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TRAVESSIA DA

JUATINGA
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DIA 1: CHEGANDO EM PARATY

➢ AA PPRREEPPAARRAAÇÇÃÃOO
Após anos desejando fazer essa Travessia, finalmente consegui reunir os
recursos e o tempo necessário para completá-la com calma, podendo aproveitar todas
as suas belezas naturais. A data estava definida: seria na virada do ano 2017/2018.
Restavam apenas algumas pendências, como equipamentos e o planejamento do
percurso.

Meus companheiros de viagem seriam dois grandes amigos de longa data:
Marcos Paulo (“Markin”) e Victor Hugo (“Torvi”). O Victor, bombeiro militar e
biólogo, já estava acostumado com viagens desse tipo, mas o Markin, com sua pouca
experiência em trilhas pesadas era uma icógnita.


➢ AA PPAARRTTIIDDAA
Saímos de carro do Rio de Janeiro no fim da tarde do dia 27/12/2017 e
chegamos em Paraty já quase meia-noite com a gasolina no limite. Por isso,
preferimos não arriscar seguir até Paraty-Mirim direto e entramos em Paraty pra
abastecer, mas todos os postos de gasolina da cidade já estavam fechados.

Sem muita opção procuramos lugar pra dormir, mas estava tudo muito caro
(alta temporada). Finalmente encontramos um pequeno Albergue (Caiçara Hostel)
logo na entrada da cidade que, apesar de simples, atendia nossas necessidades para
uma noite. Ótimo custo benefício.

Arrumamos nossas coisas, jantamos e a fomos dormir. Ainda não sabíamos,
mas o dia seguinte nos reservaria muitas surpresas.

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DIA 2: O INÍCIO TURBULENTO

➢ AATTRRAAVVEESSSSAANNDDOO OO SSAACCOO DDOO MMAAMMAANNGGUUÁÁ
Logo pela manhã tomamos um café da manhã reforçado, reabastecemos o
tanque de gasolina do carro e partimos pra Paraty-Mirim, pouco depois de Paraty,
seguindo pela BR-101.

A estrada de terra que leva até Paraty-Mirim estava bem precária por causa das
chuvas, com muitos buracos e poças. Mesmo assim, o carro aguentou bem e logo
chegamos ao Camping/Estacionamento do Jesus.

Após deixar o carro, seguimos andando por alguns minutos até a praia, de
onde partem os barcos para a Reserva da Juatinga. Vários barqueiros abordaram a
gente no caminho, mas acabamoss fechando com o Mateus, que fez um preço
camarada (vale a pena desenrolar um preço mais baixo do que eles oferecem, pois, a
oferta de barcos é grande).

Durante o trajeto, o barqueiro foi nos contando um pouco sobre a região e
apontando alguns lugares turísticos, como a mansão que foi utilizada na gravação do
filme “Crepúsculo”. Logo chegamos à Praia do Cruzeiro (cerca de 20 minutos), que
pertence ao Seu Orlando e sua família.


➢ CCAAMMPPIINNGG DDOO SSEEUU OORRLLAANNDDOO
O camping/restaurante do Seu Orlando era bem arrumadinho, com diversas
redes e espreguiçadeiras espalhadas pela areia e uma bela vista do Saco do
Mamanguá. Um ótimo local para repousar.

Nossa ideia era deixar as mochilas cargueiras no camping e subir o Pico do Pão
de Açúcar/ Pico do Mamanguá, de onde se tem uma visão privilegiada de toda a
região, mas o tempo estava péssimo, com muita chuva, e o topo estava
completamente encoberto. Decidimos seguir viagem.

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Aproveitei enquanto os outros comiam pra conversar com o Seu Orlando,
buscando absorver um pouco da sua imensa vivência. Ele me contou que morou em
Fernando de Noronha e trabalhou como reboque na Ponte Rio-Niteroi quando era
mais jovem, mas decidiu retornar para a Praia do Cruzeiro onde nasceu e foi criado,
pois era onde encontrava mais paz e qualidade de vida.


➢ PPRRIIMMEEIIRROO OOBBSSTTÁÁCCUULLOO:: AA PPEERRDDAA DDEE UUMM IINNTTEEGGRRAANNTTEE
Partimos assim que a chuva diminuiu. Nos despedimos do Seu Orlando, que
estava consertando o telhado debaixo da chuva - incrível a disposição do coroa - e
seguimos para a trilha da Praia do Engenho.

Assim que chegamos no início da trilha, o Marcos se sentiu mal e tropeçou,
caindo no chão. A cena foi marcante, ficamos sem reação. Assustado, ele retornou
para o camping enquanto nós, ainda meio atordoados, levamos alguns minutos pra
absorver o que estava acontecendo e, então, fomos atrás dele.

Chegando lá, vimos uma movimentação muito grande de pessoas em torno do
Marcos. Ele não se sentia bem e estava determinado a voltar para o Rio. O Victor
estava afobado querendo prosseguir na Travessia a qualquer custo e eu respirava
fundo tentando encontrar a melhor solução possível.

Por sorte, uma médica estava acampando no local e nos ajudou,
tranquilizando-o. Com a situação mais controlada, foi resolvido que ele retornaria
para costa com uma senhora que estava indo embora e nós pegaríamos carona no
mesmo barco até a Praia do Engenho pra continuar a Travessia e compensar o tempo
que havíamos perdido.


➢ SSEEGGUUNNDDOO OOBBSSTTÁÁCCUULLOO:: OO RRIIOO IINNTTRRAANNSSPPOONNÍÍVVEELL
Cerca de 10 minutos depois saltamos na Praia do Engenho, uma pequena faixa
de areia com duas imensas árvores no centro e um pequeno armazém ao fundo, e
nos despedimos do Markin enquanto o barco se distanciava da praia e partia em
direção ao horizonte encoberto por nuvens.

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Ainda tentávamos absorver o que havia acontecido, quando, então, fomos
abordados por um rapaz com dificuldade na fala. Ele tentava nos dizer que o rio tinha
subido e havia se tornado impossível seguir a pé até Praia Grande de Cajaiba, nosso
próximo destino.

Fomos até a beira do rio e constatamos que realmente seria impossível
prosseguir, pois o rio tinha virado uma cachoeira exatamente onde precisávamos
passar. Sem muito o que fazer, retornamos para a praia e procuramos abrigo da
chuva, enquanto decidíamos o que fazer.

Tínhamos planejado tanto essa viagem e estávamos tão ansiosos e preparados
para o desafio, mas logo de cara já havíamos perdido um companheiro e, agora, nos
deparávamos com um obstáculo intransponível.

Como havia um barqueiro na praia, Victor sugeriu irmos de barco até a Praia
Grande, o que parecia ser a ideia mais aceitável no momento. No entanto, completar
mais um trecho utilizando barco não me agradava. Eu almejava desafios, queria
enfrentar meus limites, e não fazer um “tour de barco” pela península.

No meio dessa indecisão, a chuva diminuiu e resolvi verificar o rio mais uma
vez, enquanto o Victor negociava valores com o barqueiro e garantia um “plano B”
caso fosse realmente impossível seguir por trilha. Para minha surpresa, o volume de
água do rio tinha diminuído bastante e já era possível visualizar uma rota para
atravessá-lo. Não era simples, mas possível. Teria que ser o bastante.

Retornei correndo até a praia pra avisar o Victor. A essa altura os barqueiros já
haviam ido embora, mas isso não importava mais. Seguimos rapidamente para o
ponto de travessia do rio e conseguimos ultrapassá-lo com alguma dificuldade, mas
ainda tínhamos que procurar a continuação da trilha, que estava encoberta pelas
águas. Nos enfiamos no meio da mata entre espinhos e procuramos insistentemente
até que finalmente a encontramos, alguns metros rio acima, já bem próximo a uma
grade de contenção.

A essa altura estávamos fatigados e estressados, mas felizes por ter vencido
esses primeiros obstáculos e estar no caminho certo. Agora dependeríamos somente
de nossas próprias forças.

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➢ TTEERRCCEEIIRROO OOBBSSTTÁÁCCUULLOO:: DDEESSGGAASSTTEE FFÍÍSSIICCOO EE MMEENNTTAALL
Dali em diante a trilha se tornou bem difícil; muito íngreme e cansativa, além
de escorregadia por causa da incessante chuva que nos acompanhava desde a Praia
do Cruzeiro. Estávamos exaustos.

Foi sem dúvidas o trecho mais dificil que enfrentáriamos ao longo de toda a
Travessia, pois além da dificuldade do caminho, estávamos enfrentando nosso
próprio desgaste, que beirava o limite. Tivemos que estabelecer paradas de 20 em 20
minutos pra descansar e rehidratar. A subida parecia ser interminável e as nossas
forças estavam se esgotando.

Fiinalmente, depois de um longo tempo, chegamos ao topo da trilha e fomos
abraçados por uma gostosa brisa e uma enorme sensação de alívio. Nossas forças se
restauraram e ganhamos fôlego pra continuar.


➢ QQUUAARRTTOO OOBBSSTTÁÁCCUULLOO:: FFAALLSSAA TTRRAANNQQUUIILLIIDDAADDEE
Chegamos à Praia Grande de Cajaíba perto do anoitecer muito aliviados,
achando que esse percurso tão cansativo tinha chegado ao fim. Falsa ilusão. A
extensão da praia era enorme e tivemos que percorrê-la pela areia, até o lado oposto
onde ficava o camping. No caminho ainda precisamos atravessar dois rios, que
desembocavam no mar, com água que batia na altura da cintura.

Pra terminar esse dia exaustivo, ainda tivemos que subir uma trilha bem
escorregadia que levava ao Camping do Seu Altamiro, onde iríamos pernoitar.
Chegamos lá bem tarde e utilizamos as nossas últimas forças pra armar uma das
barracas, tomar um banho (à luz de lanterna e se equilibrando em cima de um
tronco) e “capotar” de sono.

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dia 3: depois da tempestade...

➢ CCAACCHHOOEEIIRRAA DDAA PPRRAAIIAA GGRRAANNDDEE
Acordamos cedo, tomamos café da manhã e resolvemos conhecer a Cachoeira
da Praia Grande, sugestão da Tatiana, que toma conta do Camping para o seu pai,
Seu Altamiro.

A cachoeira tinha uma beleza impressionante. Nos sentimos recompensados
pelo dia anterior. Estávamos revitalizados e pronto para seguir viagem. Levantamos
acampamento e partimos. A chuva ainda nos acompanharia por um bom tempo.


➢ EENNSSEEAADDAA DDOO PPOOUUSSOO EE OO ““HHOOMMEEMM DDOO MMAACCHHAADDOO””
Saímos de Praia Grande e partimos pra Pouso do Cajaíba, beirando a costa.
No caminho passamos pelas paradisícas praias de Itaoca, Calhaus e Itanema, cada
uma com suas peculiaridades.

Parecia tudo perfeito, até que, de repente, quando seguíamos tranquilos pela
trilha, surgiu do meio do mato um homem carregando um machado. Sem falar nada,
ele passou por nós e sumiu. Pouco tempo depois, ao chegarmos a um pequeno
riacho, lá estava ele lavando a lâmina do machado e, pra nossa surpresa, assim que
passamos, ele veio logo atrás.

Assustadora coincidência que na hora nos deixou bem preocupados
(desconfiança de moradores de cidade grande). Por via das dúvidas, paramos pra
beber água e aproveitamos pra deixar ele nos passar. Sorridente ele apenas disse:
“Feliz Ano Novo”, acenou e seguiu em direção à mata fechada. Mesmo carregando
vários kilos de peso nas costas, nesse instante nos sentimos muito mais leves!

Passado esse susto, ainda tivemos que enfrentar um último trecho que separa a
Praia de Itanema de Pouso da Cajaíba que, apesar de curto, é muito traiçoeiro; um
trecho de 50 metros de ribanceira com lama escorregadia. Foi bem complicado, mas
com bastante calma conseguimos.

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Chegando em Pouso, nos deparamos com muitas pessoas e muito barulho,
lembrando até clima de carnaval. Pouso é uma praia bem povoada com muitas casas,
comércio e restaurantes. Nos alimentamos e partimos pra Martim de Sá antes do
anoitecer.


➢ EENNFFIIMM,, MMAARRTTIIMM!!
A trilha que leva de Pouso da Cajaíba à Martim de Sá, apesar de cansativa na
subida, nem de perto se comparava ao que havíamos passado no dia anterior.
Rapidamente alcançamos o topo dela e aproveitamos pra utilizar o sinal de celular
pra enviar notícias aos familiares (essa seria a última oportunidade de se comunicar
antes do réveillon).

Dali em diante a trilha foi bem tranquila; uma descida bem leve. Chegamos em
Martim de Sá no anoitecer do dia 29 de dezembro de 2017, faltando dois dias para a
virada do ano.

Incrível o ambiente em Martim de Sá! Seu Maneco e sua família administram
o único camping do local, prezando pela organização e limpeza. Nesse camping
sempre foi proibido a venda de bebidas alcoólicas entre outras coisas mais. Todos
respeitam. Seu Maneco, uma das lendas vivas da Juatinga, possui família espalhada
por toda a Reserva. Quem conhece Martim de Sá, conhece Seu Maneco, não há
como separar suas histórias.

Assim que chegamos, cruzamos, por acaso, com amigos, que também estavam
acampados em Martim. Uma feliz coincidência. Rapidamente armamos nossas
barracas antes que anoitecesse. Não demorou muito e fomos dormir cansados e
satisfeitos por mais uma etapa concluída.

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DIA 4: DIA TIPICAMENTE CARIOCA

➢ PPRRAAIIAA EE AALLTTIINNHHAA
Depois de dois dias de andanças aproveitamos para descansar, recuperar as
energias e estruturar melhor o acampamento. Afinal de contas passaríamos o
réveillon em Martim de Sá.

O Sol ainda não tinha dado as caras, mas um dia nublado com forte calor já
era uma grande conquista! Aproveitamos pra curtir uma praia tipicamente carioca,
com roda de altinha e muita resenha. Foi revigorante. Ainda aproveitei pra conversar
com Seu Maneco e conhecer um pouco mais sobre ele e sua família. Uma
experiência e tanto de vida.


➢ VVIIZZIINNHHOO BBOOAA PPRRAAÇÇAA
Resolvi abrir esse espaço pra citar nosso vizinho de barraca, Felipe, de Rio das
Ostras. Felipe parecia uma pessoa bem simples e batalhadora como o típico
trabalhador brasileiro, que apesar de todas as dificuldades, consegue manter um largo
sorriso no rosto. Mesmo com uma esposa e filha pra criar, dias de folga escassos e
com a grana curta conseguia dar todo o conforto pra família. Foi gratificante ter
cruzado o caminho dele e de sua família.

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dia 5: último dia do ano

➢ DDEE VVOOLLTTAA ÀÀSS TTRRIILLHHAASS
Após um dia de descanso, resolvemos fazer a trilha que leva ao Farol da
Juatinga, passando pela Praia de Sumaca. Dessa vez o Victor, vencido pelo desgaste e
pelas noites mal dormidas resolveu ficar no camping e, pra essa missão, tive a
companhia do nosso vizinho Felipe com suas esposa e filha e das amigas Andréia e
Karin;


➢ PPRRAAIIAA DDAA SSUUMMAACCAA
Pegamos a trilha que segue em direção à Pouso da Cajaíba, por onde havíamos
chegado em Martim de Sá, mas, chegando ao topo, ao invés de continuar na trilha
principal, desviamos pra Sumaca, no caminho indicado por uma placa.

A trilha, bem fechada e selvagem, seguia pela beira de uma ribanceira e só dava
pra passar uma pessoa por vez. Nesse ponto, Felipe foi com uma corda auxiliando
sua filha e esposa em ritmo bem lento, mas de forma segura. Depois de algum tempo
andando e bastante lama na bota, chegamos em Sumaca, uma linda praia com uma
vibe incrível.

O mar em Sumaca é dividido por uma rocha, dando origem a duas pequenas
praias com características próprias: uma delas com ondas ideais para prática do surf e
a outra com águas calmas, mas uma violenta correnteza. Felipe deixou suas esposa e
filha na praia (a trilha a seguir seria muito puxado pra elas) com nosso equipamento e
levamos apenas o necessário para o “ataque” ao Farol.


➢ FFAARROOLL DDAA JJUUAATTIINNGGAA EE OO CCÃÃOO DDEE SSUUMMAACCAA
Saímos de Sumaca e seguimos em direção à Ponta da Juatinga, onde fica o
Farol. A trilha variava entre sobes e desces constantes e algumas bifurcações
complicadas. Durante o percurso nos assustamos ao ouvir um estrondo de animal
saindo do mato, mas logo vimos que era um belo cão negro que tinha vindo desde a
Praia da Sumaca nos seguindo; ele se colocou a nossa frente e nos guiou pelo resto
do caminho.

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Logo chegamos a um descampado com vegetação rasteira e vista para o Farol.
Seguimos pela comunidade caiçara e fomos perguntando aos locais a direção correta,
pois não havia sinalização alguma. Finalmente, alcançamos o Farol.

Na lateral do Farol tem uns grampos de metal que servem de escada pra subir
até a parte alta. Foi o que fizemos. Lá de cima tivemos uma vista panorâmica incrível
de toda a região. Cercados pela imensidão do oceano e abençoados por tamanha
beleza.

Assim que começou a chover partimos de volta. Já em Sumaca pegamos um
barco até Martim de Sá pra poupar tempo, afinal de contas já era o último dia do ano
e queríamos aproveitar ao máximo.


➢ VVIIRRAADDAA MMÁÁGGIICCAA:: QQUUAANNDDOO OO SSOOLL EE AA LLUUAA SSEE EENNCCOONNTTRRAARRAAMM
O fim de tarde em Martim de Sá foi algo indiscritivel. Realmente, nenhuma
palavra ou foto conseguiria transmitir toda a energia que irradiava de lá. Era a
primeira vez que estávamos vendo o Sol nessa viagem.

Resolvi tomar um banho na “ducha” que saía direto na areia da praia,
enquanto curtia um pôr do sol magnifico. Do nada me surpreendi com o grito das
pessoas chamando atenção para o outro lado, então virei e me deparei com uma
imensa Lua Cheia, de brilho pulsante, quase que tocando nosssas faces de tão
próxima que estava. Que fenômeno incrível! Sol e Lua, noite e dia, juntos, reunidos
por uma última vez em 2017.

Dali em diante só energia boa. Foi montada uma fogueira no meio da praia e
curtimos a virada com muita música e energia positiva. Pra fechar com chave de ouro,
escutamos atentos um discurso emocionado do Seu Maneco, abençoando todo esse
momento mágico.

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dia 6: reenergização e REFLexão
No dia seguinte à virada, fomos para o Poção de Martim curtir uma cachoeira.
Alguns mergulhavam enquanto outros simplesmente curtiam a sintonia do lugar.

Nesse dia, preferi me afastar dos outros e buscar uma reflexão interior. Apesar
de toda a conexão que criamos nessa viagem, esse momento foi muito importante
para mim. Foram muitos dias de convivência contínua e no fim, acabamos não
conseguindo reservar um espaço para nós mesmos.

Caí no sono durante uma gostosa leitura deitado na rede sob o céu estrelado
de Martim de Sá.

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dia 7: as duas faces da trilha para
ponta negra

➢ AA FFAACCEE SSUUAAVVEE EE AAGGRRAADDÁÁVVEELL
Acordamos, levantamos acampamento e nos despedimos do pessoal. O Victor
estava meio enrolado pra arrumar as coisas, além de parecer bem cansado, então
resolveu ficar pra trás e me encontrar num poço no caminho.

Fiquei um bom tempo por lá. Quando me dei conta já estava ficando bem
tarde e, como ele não tinha aparecido, retornei ao acampamento, mas só encontrei
suas coisas. Resolvi, então, deixar um bilhete dizendo que esperaria por duas horas
em Cairuçu das Pedras, uma vila caiçara no meio do caminho para Ponta Negra,
nosso próximo destino.

A trilha até Cairuçu foi bem tranquilha. O único desafio que enfrentei foi
cruzar o caminho de uma bela e preguiçosa cobra negra, que insistia em não sair do
caminho. Com um pouco de paciência consegui afastá-la e, vagarosamente, ela se
retirou pra dentro da mata.

Após esse pequeno contratempo, cheguei à Cairuçu, uma pequena e
paradisíaca vila caiçara com uma apertada faixa de areia e muitas pedras, água
cristalina e uma linda piscina natural abastecida pela água de uma queda d´água que
escorre por entre as pedras, onde é possivel descansar em redes.

Assim que cheguei na praia encontrei um rapaz chamado Eduardo
descansando próximo a uma mochila cargueira; sentei ao seu lado e puxei conversa.
Como imaginei, ele estava fazendo a Travessia no sentido inverso e, após passar a
virada em Ponta Negra, seguia pra Martim de Sá.

Enquanto conversávamos reparei que já tinham passado as duas horas que
havia estipulado no bilhete deixado e nada do Victor aparecer. Aguardei por mais 30
minutos e me levantei para seguir viagem. Quando virei pra trás lá estava ele! Que
grata surpresa!

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➢ AA FFAACCEE MMAALLDDIITTAA
Partimos pra Ponta Negra. Esse trecho foi bem difícil; extremamente longo e
íngreme, mas pelo menos estávamos bem preparados física e psicologicamente e o
solo estava seco, tornando essa trilha mais fácil do que o trajeto que enfrentamos no
primeiro dia de travessia.

No ponto mais alto da trilha foi possível utilizar sinal de celular e, depois de
uma longa descida, não tão íngreme, logo chegamos à entrada da praia de Ponta
Negra, já bem tarde da noite.


➢ CCOONNTTRRAATTEEMMPPOOSS EE DDEESSAAVVEENNÇÇAASS
Cansados, com fome e sem abrigo definido, começamos a ficar com os nervos
à flor da pele e tivemos uma breve, mas intensa discussão. Resolvi deixar o Victor no
restaurante e fui procurar algum camping na região.

O Camping da Branca (mais uma parente do Seu Maneco) me agradou
bastante, bem estruturado com fogão e forno a lenha, um pequeno restaurante e
espaço para as pessoas relaxarem e conversarem.

Chamei o Victor, nos aprontamos e partimos pra lá. Foi então que as coisas
começaram a ficar esquisitas. Primeiro não tinha espaço pra montar a minha barraca,
então teríamos que montar só a dele. Pra piorar, na hora da montagem, a vareta
quebrou. Estavámos cansados, molhados e já era quae madrugada.

Estressados, sentamos um pouco pra esfriar a cabeça, quando, de repente,
surgiu um pessoal, que estava dormindo numa das cabanas do camping. Um deles,
nos ofereceu sua barraca, que estava montada na parte de trás do camping, mas não
faria mais uso da mesma. Era pequena e apertada, mas não pensamos duas vezes...
entramos correndo na barraca e apagamos, exaustos.

Quando o Universo conspira a favor não lute contra! 😉

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DIA 8: DESBRAVANDO A
CACHOEIRA DO SACO BRAVO

➢ TTRRIILLHHAA SSEEMM FFIIMM
Acordamos cedo e partimos para trilha que leva à Cachoeira do Saco Bravo,
uma das atrações mais conhecidas da Reserva da Juatinga. Ainda no camping,
conhecemos três viajantes que estavam dormindo lá e que se juntaram a nós e, na
entrada da trilha principal, encontramos mais duas pessoas, também do camping,
indo para o mesmo lugar. Resolvemos, então, seguir juntos. A essa altura nosso grupo
contava com sete pessoas.

A trilha em si não era íngreme, mas muito longa, sendo extremamente
cansativa. No fim, já bem cansado, resolvi imprimir um ritmo mais forte e fui na fente
dos demais, correndo. Duas garotas que estavam na trilha se assustaram e gritaram
achando que era uma onça. (momento que seria lembrado com muito humor
posteriormente). Não entendi nada, continuei minha corrida até, finalmente, chegar
na cachoeira.

Uma bela cachoeira com três quedas em sequência, desaguando no mar. No
centro dela, uma enorme piscina natural se formando entre as pedras onde é possível
mergulhar e relaxar curtindo a vista do horizonte. Uma recompensa e tanto pelo
esforço.


➢ OO TTEEMMPPOORRAALL EE AA MMUUDDAANNÇÇAA DDEE PPLLAANNOOSS
Assim que partimos de volta à trilha, uma chuva torrencial começou
repentinamente, alagando todo o caminho. Havia muita chuva, vento e neblina.
Havia se formado um rio de lama que escorria pela trilha e varias poças d´água no
caminho atrasavam nosso ritmo.

Logo que chegamos no camping percebemos que seria arriscado seguir direto
pra Praia do Sono, como havíamos planejado, pois já era noite, nossas lanternas
estavam sem bateria e sabíamos que o trajeto estaria bem escorregadio. Decidimos
passar mais uma noite em Ponta Negra.

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➢ AAMMIIZZAADDEESS PPAASSSSAAGGEEIIRRAASS
Graças ao temporal, tivemos a oportunidade de conhecer melhor os amigos
que havíamos feito nesse dia. Conversamos até altas horas da noite e, então nos
despedimos e fomos dormir, pois dia seguinte todos partiriam em busca de seus
próprios objetivos, em direções opostas.

Mais um ensinamento que se aprende na travessia: o desapego; aproveite os
momentos e pessoas que lhe são apresentados de forma plena, mas deixe-os partir
da mesma forma repentina que surgiram.

Aliás, as garotas que sem querer assustei na trilha e que acharam que eu era
uma onça, acabaram se tornarando boas amigas e, como estavam acampadas na Praia
do Sono, também não conseguiram seguir pra lá e acabaram ficando,
coincidentemente no nosso camping. Acasos da vida.

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dia 9: destino final

➢ CCAACCHHOOEEIIRRAA DDAASS GGAALLHHEETTAASS EE PPRRAAIIAASS PPAARRAADDIISSÍÍAACCAASS
Acordamos e partimos para Praia do Sono. O Victor, pra variar, ficou pra trás
mais uma vez. Acabei seguindo com as amigas mineiras que haviamos conhecido no
dia anterior. No caminho paramos na Cachoeira das Galhetas pra dar um mergulho
e, quando resolvemos partir, conheci um casal de Campinas muito simpático. Eles
estavam com um cooler de cerveja e me ofereceram uma Heineken gelada. Não teve
como recusar. Já estávamos bem perto do destino final da Travessia e me permiti
relaxar.

Seguimos pelas praias dos Antigos e Antiguinhos duas lindas e pequenas praias
desertas. O trecho final, antes da Praia do Sono, tinha se tornado uma ribanceira
escorregadia por causa da chuva do dia anterior e, mesmo com degraus construídos,
estava bem complicado de seguir. No fim das contas, foi uma ótima decisão não ter
enfrentado esse caminho no dia anterior.


➢ DDEESSCCAANNSSOO NNOO SSOONNOO
Chegando ao Sono ficamos no camping “Lá em casa”, à beira mar, muito bem
estruturado e aconchegante com banho quente e ducha na praia. Assim que o Victor
chegou, fomos até o restaurante e pedimos uma moqueca de peixe e pirão com arroz,
batata frita e salada e uma cerveja estalando de gelada. A Travessia chegava ao fim e
chegava o momento de celebrar!

Pra encerrar o dia brindamos com uma dose de cachaça Gabriela e curtimos
um som ao vivo na tenda do reggae. Que noite maravilhosa! Então, fomos dormir.
Essa seria nossa última noite nesse paraiso.

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DIA 10: VOLTANDO PRA CASA

➢ PPOOÇÇOO DDOO JJAACCAARRÉÉ
No último dia de viagem, acordei com uma sensação de realização. Alcancei
tudo que almejava alcançar na viagem e muito mais. Sentia que era hora de retornar.
No entanto, ainda faltava conhecer o Poço do Jacaré. Então arrumei minhas coisas,
me despedi das mineiras que já estavam de partida e me juntei ao Victor nessa trilha.

Após um rápido mergulho, retornei pro camping, comi e me arrumei pra
partir. Mais uma vez deixaria o Victor para trás. Com a Travessia concluída, cada um
seguiria um caminho diferente: ele continuaria a viagem pra explorar outros lugares,
enquanto eu, que me encontrava no limite, já estava bem cansado, com alguns
ferimentos leves na mão e pé, com pouco dinheiro e sem roupas limpas, mas
extremamente satisfeito e feliz, estava pronto pra retornar.

Me despedi do Victor e parti, sozinho, para a última trilha da viagem. A trilha
pra casa.


➢ AA TTRRIILLHHAA QQUUEE LLEEVVAA PPRRAA CCAASSAA
Muita gente retorna à costa via barco, mas eu já tinha andando tanto, que uma
última trilha leve não faria diferença ou pelo menos foi o que eu pensei no momento.
A trilha, apesar de leve é bem longa e escorregadia. Foi bem cansativo e passei sede;
me descuidei e não reabasteci os cantis.

Finalmente cheguei na Vila Oratório, devorei uma garrafa d´água, e aguardei,
exausto, pelo ônibus. Já dentro do ônibus, me juntei a outras pessoas que estavam a
passeio pela região. Além do mochilão e das roupas sujas, senti que estava numa
sintonia diferente daquelas pessoas. O que havia passado ao longo desses dez dias
algumas pessoas passarão uma vida inteira sem vivenciar.

Chegando na Rodoviária ainda tive que esperar algumas horas pelo próximo
ônibus pro Rio de Janeiro, mas foi bom, pos pude me alimentar bem, tirar a bota
molhada, cuidar dos ferimentos e recarregar o celular antes de partir.

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Por uma última vez me surpreendi ao encontrar o Victor esperando outro
ônibus no mesmo lugar. Com certeza esse seria nosso último encontro nessa viagem.
Com certeza?!

Como foi bom chegar em casa. Deixar de lado a mochila, as roupas sujas,
tomar um bom banho colocar roupas secas, comer e “apagar” numa cama
confortável. Não me leve a mal, eu adoro passar um perregue acampando ou fazendo
trilhas, mas todo mundo precisa de um bom descanso pra recuperar as energias.

Logo mais estou de volta ao mato, com novas histórias. Espero que tenham
gostado dessa breve aventura na Reserva da Juatinga e se inspirem a experimentar
suas próprias aventuras!

Até mais! Que nossos caminhos se cruzem pelas trilhas da vida! 😊

Visite nosso site para ver o relato completo com detalhes de todas as trilhas
que fizemos durante a Travessia:

• http://www.trilhasecachoeiras.com.br

Assista, também, o vídeo da Travessia no nosso canal do Youtube:

• https://www.youtube.com/watch?v=VhBo_5JnPG4

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