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Nuntius Antiquus, Belo Horizonte, v. 13, n. 1, p.

39-57, 2017

Fiama Hasse Pais Brandão: escrita poética recriando
os clássicos1

Fiama Hasse Pais Brandão: A Poetic Writing That Recreates
the Classics

Maria do Céu Fialho
Universidade de Coimbra, Coimbra / Portugal
mcfialhofluc@gmail.com

Resumo: A diversificada formação cultural de Fiama, o multiculturalismo
que em si assume e lhe corre no sangue constituem a razão mais forte
para que esta procura poética, que é procura da vida e do seu sentido mais
profundo, seja imbricada, labiríntica, propícia à recolha reflexiva em si
mesma ou no útero-caverna das palavras e do pensamento antiquíssimo,
como recolha iniciática. Assim, perseguir na sua obra poética marcas do
universo greco-latino leva-nos, inevitavelmente, à verificação de que raras
vezes elas se encontram isoladas, autónomas, alheias a associações outras.
Fiama põe lado a lado contemporaneidade e Mundo Antigo, geografias
diversas, como O Xanto, o Tibre e o Reno, poesia alemã e grega, universo
bíblico e universo helénico ou romano.
Palavras-chave: multiculturalismo; cabala; correspondências culturais;
Os Clássicos e os Outros.
Abstract: The diversified cultural formation of Fiama, the multiculturalism
that she embodies and that runs in her blood are the strongest reasons to
make this poetic search. This is the search for life itself, and its deeper

1
Este estudo corresponde a uma versão actualizada e aprofundada do trabalho publicado
em Revista Pessoa, v. 2, 2010.
eISSN: 1983-3636
10.17851/1983-3636.13.1.39-57

40 Nuntius Antiquus. p. and the Hellenic and Roman universes. que a cercam ou que a escola lhe mediou. Entre as raízes da cultura judaica. no ano de 1938. The Classics and the Others. A sua infância foi passada numa quinta em Carcavelos. be it imbricated. entre o enquadramento da natureza verdejante e das fainas rurais e a presença próxima do elemento aquático: o rio Tejo. cultural correspondences. inevitably. 1. 2017 meaning. a literatura portuguesa. e vem a falecer em Lisboa. Thus. o perpétuo fluir das águas e o ciclo . até ingressar na Universidade de Lisboa. no curso de Letras Germânicas. Julian’s School. a que as aulas de Cultura Clássica. Camões. Fiama sente as vozes culturais de múltiplas origens que lhe correm nas veias. uma boa formação no domínio das Línguas Clássicas. em inícios de 2007. St. to pursue in her poetic work the marks of the Greco-Latin universe leads us. German and Greek poetry. 39-57. em particular. o imaginário anglo-saxónico e antigo. diversified geographies such as The Xanthus. n. culturas e literaturas alemã e a inglesa. as an initiatory collection. Belo Horizonte. leccionadas pelo sábio e talentoso comunicador doutor Manuel Antunes. Desde cedo igualmente atraída pelas dimensões do hermético e da Cabala. que jamais a abandonará. 13. kabbalah. the biblical universe. labyrinthine. Frequentou o liceu inglês. de ascendência judaica por via materna e neta do escritor Raul Brandão. Fiama puts side by side Contemporaneity and the Ancient World. or conducting to a reflexive recollection in itself. the Tiber and the Rhine. autonomous. or in the uterus-cave of words and ancient thought. Fiama Hasse Pais Brandão. Keywords: multiculturalism. certamente. to the fact that they are seldom isolated. Aprovação em: 30 de julho de 2017. Do liceu inglês traria. v. acrescentado o estímulo de fascínio pela Antiguidade Greco- romana. Recebido em: 20 de março de 2017. terão. nasceu em Lisboa. que combinava o ensino das línguas. certamente. unrelated to other associations.

por seu turno. Este grupo rebela-se contra a palavra poética estereotipada. a paz. 1998). à linguagem na sua opacidade. p. de obras de John Hoyer Updike. preso pelo ritmo. em sua casa. insaciável. A revista-colectânea reflectia.E. Estreou como autora com Em cada pedra um voo imóvel (1957). Anton Tchekov) e. Bertolt Brecht. Clube Português. Belo Horizonte. vem a ganhar notoriedade no meio literário com a revista/ movimento Poesia 61. E este grupo de jovens poetas. Fiama participou nas revoltas estudantis do início dos anos 60 e deu cobertura. Como aluna da Faculdade de Letras. à prosa ficcional (Sob o olhar de Medeia. como instrumento de leitura de um mundo de conversões e de equivalências. E como parece inevitável esperar deste espírito ímpar. 13. . a síntese. dedicou-se à tradução (entre outras. A Cabala. assim. 2017 41 incessantemente renovado da Natureza. pois. Fiama busca. torna-se. encontrar-se-á uma escrita quase mágica.Nuntius Antiquus. escreveu ensaios (é profunda conhecedora de Camões). encontrar em Fiama uma escrita fácil – em contrapartida. em que publica o texto “Morfismos”. pelo som.N. assumia uma posição mais profunda. fundamental. e por essa teia de elementos de correspondências a decifrar. Não se espere. a jovens revolucionários que passariam à clandestinidade. na busca de uma expressão depurada e não discursiva. No entanto. 39-57. 1. Fiama é considerada como uma das mais importantes escritoras do movimento que revolucionou a poesia nos anos de 1960. n. na última década da sua vida. estamos perante uma mulher de actividade poligráfica: Fiama dedicou-se à poesia. torna-se uma das fundadoras do Grupo de Teatro das Letras. a unidade. Novalis/ Georg Philipp Friedrich von Hardenberg. compôs obras dramáticas (recebeu o prémio Revelação de Teatro com a peça Chapéus de chuva. de rejeição de um status quo cultural e político. para ela. pela imagem. Antonin Artaud. que envolve e arrebata o leitor. v. rasteira e discursiva. uma tendência poética atenta à palavra. Em 1996 foi agraciada com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e seu livro Cenas vivas foi distinguido em 2001 com o prémio literário do P. 1961). através da revolução da palavra poética.

do teatro. 1986. é habitado por imagens referenciadoras várias. o campo. Esse universo poético. Belo Horizonte. 13. Desse Uno floresce. de “surto do real” (cf. Fiama entende.pt/culturaipsilon/jornal/fiama-hasse-pais- brandao-19382007--a-fala-do-nome-magico-117588>.. princípio activo da poesia. o pinhal. pois. sem barreiras à universalidade. uma infinidade ordenada de ramos que o poeta percorre em sentido contrário: é a Árvore da Vida. é o fogo e o verbo (lógos). 2006. p. de quietude ou desassossego. a casa. Disponível em: <https://www. Poesia 613 – quer por via da própria aprendizagem múltipla da sua força de expressão. a cidade. de síntese. se citarão apenas as páginas. de paredes limitadoras e frias. de procura. como em árvore. que é o cosmos sob forma de texto- interrogação. 111. como o mar. em que os olhos e o espírito procuram o ‘significado’ da palavra-coisa numa chave de correspondências que conduz do múltiplo ao uno. de motivo de espanto. v. a aprendizagem da palavra poética como a aprendizagem de um novo olhar sobre o mundo. 4 BRANDÃO.2 A palavra poética de Fiama. 2017 Confessa Fiama: “Comecei palavra a palavra [. quer por via do cansaço perante palavras gastas e esvaziadas – cansaço partilhado pelo grupo de poetas da sua geração de juventude. em cujo coração a árvore ganha especial valor – desde as raízes mergulhadas na terra à copa que exibe o fruto da sua seiva –.publico. doravante. na sua multiplicidade errática. 39-57. a praia. 1. p. . o texto “Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007): a fala do nome mágico”. Esta é a edição utilizada e da qual. o seu centro. guia o leitor- ouvinte através de um universo complexo de correspondências.42 Nuntius Antiquus. Desse mesmo universo poético fazem parte as vozes referenciais da poesia. n. para além da qual se estende a quinta.] Assim: ‘Água significa ave’. de reconhecimentos ou de procuras. Terra obscura)4 que nessa mesma palavra se reflecte. 3 Cf. por um contínuo esforço de olhar cultural. Essa mesma terra obscura tem presente a síntese paradoxal de Heráclito para a explicação do universo: o seu cerne. SILVEIRA. da filosofia que constituem 2 Cf. de sentido complexo. A Poesia estava quase numa única imagem que coincidia quase com uma única palavra”.. de quietude reconhecedora de leis de permanência na mutabilidade.

propícia à recolha reflexiva em si mesma ou no útero-caverna das palavras e do pensamento antiquíssimo. cujo universo poético tanto instigou Fiama e a levou a nele mergulhar hermeneuticamente com particular capacidade de leitura e sintonia. de Dante a Shakespeare ou a Goethe. Elas põem lado a lado contemporaneidade e Mundo Antigo. A diversificada formação cultural de Fiama. ora críptico. Platão. Belo Horizonte. VI. 146-149:7 5 Viria a reunir num volume. ora claro. seja imbricada. laborou em cotejos e sínteses. p. o Tibre e o Reno. 2017 43 as matrizes do que somos. o multiculturalismo que em si assume e lhe corre no sangue constituem a razão mais forte para que esta procura poética. labiríntica. 6 Que o mesmo é dizer: a ancestral Troia homérica. sob uma forma muito peculiar ao imaginário de ambos – a de labirinto. condensando essa sua compreensão de um discurso poético. perseguir na sua obra poética marcas do universo greco-latino leva-nos. alheias a associações outras. liberto de referências. no seu neoplatonismo. como O Xanto. o Livro. 113. Heráclito. n. os seus estudos sobre Camões e outros autores da Literatura Portuguesa em O labirinto camoniano e outros labirintos: temas de Literatura e de História Portuguesas. Agostinho de Hipona. a Bíblia judaico-helénica e. vertida nos salmos. . Assim ocorre com o famoso símile das folhas de árvore da Ilíada. raiz e fim. a Rilke. 1. que é procura da vida e do seu sentido mais profundo. a nostalgia hebraica do exílio. Ou então. autónomas. p. no seu percurso cultural. que lhe teria progressivamente aberto as portas ao fascínio pela procura cabalística do entendimento das equivalências num universo animado pela Árvore da Vida. Plotino. 7 A tradução da Ilíada é de Frederico Lourenço. identifica-se o tópos clássico. inevitavelmente. que assimila. publicado em primeira edição de 1985. Assim. interiorizou. Poema pertencente ao ciclo “Dizer Avis”. 39-57. seu segredo. Roma. do que Fiama escutou. universo bíblico e universo helénico ou romano. 13. que lhe corre nas veias. v. a Bernardim ou Camões. e a cultura gótico-germânica. empresta a voz a Fiama. como lhe chama. à verificação de que raras vezes elas se encontram isoladas. geografias diversas.5 O Camões elegíaco. cultural e identitariamente. a Homero. creio. como recolha iniciática.6 poesia alemã e poesia grega. 2007. também a judaico-rabínica. por essa outra grande referência do seu universo cultural.Nuntius Antiquus. com todas as suas memórias.

eco da folhagem homérica mas mais ampla. 1. na sua riqueza e complexidade. referências diversificadas leva-me. Fiama oferece-nos uma “Folha viva” (p. no intento de os compreender no seu contexto e na sua interrelação. Belo Horizonte. a copa reverdece. 93. tem recorte. a seleccionar as referências mais expressivas e frequentes. n.8 a 8 Sobre a pluridimensionalidade e a plurissignificação do caminho na Cabala. conglutinadores da sua proximidade ao mito e do seu labor poético de síntese: o caminho da vida. A folha cai. Proponho-me proceder. abrangendo o todo do que vive. tinge todo o chão. depois o surto. Nada é efémero Sob o tom da luz. veja-se: FORTUNE. p. p. mas a floresta. ela persiste E é perene a queda De uma árvore. quando sobrevem a estação da primavera: Assim nasce uma geração de homens e outra deixa de existir. nos segredos de uma convergência de que só a Árvore da Vida é ícone e suporte verdadeiro: Mantém-se o ramo vivo da verdura. então.44 Nuntius Antiquus. 39-57. com a preocupação de evitar a dispersão no discurso ou a mera catalogação de tópicos. tendo em conta o contexto mais lato do próprio universo poético de Fiama. se mantém. tendo em conta o âmbito deste artigo. E tudo convergente. 13. o seu volume sobe. errático ou de procura e encontro (de matriz também bíblica) e que abre espaço ao motivo do labirinto. assim é a dos homens. atira-as o vento ao chão. Às folhas. O seu pecíolo verde ou outra forma. A profusão de tópicos. do ciclo “Pungente o verde”). Tudo Retoma a folha. Selecciono três vectores da vivência e do imaginário poético de Fiama. 23 ss. 2010. . no seu viço Faz nascer outras. Ou possuída a terra. 2017 Assim como a linhagem das folhas. v. a um percurso interpretativo. Cai a folhagem. perece e se renova. repõe-se.

. 633). p. particularmente. na pintura seiscentista italiana (Guercino. Não estamos. Belo Horizonte. sendo seu intérprete. porque desumanizado (“Jazente”. quadro assim legendado. da mutabilidade aparente à permanência. aquela que radica e ecoa desde antes de a poesia ou filosofia se aprisionarem na escrita. tivesse. 39-57. na sua harmonia. como limite a ter em conta. com elementos esotéricos. a Grécia”. Homero e os heróis e deuses cantados na saga homérica). Por vezes o sentido de um poema completa-se com o do subsequente. que é também música. v. como se a existência na Arcádia. p. como os vários anjos. p. A palavra viva. n. 157-169. 2017 45 correspondência de mundos e símbolos e a ascese através deles. a morte) e em Poussin (1637). sinónimo de vida feliz.Nuntius Antiquus. já que os monstros do passado. não urbanizado. 1. 2003. do ciclo “Cantos do canto”. em particular de cariz cabalístico (exílio.10 p. “da nossa antiga pátria. sob a forma et in Arcadia. O tema é retomado por Rezende. como é o caso da relação entre o poema que acabei de referir e o que leva o título de reminiscência bucólica “Sed in Arcadia”. palavra-caminho. p. Anfíon. separação da Árvore da Vida e nova reunião redentora de Deus e da sua Schekina9). cruzando-os. a presença de referências à filosofia grega. escrita depois dos bíblicos pastores de Hebron e dos idílios da Idade Clássica” (“Canto da inocência”. toma a forma de labirinto pétreo. 13. 635) do mesmo ciclo “Cenas vivas”. por exemplo. frequentemente. que instiga ao percurso do labirinto da interrogação. 143) e “o grande Minotauro hoje chama-se Chernobyl” (“O bucolismo deixará de ser um canto”. e que se torna imperativo para escutar os ecos harmónicos de um universo primordial e coeso (Orfeu. mesmo assim. como os antigos magos. perante alguém que celebra um passado utópico na poesia. o que envolve. 10 Expressão cunhada em Virgílio que aparece. entrelaçadas. 583). 9 SCHOLEM. anima o imaginário de Fiama – palavra anunciadora. Na cidade aprendeu Fiama “o sentido da inocência” como consciência reminiscente da sua vida passada: “e então amei o lugar- comum rural da minha vida. em que dois pastores fixam os seus olhos num crânio. a vida que anima a palavra – a palavra poética. escutando os sinais. 1618. p. pois. A cidade. podem ameaçar o presente.

“no entanto. como um outro Ulisses. Uma vez amada por Ulisses. a caminho da praia. e simultaneamente. embora a tecelagem deliberadamente simbólica fosse. espaço baptismal de renascimento e purificação. associada a Ítaca. 492). para se deixar prender na teia – e esta prisão na teia antecipa a Mãe ausente. a caminho do meio iniciático (caverna. p. ou ele converte-se na própria errância que encontra corpo em outro mito. O outro tipo de permanência. um Labirinto imóvel. mutação e permanência: “tudo passa e regressa. e tem voz através do mito de Teseu e Ariadne (“Canto do labirinto”. na sua infinitude. 13. diversamente do labirinto de Ulisses. 182). no imo do espaço. . Somente o servo se apagou como vela antes das gerações vindouras” (“O Servo”. dobrada sobre a teia de si mesma. Este labirinto. ou mar11). interminável. Havia chovido brandamente na véspera entre proas. n. 39-57. simultaneamente. Apenas o Amor. O raio brusco repentino intenso colorira de novo tom muralhas. Supunha que na cidade alguém ainda entrara como cidadão e recebera todo o direito 11 O mar. Penélope desprende-se do mundo. simbolicamente – e é-o na poesia de Fiama – espaço de morte mas também. ligado ao mar dos seus rumos de error e encontro: é esse o pressuposto do poema “Caríbdis” (p. 1. no regresso de ‘alguém’ que penetra os muros da cidade. em Sob o olhar de Medeia. alcançado pela meditação como olhar interior. Sobre o mar na poesia de Fiama. p. Ao labirinto material se associam as figuras de Dédalo e Ícaro. vide Fialho (2006). 2017 O labirinto visível está na Terra. como o ilustra o poema “Tecelagem” (p. constitui um labirinto sem saída. é rejeitado por Fiama (“Sunt lacrimae rerum”. p. para o qual Ítaca representa. materializado. é. a resgata da queda e do fim: No dia em que regressou à ilha de Ítaca o sol tudo se mudara. em outros dois poemas. 479). Na verdade não só isso mas tudo tendia a ser outro. é também o do percurso do eu lírico de Fiama. por exagero. o outro labirinto espera-me em cada dia de perda e salvação”. 581). o das viagens de Ulisses. que a isola do mundo e a imbrica num tecido infindável. na sua infindável renda. v.46 Nuntius Antiquus. p. Belo Horizonte. A teia de Penélope (em que se adivinha o mito de Aracne). 663). a de Penélope. de ascese à forma.

Percurso mais rico que o de Penélope é o da conversão de Nausícaa. Será. de arcos. desde os pastores bíblicos à infância de Fiama (“O Meu gado”. Belo Horizonte. p. 34. pela presença de Ulisses. Dando à população a figura. repetitivo. o estímulo do amor. de algum modo. o “O sulmonense Ovídio. 1. tal como o “eu lírico” de Fiama em “O Canto de Nausícaa” (p. invisível. Hoje. p. ela esplende ao tear. como se tal ajudasse a ultrapassar o sentimento do exílio – sentimento e situação bíblica do povo de Israel. cíclico. o ritual e do trabalho da lã. em Sob o olhar de Medeia. tão caro a Fiama: Camões (“Memorando. estando no Delta do Danúbio”. veja-se Sousa (2001). 490).Nuntius Antiquus. em jogos de praia. por outro exilado genial. 582): Cada Poeta amou o meu ouvido. de bolas. incorpóreo e simbólico. e pela voz do poeta (Homero) simultaneamente. dou-lhes a boca da Amada à espera da metamorfose: “Foi o mar que me fez criança. e hoje. habituando-nos ao desconhecido. . 2017 47 da cidadania. Ontem nem a tecelã. de elos cósmicos e humano – pelo olhar inquiridor e demiúrgico de Medeia. essa a resposta procurada – a do Amor. “tela viva”. longe da Jerusalém-plenitude. p. buscando. e quem me chamou Nausícaa foi o Poeta. em elegia. movido pela mágica ambição de encontrar o Velo de Ouro. destacado do de um possível Jasão. a partir da tosquia até à “arte antiga de fiar”. exilado” cantado também. numa espécie de recuperação do sentido dos gestos das gerações passadas. caminhar num universo onde seja possível desvelar as equivalências ao nomear as coisas. Nausícaa converte-se. 39-57. mas sentimento que também aproxima Fiama do grande exilado da poesia romana: Ovídio. 12 Sobre a demiurgia poética de Fiama. p. v. Todavia. ninguém e nada haviam podido furtar-se ao início do fim. inscreve-se nessa cadeia de memória milenar de ritual dos gestos. mas ligado à vida. propiciado espiritualmente pelo meio iniciático “mar”. em Amador e Amado.12 no seu percurso labiríntico pelo mundo. ao som do mar. rítmicos. 600). pela palavra. n. 13.

no poema “Casa ou um vale” (p. o desconhecido. n. activistas políticos perseguidos. é projectada sobre o perfil do herói: a da afirmação de uma cidadania libertadora. seria a mesma de transformar no todo as duas partes. historicamente vinculada à própria biografia política de Fiama nos tempos da ditadura. na clandestinidade da noite. ainda que tal gesto passe por ocultar-se para se revelar: cavalo de Troia ou gruta de Polifemo. da permanência para além do mutável.” Ela e o arco ou eu e o Poeta. quando deixo de ser poeta e sou a Amada que age sobre as coisas transformando-as. que não é novo. porque a acção do amor sobre a coisa amada.48 Nuntius Antiquus. estando na mão de Nausícaa ou no ar. . 39-57. p. 202):13 Com o cavalo de madeira recuperar a cidadania. além do mais. Belo Horizonte. v. a distinção entre a carne e a construção. esotericamente correspondentes à caverna-útero iniciáticos a partir de onde o renascimento é possível. Atesta-o o poema “Ulisses. 2017 Se eu não fosse Nausícaa mas o arco tudo seria igual. desta decorrente mas com coloração contemporânea. mas que representa a reposição da justa ordem. quando se buscam ou tocam os segredos da eternidade. na saudade da casa e na procura do reencontro com ela e consigo mesmo. a presença da influência camoniana (“Transforma-se o amador na cousa amada”). logo. afinal. Assim. de juventude. uma outra procura. de “Nome lírico”) se canta a mesmidade 13 O referente histórico deste poema – e. Se o caminho e os errores de Ulisses decalcam o modelo do labirinto. outro” (p. em sua casa. com risco. ainda que o risco da morte e do desconhecido estejam presentes. ao acolherem. 54. O tempo é uma ilusão. 1. prestam-se a essa gestação de um mundo novo. o sentido possível deste – ganhou para mim luz ao escutar o depoimento de Gastão Cruz sobre a biografia de Fiama e a sua luta política comum. É aqui evidente. 13.

de ‘Befindlichkeit’: Aqui tudo é casa ou um vale porque uma casa entre montes é funda De tão profunda é um vale e a mesma água que corre tem o leito nessa casa ou de igual forma no vale O mesmo nome tem uma casa ou um vale entre montes E sendo fundo é um leito e nele a mesma água deito Ao líquido meio que flui e que Heráclito vê como imagem da eterna mudança.] pensarei/ as palavras de um pensamento em corpo/preso ao fluxo e à rede das raízes/(radículas) contra o muro” (p. em que o homem está radicado. v. contrapõe Fiama a hera no muro. da espera. a sua casa. mas. a terra. O solo. 107). com a morte implícita: . do poema do mesmo nome (“A Gea”. como sendo ela mesma a “Hera de Heráclito”. logo. heideggerianamente. ou esperança.. do ciclo “Germinações”). Belo Horizonte. p. 11-112. a partir da qual faz a sua experiência de mundo e de pertença. 2017 49 circular que tem o solo como meio de representação. n. 39-57. constitui essa milenar e mítica entidade da permanência e. além do mais.. constitui. num jogo de palavras – da planta e do nome próprio – que é o de sentido do cosmos: “[. também. p. 1. ainda assim. 13.Nuntius Antiquus. equivalente ao rio. que envolve o devir como acidente. Gea.

naturalmente. é celebrado por Fiama como o cantor da circularidade. esperar ou (o) vir. a terceira Sephirah). Hoje. n. separado transitoriamente do do masculino (Chokmah. Para além do Livro. assumem a ligação de mundos. O poeta Hesíodo. 39-57. p. e na projecção na Árvore da Vida – feminino que é útero. Gea.50 Nuntius Antiquus. O segredo do âmago dessa permanência na essência oculta do que é e se corresponde constitui a chave da presença recorrente do universo e da figura de Platão e Sócrates na poesia de Fiama. que leva o nome da personagem do conhecido mito do homem que. do ciclo “Âmago I. para a primeira se destacar. lembrado do que tinha contemplado da grandiosa perspectiva de mundo espiritual que visitara. 295). 13.14 no Deus da Cabala. por isso. para a capacidade ascensional daquele que é tocado pela manifestação. após ter vivido a experiência de morte e de permanência da sua alma no Além. Centremo-nos no poema Er. 104 ss. A República. nessa vida finita. na mitologia grega. de Platão. mito contado no final do Livro X da República: 14 FORTUNE. a segunda Sephirah). v. cantor do mito das idades. pobre permanência. condensam o mistério. força de nascimento e. Belo Horizonte. Das “espáduas esquecidas do corpo de Gea” falará no “Poema 14” do ciclo “Rosas” (p. no mito de Er. regressou à vida. à luz da interpretação cabalística. 28. a obra em dez livros. Poisar sobre as (minhas) espáduas uma palavra: espádua. meio-dia sem tempo. p. 2010. mãe de deuses. de Javeh. 15 Canto da ave e do sótão. para a correspondência entre a parte superior do ciclo e a inferior. p. ou. 1. . a Bíblia. mas. 2017 Gea. do alto para baixo. objecto de outro poema (p. Nova Arte”). princípio de vida mas também de morte. de acordo com a fórmula “tudo o que está em baixo é igual ao Alto”15 a escada de Jacob (Gen. parágrafo vão. 11-19) e a anamnese platónica são animadas do mesmo movimento ascensional do espírito. só recuperável para a imortalidade na re-união de princípios. parece fundir-se aqui com o princípio do feminino (Binah. apontando para a ciclicidade no fluir do tempo e. no lugar. mãe terrena. 571. 410. certamente.

os polos mitológicos acima indicados. assinale-se. Segue-me com o seu amor ocul to. Não os contemplo. Por Er. nessa viagem iniciática em busca de si mesmo e da perenidade serena. Tudo é correspondência. Muda e depois é igual. p. Por vezes ve mo-nos nas brenhas junto ao mar. n. Une espaços e tempos: o solo às alturas. v. Pássaro e poeta identificam-se. A sua ‘viagem’. Oiço-o com a mesma penetra ção com que já foi ouvido na Natureza. O chamamento desperta a reminiscência e segui-la significa entrar na consonância do ritmo e dos segredos da Natureza. 127. o feminino. Sobre um fio de er va. porventura ao masculino do Alto. é similar à de Ulisses. 2017 51 Por fora do coração voa a asa negra do melro. Noutro tempo foi numa aresta verde. Morte e renascimento encontram. 13. Outras” (p. Nas figueiras de Ogygia cantando. rítmica e eterna. Cruzam-se. 1. ou o espelho da sua alma. O labirinto daquele será transcendido quando o grande Mistério se lhe revelar. leva a cor da morte e a marca da eternidade.Nuntius Antiquus. Esta ave chama por mim como eu. na reminiscência que “Estas Acácias. negro mas de canto suave. Todos os anos estou atenta. assim. perante os . Belo Horizonte. Este poema afirma e recorda. Vem da viagem de Ulisses. a partir da árvore desgastada pelo verão. Une o o olhar do solo raso ao olhar sobre a altura. O que tem um assobio tranquilo e eterno. Pássaro de contradições. O mesmo que vive na minha vida. do ciclo “Solo Solo”) despertam. Um cantor. como se um fosse a alma da outra. 39-57. Além os pequenos pardais negam-no. sob o signo do exotérico. Ulisses é Er. o melro-Er tem o movimento da alma. Dinâmica de anseio por união do que está separado.

612. associa ao sinal para reconhecer o túmulo do Mestre. condensa a nossa quase-imortalidade (“A Thetis”. mediados pelo mundo antigo da filosofia e da poesia: “Ainda amo. É óbvia a síntese de universos culturais aqui alcançada. A pergunta de Sócrates é a de Fiama. fechada numa de madeira de acácia (Êxodo. p. assassinado pelos maus discípulos. para a simbólica acácia ligada ao mito da morte.52 Nuntius Antiquus. deixou de fora da água da imortalidade essa ínfima parcela corporal do filho. decorre da reflexão e do silêncio que busca unir o que aparentemente é disperso. 7-13. mas biblicamente vertido. o do poder da palavra-melodia poética primordial. . 39-57. decorrente desse mesmo exílio que é afastamento do cosmos das ideias.1-4). como o poeta. MOORE. espelho da voz de Sócrates. p. para Fiama. o herói da Ilíada tornado ‘quase imortal’ pelo banho dado pela sua mãe divina que. mencionado no Livro dos reis 1. 14. Heitor. 641). a mesma Paz// Sábia não sou.16 O Fedro constitui. proximidade entre os homens. Belo Horizonte. Hípias. do ciclo “Elegíacos”) se identifica Fiama. neste exílio de paz. porventura. conhecermo-nos como diz Sócrates. n. antes da sua fixação ao escrito. gravado como imperativo no templo de Delfos. tronco de choupo ou copa de limoeiro. a pergunta feita em Hípias Maior. Também as Tábuas da Lei foram encerradas numa arca de ouro. a árvore sempre verde e. ao segurá-lo pelo calcanhar. 561). 13. um ramo de acácia. em harmonia”. Princípio de vida. Com o mesmo Sócrates que interpela Hípias – “Como se explica. v. tornada símbolo da imortalidade. 1. 2008. 471): 16 PEREIRA. o mais amado dos diálogos platónicos. 37. p. na primeira pessoa. que não consta da Bíblia (apenas o nome e a função da personagem). que os antigos sábios/ todos se tenham afastado dos negócios públicos?” (p. O mito. Cf. o mito de Tétis e Aquiles. sob o signo da Grécia. porque toca Fiama no seu itinerário de vida: eu lírico e poeta empírico tocam-se. sepultura e redenção do Mestre Construtor Hiram. Cruzam-se também os dois núcleos temáticos já referidos com o terceiro. é conhecermos no Outro quem nós somos” (“Canto da sombra”. o sábio é o sacerdote do mistério da humanidade e da vida: “e a memória retém o objecto e o outro. por isso. O sábio é livre. p. o conhecimento de si mesmo. assumindo como sua. 2017 olhos da poeta. 2009. não presa à escrita (“Ninguém tanto quanto Sócrates”. p. Calei- me porque/as memórias minhas e a voz sozinha/ também pertencem ao Todo.

que se transformava em sabedoria. 2017 53 O pinhal. mais que Anfíon. v. Rolas de Junho. que toca os homens. p. se confundiam nos meus vo- cábulos com pássaros crocitantes. p. ou Anfíon. O pinhal. ainda que deixem dela sinais. Pude compará-lo mais tarde a Proteu. Orfeu. “As rãs de Hermes”. Antecãmara do mar. Empédocles.) O poder dessa voz primordial. “Hermes Trimegisto”. mensageiros17 – representam. 13. ainda que Orfeu represente. p. de Hermes Trimegisto (cf. Empédocles ou na elevação que habita o cântico dos filhos destes – o gregoriano (“Isaías. que move mundos. equiparado a Eros. p. o cantor que move as pedras e constrói a muralha de Tebas (“Anfíon”. (Veja-se a gravura de Thetis que banha Aquiles na taça de mármore das abluções. veja-se Fortune (2010). 159). que hoje posso situar também no Oriente. mediador de mundos no contexto platónico (cf. Assim. o cantor mágico mas marcado pela ausência: Eurídice (cf. poeta mágico. 587 de “Cantos do canto”). tentativas frustradas dessa ligação conseguida. 281). quando as pinhas. . 17 Sobre o significado cabalístico dos anjos. no jogo vocabular latino amor-mors. 138). Os vários anjos de Fiama – ángeloi. que abre o espírito. p. Belo Horizonte. p. 39-57. têm o seu lugar na escrita poética de Fiama. Orfeu suspende a sua lira e é destruído por não lograr o tão ansiado papel de mediador de mundos. igualmente. O regresso. iniciador de sons vegetais. p. ou correlato da mors. n. e mestras de seu nome. E a água sapiencial. na voz profética de Isaías. no atalho para a praia. “Canto de Orfeu”. filhos”. habita em Homero. Um só pinheiro. Êxtase anterior. tam- bém. como referência antecipada do que é ‘geo-metria’. veterotestamentárias. a que não são alheios os vários anjos de Fiama.Nuntius Antiquus. 1. 478-479). excêntricas em relação à massa verde. O que me permitiu modelar um pequeníssimo utensílio. 240 ss. A do mar. 100 ss e p. em Euclides.

na magna caminhada em que os segredos – o Segredo – se oferecem renovadamente a desvendar. como uma hýbris de tragédia grega (“Da übris”. p. animados por essa força única que é o Amor. sempre insondáveis. pagam o preço do amor ao sol. mas deixaram viva a saudade “da origem/da expressão silenciosa contemplativa” (“Se eu estiver a discorrer sobre a loucura”. 573.54 Nuntius Antiquus. v. p. ao disseminarem a epopeia e a memória dos seus heróis. p. moveram profetas e sacerdotes. 2017 Mensageiros serão. “a primeira fase épica da memória”. n. lúbricas de luz e a ela entrelaçadas. Amor Eros universal. mas o facto de secarem “sempre no Outono” implica que de novo renasçam. 1. na Primavera.18 O regresso e a saudade do som da palavra viva. de uma sabedoria antiga. Belo Horizonte. a verteram para línguas estranhas. No tardio Ocidente imaginámo-nos A ler as páginas surdamente s´so. da palavra que é ouvido. 219-220). . Em outro poema (“Teoria da realidade. no mesmo eterno ciclo que tudo move e perpetua. como Homero. 39-57. Guardaram para a Europa as mãos magníficas Dos árabes e dos Gregos mortos. entre o pergaminho e o papel. tratando-a por tu”. p. Como se fossem escritas pelas línguas No interior da nossa boca omnívora. 699-700) Fiama convida: 18 De “Canto da perda dos livros”. Como aquelas dos hortos de Alexandria De onde nasceram os textos Que. A palavra poética que nomeia e cria mundos reside no eco homérico. ainda que mesmo no reino vegetal: a luxúria das glicínias. para escutar o grande texto do mundo. 13. moveram já civilizações e poetas. “os cérebros dos aedos” que. configurado em todos os mitos de amor. p. 722). os: livros belos que ardem e ressuscitam Com a força das próprias árvores vivas. nos olhos E a mão afeiçoou a página Como a plaino afeiçoa a madeira. A pouco e pouco os livros penetraram No interior da fronte.

de arrostar a morte. e eu. mas também poetas posteriores. tu és pelos tempos traída. pelo fogo. que apontavam pelas linhas dos códices. a helénica paz contemplativa da experiência da presença e da posse do divino. a virgem sacerdotisa de Afrodite em Sesto. e com os barcos. Como sacerdotisa vigilante de Afrodite se assume Fiama – sacerdotisa apaixonada do amor – capaz. 1. de Abidos. Leandro atravessava de noite. digo-te. Ao clarear o dia. 476). por ele. Certa noite de tempestade. atira-se do alto para o mar. que amaram o mar com a boca do canto dos aedos e da escrita. Som. a nado. a primeira após a fala. 258 e seguintes) ou Ovídio (Her.Nuntius Antiquus. a chama extinguiu-se e Leandro encontrou a morte nas águas revoltas. p. 3. pelas línguas. pois não suportou sobreviver à morte do amado. que 19 Este mito trágico de amor inspirou poetas antigos. n. do abstracto ao tacto do meu ouvido. 2017 55 Falemos mais dos gregos. p. na singradura. Se foste tu. seguidora de todos. as vogais entoadas. . A fim de se encontrarem. que medeei da fala para a leitura. como Virgílio (Georg. Hero. Ó realidade homérica. 13. que é consumpção de amor e morte. como Byron ou o nosso Bocage. Sabes o que é o canto. tu? A medida contada? A harmonia flui do meu ouvido.. o Helesponto. e a palavra do poeta seguida pelos poetas. palavra dada. Manhã. o falado pela ordem das sílabas. 18 e 19). em plenas trevas. apaixonaram-se. quero louvar-te a ti. até à hesychía. Belo Horizonte. v. guiado pela lucerna que a amada lhe acendia na outra margem. vendo o corpo do seu amado à mercê das águas. consoante o mito de Hero e Leandro. Hero.19 que consagra num dos seus poemas (“Poética de um rosto”. 39-57. e o jovem Leandro. eu leio as epopeias para ti. Purificando-se pelo mar de morte e redenção baptismal. as pausas. infância em que a mãe de luz embala as palavras no canto.

1. uma vez mais e sempre. Bacantes. O mar na poesia portuguesa contemporânea: a escrita de Fiama Hasse Pais Brandão. . n. H. 39-57. sublinhada pelo silêncio que está para além das palavras. H. 534). da oferta do que se dá a conhecer. BRANDÃO. banquete em que a alma espera ser saciada com a presença do seu Senhor. no silêncio. O banquete é o tempo da reunião e convergência. em que o Mundo Antigo se entretece com outras luzes. conjugado com a sede da procura e da espera do Amado bíblico que já se anuncia. 1992. Lisboa: Edições 70. F. F. num percurso de iluminação encontrada e procurada: banquete em que Dioniso e eros inspiram os convivas do Sócrates platónico (e a hera de Heráclito é a hera de Dioniso). R.14195/978-989-26-0438-1_21. Mar greco-romano. Sob o olhar de Medeia.). (Coords. H. aprontando o sereno banquete final no grande crepúsculo que confina. P. Lisboa: Assírio e Alvim. 397-415. As bacantes. com as auroras a que Homero emprestou dedos róseos: festim do início. Referências BRANDÃO. 2007. ao cantar essa paz suprema a que também dá voz – voz imortal e serena. v. BRANDÃO. p. EURÍPIDES. p. Lisboa: Teorema. Lisboa: Relógio d’Água. ciclicamente. O labirinto camoniano e outros labirintos: temas de literatura e de história portuguesas. essa possibilidade serena de “estender-se o braço até ao fundo/ da longa mesa posta para as coisas” (“Hesychia 2”). numa Jerusalém que fica para além do exílio e que os rios camonianos e veterotestamentários anunciam. 13. 2006. 2017 dá o título a dois poemas (p. na mesa posta que se oferece em emoções contidas. “O mestre anunciado ausente” de “Hesychia 1” preenche toda a espera e abre. v.. Belo Horizonte. 2006. DOI: https://doi. entre a palavra e o silêncio.56 Nuntius Antiquus. M. como a Hera de Heráclito. VILAÇA. FIALHO. 1998. P. v. no banquete sagrado de Dioniso (Bacantes.. Maria Helena da Rocha Pereira. Banquete poético e cultural. Trad.org/10. Obra breve: poesia reunida. 389. em Bacantes de Eurípides20. 20 EURÍPIDES. C. In: OLIVEIRA. 383). P. festim final. o eu lírico de Fiama aproxima-se da experiência do Coro das Bacantes. F. THIERCY. P. Coimbra: Imprensa da Universidade. F.

C. 2017 57 FIAMA Hasse Pais Brandão (1938-2007): a fala do nome mágico. São Paulo: Pensamento. Portugal: maio de Poesia 61. M. 2007. Lisboa: IN/CM. n. Dicionário de termos maçónicos. Na sabedoria de uma quietude: Três rostos de Fiama. Paris: Payot. F. MOORE. P. D. Lisboa: Produções Editoriais. La Kabbale et sa symbolique: Jean Boesse. SCHOLEM. 2001. p. 2008. Disponível em: <https://www. abr. Público. [s. de. v. 13. A Guide to Masonic Symbolism. A cabala mística. G. PEREIRA.]. SOUSA.Nuntius Antiquus. n. SILVEIRA. HOMERO. Relâmpago: revista de poeesia. 1.l. M. Tradução de Frederico Lourenço.publico. p. Lisboa: Cotovia. Hersham: Ian Allan Publishing. Tradução de Mário Muniz Ferreira. FORTUNE. D. 27-43. Acesso em: 21 jan. da. 1986.pt/culturaipsilon/jornal/fiama-hasse-pais-brandao- 19382007--a-fala-do-nome-magico-117588>. Lisboa. 2007. 2010. Belo Horizonte. . 39-57. Caderno Cultura Ípsilon. 2009. J. 2003. 21 jan. 2005. Ilíada. 8.