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PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2003, 23 (3), 26-33

A Clínica da Intersexualidade e Seus
Desafios para os Profissionais de Saúde
The intersexuality clinic and Its challenges for health professionals

Resumo: A partir de uma revisão crítica da literatura sobre a intersexualidade, discutem-se as abordagens
clínicas adotadas em casos de ambigüidade da genitália externa e/ou interna, diagnosticados como pseudo-
hermafroditismo masculino, pseudo-hermafroditismo feminino e hermafroditismo verdadeiro. Tendo em
vista a necessidade de fundamentação nas questões concernentes ao desenvolvimento psicológico, em
especial a aquisição da identidade de gênero e o desempenho do papel de gênero, são enfatizadas as
Moara de Medeiros dificuldades envolvidas na tomada de decisão terapêutica e acompanhamento pelos profissionais que
Rocha Santos integram a equipe de saúde. Visando fornecer sugestões para futuros trabalhos nos planos científico e
assistencial, é traçado um panorama das recentes pesquisas.
Palavras-Chave: Intersexualidade, hermafroditismo, clínica, profissionais de saúde.
Psicóloga. Mestre em
Psicologia. Doutoranda
do Curso de Pós-
Abstract:Based on a critical literature review on intersexuality, clinical approaches adopted in cases of
graduação na external and/or internal genitalia ambiguity are discussed. These cases may have been diagnosed as male
Universidade de Brasília. pseudo-hermaphroditism, female pseudo-hermaphroditism or true hermaphroditism. Considering the
Bolsista da need to get support from issues related to psychological development, specifically dealing with the acquisition
Coordenação de of gender identity and performance of gender role, the difficulties involved in the therapeutic decision-
Aperfeiçoamento de making and follow-up by professionals within the health team are emphasized. An overview of recent
Pessoal de Nível research is traced, intended to give suggestions for future scientific and care providing endeavors.
Superior (CAPES) Key Words: Intersexuality, hermaphroditism, clinic, health professionals.

Tereza Cristina
Cavalcanti Ferreira
de Araujo
Psicóloga. Doutora pela
Universidade de Paris X
– Nanterre (França).
Professora do Instituto
de Psicologia da
Universidade de Brasília.
Coordenadora do
Laboratório de Saúde e
ArtToday

Desenvolvimento
(LABSAUDES/UnB).

Aspectos Biomédicos
Uma cuidadosa revisão da literatura revela que o peculiar ao vocabulário médico em geral. De um
termo intersexo tem sido empregado em estudos modo ou de outro, é importante explicitar que os
26 pautados pelo interesse em aspectos psicossociais, casos específicos diagnosticados como hermafroditismo
ao passo que a denominação genitália ambígua é verdadeiro, pseudo-hermafroditismo masculino e

proposta inicialmente hermafroditismo verdadeiro é uma condição por John Money. XY e natureza testicular é mais relevante para o desenvolvimento da conteúdo ovariano.Hampson. qualquer modificação poderia genitália. epidídimo e ductos contribuição dos fatores biológicos e pré-natais deferentes. se a criação for consistente com o correção do canal uretral interna. preferencialmente conteúdo testicular e faz-se Para diagnosticar esses estados intersexuais. Speroff. o que conduz à determinação gênero resulta essencialmente das influências do do sexo como masculino. certas alterações psicologicamente no sexo adotado . Nos casos sexo designado. A genitália interna pode ambiente social. a genitália externa não está identidade de gênero que seu sexo cromossômico. 2ª) durante o período são providos de gônadas femininas. o tratamento cirúrgico da organização dos diferentes níveis de distinção tem como objetivos: a) tornar a genitália externa o sexual: genética. resultante 1995). Braz. o Psicossexual ao Nascimento. sensibilidade peniana. para tais pesquisadores. identidade e papel de gênero). as condições intersexuais são predominantes destinadas ao manejo clínico da classificadas de acordo com critérios anatômicos. A Teoria da Neutralidade histológicos. para liberação do testículo retido normalmente formada e.G. . originando vários graus de diferenciação sexual anormal (Moore & Persaud. de Gênero e outros distúrbios psicopatológicos de vagina rudimentar ou urina (para detecção de hormônios adrenais e (Slijper. atualmente. a genitália externa é ambígua. a definição de do tipo masculino. funcional ou 1 longo desse desenvolvimento. que leva à presença de indivíduos são psicossexualmente neutros ao tecidos ovariano e testicular reunidos no mesmo nascimento e um desenvolvimento psicológico e indivíduo. 1987. Após esse período de a complementação da mãe até a condição atual do paciente.1995. o que inclui: consolidação. em 1975. cirurgia plástica da uretra e & Rosenthal.1997). Pseudo. dosagens hormonais sangüíneas. torna-se necessária visando conhecer desde a história pré-natal da passível de alteração. os sujeitos papel de gênero seria encontrada (Rosenwald. através de estimulação novos critérios diagnósticos no DSM-IV. inicialmente. Monteiro. mas não 1995). gonadal. Donda. Esses indivíduos são estéreis. internos (através de exame ou cirurgia da cavidade diagnóstico de desordem de identidade de gênero. assim como a genitália na cavidade abdominal e Dessa forma. Vale puberdade. com características morfológicas predominantes ou seja. ao não venham a interferir anatômica. podem ocorrer. trompas. nos casos de atribuição do Vale lembrar que o sexo designado ao nascimento sexo masculino. Molenaar & de Muinck Keizer. (diante da ausência dos masculinização. Existem. que a educação de uma genitália externa é feita em três hermafroditismo masculino corresponde aos criança com condição física de intersexo. cirurgia das gônadas. ou uso de estrogênio e será validado (ou não) por um conjunto de progesterona. J. O tratamento clínico consta de é importante salientar que foram introduzidos 27 terapêutica hormonal. criação. para verificar a classificação do desenvolvimento sexual anormal. integrada teoricamente por Money.A Clínica da Intersexualidade e Seus Desafios para os Profissionais de Saúde pseudo-hermafroditismo feminino pertencem à androgênica (testosterona). Reyes pré-escolar. sexual saudável depende da aparência da genitália. Todavia. ausência da mesma (Longui & gonadais) e identificação anatômica dos genitais Marques & Mustachi. Nos casos indicados. Drop. sem ambigüidade em relação ao sexo designado. As Teorias da Intersexualidade 1995). para que masculino quanto para o feminino. Tal abordagem sugere que a designação sexual seja tempos: 1º) remove-se o efetuada o mais rápido possível. Hampson & Hampson. Slijper. Assim. fenotípica e mais funcional e semelhante quanto possível à psicossocial. Hampson e J. citológicos e psiquiátricos. pode ser ambígua ou feminina. do pênis. correspondendo à diferenciação acha-se fundamentada em dois postulados: os gonádica incompleta. ambiental e biológica foi reconhecida. Em relação ao Chiara. criada etapas: 1ª) realizada entre dois indivíduos incompletamente masculinizados que e quatro anos de vida. exames laboratoriais da cromatina dilatação vaginal e cirurgia acarretar o surgimento de Desordem de Identidade plástica da vagina. 1998). 2º) no final da identidade de gênero ainda seria inconstante e puberdade. nuclear. sendo realizada anamnese. Em geral. compreende a remoção do possuem sexo genético 46. Radhakrishnan.L. 1955). Bradley & Hughes. Glass & Kase. geralmente conforme citado em Hurtig. 1998. Na (Money. sendo que. introduzida a prótese testicular porém a genitália externa apresenta graus de Schrama. Essa é a única condição em que testículos). intersexualidade. Assim. Já os casos de pseudo-hermafroditismo possuem Os trabalhos dos adeptos dessa corrente 1 A masculinização da tecido gonadal de apenas um sexo. Contudo. muito rara. quando o sexo final atribuído for características orgânicas e psicológicas (sexo de feminino (Biazzoto. 1991). período no qual a cirurgia plástica do clitóris e se usualmente um roteiro de avaliação detalhado da vulva. Glass & Kase. cariótipo. 3ª) no final da puberdade. antes dos 24 meses de idade. abdominal). Os órgãos genitais internos são femininos. Zucker. portanto. e uma constituição cromossômica 46. duas abordagens Atualmente. é XX. A feminilização da genitália é planejada em dois os indivíduos são férteis. consideram. podem apresentar desenvolvimento assinalar que a interação entre as influências das mamas e menstruação (Speroff. nos casos sexual. segue. sendo de menor importância a conter útero. Sobreiro. realiza-se nova funcionais. o embrião genitália do sexo que foi definido e b) remover possui capacidade para evoluir tanto para o sexo estruturas remanescentes do sexo oposto. 1983. nenhuma confusão de identidade/ localizado ao longo da superfície de pseudo-hermafroditismo feminino.

percepção da criança em relação ao próprio familiares e sociais de um modo masculino ou corpo é outro fator decisivo para a consolidação feminino. pelo interesse preventivo. então. ao longo dos anos). Bradley & necessidade de adequar a informação ao momento Hughes. ou evitar as dificuldades dos pais em lidar com as seja. o que em geral exige o adiamento da caráter intervencionista vem sendo adotada em cirurgia estética até que o sujeito possa adquirir Medicina a partir de um referencial que se pretende uma compreensão sobre a sua condição calcar em contribuições da Psicologia. no confunde a família. assumir criança. do desenvolvimento da criança. tal enfoque enfatiza a interação entre forças incertezas da ambigüidade sexual de uma criança inatas e ambientais na formação da identidade. 1992). como a comunicação da condição aparência física contribuem para a auto. Moara de Medeiros Rocha Santos & Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de Araujo quando se refere à criança. além de gratificar a equipe de com brinquedos contra-estereotipados e saúde por ter condições de oferecer algum preferência por se envolver em atividades com pares conforto para a família. 1996 a-b. a Supõe-se que os indivíduos não são precoce cirurgia corretiva da genitália seria psicossexualmente neutros ao nascimento. intersexual aos pais e à criança. uma vez que a Sigmundson. a complexidade dessa condutas baseadas na proposta de Money problemática exige mais do que a designação (Diamond. mas cujo (Diamond. . a decisão aconselham a cirurgia com indicação estética por pode ser adiada do ponto de vista médico. incluindo fatores constatações decorrentes de experiências anatômicos ou aversão por atividades ligadas ao profissionais e de relatos de indivíduos mesmo sexo e/ou vestir-se de acordo com o intersexuados de diferentes culturas. Assim. para alguns autores. Além disso. Na maior parte dos casos. pensarem que uma aparência diferenciada da genitália na criança acarreta prejuízos menores (uma É possível notar. anormalidade da genitália é claramente evidente para os indivíduos e seu meio social. O Nos últimos trinta anos. Por isso. somente 28 problema está sendo enfrentado (mas. Reiner.b. serão necessárias várias etapas cirúrgicas e consentir a respeito do que fazer com seu corpo. brincar profissional médico. vontade alívio aos pais quanto ao sexo no qual criar a de se vestir de acordo com o outro sexo. à forma decisiva e construção da identidade de gênero). pois. a perspectiva defendida critério B refere-se aos sentimentos de desconforto por Money vem sendo criticada em razão de com relação ao seu próprio sexo. predominantemente no prognóstico anatômico ou transmite-se a idéia de que existem riscos para a em um adequado funcionamento sexual (do ponto saúde da criança. A intervenção profissional em como comportamentos de identificação de gênero tal contexto de espera. 1982). mas. as decisões sobre a impasses da conduta médica. Diamond & substrato revela-se pouco aprofundado. 1987. Destaca-se a percepção de uma diferença (Zucker. 1965/1996-a. visando à sua participação na tomada de decisão quanto ao Uma análise criteriosa denota que tal proposta de tratamento. argumentam que. Justificada Sigmundson. 1997. Mas isso não significa que do outro sexo. justificada. endossando a proposta adotada pelo papéis estereotipados como do outro sexo. primeiros dois anos de vida e se preocupam com as repercussões clínicas da adoção irrefletida de Todavia. podendo ser este um fator que de vista anatômico/funcional). 1997-b). As próprias A proposta de Diamond chama a atenção para experiências vivenciadas com as constantes aspectos importantes do acompanhamento consultas médicas. Interacionista após o Nascimento. sentimentos e crenças relatados pelo indivíduo. a cirurgia realizada nos primeiros anos de vida parece responder aos Segundo seus adeptos. mas. com o que dá a impressão de que o sexo natural e funcionalidade comprometida e sensibilidade verdadeiro do bebê foi finalmente descoberto e o erótica reduzida. que a ampla utilização dessa vez que existem outros fatores que influenciam na abordagem se deve. o enfoque dado pela Teoria da favorece o desenvolvimento da sexualidade do Neutralidade Psicossexual ao Nascimento busca indivíduo em sua interação com o mundo. em parte. quase após a puberdade. o paciente é capaz de informar sempre. na realidade. Milton estereótipo correspondente ao seu sexo (Bradley Diamond propõe a Teoria da Tendência & Zucker. aparentemente normal. Diamond & sexual ao nascimento. pela suposição de que a sim. Não tal condição. é raro existir desenvolvimento psicológico do sujeito. 1997-a). dúvida e ansiedade provê cruzado: o desejo de ser de outro sexo. Em outras palavras. são considerados os os desafios tenham sido efetivamente assumidos. a partir da qual existiria uma predisposição ou tendência inata que Desse modo. o critério A especifica. (Meyers-Seifer & Charest. Seus adeptos criticam a ênfase nos da identidade de gênero. genitália adulta. predispostos a interagir com forças ambientais. do que uma inquestionável na qual a designação sexual é feita. porém. 1997). redesignação sexual não devem estar apoiadas quando se enfatiza a urgência operatória. procedimentos cirúrgicos e clínico. Em adultos. Hurtig. sim. também.

adoção. Diamond e seus seguidores ter-lhes sido dado o direito de opinar sobre o tipo recomendam que o paciente faça um teste. É importante propostas para o manejo da intersexualidade. é necessário que as informações característica comum pode ser explicada por lhes sejam transmitidas de maneira detalhada e terem sido geradas para atender às demandas adaptada a cada momento particular do ciclo de originadas na esfera assistencial e. discutir e avaliar e. sobretudo no que diz respeito à A assistência aos casos de intersexo requer uma dimensão atuação desde o plano de diagnóstico e tratamento psicossocial. Atuação Profissional A assistência aos casos de intersexo Diamond e Sigmundson (1997-b). Durante a puberdade.menino ou menina – focalizadas na decisão de quando intervir para a além de serem congruentes com a escolha de mudança de sexo. vivendo e a extensão da cirurgia corretiva e que não por algum tempo de acordo com o sexo almejado. da criança frente à sua condição. Tal Nesse sentido. tanto uma quanto a início da vida escolar. opções de orientação sexual. Do ponto de vista clínico. ainda. fertilidade ou infertilidade.1997-b). pais. refletindo-se na aceitação e enfrentamento de qualquer cirurgia irreversível (Diamond 1982. acompanhamento refletir. até um acompanhamento ao longo do desenvolvimento no ciclo vital.. Devemos permitir ao paciente pós-púbere um tempo para considerar. evitando que Em síntese.que associa diz respeito à dimensão psicossocial.A Clínica da Intersexualidade e Seus Desafios para os Profissionais de Saúde Alertam. antes e durante as mudanças outra parecem limitadas quanto à discussão da da puberdade e periodicamente durante a identidade de gênero. que os procedimentos contracepção. só então.e não tratamento até um ser ‘autoritários’ nas nossas ações. Consideram. ter a última ao longo do palavra na modificação de sua genitália. vida defendidos pelo modelo da Teoria da Neutralidade marital). portanto. jogos. Nesse sentido. desenvolvimento individual e familiar (ao destinadas a auxiliar os profissionais de saúde em nascimento.. deveriam ter sido automaticamente designados o que possibilitaria um primeiro ajustamento e a para um sexo em razão da adequação e construção progressiva de outro papel social. 1050). papel de desenvolvimento no gênero e designação sexual final” (p. é dimensão sociocultural. também. Assim. o apoio psicológico auxilia-os a solidificar o gênero designado de seus bebês. afirmam que “temos que ser ’autoridades’ diagnóstico e em prover informação e aconselhamento. brinquedos. além da evidente 29 possível iniciar sessões de aconselhamento com complexidade teórica e prática . os quais reclamam que deveria for considerada. Se a mudança de gênero indivíduos adultos. identificando determinantes biológicos e ambientais sobre o comportamento sexual e o gênero. ainda. amizades e aspirações futuras. menstruação. potencialidade funcional do falo. ciclo vital. em seu roteiro requer uma atuação para procedimentos com pessoas com genitália desde o plano de ambígua. Sugerem. sobretudo no que Diante de um fenômeno complexo .é essencial tornar . de estudo por parte das teorias do desenvolvimento humano em Psicologia. é necessário reconhecer que as duas tenham uma percepção ambígua. tal como vem sendo objeto adolescência). Compreender os fatores que influenciam a escolha de uma identidade masculina ou feminina.1992). Apóiam tal posição em relatos de a mudança de gênero. que os médicos considerem relevante a futura O apoio psicológico deve ser extensivo a toda a preferência sexual da criança e evitem a realização família. que a maioria das condições de discussões sobre a sexualidade associadas à intersexo podem permanecer sem qualquer condição intersexuada (presença ou ausência de cirurgia (Diamond & Sigmundson. devem ser Psicossexual ao Nascimento negam ao indivíduo apresentadas as opções cirúrgicas e a opção de escolha da própria identidade e papel endocrinológicas envolvendo cirurgia corretiva e de gênero. parece redutor o caráter prescritível de ambas. sua conduta. novamente aos dois anos de idade. de fatores que vão desde o nível genético até a acordo com o desenvolvimento da criança. que os pais sejam consistentes com o sexo no qual apesar de aparentemente antagônicas. estão a criança está sendo criada . permanece uma importante agenda de trabalho para os pesquisadores em Psicologia (Hurtig. Em relação aos 1995/1996-a).

são poucas as interessante para o estudo da intersexualidade . constituindo uma metodologia Vale ressaltar que. questões relacionadas à percepção parental e equipe. autores insistem na absoluta necessidade de um Apesar da expectativa de que a necessidade de trabalho em equipe multiprofissional. 1997-b). inclusive por parte da equipe Bradley & Hughes. sexualidade e gênero. Blake. Fleming & Hood.isna. sentimentos e experiências (Diamond o masculino. Quattrin. o sexo da criança com quem prefere/ A maioria das publicações que focaliza os aspectos escolhe brincar e outros comportamentos sociais psicológicos resulta do acompanhamento associados a atividade lúdica e ao desempenho 30 terapêutico de um dos autores a seus pacientes. 1999. Braz. o que retorno à instituição (para acompanhamento indubitavelmente inclui a participação do médico e cirúrgico) favoreceria a realização de psicólogo (Braz . Parece fundamental que. A clínica da falta de perspectiva diante da repetição do intersexualidade não pode ser exercida apenas por tratamento cirúrgico). vivências de todos aqueles implicados. Araujo. tem recebido atenção dos investigadores (Zucker. ao se voltarem para condições interacionais na tríade sujeito-família. Existem trabalhos que têm apontado uma aparente Pesquisas no Brasil e no Mundo incoerência entre o senso de masculinidade ou feminilidade e a exteriorização desses conceitos É fundamental comentar que o delineamento dos em termos de comportamento/papel de gênero estudos tem sido condicionado por limitações em crianças com diagnóstico de pseudo- impostas pela raridade estatística da hermafroditismo masculino criadas como menino. acabam por induzir à profissionais da área médica. 1990. seja previsto treinamento em 1996). que parecem Intersex Society of North America (www. Embora essa modalidade estudados e fornecem um interessante campo de de ajuda ainda não tenha sido implantada no investigação quanto à influência de forças Brasil. as iniciativas ainda estão limitadas ao contexto provavelmente em decorrência da sua raridade. à adesão ao tratamento (vergonha. Dittmann. 1998. É imprescindível um conhecimento atuação clínica. Vale lembrar que observar a criança brincando permite obter dados Assim sendo. o tema da percepção dos pais específico em Psicologia do Desenvolvimento.org) . tanto feminino quanto informações. as dúvidas e Araujo. influenciando a para ampliar a compreensão quanto ao significado congruência entre papel e identidade de gênero e da condição intersexual e subsidiar melhores o sexo designado. centrais na compreensão da problemática. Aronica & Mazur. um ponto crucial é entender somente para atender requisitos educativos. 1991.tal como o comunicacionais ou interacionais. Sampaio. Salvador & estudos longitudinais as dificuldades relacionadas Mustachi. Os casos de hermafroditismo verdadeiro. colocar a família e a criança em contato com pessoas envolvidas com Dentre os tipos de intersexualidade. Tamayo & Lima. 1990). para tal Santos. 1996). de papéis. esses estudos não têm A exemplo das experiências da América do Norte. A avaliação e o desistência dos participantes. especializados na clínica da intersexualidade. além do caráter privado e íntimo brincadeiras com estereótipos femininos e vinculado às questões da sexualidade humana. Vários investigações voltadas para mais de um sujeito. os trabalhos vêm adotando sobre a preferência por determinados tipos de preponderantemente o método de estudo de caso. pode-se notar algum nível de mobilização hormonais e ambientais sobre o desenvolvimento associado às demandas para criação de centros da identidade de gênero e comportamento sexual. mas sobretudo transmitida para a criança. até hoje. aconselhamento devem ser realizados por diversos especialistas em questões de ordem sexual/gênero/ Tendo em vista a forte vinculação entre pesquisa e intersexo. 1984. diante da incerteza parental quanto habilidades comunicacionais. 1987. Moara de Medeiros Rocha Santos & Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de Araujo acessíveis serviços assistenciais de qualidade. sugere-se. profissionais envolvidos com o atendimento. o que possibilitaria a troca de pseudo-hermafroditismo. práticas educativas associando-as à construção da identidade de gênero. contemplado suficientemente os aspectos onde se organizaram grupos de apoio . a oferta de serviços de saúde Identifica-se uma identidade de gênero confusa especializados que possibilitaria a identificação dos refletida em preferências por brinquedos e/ou participantes. 1998. brinquedos. Berenbaum & Snyder. do como essa percepção da ambigüidade é ponto de vista técnico/instrumental. os casos de a problemática. Oliver. hospitalar e provêm mais especificamente dos são menos evidenciados nas pesquisas. mas. o que se justifica não ao sexo do filho. privacidade. Pintér & Kosztolányi. Contudo. Gay. Assim. Araujo & Lima. desempenho. Slijper. comprometimentos éticos que perpassam as conforme citados por Zucker. sem envolvimento em atividades socialmente esquecer os mais variados preconceitos que determinadas para o sexo masculino (Santos & envolvem a condição intersexual. tão logo seja possível. vêm sendo mais amplamente & Sigmundson. Bradley. intersexualidade. de Psicologia.

mais diretamente relacionadas ao sujeito Aronica & Mazur. os trabalhos comunicados até estética é realizada. hipertensão. para a clínica. esse outro ângulo No Brasil. p. à medida que os interesses 1983. prevendo inclusive um exame e desenvolvimento cognitivo ( Hurtig. Dewhusrst & Gordon. centrados na qualidade de vida dos visando sobretudo à delimitação mais precisa de transcendendo a sujeitos intersexuados. funcionamento dos centros de atendimento. lesão claramente as necessidades dos pacientes e suas famílias. principalmente. dificuldades enfrentadas ao longo da sua existência. uma das instituições pioneiras na concede uma a condição intersexual tem um significado implantação de uma unidade de intersexo. imagem corporal (Santos. 1996). 1996. Quattrin. a metodológica deveria orientar-se para delineamentos projetivos.A Clínica da Intersexualidade e Seus Desafios para os Profissionais de Saúde (Hines & Kaufman. As mais amplo e aprofundado da associação entre saúde técnicas mais utilizadas para explorar tais variáveis e gênero. longitudinal. caracteriza. o enfrentamento poderia ser e sua inserção social intersexualidade e oferecer uma assistência compreendido semelhantemente às demais e faz perceber mais médico-psicológica compatível com as cronicidades em saúde (diabetes. como o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Na recente literatura. condição. Compreender a No plano assistencial. o essencial. Zaslavsky. a exemplo do que ocorre desde a década de 50 em outros países. comportamento No estado atual da arte. (Zavaschi. em São Paulo. 1990. 1992. principalmente à criança. de unidades especializadas na clínica da essa variável não parece contribuir para a intersexualidade. constatar uma evolução em direção a investigações conforme citados por Braz. 1996. 1988. segundo eles. integral do indivíduo que. 1994) e. a necessidade de estudos contribuições advindas de investigações clínicas. protocolos intersexualidade que possibilitem a análise de variáveis abordadas em de observação comportamental (Hines & Kaufman. estudos executados em outras sub-áreas da Psicologia. questionários. medular). parece (Quattrin. Independentemente da idade na qual a cirurgia Em linhas gerais. Ao que tudo indica. já em 1977. 1999). 1991. é hoje. permanece como meta critérios de intervenção próprios a tal casuística associação com incontornável. mas que se estendam também aos (Zucker. intersexuado e sua família. 159). nos aspectos científico. conforme discutido acima. 2000). Hune & Rathleu. a tendência envolvem instrumentos como: entrevistas. seja ela voltada para a agressivo (Hines & Kaufman. Nicilovitz & Dorfman. de saúde. os dados principalmente. 2000). cirurgia genital investigação. comprometida com o envolvimento número de intervenções cirúrgicas/ (re)designação do sujeito no tratamento. pode-se lograr uma boa sexual e composição e organização das equipes adaptação do mesmo ao sexo redesignado (Hurtig. se caracteriza. 1984. 1994. ou para ambas. (re)designação fundamental a realização de trabalhos que considerem sexual (Reiner. 1994). Todavia. necessárias na esfera curativo. Randolph. promocional. Santos. é possível citados em Hurtig. outro aspecto importante a Universidade de São Paulo e o Hospital Universitário ser destacado refere-se à idade na qual ocorreu a de Brasília têm se interessado pela implementação cirurgia corretiva da genitália. provavelmente suscitado pelas inúmeras o ‘Hospital Infantil Darcy Vargas’. Mais do que pesquisas sobre comportamentos também vêm sendo obtidos a partir das como uma sexualmente estereotipados. se propunha a estudar a Nesses casos. outras instituições. No entanto. inventários. testes No entanto. foi à adaptação sujeito. ambivalência em relação à identidade de gênero. longitudinais. Aronica & Mazur. Para certos autores. social e legal” (Braz . Quattrin. relatam a experiência de uma equipe de adaptação integral do indivíduo e sua inserção social consultoria psiquiátrica do Hospital das Clínicas e faz perceber mais claramente as mudanças que de Porto Alegre na condução de um caso de ainda se fazem necessárias na esfera da atuação 31 pseudo-hermafroditismo masculino. profissional em saúde. Araujo & Santos. Aronica & Mazur. tais pois através de uma abordagem terapêutica como: número de casos atendidos/diagnóstico. um panorama geral das investigações revela que têm sido privilegiadas variáveis como Considerações Finais identidade e papel de gênero (Santos. 1990). Santos & campos da Psicologia do Desenvolvimento e da Araujo. 1998) Psicologia da Saúde. a intersexualidade se mudanças que “atuando em nível preventivo. Compreender a intersexualidade por esse outro da atuação Zavaschi (1985) e seus colaboradores também ângulo concede uma conotação favorável à profissional em saúde. como uma condição. têm como principal oferecer orientação e mesmo acompanhamento preocupação divulgar os indicadores de psicológico à família e. Em suma. intersexualidade por como uma doença grave e incorrigível mesmo diante das crescentes possibilidades de intervenção. freqüentemente percebida Reiner. 1990). 2000). conotação favorável essencialmente negativo para a família e para o constituída por uma equipe multiprofissional. Elsayed. ainda se fazem curativo e de reabilitação. transcendendo a associação com ‘doença’. Elsayed. desordem de identidade de gênero intersexualidade. no contexto brasileiro. 1999. ‘doença’. 1988). psicopatologia geral (Slijper. . 1985. 1983). conforme profissionais e científicos se expandem. Al-Maghrby. Hafeiz não apenas as questões específicas vinculadas à & Taha. Atualmente.

portanto. parece implicar a organização de ações para que o sujeito possa compreender sua condição e tome parte progressivamente no processo de seu acompanhamento até estar capacitado a ser mais participativo. 32 . Contribuir para uma percepção mais adequada da experiência de ser intersexuado. experiência de ser intersexuado. redimensionando obviamente adequadas à sua compreensão. na fase inicial de Contribuir para uma percepção mais adequada da escolarização das crianças). há que se intersexualidade. cuja primazia é para o sujeito. Isso inclui reconhecer que a evidências não são consistentes com a cirurgia orientação mais adequada pode ser operar mais precoce. não se maior comprometimento em esclarecer a situação deve ficar sob o jugo de uma regra. pode-se argumentar em favor da cedo em certos casos. Moara de Medeiros Rocha Santos & Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de Araujo Diante de constatações da literatura de que as cada casuística. a intersexuado ao seu acompanhamento. para que se promova a adesão do sujeito participativo. o que certamente implica mais considerar a especificidade e complexidade de desafios para seus profissionais de saúde. Informações. Tal atitude requer um as possibilidades são mais diversificadas. parte progressivamente no processo de seu acompanhamento até estar capacitado a ser mais Por fim. necessárias para que a pessoa possa situar-se como parece implicar a organização de ações para que o pertencente a um gênero. favorecendo a construção de sua diminuir a ansiedade dos envolvidos em detrimento identidade de gênero sem conduzir ao confronto dos interesses do sujeito. em prol abordagem da qualidade de vida na clínica da de uma abordagem preventiva. redimensionando os valores (negativos) atribuídos pela sociedade. com obstáculos intransponíveis no processo de socialização (por exemplo. naqueles em que possibilidade de adiamento. são os valores (negativos) atribuídos pela sociedade. Parece inadiável. mesmo que sua sujeito possa compreender sua condição e tome aparência genital seja diferenciada. Contudo.

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