You are on page 1of 8

EDUCAÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL

Neste artigo buscamos demonstrar a gênese da educação a partir de Marx e Lukács,
acentuando sua função social no seio da reprodução social. Demonstramos que a
educação tem sua origem no trabalho, mas que, entretanto não se confunde com ele,
constituindo, desse modo, uma esfera relativamente autônoma do ser social.
Concluímos também, que a educação não se confunde com o trabalho, mantendo para
com este uma relação extremamente mediata e indireta.

Palavras-chave: Trabalho; ser social; educação; função social da educação; reprodução
social.

O trabalho, a reprodução da vida material, é a base sobre a qual, em graus cada
vez mais elevados de autonomia relativa, se fundamentam as esferas da socialidade.
Para Lukács, a partir de Marx, é no trabalho – entendido como síntese entre teleologia e
causalidade, entre prévia-ideação e objetivação, troca orgânica entre homem e natureza,
tendo por base as construções histórico-sociais produzidas e legadas pelo ser social em
seu conjunto – que encontramos o fundamento de todas as esferas que compõem o ser
social. Ao contrário do trabalho, as outras esferas do ser social operam com o ser já
constituído, embora seu desenvolvimento represente uma crescente complexificação
deste mesmo ser social. O direito, a educação, a política, a arte, enfim, todos esses
complexos têm sua gênese com o ser social já constituído. Isto é enfatizado por Lukács,

todas as categorias desta forma de ser [ser social] têm já,
essencialmente, um caráter social; suas propriedades e seus modos de
operar somente se desdobram no ser social já constituído; quaisquer
manifestações delas, ainda que sejam muito primitivas, pressupõe o
salto como já acontecido. Somente o trabalho tem, como sua essência
ontológica, um claro caráter intermediário: ele é, essencialmente, uma
interação entre homem (sociedade) e natureza, tanto inorgânica
(utensílio, matéria-prima, objeto do trabalho, etc.) como orgânica,
interrelação que pode até estar situada em pontos determinados da
série a que nos referimos, mas antes de mais nada assinala a
passagem, no homem que trabalha, do ser meramente biológico ao ser
social. (1981a, p.4).

Entretanto, isto não configura uma impostação cronológica, mas sim uma
priorização ontológica,

Ser ‘fundante’, para Lukács, não significa ser ‘anterior’, vir antes, ou,
ainda, possuir um fundamento que não seja a própria processualidade
da qual o trabalho é a categoria fundante. Pelo contrário, não pode

sem o trabalho não poderia haver nem as relações sociais nem sequer a linguagem. “nenhum ato de trabalho em sua singularidade pode exercer todas as funções sociais que. ele torna-se o fundamento de todos os outros complexos que configuram o ser social. se não houver linguagem. p. 39). sendo dialeticamente condição para a realização dele. uma vez que o desenvolvimento da estrutura orgânica não assegura a passagem do indivíduo meramente biológico para o homem social. 2002. pois. (LUKÁCS. É claro que a sociabilidade. Por outro lado. como já assinalamos. 2002 p. e sim.5) Portanto. A educação é uma das esferas sociais que surge no momento de constituição do ser social. quanto à sua essência. (LESSA. Apenas por seu intermédio pôde um ser meramente biológico tornar-se ser social. “ser fundante não significa ser cronologicamente anterior. O que fazemos. 1 Embora as esferas sociais possuam as suas formas de existência assentadas em seus fundamentos ontológicos. em um dado momento histórico. mas apenas mas que este último a exige como forma de sua realização. no interior da reprodução de uma dada sociedade. são requeridas do trabalho em sua totalidade. Isto não significa. Nasce a partir do trabalho. Neste sentido. 2 haver trabalho sem a ‘linguagem. Por isso. uma abstração sui generis. E quanto ele surge? Formulando de outra forma. quando ocorre o salto ontológico que origina o ser social? O salto não pode ser determinado cronologicamente. que esse complexo social tenha prioridade ontológica sobre o trabalho. a primeira divisão do trabalho. p. etc. sem as relações sociais. pois. das determinações ontológicas que consubstanciam o salto da humanidade para fora da natureza” (LESSA. 2000. surgem do trabalho. de acordo com Lukács. a cooperação e a divisão do trabalho’. . não há pensamentos e nem sequer teleologia. mas sim ser portador das determinações essenciais do ser social. a linguagem.” (LESSA. o que não significa a redução desses complexos ao trabalho1. Desse modo não existe nenhuma das esferas citadas acima sem o trabalho. a educação aparece no memento em que passar a existir o homem. não pode haver conceitos e. sem estes. o que as remete ao trabalho. é. simultaneamente. 1981a. como pode haver a linguagem? E. 163) O próprio Lukács faz essa ressalva. p. mas não numa sucessão temporal claramente identificável. por fim. Ele representa o momento fundante do ser social porque efetua o salto ontológico do mundo orgânico para o mundo dos homens. 38).

permanece um salto e. [. O salto. por exemplo. grifos do autor). em última análise. para o qual a anatomia do homem fornece a chave para a anatomia do macaco e para o qual um estádio mais primitivo pode ser reconstruído . 3). 11-12.] Felizmente a criança não precisa acumular experiência ou fazer por si mesma todas as tentativas e erros.] as características biológicas só podem iluminar as etapas de passagem. porém. 1981a. por mais precisa que seja. conforme apontamos. reduzida divisão social do trabalho.. [. uma tradição social. Isto porque. portanto.. não o salto em si mesmo.. só pode ser esclarecido conceptualmente através do experimento ideal a que nos referimos. e o homem é um animal social. pois. e que constitui em si mesmo uma expressão concreta dessa tradição social. ele não poderia se dá senão de modo social. entretanto. podemos afirmar que isto tem sua gênese na “pré-história”. Esse homem primitivo já se constitui em sociedade. de sua direção evolutiva.no pensamento ..] Herda. e. Mesmo nas circunstâncias de baixíssimo desenvolvimento das forças produtivas.). p. O máximo que se pode obter é um conhecimento post festum. O aparecimento do trabalho e consequentemente do homem. de suas tendências de desenvolvimento. o trabalho é uma atividade social.. Entretanto. conforme afirma Gordon Childe. [. recordação e experiência. A maior aproximação nos é trazida. das diferenças psicofísicas entre o homem e o animal não apanhará o fato ontológico do salto (e do processo real no qual este se realiza) enquanto não puder explicar a gênese destas peculiaridades do homem a partir do seu ser social. Até a mais simples ferramenta feita de um galho partido ou uma pedra pontuda é fruto de uma longa experiência – de tentativas e erros. pelas escavações. p. É preciso. etc. 3 nós não podemos ter um conhecimento direto e preciso dessa transformação do ser orgânico em ser social. lembradas e comparadas. Qualquer instrumento é um produto social. impressões recebidas. Em um processo muitíssimo lento e não homogêneo que vai do aparecimento do gênero hominídeo até a construção das primeiras ferramentas e da organização social em bandos à sua evolução para tribos primitivas. qualitativamente diferente. ter sempre presente que se trata de uma passagem que implica num salto – ontologicamente necessário – de um nível de ser a outro. que lançam luz sobre várias etapas intermediárias do ponto de vista anatômico-fisiológico e social (utensílios. A habilidade de fazer uma ferramenta foi conquistada pela observação. aplicando o método marxiano.a partir daquele superior. não pode ser determinado em dias e tão pouco em anos. no entanto. Nós. (LUKÁCS. Seus pais e as pessoas mais velhas lhes ensinarão como fabricar e utilizar o equipamento.. segundo a experiência acumulada por numerosas gerações anteriores. (1988. . também acentuamos que a descrição.

essa atividade criadora exige uma apropriação prévia do conhecimento do que precisa ser transformado. Observemos também que o conhecimento para a fabricação do machado não foi adquirido em um insight. Na sociabilidade primitiva o desenvolvimento das forças produtivas é extremamente baixo. Estas se processam na relação homem-homem. De acordo com Leontiev. “a simples” construção dessa ferramenta e posteriormente a sua difusão dependeu. Inclusive a educação. Ora. A educação situa-se entre as ações teleológicas que Lukács denominou de secundárias. certamente a necessidade de machado existiu para os grupos por muito tempo até que ele fosse feito. da educação e do próprio impulso à ciência. não de modo mediato. Desse modo. o machado. Para sua construção era necessário conhecer algumas propriedades de determinadas pedras. erros e acertos o machado teria sido desenvolvido. Apenas em um processo lento de descobertas. Voltemos mais uma vez ao nosso exemplo. Tomemos como exemplo a construção de uma ferramenta bastante rústica e cuja tecnologia foi desenvolvida por todos os grupos primitivos que existiram. portanto a extrema submissão do homem pela natureza faz como os diversos complexos sociais em atuação aparecem sem muita distinção. consubstanciada na relação homem-natureza efetivada pelo trabalho. o recolhimento e a transmissão da experiência acumulada após constantes tentativas de erros e acertos até a realização do machado foi assegurada pela educação. de outras esferas sociais distintas do trabalho. diversas esferas da socialidade já se colocam (em estado germinativo) enquanto relativamente autônomas em relação à matriz do trabalho. 4 Assim. Enquanto a teleologia primária caracteriza-se pela transformação do mundo natural. . que não pode ser realizada sem a mediação da linguagem. Não importa o fato desse conhecimento não ser a reprodução acabada do ser-em-si das coisas e tão pouco que ele esteja envolvido de fetichismo. A vida nessas comunidades estava quase reduzida à manutenção material da existência. Ela torna-se um instrumento privilegiado de apropriação e transmissão de aquisições não materiais. e. O fato é que não seria possível transmiti-lo apenas pela imitação espontânea. A ação teleológica educativa assume um papel fundamental na reprodução da totalidade social. caracterizando-se por atuarem sobre a consciência no sentido de influir os homens a assumirem posições sociais desejadas pela reprodução social. pouco se diferenciando entre si e da própria natureza. Entretanto.

mas no mundo que o rodeia. a construção genérica no indivíduo mediada pela educação se processa de modo subordinado à reprodução da totalidade social (Tonet. (s/d. “a problemática da educação reenvia à questão sobre a qual ela se funda: a sua essência consiste em influenciar os homens a fim de que. Desse modo. não de modo exclusivo. são definidos pela reprodução da totalidade social. O homem não nasce dotado das aquisições históricas da humanidade. não são incorporadas nele. apenas ao nível da aparência. (MACENO. De fato. a reprodução da sociedade impõe de antemão os limites e possibilidades de atuação da educação. o papel social da educação não se resume aos aspectos traçados até aqui. Dito de outro modo. primordialmente. p. reajam no modo socialmente desejado. xxiv). Cabe a ela. 2011. e impossível. aos ombros das gerações anteriores e eleva-o muito acima do mundo animal. nas grandes obras da cultura humana. por assim dizer. 2005 p. Conforme aponta Leontiev. conseqüentemente a continuidade do processo histórico. Entretanto. 291. frente às novas alternativas da vida. nem nas suas disposições naturais. na medida em que conserva os conhecimentos produzidos sócio-historicamente. infundir sobre os homens determinadas formas de agir em relação ao mundo natural e aos outros homens. 301) Com efeito. p. é insofismável a imprescindibilidade da educação. aparentemente a educação. 47) . (s/d. a ação teleológica educativa tem com função ontológica. Isto ocorre mesmo que aos olhos dos sujeitos históricos lhes pareça que eles estão livremente determinando a dinâmica da educação. no plano histórico concreto. 215). Só apropriando-se delas no decurso da sua vida ele adquire propriedades e faculdades verdadeiramente humanas. especialmente a formal. Conforme ressalta Tonet. todavia. transmiti-los de modo favorável a forma de sociabilidade concretamente existente. 5 este processo deve sempre ocorrer sem que (sic) a transmissão dos resultados do desenvolvimento sócio-histórico da humanidade nas gerações seguintes seria impossível. Entretanto. pois na essência. Esse caráter é apontado por Lukács (1981b. Este processo coloca-o. é definida pelos indivíduos.” Do ponto de vista do indivíduo. nos cabe por em relevo o papel da educação enquanto mediação da reprodução social. p. grifos do autor). P. Resultando estas do desenvolvimento das gerações humanas. Uma vez que ela atua no sentido de possibilitar a construção do gênero humano nos indivíduos singulares. cuja matriz é econômica. os conteúdos e os meios para produzir a humanidade em cada indivíduo singular.

. na mesma medida que a reprodução social engendra as formas educativas hegemônicas necessárias à sua processualidade. a educação assume uma função ontológica que se dirige a reprodução social como um todo e não estritamente ao trabalho.. A educação animal pode ser feita totalmente pelo exemplo (. poderá ser fatal a alguns dos alunos. Em muita das vezes quando se exemplificava não se objetivava a conquista do alimento. a demonstração da fabricação da lança era diferente da fabricação da lança em si. É mediando (evidentemente não como único complexo social) a reprodução da totalidade social que a educação mantém uma relação com a matriz que a . Em uma relação de determinações recíprocas a educação contribui para reprodução social. Dessa forma. o método imitativo seria fatalmente lento. a instrução é dada tanto pela explicação como pelo exemplo. p. Os fins se dirigiam a aquisição de “conteúdos” por parte de outros homens. O momento da transformação da natureza. O exemplo da caça era distinto da caça efetiva. 13) Mais uma vez. 6 Desse modo. A criança não pode esperar até que um urso ataque a família para aprender como evitá-lo. A instrução apenas pelo exemplo. 1988. Exatamente onde a relação entre trabalho e educação e apresenta-se mais imbricadas e visíveis. mesmo que executados simultaneamente. Mesmos nas situações em que ela se aproxima mais estreitamente do trabalho a sua relação com ele não se processa de forma direta e imediata. por mais que fosse prenhe de procedimentos educativos ele não se identificava com o trabalho. ou seja. neste caso. A linguagem. p. Salientemos que mesmo nas condições descritas das comunidades primitivas (de pouca complexidade e extrema dependência do trabalho) a atividade educativa já se apresentava como uma ação teleológica secundaria direcionada a reprodução da totalidade e não de um único aspecto dela.) para as crianças. Conforme reforça Childe. 44) Para concluir. Nas sociedades humanas. nas comunidades primitivas a atividade educativa já se apresentava como uma esfera social que não se dirige ao trabalho de forma direta e sem mediações. que tanto têm que a aprender. (CHILDE. Vejamos por exemplo a tese que apresenta entre os dois complexos. permite aos mais velhos advertir o mais jovem contra os perigos mesmo quando não se manifestam. porém. a função social precípua da educação consiste em “formar” os homens socialmente requeridos pela reprodução da totalidade social. e demonstrar as ações apropriadas no caso de sua ocorrência. (1986.

p. In: Per una Ontologia dell’essere sociale. de Ivo Tonet. MACHADO. quando não estabelece relação direta com transformação do mundo natural que a educação mais contribui para a instauração das condições de reprodução da relação de trabalho na forma que ela assume nas formações sociais concretas. 1986. LEONTIEV. LESSA.). G. São Paulo: Ed Cortez. v. 4. São Paulo: Martin Claret. ccxlvii p. 1989. 145p. REFERÊNCIAS CHILDE. O mundo dos homens.a ed. II. In: BOITO JR et al. ou justamente. São Paulo: Boitempo. 1981a. Lukács: por que uma ontologia no século XX?.a ed. A produtividade da escola improdutiva. Politecnia. Roma: Riuniti. 159-170.). MANACORDA. Lucília. de Sergio Lessa.ª ed. mesmo. MACENO. A evolução cultural do homem. São Paulo: Cortez. Guanabara. Manuscritos econômicos filosóficos. Rio de Janeiro: Ed. Gordon. 2000. Educação Universalização e capitalismo. MARX. (Tradução Mimeogr. 7 gerou. escola unitária e trabalho. 5a ed. 2001. 2002. problemas e interpretações. Neste sentido. 2002. Rio de Janeiro: Zahar Editores. p. FRIGOTTO. 11-131. s/d. O desenvolvimento do psiquismo. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. 3. São Paulo: Cortez. É no comprimento de sua tarefa. ______. São Paulo: Baraúna. ______. ______. mas nunca exclusivamente diretos. Em alguns momentos históricos ela só pode cumprir sua função se justamente consegue se afastar relativamente dele.a ed. 1. Mario Alighiero. Georg. Sérgio. São Paulo: Moraes. 1981b. 9a ed. Il Lavoro.) A obra teórica de Marx: atualidade. 1. Talvanes Eugênio. 1988. editora. . 1989. (Orgs. Roma: Riuniti. 2000. São Paulo: Cortez. São Paulo: Xamã. LUKÁCS. Educação e a crise do capitalismo real. Aléxis. 2011. 5a ed. ______. In: Per una Ontologia dell’essere sociale. Autores Associados. os fios de ligação entre ela e o trabalho podem está mais ou menos estreitos. La Riproduzione. O que aconteceu na história. (Tradução Mimeogr.

Educação e luta de classes. Aníbal. cidadania e emancipação humana. Autores associados. São Paulo: Ed. SAVIANI. Ivo. Autores Associados. TONET. Rio Grande do Sul: UNIJUÍ. 1992. 12 a ed. 2003. 8a ed. . Educação. 8 PONCE. Demerval. Pedagogia histórico crítica: primeiras aproximações. São Paulo: Cortez. 2005.