia completa (quando a placenta está tampando o colo do útero);

– apresentação transversa ou córmica (quando o bebê está atravessado na barriga);

– ruptura da vasa praevia;

– herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto;

Você sabia?
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), dar à luz a um bebê

é um ato natural. De acordo com a instituição, se tudo estiver bem com

mãe e com a criança, o parto é um processo fisiológico que requer pouca

intervenção médica. A cesárea, cirurgia de médio porte, é recomendada

em casos de complicações reais para a mulher e para o bebê e necessita,

portanto, de indicação médica. Conforme a OMS, o índice aceitável de

cesarianas fica em torno de 15%47.

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NÃO TIVE DILATAÇÃO

Tecnicamente falando, isso não existe. Não existe a possiblidade de uma mulher não

dilatar, o que existe são corpos diferentes, com tempos e necessidades diferentes. E existe outra

coisa muito importante: dilatação e parto não dependem apenas de fatores fisiológicos.

Sabe aquela história que a gente escuta muitas e muitas vezes: “Fiz cesárea porque eu não

tive dilatação”? Então, não é bem assim. O parto não aconteceu não por falha do corpo feminino,

mas por algum outro fator que interferiu nesse processo.

Na maioria dos casos, o que acontece é que as mulheres não são preparadas

adequadamente no pré-natal para reconhecerem os sinais do corpo e as fases do trabalho

de parto. Isso gera uma insegurança imensa, que acaba fazendo com que elas se dirijam para

a maternidade muito cedo, em uma fase em que ainda não há dilatação mesmo ou em que a

dilatação demora para progredir (pródromos, fase latente).

Outro fator a ser considerado é a falta de paciência dos profissionais, ou seja, não é que

houve falta de dilatação, na verdade houve falta de paciência para esperar o processo natural

do parto.

O CORDÃO UMBILICAL ESTAVA ENROLADO NO PESCOÇO

Esse é um dos mitos mais perpetuados e um dos mais absurdos.

Quando pensamos em um bebê dentro da barriga, temos a tendência de imaginar que

ele respira como a gente, ou seja, utilizando seu sistema respiratório. Mas não é assim que
acontece, o bebê respira pelo cordão umbilical, portanto ter algo enrolado no seu pescoço não

influencia na sua respiração.

Na verdade, o bebê vai se enrolar muitas vezes no cordão, e não só no pescoço, mas

também no pé, nos braços, nas pernas... Enfim, para ele o cordão é um brinquedo.

Então, o cordão enrolado no pescoço não é impedimento para o parto normal, inclusive,

mais de 30% dos bebês vão nascer assim e tudo bem!

NÃO TIVE PASSAGEM/O BEBÊ ERA GRANDE DEMAIS

Esse mito vem da ideia de que a cabeça do bebê seria maior do que a pelve da mãe, por

isso não conseguiria passar pelo canal de parto.

Dessa ideia decorrem diversos mitos, entre eles: “Você é pequena demais”, “Sua bacia é

muito estreita”, “Seu bebê é muito grande”, “Eu não tive passagem”.

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Reparem como sempre o defeito está no corpo feminino, assim muitas de nós carregamos

a culpa por ter um corpo “defeituoso”.

A realidade é que o parto normal é um processo natural, que foi feito para dar certo, e

isso só não vai acontecer em casos excepcionais. O processo aperfeiçoou-se biologicamente ao

longo da nossa evolução para que, mesmo com o seu super desenvolvimento, o nosso neocórtex

(cérebro que pensa, raciocina) fosse desliagado no momento do parto. Nosso corpo se adaptou

a isso.

Agora, você acha que esse corpo, que fez o parto normal ser um processo natural e

fisiológico mesmo com todas as transformações da humanidade, irá gerar e desenvolver um

bebê que não seja capaz de nascer através do corpo da sua mãe? Isso é irreal.

Ah, Jéssica, então não existe desproporção céfalo-pélvica (esse é o nome técnico para quando a

cabeça do bebê é maior do que a pelve da mãe)? Pode acontecer, sim, uma desproporção real, mas

eu quero que você tenha bem claro na sua mente que isso é muito, muito excepcional, é mais

fácil você ganhar na mega sena.

Outra coisa muito importante de se ter em mente é que essa desproporção real só poderá

ser diagnosticada intraparto e após a dilatação completa – no período expulsivo, que é quando

realmente o bebê precisa adentrar e descer pelo canal de parto.

Ou seja, indicações de cesariana fora de trabalho de parto por uma possível desproporção

céfalo-pélvica são absurdas, além de muito prepotentes. Profissional nenhum é Deus ou tem

bola de cristal para saber se o bebê vai ou não passar pela pelve da mãe.

PARTO DEMORADO

“Fiquei tantas horas em trabalho de parto e não evoluiu.” Saiba que não existe um limite de

horas definido para o parto normal ("depois de tantas horas de trabalho de parto não podemos

mais esperar"), aquela ideia de 1 centímetro de dilatação por hora é uma tentativa frustrada de

controlar o que é incontrolável e de estabelecer padrões para algo impossível de ser padronizado.

Cada corpo tem um tempo, cada mulher tem um tempo próprio para parir.

Jéssica, então não existe um limite de espera? Não existe um limite temporal, o único limite

que existe é a vitalidade da mãe e do bebê, enquanto a mãe e o bebê estiverem bem, é possível

seguir com o parto.

É obvio que, se o bebê não está respondendo bem ao trabalho e está dando sinais de

sofrimento, o parto precisa ser acelerado ou interrompido, e saiba que isso não acontece de

uma hora para outra, não existe registro na literatura de um bebê que estava bem e, de repente,

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seu coração parou de bater. O bebê vai dando sinais de como está vivenciando essa experiência.

E o bebê fala com a gente como? Através dos seus batimentos cardíacos, por isso, durante

o trabalho de parto ativo e no expulsivo, é importantíssimo monitorar a frequência cardíaca do

bebê.

A PLACENTA ESTAVA VELHA

A placenta é um órgão que conecta o feto em desenvolvimento à parede uterina, permitindo

a absorção de nutrientes, eliminação de resíduos e trocas gasosas, principalmente de oxigênio,

através do sangue materno.

Conforme a gestação vai avançando e se aproximando do fim, a placenta vai se calcificando,

ou seja, é como se ela fosse uma peneira com vários furinhos por onde passam, após serem

filtrados, os nutrientes para o bebê. Esses furinhos vão se fechando (calcificando). Esse é um

processo natural, que faz parte da preparação do corpo para o parto.

Portanto, o fato da sua placenta estar “velha” – eu prefiro o termo amadurecida – por si só

não é um sinal de risco. Para isso ser um sinal de alerta, outros fatores precisam ser considerados.

O seu bebê estar se desenvolvendo bem e ganhando peso é sinal de que ele está recebendo

os nutrientes necessários, mesmo com o processo de calcificação iniciado.

Quero te dizer uma coisa muito importante: quando a gente fala de gestação e parto,

os riscos não podem ser analisados com base em fatores isolados.

Eu gosto de fazer a seguinte analogia: um acidente de avião nunca acontece por uma

causa específica, por apenas um fator isolado, em todos os casos o que acontece é uma soma

de fatores que acaba gerando o acidente. Na gestação e no parto é a mesma coisa, para ser feito

um diagnóstico de risco e ser indicada uma cesariana fora de trabalho de parto, vários fatores

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precisam ser analisados.

BEBÊ PASSOU DA HORA

“O bebê foi para a UTI, teve sequelas ou faleceu porque passou da hora”. Não, gente, isso

não aconteceu simplesmente porque o bebê passou da hora, essas fatalidades acontecem

por uma assistência falha, não por um defeito no processo de parir. Essas falas se

perpetuam justamente porque a responsabilidade recai toda sobre a mãe, quando na verdade

essa mãe e esse bebê não tiveram a assistência adequada no momento em que precisavam.

A assistência ao parto evoluiu tanto cientifica como tecnicamente para evitar que essas coisas

aconteçam, para que as intervenções sejam feitas quando necessário, por isso são importantes

um pré-natal bem feito e uma monitorização frequente no final da gestação, sobretudo nos

casos de gestações prolongadas. O risco não está em esperar, mas em esperar sem uma

assistência adequada.

Cada um deve se responsabilizar pela sua parte. Você está grávida e precisa se preparar,

entender o que está acontecendo no seu corpo para poder identificar o que são sinais de alerta e

o que são sinais normais e saudáveis. Os profissionais de saúde deveriam auxiliar nesse preparo

e se responsabilizar por dar uma assistência adequada e agir quando necessário.

Quando todos os envolvidos têm clareza e assumem a sua responsabilidade, os riscos são

minimizados drasticamente, por isso um dos pilares do parto humanizado é o compartilhamento

de responsabilidades.

NÃO ENTREI EM TRABALHO DE PARTO

Toda mulher uma hora ou outra vai entrar em trabalho de parto, e medidas em relação a

isso só deveriam ser tomadas a partir das 41 semanas, antes disso, antes disso é preciso apenas

monitorização e paciência.

Então, o primeiro ponto a ser analisado é: até quando esperaram para dizer que não

entrou em trabalho de parto? Cesarianas feitas antes das 40 semanas com base nesse motivo

não se justificam.

Na maioria dos casos, o que acontece não é que a mulher não entrou em trabalho de

parto, mas que fizeram a cirurgia antes disso acontecer.

PARTO NORMAL DEIXA A VAGINA LARGA

Esse é um dos mitos mais toscos que existem. Sabe aquela máxima que diz que quando

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você repete uma coisa inúmeras vezes e por muito tempo ela se torna verdade? Então, foi isso

que aconteceu. De tanto falarem que o parto normal deixa a vagina larga, isso se tornou uma

verdade para a maioria das pessoas. Mas isso não tem fundamento algum.

E nem vou entrar no mérito de esse ser um mito muito disseminado principalmente entre

os homens, como se o nosso corpo estivesse a serviço deles, a serviço do prazer masculino, como

se a nossa vagina fosse um playground. Esse é um mito criado e perpetuado pelo machismo –

apenas reflita sobre isso.

Então, hoje eu quero te dizer que ISSO É MENTIRA! Sua vagina não vai ficar larga, muito pelo

contrário, o que eu mais escuto das mulheres no pós-parto é sobre a dificuldade de retomar as

relações sexuais porque a vagina fica muito apertada, muito tensa, o que faz total sentido, afinal

ela passou por um trabalho muito intenso.

E por que isso é mentira? Porque o nosso assoalho pélvico é como o nosso diafragma

(alguns autores até o chamam dessa forma – diafragma pélvico), ou seja, ele é composto por

músculos grandes e fortes, que têm capacidade de relaxar e contrair, voltando ao normal depois

do parto.

A vivência do parto pode, inclusive, te trazer uma nova percepção corporal, você pode

tomar consciência sobre regiões do corpo que nunca utilizou antes, dentre elas a própria

musculatura do períneo e da vagina. Isso pode tornar a sua experiência sexual muito mais rica.

Se você se preocupa com como será o sexo depois do parto, saiba que o retorno à atividade

sexual pode ser um processo lento e difícil, não porque sua vagina vai ficar larga – longe disso,

mas principalmente porque você será outra mulher, seu corpo estará diferente, tanto físico
quanto emocionalmente.

Seu corpo se reestruturou inteiro para conseguir gerar uma vida, e leva um tempo para que

ele volte a ser um corpo só, autônomo e independente. Durante o puerpério e enquanto durar

a amamentação, seu corpo estará exposto a diversos hormônios, e seu foco, naturalmente, será

cuidar dessa vida que acabou de nascer e que depende totalmente de você. Leva um tempo

para você conseguir sair dessa relação simbiótica intensa e conseguir se abrir para o parceiro e

para a relação sexual. Isso é natural e saudável, é uma defesa do próprio corpo. É o seu corpo

te pedindo paciência.

Tente encarar o retorno da vida sexual não como uma obrigação e um peso, mas como um

processo de redescoberta que, portanto, exige calma e paciência de ambos os lados. Converse

sobre isso com o seu parceiro, e lembrem-se de que sexo é muito mais do que penetração.

Voltar à vida sexual aos poucos, com carícias e preliminares, pode ser muito benéfico. E quando

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for ter relação com penetração, abuse dos óleos vegetais ou lubrificantes, eles podem te ajudar

muito nesse início.

Aproveite que o parto deu vida ao seu corpo e redescubra-o. Para muitas mulheres, a

experiência do parto é a primeira experiência corpórea tão intensa. Nosso corpo é todo erógeno,

isto quer dizer que podemos sentir prazer no corpo inteiro, em qualquer parte dele, não só nos

órgãos genitais.

Aproveite, a vida te deu a oportunidade de se redescobrir! E a vida deu ao seu parceiro a

oportunidade de conhecer uma nova mulher e de descobrir o que dá prazer a essa nova mulher.

Então, menos tabu, menos regras e mais curiosidade!

UMA VEZ CESÁREA, SEMPRE CESÁREA

Esse é um mito muito perpetuado na nossa sociedade e que, aos poucos, vem caindo por

terra. Existe uma ideia fixa, disseminada e completamente errada de que a mulher tem a chance

de parir, mas se perder essa primeira chance da vida, já era, nunca mais! Ela estará para sempre

fadada a não ter mais escolha.

Como assim? Como um outro ser humano se acha no direito de tirar a possibilidade de

escolha de uma mulher e, mais do que isso, tirar a oportunidade desse bebê que está por vir

de ter uma experiência de nascimento em que ele próprio é considerado e é participante ativo?

Portanto, se você teve uma ou mais cesarianas, você pode, sim, ter um parto normal. A

única restrição é o tempo entre um parto e outro: é necessário no mínimo um ano e meio de
intervalo.

O parto normal após cesárea (PNAC ou VBAC – vaginal birth after cesarean) não só é

possível como é menos arriscado se comparado à repetição de cesáreas.

As principais preocupações com a repetição de cesáreas incluem48 :


• Acretismo placentário: Quanto mais cesáreas, maior o risco de desenvolver problemas

com a placenta – como quando a placenta se implanta muito profunda e firmemente à parede

do útero e/ou se infiltra em outros órgãos.

• Placenta prévia: quando a placenta cobre parcial ou completamente a abertura do colo

do útero, podendo levar a hemorragias e até à perda do útero.

• Lesões da bexiga: são mais prováveis com a repetição de cesáreas. O aumento do risco é

provavelmente devido às aderências, que são o tecido cicatricial que se desenvolveu depois da

cesárea anterior, formando uma ligação da bexiga com o útero.

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• Sangramento intenso: uma hemorragia intensa é possível depois de qualquer cesariana.

O risco de sangramento grave é proporcionalmente maior de acordo com o número de

cesáreas anteriores. A necessidade de uma histerectomia – remoção do útero – para controlar o

sangramento, com risco de vida, também aumenta com o número de repetição das cesarianas.

• Enfraquecimento da parede uterina. Cada incisão uterina deixa um ponto fraco na parede

uterina, podendo interferir nas gestações futuras.

Estou te dizendo que é possível, não que será fácil, e a maior dificuldade será encontrar

profissionais que te apoiem nessa escolha. Então, se você deseja vivenciar o parto, a minha dica

para você é que se informe49 , conheça a realidade obstétrica da sua cidade, busque alternativas,
encontre os caminhos e converse com pessoas que estão ou já estiveram na mesma situação

que você.

3.9. INTERVENÇÕES

Intervenções no parto natural? Mas pode? Parto humanizado não é aquele parto totalmente

natural, sem qualquer tipo de intervenção? Não, parto humanizado é muito mais do que isso, e

as vilãs da história não são as intervenções em si, mas a forma como são utilizadas. Isso faz toda

a diferença: uma intervenção bem indicada salva vidas e melhora a sua experiência de parto,

enquanto intervenções feitas por pura rotina, sem uma indicação precisa, aumentam os riscos.

3.9.1. Episiotomia

Episiotomia é um corte feito na região do períneo (músculo entre o ânus e a vagina) para

ampliar o canal de parto. Quando ela começou a ser utilizada na assistência ao parto, acreditava-

se que esse corte (o famoso “pique”) trazia mais benefícios para a mulher do que uma laceração

natural.

A laceração perineal é uma laceração espontânea (natural) da pele ou de outros tecidos da

região do períneo, que pode acontecer durante o nascimento do bebê.

Atualmente, a episiotomia ainda é utilizada como intervenção de rotina na maioria das

maternidades e pela maioria dos obstetras.

No entanto, desde 1996 a Organização Mundial da Saúde não recomenda o uso da

episiotomia de rotina (ver recomendações da OMS – anexos). Essa recomendação foi feita com

base em uma série de estudos (evidências científicas), que concluíram que a episiotomia não

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traz benefícios para a mulher, pelo contrário, traz mais riscos.

Então vamos entender como isso funciona: a episiotomia por si só é equiparada a uma

laceração de segundo grau. Existem quatro tipos (ou graus) de lacerações: a laceração de primeiro

grau atinge apenas a mucosa da vagina e, dependendo do sangramento, nem precisa suturar

(dar pontos); a laceração de segundo grau atinge o músculo da região perineal; as lacerações de

terceiro e quarto graus são consideradas lacerações graves, sendo que a de terceiro grau atinge

a parte muscular do ânus (esfíncter), e a de quarto grau, a mucosa anal.

A esmagadora maioria das mulheres (mais de 90%) terá períneo íntegro ou lacerações de

primeiro e segundo graus. Somente menos de 10% das mulheres terão lacerações graves.

Então, na comparação entre a episiotomia e uma possível laceração de segundo grau

(que podem ser equiparadas, pois ambas atingem a parte muscular do períneo), não foram

encontrados benefícios no uso da episiotomia de rotina.

A laceração natural do corpo irá acontecer exatamente onde o bebê precisa de espaço

para passar, sem contar que existem medidas que podem ser tomadas para diminuir as chances

de laceração (preparação perineal antes do parto, posições específicas e expulsivo espontâneo,

não direcionado).

A laceração é um rasgo de borda irregular, e isso também é maravilhoso, porque é uma

forma que o corpo encontra de desviar dos vasos sanguíneos que possam estar pelo caminho,

por isso a laceração sangra menos, dói menos e a recuperação é muito mais rápida.

Converse com seu médico sobre isso antes do parto, por aí você já vai conseguir ter

uma ideia se ele está atualizado ou não. Se você vai ter seu bebê pelo SUS, faça uma visita
à maternidade e procure saber qual a conduta deles em relação a isso. Como a diminuição

das taxas de episiotomia é uma recomendação da OMS e do Ministério da Saúde, muitas

maternidades já estão se adequando. E não deixe de fazer um plano de parto, onde você poderá

expressar os seus desejos.

3.9.2. Fórceps

Fórceps é um dos maiores medos das mulheres quando pensam no parto normal.

A utilização do fórceps diminuiu muito nos últimos tempos, e, assim como todas as outras

intervenções, não é o fórceps em si que é prejudicial, mas a forma como ele é utilizado.

Antigamente, o fórceps era usado em quase todos os partos e literalmente arrancavam

o bebê de dentro da mãe. Por isso muitas mulheres tiveram experiências traumáticas de parto

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com fórceps, era uma época em que os bebês literalmente nasciam “a ferro”.

Hoje ainda existem profissionais que utilizam o fórceps de maneira errada, mas eles são

a minoria.

Então, existe uma maneira certa de usar o fórceps? Sim, o fórceps pode ser uma intervenção

benéfica, sobretudo nos casos em que o bebê “encaixa errado”, dificultando o período expulsivo

e aumentando os riscos de sofrimento fetal. São casos em que o bebê precisa nascer logo e,

antes de se partir para uma cesariana, pode-se tentar utilizar o fórceps de alívio. Nesses casos,

o obstetra consegue reposicionar a cabeça do bebê para que ele consiga completar a descida e

nascer. Ele não vai puxar o seu bebê de dentro de você (como antigamente), mas apenas auxiliar

no posicionamento, e você continuará o parto normalmente, você fará o seu bebê nascer.

Se for necessário utilizar o fórceps, é bom que você saiba que podem ficar marcas na pele

do bebê, mas elas vão sumir em poucos dias.

Uma boa alternativa ao uso do fórceps é o vácuo extrator (ventosa), uma intervenção

menos invasiva, mas poucos hospitais e profissionais têm acesso a esse aparelho.

Como funciona o vácuo? O obstetra conecta a ventosa na cabeça do bebê dentro da

vagina e, depois, retira o ar com o auxílio de uma bombinha a vácuo. Quando a ventosa estiver

firme, ele pedirá para você fazer força enquanto ele puxa a ventosa para ajudar na descida do

bebê.

Se esse aparelho for utilizado, também pode ser que a cabeça do seu bebê fique com uma

marquinha vermelha, que sumirá depois de alguns dias.

Se você tiver a oportunidade, converse com seu obstetra sobre esses procedimentos.

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3.9.3. Cesariana

A cesariana é a última opção possível de intervenção, por ser a mais invasiva e arriscada.

Quando nada mais puder ser feito, nós temos à nossa disposição o parto cirúrgico.

A cesariana é uma cirurgia maravilhosa, que salva muitas vidas, mas é, infelizmente, utilizada

de maneira indistinta e desnecessária.

Mesmo que não seja o seu desejo, é importante que você conheça e saiba que, em alguns

casos ela será necessária: aproximadamente 15% das mulheres precisarão de uma cesariana.

Não existe essa de parto a qualquer custo, pois o mais importante para todos os envolvidos é

que você e seu bebê estejam bem.

Como ela é feita50?

"A cesariana é uma cirurgia de médio a grande porte. Nela são cortadas sete camadas

de tecido até chegar ao bebê. É usada geralmente uma anestesia raquidiana ou peridural, hoje

em dia raramente é necessária a anestesia geral. Depois que o bebê é retirado (e muita gente

não sabe, mas pode ser preciso usar o fórceps), a placenta também é retirada e depois é feita a

sutura das camadas que foram cortadas.

O que acontecerá comigo se eu precisar de uma cesariana?

Se você precisar de uma cesariana eletiva (com data marcada), você receberá uma carta de

internação para cesariana de seu médico e irá para o hospital que escolheu. Fará a internação e

alguns exames na admissão e será preparada para a cirurgia. Se você precisar de uma cesariana

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durante o trabalho de parto, o médico reservará uma sala no centro cirúrgico e você também

será preparada para a cirurgia. Vamos falar como é o procedimento padrão e, em seguida, o que

podemos fazer para melhorar esse momento.

As enfermeiras virão ao seu quarto e pedirão que você retire toda a sua roupa e coloque a

camisola. Também terá que tirar todas as joias e óculos e colocar uma touca de centro cirúrgico.

Você será deitada em uma maca e levada para porta do centro cirúrgico.

Seu acompanhante terá que entrar por outra porta, para colocar as roupas próprias para

entrar com você: uma calça, uma camiseta (que podem ser colocadas por cima da roupa), touca,

máscara e propés (tipo uma touca de pôr no pé por cima do sapato). Assim que for liberado pelo

médico, ele poderá entrar na sala com você, porém, se parecer que está demorando muito, é

bom que ele peça informação para quem está ali nos corredores. Às vezes há muito movimento,

e o acompanhante pode ficar “esquecido” no corredor. Triste, mas acontece!

Enquanto o acompanhante se prepara, você já estará dentro da sala onde será feita a

cirurgia. Será necessário colocar um acesso para o soro e medicamentos que você tomará

durante e depois da cirurgia. Dependendo do hospital, isso é feito na preparação para a cesariana

no quarto, em outros lugares é dentro do centro cirúrgico.

O anestesista irá explicar a posição que você deve ficar para ele poder aplicar a anestesi:

sentada com a cabeça entre as pernas ou deitada de lado segurando os joelhos, como em uma

posição fetal. Se você estiver em trabalho de parto, pode ser que seja um pouco difícil manter

a posição, mas tenha paciência e avise se estiver sentindo contrações. Ele irá limpar as suas

costas com um desinfetante, aplicar uma anestesia local e, em seguida, inserir o cateter. Não
se preocupe, que o que dói mais é a agulhada da anestesia local. Com o cateter instalado, você

deitará de barriga para cima, ele irá aplicar a medicação e, em questão de minutos, a anestesia

surtirá efeito. Você poderá sentir alguns incômodos, como enjoo e ânsia de vômito. Qualquer

coisa que você sentir, relate para a equipe, eles saberão como te ajudar.

Serão colocados panos sobre você e um pano cobrindo a sua visão. Esses panos são

esterilizados, por isso o acompanhante deve estar ciente de que não deve tocar em nenhum

deles. O acompanhante ficará sentado numa banqueta posicionada logo atrás da cabeceira da

mesa onde você estará deitada.

O médico irá iniciar o procedimento depois de ter certeza que você está sob o efeito da

anestesia. Você pode sentir alguns chacoalhões e alguma pressão. É que não é tão simples tirar

o bebê de dentro da barriga. Pode ser também que empurrem a sua barriga para baixo. Assim

que nascer e o cordão for cortado, o bebê será entregue para o pediatra para ser examinado e

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aspirado. Depois será envolto em panos, mostrado a você e levado para a sala onde será medido,

pesado e ganhará um banho, tudo isso acompanhado pelo pai ou pelo seu acompanhante.

Enquanto isso, o médico fara a sutura de todas as camadas que foram cortadas e o curativo.

Você será passada para uma maca e ficará na sala de recuperação até que sinta novamente as

pernas. Seu acompanhante deverá ficar com você e o bebê nessa sala até serem liberados para

o quarto.

Emocionalmente, você pode experimentar sentimentos de medo, de tristeza por precisar

de uma cesariana e de muita alegria por finalmente conhecer o seu bebê. Tudo isso é normal, e

você não precisa se sentir culpada por nada do que estiver sentindo.

O que podemos fazer para melhorar o momento da cesariana?

Em muitos lugares, a mulher fica com os braços amarrados em posição de cruz. Isso não

é necessário. As luzes podem ser diminuídas. O pano que está tampando sua visão pode ser

baixado, permitindo que você visualize o nascimento do seu bebê. Assim que o bebê nasce, o

corte do cordão pode ser postergado, e se for um cordão longo, o bebê pode ser colocado sobre

seu peito enquanto se espera o cordão parar de pulsar. Pode-se colocar o bebê para mamar ali

nos primeiros minutos de vida. Enquanto o médico tira a placenta e faz os pontos, você pode

ficar com seu bebê por uns momentos, até o pediatra examiná-lo. A aspiração pode não ser

necessária, embora seja feita na maioria dos casos de bebês nascidos por cesariana. Em seguida,

o bebê pode ficar no colo do acompanhante até que você esteja na sala de recuperação. Não

é necessário dar banho, medir, pesar. E a vitamina K e a vacina da hepatite podem ser dadas

até uma hora depois do nascimento, assim como o bebê pode ser pesado e medido depois. O
banho pode ser feito no quarto por vocês, ou pelo menos na sua presença, quando você puder

caminhar.

Como posso me sentir depois de uma cesariana?

Fisicamente, você pode sentir dor no local da cirurgia e ter cólica de gases. Quando você se

levantar, poderá sentir tontura e até enjoo, e dor de cabeça também é algo comum de acontecer.

Por isso você tomará remédios que ficarão prescritos pelo médico. Geralmente, só irão liberar

para você se levantar pelo menos 12 horas depois da cirurgia. Você também ficará em jejum

pelo tempo prescrito pelo médico. No seu primeiro banho, pode ser que você precise de ajuda.

Peça para seu acompanhante ou para uma enfermeira lhe ajudar.

Pode ser mais difícil amamentar deitada, por isso peça ajuda sempre que precisar. Tente

descansar enquanto o bebê dorme, ele deve mamar pelo menos de 3 em 3 horas.

Não é normal você ter muito sangramento, muita dor de cabeça ou febre depois da

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cesariana. Relate qualquer coisa que você achar que não está normal.

Emocionalmente, você pode experimentar um sentimento de frustração por não ter

conseguido ter seu bebê da maneira que imaginou. Saiba que, mesmo nos partos normais,

raramente as coisas saem como imaginamos. Mas este sentimento é totalmente normal, procure

falar sobre isso com quem lhe compreenda.

A maioria das pessoas não vai entender esses sentimentos. Não tente fazê-las entender.

Novamente, fale com quem possa acolher o que você está sentindo."

3.10. PARTO IDEAL E PARTO REAL

Quando nos preparamos para algo, acabamos criando diversas expectativas sobre aquele

momento, sobre como gostaríamos que fosse, pensamos em todos os detalhes e criamos o

cenário perfeito na nossa mente.

Mas, se podemos ter uma certeza em relação ao parto, é a de que as coisas não vão

acontecer da forma como você imagina, porque parto é vida, e, assim como na vida, nós não

temos controle sobre inúmeras variáveis.

Não sabemos se o seu bebê vai nascer com 37 ou com 42 semanas, se você terá um

trabalho de parto espontâneo ou precisará de algum tipo de indução. Não sabemos se sua bolsa

vai se romper antes do parto, ou durante, ou mesmo se vai se romper. Não sabemos se o parto

vai demorar dias, ou se vai ser rápido, se as sensações serão insuportáveis ou prazerosas. Não

sabemos se seu bebê responderá bem ao trabalho de parto ou se você precisará de alguma

intervenção. Não sabemos como vai ser, então só podemos viver.

E sair diferente do que você imaginou não quer dizer que será ruim, apenas que será

diferente. Pode, inclusive, ser muito mais engrandecedor do que sua mente poderia imaginar.

Nossa mente é limitada e nunca conseguirá alcançar todo o mistério da vida. A fé, seja no

que for, pode te ajudar muito durante todo esse processo, afinal o seu corpo é a morada do

divino, do inexplicável, do intangível. Toda mulher grávida carrega o divino dentro de si, carrega

todo o potencial da vida.

Ah, Jéssica, como não criar expectativas? Isso é tão difícil!

Certa vez aprendi com um amigo que a grande questão não é deixar de criar expectativas.

Fazer planos, pensar e desejar nosso futuro é saudável. O problema é a gente se apegar a essa

construção como se ela fosse a única opção possível e tudo fora dela fosse ruim. Deixe a vida te

surpreender e te ensinar o que você precisa aprender.

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Chegamos até aqui e quero que sabia que você está no caminho certo, buscando

informações, preparando-se e controlando aquilo que é controlável. Isso é o melhor que você

pode fazer por você, pelo seu filho, pela sua família e pela humanidade.

Aquilo sobre o qual não há controle, não tente controlar, você só irá se desgastar e deixar

de colocar energia no que realmente importa. Parto é entrega e abertura, entrega para o

desconhecido e abertura para o novo, abertura para a vida.

Se permita viver essa experiência na sua inteireza, como ela tiver que ser, porque essa

é a sua história, e não existe uma história mais bonita do que a outra. A gestação, o parto e a

maternidade são mergulhos profundos dentro de nós e, normalmente, esses momentos da vida

vêm para nos ensinar algo sobre nós mesmas.

O que essa gestação, o que essa nova vida veio te ensinar? Toda experiência nos traz

algum aprendizado. Cada bebê escolhe vir de uma maneira, e nosso papel é nos abrirmos para

o que a vida traz. O que esse segundo coração que bate dentro de você tem para te presentear

e te ensinar?

Ter tudo isso em mente também será muito saudável e te fortalecerá para o próximo

desafio: a maternidade real.

Parabéns, você se tornou mãe, e essa é uma das missões mais difíceis e mais lindas da vida.

Tenha certeza de que você é a melhor mãe que esse bebê poderia ter! E não se esqueça: você

se tornou mãe, não uma super-heroína, você continua sendo um ser humano cheio de medos,

inseguranças e falhas, mas também cheio de coragem, força, humildade, poder e acertos. Não

existe mãe perfeita, existe mãe real.

Milene, parto no SUS

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PARTO

Portanto, tudo que você aprendeu até aqui também vale para a maternidade e para a

vida. Você pode aprender um milhão de coisas, ouvir mil conselhos e receber muita ajuda, mas

a maior sabedoria de todas está dentro de você, no seu coração de mãe. Só você sabe o que é

melhor para você e para o seu bebê. Confie!

Eu confio em você.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PÓS-PARTO

4. Pós-Parto

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Ao contrário do que muita gente pensa, o parto não é o maior desafio, o parto é uma

iniciação, um momento passageiro, enquanto a maternidade é para vida toda, e o começo da

maternidade é um dos momentos mais frágeis e difíceis na vida de uma mulher.

Infelizmente, nossa sociedade não está preparada para apoiar essa mulher que acabou

de se tornar mãe e que agora tem um filhote totalmente dependente para cuidar. O mundo

tem sido muito cruel com as mães, pois, além de ter que dar conta de todas as transformações

na sua vida pessoal, de cuidar e alimentar um bebê dia e noite sem descanso, a mulher ainda

precisa dar conta do mundo que colocam sobre as suas costas. Precisa estar feliz o tempo todo,

fazer tudo “certo” o tempo todo, não pode perder a paciência, precisa estar sempre bonita e

arrumada, não pode se desleixar, não pode engordar demais, precisa se esforçar para voltar ao

corpo de antes, não pode deixar a casa suja ou desordenada, não pode esquecer dos outros

filhos ou do marido, tem que dar atenção especial e igual para todos. E mais um milhão de

tarefas, cobranças e pressões, tudo isso com pouquíssima ou nenhuma ajuda e apoio. Tem que

dar conta de tudo, sozinha e feliz.

Às vezes, nós mesmas criamos ou caímos nessa armadilha e acreditamos poder dar conta

de tudo. Impossível. Você não vai dar conta de tudo. Você NÃO PRECISA dar conta de tudo. Você

precisa de cuidados também, alguém deveria cuidar de você enquanto você cuida de uma outra

vida que acabou de nascer.

Não é você que está errada e precisa fazer mais. Somos nós que erramos, todos os dias,

há séculos.

Nossa, ninguém parou para pensar que nenhum ser humano consegue passar por
isso tudo de forma saudável se não tiver ajuda e apoio? Ninguém parou para pensar que a

maternidade é tão sagrada que toda a sociedade deveria ser responsável por dar condições

mínimas para que essa mulher fizesse essa transição de forma tranquila, podendo se dedicar

exclusivamente a esse momento?

Não, e ao invés disso, ao invés de ajudar, nós conseguimos tornar tudo mais difícil do que

já é: nós insistentemente diminuímos os saberes dessa mãe; pessoas que nunca tiveram filhos

se acham no direito de julgar, torcer o nariz e dizer que fariam diferente; pessoas que já tiveram

filhos esquecem-se de toda a dificuldade que já passaram e se acham no direito de saber mais

do que essa mãe que gerou, gestou, pariu e alimentou. Com isso, nós só enfraquecemos cada

vez mais as mães, que naturalmente, já estão fragilizadas com tantas mudanças e pressões.

É muito fácil culpabilizar as mães, porque elas são as maiores responsáveis pela vida de

outro ser humano, mas é difícil assumir a própria responsabilidade nisso tudo. Se as mães são

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“culpadas” por tudo de ruim que acontece na vida de um filho, nós somos “culpados” por não

consagrar e apoiar essa mulher.

Depois que seu filho nascer, você pode se sentir assim, sozinha, incompreendida e culpada.

Mas saiba que o problema não está em você e que, por mais que pareça, você não está sozinha!

Milhões de mulheres sofrem caladas todos os dias por medo de serem julgadas.

Procure pessoas que te apoiem e entendam o que você está passando, nem que seja

apenas uma. Se não encontrar esse conforto em casa, na sua família, procure fora, procure

grupos de mães, ainda que virtuais.

4.1. QUESTÕES FÍSICAS

O período pós-parto também é conhecido como puerpério e se inicia logo após o

nascimento do bebê e a saída da placenta.

Cada mulher vivenciará o puerpério de forma, intensidade e tempos diferentes.

Fisiologicamente, ele dura em média dois meses e, emocionalmente, pode variar de acordo

com a realidade e a história individual de cada mulher. Assim como no parto, o puerpério é

influenciado por diversos fatores – físicos, emocionais, individuais, culturais, sociais.

Afinal, o que acontece com o seu corpo logo após o parto?

Imagine que seu corpo levou quase 10 meses para gerar um bebê, isso fez com que ele

passasse por modificações profundas e, agora, também levará um tempo até que ele se recupere

e volte ao seu equilíbrio. Seu corpo se abriu por inteiro e precisa se fechar aos poucos. Tenha

paciência com seu corpo, se cuide e vá com calma.

O tempo de resguardo de 40 dias não é só para as relações sexuais: antigamente, as

mulheres ficavam 40 dias em repouso absoluto e, enquanto cuidavam do bebê, alguém cuidava

delas. Sabemos que nossa realidade atual é bem diferente, mas tenha em mente que ir com

calma nesses 40 dias é essencial para a sua recuperação saudável. Peça ajuda e se deixe ser

cuidada.

Imediatamente após o parto, você pode se sentir exausta, esgotada, e isso pode causar

quedas de pressão, por isso, por mais que você se sinta bem e disposta, levante-se devagar e,

nas primeiras horas, tente não fazer esforços sozinha.

Seu útero precisa voltar progressivamente ao seu tamanho original, e as contrações

puerperais vão ajudar nesse processo. Ah, não acredito... Mais contrações? Calma, essas

contrações são leves (parecidas com uma cólica menstrual), costumam ser mais intensas durante

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as mamadas devido a liberação de hormônios e tendem a diminuir com o tempo. E lembre-se:

elas são necessárias e saudáveis.

Após o parto, o colo do seu útero estará edemaciado (inchado) e com pequenas lacerações.

Ele vai se regenerar natural e gradativamente e, por volta do 10º dia, já estará fechado (impérvio).

Sua vagina passará por uma crise para se regenerar, logo nos primeiros dias acontecerão

a descamação e o ressurgimento das pregas e do tônus de suas paredes.

Além disso, você terá um sangramento durante alguns dias. Esse sangramento é conhecido

como lóquios, um corrimento vaginal semelhante a um fluxo menstrual intenso, que vai diminuindo

gradativamente e mudando de cor (vermelho intenso, rosado, amarronzado, amarelado...) até

sumir. Isso também é ótimo e saudável, seu útero está se limpando. A duração varia, sendo em

média de 21 dias, mas pode se prolongar por mais tempo. O importante é observar a redução

gradual da quantidade e a mudança da coloração. Se o sangramento continuar intenso e com

cheiro forte, procure o profissional competente.

Você pode sentir uma ardência no períneo e na vagina, principalmente no primeiro xixi

após o parto. É importante manter a higiene da região íntima, sobretudo se você precisou levar

alguns pontos (seja pela laceração ou pela episiotomia) – lave com água e sabão neutro toda a

vez que for fazer xixi ou cocô, seque bem e evite usar papel higiênico. Esses cuidados básicos

são essenciais para a cicatrização. A região pode ficar dolorida por alguns dias e os pontos

devem cair sozinhos.

Se você teve uma cesariana, também mantenha a cicatriz bem limpa, lavando com sabonete

e secando bem. Os pontos são normalmente retirados dentro de 8 a 10 dias.


O seu sistema urinário também sofreu modificações, e é natural que, logo após o parto,

você sinta que perdeu o controle sobre a sua bexiga. Fique tranquila, isso é transitório e tudo

voltará ao normal em poucos meses. Exercícios de contração e relaxamento durante a micção

podem te ajudar a ter uma recuperação mais rápida.

Da mesma forma, o sistema digestivo vai voltando à normalidade aos poucos, portanto

também é normal demorar uns dias para evacuar. É bem comum ficar com medo de fazer força

para esse primeiro cocô, porque a sensação é de que todos os seus órgãos vão cair. Eles não

vão, é só a sensação mesmo.

Em média de 3 a 5 dias após o parto acontecerá a descida do leite, nesse momento você

pode sentir-se febril. O aumento da temperatura acontece pela apojadura e pela proliferação de

bactérias vaginais. Isso costuma durar em média 48 horas.

O que você pode fazer para ajudar na recuperação do corpo?

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Descanso (por mais ativa que seja, pelo menos nos primeiros dias tente se esquecer de

todo o resto, seu bebê já demandará demais de você), caminhadas leves, alimentação equilibrada,

rica em proteínas e fibras, e muita, muita água.

Saiba que seu corpo jamais será o mesmo, assim como você também jamais será a mesma.

Quando seu filho nasceu, tudo mudou, você se transformou, você é outra mulher, e seu corpo

também é outro. Uma busca desequilibrada pelo retorno do corpo que tinha pode te causar

muita frustração, o caminho é se reconhecer e descobrir esse novo corpo e essa nova mulher.

E isso não acontece apenas após o parto, nosso corpo muda durante toda a nossa vida, faz

parte da condição de ser humano, tentar ser o que era só te desgastará e te privará de vivenciar

suas novas potências.

“Não que eu não seja vaidosa, ou que considere desnecessário o

cuidado com a aparência. Ao contrário, acho fundamental (não só pela

estética, mas também pela saúde). Nós, mamães, precisamos cuidar da nossa

autoestima (o que nem sempre é fácil, quando estamos cuidando também

de um bebê) e isso passa pelo tratamento que damos ao nosso corpo, é

claro. No entanto, acredito que tenhamos todas as condições de amar os

nossos corpos, após a gravidez, antes mesmo de eles estarem do jeito que

desejamos e penso que grande parte dessa aceitação vem do modo como

entendemos e nos apropriamos daquele outro tipo de mudança, as mudanças

definitivas. Portanto, quando digo que o meu corpo jamais será o mesmo,
digo (simplesmente) que não sou a mesma e que, entendendo que não sou

a mesma, fica mais fácil aceitar também um novo corpo. Não há como viver

uma transformação pessoal tão intensa quanto a maternidade e manter a

mesma imagem refletida no espelho. Definitivamente, não há. Não há como

esconder a descoberta do amor verdadeiro, a experiência do milagre da

vida, a entrega que há em abrigar um ser em nosso próprio corpo, a doação

envolvida no ato de cuidar, as olheiras, o cansaço, as preocupações, as noites

mal (e não) dormidas e tantas outras experiências que acompanham uma

mãe durante 24h de todos os seus dias. Não há como esconder nada disso,

porque mesmo que as olheiras passem e que o sono seja recuperado, esse

mergulho (a maternidade) deixa marcas internas, e são essas as marcas que

se refletem no meu rosto, na minha pele, no brilho do olho, na postura, no

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meu corpo todo. São as marcas da relação com o que de mais especial eu

tenho na vida: meu filho. Por que eu iria querer escondê-las? Alguém, em sã

consciência, desejaria esconder o que de mais especial pode haver em si?

Acho que não. Não consigo imaginar uma versão melhor de todo o potencial

feminino do que aquela que se apresenta desde o momento em que nos

tornamos mães.” 51

Não se esqueça: você é maravilhosa!

4.2. QUESTÕES EMOCIONAIS

Tornar-se mãe é também enfrentar uma crise, uma crise de identidade. Sua vida mudou
completamente, seu corpo mudou, você se olha no espelho e não se reconhece mais, não sabe

quem é, muito menos quem será. Isso tudo faz parte desse momento de transição.

Você, de repente se depara com uma parte sua que até então não conhecia: a mãe, porque

por mais que a gente imagine como é ser mãe, só quando estamos nesse lugar é que sabemos

o que ele realmente significa, e é um lugar enorme, para todos os lados, os maravilhosos e os

nem tão bons assim.

Ser mãe é conhecer uma leveza confiante e, ao mesmo tempo, um peso julgador. E, em um

primeiro contato, tudo isso é assustador, mas é também fortalecedor, porque com o tempo vai

ficando mais fácil, você já conhece e domina melhor esse seu novo eu: o eu mãe.

Por um tempo ele toma conta, seu eu mãe é você por completo, no início não sobra muito

tempo ou espaço para ser outra coisa – mulher, profissional, esposa, amiga, filha, etc. Você tem

que simplesmente dar conta da vida de outra pessoa, você tem que dar conta do mundo.

Mas seu bebê vai ficando cada dia mais autônomo e independente, até não ser mais tão

bebê assim. Você se surpreenderá com a velocidade com que ele aprende as coisas, cada dia

é uma coisa nova. Simultaneamente, seus outros “eus” vão tendo mais tempo e espaço, vão

voltando, transformados. O papel de ser mãe é tão especial que tem a capacidade de te trazer

uma nova visão sobre si mesma em todos os aspectos.

Por isso aquele mantra tão famoso da maternidade, “Vai passar, vai passar”, é tão real,

porque cada dia é uma conquista, a maternidade te convida a viver um dia de cada vez. Enquanto

seu bebê se desenvolve, você também se desenvolve, vocês estão juntos, vivenciando uma

jornada desconhecida. Por isso, paciência, principalmente com você mesma.

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Tudo isso tem também explicações fisiológicas, hormonais. A ocitocina, que alcança

seu pico logo após o parto, te preenchendo de contentamento e te levando para o céu, cai

drasticamente depois de alguns dias, em queda livre, te levando de uma vez ao inferno. Isso faz

com que você se sinta triste, melancólica, com medo, sem acreditar na sua própria capacidade.

“Será que eu vou dar conta?”, “Estou enlouquecendo!”, “Eu não vou conseguir cuidar desse

bebê!”, “Estou exausta!”, “Sou uma péssima mãe!”

Mas, quando o dia amanhece, tudo parece melhorar; durante a noite, na escuridão, o

desespero pode vir novamente. Tente se acalmar, relaxar e se lembrar de que, pela manhã, tudo

estará melhor. Essa montanha-russa emocional é natural nos primeiros dias que sucedem ao

nascimento, variando de mulher para a mulher em relação ao tempo de duração e à intensidade,

e tem muito a ver com o quanto de apoio e de julgamento essa mulher recebe.

Esse período de puerpério emocional costuma ser mais forte nos primeiros 30 dias e, com

o tempo, vai amenizando, mas seu corpo ainda sentirá as alterações hormonais enquanto você

estiver amamentando.

Além disso, você se depara com a maternidade real e, ao mesmo tempo que conhece

um amor imenso, vivencia um esgotamento físico e mental inéditos, que às vezes te fazem

simplesmente querer fugir e sumir.

Olhe quantas mudanças e o quão profundas e definitivas elas são. Entende? Se entende?

Isso tudo é normal e tem até um nome: Baby Blues.

Para passar por isso com mais leveza, e para que não se torne algo patológico – como uma

depressão pós-parto –, é importante que você chore quando tiver vontade, mesmo que ache
que não tem motivos para isso (você tem todos os motivos do mundo). É importante que você

tenha pelo menos um lugar ou uma pessoa com quem possa falar sobre isso abertamente, sem

medo de ser julgada, ou pelo menos escrever, pintar, enfim, qualquer forma de colocar para fora

o que sente. É importante que você conheça e respeite seus limites e que aceite e peça ajuda.

Afinal, no meio de tudo isso você cuida do bebê, mas quem cuida de você?

O início da maternidade é muito solitário, é como se a sua vida tivesse parado enquanto a

vida de todas as outras pessoas continuasse a todo vapor. De uma certa forma, a sua vida parou

mesmo, mas parou porque uma outra vida te chamou, você parou para olhar e cuidar da vida.

Você não está simplesmente seguindo, você precisou parar para descobrir como você fará isso

da melhor forma, você parou para aprender a ser a melhor mãe que esse bebê pode ter. Isso é

divino, todas as pessoas no mundo deveriam reverenciar as mães pela doação de uma parte da

sua própria vida em prol da vida de outro ser, em prol da humanidade.

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A nossa sociedade no geral não pensa assim, ou pode até pensar, mas não age de acordo

com isso. A pessoa que perde toda atenção e cuidado no momento em que mais precisa é a

mãe. Todas as atenções são voltadas para o bebê. A maioria das pessoas não se dá conta de que

quem precisa de cuidado é a mãe. Ela precisa de cuidado para poder cuidar.

Isso tudo pode tornar a maternidade um fardo que ela não é, ou não deveria ser, e a

mulher, a mãe, se culpa cada vez mais. Dizem que quando nasce uma mãe, nasce uma culpa

imensa e infinita. Também não era para ser assim, porque a mãe não é culpada – como alguém

que comete um crime ou algo do tipo –, a mãe é responsável por seu filho, mas ela não é a única!

Se todas essas sensações perdurarem por muito tempo e forem muito intensas, se elas

não passarem com o amanhecer do dia ou durarem dias seguidos sem momentos de melhora,

procure ajuda profissional.

Apesar disso tudo ser normal, a parte boa e “romântica” da maternidade é predominante,

e a parte difícil só se torna mais difícil porque as mães não podem falar sobre ela.

O que quero te dizer com tudo isso?

Seja paciente com você mesma, tenha consciência de que você está passando por um

momento de transição e que, como todo momento de transição, é difícil, mas vai passar e te

trará muito aprendizado e muita força.

Viva cada dia de uma vez, porque eles vão voar.

Preserve pelo menos uma prática diária dedicada a você mesma, por menor que possa

parecer, algo que te dê prazer. É importante para você se lembrar de que você está aí o tempo

todo e que, com o tempo, você vai se redescobrir.


E aproveite, porque eu tenho o privilégio de ver muitos primeiros olhares, e a forma como

um filho olha para uma mãe, sobretudo nesses primeiros meses e anos, é algo arrebatador de

se presenciar, de uma verdade e pureza indescritíveis.

4.3. AMAMENTAÇÃO

Já quero começar te dizendo que amamentação não é só uma questão física, vai muito

além disso. Portanto, por mais que a gente seja levada a acreditar que amamentar é instintivo, é

natural e nós já nascemos sabendo fazer isso, a realidade não é bem assim.

A amamentação talvez seja o maior desafio da maternidade, é você doar parte do seu

corpo para outra pessoa por muito tempo e sem pausa ou descanso, em livre demanda. Tem

noção do quão exaustivo, física e emocionalmente, pode ser estar à disposição de alguém para

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suprir a sua livre demanda?

É muita doação, por isso amamentar é uma decisão diária, todos os dias você precisa

reafirmar o seu desejo de continuar alimentando esse bebê, afinal ele depende de você, e esse

é o alimento que ele precisa para sobreviver, o seu leite.

O que torna tudo isso possível? O amor! O amor materno é algo inexplicável e imenso

justamente porque, sem ele, as mães não dariam conta. Ele por si só torna tudo possível. Mas o

que torna a amamentação mais leve, tranquila e prazerosa é a consciência das outras pessoas

sobre a sua importância, para que possam dar suporte e apoio para essa decisão diária. Para

que a mãe não precise se doar por inteiro e ainda ser julgada ou questionada por isso.

Os seus primeiros desafios na amamentação serão a pega e a confiança no seu poder de

nutrir.

O bebê que nasce no tempo certo, quando está pronto e maduro para isso, já nasce com

um forte reflexo de sucção e, alguns minutos após o parto, já começa a buscar o peito. Por isso

essa primeira mamada é tão importante. Fazer uma pega correta no início da amamentação

evita diversos problemas posteriores.

Por outro lado, você ainda não produz leite, mas produz o colostro, que é o leite inicial e

essencial para esses primeiros dias de vida. Na verdade, o colostro é tudo que seu filho precisa,

o estômago dele é minúsculo, do tamanho de uma cereja (imagem abaixo), por isso ele precisa

de pouco, mas várias vezes ao dia. E quanto mais ele mamar, mais ele estimulará a produção do

leite maduro, que costuma levar de 3 a 5 dias.

Se você não tiver isso em mente,

vai ser levada a acreditar que seu leite é

fraco, é aguado, que você não tem leite, e

daí para o desmame precoce é um passo.

Você precisa conhecer e confiar no poder

do seu corpo de nutrir esse bebê.

“O colostro é rico em anticorpos,

proteínas, vitaminas, sais minerais e

lactose. Sua coloração é amarelada e

o volume pode variar entre 3-5 ml por

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mamada, exatamente a capacidade gástrica do recém-nascido nos

primeiros dias de vida.

Esse leite é extremamente importante para a nutrição e imunologia

do recém-nascido, que recebe as defesas apenas do leite materno, já que

seu sistema imunológico estará completo apenas por volta do segundo

ano de vida. Desse modo, a mãe deve oferecer livremente o colostro a

seu bebê e não se preocupar com a quantidade.”52

Depois de alguns dias, seu leite vai descer, é a apojadura. A coloração é diferente, mais

esbranquiçada, e o volume aumenta bastante, podendo inclusive causar ingurgitamento (mamas

ficam cheias e endurecidas) ou mastite (infecção que pode ser causada pelo não esvaziamento

frequente das mamas). Esse leite de transição é mais calórico, rico em gorduras, vitaminas e

lactose.

Após algumas semanas do estabelecimento da amamentação, você começará a produzir

o leite maduro, que é aquele leite ideal para suprir todas as necessidades do seu bebê e que vai

deixa-lo cada dia mais fofo.

A produção de leite também começa a se estabilizar, e seu corpo passa a produzir somente

a quantidade necessária para o seu bebê, por isso é comum você sentir que seu leite diminuiu

algumas semanas depois. Na verdade, a produção é que se adequou.

Afinal, como é essa pega?

Primeiro, posicione-se bem (sentada ou encostada), posicione o seu bebê encostando a

barriga dele na sua barriga e o apoie firme com um dos braços, segure a sua mama com a mão

em formato de C de cabeça para baixo (polegar na parte superior e os outros dedos na parte

inferior), vá passando o mamilo nos lábios do bebê até que ele abra bem a boca e só então

leve-o até a mama. O mamilo e a maior parte da aréola devem estar na boca do bebê, você

quase não vê a aréola (claro que isso varia de acordo com o tamanho da sua aréola).

Para você saber se a pega está correta, observe o seguinte53:

– a bochecha não pode fazer covinhas;

– o bebê não pode fazer barulhos tipo estalos durante a sucção;

– a famosa boca de peixinho, os lábios dele não podem estar voltados para dentro;

– a parte inferior da aréola não pode aparecer;

– o queixo do bebê deve estar encostado na mama;

– quando o bebê engole, você consegue ver o movimento do maxilar até os ouvidos.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PÓS-PARTO

Se você observar que tem alguma coisa errada ou sentir dor, tire a boca do bebê e tente

colocar de novo, faça isso até sentir que está tudo bem.

A amamentação, quando feita a pega correta, não dói. Se você sente qualquer tipo de
dor durante a mamada, procure ajuda de um profissional (bancos de leite ou consultoras de

aleitamento).

E nunca se esqueça de que seu corpo foi capaz de gestar e dar vida a esse bebê, então

também é capaz de alimentá-lo. Seu leite é tudo que seu bebê precisa até os 6 meses, e os últimos

estudos recomendam que a amamentação seja mantida até os dois anos como alimentação

complementar.

Nós sabemos que a realidade é muito diferente, e amamentar por dois anos é um desafio

imenso, por isso conheça e respeite seus limites e vá até onde amamentar seja bom para vocês

dois, afinal, vocês são uma díade.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PÓS-PARTO

Você sabia?
VOCÊ PRODUZ O ALIMENTO MAIS PODEROSO DO MUNDO?54

“Há muito tempo se sabe que o leite materno é específico para a

espécie humana, possui nutrientes e substâncias de proteção ao

organismo como nenhum outro, é o padrão ouro para crescimento

e desenvolvimento dos bebês e é sempre o mais indicado. Além

desses conhecimentos, hoje também se sabe que o leite materno

tem composição dinâmica, de acordo com a extração realizada

pelo bebê.

Essa variabilidade do leite humano, que não está disponível em

nenhum outro leite, é a chave para o crescimento e desenvolvimento

infantil, pois sempre está adaptado às necessidades. Se o bebê

cresce e precisa de maior volume de leite, ele então solicitará mais vezes

ao dia, o que fará o leite aumentar. (...)

Quando é dito que o leite humano é espécie-específico, isso quer dizer

que todos os nutrientes presentes no leite da mãe são exatamente

os que o seu bebê necessita; como mãe e bebê estão sempre

juntos, todas as bactérias, vírus que entram em contato com eles são

transformados em defesa do organismo (anticorpos), que são liberados

no leite materno para a proteção de seu próprio bebê, já que este

ainda não possui imunidade amadurecida. O leite de cada mãe possui

a programação genética para o crescimento e desenvolvimento de seu

filho, de acordo com características familiares, tipo físico, necessidades

nutricionais.”

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PAPEL DO PAI

5. Papel do Pai

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PAPEL DO PAI

Para finalizar, quero falar um pouco com você, pai. Quero te dizer que você está presenciando

um fato inédito na história da humanidade em relação a paternidade: pela primeira vez, os pais

estão sendo convocados a assumir seu papel completo de pai.

Mas, afinal, o que é ser pai?

Refletir sobre isso pode parecer assustador ou sem sentido num primeiro momento. “Para

que eu vou pensar sobre isso? Ser pai é ser pai.” Mas a relação que você vai ter com seu filho,

a forma como ele vai te ver e te reconhecer, depende só de você. E como você quer que ele te

veja? Refletir sobre tudo isso pode ser também muito transformador e libertador.

Até pouco tempo

atrás, ser pai era manter

financeiramente a casa

e a família e dar algumas

ordens quando estava

em casa. Agora vivemos

outro momento, um

momento de reflexão

sobre a paternidade,
Jota, segurando seu filho pela primeira vez
sobre o que de fato é

ser pai. E você tem duas opções: assumir de corpo e alma essa paternidade ou se manter nesse

padrão simplificado de paternidade que já deu o que tinha que dar.

Ser pai é ser co-responsável por outro ser, não só financeiramente, mas em tudo. Tudo

que diz respeito ao seu filho também é responsabilidade sua – desde a gestação até sempre.

Sua mulher e seu filho não precisam da sua ajuda, eles precisam que você assuma a sua

parte, que você assuma a sua responsabilidade nesse projeto de vida.

Eu sei que isso pode parecer mais uma ladainha cheia de cobranças para os pais, mas

não é, as necessidades do processo de tornar-se pai são pouco conhecidas e, portanto, pouco

consideradas.

Tornar-se pai, assim como tornar-se mãe, é um enorme desafio, é um processo de

transição e tensão, os medos, inseguranças e cobranças também existem, apenas em esferas

diferentes.

Na maioria das vezes, esse peso de ter que manter a família acaba sobrecarregando o

homem e sendo uma fuga de lidar com outras transformações, mais profundas. Ser pai também

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PAPEL DO PAI

mexe com a alma e as emoções do homem. Mas eles não foram estimulados a lidar com isso, a

lidar com as próprias emoções.

Então ele se enfia cada vez mais no trabalho, e todo esse processo de gestar e parir parece

muito feminino e abstrato para ele. É uma defesa. Entenda que para ele também é difícil passar

por todas essas mudanças.

Assim, com o passar do tempo, fica cada vez mais difícil dar apoio a alguém, sendo que ele

próprio não se sente seguro.

Como lidar com tudo isso? Não existe uma fórmula.

O relacionamento de vocês vai mudar, e a vinda de um filho pode ser uma oportunidade

para o diálogo e a preparação para os desafios que virão. Se vocês estiverem juntos, se ouvindo

e se apoiando, tudo será mais fácil.

Às vezes, nós cobramos muito que os homens nos escutem, mas será que nós estamos

os escutando também? Eles precisam ser ouvidos, mas, primeiro, eles precisam aprender a se

ouvir, e talvez nós, que somos constantemente atravessadas por emoções, possamos ajuda-los.

Se queremos pais melhores para os nossos filhos, se queremos filhos melhores para o mundo,

precisamos ouvir os homens também.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza PAPEL DO PAI

6. Anexos

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

6.1. PLANO DE PARTO

Na internet você encontra diversos modelos de plano de parto. O modelo abaixo é bem

extenso, para que também sirva de roteiro de estudo, nesse caso você estuda e analisa todas as

opções do modelo e deixa apenas as que dizem respeito ao que você deseja.

MODELO DE PLANO DE PARTO55

CIDADE, DIA de MÊS de 201X.

À Maternidade

NOME DA MATERNIDADE

Rua XXXXXXXX, n. XX – Bairro: XXXXXXX

CIDADE – ESTADO- CEP

Na qualidade de consumidora e usuária deste estabelecimento médico, eu, FULANA DE

TAL, nacionalidade, profissão, com endereço à Rua XXXXXX, n. XXX, Bairro XXXXX, CEP:XXXXX-XX,

CIDADE, ESTADO, venho informar e requerer o que se segue:

A Organização Mundial de Saúde classifica como conduta claramente útil e que deverá

ser encorajada a confecção de um plano de parto individual, determinando onde e por quem o

parto será realizado, feito em conjunto com a grávida durante a gestação, e comunicado a seu

marido/ companheiro e, se aplicável, a sua família.

Na expectativa do nascimento de meu filho nos próximos meses, e planejando ser atendida

nesta instituição hospitalar, venho formalizar a entrega do meu Plano de Parto. Informo, na

oportunidade, que tal documento foi redigido após dedicado estudo das evidências científicas e

reflete com precisão as minhas escolhas para o meu atendimento e o do meu filho.

O Código de Ética Médica estabelece, em seu artigo 31, que é vedado ao médico

“desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente sobre a

execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte”.

No mesmo sentido, o artigo 24 o proíbe de “deixar de garantir ao paciente o exercício do direito

de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade

para limitá-lo”. Isto posto, e levando-se em conta, ainda, a legislação consumerista e civil, não

restam dúvidas sobre o meu direito de decidir sobre as melhores práticas a serem adotadas no

meu atendimento e ao do meu bebê.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

Segue anexo o referido Plano de Parto, que deve ser levado ao conhecimento de toda a

equipe de plantonistas. Coloco-me à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais.

Atenciosamente,

NOME DA AUTORA

Antes do Parto

• Se eu e o bebê estivermos saudáveis, gostaria de ficar aguardando de 10 a 14 dias

após a minha DPP antes de tentar uma indução.

• Se eu e o bebê estivermos saudáveis, não gostaria de ter restrições de tempo sobre

a duração da minha gravidez.

• Gostaria de discutir sobre parto em casa, se for possível.

• Gostaria que meu médico procure saber a minha opinião sobre as questões que

afetam diretamente o nascimento do meu filho antes de desviar-se do meu plano.

• Se após a minha DPP eu precisar fazer algum exame para verificar se está tudo bem,

sou aberta a este procedimento.

• Gostaria de discutir a possibilidade de indução do parto antes da minha DPP.

• Se eu passar da minha DPP e eu e o bebê estivermos bem, prefiro entrar em trabalho

de parto naturalmente que ser induzido.

Exames Vaginais

• Por favor, peça a minha permissão antes de descolar minhas membranas durante um
exame vaginal (toque).

• Prefiro que não sejam feitos exames de toque antes de eu entrar em trabalho de

parto.

• Prefiro ter um exame de toque somente quando estiver próxima a minha DPP.

• Durante um exame de toque, prefiro que não se faça rompimento de membranas, a

não ser em uma situação de emergência.

• Prefiro o mínimo de exames vaginais, ou que sejam feitos ao meu pedido.

• Eu gostaria de não ter nenhum exame de toque até eu começar a sentir os puxos.

Internação

• Gostaria de ficar no hospital independente da minha dilatação ou discussão sobre a

indução.

• Se eu estiver com menos de 6cm de dilatação, gostaria de conversar com meu médico

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

sobre aguardar o trabalho de parto em casa.

Indução

• Se a indução for necessária, gostaria de tentar alternativas naturais primeiro (com a

orientação do meu médico).

Técnicas naturais que gostaria de tentar (verificar se todas se aplicam)

• Estimulação da mama

• Caminhar

• Ervas

• Enema

• Óleo de rícino

• Quiropraxia

• Acupuntura

• Relação sexual

Se a indução médica for necessária, eu prefiro tentar (verificar se todas se

aplicam)

• Descolamento de membranas

• Ocitocina

• Rompimento da bolsa

Se a minha bolsa romper antes de eu entrar em trabalho de parto, gostaria de

• Esperar 6 horas antes de induzir.

• Esperar 12 horas antes de induzir.


• Falar com meu médico sobre tratamentos alternativos, como antibiótico, por exemplo.

Ambiente

• Ao chegar ao hospital, prefiro ter o meu acompanhante em todos os momentos.

• Não quero residentes ou estudantes acompanhando o meu parto.

Quero que as seguintes pessoas estejam presentes no meu parto:

(esposo, doula...)

Não quero as seguintes pessoas presentes no meu parto:

(liste as pessoas que não quer durante seu parto)

Eu prefiro dar à luz em

• Uma sala de parto

• Quarto com banheiro e chuveiro

• Quarto com banheira

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

• Em casa

Se o equipamento estiver disponível, gostaria de usar

• Cama de parto (PPP)

• Bola de pilates

• Cadeira tipo pufe (aqueles grandes que vendem na rua)

• Banheira de parto/piscina/chuveiro

• Banqueta de parto

• Barra de apoio

Outras opções para o ambiente

• Gostaria que as luzes fossem apagadas ou diminuídas.

• Gostaria que as pessoas que entrassem no quarto falassem suavemente.

• Gostaria de ter música tocando no ambiente.

• Gostaria que ninguém conversasse durante a expulsão.

• Gostaria de usar a roupa que o hospital disponibiliza.

• Gostaria de usar minhas próprias roupas.

• Gostaria de ser lembrada de tirar a minha roupa de baixo no momento da expulsão.

• Gostaria de ter uma TV disponível.

• Gostaria de ter um DVD dsiponível.

• Gostaria de ter fones de ouvido durante o trabalho de parto.

• Gostaria de ter o parto fotografado.

• Gostaria de ter o parto filmado.


• Gostaria de usar meus óculos ou lentes de contato. Somente retirá-los se for

extremamente necessário.

Alívio da dor

• Por favor, só ofereçam medicamentos para dor se eu solicitar.

• Por favor, sugiram alguma alternativa para alívio da dor se observarem que estou

muito desconfortável.

• Por favor, discutam alguma alternativa para aliviar a dor o mais rápido possível.

• Após orientação médica para o alívio da dor, gostaria de ter um tempo a sós com meu

parceiro para decidirmos qual técnica de alívio da dor eu vou querer utilizar e se vou querer

utilizar.

Estou preparada para usar estes métodos naturais para o alívio da dor

• Técnicas de respiração

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

• Técnicas de distração

• Hipnoterapia

• Acupressão

• Acupuntura

• Massagem

• Trabalho com imagens (fotos, videos para relaxar)

• Terapia de cor

• Relaxamento

• Aromaterapia

• Água / banheira / chuveiro

Se eu optar por usar drogas, eu gostaria de usar

• Anestesia peridural com possibilidade de caminhar

• Anestesia peridural deitada

Outras considerações

• Inicialmente, gostaria de ter liberdade para caminhar e me mover da maneira que eu

quiser.

• Gostaria de me sentir livre para cantar, grunir, gemer ou gritar durante o trabalho de

parto.

• Por favor, manter sempre a porta fechada durante o trabalho de parto.

Monitoramento

• Quero ter monitoramento contínuo do bebê (cardiotoco aqui não se aplica).


• Quero ter monitoramento intermitente para poder me movimentar com liberdade.

Trabalho de parto ativo/expulsivo

• Enquanto eu e o bebê estivermos saudáveis, prefiro não ter limite de tempo para

começar a empurrar o bebê.

• Se eu ficar muito tempo no expulsivo, sou aberta a intervenções médicas. (ocitocina),

Gostaria de ser encorajada a tentar outras posições durante o expulsivo, a saber:

• Em pé

• Cócoras

• Cócoras sustentada

• Sentada na banqueta de parto

• Semi reclinada

• Posição de joelhos

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

• Quatro apoios

• Lateral deitada

• O que me parecer certo no momento

Enema (lavagem intestinal)

• Gostaria de realizar um enema se sentir que preciso de um.

• Gostaria de realizar um enema logo após a internação.

Episiotomia

• Prefiro que faça uma episiotomia.

• Prefiro que não faça uma episiotomia, a não ser em caso de emergência.

Para evitar laceração por favor

• Aplique compressas quentes.

• Aplique óleo/vaselina.

• Faça massagem perineal.

• Incentive-me a respirar corretamente para que a coroação seja mais lenta.

Outras considerações sobre o expulsivo

• Se possível, permita que os ombros do meu bebê saiam espontaneamente.

• Utilize um anestésico local para reparos se houver laceração.

• Não use estribos, por favor, a não ser em caso de emergência.

O nascimento

• Gostaria de ver meu bebê nascendo usando um espelho.

• Gostaria de tocar na cabeça do meu bebê enquanto ele coroa.


• Gostaria de ser a primeira a pegar o meu bebê e trazer para o meu abdômen/colo.

• Gostaria que meu parceiro pegasse o meu bebê.

• Gostaria que o médico pegasse o meu bebê.

• Por razões espirituais ou religiosas, gostaria que a sala de parto ficasse em silêncio

durante a saída do meu bebê.

• Gostaria que o nosso bebê ouvisse primeiro a minha voz e a do meu parceiro.

• Gostaria que as luzes fossem apagadas, ou se for durante o dia, que se use a luz

natural.

Puxos

• É importante para mim para empurrar instintivamente. Eu não quero que me digam

como ou quando a empurrar.

• Por favor, me digam quando empurrar.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

Depois do nascimento

• Desde que meu bebê esteja saudável, eu gostaria que ele fosse colocado imediatamente

em contato pele a pele sobre o meu abdômen com um cobertor quente sobre ele.

• Por favor, não me separe do meu bebê até que ele seja amamentado com sucesso

em ambos os seios.

• Por favor, adie todos os procedimentos de rotina essenciais no meu bebê (ex: tomar

banho) para que o vínculo e a amamentação seja estabelecida.

Cesariana

• Se a cesariana não for uma emergência, por favor, dê a mim e ao meu parceiro um

tempo a sós para pensar nisso antes de pedir nosso consentimento por escrito.

• Gostaria que meu parceiro estivesse presente em todos os momentos durante a

cesariana.

• Gostaria de permanecer consciente durante o procedimento.

• Gostaria que o bebê fosse mostrado a mim imediatamente após ter nascido.

• Eu gostaria de ter contato com o bebê assim que é possível na sala de cirurgia.

• Eu prefiro ter uma mão livre para tocar o bebê.

• Gostaríamos de fotografar ou filmar a operação da saída do bebê.

• Gostaríamos de filme ou fotografar o bebê somente após o parto.

• Se possível, discutir as opções de anestesia comigo.

• Eu prefiro uma incisão transversa baixa em meu abdômen e no útero.

• Por favor, respeitar a minha vontade de manter silêncio durante a operação (por
exemplo, evitar "conversa" com outros profissionais na sala).

• Gostaria que a iluminação da sala de cirurgia seja a mais escura possível.

Recuperação (verificar todas que se aplicam)

• Se o meu bebê estiver saudável, eu gostaria de segurá-lo e amamentá-lo imediatamente

na recuperação.

• Se o meu bebê estiver saudável, gostaria que o meu parceiro fosse fonte constante

de atenção ao bebê até que eu possa ter vínculo com ele (isto é, exploração, pele-a-pele, etc.).

• Gostaria que o meu bebê seja enviado para o berçário enquanto estou em recuperação.

• Dê atenção especial às nossas necessidades na amamentação durante a recuperação.

Eu posso precisar de alguma ajuda extra sobre amamenteção após a operação.

• Eu gostaria de ter o meu cateter e IV removido o mais rápido possível após o período

de recuperação.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

• Por favor, esclarecer comigo o que eu posso esperar sentir imediatamente após o

procedimento.

• Por favor, discutir minhas opções de medicação pós-operatório para a dor comigo

antes ou imediatamente após o procedimento.

Trabalho de parto terceira fase

• Aguarde o cordão umbilical parar de pulsar antes de ser clampeado.

• Gostaria que o meu parceiro cortasse o cordão umbilical.

• Gostaria que fosse colhido sangue do cordão para o banco de sangue.

Placenta (verificar todas que se aplicam)

• Prefiro que a placenta de nasça espontaneamente, sem a utilização de ocitocina e/ou

de tração controlada sobre o cordão umbilical.

• Eu gostaria que fosse utilizada ocitocina após o nascimento da placenta.

• Eu gostaria de atrasar ocitocina de rotina após o nascimento da placenta, a menos

que existam quaisquer sinais de hemorragia.

• Gostaria de ver a minha placenta.

• Gostaria de ter a opção de levar para a placenta para casa.

Procedimentos com o recém-nascido

• Se o bebê tiver algum problema, gostaria que o meu parceiro estivesse presente com

ele em todos os momentos, se possível.

• Gostaria que os procedimentos de rotina do recém-nascido fossem adiados para o

estabelecimento da amamentação ocorrer o mais rápido possível.


• Gostaria que todos os procedimentos de rotina com o recém-nascido fossem

executados na minha presença.

• Eu gostaria que todos os procedimentos de rotina recém-nascidos fossem executados

de imediato.

A administração de gotas colírio

• Gostaria que o meu bebê tivesse o colírio administrado imediatamente após o

nascimento.

• Eu gostaria de retardar a administração de colírios depois do estabelecimento da

amamentação e do vínculo.

• Não administrar colírio para meu bebê, eu estou disposto a assinar uma renúncia

formal, se for necessário.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

A vitamina K

• Gostaria que o meu bebê a recebesse uma injeção de vitamina K como rotina

imediatamente após o nascimento.

• Gostaria de adiar a administração de vitamina K até 1 hora após o nascimento, após a

amamentação e vínculo, a menos que seja necessário.

• Eu gostaria apenas a administração oral de vitamina K para o meu bebê.

• Não administrar vitamina K para o meu bebê, estou disposto a assinar uma renúncia

formal se for necessário.

Vacinas

• Eu prefiro adiar as doses das vacinas para um momento posterior.

• Imunizar o bebê de acordo com os procedimentos normais.

Bebê banho

• Por favor dar o banho em meu bebê depois de eu ter tido um tempo de vínculo com

ele.

• Não dar banho completo no bebê.

• Nós gostaríamos de dar o nosso bebé o seu primeiro banho usando nossos próprios

produtos.

Alimentação

• Meu bebê deve ser amamentado exclusivamente.

• Meu bebê é para ser alimentado com leite artificial.

• Eu gostaria de combinar amamentação e leite artificial.


• Por favor, quero orientação sobre a questão da diferença entre o leite artificial e o

aleitamento materno.

• Eu gostaria de ter um consultor de lactação o mais rápido possível para outras

recomendações e orientações.

Não oferecer o meu bebê o seguinte sem o meu consentimento (verificar todas

que se aplicam)

• Leite artificial

• Chupeta

• Quaisquer tipos de bicos artificiais

• Água com açúcar

Se a saúde do meu bebê está em perigo, eu gostaria (verificar todas que se aplicam)

• De ser transferida com meu bebê, se possível.

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

• Que meu parceiro vá com o bebê

• De amamentar ou ordenhar o meu leite para o meu bebê

• De ter tanto contato físico com meu bebê quanto possível

• Que seja oferecido um quarto no hospital para eu ficar durante a internação do meu

bebê (dentro do possível)

Eu gostaria que a minha rotina no hospital fosse

• Alojamento conjunto completo de, sem separação, sem exceções, a não ser que o

meu bebê esteja doente

• Atraso no alojamento conjunto até que eu tenha tempo para descansar

• Alojamento conjunto parcial, eu prefiro ter o bebê enviado para o berçário à noite

para que eu possa descansar

• Eu gostaria que meu bebê ficasse no berçário e fosse trazido para mim para se

alimentar

Minha permanência no hospital

• Eu prefiro que a minha estadia hospital possa ser

• A mais curta possível

• Tempo padrão do hospital

Outras preferências do hospital

• Eu prefiro um apartamento

• Eu prefiro ter meu parceiro comigo durante a minha estadia hospitalar

• Eu gostaria que meus outros filhos (independentemente da idade) fossem autorizados


a me visitar

• Eu gostaria que meus convidados fossem autorizados a permanecer o tempo que

quiserem

• Quero privacidade durante a minha estadia quero limitar o tempo para os meus

convidados

6.2. LEI DO ACOMPANHANTE

LEI Nº 11.108, DE 7 DE ABRIL DE 2005.

Altera a Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, para garantir às parturientes o direito à

presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito

<< voltar 121


GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

do Sistema Único de Saúde - SUS.

O VICE–PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no exercício do cargo de PRESIDENTE DA

REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o O Título II "Do Sistema Único de Saúde" da Lei no 8.080, de 19 de setembro de

1990, passa a vigorar acrescido do seguinte Capítulo VII "Do Subsistema de Acompanhamento

durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato", e dos arts. 19-J e 19-L:

"CAPÍTULO VII

DO SUBSISTEMA DE ACOMPANHAMENTO DURANTE O

TRABALHO DE PARTO, PARTO E PÓS-PARTO IMEDIATO

Art. 19-J. Os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde - SUS, da rede própria ou

conveniada, ficam obrigados a permitir a presença, junto à parturiente, de 1 (um) acompanhante

durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.

§ 1o O acompanhante de que trata o caput deste artigo será indicado pela parturiente.

§ 2o As ações destinadas a viabilizar o pleno exercício dos direitos de que trata este artigo

constarão do regulamento da lei, a ser elaborado pelo órgão competente do Poder Executivo.

Art. 19-L. (VETADO)"

Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 7 de abril de 2005; 184o da Independência e 117o da República.

6.3. RECOMENDAÇÕES DA OMS

Boas práticas de atenção ao parto e ao nascimento

Em 1996, a Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolveu uma classificação das

práticas comuns na condução do parto normal, orientando para o que deve e o que não deve

ser feito no processo do parto. Esta classificação foi baseada em evidências científicas concluídas

através de pesquisas feitas no mundo todo.

CATEGORIA A - PRÁTICAS DEMONSTRADAMENTE ÚTEIS E QUE DEVEM SER ESTIMULADAS:

• Plano individual determinando onde e por quem o nascimento será realizado, feito em

conjunto com a mulher durante a gestação e comunicado a seu marido/companheiro

• Avaliação do risco gestacional durante o pré-natal, reavaliado a cada contato com o

sistema de saúde

• Respeito à escolha da mãe sobre o local do parto

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• Fornecimento de assistência obstétrica no nível mais periférico onde o parto for viável e

seguro e onde a mulher se sentir segura e confiante

• Respeito ao direito da mulher à privacidade no local do parto

• Apoio empático pelos prestadores de serviço durante o trabalho de parto e parto

• Respeito à escolha da mulher sobre seus acompanhantes durante o trabalho de parto e

parto

• Fornecimento às mulheres sobre todas as informações e explicações que desejarem

• Oferta de líquidos por via oral durante o trabalho de parto e parto

• Monitoramento fetal por meio de ausculta intermitente

• Monitoramento cuidadoso do progresso do parto, por exemplo, por meio do uso do

partograma da OMS;

• Monitoramento do bem-estar físico e emocional da mulher durante trabalho e parto e ao

término do processo de nascimento;

• Métodos não invasivos e não farmacológicos de alívio da dor, como massagem e técnicas

de relaxamento, durante o trabalho de parto

• Liberdade de posição e movimento durante o trabalho de parto

• Estímulo a posições não supinas durante o trabalho de parto

• Administração profilática de ocitocina no terceiro estágio do parto em mulheres com

risco de hemorragia no pós-parto, ou que correm perigo em consequência da perda de até uma

pequena quantidade de sangue;

• Condições estéreis ao cortar o cordão


• Prevenção da hipotermia do bebê

• Contato cutâneo direto precoce entre mãe e filho e apoio ao início da amamentação na

primeira hora após o parto, segundo as diretrizes da OMS sobre Aleitamento Materno

• Exame rotineiro da placenta e membranas ovulares

CATEGORIA B - PRÁTICAS CLARAMENTE PREJUDICIAIS OU INEFICAZES E QUE DEVEM SER

ELIMINADAS:

• Uso rotineiro de enema

• Uso rotineiro de tricotomia

• Infusão intravenosa de rotina no trabalho de parto

• Cateterização venosa profilática de rotina

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

• Uso rotineiro de posição supina (decúbito dorsal) durante o trabalho de parto

• Exame retal

• Uso de pelvimetria por Raios-X

• Administração de ocitócitos em qualquer momento antes do parto de um modo que não

permite controlar seus efeitos

• Uso de rotina da posição de litotomia com ou sem estribos durante o trabalho de parto

• Esforço de puxo prolongado e dirigido (manobra de Valsalva) durante o segundo estágio

do trabalho de parto

• Massagem e distensão do períneo durante o segundo estágio do trabalho de parto

• Uso de comprimidos orais de ergometrina no terceiro estágio do trabalho de parto, com

o objetivo de evitar ou controlar hemorragias

• Uso rotineiro de ergometrina parenteral no terceiro estágio do trabalho de parto

• Lavagem uterina rotineira após o parto

• Revisão uterina (exploração manual) rotineira após o parto

CATEGORIA C - PRÁTICAS SEM EVIDÊNCIAS SUFICIENTES PARA APOIAR UMA

RECOMENDAÇÃO CLARA E QUE DEVEM SER UTILIZADAS COM CAUTELA ATÉ QUE MAIS

PESQUISAS ESCLAREÇAM A QUESTÃO:

• Métodos não farmacológicos de alívio de dor durante o trabalho parto, como ervas,

imersão em águas e estimulação dos nervos


• Amniotomia precoce de rotina no primeiro estágio do trabalho de parto

• Pressão do fundo durante o trabalho de parto

• Manobras relacionadas à proteção do períneo e ao manejo do pólo cefálico no momento

do parto

• Manipulação ativa do feto no momento do parto

• Uso rotineiro de ocitocina de rotina, tração controlada do cordão, ou sua combinação

durante o 3º estágio do trabalho de parto

• Clampeamento precoce do cordão umbilical

• Estimulação do mamilo para estimular a contratilidade uterina durante o terceiro estágio

do trabalho de parto

CATEGORIA D - PRÁTICAS FREQUENTEMENTE USADAS DE MODO INADEQUADO:

• Restrição hídrica e alimentar durante o trabalho de parto

<< voltar 124


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• Controle da dor por agentes sistêmicos

• Controle da dor por analgesia peridural

• Monitoramento eletrônico fetal

• Uso de máscaras e aventais estéreis durante a assistência ao trabalho de parto

• Exames vaginais repetidos ou frequentes, especialmente por mais de um prestador de

serviço

• Correção da dinâmica com utilização de ocitocina

• Transferência rotineira da parturiente para outra sala no início do segundo estágio do

trabalho de parto

• Cateterização da bexiga

• Estímulo para o puxo quando se diagnostica dilatação cervical completa ou quase

completa, antes que a mulher sinta o puxo involuntário

• Adesão rígida a uma duração estipulada do 2º estágio do trabalho de parto, como por

exemplo, uma hora, se as condições da mãe e do feto forem boas e se houver progressão do

trabalho de parto

• Parto operatório

• Uso liberal e rotineiro de episiotomia

• Exploração manual do útero após o parto

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

Referências
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2. http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/161442/3/WHO_RHR_15.02_por.pdf

3. http://gshow.globo.com/programas/mais-voce/videos/t/programas/v/medico-responde-qual-parto-doi-mais/3647825/

4. JACOB, Matheus. Homem que sente.

5. http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/161442/3/WHO_RHR_15.02_por.pdf

6. MERCER, Marilia. Guia de gestantes.

7. http://alaya77.blogspot.com.br/2014/01/como-calcular-data-provavel-do-parto.html

8. http://brasil.babycenter.com/desenvolvimento-fetal

9. http://www.partodoprincipio.com.br/rede-gapp

10. Tipos de parto: https://www.youtube.com/watch?v=uv1Fr-4TnwI

11. Parto humanizado no SUS atrai gestantes que possuem plano de saúde: https://www.youtube.com/watch?v=miSTIwAyVcg

12. http://www.amigasdoparto.com.br/profissionais.html

13. http://www.comparto.com.br/obstetra/

14. http://www.comparto.com.br/neonatologista-cuidado-desde-o-primeiro-suspiro/

15. http://maternajapao.blogspot.com.br/2011/03/5-perguntinhas-para-saber-se-seu-medico.html

16. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11108.htm

17. http://guiadobebe.uol.com.br/lei-do-acompanhante-do-parto/

18. https://www.amigasdoparto.com.br/oms.html

19. http://www.gimnogravida.pt/Documentos/plano%20de%20parto%20oms_.pdf

20. http://aps.bvs.br/aps/qual-o-periodo-limite-de-uma-gestacao-houve-alguma-alteracao-recente/

21. http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-gravidez-prolongada.html

22. http://files.bvs.br/upload/S/0100-7254/2010/v38n4/a003.pdf

23. http://www.cochrane.org/CD007707/PREG_morning-versus-evening-induction-of-labour-for-improving-outcomes-for-women-and-their-

babies

24. http://files.bvs.br/upload/S/0100-7254/2010/v38n4/a003.pdf

25. http://pt.wikihow.com/Induzir-o-Trabalho-de-Parto-em-Casa

26. http://fisiovida.pt/inducao-do-parto-normal/

27. http://www.cochrane.org/CD001233/PREG_mechanical-methods-for-induction-of-labour

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29. http://www.cochrane.org/CD000941/PREG_vaginal-misoprostol-is-effective-in-inducing-labour-but-more-research-is-needed-on-safety

30. http://www.acog.org/Resources-And-Publications/Committee-Opinions/Committee-on-Obstetric-Practice/Approaches-to-Limit-Intervention-

During-Labor-and-Birth

31. IBID.

32. KITZINGER, Sheila. Gravidez e Parto. São Paulo: Abril, 1984.

33. https://partoalegre.wordpress.com/2012/05/15/parto-extatico-o-modelo-hormonal-naturalmente-previsto-para-o-trabalho/

34. http://www.sentidosdonascer.org/blog/2016/01/a-prioridade-hoje-e-mamiferizar-o-parto-por-michel-odent/

35. BALASKAS, Janet. Parto ativo: guia prático para o parto normal. São Paulo: Ground, 2012.

36. BIO, Eliane. O corpo no trabalho de parto: o resgate do processo natural do nascimento. São Paulo: Summus, 2015.

37. https://www.youtube.com/watch?v=XO0JQtXY2m8

38. Ver Recomendações da OMS nos anexos

39. http://www.cochrane.org/CD009124/PREG_pushing-methods-second-stage-labour

40. http://www.febrasgo.org.br/site/wp-content/uploads/2013/05/Feminav38n11_583-591.pdf

41. KITZINGER, Sheila. Gravidez e Parto. São Paulo: Abril, 1984.

42. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/10006002527.pdf

43. http://www.acog.org/About-ACOG/News-Room/News-Releases/2013/Vaginal-Delivery-Recommended-Over-Maternal-Request-Cesarean

44. https://www.mamanatural.com/natural-childbirth/

45. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1804308/

46. http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html

47. http://www.blog.saude.gov.br/index.php/35088-parto-normal-fortalece-a-saude-do-bebe-e-tem-melhor-recuperacao

48. http://partoaposcesarea.blogspot.com.br/p/riscos-da-cesarea.html

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GUIA DA GESTAÇÃO AO PUERPÉRIO Como viver cada fase com mais leveza ANEXOS

49. http://partoaposcesarea.blogspot.com.br/p/aumentando-as-chances-de-pnac.html

50. MERCER, Marilia. Guia de gestantes.

51. http://vilamamifera.com/maepornatureza/o-corpo-depois-da-gravidez/

52. http://prolactare.com/amamentacao/saiba-o-que-e-colostro-leite-de-transicao-e-leite-maduro

53. http://maepop.com.br/como-fazer-a-pega-correta-para-amamentar/

54. http://prolactare.com/amamentacao/leite-materno-e-alimento-dinamico-entenda-o-que-isso-significa

55. Retirado do Guia de Gestantes escrito por Marília Mercer

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Projeto gráfico e diagramação Intrépido 53

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