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FICHA DE ESCRITA 4

Luís de Camões, Rimas


NOME:   N.O:   TURMA:   DATA:

Leia o texto que se apresenta de seguida, da autoria de António José Saraiva. Construa uma síntese bem estru-
turada do mesmo texto, entre cento e noventa e duzentas e dez palavras.

A lírica
As composições líricas de Camões oscilam entre dois polos: o lirismo confessional, em que o autor dá
expressão à sua experiência íntima, e a poesia de pura arte, em que pretende transpor os sentimentos e os
temas a um plano formal desligado já da emoção.
Neste segundo polo, Camões revela-se um subtil ourives de composições delicadas e gráceis, discre-
5 tamente preciosas, fabricadas com o ouro dos cabelos e do sol, com o verde dos campos e dos olhos, o

resplandecimento dos olhares e das águas, tudo ordenado em antíteses e paradoxos, segundo linhas enre-
dadas mas geométricas.
É nas redondilhas sobretudo que Camões pratica este tipo de poesia, que marca a passagem do esco-
lasticismo do Cancioneiro Geral para o cultismo do barroco. No polo oposto encontramos o lirismo confes-
10 sional de composições como o soneto «O dia em que nasci morra e pereça», ou as canções «Junto de um

seco, duro, estéril monte» e «Vinde cá, meu tão certo secretário». Nestes poemas, em que parece obedecer
a uma necessidade de desabafo, Camões encontra-se muito perto da poesia romântica confessional.
O ponto de partida do lirismo confessional de Camões são os temas petrarquianos do amor, que já
vimos tratados por Bernardim Ribeiro. O amor é uma aspiração que engrandece e apura o espírito do amante
15 e não pode realizar-se sob pena de se extinguir: tem de ser sempre sofrimento e desejo insatisfeito. O gozo

é o próprio tormento e o amor é um jogo de contrastes.


Até aqui, Petrarca e Camões coincidem. Mas Camões excedeu Petrarca pois não deixou de fora da
poesia outros aspetos do amor, inclusivamente o carnal. «Homem feito de carne e de sentidos», notava a
contradição entre a alta aspiração de que fala Petrarca e aquilo que «o corpo deseja de alcançar». As evoca-
20 ções da beleza espiritual alternam com as de uma beleza carnal viçosa e irradiante. Camões tocava assim

num ponto nevrálgico das contradições de uma sociedade em que à sublimação do amor em certo nível
social correspondia a degradação da mulher noutro nível.
Por outro lado, ao passo que Petrarca parece perfeitamente conformado com a ordem de valores
feudal, Camões mostra-se extremamente sensível à contradição entre o mérito pessoal, os valores «espiri-
25 tuais» e a situação real do indivíduo na sociedade.

No sentimento desta contradição, Camões vai muito além dos problemas do amor. Meditando sobre
o seu próprio destino, verificava como os prémios, castigos e condições estão mal repartidos e não obede-
cem a qualquer norma racional. A riqueza e o mando pertencem não aos mais sábios e virtuosos, mas aos
que roubam, assassinam e possuem a mulher do próximo. O que é na realidade a hierarquia social? Um
30 «regimento confuso», resultante de «um antigo abuso», que dá o mando àqueles que o utilizam para prati-

car injustiças. Que são os reis? Sua ambição «é fartar esta sede cobiçosa / de dominar e mandar tudo com
fama larga e pompa sumptuosa». Mas o vulgo não vale mais; em vez de se guiar pela razão, guia-se «por
uma opinião e usança antiga». Persuadindo-se de que o mundo está ordenado de maneira a favorecer os
maus, diz Camões que resolveu fazer-se mau como os outros. Mas nem esta lei geral se mostrou verdadeira,
35 porque foi castigado.

A esta contradição objetiva junta-se uma outra, que consiste em o homem aspirar a uma felicidade
que nunca é realizável.
É, portanto, inútil tentar encontrar no mundo uma ordenação racional. Ele é, por natureza, absurdo.
E resumindo o espírito do Elogio da Loucura, de Erasmo, Camões repete a história de um certo Trasilau, que,
40 tendo enlouquecido, passou a viver feliz, imaginando que lhe pertenciam as naus que via entrar no porto;

quando os médicos o restituíram à razão, lamentou-se por o terem tirado «da mais quieta vida e livre em
tudo / que nunca pode ter nenhum sisudo».
António José Saraiva, História da Literatura Portuguesa (das origens a 1970), Amadora, Livraria Bertrand, 1979 (com adaptações).

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