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Isaura Monica Souza Zanardini
Paulino José Orso
(Organizadores)

ESTADO, EDUCAÇÃO
E SOCIEDADE CAPITALISTA

Coleção Sociedade, Estado e Educação
Programa de Pós-Graduação em Educação
Mestrado em Educação - PPGE
Pró-Reitoria de Pesquisa Pós-Graduação em Educação
Universidade Estadual do Oeste do Paraná

EDUNIOESTE
CASCAVEL - PR
2008

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

© 2008, dos autores

Capa:
Ana Paula Silva

Diagramação e Arte Final da Capa:
Antonio da Silva Junior

Catalogação:
Marilene de Fátima Donadel - CRB 9/924
Unioeste - Programa de Pós-Graduação em Educação
http://www.unioeste.br/pos/educacao/

Estado, Educação e Sociedade Capitalista / organização de
Isaura Monica Souza Zanardini, Paulino José Orso. —
Cascavel : Edunioeste, 2008.
249 p. — (Coleção Sociedade, Estado e Educação ; n. 2)

Vários autores

ISBN: 978-85-7644-176-2

1. Educação - Estudo e ensino (Pós-graduação) - Brasil 2.
Pesquisa educacional 3. Educação e Estado - Brasil 4. Ensino
superior - Aspecto político - Brasil 5. Reforma do Estado 6.
Política e educação - Brasil I. Zanardini, Isaura Monica Souza,
Org. II. Orso, Paulino José, Org.

CDD 20. ed. 379.81
378.81
370.78

Impressão e Acabamento
Editora e Gráfica Universitária - Edunioeste
Rua Universitária, 1619 - E-mail: editora@unioeste.br
Fone (45) 3220-3085 - Fax (45) 3324-4590
CEP 85819-110 - Cascavel-PR - Caixa Postal 701

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

Isaura Monica Souza Zanardini
Paulino José Orso
(Organizadores)

Coleção Sociedade, Estado e Educação
ESTADO, EDUCAÇÃO
E SOCIEDADE CAPITALISTA

COLEÇÃO SOCIEDADE, ESTADO E EDUCAÇÃO
(VOLUME 2)

Programa de Pós-Graduação em Educação
Mestrado em Educação - PPGE
Pró-Reitoria de Pesquisa Pós-Graduação em Educação
Universidade Estadual do Oeste do Paraná

EDUNIOESTE
CASCAVEL - PR
2008

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

UNIVERSIDADE ESTADU
ESTADUAL DO OESTE DO P
ADUAL ARANÁ - UNIOESTE
PARANÁ

REITOR
Alcibiades Luiz Orlando

VICE-REITOR
Benedito Martins Gomes

PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO E PLANEJAMENTO
Geysler Rogis Flor Bertolini
Unioeste - Programa de Pós-Graduação em Educação

PRÓ-REITOR DE GRADUAÇÃO
Eurides Küster Macedo Júnior
http://www.unioeste.br/pos/educacao/

PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO
Wilson João Zonin

PRÓ-REITORA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
Fabiana Scarparo Naufel

CONSELHO EDITORIAL
Alfredo Aparecido Batista
Ana Alix Mendes de Almeida Oliveira
Angelita Pereira Batista
Antonio Donizeti da Cruz
Clarice Aoki Osaku
Eurides Kuster Macedo Júnior
Fabiana Scarparo Naufel
Fernando dos Santos Sampaio
José Carlos dos Santos
Lourdes Kaminski Alves
Maria Erni Geich
Miguel Ângelo Lazzaretti
Mirna Fernanda Oliveira
Neide Tiemi Murofuse
Paulo Cezar Konzen
Reinaldo Aparecido Bariccatti
Renata Camacho Bezerra
Rosana Katia Nazzari
Silvio César Sampaio
Udo Strassburg
Wilson João Zonin

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

............................. 113 Claudio Afonso Peres O ensino....................................... SUMÁRIO Apresentação ...............) . 7 Para um exame das relações históricas entre capitalismo e escola no Brasil: algumas considerações teórico-metodológicas .................................... 39 Coleção Sociedade..........................79 Ireni Marilene Zago Figueiredo Políticas sociais e Estado burguês no Brasil ..................... 11 Maria Elizabete Sampaio Prado Xavier Liberalismo educacional: o receituário de Milton Friedman ...................... 25 Roberto Antonio Deitos Trazendo o Estado de volta para a teoria: o debate Miliband-Poulantzas revisitado ............................................. 95 Celso Hotz Educação superior e sociedade: a mediação do Estado a serviço do mercado .... 65 Isaura Monica Souza Zanardini A reforma do Estado e a descentralização na área da educação............. 57 Francis Mary Guimarães Nogueira A reforma do Estado brasileiro no contexto da globalização e da pós-modernidade ...................................................... 135 Paulino José Orso Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs........................ Estado e Educação Alvaro Bianchi A evolução do Estado burguês no Brasil: a leitura de Décio Saes .. a pesquisa e a extensão na Universidade .............

... 177 Gilmar Henrique da Conceição Unioeste . Educação e Sociedade Capitalista ...... 165 Maria Lucia Frizon Rizzotto O partido político..............br/pos/educacao/ Mário de Jesus Barboza e Gilmar Henrique da Conceição A escola de Estado na perspectiva marxista ...................... 209 http://www.................................... seus parâmetros e seus círculos de participação .............. 245 Estado...unioeste............... CAPES......................................................... LATTES...............Programa de Pós-Graduação em Educação Partido político e democracia burguesa: alguns contrapontos entre a escola marxista e a escola weberiana ............................... QUALIS: o homo academicus entre aforismos e desaforismos ............. 231 Amarilio Ferreira Junior e Marisa Bittar SOBRE OS AUTORES ............ 145 João Virgilio Tagliavini A criação e formação na universidade bolivariana e o processo político na Venezuela ...

O artigo é publicado novamente em função da pertinência do tema. Sociedade e Educação” — como sugere seu título: Estado. Campus de Cascavel. precisamos situá-los como expressão do movimento da sociedade. o Estado e a educação também o são e. da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Roberto Antonio Deitos. 7 APRESENTAÇÃO A sociedade é constituída por meio de relações que são marcadas pelo estágio de desenvolvimento das forças produtivas que sintetizam o acúmulo de conhecimentos. particularmente. Desse modo. decorrem das lutas travadas entre indivíduos. Portanto. este novo volume da “Coleção Estado. nos Cadernos da Escola Pública. Particularmente. Professora Livre-Docente da Unicamp. Educação e Sociedade Capitalista — apresenta alguns resultados de estudos que vêm sendo desenvolvidos pelo corpo docente e discente do Programa de Pós-Graduação em Educação do Curso de Mestrado em Educação. “Liberalismo educacional: o receituário de Milton Friedman”. No segundo artigo. também reúne artigos de professores de outros programas de pós-graduação. de autoria de Maria Elizabete Sampaio Prado Xavier. este segundo volume. seu conteúdo e sua qualidade. grupos e classes sociais. Estado e Educação Tendo essas relações como pressuposto.) . sua forma. analisa o liberalismo educacional expresso na obra Capitalismo e Liberdade de Milton Friedman e. chama atenção sobre algumas das Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. configuram-se de forma diferente em cada contexto histórico. Isto significa dizer que. que em suas pesquisas tratam de temáticas ligadas à relação entre capitalismo. reforma do Estado e políticas para o ensino superior. tecnologias e relações de forças de cada momento. que apresenta as tendências que se colocam no campo da historiografia educacional brasileira e. foi publicado pela primeira vez em 1993. para compreendê-los. O primeiro artigo intitulado “Para um exame das relações históricas entre capitalismo e escola no Brasil: algumas considerações teórico-metodológicas”. se a sociedade é dinâmica. procura discutir as relações entre capitalismo e escola na sociedade brasileira. Coleção Sociedade. professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIOESTE. deste modo. além de artigos de docentes e discentes do Programa. em função disso. Estado e educação. o Estado e a educação. fugindo das concepções abstratas e a- históricas.

também apresenta resultados de sua tese de doutorado no artigo “A reforma do Estado e a descentralização na área da educação”. onde demonstra como os projetos financiados pelo Banco Mundial para a Educação Básica.Programa de Pós-Graduação em Educação para a pesquisa marxista do Estado e da política. Educação e Sociedade Capitalista . Álvaro Bianchi. trata da posição teórica de Décio Azevedo Marques de Saes sobre a Evolução do Estado Brasileiro no artigo “A evolução do estado burguês no Brasil: a leitura de Décio Saes”. deste modo. desse modo. produzir as condições necessárias para a reprodução das relações de produção. 8 proposições desse teórico a respeito do papel do governo na educação. Nesse artigo. professor da Unicamp.br/pos/educacao/ de Pós-Gradução em Educação da Unioeste. que é resultado de sua tese de doutorado. entre os anos de 1969 e 1976. No artigo. A professora do Programa de Pós-Graduação em Educação. publicado na obra “República do Capital: capitalismo e processo político no Brasil”. A professora do Programa. segundo a autora. Ireni Marilene Zago Figueiredo. a retomada de discussão permitiria uma reformulação das questões que nortearam a discussão e a redefinição de uma agenda Unioeste . Isaura Monica Souza Zanardini em seu artigo “A Reforma do Estado no contexto da globalização e da pós-modernidade”. trata da reforma do Estado brasileiro como condição para assegurar sua correspondência à formação social capitalista e. é pertinente para a análise das políticas sociais e. bem como apresenta os argumentos políticos e ideológicos que são arrolados para a política educacional brasileira. da economia e da sociologia que. Por meio desse debate. de modo particular.unioeste. o autor expõe suas reflexões sobre o receituário de Friedman e suas propostas educacionais para os diversos níveis de ensino. Professora do Programa http://www. Seu objetivo é apresentar reflexões e. mostra o debate entre os teóricos Ralph Miliband e Nicos Poulanztas travado sobre a teoria do Estado apresentado na revista New Left Review. “Trazendo o Estado de volta para a teoria: o debate Miliband-Poulantzas revisitado”. Neste artigo. o autor discute os desafios de uma teoria marxista do Estado e da política. para o Ensino Fundamental contribuíram para o processo de reforma e modernização do Estado e Estado. para as políticas educacionais. particularmente. A autora analisa a posição de Décio Saes particularmente a partir do artigo A Evolução do Estado Brasileiro (uma interpretação marxista). contribuir com a discussão sobre uma temática da ciência política. Zanardini analisa a Reforma do Estado a partir do Plano Diretor da Reforma do Estado publicado pelo Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE) em 1995. Segundo ele. Francis Mary Guimarães Nogueira.

porém sem desconsiderar as relações mais gerais. Ao analisar as mediações do Estado frente ao Ensino Superior.ensino. O professor da Universidade de São Carlos. para compreender sua qualidade. sua forma de organização e a produção da vida material. No artigo. Paulino José Orso. o mestrando Celso Hotz. visando à manutenção das relações capitalistas de produção. analisa a incorporação e a alteração das funções pelo Estado burguês. transparência e controle dos gastos públicos pela população. No artigo “Políticas Sociais e Estado burguês no Brasil”. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. tendo a educação como estratégia ideológica pautada na eqüidade. em especial nas instituições públicas. Peres procura identificar como esta instituição atua nos momentos de crise para estabelecer as mediações necessárias em cada momento. na justiça social e no alívio da pobreza.) . suas condições. A autora evidencia que a ênfase na reforma do financiamento e da administração das instituições educacionais articulada à reforma do Estado. o professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unioeste.e evidência que. bem como seus desafios. faz-se necessário trazer presente a organização social. João Virgilio Tagliavini no artigo “CAPES. QUALIS: o homo academicus entre aforismos e desaforismos” discute a necessidade de realização constante da avaliação do ensino superior. Mas. 9 de suas instituições públicas. “Ensino. O autor chama atenção para a implementação de políticas sociais cada vez mais focalizadas. LATTES. também mestrando do Programa. pesquisa e extensão . pesquisa e extensão na Universidade”. Estado e Educação mediação do Estado com a educação superior e com a sociedade. realiza uma discussão em torno do tripé que sustenta a universidade . na passagem do capitalismo concorrencial ao monopolista. em razão dos princípios constitucionais da publicidade. preocupa-se com a identificação das relações de Coleção Sociedade. principalmente nos países periféricos. o autor também trata das repercussões dos chamados “indicadores” de avaliação sobre a academia e discute sobre o chamado produtivismo quantitativista e suas implicações sobre a hierarquia no interior da academia. Cláudio Afonso Peres. principalmente interna. tem como uma das estratégias a descentralização. em seu artigo “Educação Superior e sociedade: a mediação do Estado a serviço do mercado”. a partir de tensões e conflitos das classes sociais existentes e das frações que as compõem e do movimento global do capitalismo controlado pelo seu núcleo hegemônico. com ênfase nas questões econômicas que norteiam as políticas educacionais e atendem aos interesses do mercado.

10 A Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unioeste.br/pos/educacao/ (esquerda. considerando os “percalços” que ela teria sofrido desde a Antigüidade Clássica grega até a segunda metade do século XX. discutem a trajetória histórica que a escola de Estado percorreu no âmbito da chamada “civilização ocidental”. e Marisa Bittar. O professor Gilmar Henrique da Conceição também escreve junto com o mestrando Mario de Jesus Barboza o artigo “Partido Político e democracia burguesa: alguns contrapontos entre a escola marxista e a escola weberiana”. Os autores partem do pressuposto de que a compreensão do pensamento de Marx e Weber pressupõe a clareza de que suas formulações estão vinculadas ao contexto político.Programa de Pós-Graduação em Educação políticos do que técnico-pedagógicos. Finalmente. mas que em alguns aspectos continuam atuais e podem. econômico. em que discutem uma questão que consideram extremamente atual: a questão do programa e do partido recolocada no início do século XXI. Cascavel. uma vez que são os partidos que elaboram a política educacional que atingem os diferentes níveis de ensino. Seu objetivo é abordar aspectos que tratam das idéias. social e cultural do seu tempo. o partido político é apresentado como agente educativo. novembro de 2008. são apresentadas as concepções fundamentais que orientam a prática política dos partidos políticos a partir do entendimento de que os problemas da educação brasileira são mais Unioeste . de autoria de Gilmar Henrique da Conceição. Educação e Sociedade Capitalista . deste modo. Estado. Nesse artigo. Maria Lucia Frizon. no artigo “O Projeto Revolucionário e a criação da Universidade Bolivariana da Venezuela” trata dos aspectos históricos e conjunturais que ajudam a compreender a emergência do projeto revolucionário bolivariano e identificar as razões que levaram à criação dessa universidade como uma alternativa de formação em nível superior. conceitos e valores que indicam os parâmetros http://www. direito e centro) e as tipologias partidárias. Os Organizadores. Amarilio Ferreira Jr. No artigo “As tipologias de partidos políticos e suas implicações educativas”. no texto “A escola de estado na perspectiva marxista” os professores da Universidade Federal de São Carlos. professor do Programa. ajudar a compreender questões postas na contemporaneidade.unioeste.

revelados numa interpretação voluntarista do processo histórico. expressos na preocupação com a descrição e a documentação de fatos. A outra grande tendência parece ser aquela que teve o seu apogeu nos anos 1970 e marca. uma mescla de traços positivistas. Estado e Educação determinadas tendências. eu diria que há duas grandes tendências nessa área. em última instância. que marcaram e vêm marcando a nossa historiografia educacional. portanto. Caracteriza-se pela tentativa de explicar a realidade educacional brasileira. transformado em hábito arraigado. nessa produção historiográfica. Quando busca colocar-se numa perspectiva crítica. a nossa produção historiográfica no âmbito da educação.) . É aquela que concebe o educacional como uma esfera autônoma da realidade e. Funda a sua análise em um paradigma capitalista. A primeira delas é a que poderíamos chamar de tradicional. a partir da identificação e da tentativa de superação de alguns vieses presentes na análise histórica da educação brasileira. como um hábito incrementado pela internacionalização econômica e cultural. e que se devem a Coleção Sociedade. De um modo geral. nessa ótica. PARA UM EXAME DAS RELAÇÕES HISTÓRICAS ENTRE CAPITALISMO E ESCOLA NO BRASIL: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES TEÓRICO.METODOLÓGICAS (*) Maria Elizabete Sampaio Prado Xavier 1 A preocupação básica que vem norteando o meu trabalho de pesquisa é a de operar uma espécie de revisão historiográfica. centrada nos grandes acontecimentos e nas grandes personalidades. em uma Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. promovida pelo avanço capitalista. E o transplante cultural é explicado. ou. determinante dos seus rumos e da sua evolução. e de traços idealistas. na tentativa de avançar na crítica. em um modelo universal de sociedade e de escola capitalista e. a partir de uma concepção apriorística de nossa sociedade e do que toma como suas “necessidades reais”. Encontra- se. como a esfera hegemônica dentro dessa realidade. até hoje (**). essa tendência apela à noção do transplante cultural que. como um resquício da dominação colonial. muitas vezes. seria responsável pelas “inadequações” de nossa realidade educacional em relação às reais necessidades do país.

e contraditoriamente. que expressaria um conflito entre a oligarquia rural e a burguesia industrial. na base das interpretações que apontam para um suposto conflito. Expressa-se na tentativa de entender a escola brasileira como um aparelho reprodutor da ordem vigente. que desvende as suas funções enquanto “aparelho de Estado. Educação e Sociedade Capitalista . A pobreza e a extrema desigualdade social seriam. numa sociedade capitalista. equivocadamente. e outro moderno e democrático. Na análise histórica. e para a manutenção da hegemonia burguesa. tornada corrente no senso comum.br/pos/educacao/ de progresso e de reforma social. 12 concepção de funções típicas e de relações supostamente necessárias entre escola e ordem econômico-social capitalista. aparece ainda. através da persuasão ideológica. instrumento privilegiado http://www. inspiradas em formulações de nossa filosofia da educação. aparece como o resultado da sobrevivência e da difusão das concepções escolanovistas. Na análise histórica. Essa segunda tendência. por via da distribuição diferencial do conhecimento. que poderia ser denominada modelar ou paradigmática. o resultado de Unioeste . um conservador e elitista. em nosso país. assim como há um modelo de sociedade capitalista. e ainda se tem manifestado como o resultado de duas diferentes vertentes. a passagem da população pela escola é essencial para a reprodução das classes sociais. na ausência da colaboração de uma escola “adequada”. Se levada a sério essa espécie de interpretação. iniciado nos anos 1920 e 1930. e isso a transformaria na principal responsável pelo “atraso” do país. de que a nossa escola estaria “defasada” em relação às necessidades geradas pelo avanço do capitalismo. atribuindo à nossa escola funções vitais na massificação da ideologia dominante e na formação da população para o trabalho e/ou para o consumo. Em primeiro lugar. como um resultado da assimilação da crítica marxista à escola capitalista. por exemplo. essa tendência tem se traduzido na pretensão de uma releitura da história da nossa escola. Segundo essa ótica. são esses os pressupostos que se encontram.Programa de Pós-Graduação em Educação uma realização lenta e imperfeita desse ideal de sociedade. entre dois modelos de escola. seríamos forçados a concluir. que viabiliza a realização desse modelo. e também incorre no vezo de universalizar as necessidades escolares geradas pelo capitalismo.unioeste. Segundo essa perspectiva. há uma escola tipicamente capitalista. através das chamadas teorias crítico-reprodutivistas. Admitida essa espécie de interpretação. que produziram uma interpretação. que a burguesia industrial ainda não teria conquistado o poder no Brasil. Essa tendência manifestou-se. parece surpreendente a aparente solidez do capitalismo e do Estado burguês no Brasil.

ou seja. que ainda não se refletiu diretamente em nossa produção historiográfica (***). e mesmo que as evidências documentais e empíricas insistam em revelar a pouca importância concedida pelo Estado à escola. procura empreender. universalista e intra- escolar. pretende superar concepções “reprodutivistas” e “economicistas” da escola. ao contrário do que pretende. condicionada à consciência e à vontade dos seus agentes. discute a questão como se o predomínio da função reprodutora ou da função transformadora da escola não fosse o resultado de determinações econômicas. numa abordagem teórica.) . e provavelmente não o faça. a análise histórica. por levar a nossa reflexão educacional de volta ao tratamento autônomo da questão da escola. fracassa em suas intenções transformadoras e colabora com a reprodução. sem o respaldo de um diagnóstico e de um projeto solidamente assentados numa leitura histórica. se não dispensar. a explicitação e a depuração do modelo marxista de análise e. Isso significa que. nas abordagens crítico-reprodutivistas. No âmbito de nossa filosofia da educação. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. ainda. conciliando-se com os traços característicos. Acaba. a um só tempo conservador e transformador. Para tanto. denunciando a função ideológica das concepções que negam ou escondem esse potencial emancipador. mesmo num período em que sequer se podia falar em Estado Brasileiro. melhor dizendo. na discussão da problemática educacional brasileira. ao longo da nossa história. através de uma “ crítica da crítica”. popular ou de elite. do materialismo dialético. E. que abarcam e ultrapassam as intenções e os projetos dos nossos filósofos e educadores. através dele. uma nova modalidade de administração escolar e uma nova escola pública. Essa perspectiva acaba. já que parece justamente secundarizar. Estado e Educação trazer à luz o caráter contraditório da escola. É aquela que. uma prática que. permanecendo no âmbito do que poderíamos chamar de dialética de idéias. ou em um voluntarismo idealista. e denominando-se histórico-crítica. um novo currículo. Em outras palavras. por induzir a uma concepção voluntarista da prática escolar. traduzido em um materialismo mecanicista. recentemente. como se essa fosse apenas uma questão interna da organização escolar. políticas e sociais. que maximizem o caráter transformador da educação formal. vem se constituindo. inspirada ainda no marxismo. uma nova vertente. como no período colonial. típica das concepções tradicionais e escolanovistas. 13 Estado”. ou. propõe uma nova didática. Coleção Sociedade. pela via teórica ou conceptual. tal como vem se revelando na proposta histórico-crítica.

inspiradas no marxismo. da sociologia e da história. no momento.unioeste. pouco revelam sobre questões. a seu modo tendem a levar a pesquisa de volta à memória escolanovista. não raro identificando-as como abordagens “político-ideológicas”. enquanto referência teórico-metodológica para a investigação histórica da educação brasileira. e. Os desvios que verificamos nas críticas e nas análises que. Essa mesma realidade expõe ainda o anacronismo daquela crítica. Educação e Sociedade Capitalista . o materialismo histórico parece não ter logrado instalar- se plenamente e alterar efetivamente os rumos da nossa pesquisa educacional. como aquelas que dizem Estado. acabam alienando a nossa consciência educacional e a nossa prática pedagógica. a precocidade da crítica. Não permitem a compreensão plena do processo de constituição e funcionamento dessas sociedades capitalistas dominadas. que se insurge contra a “camisa de força” que o pensamento marxista teria imposto à nossa análise educacional. que avança na compreensão do capitalismo em sua fase imperialista. A realidade atual da produção teórica no âmbito da história da educação brasileira revela. avançar na compreensão das possibilidades e das implicações do materialismo histórico. portanto. inspirada nas postulações da chamada Nova História. denunciando supostos economicismos ou sociologismos nas escassas e férteis tentativas de análise sócio-histórica da nossa educação. parecem dever-se basicamente à desconsideração da dimensão histórica das categorias de análise que esse pensamento produziu e produz. particularmente relevantes quando se investiga e se reflete sobre a problemática educacional. e tal como os “reprodutivistas” e os “dialéticos” o fazem de modo diferente.Programa de Pós-Graduação em Educação Vanguardistas ou anacrônicas. se difundiram em nossos meios acadêmicos e educacionais. Não pode ser outra a explicação para as abordagens paradigmáticas.br/pos/educacao/ histórica da educação brasileira. que insiste em distinguir as “áreas” da economia. produzida pelo ranço acadêmico positivista. não obstante a sua intenção transformadora ou revolucionária. É preciso considerar que a análise marxista e mesmo a leninista. não respondem satisfatoriamente a questões cruciais relativas ao capitalismo. Superar as indiscutíveis insuficiências e as deficiências que verificamos nesse âmbito do nosso conhecimento implica. tal como se manifesta nas formações sociais ditas periféricas. Unioeste . dentro do sistema capitalista mundial. 14 deixando-se absorver pelas tendências tradicionais de nossa historiografia. essas críticas historiográficas (como se pretendem) coincidem no repúdio à suposta ideologização da análise http://www. não o fazendo. que distanciam a nossa produção teórica da realidade concreta e.

o funcionamento e o avanço das sociedades capitalistas. superando as análises que as concebem autônomas ou como produtos imediatos dos transplantes culturais. sem dúvida complexas. do imperialismo que se manifesta na sociedade dominadora. 15 respeito às suas vias próprias de avanço e às suas possibilidades objetivas de transformação. têm induzido filósofos e historiadores da educação. portanto. ao que tudo indica. partindo de pressupostos liberais ou marxistas. numa sociedade capitalista singular como a nossa. as análises de Lenine sobre as razões e as implicações da dominação imperialista foram efetuadas na perspectiva das sociedades hegemônicas. na direção do desvendamento das determinações particulares e históricas da sociedade que temos como objeto.) . a partir das “leis gerais” formuladas pelo pensamento marxista. na sociedade dominada. E isso acontece porque. em nosso país. diante da constatação da rigidez que as abordagens paradigmáticas impuseram às nossas investigações e do academicismo a que condenaram os nossos debates educacionais. parece ainda não ter fertilizado a nossa pesquisa Coleção Sociedade. desde as relações econômicas às políticas e culturais. que é a da dependência estrutural. Essa nova categoria. enquanto instrumento de análise. Uma retomada dessas análises. assim como as interpretações que. uma perspectiva histórica. É por aí. ao invés de investigarem as suas funções peculiares. revela uma noção particular. manifestam-se no conjunto da sociedade brasileira. É esse. o caminho que se impõe. permanecem no âmbito dos modelos e deduzem funções gerais da escola. Estado e Educação educacional. A dependência estrutural é o resultado. Não chegam a captar. Colocando-nos em nossa perspectiva. e não a decretação precoce da falência do materialismo histórico. ou o seu repúdio em nome da “desideologização” da pesquisa Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. parece-me. somos levados a uma nova apropriação das categorias do materialismo histórico e a uma compreensão de nossa sociedade diversa daquelas a que as deduções. É dessa ótica que devemos começar a examinar a produção das ideologias educacionais e da realidade escolar brasileira. que se desdobra de modelos clássicos e já se incorporou há décadas à nossa análise sociológica. derivada da noção de imperialismo. a singularidade do desenvolvimento capitalista periférico e a especificidade de suas implicações políticas e culturais. assim como as análises de Marx sobre a constituição. na perspectiva das sociedades dominadas. que deve se iniciar a nossa trajetória rumo à compreensão dos determinantes gerais do modo de produção capitalista. Essas determinações. já que se produzem como o resultado da síntese de fatores internos e externos.

particular e peculiar. Na intenção de ultrapassar as tendências presentes em nossa pesquisa e superar os equívocos que vêm se cristalizando em nossa literatura e em nossa prática educacional. venho recentemente encaminhando as minhas investigações no sentido da reconstituição do percurso material e ideológico do capitalismo no Brasil. 16 histórica. parece extremamente fértil a adoção da noção da dependência estrutural. porque predominam em nossos estudos históricos tendências que privilegiam a ação dos sujeitos sobre um pano de fundo. não se deve confundir essa ênfase no exame das estruturas na produção da realidade educacional com a ênfase. Diante do quadro geral de nossa produção historiográfica educacional. numa manifestação concreta. Se é preciso evitar o viés do ideologismo. também urge não cair em um economismo. que reduz a análise histórica ao estudo dos sujeitos. Isso me tem permitido confrontar os paradigmas que o liberalismo e a própria crítica marxista acabaram por forjar. Assim como parece inevitável a concentração dessa investigação no exame das estruturas. desistoricizando-as numa abordagem modelar.unioeste. com a realidade que me interessa Estado. que acusa a sobrevivência dos positivismos e dos idealismos. que devemos nos ocupar particularmente com o exame das nossas condições materiais de existência. Por outro lado. Saindo do âmbito da dialética de idéias. Mas a pesquisa educacional brasileira não tem senão recentemente se ocupado com a questão das estruturas. que centre o movimento histórico nas condições dadas. enfatizando justamente o processo de produção e expressão da consciência educacional dos sujeitos políticos. típica das concepções mecanicistas. um cenário emprestado das teorias e dos paradigmas econômicos e sociológicos. como revelam as tendências que predominam no âmbito da nossa historiografia educacional. como uma nova categoria de análise para a investigação histórica. Educação e Sociedade Capitalista .br/pos/educacao/ processo de ação das estruturas e de reação dos sujeitos. ainda que travestidos de marxismos. É.Programa de Pós-Graduação em Educação refletem e reagem às determinações estruturais. sem descartar o exame das instâncias que medeiam a determinação das estruturas sobre a realidade educacional. portanto. que Unioeste . no papel das estruturas na produção daquela realidade. Um repúdio embutido na crítica epistemológica rançosamente positivista e explícito no “pós-marxismo” para onde se lançou entusiasticamente o anti-marxismo entrincheirado em nossos meios acadêmicos educacionais. das relações entre sujeitos e condições objetivas. é impossível desconsiderar o caráter histórico desse http://www.

concentrou-se nesse período. favorecendo o desvendamento das suas tendências de desenvolvimento e das suas possibilidades objetivas de avanço e transformação. contudo. na passagem para a fase industrial. Respalda ainda a. Não foi por acaso que grande parte da produção acadêmica. como a do conflito entre educadores católicos e renovadores. que não raro têm induzido simplificações e equívocos na análise educacional. A partir daí. Estado e Educação do período posterior. Essa tentativa de reconstituição e esse ensaio de interpretação tiveram como ponto de partida o exame do processo brasileiro de industrialização e da revolução burguesa que o sustentou. permitiu apreender essas questões em uma totalidade que lhes confere outra dimensão e novo significado. desenraizando-as do contexto material em que se produziram. Foi de importância estratégica que as investigações se iniciassem pelo período que se estende dos anos 30 aos anos 60. Apesar de seu indiscutível valor para a investigação histórica que busca a identificação dos determinantes da nossa realidade educacional. o capitalismo brasileiro se consolidou. revelando os seus traços e as suas tendências particulares. sustenta a compreensão dos rumos e dos traços definitivamente configurados na fase final de consolidação da ordem capitalista nacional. na medida em que fornece pistas para a leitura histórica das formas peculiares de penetração das relações capitalistas no Brasil que. as bases de uma ideologia educacional foram assentadas no movimento pela reconstrução nacional e o nosso sistema de ensino sofreu uma reorganização que lhe definiu a própria Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 17 desvendar. de modelos societários e de interesses político-partidários. a partir do exame de matrizes doutrinárias. Realizaram-se. sob as determinações impostas pelas relações capitalistas engendradas em âmbito mundial. análise Coleção Sociedade. O capitalismo brasileiro aí se consolidou. no âmbito da história e da filosofia da educação. As investigações realizadas sob essa ótica revelam que. A concentração dos estudos desse período no exame das estruturas historicamente constituídas. a legislação educacional elaborada e a prática escolar desenvolvida no país.) . a do confronto entre partidários da escola privada e defensores da escola pública e a dos debates em torno de projetos de leis educacionais. o da realidade contemporânea. nos férteis anos 70 e 80. ao longo do período em questão. estudos parciais e fragmentados. parece possível efetivamente entender e explicar as necessidades educacionais que concretamente emergiram. por sua vez. Esse exame ilumina a análise do período anterior. esses estudos tendem a abordar questões. as ideologias e os discursos educacionais produzidos.

renovar e consolidar o caráter dependente das suas estruturas.unioeste. Faces de um mesmo processo. No Brasil. se instalaram no período colonial e se reproduziram. Daí Estado. esses acontecimentos lançaram as bases e marcaram os rumos da “nova sociedade brasileira”. adequando- se às estruturas geradas pelas formas primitivas de dominação capitalista que. acaba revelando o modo pelo qual os mesmos fatores que determinaram os rumos do desenvolvimento econômico-social do país condicionaram a renovação da cultura e da educação nacional.Programa de Pós-Graduação em Educação industrialização é um processo pela qual o modo de produção capitalista se constitui plenamente numa determinada formação social. Passava a interessar. numa nova divisão do trabalho em âmbito mundial. que transformara as economias periféricas em produtoras de gêneros agrícolas e consumidoras de manufaturados. no período da consolidação das relações capitalistas no Brasil. aos polos hegemônicos do capitalismo internacional. Segundo os paradigmas econômicos e sociológicos. na ausência de uma produção e um desenvolvimento científico e tecnológico endógenos. através de séculos. Buscar a compreensão das discussões. então. Uma visão de conjunto da evolução do pensamento e da legislação educacional. já que é o http://www. Foi o resultado da conjugação de fatores internos e externos. o que vinha confirmar. A industrialização da economia brasileira se operava peculiarmente. em diferentes ciclos. das realizações educacionais e das ideologias subjacentes em doutrinas e em embates políticos é tão ineficiente quanto tentar entender o capitalismo brasileiro a partir de um paradigma de desenvolvimento capitalista. esse processo veio consolidar o capitalismo dependente. na ausência de mecanismos formais ou informais de capacitação de mão-de-obra para as novas atividades e na ausência de um mercado interno significativo ou suficiente para sustentar o crescimento industrial. que expressavam aquela superação na falência do modelo agroexportador. revoluciona as forças produtivas e altera globalmente a ordem vigente. ainda segundo os paradigmas econômicos. 18 estrutura. ambos ligados à superação histórica da primeira divisão internacional do trabalho. estivessem presentes internamente. como apêndice das formas avançadas da dominação capitalista internacional. transformar as economias periféricas em produtoras de bens industriais de consumo e consumidoras dos chamados bens de capital. dos projetos. Fruto da conjugação dessas injunções externas com determinações internas. a Unioeste . Educação e Sociedade Capitalista . a industrialização brasileira acabou se processando antes que todos os elementos necessários.br/pos/educacao/ momento em que o capital atinge a área da produção.

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Nessas condições peculiares. à importação de mão-de-obra. Isso retardou e limitou o processo de superação do velho. para tanto. agravaram-se sob o efeito das contradições externas. tendência que se cristalizará com o esgotamento do chamado “modelo de substituição de importações”. ao menos na fase inicial. recorrendo ao transplante de tecnologias. dispensando a ampliação do mercado interno para o crescimento. que não alterou radical e globalmente a ordem vigente. A segunda seria contornada crescentemente por mecanismos de treinamento. conciliador de interesses externos e internos. 19 a necessidade do recurso à importação de tecnologia e. produziu e estimulou uma consciência burguesa internacionalista e clientelista. As contradições internas. gerando o subemprego no setor terciário e o inchaço do serviço público. inerentes a essa fase de consolidação da ordem capitalista. A “nova ordem”. Esse avanço. acomodava-se à desigualdade social. e mantinha o atraso ou o descompasso cultural. e. assim constituída. A primeira necessidade se perpetuaria. a solução exportadora crescerá. alimentava-se da desigualdade regional do avanço. fazendo predominar a continuidade. que se expressa na superação do velho pelo novo. que favorecia a obtenção de matérias- primas e de mão-de-obra baratas. 0 rápido avanço tecnológico propiciado pela importação tenderia crescentemente a reduzir a incorporação de mão-de-obra. ou a rearticulação do velho sob o novo. restringiu-se drasticamente a ampliação social do avanço econômico. que derivam do processo de superação e/ou rearticulação do velho sob o novo. apesar da extrema concentração de renda acabar permitindo que um mercado interno limitado sustentasse alguns setores da produção industrial. predominantemente fora da escola. antes que outros mecanismos de absorção estivessem desenvolvidos. sobre a ruptura. produzidas pela dependência em relação ao capital internacional. a partir de então e pelas próximas décadas. e por via da criação de condições artificiais de crescimento.) . expressando a tensão continuidade/ descontinuidade do processo histórico. em consequência dos compromissos assumidos no processo de endividamento externo. no modo pelo qual o país passava a se integrar nas relações capitalistas internacionais. Essa espécie de acomodação às desigualdades acabaria por agravá-las e a produzir. contraditoriamente. de capitais. que se viabilizou pela mediação do Estado. através da marginalização de grandes contingentes populacionais do consumo e da própria produção de bens. Estado e Educação industrialização. crescimento econômico e miséria social. e ao mercado externo. representado pela Coleção Sociedade. já que se constituirá.

apesar dos desvios que poderia sofrer. Contribuíram para isso as dificuldades internas de superação do atraso científico. Como função Estado. e formalmente democráticos. através da produção científica e tecnológica. o domínio exclusivo da ciência. gestada na sociedade agrária. Tratava-se. Acelerou ainda a incorporação do ideário liberal. de fornecer aos quadros dirigentes das classes dominantes uma mentalidade moderna. 20 A manutenção do nosso histórico superprivilegiamento econômico também acabou exigindo a conservação do superprivilegiamento político.unioeste. Como não poderia deixar de ser. para prepará-la mais eficientemente para o comando. frente a crises econômicas e dissidências no poder. como produtora de riqueza. e à classe dominada o treinamento na utilização dos recursos tecnológicos. diretamente econômico e político-ideológico. a escola brasileira passa a ter a tarefa precípua de modernizar a educação da elite. sim. e como meio de ascensão social sustentada no mérito ou na competência pessoal. dado o salto qualitativo que implicava o desencadeamento de um processo de absorção ativa dos Unioeste . as características peculiares dessa ordem capitalista geraram exigências educacionais particulares. numa sociedade mais complexa e contraditória. em ocasiões de “paz social” ou naquelas em que a mobilização popular conquistava força de barganha. na ausência de uma escola única. a ordem capitalista como o estágio mais avançado de organização da vida social. Não se tratava. no entanto. Na prática. patriarcal e escravista. como ainda legitima.br/pos/educacao/ manutenção dos transplantes na forma de absorção passiva. quando dados. assim como os interesses externos. na http://www. No discurso.Programa de Pós-Graduação em Educação modos de conhecer e de produzir importados. que se expressaria em regimes anti- democráticos. universal e gratuita. em momentos de mobilização da classe trabalhadora. uma cultura geral sólida e habilidades intelectuais que lhes permitissem desempenhar a tarefa de impor as novas formas de produção e as novas relações de trabalho. a escola é apontada como fonte de progresso e de justiça social. conforme se iniciara já no período colonial. num processo eficiente de rearticulação ou de acomodação de suas matrizes às condições particulares da dominação capitalista vigente no país. portanto. Educação e Sociedade Capitalista . de fornecer às classes dominantes. abertamente autoritários. como nos pólos hegemônicos. a revolução burguesa nacional conservou e perpetuou a tendência academicista e literária. Esse discurso legitimava. que os previna e os corrija. em condições favoráveis à exploração externa e à exploração interna da população. No âmbito cultural. como fazia a escola nas sociedades hegemônicas.

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complementar e secundária, esperava-se que a escola qualificasse a
mão-de-obra, dentro dos limites impostos pela dimensão de nosso
parque industrial e da própria oferta de trabalho, restrita pela crescente
sofisticação tecnológica. Nas economias dominantes, o avanço
tecnológico e a consequente redução da absorção e da necessidade de
qualificação, em grande escala, da mão-de-obra industrial, já voltava a
escola para a tarefa de formação do cidadão, reforçando o seu papel
na produção e difusão de ideologias, na formação do consumidor e no
preparo genérico do trabalhador para as atividades do setor terciário
da economia. Em nosso país, a solução para o problema da qualificação
da mão-de-obra se expressaria em medidas de cunho
predominantemente conciliador e demagógico, ou mais propriamente,
de caráter político-ideológico, como a criação de um ensino médio
profissionalizante, ineficiente e inadequado às necessidades e às
possibilidades da classe trabalhadora, e em medidas pragmáticas como

Coleção Sociedade, Estado e Educação
a criação do sistema paralelo de formação profissional, organizado e
mantido pelas empresas, segundo os seus interesses e as suas
necessidades.
As discussões, as propostas e a legislação educacional do
período que se estende dos anos 1930 aos anos 1960 confirmam
essas necessidades e essas prioridades. O discurso “Pioneiro”,
particularmente o que se expressou no chamado Manifesto, proclamava
e abandonava gradualmente a bandeira da produção e do ensino da
ciência e da tecnologia pela valorização da cultura geral “sólida e
erudita”, concluindo com a ênfase na prioridade absoluta dos ensinos
secundário e superior, cuja promoção parecia consubstanciar-se na
criação da decantada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. As
reformas educacionais empreendidas pelos ministros Francisco Campos
e Gustavo Capanema, nas décadas de 30 e 40, que construíram o
sistema nacional de ensino no país, cuidaram basicamente da
reorganização e da sofisticação dos níveis médio e superior, mantendo
e aprimorando o seu caráter literário e bacharelesco. Os ensinos
primário e normal, aparentemente secundarizados, foram os últimos
a atrair a atenção do poder público e a sofrer a reorganização legal. A
criação de um ensino médio técnico-profissional que, da forma como
foi concebido e se concretizou, desvinculado das exigências das
atividades econômicas concretas e com uma duração que inviabilizava
a frequência da classe trabalhadora, foi compensada pela criação do
sistema paralelo de formação profissional, o SENAI e o SENAC.
Verificou-se, a partir de então, uma expansão ininterrupta do

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

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ensino médio acadêmico, acompanhado de um relativo crescimento
da oferta de ensino superior, contrastando com a precariedade da
expansão da escola primária. A luta pela privatização do ensino, que
venceu a campanha pela sua publicização efetiva, no texto da LDB,
para onde desembocaram os debates, trouxe a tona mais uma vez o
histórico compromisso de nosso poder político com a educação de
elite. Um compromisso que se desvenda, ao cabo das investigações,
como o produto e o reforço das formas historicamente assumidas
pela dominação capitalista no Brasil, do “modelo agroexportador” ao
“modelo urbano-industrial”, fase do capitalismo dependente e
excludente que aqui se instalou, sob regimes autoritários ou
democracias restritas, e que “prospera”, apesar e à custa da miséria
social e cultural que vem engendrando.
Unioeste - Programa de Pós-Graduação em Educação

Redirecionada por uma nova abordagem teórico–metodológica,
a pesquisa histórica permitiu definir o perfil do liberalismo educacional
http://www.unioeste.br/pos/educacao/

que fundou a constituição de nosso sistema nacional de ensino e
impregnou o pensamento educacional brasileiro, a partir do
desvendamento do perfil da própria ordem econômico –social que se
configurou no país. Isso implicou um rastreamento da trajetória do
capitalismo brasileiro, da arrancada “nacional desenvolvimentista” à
consolidação do modelo de “desenvolvimento associado”, fundamento
dos movimentos e das reformas educacionais dos anos 1930 e 1940,
e palco dos debates em torno da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, que definiram a política educacional no processo de
redirecionamento da política de expansão industrial, nos anos 1950 e
1960. Superam-se, assim, as interpretações equivocadas e os
julgamentos históricos apressados a propósito do significado das
realizações educacionais desse período, ou dos “desvios de rota” que
aí se teriam revelado.
O ideário escolanovista nacional, apesar das interpretações
tradicionais, que tendem a apresentá-lo como um produto inócuo do
transplante cultural, e da própria memória histórica que legou, onde
figura como a face progressista e “adequada” da consciência educacional
nacional, subjugada pelo conservadorismo recalcitrante e “atrasado”,
não representou senão a consubstanciação de um liberalismo
educacional peculiar que atendia às exigências e refletia, até mesmo
em seu discurso democrático e em sua prática elitista, as contradições
particulares do avanço capitalista brasileiro. As reformas educacionais
empreendidas a partir de então, no país, entendidas na ótica tradicional
e explicadas no discurso escolanovista como produtos dos interesses

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

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imediatos das classes dirigentes, autoritárias, “fascistas” ou anti-
democráticas, e de interesses particulares privatistas, interpretações
que hoje se reforçam nas abordagens reprodutivistas e mecanicistas,
nada mais intentaram senão concretizar as postulações básicas do
novo ideário, operando as transformações necessárias à adequação
do sistema educacional à ordem que se consolidava.
As aparentes mudanças de rumo ou “desvios” do pensamento
e da política educacional, desde então, refletiram e refletem as
contradições inerentes e o próprio avanço do processo de rearticulação
dos princípios doutrinários que acompanham as mudanças concretas
nas relações econômicas e políticas no país. Continuando nesse rumo
de investigações, parece indispensável avançar no desvendamento do
percurso, particular e convergente, da consciência educacional moderna
e do capitalismo dependente no Brasil, da reação conservadora de 64,
que destruiu as resistências nacionalistas e populares ao modelo

Coleção Sociedade, Estado e Educação
efetivamente consolidado, à chamada “abertura democrática”. É o
período em que o pensamento, a legislação educacional e a escola
brasileira passam por um processo de “tecnicização” e de expansão
controlada, que contraditoriamente, negam e reforçam o ideário liberal.

NOTAS

* Este texto foi produzido no final da década de 1980, e publicado, em 1993, nos Cadernos da Escola
Pública. Brasília. SINPRO, nº1, pp. 5-23.
(**) Início da década de 1990.
(***) Referência à década de 1980.

REFERÊNCIAS

XAVIER, Maria Elizabete Sampaio Prado. Poder político e educa-
ção de elite
elite. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1980.
—. Capitalismo e escola no Brasil
Brasil. Campinas : Papirus, 1990.

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Estado, Educação e Sociedade Capitalista

LIBERALISMO EDUCACIONAL:
O RECEITUÁRIO DE MILTON FRIEDMAN

Roberto Antonio Deitos

1. INTRODUÇÃO

Neste texto1 analiso uma tendência do liberalismo a partir das
proposições de Milton Friedman. Examino o liberalismo educacional
expresso na obra Capitalismo e Liberdade e algumas das proposições
do autor sobre o papel do governo na educação, especialmente as

Coleção Sociedade, Estado e Educação
proposições gerais para a educação. Tais proposições revelam os
pressupostos para a implementação de uma política educacional liberal
e demonstram como deveriam ser organizadas as políticas sob a
direção estatal para os níveis educacionais: primário, secundário,
profissional e superior. Muitas dessas proposições contam com
assimilações e aproximações em formulações que vertem na
implementação e nas diretrizes educacionais nacionais nos diversos
níveis de ensino e em argumentos políticos e ideológicos apresentados
para a política educacional brasileira.
As considerações que aqui apresento tratam de uma tendência
ideológica do liberalismo educacional que historicamente influenciou
tendências ideológicas da educação brasileira. Trata-se, portanto, da
tendência ideológica do liberalismo, vertida a partir do pensamento de
um dos seus expoentes, ou seja, da figura e expressão teórico-ideológica
de Milton Friedman. Desse modo, neste artigo, tomo, como referência
particular, a obra Capitalismo e Liberdade para analisar as proposições
liberais apresentadas pelo autor, considerando que as proposições
apresentadas nesta obra são a expressão de uma tendência ideológica
da política educacional que revela as premissas liberais, as quais,
segundo Milton Friedman, seriam as mais radicalmente clássicas e
férteis para a gestão do capitalismo, do mercado e, conseqüentemente,
da política educacional.

1 Publicado originalmente na Revista Ciências Sociais em Perspectiva. Universidade Estadual do
Oeste do Paraná - Centro de Ciências Sociais Aplicadas - Campus de Cascavel. Cascavel, PR:
Edunioeste, vol. 06, n. 10, jan./jun.2007, p. 137-147.

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

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Neste artigo priorizo a análise das proposições apresentadas
pelo autor sobre o tratamento dado à política educacional,
particularmente as proposições para a educação primária, a secundária,
a profissionalizante e a superior, retomando e ampliando a análise
sobre o liberalismo educacional expresso nas proposições de Friedman
(Cf. DEITOS, 2002, 2003).

2. AS ARTICULAÇÕES DA TENDÊNCIA LIBERAL DE MILTON
FRIEDMAN

Milton Friedman2 é economista norte-americano e ideólogo do
liberalismo em sua versão conservadora da nova direita, notadamente
Unioeste - Programa de Pós-Graduação em Educação

de uma tendência que sustenta proposições para as políticas
implementadas nas décadas de 1980 e 1990 e nos dias atuais.
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Interessante é contextualizar a articulação e a convergência dos
dois grandes nomes de uma tendência liberal ultra-conservadora:
Friedman e Hayek. Para Moraes, “O grande nome da corrente neoliberal
é sem dúvida Friedrich August von Hayek. Herdeiro da chamada ‘escola
austríaca` de economia, o pensamento de Haeyk é um descendente
de Carl Menger e, parcialmente, de Von Mises [...]” (1996, p. 122).
Mas, ainda de acordo com Moraes, “O personagem mais famoso
desse enredo – em certa medida, um astro da mídia – é Milton Friedman
[...]” (1996, p. 126).
Friedman, portanto, na obra Capitalismo e Liberdade, de forma
marcante, define-se como um liberal convicto, repudiando outras
versões do liberalismo, especialmente a tendência ocorrida nos Estados
Unidos quando da implementação das políticas keynesianas,
constituintes do chamado Estado de Bem-Estar Social, das quais é
crítico fervoroso, por entender que desfiguraram e romperam com a
tradição contra as quais tinha lutado o liberalismo clássico (Cf.
FRIEDMAN, 1984, p.14). E, nesse sentindo, afirma:
Devido à corrupção do termo liberalismo, os pontos de vista que eram
por ele representados anteriormente são agora considerados

2 Como consumação e avanço de sua tese conservadora, onde o binômio capitalismo e liberdade
são tomados como base originária do livre mercado, recebeu, em 1976, o Prêmio Nobel de
Economia, exatamente no auge de um processo de crise do capitalismo. Para Miguel Colasuonno,
apresentador de Capitalismo e Liberdade, na tradução para o público brasileiro, a obra
Capitalismo e Liberdade (publicada em 1962) pode ser considerada o livro-síntese do pensa-
mento de Milton Friedman.

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

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frequentemente conservadorismo. Mas não se trata aqui de uma
alternativa satisfatória. O liberal do século XIX era um radical – no
sentido etimológico de ir até às raízes das questões, e no sentido político
de ser favorável a alterações profundas nas instituições sociais. Assim,
pois, deve ser o seu herdeiro moderno. Não desejamos conservar a
intervenção do Estado, que interferiu tanto em nossa liberdade, embora
desejemos, é claro, conservar a que a tenha promovido. Além disso, na
prática, o termo conservadorismo acabou por designar um número tão
grande de pontos de vista – e pontos de vista tão incompatíveis um com
o outro – que, muito provavelmente, acabaremos por assistir ao
nascimento de designações do tipo liberal-conservadorismo e
aristocrático-conservadorismo.

Devido em parte à minha relutância em ceder o termo aos proponentes
de medidas que destruiriam a liberdade e, em parte, porque não fui
capaz de encontrar uma alternativa melhor, tentarei solucionar essas
dificuldades usando o termo liberalismo em seu sentido original – como

Coleção Sociedade, Estado e Educação
o de doutrinas que dizem respeito ao homem livre (FRIEDMAN, 1984,
p. 15).
Fundado no que intitula de liberalismo clássico, o autor, em sua
tese central, sustenta o pressuposto-base da doutrina liberal,
apresentada no primeiro capítulo desta obra, como sendo a organização
econômica, ou seja, o mercado, consubstanciado no que chama de
capitalismo competitivo, emergência da propriedade privada. Em
decorrência dessa concepção afirma que “[...] só há dois meios de
coordenar as atividades econômicas de milhões. Um é a direção central
utilizando a coerção – a técnica do Exército totalitário moderno. O
outro é a cooperação voluntária dos indivíduos – a técnica do mercado”
(FRIEDMAN, 1984, p. 21).
A tese de que o mercado pode gerar a unanimidade entre os
indivíduos e regular suas relações individuais e sociais é o eixo central
da doutrina liberal preconizada por Friedman. Desse modo, Friedman,
quando analisa o papel do governo numa sociedade livre, afirma que,
Para o liberal, os meios apropriados são a discussão livre e a cooperação
voluntária, o que implica considerar inadequada qualquer forma de
coerção. O ideal é a unanimidade, entre indivíduos responsáveis,
alcançada na base de discussão livre e completa [...].

Desse ponto de vista, o papel do mercado, como já foi dito, é o de
permitir unanimidade sem conformidade e ser um sistema de efetiva
representação proporcional [...] (1984, p. 29).

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

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Para Friedman a base central de toda a ordem social é o mercado,
compreendido como o regulador das vontades individuais e políticas.
Nesse cenário é que aparece particularmente o Estado. Prescreve que
a ação do governo se dá, basicamente, como legislador e árbitro do
jogo do mercado em situações muito limitadas, quando o próprio
mercado, por circunstâncias denominadas técnicas, estaria
momentaneamente, impossibilitado de estabelecê-las. Nesse aspecto,
formula duas classes de casos em que essa situação pode ocorrer; os
monopólios e outras imperfeições do mercado e os efeitos laterais
(Cf. FRIEDMAN, 1984, p. 31-34).
Como conseqüência de uma economia de mercado e para a
sua apropriada manutenção em nível internacional em bases tidas como
viáveis, defende um mecanismo que considera importante:
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[...] é um sistema de taxas de câmbio livremente flutuantes, determinadas
http://www.unioeste.br/pos/educacao/

no mercado por transações privadas sem a intervenção governamental.
Esta é a contrapartida apropriada do mercado livre para a norma monetária
[...]. Se não a adotamos, falharemos inevitavelmente em expandir a
área do mercado livre e teremos que, cedo ou tarde, acabar por impor
controles diretos cada vez mais amplos sobre o mercado [...]
(FRIEDMAN, 1984, p. 68).
A defesa de um sistema de taxas de câmbio livremente flutuantes
para determinar as relações econômicas internacionalmente também
é apresentada por Hayek quando, ao criticar as políticas liberais
keynesianas ao final da década de 1970, afirmava que “Agora, no
entanto, quando o sistema de taxas cambiais fixas parece ter entrado
em colapso total, e há poucas esperanças no sentido de que a
autodisciplina possa induzir alguns países a se conterem, restam
precárias razões para se aderir a um sistema que já não surte efeitos
[...]” (HAYEK, 1985, p. 37).
Esse mecanismo, apenas aparentemente monetário, está
fundamentado nos princípios básicos do liberalismo e na manutenção
de sua organização econômica central: a propriedade privada e o
mercado livre, como condição do esforço e da liberdade individual.
Portanto é a concorrência efetiva que, segundo Hayek (1987), revelará
a melhor maneira de orientar os esforços individuais. Desse modo,
esse pressuposto determinante e individualmente gerido pela livre
atuação dos indivíduos no mercado é a base para as taxas de câmbio
livremente flutuantes entre e acima de Estados Nacionais e Nações,
servindo efetivamente de mecanismo para contribuir com o controle
das políticas e ações governamentais de qualquer Estado ou Nação no

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

Para Friedman: O primeiro diz respeito aos “efeitos laterais”. e justificam tipos muito diferentes de ação (1984. fazendo inicialmente uma distinção entre educação e instrução. o que constitui a base de seus pressupostos para a discussão e formulação de propostas nessa área. 83). Efeitos laterais e paternalismo têm implicações muito diferentes para (1) a educação geral dos cidadãos e (2) a educação vocacional especializada. fazendo severas críticas à ação do governo na oferta da educação ou instrução pública. tem um efeito- chave na determinação das relações econômicas e no enfraquecimento dos Estados Nacionais em relação ao processo de acumulação do capital. isto é. p.) . Analisando esses diversos níveis de educação. instrução primária. circunstâncias sob as quais a ação de um indivíduo impõe custos significativos a outros indivíduos pelos quais não é possível forçar uma compensação. Friedman (1984) trata do papel do governo na educação. Tal processo favorece o desmonte de políticas sociais nacionais em todas as áreas. As razões para a intervenção governamental são muito diferentes nessas duas áreas. o que considera uma extensão indiscriminada da responsabilidade do governo e. conseqüentemente. Tomando estes dois pressupostos como referência. frente às oscilações financeiras e cambiais que desestabilizam as economias e favorecem o (neo)imperialismo na fase atual de desenvolvimento e acumulação capitalista. a que tudo indica. afirmando que o governo em grande parte atende à instrução. secundária e superior. do que entende por Estado capitalista. Trata de explicitar como entende o acesso à educação e à instrução. no momento em que os países individualmente não conseguem sobrepor-se. O segundo é o interesse paternalista pelas crianças e por outros indivíduos irresponsáveis. sob a liderança dos Estados Unidos da América (EUA). minimamente. 29 mercado livre. Esse mecanismo. ou produz ganhos substanciais pelos quais também não é possível forçar uma compensação – circunstâncias estas que tornam a troca voluntária impossível. o autor em questão formula proposições sobre educação. O PAPEL DO GOVERNO NA EDUCAÇÃO Coleção Sociedade. Estado e Educação Em Capitalismo e Liberdade. 3. sugere decisões que Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. coordenado hegemônica e ideologicamente pelos países centrais do capitalismo mundial. A intervenção governamental no campo da educação pode ser interpretada de dois modos. e trata da preparação vocacional e profissional.

o mercado livre como elementos determinantes e indissociáveis desse processo. Torna cada vez mais difícil aos poucos excepcionais – e eles constituem a esperança do futuro – erguer-se acima de sua pobreza inicial” (FRIEDMAN. para os quais o governo poderia apresentar subsídios temporários e focalizados. Educação e Sociedade Capitalista . apenas relativamente. Para tanto. grifo nosso). O processo envolvendo algum acesso ao conhecimento elementar não pode extrapolar os limites usufruídos nessa sociedade. leia-se sociedade aberta ou capitalista. conseqüentemente. apenas relativamente. defende. jamais políticas sociais que possam ter um caráter permanente de direito social ou de acesso generalizado à população. o ganho social seria maior para os níveis mais baixos da instrução. está fazendo muito provavelmente o contrário. Postula. leia-se regulada pelo capitalismo competitivo. Essa relação de troca voluntária entre os indivíduos e o mercado Unioeste .unioeste. Essa nacionalização. que a solução para a exigência de um mínimo de instrução e o correspondente subsídio governamental deveria romper com o que denomina de nacionalização das instituições educacionais pelo governo. longe de igualar oportunidades.Programa de Pós-Graduação em Educação necessita de uma base elementar de conhecimentos elementares para fazer fluir a troca entre os indivíduos e favorecer a circulação de http://www. propõe que: O governo poderia exigir um nível mínimo de instrução financiada dando aos pais uma determinada soma máxima anual por filho. p. a ser Estado.br/pos/educacao/ mercadorias. para o exercício da cidadania numa sociedade livre. como famílias necessitadas. considerados estritamente como um substancial “efeito lateral”. por exemplo. 89. compreendendo a iniciativa privada e. 30 deveriam ser tomadas para a sua realização no campo da política educacional liberal. afirmando: “Nosso sistema atual de educação. defendendo que. estaria essa educação elementar contribuindo. de modo geral. portanto. 1984. para Friedman. Friedman entende que um mínimo de educação geral aos cidadãos contribui de forma razoável para a aceitação de valores que considera indispensáveis para a estabilidade de uma sociedade considerada democrática. prejudicando a ação voluntária individual. ele considera que afeta as empresas privadas que atuam nessa área. que o subsídio governamental deve ser aplicado em situações justificadas.1 A Instrução Primária Quanto à instrução primária. Portanto. para que isso não interfira intensamente no mercado. 3.

Coleção Sociedade.) . as autoridades públicas teriam um padrão independente pelo qual julgar escalas de salário e promover um ajustamento rápido à mudança de condições de oferta e da procura (1984.) financeiro (custo/aluno/anual) do governo para os pais individualmente escolherem a escola para seus filhos.] (FRIEDMAN. 86). Os serviços educacionais poderiam ser fornecidos por empresas privadas operando com fins lucrativos ou por instituições sem finalidade lucrativa. da mesma forma que inspeciona presentemente os restaurantes para garantir a obediência a padrões sanitários mínimos [. E também resolveria o problema das justas reclamações dos pais quando dizem que. considerada um valor econômico do indivíduo. essas proposições produziriam um conjunto de situações resultantes de sua consumação em políticas que poderiam resultar em: a) aplicação do bônus (cartão magnético. p. 3. o desenvolvimento e o progresso de todas as escolas seriam garantidos. se mandarem os filhos para escolas privadas. Assim. Tal solução também permitiria o surgimento de uma sadia competição entre as escolas. A injeção de competição faria muito para a preocupação de uma salutar variedade de escolas. Essa solução satisfaria as partes válidas do argumento do “monopólio técnico”. apresenta como saída para esse processo que: Os pais que quiserem mandar os filhos para escolas privadas receberiam uma importância igual ao custo estimado de educar uma criança numa escola pública. b) aplicação do bônus torna-se determinante para o processo Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. desde que tal importância fosse utilizada em educação numa escola aprovada. E ainda ofereceria o benefício adicional de tornar os salários dos professores sensíveis à demanda de mercado.. considerando-se a situação atual. deve para Friedman. pagam duas vezes pela educação – uma vez sob a forma de impostos e outra diretamente. 31 utilizada em serviços educacionais “aprovados”.. E também contribuiria para introduzir flexibilidade nos sistemas escolares. 89).2 A Instrução Secundária A instrução secundária. vale. Com isso. 1984. O papel do governo estaria limitado a garantir que as escolas mantivessem padrões mínimos tais como a inclusão de um conteúdo mínimo comum em seus programas. p. Para Friedman (1984). Desse modo. cédula. Estado e Educação combinar escolas públicas e particulares em direção à desnacionalização das escolas públicas. Os pais poderiam usar essa soma e qualquer outra adicional acrescentada por eles próprios na compra de serviços educacionais numa instituição “aprovada” de sua própria escolha. particularmente a apresentada naquele momento nos Estados Unidos. etc. bolsa escola. cupom.

e da negação taxativa da educação superior ofertada pelo Estado.] (FRIEDMAN. em nível de igualdade com as escolas não subvencionais pelo governo [.unioeste. além do desempenho dos professores. c) a desnacionalização e a permanência das escolas aprovadas com padrão mínimo imposto para o seu funcionamento. por exemplo. ele entende que “O investimento Estado. Desse modo. se poderia admitir para o nível primário ou elementar.Programa de Pós-Graduação em Educação uniformidade salarial. com a única condição de que sejam do tipo e natureza convenientes. e) a aplicação do bônus financeiro individual permite a livre escolha de escolas. inclusive para avaliação dos conteúdos das disciplinas e dos alunos. 32 de desnacionalização progressiva das escolas. permitiriam que as escolas desnacionalizadas ou “fechadas” fossem vendidas. competindo. favorecendo especialmente os considerados mais talentosos que são http://www. principalmente material. e a competição entre as escolas existentes.. A proposição para superar e disciplinar o investimento governamental em ensino superior passaria pela decisão na qual se deveria entender que: Qualquer subvenção deve ser passada aos indivíduos.3 A Instrução de Nível Superior e a Preparação Vocacional e Profissional Para a instrução de nível superior. tomando o mérito como a fixação de valores. que deveriam ser avaliadas por instituições independentes do Estado. Educação e Sociedade Capitalista .. assim. 94). para ser utilizada em instituições de sua própria escolha. As escolas governamentais que continuarem em funcionamento deveriam cobrar anuidades que cobrissem os custos educacionais. d) a aplicação do bônus desobstruiria o excesso de conformidade gerado pela intervenção governamental ao subsidiar educação. a contratação direta de professores e diminuição da Unioeste . às empresas privadas que desejassem trabalhar nessa área. verifica-se a admissão da centralidade da educação elementar como elemento apenas relativamente significativo para o que considera uma sociedade livre.br/pos/educacao/ sempre poucos. 1984. p. Com relação à preparação vocacional e profissional voltada para a qualificação dos recursos humanos. de forma muito restritiva. equipamentos e instalações. Friedman não admite a possibilidade de uma nacionalização justificada como em algumas situações. onerando a liberdade individual e o livre mercado. 3.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Podemos inferir que as proposições apresentadas por Milton Friedman sustentam um programa liberal. pois o indivíduo não arcará com nenhum dos custos. alega.]” (FRIEDMAN. Para não ocorrer prejuízo aos outros indivíduos e a subvenção não gerar superinvestimento. A produtividade do capital físico não depende em geral da cooperação do que tomou emprestado.. Não devem ser impedidos pelas imperfeições do mercado de fazer o investimento. se estão dispostos a arcar com os custos. político-ideológicas e financeiras. 4. p.] (FRIEDMAN... 33 em seres humanos não pode ser financiado nos mesmos termos ou com a mesma facilidade do investimento em capital físico [. 99).]. Mas argumenta que a única forma adotada até agora foi a subvenção dos treinamentos vocacional e profissional financiada pelos impostos comuns. A produtividade do ser humano está evidentemente presa a essa dependência [. Friedman admite a intervenção do governo somente em situações ocasionadas por uma imperfeição do mercado. Uma agência governamental poderia financiar ou ajudar a financiar o treinamento de qualquer indivíduo que pudesse satisfazer um padrão mínimo de qualidade.. Tratar-se-ia de um subinvestimento em capital humano. o que considera claramente imprópria.. desde que os fundos fossem utilizados em treinamento numa instituição reconhecida. acentuando seu vínculo ao liberalismo clássico (“direita renovada”) com nuances e capacidades de mobilização organizacional e gerencial muito mais dinâmicas e articuladas. prejudicando sempre outros indivíduos. o indivíduo concordaria em pagar ao governo em cada ano futuro determinada porcentagem de sua renda [. Ofereceria anualmente uma soma limitada durante número especificado de anos.) . Os postulados teóricos e ideológicos que alimentam os argumentos e as justificativas estabelecem pragmaticamente como Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Estado e Educação Os indivíduos devem ser responsabilizados pelo custo de seu investimento e receber as recompensas. p.1984. 96). Em troca. particularmente na construção de mecanismos de controle e aprimoramento de instituições e agências reguladoras e controladoras em âmbito privado de ações econômicas.. a solução proposta seria a de que: Coleção Sociedade. 1984. Um modo de obter tais resultados seria o governo atuar no investimento em seres humanos em termos semelhantes aos demais investimentos.

br/pos/educacao/ educacional análogas ou convergentes com as proposições políticas ideologicamente expressas por Friedman. Educação e Sociedade Capitalista . 2001. Os cursos profissionalizantes. Guiomar Namo de Melo (1990) e Bresser- Pereira (2003). ganharam força teórica e ideológica como tendências liberais Unioeste . Basta verificar os programas de avaliação do rendimento escolar aplicados nos diversos níveis de ensino com vistas a classificar as escolas e torná-las competitivas entre si e. tais como as sustentadas por Moura Castro (2000). desvinculados ou não do ensino médio geral. e sustentadoras dos empreendimentos progressivamente intensificados nas últimas duas décadas. contando com altos investimentos governamentais e financiamentos externos pagos pelo Estado. e sugerem um conjunto de ações que estão impregnadas em diversas orientações e condicionalidades emanadas dos organismos internacionais como o BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. BAER. Muitos intelectuais e proposições governamentais defendidas e/ou implementadas nas últimas duas décadas. 1998. DRAIBE. através dos financiamentos externos para as reformas de ajustes estruturais e setoriais nos diversos países (Cf. BID. têm sido excelentes e promissores empreendedores dessas premissas na gestão do Estado brasileiro do alto de seus palácios intocáveis. FIORI. BANCO MUNDIAL. destacam-se algumas das proposições à política http://www. 34 devem ser implementadas diversas políticas. 1993. NOGUEIRA. s/d. considerando-se as particularidades e peculiaridades nacionais. 1997.unioeste. BANCO MUNDIAL. DEITOS. 1999. particularmente a partir de 1990. A transferência de recursos públicos para instituições privadas desenvolverem capacitação profissional cresceu assustadoramente. conseqüentemente. LEHER. servir de parâmetro para o investimento de recursos públicos. 1999. Outra situação é a redução de investimento público no ensino superior e o avanço do setor privado nessa área. particularmente para a educação. No Brasil. 1997) e no Brasil. Também pode ser observado o maior número de créditos educativos individualizados para pagamento de mensalidades nas instituições privadas e a criação de subsídios oficiais para políticas focalizadas e temporárias. 2005).Programa de Pós-Graduação em Educação ultra-conservadoras em âmbito mundial (cf. estão sendo ofertados Estado. No Brasil.. diversos programas e políticas educacionais configuram-se nesse cenário e estão orientadas ideológica e pragmaticamente para a consumação dessas proposições. 2000. Banco Mundial e FMI – Fundo Monetário Internacional. O governo FHC – Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e o governo Lula – Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006).

para facilitar o controle privado para os grupos hegemônicos nacionais e internacionais que. Bolsa Escola. focalizados e destinados para o “alívio da pobreza”. Avançam. A manifestação concreta das relações que produzem o Estado capitalista brasileiro atual explicita a negação de qualquer política social que efetivamente possa gerar ganhos sociais coletivos e estruturais que rompam com o quadro de decomposição e degeneração social em que estamos imbricados. o Bolsa Gás. políticas e ideológicas que possam revelar a realidade e traçar rumos sociais efetivamente humanitários para a sociedade brasileira. Amigos da Escola. Diversas agências sociais estão sendo propostas pelas instituições privadas e algumas pelo próprio governo como forma de transferir ações governamentais para a esfera privada. com os interesses sociais coletivos que. a cada dia.) . demonstrando Coleção Sociedade. como os programas Comunidade Solidária. focalizadas e alimentadas como ingredientes de uma crença renovada do liberalismo. Bolsa Alimentação e Fome Zero. para eles. patrocinados pelo Estado como políticas sociais abrangentes. são a forma para a designação das caridades aplicáveis aos seus fiéis. 35 de forma a atender a necessidades imediatas do mercado em instituições que recebem apoio e financiamento público. Tais políticas. 2002) rumo a uma deliberada destruição de pressupostos e condições sociais. FIORI. também. já se tornaram desnecessárias e incômodas. No Brasil. e no seu limite como Estado capitalista nem poderia propor uma universalização da política social de maneira substantiva. programas de desregulamentação e desnacionalização de políticas e setores econômicos e sociais. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. MÉSZÁROS. aumentam seus volumes de riqueza e reprodução de capital sem que tenham preocupação alguma com as comunidades nacionais. Estado e Educação que o Estado brasileiro nunca firmou políticas sociais. como em muitos países periféricos e dependentes. ou consideradas resto de um passado histórico que atrapalha os seus exuberantes desfiles de cosmopolitismo de cócoras (Cf. de maneira que a subvenção pública seja controlada por essas instituições. mas estão sob controle da iniciativa privada. avançam programas de voluntariado e caridade privada. culturais. 2001) como integrantes da globalização do capital (Cf.

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90 p. G. 37 FRIEDMAN. F. Og Francisco Leme. 1990. junho de 1996. Revista Universi- Coleção Sociedade. Da ideologia do desenvolvimento à ideologia da globalização globalização: a educação como estratégia do Banco Mundial para “alívio da pobreza”. Trad. São Paulo: Abril Cultural. Milton. Ano VI. São Paulo: USP. Instituto ria Liberal. Tese (Doutorado). ra LEHER. Ajuda externa para a educação brasilei- ra: da USAID ao Banco Mundial. tradução de Luciana Carli. apresentação de Miguel Colasuonno. Reginaldo Carmello Corrêa. Roberto. 121-129. MORAES. Friedrich August von. PR: Edunioeste. Rio de Janeiro: José Olympio. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. NOGUEIRA. p. revisão sobre a edição de 1982 e tradução do prefá- cio de 1982 de Nestor Deola. ed. Cascavel. Social democracia e educação: educação te- ses para discussão. Capitalismo e liberdade liberdade. Desemprego e política monetá- ria. São Paulo: USP.) . M. Estado e Educação dade & Sociedade Sociedade. 1985. 1999. Guiomar Namo de. A democracia malcomportada – a teoria política do neoliberalismo econômico. HAYEK. (Título original em inglês Capilalism and Freedom de 1962. 1982 – Universi- dade de Chicago). MELLO. Autores Associados. Friedaman. São Paulo: Cortez. 1984. 1998. 2. número 11. Com a colaboração de Rose D.

Unioeste .unioeste.br/pos/educacao/ Estado. Educação e Sociedade Capitalista .Programa de Pós-Graduação em Educação http://www.

Jean Paul Sartre. p. p. Henri Lefebvre e Louis Althusser. 39 TRAZENDO O ESTADO DE VOLTA PARA A TEORIA: O DEBATE POULANTZAS-MILIBAND REVISITADO Alvaro Bianchi Quando publicou The Political System. Nada mal para um morto.” (1981. 1953. em 1953. David Easton pretendia questionar o lugar ocupado pela noção de Estado na análise política e apresentar um quadro analítico alternativo para estudo da política como um sistema de comportamento e instituições. enquanto a economia e a política Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.) . A vitória das teorias sistêmicas sobre as chamadas teorias estadocêntricas foi. Estado e Educação análise dos sistemas políticos desenvolvida por Easton e reformulada a partir do funcionalismo (Almond e Powell. Os responsáveis por esse inesperado renascimento foram os marxistas e. uma vitória de Pirro. o encontro anual da American Political Science Association assumia como seu tema central as “mudanças do Estado”. principalmente. um conceito que muitos de nós pensavam que havia sido abandonado um quarto de século atrás levantou-se de sua tumba para assombrar-nos mais uma vez. quase trinta anos depois de decretar a morte da noção de Estado. Max Horkheimer. As publicações de Pouvoir Politique et Classes Sociales (1968) e imediatamente a seguir de The State in Capitalist Society (1969) marcam uma ruptura no interior do próprio marxismo. Herbert Marcuse.) No mesmo ano. Em sua reconstrução da trajetória do marxismo ocidental. 106). a filosofia e a cultura ocupavam os lugares de destaque. Nas obras de Theodor Adorno. A Coleção Sociedade. O pressuposto desse empreendimento encontrava-se na afirmação de que “nem o Estado nem o poder constituem um conceito que sirva para desenvolver a investigação política” (Easton. que o “Estado. entretanto. consternado. o mesmo Easton constatava. Escrevendo em 1981. Perry Anderson (2004) destacou a subvalorização da política pela teoria marxista do pós-guerra. 1956) estimulou um grande número de estudos nas mais diversas áreas e permitiu à political science estadunidense banir por um longo período a noção de Estado do âmbito dos estudos sobre a política. 303. 1966) ou do pluralismo (Dahl. Nicos Poulantzas e Ralph Miliband.

1966. A resposta de Easton tinha razão de ser. p. Evidentemente essas obras haviam sido concebidas muito antes das revoltas estudantis e operárias que agitaram o final dos anos 1960 e boa parte da década seguinte. A publicação desses livros rompe com as ênfases até então postas e traz de novo o Estado e a política para o centro do pensamento marxista. em sua biografia de Ralph Miliband. (. Não apenas Poulantzas e Miliband haviam desenvolvido de modo original a teoria marxista do Estado.Programa de Pós-Graduação em Educação contexto político que essas obras encontraram seu público e que estimularam uma retomada dos estudos marxistas sobre o Estado e a http://www. como o haviam feito por meio de uma crítica explícita às teorias hegemônicas na ciência política. 1975). 185).. como também se apresenta – através da importância que assume – como a ‘alternativa’ ao marxismo” (Poulantzas. quando não eram simplesmente ignoradas.br/pos/educacao/ política. 2002. E Poulantzas se manifestou mais de uma vez a respeito da política nas páginas de Le Temps Modernes sem obter muito eco (cf. Michael Newman. Mas foi em um novo Unioeste .1 Daí a importância do marxismo acertar as 1 Segundo Runciman. É certamente um anacronismo vincular a produção delas a esse contexto. Educação e Sociedade Capitalista . Mas o próprio Easton (1981) foi obrigado a reconhecer que o “sistema político” encontrava-se “sitiado pelo [conceito de] Estado” e a atribuir principalmente a Poulantzas essa nova relação de forças. 1977. abandonando a atitude perante à teoria marxista que havia caracterizado o mainstream até então. Estado. “na ciência política só há na verdade um único candidato sério a essa teoria [geral] – usando teoria em seu sentido não prescritivo – à parte o marxismo. afirmava que o funcionalismo “não só diretamente se filia ao historicismo. 38)..unioeste. o autor de Pouvoir Politique et Classes Sociales. p. p. Citando Runciman. e foi marcada sempre por uma indiferença olímpica. mostra como este estava às voltas com um livro sobre o Estado desde pelo menos maio de 1962 (Newman. os textos reunidos em Poulantzas.) Essa abordagem alternativa ao marxismo é a [teoria] funcionalista” (Runciman. Já não bastava a olímpica indiferença e Easton foi obrigado a lutar em defesa de sua análise sistêmica no campo do adversário. O impacto desses livros pode ser avaliado pela reação que provocaram no mainstream da political science estadunidense. O impacto é ainda mais revelador porque a repulsa que este demonstrou pelo marxismo esteve geralmente sustentada pelo desconhecimento ou por uma imagem caricatural deste. 111). 40 encontravam-se relegadas a uma posição secundária.

Ao proceder desse modo. nomeadamente. Essa é uma das razões. e em mostrar as deficiências destas últimas da única maneira que me parecia possível. 1970. exposição essa fortemente amparada na leitura de Althusser. Uma vez que a publicação pela New Left Review dos primeiros artigos da polêmica Miliband-Poulantzas. escolhia como adversárias as teorias democrático-pluralistas: “tendo esboçado a teoria marxista do Estado [em Miliband. e principalmente com a teoria de Talcott Parsons. para desenvolver sua própria teoria. democrático-pluralistas. entretanto. que desde 1969 o público latino-americano tinha acesso à edição mexicana do livro de Poulantzas. o político: “é o político o objeto deste ensaio. para que a difusão de Miliband tenha sido maior no contexto anglo-saxão. Ao invés da enésima exegese dos textos marx-engelsianos e da incansável busca da verdade destes. ao mesmo tempo que admitiam os Coleção Sociedade. não é exagero afirmar que foi por meio destes artigos que Poulantzas se tornou primeiramente conhecido na Inglaterra e nos Estados Unidos. Vale ressaltar. p. teve como conseqüência uma ruptura com o padrão anterior de produção e difusão da teoria marxista. o autor de Pouvoir politique et classes sociales afirma ser seu objetivo a produção de conceitos e. 54. particularmente.” (Miliband. a produção de conceitos de uma estrutura regional.) . que será discutida neste artigo. por sua vez. Estado e Educação postulados das teorias hegemônicas da political science como desafios teóricos que precisariam ser respondidos pela teoria marxista. publicada pela editora Siglo XXI e que a mesma editoria publicou o livro de Miliband no ano seguinte. 41 contas com o funcionalismo. reposicionaram o marxismo no contexto intelectual e forçaram uma reação por parte do mainstream que acabou por conferir legitimidade acadêmica a suas obras. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 2 A recepção da obra de Poulantzas e Miliband não segue o mesmo ritmo devido ao fato do primeiro ter publicado seu livro originalmente em francês e apenas cinco anos depois ele ter sido traduzido para o inglês. 1965] eu estava preocupado em colocá-la de encontro às visões dominantes. Miliband.2 O ESTADO COMO OBJETO DE PESQUISA Depois de uma rápida exposição daquelas que considera ser as linhas gerais do marxismo e de sua constituição em duas disciplinas unidas mas distintas – o materialismo histórico e o materialismo dialético –. antecedem a tradução de Pouvoir Politique et Classes Sociales. juntamente com o estilo literário. Poulantzas e Miliband assumiram esses textos como um ponto de partida para a reflexão teórica.) A opção de Poulantzas e Miliband ao construir suas análises do Estado capitalista a partir de uma crítica das teorias funcionalistas e pluralistas. em termos empíricos.

Segundo Althusser.” (Althusser. Poulantzas descarta nesse livro a análise concreta de qualquer forma estatal historicamente dada e propõe uma análise conceitual do Estado capitalista em particular. 1997.) Os conceitos empíricos. 1997.br/pos/educacao/ que têm lugar na história. esses “conceitos acrescentam assim uma coisa essencial aos conceitos teóricos em sentido preciso: as determinações da existência (em sentido preciso) dos objetos concretos. 77. por sua vez. Unioeste . Poulantzas concebe o Estado como uma estrutura objetiva que tem a função particular de [. Educação e Sociedade Capitalista . 42 em particular a superestrutura política do Estado no modo de produção capitalista.] constituir o fator de coesão dos níveis de uma formação social. Não se trata. É precisamente o que o marxismo exprimiu. de deslegitimar toda análise concreta ou a produção de conceitos empíricos. Tomando como ponto de partida a existência de diversos níveis ou instâncias no interior da estrutura. Althusser considerava que os conceitos teóricos tinham por objeto determinações ou objetos abstrato-formais. que apresentariam desenvolvimento desigual. 15.) A distinção entre conceitos teóricos e conceitos empíricos afirmada por Althusser é fundamental para compreender o objetivo anunciado por Poulantzas. evidentemente. e a produção de conceitos mais concretos referentes ao político nas formações sociais capitalistas.. as características de uma dada formação social ou de uma forma estatal que tem uma existência concreta em uma dimensão espacial e temporal dada. Mas. seu autor opte por definir o Estado por meio de suas funções.” (Poulantzas.unioeste. p. quer dizer a produção do conceito desta região neste modo. “Esses conceitos não nos dão um conhecimento concreto de objetos concretos e sim o conhecimento de determinações ou elementos (diremos objetos) abstrato-formais que são indispensáveis para a produção do conhecimento concreto de objetos concretos. por exemplo. explicitando menos o que o Estado é e mais o que ele faz. 1977.) Afirmando a necessidade de produzir conceitos teóricos sobre a estrutura regional do político.. devido ao escasso desenvolvimento de uma teoria regional do político a produção desses conceitos empíricos deveria ser antecedida pela produção dos conceitos teóricos.” (Althusser. Essa atividade de produção de conceitos teóricos é levada a cabo de modo rigoroso em Pouvoir Politique. como. p. p. dizem respeito às determinações da singularidade que caracterizam os objetos concretos http://www. apesar de sua forte crítica ao funcionalismo. concebendo o Estado como Estado.Programa de Pós-Graduação em Educação 76. Rejeitando incisivamente o empirismo. mas chama a atenção que.

com uma carta que dizia: “Conheço seu livro. Mas talvez exista alguma utilidade em mostrar os mecanismos de dominação” (idem). 43 fator da ‘ordem’.) . Esta última função política sobredetermina as demais funções exercidas pelo Estado nos diferentes níveis na medida em que estas são necessárias para a manutenção da unidade de uma formação social no interior da qual há uma dominação de classe. Newman revelou. Penso. por meio da correspondência entre Poulantzas e Miliband. em sua função ideológica organiza a educação. Na sua função técnico-econômica o Estado é “intérprete dos interesses da classe dominante e direção geral do processo de trabalho”. etc. expor rapidamente aquela que considerava ser a única alternativa teórica: o marxismo. já que estou consciente de ter permanecido em um nível ainda muito teórico (Idem). O ponto chave dessa rápida exposição era a conhecida passagem do Manifesto comunista.” (Apud Newman. certamente. Seus comentários e conselhos seriam muito úteis. particularmente ‘Marx and the State’. que será muito mais importante que o meu. 8)deu a conhecer que teve acesso a essas Coleção Sociedade. sem falsa modéstia. Miliband (1972. e como fator regulador do seu equilíbrio global enquanto sistema (Poulantzas. The State in Capitalist Society iniciava com uma forte crítica das teorias pluralistas da política. p. como ‘princípio de organização’. Parliamentary Socialism e seus artigos. enquanto que. na qual Marx e Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. não no sentido corrente dos níveis de uma unidade complexa. 1977. não duplicará o meu. para. 42).) Miliband agradeceu o livro e respondeu prontamente: “Seu livro tornou-me apenas mais consciente das deficiências teóricas de meu próprio trabalho e das limitações do método que escolhi usar. o qual ajudou muito em meu trabalho. p. 2002. 51). e a função propriamente política consiste na “manutenção da ordem política no conflito de classe” (Poulantzas. Essa função geral de coesão da unidade se traduz em diversas modalidades referentes aos diversos níveis nos quais se articula uma formação. o ensino. O livro de Miliband já estava quase pronto quando dessa troca de correspondência e veio à luz um ano após. que foi o próprio autor de Pouvoir politique et classes sociales quem lhe enviou o livro. 203. p. a seguir. 1977.. de uma formação. p. Estado e Educação idéias de Poulantzas pouco antes de completar The State in Capitalist Society. A resposta de Poulantzas destacava a complementariedade dos projetos: Estou verdadeiramente entusiasmado com seu projeto e seu livro: acredito que é indispensável e.

Seu objetivo e missão ‘real’ é assegurar o seu predomínio continuado e não impedi-lo (Miliband. Unioeste . não apenas reivindicava explicitamente essa definição.. administração. Estado.] o Estado. Educação e Sociedade Capitalista . p. 1972. na sociedade capitalista. 1972. p. certamente. a função do Estado passava a ser concebida como sendo a de guardar e proteger os interesses econômicos da classe dominante: [. 322). 1972. forças armadas. 1972. a ‘classe dominante’ da sociedade capitalista é a classe que possui e controla os meios de produção e que é capaz.). ela própria definida em termos de sua propriedade e de seu controle sobre os meios de produção. São essas as pessoas que constituem aquilo que pode ser descrito como a elite estatal (Miliband. p.. Segundo Miliband. 1972. p. acima de tudo. como fazia dela o fio vermelho sobre o qual conduzia seu argumento. p.) Governo.” (Miliband. 1972.Programa de Pós-Graduação em Educação Com base nesse texto. 72-73). o instrumento coercitivo de uma classe dominante. Miliband. 67.) A escolha desse texto já marca uma importante diferença com a abordagem de Poulantzas. 16. naquelas sociedades de classe. 44 Engels afirmavam ser o Estado “um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia” (apud Miliband. governos subnacionais e assembléias legislativas são as principais instituições que dão forma a esse sistema estatal.” (Miliband. “O ‘Estado’ significa um número de determinadas instituições que em seu conjunto constituem a sua realidade e que interagem como partes daquilo que pode ser denominado sistema estatal..unioeste.. O Estado não era concebido por Miliband como uma coisa ou um objeto. a mais conhecida definição de Marx e Engels sobre o Estado. p. Grifos meus. de usar o Estado como instrumento de dominação da sociedade (Miliband. É nessas instituições que se apóia o ‘poder estatal’ e é através delas que esse poder é dirigido em suas diferentes manifestações pelas pessoas que ocupam as posições dirigentes em cada uma dessas instituições (. os autores do Manifesto “jamais abandonaram o ponto de vista de que. 36). em virtude do poder econômico que em decorrência disso lhe é conferido. a relação estabelecida entre poder econômico e poder político era uma relação profunda: http://www. 16). é antes de mais nada e inevitavelmente o guardião e protetor dos interesses econômicos que nela estão dominando. por sua vez. É absolutamente surpreendente que em Pouvoir politique et classes sociales não se cite essa que é. Estabelecida essa relação. o Estado era.br/pos/educacao/ No esquema marxista.

p. Miliband procurou demonstrar essa relação por meio de uma intensa pesquisa empírica. O resenhista reconhecia que o livro de Miliband tinha uma “importância capital” (Poulantzas. p. 53). publicada no número seguinte da mesma revista reforçou essa atitude e destacou a importância dessa discussão para a elucidação de conceitos e temas “de importância crucial para o projeto socialista” (1970. 667) e afirmava que seu autor havia mobilizado uma assombrosa massa de material empírico que lhe permitiu “não apenas demolir radicalmente as ideologias burguesas do Estado. Tal demonstração torna-se necessária uma vez que aquela relação profunda que era estabelecida entre o poder político e o poder econômico não se manifestava imediatamente nos processos históricos concretos. mas fornecer-nos um conhecimento positivo. p. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.) . considerou-as uma “contribuição crucial ao tema” (apud Newman. 1972. 45 Demonstrar a relação existente entre essa elite estatal e os detentores do poder econômico é o objetivo de The State in Capitalist Society. na qual afirmou ter apreciado muito o artigo e embora discordasse de algumas críticas. coisa que aquelas ideologias nunca haviam sido capazes de produzir. 74). p. mas não governa” e que essa classe “se contenta em dominar o governo” (apud Miliband. Já em sua correspondência com Poulantzas havia reconhecido que o objetivo principal de seu livro não era expor a teoria marxista do Estado e sim revelar os mecanismos de dominação.” (Idem. Estabelecer o nexo profundo entre poder político e poder econômico era. o qual observava que “a classe capitalista domina. O debate Poulantzas-Miliband tem início com a publicação pela New Left Review de uma resenha do livro The State in Capitalist Society. diretamente à teoria do Estado e sim ao método e objeto de uma pesquisa marxista sobre o Estado.) O tom do texto publicado era francamente amigável. A resposta de Miliband. entretanto. as referências a situações históricas concretas e a estudos empíricos são abundantes em The Sate in Capitalist Society. no qual era raro o recurso a casos concretos. Coleção Sociedade. escrita por Poulantzas (1969). 1969. ao contrário de Pouvoir politique et classes sociales. assim. Miliband recordava que esse problema já havia sido posto por Karl Kaustky. 204). As questões principais que organizaram o debate não disseram respeito. como reconheceu Miliband em carta a Poulantzas. fundamental para contra-restar o argumento pluralista. p. 2002. 1969. 69. Estado e Educação Para tal.

O efeito resultante dessa opção metodológica era. Uma vez que esse empirismo era elemento fundante da perspectiva democrático-pluralista. p. 88).] uma precondição de qualquer enfoque científico do ‘concreto’ é tornar explícitos os princípios epistemológicos de seu próprio tratamento http://www. 69). Ao considerar as proposições da ciência politica democrático- pluralista como proposições empíricas. iniciou seu primeiro comentário afirmando que eles “derivarão de posições epistemológicas aqui apresentadas que diferem daquelas de Miliband. p.. p.unioeste. de fato. 43-59). 2002. 4. 46 EMPIRISMO E TEORICISMO: QUESTÕES DE MÉTODO O debate Poulantzas-Miliband tem. também.) A crítica principal que lhe dirigiu era a ausência de um tratamento teórico do Estado: Unioeste . Ele a toma como uma espécie de ‘dado’ de modo a responder às ideologias burguesas examinando os fatos a sua luz (Poulantzas. 1969. p.br/pos/educacao/ deste. Miliband não levaria o terreno da disputa para a arena da teoria (cf. 1969. 1975. Estado. percebe-se como a elisão do confronto teórico não apenas deixava de pé os fundamentos dessa teoria como. p. uma subordinação às problemáticas teóricas adversárias e. ao empirismo característico da ciência política anglo- saxã (Poulantzas. em primeiro lugar um caráter fortemente metodológico. embora ela esteja constantemente implícita em sua obra.” (Poulantzas. 67..3 A unidade da idéias. The State in Capitalist Society procurava demonstrar sua inadequação aos fatos. ele “[. noções e conceitos que compõem o campo teórico a partir do qual um autor explica seu próprio 3 Sobre o conceito de problemática ver Althusser (1979. 1969. Agora. é importante notar que Miliband em lugar algum trata da teoria marxista do Estado como tal. tb.” (Barrow. 69). p. ele foi desde o começo uma disputa epistemológica sobre a existência de uma metodologia especificamente marxista. Laclau. 1975.) Poulantzas. Cf. Laclau.] nunca foi apenas um desacordo conceitual ou empírico sobre a natureza do Estado capitalista. segundo Poulantzas. p. Educação e Sociedade Capitalista . Ao invés de confrontar teoricamente a teoria democrático-pluralista. Segundo Clyde Barrow. A ausência de uma explícita afirmação da problemática teórica que organizava sua pesquisa implicava na ausência daquele sistema de referências internas que daria inteligibilidade não apenas às perguntas que direcionavam a pesquisa como também às respostas às quais poderia chegar. particularmente. resultava na incorporação pelo marxismo de seus pressupostos metodológicos... 88.Programa de Pós-Graduação em Educação [.

69). A questão não era.) . De fato. Antes mesmo da primeira troca de artigos entre Poulantzas e Miliband. portanto. 203). 2002. se Miliband tinha ou não uma teoria do Estado e sim qual o método adequado para a pesquisa marxista sobre o Estado. 54 e Poulantzas. p. que a afirmação é falsa” (Laclau. 55). 88). p. Mas a afirmação dessa necessidade não implicaria em uma problemática empirista subjacente. conseqüentemente. Miliband prontamente rejeitou em sua resposta a acusação de empirismo e procurou marcar a diferença entre a pesquisa empírica e o empirismo. 1975. Mas existiria em Miliband uma problemática propriamente marxista. Laclau resumiu de modo apropriado esse método. publicada na mesma New Left Review em 1973. o que era reconhecido pelo próprio Poulantzas (idem. entretanto. p. insinuava Poulantzas? Miliband respondeu. considerava necessário destacar “a absoluta necessidade de pesquisa empírica e de demonstração empírica da falsidade dessas ‘problemáticas’ opostas e apologéticas” (Miliband.. Segundo ele. p. 1970. Miliband argumentava que ela se encontrava implícita. todo o empenho do autor em The State in Capitalist Society parece ter um viés popperiano e estar voltado para falsear a teoria democrático-pluralista por meio de dados empíricos. demonstrar que os fatos estão em contradição com ela e. que já havia feito a exposição de sua “problemática” em outra ocasião (Miliband. “as acrobacias hiperteóricas pareciam demonstrar a fraqueza do método althusseriano” (apud Newman. não implicara em reconhecer exclusivamente na experiência a fonte de todo conhecimento ou a fonte da validação desse conhecimento. na correspondência pessoal. De modo geral. Estado e Educação começar com uma afirmação corrente da ciência política burguesa. ou seja. Essa argumentação foi desenvolvida e aprofundada em uma resenha da versão inglesa de Pouvoir politique et classes sociales. O tom desse artigo era. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. outro. 47 pensamento e a partir do qual outros podem chegar a uma compreensão efetiva – e não apenas alusiva – do pensamento desse autor permaneceria oculta em The State in Capitalist Society. 1969. Embora uma “problemática” propriamente marxista não fosse explicitada no texto de seu livro.] consiste substancialmente do seguinte: Coleção Sociedade. quando escreveu que ele “[. O incomodo era maior porque. um tanto incomodado. concluir. p.. 1965) e que não necessitava repeti-la. Poulantzas havia dito ter lido “Marx and the State” e ter feito uso dele. este último havia escrito a Rosana Rossanda que o livro publicado no ano anterior na França lhe havia desapontado.

O processo de conhecimento nesse modelo seria um processo de produção em grande parte análogo ao processo de produção material.br/pos/educacao/ (Miliband.) Embora definisse a prática como um processo. 86). 1970. Assim.Programa de Pós-Graduação em Educação tem tão poucos pontos de contato com a realidade histórica ou contemporânea que isso lhe barra qualquer possibilidade de realizar o que ele denomina como ‘a análise política de uma conjuntura concreta’ http://www. p. A partir dessa definição de prática em geral. o teoricismo da obra de Poulantzas residiria em um “abstracionismo estruturalista” que orientava epistemologicamente a pesquisa do autor de Pouvoir politique et classes sociales. Mas sua própria análise parece conduzir diretamente para um tipo de determinismo estrutural. utilizando os meios (‘de produção’) determinados..” (Althusser. entendia Miliband que [. 144.] o mundo das ‘estruturas’ e ‘níveis’ os quais [Poulantzas] habita Unioeste . a teoria era apresentada como uma “forma específica de prática”. a irritação crescente com o teoricismo de Poulantzas o que levou o autor inglês a tornar mais agressivo seu texto. denominados por Althusser de Generalidades I. Nesta nova intervenção no debate. assim. o autor de Pour Marx destacava que o momento determinante desse processo era o trabalho de transformação. capaz de transformar uma matéria-prima formada por representações. como uma “transformação de uma determinada matéria-prima dada em um produto determinado. Miliband abandonou a noção de “superdeterminismo estrutural”4 por meio da qual procurava caracterizar o pensamento de Poulantzas e procurou seus traços distintivos nos pressupostos epistemológicos deste. “Poulantzas condena o ‘economicismo’ da Segunda e da Terceira Interna- cionais e atribui a isso o fato delas terem negligenciado o Estado. A prática que organizaria ambos os processos era definida. transformação efetuada por um determinado trabalho humano. 48 Foi. 57). p. conceitos e fatos de modo a produzir conhecimento. constituiriam a matéria-prima que será transformada em conceitos especificados. Educação e Sociedade Capitalista . 1973. de modo geral. ou ainda um superdeterminismo estrutural. 1979. as Generalidades III: 4 Segundo Miliband. provavelmente. p.unioeste. Por abstracionismo estruturalista. O modelo epistemológico que sustenta o projeto de pesquisa de Poulantzas em Pouvoir politique et classes sociales é explicitamente referenciado naquele apresentado por Althusser em Pour Marx. a prática teórica. Estado.. o processo de realização dessa prática teórica no qual conceitos gerais. o qual torna impossível uma abordagem verdadeiramente realista da relação dialética entre o Estado e ‘o sistema’” (Miliband. O processo do conhecimento seria.

por meio deste. 1979. Althusser reconhece. Ora. pois o fato científico – e não o assim chamado fenômeno puro – só é identificado no campo de uma prática teórica (Althusser. Estado e Educação ocorreria completamente no âmbito da prática teórica e. seja de ‘fatos’ científicos. constituída seja de conceitos ainda ideológicos. 160). do abstrato ao concreto. o sistema teórico determinado de uma ciência. seja de conceitos já cientificamente elaborados mas que pertencem a um estágio anterior da ciência (uma ex-Generalidade III). desse modo. em elaborar os seus próprios fatos científicos. ao transformar essa Generalidade I em Generalidade III (conhecimento) que a ciência trabalha e produz (Althusser. própria do empirismo implicaria. No processo de conhecimento o abstrato não seria. 1979. é importante. 160). portanto. Concebendo o processo de conhecimento como um processo que tem lugar integralmente no âmbito da teoria. um concreto teórico produto desse trabalho. Para compreender essa exposição do trabalho teórico feita por Althusser. através de uma critíca dos ‘fatos’ ideológicos elaborados pela prática teórica ideológica anterior. p. Althusser descarta a idéia de que a ciência trabalharia sobre um existente imediatamente dado. que não seria. destacar. Elaborar os seus próprios ‘fatos’ específicos é.) . que sua concepção inicial encontrava-se marcada pelo teoricismo. elaborar a sua própria ‘teoria’. p. no reconhecimento de que a teoria operaria sobre os fatos. de uma epistemologia especulativa. em primeiro lugar que a passagem da Generalidade I à Generalidade III e. O ponto principal da autocrítica concentrava-se no conceito de prática teórica e na produção. a teoria. ao mesmo tempo. 1978. Mais tarde confessou que sua abordagem tratava-se de uma modalidade do racionalismo especulativo na qual a teoria assumia prioridade sobre a prática (Althusser. 49 Quando uma ciência já constituída desenvolve-se. a teoria opera sempre sobre o geral e produz seus próprios fatos: O seu trabalho peculiar consiste. ao contrário. assim como o concreto não é a realidade material. A transformação da Generalidade I em Generalidade III ocorreria por meio da Generalidade II. Coleção Sociedade. p. a generalidade que “trabalha” sobre a generalidade trabalhada de modo a produzir uma generalidade especificada. 95). portanto. Em um sentido materialista uma epistemologia poderia ter permitido o estudo do conjunto das condições materiais e ideais de produção do Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. ela elabora sobre uma matéria prima (Generalidades I). Tal idéia. seria. senão. É por conseguinte. já no prefácio da edição italiana de Ler o Capital. um ato de conhecimento.

Miliband. identificava-se com a própria filosofia. 1979. 149). Educação e Sociedade Capitalista . os pressupostos da teoria democrático-pluralistas com os resultados da pesquisa empírica por ele levantados para. do ‘devir’ das coisas em geral (Althusser. 146). Argumentava Laclau que a pesquisa marxista da política deveria ser capaz de: [. ela não era. 1975. mas concordou com a caracterização do “abstracionismo estruturalista”. p.. restringindo essa relação ao âmbito da própria teoria: É nesse duplo sentido que a teoria importa à prática. senão. uma teoria da prática científica e.] .. O efeito desse pressuposto não deixou de ser o teoricismo que carregava originalmente. como já foi visto procurava confrontar em The State in Capitalist Society. mostrar a inadequação desses pressupostos para a análise do real. Em sua intervenção no debate.unioeste. era essa epistemologia althusseriana o pressuposto http://www. e através desta a essência das Unioeste . A ‘teoria’ importa à sua própria prática. diretamente. desse modo. Por meio do conceito de prática teórica o antigo problema da relação teoria-prática era resolvido por Althusser. 50 conhecimento. (c) começar com os problemas teóricos para demonstrar as contradições teóricas internas as quais levam ao colapso do sistema teórico. Estado.. O escasso tratamento teórico dedicado à questão do Estado em seu livro impedia Miliband. 95). Ernesto Laclau manifestou sua discordância com a noção de “superdeterminismo estrutural” apresentada inicialmente por Miliband.. Poulantzas construiu um argumento circular no qual um conceito abstrato encontrava sua explicação em outro conceito abstrato. Mas a relação de uma ‘teoria’ com a sua prática. procurar falseá-los. na medida em que está em causa. 1979. nesse sentido. (d) propor um sistema teórico alternativo o qual pode ultrapassar as contradições internas do precedente (Laclau. definida então como a “teoria da prática teórica” (Althusser. interessa também com a condição de ser refletida e enunciada a própria Teoria geral (a dialética). p. onde se exprime teoricamente a essência da prática teórica em geral.] (a) indicar os pontos de conflito entre a esfera da confrontação ‘empírica’ e o sistema teórico em questão [. ou seja. Como visto. Definindo abstratamente os diferentes conceitos a partir dos quais organizava sua exposição. entretanto. mas no sentido especulativo que ela havia recebido nos primeiros textos de Althusser. (b) começar com os pontos em discórdia para identificar os problemas teóricos.br/pos/educacao/ metodológico que orientava a pesquisa de Poulantzas. p. produzindo um sistema conceitual incapaz de estabelecer qualquer nexo com o real. através desta a essência da prática em geral.Programa de Pós-Graduação em Educação transformações.

mas confina a si próprio à descrição dos pontos de discrepância (Laclau. dos pressupostos metodológicos assumidos. por sua vez. 51 de ir além dos testes de falseabilidade e de chegar até o ponto de desenvolvimento da pesquisa no qual seria possível propor um sistema teórico alternativo que ultrapassasse aquele que tinha sido objeto da crítica. também. essa demonstração é obviamente insuficiente para justificar a recusa das problemáticas opostas e carrega consigo uma enorme carga de dogmatismo.) . chama a atenção de que embora tenha começado sua obra criticando as teorias concorrentes. um processo de retificação dos erros presentes em problemáticas anteriores. sem conexão com as contradições internas das problemáticas precedentes. A radical descontinuidade entre as Generalidades I. segundo Laclau. 97. Ou seja. chegando à conclusão banal de que as teorias estrutural-funcionalistas não eram marxistas. p. na expectativa de que o rigor da exposição bastaria para rejeitar as teorias concorrentes. 1975. Estado e Educação problemática superaria aquelas contradições. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. uma vez que o processo de transformação das Generalidades I em Generalidades III. p. mas essa concepção é incompatível com a idéia de problemáticas como universos fechados. restringindo-se à apresentação rigorosa dos conceitos que constituiriam a teoria regional do político. Assim. 96). Procedendo dessa maneira. Poulantzas. por meio do trabalho teórico presente nas Generalidades II. Ora.” (Idem. De fato.) Esse modo de tratar as diferentes problemáticas não era decorrente. Poulantzas apenas demonstraria a inadequação de outras problemáticas a sua própria problemática. não confrontaria nem empírica nem teoricamente as problemáticas adversárias. pulando diretamente para a apresentação de um sistema teórico alternativo. Segundo Laclau. a partir dos quais o trabalho da teoria daria lugar a novos conceitos. poderia ser. Poulantzas forneça poucos argumentos para rejeitar essas teorias. entretanto. marcadamente as teorias estrutural- funcionalistas. muito bem os conceitos ideológicos próprios das problemáticas precedentes. Poulantzas não procura demonstrar as contradições internas das problemáticas que rejeita e o modo a partir da qual sua própria Coleção Sociedade. as Generalidades I poderiam ser. “o que está faltando em Poulantzas é uma concepção dialética do processo de conhecimento. II e II era o que permitiria falar de corte epistemológico e recusar a autogênese do conceito própria do pensamento hegeliano.

Educação e Sociedade Capitalista . Os cuidados que teria tomado na introdução de Pouvoir politique et classes sociales. A perspectiva epistemológica anti-empirista e anti-positivista que orientava Pouvoir politique et classes sociales exigia que os fatos concretos fossem analisados com a ajuda de um aparelho teórico. desse conceito e das formas mais exacerbadas de teoricismo que a este estavam associadas. As análises concretas estariam presentes nessa obra. Unioeste .Programa de Pós-Graduação em Educação No processo de produção de conhecimento por meio das Generalidades II. poderia encontrar o critério de sua validação ou ‘cientificidade’ em si mesmo. Estado. desde um primeiro momento. destacava ainda mais o teoricismo original e criava a falsa impressão de que as análises concretas emanavam dos conceitos abstratos. p. 67). afirmava Poulantzas. 52 A critica de Miliband e Laclau ao abstracionismo estruturalista tocou em temas importantes e motivou uma resposta de Poulantzas na qual evidenciava-se importantes inflexões em seu pensamento. O teoricismo. Esse viés teoricista que encontrava sua máxima expressão no conceito de prática teórica era entretanto. 66). desse modo. Mas se a crítica referente à ausência de análises concretas era infundada.” (Poulantzas. o que fazia com que. por sua vez. 1976. 1976. mas elas estariam aí como objetos da teoria. estava disposto a reconhecer os problemas que sua perspectiva carregava. p. o resultado seria correto. destacando unilateralmente esta última. movendo-se sempre no âmbito da teoria. Embora Poulantzas discordasse prontamente da acusação que lhe havia sido lançada. entretanto. validada por meio da adequação dos meios teóricos utilizados para a obtenção desse resultado. conforme havia apontado Laclau. as análises concretas fossem apresentadas “como meros exemplos ou ilustrações do processo teórico” (Poulantzas. criava a impressão de que “o processo teórico. embora de forma atenuada e teria levado Poulantzas a uma distinção muito aguda entre a ordem da pesquisa e a ordem da exposição.unioeste. bem como a inexistência desse termo em sua obra atestariam a distância que ele teria tomado. Esse problema próprio da exposição.) A adequação do resultado do processo de produção do conhecimento seria.br/pos/educacao/ com as Generalidades III. Se o trabalho das Generalidades II tivesse sido levado de modo correto. ou ‘discurso’. Esta posição secundária ocupada pelas análises concretas. p. era preciso reconhecer que essa perspectiva epistemológica envolvia certo teoricismo (Poulantzas. o fato de começar com as Generalidades I e terminar http://www. ainda estaria presente. 1976. implicava em um elevado formalismo. 66. freqüentemente. ao contrário do que Miliband afirmava. mais forte em Althusser (e ainda mais em Balibar) do que nele próprio.

o critério metodológico mínimo da abordagem contextualista – um autor deveria ser capaz de reconhecer aquilo que disse na interpretação que é feita dele – provavelmente Poulantzas e Miliband não se reconheceriam nessa interpretação.4 Se fosse aplicado. se algum dos participantes desse debate chegou a alguma solução satisfatória às questões levantadas. ambos criticaram mais de uma vez as simplificações do marxismo oficial e protestaram mais de uma vez contra essas etiquetas. Estado e Educação No contexto intelectual anglo-saxão. Argumentava a respeito da necessidade de tratar os “fatos concretos” teoricamente e assinalava que tanto em Fascisme et Dictadure (1970) como em Classes sociales dans capitaliste aujourd’hui (1974) tinha levado a cabo análises históricas concretas. As questões metodológicas postas em discussão por Laclau. Particularmente importante foram as questões metodológicas tratadas nesse debate. CONSIDERAÇÕES FINAIS Coleção Sociedade. p. É assim. que se limitava a apresentar “descrições narrativas” que se assemelhavam fortemente aquilo que Wright Mills havia chamado de “abstracionismo empiricista”. permaneciam sem uma resposta adequada. 1995. 2002) é porque ele tocou em questões vitais para o desenvolvimento da teoria marxista do Estado e da política. entretanto. Lo e Wright.) . De fato. Por outro lado. neste caso. afirmaram p. p. entretanto. Jessop. na revista Monthly Review (1975). 137) e Barrow (2002). p. essas análises se encontravam ausentes em Miliband. na conhecida apresentação do debate sobre o Estado publicada por Gold. p. É de se questionar. por exemplo. 1979. escrevia que ao contrário do que seria de se esperar. 13). 53 A posição de Poulantzas não lhe permitia uma resposta eficaz. (cf. esse debate foi interpretado freqüentemente como uma oposição entre teorias instrumentalistas (Miliband) e teorias estruturalistas do Estado (Poulantzas). ex. 1982. Se o debate ainda desperta interesse (cf. Aronowitz e Bratsis. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 2. esse debate não deixaria de ser um capítulo irrelevante da história do pensamento político marxista assim que o equívoco se desfizesse. 4 Ver a crítica desta abordagem em Carnoy (2003. Panitch. xiv e Holloway e Piccioto. Lido como uma suposta oposição entre teorias instrumentalistas e estruturalistas.

Clyde W. La filosofía como arma de la revolución revolución.Programa de Pós-Graduação em Educação quarenta anos da redação de Pouvoir politique et classes sociales e de The State in Capitalist Society implica percorrer novamente os caminhos http://www. Ler O Capital Capital. passados quase Unioeste . BARROW. Rio de Janei- ro. Boston: Little. Stanley. 21. occidental 2004. Nas trilhas do materialismo histórico. Continuaram. ed. 2. O primeiro dedicou-se cada vez com maior ênfase à “analise de casos concretos” (Poulantzas. POWELL JR. 2002. 1966. Louis et alli. Comparative politics politics: system. Perry. ALTHUSSER. Minneapolis: University of Minnesota. Estado. desse modo.unioeste. and Co. process. Stanley. 1974 e 1974a). 2002.. México D. Debatendo-se contra os limites de suas próprias formulações esses autores revelaram o estágio incipiente de desenvolvimento de uma teoria marxista do Estado e da política. Rio de Janeiro: Zahar. As alternativas teórico-analíticas que procuraram construir após o debate parecem indicar um empenho cada vez mais intenso de fusão dos materiais da pesquisa empírica com o processo de construção de uma teoria. p. 1970. Etienne.: Siglo XXI.F. 1997. Considerações sobre o marxismo occidental.. Gabriel.br/pos/educacao/ abertos por esses pioneiros. REFERÊNCIAS ANDERSON. Minneapolis: University of Minnesota. p. Peter (eds. ed. 54 A própria trajetória de Poulantzas e Miliband revela o impacto da discussão e os impasses aos quais haviam chegado. ARONOWITZ.) Paradigm lost lost: State theory reconsidered. Brown. ALTHUSSER. A favor de Marx Marx. Zahar. enquanto que o segundo voltou à teoria (Miliband. 3-52. Louis. teóricos e metateóricos que haviam ficado evidentes ao longo do debate. 1980. An intellectual history. empenhados na superação dos limites empíricos. Educação e Sociedade Capitalista . 1979. and policy. In: ALTHUSSER. 153-274. Desenvolver essa teoria. BRATSIS. São Paulo: Boitempo. The Miliband-Poulantzas Debate. BALIBAR. Bingham G. 1977). Peter (eds. Louis. In: ARONOWITZ. ALMOND. BRATSIS. Sobre os conceitos fundamentais do materialismo histórico.) Paradigm lost lost: State theory reconsidered.

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Les classes sociales dans le capitalisme aujourd’hui aujourd’hui.. Rio de Janei- ro: Zahar. 7. 56 POULANTZAS. Poder político e classes sociais sociais. 1976. 63-83. Nicos (Org. Paris: Maspéro. 1974. 2000. —. Educação e Sociedade Capitalista . —-. RUNCIMAN. —-. Paris: PUF. o socialismo socialismo. —-. 1976. A questão da autonomia relativa do Estado em Poulantzas. G.1977.br/pos/educacao/ tes. Fascisme et Dictadure Dictadure: la III e International face au Fascisme. 1974a.Paris: Françoise Maspéro. 95. Rio de Janeiro: Unioeste . 1970. —-. Marxista São Paulo.unioeste. O Estado. p. Grèce.67-78. 1978. Review —. São Paulo: Martins Fon- http://www. 4. —. 1966. Espagne. Crítica Marxista.. p. 1969. Décio. o poder poder. New Left Review Review. La crise des dictatures dictatures: Portugal.). SAES. La crise de l’État l’État. n. hoje 2 ed. The problem of the capitalist state. —. n. W. As classes sociais no capitalismo de hoje. p. 58. Rio de Janeiro: Zahar. Ciência social e teoria política política. The capitalist state: a reply to Miliband and Laclau.Programa de Pós-Graduação em Educação Graal. n. Pa- ris: Seuil. New Left Review. 1998. ed. 46-66. Estado.

me parece cada vez mais pertinente para a análise das políticas sociais. Estado e Educação apenas algumas considerações sobre o artigo A Evolução do Estado Brasileiro (uma interpretação marxista). em cada um desses períodos. desenvolvimento e consolidação do Estado Burguês. A EVOLUÇÃO DO ESTADO BURGUÊS NO BRASIL: A LEITURA DE DÉCIO SAES Francis Mary Guimarães Nogueira Apresentar um texto cuja temática central é do âmbito da Ciência Política. e particularmente expor a posição teórica de Décio Azevedo Marques de Saes sobre a Evolução do Estado Brasileiro pode parecer uma ousadia leviana e uma especulação da autora. compreender as diferentes correntes no interior do pensamento desta teoria. e com distintos elementos teóricos. e particularmente para as políticas educacionais. o comprador e o vendedor da força de trabalho. que garantiu as condições jurídico-políticas que se materializavam na liberdade de mercado: a relação entre iguais. a compreensão rigorosa da concepção de Estado na teoria marxista e. John Locke (1632-1704) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Essa escolha tem um objetivo: apresentar no Encontro Nacional de Educação e Marxismo o que há muito tempo e de forma ampla vem sendo discutido não só na ciência política. Thomas Hobbes (1588-1679).como exercício teórico necessário que não prescinde de ser num primeiro momento uma paráfrase. Portanto. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.) . mais ainda. A temática do Estado na origem da Modernidade se apresentou como um conceito e uma categoria de análise que exigia a formulação de novos conjuntos de saberes. no que diz respeito ao Estado brasileiro.que tem suas bases teóricas no trabalho da Livre Docência A formação do Estado Burguês no Brasil (1888-1891). Mas não me proponho a realizar nenhum desses procedimentos na exposição deste trabalho. sobre o Estado. Tecerei Coleção Sociedade. responderam a conjunturas econômico-políticas diferentes ao construírem um arcabouço teórico consistente para a emergência. estando do local da pesquisa educacional. publicado em “República do Capital: capitalismo e processo político no Brasil” . mas também na economia e na sociologia.

Como ela tenha sido conquistada pelo proletariado de armas na mão. consagrou-se assim. E. demonstrando o quanto o Estado de classe organizado na forma democrático-burguesa “é Estado. Sobre a luta republicana afirma Marx ‘ Cada partido interpretou-a à sua moda. por trabalho diferenciado para as crianças e para as mulheres. o proletariado lutava pela “república social”. e como resultado das contradições dessa sociedade. Concomitante a esse processo. isto é. mas ela vagou como um espectro nos atos seguintes do drama. particularmente na França. o movimento lá estava. juridicamente. As lutas de classes na França e a Introdução de As lutas de classes na França). Estas considerações de Marx e Engels nos mostram que as transformações democráticas do Estado burguês não correspondiam às aspirações da burguesia. nenhuma idéia clara do caminho a seguir. o direito à propriedade do uso da força de trabalho e do conhecimento aplicado à indústria. Educação e Sociedade Capitalista . pressionada. instinto. que promoveram o avanço meteórico das forças produtivas e das relações de produção no século XVIII. pois esta desde o momento da sua fase revolucionária quando. 58 Realizada a transição dos Estados Absolutistas em Estados-Nação Burgueses.interdição à liberdade de organização-. e proclamou- a a república social´. em junho de 1791. http://www. e muitos outros exemplos que a história guarda. lhes concedeu a “República Democrática”. por condições sanitárias nos locais de trabalho e pela luta por salário. E ainda: ‘A república social apareceu tanto como frase quanto como profecia. espontâneo. mas a classe burguesa. no entanto. este lhe imprimiu seu timbre. engendrou a nova forma societária da vida dos homens. 164/165). Foi proclamada a República Democrática (SAES. Esse processo que culmina com as revoluções democrática de 1848. que se expressava em conquistas materiais como os direitos do trabalho e da organização do trabalho. as próprias massas proletárias ainda não tinham após a vitória. a luta do proletariado emergente por redução das horas de trabalho. Diz Engels mesmo em Paris. e em 1795 o sistema de voto censitário – direito de voto segundo a renda. emergiu e se constitui como parte do mesmo movimento.br/pos/educacao/ De acordo com Marx e Engels.unioeste.Programa de Pós-Graduação em Educação com a promessa de resguardar e assegurar o bem comum de todos integrantes da sociedade. eleições e representatividade formal no Parlamento. P. no limiar da revolução de fevereiro. impossível de ser sufocado. Durante as jornadas de junho de 1848. impôs ao proletariado a Lei Le Chapelier. indicava que o Estado não era compatível Unioeste . e na primeira parte do século XIX. ela foi sufocada no sangue do proletariado parisiense. in SAES (1994) (O 18 Brumário. 1994.

A segunda grande concepção defende que ao longo de toda a evolução histórica do Brasil. 2001. 93). Em face dessa proposição. duas grandes concepções de caráter não marxista sobre a evolução do Estado no Brasil” (SAES. 168). nem de um. intitulado A ordem privada e a organização política nacional. vou sumarizar as duas grandes concepções de caráter não marxista no Brasil. em um ensaio publicado em 1939. o autor vai apresentar. a diferenciação entre o que é e o que não é ecletismo. O que me chamou muito a atenção quando da primeira leitura desse texto no Grupo de Pesquisa em Políticas Sociais – GPPS/Unioeste- Cascavel e.) . Este texto estabelece uma relação de soma-zero entre a sociedade(representada pelo poder privado) e o Estado. 93). Realizada essa sumária e simplificada incursão da emergência do Estado Burguês passo a apresentar a questão. foi o destaque dado inicialmente neste texto sobre a preocupação do autor em identificar. A segunda questão importante do ponto de vista metodológico e da exposição do texto foi estabelecer um contraste teórico entre a teoria política não marxista e a teoria política marxista de Estado. Como decorrência dessa análise. P. práticas essas voltadas para a o ecletismo teórico. Estado e Educação ecletismo é algo distinto da incorporação crítica de elementos teóricos externos num esquema teórico bem definido (SAES. pois Coleção Sociedade. 59 resultado deformado de um processo de luta.1994. compreendi a prática eclética que grassa em grande parte no curso de pedagogia em que ministro aulas e qual o caminho metodológico para não ser um “inocente eclético”. “redução desses cargos à condição de instrumento de um grupo de homens na busca de vantagens materiais ou políticas (como exercício do próprio Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. E mais. posteriormente. na atualidade. “mesmo de forma um pouco simplificada. que muitas vezes apenas ainda significa “ausência de autonomia teórica”. nem de outro dos agentes”(SAEs. P. na disciplina de Política Educacional Brasileira do Curso de Pedagogia-Unioeste. o que acaba tendo repercussões negativas no plano analítico. Esta tese é defendida por Nestor Duarte. A primeira está identificada com a preponderância do poder privado sobre o Estado. P. a prática de um grande número de pesquisadores. o objetivo e o motivo deste texto: a leitura teórica de Décio sobre a Evolução do Estado no Brasil (uma interpretação marxista). nas ciências sociais no Brasil. o Estado sempre foi Patrimonial privatização dos cargos públicos. percebe-se que o Estado é fraco no Brasil desde a Colônia até o Estado Novo. 2001. não correspondendo às intenções. Com esse dado teórico. Mesmo não sendo objetivo central deste texto.

”(SAES. 2001. mas não intransponíveis. publicou O poder do atraso-ensaios de sociologia da história lenta. Já mais recentemente. mantendo sobre controle o conflito entre as classes sociais antagônicas e impedindo dessa forma que tal conflito deságüe na destruição desse modelo de sociedade.br/pos/educacao/ função de assegurar a coesão da sociedade vigente.) e assume uma configuração institucional particular e desempenha de um modo também particular a sua função social” (SAES.. A não destruição dessa sociedade está garantida pela manutenção da hegemonia de uma classe sobre a outra. representada na Ciência Política por Nicos Poulantzas. “Qual é essa função social? É a http://www. Vale destacar que as análises marxista sobre o Estado têm uma formulação teórica complementemente distinta e mesmo antagônica às concepções apresentadas acima. Simon Schwartzman. em 1994. quando em 1958 publicou seu ensaio Os Donos do Poder. por meio da identificação da peculiar natureza de classe de cada um desses tipos históricos de Estado. Em razão dessa formulação teórica.96) na sociedade escravista. ancorada na exploração do uso da força de trabalho. Passamos então agora ao que o autor denomina de esquema teórico alternativo de interpretação da evolução do Estado no Brasil. publicou em 1975 São Paulo e o Estado Nacional. feudal e capitalista. 96). P. p. Com diferenças teóricas importantes. e em cada Estado o poder seria exercido por uma classe proprietária/exploradora diferente. Um dos pioneiros dessa concepção foi Raymundo Faoro. 2001. 60 poder)” (SAES. José de Souza Martins.94. Educação e Sociedade Capitalista . A corrente teórica althusseriana.. não desconsidera a identificação da classe exploradora que exerce o poder de Estado. P. Por que o Estado e não outra instituição como a família. a tendência dominante na análise marxista que vigorou até os anos 60 captava a especificidade institucional e funcional de cada tipo histórico de Estado.unioeste. e aponta que o fundamental na análise do Estado seria a caracterização da estrutura jurídico-política subjacente à instituição estatal em cada tipo histórico Estado. nas sociedades de classe. As análises marxistas dos Estados concretos se fundamentam Unioeste . 2001. o Estado tem sempre uma função social precisa a cumprir. a igreja ou os partidos políticos conservadores não poderia assumir o papel de defender e preservar a sociedade em vigência num determinado período histórico? Porque “O Estado é uma instituição que desempenha de um modo específico uma função social (. em cada momento histórico.Programa de Pós-Graduação em Educação na hipótese de que. discípulo de Faoro. despótica.).

por essa estrutura (SAES. dispensou a metade dos trabalhadores para manter- se como detentor dos meios de produção. o capitalista. a forma que a ideologia atinge os capitalistas não coloca em risco a reprodução da vida material. Isto é. bem como os efeitos ideológicos produzidos sobre os agentes econômicos e estatais1. como os produtores diretos ou trabalhadores. Pelas experiências históricas amplamente reconhecidas. como os produtores diretos e os agentes estatais. que são os responsáveis por regular as práticas econômicas e sociais. Para este autor. Nesse caso emblemático. a ideologia oculta que o resultado da miséria e. quando o capital se recicla ou entra em crise com a diminuição da taxa de lucro.1891? De acordo com SAES. Em razão dessa mudança substancial das relações de produção promove-se abertura a todos os homens declarados cidadãos. São estes efeitos ideológicos que atingem de formas distintas os capitalistas. o direito aplicado às relações econômicas e sociais. os trabalhadores e os agentes estatais ou funcionários. a impossibilidade da reprodução das suas vidas é da lógica do capital. Como este esquema teórico explicaria o Estado burguês no Brasil. 61 de sociedade. a função de manter a coesão de um tipo histórico qualquer de sociedade de classes. e que. é nesse momento histórico que a instalação das condições jurídico-políticas se estabelece e finca raízes para contratualizar de forma definitiva a mão-de-obra assalariada no Brasil. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 2001). inclusive dando-lhes condições de participação como funcionários desse Estado. no caso dos trabalhadores. resultado Coleção Sociedade. Esses valores produziriam efeitos ideológicos tanto sobre os detentores dos meios de produção. subjacente ao Estado. o capitalista com pesar dispensa parte da mão-de-obra. portanto. Um. a partir de então. são os valores jurídicos que regulam de forma duradoura as práticas econômicas e as relações sociais por elas condicionadas. mesmo cristão e temente a Deus. só que essa ideologia atinge de forma diferente os capitalistas e os trabalhadores. em última instância. funda-se no direito que iguala todos os homens: capitalistas. a partir de 1888. A estrutura jurídico-política burguesa. Estado e Educação de recessão e depressão econômica. operários e camponeses.) . que são as leis. O outro são valores que orientam a atividade e a organização interna dos agentes do aparelho do Estado. essa estrutura jurídico-política constituiria-se num conjunto de valores que é composto por dois elementos. que possibilitam à estrutura jurídico- política. convertidos em sujeitos individuais 1 Estou considerando neste artigo como sinônimos de agentes econômicos tanto os produtores dos meios de produção ou capitalistas.

quais os efeitos ideológicos que essa nova estrutura. como já assinalei anteriormente. Os critérios do recrutamento para a burocracia estatal e para a empresa privada que hierarquiza os homens. Assim se tornam equivalentes salário e trabalho. justificando a desigualdade justa. isto é. no qual os homens são http://www. ocorre pelo critério da competência. A partir daí todos os homens desiguais. que atribui a todos os homens a capacidade de praticar atos de vontade . isto é. assegurada pelo contrato. instaura- se uma convicção. de que a exploração do trabalho em troca do salário é de livre e espontânea vontade desses agentes. esse princípio garante a liberdade de trabalho. permitindo a livre venda e compra da força de trabalho. De acordo com essa orientação teórica. Estes efeitos ideológicos vão permitir a penetração do trabalho assalariado no Brasil de forma progressiva. os trabalhadores e os agentes estatais para garantir a coesão pretendida pela classe burguesa? Como já indiquei. poderia produzir sobre os detentores dos meios de produção. pelo uso desta força de trabalho pelo detentor dos meios de produção. salário e uso da força de trabalho são equivalentes. é que uns compram e outros vendem sua força de trabalho no mercado. Nesse caso. nem que for sob a ameaça do emprego da força. Educação e Sociedade Capitalista . tanto nos detentores de meios de produção como nos trabalhadores. são tratados igualmente porque podem agora pleitear acesso à condição de funcionários do Estado. o que iguala todos os homens (direito capitalista). mas de modo desigual entre as regiões e no interior das mesmas. estabelecida a partir de 1888-1891. o salário pago ao trabalhador é inferior ao valor de troca produzido pelo uso da sua força de trabalho. jurídico-política. nessa relação. na essência. Partindo dessa lógica jurídico-política que é possível identificar em qualquer Estado burguês. a força de trabalho assume a forma de mercadoria.capacidade jurídica em geral -. trabalho e salário se equivalem. Isso só é possível no direito capitalista. Reafirmando. 62 de direitos. independentes de sua condição sócio-econômica. Há um outro efeito ideológico decorrente desse: os agentes estatais têm a convicção de que é preciso garantir a liberdade dos detentores dos meios de produção e dos trabalhadores firmarem esse contrato/acordo.Programa de Pós-Graduação em Educação que vigorará desde esse período se organizará institucionalmente pelas regras do universalismo e da meritocracia.br/pos/educacao/ hierarquizados pelo critério da competência. a medida em que são iguais perante o contrato assinado pelas duas partes. o aparelho do Estado burguês brasileiro Unioeste .unioeste. Esses mecanismos integram também a especificidade da educação escolar nas formações sociais capitalistas. No entanto. não se configurando como Estado.

A primeira diz respeito à escola de Caio Prado Júnior que inspira trabalhos de história econômica recentes. fundamenta a demarcação histórica da ruptura da mão-de-obra escrava para a mão-de-obra assalariada. 63 uma particularidade da formação social brasileira. pois seria baseada na troca. da proclamação da República até a Revolução de 30. Essa orientação teórica marxista. além da distinção entre a identificação de qual classe exerceria o poder de Estado nas sociedades concretas. em que se dá o início do processo de acumulação de capital. Estado e Educação Esta posição teórica de Saes confronta-se com outras análises de pensadores marxistas brasileiros. que se configuraria como um elemento fundamental para a transição do Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. nem dos países dependentes. e a caracterização da estrutura subjacente à instituição estatal em cada tipo histórico de sociedade e os efeitos ideológicos produzidos sobre os capitalistas. empreendida por Saes no artigo acima citado. constituindo-se em uma economia mercantil. 98). trabalhadores e os funcionários do Estado.) . isto é. há mais duas distinções significativas: uma quanto ao momento em que se instala o capitalismo na formação social brasileira e o Estado capitalista. Do ponto de vista do autor em pauta. c) um Estado dos capitalista. os quais afirmam que a economia colonial é capitalista. de corte althusseriano. b) um Estado de senhores de terras ou latifundiários. de 1930 até hoje” (SAES. P. identificando a seguinte divisão histórica: o Estado escravista moderno se configuraria a partir de meados do século XVI até a abolição da escravatura e o final da monarquia. Coleção Sociedade. 2001. Em face dessa economia mercantil a economia colonial acha-se integrada de forma subordinada. de meados do século XVI até 1888-1891. Mas. o Estado burguês desse momento histórico até os dias atuais. da abolição da escravatura e da promulgação da Constituição da República de 1891. e a outra diz respeito à tese de que a Revolução de 30 teria determinado a formação do Estado burguês no Brasil. Primeiramente. os pesquisadores marxistas que se filiam a este recorte teórico tratariam do período Colonial-Imperial e Republicano procurando descobrir a natureza da estrutura jurídico-política subjacente ao aparelho estatal da Colônia-Império e da República. quanto à natureza de classe do Estado brasileiro. a interpretação de muitos pesquisadores marxistas clássicos limitariam-se a uma interpretação restrita à evolução do Estado no Brasil: “a) um Estado de senhores de escravos.

particularmente. —.Programa de Pós-Graduação em Educação do Estado burguês no Brasil encontra-se nos textos que Octavio Ianni produziu nos anos 60 e 70 do século XX. Como decorrência dessa leitura. há o contraste no interior do pensamento marxista sobre a emergência do capitalismo e do Estado burguês. permitindo aos pesquisadores das políticas sociais e. Mas é no artigo de Ruy Mauro Marini. ed. em que. Estado e democracia: ensaios teóricos. que essa teoria se explicita quando da análise deste autor sobre o Império brasileiro. que seria governo central. apesar das relações serem escravistas nesse período. REFERÊNCIAS SAES. São Paulo: Boitempo Editorial. o escravismo e as formas políticas burguesas não seriam contraditórias. http://www. o Estado implantado no Brasil Colônia. Estado. projetos e programas dos diversos níveis de governo no Brasil. 2. pois o papel deste Estado seria o de mediador entre a economia escravista periférica e o mercado mundial. A segunda distinção que diz respeito à tese de que a Revolução de 1930 teria determinado a formação Unioeste . 1). 64 capitalismo. e sua função econômica já seria capitalista. (Coleção Trajetória. porque orientariam essa troca e favoreciam a transferência de excedente para a Metrópole configuraria-se como um Estado Capitalista. da pesquisa educacional uma contribuição inestimável para comparar dados da história. mais câmaras municipais. Campinas: Unicamp. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.numa perspectiva marxista -. em que além da explicitação do contraste com autores não marxistas. o “modelo de dominação” e as “formas políticas” seriam burguesas. El Estado em América Latina. D. 2001. Educação e Sociedade Capitalista . A evolução do Estado no Brasil (uma interpretação marxista) In: —. argumentos teóricos e as implicações políticas desse recorte teórico na ação prática dos educadores quando se deparam cotidianamente com a ação deliberada de propostas e implementações de legislações.br/pos/educacao/ O resultado.unioeste. Para este autor. República do capital: capitalismo e processo político no Brasil. 1998. mesmo que provisório dessa paráfrase sobre a leitura de Saes da Evolução do Estado Brasileiro.

recomenda que as instituições sociais sejam orientadas por uma racionalidade dita sensível. que tratamos da reforma do Estado brasileiro. recomenda a reforma das instituições sociais que num cenário de globalização econômica e social não poderiam continuar a mercê de um paradigma de organização obsoleto e ineficiente. 2006) que. Estado e Educação pós-modernidade (ZANARDINI. não se trata. É em meio à proposição desse “moderno” paradigma de racionalidade e organização. desde Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. do Estado burguês para a reprodução do modo capitalista de produção. afetando intensamente tudo.. ao indicar um conjunto de “posturas teórico-metodológicas” que propõe. particularmente. tendo em vista a essencialidade do Estado em geral e. em meio a mais uma de suas crises cíclicas. por exemplo. o Estado se afirma como pré- requisito indispensável para o funcionamento permanente do sistema do capital. em meio aos princípios do neoliberalismo e da globalização. que não descarta as instituições que têm servido ao capital. consoante com um determinado processo de reestruturação do modo de produção que. de descartá-lo. O que estamos afirmando é que. Assim.) . 65 A REFORMA DO ESTADO BRASILEIRO NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO E DA PÓS-MODERNIDADE Isaura Monica Souza Zanardini A reforma do Estado implementada no Brasil na década de 1990 é tomada neste artigo a partir do quadro político e econômico que se acentua nesta década. Ao constituir-se como a ideologia de sustentação do modo capitalista de produção em seu atual estágio. empreende estratégias capazes de orientar a racionalidade do processo de produção e reprodução do capital. no contexto da globalização e da pós-modernidade. tendo em vista que: “. capaz de acompanhar as demandas do mercado e da sociedade moderna. mas de rever os fatores de ineficiência para a reprodução eficaz de um determinado modelo social. a pós-modernidade.. a valorização do pragmatismo e a celebração da diversidade. em seu microcosmo e nas interações das unidades particulares de produção entre si. mas exige a revisão de sua forma de gestão. Faz parte dessa estratégia o que chamamos de ideologia da Coleção Sociedade. o desapego à teoria.

produzir as condições necessárias para a reprodução das relações de produção empreendidas neste modelo social. [. abrir a economia. desregular. é preciso. o neoliberalismo utiliza o argumento de que o Estado é o principal responsável pela crise pela qual passa a sociedade capitalista. Para consolidar um “novo” padrão de Estado. no contexto da crise estrutural do capital e das estratégias adotadas para enfrenta-la. A sua ineficiência para atuar nos setores econômico e social. incluindo suas formas de organização. Para tratar da reforma do Estado que se constitui a partir do processo de reformas estruturais. cuja solução consistiria em rever as formas de intervenção do Estado. 109).. etc” (FIORI. 147-148).. instaurando-se novamente a lógica do livre mercado. Afinal: [. portanto. como aponta Friedman (1962).. Para os teóricos neoliberais é necessário. 66 os intercâmbios locais mais imediatos até os de nível mais mediato e abrangente” (MÈSZÀROS.. minimizar a extensão em Estado. para superar a crise e fortalecer o capital. A respeito da crise do Estado. Para os neoliberais. 1997.br/pos/educacao/ manifestarem as suas virtudes intrínsecas. P. implementadas no contexto da globalização contemporânea para assegurar a sua correspondência à formação social capitalista e.] um governo é essencial para a determinação das “regras do jogo” e um árbitro para interpretar e pôr em vigor as regras estabelecidas.Programa de Pós-Graduação em Educação trata-se da: “[. assim como a todas as práticas e instituições relacionadas à ele. a terapia liberal- conservadora acabava sendo a mesma para países centrais ou periféricos: privatizar. a crise é do Estado e. eliminar a necessidade de um governo. que nunca permitiram aos mercados http://www. Fiori chama a atenção para o fato de que esta expressão teria adquirido uma dimensão consensual e que Unioeste . reformar o Estado.unioeste.. cabe antes tratar da chamada crise do Estado. como sendo os fatores perversos. para superá-la. que da forma como está organizado. Educação e Sociedade Capitalista . 2002. sem contudo. de modo improdutivo e ineficiente.. O que o mercado faz é reduzir sensivelmente o número de questões que devem ser decididas por meios políticos -. faz-se necessária a retomada da direção da economia pelo mercado. rever/reformar o Estado. estariam provocando a crise do capital.] velha crítica liberal à política e ao Estado. p.] apesar de a crise e suas manifestações serem de natureza distinta. desse modo. tem se mostrado incapaz de orientar o desenvolvimento do modo de produção vigente. e por isso. cortar o gasto público. juntamente com os gastos excessivos com os direitos sociais.

a parcela menos favorecida da população. p. 15). o Estado desviou-se de suas funções básicas para ampliar sua presença no setor produtivo. e (3) a superação da forma de administrar o Estado. caracterizada pela crescente perda do crédito por parte do Estado e pela poupança pública que se torna negativa. 09). além da gradual deterioração dos serviços públicos. elaborado e implementado pelo Ministério da Administração e Reforma do Estado – MARE.) . que têm dentre seus principais representantes o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex- ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira. e o estatismo nos países comunistas. No Brasil. na ânsia de manter eficiente a relação produção e consumo. nessa perspectiva. (FRIEDMAN. a superação da administração pública burocrática (p. p. a reforma do Estado passou a ser instrumento indispensável para consolidar a estabilização e assegurar o crescimento sustentado da economia. Nesse sentido. responsáveis pela definição e implementação da reforma do Estado empreendida no Brasil a partir de 1995. o agravamento da crise fiscal e. também apontam o Estado como responsável pela crise. Em razão do modelo de desenvolvimento que Governos anteriores adotaram. o então presidente Fernando Henrique Cardoso Coleção Sociedade. De acordo com essa orientação político-teórica. Estado e Educação expressou seu entendimento a respeito dessa crise: A crise brasileira da última década foi também uma crise do Estado. o que acarretou. da inflação. isto é. 67 que o governo tem que participar diretamente do jogo. Diante dessa compreensão da crise do Estado. 1995. temos a definição do que seria essa crise do Estado: A crise do Estado define-se então como: (1) uma crise fiscal. a idéia de que é preciso reformar o Estado para aumentar sua eficiência e capacidade de regulação. a que recorre. Nesse mesmo documento. a estratégia de substituição de importações no Terceiro Mundo. seria capaz de recuperar os valores e os princípios inscritos na chamada racionalidade material/subjetiva e garantir a liberdade econômica. os liberais. temos. para tornar Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Já na introdução do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. no conjunto de princípios que orientam os liberais. 1962. 23) O mercado. por conseqüência. em particular. Somente assim será possível promover a correção das desigualdades sociais e regionais (BRASIL. a partir de 1995. a qual se reveste de várias formas: o Estado do bem-estar social nos países desenvolvidos. sob a direção do Ministro Bresser Pereira. (2) o esgotamento da estratégia estatizante de intervenção do Estado.

cuja expansão ocorreu de modo inorgânico e segmentado. dada sua legitimidade democrática e o apoio com que conta da sociedade civil.br/pos/educacao/ boa parte das proposições que se materializam na reforma da educação básica: Há hoje um consenso razoável sobre a necessidade de diminuir o tamanho do Estado na economia. uma vez que o contexto do mundo globalizado e orientado por um paradigma de racionalidade “mais sensível” lhe reserva novas funções. Unioeste . um problema de governança. Este conceito. a formulação de políticas contraditórias e sobretudo uma enorme dificuldade de instituir controles públicos sobre a máquina estatal (1990. responsável por http://www. Um Estado agigantado. Não se trataria. de poder para governar. portanto. não suprime o Estado. vem. Assim. De acordo com Namo de Mello. entretanto. mas propõe. segundo este autor. A proposta liberal. a sua reforma. Essa proposta pressupõe a superação de uma determinada ineficiência causada por um determinado “erro de racionalidade” e. surgido na década de 1960. ou seja. 68 o país capaz de inserir-se na competitividade internacional. possibilitaria a modernização necessária para a retomada do desenvolvimento.Programa de Pós-Graduação em Educação portanto. não se trataria de suprimir a ação do Estado na regulação da economia. Segundo o Plano Diretor: “O governo brasileiro não carece de “governabilidade”. 1995. A reforma do Estado tem em vista. mas que é sempre situacionista. sofrendo um permanente processo de redefinição.” (BRASIL. pelo enfraquecimento da administração direta. para superar a crise do Estado. de acordo com Fiori: “O conceito de governabilidade foi sendo redefinido ao longo dessas três décadas. mas sua derivação prática apontou cada vez mais na direção de limitar Estado. Educação e Sociedade Capitalista . p. p.unioeste. então. então. uma vez que se trata de uma categoria estratégica. posta pelo contexto da globalização. que varia de acordo com o lugar e com o tempo. gerou a ineficácia. na medida em que sua capacidade de implementar as políticas públicas é limitada pela rigidez e ineficiência da máquina administrativa. mas de reorganizar a máquina estatal para ampliar a sua capacidade reguladora. ampliar a capacidade de “governança” do Estado. 71). Enfrenta. nem ignora o mercado.19) No entendimento de Fiori (2001). corretora e estimuladora. de reformar o Estado para torná-lo mínimo. a incapacidade de governar. novas estratégias administrativas e novas instituições. a proposição de reforma do Estado busca a governabilidade. novas competências.

primordialmente. Seria a afirmação de que.] Quando o Estado intervém sobre os criativos empreendedores. como intrusão indevida. o percurso feito pela administração pública para adequar-se ao movimento “revolucionário” do capital. no máximo tolerada. o Estado era entendido como propriedade do rei. parece haver o entendimento de que um “novo” Estado não poderia conviver com uma perspectiva de administração arcaica. que seria. “erros” de racionalidade. Estado e Educação globalizada. pela formalidade e pela impessoalidade. é importante para apreender. também. entram também em crise os paradigmas por ela elaborados. 69 o número de atividades submetidas ao poder regulador dos estados e apostar nas virtudes dos mercados auto-regulados” (p. denotando a noção de que problemas técnicos. são geradores dos problemas enfrentados pela sociedade brasileira no contexto da sociedade globalizada: A administração pública burocrática foi adotada em substituição à administração patrimonialista. p. A passagem que se segue. Nesse tipo de administração. pela centralização. não poderia ser atendida por estratégias da administração pública burocrática. em linhas gerais..) . Essa perspectiva de administração é apresentada como a solução para a crise do Estado.[. pelo controle dos processos. inibe aquilo que é mola propulsora do progresso e afeta a competitividade dos agentes (2002. 15). 119). pela rigidez de normas e procedimentos. segundo a análise de um liberal. caracterizada pelo privilégio da pluralidade. A reforma administrativa. marcada pela racionalidade formal. Essa sociedade. típica do contexto da modernidade. e a justificativa para a reforma do Estado proposta. é proposta a partir da implementação da chamada administração pública gerencial. mas também política e ideológica do Estado. embora longa. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. para supostamente preservar o bem público (as regulações legais) ou sustentar suas atividades (a taxação). tendo entrado em crise a modernidade. no que diz respeito ao seu modo de intervenção. Está presente. No conjunto das críticas feitas ao modelo burocrático de administração. nessa transcrição. que definiu as monarquias absolutas e na qual o patrimônio público e o privado eram confundidos. uma interpretação de que urgem novas instituições para atender às demandas da sociedade competitiva e Coleção Sociedade. e substituiria o modelo racional-legal ou burocrático que vinha orientando a administração pública. a ênfase na inovação administrativa. De acordo com MORAES: A intervenção da autoridade pública sobre as iniciativas privadas é vista..

1999. auto-referida. cara. Nesse tipo de Estado. previdência e assistência social. senão a corrupção. 70 O nepotismo e o empreguismo. mas também as estratégias de crescimento da própria burocracia. saúde. racional-legal. o problema da eficiência tornou-se essencial. essencial. o serviço público mais importante era o da administração da Justiça. pouco ou nada orientada para o atendimento das demandas dos cidadãos. A administração pública burocrática clássica foi adotada porque era uma alternativa muito superior à administração patrimonialista do Estado. eram a norma.241-242) A reforma do Estado brasileiro portanto. p. Entretanto. mas também da separação entre o político e o administrador público. incluindo o Exército e a Marinha. Educação e Sociedade Capitalista . No momento em que o pequeno Estado liberal do século XIX Unioeste . estabilidade da moeda e do sistema financeiro. O problema da eficiência não era. Esse fato nada tinha de grave enquanto prevaleceu um Estado pequeno. responsável pela polícia. apresentada em meio à globalização e à ideologia da pós-modernidade. formada por cidadãos. assumindo um número crescente de serviços sociais – educação. nesse momento. No momento. provisão dos serviços públicos e de infra-estrutura –. distingue-se do Estado ao mesmo tempo em que o controla. na verdade. A necessidade de uma administração pública gerencial. pesquisa científica – e de papéis econômicos – regulação do sistema econômico interno e das relações econômicas internacionais. (BRESSER-PEREIRA. o da Fazenda e o das Relações Exteriores.br/pos/educacao/ qualidade. Por outro lado.Programa de Pós-Graduação em Educação cedeu definitivamente lugar ao grande Estado social e econômico do século XX. portanto. o pressuposto de eficiência em que se baseava não se mostrou real. não decorre apenas de problemas de crescimento e da decorrente diferenciação de estruturas e complexidade crescente da pauta de problemas a serem enfrentados. o da Defesa.unioeste. que o Estado se converteu no grande Estado social e econômico do século XX. só pode existir democracia quando a sociedade civil. para alcançar uma Estado. a administração burocrática é lenta. verificou-se que ela não garantia nem rapidez. Na verdade. Surgiu então a administração burocrática moderna. nem custo baixo para os serviços prestados ao público. a expansão do Estado respondia não só as pressões da sociedade. No Estado liberal só eram necessários quatro ministérios – o da Justiça. mas também da legitimação da burocracia perante as demandas da cidadania. cultura. entretanto. É essencial para o capitalismo a clara separação entre o Estado e o mercado. Tornou-se assim necessário desenvolver um tipo de administração que partisse não só da clara distinção entre o público e o privado. nem boa http://www. que o Poder Judiciário realizava. Esse tipo de administração revelar-se-ia incompatível com o capitalismo industrial e as democracias parlamentares que surgiram no século XIX. cuja única função era garantir a propriedade e os contratos.

Essas atividades exclusivas.) . BRESSER-PEREIRA. Os serviços não-exclusivos são os serviços que o Estado provê. podem ser também oferecidos pelo setor privado e pelo setor público não-estatal. saúde e cultura) e da pesquisa científica. A perspectiva de descentralização está relacionada à idéia de criação de agências autônomas e de organizações sociais. 2001. c) setor de produção de bens e serviços. As organizações sociais são constituídas a partir da distribuição dos três setores de atuação do Estado. propõe uma “nova racionalidade” via a implementação da chamada administração pública gerencial que. de saúde. 71 suposta capacidade competitiva e enfrentar a essência do problema da eficiência. as atividades que garantem diretamente que as leis e as políticas públicas sejam cumpridas e financiadas. São assim. Esse setor compreende especialmente os próprios serviços de educação. é a única organização com poder para regular não apenas os próprios membros da organização. de cultura e de pesquisa científica. Integram esse setor as Forças Armadas. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. na medida em que este. mas que. não devem ser identificadas com as do Estado liberal clássico. incentiva a criatividade e a inovação. p. consubstanciada na reforma: Coleção Sociedade. segundo seus defensores. o setor de produção de bens e serviços é formado pelas agências estatais. implementa a descentralização e o contrato de gestão como formas de controle da administração empreendida pelos gestores públicos. enquanto aparato. 36). como não envolvem o exercício de um poder extroverso. é orientada para o cidadão e para o controle dos resultados. pelo orçamento público (Cf. entendidas como entidades públicas de direito privado que celebram um contrato de gestão com o Estado e assim são financiadas. (BRESSER- PEREIRA. portanto. e a agência de seguridade social básica. p. para a valorização dos administradores e demais servidores públicos.242). para o qual bastam a polícia e as Forças Armadas. Por fim. b) atividades não-exclusivas e. em especial as agências reguladoras. mas os de toda a sociedade. 1998. Estado e Educação a) atividades exclusivas do Estado. parcial ou mesmo totalmente. a Polícia. no qual se insere o núcleo estratégico. As atividades exclusivas são aquelas que envolvem o poder de Estado e que implicam um poder extroverso com relação ao Estado. a agência arrecadadora de impostos – as tradicionais funções do Estado – e também as agências às quais o Parlamento delega diretamente e/ou através do presidente da República determinados poderes discricionários. as agências de fomento e controle dos serviços sociais (educação.

Estado. mas ao mesmo tempo assegura-se.. saúde. uma vez que não implicam o exercício do poder do Estado. necessariamente. cultura e Unioeste . institui-se a chamada propriedade pública não-estatal. os “[. pois está relacionada à questão da propriedade de cada um desses setores. Esta garantia. as atividades exclusivas ficam.unioeste. utilizar organizações de direito privado mas com finalidades públicas. necessariamente. que é assim explicada e justificada: No domínio dos serviços não-exclusivos. Por outro lado. Através da instituição da propriedade pública não-estatal e das agências autônomas (reguladoras) que residem no âmbito das atividades exclusivas e que requerem contratos de gestão. temos a chamada desregulamentação.Programa de Pós-Graduação em Educação pesquisa cientifica). que o Estado democrático deve garantir de forma universal. a definição do regime de propriedade é mais complexa. não há razão para serem privados. sob a alçada do Estado. sem fins lucrativos.241). que concretamente significa a ampliação da relação parceira entre Estado e mercado no controle das políticas públicas. segundo ele.. com a Reforma Gerencial (p. Se não têm.] direitos básicos de cidadania. como está claro. 211). como aconteceu no Estado do Bem-Estar do século vinte. Na reforma do Estado. cabe ao Estado financiar ou subsidiar esses serviços. “não-estatal”. ou por intermédio de organizações públicas não-estatais. Se não têm. como a educação básica e a saúde” (p. Essa tarefa será realizada pelo Estado diretamente. isto é. ibidem. seja porque implicam externalidades envolvendo economias que o mercado não pode compensar sob forma de preço e lucro (educação. independentemente da contribuição de cada um. que deve ser de todos e para todos e que não visa ao lucro. no sentido de que não é parte do aparelho do Estado (Idem. 38).br/pos/educacao/ razão para que sejam controlados pelo Estado. Sendo assim. a alternativa é adotar-se o regime da propriedade pública não-estatal. não há razão para que sejam controlados pelo Estado. Se assumirmos que devem ser financiados ou fomentados pelo Estado. seja porque envolvem direitos humanos básicos (como educação e saúde).] pressuposto social-democrático e social-liberal de que educação básica e saúde são direitos sociais de cidadania de caráter universal. parte do: [. de ser propriedade do Estado. ao setor de bens e serviços destina-se a propriedade privada. 72 Dessa distribuição decorre a criação das chamadas agências autônomas e das organizações sociais. e no que se refere às atividades não exclusivas. “Propriedade pública” é aqui utilizado no sentido de que se deve dedicar ao interesse público. Educação e Sociedade Capitalista . de ser propriedade do Estado nem de ser propriedade privada. p. não há http://www.. como afirma Bresser-Pereira (1998)..

que tem no mercado a busca da eficiência necessária no âmbito do setor não-exclusivo do Estado implementa-se a descentralização que é incentivada pela administração pública gerencial e. a implantação das agências autônomas. e garantirá a essas entidades os meios humanos. particularmente a da administração pública gerencial. p. 259). no nível das atividades exclusivas de Estado. declara Bresser-Pereira: “Trata-se aqui de colocar em prática as novas idéias gerenciais e oferecer à sociedade um serviço público de melhor qualidade. é possível considerar que. e. 73 Detendo-nos nessa forma de regulação. no setor público não-estatal será a tarefa estratégica” (2001. acirra-se a materialização dos preceitos sociais-liberais na medida em que amplia-se a relação acima apontada. o objetivo da reforma. encontramos. no conjunto de argumentos utilizados para justificar a reforma do Estado. conforme é anunciado no próprio Plano Diretor. Sobre a preocupação com a definição e implementação das agencias autônomas e organizações sociais. portanto.) . desse modo. através dessas instituições. Estado e Educação (BRESSER-PEREIRA. a materialização da crítica à ação do Estado e ao seu funcionalismo burocrático. 1999. do servidor público: Procura-se mostrar o seu apego a regras e impessoalidade – valores positivos da burocracia na argumentação weberiana – conduz de modo Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. materiais e financeiros para sua consecução” Coleção Sociedade. ao mesmo tempo. p. Para isto. Moraes chama a atenção para a imagem que se desenha. atrelando a esse serviço um novo critério de êxito: o objetivo é sempre o melhor atendimento ao cidadão-cliente a um custo menor. como uma contribuição ao “fortalecimento da democracia”. considera-se no âmbito da Reforma do Estado que tais organizações são mais eficientes e podem realizar com mais qualidade alguns serviços do que se fossem oferecidos por organizações estatais ou privadas (Cf. é mais garantir a definição de novas instituições – agências reguladoras e organizações sociais – do que propor estratégias de gestão. o núcleo estratégico definirá os objetivos das entidades executoras do Estado e os respectivos indicadores de desempenho. nas chamadas organizações sociais. Além disso. e sua relação com a busca da eficiência e. As organizações sociais são apontadas como uma possibilidade de espaço intermediário entre o Estado e o mercado. 33). da racionalidade. Além da definição de novas instituições sociais. assegura-se o controle do Estado através dos chamados contratos de gestão: “Através do contrato de gestão. Até mesmo porque. BRESSER-PEREIRA. 1998). e das organizações sociais.

além da possibilidade de fiscalização por parte do Estado. 2001.] a criação de quase-mercados. mas institui a criação de instituições que não seriam possíveis na administração pública burocrática com sua natureza centralizadora. ao avaliar positivamente os encaminhamentos e resultados da reforma do Estado. Estado. não significa que as organizações estatais e aquelas transformadas em http://www. no que diz respeito à busca da eficiência. Tal como na proposta de acumulação flexível. o seu controle através da chamada competição administrada. 74 inevitável (e independente das instituições de controle popular) a traços perversos: burocratismo.br/pos/educacao/ organizações públicas não-estatais (organizações sociais) passem a ser julgadas pela quantidade de recursos que logrem obter da venda de seus serviços. Tendo em vista a reprodução da ideologia do capital. uma maior articulação com a sociedade para a definição de prioridades e a cobrança de resultados. ou: [. p.. Bresser-Pereira. afinal). insulamento ante a cobrança de desempenho (que “por exemplo” está suposta na competição de mercado) (2002. a partir da implementação da administração pública gerencial. o que demanda uma melhor capacidade de informação. que representa. um Estado racional de fato. a valorização do controle de resultados e da lógica da Qualidade Total. são também comparados com os de outras agências ou organizações similares que.. tratamento despótico e auto-suficiente diante do cidadão comum. há a preocupação com a competição. que não se resume à definição de estratégias. indica a utilização da estratégia gerencial da Qualidade Total na administração pública.Programa de Pós-Graduação em Educação descentralizadas do Estado.. (BRESSER-PEREIRA. há na reforma do Estado. e na administração pública gerencial. a disputa característica do mercado. p. espera-se a instituição de um aparelho de Estado eficiente e orientado pelos valores da sociedade. mas apenas que os parâmetros utilizados pelas agências e organizações sociais para avaliar seus resultados não são definidos apenas nos contratos de gestão. entretanto.). para assegurar o sucesso dessa “tarefa estratégica”. Educação e Sociedade Capitalista . para controlar as atividades Unioeste . visto que muitas dessas organizações não vendem nem devem vender serviços. desprezo pelos resultados (o bem público.unioeste. necessária para que todos se envolvam com a reorganização do aparelho do Estado. busca incessante de mais poder (e portanto mais orçamentos. “competem” entre si. desta forma. 18) Conforme já afirmado em ZANARDINI (2007). a reorganização do Estado através da adoção de critérios de gestão que oportunizem a redução de custos. que se justifica a partir da presença do mercado na regulação das ações estatais e da ênfase na dimensão gestão.. 43) Espera-se. Competição administrada.

garantia da implementação do caráter ideológico da reforma diante da necessidade de reafirmação do estágio atual de desenvolvimento capitalista e sua lógica de internacionalização econômica. Estado e Educação Portanto. expressa nos textos que tratam da reforma do Estado. daí o elogio às organizações não-governamentais. Logo. como evidencia a criação da categoria público não-estatal. O que se tem concretamente com a reforma do Estado e sua administração pública gerencial. ou seja. ZANARDINI. E tudo isso porque. conforme Saes (1998) e Mészáros (2002). como é o caso do próprio Plano Diretor. 75 O que há na reforma do Estado. produzir centralizadamente as políticas em todos os setores de ação do Estado. que requer e materializa a constituição de novas instituições. cai por terra. Coleção Sociedade. o de assegurar a dominação de uma classe sobre a outra e produzir as condições necessárias para a expansão e acumulação do capital. sob a qual se afirma e reafirma o capital. somente o Estado burguês tem se mostrado capaz de produzir as condições necessárias para a reprodução das relações capitalistas de produção. é o desenvolvimento de formas sutis de controle dos resultados. a preocupação em diferenciar-se de uma proposta de Estado neoliberal. através da reforma do Estado. assegura a reprodução da lógica da desigualdade. Segundo Silva Junior: Para a periferia do sistema. a proposta de publicização traduz-se no “Estado enxuto” proposto pelo neoliberalismo. ao lado da noção de crise do Estado.) . daí tal instituição maior em um estágio societal ter de estabelecer rumos e metas para a sociedade. ao considerar que a proposição de desregulamentação. o que se faz é assegurar a produção e reprodução dos interesses do mercado ou do capital em sua atual fase. Isso se dá tal como na pós-modernidade que. Forte também diante da transferência de responsabilidades na área social para a sociedade civil Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. o que foi chamado de democrática descentralização. ao propor a celebração das diferenças. é a materialização do princípio liberal de regulação das políticas sociais pelo mercado (Cf. transferindo responsabilidades públicas para a sociedade civil. considerando o papel atribuído ao Estado burguês. é possível afirmar que. 2007). tornava-se imperioso enxugar o Estado. presente na reforma do Estado. uma vez que. através da implementação da administração pública gerencial e da sua preocupação com a descentralização e a autonomia. ainda que enxuto. tem em vista evitar que a regulação atrapalhe o processo de acumulação de capital. o Estado teria de ser forte. Esse entendimento é reforçado por Deitos (2005). No entanto.

76 segundo políticas pré-estabelecidas. 2001. Brasil no espaço espaço. São Paulo: Editora 34. 2005. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado – MARE. O capital financeiro e a educação no Brasil. —-. economia e política de Getúlio Vargas a Lula. UNESCO – Educação e Conhecimento Conhecimento: eixo da transfor- mação produtiva com eqüidade. A reforma gerencial de 1995.br/pos/educacao/ BRASIL. como já afirmaram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista. Luiz Carlos e SPINK. em seu processo de permanente reprodução. Brasil Universidade Estadual de Campinas. Unioeste . Petrópolis. Luiz Carlos.unioeste. Educação e Sociedade Capitalista . entendido a partir das relações desiguais estabelecidas entre os homens. Burocracia e reforma do Estado Estado. 1999. —-. Reforma do Estado para a cidadania cidadania: A reforma gerencial brasileira na perspectiva internacional. Rio de Janeiro: Vo- zes. José Luis. julho. também transformações de instituições em organizações. de “revolucionar”. DEITOS. FIORI. In: Ca- dernos Adenauer Adenauer. Tudo isso exigia. Roberto Antonio. no contexto da globalização e da pós-modernidade. Faculdade de Educação. Brasília. Da administração pública burocrática à gerencial. Reforma do Estado e administração pública gerencial. 2001. 1998.Programa de Pós-Graduação em Educação REFERÊNCIAS http://www. p. —-. Estado. além de radicais mudanças em instituições. Tese. o processo de produção que. Todo esse movimento deve ser compreendido a partir da necessidade que tem o capital. Campinas. 2003.). São Paulo: Fundação Konrad Adenauer. Brasília: ENAP. 34. Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado Estado. Desenvolvimento e crise no Brasil: Brasil história. Peter (Org. Brasília: IPEA/CEPAL/INEP.São Paulo: Ed. BRESSER PEREIRA. (Doutorado). 47). bem como a valorização das ONGs (2002. CEPAL. implica na recriação/revolução das formas de controle e de racionalidade que. DF: novembro de 1995. 1995. tornam-se mais sutis e “flexíveis”. In: BRESSER- PEREIRA. gerencial Rio de Janeiro: Editora FGV.

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Programa de Pós-Graduação em Educação http://www.unioeste. Unioeste . Educação e Sociedade Capitalista .br/pos/educacao/ Estado.

A necessidade de promover reformas na educação está inscrita no contexto mais amplo do processo de reestruturação econômica do país. Filosofia e Educação.] respondem aos interesses dominantes internos e externos (DEITOS.. convergem e articulam os condicionantes requeridos às políticas macroeconômicas diagnosticadas que devem se materializar nos ajustes estruturais e setoriais implementados em cada país mutuário submetidos aos empréstimos internacionais.) . 210-219). p. Particularmente. contribuíram para que o Fundo Monetário Internacional (FMI). que atingiram os países periféricos. Orientação: Profa. Estado e Educação de condicionalidades econômico-financeiras e político-ideológicas circunscritas aos Planos de Estabilização e aos empréstimos de ajustes estruturais e setoriais. Dra.. Área de Concentração: História.] o BID. [. por meio de uma série Coleção Sociedade. 2005. os empréstimos de ajuste estrutural (Structural Adjustment Lending – SALs) emergiram em 1980 e os empréstimos de ajuste setorial em 1983. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Esses empréstimos compõem uma linha de operação denominada “Policy-Base Loan” – “Empréstimo de Base Política” e visam promover a reestruturação econômica dos países...] A implementação de ajustes estruturais e setoriais empreendidos no Brasil [. Maria Elizabete Sampaio Prado Xavier. [. As condicionalidades e orientações do BID e do Banco Mundial para os empréstimos de ajustes estruturais e setoriais cruzam-se e 1 Este texto é resultado de parte das reflexões sistematizadas para comprovação da tese de doutorado defendida na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – SP... o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD)/Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) assumissem a liderança no processo de renegociação da dívida dos países. 79 A REFORMA DO ESTADO E A DESCENTRALIZAÇÃO NA ÁREA DA EDUCAÇÃO Ireni Marilene Zago Figueiredo1 A crise financeira internacional e a crise da dívida externa (1982). FMI e Banco Mundial.

etc. sustentadas na estratégia de ‘desenvolvimento da competitividade para integração da economia brasileira à globalização Unioeste . abrir a economia. p.. representante do Brasil na reunião de Washington. Luiz Carlos Bresser-Pereira. 1997. Para resolver o impasse em torno das estratégias a serem adotadas e da direção a ser dada ao processo de reforma e modernização do Estado e de suas instituições públicas. BID e Banco Mundial. O “Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado” pressupõe a reforma do aparelho do Estado e do próprio Estado.] privatizar. criou-se um consenso em torno da necessidade de reformar o Estado brasileiro e redefinir as suas funções públicas..” (FIORI.. A reforma do Estado é concebida como um projeto amplo e refere-se às várias áreas do governo e. há um processo de intensificação da reforma do Estado brasileiro e de suas instituições públicas. cortar o gasto público. Na sociedade brasileira.] com a crença orientada sempre na direção do mercado e da competitividade internacional. no plano nacional. A ênfase na modernização administrativa do setor público tem sido o parâmetro para justificar a realização de reformas das instituições que estariam com problemas. 1995). segundo os princípios de uma Administração Pública Gerencial. serviram de parâmetro as orientações do “Consenso de Washington”. 2005. Nesse processo de modernização. rígida e ineficiente. o qual significou um programa de ajustamento das economias periféricas. 158). próprios de uma Administração Pública Burocrática. A terapia liberal-conservadora. a reforma e modernização do Estado brasileiro se tornou mais evidente a partir do “Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado” (1995). entendidos como falta de qualidade. de produtividade (eficiência interna e externa) e de competitividade. tendo como um dos articuladores. desregular. 163.Programa de Pós-Graduação em Educação econômica’ (DEITOS. para os países centrais ou periféricos. Nessa direção. p. sob o monitoramento do FMI. com controle dos Estado. O consenso construído em torno das reformas é de que os ajustes estrutural e setorial possibilitarão a inserção do país no processo de globalização. eram idênticas: “[.. 80 articulam-se.unioeste. as reformas são anunciadas e realizadas [. A reforma do aparelho do Estado é concebida de forma mais restrita e tem como finalidade tornar a administração pública eficiente e flexível (BRASIL. ainda.br/pos/educacao/ 1980. eficiente. flexível. Educação e Sociedade Capitalista . com o Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Desde o Presidente Fernando Collor de Mello até a atualidade. ao conjunto da sociedade brasileira. Como resposta à crise que se acentuou a partir da década de http://www. Grifos do autor).

.) . 1995. […] Em diversas outras áreas – o uso de fundos sociais para reduzir a pobreza. ao mesmo tempo.] os Estados estão fornecendo em excesso ampla variedade de bens e serviços que poderiam ficar a cargo dos mercados privados. buscando. p.] seleção estratégica das ações coletivas que os Estados procurarão promover. 193). Estado e Educação imprescindível está embasado na afirmação de que ela “[. incluindo também uma [. 1995).. 18). 1995... É nessa direção que as reformas estão “[. através da descentralização de seus serviços. entre outras medidas. o incentivo à participação das ONGs e da comunidade -. Portanto. a reforma pode melhorar consideravelmente a prestação dos serviços. O argumento de que a reforma do Estado é Coleção Sociedade. deve-se “levar a sociedade a aceitar uma redefinição das atividades do Estado”.. concebidos como essenciais para o desenvolvimento. (BRASIL. [. o Estado teria a função de regular e promover os serviços básicos como a educação e a saúde. O que é possível evidenciar é que a redefinição das ações do Estado vem sendo viabilizada. 81 resultados e descentralizada. o Estado continuará a subsidiá-los. a reforma do Estado articula-se ao conjunto das reformas econômicas e.. 1995. A redefinição do papel do Estado seria inadiável. p. a melhoria da qualidade do ensino primário. juntamente com maiores esforços para reduzir a carga imposta ao Estado.] passou a ser instrumento indispensável para consolidar a estabilização e assegurar o crescimento sustentado da economia” (BRASIL. que para resolver os problemas fundamentais da reforma do Estado seriam inadiáveis: o ajuste fiscal. 1997. 1998. as reformas econômicas orientadas para a competitividade internacional. ao pressupor.. a inovação das estratégias de política social. entre elas.. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs..] aproximar mais o governo do povo. por exemplo. [. por meio da reforma do financiamento e da administração de suas instituições públicas. dá suporte à realização dos ajustes setoriais. “Como promotor desses serviços. 09).] eficiência à sobrecarga de demandas a ele dirigidas. p. mediante uma maior participação e descentralização (BANCO MUNDIAL. a reforma da previdência social. da educação. o controle social direto e a participação da sociedade” (BRASIL... p. fazendo com que os cidadãos e as comunidades participem da prestação dos bens coletivos essenciais.. sobretudo na área social” (BRASIL. a reforma do aparelho do Estado. ao mesmo tempo. p. já que ele não estaria atendendo com “[. 14). Nesse processo. Sob o enfoque da racionalidade econômica (relação custo- benefício) e da reforma do setor público e da modernização do Estado.] baseadas em elementos de modernização do Estado e reforma do setor público” (BID. etc. 03-04-63).

as Atividades exclusivas. Esses serviços têm como finalidade atender às demandas sociais críticas. sendo. Educação e Sociedade Capitalista . as atividades exclusivas referem-se ao setor em que Unioeste . Portanto.br/pos/educacao/ básica. através da descentralização e adoção de reformas institucionais e administrativas. a reforma e a modernização do Estado. a partir da “crise da dívida externa” (1982). dentre elas. estão pautadas na redefinição de suas atribuições. a “publicização” e a terceirização. A reforma da educação faz parte dos acordos de ajuste estrutural e setorial. 1998. de educação e de saúde. profissional e universitária. a reforma da Educação Básica. Trata-se de uma reforma das instituições públicas. uma de suas condicionalidades. de forma mais expressiva. 2000). portanto. cabe destacar que existe um consenso entre o BID e o Banco Mundial do Estado oferecer os serviços essenciais básicos. com elaboração de uma política de redução dos investimentos nos serviços públicos. tais como: o subsídio à educação http://www. etc. Todavia. a partir da crise estrutural do capitalismo e. Na década de 1990. Particularmente. previdência social básica. a educação é concebida como parte integrante do conjunto das reformas econômicas. A implementação dos ajustes estrutural e setorial compreende um conjunto de reformas. os Serviços não-exclusivos ou competitivos e a Produção de bens e serviços para o mercado. Desse modo. 82 o BID destaca que a redução das desigualdades sociais e a erradicação da pobreza devem ser atingidas mediante o aumento da eficiência do gasto social. à redução de sua área de atuação. através das estratégias de descentralização. a compra de serviços de saúde pelo Estado. as quais compreendem: a privatização. a reforma da saúde. de fiscalizar e de fomentar.unioeste. a reforma administrativa Estado. ao mesmo tempo. no sentido de estabelecer parcerias com a comunidade e a sociedade civil (BID. inscritas no processo de ajuste econômico. Envolve o poder de regular. contribuindo para a estabilidade política e social e. O Plano Diretor define quatro setores do Estado: o Núcleo estratégico. tendo como um dos critérios gerenciais a racionalidade econômica. ao mesmo tempo.Programa de Pós-Graduação em Educação são prestados serviços que só o Estado pode realizar. a implementação das reformas previstas no Plano Diretor visa à concentração do Estado no atendimento às necessidades sociais básicas e. criar as condições favoráveis mínimas para o implemento das políticas de ajuste econômico (FIGUEIREDO. quando sustenta que se deve melhorar a eficiência do gasto social e apoiar a descentralização dos serviços oficiais. 2006).

dotou os Colegiados Escolares de autoridade. Rio Grande do Norte. a reforma do judiciário. integradas ao conjunto das reformas econômicas. a reforma da previdência. iniciou o repasse de recursos específicos não destinados a salários diretamente para as escolas. estes são alguns dos principais argumentos que sustentam a necessidade de realização da reforma educacional. Em Minas Gerais.“State of Espírito Santo Basic Education Project”. a reforma tributária. adotou um processo objetivo para seleção e nomeação de diretores de escola. A participação do Banco Mundial. Espírito Santo . com a aprovação de seis projetos. Ceará e São Paulo. dois continuaram para a região do Nordeste.“Projeto Qualidade no Ensino Público do Paraná” – PQE. Estado e Educação A realização de reformas institucionais. Coleção Sociedade. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. nos empréstimos para a educação brasileira. que incluíram mudanças no financiamento e na administração na área de educação. pelo Estado. Alagoas e Bahia). que tiveram projetos financiados pelo Banco Mundial. que contemplaram treze Estados brasileiros2 . 83 e do Estado. simultaneamente: instituiu a política de promoção automática da primeira para a segunda série. e Paraná . contemplou plenamente a meta da descentralização nos estados de Minas Gerais. de recursos para 2 Dos seis projetos. O estado de Minas Gerais foi o primeiro que. Paraná. Os demais projetos foram para os estados de Minas Gerais . São Paulo . 1994). Pernambuco e Sergipe) e “Educação Básica no Nordeste III” (Piauí.“Projeto de Melhoria da Qualidade da Educação Básica em Minas Gerais”. a reforma trabalhista. a intervenção do Banco Mundial na política educacional brasileira teve um total de financiamento combinado de cerca de US$ 1 bilhão. institui o uso de testes padronizados para verificar o desempenho dos alunos. a reforma fiscal. etc. Na década de 1990. e descentralizou determinadas atividades administrativas para as instituições escolares (BANCO MUNDIAL. Paraíba. Ceará. como proposta para alcançar a autonomia financeira. foi definido o repasse direto. As reformas nas instituições públicas. com abrangência para todos os estados: “Educação Básica no Nordeste II” (Maranhão.“Projeto Inovações na Educação Básica em São Paulo” (INOVAÇÕES). priorizou diretrizes e orientações para políticas nacionais que resultaram em reformas setoriais que contribuíram para o processo de reforma e modernização do Estado e de suas instituições públicas.) . bem como de mecanismos para assistir os diretores na administração das escolas. visam a incentivar a concorrência e garantir a racionalidade econômica (relação custo-benefício) com o controle da produtividade (eficiência interna e externa) e da qualidade.

sob liderança do seu diretor. visou à promoção de condições fundamentais para garantir o suporte necessário ao aperfeiçoamento do modelo de gestão do sistema educacional no Estado. através da reorganização administrativa da SEED. o Banco Mundial destacou que todos os componentes do projeto foram implementados satisfatoriamente e. 1994). a estratégia de descentralização desenvolveu-se através do componente Desenvolvimento Institucional. em Superintendência Regional de Ensino – SRE. do Projeto Qualidade no Ensino Público do Paraná (PQE) que. Uma das mudanças nesse procedimento é aquela em que passou a ser competência do Colegiado a aprovação da prestação de contas da escola e seu encaminhamento direto ao Tribunal de Contas do Estado. O sistema de pessoal também foi descentralizado para as escolas. Esse procedimento é garantido pela “flexibilidade” proveniente da descentralização administrativa. objetivando instituir uma estrutura organizacional capacitada a cumprir com efetividade as metas definidas para o ensino público. posteriormente. juntamente com o Colegiado. Nessa direção. sem a mediação da Delegacia de Ensino que se transformou. diante de escassos recursos. bem como foram Estado. de acordo com suas necessidades. SEED. do subprojeto Melhoria da Infra-Estrutura e Gestão da Escola (BANCO MUNDIAL. O componente Desenvolvimento Institucional do PQE/PR visou ao aperfeiçoamento gerencial. Salientou.unioeste. a SEE/MG requereu de cada escola o preparo e a implementação do seu próprio Plano de Desenvolvimento da Escola http://www. ainda. Educação e Sociedade Capitalista . em que a escola. O PDE teve como objetivo o Fortalecimento do Planejamento Escolar. que a SEED foi reorganizada. a escola seria responsável pela elaboração do seu orçamento. houve esvaziamento das funções da SRE.br/pos/educacao/ (PDE). As escolas foram sendo estimuladas a buscar complementação orçamentária na iniciativa privada ou em outras formas de contribuição da comunidade. que as realizações mais importantes do projeto talvez tenham acontecido na área do desenvolvimento institucional. o qual deveria aprová-lo. Unioeste . Com a descentralização. outros mecanismos para garantir sua sobrevivência (OLIVEIRA. 84 a escola. segundo a proposta pedagógica e modelo de gestão compatível com esta proposta (PARANÁ. dentre outros objetivos. O PDE era preparado pela escola. acrescentou. 1994). a partir da descentralização das ações educacionais e da parceria entre Estados e municípios para o desenvolvimento do Ensino Fundamental (PARANÁ. No estado do Paraná.Programa de Pós-Graduação em Educação Em 1992. 1994). deve buscar. fora do Estado. SEED. Nessa direção. 2000).

capacitação para essas associações em áreas como a integração das escolas com a comunidade. 2003. Ficou definido na Revisão de Meio Período. A proposta pedagógica também teve êxito com o PQE/PR. Esse componente foi previsto. quase todas as escolas estaduais tinham formalmente instituído suas Associações de Pais e Mestres – APMs. em pequena escala no sistema estadual. como mecanismo de descentralização. atendeu à meta de mudança no financiamento e na administração da educação. atingiu substancialmente mais que o planejado na avaliação (mais de 250.000 participantes. bem como das escolhas estratégicas e pedagógicas. a avaliação quantitativa do aprendizado de alunos e os sistemas de gestão e de informação (BANCO MUNDIAL. comparados a cerca de 93. As APMs administraram os recursos de vários programas (Fundo Estadual Rotativo para Manutenção das Escolas e Material Didático. No Ceará. administrativas e pedagógicas prescritas para a educação integram a lógica da descentralização/centralização. foi Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.500 em fase de capacitação estimados na avaliação). “O eixo autonomia na escola é parte da determinação do Banco Mundial para a descentralização da política educacional no Brasil. O projeto também forneceu. O componente Capacitação dos Professores alcançou o objetivo pretendido. 2002). Entretanto. Essa política está sendo proposta. o planejamento descentralizado foi abandonado. 2002). na forma de um planejamento descentralizado. tais como: a capacitação de professores. o repasse de recursos às escolas. a mobilização da comunidade. a responsabilidade pela contratação e supervisão da reforma de escolas. Estado e Educação em Faxinal do Céu (BANCO MUNDIAL. que iniciaria pelas escolas e a sua implementação seria descentralizada para os Núcleos Regionais de Ensino – NRE da SEED. 101). p. Neste sentido. Nesse sentido. cada vez mais. Para implementar essa estratégia foi criada a Universidade do Professor Coleção Sociedade. num primeiro momento. por intermédio do projeto de dinheiro para a escola” (PERONI. Programa “Dinheiro na Escola” do Governo Federal) e participaram cada vez mais no dia-a-dia da gestão escolar. 2002).) . pois foi concebido como não favorável à implementação rápida da reforma educacional. 85 institucionalizados os componentes essenciais do projeto. que a aquisição de biblioteca e dos livros seria descentralizada às escolas e os recursos financeiros transferidos para as APMs legalmente organizadas (BANCO MUNDIAL. principalmente. As medidas financeiras. em 2001. no estado do Paraná. Em termos de números de participantes. a gestão financeira legal e pedagógica.

Porto Alegre. foram acrescidos: o repasse de recursos financeiros para as escolas investirem na conservação física. ressaltando os estados e as cidades que estavam mais adiantados nesse processo. 2) descentralização de recursos e competências. SEE. as quais seriam responsáveis pela contratação dos serviços (BANCO MUNDIAL. como parte de uma política de descentralização e maior gerenciamento da escola. A efetivação da descentralização. p. três ações estavam previstas no Projeto de Educação Continuada 1996- 1998: 1) reforma e racionalização da máquina administrativa. Educação e Sociedade Capitalista . Na Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE/SP). Estado. Ceará. visando assegurar a autonomia administrativa. Pernambuco e Sergipe). (iv) a definição de critérios operacionais transparentes para a descentralização do financiamento da educação. Desse modo. Nos quatro estados (Maranhão.unioeste. bem como aquisição de vídeo. A supervisão e o auxílio técnico dos trabalhos seriam realizados por uma equipe das unidades de planejamento físico das Secretarias. 109).Programa de Pós-Graduação em Educação da gestão administrativa e pedagógica. os fundos para reabilitação das escolas municipais ou sua construção seriam transferidos para as secretarias de educação dos municípios. São Paulo. Cuiabá e Campinas fizeram mudanças que incluem: (i) a introdução de critérios de qualificação e eleição dos diretores das escolas. financeira e pedagógica às instâncias educacionais. Neste sentido. foram desativadas as Divisões Regionais de Ensino (DREs) e fortalecidas as Delegacias de Ensino (DEs). 86 transferida aos diretores. ii) programas para apoiar ou comandar o estabelecimento de conselhos escolares com responsabilidade administrativa e alguma responsabilidade financeira para escolas individualmente. com financiamento do Banco Mundial (Projeto Educação Básica no Nordeste II). Curitiba. Pará. e 3) desconcentração Unioeste . antena parabólica e TV (SÃO PAULO. A essas medidas. 1998. salas-ambiente e laboratórios. 1996). As mudanças na dinâmica da Secretaria do Ensino Fundamental e das Secretarias Estaduais de Educação foram processadas. Estados como Minas Gerais. e (v) programas para unificar sistemas educacionais dos estados e municípios (BANCO MUNDIAL. portanto. portanto. Paraná e Rio Grande do Sul e cidades como Brasília. na aquisição de materiais pedagógicos e mobiliário adequado para as classes de CB a 4ª série. 1993). Ceará. (iii) o desenvolvimento de sistemas de teste de resultados no âmbito do estado ou da cidade para medir e relatar o que e como as crianças estão aprendendo.br/pos/educacao/ mudanças no padrão de gestão da SEE/SP. é confirmada pelo Banco Mundial. a “desconcentração da gestão administrativa e pedagógica” resultou em http://www.

1993). Além do estabelecimento formal da UNESP e da UESCN. Ficou acordado que os integrantes das equipes da UNESP. e do componente Melhoria da Infra-Estrutura e Gestão da Escola. As reformas institucionais e administrativas no aparelho do Estado e nas Secretarias Estaduais de Educação se confirmaram. Assim. 1993). Estado e Educação durante a execução do projeto.) . do Programa Estadual. dentre as principais atividades. previsto no PQE/PR. previsto no projeto Educação Básica no Nordeste II. visou suprir a UNESP com todas as informações necessárias. dentro da Secretaria do Ensino Fundamental. No projeto Educação Básica no Nordeste II. visou ajudar a Secretaria do Ensino Fundamental (SEF) a melhorar sua eficiência. que resultaram em reformas institucionais e administrativas. da UESCN e das Unidades Estaduais Encarregadas do Suporte ao Projeto – UEESPs. Planejamento e Gerenciamento Nacionais da Educação. dentre outras ações. Nas negociações do projeto Educação Básica no Nordeste II. estaduais e municipais. O projeto financiaria. o tomador deu garantias de que as equipes da Unidade Nacional Encarregada do Suporte ao Projeto – UNESP. unidade separada dentro da SEF. e da Unidade Encarregada do Suporte ao Componente Nacional – UESCN. 87 por meio da criação de unidades específicas para monitorar e avaliar os componentes ou programas de ação dos projetos financiados pelo Banco Mundial. pelo MEC. o apoio logístico e de equipamento à UNESP e à UESCN. a partir de um de seus componentes. com a implementação do componente Gerenciamento Educacional. criando uma nova dinâmica entre as instâncias nacionais. deveriam ser mantidas Coleção Sociedade. tivessem uma política de pessoal aprovada pelo Banco e o coordenador do projeto e os chefes das unidades deveriam possuir qualificações e experiências também aceitáveis por essa instituição (BANCO MUNDIAL. bem como com relatórios periódicos relacionados com a execução do componente nacional (BANCO MUNDIAL. o Programa Nacional. que. haveria as UEESPs – Unidades Estaduais Encarregadas de Suporte ao Projeto. instaladas em cada Secretaria Estadual de Educação Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. para possibilitar o cumprimento de suas respectivas funções de coordenação. o componente nacional seria coordenado pela UESCN. A UNESP seria a unidade que garantiria que os componentes do projeto fossem executados de acordo com o que foi acordado nos termos e no cronograma do contrato. por exemplo. do componente Desenvolvimento Institucional. previsto no Pró-Qualidade/MG.

através da Emenda Constitucional Nº 14/96. do Programa Estadual previsto no projeto Educação Básica no Nordeste II. melhoria na eficiência dos gastos educacionais.424/96. O critério da racionalidade econômica (relação custo-benefício) pode ser evidenciado com o FUNDEF. a elaboração de relatórios. 1993). 1993). estabelecer sistemas de monitoramento da qualidade do nível educacional das escolas. do Fundo de Manutenção do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério . estadual e municipal. Através do componente Gerenciamento Educacional. melhorar a gestão de recursos humanos. que sofre as conseqüências de escassos recursos. o componente apoiaria a unidade de suporte ao projeto na Secretaria Estadual de Educação de cada Estado (BANCO MUNDIAL. treinamento e equipamentos para auxiliar os Estados nas seguintes ações: reorganização e simplificação de suas secretarias de educação. e desenvolver sistemas integrados de informação gerencial. o projeto financiaria assistência técnica. Educação e Sociedade Capitalista . O componente Gerenciamento Educacional apoiaria as Secretarias Estaduais de Educação para fortalecer a capacidade de http://www. 04). através dos diferentes sistemas escolares e regiões (BANCO MUNDIAL.br/pos/educacao/ planejamento educacional e financeiro.Programa de Pós-Graduação em Educação educacional. previsto no projeto Educação Básica no Nordeste II. revelando a fragilidade da suposta prioridade dispensada ao Ensino Fundamental.FUNDEF . O Programa Nacional. e modernização do gerenciamento Unioeste . “uma maior equivalência entre os sistemas escolares estadual e municipal em termos de gasto por aluno também foi alcançado. a avaliação do projeto. contribuiu para implementar uma nova dinâmica entre as esferas federal. 1993). A criação do FUNDEF. o monitoramento do progresso do Estado em suas Metas Anuais de Melhoramento Gerencial – AMETs. Dentre as atividades das UEESPs estariam: a coordenação do preparo e execução de todos os componentes do projeto em âmbito estadual. uma das estratégias de descentralização. e a contratação de estudos e serviços de consultoria (BANCO MUNDIAL. 2002. destinados a reduzir as desigualdades nos gastos por estudante. Pode-se considerar como materialidade dessa meta a criação. Conforme afirmou o BIRD. p. operacionaliza a implementação da Estado.Lei 9. Além disso.unioeste. ao cumprir com a meta de transferência de recursos financeiros aos Estados e municípios com base em critérios objetivos. embora isso tenha ocorrido principalmente devido à criação do FUNDEF” (BANCO MUNDIAL. 88 e localizadas no Departamento de Planejamento das SEEs.

o SAFF foi revisado e selecionado para ser incluído no Programa Piloto da Iniciativa de Mudança da Administração do Empréstimo – LACI. a municipalização de escolas estaduais ocorreu. por exemplo. do atendimento ao Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. p. No Estado de Minas Gerais. compõem mais da metade das verbas públicas. Paraná e São Paulo. Assim. 1998). Essa prioridade foi desenvolvida através de acordos entre o governo estadual e as prefeituras. A coordenadoria de Auditoria de Operações de Crédito Internacional. limitados ao Ensino Fundamental.) . pelo Estado. 89 política de redução dos objetivos educacionais. pela via da municipalização (FÉLIX ROSAR. “integração com os municípios”. em que a melhor relação entre ambos foi reduzida à transferência. totalizando. 60% dos 25% constitucionalmente vinculados à educação dos Estados e municípios deverão ser aplicados no Ensino Fundamental. A RDR. a partir de 1994. todos os relatórios de acompanhamento físico e financeiro do PQE. na prática. 15% das receitas. ajudou a implementar o LACI no Ministério da Saúde e na reforma do Instituto Nacional de Previdência Social da Nicarágua (BANCO MUNDIAL. relatou que com o LACI foi muito mais fácil acompanhar e verificar as contas do projeto PQE. Outra forma de descentralização é a municipalização. As reformas institucionais e administrativas no aparelho do Estado e nas Secretarias Estaduais de Educação foram concretizadas com o PQE/PR. Com essa prática. sobretudo. realizado pelo Sistema de Administração Físico e Financeiro – SAFF. A política de descentralização se materializou nas décadas de 1970 e 1980. pois o Fundo criou um problema: os recursos provenientes do ISS e do IPTU que. que consistiu na busca de uma melhor relação entre Estado e municípios. através do componente Desenvolvimento Institucional. 13). A municipalização foi o resultado da quinta prioridade da SEE. Esta subvinculação. em prejuízo dos demais níveis e modalidades. não foram incluídos no Fundo. 2002. dessa forma. Portanto. nos Estados de Minas Gerais. na medida em que o monitoramento físico e financeiro do PQE. COACI. desenvolvido e supervisionado pela RDR – Firma de Coleção Sociedade. na Unidade de Coordenação do Projeto – UCP. 1997). que foi contratada para realizar. conforme se confirmou. subseqüentemente. foi instituído. A municipalização modificou a relação entre Estados e municípios. O PQE foi o único projeto incluído no grupo piloto do LACI. dificilmente está integralmente respeitada. os 15% destinados ao Ensino Fundamental poderão ser reduzidos pela metade (LEHER. nas grandes cidades. Estado e Educação Consultoria Nacional.

com ênfase nas quatro primeiras séries. historicamente. todos http://www. SEE. 2000). Tendo como prioridade a melhoria do ensino básico. em 2001. 2000). As propostas da FIEMG. A partir de 1996 é que se inicia de fato o processo de expansão das redes municipais. Em São Paulo. tendo como premissa básica a concorrência como mecanismo para a promoção da produtividade e da qualidade na área da educação. Esse programa representou a tentativa de intervenção das empresas na gestão das escolas. transferindo a lógica da economia privada para o setor público (OLIVEIRA. que criou o Conselho de Educação do Sistema da FIEMG. 161).. Unioeste . A diversificação da oferta.Programa de Pós-Graduação em Educação p. 2002. “até o fim de 1989 foram celebrados 180 convênios para a municipalização do ensino de primeiro grau. Os investimentos do PQE/PR seriam para as escolas públicas estaduais e municipais. tem como uma das estratégias a atuação do setor privado. As escolas públicas municipais seriam atendidas pelos municípios que firmassem. Um exemplo pertinente é o da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). o “Programa de Formação de Parcerias Empresa-Escola: Desenvolvimento e Cidadania” buscou apoio de empresários e líderes educacionais do Estado. concentrado na rede estadual de ensino. Estado.175. Os Contratos de Parceria com o Estado cresceram de 275. o atendimento do Ensino Fundamental esteve. 2000). o Termo de Parceria Educacional. cujo objetivo é transformar empresas e escolas em parceiras no desenvolvimento econômico e construção da cidadania. de 320 municípios para 399 municípios. Com a edição do Decreto 30. instituiu-se o Programa de Municipalização do Ensino de São Paulo (BORGES. O Conselho se dirigiu às empresas. p. Educação e Sociedade Capitalista . para a efetivação dessa ajuda. para 382. ou seja. pois as escolas são responsáveis por 84% das matrículas. O Banco Mundial (2002) enfatizou que a municipalização das quatro primeiras séries teve um grande progresso. em Minas Gerais.]” (CUNHA. de 13/09/89. Dessa forma. em 1994. 90 Ensino Fundamental. de 1ª a 8ª séries. 418). com o governo do Estado. para os municípios (OLIVEIRA.br/pos/educacao/ com prefeituras de pequenos municípios [. corroborado pela instituição do Fundo de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (SÃO PAULO. incluíam desde o trabalho voluntário de seus funcionários até a implantação de programas de Qualidade Total.unioeste.. 1991. sensibilizando-as para a necessidade de ajudarem as escolas públicas.

descentralizar e ampliar a responsabilidade para a sociedade civil. A participação da sociedade civil. numa relação que supõe compromisso-participação- tomada de decisão-exercício da cidadania.) . Antes de expandir o programa. com metas e objetivos. É preciso. Nessa direção. As atividades previstas seriam implementadas com a assistência técnica de instituições como a Fundação Cristiano Otoni (FCO). 2000). 91 No projeto Pró-Qualidade/MG. recomenda-se. nesse contexto. a mobilização de recursos públicos ou privados para complementar as necessidades financeiras da área de educação. Estado e Educação perante a comunidade e sua clientela em particular (BANCO MUNDIAL. O treinamento focalizaria o desempenho da escola como uma unidade de produção. Nesse sentido. e treinar 9. o Programa de Gestão da Qualidade Total (TQM) teve como objetivo realizar seminários para funcionários. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. atribuindo à comunidade responsabilidades que caberiam ao Estado. e responsável pelos seus resultados Coleção Sociedade. dispondo de recursos limitados. dimensões importantes na redução da pobreza significariam dar mais poder aos pobres. a SEE/MG deveria promover uma avaliação externa da experiência em andamento. estabelecer a Gestão da Qualidade Total na SEE/MG e DREs. O procedimento de envolver as ONGs nas atividades da educação converge com as orientações do Banco Mundial.000 diretores e vice-diretores de escolas (BANCO MUNDIAL. tendo adquirido essa experiência através da cooperação técnica com a União de Cientistas e Engenheiros do Japão. Essa realidade tem produzido resultados mais sustentáveis do projeto a custos menores (BANCO MUNDIAL. Nesse sentido. Também apoiaria o desenvolvimento de um programa de Gestão de Qualidade Total. pais de alunos e professores das escolas. 1994). nesse processo. incorpora a perspectiva da racionalidade econômica e a estratégia de redução da pobreza. a qual é especializada em aspectos técnicos de TQM. como mecanismo para envolver diferentes segmentos da sociedade. em aproximadamente 1. O envolvimento de diferentes segmentos da comunidade está implícito no discurso de que o Estado deve dar oportunidades de participação e decisão nas ações. sustenta o Banco Mundial que as associações comunitárias estão participando cada vez mais dos projetos e também estão se tornando os seus principais atores.000 instituições escolares. Nessa direção. 1994). as instituições educacionais devem ser reformadas em nome da flexibilidade do mercado e da globalização. bem como representatividade e a possibilidade de participação nos processos decisórios.

modificaram a relação entre as esferas federal. (Org. As estratégias dos bancos multila- terais para o Brasil (2000-2003) (2000-2003).Programa de Pós-Graduação em Educação da dimensão e das implicações do princípio de acumulação que rege o sistema capitalista. Relatório de Ava- liação nº 12477-BR. 1994. Relatório Nº 20160-BR...) et al. na década de 1990. Relatório da Conclusão da Implementação Implementação. tendo como uma das estratégias a descentralização. Projeto de Melhoria no Ensino Público do Paraná. —-. Estado.) A estratégia dos bancos multilaterais para o Brasil Brasil. Washington. FE.C. D. D. 6 de março de 2000. Washington. Todavia. Brasília. a partir da realização de reformas institucionais. In: BARROS. In: VIANNA JR. A... Segundo Projeto Nordeste de Educação Básica Básica. Campinas. —-. —. financiados pelo Banco Mundial. DF: Rede Brasil de Instituições Financeiras Multilaterais. (Org. 92 Em síntese. Washington. Abril.766-BR). acreditar que o enfrentamento da crise se viabilizaria a partir da reforma das instituições públicas e modernização do Estado.br/pos/educacao/ frações de capitais nacionais e internacionais para a continuidade do processo de reprodução. —. 2002. Brasília. 1998. BORGES. D. Projeto de Melhoria da Qualidade da Edu- cação Básica em Minas Gerais (Pró-Qualidade). que incluíram mudanças no financiamento e na administração na área de educação. SP: Graf. D. (Empréstimo 3. Washington.C. a partir dos componentes ou programas de ação dos projetos de educação. F. Análise crítica e documentos inéditos. Relatório 16582-BR. alterando a dinâmica entre Estado/municípios e Estado/ sociedade civil. 12 de junho de 1997.C. De modo geral. constitui uma análise reducionista Unioeste . Hortograph. produziram-se importantes transformações no aparelho do Estado e de suas instituições públicas. estadual e municipal. Educação e Sociedade Capitalista . constatamos que. acumulação e expansão do capital. Relatório de avaliação prévia nº 11298-BR. C. 2001. P. Z. 1993.unioeste. Política e educação educação: análise de uma perspectiva partidária. é importante mencionar que. 2002. através de reformas no financiamento e na administração. REFERÊNCIAS BANCO MUNDIAL. DF: Rede Brasil de Instituições Financeiras Multilaterais. bem como das rearticulações entre as diferentes http://www.

1998. FONSECA. Campinas-SP. R. M. São Paulo-SP. FIGUEIREDO. A municipalização como estratégia de descentralização e de desconstrução do sistema educacional brasilei- ro. 1998. FÉLIX ROSAR. RJ: Vozes. Tese (Doutorado em Educação . Uni- versidade Estadual de Campinas – Unicamp. Petrópolis. RJ. PERONI. L. A. Faculdade de Educação .Secretaria de Estado da Educação.Uni- versidade de São Paulo. SEED. 2005. Gestão democrática da educa- ção ção: desafios contemporâneos. 1997. Universi- Coleção Sociedade. SÃO PAULO. I. RJ: Vozes. São Paulo: Xamã. PARANÁ. 1997. Cam- pinas-SP. Brasília. Petrópolis. 1995. 1996. LEHER. Projeto qualidade no ensino público do Paraná Paraná – PQE PQE. Presidente FHC. Plano diretor da reforma do aparelho do Estado Estado.Área de concen- tração: História. P. Filosofia e Educação). O capital financeiro e a educação no Brasil Brasil. —. (Org. R. (Org. Faculdade de Educação. Tese (Doutorado em Educação - Área de Concentração Administração). Tese (Doutorado em Educação . São Paulo: Cortez. Filosofia e Educação). 2003. M. OLIVEIRA. Ensaios críticos so- bre a festejada crise do Estado. Desenvolvimento. A. 1995. Curitiba.Área de concentra- ção: História. M. São Paulo. In: OLIVEIRA. Rio de Janeiro: Insight. R. FIORI. 2000.) . 2.). de F. A. Em busca do dissenso perdido perdido. Estado e Educação dade Estadual de Campinas – Unicamp. O Banco Mundial e a educação brasileira: uma experi- ência de cooperação internacional. julho. Z. 1994. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. J. Vozes. DEITOS. PR. Petrópolis. SEE . D. 2005. globalização e políti- cas sociais sociais: um exame das determinações contextuais dos projetos de reforma da educação e da saúde brasileiras da última década. Educação básica: básica gestão do trabalho e da pobreza.) Política educacional educacional: impasses e alternativas. In: OLIVEIRA. Os moedeiros falsos falsos. Projeto de Educação Continuada 1996-1998 1996-1998. ed. V. 93 BRASIL. D. Política educacional e papel do Estado no Brasil dos anos 90 90. Faculdade de Educação. Da ideologia do desenvolvimento à ideologia da globalização: a educação como estratégia do Banco Mundial para globalização “alívio” da pobreza. Resumo do Projeto.

Programa de Pós-Graduação em Educação http://www. Educação e Sociedade Capitalista .br/pos/educacao/ Estado. Unioeste .unioeste.

tendo nas políticas sociais e. Estado e Educação Não é pois. inclusive com a implementação de políticas sociais que. Membro do GEPPES . quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento: é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição consigo mesma e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. Desta forma. E-mail: chotz@bol. tão pouco é a realidade da idéia moral. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril.) . de modo algum. desempenha importante papel na reprodução do modo de produção. itens inerentes ao capitalismo.Universidade Estadual do Oeste do Paraná. entendemos o Estado a partir da concepção tomada por Engels.227). 95 POLÍTICAS SOCIAIS E ESTADO BURGUÊS NO BRASIL Celso Hotz 1 INTRODUÇÃO Pretendemos. de certo modo. segundo a qual: Coleção Sociedade. neste texto. O Estado. sobretudo na educação. 1984. nascido da sociedade. É antes um produto da sociedade. amenizem os efeitos negativos da exploração e acumulação. o Estado persegue continuamente o desenvolvimento econômico e.Unioeste . agenciando suas políticas econômicas e sociais no rumo da acumulação do capital. fazer algumas reflexões sobre o papel que o Estado burguês vem desempenhando no desenvolvimento do capitalismo. individualizando o acesso aos 1 Aluno do Curso de Mestrado em Educação . Este poder. ao promover o avanço das forças produtivas.br. torna-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da sociedade. um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro. Mas para que esses antagonismos.com. promove também o ciclo do consumo necessário à manutenção da sociedade capitalista. p. a partir da evolução progressiva do capitalismo concorrencial ao monopolista.Grupo de Estudos e Pesquisas em Política Educacional e Social. um dos componentes estratégicos para a reprodução do capital. numa sociedade capitalista. chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da ordem. ou a imagem e a realidade da razão como afirma Hegel. mas posto acima dela e distanciando-se cada vez mais é o Estado (ENGELS. Neste aspecto.

criava as condições para maior concentração da propriedade.16). bem como a função essencial assumida pelo Estado burguês. como principal promotora da ideologia da eqüidade.. p. o capitalismo monopolista proporcionou o acúmulo de capital 2 Sobre o termo “mão invisível” do mercado. Mas a transição gradual do capitalismo concorrencial ao monopolista foi acompanhada dos “[.. o capitalismo monopolista “[. Alicerçado teoricamente no liberalismo. Educação e Sociedade Capitalista . Em seguida. 1992.15). num momento em que a progressiva concentração da produção. neste contexto. particularmente no Brasil. ver Adam Smith (1983). apresentamos alguns elementos das políticas sociais implementadas pelo Estado burguês. Faremos neste artigo alguns apontamentos sobre o capitalismo monopolista. o capitalismo concorrencial pressupunha a “ [.. tornou-se conhecido como o estágio imperialista” (NETTO. p. Nas considerações finais. e que desempenhou (e tem desempenhado) funções imprescindíveis à manutenção do capital..] especialmente a partir dos estudos lenineanos. CAPITALISMO MONOPOLISTA E ESTADO BURGUÊS Unioeste .. justiça social e alívio da pobreza. p. o capitalismo concorrencial prescrevia a intervenção mínima do Estado em relação à economia. levantamos alguns aspectos sobre o percurso da temática estudada.] perigos da concorrência sem limites. Assim. 1992. que somou generoso uso da força de trabalho com abundantes recursos das novas máquinas” (VIEIRA. As políticas sociais. o que foi alterando significativamente as relações sociais. engendrado pelas respectivas sociedades e nas condições históricas que as formaram. intensificando o controle do comércio” (VIEIRA.Programa de Pós-Graduação em Educação O processo histórico e constitutivo do capitalismo concorrencial http://www. são tidas como estratégicas. Com diferentes formas e períodos de consolidação nos diversos países. o principal precursor do acúmulo de capital. que deveria ser conduzida pela chamada “mão invisível” do mercado2 . Como sucessor do capitalismo comercial. 96 bens produzidos pela sociedade.br/pos/educacao/ e do capitalismo monopolista traz no âmbito de seu desenvolvimento o Estado burguês. especialmente na indústria pesada. 1996.unioeste. Estado..] acumulação acelerada do capital.18). assinalando a importância que vêm ganhando a educação.

p. onde começou a partilha do mundo entre os trustes internacionais e onde se pôs termo à partilha de todo o território do globo. ocupando os países hegemônicos. que a partir de então “[..] recoloca. sendo a organização monopólica o elemento supremo desta exploração. com sua evolução diferenciada em cada país. 1990. entre as maiores potências capitalistas (LÊNIN. com alterações3 nas relações sociais e nas relações entre os Estados. alienação e transitoriedade histórica. 1987.19).15-16).. deflagra complexos processos que jogam no sentido de contrarrestar a ponderação dos vetores negativos e críticos que detona.27)...16). de modo que ”[. 3 Segundo José Paulo Netto (1996.] No cerne dessa economia mundial.. Estado e Educação vida ou morte entre os grupos monopolistas e entre eles e os outros. p.] o acréscimo dos lucros capitalistas através do controle dos mercados” (NETTO.] a idade do monopólio altera significativamen- te a dinâmica inteira da sociedade burguesa: ao mesmo tempo em que potencia as contradi- ções fundamentais do capitalismo já explicitadas no estágio concorrencial e as combina com novas contradições e antagonismos. p. p. 1996. o sistema totalizante de contradições que confere à ordem burguesa os seus traços basilares de exploração.] é convertida em uma luta de Coleção Sociedade.15). inclusive com a intensificação da exploração do trabalho em âmbito global. em patamar mais alto. o capitalismo monopolista “[. uma nova fase imperialista. A inserção dos diversos Estados ao circuito mundial da economia capitalista se torna um fato. que determinam diferentes posições no processo de reprodução ampliada do capital” (XAVIER.. (. as economias nacionais articulam-se através de relações de dominação- subordinação..” Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 97 em escala mundial após a segunda metade do século XIX. constituída como um todo estruturado. “[. o “centro do furacão” da concentração do capital. diríamos que ele é a fase monopolista do capitalismo.. p. sustentados pela superexploração dos países periféricos. ao objetivar “ [. Apesar de o capitalismo monopolista agregar alterações no modo de produção e nas relações sociais. p. Se tivéssemos de definir o imperialismo da forma mais breve possível.. nos setores ainda não monopolizados” (NETTO. A consolidação em escala mundial do capitalismo monopolista inaugurou. onde a exportação dos capitais adquiriu uma importância de primeiro plano..) .. Assim. Ao mesmo tempo em que proporcionou mudanças na ordem das relações sociais. todos eles desvelados pela crítica marxiana” (NETTO.88-89). segundo Lênin.) O imperialismo é o capitalismo chegado a uma fase de desenvolvimento onde se afirma a dominação dos monopólios e do capital financeiro. 1996. permanece ainda a “livre concorrência”. 1996..

] três dimensões fundamentais do sistema capitalista – produção. os investimentos públicos em transportes. a intervenção estatal incide na organização e na Unioeste . Educação e Sociedade Capitalista . o saneamento de empresas/indústrias capitalistas em dificuldades ou falidas. portanto.21). Como funções indiretas do Estado estão a encomenda/compra de produtos das organizações monopólicas (inclusive da indústria bélica).13). essencial para a reprodução da acumulação capitalista. e de forma contínua e sistemática. O caráter orgânico que adquire o Estado com o capitalismo coloca a existência do Estado intrínseca e necessariamente ligada à existência do próprio capitalismo. no capitalismo monopolista. estradas. pois Na idade do monopólio. ademais da preservação das condições externas da produção capitalista. Dentre as funções diretas requeridas ao Estado para a manutenção do capitalismo está o oferecimento de indústrias de base à produção. não mais possível de ser resolvida somente pelas organizações monopólicas. como as de energia e matérias-primas fundamentais. armazenamento e outros... dele próprio. 98 Para o núcleo central do capitalismo.21). p.br/pos/educacao/ Estado imbricam-se organicamente com as suas funções econômicas (NETTO. operando notadamente como um administrador dos ciclos de crise” (NETTO. Neste aspecto. Mais exatamente. a preparação de força de trabalho para os monopólios e investimentos em pesquisas que beneficiam o setor privado de produção. 1996. No campo estratégico. pois tal núcleo aponta que “O custo da falta de abertura será um aumento da diferença de padrões de vida entre os países que se integraram e os que ficaram de fora” (BANCO MUNDIAL. a inserção dos países periféricos à sua lógica de acumulação sempre foi imprescindível.unioeste.. sendo algumas destas funções diretas e outras indiretas. o repasse de recursos públicos diretos ao setor privado e a garantia de lucros aos monopólios (NETTO. O Estado proporciona as condições para a continuidade indefinida das “[.21). o Estado desempenha funções concomitantemente diretas e indiretas. as funções políticas do http://www.] como um instrumento de organização da economia. Estado.Programa de Pós-Graduação em Educação dinâmica econômicas desde dentro. o Estado configura-se como um mecanismo de intervenção extra-econômico. o que prescreve o desempenho de funções múltiplas por parte do Estado para a continuidade do modo de produção que o sustenta e. A importância do Estado para a acumulação do capital vai se consolidando principalmente a partir da intervenção na contradição entre capital/trabalho. p.. p. 1997. 1996. ao atuar “[. 1996. p.

.] papel catalisador e facilitador.. 1990. p. o Estado tem agregado..) . o qual tem buscado constantemente a “[. A consolidação da exploração por parte dos monopólios somente foi possível pelo papel desempenhado pelo Estado burguês. inclusive servindo de “ponte” para o capital internacional.28). e daí a sua fusão com os dos monopólios internacionais” (XAVIER. 1997.52). Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.]” (MÈSZÁROS. p. já que houve historicamente “a fusão dos interesses do Estado brasileiro com os interesses dos monopólios privados.] tendem durante um longo período de tempo a reforçar-se e a expandir-se reciprocamente. p..38). desde a colonização e formação da burguesia interna até a subordinação pactuada desta burguesia ao capitalismo hegemônico. Sem abandonar suas funções garantidoras da reprodução do capital. A inserção original da economia brasileira na economia internacional e a diversidade possível das formas de dominação do capital e de articulação dos elementos ‘tradicionais’ e ‘novos’ nas estruturas de transição capitalista dificultam a demarcação histórica precisa entre o colonialismo e a dominação imperialista. 1990. no contexto da financeirização mundial do capital. Não obstante. 2006. o Estado desempenhou historicamente funções estratégicas na rearticulação da economia nacional.iii). Tais funções estão ligadas: à interferência direta no setor externo da economia. à transferência progressiva dos recursos da agricultura para a indústria (XAVIER. ESTADO E CAPITALISMO NO BRASIL O processo de articulação do Brasil ao capitalismo mundial é Coleção Sociedade. Mas o capital já dominava a economia colonial e o que se verificou no último quartel do século XIX foi a passagem para novas formas de dominação capitalista (XAVIER. p. 2006. incentivando e complementando as atividades das empresas privadas e dos indivíduos” (BANCO MUNDIAL. garantindo também a motivação interna necessária para a respectiva reprodução dinâmica a uma escala cada vez mais ampliada” (MÈSZÁROS. p.3) e que “[. 99 consumo e circulação/realização [.. p. No caso brasileiro. sob a tutela do Estado burguês. A materialização e manutenção do capitalismo monopolista no Brasil teve a interferência e participação direta do Estado burguês aqui constituído. 1990.] reintegração modernizada ao capitalismo internacional” (XAVIER.3).. o “[.. Estado e Educação carregado de particularidades.. p. 1990. ao incremento do processo de industrialização.43).

a partir do chamado Consenso de Washington. Os ajustes e reformas estruturais implementadas pelos governos que se seguiram na década de 1990 levaram a uma nova subordinação política/econômica brasileira. é a partir da industrialização – que no caso brasileiro teve como base a produção cafeeira –. 1990. neste período. a intensificação da Unioeste . p. dentre outros.52). O “pacto social” entre capital e trabalho proposto na transição política para a “Nova República” fez parte da articulação política e ideológica que teve continuidade nos governos posteriores à abertura política e que desembocou num novo realinhamento do país às premissas do capitalismo central. sucessivos empréstimos contraídos dos organismos internacionais (Banco Mundial e FMI) produziram um consenso em torno da idéia de um “Brasil potência” e de um “milagre econômico”.. em relação a “[.Programa de Pós-Graduação em Educação internacionalização da indústria brasileira no governo Juscelino Kubitschek mostrou a importância das ações do Estado burguês para http://www.unioeste. Educação e Sociedade Capitalista . pois “os efeitos da subordinação econômica do país.] um projeto de inserção internacional e de transnacionalização radical de nossos centros de 4 Sobre o processo de industrialização brasileira ver. Paul Singer (1984) e Octávio Ianni (1991).. Na segunda metade da década de 1950.4 O golpe ditatorial de 1964 fez o realinhamento do país ao capitalismo central (em detrimento de uma possível opção socialista). sempre foram agravados pelo apoio e pela cumplicidade das classes dominantes nacionais” (XAVIER. Apesar da subordinação do Brasil ao núcleo central do capitalismo apresentar-se já desde o período colonial. 100 O papel desempenhado pelo Estado no processo de consolidação do capitalismo monopolista no Brasil viabilizou-se pelo consentimento da elite burguesa aqui formada. agora sob a égide das propostas neoliberais. em todas as suas fases. Estado. que o Estado burguês amplia sua intervenção no modo de produção. além de promover incentivos fiscais que subsidiaram instalações das indústrias monopólicas internacionais em território nacional. prontamente aceitas e implementadas pela elite política. sendo que. e aproximando-se cada vez mais de associações monopolistas.br/pos/educacao/ a consolidação dos monopólios internacionais – estes ocupando o parque industrial brasileiro com o aval e ajuda direta do Estado burguês – ao propiciar a infra-estrutura necessária (indústria de base).

.) . Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Desta forma. 1997. p. hierarquicamente assumindo suas “devidas funções”....72). p.. É preciso tomar o cuidado de não subestimar o poder do Estado. 2001.96).. 2006. e consagrado no golpe militar de 1964. dentre outros: François Chesnais (1998). ao analisarmos a requerida articulação da modernização do Estado brasileiro ao núcleo central do capitalismo. mas é preciso cuidado para não reificar um sistema mundial.. mas dar a devida atenção às forças e processos sociais e observar como eles se relacionam com o desenvolvimento dos Estados e da ordem mundial (Cox apud FIORI. numa aliança de poder das elites internas com o capital internacional. faz-se necessário considerar as influências globais da acumulação do capital. sempre sob a tutela do Estado burguês brasileiro. José Luís Fiori e Maria da Conceição Tavares (1997) e Roberto Leher (1998). como tampouco pode se desconhecer a especificidade destas Coleção Sociedade. p. vemos que tal processo de modernização [.] o Brasil chegou a segunda metade dos 5 Sobre globalização ver.] não há como desconhecer a profundidade e a velocidade das transformações que vêm redesenhando o mundo desde o início dos anos setenta. 1997. aprofundando a ‘maturação’ da industrialização brasileira engendrada pela internacionalização econômica” (DEITOS e XAVIER. principalmente a partir da financeirização mundial do capital. Ao analisar o processo de globalização5 e o papel dos Estados em relação a ela.89).] se expressou na estratégia ‘desenvolvimentista internacionalista’. István Mèszáros (2006). o processo de modernização atingiu seu “auge” na década de 1990. uma vez que todos os países estão no círculo mundial desta acumulação. quando “[. Apesar da subordinação histórica e consentida à modernização capitalista hegemônica por parte das elites políticas representadas pelo Estado burguês. ou tendo estes dois elementos conjuntamente superexplorados pelas hegemonias capitalistas. seja fornecendo matérias-primas ou mão-de-obra a baixos custos. p. de forma que [.] olhar para o problema da ordem mundial como um todo. Estado e Educação transformações dentro do movimento permanente de internacionalização do Capital e do contexto mais próximo da internacionalização produtiva ocorrida depois da II Guerra Mundial (FIORI. materializada a partir do Governo Vargas e JK – Juscelino Kubitschek (na década de 1950).. Assim. 101 decisão e das estruturas econômicas brasileiras” (FIORI. é necessário [.12).

é utilizada pelo Estado burguês para a promoção da ideologia da eqüidade. se as entendermos como expressão de contradições inerentes à ordem social estabelecida. e a http://www. Estas não são estáticas. as políticas sociais também representam campo de tensões. Não obstante. ainda que representem estratégias para a manutenção do capitalismo. p. representando uma destas estratégias.Programa de Pós-Graduação em Educação impregnadas de embates e conflitos – por originarem-se a partir da contradição capital/trabalho – têm sido cada vez mais focalizadas.71). 1980. p. a universalização das políticas sociais seria o caminho da própria dissolução do Estado capitalista e das determinações Estado. assegurem sua indispensabilidade para o capital. 1980. principalmente nos países periféricos em relação à hegemonia central do capitalismo.. financiar e suportar o capitalismo monopolista. justiça social e do alívio da pobreza... cuja aposta fundamental era no acesso a mais um ciclo de inserção financeira internacional e crescimento acelerado” (FIORI. as conquistas internacionais dos trabalhadores. como é o caso do Brasil. AS POLÍTICAS SOCIAIS E O ESTADO BURGUÊS Ao desempenhar a função de mediador de relações sociais capazes de manter a acumulação do capital.unioeste. o Estado burguês tem incorporado estratégias que assegurem a realização de tal função e deste modo. mas tática e estrategicamente utilizadas na dinâmica dos conflitos sociais (FALEIROS. p. a universalização das políticas sociais pelo Estado burguês não é possível.] vem do papel que o Estado exerce para proteger. O lugar estratégico das políticas sociais “[. jamais poderia universalizar as políticas sociais. Educação e Sociedade Capitalista . 2001.] uma sociedade capitalista. e seu Estado político de afirmação permanente. tanto nos países hegemônicos como nos países dependentes” (FALEIROS. 102 anos 90 sob a égide de um pensamento e uma política de corte neoliberal. As políticas sociais. onde A reorganização das forças sociais. mas também Unioeste . Embora sejam estratégicas na mediação de conflitos sociais.. como integrante destas políticas sociais. as contradições internas dos capitalistas. modificam a correlação de forças e as conjunturas para transformação e implantação das políticas sociais. Nessa ótica.23).9). pois [. as contradições internacionais.br/pos/educacao/ educação. as mudanças na política internacional.

69). p. 2006. participação das ONGs e envolvimento comunitário na supervisão e manutenção dos serviços sociais” (BIRD.181). em que “[. Para tanto. e gerido pelo Estado. a focalização no atendimento das políticas sociais torna-se mais que necessária. 103 materiais que o sustentam. No contexto da área social. com políticas sociais focalizadas. p.] ao aumento da eficiência do gasto social”. na medida em que “[. entre 1979 e 1987. (.235).. Dada a inviabilidade da universalização das políticas sociais para o capitalismo. com a focalização das políticas sociais que. 1998. ancoradas na acumulação e reprodução capitalista (DEITOS e XAVIER. JUSTIÇA SOCIAL E ALÍVIO DA POBREZA No contexto da mundialização financeira6 do capital.] permita dirigir melhor os recursos públicos para os grupos mais vulneráveis. concessões. 2001. os objetivos dos organismos internacionais para os países periféricos... a otimização dos gastos. p. dentre outros aspectos. 2006. Estado e Educação serviços. p. com uma permanente consideração dos fatores de gênero e atendimento à infância e à terceira idade” (BANCO MUNDIAL.] a combinação de crescimento sustentado.12): “A expressão ‘mundialização financeira’ designa as estreitas interligações entre os sistemas monetários e os mercados financeiros nacio- nais. mesmo que a taxas ainda não muito elevadas....] a adoção de meios eficientes e inovadores de prestação de Coleção Sociedade.. e nos anos seguintes pelos demais países industrializados”. incluindo o Brasil.. inclusive a privatização. com “[. numa ligação “milagrosa”. a competitividade internacional ganha maior expressão e é disseminada 6 De acordo com François Chesnais (1998. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. A focalização das políticas sociais busca. estão articulados ao auxílio na resolução de deficiências que impedem a promoção da eficiência dos gastos com políticas sociais..9). A EDUCAÇÃO COMO PROMOTORA DA EQÜIDADE.) pode ter efeitos poderosos sobre a redução da pobreza” (LEVY e VILELA. sendo de certo modo característica da sociedade capitalista.. representam parte da riqueza socialmente produzida e que volta aos próprios trabalhadores em forma de orçamento direcionado à área social. p. A eficiência nos gastos com políticas sociais a partir da focalização também pode vir articulada à necessidade do crescimento econômico acelerado.) . pois visa “[. o Estado burguês trata de priorizar o atendimento aos mais necessitados. resultantes da liberalização e desregulamentação adotadas inicialmente pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

Programa de Pós-Graduação em Educação mundial da acumulação de capital. introdução de uma idade mínima para aposentadoria.unioeste.167). na prescritiva da inserção destes países na propalada competitividade internacional. tem promovido ajustes estruturais nos países periféricos por meio de financiamentos e empréstimos. sobretudo. na década de 1990. Nesta chamada financeirização do capital ocorrida a partir da década de 1970 e intensificada na década de 1980. Porém. Estado. tais ajustes estruturais trouxeram conseqüências diretas para a área social. e checagem das contribuições).106). prevêem readequações nas funções dos Estados. o Banco Mundial afirma que “o consenso de 1990 de que o Brasil sairia ganhando com a integração na economia mundial resultou em estabilização. uma vez que “a implementação do ajuste estrutural implica grandes transformações políticas e sociais” (LEHER. 1998. a partir de empréstimos contraídos do Banco Mundial e FMI.299).. E no caso brasileiro. p.299).. com três reformas estruturais fundamentais: A Reforma Administrativa (essencialmente a retirada da estabilidade no serviço público). Reforma da Previdência Social (que tem como ponto maior a mudança da exigência de os benefícios dos aposentados serem 100% iguais aos do último salário enquanto na ativa. redução cumulativa de benefícios. a conformidade e a universalização dos tributos sobre bens e serviços) (BIRD. p. como essencial para a redução da pobreza. p. mediante ganhos de produtividade” (CEPAL. 2001. no contexto do fenômeno da globalização. pois “a importância do crescimento na redução da pobreza é aumentada pelas suas implicações na sustentabilidade no programa de reformas e de políticas de distribuição” (BANCO MUNDIAL. 2001. 104 principalmente pelo núcleo hegemônico do capitalismo.3). 1998. na privatização das infra-estruturas e na liberalização do comércio e investimentos externos” (BANCO MUNDIAL. Educação e Sociedade Capitalista . sempre dentro da dinâmica Unioeste . o núcleo central do capitalismo. Os ajustes estruturais nos países periféricos. 1995. p.br/pos/educacao/ A busca pelo crescimento econômico acelerado é apontada pela estratégia ideológica das hegemonias do capitalismo. através de seus organismos internacionais. p. os ajustes estruturais deram-se. e Reforma Fiscal (melhorando a eficiência. como forma de “[. http://www. principalmente na perseguição pelos Estados periféricos do crescimento econômico acelerado.] elevar o nível de vida da população. No Brasil.

o ajuste tem reduzido a inflação. na estratégia difundida pelos organismos internacionais. no caso brasileiro.. como promotora da ideologia da eqüidade. Além disso. Em particular. por outro lado. 1998. 105 As consequências sociais nos países periféricos. resultaram no fato de que Os empréstimos do Banco e do FMI têm como contrapartida necessária a adesão do país tomador ao programa de ajuste estrutural. FMI e a UNESCO. A principal razão para esta pouca elasticidade é a grande desigualdade de renda. p. como o Banco Mundial. nos países periféricos. a dívida tem-se tornado mais pesada. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Estado e Educação eqüidade social nos diversos países em que intervêm. Como estratégia para reprodução do trabalho vivo e manutenção do capitalismo. que implica que apenas uma pequena parcela de qualquer aumento de renda contribui para elevar a renda dos pobres.) . O próprio Banco Mundial aponta. quando pondera que [. e no contexto das políticas sociais. comparado com os 2% típicos dos países em desenvolvimento. o investimento. 2001. Se por um lado.281-282). mesmo que a estratégia ideológica adotada pelos organismos internacionais seja a do crescimento econômico com Coleção Sociedade. já débil. onde os organismos internacionais prescreveram os ajustes estruturais. justiça social e alívio da pobreza. as políticas sociais são implementadas pelo Estado (apesar de advindas dos embates e conflitos demandados no âmbito da contradição capital/trabalho). a educação tem se constituído.. a discrepância existente entre crescimento econômico e redução da pobreza. os pobres com níveis de educação muito baixos são muitas vezes incapazes de tirar proveito de oportunidades econômicas.159).] o crescimento do PIB per capita no Brasil tem sido menos eficaz na redução da pobreza do que em outros países. na propalada ideologia de integração mundial. a redução da pobreza não se evidencia como resultado deste crescimento. tem estagnado e mesmo decrescido. p. E pior: o ajustamento estrutural tem implicado sofrimento social e acentuado a pobreza” (LEHER. os mais pobres entre os pobres – a última camada de 10- 15% da distribuição de renda no Brasil – parecem essencialmente não se ter beneficiado do crescimento econômico (BANCO MUNDIAL. Calcula-se que um por cento do crescimento do PIB per capita reduza a taxa de pobreza no Brasil em apenas cerca de 0. Apesar dos ajustes estruturais propostos pelos organismos internacionais – representantes da hegemonia capitalista mundial – prescrever a competitividade como pressuposto do crescimento econômico acelerado.7%. e a infra-estrutura negligenciada.

Programa de Pós-Graduação em Educação [. de transportes e outros para fazer negócios (BIRD.106). e (iv) implementação melhor de serviços descentralizados do Estado (buscando aumentar o controle e a responsabilidade dos serviços do setor público e das finanças) (BIRD. por meio da superexploração do trabalho e de matérias primas. o qual funciona como pressuposto à inserção dos países periféricos ao circuito de acumulação mundial de capital e também para o alívio da pobreza.br/pos/educacao/ setor público entre os níveis nacional e subnacionais (estaduais). aumento do investimento em capital humano.. p. reforma do mercado de trabalho. p.] intensificar o comércio exterior e a liberalização de investimentos. Educação e Sociedade Capitalista . Além do que. No caso do Brasil.unioeste. sobretudo a partir do fenômeno da globalização. é perseguida para se alcançar o desenvolvimento econômico acelerado. [. objetivando particularmente a redução dos custos não-salariais do trabalho.. os ajustes estruturais no Brasil incluíram: [. Para acelerar o crescimento econômico através da competitividade internacional.... A competitividade. desenvolvimento da capacidade do país inovar através de investimentos no setor de ciência e tecnologia. (ii) um papel efetivo do Estado na regulamentação das atividades econômicas. esta ideologia da competitividade para impulsionar o desenvolvimento econômico acelerado dos países capitalistas é desvelada pela “hierarquia” existente na ordem mundial capitalista.. Para o aumento da produtividade e competitividade internacional.107).] a competição intercapitalista e a competição interestatal se dá agora de maneira extremamente concentrada e só terão lugar neste jogo. (iii) redefinição e redistribuição das funções do http://www. o desenvolvimento do mercado financeiro e de capitais para reduzir os custos financeiros e aumentar a eficiência dos investimentos. por isto mesmo. Não obstante. 1998. na qual a divisão internacional do trabalho conduz os países periféricos a servir de sustentáculo das hegemonias mundiais. E. os ajustes estruturais prescrevem a modernização dos Estados. 1998. a estratégia ideológica do núcleo central do capitalismo tem colocado a competitividade internacional como sinônimo de sobrevivência dos países dentro do mercado capitalista mundial. como estratégia ideológica. um número muito limitado de competidores. as ações estratégicas para esta modernização indicaram ações como: Unioeste . e redução dos custos regulatórios.] (i) privatização de outras atividades onde o setor privado tenha algum interesse. 106 Sobretudo a partir da financeirização mundial do capital. Estado.

A melhoria dos níveis educacionais é vista como condição fundamental a consecução dos níveis de produtividade e competitividade necessários para o crescimento econômico sustentável. A focalização existente nas demais políticas sociais também se faz presente na educação. Na manutenção da ideologia do desenvolvimento econômico acelerado. na qual a eficiência dos gastos coloca-se como prescritiva dos organismos internacionais. 1995. parte-se do pressuposto de que. como o Banco Mundial. Estado e Educação Sobre a contribuição do Banco Mundial para impulsionar a educação como eixo principal das políticas sociais. as políticas sociais.] um aumento do tempo de instrução e qualidade de ensino..143). enfoque na interface reconhecida entre a educação e o crescimento. 1998.. que serve de pressuposto da integração nacional à “globalização”. ao apoiar o Estado burguês brasileiro para [.. p.. 107 talvez esteja definitivamente afastada a possibilidade de novas hegemonias mundiais” (FIORI. p.] (BIRD. inclusive para possibilitar a gravitação destes na órbita do capitalismo mundial. A educação como principal promotora desta ideologia vai tornando-se estratégica para os países periféricos.) com enfoque na eqüidade.123). 1998. Coleção Sociedade. alívio da pobreza e maior igualdade (BIRD. processo no qual a educação e a difusão do progresso técnico desempenham papéis cruciais (CEPAL.29). têm servido à promoção da ideologia da eqüidade. Assim.. Para compatibilizar a eqüidade com a inserção internacional é necessário elevar constantemente a produtividade e melhorar a capacidade institucional. particularmente a educação.. e como ferramenta central Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. As autoridades nacionais colocaram a educação em lugar de destaque. O envolvimento do Banco estará baseado no critério de seletividade (.. p. o apoio do Banco a esse setor (educação) deveria enfatizar a educação básica ou pré-escolar sempre que possível [. Como estratégica para a competitividade internacional.) .) incluindo apoio que inclui e que não inclui empréstimos para a implementação de reformas que fortalecerão a prestação de serviços na área de educação no nível da escola. p. incluindo aumento de oportunidades de aprendizado para os pobres (.. 1997. justiça social e alívio da pobreza.121). um melhor uso dos recursos fiscais através da descentralização.

a competitividade vem garantir o exercício desta cidadania. uma vez que os países hegemônicos já desfrutam do acesso aos bens de consumo.] compatibilizar aspirações de acesso aos bens e serviços disponíveis no mundo moderno” (CEPAL.7) . 1995.235). por sua vez. perpetua a pobreza. E no contexto da busca pelo desenvolvimento. a educação é apontada pelo Banco Mundial como uma das causadoras da desigualdade social no Brasil.. neste final de século. Como o conceito de cidadania para os países hegemônicos do capitalismo tem articulação direta com o consumo.br/pos/educacao/ competitividade internacional. a educação é essencial para propiciar a http://www.284). Melhorias nas realizações educacionais têm de estar no cerne de qualquer estratégia a médio ou longo prazo a fim de aumentar a capacidade dos pobres de tirar proveito das oportunidades econômicas e reduzir a pobreza no Brasil (BANCO Unioeste . p. já que as aspirações consumistas são “inevitáveis” e necessárias para manter a circulação e o consumo de mercadorias. 2001.) possa existir sem que se caminhe firme e continuadamente no sentido da competitividade seria.Programa de Pós-Graduação em Educação MUNDIAL. p. os países pertencentes ao núcleo hegemônico do capitalismo vão servir de “modelo bem sucedido” de desenvolvimento aos países pobres.9). por esse caminho.. pois Imaginar que a cidadania (.7).. Deste modo. 1995.. a educação torna-se ideologicamente estratégica para a inserção internacional dos países periféricos.. através da reduzida escolarização: A desigualdade na educação. Para reforçar a ideologia da eqüidade. explica grande parte da desigualdade da renda do trabalho no Brasil (. 1995. Educação e Sociedade Capitalista .) Um nível de educação baixo resulta em baixa renda que. e também nestes.] caráter central da educação e da produção de conhecimento no processo de desenvolvimento” (CEPAL. 1995.28). Estado. p. a estratégia ideológica tem colocado o “[. justiça social e alívio da pobreza.] promover uma transformação produtiva que favoreça a inserção externa... p.. promova a eqüidade e. mais do que a segmentação ou discriminação do mercado de trabalho.. de modo a “[. tão infundado quanto supor que a competitividade – de caráter necessariamente sistêmico – pudesse sustentar-se em meio a atrasos significativos no tocante à cidadania (CEPAL. p. A ligação entre cidadania e consumo devem induzir os países pobres a “[.unioeste. Nessa lógica. 108 para se melhorar a distribuição do ingresso e reduzir a pobreza a médio e longo prazo (BANCO MUNDIAL. 2001. propicie maior integração social” (CEPAL. p..

sejam centrais ou periféricos. em que a única certeza é a da servidão de seu povo e exploração de seus recursos. A ideologia propagada de que os países periféricos estão continuamente atrasados em relação às hegemonias mundiais tem feito estes países pagarem um preço social extremamente alto. inclusive o do Brasil. para a promoção da ideologia da eqüidade. Coleção Sociedade. escamoteadas pelo ofuscamento da ideologia da competitividade internacional. através da formação de recursos humanos qualificados e capazes de alavancar um determinado progresso técnico-científico. Para dar conta de sua função de mediação das relações sociais que favoreçam o capital. sobretudo a educação. por meio de contínuos realinhamentos à ótica da modernização daqueles países. Estado e Educação E o Estado burguês brasileiro não tem se furtado à tarefa de atrelar-se aos anseios permanentes de acumulação da elite interna e externa. justiça social e alívio da pobreza. Para possibilitar a sustentação da primeira opção. Ao atender as pretensões das classes dominantes. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Anseios estes tão lógicos e certos para a burguesia. vigilantes da ordem mundial capitalista. O alcance máximo que a educação tem conseguido chegar no âmbito desta lógica capitalista é perpetuar-se como promotora da ideologia da eqüidade. Uma possível saída desta condição de periféricos (o que também não passa de uma estratégia ideológica) coloca os países diante da dual opção entre capacidade competitiva ou exclusão do circuito mundial do capitalismo.) . justiça social e alívio da pobreza nos países periféricos. como é o crescimento e expansão perseguidos pelo capitalismo. num caminho incerto. o que tem contribuído em muito aos países periféricos para a continuidade de sua condição de sustentáculo da hegemonia dos países pertencentes ao núcleo hegemônico capitalista. a educação assume a tarefa ideológica de tornar os países competitivos. o Estado burguês tem se curvado aos preceitos dos organismos internacionais como o Banco Mundial e FMI. O “modelo bem-sucedido” dos países que fazem parte do núcleo central do capitalismo tem sido constantemente perseguido pelos Estados burgueses periféricos. o Estado burguês tem utilizado habilmente as políticas sociais. 109 CONSIDERAÇÕES FINAIS As alterações nas relações sociais provocadas pela financeirização mundial do capital são cada vez mais visíveis nos países capitalistas.

e não somente o econômico. e mesmo que saiam. é no mínimo questionável. dificilmente sairão da condição de explorados. pois perspectivas que apontem para superação das funções das políticas sociais para reprodução capitalista estariam no caminho da superação das próprias políticas sociais. aspirar uma posição contrária a este quadro. que por sua vez torna-se pressuposto à redução da pobreza. desde sua elaboração à sua implementação. mas da mobilização da população explorada. pelo caráter ideológico capaz de desempenhar nos países pobres. possibilita-se a utilização das políticas sociais como forma de explicitar as contradições entre capital e trabalho. não haverá mudanças estruturais significativas que possam interferir no processo de acúmulo. principalmente por parte do Estado burguês. nos embates que evidenciam os limites das políticas sociais. Enquanto tal destruição não se materializa. o Unioeste . 110 O que percebemos. portanto.unioeste. Estado. tais proposições não serão advindas do Estado burguês. Porém. é que a competitividade internacional apontada pelo núcleo hegemônico do capitalismo apresenta-se como pressuposto ao crescimento econômico sustentável. Na propalada competitividade difundida pelos países centrais do capitalismo. do sistema capitalista e do Estado burguês que o legitima e o reproduz. E pretender uma educação anti-colonialista. escamoteia-se o fato de que ela somente poderia ser possível entre países com iguais condições materiais de competição. Educação e Sociedade Capitalista . na “hierarquia” mundial do processo de acúmulo de http://www. Caráter este somente passível à mudança a partir de seu necessário desvelamento.Programa de Pós-Graduação em Educação que não acontece nos países periféricos em relação aos hegemônicos. A educação tem se constituído. Por isso. ou seja. pode apontar para a tentativa dos países periféricos em relativizar o seu condicionamento à hegemonia do capital. divergente da ótica da competitividade a qual está atrelada.br/pos/educacao/ capital. com a destruição das raízes geradoras de sua razão de existência. em um dos principais eixos das políticas sociais implementadas pelo Estado burguês. Os periféricos. inclusive com o acirramento das demandas das classes que delas fazem uso junto ao Estado burguês. deste modo. através da nacionalização de seus recursos naturais e energéticos e com opções políticas que enfatizem os aspectos sociais.

C. In: DEITOS.. 2006. Brasília. François (Coord. RODRIGUES. 2000. IPEA/CEPAL/INEP. Anexo II. A origem da família. Esta- do. Roberto Antonio. Campinas. Estado e política educacional no Brasil. 111 REFERÊNCIAS BANCO MUNDIAL. Revista Educação e Sociedade Sociedade. In: Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais. 1997. ENGELS. Rosa Maria (Orgs). Roberto Antonio. Estratégia de assistência ao país. Serviço de Tradução – SIDOC – Senado Federal).) et alii.). desenvolvimento. Vicente de Paula. Brasília. 1980. (Relatório nr. A estratégia Coleção Sociedade. Tradução: Maria Isabel de A. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Estado. 06 de março de 2000. UNESCO. custos e riscos. (Relatório nr. BANCO MUNDIAL e CFI. CEPAL.20160-BR. A política social do estado capita- lista: as funções da previdência e assistência sociais. Cascavel: Edunioeste.Bandeira Taveira e Marieane Arantes R. DF: Rede Brasil sobre Instituições Financei- ras Multilaterais. BIRD. desenvolvimento. 12 de junho de 1997) In: VIANNA JR. da propriedade priva- da e do Estado Estado. FALEIROS. São Paulo: Global. 1998. democracia & políticas sociais sociais.F. Tradução de José Silveira Paes. Estado e Educação dos bancos multilaterais para o Brasil – Análise crítica e docu- mentos inéditos. DEITOS.) . apresentação Anto- nio Roberto Bertelli. 1984.) et al. Friedrich. DEITOS. D. São Paulo: Cortez lista Editora. Rosa Maria (Orgs). XXII. Educação e conhecimento conhecimento: eixo da transforma- ção produtiva com eqüidade. José Luís. FIORI. 2006. Flávia (Org. Relatório sobre o desenvolvimento mundial 1997. Documento do Banco Mundial. BARROS. EUA. Roberto Antonio.16582-BR. CHESNAIS. A mundialização financeira financeira: gêne- se. O Estado num mundo em transformação transformação. 2001. Casca- vel: Edunioeste. Washington. 1995.. As estratégias dos bancos multilaterais para o Brasil (2000- 2003) 2003). São Paulo: Xamã. XAVIER. 1998. Brasília: Rede Brasil. de- mocracia & políticas sociais sociais. São Paulo : CEDES. Maria Elizabete Sampaio Prado. Aurélio (Org. de Oliveira. nº 77. RODRIGUES. O cosmopolitismo de cócoras. dezembro de 2001.

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1 Graduado em Filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Endereço eletrônico: claudioafonsoperes@gmail. especialista em História da Educação Brasileira e mestrando em Educação na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Estado e Educação Percebemos a impossibilidade de tal estudo se ele não estiver permeado pela compreensão do que sejam o Estado capitalista e os interesses presentes nas políticas desenvolvidas pelos seus governantes. Membro do Histedbr – GT Cascavel. na proteção ao meio ambiente e nas políticas econômicas e sociais. visando ainda o acesso ao mercado de trabalho e o exercício pleno da cidadania. As determinações econômicas do capitalismo conduzem às práticas políticas dos governos que. por sua vez. Coleção Sociedade. EDUCAÇÃO SUPERIOR E SOCIEDADE: A MEDIAÇÃO DO ESTADO A SERVIÇO DO MERCADO Cláudio Afonso Peres1 INTRODUÇÃO Este trabalho tem o propósito de identificar o papel de mediação do Estado capitalista entre a educação superior e a sociedade brasileira. conforme esclarece Evaldo Vieira (1992). com ênfase nas questões econômicas que conduzem as políticas sociais e atendem aos interesses do mercado. muitas vezes em detrimento dos interesses da sociedade.com Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. no controle da sociedade para a manutenção do sistema. produto da revolução industrial e do conseqüente rompimento com os regimes monárquicos e feudais no contexto dos séculos XVIII e XIX. É esta forma de Estado que aqui investigamos. em Democracia e Política Social. encontramos as políticas para a educação consideradas necessárias para a ordem do Estado nacional. No âmbito das políticas sociais. se expressam nos aparatos de segurança para preservação da propriedade e da soberania das nações. buscando identificar como ele atua e quais as influências que recebe para estabelecer as mediações necessárias à manutenção do sistema capitalista. sob orientação do Professor Alexandre Fiuza. É esse Estado democrático de direito que deve garantir as condições de sobrevivência e dignidade humana propostas pelos ideais liberais. fez surgir o Estado Democrático de Direito.) . para a superação das desigualdades e para a formação do ser humano. O Estado moderno.

o Estado controla e oferece incentivos às instituições que promovem o serviço. mas que.e o estudo do particular.do geral . 41). além de considerarmos o aspecto temporal. que seria a orientação liberal clássica. 114 A partir da segunda metade do século XX. acima de tudo. Estado. o único que pode dar conta de captar as contradições inerentes ao objeto proposto. Desta forma. e tendo o Estado como mediador. Educação e Sociedade Capitalista . Esse “comportamento” do Estado refletiu no país sob vários aspectos. 3 Conceito adaptado pelos liberais que julgam que o serviço privado quando atende ao público em geral passa a compor o serviço público não estatal. na obra A mundialização financeira: gênese. mas as práticas foram aperfeiçoadas. pois. Os princípios gerais relativos à acumulação de capital e exploração do trabalhador são os mesmos do capitalismo clássico. através das orientações e “ajudas” de organismos mundiais como o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). com os processos de globalização e conseqüente mundialização financeira2. Como estratégia de compreensão dos aspectos que permeiam a educação superior e a sociedade. custos e riscos (1998).Programa de Pós-Graduação em Educação ocorridas através da história. É preciso ir além da dedução e da indução e unir a teoria à prática para buscar na dialética o verdadeiro conhecimento. o Estado brasileiro abre mão de sua soberania e passa a atender aos interesses de economias hegemônicas. contrapõe-se à teoria do Estado mínimo.br/pos/educacao/ Adam Smith (1723-1790). O filósofo Álvaro Vieira Pinto (1979) adverte que é a descoberta desta contradição que nos permite o esclarecimento do objeto pretendido (p. pois o Estado capitalista brasileiro atual é resultado de transformações Unioeste . acompanhando as necessidades decorrentes do desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade e. pois preserva características fundamentais dos modelos políticos e econômicos de John Locke (1632-1704) e http://www. mesmo privatizada 2 Termo utilizado por François Chesnais. paradoxalmente. utilizaremos o método materialista histórico dialético. ou do específico. viabilizando a invulnerabilidade do mercado. Nossa tarefa está em identificar a contradição que existe entre o estudo do global . então ele é publicizado. Neste contexto. A Educação Superior aparece como reflexo dessas políticas. mesmo sendo privados. No ensino superior trouxe a privatização da rede e a conseqüente mercantilização do ensino. estratégias em que vários setores que prestavam serviços de interesse público passaram a serem entendidos como de interesse e responsabilidade do Estado. destacamos os processos de privatização e de publicização3 do privado.unioeste. respectivamente.

o maximizou enquanto mecanismo de controle e reprodução do liberalismo. 2006). conforme orientação liberal. 115 em grandes proporções4. haviam 663. os mercados financeiros e as organizações financeiras não-bancárias. correspondendo a mais de 88% da rede. GLOBALIZAÇÃO E REFORMA DO ESTADO BRASILEIRO: OS REFLEXOS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR Coleção Sociedade. (VAHL. o propósito para o qual foi criado. correspondendo a 75% da rede. apresenta. pelo Estado. atuando como agente do mercado. que Chesnais chama de “mundialização financeira”. seguindo as orientações liberais das economias hegemônicas. haviam 209 IES estatais e 764 privadas. como resultado da liberalização e desregulamentação ocorrida a partir da década de 1970.652. industrial. associações e Organizações Não Governamentais (ONGs) diversas. p. no Brasil. o volume de capitais que passam pelas agências bancárias (idem. ao mesmo tempo. que tratou de diminuir o Estado no campo das políticas sociais e no controle dos meios de produção. a partir da segunda metade do século XX. subordinam. Essa característica demanda interpretações que vão além de compreender o livre comércio. as estatais reduziram para 207 e as privadas aumentaram para 1. sob a forma de fundações. já em 1976. os cartéis e trustes. como os fundos de pensão e sociedades de investimento coletivo. (INEP/MEC. assim. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 4 Em 1955. 28). 17). Na década de 1990. inclusive. Estado e Educação A fase que vive a economia capitalista. sérias dificuldades de valorização do capital investido na produção (p. Na verdade. foi implementada a reforma gerencial do Estado.) . haviam 6 IES privadas no Brasil. A liberalização financeira dirige os lucros ao capital especulativo ou fictício. segue compondo o conceito de público e sendo financiada e regulada. comercial. ainda. mas. IMPERIALISMO. Nesse novo modelo. bancário. etc. p. No ano de 1998. na acepção de François Chesnais (1998). várias foram transferidas para o setor “público não estatal”. cumprindo. ramo da economia.) forma o capital financeiro que não se define em nenhum deles e que não pertence necessariamente a esse ou aquele país ou. em 2003. Das políticas sociais que restaram. revela estreita ligação entre os sistemas monetários e os mercados financeiros nacionais. 49). os grandes monopólios ou mesmo a participação das multinacionais e transnacionais. 1980. em parte. Esse período. a soma de todos os capitais (capital rural.

explicitadas em seu Capitalismo e Liberdade (1988). Essas idéias e práticas foram difundidas mundialmente após a eleição. priorização dos gastos públicos. um estudo do grupo Oboré Projetos Especiais dá conta de que. p. de Helmut Khol na Alemanha.unioeste. sistemas públicos sociais e setores empresariais. ao oferecerem apoio. a preços duvidosos. regime cambial. um ano depois. Para que se tenha apoio da população. A mídia internacionalizada e globalizada é também ávida em apoiar a ampliação dos incentivos e investimentos dos organismos internacionais ao país. liberalização financeira. Pereira condena o Estado mínimo e o apresenta como necessário à regulação e provimento dos serviços sociais. não tendo sido tratados assuntos como educação. investi- mento direto estrangeiro. Na América Latina. Ronald Reagan nos Estados Unidos. não se intimidam em reduzir gastos sociais e em privatizar. Educação e Sociedade Capitalista . É a partir dessas orientações do capitalismo hegemônico que são dirigidas as políticas sociais e econômicas do país. tal 5 Neste encontro foram tratados assuntos como disciplina fiscal. em 1979. 116 A inserção do Brasil nas políticas liberais a partir da segunda metade do século passado se deu em sintonia com o recrudescimento do liberalismo pelo mundo. mesmo que estejam em pleno funcionamento e/ou rendendo divisas ao país. com todo o ímpeto “inspirado” nas idéias de Friedrich V. privatização. o FMI aprovou um acordo com o governo brasileiro no sentido de emprestar US$ 41 bilhões ao país. conhecidas como neoliberais e contidas na obra O Caminho da Servidão (1987). essas políticas são precedidas de ampla campanha contra a burocracia do Estado. ministério criado neste governo http://www. Como exemplo de que os sistemas financeiros mundiais. Estado.br/pos/educacao/ para implementar os propósitos do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB).Programa de Pós-Graduação em Educação Luiz Carlos Bresser Pereira6 para o Cargo de Ministro da Administração e Reforma do Aparelho do Estado. e de Milton Friedman (1912-2006). Hayek (1899-1992). acompanhada da ausência de financiamentos públicos. 47). essas orientações tomaram força política e se tornaram prática principalmente a partir Consenso de Washington5 e foram adotadas com ênfase no Brasil a partir da eleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 1994 e com a conseqüente nomeação de Unioeste . AMARAL. distribuição de renda e pobreza (Cf. liberalização comercial. 6 Embora na interpretação de Bresser Pereira o neoliberalismo seja acusado de conservador. definem os recursos destinados à área social do país. e. em 1998. Entretanto. 2003. de Margareth Tatcher na Inglaterra. saúde. que. desregulação e propriedade intelectual. geralmente. reforma tributária. em 1982.

Podemos dizer que elas mesmas (OMC e ONU) fazem parte do sistema financeiro global.6% do Produto Interno Bruto (PIB). 90). Para José Luiz Fiori (1997). Estado e Educação mercados” (p. que foi aprovado. pela finança privada coordenada por alguns bancos centrais relevantes. assumindo o compromisso de gerar um superávit primário equivalente a 2. para tal. pois ocorre uma fusão do capital financeiro com o poder político mundial. a exploração do trabalho vivo garantindo o lucro. 166). Portanto. direito à saúde. também se beneficia em seus interesses privados com essa “mundialização financeira”. com o fato de que as características essenciais do modo de produção capitalista globalizado seguiram levando à mesma lógica do capital. Diante de todas as modificações sofridas a partir dos anos 50 do século passado. ou seja. era preciso elevar receitas e cortar gastos sociais. “o atual movimento de internacionalização capitalista é a forma em que se deu a globalização das finanças viabilizada pelas políticas liberais de desregulação dos Coleção Sociedade. é uma administração de capitais tão difícil de ser pontuada ou localizada que é mesmo algo virtual. Com o incremento do artifício das dívidas públicas. Os membros da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Assim. O segundo. daí o reflexo no campo educacional (Oboré Projetos Especiais. 117 empréstimo estava vinculado a várias condicionantes que acabaram por reduzir a destinação de verbas que o Congresso Nacional havia previsto para a área social. tais como. que. que foi chamado de neoliberalismo 7 ou de radicalização dos Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. um antes e outro após o acordo.. seria difícil (supor) mover uma ação ou promover uma denúncia dos males causados pelo capital fictício junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) ou mesmo à Organização das Nações Unidas (ONU). apresentava-se repleto de cortes. cumprindo as condições impostas pelo Fundo. mostram que. p 9-10). foram encaminhados ao Congresso Nacional dois projetos de Lei Orçamentária. surge uma forma de “dívida pública mundial”. nesta mesma época. representado por homens. Todo esse processo de inovação e transformação do capitalismo. escola.) . etc. administrada por um sistema de crédito também internacional. no relatório O Impacto do FMI na Educação Brasileira. impossível de ser-lhe apontada uma responsabilidade direta pelos danos causados aos países periféricos. a necessidade de crescer a qualquer custo. dignidade humana. 1999. sendo que o último. aliado às inovações tecnológicas e organizacionais como condição para o aumento da produção (p. mesmo que essa prática de acumulação fira princípios do próprio liberalismo. é importante concordar com David Harvey (1989).

o qual todos parecem ter feito um pacto de respeitá-lo. Os mesmos organismos internacionais que não têm pátria. ou de novo no liberalismo. nada é permanente onde tudo é flexível. definição que sintetiza e articula o liberalismo clássico (tese) com o liberal- intervencionismo (antítese). voluntária ou involuntária. Na verdade. Este “governo mundial”. se deu no momento das políticas Keynesianas. seguem fiéis às suas diretrizes. p. é extremamente vil e cruel com os seus súditos Unioeste . sob a alegação de pretender resolver a crise estrutural do capitalismo. o que nos parece estar a pleno vapor em nossos vecinos venezuelanos. conduz a uma fase potencialmente fatal do imperialismo ou do próprio capitalismo e que o conduzirá à barbárie: “Ninguém em sã consciência pode excluir a possibilidade de erupção de um conflito mortal” (p. para István Mészáros (2003). Para ele. 2007. ou no intervencionismo do Estado de Bem-Estar Social (ORSO. demonstram a “preocupação” em editar documentos específicos para determinados países e/ou com objetivos 7 Paulino José Orso. não só preservando. O fato é que assim como Thomas Hobbes não conseguiu com que o Leviatã fosse respeitado e mantido eternamente. 39). Os britânicos. com alcance global.unioeste. esclarece que não há motivos que justifiquem chamar o período que se passa a partir dos anos 70 de neoliberalismo. uma vez que seja criada uma consciência mundial anti-americana. Se houve algo de neo. Estado. http://www. principais aliados. essa dominação exige um ancoramento econômico permanente e o apoio político de algumas nações. ali trata se do ultraliberalismo.Programa de Pós-Graduação em Educação (os países periféricos). No entanto. 175). concordamos com o mesmo de que o futuro não exclui veementes e violentas convulsões (idem). com base também nos argumentos de Mészáros. se impôs de forma extremamente discriminatória a favor dos mais poderosos. no entanto. até a própria economia pode sofrer reveses. 118 princípios do liberalismo. O consenso é feito pelas elites que não valorizam as necessidades humanas e que representam a minoria da sociedade. na obra Liberalismo e educação em debate. O “comandante” dessa insana empreitada global de dominação é o país que detém a hegemonia militar e comercial em todo o mundo e que controla ainda os organismos mundiais: os EUA.br/pos/educacao/ não será o “espírito” do capital financeiro mundial que permitirá ao capitalismo perpetuar-se enquanto regime hegemônico. como ampliando as desigualdades opressoras do passado. o processo de globalização. Educação e Sociedade Capitalista . estão envolvidos no sistema. Mészáros considera que a crise se manifesta em caráter universal. pois todos os países de forma direta ou indireta. mesmo que de maneira contraditória. por isso. mas rendem tributos aos EUA.

incentivando e complementando as atividades das empresas privadas e dos indivíduos” (BM. presidente do Banco. La Enseñanza Superior: Las lecciones derivadas de la experiência. 1995. essas diretivas do B. principalmente em países com governos simpáticos à subordinação do país ao capital internacional. Um exemplo disso é o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial . como as leis do mercado são ditadas por interesses das elites dos países e. Estado e Educação com a aplicação das mesmas. p. os organismos que dão essas orientações sabem que podem se beneficiar Coleção Sociedade. De acordo com James D. do mercado. o Banco demonstra claramente quais as orientações que considera chaves para a reforma do ensino superior. comprovando as mesmas orientações liberais. e adotar políticas que dêem prioridade aos objetivos de qualidade e eqüidade (Tradução Nossa) (BM. o documento do Banco é um relatório. em 1997. que foi bastante considerado no Brasil.O Estado num mundo em transformação. agora. o “transnacional” FHC. Desta forma. no nosso caso.M. Embora passados mais de dois séculos. a participação dos estudantes nos gastos e a estreita vinculação entre o financiamento fiscal (Fundo Público) e os resultados. redefinir a função do governo na educação superior. do individualismo e. são flexíveis. Nele. como determina as normas. a dar uma lição de como o Estado deve intervir a favor das empresas privadas.) . enfim. No campo da educação superior. proporcionar incentivos para que as instituições públicas diversifiquem as fontes de financiamento. incluindo a ampliação das instituições privadas. a capacidade de aplicar a lei para apoiar as transações do mercado é essencial para que o Estado contribua com o desenvolvimento (idem). Wolfensolhn. Na verdade. M. que se trata de uma cartilha em favor do liberalismo e que desfaz o mito de que o Estado liberal ou neoliberal deve ser diminuto ou mínimo.8 Consta do documento que “o desenvolvimento requer um Estado efetivo que desempenhe papel catalisador e facilitador. vale a pena citar o documento do B. se assemelham sobremaneira às que foram dadas por Adam Smith (1723-1790) na 8 Aí percebemos de onde vem a “inspiração” de Bresser Pereira. pois essas práticas já haviam sido implantadas em plenitude. 119 determinados. Percebemos aí a que se propõe o documento. 1997. citada anteriormente. prefácio). por exemplo. visando o aumento de vagas.4). Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. editado pelo B. M. sem o aumento de gastos públicos: Promover uma maior diferenciação das instituições.

. ou mesmo principalmente.. Unioeste . fortalecimento e priorização da educação básica e privatização do ensino superior como estratégia para atender a demanda do mercado e a flexibilidade do mercado de trabalho. ora por algum doador particular (. do arrendamento de alguma propriedade territorial.. o salário representa apenas parte. A dotação provém. em toda parte.. dos emolumentos do professor. não é necessário que ele seja tirado da receita geral do Estado.unioeste. embora não tenha sido clássico com relação ao modo de atuação do Estado. uma pequena parte. perpetua a pobreza” (BM. violência e mortes. que é o ponto crucial da educação. ora pelo próprio soberano. em pleno ano 2000. poderia negligenciar seu trabalho (SMITH. Mesmo os militares. p. ou dos juros de alguma soma de dinheiro concedida e confiada à gestão de curadores para esse fim específico. O B. aumentando em 1. 40). conforme já apontamos.000% as matrículas do ensino superior na rede privada (VAHL. cuja maior parte provém dos honorários ou remunerações pagos pelos seus alunos (. por ter promovido a reforma do Estado com base nas orientações liberais das economias dominantes. orientou as reformas estratégicas no Brasil de FHC: abertura da economia. 1983. por exemplo.. obra a Riqueza das Nações (1983). A intenção do Banco é mostrar que as oportunidades econômicas para a classe trabalhadora estão localizadas na educação Estado.. Com efeito. pois desde sua “independência” o país herdou dívidas de Portugal e seguiu a “cartilha” dos ingleses. 120 A questão do financiamento. seja com relação à soberania nacional ou com relação à distribuição irregular de riquezas que gerava fome. ao tratar dos recursos para a educação: . sobretudo de algum rendimento local ou provincial. 200-212). 284). Educação e Sociedade Capitalista . com o dinheiro do Estado. mergulharam nas práticas liberais do capital hegemônico. M. 1980. quando estiveram no poder. do Governo FHC.) Em algumas universidades.. p. em http://www. trustes e monopólios do final do século XIX. e muitas vezes.br/pos/educacao/ primeiro plano.. p. sem qualquer critério que defendesse os interesses da nação. o aspecto educacional é evidenciado nos documentos com o seguinte discurso: “A baixa qualidade do ensino que está agora sendo objeto de reformas. tendemos a nos recordar.Programa de Pós-Graduação em Educação Sempre que tratamos das influências do capital mundial no Brasil e recorremos aos liberais clássicos. Entretanto. p. Tendemos a omitir que a influência global é marcante no País desde o início dos cartéis. Esses fatos não devem ser omitidos em um estudo que trate da influência da economia mundial sobre o país.) se o professor fosse pago totalmente. a década de 1990 e o Governo FHC são alvos preferidos pela clareza e pela maneira com que os planos foram “violentamente” impostos. 2000.

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. para cerca de 24 bilhões.10 Marília Fonseca (1996) denuncia que a contrapartida por parte do país. todavia. 15). para com a educação brasileira remonta aos anos 70. sem qualquer ressalva ou oposição.M. p. que merece ser levado em conta. pois o país precisava arcar com Coleção Sociedade. De sua fundação até o ano de 1994.9 No contexto dos recebedores de empréstimos. viagens de reconhecimento aos Estados.) . sim. o Brasil ocupa posição de destaque. M. do Departamento de Estado Norte-Americano). Com efeito. criada no quadro da Aliança para o Progresso. 1996. visto que boa parte do que está se propondo como política correta não passa de um conjunto de hipóteses. o Governo FHC está mergulhado nas práticas orientadas pelo B. o documento que trata desse assunto é do ano 2000. HADDAD. p. recepção às missões do Banco. 10 A partir de 1961. Estado e Educação despesas de “diagnósticos. em 1996. WARDE. desde 1994. é porque o país ainda não realizou as reformas necessárias. 1996. saía mais cara que o próprio crédito do Banco. cabe considerar que “por trás do aparato técnico-discursivo economicista existe uma grande ignorância sobre o processo educativo e as necessidades futuras de nossas sociedades. essa assistência técnica passou a ser administrada pela USAID (Agência para o Desenvolvimento Internacional. 230). 121 e se elas ainda não existem. Fonseca revela que suas pesquisas dão conta de que as decisões sobre os projetos para o Brasil tinham a participação de dirigentes e pessoas com alto poder decisório do governo brasileiro que. foi o maior financiador de sistemas educativos do mundo. 11 Sobre o Banco Mundial. sendo que. Sobre a influência direta dos Organismos Internacionais na educação. contando. ele fez empréstimos que passaram de 500 milhões de dólares no ano de 1947. é importante ainda considerar que o B. HADDAD. Acrescenta-se ainda que o pagamento da dívida envolvia encargos diversos. utilização de consultorias. 1996.11 9 Para se ter uma idéia do volume de recursos movimentados pelo Banco e de sua abrangência. p. mas não como um conhecimento seguro já comprovado” (TOMMASI. por meio de cinco projetos que foram desenvolvidos das décadas de 1970 a 1990. 110).660 projetos. pois a situação do país. juros altos e ajustes cambiais. HADDAD. WARDE. com 176 países-membros. o Banco acumulou um total de 250 bilhões em empréstimos. em 1993. agiam à revelia das orientações de dirigentes e técnicos hierarquicamente subordinados (idem. entre outros” (p. Encontramos aí uma marcante contribuição para a composição da propalada dívida externa brasileira. 244). WARDE. às vezes. em 3. (TOMMASI. segue caótica. às vezes. A “cooperação” técnica e financeira do B. O que demonstra a falácia dos argumentos. 232). que visava prover assistência técnica ao desenvolvimento do Terceiro Mundo” (TOMMASI. M.

dentre outros” (AMARAL. que visa tão somente o lucro. devido à política de privatizações. 2003. relações com o setor produtivo. O relatório da Campanha Oboré Projetos Especiais (1998). no final da década de 1990 ocorreu uma enorme fuga de capitais. em face de que as responsabilidades vão sendo transferidas para o mercado. daí o fato de que. independência intelectual e liberdade acadêmica. causando grande prejuízo à economia nacional. Estas questões são registradas em documentos dos encontros e em outros textos produzidos pelos órgãos internacionais. cuja análise nos permite considerar que as intenções postas não são as mesmas da classe trabalhadora de países periféricos. a dívida externa (e interna) continuou a crescer sistematicamente. Na década de 1990. O capital estrangeiro precisava necessariamente passar pelo país. p. diversificação. principalmente. qualidade e igualdade de condições de acesso. Unioeste . 122 foi amplamente discutida pelo Grupo Assessor em Educação da Unesco. educação continuada. democratização.Programa de Pós-Graduação em Educação uma análise apropriada nos permite concluir que as questões da eficiência. 11). dá conta ainda de que o mercado de bolsa de valores da época favorecia o ganho rápido e ainda dava a oportunidade de se comprar valiosos patrimônios por preços baixos. amortizações e encargos. Educação e Sociedade Capitalista . em 1995.unioeste. Apesar do grau de dissimulação com que as questões são colocadas. Era preciso cumprir a “cartilha” liberal do financiador. não se podia pensar prioritariamente no social. já citado neste trabalho. integração entre o ensino e a pesquisa. para que ele pudesse “crescer”.br/pos/educacao/ intrínsecas e tanto excluem os jovens das reais vantagens do ensino superior. As políticas para o ensino superior que estiveram presentes nas orientações dos Organismos Internacionais orientavam para a Estado. como “o papel das ciências humanas na discussão dos rumos da sociedade. impacto da globalização. quando se recorria a empréstimos de organismos internacionais. característico dessa política. com a volatilidade do capital. estando reunidos especialistas de várias partes do mundo. Além disto. qualidade. no sentido de tentar estabilizar a moeda a qualquer custo. o Brasil apresentava diversos problemas estruturais nos campos político e econômico. que se valorizaram em um curto prazo. No entanto. não são resolvidas. que estão http://www. mesmo diante do pagamento dos juros. deixando as empresas de serviços públicos essenciais e várias riquezas estratégicas nas mãos de estrangeiros. Os temas que nos são presentes e tanto nos preocupam também foram e ainda são discutidos naqueles círculos.

não uma agência que oferece doações”. M.a. O Banco ainda cobra taxa de 0. o aspecto financeiro do empréstimo. foi criado um fundo comum de moedas que integram o mercado comercial. 123-124). HADDAD . 1996. diferente dos empréstimos dos outros bancos. os juros dos empréstimos do BIRD eram de 8% a. é uma “agência de empréstimo. 2001. Destaca que os projetos são provisórios e a situação volta ao estado anterior quando as verbas terminam. Outro problema ainda implícito quando dos financiamentos do B. p. p. consultores locais e estrangeiros”. O critério central é o retorno econômico” (AMARAL. deslocamento ou contratação de funcio- nários.5% relativa aos custos médios dos empréstimos. cobra taxa de compromisso se o país não conseguir gastar no prazo estipulado os recursos destinados. Questiona. No entanto. o que provoca atrasos nos gastos e pagamentos de juros (TOMMASI. Muitas vezes o contratante do projeto tem que arcar com essas despesas (GENTILI. O empréstimo do Banco é vinculado ao FMI e não há ajuda sem o aval do Fundo. juros e taxas cambiais” [. mudam os governos. adotando- se complementarmente alguns mecanismos de apoio.. 12 “Até 1980. p. o que requer elaborações sucessivas para se adequar aos novos contextos. “juros estes que são (com poucas exceções) os de mercado”12 (p. ainda. Amaral lembra apropriadamente que “a inexistência de apropriadas políticas de ensino superior e de ciência e tecnologia pode significar a servidão e a submissão de um país frente a outro” (p. M. 123 “cobrança generalizada e a busca de diversificação de fontes. pois dada às despesas decorrentes. o seu negócio é emprestar dinheiro e cobrar juros pelos empréstimos. mudam as prioridades do país e. com propriedade. às vezes. Estado e Educação Fonseca considera que os vinte anos de “cooperação” do B. é que a implementação de seus projetos é demorada. empréstimos e desoneração fiscal. M. Nesse espaço de tempo. 2003. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.246).. esses são garantidos pelos países. 28). faz questionar se não seria melhor arcar com capital nacional esses projetos. que o B.] “O Banco exige ainda organização de equipes especiais. Como todo Banco. A partir dos anos 80.) . como bolsas. os novos governantes não se sentem comprometidos com os empréstimos contraídos pelo governo anterior. p. demonstraram que as pretensas vantagens não beneficiaram de fato o setor. WARDE. ela destaca a exigência do Banco de que negociações transcorressem sempre em sigilo (FONSECA. Coleção Sociedade. 177). analisados por ela. com a educação brasileira. 202). Carlos Alberto Torres (2001) comenta. 1996. 55). em específico. Entre outros problemas. Entre a negociação do projeto e sua efetiva aprovação decorrem anos.

sob a coordenação do ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. sem qualquer http://www. que orientou os atos administrativos do poder executivo. Esta obra trata-se de um manual em direção às práticas liberais. o FMI enviou uma delegação a São Paulo para convencer Freire a aceitar um financia- mento para projetos de reforma curricular e formação de professores. p.13 Sem qualquer questionamento sobre os danos causados pela ingerência internacional no País. 124 É preciso considerar que existe um desconhecimento da história dos financiamentos por parte dos dirigentes e técnicos que participam das negociações dos projetos. caso contrário. a inviabilidade dos mesmos poderia ser decretada. nenhum empréstimo do Banco para a área de educação foi efetivado” (GENTILI. 2001. em Unioeste . As discussões foram realizadas na recém-criada Câmara da Reforma do Estado. Freire permaneceu no seu posto e. Educação e Sociedade Capitalista . enquanto Secretário da Educação no município de São Paulo. mas através do fortalecimento de instituições públicas não estatais. seria privatizar. que. O Estado mínimo. Freire não aceitou e informou a então prefeita que. o processo de reforma do Estado brasileiro na década de 1990 se deu por reformas expressivas da economia através do Plano de Gestão para os Órgãos Públicos. Estado. 13 Podemos destacar o exemplo dado por Paulo Freire. geralmente relacionados à obtenção de lucros. deve ser máximo em regulação.Programa de Pós-Graduação em Educação 1995. 1995. Porém acrescentamos também os interesses escusos presentes nesses dirigentes e a alienação da população em relação ao discurso liberal. ele renunciaria ao cargo. durante a administração educacional do PT em São Paulo. No caso da educação.br/pos/educacao/ discussão com o Congresso Nacional. máximo em interferência a favor do mercado e essa interferência não se dá diretamente. Além da corrupção que infecta os órgãos públicos. passar para as fundações e captar recursos nas próprias IES estatais. “se o empréstimo fosse aceito. O discurso do próprio presidente da República na apresentação do plano dá o direcionamento: “mediante a flexibilização da estabilidade e da permissão de regimes jurídicos diferenciados. ou do chamado terceiro setor. 131-132). Ocorre que os mecanismos reguladores ou de controle não foram especificados com clareza. agora. no governo petista de Luiza Erundina: Durante os anos de 1990 a 1992. fatos que dificultam o conhecimento da verdade sobre tais “ajudas”.unioeste. o próprio sistema é demasiado flexível. do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE). porém com uma diferenciação em relação ao liberalismo clássico. tornou público o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. o que acaba proporcionando oportunidades de prevalecer os interesses privados. p. o que se busca é viabilizar a implementação de uma administração pública de caráter gerencial” (BRASIL.11).

é dada de forma pontual e “homeopática”. e posteriormente traduzida e publicada no Brasil. a maneira pela qual as reformas da década de 1990 puderam influenciar na relação entre o público e o privado na educação superior no Brasil. das quais os países periféricos (no caso o Brasil) são vítimas. Embora a igualdade proporcionada pelas políticas sociais esteja circunscrita na lei. p. em Colorado nos EUA. em muitas ocasiões. 98). 125 As orientações para a criação das “fundações públicas de direito privado” e para as formas de administração por “contrato de gestão” foram planejadas no Governo FHC e estão presentes na obra de Bresser Pereira Crise Econômica e Reforma do Estado no Brasil. Com relação à intencionalidade presente em cada momento histórico da educação superior brasileira. toda a influência da “mundialização financeira”. é base para a mundialização das decisões políticas e sociais. sempre teve pouquíssimas chances de ocupar as escassas vagas disponíveis nas instituições tidas como centros de excelência e. Em que pese os embates políticos e que estes estejam presentes e sejam importantes (e necessários). para que não cause transformações significativas nas relações de classes. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Coleção Sociedade. isto é. que por estar relacionada ao conceito de mundialização econômica. Para efetivar esta reforma. 1992. que foi originalmente publicada em inglês. Estado e Educação A EDUCAÇÃO SUPERIOR COMO POLÍTICA SOCIAL DO ESTADO E INSTRUMENTO DO MERCADO É necessário aclararmos que Educação Superior. é política social de governo. principalmente.) . aqueles que garantem empregos mais rendosos ou participação nos processos decisórios do futuro. a democracia liberal “conserva a desigualdade”. assim como educação em geral. Destacamos que está presente. podemos concluir que o propósito em todas as épocas e governos foi o de implementar e manter o ensino superior estatal até o limite em que poderia atender plenamente à classe dominante e criar algumas expectativas à classe trabalhadora que. de fato. Não podemos nos esquecer que a desigualdade é princípio do liberalismo. nos cursos de excelência. de 1996. o que têm prevalecido. principalmente na área da política e da economia. o processo foi acompanhado de intensa propaganda ideológica. até o momento. e que embora se trate de um bem público necessário para o País. neste contexto. são as injunções do mercado capitalista (VIEIRA. Percebemos. então.

no ano de 2003. nem tampouco ineficiência de determinado Governo http://www. 126 Tanto no Regime Militar (1964-1984). que passa a priorizar a técnica. a compor também uma reserva de desempregados no mercado de trabalho. nas instituições consideradas de excelência. a educação superior brasileira perde a qualidade do ensino. Ao se tornar flexível para atender a demanda do mercado e privatizada quase que em sua totalidade. permaneceu de boa qualidade. para atender aos interesses do País. quanto no Governo FHC (1995-2002). São. é mantida pelas instituições estatais. enquanto que o ensino privado foi vulgarizado a uma grande massa de trabalhadores. a intenção é que o ensino Estatal mantenha-se atualizado com as tecnologias e forneça o profissional completo. mas que. 2003. 150). As políticas para a educação superior são utilizadas para esse fim. A educação voltada à pesquisa séria e de qualidade.Programa de Pós-Graduação em Educação As políticas educacionais danosas à classe trabalhadora não são mero acaso. na verdade. superando as crises. prevaleceu essa lógica. uma vez que implementa reformas pontuais. em geral. na verdade. p. na atualidade.unioeste. possivelmente até com experiência. existem os cursos também chamados de “cursos de Estado. no sentido de que são planejadas por esse próprio Estado sob influência dos capitalistas que dirigem os diversos setores do mercado e que utilizam o aparato estatal a serviço da iniciativa privada. garantiram. apesar de representarem apenas 12% das Instituições de Ensino Superior do País. acessível a uma pequena parcela da população. desfazendo a necessária relação teoria e prática. Quanto ao público que freqüenta o Ensino Superior. corolário inevitável de um sistema capitalista que apresenta uma série de falhas. Essas políticas garantiram a formação de mão-de-obra qualificada de modo flexível. Na verdade. Até mesmo nas IES estatais consideradas “periféricas”. que já começa. na qual o ensino superior estatal.br/pos/educacao/ ou grupo que tenha dirigido o Estado. Unioeste . a despeito de todos os problemas. o ingresso é elitizado e depende de uma formação média sólida (em cursos privados) para a aprovação nos vestibulares. Educação e Sociedade Capitalista . mais de 90% da produção científica de interesse Nacional (AMARAL. Os danos não são maiores em face dos embates conflitantes promovidos por segmentos da classe trabalhadora. Com efeito. apenas reforçam sua lógica. o mercado reclama ainda por mão de obra especializada. que. mas que não se deixa abater diante da possibilidade de mudanças em suas bases.

no Brasil. é um bem público promovido pelo Estado que visa atender à formação para o mercado de trabalho e para a formação humanística do cidadão. O ensino superior brasileiro chegou a essa crise justamente por ter seguido as orientações dos organismos internacionais. conforme assevera José Luiz Fiori (2001). na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394) e nas demais leis que compõem o ancoramento jurídico da educação nacional. por Fiori. a divisão dos poderes. As próprias leis tornam-se contraditórias ao passo que transferem para a iniciativa privada o provimento dos direitos sociais (como a educação) que deveriam ser atividade do Estado. existe Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. está imersa na intencionalidade da inserção internacional a qualquer custo. 9). Ou seja. pois precisa trabalhar para garantir sua sobrevivência e conseqüentemente a do sistema. em O Cosmopolitismo de Cócoras. 11).) . Estado e Educação Na verdade. P. Coleção Sociedade. dedicação integral. como a prática de um cosmopolitismo de cócoras.como a do Brasil. o que na verdade importou foi a valorização de seu patrimônio e a dolarização de sua riqueza. sendo as elites econômicas brasileiras porta-vozes desses interesses (p. Ou seja. como sabemos. quando o poder da Igreja e da Monarquia cedeu espaço à racionalidade científica e ao Estado constituído de forma democrática e de direito. 127 excelência”. são consideradas. conforme já apontamos. em geral. gratuita e laica esteve presente nos discursos desde a emergência da idade das luzes. A educação no Estado moderno brasileiro. é o que deixa entender o discurso liberal exposto na Constituição Federal da República de 1988. a legalidade da administração e a garantia dos direitos e liberdades fundamentais (VIEIRA. até o ponto em que não contradiga os interesses da elite econômica. A estratégia desenvolvimentista do país a partir da década de 1980. Ocorre que. que são destinados àqueles que pertencem à classe financeiramente mais abastada. Para os intelectuais capitalistas brasileiros. a ninguém cabe governar ou decidir sem a participação de uma coletividade. pois exigem aprovação no vestibular e. sempre trazendo discursos retóricos que demonstram avanços insignificantes de interesse da nação. ao menos. O conceito de educação pública. 26-27). 1992. a pretensão cosmopolita em um país periférico e a perversa distribuição de riqueza e renda . Este estado de direito trouxe consigo os princípios do império da lei. o que o trabalhador não pode pretender. as leis são cumpridas parcialmente. uma inserção sempre subordinada aos interesses hegemônicos dos países dominantes (p.

No entanto. Tendo a dignidade humana um ancoramento jurídico e tendo em vista que o trabalho e a educação são pressupostos da sobrevivência digna. não é o que ocorre. os interesses desses não estão aí representados. o Estado foi criado a partir do momento em que as condições econômicas. da Propriedade e do Estado.unioeste. coordenaram sua implementação. seja para exigir a submissão ou impor o aniquilamento das forças populares (FALEIROS. que é histórico e remonta a tipos de estados mais antigos. 128 legitimidade nas decisões. dentre outras. Para Evaldo Vieira não existe participação se os indivíduos não Unioeste . em uma forma considerada legal Estado. surgiu a necessidade de um poder que pudesse suprimir ou conciliar esses conflitos. torna- se impraticável quando entendemos que esse Estado não é composto por pessoas de todas as classes sociais. a classe que em determinada época era dominante. O http://www. Marx considera que ele é o comitê para tratar dos assuntos da burguesia (MARX. Quanto ao Estado moderno. transformaram a sociedade em senhores e escravos.Programa de Pós-Graduação em Educação participam das decisões e dos rendimentos da produção. essa interpretação de Marx é resultado de seu estudo. a sociedade dita democrática. 1980. Ele é composto por aqueles que desde a sua gênese. moradia. No caso do Brasil. além de não participar dos processos decisórios. como alimentação. No entanto. não consegue acesso a uma educação de qualidade que logre ao menos condições básicas de sobrevivência. ou a que detinha maior quantidade de propriedades. Sem isso. exploradores ricos e explorados pobres. pois estas emanam de aparatos legais. “a participação é formal ou até mesmo passiva ou imaginária” (p. seja para manter a ordem social. 13). vestuário. 11). 1998. Logo. com o advento da propriedade e da divisão social do trabalho. 71). Com efeito. Sendo essas contradições levadas aos limites extremos. pois a regra do capitalismo “implica cada vez mais a intervenção do Estado. seja para manter a acumulação de capital. ou seja. A participação legítima da sociedade nas decisões políticas do Estado é prevista e propagada pelo ideário liberal. De acordo com os estudos de Engels. o Estado é dotado de total legitimidade. p. entendemos que a todo cidadão é garantido o acesso à educação do modo que lhe convier ou que suas necessidades lhe exigirem. p. Como o Estado não é composto pelo povo ou pela sociedade em geral. na obra A Origem da Família. e além de suportar uma das piores distribuições de renda do mundo. Educação e Sociedade Capitalista .br/pos/educacao/ problema da participação política do povo é agravado. mantê- los somente no âmbito econômico.

de acordo com Fiori (1997). o que a faz. pois a dominação do Estado não se reduz ao executivo.) . Mesmo com um governo oriundo da classe trabalhadora. Cada benefício para uns é necessariamente um prejuízo para os outros: cada grau de Coleção Sociedade. Dentro dessas análises. posto que a mesma pode ou não legitimar as práticas danosas à sociedade (embora de forma relativa). Estado e Educação emancipação conseguido por uma classe é um novo elemento de opressão para a outra” (idem. 2002. 56). ela e o País. a dominação é do capital e não há como compreendermos políticas sociais ou políticas de governo fora dessa interpretação. à medida que seja privada ou estatal. para daí entendermos que o Estado imperial que consideramos nosso “inimigo” é o mesmo Estado liberal que por vezes lutamos. e que essa é a lógica do capital. “cada progresso na produção é ao mesmo tempo um retrocesso na condição da classe oprimida. e assim seguiu através da história. mesmo instintivamente. o povo está alijado das decisões. 129 (ENGELS. comerciais e os novos especuladores de capitais. Para Xavier (1990). isto é. Para buscar uma compreensão. p. 190). Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. sendo que hoje é composto pelas elites industriais. da imensa maioria. nem mesmo ao legislativo e judiciário. permanecer “de cócoras” em face do cosmopolitismo mundial. totalmente impraticável. as lutas são constantes. servindo à lógica tecnicista do mercado ou permitindo uma formação humanística voltada para a emancipação do homem. A educação superior ao ser privatizada e passar a oferecer cursos tecnológicos e flexíveis corrobora com a prática da exclusão. como é o caso do Brasil atualmente. é preciso ir do geral ao particular e voltar sempre. o sistema não lhe permite impor outra lógica. reiteramos. pois o trabalhador não tem uma formação humanística que lhe permita ao menos pensar na possibilidade de mudanças. de dentro para fora e de fora para dentro. Quem compôs inicialmente esse poder foram os chefes de tribo. A “burguesia nacional” não foi capaz de fazer “revolução industrial” (p. Fugir desta lógica através de reformas pontuais ou de políticas focalizadas é algo impossível. permaneceu no egoísmo e no particularismo. existem interesses privados internos e externos que impedem o acesso de todos aos benefícios da economia industrializada. respectivamente. 2002. pois a totalidade que envolve os processos é complexa e demanda de uma interpretação dialética. A história é contraditória. à educação cabe lugar de destaque. 190). p. Desta forma. Uma análise temporal e espacial.

já que a mídia ideológica e a própria educação não permitem o conhecimento e a possibilidade de lutas estruturais e objetivas. O próprio sistema do capital gera forças de destruição à medida que também destrói tudo que venha a impedir seu crescimento. consideramos a explanação de Stván Mészáros em Produção destrutiva e Estado capitalista (1989). A sociedade atual é a sociedade do descartável.unioeste. A transferência ao setor privado enfraquece qualquer compromisso político da educação no sentido de que possa servir http://www. Educação e Sociedade Capitalista . independente de ser classificado como público ou privado. percebemos que o capital especulativo cresce dia a dia. 130 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como a tendência do capitalismo é a expansão sem limites. os produtos são descartáveis. buscamos neste trabalho colocar o Estado como mediador das disputas entre os interesses dos grupos economicamente dominantes e os grupos economicamente dominados.Programa de Pós-Graduação em Educação dominantes). posto que reforçam a lógica do capital. como todas as políticas sociais. assim como crescem as diferenças entre classes sociais. A educação superior aparece sempre como mecanismo de reprodução.que reproduz o que o sistema capitalista pede . sem causar quaisquer “danos” às estruturas de classes ou qualquer possibilidade de deter a lógica do capital (isto caso permaneça no plano das ideologias Unioeste . no caso da mundialização financeira. uma vez que o trabalhador tem de estar em constante formação para se adaptar às exigências atuais do mercado. sem considerar sequer a mínima condição humana das pessoas. Como fato irreconciliável entre o capital e o trabalhador. Remetendo ao nosso título e entendendo a mediação como um conceito relativo à resolução de contendas e disputas entre dois lados litigantes que não conseguem chegar a um acordo por seus próprios meios. obra em que o autor demonstra claramente Estado. explicitadas no desvelamento da existência de um ensino superior de qualidade para as elites e um ensino de baixa qualidade para a classe dominada. As próprias lutas por direitos sociais são contraditórias. os empregos são descartáveis e a educação .br/pos/educacao/ como instrumento de emancipação da classe economicamente subordinada. dentro do princípio da eqüidade tão propalada pelos organismos internacionais. sem ter tempo para se preocupar com a política ou com a estrutura do sistema.é também descartável. servem de auxílio para que o capital se mantenha e não seja destruído pela sua própria contradição interna.

não apresenta critérios justos e adequados que contemplem igualmente os dois interesses. consideramos com maior clareza que o Estado. mas que. respectivamente. conforme luta encampada na elaboração da Constituição Federal da República (1988) e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96). sabemos que essa prática não condiz com a necessidade permanente do lucro. A partir deste estudo. que são altos e não permitem a quitação. os privatistas venceram esta batalha e ambas as legislações amparam a possibilidade de que recursos públicos possam ser também transferidos para as instituições filantrópicas. Estado e Educação No entanto. Para exemplificar a atuação do Estado brasileiro. por não permitir que a sociedade civil. confessionais. para pagar empréstimos. comunitárias e ainda para pesquisas em universidades privadas. na verdade. A mediação que era para ser benéfica ao trabalhador e ao patrão acaba por priorizar o segundo. ao menos. reconhecemos que o ensino superior pode ser espaço de luta à medida que produza conhecimento verdadeiramente objetivo em nível estrutural da sociedade. com implantação de políticas compensatórias que. basta-nos analisarmos como ele articula a economia: toma empréstimos junto ao sistema financeiro para financiar a indústria nacional (que não é tão nacional). Em seguida. exerça seu poder político e por manter a elite econômica como detentora do conhecimento que garante o capital. no entanto. No entanto. O autor aponta saídas como a diminuição da carga horária de trabalho. vende títulos da dívida aos empresários. como um todo.) . Mesmo as leis e Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. além do financiamento de bolsas. Por isto. tememos não ter atingido em plenitude o objetivo a que nos propomos a ponto de concluir com precisão ou apontar saídas magníficas para a resolução de nosso problema. nada têm a ver com correções na estrutura do sistema ou que sejam. nosso objeto de pesquisa e investigação. 131 que o “apetite” do mercado por consumidores de massa é completamente irreconciliável com o modo de produção em que é exigida uma quantidade cada vez menor de trabalho vivo. Em face da amplitude e da dificuldade do tema. O que temos sobre a educação superior é que ela reproduz o sistema por não permitir o acesso da classe trabalhadora a postos elevados na escala social. conseguindo pagar parte dos juros. principalmente ao tentar relacioná-lo à educação superior. Coleção Sociedade. potencializando as diferenças e buscando racionalizar os aspectos negativos. defendemos a tese defendida por Florestan Fernandes e Demerval Saviani de que recursos públicos devem ser destinados exclusivamente à educação Estatal. enquanto mediador. duradouras.

BRASIL. O Estado num mundo em transformação transformação.C: Banco Mundial. Brasília. 1995. As estratégias dos bancos multilaterais para o Brasil (2000-2003) (2000-2003). Relatório sobre o desenvolvimento mundial 1997. com dignidade e respeito).C. podemos afirmar com segurança que esse Estado capitalista brasileiro falhou no papel de mediar a relação entre o ensino superior (que é dominado pelos interesses do mercado) e a sociedade (principalmente a classe trabalhadora. Washington. Piracicaba..Programa de Pós-Graduação em Educação estruturais e que sua manutenção é condição para o real conhecimento das verdades sobre o injusto mediador: o Estado capitalista. Financiamento da Educação Superi- or – Estado x Mercado Mercado. BANCO MUNDIAL. Câmara da Reforma do Estado. o espaço privilegiado de compreensão das contradições Unioeste .br/pos/educacao/ REFERÊNCIAS AMARAL. D. segue sendo. consideramos que a educação superior pública e estatal. que seria mediador. ao ser composto e influenciado pela classe dominante é parcial e desfaz a possibilidade da mediação imparcial. 1997. O Estado. 132 constituições elaboradas pelo Estado são verdadeiras sínteses dos interesses das classes dominantes que as elaboram. D. Como já vínhamos então concluindo na última parte do trabalho. EUA. a qual defendemos. Constituição da República Federativa do Brasil Brasil. Nelson Cardoso. DF: Presidência da República. Plano diretor da reforma do aparelho do Estado Estado. Estado.unioeste. La enseñanza superior – Las Lecciones derivadas de la experiencia. Educação e Sociedade Capitalista . Lei 93. Washington. Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). 1995. Brasília. dentro dos limites impostos. http://www.94. BRASIL. BANCO MUNIDAL. BANCO MUNDIAL. 2003. Diante deste contexto. BRASIL. 1996. São Paulo: Cortez. que busca na educação a inclusão no sistema produtivo. 2001. promulgada em 5 de outubro de 1988. DF: BRASIL. São Paulo: UNIMEP. Brasília: Rede Brasil. Senado e Presidência.

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desse modo. E a LDB. incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica. no Capítulo IV. no Coleção Sociedade. no mínimo. numa relação mercadológica. Neste caso. atualmente. em seu artigo 43. A centralização ou a redução a apenas uma ou outra destas dimensões. a pesquisa e a extensão extensão. PESQUISA E EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE Paulino José Orso1 A pesquisa. estabelece que “as universidades gozam de autonomia didático-científica. para o próprio ensino.) . e. Aliás. Aliás. IV e VII. de imediato gostaríamos de chamar a atenção para duas questões básicas. mas não só. o ensino e a extensão são os três mais importantes pilares das instituições universitárias que se prezam. Lei 9394/96. IV . promover a divulgação de conhecimentos culturais. Com a anuência dos órgãos oficiais. não é possível dizer o mesmo em relação à pesquisa e à extensão. ENSINO. representa uma fragilidade da própria instituição. é claro. estabelecendo que cabe às IES: III. visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura. isto não é tão raro acontecer como se suporia. administrativa e de gestão financeira e patrimonial. não há IES sem ensino. científicos e técnicos que constituem patrimônio da Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. um estímulo por parte dos próprios Organismos Internacionais e até dos próprios governos no sentido de reduzir a maioria das Instituições de Ensino Superior – IES – ao ensino. Estado e Educação entanto. também para a própria sociedade. nos Incisos III. temos o conhecimento reduzido a negócio. em seu artigo 207. Contudo. define as finalidades do Ensino Superior. existem muitas instituições que. não sem prejuízos. e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino. indissociáveis entre si. inclusive. Uma sobre a especificidade das IES e outra sobre o caráter público da Universidade. a própria Constituição Federal. ao tratar da Educação Superior. Vamos à primeira. Há. pesquisa e extensão”. Ao iniciar este artigo. excluem a pesquisa e a extensão e limitam suas atividades ao ensino. É comum ouvirmos falar que a Universidade está fundada em três pilares: o ensino ensino. desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive.

da pesquisa e da extensão. é preciso dizer que a sociedade em que vivemos e em que ocorre a educação é permeada e carregada de contradições. nem fazer longos discursos para nos convencer de que em nossa sociedade reinam profundas desigualdades e que as distâncias entre os mais pobres e os mais ricos são gritantes. Especificamente a LDB reforça a idéia de que a finalidade do Ensino Superior é “incentivar a pesquisa”. “comunicar o saber através do ensino” e “promover a extensão”. não é uma exclusividade do Brasil. de Excelência. junta-se uma outra compreensão problemática resultante do entendimento de que público é contrário de privado. de um lado teríamos as instituições privadas e de outro as públicas.Programa de Pós-Graduação em Educação devam ocorrer simultaneamente e de forma indissociada. estabelece-se uma grande confusão quando se compreende uma dimensão destas dissociada das demais. Ao se analisar esta questão. Ou seja. Ou seja. aberta à participação da população. as leis maiores de nosso país. o que é um grande equívoco. as condições de sobrevivência não são iguais para todos. Pesquisa e Extensão. não é necessário que estas dimensões estejam indissociadas. primeiramente. deveriam transformar-se em “grandes escolões de ensino superior”. de publicações ou de outras formas de comunicação. Entretanto.br/pos/educacao/ privatistas. no que se referem à educação. esta geralmente fica relegada a um segundo plano. Educação e Sociedade Capitalista . A dissociação destes componentes tem gerado sérios problemas e reforçado ainda mais a fragmentação do conhecimento. porém. Estado. Aliado a este problema ou até em decorrência dele. e como defendem alguns burocratas e http://www. visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição. VII . Como transparece na própria LDB. nem afirma que estas três dimensões educacionais Unioeste . não é preciso demorar muito. destacam a articulação do ensino.promover a extensão. Isto. Isto significa dizer que numa sociedade como a nossa. em qualquer nível de educação. Aliás. Então. a algumas Instituições de Ensino Superior. estaria reservada a possibilidade de realizar pesquisas. trabalhe-se de forma articulada Ensino. Assim. não diz em que condições e de que forma. Não há nada que impeça que. Quanto à extensão. isto é.unioeste. fundada na propriedade privada. quer seja no Ensino Superior ou na Educação Básica. astronômicas. 136 humanidade e comunicar o saber através do ensino. mas a grande maioria ficaria restrita apenas o ensino.

Pinto. em 1998. de fato. quanto maior o número de instituições públicas e quanto maior o número de alunos ingressarem nelas. por si só. estão em oposição. os interesses são opostos. Ou seja. Muitas vezes. G. não serão as Instituições de Ensino Superior que ficarão isentas de contradições. Portanto. somos levados a opor as chamadas instituições privadas e as denominadas públicas e. enquanto eles têm em vista o lucro. as condições reais em que vivemos são permeadas por contradições que se fazem presentes em todas as esferas Coleção Sociedade. Como dissemos acima. citado pela Folha de São Paulo. as três pessoas mais ricas do mundo possuíam uma fortuna superior à soma do PIB dos 48 países mais pobres do planeta. portanto. que vivem em determinadas condições e circunstâncias que expressam o conjunto das relações sociais. quer seja no Brasil ou no resto do Mundo. de acordo com o Jornal Lê Monde Diplomatique.) . de debates. em geral. temos a impressão de que. esta compreensão é equivocada. ela é compreendida como se fosse uma instituição à parte do conjunto das relações e. nos leva a tratar seus integrantes como se estivessem em lados opostos. o que existe são pessoas (professores. O fato de opormos estas duas instituições. alunos. o mesmo não ocorre com as chamadas instituições públicas. de fato. donos de instituições) reais. do lado dos empresários da educação. pois. Ainda que sempre tenhamos que relativizar as informações jornalísticas. os interesses da Universidade Pública e dos empresários ou donos das instituições de Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Digamos que.5% delas. em decorrência da fragmentação da vida social. 137 Segundo dados da Revista Forbes. Já. o prédio. em 1996. também reproduzido pelo jornal citado acima. Entretanto. governos. No Brasil. menores serão as possibilidades de lucro das instituições privadas. a riqueza acumulada por 149 pessoas no mundo era superior ao produto interno bruto dos países pobres onde viviam mais de 56% da humanidade. 1% das maiores propriedades brasileiras detinha 47% das terras e os 50% mais pobres detinham apenas 2. funcionários. muitas vezes. Estado e Educação da vida social. não se constitui na universidade. segundo Luiz C. pois a universidade em si não existe. Primeiro porque. em função do idealismo e da supervalorização da razão. reproduzidos pelo Jornal Folha de São Paulo. a menção destes dados é suficiente para revelar as diferenças abissais que se interpõem entre os pobres e os ricos. pelo fato de a universidade ser reconhecida como um espaço de troca de idéias. Portanto. estaria isenta dos embates e contradições da vida real. uma vez que a sociedade não é homogênea.

têm uma característica básica comum. Em função disso. Educação e Sociedade Capitalista . 138 educação privadas caminham em sentidos contrários. que é o fato de pertencerem a uma mesma classe.br/pos/educacao/ noutros menos trabalhadores garantindo a sobrevivência nestas instituições. Em decorrência das crises do Unioeste . do desenvolvimento das forças produtivas. como vimos. se de fato conseguirmos superar a visão platônica ou hegeliana de Estado e o entendermos concretamente. entendemos que o fato de não ser privada uma instituição não garante. Pois. é melhor denominá-las de estatais ou. mesmo assim. em determinados momentos. O número maior ou menor de trabalhadores que atuam nestas instituições depende do estágio de desenvolvimento das forças produtivas e da dinâmica do capital. Portanto. E. a situação muda um pouco. Contudo. mesmo que a maioria dos estudantes das instituições privadas seja trabalhadora. teremos em uns mais e http://www. E podemos nos deparar com situações em que nem só alunos carentes estudem na Universidade Pública. eventualmente podemos encontrar representantes da classe dominante também nas Instituições Privadas. opor simplesmente as instituições públicas às privadas em nada contribui para que. funcionários). Tanto os professores quanto os funcionários que atuam nas instituições públicas. Pois. ao invés desta nomenclatura. não existem instituições públicas suficientes para absorver toda a massa de trabalhadores (professores.Programa de Pós-Graduação em Educação capital ou da expansão do mercado. muitas vezes não resta outra alternativa senão trabalhar em instituições privadas. sendo que. Até neste momento. em função da forma e do modo de produção existente. e unirem-se para superar as contradições que os opõem na vida real. então.unioeste. Por isso. instituições estatais. tomamos a denominação público como oposta ao privado. Em relação aos alunos. também entenderemos as razões pelas quais tanto nos choca percebermos que a maioria dos Estado. e que estes. E entendemos como público aquilo que não é de ninguém. há que se fazer uma distinção em relação aos trabalhadores que atuam nestas instituições. que está a serviço do bem comum. o estatuto de pública. de fato. por si só. assim como nas privadas. que é de todos. assim. compreendamos a realidade e construamos alternativas viáveis que permitam aos trabalhadores das diferentes instituições identificarem- se enquanto pertencentes à mesma classe. a classe trabalhadora. Contudo. Esta contradição é resultado das contradições mais amplas existentes na própria sociedade. a classe trabalhadora. dessa forma temos dificuldades de compreender e explicar de fato as contradições existentes na vida real. precisam sobreviver.

autônomo e isolado que funciona acima ou à parte da sociedade. gerido por pessoas concretas que ocupam posições também concretas no seio da sociedade. sendo o Estado. Para começo de conversa. burocrático. já garante o estatuto de pública. não é neutro. mas sim como necessária a articulação entre o ensino. Isto posto. que o coloca a seu serviço – a serviço da reprodução de suas condições de classe. Assim. o Estado constitui-se num aparelho gerido pela burguesia. mas sim daqueles que os financiam. é um Estado de Classe. para que possamos compreender bem que não é apenas uma questão de conveniência. realizemos uma reflexão sobre a questão Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Dizíamos que. tentemos dirimir um pouco o problema criado. 139 estudantes carentes só conseguem ingressar e permanecer no Ensino Superior em Instituições Privadas. ele transfere as contradições para os que atuam em seu interior. um dado a ser considerado é que. da classe a qual pertencem os donos dos meios de produção. a pesquisa e a extensão. Sendo a sociedade fundada sobre a propriedade privada e. as instituições mantidas com os recursos oriundos dele também não serão públicas e. O Estado é um aparato ideológico.) . nos Ministérios. ou seja. ao passo que. bélico e militar. por si só. constituído por integrantes da classe dominante ou que representam seus interesses. a pesquisa e a extensão. uma vez que o Estado atende os interesses da classe dominante. façamos um recuo e nos detenhamos um pouco. nos Governos. não é porque uma instituição é mantida com recursos dos cofres do Estado. não são oriundos da classe trabalhadora e. em algumas instituições ditas públicas. A grande maioria dos que ocupam postos no Congresso. na maioria das vezes. é não permitir que se reconheça a identidade de classe entre os profissionais que atuam quer nas instituições públicas ou as privadas. nos últimos anos. não Coleção Sociedade. isto é. é não permite que se compreenda de fato a realidade e. Desta forma. Estado e Educação representam os seus interesses. um Estado de classe. em relação aos meios de produção. Uma das formas de reproduzir isto é não permitir que ocorra uma articulação concreta e efetiva entre o ensino. privado. encontramos muitos alunos pertencentes à classe dominante. O Estado. quando procedem do interior dela. Mas. No caso da Unioeste. é preciso dizer que o Estado não é um ente abstrato. portanto. com recursos dos próprios contribuintes que. assim. se reproduza sua fragmentação. melhor do que denominar essas instituições de públicas é chamá- las de estatais. cerca de 79% dos alunos que ingressam nela são oriundos de escolas ditas públicas. portanto.

nem conhecimento sem vida – há uma “identidade” entre conhecimento e vida. o tipo de conhecimento e de pesquisas realizados pelo homem diferem dos demais seres vivos. de sua capacidade e da qualidade de suas pesquisas. como dissemos acima. bem como da socialização deste. da realidade e de si mesmo. ainda que no homem o Estado. que nenhum deles o faz da mesma forma que os demais. Todos. Portanto. porém. cada ser conhece e faz pesquisas de uma determinada forma. que todo o ser Unioeste . nas suas condições e de acordo com o estágio de desenvolvimento que sua espécie já conseguiu atingir. de forma voluntária. Não há vida sem conhecimento. Por outro lado. 140 do conhecimento. É óbvio. ou que lhe permite sua individualidade.Programa de Pós-Graduação em Educação vivo tem de se sensibilizar em relação ao meio. Da mesma forma. é preciso dizer que o conhecimento não é uma propriedade exclusiva do homem. Isto é um fato comum a todos os seres vivos. qual a finalidade do conhecimento? Em primeiro lugar. Contudo. que permite utilizar o próprio conhecimento como instrumento de reflexão. é uma propriedade de toda a matéria viva. Em segundo lugar. do grau de conhecimento. intencional e consciente. Cada um o faz de seu modo. nem com a ciência. muitos pensam.br/pos/educacao/ eles. Em que consiste o conhecimento? Quem e de que forma produz conhecimento? Para que serve. dando respostas satisfatórias e garantindo a sobrevivência. que diz respeito à sensibilidade do homem e visa garantir a sobrevivência. exige que cada ser vivo ou cada porção de matéria faça pesquisas e reaja adequadamente. depende também a qualidade de vida dos indivíduos. aos desafios que o cercam e de reagir a http://www. transformou- se em conhecimento metódico. não difere quanto ao caráter do conhecimento. Todavia. ação e transformação do mundo.unioeste. nem quanto sua finalidade. é preciso dizer que em nenhum ser o conhecimento se desenvolveu tanto e chegou a um grau tão desenvolvido como no homem. têm em vista sua sobrevivência enquanto indivíduos e enquanto espécies. pois confundem conhecimento com razão. como em geral. aos estímulos. Ou seja. pois exige e pressupõe conhecimento. Nele o conhecimento atingiu o nível científico. Lembremos também que. Conhecimento é a capacidade que toda a matéria viva. que é apenas uma de suas formas. porém. o conhecimento não se confunde com a racionalidade humana. ao contrário. Educação e Sociedade Capitalista . O conhecimento. Ou seja. como podemos depreender da afirmação anterior. aos elementos que o compõem. todos os seres vivos conhecem.

o faz de forma mais aperfeiçoada e complexa a cada momento. também é marcado. Contudo. produziu Coleção Sociedade. ainda que tenha se diferenciado do conjunto da natureza. No entanto. o ensino e a socialização. 141 conhecimento tenha atingido um grau mais desenvolvido. isto é. cada vez mais. foi aperfeiçoando sua forma de interação com o meio e com os demais hominídeos. decorrente do acúmulo do conhecimento. diferente dos demais animais. Com isso. com o aprofundamento da divisão do trabalho e conseqüentemente do conhecimento. baseada no gênero.) . à medida em que foi interagindo com ela. representações do meio. Inicialmente. A partir daí. das experiências. que foi respondendo aos desafios impostos pelo meio. intensificou-se a divisão de trabalho e surgiu a propriedade privada e o Estado. que pressupõe a pesquisa. ele ainda guarda muitas características comuns a ela. isto é. foi se transformando. o homem não se diferenciava muito do conjunto da natureza e dos demais seres vivos. das técnicas. Sendo o homem um ser que pertence ao reino animal. em grande medida. portanto. o homem também não o faz sempre da mesma forma. das tecnologias e exigências legadas pelas transformações conseguidas até o momento. a produção do conhecimento. domesticou os animais. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. foi adquirindo cada vez mais conhecimentos e experiências. Com o surgimento da propriedade privada e das classes. Diríamos. que está submetido às mesmas leis do conjunto da natureza. a classe dominante apropria-se dele e o transforma em instrumento de poder e dominação. o homem passou a produzir sua sobrevivência através do trabalho. que o conhecimento de cada momento é resultado do trabalho realizado em determinadas condições ao longo de toda a história e de todos os homens. a pesquisa e a socialização tinham a marca coletiva. na medida em que foi se desenvolvendo. Dessa unidade depende. também não é difícil de compreender que. a pesquisa e a extensão também passam a ser concebidos como se fossem dimensões autônomas e independentes. descobriu a agricultura e passou a produzir excedente. não mais permitindo compreender a educação como um ato unitário. não conhece da mesma forma em todas as épocas. Uma é o conhecimento. aperfeiçoou os instrumentos de trabalho. Assim. Contudo. adquiriu experiências. Até então. por isso. O ensino. de uma divisão simples do trabalho. Estado e Educação instrumentos de trabalho e também conhecimentos. isto é. mais do que exigiam suas necessidades imediatas. a qualidade do ensino.

Em conseqüência disso. não é um “espírito absoluto” e. portanto. aos que detém capital. de qualificar o ensino e socializar o conhecimento Unioeste . são as instituições financiadas pelo Estado que têm as melhores condições de produzir conhecimentos científicos. quanto o usufruto dos benefícios proporcionados por ele. uma universidade financiada com recursos oriundos do conjunto da população. tínhamos na Unioeste o seguinte quadro em relação à Pesquisa: 110 Grupos de Pesquisa cadastrados 148 Linhas de Pesquisa cadastradas 367 Projetos de Pesquisa cadastrados 485 atividades de pesquisa vinculadas às linhas de pesquisa EXTENSÃO Nesse mesmo período tínhamos na Unioeste o seguinte quadro em relação à Extensão: 166 Projetos cadastrados 61 Cursos cadastrados 35 Eventos cadastrados 12 Programas cadastrados Estado. caber ao Estado a responsabilidade pela ampliação e melhoria das condições de pesquisa e. Nesta perspectiva. mesmo com todas as contradições possíveis que estão presentes no Estado capitalista. de pesquisa. vejamos como era a situação da pesquisa.br/pos/educacao/ extensão. o Estado também é histórico. em 2005.unioeste. está sujeito às crises e oscilações do capital. que tem como fim primeiro e último a obtenção de lucro. mas geridos pelo Estado capitalista. 142 e condiciona tanto o acesso a ele. Educação e Sociedade Capitalista . portanto. Contudo. isto é. isto é. o acesso aos bens materiais. não há nenhuma contradição no provérbio “educação rima com negócio”. ensino e http://www. PESQUISA Entre o início de 2005 e o dia 25 de maio desse ano. isto é. assim. Deveria. que representa os interesses da burguesia. a quantidade e a qualidade do acesso aos conhecimentos e aos bens necessários à sobrevivência produzidos historicamente dependem da quantidade de dinheiro que cada indivíduo possui. do ensino e da extensão. dada à natureza da instituição privada.Programa de Pós-Graduação em Educação produzido. na Unioeste. Diante disso.

vem ampliando sua inserção na pesquisa e na Extensão. desde 1997.926 Número de alunos na Pós-graduação lato sensu: 1. não é uma exceção da Unioeste.026 Número de alunos na Pós-graduação strito sensu (Mestrado): 271 Número total de alunos: 10. há 4 anos. a Unioeste vem ampliando significativamente o número de alunos.3441 De 2005 a 2007. no ranking do MEC. Pois. cursos e níveis de ensino. Conta atualmente com 377 atividades de extensão. no mínimo. se por um lado. por exemplo. 42 cursos de especialização lato sensu. tanto no que diz respeito aos projetos de pesquisa e extensão. tínhamos na Unioeste o seguinte quadro em relação ao Ensino: Número de alunos na Graduação: 9. temos 11. o que não poderia ser diferente. 2 Dados extraídos da Edição especial do Jornal da Unioeste sobre o Vestibular 2008. 1 Dados fornecidos pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Unioeste – 2005. Outro é que os recursos destinados ao financiamento destas instituições não têm acompanhado a mesma evolução dos números apresentados anteriormente. 143 19 Projetos de Prestação de Serviços cadastrados 14 Divulgações efetivadas ENSINO Em relação ao ensino. 193 bolsas de iniciação científica para acadêmicos2. são preocupantes. Inúmeras foram as formas de privatizar o conhecimento e a educação. distribuídos em 63 turmas. Em 2007. há outros que.) . Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Da mesma forma. Ao contrário disso. a universidade foi considerada a décima terceira Instituição de Ensino superior do País. E. quanto Coleção Sociedade. da classe dominante. em muito. vemos estes dados positivos. As IES consideradas públicas. Isto. 882 atividades de pesquisa. mas estão longe de nos lisonjear. uma vez que o Estado constitui-se num Estado de classe. é a penetração do caráter privado até mesmo nas Instituições consideradas públicas. 34 cursos de graduação. Desde 1997. em 2005. ano a ano a Unioeste vem sofrendo cortes de recursos em seu orçamento. têm sofrido cortes assemelhados. Estes dados são significativos. Um deles. Estado e Educação no número de alunos e cursos. inclusive de mestrado e doutorado. porém.123 estudantes. em geral. 10 cursos de mestrado e um de doutorado. estes dados só têm aumentado.

a concorrência para nelas ingressar é cada vez maior. a educação compreendida como ensino.Programa de Pós-Graduação em Educação qualidade. Os produtos e a extensão da pesquisa. Deste modo.br/pos/educacao/ Como os recursos para as universidades são cada vez mais escassos. quer através da prestação de serviços. por diferentes formas. sejam as que de fato mais e melhor realizem pesquisa. e que possibilitem uma maior socialização do conhecimento. o critério de seleção acabe sendo o econômico. quais são os projetos de pesquisa que são aprovados e financiados? Em sendo as Instituições consideradas públicas. da compra de vagas nas instituições privadas. E. Educação e Sociedade Capitalista . Portanto. não basta a “quantidade” da produção. http://www. como os salários são cada vez mais aviltados. ainda que a união indissolúvel entre o ensino. ainda que as chamadas instituições públicas. sendo o trabalho alienado. o conhecimento e as instituições reféns da iniciativa privada e do mercado. tornando os profissionais. que de fato a Instituição de Ensino Superior atenda e volte-se aos interesses de toda a sociedade. quer via seleção dos projetos que recebem recursos das agências financiadoras. a articulação entre estas três dimensões é uma condição sine qua non. do ensino e da extensão não permitem que nesta sociedade os denominemos de públicos. a universidade acaba revelando seu caráter privado. uma forma de garantir status e projetar-se junto ao mercado. e é através dele que se produz conhecimento. geralmente de melhor Unioeste . grande parte dos profissionais que atuam nas instituições ditas públicas (estatais) transformam a universidade num bico. não é uma instância neutra. O surgimento da propriedade privada dos meios de produção produziu o trabalho alienado. a pesquisa e a extensão não seja necessariamente garantia da qualidade do ensino mas. não é suficiente que a instituição seja chamada de pública. às empresas. geralmente. para que ela realmente ocorra. 144 Quer seja através da institucionalização da Prestação de Serviços. Ou seja. Entretanto. Estado. Como o Estado é um Estado de classe. É preciso que a produção da vida material e a organização da vida social tornem possível a realização daquilo que de fato denominamos de público. fazendo com que.unioeste. ainda que se mantenha a denominação de pública. Dentro desta perspectiva. como é através do trabalho que se produz os bens materiais necessários à sobrevivência. geralmente. que tenham um nível e uma qualidade de ensino melhor. o conhecimento também carrega esta marca. pesquisa e extensão não é pública. das Parcerias Público Privadas. desta forma. a educação também adquire a marca da sociedade privada e transforma-se em mercadoria. Senão vejamos. etc. ou seja.

QUALIS: O HOMO ACADEMICUS ENTRE AFORISMOS E DESAFORISMOS João Virgílio Tagliavini Este texto surge da necessidade de refletir sobre a minha transformação em homo academicus. para ser cobrado no Juízo Final. por vinte e cinco anos a experiência de simples homo magister. na área de Fundamentos da Educação. depois de ter feito. 4 Texto disponível na página do Lattes no dia 13 de novembro de 2007. 2 Quando eu pensei que já tivesse feito todas as analogias entre o ecclesiasticus e o academicus. aqui somos nós que temos que atualizar o Lattes. O componente arcaico religioso revitalizado pela lógica mercantil do capitalismo transnacional3 ingressou na universidade. Desde 2003 coordena o grupo de estudos “Educação e Direito 1 Ensinava-se ou ensina-se ainda às crianças que São Pedro tem um caderninho onde anota tudo o que se faz. o Index invertido é o Qualis.) . Há magister que não é academicus e há academicus que não quer nem saber de ser magister. até então. Mas operou-se uma segunda Coleção Sociedade. porque lá era São Pedro quem anotava. pensava ser apenas aquela sacolinha que se passa nas igrejas para arrecadar doações e que atualmente pode ser substituída pelo dízimo. o Caderninho de São Pedro1 é o Lattes. inclusive pelas mãos daqueles que lhe fazem a crítica explícita. pois isto não lhe dá status nenhum. Estado e Educação transição na minha vida: de homo ecclesiasticus a homo academicus. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. não vamos fazer uma comparação exaustiva porque seria chata demais. Juízo Final é o Coleta2 Capes e a Nota Trienal do Programa de Pós-Graduação. Seu Catecismo Romano são os critérios da Capes. Aqui não se percebe a diferença. LATTES. Porque nós somos os mesmos. Assim escrevi na apresentação personalizada do meu currículo Lattes4 : João Virgílio Tagliavini é professor adjunto no Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) do qual ocupa atualmente a vice-chefia e é credenciado no Programa de Pós- Graduação em Educação (PPGE/UFSCar). bem ou mal. A academia é uma sacristia. ao ler parte dos originais deste trabalho. ainda me aparece a coleta que. Há uma diferença muito grande entre o magister e o academicus. 3 Expressão fornecida por Antonio Álvaro Soares Zuin. Agora nós saímos em desvantagem. colega no Departamento de Educação. na ecclesia ou na academia ou gymnasium. CAPES.

pastoral carcerária etc. Gosto e me dedico à graduação. mas não a publicar. Não o fiz antes porque eu sempre acreditei na máxima evangélica que diz que a mão direita não deve saber o que faz a esquerda. Só agora comecei a atualizar o meu Lattes em benefício do coletivo do Programa de Pós-Graduação. Por pressão e para ser “produtivo” também quantitativamente. aceitando de bom grado as disciplinas que me são atribuídas. Dedico-me à pós-graduação também com prazer. João fez ainda graduação em Teologia pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (1978). Fora da carreira acadêmica. aceitando cargos administrativos em benefício do coletivo e participar da construção de um departamento e de uma universidade de qualidade. sozinho ou em grupo. para a coleta de currículos. 146 na Sociedade Brasileira Contemporânea” que. Hoje atua principalmente nos seguintes temas: educação. Atualmente é membro da Diretoria Nacional da Associação Brasileira de Ensino do Direito (ABEDi). quando trabalhou na formação de pequenas comunidades. a escrever bastante. Educação e Sociedade Capitalista . doutorado em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (1999) e pós-doutorado em Educação pela Faculdade de Educação da UNICAMP. que há mais de trinta anos se dedica a essa tarefa. mesmo que ainda imperfeita. mas certamente ainda não cumpri o mínimo do homem de sabedoria que iniciaria pelo “conhece-te a ti mesmo”. João Virgílio fez os cursos ginasial. filosofia e ensino do direito. Confesso aqui que gosto de trabalhar na Universidade: sou um privilegiado porque faço o que gosto e gosto do que faço. Até o presente eu me dediquei a estudar.br/pos/educacao/ quem sou eu?) como Tomás de Aquino: “tudo o que fiz não passou de palha!” Conheci algumas coisas nesta vida e neste mundo. com o Projeto: “Do direito à Educação ao direito Educacional”. vou entrar com mais afinco Estado.1977). Unioeste . Entendo que “produção” é ser também um bom professor na graduação e pós-graduação. Entendo que “produção” não é apenas publicação. transformou- se em Grupo de Pesquisa.Programa de Pós-Graduação em Educação ensino superior. eu gostaria de dizer (mas http://www. direito.unioeste. em 2007. acho-me altamente produtivo como educador. Embora tenha até o presente poucos artigos publicados. colegial e graduação em filosofia no Seminário Diocesano de São Carlos. foi sacerdote católico de 1978 a 1985. complementando sua formação e licenciando-se em Filosofia pelas Faculdades Associadas do Ipiranga (UNIFAI . até porque a publicação pode ser de má qualidade e repetitiva. mas ainda com forte atuação educacional. de meu Departamento e de minha Universidade. “Depois de tudo que fiz e anunciei. Apoio e louvo a iniciativa do CNPQ em estabelecer uma Plataforma Única. mestrado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (1990).

todas as coisas oscilam sem cessar (. de cair na neurose daqueles que lembram a brincadeira de meninos no banheiro da escola. É preciso que eu adapte a minha descrição ao momento. Declaro publicamente que “não quero o Lattes na minha lápide”. guardei a fé (2 Timóteo. Não descrevo o ser. Eu não posso fixar o meu objeto. 4.7). numa tragédia. na língua do atual império. não só por acaso..) . Eu dizia que eram artigos ou textos.Isto é um ensaio.. como diz o povo. 96. até por conta de socializar mais o muito que produzo. de sete em sete anos. os sinais de minha pintura [do homem] são sempre fiéis. 5 É o que se costuma chamar de papers. não gostaria. descrevo a passagem: não a passagem de uma idade para outra ou. vol II. mas também por intenção. Mesmo assim. matam saudades da inquisição e dos tempos de censura. mas soluções. servem como contribuição para o debate. mas sim de dia para dia. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Ele se move incerto e vacilante. Estado e Educação (e desaforismos). Por isso. embora mudem e variem. ele está com Deus.. O Lattes é o DNA do homo academicus contemporâneo. que escrevia apenas ensaios. Como se parece com as palavras de Paulo apóstolo: combati o bom combate. mas a verdade (. dizia: Ora. Reale Antiseri. Trata-se de um registro de acontecimentos diversos e mutáveis e de idéias incertas. Prefiro o Epitáfio de autoria de Sérgio Britto. Poderei mudar de um momento para outro. quando exercem efetivamente o seu papel.). Tanto é assim que talvez eu me contradiga.. Os conselhos editoriais. 147 na publicação de meus scripta5 . seja porque eu capte os objetos segundo outros aspectos e considerações. mas como a academia dizia que eram papers eu apelei para scripta. assim como é. pelo DNA ou pelo Lattes.. Ensaios são mais livres. construído em aforismos Coleção Sociedade. alguém posta o seguinte comentário: Fulano morreu. Se a minha alma pudesse se estabilizar. atualmente é possível reconhecer um indivíduo pela arcada dentária. interpretado pelos Titãs.) nunca a contradigo. ao compararem o tamanho do seu Lattes com o dos outros. O mundo nada mais é do que uma contínua gangorra: nele. Eu tomo então tal ponto.. 6 Montaigne. agora seu Lattes está completo. no instante em que me interesso por ele. in História da Filosofia. Num blog em que amigos deixavam mensagens à família de um pesquisador falecido. terminei a minha carreira. A própria constância nada mais é do que um movimento mais fraco.6 Sinto-me mais livre também ao escrever o capítulo de um livro do que um artigo para uma revista. em hipótese alguma. por uma embriaguez natural. p. de minuto para minuto. pois assim se dizia na sacristia. não faria ensaios. Montaigne.

Passamos a viver numa camisa de força que nos obriga primeiro consultar a tabela para depois enviar nossos scripta. tornando proscritas obras ofensivas à fé e à moral católicas. e. não mais será. Foi extinto por Paulo VI em 1966.9 O que não era Qualis.Programa de Pós-Graduação em Educação reitor. E quem o decide? Quem decide também onde deve ser publicado o que é produzido? Lembro-me da expressão corrente nos regulamentos de seminários menores de formação de padres. Educação e Sociedade Capitalista . nem um nem outro? Quantos periódicos estão no Qualis? Para se publicar um artigo leva-se um bom tempo.br/pos/educacao/ os orientadores tenham assumido o seu papel para o homo academicus. o que é e o que não é digno de ser estudado. com a bula Licet ab initio. como vai o seu Lattes? E o Qualis está passando bem? Lembranças 7Bourdieu. p. no caso de um campo cuja independência está mal afirmada com relação às demandas da classe dominante.unioeste. o que era. 148 Bourdieu afirma que: A hierarquia dos objetos legítimos. portanto. Aqueles que escreveram em 2006 e publicaram em 2007. no endereço eletrônico: http://www. a Igreja cria o Index Librorum Prohibitorum cuja primeira edição é de 1559. cria a Congre- gação da Suprema e Universal Inquisição ou Santo Ofício. em 1557. diz Feyerabend. 35.7 Há. pode ser ela própria a máscara de uma censura puramente política. revistas etc. em geral mais de um ano. em 1542. nos encontros entre acadêmicos. O Santo Ofício8.aloha.htm#A 9 Aqui não vai nenhuma crítica pessoal àqueles que ocupam tais espaços. legitimáveis ou indignos é uma das mediações através das quais se impõe a censura específica de um campo determinado que. a cada triênio. fica em dúvida em relação ao Index Librorum Necessariorum a ser adotado. A música é resultado de inspiração e de composição e não de obediência às regras. sob o pontificado de Paulo IV. mas quais regras? Para que lado a biruta vai apontar? Em breve. quem tem autoridade para qualisficar? Deve-se seguir a lista da ANPEd ou poderá haver outras? Quem “autoriza” a publicação numa revista?10 Quem credenciou apenas a ANPEd para fazer a qualificação? Convenceram-me a jogar de acordo com as regras do jogo. Os dominados censuram seus pares. responsável pela defesa dos dogmas e combate às heresias. mas é preciso. A última lista foi publicada em 1948. mesmo muitos anos depois de mortos. 10 O físico Alan Sokal publicou falso artigo em revista de humanidades em 1996 (Folha de São Paulo: 08/07/2006). 8No espírito da Contra-reforma. rever as classificações de livros. Paulo III. objeto de minha pesquisa no mestrado. Isso se torna tão substancial que o padre reitor não sai de dentro de muitos seminaristas. sim. em latim. a saudação será: Olá. que tudo aquilo que não estava claro no regimento deveria ser decidido sempre a critério do padre Unioeste . o será. Estado. Em Educação. Talvez http://www. Encontra-se um fac símile da primeira edição. fizeram-no no limbo do Qualis. Escritos de educação. de ser pesquisado.net/ ~mikesch/ILP-1559.

pensei comigo mesmo. 92. na falta de inteligência. 14 Conforme a região. levaram o grupo da disciplina 11 Esses ramalhetes. Por que academia e não jardim de Epicuro? Eu estou a procura de uma pequena urna funerária para colocar os últimos documentos a serem registrados no meu Lattes.Quem é ridículo. Minhas crenças levam à escolha de meu orientador ou meu orientador leva às minhas crenças? Posso desenvolver um trabalho fenomenológico positivista com um orientador marxista? A leitura e discussão do Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo Ptolomaico & Copernicano. Cartas Persas. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Eu demorei a entender a lógica da academia. E se eu concluir que alienado é todo aquele que sempre acha que o outro é o alienado? Quem vai decidir essa parada? É a cotidianidade da realidade objetiva? Lida e interpretada por quem?A verdade é filha da autoridade. comunhões. numa tentativa de pôr fim às guerras religiosas entre católicos e protestantes. Talvez a síndrome de Cura d´Ars12 tenha me contaminado durante tantos anos de formação. tal crença. alguém já diria. Ou seja. Bem parecido com as comunicações dos conselheiros nos conselhos departamentais da Universida- de. assim a religião. ladainhas. tal orientador. em 1555. Isso serviria para não perder a sua dimensão limitada e transitória. Coleção Sociedade.”13 É muito comum dizer-se que o outro é alienado. eram lidos em público. Foi o compromisso assumido no tratado de Habsburgo. “que possamos nos consolar pensando nas fraquezas alheias. sacrifícios. como forma de emular os colegas. logo refleti. Bacon disse antes de Galileu e Aulo Gelio muito tempo antes de Bacon. livro que levou Galileu a ser condenado pela Inquisição. de uma instituição ou pela salvação das almas. Isso é tão parecido com o ramalhete espiritual! Orações. Para responder à pergunta “quem é você?” é preciso responder antes ao “quem o convida?” Alguém me disse certa vez.) . “os únicos ridículos a que sempre seremos sensíveis serão os que vislumbramos nos outros? Mas talvez seja até uma felicidade”. que era necessário fazer isto ou aquilo para ter prestígio. missas. em Cartas Persas: “Ah. distinguia-se em santidade. às vezes. alienado ou caiu nas malhas da ideologia burra nas esteiras das determinações da realidade objetiva? São sempre os outros. terços do rosário de nossa senhora. Diz Montesquieu. deveria ser seguida a religião do príncipe. 149 à CAPES. jaculatórias. consagrada pelo tempo! Em oposição a Galileu. 12 Santo do sul da França que. hujus religio14 . Estado e Educação obviamente. 13 Montesquieu.Cujus regio. Deus meu”. jejuns11 e outras práticas cristãs que os religiosos faziam na intenção de uma pessoa. numa reunião.

Além disso. a partir da releitura escolástica de Tomás de Aquino.. Quem tem o poder de decidir sobre os financiamentos poderá dizer o que é científico ou Unioeste . de Frédéric Nef e Emmanuelle Garcia. o que merece ser publicado ou rejeitado. 35. Aristóteles. na filosofia estariam todos os conhecimentos naturais. com as categorias de Capital Social e Homo Academicus. Educação e Sociedade Capitalista . Estado.Foi o senhor que a matou? Sílvio: . Doutor. ficara assim constituída: a teologia era a rainha. Sr. tema a ser muito desenvolvido em Bourdieu. Com a destruição do cosmo aristotélico destruía-se também o mundo no qual Aristóteles estabelecera sua doutrina da ciência que servia de fundamentação para uma classificação hierárquica das disciplinas e dos saberes15 . hoje ela não seria o que é sem essa dimensão filosófica. é evidente que se buscou a ciência por amor ao conhecimento. saiba. aquele que se maravilha e está perplexo sente que é ignorante. 17s. Ainda que todas as demais ciências sejam mais necessárias do que essa ciência (filosofia). no auge do positivismo de Comte. foi a civilização!16 Feyerabend 17 diz que a boa ciência tem necessidade de argumentos metafísicos para continuar a se desenvolver. os teólogos são os mais importantes nas universidades que estão nascendo. Se não sabia. há muita metafísica travestida de forma envergonhada. A metafísica está morta definitivamente? Não serve para mais http://www. em 1875.unioeste. 18 Metafísica. e não visando qualquer utilidade prática. nenhuma é melhor do que ela. Diálogo. defende a filosofia: Ora.A metafísica não existe mais.br/pos/educacao/ nada? Houve uma evolução comtiana do metafísico para o positivo? Na Faculdade de Direito de Recife. em Metafísica. 150 de Leituras em Fundamentos da Educação a alguns questionamentos muito significativos sobre metafísica e ciência. portanto. a filosofia era a serva (ancilla). Paris: editora VRIN. 2007. Coelho: . se foi para escapar à ignorância que se estudou filosofia. é célebre o diálogo áspero entre Sílvio Romero e seu examinador.Foi o progresso.Programa de Pós-Graduação em Educação jornalístico.18 15 Galileu.. 17 Feyerabend.Pois vá estudar e aprender para saber que a Metafísica está morta. Coelho Rodrigues. p. 48-49. Sílvio: . Há uma questão de poder muito nítida na disputa entre os saberes. Diálogos sobre o conhecimento. Se a teologia é a rainha. 25. que.Não sabia! Sílvio: . 16 A metafísica está viva: confira Textes Clés de Métaphysique contemporaine. Coelho: .

131. nas academias.... Diálogo. O homo academicus segue a procissão. função já exercida em cerimônias com a 19 Metafísica. Um Xavante rompe a tradição de sacrificar uma criança sem pai. Sol e Lua. diz Aristóteles: Patenteia-se então que diz respeito a uma ciência investigar o ser como ser e os atributos que lhe são inerentes como ser. a prioridade e a posteridade. outro o mal e. abandonar aquele teto. Estado e Educação se há de recorrer para definir nossas controvérsias.. estando esta mesma ciência encarregada de investigar. e tão ordenadamente. 2. Galileu diz que .19 (Metafísica 108). sacrificam- se os dois.. 20 Aristóteles. Simplício [que representa o defensor do sistema aristotélico-ptolomaico]. Eu aprendi isso na academia. O grande engenho do artista é descobrir a estátua no mármore: como foi que o senhor descobriu esta linda mulher dentro daquele mármore? Regras de publicação da ABNT e conselhos editoriais. tendo sido afastado do trono Aristóteles? Que outro autor deve ser seguido nas escolas. portanto. quando nascem gêmeos. além dos conceitos acima indicados.) . 108. nas faculdades? Qual filósofo escreveu sobre todas as partes da filosofia natural. mudaria de opinião. 151 Sobre a tarefa da filosofia. Quando entrei de vez na academia e vi arrogantes vociferarem um saber apresentado como único. não reconhecem essa linguagem própria dos artistas. um é o bem. 185ª 1-3 21 Galileu. Os séculos XVIII e XIX paralisaram muitos intelectuais que empalharam as teorias e os pensamentos. temos no nosso século acontecimentos e observações novas e de tal alcance. Bem e Mal. O que decorre evidentemente de seu próprio modo de filosofar. Contra quem nega os princípios não há o que discutir. oniscientes também. o todo e a parte e todos os demais conceitos semelhantes. Física I..20 Com certos homines academici não vale a pena dialogar.. outra liderança arrisca-se em adotar gêmeos que seriam sacrificados22 : ambos romperam a cultura e começaram uma nova prática. numa intolerância pré-iluminista. parece-me escutá-lo dizer: “E a quem Coleção Sociedade.] coloco-me no lugar do Sr. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. em geral. sem deixar de lado nem mesmo uma conclusão particular? Deve-se.21 Galileu diz ainda: [. Contra negantes principia non est disputandum.. que não tenho dúvida de que se Aristóteles vivesse em nossa época. 22 O Xavante explicou que o mundo é presidido por dois princípios. Galileu está falando apenas do telescópio e de outras invenções e descobertas muito simples. sob o qual se protegem tantos viajantes? Os ateus não são ateus. por não saber quem é quem. o gênero e a espécie. eu pensei: minha contribuição seria não de caudatário. são crentes de outros deuses.

meditatio. Sim.br/pos/educacao/ da reflexão. logo pela manhã. Ou que o homem é ele e suas circunstâncias. Somente aqueles que estão submetidos a uma alienação burra é que pensam diferente de mim. Quando se deixa o seminário ou o sacerdócio. 23 O poema intitula-se “O vosso tanque General. continuam pensando. meu general. daquele que da mesma altura de um púlpito. o primeiro movimento diante do mundo e da academia é de vergonha e de submissão para ser aceito pelos outros. mas para trocar idéias e para aprender. mas acabava-se ensinando a pensar. Havia uma leitura ou uma pregação para motivar a meditação. arrebentando enormes correntes.. divisórias.Sabe pensar. Não passa pela cabeça dos inquisidores que eu possa utilizar o que me resta de livre arbítrio para dizer eu quero o dever. O verdadeiro ser é aquele que segue a ontologia do meu ser. que não é nada novo. fica-se preso em teias de aranha de ridículas brigas por pequenos espaços. Impossível! Lembro-me de um poema de Brecht que termina assim: O homem. sem que se percebesse que isso poderia ser perigoso. ou melhor. operatio et.. No internato de formação de padres. é um carro forte”. uns dizem eu quero enquanto outros se conformam com o eu devo. pequenos poderes. no silêncio da capela. tínhamos que meditar. pensar. oratio. debate com o outro. antes que outros pensamentos nos ocupassem. Renega-se tudo para abraçar o novo. e sim de celebrante principal. dialoga. nem de acólito ou tochífero. não precisa inflar as veias do pescoço para dizer que o livre arbítrio não existe e que a existência material produz a consciência e não vice-versa. que hoje já não seriam mais micros e sim nanos e podres poderes. quem ficava preso àquelas leituras ou sermões? Queria se ensinar sobre o que Unioeste . Estes estão presos à moral de escravos. pensam eles. 152 presença do bispo. desde os onze anos de idade. moral de rebanho tão difundida pela visão cristã de mundo. numa perspectiva da moral kantiana.Programa de Pós-Graduação em Educação meditar. salas. havia tentativas de atrelar Pegasus ao arado. não para vencê-lo. fundada nas bem-aventuranças. Educação e Sociedade Capitalista . Mas. entre quinze e vinte minutos diários. Para Nietzsche. enquanto aqueles pautam sua vida pela luta na busca de se tornarem super-homens. é muito útil: Sabe voar e sabe matar Mas tem um defeito . no outro púlpito.23 No debate de grandes paradigmas. Depois de terem aprendido o método http://www.unioeste. meu caro. Ratio. Estado.

. criando lá dentro hábitos intelectuais na leitura e interpretação dos clássicos gregos. mas quando muitos são copiados. Estado e Educação levado outros à metafísica. Mas. e utilizadas. freqüentemente. numa despreocupação em relação à materialidade cotidiana da existência. como ninguém controla a mente. permitido e possível. adolescentes e jovens resolviam deixar o seminário. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Zaratustra não quer discípulos como aqueles que sempre repetem o seu mestre. garotos. na tradução da Catilinárias. O homo academicus tem obrigação de citar os autores que tenham autoridade. Costuma-se até dizer que quando se copia um só autor pratica-se plágio. como ler sem as lentes de sua própria biografia? Leitores de qualquer ciência são intérpretes e intérpretes são sempre desonestos. Pensar por si é o mesmo que tirar aspas. muitas vezes histericamente (não foi erro de digitação. por querer juntar a metafísica e o devir. nem a sua nem a dos outros. na meditação e na oração. Que todos os acadêmicos que se enxergam como detentores de um único saber. eu escrevi histericamente mesmo e não historicamente). o orgasmo da mente na busca de si mesma e das verdades eternas. ou latinos. contudo. Eu quis ser contraditório. numa transmutação metafísica do materialismo histórico dialético. 153 Eu sei que tais afirmações são historicamente condicionadas. não menosprezem aqueles que foram forjados nos cadinhos dos internatos. que a linguagem científica exige aspas e citações aqui e ali. três dias e uma semana no silêncio. Talvez eu tenha aprendido na meditatio o célebre sic transiit gloria mundi que pode ser bem casado com o porro unum necessarium est. num seleciona. o retiro servia também para conhecer-se a si mesmo. corta.) . Parece ser contraditório dizer essência da história. já o declaro. Não se pode esquecer. talvez não determinadas. o retiro era o êxtase. Diálogo. antes que chamem novamente a atenção para a minha heterodoxia ou ecletismo. projetados para conseguir mentes e corpos dóceis.24 Eu fico feliz em saber que a minha formação escolástica me deu uma visão historicista e que o materialismo histórico pode ter Coleção Sociedade. para a aprendizagem do questionamento e da resistência. como diria Foucault. Depois de retiros como esses. 55. mesmo sem o desejar. Aquele que não tira as aspas não pensa por si. das obras de Júlio César ou de 24 Galileu. E isto tenha me levado à essência da história: o devir heraclitiano. cola. Nos retiros e exercícios espirituais que duravam entre um dia. então se faz uma tese.

Há “Protágoras contemporâneos” que resolveram bem o problema: eu sou a medida de todas as coisas.Programa de Pós-Graduação em Educação É possível atingir a physis (natureza) das coisas. Para aqueles que não sabem ler o sentido das críticas do escolanovismo de Escola e Democracia eu lembro que. foi o que aprendi logo. Saviani disse que sua fala naquele texto tinha sentido político: o sentido da curvatura Estado. o construtivismo. em 2002. num conhecimento dos dramas humanos nos livros bíblicos. no manual do Di Napoli ou em outros manuais. adolescentes e jovens que. traduzido por Rui Barbosa em 1886. se debruçaram sobre uma filosofia escolástica ensinada e aprendida em latim. convenção humana? Para Protágoras de http://www. de que me acusou um colega. Vygotsky. Eu tenho muita produção e pouca publicação. escrever para mim e para partilhar com meus alunos. Desde lá. eu tenho. a tradição ocidental se debate entre a possibilidade e a impossibilidade do conhecimento objetivo. na academia. Unioeste . no silêncio dos corredores conventuais. ou quando leio Dewey. Mas. o pragmatismo. em muitos aspectos. covardia e falsa modéstia. o Ratio Studiorum ou o Herbart do método tradicional dos cinco passos. a metafísica também tinha coisas muito boas. e como a CAPES não pode ver a memória do meu computador. no século XX. Há alguns demônios no caldeirão das maldades que precisam ser imediatamente exorcizados por aquele que quiser ser um bom educador: o positivismo. na comemoração dos 70 anos do manifesto dos pioneiros. Piaget. os outros não são racionais. Nós que estamos no mundo da estratosfera de discussões teóricas talvez devêssemos conversar com os colegas das áreas da saúde e das tecnologias. Eu queria estudar. Por que até hoje relutei em apresentar meus scripta? Não foi o egoísmo. a Didática Magna. Foi medo. Os outros não têm bom senso. Educação e Sociedade Capitalista .br/pos/educacao/ Abdera. aqueles que vivem na casa de Salomão da Nova Atlântida de Bacon. que leram o mundo pela tradição judaico-cristã. ou não se consegue superar o nomos. mesmo que eu compreenda sua intenção positiva de motivar-me. o homem é a medida de todas as coisas. vamos excluir a Casa de Salomão das ciências humanas? Quando leio Lições de coisas numa defesa do método intuitivo de Calkins. Só porque as ciências humanas foram expulsas da Casa de Salomão. Freinet etc. Eu não queria me expor. 154 Virgílio. o escolanovismo.unioeste. Mas o diabo não é assim tão feio. Eles sim foram os grandes beneficiários do meu labor intelectual. eu sou. O positivismo. O pragmatismo faz a nós da academia ver as coisas também pela sua utilidade. superou a metafísica. nem por isso preciso abandonar Tomás de Aquino.

que havia sido dita antes por Bacon. em Eneida. Para ter essa capacidade de diálogo eu precisaria. chega antes que um corredor extraviado. começa-se pela pars destruens. diz Virgílio ao comentar a atitude do rei da Trácia que mata Polidoro. mas que façam outras escolhas. a fonte última que conhecemos dessa expressão não é Lênin. foi o General romano (106-48 a. Novum Organum.) . correndo fora do caminho. Para quem teve formação em internato e aprendeu o que é coerência e o que é hipocrisia. 27 Bacon. Bacon lembra que Minerva precisa de Vulcano. 25 Que. amedrontados se recusavam a viajar durante a guerra. Vulcano precisa de Minerva. ironizou um colega que atribuía a expressão a Saviani. pois este capítulo não teria fim. Anquises. 26 O script diz que agora você deve me chamar de eclético. mais se afasta de sua meta27 . maldita fome de ouro”. seu ignorante.54 “Oh. atribuída a Galileu. Isso quer dizer que só você sabe ler filosofia? Os outros não? Vamos admitir que haja pessoas. um professor muito bem informado. para a Grande Instauração. Quando se parte para o debate. com exagero. idola fori e idola theatri.) quem disse aos seus marinheiros. em Vida de Pompeu. mas não vamos discutir isto.C). ou foi Virgílio. superando os preconceitos que ele chama de idola tribus. que Navigare necesse. Operação desmanche dos preconceitos. Um coxo. Só depois a pars construens. lembrando que são ridículos aqueles que corrigem seus colegas. equilíbrio que foi perdido. E o Auri sacra fames? Foi o padre Vieira. Geralmente são pré-noções de quem leu um livro só. no caminho certo. essa frase é de Camões ou de Fernando Pessoa?! Não. das ciências humanas e os além-lago. Aulio Gelio (Aulus Gelius. filho de uma deusa. que não sejam ingênuas26 . pendendo-se para o outro lado. idola specus. num rompante de arrogância. em que ele puxava a interpretação para um lado. Para se construir algo novo. para apoderar-se do seu ouro].28 Na Universidade onde trabalho a disputa se dá entre os aquém-lago. quem ensinou isto a Enéias? E a expressão A verdade é filha do tempo e não da autoridade. meu caro professor. pelo menos. outro filho de Príamo. havia se esquecido? Há um bom e um mau ecletismo. Segundo. e o mais hábil e veloz. mas um ditado Chinês. viver não é preciso. mas que. A não ser que você queira convencê-las de sua verdade. será retórica. mesmo tendo eles mesmos pouca cultura. ou o próprio Enéias? [p. ser baconiano. vivere non necesse est. das ciências tecnológicas e da saúde. Eu poderia aumentar esta lista mas me contento em finalizar por aqui.C. que. a resposta que se ouve é a seguinte: o perigo é a filosofia que está na base dessas teorias. para se readquirir o equilíbrio. É uma música de Caetano Veloso! Oh. Então você não estará mais fazendo ciência e sim pregação. há também um ecletismo entre o dizer e o fazer. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Primeiro. Para aqueles que Coleção Sociedade. quem nos garante a certeza em relação ao primeiro que pronun- ciou tal ditado? Navegar é preciso. 155 da vara25 . dizendo: Essa expressão é do Lênin e não do Saviani. 120-180 d. Estado e Educação se alimentam do debate sobre a supremacia das ciências teóricas ou das práticas. meu caro bem informa- do: segundo Plutarco. 30 – LXI. Ou foi o Pai de Virgílio. na verdade já é conhecida no autor de Noctes Atticae.

Educação e Sociedade Capitalista . Pode-se ter acesso a ela pelo banco virtual de teses e dissertações da Biblioteca Comunitária da UFSCar. às vezes. livro II. Diante dela. Embora não sejam de ouro. além de confinados pela sociedade para discussões inúteis. utilizou conceitos de Gramsci e. Hipômenes. é semelhante à nau dos loucos que. René Magritte tem duas imagens que me fascinam: numa há um ovo grande. esses pomos se parecem com os estafantes relatórios que mais servem para impedir o http://www. Boa leitura para quem estuda a temática. Estado. XXXI. Quem é esse homo academicus?30 Em relação a Bacon. Não é de hoje. com auxílio de uma deusa. muito Unioeste . dignas de serem consideradas como mais nobres. Bacon antecipa Feyeraband ao dizer que todas as descobertas. na introdução de Bacon. célebre pela sua rapidez e que disse se casar-se com quem a vencesse em uma corrida. e pintando um belo pássaro. Movida pela ambição.29 Atalanta era filha de um rei de Ciros. diz o historiador: Quanto à sua vida pessoal. quando bem examinadas. sempre que Atalanta estava prestes a alcançá-lo. com a orientação de Ester Buffa. versátil e pronto a sacrificar fosse quem fosse para alcançar melhores posições. sendo obrigada a casar-se com o pretendente. um trabalho intitulado: Universidade: formação de intelectuais acadê- micos? A autora. mas do acaso. porque assim. livro II.31 28 Bacon. Sua existência teria sido a de um cortesão adulador. A academia na UTI. 31 José Aluysio Reis de Andrade. eu me pergunto: a verdade há de caber dentro do meu ovo? Em outra obra há um artista em seu ateliê olhando para um ovo. Bourdieu. Como isso se parece com a imagem do educador! Daquele que está preso nas suas teorias e daquele que é livre e projeta o futuro. intrigante. E nada há que possa substituí-lo.br/pos/educacao/ pesquisador de correr em frente. VI. 29 Bacon. Novum Organum.Programa de Pós-Graduação em Educação feio e sem jeito. em 2006. conseguiu sucesso jogando pomos de ouro para trás. do tamanho da gaiola. Novum Organum. desgastam-se fazendo relatórios.unioeste. 156 Para os cultores do purismo metodológico. preso dentro dela. o historiador da filosofia Pierre-Maxime Schuhl declara: “Bacon não foi um desses grandes homens dos quais se podem admirar o pensamento e a atividade”. ela mesma poderia decidir sobre o casamento. na coleção Os pensadores. como modelo. deixando escapar a vitória. através dos séculos. e não intervém na descoberta das formas. 30 Eu participei da banca de defesa de mestrado de Priscilla de Cássia Bessi de Mattos que apresentou. não poderão ser tomadas como o resultado do desenvolvimento gradual e da extensão. principal- mente. 151. VII. ela sempre se voltava para apanhar o ouro. A academia. pois o acaso só atua a longos intervalos. 100.

saber é poder no sentido do domínio da natureza. o próprio Bacon é encarregado de fazer a acusação de traição: o conde foi executado em 1601. 75. apresentado na XII Reunião da ANPEd. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. às margens do Tamisa. Os intelectuais e a organização da cultura. Quando o Conde de Essex cai em desgraça diante da Rainha Elizabeth. mesmo que não sejam avaliadas suas qualidades ou suas repetições enfadonhas. Na academia. bem como dos assuntos tratados em seus trabalhos e publicados em seus anais: em grande parte trata-se de cemitérios de cultura. Os últimos talvez devam Coleção Sociedade. num tom monocórdio de quem sabe falar uma coisa só.32 Quando você foi comprar o seu carro ou seu aparelho eletrônico já pediu selo de identidade para saber se fora fabricado no modelo fordista ou taylorista? Ou você procurou aquele de preço mais baixo que talvez possa ter sido fabricado com trabalho escravo? Neste texto eu estava a fim de tirar aspas. mas são parcimoniosos nas publicações. Há uma Academia com aspas: vive-se de citações Academia nota de rodapé: intermináveis reuniões para discutir picuinhas Academia título falso: não representa o texto Academia dos anexos: esquece-se do principal 32 Gramsci. cujas publicações. 1989. Fica claro aqui que produção não se reduz ao que foi publicado. p. Mas não o fiz para satisfazer a todos aqueles que gostam de argumentos de autoridade. Estado e Educação mudar de atitude: publicar suas produções. é o saber expresso no qualis das publicações que adquire ares de poder. poluem as revistas e livros de todos os seus amigos ou dependentes. há outros. Lattes são oferecidos amigos e benfeitores. seu Rei a seu amigo. há aqueles.) . Quando o tamanho do homo academicus é calculado pelos seus scripta. Para Bacon. com temas sempre repetidos. Nos altares do CNPQ. sem que haja cordeiros ou corsas para salvá-los como nos casos de Isaac ou de Ifigênia em Aulis. Trad. Gramsci afirma que seria útil possuir a lista completa das Academias e das outras organizações culturais hoje existentes. 157 O Conde de Essex. pode- se pensar: há aqueles cujas publicações transbordam do seu grande labor intelectual e de sua inteligência. Capes. protetor de Bacon. Paolo Nosella. Um homem honesto prefere Deus a seu Rei. faz-lhe doação de um belo solar e um parque em Twickenham. orientandos ou ex-orientandos. Qualis. Há outras formas de fazê-la reverter em benefício direto dos seus alunos. cujo labor intelectual e compromisso institucional são intensos. como aquele doido que diz: foste a Punta del Leste? Não? Então não temos o que conversar.

a reunião dos sábios da era industrial. por homens de gênio que tinham em vista simples especulações geométricas. talvez fosse a realização da Casa de Salomão. a escola Politécnica de Paris. V. nosso espírito necessita de uma teoria qualquer. Comte completa esse pensamento dizendo que uma pedreira não é um edifício. mas seríamos mesmo inteiramente incapazes de retê-las. dos seus companheiros e da embarcação a uma teoria conhecida dois mil anos antes. sobretudo. se ensina na Academia: um empirismo burro. e que tenha pretendido instituir sua religião da humanidade. se isso tiver acontecido num processo dialético.Programa de Pós-Graduação em Educação contemplar os fenômenos. Os que assim o fazem jogam fora uma parte do saber acumulado da humanidade. Parece ser importante que o intelectual saiba fazer uma leitura historicizada dos autores que foram importantes no seu tempo. Com a metafísica perdeu-se um saber que estava na imaginação dos mitos.” (CPP. como reencontrar a imaginação. Comte comenta que.br/pos/educacao/ observações isoladas. extrair delas algum resultado. em que há incorporação- negação-superação. aos 16 anos de idade. isto não o desqualifica por completo. em 1814. Estado. Embora não se deva esquecer que a concepção de história de Comte seja linear. da utópica Nova Atlântida de Bacon. num determinado estágio da história do conhecimento e que depois foram superados. com a ciência perdeu-se um saber que estava no raciocínio metafísico.para entregar-se à observação. Na segunda lição do curso de filosofia positiva. e que sua explicação da realidade social se dê em termos de ordem e progresso e de normal e patológico. ao Unioeste . quando o marinheiro se preserva de um naufrágio pela exata observação da longitude deve sua vida. ela precisaria ser outra. 158 Academia notas bibliográficas: tudo o que não se leu Academia abstract: em resumo. é a comunidade científica de verdade que deveria servir de modelo a toda educação superior. Educação e Sociedade Capitalista . 5 In: Cientistas Sociais 75). num saber científico que se alia à técnica para melhorar nossa vida? Um aluno me disse que seu projeto de pesquisa não fora aprovado porque tinha um viés positivista. Para Comte. não somente nos seria impossível combinar essas http://www. e. na qual ingressou. o raciocínio. desconectado da teoria. na maioria das vezes. progressiva e ascendente. por conseguinte. os fatos ficariam despercebidos sob nossos olhos. “. muitas vezes. para Condorcet. e. mesmo e.unioeste.. I. Ser positivista é crime intelectual? Do Novum organum de Bacon ao Curso de filosofia positiva de Comte não existe aquilo que. p. não os relacionássemos imediatamente a alguns princípios. Se..

120) Sagredo 35 : Galileu. mesmo que seja sobre as estrelas mais 33 Na verdade trata-se apenas de uma profissão de fé. e apontem para o Sol. Picasso. ficarão perdidos. É uma noite desgraçada a noite em que o homem vê a verdade. Mas para aqueles que insistem em ficar nos porquês e nos para onde.33 O caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta. isto é óbvio! Não. em latim. Tirem o pano do telescópio. lembramos a importância dos porquês e dos para onde. Não há conhecimen- to no surrealismo? Ah. Os poderosos não podem deixar solto alguém que saiba a verdade. Se Magritte lhes disser ceci n´est pas une pipe. Estado e Educação socrático do início do diálogo Teeteto. eu ficarei feliz na companhia de Dali. não mereça tal honra. embora. Quando dizemos que alguém caminha lucidamente? Quando se trata de alguém que caminha para a desgraça. Nietzsche. Montaigne. O iconoclasta Galileu: Por que ele põe a Terra no centro do universo? Para que o trono de Pedro possa ficar no centro da Terra. no sentido Coleção Sociedade. Assim como não é óbvio que a mulher seja inferior ao homem. ao taylorismo. Descartes. Magritte. toyotismo etc. quer dizer a única via. (Vida de Galileu. repetitivo. 34 Se disserem que sou surrealista. em que Platão define a maiêutica. o conhecimento está no seu texto insosso.. 136). Óbvio. seja fruto do neoliberalismo.) . auto-elogioso. Van Gogh. Como é bela aquela antiga imagem do preto velho com um cachimbo. mas de verificar se tinha. dentro das regras da academia? 35 Lembrando que ele representa Copérnico neste diálogo. 159 Para quem diz que na vida o que importa é o como. Manet. Monet. sim. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.34 O meu grande propósito não é provar que era eu quem tinha razão. vejo você num caminho terrível. diante de obstáculos. só para falar de alguns. num flagrante confronto com Sócrates. Educar é “desobviar”. o que faz do intelectual um aprendiz humilde e não convencido de ser o dono da verdade. lembramos que o como também é fundamental.. É de cegueira o momento em que ele acredita na razão da espécie humana. às vezes eu escuto educadores falando e me confundo com o carioquês que pela Rede Globo tornou-se português na expressão do com certeza. Degas. Como é bom ser filósofo de carteirinha e amante da sabedoria. (Vida de Galileu. de uma substituição da doutrina cristã que diz que tudo é fruto da providência divina. o caminho mais curto pode ser uma curva. fordismo. inclusive aquela folha que cai da árvore. que neste artigo me faz lembrar que alguns têm um cachimbo só. Educar é alargar mentes e não encurtá- las na explicação única. é claro. Eu lembro sempre aos alunos que há mundo além das críticas ao neoliberalismo. clara. também não é óbvio que tudo o que acontece no mundo atual. sem dúvida.

Se fizeres isso. “fenomenologia” é um xingamento. Não terás financiamentos. desceram aos infernos. Quem estuda o fenômeno não recusa ipso facto a grande explicação baseada na grande teoria. do fenômeno.Programa de Pós-Graduação em Educação Na Academia há o risco de matar o diálogo nas dicotomias. no céu não havia lugar para o Lattes. com o Lattes debaixo do braço. Na boca de alguns. 37 A afirmação de alguma coisa não é necessariamente a negação de outra. só mortes. não serás convidado. Mas sem essa onda Não haverá barulho do mar. Não vá para Florença. até porque o próprio 36Baseado em Leibniz que constata a importância do estudo do particular.37 In rebus alicuius momenti ab Aristote non recedat38. mesmo que me chamem de louco.36 Unioeste . 38 Regras dos Jesuítas em Diálogos. Ouço o barulho do mar Não ouço cada onda que se quebra na praia.. Educação e Sociedade Capitalista . Talvez eu esteja mais para Papa do que para Galileu. junto com a pós-modernidade aceita-se o efêmero. comerás o pão com o suor do teu rosto. http://www.unioeste. 160 distantes! Você acha que o Papa vai ouvir a sua verdade. e que não vão ouvir que ele errou? Você acha simplesmente que ele abre o diário e escreve uma nota: 10 de janeiro de 1610 – aboliu-se o céu?. Galileu! (Vida de Galileu.br/pos/educacao/ Para Harvey. por exemplo. Estado... Não aceitarás outro. Na lista de oposições estão: Diferença x Uniformidade Fluxo x Unidade Arranjos flexíveis x Sistema Nômade x Sedentário Caleidoscópio x Sistema explicativo Holismo x Individualismo Homo sociológicus x Homo Zappiens Parte x Todo Ao academicus dichotomicus o homo ecclesiasticus lembra que affirmatio unius non est negatio alterius. quando você disser que ele errou. Quem substituiu Aristóteles? Virgílio e Dante. o descontínuo. Todos os outros oferecem os frutos proibidos do Jardim do Éden. 22. o fragmentário e o caótico.. em que cada um pega em suas armas e não há avanços. 85) Texto muito belo que pode levar à tentação de dizer a todos que só eu tenho razão. Em lugar e momento algum deixarás de aceitar Aristóteles. Quem afirma a parte não está necessariamente negando o todo.

Marxismo Coleção Sociedade. Há um bronzeamento intelectual. eu estudei. 40 A teoria marxista de que o trabalho explica a realidade estaria superada? A nova explicação estaria fundamentada no conhecimento? Quando você estiver numa maca. com eles. absolutamente tudo.40 É a mesma atitude religiosa daquele que acredita que nenhum fio de cabelo cairá de vossa cabeça sem que o Pai do Céu assim o queira. Estado e Educação e escolástica: se o marxismo for ensinado de forma escolástica. ao voltar para Paris pode dizer que conhece melhor o seu próprio mundo. eu a explico pelo meu instrumento de uma nota só do neoliberalismo: neoliberalismo é a base do capitalismo desenfreado que busca o lucro a qualquer custo. talvez por isso possa vê-la melhor do que aqueles que nela nasceram ou cresceram. Neste ponto. eu tenho uma pré- compreensão perfeita: até aquela folha que cai da árvore. num corredor de hospital. e há a coleção de rótulos de bronzeadores que podem ser colocados no Lattes. fruto de investimentos prolongados no cultivar-se. mesmo que seja poluindo o mundo e provocando o aquecimento global. Tardiamente conheci o mundo bororo da Universidade Pública39 .) . no seminário. 161 São Pedro já se encarregara de anotar tudo num caderninho. os alunos aprenderão marxismo ou escolástica? Se a escolástica for ensinada de forma dialética. São questões que esquentam os debates nas ciências sociais e na educação. onde se pode ler: Destacamos neste capítulo alguns elementos do pensamento sociológico que nos proporcionam uma imagem da sociedade atuando no homem. no início de minha carreira. suplicará por um médico crítico ou por um médico competente? E quem diz isto não é alguém que despreze o compromisso político. Uma imagem mais adequada da realidade social seria agora a de um 39 Na década de 1930 Claude Lévi-Strauss conhece o mundo dos índios Bororo e por causa disso. a menos que lhe acrescentemos o detalhe de grupos de prisioneiros ocupados ativamente em manter suas paredes [do cárcere] intactas. nossa imagem da sociedade como uma enorme prisão já não parece satisfatória. ao lecionar.. Perspectivas Sociológicas de Peter Berger. Nosso encarceramento na sociedade já nos parece algo criado tanto por nós próprios quanto pela operação de forças externas. que altera o ritmo da natureza e que faz a folha cair.. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. sem ter sido incorporados na própria pele como capital cultural. Mas é alguém que também critica aqueles que descartam tudo aquilo que seja formação para habilidades e competências. como diria Bourdieu. que os profissionais precisam ter. para futuros eclesiásticos. muito menos a capacidade crítica. ampliando nossa anterior perspectiva do homem atuando na sociedade. De tudo. os alunos aprenderão escolástica ou marxismo? Na função de magister ainda ecclesiasticus.

Cavando juntos ou utilizando todos os ardis para fugir do Castelo de If. recorre aos pés para aplaudir o seu algoz. Fica mais feio o feio que consente o belo. às vezes. em Lavoura Arcaica: Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro.Programa de Pós-Graduação em Educação números de equilibrismo e sustentando juntos a oscilante estrutura do mundo social. pede que lhe apertem o pescoço entre os canzis. salvou-se. Não foi o ecclesiasticus. Ou como diz Raduan Nassar.. Quase que numa síndrome de Estocolmo. depois de muito resistir.unioeste. aceitou jogar com as regras nas mãos. na falta das mãos.42 http://www.41 E. E quando cavamos sete anos para fugir de um cárcere. de quem amputamos os membros. O exame da sociedade segundo este modelo teatral altera profundamente nossa perspectiva sociológica geral. age quem sabe com a paciência proverbial do boi: além do peso da canga. Isto não é um artigo.. caímos dentro da cela do Conde de Monte Cristo. na perspectiva do interacionismo simbólico: Ainda assim. com a consciência clara de ter entrado num palco para desempenhar o script 41 Perspectivas sociológicas. socialização e legitimação conduzem o indivíduo a desejar exatamente aquilo que a sociedade exige dele. porém. Educação e Sociedade Capitalista . mas já valeu a pena. cair no mar e conquistar a liberdade. com a cortina se levantando e revelando as marionetes saltando nas extremidades de seus fios invisíveis. pelo menos. recusar absolutamente a representar. pai. o indivíduo ama o seu algoz.43 As paredes do cárcere em que vivemos são construídas e mantidas por nós ou com nossa conivência. É um conjunto mais ou menos encadeado de reflexões de quem.br/pos/educacao/ Segundo Berger. maior despropósito que isso só mesmo a vileza do aleijão que. 42 Idem. 162 teatro de fantoches. na novela de Alexandre Dumas. 153-154. mais adiante. representando animadamente os pequenos papéis que lhe foram atribuídos na tragicomédia a ser encenada. um. 135-136. os processos de controle social. Estado. continua. como o padre Faria. seria absurdo exigir um abraço de afeto. 164. da mesma forma. os atores têm opções – representar seus papéis com entusiasmo ou má vontade. A realidade social parece estar agora precariamente pousada na cooperação de muitos atores individuais – ou talvez uma metáfora melhor seria a de acrobatas executando perigosos Unioeste . 43 Lavoura Arcaica. representar com convicção interior ou com “distanciamento” e.

Trad. Seleção. Saviani. organiza- ção. Mas. e notas José Aluysio Reis de Andrade. 2ª ed. em Como me tornei estúpido. para contemplar as sombras. BACON. Preciso inverter o jogo de marionettes e fazer a trindade jogar no meu time. Denice Barbara Catani. São Pau- lo: Abril Cultural. Cansado de levar uma vida politicamente correta. Pierre. Pierre. Petrópolis: Vozes. 1980. REFERÊNCIAS ARISTÓTELES. Coleção Os pensadores. meu caro. Bauru. e notas Edson Bini. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP. com História das idéias pedagógicas no Brasil. igualzinha àquelas que não são críticas e conseguem divertir-se num domingo comendo pipoca e tomando coca-cola numa sessão da tarde de Homem Aranha. vai continuar sofrendo. 2006. Este ensaio em aforismos e desaforismos não tem conclusão para que você ou eu possamos continuá-lo. publicou recentemente o 300º título do catálogo da Autores Associados.) . Apesar disso. o personagem procura de todas as maneiras tornar-se uma pessoa comum. 5ª ed. Trad. pois se eu tivesse certezas não escreveria ensaios mas soluções. ou no sofá de casa assistindo ao Faustão. Autores Associados. Peter L. Donaldson M. Escritos de educação. Novum organum e Nova Atlântida. 163 do momento. Estado e Educação anúncios de filmes da Xuxa ou do Didi. editado pela Rocco em 2005. BOURDIEU. Vozes etc. SP: EDIPRO. 2004. BOURDEIU. 1979. precedido de Coleção Sociedade. eu me pergunto: com quantos livros na área de educação tiveram início as editoras Cortez. Francis. introdução e notas de Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani. Garsehagen. 1998. O Fausto é bem vivo para mim. BERGER. que não estaria na lista qualis. 8ª ed. se você não conseguir voltar à caverna de Platão. Metafísica. Trad. personagem de Martin Page. Perspectivas sociológicas: uma visão humanista. Trad. Petrópolis: Vozes. Não vendo minha alma à santíssima trindade do qualis lattes capes. Quem quer publicar hoje numa editora ou num periódico desqualisficados? Quem não conseguir conviver com muita idiotice poderá seguir a receita de Antoine. Mas houve um primeiro. azar seu.

e apre- sentação Renato Janine Ribeiro. MONTESQUIEU. São Paulo: Paulus. Raduan.São Paulo: Discurso Oficial e Imprensa Oficial. Trad.unioeste. introd. Trad.br/pos/educacao/ Estado. História da filosofia: do humanismo a Kant. Vol. 5ª ed. NASSAR. Educação e Sociedade Capitalista . 2001. 1989. 2004.Programa de Pós-Graduação em Educação VERGILIO. GALILEI. II. Charles de Secondat. Eneida. Lavoura arcaica. Guinsburg. Diálogos sobre o conhecimento. REALE. ANTISERI. Trad. 2 ed. 3ª ed. 1990. Unioeste . São Paulo: Cultrix. Trad. http://www. e notas Tassilo Orpheu Spalding. São Paulo: Perspectiva. 2004. Giovanni. e notas Gita K. Galileu. 164 FEYERABEND. e notas Pablo Rubén Mariconda. São Paulo: Paulicéia. 1991. Dario. Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo Ptolomaico & Copernicano. São Paulo: Companhia das Letras. Cartas Persas.

político e social. em que cerca de 70% da população está sob governos vinculados a uma orientação de esquerda ou de centro esquerda. Estado e Educação sentido. indistintamente. resultado da implementação das reformas neoliberais. Talvez o resultado mais visível desse processo. Essa configuração política não é fruto do acaso. Para isso os governos nacionalistas que emergiram nos anos recentes em países latino-americanos entendem ser necessário promover a integração dos países da região. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. contraditoriamente. como pelo seu papel na atual conjuntura da região. nos vários países latino-americanos a partir da década de 1980. os quais decorrem da histórica exclusão de grandes contingentes populacionais dos benefícios da riqueza produzida. no campo político. de outro fizeram emergir movimentos contestatórios que dão evidência às mazelas que essa transferência provoca e buscam dar outra direção política aos governos de inúmeros países da América Latina. A CRIAÇÃO DA UNIVERSIDADE BOLIVARIANA E O PROCESSO POLÍTICO NA VENEZUELA Maria Lucia Frizon Rizzotto INTRODUÇÃO A Venezuela vive um momento de sua história em que se processam profundas mudanças no âmbito econômico. que se propõe solucionar os graves problemas internos presentes nos países dessa região. seja o surgimento de um nacionalismo de base popular. com capacidade de romper com a atual forma dependente de inserção na dinâmica capitalista mundial. mas em grande medida é. formando um bloco mais consistente. cuja ênfase se deu no campo econômico e das políticas sociais. Essas reformas. trouxeram como conseqüência mediata o empobrecimento brutal da população e o aumento das desigualdades sociais intra e entre países. que podem ter repercussões em outros países da América Latina. colocadas em prática.) . Se por um lado as políticas neoliberais alcançaram seus objetivos em manter o processo de transferência de riqueza para os países de capitalismo avançado. Nesse Coleção Sociedade. o processo venezuelano merece ser estudado tanto pelos aspectos inovadores que apresenta.

além de revisão de literatura em autores que analisam o atual processo político venezuelano. cujas raízes são bem anteriores à eleição de Hugo Chávez para a Presidência da República. como as razões que levaram à criação da Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV). de homem e de sociedade. diz respeito ao seu processo de emancipação política. a Gran Colômbia. recuperam-se princípios. Embora nunca esquecidos. nessa universidade.unioeste. mas pretende Estado. Ao contrário. se articula com a implementação do referido projeto. diferente da experiência brasileira. Simón Bolívar. mas expandiam-se para outras colônias espanholas com o intuito de construir uma grande pátria livre. cotidianamente. 166 Nesse contexto é que se insere a “Revolução Bolivariana da Venezuela”. entrevistas e observação in loco. um fato que merece destaque na história da Venezuela. mostrando como o processo de formação. visões de mundo. principal figura histórica da independência da Venezuela. Neste trabalho. entendia que a liberdade de seu país só se consolidaria se todos os países do continente fossem livres e houvesse uma integração entre eles. que teve como fonte documentos. Colômbia. hoje constituída pelos limites geográficos da Venezuela. soberana.Programa de Pós-Graduação em Educação ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO ATUAL PROCESSO POLÍTICO http://www. Equador e Panamá. na cena política do país. capaz de enfrentar de forma conjunta as ameaças externas e inventar alternativas para resolver os problemas internos. revelando um particular projeto de república que também agora não se restringe à nação venezuelana. seu mestre e conselheiro. apenas abordar alguns aspectos históricos e conjunturais que ajudam a compreender tanto a emergência do projeto bolivariano. Trata-se de uma pesquisa exploratória. não pretendemos dar conta desse processo. Lá. cujos objetivos não se limitavam a libertação das atuais fronteiras da Venezuela. Educação e Sociedade Capitalista . figuras como Simón Bolívar e Simón Rodrigues. que ocorreu em dezembro de 1998. em que praticamente nenhuma mudança substantiva iria ocorrer em relação a quem governaria o país no período seguinte. constituindo uma grande nação.br/pos/educacao/ VENEZUELANO De início. a independência não resultou de um acordo de cavalheiros entre os colonizadores e a elite local. a independência venezuelana foi conseqüência de intensas lutas e de uma guerra civil que durou dez anos (1811 – 1821). Unioeste . são recolocadas.

quando caíram os preços pela primeira vez. Particularmente a partir da década de 1960.. o que evidencia que a estrutura do velho estado burguês permanece quase intacta apesar das mudanças ocorridas no campo político e social. no século XIX. mas é na esfera econômica que se encontram as explicações mais consistentes.3 Tal burocracia ainda hoje hegemoniza as relações nas instituições públicas daquele país e em grande medida gerencia o estado venezuelano. 2003: 14). 3 Os recursos derivados do petróleo fizeram emergir uma burocracia altamente improdutiva. (tradução livre). Nesse mesmo processo. 2 Debilitou a oligarquia. Nos anos de 1970. “debilitó a la oligarquía. ajudam a dar conformação ao atual projeto político venezuelano. e os impediu de construir suas próprias organizações políticas. com os altos recursos do petróleo foi possível financiar benefícios. para todas as classes sociais. (tradução livre) Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. a partir do início do século XX.2 Além disso. segundo Ellner (2003: 21/26). o petróleo tornou-se o principal artigo de exportação.. obviamente que diferenciados. As raízes do projeto bolivariano podem ser buscadas no campo político. Estado e Educação de instituciones y establecer prácticas para cambiar la economía de extracción de origen hispánico y reemplazar la débil infraestructura institucional heredada del pasado”. (Bergquist apud Ellner. até os dias atuais. com a instauração do regime democrático. identificados na defesa da soberania nacional e na integração latino-americana. por meio de subsídios. y les impidió construir sus propias organizaciones políticas. al campesinado y a la clase obrera. 1 Começou um projeto de 40 anos desenhado para construir uma série de instituições e estabe- lecer práticas para mudar a economia de extração de origem hispânica e substituir a débil infraestrutura institucional herdada do passado. até 1986. 167 envolver outros povos da América Latina. expandiu para a produção de café e. a Venezuela “comenzó un proyecto de 40 años diseñado para construir una serie Coleção Sociedade. “los ingresos derivados del crudo incidieron en el surgimiento de una burocracia altamente improductiva”.1 (Lombardi. serviços públicos como educação e saúde e um generoso sistema de seguridade social. assumiu uma característica extrativista. perpetuando os mesmos vícios e práticas de corrupção e clientelismo. quando o petróleo se converteu no primeiro produto de exportação do país. desde o século XVIII. A economia venezuelana. o campesinato e a classe trabalhadora. baixos impostos. o crescimento do psís foi quase constante. 2003: 20). (tradução livre).”. a economia petroleira. primeiro produzindo e exportando cacau. Desde 1925.) . controle de preços. Esses objetivos.

Se na década de 1970 houve uma melhora substantiva nas condições de vida da população da Venezuela (em 1978 apenas 10% da população era considerada pobre). decorrente da crise. Contudo. foi moderando suas posições. enquanto o setor em pobreza extrema aumentou o triplo. 1958. mientras el sector en pobreza extrema aumentó más del triple.4 (Norden. O referido pacto “estableció los términos para la democracia. a estabilidade política se revelou frágil diante da determinação econômica.5 (Evans apud Roberts. os programas foram convergindo e o AD. a disputa eleitoral Unioeste . com a fundação da mais longa democracia da América Latina. (tradução livre). que dominava as http://www. levaram a um aumento inevitável da pobreza. a partir da década de 1980 os cortes nos gastos sociais e a contensão dos salários. 5 Entre 1984 a 1995. consultar a los líderes de los partidos de oposición y compartir responsabilidades”. e de outro os setores conservadores vinculavam-se ao partido cristão COPEI. Poucos anos de crise econômica fizeram mudar radicalmente os indicadores sociais do país. Estado. 168 A bonança experimentada nos anos de 1970 constituiu-se na culminância de um projeto que associava democracia. Segundo Hellinger (2003). levando ao fim do Pacto del Punto Fijo e colocando em cheque o próprio modelo de democracia. consultar os líderes dos partidos de oposição e dividir responsabilidades. assim como outros procedimentos para respeitar os resultados das eleições. incluindo alguns aspectos no campo econômico. para facilitar a sua aceitação por parte da elite. nacionalismo petroleiro e desenvolvimento. por meio do denominado Pacto del Punto Fijo. 2003: 80).Programa de Pós-Graduação em Educação foi marcada por distinções de classe. de 11% a 36%”.unioeste. así como otros procedimientos para respetar los resultados de las elecciones.br/pos/educacao/ confederações de trabalhadores e de campesinos. passando de 11% para 36%. a porcentagem da população pobre aumentou de 36% para 66%. os setores populares votavam no partido Ação Democrática (AD). até a crise econômica da década de 1990. De um lado. respaldado pelo pacto del punto fijo. (tradução livre). incluyendo algunos substantivos en el campo económico. 4Estabeleceu os termos para a democracia. Com o tempo. um acordo realizado entre os principais partidos políticos da Venezuela de então. el porcentaje de la población pobre aumentó de 36% a 66%. “Entre 1984 a 1995. Educação e Sociedade Capitalista . considerada exemplo para a América Latina. foi se dissipando a estrutura classista das duas principais agremiações partidárias. Desde então. o qual teve início em 1958. esses partidos controlaram a cena política do país sem que houvesse grandes disputas eleitorais pelo poder do Estado. 2003: 128). no período inicial de instituição da democracia.

paulatinamente.8 Para Hellinger (2003:52). Estado e Educação decididos a mudar radicalmente as relações em que produzem e reproduzem a sua vida material e espiritual. (tradução livre).9 6 Sexta-feira negra. o que se evidenciou foi um arrefecimento do movimento sindical e dos movimentos sociais organizados. não se observou.) . 9 . baseado no pacto del punto fijo. 169 O progressivo empobrecimento de grandes contingentes da população e o aumento das desigualdades sociais levaram a uma crescente polarização da sociedade venezuelana. ao contrário. precisamos olhar para a história. (tradução livre) Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.7 e da própria estrutura societária instaurada a partir dele. mas também ideológica da qual o país ainda não se recuperou. 8 A festa se acabou. foi usada a seguinte frase para sintetizar o estado de ânimo que esse fato provocou na população em geral: “la fiesta se acabó”.90 Bs/U$. a divisão e a luta de classe. o então presidente Luis Herrera Campíns desvalorizou substancialmente o Bolívar. Na época. mobilizações populares que efetivamente colocassem em cheque tais reformas.30 Bs/U$ passou para 9. Para entender o processo político venezuelano e a emergência do Projeto Revolucionário Bolivariano. A Venezuela também enfrentou esse mesmo refluxo e timidez sindical diante das reformas neoliberais. um aumento da pobreza acompanhado de uma ampliação das desigualdades sociais. indicam o denominado viernes negro6 como o marco de desarticulação do acordo democrático. ou seja. a moeda nacional. porque inspirado em Simón Bolívar. na maior parte desses países. A partir dessa data. mas a reação posterior do povo. (tradução livre).. Embora em todos os países latino-americanos que aplicaram as reformas neoliberais nas décadas de 1980 e 1990 tenha ocorrido o mesmo fenômeno. 7 Pacto do ponto fixo. entre eles Maya (2005). mas como resultado das contradições inerentes a cada complexo societário. que estava entorpecida pela distribuição de renda dos anos de 1960 e 1970. não como uma seqüência linear de fatos. os setores populares na Venezuela parecem Coleção Sociedade.. na qual de uma relação de 4. principal vítima das reformas neoliberais. Ellner (2003) e Márquez (2003). a desvalorização do Bolívar iniciou uma crise não só material. de forma muito intensa. Vários autores. (tradução livre). ao contrário. a proporção de venezuelanos que buscavam “mudanças radicais” em vez de ‘reformas parciais´ do sistema. fazendo reaparecer. não tem nada de tímida. foi crescendo “… la proporción de venezolanos que buscaban `cambios radicales’ en vez de `reformas parciales’ del sistema”. Em 21 de fevereiro de 1983. depois de mais de 25 anos de estabilidade econômica e política.

conhecido como caracazo. outro fato que marcou a história da Venezuela se deu em fevereiro de 1989. O caracazo ou sacudón. quer pelo fato de ser um grande produtor de petróleo e ter conseguido. Carlos Andrés Pérez. que via esse país como diferente de seus vizinhos latino-americanos. e os distúrbios que se seguiram ao longo dos anos de 1990 colocaram por terra a tese da excepcionalidade venezuelana. (Ellner. 170 Depois dessa ocorrência. que já revelava o nível de agudização das tensões sociais. Em reação às medidas de ajuste neoliberais impostas pelo acordo e como sintoma da degradação das condições de vida. entre elas um grupo cívico-militar denominado Movimento Bolivariano Revolucionário-200 (MBR-200). ao qual se vinculava Hugo Chávez. instituir uma melhor repartição da renda em nível nacional. que começou em 27 de fevereiro de 1989. teve início um levante popular. quando o exército foi chamado para controlar a revolta. Este levante. 2003). Educação e Sociedade Capitalista . que ocorreram no período seguinte ao caracazo. o ressentimento mútuo entre as classes baixas e os setores mais privilegiados da sociedade e a emergência de partidos políticos defensores das classes mais desfavorecidas. em certo período. 2003). quando o então Presidente da República. emergiram novas forças sociais. Nesse vazio de representação.000 mortos e durou até Unioeste . 2003). quer por uma pretensa maturidade política. que o levou à prisão bem como a outros militares rebeldes que o acompanhavam. rompendo com a tradição dos partidos multiclassistas que copunham o pacto. entre elas destacamos o crescimento da economia informal. que foi se evidenciando ao longo dos anos de 1990. logo após assumir o cargo. e que se estendeu para várias cidades do país. teve um saldo de mais de 1. anunciou a negociação do primeiro acordo do país com o FMI. articulador do fracassado golpe cívico-militar de 1992. fato que já vinha ocorrendo desde o viernes negro. esse organismo multilateral imputou uma série de políticas restritivas ao gasto público a serem adotadas no país. uma vez que as polícias não haviam conseguido. em Caracas. Nas inúmeras manifestações de protestos e reivindicações. Estado. http://www. A exemplo do que fez com outros países latino-americanos. ficou cada vez mais evidente a incapacidade dos sindicatos de defenderem os interesses dos trabalhadores informais e os partidos políticos de representarem as camadas populares. (Ellner.br/pos/educacao/ como também é chamado o levante pelos venezuelanos. A crescente polarização da sociedade venezuelana.Programa de Pós-Graduação em Educação 19 de março. expressou-se em pelo menos cinco frentes.unioeste. (Hellinger.

Na área social. por menores que fossem transformaram-se em polêmica nacional. A partir de então. sem contar o confronto cotidiano com a mídia. denominadas de missões. De todos os enfrentamentos que ocorreram entre o governo e a oposição. A partir desse momento. que até então estava nas mãos dos altos dirigentes da PDVSA (Petróleos da Venezuela SA). passou a implementar uma série de políticas de caráter massivo. 171 Mesmo encarcerado por dois anos (1992-1994). revelando a luta pela construção de uma nova hegemonia naquele país. sustentadas financeiramente com recursos advindos diretamente da PDVSA.) . Estado e Educação de petróleo. trata-se da greve ou paro petrolero. Chávez passou a simbolizar a possibilidade de mudança para o povo venezuelano que em 1998. Dentre as ações voltadas para a implementação do projeto bolivariano está a criação da Universidade Bolivariana da Venezuela. o governo de Hugo Chávez vem buscando implementar um projeto político que tem como objetivo “refundar a república” a partir da ampliação da participação do povo nas decisões políticas. tentativa de golpe de Estado. Chávez não teve tréguas. todas as questões. mas também não a deu aos seus adversários. referendo revocatório. que ocorreu entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003. um teve como resultado mudanças profundas nos rumos da política interna do país. protagonizou inúmeras e diferenciadas formas de enfrentamento com a oposição. apesar da debilidade e desarticulação inicial da oposição. Depois de quase três meses de paralização da produção de petróleo. Desde o início do Governo Chávez. político e social se quisesse dar continuidade ao seu projeto de país. o elegeu presidente da república. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. que simbolicamente ocupa o que foi uma das principais sedes da antiga direção da PDVSA. até greve com paralisação completa da produção Coleção Sociedade. por meio de diversos mecanismos constitucionais como o referendo e a consulta popular. desde manifestações massivas de rua. agora pela via democrática. em Caracas. estatal responsável pela exploração do petróleo naquele país. o Governo Chávez entendeu que teria que agir diferente no campo econômico. o governo conseguiu por fim à greve e assumir o controle efetivo da política petrolera do país.

no sentido de formar profissionais vinculados com as comunidades. comprometidos e Unioeste . Tais pressupostos orientaram e ainda orientam a criação/abertura de cursos de graduação e de pós-graduação na UBV. gestão social do desenvolvimento local. gestão em saúde pública e Medicina Integral Comunitária (MIC). 12 Desenvolvimento endógeno caracteriza-se como um desenvolvimento próprio a partir de. 2003: s/ p. agroecologia. al tiempo que da un vuelco a la vinculación de la Universidad con la realidad nacional y latinoamericana”. Educação e Sociedade Capitalista . do projeto de desenvolvimento endógeno12 (curso de gestão ambiental e agroecologia) ou da nova 10 alternativa ao sistema educativo tradicional.517 de 18 de julho de 2003. estudos jurídicos. voltada para o ensino superior.br/pos/educacao/ para realizar aportes significativos a la vida nacional”11 (UBV. arquitetura. gestão em saúde pública e Medicina Integral Comunitária). gestão ambiental. informação para a gestão social. estudos políticos. Para isso. (Venezuela.). Observe-se que todos os cursos propostos inicialmente buscam formar profissionais que possam de alguma forma contribuir para a implementação do projeto bolivariano. quer para dar conta de necessidades específicas do novo Estado em construção (curso de estudos jurídicos). com a nação e com outros países. com o intuito de ser uma “alternativa al sistema educativo tradicional.10 (UBV. 2007:1). 172 A UBV E O PROJETO REVOLUCIONÁRIO BOLIVARIANO A Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV) foi criada pelo Decreto Presidencial n. Busca criar e consolidar uma estrutura produtiva progressivamente autosuficiente. relevante e criativo para contribuir com ações significativas para a vida nacional.o 2. 2006: 20). seria preciso formar um novo homem com traços humanísticos. Com a criação da UBV e com a Missão Sucre. comprometidos com o projeto de “refundação do estado venezuelano” e com a reconstrução da “Venezuela bolivariana”. De início foram criados dez cursos de graduação. cuja formação deveria se pautar em um “nuevo modelo educativo capaz de generar conocimiento pertinente. (tradução livre). (tradução livre). quer seja respondendo a problemas críticos como o de habitação e saúde (com os cursos de arquitetura.Programa de Pós-Graduação em Educação solidários. 11 Novo modelo educativo capaz de gerar conhecimento pertinente.unioeste. que permita atender às necessidades de desenvolvimento social e humano das comunidades em intercâmbio solidário com outras comunidades. sendo eles: comunicação social. ao mesmo tempo em que muda a forma de vinculação da Universidade com a realidade nacional e latino-americana. relevante y creativo http://www. o governo pretendeu dar uma nova direção ao ensino de terceiro grau no país. Estado. para e por dentro.

passa pela refundação de todas as políticas públicas sobre outro propósito.14 (Ruiz. que prioriza as potencialidades e necessidades das comunidades locais. Criterios y Pautas para el diseño curricular de los Programas de Formación de la UBV de 2003. la cual constituye un instrumento que posibilita el cambio de mentalidad necesario para rescatar el valor intrínseco y social de todos y cada uno de los venezolanos. Portanto. a orientação geral para os desenhos curriculares deve “vincular el programa con el desarrollo integral del país y por tanto a desarrollar la identidad del egresado como profesional altamente cualificado. presentes na sede da UBV.) . eticamente responsável e cida- dão comprometido com a consolidação de nossa democracia. 2006: 1). o que não significa a transferência da responsabilidade de financiamento nem a ausência de uma articulação nacional. a refundação da República Venezuelana requer uma nova concepção de política social. Pelo próprio entendimento de desenvolvimento endógeno. 2006: 03). pasa por la refundación de todas las políticas públicas sobre otro propósito. a definição de quais cursos devem ser ofertados depende do planejamento e das demandas locais. que rompa com o instituído até então e ajude a edificar as bases de um novo Estado Democrático e Social de Direito e de Justiça. (UBV. 15 Vincular o programa com o desenvolvimento integral do país e portanto desenvolver a identidade do egresso como profissional altamente qualificado. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Nesse sentido. 173 dinâmica de participação protagônica13 (curso de informação para a gestão social e comunicação social). 13 O protagonismo é essencialmente a participação política que visa submeter os governantes ao mandato popular revogatório e proporcionar o autogoverno do povo mediante diversas formas constitucionais de participação. O entendimento do papel do ensino superior no processo de transformação da sociedade venezuelana é expresso por um dirigente da UBV nos seguintes termos: Construir el Poder Popular en nuestra naciente República Bolivariana. a qual constitui um instrumento que possibilita a mudança de mentalidade necessária para resgatar o valor intrínseco e social de todos e cada um dos venezuelanos. Coleção Sociedade. Estado e Educação en particular la Educación Superior. 14 Construir o Poder Popular em nossa nascente República Bolivariana. éticamente responsable y ciudadano comprometido con la consolidación de nuestra democracia”.15 Tal pressuposto compõe as Bases. em particular a Educação Superior. (tradução livre). localizada em Caracas. em todos os níveis. (tradução livre). De acordo com essa perspectiva. O conjunto de cursos. são princípios que orientam a estruturação de todos os cursos da instituição. daí a existência de uma política de municipalização da educação. não se reproduz igualmente em todas as regiões do país.

ao contrário. Hay que pensar que los republicanos del mañana. tendo a “eqüidade” e a “democratização” da educação superior como “los hilos conductores del proyecto educativo de la revolución”. a formação a ser desenvolvida na UBV não se pretende neutra.20 (UBV. (tradução livre). 2006: 04). em face de que o projeto de país que se pretende construir “requiere una apuesta a un proyecto educativo pensado para el mediano y largo plazo.17 Era “imposible pensar en iniciar un nuevo proyecto de país con el modelo educativo de nuestras Unioeste . a vinculação do processo formativo a um determinado projeto de sociedade é justificado como elemento fundamental para operar as transformações no campo social e econômico.19 (UBV. os alunos que freqüentam os cursos de graduação na UBV devem receber.br/pos/educacao/ que encarnen el espíritu republicano. (tradução livre). na formação acadêmica. Dessa forma justifica-se a criação de uma universidade que forme profissionais comprometidos com o projeto revolucionário em curso naquele país. Educação e Sociedade Capitalista . contido no projeto de país.Programa de Pós-Graduação em Educação universidades tradicionales”.16 (UBV. mas sobretudo a dimensão sócio-política necessária à intervenção e transformação da realidade social. 19 Tem a grande missão de preparar a geração de novos cidadãos e novas cidadãs. contenido en el proyecto de país. 20 Se pretende o desenvolvimento e a aplicação do projeto bolivariano nos conteúdos e formas em consonância com as transformações sociais e econômicas que se produzem na vida de nossa sociedade. 16 Requer uma aposta em um projeto educativo pensado para médio e longo prazo. a UBV “tienen la gran misión de preparar a la generación de nuevos ciudadanos y nuevas ciudadanas. “se pretende el desarrollo y la aplicación del proyecto bolivariano en los contenidos y formas en consonancia con las transformaciones sociales y económicas que se producen en la vida de nuestra sociedad”. técnica y humanísticamente para transformar su destino y el de la república”. Nesse sentido. técnica e humanisticamente para transformar seu destino e o da república. Com este entendimento do papel da formação no processo de transformação da realidade social. 2006: 04). http://www. por meio dos programas de ensino e das práticas pedagógicas. uma formação que contemple não só os aspectos técnico-científicos. 174 Justifica-se essa orientação. con alto contenido ético y de compromiso social”. Estado. (tradução livre).18 portanto. (tradução livre). Tem que pensar que os republicanos de amanhã serão os que devem estar armados ética. com alto conteúdo ético e de compro- misso social.unioeste. serán los que deben estar armados ética. 18 Impossível pensar em iniciar um novo projeto de país com o modelo educativo de nossas universidades tradicionais. Nessa perspectiva. 2006: 07). (tradução livre). 17 Os fios condutores do projeto educativo da revolução. que incorpo- rem o espírito republicano.

Em relação ao primeiro elemento.V. (Editores)) La política venezolana em la época de Chávez:: clases. as dificuldades encontradas pelo Governo Chávez na implementação de seu projeto por dentro de um estado corrupto. solidário e com um profundo sentido humanitário”. assuma o papel de ajudar a formar um novo homem com pensamento emancipado e descolonizado. 175 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base na análise empírica é possível afirmar que a criação da UBV se deu a partir de dois elementos distintos. De um lado. S. (Editores) La política venezolana em la época de Chávez:: clases. a explicação se encontra na necessidade de formação de uma nova Coleção Sociedade. S. HELLINGER. Este homem será o novo republicano. comprometida com as velhas estruturas e práticas burguesas. e de outro.. nos diferentes níveis de formação. In: ELLNER. HELLINGER. (Editores) La política venezolana em la época de Chávez: clases. “patriótico. J. tanto em nível individual. D. HELLINGER. LOMBARDI.. Caracas: Consejo de Investigación de la Universidad de Oriente/Editorial Nueva Sociedad. 2003. Caracas: Consejo de Investigación de la Universidad de Oriente/Editorial Nueva Sociedad. 2003. D. In: ELLNER. REFERÊNCIAS ELLNER. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. comprometida com o projeto bolivariano e com a “refundação da república”. polarización y conflito. (Prólogo) “El permanente dilema de Venezuela: ante- cedentes de las transformaciones chavistas”. D. sendo um meio para conseguir a justiça. com uma burocracia que se desenvolveu vinculada ao pacto do punto fijo. a igualdade e a integração social. Quanto ao segundo elemento. fazendo com que a escola. preparado para compartilhar a vida social e “construir a integração latino-americana”. Caracas: Consejo de Investigación de la Universidad de Oriente/Editorial Nueva Sociedad. S. portanto. como em âmbito coletivo. na medida em que tem como finalidade desenvolver o potencial criativo de cada ser humano. que favoreça a independência e a soberania.) . polarización y conflito. polarización y conflito. 2003. o papel central que a educação tem no projeto bolivariano. a educação é vista como uma variável de libertação. Estado e Educação burocracia. “El sindicalismo frente al desafio del chavismo”.

MAYA. HELLINGER. E. In: ELLNER. 2 de agosto de 2003. Caracas: Alfadil Ediciones.L. K. Acesso em: 15/03/2007. D. UBV. Caracas. Caracas: Consejo de Investigación de la Universidad de Oriente/Edito- rial Nueva Sociedad. Bases. S. D. P. NORDEN. “Por qué la gente voto por Hugo Chávez?”. el conocimiento y la reflexión de lo individual y lo colectivo como herramienta para la educación superior bolivariana. (Editores)) La política venezolana em la época de Chávez:: clases. UBV. Unioeste . (Editores)) La política venezolana em la época de Chávez:: clases. 2006.unioeste. polarización y conflito. HELLINGER.edu. 2003. (Editores)) La política venezolana em la época de Chávez:: clases. 2006. (mimeo). In: ELLNER. UBV.ubv.. 2003. polarización y conflito. M. Disponível em: www. Caracas: Consejo de Investigación de la Universidad de Oriente/Edito- rial Nueva Sociedad. Caracas.Gestión en Salud Publica.br/pos/educacao/ Venezuela”...M. 2005. HELLINGER. D. República Bolivariana de Venezuela. República Bolivariana de Venezuela. Ministerio de Educación Superior. Educação e Sociedade Capitalista .L. 2003.. D. Programa de Formación de Grado . Caracas: Consejo de Investigación de la Universidad de Oriente/Editorial Nueva Sociedad. RUIZ.ve. polarización y conflito. “La democracia em uniforme: Chávez y lãs fuerzas armadas”. Criterios y Pautas para el diseño curricular de los Programas de Formación de la UBV.Programa de Pós-Graduação em Educação ROBERTS. “Polarización social y resurgimiento del populismo em http://www. S. 176 MÁRQUEZ . In: ELLNER. Estado. Del viernes negro al referendo revocatório. S.

Duverger afirmou que somente alguns partidos fascistas fogem a esta regra. todavia não fez parte do vocabulário político até o século XVII. que se originou Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. pois ousam confessar às escâncaras que fazem a defesa de uma oligarquia dirigente.) . ou seja. as idéias de facção. sociedades comerciais. em um “facere” perturbador e danoso. a direção dos partidos – como da maioria dos grupos sociais (sindicatos. por outro. Estado e Educação é o resultado de duas forças antagônicas: as “crenças”. SEUS PARÂMETROS E SEUS CÍRCULOS DE PARTICIPAÇÃO Gilmar Henrique da Conceição INTRODUÇÃO Todas as civilizações forjaram sua própria doutrina da legitimidade. pois insuflava o povo. Segundo Maurice Duverger (1970). por um lado. A palavra predecessora de partido é a de “seita”. O significado desta raiz latina expressa a idéia de algo que era prejudicial à ordem vigente. os outros partidos também defendem uma oligarquia. movimentos sociais. associações. em toda comunidade humana. Em razão disso. Enquanto os partidos comunistas buscam uma “legitimidade de classe”. A palavra “partido” também se originou do latim “partire” (“dividir”). os partidos nazifascistas também buscam a sua legitimidade que repousa na idéia de “legitimidade aristocrática”. Assim. Como exemplo. “agir”). Em suas origens. “seita” e “partido”. “Factio” passou a indicar um grupo político empenhado na subversão. O PARTIDO POLÍTICO. a estrutura do poder Coleção Sociedade. muitas vezes diferentes uma das outras. sob a aparência de democracia. em consequência da disputa pelo poder. de seita e de partido estabeleceram algumas relações.apresenta o duplo caráter de uma aparência democrática e de uma prática oligárquica. Para ele. porém. etc) . Todo poder redunda em oligarquia e as oligarquias acabam se revestindo de legitimidade. porém praticam isto escondidamente. as “necessídades práticas”. As palavras “facção”. não apresentam os mesmos significados: facção se originou do latim “facere” (“fazer”.

unioeste. diferentemente. Desta maneira. Nesta mesma direção compreendeu-se que um mundo monocromático não é a única base possível da formação política. a palavra partido teve uma conotação menos negativa que facção. Idealmente. deveria-se tornar as facções o mais inofensiveis possível. especilmente. Em princípio.Programa de Pós-Graduação em Educação como sinônimos. igualando-os a uma facção perturbadora e danosa. que substituiu o termo seita. porém considerava-se que. os girondinos e os jacobinos. mas é prejudicial quando ocorre no interior de nossas forças aliadas. Os revolucionários franceses tinham uma concepção que buscava destruir “as causas” da facção. A palavra “parte” também está no verbo francês “partager” (“partilhar”) e em inglês temos o “partnership” (“associação”) e “participation” (“participação”). enfraquecia as forças revolucionárias. ele pode ser bom ou mau.temos uma palavra sujeita a duas influências semânticas: “partire”(expressando a idéia de divisão) de uma lado e “associação” (expressando a idéia de participação) de outro. havia uma virulência do facciosismo que. os revolucionários americanos. Do mesmo modo. mais enganosa e mais tortuosa. conforme se entendia. Os stalinistas também combateram o que chamaram por “divisionistas”. com a Revolução Americana. buscou-se controlar os efeitos das facções e não as suas causas. minando-as por dentro. buscaram diminuir “os efeitos” da facção. De qualquer forma. 178 do latim “secare” (“separar”. condenaram os partidos. “cortar”). o termo partido. os partidos políticos apresentam um sistema de crenças e de atos de fé. ou seja. muitas facções e/ou os “partidos” conspiravam contra a nova ordem que se queria instaurar. Entretanto. reforçou-se a idéia de partido como divisão e separação. Quando “parte” se tornou “partido” . Ocorre que naquele contexto de guerra civil. durante a Revolução Francesa. se não se podia impedir a existência de facções. Neste sentido. que separava e cortava a unidade católica. O facciosismo é bom quando ocorre nas forças inimigas. Durante o século XVII. e da dissenção para a “diversidade”.br/pos/educacao/ alguma forma. e especialmente ao dito “sectarismo protestante”. Aos poucos se compreendeu que a diversidade e a dissenção não são necessariamente incompatíveis com a ordem política. Educação e Sociedade Capitalista . Observemos assim que. da “intolerância” para a “tolerância”. facção e partido eram quase que equivalentes. que se enfraquecem. nem necessariamente a perturbam. Estado. passou a ligar-se à religião. a depender se está a nosso favor ou contra. a transição da facção para o partido baseou-se num processo paralelo: a transição ainda mais lenta. mas as duas palavras continuaram sendo utilizadas Unioeste . de http://www. parece que facciosismo é sempre divisão. desta para a “dissenção”.

Em outras palavras. as conclusões do pensamento de Bolingbroke são antipartido. Em razão disso. Hume. por isso não enfrentaram realmente o problema teórico. neste particular. Hume2 e Burke3 .) . Para este autor.. Estado e Educação um grupo de seguidores de uma idéia. tais como Bolinbroke1 . 2 A principal contribuição de Hume foi a tipologia que delineou a respeito do partidarismo com a distinção entre: “grupos pessoais” (típicas das pequenas repúblicas) e “grupos reais” ( facções e/ ou partidos típicos do mundo moderno). dava-se o nome de partido a Coleção Sociedade. Até 1850. que se criaram pela primeira vez instituições de direito privado. mas foi somente na Inglaterra. Ele situou o partido dentro do âmbito do governo ou seja. porém não utilizaram a palavra “partido”. quando concebeu a idéia de partido. Como acabamos de observar. colocou- se no meio termo entre Bolingbroke e Burke visto que considerou que abolir todas as distinções de partido pode não ser praticável. na idéia de partido. inclusive. que Montesquieu avançou. com o objetivo de congregar partidários de uma idéia política: o partidoWhig e o partido Tory. Giovanni Sartori (1982) aponta alguns nomes fundamentais para o estudo sobre partidos políticos. Considera-se. Hume. De fato. 3 Quem de fato deu uma grande contribuição foi Burke. o governo constitucional deveria ser conduzido pelos partidos. entretanto. associações de pensamento. O que havia eram grupos parlamentares. no século XVIII. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. talvez nem desejável num governo livre. clubes populares. chamavam-se “partidos” as facções que disputavam o poder. tendências de opinião. doutrina ou pessoa. na Grécia e na Roma antigas. 179 A IDEIA DE PARTIDO E SEUS PARÂMETROS Maquiavel e Montesquieu são citados (SARTORI. nas Repúblicas antigas. um pouco mais que Maquiavel. se aproximou. 1982). mais de Bolingbroke do que de Burke. em nenhum país do mundo (salvo os Estados Unidos) existiam partidos políticos no sentido moderno do termo. eles falaram em “partes”. antes que este viesse a existir. inicialmente. pois queria abolir as distinções de partido. tendo como núcleo a idéia da “tendência à coalizão”. Por isso. 1 Bolingbroke deu uma contribuição importante no sentido de compreender os partidos como “princípios que dividem um povo”. os partidos tinham um uso positivo e necessário. Hume condiderou que “os partidos de princípio” eram o fenômeno mais extraordinário e inexplicável até então surgido. pois ele considerava que todo partido sempre acabava em facção. admitiu que há partidos que “precisamos ter” ou um partido que deve acabar com todos os partidos (o “partido nacional”). como precursores da idéia de partido em um sentido positivo. por isso somente foi compreendido décadas mais tarde.

uma vez que oficiais e soldados portugueses que optaram pela nacionalidade brasileira. que começou em 1837. milícias e guerrilhas Unioeste . As organizações políticas ou parapolíticas que existiram antes da Independência consistiam-se numa espécie de sociedade secreta. Neste sentido.unioeste. que acabaram completando o quadro partidário do Império. Portanto. em parte. Estado. a partir da segunda metade do século XVIII. até o final do Império. de 11 a 12 de janeiro de 1822. No processo que culminou com a Independência. seus oficiais e soldados com maior experiência eram. Com o falecimento do ex-imperador e a reformulação constitucional. Esta separação é. Mas tivemos o aparecimento de um Partido Progressista e a fundação do Partido Republicano. a idéia de organizar a divisão e dividir os políticos em partidos se alastrou muito. A separação militar entre “exército brasileiro” e “exército português” se http://www. em 1870. Simplificando. tais organizações políticas deixaram de existir. Certamente as consequências da descentralização e as rebeliões provinciais da Regência alimentaram a formação destes dois grandes partidos. Os primeiros partidos políticos brasileiros que tiveram existência legal foram o Partido Conservador e o Partido Liberal. e sobretudo depois da Revolução Francesa e da independência dos Estados Unidos. mas todas elas orbitavam em torno do problema político criado pela abdicação. ideológica. e juraram defendê-la com dedicação. que se referiu a Partido Português e Partido Brasileiro. se usou este termo em território brasileiro. no Rio de Janeiro. organizaram-se sociedades mais abertas. pelo mundo. foi por ocasião da Indepêndencia do Brasil que. Do ponto de vista da hegemonia. até 1837 não se pode falar em partidos políticos no Brasil.Programa de Pós-Graduação em Educação passaram a integrar os regimentos de linha e forças regulares. e isto somente ocorrereu no Segundo Reinado (1840-1889). José Honório Rodrigues (1975). portugueses. Educação e Sociedade Capitalista . a maioria sob influência da maçonaria. inicia sua análise afirmando que o Exército brasileiro surgiu da organização militar portuguesa e que sua composição. Posteriormente à abdicação do imperador. a primeira fase partidária foi a monárquica.br/pos/educacao/ deu no confronto. que acabaram dominando a vida política até o final do Império. faziam parte do exército brasileiro. pelo Ato Adicional. Já os defensores das leis descentralizantes articularam-se no que passou a ser chamado Partido Liberal. trambém. 180 De fato. No caso de nosso país. em importante estudo sobre as Forças Armadas. digamos que o Partido Conservador objetivava reformar as leis de descentralização. pela primeira vez. A separação entre “português” e “brasileiro” foi feita militarmente. no Brasil.

O Partido Progressista – que teve curta duração – surgiu em torno de 1864. Estado e Educação da escravidão. apenas equivalia a “grupos”. de outro. existindo um Partido Republicano em cada Estado. Variava. Já na República Velha (1889-1930). tendo. dez mil filiados. e) o voto direto e universal e f) abolição Coleção Sociedade. Muitos clubes radicais se transformaram em republicanos. pelo Partido Progressista. partido brasileiro. a expressão “partido político”. Ao longo da história. de um lado. Murilo de Carvalho escreveu que ser republicano na época era equivalente a ser subversivo (MURILO DE CARVALHO. cuja composição era de liberais históricos. Seu programa reivindicava a) abolição do Conselho de Estado. os dois partidos monárquicos e. b) abolição da Guarda Nacional. o tempo do mandato dos Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Os pleitos eleitorais que escolhiam o presidente e o vice- presidente da República. o governador e o vice-governador ocorriam de forma separada. ao menos. os partidos políticos eram organizações regionais. Foram frustradas as tentativas de organização de partidos nacionais. sejam eles “ideológicos” ou “de aluguel”. Anteriormente. partido liberal e partido republicano. também. ainda que em suas diferentes fases. como mencionamos. com o novo Código Eleitoral. O Partido Conservador. esta exigência mínima subiu. fundado em 1870. Com o fim da ditadura varguista. se falasse em partido português. 1980). partido conservador. no mínimo. só passou a constar nos textos legais a partir da Segunda República. durante o Império. em 1950. aliás. segundo a qual o partido político – para ter permissão de atuação – deveria possuir. com cada um tendo estatutos e direções próprias. a existência de partidos políticos foi proibida e as eleições ficaram suspensas em torno de oito anos. o Partido Republicano. e passou-se a requerer cinqüenta mil filiados. era composto por conservadores dissidentes e liberais históricos. somente em 1864 foi elaborado o primeiro deles. Uma parte dos progressistas formou o novo Partido Liberal e outra ingressou no Partido Republicano. foi o do Clube Radical. em cinco Estados. e dissolveu-se em 1868. com caráter nacional. 181 o sistema partidário permaneceu tripartite. Para dificultar ainda mais. foi aprovada a Lei Agamenon. d) eleição dos presidentes de Província. observamos as dificuldades em se organizar pequenos partidos.) . Rigorosamente. O programa mais radical proposto oficialmente. c) eliminação da vitaliciedade do Senado. não apresentou qualquer programa escrito. Durante o chamado Estado Novo. No que se refere a programas partidários. no entanto.

a palavra pluripartidarismo significa. à atuação dos comunistas brasileiros. com cerca de 14 siglas partidárias elegendo políticos. tais partidos chamados “ideológicos” são perseguidos em vários aspectos. Educação e Sociedade Capitalista . Unioeste . digamos então que vigora. o PCB e o PPS. de modo especial. Habitualmente.Programa de Pós-Graduação em Educação sob certo aspecto. entre 1945 e 1965. não havia obrigatoriedade de domicílio eleitoral. em muitos países. Caso o candidato fosse eleito em mais de um Estado e em distintos cargos. Importa salientar que o PCB (Partido Comunista Brasileiro) experimentou um curto período de legalidade de apenas alguns anos (entre 1945 e 1947) mas marcou. como foi o caso do partido comunista. abramos um parêntese para nos referirmos. o pluripartidismo ou pluripartidarismo. tema importante para o nosso estudo. de maneira que um candidato podia disputar eleições em diferentes Estados e para distintos cargos. Sobretudo. Vejamos acerca dos três tipos de dissidências (“fracionistas”. de vários partidos políticos”. no Brasil.br/pos/educacao/ enquanto a palavra pluripartidismo significa a “pluraridade. a luta política elegendo um senador (Luis Carlos Prestes) e mais quatorze deputados federais. Existem hoje pelo menos três organizações partidárias que reivindicam a sua origem na fundação do PCB em 1922 (reconhecido mais tarde como seção brasileira da III Internacional): O PC do B. “pluraridade de partidários”. e este processo somente foi abortado com o golpe de 64. que no Brasil é chamado erroneamente. http://www. de pluripartidarismo. de fato. na prática. 182 governadores. Desse modo. A vida política brasileira da segunda metade do século 20. o político deveria escolher apenas um cargo para exercer o seu mandato. de modo geral. A propósito. “liquidacionistas” e “revisionistas”) que dividiram o PCB nos anos sessenta e nos anos noventa. podendo ser de quatro ou cinco anos. existe. A concessão Estado. estão impossibitados de se legarizarem os partidos nazifascistas e monarquistas. A atual Constituição Federal garante ampla liberdade partidária mas. e pequenos partidos. (dentre eles. como se os partidos de direita também não o fossem. de forma significativa. brevemente. conforme o que estabelecia a Constituição de cada Estado. Há também enormes obstáculos para a legalização de partidos de extrema-esquerda. é muito instável. Afinal. somente os partidos da “família socialista” são considerados ideológicos. notadamente. No Brasil. ocorreu a explosão daquilo que se chamou um “multipartidarismo”. Jorge Amado e Carlos Marighella). para simplificar. o chamado pluripartidismo. Desse modo. De qualquer forma.unioeste. ou existência.

decretou a cassação de todos os parlamentares do PCB. relativizando a luta revolucionária e fortalecendo a “via pacífica” para o socialismo. influenciadas pelo guevarismo) fortaleceu os “revisionistas” (liderados pelo PC soviético). Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. a Lei n. deu-se em termos provisórios e hesitantes. o PC do B surgiu fruto de um rompimento com a linha predominante. reivindicou para si o nome e o patrimônio simbólico do PCB. ao “surgir” ou . Durou pouco a legalização. a mudança deu-se de “do Brasil” para “brasileiro” para atender e viabilizar o registro do partido no TSE. fundado em 1922. mudanças de conteúdo no Estatuto e no Programa do partido somente poderiam ser feitas mediante um novo congresso para decidir sobre as divergências fundamentais. 183 do registro legal do partido comunista. O partido comunista somente voltou a ter permitida a sua legalidade no Governo Sarney. com mudanças programáticas e ideológicas profundas e conflitantes. Com relação aos debates internos. em 1945. portanto a sigla permaneceu a mesma. Até havia concordância com a mudança de nome de PCB. tornou-se inevitável o rompimento. uma questão central surgiu quando da mudança do significado do nome do partido. no PCB. Desse modo. quando. 211. que dava direção para os revisionistas brasileiros. O PC do B – refutou o que considerou “as calúnias de Kruschev” e denunciou “a linha revisionista promovida pelo PC Soviético”. Desse modo. em 1985. ao mesmo tempo em que o partido teria conseguido se depurar de tendências “liquidacionistas” (em geral. as questões eram de fundo teórico.ser “reorganizado” em 1962. de 07 de março de 1948. alterações no Estatuto e no Programa. era como consideravam as organizações dissidentes que se decidiram para a luta armada. com o significado de “partido comunista do Brasil”. “abandonava a perspectiva da luta de classes e buscava conciliação com a burguesia brasileira”. A sigla PC do B foi criada em 1962. segundo eles. de maneira que a sua militância passou a atuar tão somente na clandestinidade. a partir de uma histórica divisão no interior do PCB buscando retornar a uma possível legalização. e aliado a isso.como querem seus militantes . O PC do B portanto. considerada por eles como “revisionistas”. O grupo considerado Coleção Sociedade. para os chamados “fracionistas”. Estado e Educação “fracionista” surgiu nos debates travados dentro do PCB após o XX Congresso do Partido Comunista da URSS. com o significado de “partido comunista brasileiro”.) . conforme se entendia. Foi justificada pela interpretação ou alegação de que o partido comunista teria abandonado “os princípios marxistas- leninistas de revolução”. Mas. pois. para PCB.

pois em seu estatuto veda a formação de tendências ou frações internas. posicionamentos políticos do PC do B causam algumas polêmicas. reconheceu como “anticientífica” a adoção de apenas um modelo para a implantação do socialismo. Como a direção do PCB mantinha-se articulada a Moscou. quando Mao Tse-Tung criticou o processo de desestalinização em curso na URSS. e acusou Khrushchev de desvios “oportunistas” e “reformistas”. Em 1978. indicou para o partido a adoção de uma nova política internacional que buscava “rearticular e reaglutinar as forças marxistas-leninistas e socialistas”. influenciadas pelo guevarismo: a Ala Vermelha do PC do B e o Partido Comunista Revolucionário (PCR). Estado. Mesmo tendo abandonado o stalinismo em 1992.unioeste. A partir de então. o PC do B manteve-se estruturalmente como um partido organizado sob os moldes da III Internacional Comunista. Enquanto o PCB “revisionista” abandonava definitivamente a influência de Stalin. 184 e reivindicou ser o legítimo herdeiro e sucessor do antigo PCB. em seu 6º Congresso. A adesão definitiva do PC do B ao maoísmo deu-se em 1966. como “vanguarda consciente da classe operária e liderança fundamental na direção do Estado e no processo de formação da consciência social socialista.Programa de Pós-Graduação em Educação progressivamente do maoísmo. que enviou emissários para formalizar a vinculação ideológica com as diretrizes do Partido Comunista da China. A derrota da Guerrilha do Araguaia e a nova política adotada pela China a partir da morte de Mao. em 1976. O PC do B combate o “fracionismo” em suas forças. cada um a seu modo. o PC do B acompanhou Enver Hoxha na sua crítica aos dirigentes chineses e passou a considerar apenas a Albânia como país socialista. No campo da esquerda e da extrema-esquerda.br/pos/educacao/ “revisionistas”. na condição de último baluarte do stalinismo. e manteve em seu programa a idéia do partido como agente educativo. Na mesma época. a defender a sua própria interpretação. a crise entre a União Soviética e a China atingiu o seu auge. a cisão de Mao com os “revisionistas” atraiu a simpatia do PC do B. o PC do B “fracionista” manteve o stalinismo como uma de suas referências teóricas e práticas. levaram o PC do B a romper com o maoísmo. definiu o deslocamento do PC do B para o campo da extrema-esquerda. a ruptura com a Albânia. Os dois partidos – PCB e PC do B . inspirada no maoísmo. considerando apenas a China Popular e a Albânia como países comunistas.separados desde então. o partido aproximou-se Unioeste . Em 1968 foi a vez do PC do B sofrer duas cisões internas. determinando uma política permanente de unidade. notadamente. e que os demais eram http://www. Educação e Sociedade Capitalista . passaram. naquele momento. Em sua autocrítica. Posteriormente. A organização de uma importante guerrilha.

acompanhando o processo que ocorreu com os partidos comunistas da Europa Ocidental. um divergente setor minoritário da militância do partido rompeu politicamente com a linha predominante. ou seja. o PCB mudou de nome pela segunda vez. Fechemos estes parênteses a respeito da atuação dos partidos comunistas no Brasil. manteve-se organizado sob o nome antigo. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. porém. que combate o que considera “o governo neo-liberal de Lula”. O dirigente cubano. Itália. Colômbia. diferem apenas. pelo “fortalecimento do socialismo” e pela sua “importância na luta antiimperialista”. agora é cumprimentada pela direção nacional do PC do B. e o PCB. no Estado burguês a forma de eleição é normalmente realizada por voto secreto e em intervalos regulares. Alemanha. já no Império tínhamos alguns setores políticos que discutiam a idéia de república. França. os deputados à Câmara dos Representantes a cada dois anos e o senador para um mandato de seis anos. com eleição a cada dois anos para escolha de 1/3 (um terço) das cadeiras. em 1992. Pelo fato de que. no mundo todo. após o X Congresso do PCB. A eletividade do mandatário e a transitoriedade do mandato eletivo são fundamentos que guardam o bem do interesse público.sem exceção . elegem o presidente a cada quatro anos. México. no passado era criticado por sua ligação com o “revisionismo de Moscou” e com o guevarismo. por exemplo. não menos polêmica foi o posicionamento do PC do B em relação à China pós-Mao que era caracterizada anteriormente como “social-imperialista”. com o desmantelamento do chamado “socialismo real”. Irlanda. Em termos de países. mais uma sigla passou a disputar o patrimônio simbólico de 1922: o PPS. Nos anos 1990. Como vimos. existem hoje pelo menos três partidos que reivindicam filiação com o PCB de 1922: o PPS. mas agora tem sido saudado como dirigente revolucionário. das aproximadamente 165 repúblicas atuais. A exemplo da reaproximação com a China – com quem havia rompido nos anos 70 – o PC do B tem reavaliado sua política em relação a Fidel Castro e Cuba. Suíça e outros. O conceito de “república” está intrinsecamente ligado ao de “democracia”.mantém eleições separadas e regulares para todos os níveis de poderes legislativo e executivo. conservando a sigla PCB.) . nos anos 1980. mas. passando a Coleção Sociedade. como Estados Unidos. Os Estados Unidos. Estado e Educação chamar-se PPS (Partido Popular Socialista). o PC do B. Todos esses países . apenas 11 mantém regimes democrático- burgueses há mais de 30 anos. 185 Atualmente. Dessa forma. no tempo de mandato dos agentes políticos.

mas também a organização como um todo. fundamentalmente. Inclusive há aqueles que defendem que a questão da “fidelidade ao programa” também deve ser responsabilidade do partido.Programa de Pós-Graduação em Educação qualquer caso. há uma concordância quase unânime quanto ao fato de que a distinção entre sistemas unipartidários. Nestes casos. governador e presidente) são dos partidos. permanecendo sob controle http://www.br/pos/educacao/ das classes dominantes. encontramos inúmeras classificações e tipologias dos sistemas partidários. na compreensão do conceito de partido utilizado neste estudo. Desse modo. e não de quem os exerce. Em razão disso. deputado estadual e deputado federal) e que os mandatos majoritários (prefeito. são eles que arrastam tais partidos. Claro que há exceções (que só confirmam a regra) tendo em vista candidatos conhecidos no meio artístico.unioeste. mesmo os militantes mais radicais e as organizações mais isoladas ou extremistas têm vínculos explícitos e implícitos num sistema complexo de ramificações. tal como estabelece a legislação pertinente. bipartidários e multipartidários não é muito adequada Quase todos os estudiosos apresentam um esquema próprio. Em nossos dias. Na atualidade. não é somente o político que pode ser “infiel”. Estado. nenhuma pessoa se elege se não for filiada a um partido político. Um dos temas debatidos no parlamento brasileiro é o da questão da fidelidade partidária.Em Unioeste . nenhum candidato alcança no sistema proporcional o quociente eleitoral para se tornar deputado ou vereador sem a soma dos votos obtidos pelo partido numa eleição. a partir da díade esquerda-direita e das diferentes concepções que permitem diferentes classificações. com enorme popularidade. Como exemplo disso podemos citar o médico e político Enéas (cujo conhecido bordão era : “meu nome é Enéas”) que. argumenta-se que os mandatos proporcionais (de vereador. Educação e Sociedade Capitalista . visto que o partido pode abandonar o programa pelo qual recebeu votos. Neste sentido. por exemplo. é importante a idéia de partidos enquanto “partes” que compõem um determinado tipo de “família”. Neste caso. apesar de pertencer a um pequeno partido. que se lançam por siglas desconhecidas e se elegem com grande percentual de votos. senador. De fato. argumenta-se que deve ser garantido ao parlamentar a possibilidade de romper com o partido que passar a ser infiel ao programa. a fraqueza do sistema partidário é sintoma da não institucionalização da participação política. 186 Queremos salientar que. alcançava cifras espantosas de votos. Além disso.

é eficiente em esconder os rastros. em nossos dias.) . o que acabou levando ao chamado bipartidarismo. como forma de controle sobre os parlamentares. a extrema- direita defendeu a fidelidade partidária como sinônimo de fidelidade canina à ditadura. o programa e a prática do partido revolucionário. porém modificou constantemente a legislação que orientava os partidos e as eleições. pela Emenda Constitucional nº 25. a ditadura militar procurou. A ditadura militar que se seguiu ao Golpe de 64 buscou estabelecer. Entretanto. muitos dos partidos políticos do Brasil servem apenas de abrigo para políticos sem compromissos com a vida pública. em 1965. Muitos deles entendem que a valorização do candidato em detrimento do partido tem propiciado uma situação que facilita a migração partidária. entretanto a maioria dos parlamentares parece concordar com a idéia de que a fidelidade partidária é outro aspecto indispensável ao fortalecimento das instituições políticas. A Constituição Federal de 1988 reeditou-a. 187 Historicamente. na maioria das vezes. garantir a estrutura do sistema do pluripartidismo (ou pluripartidarismo). portanto. Já a extrema-esquerda. cujo artigo 152 estabelecia a perda do mandato ao parlamentar (senador. em lei. Atualmente. De maneira que há uma pergunta importante que diz respeito à questão: a qual fidelidade partidária estamos nos referindo e em que constexto? Direita e esquerda são “ideológicas”. quando se deu sua revogação. nas eleições que elegeram os novos governadores. ainda que muitas pessoas acusem disso somente a esquerda A idelogia da direita. com a vitória de candidatos de oposição. frente à ausência de compromisso com os programas partidários. A fidelidade partidária foi introduzida no Brasil pela Coleção Sociedade. a extrema-direita defendeu a fidelidade partidária e. Esta Emenda vigorou até 1985. Além das “siglas de aluguel”. neste sentido. naquela conjuntura. mas não estabeleceu punição ao parlamentar “infiel”. sempre defendeu a fidelidade partidária com vistas à coerência entre o discurso. muitas vezes com finalidade meramente eleitoral ou pessoal. se opuser às diretrizes legitimamente estabelecidas pelos órgãos de direção partidária ou deixar o partido sob cuja legenda foi eleito”. que extinguiu os partidos políticos existentes. Todavia. formalmente. de 1969. mas Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. deputado ou vereador) que “por atitudes ou pelo voto. Estado e Educação Emenda Constitucional nº 1. a ditadura teve que mostrar o que procurava grosseiramente maquiar e decretou o Ato Institucional nº 2. com o golpe militar de 64. No ínício. como forma de submissão da sociedade. a fidelidade partidária. a extrema-esquerda também defende isso.

Muitos partidos políticos “incendiários”. no nome. Michels. partidos de extrema-esquerda podem mudar de família.Programa de Pós-Graduação em Educação maior oligárquico no interior da organização. de uma nova minoria organizada. nazistas. O partido político revolucionário é um pequeno Estado dentro do Estado e tem por finalidade destruir o Estado burguês para substituí-lo pela ditadura do proletariado. influenciado por Max Weber. igualmente descompromissados com o público. quando seu leque de alianças se amplia. considerado um clássico. Estado. De qualquer forma o popularmente chamado “troca-troca” de siglas partidárias tem sido muito comum. um Partido Facista. Michels afirmou que o princípio de organização deve ser considerado como a condição absoluta da luta política conduzida pelas massas. Socialista. na medida em que o crescimento do partido de esquerda implica em seu deslocamento para o centro. referiu-se à “lei de ferro da oligarquia”. considera que o predomínio da burocracia nos partidos políticos. Porém.br/pos/educacao/ sempre conservador. claramente sua ideologia . socialistas e comunistas ocorre por uma necessidade técnica. Robert Michels analisando o SPD. o fortalecimento e ampliação da organização. Comunista. enfim. se tornam partidos políticos “bombeiros”. quando crescem eleitoralmente. segundo Michels. dentro destes novos grupos. Educação e Sociedade Capitalista .como fez. porém a nova proposta de legislação para os partidos visa exatamente coibir esta prática.unioeste. com as políticas sociais. o principal partido de organização de massas na viragem do século XIX para o século XX. tende a corromper o partido. com o passar dos anos. Nazista. quer dizer. segundo a qual “quem diz organização diz necessariamente oligarquia”. na emergência. Há partidos que procuraram definir. Em seu estudo sobre os partidos políticos. na realidade desloca-se para a direita. 188 interessados em garantir vantagens. o trabalhador desorganizado é uma presa fácil do capital. Estes partidos também foram chamados de Partidos de Massa. que se eleva à categoria de classe dirigente. Como conquistar e manter o poder? A organização política conduz ao poder. pois a organização é uma arma de luta contra os fortes. Assim. por exemplo. Quem conquistou o poder quer conservar e ampliar o poder. Robert Michels (1982) argumentou que não se concebe democracia sem organização. especialmente nos partidos fascistas. ainda que tenha apontado a formação de um estado- Unioeste . Até mesmo partidos revolucionários. Todo partido de esquerda que se desloca para o centro. defender interesses pessoais ou de pequenos grupos. ou em outras palavras. mas o poder é http://www. quando “amadurecem”. nos primeiros anos de sua existência.

pois indicava a corrupção essencial das sociedades da época. o social-democrata da Alemanha. sobretudo. em que se inspirou o autor italiano nascido na Alemanha. principalmente. Segundo Duverger. Os partidos são fenômenos complexos. Na Inglaterra. entre outros. Para analisá-los e descrevê- los é necessário localizá-los na história. dominado pelos políticos profissionais e pelos aparatos partidários. A análise dos partidos. somente apareceu efetivamente no decurso da segunda metade do século XIX. Estado e Educação Podemos situá-lo em diversos ângulos. para estudá-lo em toda sua complexidade. Por essa razão. tais como movimentos sociais. no conjunto nacional (e internacional) de que são partes. o seu aspecto organizacional. a corrupção reforçou a estrutura dos grupos parlamentares e consolidou. Os sistemas de partidos são diferentes maneiras históricas de resolução dos conflitos político-sociais. o caráter de “aparelho” ou “máquina”. considerando. publicado em Londres. 189 Vimos que o partido político que se delineia a partir da modernidade e sobretudo no processo a que se seguiu com a consolidação do poder burguês. em 1902. por exemplo. na América Latina. Os partidos são canais em que o poder legalmente constituído busca institucionalizar as diversas clivagens. No primeiro ponto de vista. grupos de pressão. cultura política. Duverger afirmou que aspectos negativos da política podem contribuir para aprimorá-la. a política já não era o resultado das opções dos cidadãos informados e livres.) . que prevaleceu na primeira metade do século XIX. pode se dar sob o enfoque do estudo das idéias políticas e da investigação sociológica. Ostrogorsky argumentava que a ordem social e política do século 19 vinha sendo mantida graças a uma sociedade tradicionalmente estratificada e que o individualismo a tinha erodido. O fenômeno partidário é passível de vários tipos de análise. no meio social. ele analisou os partidos políticos americanos e ingleses. Depois. O segundo foi dedica- do ao mais famoso partido europeu. Coleção Sociedade. mas sim o produto da organização mecânica do sistema político. a estrutura dos comitês eleitorais. situados no espaço e no tempo. No primeiro volume. a darmos crédito 4 No início do século 20 o russo Moisei Yakolevitch Ostrogorsky se tornou conhecido com o livro “Democracia e a organização dos partidos políticos”. sistemas eleitorais. os estudiosos da sociologia política enfatizaram as estruturas do partido. considerando-se que entram em relação com outros elementos que compõem os sistemas políticos. organização era a palavra-chave. Os partidos políticos não constituem fenômenos ilhados da sociedade. como resultado das relações de força que se exprimem nos conflitos. A abordagem organizacional ou estrutural prevaleceu com Ostrogorsky4 . Para ele. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. o partido é considerado como o porta-voz de uma “doutrina”. numa certa fase do desenvolvimento democrático. Robert Michels. Michels e Bryce. grupos de interesse.

a corrupção teria ocupado lugar assaz importante no desenvolvimento dos grupos parlamentares britânicos. “whips” passou a designar aquelas pessoas que compravam votos e que fiscalizavam os discursos e os votos de quem Unioeste . Em sua obra. na qual segue a linha inaugurada por Robert Michels e continua sendo uma das principais obras dedicadas a este tema até os dias de hoje. senão da consciência dos deputados. que centraliza todos os Estado. Duverger centrou-se no estudo da influência das doutrinas sobre as estruturas partidárias.br/pos/educacao/ Inclusive. A obra mais reconhecida de Duverger é a dedicada aos partidos políticos.Programa de Pós-Graduação em Educação recebia pagamento. entretanto. sociedades de pensamento. possuem origem externa. inicialmente. http://www. aplica-se perfeitamente aos países centrais do capitalismo. com o apuro das atuações parlamentares. os ministros ingleses asseguravam a si sólidas maiorias mediante a compra de votos. Duverger perguntou em seu referido livro se corrupção parlamentar não engendrou (seja pela ação. Ele ressaltou a importância que os fenômenos de corrupção assumiram. o nome whips” era originalmente a denominação do chicote que dirige a matilha em direção ao animal perseguido. Os primeiros nascem e se desenvolvem com a democracia. a distinção fundamental continua a ser dos “partidos de quadros” e “partidos de massas”. Este recuo faz com que os partidos tornem- se uma organização burocrática e rígida. com a extensão das prerrogativas parlamentares e do sufrágio popular. constitui-se em uma organização autocrática e oligárquica. Educação e Sociedade Capitalista . 190 a Ostrogorsky. No âmbito da estrutura e da vida interna dos partidos. Duverger fez uma distinção entre partidos de criação eleitoral e partidos de criação externa. é visto como ente aglutinador de indivíduos politicamente dispersos. seja pela reação) um fortalecimento da organização interior dos grupos de deputados. Atualmente. etc. porém adapta-se mal aos novos Estados daquilo que foi chamado Terceiro Mundo. Mais tarde. Para ele. Por muito tempo. tais como sindicatos. Os segundos foram gerados fora do mecanismo eleitoral e parlamentar. em que a crença por parte da população na “infalibilidade” dos comandantes provoca um recuo do “espírito crítico” em relação ao “espírito de adoração”. o partido político. O modelo de Duverger. que Duverger formulou em 1951. Na Inglaterra. A coisa era oficiosa: havia na própria Câmara um guichê onde os parlamentares iam receber o pagamento de seu voto.unioeste. como meio de um governo resistir a uma pressão crescente das assembléias. na ocasião das votações. “the whips” passou a apresentar outro significado. A partir desta metáfora. isto é.

assim ele propõe alguns tipos de comparações. Não obstante as diferenças entre elas. os partidos políticos já atuavam na maior parte das nações civilizadas. que identifica uma correlação entre um sistema de eleições e a formação de um determinado sistema partidário. tais como: a) comparação das taxas de adesão de um mesmo partido em diferentes épocas. Estado e Educação Duverger é um princípio que afirma que o sistema eleitoral majoritário conduz a um sistema bipartidista e que o sistema eleitoral proporcional tende à multiplicação dos partidos. os “partidos” eram facções que dividiam as repúblicas antigas. as organizações populares. existiram outros que tiveram origem externa. os clãs. Em relação ao nascimento dos Partidos Políticos. uma vez que o sentido moderno de partido político surgiu muito tempo depois. b) comparação das taxas de adesão de um mesmo partido nas diferentes regiões do país. Estes teriam tendêndia a estruturar-se de maneira mais centralizada. dez anos depois. passou-se a enquadrar os eleitores em comitês. Ele formulou uma teoria conhecida como lei de Duverger. provocando assim uma descentralização e disseminação dos partidos. Em outras palavras. Além desse tipo de partido. todas estas instituições apresentavam um ponto em comum: conquistar o poder político e exercê-los. Entretanto. não permitindo a existência de outros partidos políticos. os clubes revolucionários. Duverger defende a teoria de que ele está relacionado ao surgimento dos grupos parlamentares e aos comitês eleitorais. em razão disso não é possível compará-los indiscriminadamente. a lei de Coleção Sociedade. nasceram de instituições pré-existentes. formando sistemas fechados e assemelhando-se ao que Duverger chamou “seitas religiosas”.) . O PARTIDO E SEUS CÍRCULOS DE PARTICIPAÇÃO Duverger formulou duas outras questões. Os membros do parlamento. Estamos nos referindo propriamente aos “protopartidos. à medida que este conquistava novos poderes. por exemplo. 191 poderes administrativos.políticos. sentiram a necessidade de se agruparem para atuarem em comum acordo. somente os Estados Unidos tinham partidos no sentido moderno do termo a que nos referimos. Com a ampliação do direito ao voto. os comitês. Segundo Maurice Duverger. Em 1850. sendo a primeira: qual a relação dos adeptos com os eleitores? A “adesão” não tem o mesmo significado em todos os partidos. ou seja. nas Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.

não se reduz ao simples estudo da estrutura partidária. é vaga e http://www. Para compreendermos o partido político. diferentes da que rege as variações dos eleitores. Apesar de superficial e fragmentária. ou seja. ou eles variam? Frequentemente ocorre que a dinâmica de crescimento não seja a mesma para os eleitores e os adeptos. 192 categorias sociais e nas classes etárias. etc. porque para se conhecerem teriam que declarar o voto. podemos salientar a idéia de uma disparidade entre eleitores e adeptos. A categoria de “simpatizante”. os seus ritos. eles não se conhecem. ao declarar o voto. O projeto partidário vincula- se aos objetivos do partido e à organização. que se caracteriza inicialmente pela publicização de um voto habitual em um partido. Simpatizante é mais que um eleitor e é menos que um adepto. Por outro lado. pode- se analisar também a imagem que o partidário tem da sua organização. da significação de sua adesão. c) comparação das taxas de adesão dos partidos semelhantes. considera-se o partido como uma sociedade especial. pois.unioeste. ele deixa de fazer parte do grupo dos eleitores. pelo fato do voto ser secreto. ou um “militante”. de seu projeto político. como um microcosmo específico. A ação dos partidos na vida política se realiza mediante a Estado. Tudo parece ocorrer como se os adeptos constituíssem uma esfera fechada em relação aos eleitores. consequentemente. não são os adeptos que determinam a dinâmica dos Unioeste .Programa de Pós-Graduação em Educação eleitores.br/pos/educacao/ complexa. Educação e Sociedade Capitalista . as questões do projeto partidário e da organização ocupam um lugar importante e estratégico em suas implicações teóricas e práticas. A segunda questão é: há um desenvolvimento paralelo dos eleitores e dos adeptos. quando aquela se reduz. Não existe uma “comunidade de eleitores”. Um aspecto importante é que aquele eleitor que declarar o seu voto habitual não é mais um simples eleitor: ou seja. em países diferentes. ele começa a se tornar simpatizante. há uma “comunidade de simpatizantes”. com suas leis. Como vimos. e a elevar-se. os seus sentimentos coletivos. Sob este ponto de vista. aos meios que permitem assegurar o primeiro. O estudo da unidade partidária. da natureza do laço de filiação ideológica. A manifestação deste eleitor já traz em si um elemento de propaganda e um certo nível de adesão. Constatou-se que a taxa de adesão tende a baixar quando o número de eleitores se eleva. contrariamente. Em razão disso. a que se segue normalmente à leitura do jornal do partido e ao comparecimento a algumas das manifestações do partido. Parece que as reações e comportamentos gerais obedecem à dinâmica própria. no entanto.

que tende ao centro. costuma-se dizer que. ou mesmo numa “esquerda nazifacista”. e uma esquerda extrema. direita e “centro”? Uma delimitação inicial em estudos sobre partidos políticos que é importante para a compreensão de seu sentido é a que se refere às polarizações fundamentais entre os partidos e dentro dos partidos. posições intermediárias (centro-direita. por exemplo. e portanto têm uma definição relacional e comparativa. o de “esquerda” e o PSD (Partido Social Democrático). Desse modo. Em seu contexto histórico. À idéia de “esquerda”. a depender de quem delas se serve e o contexto em que tal apropriação ocorre. situada mais à direita. entre a direita e a esquerda. Neste sentido. o de “centro”. mas dizem respeito à realidade concreta que se quer analisar. colocam-se. Tais parâmetros não são pré-estabelecidos. direito e centro são acompanhados de valores e de emoções. tem sentido falarmos. direita. no âmbito da esquerda localiza-se uma esquerda moderada.) . No caso do Brasil. em cada um dos partidos há uma direita. ainda que talvez possa causar espanto. em alguns momento. são parâmetros que têm a ver com o contexto político-social. Desse modo. e uma esquerda. quais sejam: esquerda. numa “esquerda militar” (MORAES. convergências e divergências que tornam possíveis as mais variadas combinações. Assim. centro-esquerda) e posições extremistas (extrema-direita. também pode ser considerado de “extrema-esquerda” e a AIB (Ação Intregralista Brasileira). esquerda e direita são parâmetros flexíveis. Direita e esquerda também têm um significado descritivo e um significado avaliativo. entre si. mas definir como positivo um dos pólos não depende do Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. podemos pensar quase todo tipo de sistema partidário e organizações políticas em termos de “de esquerda” e “de direita”. que se contrapõe ao centro. o centro pressupõe a. Coleção Sociedade. centro se é que existe centro. 193 organização. que assegura aos partidos as condições para trabalhar em direção do cumprimento de seus objetivos. 1991). Mas. dependendo do que estamos nos referendando como parâmetro. Como vimos. Estado e Educação qual a importância dos parâmetros esquerda. O PCB dos primeiros anos. extrema-esquerda). Nas chamadas “sociedades democráticas”. “esquerda” tem dois significados axiológicos que podem ser positivos ou negativos. o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). como é um parâmetro e não um conceito. afinal. de “extrema-direita”. Assim. antítese: se existe o centro. ideológica e nacionalmente. a UDN (União Democrática Nacional) pode ser considerada o principal “partido de direita”. que nos ajudam a entender o fenômeno político. por exemplo. mais à esquerda. As partes têm. esquerda.

necessariamente. nos livros. Unioeste . Rigorosamente falando. no interior de cada partido podem existir setores de extrema-direita e de extrema-esquerda. Marx também era conhecido como “Old Nick” (Satanás). Como os partidos não se mantêm imóveis em sua trajetória. compõem as noções de base que informam genericamente o funcionamento das sociedades contemporâneas. nas universidades. além é claro.br/pos/educacao/ sindicatos. que na realidade é anti-partido.Programa de Pós-Graduação em Educação Os termos direita e esquerda também remontam à Revolução Francesa. transgressão e ruptura parecem acompanhar o significado histórico do termo “esquerda”. em alguns detalhes religiosos. etc. a aura negativa e destrutiva acompanham a palavra esquerda: segundo a Bíblia. há diferenças profundas e antagônicas entre ultra-esquerdismo e extrema-esquerda. direita e esquerda tornaram-se categorias universais da política. c) extrema-esquerda e ultra-esquerdismo. Nos cultos afro-brasileiros. em suas diferentes linhas e falanges. agrupamentos ou pessoas podem “estar à esquerda” circunstancialmente e não “ser de esquerda”. Além dos aspectos simbólicos. de “esquerda” ou de “centro”. de “extrema-direita” e de “extrema- esquerda”. pois na intimidade. Curiosamente. Estas palavras são muito utilizados nos partidos. Partidos. os bons se sentam à direita de Deus. Entretanto.unioeste. Há também a posição política de “ultra-esquerdismo”. em oposição à direita. os maus à sua esquerda. é importante ressaltar que a aspiração à igualdade econômica aparece como a razão fundamental dos movimentos de Estado. movimentos pendulares de força política atraem-nos ora mais para a direita. Educação e Sociedade Capitalista . “ser de esquerda”. As idéias de negação. Inicialmente. ora mais para a esquerda. Um detalhe que considero importante é que “estar `a esquerda” não significa. A partir destas considerações quero mencionar algumas questões relativas às diferenças entre: a) esquerda e direita. nos movimentos sociais. b) esquerda e extrema-esquerda. A figura de Satanás – o anjo preferido do Senhor que se rebelou contra Deus – parece acompanhar Marx. nos debates públicos. e eles podem resistir a estas atrações ou não. e sim dos juízos de valor que são atribuídos às coisas descritas. esquerda é uma categoria que agrega entidades negativas e das trevas. cada partido como um todo pode ser entendido e situado como de “direita”. nos jornais. nas revistas especializada. na rádio. Se pensarmos o partido como “parte”. nos http://www. 194 significado descritivo. que é o reino do bem e da luz.

quer se utilizar de métodos eleitorais e parlamentares. nos processos insurrecionais. Um outro aspecto fundamental. no momento em que a esquerda se torna revolucionária e fortalecida. em circunstâncias de particular tensão social. ou seja. a extrema-esquerda apresenta uma centralização bastante desenvolvida e uma disciplina mais rígida que outros partidos. é declaradamente crítica do parlamento (embora não em absoluto). é a visão de que os conflitos sociais – em última instância – exprimir-se-ão em confrontos armados. seja qual for o fim por ele prefigurado (de esquerda ou de direita) milita pela ruptura da ordem social. Deste ponto de vista. Entretanto. pois relaciona-se com a proposta de ruptura da ordem econômico-social. e por isso trabalha arduamente para eleger alguns dos seus representantes. que julgamos pertinente na busca de uma caracterização da extrema-esquerda. Considera que apesar de as eleições serem necessárias para o funcionamento da democracia e da legitimidade. ela passa para o campo da extrema-esquerda. passando a atuar predominantemente em ações diretas. Pensando nos extremos da vida partidária. pois ambas atuam contra a “ordem”. a formação de uma esquerda Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. e recusa-se a pensar que transformações fundamentais possam ocorrer por sua via. a primeira busca a ruptura do capitalismo tendo em vista uma sociedade economicamente igualitária. P. entende que a participação nas eleições parlamentares e a luta através da tribuna parlamentar são necessárias para educar. os processos eleitorais são secundários. despertar e instruir o povo. a segunda busca a ruptura tendo em vista a defesa do capitalismo. Há um ponto comum entre extrema-esquerda e extrema-direita. podemos colocar uma questão: como diferenciarmos. 93). Para a extrema-direita. 195 esquerda. Norberto Bobbio (1992. No geral. a ruptura destina-se a criar uma outra ordem. aqueles que são de esquerda daqueles que são de extrema-esquerda? Uma das diferenças básicas: a esquerda atua dentro da “ordem” e quer se servir do parlamento para a conquista do poder. O extremismo. a sua verdadeira ação é a agitação política. portanto. Coleção Sociedade. Estado e Educação são insuficientes em si mesmas. Porém. e os de direita apóiam-se sobre a idéia do não-igualitarismo. A extrema-esquerda. há circunstâncias em que a extrema- esquerda poderá se abster de participar do parlamento. a construção partidária e a ação direta. a ruptura da ordem destina-se a preservar o status quo. Para a extrema-esquerda.) . entre os partidos. para a extrema- esquerda. escreveu que a tendência ao deslocamento para as posições extremas tem por efeito.

Educação e Sociedade Capitalista . para Lênin. havia uma esquerda mais à esquerda e uma direita mais à direita. etc) que. Lênin lançou o combate político pelo êxito da revolução socialista dentro do Partido Bolchevique onde. se encontrava em minoria. As Teses de Abril (1979. Por fim. o ultra-esquerdista nega a necessidade do partido e privilegia a prática do terror individual e dos atentados como ação principal. ao contrário do que faz a extrema- esquerda. enquanto partido político com programa e método de luta específica. O Partido Social Democrático foi. O bolchevismo também pode ser visto como outro exemplo histórico da extrema-esquerda quando rompeu com a social-democracia. nunca existiu antes da Revolução Russa de 1917. pois entende que somente o que falta são as armas e as bombas.) carregarão consigo ideais que há mais de um século têm distinguido todas as esquerdas da história” (BOBBIO. mas “enquanto existirem homens cujo empenho político seja movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante às iniqüidades das sociedades contemporâneas (.br/pos/educacao/ um militante no trabalho coletivo. 196 mais radical à esquerda da esquerda oficial. isolada do trabalho metódico com as massas. Os partidos comunistas surgiram de dissidências mais à esquerda no Partido Social Democrático. 1992. a igualdade e a fraternidade. p. a maioria dos social-democratas oficiais havia desertado e traído o socialismo Em seu escrito. a nomenclatura “comunismo”. 33). passa para Unioeste . Portanto.unioeste. o ultra-esquerdismo não valoriza muito o estudo teórico. Os parâmetros esquerda e direita tem uma razão histórica. o partido político de Marx e Engels. 29). Também no jacobinismo.. Todavia. passando a chamá-lo “comunista”. ele é incapaz de adequar-se ao espírito de uma organização partidária. p. O jacobinismo é citado como o exemplo histórico mais importante da extrema-esquerda e que denunciou “o caráter formal e hipócrita da bandeira burguesa” que buscava a liberdade. os revolucionários se reagruparam em partidos comunistas. o ultra- esquerdista é o pequeno-burguês (pequeno proprietário. no século XIX. ao arruinar-se.Programa de Pós-Graduação em Educação uma posição ultra-revolucionária. entretanto.. à disciplina e à firmeza de http://www. temos o seguinte: na concepção de Lênin. em nossos dias. Estado. Lênin propôs modificar-se o nome de Partido. não é mais a mesma de ontem.. Desse modo. e de uma direita mais radical à direita da direita oficial. Desse modo. numa situação de crise. naquele momento. de maneira que a idéia de esquerda. Além disso. em prol da ação. Já com relação às diferenças entre extrema-esquerda e ultra- esquerdismo. pequeno patrão.

Hitler. para a ala dirigente que controlava as organizações nazifascistas. aliás. além dos opositores externos. a maior antítese entre esquerda e direita. o nazifascismo imitou os partidos de esquerda para ser mais eficaz em suas lutas contra eles.. o nazifascismo tendeu a educar as massas na impressão de estarem em permanente Coleção Sociedade. Podemos observar assim que. Em razão disso o nazifascismo realizou expurgos internos caracterizados pela eliminação de sua extrema-esquerda nazista. Porém. É claro que os partidos nazifascistas não eram blocos absolutamente coesos e harmônicos. propôs a criação de um partido antimarxista. inclusive o pacto de não-agressão entre nazistas e stalinistas teve breve duração. Podemos distinguir duas alas extremas no interior dos partidos nazifascistas: esquerda e direita. Em vista disso. a idéia de “partido de massas” é alheia à direita. e foi ideologicamente sem conseqüências a formação de alguns pequenos grupos de stalinistas-nazistas. A crítica que o nazifascismo fazia ao capital foi se abrandando. no século XX. e expurgos externos pela destruição da oposição. Muitas vezes tais conflitos. No que se refere ao primeiro. Enquanto a direita tradicional tendeu a desmobilizar os trabalhadores e reduzi-los à passividade política. foi considerado “teoricamente falso e moralmente perverso”. Escolas de Chefes. em razão inversa do fortalecimento da direita. trata-se de um “ideal” que percorre toda a história da humanidade. fundamentado nas mesmas bases de disciplina e organização dos comunistas. Os comunistas tinham Escolas de Quadros e os Nazifascistas. A esquerda nazifascista foi progressivamente eliminada. Estado e Educação mobilização e de terem uma relação direta com o Chefe. o capitalismo apresentava um lado bom: era preciso distinguir o “capital de rapina” e o “capital criativo” e a estes era preciso fortalecer. enquanto o segundo. o nazifascisamo tinha divergências com um setor mais à esquerda. inclusive. Para a extrema-esquerda anticapitalista do partido nazifascista era necessário dirigir-se com o mesmo rigor contra a direita capitalista conservadora. Havia importantes conflitos entre as diversas frações políticas e organizações que compunham o nazifascismo. no Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. internamente. na medida em que destruiu os inimigos externos e em que se expurgou de sua oposição interna. desde o início. 197 O nazifascismo e o comunismo constituíram.) . O nazifascismo saqueou o campo teórico do inimigo. Com exceção dos partidos nazifascistas. do mesmo modo que foi feito com os comunistas. o comunismo e o nazismo não podem ser comparados sob uma ótica unilateral e unidimensional.

Dentre estas forças nazifascistas. No caso da Europa. o capitalismo encontrou no nazifascismo condições de reprodução. dispostos a simpatizar com os nazifascistas. Em última Unioeste . nem todos os skinheads são racistas ou simpatizantes do nazifascismo. Desse modo é importante esclarecer que os skinheads estão rompidos em várias frações. o Estado Novo incorporou muitas das idéias presentes no programa integralista. as organizações nazifascistas foram reduzidas a instrumentos políticos bem mais dóceis.Entretanto. Usualmente associa-se os skinheads à extrema- direita. Embora os partidos nazifascistas se apresentassem como “de trabalhadores”. a partir dos anos 80. dos comunistas e da extrema-esquerda nazifascista. tem raízes em certas correntes políticas de extrema-direita da baviera. os skinheads têm ganhado destaque na mídia.br/pos/educacao/ instrumento de destruição da organização operária. ainda que possam ter incorporado alguns de seus elementos. isso tranqüilizou parte dos industriais.Programa de Pós-Graduação em Educação instância. apesar de ser uma política extrema. Educação e Sociedade Capitalista . suas rearticulações se fazem presente neste início de terceiro milênio. as mazelas parlamentares. porque. Com a eliminação dos socialistas. Dentre as duas alternativas: comunismo e nazifascismo. o ressurgimento de velhos preconceitos raciais e étnicos favoreceram. o desemprego. a retomada de movimentos nazifascistas. O nazismo. Depois que Mussolini e Hitler expurgaram grande parte dos militantes. Vários líderes dessa ala foram assassinados. inclusive para si.unioeste. França e Itália. de fato. No caso do Brasil. a desesperança generalizada. a impunidade. Áustria. Hitler considerava a extrema- esquerda nazifascista como excessiva e perigosa. o nazifascismo constituiu-se num http://www. mas nem todas as ditaduras tornaram-se nazifascistas. os capitalistas ficaram com a segunda. Mussolini também procurou eliminar qualquer elemento de independência entre seus seguidores: líderes fascistas foram afastados e substituídos por pessoas de sua confiança. a degradação do nível de vida. como quando da eliminação de sua extrema-esquerda. tiveram um desfecho sangrento. os nazifascistas manifestam-se de forma brutal e têm nos estrangeiros o alvo principal de ataques. Em razão disso. O nazifascismo não é um fato do passado. por exemplo. um setor dos skinheads aderiu ao nazifascismo. 198 interior do nazifascismo. em especial Alemanha. mas basicamente Estado. A crise econômica. foi a classe média que se tornou o maior campo de ação de suas propagandas. Todo Estado nazifascista tornou-se uma ditadura. por isso o capitalismo não pode extinguir definitivamente o nazifascismo. porque precisa dele.

Se não houver mais diferenças ideológicas. por exemplo. este movimento almeja a “República dos Pampas” (que. 199 podemos distinguir em seu interior um setor de extrema-direita e um setor de extrema-esquerda Os White Power. p. que é diferente do “estar à esquerda”. há uma idéia comum que é a luta pela igualdade econômica que a acompanha por toda a história e é isto que caracteriza o “ser de esquerda”. pois piolhos infestavam os cabelos. por definição. Há. elas são parâmetros que têm um caráter relacional e comparativo. Estado e Educação espécie de um núcleo de partido de extrema-direita sulista que pretende que o sul do Brasil se separe dos demais Estados. Santa Catarina e Paraná). os que são de extrema-esquerda como os Red Anarquist Skinheads (RASHS: Skinheads Comunistas e Anarquistas). a tradição tenderá a ser mais competente que a ruptura. são skinheads de extrema-direita. Esse é um adágio levemente maldoso. constituindo-se numa Coleção Sociedade. Mas. mas... junto com a Aryan White Resistence. Os skinheads surgiram na Inglaterra dos anos 60. ora. Ou seja. uma organização inglesa de extrema-direita denominada National Front viu no violento cotidiano dos skinheads e dos hooligans um terreno propício para a pregação da “supremacia branca” e do nacionalismo extremado. que primeiro a direita e depois o centro insistem tanto na competência (. A partir do final dos anos 70. Há. um minoritário movimento nazifascista brasileiro que se dedica ao separatismo e que prega a superioridade do povo sulista. pois. conforme prega.) (2004. Não é fortuito. inclusive. também. mais ou menos correto. devemos escolher os dirigentes pela competência. CONCLUSÃO Renato Janine Ribeiro escreveu que: Quem diz que não existe mais diferença entre esquerda e direita é de direita. quem tem maior experiência de poder conhece melhor os seus mecanismos. com jovens que começaram a raspar a cabeça (como “atitude” e como higiene. Observamos que direita e esquerda não são substâncias ou conceitos. para que este deixe de ser “explorado por baianos e paraíbas” e deixe de “sustentar o nordeste parasita” que “suga” o trabalho e os impostos que são pagos pelos habitantes do sul.) . conteria os Estados do Rio Grande do Sul. notadamente dos trabalhadores dos portos. que está ali Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. E por isso a direita tenderá a desimcumbir-se melhor. Portanto. um posicionamento de esquerda não é volátil ou “oco”. 40).

ao uso da força.unioeste. mas também se perguntaram se toda crítica a estas revoluções . Quando a esquerda recorreu às armas deu- se o que comumente se chamou “esquerda armada”. se desenvolveu mais à esquerda do que à direita. e ela pode ser de dois tipos: “massista” ou “militarista”. por sua vez. a crítica que o trotskismo (TROSTKY. porém não comunga convicta e duradouramente com o horizonte socialista. torna-se extrema-esquerda. historicamente a idéia e organização de partido político. ao longo dos anos tornou-o infecundo e ferido de morte. na Alemanha de Hitler e. a redução da luta política – inclusive interna . à esquerda. porém ela tem utilizado. como argumentou o stalinismo? Efetivamente. As ditaduras. em algum momento na luta pelo poder político. mas é possível a esquerda extinguir a propriedade privada dos meios de produção somente pelo voto? A esquerda privilegiou atuar nos limites da ordem e do parlamento. mormente. a violência revolucionária. No Brasil. nos quais o partido político transformou-se em órgão do próprio Estado. o partido na prática ficava reduzido a uma espécie de autarquia subordinada à justiça eleitoral (e à ditadura militar).br/pos/educacao/ necessidades históricas. na União Estado. Educação e Sociedade Capitalista . especificamente. o Partido Comunista. em páginas anteriores. durante a Constituição de 1967/1969. O que provocou o surgimento de partidos de quadros e partidos de massa. por exemplo. Como vimos. sob o meu ponto de vista. principalmente a militar. Nesta direção. Observamos também que todo governo tem que ter controle sobre as forças militares e controle sobre as forças políticas. na Itália de Mussolini. atua predominantemente de forma clandestina. em seu sentido moderno.Programa de Pós-Graduação em Educação Não se pode desconhecer a capacidade de auto-engano de alguns intelectuais que justificam o abominável pelo contexto. 200 circunstancialmente. que neste momento. se no início fortaleceu o stalinismo. podemos citar o Partido Nacional Fascista. Para a esquerda a questão da transformação da sociedade é fundamental. A extrema-esquerda. procuram controlar os partidos. à direita. pois impediu a democratização socialista do Estado. pelas http://www. 1979) fez à burocratização da Revolução Russa foi de fato a crítica de “traidores” que serviu à direita. e se define pelo ataque radical à propriedade privada dos meios de produção. Como exemplos mais flagrantes. o Partido Nacional Socialista. ou seja. da Iugoslávia e de Cuba. muitos intelectuais fizeram a defesa da URSS. Assim. da China.que suscitaram tanta esperança – significou “fazer o jogo da direita”. pelo sentido político. o partido político era definido como “entidade de direito público”. Unioeste .

no Distrito Federal. incorporação e extinção dos partidos políticos. a razão de ser dos partidos políticos conservadores e reformistas é “a tomada do poder pelos meios democráticos e legais”. mas “com a finalidade de prestar serviços de interesse público em benefício de todo o grupo social”. É necessário também buscar o apoio de eleitores correspondente em pelo menos três aspectos: a) meio por cento dos votos dados na última eleição geral a câmara dos deputados. o partido político passou a ser uma sociedade civil de direito privado. Em razão disso. cujos programas respeitem “a soberania nacional”. não é tão fácil a criação de partidos políticos no Brasil. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Como já nos referimos aos simpatizantes. 5 Hoje seriam aproximadamente 228. junto ao TSE. não computados brancos e nulos5 . 201 Soviética de Stalin. pelo menos um ano antes das eleições. tendo como exemplo o caso brasileiro. no Estado do Paraná. O partido é obrigado também a registrar o seu estatuto. seriam cerca de 4. como vimos. a “desfiliação” e o “cancelamento da filiação”. no mínimo. cujo número não poderá ser inferior a 101 eleitores. 6 Isto equivale em nossos dias a nove Estados. em termos de círculos de participação. Requer-se a aquisição da mencionada personalidade jurídica do partido. Este requerimento deve ser subscrito pelos seus fundadores. É livre a criação. (ao contrário dos partidos extremistas). procura organizar politicamente “partes”. e o eleitoral. que lhe possibilita participar da vida político- partidária. fora do Estado. que é feita por meio do registro do estatuto no Cartório do Registro Civil das Pessoas Jurídicas. sigla e símbolos. O partido político é obrigado a realizar dois registros: o civil. Assim. por exemplo. de ter acesso gratuito ao rádio e televisão e ainda ter direito exclusivo ao uso de seu nome. aos eleitores e aos militantes. de participar do processo eleitoral. “o pluripartidarismo” e “os direitos Coleção Sociedade.700 assinaturas. institucionalmente falando. com a “redemocratização” que aprovou a Constituição de 88. fusão. de receber recursos do fundo partidário. que cria a “personalidade jurídica”. um discurso e uma prática no interior da ordem vigente. Todavia. um terço dos Estados. com domicílio eleitoral em.) . em conjunturas de “democracia”. segundo um programa. b) distribuídos por um terço ou mais dos Estados6 . Na prática. 7 Atualmente. portanto. Estado e Educação fundamentais da pessoa humana”. c) com um mínimo de um décimo por cento(1/10%) do eleitorado que tenha votado em cada um deles7. Somente depois do registro definitivo do seu estatuto no Tribunal Superior Eleitoral é que o partido adquire o direito de credenciar delegados que representem o partido. podemos diferenciar a “filiação”.000 assinaturas.

perda dos direitos políticos. atualmente. a lei é mais rigorosa. filiando-se ao partido pelo qual irá concorrer pelo menos um ano antes do pleito. entre outras coisas. Este caso ocorre quando alguém se filia a outro partido. sendo ambas consideradas nulas. que pode se dar por morte. permanecendo como válida a última filiação. com características de participação completamente diferentes. os eleitores e os militantes. por seus contatos mais diretos com os militantes. Para concorrer a cargo eletivo.essa forma mínima de participação de um dos círculos do partido . os magistrados e promotores de justiça. Educação e Sociedade Capitalista .as lideranças do partido devem distribuir incentivos coletivos de identidade também aos eleitores. 202 Já retomamos o processo de filiação. Não obstante. Os filiados. mas não de grupos claramente distintos.. a primeira condição é que seja eleitor no município onde deseja se inscrever e somente pode filiar-se a partido político o eleitor que “estiver em pleno gozo dos direitos políticos”. o “eleitor” deve se tornar Unioeste . Se não fizer isto ficará configurada a “dupla filiação”. Fizemos esta breve discussão porque. no dia imediato ao da nova filiação. para cancelar sua filiação.Não prevalece mais aquela situação anterior em que se cancelava a filiação mais antiga. entre outras formas previstas em lei. enquanto que o cancelamento da filiação é automática e compulsória. No Brasil.O desenvolvimento dos partidos Estado. Estão proibidos de se filiarem a partido político http://www. Não há “candidato independente” ou candidatura avulsa. A desfiliação é voluntária. Podemos nos referir a uma escala de participação. é preciso que compreendamos as diferentes circunstâncias do seu surgimento (de seus parâmetros e de seus círculos de participação). Para o controle da desfiliação. uma separação clara entre os filiados e os eleitores é. expulsão. para compreendermos a diferença de estrutura entre os partidos. devendo fazer a comunicação ao partido e ao juiz da respectiva zona. pelo menos. unicamente através de um partido político o candidato pode pleitear o registro oficial de sua candidatura.Programa de Pós-Graduação em Educação “militante”.br/pos/educacao/ os militares. têm mais oportunidades de beneficiar-se das redes de solidariedade que se articulam em torno das organizações do partido. os destinatários dos incentivos organizacionais são os filiados. para que o “cidadão” possa filiar-se a um partido político. muito mais que simples eleitores. retomemos agora a desfiliação. atualmente. igualmente incerta é a que se dá entre filiados e militantes. problemática.unioeste. Para obter o voto . Para Panebianco (1982). Diferente da desfiliação é o cancelamento da filiação.

porém. na acepção moderna do termo. ele procurou realizar uma distinção entre partidos de criação externa e partidos de criação externa.) . os grupos parlamentares antecedem os dos comitês eleitorais. serão estes que suscitarão a criação de comitês eleitorais onde eles ainda não os possuem. que partilhavam os mesmos pontos de vistas. O que vale dizer: houve assembléias políticas antes que se realizassem eleições. De criatura o partido passou a ser criador. tanto mais se tornou necessário enquadrar os eleitores. o nascimento dos partidos encontra-se ligado ao dos grupos parlamentares e comitês eleitorais. São os grupos parlamentares e comitês eleitorais que constituíram duas “células-mater” para a criação de partidos políticos. A adoção do sufrágio universal acarretou o crescimento dos partidos socialistas no início do século XX. Portanto. a criação de comitês eleitorais tende a ser uma iniciativa da esquerda (no espectro político) para tornar conhecidas “novas elites”. à extensão do sufrágio popular e das prerrogativas parlamentares. Temos. Claro que as “doutrinas” ainda não eram muito nítidas. um “grupo ideológico” de pronto. vizinhança geográfica. Desse modo. isto é. Assim. a partir de um “grupo local” temos também um grupo ideológico que se tornou conhecido como “os jacobinos. neste caso. caracteriza antes tendências gerais do que tipos definidos. Duverger distinguiu “partidos de criação eleitoral e parlamentar” e “partidos de criação externa”. não é rígida. Quanto mais o direito de voto se estendeu e se multiplicou. com o desenvolvimento dos partidos. Mais tarde haverá uma inversão nas iniciativas. os sentimentos igualitários e a vontade de eliminação das “elites sociais tradicionais” contribuíram para o advento dos comitês eleitorais. Conforme a segunda distinção que se refere a partidos de criação externa . e não um “grupo local”. por exemplo. Assim. 203 parece associado ao da democracia. conforme a primeira distinção. Além disso. O impulso para a formação de grupos parlamentares originou-se de “doutrinas políticas” (grupos ideológicos. A direita também seguiu este exemplo de criação de comitês eleitorais para manter e ampliar a sua influência. Esta distinção. o “clube bretão” assumiu o aspecto Coleção Sociedade. Geralmente.inicialmente expressa Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. pois. o advento dos comitês eleitorais está diretamente ligado à extensão do sufrágio popular para enquadrar novos eleitores. Do mesmo modo. Houve também o caso de deputados que se reuniam no mesmo local porque já tinham idéias comuns antes de se reunirem. Estado e Educação de um grupo ideológico que reunia deputados de diferentes províncias. defesa profissional). na maioria dos países europeus.

Ou seja. Esta organização e educação permitiria libertar a classe operária da tutela dos partidos burgueses. a maioria dos partidos era de criação eleitoral e parlamentar. jornais. financiamento coletivo e difusão de um jornal. a vanguarda. etc.br/pos/educacao/ importância secundária. visto que como o partido é entendido como a expressão de uma classe social. igrejas. Tais partidos valorizavam a filiação dos trabalhadores e a cotização. a educá-la politicamente. O conceito de partido de Lênin entende que o partido não deve englobar toda a classe operária e sim somente a “parte mais consciente”. pois dela virão membros para a direção e administração do partido. Aproximadamente até 1900.sindicatos operários. intelectuais. ele tende a buscar organizar esta classe. conselhos e secretariados. Os “partidos burgueses” do século XIX não queriam multiplicar seus partidários. Fiquemos um pouco no campo do socialismo. parlamentares. os partidos socialistas tinham uma estrutura voltada para as massas populares. as questões ideológico-educativas e a ideologia assumiram grande relevância. A militância socialista estava junto à base: as decisões eram tomadas em congressos. Para eles a ideologia. Consequentemente. Educação e Sociedade Capitalista . maçonaria. associações. O recrutamento de militantes passou a ter um caráter fundamental. apoiadas em comitês. Por outro lado. o programa partidário e os trabalhadores tinham uma http://www. geralmente. a concepção marxista do “partido-classe” levou a uma estrutura forte de partido. Tais partidos somente tinham preocupações eleitorais. Segundo Duverger. Afinal. Preferiam agrupar “grandes personalidades” e decidir politicamente pelo alto. inclusive com candidatos operários.unioeste. mas com o desenvolvimento dos partidos socialistas. Um detalhe que chama a atenção é que os partidos de criação externa (que nascem na base) são. a criação externa tornou-se a regra. mais coerentes e disciplinados que os partidos de criação eleitoral e parlamentar (que nascem da cúpula). nem enquadrar grandes massas populares. 204 neste texto . A propagação das idéias socialistas e o desenvolvimento do comunismo. os socialistas educam e financiam suas atividades a partir de cotizações e contribuições de seus militantes e simpatizantes.Programa de Pós-Graduação em Educação sob controle de uma das frações das classes dominantes. sociedades de pensamento. do ponto de vista político e financeiro. Os partidos socialistas queriam multiplicar seus partidários e organizar as massas populares. o poder estava quase sempre Unioeste . com seus métodos revolucionários de luta alertou a Estado. podem criar partidos com maior ou menor base popular. ou seja.

Por isso Duverger perguntou se estamos lidando com verdadeiros partidos de massas. entre os partidos socialistas. podemos definir a força e a fraqueza de um partido pelo número dos seus eleitores e pelo número de cadeiras ocupadas no parlamento. depois de algum tempo da conquista do poder. importa distinguir os círculos de participação: “os eleitores”. ou se estamos lidando com “partidos de fiéis”. Cada categoria de partidários corresponde a um tipo de participação. para este estudo.) . Coleção Sociedade. Estado e Educação Como ressaltamos. naquele momento: o período histórico dos partidos de massas estará superado? Estaremos ingressando no período do “partido elite”? Mas. “os simpatizantes” e “os militantes”. porém mais fechados que os partidos de massas. mais abertos que os partidos de quadros. Em termos de estudo. por exemplo. Essa qualidade de participação varia no próprio âmbito de cada categoria. mas ele problematizou ao colocar duas possibilidades: trata-se de graus ou de diferenças de natureza? De fato. De forma que há um ponto comum. a categoria de eleitores apresenta uma vantagem em relação às outras duas. que forma e educa para numa determinada perspectiva ideológico-educativa. uma vez que é facilmente mensurável. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Duverger também estabeleceu a distinção de graus na “participação”. eleitores. Ele também indagava. a própria organização partidária filia-se a um determinado tipo de “família” política. caracterizado antes por sua qualidade do que por sua intensidade. ao longo do trabalho. pelo menos até agora. mas com a condição de observar o seu caráter um pouco diferente. simpatizantes. mesmo antes de sua tomada de poder e se transformam em partidos únicos. Finalmente. os partidos comunistas e os partidos fascistas: englobam massas numerosas. como a idéia de “partido-elite” é muito vaga para se constituir uma categoria à parte. 205 burguesia sobre a insuficiência dos partidos de quadros e sobre a necessidade de empreender seriamente a criação de partidos de massas. Sob este determinado ponto de vista eleitoral. ele escreveu que podemos classificar os partidos comunistas e os partidos nazifascistas nos partidos de massas. adeptos e militantes caracterizam-se menos pela intensidade dos seus laços com o partido e mais pela qualidade destes.

Grijalbo. Os partidos políticos políticos. 1970 MICHELS.Unesp. Cascavel: Edunioeste.096 de 19. CARVALHO. Estado. Norberto. Educação e Sociedade Capitalista . UnB.unioeste. F. M. vol. PUC. revista Tempo das Ciência Ciência. 1970. FERNANDES. José Murilo de.br/pos/educacao/ CONCEIÇÃO. 1981 na GRACINDO. Sociologia dos partidos políticos políticos. Os partidos nazifascistas e a educação para a ação. 206 REFERÊNCIAS BENOIT. São Paulo: Ed.95 (dispõe sobre os partidos políticos) LENIN. 1992. Revista Mais-valia Mais-valia. Florestan. CARDOSO. Modelli di partito: organizzazione e potere nei partiti politici. As Teses de Abril Teses Abril. Educação e partidos políticos – o escrito. 1982. Partidos políticos no Brasil Brasil. 1980. H. 1994 Lei 9. A crise hoje no Brasil: o fim de um ciclo histórico da dominação burguesa. Brasília: Ed. 1979 MARX. Societá Editrice il Mulino. Rio de Janeiro: ed. Robert. Pedro R. 12. Petrópolis. Paz e Terra. Autoritarismo e democratização democratização. 1982 PANEBIANCO. ed. Poder e Contrapoder na América Lati- na. Kairós Livraria e Editora. Partidos políticos e educação educação. Zahar. ed.09. e ENGELS. Valmireth. G. ed. H. BOBBIO. Regina Vinhaes. Brasília. A Construção da Ordem – a elite política imperial. O Conceito de revolução da esquerda bra- sileira – 1920-1946 1920-1946. Ângelo. Campus. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política política. K. Zahar Editores. n. Rio de Janeiro. F. 1976. ed. Rio de Janei- ro: ed. H. G. nov/2007. 23. La ideologia alemana alemana. HECTOR.Programa de Pós-Graduação em Educação UnB. Papirus. http://www. Campinas. Unioeste . FERREIRA. 2000 CONCEIÇÃO. Bologna. 2005 DUVERGER. 1993. São Paulo. Barcelona. o dito e o feito. CHACON. ed.

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br/pos/educacao/ Estado. Unioeste .unioeste.Programa de Pós-Graduação em Educação http://www. Educação e Sociedade Capitalista .

Como limite de reflexão neste artigo. Estado e Educação Este texto surgiu de pesquisas e estudos no âmbito da teoria política realizados no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unioeste. Lembramos Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. Estes escritos são. as instâncias decisórias do Estado) por meio do voto. no caso dos partidos reformistas e dos partidos conservadores. casos de escândalos envolvendo partidos e seus dirigentes têm se acumulado na história política brasileira. a partir de reflexões acerca dos partidos políticos e da educação. nos reportaremos a alguns contrapontos teóricos entre Karl Marx e Max Weber. no caso dos partidos revolucionários. ainda que provisória. ou pela revolução. dos debates e preocupações que nortearam os profícuos momentos de exercício intelectual e acúmulo de experiências proporcionado pela leitura e discussão dos textos indicados pelo professor da disciplina. uma tentativa de apresentar minimamente uma formulação. a questão do programa e do partido recolocada no início do século XXI. de maneira que este artigo busca organizar uma breve introdução dos conceitos trabalhados pelos clássicos do pensamento político. PARTIDO POLÍTICO E DEMOCRACIA BURGUESA: ALGUNS CONTRAPONTOS ENTRE A ESCOLA MARXISTA E A ESCOLA WEBERIANA Mário de Jesus Barboza Gilmar Henrique da Conceição INTRODUÇÃO Coleção Sociedade. Ao acompanharmos o passado político no Brasil é fácil sermos levados a classificar o partido político apenas como uma ferramenta fisiológica. ou mais precisamente acerca das “escolas políticas” marxista e weberiana. ou seja. já que nestes últimos vinte anos de exercício da “democracia”. as quais têm por objetivos conquistar o poder político (ou seja. O foco deste trabalho é buscar compreender as organizações conhecidas por partidos políticos.) . portanto. de uma questão que parece ser extremamente atual.

a fim de descrever a atividade política do mundo moderno. entretanto. Nesta perspectiva. ainda impede-nos de descortinar as suas possibilidades e limitações. além é claro dos recorrentes argumentos de experientes políticos profissionais que afirmam ser esta uma prática comum a todos os que participam da vida política institucionalizada no Brasil. ou seja. Na realidade. econômico. em certos casos. ou a denúncia de “caixa dois” operada por quadros do PSDB em outros momentos. 210 dos financiamentos ilegais que vieram a público e causaram o impeachment do presidente Collor.unioeste. Educação e Sociedade Capitalista . Weber estudou a maneira pela qual a prática científica contribui para o desenvolvimento da racionalidade humana e analisa com percuciência as condições de funcionamento do Estado moderno.Programa de Pós-Graduação em Educação Não se pode reduzir. A tarefa parece hercúlea. particularmente.br/pos/educacao/ e. 2000). se é praticamente impossível zerar o índice de corrupção. social e cultural do seu tempo. Unioeste . é recorrente o custeio dos gastos eleitorais por setores privados que visam privilégios em futuras negociatas com as instâncias burocráticas estatais. Por isso. o partido a simples elemento de manipulação fisiológica. A ATUALIDADE DE MARX E WEBER A compreensão do pensamento de Marx e Weber pressupõe a clareza de que suas formulações estão vinculadas ao contexto político. no livro: A Ciência e a Política: duas Vocações. presente. os escritos de Max Weber e Karl Marx têm especial importância. É preciso então buscar quais têm sido e como têm sido as suas realizações nos vários momentos da história das sociedades. focalizando assim a oposição básica entre a “ética de condição” do cientista e a “ética de responsabilidade” do político na Estado. inicialmente faz-se necessário uma breve sistematização de algumas das idéias de Max Weber que contribuíram com a formulação das bases teóricas da concepção burguesa de partido. e do Partido dos Trabalhadores na campanha eleitoral de 2002. mas que em alguns aspectos continuam sendo atuais e podem nos ajudar a compreender as questões da contemporaneidade. a prática da corrupção tem acompanhado o exercício do poder e a prática da maioria dos partidos ao longo dos anos. Neste sentido. (WEBER. produto de uma conferência a acadêmicos universitários alemães no ano de 1918. isto porque esta interpretação revela pouco http://www. o que se busca idealmente é reduzi-lo a níveis ínfimos.

Weber descreveu organizações partidárias. Na perspectiva de Weber. Weber é considerado .dogmatiza e petrifica as relações entre as formas de produção e de trabalho (a chamada “estrutura”) e as outras manifestações culturais da sociedade (a chamada “superestrutura”). Assim. Estudando a “política como vocação”. que controlam as organizações e tendem a administrar os partidos como empresários. por exemplo. como a religião. as bases primeiras do capitalismo. os luteranos difundiram a expressão Beruf (SCHILLING. Ele definiu o espírito do capitalismo como as idéias e hábitos que favoreceram. Estado e Educação não era uma ideologia produzida por interesses econômicos (o ópio do povo. por exemplo. que a democracia tende a criar a figura de políticos profissionais fora do parlamento. Weber não aceitava as teses de Marx sobre a “acumulação primitiva” apresentadas no “O Capital”. teve efeitos duradouros nas estruturas sócio-econômicas que se seguiram. A religião. isso significava que o cientista social deve estar pronto para o reconhecimento da influência que as formas culturais. segundo Weber.) . como havia escrito Marx).junto com Marx e Émile Durkheim . O pensamento de Weber caracterizou-se pela crítica ao materialismo histórico. Para Weber. procurando mostrar. quando na verdade se trata de uma relação que. a procura racional de ganho econômico. entendida como algo bem mais do que seguir uma vocação. Weber divergiu de Marx quando escreveu que nenhuma ciência poderá indicar à humanidade qual é o seu futuro. A alteração proposta por eles de abandonar-se a vida contemplativa trocando-a por uma vocação para o trabalho secular. especialmente no que respeita à interação de idéias religiosas com o comportamento econômico. mas sim um projeto de uma vida inteira. da reflexão sobre o método das ciências histórico-sociais. podem ter sobre a própria estrutura econômica. o pensamento weberiano se definiu como um esforço destinado a compreender e a explicar os valores aos quais os homens aderiram. profundos e complexos. 211 qual ele mencionou vários tipos de políticos profissionais. que – segundo ele .um dos fundadores da sociologia e dos estudos comparados sobre cultura e religião. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 2007) . ao mesmo tempo. deve ser esclarecida segundo a sua efetiva configuração. e as obras que construíram. a cada vez. era sobretudo o que havia possibilitado o surgimento da sociedade capitalista. Coleção Sociedade. É indiscutível que os escritos de Weber. de forma ética. Como é sabido. constituiram uma contribuição fundamental para a compreensão dos fenômenos históricos e sociais e. que denunciavam a exploração dos camponeses medievais ingleses.

inclusive a religião. por outro. buscando substituir o fator econômico como dominante por outros fatores. esteja a realidade econômica da Alemanha do princípio do século XX. A doutrina calvinista da predestinação levava os crentes a tentarem demonstrar sua situação de “eleitos por Deus”. como a idéia de que Deus decretou o destino dos homens desde a criação e a idéia de que certos sinais da vida cotidiana podem indicar quais são os eleitos por Deus e quais os danados. uma visão de mundo que propõe a iluminação através da santificação de cada ato particular do cotidiano —. em especial o calvinismo. pode-se dizer. visto como a marca da santificação. a exigência de uma comprovação de que se é eleito impõe vastas restrições à liberdade do fiel. Porquanto. topografia. de modo a levar a uma total racionalização da vida. não surpreende que subjacente a Weber em sua obra Ética Protestante e o Espírito Capitalista1 . Marx e Weber se voltaram para o exame dos aspectos mais importantes da ordem sócio-econômica do mundo ocidental. por um lado. tais como raça. para os católicos. A sua abordagem diferia da de Marx. clima. concluindo que isso se http://www. ele Unioeste . de maneira esquemática. Conquanto. Inúmeros trabalhos foram escritos divergindo de Marx.br/pos/educacao/ deveu à mundividência e hábitos de vida praticados ali pelo protestantismo. Os escritos de Marx. poder 1 Quanto às relações entre a cultura protestante e o “espírito do capitalismo”. constituíram elementos fundamentais para a luta econômica e política dos partidos operários. há certos elementos atenuantes que permitem ao crente cometer certos deslizes. É essa característica que permite a articulação entre a ética protestante. ao considerar a esfera econômica no elemento determinante de todas as estruturas sociais e culturais. o que faziam dedicando-se ao comércio e ao acúmulo material. procurando avaliar a contribuição da ética protestante. nas várias etapas de seu desenvolvimento histórico.unioeste. na promoção do próprio capitalismo.Programa de Pós-Graduação em Educação investigou as razões do capitalismo se haver desenvolvido inicialmente em países como a Inglaterra ou a Alemanha. idéias filosóficas. Essa racionalização. abre um campo para o enaltecimento do trabalho. e o espírito do capitalismo. 212 disciplinas às quais deu um impulso decisivo. que estão relacionadas principalmente com a doutrina da predestinação e da comprovação — entendidas aqui. Nesse seu trabalho ele tinha a intenção de examinar as implicações das orientações religiosas na conduta econômica dos homens. Estado. que utilizou o materialismo histórico para explicar as transformações históricas das relações de produção e das forças produtivas. sobretudo os calvinistas. além de seu caráter teórico. a pergunta que os sociólogos alemães se faziam era se o materialismo histórico elaborado por Marx era ou não “indiscutível”. para os protestantes. entendida como uma “ascese intramundana” — isto é. Por essas razões. Educação e Sociedade Capitalista . respectivamente.

a que na modernidade consolidou-se como a mais eficaz justamente por possuir a violência como monopólio estatal como forma legítima da ação coercitiva e de repreensão à sua desobediência. e. Weber estudou o poder sob dois aspectos. mesmo contra a vontade Coleção Sociedade. nem a submissão é obrigatoriamente um dever. enquanto Matcht e enquanto Herrschaf. como aquela que ocorreu nos fins da Idade Média. “governados”. sendo uma simples casuística do poder. institucionalizada. já tinham orientado-se no sentido de ressaltar a influência das idéias e das convicções éticas como fatores determinantes. entre um fator de organização. já no Herrschaft. Se no Macht o comando não é necessariamente legítimo. converte uma ação comunitária amorfa numa ação racional. pelos que obedecem. e a obediência ou a aceitação dos comandados. das ordens que lhe são dadas. e chegaram à conclusão de que o moderno capitalismo não poderia ter surgido sem uma mudança espiritual básica. isto é. o Estado é uma das fontes de produção jurídica. a obediência fundamenta-se no reconhecimento.) . Situa-se no âmbito do sociologicamente amorfo.dentro de um âmbito Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. enquanto Herrschaft. tem de haver consentimento. Esta violência é considerada legítima. de maneira que haja um grau objetivo de obediência. o que só pode ser conseguido pela legitimidade. legitimada e concentrada. típica do poder das constelações de interesses que dominam um “mercado livre”. que haja a presença efetiva de alguém mandando eficazmente em outros. Alguns autores. o comando. O poder político. Para Weber. Neste sentido. uma “aceitação subjetiva desse comando”. Estado e Educação dela. 213 político. É a partir do Herrschaft que se atinge o político. finalmente. Implica a probabilidade de se encontrar obediência. O poder enquanto Macht é a mera possibilidade de uma pessoa impor a sua vontade a outra pessoa. “governantes com vontade de influenciar a conduta dos governados”. Estamos na zona da metafísica do poder que emerge quando surge uma autoridade estabelecida. pois se apóia num conjunto de normas. como se o governado tivesse feito do conteúdo da ordem a máxima da sua conduta por si mesma. é sempre uma estrutura complexa de práticas materiais e simbólicas destinadas à produção do consenso. Contudo. impondo-se que haja quatro elementos: “governantes”. pressupondo sempre uma relação política estável. pelo fato de que uma associação de Herschaft transforma-se em associação política quando e na medida em que a sua existência e a validade das suas ordens . somente com os trabalhos de Weber foi possível elaborar uma verdadeira teoria geral como contraponto às idéias de Marx.

as quais influenciam fortemente as práticas representativas. Weber passou a ser um dos mais importantes referenciais acerca do desenvolvimento da burocracia estatal. Mesmo na virada do século XIX. Suas idéias são tidas como um conjunto de “interpretações clássicas”. Weber tratou do surgimento do partido articulado à implantação e configuração do Estado moderno. os partidos que operam no cenário do século XIX ainda herdam e conservam o mesmo tipo de organização da estrutura partidária da nobreza. então. “partidos de notáveis”. historicamente verificáveis no estudo dos Estados modernos do século XX. os quais caracterizavam-se por serem um grupo de séqüitos pessoais que se congregavam nas disputas violentas por poder político ou terras. De acordo com Weber. Em seguida.unioeste. os quais não passavam de simples conjunto de dependentes da aristocracia. o caráter de agrupamento de “homens de projeção” que Estado. com uma movimentação política unificada.br/pos/educacao/ Em termos de origens. Educação e Sociedade Capitalista .Programa de Pós-Graduação em Educação A QUESTÃO DO PARTIDO http://www. o partido em geral manteve. possíveis de serem encontrados em grandes centros e que se reuniam apenas em períodos eleitorais. ou seja. Ao escrever sobre a processualística político-institucional. A política deverá ser entendida. Weber identificou os primeiros partidos políticos com os agrupamentos existentes nas cidades medievais – ainda sem a presença organizada do Estado moderno. Unioeste . evidentemente – como os guelfos e os guibelinos das cidades italianas.estão garantidas. A política obtém assim a sua base no conceito de poder e deverá ser entendida como a produção do poder. apesar da ascensão política da burguesia. de modo contínuo. de que resulte uma distribuição relativa da força. identificando no ambiente da nobreza inglesa a gênese dos partidos. mais identificados como “facções” ou “clubes de políticos locais”. quando se fez necessário à organização partidária ganhar corpo regional mais amplo. pela ameaça e aplicação da força física pelo quadro administrativo. como qualquer atividade em que o Estado tome parte. na Inglaterra. 214 geográfico determinado . necessários à legitimação do parlamento inglês. em princípio. identificados às grandes famílias da nobreza. que exerciam fortes influências nos burgos eleitorais.

Estado e Educação de conseguir uma situação nova. Desse modo. principalmente. portanto de defesa do capital. quando verificam o funcionamento do partido seja na França. Para os marxistas. sua direção conserva um caráter de classe.os que estão “à cata de um posto” e os que.na França . até poucos anos atrás. os deputados eleitos. os jornalistas e. de forma preponderante. não havia funcionários remunerados. mesmo realizando uma crítica ao ambiente político existente na França. além disso . em uma segunda profissão.) . 2000. a formulação burguesa de partido falseia as relações de classe existentes na sociedade. historicamente não tem permitido duradouramente que o parlamento se configure em um espaço de amplos ganhos da luta política proletária. haja vista o refluxo das conquistas dos trabalhadores. Em geral. O número de pessoas que. estão à espera Coleção Sociedade. Weber observou que os programas dos partidos eram elaborados por circunscrição eleitoral. fazia da atividade política a ocupação principal era muito reduzido. todavia não avançou muito além da igualdade jurídica. na qual ocorria a eliminação dos movimentos liberais da classe média. 87) Tendo testemunhado o processo de unificação do reino sob o comando de Bismarck. No Estado sob hegemonia burguesa. Abrangia. 215 mantinham controlados os membros do grupo parlamentar. ocupados pelos partidos que governam e da “base aliada”. tendo já ocupado um posto. Ao estudar o funcionamento da “empresa política” francesa no início do século XX. Observamos assim que o Estado como uma instância de dominação das classes economicamente dominantes. ou pelos próprios candidatos às vésperas das campanhas eleitorais. (Weber. a política se constituía. não caracterizando um pensamento hegemônico e único capaz de identificar com clareza o cerne ideológico do partido. Além dos empregados da sede central. p. considera-se que os estudos de Max Weber. ocorrendo que não era possível viver profissionalmente da prática partidária. O que vale dizer. não enfrentam o caráter contraditório e falso da chamada democracia burguesa e o papel conservador das instâncias de decisão. o avanço da contra-revolução mundial que tem excluído os trabalhadores do conjunto de riquezas socialmente Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. mesmo sendo operado sob um regime democrático-burguês. que visou uma melhora dos encaminhamentos político-burocráticos de representação. é possível perceber que o entendimento weberiano de partido tem suas raízes na lógica liberal burguesa da “igualdade jurídica”. o punhado de empregados do organismo central. Inglaterra ou Alemanha.

como os Estados Unidos da América. o objetivo da revolução proletária é a liquidação de toda exploração do homem pelo homem. a importância do partido está em que ele é o principal instrumento que promoveria a passagem da “classe em si” para “classe para si”. 216 produzidas em todo o mundo. estavam somente se iniciando nas formas sob as quais as conhecemos atualmente. etc.br/pos/educacao/ os quais. por sua condição de existência ser o próprio terreno da política. o que até hoje tem se constituído enquanto movimento organizado de resistência e de luta (ao lado de sindicatos. associações e movimentos sociais). ou as forças políticas de esquerda – especialmente os de extrema-esquerda . Para eles. seja pelo entendimento das forças políticas de direita que concebem o partido como um elemento de defesa e manutenção da ordem econômico- social.Programa de Pós-Graduação em Educação No caso de Marx e Engels é sabido que eles não puderam desenvolver satisfatoriamente uma teoria acabada dos partidos políticos. Contraditoriamente. Marx entendia que a energia revolucionária dos trabalhadores se dilui quando não é canalizada e organizada por um partido. de todas as formas de opressão social e a criação do comunismo. Na ótica de Marx e Engels. em certos momentos da história. de classes e frações de classes. inclusive. os partidos eram a expressão. sem tratar da organicidade de sua força mais destacada que são os trabalhadores. Unioeste . Ou seja. que se constituiu para boa parte da esquerda mundial como o documento que mais influenciou o movimento organizado dos trabalhadores. Eles combateram a concepção burguesa de liberdade. de educação. a partir do exercício do poder político institucional. enquanto todas as revoluções do passado somente apresentavam a substituição de uma forma de exploração por outra. Também não nos legaram uma teoria completa da formação da consciência de classe do proletariado. O proletariado somente age como classe organizando-se em partido.que concebem o partido como instrumento de subversão da ordem econômico-social. como sujeito coletivo autoconsciente. para eles. mas não consideravam que toda e qualquer luta partidária devesse exprimir interesses econômicos conflitantes. mais ou menos adequada. Esta interpretação de partido enquanto instrumento revolucionário tem como principal influência as idéias de Marx e Engels contidas no Manifesto do Partido Comunista. mesmo em países centrais do capitalismo. o partido tem sido o locus no qual podemos ver congregados. http://www. direito. Educação e Sociedade Capitalista . de 1848. de forma que não se pode militar consequentemente para a revolução. os Estado. a partir do exercício da ação revolucionária.unioeste.

que voltara pouco a pouco. por exemplo. a partir de meados de 1848. o próprio Estado deixará de existir.] a crise do comércio mundial. Estado e Educação interpretações que mais influenciaram o conhecimento do mundo contemporâneo.. que se organizava conforme os jacobinos. 95). Na fase comunista. carece-nos. na introdução escrita em 1895 para a obra de Marx As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Ao contrário. deverão destruir o Estado burguês e organizar um novo tipo de Estado. a Prússia. Posteriormente. O referido Manifesto apresentou ao debate público uma das Coleção Sociedade.. Engels. A redação deste documento foi solicitada a Marx e Engels pela Liga dos Justos. a Romênia. Em outras palavras. o Manifesto foi fruto das tendências pertinentes ao movimento revolucionário que sacudia a Europa no ano de sua publicação. Para Engels. Para eles. Ora. fora a verdadeira mãe das revoluções de fevereiro e de março e que a prosperidade industrial. a realidade que se apresentava. uma observação deve ser feita relativa à interpretação equivocada de que os resultados positivos e negativos da revolução de 1848 é fruto da convocação feita aos operários no Manifesto Comunista. que foi um solo fértil de práticas revolucionárias. ocorrida em 1847. o Império Austro-Húngaro. esta dedução somente foi possível depois de dez anos de estudos sobre a história econômica realizados por Marx. 21). perguntar: como e quanto tem o Manifesto Comunista a contribuir para o entendimento desta dinâmica em que toma forma a organização política dos trabalhadores sob a forma de partido político? O Manifesto foi escrito num contexto revolucionário. (p. atingindo a França. desde os finais do século anterior com as sublevações dos ludistas. 217 partidos comunistas e organizações revolucionárias. como a Rússia. ou seja. a Itália. ambos criticaram este modelo de organização revolucionária e propuseram a dissolução da Liga.) . Todavia. foram as realizações concretas do movimento operário que levaram os autores a sistematizar naquele documento. e chegara ao seu apogeu em 1849-1850. organizando-se num partido revolucionário. porque desnecessário. então. foi a força vivificante na qual a reação européia hauriu renovado vigor (Engels. p. capaz de eliminar a propriedade privada dos meios de produção. a Polônia. entre outras nações que não passaram sem sobressaltos. De Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. que a “história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”. mas que somente dariam frutos em 1917. de cunho radical. afirmou que: [. em grupos conspirativos fechados. os trabalhadores.

suas contradições. ao mesmo tempo em que estabelece uma relação com http://www. o fim da propriedade privada dos meios de produção. no caso – por não ser uma construção positiva. (1978. portanto. é nessa instância que as lutas contemporâneas entre reacionários. crescente –.Programa de Pós-Graduação em Educação dentro das especificidades de cada formação social. e ao contrário da derrota eminente do capitalismo presente no discurso do Manifesto – o qual seria fruto do próprio desenvolvimento das forças produtivas. no prefácio à edição alemã do Manifesto Comunista. 14). concretamente. 55). sem entender a realidade hegemônica do caráter democrático-burguês do Estado. este se apresenta sob uma forma dialética. deve ser entendido Unioeste . p. Afinal. enquanto elemento principal da luta política proposta. na luta pela superação do modo de produção capitalista. produzindo conhecimentos e atuando na realidade social. reformistas e revolucionários têm se desenrolado. 218 maneira que isto levou ambos. Qualquer que seja o fenômeno investigado.br/pos/educacao/ o desenvolvimento geral do capitalismo. (p. Por conseqüência. correis o risco de vos converter em simples charlatães. Como dirigente revolucionário. Lênin escreveu que aos militantes não convinha se isolarem da disputa política.. é que na concepção de partido no Manifesto está subjacente as referências daquela época. Do contrário. precisamente porque ainda há nelas operários embrutecidos pelo clero e pela vida nos rincões mais afastados do campo. a vossa obrigação é atuar no seio dessas instituições. Educação e Sociedade Capitalista . Estado. ou nos vários escritos posteriores de seus autores a respeito do movimento dos trabalhadores. Hoje sabemos que a segunda metade do século XIX corresponde à segunda etapa da revolução industrial. seu programa e militância. se institui. o que podemos observar é que no Manifesto Comunista. com suas próprias lutas internas.unioeste. acelerado no modo de produção capitalista – o que se deu. a reconhecerem que “este programa está agora envelhecido em alguns pontos”. Assim. ainda que fosse no campo do inimigo: Enquanto não tenhais força para dissolver o parlamento burguês e qualquer outra organização reacionária. Desse modo. retilínea. foi a continuidade do modo de produção capitalistas e dos interesses burgueses. o partido comunista em 1848 se construiu com uma identidade ideológica e política enquanto uma teoria que se filia à escola socialista. Por ser fruto de sua época histórica e do acúmulo teórico reunido até meados do século XIX. fundamentado numa interpretação da realidade social sob a perspectiva dos trabalhadores. isto implica não ser possível analisar a trajetória de um determinado partido político. o partido. em 1872 – devido ao enorme desenvolvimento da industria moderna a partir de 1848 –.

“direita e “centro” constituem-se em parâmetros não rígidos. “democraticamente”. mais ou menos desenvolvida. pois toda luta de classe Coleção Sociedade. prova de agudo anacronismo (COUTINHO. sem que isto tenha resultado em melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. avanços qualitativos ao trabalhador. De qualquer modo. Estado e Educação é uma luta política. (p. 39). como podemos observar ao analisarmos a argumentação de Engels presente em Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã. 219 Em resumo. tem galgado as instâncias governamentais. apesar de sua inevitável forma política. (Engels e Marx. Isto porque. Pelo menos na história moderna fica. que um partido que se considere de esquerda seja o regente das políticas de Estado. giram em última instância em torno da emancipação econômica. Intelectuais de renome afirmam que considerar como válida ainda hoje a estratégia revolucionária proposta no Manifesto Comunista é. portanto.. Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. pelo simples fato de permitir. no mínimo.) . qualquer que seja a forma. Em todos estes movimentos. sendo o Estado um Estado de classe. 1992. p. e por isso mesmo incapaz de uma antítese prática ao discurso liberal. comuns à história de luta das classes sociais pela emancipação econômica. esta “esquerda”. os comunistas apóiam em toda parte qualquer movimento revolucionário contra o estado de coisas social e político existente. Contudo. a ação revolucionária e a contra- revolucionária encarnam os movimentos de “avanços”. a de elevar. o que não é possível dado os limites deste artigo. de que esta se revista”. no início do terceiro milênio. de “estabilidade” e de “refluxos”. portanto. apesar de descaracterizada pela ausência da militância revolucionária. 2000). organizações revolucionárias de extrema-esquerda insistem que a ação do partido que luta pela mudança da estrutura jurídica-política do Estado deve ser. como afirmamos. o compositor destas políticas continua sendo a classe que detêm os meios de produção. necessariamente. ainda mais. Ou seja. “esquerda”. o Estado burguês não garante. 47). p. como questão fundamental. discute-se o espectro dos diferentes tipos de partidos políticos. demonstrado que todas as lutas políticas são lutas de classes e que todas as lutas de emancipação de classes. Assim. No âmbito da luta política. põem em primeiro lugar. de modo que se torna necessário explicitar a tipologia de partidos a que se refere para se estabelecer comparações e classificações entre os partidos da América Latina. a questão da propriedade. 201) No livro Partidos Políticos e Educação (CONCEIÇÃO.

na verdade. em especial. quase sempre fiquem iguais. na busca de “governabilidade” e na administração do poder institucional. A extrema-esquerda. acabando por ser engolido pela prática política dominante “tradicional”. para ela o crescimento numérico deve ser acompanhado de uma intensificação de sua energia revolucionária. Parece que o crescimento institucional dos partidos de esquerda implica. Engels. quando são eleitos. suas normas. a extrema-esquerda argumenta politicamente que isto tem garantido. Ainda que faça alianças políticas. e isso faz com que os partidos. Tais organizações entendem que mesmo tendo que lutar no terreno concreto da chamada democracia burguesa. conforme se supõem. tais alianças são fortemente marcadas pelo caráter ideológico-educativo. O caráter do partido parece se definir no que transmite. Para os partidos Unioeste . Alguns militantes. o governo à Estado. 1991). No seu entender. procurando agradar a burguesia.. quanto mais um partido que se expande eleitoralmente busca a sua tranqüilidade. do tipo “agarra-tudo”. busca constituir-se num partido de massas sem abdicar de sua radicalidade. seus sentimentos coletivos. educar o povo significa desalienar as massas das influencias dos partidos burgueses e construir uma http://www. o discurso e a prática. exemplo privilegiado dessa tendência. Todavia. têm mostrado que acabam concordando in extremis que é preciso fazer pactos e alianças com a burguesia a fim de garantir a “governabilidade”. a ficar cauteloso e centrista. ou seja. entendida como a luta pelo fim da propriedade privada dos meios de produção. Lênin e Trotsky não pode abandonar este princípio de coerência íntima entre o “escrito”. etc. mais se atrofiam suas garras revolucionárias. o “dito” e o “feito” (GRACINDO.br/pos/educacao/ sociedade comunista.unioeste. seus ritos. Em vez de intensificar sua energia revolucionária.notadamente o de extrema-esquerda – não deixa de ser um microcosmo com sua ética. O partido político . em afrouxamento da militância e num discurso político mais genérico. comprometidos historicamente com a luta dos trabalhadores. praticamente. 220 a bandeira desfraldada no Manifesto Comunista.Programa de Pós-Graduação em Educação revolucionários. o aumento de suas forças políticas e a solidez de sua estrutura o leva. não é toda e qualquer aliança que pode ser feita. o partido proposto inicialmente por Marx. sejam de “esquerda” ou de “direita”. ou seja entre o programa. normalmente. Educação e Sociedade Capitalista . de tal maneira que acaba abandonando os seus antigos princípios e suas “bandeiras históricas”. Esses partidos pretendem estar a serviço da independência dos trabalhadores que. serão os novos dirigentes da sociedade. cada vez mais. a quem transmite e como transmite.

na hora precisa. com a concepção de partido revolucionário. os operários alemães saibam converter as condições sociais e políticas. se isto estiver correto. pois para ele Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. no que tange às conseqüências de suas reflexões acerca da sociedade moderna e com interpretações antagônicas. Simplificando. Coleção Sociedade. Sob certo aspecto. que se tornou clássica no campo das ciências sociais e da história. Provavelmente. podemos encontrar nesses dois pensadores uma convergência de análise centrada no capitalismo. parece que naquele momento Weber apresenta uma visão pessimista sobre a modernidade. por exemplo. possa ser travada a luta contra a própria burguesia. Buscamos argumentar que Karl Marx e Max Weber são situados em campos opostos. sustentaram teoricamente que os comunistas podiam. nas várias etapas de seu desenvolvimento histórico. entende-se que naquilo que se refere ao pensamento político. em outras tantas armas contra a burguesia. CONCLUSÃO Como afirmamos inicialmente.pode ser uma alternativa mais segura para o capital do que um partido de direita. uma vez destruídas as classes reacionárias da Alemanha. Por isso. (p. Não obstante estas divergências. fazem uma importante ressalva: Mas nunca. em nenhum momento.) . 46). 221 burguesia. às vezes um partido de esquerda . que a burguesia emergente pôde agir de forma revolucionária contra a monarquia absoluta. Estado e Educação criadas pelo regime burguês. a fim de que. para que. o objetivo deste texto despretensioso tem como limite de reflexão nos reportarmos a alguns contrapontos teóricos entre Karl Marx e Max Weber.sob certas circunstâncias de crise . esse Partido se descuida de despertar nos operários uma consciência clara e nítida do violento antagonismo que existe entre a burguesia e o proletariado. contribuiu com a formulação das bases teóricas da concepção burguesa de partido e Marx. contra a propriedade rural feudal e contra a pequena-burguesia. porque isto significava combater pelos interesses objetivos imediatos da classe operária. Marx e Engels afirmam. no Manifesto Comunista. naquele momento. fazer alianças com a burguesia no caso da Alemanha. Weber. Todavia. visto que ambos se voltaram para o exame dos aspectos mais importantes da ordem sócio-econômica do mundo ocidental.

Weber. A formulação teórico-metodológica geral que fundamenta a escola weberiana está na idéia de separação entre “juízos de valores” e “juízos científicos” e na análise do processo de racionalização e da modernidade. Para ele. volta e meia fazem referências a Weber em seus discursos. O conceito de burocracia racional é contraposto ao conceito marxista de luta de classes. está na forma usá-los e através de que mecanismos legitimá-los. a concepção de socialismo contida no Manifesto Comunista está assentada na esperança revolucionária da ditadura política do proletariado. entre o desejável e o possível. Simplesmente relega essa exigência a um futuro bem distante e refuta qualquer possibilidade de socialismo em nossa época (Cf. políticos eruditos. por trás do qual se perfila a violência. e não a do trabalhador” (1997: 268). Weber partilha com Marx. Weber busca equilíbrio entre paixão e perspectiva. se estende até um determinado limite de seus princípios. Nem nega a possibilidade de uma socialização dos meios de produção.unioeste. Para Weber. Tais políticos dizem que em Estado. O dilema ético colocado por Weber.está em marcha é a ditadura do funcionário.ao menos por enquanto . Nesta direção. que é capaz de sacrificar algumas de suas convicções – se assim o contexto exigir – cuja maleabilidade. WEBER. da tentativa de colocar Unioeste . a política é o reino do poder e da força. pois esta maleabilidade não pode ser absoluta.Programa de Pós-Graduação em Educação os fenômenos ligados às “forças espirituais” (notadamente os ideológicos) em alguma correlação com os interesses das”forças http://www. um socialismo dessa natureza levaria à maior servidão – a burocratização: “o que . no que se refere ao uso do poder e da força. o qual ele não pode ultrapassar. Educação e Sociedade Capitalista . Weber também se referiu ao “político da convicção” (o político dos fins últimos) e ao “político da eficiência” (o político de resultados). o verdadeiro “político por vocação” seria o “político responsável”. Do seu ponto de vista. porém. citando particularmente a idéia desenvolvida por ele de “ética da responsabilidade” e “ética da convicção”. Como mencionamos. todavia.br/pos/educacao/ materiais” das ordens econômica e política. mas não as considera como a dinâmica central. porém. cujo parto. inclusive. entretanto. dirigida pelo partido revolucionário. se dá por meio da violência revolucionária. porém. não nega as lutas de classes. Esta visão contrasta com a análise esperançosa de Marx sobre a sociedade moderna. Nesta direção. 1997: 275). 222 todos os barômetros da economia prevêem o aumento das restrições à liberdade.

porém. por exemplo. toma como referência o indivíduo e faz exigências absolutas à sua consciência. é considerada mais importante que os princípios. será o partido político o principal instrumento para a luta política? As origens. por exemplo. orientando-se pela ação de outros. a fragmentação das esferas de valor engendrou um aparente paradoxo: a ética tornou-se um domínio relativamente autônomo. De questões como estas é que decorreu a possibilidade de algumas aproximações rudimentares e contraponto entre Marx e Weber. Claro que seleção e o uso responsável dos meios para atingir os fins propostos indicam uma ética da responsabilidade. dotado de lógica própria. a partir de suas ações com os demais. Só existe ação social quando o indivíduo tenta estabelecer algum tipo de comunicação. Afinal. Na fórmula weberiana. Nesta perspectiva. segundo Teixeira (ANO). 223 certos momentos seguem a ética da responsabilidade e que a ética das convicções fica em segundo plano. Weber não analisou Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. simultaneamente. Desse modo. as duas éticas não são contrastes absolutos. Para ele. possibilidades e limitações do partido há que serem buscadas no Programa (princípios). para Weber os valores políticos não podem ser reduzidos unicamente a valores éticos. a sociedade pode ser compreendida a partir do conjunto das ações individuais. as normas e regras sociais são o resultado do conjunto de ações individuais. na Propaganda (discurso) e na Agitação (militância). Em uma sociedade concebida como uma totalidade hierarquizada. por sua vez. o universo da política não se confunde com o da ética. também. segundo uma cosmologia que atribui preceitos distintos a inserções distintas (como ocorre. a partir dos diferentes contextos em que atua e em vários momentos da história das sociedades. Weber refletiu sobre a univocidade da ética moderna. cada dimensão tem uma ética particular que se integra ao todo. especialmente na questão do partido político. mas antes partes. Contudo. Assim. a ética teve de se especializar. Nos conceitos de ação social e definição de seus diferentes tipos. os escritos de Max Weber e Karl Marx têm especial importância. Estado e Educação de castas indianas e na doutrina de salvação cristã). que só em uníssono constituem um homem genuíno -um homem que pode ter a “vocação para a política”. como ressaltamos. a governabilidade. segue leis particulares. entretanto. Para Weber. Ou seja. na ordem Coleção Sociedade. a ética na modernidade constitui-se a partir de valores universalistas e igualitários. Estas são todo tipo de ação que o indivíduo faz. pois cada esfera da vida.) .

224

as regras e normas sociais como exteriores aos indivíduos. Segundo
Weber, a mesma racionalização progressiva que libertou o homem da
ignorância e das superstições tendia a escravizá-lo em rígidas estruturas
institucionais, por isso via na burocracia e na sua expansão no sistema
social o maior perigo ao homem.
Partindo do pressuposto de que o principal terreno da luta política
proletária, dirigida pelo partido, tem sido o da realização e ampliação
do conteúdo da democracia,
faz-se necessário, ao menos mencionar, que há muitas formas
de abordagens a respeito do conceito de democracia e diferentes formas
de entendimento no que se refere à sua realização plena. As discussões
presentes, sobre o ideal democrático a partir do momento histórico
da “redemocratização brasileira”, ocorrida na década de 80, por
Unioeste - Programa de Pós-Graduação em Educação

exemplo, buscaram identificar minimamente o discurso ideológico de
“igualdade”, em uma sociedade de classes, portanto, de indivíduos
http://www.unioeste.br/pos/educacao/

economicamente desiguais.
É notório – através dos chamados arautos liberais – o discurso
de que a saída para o desenvolvimento da nação passa pela
“democratização social”. Ou seja, que basta a participação do indivíduo,
através do sufrágio universal, para que a promessa de ampliação do
seu direito em intervir nas políticas ocorra. Entretanto, cabe argumentar
teoricamente sobre as limitações e determinantes da democracia que,
segundo Eric Hobsbawn, em seu artigo “A Falência da Democracia”
(2001), afirma não ser esta, por si só competente e ideal, e que se
opta pela democracia por falta de práticas consideradas mais eficientes.
O entendimento da realidade, em que condições, e como se dá a
construção do discurso democrático, contribuirão na análise e
compreensão do papel do partido.
Importante mencionar que, na segunda metade do século XIX,
verificamos a crítica de Marx ao formalismo democrático liberal, que
tem na social-democracia sua “principal vertente burguesa” de defesa
daquilo que acredita ser o melhor caminho para a realização de uma
representação real da classe trabalhadora no Estado e, a partir dele,
poder construir uma melhor “equalização” da relação trabalho versus
capital (e não de “igualdade econômica”).
Segundo o pensamento de Marx e Engels, a destruição da ordem
capitalista e a criação da sociedade socialista estabelecem um grande e
histórico processo, que exige um novo conteúdo para criar novas
relações.. Segundo eles, o ser humano deveria ser um criador consciente
de seu próprio mundo, um criador de si mesmo. O problema da

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

225

organização do processo revolucionário constituiu, para eles, a principal
questão para a qual dedicaram suas vidas, centrados na idéia de que a
consciência revolucionária somente pode ser adquirida na ação
revolucionária.
Em uma de suas obras históricas, O Dezoito Brumário de Luís
Bonaparte, Marx denunciou o aspecto conservador presente na
democracia:
O caráter peculiar da social-democracia resume-se no fato de exigir
instituições democrático-republicanas como meio não de acabar com
dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu
antagonismo e transformá-lo em harmonia. Por mais diferentes que
sejam as medidas propostas para alcançar esse objetivo, por mais que
sejam enfeitadas com concepções mais ou menos revolucionárias, o
conteúdo permanece o mesmo. Esse conteúdo é a transformação da
sociedade por um processo democrático, porém uma transformação
dentro dos limites da pequena burguesia. (p. 226).

Coleção Sociedade, Estado e Educação
Ao mesmo tempo, se observamos a principal bandeira
democrático-burguesa, a do sufrágio universal, verificaremos seus
limites na vida das sociedades modernas, nas quais a igualdade material
não se realiza concretamente, mas nas quais a igualdade formal
obscurece a visão da realidade social. Busca-se confundir o povo
imaginário com o povo real. Outras formas de manifestação social, a
não ser pelo voto, não são bem vistas. Desta forma, temos o constante
não cumprimento de promessas “ditas” e “escritas” – sempre renováveis
– como parte deste fenômeno. Atentemos para a citação abaixo, presente
em outra obra histórica de Marx, As Lutas de Classe na França de 1848
a 1850, ao tratar do caráter das eleições para a Assembléia Nacional
na França em meados do século XIX: “(...). Tal era seu culto ao povo.
Ao invés deste povo imaginário, as eleições trouxeram à luz do dia o
povo real, isto é, os representantes das diversas classes em que este
se subdivide.” (Marx, p. 127).
Em relação aos regimes ditatoriais, segundo Engels, tratando-
se da organização da classe trabalhadora, os governos democrático-
burgueses permitem um melhor encaminhamento das propostas e
estratégias dos partidos, já que lhes é garantido o direito de existência.
Na introdução escrita por Engels, presente na já citada obra As lutas
de classes na França de 1848 a 1850, lemos o seguinte: “A ironia da
história mundial põe tudo de pernas para o ar. Nós, os revolucionários,
os ‘subversivos’ florescemos muito melhor pelos meios legais que
pelos ilegais e a subversão.” (ENGELS, p. 108).

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

226

Na ótica de Marx, Engels, Lênin e Trotsky, o partido proletário
não pode privar-se de disputar o poder político pelo fato de que o
modelo de governo, o sistema partidário, as regras eleitorais e o direito
são de caráter burguês e tem por fim reproduzir o modo de produção
capitalista. Assim, consideram que a democracia burguesa tem espaços
contraditórios, já que sua premissa liberal permite que os trabalhadores
se organizem, o que poderá – não necessariamente – levar ao
desenvolvimento da “consciência de classe”. O partido revolucionário
surge assim como um importante agente educativo da militância.
O partido revolucionário privilegia a ação direta e apresenta
uma face que atua legalmente e outra que atua na clandestinidade,
dado que, conforme, se entende as principais transformações não
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virão pelo voto, pela lei, pelo parlamento ou pelas instituições
tradicionais. Afirma-se que é necessário que este partido se prepare
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paralelamente para a luta revolucionária, elaborando teorias e práticas
subversivas, formando quadros para as mais diferentes tarefas. Assim,
não se pode dispensar a inserção popular, daí a importância da
expressão pública do partido.
Ao nos propormos a discutir partido político e democracia
burguesa não há como deixar de fazer algumas referências à Revolução
Russa. Afinal, no caso deste nosso estudo, preocupações com a Rússia
nós encontramos tanto em Marx e Engels quanto em Weber, pois a
situação da democracia burguesa na Rússia era foco de suas reflexões.
Aquilo que os elaboradores do materialismo histórico denominaram
“despotismo oriental” era também objeto de preocupação para Weber
que pensava haver um suposto imobilismo no ambiente russo, ainda
arcaico. O interesse de Weber pela Rússia se estendia desde muitos
anos. Ele se familiarizou com a literatura de Dostoiévski e Tolstói,
bem como com os escritos do filósofo Vladimir Soloviev.
Anteriormente, Engels já havia observado que as finanças do
Estado russo estavam arruinadas. Weber fez um diagnóstico idêntico,
mostrando como tal situação levou a uma dependência crescente do
Czar frente a bancos estrangeiros, o que, em contrapartida, lhe permitiu
manter-se insensível às demandas da burguesia russa e dos que a
representavam na Duma. Particularmente, Weber simpatizava com a
plataforma dos kadets (constitucional-democratas). Tanto é verdade
que quando o “domingo sangrento” precipitou os acontecimentos e
as rupturas dirigidas pelos bolcheviques, Weber acompanhou
atentamente os seus desdobramentos pela imprensa.

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

227

Weber avaliava as possibilidades dos reformistas a partir da
confluência de distintas forças sociais e econômicas favoráveis: os
zemstvos (conselhos comunais criados por Alexandre II), para o
desenvolvimento do capitalismo e da organização crescente dos
partidos liberais. Weber, porém, manteve-se pessimista, pois
considerava que a massa popular ainda não possuía formação política.
Em razão disso, tudo lhe parecia configurar um quadro em que o
exercício de uma realpolitik era virtualmente impossível, visto que o
núcleo das preocupações de Weber era a racionalidade. Todavia, Weber
acreditava que valia a pena acompanhar de perto as experiências norte-
americana e russa; elas seriam as últimas oportunidades para construir
culturas livres, começando pela base.
Traçando comparações com outras revoluções, Weber escreveu
que havia uma outra diferença que acreditava ser fundamental: na
Rússia faltariam líderes à altura das exigências históricas do momento
e ele não os reconhecia entre os líderes da esquerda, de modo geral e

Coleção Sociedade, Estado e Educação
muito menos entre os bolcheviques, particularmente. Provavelmente,
a revolução de fevereiro de 1917 surpreendeu Weber, pois uma solução
de tipo não-burguês lhe parecia improvável, consoante seus princípios
da hierarquia e da autoridade de comando como a forma de organização
estrutural ideal.
A partir de escritos de Lenin, podemos diferenciar “tipos” de
democracia, cujos conteúdos se alteram, tais como as denominadas
democracias pré-burguesas, democracia burguesa e democracia
socialista. Assim, tendo a Revolução Russa como parâmetro principal
para a discussão e crítica que se forjou sobre a democracia burguesa,
Décio Saes afirma ter encontrado nos escritos de Lênin fórmulas
político-práticas prepositivas a respeito da democracia proletária.
Em a Revolução proletária e o renegado Kaustsky, por exemplo,
Lênin detecta o fenômeno do desenvolvimento contínuo e progressivo
da democracia ao longo da história da humanidade: a democracia
burguesa é superior, enquanto democracia, às democracias pré-burguesas
(escravistas, feudal); mas a democracia socialista e proletária, por sua
vez, é superior, enquanto democracia, à democracia burguêsa. (1994, p.
175)
De acordo com Saes, o caráter democrático do Estado proletário
residiria no controle da burocracia pelas massas trabalhadoras, ou
seja, a burocracia não deixaria de existir, todavia perderia sua aparente
autonomia, deixando de estar separada do conjunto da maioria dos
trabalhadores. Além do controle sobre a burocracia, o Estado proletário
teria como aspiração comunistas implementar um conjunto de políticas

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

228

desestatizantes que orientasse o deslocamento das funções e
obrigações administrativas – que até o advento da revolução, eram
executadas pelo Estado – para a mão das massas de trabalhadores.
Ou seja, enquanto a soberania popular na democracia burguesa é
apenas uma promessa que não se cumpre, na democracia proletária,
a “participação popular na definição da política para o conjunto da
sociedade deixa de ser uma pura forma de princípio” (Saes, 1994, p.
185). Saes acertadamente observa que, apesar de reconhecer a
necessidade de preservar e estudar as ponderações de Lênin acerca da
participação política no Estado socialista, lembra que a teoria leninista
da democracia proletária não indica quem dirigiria o processo de
desestatização progressiva. Todavia, a história recente já nos mostrou
que esta tarefa não poderá ser cumprida pelo próprio grupo de agentes
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burocráticos que trabalhariam pela sua extinção, é a massa de
trabalhadores organizados que deve fazê-lo. Lembramos que, no seu
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combate ao stalinismo, o próprio Trotsky até se referiu à necessidade
de uma “revolução política” nos Estados socialistas burocratizados.
Os trabalhadores têm dois inimigos: a burocracia e a burguesia.
De acordo com Marx, a burguesia não forjou apenas as armas
que lhe darão morte, mas também os homens que manejarão essas
armas – o proletariado. Marx analisou a sociedade moderna, procurando
entendê-la conceitualmente, por outro lado, ele vislumbrou a
possibilidade de transformá-la, criando as condições para uma
sociedade comunista - uma sociedade sem exploração e opressão.
Portanto, o capitalismo, como modo de produção burguês, pode ser
destruído, edificando, assim, em seu lugar uma sociedade sem classes.
Esta luta revolucionária deve ser dirigida pelo partido político como
agente educativo.
Segundo a concepção de Weber, o capitalismo não poderia ser
efetivamente transcendido num futuro previsível e que o modo
capitalista de produção não estava levando a uma luta de classes aberta
e irresistível entre trabalho e capital, ao contrário de Marx, para quem
é em nosso tempo que o antagonismo de classe aparece de forma
mais aguda, em que a sociedade divide-se em dois campos fundamentais
e diametralmente opostos: a burguesia e o proletariado.
Para concluir estes apontamentos, se como pressuposto os
trabalhadores entendem que o movimento da sociedade na história
tem sido dialético, é necessário que o partido também tenha uma ação
ideológico-educativa consciente no sentido de orientar o movimento
dos trabalhadores, visando a elaboração de um pensamento

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

229

revolucionário que vise dar conta das especificidades da transição do
processo revolucionário e que possibilite melhor compreender os
aspectos históricos inerente às experiências do chamado “socialismo
real”, mas que também possa instrumentalizar os trabalhadores na
construção de uma sociedade no qual os seres humanos sejam criadores
de si mesmo. É na ação revolucionária que a própria transformação
dos homens coincide com a transformação das circunstâncias, por
isso a destruição da ordem capitalista e a criação da sociedade socialista
estabelecem um grande e histórico processo, que exige um novo
conteúdo do problema ideológico-educativo para criar novas relações.

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Marx

Estado, Educação e Sociedade Capitalista

A ESCOLA DE ESTADO NA PERSPECTIVA MARXISTA

Amarilio Ferreira Jr.
Marisa Bittar

INTRODUÇÃO

Este estudo tem como objetivo explicar a trajetória histórica
que a escola de Estado percorreu no âmbito da chamada “civilização
ocidental”. Trata-se da idéia de se estabelecer uma espécie de “fio de
Ariadne” explicativo sobre os percalços que ela sofreu desde a sua
origem – no contexto da Antigüidade Clássica grega – até a segunda

Coleção Sociedade, Estado e Educação
metade do século XX. Para tanto, como base de interpretação,
utilizamos uma literatura cuja filiação se inscreve na tradição do
pensamento crítico inaugurado por Karl Marx e Friedrich Engels. A
concepção marxista da história, tal como na passagem que se segue,
possibilita deslindar o papel que a instituição superestrutural escolar
desempenha no âmbito societário fundado na propriedade privada dos
meios de produção, pois
[...] na produção social da sua existência, os homens estabelecem relações
determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de
produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento
das forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção
constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a
qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem
determinadas formas de consciência social (MARX, 1971, p. 28).
Foi nos marcos desse referencial teórico-metodológico que
procuramos tecer o fio condutor elucidativo das possíveis funções
que a instituição escolar criada pelo Estado exerceu em diferentes
contextos históricos. Ou seja, agência superestrutural mediadora entre
a base econômica de sustentação material da sociedade e o mundo
das idéias que reveste, como um invólucro, as várias dimensões
espirituais necessárias à existência dos homens, tais como:
conhecimento científico, ideologia, religião, expressões artísticas, etc.
A expressão “escola de Estado” foi utilizada no texto com o mesmo
sentido que Marx empregou em a Crítica do Programa de Ghota, isto
é, no âmbito de uma sociedade estruturada na propriedade privada

Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs.)

] ‘uma educação do povo a cargo do Estado’ é absolutamente inadmissível. e registra que. a pólis. é importante reconstruir os caminhos que a escola de Estado percorreu na forma de uma síntese explicativa das múltiplas condicionantes históricas que a perpassaram desde a Antigüidade Clássica grego-romana. deixou claro que para ele e Engels educação significava três coisas: instrução intelectual. assinalou que a burguesia não fora capaz de concretizar os ideais que havia preconizado para a educação. Nesse sentido. a sociedade civil é que deve educar o Estado.unioeste. no final do século XIX. Marx afirmava que: [. as aptidões exigidas ao pessoal docente. Unioeste . Ele. “o processo de estatização da escola é especialmente testemunhado pelas inscrições.. nas quais os explorados não devem aceitar o Estado como educador do povo. ao contrário. ainda. laicidade e gratuidade. 66 ). atravessou uma longa trajetória marcada por conjunturas http://www. é preciso. quando Marx formulou sua crítica ao capitalismo. desde a sua origem até o século XX. banir da escola qualquer influência do governo e da Igreja” (MARX.. A TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA ESCOLA DE ESTADO A idéia de materialização da escola de Estado remonta à Antigüidade Clássica. Além disso. estabelecendo a crítica à burguesia não por tê-los formulado. por sua vez. e. mas sim por não tê-los cumprido. etc. deve assumir diretamente a tarefa da instrução”. 232 dos instrumentos de produção e. e acrescentou-lhes. p. mas os incorporou como válidos. 27). p. Educação e Sociedade Capitalista . estatização. como acontece nos Estados Unidos.Programa de Pós-Graduação em Educação Assim sendo. 1995. Com base nesse preceito. Estado. uma concepção mais orgânica da união entre instrução e trabalho na perspectiva da formação integral de todos os homens. Desse modo. por conseqüência.br/pos/educacao/ históricas nas quais nem sempre pode concretizar os ideais mais radicais de universalização. inscritos nos movimentos revolucionários burgueses. pelas mesmas razões. mas. 1971. Manacorda afirma que “a partir do século V se discute se o Estado. não rejeitou esses princípios. fiscalizar por meio de inspetores do Estado a execução destas prescrições legais é completamente diferente de fazer do Estado o educador do povo! Pelo contrário. encontradas em grande quantidade em várias cidades” (MANACORDA. Determinar por uma lei geral os recursos das escolas primárias. a escola de Estado. à época.. física e tecnológica. as disciplinas ensinadas. com a população dividida em classes sociais antagônicas.

Depois. aquele que governaria a pólis. entre outras. Por conseguinte. a qual soa de fora. quando a Igreja Católica dispensou a “voz que falava de fora”. não consultamos a voz de quem fala. Assim. o grande educador protestante. Desse modo. ou seja. os meninos oferecidos. Quanto a este aspecto. ela estava conferindo um novo significado pedagógico para a arte do falar. em Didáctica magna. pois cada um é parte da cidade. 1973. a Igreja Católica. tratou de organizar uma escola à sua imagem e semelhança. incitados talvez pelas palavras a consultá- la” (SANTO AGOSTINHO. juntamente. na Idade Média. Elas tinham. O advento do capitalismo mercantil colocou o “mundo de ponta- cabeça”. isto é. O seu princípio pedagógico fundamental era o seguinte: “no que diz respeito a todas as coisas que compreendemos. cujo objetivo era formar o cidadão. e é natural que a superintendência de cada parte deve ser exercida em harmonia com o todo. a escola de Estado submergiu. A combinação do humanismo renascentista com a Reforma Protestante no século XVI deu um outro alento à idéia de escola de Estado. as instituições educacionais do medievo formavam quadros intelectuais e criavam uma hegemonia cultural favorável à nobreza feudal.) . Portanto. 267). papel que coube particularmente às escolas cenobiais. 1988. um dos termos fundadores da Paidéia Grega. mas a verdade que dentro de nós preside à própria mente. p. na prática. pois eles dão a máxima atenção à educação das crianças e fazem dela um encargo público (ARISTOTELES. a retórica que era ensinada pelos sofistas da Antigüidade Clássica nas escolas de Estado perdeu o seu sentido político e. a tarefa de transformar os oblatos. A consolidação da patrística cristã engendrou uma nova concepção de educação. o político. com o advento da sociedade feudal. ele defendeu a seguinte tese: Não devemos pensar tampouco que qualquer cidadão pertence a si mesmo. Diferentemente da escola de Estado grega. 351) . formar o cristãos. p. Coménio. a instituição supranacional das sociedades feudais da Europa Ocidental. 233 Talvez a mais importante referência sobre esse processo tenha sido Aristóteles. as escolas paroquiais e Coleção Sociedade. deve-se louvar os lacedemônios. nos intelectuais orgânicos que pensavam o processo de reprodução do status quo da ordem feudal. Na obra Política. com ela saiu enfraquecido o próprio helenismo. Estado e Educação cenobiais tinham como finalidade divulgar o logos. mas que todos pertencem à cidade. segundo analisou o historiador Christopher Hill. já defendia o Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. além de educar segundo os preceitos religiosos do cristianismo.

A indústria de ponta era a têxtil. o enciclopedista vaticinou em favor do caráter civil da educação alertando “Vossa Majestade” para que “a educação em suas escolas públicas” fosse “civil.. As crianças eram alimentadas ali. A burguesia – nas afirmações de Marx e Engels (1848) – “durante seu domínio de classe. a todas as condições sociais e a todos os indivíduos” (DIDEROT. a burguesia inglesa foi quem propôs o controle sobre o trabalho infantil. com isso. cujo principal tema era a transformação da Rússia feudal numa sociedade burguesa. “a burguesia – ainda segundo Marx e Engels – só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção. apenas secular. 08) . Assim. Chegou-se a conclusão de que era preciso dispensar as crianças. Com certeza. estamos matando a galinha dos ovos de ouro’. dormir. Começaram a morrer. 7 anos. Foi uma discussão importante no Parlamento inglês. a qualquer custo. brincar. a Grande. isto é. as relações de produção e. Mas. a batalha das idéias também ajudou a abrir a vereda que pavimentaria o caminho entre a escola de Estado e o http://www. A revolução industrial garantiu a vitória do projeto societário burguês.] na 1ª Revolução Industrial. p. 5). por conseguinte.unioeste. E por quê? Porque tinham habilidade imensa com as mãozinhas nos teares. 2006. tenha implicado na destruição da família proletária. criou forças produtivas mais numerosas e mais colossais que todas as gerações passadas em conjunto” (MARX e ENGELS. mesmo que o revolucionamento incessante da sociedade capitalista.Programa de Pós-Graduação em Educação 1995. lógico. ainda se travariam grandes batalhas ideológicas. 234 que seria no futuro uma das grandes tarefas a que se proporia a escola pública: “queremos dar a todos aqueles que nasceram homens uma instrução geral capaz de educar todas as faculdades humanas” (COMENIO. pelo menos até certo grau.br/pos/educacao/ capitalismo urbano-industrial. p. se. 15 horas. quanto ao seu caráter laico. Alimentadas por pais desempregados. a Inglaterra quisesse ter uma classe operária no futuro”(SOCHACZEWSKI. Então a burguesia inglesa disse ‘alto lá. Unioeste . todas as relações sociais” ((MARX e ENGELS. no início da revolução industrial. colocá-las para comer. 1982. uma das mais importantes frentes desse campo de luta foi aquele sustentado pelo Iluminismo francês do século XVIII. 109). relativa ao bem da sociedade e que convenha. A socióloga brasileira Suzanna Sochaczewski descreveu essa tragédia social que ocorreu no início do século XIX assim: [. que empregava batalhões de crianças de 4. 425) .. 1982. p. 5. nas máquinas. enfim. p. ou seja. Nas famosas “cartas” de Diderot à czarina Catarina. 111) . Estado. estudar. p. prisioneira da sua própria lógica de acumulação do capital. Educação e Sociedade Capitalista . enquanto trabalhavam 14. Entretanto.

respondeu muito rapidamente a algumas perguntas muito simples: ‘não sei nada de nada’” (ENGELS. 132). No começo. a burguesia. entre outras agências.] e um terceiro. ou seja. dos dogmas teológicos. independentemente da origem de classe social e sexo das crianças. as obras literárias encontram um público cada vez mais numeroso e interessado”(CHESNAIS. Estado e Educação nasceu atada por um nó górdio: a qualidade do ensino. informa que [. os panfletos religiosos e toda sorte de boletins.. a proporção de adultos capazes de ler aumenta em metade. premida pelas contradições da sua própria revolução e pressionada por anseios populares. p. Engels. 131). p. em A vingança do terceiro mundo. 1989. em O capital. Marx. destacou. bastou citar o relatório do próprio inspetor de fábrica nomeado pelo governo inglês: “ao visitar uma dessas escolas que expediam certificados. Em pouco tempo dá-se o triunfo da escrita: multiplicam-se os manifestos políticos. Chesnais. Para tanto. no final do século XIX.) . Pode-se perceber então que a luta pela melhoria da qualidade de ensino nas escolas públicas historicamente foi uma reivindicação proletária. 1985. isto é. institucionalizou.. Para tentar desatar esse nó entrou em cena o movimento operário. para não secar as fontes de mais-valia. As escolas mantidas pelas igrejas se aproveitavam dessa situação para instrumentalizar a educação apenas do ponto de vista dos seus interesses religiosos. p. com dezesseis anos de idade. apresentando excertos do relatório da Children’s Employment Commission. Contudo. laica e para todos.. em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Tanto Marx quanto Engels. em suas obras.. denunciaram a baixa qualidade de ensino da escola pública produzida pela revolução industrial inglesa do século XIX. [. por exemplo. a questão da qualidade do ensino estava muito marcada pela ausência do Estado. passando de 59 a 90%. vai na mesma balada. Engels. a escola estatal. fiquei tão chocado com a ignorância do Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 1985. que “uma jovem de dezesseis anos não sabia quanto são dois vezes dois. 235 Assim. o analfabetismo praticamente desapareceu por completo. pública. da efetiva capacidade da escola em garantir o processo de ensino- aprendizagem a todas as crianças e adolescentes que nela ingressaram. 143). a Inglaterra já havia universalizado tal paradigma escolar.] entre 1840 e 1889. nos dá conta de que “os operários já exigiram muitas vezes do parlamento uma instrução pública puramente laica” (ENGELS. No final do século XIX. a constituição de uma rede nacional de escolas públicas Coleção Sociedade.

o movimento operário inglês viu uma série de suas Unioeste . 1985.. “o trabalhador inglês que mal sabe ler e ainda pior escreve” (ENGELS.Programa de Pós-Graduação em Educação reivindicações serem colocadas em prática: “no decorrer desse período. passou a reivindicar uma legislação social tanto de proteção ao trabalho quanto de garantia das liberdades democráticas. p. Ele enfatiza que esse sempre foi o medo dos conservadores. termo derivado da Carta do Povo (1837-1838). Foi nesse contexto histórico da luta de classes entre burgueses e proletários que a escola pública do ensino fundamental transformou- se numa realidade cotidiana da sociedade urbano-industrial. a mais importante delas foi aquela concebida pelo filósofo norte-americano John Dewey. já tinha conquistado uma consciência de classe. p. O “imperialismo como fase superior do capitalismo”. estou à frente dos meus alunos” (MARX. Ao longo do curto século XX. a lei da supressão dos direitos sobre os cereais (1846) e a lei de associações políticas (1846)” (BEER. sabia a quais interesses políticos deveria historicamente se filiar. 436). 133). p 1968. como escreveu Manacorda. p. 456). havia imposto profundas transformações na forma de organização das relações de produção. Educação e Sociedade Capitalista . a lei da reforma do Código Penal (1837). Mas.unioeste. Segundo Dewey. Estado. esse novo contexto da sociedade urbano-industrial evidenciou que a escola pública estava defasada e que a posição social que desempenhava era conservadora. O famoso movimento cartista. o senhor sabe ler? Respondeu ele: Ah! Sei somar. A primeira metade do século XIX foi marcada por intensas lutas operárias. a http://www. ou seja.br/pos/educacao/ primeira lei relativa ao trabalho de mulheres e crianças nas fábricas (1842). 236 mestre-escola que lhe perguntei: Por favor. Mas. Num processo de ampla mobilização político- sindical. 1984. esse processo foi sempre permeado pelo conflito entre aqueles que defendiam a expansão da escola a todas as camadas sociais e os que. essa escola pública passou por várias reformas. como propugnou Lênin (1979. acrescentou: Em todo caso. a lei de imprensa (1836). 575). elaborada pelos sindicatos dos trabalhadores ingleses. o capitalismo já não se pautava mais pela livre concorrência. No início desse século. Imperava um divórcio entre os conteúdos didáticos que 1 Título da obra sobre o século XX escrita pelo historiador Eric Hobsbawm (1995). advogavam que tal expansão ocasionaria o rebaixamento da sua qualidade ao nível das multidões. a lei da jornada de dez horas (1847). Sem dúvida alguma. foi adotada a primeira lei de proteção ao trabalho das crianças (1833). Para justificar-se. como aludiu Engels. pelo contrário. chamado pelo historiador Eric Hobsbawm de a “era dos extremos”1 .

157) manifestados pelas crianças. isto é. isto é. e a pessoa” (DEWEY. A sua função de garantir minimamente o domínio da escrita. no contexto da sociedade urbano-industrial organizada no entorno das fábricas de chaminés. Trata-se de um conjunto de teorias de administração industrial preconizadas pelo fundador da Ford Motor Company (1902). 1980. que exigia uma determinada participação ativa da inteligência. ministrados formalmente nas escolas públicas. de “desenvolver ao máximo. p. Pioneiro da indústria automobilística nos EUA. de ajudar a construir os métodos industriais modernos. 237 ela ensinava – “impostos de cima para baixo e de fora para dentro” (DEWEY. a força intrínseca de desenvolvimento da experiência infantil” (DEWEY. romper o velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualificado. ou objeto. 5). p. 1967. determinada pelo “prazer que acompanha o interesse autêntico e legítimo” (DEWEY. 145)2 . era uma instituição superestrutural que tinha a finalidade. da iniciativa do trabalhador [o artesão das corporações de ofícios]. 1978. “a especialização dos trabalhadores exasperada até a repetição exaustiva Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. 05) – e aquilo que as crianças adquiriam em suas experiências cotidianas no mundo da sociedade industrial. Para ele. particularmente o princípio pedagógico baseado no learning by doing. 162). entre outras tarefas. isto é. John. p. as atitudes maquinais e automáticas. repercutiram em todas as sociedades industriais. ele lançou a construção em série e imaginou a padronização das principais peças que compõem um automóvel. p. Esses conhecimentos basilares. ou seja. da leitura e das operações elementares da matemática também era instrumentalizada ideologicamente pelos interesses da hegemonia política burguesa. 145. Estado e Educação no Brasil. 1980. no trabalhador. 397). da fantasia. p. 3 Fordismo significa uma determinada fase do desenvolvimento das forças produtivas no âmbito das relações capitalistas de produção. p. “a ‘velha educação’ tinha a tendência para ignorar a qualidade dinâmica. inclusive Coleção Sociedade.) . o industrial norte- americano Henry Ford (1863-1947). e reduzir as operações produtivas apenas ao aspecto físico maquinal” (GRAMSCI. 1980. Dewey justificava a necessidade de se organizar um movimento pedagógico em defesa da nova escola pública desse modo: “o surto do que se chama de educação nova e escola progressiva é ele próprio o resultado do descontentamento com a educação tradicional” (DEWEY. Vida e educação. a “educação nova” tinha que valorizar “a relação intrínseca entre a matéria. 1967. Os preceitos educacionais da “escola nova”. “aprender fazendo”. 2 DEWEY. serviam como condutos nos quais transpareciam a concepção de sociedade plasmada pela lógica produtivista imposta pelo fordismo3. A escola pública do ensino fundamental. p.

basear toda a vida do país na produção” (GRAMSCI. propaganda ideológica e política habilíssima) para. p.Programa de Pós-Graduação em Educação provocado abalos sísmicos nas relações existentes entre educação e sociedade urbano-industrial. 99) está exigindo cada vez mais novas demandas do processo de formação escolar dos trabalhadores. finalmente. Estado. segundo Toffler. Para Toffler. O fordismo já não é nem mesmo capaz. p. Ou. 381). 238 Para a escola pública não era necessário ir além dessa tarefa atribuída ao ensino fundamental. podemos considerar o conceito de fordismo como sinônimo de taylorismo. Educação e Sociedade Capitalista . como afirmou Sanchis. de “racionalizar a produção e o trabalho. são outros os desafios da escola pública. 1993:44). 1997. onde “a fábrica é transformada num imenso relógio no qual os homens e as máquinas desempenham o papel de engrenagens programadas” (DE MAIS 1993. combinando habilmente a força (repressão contra o movimento operário) com a persuasão (altos salários. “a fé quase cega nos efeitos benéficos da educação sobre o emprego” (SANCHIS. p. O desenvolvimento das “economias supersimbólicas” (TOFFLER. 44). ao contrário daquelas organizadas em torno dos métodos criados por Frederick Taylor. 4 Denominação usada por TOFFLER (1990:99) para designar o novo tipo de trabalhador produzido pela chamada “economia supersimbólica”. http://www. O processo de superação da linha de montagem baseada no fordismo ameaça pôr a pique um dos axiomas pedagógicos da civilização ocidental: a educação para o trabalho. Não se exigiam habilidades cognitivas abstratas que implicassem em atividades intelectuais sofisticadas por parte do proletariado fabril. Para continuar desempenhando uma função social relevante no mundo das “fábricas” automatizadas e robotizadas a escola pública. 1978. benefícios sociais diversos. a qualificação profissional dos trabalhadores das “economias supersimbólicas”.br/pos/educacao/ como entendia Gramsci. a distribuição e o consumo no âmbito das relações capitalistas de produção têm Unioeste . num repensar sobre o papel sócio-econômico desempenhado até então pela escola pública.unioeste. terá de ser capaz de dar conta do de poucos movimentos elementares e a padronização dos produtos e dos processos de modo a chegar à produção em série. Assim. p. As transformações por que passam a organização. Ao iniciar o século XXI. está assentada em outros paradigmas escolares. Neste caso. necessariamente. 204). A transformação do proletariado em “cognitariado”4 implicou. a escola pública do ensino fundamental tinha como principal papel social ajudar na organização da racionalidade produtiva que imperava na sociedade industrial moderna. O mundo da produção fordista estava baseado no uso da força física e repetitiva do trabalhador. 1990. à sincronização” (DE MASI.

a afirmar que vivemos “sob o signo da Isaura Monica Souza Zanardini e Paulino José Orso (Orgs. imediata e inevitavelmente. tornando os processos mais rápidos e eficientes (COUTINHO. vão além daquelas tipificadas pelo mundo do trabalho. 1990. A tese educacional do neoliberalismo também se expressa por meio de fórmulas econômicas: “a educação escolar determina o desempenho produtivo da força de trabalho (. caracterizada pela intensa difusão das inovações telemáticas e informáticas. essa grande invenção da história da educação ocidental.) . em conseqüência. é evidente que as tarefas sociais da escola pública.. qual o acesso que a pessoa tem ao banco central de dados e ao sistema de informações da diretoria. a educação é concebida exclusivamente como um instrumento que alavanca o processo de acumulação do próprio capital. e de que grau de autonomia e responsabilidade o indivíduo goza” TOFFLER. desperdícios. o quanto ele é rotineiro ou programável. p. 239 seguinte paradigma educacional: “a pergunta-chave quanto ao trabalho de uma pessoa hoje tem a ver com o quanto o serviço envolve processamento de informações. Estado e Educação da eficiência do sistema produtivo” (BRASIL. 1996. 99). p. e pela emergência de um novo padrão de organização da produção e da gestão na indústria e nos serviços. 102). criados pela revolução técnico-científica. Essa nova lógica da produção capitalista está colocando em perspectiva a possibilidade histórica da existência de uma sociedade urbano-industrial “sem trabalho”. ao contrário do que se imaginava inicialmente. A manifestação orgânica de tal fenômeno social. ao aumento Coleção Sociedade. Na sociedade urbano-industrial sem emprego – que levou Forrester. 220).).. períodos de produção e tempos-de-resposta.) levariam. mais uma vez. aumentos do nível médio da escolaridade da força de trabalho (. Contudo. e com poucas medidas complementares.. O corolário mais evidente desse quadro econômico é o chamado desemprego estrutural. que nível de abstração está envolvido. vem marcada pelo cariz ideológico da era do capital global: o neoliberalismo. p. Na nova configuração assumida pela hegemonia política do capitalismo.] forte aceleração tecnológica... Essa concepção de educação. que colocarão fim à idéia da escola pública. entretanto. padrão esse caracterizado pela articulação das cadeias de suprimento e de distribuição através de redes que minimizam estoques. em O horror econômico. 1997.. não vai ser a combinação entre os novos fatores tecnológicos e organizacionais aplicados nas relações capitalistas de produção. Isto porque a atual etapa das relações capitalistas de produção tem se distinguido pela [. em qualquer época da história humana. a importância cultural da escola pública. Portanto. está pondo em evidência.

Na Antigüidade Clássica. CONCLUSÃO Historicamente. o mundo da cultura passou a ser o principal locus da humanização do próprio homem. A escola pública ainda é uma instituição que deve reunir um conjunto de elementos sócio-políticos fundamentais para o processo de socialização e propagação da linguagem. pelo poder público da cidade. ainda exigem a interferência institucional da educação formal. Nessa perspectiva. urge contrapor-se à tirania do denominado “tempo real”. e que tende a ser apenas uma sociedade do efêmero e do instantâneo. ou seja. Quantas pessoas passam em frente a uma igreja histórica e nem sequer a enxergam? A educação serve para dar conta das novas exigências do trabalho. Neste sentido. das tecnologias revolucionárias” (FORRESTER. portanto. o principal elemento da humanização do homem. Educar é a capacidade de dar sentido às coisas. a idéia de uma escola mantida pela polis. o fato ‘linguagem’ é. tal como tem propugnado De Masi: [... na realidade.unioeste. É o oposto da mentalidade em vigor na sociedade industrial. a educação formal deve ter todas as condições institucionais para realizar na prática os Unioeste . 240 cibernética. A construção de um outro tempo em objeção a esse novo paradigma das relações sociais de produção da sociedade capitalista funda-se em diferenciados padrões de manifestações da espiritualidade humana. o tempo da cultura e da apropriação dos saberes. isto é. 33). foi uma conquista das classes sociais que no passado foram privadas desse direito. 36). Os princípios que estruturam o tempo do amadurecimento.] a cultura se traduz na capacidade de compreender a beleza do que já http://www. Mas deve servir também para viver bem nas horas em que não se trabalha”(DE MASI. da automação. Nos atuais tempos de “economia supersimbólica”. em que impera a sociedade dos meios de comunicação e informação. p. p.br/pos/educacao/ se tem. 1994. pública e para todos. segundo Gramsci. 1997. uma multiplicidade de fatos mais ou menos organicamente coerentes e coordenados” (GRAMSCI. que é mais intelectualizado e criativo. em que era apreciada a beleza somente do que ainda não se possuía. é impossível imaginar a difusão da cultura humana sem o concurso da linguagem. Educação e Sociedade Capitalista . 1986.Programa de Pós-Graduação em Educação novos desafios da cultura. ela. a escola de Estado. p. “significa também cultura e filosofia (ainda que no nível do senso comum) e. 25) –. pois. foi preconizada por Estado.

Esse fenômeno veio atender também às necessidades do mundo produtivo. e. o postulado de que ao Estado caberia o dever de criar e manter escolas para todas as crianças e adolescentes. É quando a educação passa a ser alvo da preocupação política e conclui o processo de sua passagem do âmbito religioso para o estatal. no entanto.) . não foram totalmente concretizados. ao contrário. pois a emancipação da escola deveria ser simultaneamente da Igreja e do Estado. recebendo. estatalidade. de 1848. portanto. 296). p. Em seus escritos posteriores. mas assume todas as conquistas ideais e práticas da burguesia no campo da instrução já mencionadas: universalidade. 1982. quando reivindicou. tal como preconizava desde a redação do Manifesto comunista. entretanto. eles