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RACISMO CIENTÍFICO NO BRASIL PÓS-ESCRAVATURA

RAQUEL AMORIM DOS SANTOS 1
ROSÂNGELA MARIA DE NAZARÉ BARBOSA E SILVA 2

Resumo
Este estudo analisa a difusão do racismo científico no Brasil, reconhecendo seu
caráter estrutural. Reconhecê-lo desta forma significa perceber que cor, raça e
preconceito no Brasil compõem o plexo de concepções para o enfrentamento
das questões raciais e de seus desdobramentos nocivos na formação de crianças e
adolescentes, por meio da construção de uma nova forma de se pensar a formação
da nação e da nacionalidade. O estudo é de abordagem qualitativa com aplicação
da pesquisa bibliográfica. A análise aponta que o mestiço era admitido como
elemento transitório que levaria a constituição de uma nação de brancos.
Palavras-chave: Racismo Científico; Racismo; Pós-escravatura

1 Doutora em Educação pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em Educação, Mestre em Educação (UFPA)
em Currículo e Formação de Professores. Professora Adjunta A da Universidade Federal do Pará, Campus
Universitário de Bragança, Faculdade de Educação. Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre
Formação de Professores e Relações Étnico-Raciais (GERA/UFPA). Pesquisadora do Grupo de Trabalho
Populações Tradicionais, Etnicidade, Territorialidade e Política (UFPA/Campus Universitário de Bragança).
Diretora das Áreas Acadêmicas da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros - ABPN (2017–2018).
Associada à Anped (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), Anpae (Associação
Nacional de Política e Administração da Educação) e ABPN. Graduada em Pedagogia pela Universidade da
Amazônia (Unama). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Relações Étnico-Raciais, Currícu-
lo, Formação de Professores, Política Educacional, Educação Básica e Didática, atuando principalmente nos
seguintes temas: Relações Étnico-Raciais, Política Curricular, Currículo, Formação de Professores, Didática,
Planejamento Educacional, Teorias do Currículo, Planejamento e Organização do Processo Ensino Aprendi-
zagem, Avaliação Educacional, Teoria das Representações Sociais e Análise do Ciclo de Políticas.
2 Possui Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Pará (2009) e Doutorado em Educação pela Uni-
versidade Federal do Pará (2014). Atualmente é Assessora Técnica do Conselho Estadual de Educação. Pesqui-
sadora integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Relações Raciais (GERA-UFPA). Associada à ABPN
(Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as), Associada à ANPAE - Associação Nacional de Política
e Administração da Educação. Docente da Universidade da Amazônia. Tem experiência na área de Educação,
com ênfase em Educação e Relações Raciais, atuando principalmente nos seguintes temas: Política educacional,
Formação de Professores, Práticas Pedagógicas, Currículo, Relações raciais, Leitura, escrita, alfabetização

Revista Contemporânea de Educação, vol. 12, n. 25, set/dez de 2017

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n. reconociendo su carácter estructural. Raza. de sua composição étnica. que não tivessem Revista Contemporânea de Educação. El estudio es de enfoque cualitativo con aplicación de la investigación bibliográfica. 25. Ianni (1962. Trata-se de recuperar ideias antirracistas que circulavam no Brasil no início do século XX. Munanga (2004). sobretudo. Guimarães (1999). 1978). Hasenbalg (2005). ganhando formas particulares nas mãos dos diferentes autores. race and prejudice in Brazil make up the plexus of conceptions for confrontation racial issues and their harmful conse- quences of children and adolescents. Schwarcz (1993). tais como Costa (2006). Post-esclavitud 1 Introdução Este estudo analisa o racismo científico no Brasil e seus desdobramentos na confi- guração da identidade da nação brasileira pós-escravatura. Breed. Os debates que mobilizavam a intelectualidade brasileira do final do século XIX e começo do XX fornecem a medida da dificuldade de se formular.SCIENTIFIC RACISM IN POST-SLAVERY BRAZIL Abstract This study analyzes the diffusion of scientific racism in Brazil. la raza y el prejuicio en Brasil componen el plexo de concepciones para el enfrentamento de las cuestiones raciales y de sus desdoblamientos nocivos en la formación de niños y adolescentes. Post-slavery RACISMO CIENTÍFICO EN BRASIL POST-ESCLAVATURA Resumen Este estudio analiza la difusión del racismo científico en Brasil. à época. que se debruçaram a estudar em suas distintas abordagens o racismo científico no Brasil pós-escravatura. Hofbauer (2006). The analysis indicates that the mestizo was admitted as a transitory element that would lead to the constitution of a nation of whites. Tal recuperação se faz a partir de matrizes teóricas diversas. interpretações do país e. Skidmore (2012). Reconocerlo de esta forma significa percibir qué color. Palabras clave: Racismo Científico. El análisis apunta que el mestizo era admitido como elemento transitorio que llevaría la constitución de una nación de blancos. set/dez de 2017 439 . The study is of qualitative approach with appli- cation of bibliographical research. To recognize it in this way means to realize that color. por medio de la construcción de una nueva forma de pensar la forma- ción de la nación y la nacionalidad. vol. Keywords: Scientific Racism. época de plena hegemo- nia do racismo científico. entre outros. through the construction of a new way of think about the formation of the nation and nationality. recognizing its structural character. 12.

ainda que as Ciências Naturais comprovem que a humanidade tem origem única e. 115). ele apa- rece como um problema social: sua condição. por sua vez. a escravidão foi a grande questão do Brasil. mas os negros e seus descendentes. com a entrada maciça de imigrantes europeus no país. ao longo dos anos. O conceito de “raça” é aqui utilizado no sentido sociológico3 do termo.] consenso na Sociologia/ no qual/ raça é uma construção social. SCHWARCZ. foi construído um conceito de “raça”. por conseguinte. tratada por alguns como uma instituição arcaica que atrapalhava o desenvolvimento econômico e social e que era ainda um empecilho à imigração europeia. Revista Contemporânea de Educação. SKIDMORE.. Ao longo do século XIX. a popu- lação brasileira. o problema agora não era mais a escravidão como instituição retrógrada. Cor. classificados como raça inferior. no âmbito das Ciências Sociais e Hu- manas. ou somente de seu passado escravista – como defendiam as teses dos autores da escola paulista desde a década de 1950. 4 O objeto das Ciências Naturais constitui o elemento dado pela natureza e o objeto das Ciências Sociais e Hu- manas constitui o que foi construído socialmente. o qual traz consequências sociais que exigem a tomada de medidas para eliminar os danos causados às populações negras e indígenas por motivo de significado social negativo. que prescinda de qualquer fundamentação natu- ral. 38). set/dez de 2017 440 . Portanto.. n.] construir um conceito de “raça” propriamente sociológico. iria se embranquecer (GUIMARÃES.] conceito indicador de uma conformação 3 Para Telles (2003). é notória a inter- pretação de que mesmo o fato de o Brasil constituir o país de maior população negra fora do continente africano não proporciona visibilidade – positiva – à cul- tura afro-brasileira e. Isto porque acredita ser possível “[. com pouca ou nenhuma base biológica. Fin- dado o sistema escravista.. partilha dessa concepção. [.. pois utiliza raça como “[. conforme apontaremos no decorrer do texto. 1993. Em todo plexo. vol.. p. 12. seria resultado de problemas estruturais do país e não do preconceito. atribuído às suas características fenotípicas (OLIVEIRA. A questão racial tornou-se tão forte em fins do século XIX que se acreditava que. objetiva ou biológica” (p. 2009. portanto. no âmbito das Ciências Sociais e Humanas e não no sentido que lhe é atribuído pelas Ciências Naturais4. o termo “raça” utilizado na perspectiva sociológica representa [.. uma forte carga racista. 2006). raça e preconceito no Brasil compõem o plexo de concepções para o enfrentamento das questões raciais e de seus desdobramentos nocivos na forma- ção de crianças e adolescentes. 2006). o lugar que ocupa na escala social. não existam raças humanas. Coelho (2009.. 1976). a crença na existência de raça está arraigada nas práticas sociais.. 22). o apoio nas teorias raciais em voga parecia definir o próprio estatuto de cientificidade (COSTA.] Embora essas teorias tenham sido desacreditadas pela maioria da comunidade científi- ca. A raça existe em função das ideologias racistas. ao negro. por meio da construção de uma nova forma de se pensar a formação da nação e da nacionalidade. atribuindo ao conceito de raça grande poder de influência sobre a organização social (p. Com efeito. Guimarães (1999) defende o uso do conceito de raça pelas Ciências Sociais. 25. Muito frequentemente.

Guimarães (2008) abaliza que somente nesse século a nascente ciên- cia biológica fez das raças humanas um objeto de estudo6. fazendo uso de sofisticadas taxono- mias (SCHWARCZ. a saber..] (p. n. reportando em última instância à formação do Estado Nacional.. a ques- tão da raça surgiu como instrumento de classificação de grupos humanos5. portanto. Para eles. sociólogos e antropólogos. Ao agirmos assim. ainda que a cor da pele seja apenas um dos critérios de sua classificação. 25. Utilizando-se não apenas da cor da pele.. 7 Para Ortiz (2003). o estudo sobre as raças humanas eram realizados por meio de mediações do for- mato e do tamanho da caixa craniana. as diferentes raças con- formam uma hierarquia biológica. O dilema dos intelectuais. 6 Segundo Guimarães (2008). para logo em seguida.]. HOFBAUER. estava na tentativa de construção de uma identi- dade simbólica... COSTA. como o meio e a raça. qual seja. raça e preconceito pós-escravatura O surgimento do racismo científico no século XIX e seus respectivos des- dobramentos na política e na sociedade do período têm sido assunto ampla- mente debatido entre os historiadores. 2002. Assim. 2 Racismo científico no Brasil: cor. 1993). 17-20). abandonar as classificações baseadas em traços fenotípicos e concentrar-se no estudo da hereditariedade e dos genes (p. 12. GUIMARÃES.]. As demais raças de Bernier não são designadas por cores [. Convém assinalar que alguns intelectuais contemporâneos como Skidmore (2012) e Schwarcz (1993) se debruçaram no estudo das teorias “raciais” europeias do século XIX no contexto histórico brasileiro após a abolição. A classificação de Bernier. ao admitirem o evolucionismo como principal pressuposto teórico.... Nessa mesma ótica.. 2009. rejeita a visão reducionista do termo propalada pelo racismo científico do século XIX.]. vol. Desse modo..] não servindo. 2006). para classificar a diversidade humana aparente.sociocultural. as teorias raciais deram status científico às desigualdades entre os seres humanos e por meio do conceito de “raça” puderam classificar a humanidade.. enfatizando o caráter nacional. a diversidade fenotípica. Assim. a ideia de que a huma- nidade está dividida em raças. é chamada de “negra”. e seu corolário. isto é. As teorias “raciais”7 propagadas a partir da metade do século XIX base- avam-se nos postulados do racismo científico (COELHO. João Batista Lacerda e Nina Rodrigues. para criar-se uma classificação segura [. no começo do século. na qual os brancos ocupam posição superior 5 A esse respeito Guimarães (2008) nos diz que o primeiro registro conhecido da palavra raça para designar a divisão dos seres humanos em espécies foi feita por François Bernier [. embora esteja marcada pela polaridade branco-negro.. Revista Contemporânea de Educação. mas de outros traços fisionômicos [. o entendimento das especificidades sociais brasileiras perpassou uma incorporação de novos argumentos a fonte disponível. reconhecemos os limites dessa categoria enfa- tizando o seu alcance antropológico e sociológico”. set/dez de 2017 441 . Sobrepondo- -se aos dogmas religiosos reinantes até então.]. A raça que Bernier diz ter encontrado em todas as outras partes da África [. 20). uma das características das teorias raciais elaboradas no Brasil durante a Primeira República foi sua dimensão de implausibilidade entre a questão racial e a identidade nacional. [. como Sílvio Romero. 2006. concebe o termo “raça”. 1999.

COELHO. e depuradas mediante uma seleção natural [. SKIDMORE. 12. antes de tudo uma maneira de racionalizar os sentimentos de inferioridade racial instala- dos pelo racismo científico e pelo determinismo geográfico do século XIX. 2009.] uma nação composta de raças miscigenadas. aqueles que acreditavam que a miscige- nação operada no Brasil levaria à degeneração crescente e à impossibilidade de constituição de um povo brasileiro habilitado à “civilização”. 8 O valor das reflexões de Oliveira Vianna para a Sociologia e Política. distinguiam-se. o Brasil era descrito como “[. GUIMARÃES. branco”. ou de João Batista Lacerda para a Antro- pologia. Para Guimarães (1999. SKIDMORE. 12). Segundo Schwarcz (1993. GUIMARÃES. SCHWARCZ. 2002. COSTA. do ponto de vista do projeto de formação nacional.. 1999. n. 2008. set/dez de 2017 442 .] foi. basicamente. 1993. como defendia Nina Rodrigues. 2002. 1999. Essas. HOFBAUER.. ao vislumbrar uma saída biológica para o branqueamento paulatino da população.]. Ao contrário. Segundo – a miscigenação produzia “naturalmente” uma população mais clara. 2012). levaria a supor que o Brasil seria. vol. MUNANGA. 81) afirma: A tese do branqueamento baseava-se na presunção da superioridade branca. tidos como inferiores. a miscigenação no Brasil cor- respondia a uma possibilidade de melhoria e regeneração racial que levaria ao desaparecimento progressivo dos negros e mestiços de pele escura. juntavam-se mais duas: Primeiro – a população negra diminuiria progressivamente em relação à branca... COELHO.. em parte porque o gene branco era mais forte e em parte porque as pessoas procu- rassem parceiros mais claros [. e ao embranquecimento paulatino do conjunto da população. Para outros intelectuais mais otimistas. Revista Contemporânea de Educação. a ideia de “embraquecimento” [. p.. As divergências expressivas do racismo científico brasileiro se situavam no âmbito de outro ponto de pauta: a discussão sobre a mistura de raças e os riscos de degeneração delas decorridos. 53). 25. reconhece-se plenamente o vínculo congênito entre o racismo científico e as Ciências Humanas no Brasil. João Batista Lacerda e Oliveira Viana8 (COSTA 2006. 1993. p. p..]. 2006. não está sendo questionado aqui. porém em transição. À suposição. SCHWARCZ.. 2012). HOFBAUER. 2006. um dia. passando por um processo acelerado de cruza- mento. (COELHO. 2006. Skidmore (2012. Nesse sentido. às vezes pelo uso dos eufemismos raças “mais adiantadas” e pelo fato de ficar em aberto a questão de ser a inferioridade inata. a variante “otimista” resolve o suposto dilema colocado pelo racismo científico. Aqui. como pensava Sílvio Romero. Segundo Schwarcz (1993). 2004.

p. buscava-se desde o século XIX uma imagem internacional de “paraíso racial” (GUIMARÃES. qual seja: 9 Para Schwarcz (1993). que a reflexão sobre raça no âmbito das Ciências Sociais no Brasil até os anos 1930 esteve fundamentalmente aprisionada nos ter- mos estabelecidos pelo racismo científico. HOFBAUER. entre as duas vertentes não há qualquer distinção. n. ao contrário. O início do século XX foi marcado por um significativo acirramento nas ten- sões “raciais”. 12.. 1999). 1993. a inviabilidade mesma da “nação mestiça”9. Assim. MUNANGA. como sociedade histórica (COSTA. A ideologia do branqueamento presente no processo de miscigenação con- formou no Brasil a construção de uma identidade nacional baseada na herança branca europeia. prevalecente no pensa- mento clássico.] a miscigenação não produziria inevitavel- mente “degenerados”. se quer de uma moral humanitária. GUIMARÃES. pela condição de objeto do discurso etnológico europeu e. Ambas filiavam-se à corrente do racismo científi- co reconhecidas no debate internacional e acreditavam. O racismo científico brasileiro espelha precisamente o paradoxo que vivia o país. fundamentada na herança negra de origem africana (MUNANGA. 1987). por um lado. Com efeito. 2004). é sob a égide das teorias “raciais” e evolucionistas que se opera a dissolução de uma visão unitária da história universal. 2006. 2002. na desigualdade de fundo racial entre os seres humanos. SKIDMORE. 2006. Revista Contemporânea de Educação. p. 81). 2012. agora sob o peso de uma “nova” lógica. tanto cultural quanto fisicamente” (SKIDMORE.Os que temiam a mistura pelo risco da degeneração mostravam. set/dez de 2017 443 . pelo desejo de produção de um discurso nacional. negando qualquer possibilidade de se pensar em alguma identidade alternativa. com igual fervor. Mas é no bojo do racismo científico que se dissipa a unidade da história como nos afirma Ventura (1987. especialmente nos Estados Unidos. então. Podemos dizer. 25. 2004. história natural. podemos sintetizar a conclusão “otimista” sobre a análise racial que os intelectuais da época chegaram: “[. VENTURA. No caso do Brasil. Não obstante da perspectiva do racismo científico e. 1999. mas uma população mestiça sadia capaz de torna-se sempre mais branca. 148): Dissolve-se a unidade da história – em que coexistiam. vol. por outro. moral e política – por meio da separação entre discurso histórico de tipo moderno (tem como objetivo sociedades históricas) e discurso etnológico (voltado para o estudo das sociedades ditas selvagens).. 2012. SCHWARCZ. premido. até então.

sua força legitimadora. GUIMA- RÃES. 1976). O racismo colonial fundado. 2009. o peso da determinação da raça desloca-se para as condições estruturais da sociedade. uma sociedade mais Revista Contemporânea de Educação. cedeu lugar depois da independência do país à ideia de nação mestiça (GUIMARÃES. baseada na lógica da mestiçagem (HOFBAUER. Trata-se de uma visão de mundo que reinventa o país. vol. o desejo de branquear a nação por meio da entrada maciça de imigrantes europeus. 1976). MUNANGA. Esse autor reconstrói o processo de constituição do Brasil desde o período colonial e mostra que a nação brasileira. Lesser (1994. Para uma discussão circunstanciada específica dedicada à relação entre imigrante e branqueamento. a constituição de uma nação unitária e progressista. 2002. 12. O elogio do hibridismo (SKIDMORE. Tal lógica encontra em Gilberto Freyre11 sua melhor expressão intelectual. 1999. a despeito da escravidão e da dizimação de povos indígenas. ainda estava na ordem do dia.. culturalmente assimilacionista e poli- ticamente integradora. 2003). no âmbito da qual cada um dos três grupos originais teria deixado uma contribuição relevante para a constituição do caráter nacional (GUIMARÃES. ligado às teorias “raciais” do século XIX. 25. a “cor” passou a ser uma marca de origem. representa o encontro efetivo de três grupos humanos. 1999. sobre a ideia da pureza de sangue dos colonizadores portugueses. 2004. Esse autor na década de 193012 abandonou o 10 Para um aprofundamento teórico acerca do embraquecimento. um código cifrado para raça. 11 A contestação do determinismo biológico reinante no âmbito dos debates sobre o futuro do Brasil até os anos 30 do século XX conforma o núcleo da defesa da mestiçagem feita por Freyre. n. p. 2006. Assim ter-se-ia constituído uma “brasileiridade” – unidade da diversidade –. ao longo da democratização. contudo..] a substituição da ordem escravocrata por outra ordem hierárquica. Deve-se lembrar de que até as primeiras décadas do século XX uma questão polarizava o debate político brasileiro. conforma o núcleo da ideologia que configura a nação bra- sileira a partir das primeiras décadas do século XX (COELHO. um país de convivência pacífica (GUIMARÃES. SKIDMORE. Guimarães (1999. MUNANGA. seus reflexos ainda seriam visíveis no período getulista. SKIDMORE. tanto no aspecto cultural quanto racial. 2001) e Seyferth (2001). africanos e indígenas) então residentes dentro das fronteiras político-geo- gráficas brasileiras. 1976). 48). 2004. a saber. HANCHARD. Tal modelo de nacionalidade. perde crescentemente. o Brasil era interpretado de forma homogênea. 2002. 1976). a forma de superação dos biologismos racistas predominante nos debates político e intelectual de até então. 2002. com sua explicita tentativa de controlar a entrada no Brasil de indivíduos prove- nientes asiáticos e africanos10 (SKIDMORE. Em sua estratégia argumentativa. os quais se encontram numa relação de complementaridade entre si. 2001. 1999. 2004. 2002. assim. 12 Na década de 1930. MUNANGA. 1993. 2008) Schwarcz (1993) e Skidmore (2012). SISS. consultar Lenharo (1986). Tratava-se de um momento singular no pensamento social brasileiro a ques- tão da construção nacional. ver: Coelho (2009). SKIDMORE. set/dez de 2017 444 . 1976) constitui. [. na medida em que revela a possibilidade de convivência dos diferentes grupos socioculturais (euro- peus. SCHWARCZ. A imagem de uma brasilidade mestiça.

set/dez de 2017 445 . Nota-se nesta obra que há um desequilíbrio entre sexos. 89). O mito da democracia racial16 tem uma penetração profunda na sociedade.. gerando a desi- gualdade racial no país. ao valorizar o papel da cul- tura específico do africano. 15 Gilberto Freyre. O termo teria sido utilizado em um artigo publicado no Diário de São Paulo em março de 1944. A obra clássica Casa-grande & Senzala15 (FREYRE. esse constructo ideológico trouxe sérias consequências sociais à população negra. vol. p. e pode ser lido como momento fundamental do movimento de construção da nação brasileira.] sociedade multirracial. sobretudo. na análise apresentada por Freyre.determinismo racial e climático do fim de século XIX em troca do desvendamento de uma matriz cultural fundadora.. 211 – grifos no original). no qual Bastide reporta-se a uma visita a Gilberto Freyre. o que não garantia uma população branca. p. 1999) expressa de modo inerente esse discurso.. Daí a aproximação e exploração sexual entre escravas negras e índias com os senhores brancos. 88).] lentamente o mito da democracia racial: [. mas também do indígena. as desigualdades existentes nos diferentes cam- tolerante. ele reforçava: “[. ao contrário de se promover um pretenso “igualitarismo racial”. mostrando de maneira vívida que a elite (primitivamente branca) adquiriu preciosos traços culturais do íntimo contato com o africano (e com o índio. Freyre contribui para interpretação do Brasil como uma “[. 14 Para Munanga (2004).. A despeito de Freyre ser o inspirador Revista Contemporânea de Educação. Interpreta a miscigenação13 como algo positivo sob o aspecto da degenerescência. o primeiro a utilizar este termo foi Roger Bastide a partir de uma livre inter- pretação das ideias de Freyre. 13 O discurso pregado acerca da miscigenação considerava esta como um anacronismo. africana e indígena – podiam ser vistas como igualmente valiosas”.. em que as raças componentes – europeia. caracterizado pela escassez de mulheres brancas em função da economia latifundiária com base na monocultura da cana-de-açúcar. narra a história social do mundo agrário e escra- vista do nordeste brasileiro nos séculos XVI e XVII e imprime uma interpretação acerca da miscigenação. Skidmore (1976) observa que. mas orgânica e unitária. 25. distancia o eixo biológico para o cultural14. 12... permi- tindo as elites dominantes dissimular as desigualdades e impedindo os membros das comunidades não-brancas de terem consciência de seus sutis mecanismos de exclusão na qual são vítimas na sociedade. branca e índia” (p.] exalta a ideia de convivência har- moniosa entre os indivíduos de todas as camadas sociais e grupos étnicos. p. pois encobre os conflitos “raciais”. uma brasilidade mestiça. degeneração transfor- mando as diferenças raciais em barreiras biológicas. as três raças trouxeram: [. n. em sua obra Casa-grande & Senzala (1932). apesar das relações desiguais entre senhor e escravo não impedirem uma zona de confraternização e cordialidade entre ambos. “Freyre consolida o mito originário da sociedade brasileira configurada no triângulo cujos vértices são as raças negra. mas na constituição de uma cultura nacional. em menor escala)”. Para Skidmore (1976. Na concepção de Munanga (2004. no processo de construção da identidade nacional.. pois descreve como exitoso o processo de formação nacio- nal apoiado não numa base racial homogênea. como algo positivo. 138). 16 Segundo Guimarães (2002.] o ideal de branqueamento.

entre outros proble- mas: o “branqueamento” e a marginalização do negro (metamorfose do escravo).] sem barreiras legais que impedissem a ascensão social de pessoas de cor a cargos oficias. a Ciência e a Cultura (Unesco).. “[. Octávio Ianny. As relações “harmoniosas” no Brasil passaram duramente a ser questionadas após Segunda Guerra Mundial.. sem preconceito”. Guimarães (2002) ressalta que ele o evitou muitas vezes. Esse construto ideológico da formação étnica da socie- dade brasileira serviu como sustentáculo para a construção da identidade nacional (DAMATTA. p. 256) constata o que ele denomina de metamorfose do escravo em negro e mulato. 18 A pesquisa foi realizada a partir da Universidade de São Paulo (USP)... p.. Fernando Henrique Cardoso.]” (GUI- MARÃES. 2002.. [. 17 O termo expressa de forma eficaz a primeira impressão que todo visitante tem da conduta nacional (HOLANDA. examinou os fatores responsáveis pelas relações harmoniosas no Brasil. set/dez de 2017 446 . Revista Contemporânea de Educação. 25. coordenada pelo pesquisador francês Roger Bastide e pelo sociólogo brasileiro Florestan Fernandes e demais pesquisadores como: Oracy Nogueira... Freyre costuma utilizar a expressão “democracia étnica” para pensar o tipo de relação existente entre brancos e negros no Brasil. Hofbauer (2006. que trouxe. bem como facilita a alienação dos “não brancos” (MUNANGA. pautada no racismo. 1999). 1995). entre outros. Nesse sentido. interessada em princípio em desvendar o “enigma” da “harmonia racial” no Brasil. ORTIZ. Sobre essa nova organização do sistema de produ- do termo. A esse respeito Schwarcz (2007. ou posição de riquezas e prestígio [. na década de 1950. Neste sentido.] metamorfose do escravo. n... 139). 139). O autor procura estabelecer um nexo entre as ideias de democracia étnica e de democracia social.. Ianni (1962. Desse modo.] uma socie- dade sem ‘linha de cor’. 1993.. preocupou-se com o encaminhamento de ações para o combate a políticas e as ideologias base- adas em discriminações “raciais” (HOFBAUER. patrocinou uma pesquisa18 sobre as relações “raciais” no Brasil..] a existência particular de racismo: ‘um preconceito de não ter preconceito’.. 41). 2003. As pesquisas da Unesco apontaram a problemática racial do Brasil. pos sociais. 28) nos diz: “[. preconceito e na nociva miscigenação.. em função das consequências provo- cadas pela expansão das teorias racistas e dos regimes nazifascistas. constituiriam também um marco decisivo para a história do ideário de branqueamento”. amplamente divulgada por Frey- re e apontou a existência de uma clara desigualdade e um intenso preconceito racial. vol. p.] afirmação da permanência da hierarquização dos conflitos e de uma forma particular de racismo. na “Introdução” escrita por Charles Wagley do primeiro volume de uma série de estudos sobre as relações raciais patrocinados pela Unesco (GUIMARÃES. 18-19) assinala: [. [. p. 12.] as pesquisas promovidas pela UNESCO. Dessa harmonia17 transcorre a imagem de que o Brasil já era “[.. Essa pesquisa problematizou o mito da “democracia racial”. que acompanhava a desi- gualdade da sociedade brasileira. 2004). 2002. A expressão democracia étnica cunhada por Freyre surgiu no contexto de sua militância contra o Integralismo. quando a Organização das Nações Unidas para a Educação..] somos uma democracia porque a mistura gerou um povo sem barreira. tendo para o autor um significado peculiar. [. a Unesco. p. 2006). SCHWARCZ. p. A expressão terminológica “democracia racial” só aparece na literatura especializada em 1952..] novas facetas da miscigenação brasileira [. Para Ortiz (2003.

Para Octávio Ianni (1978. subordinados. 51) mostra que a trama de relações de raça no país buscava na supremacia do descendente branco-europeu que se autoconstitui numa pretensa elite. Nesse sen- tido. p. a ideia de democracia racial é intencional- mente usada para desmobilizar os negros. 133). ou seja: O mito da democracia racial. esses emblemas põe e repõe a importância da problemática racial na explicação da questão nacional. p. 2004. 12. incentivo ou dominação.. 25. econômicas e culturais. ou seja. a forma de teorizar e estudar o negro tem se constituído na “fantástica metamorfose das raças em população e povo” na qual as grandezas e misérias do homem brasileiro nada tem a ver com a raça. pois: Quem inventa o negro do branco é o branco. Para ele. E é este negro que o branco procura incutir no outro. 159 e 160). p. outro modo de avaliar as relações dos homens entre si”.] acabam por pensar e agir como se o negro possuísse outra cultura. A metamorfose desgasta sutilmente o eu. ao mesmo tempo que constitui o negro do branco (IANNI. n. um supremacismo tão bem estruturado a ponto de ter sobrevivido a todas as transformações histórico-sociais pelas quais tem passado a nação e que “[. a “democra- cia racial” e o “homem cordial”. des- considerando que o preconceito e a discriminação racial estão sempre inseridos dinamicamente nas práticas das relações sociais e de produção compreendendo as suas implicações políticas. incruentas. sociológica e antropológica que mostra que as raças subalternas são discriminadas na prática cotidiana das relações econômicas e políticas. vol. entretanto. 1978. exorcizados. Quem transforma o índio em enigma é o branco. metamorfoseados. controle. p. 127). por meio de emblema ideológico. Um mito que entra na composição de uma “constelação ideológica” na qual estão pre- sentes e combinam-se mais ou menos eficazmente vários mitos da história pas- sada e presente: O Brasil seria um país com uma história de “revoluções brancas”.] negro e mulato serão os trabalhadores braçais no sistema societário hierarquizado em camadas superpostas. Nos dois casos. 2004. 127).. p.. onde haverá trabalha- dores e proprietários dos meios de produção”. é uma poderosa insígnia ideológica que tem agido como forma de administração. envolvidas no jogo de forças sociais e processos de dominação e apropriação (IANNI. orientação. A metamorfose é trabalhada pelo autor no sentido de relações sociais que as constituem e modificam. set/dez de 2017 447 .. p. o branco é o burguês que encara todos os outros como desafios a serem desfeitos. faz uma consideração: Revista Contemporânea de Educação. Ianni (1978. tudo isso mais ou menos “luso-tropical” (IANNI.ção. O autor faz uma crítica às interpretações sobre o negro brasileiro nas perspec- tivas econômica. 2004. Ianni (1962) advoga: “[. na qual predominam a “conciliação e a reforma”. 132-142.

. 2004. compreensão. no arianismo chegado com a política imigratória favo- recendo a entrada de europeus. lutas sociais e emancipação. Com isso. assim como daqueles que enxergam os negros com exotismo.] o negro e o mulato vão sendo progressivamente gerados como categorias do regime de classes em for- mação”. determinado. políticas e culturais (IANNI. outra cultura. p.. 14) comenta que “[. Ianni (1962. Ou seja. eco- nômicas. O autor assume que os problemas dos negros também são problemas de classes. este é o clima que germina o “eu” e o “outro”. Na prática.25). compreendendo identidade e alteridade. 131-132). Revista Contemporânea de Educação. 27). n. em indivíduo “em particular”. o problema continua em aberto. a ruptura ou a transfiguração (IANNI. As diversidades raciais tanto se recriam continuamente como sempre escondem desigualdades sociais. distintas e contraditórias determinações. diversidade e desigualdade. divisão do trabalho social e alienação. 2004. a autoconsciência ou a consciência para si. construindo e reconstruindo a sua consciência no contraponto do “eu” e do “outro”. na democracia racial naturalmente resultante da amenidade da escravatura brasileira. p. em uma negação da ideia de que somos uma democracia racial. ou de repente. 12. metamorfoseamos o indivíduo (para usar termo do autor) “em geral”. reconhecendo que é desde essa autoconsciência crítica que nasce a transformação. A esse respeito. set/dez de 2017 448 . concreti- zado por várias. indeterminado. o “nós” e o “eles”. quais são os nexos do tecido social no qual está emaranhado. De quando em quando. na mestiçagem herdada da colonização portuguesa. o estigmatizado desenvolve a sua percep- ção. Esse o percurso em que se desenvolve a consciência crítica. no entanto. Sobre a questão identitária. vol. cooperação e hierarquização. dos “subalternos”. Nesse processo de metamorfose. realiza um entendimento mais amplo e vivo de qual é a sua real situação. volta-se a falar nas três raças tristes. ele pondera sobre a real situação do negro na dialética das relações desiguais: Nesse percurso atravessado por vivências. do “nós” e do “eles”. de como essa sua situação implica decisivamente a ideologia e a prática dos que discri- minam. p. da mesma forma que no passado o escravo era considerado membro de outra raça. uma crítica enfática dos estudos que pressupõem a inferioridade dos negros biológica e cul- turalmente. sensibilidade. Há de se considerar que a leitura de Octávio Ianni acerca dos estudos do negro brasileiro e de sua participação na formação do povo brasileiro é coerente. 2005). dos “dominan- tes”. Para Ianni (2004. no preconceito racial que se mescla e reafirma por dentro e por fora das classes sociais formadas com a sociedade urbano-indus- trial. p. 25. uma vez que tais obras estão ancoradas na dialética das relações raciais (IANNI. o autor faz uma consideração no sentido de que se transfigura o negro em membro de um grupo à parte. Assim. o mulato também se transforma em um mero instrumento das elites dominantes. aos poucos.

] como um conceito identificador. Afirma ainda que os negros. abolidas do discurso erudito e do discurso popular (sancionadas.. compre- endemos tal como Guimarães (2002) e Coelho (2009) que o Brasil apresenta um contexto que serve para refutar a ideia de que o racismo depende do uso do termo “raça”. acesso ao trabalho) e foi reconstruída no tempo presente pela ordem capitalista. Para ele. ao considerar o racismo como um “resíduo” da ordem escravocrata. ao mesmo tempo. na sociedade brasileira. 75). por interdições rituais e etiqueta bastante sofisticada).. critica a ideia da Escola Socioló- gica Paulista (notadamente Florestan Fernandes). a raça19 constitui um critério seletivo no acesso à educação e ao trabalho. nesse âmbito. cresceram as desigualdades e as queixas de discriminação atribuídas à cor. foram explorados economicamente e que essa exploração se deu pra- ticamente por meio de classes ou frações de classes dominantes brancas.] passou a considerar um contingente político. Passou a ser um componente ideológico na luta contra o racis- mo. n. de pessoas afrodescendentes – mes- tiças ou não -. A pesquisa da Unesco realizada por pesquisadores da Escola Sociológica Paulista abriu caminhos para outros estudiosos do campo da Sociologia. Ele se constitui. [. Revista Contemporânea de Educação. economia. histo- ricamente. a discriminação racial no Brasil é resultado direto das desi- gualdades entre brancos e “não brancos” em diferentes esferas (educação. A ideologia racial branca (status científico) vai então construindo clas- sificações e categorias novas. tanto de um grupo como de uma postura política” (COELHO. Os estudos de Hasenbalg (2005) apontam para a exploração de classes e a opressão racial. pelo menos até recentemente.] o conceito de Raça. mas. no contexto da constituição da sociedade de classes.. relativas aos “não brancos” (HASENBALG. Diante das contribuições de alguns autores sobre a questão da raça. 12. Esse autor. e. mas também como forma de exclusão social. inclu- sive. 19 “[. ou seja. [. p. que sofre discriminação pela cor. no período que vai dos anos 1930 aos anos 1970... ocupacional e educacional.. proferidas como mecanismos de exploração da população negra. Não há como negar a existência de preconceito racial no Brasil. p. Assim. de luta contra toda a forma de segregação baseada na cor. vol. 2005). alijada de bens materiais e simbólicos. em suas análises. a cor e suas gra- duações passam a se tornar marcas decisivas limitando ou possibilitando a ascen- são social. Por outro lado. como Carlos Hasenbalg. 2009. sob diversas formas. preconceito não apenas como sentimento. Reforça que a abertura da estrutura social em direção à mobilidade está diretamente ligada à cor da pele. 51) corrobora: As raças foram. os efeitos psicológicos e sociais das teo- rias racistas ainda são visíveis. A esse respeito Guimarães (2002. 25. set/dez de 2017 449 .

a noção de raça entendida como construção social. antes mesmo do fim da escravidão. um discurso de poder. fatos que não passa- ram despercebidos aos primeiros intérpretes da identidade nacional brasileira pós-escravatura e. 1999. a presença negra e suas mar- cas no cotidiano da sociedade brasileira eram gigantescas. p.. 12. GUIMARÃES. As assertivas de Guimarães (2002) trazem elementos importantes para a argu- mentação nesse estudo. que exerce influência significativa sobre as práticas e organizações sociais. a ideia de superioridade racial assumiu a condição de discurso unificado. vol. A vinculação entre “nacionalismo” e “identidade nacional” se fez presente em uma série de discursos de caráter prescritivo. 50).. 2006. 71). efetiva e eficaz somente no mundo social [. por conseguinte. 25. 3 Considerações finais O racismo é um fenômeno histórico. MUNANGA. Assim. orientados por um poder de autoridade singular. consideramos tal conceito como instru- mento analítico necessário ao estudo das relações “raciais”. especial- mente a publicação Sá et al. Ele é parte das construções contem- porâneas. 2002. 2005. desde então. pois. SCHWARCZ.. que “[. o qual apon- tava que o mestiço era admitido como elemento transitório que levaria a consti- tuição de uma nação de brancos. set/dez de 2017 450 .]” (GUIMARÃES. Pode-se dizer que a discriminação racial e o preconceito são suas manifestações mais evidentes (COSTA. Em comum partilham a crença de que era possível “[. 277).. pois as práticas discursi- vas mantêm arraigado o conceito de raça. n. 1993). 2001. Revista Contemporânea de Educação.] definir a identidade nacional brasileira a partir de uma dimensão tanto cultu- ral quanto política” (SKIDMORE. p. O racismo compreende. De acordo com Guimarães (2004. (2006). Primeiro. HASENBALG.. a nação brasileira foi também “imaginada” de diversas maneiras e “a identidade nacional foi uma 20 Conferir os estudos realizados pelo Grupo de Pesquisa em História da Educação e Memória/UFMT. a partir das formulações elaboradas no século XIX. do racismo científico no Brasil. Além disso. 2002. por meio do qual se estabelece uma relação assimétrica entre as raças. Essa tensa e contraditória realidade brasileira só seria resolvida a partir do momento em que se levasse às últimas consequências o desafio de se construir em definitivo uma identidade nacional brasileira.. legitimado por certas teorias ditas científicas. 2004. Tal vinculação se configuraria em inúmeras representações construídas em torno da nação e seus padrões de nacionalidade20.] tem existência nominal. p.

1989. intimamente associada à construção definitiva da “identidade nacional” e que. Só assim estaríamos diante da possibilidade de realização de uma “democracia racial” plena. portanto. set/dez de 2017 451 . tratava-se de saber quem era o povo brasileiro.. algo que muito se distancia do “[. Por fim.] nacionalismo é a patologia da moderna história do desenvolvimento” (ANDERSON. o que era o Brasil”. vol. p. 25. não é uma opção política. n. para outros. por vezes. Revista Contemporânea de Educação. mas uma condição dada pelo nascimento. para uns. a inserção da grande maioria na “nação” brasileira. 12. encontrar-se-á conformada nas relações sociais brasileiras.. 176).resposta a perguntas diferentes. e na perspectiva abordada acima.

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