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MENSAGEM

CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO


1944-1994

Número Especial

UCCLA
Lisboa 2015
MENSAGEM — NÚMERO ESPECIAL, 1944-1994

FICHA TÉCNICA

1.a Edição: Associação da Casa dos Estudantes do Império


Coordenação: P. Borges; A. Freudenthal; Tomás Medeiros; H. Pedro
Edição subsidiada pela Fundação Calouste Gulbenkian
Direcção Gráfica: Judite Cília
Capa: Pintura de António Ole e arranjo gráfico de Judite Cília
Composição e Impressão: Gráfica 2000
Tiragem: 1500 exemplares
Depósito Legal: N.o 112 415/97
ISBN: 972-8254-02-4
Lisboa 1997

2.a Edição: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA)


Coordenação editorial: Maria do Rosário Rosinha e Aida Freudenthal
Direcção Gráfica: Judite Cília
Capa: Pintura de António Ole e arranjo gráfico de Judite Cília
Pré-impressão: Fotocompográfica, Lda. Almada
Impressão: CML/Imprensa Municipal
Tiragem: 750 exemplares
Depósito Legal: N.o /14
ISBN: 978-989-96607-1-7
Lisboa 2015

É permitida a reprodução parcial dos textos inseridos nesta edição, desde que seja referida a sua origem. A reprodução
total requer a concordância dos Autores e do Editor.
ÍNDICE

NOTA PRÉVIA ..................................................................................................................................... 7


EDITORIAL — A MENSAGEM e a CEI ............................................................................................ 9

BALANÇO HISTÓRICO DA CEI


1. A CEI no contexto da política colonial portuguesa
Fernando Rosas ............................................................................................................................. 15
2. Casa dos Estudantes do Império (1944-65): uma síntese histórica
Cláudia Castelo ............................................................................................................................. 25
3. Prolegómenos a uma história (verdadeira) da CEI
Tomás Medeiros ............................................................................................................................. 33
4. Uma Ilha Africana na Duque d’Ávila
Alfredo Margarido ........................................................................................................................ 43
5. Mensagem, Neo-realismo e Negritude
Francisco Soares ........................................................................................................................... 47
6. Reflexões em torno dos contributos literários na Mensagem da CEI
Ana Maria Martinho ..................................................................................................................... 53
7. «Eu não vejo essa África». A CEI e as imagens de África
e do Africano
João Carlos Paulo ......................................................................................................................... 65

MEMÓRIAS DA CEI
1. TESTEMUNHOS

Meio século da CEI. Maputo 1993 .................................................................................................... 75


Memória de um tempo
Alda Espírito Santo ............................................................................................................................ 89
Preocupações políticas dos estudantes ultramarinos em Coimbra
nos anos 40
Fernando Campos .............................................................................................................................. 93
Recordando a CEI
Manuel dos Santos Lima .................................................................................................................... 97
A Editorial
Costa Andrade .................................................................................................................................... 99

3
A Casa e eu
Arnaldo Santos ................................................................................................................................... 101
CEI, uma ponte entre Luanda e Lisboa
Adolfo Maria ...................................................................................................................................... 103
A CEI nos anos de fogo
Edmundo Rocha. ................................................................................................................................ 105
A CEI fez de mim um escritor
Pepetela .............................................................................................................................................. 115
O «espírito» da CEI
Jorge Querido ..................................................................................................................................... 117
Uma nova «Casa»
Percy Freudenthal .............................................................................................................................. 119

2. FRAGMENTOS

A propósito de um poeta cabo-verdiano


Mário Pinto de Andrade .................................................................................................................... 123
Memória dos anos 50
Fernando Mourão .............................................................................................................................. 125
Les étudiants noirs parlent .................................................................................................................. 129
A aventura cultural de Lisboa
Maria do Céu Reis ............................................................................................................................. 139
Era no Tempo das Acácias...
Carlos Ervedosa ................................................................................................................................. 143
Escritores falam...
Antero de Abreu, Fernando Ganhão e Manuel Lima ....................................................................... 149
Os Netos de Norton
Orlando da Costa ............................................................................................................................... 155
A Geração da Utopia
Pepetela .............................................................................................................................................. 161

DOCUMENTOS
Um olhar sobre a CEI (nos Arquivos de Salazar e da Pide)
Aida Freudenthal ................................................................................................................................ 167
Carta aos jovens coloniais de Lisboa ................................................................................................. 207
Do Programa de Actividade Social da CEI. 1959-1960
Gentil Viana ........................................................................................................................................ 215
Programa de Actividades para 1963-64. ............................................................................................ 219
A CEI na Imprensa ............................................................................................................................. 223
Imagens da Memória .......................................................................................................................... 241

BIBLIOGRAFIA SOBRE A CEI ................................................................................................... 261

ADENDA (2015) ............................................................................................................................... 265

EDIÇÕES DA CEI ........................................................................................................................... 269

CRONOLOGIA ................................................................................................................................ 270

ORIGEM DAS ILUSTRAÇÕES .................................................................................................... 272

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À Memória de Amílcar Cabral
Mário de Andrade
Carlos Ervedosa

e daqueles que partiram cedo demais.

Ao Dr. Arménio Ferreira, cuja generosidade e apoio


nos anos difíceis prolongaram a existência da Casa.

Aos ESTUDANTES AFRICANOS de hoje e do futuro.


NOTA PRÉVIA

A Casa dos Estudantes do Império (CEI) foi A União das Cidades Capitais de Língua Portu-
criada em 1944 pelo então Ministério das Coló- guesa (UCCLA) deliberou levar a efeito uma home-
nias e pelo Comissariado Nacional da Mocidade nagem aos associados da CEI, iniciada numa ceri-
Portuguesa sendo destinada ao enquadramento dos mónia que teve lugar no Auditório da Reitoria da
estudantes oriundos das Colónias portuguesas (de Universidade de Coimbra, em outubro de 2014, ano
África, Índia, Macau e Timor). em que se perfizeram 70 anos da criação da CEI.

O eco das independências africanas ocorridas Nessa homenagem iniciou-se a distribuição das
ao longo da década de 50 repercutiu-se no império reedições das referidas Antologias, com novo for-
colonial português, onde o regime do Estado Novo mato e ainda a distribuição de uma pen com os no-
registava então grande contestação. mes de todos os associados da CEI, resultado de
uma pesquisa levada a efeito na Torre do Tombo.
Neste contexto histórico muitos jovens estu-
dantes associados à CEI procuraram caminhos de Para 2015, ano em que se perfazem 50 anos
descoberta / construção da identidade dos territó- sobre a extinção da CEI pela PIDE programaram-
rios de que eram originários com diversas iniciati- -se vários eventos. De entre esses eventos constam
vas culturais, entre as quais a atividade editorial. debates, um Colóquio Internacional, a realizar na
Fundação Calouste Gulbenkian, uma exposição na
A Associação Casa dos Estudantes do Império Câmara Municipal de Lisboa e, por fim, a sessão
(ACEI), constituída por associados da CEI, em de encerramento no dia 25 de maio, Dia de Áfri-
1994 e com existência até 1997, reeditou, pela ca, em que intervirão como oradores todos os as-
passagem do 50.o aniversário da Casa, dois volu- sociados da CEI que vieram a ser Presidentes da
mes das Antologias de Poesia de Angola, Moçam- República ou Primeiros Ministros dos territórios
bique e São Tomé e Príncipe e elaborou um Nú- de onde eram originários.
mero Especial da MENSAGEM, um Boletim
publicado pela CEI, de forma irregular, de acordo A reedição deste Número Especial da Revista
com as vicissitudes vividas, entre 1948 e 1964. MENSAGEM integra-se nesta justa homenagem.

Vítor Ramalho
(Secretário Geral da UCCLA)

7
EDITORIAL
A Mensagem e a CEI

1. À medida que se aproximava a data históri- de África, como desvendar a génese de uma parte
ca dos 50 Anos da fundação da Casa dos Estudantes do processo de consciencialização cultural e políti-
do Império (CEI), a sua comemoração promoveu al- ca que no seu meio tomou forma e sobreviveu
guns encontros, durante os quais um grupo de anti- à sua extinção, ao projectar-se nas independências
gos sócios decidiu empenhar-se na reconstituição do das novas nações africanas de língua portuguesa.
património da CEI e na sua posterior divulgação. Foi um Boletim associativo — MENSAGEM
Daí à constituição de uma Associação que re- — publicado em Lisboa entre 1948 e 1964, de
tomou a designação inicial — CEI — e elaborou modo irregular, ao sabor das vicissitudes da CEI,
propostas de acção junto dos actuais estudantes que assumiu a expressão mais clara dos interesses,
africanos em Portugal, foi um passo. Na verdade, das identidades, das opções e dos projectos dos es-
a ACEI tem desenvolvido esforços no sentido de tudantes africanos. Na realidade, ao ultrapassar
constituir um espaço onde a juventude africana o círculo das suas preocupações, a MENSAGEM
partilhe as suas interrogações num ambiente pro- projectou ainda uma imagem facetada dos proble-
pício ao debate e à criação cultural. Enquanto se mas que as sociedades coloniais iriam mais tarde
aguarda a concretização desse projecto, partiu-se transferir para as novas nações africanas. O tempo
para a concepção de um programa editorial do entretanto decorrido não parece ter esgotado algu-
qual resultou ainda em 1994 a reedição de todas mas questões enunciadas nas suas páginas, delas ir-
as Antologias de Poesia da CEI. radiando por vezes uma actualidade que surpreende.
O acolhimento prestado a essa iniciativa reve- A publicação de um número especial da MEN-
lou entretanto o interesse de um público mais vas- SAGEM, que reunisse a colaboração de diversas
to em conhecer o percurso da Casa ao longo dos sensibilidades e de distintas opções políticas, viria
vinte anos da sua existência, já que a memória de pois encontrar o seu fundamento nessas motiva-
três décadas decorridas sobre a sua extinção tem ções, acrescidas ainda de um novo factor: a opor-
revelado visões contraditórias entre os indivíduos tunidade de revelar ao grupo de estudantes africa-
que em diferentes momentos viveram a CEI. Ape- nos em Portugal uma parte do património cultural
sar das dificuldades que à partida se pressentiam, legado pelas gerações que os antecederam. Julga-
a ACEI decidiu responder ao desafio, promovendo mos com efeito que para muitos africanos envolvi-
um primeiro balanço histórico da Casa, a única as- dos no processo das independências, alguns dos
sociação que, nas décadas finais do colonialismo, textos editados pela CEI são ainda hoje considera-
agregou em Portugal uma larga maioria dos estu- dos “manifestos” das respectivas culturas nacio-
dantes originários das colónias de Ásia e África. nais, o que só por si justificaria a sua reedição tan-
Para tal, propôs-se não apenas reafirmar o con- tos anos volvidos.
tributo inestimável que alguns membros da CEI De facto, a Casa empenhou-se na difusão de
deram às literaturas dos seus países, tema que nos obras cuja temática mergulhava as suas raízes de
últimos anos tem atraído a atenção de estudiosos forma inequívoca na realidade africana, embora

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uma parte considerável dessa produção se inte- Nas Memórias da CEI, procedeu-se à apre-
grasse ao mesmo tempo em movimentos literários sentação de alguns Testemunhos inéditos de só-
que nas décadas de 50 e 60 se difundiam no mun- cios que viveram a CEI em Lisboa e em Coimbra,
do afro-americano. quer no seu quotidiano mais ou menos acidentado
Interessou-nos igualmente proceder à caracteri- em período de ditadura e sob constante vigilância
zação do meio associativo e dos grupos onde se policial, quer no convívio pautado por uma prática
afirmaram e divulgaram esses valores culturais associativa solidária e democrática, permeada no
africanos, ainda que afrontados pela ideologia entanto por alguns conflitos raciais e de classe;
e pelo regime colonial. Para essa caracterização e testemunhos daqueles que participaram no deba-
ser possível haveria que inventariar e proceder te sigiloso de questões essenciais relativas ao pre-
à análise das iniciativas editoriais da CEI, que di- sente e ao futuro dos respectivos países como na
vulgaram textos ainda hoje indispensáveis ao en- elaboração de projectos culturais e políticos mais
tendimento de um período muito particular das li- ou menos utópicos, como o futuro viria a demons-
teraturas africanas de língua portuguesa. trar; e ainda dos intervenientes, na fase mais com-
Finalmente, importava colher os testemunhos prometida com o processo de libertação, no exer-
de muitos membros da CEI, depositários de infor- cício da actividade associativa como prelúdio de
mação preciosa sobre os momentos mais marcantes outras intervenções políticas no período que ante-
da vida da Casa, dados que a juventude e incúria cedeu e sucedeu às independências.
dos participantes relegou para a memória indivi- Em Fragmentos, reproduzem-se textos já an-
dual, sujeita inevitavelmente ao desgaste dos anos. teriormente publicados, na sua maioria de antigos
elementos da CEI, cujo conteúdo se aproxima da
2. Com base nos pressupostos atrás enuncia- crónica sobre a vida de estudantes em grande parte
dos, desenvolveu-se ao longo de dois anos um tra- desenraizados, em busca da própria identidade; al-
balho que possibilitou a reunião de muito material guns exprimindo visões críticas do passado e do
inédito, em torno da CEI e da MENSAGEM, que presente, questionando particularidades nacionais,
em parte preenche as finalidades da edição. outros mitificando no dia-a-dia a terra distante, an-
Assim o leitor encontrará numa primeira parte, siando por um retorno às origens. A vivência na
o Balanço Histórico da CEI, através de estudos Casa viria por outro lado a inspirar obras de ficção
que vieram preencher várias lacunas no conheci- escritas em português, nas quais a CEI proporcio-
mento sobre a associação, ao situá-la no contexto na um cenário onde as personagens se movem.
histórico da sua existência entre 1944 e 1965; ao Dessas obras foram extraídos alguns fragmentos
identificar as referências culturais e políticas das que nos pareceram mais significativos.
gerações que percorreram a Casa até à sua partici- Finalmente, considerámos oportuna a publica-
pação nos movimentos nacionalistas das colónias ção de alguns Documentos, nomeadamente textos
portuguesas; ao perspectivar a adesão dos jovens inéditos ou de circulação reservada aos sócios da
escritores a várias temáticas e ao movimento da CEI, como programas de actividades e relatórios
Negritude, identificando os contributos insertos e alguns textos de responsáveis políticos e agentes
nas páginas da Mensagem; ao descodificar o con- policiais que denunciam a estratégia do poder em
teúdo de textos fundamentais do Boletim, despi- relação à CEI. Revela-nos essa documentação as-
dos da roupagem subtil necessária à protecção, na pectos menos conhecidos da Associação, como al-
época, dos autores e da CEI. guns princípios orientadores, estratégias e áreas de
Estamos convictos que, graças a estes contri- actuação, e também os projectos, os desencantos
butos, nova luz foi lançada sobre a CEI, enquanto e a escassez de meios na fase final. Como suportes
espaço de reflexão no âmbito das identidades na- da memória, algumas gravuras e fotografias pro-
cionais emergentes, ao mesmo tempo que instru- porcionam imagens da vida associativa na sua di-
mento único de afirmação em Portugal de uma mensão quotidiana.
imagem valorizada de África e dos Africanos. Inclui-se ainda uma breve selecção de recortes
Igualmente se evidenciou a projecção sobre a CEI de imprensa referentes à CEI, cuja projecção se
dos desígnios das políticas imperial e ultramarina fez sentir não só em Portugal como na imprensa
do Estado Novo, o que de modo algum impediu colonial e brasileira, em particular quando a ques-
que em devido tempo tenham sido subvertidos os tão colonial portuguesa se internacionalizou a par-
objectivos para que a Casa fora criada. tir da década de 50.

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A encerrar o volume, inclui-se uma Bibliogra- Questão não resolvida pela própria natureza das
fia sobre a CEI, que não sendo de modo algum memórias recolhidas, reportando-se algumas a fac-
exaustiva, poderá no entanto constituir um instru- tos ocorridos haverá cinquenta anos, é a do carácter
mento de pesquisa sobre questões relacionadas subjectivo de que elas se revestem. É evidente que
com a dimensão temporal da CEI. Pelo facto de os testemunhos valem enquanto tal, pelo que as
em edições recentes se terem registado lacunas afirmações produzidas nas páginas desta MENSA-
nas referências ao acervo editorial da CEI, consi- GEM são da exclusiva responsabilidade dos seus
derou-se oportuna a apresentação de uma lista autores e não implicam a concordância dos respon-
completa das mesmas, seguida de uma Cronolo- sáveis da edição com os seus pontos de vista.
gia que permitirá situar com mais rigor a Casa no Perante a limitação de não se encontrar por ora
seu tempo. reunida uma massa substancial de dados, não
constituiu objectivo deste Número Especial proce-
3. A evocação da CEI revelou-se mais difícil der ao confronto entre testemunhos coevos, nem
do que prevíamos no início do trabalho. Regista- efectuar um estudo crítico dos textos que nele se
va-se à partida o facto de o espólio se encontrar incluem. Crê-se por outro lado ter assegurado
disperso e desaparecida uma parte substancial do o direito à expressão de pontos de vista pessoais
mesmo (por efeito da extinção e confisco dos bens e por vezes contraditórios, transmitindo desse mo-
da CEI em 1965), o que obrigou a inúmeros esfor- do uma imagem mais de acordo com a pluralidade
ços no sentido de reunir o que restava em mãos de existente na CEI.
particulares (sócios e amigos). Além do recurso Exprime o Editor o desejo de num futuro pró-
à documentação integrada em Arquivos só recen- ximo se poder dar continuidade a uma recolha que
temente abertos à consulta pública (Salazar e Pi- viabilize avaliações tão rigorosas quanto possível
de), houve que proceder à recolha de testemunhos do papel cultural e político desempenhado pela
junto de antigos sócios. Enquanto uns que vive- CEI, tarefa que agora apenas se inicia.
ram a CEI corresponderam prontamente ao apelo, Apesar da qualidade e diversidade das interven-
outros, por razões que desconhecemos, não res- ções aqui reunidas, muitos sectores da vida associa-
ponderam às solicitações que lhes foram dirigidas. tiva permanecem no entanto obscuros. Enumere-
Simultaneamente, os Coordenadores desta edição mos alguns que se afiguram importantes: o perfil
lamentam com profundo pesar que outros compa- sociológico dos associados da CEI e a respectiva
nheiros da CEI não se encontrem já entre nós para representatividade nacional; a participação das mu-
relembrar o tempo da sua geração... lheres na CEI; as sessões culturais e os debates pro-
Lamentamos particularmente não ter recebido duzidos entre a assistência; o papel do Meridiano
mais colaboração de modo a assegurar a represen- na CEI de Coimbra; o peso do desporto como com-
tação de todos os países africanos de língua portu- ponente muito valorizada entre os jovens das coló-
guesa. Por certo a distância e as ocupações profis- nias; a difusão da música e das danças afroamerica-
sionais não permitiram que se concretizasse uma nas em sessões culturais e nos bailes da CEI;
amostra mais ampla dos grupos e das tendências o contributo de individualidades que colaboraram
que integraram a Casa, o que daria sem dúvida um com a CEI de Coimbra, de Lisboa e do Porto, no
quadro mais completo do que foi a vivência ex- domínio das artes plásticas, da música, do teatro
traordinária das gerações da CEI. e das letras, para uma formação cultural de carácter
Espera-se no entanto que ao trabalho agora universal e especificamente africano; a intervenção
iniciado se sigam outras oportunidades de comple- dos sócios da CEI nas Associações Académicas,
mentar esta recolha, e de aprofundar a multiplici- nomeadamente em cargos directivos e outras for-
dade de experiências que no seu conjunto deram mas de intercâmbio associativo; os percursos dos
corpo à CEI. Surgirão por certo novos testemu- sócios da CEI em associações e partidos sediados
nhos daqueles cuja memória será desperta pela lei- em Portugal e nos movimentos de libertação dos
tura destas páginas, enquanto outros poderão bus- seus países, durante a diáspora na Europa e em
car a abundante colaboração dispersa em jornais África; as clivagens sociais, raciais e culturais den-
e revistas de autores que referiram a Casa ao lon- tro da Casa e suas projecções, etc.
go dos últimos 50 anos. Outros ainda vasculharão Se muito fica por cumprir em relação ao plano
porventura velhas estantes em busca de papéis es- inicial, isso se deve em boa parte à dimensão ex-
quecidos, de imagens esbatidas pelo tempo... cessiva da tarefa e aos obstáculos imponderáveis

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que surgiram ao longo do percurso. Apesar das li- nestes derradeiros anos do século XX? Existirá afi-
mitações enunciadas, estamos em crer que a inicia- nal um público interessado em encontrar nas pági-
tiva da ACEI agora trazida a público representará nas de uma revista o tratamento de questões que
um esforço no sentido de abordar questões relevan- não encontram outro espaço para se exprimir?
tes não apenas no âmbito da CEI como da estraté- Existirão vozes dispersas procurando ser ouvidas
gia global do Estado Novo em relação às colónias. numa comunidade de interesses?
Igualmente indispensável se afigura a busca dos Por alguns sinais já detectados, parece eviden-
fundamentos que conduziram à elaboração de um te que os estudantes africanos em Portugal sentem
discurso ideológico do poder em África. a falta de um meio através do qual possam debater
Neste regresso ao passado, ocorre-nos um juízo as questões que relevam da sua identidade e da
sumário três décadas após o desaparecimento da sua situação transitória em país estrangeiro. E o
CEI: se é certo que os propósitos daquela associação que dirá a vasta comunidade africana aqui radica-
estudantil se cumpriram enquanto sobreviveu, gran- da há muitas décadas, se atendermos apenas à rea-
de parte dos problemas enunciados no seu seio per- lidade mais próxima?
sistem muitos anos após a sua extinção. Com efeito, Publicações periódicas já existentes demons-
a actividade da Casa não se esgotou na discussão tram por certo a sua oportunidade particularmente
teórica em torno de opções estéticas e ideológicas, no sector económico e da cooperação. Porém, no
tendo existido em toda a sua actividade uma acen- que toca a questões sociais e culturais, a imprensa
tuada preocupação com os problemas do desenvol- escrita tem-se revelado não só escassa como epi-
vimento e com a sobrevivência dos povos, questões sódica, num país onde já no início deste século se
que continuam actuais neste final de século. faziam ouvir algumas vozes africanas, rompendo
Estando claramente fora de questão fazer re- o bloqueio cultural então existente. Afigura-se-nos
nascer a CEI ou o seu boletim MENSAGEM, pas- por isso necessário criar um espaço onde a comu-
sados que foram trinta anos sobre o seu desapare- nidade africana exprima as questões específicas da
cimento e radicalmente transformado o contexto sua identidade, da sua (des)inserção social, das
histórico da sua existência, importa colocar uma suas expectativas futuras. É um voto que formula-
outra questão que reputamos extremamente impor- mos.
tante: não é verdade que se tem referido a necessi-
dade de uma nova tribuna africana em Portugal, Os Coordenadores

Agradecimentos
Na concepção do projecto inicial desta edição, foi fundamental que viveu a Casa nos anos 60, e à adesão de participantes de to-
o ânimo resultante das palavras do historiador Elikia M’bokolo, das as idades numa mesa-redonda realizada na Rádio Moçambi-
profundo conhecedor da história contemporânea de África, nomea- que.
damente dos movimentos associativos da diáspora africana na Eu- Permitam-nos ainda destacar aqueles que puseram à nossa dis-
ropa. Para ele o nosso sincero agradecimento. posição parte do precioso espólio fotográfico e documental da CEI:
Para a concretização deste projecto colectivo concorreram inú- Arménio Ferreira, Alberto M. Mano de Mesquita, Fernando Mou-
meras vontades e muitas palavras amigas. Com particular apreço rão, Celme Cruz, Eduardo Medeiros, Acácio Cruz, Vasco Valada-
registamos a inclusão de estudos da autoria de investigadores por- res, Augusto e Aurora Pestana, Manuel Monteiro, Emílio Serrano,
tugueses de História e de Literatura, que finalmente repõem a ver- Miguel Hurst, Edmundo Rocha, Gentil Viana. Se outros houve cujo
dade de muitos factos relativos à CEI e à Mensagem e cujo valioso nome tenhamos omitido, que nos perdoem a falta involuntária. Sem
contributo calorosamente agradecemos. esse material ciosamente guardado durante décadas, tornava-se in-
Uma vez mais reiteramos os nossos agradecimentos à Fundação viável qualquer tentativa deste tipo.
Calouste Gulbenkian que, na sequência do apoio concedido nos O nosso agradecimento a Cláudia Castelo pela colaboração
distantes anos 60 à CEI, nos atribuiu um subsídio para o programa e pelas informações sobre a documentação da CEI existente no Ar-
editorial da ACEI, possibilitando a materialização do trabalho ini- quivo da PIDE e a Olga Neves pelas referências à CEI na imprensa
ciado. Estamos bem conscientes de que sem tal apoio não seria moçambicana e nos Arquivos portugueses.
possível desenvolver este projecto. O nosso profundo reconhecimento vai também para os amigos
Este Número Especial da MENSAGEM foi também exequível que aceitaram responsabilizar-se pela qualidade gráfica da edição:
graças à boa vontade e empenhamento pessoal de numerosos só- Henrique Abranches autor do desenho inédito datado de 1961, An-
cios da CEI que têm apoiado a actual Associação. Uns mais pró- tónio Ole, autor da pintura para a capa e Judite Cília responsável
ximo, outros à distância de milhares de quilómetros, encontraram pela capa e pelo arranjo gráfico.
razão suficiente para mais uma vez serem solidários com a Casa, Last but not least, um agradecimento muito especial a Rute
através do envio das suas memórias e dos seus artigos, bem como Magalhães, companheira das lides africanas, desde a CEI, e colabo-
da morosa busca de dados e da cedência de documentação de to- radora desde a primeira hora da ACEI e especialmente deste núme-
do o tipo. Em particular de Maputo chegou-nos a participação ro da MENSAGEM, e a Ana Paula Tavares, pelas sugestões e críti-
mais rápida e entusiástica, graças à iniciativa de Orlanda Mendes cas sempre oportunas que nos proporcionou.

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Balanço Histórico da CEI
A CEI no contexto da política colonial portuguesa*
FERNANDO ROSAS**

N esta incursão absolutamente despretensiosa, nação, um império ele próprio organicista. Organi-
vou partir da consideração de três grandes perío- cista no sentido de ter uma cabeça, de ter mem-
dos da política colonial após o seu estabelecimen- bros, de ter partes, a cabeça sendo a metrópole, as
to e tentar reflectir um pouco sobre o comporta- partes, os filhos ou os membros — o organicismo
mento da Casa em cada um deles. dá para o corpo ou dá para a família — seriam os
Numa primeira fase, a que se poderia chamar diversos territórios coloniais submetidos à protec-
a fase imperial da política colonial do Estado Novo, ção tutelar da metrópole, à cabeça do império sita
obviamente entre 1930, altura em que é publicado em Lisboa e tornada possível de reaparecer e exis-
o Acto Colonial e é consagrada, do ponto de vista tir graças à existência do Estado Novo.
legal e até constitucional, a noção do Império, Segundo aspecto de novidade do paradigma
e 1950, o primeiro vinténio do regime do Estado ideológico: naturalmente, este império ontológico
Novo. Realmente, em 1931, um pouco sob os efei- é um império inalienável, indiscutível, permanente
tos da crise de 1929, muda o paradigma ideológico que corresponde à própria essência da nação e por-
do colonialismo português. O colonialismo portu- tanto não se discute. É consagrada constitucional-
guês não nasce com o Estado Novo, havendo natu- mente a sua existência, é indivisível, não é negociá-
ralmente um colonialismo monárquico, um colonia- vel, é perene e permanente, e portanto esta noção,
lismo republicano, mas o Estado Novo, sobretudo que vai durar ao longo do Estado Novo, é muitíssi-
através da ideologia ínsita no Acto Colonial, altera mo importante para se compreender a força ideoló-
em alguns aspectos muito importantes esse paradig- gica do conceito, para além do tempo e sobretudo
ma ideológico e também as políticas coloniais até aí nos períodos conturbados dos anos 60. O império
seguidas pela administração portuguesa. é essência da nação. O império corresponde a uma
Desde logo, criando o próprio conceito ontoló- missão, o império é um todo, o império não se dis-
gico e organicista do Império. O Império é alguma cute, não se divide, é inalienável. [...]
coisa de essencial à nação portuguesa, o Império O homem português teria nascido com essa
é também a expressão do reencontro da nação com missão especial de evangelizar, de colonizar, de ex-
o seu passado que com o Estado Novo se operara pandir a fé e o império e portanto isso correspondia
e portanto esse reencontro da nação com as suas a alguma coisa de verdadeiramente essencial, à ma-
tradições autênticas expressava-se na existência nifestação de uma espécie de darwinismo social,
dessa noção ontológica que era a existência de um a uma missão do homem português, uma missão do
império. Um império correspondente a uma mis- homem branco de elevar as raças que, do ponto de
são, um império correspondente a uma ideia de vista da teoria do darwinismo social corrente na

* Texto extraído da alocução proferida na sessão de lançamento das Antologias de Poesia da CEI — 1951-1963, na Fundação Gulbenkian
em 15.12.1994. (N.E.)
** Historiador e Professor de História na Universidade Nova de Lisboa (FCSH).

15
época, eram raças que precisavam desse impulso O investimento directo é muitíssimo limitado
ascendente promovido pelo colonizador branco e, nos anos 30 e 40, quer da parte do estado, quer da
no caso português, essa era uma missão particular- parte das empresas, a percentagem da empresa pú-
mente atribuída e radicada na sua própria história, blica aplicada nas colónias ao longo dos anos 30
no seu próprio imaginário plurissecular. e 40 é qualquer coisa de permanente à volta dos
Daqui surgiram, com o Estado Novo, várias 3,4% do orçamento sem nenhuma alteração. A ex-
medidas políticas importantes. Desde logo, o impé- portação de capital é talvez ainda mais pequena:
rio correspondeu a uma drástica centralização polí- o que há é uma exploração comercial importante
tica e administrativa, ao fim dos períodos de auto- por parte de famílias e de sectores económicos de
nomia política e financeira experimentados durante grande importância que assenta na submissão for-
a República, sobretudo na Angola de Norton de mal das economias locais, quer dizer, a instalação
Matos, e portanto a essa situação contrapõe-se uma de culturas obrigatórias, a instalação do trabalho
política de estrita centralização política, administra- forçado, a expropriação de terras.
tiva e financeira e portanto também a uma adopção, Estes três instrumentos, culturas obrigatórias,
do ponto de vista económico, de uma política de trabalho forçado, expropriação de terras, servem
pacto colonial. Há uma distribuição funcional das para que grandes companhias comerciais, sem al-
tarefas no império. As colónias produzem matérias terar ainda profundamente as relações de produção
primas que a metrópole tem o dever de receber e, tradicionais existentes, as submetam no seu con-
em contrapartida, as colónias devem receber os junto à lógica de uma exploração essencialmente
produtos acabados da metrópole. Portanto esta tro- periférica e comercial. Ainda não há uma subver-
ca entre as matérias primas e os produtos acabados, são profunda dos sistemas de produção existentes
este pacto, este renascimento do pacto colonial cor- mas há sim a sua submissão a uma lógica de ex-
responde à essência também da ideia imperial em ploração comercial periférica por parte de grandes
termos de economia. companhias que ainda não introduziram revolução
E culminando este conjunto de importantes no- na produção do algodão mas que exploram o algo-
vidades ideológicas político-administrativas e até dão das safras camponesas tradicionais africanas,
económicas, o Estado Novo introduz uma outra através do mecanismo de preços e de um mecanis-
ideia muito importante, é que se o império corres- mo de ajudas complexo que aqui não cabe referir,
ponde à nação e até à possibilidade de a nação se e de relações comerciais ditadas pela política de
manter independente, o Estado Novo é a forma po- pacto colonial (com o dever da metrópole receber
lítica necessária para que o império se mantenha: a matéria prima colonial, e o dever da colónia re-
e portanto o império não só é da essência da nação, ceber os produtos da metrópole, nomeadamente
não só é inalienável, como a sua manutenção de- industriais e agrícolas, como o vinho para o preto,
pende da existência desse Estado que não é mais o pano para o preto, coisas que não tinham hipóte-
um regime político possível mas que é a nação feita se nenhuma de ser vendidas como excedentes no
estado, que é a nação tornada política, que é o Esta- mercado nacional, nem tinham hipóteses de con-
do Novo. E portanto, do ponto de vista do discurso correr no mercado internacional). Esses produtos
ideológico e do peso determinante que ele vai ter no eram colocados no mercado colonial reservado,
futuro, surge esta associação total entre o império, tendo como contrapartida a obrigatoriedade de
a inalienabilidade e o Estado Novo, tudo ligado en- a metrópole importar e aceitar o café, as oleagino-
tre si. Não é por acaso que quando cai o império, sas, o algodão, o açúcar e outras matérias primas
o Estado Novo não vai poder deixar de ir atrás dele. de origem colonial que eram nessa altura muito
Naturalmente as realidades nos anos 30 e 40 es- piores e muito mais caras do que aquilo que era
tão um pouco além do discurso: a ocupação nas acessível no mercado internacional.
principais colónias — mesmo nas colónias de ocu- Portanto este pacto colonial vai originar uma
pação, Angola e Moçambique — é muitíssimo li- outra mudança importante em termos de políticas
mitada; quase nula a formação de elites locais, de que é um certo incremento das relações comerciais
elites autóctones; a integração no sistema colonial da metrópole com as colónias, incremento esse
de elites é praticamente inexistente; é mais o fun- que se dá sobretudo no contexto da 2.a guerra
cionário mandado para lá ou o colono que se ins- mundial, por virtude das dificuldades de trocas in-
tala e que a partir daí pode dar alguma educação ternacionais, por virtude do bloqueio económico,
aos seus filhos. em que as colónias se constituem realmente como

16
um factor muito importante de abastecimento da mandarem os seus filhos estudar na Universidade
metrópole e as relações comerciais, aí sim, dispa- em Lisboa ou noutros estudos, o que correspondia
ram de níveis que andam à volta dos 7,8% nos a uma grande despesa e a um grande investimento
anos 30 para níveis que chegam quase aos 20% ao que só uma elite muitíssimo restrita tinha possibili-
terminar a 2.a guerra mundial. Ou seja, apesar des- dade de pagar, ainda mais nos anos 40.
tas relações, deste tipo de colonização ser ainda Em 1945 a Mocidade Portuguesa faz publicar
um tipo de colonização relativamente incipiente, nos seus boletins a ideia de que a Casa dos Estu-
do ponto de vista da relação comercial há um es- dantes do Império, estou a citar, “é uma filha da
treitar muito importante das relações com as coló- Mocidade Portuguesa”. Marcelo Caetano faz uma
nias no contexto da 2.a guerra mundial. série de conferências sobre a formação colonial da
juventude e digamos que a Casa vive um pouco
Fase imperial do Estado Novo, “fase imperial” esta fase imperial sem uma contestação aparente.
da Casa dos Estudantes do Império. Aliás, como Mas há vários sintomas que começam a indi-
sabem (peço desculpa de ir dizer coisas que alguns car que, desde o fim da 2.a guerra mundial, a Casa
de vocês sabem muito melhor do que eu e portanto dos Estudantes do Império se começa a transfor-
corrigir-me-ão se eu me enganar), a Casa dos Estu- mar no seu contrário. Desde logo porque mantém
dantes do Império, que começa por ser em fins de no interior da Casa as secções por cada colónia,
43 Casa dos Estudantes de Angola, pede ao Profes- quer dizer, rodeia a imposição ministerial da fede-
sor Marcelo Caetano, exactamente em 43, a tutela ração recriando secções, criando a secção de An-
do Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa gola, a secção de Moçambique, a secção de Cabo
para a protecção e o apoio aos estudantes dessa Ca- Verde, a secção da Índia, etc, etc. Em segundo lu-
sa de Angola obtendo também apoio de algumas gar foi possível apurar que em 1946 a maioria dos
firmas coloniais. Em 1944, sob o impulso do Mi- corpos gerentes da Casa dos Estudantes do Impé-
nistro Francisco Vieira Machado, Ministro das Co- rio é já subscritora da lista de apoio ao movimento
lónias da altura, a Casa dos Estudantes de Angola de unidade democrática e boa parte dos seus cor-
tinha entretanto visto surgir uma Casa dos Estudan- pos gerentes também já aderiu ao MUD juvenil
tes de Moçambique, uma Casa dos Estudantes de formado, como sabem, também em fins de 45,
Cabo Verde, uma Casa dos Estudantes da Índia, princípios de 46.
uma Casa dos Estudantes de Macau. O Ministro Em 1944, Agostinho Neto está na Casa dos
das Colónias, exactamente no verão de 44, promo- Estudantes do Império em Coimbra, na delegação
ve a unificação das Casas numa única Casa dos Es- de Coimbra; aí os relatórios da PIDE acusam-no,
tudantes do Império. Tratava-se de consagrar, tam- juntamente com o Lúcio Lara, de ter relações com
bém no que tocava aos estudantes residentes em Joaquim Namorado, com o Ateneu de Coimbra e,
Portugal, o império, a unidade do império (não de- pelos primeiros relatórios da PIDE sobre a Casa
veria haver casas separadas se o império era um só) dos Estudantes do Império de Coimbra, onde
e tratava-se também de facilitar de alguma maneira é acusada de albergar perigosos comunistas que
a tutela dos órgãos centrais do estado, nomeada- têm contactos com meios oposicionistas abertos,
mente da Mocidade Portuguesa e do então Ministé- sobretudo esses meios do neo-realismo e do Ate-
rio das Colónias sobre os estudantes que aqui exis- neu de Coimbra. Num dos relatórios da polícia,
tiam. A centralização correspondia à realização do Agostinho Neto é mesmo acusado de ter pretendi-
ideal de império e simultaneamente ajudava ao con- do levar Norton de Matos a fazer uma sessão de
trolo político e policial sobre a Casa. esclarecimento em Coimbra em 1949 e não há dú-
Em Novembro de 1944 já a Casa dos Estudantes vidas que em 45, 46, 47, 48, 49 há um grande nú-
do Império funciona na Av. Duque de Ávila, n.o 23. mero de elementos de responsabilidade da Casa
Os estudantes da Casa dos Estudantes do Impé- dos Estudantes do Império que, do ponto de vista,
rio são (tanto quanto é possível ir sabendo actual- pelo menos, dos relatórios da polícia, são já clara-
mente, pelos ficheiros que se encontram no arquivo mente acusados não só de serem subscritores de
da PIDE) na sua maioria, filhos de brancos, de co- lista do MUD, de serem membros ou aderentes do
lonos brancos, de quadros da administração branca, MUD juvenil e de terem ambíguas e perigosas re-
também alguns mestiços e, no início, um pequeno lações com os meios oposicionistas de Lisboa e de
número de negros — até porque isso correspondia Coimbra. É também neste período que sai em
às possibilidades reais de as famílias das colónias Coimbra o Meridiano, uma espécie de boletim de

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poesia da Casa dos Estudantes do Império, onde cias ultramarinas com a revisão constitucional de
começam a despertar essas primeiras expressões 1951. Algumas ténues tendências de manutenção
de uma literatura de resistência, não talvez de uma de algum espaço autónomo para as colónias, que
literatura nacional mas de uma literatura de resis- então afloram dentro do regime, são claramente
tência colonial. vencidas nos debates que só hoje se sabe terão tido
lugar ao nível de alguns altos aparelhos de estado;
A segunda fase deste período é a fase a que eu as oposições prudentes de Caetano e de Armindo
chamarei a “fase ultramarina” da política colonial Monteiro são na realidade postas em minoria a fa-
do Estado Novo, 1952-1960. É um período de vor de uma corrente integrista muito clara: Portugal
grande mudança, de grande mudança na política não tem colónias, não tem que dar satisfações so-
colonial, no mundo e de grande mudança também bre as colónias; Portugal tem províncias ultramari-
na Casa dos Estudantes do Império. nas, a matéria colonial passa a ser matéria de di-
O novo condicionalismo do pós-guerra é por reito constitucional normal, as colónias passam
demais conhecido para eu me estar a alongar sobre a ser províncias ultramarinas do Minho a Timor.
ele. É a grande primeira vaga das independências E portanto este integrismo é acompanhado de
do pós-guerra, a independência da Índia, as lutas uma muito importante viragem económica para
de libertação na Indochina e as derrotas francesas África do colonialismo português. Inicia-se então,
na Indochina, a Indonésia, o Próximo Oriente e realmente, quer por parte dos núcleos, dos em-
com os novos ventos a soprarem e a aproximarem- briões dos grandes grupos económicos — nomea-
-se de África a partir da segunda metade dos anos damente da Cuf e de Champalimaud — uma ver-
50. Os movimentos independentistas deslocam-se dadeira exportação de capitais para África, no
do Oriente, da Ásia, do Próximo Oriente, para sentido do investimento directo de capitais nas
África e isso é absolutamente claro e previsto fre- economias africanas coloniais, exploração de ma-
quentemente no interior do próprio regime. térias primas, lançamento de grandes infraestrutu-
Os novos ventos para África vão embater no ras, portos e caminhos de ferro sobretudo, lança-
império português e o Estado Novo prepara-se para mento da indústria cimenteira e de várias
responder a esta situação. A resposta do Estado indústrias de bens de consumo, nomeadamente
Novo é formulada, se quiserem e de uma forma a indústria têxtil e as indústrias alimentares, desen-
muito resumida, do ponto de vista estratégico. Sa- volvimento do sistema da banca e dos seguros nas
lazar começa a formular um desenvolvimento im- colónias, intensificação das relações comerciais.
portante da ideologia imperial. Começa a defender O paradigma da economia colonial começa
publicamente a ideia de que, para que a Europa a mudar do ponto de vista da exportação de capi-
possa sobreviver apertada entre a Rússia Soviética, tais. É a altura dos primeiros grande ensaios, final-
vitoriosa da 2.a guerra mundial, e os EUA, outro mente, após longos anos de debate, de colonizações
grande vencedor da 2.a guerra mundial, para que brancas, experiências de colonização do planalto
a Europa, enquanto entidade cultural e geoestraté- central em Angola, da Cela, do Limpopo em Mo-
gica pudesse manter-se, era necessário guardar çambique, etc., e portanto no sentido de criar ali-
e defender a grande âncora de África. A África era mentação barata para o esforço do desenvolvimen-
vital para a sobrevivência da Europa enquanto enti- to económico que está em curso; intensificação
dade autónoma nos grandes espaços do mundo e, também, sobretudo nos anos 50 e no início dos
naturalmente, era indispensável à sobrevivência de anos 60, então sim, do processo de desestuturação
Portugal como nação independente, até como con- acelerada das comunidades africanas tradicionais
trapeso atlântico para essa pressão hegemónica de e portanto uma intensificação muito notória, nos
Espanha, que nunca teria deixado de se fazer exer- anos 50, das políticas de contratos, de trabalho
cer; e tira conclusões desta visão estratégica, no- compelido, de culturas obrigatórias, uma desestru-
meadamente reforçando aquilo que vai ser, a partir turação muito violenta. A penetração do capital
daí, a política de integrismo oficial das colónias. e o investimento directo originam o reforço da
O Acto Colonial é revogado enquanto tal e é violência desestruturante das comunidades tradi-
transformado num capítulo da Constituição da Re- cionais e das suas relações tradicionais.
pública: a matéria respeitante às colónias passa No entanto esta tentativa de adaptação aos no-
a ser, de pleno, matéria de direito constitucional vos ventos que começam a soprar é contrariada
português e as colónias transformam-se em provín- desde logo, com o surgimento, a partir do final

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dos anos 40, princípio dos anos 50, da questão do no interior há algumas mudanças que são impor-
chamado Estado Português da Índia, ou seja, das tantes para se situar um pouco a Casa dos Estu-
reivindicações da União Indiana sobre os territó- dantes do Império.
rios coloniais portugueses na península do Indus- Primeiro, mudanças de orientação importantes
tão. E isso é um processo que rapidamente se agu- da oposição, quanto à questão colonial.
diza. É o primeiro contencioso colonial sério do O oposicionismo português era um oposicionis-
estado português, em crescendo ao longo da pri- mo fortemente marcado por uma tradição republi-
meira metade dos anos 50. cana, jacobina, e um certo nacionalismo colonialis-
Mas não só, é também o período, dos anos 50 ta muito impregnado, que vinha desde os tempos
até praticamente ao princípio dos anos 60, em que da resistência ao Ultimato, que tinham constituído
surgem as primeiras disrupções espontâneas, as gra- uma tradição muito forte na representação republi-
ves revoltas sociais em territórios africanos, bru- cana, na representação democrática dos republica-
talmente reprimidas pelo colonizador, que deixa nos; tradição essa que se tinha mantido mesmo no
logo um sinal sobre a maneira como vai lidar com Partido Comunista Português ao longo dos anos 30.
esse problema. E, na realidade, o primeiro documento político que
claramente defende o direito à independência dos
— 1953, os tumultos nas roças de São Tomé povos das colónias é uma resolução do 4.o Con-
e Príncipe, castigados pelo Coronel Gorgulho. gresso do Partido Comunista Português, em 1957.
— 1956, a agitação dos contratados no norte de É o primeiro documento que, com toda a clareza
Angola. e fazendo-se eco dos tempos, reconhece o direito
— 1959, o massacre de Pidjiguiti, no porto de Bis- à auto-determinação, à independência, e é possível,
sau. é admissível, que isso tenha tido algumas conse-
— 1961 (Jan.), a revolta dos trabalhadores da Bai- quências orgânicas importantes, no sentido de liber-
xa do Cassanje. tar de tarefas de oposição, em organismos nacio-
nais, muitos quadros nacionalistas das colónias que
Todos estes grandes levantamentos populares vão-se desligando do MUD, do MUD juvenil, do
espontâneos são violentamente respondidos. No próprio Partido Comunista. Vão começar a voltar-se
Cassanje, com bombardeamentos de aviação, com mais claramente para as tarefas, os objectivos e a
baixas violentíssimas. Começam a estar hoje dis- militância em organizações de carácter nacionalista
poníveis alguns relatórios sobre o massacre da que começam já a constituir-se, desde meados dos
Baixa de Cassanje, onde de facto os indícios da anos 50.
violência que foi cometida são coisas absoluta- Naturalmente, last but not least, e muitíssimo
mente impressionantes. Tratava-se de esmagar, importante, surgem as primeiras organizações de li-
a ferro e fogo, qualquer tentativa de revolta. Mas bertação nacional das colónias portuguesas. Não
as revoltas começavam a aparecer na Guiné, em vou aqui dar-vos a lista, naturalmente, mas na Gui-
Angola, em Moçambique. né em 1956, em Angola em 1954 e em 56, em Mo-
Finalmente, ainda como indícios de mudança çambique no fim dos anos 50. Ou seja, na segunda
que é importante referir, logo após a adesão de metade dos anos 50, entre 54 e 59, está constituído
Portugal às Nações Unidas, no início dos anos 50, o principal espectro político dos movimentos de li-
as Nações Unidas solicitam ao governo português bertação nacional que vão conduzir as guerras colo-
informações sobre os territórios sob administração niais a partir de 1961. São movimentos que têm
colonial e, na prática, a recusa de Portugal aceitar uma vida complexa, que têm uma evolução com-
que tem territórios sob administração colonial e de plexa até se cristalizarem nas formações políticas
recusar essas informações, inicia, logo a partir de que vão na realidade conduzir a luta armada no ter-
meados dos anos 50, um longo contencioso com reno. Mas o seu processo de gestação e afirmação
as Nações Unidas àcerca da existência e da manu- dá-se sensivelmente entre 1954 e 1959-60, altura
tenção de territórios sob administração colonial em que, quando se iniciam os combates armados,
e de violação às disposições das Nações Unidas essas organizações estão praticamente cristalizadas
acerca dessa matéria. na forma que vão ter nos anos posteriores.
É uma grande mudança do ponto de vista da
Se isto se passa, se estas primeiras nuvens ne- política colonial, da economia colonial, das oposi-
gras começam a passar sobre o império, também ções quanto à questão colonial, da organização dos

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povos das colónias também no que toca à questão em 1952, o governo vai seguir uma política sempre
colonial. É portanto uma grande revolução em to- muito prudente nesta matéria. Quer dizer, o gover-
do o panorama que existia anteriormente, com no não pode acabar com a Casa dos Estudantes do
o regime a recuar para posições integristas, tentan- Império. Era um pouco como acabar com um boca-
do defender-se, com a contestação a surgir e, natu- do do império, não é? E portanto esta contradição
ralmente, a Casa dos Estudantes do Império vai entre os propósitos e as necessidades de segurança
reflectir todo este ambiente duma forma extraordi- policial e o peso formal da ideologia paralisa muito
nariamente exuberante, segundo me parece, do o governo na sua actuação contra a Casa.
que me lembro e sobretudo do que pude consultar O que é facto é que, entre 52 e 57, o Ministro
das investigações feitas sobre o assunto. das Colónias impõe uma Comissão Administrativa
A nova fase da Casa dos Estudantes do Impé- à Casa dos Estudantes do Império, estendida tam-
rio, a partir de 1958, é uma fase de enormíssima bém à Casa de Coimbra, em 1955. Entre 52 e 57
exuberância de actividade. A Casa vai transfor- há muitos sócios que saem. A Casa mantém os
mar-se no alfobre de uma nova elite política, que seus serviços assistenciais, mas do ponto de vista
em parte irá dirigir alguns dos movimentos de li- do seu activismo, da sua intervenção e da sua prá-
bertação nacional. Uma elite de brancos, de mesti- tica cultural conhece um certo abrandamento. Em
ços, de alguns negros, estudantes de formação cul- 57 acaba a Comissão Administrativa. Há o regres-
tural europeia, fortemente influenciados pela so às Direcções eleitas, há uma aprovação de esta-
cultura anti-fascista, pelo marxismo e vai ser, na tutos, por exigência do governo, onde são elimina-
realidade, uma espécie de grande escola de conví- das as secções por colónias. Portanto isso era um
vio, de aculturação e de formação política para um indício de separatismo independentista que o mi-
grande número de dirigentes dos movimentos, ou nistro das colónias impõe que seja eliminado nos
de parte dos dirigentes de alguns dos movimentos novos estatutos. É obrigatória a consagração, co-
de libertação nacional posteriores. mo aliás para todas as associações de estudantes,
No entanto, os anos 50 são complicados para da neutralidade política, religiosa e rácica por par-
a Casa. Se não me engano, em 1950, Agostinho te da Casa dos Estudantes do Império.
Neto já está em Lisboa, onde se encontra com Ela retoma a sua normalidade em termos de
Amílcar Cabral, Vasco Cabral, Mário Pinto de An- vida democrática, de Direcções eleitas e o ano de
drade e Marcelino dos Santos, todos sócios da Ca- 1958 parece ser uma grande viragem na actividade
sa dos Estudantes do Império. Exactamente em da CEI no sentido de despertar uma consciência
1950, a secção da Índia da Casa dos Estudantes do colonial, através de dezenas de importantíssimas
Império recusa-se a promover e a subscrever um iniciativas de convívio, de bailes, de música, de
documento condenatório do primeiro-ministro da colóquios e de literatura... Começa a Secção Edi-
União Indiana, Neru. E isso origina o primeiro rela- torial, enquanto tal, a funcionar publicando a Co-
tório sério da polícia para o Ministério das Colónias lecção dos Autores Ultramarinos, Poetas Angola-
onde, pela primeira vez, a Casa é explicitamente nos, quer dizer, uma multiplicidade de actividades
acusada de ser “um antro da oposição e de cripto- muitíssimo importantes no sentido da formação de
comunistas”, estou a citar, iniciando-se a partir daí uma consciência, de uma identidade nacional, de
uma política muito clara da PIDE relativamente uma consciência anticolonial e do que é possível
à Casa, que é pressionar o governo para a sua dis- ver, este período de 1958 em diante, é um período
solução. Sobretudo a PIDE de Coimbra, dirigida de intensíssima actividade da Casa no sentido es-
pelo inspector Sachetti, tem desde o princípio uma pecífico de criar o contrário daquilo para que tinha
posição muito clara: é preciso acabar com eles en- sido destinada: um novo tipo de consciência colo-
quanto é tempo. E portanto, inicia-se aqui, exacta- nial entre os seus sócios.
mente a partir deste incidente de 1950, em que Em 1958 sai o boletim “Mensagem”. Tem tex-
o Ministro das Colónias pede à PIDE para saber tos de teor anticolonialista já muito explícito.
quem é este pessoal que se recusa a assinar o docu- Aliás de espantar para a época como, apesar de tu-
mento contra Neru, e portanto a PIDE faz um rela- do, vão conseguindo sair, sobre o racismo, mesmo
tório bastante completo sobre a própria vida e ori- sobre os contratados, textos muito claros de oposi-
gens da Casa, onde constam as primeiras acusações ção. E, em fins de 1960, a PIDE descobre que
sérias políticas e a primeira defesa de que é preciso, uma chamada “Mensagem ao Povo Português” as-
na realidade, acabar com a CEI. E por isso aliás, sinada pelos estudantes ultramarinos pede o apoio

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do povo português para as primeiras resoluções Tentativa de reformas de alguma maneira auto-
condenatórias da Assembleia Geral das Nações nomizantes e modernizantes rapidamente bloquea-
Unidas. Essa mensagem ao povo português, de es- das à partida, sobretudo os ensaios de Adriano
tudantes ultramarinos, de carácter claramente anti- Moreira relativamente à mudança de legislação la-
-colonialista, entende a PIDE, num seu relatório, boral, a uma certa autonomia administrativa; tudo
que foi policopiada na Casa dos Estudantes do Im- isso congelado em favor da manutenção de um rí-
pério de Coimbra. E, novamente a PIDE pressiona gido integrismo em matéria de política africana.
directamente o chefe do governo no sentido de Naturalmente, tudo isto acompanhado dum rápido
a Casa dos Estudantes do Império ser dissolvida. fomento económico, potenciado pela guerra e pela
O chefe do governo chega a exarar um despacho presença de um grande contingente de tropas, so-
onde diz que se for verdade que isto aconteceu, bretudo em Angola e Moçambique, onde as eco-
a Casa deve ser fechada. nomias coloniais, sobretudo nos seus principais
O que é facto é que o governo ainda não extin- núcleos urbanos, conhecem um período de rápido
gue a Casa à qual impõe, logo a seguir, em 30 de fomento e também um certo alargamento do recru-
Dezembro de 1960, uma nova Comissão Adminis- tamento da base social das elites africanas que, até
trativa, o que, aliás, já suscita fortes protestos das pelas próprias necessidades de desenvolvimento,
Associações de Estudantes de Lisboa. conhecem alguma extensão.
A Casa nesta altura, em 1960, não é qualquer E no que toca a Portugal, para resumir razões,
coisa. A Casa tem 600 sócios, serve 200 refeições uma rápida radicalização da atitude da oposição
diárias, tem um posto clínico e tem um lar (de que face à questão africana. Esta atitude da oposição
foi director o Embaixador Rui Mingas, não sei se face à questão africana merece um estudo atento.
exactamente nesta altura) e, portanto, a Casa desen- É um assunto que está longe de estar bem estuda-
volve uma larguíssima actividade social, cultural, do. O que é facto é que, falemos assim, há de
para muitas centenas de sócios, todos eles recruta- qualquer maneira dentro da oposição correntes
dos entre, de alguma forma, as elites culturais oriun- que (sobretudo tendo como aríete o movimento es-
das de territórios coloniais. Portanto, digamos que tudantil) radicalizam bastante a oposição à guerra
a Casa chega às vésperas da guerra colonial, exacta- colonial e à política colonial, antevendo a cons-
mente Dezembro 1960, novamente com uma Co- ciência de que esta realidade, a questão colonial
missão Administrativa às costas, a exprimir a per- e a capacidade do regime a resolver ou não, se ti-
manente hesitação do regime entre saber se fecha nha transformado na questão central da vida polí-
ou não fecha e, não fechando, como controlar o que tica portuguesa e na questão central de que isso ia
se está a passar na Casa dos Estudantes do Império. decidir a própria sorte do regime, a própria capaci-
dade de o regime sobreviver.
Finalmente, a terceira e última fase do colonia- E estamos no período do cerco final à Casa
lismo português. A fase da guerra, a fase do fim, dos Estudantes do Império, a partir de 1961. Junho
de 1961-1974. Naturalmente é sabido o que é que de 1961 é a grande fuga de estudantes africanos
acompanha este terceiro período final: o início de Angola, como sabem. Os números dessa fuga
e generalização das guerras coloniais aos três tea- variam muito. Os relatórios da PIDE falam em
tros de guerra: Angola em 61, Guiné em 63, Mo- quarenta, falam em cem. A imprensa clandestina
çambique em 64. Isolamento internacional relativo fala em cerca de cem. O que é facto é que a PIDE
(esta coisa do isolamento internacional do regime faz um importante relatório a todos os principais
está hoje a ser bastante discutida, à luz do que se ministérios interessados, ministérios da Educação,
sabe e do que é possível saber, dos importantes das Colónias, do Interior, dizendo que o centro or-
apoios que foi mantendo, sobretudo em muitos ganizador e recrutador da fuga tinha sido a Casa
países, em alguns países da NATO e de acordo dos Estudantes do Império; e que, portanto, a ma-
com a mudança das próprias administrações norte- nobra de evacuação, como aí se diz, foi gerida pe-
-americanas, onde esta questão é mais nuancé do la Casa dos Estudantes do Império e portanto a PI-
que possa parecer), mas de qualquer maneira é um DE torna a fazer uma forte pressão no sentido de
isolamento internacional tendencial e que se foi que a Casa seja imediata e rapidamente encerrada.
agravando à medida que a impotência do regime Ainda não resulta desta vez. Pelo contrário, is-
para arranjar uma solução para a guerra se foi, to passa-se em Junho de 1961, a grande fuga para
também, ela própria, arrastando. o exterior, que é feita em colaboração com o apa-

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relho do Partido Comunista em Portugal e em Ju- cheiros, apreensão de material, prisão de elemen-
lho deste ano a Comissão Administrativa até aban- tos da Direcção. Pode-se dizer que em 1962
dona a Casa. O Ministério do Ultramar tenta uma a Casa dos Estudantes do Império cai definitiva-
normalização controlada da Casa no início da mente em desgraça do ponto de vista do governo.
guerra, sob o efeito de uma opinião pública inter- Dão-se instruções à censura para proibir referên-
nacional muito atenta agora aos problemas e aos cias à Casa. A imprensa da Mocidade Portuguesa
detalhes da atitude colonial do governo português. deixa de fazer qualquer referência, por menor que
E, portanto, primeiro propõe que se mude o nome, seja, à Casa. Desaparecem dos jornais as referên-
Casa dos Estudantes do Império para Casa dos Es- cias à Casa dos Estudantes do Império e digamos
tudantes do Ultramar, estou a citar a documenta- que, após a crise de 62 e o comportamento da Di-
ção do Ministério. Segundo, a tutela de um profes- recção da Casa na crise, está a preparar-se o terre-
sor universitário com direito de veto sobre as no para o assalto final.
resoluções da direcção da Casa. Em terceiro, a Ca- Aliás, a Casa estava também a esvaziar-se um
sa não devia nem duplicar nem contrariar os esta- pouco. Como sabem, em 1963 são criados os Es-
tutos das Associações de Estudantes que existiam tudos Gerais Universitários em Angola e Moçam-
nem da Mocidade Portuguesa. Quer dizer, a Casa bique. A partir daí há uma diminuição drástica de
ou era qualquer coisa mais ou, se contrariava e du- estudantes que vinham estudar a Portugal e portan-
plicava o que existia, não tinha razão de ser. Uma to há uma diminuição drástica do afluxo de sócios
tentativa de empurrar a Casa para posições de de- na Casa dos Estudantes do Império.
fesa da política colonial do governo. Finalmente, A CEI, sem fundos, está cada vez com menos
as verbas que vinham dos governos das províncias sócios. Muitos dos homens que tinham sido os
ultramarinas, e que financiavam em parte a activi- animadores da Casa estão já a militar nos movi-
dade da Casa, ficavam suspensas até esta questão mentos de libertação, activamente, em 1963, no
ficar resolvida. estrangeiro, fugiram, foram-se embora. Portanto
É curioso que não se encontra muito documen- menos estudantes a vir estudar para Portugal, boa
tação sobre esta discussão entre a Direcção da Ca- parte dos activistas dedicados, agora, à causa da
sa e o Ministério das Colónias. O que é facto independência dos seus próprios países, cerco fi-
é que, aparentemente, a Casa continua com o mes- nanceiro, a Casa entra ela própria, num período de
mo nome, o que é facto é que não há nenhum pro- esmorecimento.
fessor a tutelar, com direito de veto, as decisões da E sob pretexto de que, durante o processo de
Casa, pelo menos que se possa ter encontrado na desmantelamento da organização estudantil do
documentação existente. E o que é facto é que, Partido Comunista, em fins de 64, princípios de
a partir de 1963, o governo não dá um tostão mais 65, teriam sido descobertas ligações entre essa or-
para a Casa e, portanto, inicia-se o cerco financei- ganização e elementos da Casa dos Estudantes do
ro da Casa. Aliás, 1963 é um ano em que as Asso- Império, a PIDE insiste e desta vez obtém autori-
ciações de Estudantes promovem mesmo uma zação para o encerramento definitivo da CEI e a
campanha de fundos para apoiar a Casa dos Estu- proibição das suas actividades. Em Setembro de
dantes do Império, que está a ser estrangulada, fi- 1965, a Casa é invadida. Todo o seu património
nanceiramente, pelo governo. é deslocado para a sede da polícia política onde,
Na crise académica de 1962, a Direcção da em certo sentido, ainda hoje se encontra. Quer di-
CEI manifesta-se claramente ao lado do luto aca- zer, agora é o Professor Borges Macedo que a tem
démico, ao lado da greve estudantil, mas está lon- mas estão lá as coisas todas, todos os ficheiros, os
ge de ser uma posição geral. arquivos, o mobiliário, tudo isso. A Casa é com-
A Reunião Inter Associações, a RIA, reúne na pletamente esvaziada, saqueada e encerrada.
CEI. Boa parte da propaganda das Associações de
Estudantes é impressa no aparelho técnico da CEI, Vou terminar esta minha já longa intervenção
o que origina, aliás, um primeiro importante assal- sugerindo o seguinte: a CEI é um processo, do
to da PIDE à CEI. Digo um primeiro importante ponto de vista do seu estudo histórico, muito cu-
porque a PIDE faz algumas incursões, vai prender rioso, porque é o processo de uma entidade que se
gente, intimida. A PIDE há muitos anos que anda transforma no seu contrário. Quer dizer, o regime
a incomodar os dirigentes da Casa e a própria Ca- criou uma Casa dos Estudantes do Império para
sa, mas faz uma busca em forma, apreensão de fi- criar uma elite colonial fiel e a Casa dos Estudan-

22
tes do Império cria uma elite do que vão ser os que o governo está agarrado à forma ideológica
movimentos contra a política colonial do império. que criara. Quer dizer, o governo criou uma coisa
E, portanto, torna-se um centro formador de parte de que não consegue libertar-se, mesmo quando
da elite dos movimentos de libertação nacional, ela se transformou no contrário daquilo que ele ti-
quer dizer, frustrando completamente esse projecto nha criado. Esta situação cria um enorme embara-
inicialmente concebido para ela ser um alfobre ço ao governo na maneira de lidar com a própria
dos ideólogos e continuadores da política do regi- Casa dos Estudantes do Império. Em boa medida,
me no que tocava à política, ao sector africano. é possível admitir que é o próprio esmorecimento
É interessante como tema de pesquisa saber que da Casa, por circunstâncias da sua vida interna, de
parte da elite africana, dos movimentos de liberta- muita gente se ter ido embora, de haver menos es-
ção, é que a Casa ajuda a formar. Não há só uma tudantes, de não haver fundos, que ajuda à repres-
elite dos movimentos de libertação, há várias, acho são. Provavelmente se a Casa fosse forte em 64 ou
eu. Esta que é formada aqui na Casa é uma elite de 65 o governo seria capaz de meter mais uma Co-
origem africana, de maioria branca ou mestiça, tam- missão Administrativa em vez de dissolvê-la.
bém negra mas com menos peso, de formação cul- Quer dizer, o próprio esmorecimento da Casa aju-
tural europeia, de cultura antifascista e marxista, que da a acabar com aquele problema, aliás, rapida-
vai formar os quadros que vão, em boa medida, in- mente silenciado para ninguém falar nele ou dele
tegrar as futuras direcções do PAIGC, MLSTP, se falar o menos possível.
MPLA, em menor grau talvez da FRELIMO. Termino naturalmente com esta palavra muito
Há outras elites cuja formação também passa especial de saudação à nova Casa, à nova Associa-
de alguma maneira por Portugal, aparentemente. ção Casa dos Estudantes do Império, ao novo pa-
As elites, essas mais de etnia negra, também for- pel tão diferente mas tão importante que ela tem
madas pelas Missões em Portugal, nos seminários já não na independência, mas na paz e na recons-
e noutros centros de formação não propriamente trução e na cooperação — que são, afinal, uma se-
universitários, que se cruzam pouco, aparentemen- gunda independência também — e, que com um
te, com esta outra elite que frequenta a Casa dos passado tão importante atrás, com um peso tão
Estudantes do Império, de formação protestante, grande de tantas e tão importantes coisas que se
não marxista, vão também fazer o seu percurso fizeram para os seus países, naturalmente tem um
quer noutros movimentos quer também dentro des- largo e muito frutuoso campo à sua frente, não só
tes movimentos de libertação. De qualquer forma, na paz e cooperação, mas na luta contra a xenofo-
este aspecto da formação das elites na metrópole bia, contra o racismo, contra os novos demónios
é um campo naturalmente aberto à pesquisa e à que estão a aparecer também na sociedade portu-
discussão e o que eu aqui digo são sugestões de guesa e uma Casa como esta pode lembrar como
trabalho, de um trabalho que está em curso e que, foi o passado, do ponto de vista da cultura, do
naturalmente, poderá sofrer muitas inflexões. ponto de vista da solidariedade, do ponto de vista
Finalmente, a política do governo, que é a po- da fraternidade nestas questões.
lítica da contradição com os seus próprios fantas- Por todos esses motivos, pela grande potencia-
mas, quer dizer, a longa hesitação em liquidar lidade de trabalho que tem à sua frente, eu não
a Casa. A Casa começa a sofrer contestação aberta queria concluir sem os saudar e sem lhes desejar
e a polícia quer fechar a Casa desde 45-46. Esta muito boa sorte para o seu futuro trabalho.
longa hesitação do governo relativamente à liqui-
dação da Casa dos Estudantes do Império mostra 15 de Dezembro de 1994.

23
Casa dos Estudantes do Império (1944-1965): uma síntese histórica1
CLÁUDIA CASTELO*

1. Introdução criar, em Lisboa, a Casa dos Estudantes de Angola


(CEA). Uma associação empenhada “em conse-
No âmbito genérico da história da oposição ao guir que aumente o número de rapazes daquela co-
Estado Novo, interessou-nos estudar o papel da lónia que estudam na Metrópole, dando-lhes a cer-
Casa dos Estudantes do Império (CEI) enquanto teza de que não se encontrarão isolados, pois
espaço de sociabilização anticolonialista. Optámos a Casa lhes facilitará a adaptação ao meio e lhes
por privilegiar a análise das relações da CEI com dará amparo durante o curso”4. Da comissão orga-
o poder político desde a sua criação, em 1944, nizadora fazem parte Alberto Marques Mano de
com o patrocínio do ministro das Colónias e o Mesquita (sobrinho do governador de Angola)
apoio do comissário nacional da Mocidade Portu- e Ângelo José Vidigal Dias, da Faculdade de Di-
guesa, até ao seu encerramento, decretado pelo reito; Carlos Torres de Sousa Júnior, Manuel Sea-
Governo, em 1965. Duas questões principais nor- bra de Azevedo e Emílio Freire Leite Velho, da
tearam a pesquisa. Por um lado, saber quando Escola Superior de Medicina Veterinária; e Alber-
e como a CEI conseguiu desviar-se dos propósitos to Pereira Diogo e Acrísio Sampaio Nunes, do
que lhe foram designados pelo regime: surpreen- Instituto Superior Técnico. A iniciativa tem
der os momentos e as actividades que consagram o apoio do comissário nacional da Mocidade Por-
esse “desvio”; por outro, averiguar as razões da tuguesa, o que vale a Marcelo Caetano o título de
sua longevidade no quadro do salazarismo. presidente de honra da CEA5.
A leitura da escassa bibliografia sobre o tema Os estudantes dos outros “cantos do império”
foi complementada pela consulta da imprensa da seguem o exemplo e depressa aparecem Casas de
época e das fontes de arquivo disponíveis2. Não outras colónias (Cabo Verde, Macau, Índia, Mo-
procedemos, porém, ao cruzamento dos documen- çambique) com os mesmos objectivos. Ao regi-
tos escritos com as fontes orais; uma das lacunas me, porém, não agrada a dispersão dos estudantes
deste trabalho reside precisamente em não termos por diferentes associações em função da sua co-
entrevistado, de forma orientada e sistemática, anti- lónia de origem. Por um lado, porque esse facto
gos sócios da CEI3. Este trabalho continua, portan- contraria a ideia de unidade da nação portuguesa
to, aberto a novos elementos, a novas abordagens propagandeada pelo discurso oficial; por outro,
e a novas interpretações. Aqui apenas se esboça porque dificulta o controlo das actividades dos
uma tentativa de síntese da história da CEI. sócios. Interessa-lhe, antes, que as várias Casas
se fundam numa só, capaz de reunir todos os jo-
vens ultramarinos sob a mesma “mentalidade im-
2. A criação da Casa dos Estudantes do Império perial”6.
Assim, numa visita à CEA, realizada a 3 de
No início do ano lectivo de 1943-44, um gru- Julho de 1944, o ministro das Colónias, Francisco
po de universitários oriundos de Angola decide Vieira Machado, na presença de Marcelo Caetano

* Historiadora

25
e dos representantes das outras associações (Agui- 3. De “filha da Mocidade Portuguesa”
naldo Veiga, de Cabo Verde; Vasco Benedito Go- a “alfobre de elementos anti-situacionistas”
mes, da Índia; Gonçalo de Sousa e Macedo Mes-
quitela, de Macau; e Francisco Maria Martins, de Desde o início, o regime procura enquadrar
Moçambique), formaliza a proposta de fusão de e orientar as actividades da CEI através do Minis-
todas as Casas na Casa dos Estudantes do Impé- tério das Colónias, instituição tutelar da Casa, e da
rio7. Mocidade Portuguesa (MP). Logo em Janeiro de
Em Outubro de 44 a CEI-sede começa a fun- 1945, na abertura de um ciclo de palestras promo-
cionar, sob a presidência de Alberto Marques Ma- vido pela CEI, sob o patrocínio da MP, Marcelo
no de Mesquita, no n.o 1 da Rua Praia da Vitória, Caetano revela aquilo que o regime espera da Ca-
ao Arco do Cego. No mês seguinte, muda-se para sa: que contribua para “o triunfo do espírito portu-
o n.o 23 da Avenida Duque d’Ávila, onde vai per- guês”, trabalhando em prol da formação colonial
manecer até à sua extinção. Por essa altura, abre da juventude9.
também uma delegação em Coimbra. Naquele ciclo de palestras, apela-se insistente-
A CEI organiza-se em secções que agrupam mente a “uma colaboração cada vez mais fecunda
os estudantes por colónias. Cada secção tem cor- entre a Mocidade Portuguesa e a Casa dos Estudan-
pos gerentes próprios. Há, no entanto, uma direc- tes do Império”10 e, em 1946, escreve-se ainda com
ção-geral comum. A associação, que conta desde indisfarçável orgulho, num órgão oficial, que “a Ca-
o início com subsídios concedidos pelos governos sa dos Estudantes do Império pode bem considerar-
das “províncias ultramarinas” e por organismos -se uma filha da Mocidade Portuguesa”11. No en-
ligados ao Ministério das Colónias, compromete- tanto, quase todos os elementos dos corpos gerentes
-se a fornecer assistência social e material aos es- da Casa para o ano lectivo de 1945-46 (tanto em
tudantes ultramarinos, a promover a sua cultura Lisboa como em Coimbra) assinam as listas do Mo-
e a contribuir para a sua integração no meio estu- vimento de Unidade Democrática (MUD) e juntam-
dantil metropolitano. No primeiro ano de activi- -se, a partir de 1946, ao MUD Juvenil. Em 1948
dade, é inaugurado o posto clínico, abre concurso e 1949, vamos encontrar, de novo, os estudantes
para atribuição de bolsas, são enviadas informa- que dirigem a CEI ao lado da oposição, a favor da
ções sobre os cursos superiores da metrópole aos candidatura à Presidência da República do general
liceus e associações académicas das colónias, or- Norton de Matos. Em meados de 1950, os membros
ganiza-se a biblioteca, promovem-se palestras da secção da Índia da CEI recusam-se a subscrever
e exposições sobre temas coloniais, realizam-se uma declaração de repúdio pela afirmações de Neh-
campeonatos de várias modalidades desportivas. ru hostis à presença portuguesa na Índia.
Estas iniciativas, no entanto, não eram acompa- Na viragem para os anos 50, a CEI começa
nhadas por uma boa gestão dos dinheiros da CEI, a estruturar-se como um espaço de sociabilização
que no fim do primeiro ano de vida enfrenta uma anti-salazarista, de (re)descoberta da cultura afri-
situação de ruptura financeira e a ameaça de des- cana, de denúncia do colonialismo, onde se for-
pejo. A segunda direcção da Casa entra em exer- mam politicamente alguns dos futuros dirigentes
cício em Junho de 1945; e o novo presidente, e membros dos movimentos de libertação: Amíl-
Aguinaldo Veiga, escreve em Agosto ao Ministro car Cabral, Marcelino dos Santos, Agostinho Ne-
das Colónias pedindo ajuda. Marcelo Caetano, to, Mário Pinto de Andrade, Vasco Cabral... A PI-
agora à frente da pasta das Colónias, nomeia um DE, atenta às actividades políticas dos sócios da
inspector administrativo para averiguar qual Casa desde 194612, informa, em Abril de 1951,
o montante das dívidas e promove a concessão o ministro das Colónias que “a CEI é há muito co-
pela Companhia de Exportações do Ultramar nhecida como alfobre de elementos que desenvol-
Português de um subsídio de emergência de quin- vem campanha anti-situacionista”13. Também o co-
ze mil escudos8. Recuperado o equilíbrio finan- mando distrital de Coimbra da Legião Portuguesa
ceiro, a Casa prossegue a sua missão de assistên- (LP) alerta o director dos serviços de informações
cia, cultura e recreio, recebendo um número da LP nesse sentido: “todos ou quase todos os as-
crescente de sócios. De acordo com o relatório do sociados são comunistas ou simpatizantes. Todos
inquérito à CEI, a sede conta, em finais de 1945, ou quase todos pertencem ao MUD Juvenil. Foi
com cerca de 600 associados e a delegação de da CEI que partiu uma parte da agitação política
Coimbra, 116. a favor de Norton de Matos. (...) Todos os associa-

26
dos ou quase todos são anti-situacionistas e em rências, exposições, sessões de cinema e de músi-
contacto directo ou indirecto com o grupo de Na- ca, concursos literários... A secção editorial, sob
morado & companhia”14. o impulso de Carlos Ervedosa, Fernando Costa
Este “desvio” ou “subversão” em relação àqui- Andrade, José Ilídio Cruz, Fernando Mourão e Al-
lo que o regime esperava da CEI vai comprometer fredo Margarido, publica antologias de poetas
o seu funcionamento democrático. A 30 de Maio e contistas angolanos (1959 e 1962; e 1960), de
de 1952, o Governo nomeia uma comissão admi- poetas de Moçambique (1962) e de São Tomé
nistrativa que irá dirigir a Casa até 1957. Durante e Príncipe (1963). Obras de Viriato da Cruz,
esse período, não se realizam eleições para os cor- Agostinho Neto, António Jacinto, Luandino Viei-
pos gerentes e a actividade cultural é confinada ra, Mário António, José Craverinha figuram na
aos parâmetros estreitos do “nada contra a nação, Colecção “Autores Ultramarinos”. Através do seu
tudo pela nação”. Muitos sócios afastam-se; outros boletim Mensageiro, dirigido entre outros por To-
só aparecem na Casa para usufruir da cantina más Medeiros e Ervedosa, revela muitos dos mais
(a funcionar desde Abril de 1948), do posto clíni- importantes escritores africanos e põe a circular
co e pouco mais. textos anticolonistas”17. Começam a surgir litera-
Este panorama, contudo, só se estenderá em turas novas e autónomas, que se distinguem da
1955 à delegação da CEI em Coimbra. Nessa altu- tradição literária portuguesa, ao nível temático
ra, o comissário nacional da Mocidade Portuguesa, e linguístico: as literaturas africanas de língua por-
António Gonçalves Rodrigues, consulta a delega- tuguesa. E a CEI aposta na sua divulgação.
ção da PIDE em Coimbra sobre o comportamento No início dos anos 60, a CEI tem cerca de 600
dos corpos gerentes livremente eleitos da delega- sócios, uma cantina que serve uma média de 200
ção da CEI naquela cidade. O inspector José Bar- refeições diárias, um lar com 14 residentes, uma
reto Sacchetti informa-o que “todos os indivíduos biblioteca, um salão de jogos e um posto clínico18
são politicamente maus” e defende que “só a dis- (dirigido por um dos sócios fundadores, o Dr. Ar-
solução conviria para extinguir o mal que dali se ménio Ferreira). Além da sede em Lisboa e da de-
espalha a todo o meio académico”15. Já no ano an- legação de Coimbra, funciona também uma dele-
terior, mais precisamente no relatório n.o 10/954, gação no Porto, criada em Março de 195919.
de 30 de Novembro, enviado ao director da PIDE As iniciativas culturais contribuem para a poli-
em Lisboa, Sacchetti denunciava as ligações da tização dos sócios, a quem vão chegando informa-
delegação da CEI — “desde o início, um centro ções sobre os movimentos de libertação africana
académico de actividades pró-comunistas, orienta- entretanto criados. Na sequência do aparecimento
do e controlado por elementos do MUD Juvenil, de um manifesto intitulado “Mensagem ao Povo
especialmente pelo Dr. Joaquim Namorado” — Português”, é novamente imposta uma comissão
com o Ateneu de Coimbra, “agremiação essencial- administrativa à CEI (portaria de 30/12/1960). Es-
mente comunista da juventude operária”16. te manifesto, atribuído à CEI de Coimbra20, apoia-
va as acusações feitas na Organização das Nações
Unidas (ONU) contra a política colonial portugue-
4. Nova fase de intervenção cultural e política sa e propunha o imediato reconhecimento do direi-
to dos povos das colónias à autodeterminação.
Depois da exoneração da comissão administra- Uma desavença entre a sede e Coimbra a propósi-
tiva, realiza-se uma assembleia geral para discutir to de uma divisão de verbas serve de pretexto ao
e aprovar os novos estatutos da CEI. Segundo Governo. Estudantes ultramarinos e metropolita-
o novo regulamento, homologado pela MP em 7 nos enviam telegramas a protestar contra a deci-
de Fevereiro de 1957, a CEI deixa de se organizar são, mas não obtêm qualquer resposta.
em secções, consideradas pelo regime focos de na- Salazar, despachando directamente com o di-
cionalismos, e não pode interferir em assuntos de rector da PIDE, defende que se devia ter aprovei-
carácter político. tado a oportunidade para dissolver a CEI21. Os as-
Com o regresso à normalidade, tem início uma sociados já tinham dado problemas de sobra ao
nova fase na vida da associação, marcada por uma regime, quase todos tinham ficha na PIDE, onde
crescente actividade recreativa e cultural. A CEI constava, no mínimo, que eram “contra a actual
promove encontros desportivos, bailes, “matinées” situação”. O inspector da delegação da PIDE em
dançantes, jantares, mas também colóquios, confe- Coimbra, no relatório confidencial n.o 3, de 9 de

27
Janeiro de 1961, também se manifesta a favor do luto académico. Durante a crise, a Casa disponibi-
encerramento: “Depreende-se (da nomeação de liza as suas instalações para a realização das Reu-
uma comissão administrativa) que os senhores niões Interassociações e os respectivos comunica-
ministros da Educação Nacional e do Ultramar dos são ali redigidos e copiografados, o que leva
não concordam com a dissolução imediata da Ca- a PIDE a invadir a sede. Vários manifestos, revis-
sa dos Estudantes do Império, o que, quanto tas e livros são apreendidos, e os membros da di-
a nós, se apresentaria como uma necessidade ur- recção submetidos a interrogatório.
gente”22. Apesar da CEI ter enviado os estatutos revis-
A comissão administrativa, entretanto, nomeia tos ao Ministério da Educação Nacional em 20 de
um delegado para Coimbra, e não encontrando no Maio de 1962, os subsídios são cancelados pelo
Porto delegado que lhe mereça confiança encerra, Ministério do Ultramar em Janeiro de 1963. As
em Janeiro de 1961, esta delegação. dificuldades económicas da Casa originam uma
campanha de solidariedade em que participam as
Associações dos Estudantes de Lisboa. A CEI em-
5. Da fuga até ao fim penha-se em denunciar a situação de estrangula-
mento a que o Governo a submeteu, nomeadamen-
Apesar da vigilância da PIDE e da ingerência te escrevendo para o República e para o Jornal de
da comissão administrativa, a CEI é um dos luga- Angola, solicitando que aí se abra uma subscrição
res em que se prepara a saída de Portugal de vá- pública a favor da associação25.
rias dezenas de estudantes que irão juntar-se aos A CEI é extinta a 6 de Setembro de 196526,
movimentos de libertação. Nos jornais a fuga numa altura em que o número de estudantes “ul-
é minimizada ou mesmo abafada, mas numa infor- tramarinos” na metrópole diminuía (em 1963, ti-
mação da PIDE, de 4 de Julho de 1961, enviada nham sido criados os Estudos Gerais Universitá-
aos Ministérios do Ultramar, Defesa Nacional, In- rios em Angola e Moçambique), e depois de um
terior, Exército, Negócios Estrangeiros, Comuni- período de sucessivos entraves ao seu normal fun-
cações e ao Secretariado da Aeronaútica, podemos cionamento: sócios presos, a sede invadida pela
ler: “A CEI funcionava, em Lisboa, como o prin- PIDE; ficheiros e livros de contas apreendidos,
cipal centro recrutador (...). Não restam dúvidas iniciativas culturais proibidas.
que se mostra de grande amplitude o êxodo de es- Supostamente uma dependência do aparelho
tudantes ultramarinos e a clandestinidade da forma ideológico do Estado, a CEI cedo subverteu as
como actuam”23 expectativas do regime, impondo-se como um
Nos finais de Julho de 1961, depois de infor- importante espaço cultural e político de contesta-
mar o Ministério do Ultramar que as contas da ção do salazarismo e do colonialismo, onde se
CEI estavam em ordem, a comissão administrati- reuniam os estudantes e os intelectuais das coló-
va é exonerada. O Governo, no entanto, impõe nias que viviam na metrópole. Com ligações es-
à Casa uma alteração de estatutos que contemple: treitas à oposição portuguesa e particularmente ao
mudança de nome da associação (com o fortaleci- PCP, a maioria dos sócios da Casa foi-se envol-
mento do movimento internacional favorável vendo na luta contra o Estado Novo. Mas a toma-
à descolonização e perante o início da guerra em da de consciência anticolonial iria ditar, a prazo,
Angola não convinha nada ter “império” no no- a sua participação nos movimentos de libertação
me; aliás, em 1951, esse termo tinha sido banido africana.
da Constituição24) ; admissão da gerência de um
professor universitário com direito de veto; não
concordância ou colisão com os fins de outras as- 6. Regenerar ou vigiar e punir
sociações de estudantes e da MP. A percepção
dos subsídios enviados pelos governos das “pro- A relação do regime com a CEI é marcada por
víncias ultramarinas”, entregues à Casa pelo Mi- ‘enganos’ e contradições. Dentro do regime várias
nistério do Ultramar, estaria condicionada pela vozes se levantam, em diferentes momentos, a fa-
aprovação dos estatutos pelo Ministério da Edu- vor do encerramento da CEI: o comando distrital
cação Nacional. de Coimbra da LP, logo em 1949; o inspector Sac-
Em Março de 1962, as comemorações do Dia cheti nos ofícios que dirige ao director da PIDE;
do Estudante são proibidas. A CEI associa-se ao o próprio Salazar, perante a crítica aberta à sua po-

28
lítica colonial inscrita na “Mensagem ao Povo 7. Fontes e Bibliografia
Português”; e ainda o Conselho Orientador do
Centro de Estudos Políticos e Sociais (CEPS) e o 1. Fontes de Arquivo
antropólogo Jorge Dias. Arquivo Histórico Ultramarino, MU/GM Pr. 128/45
O Conselho Orientador do CEPS, composto — Casa dos Estudantes do Império, Sala Casa
por Adriano Moreira, M. M. Sarmento Rodrigues, Forte, Est. II, Prat. 6, n.o 723.
Manuel António Fernandes, António Jorge Dias, Arquivo Nacional da Torre do Tombo — Arquivo
Joaquim Moreira da Silva Cunha, António Maria Oliveira Salazar AOS/CO/PC-51A; AOS/CO/
Godinho, Henrique Martins de Carvalho, Alberto UL-20; AOS/CO/UL-37; AOS/CO/UL-61
Franco Nogueira, Alexandre Ribeiro da Cunha, Arquivo PIDE/DGS, Pr. 329/46 SR; Pr. 3767
José Manuel Fragoso e João da Costa Freitas, ten- (Coimbra); Pr. 25686 (Porto); NT 11141, cx.
do ponderado “a necessidade de se operar maior 133 e NT 11142, cx 134 (ficheiros dos sócios
aproximação das diversas parcelas portuguesas”, da delegação de Coimbra da CEI);
propõe, num relatório confidencial elaborado em Centro de Documentação 25 de Abril — Coimbra,
meados de 1959, “que a juventude ultramarina, Pasta CEI (contém vários comunicados, pan-
que se encontra a estudar na Metrópole, seja ro- fletos, circulares, programas das recepções aos
deada dos cuidados materiais e espirituais necessá- novos estudantes ultramarinos, e uma “carta
rios à sua real integração no espírito de unidade aberta aos ministros da Educação Nacional,
nacional, sendo absolutamente indispensável im- Ultramar e Interior”)
pedir que continuem a viver em instituições ou
grupos que facilitem tendências segregativas — 2. Fontes impressas
como por exemplo a Casa dos Estudantes do Im- 2.1. Publicações periódicas
pério”27 Boletim do Comissariado Nacional, Lisboa, Orga-
A título individual, no relatório respeitante nização Nacional Mocidade Portuguesa (1944-
à Missão de Estudo das Minorias Étnicas do Ul- -1946).
tramar Português (campanha de 1959) e enviado Boletim Geral das Colónias, Lisboa, Agência Ge-
ao presidente do Conselho em Abril de 1960, Jor- ral das Colónias (1944-1946).
ge Dias sugere: “devia-se impedir que os africa- Mensagem, Lisboa, Casa dos Estudantes do Impé-
nos, ou estudantes do Ultramar residissem juntos, rio (1948-1964).
na Casa dos Estudantes do Império, ou residên-
cias equivalentes, porque isso cria hábitos de se- 2.2. Documentação produzida no âmbito da CEI
gregação em relação aos metropolitanos, podendo CEI, 1.o Concurso e exposição fotográfica da CEI,
dar lugar a um espírito de fraternidade entre si, Coimbra, 1945.
e de animosidade em relação aos metropolitanos. CEI, Relatório e contas, Lisboa, 1945.
Havia todo o interesse que eles habitassem em CEI, 2.o Sarau anual de confraternização com os
pensões, ou casas particulares. Ou então criar re- organismos académicos, Coimbra, 1946.
sidências de estudantes para metropolitanos e ul- CEI, Estatutos. Aprovados em Assembleia Geral
tramarinos”28 de 25/1/1957, aprovados pela O. N. Mocidade
A CEI, todavia, sobrevive a estes “pareceres”. Portuguesa em 7/2/1957, Lisboa, 1957.
A ilusão de conseguir “regenerar” a Casa, através LESSA, Almerindo, Conferência feita na Univer-
das comissões administrativas29, a necessidade de sidade de Coimbra, em 10 de Maio de 1951,
esconder da opinião pública a verdadeira posição durante a Semana do Ultramar, a convite da
política dos estudantes oriundos das colónias, Casa dos Estudantes do Império, Lisboa,
o medo dos efeitos que a extinção da CEI poderia 1952.
ter no meio académico, a pressão das elites colo-
niais podem ajudar a explicar a sua longevidade 2.3. Memórias
no quadro do Estado Novo. Mas, ironicamente, DÁSKALOS, Sócrates, A Casa dos Estudantes do
também interessou ao regime, nos últimos anos, Império. Fundação e primeiros anos de vida,
que a associação permanecesse aberta. Só assim Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, s.d.
podia manter os sócios rigorosamente vigiados (1994).
e obter mais facilmente informações sobre os mo- ERVEDOSA, Carlos, Era no tempo das acácias
vimentos independentistas. floridas, Linda-a-Velha, Edições ALAC, 1990.

29
2.4. Ficção30 puro acaso, encontrámos um relatório de um inquérito à si-
tuação financeira da associação, conduzido pela Inspecção
COSTA, Orlando da, Os Netos de Norton, 1.a ed., Superior de Administração Colonial, em finais de 1945.
Lisboa, Edições Asa, 1994. Também o Arquivo Histórico do Ministério da Educação de-
PEPETELA, A Geração da Utopia, 2.a ed., Lis- verá albergar documentos com interesse para a história da
CEI, mas, mais uma vez, a desorganização em que se encon-
boa, Publicações Dom Quixote, 1993. tra impede o acesso às fontes.
3 Agradecemos ao Dr. Arménio Ferreira, ao Dr. Orlando
3. Bibliografia da Costa, ao Dr. Manuel Monteiro e à Dra. Aida Freudenthal
AAVV, A Voz Igual. Ensaios sobre Agostinho Ne- a disponibilidade manifestada em conversas informais sobre
to, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, o tema.
4 “Casa dos Estudantes de Angola , in Boletim Geral
1989. ”
das Colónias, n.o 223, Lisboa, Agência Geral das Colónias,
ALEXANDRE, Valentim, “Ideologia, economia Jan. 1944, pp. 64-65.
e política: a questão colonial na implantação 5 No artigo citado na nota anterior pode ler-se: “O sr.

do Estado Novo”, in Anédise social, Prof. Dr. Marcelo Caetano deu o seu mais decidido apoio
vol. XXVIII, n.o 123-124, 1993, pp. 1117-1136. à iniciativa da comissão, conseguindo obter uma sede provi-
sória na Praça das Flores, 51. Quis, por isso, a Casa dos Es-
IDEM, “A África no imaginário político português tudantes de Angola manifestar ao sr. Prof. Dr. Marcelo Cae-
(séculos XIX-XX)”, in Penélope, Fazer e desfa- tano a sua mais alta consideração e vivo reconhecimento e,
zer a história, n.o 15, 1995, pp. 39-52. numa reunião magna com estudantes angolanos, foi o men-
cionado e ilustre professor eleito por aclamação seu presi-
FARIA, António, A Casa dos Estudantes do Impé- dente de honra”.
rio: Itinerário histórico, Lisboa, Câmara Mu- 6 Armindo Monteiro, ministro das Colónias de 1931
nicipal de Lisboa, 1995. a 1935, é um dos principais ideólogos da política colonial do
FERREIRA, Manuel, Literaturas africanas de ex- Estado Novo nos anos 30-40. Nos discursos que profere
pressão portuguesa, 2 vols., 2.o ed., Lisboa, à frente da pasta das Colónias, publicados sob o título Para
uma Política Imperial defende que “a par da extensão terri-
ICLP, 1986. torial, o Império resulta, sobretudo, da existência de uma
GUERRA, João Paulo, Memória das Guerras Co- mentalidade particular”; deve-se, portanto, “imperializar
loniais, Porto, Edições Afrontamento, 1994. a vida portuguesa”, incutindo-lhe os valores da raça e um
forte sentimento patriótico. (cf. op. cit, Lisboa, AGC, s.d.,
MARGARIDO, Alfredo, Estudos sobre literaturas p. 56).
das nações africanas de língua portuguesa, 7 Segundo o artigo “Visita do Sr. Ministro das Colónias

Lisboa, A Regra do Jogo, 1980. à Casa dos Estudantes de Angola”, publicado no Boletim
IDEM, “A literatura e a consciência nacional”, in Geral das Colónias, n.o 229, Jul. 1944, pp. 133-134, Francis-
co Vieira Machado terá dito no discurso que proferiu duran-
Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes te a visita que “a organização da Casa dos Estudantes do Im-
do Império, 1951-1963, vol. I, Lisboa, Edição pério, onde se reunam os rapazes vindos de vários pontos do
ACEI, 1994, pp. 9-23. ultramar, era indispensável. Pensou nela quando viu surgir
a Casa dos Estudantes de Angola, que não satisfazia o objec-
IDEM, “Projecto e limites da CEI”, in Discursos, tivo em vista. Era necessário reunir, agregar todos os rapazes
n.o 9, Lisboa, Universidade Aberta, Fev. 1995, que chegam à Metrópole, vindos de todas as nossas colónias
pp. 155-162. africanas e da Índia e Macau. Constituída a Casa dos Estu-
PAULO, João Carlos, “Education coloniale et éco- dantes do Império fica satisfeito o nosso desejo, sabendo que
podemos contar com a vossa dedicação, patriotismo e boa
le portugaise (1926-1946)”, in António Nóvoa, vontade. Estabelecer-se-à, assim, a necessária camaradagem
Marc Depaepe & Erwin V. Johanningmeir entre todos os estudantes e uma mentalidade nacional mais
(eds), The Colonial Experience in Education: profícua. Cada vez mais as nossas colónias estão integradas
no pensamento da Metrópole, e é bom reforçar o elo que
Historical Issues and Perspectives, Gent, Pae- reúne o escol do Ultramar ao do Continente”.
dagogica Historica, 1995, pp. 115-135. 8 No relatório do inquérito à situação financeira da CEI

(Pr. 128/45, Sala Casa Forte, Est. II, Prat. 6, n.o 723, Arqui-
vo Histórico Ultramarino), o inspector administrativo Mário
Costa, depois de defender que “uma acção de despejo (...)
1 Versão revista e ampliada do artigo “A Casa dos Estu-
seria sempre desagradável e sobretudo desprestigiante, não
dantes contra o Império”, publicado no Público Magazine, só por se tratar de uma instituição sob o patrocínio do Mi-
de 28 de Maio de 1995, pp. 66-72. nistério das Colónias como pela péssima impressão que cau-
2 Consultámos processos e documentos relativos à CEI, saria a sua falência absoluta — a um ano apenas de existên-
respectivamente no Arquivo PIDE/DGS e no Arquivo Oli- cia! — especialmente às entidades que têm subscrito com
veira Salazar, ambos depositados no Arquivo Nacional Torre subsídios”, apresenta as seguintes propostas: a CEI deverá
do Tombo. Tentámos ainda continuar a pesquisa no Arquivo elaborar um orçamento detalhado para o ano de 1946, sub-
Histórico Ultramarino, que alberga os fundos documentais metendo-o à aprovação do Ministério das Colónias; extinção
do Ministério das Colónias, depois Ministério do Ultramar. das várias tesourarias, em número de cinco (uma por cada
Face à ausência de um inventário desses fundos, foi impossí- secção), ficando apenas uma; a contabilidade da CEI a cargo
vel localizar documentação substantiva sobre a CEI. Só por da única tesouraria será montada segundo instruções da

30
Contabilidade do Ministério das Colónias; o serviço de te- 21 Cf. “Ofício do director da PIDE para o inspector-

souraria deve estar a cargo de um funcionário do Ministério -adjunto da subdelegação da PIDE em Coimbra (21/12/60)”,
das Colónias; extinção dos subsídios à filial da CEI em Pr. 3767, Arquivo PIDE/DGS.
Coimbra. 22 Pr. 3767, Arquivo PIDE/DGS.
9
”A Casa dos Estudantes do Império promoveu, sob 23“Informação n.o 1112/61 GU”, Pr. 329/46 SR, Arquivo
o patrocínio da M.P., um ciclo de palestras à Mocidade”, in PIDE/DGS.
Boletim do Comissariado Nacional, vol. V, n.o 2, Lisboa,
24 “Face às pressões internacionais no sentido da desco-
1945, pp. 91-93.
10 Dutra Faria, “A Mocidade Portuguesa é imperial e so-
lonização, o regime (...) vai enveredar pelo caminho da assi-
milação, dando às colónias o estatuto de províncias ultrama-
cial (Alocução proferida na sessão de encerramento do ciclo rinas, solidárias entre si e com a metrópole como “parte
de “Palestras à Mocidade” promovido pela CEI, sob o patro- integrante do Estado português” (nas palavras da revisão
cínio da M.P., em 24 de Janeiro de 1945)”, in op. cit., constitucional de 1951)” (Valentim Alexandre, “A África no
pp. 54-56. imaginário português (século XIX-XX)”, in Penélope, n.o 15,
11 Celestino Marques Pereira, “O ensino colonial da ju-
1995, p. 47). Pretendia-se apresentar um país espalhado por
ventude (Comunicação apresentada ao Congresso Comemo- vários continentes, mas nem por isso menos unido sob
rativo do V Centenário da Guiné)”, in Boletim do Comissa- o mesmo sentimento de harmonia racial e o mesmo fundo de
riado Nacional, vol. VI, n.o 4, Lisboa, 1946, pp. 321. cultura. O luso-tropicalismo de Gilberto Freyre tornou-se,
12 Tanto o Pr. 329/46 SR, instruído pela PIDE de Lisboa, a partir dos anos “50”, o suporte “científico” da ideologia
como o Pr. 3767, instruído pela delegação da PIDE em colonial do Estado Novo, pelo menos para efeitos de política
Coimbra, têm início em 1946. externa (cf. João Carlos Paulo, “Éducation coloniale et école
13 Resposta da PIDE, com data de 9 de Abril de 1951,
portugaise (1926-1946)”, in The Colonial Experiente in Edu-
” cation, Gent, Paedagogica Historica, 1995, p. 116).
ao ofício confidencial do Gabinete do Ministro das Colónias,
25 Informação n.o 125 SC/CI (2) , Pr. 329/46 SR, Ar-
n.o 597 de 31 de Março de 1951”, in Pr. 329/46 SR, Arquivo ” ”
PIDE/DGS. quivo PIDE/DGS.
14 26 Para o seu encerramento terá sido determinante a posi-
”Ofício confidencial dirigido pelo comando distrital de
Coimbra da Legião Portuguesa ao director dos serviços de ção do ministro do Ultramar, Silva Cunha. Cf. Alfredo Man-
informações da LP-Lisboa, datado de 11 de Julho de 1949”, gando, “Projectos e limites da CEI”, in Discursos, n.o 9, Lis-
in Pr. 1465/49 SR, Arquivo PIDE/DGS. boa, Universidade Aberta, Fev. 1995, p. 162.
15 27 AOS/CO/UI-61 Pt. 21, Arquivo Oliveira Salazar.
Citado no “relatório confidencial n.o 27, de 12 de De-
zembro de 1960, enviado ao director da PIDE pela delegação A acompanhar o relatório, surge uma carta do ministro da Saú-
daquela polícia em Coimbra”, Pr. 3767, Arquivo PIDE/ DGS. de e Assistência, Martins de Carvalho, dirigida ao presidente
16 Pr. 3767, Arquivo PIDE/DGS.
do Conselho, em 2 de Setembro de 1959, esclarecendo as cir-
cunstâncias em que este documento foi produzido: “O ministro
17 Para não alongar demasiado este texto não referimos
do Ultramar consultou o CEPS sobre os movimentos associati-
os nomes do colaboradores da Mensagem. Remeteremos, no vos em África e sobre a conjuntura política africana. O relató-
entanto, os leitores interessados para a obra de Gerald Moser rio foi preparado por Silva Cunha. Mas o Conselho Orientador
e Manuel Ferreira, Bibliografia das literaturas africanas de julgou conveniente antecedê-lo de um pequeno trabalho do
expressão portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da próprio Conselho em plenário, que, pelo seu carácter estrita-
Moeda, 1983, p. 300. mente confidencial, permitisse um depoimento completo, na
18 Cf. “Palavras de abertura , in Mensagem, ano 111, n.o
” sua sinceridade e franqueza, sobre aqueles assuntos”.
1, Jan. 1960. 28 AOS/CO/UL-37 Pt. 2, p. 31, Arquivo Oliveira Salazar.

19 Sobre a vigilância policial à delegação da CEI no Por- 29 Esta ilusão parece contagiar, a certa altura, a direcção
to, vide Pr. 25686, Arquivo PIDE/DGS. da PIDE: “julgamos, salvo melhor opinião, que a infiltração
20
”Como, em devido tempo, tive a honra de informar em todos os sectores da CEI de jovens capazes de orienta-
V. Exa. Foi distribuído no meio académico universitário um rem no bom caminho os seus camaradas e cujo patriotismo
panfleto intitulando Mensagem ao Povo Português que parece não permitisse a acção nefasta dos inimigos de Portugal, se-
ser emanado dos estudantes universitários ultramarinos, ou ria uma acção de grande utilidade para a formação política
melhor talvez, da Casa dos Estudantes do Império. (...) não dos estudantes ultramarinos que vêm estudar na Metrópole.”
podemos deixar de manifestar a nossa preocupação pelo re- “Resposta da direcção da PIDE ao ofício da Direcção-Geral
crudescimento de actividade que, desde Maio do último ano, do Ensino Superior, solicitando informações sobre a CEI
se vem notando na CEI que, em má hora foi criada.” “Relató- (28/7/60)”, Pr. 329146 SR, Arquivo PIDE/DGS.
rio confidencial n.o 27 (12/12/60) enviado pelo inspector Sac- 30 Trata-se de obras baseadas em factos históricos e escri-
chetti ao director da PIDE”, Pr. 3767, Arquivo PIDE/DGS. tas por antigos sócios da CEI, a partir das suas vivências.

31
Prolegómenos a uma História (verdadeira)
da Casa dos Estudantes do Império
TOMÁS MEDEIROS*
Dedicado a Dimitri, Amaya e Luca — meus netos

“Hacer filosofia es trazar líneas divisorias” verticais (luta de classe, como reflexo da luta entre
LOUIS ALTHUSSER a burguesia e o proletariado) para adquirir uma ca-
racterística horizontal, dado o descrédito do marxis-
“El hombre colonizado que escribe para su mo e carência de toda a iniciativa dos partidos que
pueblo deve usar el pasado com intencion de darle personificavam as lutas dos movimentos operários.
pauta al futuro, como una invitacion a la accion y Em traços gerais, seriam, essencialmente, conflitos
como base para la esperanza” assimétricos entre os homens e mulheres, conflitos
FRANTZ FANON entre gerações ou étnicos (raças, minorias, naciona-
lidades, crenças, etc.). Com a conflitualidade social-
N uma época em que continua presente o sen- mente latente, já não haveria espaço para as mani-
tido da “morte de homem” anunciada por Michel festações através da luta de classe, precursora
Foucault, em que o fim da história e o último ho- doutras formas de expressão.
mem são proclamados por Fukuyama, um filósofo A partir desta situação, Fukuyama afirma que
bissexto, promocionado pela conservadora John M. “a queda do muro de Berlim e a rejeição do comu-
Olin Foundation, em que o derrubamento do muro nismo pelo povo da Europa de Leste” permitiu
de Berlim configura o fim das ideologias; em que o “aparecimento da democracia-liberal como única
os historiadores se questionam sobre a possibilida- ideologia universal e (...) a vitória dos princípios
de mesma da existência do conhecimento do passa- de mercado na economia”. “A democracia libe-
do e a esquerda europeia prossegue, apressadamen- ral”, acrescenta, “é a única fonte aceitável de legi-
te, no caminho da sua autodestruição, que sentido timidade no mundo de hoje”. Para finalizar, Fu-
tem — pergunta-se — o evocar, com a publicação kuyama aconselha-nos a resignarmo-nos perante
de um número especial, os 50 anos que testemu- a ideia de que “temos de nos habituar a um mundo
nham o aparecimento do primeiro número da dividido já não entre o Leste e o Ocidente, mas en-
MENSAGEM — revista da CEI? tre o que (chamou) história e pós-história.” O fim
Quando o camartelo gigante se abateu sobre da história e o último homem transforma-se em
o muro de Berlim, muitos comentadores políticos Novo Evangelho e anuncia a “boa nova” — uma
acreditaram que o fim dos então chamados “países democracia liberal desembaraçada do seu “inimi-
socialistas” da Europa e o fim da “guerra fria” go” e apresentada, ela mesma, como o ideal da
inaugurariam, messianicamente, uma nova era de história.
paz e concórdia entre os povos e as nações. Os con- O neoconservadorismo e o neoliberalismo bus-
flitos sociais deixariam de ser fundamentalmente cam uma nova legitimação, com os seus correlatos

* Médico e escritor sãotomense. Director da Mensagem de 1959-61. Último presidente da Associação Casa dos Estudantes do Império.

33
na civilização post-industrial, o neopositivismo de inspiração linguística, desenvolvem uma ideolo-
tecnocrático e o post-modernismo cultural. gia que relega a história e a significação ao estatuto
O tecnocratismo conservador quer um homem de coisas do museu e propõe-nos uma cultura cen-
sem ideologia, quer dizer, sem consciência do trada unicamente nas combinações dos meios, sem
mundo que o circunda. Trata-se de conseguir a as- nenhum interesse pelos fins e os valores.
sépsia ideológica, para impedir que o homem mo- Nos dias que correm e como forma de ideolo-
derno disponha de marcos de referência e de esca- gia da “nova democracia”, os homens se “sentent
la de valores. englués, poissés par une sorte de visqueuse doctri-
No post-modernismo, o presente é histórico, ne qui, insensiblement, enveloppe tout raisonne-
imóvel, espaço que alberga tudo. O estádio post- ment rebelle, l’inhibe, le trouble, le paralyse et fi-
-modernista converte-se no centro de todas as as- nit par l’étouffer”. (Ignacio Ramonet) Esta
pirações vitais e, para ele, o passado é inservível doutrina é o “pensamento único”. Formulada e de-
e o futuro carece de sentido. finida em 1944, aquando dos acordos de Bretton
A ideologia do fim das ideologias é um ideo- Woods, encontra a sua fonte de financiamento nas
logismo, ou seja, uma representação falsa da reali- grandes instituições económicas e monetárias1 e o
dade. E tem, como objectivo, transformar a crise seu veículo de transmissão nos médias, publicida-
do marxismo beatificado e ortodoxo numa crise de de, sondagens, marketing, comunicação social,
toda a esquerda e, através dela, no desmantelamen- centros de pesquisa, universidades, fundações
to do todo social, para substituí-lo pelo indivíduo e nas “bíblias” dos investidores2.
asséptico que assume o nihilismo como destino e o Na incapacidade de construir um dique perante
vitalismo como táctica. a investida do irracionalismo moderno, o homem
Nesse clima de inquietação a que esse naufrá- europeu entrou, irremediavelmente, numa crise ra-
gio intelectual inevitavelmente nos conduz, Derri- dical da sua própria existência, do seu entendi-
da denuncia o novo “discurso dominante”, tal co- mento do mundo e de si mesmo. E, como diz An-
mo o apregoam os teóricos do crepúsculo das dré Grosz, “tudo o que é sólido se volatiliza, tudo
ideologias, ou seja, que “Marx est mort, le com- o que é sagrado é profanado”.
munisme est mort, bien mort, avez ses espoirs, E nós?
son discours, ses théories et ses pratiques”, teóri- O nosso passado e o nosso presente confun-
cos esses que cantam “l’avenement de l’ideal de la dem-se com a agressividade do colonialismo (anti-
democratie libérale et du marché capitalista dans go e novo). Não temos um passado a vangloriar.
l’euphorie de la fin de l’histoire”. Resta-nos, apenas, a utopia dum futuro a construir.
Sempre que a ideologia burguesa não é capaz de Ante o “gadget mediatique” que faz furor “sur
dar resposta aos problemas que a crise do capitalis- tous les supermarchés ideologiques d’un occident
mo gera e que se perspectivam no horizonte novos angoissé” (Derrida), qual deve ser a nossa postu-
tipos de sociedade portadores de novos valores so- ra? Se nos abstivermos, em nome do comodismo,
ciais e duma imagem nova do HOMEM — os fac- dum pensamento crítico, despolitizamo-nos e co-
tos assim o confirmam — os filósofos propõem meçamos a aplaudir os charlatões da ideologia
uma interpretação mistificada da experiência de vi- morta e da lenda do novo Eldorado. Um desmoro-
da no mundo quotidiano. Assim o bergsonismo, namento dos referenciais, uma dessubstancialização
a obra de Blondel, de Lavalle e de Brunschwig, nos de ideias, conceitos, representações, arriscam-se a
anos de antes da 2.a guerra mundial e depois dela, mergulhar-nos num ambiente estranho, mórbido e
o existencialismo (de Gabriel Marcel a Sartre), irracional.
o personalismo e o estruturalismo. Teóricos de direi- A revolução francesa e o espírito do sécu-
ta, como Raymond Aron, de centro humanista e li- lo XVIII significaram para o Ocidente o momento
beral como David Riesman ou mesmo de extrema- em que os homens começaram a interrogar-se a si
-esquerda como Marcuse e a Escola de Frankfurt mesmos e à sua História. Não à história que se
afirmam a estabilização definitiva ou pelo menos guarda como peça arqueológica, imóvel, numa vi-
durável da nova sociedade tecnocrática e a tendên- trina de museu, mas a história que nos dá cons-
cia ao desaparecimento de todo o espírito contesta- ciência do nosso passado e serve de ponto de par-
tário — o fim das ideologias, o desaparecimento do tida para a construção do futuro.
radar interior, o homem unidimensional — e, estru- Dentro desta perspectiva, o que se evoca, com
turalistas não genéticos ou, se se quiser, formalistas a publicação dum número especial de MENSA-

34
GEM, é um capítulo significativo da História glo- imprensa, da administração, da vida política, as-
bal das Áfricas de expressão oficial portuguesa, sim como actividades comerciais. Torna-se neces-
história da luta anticolonial, história dum pensa- sário recrutar quadros (metropolitanos e coloniais)
mento-acção nascido no coração do Império, no para a administração e para uma escala de activi-
seio de uma sociedade onde a oposição contesta- dades públicas e privadas. Aparece a classe média.
va, esquecendo África, um sistema social e políti- A cidade permite os contactos, a audiência,
co retrógrado e opressivo. História que, parafra- a comunicação, agremiando e aproximando os que
seando Marx “cherchait ses armes théoriques dans apresentam interesses comuns. Criam-se insti-
la dialectique hégelienne et prenait le caractère du tuições que recolhem, mantêm e difundem a cultu-
combat de la lumière contre l’ombre, de la cons- ra dos novos donos da terra — a ideologia do co-
cience émancipeé contre l’irrationel”. História, en- lonialismo. Nascem as escolas.
fim, dum pensamento que mais tarde acabou por Sem representação económica e sem nenhuma
fecundar uma prática política que conduziu à luta força política, a classe média local busca “acomo-
de libertação nacional em África, ao 25 de Abril dar-se à classe dominante, copiando-lhe os hábitos,
e ao desmoronamento daquele que foi o “mundo as tendências e ainda a ética”. Eram, como acentua
que o português criou”. Celso Cunha, elites dilaceradas pelo drama de con-
E como, na voragem do tempo que aniquila viverem “com duas pátrias inconciliáveis — e com
tudo — a memória, o pensamento, a acção — não todos os complexos, angústias e frustrações provoca-
colaborar também, deixando em prosa solta o meu das pelo humilhante sentimento de bastardia”. Eram,
olhar sobre esse percurso de estudantes africanos portugueses, “pelo estilo de vida, mas (portugueses)
em Portugal que, sem se darem conta, acabaram sem ancestrais, sem raízes históricas, sem o patrimó-
por entrar na História, fazendo História? Assim nio cultural armazenado por milénios no velho mun-
sendo, imponho, como condição, que não me exi- do”. A imitação, a cópia, a adopção servil de mode-
jam aquilo que à partida, nunca esteve nas minhas los externos, no campo político como no campo
preocupações, a história detalhada, cronológica, ideológico “eram o tributo que pagavam à sua sub-
completa desse período. O que aqui se deixa e, missão à ideologia do colonialismo”.
sem mutilar o espírito da publicação, não repre- A diversidade de origem (metrópole e colónias),
senta senão uma primeira tentativa de, no emara- a diversidade de padrões de cultura, assim como
nhado brumoso do que se tem dito e escrito, apro- a diversidade de proventos económicos geraram, co-
ximar-me do que poderá vir a ser a verdadeira mo era inevitável, conflitos sociais, onde o racismo
História da CASA DOS ESTUDANTES DO IM- tomava nova expressão. Organizavam-se agremia-
PÉRIO. E não é pouco. ções privadas — clubes, associações desportivas,
bailes e até restaurantes — com o acesso sujeito ao
código de “reservado o direito de admissão”.
O sistema de economia implantado nas coló- Dado que a participação no poder político ou
nias, caracterizado pela existência da fazenda, da cultural deste agregado humano era sempre subor-
monocultura e do braço escravo, facilitou o apare- dinada à sua posição social, não encontravam ou-
cimento e esplendor de uma oligarquia restrita tra forma de competir com os preconceitos reinan-
e poderosa, inteiramente desvinculada da grande tes, outra forma de resguardar esse decoro de
massa humana, deixada sempre à margem, como classe, que tanto preservavam, senão através da
um simples reservatório de mão-de-obra. actividade de espírito — da cultura.
As cidades desenvolvem-se ao longo da costa. Cultivaram a cultura de Almanach e português
Inicialmente e sob o regime de monopólio nas tro- de gramática e dicionário. Organizavam, por outro
cas, surgem como centros administrativos e uma lado, associações, grémios e sociedades recreativo-
área de reunião periódica (nas grandes festas co- -culturais, algumas travestidas em berços de na-
lectivas) e também como ponto de transbordo de cionalismo nascente. Por isso, uma das suas preo-
mercadorias que, vindo do interior, se destinavam cupações essenciais era enviar os filhos para
aos mercados europeus. a metrópole, tirar um curso, ser doutor. Formar-se,
O desenvolvimento das trocas com o exterior ostentar um diploma era, no seio da mediocridade
e a existência de um mercado interior vai conferir da vida colonial, distinguir-se. E representava a se-
às cidades uma característica distinta e diversifica- gurança social, passaporte que dava acesso aos lu-
da. Assiste-se à abertura dos portos, ampliação da gares então reservados a uma minoria branca.

35
Se o curso não representava garantia de enri- giarem nas recordações do “pequeno museu de um
quecimento, preservava, pelo contrário, aquele or- paraíso perdido”. E “a vivência de outros tempos
gulho de classe bastarda e de raça. Lutavam a vida converte-se no único esforço criador de que se
inteira e, quantas vezes, apoiados na solidariedade mostram capazes”. (Augusto da Costa Dias).
dos familiares e amigos, sacrificavam-se para que Alda Lara, no poema Quadras da Minha Soli-
o sonho se transformasse em realidade — ter um dão, recorda:
filho doutor.
Cada partida era um acontecimento festejado Fica longe o sol que vi,
como vitória da família, do bairro e dava direito Aquecer meu corpo outrora...
de notícia nas páginas sociais dos jornais locais. Como é breve o sol daqui!
Os estudantes partiam e no cais, os amigos le- E como é longa esta hora...
vavam o último abraço que era “além do seu voto
de felicidade, o adeus e a mensagem de confiança Donde estou vejo partir
da terra-mãe, transmitida pela voz dos seus fi- Quem parte certo e feliz.
lhos”. (Ervedosa). Só eu fico. E sonho ir,
Eram uma minoria, se compararmos com o nú- Rumo ao sol do meu país...
mero de estudantes brancos oriundos de famílias
abastadas ou da classe média metropolitana — Havia também, o drama do branco de África,
oficiais da função pública, empregados de comér- considerado português de Segunda, branco de con-
cio, das plantações agrícolas — e pequenos e mé- tra-costa que se distinguia pelos seus hábitos, pro-
dios comerciantes, industriais ou agricultores. Em- núncia e pelo uso do capacete e balalaika.
barcavam também, alguns estudantes negros, E havia o racismo. Não era, ainda, o racismo
procedentes, sobretudo, das missões protestantes requintado e protagonizado pelos “bem educados,
de inspiração suíço-americana. supranacionalistas e cabeças rapadas”, racismo re-
Partiam! cheado de terror, agressividade e mortes, oficial-
mente toleradas, racismo fruto de consciência da
sociedade europeia, projectando para fora os seus
Naqueles tempos, a viagem de África a Portu- medos, insegurança e os seus valores negativos,
gal fazia-se de barco. A distância aumentava a di- tudo o que odeia em si próprio e que projecta no
mensão da expectativa, do sonho. Lisboa tomava OUTRO — negro, judeu ou árabe — os eternos
a espessura de uma cidade com contornos de ma- bodes expiatórios. O racismo sacralizado no códi-
gia. E desde que se acreditasse em DEUS, toda go político-cultural de exclusão/expulsão. Não.
a metafísica era possível. O racismo de que falo é outro e toma assento no
E quando, finalmente, a cidade real se abria imaginário europeu, a partir da gesta da expansão
em toda a sua nudez, assistia-se, muitas vezes, ao mercantil, iniciada no século XV.
desfazer do sonho que a imaginação avolumava. Era a época em que, como escreveu Francisco
E o drama começava. Tenreiro, “Seu Silva Costa” partia para África com,
Longe dos pequenos universos coloniais, onde
cada um era, como na Pasárgada de Manuel Ban- Calcinha no fiozinho
deira, “Amigo do Rei”, o contacto com a capital Dois moeda de ilusão
do Império, uma cidade cosmopolita e nova, im- E vontade de voltar
plicava, sob muitos aspectos, um esforço enorme
de adaptação. E vários factores se conjugavam pa- e regressava, tempos depois, “branco grande” e,
ra esse desencanto: dificuldades económicas moti-
vadas pelas mesadas que não chegavam ou chega- Su calça não é fiozinho
vam tarde, a experiência de vida longe do meio e sus moeda não tem mais ilusão!...
familiar, a dureza do clima e, algumas vezes,
o curso sonhado e “que não despertava qualquer Os negros, em Portugal, não eram uma “amea-
entusiasmo. Acabavam por ser atingidos por uma ça” à paz social mas, como os animais incluídos
grave neurose de angústia”. (Ervedosa) na embaixada de D. Manuel I ao Papa Leão X, ob-
Aqui começava, na grande luta entre o sonho jectos raros, exóticos, ou bibelots das casas de fa-
sonhado e o sonho vivido, a tendência em se refu- mília. E tal como os alentejanos que alimentam as

36
anedotas portuguesas, apareciam nas caricaturas O homem é um ser inseguro que trata de afir-
de Pragana nas páginas do Jornal A Bola, com mar-se, buscar segurança não no isolamento, mas
o beiço desmesuradamente grande e dois ossos no grupo. Dentro dele, mede-se e mede os demais
cruzados na cabeça a significar-lhes uma imagem para saber até que ponto o grupo é um prolonga-
de antropófagos. Era o negro burro-de-carga da mento da sua própria personalidade.
Casa Africana. O negro que as prostitutas belisca- Na grande Babilónia que Lisboa representava,
vam na rua — um gosto — manifestação infantil a CEI era o cantinho da saudade, o ponto de en-
e ingénua de quem acreditava que assim, a “mer- contro com a terra distante, o “sítio onde se podia
cadoria” teria mais sorte e mais saída. As crianças tomar banho todos os dias”, como confidenciou
acompanhavam-lhes os passos com a sonoridade Fernando Mourão e, sobretudo, uma espécie de
monocórdica e repetitiva da canção: Collegia Fabrorum onde os estudantes se inicia-
vam na arte de reflexão sobre si próprio e sobre
Preto da Guiné o OUTRO e também sobre o seu papel nas activi-
Lava a cara com café. dades do grupo.
Um provérbio flamengo diz que “a vida é co-
Os mais velhos, deliciavam-se com o “olha mo um carro de feno donde cada um tenta tirar
o preto — atchim!”. a porção que puder”. A CEI era, em certa medida,
De súbito, tomavam consciência de que não esse carro de feno. Para muitos, a vida fácil, des-
eram iguais — o mesmo povo, a mesma nação, preocupada e o sonho de conseguir um canudo, re-
a mesma língua, a mesma cultura. Pelo contrário, gressar e ocupar um lugar na nomenclatura colo-
eram diferentes, portadores dum estigma que ha- nial era o único objectivo. Outros, porém, libertos
veria de acompanhá-los, irremediavelmente, pela das amarras do “pensamento único”, iniciavam,
vida fora — a cor da pele. E essa cor da pele era calma e serenamente, o processo de esvaziamento
a marca dum pecado original — assim o decreta- do mito da sociedade multirracial e fraterna, o mi-
ram os doutores da santíssima igreja cristã, peca- to do “tal mundo que o português criou”.
do que nenhum Papa soube explicar onde e por- A pouco e pouco o mito se esfrangalha.
quê fora cometido — e que teriam de expiar, E quando DEUS morre, o vazio ocupa o espaço.
implacavelmente, de geração em geração até ao O que se vai passar, em seguida, é uma longa ca-
fim do mundo. minhada, uma procura inquietante de si mesmo
Ao drama da inadaptação se junta — para al- e do lugar que deveria ocupar nesse novo vazio
guns — o drama da descoberta da cor. deixado pela morte de Deus.
Época de conjugação de várias formas de sa-
A minha cor é negra ber, de relações que mantinham entre si, as suas
Indica luto e pena compatibilidades e incompatibilidades, um rio
caudaloso onde a consciência individual se trans-
escreve o poeta santomense Caetano Costa Alegre. forma em consciência colectiva. Tratava-se de um
Não é meu propósito alongar-me aqui no estu- escalonamento de acontecimentos que, embora de
do do percurso de cada um na reacção do negro amplitudes diferentes, tinham a mesma capacidade
ferido pelo desprezo do branco, esmagado pelo or- de produzir efeitos convergentes. Uma forma de
gulho do branco. O que importa, situado o funda- luta em que lentamente tomavam perfil e consis-
mento do problema, é transformá-lo em problemá- tência novas formas de outros saberes, outros dis-
tica e, a partir dela, tentar compreender o papel cursos e definições de outros objectivos.
que a CEI desempenhou no despertar da consciên- Não se veja nisso um processo homogéneo,
cia nacionalista no seio dos estudantes africanos com ideias e propósitos claramente definidos.
em Portugal. Uma camada social heterogénea não podia apre-
Tomando como ponto de arranque o binómio sentar senão ideologias diversificadas. E no meio
inadaptação/racismo, notamos o seguinte: se al- estudantil em presença, pela configuração de ori-
guns houve que se refugiaram na sua “torre de gens de classe, não possuía os recursos necessá-
marfim”, curtindo o sonho do seu regresso à terra rios para a produção duma ideologia autónoma.
natal, ou no drama insolúvel da “autocondenação Assim, num quadro das ideologias que se dispu-
da raça”, outros, voltando-se para si próprios, in- tavam no mundo e no seio da sociedade portu-
terrogaram-se, escutaram-se e tentaram resposta. guesa, reproduziam, em grosso, com um certo

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efeito de espelho, as linhas de força ideológica dade de condicionamentos socio-económicos a
em presença. apreensão e identificação do real africano.
Lia-se bastante e nesse “devorar de livros” cru- Orfeu Negro, estudo de Sartre efectuado a par-
zavam-se com autores (ou ideologias) que consti- tir de postulados heideggerianos, assim como os
tuíam o lastro comum de todos os que procuravam trabalhos de Lylian Kesteloot, passaram a funcio-
na sua cultura literária algo mais que o simples pra- nar como “Cartilha” de quantos se aproximaram
zer de leitura. Muitos autores passavam, meteorica- das literaturas dos países então colonizados por
mente, sem deixar rasto. Outros ficavam, morando Portugal. As generalizações apressadas, recordo,
no percurso das suas preocupações.3 são como grossas nuvens que total ou parcialmen-
Era a época em que, em Paris, se dançava te encobrem o brilho do Sol.
o jazz, se escutava “spirituals and plantation A pouco e pouco a CEI perde o seu carácter de
songs” e se aplaudia Josephine Baker. “casa de acolhimento” para começar a dar espaço
Era a época em que a arte dos negros exercia a conferências, debates sobre os mais variados te-
um fascínio e influência sobre a forma europeia de mas africanos e o seu boletim — MENSAGEM —
expressão estética. é o espaço onde também começam a aparecer as
As ideias chegavam na hora exacta em que jo- primeiras reflexões sobre a literatura negra nortea-
vens estudantes africanos sentiam, debaixo da ocu- mericana, a linguística branca, ensaios, poesia
pação colonial, a necessidade de romper com a e prosa de novos valores da nascente literatura
imitação estéril dos mitos e padrões portugueses africana de expressão portuguesa e que denota-
e através dela, um instrumento de introspecção mais vam, pelo conteúdo e forma, uma ruptura nítida
cabal, amplo e profundo da alma e do mundo negro. com os cânones da ideologia colonial.
A descoberta do mundo negro era uma obses- Tudo atiçava e reflectia as paixões políticas
são, um verdadeiro problema geracional e procura- e estéticas que se viviam em Portugal e no Mundo,
va-se, tendo como farol aqueles que representavam a força das suas convicções em si e a sua capaci-
a contestação estruturada que chegava à Europa no dade de dar um sentido novo à História.
“regresso dos navios negreiros”. Através do co- Toda a ideação ficaria limitada se não escolhes-
nhecimento das condições de exploração dos ne- se um terreno e homens capazes de assumirem
gros da diáspora, reflectem sobre as condições de o seu futuro, lutando. O espaço da CEI começava
sofrimento dos negros dos seus próprios países. a ser demasiadamente pequeno para o cultivo das
Essas influências representavam o conhecimento novas ideias. Havia que encontrar um palco mais
do documento humano vivo, presente, que econó- amplo, integrar mais gente e avançar com obra re-
mica e racionalmente plasmaram o destino do ne- novadora. É nesta perspectiva que surge a casa da
gro na história. Tia Andreza, na Rua Actor Vale n.o 37, onde se vai
Por detrás de toda a aparência de paralelismo, instalar a sede do Centro de Estudos Africanos,
esconde-se uma série de diferenças históricas com conferências animadas, principalmente, por
e programáticas que tornam inútil e superficial Amílcar Cabral, Mário de Andrade e Francisco
a tentativa de encontrar similitude. O falar do ne- Tenreiro e o entusiasmo de Agostinho Neto, Lúcio
gro, da sua cultura, do seu passado histórico basta- Lara, António Domingues, Alda do Espírito Santo.
rão para se catalogar um indivíduo ou uma corrente O “37” passou a ser a Meca dos estudantes africa-
estética de NEGRITUDE? Basta que se leia atenta- nos, onde aprendiam a descobrir África e criar la-
mente Nicolas Guillén, Aimé Césaire, Senghor, ços de amizade e formas de actuação que viriam
Jacques Roumain ou Alejo Carpentier, para se a desembocar na formação de organizações de cariz
compreender que a negritude não era um ideário nitidamente político. Joaquim Pinto de Andrade
ou programa mas, como alguém o afirmou, um es- animou duas discussões que ficaram célebres: uma
tado de espírito ou a recuperação dum passado mí- sobre a arte sacra missionária, seguida de visita
tico através da reabilitação do negro. Desse emara- guiada ao Mosteiros dos Jerónimos e outra, com
nhado de tendências não se vislumbra identidade. Mário de Andrade, sobre a existência de Deus.
Apenas, e muito só, convergências. Até que ponto o encontro com Francisco Ten-
Um problema a merecer uma atenção cuidado- reiro não foi determinante no evoluir do pensa-
sa é o estudo da problemática do negro através da mento do grupo dos “transfugas” da CEI, em bus-
visão do negro da diáspora, do exílio e do conti- ca duma nova identificação do Mundo Negro?
nente africano ou, se se quiser, através da diversi- Mário de Andrade e Francisco Tenreiro foram,

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sem sombras de dúvidas, os grandes mentores des- na Praça do Chile, para a conversa e o ritual da “bi-
se movimento. fana e o copo de três”, na Taberna do Chico. Mais
Lisboa era palco enorme onde fervilhavam es- tarde, com a inauguração das linhas aéreas para
tética e politicamente os grandes ideais de luta Luanda e Maputo, deslocavam-se, às segundas,
contra o fascismo e pela liberdade. O Partido Co- à noite, para os Restauradores, onde depositavam
munista Português defendia a ideia de luta fraccio- o correio familiar, na tiragem da “última hora”.
nada, ou seja, a luta contra o fascismo em Portu- Ecos dessa movimentação são dois documen-
gal, em primeiro lugar e, posteriormente, tos de uma grande importância histórica: pela pri-
a independência das colónias. Nessa caminhada, meira vez a voz dos estudantes africanos das coló-
descobrem — alguns — o marxismo-leninismo, nias portuguesas aparece numa obra colectiva
como ideologia e com ele a militância no MUD publicada em Paris pela Présence Africaine — Les
e no próprio partido. étudiants africains parlent. Outro, quiçá o mais
Num momento em que o combate se desenvol- importante, é o célebre Caderno de Poesia Negra
via mais no campo de acção do que no terreno da de Expressão Portuguesa, obra conjunta de Mário
reflexão teórica, era-se marxista sem ler o Capital, de Andrade e Francisco Tenreiro, com ilustração
como se é cristão sem ler a Bíblia. A época impunha de António Domingues. O espanto foi geral e o
uma escolha, um comprometimento não pelo núme- Jornal Notícias de 1 de Novembro de 1953 sau-
ro de livros que se lia mas pelo projecto que o Parti- dou-o como “um acontecimento significativo para
do propunha. Depois de se descobrir as condições a Cultura em Portugal”. Em 16 de Agosto de
de exploração do negro no mundo e de se solidari- 1953, a Voz do Império, programa da Agência Ge-
zar com as suas lutas, a descoberta da Revolução de ral do Ultramar, falou em “um dos mais importan-
Outubro, da Grande Marcha de Mao, da Guerra do tes acontecimentos literários do ano”. João Gaspar
Vietnam e da descoberta da verdadeira face do colo- Simões, à beira de um ataque de nervos, explodiu:
nialismo português, os caminhos estavam abertos “Não é poesia negra” — não é poesia o que escre-
não só para uma militância política como também ve a maior parte dos colaboradores do opúsculo
para novas rotas de luta pela emancipação colonial. Poesia Negra de Expressão Portuguesa — mas
Se Agostinho Neto, Lúcio Lara, Vasco Cabral, apologia de um certo ideal social, propaganda de
António Espírito Santo integraram o MUD e o PC, um certo ponto de vista ético, irremediavelmente
outros, como Mário de Andrade, Amílcar Cabral, didactismo poético”. (Diário Popular, 9 de Setem-
Francisco Tenreiro seguiram por outros rumos que bro de 1953)
conduziram, mais tarde, para um nacionalismo mais Os estudos de Mário de Andrade e Francisco
amplo e foram, em relação ao Partido Comunista Tenreiro que apresentam o caderno, para além de
Português, apenas e só “compagnons de route”. situarem o “primeiro momento de tomada de cons-
Isso bastou para que a CEI fosse, nessa altura, ciência da África, a África alienada” (Roger Basti-
identificada como o verdadeiro covil de comunis- de), introduziram também um elemento de contro-
tas e os seus associados como traidores dos ideais vérsia (ou confusão?) — a negritude. Tanto bastou
sagrados da Mãe Pátria. Um movimento de extre- para que a maioria (ou a totalidade?) dos estudio-
ma-direita inundou a fachada do Hospital Santa sos das literaturas negras de expressão portuguesa
Maria com um estranho e violento panfleto onde colassem, abusivamente, a tudo o que falando de
se denunciava os “13 comunistas mais perigosos” negro, denunciando, combatendo o colonialismo
da CEI e pedia castigo vigoroso e exemplar. e a exploração capitalista nas suas terras, o epíteto
É inegável que o Partido Comunista era, na al- de poetas da negritude. Resguardamos para outra
tura, a única força política que efectivamente lutava ocasião, já que o momento não é o mais adequado,
contra o regime de Salazar. O resto era um estado a nossa leitura sobre o tema.
de alma, sem expressão significativa. E é a partir da “Achara o semeador o campo tomado”, escreve
sua ideologia e da sua forma de organização que o Padre António Vieira. “Armaram-se contra ele os
Agostinho Neto, Humberto Machado, Graça Tava- espinhos; levantaram-se contra ele as pedras; ha-
res e António Espírito Santo, entre outros, partem viam-se-lhe fechado os caminhos”. Assim foi.
à conquista do proletariado africano em Lisboa — A Pide não podia permanecer insensível a esta
os marítimos. Assim nasce o Clube Marítimo. movimentação. Agostinho Neto e Vasco Cabral
Entre os cursos, as tertúlias no “37” e o Clube são presos; Lúcio Lara e Mário de Andrade fogem
Marítimo, o grupo reunia-se, diariamente, e à tarde, para Alemanha e França, respectivamente e Amíl-

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car Cabral utiliza a sua licenciatura em Agronomia as vozes brasileiras4, os boleros vinham da voz de
para ir desenvolver outras actividades em África. Lucho Gatica.
A semente fica lançada, mas é à geração se- Noutra vertente, a guerra de guerrilha de Mao
guinte que cabe o mérito de adubar o terreno, cui- Tsé Tung, Ho Chi Min, a guerra da Argélia, os
dar do canteiro e colher os frutos. Mau-Mau e as independências de África convida-
Abre-se uma nova página na História da CA- vam à reflexão e ao sonho e à utopia. E não foi
SA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO. Gide quem disse que as grandes realizações nas-
A passagem de testemunho faz-se sem fricção ciam (sempre) das grandes utopias?
ou fractura. Em circunstâncias as mais variadas — A CEI anima-se e começa, progressivamente,
Centro de Estudos Africanos, Clube Marítimo, a ser a verdadeira casa dos estudantes do império.
MUD e Partido Comunista — a segunda geração Ao grupo inicial de angolanos e moçambicanos,
participou em actividades conjuntas e teve tempo juntam-se os estudantes cabo-verdianos, indianos,
para, em grupo, construir uma compreensão pro- santomenses, guineenses e macaenses.
funda do facto colonial e as modalidades de luta Os estudantes negros protestantes não fre-
futura. A acção da Pide, como se viu, obrigou quentavam a CEI porque tinham a sua “Casa” —
a geração anterior a dispersar-se e as responsabili- o lar dos estudantes protestantes, em Carcavelos
dades recaem, a partir de então, sobre aqueles que e Campo Grande. Constituíam um grupo muito
vão constituir a segunda geração. E a CEI recupe- especial. Vinham das missões protestantes onde,
ra, neste processo, a sua vocação inicial. De centro paralelamente ao ensino em português, aprendiam
de acolhimento, passa a ser também, o terreno de inglês, a cultura e a língua maternas e os funda-
defesa, difusão e desenvolvimento dos ideais tra- mentos da religião de Lutero. No antagonismo
çados através de numerosas discussões, críticas entre o protestantismo praticado pelos negros e o
e duma progressiva reavaliação de métodos, liga- catolicismo praticado pelos brancos e mestiços,
dos ao aparecimento de novos problemas ideológi- encontravam as sementes do racismo que então
cos e à prática política exigida pelo desenvolvi- praticavam assim como as raízes do sentimento
mento da luta contra o fascismo em Portugal, próamericano que nunca rejeitaram. À excepção
o colonialismo em África. de Pedro Filipe e Pedro Sobrinho, quantos fre-
Desde logo, impunha-se recuperar o prestígio quentaram a CEI?
da CEI e desembaraçá-la da influência nefasta da Na CEI, as secções criadas começam a funcio-
Comissão Administrativa imposta pelo Ministério nar. Reabrem-se os debates políticos, colóquios,
das Colónias. seminários, publicam-se antologias de poesia de
Partia-se, já não de mãos vazias, mas com Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe, anto-
a experiência adquirida na militância do MUD logia do conto angolano. Iko Carreira organiza
e no PCP e em manifestações animadas pelo gru- o Índice Bibliográfico Ultramarino e a colecção de
po que se veio a chamar mais tarde e erradamente, Autores Ultramarinos dá a conhecer ao Mundo
de tendência pró-Mário de Andrade. Português as obras de africanos consagrados ou
A luta entre as várias sensibilidades volta em vias de afirmação, como Aguinaldo Fonseca,
a funcionar, centrando-se, fundamentalmente, no Luandino Vieira, António Jacinto, António Cardo-
controlo dos órgãos directivos. A CEI renasce das so, Costa Andrade, Manuel Lima, Onésimo Silvei-
suas cinzas e as actividades multiplicam-se. Sur- ra, Luís Gonzaga Lambo, Alfredo Margarido e
gem as Secções. Arnaldo Santos. A Biblioteca enriquece-se com
Na base das ideias estético-ideológicas que edições da Présence Africaine. A leitura e o debate
animaram a geração precedente, os novos acentua- tornam-se uma constante, um hábito salutar na re-
ram a sua formação estacionando noutros portos nascida CEI. A língua angolana sai do anonimato
de abrigo: as literaturas russa, brasileira, Frantz e afirma-se através de trabalhos de Mário de An-
Fanon, Sartre, Simone de Beauvoir, Brecht, Zamo- drade, Assis Júnior e Luís Gonzaga Lambo.
ra, Neruda, António Machado, Garcia Lorca, Ra- As pesquisas pessoais e colectivas foram, em
fael Alberti, Miguel Hernandez e o marxismo con- grande parte, estimuladas por estas iniciativas. Os
densado de Pulitzer. Lia-se também Agostinho novos criadores despertam e começam a andar.
Neto, Francisco Tenreiro, Viriato da Cruz, Antó- As secções de teatro e desportiva são dinami-
nio Jacinto, Noémia de Sousa e José Craveirinha. zadas. Cria-se a Semana de Recepção do Estudan-
As “farras de fim-de-semana” eram animadas com te Africano. Introduz-se, nos hábitos da CEI, os

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almoços de confraternização com os pratos típicos TUDE, recebendo ataques vigorosos de David
nacionais. Era, sem sombra de dúvida, uma orga- Bernardino e Ivo Lóio. Porém, a presença mais
nização de consenso, pois era a única que reunia notória, foi a de elementos da Companhia Brasi-
um número recorde de participantes. Como diz um leira de Maria Della Costa, Companhia Brasileira
personagem de Conversas de Sobremesa de Plu- de Procópio Ferreira e Bibi Ferreira, que apresen-
tarco: “nosotros no nos invitamos unos a otros pa- taram obras do moderno Teatro Brasileiro como
ra comer y beber sino para comer y beber juntos”. Jimba, de Janfrancesco Guarniere e o Auto da
O Grupo N’Gola Kizomba com actuações no Pa- Compadecida, de Ariano Suassuna, os Jograis de
vilhão dos Desportos e Cinema Império, em Lis- São Paulo que, curiosamente, revelaram e desper-
boa e no Teatro Avenida em Coimbra, populariza taram o interesse pela personalidade e obra de Fer-
a música angolana, sobretudo a de N’Gola Ritmos nando Pessoa, em Portugal.
e do seu carismático Liceu Vieira Dias. O Boletim MENSAGEM é a consciência viva
A CEI torna-se uma referência e sai do seu desse movimento vasto e polimorfo que as activida-
isolamento. Associados seus, como Manuel Videi- des da CEI fomentam. Nele se fixam os esforços de
ra e Mac Mahon ocupam lugares na Direcção e na construção de diversas formas de luta contra o colo-
Mesa de Assembleia Geral da Associação Acadé- nialismo português e memórias postergadas pelo
mica de Coimbra. O mesmo acontece nas associa- sorriso agreste dos vencedores. Assegura a publica-
ções de estudantes de Ciências, Medicina e Técni- ção das comunicações feitas ao longo dos debates
co, em Lisboa. E tem representação na Reunião e seminários, actividades das sessões e a revelação
Inter-Associações. dos novos valores da prosa ultramarina, despertos
Em 1958, dois associados seus — Gabriel Ma- em Portugal e nas colónias. E torna conhecida as
riano e Costa Andrade — são vencedores dos pré- vozes mais amplas da literatura negra no Mundo.
mios de poesia, conto e ensaio, respectivamente, Serão necessários mais testemunhos para justifi-
do Concurso da Comissão Cultural do Dia do Es- car a importância da CEI na vida do estudante afri-
tudante Universitário de Lisboa. Na mesma altura, cano em Portugal? O interesse crescente da jovem
Alves Preto (Tomás Medeiros) é menção honrosa geração de estudantes africanos em Portugal pela
no Concurso Literário da Sociedade Cultural de procura, descoberta e elaboração de uma orientação
Angola. O júri confessou, mais tarde, que dado político-ideológica e a perspectiva de uma acção
o conteúdo político do texto apresentado, achou mais comprometida, leva-os à efectivação de dois
por bem não premiá-lo, com receio de represálias. acontecimentos importantíssimos e que foram o cul-
Na cidade de Coimbra a música africana subs- minar de uma longa e dura gestação dum ideal de
titui o fado nas serenatas. A Faculdade de Letras luta — a criação do MAC — Movimento Anti-
abre as suas portas e no seu anfiteatro, as vozes de -Colonial — e a “fuga dos 100” — partida clandes-
Costa Andrade e Tomás Medeiros fazem a apre- tina de cerca de 100 estudantes africanos que acaba-
sentação da nova poesia africana, escrita em lín- ram por integrar — em parte — as fileiras
gua portuguesa. Em Lisboa, Gabriel Mariano, político-militares dos partidos que, com armas nas
a partir de Gilberto Freyre, faz palestras sobre mãos, protagonizaram o movimento de último as-
a realidade sociológica de Cabo Verde e lê poemas salto à cidadela colonial portuguesa em África.
seus nas instalações da Mocidade Portuguesa. Fecha-se o segundo ciclo de vida da CEI.
A Revista do Instituto de Estudos Ultramarinos O que vem depois é mais curto, mas igualmente
publica um número dedicado a África onde apare- cheio de atractivos.
cem textos de associados da CEI.
A CEI é um vulcão em plena erupção.
No seu salão de festas, recebe personalidades Os que restam, depois da “fuga dos 100”
da vida cultural e artística portuguesa — Urbano olham-se como personagens vindas de outras galá-
Tavares Rodrigues, recentemente regressado de xias ou sobreviventes dum templo em ruínas. Os
França, que faz uma palestra sobre o teatro de olhares perdem o sabor da solidariedade e come-
Jean Anouilh; Carlos Wallenstein fala de teatro, çam a fixar-se no ocaso do gesto comprometido de
em geral, e assegura a direcção técnica do recém- quem ficou com vontade de partir. A solidariedade
-criado teatro da CEI; Luís Francisco Rebelo fala morre, nasce a desconfiança. Todos se sentem,
de teatro português e Rogério Paulo disserta sobre a um tempo, acusadores/cúmplices de não terem
o trabalho do artista. Senghor apresenta a NEGRI- embarcado na grande aventura que a imaginação

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enaltecera. A PIDE está atenta e a CEI será ainda 1 Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização
o lugar de encontro e fraternidade? O desânimo de Cooperação e Desenvolvimento; Acordo Geral sobre as Tarifas
impera e alguns, os mais afoitos (ou comprometi- Aduaneiras e o Comércio, Comissão Europeia, Bundesbank, Banco
dos?) transformam os cafés Rialva e Mimo em de França.
2 The Wall Street Journal, The Financial Times, The Econo-
verdadeiros ágora onde, no meio de acesas discus- mist, Far Eastern Review e Agência Reuter.
sões político-literárias, puxavam do papel e lápis, 3 E se é possível falar-se de influências, importa, ainda que mui

soltavam a força criadora da classe operária e dos esquematicamente, salientar:


— América do Norte: Langston Hughes, du Bois, Richard
seus aliados — camponeses e intelectuais sartrea- Wright, William Gardner Smith, James Baldwin, Claude
nos ou gramscianos? — desbaratavam o poder da MacKay, Countee Cullen, Paul Laurence Dunbar, Paul
burguesia e hasteavam o estandarte do Socialismo Robson, Mahalia Jackson e Marian Anderson;
em toda a planura da folha. Enquanto isto e na ta- — Haiti: Price-Mars, Jacques Stephen Alexis, Jacques Rou-
main, Toussaint Louverture, Dessalines, Rei Cristophe;
berna quase em frente, a classe operária bebia ba- — Caraíbas: Aimé Césaire, René Maran, Nicolas Guillén, Re-
gaço e vinho tinto, falava de saias e discutia, rai- gina Pedrosa, Alejo Carpentier, Antologia de Poesia Negra
vosamente, os pormenores da vida de Benfica, Latino Americana de Emilio Ballagas;
— Brasil: Abdias Nascimento, Artur Ramos, Gilberto Freyre,
Sporting e Futebol Clube do Porto. Jorge Amado, José Lins do Rego, a poesia Essa Negra Fulô
E a CEI morre mais uma vez por imposição da de Jorge de Lima;
ordem fascista. O que se segue depois, já faz parte — Filosofia Bantu de Tempels, Antologia de Poesia Negra de
Senghor e prefácio Orfeu Negro de Sartre, Leo Frobenius,
de “cenas do próximo capítulo”. Os personagens Cheikh Anta Diop, Blaise Cendrars;
são os mesmos, os ideais são os mesmos. O que — Modigliani, Picasso, Braque, Vlaminck, Orozco, Diego de
muda, dramaticamente, é o terreno de luta. Rivera, Siqueros e Portinari.
4 Luís Gonzaga, Quatro Ases e um Coringa, Ataulfo Alves, An-
É que nas matas de Angola, Guiné e Moçam- gela Maria, Dalva de Oliveira, Dorival Caymi.
bique as balas já tinham começado a florir.

Havana, Setembro de 95. Alfragide, Outubro


de 95.

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Uma ilha africana na Duque d’Ávila
ALFREDO MARGARIDO*

A s ilhas foram sempre, no imaginário ociden- O falso acaso faz por vezes bem as coisas, pois
tal europeu, tal como no imaginário africano, lu- fui morar num prédio da Duque d’Ávila, instalado
gares indispensáveis à afirmação dos indivíduos exactamente em frente da CEI: bastava atravessar
e das culturas. Na mitologia Luba/Lunda, a terra a rua, e subir as escadas, quase sempre frementes
começa a organizar-se graças às formigas que car- de entradas e saídas. O porteiro procurava assegurar
reiam a terra fundadora, que será não só o lugar da o controlo, em nome de não sei que segurança, mas
natureza, mas essencialmente a base da cultura. não havia nenhum vero obstáculo à livre circula-
Isoladas, as ilhas permitem a independência ção. A CEI começava quando se entrava a porta:
mais plena, e nenhuma cultura conseguiu furtar-se Lisboa perdia a sua eventual louçania, para permitir
à necessidade de as inscrever na geografia indis- a construção de outras paisagens.
pensável da criação. Os africanos que o carácter Não seriam certamente nem as buganvílias da
descaroável das regras do ensino secundário e su- Alda Lara, nem as ferazes acácias rubras do Fer-
perior português obrigavam a desembarcar em nando Costa Andrade, que já fora Flávio Silvestre
Lisboa, ou na Metrópole, não podiam escapar e começara a engendrar o Ndunduma wé Lépi,
à necessidade de inventar um território, uma ilha. mas eram as violentas florações da utopia. Com
É este espaço utópico que acalenta as muitas efeito, a instituição devia permitir várias opera-
utopias que caracterizaram a vida da Casa dos Estu- ções: a primeira era certamente a de permitir que
dantes do Império, algumas das quais acabaram por os africanos recuperassem um duplo do território
se tornar realidade. Sem esquecer, contristados, aque- perdido; a segunda, devia autorizar a elaboração
las que ainda esperam realização e amadurecimento. de projectos políticos, envolvendo os diferentes
Os países africanos recuperaram a liberdade: o que aspectos da consciência nacional em via de elabo-
foi simples utopia é hoje plena realidade. A igualda- ração; sem esquecer, e seria a terceira, a necessida-
de esperada, continua completamente desatendida. de premente das relações que ajudavam a reduzir
O facto de uma utopia se não realizar, não as feridas simbólicas, provocadas pela violência
quer dizer que devamos considerá-la ou morta ou do “desenraizamento”.
anulada. Uma utopia deve amadurecer, fornecendo Não se poderá compreender o vigor do meca-
graças a essa espera, o vigor indispensável à reali- nismo aglutinador da CEI, se não considerarmos
zação dos actos indispensáveis à sua eclosão. As- os três aspectos desta problemática. No meu caso,
sim foi com a CEI: quando em 1958 voltei a de- esta situação permitia-me recuperar essa relação
sembarcar em Lisboa, impedido de viver em com a África, e mais particularmente com Angola,
Angola, senti-me amputado de alguma coisa que aprendendo inclusivamente coisas que não pudera
talvez não soubesse definir. Amputado de uma aprender em Luanda, como a aprendizagem de
parte, também, da minha utopia. umbundo, pacientemente ensinado pelo Gonzaga

* Professor universitário e investigador português. Colaborador da Mensagem e organizador de Antologias da CEI.

43
Lambo, antes de vir a sê-lo também, pelo Henri- em debater as questões mais candentes da autono-
que Abranches. mia do pensamento africano, associada ao Centro
de Estudos Africanos, criado por Francisco (José)
As consciências nacionais Tenreiro, Mário (Pinto) de Andrade, Noémia de
Sousa e alguns membros da família santomense
Num despacho famoso, proclamava uma das Espírito Santo.
autoridades administrativas angolanas — o secre- Se bem que não fazendo parte do imaginário
tário-geral Manuel da Cruz Alvura — que não se colectivo, a verdade é que o momento de transição
deviam criar estudos superiores em Angola, para político foi marcado pela guerra do Batebá, em
obrigar os estudantes africanos, e os angolanos em Fevereiro de 1953, na ilha de S. Tomé. Para pro-
particular, a estabelecer relações íntimas e prolonga- testar contra essa violência, que provocara cente-
das com a “casa lusitana”. O processo de portugali- nas de mortos, alguns torturados, sobretudo em
zação não devia dispensar, dizia o ilustre funcioná- Fernão Dias, publicou-se então o primeiro Cader-
rio superior, a relação contínua com o território no da poesia africana de expressão portuguesa.
português que, em alguns casos, se prolongaria por Trata-se do primeiro documento unitário, destina-
cinco longos anos. do a pôr em evidência a existência da consciência
Ou seja, a recusa da criação de cursos superio- dos dominados.
res nas diferentes colónias não era apenas a conse- Hoje, reflectindo a propósito dessas operações,
quência de uma visão maltusiana dos projectos verificamos que deliberadamente manifestam a ne-
culturais angolanos, mas a aplicação de um princí- cessidade de estruturas menos exclusivamente cul-
pio profundo, destinado a impedir a afirmação de turais e mais políticas. Todavia, dissolvidas as or-
pensamentos e de projectos autónomos. A Univer- ganizações políticas que tinham caracterizado
sidade não serve apenas para assegurar uma deter- a vida política dos africanos em Lisboa, só podia
minada escolaridade: ela serve também, e apetece- haver uma solução: a adesão aos movimentos polí-
-me às vezes dizer sobretudo, para permitir ticos portugueses que militavam na oposição.
a elaboração de projectos nacionais. É nas escolas Quantos africanos não passaram pelas fileiras do
que se elaboram os projectos que dizem respeito PCP ou do MUD? Não foi Agostinho Neto diri-
à comunidade nacional. gente nacional do MUD-Juvenil?
O governo português reconhece de maneira
explícita que o ensino, e mais particularmente
o ensino superior, faz parte do dispositivo técnico Da consciência nacional à organização política
do aparelho de Estado. Digamos que o governo
fascista se revelou demasiado avarento em relação Naturalmente a CEI não podia manter-se
à sua política, pois devia ter generalizado as bol- alheia à importância do debate político, fosse em
sas de estudo, para assegurar o reforço da integra- cada uma das colónias, fosse em Lisboa ou em
ção dos africanos nos quadros do que agora se de- Portugal. As condições de organização eram fun-
signa como sendo a “lusofonia”. Não o fazendo, damentais, na medida em que os portugueses eram
reduziu de forma sensível a eficácia da filosofia eminentemente colonialistas, esperando apenas, os
lusotropicalista do antigo governador de Malanje mais democratas, que o regime corrigisse os erros
e da Huíla. eventuais ou as violências.
Os estudantes africanos replicam, a princípio Creio que é essa situação que espelha melhor
com muita incerteza e até muita tibieza, como re- a condição de ilha que caracterizava a CEI: entra-
vela entre outros o texto que o Sócrates Dáskalos das as portas da instituição, dissolvia-se a ameaça
consagrou à criação da Casa de Angola, para ma- do racismo que podia pesar sobre os africanos em
nifestarem uma maior decisão à medida que se geral. Esta situação permitia que o diálogo das ge-
aproximava o fim da II Guerra Mundial, e o reno- rações se fizesse, mas exigia sobretudo uma soli-
vo da luta anti-fascista. Os angolanos esperaram dariedade contínua. Não que o racismo português
do fim dessa guerra o acesso a uma maior igualda- fosse tão brutal como passou a sê-lo posteriormen-
de, como mostraram as manifestações que se de- te mas registava-se uma violência difusa, que já
senrolaram em Angola e descritas, com pormenor Costa Alegre denunciara no século XIX, tal como
e paixão, por Mário António Fernandes de Olivei- fora claramente posto em evidência em algumas
ra: a Casa dos Estudantes do Império não hesita reportagens do principês Mário Domingues.

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Lembro-me bem da total impotência de quan- sempre nas organizações políticas da oposição por-
tos, nesses anos que, para mim, vão de 1958 tuguesa. É certo que se sucediam as intervenções
a 1964 (deixei de lado os anos 52-54), militantes ministeriais, que provocavam as comissões admi-
do PAIGC dispunham de condições de funciona- nistrativas, mas elas não pareciam chegar ao Esta-
mento eficaz em termos políticos, de relação, mes- do-maior da rua António Maria Cardoso.
mo se arriscada, com o Movimento. Os demais co- A maneira como foram negociadas as edições
nheciam situações mais esfarrapadas, sobretudo no da CEI, que incluíam autores já então votados ao
caso dos militantes angolanos, já que o nosso ódio nacional português — como nos casos de
“quiet-man” em Paris, o Paulo (Teixeira) Jorge, se Agostinho Neto e de Viriato da Cruz — sublinha
mostrava incapaz de assegurar as tarefas que pare- a consciência do risco corrido. Só a extrema cora-
ciam urgentes a todos e a mais algum. gem de Carlos Ervedosa e de Fernando Costa An-
O peso da censura obrigou os universitários de drade, permitiu que essas operações fossem levadas
então a optar pelas manifestações literárias, sobre- a cabo. Não sem choques, como o que resultou da
tudo as poéticas, como era então a moda no mun- proibição e da apresentação da segunda edição dos
do português. Não poucos deixaram-se arrastar pe- Poetas Moçambicanos, que tinha organizado, tal
la convicção de que o combate político devia ser como já tinha tido em mãos a primeira edição, que
essencialmente, quando não exclusivamente, lite- continua assinada pelo Luís Pollanah.
rário. A CEI não poderia furtar-se ao peso dos A actividade conspiratória foi por vezes tão
condicionalismos culturais que caracterizavam apaixonada que, à distância, ela revela a sua extre-
a sociedade portuguesa, se bem que enquanto afri- ma periculosidade, como no caso dos militantes
canos, todos viviam nessa situação ambígua que do PAIGC que se reuniam todas as quintas-feiras
os obrigava a partilhar os valores do colonizador. num dos cafés do outro lado da Duque d’Ávila,
Daí que a reflexão política fosse extremamente re- quase sempre sob a autoridade do Jorge Querido.
duzida, sendo sobretudo veiculada graças à ex- Digamos as coisas mais simplesmente: houve um
pressão literária. momento, difícil de datar, que se coloca entre
Não que a situação não provocasse muitos en- 1961 e 1962, em que a CEI decide pôr em funcio-
gulhos, pois já aparecera a ideia de ser necessário namento as suas próprias regras: a ilha rebelara-se.
proceder à elaboração de uma história angolana já Tal foi de resto a sensação que experimentei
inteiramente descolonizada. Creio que a ideia per- após alguns meses de afastamento, entre 1962
tenceu ao Henrique Abranches, entretanto expulso e 1963, que me viram passar pelas prisões políti-
de Angola, mas não houve tempo de a levar a ca- cas da Rua do Hermo, no Porto, Aljube e Caxias.
bo em Lisboa ou em Portugal, devido à actividade Carlos Ervedosa, que dispunha de uma extrema
política de muitos membros da CEI, manifesta- sensibilidade política, alterara as condições especí-
mente integrados em organizações da oposição ficas das edições da CEI, com pequenos cadernos
portuguesa. Mas a ideia, indispensável, sublinha as de ensaios, de que saíram apenas três (o do pró-
condições da transição para uma nova forma de prio Carlos Ervedosa, o de Onésimo Silveira e o
luta: se os poetas como Alda Lara exaltavam as meu). Passava-se claramente da afirmação poética
forças do regresso, os historiadores já tinham dado à actividade política, acompanhada pela reflexão
um passo em frente: descolar Angola do tecido teórico-política.
português, era uma actividade essencial e prece- Quando é que a PIDE se deu conta do carácter
dendo a solução política que só podia ser a inde- inaceitável da CEI? Talvez tenha sido consequên-
pendência. cia do prémio concedido a José Luandino Vieira,
ou mais simplesmente resultado da intervenção de
Amândio César numa emissão organizada por Jo-
O gato e o rato, ou a História da repressão sé Mensurado na televisão da época e consagrada
a este caso. Há quem diga que a intervenção poli-
Um dos grandes mistérios da CEI foi sempre, cial se deveu a uma fagulha de inteligência do mi-
para mim, a relativa astenia da polícia política em nistro Silva Cunha, um especialista da investiga-
relação à instituição. Certo, de tempos a tempos, ção policial... Por que não? A verdade é que se
anunciava-se a prisão de um dos membros da Casa, esperava esta medida a partir de 1961. Não havia
mas quase sempre esta operação repressiva encon- razão para surpresas, salvo a do carácter tardio
trava a sua razão de ser em actividades militantes, desta decisão.

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Balanço Mário Pinto de Andrade pôde fazê-lo na Présence
Africaine, com um eco internacional que ainda se
Haverá maneira de proceder a um balanço ob- não apagou.
jectivo? Há alguns anos atrás Fernando Mourão Tal foi uma das forças desta ilha africana em
contou-me uma história que me parece reveladora: plena Avenida Duque d’Ávila: impedir que a de-
conversava ele com o malogrado Presidente Sa- formação colonialista pudesse funcionar com ver-
mora Machel, em companhia de outras pessoas dade indiscutível e indiscutida. Quem teria dado
quando, a certo momento, verificou que tinha fica- o prémio a José Luandino Vieira se não se regis-
do sozinho com o Presidente. Este, também sur- tasse já a presença da lição e do combate da CEI,
preendido, quis saber o que se passava e Fernando editando os “clássicos” de cada um dos países ain-
Mourão, após ter lançado um rabo de olho para da colonizados? Quem, em Moçambique, teria po-
a concentração que se refizera a poucos metros, dido assegurar a edição de José Craveirinha, esse
esclareceu: “São os antigos da CEI, o senhor Pre- poeta-tambor, que queria assegurar a produção dos
sidente tenha paciência, mas vai ficar sozinho, sinais mais violentos e definitivos da apaixonada
porque eu também sou um antigo.” Sereno, o Pre- consciência nacional moçambicana?
sidente Samora Machel encontrou a solução: Creio ter percebido uma certa amargura na
“Nesse caso, eu passo também a ser um antigo da Geração da Utopia do Artur Pestana (que durante
CEI!” tantos anos foi o Pestaninha, para o distinguir dos
Quer dizer esta história que a CEI participou dois “grandes” Pestana Heineken, antes de se me-
muito activamente na elaboração e sobretudo no tamorfosear, ajudado pela guerrilha, em Pepetela);
reforço das linhas internas das diferentes cons- o projecto afinal não só não foi realizado, mas re-
ciências nacionais. A lenta mas constante degrada- gista-se uma perversão que o escritor não pode
ção da força do colonizador, deve-se ao trabalho aceitar sem pelo menos um lamento. As utopias
teórico e prático de militantes que souberam liber- possuem uma condição particular, nisso parecidas
tar-se do peso dos modelos colonialistas, isto no com os gatos: têm, quando autênticas, sete fôle-
preciso momento em que as autoridades políticas gos. Ao evocar a CEI, não posso deixar de salien-
e científicas portuguesas pretendiam impor urbi et tar o vigor dessa utopia que, mesmo amolachada,
orbi a lição do luso-tropicalismo freyriano. Se me continua a perfumar a minha existência.
fora possível denunciar esta lição num jornal luan-
dense, com pouco eco nacional e internacional, Lisboa 1996

46
Mensagem, neo-realismo e negritude
FRANCISCO SOARES*

A publicação em Lisboa da revista MENSA- nista, constituinte que seria do tipo de nacionalis-
GEM terá tido para os que nela colaboraram o sa- mo e internacionalismo propagado na e pela CEI.
bor vivo de quem sente crescer nas suas mãos um Tal ideia vem-nos, é claro, de textos anteriores.
mundo por criar. A antológica republicação que Manuel Ferreira (1976:260s) é o mais prudente ao
agora acontece (a par da próxima reedição prepa- referir para a MENSAGEM, acima de tudo, uma
rada ainda por Manuel Ferreira para a ALAC), concepção doutrinária e empenhada da literatura,
permitir-lhes-á — aos mesmos autores — uma re- chamando implicitamente a nossa atenção para
visão do que foi o caminho percorrido e a conse- a importância do paradigma neo-realista, que inte-
quente revivescência da pureza dos ideais com grara o projecto literário e cultural do nacionalis-
que se lançaram na luta pela independência cultu- mo africano no internacionalismo sustentado por
ral e política dos países a que todos pertencemos. uma estratégia de partidarização de todos os an-
Reordenação de perspectivas autobiográficas e co- seios colectivos. A citação que faz de Carlos
lectivas é, pois, o horizonte mínimo de expectati- Eduardo é significativa dessa postura integrada,
vas que nós, os que já não somos “desse tempo”, sem dúvida favorecida pelo entusiasmo que reinou
delineamos ao pensarmos nos que, “à beira dos entre a intelectualidade de esquerda após a derrota
cinquenta”, irão reler a antologia. nazi. Realça tal extracto, neutralizando as diferen-
Mas a oportunidade que agora temos de pes- ças rácicas, a unidade combativa de todos os que
quisar em textos fundamentais para a definição do “se irmanam nos mesmos problemas e aspirações,
nacionalismo e internacionalismo africano em lín- no mesmo amor à terra e suas gentes, na mesma
gua portuguesa, acompanhados por estudos actuais autenticidade e no mesmo anseio de construção
acerca dos mesmos textos, permitir-nos-á decerto duma sociedade cada vez mais perfeita”.
precisarmos a ideia do que foi a MENSAGEM de Reconhecemos assim, na MENSAGEM de Lis-
Lisboa e do seu papel na formação da elite cultu- boa, a ampliação da “emergência do discurso de
ral da época. Mais do que refazermos aqui o histo- agressividade” (CARVALHO, 1983) já anterior-
rial da publicação, das instituições e dos grupos mente levantado — por exemplo com a CERTEZA
que de alguma forma com ela se relacionam1, sen- em Cabo Verde e a CULTURA de Eugénio Ferrei-
timos preferível, para os que viemos depois, exa- ra em Angola. Tal discurso rompera “com o pen-
minar alguns dos tópicos em que assenta o retrato samento reformista da velha geração nacionalista”,
vulgarizado da literatura reproduzida nas páginas num “verdadeiro corte histórico-literário”, “epife-
da revista e das influências culturais que a enfor- nómeno da influência marxista após a Segunda
maram. Guerra Mundial e (...) uma consequência da divul-
Uma das ideias mais comuns, sem dúvida fun- gação da estética neo-realista” (MESTRE,
damental, é a referente à profissão de fé negritudi- 1989:24).

* Professor na Universidade de Évora.

47
A curta referência de Manuel Ferreira à in- mite-lhe incluir poetas brancos e crioulos, a par
fluência negritudinista no trabalho que dele citá- dos de Cabo Verde3. O critério de inserção dos
mos é a seguinte: “(...) os estudantes africanos, em poetas nas suas antologias recorda-nos mais o dis-
Lisboa, estavam interessados na teorização afro- curso legitimador do neo-realismo do que o da ne-
-negra e não só neste ou naquele aspecto da litera- gritude, como se torna claro na nota introdutória
tura africana” (p. 263). Mas na mesma página nos à Antologia Temática de Poesia Africana (1976).
é dada uma das razões porque a influência da ne- É por isso que ele elogia “o realismo social de
gritude não teria sido estimulada em Lisboa, ao Countee Cullen, Claude Mckay, Langston Hughes
contrário do que muitas vezes pensamos: “é notó- e outros”, acabando por apontar, fascinado, a poe-
rio o quase divórcio dos intelectuais portugueses sia mulata cubana (em termos tomados a Fernando
não diremos já da problemática da negritude, mas Ortiz e José António Portuondo). Nesse mesmo
de qualquer dos problemas culturais de África”. trabalho4 torna-se claro que, para Mário Pinto de
De facto, por mais interesse que houvesse por Andrade, a “negritude” é uma particular manifes-
África em Portugal (e ele não era tão pouco como tação do propósito de denúncia e do projecto parti-
da frase se depreende), não abundavam em Lisboa darizado de literatura social: “Algo mais profun-
obras sobre a negritude ou o reconhecimento da damente humano vai preencher o conteúdo da sua
pertinência das problemáticas por ela levantadas obra poética: a denúncia das injustiças sociais
e que chegavam aqui por via, sobretudo, do “fran- e em particular a presença do Homem Negro no
cesismo” e do interesse nascente pela literatura mundo de todos os homens. E é neste aspecto que
norte-americana. Nicolás Guillén é essencialmente um poeta negro:
Inevitavelmente os poetas africanos do tempo porque da sua poesia chega até nós a inquietação
seriam, pois, mais influenciados pelo “discurso do Homem Negro, a sua “négritude”5.
ideológico do neo-realismo português” (REIS, Para o autor, a literatura “essencialmente ne-
1983) do que pela negritude — o que explica ne- gra” é a da tradição oral — havendo, em relação
les a quase total ausência de marcas surrealistas à escrita, que analisar o grau de assimilação “da
que adensavam a poética negritudinista no mundo cultura do europeu e por consequência o conteúdo
francófono. Pires Laranjeira (1987:21) declara, em da obra e o problema da língua”6. Mais tarde,
consonância, ser “notório o enfeudamento à linha quando publica a sua antologia em Paris, o autor
realista, ‘engagée’ e combatente”. Este autor, po- privilegia o estudo da inserção sócio-política dos
rém, reforça a “farta” influência que sobre tal enga- autores no mundo africano, numa tendência que se
jamento exerceriam o “afro-americanismo, o pan- acentuará, gradualmente substituindo o projecto
-negrismo, o pan-africanismo, a negritude”, a par negritudinista.
do neo-realismo. O companheiro de Mário Pinto de Andrade na
De todas essas correntes, já variamente estuda- primeira antologia (Francisco José Tenreiro) —
das2, se reclamaram aqui e além intelectuais rela- que reclama a paternidade da exclusão dos poetas
cionados directa e indirectamente com a MENSA- caboverdianos — na mesma ocasião em que o faz
GEM. Mário Pinto de Andrade é talvez aquele que esclarece-nos acerca do uso do termo negritude
sublinha com maior ênfase uma filiação negritudi- nesse tempo feito pelos dois. Passemos-lhe a pala-
nista e, ao mesmo tempo, o mais francófono dos vra, sem preocupação de espaço: “De uma manei-
angolanos no seu percurso ensaístico. Organizan- ra geral era este o panorama da poesia do Ultra-
do com Francisco José Tenreiro (um poeta são-to- mar ainda em 1953. De um lado, aqueles, os do
mense muito marcado pelo meio literário lisboeta exotismo; do outro, os que procuravam exprimir
mas igualmente reivindicando-se na negritude), o que, à falta de palavras mais significativas se en-
a conhecida Poesia negra de expressão portugue- tendeu chamar negritude. Não é este o momento
sa, de 1953, à qual se seguiriam diversas outras para explicar o que então se entendia por negritu-
fundadas na mesma radicação ideológica, parece de. Foi suficientemente divulgada, amada e tão in-
o seu trabalho confirmar a importância dos movi- compreendida por alguns que de todos é conheci-
mentos culturais de afirmação negra para os estu- da já esta posição de poetas. Mas o que tem
dantes africanos da CEI. significado dizer agora, é que foram esses poetas
Mas o uso do conceito de negritude, ou de lite- que, pela primeira vez, nos ritmos livres dos poe-
ratura negra, nos trabalhos de Mário Pinto de An- mas equacionaram, aos que têm sensibilidade, as
drade, tem, também ele, que ser revisto, pois per- tensões sociais que estão na génese da problemáti-

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ca actual do mundo ultramarino”7. Na página se- no Geraldo Bessa Victor; o segundo é o da sombra
guinte, Francisco José Tenreiro reitera e precisa neo-realista sobre a concepção de negritude (quiçá
a sua definição do que chamara negritude: “Por is- já existente na origem americana do movimento),
so afirmei a propósito, em tempo já distante, que sinalizada pelo acento posto no processo de cons-
a poesia das ilhas crioulas, com raríssimas excep- ciencialização social face aos problemas africanos,
ções, não traduzia o sentimento de negritude que que a geraria.
é a razão-base da Poesia negra (.../...) Tínhamos O acento neo-realista inserido no conceito de
assim em 1953 a poesia do exótico, afastada das negritude é a marca da segunda das figuras que,
realidades miúdas da vida do homem; a negritude nas páginas da MENSAGEM, mais se aproximou
ou poesia de consciencialização do homem peran- dos posicionamentos dos intelectuais africanos
te as mesmas realidades”8. Ainda no mesmo tra- francófonos acerca do assunto: Agostinho Neto.
balho9, Tenreiro reafirma o seu conceito de negri- Num breve trabalho publicado no boletim12,
tude, “ou seja tomada de consciência dos poetas, o futuro dirigente do MPLA critica o facto de
pretos ou brancos ou mulatos, de realidades que a poesia negritudinista francófona não chegar “aos
a todos são comuns”. E profetiza que “a tendência povos africanos que são o repositório das nossas
é para uma aproximação com a poesia cabo- culturas. Poesia pensada nos gabinetes de estudo,
-verdiana logo que os poetas de Angola e de Mo- apenas tinha longínquas ligações com os verdadei-
çambique ganhem como aqueles formas de ex- ros problemas da realidade social. Encarava-se ao
pressão própria, como se o português se recriasse geral sem atender ao particular”13.
ali outra vez como língua”, terminando por elogiar Situada no cruzamento dos caminhos que con-
os poetas que “realizam, antes dos administrativis- duziram da negritude às concretizações do mar-
tas, a verdadeira política de integração das almas” xismo em África, a reflexão de Agostinho Neto
(p. 10). mescla ainda o enfoque socio-político dos proble-
O artigo de Tenreiro prolonga-se noutro publi- mas com a interpretação racial da negritude, mas
cado no número seguinte10. Nos dois parece rela- para terminar realçando a marcha “de encontro
cionar os dados que cita em função de uma rees- aos nossos povos, as nossas culturas”, “devida-
truturada visão da negritude que evitasse, por um mente valorizadas pelas mãos dos seus intelec-
lado, a sua leitura partidária e, por outro, as redu- tuais” que para tal recorreriam à ajuda dos “mui-
ções racistas ou nacionalistas do que lhe parecia tos meios técnicos que resultam do contacto com
ser a negritude. Por isso termina reafirmando que a Europa” (p. 49).
ela se sobrepunha “a regiões e a tribos, a sistemas Podemos, pois, dizer, em conclusão, que
políticos e a esquemas económicos, e se era na es- a presença da negritude e do negritudinismo na
sência pan-africanista isso representava tão so- MENSAGEM ficou esbatida pela realidade cultu-
mente uma tomada de consciência perante a Áfri- ral portuguesa e lusófona, onde o neo-realismo
ca — que seria tão frutuosa para esta como para e a tradição humanista pesavam mais do que
a Europa”11. Isto depois de sublinhar o carácter o enfoque racial já antes tentado — em sinal con-
cultural do movimento — que, no seu entender, trário — pela facção racista branca do sistema
era de raiz humanista, dele participando brancos salazarista. Daí resultou uma ideia de negritude
e negros, unidos pelo sentimento da “necessidade que não corresponde ao significado universal da
de um movimento que levasse à compreensão e re- palavra.
valorização do homem africano e das suas culturas. Como nota Venâncio (1987:66s), “enquanto
Era, com avidez, que se procurava um diálogo a negritude primou sobretudo por uma reivindica-
franco por humanista e fraterno, entre a Europa e a ção cultural (onde Tenreiro preferia que ela se
África”. Consequentemente, o autor criticaria tam- mantivesse), entendendo a cultura como fenómeno
bém o racismo ilustrado no facto de o “Comité Pré- totalitário pelo qual a dignidade do Homem negro
sence Africaine” ter passado a ser exclusivamente teria de passar (...) a africanidade em língua portu-
composto por “intelectuais negros” (p. 32). guesa traduziu-se, para além do seu aspecto euro-
O posicionamento de Tenreiro perante a evolu- peu, comparável ao movimento dos intelectuais de
ção da negritude permite-nos ainda realçar dois língua francesa, ainda num movimento integrando
aspectos: o primeiro é o da sua concordância com motivações políticas concretas”.
posições assumidas por intelectuais e artistas não Este posicionamento viera já de Luanda, onde
afectos à MENSAGEM, como é o caso do angola- Venâncio nota, no movimento dos Novos Intelec-

49
tuais, “uma superação implícita do problema ráci- FERREIRA, Manuel
co” — apesar de Viriato da Cruz, e outros, entron- (1975), No Reino de Caliban: Antologia panorâ-
carem também a MENSAGEM luandense “na mica da poesia africana de expressão portu-
corrente negroamericana que vem de Melville guesa, Vol. I, Lisboa: Seara Nova.
a Langston Hughes, Aimé Cesaire e outros” (1976), No Reino de Caliban: Antologia panorâ-
(MESTRE, 1989:24). Mas a sua raiz não é apenas mica da poesia africana de expressão portu-
política ou político-literária. É também cultural guesa, Vol. II, Lisboa: Seara Nova.
e social e prende-se com a realidade crioula vivida (1977), Literaturas Africanas de Expressão Portu-
por estes criadores (intelectuais e artistas) que guesa, 2 vol’s, Lisboa: ICALP
mais fácil e afectivamente se identificavam no KANDJIMBO, Luís
Brasil do que nos EUA. (s/d), Apuros de Vigília, Luanda: UEA. (Estudos).
A influência do Modernismo e do Regionalis- LARANJEIRA, Pires
mo brasileiros, a par da influência do neo-rea- (1987), “Formação e desenvolvimento das literatu-
lismo português, determinam assim, bem mais, ras africanas de língua portuguesa”, in Litera-
a identidade cultural da MENSAGEM. E se essas turas Africanas de Língua Portuguesa, Lisboa:
influências a determinam em termos estritos, FCG.
a vivência típica surgida nos países de coloniza- (1992), De Letra em Riste, Porto: Afrontamento.
ção portuguesa — amorosa, saudosa e aventurei- MATESO, Locha
ra — marcou em termos latos as opções estéticas (1989), La Littérature Africaine et sa Critique, Pa-
dos autores. ris: Karthala.
Como reconheceram Mário António e Manuel MESTRE, David
Ferreira, involuntariamente se acordando, a leitura (1989), Nem Tudo é Poesia, 2.a ed (revista e au-
destas produções tem por isso que ser feita pela mentada), Luanda: UEA. (2K: Estudos).
noção de “simbiose natural das duas culturas em OLIVEIRA, Mário António Fernandes de (1968),
contacto, a europeia e a africana” (FERREIRA,
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Luanda: UEA. (2K: Estudos). (1992a), Literatura e Poder na África Lusófona,
FERREIRA, Eugénio Lisboa: ICALP. (Diálogo: Convergência).
(1989), Espiral Literária, Luanda: UEA. (Estu- (1992b), Literatura Versus Sociedade, Lisboa: Ve-
dos). ga. (Palavra Africana).

50
1 Trabalho que já tem sido concretizado, embora nem sempre Janeiro a Julho de 1951, Ano III, n.o 12, pp. 1-3. A citação foi tira-
na perspectiva de conjunto que Manuel Ferreira, por exemplo, es- da das pp. 2 e 3.
boçou nos seus estudos sobre o assunto, e que são de inevitável re- 7 “Processo Poesia , in MENSAGEM. Abril de 1963, 2.a série,

ferência. Veja-se, por exemplo, no vol. II do Reino de Caliban, Ano XV, n.o 1, p. 7.
o texto “MENSAGEM / a resistência solidária”, pp. 260-264. 8 Loc. cit., p. 8.
2 — Leiam-se, por exemplo, a introdução de Manuel Ferreira 9 Loc. cit., p. 9.

à série Reino de Caliban (1975:6s) e os capítulos “Pan- 10 “Acerca da Literatura Negra , in MENSAGEM. Junho de

-africanismo” e “Negritude” do livro de Salvato Trigo, Introdução 1963, Ano XV, n.o 2, pp. 9 e ss.
à Literatura Angolana de Expressão Portuguesa, pp. 97s, e 107s. 11 Loc. cit., p. 33.
3 Sobre o alargamento a Cabo Verde do seu esforço antológico 12 “Introdução a um colóquio sobre POESIA ANGOLANA , in

e teórico, leia-se o que diz Manuel Ferreira (1975:19-20). MENSAGEM. 1960, 2.a Série, Ano III, n.o 5/6, pp. 43s.
4 “A Literatura Negra e os seus Problemas , in MENSAGEM. 13 Loc. cit., p. 48.

Janeiro de 1952, Ano III, n.o 13, pp. 11-14. 14 Leia-se, a propósito, a antologia de Mário António intitulada
5 Loc. cit., p. 14. Reler África, sobretudo os artigos das páginas 167, 233, 337, 355,
6 “A Literatura Negra e os seus Problemas , in MENSAGEM. 425, 481, 489 e 497.

51
Reflexões em torno dos contributos literários na Mensagem
da Casa dos Estudantes do Império
ANA MARIA MÃO-DE-FERRO MARTINHO*

Nota prévia aos ensaios, entrevistas e testemunhos que sobre


literatura aí se expenderam. No tocante à criação
O Boletim Mensagem, da Casa dos Estudantes literária, o texto poético em verso ocupa na Men-
do Império (CEI), tem uma inegável importância sagem um lugar privilegiado, dado que nos permi-
documental, pelo facto de ter reunido muitos no- te especular sobre a hipótese de existência de um
mes e divulgado posições que vieram a revelar-se verdadeiro movimento geracional.
fundamentais no debate cultural que a África lusó- De facto, e apesar de agrupar escritores que se
fona suscitou desde as independências. reivindicam (ou são situados) em diferentes gera-
Editado entre os anos de 1948 e 1964, conhe- ções literárias, não deixa de oferecer e dar à de-
ceu alguma intermitência na publicação, não dei- monstração um projecto comum, realizado no en-
xando de revelar uma coerência ética que é obri- tanto de modo diverso ao longo de cada uma das
gatório lembrar. Tal coerência parece tanto mais décadas de 40, de 50 e de 60.
de valorizar quanto a mobilidade dos corpos estu- Assim, durante os anos de 48 e 49, é muito vi-
dantis e directivos ao longo daqueles dezasseis sível o eclectismo das referências culturais, a par
anos poderia ter favorecido facilmente fenómenos de aproximações hesitantes às mitologias africa-
de desagregação estrutural. nas. Já durante a década de 50, torna-se mais níti-
Na verdade, e apesar das muitas divergências da a procura de um cânone de arte capaz de solu-
estéticas, o Boletim, por testemunho reiterado das cionar as contradições de uma literatura, por
suas direcções e coordenadores de Secções (en- designação, ultramarina, e na prática já consciente
quanto estas existiram), conservou-se crítico da sua individualidade. A década de 60 veio mar-
e aberto a participações diversas e por vezes clara- car claramente a reivindicação desse cânone, de
mente divergentes. dominante realista.
Aí residiu nomeadamente a sua natureza for-
mativa, e também no facto de ter feito conviver
autores já ao tempo consagrados e outros que se Eclectismo e experiência mítica
iam então revelando ou afirmando.
Hoje, com a vantagem da distância e do muito A Casa dos Estudantes do Império foi consti-
que se escreveu e disse desde os anos 60, temos tuída a partir de 1945 e na sequência da Casa de
a oportunidade de reavaliar a dimensão e conse- Angola, tendo esta sido formada em 1944, após
quências dos depoimentos e textos literários aí in- dois anos de preparação. A CEI assumiu então
cluídos. uma actividade regular, interrompida no entanto
Neste texto iremos ocupar-nos sobretudo da por comissões administrativas (de 1952 a 1957
produção poética e ficcional, embora com atenção e entre Janeiro e Julho de 1961).

* Professora na Universidade Nova de Lisboa

53
A partir de Janeiro de 63, o governo português “Regressemos, pois!... É necessário que com-
cortou subsídios e passou a impor a este organis- preendamos, e principalmente façamos compreen-
mo a presença de um professor com direito de ve- der a segundos, quão importante é o desenvolvi-
to nas assembleias (esta situação veio a culminar mento de Angola, (...)”.
no encerramento da CEI em 1964). Desta breve O entusiasmo da poetisa parece dever-se aqui
História, que podemos encontrar no número 2 de mais à certeza absoluta da sua nacionalidade ango-
Junho de 1963 da Mensagem, fácil é deduzir que lana, mesmo se definida como ultramarina, que
progressivamente a CEI se tornou incómoda e, du- a uma leitura acrítica das formas de expansão co-
rante os anos 60, por exemplo, constata-se com ni- lonial.
tidez um posicionamento cada vez mais crítico da A marca de individualidade quase autobiográ-
CEI em relação ao movimento colonial português fica da sua poética é ainda confirmada em “Re-
a par de formas de expressão literária empenhadas gresso” “Sim, eu hei-de voltar,/ tenho de voltar...,
e claramente radicadas na experiência africana. /Não há nada que me impeça!... /(...) que em fren-
Este facto não é tão visível no início de exis- te, /está a terra angolana, /a prometer o mundo
tência do Boletim. Assim, quando em finais de 40 a quem regressa!... /Oh! quando eu voltar!...
surge o seu primeiro número, vamos dar-nos conta /Hão-de as acácias, rubras, /a sangrar, /numa
da presença de alguns escritores que vinham fa- verbena sem fim, /florir só para mim...”.
zendo a sua estreia literária, o que acentua a natu- No número triplo de Abril de 1949, vamos en-
reza formativa da colaboração nesta fase, bem co- contrar o seu poema “Rumo” (datado de Fevereiro
mo o eclectismo das participações. Tais dados são desse ano e dedicado a João Dias) e uma vez mais
visíveis nas influências mútuas entre os vários es- se confirma a imagem possível de uma terra que
critores e na diversidade das referências estéticas, tem todo um caminho por cumprir e que só o po-
desde o recurso à tradição portuguesa, muitas ve- derá realizar pela aceitação da sua natureza solidá-
zes epigonal, até à mimetização frequente dos ria: “Que as minhas mãos brancas/se estendam,
clássicos angolanos (como Ayres de Almeida San- para acariciar as faces negras/dos teus filhos.../e
tos ou Viriato da Cruz), passando pela experiência o meu suor/se junte ao teu suor,/quando rasgar-
neo-realista. mos os trilhos/de um mundo melhor/...”.
Se tomarmos como exemplo o 1.o número, de Para Alda Lara, a visão de um mundo de fixa-
Julho de 1948, verificamos a participação poética ção utópica é situável no próprio espaço angolano
de Alexandre Dáskalos, António Neto, Jorge Pinto tal como o conhece e recorda, e isso é talvez o que
Furtado e Alda Lara. A todos estes poetas, Mário a faz distinguir-se mais claramente dos poetas
António reconhece uma angolanidade que tem co- Alexandre Dáskalos e António Neto. Identifica-
mo pano de fundo princípios de fraternidade mos nestes um tratamento da questão angolana
e uma expressão de base neo-realista (1990-89). menos centrado na sua própria experiência, e defi-
Quanto a nós tal facto é sobretudo evidente pa- nindo, por vezes em sentido épico, o retrato da
ra o caso dos dois primeiros escritores, já que Al- condição do negro, através de um discurso mais
da Lara assume aquilo que podíamos designar por interessado na reivindicação e na denúncia por via
postura neo-romântica, pela procura de um equilí- de transformações visíveis. “Exortação” (”A Amé-
brio formal que faz emergir a sua individualidade rica é bem teu filho/arrancado à força do teu ven-
gritante (aquilo que em nota da secção cultural se tre (...)” e ”Canção de embalar meninos pretos”,
designa por feminilidade do seu contributo e se respectivamente de cada um daqueles autores, são
confunde com excesso de optimismo, como pode disso exemplo. Assim, há uma leitura que pode-
ler-se a páginas 21 do noticiário dos serviços cul- mos designar por masculina (por diferenciação
turais). com o mencionado para Alda Lara), da situação
Ao proferir a palestra “Os colonizadores do do homem africano negro, patente também no in-
séc. XX”, que vem reproduzida no Boletim, não teresse pelos fenómenos de desagregação cultural
problematiza o termo colonial, partindo desde logo e social, pelos problemas da propriedade (como
para a definição do regresso em sentido conciliató- em “O que é S. Tomé” de A. Dáskalos, incluído
rio e gregário. Este dado é de algum modo genera- no número triplo de Out-Nov-Dez de 1948).
lizável, já que o colonialismo se apresentava por Embora estes pressupostos se nos afigurem
essa altura como fenómeno gerador de imagens de dominantes, podem apontar-se naturalmente
desenvolvimento aproximáveis às da Europa. exemplos de natureza menos reivindicativa como

54
em “Buscando o rumo, I e II, poema sobre a pro- do verso em redondilha maior, a conferir uma re-
cura de um caminho de renovação e nascimento gularidade métrica e um tom popular à composi-
(Jan de 1949), de Dáskalos ou em “Poema” de ção.
António Neto (Maio-Dez de 1949). Estes autores, do mesmo modo que os angola-
Deve merecer aqui destaque o poema “Pulso”, nos, revelam uma grande diversidade de posições
deste último autor, já que coloca a possibilidade estéticas, que podemos ilustrar entre a postura eu-
de um programa para Angola, na assunção de um rocêntrica de António Navarro, ilusoriamente pou-
projecto amplamente participado e interventivo co marcada por África como em “Poema VI”
(“(...) nós somos a terra, irmão/de que brotará (“Deveis ter uma poesia qualquer,/Mas eu apenas
o pão/para matar as fomes do futuro”). sinto a poesia aqui/No homem branco que a não
De um quadro de valores afim vive também sente,/No afeiçoar a natureza a si. (...) e a minha
a poesia de Amílcar Cabral, tanto com “Rosa Ne- casa/Gosto-a mais asa,/caiada de nuvens naturais,
gra”, em que faz dos estereótipos da mulher afri- como o acaso indique.”) e o poema exortativo de
cana argumento de uma África liberta (do mesmo Orlando de Albuquerque “Surge et Ambula” Áfri-
modo Alda do Espírito Santo, em “Luares de Áfri- ca.
ca” — Jan de 1949 — considerando que a situa- Luís Ribeiro, no domínio da prosa de ficção,
ção da mulher africana não pode ser a das lendas, escreve “Sonata”, conto publicado em 1944 em
aventuras e romances, devendo antes ver-se sobre Lourenço Marques no jornal “Agora”, uma narra-
um plano real estabelecido). tiva sobre a morte e o seu conhecimento.
Complementar a esta ideia, ocorre o sentido da Deve mencionar-se que a prosa de ficção
revolta explicitamente invocada por Amílcar Ca- é menos divulgada que a poesia neste Boletim,
bral em “Poema” (escrito em Lisboa em 1946 o que aliás mereceu da parte de Rui Nazaré, no
e incluído no número 11 de 1949). número de Fev-Abr de 49, o comentário à neces-
Tais imagens do despertar de África, do seu sidade de rectificar essa situação. Na verdade,
renascimento, hão-de encontrar, pelo menos par- tal fenómeno manter-se-á nos anos seguintes
cialmente, filiação nos movimentos pan-africanos e só na década de 60 iremos assistir a uma mais
e terão consequências no debate que ao longo das profusa ocorrência de textos ensaísticos e de
décadas de 50 e 60 se irá travar em torno da defi- contos.
nição de negritude e da sua aplicabilidade ao caso Considerando a colaboração de Cabo Verde, há
africano lusógrafo. a referir Baltazar Lopes e Aguinaldo Fonseca.
Ao longo dos vários números da Mensagem, Nestes autores é muito clara a natureza particular
de 1948 e de 1949, devem mencionar-se ainda ou- do discurso que vai manter-se sempre à parte do
tros autores pela diversidade das suas escolhas que ocorre nos restantes universos literários. Com
formais, sendo menos clara a opção por uma te- um excerto de “Chiquinho”, do primeiro, e “Estia-
mática de base africana ou de algum modo dela gem”, do segundo, revelam-se as persistentes for-
dependente. Assim, há a considerar, e de Jorge mas de representação das carências e dos fenóme-
Pinto Furtado, o recurso em “Meio-dia em Luan- nos humanos e sociais ligados à sua superação,
da” ao verso regular de 5 sílabas métricas, com ri- dadas por uma linguagem que incorpora sem con-
ma. Por outro lado, António Navarro revela a sua flito ou redundância os próprios ambientes para
formação presencista. Joaquim Pegado Cardoso, que remete.
Heliodoro Guitana, Vítor Hugo e Marilisa (esta Voltando ao que inicialmente afirmávamos,
numa imitação clara de Florbela) optam pelo re- o que mais salta à vista ao longo destes dois anos
curso ao soneto sobre motivos diversos e não ati- de edição, é a natureza simultaneamente homogé-
nentes a África em particular. nea e divergente do discurso poético. Marcado por
Sendo sobretudo notória a participação de poe- um acentuado sincretismo, dá a demonstrar, não
tas angolanos nestes números, não podemos deixar a existência de uma escola ou de um método, mas
de referir as representações moçambicana e cabo- a hesitação perante os contornos da relação entre
-verdiana. No primeiro caso, lembramos as parti- os mundos culturais português e africanos particu-
cipações de Fernando Bettencourt, Orlando de Al- lares. Por outro lado, não deixa de revelar um es-
buquerque, António Navarro, Vítor Evaristo, Vítor forço de conciliação de leituras e de discursos, su-
Matos. Almeida Santos, em “Afonso, o quioco” gerindo um caminho que se pretende convergente
recorre à mimetização do falar indígena, por meio e gregário.

55
Década de 50: procura do cânone dos princípios fundamentais da vida, etc.”. Esta
crítica, por claramente selectiva, revela também,
O início da década de 50 é marcado pela pu- em nosso entender, o facto de este boletim e os
blicação da Mensagem da ANANGOLA (cf. Ma- seus mais directos colaboradores começarem a as-
nuel Ferreira, 1968-II:26), em torno da qual se sumir opções formativas explícitas.
acentuou o debate sobre as formas de gestação da De facto, ao longo dos número saídos na déca-
poesia angolana (f. Mário António, 1990:181). da de 50, torna-se mais sensível a existência de um
Precisamente, um ponto fundamental que en- projecto agora claramente radicado em África e dis-
quadra toda a produção poética deste período é o so são sintoma, por um lado, a natureza tendencial-
da definição de critérios de nacionalidade literária. mente homogénea das colaborações literárias (so-
Francisco José Tenreiro, por exemplo, vem a dis- bretudo na temática e motivos seleccionados), por
tinguir, no número de Abril de 1963 da Mensagem outro, como antes dizíamos, as implicações ideoló-
da CEI, e referindo-se ao ano de 53, os escritores gicas e formativas do texto de opinião e ensaio.
“do exotismo” dos que “procuravam exprimir ne- A afirmação de traços distintivos no discurso
gritude (poesia da consciencialização) e ainda não deixa também de existir e revela-se pelo esfor-
a poesia da amorabilidade, a cabo-verdiana, en- ço de dar a dimensão nacional dos vários contribu-
contro generoso de civilizações”. tos. A separata de Jan-Jul de 1951, por exemplo,
Ora esta questão vinha sendo debatida também é integralmente dedicada à poesia moçambicana
por Mário Pinto de Andrade que, em ensaios refe- (com organização de Orlando de Albuquerque
rentes aos números de Jan-Jul de 1951 e de Jan de e Vítor Evaristo e incluindo poemas em grande par-
1952, “A Literatura negra e os seus problemas” se te retirados de Itinerário).
opõe a Tomé das Neves por este considerar, como “Poesia em Moçambique”, pretende ser dedi-
refere, que o homem negro não descreve o que cada à cultura moçambicana em geral, no entanto,
sente, o que lhe vai no íntimo como negro. Chama por razões de ordem económica, restringe-se
igualmente à colação as experiências de Nicolas à poesia, de acordo com informação do próprio
Guillén, Senghor e Césaire como vultos tutelares boletim.
na definição da experiência humana de dimensão Inclui “Poemas Nativos” (cantos de amor reti-
negra. rados de Usos e Costumes dos Bantos de Henry
Em literatura negra, considera aquele teórico, Junod, movimentos de um msaho de catini), estân-
a existência de uma literatura oral (transmitida nas cias de construção clássica e seiscentista (de autor
línguas nativas) e de uma outra, escrita (nos casos desconhecido) que relatam uma expedição contra
africano — quando grafada — e americano). Den- o rei de Mombaça. Fecha com o poema de Orlan-
tro da negra-africana, colocar-se-iam dois tipos de do de Albuquerque “Surge et Ambula”, conforme
problemas: o da assimilação total ou parcial da anteriormente referido.
cultura do europeu e o dos seus reflexos no con- De permeio encontramos inúmeros contribu-
teúdo da obra e no problema da língua. tos, sendo de assinalar algumas diferenças estéti-
Refere-se ainda à história da literatura negroa- cas importantes (nesse aspecto este número foge
mericana e à importância dos espirituais, sendo de à regra que prevalece para os boletins de edição
ressalvar a importância que atribui a Guillén, regular). Tal facto não será de estranhar uma vez
a quem considera um poeta negro, fundamental que uma antologia poética tem necessariamente
pela denúncia das injustiças sociais. Por estes da- que se pautar por critérios de representatividade
dos pode deduzir-se a construção de um quadro que neste caso se centraram numa selecção pano-
fortemente inspirado por posições negritudinistas. râmica.
Parece-nos de facto poder afirmar que tais toma- Em nossa opinião, dois grupos distintos são
das de posição vão inspirar a crítica e a criação li- aqui apresentados: num primeiro, sem preocupa-
terárias subsequentes, e de que aqui damos conta. ção pelo tratamento de motivos africanos, in-
Lembrando palavras de António Neto, ilustrati- cluem-se Alberto de Lacerda, (com “Ao longe
vas desta asserção, em “A decadência na poesia” a Vida” e “Princípio”), Alberto Parente, Ana Pe-
(Jan-Jul 51), enunciam-se como sintomas dessa reira do Nascimento, António Rosado, Domingos
mesma decadência, “nostalgia de infância, evasão Azevedo, Fernando Bettencourt, Manuel Aranda,
da realidade, fechamento hermafrodita das castas, Mário Vieira, Nuno Pessoa, Papiniano Carlos, Au-
narcisismo embasbacado, pulverização anárquica gusto dos Santos Abranches, Vítor Evaristo. Por

56
outro lado, temos Fonseca Amaral, José Mathias da Maianga/... e os sons do violão/e os cânticos
Ferreira Jr., Orlando de Albuquerque, Ruy de No- da Missão/(...)”. Regionalizada, a poesia deste au-
ronha, Vera Micaia, António de Navarro, etc. tor reivindica a sua angolanidade por via de uma
Deve merecer-nos referência ainda, embora experiência que ele próprio definiria como crioula
publicado em Fev de 59 e não nesta antologia, e que afirmou sempre como mais consentânea ao
o poema “Oferenda” de Marcelino dos Santos. enquadramento da expressão literária angolana.
No que diz respeito à colaboração angolana, Para José Graça (Luandino) é também a cidade
podem nomear-se múltiplos contributos. António que se revela mas desta vez enquanto espaço de
Neto e a sua coluna de crítica literária, excertos de aculturações através das figuras típicas (a quitan-
Etnografia do Sudoeste de Angola do Pe. Ester- deira, sinédoque explícita de Luanda, aquela
mann, textos de ensaio, poesia. Quanto ao ensaio a quem vestiram panos americanos de várias co-
deve lembrar-se “Panorama da Literatura em An- res: Fev de 58). Dimensão idêntica é assumida por
gola” de Pedro Sobrinho (Maio de 58?), que cons- Cochat Osório em “Dominga”, criada de senhoras
tata o “lamentável atraso em que se encontra a li- na cidade (Jan de 59). Nestes casos, é a dominante
teratura angolana”; para ele, a única virtude em sociológica que perspectiva os fenómenos diversos
termos de recepção desta literatura, reside no aco- de assimilação.
lhimento favorável aos textos de Viriato da Cruz Nando Nangola (Costa Andrade), escreve “Ca-
e Maurício Gomes, uma vez mais lembrados como lema” (Mar de 58), um conto sobre a imagem mí-
pioneiros. E recorda ainda a importância de Agos- tica das águas que se elevam e arrastam o homem
tinho Neto, na expressão de dramas do homem ne- fazendo-o participar da sua natureza. António
gro, na definição da certeza num mundo em mu- Fonseca centra a formulação da “Identidade” (Mar
dança (Mário António refere-se-lhe como o único de 58), num sujeito transformável na definição de
poeta de facto negritudinista de Angola; 1990:89). um homem futuro numa terra por alcançar: “ale-
Por outro lado, Pedro Sobrinho lembra Antó- gria daquilo que serei”.
nio Jacinto por captar os anseios do povo angola- Ocorre por outro lado, agora de modo mais
no através de uma linguagem baseada num Portu- explícito, a referência ao contrato, à natureza coer-
guês já radicado na experiência angolana. civa das disposições sobre propriedade e cultivo
Quanto ao romance, considera que o maior (como em “O beijo do cacimbo já se foi”, de Hen-
problema é o de até aí só os brancos terem tido rique Guerra; Fev de 59). Também António Jacin-
acesso à edição. E lembra Assis Júnior (o primeiro to em “Carta de um Contratado” (Fev de 59) assu-
negro a oferecer um livro, O Segredo da Morta), me claramente uma posição crítica, embora sem
Óscar Ribas (pelo retrato fundamental dos povos omissão lírica, face à situação de despojamento
do Norte de Angola nos primeiros tempos da colo- afectivo e de ruptura dos laços impossíveis do
nização portuguesa), apontando como o mais sig- contratado, aqui representados metaforicamente na
nificativo Castro Soromenho, com Terra Morta. imagem do iletrado.
Finalmente, deixa uma referência a Mário Pinto de Ainda desta vez em representação de S. Tomé,
Andrade pelas suas traduções e versões de contos Alves Preto em “Um homem igual a tantos” (Fev
tradicionais. 59), lembra “êsse terra de S. Tomé é mais pior que
De Mário de Andrade “Muimbu ua Sabalu” tudo, dizia. Manguço vai na roça contrato; vem
(Fev. de 59), em tradução do quimbundo, reitera na cidade, Manguço é vadio. É mais pior que tu-
a afirmação de uma escolha radicada em Angola do.”. Do mesmo modo ocorre, em “1619” (Jan de
e a existência de uma literatura grafada em línguas 52), de Francisco José Tenreiro, que sobre a escra-
locais (tal como em Tomás Medeiros, que escreve vatura privilegia também a dimensão do sofrimen-
em crioulo de S. Tomé e traduz “Maxibim Poçon”: to do afastamento da terra-mãe: “e já os teus olhos
Jan de 59), a amplificar as posições em torno da estavam cegos de negrume/já os teus braços arro-
definição de ser africano e das consequências de xeavam de prisão/já não havia deuses, nem batu-
uma postura africana na escrita e na leitura literá- ques/para alegrarem a cadência de sangue nas
rias. tuas veias...”. Tal evocação é igualmente reiterada
Mário António mantém, em “Poema” (Jan de por Maurício Gomes com “Estrela Pequenina”
59), a sua leitura lírica de Angola, e uma visão (Mar de 58) (Olhai a noite que chega,/Veludo ne-
sempre comovida da terra angolana na sua dimen- gro tecido/De mil pedaços de pele/Arrancados
são sobretudo urbana: “Noites de luar no morro a chicote”.

57
Alda do Espírito Santo enfileira por seu turno ensaio e o texto de opinião, a reforçar uma compo-
com os cabo-verdianos ao lembrar imagens da vi- nente mais claramente opinativa e posições nítidas
vência crioula de S. Tomé “Para lá da praia” (Fev sobre literatura e empenhamento e nacionalidade
de 59), “Mamã minha serena/na venda do peixe.” literária.
Ainda para a definição de universos crioulos A postura oficial do boletim não deixa no en-
insulares há que lembrar de Luís Almeida Cabral tanto de ser a de reforçar o diálogo e o encontro de
o conto “Dor de Consciência” (Jan-Jul de 51), re- consensos no debate entre ultramarinos e metropo-
trato da fome em Cabo Verde, de Gabriel Mariano litanos (cf. nota de abertura do número de Jan de
“Calendário” (Mai de 58?) (“A fome é o oitavo 1960). A par de tal princípio, refere-se a geração
dia/ do calendário das ilhas/Há quem descanse universitária de 62 como protagonista dos valores
aos domingos/nós descansamos na morte.”) e de da CEI, por particularmente empenhada no comba-
Aguinaldo da Fonseca a permanência da estiagem, te e reivindicação de direitos associativos.
da solidão, da ilha enquanto espaço tendente à via- A partir do primeiro número deste período
gem e à saudade como em “Canções dos rapazes (Jan de 60) inaugura-se então uma série de deba-
da ilha” (Jan de 58). tes que é forçoso lembrar.
Toda esta diversidade de contributos remete pa- Neste caso, e em texto da autoria de Fernando
ra o que, em Abril de 1957, Marques Mano de Mourão, aí se dá notícia e comenta a “Antologia
Mesquita designava como o pioneirismo deste bole- de Poesia Negra de Expressão Portuguesa” de Má-
tim no mundo do espírito reiterando a intenção de rio de Andrade com relevo para as suas ideias
dar a conhecer as províncias, esforço que a direc- fundamentais segundo aquele crítico: o orgulho de
ção considerava conseguido durante a década então ser negro e opressão colonial figuram a par na de-
finda. Por outro lado, relembrava a intenção expres- finição de uma poesia que pressupõe o engaja-
sa desde a primeira hora de aproximar os ultramari- mento político revolucionário e que se vê prova-
nos e os metropolitanos (cf. Nov de 1957). velmente condenada a atingir apenas as minorias
Durante os anos 50 são visíveis algumas afini- africanas.
dades ainda com os boletins de 40 nas intenções Ainda “Acerca da Literatura Negra”, Francisco
aí expressas. Reside precisamente na incompletu- José Tenreiro (Jun 63), distingue caboverdianida-
de do processo de constituição de um cânone de de (assimilação: fusão de todos os elementos em
arte específico deste conjunto de participações contacto no arquipélago) e cubanidade (acultura-
aquilo que o distingue do que durante os anos de ção: equilíbrio de culturas numa mesma área),
60 se fez e que é notório pela quantidade de teste- conceitos que vê como necessários a uma adequa-
munhos trazidos a público em apenas quatro anos da compreensão dos fenómenos literários africa-
e até ao encerramento da CEI. nos particulares.
Fácil é deduzir, por este quadro, que se proce- Por outro lado, em conversa com Arnaldo San-
de de modo visível à procura de formação de um tos (Fev 60), Angolano de Andrade (Costa Andra-
quadro de gosto e produção que eleja como refe- de) interroga-o sobre a situação da literatura ango-
rências primeiras os pioneiros de uma literatura de lana, ao que aquele escritor responde evocando
raiz angolana e que claramente acolha pressupos- influências da Mensagem na poesia de então e ci-
tos estéticos de conciliação com os universos cul- tando como nomes mais representativos Viriato da
turais originais e os de base urbana mas caldeados Cruz e Mário António seguidos de Tomás Jorge
em referências de dimensão nacionalizante. e Ermelinda Xavier. Angolano de Andrade conclui
Prefigura-se por outro lado com alguma noto- referindo que Arnaldo Santos é um dos nomes
riedade a definição de uma semântica da liberta- mais importantes da nova geração de Angola. (Pa-
ção com base nas matrizes de um discurso africa- ra Mário António ele será de facto o mais repre-
nizado e progressivamente tendente a abandonar sentativo pela originalidade e maturidade literária
o traço temático europeu. precoce).
No mesmo número, encontramos dois poemas
deste autor (“Recordação” — Um velho ardina)
Anos 60: fixação do cânone “E eu, menino,/Não via a tua mão pendente/Defi-
nhada torção marca da sorte/Balançando ao rit-
Durante os anos de 1960 a 1964 revelam-se mo do teu canto...//-Uola mono, uola tala,/-Uola
muito importantes nos números da Mensagem o mono, uola mono...” e um outro não titulado:

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(“A marcha lenta dos teus passos...”). No número -se sobre o sentido de poesia ultramarina: poetas
de Abril de 63 o conto “A Menina Vitória”, hoje ou poesia nascidas nos territórios portugueses de
sobejamente conhecido, é um retrato assinalável África ou de Ásia? Ou de todos os poetas vividos
da dimensão de fenómenos de segregação vividos naquelas terras? Ou ainda de todos os que aí fo-
por dentro da própria realidade angolana, através ram publicados?
de motivos que hão-de ser profusamente retoma- Não considera que exista ainda um movimento
dos e em que a Escola é lugar eleito para a defini- literário organizado, por falta de ambiente propício,
ção dos limites fortemente codificados das dife- por falta de jornais e publicações. Lembra como ex-
renças social e racial. cepção os “Novos Intelectuais de Angola” e a sua
De Viriato da Cruz, por ele evocado, iremos Mensagem (Pena que só tenha sobrevivido dois
encontrar “Serão de menino” (Fev 60) a fazer-nos anos por timidez de uns e incompreensão de ou-
lembrar as noites de antigamente, junto às avós, tros) e nomeia Viriato da Cruz, António Jacinto
entre cantos bantus, nesse efeito recorrente da me- e Agostinho Neto como os vultos a considerar na li-
mória que este poeta tão bem recupera. No núme- teratura angolana, e por esta ordem de importância.
ro de Mar-Abr 60 reproduz-se o poema “Namo- Adianta que, como a poesia do Brasil, a de
ro”, de inesquecível sensibilidade e beleza rítmica. Angola é produto de mestiçagem e pode ser uma
Sobre este poeta diz Mário António (números base de entendimento preferencial em sociedades
516 de 60): “O seu vulto preenche as décadas dos pluriraciais: “Na minha opinião, tirando a poesia
anos 30 e 40, em Angola, alcançando projectar no tradicional dos povos africanos, tudo o que se tem
futuro, em valores míticos, as mais brilhantes des- rotulado de negro é já uma poesia mestiça.”
cobertas da sua sensibilidade. Quem não conhece (O número de Junho de 63, irá incluir o seu
ou não terá repetido ou não terá sentido, uma vez, poema “Amor de África” (”Aqui estou agora de
modelar-lhe como um arquétipo, a afectividade ou coração em África/nesta noite fria e nu do capote
o pensamento, versos como estes, que ficaram das ilusões/ouvindo este sábio que tudo sabe tudo
constituindo símbolos?”. sabe de África...), que reafirma as inquietações
Em uma outra entrevista, com Carlos Ervedosa que lhe conhecemos sobre o futuro da sua terra).
e conduzida por Tomás Medeiros (Mar-Abr 60) Em comentário de Abril de 63 ao 1.o Encontro
reforça-se o facto de aquele autor ser organizador de Escritores, em Sá da Bandeira, contesta-se
de antologias de poesia e contos angolanos, com a sua natureza, considerando que dele participaram
preocupação pelo património cultural de Angola sobretudo autores que não podem considerar-se
e refere-se que a ideia de publicação destas colec- angolanos. Sem a presença de António Jacinto,
tâneas vem da necessidade sentida de ultramarini- Luandino ou António Cardoso, reforça-se, como
zar a Casa. aí se diz, a ideia de afastamento das autênticas
Entrevistado e entrevistador, discutem os crité- realidades angolanas e de esquecimento das refe-
rios seguidos para a antologia publicada em Nova rências autóctones.
Lisboa por considerarem que nela há muitos escri- Nos números 5/6 de 60, Agostinho Neto, por
tores que não deveriam figurar como angolanos. seu turno, em “Introdução a um colóquio sobre
Aqui, uma vez mais, se verifica um esforço de poesia angolana” refere o desconhecimento das
conduzir o entendimento da nacionalidade na cria- línguas africanas como um fenómeno que impede
ção literária (sobre esta mesma ideia Alfredo Mar- a aproximação do intelectual ao seu povo, cavan-
garido irá pronunciar-se adiante, como referire- do-se um fosso cada vez mais nítido entre assimi-
mos). lados e indígenas: “A poesia que neste momento
Diz Ervedosa: “Considero intelectuais angola- podemos conhecer, é moldada nos mesmos qua-
nos todos os brancos, negros ou mestiços, naturais dros estéticos da poesia portuguesa, acompanhan-
ou não de Angola, que numa simbiose natural das do esta na sua evolução e sendo quase sempre
duas culturas em contacto, a europeia e a africana, poesia de compromisso. O poeta angolano, quase
se irmanam nos mesmos problemas e aspirações, sempre toma uma posição perante a realidade so-
no mesmo amor à terra e suas gentes, na mesma cial. Vêmo-lo revoltado, ansioso, rejubilante por
autenticidade e no mesmo anseio de construção du- contribuir para a construção de uma vida harmo-
ma sociedade cada vez mais perfeita”. niosa entre os homens”.
A propósito da mesma questão, Francisco José Considera ainda a importância dos laços de
Tenreiro em “Processo Poesia” (Abr 63) interroga- fraternidade existentes entre os negros de todo o

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mundo e admite também a existência de um mun- Lara Filho vem representado (Nov 62), com
do cultural de miscigenação. o poema “Pergunta”, do mesmo modo que Mário
Da autoria de Alfredo Margarido vamos en- António (31 Mai 62), com “Crónica da cidade es-
contrar (Ago 62) “Crítica Literária”. Aqui se refe- tranha”, história do homem não urbanizável:
re sobretudo a Rodrigues Júnior, considerando-o “Quando acabar aquela construção, ele não po-
um epígono das teorias luso-tropicalistas (que, em derá ficar mais na gaiola esterilizada que lhe ar-
sua opinião, não resistem a um exame profundo) ranjaram, porque ele não é pássaro que se con-
preocupado apenas com os aspectos superestrutu- tente com painço”.
rais da sociedade. Em Abril de 63, no texto Como antes dizíamos, ao contrário das figuras
“A poesia moçambicana e os críticos de óculos” que vamos encontrar em Luandíno, já urbanizadas
discute o conceito de negritude para Rui Knopfli mas descontentes e revoltadas, as personagens
a partir da sua crítica à edição dedicada à poesia e figuras que Mário António evoca, interrogam-se,
de Moçambique e considera que ele tem precon- são profundamente complexas.
ceitos de cor que não lhe permitem ser mais claro. No número de Novembro de 62 seleccionam-
Rui Knopfli, no n.o 1 do ano XIV de 61(?), -se os poemas que mereceram destaque no prémio
e no poema “Naturalidade”, interrogava-se sem “Alexandre Dáskalos” da CEI: de José Craveiri-
preconceito sobre a sua formação europeia e a sua nha “3.a ode ao Inverno”: na cidade maquilhada
vivência africana: “(...) Não sei se o que escrevo e sem alma; de António Cardoso “Oferta” (Sou
tem a raiz de algum/pensamento europeu./É pro- a quitandeira mais doce... quem quer a minha vi-
vável... Não. É certo,/mas africano sou./ Pulsa-me da para adoçar os seu cansaços?); “A cidade” de
o coração ao ritmo dolente/desta luz e deste que- Tomás Jorge; de Onésimo Silveira “Um poema di-
branto... ferente” e de Mwene Kalungo-Lungo” (Henrique
Na continuação do primeiro texto, Alfredo Abranches), “Nós somos o vendaval” (recuperação
Margarido, em “do poeta Knopfli à cultura mo- de mitos angolanos).
çambicana” preocupa-se agora sobretudo com De Agostinho Neto iremos encontrar (Jan 60)
a questão da língua “quem escreve em Portu- o poema “Quitandeira” e “Certeza” (III série,
guês”, “quem fala a língua portuguesa”, refor- ano XIV) “(...) não me peças sorrisos/Que ainda
çando a importância da poesia comprometida co- transpiro/os ais/dos feridos das batalhas”.
mo a única capaz de definir o ponto de encontro António Jacinto vem, naturalmente, represen-
entre as formas da poesia erudita e as formas da tado, com (Mar-Abr 60) “Castigo pró comboio
poesia popular: “Os artistas (qualquer que seja malandro” (...) Tem bois que morre no viagem/
a sua especialidade) só podem legitimar-se em mas o preto não morre/canta como é criança:/Mu-
Moçambique quando profundamente radicados londo iá Quéssua uádibalé/(...) e (Jul de 64) “Era
nos quadros humanos ali presentes.” uma Vez”: “Vôvô Bartolomê, ao sol que se coava
(O confronto directo de ideias está também da mulembeira/...” Da autoria do seu heterónimo,
presente na apreciação de Lúcio da Câmara a uma Orlando Távora, “Prometeu” (Mar-Abr 60) é um
crítica paternalista por parte de Marisabel Xavier apontamento narrativo que faz a recuperação do
de Fogaça, a propósito da literatura que se escreve mito e sua actualização: sangue, morte, “o sangue
em Angola: III série, ano XIV). e o corpo dele se confundiram com o chão, ávido,
Quanto a Alfredo Margarido, vamos encontrar sereno e bom”, renascimento.
um outro texto da sua autoria sobre Alda Lara (31 Costa Andrade vai retomar em “Contratados”
Mai 62). (A partir de nota sobre a sua morte (Fev 60) o problema da distância mas também
(30.1.62), lembra-se que aquela poetisa pertencia o entendimento tácito de um dia por vir. Dessa es-
à geração universitária de 45-50). Considera perança participa igualmente a poesia de António
a poesia de Alda Lara incompleta, porque vive Cardoso (5/6 de 60): ”Amanhã,/vai nascer um
fundamentalmente do mundo da infância ou de SOL maduro/Por cima do meu telhado(...) Vai
uma primeira fase da adolescência. “Poesia dupla- nascer um SOL maduro! Por cima do capim po-
mente exilada...”, permite-lhe introduzir a suspeita dre/ Dos meninos pobres sem nada”.
de que a sua angolanidade não se terá apoderado Outros contributos angolanos são os de Carlos
dos elementos mais significativos. Refere-se ainda Ervedosa (Jul 64), prosa poética sobre a força si-
à importância de um triângulo escolar (Benguela, nestésica da chuva em África, de Antero Abreu
Nova Lisboa, Sá da Bandeira). “Canto anónimo” (Mar-Abr 60?), de Benúdia (Má-

60
rio Lopes Guerra) “O caçador e o vento” (Mar-Abr Príncipe” — Abr 63; Alda do Espírito Santo (Jun
60?), narrativa inspirada na tradição africana “o to- 63, “Angolares”: “E os angolares na faina do mar,/
cador de quissange continuava a cantar a balada tem a orla da praia,/ as cubatas de quissandas,/ as
de Dumba e Iatoua” e de Maria João Abranches. gibas pestilentas,/ mas não tem terras.//(...) ”).
“Poema” (5/6 de 60) “Entrou uma coisa.../ Talvez (A terminar, uma referência a Ilídio Rocha, de
cazumbi.../ que deu força nela.(...)” quem se publica “A Praia”, prosa poética-Jun 63,
Luandino é um caso particular neste quadro, e a Craveirinha com “Grito Negro”: “Eu sou car-
dado que se ocupa quase exclusivamente do texto vão!/E tu arrancas-me brutalmente do chão/ e fa-
em prosa e podemos enumerar (Fev 60) “Quinzi- zes-me tua mina, patrâo...”).
nho”, (5/6 de 60) “Faustino” (assinado por José Assim se afirma a Mensagem como uma au-
Graça), (III série ano XIV) “Zé (Fintacai) Augus- têntica tribuna em que o debate assume cada vez
to” e (Jul 64) “Mestre Gil, o Sobral e o barril”, maior expressão e menor ocultação de sentidos ou
narrativas em que dominam, fácil é inferir, os re- de opiniões.
tratos de personagens e as situações típicas de uma Assim se alarga a afirmação própria de escolhas
vivência quase sempre suburbana e amarga. São estéticas e éticas, mais nítidas no protesto e na rei-
narrativas de dominante realista explícita, como se vindicação, mas igualmente se anuncia o encerra-
pode ler em “Faustino”: “Não foi a don’Ana que mento da CEI, que não sobrevive ao endurecimento
me contou, não senhor. Esta história eu vi mesmo, da política ultramarina nem aos efeitos dos confli-
outra parte foi ele mesmo que contou.” tos que então se tornam incontornáveis.
Entre os mais jovens, em secção destinada a re-
velar novos nomes, podem referir-se Alves Montei-
ro (Manuel Rui), Artur Carlos Pestana, Maria do Mensagem da CEI: Índice de ocorrências
Céu e Carmo Marcelino (31 de Mai de 62). literárias (Poesia, Conto, Ensaio)
De Cabo Verde, novamente temos Aguinaldo
Fonseca (“Chuva” (Mar-Abr 60) “Chuva!/(...) Ao longo deste índice, as datas que referimos
Canção bendita, canção do berço e da vida...”; são as que o próprio boletim nomeia; fácil é no
“Terra Morta” (III série Ano XIV)). Devem no- entanto verificar algumas incoerências cronológi-
mear-se ainda textos de Jorge Barbosa, “Cami- cas (cf. Gerald Moser e Manuel Ferreira —
nho”, Ovídio Martins (“Chuva em Cabo Verde”: 1983:30).
31.5.62; “Mudança” — escrito em crioulo — Jun
63), Dante Mariano (Ago 62: “Fidelis”, conto que ANO I
inaugura neste boletim a narrativa cabo-verdiana N.o 1 Julho 1948
— “Clandestino na América do Norte. Rixas em “Os colonizadores do séc. XX”, Alda Lara
todos os portos. Trânsito parado na rua de “Exortação”, Alexandre Dáskalos
S. Paulo. Fidelis, taberna, esquadra.”) e António “Canção de embalar meninos pretos”, António Neto
Nunes (Abr 63: “Terra” — “Nha Chica, conte-me “Meio dia em Luanda”, Jorge Pinto Furtado
aquela história/ de meus irmãos/ hoje perdidos/ Excerto de “Chiquinho”, Baltazar Lopes
no mundo grande...”). “Regresso”, Alda Lara
Outras presenças insulares, desta vez em
S. Tomé e Príncipe: Tomás Medeiros (Fev 60), N.o 3 Setembro 1948
com um soneto, (5/6 60) “O novo canto da mãe”: “Vertigem”, Fernando Bettencourt
“Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,/(...) Mãos
que esfacelaram a espessura dos obós/ E em cujo N.os 4-5-6 Outubro-Novembro-Dezembro 1948
silêncio verde/ germina a CERTEZA e (III série “Momento”, Rui de Sequeira Nazaré
ano XIV) “Canção do ilhéu”; Alves Preto (“Acon- “O que é S. Tomé”, A. Dáskalos
teceu no morro” números 5/6 60, narrativa sobre “Poema VI”, António de Navarro
feitiços, tradição e morte” (...)Silêncio. Mê Létche “Beijo de mulher” I e II, Joaquim Pegado Cardoso
pensava nos 20 mil réis que o feiticeiro pedira, “Os mortos perguntam”, António Neto
nos aviamentos e na sua algibeira vazia (...) No “África”, Orlando de Albuquerque
Riboque, as noites não deixaram de ter um luar “Angústia”, Heliodoro Guitana
vivo, nem as casas candeeiros cuspindo fagulhas “Crepúsculo tropical”, Vítor Hugo
de luz”); Manuela Margarido “Memória da ilha do (Evocação de Eugénio Tavares e de Januário Leite)

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N.o 7(?) Janeiro 1949 “Calema”, Nando Nangola
“Momento”, Rui Nazaré “Identidade”, António Fonseca
“Poema”, Visamar (Poema de António Nobre e excertos de “Etnogra-
“Estiagem”, Aguinaldo Fonseca fia do Sudoeste de Angola”, Pe. Estermann)
“Rosa Negra”, Amílcar Cabral “Estrela Pequenina”, de Maurício Gomes
“Luares de África”, Alda do Espírito Santo
“Que importa?”, Marilisa ANO I
“Buscando o rumo I e II”, Alexandre Dáskalos N.o 6 Maio 1958(?)
“Panorama da Literatura em Angola”, Pedro Sobrinho
N.os 8-9-10 Fevereiro-Março-Abril 1949 “Um conto igual a muitos”, Costa Andrade
“Momento”, Vítor Evaristo “Calendário”, Gabriel Mariano
“Escultura”, Vítor Matos
“Rumo”, Alda Lara ANO II
“Partida”, Vítor Evaristo Janeiro 1959
“Teatro”, Orlando de Albuquerque “Pangu’ié pensou”, Benúdia
“Porto ao longe”, Fernando Bettencourt “Lembrança de Parafuso”, Arnaldo França
“Samba”, Noémia de Sousa
ANO II “Maxibim Poçon”, Tomás Medeiros
N.o 11 Maio a Dezembro 1949 “Poema”, Mário António
“Pulso...”, António Neto “Dominga”, Cochas Osório
“Momento”, Rui Nazaré “O bolo rei que ninguém comeu”, Armando Couto
“Sonata”, Luís Ribeiro
“Poema”, Alexandre Dáskalos ANO II
“Poema”, Amílcar Cabral N.o 2 Fevereiro 1959
“Soneto”, Marilisa “O beijo do cacimbo já se foi”, Henrique Guerra
“Afonso, o quioco”, Almeida Santos “Carta dum contratado”, António Jacinto
“Ilhas”, Gabriel Mariano “Pura saudade da poesia”, Osvaldo Alcântara
“Poema”, António Neto “Muimbu ua sabalu”, Mário de Andrade
“Oferenda”, Marcelino dos Santos
ANO III “Para lá da praia”, Alda do Espírito Santo
N.o 12 Janeiro a Julho 1951 “Um homem igual a tantos”, Alves Preto
“Ensaios”, Mário Pinto de Andrade, António Neto
e Luís Almeida Cabral ANO III
Separata de “Poesia em Moçambique” N.o 1 Janeiro 1960
“Jonga”, Angolano de Andrade(?)
ANO III (ou IV?) “Quintadeira”, Agostinho Neto
N.o 13 Janeiro 1952 “Nkelipetamena”, conto cuanhama
Continuação do texto anterior de Mário Pinto de “Povo”, Aguinaldo Fonseca
Andrade “Rua sem sol”, Homero Pires
“1619”, Francisco José Tenreiro
“Crítica Literária”, António Neto N.o 2 Fevereiro 1960
Vários poemas de Orlando da Costa “Conversando com Arnaldo Santos”, Angolano de
Andrade
Janeiro 1958 “Quinzinho”, Luandino Vieira
“Canções dos rapazes da ilha”, Aguinaldo Fonseca “Contratados”, Costa Andrade
“Soneto Imperfeito”, Tomás Medeiros
N.o 3 Fevereiro 1958 “Serão de menino”, Viriato da Cruz
“A ilha, o luar e a solidão”, Aguinaldo Fonseca “Recordação”, Arnaldo Santos
“Luanda — quintadeira negra a quem vestiram pa- ——, Arnaldo Santos
nos americanos de várias cores”, José Graça
N.o 3-4 Março-Abril 1960
N.o 4 Março 1958 “Conversando com Carlos Ervedosa”, Tomás Me-
“Estiagem”, Aguinaldo Fonseca deiros

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“O caçador e o vento”, Benúdia ANO XIV
“Prometeu”, Orlando Távora N.o 3 Agosto 1962
“Castigo pró comboio malandro”, António Jacin- “Luanda”, Luandino Vieira
to “Fidelis”, Dante Mariano
“Caminhada”, Costa Andrade “Crítica a Rodrigues Júnior”, Alfredo Margarido
“Certeza”, Agostinho Neto “Se me quiseres conhecer”, Noémia de Sousa
“Canto anónimo”, Antero Abreu
“Namoro”, Viriato da Cruz N.o 4 Novembro 1962
”Chuva”, Aguinaldo Fonseca “3.a ode ao Inverno’, José Craveirinha
Conto mandinga “Oferta”, António Cardoso
“A cidade”, Tomás Jorge
ANO III “Um poema diferente”, Onésimo Silveira
N.o 5-6 1960 “Nós somos o vendaval”, Mwene Kalungo-Lungo
“Aconteceu no morro”, Alves Preto “Pergunta”, Lara Filho
“Poema”, Maria João Abranches
“O Novo canto da mãe”, Tomás Medeiros ANO XV
“A estrada” (lenda negra traduzida por Manuel N.o 1 Abril 1963
Lima) “Processo poesia”, Francisco José Tenreiro
“Tomás Vieira da Cruz”, Mário António “Mãe”, José Craveirinha
“Faustino”, José Graça 1.o Encontro de Escritores
—, António Cardoso “Buganvília”, “Girassóis”, Luandino Vieira
“Introdução a um colóquio sobre poesia angola- “A menina Vitória”, Arnaldo Santos
na”, Agostinho Neto “Memória da ilha do Príncipe”, Manuela Margarido
“Caminho”, Jorge Barbosa “A poesia moçambicana e os críticos de óculos”,
“Críticas a Contistas Angolanos” Alfredo Margarido
“Terra”, António Nunes
ANO XIV
N.o 1 1962 N.o 2 Junho 1963
“Canção do ilhéu”, Tomás Medeiros “Acerca da literatura negra”, Francisco José Ten-
“Zé ‘Fintacai’ Augusto”, Luandino Vieira reiro
“Certeza”, Agostinho Neto “Angolares”, Alda do Espírito Santo
Crítica literária “Meninos do musseque”, Luandino Vieira
“Naturalidade”, Rui Knopfli “A Praia”, Ilídio Rocha
“Terra Morta”, Aguinaldo Fonseca “Do poeta Knopfli à cultura moçambicana”, Alfre-
“Poema”, Arnaldo Santos do Margarido
“Mudança”, Ovídio Martins
ANO XIV “Amor de África”, Francisco José Tenreiro
N.o 2 31-Maio 1962
“Crónica da cidade estranha”, Mário António ANO XVI
“Presença”, Alda Lara N.o 1 Julho 1964
“Interpretação da poesia de Alda Lara”, Alfredo “Galinha branca”, Pedro Corsino de Azevedo
Margarido “Poema sonho”, Craveirinha
“Regresso”, Alda Lara “Conto oral muchope”
“Poema”, Alves Monteiro “Infância — conto poético”, Tomás Jorge
“Velho João”, Artur Carlos Pestana “Mestre Gil, o Sobral e o barril”, Luandino Vieira
“Negro Joaquim”, Maria do Céu “Grito negro”, José Craveirinha
“Poema”, Carmo Marcelino “Chuva-mãe”, Carlos Ervedosa
“Crítica Literária” Conto popular angolano (rec. por Luandino Vieira)
“Chuva em Cabo Verde”, Ovídio Martins “Era uma vez”, António Jacinto
“Cantiga do negro batelão”, José Craveirinha “Inventário de imóveis e jacentes”, L. Bernardo
“Ivone”, José Ramalho “Poema”, “Luanda 53”, Mário António

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«Eu não vejo essa África»
A Casa dos Estudantes do Império e as imagens de África e do Africano
JOÃO CARLOS PAULO*

E m “Luares de África”, texto publicado em transmitir as esperanças e sofrimentos das


Janeiro de 1949 na revista Mensagem, Alda do massas. E exactamente porque usa a língua
Espírito Santo introduz a reflexão sobre o estatuto e a forma de expressão do poder colonial,
e os problemas da mulher (negra) africana, com esta minoria apenas consegue ocasional-
uma alusão marginal ao imaginário português re- mente influenciar as massas, geralmente
lativo a África: analfabetas e ligadas a outras formas de ex-
pressão artística. Isto não retira, contudo,
“África, esse grande continente de ca- o valor à contribuição para o desenvolvi-
lor, essa terra grande de gente escura, de mento da luta dada por esta minoria da pe-
flora ridente e esquisita, de clima tropical, quena burguesia, pois pode influenciar quer
é África de histórias de lendas, de misté- um sector dos desenraizados ou aqueles
rios, de selvas e selva sem fim, para muita que tardiamente se juntaram à sua própria
gente que vê África através dos livros de classe, quer um importante sector da opi-
aventuras e de páginas de imaginação. Eu nião pública da metrópole colonial, espe-
não vejo essa África. Vejo a África real cialmente a da classe dos intelectuais”.
e abraço no meu problema os luares escon- (Cit. a partir de Aquino de Bragança e Im-
didos dessa terra prodigiosa, de séculos de manuel Wallerstein. Quem é o Inimigo?
esquecimento”. Vol. I. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1978,
pp. 251-52).
Anos depois, em discurso proferido aquando
da atribuição do grau de professor honoris causa Ainda que de modo diferente, estes discursos
pela Universidade de Lincoln (1972), o ex- conduzem-nos à problemática da construção so-
-membro da Casa dos Estudantes do Império ciocultural da identidade dos povos submetidos
(CEI), Amílcar Cabral, declara que: aos colonialismos. Mais precisamente, os textos
remetem-nos para questões relacionadas: com
“a reafirmação de uma identidade dis- o papel desempenhado pelos diferentes grupos so-
tinta da do poder colonial, é semelhante ciais e pelos intelectuais nesse processo de refor-
à das massas, não se manifesta da mesma mulação de identidades étnico-culturais; e, por ou-
forma em todo o lado. Uma parte da mino- tro lado, com os conflitos e as contradições
ria da classe média, empenhada no movi- existentes entre as diversas visões do colonizado,
mento pré-independência, usa normas cul- tanto as criadas no contexto das ideologias colo-
turais estrangeiras, recorrendo à literatura niais europeias, como aquelas que são formuladas
e à arte, mais no sentido de expressar a des- a partir das comunidades culturais africanas, quer
coberta da sua identidade do que no de pelos sectores que associamos às “tradições lo-

* Mestre em História Contemporânea e professor na Universidade do Minho.

65
cais”, quer pelos diferentes grupos, mais ou menos demos designar com o das visões decorrentes do
“ocidentalizados”, que integram as burguesias co- sistema ideológico de legitimação colonial e o das
loniais. É portanto neste âmbito que se justifica imagens e sentidos inscritos nas “mentalidades po-
a importância do estudo das representações de pulares”.
África e dos africanos, uma investigação que pres- No que concerne às imagens produzidas pela
supõe o exame do trabalho de produção, difusão ideologia colonial portuguesa, o período em causa
e descodificação das imagens correlativas às so- corresponde a um tempo de mudanças, directa-
ciedades e aos povos sujeitos ao domínio colonial. mente relacionadas com as fases por que passa
Procurando articular estes problemas com a análi- a política colonial portuguesa. Entre 1944 e 1965
se histórica, propomos neste texto uma reflexão desenvolve-se um processo de transformação ideo-
acerca do significado que as actividades desenvol- lógica que, no essencial, consiste na revisão das
vidas no âmbito da CEI representam para a cons- teses e ideias forças da ideologia imperial, gerada
trução de outros imaginários relativos a África. nos anos trinta sob os desígnios político-cons-
Numa prévia apreciação global do problema, titucionais do Acto Colonial. Procura-se a partir de
importa salientar que o exemplo da CEI elucida então definir um outro sistema ideológico, cuja
sobretudo o processo de negação e combate às ideia mestra consiste na negação da existência de
imagens de África produzidas em Portugal e na colónias, dado que os territórios ultramarinos se
Europa pelos sistemas coloniais. Com efeito, as inscreveriam numa suposta natureza pluricontinen-
actividades de âmbito associativo, cultural, políti- tal e multirracial da nação portuguesa. Sujeita às
co e ideológico desenvolvidas no seio da Casa ins- mudanças da política colonial portuguesa, ao cres-
crevem-se num contexto espácio-temporal de que cimento das pressões internacionais desfavoráveis
importa reter algumas coordenadas fundamentais. à manutenção do statu quo, bem como ao agudizar
Encontramo-nos pois em presença de um espaço dos fenómenos de resistência anticolonial nas
de sociabilidade eminentemente estudantil-univer- mais importantes colónias africanas, a reelabora-
sitário, fundado pelo governo português com o in- ção das teses legitimadoras da “presença portu-
tuito de enquadrar e controlar este sector da popu- guesa em África” tende a congregar grande parte
lação académica e, por razões óbvias, circunscrito da atenção do governo e das diversas instâncias de
às cidades de Coimbra, Lisboa e Porto. Contudo, produção e socialização da ideologia colonial.
a evolução da conjuntura interna e, sobremaneira, De qualquer modo, nos anos quarenta são ain-
os “ventos de mudança” que abalam os sistemas da predominantes as imagens decorrentes da ideo-
coloniais neste período acabam por transformar os logia imperial. A representação do africano e de
“Estudantes do Império”. De início, convertendo- África é realizada em função de significados que
-os em protagonistas da transfiguração completa remetem para as ideias de superioridade racial
dos objectivos e práticas que a CEI deveria desen- e de exotismo, muito embora no âmbito das teses
volver, mais tarde para em grande parte se assumi- da “vocação colonial portuguesa”. Desde o início
rem como responsáveis pelos movimentos nacio- dos anos trinta, o governo e boa parte dos “meios
nalistas que acabarão por provocar a queda do coloniaiss” visam assim legitimar de forma massi-
Império. Deste modo, a construção de outras ima- ficada o sistema colonial e simultaneamente o no-
gens e de novos sentidos representativos da socie- vo regime. Para tal efeito concorrem as grandes
dade e do homem africanos escora-se na necessi- exposições coloniais de 1934 (Porto) e 1940 (Lis-
dade de questionar e contestar as imagens vigentes boa) e as mais diversificadas iniciativas promovi-
na ideologia colonial e no imaginário português das pela Agência Geral das Colónias e pela Socie-
relativo a África, como forma de assim proceder dade de Geografia, mas também o “voluntarismo
à (re)descoberta de certos valores culturais e à das forças vivas da Nação”, doravante sujeito aos
afirmação de uma nova identidade. ditames autoritários da política destinada a “des-
Assim sendo, a compreensão do trabalho de pertar a consciência imperial”.
representação dos povos e das culturas africanos Neste contexto, as imagens do continente afri-
desenvolvido na CEI implica uma prévia alusão às cano tendem a organizar-se segundo um modelo
ideias e representações existentes na sociedade antinómico. Assim, às tradicionais metáforas da
portuguesa. Ainda que sumária, esta referência “terra de degredados”, do continente dominado
contempla dois planos de análise relativamente pelo sertão inóspito, insalubre e selvagem, opõem-
distintos, que, por comodidade de expressão, po- -se os novos sentidos de um conjunto de colónias

66
portuguesas singularmente exóticas e luxuriantes, a ser velada sob a imagem de um “território portu-
propícias à afirmação do espírito aventureiro indi- guês ultramarino”.
vidual e colectivo, dotadas de espaços geoclimáti- A representação de África, recuperando ou não
cos excepcionais e passíveis de acolher fortes con- significados pré-existentes, passa a ser garantida
tingentes migratórios nacionais. Em suma, locais por processos de contraposição e analogia. Contra-
onde seriam cada vez mais evidentes os “sinais de posição entre a “África Portuguesa” — calma,
civilização e urbanismo”, introduzidos pelos por- próspera, agradável à vida de europeus e ao seu
tugueses e, sobretudo, pela política colonial do Es- “convívio com outras raças”, ainda que cercada por
tado Novo. inimigos e cobiças externos —, e as outras colónias
A representação do africano é formulada de ou recentes territórios independentes — lugares pe-
feição análoga. A imagem do africano define-se rigosos, atrasados ou em “regressão civilizacional”,
primordialmente pela noção de preto/negro e, des- sujeitos à corrupção global dos costumes e a cons-
te modo, pelo conjunto de figuras, metáforas e co- tantes conflitos étnicos, políticos e sociais. Por
notações carregadas de negatividade, ora pela alu- processo de analogia entre a suposta “África Por-
são aos traços físico-morfológicos (nariz, dentes, tuguesa” e o restante território nacional, argumen-
cabelo, prevalência do “físico” sobre o “mental”), tando-se que os contrastes e diversidades seriam
ora pela referência a comportamentos estereotipa- tão evidentes entre Angola e Moçambique, quanto
dos (preguiça, puerilidade, antropofagia, promis- entre Trás-os-Montes e o Algarve, ou concedendo-
cuidade, carácter dissimulado). Contudo, tal nega- -lhe um realce privilegiado às imagens que permi-
tividade tende a ser progressivamente mitigada tiram identificar, do Minho a Timor, os símbolos
pela atribuição de características “civilizadas” aos da portugalidade (língua, monumentos, toponímia,
africanos, grande parte delas tidas como o resulta- realizações materiais, etc).
do do contacto com o colonizador, as restantes Quanto ao africano, a sua nova representação
correlacionadas com comportamentos servis. Não depende sobretudo do progressivo abandono das
obstante estes sentidos mais paternalistas e menos referências às “sociedades inferiores” e à “assimila-
declaradamente racistas, não se reconhece capaci- ção selectiva”, em favor da defesa das sociedades
dade ao africano para se equiparar ao branco, fac- multirraciais. A imagem do negro e do mestiço
to que se pode ilustrar pela ridicularização dos fe- (que passa a ser frequentemente apresentado como
nómenos de identificação com a língua e os “criação portuguesa”) surge associada ao conceito
padrões culturais do colonizador (e.g. discurso do de cidadania, como prova da ausência e do repú-
“pretuguês/pretocalês” e imagem do “calcinhas”), dio de quaisquer traços de discriminação racial,
ou pelas ambiguidades que então caracterizam como exemplo da formação de uma “sociedade
a representação dos mestiços e da mestiçagem. e cultura lusíadas” resultante da interligação har-
A revisão da ideologia colonial desencadeada moniosa da “Nação Portuguesa” com povos e cul-
nos anos cinquenta provoca algumas mudanças turas das regiões tropicais. Tal viragem não impli-
nas formas e sentidos destas imagens. A afirmação ca forçosamente o abandono integral de certas
das teses integracionistas, ou das que negam pura conotações de carácter pueril, selvagem e tribal,
e simplesmente a existência do colonialismo, exi- embora estas sejam doravante reservadas à carac-
ge a demonstração repetida das ideias de pluricon- terização dos “pretos não portugueses” (e.g. o tra-
tinentalidade e multirracialismo nacionais. Neste tamento pela imprensa de casos como o da revolta
sentido concorrem as sucessivas alterações das dos Mau-Mau (1952-54) e dos “turras” — um dos
leis e nomenclaturas relativas ao aparelho consti- termos depreciativos mais utilizados para aludir
tucional, jurídico e burocrático-administrativo, aos elementos dos exércitos de libertação. Toda-
mas também a difusão sistemática das ideias de via, em especial após o começo da guerra em An-
Gilberto Freyre, em especial as que sustentam gola, as imagens do “pretinho Augusto” ou das
o lusotropicalismo. Como é óbvio, a tentativa de “companhias de soldados indígenas” (1.o Exposi-
afastar todo o tipo de considerações rácicas e ra- ção Colonial Portuguesa) são oficialmente bani-
cistas da interpretação do passado e do presente do das, em favor da encenação do convívio fraterno
colonialismo português, conduz forçosamente de brancos, negros e mulatos “debaixo da bandeira
à obrigação de transformar o “indígena” em “cida- das quinas”, no contexto da vida quotidiana de
dão português”, enquanto, por processo análogo, uma qualquer cidade africana, ou sob os auspícios
a especificidade geográfica de cada colónia tende das fardas do exército e da Mocidade Portuguesa.

67
Em boa parte insensível ao esforço de recria- dos debates e estudos promovidos na e pela CEI,
ção destes novos sentidos, a “representação popu- mas também do trabalho de produção literária
lar” das terras e dos povos africanos mantém du- e ensaística protagonizado por alguns desses estu-
rante todos estes anos algumas das imagens mais dantes africanos.
declaradamente racistas e discriminatórias. Apesar Nos primeiros anos, a refutação das imagens
da ausência de estudos críticos actualizados sobre impostas pelo colonizador realiza-se pelo chamado
este assunto, não é difícil toparmos vários indícios “retorno às fontes” da cultura africana e pela atri-
que permitem sustentar a hipótese da persistência buição de autenticidade e valor às suas formas de
de mitos e metáforas ancestrais. Na “literatura de expressão. Em paralelo com outros movimentos
cordel”, nas páginas de fait-divers dos jornais e re- intelectuais — e.g. os que em Luanda são desen-
vistas, nos ditos e no anedotário populares, por cadeados pela Sociedade Cultural de Angola e pe-
exemplo, são frequentes as alusões à vida selva- la Associação dos Naturais de Angola (cf. Olivei-
gem e ao sertão, à antropofagia, à estupidez, à in- ra, 1987 e 1990b) —, e praticamente em
dolência, à sexualidade, ao infantilismo e a outros simultâneo com a iniciativa editorial do caderno
preconceitos racistas difundidos desde finais do de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, orga-
século XIX. Embora não possamos afirmar que este nizado por Mário Pinto de Andrade e Francisco
quadro determina o “imaginário popular portu- José Tenreiro, em 1953, a CEI promove várias
guês” e as regras de conduta face aos africanos, sessões de estudo e debate de assuntos africanos,
parece-nos importante salientar que a descodifica- ao que tudo indica inscritos no plano de criação
ção das imagens produzidas no seio das formula- de um Centro de Estudos Africanos, e inaugura as
ções da ideologia colonial se opera na base destes suas actividades editoriais com a publicação das
preconceitos. Parece-nos portanto provável a hipó- revistas mimeografadas Meridiano (Coimbra,
tese de uma gradual adesão às imagens de uma 1947) e Mensagem (Lisboa, 1948). De certo mo-
“África Portuguesa”, do “preto bom serviçal” e até do, são estas publicações “periódicas” e aquele ca-
dos “negros e mulatos portugueses”, sem que tal derno que ficarão como símbolos embrionários
signifique a extinção de representações tão violen- deste novo trabalho de representação de África
tamente racistas como a do “Preto-Papasse-Papão” e dos africanos.
de Augusto de Santa-Rita. Não cumpre aqui esmiuçar a rede de contac-
Não existindo também memórias de estudantes tos, de cumplicidades e de influências estéticas,
africanos, nem estudos sobre eles, podemos toda- ideológicas e sociopolíticas que se estabelecem
via avaliar o impacto desta “atmosfera mental”, entre esse núcleo de estudantes africanos e certos
bem como dos comportamentos que lhe são corre- meios da oposição portuguesa, ou entre os “Estu-
lativos, na vida de um jovem recém-chegado à ca- dantes do Império” e os estudantes e intelectuais
pital do Império, ou a outra das suas cidades uni- africanos que, noutras “metrópoles ocidentais”, vi-
versitárias. Além dos condicionalismos resultantes nham desenvolvendo novas formas de representa-
das más condições do ensino prestado nas coló- ção da cultura africana desde os meados dos anos
nias, do relativo isolamento face à “necessária” trinta. Contudo, os estudos e fontes disponíveis
aculturação ao meio metropolitano e das previsí- parecem indicar que este processo se desenvolve
veis limitações financeiras, os estudantes africanos em estreita ligação com algumas imagens e com
vêem-se confrontados com as pressões e os este- boa parte dos valores produzidos no âmbito do
reótipos de boa parte das populações dessas cida- “movimento da negritude”, recorrendo primordial-
des. A integração na CEI terá de algum modo fun- mente a formas de expressão literária influencia-
cionado como uma alternativa a esta atmosfera de das pelo neorealismo.
isolamento e discriminação, mas simultaneamente Conforme afirma Amílcar Cabral no texto su-
como um melo capaz de estimular a reavaliação pracitado, trata-se pois de uma tentativa de resistir
da “identidade etnocultural”, ora pela contestação aos valores impostos pela assimilação e descrimi-
dos valores produzidos pelo poder colonial, ora nação coloniais, através da afirmação de uma
pelo trabalho de reflexão teórica e de politização identidade negro-africana, expressa todavia segun-
dos jovens intelectuais das diversas colónias por- do certos padrões estético-culturais europeus e, de
tuguesas. A nova representação das culturas e dos certo modo, portugueses. É portanto a consciência
povos africanos emerge destas vivências em “gue- do “desenraizamento” que leva Mário Pinto de
to voluntário” (Margarido, 1980, p. 18), resultando Andrade a declarar na introdução ao Caderno de

68
1953, que “o problema actual reside na conquista zes do Harlem District South/vozes das
duma personalização, numa reabilitação de valo- sanzalas/Vozes gemendo “blues”, subindo do Mis-
res”, sendo a poesia aí seleccionada a manifesta- sissipi, ecoando dos vagões,/Vozes chorando na
ção “duma necessidade imperiosa e angustiante de voz de Corrothers:/ “Lord God, What evil have
reencontrar os valores nativos destruídos, necessi- we done”/Vozes de toda a América, Vozes de toda
dade de (o “negro ocidentalizado”) se readaptar ao a África./Voz de todas as vozes, na voz altiva de
seu ambiente, necessidade de gritar a sua presença Langston/na bela voz de Guillén...”. Por outro la-
no mundo” (1982 [1953], p. 48). A construção das do, procede-se à denúncia de fenómenos relativos
novas imagens de África e dos africanos inscreve- à exploração e alienação do negro em diferentes
-se naqueles propósitos, conferindo-se à terra senti- contextos histórico-sociais, embora privilegiando as
dos que realçam a singularidade do espaço geofísi- referências mais ou menos directas ao contexto co-
co, atribuindo-se às gentes uma nova dignidade lonial, como no caso do poema Monangamba (An-
e beleza. Paralelamente, a figuração geográfica tónio Jacinto), onde são claras as associações entre
e humana surge associada nas representações que os processos de exploração/repressão/alienação e o
identificam a irmandade entre África e o “Mundo “negro da cor do contratado”. A complementarida-
Negro”, mas sobretudo nas metáforas maternais — de destas duas formas de representação traduz-se
patentes em grande parte dos textos de índole lite- na esperança de uma nova dignidade, que se ex-
rária ou, por exemplo, na vinheta do pintor António pressa pela imagem do despertar do africano, enun-
Domingues que ilustra o Caderno de 1953 —, onde ciada, por exemplo, num excerto de um poema de
a alusão às origens se concretiza na simbiose entre Noémia de Sousa publicado na revista Mensagem:
as imagens da Terra-Mãe e da Mulher-Mãe.
Embora não se trate de uma publicação expli- “Oh ritmos fraternos do samba!
citamente ligada à CEI, o “primeiro caderno de Acordando o meu povo adormecido à som-
poesia negro-africana de expressão portuguesa” bra dos imbondeiros,
(Idem, p. 47) sintetiza aquela visão e o trabalho dizendo na sua linguagem encharcada de
desenvolvido pelos estudantes da Casa. Assim, ritmos
apesar de se incluírem representantes das várias que as correntes dos navios negreiros não
colónias portuguesas (excluindo Cabo Verde), as morreram, não,
ideias subjacentes à organização do Caderno tra- só mudaram de nome.”
duzem o objectivo de apresentar, sob o denomina- (a. 2, n.o 1, Janeiro 1959)
dor comum que consiste na expressão em língua
portuguesa, noções e valores próximos de certas A partir de meados dos anos cinquenta, e ain-
correntes ideológicas associadas à negritude. Tanto da de modo mais evidente na década seguinte, são
nos poemas reunidos nesta obra como nos textos introduzidas algumas novidades no trabalho de re-
publicados em Mensagem transparecem as ima- presentação da realidade colonial. A repercussão
gens literárias associadas ao carácter quente, poli- interna de acontecimentos como a Conferência de
cromo e selvagem das terras africanas, metaforica- Bandung (1955) e as independências africanas,
mente ligadas à ideia do “continente adormecido”, a obstinação colonial do governo português — da
embora “personalizado” e de algum modo imune qual a larga maioria das correntes de oposição polí-
aos “sinais decadentistas do mundo civilizado”. tica apenas divergiam em questões de pormenor —,
A representação do africano obedece a dois es- e a constituição dos movimentos pró-indepen-
quemas autónomos, embora complementares. De dência provocam mudanças evidentes na organiza-
um lado, temos a glorificação do homem negro, ção e politização dos “Estudantes do Império”,
realizada pela sua associação a fenómenos socio- implicando novos matizes na produção de ima-
culturais de teor humanista e universalista, ora pe- gens relativas a África e aos africanos. Antes de
las alusões individualizadas a Diop, Senghor, passarmos a enunciá-las, cumpre todavia assinalar
Armstrong, MacGee e a tantos outros “ilustres re- que esta renovação não é incompatível com a con-
presentantes do homem negro”, ora pelas referên- tinuidade das tendências já expostas. A título de
cias às auto-sustentadas expressões culturais da exemplo, recordemos um excerto do poema Amor
negritude, metaforicamente apresentadas em Ma- de África (1963), no qual Francisco José Tenreiro
mã Negra (Viriato da Cruz) como as “vozes” vin- utiliza a ironia como forma de suscitar a consciên-
das de vários pontos do “mundo negro”, as “Vo- cia da negatividade da assimilação:

69
”Oh! minha África ter-te no peito o que vale curam consolidar nestes últimos anos consiste no
perante a clareza absoluta e homérica de afir- encerrar de um ciclo que pretendia humanizar
mações tão sábias! e dignificar a representação de África e dos africa-
” antes quero uma fuga de Bach que um
Eu nos. Em primeiro lugar, para substituir um quadro
batuque de cafres; de valores transcontinental por um outro de ima-
prefiro um quadro de Rubens a um mani- gens e símbolos formalmente análogos, mas cujos
panço preto; sentidos remetem para a tentativa de afirmação de
Sim, claro, o Ifé e o Benin são excepções espaços geo-humanos específicos, onde seria pos-
ao resto sível inventar e construir uma unidade nacional.
infantil, imaturo, caricatural da arte africana” Em segundo lugar, para tentar perceber os ho-
Casquinava arritmiticamente os dentes sol- mens, as culturas e os territórios africanos em fun-
tos na caveira consumida de sabedoria! ção dos modelos de interpretação teórico-cientí-
De sabedoria de África e dos pretos claro ficos e das representações formuladas a partir
está!...” destes últimos, relegando para um plano acessório
(Mensagem, a. 15, n.o 2, Junho 1963) as formas afectivas e as expressões literárias e fi-
gurativas, que até aí haviam detido um papel fun-
Contudo, a generalidade dos números de Men- damental. Em terceiro lugar, para tentar concreti-
sagem publicados nos anos sessenta manifestam zar, de modo mais ou menos explícito, a refutação
nítidas tendências para abandonar este género de das ideologias do colonialismo e a denúncia das
representações, em favor da construção de ima- práticas de exploração e alienação do colonizado,
gens que procuram de algum modo identificar os aplicando-as à contestação do próprio colonialis-
espaços nacionais ou regionais africanos. Como já mo português.
foi demonstrado (Margarido, 1980), este processo Se as actividades desenvolvidas na CEI sem-
realiza-se através da crítica a certos pressupostos pre suscitaram a desconfiança do governo, esta ra-
da negritude e por manifesto antagonismo à ideo- dicalização de posições contribui de modo decisi-
logia colonial, mais precisamente às teses portu- vo para o encerramento coercivo da Casa em
guesas do nacionalismo integrador e pluriconti- 1965. Todavia, as cerca de duas décadas de activi-
nental, prendendo-se ainda com a nítida assunção dade acabaram por influenciar várias gerações de
de objectivos pró-independência das diversas coló- estudantes africanos, nomeadamente pela recriação
nias. Assim, verifica-se uma nítida tendência para de outras imagens dos povos e realidades sociais
o predomínio de estudos e ensaios dedicados das suas terras de origem, inicialmente no sentido
a problemas de cada uma das colónias portugue- da refutação dos pressupostos de inferioridade im-
sas, não obstante a presença de textos de âmbito postos pelo sistema e ideologia coloniais, depois
globalizante onde se analisam, por exemplo, o “es- como estratégia de reivindicação da independência
tatuto do indígena”, o racismo, a arte africana ou e de um imaginário nacional.
a situação do associativismo estudantil em África. Fora deste núcleo de pessoas — e apesar das
Em concomitância, a actividade editorial da CEI ligações da CEI com o associativismo estudantil
demonstra alterações análogas, pela publicação de português —, tudo parece indicar que este proces-
títulos, colecções ou colectâneas literárias identifi- so de reinvenção das imagens de África, dos afri-
cadas com os autores angolanos, caboverdianos, canos e do colonialismo obtém poucos ecos junto
guineenses e moçambicanos. Em suma, a expres- da população portuguesa. Excluindo obviamente
são plástica e literária, os ensaios antropológicos, alguns casos individualizados, a CEI não cumpre
literários, históricos e sociológicos, ou até a reco- as expectativas enunciadas por Amilcar Cabral no
lha de contos e provérbios tradicionais servem ca- final do texto citado de início, seja relativamente
da vez mais como modo de identificação de gru- a uma faixa significativa da opinião pública, seja
pos e sociedades particulares, servindo embora mesmo junto da maioria dos intelectuais portugue-
para continuar a denunciar a alienação imposta pe- ses. Não se pode daqui concluir que a adesão à vi-
lo colonialismo e para reivindicar a autenticidade são idílica e nacionalista do colonialismo produzi-
do homem e da cultura africanos. da pelo regime seja total e uniforme, nem tão
Se quisermos usar uma expressão paradoxal, pouco que as imagens do colonizado sejam objec-
podemos afirmar que a grande alteração que al- to de uma leitura única por parte dos diferentes
guns dos estudantes e colaboradores da CEI pro- grupos sociais. Todavia, não deixa de ser signifi-

70
cativo que só lentamente e muito tarde uma parte DUARTE, Dulce Almada (1984). “Os fundamen-
da “oposição ao salazarismo” comece a assentir na tos culturais da unidade”, in Continuar Cabral.
necessidade de se reconhecerem as independências Simpósio Internacional Amílcar Cabral, s.l.:
das colónias africanas, recusando assim as ima- Grafedito/Prelo — Estampa, pp. 205-223.
gens paternalistas e supostamente ecuménicas da ERVEDOSA, Carlos (1963). A literatura angola-
“missão portuguesa nos trópicos”. na (resenha histórica). Lisboa: CEI.
Chegamos assim a um problema nuclear quan- IDEM (1979). Roteiro da Literatura Angolana
do se aborda qualquer aspecto da acção da CEI (2.a ed, revista e actualizada). s.1.: União dos
numa “perspectiva metropolitana”. No estudo do Escritores Angolanos/Edições 70.
trabalho de representação promovido pela Casa, FERREIRA, Manuel (1989). O discurso no per-
constatamos que múltiplos factores podem ter con- curso africano. Lisboa: Plátano Editora.
duzido a esta limitada eficácia na alteração da ima- IGNATIEV, Oleg (1975). Amílcar Cabral, filho de
gem de África e dos africanos junto da generalida- África. Lisboa: Prelo.
de da sociedade portuguesa: desde as condições de MARGARIDO, Alfredo (1980). Estudos sobre Li-
censura e repressão vigentes, até à desproporção de teraturas das Nações Africanas de Língua
meios técnicos e financeiros existente entre a CEI Portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo.
e a “máquina de propaganda do regime”. Trata-se MONDLANE, Eduardo (1979). Mozambique de la
contudo de uma reflexão que nos parece exigir es- colonisation portugaise à la libération natio-
tudos mais aprofundados, permitindo averiguar até nale. Paris — Éditions l’Harmattan.
que ponto não é relevante invocarem-se os “qua- OLIVEIRA, Mário António Fernandes de (1987).
dros mentais e culturais portugueses” como res- “À procura de uma identidade cultural Angola-
ponsáveis pela incapacidade de se reconhecer na na: do Liceu Salvador Correia à Sociedade
época a validade dos argumentos africanos. Estu- Cultural de Angola”, in Revista Internacional
dos esses que importa realizar, ainda mais num de Estudos Africanos, n.o 6-7, pp. 179-94.
tempo em que o “reforço das relações de Portugal IDEM (1990a). “Crioulismo e negritude em Fran-
com os Países Africanos de Língua Oficial Portu- cisco José Tenreiro” (texto publicado em 1966
guesa” se presta a inusitadas referências acerca das pela Associação dos Antigos Alunos do IS-
imagens de África e dos africanos, não raras vezes CSPU), in Reler África. Coimbra: Instituto de
marcadas por referentes racistas e paternalistas, ou Antropologia — Universidade de Coimbra,
por sentidos carregados de nostalgia do Império pp. 489-496.
e do “Ultramar Português”. IBIDEM (1990b). “Memória de Luanda
(1949-1953): “Vamos Descobrir Angola!” (tex-
to utilizado em palestra proferida no IDL
Bibliografia (1977) e publicado na Luso-Brazilian Review,
University of Wisconsin, 1981), in Reler Áfri-
AA. VV. (1989). Les Littératures Africaines de ca. Coimbra: Instituto de Antropologia —
Langue Portugaise. A la recherche de l’identi- Universidade de Coimbra, pp. 371-383.
té individuelle et nationale. Actes du Colloque QUERIDO, Jorge (s/d 1989). Cabo Verde. Subsí-
International. Paris: Fundação Calouste Gul- dios para a história da nossa luta de liberta-
benkian — Centre Culturel Portugais. ção. Lisboa: Edições Vega.
ALEGRE, Manuel (1984). “O duplo sentido cultu- TENREIRO, Francisco José; ANDRADE, Mário
ral da obra de Amilcar Cabral”, in Continuar Pinto de (org.) (1982[1953]). Poesia Negra de
Cabral. Simpósio Internacional Amílcar Cabral, Expressão Portuguesa (reprodução facsimila-
s.l.: Grafedito/Prelo — Estampa, pp. 225-234. da, prefaciada por M. Ferreira). Lisboa: Edi-
ANDRADE, Mário Pinto de (1971). La guerre en ções África.
Angola. Étude socio-économique. Paris: Mas-
pero. 1 Englobamos neste conceito os diferentes processos e modalida-
IDEM (1984). “A Dimensão Cultural na Estratégia des de representação, considerando o modo como se organizam e pro-
da Libertação Nacional: Identidade, poder cul- duzem os discursos (símbolos, metáforas, etc.) e as formas linguísti-
cas e/ou iconográficas que servem de suporte às mensagens. Sobre
tural e democracia”, in Continuar Cabral. Sim- o assunto, ver Pamela Bolotin Joseph e Gail E. Burnaford (eds.)
pósio Internacional Amílcar Cabral, s.l.: Gra- (1994). Images of Schoolteachers in Twentieth-Century America. Pa-
fedito/Prelo — Estampa, pp. 271-292. ragons, Polarities, Complexities. Nova Iorque: St. Martin’s Press.

71
Memórias da CEI
1. TESTEMUNHOS

Meio século da CEI*

R .M. (Orlanda Mendes) — Hoje, em Linha mais aprofundado. (...) Era uma Casa onde se jun-
Directa, o convite para uma viagem ao passado. tavam estudantes vindos das colónias (...) com fi-
Vamos recuar 50, 40, 30 anos e vamos reviver nalidades de natureza recreativa e talvez cultural.
a Casa dos Estudantes do Império (CEI). Lembro-me de que nos juntávamos porque havia
Aqui no Estúdio-Auditório da Rádio Moçam- uma cantina, uma sala onde se jogava ping-pong
bique, uma dezena e meia de convidados, uns que e vários jogos, e uma Biblioteca. Também havia
viveram a CEI, ou simplesmente a Casa, como era uma sala grande onde se faziam reuniões e debates
mais conhecida, e outros que se interessam por e onde se elegiam os corpos gerentes; havia festas
aquilo que ela foi e representou desde a sua funda- que eram conhecidas na área, festas de grande im-
ção, em 1943, até ao seu encerramento pela PIDE, pacto; e havia publicações de poetas e escritores.
em 1965. Tínhamos mesmo um boletim, Mensagem. (...)
Para nos ajudar nesta reconstituição escolhe- Recordo-me do trabalho que fiz no Departamento
mos, de entre os nossos convidados, um painel Cultural, da forma como seleccionávamos o mate-
que, de certa forma, representa as principais gera- rial para a Mensagem.
ções que construíram a CEI. O Dr. Armando Rosi- (...) Em Coimbra, fiz parte da última direcção
nha, um dos fundadores, o Dr. Fernando Vaz, que em 1961... É curioso. Lembro-me das pessoas, fi-
dirigiu a Casa em meados da década de 50, o Dr. zemos rotas diferentes — Daniel Chipenda, de An-
Luís Filipe Pereira, que se lhe seguiu e, a partir gola, na altura ligado a todo um movimento de
dos nossos estúdios na Beira (e esperamos que as consciencialização política e de luta anti-colonial,
condições técnicas o permitam), o Eng. Ferreira Oswaldo Lopes da Silva, que foi mais tarde do
Mendes, que a viu fechar. Bureau Político do PAIGC, o Manuel Videira que
A todos agradecemos a presença e o contributo mais tarde foi da Revolta Activa do MPLA, e ain-
que vão dar a este nosso debate (...) da alguns outros que faziam parte dos corpos ge-
Para começar vou pedir ao Dr. Luís Filipe Pe- rentes: Celestino Costa, que foi Primeiro-Ministro
reira, como homem de História que é, que faça de S. Tomé, o Bragança, que é escritor e actual-
uma breve apresentação da CEI. Era uma casa que mente ministro dos Negócios Estrangeiros e vários
era de Africanos mas que se situava no n.o 23 da outros que compunham então a Casa. Foi encerra-
Duque d’Ávila, em Lisboa, capital de fascismo da em 65 abruptamente pela PIDE. É esta, muito
e da colonização, não só em África, mas também rapidamente, a imagem que tenho desta fase.
no Oriente...
R.M. — Dr. Rosinha, quer dizer-nos, como
L.F.P. — Não fiz propriamente um estudo his- fundador da CEI, por que é que em 1944 aparece
tórico da CEI. A CEI merecia um estudo histórico uma colectividade deste género?

* Mesa-redonda que teve lugar na Rádio Moçambique, Programa Linha Directa, da responsabilidade de Orlanda Mendes, em 30.10.1993.
Por limitação de espaço, procedeu-se à transcrição parcial do registo, cedido gentilmente por O.M.

75
A.R. — Em 1940 realizaram-se os grandes Em primeiro lugar o objectivo da Casa era, es-
festejos do centenário de Portugal. Estes festejos, sencialmente, agregar os estudantes de Angola
dos quais fazia parte uma Exposição chamada Co- e depois (...) outros. Ao chegarmos a Lisboa, mo-
lonial, no Jardim Colonial em Belém, permitiram rávamos dispersos, frequentávamos diversas facul-
que reuníssemos perto de cem estudantes de An- dades. Naquele tempo as reuniões eram nos cafés,
gola que estavam a estudar em Lisboa na altura. as tertúlias funcionavam nos cafés, cada um de
(...) Dali surgiu a ideia de fundarmos a Casa dos nós tinha a sua tertúlia no café mais próximo da
Estudantes de Angola. Houve várias diligências faculdade onde estudava ou da casa onde morava.
mas (...) a Casa dos Estudantes de Angola só foi Começou a aparecer a ideia de que precisávamos
fundada em 1943, quando apareceu um grupo de um canto nosso, onde nos pudessemos reunir.
mais unido, mais coeso (...) Também porque tinha Além disso, queríamos organizar apoios sociais,
apoios em Angola: eram familiares seus o Gover- dos quais notávamos a falta (...) para os casos em
nador Geral, o Presidente da Associação Comer- que um estudante estava doente e lhe faltava o di-
cial, os Directores da Companhia de Diamantes e, nheiro... Isto passava-se durante a guerra (...) estava
rapidamente, em 2 ou 3 meses, obtivemos um fun- tudo desorganizado. A família mandava a mesada
do de trezentos e cinquenta contos (que era muito mas o custo de vida tinha subido extraordinaria-
dinheiro na altura) para a Casa dos Estudantes de mente. Assim pensámos em arranjar uma assistên-
Angola. cia médica, uma biblioteca, um programa de confe-
Fundou-se a CEA, com estatutos próprios apro- rências, de palestras, visitas guiadas a museus,
vados através da Mocidade Portuguesa, porque não visitas a praias, a monumentos nacionais. Era esta
podia haver nenhuma associação de estudantes que a ideia: convívio, confraternização, que envolvia as
não tivesse estatutos aprovados pela MP. famílias de alguns (...).
Na CEA, então na Av. Praia da Vitória, organi- O primeiro Presidente da Casa era angolano
zou-se uma festa para comemorar, em 1943 talvez, — o Alberto Marques Mano de Mesquita, aluno
o 1.o aniversário da CEA. Essa festa foi presencia- de Direito. Da direcção dele faziam parte o Santos
da pelo Ministro das Colónias do tempo, o Vieira e Castro (depois Presidente da Câmara de Lisboa
Machado, e pelo Comissário da MP, que era quem e último Governador Geral de Angola, antes da
nos apoiava, o Prof. Marcelo Caetano. Aparece- Independência) e outros (...) Estes tinham um gru-
ram os cento e tal estudantes angolanos e umas po; na verdade, quando digo que nunca vi objecti-
dúzias de estudantes de outras colónias. vos políticos especiais naquele tempo, não será
Na altura dos brindes o Ministro Vieira Ma- bem certo, porque este grupo, M.M. Mesquita
chado disse: “Muito bem, isto é muito interessan- e Cia, eram fervorosos adeptos da Situação, mem-
te, mas já estou a ver que qualquer dia vou ser bros da União Nacional, de vários organismos, já
procurado por estudantes de Moçambique, da Gui- como estudantes, pelo menos queriam dar à Casa
né, etc, para fazerem as suas casas; ora eu sou Mi- uma orientação nitidamente favorável à Situação.
nistro do Império (...) e só posso defender uma Mas a grande maioria não queria nada disso;
Casa dos Estudantes do Império. Por isso vocês se não tinha ideias concretas, não queria de ma-
saem daqui com a incumbência de o mais rapida- neira nenhuma colaborar. Não éramos da UN, não
mente possível constituírem, organizarem a CEI”. éramos da Mocidade (...) Portanto começou logo
Eu fazia parte da Direcção da CEA. Ficámos esse choque.
aflitos mas ainda tínhamos algum dinheiro e fo- Entretanto, muda o Ministro. Quando sai
mos logo alugar aquela casa que nos apareceu, co- o Vieira Machado e entra o Prof. Marcelo Caetano
mo uma salvação (porque era num sítio central) na já estávamos em choque terrível. Eu era o Presi-
Av. Duque d’Ávila. dente da Assembleia Geral. Tivemos três sessões
A CEI organizou-se, pode hoje dizer-se, com no Liceu Camões, numa sala de aulas cheia de es-
um esquema muito pesado porque tinha a Direc- tudantes (a CEI tinha perto de 700 sócios na altura
ção-Geral da CEI, com os corpos gerentes normais da fundação; cerca de 200 de Moçambique, 200
das associações (...) mas tinha também uma Direc- de Angola, 200 de Cabo Verde e Guiné — era
ção de Serviços Internos, uma Direcção de Servi- a secção que tinha mais sócios — e ainda da Índia
ços Externos e cada uma destas tinha serviços de e de Timor).
Propaganda, de Contactos, etc. Os dirigentes eram A reunião era por causa de contas (...) com as
cem! quais discordámos (...) e a Direcção em peso

76
(Marques Mano e os outros) levanta-se e abandona ainda outros companheiros, sobretudo de Angola,
a sala e a Casa. que tinham um nacionalismo talvez mais forte
Nós ficámos e elegemos uma nova Direcção, e eram as pessoas que empurravam os outros.
de que foi presidente o Prof. Ário de Azevedo, Nessa altura de 48-49 a CEI já estava sob
que tinha acabado de se formar e era moçambica- a mira da PIDE. Começavam-se a publicar, na Du-
no. Foi o segundo presidente. que d’Ávila 23, muitos panfletos, passados a sten-
(...) A certa altura o Ministro Marcelo Caetano cil. É pena não estar cá Marcelino dos Santos, para
convocou os tais cento e tal dirigentes para irmos contar. Ele foi o autor de muitos desses panfletos
ao Gabinete dele. Fomos ao Terreiro do Paço (...) que começaram a ser difundidos através da CEI,
e ele disse: “vocês pregaram-me a maior desilusão panfletos e informações contra a Situação, contra
da minha vida de contacto com a mocidade.” o fascismo e possivelmente apoiados também pelo
Não sei se ele estava a ser sincero. Por que PCP na altura.
é que ele dizia isto? “Eu apoiei-vos, dei-vos toda
a liberdade, não controlei coisa nenhuma, fiquei R.M. — Panfletos contra o fascismo ou já
a olhar cá de longe e afinal, ao fim de um ano, vo- com uma tonalidade anti-colonial?
cês revelaram-se. Contava que vocês, vindos de
diversas origens e culturas, haviam de ser diferen- F.V. — Não posso precisar mas eram panfletos
tes dos daqui. Mas vocês revelaram-se refinada- evidentemente contra a Situação, contra aspectos
mente possuidores de todos os defeitos desta so- repressivos do fascismo. A PIDE estava sempre
ciedade estudantil portuguesa, e isso para mim foi à procura de um pretexto para fechar a CEI.
uma desilusão.” Dá-se uma nova reunião em que o Conselho
E nós que sabíamos o que originara isso tudo, Fiscal não aprova o relatório e contas da gerência
dávamos-lhe uma certa razão. anterior. Há novo abandono dos corpos gerentes,
(...) Já estávamos no fim da guerra. A Casa or- numa cena semelhante à que o Dr. Rosinha con-
ganizou um refeitório, uma sala de palestras, onde tou. É aproveitado esse pretexto e a CEI é encer-
todos os fins de semana havia palestras, uma bi- rada pela PIDE. A CEI estava organizada num
blioteca, incipiente, mas que tinha todas as publi- Conselho Geral, como o Dr. Rosinha disse, mas
cações da Agência Geral do Ultramar (...) e uma cada colónia tinha a sua Direcção: havia a Direc-
sala de música. Comprou-se um gira-discos e uma ção de Moçambique, de Angola, da Índia e Cabo
colecção de discos; o orientador disso era o nosso Verde.
amigo, saudoso Amílcar Cabral, o homem mais si- Cada uma delas recebia, para seu funciona-
lencioso que conheci lá nesse tempo. Silencioso; mento, um orçamento inscrito no orçamento geral
era raríssimo ouvir-se falar, estava metido nos dis- da Colónia. Angola inscrevia no seu orçamento
cos, a organizar as suas colecções... anual uma verba para apoiar a CEI. Eram verbas
Em 47 acabei o meu curso e perdi o contacto substanciais, havia pouca gente (...) as contas
porque entretanto vim para Moçambique onde os eram sempre muito esmiuçadas e não foram apro-
meus primeiros vinte anos foram passados (...) fo- vadas na altura.
ra de Lourenço Marques; então estava fora desses A Direcção da CEI é dissolvida e é nomeada
contactos. pelo governo, uma Comissão Administrativa.
A CEI já tinha na altura uma forte representativi-
R.M. — (...) Queria perguntar ao Dr. Fernando dade, muitos sócios, cantina, lares, biblioteca,
Vaz, de um período um pouco posterior, quando e portanto não era fácil encerrá-la pura e simples-
é que começou uma preocupação um pouco mais mente; substituíram a direcção por uma comissão
profunda nos membros da CEI, em termos cultu- administrativa.
rais e também em termos políticos? Nessa altura surge a minha geração. A CEI tem
três gerações: a primeira, dos fundadores até ao seu
F.V. — Vou pegar na história da Casa a partir encerramento pela PIDE. Depois vem a minha, que
de 1947, embora eu tenha chegado a Lisboa em tenta reconquistar a independência da Casa não tan-
1950. Já desde 1947 havia uma grande actividade to nos moldes como era anteriormente mas numa
política na CEI. É nessa altura que passam pela Casa dos Estudantes do Ultramar. Para conseguir-
Casa Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, mos a independência tivemos de aceitar que os no-
Agostinho Neto e Marcelino dos Santos e havia vos estatutos dissolveriam as Direcções das diver-

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sas colónias, englobando tudo numa Casa dos F.V. — De facto a PIDE tinha processos de in-
Estudantes do Ultramar. Foi a minha geração que vestigação aperfeiçoados e tinha até pessoas den-
tentou, e conseguiu, reconstituir a Casa. Depois tro da CEI (os “bufos”, como lhes chamávamos,
vem uma última geração a partir de 61-62, que co- indivíduos que sabíamos quem eram e que, quan-
mete os mesmos “erros”, ou dá as mesmas abertu- do foi da nomeação da Comissão Administrativa,
ras, à PIDE, que a encerra, por fim, em 1965. Há se denunciaram). Mas a verdade é que havia a per-
aqui pessoas que representam a terceira geração sonalidade do estudante do Ultramar, das colónias,
e (...) poderão dar maior riqueza (...) ao debate. que foi sempre completamente distinta do indiví-
Nessa altura, para reconquistar a independên- duo português, natural de Portugal. Havia uma
cia, foi necessário um trabalho extremamente deli- identidade própria que era muito forte. Além disso
cado, aproveitando a posição muito favorável que o estudante que vinha das colónias estava mais li-
já tinham os primeiros dirigentes da CEI. Foi com vre. Tinha praticamente 24 sobre 24 horas para es-
o Marques Mano de Mesquita, o primeiro Presi- tudar e fazer aquilo em que tinha mais interesse.
dente da Casa, que fomos dialogar e convencê-lo É evidente que, para todos nós em Portugal, um
(...) a contactar os Ministros da Educação e do Ul- dos temas importantes era o nacionalismo. Criou-
tramar; estes, em Portaria conjunta, deram outra -se um grande espírito nacionalista e pode dizer-se
vez a independência à CEI, desde que elaborásse- que a CEI teve uma forte responsabilidade em to-
mos uns estatutos diferentes. da esta política, que mais tarde se desencadeou no
O Art.o 1.o dos novos estatutos era: a CEI Ultramar.
é apolítica e arreligiosa. À partida tínhamos de nos
abster de qualquer actividade política, que cada R.M. — Dr. Luís Filipe Pereira, quer acres-
vez era maior, muito maior. Era tão grande que, centar algo sobre esta questão? Carlos Ervedosa,
em 1962/31, há o grande êxodo, já com Mocumbi, no seu livro “Era no Tempo das Acácias Floridas”
Presidente Chissano (...) e que leva o Ministro do refere que houve sempre uma certa habilidade pa-
Ultramar na altura, Adriano Moreira, a dizer que ra que a actividade política fosse da responsabili-
esse tinha sido o maior golpe da sua vida. Dizia: dade individual e não uma actividade claramente
“Tenho aqui a nata de cinco séculos de colonialis- da CEI. Teria assim, a CEI uma actividade mais
mo, está aqui a nata”. E essa nata toda dissolveu- cultural e social e os indivíduos membros, eles
-se, emigrou, fugiu de Portugal. próprios teriam uma actividade política?
Para referir alguns nomes na altura: eu era
Presidente, o Vice-Presidente era o David Bernar- L.F.P. — (...) Concordo com o Fernando Vaz,
dino, que foi assassinado no Huambo; faziam par- conheceu muito melhor a Casa nos anos em que
te da Direcção o Raposo Pereira, tesoureiro, a dirigiu, mas senti que nós pertencíamos a estra-
o Hélder Martins e a sua mulher, vogais; havia o tos diferentes, vínhamos com visões do mundo di-
Ervedosa, de Angola, o Hugo Azancot, presidente ferentes, encarávamos a situação concreta, objecti-
do Conselho Fiscal (...) Era gente que acabaria por va, também de modo diferente.
revelar, mais tarde, toda a sua filosofia, toda a sua As relações de solidariedade, as relações afec-
tendência de vida. tivas, o enquadramento social fazia-se e se, por
um lado, se notava essa identidade de ideais, co-
R.M. — Gostaria de colocar uma questão. meçava a aparecer também a dimensão ou sentido
A CEI começa a caminhar com uma certa firmeza da diferença.
numa determinada direcção; sabemos (...) que Essa diferença, além do despertar da consciên-
o regime fascista, colonial, tinha os seus mecanis- cia nacionalista (...) levou-me a (...) acreditar nal-
mos fortes e bastante perfeitos de controlo e inves- guma coisa, a fazer uma abordagem objectiva da
tigadores para saberem como interpretar determi- realidade, quer portuguesa quer das colónias, mas
nados comportamentos. Mesmo assim, com ajudou-me também a projectar um sonho. Mas
a PIDE em cima da CEI, com comissão adminis- sem dúvidas que dentro da Casa também começá-
trativa, a Casa foi existindo. Isto não é um pouco mos a aprender a notar particularidades que eram
estranho, sabendo-se como era o regime (...) ou resultantes, um pouco, daquilo que o Ervedosa
era também uma maneira de congregar toda a gen- aponta ou do que o Lima aponta, como vi nalguns
te e ter essa gente sob vigilância? Que acha o Dr. elementos das entrevistas dadas por ele, acerca de
Fernando Vaz? diferenças entre as pessoas; umas porque tinham

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um código diferente, outras porque havia reais di- em 61. Tocarei um pouco o que foi a nossa fuga
ferenças culturais, sociais, de cor, que provocavam em 61.
choques que era preciso ultrapassar. Se o posicio- A CEI, como ouviram do Prof. Rosinha, do
namento político nos ajudava a encontrar esses Prof. Fernando Vaz e do Prof. Luís Filipe Pereira,
pontos comuns, não há dúvida que, mesmo relati- teve uma trajectória complexa. Ela nasce, num
vamente a Angola, até as diferenças de natureza primeiro momento, essencialmente entre as cama-
étnica eram visíveis pelo agrupamento e pelo rela- das de filhos de colonos bastante ricos, sobretudo
cionamento dos diferentes grupos que compunham de Angola, ligados à Companhia de Diamantes, às
a Casa. É dentro da Casa que começámos também roças, aos postos superiores da administração. De-
a aprender a conhecer essas diferenças. pois da 2.a Guerra Mundial, começam a surgir pes-
soas de outras camadas, tanto da população colo-
R.M. — Enquanto o Carlos Ervedosa sugere na, como população autóctone, indígena, mulatos,
harmonia e unidade quase totais, recordo aqui pretos, que começa a introduzir um outro conteú-
o que o Manuel Lima escrevia e que é bastante ra- do na Casa. No final dos anos 40, início de 50,
dical. Gostaria de ouvir comentários dos convida- com a geração do Amílcar, do Marcelino, do Lara,
dos que estão na assistência. Manuel Lima escre- dos Espírito Santo de S. Tomé, um outro conteúdo
via, no livro “As Lágrimas e o Vento”, o seguinte: é introduzido na Casa. É o momento em que Fran-
“A CEI era um centro bastante reaccionário que cisco José Tenreiro e Mário de Andrade, por
consagrava as divisões socio-raciais existentes nas exemplo, fazem aquele manifesto e antologia de
colónias, entre os estudantes do Ultramar, e onde literatura que é pequena mas que foi um primeiro
os estudantes do Ultramar se erigiam em revolu- pontapé de saída de afirmação cultural dos nossos
cionários a conta-gotas, de óculos e pêra à Lu- povos com uma identidade própria. É o momento
mumba, mas tirados a papel químico da imagem em que se cria o Centro de Estudos Africanos (e o
dos seus colegas metropolitanos. O desencadea- Centro de Estudos Africanos da Universidade
mento da insurreição em Angola deixara-os tão Eduardo Mondlane chama-se assim em homena-
surpresos quanto perplexos”. gem a esse Centro de Estudos que foi feito nesse
Um pouco mais tarde, numa entrevista, Ma- período da história da CEI). Creio que, dos funda-
nuel Lima argumenta sobre esta sua afirmação dores do CEA só estão vivos o Lúcio Lara, de An-
e diz que a CEI teve um aspecto positivo e um as- gola, e o Marcelino, de Moçambique, os outros to-
pecto negativo. O aspecto positivo foi a Casa ter dos já faleceram.
permitido a troca de ideias, permitido aos coloni- Esta é a viragem em que participa Fernando
zados terem um ponto de encontro e sobretudo de Vaz, em que começa a introduzir-se uma compo-
consciencialização e saberem que estavam todos nente de afirmação nacionalista. De alguma ma-
irmanados por um problema comum, que era uma neira sou da geração que sucede à do Fernando
luta de libertação. Mas nessa mesma CEI, diz ain- Vaz, pois entrei em 58 (...) Em 58 já há uma cliva-
da, reuniram-se involuntariamente os futuros car- gem entre os estudantes das colónias, clivagem
rascos e as futuras vítimas. Sempre houve dispari- que corresponde por um lado à polarização que se
dades, é absolutamente falso pensar que pelo facto acentuou em Portugal, com a campanha do Hum-
de ser um centro de intercâmbio e troca de ideias, berto Delgado, que é uma contestação de massas
fosse algo em que houvesse unidade ou semelhan- do sistema fascista mas que também é uma toma-
ça entre os componentes que frequentavam a Ca- da de consciência nossa, já em moldes nacionalis-
sa. tas. É nesta época de 56, 57, 58 que o Senghor
É uma visão bem diferente da do Carlos Erve- vem à CEI, que se convida gente que vem apre-
dosa e que o Luís Filipe Pereira agora aflorou: sentar um ideário de nacionalismo.
a existência, já na CEI, de diferenças bem marca- Até se convidou o irmão do Jomo Kenyatta,
das, estratos sociais diferentes, raciais e eventual- que era muito reaccionário, que chegou à CEI, in-
mente também de carácter ideológico. Sérgio Viei- sultava o Kenyatta, insultava os Mau-Mau, e de-
ra, que esteve na Casa, que percepção tem desta fendia o colonialismo britânico. Foi uma surpresa
visão de Manuel Lima? para toda a gente, mas aconteceu. (...)
1958 é o momento já de uma grande tomada de
S.V. — Fiz parte da CEI no período de 58-61. consciência dos estudantes das colónias. (...) já foi
Corrijo o Fernando Vaz: a fuga não foi em 63, foi referido pelo Fernando Vaz que nós, os das coló-

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nias, tínhamos muito mais tempo e liberdade do IST, em Agronomia... E quando, em 60-61, é in-
que tinham os de Portugal. Daí o nosso empenha- troduzida a segunda Comissão Administrativa, já
mento maior, tanto nos estudos como na activida- com motivações políticas muito claras (tratava-se
de estudantil. Por que é que a PIDE teve sempre de destruir a CEI), em todo o movimento associa-
uma certa hesitação perante a CEI? tivo português cria-se solidariedade connosco; to-
Há que considerar vários factores. Um é o fac- das as associações académicas em Portugal protes-
tor internacional: começava a desenvolver-se no tam e observam o luto. Igualmente, as uniões
âmbito das Nações Unidas e da comunidade inter- internacionais de estudantes, seja a COSEC, seja
nacional a contestação do colonialismo. É por isso a UIE, protestam contra a introdução da Comissão
que, em 51, Portugal muda “colónias” para “pro- Admmistrativa.
víncias ultramarinas” e acaba-se com o “império”, Lembro-me que o Prof. Adriano Moreira, Mi-
o seu conceito jurídico. Proclama-se a igualdade, nistro do Ultramar, recebeu os corpos gerentes da
etc. CEI (...). Quando nos encontra, diz-nos “... dizem
É verdade também o que dizia Adriano Morei- que Portugal coloniza África mas, olhando para os
ra sobre a nata da “intelligentsia” de todas as coló- senhores, não sei quem coloniza quem, porque es-
nias que estava na Casa. tão aqui os dirigentes de todo o movimento asso-
Nesta nata havia gente que era filho de alguém ciativo português”. Eram dirigentes da CEI, tinha-
e havia gente que era filho de ninguém. Mas os fi- -se operado esta transformação.
lhos de alguém protegiam os filhos de ninguém Quanto às observações do Lima e do Luís Fili-
e davam um grande guarda-chuva. Não se atacava pe, direi que há uma clivagem nomeadamente for-
de qualquer maneira. te em Angola, observa-se que os estudantes ango-
São estes três factores: a comunidade interna- lanos, ligados às igrejas protestantes e que estão
cional olhava; tratava-se da intelectualidade nas- nomeadamente no lar de Carcavelos, pouco fre-
cente das colónias portuguesas e havia ainda, lá quentam a CEI. São estes estudantes que, mais tar-
dentro, muita gente que era filho de alguém. de, vão dar origem, também, a uma certa “intelli-
Isto protegia, de algum modo, a CEI. É o mo- gentsia” que se vai juntar à UPA; digo bem,
mento de grande actividade cultural. O Luís Filipe à UPA, trata-se de uma época histórica determina-
mencionou a Mensagem. Foi o lançamento da Co- da (...).
lecção Autores Ultramarinos, o lançamento das Em parte o que diz o Manuel Lima pode ser
primeiras antologias moçambicanas. A primeira real no que diz respeito a Angola, não é tão real
foi feita por Luís Pollanah em 58 ou 59, a segunda no que diz respeito às outras colónias. O próprio
foi por Alfredo Margarido já em 60-61. Publica-se Pepetela tem frases que considero infelizes a pro-
pela primeira vez o Craveirinha, o Agostinho Ne- pósito da CEI e de Moçambique, da participação
to, o António Jacinto, começou-se a publicar auto- de Moçambique na CEI. Mas o Manuel Lima po-
res de Angola e de Moçambique. Por consequên- de ter alguma razão, não nesses termos radicais
cia também aumenta a projecção cultural da CEI que utiliza, que considero bastante falsos, deturpa-
no seio da própria “intelligentsia” portuguesa, que dos (enfim, fazem parte das querelas de Manuel
começa a descobrir uma literatura em língua por- Lima com Angola), mas é uma certa realidade que
tuguesa que vem das colónias, e que também vai em Angola, havia uma clivagem.
servir de escudo e de solidariedade connosco. E um último ponto. Desenvolve-se sim activi-
Simultaneamente, a nossa actividade leva-nos dade política na CEI. Tem-se muito cuidado em
a que, em todo o movimento associativo estudan- separar aquilo que é a actividade individual da ac-
til, haja pessoas da CEI. O Videira era Vice- tividade da Casa, como tal. A Casa escuda-se no
-presidente da Associação Académica de Coimbra. ser apolítica e arreligiosa e recusa tomar posição.
Olhando para as Associações em Lisboa: o Camilo Quando o governo português quis que tomássemos
Pereira Leite, de Moçambique, era o Presidente da posição sobre a questão colonial, defendendo a po-
Associação Académica de Direito; eu era o Secre- sição portuguesa, brandimos o Art.o 3.o (...) como
tário-Geral da RIA; antes de mim foi o David Ber- bandeira: “Somos apolíticos, não podemos tomar
nardino, de Angola, e depois de mim foi o actual posição; por imposição vossa recusamos tomar
Presidente da Câmara de Lisboa, Jorge Sampaio. posição.”
No Instituto Superior Técnico, o Paulo Jorge Por isso colocaram a Comissão Administrati-
era da Direcção da Associação de Estudantes do va, que foi um fracasso naquela época. Foi um

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fracasso porque houve um boicote total à comis- trativa durante o ano de 61 da CEI em Lisboa e é
são administrativa (...) não cumprimentávamos os o momento em que saímos. A partir daí é história
elementos da comissão administrativa (...) eram que outros poderão contar (...).
tratados pelas alcunhas (...) os únicos com autori-
zação para falar com a Comissão Administrativa R.M. — (...) Sobre as clivagens, a primeira
eram (...) o Hélder Martins, Presidente da Assem- clivagem não seria entre os estudantes da Casa
bleia Geral, o Paulo Jorge (...). (...) e aqueles que não eram sócios da Casa? Isso
Isto criou um ambiente de rejeição total... Está era evidente nos estudantes que iam de Moçambi-
aqui gente que, nesse momento, apareceu na CEI, que (...).
como o Mário Machungo, o Presidente Joaquim
Chissano, o Pascoal Mocumbi, que até vão assinar S.V. — Os factos não me parecem tão lineares.
o abaixo assinado condenando a introdução da Co- Creio que o grosso dos estudantes que estavam em
missão Administrativa. Portugal na época (...) estava na Casa. Inclusiva-
Esse é um período de agravamento de contra- mente (...) a CEI tinha importantes serviços so-
dições entre as colónias e Portugal. É um momen- ciais. Tínhamos um restaurante que era o único
to em que se desenvolve já, e de maneira sistemá- restaurante universitário que havia na época
tica, a actividade política clandestina, em que se (o restaurante da Cidade Universitária só começou
começa a conceber o plano da fuga clandestina a funcionar em 62). Até essa época, a única asso-
dos estudantes para o exterior. É o momento em ciação de estudantes que tinha restaurante era
que se organiza a junção de vários factores: o nos- a CEI e pagávamos 5$00 por refeição. Tínhamos
so movimento, (...) a CONCP no exterior, com os os lares em Coimbra e Lisboa, uma Biblioteca, on-
movimentos que nasciam, nomeadamente já se de se podia estudar e conviver. Era a única asso-
afirmavam o MPLA e a UPA, o PAIGC (a Frelimo ciação de estudantes que estava aberta à noite, em
era ainda inexistente). Há as igrejas protestantes que se podia conviver (...) porque as outras esta-
e os Estados Unidos, então preocupados em dar vam instaladas nos recintos das Faculdades e fe-
uma certa solidez de quadros à UPA (...). chavam. E havia as festas da Casa, as farras (...)
Consegue-se fazer uma certa frente comum Havia os almoços, as moambadas feitas pelas ma-
que congrega a actividade clandestina da CEI, nas Mangueiras.
a actividade clandestina do PCP, do PCE, a activi- Por isso não haveria muita gente que estives-
dade clandestina das igrejas protestantes. Decidiu- se à margem da Casa. No meu tempo quem esta-
-se que, com o apoio do PCP e do PCE, se fizesse va à margem da Casa, era fundamentalmente
a travessia clandestina dos territórios português gente que rejeitava frontalmente aquilo que a Ca-
e espanhol, e com o apoio das igrejas protestantes sa começava a ser: um local de manifestação po-
seriam recebidos os estudantes em França. lítica e de afirmação dos nossos povos. Era pouca
Nesse momento há uma grande querela, por- gente.
que se tratava de saber se se trazia todos os estu-
dantes ou só se trazia os estudantes protestantes R.M. — Dr. Mário Machungo?
(...) quem resolveu finalmente a querela foi uma
figura europeia de grande prestígio, o pastor Marc M.M. — Tenho pouco a acrescentar. Cheguei
Bugner, Presidente do Conselho Ecuménico, anti- a Portugal em 59. Sou de uma geração que já sai
go prisioneiro político e que esteve nos campos de de Moçambique com o fermento do Núcleo dos
concentração do fascismo. Na reunião em que as Estudantes Secundários Africanos. Já tínhamos
igrejas protestantes estavam divididas, ele disse um bocado de nacionalismo. (...) O meu grupo não
que... tinha sobrevivido graças à unidade dos anti- foi logo acolhido na CEI, fomos acolhidos no tal
-fascistas. grupo de protestantes de Carcavelos e do Lumiar;
Então saiu toda a gente. E assim se fez a fuga. e foi esse núcleo que nos levou à CEI.
O elemento de ligação das igrejas protestantes era (...) Vou contar um detalhe. À nossa despedida
o Chefe de Gabinete do Ministro dos Negócios aqui (o Salomão Mungwambe e eu) a PIDE cha-
Estrangeiros de França (na época o Couve de mou-nos à sala do aeroporto (...) e disse-nos: “Vo-
Murville), o Pastor Jacques Beaumont (...) Mas es- cês vão estudar, tenham cuidado quando chegarem
te período é um período de acentuada actividade a Lisboa, não vão a uma Associação chamada Ca-
política. Conseguimos tirar a Comissão Adminis- sa dos Estudantes do Império, que há lá comunis-

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tas. É melhor dedicarem-se ao estudo, não se en- movimentos de libertação nacional. É por isso que
volvam com essa gente (...)”. em 61-62 a MP cria a PEU como forma de neutra-
Quando chegámos, quem nos recebeu em Lis- lizar a acção que decorria na CEI que, além do re-
boa foi o Eneias Comiche, que vivia já num am- feitório, palestras, que congregavam os estudantes
biente de negros angolanos, ligados às igrejas vindos das colónias, organizava também as via-
protestantes, presbiteriana e outras; e foi no seio gens de férias de dois em dois anos. Isto era tam-
desse núcleo que convivemos nas primeiras se- bém um elemento aglutinador dos estudantes no
manas; mas (...) esse núcleo levou-nos à CEI. seio da CEI.
Talvez se possa aqui identificar um pouco a divi- Agora, quando isso tudo passa para a gestão
são já mencionada (...) entre um conjunto de es- da PEU, muitos estudantes já não se querem iden-
tudantes negros que estavam mais ligados às tificar com a CEI porque poderiam perder os seus
igrejas protestantes (...) e não eram frequentado- privilégios, nomeadamente a bolsa e a possibilida-
res da CEI e outro grupo que era de frequentado- de de virem de férias de 2 em 2 anos.
res assíduos. A partir de 61/62 para além da fuga, devem ser
Mais tarde talvez tenha havido uma grande di- mencionados vários factos. Há a Direcção (...) do
visão, depois de 61-62, já depois da fuga (...) Era Óscar Monteiro, que foi Vice-presidente na CEI.
preciso combater a Casa, mas não era possível fe- Há uma leva de prisões de estudantes (uns foram
chá-la: então o establishment criou a Procuradoria presos aqui na Beira, outros presos em Angola)2 —
dos Estudantes Ultramarinos. Aí passaram a afluir o que levou a aprofundar a repressão sobre a CEI,
a maior parte dos estudantes das colónias bolsei- porque esses estudantes traziam panfletos nas suas
ros; tinham que ir receber a bolsa lá e eram vigia- férias e foram presos por isso, devido a uma denún-
dos. Não podiam frequentar a CEI, pois teriam cia. Esses eram identificados com a CEI. A CEI so-
problemas com a bolsa (...). fre uma grande repressão na Direcção do Rui Pe-
reira, do Óscar Monteiro e outros (...) e depois nós
R.M. — Ao chegar a Lisboa, levava já, de vivemos uma fase com muitas dificuldades.
certo modo, o gérmen do nacionalismo como re- Foi a altura em que, depois da Comissão Ad-
sultado (...) de reflexões que já se faziam aqui. ministrativa, foram retirados à Casa todos os re-
Havia alguma ligação entre a CEI e as colónias, cursos financeiros (...). Não havia dinheiro para
neste caso Moçambique (...)? a CEI. (...) para pagar a renda daquele edifício da
Duque d’Ávila frequentemente íamos a casa do
M.M. — Eu só tive conhecimento da existência Dr. Arménio Ferreira, de Angola, que nos arranja-
da CEI através da PIDE, aqui no aeroporto. Não ti- va dinheiro para pagar a renda à última hora. Mas
nha conhecimento enquanto estudante secundário lá conseguíamos, com subsídios, fizemos colectas
africano e membro do Núcleo de Estudantes Secun- junto de alguns antigos estudantes da Casa que
dários Africanos. (...) Fui levado à CEI por este nú- trabalhavam já em Lisboa, que nos davam algum
cleo de estudantes negros de Angola, ligados às dinheiro para mantermos a cantina e outras activi-
igrejas protestantes, nomeadamente ao Movimento dades da CEI.
Académico Cristão. Não sei de ligações entre as Mesmo retirando os recursos financeiros da
acções políticas da CEI em Portugal e o movimento Casa, não conseguiram matá-la. Mantivemos a Ca-
nacionalista negro em Moçambique (...). sa viva. Houve edições da Mensagem, de todas es-
Contudo devo sublinhar que sofremos uma sas publicações que tínhamos, conseguimos man-
evolução mais profunda através da análise do fe- ter todas as actividades culturais.
nómeno colonial e da solução dos problemas colo- A Casa servia já de elemento de ligação, em-
niais, a partir de 62 na CEI, e também com o nas- bora clandestino, com os movimentos de liberta-
cimento e crescimento das organizações de luta ção nacional que já tinham iniciado as suas activi-
anti-colonial nas colónias, nomeadamente com dades nas colónias portuguesas.
o desencadeamento da guerra em Angola em 61 Mas a acção da Casa começava a enfraquecer,
e depois com a criação da Frelimo em 62. as pessoas iam fugindo aos poucos. Além da fuga
A CEI começa já a assumir um cariz marcada- de 61, houve outras. O núcleo que ficou na Casa
mente político; as pessoas que iam para a CEI ti- começou a reduzir-se cada vez mais (...) E foram
nham já realmente uma militância marcada de luta cometidos erros que comprometeram a existência
anti-colonial e uma ligação muito directa com os da Casa (...) Deu-se a prisão de um grupo que ti-

82
nha utilizado a Casa para actividades políticas di- periência dos angolanos. Em 62 vim aqui
rectas, nomeadamente a impressão de documentos, distribuir o AntiColonial que era coordenado, se-
e que foram descobertos. Isto levou ao encerra- gundo sabia, em Coimbra. Era um misto de cons-
mento da Casa em 1965. ciência e de aventura (...) Recordo-me que, quan-
Nessa altura era Presidente o Ferreira Mendes, do cheguei ao Norte, (...) tive informação de que
o Fofo, e eu era Presidente da Assembleia Geral dois elementos que estavam na Beira tinham sido
da CEI, quando foi encerrada pela PIDE. detidos (o Pais Mamede e o Beto Melo) (...) Fi-
quei bastante preocupado, eles sabiam que eu ti-
R.M. — O Tomás Vieira Maio é um jornalista nha ido para o Norte. Procurei rapidamente voltar
demasiado jovem para ter estado ligado à Casa, e quando passei em Luanda consegui falar com al-
mas tem uma questão. guns dos elementos (...) tive informação de que já
tinha havido mais detenções de gente em Luanda.
T.V.M. — De facto quando a Casa foi encerra- Quando cheguei a Lisboa telefonei imediatamente
da eu tinha apenas 14 anos e estava obviamente em ao Rui Quartim e ao Óscar Monteiro (...) O Óscar
Moçambique. Desde o início desta “Linha Directa” ficou perturbado (...) e a partir daí ele teve de or-
há um elemento que me atraiu a atenção: a começar ganizar a sua saída (...).
pelo Dr. Rosinha, até à intervenção do Dr. Sérgio
Vieira, que é um elemento que aparentemente colo- R.M. — Confirma, assim, essa espécie de “su-
ca a parte angolana da CEI como a parte motora premacia” dos angolanos?
importante nesta história e em que os outros estu-
dantes, nomeadamente os moçambicanos, aparecem L.F.P. — Supremacia não direi mas um maior
com um papel bastante inferior; até porque alguns número, talvez uma maior consciencialização,
autores angolanos, como o Pepetela no seu livro uma forma de solidariedade, de entendimento, de
“A Geração da Utopia”, utiliza expressões, de certo códigos, de linguagem e de expressão cultural
modo... não diria ofensivas porque não é pessoal, mais ricas, confirmo que sim.
mas bastante controversas. Não tenho em mente
a expressão que utiliza, mas quando se refere aos R.M. — Dr. Fernando Ganhão?
moçambicanos da CEI, descreve-os como represen-
tados por grupos esquivos, ele diz “os englishmen” F.G. — É difícil colocarmo-nos neste papel de
que apareciam no café, tomavam o café, como objecto da história. A idade passa por nós, a me-
quem vinha espreitar, e desapareciam. Queria per- mória nem sempre é muito acutilante, mas é uma
ceber um pouco, gostava de perceber como era ali mera razão aritmética: os angolanos eram a maio-
essa relação. Angola aparecia como um grupo es- ria esmagadora na CEI, pelo menos no meu tem-
magador e nesta fase reivindica um pouco isso, po. Vinham de uma vasta representação da socie-
o papel de que “... fomos nós a mãe e o pai desta dade angolana; havia desde filhos de colonos até
Casa”. Queria ouvir os comentários de quem esteve angolanos de camadas sociais bastante humildes.
na Casa em relação a esta visão que existe em An- O processo de colonização diferenciado em
gola e de autores angolanos que estiveram na asso- Angola e Moçambique favoreceu esse facto. Che-
ciação naquela época. guei à CEI em 1957; aqueles que frequentavam
(...) assiduamente a CEI, vindos de Moçambique, eram
praticamente todos filhos de colonos. Havia um ou
L.F.P. — O Ganhão é mais indicado para fazer dois mulatos, se bem me recordo, mas que eram
esse comentário, mas lembro-me das consequên- até talvez mais violentamente colonialistas do que
cias a seguir ao encerramento da Casa. Ainda esti- nós próprios, e penso que há que reconhecer esse
ve alguns anos em Coimbra e, sem dúvida, na ca- papel histórico que o grupo dos estudantes angola-
sa onde eu vivi, que era, no fundo, a extensão da nos representou na criação de uma consciência na-
CEI (...) no debate, na consciencialização política, cionalista.
nas formas de organização e ainda do que pude Nós próprios, e eu no meu caso pessoal, posso
perceber de um conhecimento mais profundo do dizer que fui despertado ali para a problemática do
seu país e da sua cultura, o angolano pesava efec- nacionalismo e das independências; o próprio pro-
tivamente neste processo, naquilo que pude acom- blema da independência nunca se me tinha posto.
panhar e observar. Aprendemos bastante com a ex- Quando cheguei a Portugal para ir estudar, ia com-

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pletamente virgem de qualquer pensamento nesse ra)... Considero que essa geração de angolanos,
sentido e foi na CEI (que uma sucessão de facto- pela sua própria diferenciação, pela interacção, pe-
res me levou a frequentar, essencialmente de or- los debates que essa sua própria diferenciação es-
dem económica) (...) foi nessa convivência diária, timulava, foi um dos grandes motores da constru-
que começa por uma necessidade de índole mate- ção de uma consciência nacionalista sólida
rial e afectiva, que se vai chegar ao despertar de e ajustada àquilo que era a luta eminente que, na
uma consciência nacionalista. sociedade portuguesa, se fazia e que ia desde a lu-
A época histórica que se vivia nessa altura, ta estudantil nas associações de estudantes...
57-58, era o pleno período da guerra da Argélia na Recordo-me da primeira manifestação pública
sua maior intensidade e das contradições na socie- quando chego a Portugal: dois dias depois de chegar
dade francesa e argelina. Foi o período em que fui levado, por um grupo de amigos, para a Assem-
a Guiné Conakry se tornou independente, em que bleia da República Portuguesa onde ia ser discutido
Ghana se tornou independente, em que o processo o famoso decreto 40.900, que impedia as associações
de descolonização das colónias francesas e ingle- de estudantes de se constituírem fora do quadro da
sas começa a aparecer nos jornais e nós começa- MP. Era um novo ímpeto que o fascismo trazia para
mos a ler. É nessa altura que vêm à CEI personali- impor de novo a MP. Lembro-me que fomos fazer
dades já aqui citadas, o Senghor por exemplo, para uma manifestação e levei as minhas primeiras panca-
só citar um, e que foi violentamente contestado das com “cassetête”. Penso que elas ajudaram-me
porque inexplicavelmente nessa altura Senghor muito a consolidar a consciência nacionalista (...)
veio fazer, em pleno 58, a defesa do luso- Foram angolanos que me levaram lá, por um
-tropicalismo que estava na moda e que era a filo- encontro muito fortuito; vim num voo da TAP, da-
sofia oficial do colonialismo português, apoiada queles voos morosos, que ficou retido 4 dias em
pela experiência que Gilberto Freyre apresentava Luanda, ... a TAP meteu-nos, com mais três outros
no Brasil. Todo este conjunto de actividades so- estudantes de Angola, num hotel. Comecei a falar
ciais, culturais, tinham um carácter eminentemente com eles; eram estudantes que já estavam em Por-
político; nada do que se fazia na CEI, a não ser tugal a estudar e que regressavam de férias; e foi
talvez as festas (e as próprias festas, algumas, ti- através deles que entrei na CEI, na altura em que
nham uma conotação de camuflagem), mas qual- ela readquiria de novo a sua personalidade porque
quer peça de teatro, qualquer conferência, qual- tinha essa nova direcção: o Fernando Vaz, o Presi-
quer actividade na CEI, estava profundamente dente, o David Bernardino, o Vice-presidente; tí-
imbuída de um implícito sentimento político. Isso nhamos ainda um de Moçambique, que era Presi-
era visível mesmo às pessoas que estavam fora da dente da Assembleia Geral, a esposa do Fernando
CEI. O rei ia nu, não se enganava ninguém. Na al- Gil, Maria Leonor Correia de Matos.
tura talvez fôssemos ingénuos e pensávamos que,
dissociando a actividade oficial da Casa da nossa R.M. — Vamos passar agora à cidade da Bei-
actividade individual, estaríamos de alguma ma- ra. Queria perguntar ao Ferreira Mendes, de uma
neira a esconder, a impedir que as autoridades fas- geração um pouco mais nova, dos anos 60, que
cistas portuguesas, a PIDE particularmente, pudes- comentários tem sobre o que foi dito e um comen-
sem detectar aquilo que fazíamos. Mas era tário especial sobre esta questão da postura que ti-
bastante claro, à distância do tempo, hoje vemos nham os moçambicanos na CEI, sobretudo em re-
que era quase que transparente. lação aos angolanos?
Quanto a mim, e para dar seguimento à per-
gunta sobre esse papel importante que os estudan- F.M. — Aqui na Beira estive a ouvir atenta-
tes angolanos tiveram... (angolanos que tinham já mente o que foi dito pelas outras pessoas. Passei
a sua própria divisão — porque havia muitas cli- pela CEI de 1960 até ao seu encerramento. O que
vagens que se notavam já, clivagens políticas den- tenho a acrescentar é mais sobre os últimos 3
tro de um contexto anti-colonial, não dentro do anos. Tinha 17 anos em 60, foi aí que aprendi
contexto colonial ou pró-colonial; o próprio futuro o que era o nacionalismo. Sem dúvida a CEI re-
demonstrou, o percurso de muitas personalidades, presentava o que havia de mais progressista em
uma das quais aqui citada, o Manuel Lima, com Portugal referente à situação colonial. Em 1964
quem colaborei muito estreitamente na feitura da e 65, grande parte dos moçambicanos que chega-
revista Mensagem, aqui com o Luís Filipe Perei- vam a Portugal eram filhos de colonos que já iam

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muito para a Procuradoria dos Estudantes. Já se ti- CEI. O Rialva com os angolanos, moçambicanos,
nha formado a Universidade em Moçambique e a Mimo com os cabo-verdianos fundamentalmente.
e portanto muitos poucos moçambicanos iam para
Portugal. A maior parte dos meus amigos na Casa S.V. — Um detalhe saboroso. A Mimo e o
eram angolanos. Rialva estavam do outro lado da rua. Em 58, du-
Por outro lado, a guerra colonial tinha-se ini- rante as eleições do Humberto Delgado, íamos to-
ciado, as contradições eram muito fortes. Estáva- mar café à Mimo, ao Rialva, e aquilo estava sem-
mos já numa situação de fraqueza nos últimos pre infestado de Pides. Havia um moço de
anos. Como foi dito, nos anos 61-62-63 muita Moçambique, um grandalhão, o Jorge Amado e en-
gente saiu, foi para a Frelimo, para o MPLA (já tão começa um pide a provocar “... Então agora
muitos eram membros, mesmo lá) e isso enfraque- com o Delgado, etc...” Continuou a provocação, ele
ceu fortemente a CEI e a sua Direcção. Penso que, a tentar meter a conversa, até que o Jorge Amado
dadas estas contradições, a agudização da guerra, se levanta, agarra-o pelo pescoço e dá-lhe uma
foi isso que levou a PIDE a encerrar a Casa, a sen- grande punhada na cabeça, o homem desmaiou.
tir força para a encerrar. A partir daí declarávamos à polícia, muito sé-
A Direcção já era fraca mas, mesmo assim, no- rios, que não admitíamos provocações... Durante
te-se um facto: a PIDE foi encerrar a Casa durante uns tempos, não tivemos pides na Mimo e no
as férias; isto quer dizer que ainda receava tomar Rialva; quando eles entravam nós defendíamos os
uma atitude dessas na altura das aulas, em que ain- valores sãos...
da poderia haver uma certa reacção da nossa parte.
A experiência da CEI, pessoalmente, foi muito im- F.M. — Quero dizer ao Sérgio Vieira que
portante na minha vida. Não me esqueço que quan- o Jorge Amado está aqui na Beira.
do prendiam algum colega, algum membro da Ca-
sa, devido até a actividades políticas, a nossa S.V. — Um abraço para ele!
Direcção protestava formalmente à PIDE. Chegáva-
mos a ir à António Maria Cardoso, estar com os R.M. — (...) gostaria de pedir ao Calane da
srs. Silva Carvalho e Cia, jovens como éramos, en- Silva, que não esteve na CEI, que falasse de pos-
frentar aquela gente. Isto de facto foi uma forma- síveis contactos com pessoas da Casa, quando vi-
ção que eu tive e aprendi muito para a minha vida. nham de férias, o L.F.P. falou em panfletos. Nessa
altura, bastante jovem, tinha alguma ideia de que
R.M. — Fecha-se a CEI, mas ainda há estu- existia a CEI?
dantes que eram da Casa que ficam lá. Consegui-
ram manter contacto, juntarem-se nalgum sítio, C.S. — Pessoalmente tinha porque, na família,
continuar um pouco o que faziam quando a Casa o meu irmão tinha partido para Lisboa, com o Co-
estava aberta? miche foi o meu irmão Eduardo. Devo dizer que
nem todos os estudantes pertenceram à CEI, por
F.M. — Evidentemente que um pouco se con- medo, por questões de bolsa, etc. Estavam afasta-
tinuou, mantiveram-se amizades, mas de facto, aos dos dessas actividades culturais e políticas (...) Ti-
poucos, as pessoas foram-se isolando e natural- ve informações através do Comiche, quando vie-
mente uma parte acabou por regressar à sua terra ram de férias dois anos depois (...).
de origem. Grande parte acabou por ficar em Por- Aqui em Moçambique tínhamos contactos, (...)
tugal. Da minha geração, a maioria acabou por fi- lembro-me bem de que conversávamos sobre es-
car em Portugal. sas questões com o Comiche e a Elsa Noronha.
Nessa altura, 61-62 (...) estávamos no Liceu
R.M. — O café Rialva não teve nenhum papel António Enes; soubémos, porque chegou directa-
nessa fase? (...) Há cafés em todo o mundo que mente às minhas mãos uma espécie de convite-
marcaram a história desses países e em Lisboa, no -panfleto, que ia haver aqui (...) na altura das férias
caso concreto da CEI, o Café Rialva, que ficava grandes, uma palestra com estudantes universitários
próximo da Casa, teve o seu papel. na Associação dos Naturais de Moçambique.
Lembro-me que (...) na mesma altura aparece-
F.M. — Penso que o café Rialva, assim como ram (deve ter sido obra dos Serviços de Informa-
a Mimo, que era ao lado, eram salas de estar da ção da PIDE, dentro dos liceus) comentários...

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“Mas isto é esquisito, os estudantes universitários participámos em coisas interessantes muito seme-
nunca se misturaram com os estudantes liceais, há lhantes às que aconteceram na CEI (...)
qualquer coisa esquisita, é melhor vocês não irem
lá, devem ser comunistas” (...) R.M. — Espero que o ouvinte que está em li-
Estávamos a assistir à reunião de fora dos vi- nha tenha tido a paciência de esperar, Dr. Raul
dros das janelas da Associação dos Naturais, aqui Honwana...
na 24 de Julho, mas lembro-me que eram discus-
sões muito empolgadas e versavam sobretudo pro- R.H. — Queria saudar a ideia de se falar hoje
blemas de cultura e identidade. Não me esqueço sobre a CEI (...) Cheguei a Lisboa em 1962, quan-
porque depois quis abordar essa questão com do a Casa estava já nos últimos 3 anos da sua
a Dra. Maria de Lourdes Cortez, através da qual existência, mas ela era de facto o fórum embrioná-
começámos a entrar também no mundo da cultura, rio do nosso nacionalismo. Foi lá onde aprendi
através da Sociedade de Estudos, aqui na Avenida muita coisa daquilo que sei e que sou hoje.
Eduardo Mondlane. Sentíamos que alguma coisa Não tenho muito a acrescentar, apenas dizer
se estava a passar e soubemos que eram os tais es- que a CEI foi o lugar onde nós todos, dessa época,
tudantes de uma casa chamada CEI (...) aprendemos bastante daquilo que viria a ser a nos-
Penso que dois desses estudantes que partici- sa personalidade política hoje. Referi-me a isto
param na palestra foram enviados de imediato pa- quando foi da criação da Associação de Estudan-
ra Portugal e não acabaram as férias (...) As pales- tes Universitários, aqui em Maputo, dizendo que
tras terminaram abruptamente e passados três ou a função dos estudantes não é apenas procurarem
quatro meses, no Liceu Salazar, fomos convidados um lugar onde se reunir e pensar em festas. Há
(convite obrigatório) para assistir a umas palestras muito mais do que isso.
(...) um senhor do regime vinha-nos falar do que Quando lá cheguei (quem me recebeu foram
era o luso-tropicalismo mas, simultaneamente, o Rui Mingas, o Óscar Monteiro e outras pessoas)
agredindo o Brasil, tentando separar-nos daquilo estava-se a pensar na edição do livro do Luandino
que o Brasil podia representar em termos de auto- Vieira e foi talvez esse o leit-motiv por que a PIDE
nomia e independência. Eram coisas (...) que nos mandou encerrar a Casa.
despertavam a atenção. No ano seguinte, em 63 O trabalho, a actividade social e política da
(...) as propinas dos alunos de famílias humildes, CEI, não se circunscreviam apenas a questões es-
que eram pagas pela assistência pública, passaram tudantis. Era uma actividade que tinha muito mais
a ser pagas pela MP, (...) para fazer a tal chanta- ambições do que simplesmente essa questão da
gem: “ou pertences à MP, ou perdes a bolsa”. aglutinação dos estudantes coloniais. Na altura es-
Com a CEI (....) não tínhamos contactos direc- tava também em criação a Procuradoria Geral dos
tos. (...) Foi realmente por medo, porque havia uma Estudantes Ultramarinos, que passaria a gerir
pressão muito grande não só em relação à questão a questão das bolsas, a questão das passagens de
das bolsas (...) mas também porque a PIDE traba- férias dos estudantes ultramarinos, mas mesmo as-
lhou excelentemente no sentido desta separação. sim a Casa funcionou.
Alguns nomes, inclusivamente o de Marcelino dos Há pouco foi referida a história da Mimo e do
Santos, um dos mais antigos da Casa, circulavam Rialva, cafés que foram designados como “as duas
aqui entre nós, com muito cuidado, e alguns poe- partes do muro da vergonha”, mas isso eram ques-
mas. Lembro-me que fomos proibidos de publicar tões próprias da altura. Queria participar neste fo-
um poema, já não me recordo do autor, no jornal rum, dizendo que também fui parte das pessoas
“Alvorada” da MP no Liceu António Enes. Houve que estiveram presentes na altura, que viveram
uma polémica muito grande, porque diziam que era a ansiedade quando estávamos sob ameaça, sob
da tal Casa dos comunistas em Lisboa. pressão da PIDE e mesmo assim mantínhamos
Não havia, de facto, esse intercâmbio, embora a vontade de continuar a lutar e trabalhar, apesar
alguns de nós a conhecessem. (...) Entretanto, na dessa ameaça e dessa pressão, e que isso foi a nos-
nossa geração, quisemos “começar a fazer as coi- sa grande escola de formação da personalidade, da
sas aqui, também”. Isto só desabrochou anos mais nossa consciência política.
tarde, já nos fins dos anos sessenta, princípios de (...) Esta ideia da CEI devia continuar através
setenta, quando começa a aparecer o associativis- das associações estudantis que hoje existem aqui
mo académico aqui. Adquiriu-se ritmo e, então, entre nós; que eles não se limitem a ser só estu-

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dantes que pensam em festas e coisas mais sim- tão da paixão que também tinha pelos problemas
ples, mas que pensem de facto no papel dos estu- das colónias. Durante toda a vivência dele com J.
dantes, aquilo que foi o nosso papel de estudantes Campinos (que morreu aqui na fronteira de Mo-
do império na altura, e que pensassem em conti- çambique com a África do Sul) este acabou por
nuar esta nossa actividade, que não fossem mais abraçar a causa dos socialistas em Portugal.
“a geração da utopia”, como diz o Pepetela, mas Mas, eventualmente, a paixão para com as co-
fossem a geração da mudança, a geração da res- lónias voltou ao de cima, e depois tentou outra vez
ponsabilidade. É esta a minha contribuição. retornar às colónias. Queria colocar a seguinte
questão: os personagens aqui presentes não terão
R.M. — (...) O Matusse que é da Associação tido também este problema, de serem conquista-
de Estudantes da nossa Universidade, o Dr. Mago- dos para a causa da luta contra o fascismo em Por-
de que está ligado à História, o Dr. António Sopa tugal e também para a luta nas colónias?
que comentários poderão fazer? A CEI foi uma (...)
coisa do passado e agora recordamo-la, ou é uma
coisa do passado que ainda mantém as suas raízes S.V. — (...) Sobre a questão do Jorge Campi-
evidentes no nosso presente? nos, efectivamente fez parte da fuga connosco
e identificava-se naquele momento com a questão
Magode — Não tenho propriamente um co- angolana. Possivelmente o Pascoal Mocumbi,
mentário mas uma inquietação (...) Depois da o Chissano, poderão dar mais detalhes pois que
2.a Guerra Mundial, sobretudo nos anos 50, come- o Campinos até foi colega deles, estava a estudar
çam a surgir na CEI (...) certas clivagens assentes com eles em Poitiers. (...)
na identidade racial, em convicções de natureza Isso foi um problema que se pôs a várias pes-
religiosa, inclusive na diferenciação étnica, segun- soas. Falou-se aqui no David Bernardino que foi
do percebi relativamente às referências à comuni- assassinado em Huambo, pela UNITA, como mé-
dade angolana (...) Essas particularidades, essas dico, porque recusou abandonar os seus pacientes
clivagens, terão sido já na altura assumidas para no Hospital quando foi da evacuação do Huambo.
se pensar num ideário filosófico, de como congre- O José, irmão dele, esse ficou em Portugal e hoje
gar essas forças que tendiam a divergir no proces- é membro da Direcção do PCP, do Comité Cen-
so da luta de libertação, no processo de formação tral. Aconteceram esses dilaceramentos e estas op-
dos movimentos de libertação, processo que reve- ções em diferentes pessoas.
lou ser, ele próprio, também fragmentário? Até Quanto à questão da etnicidade penso que
que ponto a etnicidade seria associada a este as- o problema se pôs diferenciadamente nas diversas
pecto da fragmentação que foi muito evidente em colónias portuguesas.
Angola e, creio, também (...) em Moçambique. Angola tinha um peso elevado naquele mo-
(...) Se bem que sempre tenha sido motivo de mento. A razão porque também havia poucos estu-
grandes debates no movimento de libertação de dantes moçambicanos em Portugal é o facto de,
Moçambique, a unidade nacional talvez não tenha em Moçambique, só haver um liceu naquela época
sido concretizada a uma dimensão desejável. a que me refiro — o Liceu 5 de Outubro/Salazar
enfim, agora Josina Machel. Em Angola havia vá-
R.M. — Luís Loforte? rios liceus; Cabo Verde tinha muito peso porque
teve um liceu desde o princípio deste século ou já
L.L. — Quero colocar aqui duas questões mui- no século passado. Havia uma maior afluência de
to rapidamente. A primeira é sobre uma leitura que estudantes daí (...)
fiz recentemente de uma memória escrita por Mário Em Angola, naquele momento, já se falava do
Soares, Presidente português. Fala de uma persona- petróleo, havia o café, os diamantes, etc. Tinha co-
gem, Jorge Campinos, que foi ministro socialista meçado a guerra em Angola; Angola era vizinha
em Portugal. Diz que conviveu com ele muitas ve- do Congo-Kinshasa e tinha um peso específico na
zes e terá colocado sempre um problema ambiva- geo-estratégia. No quadro da guerra fria, houve
lente: debatia-se com uma questão de servir a causa um alinhamento diferenciado. O norte estava mais
em Portugal contra o fascismo, nomeadamente fi- controlado por certas igrejas ligadas aos EU don-
liado com os socialistas em Portugal, e ao mesmo de, por razões até erradas, se pensou que ali era
tempo, sendo angolano, (...) debatia-se com a ques- a gente boa que podia vir com uma opção nacio-

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nalista pró-ocidental enquanto que o MPLA apare- aqui recordo esse passado que nos ajuda a viver
cia com uma conotação pró-comunista. A partir o presente e nos projecta para o futuro.
desse momento, tenta-se fazer unia clivagem no
nacionalismo angolano e desenvolveu-se esse tra- A.R. — Tenho que concordar que valeu a pena
balho. por vários motivos e este de nos reunir aqui du-
Não é que estes problemas não existam, mas rante quase duas horas a debater este assunto e a
de facto, em Angola fez-se uma exploração da et- fazer-me recordar os tempos em que eu tinha 20
nicidade e do tribalismo, inclusivamente, por ob- anos, embora sem aquele fervor que aqui foi apre-
jectivos que nada tinham a ver com Angola sentado por vários oradores. Nós naquele tempo
e eram manipulados por interesses exteriores éramos movidos por outros interesses, de encon-
a Angola. trarmos uma sociedade que nos recebesse. A so-
A questão da etnicidade (...) que se vai pôr em ciedade de Lisboa era hostil para nós... e a Casa
Angola tem muito a ver com o que foi a manipula- foi isso...
ção externa. Não digo que são problemas inexis-
tentes mas que (...) não teriam levado ao agrava- L.F.P. — Para mim penso que o que ficou de
mento de contradições que ocorreu, se não importante foi uma maneira de abordar o mundo
existissem os interesses externos. e a vida, ficaram fortes relações de amizade entre
todos aqueles que viveram uma certa época, rela-
R.M. — Matusse, da Associação de Estudan- ções profundas. Nós encontramo-nos às vezes em
tes da Universidade Eduardo Mondlane. países diferentes e há coisas de que nos lembramos,
umas, coisas sérias e outras caricatas, mas ficou es-
Matusse — Queria apenas dizer que as gera- sa relação, e ficou todo um sonho que não acabou.
ções da CEI constituem para nós um ponto de refe-
rência obrigatório. Olhamos com muita admiração F.M. — Como disse a minha passagem pela
o trabalho por eles realizado e sabemos, porque te- CEI foi determinante para o resto da vida. Aí criei
mos referências escritas e orais, conversamos com os meus ideais, comecei a ser nacionalista, até
eles, o esforço que eles fizeram para que os nossos a ser marxista.
países se tornassem independentes (...)
R.M. — O espírito que levou a este debate
R.M. — Nos poucos minutos que faltam vou e que congregou aqui várias pessoas que viveram
dar a palavra ao nosso painel para uma última a CEI, é um espírito que está presente noutros
consideração: valeu a pena pertencer à CEI? pontos de outras ex-colónias e também em Portu-
gal, onde nasceu a Associação dos antigos mem-
F.V. — Penso que sim e o Dr. Raul Honwana, bros da CEI e que também envolve as pessoas que
pelo telefone, sintetizou o que eu gostaria de dizer. neste momento estão em Moçambique e que even-
Na verdade, foi o movimento associativo, foi tualmente se queiram filiar.
o movimento da CEI em particular, que me ajudou
a formar politicamente, me ajudou a encontrar um 30.Outubro.1993.
rumo e uma determinação na nossa vida política.
Penso que foi extremamente importante e é 1 De facto ocorreu em Junho de 1961. (N.E.)
pois com muita alegria, com muita gratidão, que 2 E outros em Portugal (N.E.).

88
Memória de um tempo
ALDA DO ESPÍRITO SANTO*

E ra um tempo, com o registo da memória co- tia a possibilidade do desmoronamento de um so-


lectiva no presente histórico, com repercussão no nho messiânico, que abarcava territórios inexpug-
espaço evolutivo das nações-estados das antigas náveis, do Minho, da vizinha Galiza às ilhas
colónias do lusitano ocidente da Península Ibérica. atlânticas, do Portugal insular e da África tropical
No computador magnético de um cérebro ju- ao martirizado Timor Leste, entre a Austrália e a
venil, à distância de cerca de meio século, o ano Indonésia. Nesse mesmo contexto a orografia esten-
de mil novecentos e quarenta e oito é também um dia-se em progressão, da Serra da Estrela ao Pico
marco de início, do mergulho, do compromisso de São Tomé... aos montes Ramelau (2920 metros
e de assunção dos jovens rebeldes, que a compas- de altitude) — parcelas de um imutável feudo.
so das mutações que o pós-guerra (1939-1945) Porque assim era o Poder do Tempo, a Casa
apontou aos africanos, e suas diásporas do chama- dos Estudantes do Império e a sua heterogénea po-
do novo continente, se ergueram em grita, contra pulação, albergava nesse tempo um labirinto in-
o gigante torpedeiro, que em nome de Impérios, se trincado de estratégias, com ramificações e chaves
havia entrincheirado para perpetuar uma discrimi- secretas, que talvez nem todo o acervo de depoi-
nação, que no tempo, ignorava e ousava negar os mentos chegarão a decifrar por inteiro a completa
Direitos Humanos a milhões, com a legitimidade articulação dessa Geração Desse Tempo, que trou-
constitucional, dos impérios da época. xe para o palco do tempo presente a “Geração da
Era um tempo, em que na capital de um impé- Utopia” e as memórias de Pepetela, que através da
rio, os estudantes das colónias da Casa dos Estu- pena de um sociólogo ficcionista entrega à posteri-
dantes do Império, por seu turno e com a legitimi- dade o registo de um depoimento que é constante
dade da exigência da implantação da linguagem nota de leitura reflexiva para todos aqueles que
dos Direitos Humanos, em suas respectivas na- por intermédio das arestas de qualquer labirinto
ções, trilhavam “as longas marchas”, que teriam marcaram presença, como espectadores, visitantes
por força irresistível dos ventos da história de for- ou participantes do “legado” da Casa dos Estudan-
çar dominantes e dominados a sentarem-se nas tri- tes do Império.
bunas de diálogo, com a mediação do forum das Era um tempo em que uma vez a Secção de Es-
nações livres. tudantes de Cabo Verde da CEI promoveu um pe-
Era um tempo em que a Casa dos Estudantes ríodo de actividades dentre as quais se destacava
do Império na senda do lendário fundador da cida- uma palestra sobre uma conceituada figura de ciên-
de do Tejo despoletava o Império nas próprias bar- cia, desse chão de pedras de Cabo Verde. Recorde-
bas do seu omnipotente empório. -se que São Tomé e Príncipe estava integrada na
O “Poder do Tempo” não obstante as ousadias Secção de Cabo Verde, por certo, pela coincidência
juvenis (até da sua própria “Metrópole”) não admi- de insularidade e de são-tomenses e cabo-verdianos,

* Escritora sãotomense, co-fundadora do Centro de Estudos Africanos em Lisboa.

89
que através dos temas das secas, das fomes, se en- ”Teria Amílcar Cabral perfeita consciência da
contraram nessa “residência dramática” (Mário de opção que estava a fazer quando abandonou o gru-
Andrade) das roças de cacau e de café, que é hoje po de agrónomos com o qual colaborava? Creio
na pátria livre de São Tomé e Príncipe território de bem que sim. Quanto a mim, relembrando esse
são-tomenses e cabo-verdianos. dia, digo que a Agronomia e eu ficámos mais po-
Como dizia anteriormente num relembrar re- bres, mas que o mundo ficou muito mais rico.”*
cordar, que essa palestra foi proferida por Amílcar ... E essa palestra na CEI, leva-nos a recordar,
Cabral, que nesse tempo terminava com brilhantis- quando ganhámos Amílcar Cabral para o nosso
mo o curso de Agronomia. E nesse encontro na seio, para a nossa convivência.
CEI me recordo que Amílcar ao terminar a pales- Uma família de são-tomenses em Lisboa deci-
tra deixava no ar uma interrogação entre ambas as diu fazer um pic-nic a Monsanto, que na altura era
posturas de assunção de um cidadão da sua terra apenas um agradável parque de diversões e de me-
ou do mundo, entre a assunção da responsabilida- rendas. Era no Verão de 1946 quando os membros
de de um homem de ciência e/ou da liderança po- da Família Espírito Santo, em que a maioria na al-
lítica em serviço dos seus concidadãos e/ou da hu- tura era constituída por jovens, vimos surgir direi-
manidade. to a nós, um jovem patrício, de sorriso aberto
Eu me recordo também que em 1983 na cida- e comunicativo, que a partir desse momento se to-
de da Praia, no país independente de Cabo Verde, mou no Grande Amigo, com o qual nos gloriamos
tive a honra de participar no Simpósio sobre Amíl- de pertencer à “Geração de Cabral” de acordo com
car Cabral por ocasião do 60.o aniversário do nas- a designação em primeira mão de Mário de An-
cimento desse líder africano, organizado pelo Par- drade.
tido Africano da Independência de Cabo Verde A partir dessa altura eu me recordo igualmente
(PAICV). que círculos de tertúlias tiveram lugar, iniciando-
Nesse Simpósio o professor universitário portu- -se pela leitura de poemas de poetas já consagra-
guês Ário Lobo de Azevedo (reitor da Universidade dos e inclusivamente dos modestos poemas daque-
de Évora) apresentou uma comunicação versando les que começavam a cantar a África através da
sobre o painel cuja epígrafe era “A personalidade de sua lira. Autor dessa iniciativa foi Luís Espírito
Cabral no contexto da sua época” — a intervenção Santo Graça, um jovem médico são-tomense, ávi-
de Ário de Azevedo analisava a personalidade de do de dar ao continente e ao seu torrão natal, todo
“Amílcar Cabral agrónomo”. Nessa brilhante in- o ardor da sua juventude. Infelizmente destacado
tervenção Ário de Azevedo que havia sido profes- para exercer a sua profissão em Catió na Guiné,
sor de Cabral no primeiro ano de agronomia nos anos 1948-49, viria a morrer quase subitamen-
(1945-1946) refere que no decorrer de uma activi- te, vitimado por uma moléstia tropical, quando
dade profissional conjunta, quando em 1959 dis- tanto poderia dar ainda à sua grei.
cutia com Amílcar Cabral a possibilidade de preci- Essas tertúlias iniciadas na Rua Carlos Mardel,
sar uma data para uma nova tarefa a realizar em o “111”, residência da família africana onde resi-
Angola, Cabral informou-o de que se afastava da dia Luís Espírito Santo, prosseguiu na histórica
equipa visto que, por circunstâncias várias, a sua Rua Actor Vale, 37 — 1.o Esq., “o 37”, conforme
vida ia mudar de rumo. era apelidado pelos jovens estudantes entre os
Nesse ponto Ário de Azevedo apresenta como quais figuravam Agostinho Neto, Amílcar Cabral,
questão para reflectir a seguinte alternativa: Mário de Andrade, Francisco Tenreiro, Noémia de
Transcrevo... “O trajecto político de Amílcar Sousa, António Pimentel Domingues, Marcelino
Cabral teria sido o mesmo (ou semelhante) se ele dos Santos, Vasco Cabral, Julieta Espírito Santo,
não tivesse sido engenheiro agrónomo? Maria Helena Vicheu Rodrigues, Guilherme Espí-
Creio que a sua actividade como agrónomo rito Santo, Américo Boavida, Diógenes Boavida,
o marcou, e lhe mostrou caminhos (e relembro Arlindo Espírito Santo, um jovem invisual cabo-
o episódio que é o recenseamento agrícola da Gui- -verdiano Medina, colega de Mário, um estudante
né). Mais não posso dizer. Amílcar Cabral foi um português Plácido de Abreu, falecido em plena ju-
engenheiro altamente competente e um cientista ventude e outros.
promissor”.
Mais acrescenta Ário de Azevedo ao findar * Continuar Cabral, Simpósio internacional Amílcar Cabral, Cabo
a comunicação: Verde, 17 a 20 de Janeiro de 1983, pp. 127 a 132.

90
Interessa salientar que a anfitriã da residência de poetas africanos coligidas por Mário Pinto de
do 37 era Andreza Graça Espírito Santo, falecida Andrade.
em Lisboa em 16 de Fevereiro de 1986. A tia An- Qual não foi o meu espanto ao ouvir declamar
dreza conforme era conhecida era a mãe-irmã, que poemas da minha autoria, referente ao massacre
acolhia e acarinhava os estudantes africanos das de Fevereiro de 53 em São Tomé. Como um colar
colónias de Portugal e abria a sua casa para as de contas entrelaçadas eu recordo que Agostinho
grandes aventuras do Centro dos Estudos Africa- Neto se solidarizou com o martirizado povo de
nos, que desembocaram na CONCP e abriram ca- São Tomé e Príncipe, nesses momentos trágicos,
minho às lutas libertárias pelas independências dedicando à sua amiga Alda Graça, o maravilhoso
dos países respectivos. poema “Massacre de São Tomé”. Nessa mesma
Recorde-se que Mário de Andrade, o eminente sequência, uma vez já nos anos oitenta em visita
sociólogo angolano, reivindicado pelos países dos partidária a Angola, recebo das mãos de Lúcio La-
Cinco, proferiu em Lisboa o elogio fúnebre a An- ra, o original de uma denúncia sobre Fevereiro de
dreza Graça. 1953 que eu havia enviado clandestinamente para
Importa salientar que o professor são-tomense os Amigos, em Portugal.
Januário Graça, constituiu a residência do 37, para E nesse recordar é impossível deixar de destacar
que os seus filhos e familiares pudessem encontrar Alfredo Margarido e a sua antologia sobre poetas
uma morada para se alojarem enquanto prosse- de São Tomé e Príncipe — edição da CEI, a partici-
guiam os seus estudos. Essa histórica residência pação desse africanista nessas lides e as vezes que
foi abrigo seguro dos estudantes africanos, de es- Margarido me arrancava as folhas que ia produzin-
tudantes portugueses nossos parceiros nas lides do e guardando em desarrumados armários.
contestárias desses tempos inolvidáveis. Pela mão Para que conste e para que o tempo possa per-
de Mário de Andrade, Eduardo Mondlane também mitir que esse magro depoimento produzido a pe-
pisou a casa da tia Andreza onde eram confeccio- dido de Tomás Medeiros, médico, escritor, comba-
nadas iguarias das ilhas, que eram servidas nos tente amigo, desses tempos duros, eu silêncio, este
convívios, que faziam parte das actividades sociais pequeno testemunho para cumprir a promessa
da Casa dos Estudantes do Império. e para aderir como membro à Associação da Casa
Eu me lembro também que em 1959, ao re- dos Estudantes do Império de cujo cartão de mem-
gressar de São Tomé, se realizava uma palestra na bro da CEI ainda conservo.
CEI em que era conferente Agostinho Neto. Mário
Barradas declamava a seguir poemas da Antologia S. Tomé 1996

91
Preocupações políticas dos estudantes ultramarinos
em Coimbra nos anos 40
FERNANDO CAMPOS*

E m curto prazo, sem apoio documental e com cia um pequeno lote, de Moçambique não aparecia
uma má memória, é-nos difícil dissertar sobre quase nenhum estudante africano, porquanto era
quaisquer aspectos da passada vida dos estudantes incomportável o preço de uma passagem de barco.
ultramarinos residentes em Coimbra. Mesmo as- No gregarismo dos filhos do antigo Império
sim atrevemo-nos a rebuscar sobre as suas preocu- residentes em Coimbra, imperou uma activa com-
pações políticas no tempo anterior aos anos 50. ponente político-cultural que logo se firmou e se
A Delegação de Coimbra da Casa dos Estu- desenvolveu. Vivia-se então em Portugal sob o re-
dantes do Império teve por base um núcleo de es- gime da ditadura do Estado Novo, de cariz fascis-
tudantes provindos de Moçambique e que forma- ta, com falta das liberdades fundamentais, com
ram uma Casa dos Estudantes de Moçambique, uma forte censura à liberdade de expressão e aos
e um núcleo de estudantes de Angola e que forma- noticiários jornalísticos e radiofónicos, e com uma
ram uma efémera Casa dos Estudantes de Angola. ostensiva actuação da polícia política que, da ante-
Em virtude de existirem grupos de estudantes pro- rior sigla PVDE, o vulgo lhe chamava Pevide, de-
vindos de outras antigas colónias, principalmente signação que perdurou por muito tempo mesmo
de Cabo Verde, Índia e Macau, foi correcta a pre- após a mudança de sigla para PIDE. No combate
tensão de todos se congregarem numa única insti- aos oposicionistas ao regime, essa polícia era res-
tuição que seria em Coimbra uma Delegação da ponsável pela demissão compulsiva de funcioná-
CEI já sediada em Lisboa. rios públicos, pelo impedimento de obtenção de
Os estudantes provindos do Ultramar eram postos de trabalho na função pública e em empre-
constituídos por gente da mais diversa formação sas privadas, na prisão e na manutenção ilegal nas
social e ideológica. A maior parte fora gerada por cadeias, de muitos democratas, provocando a mi-
colonos abastados ou altos funcionários que ti- séria e a fome entre muitas famílias. Naquele tem-
nham capacidade para manter em Portugal os es- po era vulgar os jornais noticiarem a prisão de di-
tudos superiores dos seus filhos. A despeito de vi- versos democratas, sendo muitos deles jovens
rem anualmente centenas de jovens estudar nas e estudantes, bem como a demissão e prisão de
Universidades Portuguesas, o Governo vigente de professores e intelectuais (vários deles de renome
Salazar não sentia a necessidade de criar Universi- mundial), e o julgamento em tribunais plenários
dades nas colónias. Ele seguia a política de impo- de trabalhadores, de estudantes e de intelectuais.
sição de limitações de ordem social aos próprios A chama da luta do Povo Português contra
naturais das colónias, de modo a inibir que os seus o regime fascista estava acesa. Os operários, os
filhos pudessem prosseguir os seus estudos supe- camponeses e os marítimos arriscavam fazer greves
riores. Por isso era escasso o número de estudan- pontuais. Os estudantes de algumas Faculdades não
tes de origem africana. Se de Angola ainda apare- lhes ficavam atrás, vindo também a ser vítimas da

* Professor de Geografia angolano, dirigente da CEI de Coimbra na década de 50.

93
repressão. Embora a grande imprensa estivesse sub- todo o povo democrata, ansioso pela liberdade so-
metida à acção da censura e aos cortes da própria cial, teve grande esperança na constituição do
chefia, a par da imprensa moderada e permitida, MUD e na anunciada candidatura do General Nor-
existia outra imprensa, clandestina, principalmente ton de Matos contra a do Presidente General Fra-
dirigida pelo Partido Comunista Português. As suas goso Carmona.
folhinhas coloridas e transparentes, bem como os Em Coimbra, tal como noutras partes do País,
manifestos do Movimento de Unidade Democrático multiplicavam-se as comissões e núcleos de apoio
— MUD, e do MUD Juvenil, eram distribuídos à candidatura de Norton. Na Academia Coimbrã
à revelia dos agentes da polícia e seus informado- era forte o movimento a favor de essa candidatura.
res, e circulavam de mão em mão. A maioria dos estudantes ultramarinos era-lhe não
Em Coimbra tal actividade se desenrolava en- só favorável, mas actuante em prol da libertação
tre os estudantes democratas e os sectores mais do Povo de Portugal e com vista a uma futura mo-
progressistas da população, pondo a todos no co- dificação do quadro político nas colónias. Nesse
nhecimento das lutas e actividades da clandestini- tempo se falava já dentro dos muros da CEI no
dade e também dos desaires que sofriam os com- problema da libertação das colónias, embora com
batentes da Liberdade. Era assim em Coimbra, motivações diferentes. A par dos que sonhavam
onde um dos sectores mais vigiado, provocado com uma independência institucional de Angola
e supostamente controlado era o núcleo dos estu- e Moçambique, apadrinhada pelos colonos, havia
dantes ultramarinos. Funcionando a sede da Dele- um sector progressista que aspirava a independên-
gação da CEI nos andares cimeiros de um prédio cia das colónias para toda a gente, e punha os
de dois andares situado na Rua Ayres de Campos, olhos na actividade dos movimentos de libertação
perto do Penedo da Saudade, essa instituição esta- das colónias de outros países. O sentimento de li-
va organizada em termos democráticos, pois entre bertação não havia ainda atingido os estudantes
os seus associados estava já arraigado um espírito das outras colónias. Entre os estudantes angolanos
combativo, baseado na democracia e na liberdade. que perfilhavam a libertação de Portugal como
Quaisquer pruridos de diferenciação social prove- primeiro passo para a libertação das colónias, fi-
niente de anterior estatuto social privilegiado, ou guravam nomes como Agostinho Neto, Ivo Loio,
então de diferenciação em outro aspecto como Carlos Veiga Pereira, Lúcio Lara, Antero Abreu.
o religioso, o étnico, o filosófico, o racial, eram Entre os estudantes moçambicanos, João Bernardo
eficazmente eliminados. Não se pode afirmar que Dias, Orlando de Albuquerque, os irmãos Virgílio
todos os estudantes ultramarinos professassem Moreira e Fernando Moreira. (É-nos penoso omitir
uma mesma ideologia política, mas era notado outros nomes).
o seu comportamento político-social dentro do As forças académicas que apoiavam o Gover-
convívio académico local. no concentravam-se em organismos como o Cen-
A propaganda governamental apodava de co- tro Universitário da Mocidade Portuguesa, o
munista toda a gente que se encontrasse no outro CADC (Centro Académico de Democracia Cristã)
lado da barricada. Mesmo aqueles democratas por- apoiado pelo Clero, e espalhavam-se também por
tugueses a quem não seria legítimo apontar qual- entre a própria Academia. Nesse tempo os estu-
quer convivência com comunistas, eram impiedo- dantes ultramarinos estavam a ser enredados numa
samente maltratados e manietados a uma falsa teia de bloqueio que os levasse a não combater
propaganda de conluio com elementos comunistas o fascismo e dar mesmo apoio ao Governo de par-
ou com núcleos de oposicionistas afins. Após tido único. Assim havia estudantes de proveniên-
o término da 2.a Guerra Mundial, quando se espe- cia ultramarina que se encontravam no seio dos
rava que o chamado Mundo Livre movesse apoios referidos organismos. Mas tal não era de espantar,
que forçassem o estabelecimento da liberdade e da porquanto se comentava que, sendo eles prove-
democracia em Portugal, verificou-se uma falta de nientes da alta burguesia residente principalmente
empenhamento, a ponto de serem os próprios na- em Macau e em Goa, fosse natural que não ousas-
cionais a pôr em marcha uma resistência aberta sem criar problemas a quem de tão longe lhes
através da acção clandestina de núcleos de intelec- mantinha os estudos. Mesmo assim era acintoso
tuais, de trabalhadores e de estudantes. Quando o namoro que no seio dos problemas internos da
Salazar anunciara que as próximas eleições presi- Academia era feito aos estudantes ultramarinos.
denciais seriam tão livres como na Grã-Bretanha, Todavia, assim que se verificasse não estarem es-

94
tes interessados ou dispostos a pactuar com forças neu de Coimbra, uma agremiação recreativa de
consideradas retrógradas e reaccionárias, os estu- características populares. O Ateneu de Coimbra,
dantes ultramarinos eram logo rotulados de comu- principal alfobre dos revolucionários conimbricen-
nistas, e o seu organismo CEI, considerado como ses, além de ter sido um grande obreiro na forma-
alfobre a vigiar permanentemente. E na realidade ção e militância do operariado coimbrão, serviu
era mesmo vigiado. Constava que um seu empre- também de base política para diversos estudantes
gado era informador da polícia política. Todos os ultramarinos. Ficou sólida a amizade e a solidarie-
associados revolucionários da CEI tomavam as dade entre os operários revolucionários do Ateneu
suas próprias precauções. Aliás precauções idênti- de Coimbra e os estudantes ultramarinos progres-
cas eram tomadas sempre que, após as refeições, sistas da CEI.
fossem à Baixa tomar café e conviver no antigo Outras fornadas de estudantes ultramarinos
Café Montanha (situado ao lado da Delegação do iriam anualmente chegar a Coimbra, para engros-
Banco de Portugal e anos depois desaparecido), sar o núcleo dos estudantes progressistas, muitos
onde se reunia toda a “malta das colónias”. dos quais faziam o seu baptismo de activistas polí-
No escasso número de páginas que nos são ticos no combate pela liberdade e pela indepen-
concedidas, não é possível referirmos alguns epi- dência dos seus países. Novos nomes iriam ser os
sódios ligados às lutas políticas travadas em continuadores nas grandes lutas académico-
Coimbra pelos estudantes ultramarinos. Todavia -ultramarinas que iriam travar-se na formação
aproveitamos salientar a unidade de acção contra e consolidação da mentalidade independentista dos
o fascismo existente entre os estudantes progres- estudantes ultramarinos.
sistas da CEI e um núcleo de progressistas do ope-
rariado coimbrão, o qual se concentrava no Ate- Lisboa, Junho de 1994.

95
Recordando a Casa dos Estudantes do Império
MANUEL DOS SANTOS LIMA*

A ssiste-se, com tristeza e indignação, à agonia a dirigir a Oposição e o capitão Henrique Galvão
do velho edifício da Av. Duque d’Ávila que, du- a escrever nos jornais do mundo novas páginas da
rante mais de vinte anos, foi ponto de encontro dos epopeia marítima portuguesa, a bordo do “Santa
estudantes africanos, além dos oriundos de Goa, Maria”.
Macau e Timor. Ponto de encontro por excelência da comuni-
Os governos dos PALOP e do Portugal pós-25 dade académica africana, a CEI foi igualmente
de Abril têm demonstrado um confrangedor desin- palco da reconstrução metafórica das sociedades
teresse por esse património que alberga algo da coloniais de origem e cenário do mimetismo cul-
nossa memória colectiva, pois na CEI germinaram tural resultante de uma estadia mais ou menos
sementes da nossa liberdade. Ela marcou, indele- prolongada em Lisboa e com algumas escapade-
velmente, toda uma plêiade de intelectuais e futu- las ao estrangeiro, sobretudo a Paris, a grande re-
ros líderes, tendo superado em importância e lon- ferência cultural e política dos anos cinquenta
gevidade outras organizações associativas de e sessenta.
africanos, tais como a pioneira Casa da África Pelo n.o 23 da Duque d’Ávila passaram várias
Portuguesa ou o Clube Marítimo, todas empenha- gerações de “ultramarinos” (veteranos, indepen-
das em estimular o convívio entre africanos e afir- dentistas, bossa-nova) cada uma imprimindo à Ca-
mar o seu direito à diferença, enquanto minoria vi- sa um cunho particular e às vezes pitoresco, pelo
sível. seu maior ou menor grau de fantasia, consciência
A CEI existiu e afirmou-se num período histó- social, militância poético-política e resistência às
rico exultante porque coincidente com o movi- autoridades que nela viam um foco de rebeldia
mento libertário que agitou o Terceiro Mundo e conspiração a soldo do PC.
imediatamente após a 2.a Guerra Mundial. Foi Dada a heterogeneidade dos seus membros
uma época de homens e factos determinantes, a CEI teve mil e uma facetas, constituindo isso
constituindo balizas paradigmáticas: a consagração o seu mérito maior e fonte de todas as ambiguida-
de Mao Tsé Tung (1949), Diên Biên Phu (1954, des. A insurreição angolana, em 1961, terá os seus
triunfo militar de colonizados), a rebelião argelina reflexos na “malta”, marcará uma etapa decisiva
(1954), a Conferência de Bandung (1955, ou a de- na existência da associação, confirmando as cape-
terminação política dos colonizados), o advento do linhas, os núcleos elitistas económico-sociais, os
Ghana (1957) de Kwame N’Krumah, o “Não” prócolonialistas, os revolucionários independentis-
(1958) da Guiné de Sekou Touré à França e a en- tas, “Nós” e “Eles”; surgem clivagens raciais e po-
trada triunfal de Fidel de Castro em Havana. E co- líticas: os estudantes dividem-se entre os que pre-
mo pano de fundo, em Portugal, a luta antifascista ferem ficar em Portugal e os que optam por sair,
dos democratas com o general Humberto Delgado clandestinamente, numa operação organizada do

* Professor universitário e escritor angolano publicado pela CEI em 1961.

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exterior e que surpreenderá totalmente as autorida- dantes do Império valeu a pena e é-me grato re-
des portuguesas e a sua polícia política. Alguns cordá-la enquanto espaço de luta e de sonho
dos trânsfugas iriam integrar os quadros dos movi- e imagem de uma geração que ao envelhecer con-
mentos de libertação e depois os governos marxis- clui, com alguma amargura, que tal como a Terra
tas que assegurariam regimes repressivos e engen- a Utopia é redonda.
drariam o falhanço das independências.
E por tudo e apesar de tudo a Casa dos Estu- Lisboa 1996

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A Editorial*
FERNANDO COSTA ANDRADE**

E u poderia não dizer nada mais e poderia pro- uma prestimosa ajuda com a qual comprámos as
vavelmente resumir num nome o que foi o movi- primeiras resmas de papel para que, na velha má-
mento editorial da Casa dos Estudantes do Impé- quina policopiadora a stencil, tivéssemos editado
rio: e esse nome é o nome saudoso de um querido a primeira capa e o primeiro volume da Antologia
amigo que se chama Carlos Manuel do Nascimen- de Poetas Angolanos. Para essa convidámos Mário
to Ervedosa. Sem Carlos Ervedosa possivelmente António Fernandes de Oliveira a escrever o prefá-
não teríamos chegado a tanto. cio. Ele nessa altura encontrava-se em Luanda, ti-
Lembro-me que, chegado de Angola, jovem vemos que lhe mandar o texto e nas noites da Ca-
estudante, candidato a algo que não cheguei a ser, sa dos Estudantes do Império policopiámos —
a arquitecto, conheci Carlos Ervedosa que então se a máquina era manual — o primeiro volume, cuja
interessava por uma ideia vinda de Luanda, de capa improvisei nesses dias. Lembro-me que de-
amigos comuns, de António Jacinto, no sentido de mos à manivela da máquina o Carlos Ervedosa,
divulgarmos de qualquer maneira, ainda que clan- o Tomás Medeiros, eu e o Carlos Pestana Heine-
destinamente, a produção poética, literária dos ken, hoje oficial superior das Forças Armadas An-
nossos autores que, depois do célebre e histórico golanas, médico, conhecido por General Katiana.
caderno, de Mário de Andrade e Francisco José O sucesso desta primeira Antologia foi tão
Tenreiro, se não conhecia em Portugal ou pouco grande que nos sentimos encorajados a produzir
se conhecia. Existia o boletim Mensagem da Casa outras, uma mais ampliada, mais completa; socor-
dos Estudantes do Império, em que colaboravam remo-nos então do apoio em Luanda do António
já alguns estudantes e alguns presentes aqui (entre Cardoso, do Luandino Vieira e do António Jacinto
eles recordo o Tomás Medeiros) mas não tínhamos e também do Mário António, para que nos forne-
efectivamente nada produzido em forma de livro; cessem materiais. Os materiais demoraram e os
os meios eram muito parcos. textos de que dispúnhamos foram aqueles que ser-
Foi nessa altura que Carlos Ervedosa me con- viram de base à segunda Antologia, já com prefá-
vida a colaborar com ele e foi de facto uma tarefa cio de Alfredo Margarido e a colaboração também
gratificante que nos ocupou muitas noites, que nos do Rui Carvalho, médico, que faleceu na Holanda,
fez faltar a algumas aulas, para organizarmos para a policopiagem; e nessa altura também cola-
a primeira Antologia de Poetas Angolanos. Foi borou, embora mais esporadicamente, o Manuel
a primeira edição da chamada Secção Editorial da Lima.
Casa dos Estudantes do Império. Nessa altura, em Esta evocação que eu estou aqui a fazer, prefi-
que os meios eram poucos, contactámos o Dr. Sá ro apresentá-la como depoimento emocionado, em
Machado, aqui na Gulbenkian, que nos forneceu vez de proferir uma palestra para a qual me não

* Alocução proferida na sessão de lançamento das Antologias de Poesia da CEI.


** Escritor angolano publicado pela CEI em Lisboa nos anos 60. Colaborador da secção Editorial em 1960-61.

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preparei, mas pensando ser dever de alguns de nós em pequenos volumes o material disponível em
escrevê-la para um texto, quem sabe, de uma pró- volumes individuais. Discutimos muito o título da
xima Mensagem da Associação Casa dos Estudan- Colecção. Não podia ser Autores Angolanos por-
tes do Império. É uma homenagem que devemos que, embora nós fôssemos angolanos, não eram só
prestar a todos os membros da Casa dos Estudan- angolanos que pretendíamos editar. Embora eu na
tes do Império, em particular a Carlos Ervedosa, altura, um pouco mais agressivo, tivesse querido
e à colaboração de tantos, tantos amigos. Que fi- o título de Poetas do Império, prevaleceu um título
que aqui dito. mais brando, pelo receio da PIDE e da Censura.
Nessa altura tivemos também a agressão cons- O primeiro volume foi de Mário António. De-
tante e permanente de alguns críticos, então críti- pois a Direcção da Casa decidiu apoiar-nos com
cos do regime, cujo nome não citarei, mas que algum dinheiro para mais dois volumes e o restan-
apareceram nas páginas do Diário da Manhã. Por- tes dos volumes até ao número 10, que foi o últi-
que elogios tivemo-los, sim, em pequenas colunas, mo em que participei, foram novamente com fun-
no Diário de Lisboa e aí, por Álvaro Salema dos do Ervedosa, meus e de mais alguns amigos.
e mais alguns críticos. Não vos ocuparei por muito tempo para esta
Depois de publicarmos o segundo volume da longa história mas gostaria, ao terminar, de dizer
Antologia de Poetas Angolanos, decidimos publicar que os 500 pequenos volumes saíam da tipografia
os Contos. Depois dos Contos organizámos a Anto- na Rua da Alegria, a maior parte era embrulhada
logia de Poetas de Moçambique, os dois, e socorre- e entregue aos marítimos, a Zito Van Dúnem para
mo-nos, já em fase final, de Pollanah para a capa que os levasse para Angola, e outra pequena série
e para algumas opiniões. Tivemos a ajuda prestimo- era vendida nas Faculdades, tendo tido a Livraria
sa de Fernando Ganhão, que foi até há pouco tem- Barata e o nosso querido amigo João Sá da Costa
po Reitor da Universidade de Moçambique. a coragem de os colocar brevemente nas montras
Entretanto achámos que os volumes policopia- das suas livrarias. Foram os únicos.
dos limitavam-se àqueles 300 exemplares que
conseguíamos produzir e quisemos então imprimir 15 de Dezembro de 1994.

100
A Casa e eu
ARNALDO SANTOS*

N ão foi difícil aceitar depor neste número es- tuguês, era conhecido. O que a Casa passou a ofe-
pecial do Boletim Mensagem, alusivo ao Cinquen- recer, pertencia ao domínio do FUTURO.
tenário da Fundação da CEI — Casa dos Estudan- Eu mesmo, entrei na Casa com a sensação de
tes do Império, porque depressa encontrei resposta que teria que enfrentar um dilema, para alguns,
para uma pergunta definitiva que, a mim mesmo, porventura, angustiante. Ser um Homem do Impé-
me coloquei. rio ou um filho da Casa.
Terei eu sido, também, um homem da Casa? A maioria dos estudantes, ou sócios da CEI —
Foram tão rápidas quanto fugazes as minhas pas- Associação dos Estudantes do Império, não esca-
sagens pela Casa que receio poder parecer presu- pou a esse dilema. Nunca a História tinha ofereci-
mido. Porque, indubitavelmente, me orgulho de do tão abertamente e de maneira tão inequívoca,
ter passado pela Casa e de ter pago as quotas. a uma juventude ávida e inteligente, a oportunida-
Mas não tive dúvidas em responder afirmati- de de fazer parte dela, como um agente activo da
vamente à minha própria pergunta. A minha con- autodeterminação, progresso e bem-estar dos seus
vicção decorre de uma verificação simples. Teria povos. Era assim que a questão se apresentava.
eu sido outro homem, se não tivesse passado pela E foram muitos os que a aceitaram. Conscien-
Casa? Seguramente. temente.
A verificação dessa influência, hoje, trinta e tal Lembro-me que nessa época, em que imperava
anos depois, torna-se fácil. No entanto, mesmo na esse espírito de confidencialidade, e que provavel-
época em que passei pela Casa (no período de mente a PIDE — Polícia Internacional e de Defesa
1959 a 1965) já eu podia pressenti-la. Porque do Estado, classificava de espírito de conspiração,
quem nessa época tivesse decidido entrar na Casa, (sempre nos separaram graves diferenças de inter-
tinha que se elucidar, no mais íntimo de si mesmo, pretação da história...). Contava que, nessa época
sobre algumas questões cruciais. em que predominava esse espírito de clandestini-
Não lhe seria possível ignorar, por muito tem- dade, se criavam muitas situações inusitadas, que
po, o que, no ambiente da Casa e através de um nem sempre se podiam reclamar de dramáticas.
convívio múltiplo e fraterno, tinha germinado, qui- E a entrevista que, aí por volta de 1959, con-
çá, espontaneamente. Um espírito de confidencia- cedi ao Boletim da CEI, por ocasião da publicação
lidade. do meu curto livrinho de poemas, “FUGA”, na
Porque depressa se apercebia, e depois de um Colecção Autores Ultramarinos, é, lamentavel-
tempo muito breve, que para além da CEI — Casa mente, um dos exemplos mais caricatos. Foi um
dos Estudantes do Império, havia a... Casa. autêntico desastre.
O que a CEI podia oferecer aos estudantes que Nessa entrevista tranquei-me resoluto, evasivo,
provinham de todos os pontos desse Império por- perante o Costa Andrade — até hoje, um amigo

* Escritor angolano publicado pela CEI em 1961 e colaborador da Mensagem.

101
dos mais fiéis e que foi na ocasião o inglorioso en- possam estar aqui, agora, para deporem sobre as
trevistador — como se já me preparasse para en- suas vidas na Casa.
frentar um interrogatório policial. Estou a lembrar-me de Agostinho Neto; estou
Foi, indubitavelmente, uma bem sucedida pro- a recordar-me do Carlos Ervedosa, que com
va de resistência (o entrevistador quase nada con- o Costa Andrade, foram os responsáveis pelo mo-
seguiu arrancar de mim), de que não me posso or- vimento editorial da Casa. Mas comove-me muito
gulhar. Nem o Costa Andrade, nem o Tomás mais pensar no David Bernardino, assassinado no
Medeiros, que tinha passado a dirigir o Boletim Huambo. Teria ele sido assassinado no Huambo,
Mensagem, mereciam isso. sua terra acrisolada, se ele não tivesse sido um fi-
Era, enfim, uma época marcada pela assump- lho marcado pela Casa? David Bernardino nosso
ção de um porvir, do qual nós mesmos queríamos kamba, aiué!
ciosamente definir os contornos. Hoje, indago-me ainda com alguma comoção,
De tal maneira que uma viagem a Paris era an- mas já sem grandes ilusões, até onde o espírito da
tecedida de secretos preparativos, contactos, con- Casa nos acompanhará e se ainda poderá influen-
ciliábulos e da obediência a praxes de significado ciar as nossas vidas.
um pouco ambíguo, mas que eram interpretadas Penso nisso com a curiosidade de quem se ha-
como senhas. bituou a fazer balanços, autocríticas, ou exames de
Assim, antes de iniciar a viagem, havia que consciência, como queiram, isto é, sem grande so-
passar pelo Castro Soromenho, nosso notável escri- bressalto, e também, se eu não teria sido por de-
tor angolano-moçambicano (na altura já bastante mais arrogante quando em 1965, no momento em
doente), havia que ouvir o Amílcar Cabral, era a in- que selaram a Casa, me atrevi a audaciosas con-
vestidura necessária, comprar uma garrafa de vinho jecturas.
do Porto para o Mário Pinto de Andrade que seria Nessa altura tinha ficado retida na Casa a qua-
o nosso contacto em Paris, enfim um sem número se totalidade da edição do último livro da Colec-
de pequenas práticas, que se desfrutaria saborosa- ção Autores Ultramarinos, e que por desgraça mi-
mente, se não as levássemos tão a sério. nha, era o meu livro de contos “KINAXIXE”.
E nisso tudo o Fernando Mourão (hoje, cate- Pensei nessa ocasião, um tanto ressabiado, co-
drático na Universidade de São Paulo — Brasil), mo será fácil de entender, se aquele selo, com que
era o personagem misterioso que urdia a maioria a PIDE tinha lacrado as portas da Casa, não teria
desses actos sigilosos que, na altura, suspeitei co- sido um acto gratuito?
mo absolutamente essenciais para essas missões. Se não teria sido demasiado tardio, porque an-
Estes, os casos narrados, não são, obviamente, tes dele, um certo espírito, o da Casa, já se tinha
os casos exemplares. Mas foram muitos os que apoderado de grande parte das gerações que ti-
naquela época optaram por viver perigosamente nham passado por ela, e que outros selos já tinham
como filhos da Casa, a serem Homens do Império. validado nossos outros compromissos futuros?
São hoje, alguns deles, Homens da História dos E ainda hoje, penso nisso. Mas já sem grandes
seus países. ilusões.
É, no entanto, para mim, particularmente dolo-
roso pensar, que entre esses Homens, alguns não Março de 1994.

102
CEI, uma ponte entre Luanda e Lisboa
ADOLFO MARIA*

A minha ligação à Casa fez-se através do Car- Após a conferência fui para uma reunião onde
los Ervedosa que estabeleceu contacto connosco contei pormenores das prisões que se estavam
(o grupo da Sociedade Cultural e do Jornal Cultu- a efectuar em Luanda e descrevi algumas das acti-
ra) em 1958. Da redacção do “Cultura” faziam vidades políticas que ali se desenvolviam (claro
parte José Graça (Luandino Vieira), António Car- que com cautelas porque os tempos eram duros).
doso, Henrique Guerra, Mário Guerra e eu pró- Os companheiros deram-me um endereço em Pa-
prio. Nós recolhemos textos do desaparecido jor- ris (para onde eu ia de regresso a Angola). Através
nal Mensagem da década de 40 (final) e enviámos desse endereço fui contactado por Marcelino dos
para Lisboa. Assim puderam reeditar-se poesia Santos que me levou à presença de Mário de An-
e prosa de Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Antó- drade e Castro Soromenho que queriam saber
nio Jacinto, através dos cadernos da Casa. o que se estava a passar em Luanda.
Em 1959 (Abril) fiz uma Conferência na Casa Portanto, esta rápida passagem pela Casa em
dos Estudantes, nas novas instalações da Duque 1959 foi importante para mim, jovem de 23 anos,
d’Ávila, sobre o renascimento cultural em Angola. já profundamente embrenhado na luta de liberta-
Era a época da grande efervescência nacionalista: ção nacional.
em Angola já tinham começado as primeiras pri- Voltei a passar pela Casa em 1962 (Maio ou
sões de uma vaga que durou até meados de 1960 Junho) apenas para procurar contactos que me fa-
e que nunca mais parou a partir de Fevereiro de cilitavam a saída para o Exterior (tinha vindo de
1961; em Portugal os nossos estudantes estavam Angola com esse propósito) a fim de me juntar ao
fazendo da Casa aquilo que ela veio a ser: um ba- MPLA, pois era impossível qualquer actividade
luarte da luta anticolonialista. clandestina depois de a PIDE ter desmantelado as
Na referida passagem pela Casa, em 1959, tive organizações políticas existentes em 1959 e nos
a possibilidade de rever amigos e companheiros do ter feito passar a todos pelas cadeias (numerosos
tempo do liceu em Luanda, nomeadamente Gentil camaradas continuavam presos e deportados). Foi
Viana, os Pestana Heineken, Vieira Lopes (este e o através de Carlos Ervedosa que estabeleci os con-
Carlos Pestana mais velhos dos tempos liceais) tactos necessários para a minha saída.
etc. Revi Carlos Ervedosa e conheci jovens de ou-
tras colónias. 7.09.95

* Dirigente da Associação Cultural de Angola na década de 50 e um dos fundadores do Centro de Estudos de Argel.

103
A Casa dos Estudantes do Império nos anos de fogo
Depoimento sobre a acção política da juventude africana da CEI no quadro
da luta pela libertação nacional das colónias portuguesas
EDMUNDO ROCHA*

Introdução dos em Bandoung, e também da guerra fria entre


os dois blocos, acontecimentos esses que tiveram
Desde a sua criação em 1944, foram várias as um impacto importante nas consciências dos jo-
gerações que imprimiram um cunho histórico vens oriundos de países ainda colonizados por
à Casa dos Estudantes do Império (CEI). Portugal e que permitiram modificar as suas atitu-
Este estudo irá debruçar-se sobre a década de des e comportamentos.
1954 a 1963, período em que o autor foi testemu- Esse processo progressivo de afirmação de
nha ou protagonista de muitos dos acontecimentos uma identidade própria, da tomada de consciência
na CEI, em Portugal ou no exterior. Foi uma época das diferenças históricas, culturais e sociais e,
de estreito contacto, de íntima simbiose entre duas também, da necessidade de organização e prática
gerações sucessivas — os “Mais Velhos” e a “Nova política antifascista primeiro e, mais tarde, antico-
Vaga” — que deram uma contribuição decisiva não lonialista, levou uma década a criar raízes, a ama-
só à CEI mas também e sobretudo ao movimento durecer e a desabrochar no ano de 57 na criação
nacionalista das colónias portuguesas. Que nos per- de estruturas políticas: primeiro o Movimento An-
doem os muitos companheiros de estrada que, qua- ti-Colonial (MAC) inspirado pelos “Mais Velhos”
renta anos depois, os naturais lapsos de memória e, mais tarde, o Movimento dos Estudantes Ango-
não permitem citá-los nestas breves notas. lanos (MEA), criado pela “Nova Vaga” e inspira-
A acção dos jovens estudantes não incidiu so- do pelo Manifesto de 1956. Estes movimentos po-
mente na criação de um ambiente fraterno que líticos subterrâneos foram a projecção, em
permitia securizar, assistir e estimular mas tam- Portugal, daqueles que já estavam a desenvolver-
bém, graças a todo o tipo de actividades culturais, -se nas diferentes colónias portuguesas e que cul-
rasgou novos horizontes abertos às ideias de liber- minaram no ano de 61 no desencadear das lutas
dade e de progresso. Era a época de Sartre e de armadas de libertação nacional.
Éluard, de Jorge Amado e de Graciliano Ramos, A geração que antecedeu a nossa — os “Mais
de Steinbeck, Langston Hughes e Aimé Césaire. Velhos” — compreendeu nomes prestigiosos, co-
Era uma época histórica de mudanças políticas mo Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário de
fundamentais: independência do Egipto, da Índia, Andrade, Francisco Tenreiro, Lúcio Lara, Marceli-
da Indonésia e do Ghana; início da guerra de li- no dos Santos. Para muitos deles a tomada de
bertação na Argélia, Conferência dos Não Alinha- consciência política passou pela militância activa

* Médico, dirigente da CEI nos anos 50 a 60.


** Publicações. Em 2003 — ANGOLA: contribuição ao estudo da génese do nacionalismo moderno angolano: anos 1950 a 1960. Testemu-
nho e estudo documental. 1.a edição: Kilombelambe. Luanda. 2033; 2.a edição: Dinalivro. Lisboa. 2008. Prémio nacional de cultura e artes,
2003. Luanda.Em 2008: em colaboração com F. Soares e M. Fernandes — VIRIATO DA CRUZ, o Homem e o Mito. Ed. Presença, Lisboa
e ed. Chá de Caxinde, Luanda.
*** O texto original foi corrigido e actualizado pelo autor em Setembro de 2014.

105
nos movimentos e partidos de esquerda portugue- de que todos os que frequentaram a CEI se lem-
ses, essencialmente MUD Juvenil e PCP. Essa ati- brarão: Carocha e Gabi, Helena Teixeira, Maria Il-
tude decorria por um lado da percepção de que, da Carreira, Maria Natália, Elisa Andrade, Inocên-
nessa época, ainda não existiam movimentos na- cia e Marília, Manuela Delgado, Ângela, Gina,
cionalistas estruturados e activos nas colónias; por Serafina, Noémia Tavira, Ana Maria e Isabel Sá,
outro, da noção de que, radicados em Portugal, es- Luísa Sá. Pela sua presença constante nas várias
tavam impossibilitados de fazerem um trabalho de actividades na CEI deram uma alegria, um brilho,
politização das massas africanas nos nossos paí- um inesquecível ambiente de boa camaradagem.
ses; e, enfim, da ideia de que a libertação das co- Alguns casamentos foram mesmo celebrados antes
lónias passava prioritariamente pelo derrube do e depois da “fuga dos cem”.
fascismo. Essa filiação e militância nessas organi-
zações portuguesas — MUD Juvenil e PCP — te-
ve consequências determinantes não só no ideário A luta pela Direcção da CEI
e prática política dos movimentos de libertação
que lideraram as lutas de libertação (PAIGC, Os estudantes africanos que frequentavam
MPLA e FRELIMO) como no tipo de regime im- a CEI foram progressivamente tomando consciên-
posto mais tarde a esses países. cia da importância decisiva dessa associação e, ao
Houve, portanto, um longo período antes de longo dos anos, observou-se uma disputa renhida
1957 em que os estudantes africanos da CEI par- entre os diversos grupos pelo controlo da CEI.
ticiparam activamente na luta antifascista em Por- Eram essencialmente quatro os grupos de estu-
tugal, tendo alguns (Agostinho Neto e Ivo Lóio, dantes que frequentavam regularmente a CEI:
entre outros) sofrido com torturas e prisões pro- o grupo liderado por David e José Bernardino,
longadas e tendo outros optado pelos rigores do composto essencialmente por jovens do Centro
exílio (Marcelino dos Santos, Mário de Andrade e Sul de Angola, com posições políticas marcada-
e, muito mais tarde, Lúcio Lara, Eduardo dos mente marxistas, assumiram uma dupla militância:
Santos e Hugo de Menezes). por um lado, no MUD Juvenil e no PCP e, por ou-
A partir de 1954 surge na CEI uma nova gera- tro, na CEI, onde exerceram uma grande activida-
ção de estudantes africanos — a “Nova Vaga” — de e influência, tendo estado representados em di-
dos quais se destacaram João Vieira Lopes, Iko versos corpos gerentes.
Carreira, Gentil Viana, Tomás Medeiros, Paulo Um numeroso grupo de estudantes, a “Nova Va-
Jorge, Rui de Carvalho, Carlos e Augusto Pestana, ga”, ocupava um lugar específico de independência
Costa Andrade, Videira, Traça, Chipenda, Boal, e crítica em relação às forças da oposição portugue-
o autor e tantos outros, que imprimiram um espec- sa, mas como entidade própria, do primado da luta
tacular dinamismo às actividades socioculturais na político-militar para a conquista das independências
Casa e um carácter mais nacionalista e progressis- nacionais, na construção de nações africanas basea-
ta à acção política, recusando a militância nos par- das no respeito dos direitos individuais e da diversi-
tidos e movimentos da oposição portuguesa. Penso dade cultural e étnica, conjunto de ideias essas que
que o único jovem desta geração que aderiu ao designarei por “nacionalismo progressista”.
MUD Juvenil foi o autor... Esta nova geração utili- Havia ainda o grupo dos “literatos” da secção
zou a CEI como um decisivo instrumento político, cultural (C. Ervedosa, Fernando Mourão, F. Costa
não só na consciencialização dos jovens africanos Andrade, Tomás Medeiros e outros) que demons-
que entretanto iam chegando a Portugal em grande trou um grande dinamismo com a publicação do
número e participavam nos colóquios e nas farras Boletim e de numerosas obras literárias que mar-
de sábado, frequentavam o lar e a cantina, como caram a época.
ainda na criação de organizações políticas nacio- Existia, enfim, aqueles para quem a Casa servia
nalistas clandestinas. apenas de suporte logístico (cantina e lar) e lúdico
Embora a liderança associativa e política fosse da sua actividade estudantil. Mas muitos desses jo-
essencialmente assumida por elementos do sexo vens vieram mais tarde a assumir posições naciona-
masculino, numa sociedade que tinha então muitas listas e, mesmo, a integrar os movimentos políticos.
características machistas, várias raparigas africa- Em 1958, com a direcção de João Vieira Lo-
nas, estudantes, assumiram actividades sociais pes, a “Nova Vaga” domina a CEI, orientação que
e culturais de relevo na CEI. Cito alguns nomes, se consolidou em 59-60 com César Monteiro,

106
Gentil Viana, Bento Ribeiro, Paulo Jorge e o au- Compreendendo a importância decisiva da
tor. aquisição da cultura e de conhecimentos técnicos
A CEI constituiu certamente um dos mais im- na ascensão social no quadro colonial, algumas or-
portantes pólos do despertar e amadurecer da ganizações protestantes incentivaram jovens afri-
consciência nacionalista, especialmente em Coim- canos a prosseguir os estudos em Portugal. Esta-
bra e em Lisboa. Mas não se pode atribuir à CEI vam alojados nos lares de Carcavelos e do Lumiar
a única paternidade dessas ideias de liberdade onde usufruíam de condições materiais nitidamen-
e progresso. Foi um dos pólos mas não o único. te superiores. É essa a explicação para a chegada
Os outros pólos foram, por um lado, a pequena a Lisboa de muitos jovens negros angolanos a par-
burguesia nacional, nas próprias colónias — a ori- tir dos anos 59-60. Jonas Savimbi, Pedro Sobri-
gem sociológica do MPLA e do PAIGC assenta nho, Pedro Filipe, Liahuca são exemplos paradig-
nessa pequena burguesia autóctone, cultural e etni- máticos. No entanto, esses jovens protestantes
camente mestiça; por outro, e não menos impor- frequentavam muito pouco a Casa dos Estudantes,
tante, os núcleos de emigração tradicional em paí- receosos pela “má” reputação política que a Casa
ses limítrofes das colónias, de cariz tribal, como tinha granjeado.
foi o caso da União das Populações de Angola Essa mestiçagem progressiva da Casa nos anos
(UPA) com origem no messianismo kikongo, mas 55 a 61 foi conferindo um ambiente, um carácter
que chegou a influenciar vastas camadas da pe- diferente, africanizando-a mais, ligando-a mais
quena burguesia luandense. Enfim, as vastas e va- profundamente às famílias africanas nacionais,
riadas populações do planalto central angolano só à sua cultura miscigenada e às suas legítimas aspi-
acederam à fase nacionalista muito mais tarde, nos rações a uma vida melhor, a um estatuto social su-
anos 60-70. O grande movimento nacionalista que perior, a uma mais vincada afirmação da sua iden-
conseguiu derrubar o império colonial português tidade cultural e política.
teve portanto origem nestas fontes diversas, e cu- Os factores que conduziram a uma conscien-
jas contribuições apareceram em estádios diferen- cialização política crescente dos jovens africanos
tes, umas influenciando outras de maneira positiva na CEI foram múltiplos, complexos, progressivos:
ou negativa. leituras de escritores africanos de expressão france-
Foram o Lar, a Cantina e as farras de sábado sa, antilheses, brasileiros, americanos; conferências
que “fixaram” na Casa muitos dos estudantes da e debates sobre os mais diversos temas; a partici-
“Nova Vaga”. De 1954 a 1961, anos de profundas pação no movimento antifascista dos estudantes
mutações políticas no Terceiro Mundo, a Casa foi- portugueses; as influências políticas exteriores que
-se progressivamente africanizando, gradualmente nos chegavam de Paris e do Brasil; as independên-
colorindo-se com a chegada de gerações sucessi- cias recentes de vários países do Terceiro Mundo;
vas de jovens de origem mestiça e, portanto, os contactos regulares com os “Mais Velhos”, to-
a percentagem de estudantes africanos brancos foi dos eles marxizados e, mais tarde, a partir de 1960
diminuindo progressivamente. No entanto, só por as relações estabelecidas directamente com a di-
volta de 1959-60 é que começaram a aparecer es- recção do MPLA em Conakry e com os movimen-
tudantes negros. Este curioso fenómeno sócio-et- tos nacionalistas em Angola.
nológico traduziu prováveis mudanças signifi- Os “Mais Velhos” só esporadicamente fre-
cativas económicas e culturais das famílias da quentavam a CEI, com a notável excepção do
pequena burguesia nacional: por um lado, a per- Dr. Arménio Ferreira. Com efeito, os “mais ve-
cepção pelas elites nacionais de que a obtenção de lhos” preferiam militar no Clube Marítimo Africa-
um curso superior em Portugal corresponderia no, na Graça: era ali que educavam e consciencia-
a uma real ascensão social e económica da família lizavam os marítimos africanos e suas famílias,
africana mesmo no quadro colonial. Por outro, era ali que encontravam os camaradas trabalhado-
é muito provável que o nível económico de algumas res dos navios que demandavam os portos africa-
famílias da pequena burguesia africana (enfermei- nos e que lhes permitiam manter os contactos com
ros, comerciantes, funcionários) tenha melhorado ao os núcleos nacionalistas em Luanda, Bissau
longo dos anos, permitindo-lhe suportar o enorme e Praia. Esta aproximação dos intelectuais africa-
encargo de manter um estudante em Portugal. nos da primeira geração com os trabalhadores ma-
Houve casos de famílias que se agrupavam para rítimos era a consequência lógica da prática mar-
apoiar um dos filhos na metrópole. xista e provavelmente das orientações do PCP, ao

107
qual muitos dos “mais velhos” estavam organica- ra. O MAC mantinha relações com os núcleos na-
mente vinculados. cionalistas em Bissau e em Luanda.
O 37 da Rua Actor Vale, em Lisboa, serviu O regresso a Luanda de Agostinho Neto em
durante um longo período de sede do Centro de Dezembro de 1959, e a saída para Paris e depois
Estudos Africanos animado por Amílcar Cabral, para Conakry dos elementos com maior maturida-
Francisco Tenreiro, Agostinho Neto e Mário de de política, Amílcar, Lúcio, Eduardo e Hugo no
Andrade e Alda Espírito Santo e foi palco de con- ano seguinte, 1958-1960, enfraqueceu as capacida-
ferências muito concorridas e também serviu co- des de actuação do MAC em Portugal. Por outro
mo centro mobilizador dos jovens africanos. lado, quebraram-se os contactos com o exterior
Foi, portanto, a “nova vaga”, a geração dos es- e com os nossos países, o que foi muito difícil de
tudantes africanos entre os anos 54 a 61, que im- restabelecer mais tarde. Os mais velhos continua-
primiu um novo e decisivo rumo à CEI. O ano de ram lá fora a desfraldar a bandeira do MAC, no-
1957 — criação do MAC — Movimento Anti- meadamente na conferência de Tunes, em Janeiro
-Colonial — e dois anos depois a criação do Mo- de 1960. O documento apresentado nessa confe-
vimento dos Estudantes Angolanos em Portugal, rência é fundamental por dois motivos: primeiro,
inspirado no Manifesto de 1956 (apelo para a cria- porque faz referência expressa ao “programa do
ção de um Amplo Movimento Popular de Liberta- MPLA”; e depois, porque refere “a oposição das
ção de Angola), foram os anos em que se obser- teses e princípios do MPLA em relação às teses
vou a mutação qualitativa da tomada de antiquadas de todas as correntes políticas portu-
consciência política nacionalista dos jovens da guesas opostas ao fascismo (sobretudo o PCP)”,
CEI da “nova vaga”. A CEI deixa então de ser um assinando Viriato da Cruz, Lúcio Lara e Mário de
local de encontro social e lúdico dos estudantes Andrade. Nesse documento fundamental para a
africanos para se transformar num poderoso ins- compreensão do movimento anticolonialista, faz-
trumento de transmissão de ideias libertadoras -se a apresentação internacional do MAC, movi-
e progressistas. mento iniciado em 1957.
Enquanto no exterior o MAC adquire uma di-
mensão internacional na Conferência de Tunes em
Os movimentos nacionalistas em Portugal 1960, sem que os seus militantes em Portugal te-
nham sido informados de tal facto, em Portugal
O Movimento Anti-Colonialista (MAC) o MAC estiola e desaparece. O MAC teve assim
— período de 1957 a 1959 uma existência efémera (1957-58) em Portugal.
No entanto, esta organização nacionalista, sem
O MAC foi criado em 1957, após a passagem ligações orgânicas com o PCP — embora com
de Viriato da Cruz por Lisboa, e permitiu reunir o seu apoio logístico (tipografia), — teve o enor-
a grande maioria dos “Mais Velhos” que militavam me mérito de demonstrar aos estudantes africanos
no MUD Juvenil, PCP e Clube Marítimo Africano, a necessidade de ultrapassarem atitudes românti-
ao numeroso grupo de estudantes da “Nova Vaga” cas e de passarem à prática política num quadro
mais ligados às actividades na CEI. Iko Carreira, africano, independente do paternalismo das orga-
Carlos Pestana e o autor foram designados pelos nizações políticas portuguesas. O MAC estendia
jovens da corrente nacionalista da CEI como seus as suas actividades ao Clube Marítimo Africano,
representantes na direcção do MAC. à CEI, a Luanda, a Bissau, a Paris e à Alemanha.
Este movimento agrupava estudantes de todas A consulta dos processos da PIDE/DGS na
as colónias e tinha por finalidade a conscienciali- Torre do Tombo permite-nos verificar dois factos
zação dos estudantes africanos em Portugal, ba- importantes:
seado no ideário nacionalista, a fim de acelerar
o processo da luta anticolonial. O MAC tinha rela- a) que a PIDE desconhecia totalmente a exis-
ções orgânicas com o grupo de Paris — Mário de tência do MAC, em Portugal;
Andrade, Marcelino dos Santos e Aquino de Bra- b) que o Movimento dos Estudantes Angola-
gança — e com o grupo da Alemanha — Viriato nos, afectos ao MPLA, só foi detectado pela
da Cruz, Carlos Horta e Luiz de Almeida, relações PIDE em meados de Maio de 1961 (docu-
mantidas graças às frequentes viagens dos mais mento n.o 329/46/150 do processo referente
fortunados, Eduardo dos Santos e Arménio Ferrei- à CEI da PIDE/DGS) quando se refere:

108
“o chamado MPLA começou a organizar os culminaram, de maneira fraudulenta, com a derro-
seus serviços e a criar ‘delegações’ em vá- ta eleitoral do general Humberto Delgado. Duas
rias localidades do Continente com vista ao semanas depois, malogrou-se o golpe improvisado
recrutamento de todos os ultramarinos que da Sé, o que obrigou muitos dos intervenientes
se encontram na Metrópole. Conhecem-se a “desaparecerem”.
pormenores de aliciamento feito em Lisboa, Em Luanda, fervilhavam também as ideais na-
Coimbra e Porto e até a oficiais milicianos cionalistas e anticolonialistas em torno da União
da Força Aérea e do Exército.” (Referência da Populações de Angola (UPA) e do Movimento
provável a Iko e a Pedro Pires). pela Independência de Angola (MIA) liderado por
Ilídio Machado, Matias Miguéis, Viriato e Franco
No entanto, um mês antes da “fuga dos cem” de Souza. Edmundo Rocha, um dos membros da
a PIDE já possuía informações de que “um elevado “nova vaga” que esteve envolvido no golpe da Sé,
número de indivíduos de cor, principalmente estu- pôde escapar-se discretamente para Luanda, onde
dantes e outros relativamente novos e com alguma entrou em contacto com os meios nacionalistas:
cultura, iriam tentar sair da Metrópole, com o fim Pe. Nascimento, Liceu Vieira Dias e outros. Esta
de atingirem Paris, seguindo dali para outros paí- viagem e os contactos com o padre Nascimento
ses, a fim de darem a sua colaboração aos elemen- foram registados pela PIDE. Estes encontros per-
tos terroristas... A CEI funciona como o principal mitiram-lhe avaliar a dimensão da luta política em
centro recrutador, tentando fazer sair de Portugal Angola e, de volta a Lisboa, ser portador de docu-
o maior número de estudantes ultramarinos e pa- mentos e instruções que indicavam a necessidade
triotas angolanos que desejassem trabalhar a favor urgente da organização dos estudantes angolanos
da independência de Angola... Uns destinam-se em Portugal. Esses documentos foram-lhe trans-
a tomar parte activa na luta que actualmente se tra- mitidos à partida por André Franco de Souza, um
va em Angola... Enquanto outros se destinam a to- dos redatores e fundadores do Movimento pela In-
mar parte na luta formando o escol intelectual... Em dependência de Angola (MIA).
meados de Junho (de 1961) findo chegaria a Portu- Após uma série de contactos com os estudantes
gal um diplomata suíço que se encarregaria da ela- angolanos mais politizados, foi criado, em princí-
boração dos passaportes daqueles que iriam sair, pios de 1959, um Movimento de Estudantes Ango-
pelo que deveriam entregar duas fotografias tipo lanos. Em Lisboa, a cúpula dessa organização agru-
passe... Deveriam seguir para a cidade do Porto, pava estudantes da CEI, João Vieira Lopes,
onde na estação de S. Bento estaria um agente de Edmundo Rocha, Alberto Bento Ribeiro, Pedro Fi-
ligação à sua espera; que não poderiam levar mais lipe, em representação dos estudantes protestantes,
do que cinco quilos de bagagem e que teriam que e Graça Tavares, em representação dos trabalhado-
levar mil escudos cada que se destinava a pagar res angolanos agrupados no Clube Marítimo. Foi
a passagem de barco para passarem a fronteira...” na Rua do Cabo, 17, 1.o que se realizaram a maior
(doc. 329/46/150 PIDE/DGS, proc. CEI). parte das reuniões da direcção desse movimento
Este documento mostra que cerca de um mês e onde se encontram ainda hoje escondidos os ar-
antes da “fuga dos cem” a PIDE consegue detectar quivos tanto do MAC como do MEA.
a existência do nosso Movimento clandestino dos Era uma organização muito fechada, articulada
Estudantes Angolanos, ligado ao MPLA, a intenção em células de três elementos. A grande maioria dos
da saída de um grande número de estudantes... mas estudantes da CEI da corrente nacionalista-progres-
não consegue penetrar mais profundamente a orga- sista e dos estudantes protestantes militaram nesse
nização, nem conhecer a data e o local da fuga. movimento: Gentil Viana, Henrique Carreira, Car-
los e Augusto Pestana, Manuel Videira, Daniel Chi-
penda, José Araújo, Gentil Traça, J. Hurst, Medei-
O Movimento dos Estudantes Angolanos, ros, Paulo Jorge, Tuto, e muitos outros.
inspirado no Manifesto de 1956 Esta organização caracterizava-se por ser cons-
(Amplo Movimento Popular de Libertação tituída essencialmente por jovens da nova geração,
de Angola) — período 1959 a 1961 visto que os “mais velhos” tinham-se fixado em
Conakry; associação entre os estudantes da CEI
O Portugal de 1958 encontrava-se em plena e protestantes, e os trabalhadores angolanos, tradu-
efervescência com as eleições presidenciais que zindo este facto o elevado grau de maturidade po-

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lítica da juventude angolana dessa geração. Enfim, lónias portuguesas nas duas Alemanhas, na Bélgica
pela independência em relação aos partidos anti- e na Suíça (Carlos Horta, Carlos Rocha, Fret Lao
fascistas portugueses. Foi nesse período que foram Shong, Pinto da Costa, Luiz, Desidério, Passos
distribuídos em Portugal o panfleto de Abel Djassi e outros) a fim de lançarmos as bases de uma orga-
(aliás Amílcar Cabral) sobre “O Colonialismo Por- nização estudantil nacionalista, a qual seria a pro-
tuguês” em Julho de 1960 e, em Dezembro do jecção internacional da CEI. E, por outro lado, um
mesmo ano, o panfleto “Mensagem ao Povo Por- grupo mais restrito (Luiz, Edmundo, Graça, Desi-
tuguês” de denúncia do colonialismo e apelo à re- dério, Passos) propôs-se encontrar os meios que
solução do problema colonial por vias pacíficas, permitissem cumprir a nossa missão, que era a de
assinado por estudantes universitários das colónias fazer sair os estudantes africanos de Portugal.
portuguesas. Em desespero de causa devido à total ausência
de meios financeiros e operacionais entrámos em
contacto, através do Desidério, com o bispo pro-
A “Fuga dos Cem” estudantes africanos testante de Frankfort, o qual por sua vez nos pôs
de Portugal em contacto com o Bispo Black, da Assembleia
Mundial das Igrejas Protestantes com sede em Ge-
Logo após o início da luta armada em Angola, nebra. O Bispo Black conhecia muito bem a situa-
em 4 de Fevereiro de 1961, a direcção do MPLA, ção explosiva em Angola e nas outras colónias
sediada em Conakry (Guiné) pediu aos estudantes portuguesas. Transmitimos-lhe os nossos contactos
angolanos (MEA) em Portugal, através do canal em Lisboa. A operação “a fuga dos cem” estava
egípcio, a saída de alguns jovens voluntários mais lançada, e... escapou-nos das mãos.
politizados a fim de reforçarem as incipientes es- Em Junho de 1961 dá-se então a fuga de cerca
truturas políticas e militares e prepararem acções de cem estudantes africanos de Lisboa, do Porto
no norte de Angola. e de Coimbra, em vários carros até à fronteira es-
A direcção do MEA em Lisboa decidiu então panhola e daí em autocarros até à fronteira hispa-
enviar dois elementos a França, onde entrariam nofrancesa e de comboio até Paris. Os estudantes,
em contacto mais rapidamente com os camaradas alguns com mulher e filhos, foram acolhidos na
do MPLA em Conakry, e estudariam então os de- CIMADE, organismo francês destinado, nessa
talhes técnicos dessa operação. Para essa missão época, a acolher os fugitivos dos países do Leste
foram escolhidos Graça Tavares e o autor. Era europeu.
uma missão com um bilhete de ida, sendo impen- A fulgurante organização exigida pela saída de
sável o regresso a Portugal. Saíram de Portugal em uma centena de jovens africanos nas barbas da PI-
Abril e foram calorosamente recebidos por um DE, demonstrou o enorme trabalho de conscien-
grande amigo da nossa causa, Marc Antoine De- cialização e de mobilização durante anos no seio
lanné, que os acolheu em Niort (França). Grande dos estudantes angolanos. Demonstrou também
foi a nossa decepção ao recebermos uma carta de a implantação do Movimento dos Estudantes An-
Eduardo dos Santos, membro da direcção exterior golanos em Portugal nos núcleos estudantis das
do MPLA, onde nos informava da impossibilidade três cidades universitárias portuguesas nos anos
financeira e material do movimento em assegurar sessenta. Esta fuga teria sido impossível sem
com êxito a saída dos estudantes de Portugal, dan- a existência de uma organização perfeitamente es-
do-nos carta branca para resolvermos da melhor truturada. A organização e execução da fuga dos
maneira essa missão. cem estudantes da CEI e protestantes foi uma ope-
Na impossibilidade de recuarmos, decidimos ração executada por militantes do Movimento dos
juntar-nos ao numeroso grupo de estudantes afri- Estudantes Angolanos... com o apoio financeiro
canos na Alemanha Ocidental (Luiz de Almeida, e logístico do Conselho Mundial das Igrejas Pro-
Desidério Costa, Alberto Passos, Barbeitos e ou- testantes, da CIMADE e de dois americanos e a
tros). Foi extraordinária a disponibilidade, a gene- intervenção do governo francês. Curiosamente saí-
rosidade e a simpatia de Luiz e de Karin, que nos ram de Portugal não só estudantes angolanos, co-
acolheram em Birkesdorf durante alguns dias, mo também moçambicanos, santomenses, gui-
donde partimos para Frankfort. neenses e cabo-verdianos, o que demonstra as
Aí realizámos várias reuniões com dois objecti- ligações estreitas que existiam na juventude afri-
vos: por um lado, com todos os estudantes das co- cana da CEI.

110
A CIMADE em Paris encheu-se de repente de 2. a participação de uma delegação de jovens
jovens africanos, falando português, num mundo estudantes das colónias portuguesas no Fo-
totalmente novo e com as mentes a fervilhar de rum da Juventude de Moscovo em Agosto
ideias utópicas. de 1961;
A notícia da fuga dos estudantes africanos de 3. nomeação de uma direcção provisória com-
Portugal encheu as parangonas dos jornais portu- posta por Carlos Horta, Edmundo Rocha,
gueses e franceses. Os dirigentes nacionalistas tan- Fret Lao Shong e Luiz de Almeida;
to em Conakry (Viriato, Mário, Lúcio, Eduardo, 4. procura de apoios financeiros, atribuição de
Hugo, Amílcar), como em Rabat (Marcelino e bolsas de estudo (já na previsão da saída
Aquino) e em Leopoldville (Holden) foram apa- dos estudantes de Portugal), junto dos or-
nhados totalmente de surpresa por esta súbita ava- ganismos estudantis progressistas na Euro-
lanche de jovens africanos, potenciais e apetecidos pa Ocidental e nos países socialistas e junto
quadros políticos e militares para os respectivos da UIE (União Internacional dos Estudan-
movimentos de libertação. Constituiu também pa- tes, com sede em Praga e de tendência co-
ra o Movimento dos Estudantes Angolanos e para munista). A UGEAN alinhava no plano
o grupo da Alemanha uma enorme vitória, face às ideológico com os movimentos de liberta-
forças colonialistas e fascistas portuguesas. ção nacional.
Foi enorme a actividade exercida então pelos di-
rigentes políticos e pelos estudantes da CEI no exte- Em Agosto de 1961, os estudantes da CEI no
rior para resolverem os mais diversos problemas in- exterior estiveram pela primeira vez representados
dividuais. Alguns decidiram prosseguir os estudos numa reunião internacional, o Forum da Juventu-
em vários países ocidentais e socialistas. A maioria de, em Moscovo. A delegação era constituída por
decidiu participar na luta de libertação. Muitos estu- Carlos Horta, Fret, Pinto da Costa, Carlos Rocha
dantes protestantes ligaram-se a Holden e a Savimbi. e o autor. No Forum houve uma grande aproxima-
Anos depois, alguns jovens angolanos da cor- ção com as delegações brasileira e portuguesa do
rente marxista da CEI e ligados à FUA (Frente MUD Juvenil e da União dos Estudantes Comu-
Unida Angolana), dos quais se destacaram Hélder nistas. O Forum permitiu-nos estabelecer relações
Neto, Henrique Abranches, Adolfo Maria, conse- com outras organizações estudantis progressistas,
guiram sair de Portugal e criaram em Argel o Cen- sobretudo africanas, e também com a poderosa
tro de Estudos Angolanos (CEA) de carácter mar- UIE. O autor é então encarregado de organizar em
xista-leninista. Estes jovens não eram militantes Rabat (Marrocos) o Congresso Constitutivo da
do MPLA mas mantinham estreitas relações com UGEAN. De passagem por Praga, obtém impor-
Agostinho Neto. O CEA levou a cabo, durante tantes apoios da UIE. Em Rabat, graças ao apoio
anos, uma intensa actividade, tendo elaborado de Marcelino dos Santos, e também graças à ajuda
uma “História” de Angola e vários manuais de al- eficaz em meios materiais, financeiros e humanos
fabetização destinados a serem utilizados nos cam- do governo marroquino e do rei Hassan II e da
pos de treino no Congo-Brazzaville e na Zâmbia. União dos Estudantes Marroquinos (UNEM), rea-
Exerceram também uma forte influência política lizou-se em Setembro de 1961 o primeiro Con-
na delegação do MPLA em Argel. gresso dos estudantes dos países africanos sob do-
mínio português. Entretanto, já se tinha dado a
“fuga dos cem” e, de Paris, a maioria sobretudo
O Congresso Constitutivo da União Geral dos elementos pró-MPLA e PAIGC, tinha ido para
dos Estudantes da África Negra o Ghana.
sob domínio colonial português (UGEAN) Vieram numerosas delegações tanto do Ghana,
como do Zaïre, da Europa Ocidental, da Guiné
Das reuniões tidas na Alemanha, de Maio e Senegal, do Brasil (Fernando Mourão) e dos
a Junho de 1961, com o conjunto de estudantes EUA. Delegações de convidados, UIE, países so-
que aí se encontravam, resultaram várias decisões cialistas, marroquinos e argelinos. Foi ocasião pa-
importantes. ra o lançamento oficial da UGEAN, a expressão
internacional da CEI. Tanto Amílcar Cabral, como
1. a necessidade urgente da realização de um Viriato da Cruz, Mário de Andrade, Marcelino dos
congresso constitutivo; Santos, Aquino de Bragança estiveram presentes

111
e manifestaram o total apoio das respectivas orga- e militares do MPLA: o CVAAR, a “operação das
nizações políticas. batas brancas” por que ficou conhecida. Esta era
Este Congresso permitiu demonstrar a enorme uma organização constituída por médicos e enfer-
vitalidade dos jovens estudantes africanos e o seu meiros, todos eles voluntários e que tinha por fina-
desejo de participar nas lutas de libertação nacio- lidade a assistência às centenas de milhares de re-
nal. As vidas de muitos de nós foram profunda- fugiados que a guerra em Angola tinha lançado
mente alteradas após a reunião de Rabat. Muitos para o Zaire. O CVAAR compreendia uma dezena
decidiram acabar os seus cursos em diversos paí- de médicos angolanos, antigos estudantes da CEI
ses, interrompidos pela “fuga dos cem”, para mais (Américo Boavida, Eduardo dos Santos, Hugo de
tarde integrarem os diversos movimentos naciona- Menezes, João Vieira Lopes, Mário de Almeida,
listas. Outros dirigiram durante anos a UGEAN. Videira, Boal, Carlos Pestana, Rui de Carvalho e o
Mas muitos de nós, sobretudo os que já tinham autor) os quais exerceram durante cerca de três
acabado os cursos, integraram directamente os di- anos um notável apoio assistencial aos refugiados
ferentes movimentos. e desenvolveram também uma importante acção
No Congresso de Rabat realizou-se aquilo que política junto dessas populações, por vezes com
nunca poderia ter sido feito em Portugal submetido o risco da própria vida, permitindo de facto a im-
à opressão fascista, a demonstração da grande matu- plantação do MPLA no Zaire.
ridade política da juventude africana, o desejo real Neto assume o poder, mas o MPLA é expulso
de participação nas lutas político-militares dos nos- do Zaire e refugia-se em Brazzaville. O CVAAR
sos povos e constituiu o natural prolongamento das é encerrado, após uns três anos de um trabalho ex-
actividades clandestinas dos estudantes da CEI em traordinário junto das populações africanas. Foi
Portugal projectando-as para a cena internacional. a primeira ONG (organização não-governamental)
que trabalhou gratuitamente para os angolanos. Os
antigos estudantes da CEI que militavam no
O Corpo Voluntário de Assistência CVAAR viram-se obrigados a emigrar, a maioria
aos Refugiados Angolanos (CVAAR) para a Argélia, outros para França e Holanda e ou-
tros para o Ghana e Marrocos.
A direcção exterior do MPLA, sediada em Co- No entanto, o afastamento não significou
nakry (Guiné), necessitava desesperadamente de a ruptura total, pois muitos de nós reintegram
se aproximar de Angola, a fim de dirigir a activi- o MPLA anos depois, tendo mesmo chegado a de-
dade política e militar no interior do país, após os sempenhar papéis importantes na frente leste du-
acontecimentos de 4 de Fevereiro, que marcou rante anos, ou tendo levado a cabo missões decisi-
o início da luta armada. vas e determinantes durante a guerra entre os
No entanto, a reputação de organização mar- movimentos de libertação em 1975.
xista que o movimento tinha granjeado e as suas
conotações notórias com os países socialistas le-
vantavam dificuldades à sua instalação no Congo- Conclusões
-Leopoldville (Zaire), país onde a UPA de Holden
Roberto beneficiava de fortes simpatias e alianças Esse amplo movimento político dos estudantes
junto do governo zairense pró-ocidental e também das diferentes colónias portuguesas no seio da
junto das populações angolanas refugiadas ao lon- CEI, radicalizado em 1957 com a criação do Mo-
go da fronteira com Angola, de maioria kikongo. vimento Anti-Colonialista e, mais tarde, em 1959,
Nestas condições, a instalação do MPLA em terri- com a organização do Movimento dos Estudantes
tório zairense constituía uma aposta extremamente Angolanos em Portugal e que culminou em 1961
difícil. Mesmo o número de militantes do MPLA com a “fuga dos cem”, o Congresso de Rabat,
organizados por Matias Miguéis, que conseguira a sua projecção no movimento estudantil interna-
escapar à prisão dos cinquenta em 1959 pela PIDE cional e a participação na luta de libertação nacio-
e que foi um dos fundadores do amplo MPLA, em nal, teve profundas consequências.
1956, era muito reduzido. Mas não havia, naquela
época, outra alternativa. 1. A hemorragia de quadros políticos na CEI
Imaginou-se então um estratagema que permi- causada pela “fuga dos cem” deixou um enorme
tiu introduzir no Zaire os elementos políticos vazio e conduziu ao enfraquecimento do movi-

112
mento dos estudantes da corrente nacionalista pro- ção nacional e na conquista das independências. Es-
gressista. No entanto, os estudantes que ficaram se movimento foi marcado por várias etapas.
em Portugal tentaram manter o espírito lutador da Com efeito, os anos de 50 a 57 foram essen-
CEI e, com efeito, três meses após a “fuga dos cialmente de maturação, de consciencialização,
cem”, reúnem em pleno mês de Agosto, uma im- e de afirmação da nossa identidade africana. Fo-
portante Assembleia presidida por Júlio Correia ram os ANOS DO VERBO, movimento esse ini-
Mendes, que remodela os estatutos — imposição ciado pela geração dos “mais velhos” e prossegui-
governamental — e assume medidas provisórias do pelas gerações seguintes.
até à eleição em fins de Dezembro/61 do grupo Depois, a criação do Movimento Anti-Colonial
conduzido por Carlos Ervedosa e Paulo Jorge, em 1957 e do Movimento dos Estudantes Angola-
o qual celebrou em Janeiro/62 com extraordinário nos em 1959 marcaram uma etapa nova e superior,
êxito uma semana cultural, presidida por Arménio demonstrando a necessidade e a possibilidade duma
Ferreira. mobilização política da juventude da Casa dos Es-
Entretanto, a actividade das massas estudantis tudantes do Império no contexto fascista-colonia-
das colónias portuguesas inquieta cada vez mais lista português, no coração mesmo do opressor. Fo-
o poder fascista e colonialista. Em 1965 a CEI en- ram os anos do PANFLETO POLÍTICO.
cerra definitivamente as suas actividades por im- Enfim, o início da luta armada de libertação
posição governamental. nas colónias e a pronta e generosa resposta dos es-
Muitos jovens africanos que não puderam parti- tudantes africanos da CEI atestada pela “fuga dos
cipar na “fuga dos cem” por razões técnicas ou de cem”, o engajamento no CVAAR de uma dezena
engajamento político, manifestaram sentimentos de de médicos angolanos e o envolvimento nas lutas
ressentimento e de frustração, desconhecendo eles político-militares de libertação, demonstraram um
os caminhos tortuosos, repletos de espinhos, de de- elevado grau de consciência política, em perfeita
cepções, de conflitos e de traições, de amores des- consonância com a época histórica.
feitos e de carreiras interrompidas, que aqueles que A participação da juventude africana da Casa
saíram de Portugal em 1961 foram obrigados a per- dos Estudantes do Império nas lutas de libertação
correr durante quinze anos. Nem tudo foram rosas, das colónias portuguesas, tanto nas actividades
nem todos subiram ao altar da glória. clandestinas em Portugal como mais tarde na luta
política e armada, situados em quadrantes ideoló-
2. O grande movimento dos estudantes africanos gicos diferentes e com graus de engajamento mui-
em Portugal, tendo como epicentro a Casa dos Estu- to variado, confere a esses jovens e à CEI um lu-
dantes do Império, teve aspectos marcantes, consti- gar inesquecível na história de todos os países
tuindo ao longo de duas décadas um dos pólos do colonizados por Portugal.
desabrochar da consciência nacionalista de centenas
de jovens e que foi determinante na luta de liberta- 20 de Outubro de 1996.

113
114
A Casa dos Estudantes do Império fez de mim um escritor
PEPETELA*

P ouco importa a valia do que se escreve. Mui- aos treze anos, na nossa Benguela de todos os mi-
to mais que o talento ou a própria qualidade da es- tos, ao ouvir Aires de Almeida Santos declamar os
crita, o que conta é a visão da vida, o posiciona- seus poemas num almoço de confraternização no
mento face à realidade. Escritor é aquele que sente Cavaco que me provocaram o choque de pela pri-
a necessidade de transmitir algo que sente, seja meira vez ser confrontado com a realidade e as coi-
objectivamente importante ou não. Para ele é im- sas e os sons e os sabores que de tão triviais nem
portante, e é isso obviamente que conta. Por isso neles reparava, descobri, dizia, que essa emoção
usa as palavras para dar a conhecer, talvez primei- era afinal sentida porque despertava o amor pela
ro a si próprio, depois aos outros (se tem a petu- terra e as cores e os cheiros que abandonara e que
lância de considerar que alguém se interesse pelo tinham moldado a minha infância de lendas e estó-
que tem a dizer) o que em determinado momento rias ouvidas nos serões de quintal da casa paterna.
a sua vivência lhe dita. Foi na CEI que aprendi que os poemas e os
É nesse sentido que devo afirmar que, se escri- contos falavam de realidades fundamentais nunca
tor de facto sou, em grande parte o devo à CEI. racionalizadas pela tenra idade. E o inato gosto
Desde menino tinha o gosto pela leitura, numa vo- pela escrita se transformou, de mero passatempo
racidade que misturava os romances de aventura solitário e irresponsável, em necessidade conscien-
(os Salgari, os Júlio Verne, ou Alexandre Dumas) te de ajudar a combater uma ordem social mais
aos romances policiais, aos Eça e Camilo, às ban- adivinhada que sentida como injusta. O apelo da
das desenhadas e Hans Christian Andersen. Daí terra deixou de ser apenas algo de emotivo para se
a tentar os primeiros contos foi só um passo, espe- tornar razão de ser.
cialmente quando na escola primária tínhamos por E também foi na CEI que apareceram os pri-
obrigação fazer redacções sobre a vaca e o cão meiros críticos, que liam os meus despretensiosos
e eu achei mais interessante fugir dos caminhos contos e me desancavam quando necessário, real-
batidos e criar estórias de onde se depreendessem çando aquilo que lhes parecia interessante. É as-
as utilidades de tais animais domésticos. sim que se aprende e se encoraja. Das leituras na
E certamente pararia por aí, levado por outros biblioteca da CEI entrei em contacto com a Histó-
interesses mais imediatos, quiçá mais rentáveis. ria da África e a sua Arte, colhi imagens e ideias
Foi quando surgiu a CEI na minha vida. E tudo que acabaram por me fazer abandonar o curso de
mudou. Engenharia e mais tarde enveredar pela Sociolo-
No seu ambiente, fui encontrando pessoas que gia. Não tanto pela Ciência Social em si, mas co-
me davam a ler poesias e contos que falavam da mo a aquisição dum instrumento que me permiti-
terra que fora forçado a abandonar tão novo. Nas ria conhecer uma realidade que, mais cedo ou
discussões ia descobrindo que a emoção sentida mais tarde, eu sabia, haveria de descrever. Aí sim,

* Escritor e sociólogo angolano. Professor na Universidade Agostinho Neto. Colaborador da Mensagem (CEI).

115
já era escritor em projecto. Também nisso a Casa cionar a minha dívida para todos os amigos que fi-
foi determinante. zeram e continuaram a Casa dos Estudantes do
Quando hoje tanta gente desconhece o passado Império. Apenas para que conste.
relativamente recente e menospreza as fontes do
nacionalismo dos nossos países, acho justo men- Março de 1994.

116
O «Espírito» da CEI
JORGE QUERIDO*

N uma das minhas passagens pela prisão do Embora já tocado, ainda em Cabo Verde, pelos
Aljube, em 1961, o Inspector Pereira de Carvalho, gérmens da revolta contra uma situação colonial
a meio de um animado interrogatório, por sinal in- injusta e degradante, foi na Casa dos Estudantes
frutífero para a PIDE, berrou, irado, que sabia do Império que obtive respostas a muitas das mi-
muito bem que eu era um activista da Casa dos nhas interrogações e inquietações e foi aí que, em
Estudantes do Império, “esse covil de comunistas contacto diário, fraterno, amigo e enriquecedor
e de terroristas”. com colegas da Guiné, S. Tomé e Príncipe, Ango-
Essa expressão impregnada de muito ódio, saí- la e Moçambique, pude conhecer, em toda a sua
da da boca de um agente salazarista, longe de me dimensão, a verdadeira face do colonialismo.
impressionar, fez, na altura, crescer dentro de mim Na CEI, as nossas contradições, as nossas di-
o orgulho que sentia em pertencer à CEI e em con- ferenças culturais, ideológicas ou outras eram de-
tribuir para que ela continuasse sendo, cada vez batidas franca e descomplexadamente.
mais, um farol que, na longa noite fascista, ilumi- Os nossos confrontos de ideias, ainda que por
nava e guiava os jovens das colónias que chega- vezes implicassem incursões por terrenos difíceis
vam a Portugal para prosseguir os seus estudos. e muito delicados, em vez de nos dividir, fortale-
A Casa dos Estudantes do Império era um dos ciam a nossa coesão.
poucos oásis de democracia e de liberdade que ain- A CEI, sem dúvida, engendrou um “espírito”
da sobreviviam no vasto deserto colonial-fascista; que marcou gerações e que teve um papel impor-
era um corpo vivo, uma autêntica instituição de tantíssimo na edificação dos novos países africa-
educação informal que complementava e orientava nos que foram colónias portuguesas.
a formação de estudantes africanos, incutindo-lhes Aproveito esta oportunidade para saudar todos
valores como os de liberdade, de democracia, de os meus antigos companheiros da Guiné, São To-
tolerância e, sobretudo, a nós africanos, despertava- mé, Angola e Moçambique que, imbuídos da cer-
-nos para a nossa própria identidade e ensinava-nos teza que sempre nos animou, continuam lutando
como combater a alienação mental e cultural pro- por um mundo melhor.
vocada por séculos de dominação colonial.
Foi o que aconteceu comigo. Setembro de 1996.

* Engenheiro caboverdiano, activista da CEI de Lisboa.

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Uma nova «Casa»*
PERCY FREUDENTHAL**

F oi há 50 anos criada a Casa dos Estudantes a geração do optimismo, a geração da esperança,


do Império que, ao longo deste período, escreveu a geração das ideologias. Não vou agora nem será
tanto da nossa história comum. Com a republica- este o momento para desenvolver o tema da im-
ção das Antologias de Poesia pretendemos prestar portância que a Casa dos Estudantes do Império
uma singela homenagem à Casa, como nós a co- teve na formação de homens ou no aproximar de
nhecíamos, relembrando que foram jovens estu- gentes e culturas diversas que por força das cir-
dantes oriundos do então vasto império colonial, cunstâncias tiveram de viver uma vida em comum.
jovens na sua maioria filhos da pequena burguesia A quantidade imensa de iniciativas culturais e a
e do funcionalismo, que lhe deram origem. Ao enorme qualidade de algumas delas, foram e con-
longo dos anos os estudantes ultramarinos conti- tinuarão a ser, estou certo, objecto de estudos
nuaram a engrossar as fileiras de sócios em Lis- aprofundados. Também não pretendo falar sobre
boa, em Coimbra, no Porto, ao mesmo tempo que o destino de muitos de seus associados cuja activi-
se diversificavam as suas proveniências sociais, dade foi e é tão determinante nos vários países on-
raciais, étnicas. O desenraizamento, a língua e a de optaram por viver. A relação da Casa com os
escola foram unindo aqueles jovens; para a maio- restantes movimentos estudantis portugueses, a re-
ria foi a descoberta e o melhor conhecimento do lação da Casa com o poder constituído, o seu grau
Outro, do maconde, do brâmane e do pária, da jo- de independência face ao mesmo poder, os vários
vem umbundo, das mornas e coladeiras, dos sabo- incidentes de percurso, a sua democraticidade in-
res de São Tomé, dos balantas e bijagós, da man- terna, a relevância da sua política editorial, outros
carra, da ginguba ou do amendoim, isto em e noutras ocasiões os abordarão.
simultâneo com marxismos, fascismos, Ghandi, Neste momento queria apenas lembrar que em
Frantz Fanon, Salazar, Sekou Touré, Fidel; e dis- Setembro de 1965 foi a Sede da Casa no Arco do
cutia-se e estudava-se Che, Nicolas Guillén e Ne- Cego brutalmente encerrada, tendo sido espoliada
ruda. Acreditávamos na renovação do Homem. No de todos os seus bens pela extinta PIDE. Esta se-
Rialva, em frente da sede, discutia-se Camus. Vía- de, ainda hoje vaga e esperando o seu legítimo
mos a Alma Boa de Ze-Zuan e À Espera de Godot. ocupante, foi local de encontro e de realização de
Discutia-se o último golo do Sporting; nos Santos tantos e tão significativos acontecimentos que tan-
Populares misturávamos uma pinga, bacalhau, ta importância viriam a revelar no futuro. Parecia
lembrávamos o sabor da pitanga e depois de uma ter desaparecido para sempre por imposição de
desgarrada íamos dançar um merengue ou um uma política violentamente cega e autista.
baião. E exilávamo-nos, e combatíamos pela inde- Cerca de 30 anos mais tarde um grupo de ex-
pendência de novos países e crescíamos. Éramos -sócios da CEI, poucos ao princípio, depois mais e

* Alocução proferida na sessão de lançamento da reedição das Antologias de Poesia da CEI.


** Gestor de empresa. Director da Secção de Estudos Ultramarinos da CEI. Presidente da ACEI de 1993-95.

119
hoje muitos mais reúnem-se em Lisboa, Cabo Ver- consideramos tão vasto, necessitamos claramente
de, discutem publicamente através da rádio em de apoio dos órgãos oficiais dos diversos países lu-
Moçambique, em Angola, na Guiné, em São Tomé sófonos. Parece claro haver grandes vantagens mú-
e Príncipe e no Brasil e decidem criar uma asso- tuas em apoiar uma Associação com as característi-
ciação que além do nome vai buscar as suas raízes cas da nossa, uma Associação que venha a ser
mais profundas à CEI, prosseguindo-a. Pretende gerida por estudantes que através dela procurarão
reaver a sede em Lisboa, símbolo maior da sua vi- minorar os problemas que afectam estes jovens de-
vência, pretende criar polos espalhados lá onde senraizados e simultaneamente será um espaço para
existam ex-sócios da CEI, pretende aproximar no- mais velhos, que deverão perpetuar convívios cul-
vamente as gentes e culturas diversas, criar um es- turais e amizades que perdurem para além dos con-
paço e um tempo onde os homens possam reflectir tinentes, dos tempos e quiçá das políticas.
e trocar experiências e pretende perpetuar este tipo Provavelmente por inépcia nossa não fomos
de instituição abrindo-a aos jovens estudantes de- capazes de passar convenientemente este tipo de
senraizados, que hoje são tantos e tantos proble- mensagem. Julgo que no futuro haverá que lançar
mas têm. novas iniciativas no sentido de dar a conhecer me-
Como há 50 anos, os estudantes têm de estudar lhor o passado da CEI e aprofundar vias futuras
mas têm também de dormir, comer e encontrar lo- para a ACEI.
cais onde possam estudar, conviver e aprender
a respeitar a diferença. Mas para um programa que 15 de Dezembro de 1994.

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2. FRAGMENTOS

A propósito de um poeta cabo-verdiano*


MÁRIO PINTO DE ANDRADE**

A Secção de Cabo Verde da Casa dos Estu- No corpo das raparigas morenas,
dantes do Império está de parabéns pela edição de Nas coxas ágeis das pretas,
“Linha do Horizonte” — Poesia de Aguinaldo No desejo da viagem que fica em sonhos de muita
Fonseca. gente!
Aguinaldo Fonseca reúne neste seu primeiro
livro 30 poemas que ultrapassam o horizonte das Este convite de toda a hora
ilhas de Cabo Verde, e o seu valor real, quanto Que o Mar nos faz para a evasão.
a mim, reside essencialmente nesta mensagem de Este desespero de querer partir
esperança e de luta que nos transmite desde E ter que ficar!
o princípio ao fim do livro:
(de “Poema do Mar” — Jorge Barbosa)
O fim dum sonho é o começo doutro,
Cada horizonte outro horizonte aponta, Já fogem, contudo, desta “poesia fechada” al-
E uma esperança morta outra esperança aquece. guns poetas como Nuno Miranda e António Nunes.
Claro que é patente ainda na obra de Aguinal-
(I — «Círculo») do Fonseca a influência ambiental da sua terra,
quando nos fala de marinheiros e a construção me-
Parece-me que até à data, desde os primeiros tafórica do poeta é feita de velas, ondas, dunas,
ensaios dos jovens poetas de Cabo Verde, se tinha ventos e navios:
tornado quase proverbial que a poesia cabo-verdia-
na era aquela que cantava a prisão das ilhas. Íamo- Uma luzinha distante
-nos habituando a auscultar o coração dum povo no E um farol cuspindo luz
vento que soprava esses poemas, na desesperança Na cara negra da noite.
de ter que ficar, quando o sonho era partir... Era
a evasão das cadeias marítimas, das saudades de Tudo é salgado e saudoso.
menino, da lembrança da Mamã-Grande cochilando
na sua cadeira de balanço. A nossa reacção humana Ventos com ondas às costas
seria talvez a solidariedade com a «desgraça»: Fazem tremer a taberna,
Que é um navio ancorado.
O Mar! ...
Dentro de nós todos,
No canto da Morna. (8 — “Taberna à Beira-Mar”)

* Jornal Magazine da Mulher. Lisboa, 24 Junho 1951.


** Político e ensaísta angolano (1928-1990), um dos fundadores do Centro de Estudos Africanos (Lisboa). Primeiro presidente do MPLA.

123
Ele quis deixar inscrita a saudade pelos temas rária é a interioridade do artista. Veja-se a propósi-
do mar, mas uma saudade que reveste um outro to, “Morna” — Contos de Cabo Verde, de Manuel
carácter mais geral. Porque Aguinaldo Fonseca Ferreira. Como este autor europeu nos seus contos
emigra, não para as terras da América, mas para se distancia de Baltazar Lopes da Silva no seu be-
o humano, para o fundo comum de energias que lo e muito humano “Chiquinho”. Veja-se a propó-
há em todos nós, quer latentes — por despertar, sito de “Morna”, a crítica redondamente falsa de
quer despertas — por exprimir-se. E este é o ver- João Gaspar Simões.
dadeiro caminho duma poesia humana da hora O poeta de “Linha do Horizonte”, que não con-
presente, uma “poesia aberta”. O que interessa, segue ainda em muitas das suas composições
afinal, fundamentalmente, é que o poeta, sem a ne- o melhor aproveitamento do ritmo das palavras, é,
cessidade expressa de ser impessoal, se apresente contudo, duma sensibilidade nova noutros poemas
como intérprete das aspirações do seu povo, re- como este, não incluído no volume presente:
criando os seus problemas.
Note-se que a chamada literatura do Ultramar, Corpos e corpos no chão
geralmente produzida por europeus ou nativos eu- Hirtos e silenciosos.
ropeizados sem formação cultural e social dos pro- Corpos e corpos em fila
blemas da sua região, não consegue enquadrar no Com suas covas ao lado.
“seu” conjunto, esta poesia cabo-verdiana. E ainda
bem. Alguma coisa se salva. A literatura cabo-ver- Chora o Povo, chora
diana não tem qualquer ponto de contacto com Chora abertamente
a chamada do Ultramar porque o autor cabo-ver- Como criança magoada.
diano funda-se nas suas realidades ambientais. Desfolha a sua saudade
A própria história da colonização do Arquipélago Sobre brancas ligaduras
é diferente da das outras possessões africanas. Daí Cobrindo corpos de sangue
resulta também que a realidade cultural e social se .............................................
apresenta de modo diverso. Não deixa de ser notó-
ria a identificação do cabo-verdiano “tout court” Como escrevi a princípio, Aguinaldo Fonseca
com as suas presenças virtuais. Apraz recordar ultrapassa o horizonte de Cabo Verde. Mas para
sempre um caso único no Ultramar Português: este “ultrapassar” ele bem pode e deve servir-se da
Baltazar Lopes da Silva, um nativo, cultor dos alma e dos anseios do próprio Povo. Ao preferir
crioulos cabo-verdianos, bastamente preparado na um extremo impessoal a contrapor àquele extremo
ciência filológica. insular, a sua virtualidade poética perde um pouco.
E quando o europeu tenta, por vezes, escrever Para chegar à universalidade humana, partamos de
de dentro, observando Cabo Verde de fora, a obra nós, das ansiedades circundantes.
(poética ou de ficção) sai-lhe artificial, mesmo que Entretanto, “Linha do Horizonte” representa
ele ame com toda a sua potencialidade, o humano satisfatoriamente um dos muitos esforços de ex-
de Cabo Verde. Para além das roupagens estilísti- pressão da consciência do Poeta, aquela consciên-
cas, o que deve ficar vibrando na obra de arte lite- cia que “é a de todos e por todos fala”.

124
Memória dos Anos 50*
FERNANDO AUGUSTO A. MOURÃO**

[...] N essa época, cabia-nos a responsabilida- mento. A metodologia tinha dupla entrada: os tex-
de de organizar e manter a Biblioteca da CEI. tos dos sociólogos brasileiros, tais como Guerreiro
Nessa ocasião Agostinho Neto, já quase que intei- (?) Ramos e até certo ponto Gilberto Freyre, que
ramente dedicado aos assuntos pertinentes à orga- logo nos decepcionava com os seus escritos tar-
nização política dos jovens, encontrava tempo pa- dios resultado de uma apressada viagem ao conti-
ra discutir longamente sobre problemas centrais nente africano, e, paralelamente, a literatura políti-
e periféricos relativos à identidade africana, espe- ca: como identificar a cultura africana, quais as
cialmente sobre sua vivência angolana. Neto inte- suas clivagens diferenciais? A literatura de que dis-
ressou-se desde logo pelo nosso projecto de, a par púnhamos não dava respostas satisfatórias. A poe-
de aumentar o acervo de livros de literatura, onde sia e o conto, sim, mas os textos etnográficos
Jorge Amado e os escritores do ciclo do Nordeste, eram para nós, naquela época, insuficientes, ou
entre eles, Graciliano Ramos, José Lins do Rego porque o eram mesmo ou porque nos faltava trei-
e tantos outros, eram disputados pelos jovens lei- no nessas áreas das Ciências Humanas, que a Uni-
tores, se dar um melhor aproveitamento às obras versidade não estudava. Recordo uma tentativa
relativas à história e à etnografia africana. Embora utópica de conseguirmos as obras de Price-Mars,
inicialmente o acervo, neste campo, fosse limitado um dos precursores do movimento de negritude
às edições oficiais, procurávamos extrair as passa- que, naquela época, chamava a nossa atenção.
gens mais informativas sobre a maneira de viver Conseguimos o endereço da editora, a Livraria La
dos povos africanos. A Antropologia Colonial, Caravele, em Port au Prince. Neto, a par de nossas
a mais antiga, oferecia relatos mais fiéis, enquanto buscas, tinha o cuidado, de como mais velho, não
os livros mais recentes padeciam cada vez mais nos desestimular. Claro está perguntava-nos pela
de uma visão ufanista relativa às excelências do tão esperada encomenda... Neto não só se aperce-
que se dizia ser a missão colonial, principalmente bia da importância de dominar uma metodologia
no seu eixo dito civilizador. Neto conseguia tem- que permitisse um melhor esclarecimento sobre
po para fazer leituras especializadas e incentivava- temas centrais para nós, à época, a identidade cul-
-nos a divulgar certos trechos junto aos jovens co- tural, a identidade nacional, como incentivava es-
legas que buscavam elementos pertinentes a uma sas buscas e nos livrava da crítica de colegas mais
identidade. Faltavam-nos textos que nos permitis- radicais para quem só aparentemente a literatura
sem estudar os fenómenos da resistência cultural, política contava.
anunciado, entre outros, pelos poetas, pelos jovens Hoje tenho a sensação de que redescobrimos
contistas. Era um tempo de busca, de esclareci- a roda. Acredito que, de certo modo o mesmo se

* Excerto de ”O contexto histórico-cultural de criação literária em Agostinho Neto: memória dos anos cinquenta” África: Revista do Centro
de Estudos Africanos. USP, S. Paulo, 14-15 (1): 55-61, 1991/1992. Título da responsabilidade do Editor.
** Sociólogo e professor universitário brasileiro. Director da Secção de Estudos Ultramarinos e da Biblioteca da CEI.

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havia já passado, pelo menos em parte, em relação cido em parte esta etapa, uns mais do que outros,
aos integrantes do Centro de Estudos Africanos, consoante a sua maior ou menor experiência fami-
talvez com exceção dos donos da casa, a família liar e, ainda neste caso, em decorrência da história
Espírito Santo, que convivia por tradição familiar de vida de cada família e mesmo dos espaços de
com o nativismo e outras manifestações culturais origem. A partir daí, para as gerações que se suce-
do seu passado1. Após um período em que os ecos dem2, o universo africano é amplamente prejudica-
do panafricanismo e de outros movimentos anti- do face ao universo europeu. Havia portanto que
lheses, americanos e mesmo africanos, se faziam redescobrir a roda, e foi o que de fato aconteceu.
presentes, embora de forma muito tênue, após os A partir de leituras várias, das histórias da vida,
anos trinta o distanciamento imperou e foi-se per- das várias práticas, aos poucos surgem as linhas
dendo essa memória. Os remanescentes dos movi- mestras de uma reconstrução, já do domínio de
mentos africanos que se desenvolveram em Lisboa uns, mas desconhecida de outros. Agostinho Neto,
viviam isolados. O corte das gerações foi trágico, já na sua fase coimbrã, juntamente com Orlando
quer para os mais velhos, quer para os mais no- de Albuquerque, entre outros então jovens estu-
vos. Quando de nossa transferência de Coimbra dantes, dedica-se à divulgação da literatura africa-
para Lisboa surgiu a oportunidade de frequentar na, iniciativa que na época teve muita importân-
a casa da viúva Assis, como era conhecida, a viúva cia. Os caminhos estavam abertos, mas para os
de António de Assis Júnior, onde muito aprende- mais jovens persistia o problema da identidade, da
mos acerca de um universo que nos atraía. Feliz- clarificação do processo em termos da relação en-
mente que essas surpresas continuam. Recente- tre a sua própria prática de vida, suas causas e as
mente tivemos a oportunidade de encontrar em práticas do passado africano3. Agostinho Neto, que
São Paulo, onde mora, o engenheiro Hermínio Pa- já se havia transferido de Coimbra para Lisboa
quete, membro de uma das famílias tradicionais de e engajado na luta política, tinha uma noção clara
São Tomé e que participou de vários movimentos da importância do problema da redescoberta para
culturais e políticos nas primeiras décadas do sé- os jovens de sua identidade. Nas suas passagens
culo. A casa da família Espírito Santo, a que já por Coimbra, ou nos encontros em Lisboa, quer na
nos referimos, permitiu, sem dúvida, uma aproxi- residência do então estudante de agronomia, Hum-
mação de gerações e a transmissão de um caldo de berto Machado, quer no Clube Marítimo, não per-
cultura em vias de se perder. O surgimento do mo- dia a ocasião de se inteirar dos projetos e realiza-
vimento Vamos Descobrir Angola, em Luanda, ções da então Biblioteca da Casa dos Estudantes
que congregou tantos jovens talentosos, entre os do Império e, mais tarde, da então Secção de Es-
quais Viriato da Cruz, é um exemplo das várias tudos Ultramarinos (designação corrente à época),
manifestações que voltavam à tona no campo de setor que dirigimos quando de sua criação, até
uma busca da identidade. Enquanto os jovens em certo ponto, uma continuação do Centro de Estu-
Luanda viviam no seu próprio ambiente contando dos Africanos. Neto fazia referências à sua histó-
com a presença de intelectuais de várias gerações, ria de vida, ao universo no qual vivera e colocava
enquanto em Lisboa se contava ainda com a pre- em evidência as contradições que naturalmente
sença de remanescentes de famílias tradicionais afloravam no mundo dos jovens, cada vez mais
das então chamadas colónias, em Coimbra o isola- presos a um sistema educacional dirigido. O nú-
mento era total. A maioria dos jovens recém-che- cleo coimbrão que contava com a colaboração de
gados, com raras excepções, refletiam o quadro Fernando da Costa Campos, João Vieira Lopes,
cultural que o sistema de ensino colonial permitia. angolanos, Manuel de Jesus Monteiro Duarte, ca-
Faltava algo entre as suas ainda curtas histórias de boverdiano, ou simplesmente o Manuel Duarte,
vida, o passado comum, e o mundo novo que se o saudoso Manecas, entre tantos outros, dividia-se
lhes abria. Os avanços no campo da consciência nas múltiplas actividades da CEI: a editoração de
política ficavam como que prejudicados ante uma um boletim, o “Meridiano” e uma participação
situação caracterizada por uma certa ambiguidade continuada no campo dos estudos africanos, que
decorrente de uma área extremamente nublosa em passaram a contar com um apoio externo. Mário
termos de identidade. A marca racial, a marca cul- de Andrade, nessa altura já em Paris, ajudava-nos
tural, a marca social, eram uma realidade, mas às vezes a selecionar e, o que era importante,
apresentavam-se de forma muito ambígua. A gera- a conseguir descontos — desconto de editor, pois
ção de Agostinho Neto havia de certo modo ven- Mário de Andrade à época trabalhava na redação

126
da Présence Africaine —, o que permitiu que a Bi- o quadro dos estudos em torno do continente africano, quer no pla-
no da redescoberta das culturas tradicionais, quer no plano das so-
blioteca da CEI de Coimbra passasse a contar com ciedades africanas modernas, entre estas algumas já independentes,
as obras publicadas pela Présence Africaine e pe- como foi o caso de Ghana, para nós o continente africano que nos
las editoras francesas que editavam estudos refe- fôra dado como um continente ‘a civilizar’, foi um desafio intelec-
tual e humano. A tentativa de sentir a estética africana, quando visi-
rentes ao continente africano, e já de autores afri- tamos e trabalhamos em numerosos museus em Lisboa, o da Socie-
canos, principalmente no campo da literatura. dade de Geografia de Lisboa, por exemplo, em Paris o Museu do
É nessa altura que descobrimos, entre os clássicos, Homem, o Museu das Colônias Francesas, além de outros, inscre-
via-se nesse desafio. A leitura de textos clássicos da literatura colo-
Baumann e Westermann, Frobenius e tantos ou- nial, como os de Capelo e Ivêns, Henrique de Carvalho e tantos ou-
tros. As sucessivas viagens a Paris permitiram tros, a par da moderna literatura africana, quer no plano da
o enriquecimento dessa pequena Biblioteca que, literatura propriamente dita, a ficção, a poesia quer os ensaios, as
face ao perigo de uma intervenção das autoridades obras editadas pela Présence Africaine, em Paris — os primeiros
ensaios desse amigo inesquecível, Cheik Anta Diop, com quem tro-
da época, teve boa parte de seus títulos mais re- cávamos idéias desde os idos de 1954 e mais tarde nosso colega no
presentativos transferida para a sede do Clube Comitê Internacional para a Redação de uma História de África,
Ateneu de Coimbra, graças às amizades de Fer- UNESCO, — em muito contribuíram para encontrar e para outros
reencontrar a identidade africana. Esse encontro já anunciado pelos
nando da Costa Campos, que nos permitiram pôr artistas e pela literatura, tardava no campo das Ciências Sociais, as-
a salvo um bom número de obras literárias, políti- sim como o seu reconhecimento pelo chamado mundo culto. Essa
cas e no campo das ciências sociais. Agostinho busca foi o cerne das atividades culturais da Casa dos Estudantes
do Império, quer das atividades da Secção de Estudos Ultramarinos
Neto visitou várias vezes o Ateneu, onde passá- de Coimbra, e, mais tarde em Lisboa, quer da Coleção Autores Ul-
mos a realizar algumas das reuniões culturais e so- tramarinos, quer do “Meridiano”, quer de “Mensagem” e de tantas
ciais face à instabilidade que a CEI passou a viver. outras iniciativas levadas a efeito na Casa dos Estudantes do Impé-
rio e, em certas ocasiões, fora desse espaço, como as que foram de-
Neto, dividido entre suas tarefas políticas, quer senvolvidas no Ateneu de Coimbra e em algumas associações estu-
num quadro português, quer num quadro angola- dantis de Lisboa e Coimbra. Essa atividade, em parte uma reedição
no, não regateava tempo para voltar às discussões das atividades do Centro de Estudos Africanos, foram desenvolvi-
das no âmbito da Casa dos Estudantes do Império, quer em outros
culturais que haviam animado o já desativado meios, em que o enfoque da africanidade e do conhecimento social
Centro de Estudos Africanos, de Lisboa. [...] do homem, em termos universais, surgiam em conjunto. Angola-
nos, moçambicanos, são-tomenses, guineenses e caboverdianos,
1 Este assunto é tratado em vários escritos de Alfredo Margarido, juntamente com alguns portugueses, indianos e brasileiros, partici-
entre os quais os reunidos em Estudos sobre Literaturas das Nações param desse sonho: o reconhecimento da cultura africana, dos ca-
Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa, A Regra do Jogo, 1980. minhos para uma autonomia literária e mesmo em casos especiais,
2 Estamos utilizando a expressão geração em termos de geração como o de Cabo Verde, uma literatura já autônoma, no dizer de Al-
estudantil, o que na época tinha a sua importância. fredo Margarido, a busca da africanidade, que registou a contribui-
3 Se o problema da identidade era central para os jovens estu- ção de um Manecas Duarte, Leitão da Graça e do poeta Aguinaldo
dantes africanos e, para o atingir, tornava-se necessário aprofundar da Fonseca, entre tantos outros.

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Les étudiants noirs parlent*

I. Étudiants noirs dans le monde que dans les civilisations natives. Le Nègre assi-
milé est un «déclassé», qui cherche à oublier ses
1.o Les universités africaines origines culturelles (les raciales étant déjà impos-
dans les territoires britanniques, espagnols, sibles) et qui se livre aveuglément aux mains de
belges et portugais. l’Européen. Le résultat de ce processus est bien
connu, inutile de l’analyser ici.
1. Le problème des territoires portugais, c’est On comprend donc pourquoi tout l’enseigne-
qu’il n’existe pas d’Universités africaines dans les ment supérieur se trouve centralisé dans la Métro-
possessions portugaises en Afrique. Sans doute, il pole et pourquoi il n’existe pas d’universités nè-
y a des écoles primaires et quelques lycées, mais gres ou africaines, soit dans la Métropole, soit
ils sont loin de répondre aux besoins et à l’intérêt outre-mar. Les Nègres et les Blancs nés en Afrique
croissant des Africains pour l’étude; ces écoles qui se montrent capables de fréquenter un cours
primaires et secondaires (tout comme celles supérieur, doivent le faire obligatoirement dans la
d’«arts et métiers») ne sont pas en nombre suffi- Métropole, dans des centres amorphes de culture,
sant, et l’orientation de l’enseignement s’y fait pour que leur formation se fasse dans le «bon
dans le sens d’une meilleure connaissance de la sens», c’est-à-dire le sens capitaliste et impérialis-
Métropole, non des territoires oú ces écoles sont te, qui est le seul à pouvoir conférer des diplômes
installées. Ainsi, les colonisateurs ont contribué de citoyen au Portugal.
à détruire la conscience africaine — une attitude 3. Etant donné que le Portugais a montré une
absurde, si nous considérons que ces écoles et ly- certaine capacité à créer des mondes «créoles» (les
cées sont fréquentés, en fin de compte, presque raisons profondes et contradictoires de ce fait mé-
exclusivement par les fils des colons... riteraient toute une étude) et que l’Africain a ac-
2. C’est un fait généralement reconnu que la cès, dans la Métropole, à toutes les Ecoles supé-
colonisation portugaise a été la plus suave de tou- rieures (sauf celles de l’armée et de la marine) on
tes; sa structure légale est celle d’une humanité peut admettre qu’il ne soit pas créé des Universi-
sans réserves...; mais il est aussi certain que l’assi- tés pour Nègres, c’est-à-dire fréquentées exclusi-
milation se traduit finalement par la perte de cons- vement par les Nègres; mais ce qu’il faudrait, ce
cience du nègre (l’assimilation est la phase finale serait une Université ou des Universités pour étu-
de la détribalisation). Assimiler le Nègre, c’est en dier les problèmes de la culture nègre, que ce soit
fait le châtrer de tout ce qu’il y a de caractéristi- celle de l’Afrique portugaise ou des autres Afri-

* Les étudiants noirs parlent... Présence Africaine (1953), n.o 14, p. 223-240.
Em resposta a um inquérito realizado pela revista Présence Africaine, os membros mais activos do Centro de Estudos Africanos, agrupamen-
to formado em Lisboa por intelectuais e estudantes das colónias portuguesas, redigiram em 1951 uma contribuição colectiva. Autores: Fran-
cisco José Tenreiro, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário de Andrade e Alda do Espírito Santo. Os originais em língua portuguesa desapa-
receram. Informação obtida em A Arma da Teoria. Unidade e Luta. Vol. 1, p. 21.

129
ques. Une Université africaine au sens le plus am- tements sont inférieurs: Cap Vert, Guinée,
ple de l’expression. SaintThomas et Timor. La principale raison invo-
4. Une Université de ce type pourrait fonction- quée, c’est leur absence de grade militaire, mais la
ner dans la Métropole, à condition que l’on crée véritable raison c’est qu’Angola et le Mozambique
dans les diverses possessions portugaises des Cen- (les uniques Colonies qui paient bien) maintien-
tres de Recherche bien appareillés oú les Nègres nent une attitude hostile envers le Nègre qui s’élè-
comme les Blancs de valeur s’intéressant aux pro- ve socialement.
blèmes africains pourraient entrar, sans réserves ni 7. Les lois fondamentales de I’État portugais,
discriminations raciales. Les relations de cette la Constitution politique et l’Acte colonial, se sont
Université avec les Universités congénères déjà fondues ensemble récemment. Le terme de Colo-
existantes en territoires africains contribueraient nie et ses dérivés ont été remplacés par ceux
d’une façon efficace à la redécouverte de l’Afri- d’OutreMer et dérivés. On peut donc penser que
que. l’Ecole Supérieure Coloniale changera aussi de
5. Il est évident qu’il existe dans la Métropole nom... Mais à part cela, il n’y a aucun professeur
une Ecole Supérieure qui, du point de vue du gou- de couleur dans son corps enseignant. Ce qui est
vernement portugais, paraît résoudre ce problème. véritablement symptomatique.
Le nom de cette école est significatif: Ecole Supé- Conclusion: Le Nègre portugais s’est accoutu-
rieure Coloniale et elle se destine à préparer des mé depuis longtemps à ne plus rêver. Cependant,
individus pour les carrières administratives d’ou- si c’est encore possible, voilà la base sur laquelle
tre-mer. Son origine, pourtant, est encore plus sig- doit reposer notre rêve:
nificative. Elle a été créée, il y a quelques années, Une Université africaine ne doit être créée que
sous l’égide de la Société de Géographie de Lis- dans la mesure oú elle serait également ouverte
bonne et par quelques membres de cette Société. à Nègres et Blancs. Le Nègre portugais ne veut
On ne peut méconnaitre le rôle important joué par pas substituer un nouveau racisme à l’ancien. Ce
les Sociétés de Géographie, à la fin du XIXe siècle qu’il réclame, c’est la liberté dans l’ action, le
et au début du XXe, dans la reconnaissance géo- droit d’être considéré comme une personne et
graphique de l’Afrique; mais également personne pour cela, l’égalité des droits avec I’Européen —
n’ignore la signification politique qu’elles ont pri- la parité sociale comme on dit aujourd’hui.
se, les intérêts capitalistes qui les ont soutenus et
les idées impérialistes qu’elles ont supportées. Née
dans un pareil climat opportuniste, l’Ecole Supé- II. L’Étudiant africain et la civilisation
rieure Coloniale a souffert de ces tares jusqu’au- occidentale
jourd’hui et, par conséquent, tous les sujets sont
traités du point de vue impérialiste. Un enseigne- 2.o Réaction aux «valeurs» significatives
ment de ce genre ne peut d’aucune manière inté- de la civilisation occidentale;
resser les Africains qui, dans la Métropole, cher- 3.o La part africaine.
chent d’autres Ecoles ou Facultés, Médecine,
Droit, d’Ingénieurs, etc... D’ailleurs, si I’Ecole 1. Pour pouvoir répondre à cette question item
Coloniale ne plait pas aux Africains, elle ne plait de l’enquête, il est bon au préalable de penser à ce
pas non plus aux propres Européens qui la fré- que signifient réellement ces termes: valeurs signi-
quentent. Depuis dix ans, et pratiquement tous les ficatives de la Civilisation occidentale. La Civilisa-
ans, ses élèves présentent au Ministère des Colo- tion occidentale ne correspond à aucun critère his-
nies (aujourd’hui: d’outre-mer) de longs rapports torique. Le terme «Occidental», ajouté à celui de
demandant de substantielles transformations pour «Civilisation» prétend certainement s’opposer
élargir le nombre des cours à y administrar et d’en à «Oriental». Ainsi, ceux qui font l’éloge de la «Ci-
élever la catégorie sociale. vilisation occidentale» (même les hommes de la
6. Quelques Nègres ont fréquenté cette Ecole, Wall Street, voyez-vous!) revendiquent pour eux
dans la proportion de 2 à 3 pour chaque cours (sur l’exclusivité du message du Christ: l’armure morale
une moyenne de 100 élèves). C’est qu’aucun de cette civilisation, disent-ils, c’est le christianis-
d’eux ne peut satisfaire complètement les condi- me. Ce qui existe en fait pour l’Europe occidentale,
tions d’entrée dans le cadre colonial; ils sont pres- c’est l’ensemble des traditions gréco-romaines. Et
que toujours envoyés dans les Colonies oú les trai- les Occidentaux peut-être entendent par «valeurs»

130
significatives les conceptions philosophiques ou re- accorde pas le droit d’être étudiant. C’est seule-
ligieuses, les traditions, les formes d’expression, les ment l’assimilé, c’est-à-dire le Nègre occidentali-
techniques qui ont constitué les virtualités propres sé, qui est en condition économique et sociale de
de l’Antiquité occidentale. Mais on parle plutôt de fréquenter les centres scolaires.
civilisation, ou mieux encore, de cultures européen- Nous pouvons signaler trois phases dans l’évo-
ne, asiatique, africaine, américaine... lution des réactions de l’étudiant africain devant
Les États européens se sont constitués sur les les «valeurs» significatives de ce que l’on appelle
bases de leurs traditions politiques. Et lors- la civilisation occidentale:
qu’au XVe siècle, une certaine Europe occidentale
se mis en contact avec l’Afrique, ce fut une suite a) L’enfant africain qui va prendre pour la pre-
d’impositions et de dominations systématiques. mière fois contact aves les livres trouve déjà dans
L’Occidental, du type anglais, français ou portu- «l’école primaire» un système de pensée et une
gais, parti pour «coloniser» l’Afrique était un orientation pédagogique complètement étrangers
homme sans culture. Ce n’est que plus tard que à son milieu. Tous ses pas sont dirigés par une
l’Africain perçut les fameuses «valeurs» de la conception «européenne» de la vie, par des con-
Culture occidentale, mais déjà plus comme «va- cepts moulés selon les normes de la nation coloni-
leurs», maintenant comme importations du «colo- satrice. Il lit, il étudie et il prie dans les livres de
nisateur» blanc. l’école européenne établie sur sa terre natale d’A-
Il est impossible d’analyser objectivement l’é- frique. L’instruction primaire ouvre les premières
tat actuel de n’importe quel problème africain, fenêtres à la curiosité de l’enfant et voici le paysa-
comme celui de l’enseignement, sans tenir comp- ge qui s’y découvre:
te, en premiar lieu, de cette réalité, l’exploitation «Aux temps antiques, une poignée de héros
européenne, le fait colonial. Les premiers commer- partit des jardins plantés au bord de la mer pour
çants blancs entrés en contact avec l’Afrique nè- «civiliser» l’Afrique sauvage...» Phrase de récep-
gre ne se sont jamais préoccupés de connaître nos tion.
valeurs natives. D’ailleurs il n’y avais rien d’ au-
tre à faire que d’accepter leurs objectifs d’exploi- b) Le lycée complète les notions de géographie,
tation de l’homme par l’homme. A peine s’ébau- d’histoire, de littérature des «colons», leur ajoute
chait une attitude de curiosité et de surprise de nouvelles sciences, tandis que l’étudiant, sous
qu’une attitude belliqueuse lui succédait: domina- ce régime, s’éloigne de plus en plus de tout ce qui
tion et destruction, absorption totale du natif et de est nativement africain. Le jeune se transforme en
ses attributs, de la terre et de ses produits. Les une fausse monnaie, qui n’a plus aucune valeur
missionnaires, autre type de commerçant, méritent dans le cadre de sa propre civilisation, et qui ne
une place de choix dans cette œuvre barbare que peut pas se réaliser non plus dans les cadres de la
fut la «colonisation» européenne, comme propa- vie coloniale, puisque ceux-ci sons réservés, quasi
gandistes d’une religion qu’ils disaient l’unique exclusivement aux Blancs, fils des «colons». Par
véritable. intérêt lucratif de bonne renommée et pour la gloi-
Lorsque nous regardons aujourd’hui les cadres re politique, les pouvoirs officiels placent quelque-
de notre vie économique sociale, nous ne pouvons fois dans un poste d’administration coloniale un
pas manquer d’être effrayés devant la pénurie de natif muni d’un diplôme de cours secondaire...
notre matériel humain. La raison en est claire: la Dans cette seconde phase, pourtant, il faut dis-
politique d’assimilation, qui est celle de nations tinguer deux attitudes: la première, celle de l’étu-
comme la France et le Portugal, ne peut aboutir diant conscient des réalités africaines, qui envisa-
qu’à une perte des valeurs indigènes, qui doivent ge «l’instruction secondaire», offerte à son
obligatoirement être remplacées par d’autres, con- intelligence comme une technique de pensée,
sidérées comme supérieures, ou comme on dit, comme une arme à utiliser dans l’avenir pour son
«civilisées». C’est ici que commence le drame et propre bénéfice contre la domination coloniale,
aussi la mystification, parce que les lois coloniales comme un moyen d’expression dont il pourra pro-
marquent des différences entre «le civilisé» et fiter pour devenir le porte-étendard des aspirations
«l’indigène». L’indigène — nous dirions, nous, le de son peuple — la seconde, l’attitude lamentable-
Nègre authentique d’Afrique — est alors l’homme ment triste de l’étudiant qui imite avec toute son
sans civilisation... Et, pour cela même, on ne lui inconscience, le «Patron» blanc et qui absorbe les

131
«valeurs» significatives de l’Europe. C’est le type n’apparaitra dans l’enseignement que lorsque l’A-
des jeunes qui s’habillent à la mode du Portugal frique aura cessé d’être le débouché de l’impéria-
ou de la France, qui s’efforce à «faire de beaux lisme colonial.
discours»..., enfin, tout le ridicule de la phrase si Voici la grande tâche qui pèse sur les épaules
connue du Nègre qui disait: «Nous autres, La- des nouveaux intellectuels africains: être la cons-
tins...» cience vivante des peuples africains.

c) La troisième phase correspond normalement


à un changement brusque de milieu, le passage de III. Problèmes étudiants pour l’Afrique
l’Afrique à la Métropole coloniale. L’étudiant part
suivre des cours d’enseignement supérieur et 1.o La grande pitié des écoles africaines.
alors, une des deux attitudes ci-dessus analysées
se fortifie. 1. Depuis le début des temps coloniaux, l’Afri-
cain des colonies portugaises est en train de s’offrir
2. La Part africaine un «processus» de détribalisation. Ce processus le
Comme on le voit, il n’y a pas de part africai- conduit, par l’intermédiaire de l’«assimilation», à la
ne dans l’enseignement administré dans les colo- civilisation dite européenne.
nies, du moins dans les colonies de style portu- Dans le mécanisme colonial, il y a, théorique-
gais. Et l’on comprend três bien cette absence, si ment, des droits différents pour les Européens et eu-
on a en vue la politique de domination économi- ropéanisés d’un côté et pour le restant de la popula-
que menée par les pouvoirs du Gouvernement tion de l’autre. Un racisme explicite ou implicite
central. Nous savons à quel point les problèmes milite contra l’Africain dans le champ socio-
d’orientation culturelle des étudiants découlent des -économique, mais dans le champ culturel, les op-
conditions économiques et des régimes politiques portunités sont encore plus fermées à celui que l’on
des pays oú ils vivent. Parce que la culture est un appelle «l’indigène» qu’à celui qui est assimilé.
reflet idéologique du complexe socio-économique. De là découle la nécessité pour l’Africain de
La «colonisation» nous empêche donc d’acquérir passer dans le domaine oú la vie lui paraît plus fa-
cette «prise de conscience» des réalités africaines, cile. Ce passage peut se faire par une augmenta-
qui constitue «les valeurs» de la Part Africaine. tion de sa culture, ou une élévation de son niveau
Part africaine, de nos jours, signifie, lato sen- économique. Sans localiser, pour le moment, l’ab-
su, la grande contribution que les formes d’expres- sence de possibilité d’une formation complète de
sion caractéristiquement africaines, ou mieux, né- l’homme, les moyens manquant pour la réalisation
gro-africaines ont apporté au patrimoine culturel matérielle de sa vie, la difficulté du passage dont
de l’humanité. Ce n’est pas le moment de discuter nous parlons apparait clairement par suite du man-
plus à fond ce sujet, déjà bien connu. Mais, devant que d’établissements scolaires et de la difficulté
l’absence, que nous avons signalée, de quelque des programmes d’enseignement.
part africaine dans la formation intégrale de l’étu-
diant négro-africain, est-ce qu’il est encore possi- 2. Manque d’établissements scolaires pour
ble de penser à une nouvelle orientation, à donner l’Africain.
aux cadres de I’enseignement en terre d’Afrique La population scolaire se divise encore en
Noire? deux grandes catégories: a) ceux qu’on appelle les
Voyons bien cet étudiant africain, qui a main- indigènes et b) les «civilisés». L’Africain connait
tenu une attitude consciente, la meilleure attitude, un curriculum différent suivant la manière dont il
dans les phases b et c, une fois de retour dans son est considéré d’une façon un peu arbitraire et sans
milieu, luttera pour une expression significative. obéir à un critère rigide, comme appartenant
Tous les hommes réellement progressistes vivent à l’une ou à l’autre de ces catégories.
aujourd’hui l’heure de la rencontre universelle. a) Établissements scolaires pour les soi-disant
Aussi les étudiants africains cherchent à rattraper indigènes.
le temps perdu, dans la construction d’autres mon- Il n’existe dans toute l’Afrique Portugaise au-
des et essentiellement, ils aspirent à être les porte- cune école officielle ou privée d’enseignement
-paroles de la libération de toutes les chaînes qui primaire. L’État maintient quelques écoles profes-
entravent la marche du progrès. La Part africaine sionnelles d’Arts et Métiers; mais vu le peu de

132
soins qui existe dans la préparation de leurs corps élevé de places qu’il n’existe d’étudiants et alors
enseignants, vu la déficience des programmes qui les vacances sons prises par des étudiants afri-
n’ont souffert aucune modification depuis leurs cains; on ne songe à ouvrir une nouvelle école que
fondations et qui sons laissés un peu à la charge lorsque celle qui existe déjà ne comporte plus d’é-
de chaque professeur, elles ne peuvent en aucune tudiants blancs. Et le cercle recommence.
manière remplir leur mission. En ce qui concerne l’enseignement secondaire,
La population considérée indigène — 99% de la fréquence des étudiants africains ne manque pas
la population totale — peut aussi utiliser les écoles de se ressentir, comme on pouvait s’y attendre, de
missionnaires, soit protestantes soit catholiques, ce qui se passe dans l’enseignement primaire. La
ces dernières jouissant de certains privilèges gou- difficulté de leurs études est, par conséquent, plus
vernementaux. Les missions catholiques joignent grande.
aux déficiences inhérentes à tout enseignement re- Il n’y a, dans toute l’Afrique Portugaise, que
ligieux, un certain nombre d’autres déficiences en- quatre lycées: un au Cap Vert, deux à Angola et
core plus désastreuses. Plus intéressée à faire de un au Mozambique.
nouveaux chrétiens qu’à former des hommes, la Ce petit nombre d’établissements d’enseigne-
Mission, même dans son objectif, échoue faute de ment secondaire est une preuve que cet enseigne-
moyens pour pouvoir travailler. Le missionnaire ment n’est pas destiné aux populations africaines.
catholique s’imagine que plus son sacrifice est L’étudiant africain peut, en théorie, profiter de ce
grand, plus sa misère est profonde, et mieux il qui existe, mais jamais, même dans les plus petits
remplit son rôle de sacrifié. D’une manière généra- détails, on ne cesse de mettre en évidence, que «ce-
le, il n’est pas et il ne peut pas être un Maitre, fau- ci» n’a pas été fait pour lui. Dans cet ordre d’idées,
te de préparation pédagogique; aussi son travail ne indiquons que les lycées sons créés dans les centres
manque-t-il pas d’être complètement inutile. de plus forte densité de la population blanche.
D’un autre côté, l’État se repose sur les Mis- La pauvreté dans laquelle vit, en général, la fa-
sions de ses obligations envers les indigènes, mille africaines ne lui permet pas de prendre à sa
n’ouvrant ni ne subventionnant quelqu’autre école charge les frais de déplacement de leurs fils et de
pour eux. Il faut noter aussi une mauvaise distri- leurs séjours dans ces centres; ils ne peuvent donc
bution territoriale des Missions. Il n’en existe pas fréquenter les lycées. De là le nombre infime de
dans des aires três peuplées, trois fois plus gran- ceux qui réussissent à faire un cours secondaire.
des que le Portugal, alors qu’on en rencontre deux Il existe encore quelques écoles techniques en
ou trois à quelques dizaines de kilomètres de dis- Afrique Portugaise. A Angola, la plus fortunée des
tance. Il semble que leur distribution obéit à la re- colonies, il y a deux écoles d’enseignement com-
cherche d’un bon climat, plus qu’aux nécessités de mercial et industriel, une autre d’arts et métiers et
la population. une d’agriculture. La présence d’Africains dans
Il existe aussi, mais en plus petit nombre, des ces écoles est quasi nulle, certaines n’ont pas con-
missions protestantes, dont le travail est, sans nu de toute leur existence l’immatriculation d’un
l’ombre d’un doute, plus efficient que celui des seul étudiant africain.
missions catholiques. L’enseignement ne pouvait manquer d’être
fortement influencé par le milieu ambiant et l’A-
b) Etablissements scolaires pour ceux qui sont fricain qui étudie sait trés bien qu’une fois fran-
considérée «non indigènes». Sont considérés non chies les barrières qu’il lui impose, il est jeté dans
indigènes, la totalité des blancs et les Africains un milieu hostile, qui se refuse presque à le rece-
qui satisfont à certaines conditions, plus ou moins voir. Ayant brisé par la spécialisation ou par un
arbitraires et variables de colonie à colonie. apprentissage plus soigné l’unique fin pour laquel-
En príncipe, l’étudiant africain considéré non in- le, de l’avis des Blancs, le Nègre existe — celui
digène peut s’inscrire et faire ses études dans n’im- d’être un animal de charge — il a à surmonter un
porte qual établissement officiel d’enseignement. nombre innombrable de difficultés pour pouvoir
En réalité, il n’a à sa disposition que les places arriver à vivre.
non occupées par des étudiants blancs. Ainsi, on Mais il n’est plus le Nègre servile, l’animal de
n’ouvre une école que lorsque la densité de la po- charge qu’on s’est habitué à mépriser. Un vent
pulation blanche en justifie l’existence. Dans la nouveau souffle sur l’Afrique et l’Africain com-
majorité des cas, l’école comporte un nombre plus mence à connaitre ses propres responsabilités.

133
3. En plus de I’étroitesse des cadres de pro- En résumé: les programmes des écoles pour
fesseurs et de leur préparation, les programmes les Nègres comportent une lacune importante,
d’enseignement ne satisfont pas l’Africain. Dans l’absence de la part africaine.
l’état actuel, si on laisse de côté la petite partie de
la population qui vit autour des villes et qui est 2.o Quelles études choisit l’étudiant africain?
habituée, par cela même, à parler le portugais, la Peut-il espérer des débouchés correspon-
première difficulté rencontrée par I’enfant noir dant a sa valeur?*
est celle de I’apprentissage de la lecture dans une
langue étrangère à celle à laquelle il est habitué. 1. Le nègre des colonies portugaises d’Afri-
Aussi ne progresse-t-il que péniblement: en règle que, comme celui des autres colonies étrangères,
générale, il ne termine que tardivement le cours ne jouit généralement pas de ressources économi-
primaire, à 14, 15 ans ou plus vieux encore. Le ques compatibles avec sa dignité humaine. La
désintérêt du professeur, ainsi que d’autres rai- structure du régime colonial lui réserve, explicite-
sons, peuvent être également invoquées, pour ex- ment ou tacitement, les positions qui correspon-
pliquer ce retard. D’un autre côté, les program- dent, dans la structure sociale capitaliste, à un
mes d’enseignement sont élaborés au Portugal et niveau socio-économique considéré comme infé-
appliqués en Afrique sans leur nécessaire adapta- rieur. En somme, la presque totalité des masses
tion. nègres (celles qui sont en contact avec la «civili-
L’enseignement de la géographie élémentaire sation oecidentale») occupent dans la société
et de l’histoire du pays, par exemple, ne comporte coloniale une position comparable, mais non
pas cette part, que nous appellerions «africaine», identique, à celle des masses prolétariennes mé-
pour la satisfaction plus grande des enfants Nè- tropolitaines. Comparable, mais non identique,
gres. Il faut ajouter qu’il est donné à travers une car lorsque le Nègre touche au champ limité des
conception incompréhensible ou difficilement com- «opportunités qui lui sont ouvertes», il y rencon-
préhensible pour eux. tre, explicites ou tacites, les limitations imposées
Le résultat, c’est une intelligence encombrée par le racisme. Dans certaines colonies plus que
de phrases toutes faites et avec des lacunes impor- dans d’autres (au Mozambique par exemple) le
tantes. En un mot, un enfant mal formé, une misè- racisme à la portugaise, différent certes, mais
re intellectuelle. également racisme, impose des limitations au
Pour le cours secondaire, généralement peu ae- progrès économique et social des masses nègres,
cessible au Nègre, faute de ressources financières, leur enlevant les possibilités d’améliorer les con-
l’orientation générale est aussi défectueuse. La ditions de vie précaires, dans lesquelles elles vi-
partie africaine est presque toujours méprisée. vent. D’ailleurs, cette amélioration du niveau de
C’est pourquoi I’Africain instruit présente une in- vie ne convient naturellement pas aux intérêts,
telligence spéciale — c’est comme s’il avait un explicites ou implicites du colon.
cerveau avec des impressions venues seulement Les professions réservées au Nègre, à celui au-
d’Europe, à l’intérieur d’un crâne africain. Évi- quel le colonialisme donne le nom d’«assimilé»
demment, au contact de la vie réelle, il se produira sont, entre autres: valet (la grande majorité), ma-
bien des chocs entre ces Africains et le milieu. nœuvre, portier, chauffeur particulier, ouvrier de
C’est ce manque d’identification, ce manque de seconde catégorie, etc... En plus le Nègre peut être
coincidence entre la réalité africaine et l’homme fonctionmaire public (sans pouvoir entrer en con-
qui constitue la misère, ou mieux encore le crime currence avec le Blanc, dans la majorité des colo-
que l’école africaine perpètre contre le cerveau nies) et, plus rarement, employé de commerce.
des enfants noirs. Même si l’enseignement moyen et supérieur
Dans les cours techniques, en trouve la même étaient administrés dans les colonies portugaises
orientation européenne, en outre de ce que nous d’Afrique, ce qui n’a pas lieu, il resterait évident
avons déjà dit, que, dans les colonies portugaises, que le Noir souffrirait de la difficulté ou de l’im-
l’enseignement technique est dirigé quasi exclusi- possibilité de disposer du minimum indispensable
vement au service des Blancs. Le Nègre ne reçoit
que ces notions rudimentaires qui ne pourront pas
* Este V item foi publicado em A Arma da Teoria. Unidade e Luta.
lui permettre de mener une vie indépendante sur I vol. — Lx. 1976, p. 30-32 com o título O papel do Estudante
sa propre terre. Africano.

134
pour subvenir aux dépenses d’un cours moyen ou b) Les probabilités d’une future collocation.
supérieur au Portugal. C’est-à-dire que la barrière Les difficultés de collocation constituent au Portu-
économique est la première garantie que la condi- gal un problème. C’est pourquoi l’étudiant cher-
tion d’infériorité sociale du Nègre dit civilisé s’é- che à fréquenter les cours pour lesquels cette diffi-
ternisera. culté est plus petite, en dehors de toute vocation.
Ceci dit, la vérité veut que l’on y ajoute ceci: C’est une mesure de défense imposée par les cir-
malgré tout, certains Nègres ont pu vaincre cette constances qui règlent le travail intellectuel dans
barrière; conquérir une certaine indépendance éco- la «civilisation occidentale». L’étudiant africain
nomique provenant de la possession d’une profes- est obligé de l’utiliser. Mais à ces difficultés géné-
sion (cours moyen ou supérieur, fonctionnaire pu- rales il s’en ajoute d’autres pour lui, celles qui ré-
blic). Cette vérité n’affecte en rien le tableau sultent de sa condition d’Africain colonisé. S’il
brossé plus haut. Après des siècles d’action «civi- tombe sous la condition de a) il peut occasionnel-
lisatrice» le nombre des Africains qui peut tou- lement rencontrer dans les cours indiqués au mo-
cher, sous la vigilance d’un racisme christianisé ment oú il reçoit sa bourse, un qui lui offre de
ou chrétien, au gâteau de la civilisation est infime. plus grandes possibilités de collocation future.
Il faut noter que l’on présente ce fait en d’autres
termes, afin de défendre le colonialisme (lire: l’ex- c) Vocation. D’une manière générale, ce fac-
ploitation des masses africaines). Le serpent dit la teur n’agit que pour les étudiants qui peuvent sub-
légende, tenta Adam et ce furent tous les hommes venir eux-mêmes aux dépenses de leur instruction
qui furent punis. et qui ne se préoccupent pas des difficultés de col-
En conclusion: a) d’une manière générale, le location. On trouvera difficilement un Africain
Nègre ne dispose pas de ressources suffisantes dans ces conditions. S’il tombe sous les cas de a)
pour être étudiant, quel que soit le degré de l’en- ou b) il peut occasionnellement rencontrer parmi
seignement; b) un nombre réduit d’Africains peut, les cours qui lui sons indiqués ou entre ceux qui
dans les colonies portugaises, disposer de ces res- offrent les plus grandes probabilités d’emplois, un
sources; c) quelques-uns d’entre eux peuvent aller qui corresponde à sa vocation.
jusqu’à l’enseignement moyen ou supérieur, ex-
clusivement administré au Portugal. d) Désir de disposer de connaissances qui
puissent être utiles aux masses africaines. C’est
2. Cherchons maintenant à répondre à la ques- un facteur nouveau, três nouveau, qui intervient
tion suivante: Quels sont les cours choisis de pré- dans le choix d’un cours pour l’étudiant africain.
férence par l’étudiant africain des colonies portu- Etant données les difficultés économiques qu’il
gaises? Pour y répondre, il faut d’abord répondre rencontre, on comprend que ce facteur n’exerce
à une question préalable: Quels sont les facteurs pas l’influence que l’on souhaiterait. De plus, le
qui conditionnent ce choix? Nègre que le colonialisme appelle «assimilé» est
Les facteurs qui conditionnent le choix d’un en général coupé de ses propres problèmes, du
cours au Portugal de la part d’un étudiant africain problème des masses africaines. Assimilé veut di-
sont: re généralement déraciné. Il est juste de dire,
pourtant, qu’actuellement l’étudiant nègre des co-
a) Les circonstances qui rendent possibles ses lonies portugaises est en train de prendre peu
études. Comme nous l’avons vu, le Nègre ne dis- à peu conscience de sa position dans le monde:
pose pas en général de moyens pour pouvoir payer celle d’un homme nègre qui doit avoir comme
ses études. Aussi la majorité des étudiants afri- préoccupation fondamentale celle de servir la cau-
cains au Portugal est constituée d’individus qui, se de l’émancipation des hommes nègres, en ser-
ayant révélé des qualités d’intelligence et de tra- vant ainsi l’humanité. A mesure que cette cons-
vail dans leurs colonies d’origine, ont reçu une cience prendra forme, dans un nombre toujours
bourse pour continuer leurs études. Le plus sou- croissant d’étudiants africains le rôle de ce facteur
vent la concession d’une bourse impose au candi- ne fera qu’augmenter. L’étudiant africain doit met-
dat un certain nombre de cours entre lesquels il tre toutes ses capacités à profiter au maximum des
peut faire son choix; le choix cependant est limité rares opportunités que le régime colonial lui offre
par un facteur qui ne permet qu’exceptionnelle- pour lutter en vue de la libération des masses afri-
ment à l’étudiant de suivre sa vocation. caines, de sa propre libération.

135
3. Après avoir indiqué les facteurs qui influent ou entravent son action vis-à-vis d’elles, en consi-
sur le choix d’un cours de la part d’un étudiant dérant les types d’associations à préconiser.
africain, nous pouvons maintenant répondre aux
questions suivantes: Quels sont les cours les plus a) Les associations d’étudiants qui ont pour fi-
fréquentés par les étudiants africains? Peuvent-ils nalité de coopérer avec la masse des étudiants en
compter sur des opportunités correspondant à leur vue de la culture, de la lutte pour la revendication
valeur réelle en tant que travailleurs intellectuels? de leurs droits, de la collaboration mutuelle et de
Les cours les plus fréquentés par les étudiants l’intégration sociale dans les divers «habitats»
africains sont cours supérieurs, médecine, droit, sont sans doute le point de départ de la formation
écoles d’ingénieurs, agronomie, écoles vétérinai- d’une centre académique oú l’étudiant pourra se
res, lettres et sciences économiques et financières; réaliser.
cours moyens, ceux de professeurs primaires, de
gérants de propriétés agricoles et d’aide-ingé- b) Dans les lycées, écoles techniques et facul-
nieurs. tés, oú l’étudiant cherche une orientation pour sa
La médecine est le cours le plus fréquenté. Ce profession, il s’identifie avec tous les autres étu-
fait s’explique par les circonstances suivantes: a) diants, partageant avec eux les problèmes du grou-
ce cours est presque toujours indiqué dans les con- pe, s’affirmant seulement comme étudiant.
cessions des bourses d’études; b) c’est une bran- Il existe un centre académique, la Maison de
che d’activité pour laquelle l’État offre les plus l’Étudiant de l’Empire Portugais, organisation
grandes possibilités d’emploi, bien qu’il n’offre soutenue par l’État. Elle englobe tous les étu-
pas au Nègre en relation avec le Blanc, sauf de diants portugais d’outre-mar, ce n’est pas le type
três rares exceptions, des possibilités identiques d’association à préconiser. Elle se contente de
d’accès aux catégories les plus élevées et cela, fournir une aide aux étudiants pauvres, de leur
quelle que soit sa valeur; c) c’est l’activité qui donner une représentation officielle et ne va pas
permettra à l’étudiant africain d’avoir le plus au delà d’une dispersion accentuée. Elle ne réunit
grand contact avec les masses nègres. Notons-le pas les étudiants pour les intégrer, c’est seule-
en passant: le médecin nègre a les plus grandes ment une association de suggestions isolées, réa-
difficultés pour exercer sa profession en Afrique lisées par un groupe ou par un autre d’étudiants,
en dehors de la tutelle de l’Etat, à cause du préju- sans parvenir à une unité de l’ensemble, parce
gé racial. quelle ne va pas à la rencontre des buts de la
Les autres cours ne sont fréquentés que par un masse des étudiants.
nombre réduit d’Africains. Les activités qui leur
correspondent rencontrent en effet de plus grandes c) Il n’y a donc pas une association d’étudiants
difficultés d’emploi en Afrique, comme celles im- africains, qui défende leurs intérêts propres, de
posées par le racisme. En particulier, pour les étu- culture, de récréation et de prise de conscience. Il
diants formés en lettres et qui désireraient être n’existe pas un lieu de réunion où ils puissent dé-
professeurs en Afrique, ces difficultés sont prati- battre librement leurs problèmes, étudier les ques-
quement insurmontables. Le cadre du professorat tions qui ont trait à la collectivité africaine. En
(enseignement secondaire) est réservé aux diplô- plus des entraves dues aux tensions actuelles, à la
més européens, bien qu’aucune loi ne légifère à ce politique gouvernementale, et même aux normes
sujet. des affaires coloniales, il n’y a pas eu possibilité
Les écoles militaires sont absolument fermées de créer entre nous une association spéciale pour
pour le Nègre. les jeunes étudiants africains.
Les conséquences de cette lacune sont les sui-
3.o Les associations d’étudiants vantes:
a) La dispersion systématique des masses afri-
Pour faire un résumé rapide au sujet des insti- caines,
tutions académiques qui intéressent l’étudiant b) Le manque d’intégration dans les solutions
Africain portugais, il convient de considérer dans apportées aux problèmes d’Afrique,
leur essence le véritable comportement de ces as- c) La fuite des jeunes filles noires loin des
sociations, la position de l’étudiant nègre devant problèmes urgents. Préjugé de couleur fondé sur le
elles, comme d’analyser les moyens qui facilitent modèle occidental (blanc).

136
IV. L’Étudiant et la vie moderne exploité, ne possède aucun moyen de se défendre,
n’a pas de voix pour exprimer ses nécessités les
1.o Quel rôle veut-il jouer en Afrique? plus primaires. Sans droit à la vie sociale, ni mê-
me à sa vie tribale, sans droit politique, l’indigène
Le rôle que l’étudiant africain entend jouer en est pratiquement dans l’impossibilité de pouvoir
Afrique dépend de nombreux facteurs; de la cons- choisir son chemin. Il est le valet du Blanc dans
cience qu’il a des problèmes vitaux du continent, les cités, le candidat à mort dans ses plaisirs de
de sa capacité professionnelle et des limitations chasse et principalement une main-d’œuvre bon
que rencontre son activité. marché et dispersée dans les endroits les plus
Par conscience, nous entendons son intégration éloignés de sa terre natale. La Déclaration des
dans les questions relatives à la vie africaine. Puis- Droits de l’Homme certainement n’inclue pas les
que nous savons que toute la politique colonialiste populations africaines. La vie économique de l’A-
repose essentiellement sur le déracinement du na- frique toute entière entre les mains des monopoles
tif, l’étudiant africain doit, à une certaine étape de commerciaux et industriels n’admet l’Homme-
son évolution intellectuelle, se retourner le plus -Nègre en son sein, que comme unité de travail.
possible vers son âme transfigurée. Voilà à notre Unités qui s’additionnent dans les banques, dans
avis, la première condition de l’authenticité: se les chiffres d’impôt, de contributions, dans les
sentir Africain et s’exprimer comme tel. Considé- pensions grasses des coloniaux en retraite, etc...
rons cette étape franchie; il est africain. Alors se Nous avons ici le premier aspect de notre lut-
pose le problème de sa capacité professionnelle. te: désintégrer la bourgeoisie coloniale en accor-
Elle dépend des cours qu’il a suivis dans la «mé- dant le droit au travail rémunéré aux populations
tropole», de l’intérêt qu’il a déployé pour prendre natives. En disant cela, tout le reste n’est plus que
possession de la meilleure arme dont il puisse, en conséquence, découle des conditions de la vie éco-
accord avec ses aptitudes, se servir, une fois qu’il nomique. Pour nous, il n’y a pas de formation pro-
sera replanté dans les cadres sociaux de l’Afrique. fessionnelle pour l’étudiant africain qui intéresse
Et le problème déjà traité dans un autre alinéa de tel ou tel aspect de la vie. Toutes les professions,
cette enquête se repose à nouveau ici — normale- ou plus exactement tous les jeunes Africains qui
ment, l’étudiant en question se verra obligé de sui- désirent jouer un rôle en Afrique doivent se jeter
vre les cours qui lui ouvriront les meilleures op- dans la lutte pour cette question basique: une vie
portunités économiques dans le futur et non ceux économique stable qui rende possible de nouvelles
qui répondraient le mieux à sa vocation ou aux be- conquêtes. Avec une réserve toutefois: la division
soins de ses frères. Considérons encore cette ques- du travail ou comme on dit, la distribution des ac-
tion résolue, acceptons qu’il existe un nombre suf- tivités professionnelles seule pourra contribuer
fisant de jeunes gens munis de leurs diplômes, à ce que l’Afrique puisse prendre dans l’avenir la
conscients du rôle qu’ils ont à jouer en Afrique. place qui lui revient dans le concert des peuples.
Que vont-ils faire? Naturellement ils vont lutter. C’est ainsi que les étudiants en médecine, in-
Et lutter pour quelle cause? Pour celle de leurs contestablement les plus nombreux, se voient ré-
droits, les droits de l’Homme. servés un rôle prépondérant, soit dans le domaine
de l’assistance sociale à l’enfance, soit dans celui
de l’assistance à la femme, au travailleur en géné-
Une vision superficielle de l’Afrique, celle qui ral — piliers de la nouvelle société.
est exploitée selon le style portugais, nous propose Ceux qui se dédient aux problèmes du sol au-
de terribles problèmes. Pour ce qui a trait aux po- ront à lutter pour sa valorisation, pour l’augmenta-
pulations dites non civilisées ou indigènes, les lois tion des moyens de production spéciales à l’Afri-
coloniales ne leur reconnaissent aucun droit, mais que nègre. Le maître d’école devra être un
seulement des obligations. C’est pour cette espèce éducateur selon les normes modernes, capable d’e-
de population, en fin de compte, que l’étudiant xercer des fonctions hautement culturelles, de fo-
africain a un intérêt, dans une mesure ample et di- menter le développement des capacités profession-
recte. L’étudiant africain sorti des Écoles de l’Eu- nelles de chaque être africain, pour en faire un
rope Occidentale doit tourner ses regards sur un être social plus parfait, à la fois un et multiple.
tas de problèmes concrets et dramatiques pour les- A ce sujet, il convient de souligner que la campag-
quels l’homme réellement colonisé, c’est-à-dire ne d’alphabétisation, menée à bonne fin dans les

137
pays dits en retard, sous les auspices de l’UNES- Par conséquent, telle est la fonction que doit
CO et du dollar (contentons-nous de ne dire que remplir l’étudiant africain, une fois conscient de
cela) est encore loin de représenter son rôle de nos problèmes les plus douloureux, et les plus ur-
formation dans les colonies portugaises; nous gents pour notre évolution, une fois obtenu sa ca-
croyons que quelques missions protestantes seule- pacité professionnelle en quelque branche d’activi-
ment ont travaillé dans ce sens et avec beaucoup té que ce soit, dans cette Afrique nègre dont il
de restrictions de la part du gouvernement central. n’est plus que le locataire.

DES ÉTUDIANTS D’AFRIQUE PORTUGAISE

138
A aventura cultural de Lisboa*
MARIA DO CÉU CARMO REIS**

a) Culture africaine au CEA l’assimilacionisme et l’émergence d’une nouvelle


conscience culturelle, la connaissance de la réalité
[...] L’aventura culturelle de Lisbonne permet- africaine et la formulation culturelle du nationalis-
tra une lecture plus riche et plus structurée de no- me. Par sa morphologie, le Centre se présentait
tre problématique. D’abord, par les caracteristi- comme un noyau central restreint, autour duquel
ques socio-culturelles du groupe: jeunes étudiants, gravitait une nebuleuse d’individus plus au moins
issus de la petite bourgeoisie colonisée, à vocation identifiable. Six personnages se distinguaient:
intelectuelle, ils s’interrogent sur leurs pays, leurs deux femmes poétesses — Noémia de Souza6
cultures, leur continent. Ensuite, la rencontre d’in- e Alda do Espírito Santo7 —, quatre hommes poè-
dividus venus d’espaces géo-sociaux différents — tes et/ou essayistes — Francisco José Tenreiro8,
Angola, S. Tomé, Guinée, Cap-Vert, Mozambique Mário de Andrade9, Amílcar Cabral10 et Agosti-
— permet une multiplicité d’éclairages autour de nho Neto11. La production idéelle du groupe s’est
la réflexion sur le phénomène colonial. Enfin, la traduite par l’organisation d’un ‘Caderno de Poe-
structure que le petit groupe d’étudiants se donna, sia Negra de Expressão Portuguesa’ (Cahier de
préparera l’émergence des idéologues du mouve- Poésie Noire d’Expression Portugaise)12, la créa-
ment nationaliste, et facilitera la transparence de tion de groupes de réflexion théorique sur le Con-
certaines représentations. On ne peut oublier éga- tinent Africain et la Pensée Noire et la participa-
lement les liens établis avec des institutions cultu- tion à des causeries ouvertes à la problématique de
relles extérieures à la métropole — Présence Afri- l’identité culturelle africaine.
caine par exemple1 —, source d’effervescence et Les idées de la négritude empreignent profon-
de diffusion d’un savoir cultural du monde noir. dément les analyses de quelques-uns des protago-
A Lisbonne, les activités du groupe étaient nistes du Centre: “Toute la poésie noire est de nos
centrées autour de quatre pôles: le Centre d’Etu- jours l’affirmation de la négritude (...) la négritude
des Africaines2, la Maison des Etudiants de I’Em- se définit comme étant à la fois objective et sub-
pire3, le Club Maritime4 et la maison de la Famille jective. Dans son objectivation elle recrée les for-
Espírito Santo5. Dans cet ensemble, une place par- mes d’art populaire (musique, dance, poésie); par
ticulière revient au Centre d’Etudes Africaines en sa subjectivation, elle crie la douleur millénaire de
tant que lieu privilégié de production de discours. l’homme africain (douleur d’une expérience de
On y réfléchissait à partir d’un axe centré sur la travail esclave), dans un appel au rassemblement
problématique de la réafricanisation des esprits en de l’âme collective noire disperse de par le mon-
tant que processus comprenant la rupture avec de”13. Il va falloir, donc, se réapproprier une iden-

* Excerto de “Representation sociale de la Femme dans le discours nationaliste: le cas de la géneration des années 50 en Angola”. África:
Centro de Estudos Africanos — USP, S. Paulo, 10: 152-7 (1987). O título e subtítulo a) são da responsabilidade do Editor.
** Socióloga e investigadora angolana. Universidade E. Mondlane. Maputo.

139
tité culturelle perdue parce qu’aliénée par la colo- ..............................................................
nisation: “(...) Depuis le XVe siècle le contact Mère en marche sous le poids de la vie
d’une certaine Europe avec l’Afrique a opéré dans Mère en marche pour le poisson à vendre18
les corps sociaux de ce qu’on appelle le continent-
noir, un ramolissement de sa force grégaire, et Mais ces représentations lucides et furtives de
même sa destruction; en déracinant les hommes de la femme africaine, ne sont encore que des bribes
leurs tribus, en niant leurs valeurs culturelles, en d’un discours inachevé et cherchant sa cohérence
épuisant leurs forces aborigènes au profit de la interne. D’autres préoccupations vont structurer le
formation d’un nouveau continent”14. discours culturel et devenir préponderantes. Il en
Dans ce processus de recréation culturelle, qui est ainsi:
se veut aussi une recherche d’un monde originel
perdu, le langage symbolique se pose souvent au a) de la question de la langue en tant que for-
féminin: Mère Afrique, Mère genitrix, Mère- me de communication et de reconnaissance
-Force, Mère point d’ancrage, Mère-souffrance culturelle19
etc. Dans ses métamorphoses la mère est celle qui b) du problème du folklore africain, qui de-
était à l’origine du mythe de ’l’age d’or” avant vrait être analysé sous un nouveau prisme,
que l’Evènement brutal ne brise l’harmonie du regard dépouillé d’un eurocentrisme, qui
Monde Africain: “Dans tes yeux, ma Mère/je vois n’y voit que de l’exotisme20
des océans de douleur/clairs soleils couchants, c) de l’étude du continent africain pour acquérir
paysages/paysages violet/drame de Chaim et dra- un savoir que I’école coloniale avait aliéne21.
me de Jafé”15; mais elle est aussi une présence
permanente dans la diaspora noire: “Elle est venue Ainsi, dans les pratiques culturelles du Centre
du sud/ il y a belle lurette,/dans le flot de contrata- d’Études Africaines, la femme n’était pas encore
dos M’ame Charlotte”16. perçue comme un sujet historique et sa représenta-
Mais la présence, encore timide, d’une femme tion s’inscrivait dans le discours sous une forme
aux contours historiques et sociologiques plus pré- diffuse, circonstancielle, souvent synchrétique.
cis sera l’oeuvre de la poésie féminine: Femme- Toutefois, au niveau du quotidien, les deux per-
-rural, femme-quotidien subissant le poids d’un sonnages féminins qui traversent la vie du groupe,
travail et d’une maternité qui lui échapent. Ainsi jouent le rôle de compagnes de l”aventura” cultu-
Noémia de Souza: relle. Mais cette légitimité leur est donnée par deux
qualités: elles sont poétesses et elles sont noires. La
Qui a donc étranglé la voix lasse dimension femme n’en étant pas encore un critère.
de ma soeur de la brousse? D’ailleurs, chez les acteurs du groupe, cette
....................................................... conscience en train de se faire, n’est pas sans am-
biguité: petit microcosmo de l’espace colonisé
Elle ne m’arrive plus chaque matin portugais ils regardaient ce monde là, comme
épuisée de sa longue marche quelque chose presque homogéneisée: ils n’étaient
Kilomètres et kilomètres avalés que des noirs subissant en commun la loi aliénante
dans l’éternel cri: Macala de l’assimilationnisme colonial, qui recherchaient
leur Afrique leur spécificité géo-sociale importait
Non, elle ne m’arrive plus mouillée de la bruine peu. Cette sorte de synchrétisme indifferencié fai-
chargée d’enfants et de résignation... sait écran entre eux et les inégalités et différences
Un enfant sur le dos, un autre dans le ventre au sein même de la société colonisée. Dans ce
— toujours, toujours, toujours”17 contexte, comment isoler la femme, comment la
représenter autrement, sinon par le biais des caté-
Et Alda do Espírito Santo s’adressant à l’enfance: gories susceptibles de donner au monde noir une
dimension universalisante?
Ta Mère, petit Par ce jeu de miroirs, le groupe pourrait pres-
dans le combat de la vie qu’affirmer: devant le colonialisme on est tous des
le pannier à poissons sur la tête égaux de l’inégalité.
au travail quotidien Et pourtant, cette conscience primitive de la
Le tout petit sur l’échine ambulante différence, est-elle déjà une conscience de groupe

140
en révolte, marquant la limite au-delà de laquelle le gardienne du foyer). L’accès à l’instruction sera
“seuil de tolérance à la destructuration culturelle22 plus limité: face aux difficultés financières des fa-
ne peut déboucher que sur la compréhension de milles africaines, celles-ci auront tendance a privi-
l’histoire au moyen de “réactions ayant un sens di- légier les enfants mâles en détriment des jeunes-
rectement politique”23. -filles. Pour l’enseignement supérieur, les
obstacles seront plus importants25. Ecartées de la
b) Formulation politique du discours vie sociale, les femmes feront l’apprentissage de
nationaliste et Représentation Sociale la chose publique dans le mouvement nationaliste.
de la Femme Il n’est donc par étonnant de répérer dans un
rapport politique de 196126 la totale absence des
Ce discours prend forme pendant la période al- femmes pour ce qui est de leur participation dans
lant du millieu des années 50 jusqu’aux débuts de les discussions politiques, dans la mise en oeuvre
l’année soixant. Deux évènements jallonent cette de stratégies a suivre oú même dans les confronta-
période historique: lés révoltes en Angola du 4 Fé- tions politiques. Et lorsqu’on y trouva quelque ré-
vrier 1961 et du 15 Mars 196124 et la manifesta- férence, ce fut par rapport à son statut de mère et
tion des mouvements nationalistes structurés sur la épouse (règlement de problèmes quotidiens).
scène internationale. Au sein du MPLA (Mouve- Et pourtant, cette période fut d’une grande ri-
ment Populaire pour la Libération de l’Angola) chesse politique:
nous trouverons quelques uns des acteurs du Mou-
vement Cultural-Littéraire, dont nous avons parlé — mise en place des différents organismes po-
ci-dessus, notamment Viriato da Cruz, Mário de litiques
Andrade et Agostinho Neto. — formulation dans les grandes lignes de la
Pendant cette durée, les premiers “corpus” de stratégie et des tactiques à suivre;
textes politiques font leur apparition: programme — luttes politiques au sein de l’organisation
politique, textes de propagande, interviews, jour- nationaliste;
naux, etc., ainsi que les premières structures orga- — la question de l’unité du mouvement natio-
nisationnelles. Le noyau dirigeant sera composé naliste sera mise en exergue;
d’hommes, mais les femmes feront lentement leur — déploiement d’actions visant la reconnais-
rentrée sur la “scène militante”. Jouant, il est vrai, sance internationale du mouvement natio-
des rôles accessoires et pourtant utiles: elles sont naliste.
une force d’appui moral, parfois matériel, libérant
ainsi l’homme des contraintes quotidiennes, ce qui A travers cette dynamique, le discours nationa-
lui permettra de mieux gerer lés affaires nationa- liste prendra des contours plus clairs et on y com-
les. La conscience politique, pour beaucoup de ces mencera à déceler des “configurations relative-
femmes, sera encore grégraire (liée à son rôle dans ment homogènes de représentations, d’idées, de
la famille) et teintée d’une affectivité immédiate valeurs, de príncipes d’action (mots d’ordre) s’ex-
(on suit le fiancé, le compagnon, le mari). primant par des textes et des institutions d’infor-
Cette situation a ses raisons historiques qui mation visant à transformer les consciences et
méritent bien une parenthèse: à modelar le consensus; et à faire agir celui-ci
Le déclin des familles créoles à partir du mi- dans une direction choisie”27.
lieu du XIXe siècle s’est accentué au début du
XXe siècle par des mesures économiques, policul-
1 C’est Mário de Andrade qu’établira des relations épistolaires
turelles et politiques destinées à consolider la do-
avec Allioune Diop, Directeur de la Revue.
mination coloniale. La dictature de Salazar qui dé- 2 Le Centre d’Etudes Africaines aura sa période de maturation
bute en 1928 et la politique de peuplement pendant l’année 1950, émergera en 1951 et prolongara sés activités
accéléré, poursuivie après la deuxième guerre jusqu’à l’année 1953.
3 Cette Maison fut fondée en 1944.
mondiale, parachèveront ce processus. La femme 4 Ce Club rassemblait des africains qui exerçaient des petits
s’en ressentira cruellement de tous ces change- métiers dans les bateaux: serveurs en 2ème et 3ème classes, em-
ments: perte du pouvoir commercial et donc éco- ployés dans les machines etc. Une pièce de Keita Fodeba, Le maî-
nomique, retrécissement de son champ de pouvoir tre d’école, a été jouée dans ce Club.
5 Cette famille de São Tomé, constituait, en quelque sorte, le
social (désormais l’enceinte familiale sera le do- point d’ancrage d’une certaine convivialité du groupe.
maine possible oú elle jouera le rôle de mère et 6 Née au Mozambique en 1926. Journaliste.

141
7 Née à São Tomé en 1926 et decedée en 2010. Elle fut, pen- 19 Voir à ce propos Mário de Andrade “Questões de Linguística

dent deux termes, présidente de l’Assemblée Populaire Nationale Bantu I — Da Posição do Kimbundu nas Línguas de Angola”,
de son pays. Mensagem, 1, Luanda 1951.
8 Né en 1921 à São Tomé et décédé à Lisbonne en 1963. Son 20 Mário de Andrade, “O Folclore na Cultura Bantu texte iné-

oeuvre est à la fois littéraire et scientifique. dit. Lisbonne Octobre 1950.
9 Né en 1928 en Angola. Premiar Président du MPLA (Mouve- 21 Exposés de Francisco José Tenreiro ( Structure Géographique

ment Populaire pour la Libération de l’Angola). Il a écrit des essais du Continent Africain”), de Noémia de Sousa et Alda do Espírito
d’ordre littéraire et sociologique. Santo (”La Pensée Noire”) au Centre d’Etudes Africaines en 1951.
10 Né en 1924 en Guinée-Bissau, mort assassiné en Janvier 22 Geoges Balandier, Sens et Puissance, Paris, PUF, 1981 pag. 157.

1973 à Conakry. Sécretaire Général du PAIGC (Parti Africain pour 23 Ibidem pag. 1-58.

l’Indépendance de la Guinée et du Cap Vert). Il a écrit une oeuvre 24 Le 4 Février 1961, des militants nationalistes de la capitale

scientifique (agronomie) et politique. ont donné l’assaut des prisons de Luanda dans l’intention de libérer
11 Né en 1922 en Angola. Décédé en 1979 à Moscou. Président des prisonniers politiques, sans toutefois y parvenir. La paternité de
de la République Populaire de ]’Angola. A publié un livre de poè- cette action a eté revendiquée, à l’extérieur, par la Direction du
mes. MPLA.
12 Publié à Lisbonne, en 1953. Le 15 Mars de la méme année un mouvement de révolte armée
13 Mário de Andrade, Qu’est ce que la littérature négro- contre l’exploitation coloniale a éclaté au Nord-ouest de l’Angola.
-africaine?, Texte inédit, Lisbonne 1951, pag. 23/24. Cette jacquerie a été revendiquée par l’UPA (Union des Popula-
14 Mário de Andrade, Préface au Caderno de Poesia Negra de tions de ]’Angola).
Expressão Portuguesa, Lisbonne, Avril 1953, pag. 1. 25 Il y avait, à Luanda, en 1958-1959, pour une population noire
15 In Mário de Andrade, La Poésie Africaine d’expression por- urbaine d’environ 140.000 personnes, 5 bacheliers noirs.
tugaise, Paris Ed. Pierre Oswald, 1969, pag. 99. 26 Ce rapport concernait un groupe d’étudiants qui a quitté clan-
16 “Romance de M’ame Charlotte de Francisco José Tenreiro, destinement le Portugal, au mois de Juin 1961, pour rejoindre le

Ibidem, pag. 73. Mouvement nationaliste.
17 “Appel , Ibidem, pag. 137. — 27 François Châtelet et Evelyne Pisier-Kouchner, Les Con-

18 “Au loin de la Plage , Ibidem, pag. 68/69. ceptions Politiques du XXe Siècle, PUF, 1981, pag. 506.

142
Era no tempo das acácias...*
CARLOS ERVEDOSA**

Anos obscuros Mas o governo foi protelando a homologação


das eleições e quando se chegou a Maio decidiu
[...] A Casa dos Estudantes do Império funcio- nomear uma comissão administrativa da sua con-
nou normalmente até à Primavera de 1952. fiança política para gerir os destinos da CEI.
No princípio desse ano os estudantes coloniais Recordo bem. Num fim de tarde dum domingo
de esquerda, que já eram bastantes, apesar das soalheiro, quando chego à Casa depois de uma ex-
suas origens, ganharam as eleições nas secções de cursão ao Portinho da Arrábida, organizada pela
Angola, Cabo Verde e Índia, e o Acácio Cruz, es- Secção de Angola, era enorme a agitação reinante
tudante de engenharia vindo de Silva Porto e pro- na sala da Direcção-Geral. Lembro-me de ver, entre
posto pela Secção de Angola, conquistava tam- outros, o Acácio Cruz e o Amílcar Cabral, da Di-
bém, muito naturalmente, a presidência da recção-Geral, o António Neto, o Antero Abreu e o
Direcção-Geral da CEI. Amílcar Cabral, o futuro Mário Pinto de Andrade, da Secção de Angola,
fundador do PAIGC, era o Vice-Presidente, por in- o Telmo Crato Monteiro, presidente da Secção de
dicação da Secção de Cabo Verde a que pertencia. Cabo Verde, o Orlando Costa, presidente da Secção
Decorria a vida associativa com toda a normali- da Índia... dirigentes e outros associados, ali reuni-
dade. Funcionava o lar, a cantina e o posto médico. dos, revoltados, discutindo e comentando a notícia
As Secções davam regularmente os seus bailes que lhe chegara por portas travessas: no dia seguin-
e matinés dançantes para convívio e angariação de te, segunda-feira, sairia no «Diário do Governo»
fundos. A Secção de Angola, na passagem de ano, a portaria que nomeava uma Comissão Administra-
dera um baile monumental no Centro de Activida- tiva para a Casa dos Estudantes do Império.
des Económicas de Angola, abrilhantado pela «Or- Decidiram os dirigentes ali reunidos elaborar
questra Copacabana». Decorriam os campeonatos e distribuir ainda essa noite, aos sócios, um abai-
internos de damas, xadrez e pingue-pongue. O gru- xo-assinado de protesto e um comunicado. Denun-
po representativo de futebol media forças com os ciava-se a atitude prepotente do Governo, pedia-se
das Associações Académicas de Lisboa. A Cultural a solidariedade de todos os sócios para com os
fazia as suas palestras, exposições e recitais de poe- seus dirigentes democraticamente eleitos e a sua
sia e saíra já o número da «Mensagem» com a cola- recusa a qualquer colaboração com os membros da
boração dos sócios. Nela, o Amílcar Cabral assina- Comissão Administrativa imposta.
va «A Defesa da Terra», o Mário Pinto de Andrade A Comissão Administrativa chegou no dia se-
«A Literatura Negra e os seus problemas», o Fran- guinte e manteve-se durante longos cinco anos, re-
cisco José Tenreiro publicava o seu poema «1619» partidos em dois períodos.
e o António Neto fazia a crítica literária ao livro de No primeiro foi presidida pelo Dr. Carlos So-
poemas do Orlando Costa, recentemente publicado. veral, um licenciado em Histórico-Filosóficas, ho-

* Extractos do livro «Era no tempo das acácias floridas». ALAC (1990). Os subtítulos são da responsabilidade do Editor.
** Geólogo e ensaísta angolano (1932-1992). Dirigente da CEI e responsável pela Secção Editorial. Director da Mensagem em 1962-63.

143
mem inteligente e culto que logo sentiu como era Os novos estatutos tiveram de ser elaborados
ingrato estar em guerra contra toda uma associa- tendo em conta os circunstancialismos e as pressões
ção de estudantes. Foi-se embora logo que pôde. reinantes. Desapareceram, por exemplo, as antigas
Seguiu-se-lhe o Dr. José Barata, licenciado em secções regionais, secções que eram entendidas pe-
Económicas e que, ao contrário do primeiro, era las autoridades como focos de nacionalismos.
bastante primário. Agarrou-se ao lugar como lapa Há muito que os velhos e marcados estudan-
à rocha e só dali saiu ao fim de quatro anos, quan- tes, concluídas as suas formaturas, tinham deixado
do o governo o transferiu para outro posto. a Casa e seguido a sua vida. Havia uma nova gera-
Foram cinco anos de estagnação, com a CEI ção, mas os ideais democráticos e nacionalistas
reduzida às funções de uma simples pensão. Os eram já como um vento forte que varria o mundo.
estudantes ultramarinos continuaram a frequentar Vieram depois as eleições para os Corpos Ge-
o lar e a cantina, a sede e o posto clínico, mas re- rentes. O Fernando Vaz foi o Presidente da Direc-
cusaram-se a colaborar em quaisquer outras activi- ção, eu continuei Presidente da Assembleia Geral
dades promovidas pela Comissão Administrativa. e o Hugo Azancot de Menezes, Presidente do
Participavam activamente nas movimentações Conselho Fiscal.
democráticas, como as comemorações do «5 de Um indiano de Moçambique, um branco de
Outubro», data que era aproveitada para roma- Angola e um mestiço de S. Tomé. Era assim a Ca-
gens, comícios e jantares de confraternização pe- sa dos Estudantes do Império, santuário da confra-
los oposicionistas ao regime de Salazar. ternização racial. [...] (págs. 121-124)
Na véspera do «5 de Outubro» de 1956 já an-
dava eu, militante do MUD Juvenil, com outro es-
tudante angolano, o Portela Santos, a distribuir A Casa era uma escola...
bandeirinhas nacionais pelos comerciantes da Bai-
xa lisboeta. No dia seguinte grande número de lo- [...] Continuei a viver no lar da Casa dos Estu-
jas da Rua dos Fanqueiros, da Rua Augusta, da dantes do Império, mas agora tendo por compa-
Prata e do Ouro exibiam nas montras as bandeiri- nheiro de quarto o David Bernardino, estudante do
nhas verde-rubras, naquela data com uma carga 2.o ano de Medicina e que viera lá das traseiras
ideológica bem republicana e democrática. morar no melhor quarto vago da frente.
Os estudantes ultramarinos integraram-se nas Devo-lhe muito da minha formação cultural.
associações de estudantes das faculdades que fre- Com ele fui pela primeira vez ao ballet, pela pri-
quentavam, também elas correndo riscos de encer- meira vez à ópera e, no seu Telefunken, ouvi pela
ramento ou de limitação às suas actividades e ao primeira vez a Nona Sinfonia completa. Das suas
sistema democrático que as regia. E participaram mãos recebi também grande parte dos livros que
activamente nas lutas académicas de Lisboa, so- estiveram na base da minha cultura literária.
bretudo durante a crise desencadeada pelo famige- A juventude portuguesa, a mais inconformada,
rado Decreto n.o 40 900, que pretendia colocar as engajava-se então num movimento político de es-
Associações de Estudantes sob a égide da «Moci- querda, clandestino, o Movimento de Unidade De-
dade Portuguesa». mocrática Juvenil. Na conquista das liberdades
Recordo o João Cravinho, do Técnico, o Noa- que os vencedores do conflito mundial lhe tinham
les Rodrigues, de Ciências, o Goulart, de Econó- recusado.
micas, a Manuela Biu e a Vera Azancot, de Letras, O fim da Guerra tinha sido há meia dúzia de
o Carlos Portas, de Agronomia... e tantos outros. anos, uma guerra cruel que ceifara milhões de vi-
Cedeu o governo perante a luta dos estudantes das e de heróis que haviam lutado por um mundo
de Lisboa e Coimbra contra o decreto do Ministro livre, mais fraterno e com mais justiça social.
Leite Pinto. Foi suspensa a lei e os estudantes ul- Tinham-se calado as armas nos campos de ba-
tramarinos aproveitaram a ocasião para fazerem talha, chegavam agora as mensagens dos artistas
ouvir também as razões da sua luta. através da pintura, do cinema e da literatura.
E assim, no dia 25 de Janeiro de 1957, discu- Eram os tempos áureos do neo-realismo.
tiam-se e aprovavam-se em Assembleia Geral os Emocionávamo-nos com as aventuras dos po-
novos estatutos da Casa dos Estudantes do Império. bres miúdos do Pereira Gomes pelos esteiros do
Era eu quem tinha a honra de presidir à mesa Tejo, com os gaibéus do Alves Redol e com os he-
dos trabalhos. róis do Manuel da Fonseca pelas searas de vento.

144
Rejubilávamos com o fogo dos estudantes na tas tardes, encantado, e com o sacrifício de outros
noite escura, do Fernando Namora, crispávamo- prazeres fui comprando algumas delas, Gauguin,
-nos com o uivo dos lobos nas serranias do Aqui- Modigliani, Picasso, Matisse e os «Zapatistas» de
lino e estávamos com Ferreira de Castro ao lado Orozco, que foram decorando as paredes solitárias
dos operários da Covilhã. do meu quarto de estudante. [...] (págs. 118-121)
De França chegava-nos o canto alto do Aragon
e do Éluard, esperançoso, mas chorávamos em Es-
panha a morte de Garcia Lorca pelas balas assassi- A Editorial
nas de Franco.
De Itália era o cinema, um cinema que nos fa- [...] Cheguei à CEI com poemas e contos dos
zia pensar, que nos metia pelos olhos dentro ima- Novos Intelectuais de Angola. «O Grande Desa-
gens reais dum mundo que tinha de mudar, com as fio», «Fogo e Ritmo», «Namoro», «Estrela Peque-
películas de Sica e Zavattini, «Ladrões de Bicicle- nina»; «A Mulemba Secou», «Linha Quatro» e ou-
tas», «O Capote», «Humberto D», «O Milagre de tros poemas do novo cancioneiro angolano foram
Milão», «O Pão Nosso de Cada Dia»... um alumbramento, como diria Manuel Bandeira.
Dos Estados Unidos chegavam-nos os livros Com a ajuda do Costa Andrade, jovem escritor
de Steinbeck, de Caldwell, de Hemingway... «As do Huambo que poetava com o pseudónimo de
Vinhas da Ira», «A Estrada do Tabaco», «Por Flávio Silvestre, publiquei uma colectânea de
Quem os Sinos Dobram»... e do Brasil o Jorge «Poetas Angolanos» e outra de «Contistas Angola-
Amado, o Graciliano Ramos, o Guimarães Rosa, nos», dactilografados e copiografados pelas nossas
narrando as vidas secas dos homens e as esperan- próprias mãos nas «oficinas» da CEI.
ças dos homens germinando pelos subterrâneos da Depois a Fundação Gulbenkian, por intermé-
liberdade ou pelas veredas luminosas do sertão. dio do Dr. Sá Machado que era angolano como
E ainda lá mais de baixo, da ponta sul, ressoa- nós e que já ofertara à CEI camas para o Lar, um
va o canto general do Pablo Neruda, desse Pablo fogão para a Cantina e livros para a Biblioteca, en-
genial que iria morrer (os poetas morrem?...) um tregou à Secção Editorial uma duplicadora Gestet-
dia, quando os primeiros pingos de chuva caíam ner, eléctrica, e uma boa máquina de escrever,
nas ruas de Santiago. o que permitiu melhorar o aspecto gráfico da
Era «obrigatória» a leitura de «Estes Dias Tu- «Mensagem» e das antologias que se editavam.
multuosos» do Pierre van Passen, do «Processo Aqui, não posso deixar de recordar, com sau-
Histórico» do Juan Clemente Zamora, textos do dade, a colaboração do jovem José Ilídio Cruz, po-
Pollitzer, do Marx, do Engels, do Lenine... bre e infeliz companheiro que tão cedo abandona-
O Caderno de Poesia Negra de Expressão Por- ria este mundo.
tuguesa, publicado pelo Mário Pinto de Andrade Com uma pequena quantia cedida pela Direc-
e Francisco José Tenreiro, alertava-nos para a pro- ção da Casa, também conseguimos dar início
blemática social das nossas terras e falava-nos dos à impressão tipográfica das obras dos jovens auto-
expoentes da Negritude no mundo, do Senghor, do res ultramarinos. As editoras comerciais não se ar-
Césaire, do Guillén, do Langston Hughes e já do riscavam a publicar escritores sem nome feito
orgulho escandaloso de ser negro. e ainda por cima com uma temática um tanto peri-
Acreditávamos que um dia o mundo seria me- gosa nas circunstâncias.
lhor, com paz, amor e justiça e que, de mãos da- O escritor Castro Soromenho recomendou-nos
das, seguiríamos fraternalmente pela estrada larga a «Tipografia Minerva», na Praça da Alegria, e foi
de Walt Whitman. ali que se imprimiram os livros de uma colecção
Era também o tempo do neo-realismo na pin- que ficaria célebre e a que nós demos, muito sim-
tura. Para mim, os melhores, Rivera, Orozco, Si- plesmente, o nome de «Colecção Autores Ultra-
queiros e Portinari, pelos motivos tratados. marinos».
Por eles cheguei aos outros modernistas, desde Nela publicaram os seus livros de estreia
o impressionismo para cá. o Luandino Vieira, o António Jacinto, o Viriato
Nesse tempo a editora «Europa-América» tinha, Cruz, o António Cardoso, o Manuel Lima, o Ar-
num primeiro andar da Rua das Flores, uma sala de naldo Santos, o Costa Andrade, o Agostinho Neto,
exposições onde continuamente se exibiam excelen- o Alexandre Dáskalos, o Henrique Abranches, o
tes reproduções de quadros célebres. Passei ali mui- José Craveirinha, o Ovídio Martins...

145
O Agostinho Neto, ainda na cadeia do Aljube, de e a sua delegação de Coimbra, numa divisão de
recebeu das mãos da esposa, a Maria Eugénia, os verbas, para submeterem a Casa dos Estudantes do
primeiros exemplares de «Poemas» que eu próprio Império a uma nova Comissão Administrativa por
lhe fora levar a casa. tempo indeterminado.
Treze anos depois, quando a Editora Sá da Cos- Reagiram os estudantes ultramarinos decidida
ta publicou em Lisboa a «Sagrada Esperança», de mas cautelosamente. Nesse mesmo dia distribuíam
Agostinho Neto, o livro trazia uma introdução assi- pelo correio o seguinte comunicado:
nada pela Marga Holness, introdução que desapare-
ceu depois nas edições post-mortem do Autor. «Estudante Ultramarino!
Podia-se ler ali uma transcrição do Costa An- A força vem sobrepor-se ao direito.
drade: Coarctando a possibilidade de sermos nós a re-
«(...) Em autêntico desafio à censura fascista, solver pelos nossos meios os nossos próprios
Carlos Ervedosa e nós próprios conseguimos, sob problemas, foi-nos imposta uma comissão ad-
os auspícios da Casa dos Estudantes do Império, ministrativa. Pretexto: o já resolvido caso de
compilar e publicar pequenos volumes com as Coimbra.
obras mais importantes dos nossos intelectuais, al- Porque somos amputados arbitrariamente de
go inédito em Portugal e na história da literatura um direito, porque nos negam a nossa própria
angolana. O opúsculo dos poemas de Agostinho afirmação, porque nos querem impor directri-
Neto deu-nos a possibilidade de verificar como zes que nunca foram nem serão nunca as nos-
eram estreitos os laços entre o povo e o poeta. sas, apelamos, nesta hora grave, para o teu de-
Após a sua chegada a Luanda e numa única tarde, ver de estudante ultramarino, a que estejas
a totalidade dos livros foi inteiramente absorvida.» connosco. VEM À SEDE URGENTEMENTE!
[...] (págs. 131-132) Traz contigo os ultramarinos dignos deles pró-
prios.
Não é só a CEI que está em perigo. São os in-
Identidade e resistência teresses dos estudantes ultramarinos.»

[...] Ao longo dos anos da sua existência, Assinaram-no, sobre o stencil, 73 estudantes
a Casa dos Estudantes do Império desenvolve, que tinham acorrido à sede.
a par duma profícua actividade no campo social, No dia seguinte, em grande e efervescente reu-
desportivo e recreativo, um trabalho intensivo de nião, foram enviados enérgicos telegramas de pro-
divulgação da cultura dos territórios coloniais. testo ao Governo e estabelecidas as formas de luta
E no desempenho de todas essas tarefas criaram-se que se impunham.
laços de profunda amizade e uma consciência na- As outras associações de estudantes do país,
cional, sobretudo angolana e moçambicana, que solidárias com os seus colegas ultramarinos, en-
não admitia a exclusão de ninguém. viaram também os seus telegramas de protesto.
A Casa era uma associação de estudantes, po- Oito meses depois, a CA informou o Governo
liticamente neutra por força estatutária, mas de es- que tinha encontrado as contas certas e não vendo
querda por força da opção política dos seus diri- este brechas na muralha, por onde penetrar, devol-
gentes. Multirracial na sua composição étnica veu a normalidade estatutária à Casa dos Estudan-
e nos seus ideais de sociedade. Quem não a acei- tes do Império. Ficou então como «presidente in-
tasse deste modo, ou não passava a porta do rés- terino», até à eleição dos novos Corpos Gerentes,
-do-chão, ali no 23 da Duque d’Ávila, ou ia-se o Paulo Jorge, um moço que viria a ser mais tarde
embora de vez. O que aconteceu em qualquer dos o Primeiro-Ministro das Relações Exteriores de
casos e o que não agradava aos governantes de en- Angola. (p. 137-39)
tão, ainda obcecados pela ideia anacrónica de um
país repartido por quatro continentes e às ordens [...] Na Primavera desse ano [1962], nova crise
do Terreiro do Paço. académica alastrou por Lisboa, despoletada pela
Durante a presidência do moçambicano José proibição do «Dia do Estudante» organizado pelas
Miguel Jerónimo, que sucedera pouco tempo antes associações de estudantes. Era então líder do movi-
a César Monteiro, os ministros da Educação e do mento associativo um finalista de Direito, o Jorge
Ultramar aproveitaram uma desavença entre a se- Sampaio, hoje Secretário-Geral do Partido Socialista.

146
Sucederam-se plenários, comunicados, greves hotéis e pensões. No dia seguinte partiram para
às aulas e aos exames, e até uma greve de fome a fronteira norte e atravessaram clandestinamente
para 80 estudantes barricados na Cantina Univer- o rio Minho.
sitária, sob a protecção de muitas centenas de ou- Em terras de Espanha, já com documentação
tros cá fora. E tudo isto com manifestações de rua falsa que os identificava como cidadãos de países
desfeitas à coronhada pela Polícia de Choque africanos, começaram a passar calmamente para
e prisões e expulsões da Universidade. a França.
O Governo foi também encerrando Associações Mas um grupo de 40 ficou retido. As autorida-
atrás de Associações para quebrar a força estudan- des espanholas da fronteira, porque fossem alerta-
til, até que sobrou a Casa dos Estudantes do Impé- das pelas autoridades portuguesas, ou porque tives-
rio. E esta imediatamente pôs à disposição dos seus sem desconfiado de tanto negro junto, descobriram
colegas da metrópole as suas instalações para as identidades e prenderam o grupo.
a continuação das Reuniões-Inter-Associações, as- Começou depois uma luta diplomática. De um
sim como as suas máquinas de impressão para lado, o governo português pedia ao seu aliado es-
a elaboração dos comunicados. panhol que lhes recambiasse os presos, do outro
O Governo mandou então colocar um polícia lado, o governo americano exigia que os deixas-
à porta. Só entrava quem era sócio da CEI e as sem passar. Venceu o pragmatismo de Franco:
malas e bolsas das raparigas revistadas à entrada amigos, amigos, negócios à parte, e deixou partir
e à saída. o grupo para França.
A Direcção da Casa protestou energicamente Os rapazes brancos ficaram em Portugal, mas
junto dos ministérios do Interior, da Educação alguns, inconformados, logo foram por sua conta
e do Ultramar. Em resposta mandaram a PIDE in- e risco e quiseram mostrar, desse modo, que eles
vadir a associação, passar uma busca e apreender também eram Angola.
o que quisesse. No fim entregaram-me uma con- Ficou a CEI amputada de grande parte dos es-
tra-fé para ir lá abaixo, à António Maria Cardoso, tudantes angolanos, sobretudo negros e mestiços.
prestar declarações. Destes sobrou o Manuel Lima, estudante de Direi-
O interrogatório efectuou-se num dos últimos to em Lisboa, negro retinto que ainda por cima
andares do edifício da PIDE porque me lembro que usava capa-e-batina.
através das janelas se via o Tejo com barcos anco- Poeta e contista, o Manuel Lima não terá, por
rados. Acho que me defendi bem, pois ao anoitecer qualquer motivo, caído no goto dos que organiza-
regressava em liberdade à CEI, onde a malta que ram a fuga. Foi depois ter com eles, mas também
me esperava, ansiosa, fez uma grande festa. pelos seus próprios meios. Alferes miliciano, ca-
Foi neste cenário conturbado que dirigi a Casa çador-especial, fora enviado para a Índia enquanto
dos Estudantes do Império [...] (págs. 157-158) a sua unidade seguia para Angola. Quando o avião
que o levava poisou no Egipto para meter combus-
tível, o Manuel Lima pediu licença para ir mandar
Também da Casa dos Estudantes do Império um telegrama à família. Foi e solicitou asilo políti-
se partiu para a luta... co. Só apareceu mais tarde, na organização militar
do MPLA sediada no ex-Congo francês.
[...] Em Portugal, uma centena de estudantes E muitos outros foram depois partindo para
universitários, africanos de Angola, deixa clandes- o estrangeiro, uns legalmente, com passaporte, ou-
tinamente o país e vão reforçar, quase todos, os tros clandestinamente. Uns com êxito, outros vol-
quadros do MPLA. tando para trás.
Foram de Lisboa, Porto e Coimbra, alguns Dois jovens procuraram atingir Marrocos,
com as mulheres e os filhos. a partir do Algarve, num barco a remos. Mas foram
Em Lisboa deu-se logo conta pelo grande nú- arrastados para o alto mar e a sede atormentou-os.
mero de ausências ao jantar na cantina da Casa. Um bebeu água salgada e morreu, o outro, mais fe-
O Sargento Ferreira, encarregado da escrita liz, foi recolhido por um cargueiro. É hoje o coro-
e da cantina, lamentou-se-me: nel das FAPLA, poeta e pintor Cardoso de Matos.
— Logo hoje, que mandei fazer doce, falta Jovens atletas ao serviço de clubes metropoli-
tanta gente!... tanos seguem o mesmo destino. Da Académica foi
Reuniram-se no Porto, onde pernoitaram por o França e o Chipenda. Do Benfica, o Matos e o

147
Mingas, pobre Said, jovem ministro que viria a pela Secção de Camaradagem, com merengues de
morrer tão cedo no golpe fraccionista do Nito Al- princípio ao fim. Depois, sentindo o terreno firme,
ves. assistiram a todas as sessões da Semana de Recep-
Para a esmagadora maioria dos estudantes an- ção aos Novos Estudantes do Ultramar. [...]
golanos em Portugal a UPA era um movimento ra- (p. 154-155)
cista e tribalista. A UNITA ainda não existia.
O seu fundador e líder era ainda Secretário-Geral Assim funcionou a Casa, democraticamente,
da UPA. O MPLA, dos intelectuais Mário Pinto de até 1965. Quando foi extinta, poucos já eram os
Andrade e António Agostinho Neto, velhos sócios estudantes angolanos e moçambicanos que havia
da Casa e formados nas escolas portuguesas, era na Metrópole, absorvidos pelos Estudos Gerais
então a esperança e a paixão de muitos. Universitários a funcionarem, há alguns anos, em
Em Lisboa, entretanto, a CEI e os seus diri- Luanda e Lourenço Marques.
gentes passaram a ser alvo de uma vigilância poli- Muita gente se interroga como foi possível
cial mais apertada. [...] (pág. 145-147) a CEI aguentar-se durante tanto tempo sem ter so-
frido penalizações mais graves. Eu tenho a minha
[...] Pouco depois chegou-nos a FUA. A Frente explicação:
Unida Angolana, liderada por Fernando Falcão, Por um lado, a actividade da CEI não se podia
um engenheiro civil de raça branca natural de An- confundir com as actividades políticas dos seus
gola, desportista e democrata, começara a formar- associados, quando exercidas fora dos seus muros.
-se clandestinamente nas principais cidades do Sul O artigo 3.o dos seus estatutos rezava:
de Angola. Pretendia um país independente e mul- «À CEI é absolutamente vedado interferir em
tirracial. assuntos de carácter político ou religioso, e fazer
Rapidamente a PIDE detectou as suas activida- qualquer distinção de raças, de cores, ou de qual-
des e desmantelou-a. Presos e dispersos por Ango- quer outra natureza».
la uns, os brancos foram colocados com residência Politicamente desafectos ao governo, os seus
fixa em Lisboa. dirigentes tinham a arte de fazer caminhar a sua
Com o Eng. Falcão seguiram para o desterro associação até à beira do precipício, mas sem dar
o Sócrates Dáskalos, reitor do Liceu de Benguela, depois um qualquer passo em falso.
o Luís Portocarrero e o Carlos Morais, técnicos de Ia-se até onde se podia e devia ir.
contas, todos do distrito de Benguela. Ainda um Por outro lado, um ataque violento à CEI, co-
outro Morais cujo nome próprio me não ocorre, mo a sua extinção, viria revelar uma coisa que
oriundo da Huíla, e o João, moçambicano, perso- o Governo tinha necessidade de ocultar. Que os fi-
nagem central de um poema famoso da Noémia de lhos dos colonos e os filhos dos colonizados, ou
Sousa e há muitos anos desterrado em Angola. seja, os universitários angolanos, brancos, negros
O grupo apareceu na CEI levado pelo Sócra- e mestiços já tinham chegado a uma conclusão:
tes. Este frequentara-a durante os seus tempos de era preciso mudar e essa mudança necessária pas-
estudante, juntamente com o seu irmão, o poeta sava pela Independência dos seus territórios de
Alexandre Dáskalos. origem. E que viesse depois a grande comunidade
[...] Compareceram, timidamente, como quem dos países de língua portuguesa espalhados pelas
apalpa terreno, numa daquelas farras organizadas cinco partidas do mundo. [...] (pág. 140)

148
Escritores falam...
ANTERO ABREU*

[...]D epois, eu fui em 46 para Coimbra. visão do que era África! Qualquer de nós não se
O Neto que, entretanto, tinha acabado o liceu e se importaria de ter escrito aquele poema! Nem
tinha empregado e só depois é que tinha ido estu- o Neto se importaria de ter escrito aquele poema!
dar para Coimbra, o Neto apareceu, salvo erro, em O Joaquim Namorado era um homem de um gran-
47, um ano depois de mim. E não sei se foi nesse de leque de interesses, e uma das coisas que o in-
mesmo ano ou no seguinte que apareceu depois teressavam muito era África. Dava-se muito con-
o Lúcio Lara. Continuávamos a dar-nos porque nosco, moços que tínhamos vindo estudar de
havia uma determinada afinidade entre nós, literá- África, e muitos de nós íamos frequentar a Vértice
ria. — que era a revista que ele praticamente dirigiu
O Neto, nessa altura, politicamente, ninguém toda a sua vida.
sabia bem o que é que ele era. Mas, enfim, eu, Portanto, o Veiga Pereira, como estava mais li-
o Veiga Pereira e outros que já estávamos ligados gado ao Joaquim Namorado, ao MUD Juvenil e ao
ao MUD Juvenil e a umas ideias políticas já mais MUD e através do MUD, ao Partido Comunista
afirmadas e mais organizadas — porque, enfim, Português, creio eu — também não quero dizer
o Partido Comunista estava ali ao pé (...) E nós que o Partido Comunista estivesse directamente
é que puxámos assim Neto para este lado da bar- envolvido nessas coisas, é possível que as ligações
reira, porque havia outros lados a puxá-lo... Não fossem a título individual, mas, de qualquer ma-
vale a pena estar a falar em pessoas — havia indi- neira sempre se faziam —, o Veiga Pereira era um
víduos de outras colónias que também se dedica- indivíduo já com uma determinada formação
vam à literatura e com quem o Neto se deu bastan- quando eu comecei a ler os livros de marxismo.
te, ao princípio, mas que eram um bocado contra (...) Eu continuei a dar-me com o Neto. O Neto
o nosso grupo — o grupo dos “comunistas”, os colaborava no Meridiano, eu era um dos entusias-
tais “comunistas” (...) Porque o Joaquim Namora- tas do Meridiano, mas o Veiga Pereira é que era,
do sempre se interessou muito pelo Ultramar. Ain- efectivamente, o homem que o fazia. O jornal de
da nós não sabíamos nada, lá em Coimbra, de lite- parede era o Veiga Pereira que o fazia.
raturas africanas, já ele falava no Batouala, de
René Maran. O Joaquim Namorado já conhecia is- P. — Já faziam um jornal de parede? E era re-
so. No livro Incomodidade — andei à procura de- lacionado com África?
le, quando soube da sua morte, mas desapareceu-
-me — o Joaquim Namorado tem um dos poemas A.A. — Já fazíamos um jornal de parede rela-
mais importantes que se escreveram sobre África cionado com África, relacionado com a Casa dos
— chama-se mesmo “África”, salvo erro — uma Estudantes do Império, com os nossos problemas

* Jurista e escritor angolano, dirigente da CEI em Coimbra. Excertos da entrevista inserida em Angola. Encontro com Escritores, Michel
Laban, I Vol., Porto 1991, pp. 246-250

149
e os problemas de África... E os seus artigos de moçambicanos estavam numa mesa e os angola-
fundo, as suas citações, etc, tal e qual como o Me- nos iam normalmente para outra mesa. Depois, aí
ridiano também tinha. Simplesmente, um jornal a convivência com o Neto era bastante intensa.
de parede não pode ter a característica de um jor- E havia uma frequência diária da Casa dos Estu-
nal que se lê e que se mete debaixo do braço! Mas dantes do Império: ou porque fazíamos parte da
já a falar dos nossos assuntos — os assuntos da direcção, ou simplesmente porque era o nosso
Casa e os assuntos africanos. ponto de encontro. É por isso que muita gente me
pergunta: “Você é muito pouco coimbrão, tendo
P. — E um jornal de parede era habitual já na- estado em Coimbra...” Um colega meu de escritó-
quela época? rio, todo coimbrão, cantor de fados e tal, admira-
va-se de eu ter estudado em Coimbra e ser tão
A.A. — Não era habitual, que eu saiba. É pos- pouco coimbrão! Porque Coimbra deixava, naque-
sível que houvesse em determinadas organizações, le tempo, umas marcas muito fortes nos estudantes
ou em determinadas empresas, eu não sei. Quem que por lá passavam: nunca mais se esqueciam da-
levou a ideia do jornal mural foi o Veiga Pereira. quela vida, daquele ambiente que os cercava. Vi-
Ele é que o fez durante muito tempo, com a ajuda nha cá para fora e, pela vida fora — ainda hoje —
de outros — um dos quais eu, e lá colaborámos. a recordar com muita saudade Coimbra, a canta-
Depois o Veiga Pereira, nessa altura, mais ou me- rem os fados de Coimbra, a reunirem-se em almo-
nos, lançou mão ao Meridiano e colaborámos tam- ços comemorativos, etc. E esse meu colega admi-
bém — o Neto publicou lá poesias, não sei se al- rava-se de como eu era tão pouco coimbrão... Mas
guma prosa. O Veiga Pereira era uma figura não era só eu que era tão pouco coimbrão. Todos
engraçada e fascinante — ainda hoje é uma pessoa os estudantes ultramarinos — de uma maneira ge-
interessante. ral — eram pouco coimbrãos, ou eram relativa-
(...) Depois lá estivemos em Coimbra — onde mente pouco coimbrãos, porque havia uns que
era forçoso darmo-nos porque comíamos nas mes- conseguiam ser ambas as coisas. Porquê? Porque
mas pensões. Se não eram as mesmas, eram muito a nossa convivência era feita principalmente na
perto. Morávamos nas mesmas casas, ou muito Casa dos Estudantes do Império, não era feita na
perto uns dos outros. Coimbra é uma terra peque- Associação Académica, nem nas repúblicas —
na — morávamos quase todos na Alta, ou perto da embora frequentássemos as repúblicas, embora
Alta, portanto estávamos sempre a encontrar-nos. frequentássemos a Associação Académica, é evi-
E encontrávamo-nos muito nos cafés — o café dente. Lembro-me que também andei em serena-
“Montanha” era onde nos encontrávamos. De um tas, mas o nosso ponto de encontro era a Casa dos
lado, os moçambicanos: lá estavam os irmãos Ca- Estudantes do Império, os nossos interesses eram
seiros, que estão agora em Moçambique; o Victor os da Casa dos Estudantes do Império, portanto
Casaca, que depois veio para aqui, morreu cá. Os dos estudantes ultramarinos. [...]

150
FERNANDO GANHÃO*

N asci em 1937, fiz os meus estudos primários A Casa sempre teve um papel político impor-
na cidade de Lourenço Marques, onde fiz também tante, tanto que tinha sido encerrada e tinha havi-
o liceu até ao final do ciclo secundário. Os meus do uma comissão administrativa que durou preci-
pais eram portugueses que vieram para cá em samente até à altura em que eu cheguei, que foi
1920 e tal. O meu pai era carteiro e a minha mãe levantada a comissão administrativa, que era diri-
doméstica. Vivia numa zona suburbana, na Mafa- gida pelo Estado português e que de novo foram
lala, o que dava efectivamente uma ideia do nível os próprios sócios que começaram a dirigir a pró-
económico da família, porque a cidade de Maputo pria associação. Sou, portanto, da segunda geração
estava concentrada nessa altura nas zonas da Pola- da Casa dos Estudantes do Império. E foi aí que
na. Estudei à custa dos sacrifícios que o meu pai de facto conheci algumas autoridades literárias,
fez e depois, quando terminei o liceu em 1956, fui que desabrochou o meu interesse pela literatura,
estudar para Lisboa com uma bolsa de estudo dos pelos problemas políticos e que ensaiei as minhas
Correios onde o meu pai trabalhava, uma bolsa de primeiras tentativas na área da poesia.
mil escudos. (...) Participei com o Costa Andrade na elaboração
Mas logo então, mal chegado a Lisboa, come- da Antologia dos Poetas Moçambicanos, que foi
cei a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, prefaciada pelo Alfredo Margarido. A primeira foi
precisamente porque a bolsa era pequena e nós tí- feita pelo Luís Pollanah, publicada em 1960, e de-
nhamos um pequeno restaurante onde nos encon- pois saiu a outra, em 1962, publicada pelo Alfredo
trávamos todos, onde vivíamos juntos. De Mo- Margarido, que fez o prefácio. Participei também
çambique havia lá muito poucas pessoas no meu nos jornais Mensagem, da Casa dos Estudantes do
tempo (já era nos anos 1957/58). Estava o Sérgio Império, dirigi um ciclo de teatro na própria Casa
Vieira, o Marcelino dos Santos já tinha saído. Es- dos Estudantes do Império. Portanto pode dizer-se
tavam muitos de Angola, da Guiné, de Cabo Ver- que foi na Casa dos Estudantes do Império, no
de. Estava o Paulo Jorge, estava o Costa Andrade, confronto com as várias personalidades das coló-
conheci o Arnaldo dos Santos, e muitos outros. Da nias portuguesas de então que o sentido político
Guiné-Bissau não me recordo de nenhum escritor. despertou para mim.
Havia vários políticos. De Cabo Verde também A maior parte dos meus colegas do liceu... es-
encontrei vários, por exemplo o Onésimo Silveira, ses não frequentavam a Casa dos Estudantes do
de São Tomé o Medeiros, e várias dessas figuras. Império. Há uma relação entre a minha situação
Sobretudo muitas pessoas que depois vieram a de- económica, de classe, que me fez aproximar mais
sempenhar papéis políticos, entre os quais o pró- deles. De Moçambique havia muito poucos. Do
prio Agostinho Neto. meu tempo havia o Sérgio Vieira, o Luís Filipe

* Professor na Universidade E. Mondlane. Maputo. Excertos da entrevista inserida em Vozes Moçambicanas. Patrick Chabal. Lisboa 1994,
p. 212-216.

151
Pereira, que está aqui a dirigir o Instituto Nacional locado como aspirante a oficial miliciano, numa
de Desenvolvimento e da Educação, e poucos das secretarias do Estado Maior do Exército Colo-
mais. Houve outros que frequentaram a Casa mas nial Português. Em 1961 rebenta a guerra de An-
que tiveram percursos diferentes, o Hélder Mar- gola. E eu, por uma coincidência do destino, era
tins, o nosso antigo ministro da Saúde, houve tam- secretário do ajudante do chefe de Gabinete do
bém o Óscar Monteiro, mais tarde, mas os mo- chefe do Estado Maior General do Exército Portu-
çambicanos estavam mais em Coimbra, com guês, o Luís de Pina. Tinha a vantagem de os do-
actividades um pouco diferentes. cumentos antes de chegarem ao general passarem
Quando já estava no segundo ano de Medicina pela minha mão, portanto tive conhecimento dos
decidi regressar a Lourenço Marques para ir traba- primeiros relatórios sobre a guerra em Angola,
lhar nos Correios, em 1958, depois das eleições do e não deixei de lhes dar o destino que achava bem,
Humberto Delgado. Trabalhei nos Correios duran- embora com todas as prudências. A PIDE era uma
te um ano para fazer Grego, Latim, Português presença invasora, que se encontrava a todos os
e História, para me poder matricular na Faculdade níveis e em todos os lugares.
de Letras. Nessa altura regressei para Lisboa mas A partir daquele momento o exército colonial
fui incorporado em 1959 no serviço militar obri- começou a mandar contingentes para Angola e co-
gatório. Como tinha interrompido os estudos, en- meçaram a aparecer as primeiras listas, particular-
tão, automaticamente era incorporado. Mas em mente de oficiais milicianos. E então eu tinha
1959 não havia nenhuma ameaça de guerra evi- a oportunidade de avisar as pessoas na altura da
dente e como eu era excessivamente alto e magro, sua incorporação. Houve um grande contingente
então fiquei para os serviços auxiliares, de secreta- de estudantes, entre os quais o Chissano, outros
riado e logística do exército, o que foi para mim dirigentes de Angola, da Guiné-Bissau, de São To-
uma grande vantagem porque era um serviço mili- mé, que tinha partido para França, um grupo de
tar mais ligeiro e permitia-me estudar, dava-me 90 e tal que tinham fugido de Portugal, em Setem-
tempo. bro ou Outubro de 1961. E foi assim que em Julho
Foi nessa altura então que me matriculei na de 1961 eu próprio recebi a minha convocatória
Faculdade de Letras a meio tempo em 1960. Fre- para ser mobilizado, evidentemente que decidi não
quentei praticamente um ano só da Faculdade de ir.
Letras e não cheguei a fazer exames. Interessei-me Atravessei clandestinamente a fronteira em Ja-
muito pela actividade teatral, frequentei o curso de neiro de 1962 e depois fui de Espanha para França
teatro do Conservatório Nacional. Contactei com e fui-me juntar ao grupo das pessoas que já ti-
muitos dos que são hoje grandes actores portugue- nham saído. Em Paris os primeiros companheiros
ses, como o Nicolau Breyner e outros. Foi um pe- que eu encontrei foi precisamente o Chissano e o
ríodo muito bom e, obviamente, continuei a parti- Sérgio Vieira. O Marcelino dos Santos já tinha
cipar na Casa dos Estudantes do Império. saído nos anos 50 e estava em Marrocos nessa al-
Foi também a minha estada cá que me enrai- tura. Em França tive que trabalhar numa fábrica
zou mais as minhas tendências nacionalistas vários meses, ainda me matriculei na Sorbonne
e próindependência de Moçambique. O marxismo nalgumas disciplinas. Fiquei com algumas disci-
era nesses anos a tentação de todos os jovens, da plinas feitas em Portugal, outras feitas na Sorbon-
intelectualidade do mundo, e particularmente era ne.
a única solução filosófica, ideológica, que permiti- Participei em Paris na criação na Fundação
ria interpretar o colonialismo. Ser-se marxista nos dos Estudantes Moçambicanos em 1963 e depois,
finais dos anos 50, princípios dos anos 60, não era em Maio de 1964, fui para a Argélia, onde traba-
um prodígio. Era praticamente um percurso natu- lhei na representação da Frelimo e depois, mais
ral e normal. Ainda por cima porque era a oposi- tarde, em 1965, fui para Dar-Es-Salam, onde esti-
ção ao regime fascista. (...) ve até ser expulso em Maio de 1968. Depois nessa
Estive na tropa, fiz aqueles 18 meses que eram altura é que fui fazer os meus estudos definitiva-
obrigatórios e depois fiquei mais um ano. Fui co- mente na Polónia. [...]

152
MANUEL DOS SANTOS LIMA*

[...] P. — Voltando um pouco à primeira per- pensar que, porque era um centro de intercâmbio
gunta sobre o debate intelectual que acompanhou e de troca de ideias, fosse algo em que houvesse
a sua criação literária, seria interessante focar unidade ou semelhança entre os componentes que
a importância que teve a sua estadia fora de Ango- frequentavam a Casa, não. Eu fui membro activo
la. Estou a pensar, precisamente, na Casa dos Es- da Casa dos Estudantes do Império e, através de
tudantes do Império, mas deve haver outros factos inquéritos feitos sobre a situação económica dos
importantes, por exemplo, o congresso em que estudantes que iam à Casa, chegámos à conclusão
participou, em Paris... de que as mesadas, por exemplo, oscilavam entre
Em As lágrimas e o vento refere-se à Casa dos 600 escudos e 3 contos e 500 e que, muito curio-
Estudantes do Império em termos muito negativos. samente, eram os negros que tinham as mesadas
Talvez seja bom citar a passagem: “era antes um mais baixas. Portanto, imediatamente, era fácil re-
centro bastante reaccionário que consagrava as di- ferenciar que o estudante angolano que dançava
visões sócio-raciais existentes nas colónias e onde e comia na Casa dos Estudantes do Império, mas
os estudantes ‘do Ultramar’ se erigiam em revolu- dispondo de 3 contos e 500 de mesada, tinha aces-
cionários a conta-gotas, de óculos e pêra ‘à Lu- so a um standing de vida que o conterrâneo negro
mumba’ mas tirados a papel químico da imagem nunca poderia ter. E isso era um reflexo da situa-
dos seus colegas metropolitanos. O desencadea- ção colonial... Sempre a mesma coisa: a vantagem
mento da insurreição deixara-os tão surpresos do pai branco...
quanto perplexos.” (p. 106). Numa Angola independente, o que é que se
observa? É que os quadros mais válidos não são
M.S.L. — É que a Casa dos Estudantes do Im- negros. E quem ocupa os postos chaves não são
pério teve um aspecto positivo e um aspecto nega- negros. Quem vai nas representações diplomáticas
tivo. O aspecto positivo foi que, num certo mo- — os diplomatas mais capazes — também não são
mento bem preciso, permitiu troca de ideias; negros. Isso explica-se porque, no tempo colonial,
permitiu aos colonizados de todas as colónias por- não se abria uma escola senão quando houvesse
tuguesas terem um ponto de encontro e sobretudo uma população escolar branca que a justificasse;
de consciencialização, de saberem que estavam to- e a ordem de inscrição se fazia segundo a pele:
dos irmanados por um problema comum que era portanto, os miúdos brancos, filhos de brancos, ti-
uma luta de libertação. Mas, nessa mesma Casa nham a primazia; seguiam-se os mestiços, que
dos Estudantes do Império, reuniram-se involunta- continuavam a ser filhos de brancos; e, finalmente,
riamente os futuros carrascos e as futuras vítimas. os negros. Isso explica igualmente que, por exem-
Sempre houve disparidades... é absolutamente falso plo, onde eu vivi, eu tivesse sido o primeiro negro

* Professor universitário e escritor angolano publicado pela CEI em 1961.


Excertos da entrevista inserida em Angola. Encontro com Escritores, Michel Laban, I Vol., Porto 1991, pp. 449-452.

153
a frequentar a escola primária e tivesse que levar tores e Artistas Negros que se realizou na Sorbon-
o meu banco porque nem sequer havia carteira pa- ne em 56 marca, para mim, uma etapa extrema-
ra mim! mente importante na minha vida intelectual na
Na Casa dos Estudantes do Império nós obser- medida em que, pela primeira vez, estou em con-
vávamos por exemplo que nos bailes, certos estu- tacto com uma “intelligentsia” negro-americana
dantes só estavam presentes até um certo momen- que reflecte as minhas preocupações, não só dum
to: depois, o grupo deles desaparecia porque ia ponto de vista espiritual, mas igualmente dum
continuar a noite em festas privadas em que, de ponto de vista social e político. A festa da Negri-
facto, não havia negros... Eram festas de indiví- tude, que foi esse encontro, foi também uma festa
duos com mais dinheiro, que portanto tinham ou- anticolonial. E nessa medida eu senti-me plena-
tras exigências e outras necessidades. Havia esse mente realizado e feliz por ter conhecido, pessoal-
elitismo feito numa base financeira, independente- mente, um Richard Wright, um Senghor, um Jac-
mente das “amizades” e da camaradagem... ques Alexis, o Rabemananjara, os Diop, enfim,
Ora, a partir daí se explica tudo quanto se veio toda aquela gente que participou. Foram uns dias
a passar mais tarde, porque só o ideal político felicíssimos... E esse congresso, depois, valeu-me
é que nos unia... As diferenças sociais de África, as fúrias da PIDE, porque data daí a minha inter-
de Angola, de Moçambique, etc, foram transpostas dição de saída de Portugal como indivíduo nacio-
para a Casa dos Estudantes do Império... E nós sa- nalista, perigoso...
bíamos quem era quem, absolutamente... O outro encontro significativo na minha vida
Conheci indivíduos da Casa dos Estudantes do intelectual foi o encontro com Mário de Andrade.
Império que diziam que numa Angola indepen- Eu não me tornei escritor por ter conhecido o Má-
dente se deveria usar panos, porque os panos rio de Andrade, mas eu liguei-me imediatamente
é que eram a autenticidade angolana... Hoje ves- de amizade com ele porque o Mário de Andrade ti-
tem-se em Paris, Lisboa e Londres! Mas ninguém nha preocupações literárias como eu tinha e, apesar
usa panos... As máscaras caíram. da diferença de idade, eu tinha e tenho uma ex-
traordinária admiração por ele. E é assim que, em
P. — Mas, no mesmo livro, duas páginas termos de geração político-literária, eu estou in-
adiante, fala da importância que teve a Europa pa- comparavelmente mais ligado ao Mário de Andra-
ra a tomada de consciência nacionalista... de, ao Tenreiro, ao Amílcar Cabral e Agostinho
Neto — que me aceitaram entre eles como um
M.S.L. — Sim, absolutamente. A Europa, miúdo que tem as mesmas preocupações — que
e particularmente Paris, pela liberdade que havia certos contemporâneos meus da minha idade mas
em França, isso permitia às pessoas comunicarem que, na verdade, pertencem a outra geração. Quan-
e trocarem ideias muito mais facilmente do que do eles começaram a ter preocupações político-
em Portugal — em que era preciso as pessoas es- -literárias em relação a Angola, já eu as tinha
conderem-se para falarem... Nessa medida, para a partir de 49 com o Mário de Andrade, o Amílcar
a minha geração, quem não tivesse feito a viagem Cabral e outros que eu conheci de perto e lidei...
a Paris não tinha feito a viagem... Porque em Paris E que só a morte de facto separou: foi o caso do
é que havia tudo o que era proibido em Portugal. Tenreiro e do Amílcar Cabral... O Mário de Andra-
E é assim que a participação com o Joaquim Pinto de continua a ser um velho e grande amigo, e uma
de Andrade no I Congresso Internacional de Escri- cabeça que Angola se permitiu desperdiçar. [...]

154
Os Netos de Norton*
ORLANDO DA COSTA**

N ão terá sido por mero acaso que ambos ria não reza, profetiza», dirá Augusto. O que fazia
eram, como nós, contra os decretos e outras deter- juntar gente na rua não era o mesmo que a fazia
minações mais ou menos solenes, e de tudo quanto dispersar. Assim, estiveram ambos na rua, separa-
tivesse origem oficial — discursos laudatórios, co- dos e sem se conhecerem e depois separados e co-
municados, eleições — guardavam, no mínimo, nhecendo-se e, depois, finalmente juntos para se
um hostil distanciamento. Sendo pelos sufrágios, conhecerem à distância que as regras do matrimó-
éramos nesse tempo — e poderíamos não sê-lo? — nio, intimidando, consentem.
contra. A meio caminho das amizades a que não se Foi um tempo fértil e estéril, repetiriam os dois,
conhece termo ou o destino das suas influências, as olhando um para o outro com igual generosidade,
amizades fortes, indecifráveis e outras tantas fortui- de mãos dadas até ao fim inevitável da paixão. Um
tas, partilhámos muitos de nós, submetidos e insub- tempo árduo, devo reconhecê-lo hoje, de diálogos
missos, os cercos gémeos do regime e da oposição, arrastados, monólogos omissos e confissões inco-
a ordem estabelecida. Uma ordem em que fôramos municáveis. Um tempo em que silêncio e sobressal-
catalogados como simpatizantes de uma esquerda tos, podendo, não deviam passar despercebidos,
de alto risco, pois flutuávamos entre uma esquerda noites cumuladas de medos e coragem, madrugadas
legalizável e outra ilegalizada, o que, aliás, esteve de vigília e, ao amanhecer, o inexplicável recomeço
sempre na iminência de ser verdade. Eles cumpri- da esperança. Em quê?, perguntarão. No futuro, nas
ram convenções, espreitando a incastidade, altea- raízes da utopia, nos golpes de Estado ou simples-
ram a voz em centenas de abaixo-assinados e cala- mente no fervor do sonho? (p. 15-16)
ram, com fervor militante e utilidade quase cristã,
as palavras secretas que resguardam as fronteiras — Olhe, é tudo amigos e amigos de amigos.
da lealdade da traição. Mas o silêncio quando alas- A comunidade, a casa comum. Também não conhe-
tra é insalubre, desgasta todos os sentidos, e, quan- ço alguns. — Sorriram ambos um mesmo sorriso
do assim imposto, entorpece um gesto tão natural transbordante de mútua confiança. — Estão todos
e simples como o abraço de dois camaradas. Os aqui — certos brancos, certos pretos e escuros...
que se aperceberam, porém, não chegaram a ser amarelos, acho que não, estudantes todos — para
mais felizes que os outros, igualmente sofredores decidir se devem estar tristes ou alegres com o re-
mas menos infelizes. E talvez não tenha importado sultado das eleições e, entretanto, vai-se bebendo
muito, porque houve, enfim, um tempo real em à saúde que é do que mais precisamos, não acha?
que manifestações públicas foram para eles uma — E você?
demonstração fácil cada vez mais difícil. «A histó- — Eu, o quê?

* Excertos do romance Netos de Norton de Orlando da Costa. O livro contém referências à sua vivência na CEI, entre 1948 e o início da dé-
cada de 50. Embora baseado em factos de ocorrência histórica, tanto as personagens como a matéria romanesca são de domínio puramente
ficcional. (N. A.)
** Escritor português. Presidente da última direcção da Secção da Índia da CEI, em 1951-52.

155
— Já decidiu? Pela alegria ou pelo luto? a nossa identidade, que não pode ser uma pura
Augusto pareceu reflectir intensamente durante questão de mística.» «E o dinheirinho que gastas
um breve momento em que os seus olhos se des- nessas revistas!», interpelava, invejoso, outro.
viaram de tudo e de todos. «O La Pensée; as Nouvelles não sei quê, o L’Es-
— Nem uma coisa nem outra. Somos muitos prit, o Témoignage não sei quantos e sei lá mais
a acabar por sentir do mesmo modo. Mesmo que quê? Aonde vais buscá-lo, aonde? Ao paizinho,
a tristeza nos traga luto para dentro de casa, dá- claro.» «Não! Ao alfaiate, meu caro, ao meu al-
-nos força para chegarmos à janela e regarmos faiate.» Constava que Augusto mandava ao pai,
a sardinheira da nossa estimação. — Aproximou magistrado no final do périplo das colónias, factu-
uns olhos inesperadamente frios. — Ria-se, ria-se ras fictícias do seu escasso mas exigente guarda-
com desdém, que eu não me importo. Acha-me -roupa. Fazia dois ou três fatos por ano e cobrava
um vulgar idealista, mais um para a conta, não é? contas de seis ou mais. Afinal, cultura é cultura, e,
— Não, não. Apenas achei que você tinha fa- ainda que estudante de longa duração, como se
lado como um poeta. Digo-lhe mais: admiro a sua classificava, não podia envergonhar a ascendência,
boa disposição. Que mais quer? que tendo começado aplicadamente como delega-
— Quero que venha ver, a propósito, a minha do em Bicholim, no Estado da Índia Portuguesa,
sardinheira — disse após uma pausa e, pegando- teria de acabar um dia como juiz conselheiro jubi-
-lhe por um braço, levou-a até à janela. Era uma lado na metrópole.
noite morna e enluarada e a sua transparência con- Metrópole era a designação mítica para alguns
trastava com o interior do atelier, onde feixes de de nós, os tais amigos da Casa dos Estudantes do
luz cansada entrelaçavam vultos sentados, estira- Império, que os barcos das Companhias Nacional
dos no chão, vozes e gestos cruzados, retalhando e Colonial de Navegação tinham trazido a todo
o ambiente pesado, apesar da jovialidade. «Sobre- o vapor das áfricas das costas oceânicas do Atlân-
tudo rapazes. Raparigas, contam-se pelos dedos, já tico e do Índico e de ainda mais longe, onde Ca-
era de esperar.» mões outrora arriscara em inspiração, métrica e ri-
— A casa comum, como você lhe chamou. mas todo o seu destino. Padroados do Oriente em
— É. Uma forma de existir resistindo — disse terras de gentios, templos cheirando a sândalo
com ar distraído, enquanto passava o braço es- e açafrão e pagodes guardados por dragões colori-
querdo pelo ombro dela e estendia o outro, apon- dos, onde a cruz missionária foi operando obstina-
tando para o fundo. — Aqueles, por exemplo, são damente o terreno milagre das conversões colecti-
amigos dos primeiros tempos da Casa dos Estu- vas aos rituais do catolicismo.
dantes do Império, sabe? — Gabriela fez que sim Vir à metrópole estudar e licenciar-se já não
com a cabeça. — Além no grupo dos pretos, era apenas um sonho dos próprios a legitimar-se,
o Boavida, o Mário e o Aníbal, vocações revolu- mas uma espécie de objectivo, uma meta a reivin-
cionárias, percebe? Os outros, mais à direita, é a dicar, forma de compensação ou desafio igualitá-
malta dos cineclubes, intelectuais de salão. O que rio, um investimento privado por parte dos proge-
está no chão sentado até é dirigente da JUC, e a nitores, colonos brancos na sua maioria, de vária
moça, pelos vistos moça dele, não sei bem, é a natureza e estatuto, indígenas ascendidos a uma
primeira vez que os topo... — sorriu malicioso — burguesia colonial, assimilados, cruzados, creou-
parece que é herdeira de roças em São Tomé e de los e outros, puros de pele e arrogantes de negritu-
companhias de navegação, dessas que há, por aí, de. Descendentes afastados de sobas e terratenen-
a Colonial, a Nacional, essas que nos trouxeram, tes autóctones de Goa, um dia desembarcados no
a mim e ao Raul, espero que não esteja cá por en- Cais de Alcântara, vindos das terras de suas infân-
gano. — Gabriela riu-se e concedeu um «talvez cia e adolescência, viriam descobrir, eles próprios,
não». — Oxalá — disse Augusto — estamos bem nos pisos acanhados de um prédio de esquina an-
precisados de gente bem colocada, herdeiros corado no Arco do Cego, as pistas que, tirando-os
e herdeiras... (p. 39-40) da marginalidade, condenavam os seus passos e o
seu sotaque à custa implacável dos guardiões do
É uma questão de estar informado. Informado Estado, a Pide.
e de várias fontes, pois a isenção, afinal, somos Augusto chegara à metrópole mais cedo que
nós. Só assim é que se pode pôr à prova e respei- muitos de nós. Viera para interno num colégio de
tar a resistência dos nossos preconceitos e moldar Santo Tirso fazer o liceu e a todos proclamara, à

156
chegada, ser filho primeiro e único de um fidalgo séculos de convivência como há quem designe to-
da metrópole, e que sua mãe se chamava Elefcté- do o período de dominação.» «Cuidado, há que
ria, nome igualmente único no mundo, assegurava, não confundir dominação com convivência tout
e talvez na história. Que tinha morrido nova por court. Diga-se, antes, um certo convívio sob domi-
ser muito bela, como só conseguem ser certos nação.» «De qualquer modo, o exemplo já foi da-
mestiços, cruzamento de gregos e africanos, su- do. A Inglaterra cedeu, acabou por ceder calcula-
cumbindo à doença da melancolia, que só ataca os damente e há o exemplo de Pondichéry e as outras
sensíveis de carne e cintilantes de espírito — di- terrinhas, isso tudo há-de contar» «O que é certo
zia. Por isso, o pai, juiz de carreira, ao ver-se só, é que não está a contar nada, mesmo nada. Quan-
o mandara a ele, filho, para a metrópole estudar do se tem voz própria e esta não é ouvida ou sim-
artes. Augusto guardava pelo pai um sentimento plesmente não há ouvidos para ela... isso é o
de equilibrada e distante admiração desde que en- maior insulto que se pode conceber, porque é co-
tendera que o amor dos seus progenitores fora des- mo falar para alguém que nem sequer se dá ao tra-
de sempre contrariado pela sociedade branca e que balho de fingir que é surdo.» «É por isso que mui-
ambos tinham, à sua nascença, acordado que ele tos pensam que estas coisas não vão com palavras
seria artista. E fora assim que Augusto um dia, e muito menos com meias palavras. Essa é que é a
adolescente ainda, deixara Moçambique, em cuja verdade, meus caros, senão vejamos...» «O tempo
capital nascera, para ir parar a um colégio norte- o dirá.» «O tempo só dirá aquilo que for hoje de-
nho de filhos-família. Depois, foi Lisboa e as Be- cidido.» «O tempo dirá, quer dizer, com o tempo
las-Artes, Lisboa e o Bairro Alto, o princípio de se verá...» «Não! Com o tempo só se verá o fruto
uma eternidade. (p. 43-44) daquilo que for hoje e amanhã semeado.»
(p. 50-52)
Quando me afastei do primeiro grupo onde es-
tive a beber os primeiros e longos copos da noite, Apesar da estatura e dos gestos desenvoltos,
os africanos já só falavam na independência das mas sempre cuidadosos, Raul tinha de facto —
colónias, que se a ditadura não era derrubada aquilo que Augusto dizia ser um estado púdicoeró-
e instaurada a democracia então a solução seria tico congénito — um certo ar tímido e curioso de
a luta armada, se necessário o apelo ao internacio- quem é surpreendido num sítio desconhecido a que
nalismo devido mais do que a ninguém ao Tercei- acaba de chegar. Era o mesmo ar com que desem-
ro Mundo. «Tu também és terceiro mundo, pá. Lá barcara no Cais da Rocha, vindo de Luanda, no
porque não tens carapinha não te julgues jóia da mesmo ano em que o Lourenço Marques — nome
coroa, pá...» «Vocês têm a vida facilitada, é o que de barco, sim senhor — zarpando do porto de Mor-
é. A Índia, a grande Índia apenas espera a reacção, mugão para um turbulento mar Arábico, passara ao
basta vocês dizerem.» «E se não forem ouvidos, se largo do golfo de Aden para penetrar vagaroso no
a vossa voz não chegar à comunidade internacio- mar Vermelho e, a seguir, arrancando de alívio de
nal, a grande Índia encarrega-se disso. Sem preci- Port Said, dias depois de a estátua de Lesseps ter si-
sar sequer da Commonwealth.» A grande Índia, do violentamente apeada por nacionalistas egípcios,
eram palavras que às vezes me soavam a ironia. singrou a fôlego de cruzeiro por um Mediterrâneo
«De qualquer modo era bom que se salvaguardas- muito azul e transparente, para navegar finalmente
se a identidade própria, que entretanto ganhou for- em águas atlânticas e vir-me trazer, igualmente tí-
ma. Uma forma específica de encarar a vida, um mido e curioso, até ao estuário do Tejo.
modo de estar e acreditar, hábitos sociais, novas Foi numa manhã fresca e iluminada de Setem-
tradições, rituais de civilizações que se podem bro e eu trazia também estampado na cara o ar
conjugar.» «Pois, formas culturais que o colonia- meio assustado dos jovens que ao tempo chega-
lismo foi implantando, a religião, a língua.» «Tudo vam do ultramar para cursar na metrópole; um ar
isso podem ser valores tornados positivos e a que acabaria por passar, por se transformar em al-
aproveitar...» «Ou a esquecer, se necessário.» go de mais ou apenas acomodado, isto é, mais
«Claro.» «É isso que vale a pena evitar e, infeliz- conforme com os estatutos da metrópole. Augusto
mente, parece que a metrópole não consente. Há sublimara o lado positivo numa perspicácia de iro-
propostas sérias de autonomia, há propostas de nia, digamos de uma superior subalternidade du-
acordos a estabelecer, há abertura para a salva- rante os anos liceais em Santo Tirso, que conta-
guarda de valores culturais resultantes de tantos ram no final com umas escapadelas ao Porto,

157
onde, apadrinhado não se sabe por quem, teve fosse a primeira vez. Seria o princípio das últimas
o privilégio de pernoitar por duas vezes num lu- notícias sobre o abuso do poder e da sujeição,
xuoso aposento do bordel da tia Micas. «Uma es- o desenlace dos afectos e das falsas identidades?
pécie de tirocínio pré-universitário», dizia. «Malí- Pois foi assim que as novas trombetas de Jericó,
cia e bondade, boas maneiras. Sexo e saber, na fazendo estremecer na metrópole os fortes de Ca-
reclusão como na evasão.» xias e Peniche, sem que, porém, uma só pedra se
Em Raul, porém, o ar desprotegido e natural deslocasse, chegaram a derrubar para os reclusos
manteve as marcas da sua adolescência angolana, do presídio de São Paulo de Luanda grades e tran-
apesar das mutações positivas, afinal, para todos cas, ao clamor dos fogos ateados nos musseques
nós, meros exercícios de forma sobre o tema da negros do Cazenga e do Rangel. Dir-se-ia que era
diferenciação das origens, razão profunda, pois a outra face do mundo.
que antiga no meu caso e voluntariamente parti- Na baixa frívola lisboeta, o aroma do café man-
lhada no caso deles os dois. Apesar da sua discutí- tinha o preço indiferente, enquanto um vento húmi-
vel africanidade, que não estava na pele, era-lhes do e distante fazia arder de paixão a brancura flori-
interior, sentiam-se ambos suficientemente demar- da dos algodoeiros da baixa do Cassange. (p. 101)
cados da metrópole — afinal, nascer e crescer em
terras de África, não fora para eles já um mero — Ela própria não sabe. Apenas acha, perce-
acidente, mas antes factos carregados, no mínimo, bes, acha! Por exemplo, uns vão achar que com
desse sentido colonizador que se pode qualificar divisas e galões não se brinca e que não se deve
de paternalismo e que os obrigaria a um formal re- ironizar com as colónias de África, pois nunca po-
púdio da tribo dos colonos lusitanos e a uma ade- derão deixar de ser nossas, de fazer parte da histó-
são não apenas mas genuinamente lírica de frater- ria, da dádiva, das grandezas e misérias da metró-
na solidariedade com a negritude. «A negritude pole, património indivisível de riscos e sacrifício
será para nós, brancos nascidos e criados na terra comandados pela fé cristã, estás a ver Ricardo?
africana, uma espécie de mito», disse Doty, a rui- É verdade que a Índia foi-se, mas a Índia não pas-
va de Rebello, como ficara conhecida entre nós, sava de um padroado meio-exótico — vocês des-
desde aquela noite no atelier de Augusto. «E os culpem-me, mas é verdade. Longe de ser the jewel
mitos temem-se e, por isso, amam-se ou odeiam- of the crown, a Índia foi, creio que sempre ou pe-
-se.» Seria assim, uma questão de decisão, uma los menos para os tipos da minha geração, uma re-
questão de opção, um caso de má consciência? ferência do passado, sim, do passado histórico, en-
«Não tem nada a ver com tolerância, isso é pater- quanto que as colónias da «Nossa África», como
nalismo confessional. Tem a ver, sim, com opção, dizem os metropolitanos, são uma gigantesca roça
opção responsável, podemos chamar-lhe revolu- por explorar, onde o bom selvagem, que até apren-
cionária», afirmava Doty. deu com veneração, atento e obrigado a língua de
«Não estales o chicote pr’além das tuas forças, Camões e Pessoa, vai finalmente ditar o futuro do
patrão branco. Ao irmão preto basta que lhe dêem futuro da nação... ou o seu colapso. (p. 130-131)
os mesmos direitos, irmão branco.» Este era o prin-
cípio de um poema que circulou na Casa dos Estu- Ia a desembocar no Campo Grande — à sua di-
dantes como uma mensagem clandestina assinada reita a 111, onde Augusto, a seu tempo virá ainda
por um desconhecido sempre suspeito e que deci- a conhecer dias de glória — quando se deu conta
diu dar pelo nome de guerra, pseudónimo artístico, de estar a entoar, descontraído, uma cantiga que há
Lino Gungunhana. «Muito folclórico, o nome...», poucos dias começara a divulgar-se de boca em bo-
houve quem criticasse. «Não passa de uma reivin- ca e que num irónico e intencional ritmo afrocuba-
dicação de igualdade proletária, é bom de ver, feita no insinuava êxodos de gentes, fugas clandestinas,
ao patrão branco...» «Pois é. E é precisamente aí falando de uma certa personagem eventualmente
que se devem criar as bases de unidade do mundo sua conhecida, repetindo-se quase infindável, mais
do trabalho contra o capital explorador, contra o pa- ou menos assim, numa lengalenga de versos apa-
trão branco, é natural.» (p. 73-75) rentemente inocentes e um refrão para ser dito qua-
se em surdina, isto é, entre parêntesis:
«Colonos e indígenas repartem entre si o sabor
do medo.» O continente e o ultramar, a metrópole O preto Boavida
e as colónias entreolham-se com surpresa como se partiu p’ra sempre

158
de Lisboa p’ra Coimbra e que vinha ateando aos seus próprios pés, como
(P’ra Frente, p’ra Frente de Libertação) um rasto de cinzas incandescentes, mais que uma
perigosa indiferença, uma insatisfação generaliza-
O preto Boavida da pela população inteira.
partiu p’ra sempre O poder, numa já indisfarçável crispação, con-
p’ra má vida partiu tinuava a ameaçar encerrar as portas à casa co-
de Lisboa p’ra Coimbra mum que abrigara algumas gerações de estudantes
de Coimbra p’ra frente vindos de todas as terras do império e, a seu man-
do, já fora assaltada, pilhada e fechada a Socieda-
(P’ra Frente, p’ra Frente de Libertação) de dos Escritores, aquela no Arco do Cego, esta
na Rua da Escola Politécnica, ambas no circuito
Deixou o Marítimo do eléctrico Carmo 24, uma e outra acusadas de
Direito e Agronomia subversivas e de propósitos antipatrióticos. Um
o preto Boavida branco de Angola, cumprindo uma pena abusiva
partiu p’ra sempre na Ilha do Sal, ao ganhar o prémio literário do
de Lisboa p’ra Coimbra ano, levava ao cadafalso, não só os escritores me-
de Coimbra p’ra frente tropolitanos que reconheciam o seu talento, como
toda a associação, tanto como vozes de Moçambi-
(P’ra Frente, p’ra Frente de Libertação) que, a do preto e a do missionário branco que, ao
denunciarem, um e outro, o morticínio de Wyria-
Por momentos parecia ter esquecido Gabriela mu e o massacre de Inhaminga, transformariam
e o seu regresso a casa após seis meses de seques- a súplica ancestral de um povo do Sul num protes-
tro prisional, isolamento e provocações, ameaças to universal. (p. 220-21)
e chantagens e os seus múltiplos e perturbadores
semblantes. «Seria o Boavida da canção o mesmo Quanto a mim, finalmente, também sem preci-
Boavida que ele conhecia da Casa dos Estudantes, sar com exactidão quando, Renata imaginou-me
um tal Boavida com quem se cruzara uma noite numa espécie de longa-metragem de um plano só,
muito atrás, ia a malta a sair do atelier do Augus- num cruzeiro para o Oriente, quase em câmara
to, curtindo um luto mal dissimulado pela derrota lenta desde a saída da barra do Tejo, numa traves-
do Delgado, e ele a chegar para recolher Gabriela? sia azul do Mediterrâneo até à costa do Malabar,
Talvez fosse, pois a verdade é que o dito Boavida, o mar Arábico apaziguado após a monção.
tal como o Marcelino e o Mário e tantos outros, ti- Fundeámos, antes do sol se pôr, junto ao cais
nha desaparecido do convívio dos cafés, dos bilha- do velho porto de Mormugão, soterrado por tone-
res, dos bailes do Arco do Cego e do Marítimo, ladas de minério, donde um dia eu partira sem re-
dizia-se à boca fechada que haviam deixado a me- morso, numa despedida de ideais e com o frescor
trópole, alguns já formados, outros a meio cami- dos dezoito anos, desconhecendo as dolorosas
nho dos cursos e das vocações, como contraban- e equívocas ansiedades dos regressos tardios e, so-
distas que se cozem à fronteira e dão o salto dos bretudo, ignorando o súbito temor que, em cada
Pirenéus, qual praga de jovens gafanhotos em bus- dia de viagem a partir do mar Vermelho, se foi em
ca da longínqua e ancestral savana, deslumbrados mim acumulando, de não encontrar, à chegada, en-
ainda pelas luzes de Paris e os fontanários de Ro- tre os sobreviventes da minha geração, ninguém
ma e passageiramente identificados algures numa que me reconhecesse ou a quem eu me pudesse
Argélia de Ben Bella a caminho de um entreposto dirigir numa das duas línguas da minha infância:
africano mais a sul, seria Kinshasa, seria Conak- um sonho tão real e alucinante em que, para seguir
ri?... (p. 187-188) o caminho até à minha casa, onde me esperava
florida a eterna velha árvore de champá, eu era
Assim como assim, foram-se vivendo em to- obrigado a pensar até ao arrependimento que a mi-
das as estações dos anos que se seguiram um tem- nha longa ausência fora o pecado responsável pela
po de luto e de desilusão. mudança de todos os trajectos do labirinto da mi-
Terá sido a década mais prolongada de tensão nha identidade. (p. 266-267)
política gerada por um regime envelhecido na sua
ilimitada cegueira de isolamento e autoridade, Lisboa, Setembro de 1993

159
A Geração da Utopia*
PEPETELA**

Uma escola onde se revelavam novas pátrias com ela. Batiam nas costas de Malongo, segredan-
do, sim senhor, estás a comer do bom. Ele ficava or-
[...] Conversas na Casa dos Estudantes do Im- gulhoso dos olhares gulosos que dirigiam a Denise.
pério, onde se reunia a juventude vinda de África. E o sucesso foi ainda maior quando, depois do
Conferências e palestras sobre a realidade das co- almoço, foram para o salão da Casa conversar.
lónias. As primeiras leituras de poemas e contos Muitos prescindiram do habitual café para ficarem
que apontavam para uma ordem diferente. E ali, no papo com a francesa. Que se revelou adepta do
no centro mesmo do império, Sara descobria a sua FLN argelino, tinha mesmo chegado a militar num
diferença cultural em relação aos portugueses. Foi grupo de apoio à independência da Argélia. Pela
um caminho longo e perturbante. Chegou à con- primeira vez os estudantes ouviam a versão nacio-
clusão que o batuque ouvido na infância apontava nalista dessa guerra que tantas esperanças trouxera
outro rumo, não o do fado português. Que a dese- para África. Denise estava deliciada em poder ex-
jada medicina para todos não se enquadrava com plicar as origens e as principais peripécias da luta
a estrutura colonial, em que uns tinham acesso da Argélia e de como alguns franceses apoiavam
a tudo e os outros a nada. Que o índice tremendo os seus companheiros árabes. Os jornais portugue-
de mortalidade infantil existente nas colónias, se ses só reportavam a versão colonialista francesa.
não era reflexo directo e imediato duma política E advogavam abertamente a tese da extrema direi-
criminosa, encontrava nela uma agravante e servia ta francesa que se organizava na OAS. Era pois
os seus objectivos. E demonstrou essas ideias nu- uma novidade saber que os “terroristas” argelinos
ma palestra que fez com um médico cabo- tinham grandes chefes como Karim Belkacem,
-verdiano, no ano passado. Palestra prudente, com Ben Bella, Aït Ahmed, Ben Kheda, Boudiaf, uns na
cuidadosa escolha de palavras, que lhe valeu mui- cadeia mas em breve libertados, outros preparando
tos aplausos no fim, mas também uma chamada negociações com o Governo de De Gaulle para se
à PIDE, a polícia política, para advertência. Agora chegar à independência. Ouviram falar da batalha
tens ficha na PIDE, cuidado, avisou Aníbal. Os de Argel, da Kabilia e dos Aurès, nomes habituais
pais lá em Benguela souberam do caso, por vias na imprensa, mas agora completamente diferentes,
que só Deus talvez explicasse. Lá veio a carta, pa- revestidos da aura do heroísmo. [...] (p. 67)
gamos-te os estudos para seres médica e não para
defenderes ideias comunistas. Não ponham adjec- Uma barreira subtil...
tivos ridículos, são ideias justas, respondeu ela, sa-
bendo que não os convenceria. (p. 13) Atravessaram a rua, entraram na Casa dos Es-
[...] Levou Denise ao Rialva e à Casa de Estu- tudantes. No primeiro andar era a cantina. Foram
dantes. Foi um sucesso. Todos os companheiros passando por entre as mesas, cumprimentando os
contemplavam a loira e vinham tentar conversar que já estavam instalados. (...)

* Extractos do romance «A Geração da Utopia», D. Quixote, Lisboa 1992. Os subtítulos são da responsabilidade do Editor.
** Escritor e sociólogo angolano. Professor na Universidade Agostinho Neto. Colaborador da Mensagem.

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Sara abstraiu da conversa futebolística que não e mais inquéritos sobre a Casa. Neste momento
lhe interessava e ficou a observar a sala. deve ser o alvo principal deles. Conversas mais
As mesas estavam todas ocupadas, aos grupos sérias, não convém tê-las nem na Casa nem no
de quatro. A maioria era de angolanos, todos mistu- Rialva. Reparaste no tipo com chapéu que estava
rados, brancos, negros e mulatos, estes bem mais sentado ao nosso lado no café? Aquele não engana
numerosos. Os cabo-verdianos, que se misturavam ninguém. Lá no quartel também sinto que me ob-
facilmente com os angolanos, eram quase exclusi- servam. Tenho sempre alguém perto, no outro dia
vamente mulatos. Os guineenses e são-tomenses, a minha estante foi mexida. Os livros estavam ar-
mais raros, eram negros. Os moçambicanos eram rumados, só que não exactamente como os deixo
na quase exclusividade brancos. E tinham tendência sempre.
de se juntar aos grupos. Mesa unicamente constituí- — E tinhas lá livros perigosos?
da por brancos, já se sabia, era de moçambicanos. — Com esses tipos nunca se sabe o que é livro
A british colony, como diziam ironicamente os an- suspeito ou não. Tenho lá a “Autópsia dos Estados
golanos. Claro que havia excepções, como aquela Unidos”, por exemplo. “As mãos sujas” de Sartre.
mesa em que Belmiro, um negro guineense, estava Livros de Filosofia e de História, de todas as ten-
sentado com três brancos moçambicanos. Mas isso dências. “O Processo Histórico” de Zamora, esse
porque Belmiro chegou atrasado e o único lugar é marxista. Mas saberão eles?
vago era naquela mesa. Se pudesse escolher, ia pa- — Mas não te vais pôr agora a olhar para trás
ra outra, até porque a conversa certamente estava constantemente...
mais emperrada que normalmente. Os angolanos ti- — Pode ser paranóia. Mas que mexeram nos
nham menos desses problemas, apesar dos últimos livros, isso mexeram. E que na Casa deve haver
acontecimentos. No entanto, ela sentia, havia muito informadores da PIDE, também é quase certo.
subtilmente uma barreira que começava a desenhar- E ponho a minha cabeça em baixo dum comboio
-se, algo ainda indefinido afastando as pessoas, ten- se o tipo do chapéu não é pide.
dendo a empurrar alguns brancos angolanos para os — Sim, é preciso ter cuidado. A malta está na
grupos de moçambicanos. A raça a contar mais que mira, tem de estar. (p. 19-20) [...]
a origem geográfica? Oh, já estou a ver fantasmas.
Ela própria não notara, ao aproximar-se de grupos Os primeiros passos no caminho da luta
angolanos, algumas caras mais fechadas, conversas
interrompidas? Sim, havia. Era normal. Em Angola Os mais-velhos tinham-lhe encomendado um
tudo estava a tender para uma guerra racial, havia serviço. E Vítor ficara muito orgulhoso, porque
uma repressão selectiva. Isso provocava reflexos pela primeira vez o faziam participar nalguma
em Lisboa. (p. 17-18) [...] coisa. Era muito simples e aparentemente sem
importância. No entanto, já entendia suficiente-
As farras mente o ambiente da Casa para saber que por de-
trás duma coisa banal se escondia algo mais im-
O ambiente estava animado, mas não tinha ain- portante. Os mais-velhos eram estudantes em fim
da chegado ao rubro. Isso só depois da meia-noite. de curso, ou mesmo com o curso já terminado,
Havia talvez uma centena de pessoas no salão, me- que se reuniam em casa dum ou outro, para con-
tade dançava. Foi passando pelos grupos encosta- versarem sobre os assuntos da terra. Muitas vezes
dos às paredes ou nas varandas, cumprimentando. com umas violadas à mistura. Não lhe parecia um
Amigos antigos, que não via há muito tempo, ou- grupo organizado, mas bem podiam ter ligações
tros que vinham de Coimbra ou do Porto. O baile com o exterior. De facto, algum deles por vezes
era o pretexto para as pessoas se encontrarem, refa- lhe passava um papel clandestino ou lhe dava
zerem as amizades. No entanto, havia grupos mais uma explicação mais séria sobre os acontecimen-
fechados e as diferentes fracturas, nacionais ou ra- tos. E transmitia notícias frescas da terra. Mano-
ciais, começavam a ser evidentes. (p. 97) [...] bravam nos bastidores da Casa dos Estudantes,
alguns faziam parte da Direcção, e influenciavam
A repressão decisivamente as eleições nas Assembleias Ge-
rais. Mas tudo aparentemente sem organização
— A situação está séria. Muita repressão, a PI- prévia. (p. 81)
DE anda doida. Devem estar a fazer inquéritos

162
163
Documentos
1. Um Olhar sobre a CEI
(nos Arquivos de Salazar e da Pide)
AIDA FREUDENTHAL*

Q uando na década de 50 a vigilância policial to da estratégia adoptada pelo colonialismo portu-


sobre as Associações Académicas assumiu contor- guês em relação à CEI.
nos mais duros, incidiu fortemente sobre a CEI, Como demonstram alguns estudos inseridos
por uma dupla razão: além de estudantes, permeá- nesta edição, decorreu entre 50 e 65 o período
veis como todos os outros aos novos ventos ideoló- mais agitado na existência da Casa, tanto em Lis-
gicos difundidos no pós-guerra, os «ultramarinos» boa como em Coimbra. Ao longo de uma década,
representavam para o Estado Novo, uma reserva es- uma parte dos estudantes que a frequentavam
pecial destinada à perpetuação do império. Consti- aprofundaram a sua consciência identitária, em
tuíam porém, na eventualidade de alinharem na confronto com uma realidade social que pretendia
oposição ao governo, uma ameaça substancial à descaracterizá-los e por vezes exercia fortes pres-
política «assimilacionista» e à corrente «luso-tro- sões no seu quotidiano.
picalista», na fase da sua recuperação pelo Estado É sabido que o momento político propiciava
Novo. na época o despertar dos jovens para as questões
Partindo da vivência quotidiana na CEI e da culturais e políticas. Uma vez expressa internacio-
consciência que os sócios mais activos então parti- nalmente a condenação do colonialismo formal,
lhavam acerca dos limites impostos à sua actuação nos anos que se sucederam ao fim da 2.a Guerra,
no campo associativo, formulámos uma questão: tornou-se visível uma agitação crescente entre os
em que medida coincidiam a realidade interna da estudantes originários da Índia, então muito nume-
Associação e a(s) imagem(s) que dela tinham as rosos na Casa. A independência da União Indiana
estruturas governamentais directamente empenha- e as frequentes acusações de Nehru ao colonialis-
das no controlo político da CEI? mo português não podiam deixar de atrair a sua
Viabilizado o acesso aos Arquivos de Salazar atenção ao mesmo tempo que desencadeavam dis-
e da Pide (não só pelo tempo entretanto decorrido cussões acaloradas. Não tardaram as pressões do
sobre os acontecimentos como pela acção persis- governo sobre o meio académico, mas apesar da
tente e decisiva de investigadores como Fernando histeria da propaganda oficial, os estudantes india-
Rosas), a leitura dos documentos existentes relati- nos recusaram repudiar publicamente as declara-
vos à CEI possibilitou o conhecimento de algumas ções de Nehru em 1951, o que deixou as autorida-
versões oficiais, nomeadamente a propósito dos des estupefactas1, mas determinadas a intensificar
confrontos mais graves que opuseram a Associa- a repressão policial.
ção, na segunda década da sua existência, aos su- Como era previsível no contexto de um regime
premos interesses da política colonial. Dessa leitu- autoritário, a repressão sobre as posições políticas
ra resultou a selecção de documentos que se dos estudantes das colónias, acompanhou de perto
afiguraram mais significativos para o entendimen- a contestação e o debate ideológico cada vez mais

* Mestre em História Contemporânea. Centro de Estudos Africanos e Asiáticos — IICT.

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alargados entre os jovens. Esse debate ter-se-á ini- quietava-as o facto de persistir um certo retraimen-
ciado em Coimbra, onde a questão colonial terá to no convívio com os estudantes da «metrópole».
por certo suscitado opiniões contraditórias e inevi- De facto que barreiras subtis levariam os estu-
táveis “fracturas” entre os estudantes africanos dantes das colónias a não se juntarem frequente-
e os estudantes indianos2, produto de diferentes mente com os do «continente»? Que temas alimen-
expectativas acalentadas por cada grupo. tariam os seus debates conspirativos? Eis algumas
Como medida preventiva, não só foi imposta das questões que determinavam a busca de infor-
à CEI a comunicação ao Ministério da Educação mação pela Pide dentro do próprio meio estudantil.
dos corpos gerentes eleitos, a fim de serem homo- Sabe-se por testemunhos vários que existiam
logados3, como foi nomeada pelo governo a pri- de facto contradições entre os estudantes das coló-
meira Comissão Administrativa em 30.5.1952. nias, quer por motivos económicos, quer por ra-
A fim de iludir o controle de que a CEI era al- zões ideológicas e culturais. Se é certo que nem
vo, as actividades associativas promovidas pelos todos concebiam do mesmo modo o futuro dos
sócios foram esvaziadas do seu eventual conteúdo seus países, tão pouco se regia por imperativos
político, enquanto os estudantes mais politizados idênticos a sua actuação cívica no quadro do Im-
buscavam outros locais onde pudessem exprimir pério, compreendida entre extremos de acomoda-
opiniões e reflectir mais profundamente sobre ção e de resistência. Porém face à «metróple»,
a questão colonial: em Lisboa fora criado em 1951 afirmava-se uma unidade mais profunda, que res-
o Centro de Estudos Africanos de acesso restrito guardava amizades e cumplicidades de infância
e alguns estudantes frequentavam o Clube Maríti- e de adolescência, de bairro e de escola, de vivên-
mo4, envolvendo-se paralelamente nas lutas acadé- cias culturais que a língua comum cimentava
micas e nas campanhas eleitorais; em Coimbra, e que a propaganda oficial não conseguia anular
frequentavam o Ateneu5 e trabalhavam na Asso- junto da maioria dos estudantes.
ciação Académica. Apesar do subsídio que a dele- Assinalava a PIDE em 1955 que a Direcção da
gação de Coimbra recebia da sede, as decisões da CEI, composta por negros cabo-verdianos e gui-
Comissão Administrativa eram também frequente- neenses e só um vogal branco, proporcionava uma
mente iludidas, afirmando-se uma autonomia cres- «forte propaganda separatista» que se suspeitava
cente face às ingerências oficiais. fosse feita junto de «elementos nativistas» residen-
Exprimia oportunamente o ministro do Ultra- tes em Coimbra. Ignora-se a veracidade desta acu-
mar Sarmento Rodrigues, a sua preocupação pela sação. Certo é que a politização crescente, em parte
formação entre os «ultramarinos» aparentemente tinha a ver com os contactos mantidos pela CEI
segregados de outros universitários, de um «espíri- com o Ateneu e com elementos da esquerda portu-
to de grupo»6, fortalecido pela vivência comum no guesa (do PCP e do MUD Juvenil) e com o grupo
Lar da Casa. Afirmava ainda o ministro que oposicionista da Associação Académica, ao qual
a «unidade nacional» podia estar ameaçada no fu- era aliás cedido o espaço da CEI para as suas reu-
turo, lançando os estudantes num «campo político niões. Encontrava-se já em marcha a contestação ao
adverso» se não se adoptasse uma política que in- Dec. 40 900, pelo que a estratégia estudantil acon-
tegrasse nos mesmos organismos, estudantes por- selhava com efeito a união de esforços entre grupos
tugueses e estudantes das colónias7. com algumas afinidades, neste caso ideológicas, no
Em 1955, na sequência das diligências ofi- sentido de romper com a tutela exercida pelo Mi-
ciais, seria feita uma inquirição sobre a CEI, junto nistério da Educação sobre a Academia9.
do Presidente da Associação Académica de Coim- Como foi já referido por outros autores10, as
bra e dois estudantes angolanos, um dos quais fora suspeitas oficiais sobre a CEI, acumuladas ao longo
director da Casa. Confirmavam eles o isolamento dos anos 50, levaram algumas vozes a preconizar
dos «ultramarinos de cor» ou o seu afastamento o encerramento da Casa, já que a sua simples exis-
voluntário do convívio coimbrão, o que não deixa- tência alimentava «uma consciência gregária» entre
va de levantar suspeitas quanto à sua fidelidade ao os estudantes das colónias. A Pide em Coimbra era
Estado Novo8. acérrima defensora dessa tese11. Pesando no entanto
Se a aparente «cisão» entre estudantes indianos os argumentos pró e contra, outras entidades consi-
e africanos dava às entidades policiais certas espe- deravam que a sua extinção da CEI colocaria pro-
ranças, pela suposta dificuldade de entendimento blemas ainda maiores, nomeadamente ao desenca-
entre os próprios «ultramarinos», por outro lado in- dear protestos internacionais no seio da ONU.

168
O ano de 1960 constituiu um ponto de vira- a comprovada adesão de alguns sócios ao PCP e
gem na actividade política dos estudantes africa- sobretudo aos Movimentos de Libertação depois
nos, ao torná-los mais conscientes e decididos de 61, factores responsáveis pela decisão do go-
a intervir. A isso não era alheia a conjuntura inter- verno português de operar a asfixia financeira da
nacional: afinal foi esse o ano das independências Casa através do corte dos subsídios oficiais, efec-
africanas, activando campanhas anticoloniais à es- tuado a partir de Janeiro de 1963, preparando des-
cala mundial. se modo a sua falência a curto prazo.
No início da década de 60, quando as indepen- Nesse contexto, limitadas pela contenção das
dências africanas vieram intensificar o debate despesas, as actividades da Casa foram restringi-
ideológico, o fermento nacionalista actuou junto das ao essencial, ao mesmo tempo que o número
dos estudantes da CEI que participaram entusiasti- de sócios diminuía, provocando o esvaziamento
camente nesse movimento. Embora se desconheça gradual da CEI. Um grupo ainda considerável de
a sua verdadeira autoria, em seu nome foi difundi- estudantes teimou no entanto em mantê-la viva
do um documento que abalou os responsáveis da apesar das dificuldades internas e do apoio decla-
política colonial. A Mensagem ao Povo Portu- rado das AA em 1962-6315 a uma frente comum
guês, distribuída em Novembro de 196012 os estu- contra o governo.
dantes africanos denunciavam violações e abusos A consolidação de uma linha dura no regime
praticados nas colónias africanas, exigindo o fim a partir de 63, em estreita relação com a guerra co-
do regime colonial através da abertura de negocia- lonial, consumaria o fecho da CEI em Setembro de
ções entre os movimentos de libertação e o gover- 1965 e consequente apreensão dos seus haveres16.
no português, a fim de evitar uma previsível guer-
ra já anunciada. A partir de então o regime decidiu Durante a consulta do Arquivo Salazar, entre
o assalto final à CEI13, não apenas como «antro de a volumosa documentação sobre o Ultramar, o Par-
comunistas», mas o que era muito mais preocu- tido Comunista e a Educação, confrontámo-nos
paste, como centro de difusão de propaganda anti- com uma aparente escassez de informação sobre
colonial no próprio coração do Império. a CEI, contida apenas em algumas cartas e relató-
Além disso, enquanto as ligações com organiza- rios lacónicos, dirigidos ao Presidente do Conselho.
ções do exterior ajudavam a estruturar de modo Numa primeira avaliação, ainda que admitida
mais eficaz a acção política interna, proporcionaram a hipótese de eventuais extravios de documentos,
igualmente condições de fuga. Aquela que se tornou esta situação parece remeter a «questão CEI» para
mais notória foi a de estudantes negros e mestiços, um plano muito secundário no trabalho quotidiano
ocorrida em Junho de 1961, que envolveu estudan- de Salazar. Poderá daí deduzir-se que o assunto
tes da CEI e núcleos de estudantes protestantes14. assumia de facto uma importância restrita, reflec-
Compreensivelmente, a «fuga» constituiu de facto tindo a convicção inabalável do ditador num «Por-
um rude golpe nas expectativas oficiais. Por outro tugal uno e indivisível» que umas centenas de es-
lado, constituiu elemento de legitimação histórica tudantes não poderiam jamais abalar e muito
para alguns intervenientes no processo das indepen- menos destruir?
dências tendo sido objecto de versões contraditórias. Em contrapartida, encontram-se no Arquivo da
Tanto as motivações dos participantes, como os pre- PIDE17 dados fundamentais acerca da CEI, embo-
parativos e os apoios obtidos para a fuga têm susci- ra claramente orientados para o objectivo essen-
tado juízos controversos, que a investigação históri- cial: a identificação dos suspeitos de ligações polí-
ca irá por certo esclarecer nos próximos anos. ticas com o Partido Comunista e de defensores de
Apesar da hesitação demonstrada pelas autori- teses anticoloniais. Seria esse o banco de dados
dades portuguesas ao adiar sucessivamente sobre a CEI, constituído em processos individuais,
a adopção de medidas drásticas contra a CEI, pre- que habilitaria a Pide ao exercício da repressão em
ferindo exercer ao longo dos anos uma fiscaliza- tempo oportuno.
ção através de informadores e interferindo por me- Registe-se porém a escassez de textos de análi-
diação de Comissões Administrativas e da polícia se da problemática fundamental relativa aos estu-
política, a partir de 1960 adivinha-se a adopção de dantes das colónias. Sendo altamente improvável
uma estratégia menos contemporizadora. que as estratégias adoptadas pelo governo não te-
Para tal contribuíram o nível de politização nham sido precedidas de debate político entre os
crescente manifestado nas actividades da CEI, responsáveis da Educação, do Ultramar e dos or-

169
8 Relatório Secreto de 1955, já citado na Nota 2).
ganismos repressivos (PIDE), há que prosseguir a 9 Idêntica atitude durante a crise académica de 1961-62 quando
pesquisa noutros fundos documentais. De facto até a CEI de Lisboa acolheu a RIA e os seus sócios aderiram em massa
ao momento desconhecem-se as análises dos res- ao movimento estudantil e à greve. (Actividades políticas dos estu-
ponsáveis pela política colonial sobre o sector es- dantes universitários portugueses. Relatórios de 6.02 e de
8.02.1961, AOS/CO/UL32C) P. 2.
tudantil africano, as quais poderiam esclarecer 10 Ver os artigos de Fernando Rosas e de Cláudia Castelo nesta
muitas outras interrogações em torno da CEI. edição.
11 Relatório n.o 27 de 12.12.1960. PIDE/DGS. Pr. 3767 (fls. 56-

-58) Doc. 6.
12 Enviado por correio em Coimbra em 28.11.1960. PIDE/DGS
1 Ofício confidencial de 9.4.1951. ANTT. PIDE/DGS, Pr. 329/
Pr. 3767. (fls. 53-54) Doc. 5. Ver artigos de C. Castelo e F. Rosas.
46/SR (fls. 339 a 340). 13 Parecer do Presidente do Conselho num ofício do Director da
2 Relatório Secreto sobre a Acção da CEI em Coimbra —
Pide de 21.12.1960. PIDE/DGS Pr. 3767 (tis. 51-52). Doc. 7.
[1955]. ANTT AOS/CO/PC 51A, 2.a subd. Doc. 3. Informação n.o 1112/61-GU.PIDE/DGS Pr. 329/46 S.R. Pasta 5.
3 Ofício de Janeiro de 1951 e Ofício de 26.6.1963. ANTT. PI-
Doc. 8. (cit. por C. Castelo). Êxodo de estudantes africanos de Por-
DE/DGS, Pr. 329/46/SR (fls. 343 a 350 e fls. 4 e 5, respectivamen- tugal. Informação da PIDE de 23.10.1961, AOS/CO/PC-81/2.a
te). Informação ao Comissário da MP, Gonçalves Rodrigues, de subd. Doc. 9.
20.01.1955. ANTT. PIDE/DGS, pr. 3767. 15 Informação n.o 65/62 SC. com Auto de Busca e Apreensão.
4 Informação de 14.5.1958. ANTT. PIDE/DGS, Pr. 329/ 46/SR.
PIDE/DGS. Pr. 329/46 SR. Pasta 5. Ver Doc. 10. Comunicado con-
(fls. 227). junto das AA e da CEI ] 19631. PIDE/DGS Pr. 329/46 SR. Ver
5 Informação de 3.9.1954. Doc. 2. Relatório 10/954 de
Doc. 11.
30.11.1954. ANTT.PIDE/DGS, Pr. 3767. Doc. 4. 16 Auto de Busca e Apreensão (2.9.1965). PIDE/DGS. Delega-
6 Informação ao Presidente do Conselho de 19.8.53. AOS/CO/-
ção de Coimbra. Pr. 3767 (fls. 16-27).
UL-20, Pasta 13/2.a subd. 17 Agradeço à Dr.a Cláudia Castelo as referências ao Arquivo da
7 Carta do Ministro do Ultramar ao Presidente do Conselho de
PIDE/DGS relacionadas com a Casa dos Estudantes do Império,
21.12.1952, AOS/CO/UL-20, Pasta 13/1.a subd. Doc. 1. que me facilitaram substancialmente a pesquisa.

170
Doc. 1

171
172
173
174
Carta do Ministro Sarmento Rodrigues a Salazar.

175
Transcrição do Doc. 1 — Carta manuscrita enviada pelo Ministro do Ultramar, Almirante
Sarmento Rodrigues, ao Presidente do Conselho de Ministros, Dr. Oliveira Salazar

Lisboa, 21.12.52

Senhor Presidente:

A Casa dos Estudantes do Império é um problema que muito me preocupa, assim co-
mo a Liga Nacional Africana de Luanda e ainda outras manifestações de isolamento ou se-
paração, quer de lá, quer de cá, mesmo as Casas da Metrópole, como agora se encontram.
Quanto à primeira, tenho falado às vezes no assunto e tenho recebido sugestões. Acaba
de me chegar às mãos uma, dum dirigente da Mocidade Portuguesa, Daniel Filipe. Não me
adiantou muito, mas confirma-me um estado de espírito.
A minha ideia foi sempre acabar com um organismo que segrega os estudantes e os
lança num campo político adverso, ameaçando no futuro a própria identidade nacional. É o
fruto que dali sai. Mas como acabar?
Pensei na Mocidade Portuguesa. O memorial que agora recebi reprova essa atitude e eu
sei que qualquer medida frontal levantaria as maiores objecções e daria de início muito
maus resultados.
Para mim o ideal seria criar aqui em Lisboa uma casa, uma instituição, que pudesse re-
ceber e reunir os estudantes portugueses daquem e dalem mar. Então sim, que não haveria
segregação; ao mesmo tempo poder-se-ia exercer uma orientação eficaz. A Moc. Port.a te-
ria nela parte dominante. Ali caberiam os estudantes do Ultramar que apenas se poderiam
distinguir pelos benefícios, porventura maiores — ter preferência em maior percentagem
— a que lhes daria direito o subsídio que o Ultramar concedesse.
Em suma, acabar com o que está, pura e simplesmente, iria levantar um problema as-
sistencial importante. Entregá-la à Moc. Port.a, teria reacções muito más, imprevisíveis,
por se tratar de estudantes.
Solução: nomear já uma comissão, dos Min.os da Ed. e do Ultramar (Dir.ção Geral do
Ensino Superior, Mocidade Portuguesa, Dir.ção Geral do Ensino do Ultramar, Casa dos Es-
tudantes do Império) para estudar a organização dum Lar dos Estudantes Universitários em
Lisboa, onde fossem admitidos os de cá e os de lá, em percentagens equivalentes aos sub-
sídios globais da Metrópole ou do Ultramar.
Isto, Senhor Presidente, que apresento enfaticamente como solução, não passa, afinal,
duma primeira ideia para a qual peço a crítica e a orientação de Vossa Excelência.
Com os mais respeitosos cumprimentos
De V.a Ex.a
Seu Admirador Atento e muito Grato

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Doc. 2

177
Doc. 3

A Acção da “Casa dos Estudantes do Império” em Coimbra*


1. Em cumprimento do determinado por Sua de Lisboa a Direcção de Coimbra recusou-se
Ex.a o Ministro, para averiguar da possibilidade da a acatar as suas decisões e tem tomado desde aí
“Casa dos Estudantes do Império” em Coimbra uma atitude de independência quase total limitan-
estar exercendo uma acção subversiva no meio do-se a receber os subsídios que são enviados de
académico ultramarino daquela cidade, foram tro- Lisboa.
cadas impressões com o Presidente da Associação
Académica e com dois estudantes angolanos um 4. Direcção e massa associativa da Casa
dos quais fora director daquela Casa.
Resumem-se a seguir os pontos principais que Tem-se verificado grande actividade durante
se conseguiram averiguar. os períodos de eleições para a Direcção por parte
dos elementos de cor.
2. Isolamento dos estudantes ultramarinos A actual Direcção é constituída por elementos
negros de Cabo Verde e Guiné com excepção de
Segundo as declarações prestadas começou um dos vogais que é branco. Além disso parece
a notar-se, há cerca de um ano, que os estudantes ter-se sempre verificado uma política de Provín-
de cor deixaram de frequentar a “baixa” subtrain- cias, visto a Casa ter sido controlada sucessiva-
do-se ostensivamente ao convívio extra-escolar mente por indianos, moçambicanos e angolanos.
com os seus colegas brancos. O facto foi estranha- Quanto ao número de sócios parece ser de cer-
do por não haver qualquer segregação racial em ca de 200.
Coimbra quer (sic) por parte dos outros estudantes. Na opinião dos estudantes com quem falámos
Simultaneamente deixaram de organizar as ha- não há indivíduos de real valor entre os estudantes
bituais festas e bailes na CEI o que provocou de cor. Tal facto poderá vir a ser mais prejudicial
o afastamento de numerosos estudantes brancos. aos interesses nacionais por que uma vez formados
O desejo de isolamento foi levado ao ponto de e regressando às suas províncias, terão maiores difi-
colocarem tabuletas proibindo o estacionamento culdades em se colocarem o que os levará a um es-
em frente ao edifício. tado de espírito de revolta e de inadaptação.
De notar que existe uma cisão notável entre
o grupo dos estudantes indianos e o grupo dos ne- 5. Propaganda separatista
gros.
Segundo algumas das declarações ouvidas há
3. Dependência da CEI fortes suspeitas, outras dão o facto como certo, de
que na Casa se organiza uma forte propaganda se-
Foi este um ponto que se mostrou difícil de paratista, tendo ficado com a ideia de que uma vez
esclarecer. colocado na Direcção um núcleo separatista, esse
Segundo parece a CEI de Coimbra depende, grupo procura agora aliciar contactando-os isola-
ou deveria depender, da Casa-Mãe em Lisboa damente, os elementos ultramarinos que não per-
a qual por sua vez depende dos Ministérios da tencem ou não são assíduos na Casa.
Educação Nacional e do Ultramar. Segundo algumas informações existiria troca
Contudo quando, há cerca de 3 anos**, foi no- de correspondência entre a Direcção e elementos
meada uma Comissão Administrativa para a Casa nativistas locais.

* Relatório Secreto [1955]. ANTT — AOS/CO/PC-51A — 2.a Subd. P. 2.


** Esta referência permite datar a informação de 1955.

179
Uma das funções essenciais da Casa é a acção cebem delegação. Por outro lado dão ao estu-
social por intermédio da concessão de subsídios dante ultramarino uma consciência gregária
e bolsas de estudo. local que é inconveniente para os interesses
Parece que esta actividade tem sido exercida nacionais.
com discriminação intencional além do que o nú- A política mais conveniente seria dispersá-
mero de bolsas concedidas parece exceder os seus -los por várias Casas de Estudantes sem dis-
subsídios o que levaria à conclusão de que esta- tinções geográficas a fim de lhes afastar
riam a ser financiados directamente por elementos quaisquer ideias de segregação racial e de
ultramarinos ou outros. procurar assimilá-los ao meio metropolitano.
De notar que esta opinião foi expressa pelo
6. Reuniões políticas na Casa estudante ultramarino, ex-Director da CEI
com quem falámos e que chegara, ainda du-
Um grupo de estudantes esquerdistas, alguns rante o seu período na Direcção, a propor
abertamente comunistas, assedia frequentemente a extinção da CEI.
a Direcção da Associação Académica com pedidos b) Contudo a hipótese do encerramento da Ca-
para a realização de reuniões nas suas salas, reu- sa por pressão governamental teria reper-
niões essas que, aparentemente inocentes, têm fi- cussões políticas muito desfavoráveis e cer-
nalidade política. tamente conduziria aos, já habituais,
Esse grupo é notório pela oposição à Direcção protestos junto da ONU e de algumas po-
tendo-a atacado constantemente nas Assembleias, tências estrangeiras.
utilizando uma táctica de manifesta inspiração co- c) O processo seguido na obtenção do controlo
munista. da Casa tem muitos pontos de contacto com
Ora já há alguns meses perante a recusa da Di- a táctica comunista e pode filiar-se na acção
recção de os deixar utilizar as suas salas, entravam de uma minoria agressiva de tendências se-
em contacto com a Direcção da Casa que os autori- paratistas (certamente animada e apoiada
zou a utilizarem as suas instalações, e onde realizam por elementos comunistas metropolitanos
as reuniões com grande frequência. Foi este um fac- como o prova a autorização para a realiza-
to que levou um dos estudantes com quem trocá- ção de reuniões) que conduziu ao afasta-
mos impressões a afastar-se da frequência da Casa. mento voluntário da maioria dos estudantes
sem tendências políticas firmes.
7. Possível influência americana A experiência prova-nos que uma vez entri-
cheirados nessas posições o seu afastamento
Das perguntas que fizemos sobre possíveis con- será difícil.
tactos com a propaganda anticolonialista americana d) Como solução imediata para ocaso apenas
não obtivemos quaisquer respostas concretas apenas podemos indicar a seguinte:
nos tendo sido indicado que, há tempos, uma se-
nhora americana se dirigiu ao Reitor da Universida- — Animar e apoiar alguns elementos ultra-
de pedindo-lhe autorização para entrar em contacto marinos nacionalistas para que interes-
com os elementos académicos protestantes a fim de sando-se novamente pelos assuntos da
tomar conhecimento dos seus problemas. Tal autori- Casa possam pela sua acção alterar o ru-
zação foi-lhe negada com o fundamento de que não mo dos acontecimentos.
havia protestantes em Coimbra. — Quanto aos métodos que teriam de utili-
zar aconselharíamos que seguissem tácti-
8. Conclusões ca semelhante à comunista: prolonga-
mento exagerado das assembleias,
Dos factos apontados anteriormente parece po- convocações extraordinárias, petições,
derem tirar-se as seguintes conclusões: etc., procurando dificultar ao máximo
a acção directiva.
a) É de duvidar da vantagem da existência das
Casas dos Estudantes do Império. Parece-nos essa uma forma de eliminar a ac-
A acção social poderia ser exercida por ou- ção inconveniente que exerce actualmente a Casa
tros organismos académicos que para isso re- dos Estudantes do Império de Coimbra.

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Doc. 4

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185
Doc. 5
MENSAGEM AO POVO PORTUGUÊS
Os estudantes universitários naturais das colónias africanas de Portugal, na quali-
dade de futuros dirigentes dos seus respectivos Países, sentem-se no dever de ex-
por ao Povo Português o seu ponto de vista àcerca das acusações feitas na ONU
contra o Governo Português.
Tendo acompanhado com a maior atenção o desenrolar dos acontecimentos nas
altas esferas internacionais — através da Rádio e da Imprensa estrangeiras, e não
das portuguesas pelos seus permanentes atentados à verdade — compreendemos
que estavam a ser tratados com sensatez e espírito construtivo problemas vitais para
os nossos Povos. Damos todo o nosso apoio às referidas acusações e apresentamos
mais algumas:

1) A existência de trabalho forçado na Guiné, S. Tomé, Angola (em particular em


Porto Alexandre, Baía dos Tigres e Foz do Cunene), Moçambique (em particu-
lar na Foz do Limpopo);
2) A exportação de trabalhadores indígenas de Angola e Moçambique para as minas
da União Sul Africana (onde chegam a ser castrados a fim de darem melhor ren-
dimento no trabalho) a troco de certas compensações como o pagamento ao Go-
verno Português da Taxa Pessoal Anual relativa aos indígenas exportados;
3) As fomes que, por culpa da imprevidência e incompetência dos representantes
do Governo Português, periodicamente têm vitimado milhares de vidas em Ca-
bo Verde, sendo de 17.000 (dezassete mil) o macabro saldo da última crise;
5) A concentração de forças militares repressivas nos nossos Países;
6) O massacre que em 1951 vitimou 900 (novecentos) indígenas de S. Tomé, aba-
tidos por civis europeus armados pelo Governador Gorgulho;
7) A inexistência de universidades e insuficiência de escolas do ensino médio pri-
mário.

POVO PORTUGUÊS

Nas manifestações organizadas pelo Governo de Salazar meia dúzia de estudan-


tes subornados têm abusivamente pretendido representar a opinião das colónias por-
tuguesas. Com energia, repudiamos essas traições à verdade e aos interesses dos
nossos Povos. A melhor prova de que a verdade está muito longe do que afirmam
a Rádio e a Imprensa controladas por Salazar, está no facto de nenhuma das Asso-
ciações dos Estudantes Ultramarinos ter aderido às manifestações. A própria Assem-
bleia Magna da universidade de Coimbra rejeitou a sua participação em qualquer
manifestação de apoio à actual política colonial portuguesa.

POVO PORTUGUÊS

É nosso maior desejo o estabelecimento de relações de amizade com todos os


povos que mostrem desejos de colaborar connosco numa edificação democrática
dos nossos Países. No entanto, sentimos particular preferência pelo Povo Português,
dadas as suas elevadas qualidades de compreensão e afabilidade no contacto inter-
raças.
Para que as nossas esperanças num futuro de apertada colaboração com Portugal
não saiam frustradas é necessário pôr termo aos preparativos da [ilegível] para uma
nova guerra colonial, onde correrá o nosso sangue e o sangue da vossa sacrificada
Juventude.
Fazendo nossas as reivindicações constantes da Declaração do MOVIMENTO PO-
PULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA, consideramos como sinal de boa fé do Go-
verno Português o cumprimento do seguinte:

187
— Reconhecimento solene e imediato do direito dos povos das colónias africanas de
Portugal à autodeterminação;
— Amnistia total e incondicional e libertação imediata de todos os prisioneiros políti-
cos;
— Estabelecimento das liberdades públicas, nomeadamente a de formação legal de
partidos políticos, e garantias concretas para o exercício efectivo dessas liberda-
des;
— Retirada imediata das forças armadas portuguesas e liquidação imediata das bases
militares existentes nas colónias africanas de Portugal;
— Convocação de Mesas Redondas constituídas por representantes de todos os par-
tidos políticos das colónias e por representantes do Governo Português, para a so-
lução pacífica do problema colonial português, no interesse das partes em pre-
sença.

POVO PORTUGUÊS: Acabamos de apresentar o ponto de vista dos estudantes uni-


versitários das colónias africanas de Portugal no desejo de contribuir para uma
solução pacífica do conflito que nos opõe, não ao Povo Português, mas à Ditadura
de Salazar, defensora dos interesses monopolistas que roubam os nossos recursos
naturais e depauperam os nossos Povos com um trabalho escravizados. Os mono-
pólios que exploram os nossos Países põem em perigo a Felicidade e a Paz dos
nossos Povos e arrastam o Povo Português para uma guerra inútil e suicida.

VIVA A PAZ E FRATERNIDADE ENTRE OS POVOS — ABAIXO O COLONIALISMO!

— Este documento será divulgado em Portugal, nas colónias e no estrangeiro.

ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS REPRESENTANDO AS COLÓNIAS DE:


ANGOLA — CABO VERDE — GUINÉ — MOÇAMBIQUE — S. TOMÉ E PRÍNCIPE.

Panfleto dactilografado distribuído pelo Correio com carimbo de Coimbra, 28.11.1960. ANTT.PIDE/DGS. Pr. 3767. CEI.

188
Doc. 6

189
190
Relatório da Delegação da PIDE de Coimbra [1960].

191
Doc. 7

193
194
Doc. 8

Informação N.o 1112/61-GU*

Fuga de Estudantes Ultramarinos gola eles ocupariam cargos directivos no exército,


enquanto outros se destinavam a tomar parte na
Desde meados do mês de Maio deste ano que luta formando o escol intelectual, para o que lhes
esta Polícia possui informações de que elevado seria possibilitado iniciarem novos cursos ou con-
número de indivíduos de cor, principalmente estu- tinuarem os cursos que frequentavam em Portugal
dantes e outros relativamente novos e com alguma em diversos países da Europa, para o que seriam
cultura, iriam tentar sair da Metrópole, com o fim subsidiados por uma «comissão de refugiados»,
de atingirem Paris, seguindo depois dali para ou- dependente da tal «Organização de Protecção aos
tros países, a fim de darem a sua colaboração aos Povos Subdesenvolvidos», que conseguiria bolsas
elementos terroristas que vêm actuando contra de estudo nos países onde eles fossem estudar.
a permanência de Portugal nas províncias ultrama- Os indivíduos nestas condições seriam os res-
rinas de África. ponsáveis pela política e pela administração de
Iniciadas as diligências a fim de se tentar conhe- Angola, uma vez conseguida a independência.
cer os meios de que dispunham e que permitissem Aos indivíduos que pretendiam aliciar foi-lhes
a saída em massa de naturais das províncias ultra- também dito que em meados do mês de Junho fin-
marinas portuguesas, tanto mais que se sabia que do chegaria a Portugal um diplomata suíço que se
a grande maioria sairia indocumentada ou com do- encarregaria da elaboração dos passaportes daque-
cumentação falsa, conseguiu-se apurar o seguinte: les que iriam sair, pelo que deveriam entregar
A «Casa dos Estudantes do Império» fun- duas fotografias tipo passe.
cionava, em Lisboa, como o principal centro re- Era-lhes indicado que logo que fossem avisa-
crutador, dizendo o aliciador ao pretendido alicia- dos deveriam seguir para a cidade do Porto, onde
do, que estavam tentando fazer sair do País, na Estação de S. Bento estaria um agente de liga-
o maior número de estudantes ultramarinos e pa- ção à sua espera; que não poderiam levar mais de
triotas angolanos que desejassem trabalhar a favor cinco quilos de bagagem e que teriam de levar mil
da independência de Angola, saída essa que se fa- escudos que se destinavam a pagar a passagem de
ria ilegalmente, mas com toda a segurança, visto barco para passarem a fronteira. A partir daquela
ser dirigida por uma «Organização de Protecção cidade, o transporte seria feito de automóvel em
aos Povos Subdesenvolvidos». direcção a uma fronteira do Norte.
Acrescentava que os indivíduos que saíssem Soube-se também que em Maio do corrente
do País, uns destinavam-se a tomar parte activa na ano, o chamado «MPLA — MOVIMENTO PO-
luta que actualmente se trava em Angola, sendo PULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA», co-
previamente treinados em escolas de preparação meçou a organizar os seus serviços e a criar «dele-
militar, que funcionavam em Marrocos, no Iraque gados» em várias localidades do Continente com
e na Argélia, tornando-se assim os futuros chefes vista ao recrutamento de todos os ultramarinos
militares dos guerrilheiros que lutam em Angola que se encontram na Metrópole começando, como
e orientadores dos campos de treino para terroris- é óbvio, pelos angolanos.
tas que funcionam na República do Congo (ex- Conhecem-se pormenores de aliciamentos fei-
-belga) e que na futura nação independente de An- tos em Lisboa, Coimbra e no Porto, sendo interes-

* Enviada pela PIDE à Presidência do Conselho e a vários ministérios em 4 de Julho de 1961.

195
sante salientar que entre os aliciados até agora co- tempos fixado em Paris, declarou, entre outras ca-
nhecidos figuram oficiais milicianos da Força lúnias, que vários oficiais e soldados foram deti-
Aérea e do Exército, sabendo-se que alguns deles dos por se recusarem a seguirem para Angola,
já abandonaram clandestinamente o País. tendo outros fugido.
Conhece-se igualmente que alguns dos alicia- A confirmar a acção exterior, comandada pelo
dos, receando o futuro, pretendiam obter passapor- «MPLA — MOVIMENTO POPULAR DE LI-
te pelas vias legais mas, devido às providências BERTAÇÃO DE ANGOLA», organização terroris-
que foram tomadas com vista a impedir a conces- ta que funciona nos moldes do «partido comunis-
são de passaporte a naturais do ultramar suspeitos, ta», ao qual aliás está ligado, pormenor que
foi então intensificada a campanha para a saída é necessário considerar para se poder concluir do
clandestina e quase todos os que haviam sido elevado grau de perigosidade que representa todo
abordados, entregaram as duas fotografias pedidas. este conjunto de factos para a Segurança interior
Por tudo quanto tem sido possível saber as ra- e exterior do País, está o facto do seu principal diri-
parigas ultramarinas, mesmo as que se encontram gente, MÁRIO COELHO PINTO DE ANDRADE,
detidas, nada sabem sobre a forma como se pro- comunista activo, ter sido recebido pelo Presidente
cessaria a passagem da fronteira e tudo o mais que do Conselho da República do Senegal, havendo
se seguisse, não há dúvida, porém, que deram as a esse respeito o Ministro da Informação daquele
fotografias que lhes pediram e que se prestavam país declarado, que o Presidente da República tam-
a acompanhar os seus namorados de quem, por bém o receberia, acrescentando que ele poderia
sua vez, receberiam as indicações necessárias no contar com a simpatia das autoridades senegalesas.
momento oportuno. Aquele Ministro teria também afirmado, numa
Não restam dúvidas que se mostra de grande conferência de Imprensa, que o MÁRIO COELHO
amplitude o êxodo de estudantes ultramarinos e a PINTO DE ANDRADE não só desejava ir à Uni-
clandestinidade de que se reveste a forma como versidade de Dakar acolher os estudantes angola-
actuam e para o demonstrar, basta referir que um nos expulsos de Portugal por se teremm recusado
oficial miliciano tendo pedido autorização para ir a pegar em armas contra a sua «pátria», mas
a Coimbra fazer um exame — autorização que lhe também examinaria com o governo senegalês
foi dada particularmente — cumprindo a determi- a possibilidade de abrir naquela cidade um «bu-
nação de abandonar o País, seguiu para França, reau de informação e de apoio à sua organização».
parece que na companhia de um irmão, nunca Parece também estar prevista uma conferência
mais regressando ao Quartel. de Imprensa a dar em Dakar pelo MÁRIO COE-
Julga-se que a organização que visa promover LHO PINTO DE ANDRADE, que dizem preten-
a saída do país de jovens ultramarinos, estende-se der expor a situação de Angola, a qual teria o pa-
não só ao estudantes, mas também a outros indiví- trocínio do jornal «UNITÉ AFRICAINE», órgão
duos de cor, principalmente a funcionários dos oficial do partido governamental senegalês —
serviços públicos, admitindo-se até que, aqueles UNIÃO PROGRESSIVA DO SENEGAL.
que por razões especiais não possam sair da Me- Até agora temos, portanto, em ligação com
trópole, tenham recebido missões que podem con- o movimento de ultramarinos que surgiu agora na
siderar-se «actos de sabotagem fria», como seja Metrópole, além do «MPLA», seu organizador,
a intercepção de correspondência nos CTT, des- a «Organização de Protecção aos Povos Subdesen-
truição ou alteração de certos documentos em Re- volvidos», organismo de que até agora não tínha-
partições Públicas, etc. mos ouvido falar, mas dada a coincidência de tam-
Parece que tudo isto significa que uma actua- bém dizerem estar ligado ao movimento um
ção comandada do exterior terá possibilidade de diplomata suíço, não nos repugna pensar que se
alastrar em manifesto prejuízo de Portugal e, não trate de qualquer organismo controlado pelo cen-
há dúvida que existe uma organização empenhada tro de subversão e espionagem soviético, fixado
nessa luta, não só pela afirmação que é feita aos em Berna, tanto mais que há algum tempo foi
aliciados de que serão protegidos pela «Organiza- anunciado que os chamados «MOVIMENTOS DE
ção de Protecção aos Povos Subdesenvolvidos», LIBERTAÇÃO DAS COLÓNIAS PORTUGUE-
mas também porque, na «Conferência Europeia de SAS» iriam instalar um escritório naquela cidade,
1961», realizada recentemente em Oslo, o comu- nunca mais se tendo ouvido qualquer notícia, cer-
nista SILAS COUTINHO CERQUEIRA, desde há tamente porque, dada a sua natureza subversiva,

196
interessasse mais que as suas actividades clandes- coisas, poderiam ter seguido para o seu país por
tinas permanecessem ignoradas do grande público. rota mais curta e, por conseguinte, mais prática
É bem evidente que todas as actividades de na- e mais económica. (fls. 150-152)
turais das províncias ultramarinas portuguesas [...] Em face do que ocorre actualmente com
a que nos vimos reportando, não teriam alcançado os estudantes e outros naturais do ultramar, não re-
as proporções que alcançaram, se, a par das directi- pugna acreditar que os contactos do «MPLA» e da
vas que recebem do exterior, não estabelecessem «UPA», assim como as respectivas ligações, foram
igualmente contactos com agentes subversivos, tan- possibilitadas, além do mais, por todos esses pas-
to de países comunistas, como de capitalistas sageiros em trânsito, especialmente afro-asiáticos,
e afro-asiáticos, que, a pretexto não se sabe de quê, que inexplicavelmente durante meses desembarca-
chegam a Lisboa de avião com o rótulo de «passa- ram em Lisboa, aguardando aqui durante dois, três
geiro em trânsito» e deixam-se aqui ficar um ou ou quatro dias, avião que os levasse ao seu desti-
dois dias, tempo mais que suficiente para levarem no, o que teriam conseguido facilmente utilizando
a cabo as tarefas que lhes incumbiram de executar. carreira aérea diferente. (fls. 153)
Assim, é frequente permanecerem em Lisboa,
um ou dois dias, liberianos que, vendo-se bem as 4/7/961

197
Doc. 9

Informação N.o 1546/61-GU*

Êxodo de Estudantes Africanos de Portugal


Data de Origem: Agosto de 1961

De uma fonte geralmente bem informada e dig- Agosto deste ano. Por outro lado eles pediram que
na de confiança, recebemos a seguinte informação: fosse feita uma subscrição entre os camaradas da
Guiné e Cabo Verde. O LUÍS DE ALMEIDA
JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA SOUSA é que deve controlar os fundos recebidos.
HORTA e LUÍS DE ALMEIDA, dirigentes da As autoridades de Conakry tendo-se apercebi-
«UNIÃO GERAL DOS ESTUDANTES DA do destas dificuldades, enviaram a Paris, em
ÁFRICA NEGRA SOB O DOMÍNIO PORTU- Agosto, o Dr. EDUARDO DOS SANTOS, do
GUÊS — UGEAN», esforçam-se, em ligação com «MPLA», que viaja com um passaporte guineense
a «UNIÃO INTERNACIONAL DOS ESTUDAN- sob a falsa identidade de MARCEL CAMARÁ,
TES — UIE», com sede em Praga e ainda com a fim de contactar com a Embaixada da República
a colaboração de AMILCAR LOPES CABRAL da Guiné, para regular o problema dos estudantes
«ABEL DJASSI» e HUGO JOSÉ AZANCOT DE angolanos refugiados em França.
MENEZES, em provocar o êxodo dos estudantes Junta-se uma relação dos estudantes naturais de
africanos residentes em Portugal. Angola que se encontram refugiados em França.
A «UGEAN» não dispõe de recursos suficien-
tes para fazer face às despesas resultantes desse NOTA: Sabe-se que os estudantes das provín-
êxodo, tendo o JOSÉ CARLOS HORTA obtido, cias ultramarinas portuguesas refugiados em Fran-
em Julho deste ano, cinco bolsas de estudo da ça, benficiaram de diversas «ajudas» para ali che-
«UIE» e a promessa da concessão de outras, no garem.
caso de existirem vagas quando as aulas recome-
çarem. Assim, em 2/7/61, eram esperados em Hen-
Sob a pressão da «UGEAN» e crentes de uma daya por TATIANA METZEL, francesa, nascida
acção da polícia portuguesa, várias dezenas de es- em Berlim e «assistente protestante das prisões»,
tudantes têm-se refugiado no estrangeiro, mesmo tendo sido acompanhados por três americanos —
antes de fazerem os exames. DAVID WARDELL POMEROY, HOWARD JO-
A situação destes estudantes é bastante precá- NES KIMBALL e WILLIAM J. NOTTINGHAM.
ria, tanto mais que a «UGEAN» viu recusado Eram portadores de «salvo-condutos» passados
o pedido que fez ao «PAI — PARTIDO AFRICA- por uma embaixada africana em Paris e de certifi-
NO DA INDEPENDÊNCIA» e ao «MPLA — cados passados pelo serviço ecuménico protestante
MOVIMENTO POPULAR DA LIBERTAÇÃO CIMADE, nos quais esta organização declarava
DE ANGOLA», de fundos para eles. tomar a responsabilidade das formalidades admi-
Os dirigentes da «UGEAN» esperavam obter nistrativas e das despesas de subsistência destes
subsídios e bolsas de estudo no «FORUM DA JU- estudantes durante a sua permanência em França.
VENTUDE», realizado em Moscovo em Julho/ [...]

199
Doc. 10

201
202
203
204
Doc. 11

Campanha de solidariedade à

CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO


A Casa dos Estudantes do Império, Associação que na Metrópole agrupa e representa os Estudantes
Ultramarinos, vive momentos bastante difíceis.
Os subsídios que lhe eram atribuídos pelos orçamentos das Províncias Ultramarinas, foram cancelados
pelo Ministério do Ultramar em Janeiro de 1963, sob justificação de lhe não serem concedidos enquanto
não fossem aprovados os Estatutos da Associação, entregues nos Ministérios da Educação Nacional e do
Ultramar em 20 de Maio de 1962.
Conhecedores, pois, da posição que então lhes foi posta, têm os Dirigentes da Casa dos Estudantes do
Império vindo a desenvolver deliberada actividade, no sentido de que a aprovação dos referidos Estatutos
se fizesse o mais urgentemente possível, pois dela dependia e depende a sobrevivência da Associação.
Pois bem! Não obstante terem aqueles dirigentes afirmado nos citados Ministérios, sempre e inequivo-
camente, a gravidade da situação, o problema parece não ter merecido por parte destes últimos as necessá-
rias atenções, e uma resolução justa e natural; mas antes pelo contrário o seu adiamento “sine die” —
e adiar não é resolver — confirmado no silêncio e nas respostas ambíguas daqueles Ministérios que bem
parecem estar interessados na morte da Casa dos Estudantes do Império por asfixia económica — que
sendo lenta é extremamente angustiosa, que por velada intenta não dar nas vistas.
Sem aquelas verbas, destinadas na sua quase totalidade ao pagamento das rendas da Sede e do Lar da
Associação, esta dificilmente poderá sobreviver. E o certo é que a situação de centenas de Estudantes Ul-
tramarinos depende da sobrevivência da CEI, que lhes dá o amparo moral, cultural, social e económico.
Tendo em conta estes factos, vimos solicitar-te, uma contribuição, ainda que pequena, para a Casa dos
Estudantes do Império.

SOLIDARIEDADE PARA A CEI!

SOLIDARIEDADE PARA O ESTUDANTE ULTRAMARINO!

A CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO

AS ASSOCIAÇÕES DOS ESTUDANTES DE LISBOA

205
2. Carta aos jovens coloniais de Lisboa*

Queridos amigos: da pele, das crenças de cada um, da sua função na


sociedade, porque estamos animados da nossa
1 — Destina-se esta reunião à discussão dos grande generosidade juvenil, do nosso amor por
problemas da orientação e dos problemas práticos todos os homens, mulheres, jovens e crianças; por-
que são postos pela criação efectiva de uma frente que reconhecemos que essa generosidade e amor
única da Juventude Portuguesa e da Juventude das podem encontrar-se e dar-se as mãos por cima de
colónias portuguesas, na luta por um futuro melhor. todas as barreiras que nos queiram impor... Porque
Nela participam, de um lado o MUD Juvenil, sabemos, em última análise, que os nossos interes-
representado pela sua C.C., do outro, jovens das ses e aspirações se completam.
colónias portuguesas, alguns deles aderentes acti- 2 — O problema da mobilização da juventude
vos do MUD Juvenil. das colónias portuguesas veio a ser posto na or-
Por que sucede isto assim, por que há necessi- dem do dia pela organização dos grandiosos Con-
dade duma discussão em que sejam confrontadas gressos Mundiais da Juventude e dos Estudantes
as opiniões da C.C. do MUDJ com a de jovens co- e do grandioso Festival Mundial da Juventude pela
loniais progressistas, alguns dos quais aderentes Paz e Amizade.
activos do MUDJ? A C.C. considera que os dois factos mais notá-
Porque o problema da unidade dos jovens por- veis, do ponto de vista do MUDJ, destas realiza-
tugueses e dos jovens das colónias portuguesas ções, são: Por um lado, a participação nelas dos
põe alguns problemas de orientação e de organiza- jovens portugueses e coloniais que assim abriram
ção acerca dos quais não parece haver unanimida- a primeira brecha na verdadeira «cortina de ferro»
de entre a direcção do MUDJ e alguns jovens pro- com que há mais de 20 anos se procura isolar a ju-
gressistas das colónias portuguesas, entre os quais ventude portuguesa do convívio com os seus ir-
alguns aderentes activos do MUDJ. mãos e irmãs dos outros países do mundo; por ou-
Por que é possível e necessária esta discussão tro lado, o facto de nessa representação terem
e por que todos acreditam que dela advirá um re- estado presentes os jovens de Moçambique, Ango-
sultado positivo, que grandemente interesse à ju- la, Goa, Guiné, S. Tomé e Cabo Verde, quer dizer,
ventude portuguesa e aos jovens das colónias por- aos jovens de Moçambique, Angola, Goa, Guiné,
tuguesas? S. Tomé e Cabo Verde, quer dizer, aos jovens des-
Porque em nós, jovens portugueses e jovens tas colónias portuguesas, pela acção do MUDJ, foi
das colónias, reside uma firme vontade de alcan- possível participarem em realizações de tão gran-
çar para os nossos povos uma vida feliz, liberta do de alcance para a consolidação, desenvolvimento
medo, miséria e obscurantismo, onde a felicidade e vitória final das juventudes e povos oprimidos,
seja possível para todos independentemente da cor pela sua libertação.

* Documento da Comissão Central do MUDJ. Publicado na revista Vértice, n.o 72 Maio-Junho 1996, p. 15-22.

207
O estudo dos documentos dos Congressos, «I — Consideramos que as colónias portugue-
o exame das actividades do Festival mostram-nos sas são países africanos ou asiáticos dominados
bem a importância que neles teve o problema da lu- por Portugal.»
ta antifascista e as perspectivas que se nos abrem, «II — Consideramos que as populações desses
a nós todos, jovens do país colonizador e jovens países são constituídas por colonos portugueses,
dos países colonizados, para o reforço da luta pelos agentes do colonialismo, e pela população coloni-
nossos direitos e aspirações mais queridas. zada: os povos africanos ou asiáticos.»
Da participação nos Congressos de Bucareste «III — Consideramos que esses povos coloni-
e Varsóvia e no Festival de Bucareste resulta para zados têm o direito de dispor dos seus próprios
nós todos uma grande responsabilidade especial. destinos e, portanto, têm o direito à independência
Ao MUDJ, como organizador dessa participação, nacional.»
cabe a grande responsabilidade: «IV — Consideramos que, para o melhora-
no plano da luta juvenil nacional, de consolidar mento das condições de vida dos povos coloniza-
e alargar a brecha aberta na barreira oposta à juven- dos por Portugal, bem como para o progresso ma-
tude portuguesa caminhando para diante no convívio terial e cultural dos mesmos e para a manutenção
internacional dos rapazes e raparigas portugueses; da Paz no mundo é imprescindível a sua indepen-
no plano da luta dos jovens coloniais, encarar dência nacional.»
com mais atenção e vigor o auxílio a dar aos jo- «VIII — Consideramos que qualquer organiza-
vens coloniais progressistas, realizar a aliança fra- ção de jovens africanos ou asiáticos necessita do
ternal dos jovens portugueses e dos jovens das co- apoio das organizações democráticas portuguesas
lónias portuguesas para a sua luta comum. e que estes jovens devem dar todo o seu apoio às
Aos jovens coloniais, sobretudo àqueles mais lutas dos democratas portugueses. Consideramos
esclarecidos e activos, compete a responsabilidade ainda que, na luta contra o colonialismo, é neces-
de não se pouparem a esforços para a realização sária a colaboração entre os colonizados e os ele-
desta união, na metrópole, e para a mobilização de mentos progressistas da classe colonizadora.»
jovens dos seus países para a luta local pela reso- É opinião da C.C. do MUDJ que aos povos afri-
lução dos seus problemas. canos e asiáticos que vivem nas colónias portuguesas
À medida em que soubermos corresponder cabe o direito de escolher os seus destinos, indepen-
a estas responsabilidades será a medida do nosso dentemente de as actuais colónias (portuguesas ou
amor pela juventude dos nossos países e da nossa não) corresponderem aos elementos populacionais
fraterna amizade juvenil. mais lógicos e mais de acordo com as características
No sentido de facilitar a discussão dos proble- políticas, económicas, culturais, técnicas, etc., das
mas que temos pendentes, elaboraram determinados populações do continente africano ou asiático.
jovens coloniais algumas teses de que fizeram en- Reconhecemos, portanto, aos povos das coló-
trega à C.C. Pensamos que podemos cingir a nossa nias portuguesas o direito à sua independência na-
presente discussão à análise dessas teses, já que per- cional, dentro da solução mais justa do problema
mitirá uma aproximação muito valiosa dos pontos das nacionalidades que eles venham a encontrar.
de vista mais justos. Não podemos pretender nesta Reconhecemos que os povos das colónias por-
reunião, parece-nos, um esclarecimento total de to- tuguesas se encontram dominados pelo colonialis-
dos os problemas, nem um entendimento unânime mo português, o qual não permite a realização da
e completo acerca de todos os pontos. Também nes- Independência Nacional desses povos.
ta carta não pretendemos abordar todas as questões Esta posição tem sido sempre a do MUDJ, pu-
que realmente interessam. Mas pensamos que dare- blicamente manifestada a propósito da chamada
mos hoje um importante passo em frente; que esse Índia Portuguesa.
passo será mais positivo se a discussão for levada, Esta posição não nos permite, no entanto, con-
na medida do possível, aos muitos jovens coloniais siderar justos os termos em que é exposta a tese II.
que aqui não podem estar; se desta discussão resul- Assim, parece-nos que não corresponde à realida-
tarem conclusões práticas e actuação justa imediata, de e não permite, consequentemente, uma orienta-
dentro das ideias que hoje aqui aprovamos. ção justa, o considerarmos que as populações dos
3 — As teses I, II, III, IV e VIII apresentam-se países colonizados por Portugal se dividem entre
intimamente ligadas, por isso as ligamos desde já. colonos portugueses (agentes do colonialismo) e
Aí dizem os amigos: população colonial (povos africanos ou asiáticos).

208
Tal posição parece-nos artificial, na medida ralelamente com a Independência Nacional do
em que pressupõe que a contradição fundamental nosso país que, também, ao mesmo tempo que co-
na fase actual das colónias portuguesas se dá, por lonizador, é dependente tradicionalmente do impe-
um lado, entre os colonos portugueses no seu con- rialismo inglês e, na fase actual, cada vez mais do
junto e, por outro lado, entre as populações indí- imperialismo americano.
genas. Tal divisão não leva em linha de conta que Mas acreditamos que a luta da juventude por-
o conjunto «colonos portugueses» não é de modo tuguesa, segundo o programa oferecido pelo
nenhum um conjunto homogéneo com interesses MUDJ, no plano das reivindicações económicas,
idênticos que se opõem livremente aos das popu- culturais, desportivas, recreativas e políticas como
lações indígenas. educa e forma para a conquista duma situação na
Tal divisão não leva em linha de conta que en- qual esses problemas possam ser efectivamente re-
tre os «colonos portugueses» se encontram, duma solvidos.
banda, os agentes do colonialismo português e es- Ou seja: a luta dos jovens portugueses pelas
trangeiro (crescentemente americano), colocados suas reivindicações imediatas é uma luta insepará-
nos postos de comando e exercendo uma ditadura vel e a forma mais importante de participação da
política e económica férrea através das grandes juventude na conquista dum regime democrático
companhias monopolistas, da organização corpora- e de Independência Nacional no nosso país.
tiva e dos órgãos de governo coloniais; e, de outra Nós, direcção do MUDJ, consideramos que só
banda, a grande massa de trabalhadores portugueses um regime democrático em Portugal, que realize
estabelecida nas colónias, em grande parte fugida a nossa Independência Nacional, poderá seguir
às dificuldades de emprego e remuneração na me- uma política consequente de Paz e entendimento
trópole, a pequena e média burguesia das colónias, com todos os países e traduzir desta maneira os
asfixiada, perseguida e prejudicada através da orgâ- anseios pacíficos e de cooperação internacional do
nica corporativa, dos órgãos de governo e dos mo- nosso povo.
nopólios coloniais. Tal divisão conduz a uma visão Mas acreditamos que a luta juvenil pela Paz
injusta do modo como a luta dos povos coloniais se e pelo entendimento, contra a corrida aos arma-
deve orientar, pois que subestima o valor da aliança mentos e a militarização do país, pelas relações
entre todas as camadas da população das colónias económicas e políticas com todas as nações, com-
portuguesas cuja situação económica e política, na bate profundamente o agravamento das nossas
fase actual, lhes permite um carácter progressista. condições de vida, a participação de Portugal em
Tal divisão artificial na fase actual das coló- manobras belicistas, a sujeição nacional no campo
nias portuguesas não poderá deixar de se manifes- dos fomentadores de guerra, e é uma contribuição
tar, assim o cremos, na forma como pelos jovens poderosa para a Paz no mundo.
coloniais foi encarada a aliança entre os povos co- Do mesmo modo:
loniais e as camadas progressistas do povo portu- 1.o — A luta da juventude das colónias portu-
guês numa luta comum e, em particular, no que guesas, entendida apenas e, na fase actual, nos ter-
respeita à aliança entre a juventude colonial e os mos duma luta pela Independência Nacional, não
jovens portugueses para a realização das suas jus- encara a importância da luta dos jovens coloniais
tas aspirações, que, aliás, é reputada necessária aliados a todas as camadas progressistas coloniais,
nos termos da base VIII. pelas suas reivindicações imediatas, contra o tra-
4 — Parece-nos que os termos em que é ex- balho escravo, o roubo das terras pelas grandes
posta a tese IV, embora justos em si mesmos, re- companhias, os maus tratos e a política de discri-
velam uma limitação quanto à compreensão da lu- minação racial, a política colonial imperialista
ta dos povos asiáticos e africanos das colónias e obscurantista, a prostituição, o asfixiamento das
portuguesas. actividades comerciais, industriais e agrícolas da
Nós, direcção do MUDJ, consideramos que só pequena e média burguesia colonial, etc...
a instauração dum regime democrático em Portu- 2.o — A luta das juventudes coloniais pelas
gal permitirá o «melhoramento das condições de suas reivindicações imediatas, a sua participação
vida» da juventude portuguesa, bem como o nosso na luta dos seus povos, aliada às formas próprias
«progresso material e cultural». de luta pela Paz, é uma poderosa contribuição
Consideramos que a instauração dum regime contra o aproveitamento para a guerra dos imensos
democrático em Portugal tem de se caminhar pa- recursos naturais africanos e contra a utilização de

209
mão-de-obra e dos soldados africanos para a sub- recreativo e político, para a luta pela Paz, numa
jugação de outros povos colonizados ou mesmo larga base de unidade que englobe os jovens indí-
europeus. genas das camadas mais atrasadas das fábricas,
3.o — A instauração dum regime democrático dos campos e dos cais, os jovens «assimilados»
em Portugal é da mais alta importância para os dos escritórios, das escolas e dos empregos públi-
povos colonizados por Portugal, já que se não po- cos, os jovens colonos sem distinção de cor, sexo,
demos encarar a solução do problema colonial ideias políticas e religiosas;
português apenas nessa base, a luta dos povos co- 5.o — O MUDJ considera que cabe à juventu-
loniais pela sua independência é simultânea da lu- de portuguesa e em especial aos rapazes e rapari-
ta do povo português pela libertação do jugo in- gas generosos organizados no MUDJ a honrosa ta-
glês e americano e só um regime democrático em refa de auxiliar por todas as formas a luta dos seus
Portugal permitirá ao povo português ajudar fra- irmãos das colónias portuguesas vulgarizando
ternalmente os povos coloniais no seu desenvolvi- a sua situação, condenando os preconceitos racis-
mento. tas e a mentalidade colonialista, ajudando-os orga-
4.o — A realização da Independência Nacional nicamente e com a sua experiência de luta, facili-
dos povos colonizados por Portugal, bem como tando e auxiliando o contacto dos jovens das
a própria Independência Nacional do nosso país, colónias portuguesas com os seus irmãos em luta
está intimamente ligada com o robustecimento em todos os campos do Mundo.
crescente da luta dos povos do Vietname, da Co-
reia, da Malásia, da Argélia, da Guiana, da Tunísia, 5 — Discutiremos seguidamente as ideias con-
de Marrocos, do Quénia, etc., pela sua indepen- tidas nas teses V, VI, VII, IX, X e XI.
dência; com o apoio crescente das forças progres- «V — No que respeita aos jovens africanos ou
sistas de todo o mundo à luta desses povos; com asiáticos residentes em Portugal, quer estudantes
a solução dos problemas das nacionalidades sobre quer funcionários ou trabalhadores, achamos que
tão vastas regiões da terra como a URSS, a China, eles devem organizar-se de modo a terem em aten-
grande parte da Europa. ção principalmente os problemas concernentes aos
seus próprios países; portanto, a organização da
Da análise que fizemos destas 5 teses apresen- base nacional seria aquela que se procurará reali-
tadas à discussão podemos pois concluir os se- zar logo que possível.»
guintes princípios gerais, que norteiam o MUDJ «VI — Pelo número e consciência desses jo-
quanto ao problema da juventude das colónias vens africanos ou asiáticos que se encontram em
portuguesas: Portugal, achamos que, neste momento, é desde já
1.o — O MUDJ reconhece o direito à Indepen- possível organizá-los dentro de centros de interes-
dência Nacional dos povos das colónias portugue- ses existentes ou a formar, onde se procuraria en-
sas; globar o maior número possível, nomeadamente:
2.o — O MUDJ considera que a Independência Casa dos Estudantes do Império, Clube Marítimo
Nacional dos povos das colónias portuguesas será Africano, Grupo Desportivo do Ultramar, Centro
assegurada pela aliança das populações indígenas de Estudos Africanos.»
das colónias portuguesas com as camadas progres- «VII — Nesses organismos haveria Comissões
sistas do colonato português e com as camadas Executivas de jovens progressistas a eles perten-
progressistas do povo português na metrópole, centes, cuja acção seria centralizada por uma Co-
através da luta em comum pelas reivindicações missão Coordenadora da qual sairiam delegados
imediatas dos nossos povos, pelas suas liberdades a integrar em Comissão ou Comissões do MUDJ,
políticas fundamentais, pela Paz; por exemplo, a IU.»
3.o — O MUDJ considera que essa luta está «IX — Consideramos que a integração pura
vigorosamente facilitada pela força crescente da e simples dos jovens africanos ou asiáticos em Co-
luta mundial pela independência Nacional dos po- missões do MUDJ dos respectivos locais de traba-
vos oprimidos; lho, desde que não haja uma ligação entre si, seria
4.o — O MUDJ considera que a juventude das improfícua e sem grande interesse prático para o fo-
colónias portuguesas se deve mobilizar imediata- mento do movimento dentro dos respectivos países
mente para a luta pelas suas reivindicações ime- também porque achamos que a luta democrática de-
diatas, no plano económico, cultural, desportivo, ve processar-se através dos interesses nacionais.»

210
«X — Consideramos que a integração de um do MUDJ. Parece-nos portanto que devemos
delegado colonial na IU, sem que ele represente orientar os jovens estudantes coloniais progressis-
uma organização de base, é inaceitável.» tas a enfileirarem nas comissões e nas actividades
«XI — Sugerimos a publicação dum ‘boletim do MUDJ sem distinção de raça. Esta é, aliás,
colonial’ para divulgação dos problemas coloniais a orientação que têm seguido muitos estudantes
entre os portugueses e para distribuição larga coloniais, alguns dos quais dos aderentes mais ac-
quanto possível nas colónias, como contribuição tivos do sector académico do MUDJ. Por outro la-
para a consciencialização dos jovens africanos ou do, devemos constatar que são os estudantes que
asiáticos das colónias, combate ao racismo, etc...» nos oferecem também, neste momento, as possibi-
A discussão destas teses envolve problemas de lidades de contacto e de mobilização de outros jo-
concretização da orientação definida na parte ante- vens coloniais não estudantes. Parece-nos, portan-
rior desta carta. Parece-nos que é útil salientar an- to, que devemos ter isto em consideração nos
tes de mais um princípio, que nem por ser orgâni- primeiros passos a dar.
co na aplicação deixa de ter uma importância 3.o — Alguns estudantes das colónias alheiam-
primordial. -se dos problemas e das lutas dos jovens portugue-
Tal princípio é o seguinte e deduz-se de tudo ses seus companheiros e do seu Movimento,
quanto até aqui dissemos: não há incompatibilida- o MUDJ, por considerarem que devem dar toda
de de qualquer espécie entre a compreensão justa a sua atenção ao estudo teórico dos problemas dos
dos seus problemas nacionais por parte dos jovens seus países, pensando que é desse modo que hoje
coloniais e a sua participação activa nas activida- melhor contribuem para amanhã agitarem em de-
des do MUDJ e nos consequentes esquemas orgâ- fesa das juventudes a que pertencem. Sem dimi-
nicos próprios do MUDJ. Parece-nos importante nuir a importância de tal estudo, devemos salientar
acentuar tal princípio, uma vez que parece existir que, na medida em que esse estudo as desliga da
da parte de alguns jovens coloniais o receio de mobilização concreta dos jovens coloniais e da
que tal facto possa acarretar o «esquecimento» de participação na luta dos jovens portugueses, ela
que os jovens coloniais não são jovens portugue- cai no intelectualismo estéril. Pensamos que é ne-
ses e que a sua participação lado a lado com os jo- cessário assegurar que a direcção da actividade
vens portugueses num mesmo movimento seja dos jovens coloniais fique na mão daqueles que
uma negação do reconhecimento do direito dos estudamm e agem e não nas «daqueles que se pre-
seus povos a dirigirem-se por si mesmos. param».
Cremos que a negação deste princípio é a ne- 4.o — Duma forma geral, não nos parece com-
gação da amizade fraternal dos jovens portugueses patível com as condições actualmente existentes
e dos jovens das colónias que queremos cimentar a organização de movimentos próprios ou de um
para lá das barreiras que nos impuseram. único movimento dos estudantes e restantes jovens
Chamamos a atenção para o seguinte: coloniais que se encontram na metrópole. Parece-
1.o — Temos que saber aplicar a justa orienta- nos que para tal não existem as condições neces-
ção à situação concreta existente. Temos de com- sárias no capítulo de quadros com a experiência
preender que a situação actual — que nos pontos necessária nem no da compreensão justa da orien-
seguintes procuraremos concretizar — se desen- tação que mais interessa à mobilização das juven-
volverá. Temos ele pensar bastante nas condições tudes coloniais.
actuais e não nos deixarmos sugestionar pelos nos- 5.o — A participação dos jovens coloniais que
sos desejos nem por exemplos de outros países em estão na metrópole nas actividades organizadas do
que a situação se desenvolveu já mais do que MUDJ é a forma mais eficaz, nas actuais condi-
a que se nos apresenta. ções, de garantir:
2.o — Existem na metrópole cerca de 900 es- a) a participação dos jovens coloniais (estu-
tudantes coloniais que constituem o núcleo mais dantes e outros) nas actividades progressistas e nos
importante dos jovens coloniais da metrópole. movimentos reivindicativos que tanto interessam
Tais jovens, na medida em que são estudantes, a eles como aos jovens portugueses, e nos quais se
têm os mesmos problemas que os seus colegas podem unir fraternalmente pela Paz e pela instau-
portugueses. Devemos encarar a mobilização des- ração dum regime democrático em Portugal, pela
ses estudantes para as suas lutas comuns e através Independência Nacional em Portugal, pelos direi-
da participação activa e organizada nas actividades tos e aspirações juvenis;

211
b) a educação e formação destes jovens dentro convierem, e que será através dessa mobilização
de um tipo de actividade organizada e aberta, a que se criarão as condições necessárias para
formação desses jovens como quadros futuros das a constituição de movimentos autónomos: capaci-
lutas e movimentos dos seus próprios povos; dade de acção das massas juvenis coloniais, uma
c) a criação efectiva dos laços de amizade orientação justa para as suas lutas, quadros expe-
e cooperação entre muitos jovens portugueses rientes saídos das classes mais desprotegidas da
e muitos jovens coloniais em contacto nas comis- juventude colonial.
sões do MUDJ. Essa ajuda deve concretizar-se:
6.o — A aceitação deste ponto de vista implica a) pela preparação dos jovens coloniais na me-
a aceitação, por parte dos jovens coloniais pro- trópole como futuros quadros de movimentos co-
gressistas, da direcção do MUDJ para as suas acti- loniais, adquirindo um nível cada vez maior de
vidades, na medida em que, tendo o MUDJ uma conhecimento dos seus países;
orientação justa em relação ao problema colonial, b) pela sua formação na luta do MUDJ;
e uma experiência de luta já considerável, é a c) pelo seu auxílio à divulgação da situação da
identidade que está em melhores condições de juventude colonial;
concretizar o auxílio da juventude portuguesa à lu- d) pelo auxílio directo à luta dos seus irmãos
ta dos jovens das colónias portuguesas, seus ir- do Ultramar.
mãos.
Do exposto até aqui podemos, portanto, con-
6 — Não podemos, no entanto, reduzir a análi- cluir:
se do problema a este aspecto. Concordamos com 1.o — É justa a participação dos jovens colo-
os termos da tese V em que se diz que os jovens niais na metrópole nas comissões e nas actividades
coloniais devem organizar-se de modo a terem em do MUDJ, segundo os seus locais de trabalho, es-
atenção principalmente os problemas concernentes tudo ou recreio, sob a direcção do MUDJ;
aos seus próprios países, e com o espírito da te- 2.o — É justa a existência de uma ligação es-
se IX em que se salienta a necessidade de uma li- pecífica entre os jovens coloniais na metrópole
gação específica entre os jovens coloniais na me- que permita a concretização do auxílio directo
trópole para o «fomento dos movimentos nos à luta das juventudes coloniais.
respectivos países». Este problema põe, como
questão prévia, o MUDJ definir a sua posição 7 — O MUDJ tem as seguintes propostas con-
quanto à organização de movimentos próprios da cretas a fazer, em resultado da análise dos pontos
juventude colonial. Ao MUDJ não compete deci- focados nas teses V, VI, VII, IX e X e acolhendo
dir se os jovens das colónias portuguesas se de- as sugestões constantes na tese XI:
vem organizar ou não em movimentos próprios, 1.o — A participação dos jovens coloniais nas
independentes do MUDJ, é à própria juventude comissões do MUDJ, de acordo com os seus lo-
das colónias portuguesas que tal decisão compete. cais de trabalho, estudo ou recreio, em pé de
É porém orientação do MUDJ que deve auxiliar os igualdade com os jovens portugueses desses lo-
jovens das colónias portuguesas a criar as condi- cais;
ções necessárias para que se possa organizar em 2.o — A formação de comissões de jovens co-
movimentos autónomos, e que para a criação des- loniais progressistas nos centros de interesse e de
sas condições é fundamental a participação dos jo- convívio dos jovens coloniais — estudantis, marí-
vens coloniais nas comissões e actividades do timos, de tipo cultural, etc. — ligados no organis-
MUDJ por um lado, por outro o contacto mais ín- mo ou organismos do MUDJ mais indicados;
timo possível, entre os que estão na metrópole 3.o — A constituição duma comissão represen-
e os dos seus países de origem, a fim daqueles po- tativa das várias comissões de jovens coloniais
derem concretizar a sua ajuda ao desenvolvimento existentes e de outros jovens coloniais não agrupa-
da luta da juventude colonial. Entendemos porém dos em comissões de jovens coloniais, a qual teria
que a principal ajuda à juventude colonial neste por objectivos práticos:
momento deve ser dado, no sentido da mobiliza- a) centralizar a experiência das actividades dos
ção para as lutas pela Paz e reivindicações no pla- jovens coloniais dispersos pelas várias actividades;
no económico, cultural, desportivo, recreativo b) coordenar os contactos com as juventudes
e político, assumindo as formas próprias que mais das colónias portuguesas;

212
c) publicar o boletim de estudo e divulgação A caminho para a unidade efectiva e fraternal
dos problemas e das lutas dos jovens coloniais da dos jovens portugueses e da juventude das coló-
metrópole e das juventudes das colónias; nias portuguesas, para a CONSOLIDAÇÃO DA
d) encabeçar e organizar as iniciativas concre- PAZ E A INDEPENDÊNCIA NACIONAL PA-
tas de maior projecção no campo de actividade RA TODOS OS PAÍSES; PARA A SATISFA-
dos jovens coloniais na metrópole e da confrater- ÇÃO DOS NOSSOS DIREITOS E ASPIRA-
nização com os jovens portugueses. ÇÕES.
VIVA A JUVENTUDE PORTUGUESA
Queridos amigos: VIVAM AS JUVENTUDES DAS COLÓ-
Ao terminar desta carta, a C.C. do MUDJ en- NIAS PORTUGUESAS
via-vos, em nome dos jovens progressistas portu-
gueses as mais calorosas saudações juvenis, exten- Lisboa, Outubro de 1953
sivas a todos os jovens coloniais na metrópole e às
juventudes das colónias portuguesas. A Comissão Central do MUDJ

213
3. Acerca da elaboração do Programa de Actividade Social da CEI
para a Gerência de 1959/1960*
GENTIL VIANA**

Cooperação Estabilidade económica

(...) A um outro princípio deve obedecer-se Primeiro que tudo a estabilidade económica,
ainda na elaboração do programa de actividades uma vez que, sem ela, o estudante não pode resol-
— trata-se da cooperação de todos os associados. ver alguns dos problemas fundamentais da sua vi-
Não há qualquer dúvida que os sócios da Ca- da, cujos são: Alojamento, Alimentação e Despe-
sa permanecem sempre afastados dos problemas sas com estudos. Hoje ninguém duvida que sem
da Associação. Não aparecem nas Assembleias aqueles problemas solucionados, não há jovem ou
Gerais, não se candidatam, não fiscalizam a ac- velho que possa estudar com aproveitamento,
tuação dos órgãos dirigentes, enfim, só são só- a ponto de tornar-se verdadeiro conhecedor do seu
cios para beneficiar do Lar, da Cantina e de uma ofício e, por consequência, elemento útil à socie-
ou outra “dança” que a secção de Camaradagem dade de onde veio e para onde deve regressar. As
resolva promover... Isto não pode continuar! E o terras ultramarinas precisam de técnicos, por isso
processo que, a nosso ver, pode utilizar-se para mesmo, nós que do Ultramar para aqui viemos em
combater a apatia, consiste na elaboração de um busca da especialização, temos o dever inadiável
programa que obedeça a todos os princípios que de estudar e aprender cada vez mais. Que a nossa
já enunciámos e a mais este — cooperação — ex- passagem pelas terras metropolitanas não se tradu-
plicável em duas linhas apenas: porque os sócios za em vergonhosa rapina aos cofres ultramarinos,
só trabalham naquilo que sentem verdadeiramen- nem seja a grande desilusão para as esperanças da-
te como seu, é fundamental que, depois de enun- queles que no Ultramar se batem dia a dia pela Vi-
ciadas as necessidades da massa associativa e da da e pelo progresso continuado.
Associação e feito o balanço das forças de uma Agora, como não basta apontar interesses e fi-
e outra utilizáveis na satisfação daquelas necessi- carmo-nos por aí, é necessário também dizer algu-
dades, os candidatos discutam lealmente com os ma coisa sobre as possibilidades da Associação no
sócios as promessas dos seus programas. Cada que respeita à satisfação dos interesses apontados.
associado intervirá na elaboração do programa Vamos, em traços gerais, fornecer uma directriz
em termos de senti-lo como seu trabalho próprio, ou, para dizer melhor, fazer uma sugestão.
pois só assim encontrará o entusiasmo necessário À primeira vista, como a estabilidade econó-
para, com sacrifício dos seus interesses indivi- mica é satisfeita, em regra pela família do ultra-
duais, contribuir validamente no sentido da reali- marino, ou através de um sistema de bolsas
zação dos interesses de todos, dos interesses da e subsídios instituídos pelas entidades oficiais
Colectividade. competentes, pode parecer que a CEI nada tem

* Excerto do original cedido pelo Autor. Ver nota na página seguinte.


** Advogado angolano, dirigente da CEI de Lisboa.

215
a ver com a satisfação de tal interesse. Isto mesmo um aspecto de “aula de moral” dos cursos dos Li-
já ouvimos dizer a muita gente boa nesta Casa! ceus, e pouco ou nenhum efeito produziria sobre
Felizmente a solução não está de harmonia com a massa associativa. A solução, a nosso ver, está
a letra e o espírito do nosso Estatuto, como clara- em provocar o contacto directo e íntimo entre os
mente pode ver-se pela simples leitura do art. 2.o grupos que “de facto” se afastam. Promovam-se
e seus parágrafos. É desnecessário insistir. bailes, promovam-se excursões, promovam-se fes-
Tomando como base de partida a organização da tivais desportivos, promovam-se colóquios sobre
CEI (órgãos directivos, Sede, Serviços, Secções o Ultramar, definam-se os interesses comuns do
e ainda Delegações), parece-nos que podem contri- estudante ultramarino, procure-se a intervenção de
buir para a estabilidade económica do estudante ul- todos os sócios na elaboração dos programas de
tramarino, em primeira linha, a secção de Auxílio actividade social que, com todas essas realizações,
e de Camaradagem e, em segundo plano e de coope- em que intervirão todos todos, ao cabo de muito
ração com a primeira, os serviços Lar e Cantina. (...) trabalho, ao fim de muito sacrifício, teremos a Fra-
ternidade desejada. Só um insensato poderá duvidar
da eficiência deste processo.
Fraternidade* Segundo ponto. A mais do que se disse em re-
lação ao primeiro, o que, “mutatis mutandis” vale
Como terceiro interesse, e de especial relevân- o mesmo para aqui, há a acrescentar que nós, os
cia, figura aquele a que poderemos chamar interes- estudantes, não devemos nem mais um dia, viver
se da fraternidade. Nós estudantes precisamos de separados daqueles que nunca estudaram ou já
não tentar esconder a própria realidade. Temos deixaram de estudar. Os primeiros devem ser tra-
o dever de encará-la de frente, de olharmos bem zidos aqui para que connosco vivam e connosco
para ela, surpreender-lhe os defeitos e lançarmo-nos aprendam aquilo que nós já aprendemos. Os se-
com vontade no trabalho são de a corrigirmos. gundos também aqui deverão estar pois é com
E para nós ultramarinos, oriundos duma sociedade a sua presença, com o seu exemplo, que o jovem
onde se chocam grupos humanos e sociais diversos, estudante se forma e a Casa se eleva. É escolher
é um facto, é a nossa realidade, a existência de pre- caminho errado não tentar coisa alguma para nos
conceitos de raça e de classe que atiram homem libertarmos daquilo que é defeituoso nos costumes
contra homem e os impedem de caminhar no cami- e nas concepções metropolitanas. Só o que é útil
nho do Bem e da Verdade. A Casa não pode nem para o desenvolvimento total das populações que
deve manter-se impassível. Há que eliminar esse deixámos no Ultramar deve ser por nós aprendido
erro. São os Estatutos (art. 2.o e parágrafos) e é e transportado para lá. O Ultramar é terra nova
a noção de justiça que do Ultramar trouxemos que bem escusa de passar pelas etapas de sofri-
e aqui aperfeiçoámos que tanto no-lo exigem. mento por que passou a velha Europa.
Será bom por razões de claridade distinguir- Sobre o processo de eliminar o erro, vale em
mos aqui três pontos: cheio o que ficou dito no ponto acima. Só acres-
centaremos que, dada a existência de associações
1. Fraternidade entre os estudantes ultramari- de ultramarinos não estudantes, toda a nossa acti-
nos das diversas raças; vidade social deve ser ordenada de modo a estrei-
2. Fraternidade entre o estudante ultramarino e tar cada vez mais os laços que naturalmente exis-
o ultramarino não estudante; tem entre a CEI e essas outras agremiações. Com
3. Fraternidade entre o estudante ultramarino e algumas delas, exemplificando o Clube Marítimo,
o estudante metropolitano. podemos mesmo entrar amiúde em competições
desportivas. E com as outras também se arranjará
Vejamos o primeiro ponto. Claro que seria for- sistema de contacto frequente. Basta que se queira
te tolice o pensar-se em resolver o problema tão verdadeiramente.
grave recorrendo à doutrinação moral ou brandin- Também cumpre não esquecer as recepções
do as regras jurídicas que no estatuto impõem festivas aos representantes do Ultramar que de vez
a Fraternidade. Isso seria descabido. Daria mesmo em vez, e hoje isso é frequentíssimo, vêm a Portu-
gal. Isto deve ser feito em relação a todo o ultra-
* Este fragmento “Fraternidade” foi publicado in Mensagem, 1964, marino ilustre, quer seja homem de desporto, quer
n.o 1 sem indicação de autor e contendo algumas alterações. seja homem de letras ou arte.

216
Passemos ao terceiro ponto. Não é raro ouvir no regresso, serão homens falhados; reagirão sem-
dizer aos universitários metropolitanos que a CEI pre descompassadamente, e serão por isso repudia-
provoca um enquistamento pernicioso do estudan- dos do convívio geral. E é tão fácil, através da
te ultramarino; que o afasta do seu colega metro- CEI satisfazer este interesse... Basta que a secção
politano, com manifesto prejuízo da própria Uni- de Estudos Ultramarinos execute o programa que
versidade e do espírito de Fraternidade que liga ou tem elaborado há já uns dois ou três anos para cá;
deve ligar os estudantes das “sete partidas do basta que publique os resultados desse trabalho;
mundo”... O facto é notório e não podemos negar- basta que recorra mesmo a entidades estranhas
-lhes razão. Alguns há que chegam mesmo a ser- à CEI, desde que conhecedoras da matéria e res-
vir-se disso para concluírem na necessidade de ex- peitadoras do art. 3.o do nosso Estatuto, a fim de
tinção da Casa dos Estudantes do Império!!! que façam para nós as palestras que nós e os nos-
Claro que a solução não está certa. Ela resulta sos velhos formados (refiro-me aos sócios já for-
do espírito de comodidade com que as pessoas mados) não conseguirmos fazer; basta ainda que
vêem sempre os problemas alheios... A Casa exis- adquira as publicações feitas pelas entidades ofi-
te porque só ela pode prosseguir, na metrópole, os ciais que na metrópole se ocupam de problemas
fins muito legítimos que estão definidos no seu ultramarinos, etc.
Estatuto. É uma Associação que tem na base uma E não seria menos valiosa a contribuição da
mentalidade específica... a mentalidade dos seus secção Cultural.
associados. Trabalhar por a dissolver é violentar A nosso ver devia ocupar-se com o estudo da-
uma personalidade, destruir uma maneira de ser quilo que é ultramarino na civilização europeia
e não há razão alguma, nem pública nem privada, e americana. Devia criar e proteger os grupos fol-
que isso justifique. O que devemos nós, associa- clóricos. Já alguém pensou que nós, com dois ou
dos, é tentar uma ligação entre o estudante ultra- três grupos folclóricos e mais umas poesias e ane-
marino (considerado sempre como parte integrante dotas características da “terra”, podemos fazer um
de um todo vivo e organizado — a CEI) e o seu espectáculo sensacional. Calcule-se o interesse
colega metropolitano (também considerado como formativo e de propaganda de tal realização...
entidade integrada num grupo). Também nos parecem de promover-se, umas
Ainda aqui se revela desejável o processo indi- tantas audições de música gravada e devidos co-
cado no primeiro ponto. Basta que se mude o que mentários, e ainda exposições de Arte Ultramarina
deve ser mudado.* (dizemos “ultramarina” e não negra para abranger-
mos tanto o que é tradicional como o que o não é).
Uma vez que, em alguns casos há-de escas-
Conhecimento das realidades ultramarinas sear-nos o tempo e faltar-nos os conferentes, o Bo-
letim será o complemento das duas secções já re-
Outro interesse de não menor importância do feridas. O que se não disser de viva voz será dito
que os já apontados, é o que exige dos jovens es- em forma escrita...
tudantes ultramarinos um conhecimento cada dia Por seu turno a Biblioteca faria a exposição do
mais fundo das realidades ultramarinas. livro ultramarino.
Do facto do estudante ser primeiro que tudo (...)
um Homem, integrado numa sociedade, resulta-lhe Setembro de 1959
o dever actual e imperioso de aprestar-se hoje
a fim de amanhã contribuir para o desenvolvimen-
Ao tratarmos do interesse da Fraternidade parece que devíamos ter
to moral, cultural e material da sociedade de onde dito que é necessário contactar com os estudantes ultramarinos no
é originário. Assim, cabe-lhe estudar com detalhe Ultramar. E não só com os estudantes. Também com as próprias
as realizações, os valores e as potencialidades do populações. Portanto os nossos relatórios e planos de realizações
devem ser enviados para os jornais e associações Ultramarinos.
grupo e da terra de onde veio. Para aqueles que Não se deve esquecer também a propaganda nas Faculdades e ou-
o não quiserem fazer, fica já aqui dito que depois, tros estabelecimentos de ensino na metrópole.

217
4. Programa de Actividades para 1963-64*

I Introdução juventude que, naturalmente, quer ver na posse,


Causas gerais não apenas duma sólida preparação profissional
mas também, duma sã formação de homens cons-
[...] A CEI não nasce como manifestação dum cientes das responsabilidades e legítimos depositá-
saudosismo doentio. Embrionou-se, sim, pela for- rios duma cultura nomeadamente ultramarina.
ça duma consciência das necessidades que então Os tempos foram correndo. Não só porque se
sentiram aqueles que inevitavelmente solicitados fosse assistindo a um desdobrar constante das ne-
pelos seus problemas concretos, vieram ao campo cessidades sociais — que o estudante como futuro
vivo da acção lutar por aquilo que é comum aos responsável havia de ter que enfrentar — mas
jovens ultramarinos, que, naturalmente, envolvia também porque a Universidade delas ia delibera-
e envolve problemas específicos, entrando-se pois damente divergindo, afastando-as das suas preocu-
num construtivo regionalismo de necessidades pações, o espaço funcional das AAEE e como tal
e deveres. A CEI passou então a constituir a Asso- da CEI foi-se supletoriamente alargando, vindo as-
ciação que na metrópole agrega e defende os inte- sim a colmatar, ainda que não totalmente, a falha
resses básicos do Estudantes Ultramarino. Respon- que a Instituição Universitária por insuficiência
sabilidade ímpar, missão difícil sobretudo pela e inadequação vem apresentando.
complexidade de problemas que naturalmente sur- A juventude isenta e independente não con-
gem num organismo que reúne grupos humanos temporizava com o condicionalismo que determi-
tão diferentes, mas missão sempre cumprida por- nava os moldes em que a Universidade se vazava
que sempre houve a consciência da nossa capaci- para aí ceder, para aí se perder em vãs subserviên-
dade realizadora e também das suas limitações. cias; como causa livre ia lutando conscientemente,
De então para cá o espírito e sentido dos seus ia levando a cabo, e na medida do possível, a sua
fundadores tem-se mantido; prolongou-se à inspi- íntegra e adequada formação humana no âmbito
ração que os animou na sua edificação, estimulou- dessas Associações.
-se uma tradição que surgiu como elemento de re- Contrabalançados ou pelo menos apoucados os
novação constante e de adaptação às novas efeitos negativos da Universidade, denunciada na
circunstâncias; a Associação acompanhou a par sua ignorância das necessidades sociais por força
e passo as necessidades do Estudante Ultramarino do contraste em presença, duas atitudes se espera-
— que em função das realidades se foram multi- vam: ou essa mesma Universidade se submetia
plicando — na maleabilidade das suas estruturas por força do anacronismo demonstrado a uma pro-
e na firmeza e dignidade das suas realizações. funda reforma, de modo a assumir como lhe com-
E em face disso o próprio Ultramar veio concreta- petia o comando da sua missão cultural e social;
mente a crer na formação da juventude pela própria ou então, reforçando o erro nele insistindo, se ia

* Excerto do Programa de Candidatura elaborado pela Direcção eleita em 1963.

219
fazer prevalecer a posição dessa Instituição ata- recer-se o rótulo da “verdadeira neutralidade”;
cando — com armas bem pouco dignas e válidas a isenção e independência, essas, correspondem
porque além de tudo essencialmente demagógicas à posição de quem faz política. É por vezes, e sem
— o espírito da criação e a vida das associações. dúvida, estranha esta labilidade e mesmo inversão
Preferiu-se esta última atitude aliás “condicionada do sentido das palavras; não admira pois que an-
por inúmeros factores objectivos que nem sempre demos tão confundidos neste jogo formal que nos
houve coragem necessária para derrubar”. E nesse é imposto no sentido de colocarmos à margem da
ataque geral às AAEE veio naturalmente a ser en- razão a discussão, franca e aberta, daquilo que
volvida a CEI, não só pelas razões já aludidas, co- é verdadeiramente essencial. Ao fim e ao cabo,
mo também por outras óbvias e inerentes à sua uma táctica de que somos vítima e que desde já
condição específica de Associação de Estudantes importa denunciar, pois que ela de há muito vem
Ultramarinos: politização dos problemas no senti- encobrindo as razões que sempre nos têm acompa-
do de iludir as questões essenciais, o “fazer” coli- nhado na propositura das soluções mais justas pa-
dir os fins prosseguidos pelas Associações com ra o nosso problema.
o interesse nacional — critério de verdade e tantos Mas a ninguém restarão dúvidas, aliás, como se
outros qualificativos do já conhecido vocabulário consigna nos seus Estatutos, que a nossa Associa-
foram outras tantas fórmulas estafadas e as figuras ção com base numa policultura originária tem de
de retórica utilizadas nessa campanha. Sem dúvida facto que realizar e dar vida a uma actividade cultu-
que a carência de razão se socorre da demagogia! ral que lhe seja sucedânea, baseada na apresentação
E foi com base nela que se instituiu dentro dessa dos seus aspectos variados — dança, música, poe-
agressão uma medida de certo modo discriminató- sia, estudos etnográficos, etc... — fomentando-se,
ria em relação à CEI que, porque depende dos di- inclusive, uma emulação entre os sócios de origens
nheiros públicos ultramarinos, se viu privada des- diferentes, criando-se, assim, um ambiente mais sa-
se suporte económico; meio este não incidente dio, mais dinâmico, mais edificante. É desenvol-
sobre as outras AAEE e que naturalmente tem vendo, estimulando o que existe de heterogéneo, de
o condão de se revelar dos mais enérgicos e resul- policultural, permitindo a cada grupo definir perfei-
tantes, quando é certo a sobrevivência da Associa- tamente a sua personalidade, que atingiremos o es-
ção depender fundamentalmente da regular per- tado monolítico respeitando a realidade objectiva
cepção desses subsídios. da Casa e conservando o espírito dos estatutos —
Mas adiante... mas nunca o divórcio em relação aos problemas
As AAEE, e como tal a CEI, têm-se, por defi- culturais ultramarinos, quer dizer, nunca a separa-
nição, dedicado a uma actividade de preparação ção do estudante ultramarino dos seus verdadeiros
e formação dos estudantes que os tornem permeá- problemas. Nesta base e numa base de autonomia
veis às várias correntes políticas e religiosas, lhes a defesa intransigente da CEI. Erraremos, segundo
atribuam o bom senso e elevado pendor intelec- o pensamos, no momento em que venhamos a redu-
tual, que lhes permitam, já amanhã, realizar com zir a razão de existência da nossa Associação
segurança e lastro científico uma actividade, como a uma cantina ou a um salão de estar. Pensaríamos
homens socialmente válidos e participantes. Aliás, supérfluo e até ridículo chegarmos a lutar por uma
função que cabe perfeitamente no âmbito da mis- Associação nesses moldes, quando é bem certa
são, não realizada, da Universidade: “Universida- a existência, dentro desse espírito, de organismos
de é tudo o que pode concorrer, dentro ou fora da similares — a diferença então iria provavelmente
escala, se bem que centrado sobre ela, para fazer (e com certo optimismo) para a bandeira!
dos Estudantes dos cursos superiores o verdadeiro Parece-nos pois indispensável localizar a dife-
corpo de escol que eles devem constituir”. rença de essências não na maneira de confeccionar
É evidente, assim, que as AAEE não realizam ou servir refeições ou ainda na realização de bai-
nem tão pouco visam fazer política (entenda-se no les, mas antes no aspecto básico em que aqui se
sentido estrito). Ocorre no entanto afirmar que tu- pretende criar um ambiente livre e independente,
do, neste capítulo de taxar, se tem resumido ao com o seu programa circum-escolar próprio que,
simplista e demagógico argumento de quem não subtraído à influência dos condicionalismos políti-
faz política por nós é contra nós e... faz política. cos, se possa constituir então em meio verdadeira-
Aceitar este espírito e concretizá-lo equivale a me- mente apolítico, em meio em que cada um dos jo-
vens ultramarinos forme a sua mentalidade no

220
seio de uma sã vida colectiva, enriqueça, dentro de de sacrifício da massa associativa.
dos quadros directivos, a sua experiência de orga- Essa reacção veio a culminar com a exonera-
nização, desperte a sua consciência de cidadão ção da referida Comissão Administrativa em 28 de
e coloque as suas generosas disponibilidades ao Julho de 1961, tendo-nos na altura sido afirmado
serviço da sua terra. (ao que pensamos a título de consolação) que o re-
Nunca será, pensamos, e permanecendo fiéis ao latório daquele “Comité” Administrativo tinha si-
espírito que presidiu à institucionalização da CEI, do “extremamente favorável à CEP”.
de sacrificar o segundo ao primeiro aspecto, quanto Este facto parecia então constituir um sinal de
mais não seja sob pena de virmos a rotular a luta abertura de perspectivas menos sombrias e mais
que há muito desenvolvemos pela nossa sobrevi- justas. No entanto...
vência, como uma luta de irreverência, quando ela
é verdadeiramente uma luta de consciência. (...) 3. A portaria de exoneração da referida Comis-
são Administrativa incluía um certo número de su-
gestões, para os estatutos a apresentar: a) mudança
II Análise da situação de nome da Associação; b) admissão da gerência
Causas próximas dum professor Universitário com direito de veto;
c) não concordância ou colisão com os fins das
1. Ora, do valor afirmado e da existência legi- outras Associações de Estudantes e da Mocidade
timada da CEI falam de modo inequívoco o senti- Portuguesa.
do cultural e filantrópico das actividades desenvol- Parece-nos inútil acrescentar qualquer conside-
vidas. Através delas se procuram resolver os ração; as decisões tomadas e aqui transcritas falam
problemas dos estudantes ultramarinos (económi- por si e tornam desnecessárias quaisquer justifica-
cos e culturais) e, outrossim, inculcar-lhe hábitos ções, pelo atentado evidente que algumas delas re-
morais, cívicos e de trabalho que lhe preparem presentam contra a dignidade e existência duma
a cidadania integrando, assim, uma tarefa de evi- associação que sempre nos habituámos a ver livre
dente interesse público ultramarino. Aceite pois na e independente. Então para ninguém restaram dú-
sua missão, bem cedo as dotações orçamentais vidas acerca dos verdadeiros propósitos das enti-
dos Governos das Províncias Ultramarinas e das dades competentes.
Autarquias Locais a que há ainda a adicionar
subsídios por parte de Empresas particulares ra- 4. Entretanto, em Maio de 1962, fez-se a en-
dicadas no Ultramar, constituíram uma realidade. trega nos Ministérios da Educação Nacional e do
É evidente que, pela regularidade de percepção Ultramar dos solicitados Estatutos. A partir dessa
bem como pelo seu valor substancial, o núcleo dos altura e dada a ausência de resposta, inúmeros pe-
subsídios provenientes dos Governos das Províncias didos de entrevistas têm sido solicitados, aliás,
Ultramarinas é o mais necessário, diríamos mesmo, com grande insistência sem qualquer resultado.
para uma situação normal indispensável. Chegava Também grande número de exposições dando con-
ele até nós através do Ministério do Ultramar. ta da situação económica da CEI, têm sido envia-
E assim... das sem qualquer resposta remetida.
Tem-se procurado o estabelecimento de um
2. Em 30 de Dezembro de 1960 os Ministérios diálogo franco, aberto e sincero, com vista à reso-
da Educação Nacional e do Ultramar, em decisão lução do problema; propôs-se um encontro de uma
conjunta, nomearam uma Comissão Administrati- plataforma de entendimento que tendo em conta
va para gerir a CEI. Ao pedido então feito, de es- os desejos daqueles Ministérios salvaguardasse os
clarecimento do espírito e razões que pudessem interesses dos Estudantes Universitários.
informar tal atitude os referidos Ministérios res- A todas as tentativas têm os mesmos Ministé-
ponderam apenas com três versões diferentes. rios respondido com o silêncio ou, pronunciando-
Houve que enfrentar pois objectivamente a si- -se, fazendo-o de uma maneira ambígua que
tuação; em uma tomada de atitude que foi bem adiando o problema, de modo algum mostram, pe-
um sinal de razão e uma promessa de vitória, vin- lo menos aparentemente, querer resolvê-lo.
couse a nossa personalidade e valor através das
manifestações em que sempre transpareceu o espí- 5. Concretamente, pois, citemos agora um nú-
rito jovial e sereno, a cordura intelectual e a vonta- mero: o subsídio mensal atrás referido orça pela

221
ordem dos 14 850$00; por uma simples operação situação de ruína no estado de espírito e situação
de multiplicar se pode chegar à bem triste conclu- económica dos Estudantes Ultramarinos. É uma
são de que temos a receber do Ministério do Ul- anotação que se impõe prestando culto à verdade
tramar a soma de 148 500$00. Uma soma que pelo e à justiça!
seu montante facilmente nos levará à compreensão Nem mesmo assim, nos parece, contudo, que
de quão acentuado teve de ser o abrandamento de devamos desanimar em face deste acto de injusti-
actividades e a redução de vida da CEI; isto, evi- ça ainda que eventualmente ele se viesse a perpe-
dentemente, a par do desenvolvimento de um des- tuar. Ao fim e ao cabo é apenas uma maior activi-
prestigiante e desonroso endividamento sempre dade que se exige de todos, quer no sentido do
crescente e neste momento prestes a asfixiar-nos. ressurgimento económico da CEI (sempre possí-
Também não deixaremos de salientar — no senti- vel), quer ainda no sentido dum aumento do seu
do de evocar responsabilidades — os reflexos da dinamismo.
[...]

222
CEI na Imprensa

223
Alguns recortes de imprensa não se encontram datados nem indicam a respectiva fonte jornalística, lacunas provenientes do livro de recortes
que pertenceu à CEA no primeiro ano do seu funcionamento.

225
226
227
228
229
230
231
O Brado Africano 1945

232
D. Coimbra 1959

233
234
República 1957

235
Diário de Notícias

(Brasil) 1961

236
237
Jornal de Letras 17.3.1989

238
Jornal de Notícias 21.3.1989

239
Imagens da Memória
NOTA: As fotografias inseridas nas págs. 241 a 242 da 1a edição foram amavelmente cedidas por sócios da CEI: Homero Pedro, Alberto Marques
Mano de Mesquita, Edmundo Rocha, Miguel Hurst, Tomás Medeiros, Augusto Pestana Heineken, Manuel Monteiro e Vasco Valadares.

Rearranjo e legendagem das fotografias (pp. 243-259), Arquiteto Carlos Brito (UCCLA).

242
Comissão organizadora da Casa dos Estudantes de Angola (CEA). Lisboa, 1944

Da esquerda para a direita:


Não identificado, não identificado, Emílio Leite Velho, Alberto Marques Mano de Mesquita,
Fernando Santos e Castro, não identificado, Ângelo Vidigal Dias, não identificado.

243
Comemoração do 1.o aniversário da CEA, onde se decidiu a criação da CEI. Lisboa maio de 1944

Da esquerda para a direita:

Em primeiro plano
Carlos Torres de Sousa, Vasco Benedito Gomes, Alberto Diogo, Emílio Leite Velho, Marcelo Caetano,
Francisco Vieira Machado, Alberto Marques Mano de Mesquita, Ângelo Vidigal Dias, Fernando
Santos e Castro.

Em segundo plano
Francisco Maria Martins, não identificado, Aguinaldo Veiga, Gonçalo Mesquitela,
Acrísio Sampaio Nunes.

244
Exposição inaugurada na Faculdade de Letras de Coimbra pela Casa de Moçambique, em 1944

245
Grupo de estudantes da Delegação da CEI em Coimbra, c. 1949-50

1. Carlos MacMahon 2. Antero Pires Quental 3. Jorge Madeira de Abreu 4. Marcelo dos Santos
5. Edmundo Rocha 6. Fernando Costa Campos 7. Campinos 8. Lúcio Lara 9. Campos Dias
10. Joaquim Forte Faria 11. José Figueira 12. Homero Pedro 13. Agostinho Neto.

246
Sessão musical na CEI de Lisboa, c. 1960

Da esquerda para a direita, em pé:


Rui de Carvalho (Kiki), Gourgel, José Júlio Zuzarte Mendonça, Carlos Pestana (Katiana),
Augusto Pestana, Jorge Hurst.

Da esquerda para a direita, sentados:


Não identificado, Augusto Teixeira (Tutu), não identificado.

247
Equipa de futebol da CEI Lisboa, c. 1959

Da esquerda para a direita, em pé:


Paulo Jorge, Jorge Araújo, não identificado, não identificado, Gabi Antunes, não identificada, não
identificado, Tomás Medeiros, David Bernardino, não identificado.

Da esquerda para a direita, em baixo:


Carlos Pestana (Katiana), não identificado, Gentil Viana, Jorge Hurst, J.J. Zuzarte Mendonça.

248
Grupo Ngola Kizomba, c. 1960

Da esquerda para a direita:


Augusto Teixeira (Tutu), Ingo Vieira Lopes, Augusto Pestana, Carlos Pestana (Katiana), Ruy Mingas,
Jorge Hurst.

249
Grupo Ngola Kizomba, c. 1960

Da esquerda para a direita, em pé:


Jorge Hurst, Tomás Medeiros, Augusto Teixeira (Tutu), Augusto Pestana, Carlos Pestana (Katiana).

Em baixo:
Ingo Vieira Lopes.

250
Grupo Ngola Kizomba, c. 1960

Da esquerda para a direita:


Augusto Pestana, Passos, Augusto Teixeira (Tutu), Jorge Hurst, Ingo Vieira Lopes, Tomás Medeiros,
não identificado.

251
Duas equipas de futebol da CEI, c. 1960

Da esquerda para a direita, em pé:


David Bernardino, não identificado, Brás Menezes, José da Paz Monteiro, Paulo Jorge,
Eduardo Gomes, Jorge Hurst, não identificado, Emídio Serrano, António Cohen, Hélder Dantas Reis,
António Saint-Aubyn, Carlos Pestana, não identificado, J.J. Zuzarte Mendonça, não identificado,
Jorge Serrano, não identificado.

Da esquerda para a direita, em baixo:


Rui Sá, Armando Gomes, Renato Pessoa, Alípio Gomes, Augusto Teixeira, não identificado,
não identificado, não identificado, Tomás Medeiros, não identificado, Homero Bastos Júnior (Cuio).

252
Equipa de futebol da CEI de Lisboa, c. 1960

Da esquerda para a direita, em pé:


David Bernardino, J. J. Zuzarte Mendonça, Paulo Jorge, Jorge Hurst, Brás Menezes, Emídio Serrano,
Hélder Dantas Reis, Tomás Medeiros, Carlos Pestana, Jorge Serrano.

Da esquerda para a direita, em baixo:


Rui Sá, Augusto Teixeira, Renato Pessoa, não identificado, Homero Bastos Júnior.

253
Estudantes da CEI. Fotografia tirada em Coimbra, c. 1959-60.

1. Rebelo 2. Brás Meneses 3. José Paz Monteiro 4. Armando Gomes 5. António Saint Aubyn 6. António
Cohen 7. Gardett B. David Bernardino 9. Jorge Hurst 10. Eulália 11. Tomás Medeiros 12. Augusto Teixeira
13. Emídio Serrano 14. Hélder Dantas Reis 15. Camões 16. Homero Bastos Júnior 17. Jorge Serrano
18. Paulo Jorge 19. Carlos Pestana 20. Higino Pedro Gomes 21. Renato Pessoa 22. Eduardo Gomes

254
Almoço de confraternização na CEI de Lisboa em 1962

1. Rute Magalhães 2. F. Bruheim 3. Jorge Rebelo 4. Armando Machado 5. Lito Machado 6. Augusto
Pestana 7. Aurora 8. Gracinda 9. Manuel Monteiro 10. Osvaldo Cruz 11. Milú 12. Sonnemberg 13. Rosário
Monteiro 14. Júlia Monteiro 15. Manuel Vilar 16. Pires Guerra (Picas) 17. Álvaro Mateus (Dallas).

255
Sócios da CEI de Lisboa assistem a uma conferência sobre jazz em 1962

1.Joaquim André 2. Eduarda (Dada) 3. Aida Faria 4. Rodinhas 5. Conceição 6. Caetano Gonçalves
7. Antómio Silva 8. José Ilídio 9. Eduardo Medeiros 10. Jorge Amado 11. Mina Gourgel 12. Gracinda
13. Manuel Monteiro 14. Artur Costa 15. Grade Ribeiro (Jimy) 16. Ângelo Almeida 17. Rosário 18. Gringas
19. Vitória Almeida e Sousa.

256
«Grupo do Ghana» na sua chegada à Alemanha (agosto de 1961)
Foto cedida pela Fundação Amílcar Cabral à Associação Tchiweka de Documentação que permitiu a sua
utilização.

Sentados à frente da esquerda para a direita:


Maria da Luz Boal; Isabel de Sá Hurst; Lucília Wilson; Fátima Wilson; Elisa Andrade; Virgínia Vieira
Lopes e o filho Johnny; Amélia Araújo e a filha; Embaixador do Ghana em Paris; Margarida Mangueira;
Ilda Carreira; Ângela Guimarães e o filho «Chico»; Ana Maria Videira; Ana Wilson e Teresa Gomes.

Na 2.a fila de pé:


Manuel Boal; Tomás Medeiros; Jorge Hurst; Osvaldo Lopes da Silva; Mário Assis;
Luís Alves Monteiro; Aladino Van-Dúnem; Carlos Pestana Heineken; José E. F. Araújo; Gentil Viana;
Bento Ribeiro; José Lima de Azevedo; Rui de Carvalho; Rui V. de Sá; Armindo Fortes; Manuel Videira;
Carlos Rúbio; Antonette José Carlos.

Na última fila de pé:


Fernando Chaves Rodrigues; Fernando França Van-Dúnem; Pedro V. Pires; Augusto T. Bastos;
Higino P. Gomes; Francisco X. B. Rodrigues; Henrique Carreira; Africano Neto; Augusto Lopes Teixeira;
Fernando C. Paiva; João Vieira Lopes; Henrique Santos; Salvador Ribeiro.

257
O presidente da CEI Manuel Monteiro apresenta o conferencista Eng.o Humberto da Fonseca por ocasião do
18.o aniversário da Casa em abril de 1962.

Da esquerda para a direita:


Eng.o Humberto da Fonseca Manuel Monteiro Dr. Arménio Ferreira Álvaro Mateus (Dallas)

258
Equipa de futebol da CEI de Lisboa em 1961.

Da esquerda para a direita em pé:


Rui Morais Luís Cília não identificado Borges de Sousa Hélder Dantas Reis Ângelo Almeida Vasco
Raimundo Traça

Da esquerda para a direita em baixo:


Pires Guerra (Picas) não identificado José Ilídio Rui Pereira Álvaro Santos (Zefo) Pedro Borges,
António Faria

259
Café Rialva na Av. Duque d’Ávila em frente da CEI c. de 1960

Pastelaria Mimo na Av. Duque d’Ávila em frente da CEI c. de 1960

260
Bibliografia sobre a Casa dos Estudantes do Império

AIDA FREUDENTHAL

Justifica-se esta primeira recolha de referên- e da Direcção, os Relatórios e Contas da Direcção,


cias bibliográficas à CEI, com o objectivo de pos- os Programas de Candidatura e de Actividades, as
sibilitar o estudo de uma associação cuja activida- conferências proferidas, os Relatórios das Secções,
de revela os percursos de uma parte significativa o arquivo fotográfico, os recortes de imprensa, os
dos estudantes africanos em Portugal, durante troféus desportivos, e em particular as Bibliotecas
o período colonial. Além da atenção de que foi al- de Lisboa e Coimbra que conteriam mais de três
vo após o 25 de Abril em Portugal, várias obras mil livros, na sua quase totalidade sobre África,
referenciadas extravasaram o mundo de língua bem como a colecção dos Boletins Meridiano
portuguesa, reconhecendo à CEI um papel edito- e Mensagem, e de todas as edições que a CEI pro-
rial pioneiro numa fase de gestação das literaturas moveu.
africanas em língua portuguesa. Embora se afigure impossível voltar a reunir
Além disso, importa a obtenção de informa- todo esse vasto património, encontra-se no entanto
ção que proporcione o entendimento das sucessi- em curso a inventariação de documentos até hoje
vas gerações que passaram pela CEI, na sua di- preservados em mãos de antigos sócios e amigos,
mensão cultural e política. Nesse sentido foram na esperança de se poder reconstituir minimamen-
incluídas algumas obras referentes a personalida- te a memória da Casa. Muito há decerto ainda
des que integraram a CEI, e cuja actividade pro- a fazer neste domínio, nomeadamente o necessário
fissional ou política de algum modo esclarece e exaustivo levantamento de artigos dispersos em
o papel da Casa na formação de várias gerações jornais e revistas, assim como o inventário da do-
de estudantes africanos. O número de referências cumentação existente em Arquivos portugueses
até agora coligidas, muito superior às expectati- e ainda europeus e africanos. O seu estudo impõe-
vas, pode dar-nos uma ideia aproximada não só -se a fim de esclarecer não apenas a função cultu-
da sua importância como associação, bem como ral e política que a CEI exerceu ao longo de duas
da intervenção que tiveram alguns dos seus asso- décadas, como a projecção da sua acção. Pela sua
ciados no panorama político e cultural africano importância, remetemos o leitor para os estudos
e português. inseridos nesta edição, que contêm referências do-
Contudo o conhecimento da história da CEI cumentais e bibliográficas essenciais.
não poderá prescindir da análise da documentação
vastíssima que ali foi produzida ao longo dos 21 AA.VV.
anos da sua existência. Ergue-se porém um sério Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.
obstáculo à sua consulta, já que o encerramento da Colóquio organizado pela Acarte, F.C. Gulben-
CEI em 1965 foi seguido da dispersão do seu va- kian. Lisboa 1987.
lioso espólio documental que incluía os ficheiros
de sócios de Lisboa, Coimbra e Porto, os Estatu- AA.VV. Um postal para Luanda. Vega. Lisboa
tos, os livros de Actas das Assembleias Gerais 1986.

261
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Antologia temática de poesia africana. Lisboa Sá try. in A Voz Igual. Ensaios sobre Agostinho
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269
Cronologia

CEI CONTEXTO GERAL

1936 Claridade, S. Vicente (Cabo Verde) n.o 1 Março


1943 Fundação da Casa dos Estudantes de Angola em
Lisboa (Nov.) R. Praia da Vitória, 6

1943 Fundação da Casa dos Estudantes de Moçambi- 1942 Ilha de Nome Santo, de Francisco J. Tenreiro
que em Coimbra (Maio) Movimento Quit India com repercussão em Goa
1944 Fundação da CASA DOS ESTUDANTES DO 1944 Certeza, S. Vicente (Cabo Verde)
IMPÉRIO em Lisboa (Julho) e em Coimbra
(Dez.)
Arrendamento da sede da CEI na R. Duque d’Á-
vila, 23, Lisboa (Nov.)
1945 Itinerário, Lourenço Marques (Maputo)
1946 Meridiano. Boletim da CEI-Coimbra 1946 Manifestação de desobediência civil em Goa
(Margão, 18 Junho)
1947 Edição de Batuque Negro, de O. Albuquerque.
CEI Coimbra 1947 Independência da Índia
1948 Mensagem, Circular da CEI em Lisboa — I série. 1948 “Vamos Descobrir Angola”, movimento iniciado
Julho em Luanda por jovens intelectuais.
Mensagem Angolana, publicação da Secção de
Angola em Lisboa. Número único (Agosto)
1950 Momento. Antologia de Literatura e Arte. Coim-
bra
1951 Linha do Horizonte, de Aguinaldo Fonseca. Lis- 1951 A derrota dos Franceses em Dien-Bien-Phu
boa. Poesia em Moçambique. Separata da Mensa- (Indochina)
gem. Fundação do Centro de Estudos Africanos Movimento dos Novos Intelectuais de Angola
(R. Actor do Vale, 37, Lisboa) Mensagem, Luanda (Anangola) 4 números
Cultura I. Sociedade Cultural de Angola. Luanda
1952 Godido e Outros Contos, de João Dias. CEI- 1952 Msaho. L.M. (Maputo)
-Lisboa. Nomeação da 1.a Comissão Administra- Revolta dos Mau-Mau (Quénia)
tiva (Maio 30)
1953 Poesia Negra de Expressão Portuguesa de M. 1953 “Guerra do Batepá”, S. Tomé (3-5 Fev.)
Andrade e F. Tenreiro
1954 Guerra da Argélia
Fundação da UPNA (Angola)

270
1955 Conferência de Bandung
Fundação do PCA (Partido Comunista Angolano)
1956 Manifesto do Amplo Movimento Popular de Li-
bertação de Angola
Fundação do PAI (Partido Africano para a Inde-
pendência) da Guiné
Fundação do PLUAA (Partido da Luta Unida dos
Africanos de Angola)
Cultura II. Luanda
Fundação do PAIGC (Guiné e Cabo Verde) (18
Set.)
Fundação do MPLA (Angola)
I Congresso dos Escritores e Artistas Negros. Pa-
ris (Set.)
1957 Retirada da 1.a Comissão Administrativa. Novos 1957 Reuni